Imagens: divulgação
                        CULTURA
                                                                                                                                    cinema




                        O céu de Suely, ao rés-do-chão
                        O filme de Aïnouz coroa o amadurecimento do cinema brasileiro
                        contemporâneo, afirmando uma nova estética, que se diz “hiper-
                        realista”, aberta ao real, mas lúcida sobre seu caráter construído
                                                                                                                               Leandro     Saraiva

                                        Acenda a luz de leve      tudo já viu. Mas aí ele, mais os ato-     apresenta no improviso da vida.
                                   eu lhe mostro uma beleza       res, foram viver em Iguatu um tem-        Hermila, Mila, para os amigos e famí-
                                               bola de neve       po, preparando e se preparando para       lia, não está reinventando a poesia,
                                                                  a filmagem. O povo de lá, acostuman-      como Bashô, lá no século 17, em suas
                        Será que vale falar de um filme brasi-    do com eles e sem saber da tal            viagens a pé pelas estradas do Japão
                        leiro contemporâneo, muito contem-        ficcional Barcelona, devolvia a ironia:   feudal. Mas ela quer reinventar a sua
                        porâneo, que parece ter sido feito        “e os artistas, quando chegam?”,          vida. Por paixão, como conta para sua
                        hoje de manhã, citando um haicai ja-      diziam, rindo daquele cinema que se       tia e amiga, Maria, foi “feito uma lou-
                        ponês do mestre Bashô, que viveu no       fazia vizinho. Caiu a ficha do Karim:     ca” para São Paulo. De lá voltou com
                        século 17? Acho que vale.                 que Barcelona que nada, é Iguatu          Mateuzinho, filho dessa paixão, pre-
                        Nada a ver com samurais, apesar da        mesmo. E é. E por mais que já se te-      parando o terreno para a volta do pai.
                        errância de Hermila, a protagonista       nha visto, é preciso aprender a ver.      Volta prosaica e também muito con-
                        de O céu de Suely. Também não pa-                                                   temporânea: o jovem Mateus pai, fi-
                        rece bom apelar para alguma preten- Improviso da vida A possível afini-             camos sabendo, vai logo chegar de
                        sa “condição humana”. Afinal, dade entre a viagem poética de Bashô                  São Paulo com uma copiadora de CDs
                        Hermila foi tentar a vida em São Pau- e a de Karim Aïnouz está nessa busca          e DVDs, para vender pirataria na pra-
                        lo, ralou, se virou e resolver voltar ao de um olhar inaugural, pré-codifica-       ça de Iguatu. No mundo digitalizado
                        Nordeste, para a sua minúscula do, ao que surge a cada momento, de                  não existe centro (só periferia e repres-
                        Iguatu. Estamos bem longe de algum modo imediato. Nas entrevistas que               são, seja na paulistana Santa Efigênia,
                        deserto místico ou                                       deu, o diretor de O céu    em Iguatu ou em Bombaim).
                        mítico, onde “o Ho-         O CÉU DE SUELY               de Suely conta que         Mas a aventura e a paixão engripam:
                        mem vaga”. Iguatu é         direção Karim Aïnouz         esse foi o lema íntimo     Mateus e sua copiadora não vêm mais
                        Iguatu mesmo. Karim         roteiro Karim Aïnouz, Felipe que adotou na realiza-     e Mila está solta no espaço. Ou talvez
                        Aïnouz conta que no         Bragança, Maurício Zacharias ção do filme: “deixa       seja melhor dizer, rodando no vazio.
                        roteiro o lugar cha-        fotografia Walter Carvalho   eu ver”. Prestar aten-     Tudo isso acontece logo de cara, sem
                        mava-se Barcelona,          produção Videofilmes, 2006   ção no ínfimo, nos in-     suspenses, e ficamos nós ao sabor da
                        talvez meio por piadi-      88 min                       terstícios da vida. Nada   deriva inquieta de Mila, naquele lu-
                        nha de moço cosmo-                                       de grandes histórias,      gar que é dos seus – de sua avó costu-
                        polita – Karim viveu entre Recife, Nova de plot, como se diz nos manuais de         reira, de uma amiga prostituta de pos-
                        Iorque e Rio – que se volta para o roteiro. Cinema como exercício de                to de gasolina, de sua tia motoqueira
                        interior profundo, com ares de quem olhar, de abrir os olhos para o que se          e do também motoqueiro João, um



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antigo, discreto mas ainda apaixona-       rido, um destaque na paisagem, é         ção dessa mercantilização. O céu de
do namorado – mas não é mais dela.         todo uma figura, um personagem”,         Suely cria uma aura de fantasia subje-
Como tantos e tantos brasileiros e         mas que no fundo, diz o autor, mui-      tiva em torno da mercantilização de si
brasileiras, Mila caiu na vida, não exa-   to auto-irônico, “é gente como a         (da prostituição); uma transcendência
tamente atrás de “um sonho” (como          gente, a gente sente, pois se aperta     em relação à mercantilização pobre e
dizem os trailers dos filmes norte-        ele chora. E ele vagueia, vagueia”.      precária que subsume a tudo e todos
americanos), mas atrás da vida mes-        Mila poderia se reconhecer nessa le-     na beira de estrada que é Iguatu, cuja
mo, de si própria, talvez.                 tra que trata poeticamente da inqui-     economia, ao que parece, se equilibra
Como disse o antropólogo Otávio            etude paulistana, filha da mais exas-    nos gastos dos caminhoneiros que
Velho recentemente em entrevista à         perada manifestação de nossa             circulam por ali.
