SlideShare uma empresa Scribd logo
A capoeira literária do poeta Nov@to
Marcos Fabrício Lopes da Silva
Inicialmente uma mistura de dança e jogo, a capoeira se desenvolveu no Brasil a partir da contribuição
africana, sobretudo através dos fundamentos introduzidos por escravos da etnia banto. Sua principal
característica é a ginga, movimento de corpo destinado a enganar o oponente, e que traduz toda a malícia
inerente à prática de dissimular os golpes em esquivos passos de dança. O praticante da capoeira usa o gingado
ou ato de gingar, que consiste em bambolear o corpo para a direita e a esquerda, a fim de confundir o
adversário, escapar de seus golpes, e procurar o momento e o ângulo certos para atacar. Acredito que este seja o
estilo da “capoeira literária” protagonizada pela poesia de Wanderson Adriano Marcelo. Mais conhecido como
Nov@to, o jovem poeta, nascido em Belo Horizonte, apresenta uma “caneta diferenciada”, pelo fato de a
literatura de testemunho produzida por ele ser extraída de vivências advindas das margens do sistema
hegemônico. Trata-se de uma poética do subsolo existencial presente não nas alturas, mas sim no chão do
cotidiano.
Por morar e participar ativa e solidariamente da vida cultural no morro, tendo vivido na comunidade do
Vietnã e hoje residindo no Primeiro de Maio, Nov@to costuma dizer que iscreve com “i”. Para ele, essa é uma
forma político-literária de destacar a importância e o mérito da grafia desenvolvida pela própria periferia, sendo
esta historicamente apagada por aqueles que escrevem com “e”. Tal rebeldia lapidar é tão legítima e apropriada
quanto a clássica distinção entre “estória” e “história”, realizada por um outro escritor mineiro, o canonizado
Guimarães Rosa. A “história” pertence ao tempo; é ciência. A “estória” pertence à eternidade; é magia. Quem
sabe a “história” fica do mesmo jeito. Quem ouve uma “estória” pode ficar de outro. Pois eu fico outro sempre
que ouço as estórias e leio as poesias de Nov@to. Sobrevivente do “Brasil real” e renegado pelo “Brasil
oficial”, o poeta, para escrever seus textos, se embebeda dos acontecimentos miúdos das vielas e das ruas
tradicionalmente favelizadas. Assim, Nov@to “garrincha” o circuito literário e midiático dominado pelos fatos
graúdos produzidos pelos “donos-de-tudo”, que se encontram confortáveis na casa-grande.
Passeando com o escritor pelas ruas de Belo Horizonte, ele apontava e me apresentava orgulhosamente
os cenários e os personagens reais que faziam parte dos seus escritos. Subindo a Rua da Bahia, tivemos a
oportunidade de encontrar um companheiro do poeta, que mendigava pela rua e, por isso, era considerado
invisível pelos transeuntes que ali passavam. Nov@to conversou com Fernando, e eles aproveitaram a
oportunidade para colocar o assunto em dia: a família sentia a falta do rapaz e queria saber sobre o paradeiro
dele. Após anos dedicados ao tráfico, o homem de rua foi descartado pelos traficantes e corre risco de morrer
caso volte a freqüentar a quebrada. Sobre esse episódio, Nov@to sapecou esta: “Fernando também é pessoa”,
numa referência espirituosa e explícita ao reconhecimento obtido pelo poeta lisboeta, sendo que o xará
brasileiro, como sobrevivente do campo de concentração de renda, também deveria ser digno da mais honrosa
consideração. Por conta de acontecimentos dessa natureza, o poeta diz que não faz ficção, mas “fiquesão”. Ou
seja, a literatura, para ele, não é uma válvula de escape para fugir da realidade, mas sim uma grande porta para
acessar a complexidade da vida e extrair dela o máximo de lições. Diante de sua sobriedade literária, não há
espaço para fantasias chinfrins.
Chegamos a um lema que sintetiza bem o projeto literário de Nov@to: “não sou eu na lira, é nóis na
fita”. Amante do hip-hop e das demais manifestações da cultura de rua, o poeta, diferente de assumir
discursivamente a tradicional postura do “eu-lírico”, prefere se posicionar como uma espécie de “eu-
comunitário”, pois quando escreve, Nov@to faz questão de se identificar como porta-voz daqueles que se
encontram “no beco escuro onde explode a violência”, isto é, os parceiros marginalizados pela sociedade de
consumo, os companheiros encarcerados pelo sistema prisional e os amigos exterminados pelas tropas de elite,
sejam elas da polícia, das facções ou do tráfico. Combatido historicamente pelo “asfalto”, o “morro” é coagido
a viver em duradouro e injusto regime de exceção.
Tive a honra de receber das mãos de Nov@to dois trabalhos de sua autoria, que são autênticos marcos
da literatura marginal: uma coletânea de poemas publicados no volume 3 da Coleção Prosa e Poesia no Morro
(Favela é Isso Aí, 2007), além do livro Os monstros nascem anjus (ainda no prelo). Considero este último título
uma obra de envergadura nutrida por uma resistência quilombola, podendo muito bem fazer parte de uma
tradição literária brasileira fundamentada por obras como Quarto de despejo (1960), de Carolina Maria de
Jesus, Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins, e Capão Pecado (2005), de Ferréz. Andarilho da madrugada e
catador de grandes estórias, Nov@to não se posiciona de frente pro crime para elaborar seus enredos. É estando
no “olho do furação” que o poeta consegue sair daquela sinuca de bico para, em uma tacada de mestre,
fundamentar seus frutos literários. Tal façanha provém de uma atitude poÉTICA diante da vida.
Um desses “frutos-poemas” atende pelo nome de “Queda”. Nele, Nov@to conta o drama vivido por um
