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                        ECONOMIA                                                                               O GLOBO                                                      2ª edição • Domingo, 27 de novembro de 2011




                           Logo
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                                                                                                                                                                                                                                                  11-2011
                                                                                                    -2011
                                                                                        Reuters/17-3




                                                                                                                                                                                                                                                                to/27-
                                                                                                                                                                                                                                                   Marcia Folle
                                    A PÁGINA MÓVEL




                         Qual é


                                                                                                                                                                                                                                       3-3-2011
                         a matriz?

                                                                                                                                                                                                                             Reuters, 1




                                                                                                                                                                                                                                                                         Marizilda Cruppe/2-11-2009
                         Comoção diante do ‘desastre da hora’ costuma
                         passar ao largo da discussão central sobre modelos
                         energético, de consumo e de vida em sociedade
                ixoto
     Domingos Pe




                                                                                                                                                                                                                                         26-5-2011
                                                 2011
                                              Reuters/16-3-




                                                                                                                                                                                                                   10-2007
                                                                                                                                                                                                     Divulgação/29-




                                       Arnaldo Bloch                         O que torna a equação mais comple-       incluindo aí a noção de metrópole? Claro      fobia é um tema de estado; então, haveria
                                     arnaldo@oglobo.com.br             xa é que as demais fontes de energia co-       que não se está aventando aqui uma volta      razões para acreditar que, a médio ou