revista CartaCapital, “não há mais         modernidade capitalista periférica.      Não é apenas o sertão cinemanovista,
grotões”. Rompido esse isolamento,                                                  ou mesmo as releituras alegóricas do
o sertão de Iguatu não só já não está      Escândalo e fascínio Mila, que já che-   cinema da retomada, que parecem, à
mais para Diadorins, Lampiões, deu-        ga em Iguatu “toda colorida”, de ca-     luz de O céu de Suely, datados. Tam-
ses e diabos, como também não serve        belo meio escuro, meio loiro, inventa    bém a beira de estrada de Iracema,
como espaço de redenção ao estilo          que vai novamente embora e para isso     uma transa amazônica (1973), filme
de Central do Brasil. Mila parte, volta    se reinventa como a personagem Suely,    de Jorge Bodanzky e Orlando Senna,
e parte de novo. Está “correndo            moça que vende uma rifa que vale         parece ter ficado para trás.
atrás”, como diz a expressão popular       “uma noite no paraíso”, com ela pró-     Ali, há mais de três décadas, pela do-
que, sem objeto, caracteriza tão bem       pria, num motel da cidade. Nessa         cumentação da realidade de beira de
nem tanto alguma “condição huma-           reinvenção de si, ela, que não quer      estrada da Transamazônica, era figu-
na”, mas uma condição comum a tan-         “ser puta – puta vai com qualquer um     rada a degradação social criada como
tos brasileiros, que não encontram         e só vou com o ganhador da rifa” –       efeito secundário da modernização
lugar – nem trabalho – e, por isso         nem ser “porra nenhuma”, como diz        conservadora em curso no regime mi-
mesmo, não param de encontrar e            para sua tia, Mila/Suely permite um      litar, que mercantiliza precariamente o
reinventar, fazendo da angústia uma        olhar também reinventado sobre sua       País. Agora, na Iguatu de Suely, essa
companheira de viagem, sempre no-          experiência.                             mercantilização claudicante está ple-
vos lugares e afazeres. São Paulo,         Primeiro, porque nessa passagem à        namente estabelecida. É dentro dela
para onde Mila partiu, é a metrópole       personagem, ela sintetiza e mantém a     que Mila, jovem de 21 anos, nasceu,
que concentra esses andarilhos con-        ambivalência entre várias determina-     cresceu, viajou, voltou e se rifou. Sua
temporâneos e faz dessa condição,          ções e reações. Ela se revaloriza: de    postura, de consciência e reação a essa
de quem “corre atrás”, sem saber           subempregada (Mila lava carros num       condição, é parente de outra persona-
muito do que, nem como, um modo            posto de gasolina) e abandonada pelo     gem marcante do cinema brasileiro re-
de ser. Como numa célebre canção           marido, ela passa a ser o centro das     cente: em Edifício Master (2002),
do Grupo Rumo, sintomaticamente            atenções de Iguatu. Os homens com-       documentário de Eduardo Coutinho,
entitulada Esboço, na qual Luiz Tatit      pram em peso sua rifa e as famílias se   Alessandra, garota de programa, cheia
descreve o “paulistano” como “in-          escandalizam. O escândalo e o fascí-     de charme, lúcida de seu desempenho
quebrável, flexível”, “meio deliran-       nio vêm menos do corpo oferecido         como entrevistada, se diz “a mentiro-
te, meio inconseqüente, muito colo-        como mercadoria do que da denega-        sa verdadeira” e produz uma “mistura
                                                                                    de espontaneidade e de teatro, de au-
                                                                                    tenticidade e de exibicionismo, de um
                                                                                    fazer-se imagem e ser verdadeiro”
                                                                                    (como disse o crítico Ismail Xavier).