comerciante de drogas que acabou se tornando viciado na própria mercadoria que vendia. Vivendo à míngua, o
sujeito foi flagrado quando furtava um isqueiro no boteco. Resultado: ele teve que ouvir ali mesmo a sentença
ameaçadora: “Que humilhante ouvir/Xingo de cachaceiro/Maconheiro, noiado/Não tem disposição pra comprar
isqueiro?/Tentou se explicar, mas não dá/Roubar de rico, tudo bem/Mas de quem não tem/É foda/Se continuar
vai pra cova/Falou o botequeiro”. Trata-se de um código de ética cambaleante, visto que ao mesmo tempo
condena-se o roubo dirigido aos mais humildes e carentes, sendo que a mesma operação passa a ser aceitável no
que se refere a atingir os mais favorecidos e abastados pelo regime de desigualdade social. Tal fato reforça o
lendário paradigma comportamental trazido por Charles Anjo 45, imortalizado em uma canção de Jorge Ben
Jor, que tinha como características ser “protetor dos fracos/e dos oprimidos/Robin Hood dos morros/rei da
malandragem”. Ainda sobre o poema, cabe destacar que foram reprovadas com veemência pelo dono do bar a
preguiça e a pilantragem daquele que usurpou o acendedor, com o objetivo de se defender o trabalho e o
empenho como procedimentos adequados para conquistar com merecimento e honradez o que se deseja.
Do mundo das drogas, a poesia de Nov@to vai para o universo em desencanto da infância perdida. Com
a estrutura familiar desarticulada, a formação escolar insuficiente, a pobreza cada vez mais avassaladora, Juju,
personagem do poema “Rua de prazer”, deixa de ser uma vendedora de balas para se transformar em garota de
programa: “A menina que vendia bala/Foi seduzida pelo cara/Que se vestia de terno e gravata/Tipo um
magnata/Esses que só têm sentimentos/Pelo ouro e pela prata/O carro era importado/A menina descobriu/Que
seu pequeno corpo tinha mercado”. Tratada como mulher-objeto, Juju faz parte do perverso processo de
mercantilização do sexo cada vez mais em voga. Juju é uma pós-graduada em marginalidade. Assim como ela,
outras garotas estão condenadas a seguir a mesma carreira: “iniciam-se no semáforo/Faz mestrado na
Guaicurus”. Cabe salientar que a mencionada rua do centro de Belo Horizonte é conhecida por sediar muitos
pontos de prostituição. Este poema de Nov@to tem o mesmo vigor cortante de denúncia de abuso sexista,
presente na canção “O PIB da PIB”, do irreverente e criativo músico Tom Zé: “Catorze, catorze anos,/Doze
anos, doze anos/Imagine um gringo daquele tamanho/Em cima da criança pobre nordestina,/Sufocada,
magricela, seca, pequenina,/Ah, Nossa Senhora minha/O PIB da PIB que pimba no seco/Pimba no
molhado/Pimba no seco saco seco/Peixe badesco na filha dos outros é refresco/Ô Senhora, Mãe Senhora,/Nessa
hora olha pra tua menina, Senhora/A Prostituição Infantil Barata/É a criança coitadinha do
Nordeste/Colaborando com o Produto Interno Bruto/E esse produto enterra bruto”
Sabendo que a corda da violência costuma arrebentar para o lado oprimido, Nov@to tem se esforçado
para reciclar essas experiências traumáticas de maneira poética, sem perder a ternura. Nos poemas “Sorrir” e
“Lamentos do sofredor”, estamos diante de um acrobata da dor que, mesmo vivendo o “negro drama” do
emparedamento social, não perde de vista o espírito crítico e a vontade revolucionária de transformar o mundo
em um lugar mais justo para todos viverem com dignidade. De forma consciente, Nov@to identifica os
obstáculos internos e externos que ainda impedem a realização da felicidade existencial do “homem-coletivo”:
“Eu tento sorrir, mas as mortes nas favelas vivem a insistir/Eu tento sorrir, mas há pessoas morrendo de fome
no HAITI, JEQUITINHONHA, logo ali./Eu tento sorrir, mas as cadeias e presídios estão superlotados só com
gente daqui/Eu tento sorrir, mas as chuvas estão aí,/barracos vão cair,/enchentes vão invadir os barracos e
destruir,/defesa civil iludir./Eu tento sorrir, mas as lágrimas não são controladas por mim e teimam em cair./Eu
tento sorrir porque sou otimista, se eu fosse me revoltar faria como os terroristas./Eu tento sorrir, mas o meu
entorno não deixa, os políticos roubam, roubam e são destaque/da revista veja, mas que peleja!/Eu tento sorrir
mas a intolerância está aí”.
Aprendi com Nov@to que existem lamentos dignos de serem ouvidos e compreendidos; jamais
esquecidos. Muito mais do que meras reclamações passivas ou ladainhas à espera de um milagre, “Lamentos do
sofredor” são declarações ativas feitas por um sujeito que convida o sistema a sentar-se no banco do réu, e ser
julgado. Julgado antes mesmo de nascer, como acontece com quem mora nas favelas: “Lamentos do
sofredor,/Lamento por te violentar com o meu grito de socorro,/Lamento te violentar com a minha forma de
falar,/ Lamento te violentar com historias de dor, desamor, revolta, rancor.../ Lamento te violentar com a minha
rebeldia, furtando celular de patricinha, ou vendendo/crack na boca mais quente que a guerra do Iraque./
Lamento te violentar com as minhas crianças que caminham e brincam nos guetos fétidos/e sujos de lama, da
última enchente que te levou até a cama, feitas de caixas de banana./Lamento te violentar ao narrar o meu
entorno, que bem perto do retorno te traz tanto transtorno./Lamento”. Lamento, poeta, por aqueles que se
fingem de surdos para não escutar o seu lamento. Estes não nasceram anjus e preferem continuar monstros.
* Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Doutorando e mestre em Estudos Literários/Literatura
Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG.