                           Q
                                                                       meçam a se mostrar, através de parâme-         ao mundo pré-feudal ou a uma planifica-       longo prazo, as nações encontrarão uma
                                     uando um desastre da propor-      tros mais ou menos objetivos, igualmente       ção baseada nos modos de vida rurais          plataforma comum no sentido de um mo-
                                     ção do derrame da Chevron na      danosas, quando não mais. A matriz atô-        primitivos, ideais de um seleto ativismo      delo cultural que não esgote os recursos,
                                     Bacia de Campos acontece, é       mica, que representava até há pouco uma        ultra-utopista. Não é, contudo, tão fanta-    invertendo o conceito de qualidade de vi-
                                     natural e legítimo que toda a     alternativa “limpa” para grande parte dos      sista assim imaginar um mundo em que o        da, hoje mais ligado à posse e ao acúmulo
                                     indignação seja canalizada pa-    agentes, instalou, depois do terremoto no      espaço físico e os recursos não sejam ex-     que ao bem estar socioambiental.
                         ra a autora do crime: a empresa. Não tão      Japão, uma sombra tão horrenda (ou             plorados à exaustão na batuta de noções             Quanto a este particular, o próprio
                         justo que a ANP, o governo, os estados, o     mais) quanto foi a da Guerra Fria: a he-       de progresso sem lastro, e sim comparti-      capitalismo (se for mesmo o modelo de-
                         Ibama e a legislação sejam tão pouco co-      catombe nascida de usinas com fins pa-         lhados em unidades menores e mais bem         finitivo) irá abraçar a causa preservacio-
                         brados por seu considerável quinhão de        cíficos é mais factível, hoje, do que um       distribuídas, opostas à tara do adensa-       nista, cedendo, progressivamente, ao
                         responsabilidade na tragédia. Por outro       conflito nuclear, e os países que a ado-       mento permeado por colossos?                  bom senso do ambientalismo. Outros
                         lado, essa indignação acaba consumindo        tam, como França e Alemanha, começam                Faz menos de um século, quando ain-      pensam que, diante do ceticismo reinan-
                         tanta energia (humana) e “purificando”        a refletir sobre suas estratégias.             da se imaginava o futuro como algo à fren-    te, isso só acontecerá à beira de um co-
                         de tal maneira os pecados da coletivida-            As hidrelétricas, setor no qual o Bra-   te, e não como “aquele que já chegou e        lapso, ou na iminência da hecatombe,
                         de, que a questão fundamental costuma         sil investe pesadamente, além de jamais        passou”, as cidades eram concebidas           quando a vida das pessoas que ainda es-
                         ficar fora do horizonte de eventos e de in-   terem sido inócuas, produzem desmata-          com grandes construções ligadas por di-       tão neste mundo e as de seus filhos (uma
                         teresse: não seria a matriz energética,       mento e comoção social crescentes entre        rigíveis, bondes e trens. Quase tudo era      vez que netos e bisnetos não costumam
                         atrelada ao petróleo, que deveria estar       os povos da floresta, em especial nos úl-      transporte público. Hoje, com a satura-       influenciar os jogos “decisionais” e a von-
                         sendo discutida, com vigor e urgência tão     timos meses. Não por acaso, Belo Monte         ção da malha urbana , volta-se a encenar,     tade política) estiverem ameaçadas num
                         decisivos quanto a aplicação sumária de       empacou. Os biocombustíveis, tão sauda-        timidamente, uma saudade desse futuro         curto prazo.
                         uma multa maior ou menor?                     dos como vanguarda libertadora, tam-           que nunca veio.                                     O problema é que um “mundo novo”
                              Onze anos atrás, era a Petrobras que     bém produzem desflorestamento crítico,              Parece, contudo, inevitável que a        em prol da salvação emergencial (se es-
                         emporcalhava as águas brasileiras, numa       são poluentes e sua produção extensiva é       promissora relação entre ecologia e eco-      tabelecido a tempo) poderia pôr em risco
                         série inigualável de acidentes, em espe-      ruim para o solo, sendo que a mecaniza-        nomia migre do discurso e da academia         a própria democracia e os nossos queri-
                         cial o de janeiro de 2000, quando 1,3 mi-     ção gera grave impacto nas relações de         para a prática firme, e influencie a esfera   dos Direitos Humanos, limitados que es-
                         lhão de litros de óleo vazaram. No mesmo      trabalho. Uma matriz “de ponta” (embora        política e os agentes produtivos para         taríamos em nossas prerrogativas de ir e
                         ano, foram mais de dez desastres, e tan-      tão antiga quanto a civilização...) como a     além da retórica e do marketing. O equi-      vir, de comer e beber, de consumir luz, de
                         tos outros nos anos seguintes. E a estatal    eólica gera poluição sonora e visual e         líbrio dessa tríade (economia-política-       habitar grandes espaços, de ir ao campo,
                         está aí, como grande heroína, rainha do       ameaça as aves, sem falar na sua intermi-      ecologia), calcula-se, é capaz de gerar       tudo racionado por um poder central glo-
                         pré-sal. Mundo afora, outros derrames,        tência, atada que está às vicissitudes do      mais valor do que seu desequilíbrio.          bal de caráter autoritário.
                         como o do navio grego Prestige na costa       vento. A solar, tão idealizada, está longe          O problema está nos passos para sua            Em cenários menos apocalípticos, há
                         espanhola, destróem a malha litorânea in-     de atender à demanda da contemporanei-         implementação, cujos resultados não são       quem aposte que a economia direcionada
                         dependentemente dos valores das multas        dade concebida como está.                      imediatos e esbarram na discórdia que di-     para a tecnociência privilegie o “instru-
                         que, em alguns casos, chegam a dezenas              A este dilema, a razão, num átimo,       vide os povos em nome dos famosos in-         mental cognitivo” sobre o material . O
                         de bilhões, pois o modelo de exploração,      encontra uma resposta tão óbvia quanto         teresses nacionais. Ou na dificuldade hu-     chamado “motor informacional” (como
                         em si, é de altíssimo risco.                  radicalmente dramática: não há uma ma-         mana de, diante da inevitabilidade da         diz o historiador da ciência Michel Ser-
                              O petróleo é nosso, vosso e dos ou-      triz “ótima” no horizonte e, talvez, nunca     morte, pensar no porvir, preferindo prio-     res) estaria, também, mudando a noção
                         tros. Mas também é sujo, velho e não-re-      venha a existir algo assim. No máximo,         rizar a maximização do gozo individual        de espaço desde o momento em que o
                         novável. Mesmo assim, na segunda déca-        projeções de um equilíbrio entre as fon-       em função do tempo que resta.                 mundo começou a se interconectar. A cy-
                         da do novo milênio, continua a ser o de-      tes que reduza o consumo, desde que não             Mas, se a evolução é um movimento        bersociedade reduziria, assim, o desloca-
                         nominador comum do planeta: Ocidente,         limite o estilo de vida calcado na liberda-    real, e se um processo dialético “positi-     mento e as necessidades humanas mais
                         Oriente, Norte, Sul, democracias e ditadu-    de de consumir energia ao sabor desen-         vo” efetivamente se dá através da Histó-      expansivas, num sentido contraexponen-
                         ras laicas ou fundamentalistas, nações à      freado da oferta e do desejo.                  ria; se as mulheres de hoje, mais livres,     cial: a energia do indivíduo se converteria
                         direita e à esquerda, todos o endossam.             Ou será miopia pensar que o proble-      salvo caprichos de ordem estética, detes-     (ou já está se convertendo) no combus-
                         Sua exploração até o esgotamento em fu-       ma está na matriz energética? Não esta-        tariam viver na sociedade medieval; se o      tível, na pilha essencial, da grande rede,
                         turo distante afigura-se como fato consu-     ria, sim, no paradigma de consumo (e de        racismo, embora longe de ser erradicado       com paradoxais benefícios para a ecolo-
                         mado e o transporte automotivo persiste       produção artificial da necessidade do          é, ao menos, legalmente coibido num ní-       gia, ainda que signifique o próprio aniqui-
                         como eixo motriz nas cidades.                 mesmo)? Ou na própria dinâmica social,         vel cada vez mais planetário; se a homo-      lamento da sociedade dita “real”.