                                                                                    Ambas escapam ao ressentimento, que
                                                                                    marcou parte importante do cinema
                                                                                    da retomada, se reinventado como
                                                                                    imagem, o que as valoriza, justamente
                                                                                    por escancararem a fatura dessa inven-
                                                                                    ção. São mulheres do povo que tomam


                                                                                    Diferente do Cinema Novo, em O céu
                                                                                    de Suely predomina a câmera no
                                                                                    tripé. Mas, esse procedimento não é
                                                                                    onipresente: há momentos de câmera
                                                                                    na mão – o filme não deixa de aderir
                                                                                    mais fortemente às variações
                                                                                    emocionais da personagem, que se
                                                                                    entrega a momentos de intensidade e
                                                                                    transbordamento



                                                                                        REPORTAGEM | Retrato do BRASIL | 43
para si a “magia” de se fazer imagem      abandonada pelo marido, reaproxima-         contracenando com os atores, mas tam-
    e mercadoria, tão crucial na sociedade    se de um ex-namorado, rompe com ele,        bém nas filigranas do estilo.
    contemporânea brasileira.                 inventa a rifa, briga e se reconcilia com   Essa indistinção de fronteiras entre
    Mas O céu de Suely tem outras bele-       a família. Mas tudo isso acontece por       documentário e ficção, marcante no
    zas, que surgem a partir dessa            meio de saltos e elipses, com o rumo da     cinema moderno, no mundo em ge-
    “assunção” de Mila ao céu de Suely.       personagem sendo composto às apal-          ral e no cinema brasileiro especifica-
    Assim como Mila foge dos papéis a         padas, sem destino certo (ela vagueia,      mente, é brilhantemente retomada
    ela reservados, inserindo-se na gale-     como diz Tatit).                            em O céu de Suely, colocando seu
    ria de personagens modernos, mar-                                                     autor entre um grupo de continuado-
    cados pela deriva e não pelo cumpri-      Sem fronteiras Desobrigado da nar-          res desse cinema de fronteira –
    mento de uma missão, o modo de            rativa cerrada e dos sistemas de con-       Kiarostami e Makmalbaf, Agnés
    olhar – o cinema como modo de             trole funcional da emoção (ou seja,         Varda, Jem Cohen, para citar alguns
    reinventar o olhar – para sua experi-     do espectador), o filme se abre ao ime-     novos e velhos cineastas que trilham
    ência também se abre para o não-co-       diato. Somos mergulhados nos ambi-          esse caminho estreito.
    dificado. É aí que o cinema de Karim      entes de Iguatu – a casa pobre da fa-       Mas O céu de Suely o faz de modo
    Aïnouz revela mais afinidades com a       mília, as ruazinhas, o posto de gasoli-     muito próprio. Diferencia-se, em termos
    poética do fragmento, do insignifican-    na, sempre repleto de caminhoneiros,        estilísticos, da famosa câmera na mão,
    te e do contingente, típica do haicai.    centro da vida social – pelos quais o       que deu o tom documental aos mo-
    O modo que o filme nos dá a ver a         olhar também vagueia. Os atores es-         mentos de auge do Cinema Novo. No
    experiência de Mila e do outros habi-     tão também desobrigados de rígidas          filme de Karim, predomina a câmera no
    tantes de Iguatu é também um esfor-       marcações de cena, de coreografias          tripé. Um certa suavidade melancólica e
    ço de desautomatização.                   de posições de câmera calculadas em         contemplativa, mais do que a urgência
    De início, trata-se de uma narrativa de   função dos efeitos necessários à amar-      da câmera na mão. Sinal, talvez, de ou-
    situações, muito mais do que de pro-      ração e progressão narrativa. Se mo-
    gressão dramática. Cada seqüência fixa-   vem de modo livre, com a câmera se
    se num instante existencial – uma noite   submetendo a essa liberdade, para                    Mila/Suely caiu na vida: está
    onde o filho de Mila chora e ela olha o   captá-la.                                         “correndo atrás”, como muitos
    céu; um passeio de moto com um anti-      É esse modo de operação que abre o                brasileiros, que não encontram
    go namorado; uma balada e bebedeira       filme a uma dimensão documental, fa-            lugar e nem trabalho e fazem da
    com a amiga prostituta –, muito mais      zendo dele uma ficção que se esboça                angústia uma companheira de
                                                                                            viagem. São Paulo, para onde foi a
    do que serve ao avanço e modulação        em meio e em tensão com o ambiente
                                                                                               personagem, é a metrópole que
    de alguma curva dramática. Os fios da     real de Iguatu (e não de “Barcelona”).                    concentra os andarilhos
    narrativa vão se tecendo de forma tê-     Isso está não apenas nas cenas em que               contemporâneos e torna essa
    nue. Mila chega e parte novamente, é      se incorporam pessoas reais, do local,                  condição um modo de ser




44 | Retrato do BRASIL | REPORTAGEM
de limites e sufoco. Há, entretanto, pe-   quase em preto e branco.