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Revisional de Literatura para o ENEM
Revisional de Literatura para o ENEMRevisional de Literatura para o ENEM
Revisional de Literatura para o ENEM
ma.no.el.ne.ves
 
Apresentaçã Carlos Drumond
Apresentaçã Carlos DrumondApresentaçã Carlos Drumond
Apresentaçã Carlos Drumond
martinsramon
 
Fogo Morto - Apresentação
Fogo Morto - ApresentaçãoFogo Morto - Apresentação
Fogo Morto - Apresentação
Antonio Minharro
 
A última quimera
A última quimeraA última quimera
A última quimera
sergios3rgio
 
Revisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiroRevisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiro
ma.no.el.ne.ves
 
Mário de Andrade
Mário de AndradeMário de Andrade
Mário de Andrade
Miguel D' Amorim
 
Cidadania e prosa
Cidadania e prosaCidadania e prosa
Cidadania e prosa
Vitor Kraychete
 
Lileana moura franco_de_sa
Lileana moura franco_de_saLileana moura franco_de_sa
Lileana moura franco_de_sa
Gladis Maia
 
Gabarito 1o. bim português ii
Gabarito 1o. bim   português iiGabarito 1o. bim   português ii
Gabarito 1o. bim português ii
Ligia Amaral
 
Dom Casmurro - Machado de Assis
Dom Casmurro - Machado de AssisDom Casmurro - Machado de Assis
Dom Casmurro - Machado de Assis
vestibular
 
Literatura no enem 2011
Literatura no enem 2011Literatura no enem 2011
Literatura no enem 2011
ma.no.el.ne.ves
 
Pp
PpPp
Noite na taverna
Noite na tavernaNoite na taverna
Noite na taverna
bianca27vs
 
Noite na taverna
Noite na tavernaNoite na taverna
Noite na taverna
Má Bartzen
 
Além do ponto e outros contos novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...
Além do ponto e outros contos   novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...Além do ponto e outros contos   novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...
Além do ponto e outros contos novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...
Josi Motta
 