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    36 ● ECONOMIA O GLOBO 2ª edição • Domingo, 27 de novembro de 2011 Logo . 11-2011 -2011 Reuters/17-3 to/27- Marcia Folle A PÁGINA MÓVEL Qual é 3-3-2011 a matriz? Reuters, 1 Marizilda Cruppe/2-11-2009 Comoção diante do ‘desastre da hora’ costuma passar ao largo da discussão central sobre modelos energético, de consumo e de vida em sociedade ixoto Domingos Pe 26-5-2011 2011 Reuters/16-3- 10-2007 Divulgação/29- Arnaldo Bloch O que torna a equação mais comple- incluindo aí a noção de metrópole? Claro fobia é um tema de estado; então, haveria arnaldo@oglobo.com.br xa é que as demais fontes de energia co- que não se está aventando aqui uma volta razões para acreditar que, a médio ou Q meçam a se mostrar, através de parâme- ao mundo pré-feudal ou a uma planifica- longo prazo, as nações encontrarão uma uando um desastre da propor- tros mais ou menos objetivos, igualmente ção baseada nos modos de vida rurais plataforma comum no sentido de um mo- ção do derrame da Chevron na danosas, quando não mais. A matriz atô- primitivos, ideais de um seleto ativismo delo cultural que não esgote os recursos, Bacia de Campos acontece, é mica, que representava até há pouco uma ultra-utopista. Não é, contudo, tão fanta- invertendo o conceito de qualidade de vi- natural e legítimo que toda a alternativa “limpa” para grande parte dos sista assim imaginar um mundo em que o da, hoje mais ligado à posse e ao acúmulo indignação seja canalizada pa- agentes, instalou, depois do terremoto no espaço físico e os recursos não sejam ex- que ao bem estar socioambiental. ra a autora do crime: a empresa. Não tão Japão, uma sombra tão horrenda (ou plorados à exaustão na batuta de noções Quanto a este particular, o próprio justo que a ANP, o governo, os estados, o mais) quanto foi a da Guerra Fria: a he- de progresso sem lastro, e sim comparti- capitalismo (se for mesmo o modelo de- Ibama e a legislação sejam tão pouco co- catombe nascida de usinas com fins pa- lhados em unidades menores e mais bem finitivo) irá abraçar a causa preservacio- brados por seu considerável quinhão de cíficos é mais factível, hoje, do que um distribuídas, opostas à tara do adensa- nista, cedendo, progressivamente, ao responsabilidade na tragédia. Por outro conflito nuclear, e os países que a ado- mento permeado por colossos? bom senso do ambientalismo. Outros lado, essa indignação acaba consumindo tam, como França e Alemanha, começam Faz menos de um século, quando ain- pensam que, diante do ceticismo reinan- tanta energia (humana) e “purificando” a refletir sobre suas estratégias. da se imaginava o futuro como algo à fren- te, isso só acontecerá à beira de um co- de tal maneira os pecados da coletivida- As hidrelétricas, setor no qual o Bra- te, e não como “aquele que já chegou e lapso, ou na iminência da hecatombe, de, que a questão fundamental costuma sil investe pesadamente, além de jamais passou”, as cidades eram concebidas quando a vida das pessoas que ainda es- ficar fora do horizonte de eventos e de in- terem sido inócuas, produzem desmata- com grandes construções ligadas por di- tão neste mundo e as de seus filhos (uma teresse: não seria a matriz energética, mento e comoção social crescentes entre rigíveis, bondes e trens. Quase tudo era vez que netos e bisnetos não costumam atrelada ao petróleo, que deveria estar os povos da floresta, em especial nos úl- transporte público. Hoje, com a satura- influenciar os jogos “decisionais” e a von- sendo discutida, com vigor e urgência tão timos meses. Não por acaso, Belo Monte ção da malha urbana , volta-se a encenar, tade política) estiverem ameaçadas num decisivos quanto a aplicação sumária de empacou. Os biocombustíveis, tão sauda- timidamente, uma saudade desse futuro curto prazo. uma multa maior ou menor? dos como vanguarda libertadora, tam- que nunca veio. O problema é que um “mundo novo” Onze anos atrás, era a Petrobras que bém produzem desflorestamento crítico, Parece, contudo, inevitável que a em prol da salvação emergencial (se es- emporcalhava as águas