                                           quenos momentos, preciosos e fugidi-       Essa síntese entre espontaneidade e
                                           os, de detalhes flagrados, delicadamen-    construção altamente elaborada (a
                                           te recortados do contexto e como que       serviço e reforço da espontaneidade)
                                           bordados nos interstícios do fluxo de      foi resumida pelo próprio diretor, que,
                                           imagens, como a pipa presa nos fios de     com felicidade, caracterizou sua pos-
                                           eletricidade ou a água caindo no corpo     tura nos seguintes temos: “O filme
                                           da protagonista, durante o banho (são      tem o desejo, o tempo inteiro, de brin-
                                           as “bolas de neve” da poesia de Karim      car e se apropriar do real. Mas tem
                                           Aïnouz).                                   também um desejo, maior do que
                                           O procedimento do tripé, se predo-         esse, que é dizer que não tem real, é
                                           mina, não é onipresente. Há momen-         tudo uma construção. O filme não é
                                           tos de câmera na mão, colada ao cor-       neo-realista, ele é hiper-realista”.
Karim Aïnouz (acima), Marcelo
                                           po de Hermila (nome tanto da atriz
Gomes e Sérgio Machado são como            quanto da personagem). Se o filme          Atencão e detalhe É importante perce-
um time afinado. Nesse sentido, O          não se constrói como uma curva dra-        ber que O céu de Suely não é uma flor
céu de Suely não é uma exceção,            mática, ele não deixa de, por vezes,       do deserto, surgida de modo surpre-
surgida de modo surpreendente e            oscilar, aderir mais fortemente às va-     endente e inexplicável. É resultado de
inexplicável – é resultado do              riações emocionais de Mila, que, im-       um amadurecimento. Por um lado, de
amadurecimento desse grupo, que
                                           pulsiva e visceral, volta e meia se en-    um grupo, com debate interno e coe-
desenvolve o debate interno e a
coesão estética, apesar das                trega a momentos de intensidade e          são estética, apesar das diferenças de
diferenças de estilos                      transbordamento.                           estilos entre os filmes de seus autores.
                                           Como nas baladas, filmadas em closes       Marcelo Gomes (Cinema, aspirina e
                                           bem fechados, à flor da pele e em te-      urubus), Sérgio Machado (Cidade bai-
                                           leobjetiva, o que transmite uma sen-       xa) e Karim Aïnouz (Madame Satã e O
tra relação com o real, que escapa e que   sação de sensualidade exasperada.          céu de Suely) constituem, senão um
se quer flagrar. O Cinema Novo violen-     Ou, nos momentos líricos com João –        movimento, um grupo esteticamente
tava o real, levado pelo impulso revolu-   suaves, como no passeio de moto que        afinado, como há muito não se via no
cionário do qual fazia parte. Hoje, em     precede o encontro sexual (filmado         cinema nacional. Buscam um cinema
Iguatu ou em São Paulo, no país de         com movimentos de grua, na estrada)        de atenção e detalhe, de embate com
Mila e dos espectadores contemporâ-        ou na câmera na mão do encontro            ambientes e personagens reais. Dife-
neos, os tempos são outros e a inquie-     final, de ruptura. São momentos de         renciam-se, assim, tanto da honorável
tação de Mila e seu embate com seu         irrupção da intensidade da persona-        tradição cinemanovista, de pendor ale-
ambiente se processa em termos indivi-     gem, em meio àquela condição de            górico, quanto da produção cinema-
duais. De certa forma, o peso do mun-      tolhimento de seu impulso de mudan-        tográfico-televisiva, que tem em Guel
do, de suas limitações, parece maior       ça e de busca.                             Arraes e Jorge Furtado seus expoen-
nesses enquadramentos fixos, dentro        A fotografia do filme é um achado. De      tes, que parte da constatação do mun-
dos quais Mila vive e se debate.           grande beleza, sem que em nenhum           do tornado imagem, impossibilitando
                                           momento se destaque desse corpo-a-         – na visão deles – outra postura crítica
Um achado A combinação entre liber-        corpo do mundo que caracteriza o fil-      que não a da metalinguagem e da des-
dade de improviso para os atores e         me de modo geral. A iluminação res-        construção. Karim Aïnouz e seus com-
câmera fixa resulta numa parcimônia de     peita a luz dos ambientes. É feita do      panheiros cinematográficos acreditam
planos, em geral mais abertos (dando       sol a pino nordestino, no meio da rua,     na possibilidade de um corpo-a-corpo
espaço às interpretações). Dois ou três    mas também de uma luz lateral que          com o real que não descarta consciên-
ângulos são suficientes para dar conta     entra por uma porta estreita na casa       cia da construção discursiva (daí o
da ação, deixando entrar e impregnar       modesta, das luzes quentes de um           “hiper-realismo”).