Machado de Assis
Machado de AssisMachado de Assis
Machado de Assis
martinsramon
 
José Craveirinha
José CraveirinhaJosé Craveirinha
José Craveirinha
João Pedro Miranda
 
Noite na taverna - roteiro de leitura
Noite na taverna -  roteiro de leituraNoite na taverna -  roteiro de leitura
Noite na taverna - roteiro de leitura
Elaine Campideli Hoyos
 
Caderno de atividades das leituras do vestibular
Caderno de atividades das leituras do vestibularCaderno de atividades das leituras do vestibular
Caderno de atividades das leituras do vestibular
pibidletrasifpa
 
Revisão poesia romântica brasileira
Revisão poesia romântica brasileiraRevisão poesia romântica brasileira
Revisão poesia romântica brasileira
Seduc/AM
 

Mais procurados (20)

Revisional de Literatura para o ENEM
Revisional de Literatura para o ENEMRevisional de Literatura para o ENEM
Revisional de Literatura para o ENEM
 
Apresentaçã Carlos Drumond
Apresentaçã Carlos DrumondApresentaçã Carlos Drumond
Apresentaçã Carlos Drumond
 
Fogo Morto - Apresentação
Fogo Morto - ApresentaçãoFogo Morto - Apresentação
Fogo Morto - Apresentação
 
A última quimera
A última quimeraA última quimera
A última quimera
 
Revisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiroRevisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 15, quarta geração do modernismo brasileiro
 
Mário de Andrade
Mário de AndradeMário de Andrade
Mário de Andrade
 
Cidadania e prosa
Cidadania e prosaCidadania e prosa
Cidadania e prosa
 
Lileana moura franco_de_sa
Lileana moura franco_de_saLileana moura franco_de_sa
Lileana moura franco_de_sa
 
Gabarito 1o. bim português ii
Gabarito 1o. bim   português iiGabarito 1o. bim   português ii
Gabarito 1o. bim português ii
 
Dom Casmurro - Machado de Assis
Dom Casmurro - Machado de AssisDom Casmurro - Machado de Assis
Dom Casmurro - Machado de Assis
 
Literatura no enem 2011
Literatura no enem 2011Literatura no enem 2011
Literatura no enem 2011
 
Pp
PpPp
Pp
 
Noite na taverna
Noite na tavernaNoite na taverna
Noite na taverna
 
Noite na taverna
Noite na tavernaNoite na taverna
Noite na taverna
 
Além do ponto e outros contos novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...
Além do ponto e outros contos   novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...Além do ponto e outros contos   novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...
Além do ponto e outros contos novo - completo - inclusão de sob o céu de sa...
 
Machado de Assis
Machado de AssisMachado de Assis
Machado de Assis
 
José Craveirinha
José CraveirinhaJosé Craveirinha
José Craveirinha
 
Noite na taverna - roteiro de leitura
Noite na taverna -  roteiro de leituraNoite na taverna -  roteiro de leitura
Noite na taverna - roteiro de leitura
 
Caderno de atividades das leituras do vestibular
Caderno de atividades das leituras do vestibularCaderno de atividades das leituras do vestibular
Caderno de atividades das leituras do vestibular
 
Revisão poesia romântica brasileira
Revisão poesia romântica brasileiraRevisão poesia romântica brasileira
Revisão poesia romântica brasileira
 

Destaque

Guia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso Aí
Guia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso AíGuia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso Aí
Guia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso Aí
Favela é isso aí
 
Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...
Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...
Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...
Favela é isso aí
 
Sistemas de informações culturais - Panorama atual
Sistemas de informações culturais - Panorama atualSistemas de informações culturais - Panorama atual
Sistemas de informações culturais - Panorama atual
Favela é isso aí
 
Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?
Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?
Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?
Favela é isso aí
 
Caps governo
Caps governoCaps governo
Caps governo
Claudia Comaru
 
Buổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạch
Buổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạchBuổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạch
Buổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạch
clbsvduoclamsang
 

Destaque (6)

Guia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso Aí
Guia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso AíGuia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso Aí
Guia Cultural de Governador Valadares - Volume I - Favela é Isso Aí
 
Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...
Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...
Arte, Cultura e Transformação nas vilas e favelas: Um olhar a partir do Grupo...
 
Sistemas de informações culturais - Panorama atual
Sistemas de informações culturais - Panorama atualSistemas de informações culturais - Panorama atual
Sistemas de informações culturais - Panorama atual
 
Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?
Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?
Legalização das Favelas: Qual é o problema de Belo Horizonte?
 