brasileiras, numa são poluentes e sua produção extensiva é promissora relação entre ecologia e eco- tabelecido a tempo) poderia pôr em risco série inigualável de acidentes, em espe- ruim para o solo, sendo que a mecaniza- nomia migre do discurso e da academia a própria democracia e os nossos queri- cial o de janeiro de 2000, quando 1,3 mi- ção gera grave impacto nas relações de para a prática firme, e influencie a esfera dos Direitos Humanos, limitados que es- lhão de litros de óleo vazaram. No mesmo trabalho. Uma matriz “de ponta” (embora política e os agentes produtivos para taríamos em nossas prerrogativas de ir e ano, foram mais de dez desastres, e tan- tão antiga quanto a civilização...) como a além da retórica e do marketing. O equi- vir, de comer e beber, de consumir luz, de tos outros nos anos seguintes. E a estatal eólica gera poluição sonora e visual e líbrio dessa tríade (economia-política- habitar grandes espaços, de ir ao campo, está aí, como grande heroína, rainha do ameaça as aves, sem falar na sua intermi- ecologia), calcula-se, é capaz de gerar tudo racionado por um poder central glo- pré-sal. Mundo afora, outros derrames, tência, atada que está às vicissitudes do mais valor do que seu desequilíbrio. bal de caráter autoritário. como o do navio grego Prestige na costa vento. A solar, tão idealizada, está longe O problema está nos passos para sua Em cenários menos apocalípticos, há espanhola, destróem a malha litorânea in- de atender à demanda da contemporanei- implementação, cujos resultados não são quem aposte que a economia direcionada dependentemente dos valores das multas dade concebida como está. imediatos e esbarram na discórdia que di- para a tecnociência privilegie o “instru- que, em alguns casos, chegam a dezenas A este dilema, a razão, num átimo, vide os povos em nome dos famosos in- mental cognitivo” sobre o material . O de bilhões, pois o modelo de exploração, encontra uma resposta tão óbvia quanto teresses nacionais. Ou na dificuldade hu- chamado “motor informacional” (como em si, é de altíssimo risco. radicalmente dramática: não há uma ma- mana de, diante da inevitabilidade da diz o historiador da ciência Michel Ser- O petróleo é nosso, vosso e dos ou- triz “ótima” no horizonte e, talvez, nunca morte, pensar no porvir, preferindo prio- res) estaria, também, mudando a noção tros. Mas também é sujo, velho e não-re- venha a existir algo assim. No máximo, rizar a maximização do gozo individual de espaço desde o momento em que o novável. Mesmo assim, na segunda déca- projeções de um equilíbrio entre as fon- em função do tempo que resta. mundo começou a se interconectar. A cy- da do novo milênio, continua a ser o de- tes que reduza o consumo, desde que não Mas, se a evolução é um movimento bersociedade reduziria, assim, o desloca- nominador comum do planeta: Ocidente, limite o estilo de vida calcado na liberda- real, e se um processo dialético “positi- mento e as necessidades humanas mais Oriente, Norte, Sul, democracias e ditadu- de de consumir energia ao sabor desen- vo” efetivamente se dá através da Histó- expansivas, num sentido contraexponen- ras laicas ou fundamentalistas, nações à freado da oferta e do desejo. ria; se as mulheres de hoje, mais livres, cial: a energia do indivíduo se converteria direita e à esquerda, todos o endossam. Ou será miopia pensar que o proble- salvo caprichos de ordem estética, detes- (ou já está se convertendo) no combus- Sua exploração até o esgotamento em fu- ma está na matriz energética? Não esta- tariam viver na sociedade medieval; se o tível, na pilha essencial, da grande rede, turo distante afigura-se como fato consu- ria, sim, no paradigma de consumo (e de racismo, embora longe de ser erradicado com paradoxais benefícios para a ecolo- mado e o transporte automotivo persiste produção artificial da necessidade do é, ao menos, legalmente coibido num ní- gia, ainda que signifique o próprio aniqui- como eixo motriz nas cidades. mesmo)? Ou na própria dinâmica social, vel cada vez mais planetário; se a homo- lamento da sociedade dita “real”.