no quadro a materialidade dos ambi-        forró, ou das luzes frias do posto de      Como base para esse movimento es-
entes, sem que essa se dissolva numa       gasolina. Fica nítido que a montagem       tético em ascensão, há a Videofilmes,
montagem volátil e frenética. A casa da    da luz para a filmagem apenas refor-       guarda-chuva não apenas dos filmes
avó de Mila impregna as ações com seu      çou, sem alterar, o jogo de luzes local.   do Walter Salles – com sua antiguida-
peso e precariedade; o posto aparece       Mas isso se faz com tal organicidade e     de entre redenção cristã e momentos
como um palco estático, atravessado        harmonia com os momentos da histó-         de flerte com a “ida ao mundo”, de
por um movimento incessante de cami-       ria, que a luz se torna quase como uma     impulso documental –, mas também
nhoneiros. Apesar da liberdade conce-      emanação dos tons da experiência: o        dos documentários de João Salles, de
dida aos atores, nos ambientes inter-      calor sensual de um dança ou a prosai-     Eduardo Coutinho e desse trio de
nos, de pouca luz e apertados, o campo     ca melancolia de uma pausa no traba-       nordestinos – Sérgio Machado, Mar-
focal é curto, o que restringe a faixa     lho, num dos planos mais bonitos do        celo Gomes e Karim Aïnouz – que des-
dentro da qual se concede essa liberda-    filme, quando Mila enche um balde          pontam como o futuro mais promis-
de de movimentos e reforça a sensação      nos fundos do posto, numa imagem           sor da cinematografia nacional.



                                                                                          REPORTAGEM | Retrato do BRASIL | 45

O céu de suely, ao rés-do-chão

  • 1.
    Imagens: divulgação CULTURA cinema O céu de Suely, ao rés-do-chão O filme de Aïnouz coroa o amadurecimento do cinema brasileiro contemporâneo, afirmando uma nova estética, que se diz “hiper- realista”, aberta ao real, mas lúcida sobre seu caráter construído Leandro Saraiva Acenda a luz de leve tudo já viu. Mas aí ele, mais os ato- apresenta no improviso da vida. eu lhe mostro uma beleza res, foram viver em Iguatu um tem- Hermila, Mila, para os amigos e famí- bola de neve po, preparando e se preparando para lia, não está reinventando a poesia, a filmagem. O povo de lá, acostuman- como Bashô, lá no século 17, em suas Será que vale falar de um filme brasi- do com eles e sem saber da tal viagens a pé pelas estradas do Japão leiro contemporâneo, muito contem- ficcional Barcelona, devolvia a ironia: feudal. Mas ela quer reinventar a sua porâneo, que parece ter sido feito “e os artistas, quando chegam?”, vida. Por paixão, como conta para sua hoje de manhã, citando um haicai ja- diziam, rindo daquele cinema que se tia e amiga, Maria, foi “feito uma lou- ponês do mestre Bashô, que viveu no fazia vizinho. Caiu a ficha do Karim: ca” para São Paulo. De lá voltou com século 17? Acho que vale. que Barcelona que nada, é Iguatu Mateuzinho, filho dessa paixão, pre- Nada a ver com samurais, apesar da mesmo. E é. E por mais que já se te- parando o terreno para a volta do pai. errância de Hermila, a protagonista nha visto, é preciso aprender a ver. Volta prosaica e também muito con- de O céu de Suely. Também não pa- temporânea: o jovem Mateus pai, fi- rece bom apelar para alguma preten- Improviso da vida A possível afini- camos sabendo, vai logo chegar de sa “condição humana”. Afinal, dade entre a viagem poética de Bashô São Paulo com uma copiadora de CDs Hermila foi tentar a vida em São Pau- e a de Karim Aïnouz está nessa busca e DVDs, para vender pirataria na pra- lo, ralou, se virou e resolver voltar ao de um olhar inaugural, pré-codifica- ça de Iguatu. No mundo digitalizado Nordeste, para a sua minúscula do, ao que surge a cada momento, de não existe centro (só periferia e repres- Iguatu. Estamos bem longe de algum modo imediato. Nas entrevistas que são, seja na paulistana Santa Efigênia, deserto místico ou deu, o diretor de O céu em Iguatu ou em Bombaim). mítico, onde “o Ho- O CÉU DE SUELY de Suely conta que Mas a aventura e a paixão engripam: mem vaga”. Iguatu é direção Karim Aïnouz esse foi o lema íntimo Mateus e sua copiadora não vêm mais Iguatu mesmo. Karim roteiro Karim Aïnouz, Felipe que adotou na realiza- e Mila está solta no espaço. Ou talvez Aïnouz conta que no Bragança, Maurício Zacharias ção do filme: “deixa seja melhor dizer, rodando no vazio. roteiro o lugar cha- fotografia Walter Carvalho eu ver”. Prestar aten- Tudo isso acontece logo de cara, sem mava-se Barcelona, produção Videofilmes, 2006 ção no ínfimo, nos in- suspenses, e ficamos nós ao sabor da talvez meio por piadi- 88 min terstícios da vida. Nada deriva inquieta de Mila, naquele lu- nha de moço cosmo- de grandes histórias, gar que é dos seus – de sua avó costu- polita – Karim viveu entre Recife, Nova de plot, como se diz nos manuais de reira, de uma amiga prostituta de pos- Iorque e Rio – que se volta para o roteiro. Cinema como exercício de to de gasolina, de sua tia motoqueira interior profundo, com ares de quem olhar, de abrir os olhos para o que se e do também motoqueiro João, um 42 | Retrato do BRASIL | REPORTAGEM
  • 2.