Caps governo
Caps governoCaps governo
Caps governo
 
Buổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạch
Buổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạchBuổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạch
Buổi 5: Thuốc chẹn kênh calci trong điều trị các bệnh tim mạch
 

Semelhante a A capoeira literária do poeta Nov@to

Mário Quintana
Mário QuintanaMário Quintana
Mário Quintana
Colégio Santa Luzia
 
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptxANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
PabloGabrielKdabra
 
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptxANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
PabloGabrielKdabra
 
Noite na Taverna
Noite na TavernaNoite na Taverna
Noite na Taverna
Kauan_ts
 
Revisão-Pro-Campus-2018.pptx
Revisão-Pro-Campus-2018.pptxRevisão-Pro-Campus-2018.pptx
Revisão-Pro-Campus-2018.pptx
LuizMartinhoSFilho
 
3geraodoromantismo 130501104804-phpapp02
3geraodoromantismo 130501104804-phpapp023geraodoromantismo 130501104804-phpapp02
3geraodoromantismo 130501104804-phpapp02
leonardo098
 
3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!
3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!
3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!
Elayne Beatriz de Farias Pereira
 
10 livros da literatura brasileira
10 livros da literatura brasileira10 livros da literatura brasileira
10 livros da literatura brasileira
Diego Peterson
 
Semana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo Verde
Semana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo VerdeSemana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo Verde
Semana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo Verde
Ricardo Riso
 
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
BiiancaAlvees
 
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
BiiancaAlvees
 
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
BiiancaAlvees
 
_RELATÓRIO SOBRE PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf
_RELATÓRIO SOBRE  PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf_RELATÓRIO SOBRE  PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf
_RELATÓRIO SOBRE PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf
ElianheCosta
 
Romantismo.ppt
Romantismo.pptRomantismo.ppt
Romantismo.ppt
RildeniceSantos
 
Romantismo.ppt
Romantismo.pptRomantismo.ppt
Romantismo.ppt
RildeniceSantos
 
Revisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiroRevisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiro
ma.no.el.ne.ves
 
Romantismo
RomantismoRomantismo
Aula 11 gerações românticas no brasil
Aula 11   gerações românticas no brasilAula 11   gerações românticas no brasil
Aula 11 gerações românticas no brasil
Jonatas Carlos
 
Prosagtica
ProsagticaProsagtica
Prosagtica
Paulinha Iacks
 
Prosa gótica
Prosa góticaProsa gótica
Prosa gótica
Paulinha Iacks
 

Semelhante a A capoeira literária do poeta Nov@to (20)

Mário Quintana
Mário QuintanaMário Quintana
Mário Quintana
 
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptxANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
 
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptxANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
ANÁLISE ALGUMA POESIA KDABRA.pptx
 
Noite na Taverna
Noite na TavernaNoite na Taverna
Noite na Taverna
 
Revisão-Pro-Campus-2018.pptx
Revisão-Pro-Campus-2018.pptxRevisão-Pro-Campus-2018.pptx
Revisão-Pro-Campus-2018.pptx
 
3geraodoromantismo 130501104804-phpapp02
3geraodoromantismo 130501104804-phpapp023geraodoromantismo 130501104804-phpapp02
3geraodoromantismo 130501104804-phpapp02
 
3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!
3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!
3ª geração do Romantismo By: Elayne Farias!
 
10 livros da literatura brasileira
10 livros da literatura brasileira10 livros da literatura brasileira
10 livros da literatura brasileira
 
Semana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo Verde
Semana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo VerdeSemana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo Verde
Semana de Letras 2008 - Letras e Telas de Cabo Verde
 
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
 
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
 
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
Alguns livros essenciais da literatura brasileira1
 
_RELATÓRIO SOBRE PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf
_RELATÓRIO SOBRE  PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf_RELATÓRIO SOBRE  PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf
_RELATÓRIO SOBRE PALESTRA SOBRE A LITERATURA VAMPÍRICA DE TORQUATO NETO.pdf
 
Romantismo.ppt
Romantismo.pptRomantismo.ppt
Romantismo.ppt
 
Romantismo.ppt
Romantismo.pptRomantismo.ppt
Romantismo.ppt
 
Revisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiroRevisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiro
Revisional de estilos de época 13, segunda geração do modernismo brasileiro
 
Romantismo
RomantismoRomantismo
Romantismo
 
Aula 11 gerações românticas no brasil
Aula 11   gerações românticas no brasilAula 11   gerações românticas no brasil
Aula 11 gerações românticas no brasil
 