    antigo, discreto masainda apaixona- rido, um destaque na paisagem, é ção dessa mercantilização. O céu de do namorado – mas não é mais dela. todo uma figura, um personagem”, Suely cria uma aura de fantasia subje- Como tantos e tantos brasileiros e mas que no fundo, diz o autor, mui- tiva em torno da mercantilização de si brasileiras, Mila caiu na vida, não exa- to auto-irônico, “é gente como a (da prostituição); uma transcendência tamente atrás de “um sonho” (como gente, a gente sente, pois se aperta em relação à mercantilização pobre e dizem os trailers dos filmes norte- ele chora. E ele vagueia, vagueia”. precária que subsume a tudo e todos americanos), mas atrás da vida mes- Mila poderia se reconhecer nessa le- na beira de estrada que é Iguatu, cuja mo, de si própria, talvez. tra que trata poeticamente da inqui- economia, ao que parece, se equilibra Como disse o antropólogo Otávio etude paulistana, filha da mais exas- nos gastos dos caminhoneiros que Velho recentemente em entrevista à perada manifestação de nossa circulam por ali. revista CartaCapital, “não há mais modernidade capitalista periférica. Não é apenas o sertão cinemanovista, grotões”. Rompido esse isolamento, ou mesmo as releituras alegóricas do o sertão de Iguatu não só já não está Escândalo e fascínio Mila, que já che- cinema da retomada, que parecem, à mais para Diadorins, Lampiões, deu- ga em Iguatu “toda colorida”, de ca- luz de O céu de Suely, datados. Tam- ses e diabos, como também não serve belo meio escuro, meio loiro, inventa bém a beira de estrada de Iracema, como espaço de redenção ao estilo que vai novamente embora e para isso uma transa amazônica (1973), filme de Central do Brasil. Mila parte, volta se reinventa como a personagem Suely, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, e parte de novo. Está “correndo moça que vende uma rifa que vale parece ter ficado para trás. atrás”, como diz a expressão popular “uma noite no paraíso”, com ela pró- Ali, há mais de três décadas, pela do- que, sem objeto, caracteriza tão bem pria, num motel da cidade. Nessa cumentação da realidade de beira de nem tanto alguma “condição huma- reinvenção de si, ela, que não quer estrada da Transamazônica, era figu- na”, mas uma condição comum a tan- “ser puta – puta vai com qualquer um rada a degradação social criada como tos brasileiros, que não encontram e só vou com o ganhador da rifa” – efeito secundário da modernização lugar – nem trabalho – e, por isso nem ser “porra nenhuma”, como diz conservadora em curso no regime mi- mesmo, não param de encontrar e para sua tia, Mila/Suely permite um litar, que mercantiliza precariamente o reinventar, fazendo da angústia uma olhar também reinventado sobre sua País. Agora, na Iguatu de Suely, essa companheira de viagem, sempre no- experiência. mercantilização claudicante está ple- vos lugares e afazeres. São Paulo, Primeiro, porque nessa passagem à namente estabelecida. É dentro dela para onde Mila partiu, é a metrópole personagem, ela sintetiza e mantém a que Mila, jovem de 21 anos, nasceu, que concentra esses andarilhos con- ambivalência entre várias determina- cresceu, viajou, voltou e se rifou. Sua temporâneos e faz dessa condição, ções e reações. Ela se revaloriza: de postura, de consciência e reação a essa de quem “corre atrás”, sem saber subempregada (Mila lava carros num condição, é parente de outra persona- muito do que, nem como, um modo posto de gasolina) e abandonada pelo gem marcante do cinema brasileiro re- de ser. Como numa célebre canção marido, ela passa a ser o centro das cente: em Edifício Master (2002), do Grupo Rumo, sintomaticamente atenções de Iguatu. Os homens com- documentário de Eduardo Coutinho, entitulada Esboço, na qual Luiz Tatit pram em peso sua rifa e as famílias se Alessandra, garota de programa, cheia descreve o “paulistano” como “in- escandalizam. O escândalo e o fascí- de charme, lúcida de seu desempenho quebrável, flexível”, “meio deliran- nio vêm menos do corpo oferecido como entrevistada, se diz “a mentiro- te, meio inconseqüente, muito colo- como mercadoria do que da denega- sa verdadeira” e produz uma “mistura de espontaneidade e de teatro, de au- tenticidade e de exibicionismo, de um fazer-se imagem e ser verdadeiro” (como disse o crítico Ismail Xavier). Ambas escapam ao ressentimento, que marcou parte importante do cinema da retomada, se reinventado como imagem, o que as valoriza, justamente por escancararem a fatura dessa inven- ção. São mulheres do povo que tomam Diferente do Cinema Novo, em O céu de Suely predomina a câmera no tripé. Mas, esse procedimento não é onipresente: há momentos de câmera na mão – o filme não deixa de aderir mais fortemente às variações emocionais da personagem, que se entrega a momentos de intensidade e transbordamento REPORTAGEM | Retrato do BRASIL | 43
  • 3.