Prosagtica
ProsagticaProsagtica
Prosagtica
 
Prosa gótica
Prosa góticaProsa gótica
Prosa gótica
 

Mais de Favela é isso aí

Orientação do voto de jovens moradores de vilas e favelas
Orientação do voto de jovens moradores de vilas e favelasOrientação do voto de jovens moradores de vilas e favelas
Orientação do voto de jovens moradores de vilas e favelas
Favela é isso aí
 
O terceiro setor em favelas do Rio de Janeiro
O terceiro setor em favelas do Rio de JaneiroO terceiro setor em favelas do Rio de Janeiro
O terceiro setor em favelas do Rio de Janeiro
Favela é isso aí
 
Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...
Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...
Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...
Favela é isso aí
 
Mapeamento cultural: política pública e convivência social
Mapeamento cultural: política pública e convivência socialMapeamento cultural: política pública e convivência social
Mapeamento cultural: política pública e convivência social
Favela é isso aí
 
O panorama da Cultura no Brasil
O panorama da Cultura no BrasilO panorama da Cultura no Brasil
O panorama da Cultura no Brasil
Favela é isso aí
 
A arte a serviço da transformação social
A arte a serviço da transformação socialA arte a serviço da transformação social
A arte a serviço da transformação social
Favela é isso aí
 

Mais de Favela é isso aí (6)

Orientação do voto de jovens moradores de vilas e favelas
Orientação do voto de jovens moradores de vilas e favelasOrientação do voto de jovens moradores de vilas e favelas
Orientação do voto de jovens moradores de vilas e favelas
 
O terceiro setor em favelas do Rio de Janeiro
O terceiro setor em favelas do Rio de JaneiroO terceiro setor em favelas do Rio de Janeiro
O terceiro setor em favelas do Rio de Janeiro
 
Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...
Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...
Grupo do Beco: Um olhar sobre as conexões entre arte, cultura e transformação...
 
Mapeamento cultural: política pública e convivência social
Mapeamento cultural: política pública e convivência socialMapeamento cultural: política pública e convivência social
Mapeamento cultural: política pública e convivência social
 
O panorama da Cultura no Brasil
O panorama da Cultura no BrasilO panorama da Cultura no Brasil
O panorama da Cultura no Brasil
 
A arte a serviço da transformação social
A arte a serviço da transformação socialA arte a serviço da transformação social
A arte a serviço da transformação social
 