    para si a“magia” de se fazer imagem abandonada pelo marido, reaproxima- contracenando com os atores, mas tam- e mercadoria, tão crucial na sociedade se de um ex-namorado, rompe com ele, bém nas filigranas do estilo. contemporânea brasileira. inventa a rifa, briga e se reconcilia com Essa indistinção de fronteiras entre Mas O céu de Suely tem outras bele- a família. Mas tudo isso acontece por documentário e ficção, marcante no zas, que surgem a partir dessa meio de saltos e elipses, com o rumo da cinema moderno, no mundo em ge- “assunção” de Mila ao céu de Suely. personagem sendo composto às apal- ral e no cinema brasileiro especifica- Assim como Mila foge dos papéis a padas, sem destino certo (ela vagueia, mente, é brilhantemente retomada ela reservados, inserindo-se na gale- como diz Tatit). em O céu de Suely, colocando seu ria de personagens modernos, mar- autor entre um grupo de continuado- cados pela deriva e não pelo cumpri- Sem fronteiras Desobrigado da nar- res desse cinema de fronteira – mento de uma missão, o modo de rativa cerrada e dos sistemas de con- Kiarostami e Makmalbaf, Agnés olhar – o cinema como modo de trole funcional da emoção (ou seja, Varda, Jem Cohen, para citar alguns reinventar o olhar – para sua experi- do espectador), o filme se abre ao ime- novos e velhos cineastas que trilham ência também se abre para o não-co- diato. Somos mergulhados nos ambi- esse caminho estreito. dificado. É aí que o cinema de Karim entes de Iguatu – a casa pobre da fa- Mas O céu de Suely o faz de modo Aïnouz revela mais afinidades com a mília, as ruazinhas, o posto de gasoli- muito próprio. Diferencia-se, em termos poética do fragmento, do insignifican- na, sempre repleto de caminhoneiros, estilísticos, da famosa câmera na mão, te e do contingente, típica do haicai. centro da vida social – pelos quais o que deu o tom documental aos mo- O modo que o filme nos dá a ver a olhar também vagueia. Os atores es- mentos de auge do Cinema Novo. No experiência de Mila e do outros habi- tão também desobrigados de rígidas filme de Karim, predomina a câmera no tantes de Iguatu é também um esfor- marcações de cena, de coreografias tripé. Um certa suavidade melancólica e ço de desautomatização. de posições de câmera calculadas em contemplativa, mais do que a urgência De início, trata-se de uma narrativa de função dos efeitos necessários à amar- da câmera na mão. Sinal, talvez, de ou- situações, muito mais do que de pro- ração e progressão narrativa. Se mo- gressão dramática. Cada seqüência fixa- vem de modo livre, com a câmera se se num instante existencial – uma noite submetendo a essa liberdade, para Mila/Suely caiu na vida: está onde o filho de Mila chora e ela olha o captá-la. “correndo atrás”, como muitos céu; um passeio de moto com um anti- É esse modo de operação que abre o brasileiros, que não encontram go namorado; uma balada e bebedeira filme a uma dimensão documental, fa- lugar e nem trabalho e fazem da com a amiga prostituta –, muito mais zendo dele uma ficção que se esboça angústia uma companheira de viagem. São Paulo, para onde foi a do que serve ao avanço e modulação em meio e em tensão com o ambiente personagem, é a metrópole que de alguma curva dramática. Os fios da real de Iguatu (e não de “Barcelona”). concentra os andarilhos narrativa vão se tecendo de forma tê- Isso está não apenas nas cenas em que contemporâneos e torna essa nue. Mila chega e parte novamente, é se incorporam pessoas reais, do local, condição um modo de ser 44 | Retrato do BRASIL | REPORTAGEM
  • 4.
    de limites esufoco. Há, entretanto, pe- quase em preto e branco. quenos momentos, preciosos e fugidi- Essa síntese entre espontaneidade e os, de detalhes flagrados, delicadamen- construção altamente elaborada (a te recortados do contexto e como que serviço e reforço da espontaneidade) bordados nos interstícios do fluxo de foi resumida pelo próprio diretor, que, imagens, como a pipa presa nos fios de com felicidade, caracterizou sua pos- eletricidade ou a água caindo no corpo tura nos seguintes temos: “O filme da protagonista, durante o banho (são tem o desejo, o tempo inteiro, de brin- as “bolas de neve” da poesia de Karim car e se apropriar do real. Mas tem Aïnouz). também um desejo, maior do que O procedimento do tripé, se predo- esse, que é dizer que não tem real, é mina, não é onipresente. Há momen- tudo uma construção. O filme não é tos de câmera na mão, colada ao cor- neo-realista, ele é hiper-realista”. Karim Aïnouz (acima), Marcelo po de Hermila (nome tanto da atriz Gomes e Sérgio Machado são como quanto da personagem). Se o filme Atencão e detalhe É importante perce- um time afinado. Nesse sentido, O não se constrói como uma curva dra- ber que O céu de Suely não é uma flor céu de Suely não é uma exceção, mática, ele não deixa de, por vezes, do deserto, surgida de modo surpre- surgida de modo surpreendente e oscilar, aderir mais fortemente às va- endente e inexplicável. É resultado de inexplicável – é resultado do riações emocionais de Mila, que, im- um amadurecimento. Por um lado, de amadurecimento desse grupo, que pulsiva e visceral, volta e meia se en- um grupo, com debate interno e coe- desenvolve o debate interno e a coesão estética, apesar das trega a momentos de intensidade e são estética, apesar das diferenças de diferenças de estilos transbordamento. estilos entre os filmes de seus autores. Como nas baladas, filmadas em closes Marcelo Gomes (Cinema, aspirina e bem fechados, à flor da pele e em te- urubus), Sérgio Machado (Cidade bai- leobjetiva, o que transmite uma sen- xa) e Karim Aïnouz (Madame Satã e O tra relação com o real, que escapa e que sação de sensualidade exasperada. céu de Suely) constituem, senão um se quer flagrar. O Cinema Novo violen- Ou, nos momentos líricos com João – movimento, um grupo esteticamente tava o real, levado pelo impulso revolu- suaves, como no passeio de moto que afinado, como há muito não se via no cionário do qual fazia parte. Hoje, em precede o encontro sexual (filmado cinema nacional. Buscam um cinema Iguatu ou em São Paulo, no país de com movimentos de grua, na estrada) de atenção e detalhe, de embate com Mila e dos espectadores contemporâ- ou na câmera na mão do encontro ambientes e personagens reais. Dife- neos, os tempos são outros e a inquie- final, de ruptura. São momentos de renciam-se, assim, tanto da honorável tação de Mila e seu embate com seu irrupção da intensidade da persona- tradição cinemanovista, de pendor ale- ambiente se processa em termos indivi- gem, em meio àquela condição de górico, quanto da produção cinema- duais. De certa forma, o peso do mun- tolhimento de seu impulso de mudan- tográfico-televisiva, que tem em Guel do, de suas limitações, parece maior ça e de busca. Arraes e Jorge Furtado seus expoen- nesses enquadramentos fixos, dentro A fotografia do filme é um achado. De tes, que parte da constatação do mun- dos quais Mila vive e se debate. grande beleza, sem que em nenhum do tornado imagem, impossibilitando momento se destaque desse corpo-a- – na visão deles – outra postura crítica Um achado A combinação entre liber- corpo do mundo que caracteriza o fil- que não a da metalinguagem e da des- dade de improviso para os atores e me de modo geral. A iluminação res- construção. Karim Aïnouz e seus com- câmera fixa resulta numa parcimônia de peita a luz dos ambientes. É feita do panheiros cinematográficos acreditam planos, em geral mais abertos (dando sol a pino nordestino, no meio da rua, na possibilidade de um corpo-a-corpo espaço às interpretações). Dois ou três mas também de uma luz lateral que com o real que não descarta consciên- ângulos são suficientes para dar conta entra por uma porta estreita na casa cia da construção discursiva (daí o da ação, deixando entrar e impregnar modesta, das luzes quentes de um “hiper-realismo”). no quadro a materialidade dos ambi- forró, ou das luzes frias do posto de Como base para esse movimento es- entes, sem que essa se dissolva numa gasolina. Fica nítido que a montagem tético em ascensão, há a Videofilmes, montagem volátil e frenética. A casa da da luz para a filmagem apenas refor- guarda-chuva não apenas dos filmes avó de Mila impregna as ações com seu çou, sem alterar, o jogo de luzes local. do Walter Salles – com sua antiguida- peso e precariedade; o posto aparece Mas isso se faz com tal organicidade e de entre redenção cristã e momentos como um palco estático, atravessado harmonia com os momentos da histó- de flerte com a “ida ao mundo”, de por um movimento incessante de cami- ria, que a luz se torna quase como uma impulso documental –, mas também nhoneiros. Apesar da liberdade conce- emanação dos tons da experiência: o dos documentários de João Salles, de dida aos atores, nos ambientes inter- calor sensual de um dança ou a prosai- Eduardo Coutinho e desse trio de nos, de pouca luz e apertados, o campo ca melancolia de uma pausa no traba- nordestinos – Sérgio Machado, Mar- focal é curto, o que restringe a faixa lho, num dos planos mais bonitos do celo Gomes e Karim Aïnouz – que des- dentro da qual se concede essa liberda- filme, quando Mila enche um balde pontam como o futuro mais promis- de de movimentos e reforça a sensação nos fundos do posto, numa imagem sor da cinematografia nacional. REPORTAGEM | Retrato do BRASIL | 45