A capoeira literária do poeta Nov@to

  • 1. A capoeira literária do poeta Nov@to Marcos Fabrício Lopes da Silva Inicialmente uma mistura de dança e jogo, a capoeira se desenvolveu no Brasil a partir da contribuição africana, sobretudo através dos fundamentos introduzidos por escravos da etnia banto. Sua principal característica é a ginga, movimento de corpo destinado a enganar o oponente, e que traduz toda a malícia inerente à prática de dissimular os golpes em esquivos passos de dança. O praticante da capoeira usa o gingado ou ato de gingar, que consiste em bambolear o corpo para a direita e a esquerda, a fim de confundir o adversário, escapar de seus golpes, e procurar o momento e o ângulo certos para atacar. Acredito que este seja o estilo da “capoeira literária” protagonizada pela poesia de Wanderson Adriano Marcelo. Mais conhecido como Nov@to, o jovem poeta, nascido em Belo Horizonte, apresenta uma “caneta diferenciada”, pelo fato de a literatura de testemunho produzida por ele ser extraída de vivências advindas das margens do sistema hegemônico. Trata-se de uma poética do subsolo existencial presente não nas alturas, mas sim no chão do cotidiano. Por morar e participar ativa e solidariamente da vida cultural no morro, tendo vivido na comunidade do Vietnã e hoje residindo no Primeiro de Maio, Nov@to costuma dizer que iscreve com “i”. Para ele, essa é uma forma político-literária de destacar a importância e o mérito da grafia desenvolvida pela própria periferia, sendo esta historicamente apagada por aqueles que escrevem com “e”. Tal rebeldia lapidar é tão legítima e apropriada quanto a clássica distinção entre “estória” e “história”, realizada por um outro escritor mineiro, o canonizado Guimarães Rosa. A “história” pertence ao tempo; é ciência. A “estória” pertence à eternidade; é magia. Quem sabe a “história” fica do mesmo jeito. Quem ouve uma “estória” pode ficar de outro. Pois eu fico outro sempre que ouço as estórias e leio as poesias de Nov@to. Sobrevivente do “Brasil real” e renegado pelo “Brasil oficial”, o poeta, para escrever seus textos, se embebeda dos acontecimentos miúdos das vielas e das ruas tradicionalmente favelizadas. Assim, Nov@to “garrincha” o circuito literário e midiático dominado pelos fatos graúdos produzidos pelos “donos-de-tudo”, que se encontram confortáveis na casa-grande. Passeando com o escritor pelas ruas de Belo Horizonte, ele apontava e me apresentava orgulhosamente os cenários e os personagens reais que faziam parte dos seus escritos. Subindo a Rua da Bahia, tivemos a oportunidade de encontrar um companheiro do poeta, que mendigava pela rua e, por isso, era considerado invisível pelos transeuntes que ali passavam. Nov@to conversou com Fernando, e eles aproveitaram a oportunidade para colocar o assunto em dia: a família sentia a falta do rapaz e queria saber sobre o paradeiro dele. Após anos dedicados ao tráfico, o homem de rua foi descartado pelos traficantes e corre risco de morrer caso volte a freqüentar a quebrada. Sobre esse episódio, Nov@to sapecou esta: “Fernando também é pessoa”, numa referência espirituosa e explícita ao reconhecimento obtido pelo poeta lisboeta, sendo que o xará brasileiro, como sobrevivente do campo de concentração de renda, também deveria ser digno da mais honrosa consideração. Por conta de acontecimentos dessa natureza, o poeta diz que não faz ficção, mas “fiquesão”. Ou seja, a literatura, para ele, não é uma válvula de escape para fugir da realidade, mas sim uma grande porta para acessar a complexidade da vida e extrair dela o máximo de lições. Diante de sua sobriedade literária, não há espaço para fantasias chinfrins. Chegamos a um lema que sintetiza bem o projeto literário de Nov@to: “não sou eu na lira, é nóis na fita”. Amante do hip-hop e das demais manifestações da cultura de rua, o poeta, diferente de assumir discursivamente a tradicional postura do “eu-lírico”, prefere se posicionar como uma espécie de “eu- comunitário”, pois quando escreve, Nov@to faz questão de se identificar como porta-voz daqueles que se encontram “no beco escuro onde explode a violência”, isto é, os parceiros marginalizados pela sociedade de consumo, os companheiros encarcerados pelo sistema prisional e os amigos exterminados pelas tropas de elite, sejam elas da polícia, das facções ou do tráfico. Combatido historicamente pelo “asfalto”, o “morro” é coagido a viver em duradouro e injusto regime de exceção. Tive a honra de receber das mãos de Nov@to dois trabalhos de sua autoria, que são autênticos marcos da literatura marginal: uma coletânea de poemas publicados no volume 3 da Coleção Prosa e Poesia no Morro (Favela é Isso Aí, 2007), além do livro Os monstros nascem anjus (ainda no prelo). Considero este último título uma obra de envergadura nutrida por uma resistência quilombola, podendo muito bem fazer parte de uma tradição literária brasileira fundamentada por obras como Quarto de despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus, Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins, e Capão Pecado (2005), de Ferréz. Andarilho da madrugada e catador de grandes estórias, Nov@to não se posiciona de frente pro crime para elaborar seus enredos. É estando no “olho do furação” que o poeta consegue sair daquela sinuca de bico para, em uma tacada de mestre, fundamentar seus frutos literários. Tal façanha provém de uma atitude poÉTICA diante da vida.
  • 2. Um desses “frutos-poemas” atende pelo nome de “Queda”. Nele, Nov@to conta o drama vivido por um comerciante de drogas que acabou se tornando viciado na própria mercadoria que vendia. Vivendo à míngua, o sujeito foi flagrado quando furtava um isqueiro no boteco. Resultado: ele teve que ouvir ali mesmo a sentença ameaçadora: “Que humilhante ouvir/Xingo de cachaceiro/Maconheiro, noiado/Não tem disposição pra comprar isqueiro?/Tentou se explicar, mas não dá/Roubar de rico, tudo bem/Mas de quem não tem/É foda/Se continuar vai pra cova/Falou o botequeiro”. Trata-se de um código de ética cambaleante, visto que ao mesmo tempo condena-se o roubo dirigido aos mais humildes e carentes, sendo que a mesma operação passa a ser aceitável no que se refere a atingir os mais favorecidos e abastados pelo regime de desigualdade social. Tal fato reforça o lendário paradigma comportamental trazido por Charles Anjo 45, imortalizado em uma canção de Jorge Ben Jor, que tinha como características ser “protetor dos fracos/e dos oprimidos/Robin Hood dos morros/rei da malandragem”. Ainda sobre o poema, cabe destacar que foram reprovadas com veemência pelo dono do bar a preguiça e a pilantragem daquele que usurpou o acendedor, com o objetivo de se defender o trabalho e o empenho como procedimentos adequados para conquistar com merecimento e honradez o que se deseja. Do mundo das drogas, a poesia de Nov@to vai para o universo em desencanto da infância perdida. Com a estrutura familiar desarticulada, a formação escolar insuficiente, a pobreza cada vez mais avassaladora, Juju, personagem do poema “Rua de prazer”, deixa de ser uma vendedora de balas para se transformar em garota de programa: “A menina que vendia bala/Foi seduzida pelo cara/Que se vestia de terno e gravata/Tipo um magnata/Esses que só têm sentimentos/Pelo ouro e pela prata/O carro era importado/A menina descobriu/Que seu pequeno corpo tinha mercado”. Tratada como mulher-objeto, Juju faz parte do perverso processo de mercantilização do sexo cada vez mais em voga. Juju é uma pós-graduada em marginalidade. Assim como ela, outras garotas estão condenadas a seguir a mesma carreira: “iniciam-se no semáforo/Faz mestrado na Guaicurus”. Cabe salientar que a mencionada rua do centro de Belo Horizonte é conhecida por sediar muitos pontos de prostituição. Este poema de Nov@to tem o mesmo vigor cortante de denúncia de abuso sexista, presente na canção “O PIB da PIB”, do irreverente e criativo músico Tom Zé: “Catorze, catorze anos,/Doze anos, doze anos/Imagine um gringo daquele tamanho/Em cima da criança pobre nordestina,/Sufocada, magricela, seca, pequenina,/Ah, Nossa Senhora minha/O PIB da PIB que pimba no seco/Pimba no molhado/Pimba no seco saco seco/Peixe badesco na filha dos outros é refresco/Ô Senhora, Mãe Senhora,/Nessa hora olha pra tua menina, Senhora/A Prostituição Infantil Barata/É a criança coitadinha do Nordeste/Colaborando com o Produto Interno Bruto/E esse produto enterra bruto” Sabendo que a corda da violência costuma arrebentar para o lado oprimido, Nov@to tem se esforçado para reciclar essas experiências traumáticas de maneira poética, sem perder a ternura. Nos poemas “Sorrir” e “Lamentos do sofredor”, estamos diante de um acrobata da dor que, mesmo vivendo o “negro drama” do emparedamento social, não perde de vista o espírito crítico e a vontade revolucionária de transformar o mundo em um lugar mais justo para todos viverem com dignidade. De forma consciente, Nov@to identifica os obstáculos internos e externos que ainda impedem a realização da felicidade existencial do “homem-coletivo”: “Eu tento sorrir, mas as mortes nas favelas vivem a insistir/Eu tento sorrir, mas há pessoas morrendo de fome no HAITI, JEQUITINHONHA, logo ali./Eu tento sorrir, mas as cadeias e presídios estão superlotados só com gente daqui/Eu tento sorrir, mas as chuvas estão aí,/barracos vão cair,/enchentes vão invadir os barracos e destruir,/defesa civil iludir./Eu tento sorrir, mas as lágrimas não são controladas por mim e teimam em cair./Eu tento sorrir porque sou otimista, se eu fosse me revoltar faria como os terroristas./Eu tento sorrir, mas o meu entorno não deixa, os políticos roubam, roubam e são destaque/da revista veja, mas que peleja!/Eu tento sorrir mas a intolerância está aí”. Aprendi com Nov@to que existem lamentos dignos de serem ouvidos e compreendidos; jamais esquecidos. Muito mais do que meras reclamações passivas ou ladainhas à espera de um milagre, “Lamentos do sofredor” são declarações ativas feitas por um sujeito que convida o sistema a sentar-se no banco do réu, e ser julgado. Julgado antes mesmo de nascer, como acontece com quem mora nas favelas: “Lamentos do sofredor,/Lamento por te violentar com o meu grito de socorro,/Lamento te violentar com a minha forma de falar,/ Lamento te violentar com historias de dor, desamor, revolta, rancor.../ Lamento te violentar com a minha rebeldia, furtando celular de patricinha, ou vendendo/crack na boca mais quente que a guerra do Iraque./ Lamento te violentar com as minhas crianças que caminham e brincam nos guetos fétidos/e sujos de lama, da última enchente que te levou até a cama, feitas de caixas de banana./Lamento te violentar ao narrar o meu entorno, que bem perto do retorno te traz tanto transtorno./Lamento”. Lamento, poeta, por aqueles que se fingem de surdos para não escutar o seu lamento. Estes não nasceram anjus e preferem continuar monstros. * Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Doutorando e mestre em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG.