Edição do Autor
para Felipe e Pedro
e quem deseje
Copyright © 2012
Luiz Fernando Sarmento
Ilustração Capa
Luiz Fernando Sarmento
Diagramação e Capa
Pedro Sarmento
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
S255v
Sarmento, Luiz Fernando
Uma vida em comum como qualquer um / Luiz Fernando Sarmento. - 1.ed. -
Rio de Janeiro : L. F. Sarmento, 2012.
264p. : 15 cm
Índice
ISBN 978-85-913883
1. Psicologia. I. Título.
12-4516. CDD: 150
CDU: 159.9
29.06.12 04.07.12
036637
uma vida incomum
como qualquer um
Luiz Fernando Sarmento
1. Fora de Ordem 10
2. Mamãe 25
3. Um quase nada de quase tudo 29
4. Redes 34
5. Agências de inFormações 52
6. Vários eu 58
7. Lembranças 65
8. Psi 82
9. Rotina 87
10. Incertas 93
11. Reflexos 98
12. Balanços 113
13. Programas de TV 121
14. Piripaco 127
15. Talvez 131
16. Outro dia, um como outro 134
17. Pausa 143
18. Juntomisturado 145
19. Manual de manutenção 158
20. Hoje, já passado 161
21. Insights? 165
22. Ficção, desarrumações 167
23. Sensação de juventude 169
24. Anotações 172
índice
Aqui os tempos se misturam
tanto quanto os assuntos.
Fim e meio não sabem onde começam.
Sorte de quem escolhe o que lê.
E salta o que não lhe importa.
10 11
1
fora de ordem
Tudo um tanto confuso,
não sei direito quem sou, que faço. Só sinto, só
penso. A novidade é que aqui e agora estou estru-
turado, como desejei e produzi. Filhos cuidados,
casa com cada coisa em seu lugar, despesas bási-
cas de todo dia supridas – comida, condomínio,
telefone, gás, luz, net-internet. Posso acordar e,
em cada momento, escolher o que fazer da vida.
Os desejos vão, vêm, se transformam.As variáveis
que interferem nos meus desejos são inúmeras,
inesperadas, fora do meu controle. O que é agora
pode ser diferente depois.
Quase como rotina, cuido de mim; alongo ao
acordar, cozinho, lavo, mantenho o básico. Cada
dia tem sido outro. De duas em duas semanas
um casal arruma o apartamento. Outros amigos
e colegas copiam vídeos que realizei só ou em par-
cerias, incluem na internet, compõem programas
alternativos de TV. Participo de encontros de in-
teresse comum, ajo reativo ao processo de cada
parceiro, despreocupado de tempos. Em relação
ao bem-estar meu e do mundo, procuro distin-
guir o que está ao meu alcance. Dentro de mim,
cada vez mais tranquilo.Isto ontem,hoje de outro
jeito, amanhã não sei.
Quero agora escrever, fora de ordem. Princípio,
meio, fim se misturam. E, dependentes de minha
memória, se perdem ou nem se completam. Ima-
gino – e proponho agora – cada leitor, se houver,
cuide editar o que leia. Escolho o mais próximo
do que sinto síntese. Vez ou outra me repito,
como pra recordar. Detalhes, aprofundamentos,
talvez mais adiante.
Compartilho
o que, inda que verde, me faz bem e imagino pos-
sa fazer a outro.
Se edito a prosa, encontro o verso. Se edito o ver-
so, o hai-kai? Se edito o hai-kai, o silêncio. Nem
tudo se resume a isto. Confesso, não sei direito o
que é hai-kai.
12 13
Em pleno vôo, a aeromoça orienta. Quando as
máscaras caírem, primeiro cuide de você, depois
dos outros, mesmo crianças. Analogia imediata,
cuidarei melhor do outro, se antes cuido de mim.
Como você pode cuidar de mim, se não cuida de
você? A pergunta que fiz a um amigo, tenho feito
ao espelho: como posso cuidar do outro, se não
cuido de mim?
Tento inventar, descobrir, construir jeitos de rela-
cionar-me que me supram.Aprendo que não pos-
so dizer sim a algo que não está em mim.
Facilita minha vida quando separo a loucura do
outro da minha loucura. Se a mim não me permi-
to, a outros inibo. E vice versa. Quando não beijo,
por exemplo, muitas vezes não suporto outros se
beijarem. Muitos“não!” que me chegam, são“lou-
curas” de outros.
Como Cacilda Becker, não tenho tido tempo pra
lutar contra, só a favor. Como, talvez,Tom Jobim,
aprendo que democracia é muito bom, inda mais
se a pratico aqui com meus colegas de trabalho,
lá em casa, com quem está ao meu alcance. Des-
cubro que meus pensamentos são escolhas mi-
nhas. Que gentilezas têm me gerado gentilezas. E
quanto mais me conheço, melhor vivo.
Na tentativa de tornar mais simples minha vida,
aprendo que quanto menos tenho, mais leve me
sinto. Um par de sapatos é suficiente, três me dão
mais trabalho que um. Os objetos é que me têm,
não eu que tenho os objetos. Carros dão traba-
lhão. E plantas, animais: é o cachorro que me le-
varia a passear, não eu a ele. Não posso deixar a
casa sozinha se há plantas pra cuidar. Qualquer
coisa que tenho, me dá trabalho. Um bibelô? Te-
nho que espanar. Se tenho em excesso, trabalho
em excesso. Sou assim quase escravo do que te-
nho. Os objetivos também: pautam minha vida.
Mas meus filhos não são meus, quase sempre eu
me guio pelos meus filhos. Sinto bem. Os saldos
positivos da minha vida estão relacionados aos
afetos.Aprendo que um meu capital básico são as
relações que cultivo, os afetos que me envolvem.
Que sonhar me faz bem: me orienta o que faça. E
que há vazios em mim que só eu posso aprender
a preencher.
14 15
Alguma compaixão me nasce em relação a quem
dedica a vida a acumular coisas e sentimentos, em
tentativas de preencher vazios que em si mesmo
desconhece.Aprendo que melhor aprendo,fazen-
do. E que melhor ensino, sendo. E eu, que não
consigo resolver esta pretensão de que sei um tan-
to sobre quase tudo?
Como eu,
imagino que uma mãe, um pai, professor, patrão,
governante, sacerdote... desejam que um outro
seja o que não é. Eventualmente inconscientes,
projetam no outro seus próprios desejos. Nuns e
noutro, quando cai a ficha – se cai – a consciência
se dá,a compreensão se instala,o comportamento
tende a mudar. Quando a ficha não cai, permane-
cem – eternas? – incompreensões.
Livre associo,
misturo de um tudo.Nas ruas,louras,louras,lou-
ras. Chego mais perto, são negras as raízes dos ca-
belos. As louras, na verdade, são morenas. Barbie,
modelo de beleza, american way of life, é referên-
cia. Nas falsas-louras nativas, talvez angústia por
não serem semelhantes aos ídolos adotados.
Comunicação é meio,
mesmo o meio sendo em si mensagem. O pri-
meiro desafio que vivo é perceber o que meu
próprio inconsciente tenta me comunicar.
Apesar dos impedimentos por parte de ou-
tras partes de mim. Fico atento aos sinais que
me dão meus atos falhos. Ato falho não falha!
Conteúdos que me tocam me emocionam. Mi-
nha memória afetiva, sinto, permanece. Minha
memória racional me escapa. De que mesmo eu
estava falando?
Quero aprender, como diz Simone de Beauvoir, a
“viver sem tempos mortos”.
Concordo com Sérgio Mello: os planos funcionam,
difícil é o cronograma.
Também com alguém, não me lembro quem: seja
o que deseja ser.
De vez em quando me pego muito eficiente, no
caminho errado. Perdi minha vida por educação.
Foi Verlaine quem disse?
16 17
Esta aprendi com Adalberto de Paula Barreto – a
pergunta que antes, submisso, fazia a outros, ago-
ra tenho perguntado ao espelho: que você quer que
eu queira, pr’eu querer?
Aprendi e me tem feito bem: meu humor como
indicador. Se estou de bom humor, estou bem. Se
de mau humor, estou mal. Identifico-me com o
que entendi do FIB, Felicidade Interna Bruta.
Meus filhos,meus amigos aprendem comigo mais
pelo que sou do que pelo que falo. Vice versa, eu
também.
Meus desejos me mobilizam. Eu me movimento
a partir dos meus desejos. Desejos são básicos aos
meus movimentos. Procuro descobrir quais meus
desejos.
Tento construir, pelas ações, pontes entre desejos
e práticas. Pra facilitar, só quando preciso, numa
coluna listo as tarefas que julgo necessárias para a
realização do desejo. Ao lado de cada tarefa, em
outras 4 colunas, prevejo datas, custos, responsá-
veis e anoto outras observações. Dentro de mim,
o conflito entre prever-planejar e não ter agenda,
não limitar o futuro. Talvez eu possa planejar e
adaptar à realidade o que antes previ.
Se não gozo quando transo,permaneço com uma vi-
vacidadejuvenil,oprazerpermanece.Ogozojánãoé
meta.Ameta,seexiste,éoprazeremcadamomento.
Onde vai meu pensamento, vai minha energia.
Aprendo escolher pensamentos.
De Freud entendi que muitos dos conteúdos dos
sonhos estão relacionados a acontecimentos do
dia anterior. Quando suporto alegria, antes de
dormir, leio o que me faz sentir bem. Quando
acordado, evito situações que me gerem senti-
mentos desagradáveis.
Outros em outras épocas já descobriram um tan-
to disto tudo. Esta memória coletiva onde está?
Sei que quando relaxo, capto.
Volta e meia me pego,
inconsciente, estragando prazeres: ao brigar com
a namorada quando estava gostoso, ao chutar pe-
18 19
dra quando a caminhada tava boa, ao detonar um
trabalho que me trazia enlevo... Muitas vezes senti
como insuportável a alegria.A minha,as de outros.
Percebi o mesmo em outros. Permaneço descon-
fiado que isto se relaciona com minha cultura
cristã, que proíbe emoções, prazeres – vide os 10
mandamentos e os 7 pecados capitais. Serei casti-
gado – agora ou depois da morte – se transgrido
alguma regra. Perdi minha inocência quando fui
catequizado. Antes, em mim só existia um senso
ético. Não existiam pecados mortais, veniais, in-
fernos. A moral veio como doutrina.
Internalizei as regras e as consequências de
transgressões: dentro de mim associo o prazer ao
castigo. Logo que percebo prazer, lembro castigo.
Evito castigos eliminando prazeres. Os prazeres
se tornam então insuportáveis.
Agora, consciente, aprendo ser mais responsável
por mim mesmo, minhas ações, minha vida. Sei
que já não devo reclamar da pedra ao tropeçar
nela. Eu é que não prestei atenção. Reclamo antes
ao espelho.
Algumas vezes minha vida ficou sem sentido.
Tanto fazia viver, morrer. Não cheguei a procurar
a morte. Mas a vida tava sem gosto. A lembran-
ça dos filhos me animava. Eu era resiliente e não
sabia: vim do quase fundo do poço ao equilíbrio
dinâmico de agora.
Antes dos 8 anos já sabia da proibição dos praze-
res. Vivi prazer e medo em secretas descobertas
infantis. E punhetas silenciosas das 2 da tarde au-
mentavam culpas, pavores e rezas noturnas. Aos
14, no beco dos meninos, tive a sorte do acolhi-
mento tranquilo naquele corpo diferente do meu.
Aprendi a gostar de mulher.
Mas perdi mesmo a grande inocência quando so-
fri o catecismo. Não sabia de pecados – mortais,
veniais – e castigos. Ficou um medo enorme do
inferno eterno, chamas que nunca acabam. Foi
como um insight ao contrário, um indark.
Wilhelm Reich foi um choque bom. Perdi outra
inocência, ganhei consciência: sou responsável
por mim. Hoje leio sem ter que fazer provas. Só
em boa companhia, adoro orelhas de livros, vejo
20 21
trechos de Freud, Jung, Nise, Bubber, Moreno,
Lobsang, Rajneesh, Lacan, Platão,Voltaire, Saint-
-Exupéry, Szasz, Chang, Capra, Moody, Rogers,
Beauvoir, Lobato, Quino, Monroe, Veríssimo,
Barreto, Cançado, Ferenczi,Angeli, Brunton, Eco,
Laing, Freire, Ziraldo, Ludemir, Nietzsche, Feito-
sa, Pessoa, Moraes, Pontes, Chacal, Robin... e por
aí vou. Se entendo, ai, que bom. Se não, vou em
frente, volto, folheio. Antes de dormir, então, lei-
turas facilitam o sono, os sonhos. É uma forma de
oração, cuidar do que me vai dentro.
As sínteses de Pontes, o Roberto: todo mundo é,
todo mundo pode ser. E: o saber em todo ser. Mais
ainda: amor e medo, emoções básicas.
Lembro a Chiquita Bacana de João de Barro:
existencialista, com toda razão, só faz o que manda
o seu coração. E talvez Sartre: não importa o que
fizeram com minha vida. Importa o que vou fazer
com o que fizeram da minha vida. E o título do livro
póstumo de Winnicott: Tudo Começa em Casa.
Atos fractais,
um pedaço representa o todo? Pequenos atos
têm me dado informações sobre quem os pratica.
Quem joga na rua o lixo que tem na mão me infor-
ma que não cuida dos outros. E talvez não cuide
dos outros porque não aprendeu cuidar de si.Ima-
gino: se não cuida de si, como cuidará de outros?
Mas, como diz Barreto, o Adalberto de Paula, só
reconheço no outro o que conheço – tenho? – em
mim. Pelo que percebo, outros pequenos atos me
denunciam. Se jogo lixo no chão, se falo grosso, se
furo fila, se bato em criança, se desperdiço água,
se critico alegria,se rio das pegadinhas,da desgra-
ça do outro...
Parece óbvio,
mas só há pouco tempo constatei que meu humor
tem sido meu melhor indicador: se estou de bom
humor, estou bem.
Agora sei que só consigo comunicar-me com quem
me escuta.E vice versa.Acomunicação se dá quan-
do entendo o que me foi dito. E sou entendido.
Eu me sinto bem com cada ato que realizo para
difundir o que sinto me faz bem.
22 23
Ouvi e concordo: minha saúde é coisa muito séria
para ficar nas mãos de outros. Se não cuido de
mim, quem cuidará?
 
A autonomia que me permito, desejo a cada um
que a deseje.
O sítio de mamãe chamava sossego. Era seu de-
sejo. Sem saber disso, meu terapeuta Romel sin-
tetizava em cumprimento: saúde, sucesso, sossego.
 
Há espectadores que acreditam mais na TV que
na realidade?
Em mim, é lento o processo de absorção de uma
nova ideia, de mudança de comportamento. Há
7 anos desejo um sofá. Há 35 quero escrever um
livro. Há 50 sonho ser dono do meu próprio na-
riz. O que é novo me incomoda, me ameaça. Já
desenhei o sofá, tento pela enésima vez escrever
um livro, mas inda confundo meu nariz com o
de outros.
Com defesas ativas como as minhas – que atra-
palham a realização dos meus desejos originais –
imagino quantas inovações,descobertas filosóficas,
tecnológicas, insights, invenções, criações... estão
disponíveis para a humanidade e não nos chegam
ao conhecimento.
Percebo
que boa parte dos custos de empresas e empre-
endimentos é gerada pelos controles. Controlar
dá trabalho, dá despesas. Por outro lado, a neces-
sidade de controles diminui quando confianças
mútuas estão presentes. Nas relações pessoais,
familiares isto é nítido.
Tenho certo que necessidades de controle di-
minuem, se cultivadas relações de confiança. O
medo gera controles. O amor gera confiança.
Percebo em minha prática individual que quando
remunero satisfeito – financeira e emocionalmen-
te – serviços que me são prestados, recebo de vol-
ta empenho espontâneo, com envolvimento e boa
vontade. Quando cuido do outro, o outro cuida
de mim, naturalmente.
Admiro a inteligência dos empresários que repar-
24 25
tem lucros com quem com eles trabalha. É na-
tural que cada trabalhador reconhecido se sinta
reconhecido. E, tanto como se fosse seu, passa a
melhor cuidar de tudo ligado ao trabalho: seja de
equipamentos e insumos, seja de relações huma-
nas com o público, colegas, demais stakeholders.
Administrador, gerente que cuida de quem tra-
balha próximo dorme tranquilo, vive melhor, tem
assunto com os filhos. Não precisa esconder dos
filhos malfeitos para os quais co-labore. Feitores
– antigamente? – tinham esta função: obrigar ao
outro fazer o que não quer. Administrador que
age amorosamente tem retorno amoroso. Pare-
ce complicado, mas é simples. É o tal do amor.
O tao do amor?
2
mamãe
Após a morte de mamãe, minhas irmãs sugeri-
ram que eu escrevesse um necrológio. 1919. Nas-
ce Heloisa. Vem para os Anjos, família grande
numa Montes Claros criança. Amizades profun-
das com primas vizinhas de quintais. Tudo tran-
quilo neste porto protegido. 1928? Bum! Morre
o pai, ficam sua mãe Antônia e 8 filhos. O avô pa-
terno, Antônio, orienta, distribui. Cada filho um
tio, um parente. 1934, de novo, seu mundo treme.
Com a irmã Wanda,sós,vai pro lugar que não co-
nhece, Salinas. Imagino inseguranças, saudades,
solidões. Vive compaixões, compartilhamentos,
cria vínculos. Aprende na vida, ensina no Grupo
Escolar. Enamora Rodrigo.
1938, casa.Vêm quatro filhos. Cai a ficha, acredi-
ta em si, toma as rédeas.
1948. Salinas fica pequena. Agora vejo, a história
como se repete – pra abrir caminhos de liberda-
de, distribui por um tempo os filhos: Lina fica
26 27
com Wanda, Stella com tia Odília, Luiz com d.
Rosinha. Rodrigo, o marido, cuida de si. Mamãe
dá o salto. João vai junto. Belorizonte, Instituto
de Educação, mergulha. Volta, respira, arruma as
malas, barriguda de Heloisa Helena: volta às ori-
gens,Montes Claros,1951.O marido,é o possível,
vai à luta em São João do Paraíso. Contribui de
lá. Só com os filhos, a mãe, como defesa, controla.
Tudo ou quase. Articula. Rodrigo regressa, a fa-
mília recompleta. Sempre, dá aulas, educa. Nos
intervalos, costura, remenda, orienta, organiza.
1954. Nasce o D. João Antônio Pimenta, Heloisa
diretora, funda um Grupo Escolar. À noite dá aulas
no Sesi. Por um tempo, acumula o Colégio Dioce-
sano. Conhece, reconhece gente, constrói amizades.
Cuida da família, corresponde aos que solicitam, dá
as mãos, ensina, ensina, educa, educa, trabalha, tra-
balha. Agora cuida também das normalistas: ensina
a ensinar. Planta plantas, rega como planta e cultiva
ideias, conhecimentos, relações. Solidária em mo-
mentos necessários, fortalece o bem. Guarda confi-
dências. Reflete, aconselha. Direto e reto. Não deixa
para amanhã o que é de hoje. É consigo o que é com
outros.Ama os próximos quase como aos filhos.
Delegada de ensino. Gosta. Conversas e conver-
sas e decisões. Interage. Norte de Minas e capital.
42 municípios sob sua tutela. Viaja, vai, vem, vai,
vem. Modera, modela, representa. Articula para
tornar viável, realiza junto. Integra órgãos estadu-
ais e cidades.Com a equipe,consensua.Assim,50
anos de trabalho efetivo. E mais 18, aposentada,
sutil nos afetos, atenta, pronta para escutar, pen-
sar, falar, agir.
Em toda a vida, emociona-se com serenatas e
boas conversas ao anoitecer. Tem mão boa para
plantar. Cava, semeia, rega. Adora uma arruma-
ção. Quem estiver perto entra na roda. Nos mo-
mentos mais diversos, exercita a solidariedade,
constrói vínculos, valoriza amizades.
2002.Gasto,o corpo cansa.Rápida como sempre,
prevê, organiza, distribui o que suou. E vai. Mi-
nha mãe permanece em mim, em nós.
Passado um tempo,
quanto mais vivo, cultivo minha mãe boa. Caem
em névoa os beliscões, os olhares determinantes,
as limitações. Sinto que me compreendo quando
28 29
compreendo mamãe. E olha que, raivoso, briguei
com ela um mês antes de sua morte. Mamãe esta-
va com câncer brabo, ali em órgãos que filtram, se
espalhando. Num momento, ela, aos meus olhos,
maltratou uma moça que dela cuidava. Eu – que
nunca lhe havia falado grosso – fui duro, impulsi-
vo, gritei com mamãe. Ela ali, me olhando estupe-
fata, de baixo pra cima, da sua provisória cadeira
de rodas. Nos dias seguintes, emudeceu comigo,
não respondia a meus “benção, mamãe?”. Diante
de minha insistência, foi clara: “Perdoar, perdôo.
Mas esquecer, não esqueço.”.
Em relação a mamãe, não sei explicar direito, sei
que meu coração está cada vez mais tranquilo.
Desconfio que é porque fui sincero comigo mes-
mo, com ela. Como fui pró-ativo em muitos mo-
mentos que tomei a iniciativa do abraço, do beijo,
da palavra doce. Parece que, como mamãe, sou
assim, variado também em doce e amargo.
3
um quase nada
de quase tudo
Então ficamos assim:
falo bem de você, você fala bem de mim.
Uma dificuldade enorme, aqui, de aceitar elogios
e agradecimentos. Vou aprendendo, mesmo sa-
bendo que muito do que me move é minha pró-
pria satisfação. E identificação. Relembro Marx,
o Groucho: clube que me aceita como sócio eu não
entro. Não deve prestar.
Sinal de saúde,
me orgulho: não sei onde fica meu fígado.
Sujismundo era um personagem sempre rodeado
de moscas, sujo, sujador. A campanha na TV foi
eficaz: quem jogava papel na rua, se olhado como
Sujismundo, se envergonhava, recolhia o papel,
se recolhia. A atitude sujismundo gerava culpa e
vergonha. A cidade do Rio ficou mais limpa por
30 31
um tempo. Tive notícia também – salvo engano,
ali pela Escandinávia – de anúncio audiovisual
em que um carro passava excessivamente veloz e,
plano seguinte, uma moça fazia um sinal para ou-
tra moça – dedo indicador se aproxima de dedo
polegar – sugerindo a pequenez talvez do pau do
motorista.Anúncios que geram culpa e vergonha.
Imagino agora campanhas publicitárias positivas
gerando satisfação e prazer, valorizando a afetu-
osidade de quem contribui pruma vida coletiva
melhor. É que, passado um tempo, meus convi-
vas contemporâneos acreditam mais no que sou,
no que faço, do que no que falo e não faço e não
sou. Alegria gera alegria, gentileza gera gentileza.
Exemplo de campanha assim, pra cima, relembro
os conceitos de Pontes para divulgação de colônia
de férias pra crianças numa favela: todo mundo é,
todo mundo pode ser. O outro, este voltado para a
universidade popular: o saber em todo o ser.
Agora eu sei.Cada ato talvez tenha um significado.
Quando fumo, agrido meu próprio corpo. Se ajo
assim comigo, com o outro mais ainda. Sou então
coerente quando jogo cigarro no chão, invado um
sinal vermelho, dou um tapa, um tiro, solto uma
palavra indelicada. Mas já sei que outros equilí-
brios são possíveis,quando transcendo minha cul-
tura masoque, cuido de outros ao cuidar de mim.
Se não cuido de mim, como cuidarei de outros?
Tenho lembranças do século XIX,
são reais. Na década de 40 do século XX, Salinas
estava longe dos grandes centros. As modas che-
gavam tempos depois.Sem rádio,televisão,jornal.
As notícias corriam, lentas, de boca em boca. Os
causos contados na porta de casa eram de mula
sem cabeça, almas penadas. Os costumes eram
antigos.No porão da sua casa,tia Odília guardava
os ossos de seu pai, meu bisavô. Pra se pentear, ela
subia num banquinho e só então soltava os cabe-
los que chegavam ao chão. Fazia linguiça. Enfiava
ingredientes na tripa de porco. Para socar, usava
uma chave grande, antiga. E quando curioso eu
perguntei: que é isto, tia?, ela – chouriço, menino.
Carrego dentro de mim o que então vivi. Carrego
tudo, mesmo agora, cidadão do mundo, o hori-
zonte mais próximo, tudo tão mutante.
32 33
Repito e tento: separar o que é meu, o que do ou-
tro, especialmente os sentimentos. E quanto aos
objetos e moedas, mais do que possuo as coisas,
são as coisas que me têm.
Wilhelm Reich me ensinou, na teoria e na práti-
ca: meu corpo traz minha história.
Quando faço o que gosto, sem perceber trabalho
o tempo todo.
Quando cai minha ficha, vejo o mundo diferente.
Tento crescer, mas inda é difícil suportar alegrias.
Tristeza é fácil, matava no peito todo dia.
Posso me comunicar com o mundo. Quando
compartilho, me acalmo, melhoro.
Se não me permito, a outros inibo.
Dou o livro que gosto, nem sei o que o presentea-
do deseja. Só dou o que tenho.
Meu corpo hoje me fala, volta e meia me relem-
bra: se quero dormir bem, 5 horas antes já não
como. Se como, regurgito, durmo sentado.
Nos sonhos realizo meus desejos?
Parece que quando vivencio situações sou quem
melhor poderia conhecer estas situações que vi-
vencio. Assim, talvez, potencialmente, seja eu
quem melhor saiba das soluções das questões que
vivencio. A consciência desta sabedoria talvez de-
termine a possibilidade de ação transformadora
em mim. Há expressões de outros – falas, atos,
artes, escritos... – que me despertam consciências.
34 35
ção de relações, vínculos, confianças, descobertas
de interesse comuns – temáticos, territoriais... E
trocas, construções de parcerias, realizações de
objetivos comuns. Assim se formam capitais so-
ciais.Trabalhos sociais e comunitários dependem
diretamente da participação coletiva, de cada um.
Redes espontâneas: uma criança nasce, a tia te-
lefona pra prima, que telefona pra avó, que fala
pros netos, que espalham pros amigos... A rede
nasce, cumpre sua função, desaparece. E reapare-
ce quando necessária. Muitos agora sabem que a
criança nasceu.
São inúmeros os tipos de redes: presenciais,
virtuais, fomentadas, redes de redes. Redes são
diferentes de cadeias. Redes pressupõem espon-
taneidade, ausência de hierarquia. Cadeias não:
têm gente que manda em gente. Redes quando se
somam, se multiplicam. Multiplicam de tamanho
quando se articulam com outras redes. Por exem-
plo,quando se comunicam entre si – movidos por
interesse comuns – setores públicos, setores pri-
vados, movimentos populares.
4
redes
Fecho os olhos
e respondo a mim mesmo: o que aqui procuro?
O que aqui ofereço? Imagino agora que posso ex-
pressar para todos: o que procuro e o que ofereço.
Se este canal de comunicação se estabelece entre
eu e outros, tendo cada um de nós esta liberdade
de comunicação, estaremos em rede.
Sei, imagino que todos sabemos, que conheci-
mento é poder. E compartilhar conhecimento é
compartilhar poder.
Cássio Martinho me ensinou: rede é um esforço
individual e coletivo de comunicação, um com-
partilhamento de informações. Na rede, ausência
de hierarquia, presença de iniciativa espontânea
de quem participa. Eu praticava redes e não sabia.
Redes fazem parte de um processo que pode
chegar a transformações individuais e coletivas.
Comunicações entre pessoas possibilitam cria-
36 37
Facilita a formação de redes presenciais a ausên-
cia de discriminação de raça, crença, facção, parti-
do político, ideologia, gênero, sexo...Também um
espaço neutro, onde cada participante se sinta à
vontade, seja evangélico, espírita, católico, budis-
ta, maometano, taoista, ateu, agnóstico, duvido-
so... Ou negro, branco, mulato, amarelo, albino,
pobre, rico, remediado, democrata, liberal, socia-
lista, anarquista, hétero, homo, bi, pan...
Expansões da rede são estimuladas quando dis-
ponibilizadas informações básicas – lista de pre-
senças, com telefones, e-mails... – tanto durante
os encontros quanto logo depois virtualmente
pela internet. Mais ainda se também distribuídos,
para cada um e para todos,os classificados sociais,
que são descrições das ofertas e procuras que
aconteceram durante os encontros. Os Classifi-
cados Sociais e as Listas de Participantes servem
para facilitar contatos e intercomunicações. Ten-
do estas informações em mãos, depende de cada
um a iniciativa de contatar e articular parcerias.
E, naturalmente – base para relações humanas
saudáveis – vínculos afetivos fortalecem redes.
Linha do tempo
Desde cedo trabalho. Hoje vejo o que plantei –
onde investi minha vida, meus tempos e energias
– e, acredito, compreendo um tanto porque me
sinto bem à medida que amadureço.
Em casa engraxava sapatos aos sábados, ajudava
a passar a cera no assoalho, colaborava um pouco
nos serviços domésticos. Aos 12, informalmente,
vendi cestas de natal Titanus. Aos 16, dei aulas
particulares de matemática. Aos 17 ou 18, pri-
meira carteira assinada, auxiliar administrativo
de uma distribuidora de bebidas. Em seguida, ou
paralelo,não lembro,repórter policial do Jornal de
Montes Claros. E fundei e publiquei, com amigos,
o Setentrião, jornal distribuído gratuitamente.
Já na Universidade de Brasília, fui monitor de
estatística. Nas férias estagiei em escritório de
planejamento e elaboração de projetos. Dei au-
las pela Fundação Educacional do Distrito Fe-
deral, trabalhei no Ministério da Agricultura, no
Fundo Federal Agropecuário, um pouco para o
Ministério da Educação. Com parceiros, monta-
mos uma pequena tecelagem de camisas de ma-
38 39
lha. No Rio, agora no INCRA, participei de um
grupo de trabalho que preparava uma reforma
agrária: cuidei da seleção e treinamento de cap-
tadores de dados relativos a parceiros, arrenda-
tários, proprietários rurais...
Em Amsterdam, quase como umas férias, des-
cobertas pra vida inteira, ampliação de visão de
mundo. Em Londres fui modelo para desenhis-
tas, operário de obra, porteiro e vendedor de sor-
vetes num teatro, voluntário na feitura de pães
integrais. De volta ao Rio, funções variadas em
um punhado de longas-metragens. Assessorei
a direção da Embrafilme e, ainda lá, cuidei por
seis meses do programa Coisas Nossas, veiculado
pela TV Educativa. Na Globo Vídeo fui gerente
de marketing sem saber direito o que era. Pulei
para novos negócios. Na Fundação Roberto Ma-
rinho dei continuidade ao Vídeo Escola, projeto
que escrevi – a pedido da instituição anterior –
e gerenciei a implantação.
Nocorrerdavidarealizeiregistrosemvídeo,espe-
cialmente na área psi, que sempre me atraiu. Com
Ralph Viana,Valéria Pereira e muitos voluntários
e parceiros ativos realizamos, no Parque Lage, o
simpósio Alternativas no Espaço Psi – Psicologia,
Psiquiatria e Psicanálise. Antes, durante anos, co-
laborei com a Rádice, revista de psicologia. Um
pouco com o Luta & Prazer, jornal libertário de
espírito juvenil. Fui sócio de uma livraria, a Espa-
ço Psi. Estive em Moçambique, como cooperante
junto ao Instituto Nacional de Cinema.
Realizei e produzi, só ou com parceiros, algu-
mas dezenas de vídeo-registros e documentários.
Na maioria, singelos, focados mais nos conteú-
dos que nas formas. Candomblé, Ilha Grande,
Energia da Vida, Auto-hemoterapia, Aparelhos
Orgônicos, Aids – Boas Notícias, uma série: Psi-
coterapias Corporais. E Quilombo, Folhas Sa-
gradas, Terapia Comunitária, outra série – Rio,
Estado de Alegria. Também Artistas de Rua,
Una Madre de Plaza de Mayo, Práticas Chinesas
de Auto Cura...
Na década de 80, criei e experimentei um método,
Videomobilização: os limites dos conteúdos eram
nossos limites, a propriedade da imagem e do som
era da pessoa objeto de gravação. Sugeríamos que,
40 41
quando assistisse o que foi gravado – só ou em
companhia do seu terapeuta – desse mais aten-
ção aos sentimentos provocados pela sua própria
imagem e sons. Compreensões mais profundas
corresponderiam a insights tão desejados. Muitos
dos clientes eram terapeutas.
O Sesc Rio
Mergulhei no Sesc em 2.000. Éramos poucos
mais de 400 para 3 vagas. 7 meses, o processo de
seleção. Fui contratado como coordenador técni-
co e locado no Sesc Ramos, ao lado do Complexo
do Alemão. Minha função era cuidar da progra-
mação, facilitar o trabalho de colegas que produ-
ziam eventos, atividades sócio-culturais, esporti-
vas, de lazer e promoção da saúde.
Quando cheguei, uma média de 150 pessoas fre-
quentavam diariamente os espaços da unidade
operacional. Quando sai dali pra trabalhar na
sede, 1200 a 1500 pessoas diárias. Tudo mui-
to em colaboração com os colegas da época que
apoiaram transformações. Logo no início, com a
intenção de desburocratizar, estudei os caminhos
dos papéis. Na verdade, os caminhos desde a
ideia à avaliação, passando pelo consenso na pro-
gramação, alocamento de recursos, preparação,
contratações, realização, pagamentos... Criamos e
implantamos ali uma metodologia que chamei de
Sistema Sesc de Produção.
Processos e procedimentos se simplificaram e,
com o tempo, natural e espontaneamente outras
unidades operacionais do Sesc Rio adotaram a
metodologia. Nela, o IBAS – Informações BÁ-
Sicas – que nomeei em homenagem a Betinho,
do IBASE, continha respostas às 7 perguntas
básicas necessárias para a realização de eventos
e atividades: o que, quando, porque, como, onde,
quem, quanto. Criamos e distribuímos muitos e
muitas folhetos e filipetas para os moradores da
área, convites para frequentar o espaço. Experi-
mentamos, junto a funcionários, um outro mé-
todo que chamei de Rodízio Criativo. E criamos
e implantamos as Redes Comunitárias, adotada
posteriormente pela instituição como um todo.
Ampliamos a atuação para fora do espaço físico
do Sesc Ramos. Fomos até onde nosso público
estava. Era o Sesc fora do Sesc.Tudo isto estimu-
lado pela missão original do Sesc:
42 43
“O bem-estar social dos comerciários e seus
dependentes, através de serviços de caráter
sócio-educativo nas áreas da Saúde, Cultura,
Educação, Lazer e Esporte, com qualidade e
efetividade. Bem-estar social é aqui entendi-
do como o resultado de ações de uma estrutu-
ra de atividades e serviços de cunho educativo
que contribuem para a informação, capacita-
ção e desenvolvimento de valores.
Os comerciários e seus dependentes repre-
sentam o público prioritário do SESC-RJ na
prestação de seus serviços, os quais são tam-
bém extensivos à sociedade.”
Lembro que o Sesc faz parte do Sistema S – Sesi,
Senac, Senai, Sebrae, Sest, Senat, Senar... Do
que entendi, o Sistema S trabalha com dinheiro
público e tem missões originais voltadas para o
público, especialmente trabalhadores e seus de-
pendentes. Em relação ao Sesc, especificamente,
comerciários e seus dependentes podem frequen-
tar gratuitamente suas dependências e usufruir
dos serviços que as unidades operacionais do
Sesc oferecem: eventos e atividades nas áreas de
esporte, lazer, sócio-educativa, turismo e saúde,
como, por exemplo, assistência odontológica de
boa qualidade.
Sou profundamente agradecido à instituição
pela oportunidade de ali realizar trabalhos com o
senso ético que carrego em mim. Porém, não me
identifico com a orientação definida pela direção
do Sesc Rio nos últimos tempos em que lá traba-
lhei, em 2011.
Vídeos
Já na sede,no Flamengo,na Assessoria de Projetos
Comunitários supervisionada por Gilberto Fugi-
moto, planejamos e realizamos diversas ações co-
munitárias, enormes e pequenas. Para difundir a
metodologia encomendamos e orientamos a reali-
zação do vídeo institucional Redes Comunitárias.
Um tanto pela importância daquilo que fazíamos,
eu me propus realizar registros em vídeo, espe-
cialmente de encontros de redes comunitárias.
Comprei, com meus recursos, equipamentos – 2
conjuntos: câmeras, tripés, microfones direcio-
nais, extensões... – e gravei. Gravei muito. Já no
44 45
momento das edições, solicitei e recebi o apoio do
Sesc, que pagou o trabalho de edição. Em contra-
partida inclui nos créditos agradecimentos e auto-
rizei copiagens para distribuição junto a pessoas e
instituições interessadas na metodologia. A par-
tir do movimento de cada um que se identificou
– vivenciou e tomou conhecimento do novo jeito
de se encontrar e objetivar conversas – as redes se
ampliaram e se ampliam.
No Sesc criamos outros encontros. O METS –
Movimentos Emocional e Transformações So-
ciais, com Michel Robin, nos espaços do Centro
de Movimento Deborah Colker – encontro-pes-
quisa em busca de informações sobre mudanças
individuais e coletivas. O LPS – Livre Pensar So-
cial, com Gilberto Fugimoto – roda de conversa
entre instituições interessantes e interessadas no
bem estar social. O CCI – Comunicação Comu-
nitária Interativa – roda de conversa entre pesso-
as atuantes em comunicações comunitárias, com
a participação de George de Araújo.
Os vídeos que realizei com o apoio do Sesc Rio
estão disponíveis para que a instituição utilize em
benefício do público. Estão acessíveis no www.
luizsarmento.blogspot.com e no www.videolog.
tv/luizfernandosarmento. Disponibilizamos tam-
bém pouco mais de 500 classificados sociais, um
a um,no http://www.youtube.com/redescomuni-
tarias.Tudo um tanto singelo.
Relações humanas
incluem relações emocionais. O que me leva ou o
que me impede relacionar com outro? Os METS
foram encontros periódicos, às vezes esporádicos,
que procuravam congregar quem considera
desenvolvimento emocional como base para
desenvolvimento humano e social. Demos um
tempo nos METS quando conhecemos as TCs
– Terapias Comunitárias, criadas por Adalberto
de Paula Barreto. Nas TCs, teoria, metodologia
e prática somam conhecimentos acadêmicos e
populares.A TC é política pública no Brasil, hoje.
Saiba + no www.abratecom.org.br, no www.
luizsarmento.blogspot.com ou no www.videolog.
tv/luizfernandosarmento
Os LPS – Livre Pensar Social – eram encontros
voltados para reflexões e fomento de políticas pú-
46 47
blicas.Articuladores,apoiadores e realizadores de
projetos comunitários – sem compromisso con-
clusivo ou deliberativo – compartilham ideias, in-
formações e reflexões focadas em desenvolvimen-
to humano, social, integral.
Antes, apoiado nas práticas por Lídia Nobre, a
assistente social, criamos as Redes Comunitárias,
onde cada participante tem espaço para falar do
que oferece e do que procura em relação ao lugar
que vive ou ao tema que lhe interessa.
Pra mim, redes comunitárias cuidam do objetivo.
E terapia comunitária do subjetivo. Como tudo,
ou quase, na vida, varia.
A ideia das Agências de inFormação deu motivo
para que George de Araújo e eu, com apoio de
Carolina Pelegrino e Andrea Medrado, reali-
zássemos os CCI – Comunicação Comunitária
Interativa, encontros de pessoas e instituições
ativas e interessadas em levar e trazer informa-
ções para quem não é escutado e para quem não
é representado por mídias formais. É gente que
trabalha com jornais, rádios, TVs comunitários,
folhetos, alto-falantes, comunicação popular.
Gente que leva e traz informações e notícias,inte-
rage com seu público. E que, nos encontros, refle-
te sobre o que faz e comunica, conteúdo e forma.
Estes encontros muitas vezes foram sementes que
geraram vínculos, parcerias e movimentos. Tudo
em ondas, frutos de contribuições de cada um, de
acordo com suas possibilidades e desejos.
Gravei em vídeo, com apoio de muitos, muitos
destes encontros. Cada editor – criação e muito
suor – deu personalidade a cada vídeo. Em sua
maioria, os vídeos estão na internet.
Os ouvintes querem falar:
todos sabemos que há gente procurando e ofe-
recendo de um tudo. Quando se encontram e se
entendem, se suprem. Quando não sabem um do
outro, oportunidades desaparecem.
Início do milênio, Sesc Ramos, ao lado do
Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Fórum
Transformações Sociais – O que Pode dar
Certo. Palestrantes experientes numa mesa,
48 49
trezentas pessoas na platéia. Nem mesmo falas
interessantes interessaram aos presentes. Em
menos de uma hora, evasão. Das trezentas,
somente umas cinquenta, sessenta ficaram.
Levamos o microfone ao público. Agarram, bo-
tam pra fora:“o governo não presta...“. Muita gente
na fila, todos querem falar. Eu, inseguro: “Peraí!
Seja objetivo por favor: o que você veio procurar
aqui? O que você veio oferecer? Dois minutos para
cada um.”.
Pronto, surgiu o jeito, a metodologia. Convida-
mos quem se interessasse para uma primeira con-
versa, juntos. Em roda, os tratos iniciais - aqui,
neste momento, somos iguais em direitos e de-
veres. Encontro sem palestra nem eventos, só as
falas individuais...
Cada um sintetiza quem-é-o-que-faz, se-repre-
senta-uma-instituição, o que procura, o que ofe-
rece. Tempo limitado, um-dois-cinco minutos,
dependendo de quantos estão presentes e do
tempo total que pretendemos estar juntos naque-
le encontro.
É um desafio sintetizar, falar pouco e
objetivamente. Aprendemos juntos. Para facilitar
o controle dos tempos individuais, há encontros
em que utilizamos uma ampulheta, outros em
que batemos palmas no limite ou simplesmente
avisamos, cordiais: tempo esgotado. Depois que
todos falam, os interessados se deslocam para o
café. E, ao redor da mesa, cada um aprofunda a
conversa com aqueles por cuja oferta-procura se
interessou.Trocam informações, ideias, se conhe-
cem. Constroem parcerias.
Base das redes comunitárias, os encontros são
voltados para a construção de realizações, para
a prática de parcerias, através de pessoas repre-
sentativas – interessantes e interessadas – de co-
munidades e instituições privadas, públicas e do
terceiro setor. De modo simples e objetivo, cada
representante se apresenta e fala o que veio procu-
rar e o que veio oferecer.Todos têm oportunidade
de falar e ouvir. E, quando cada um sabe quem é
quem,o espaço se abre para o aprofundamento de
relações e formação de parcerias. Normalmente
os encontros acontecem periodicamente – men-
salmente, por exemplo – no mesmo local ou em
50 51
espaços alternados. A metodologia naturalmente
é adaptável a cada realidade. O importante é que
gere os frutos desejados e possíveis.
Permanecem como memória os classificados so-
ciais e a lista de participantes. Nos classificados,
cada um descreve sinteticamente o que oferece, o
que procura e dá seu nome, telefone, email. Estes
dados são posteriormente digitados e disponibili-
zados diretamente para cada um – via email – e
quando possível para o público em geral, também
virtualmente através da internet. Cópias xeroca-
das podem ser distribuídas para os participantes
de encontros posteriores. Estes classificados são
cumulativos: a cada encontro,novas ofertas e pro-
curas, relativas a novos e antigos interessados.
Rodízio criativo:
imagine uma instituição de porte médio: empre-
sa, serviço público, ong... Em consenso interno,
trabalhadores de um setor liberam um ou mais
do grupo, por um ou mais dias, para visitarem-
-estagiarem em outros setores. Os que permane-
cem no setor original cuidam do cumprimento
do conjunto das suas obrigações normais. Esta a
ideia básica.
 
Parece ser bom para a instituição – e para o traba-
lhador e seu grupo – que cada um tenha o olhar
do todo,além de capacitação aliada ao seu próprio
desejo. E parece ser bom para cada trabalhador
ter acesso a oportunidades que facilitem acrésci-
mos a seus conhecimentos pessoais e profissio-
nais. A prática tem ensinado o melhor caminho.
52 53
5
agências de
inFormações
Consciência 
É mais fácil eu compreender meus processos de
transformações, quando reconheço e considero o
que vai pelo meu inconsciente. Meus atos falhos
me dão sinais. E o que eu compreendo em mim,
talvez melhor compreenda no outro, nos outros.
Reich, Freud, Jung me ensinam que eu, no correr
da vida, adquiro e internalizo defesas. Elas têm
a função de impedir incômodos, especialmente
sentimentos.
Por outro lado, a construção de relações de con-
fiança facilita comunicações mais profundas. As-
sim, antes de entrar propriamente nos conteúdos,
é necessário cuidar de mim,estabelecer aproxima-
ções comigo mesmo.E depois com o outro.Como
no namoro: há o olhar, a empatia, a delicadeza na
aproximação, as identificações comuns, os sinais,
o pegar na mão, a construção da relação.
As inFormações profundas somente chegam ao
seu destino quando o destinatário está receptivo.
Comunicar é uma arte.
Agências de inFormações
Retrato rápido: jornais pendurados nas bancas
exibem quase sempre as mesmas notícias, escritas
de forma um pouco diferentes.As fontes de infor-
mações, parece, são as mesmas. No Brasil, umas
poucas agências de notícias. Agências O Globo,
Folha de São Paulo...?
Uma jovem conhecida,na primeira década do sécu-
lo XXI,registrou que manchetes de grandes jornais
de 27 cidades européias exibiam,no mesmo dia,fo-
tos semelhantes sobre a mesmo assunto. Também
lá poucas agências como fontes de informações.
Reuters, UPI, France Presse, China Press...
Bom problema: como podemos contribuir para
chegar a nós, à população, informações diversifi-
cadas e com qualidade de conteúdo?
					
É possível a realização de uma ou mais agências
de inFormações independentes. Porém, estas
54 55
novas fontes só fazem sentido se os conteúdos
das inFormações a serem oferecidos contribuí-
rem para o bem-estar – individual e coletivo – de
quem as produza e de quem as receba.
De outro lado, observa-se,
tudo potencialmente conspira a favor: conteú-
dos, público, veículos, financiadores, apoiadores.
Há conteúdos de qualidade ainda invisíveis para
a maioria da população. Há veículos potencial-
mente interessados em difundir estas inForma-
ções. Há públicos potencialmente interessados
nestes conteúdos. Há instituições potencial-
mente apoiadoras e/ou financiadoras de agên-
cias de inFormações voltadas para o bem-estar
coletivo. Há pessoas e instituições animadas, in-
teressadas em fazer circular estas inFormações.
Como integrar estes conteúdos, veículos, públi-
cos, apoiadores-financiadores, pessoas-institui-
ções animadas?
A ideia é simples
Uma agência, inicialmente com inFormações
atemporais. Uma pessoa, um espaço, que pode
ser residencial ou institucional. Um computador,
telefone, scanner, fax, internet, softwares que fa-
cilitem acessos a veículos de comunicação.
Havia no mercado – há ainda? – empresas espe-
cializadas que oferecem softwares e dados atuali-
zados sobre veículos de comunicação de todo o
Brasil – rádios, jornais, TV, revistas... Informam
seus endereços físicos e virtuais, telefones, emails,
nome de editores de áreas específicas e mais.
Assessorias de Imprensa utilizam estes serviços,
talvez saibam melhor de quem fornece dados e
softwares. Como exemplos, a confirmar, o Comu-
nique-se www.comunique-se.com.br, o Meio &
Mensagem www.meioemensagem.com.br
Esta pessoa que se propõe ser um agente de in-
Formações: contata e articula produtores de in-
Formações atemporais, constrói um baú virtual
de textos disponibilizáveis, contata e articula edi-
tores e colunistas de veículos de comunicação em
todo o país, oferece os textos do baú. Assim, trata
e se relaciona com um conjunto de veículos que
disponibilizam para seus leitores as informações
originais que esta pessoa cuidou de produzir.
56 57
Se há interação com os leitores, novas inForma-
ções chegam às agências, realimentando o proces-
so, dinâmico. Vão e vêm inFormações.
	
Esta pessoa: ao aprender-fazendo, testa e recria-
-adapta à sua realidade uma metodologia singela
que poderá ser compartilhada com instituições e
pessoas ativas, interessadas em montar suas pró-
prias agências para fomentar a difusão – através
de veículos de comunicação já existentes – de in-
Formações específicas atemporais. Na prática, o
que agências de inFormações poderão oferecer:
no mínimo, artigos e contribuições para pautas
de veículos de comunicação já ativos.
Imagine agências independentes de inFormações
focadas em conhecimentos de interesse público.Inu-
meráveis. Só de pensar o que me interessa – e, acre-
dito, também a muitos – sonho de estalo agências
voltadas para educação, saúde, agronomia, alimenta-
ção...Ouespecíficasparapais,paracrianças,escolas...
E para psicologia-psiquiatria-psicanálise, para oferta
e procura de trabalhos,esportes,teatro,brincadeiras,
voluntariado, solidariedade... Podem ser inForma-
ções específicas.Ou gerais...
Imagino um mundo com inFormações variadas,
de fontes diversas... que eu tenha prazer em saber
e compartilhar com meus filhos,vizinhos,amigos,
com o mundo ao meu alcance.
Vejo os jornais
e me angustio com a constante escolha do Esta-
do-polícia pela atuação mortal ao invés de utilizar
inteligência e afeto. E me pergunto: que atuações
benéficas estão ao meu alcance?
Ao meu alcance está cuidar de mim e das minhas
relações com quem convivo: filhos, amigos, vizi-
nhos, colegas de trabalho. Escutar um e outro que
procuram por escuta, me colocar no lugar do ou-
tro, seja próximo ou passante.
Cuidar de mim significa também mudar para o
melhor programa, fugir da fofoca, escolher meus
pensamentos. Lembro Wittgenstein, de quem
penso que sei só isto: o pensamento é a linguagem.
58 59
6
vários eu
Sinto um pedaço do mundo
Outra noite encontrei uma moça a chorar de dor.
Está com medo de caminhar sozinha. Relata que
alguém tapou sua boca, tentou estuprá-la. Ao re-
agir, levou um paralelepípedo na cabeça, dói e dói.
Quer ir ao pronto-socorro, quer fazer queixa à
polícia. Não sabe escrever nem ler. Caminhamos
de quase Parque Guinle até o Largo do Macha-
do. Só consegui escutar e oferecer o da condução.
Inda nervosa, inda com medo, toma o ônibus pro
hospital. Um tanto de sua tristeza e impotência
ficam comigo. Negra, pobre, gorda, catarro e tos-
se, lágrimas, tristeza, raiva e rua como residência.
Relembro pra não me esquecer
Aquela de Adalberto de Paula Barreto: que você
quer que eu queira preu querer? Toda vez que me
lembro dela, lembro de meus momentos de sub-
missão. Hoje sei que é uma pergunta que só devo
fazer ao espelho.
Do que entendi de Freud, sonho com o desejo re-
alizado. Em Interpretação dos Sonhos, ele fala de
que, quando à noite come azeitonas ou algo sal-
gado, vem sede durante o sono e tende a sonhar
tomando algo que supra a sede que de fato sente.
Quando acorda, acorda com sede. Mas sonha su-
prindo a sede, realizando o desejo.
A comunicação se dá quando o outro entende o
que falo. Alguém já disse algo como a comunica-
ção se dá quando o outro entende.
As coisas me têm, mesmo que eu tenha as coisas.
Se tenho um carro, um trabalho para mantê-lo.
Se dois, mais trabalho. Se tenho um computa-
dor, devo limpá-lo, espaná-lo. Ou trabalho eu ou
quem eu trate para trabalhar por mim.
Ah, se eliminássemos os controles do mundo,
quanto trabalho a menos, quantos recursos libe-
rados. Talvez, lá no fundo, os medos sejam as ori-
gens dos controles.
Aqui escolhas constantes
entre prazer e dor.Treino esboço de sorriso,arris-
co o palco que desejo. Tropeço, volto pro espelho,
60 61
reclamo de mim mesmo. Como num bolero, dois
pra frente, um pra trás.
Não me lembro quem me lembra: seja o mundo
que você quer.
Outros eus
No viver minha vida construo minha visão de
mundo, que se transforma de acordo com o que
vivencio.
Tem gente que sente que o mundo lhe deve. Acu-
mula. Tem gente que sente que deve ao mundo.
Se sacrifica. Tem gente que o mundo e o eu são
um só. Compartilha com o outro que é eu. Ora é
um,ora é outro.Como eu,ora sou um,ora outros.
Outra noite – que outro dia foi ontem – ainda
incomodado com um documentário sobre a re-
pressão de 40 anos de ditadura na Albânia, olhei
no espelho. Eu tinha 18 anos quando militares
tomaram o poder em 64. E 39 quando houve no-
vamente eleições,mesmo que indiretas.Nestes 21
anos de minha juventude aprendi o medo de me
expressar livremente. A quase paranóia, descubro
chateado, volta à tona volta e meia. Tanta coisa
pra desaprender...
Olhopratrás,praantesdemime,umtantoinseguro,
confirmo que o homem que domina outro homem
está presente no decorrer dos tempos. Dominador e
dominado se complementam,talvez co-responsáveis
pela situação. Um age como se o mundo lhe devesse
umtanto...etomadooutrocomosefosseseu.Outro
se submete,como sem saber do que é capaz.
Natentativadeolharcomoolhardooutro–daque-
le para quem o outro não tem valor – a associação
que faço,imediata,é de que algo lhe foi tirado.Se na
infância ele viveu em si, incompreendida, uma falta,
ele quer agora isto e aquilo e mais. Aquela falta ge-
rou uma necessidade constante de ser tapada, como
se fosse um buraco“agora dentro de mim”.Sem cons-
ciência da falta original, consome a vida em busca
de poder, objetos e afins.Arrisco: se desmamado de
repente,fica um vazio incompreendido?
A mesma falta afetou os afetos.Agora, uma busca
constante de afetos perdidos, de reconhecimento.
Não só isto, mas um tanto.
62 63
Já o oprimido aprendeu desde cedo que não tem
valor. Relembro Groucho Marx – clube que me
aceita como sócio, não entro. Quem o aceita, não
serve. Tão desvalorizado diante de si mesmo,
como respeitar a quem o valoriza?
Ao contrário, parece que o complexo de inferiori-
dade esconde o de superioridade. Ah, você pensa
que sou fraquinho? Você não sabe como sou forte.
Você vai ver! Me engano que gosto.
Reconheço este homem – um e outro – a partir
do que me conheço. Antes desvalorizado ante
mim mesmo, descubro pouco a pouco meus va-
lores. Tanta vida aprendendo o que agora procu-
ro desaprender. Tantas faltas sem sentido ago-
ra se esclarecem, mesmo difusas. A alegria fica
mais próxima, o poder menos necessário, obje-
tos também. E estes menos dão menos trabalho,
libertam-me.
Mas dói quando vejo recursos empregados pra
suprir reconhecimentos e faltas, pra mostrar po-
deres que nem são.
Pedaço de conversa
de rua, duas mulheres que passam:“...não viveu a
vida, morreu cedo. Todo mundo se ajeitou.”
Civilização? Quanto tempo os vikings demora-
ram pra se transformar em suecos?
Mudanças de comportamento, do que tenho
aprendido, mais se dão com o passar de anos. Às
vezes na mesma geração, às vezes não.
Ferenczi pra Freud. Freud pra Ferenczi, corres-
pondências. Papo reto, direto. Atos falhos expos-
tos.Tudo com delicadeza.A dureza do dito agora
espanta, em seguida aproxima. Auto-análises, ex-
posições do confuso, da dúvida.
Ferenczi ama a mulher mais velha. Comparti-
lham interesses intelectuais. Ela é quase comple-
ta, só lhe falta juventude. Ferenczi analisa a filha
da mulher que ama, contra-transfere, se apaixo-
na. Pede ajuda, Freud analisa a moça. Os 4 sabem
do triângulo familiar. Ferenczi dá razão à razão,
transpõe a emoção. Amizades se constroem. A
psicanálise se refina.
64 65
Fofoca
Esta ouvi do Dr. Fritz, em transe: João falou pro
Pedro: quero lhe contar o que aconteceu com Joa-
quim. Pedro perguntou: o que você vai me contar,
é bom pro Joaquim? E João: não. Pedro continua: e
pra você? João: não. Pedro, de novo: e pra mim? João:
não, não é bom pra você também. Pedro arremata:
então não me conte não.
De Agnès Jaoui, que exerce múltiplas funções, em
matéria d’O Globo: Ser atriz e cantora é como ser
criança, a gente brinca. Escrever é como ser adulto.
E dirigir é como ser um pai ou uma mãe, você tem
que prestar atenção a todo mundo. São profissões di-
ferentes, por isso amo todas.
7
lembranças
Escrevo para lembrar:
olha eu aqui, existo. Também para me entender, a
mim, a outros, ao mundo. Quero ser reconhecido,
amado. Tenho medo do que não compreendo. O
que não compreendo, no início, é difuso, confu-
so. Não enxergo um palmo diante do nariz. Sin-
to que viver é perigoso, mas não viver parece ser
mais. Quando apalpo, ando, chego mais perto, a
vista se acostuma à névoa, o mistério vai clarean-
do, a compreensão substitui o medo, alguma or-
dem se segue ao caos.
O tempo passa, a memória me trai, multiplicam-
-se os mistérios. Sessenta e um anos e permane-
cem marcas infantis, desejos juvenis, dúvidas an-
teriores a mim. Tem coisas que sinto que sei. Um
tanto aprendi do que vivi.Outros tantos do que li,
ouvi, encostei, cheirei, provei.
Agora a memória mais remota é porta de rua,
gente grande conversando, eu com dois, três anos.
66 67
Ficaram histórias de almas de outro mundo, mu-
las sem cabeça, uma foto de uma morta num cai-
xão. No berço, sombras. Os olhos fechados pra
fugir dos medos. Tão apertados que distorceram
– na segunda infância, sem enxergar direito, fui
Luiz Ceguim.
Eu era pobre e não sabia. Não havia o que compa-
rar, felicidade e infelicidade eram desconhecidas.
Não havia rádio, telefone, televisão, internet, luz
elétrica. Calorão tropical. Farinha na cuia pros
que pediam esmola à porta. Água do pote pra be-
ber. Chão de espécie de tijolo. Arroz, feijão, fari-
nha, rapadura, carne seca. Gamela, pilão. Banana,
melancia, manga. Café torrado, fogão a lenha. Ba-
nho frio na bacia, toalha de saco. Roupa lavada no
rio. Praça com cruzeiro, esquina de rua que leva
ao cemitério, mortos que passam carregados em
seus caixões.O vizinho que estudou muito e ficou
doido.A tia mocetona, presa no quarto, canta ser-
taneja se eu pudesse, se papai do céu me desse duas
asas pra voar...
Hoje sinto que era rico e não sabia. Não sabia se
eu era pobre ou era rico. Nem sabia o que era ser
rico ou ser pobre. Daquele tempo ficou em mim,
forte, a memória afetiva. Já os fatos, como névoas.
Mamãe chegou a Salinas pra dar aulas,
aos quinze anos. Papai já estava lá, amado e mi-
mado pelo pai adotivo. Cheguei quando meu ir-
mão e duas irmãs já tinham nascido. Mamãe aos
vinte e sete, quando se percebeu grávida de mim,
imagino o sentimento imediato: ah, não! Talvez
só minha imaginação, não ter sido desejado no
primeiro momento.
Soube por mamãe que, aos 29, cuidou cuidar da
própria vida. Um filho em cada casa de amigo, o
mais velho com ela, foi se capacitar em Belorizon-
te. Isso facilitou a nossa mudança, dois anos de-
pois, para Montes Claros, onde mamãe estava em
casa, próxima a muitos dos seus catorze irmãos,
parentes e amigos de infância.
De Salinas minha memória traz os cheiros, os
sons, o sol, uns medos, uns deslumbramentos.
Imagens das pernas de presos pra fora das janelas
da cela, um clima de festa na feira dos sábados –
bruacas, animais, sacos de grãos e farinhas, gente,
68 69
muita gente. Eu num vai e vem, movimento no
movimento. Panelas, boizinhos e cavalinhos de
barro, colheres de pau, biscoito, requeijão, pão de
queijo, tacho de cobre. Um bocado de mistérios.
Já em Montes Claros, medo mesmo tive no cate-
cismo. Aquele inferno que nunca acaba, chamas
eternas, pavores. E as dúvidas do que era pecado
mortal, venial. Quaresma, panos roxos cobrem os
santos, carne nenhuma à mesa. Os olhares tris-
tes das imagens, os ferimentos de cristo. Os dez
mandamentos, os sete pecados capitais. A proibi-
ção do ócio, do sexo, da raiva, da alegria, das ex-
pressões de emoções. Eu era pecador e não sabia.
Antes eventualmente sofria, agora o sofrimento
estava dentro de mim, constante.
À crueldade dos adultos se somou a das crianças.
Mamãe definiu: brigou na rua, apanha em casa.
Inseguro, provocado, tirava os óculos, fechava os
olhos, dobrava o corpo e dava murros às cegas.
Apanhava na rua, apanhava em casa.Até hoje não
sei brigar.
Mas brincava de roda, pegador, seu rei mandou
dizer. Ouvia serenatas, me lambuzava de manga,
pipoca era uma festa. O cheiro que a chuva pro-
voca na terra, finca, bilboquê, luta de espadas, pa-
pagaio na linha, pé no chão. Latim, matemática,
desenho, trabalhos manuais, português, geografia,
religião, história. Um pouco de francês, inglês, co-
ral. Recreio, trabalho na cantina. Férias. São João,
passeios no mato,banho de rio.Tarzan,Mandrake,
Fantasma, Cavaleiro Negro, Zorro. Matinê, seria-
do, Rock Lane, Roy Rogers, Kung Fu. A boiada
passando na porta de casa. Os compromissos es-
colares,as obrigações caseiras – comprar o pão,en-
graxar sapatos, passar cera no assoalho, arrumar a
cama,levar e trazer o que for preciso,eventualmen-
te buscar marmita. E olhares afetuosos de quem
gostava de si. E de mim.
Permaneço criança,
fantasiado de adulto. Sinto hoje minha criança
presente em tudo o que sou e faço.Amadurecendo,
aprendo agora gostar de mim. Reconheço – recor-
do que fiz o melhor que soube,que pude em quase,
se não todos, momentos da minha vida.
70 71
Depois, horas dançantes, desejos fortes. Os apertos
de mãos,o bate-coxas,os rostos colados,os beijos de
língua, as mãos nos peitos. A iniciação no bequinho
dosmeninos,orisco,ofrisson,ogozorápido.Sempre
presente,proibido – um tanto fora,um tanto dentro
de mim – o sexo.
Aosdoze,paraganharumpouco,vendicestasdena-
tal.Que alegria um dinheirinho fruto do meu traba-
lho.Depois,lápeloscatorze,aulasdematemáticapro
filho do representante da Brahma na região, que me
contratou depois como auxiliar administrativo.Fiz o
segundo científico em Belorizonte, o primeiro e ter-
ceiro em Montes Claros.Vestibular – não passei em
BH– escolhi,mesmosemsaberoqueera,economia
eláfuieupraBrasília.Deiaulasdematemáticaànoi-
te no Gama,fui monitor de estatística na UnB,esta-
giário no Ministério daAgricultura,Socorrofoimeu
amor e com razão me deixou. Sai de dois serviços
públicos, errei como pequeno industrial de malhas.
Arrisquei o Rio.
Início dos anos setenta
Conjugado dividido em Copa, um karman-ghia,
paquera aleatória diária, sexo como objetivo. Cul-
pas misturadas com prazeres. Trabalho no Insti-
tuto de Colonização e Reforma Agrária, o Incra,
aqui responsável pela coordenação do treinamen-
to e seleção de quem cuidaria de fazer os levanta-
mentos de dados em campo.
O combinado era uma passiva reforma agrária,
através da taxação progressiva tanto das pro-
priedades menores, os minifúndios, quanto das
propriedades maiores, os latifúndios. Maiores ou
menores em relação à área definida em cada mi-
crorregião como a suficiente para a sobrevivência
e desenvolvimento econômico de uma família tra-
balhadora. Levantamento feito, memória difusa,
quem detinha o poder de assinar, decidir optou
pela proteção aos latifúndios.
Larguei mais este serviço público, vendi o carro
– já um fusca – e, com Ana, pegamos o navio em
direção incerta, hippies sem saber que éramos.
Uma semana em Barcelona, dez dias em An-
dorra acolhidos por um índio peruano, um frio
danado, atravessamos a Europa batendo a mão,
carona pura até Amsterdam. Lá, centro da cidade,
na redlight, mulheres na vitrine, encontramos um
72 73
quarto bom,ambiente aquecido,chuveiro externo
quentão,baratinho.Ana foi posar na escola de de-
senho e pintura, eu aprender a bater perna.
O Kosmos, um choque. Centro cultural para jo-
vens holandeses, financiado pelo governo, duas
moedas pra entrar, de cara um salão grande, algu-
ma fumaça com cheiro bom como os dos bolos e
tortas, música suave, pessoas calmas espalhadas.
Outra porta, um forno elétrico, barro à vontade
para quem quisesse esculpir e levar. Depois um
salão, cubos grandes em muitos níveis, espaço
para apresentações de artistas passantes, asiáti-
cos, europeus, africanos, latinos, americanos, de
outros mundos. Desço escada, uma cozinha com
aquelas comidas estranhas, cheirosas, leves, casei-
ras, que depois descobri macrobióticas e naturais.
Sauna grandona, homens e mulheres conversam
e agem como se não estivessem nus. Tudo muito
paraíso. Noutro lugar, à noite, o Paradiso. Coca
e maconha oferecidos na calçada, música a mais
moderna adentro. Corri da coca, medroso de me
apaixonar. Aos meus olhos tudo muito leve, tudo
muito puro. Alegria quase insuportável. Assim as
portas se me abriram para outras janelas.
Antes, em Brasília,
vislumbre de nova vida. 1965, dezoito anos, meus
tempos e afazeres por minha conta. Duzentos e
trinta professores demitidos, greve boa parte do
ano na universidade. Estudos intercalados com
aventuras. A população masculina predomina-
va. Zona boêmia, rendez-vous só fora do distrito
federal. Pegava carona, lá ia eu mendigar por
amor, carinho, consideração. Bati errante, errado
em portas erradas. Madrugadas frias, solidão.
Também por carência - necessidade de estar pró-
ximo a colegas, de ser aceito - perdi no baralho
muito de minhas mesadas.Já no segundo ano,mo-
nitor de estatística na universidade, estagiário de
economia no Ministério da Agricultura, professor
de matemática para o ginasial de escola da Fun-
dação Educacional do Distrito Federal. Em 66
já tinha um fusquinha. Em 67 completei rapidi-
nho todas as matérias do currículo de Economia,
fiz outras de Administração Pública enquanto
esperava o tempo mínimo para me diplomar.
Muito jovem aprendi a ser bonzinho.Pra não apa-
nhar, literal e simbolicamente. Como uma defesa
74 75
diante do mundo. Meu humor era leve, brincava
fácil. Cedo percebi que podia escolher meus ru-
mos. Era só me responsabilizar pelos resultados
do que fazia.
Atenção redobrada ao que acontecia fora e dentro
de mim, ao que era real e ao imaginado. Medos
antecedendo às decisões.Culpas depois das ações.
A cada fugida da regra, da normalidade, medos e
culpas e reflexões.
Erro e acerto, tateando atento, emimesmado. A
regra de ouro presente: não fazer a outro o que
não desejo pra mim. Como auto-referência, meu
humor. Se bem-humorado, vale, valeu. Se mal, o
que está ao meu alcance?
Adulto jovem
descobri que quando alguém me diz não! devo
rapidim verificar se este não é de quem diz ou é
meu.Volta e meia querem cortar meu cabelo,mu-
dar meu jeito, trocar minha camisa, que eu cons-
trua uma pirâmide. Normalmente é problema de
quem tem problema com seu próprio cabelo, seu
jeito, camisa. E de quem complica sua vida cons-
truindo as pirâmides que inventa.
Agora mesmo agradeço oportunidade de me
candidatar a recursos para realizar documen-
tário que quero. O assunto, terapia comunitá-
ria, me interessa profundamente. Mas me an-
gustiam prazos, prestações formais de contas,
limitações externas de conteúdos. Acordei já
com o estômago contraído. Decido pelo que
desejo e está ao meu próprio alcance, com
meus recursos e tempos. Imediatamente meu
corpo relaxa, meus pensamentos se aquietam,
me acalmo.
Nada a ver, tudo a ver, uma quase dúvida: juven-
tude é estado de espírito? E velhice?
Amsterdam se foi inesperadamente
A morte da mãe de Ana nos trouxe de volta. Fo-
mos até Cádiz, atravessamos o estreito de Gi-
braltar, Marrocos. Meu rabo de cavalo agora em
coque, receio não ser aceito cabeludo em cultura
estranha. Tetuan, o ônibus tosco pega e deixa
pelo caminho gente, carga e animais. Punhais
76 77
saem de djelabs para descascar frutas, cortar
nacos de carne. Camelos passam ao largo. Aos
trancos, Marrakesh.
No Zoco, mercado central, montes de castanhas,
aquela música serpenteante vinte e quatro horas
por dia. Gente que conversa pegando na gente.
Um que passa com duas luvas de boxe à procu-
ra de contendores que apostem no seu próprio
taco. Às tardinhas, o mesmo personagem – aga-
chado como seus espectadores – conta histórias
como novelas.
Um menino me puxa e oferece atento a tudo –
kif, kif, cinq dirrans! Compro aquela mão cheia de
maconha - haxixe? - vou esgueirando pra pensão,
aperto um baseado com alguns desconhecidos
aventureiros espanhóis, fica tudo escuro de re-
pente, perco a visão por catorze horas. Badtrip.
Talvez decorrência daquele ácido potente que to-
mei inocente no banheiro em Amsterdam, alguns
dias atrás – fiquei então seis horas em orgasmo
contínuo, e outras tantas em puro terror, a zanzar
pelas ruas e canais da cidade estranha.
Na África a visão voltou, meus medos me fizeram
limitar-me ao botequim frequentado por euro-
peus errantes como eu. Enquanto Ana, como se
estivesse em casa, já com vestimenta local, andava
pelos becos a descobrir de um tudo da cidade e
sua gente. Só Jung pra explicar esta memória an-
cestral de Ana, nascida Aben-Athar.
Pegamos o destino errado, na volta
Só homens no vagão, o chefe de trem sacou o pe-
rigo e nos acomodou numa cabine isolada. Passa-
da a noite em nebulosa direção, retomamos não
sei como o caminho para Casablanca. Dali, Espa-
nha, Portugal ainda salazariano, avião pro Brasil
de Médici. Ou Geisel.
No Rio, busca de uma nova rotina, burocracias.
Nos meses que antecederam a ida pra Europa
morávamos sete numa casa, comunidade urba-
na criada por nós – Ana, Paulo Cangussú e eu.
Inicialmente três, colocamos anúncio em jornal,
talvez Pasquim ou JB, e acolhemos quatro desco-
nhecidos. Era tanto movimento que volta e meia
dormíamos fora, em busca de sossego.
78 79
Uma vez,em Ipanema,na praia,quando acordamos,
Paulo, primo amigo comunitário original, deu por
faltadosóculos.Procuradaliedaqui,rastrosderatos
nos levaram aos seus buracos. As lentes continham
celulose,apetitosaprosroedores.Foram-seosóculos.
Outra vez abri a parte de cima do armário do meu
quartoe,lá,numasacoladasCasasdaBanha,daque-
la de papel, maconha até o tampo. Surpresa que ex-
plicou tamanho entra e sai de gente estranha.Talvez
ali a gota d’água pra dissolver a casa e a comunidade.
1973
Alugamos com Roberto Amaral um sala e quarto
na Barra. Prédio com cento e quarenta e quatro
pequenos apartamentos, só nós morando duran-
te a semana. Água potável trazíamos de fora. Em
busca de glória, dinheiro e de não sei mais de que,
catálogo telefônico nas mãos, ofereci de porta em
porta meu trabalho gratuito a produtoras de cine-
ma. Memória insegura.
Um concunhado que era filho de uma prima de
Lucy, mulher de Luiz Carlos Barreto, entrea-
briu uma fresta. Barreto me acolheu, me deixou
à vontade. Durante três meses cheguei cedinho,
sai noitinha, mexendo, escutando, atento. Espe-
cialmente a partir de informações de Lucy, escre-
vi um manual de produção de cinema, com tudo
quanto é tarefa e controle. Frilança, fiz uma se-
cretaria de produção d’A Estrela Sobe, de Bruno.
Nelson Pereira dos Santos, talvez não se lembre,
sem me conhecer, me marcou pela atenção com
afeto.A produtora era um centro cultural, vaivém
de gente diferente.
Dali fui segundo assistente de montagem de Es-
corel e Amaury no Guerra Conjugal, de Joaquim
Pedro. Na Mapa de Zelito, na Urca, rolava no fi-
nal das tardes uma comida caseira deliciosa e à
mesa sentavam os chamados senadores do cine-
ma novo – Cacá, Leon, Jabor, além de Joaquim,
Nelson, Zelito, e, olha a memória curta, talvez
Glauber. Ali, acredito, o berço da Embrafilme.
No Largo do Machado encontrei Carlos Alberto
Prates Correia. Carlos Alberto, minha referência
amiga mais forte no cinema, me ensinou ser dire-
tor de produção de seu filme Perdida, que arreba-
nhou em Gramado a maioria dos kikitos daquele
80 81
ano. E, na história da Embrafilme, único filme a
devolver dinheiro não gasto do financiamento.
1976
De novo, navio mais barato que avião, doze dias
no mar, Europa. Londres, rapidinho encontra-
mos o porão certo da casa condenada. North Go-
wer Street, pertinho da Union London University,
a ULU, onde – para nosso fraco inglês não nos
denunciar intrusos – calados entrávamos, calados
almoçávamos e tomávamos banho.
Na casa comunitária da esquina da nossa rua aju-
dávamos fazer pães integrais. Ana trazia doces
indianos deliciosos do restaurante onde trabalha-
va na cozinha. Eu, não sei como – imagino fazia
mímicas – arrumava trabalho por telefone. Pulei
de operário ajudante de obra para modelo de es-
cola de desenho. Depois lanterninha e vendedor
de sorvete no teatro da ULU. Lia as poesias de
Mao em português, comia kebab, batia perna pelo
centro da cidade.
Desconfiei serem agentes do DOPS os fotógrafos
que clicavam em passeata de protesto contra Gei-
sel, em visita oficial a Londres. Medroso de não
poder voltar ao Brasil, arrumamos rapidinho as
malas e, seis meses após nossa chegada, voltamos
de avião para casa.
Não sei agora a ordem das coisas. Na fronteira de
Santa Tereza com o Silvestre, a Equitativa tinha
um quê de paraíso – a floresta da Tijuca à jane-
la, gente em busca alternativa como nós, aluguel
barato de um apartamento velho por restaurar,
uma pracinha com vista de cartão postal da baia
da Guanabara.
82 83
8
psi
Wilhelm Reich foi um choque
Almir, jornalista agitado, apresentou o Combate
Sexual da Juventude, escrito na década de trin-
ta para jovens alemães. Pela primeira vez, uma
orientação sexual não moralista. Eu trazia em
mim as culpas do catecismo,reforçadas pela leitu-
ra do limitado Vida Sexual de Solteiros e Casados,
de João Mohana, padre e médico. Que experiên-
cias teriam homens com voto de castidade para
dar orientações sexuais a inocentes crédulos?
Mergulhei, fui fundo em Reich, li A Função do
Orgasmo, Revolução Sexual, Psicologia de Massas
do Fascismo, Irrupção da Moral Sexual Repressiva,
Escuta Zé Ninguém, Casamento Indissolúvel ou Re-
lação Sexual Duradoura, Análise do Caráter. Para
sentir, só me restava viver. O pecado seria não ex-
perimentar.A regra de ouro permanecia: não faço
a outros o que não desejo que façam a mim.
Romel Alves Costa, psiquiatra, também tinha
sido tocado por Reich. Experimentou técnicas te-
rapêuticas com um colega, deixou o emprego no
INSS, abriu espaço e colocou anúncio-tijolinho
no Jornal do Brasil.
Lá fui eu, por cinco anos, muitas vezes por sema-
na, hora marcada, nu de corpo e alma, me emo-
cionar,tentar me sentir e me entender.Respiração
e movimentos, atento. Volta e meia formigamen-
tos. Se os suportava, vinham reflexos. Com os
reflexos afloravam sensações, sentimentos, pen-
samentos. A memória fazia presente o passado.
Fichas caiam, compreendia dentro de mim, insi-
ghts bem vindos. Movimentos de braços, pernas,
pélvis, olhos... Em meu corpo, minha memória,
minha história.
Na penumbra,
seguia com os olhos a luzinha manuseada pelo tera-
peuta.Derepente,tantasvezes,lapsos.Quandodava
pormim,estavaemposiçãofetal,comlembrançasre-
motas de infância. Eu no berço, antes dos dois anos,
os olhos muito apertados, um jeito de fugir daquele
medoqueassombrasmetraziam.Medodealmasde
outro mundo,mulas sem cabeça,defuntos.
84 85
Descobri ali no consultório de Romel a origem
de minha visão distorcida. De tanto apertar os
olhos, acredito ter forçado a musculatura local a
ponto de perder a elasticidade. Com os exercícios,
pouco a pouco recuperei esta mobilidade muscu-
lar. A lente direita de meus óculos diminuiu de
quatro graus e meio para zero vírgula setenta e
cinco. Depois de usar óculos por vinte e sete anos,
passei três anos de cara limpa, enxergando tudo,
suficientemente bem. Ao mesmo tempo, medos
presentes, antigos e novos.
Passado um tempo, não suportei nem os medos
nem as alegrias. Voltei a usar óculos, mas perdi
outra inocência: sou responsável por mim mes-
mo. Reclamo primeiro ao espelho.
Na Equitativa conheci Ralph Viana
A Rádice já estava no sexto ou sétimo número.
Era uma revista de psicologia com visão ampla.
Trazia da Inglaterra a antipsiquiatria de Laing,
da Itália o movimento antimanicomial de Basa-
glia, apresentava Nise da Silveira e seu Museu
de Imagens do Inconsciente, abria espaço para
os argentinos, para a latinoamérica, pro universo
psi mundial. Além de Freud, Jung, Reich, Lowen,
Alex Polari, outros visionários chegavam a quem
abrisse suas páginas.
Meu coração se juntou às ondas. Me ajudei, aju-
dando. Resumos de livros, administração, dis-
tribuição, divulgação, próximo de quase tudo.
Imagino: mesmo quem não foi saberá como eram
maravilhosas as festas de Ralph quando se re-
cordar das suas próprias melhores lembranças.
Guerrilha cultural, jornais e revistas nasciam,
cumpriam sua missão, eram colecionadas lá den-
tro de quem lia.A Teoria Crítica mergulhava mais
fundo. O Luta & Prazer era leve. O Espaço Psi,
o Nexos, o Estar Bem, o Bem-estar..., como todos
jornais, eram distribuídos gratuitamente.
E os simpósios? O Alternativas no Espaço Psi –
Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, cento e doze
eventos em três ou quatro dias intensos. Em
vários espaços, ao mesmo tempo, palestras, de-
bates, vivências, intercalado com festas, recreios,
namoros. Clima fraterno, solidário. Com zero ou
quase de dinheiro, uma multiplicação de ajun-
tamentos do que cada um co-laborava. Valéria
86 87
Pereira, Ralph, eu – e muita gente, Sérgio, Dau
Bastos, Viola, quem mais? – interagíamos com
os voluntários.
Mas não éramos sós. Tarefas relacionadas, um a
um definia o que se propunha realizar e em que
prazo. Exercício de autonomia integrada. Rede
sem sabermos que era rede. Parque Laje, eventos
diferentes a cada duas horas em cada um dos oito
espaços. Quem entrava se dirigia para o que esco-
lhia. Foram, na verdade, mil e cem simpósios, um
para cada uma das mil e cem pessoas presentes.
Os conteúdos, os jeitos de fazer se espalharam
pelos brasis, adaptados às realidades locais. Hoje
teses acadêmicas recuperam memórias, sopram
novos movimentos libertários.
9
rotina
Escrevo para me confortar,
gostar de mim, alegrar com o que vivo e com o
que vivi.
2011, até abril. Outro dia, quase rotina. O pri-
meiro toque do celular-despertador tem sido às
seis. Depois, seis e meia, seis e quarenta e cinco.
Meia hora pra espreguiçar, obnubilado nesta né-
voa da volta ao dia.Novo toque,se já não comecei,
levanto as pernas pra cima, permaneço um pouco
em cada posição, me dobro até os pés encontra-
rem o espaço atrás de minha cabeça.
Ao mesmo tempo, entreabertos olhos, circulo o
olhar exercitando a musculatura. Pernas pra cima
de novo, depois, um pouco, me aperto em posição
fetal, equilibro um tantinho as pernas no ar e me
curvo pra frente, sentado, as mãos segurando os
pés. Sento de novo, torço meu tórax prum lado,
pro outro. Repito tudo.
88 89
Levanto e faço a saudação ao sol, que Regina me
ensinou. Duas vezes, intercalada com balançares
de braços como li em Castañeda e como aprendi
com Juracy Cançado. Rodo a cabeça, pra esquer-
da, pra direita, como metaleiro em show. Antes,
bem antes, em algum momento, quase sempre,
um e outro movimento bioenergético – bater
pernas e braços como neném, balançar meu corpo
deitado como geleia, focar longe e perto... – da-
queles que vivi com Romel.
Sei que o terceiro toque do despertador aconte-
ce quarenta e cinco minutos depois do primeiro.
Tomo um banho, faço um cafezinho, sento aqui
por uma hora, uma e meia e me divirto em livre
associação, se não inteira, quase. Tenho gostado
de viver. Em casa não tenho remédios. Nenhum,
me orgulho.
Almoço no Panela de Barro, comida leve, saladas
e algo de soja ou queijo, eventualmente um arroz,
feijão. De vez em quando um refresco de guaraná
dito natural. E depois, descoberta, uma cocadi-
nha de Minas, feita com ameixa ou abóbora. O
vício, uns cafezinhos de máquina durante o dia, lá
onde também trabalho todo dia útil, pela manhã
e à tarde, oito a dez horas.
2012, feiras às terças, às vezes aos sábados. Faço
arroz, feijão pra três, quatro dias. Bem simples, só
água e fogo. Preparo o almoço: na frigideira seca,
terfal, um pouco de queijo curado, arroz, fogo
baixo, tampo. Pico algo como salsa, cebolinha,
coentro. Boto em cima do arroz. Do feijão já es-
quentado, pego um pouco sem caldo, acrescento.
Corto o inhame ou a batata baroa já cozida, co-
loco na frigideira. Tudo quente, viro de uma vez
num prato grande. Pronto meu almoço. Talvez
uma couve esquentada na água. Com certeza, na
mesa, pimenta malagueta. É minha refeição prin-
cipal, no meio do dia.
Pela manhã, mamão, eventualmente junto com
banana ou abacate. Durante o dia, quando dá
vontade, corto laranjas em quatro, retiro a cas-
ca com as mãos, uma delícia.
O fazedor italiano – aquele sextavado que já
se tornou popular – me oferece café quente e
novo umas três, quatro vezes ao dia. Água, va-
90 91
rio, tomo pouco, sinto que deveria tomar mais
um tanto.
Lavo mas não passo. Mantenho mas não varro.
Molho as plantas. Cada dia tem sido novo dia.
Gasto só o que tenho.Depois de 49 anos de traba-
lho, salve o INSS, sou um aposentado, digamos,
ativo. Mais foco no que sinto, no que penso, no
que falo, no que faço. Aprendo atenção nos meus
sentimentos, pensamentos, palavras e gestos. Im-
pressionante como volta e meia me descubro co-
locando pedras em meu caminho. Tropeço, dou
aquela corridinha que o tropeço causa, às vezes
caio.Aprendizado mais lento do que desejo. Mas,
confesso,nisto dependo só de mim.Reclamações?
Vou pro espelho.
Leio. Mergulho quando me toco.Alguns livros na
cabeceira, minha mão vai instintivamente onde
meu desejo da hora me leva.
Evito televisão. Só o necessário. Lembro Freud
quando ele afirma que a maioria dos sonhos tem
a ver com o dia anterior. Cuido de hoje pra ter
bons sonhos.
Ah! E toma de tomar banho.Alterno frio e quen-
te. Pouco sabão. Nos cabelos, neca de xampu e
condicionador, só água. Nada radical, como com
a comida. Em Roma, como os romanos. Quando
visito minha família mineira, como carne, ovo fri-
to, pão de queijo. Fantasio que sei o nome da gali-
nha sacrificada, como talvez soubesse nos tempos
de infância.
Limpo os óculos várias vezes ao dia. Sabão de
coco e água, ficam transparentes as lentes. De
duas em duas semanas um casal amigo, Jorge, o
Russo – e Eliany – dá uma geral aqui em casa.
Maravilha, um auxílio luxuoso.
Hoje mesmo – que já é passado – gravo aqui em
casa, só, as apresentações que faço dos programas
Saiba+ que têm ido ao ar pela TV Comunitá-
ria do Rio. Tento torná-los atemporais, pra que
possam ser veiculados em qualquer época. Os re-
cheios são os vídeos-registros-documentários que
realizei ou produzi, só ou com amigos e colegas.
Imagino possam ser veiculados como programas
de rádio, se não sem, quase sem alterações. Para
gravar, sei apertar os botões básicos da câmera
92 93
simples e boa que Elizeu me sugeriu. Já editar,
não sei, sou suprido por profissionais amigos.
E escrevo,re-escrevo,de acordo com os sentimen-
tos que variam em mim.
O FGTS que recebi quando fui demitido do Sesc
Rio tem sido a base para as despesas extras, como
a impressão do livro, a edição dos programas. Já
financiou parte das despesas com um Blogspot
onde reúno quase tudo que me exponho, textos e
links. E a página que o Videolog me oferece, onde
disponibilizo quase todos os vídeos. Já o desejado
sofá, só quando entrar um dinheiro extra de um
trabalho extra.A vida simples, mas boa, do dia-a-
-dia, o salário simples de aposentado garante.
10
incertas
Por limitações humanas,
quantas ideias, invenções, soluções simples foram
e estão sendo deixadas de lado por cada um de
nós? O que faz com que alguém acumule o que
não necessita e que poderia ser útil para outros?
O preenchimento de vazios dentro de si mesmos?
Se vazios, que vazios seriam estes? Quais origens
destes vazios individuais que talvez gerem tanto
consumo, tanta necessidade de poder? Tenho fei-
to a mim estas perguntas que faço a outros.
Pouco a pouco percebo como meus próprios va-
zios estimulam meus comportamentos. Dói to-
mar consciência do que sou, dissolver a imagem
ideal que tenho de mim. Tranquiliza reconhecer
meus limites, o que me falta. Facilita agir a partir
do que disponho. Fico do meu tamanho.
Ligo a TV e alguém que não conheço me
informa que preciso ter algo que antes des-
conhecia. Tenho em mim agora uma necessi-
94 95
dade. Se tenho recursos para supri-la, satisfa-
ção momentânea. Se não, um sentimento de
impotência, incompetência, outro vazio. Me
faz mal, muito mal, esta publicidade do que
não me faz bem... nem está ao meu alcance.
Imagino crianças e adultos inocentes, a todo
momento chamados para novas necessidades
que não têm condições de adquirir. E que não
suprem os afetos básicos, alicerces de bem-
-estar de fato.
Ronald Laing,
em Laços, sintetiza: Mamãe me ama. Eu me acho
bom. Eu me acho bom porque mamãe me ama. E, se
mamãe não me ama, eu me acho mau.
Criança inocente – imagino como muitas – de-
samores, desatenções alimentaram meus vazios.
Descubro em mim, não tenho esta dúvida: os va-
zios que vivi e não transcendi, repito diariamente
nos meus sentimentos, pensamentos, palavras,
gestos.Hoje,invertendo,talvez mamãe aqui signi-
fique aquela mamãe que volta e meia tenho opor-
tunidades de ser. Comigo, com o outro.
Compreendo ato falho
como algo que – diferente da minha intenção
consciente – espontaneamente penso, falo, faço.
Desde, sem querer-querendo, chamar o outro pelo
nome errado até pegar o caminho da casa da na-
morada quando aparentemente intencionava ir
para outro lugar. Assim, atos falhos me interes-
sam, traduzem o que lá dentro – fora da consci-
ência – guardo, retenho, sou.
Pulo
No mundo, hoje, grande parte dos recursos são
gastos em controles.
Mas, acredito, se responsabilidades e direitos –
ganhos e perdas incluídos – são compartilhados
com os trabalhadores de cada empreendimento
ou instituição, naturalmente cada um cuida me-
lhor do que também é seu. Neste cenário hu-
manizado, os custos e os controles diminuiriam
consideravelmente. A tendência, co-laboradora, o
ganha-ganha. Talvez aqui uma contribuição para
transcendência de crises econômicas. Na origem
de tudo, o desejo de quem decide o que está ao
seu alcance.
96 97
Reflexões singelas como estas – quando o olhar
para fora é voltado para dentro de mim – me aju-
dam orientar meus caminhos. Atento ao que está
ao meu alcance, reconheço o que falta e me falta,
delimito, ajo, realizo.
Descubro na internet
que existe uma rede de tecnologia social em que
soluções inventadas são disponibilizadas gratuita-
mente para quem deseje.A cisterna que o pedreiro
nordestino construiu e que acumula água de chu-
vas é referência.Cisternas semelhantes já minoram
a falta d’água para centenas de milhares de famílias.
Imagino uma pequena mudança de atitude minha
ou de qualquer um e de muitos: compartilho o
que aprendi e me facilita a vida, torno minha vida
mais agradável. Ofereço pelo prazer de dar. Co-
migo isto se torna mais fácil quando me permito
pequenos grandes prazeres.Ando descalço, espre-
guiço, como com as mãos, digo uns sins, digo uns
nãos. Abraço inteiro, brinco com o corpo, rio de
mim, divago. Trabalho sem perceber: quando me
dedico ao que gosto, 24 horas por dia estou atento
sem saber. Livres associações são imediatas.
Sempre que mudo de trabalho me dá um medo
danado. Depois de tantas mudanças aprendi que
dá tudo certinho, sou capaz de aprender o que
não acreditava possível. Sei também que quando
trabalho com o que não me identifico, sofro, fico
mal-humorado, chateio quem não tem nada a ver.
E,quando me permito estar bem comigo,trato aos
próximos como trato a mim. Fico bonito, me sinto
assim. Mas – mesmo já sabendo tanto – vario.
98 99
nham. Sirvo ao público com o melhor de mim. Sou
um servidor público. A regra de ouro, presente, me
tranquiliza: não faço a outros o que pra mim não
desejo.Tudo ao mesmo tempo aqui e agora.
Se reclamasse, seria de barriga cheia. Não tenho
um comprimido em casa, comida gostosa todo
dia, banho quente ou frio, máquina de lavar, la-
vanderia que leva e passa, arrumadores que var-
rem e cuidam, vizinhos que me protegem, telefo-
ne que funciona, eu desligado da tv. É meu, meu
tempo.Preciso ser atento e forte, não tenho tempo de
temer a morte, agradeço a Caetano. Desejo recu-
perar meu humor primário. Entreabro a porta de
minha segunda infância.
Eu também?
Posso ter entendido Winnicott diferente do
que escreveu. Arrisco. Ele fala da conveniência
de uma moça querer ser uma mulher. E de um
rapaz desejar ser um homem. Mas constata que
não é sempre assim. Quando se considera o in-
consciente e os sentimentos mais profundos,
descobre-se facilmente um homem durão que-
rendo muito ser uma moça. E uma adolescente
11
reflexos
Há tempos, um dia qualquer
Ontemehojemisturados:temposforadeordem,as
datas variam nestes escritos. Falo de outros, falo de
mim.Agendatãocheiaquenãotenhotempoprame
aproximar de mim mesmo.Escondo-me de mim no
trabalho, não me dou limites. Só posso reclamar ao
espelho. Ajo como se não tivesse consciência. Apa-
rente let it be, laissez-faire, deixa a vida me levar.
Terapia Comunitária me tocou,vou às aulas,pratico
as rodas, decido internamente fazer um vídeo, es-
tou em produção. Escrever como aqui me tem feito
bem. Levanto cedinho, três, quatro vezes por sema-
na,escrevo.Chega às minhas mãos uma transcrição
da fala do Dr. Luiz Moura no vídeo Auto-hemotera-
pia, já produzo a impressão de livreto, penso agora
como fazê-los chegar a quem precisa e se interessa.
Desegundaasexta,diainteironoSesc,cuidandodo
que me propus,burilando o que me decidiram.An-
tecipo,proponho movimentos antes que me propo-
100 101
com uma constante inveja dos homens. Isto pode
estar escondido no inconsciente reprimido.
Me angustio
com os que perambulam sem tudo – afeto, traba-
lho, comida, teto... Não sei o que fazer, dou um
real aqui, um olhar ali, pago um prato. Muito de
vez em quando quero saber, converso. Quando
não suporto, mudo de calçada, o coração aperta-
do, uma culpa danada.
Minha memória, alguém me diz,é de peixe,esque-
ço nomes, fatos. O que me comprometo, anoto,
agendo.Quase tudo é como se fosse a primeira vez.
Ajudo meus filhos quando cuido de minhas pró-
prias angústias. Quando não transfiro meus dese-
jos. Ajudo mais se consigo compreendê-los, aco-
lhê-los e a mim, lembrar-lhes quem somos. Estas
luzes são raras.O mais frequente,evito atrapalhá-
-los nas suas próprias buscas.
Quando estou equilibrado, aí sou bom. Suprido,
escuto. Solidarizo, fortaleço. Enquanto não sou
assim – aos meus olhos quase perfeito – me pro-
ponho ser. Pisco, tropeço em meus próprios bu-
racos.Com dores,paro,sinto,reflito,experimento
um passo atrás, pro lado, pra frente. Vivo como
aprendo a dançar. Este outro meu capital, o que
vivi, o que vivo.
Pausa pra escutar os homens do Bope que na
rua em frente correm agora cantando canções
de morte e guerra. Imagino se canções de ni-
nar, de roda, de dança.
Antonio Faundez,
em conversa com Paulo Freire, do que entendi, uti-
lizava a filosofia como meio para analisar a situação
política,a vida no mundo concreto.Estudava filoso-
fia como uma maneira de se apropriar de conceitos,
de capacidade crítica para entender a realidade.
Mais ou menos um dia
Um dia destes. O avião ronca. Quatro da matina,
cochilo, lembro da importância do som neste do-
cumentário. A entrevista com Adalberto, a roda
da terapia comunitária, as possibilidades de insi-
ghts ao vivo, os depoimentos de quem viveu. Este
o plano. Agora é com a realidade.
102 103
Ontem dia inteiro de reunião com o UNICEF,
focado no repensar o Encontros, experiência em
que jovens de camadas sociais diferentes se re-
únem e, desejo dos que promovem – Michel,
Cláudia, Gilberto, Luciana, Charles, Fernando...
– ampliam conhecimentos sobre si, o outro, o
mundo.
Antes, cedinho, saudação ao sol, café, imeios, tele-
fonemas, embalo livretos de autohemo, pra Gló-
ria, por favor, despachar pelos correios. À noite
converso com Elizeu sobre o roteiro que montou
e a busca de financiamento da Fiocruz.
Arrumo a mala, molho as plantas, telefono, lavo
e estendo a roupa, boto correspondência em dia,
carrego as baterias das câmeras, tomo banho,
como caqui e melancia e desço correndo pra en-
contrar Michel no táxi que nos leva ao encontro
de Hélio no aeroporto, rumo às Ocas do Índio, em
Morro Branco, pertinho de Fortaleza.A caminho
sinto falta das chaves de casa, telefono à uma da
manhã pro Jorge. Descobre que algum outro vizi-
nho já as trouxe, sãs e salvas, pra dentro.
À espera do embarque, entre conversas curtas,
puxo uma, Hélio, cordialmente crítico, me
lembra que sempre tenho uma solução pro
mundo. Entalo. É verdade.
Ocas do Índio
2008. Oito dias de frente prum mar morno e céu
estrelado, tempo todo mais atento a mim e a ou-
tros. Bioenergética cedinho, intercalo, intercala-
mos razões e emoções, descobertas e compaixões,
dores e prazeres. O clima é de reconhecimentos.
Somos entre trinta e quarenta, agora mais que
profissionais, pessoas. As noites são calmas, leves
as comidas e os pensamentos. Cuidando de mim,
aprendo um tanto cuidar de nós. Os que vivemos
nos tornamos próximos.
Adalberto de Paula Barreto é o mestre,maestro.Sua
Terapia Comunitária, já sabemos, facilita rapidinho
solidariedades. Neste espaço, combinamos antes,
cada um só fala a partir do que viveu, experienciou.
Conselhos, julgamentos não valem. Todos têm
oportunidade de se expressar. Quando cada um que
deseja fala – das suas alegrias ou, mais comum, do
104 105
que lhe atormenta –,todos escutam.É democratica-
mente escolhido, para aprofundamento, o problema
como qualmaispessoasseidentificam.Embuscade
melhor compreensão, quem fica na berlinda dá mais
informações e responde a perguntas. Contextualiza.
Depois, em silêncio, ouve quem contribui com o re-
lato de suas próprias vivências similares.
Emoções afloram, pipocam identificações, pesso-
as se aproximam. Ao final, os que querem, falam
do que levam desta roda. Muitas vezes conforto,
tranquilidade, compreensões, auto-conhecimento
e estima. Germinam vínculos, fortalecem-se laços,
nascem e se realizam projetos voltados para inte-
resses comuns ali descobertos.
Cultura,o que é?
Antonio Faundez lembra Paulo Freire e se identifi-
ca com o que ele dizia que descobrir uma cultura é
aceitaroutracultura,tolerá-la.Eafirmaqueacultura
é mais do que manifestação artística ou intelectual
através do pensamento. Sua manifestação mais pro-
funda está nos gestos simples do cotidiano, como os
diferentes jeitos de comer, dar a mão, relacionar-se
com o outro.
Eu próprio quando leio Faundez, o escuto im-
pregnado de minha própria cultura. Já não é mais
Faundez puro. Somos agora misturados, inclusive
a Paulo Freire.
Posses
Tudo muito bem, tudo muito certo. Reconheço, já
não tenho meu tempo. Descobri maduro que não
sou eu que tenho as coisas, são as coisas que me
têm. O carro que não tenho me obrigaria cuidá-
-lo,guardá-lo,emplacá-lo,mantê-lo.O animal que
não tive me pede atenção, cuidados. O dinheiro
requer guarda, controle. O que guardo nas prate-
leiras, no guarda-roupas me pede limpeza, arru-
mação. Tudo me pede tempo. Se não pede, toma.
Hoje, ainda, como não tenho meu tempo, corro.
Na minha infância não soube de faltas até o
momento em que, na cidade maior, vi a vitri-
ne. Desejei o que não tinha. E por muitas ve-
zes me angustiei por não me suprir das novas
necessidades criadas. Só agora compreendi
que o que aparentemente possuo é que me
possui. Minhas posses me aprisionam.
106 107
Foi bom tê-las – estas coisas que me têm – e
agora deixá-las a uma e outra. Por mim, hoje, só
escreveria, filmaria. Muito do que me impede é
minha carência, que me faz querer ser reconheci-
do, admirado, mesmo eu sabendo que – se minha
auto-estima depender do olhar de outros – posso
eu próprio não me reconhecer. Como diz o Adal-
berto, o que você quer que eu queira, pra eu querer?
Winnicott dedicou a vida
à pediatria e à psicanálise, especialmente a
infantil. Fez, nos últimos anos de vida, palestras
para os públicos mais diversos.
Tudo Começa em Casa é o título do livro póstumo
que contém estas palestras. Cada capítulo se en-
cerra em si mesmo.Sua leitura tem me facilitado a
vida, um tanto pela melhor compreensão de mim
mesmo, outro tanto pela compreensão do outro,
mamãe inclusive. E meus lados mãe, pai, filho.
Livre pensar,
levitação de tempo e espaço. Ausência de nada,
presença de tudo. Pulsação, inspiração, expiração.
O fio invisível que me abre o fluxo.
Limbo
Eu, 65, de repente mudança de referências. Me
desculpo, confundo, misturo vida e trabalho,
constante busca, antecipação de futuro – experi-
mento já desejos pro futuro. Utilizo indicadores:
tranquilo humorado me sinto no caminho certo.
Se não, que realizo para novo equilíbrio?
Algo clareia: aprender a viver – tranquilo humo-
rado – com o que está ao meu alcance?
Ficção
A busca-em-ação, a buscação é descoberta, expe-
rimentação, sim e não. Olho pra trás, domina a
memória enevoada. Quando emergem lembran-
ças, as felizes sobressaem. Tudo muito variado,
umas vezes assim, outra incorporado.
E eu,
aqui, em qualquer momento, impregnado de
mim. Confuso e lúcido. Em conversa cifrada co-
migo mesmo, num misto de coragem e medo.
Meu universo pulsa, sou centro e partícula, sou
todo volume e não sou. E a prática de realizar:
sonhar, lembrar, uma história, um plano passo a
108 109
passo,fazer passo-a-passo.Primeiro a estrutura –
o lugar de morar, a saúde para cozinhar, lavar não
passar, a feira, o mercado, o pequeno conserto, a
manutenção, cada coisa tem seu lugar. Aos que
frequentam, livre estar e cada coisa volta pro seu
lugar. + a destinação dos objetos acumulados que
me tornam um carregador do que possuo. As cai-
xas numeradas. E alimentação de processos que
dependem de outros.
Antes a ruptura. A palavra já não mais presa, a
consciência serena, a ética como o básico. A se-
gunda carta aberta, o email geral: compartilho
as perguntas que me faço, as respostas que me
dou.A primeira, aos mesmos contemporâneos da
instituição, sugestões para a prática interativa de
transmissão de conhecimentos que a lei determi-
na e os recursos estão aqui. Esta gera uma chama-
da de atenção formal. A outra, a demissão.
Dor e prazer. Alegria também pela alforria, raiva
pela cegueira do outro, tristeza pela recusa e falta.
Diluiu? Evaporou? Passado um tempo, já é passa-
do. E neste enorme cenário em vivo, tenho focado
no que me mantém tranquilo, também procuro
mel dentro do azedo. Dos bônus, o fundo de ga-
rantia, uma segurança. O plano de saúde mantém
o custo, cumpre a lei.
Então! Estrutura, a casa pronta
Que mais? Com método, cada tarefa agendada.
Pesquisa do necessário, separação de documen-
tos, reprodução, consulta a quem sabe como é o
processo todo. Contagem do tempo das contri-
buições, marcação apresentação. Um dia após 65
anos, entrevista, papéis corretos, direitos garanti-
dos, aposentadoria.
Orçamento responsável: despesa nunca maior
que receita. Adapto-me, camaleão. Vida mais
simples, comida saudável, nova rotina que nem
sei. Permanecem a saudação ao sol, os primeiros
movimentos bioenergéticos. Simplifico o vestuá-
rio. Estou organizado.
Aposentadoria,plano de saúde,objetivos alcança-
dos. O plano funcionou, o cronograma diferente
do previsto. Cuido da legalização da morada.
110 111
Tostão
De novo, quando leio, entendo do meu jeito. E
arrisco. O jogador, pensante, filosofa. Lembra da
solidariedade e da impossível liberdade total so-
nhada por Sócrates, o do Platão. A utopia como
referência, alimentação do desejo. Inalcançável. A
lembrança de Tostão me anima, faz bem. Sonho,
sem me limitar ao possível.
Narciso
Olho no espelho e me surpreendo, tão jovem e
com estas marcas... E é eu.
Insight
O mundo muda quando cai a ficha. Quando o
que compreendo me toca emocionalmente,minha
vida ganha novo sentido. Mudaram meus desejos
atuais quando me toquei que muitas das minhas
necessidades recentes de poder – e dinheiro e ob-
jetos – estavam relacionadas a afetos que desejei
e não tive na minha infância. Tenho me sentido
melhor quando hoje procuro suprir diretamente
os afetos que hoje desejo.
Primeiro,
aprendi do que vi, ouvi, tateei, cheirei, botei na
boca e senti. Desde criança transformei-me no
que me foi apresentado como modelo.
Estou fundamentalmente impregnado de in-
formações que, no correr da vida, recebi tanto
da escola, igreja, família quanto dos meios de
comunicações e dos que estão ao meu redor.
Eu mesmo colaboro para a manutenção da
moral atual, quando nos atos e encontros de
toda hora transmito meus preconceitos aos
meus filhos, amigos, vizinhos, colegas de tra-
balho. Enfim: o homem que sou hoje é fruto
do que antes senti, aprendi. O homem que
serei amanhã deverá ser fruto do que hoje
aprendo e sinto.
O que percebi em mim, percebo em outros. Ma-
puto, 1981, foi quando isto ficou claro pra mim.
Desde então faz parte de minha visão de mundo.
Desisto de mim ou de você?
O que é bom pra nós – pra mim, pra você – de-
fine o que podemos? Descomplicando, talvez já
112 113
saibamos como tornar possível nossa relação:
respeitar-me a mim e à outra, ao outro. Quero,
por exemplo publicar o que escrevo, inda mais
quando escrevo o que sinto. Me limito, me emu-
deço ou faço o que desejo? Desisto de mim ou
de você? Ou não desisto e realizo meu desejo,
independente de você? Amor implica em depen-
dência? Ou ao contrário? Amor não como pri-
são, mas como estímulo à liberdade? Vice versa?
Eu aqui com meus sentimentos.
12
balanços
Presente
Tempos passados, semana dessas...A semana co-
meça, dois dias e já me canso do trabalho que não
escolhi. Me pego ansioso em relação ao que me
propus: realizar o vídeo Terapias Comunitárias e
escrever um livro. Tenho tido prazer em levantar
cedo e escrever sem compromisso. Gravar situ-
ações emocionantes também é prazeroso. A an-
siedade, desconfio, vem da inclusão de limitações
ao tempo. Determinar datas me obriga a cumpri-
-las. E aí, já sei, minhas escolhas perdem sentido.
Que fazer?
Uma primeira opção é respeitar os tempos na-
turais, meus e dos outros. Uma série de tarefas
preparatórias antecede gravações. Depoimentos
conceituais, opiniões, visões do método, da sua
aplicação, eficiência, eficácia, já colhi suficientes
– com a ajuda de Michel, Naly, Carolina, outros
colegas do curso de formação. Agora são neces-
sárias rodas de TC. Fiz os primeiros contatos
114 115
com terapeutas, os equipamentos de gravação
estão comigo, as autorizações de imagem e som
estão impressas, prontas para preenchimentos e
assinaturas, está à mão o dinheiro necessário pras
despesas de transportes e pequenos gastos. Posso
agendar com quem deseje. E articular com Elizeu
ou Jun Kawaguchi ou Jorge uma segunda câmera.
Em busca de financiamento, Elizeu preparou as
informações e deu entrada na Fiocruz. Neste ca-
minho, nos colocamos como parceiros, intencio-
namos construir juntos direção, roteiro, produ-
ção. Está prevista resposta em trinta dias.
Outra trilha é a minha usual. Planejo, mesmo sa-
bendo que a realidade será diferente. Nos meus
tempos – com o apoio de um amigo aqui, um
voluntário ali, prestadores de serviços acolá – ar-
ticulo, produzo, gravo, oriento a transcrição, de-
cupagem, roteiro, edição. Então, matriz, capa e
rótulos prontos, encomendo cópias e parceirizo
distribuição caseira.
Deu certo assim com o Energia da Vida, o Apare-
lhos Orgônicos e, maior sucesso, com o Auto-He-
moterapia, Contribuições para a Saúde – Conversa
com Dr. Luiz Moura. Permanecem prontos à es-
pera e em busca de seus públicos o Candomblé, o
Ilha Grande, o Práticas Chinesas de Auto-Cura, os
Psicoterapias Corporais, o Energia Orgônica e Saú-
de Pública.Como todos são atemporais,em algum
momento, acredito, passarão em tv aberta. Quem
participou das feituras – Victor, Ipojucan, Bruno,
Pedro Farias, Bel, Raul, Sônia, Pedro Sarmento,
Fran, Elizeu, Félix, Katty, Christiane, Thiago,
Rudá, Oscar, Grasiela, Thamires, Mejia, Phillip,
Gilberto, Ana, Regina, Rafael, Pavel, Caetano,
Lucas... tanta gente – gostará.
Quanto ao livro,
estamos aqui, nesta brincadeira eventual ou de
quase todo dia. Fiquei surpreso e satisfeito com o
livreto que produzi com o conteúdo da entrevista
feita por mim e Ana com Dr. Luiz Moura, a capa
com design de meu filho Pedro, ilustração de Fran
Junqueira, a experiência de Leandro Godoy. Ficou
bonito, atraente mesmo. Estou satisfeito também
com meu prefácio.O livreto me estimula este livro.
Pensei uma parte subjetiva, outra objetiva. Mas,
como Lennon já disse, a vida acontece enquanto a
116 117
gente planeja. Tudo muda num instante.
Aliás, como sou o que aprendi, li, escutei..., toda
ou quase cada letra – palavra, oração, frase... –
que escrevo merece citação de quem a inventou,
descobriu, idealizou. Porém, ai, porém, sinto, as
ideias estão no ar. É só relaxar que elas chegam,
pra mim, pra outros. A quem pertencem? E o tal
do inconsciente coletivo? É certo falar é meu? É
ético possuir direitos autorais?
Pra parte objetiva pensei descrever o que criei,
co-inventei e entendo prático. A metodologia de
redes comunitárias e que mais?
Imagine
Um espaço onde, em roda, se encontrem mora-
dores de comunidades populares menos favore-
cidas, além de pessoas e instituições interessadas
no bem-bom de todos. Naquele momento, um de
cada vez se apresenta e sinteticamente diz o que
oferece, o que procura.
Quando todos sabem o que cada um procura e
o que cada um oferece, a roda se desfaz. E, na-
turalmente, cada um se aproxima daqueles com
quem se identifica, em busca de mais informações
e construção de parcerias.
Imagine ainda que estas ofertas e procuras decla-
radas em cada encontro sejam escritas e distribu-
ídas, para que outras pessoas, mesmo se não esti-
veram presentes, possam participar.
Imagine também que você possa compartilhar co-
nhecimentos que você adquiriu no correr da vida.
Por exemplo, como voluntário, ensinando o que
sabe a quem procura por este saber. Ou que aque-
le objeto - que você guarda e não é mais útil para
você - possa ser utilizado por outros.Um carrinho
de bebê, um cobertor, um móvel, uma ferramenta.
Imagine que você possa entrar na roda, estando lá
ou, incógnito, via internet.
Redes
Base das Redes Comunitárias, os encontros pre-
senciais são voltados para a prática de parcerias
entre quem deseje. Moradores – a grande maio-
ria de comunidades populares – e pessoas liga-
das a instituições privadas, públicas e do terceiro
118 119
setor, além de profissionais autônomos e volun-
tários. E curiosos.
De modo simples e objetivo, cada um dos presen-
tes, representantes de instituições e de comuni-
dades, se apresenta e fala do que veio procurar e
do que veio oferecer. Todos têm oportunidade de
falar e de ouvir. E, quando cada um sabe quem é
quem,o espaço se abre para o aprofundamento de
relações e formação de parcerias.
Para facilitar articulações entre todos, cada um
recebe – impressa ou virtualmente – uma rela-
ção atualizada de participantes, com endereços,
telefones, e-mails. E os Classificados Sociais, que
descrevem sinteticamente o que é oferecido, o que
é procurado. A cada novo encontro, estas listas
são acrescidas, atualizadas, compartilhadas.
Só
O passado volta e meia presente. Dia destes...
Acordei com este sentimento que traduzo solitu-
de.Sou responsável pelas minhas atitudes.Como
naquele símbolo das olimpíadas, o desenho que
imagino de relações ideais se compõe de círcu-
los parcialmente superpostos, cada círculo re-
presentando uma pessoa. Os interesses comuns
são representados pelas áreas comuns. As áreas
externas aos entrelaçamentos correspondem aos
interesses específicos de cada um. Ali sou só, ali
vive minha solitude.
Quando respeito meus interesses específicos, fica
mais simples respeitar os dos outros.Mas quando
não me respeito, lá vem raiva, culpa, contenção,
tristeza. E pra evitar estes sentimentos tão chatos,
me afasto, acabo por evitar contatos mais profun-
dos. Aí é solidão.
A compaixão que mereço
vem de quem procura olhar com meus olhos. E
vice versa. Sinto assim quando experimento o
olhar do outro. Contraditoriamente, ou não, em
busca de crescimento, quando necessário ofereço
ao próximo a crueza do que percebo. Na verdade,
desconfio, só exponho incômodos a quem de al-
guma forma me interessa. Se não – inconsciente?
– a indiferença e o esquecimento prevalecem.
120 121
Entre os efeitos de minhas neuroses está um tan-
to a impaciência, às vezes a indelicadeza. Pero,
mineiramente, aprendo evitar confrontos. Tenho
constância no respeito a tratos.
E, tentando enfrentar culpas apreendidas em mi-
nha infância, experimento cada vez mais suportar
prazeres. E pra evitar obstáculos, contorno mon-
tanhas. Um passo atrás, dois à frente, quase um
bolero, estes tempos. Se consciente e forte, esco-
lho o que pode dar certo.
Volta e meia, quando em conflito, acordo à noite,
suo, sofro. Não gosto. Prefiro viver com quem me
identifico, troco. Isto significa critérios, valoração.
São escolhas.
13
programa de tv
Imagino um
No palco, tudo muito simples. Pessoas em roda,
vieram pela oportunidade de compartilhar ques-
tões de todo dia. Falar, ouvir, sempre a partir do
que cada um viveu.As frases, é combinado, são na
primeira pessoa, começam com Eu. A metodolo-
gia pode ser, por exemplo, a da Terapia Comuni-
tária. Como ela, há outras maneiras de facilitar
expressões mais profundas e estimular solidarie-
dades. Isto acontece todo dia e nós temos acesso.
Imagino outro. Outro ambiente. Central do Bra-
sil, por exemplo. Um palhaço faz a pergunta que
deve ser respondida em um minuto pelo passante.
O que você pode fazer para melhorar suas relações
com sua família?
Esta pergunta – e outras, diretas – estimulam
respostas relacionadas a experiências pessoais.
O espectador, na medida em que se identifique
com o relatado, tenderá a também se questionar.
122 123
E quando cai a ficha... muda a visão de mundo... e
o mundo muda.
Dois câmeras atentos a si e ao outro.Os sentimen-
tos inesperados que afloram devem ser suporta-
dos, focados, gravados. Para que os espectadores
tenham também possibilidades de se identificar
com estes sentimentos, perceberem que não são
só seus, solidarizar-se com os que sentem. Nas-
cem vínculos entre quem vê e sente e quem origi-
nalmente vive e sente.
Toda semana os câmeras gravam, os espectadores
interagem sentimentalmente. Ambos, além dos
protagonistas, podem se desenvolver a partir da
consciência do que sentem, do que são. E quando
caem as fichas – quando cada um se compreende
um tanto, emocionalmente – espaços se abrem
para o entendimento de causas de comportamen-
tos atuais. E, no tornar-se consciente – a perda
da inocência –, possibilidades de transformações.
Nenhuma velocidade estonteante, são outras
as sensações. O caminho é emocionante, pra
quem se permite, atento, sentir. Ao fim de cada
encontro, cada um carrega consigo o que sen-
tiu, vivenciou. E, no cotidiano, sua memória
emocional o acompanha, estimula a consciên-
cia dos seus sentimentos, pensamentos, pala-
vras, atos. E aquele antes espectador tende a
desvendar caminhos, a dar passos como prota-
gonista de sua própria vida. Isto acontece todo
dia. Faltam os câmeras e aqueles que realizam
e veiculam programas de TV.
Sonhei uma multidão
- 400 pessoas? - disponível para uma brincadeira
de crescimento.
Sugeri de imediato que cada um de nós, a partir
deste momento, só falássemos o que porventura
fosse bom pra si mesmo, pra quem escutasse ou
para aqueles a quem a fala se referisse.
E ofereci escolhessem. Vivenciarmos juntos uma
sessão de terapia comunitária. Ou, divididos em
grupos de até 40, fizéssemos rodas onde cada um
pudesse em 1 ou 2 minutos falar do que oferecia e
do que procurava aqui, agora.
124 125
Eu poderia facilitar um encontro ou outro.
Acordei.
Entrevistas
O repórter, aqui, é produtor, observador. O en-
trevistado é convidado a falar para outro, alguém
que faz parte do público a quem se destinam as
informações que oferece.O entrevistador,agora,é
leigo, curioso. O inesperado: a entrevista se trans-
forma em conversa, entrevistador e entrevistado
se alternam. O entrevistado encontra a linguagem
do público. O público agradece.
Focos nos conteúdos
Como convidada, aquela pessoa especial, cuja fala
corresponde às suas ações, ao que é. Como entre-
vistadora, aquela pessoa interessada. Estão próxi-
mas,o que permite o tom de voz normal.A convi-
dada fala diretamente para quem a entrevista. No
meio, atrás ou ligeiramente de lado, voltada para a
convidada, uma câmera ligada está esquecida, não
há operador. No quadro, cabeça, ombros, talvez
os gestos das mãos. Microfone direcional, de la-
pela? Quando reproduzida na tela, a entrevistada
estará olhando diretamente para os espectadores.
Sensação de proximidade. Quem ouve atento, se
comove, compreende, internaliza novos conheci-
mentos, se sente mais inteiro que antes.
Somos todos artistas?
Aconteceu no Teatro Carlos Gomes. Quem es-
teve presente nunca será o mesmo. Saiu mais
vivo que entrou. Pura promoção de saúde. Bom
negócio pra todo mundo. Ficou gravado só nos
corações. Pode acontecer toda semana? Gravar
também audiovisual, passar na televisão?
Assisti outro dia um programa ganha-ganha.
Criação coletiva, com dedos do Pontes, o Rober-
to – o saber em todo ser. E de Vitor, o Pordeus,
o médico-ator. O artista-facilitador, Vitor, cede
espaço para quem chega mais. Facilita, estimu-
la a expressão do outro. No palco, auxiliares são
receptivos. Os músicos intercalam popular e
clássico, vinhetas criam climas. O público espelha
o apresentador, acolhe e é acolhido. Palco e pla-
teia interagem, trocam de lugar naturalmente.
Na plateia, no palco, roupas, chapéus, acessórios
estão disponíveis, espalhados por todos lugares,
126 127
acessíveis a quem deseja, somos todos artistas. O
público-artista,na maioria,da periferia do Rio.Na
programação, ciência e arte dialogam, conversam
como se fosse comigo. Na produção, tudo junto e
misturado, pessoas ativas de comunidades popu-
lares, de serviços públicos, de ONGs, voluntários.
Outro programa assim, produzido por quem de
espírito semelhante – Pordeus pensador ativo,in-
clusive – foi o Loucura Total, no Instituto Nise da
Silveira, Museu de Imagens do Inconsciente. Até
hoje não sei quem era público, quem era médico,
doido ou paciente. Música, letra e festa da melhor
qualidade. Não ficou dúvida: somos todos iguais.
Em programas assim, o fim é o bem-estar. A for-
ma e o conteúdo são meios. Quantos mais sin-
gela a forma, menos chama a atenção sobre si. A
forma, aqui, se torna mensagem. Reafirma o fim,
a função do próprio conteúdo. O pensamento, o
sentimento é a linguagem. O meio, a mensagem.
14
piripaco
Mais passado
Outro dia. Sinto o lábio superior, à direita,
como que levemente anestesiado. Mesmo es-
tranho, não esquento. Uma e outra vez o olho
direito embaça, lacrimeja.
Dois ou três dias assim,estou num almoço amigo,
uma amiga me fala que um lado do meu rosto está
diferente do outro. Os presentes se ligam. Cláu-
dia insiste, vamos à emergência do hospital São
Lucas. Sala de espera cheia, receio de AVC ou
algo assim, priorizam meu atendimento.
A médica me examina em pé, solicita ali mesmo
exames. Já sentado, uma auxiliar retira meu san-
gue, instala o pinga-pinga do soro. Próximo pas-
so, tomografia. É tarde de domingo, movimento
crescente na emergência. Um dedo quebrado, o
excepcional em crise, um letárgico em cadeira
de rodas, outro que já chega morto, uma idosa à
procura de escuta, todos em busca de cuidados e
128 129
afetos, os nove boxes cheios, os espaços de espera
também. A médica me diagnostica, talvez para-
lisia parcial periférica. Causas ainda indefinidas.
Receita o que considera necessário, me orienta
para um neurologista. Anoitece, saio confortado
com o atendimento, me senti cuidado.
Na segunda, no lusco-fusco da madrugada re-
lembro e faço, como exercícios, movimentos com
os olhos e músculos. Telefono pros bem próxi-
mos, tranquilizo, me emociono, agradeço acom-
panhamentos, disposições e disponibilidades. Já
com os resultados da tomografia e do sangue,
neurologista. Sangue bom – todos os indicado-
res de acordo com as referências. Resultados nor-
mais, reflexos também. Aventa causas possíveis.
Meu plano de saúde facilita, o médico solicita
outros exames. Chegou a noite.Tomo um açaí na
lanchonete, vou pra casa.
Terça, enquanto marco exames, me fortaleço.Au-
to-hemoterapia, 5 milímetros retirados do meu
braço e aplicados imediatamente na nádega. Jun,
acupuntor amigo, pesquisa oriente e ocidente,
traz informações, também aventa causas, me faz
perguntas.Faz sentido: um choque térmico talvez
tenha sido provocado por aquele vento forte do
ventilador novo que mantive ligado ao meu lado
direito enquanto utilizo em casa o computador.
Jun define uns poucos pontos, aplica. Na terceira
agulha durmo profundamente. Acordo uma hora
depois, sonolento, vou com ele à portaria, regres-
so direto pra cama.
Quarta, cedinho, experimento... e já consigo fazer
o que antes não conseguia. O olho direito abre e
fecha, sozinho, ao meu comando. O sorriso ago-
ra menos torto. Terceiro e último dia da minha
licença, escondo minha agenda e, um tanto cul-
pado, aprendo relaxar. Alguma certeza, mais que
os remédios receitados e – lidas as bulas – criti-
camente não acolhidos, redescubro, meu melhor
remédio sou eu. Quero saúde, me cuido.
Quinta e sexta pela manhã a bioenergética facial
agora diária, a saudação ao sol – ioga singela.
Pra movimentar a área da boca mastigo chicletes
como nunca desde terça.A alimentação permane-
ce saudável. Água – que tomo pouco diariamente
– agora um litro e meio.
130 131
Eu, que me orgulho de não ter comprimidos em
casa – nem mercúrio cromo – procurei semana
passada um gastroenterologista, atraído pelas
orientações que deu ao meu filho mais novo e em
busca de mais informações sobre minha já incor-
porada prisão de ventre (associo: mau-humor,
enfezado, fezes). Dr. Hélio me falou da água, das
fibras. Pressão 11x7, batimentos 60. Tudo bem
pros meus quase 63 anos. Quando soube que fu-
mei brabo dos 10 aos 50, sugeriu exames: raios-x,
sangue,ultrassonografia prostática.Os resultados
dizem que está tudo certinho.Também tenho me
cuidado, especialmente com o que aprendi com
mamãe, Ana, Regina e Romel. Alimentação leve,
bebidas – álcool, refrigerantes – só eventualmen-
te. Todo dia, ou quase, 15 minutos de ioga, respi-
ração mais funda, movimentos bioenergéticos, al-
guns quarteirões a pé. Mas se subo escadas, arfo:
sequelas da Souza Cruz, a que fabrica morte por
meio de cigarros.
Falo pra mim: moral da história, a vida é curta,
curta a vida, tento curtir a vida. Maior obstáculo,
as culpas sem sentido.
15
talvez
Abstraio o tempo
Antecipo o futuro, vivo agora o que desejo. Mas
hoje foi ontem:
hoje tento separar minhas neuroses das de ou-
tros. Não posso viver o que não é meu. Isto tem
sido aplicado no meu dia-a-dia atual.No trabalho
especialmente. É que a instituição em que vivo
está confusa, insegura. Não tenho informações
suficientes para avaliar. Quando falo eu talvez re-
presente nós.
Sei que os dirigentes não tomam conhecimento
do que realizo. E assim não recebo reconheci-
mento. Como tenho estado seguro em relação ao
que crio e faço, vou em frente. Arrisco. A ética me
guia.A missão da instituição me facilita: trabalho
pelo bem-estar de menos favorecidos, articulo re-
des comunitárias,fomento circulação de informa-
ções de interesse coletivo.
132 133
Talvez algumas causas da insegurança institucio-
nal estejam na sua cúpula. Tudo talvez: briga de
cachorro grande pelo poder? Que inclui interfe-
rir no cotidiano e no futuro de mais de mil fun-
cionários, no destino de centenas de milhões de
reais – dinheiro público – disponíveis anualmen-
te, na utilização da infraestrutura física e técnica
construída nos últimos sessenta anos. Periga a
credibilidade, interna e externa.
A rádio-corredor traz notícias, saiu ontem o di-
retor-geral, entra o terceiro deste ano. Neste mais
de 8 anos aqui, não conheço um funcionário pró-
ximo que tenha tido acesso humanista ao presi-
dente. Um e outros funcionários são demitidos.
Tudo isto sem nenhum comunicado ao conjun-
to dos que trabalham. Se as avaliações são pelos
erros, “melhor nada fazer”. A sensação é de des-
proteção, menosprezo. Parece que a insuficiente
inteligência emocional da cúpula estimula o de-
sequilibro do corpo da instituição. Interrupção
brusca de projetos, ausência de definições, corte
nas comunicações humanas são base para insegu-
rança e desmotivação crescente.
Ficam dúvidas: como pode um diretor geral com
formação em finanças – pressupõe-se interesse
prioritário pelo lucro financeiro – cuidar de uma
instituição cuja missão visa lucro social? Como
pode uma instituição com fins sociais ter um
fabricante e comerciante de bebidas alcoólicas
como seu presidente?
Talvez até estejam sofrendo lá em cima. Nem
posso ser solidário se nada sei. Talvez não saibam
que sua função é servir ao público, facilitar o tra-
balho dos que comandam.
Talvez, também, esta insegurança coletiva esteja
contribuindo para o afloramento de doenças em
outros, como em mim.
E talvez um ou outro – cada um dos funcioná-
rios? – não esteja exercendo a responsabilidade
incômoda de expressar juntos seus incômodos.
134 135
oito, a roda se amplia. O cheiro da fruta, os tons
amenos das vozes, o sentarmos no chão, cada de-
talhe contribui um tanto pra estarmos à vontade.
Chegam mais duas e são acolhidas.
Quem deseja propor uma brincadeira leve, rápida?
Um fala o próprio nome e o nome de outro que
conhece e está na roda. O que foi nomeado fala
seu próprio nome, diz quem o nomeou anterior-
mente e acrescenta o nome de outro que também
está na roda. E assim por diante, sempre repetin-
do todos os nomes já falados e acrescentando ou-
tro. Um esquecimento aqui, uma ajuda ali, todos
ou quase todos memorizaram os nomes de todos
ou quase. Antes houve consenso, não precisáva-
mos saber o que cada um faz, de onde veio. Está-
vamos à procura do que somos.
Alguém se lembra das combinações da Terapia?
Falar a partir da própria vivência, a partir do Eu.
Não vale julgar nem dar conselhos. É um espa-
ço para compartilhar questões que afligem ou
alegram cada um. Não é um lugar para segredos:
segredos não compartilhamos. É um espaço de
escuta – um fala de cada vez, outros escutam. Se
16
outro dia,
um como outro
Pela manhã
Esta semana enviei convites virtuais pra todos
que estão no catálogo do meu email Yahoo. Te-
rapia Comunitária quase todas as sextas. Michel,
com quem faço dupla normalmente, está fazendo
oficinas do Rio Abierto na Rússia. Levanto cedi-
nho, pernas pra cima, saudação ao sol, no cami-
nho compro tangerinas, tomo café com leite, pão
com manteiga.
No espaço parceiro – o Centro de Movimento
Deborah Colker – duas moças já chegaram. Va-
mos pra sala, conversamos um pouco, falo das
redes comunitárias, do sempre presente emocio-
nal como pano de fundo, dos encontros METS
– Movimento Emocional e Transformação So-
cial –, da dica da Maria Teresa Maldonado sobre
Adalberto e a metodologia que construiu. Outras
pessoas chegam, já somos sete, mais um pouco,
136 137
alguém se lembra de uma música – ou provérbio,
ou causo ou piada – pede licença e apresenta...Po-
demos combinar assim? Se um de nós se esquece do
combinado, lembraremos...
Imagino que outros, como eu, se acalmam ao to-
marem antecipadamente conhecimento da pauta.
Todos confirmam, querem saber. Sintetizo a se-
quência, prevejo o tempo que estaremos aqui. E
início a próxima fase: Quem deseja compartilhar
algum incômodo ou alguma alegria?
Uma mulher compartilha. Aposentou-se há dois
meses, está em processo de busca de satisfação
maior no viver... Anoto, sintetizo o que compre-
endi e lhe pergunto se esta síntese traduz o seu
sentimento. Depois de duas ou três tentativas,
chegamos: O que vou fazer agora de minha vida?
Cada um de cada vez, os que desejam, fala um
tanto do que lhe incomoda e, com o auxílio de um
ou outro, constrói uma síntese da sua questão.
Outra mulher se pergunta como praticar sua teo-
ria.E o resumo: Angústia pela procura de satisfação
em minha vida. E mais outra fala do Medo de sair
da zona de conforto e ser feliz com coisas novas.
Alguém, 45 anos, filha mais velha dos seis filhos,
única solteira e que permanece em casa: Sofro com
a dificuldade de relacionamento com minha mãe. Os
rostos e movimentos à volta expressam identifica-
ções. Outra se expõe: Não consigo não atender às ne-
cessidades da minha mãe. E mais outra: Como preser-
var meu espaço, tendo que agora cuidar da minha mãe?
Entramos na fase da escolha do tema que juntos
cuidaremos. Cada um pode votar somente uma
vez.O tema escolhido será aquele com quem mais
de nós se identificar neste momento. Relembro
todas as sínteses das questões apresentadas. Você
pode votar em qualquer tema, inclusive o que você
própria apresentou. E repito um a um, para vota-
ção. O tema é escolhido: Sofro com a dificuldade de
relacionamento com minha mãe.
Agradecemos àquelas que expuseram seus sofri-
mentos, lembramos que, se desejarem, poderão
reapresentá-los nas próximas rodas. E que esta-
mos disponíveis para conversas individuais, logo
após o presente encontro.
138 139
Pedimos então a quem nos trouxe o tema esco-
lhido que nos conte mais sobre seu sofrimento. E
ela detalha, focada em seus próprios sentimentos.
Perguntas são feitas, em tentativas de despertar,
em nós todos, compreensões mais profundas. Sua
emoção estimula que nos aproximemos, fechan-
do bem a roda. Alguém sugere e, abraçados, ba-
lançando, cantamos juntos uma cantiga de mãe,
e mais uma.
Lançamos uma pergunta-chave, procurando am-
pliar o tema: Quem de nós sentiu dificuldades em
relacionamentos com pessoas próximas... e pode con-
tribuir expondo o que aprendeu desta vivência?
Uma participante conta sua história, suas dificul-
dades com a mãe, as transformações do relaciona-
mento após conversas sinceras, o alívio.
Outra da roda fala de si, da mãe solteira em am-
biente religioso conservador, do casamento ne-
cessário, do padrasto bruto, de sentir-se ameaça-
da por abuso, de não sentir-se amada pela mãe,
da sua própria dificuldade em conversar com ela
e das mudanças positivas no relacionamento que
ocorreram a partir da saída da casa materna. E
como esta nova situação facilitou aproximações e
reconhecimentos.
Mais alguém relata a satisfação da mãe, de origem
humilde,com a formação universitária da filha,ao
mesmo tempo em que ainda a via como a garota
de quinze anos que andava com ela de braços da-
dos. Fala das diferenças e dos transtornos. E de
como as conversas francas facilitaram o aprofun-
damento das suas relações. E uma mulher fala do
que viveu e aprendeu.
O clima de agora já é diferente do início. Os olha-
res são mais ternos.Há algo como solidariedade no
ar. Somos vários, como se fôssemos também um.
Levantamos e, à pergunta Que estou levando da-
qui?, uma fala do sentimento de solidariedade,
outra de amor, outro de algum alívio de culpa,
e mais outra de como se sente bem em estar
aqui... Alguém inicia A minha mãe, é mãe soltei-
ra... mamadeira, todo dia... trabalha como empa-
cotadeira, nas Casas Bahia. O ritmo chega aos
corpos, uma ciranda é lembrada, dançamos em
140 141
roda... e com calma nos despedimos, cada um
de um e outro.
Emoções de todo dia
À tarde, Jun e o filho, Mitsuhito, chegam alguns
minutos depois das três. Apresento superficial-
mente as câmeras gravadoras e lá vamos de táxi
em direção à casa de atendimento comunitário
aos pés do Turano, no Rio Comprido. Mitsu
prepara sua câmera fotográfica, Jun a dvcam, eu
a também pequena hdv. Converso com duas es-
tudantes de psicologia. E com nossa anfitriã, que
todo dia ativa a casa. Chegam algumas senhoras
moradoras da comunidade... Depois Alex e San-
dra, responsáveis neste dia pela Terapia Comuni-
tária. Somos em torno de dez pessoas.
Entre os problemas, a votação maior definiu o
escolhido. Uma senhora, em lágrimas, relata seu
sofrimento com as vidas de seus dois filhos. Um,
na ilegalidade, foi morto pela polícia. O mais
novo, preso por motivos semelhantes, não retor-
nou à prisão quando foi liberado para visitar sua
família. Permanece ilegal. Enquanto preso, a mãe,
mesmo passando constrangimento, o visitava o
tanto permitido. Ela sofre também por não ser
reconhecida e valorizada pelo filho vivo.
Ao final, como tenho vivido em sessões de tera-
pia comunitária, os abraços, olhares e conversas
traduzem os sentimentos, a solidariedade. A mãe
sofredora se declara confortada, mais animada.
Vamos em paz.
No dia seguinte
Na minha formação, uma vez por mês participo de
uma intervisão, sábado inteiro. Pela manhã, muitas
vezes, um convidado fala sobre algo novo para nós.
Anteontem conheci um tanto de Equipe Reflexiva,
uma ideia e prática original de Thomas Andersen.
Do que entendi, enquanto uma família é atendida
por um terapeuta, outros terapeutas observam em
silêncio e refletem. Os dois grupos trocam de posi-
ções, se a família deseja. Os que observavam falam
entresidassuaspercepções,enquantoafamíliaagora
osobserva.Finalmenteosmembrosdafamíliafazem
seus comentários.É um processo reflexivo.
À tarde, roda de terapia comunitária. Alguém
apresenta sua dificuldade quanto à presença de
142 143
público nas rodas que realiza. Outra fala da sua
dificuldade no relacionamento com a filha adoles-
cente. Esta última foi o tema escolhido, houve um
maior número de pessoas que, por se identifica-
rem com ele, nele votaram.
A mãe detalha, responde a perguntas, se emocio-
na. Fala da sensação de perda do amor materno,
da vontade de matar, intercala choro e desabafo.
Depois, em silêncio, escuta experiências compar-
tilhadas por uma ou outra mãe presentes. Duas
filhas contam, sob outro ângulo, o que viveram de
semelhante. Por duas vezes, dor de barriga, a mãe
na berlinda vai ao banheiro. O corpo fala. Volta,
escuta, compreende um tanto, sorri entre lágri-
mas, se acalma.
Na roda de despedida, músicas e o que levo daqui.
Olhares complementam as palavras. Os gestos
expressam afetos. Mais próximos do que antes,
nos despedimos com abraços.
17
pausa
Horizontes
Lá na frente, como me vejo? Fecho os olhos, me
sinto adolescente. Abro, a imagem me choca, um
velho. Quem é este homem maduro, enrugado?
Sei que agora não me reconheço ao espelho.
Hoje
Ou ontem, amanhã, o tempo se dilui em minha
memória frágil. Meu sofrimento hoje é alguma
tristeza difusa, talvez profunda atrás deste meu fa-
zer vídeo,fazer livro,fazer encontros de terapia,fa-
zer,fazer.Talvez esta irritação na garganta expresse
o incômodo que sinto e do qual não me aproximo.
Se a vida, o mundo, é um palco enorme, em cada
espaço algo acontece. Como atos de teatros. Aqui
e ali um nascimento, uma morte, uma dança, tiro-
teio, um canto, um olhar, um desvio, choro, sorri-
so, arrepio, descanso, tensão, medo, uma criação,
destruição, solidão, um conforto, desconsideração,
solidariedade.
144 145
Quando sou o ator, tenho escolhido neste palco o
bem-estar que suporto. Quando espectador, uma
vez visto, internalizo, não releio notícias, desgraças.
Minha referência tem sido meu humor.Se bem hu-
morado, é por aqui. Se mal-humorado, não.Tenho
cuidado de me compreender. Já sei que meu gosto
pelo outro passa pelo meu gostar de mim.
Em casa, nenhum remédio. Nem comprimido,
alémdaMaravilha Curativaquecicatriza,nenhum.
Muito de vez em quando, como estes últimos dias,
um sinal. Como esta irritação de garganta, um iní-
cio de catarro, remelas ao acordar.Talvez meu cor-
po expresse algum sentimento contido. Desconfio
de tristeza. Há alguns dias, a maior parte de mim
não deseja encontrar-se com ela.
18
juntomisturado
Simples assim
Homens hipnotizados passam agora correndo em
frente. Cantam firmes, uníssonos. Dentre os ver-
sos escuto ...É a vontade de matar... Escolheram a
morte como meio.Pra deles me defender,tento en-
tendê-los, olhar com seus olhares. Sinto medo dos
seus medos. Pressinto que por medo, atiram. Suas
ações nascem das pressões que internalizaram – as
ordens, os castigos, suas missões – e do medo de
sofrerem. E ainda ganham medalhas e parabéns.
São, somos, sou o mesmo guerreiro de ontem e
de hoje. Têm, temos, tenho um tanto da idade da
pedra.Repetem,repetimos,repito os bárbaros,do-
mino mundos e perco guerras no interior de mim
mesmo.São,somos,sou semelhante a soldados hu-
nos, persas, egípcios, romanos, espanhóis, ingleses,
alemães, americanos. Seus, nossos, meus medos
têm raízes em minha infância, são reforçados na
adolescência, enrijecidos agora adulto. Seus, nos-
sos,meus horizontes são curtos.Imagino a atenção
146 147
constante, o inimigo em cada lugar, cada desco-
nhecido uma possível vingança. Quando matam,
matamos, mato o outro, mato um tanto de mim.
E não percebem, não percebemos, percebo. Como
quando elevam, elevamos, elevo o outro, a mim
elevo. Parafraseio Laing. Alguém me ama, me acho
bom. Alguém não me ama, me acho mau. E lembro
Lennon, all we need is love. Love is all we need.
Empírico, sei, quem apanha em casa é quem mais
briga na rua.
Tudo começa em casa: Winnicott tinha razão?
Perguntas que me faço...
Em cada outro, um pedaço de mim?
Em cada pessoa, um tanto da minha pessoa?
Quando percebo algo no outro,
é algo que já conheço? Em mim?
	
Livre arbítrio, o que é em mim? Pratico?
Ética, o que é em mim?
Quando não fui ético?
Afeto, o que é em mim?
Sou afetuoso com quem desejo?
O mundo anda enquanto paro?
E o amor, o que é o amor?
Como descrever o gosto da banana? E o gozo, pra
quem não gozou? E o amor, se só vislumbro?
Desconfio que estou amando quando desejo para
o outro o que, lá no meu profundo, desejo pra
mim. Se é assim o amor, meu amor é nosso amor.
Meu amor é como um reflexo.Sou espelho do que
recebo e percebo. Sou amado pelo que ofereço.
Talvez eu saiba o que o amor não é. Não possuo
nem sou possuído. Não limito nem sou limitado.
Meu amor não é excludente. Amo um e uma e
amo outros. Amo a mim, amo aqueles que dese-
jam pra mim o que desejam – lá nos seus profun-
dos – pra si mesmos.
Só amo outro quando amo a mim. Sou dou o
que tenho.
Anos depois, leio Contardo Caligaris e me iden-
tifico: Eu não tenho ciúme. Se alguém que eu amo
148 149
me deixa por outro, eu me desespero como todo mun-
do. Mas se alguém que eu amo, sei lá, está viajando,
continua me amando, mas tem a oportunidade de se
divertir com outro parceiro por um par de dias ou de
semanas, eu fico feliz por ela.
Pergunta que, sei, só devo fazer ao espelho: que
você quer que eu queira, para eu querer?
E o livro?
Alguém já disse que o escultor, pra realizar sua
obra, vai retirando do objeto bruto o que está em
excesso. Constrói pela retirada. Disseram tam-
bém que escrever é cortar palavras.Tentei. E foram
tantos cortes que a prosa tomou forma de poesia.
A poesia, cortada, virou o que? Haicai? Mas se
enxuto este que imagino haicai, sobra o silêncio.
Agora tento de novo, cortando menos, na espe-
rança que cada leitor edite. Assim como acontece
comigo, fico de cada leitura somente com o que
me toca.
O que posso me dizer?
Quantomaismaduro,melhormesinto.Soucentro
do meu universo.A vida é um fluxo variado.Cuido
de mim.Meu humor é um indicador.Quanto mais
faço o que quero, melhor pra todos.
Ando cheio de sabedoria. Quando tropeço, duvi-
do. Se atento,aprendo.Desatento,tropeço de novo...
E o Tao Te King?
Eu gostaria de ser sábio a ponto de conhecer a
mim mesmo. Tão forte que capaz de me domi-
nar. Rico, rico de viver contente. E terno, eterno,
transcendente da morte.
E sofrimentos?
Eu sofro porque desejo? Eu desejo porque sinto
falta? Minhas faltas onde nasceram? O que eu ti-
nha que não tenho?
Cinema e vídeo
Na década de 70, operário de cinema, exerci fun-
ções variadas. Como voluntário, no escritório dos
Barreto, atento ao tudo novo, bolei e pratiquei
controles administrativos. Depois, em Perdida, de
Carlos Alberto Prates Correia,aprendi direção de
produção. Generoso, Carlos Alberto abriu portas
e janelas. Pratiquei assistência de montagem com
150 151
Amauri Alves e Eduardo Escorel, no Guerra Con-
jugal, de Joaquim Pedro. Cada corte, muito traba-
lho manual.
Frequentei anos a Mapa, produtora de Zelito
Viana, desde os tempos da Urca. Na Embrafilme
fiqueiàdisposiçãodeRobertoFariase,nosetorde
rádio e televisão, sob o olhar da Martha Alencar,
dirigi – hoje sei, sem estar preparado – o Coisas
Nossas, programa com exibição de documentários
veiculado pela TVE. Lá, por um ou poucos dias,
fui assistente de som do Jorge Amado, documen-
tário de Glauber Rocha. Participei também da
sua montagem,também como assistente.Glauber
chegava, orientava Carlos Cox – o montador – e
voltava depois. Os neurônios da memória salti-
tam. Fiquei sem voz ao dar de cara com Caetano
no corredor. E, tão fã, ao invés de me aproximar
de Gil, fotografei.
Tive uma câmera VHS, daquelas ligadas por um
fio à unidade de gravação. Minhas mãos eram
muitas para – simploriamente, apaixonadamen-
te, inocentemente? – produzir e gravar o que me
atraia.Cenas familiares,movimentos e,no campo
psi, vivências, simpósios, depoimentos, entrevis-
tas. Com dinheiro curto, me limitei ao possível.
Utilizava copiões – cópias para trabalho, feitas
a partir das fitas originais – para assistir repeti-
damente o que havia gravado. Selecionava, rotei-
rizava. Alguns documentários ficaram prontos.
E cópias, feitas por empresas especializadas. A
capa, embalagem, distribuição, presenteios e ven-
das, mão-a-mão apoiado por amigos. Um tanto
assim até hoje.
Sempre me propus conteúdos atemporais. Com-
preendi que qualidades técnicas contemporâneas
estavam fora do meu alcance. As formas, as mais
simples. Câmera na mão ou fixa. Cortes secos, fa-
des out e in.
Comprei uma Canon 16mm,emprestei.Roubada
no local da filmagem, fui ressarcido em prestações
mensais. De outra vez pedi a um amigo que es-
tava vendendo sua própria câmera que também
vendesse a minha SHVS. Um comprador se in-
teressou, propôs depositar o valor. Voltou com o
recibo do banco, levou a câmera. O cheque depo-
sitado era roubado... Sonhos interrompidos.
152 153
Tempo passado, mergulho na terapia comunitá-
ria. Horas e horas de gravação, agora com uma
HDV Canon pequeninha, sugerida pelo Elizeu
Ewald, pioneiro em tecnologias virtuais. Medos
semelhantes aos de trinta anos atrás se aproxi-
mam de mim. Mas aprendi que prazos me angus-
tiam... e já não me imponho datas nem socieda-
des. Está quase se tornando um prazer, o fazer.
Aprendo.
Rico
O que desejo pra mim é o que desejo pra ti. Eu,
aqui, agora no processo de aprender a estar con-
tente. Rico por viver contente. Este o desejo.
Decisões Indecisas
Gostei da ideia. Decretos pessoais. Avalio melhor
que ninguém meus próprios desejos e viabilida-
des. Determino a mim o que faço ou não. Come-
ço pequeno. Hoje fico mais meia hora em casa pra
escrever.
Cumpro a missão da instituição que me contrata
– contribuir pro bem-estar dos menos favoreci-
dos. Coincide com o que desejo, me alegro: inda
me pagam pra trabalhar no que gosto. Tenho este
olhar internalizado como sentimento. Faço o bem,
não olho a quem, mesmo fora da hora. No banho,
na cama, no trabalho, na rua, em qualquer lugar
– quando relaxo – fica tudo um tanto mais claro,
as soluções se desvendam. Estou tranquilo. Uma
contabilidade cósmica indica justo equilíbrio.
Escolhas
Os custos de controles invadem orçamentos.
Controle significa instrumento de domínio. Con-
troles me enfraquecem. Mas quando eu gosto do
que faço, faço o que gosto, pra que controle?
Imagino-me suprido, desde aquela explosão de
afetos que me gerou. Papai e mamãe se olham e
seus olhares são ternura e tesão. Calmamente se
sentem,se tocam,têm o tempo como amigo.Mer-
gulham no barato que vivem, se babam, se riem,
arrepiam. O prazer toma conta, gozam. Passa um
tempo... E lá venho eu, energias misturadas, em-
brião, parte de cada um.
Cresço cuidado, descubro o mundo, me cui-
do e partilho. Desejos e sentimentos vêm e vão.
154 155
Aprendo transformá-los e a mim, como cachoei-
ra em luz, ventos em ondas, trovões em matérias.
Compreendo lá dentro, desfaço mal-entendidos,
me supro cada buraco em cada momento. Não
carrego vazios. Nada possuo além de mim mes-
mo. Sou inteiro. Componho o mundo, sou parte
e sou todo. O que percebo fora é o que reconhe-
ço porque sou. Não desejo possuir o que é parte
de mim.
Sou também vegetal quando como. E sol quando
me esquento e brilho. E o ar que respiro, a água
que bebo. Internalizo e reflito o olhar, a emoção, o
pensamento que recebo.
Produzo o que preciso, supro outros como sou e
fui suprido.Pertenço ao mundo sem ser possuído.
Decreto pessoal: sou livre.
Vago
Tudo me leva a crer que o mundo será o mesmo
sem mim. Já meu mundo existe em mim, sou cen-
tro do meu universo. Só me resta viver.
Étãobomestudarsemterquefazerprovas,escrever
despreocupadodenotas.Mascomonãoferiraquele
a quem minha escrita porventura se refira?
Sentimentos de tristeza me assaltam se me toco
do que fiz no impulso, como ontem, quando
pressionei um jovem mendigo aidético: se é lá sua
terra, se é lá que tem tratamento gratuito, volte pra
lá. Constante no diálogo uma mistura de minha
impotência e raiva, atrás do meu aparente afeto e
desprendimento.
Saquei que associar alegria a castigo me dificulta
viver o prazer. Agora todo dia enfrento medos e
culpas. Quando venço, rio, me alegro, gozo.
Outras vezes, quando transo, cultivo o pra-
zer d’agora, evito o orgasmo. Permane-
ce um quente no corpo, uma animação su-
til, ausência de ânsia, pronto pra outras.
Um tanto tantra. A meta, se existe, é o prazer du-
rante, não o orgasmo ao final.
Por outro lado, esta sensação dejavu volta e meia
me lembra do que antevi. Pressinto o que vem.
Sinto uma ponta de tristeza quando com ironia
156 157
sou chamado de poeta, filósofo, doidão. Sinais
que estimulei defesas, não fui entendido. Sei que
o sonhar, o imaginar – mesmo não conscientes –
antecedem em mim cada realização. Meu mun-
do é feito a partir de meus sonhos, imaginações.
Sonhos podem ser leves. Se pesados, pesadelos.
Como escolher sonhos leves?
Se durmo de barriga cheia, é batata, pesadelos.
Mas com a digestão já tranquila – e a cabeça no
travesseiro, os olhos fechados –, se me volto pra
agradáveis lembranças, imaginações prazerosas,
batata!, leves sonhos. Toda noite – só quando
consciente do que faço – escolho.
Perdi minha vida por educação.Verlaine? Algumas
vezes leio só passando os olhos, outras tento en-
tender tudo. Se atento demais, fico tenso, vou e
volto, às vezes entendo, fica ou não fica.Tenho me
permitido ler mesmo sem entender tudo. Sinto
que mais que só algo permanece. Salteio páginas
de Freud, me atenho ao que me toca. Passo os
olhos em quase tudo que me cai em mãos.
Já não sei de quem vieram – se de um ou outro,ou
desconhecido ou de mim ou de nenhum – estes
entendimentos que já fazem parte de mim. Já fo-
lhetos, folheio. E se uma palavra, uma frase, uma
ideia me desperta um sentimento, vem a curiosi-
dade, leio. E quando me toca, cresço. Dos livros,
também, adoro orelhas: às vezes fico só nelas.
158 159
Dados de realidade, nem eu nem ninguém que
conheço tem só as qualidades que me atraem.
Sempre uma mistura de atrações e recusas. Sinto
também que não devo, antes de conhecer, definir a
quem procuro. Devo então permanecer atento aos
sinais em mim. Os batimentos do coração, as li-
vres associações, os atos falhos, os sentimentos. Se
quero e me permito despertar variações, já sei, um
filme bom, uma festa, alguns arriscos. Reconheço,
dá trabalho me manter vivo como me gosto.
Ao editor
Imaginei um espelho como capa do livro. E as
páginas iniciais brancas, como um caderno novo
disponível pro leitor. O formato, de bolso. Ou
aquele que facilita xerox? Letras de forma e ta-
manho que facilitem a leitura. Aquele papel meio
amarelo claro. Textos enxutos, conteúdos e esti-
los variados, mistura de subjetivo e objetivo. Ora
ficção, ora realidade. Entrelinhas que estimulem
atenção. Em algum momento a sugestão: leia aos
poucos, em momentos calmos. E > é permitido
acrescentar, reproduzir e distribuir para fins
humanitários. Um livro como um meu retrato, o
meu eu idealizado.
19
manual de manutenção
Se a vida é uma escola, qual meu dever de casa?
Realizar meus desejos, ser sincero comigo, respei-
tar meus sentimentos? E na relação de namoro,
casamento?
Hoje uma tristeza que freia. Só, sinto falta do
aconchego, do calor, da doçura. Da calma, do
prazer que acalma. Sinto um desejo difuso, não é
claro o que desejo. Tento pelas bordas, pinço en-
tão o que não desejo – ser alvo de ciúmes, hora
marcada pra tesão, ser cobrado pelo que não sou
nem me comprometi.
Clareia um pouco, sei que quero do bom que pro-
vei,usufruí.Ser desejado pelo que sou,como dese-
jo pelo que é. O mel do beijo quente, ativo. O arre-
pio do olhar, do toque. A sensação de eternidade,
ausência do tempo. A pulsação, em que do nada
me espalho em ondas. Nestes momentos, memó-
ria e futuro ausentes, só presente o presente.
160 161
Imaginei um livro como movimento. E um leitor
que simplesmente leia. Ou – se lhe convier – ao
se identificar, amplie, invente, acrescente e assine,
multiplique, distribua, de acordo com seus dese-
jos e possibilidades.
Gosto muito de uma regra de ouro, faça ao outro
o que deseja para si.
20
hoje, já passado
Pedaços
Não sei definir direitinho meu estado civil. Há
momentos em que sou maridão. Feira juntos, dis-
ponível na manutenção da casa, furadeira empu-
nho, retratos na parede, qual chá hoje? Relatos ao
telefone,TV cedinho, só vou se você for, o que você
quer pra que eu queira. Canso, sensação de aprisio-
namento,de viver uma vida que não é minha.Gota
d’água, me rebelo. Volto pra minha base solitária,
repito, invento, reinvento rotinas. Viro namorado,
duas vezes por semana. Cinema, passeio, cada um
cuida do que se propõe, volto aos meus projetos,
escrevo, gravo, alguns encontros com amigos. Em
intervalos, sentimentos de solidão.
#
Tudo muda a cada instante, também sei. Não sei
definir com precisão minha profissão. Leio com
frequência. Na cabeceira literatura psi, romances,
esporadicamente livros técnicos, revistas. Jornal,
uma vez por semana? Vejo um bom filme, leio
162 163
algo que me fica, sei de uma notícia interessável,
falo com um e outro, reproduzo, distribuo, imeio.
Penso como rede. Raciocínio inverso, a partir dos
objetivos, planejo de lá pra cá. Há muito tempo
tinha vergonha de falar o que pensava. Terapia,
convivência com gente mais resolvida que eu,
leituras, dois passos pra lá, um pra cá, ampliei
no meu tempo minhas limitações, comecei a me
expressar. Hoje primo por livres associações,
ora foras, ora dentro em cheio. Se me incomoda
o incômodo de outros, tento distinguir o que é
meu, o que é de outros. Sei que me sinto vivo
quando vivo o que escolho, o que sou eu.
#
Um ontem, gravei em Barra do Piraí um encontro
de terapia comunitária. Paula, a terapeuta. Praça
principal, gente mais velha, o tema escolhido foi a
preocupação com os filhos, mesmo os já adultos.
É um que bebe e fuma, outro que anda de moto-
cicleta, chega tarde e assim vai. Uma senhora se
emociona ao relembrar a recente morte, AVC, de
pessoa próxima.Alguém inicia uma música, abra-
çam-se em roda, balançam enquanto cantam, tro-
cam olhares compreensivos, ternos. Um ou outra
que permanecia mudo se expressa, ainda tímida,
voz baixa, bota pra fora o que lhe incomoda. Uns
quantos chegaram solitários, partem agora um
tanto solidários.Sexo não tem idade.Sexualidade.
#
Semanas passadas.Vem se acumulando uma sen-
sação de excesso de compromissos comigo mes-
mo. Iniciei semana passada o que imagino uma
série de entrevistas. Luiz Soares é um morador
de Manguinhos, comunicador ativo, leva-e-traz
informações que beneficiam os que ouvem, nos
encontros comunitários que participa. Já o vi, dis-
creto, atento, em meio a muitos, nos cantos das
telas, em três documentários recentes que assisti.
Segunda por volta das nove nos encontramos
aqui em casa, de frente um para o outro, um em
cada cadeira, uma câmera nele, outra em mim.
Fala do que é, do que faz, dos planos. Invertemos,
ele me entrevista, conto o que imagino sou, faço,
da terapia comunitária. Trocamos de cadeira de
novo,ele desfia realizações que têm dado certo em
comunidades menos favorecidas, frutos de inicia-
tivas de moradores locais. Aventamos também
164 165
entrevistá-los aqui, nas semanas vindouras. En-
trego as fitas gravadas, brutas, para ele. Mostrará
para amigos da TV Comunitária – canal fechado
da net – com a intenção de, juntos, editarem e
veicularem. Dois dias depois já me informa en-
controu interessados e que em vinte e cinco dias
terá resposta.
Anteontem contei para Evandro Ouriques, da
Escola de Comunicação da UFRJ. Combina-
mos entrevista daqui a duas semanas. Antes eu
já havia comprado alguns equipamentos comple-
mentares, alternativos, baratos: dois rolos de chro-
makey,duas luminárias-tipo-panelas de alumínio,
lâmpadas fluorescentes e mais umas coisinhas pra
montar um estúdio caseiro aqui no que é meu
teto. Busquei dicas com quem sabe. A câmera
dvcam de Michel permanece comigo, Pedro meu
filho me informa dos softwares, Jorge Rodrigues
ternamente se oferece e constrói os materiais que
tenho me permitido aceitar. Como uma sopa de
pedras. Sementes de programas de tv?
21
insights?
Volta e meia meu corpo me avisa pr’eu me cuidar.
Bom menino, quando escuto meu corpo, relaxo
sem culpa. Meu corpo é, às vezes, uma mãe...
Tenho me sentido no limbo. Sabe o que é limbo?
No catecismo, quando perdi minha inocência,
aprendi que o limbo é aquele lugar pra onde vão
os anjinhos,as crianças que morrem sem batismo.
Lá, do que entendo, é vazio, é um nada. Meu lim-
bo atual é este não saber quem sou, onde estou,
de onde vim, pr’onde vou, que desejo. Como não
sei, permaneço...
Minhas realidades pouco a pouco se enevoam...
e eu gosto. Não sei descrevê-las, tudo um tanto
difuso. Sigo a intuição, quase o impulso, mesmo
sabendo que não sei. Tá vendo? - brincadeira -
imagino além de mim, outros. Os objetos têm
perdido antigos sentidos de suprirem vazios.
Saem os objetos, ficam os vazios, pelo menos não
166 167
me engano. E o melhor, tenho me sentido melhor.
Paralelo, o pique corporal diminui, os desejos, a
ansiedade também. Serei o santo que desejei ser
quando perdi a inocência no catecismo?
Pois é, sinto que a vida é o que sinto. Volta e meia
me pergunto o que está ao meu alcance...e me sur-
preendo com o que posso fazer por mim mesmo.
Esta foi mais uma vez em que perdi outra inocên-
cia: se não cuido de mim, quem cuidará? Quando
tento olhar com os olhos de quem me cuidou ou
cuida, minha mãe por exemplo, desconfio que o
outro - ela - vive tantas questões pessoais que não
conseguiu resolver... Quando, assim, sinto com-
paixão por ela, me permito compaixão por mim
mesmo. Se minha mãe foi não perfeita - nem meu
pai, meus modelos - como eu?
Aí então me pergunto: o que está ao meu alcance
fazer por mim? Viver contente? Rio, rio, rio... e
não sei por que. Acho que tou no caminho cer-
to. Tudo muito novo, pra mim, isso de alimentar
alegria. Rio de mim? E se rio do outro, no fundo
rio de mim?
22
ficção, desarrumações
Falo das qualidades do produto, desperto seu
desejo. Omito quanto ganharei de você pelo que
agora lhe vendo. Sou esperto, mais ainda porque
lucro muito. E você ainda me valoriza pelo que
acumulo. Deseja ser rico como eu.
Já nem preciso de tanto. Gasto muito de mim na
conservação do que estoco. Nem tenho prestado
atenção nestas contradições que o excesso me pro-
voca. Ser rico dá trabalho. Fico de olho em outros
que agirão como eu se tiverem oportunidade.Gen-
te que volta e meia muda as regras. Ou transgride.
Eu mesmo tomo minhas providências, quando a
lei não é suficiente. Não tenho muitas dúvidas.
Insônia,gastrite,hipertensão,estas dores é que me
atrapalham. E os pesadelos, os sobressaltos? Não
tenho podido usufruir do que possuo.Tanta gente
próxima pelo que tenho, que já nem sei quem me
ama pelo que sou. Minha prática em mentir nos
negócios é que me protege um pouco: reconheço
168 169
logo quem também mente.Mas não tenho amado,
desaprendi reconhecer quem me ama.
Tem também estas coisas que acontecem e não
entendo. Lembro uns pedaços do que sonhei esta
noite. Uma mistura de quente e frio, vendavais,
maremotos, calmarias. Túneis, desertos. Névoas
e sol a pino. Ora era eu o ator, ora desconhecidos.
Minha mulher me disse que suei, gritei, chorei e
ri. Tinha pela frente uma encruzilhada quando
acordei com o toque dela. Ficou esta dúvida do
que fazer com minha vida. Ai que saudades de
minha inocência.
23
sensação de juventude
Isto de sensação de vitalidade, sinto que tem
a ver com minha constante tentativa de fazer o
que meu coração diz. Desde que me lembro.
Mudanças de rumo, cidade, profissão, um tanto
incompreendido, outro tanto aceito. Agora mes-
mo, estável na multiplicidade do que faço, inven-
to, uma recorrente vontade de simplificar o ser e
o fazer. Neste agosto de 2008, crente na criação
de um sistema mutante de comunicação, de um
lado ligado numa rede autônoma de agências de
inFormações – jajá me explico – e de outro, sob o
mesmo guarda-chuva,em plena produção de uma
série de classificados sociais em vídeo. Além das
Terapias Comunitárias, rodas práticas e vídeos.
Tudo considerando o processo que vai da ideia
à interação, passando pela preparação, produção,
gravação, edição, divulgação, veiculação, retorno.
Considerando os recursos que disponho ou te-
nho acesso. Tudo muito singelo.
170 171
Sou uma peça de movimentos de pessoas com de-
sejos comuns.Funciono a partir da participação de
quem deseja e toma iniciativa de contribuir com o
que escolhe. Tudo muito aparentemente confuso
como qualquer movimento, onde equilíbrios se
dão de maneira dinâmica, em espiral, em ondas
que vêm e vão, desaparecem e renascem. Caos que
antecede ordem que antecede caos. Movimento
talvez semelhante ao que compreendo como tese,
antítese, síntese. Sem metas quantificadas, só ob-
jetivos difusos,uma vez que,se sei,talvez saiba um
pouco do que não sei, do que não desejo. Aspiro
este bem-estar que volta e meia sinto, indefinível
como o gosto do pequi e como a sensação que me
inclui no todo. Assim, nestes momentos, quando
desejo pra mim, desejo pra todos. Que não são to-
dos, é todo, é um, também eu.
Os produtos carregam as intenções, são partes
dos gestos. Parece confuso e é, enquanto não se
torna claro, o que depende de quem vê. Também
assim, cada olhar determina a realidade que lhe
corresponde. Até onde agora enxergo, a aceita-
ção de mim como sou – com as diversidades dos
meus instantes – pode ser caminho para a acei-
tação do outro? Este outro que faz parte do todo
do qual também participo. Se me aceito, tendo a
aceitar ao outro.
A livre associação me leva à dica de Gentileza, o
homem > Gentileza gera Gentileza.
Mas sou muito prático. Quando relaxo e me vêm
ideias, se uma ideia me toca, fica. Se desejo, ra-
ciocínio ao inverso. Relaciono o que é necessá-
rio para realizar o que agora é desejo. Decupo
em tarefas o que me leva à sua realização. Abro
colunas numa tabela. Além das tarefas, avento
os tempos, os custos, quem poderia se interessar
por realizar uma e outra, anoto observações. Dá
mais certo quando trabalho partes do meu ego,
já que lá mais fundo permanece um orgulho si-
lencioso pelo que contribuí.
Domingo chuvoso, escolho agora entre ler Caeta-
no Veloso – Verdade Tropical – e me mover para
rever Pedro, meu filho. Bom problema esta esco-
lha, ambos me surpreendem, confortam, alegram.
172 173
24
anotações
00
Emalgum momentopassado,remotoerecente,cada
letra, espaço, palavra, frase daqui. Em algum mo-
mento presente,já no futuro,mistura de tempos.
01
Quando escrevo, me organizo. Lembro o que sin-
to. Expresso meu mundo. Aprendo a me compre-
ender, me aceitar. Facilita aceitar o outro, diferen-
te de mim e um tanto semelhante. Escrever é um
risco. Arrisco.
02
Wilhelm Reich me ajudou a eu próprio me com-
preender, me aceitar, me desenvolver. O Combate
Sexual da Juventude me ajudou desculpabilizar-
-me em relação ao sexo. A Função do Orgasmo me
ensina como pode ser o processo. A Análise do
Carater me dá métodos de me cuidar. Tudo, na-
turalmente, do jeito que entendo a cada releitura.
03
A cartas trocadas por Ferenczi e Freud me ensi-
nam da amizade. Em cada consideração, algo que
um oferece ao outro e a mim.
04
Freud se humaniza quando se expõe. Isto de in-
consciente e consciente me faz pesquisador de
mim mesmo. Quanto mundo reconheço em mim.
05
Compreendi melhor Laing, a pessoa, no seu Fatos
da Vida. Sua dedicação ao acolhimento do outro
faz sentido com o que ele próprio viveu. Antes
ele tinha me tocado com o Laços. Ele fala de mim
quando fala do outro. Os chamados loucos têm
um tanto de mim. Eu tenho um tanto dos loucos.
Acredito que como todos, ou quase todos, nós.
06
Winnicott dedicou a vida à pediatria e à psica-
nálise. Tudo Começa em Casa é composto por
palestras que fez durante a vida. Cada capítulo
se completa em si mesmo. É um livro póstumo.
Mamãe já morreu, mas hoje aprendo a melhor
174 175
compreendê-la e amá-la com o que Winnicott
me oferece.
A comunicação permeia todo o fazer. Sua insu-
ficiência interfere nas relações. A partir daqui in-
terfere em tudo. A comunicação se dá com o ou-
tro e, indo fundo, consigo mesmo. O pensamento
já é mensagem.
Quando há realização de desejo de compartilha-
mento de informações, as comunicações se ini-
ciam. Quando eu próprio entendo o que comu-
nico – e o outro também – as comunicações se
animam. Quando eu entendo o que o outro me
comunica, as comunicações se completam.
07
Bubber me ensinou que quando vejo uma árvore
e percebo suas características – o caule, as folhas,
as raízes, as flores... – a árvore está fora de mim,
é um isto. Mas quando eu sinto a árvore, a árvore
sou eu, somos eu-tu. Eu-tu é um livro de Bubber.
08
Tostão me surpreende quando escreve sobre fu-
tebol. Ali o futebol representa a vida. Tostão bate
bola com insights.
09
Ludemir mergulha onde vive e relata. Conheço
um pouco de favela também através do que es-
creve. Sou um tanto favelado, somos semelhantes
pelos sentimentos.
10
Outro tanto de favela conheço através d’As Cores
de Acari, de Marcos Alvito. Aparentes pobrezas
escondem riquezas. Lembro Adalberto de Paula
Barreto, que, em relação à Europa, fala dos favela-
dos existenciais. Lá, riquezas aparentes escondem
pobrezas emocionais. Em muito, desconfio, fave-
las e europas se complementam.Talvez aprendam
uns com outros. Só questão de desejos e gestos.
11
Em Por Uma Pedagogia da Pergunta, Antonio
Faundez conversa com Paulo Freire.Diz que a cul-
tura não é apenas uma manifestação artística ou
intelectual que se expressa através do pensamento.
A cultura se manifesta nos gestos mais simples do
176 177
cotidiano. Cultura é comer de maneira diferente,
é relacionar-se com o outro de maneira diferente.
12
Mirian Goldenberg, na Folha de SP, diz que seus
“...pesquisados apontam três ingredientes no casa-
mento: amor, paixão e amizade. O amor aparece
como um sentimento amplo e difícil de ser definido.
É diferente da paixão, inicial e provisória, que se
transforma em amor ou acaba.”.
13
Procuro me conhecer? Atento, tento, ao senti-
mento, ao pensamento, à palavra, à obra?
14
David Bornstein, em Como Mudar o Mundo, es-
timula quem tem ideias inovadoras focadas no
bem-estar coletivo.
15
Já Charles Feitosa, em Explicando Filosofia com
Arte, trata de questões profundas de uma manei-
ra tão acessível... e quando a gente menos espera
se vê refletindo sobre o todo, o nada, o essencial.
16
Gosto da superfície, de orelhas de livros, mas
eventualmente mergulho, me aproximo do meu
próprio inconsciente, do inconsciente de outros,
do inconsciente coletivo, que está aqui e ali e não
sei direito o que é. Carl Gustav Jung me ajuda,
permanece vivo. Tanto através de Nise da Silvei-
ra, que escreveu Jung, Vida e Obra, quanto através
de suas Memórias, Sonhos e Reflexões e d’O Ho-
mem e Seus Símbolos, finalizado poucos dias antes
de sua morte. Jung dedicou a vida à compreensão
dos sonhos, dos mundos interiores.
17
Thomas Szasz me ensinou a cuidar de tratos.
Nem me lembro como, mas ficou em mim um
tanto de sua A Ética da Psicanálise.
18
Eu era pobre e não sabia.Na minha infância,den-
tro de mim, não soube de faltas até o momento
em que, na cidade maior, vi a vitrine. Desejei o
que não tinha. E por muitas vezes me angustiei
por não me suprir as novas necessidades criadas.
178 179
Demorei meia vida para compreender que o que
aparentemente possuo é que me possui. O carro
me pede manutenção,taxas,estacionamento,gaso-
lina,óleo.O cachorro solicita atenção,alimentação,
passeios, cuidados. Minhas posses me aprisionam.
19
Surpreendi-me com o que Freud diz, em cartas,
a Ana, sua filha. Meus preconceitos o colocavam
transcendendo o humano. E ele se mostra gente
um tanto como a gente.
20
Sonhei uma escola de desenvolvimento. Ela se
concretiza onde se realizam aprendizados de de-
senvolvimento integral – econômico, emocional
e mais. Aprendizes interagem com mestres onde
os conhecimentos estão. Mestres, naturalmen-
te - nos momentos que também aprendem - são
aprendizes. Aprendizes, naturalmente - nos mo-
mentos que ensinam - se tornam mestres.
21
Gentileza gera gentileza. Aprendo toda hora:
quando sou gentil, quando são comigo gentis.
22
Anotações para um manifesto em favor de infor-
mações saudáveis: todo dia, ou quase, nas bancas,
os mesmos jornais diferentes, as mesmas notícias
semelhantes entre si. Isto aqui no Brasil. Isto na
Europa. Talvez em todo o mundo. Como fontes,
três ou quatro ou poucas mais agências de notí-
cias, quando não uma só. CNN, Reuters, UPI,
France Presse... Aqui, agências O Globo, Folha
de São Paulo... Em que posso contribuir para me-
lhorar, diversificar visões de mundo?
23
Passado recente, 2009: eu, sessenta e dois anos
e nove meses. O horizonte mais perto. Cálculo
otimista, sessenta por cento da vida já vivida. A
intenção, há alguns meses, era só gravar vídeos e
escrever. Tenho mais gravado que escrito. Giro
em torno de encontros de redes comunitárias e
de rodas de terapia comunitária. Gravei, com
apoio de muitos, muitos destes encontros.
Caetano Dable transcreveu um tanto. Pedro
Sarmento criou vinhetas. Cineastas amigos
editam – Elizeu Ewald, Félix Ferreira, Katty
Cuel, Alberto Mejia, Roberto Pontes, Phillip
180 181
Johnston, Chris Agnese, Thiago Catarino,
Tainá Diniz – um vídeo cada um de cada vez.
Pedro realiza o design do DVD. Mejia e Phillip
cuidam da veiculação na TV Comunitária do
Rio de Janeiro. Rudá Almeida inicia o Youtube.
Oscar Pereira, o Oscardigital, complementa e am-
plia pro Videolog. Glória, Jorge dão força. Russo,
Eliany cuidam da casa. Combinamos cuidar das
falas e atos editados como gostamos que cuidem
de nós. Evitamos constrangimentos, procuramos
contribuir para o gosto de cada um por si mesmo.
Os custos são limitados aos recursos disponíveis.
Há intenção de que os vídeos possam ser úteis
em qualquer época – são atemporais.
O presente está assim. Já prontos o Terapia Co-
munitária – Conversa com Adalberto de Paula
Barreto. E os Classificados Sociais de São Gonça-
lo, Tijuca, Ramos, São João de Meriti, Niterói,
Madureira, Vila Aliança, Expo Brasil. Os Livre
Pensar Social relativos ao Desenvolvimento Local
e à Sociedade que Desejo. Em edição o Rede Co-
munitária de Cultura de Minas Gerais, o Rede de
Cultura de Santa Catarina, os Classificados Santa
Luzia, o Contribuições para a Plataforma Urbana
do UNICEF, o Vila Aliança, o Terapia Comunitá-
ria – 4 Varas. Auto-Estima e o Retalhos, com de-
poimentos de terapeutas comunitários. Os custos
integrais dos Terapia são meus. O Sesc contribui
para a edição dos relativos a Redes e Livre Pensar.
Tudo singelo. Mais que documentários eu cha-
maria de falas-úteis.
24
Depois que papai e mamãe morreram, tenho sido
meu próprio filho.
25
2006, 3 ideias possíveis.
a) Agências de Notícias: textos simples, pe-
riódicos ou não, atemporais, são disponibili-
zados-oferecidos a veículos de comunicação
- jornais, revistas, rádios, tvs - de todo o país.
Em médio prazo, também a outros países de
língua portuguesa e espanhola. Temas, como
exemplos, sobre comportamento, desenvolvi-
mento integral do ser humano, boas notícias,
brincadeiras passo a passo, provocações de
insights. E mais, textos instigantes de reflexão,
182 183
destinados especificamente aos mais variados
públicos: pais, crianças, professores, empresá-
rios, babás, políticos, funcionários públicos,
profissionais de saúde...
Podem ser formatados, ou não. Se sim, por
exemplo, em cadernos-tipo-cultura, com
espaços para inserções publicitárias locais.
Podem, ou não, ter um ético patrocinador-
-cliente que arque com as despesas básicas e,
em contrapartida, tenha sua inserção publici-
tária ética presente nos veículos que aceitem
os produtos intelectuais oferecidos.
b) BRincadeiras: saem brinquedos, entram
brincadeiras. Novas, antigas. Jogos cooperati-
vos, integradores, por faixas etárias e interge-
racionais.
Um primeiro dvd com, digamos, 60 minutos,
atemporal, com 30 brincadeiras apresentadas
de forma que quem vê aprende e entra e faz.
400 mil cópias, destinadas a cerca de 400 mil
escolas hoje existentes no Brasil. Oferecidas
por uma instituição, Petrobrás Distribuidora,
por exemplo. Parceria com os Correios, que
entregará o dvd em cada escola. Já disponível,
pesquisa bruta com centenas de brincadeiras.
c) Povo da Rua: redes de interessados em se
aproximar, cuidar de moradores de rua, con-
siderando, cada um, seu desejo-competência-
-possibilidade. Da higiene à alimentação, da
educação à transformação. A metodologia
dos encontros pode ser semelhante à das re-
des comunitárias: em roda, o que cada um
oferece, o que cada um procura. É bom saber
o que um morador de rua deseja. Se deseja
açúcar, quem sabe aceite o mel que não co-
nhecia.
26
Como limite, internalizo uma regra de ouro: não
faço a outro o que não desejo me façam.
27
Sou melhor escutado quando falo do que vivo.
Sou menos escutado quando falo o que outro
deve ser, fazer.
184 185
28
Tenho tido o maior cuidado com minhas expec-
tativas, especialmente em relação a outro. Se não
falo da minha expectativa para o outro, como o
outro saberá da expectativa que tenho em rela-
ção a ele?
29
O que em mim dá certo?
O que posso melhorar?
30
Filme bom é aquele que assisto e saio melhor que
entrei. Quando entro um e saio outro. Pra quem
gosta de emoções: As Canções, de Eduardo Cou-
tinho. E A Música Segundo Tom Jobim, de Nel-
son Pereira dos Santos e Dora Jobim. E Habemus
Papam, de Nino Moretti. E Uma Longa Viagem,
de Lúcia Murat. E Paralelo 10, de Sílvio Da-rin.
Tantos filmes que me fizeram bem...
31
É orgulho, eu sei. Quando alguém na rua me
escolhe pra pedir um apoio, imagino que viu
qualidades em mim que eu próprio não percebo.
Aprendi com um amigo a facilitar a vida de
artistas que, também na rua, facilitam a minha
com sua arte.
32
Em terapia, nos anos 70, Romel me sugeriu: per-
ceba o que sente quando a transa finda. E como
seu corpo se comporta. Descobri que, junto com
culpa, minha pélvis se contraia, impedia o fluxo
normal de energia, de sangue. Neste ambiente
fragilizado qualquer bichinho fazia a festa.Gono-
cocos, estafilococos se alternavam. Estas doenças
venéreas sumiram da minha vida quando passei a
cuidar dos meus medos, culpas e corpo.
33
Desconfio que roupas – especialmente as peças
íntimas – feitas com materiais inorgânicos difi-
cultam a circulação de energia, fragilizam defesas
do organismo. Falas no vídeo Energia da Vida
contribuem para este entendimento.
34
Cada unidade de trabalho incorpora procedi-
mentos administrativos próprios. Algumas criam
186 187
soluções criativas e desburocratizadoras. Outras
ainda não.
Trocas de know-how informais são riscos de solu-
ções desconhecidas.
35
Quem participa dos frutos do seu trabalho cuida
do trabalho como se fosse seu. E é.
36
Ser ético é um estado de espírito?
37
A existência de uma instituição pública só é pos-
sível pelo que já tem: base política que possibilita
base financeira, base física e, o próprio fim e meio,
base humana.
Quando a ética está presente, estas estruturas
possibilitam um cotidiano que inclui cuidados
com os recursos, com os conteúdos, com os públi-
cos e com quem cuida. Todos ganham.
38
Conteúdos inadequados estimulam inclusões so-
ciais subordinadas a culturas retrógradas. Vide,
por exemplo, grande parte dos programas de TV.
39
De outubro de 2000 a maio de 2011 trabalhei
no Sesc Rio. Em momentos inseguros, me pautei
pela sua missão, vigente quando fui contratado. E
com a qual me identifiquei.
 
Na tentativa de manter-me saudável, procurei a
todo momento separar minha loucura da do ou-
tro. Um tanto porque o que faz me sentir ame-
açado – e posso por isto adoecer – é ter minha
vida pautada por quem não me conhece e nem eu
próprio conheço.
 
Escrevo isto, confesso, para manter-me vivo. Sei
que quando a boca cala, o corpo fala. E quando a
boca fala, o corpo sara.
40
Agosto 2009. Ahora, além de las redes comunita-
rias, las terapias comunitarias. Gravo algumas en-
188 189
trevistas, reuniões... e uma ou outra vai pro youtu-
be e pra canais comunitários de tv.Uma ideia anda
me rondando, estamos devagarzinho experimen-
tando. Michel tem viajado bastante pelo mundo,
grupos com homens especialmente... Auto-hemo
volta e meia faço: o movimento se espalha pelo
mundo. Já há no youtube versão em espanhol. E
logologo em inglês e esperanto. Tudo por iniciati-
va de um e outro que tem se beneficiado.
No meio destes ventos, intuitivamente vou me or-
ganizando pra não ter mais agenda.É o que desejo,
acordar e descobrir o que fazer ou não. Saúde boa,
um pouco de ioga diária, alimentação mais pra
leve. Filmes, mais as comédias. Enfim, vida boa...
41
Do que me lembro, por orientação e insistência
do meu querido dentista, tomei alguns compri-
midos quando do implante de quatro dos meus
dentes. Mas, fora isto, há mais de 10 anos não
uso remédio alopático, de farmácia. Em casa,
nem mercúrio cromo. Gripe, passa longe. Dor
de cabeça, estresse, pânico... só sei de escutar.
Exceção, A Maravilha Curativa tenho em casa.
De um lado, procuro separar as loucuras que são
minhas das loucuras que são do outro. Ou as res-
ponsabilidades que são minhas das que são de
outros. Já não carrego nos ombros o que indepen-
de de mim. Sou só solidário.
De outro, nos últimos anos, uns meses sim, ou-
tros não, reforço minha imunidade ao retirar um
pouco de sangue de minha veia e aplicar em meus
músculos. Nenhuma contraindicação. Só saúde.
É a auto-hemoterapia.
42
Me interesso pela articulação de uma rede de vei-
culação de informações estimuladoras de cresci-
mento emocional. Tenho, na verdade, visto como
folhas em branco de caderno novo estas oportuni-
dades que, à primeira vista, parecem problemas...
43
Estive em Vila Aliança ontem de novo. Impres-
sionantes os helicópteros blindados sobrevoan-
190 191
do a comunidade, enquanto embaixo viaturas da
polícia e homens a pé buscavam seus alvos. Doze
carros da imprensa acompanhavam a invasão. O
morador mais próximo: lá vão os urubus.
Nossa reunião de planejamento de Desenvolvi-
mento Local de Vila Aliança acontecia paralela
e, conforme o local dos confrontos mudava, mu-
dávamos de sala. Sei que não sou de heroísmos,
nem intenciono. Mas tudo isto reforça em mim
o valor do que fazemos, cuidando das plantinhas
aqui dentro e lá fora. Mas aprendi que só posso
dar o que tenho...
44
Julho de 2011. Imagino. Cada encontro como
uma página em branco. Confesso que – mesmo
cuidando das minhas expectativas – imagino
cada um de nós fazendo espontaneamente o que
está ao próprio alcance.
Imagino cada um selecionando o melhor dos con-
teúdos que deseja comunicar ao mundo. Imagino
este conteúdo sintetizado, em respeito à inteligên-
cia e ao tempo seu e dos leitores.Imagino este con-
teúdo chegando a cada um de nós, a partir da ini-
ciativa de quem cuidou de sua qualidade integral.
Imagino agora cada um de nós compartilhando
este conteúdo com quem poderá dele se benefi-
ciar. Imagino cada novo leitor se beneficiando
desta inFormação que lhe chega através de cada
um de nós.
Imagino este leitor sendo agora um de nós. Ima-
gino que também ele, como cada um de nós, se-
lecionará o melhor dos conteúdos para comparti-
lhar com o mundo.
Imagino que somos agora – cada um e todos que
assim desejem – uma agência individual-inde-
pendente de inFormações.
Imagino eu, você, nós enlevados com o que sen-
timos ao aprender estas novas qualidades que eu,
você, nós interativamente nos compartilhamos.
Imagino isto já.
192 193
45
O texto Visão de Mundo é o reconhecimento do
meu eu. À procura de visões parceiras, comparti-
lhei aleatoriamente no início: xeroquei, email-ei.
Visão de Mundo foi, no momento em que escrevi,
meu espelho. Hoje imagino minha visão ampliada.
O texto Redes Humanitárias Comunitárias teve
a intenção de sistematizar, do meu jeito, a me-
todologia que por acaso criei. Estimulado pelos
resultados de sua aplicação em Ramos – lá com o
apoio essencial da prática da assistente social Lí-
dia Nobre – me aproximei de Gilberto Fugimoto,
responsável pela Assessoria de Projetos Comu-
nitários. Gilberto, estudioso de redes, acolheu a
mim e à metodologia e, juntos com cada colega
que se animou, ampliamos o campo de atuação.
46
Sobre redes. Encontros de Redes Comunitárias
acontecem periodicamente em unidades operacio-
nais do Sesc Rio. Uma rede de artistas de rua se ex-
pande e já abrange quase todos os estados do Brasil.
Em Minas, também recriando a metodologia que
utilizamos,nasceu a Rede Comunitária de Cultura.
Em Vila Aliança, em Bangu, no Rio, projetos
estão sendo realizados a partir da união de re-
cursos  – humanos, materiais, espirituais – que
encontros de pessoas e instituições facilitam. In-
clusive um Fórum de Desenvolvimento Comunitá-
rio. É a inteligência coletiva em funcionamento.
Não sei de outros encontros – utilizando meto-
dologias de redes – que estejam sendo realizados
em outros territórios. Ou focados em temas es-
pecíficos.
Realizamos vídeo-registros de encontros de rede
realizados em Minas, Vila Aliança, Cuiabá, São
João do Meriti, Niterói, São Gonçalo. E, além
de Santa Luzia, no centro do Rio, nos bairros de
Ramos, Tijuca, Centro, Madureira, Engenho de
Dentro... Outros registros em vídeos, ainda sobre
redes, de palestra de Augusto de Franco e conver-
sa entre Cássio Martinho, Célia Schlithler, Gil-
berto Fugimoto e eu.
Também fizemos vídeos que documentam um
tanto o que vem acontecendo no Quilombo São
José, em Valença. E sobre o Fado de Quissamã. E
194 195
Talvez seja necessária esta clareza de objetivos – e
um texto que descreva o que objetivamos, texto
de preferência conciso e também claro e objetivo.
Assim, se entrarmos em movimento, entraremos
com clareza de finalidade.
Como vejo, tenho dúvidas. Posso contribuir, mas
neste momento estou sem pique-motivação para
me envolver profundamente.
Eu normalmente não lutaria contra o CFM. Eu não
o considero competente para decidir sobre minha
vida. Focaria, por exemplo, nos resultados positivos
da auto-hemoterapia... e dirigiria as inFormações
mais para as pessoas que necessitam do que para as
instituições que se negam ouvir-nos.
48
Sobre o julgamento do Dr Luiz Moura no CFM.
Aprendi que só consigo comunicar-me com quem
me escuta. E vice versa.
 
Entendo que não ouvem, se órgãos que opinam
(como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
- ANVISA ou o Conselho Federal de Medicina –
sobre a Ilha Grande.E sobre o Candomblé.E sobre
a Auto-hemoterapia. E sobre psicoterapias e tera-
pia comunitária...
Ao olhar para trás,tenho prazer.Compartilho o que
aprendi. A difusão do que lhe toca está ao alcance e
depende da iniciativa de cada um,a partir do seu de-
sejo: http://luizsarmento.blogspot.com.br/
47
Tenho dúvidas se me empenho agora na divulga-
ção de algo. Divulgar que texto? Seria um mani-
festo? Qual o objetivo da divulgação: esclarecer
a quem deseje? Gerar movimento em defesa da
auto-hemoterapia e do Dr. Luiz Moura?
É o momento de valorizarmos decisões do CFM
- Conselho sobre o qual tenho dúvidas das inten-
ções e qualidade? Seria focado na auto-hemote-
rapia ou no Dr. Luiz Moura? Dr. Luiz deseja este
movimento em seu favor?
O que penso neste momento é na necessidade de
definir objetivos claros, em favor dos quais nos
mobilizaríamos e estimularíamos movimentos...
196 197
CFM) se recusam a tomar conhecimento de pes-
quisas recentes – como a do Dr.Flávio Alves Lara,
a do Dr. João Veiga, a da Telma Geovanini – e de
pesquisas anteriores, como a do Dr. Jesse Teixeira.
 
Se, além disto, estes mesmos órgãos se recusam
a considerar o que a população beneficiada fala
com suas práticas e resultados, entendo que estes
órgãos públicos falham.
 
Vejo aqui um estímulo para que eu próprio deci-
da sobre minha saúde e faça por ela o que percebo
como melhor. A autonomia que me permito, de-
sejo a cada um que a deseje.
 
Por outro lado, hoje acredito que mudanças se
dão, muitas vezes, uma geração depois.
Acupuntura, homeopatia demoraram muitos anos
para serem aceitas formalmente, no Brasil, como
medicinas. E olha que homeopatia tem 200 anos e a
acupuntura cerca de 5.000.E a medicina ayurvédica,
mais antiga ainda? E as medicinas indígenas, africa-
nas,da Oceania e de outros pedaços do mundo?
Imagino que há muitas outras descobertas e in-
venções que podem facilitar nossas vidas – na
área da saúde e em outras áreas – e que não che-
gam a nosso conhecimento.
Mesmo assim percebo que pouco a pouco a auto-
-hemoterapia ganha espaço.
Daí esta sensação boa que estamos no caminho
certo, ao fazermos cada um o que deseja e que
está ao próprio alcance. E divulgarmos o que per-
cebemos como bom para nós mesmos.
Até há pouco fui o tempo todo cartesiano. Isto ou
aquilo. Aprendi com um amigo mais velho – 90
anos – que facilita quando é isto e aquilo. Assim
se somam iniciativas.
Re-escrevo isto estimulado pela mobilização em
defesa de Dr. Luiz Moura e da auto-hemoterapia.
Este movimento todo, espontâneo, tem trazido
alegrias pra tantos de nós...
198 199
49
Dúvidas. Que nome dar a este livro?
Passou pela cabeça:
Título com. Minha vida é cada canal que cli-
co - escolho um tanto quem sou. Outros es-
critos. Não sou eu que tenho os objetos, os
objetos é que me têm. Meu umbigo. Ideias,
desejos & movimentos... Hoje, já passado.
Perguntas que me faço. Livre pensar. Um
quase nada de quase tudo. Vários eu. Talvez
de interesse. Palavras à procura de imagens.
Palavras à procura de sentimentos. Letras à
procura de músicas. Se sinto, se penso, que
faço?. Redes, ideias & movimentos...
E mais:
O que está ao meu alcance. Subjetivo?. Sai-
ba+. Aposentado. Cidadão do mundo. O que
vai pela cabeça. Meu lugar no mundo. Quem
lava minha roupa? Gavetas na memória. No-
vidades e repetições. Falhas memórias.
50
Ideias aqui expostas podem ser utilizadas livre-
mente para fins humanitários. Naturalmente só
posso oferecer o que está ao meu alcance, ideias
que sejam consideradas minhas, se é que prevale-
ce isto de propriedade de ideias.
51
Hoje me sinto um cidadão do mundo.
52
ChegueiemBrasíliaem1965.Lembro–amemória
pode ser falha – duzentos e tantos professores fo-
ram mandados embora da Universidade de Brasília.
Uma greve longa já no primeiro ano de faculdade.
Morei em casa pública ocupada por nós estudantes.
Ummundonovo,estacidadenova,comgentedeto-
dos os lugares. Uma vida juvenil, agitada. Zona bo-
êmia só fora do Distrito Federal,era a lei.Um passo
alémdafronteira,umapequenavilacomprostitutas.
Na minha solidão, uma garrafa de Martini debaixo
dobraço,emfinaisdesemana,numaaventura,péna
estrada, pegava caronas. Lá quase implorava pelos
favores gratuitos de quem vendia o prazer. Quando
acolhido,um paraíso neste oásis de solidão.
200 201
Joguei o que não tinha, perdia minhas mesadas
mensalmente no carteado. Só trinta anos passa-
dos vim saber que talvez houvesse roubo no jogo.
Parei quando, pra pagar o que perdi e não tinha,
comprei à prestação um jogo de pneus pro carro
de quem ganhou.
Em casa chegamos a fazer o jogo da garrafa. Em
roda, uma garrafa era girada no centro. Quando
parava, a boca apontava quem deveria tirar uma
peça de roupa.
Uma fome danada, uma vez comemos de nos far-
tar numa pizzaria almejada. Sobrou pra mim cor-
rer por último. Sorte que estava com botas. Gar-
çons atrás, me enfiei no mato. Brasília tinha mato.
Uma boa moça – Batalhão foi o apelido agrega-
do ao nome – nos acolhia em seus braços com
carinho. Num mato, um amigo se alegrou com
seus gemidos. Findo o amor, era um espinho o
motivo dos ais.
Que bom antes da aula, cedinho, ter dinheiro pra
comer 7 pães com manteiga com café-com-leite.
Que chato, ao voltar pra casa – já morando em
alojamento no campus – ser obrigado a marchar
feito barata tonta.Eram os soldados se divertindo.
A UnB toda rodeada por militares armados, um
a cada poucos metros, em todo o seu perímetro.
Fui preso uma vez,junto com duas dezenas de co-
legas, como represália pela retenção – sequestro,
aprisionamento? – de um policial por estudantes
ativos. Foi um dia só. Na prisão, quem pedia pra
fazer necessidades voltada apanhado.
Morri de medo. Só passei a ver militares com ou-
tros olhos quando, em Moçambique, vi soldados
conversando naturalmente de mãos dadas com
civis.
53
Dr Fritz colocava critério: esta história que você vai
me contar sobre o Pedro, faz bem a mim? E a Pedro?
E a você? Se não faz bem, não me conte.
54
Dou razão a Cacilda Becker: só tenho tempo para
lutar a favor.
202 203
55
E esta vontade de acordar sem ter agenda, a vida
atenta como um laissez-faire?
56
O que são erros pra um, talvez acertos pra outro?
57
Quando minha auto-estima está presente, lem-
bro a sorte de quem me tem.
58
Dentro do fogo, só vejo chama. Se saio fora, vejo
o incêndio. Se apago o fogo, sobram cinzas, em-
baixo brasas. Se sopra outro vento, voltam as cha-
mas. Se aprendo, já não me queimo.
59
Palestra boa é aquela que vira conversa e pode-
mos todos participar. Uma fala de 10 minutos já
é suficiente para apresentar conteúdos, ideias. E o
tempo que nos resta aproveitamos bem, conver-
samos sobre o que realmente nos interessa, a cada
um dos presentes.Tudo mutável, inclusive regras,
como é a vida.
60
Somos todos inteligentes.Uns têm facilidade com
matemática, outros com línguas, uns são genera-
listas, outros cientistas. Alguns têm inteligência
concreta, outros abstrata. Uns são inteligentes
nas emoções, outros são duros, duros. Inteligên-
cia mesmo, sinto, exercito quando utilizo minha
inteligência para facilitar o estar contente.
61
Uma fala, já sei, pode ser fora de ordem. Cada um
edita, coloca em sua própria ordem, de acordo
com suas prioridades conscientes... ou não.
62
E se em encontros cada um se apresentasse, eu
também, expressando o que é - ou sente que é -,
não o que faz? Esta aprendi com Michel.
63
Sonhos, ideias, reflexões antecedem ações. Caos
antecede ordenação. O emocional como pano de
fundo. Atos falhos não falham. Insights abrem
outras janelas.
204 205
64
Reflexões. Dou o livro que gosto, não o que o ou-
tro deseja. Só dá quem tem. Se não me permito,
a outros inibo.
65
Pra facilitar minha prática, não me canso de lem-
brar o dito que penso ser de Tom Jobim: democra-
cia é muito bom. Lá em casa pratico todo dia.
66
Que sociedade desejo? Quando converso sobre
isto com quem intenciono ser parceiro, fico im-
pressionado como somos diferentes. Foco no que
somos e no que desejamos em comum.
67
Do que entendi, eficiência se refere a quando faço
bem o que me proponho. Eficácia é quando há
resultados. Efetividade é quando os resultados
permanecem, frutificam.
68
Facilita uma parceria, quando descobrimos inte-
resses comuns.A imagem que vem: sabe o símbo-
lo olímpico, composto por aquelas argolas entre-
laçadas? Imagine que parte de uma argola – que
me representa – superpõe parte de outra argola,
que representa você. Esta área que é comum às
duas argolas representa o que temos em comum.
Já a parceria acontecerá em função da iniciativa
de cada um de nós e do nosso consenso.
69
Cada um de nós tem algo a oferecer e procura por
algo. Há pessoas que oferecem o que outros pro-
curam e vice versa. Questão agora de se encon-
trarem. Assim se formam casais, comunidades,
sociedades, redes.
70
Quando chego na hora ao encontro, estou dizen-
do: eu te respeito, eu me respeito. Quando chego
atrasado, desconfio de mim: será que me sinto su-
perior ao outro? E, se sim, que complexo de infe-
rioridade escondo neste aparente sentimento de
superioridade?
71
Quando falo e não escuto, é que não quero ouvir?
206 207
Neste momento, estou fechado em mim? Não me
interessa o outro?
72
Em algum momento, quando eu ainda no Sesc,
escrevi como lembrança:
Nestes momentos de incertezas, desconfio
que a necessidade que sinto de ser solidário é
a contrapartida que ofereço por necessitar de
solidariedade.Tudo isto relacionado ao medo
de deixar o Sesc, onde, identificado com sua
missão, ganho para trabalhar em benefício de
menos favorecidos.
Quem não conhece o que faço, não valoriza o
que faço, não me reconhece. E vice versa, uma
vez que também eu não conheço o que fazem
os que se propõem pautar minha vida e as vi-
das dos que aqui trabalham. Nesta crise, opto
por me orientar pelo meu senso ético e pela
missão original da instituição. Procuro pres-
tar serviços em favor do público que, direta ou
indiretamente, me remunera para dele cuidar.
Dói entrar no espaço do Sesc-Senac Flamen-
go e ver um evento caro, sobre Coco Chanel,
sendo preparado para um público limitado.
Como a do Senac, a missão original do Sesc
se dissolve. E o foco já não é o seu público,
os comerciários e seus dependentes. Freio o
impulso de demitir-me quando faço as con-
tas mensais da sobrevivência. Decido então
continuar aplicando meu tempo de trabalho
no que meu senso ético me orienta. Minhas
ações se guiam pela missão original ampliada:
utilizando o que está ao meu alcance, no meu
campo de poder, cuido em contribuir para o
bem-estar dos comerciários, seus dependen-
tes. E das comunidades populares onde vive
grande parte das suas famílias.
Assisti à transformação da Globo Vídeo num
departamento da Som Livre. Ali a intenção
era claramente diminuir custos, racionalizar
negócios. Ali, nas empresas Globo, a ideolo-
gia era a do lucro.
Já o Sesc objetiva lucro social. Não entendo
quando agora se fala do Sesc como empresa,
208 209
quando ações priorizam a visibilidade mais
que os conteúdos.
73
Rede, vivência agora. Desafio: saber e expressar
objetivamente o que faz, procura, o que oferece.
Já sabe? Escreva em mínimas linhas. Depois, num
minuto, na fala, sintetize na essência: o que faço, o
que ofereço, o que procuro.
Imagine encontros de pessoas: interessadas num
mesmo tema. Ou habitantes de um mesmo ter-
ritório. Cada um – entre aqueles que desejam –
fala objetivamente o que oferece, o que procura.
Isto num tempo limitado, combinado em função
do número de pessoas e do horário de término
do encontro. Todos sabem agora de cada um dos
que falaram. Recreio – um café, um lanche? Cada
um que deseja conversa com quem deseja, reflete,
define, articula parcerias. Perde-se o controle, as
redes se espalham.
74
Aqui, a questão básica é comunicação. Como sa-
ber do outro, que faço para outros saberem de
mim? Num mundo onde cada um, eu falo por
mim, sente necessidade de se expressar. Eu tam-
bém quero falar. Estamos na fase da fala?
75
Fórum ou palestra. Interatividade ou atividade?
Palco tipo italiano ou arena? Roda ou auditório?
Epa! Se substituo neste parágrafo o ou por o e...
de maneira que as comunicações se deem, cada
um do seu jeito.O que importa é o processo como
resultado. E resultado bom é quando me sinto
bem e os outros também.
76
Das coisas objetivas algo sei. Como cada um de
nós sabe do seu equilíbrio.Ou faz,como me pego,
me engano, faço que não sei? E as coisas subjeti-
vas antecedem às objetivas? Objetos, por exem-
plo, nascem de desejos?
77
A emoção equilibra com a razão?
78
Uma ponte entre a ideia e a realização é o plane-
210 211
jamento. E, pra mim, ele anda bastante quando
consigo responder a 7 perguntas básicas: o que,
porque, quem, quando, como, onde, quanto ...
Antes de mergulhar nos fazimentos, pra facilitar,
gosto de montar um quadrinho com 5 colunas.
Na primeira coluna,as tarefas.Na segunda,quem
se responsabiliza por cada uma. Na terceira, até
que data. Na quarta, o custo de cada tarefa. Na
quinta, observações.
Ordeno então as tarefas pela ordem das datas. E no
dia-a-dia vou à luta. Lembro que quanto mais deta-
lhadas as tarefas,mais possibilidades de acertos.
79
Adoro xerocar, distribuir textos que me tocam.
Tem um, não sei o autor:
As crianças aprendem aquilo que vivem
Se uma criança vive criticada, aprende a condenar
Se uma criança vive com hostilidade,
aprende a brigar
Se uma criança vive envergonhada,
aprende a sentir-se culpada
Se uma criança vive com tolerância,
aprende a ser tolerante
Se uma criança vive com estímulo, aprende a confiar
Se uma criança vive apreciada, aprende a apreciar
Se uma criança vive com equidade,
aprende a ser justa
Se uma criança vive com segurança, aprende a ter fé
Se uma criança vive com aceitação,
aprende a respeitar-se
Se uma criança vive com aceitação e amizade,
aprende a encontrar o amor no mundo
	
80
Criança, a Alma do Negócio é um documentário
sobre publicidade, consumo e infância. Quem as-
siste, amplia o olhar. Está em www.youtube.com/playli
st?list=PLE2ABADAEF30E4007
81
Já o livreto Por Que a Publicidade Faz Mal para
Crianças está em www.alana.org.br/banco_arquivos/Ar-
quivos/downloads/ebooks/por-que-a-publicidade-faz-mal-
-para-as-criancas.pdf
212 213
Outras informações e muitos caminhos se abrem
a partir do Instituto Alana, que cuida d’A união
da educação, da cultura e da assistência social para
o desenvolvimento da cidadania e da qualidade de
vida de todos nós. www.alana.org.br
82
Tiro por mim. Demoro anos para modificar algo
que me facilite ampliar minha zona de conforto.
Alterações de comportamento, os mais velhos sa-
bem, demoram uma geração ou mais. Mas vale a
pena plantar o que me faz bem e a outros, acom-
panhar o crescimento, usufruir dos frutos.
83
O Jornal do Commercio, de 17 de dezembro de
1836, anuncia:
Comprão-se escravos com officios e sem elles,
escravas com prendas e sem ellas, tanto para
a Cidade como para fora; na rua detraz do
Hospicio n. 81.
Vende-se huma preta com huma cria de 3
mezes, muito carinhosa para crianças, e com
leite; e hum preto da roça, sabendo fazer fari-
nha e derrubar mato, e o mais serviço, de 23
annos, muito robusto; no Campo da Honra,
lado da Rua do Conde n. 63.
Vende-se um preto padeiro, na rua do Sabão
n. 118.
Precisa-se alugar hum bom cozinheiro, no
hotel de Johnston; na rua do Ouvidor n. 215.
Aluga-se na rua do Lavradio n. 90, huma pre-
ta boa ama de leite.
Vende-se huma preta de nação, que engom-
ma, cozinha e lava, tudo com perfeição, e cose
alguma cousa; na rua de S. Pedro n. 183.
Vende-se um moleque de 16 a 18 annos de
idade; na praia dos Mineiros n. 79.
84
É comum eu sair de encontros com mais dúvidas
do que no início.
214 215
85
Mamãe dizia: quando um não quer, dois não bri-
gam. Contribuiu pr’eu ser assim, pacifista como
penso que sou. Antes, apanhei muito, nesta de
não entrar na briga. De não querer, querendo?
	
86
As gargalhadas de papai soam dentro de mim até
hoje. E sua solicitude, senso ético, bom humor.
Era pródigo, deu muito do que tinha. Não sabia,
do que sei, fazer um café, fritar um ovo. Mas co-
mia bem, era um bom garfo. Numa época, cada
garfada uma pimenta malagueta. Gostava de fa-
zendas, bois, de vacas. E de mulas, éguas, cava-
los. Muito mais de mulher. Imagino que um bom
amante, tão delicado com elas, eu imagino. Lem-
bro de papai, me alegro. Sou um tanto ele.
Sou um tanto também mamãe, que pegou as
rédeas da casa quando eu era inda pequenini-
nho. Mamãe gostava de conversar. Articulava
bem. Não me lembro de mamãe com abraços.
Lembro dos chás, das gemadas que me curavam
nas minhas febres. E das decisões decididas. Se
enternecia com uma serenata, com uma mesa
farta, marido e filhos servindo-se, supridos de
falas e comidas.
Meu irmão morreu cedo, aos 41, 42. Era o mais
velho de nós cinco. Inteligente pra caramba, pri-
meiro lugar até o fim do científico. Depois, oito
anos pra fazer um curso de engenharia que pedia
quatro. Divertiu pra valer em Ouro Preto. Joga-
va sinuca, ganhava com frequência. Quando já
empregado na CBA, subiu rápido pra chefia de
departamento. Enviava uma boa parte – acho
que um quarto – do seu salário pra mim, quando
eu estudava em Brasília e ainda não trabalhava.
Lembro dele me levar junto pra peladas da infân-
cia: primeiro pras peladas de futebol, depois pras
peladas da zona. Era puro amor fraternal e eu não
sabia. Dá saudades.
Stella me antecedeu na chegada ao mundo. Lina
veio antes de Stella, depois de João Porphírio. E
Heloisa Helena se juntou a nós depois de mim.
João foi pra fora, pra universidade, quando eu
tinha 11 anos. Só nos vimos esporadicamente
por uns tempos. Convivi com Lina, Stella, Ló
diariamente até meus 16 anos, quando fui fazer
216 217
o segundo ano do científico em Belo Horizonte.
Voltei, fiz o terceiro em Montes Claros. E aos 18
anos fui pra Brasília,fazer Economia,que até hoje
não sei direito o que é. Novinho, eu queria ir jun-
to com os mais velhos pros bailes que não podia.
Mas tive um bom período de festas, descoberta
de outros mundos, logo adolesci. Tinha hora pra
voltar, no início. Depois os tempos se alargaram.
A visão de mundo de mamãe facilitou nossa vida
familiar.Avançada pro seu tempo, moças e moços
tinham os mesmos direitos em casa. E cada um
tinha seus deveres. Aos sábados eu engraxava os
sapatos, Eventualmente ajudava a encerar a casa.
Mas não só.
Tive um berço bom, sinto-me amado.
Stella, Lina, Ló, permanecemos amigos durante
nossa vida.Temos sido solidários. É prazeroso nos
encontrarmos. Conversamos de um tudo, recorda-
mos, nos atualizamos, jogamos buraco, comemos,
passeamos. Aprendemos desde cedo o respeito
pelo jeito de ser de cada um. Me sinto em casa em
suas casas, tenho gosto. São portos afetivos.
De Vera com João, veio Roberta. De Magda com
João, nasceram Ludmila e Rodrigo Luiz. De Lina
e Paulo vieram Paulinho, Cláudia e Juliana. De
Stella e Alceu, Marina e Lucas. De Ló e Carlos
Alberto, Pedro Gustavo, Ana Julieta, Maria Elisa
e João Luiz. De Ana comigo, Felipe. Com Vânia,
tivemos Pedro. Regina e eu nos cultivamos.Antes,
com Ricardo,Regina teve Gabriela,André,Rafael.
Cláudia e Iesus tiveram Iesinho e Larissa. Heitor
e Heloisa nasceram de Clarice e Paulinho. Rober-
ta e Laércio tiveram Clara, Heloisa e João. Leoni-
ce e Rodrigo Luiz tiveram Guilherme e Bárbara.
Juliana e Marcelo tiveram Luiza. Felipe casou
com Vanessa, Marina casou com Carlinhos, Ga-
briela casou com Bruno, André noiva Amanda,
Rafael namora Cássia. Iesinho está com Zhairah.
Pedro namora Irene, Lucas namora Isabela, João
Luiz namora Elena, Lili namora Pedro Henrique.
Cada um do seu jeito. Uns ou outras talvez te-
nham amores que não conheço.
87
Jogador de futebol: cada bola que chega, um novo
problema para ser resolvido rapidamente.
218 219
88
Instituições são compostas por pessoas as mais
diversas. Umas com umas características, outras
com outras. Ando refletindo sobre comporta-
mento, o meu, o de outros.
Tenho vazios que levo desde muuuuuito tempo
atrás... e tenho descoberto que muitas das mi-
nhas carências atuais têm que ver com estes va-
zios antigos.
Imagino que pessoas que roubam ou mesmo que
acumulam coisas e sentimentos talvez tenham,
por exemplo, sido desmamados cedo. Ficou aque-
le vazio “que não sei o que é, só sinto...”. E aquele
sentimento que “o mundo me deve... e tomo do
mundo o que o mundo me deve...”. Enfim, pessoas
que sentem que o mundo lhes deve.
Chutando, se psicopatia define aqueles que não
têm remorso, não sentem culpa... e com isto, na-
turalmente sofrem sem saber “com este vazio que
não sei de onde vem...”, tendo a sentir medo e, con-
traditório?, compaixão.
Enquanto isto, como diz o cantador popular, a
cada passo que dou o mundo muda de lugar.
	
89
Aqui em casa, quase sempre há água no fogo,
prum café ou prum feijão.
90
O presente passa. Em relação ao outro, de um
lado muitas e boas satisfações. Leveza no trato,
profundidade nos assuntos, comida e diversão
saudáveis. De outro, cada vez mais frequentes e
intensas, crenças e interesses diferentes. Temos,
boa parte do tempo, conversas repetidas, círcu-
los viciosos. Sofremos. Copos cheios, gotas de
irritações, transbordes. Vaivém agudo. Relem-
bro, quando o passado era presente, o que senti,
refleti, me escrevi. Histórias se repetem, dife-
rentes, semelhantes. A imagem, espirais como
retratos de repetições, mas novidades. Nas novi-
dades, outros ciclos despontam, agora virtuosos.
Como na história bíblica, vacas magras interca-
lam gordas vacas.
220 221
91
Tenho outros lados. Sou um tanto Tarzan, Man-
drake, Super-homem. E São Francisco, Reich,
Rajeneesh, Freud, Laing, Jung. Sou meu irmão,
minhas irmãs. Meus filhos e eu somos um tanto
um e outro. Sou papai, sou mamãe. Algo fica em
mim de quem me emociono.
92
Tãobomlersemterquefazerprovas.Relaxoegosto.
93
Pedro fala: muita gente reclama de falta de tempo.
Pra mim é falta de organização. Eu complemento:
também falta de se dar limites.
94
Compartilhar sentimentos, conhecimentos e ob-
jetos têm me trazido sentimentos, conhecimentos
e reconhecimentos.
95
Botar em prática minhas sacações - insights? - tem
sido trabalhoso,pero gratificante.A vida com me-
nos tem sido mais livre, melhor.
96
Tive sacações com sacações de outros. Sem a cer-
teza das autorias, relembro.
O tempo não para. Cazuza
A mente se move e se move e a energia vai onde 
o pensamento vai. Dito chinês
Por princípios, eu luto. Dionino Colaneri
Relações de confiança são base para formação do
Capital Social. Gilberto Fugimoto
Conhecimento se origina da experimentação.
Lou Marinoff
Uma verdade científica não triunfa porque se
consiga convencer a seus opositores e fazer que
vejam as coisas com clareza, mas sim porque os
opositores acabam por morrer e surge uma nova
geração que se familiariza com a nova verdade.
Max Planck
Conhecimento é poder. Francis Bacon
222 223
Sobre si mesmo, seu corpo, sua mente, o indiví-
duo é soberano. John Stuart Mill
Não vemos as coisas como elas são. Nós as ve-
mos como nós somos. Anais Nin
Os planos funcionam. O problema é o cronograma.
Sérgio Mello
Só quero saber do que pode dar certo.
Caetano Veloso
Como posso dizer sim a algo que não está em mim?
Regina Rodrigues Chaves
Complexidade: ao invés de isto ou aquilo, isto e
aquilo. Mário Magalhães Chaves
97
Tomo tento do meu tamanho quando lembro do
que entendi do que Alvin Toffler escreveu – e eu
soube através de Carl Rogers, no seu livro Grupos
de Encontro. Para o homem, uma das questões bá-
sicas de agora e do futuro é a rapidez com que o
organismo humano pode adaptar-se à velocidade
de mudanças provocadas pela tecnologia. Toffler
refere-se a isto como um choque futuro e sugere
que pessoas terão colapsos ao tentar adaptar-se às
inacreditáveis mudanças operadas.
Ele fala que, se o homem existe há cinquenta mil
anos, este tempo corresponde a aproximadamente
oitocentas gerações de sessenta e tantos anos. Seis-
centas e cinquenta destas gerações foram vividas
nas cavernas. Há apenas setenta gerações surgiu a
escrita e foi possível a comunicação de uma geração
para outra. E só há seis – ou sete? – gerações che-
gou a palavra impressa. O motor elétrico há duas
– ou três? – gerações. E a maior parte do que hoje
usamos no dia-a-dia foi construída no presente.
Eu sinto em todos meus sentidos o desenvolvi-
mento tecnológico contemporâneo. Já o desenvol-
vimento emocional, aqui e ali, num ritmo menor.
Como se afetos se retraíssem para dar lugar ao
corre-corre tecnológico. Será isto um colapso?
Pois sei em mim que a internalização de senso ético
está ligada diretamente às práticas das afetividades.
224 225
98
Se a luz que vejo de uma estrela foi emitida há
algum tempo significa que vejo o que foi emitido
no passado... vejo no presente o passado.
Da mesma forma, o gesto que faço agora poderá
ser visto pelos que estejam naquela mesma estre-
la, daqui a algum tempo?
Esta luz da estrela caminha de lá pra cá? Esta
imagem do meu gesto caminha daqui pra lá? Es-
tas memórias que andam – a luz, o gesto – são os
tais registros akháshicos?
99
Quando me desequilibro me sinto adoentado,
penso em auto-hemoterapia. Se mais intenso,
peço atenção do Jun Kawaguchi, amigo e acupun-
tor. Paralelo, bebo mais água, como mais leve. E
descanso e respiro, descanso e respiro...
Prefiro ir a médicos quando estou saudável. Fico
mais de igual pra igual, troco ideias, informações,
eventualmente afetos, criamos vínculos. Promovo
minha saúde quando me cuido, caminho um tan-
to, como o que me faz bem, convivo com quem
me sinto à vontade, faço o que desejo, cuido do
outro como de mim. E escolho o que sinto, penso,
falo, faço.
100
Nos jornais, entrelinhas são atos falhos?
101
Eu desejo porque sinto falta? A falta que sinto é
como um buraco de onde foi retirado algo que eu
tinha? Se sou suprido, permanece o desejo?
102
Volta e meia me faço perguntas. Por isso tanta in-
terrogação? Ou interrogações já existiam, antes
mesmo das perguntas?
103
Construo meu futuro presente em cada ato de
agora? Não vislumbro meu futuro se não sei do
meu presente?
104
Esta contabilidade cósmica, que sinto, existe?
226 227
Não preciso, então, anotar débitos e créditos?
Posso parar de controlar?
105
Antecipo para hoje o que desejo no futuro? Expe-
rimento um tanto do futuro agora?
106
A propaganda é feita de metáforas? Parábolas
também são feitas com metáforas?
107
Mudanças radicais passam não pela razão, mas
pelos sentimentos? Pela fé, por exemplo?
108
O sentimento define o comportamento? A cultu-
ra define a moral? Comportamento, combinação
de sentimento e razão?
109
Já assisti palestras sobre sexualidade que só mos-
travam doenças. Já li textos que condenam o sexo.
Fiquei com medo. O que me salva é o que apren-
do com quem vive bem sua própria sexualidade.
110
A pílula foi um marco. Antes, o medo de engravi-
dar alimentava o medo de transar. Depois, a ale-
gria de transar alimentou a alegria de viver.
111
O movimento hippie ampliou meu mundo. Tudo
tão novo e tão simples. A comida, a música, a ati-
tude, o amor.
112
O viagra inda é um mistério. Funciona, mas não
sei se causa efeitos colaterais.
113
De tempos em tempos, uma praga delimita, dá
limites. Recentes, tuberculose, sífilis, gonorreia,
hiv, hpv.Tantos amores contidos, interrompidos...
114
Ser fiel a mim e ser fiel ao outro? Como posso
combinar o futuro se o futuro é mistério?
115
A fé vem da vivência? Tenho fé quando experi-
228 229
mento? Tudo num átimo, o tempo todo fora e
dentro se misturam?
116
Aprendo, delimito a realização de meus desejos
ao considerar o sentimento do outro.
117
Alimenta minha alegria passear no Boitatá. Tam-
bém fico contente no ambiente do Céu da Terra.
E na Orquestra Voadora, no Maracutaia, na praça
São Salvador. Em cada bloco de carnaval, um mo-
vimento, uma sabedoria própria.
118
Que é mesmo livre arbítrio?
119
O amor será assim, uma amostra do paraíso?
Gente como eu, em estado de alegria? O tempo
vira agora, o espaço é aqui, serenidade e eu somos
um só?
120
Na vida, a síntese do desejo é estarmos contentes?
121
Lembra aquela história do pescador? Vilazinha
do interior, beira de rio, o pescador adormece, o
peixe morde, a vara treme. O turista vê: vou mexer
com este caipira. Pega a vara, pesca, pesca, pesca.
Acorda o pescador, aponta o cesto cheio: olha o
que você perdeu! Inda zonzo do cochilo, o pesca-
dor: o que? O turista: os peixes, olha o tanto. O
pescador: pra que? O outro: pra vender, ganhar
dinheiro. Fazer o que você gosta. O pescador: mas
já tô fazeno...
Eu me sinto assim, nesta fase que curto enquan-
do é.Eu,satisfeito comigo,desejos ausentes,tento
atento viver contente. Difícil é suportar a alegria.
Tristeza era fácil, matava no peito todo dia.
122
Entre graves e agudos, este jeito de escrever.
Crônicas breves?
123
O que sou hoje é o que construi antes em cada ato
passado. Mas vivo mesmo só o presente.
230 231
124
Vestidos. Saias em casa? Serão frescas, arejarão
meu corpo? Práticas, as saias? E o olhar do outro?
E eu me olhar com saias? Só mudo e escondido?
Se em relação a saias sou assim, como serei em
relação a cada possibilidade de prazer?
125
Os pecados mortais, os pecados veniais. O pra-
zer perde espaço.Um aprendizado,estar contente
agora, aqui. Já o futuro, noutro lugar: ali, é misté-
rio, é novo. Só saberei ao experimentar.
126
Relembrando Laing, o Ronald, quero agora in-
vestigar como aqui cheguei,o que faço neste mun-
do, porque eu, nós aqui nos encontramos, quem
somos. Mas antes, treinar alegria.
127
Muita coisa já esqueci, um tanto de livros que li.
Algo do DNA de lá passou pro DNA de cá. Sou
assim um saldo do que me entra, do que me sai.
Da soma do que permanece, ora as células, ora os
conhecimentos, os sentimentos, as memórias.
128
Estou grávida de me tornar mais inteira. O pensa-
mento é a linguagem, o meio é a mensagem. Estas
ideias vieram de outros que não eu. Imagino flu-
tuantes. De repente atraídas, se tornaram insights.
Agora são também minhas. Compartilhadas, per-
manecem sem donos, mesmo sendo suas, minhas,
deles, nossas.
129
Falsa memória, lembro de encontros comigo em
que eu não estava lá. Presentes só na memória.
De fato, talvez só desejos.
Lembro de fatos imaginados. Brinco com esta
memória que me supre, me torna quem não sou.
Conto só pra mim.
130
Separações na minha vida: as que me lembro, car-
rego comigo. São aparentes separações?
232 233
131
O que escrevo, se já sei, é mais uma recordação.
132
Sinal de saúde, não sei onde fica meu fígado.
133
Sou imaturo no que sou ignorante. Quanto mais
ignoro o que sinto, mais verde sou.
134
Hoje distribuímos quentinhas que Regina, Bru-
no e Vera produziram. Os olhares, as palavras de
quem, com fome, recebia, enterneceram nossos
corações. Dar traz prazer.
135
Sexo: as dúvidas de meu avô permanecem geração
após geração. Na infância, sexo um mistério. Na
adolescência, sexo um segredo. Na fase adulta,
que faço com meu tesão por gente que não devia?
Maduro, acalma-se um tanto. Morto, ausência de
libido, ausência de conflitos.
136
Fui outro dia a um hospício. No palco, na pla-
teia, não tinha ideia: quem era público, cuidador
ou louco. Loucura total, ali, era o mesmo que
sanidade total. Percebi que em mim tenho um
tanto de cada, sou normal.
137
Robert A.Monroe,em Viagens Fora do Corpo,en-
sina passos pra viajar. No meio do caminho, me
deu um medão danado. Não fui.
138
Quando solto um pum alto, ai que vergonha. É
que, sem querer, relaxei. Estou à vontade.
139
Relaxo? Se divago, sonho. Se sonho... Mas o so-
nhar não antecede toda realização? 
140
Que faço pra atrapalhar minha própria vida?
234 235
141
Repito o mesmo drama do ano passado. Fui ao
Boitatá, bloco bom, praça XV. Cheguei, procurei
minha carteira, cadê? Fui à delegacia de polícia,
bem atendido, fiz o registro de ocorrência. Furto?
Outras pessoas, mesma hora, mesma delegacia, situa-
ções semelhantes: furto. Agora me preparo pra contac-
tarCEF,CPF,carteirasdeidentidadeemotorista,cartão
doSesc,cartãodaAMIL,cartãoMetrô,cartãoRiocard.
Toda vez que tropeço numa pedra, reclamava. Hoje
reclamodapedra,masantesdemim:nãopresteiaten-
ção.Sei agora,sabia antes,não devo levar meus prin-
cipais documentos prum lugar com riscos de furto.
Penitência:  procedimentos necessários para co-
municar a cada órgão público correspondente aos
documentos perdidos, furtados. Domingo de car-
naval, vou... O telefone toca.
142
Eta mundo bom.O círculo virtuoso toma assento.
Sem a carteira que ontem perdi – furtaram? – no
mesmo dia tomei providências relativas a alguns
documentos e hoje me preparei para cuidar dos
outros. Trim, trim trimmmmm:.. Da mesma vez
que no ano passado... Alô! Encontrei sua carteira!
Lembrei do que entendi do filme Dúvida. Uma
freira faz comentários sobre a vida sexual de um
padre. O boato se espalha. Cai a ficha, a freira
procura o padre, pede perdão. O padre: perdôo.
Mas antes, sabe um travesseiro com penas? Chegue
na janela, solte as penas ao vento, depois recolha
pena por pena...
Pronto,estou recolhendo as penas.Reforcei minha
visão de mundo. O mundo tá ruim e tá bom, vi-
cioso e virtuoso, depende um tanto do meu olhar...
E dos olhares de outros com quem me identifico...
143
Labirinto. Tristezas se aproximam.Tudo um tan-
to embaralhado. O primeiro pensamento é fuga.
Perdido nestas emoções, procuro, procuro, não
encontro responsáveis fora de mim. Sem limites
entre eu e o mundo. Telefono a cada outro, escu-
to impaciente, não ouço o que desejo. Se não sei
pr’onde ir, não vou? Respiro, me acalmo.
236 237
144
Gera trabalho para outros - terá dificuldade em
sua autonomia futura? - a criança que não apren-
deu ajudar na manutenção da casa: lavar pratos,
roupas, arrumar cama e mesa, varrer, ir à feira, ao
supermercado, à padaria, ao banco, fazer um café,
encher o filtro, limpar a geladeira, cozinhar...
145
Roberto, o Pontes, conversa livre, saca: amor e
medo, afetos básicos. Bate no meu peito, direto à
compreensão. Mais próximo do início, o fio de
meada: amor e medo. Antes, inda mistério.
146
Perguntas que me faço: imagine... Qualquer um,
eu, você como eu, diante de si mesmo, a se fazer
perguntas.
Sou diferente do que deveria ser?
Devo limitar-me à ética?
Aprendo fazendo? Ensino sendo?
O sofrimento que gero em mim é fronteira,
é limite?
Em mim, onde está minha alegria?
Se contente, o que me facilita
estar, permanecer? Em que me impeço?
Que faço pra atrapalhar minha própria vida?
O que está ao meu alcance?
O que, em mim, alimento?
Que sei que não sei?
Que sinto que sei?
Afeto, berço de ética?
Humanidade, prioridade?
O pensamento vem do sentimento?
Onde nasce o que sinto?
Moral é o que aprendi?
Ética é o que sinto certo?
Moral varia em cada cultura?
Ética é uma sabedoria que não sei
de onde veio nem quando?
Ética é deus em mim?
Quanto mais pergunto, menos sei?
Quanto mais aprofundo, mais mistérios,
mais perguntas?
238 239
Ausência de memória diminui os desejos?
Menos desejos, menos angústias?
O que é público, o que é privado?
O que me permito, o que a outros inibo?
O que está em meu poder de realização,
o que depende de outros?
O que cabe a mim, o que cabe ao outro?
Sentir, sacar, refletir?
A realidade determina a ordem dos passos?
Ética é pressuposto?
	
Sou do jeito que gosto?
E se o suficiente impera, 
que faço com meus tempos, minha vida?
Afinal, quem está paciente?
O médico, o doente?
Escolho o que penso, falo, faço?
E o que sinto, que desejo?
Cuido de mim?
Que está ao meu alcance?
Em mim, onde está minha alegria?
Onde vai meu pensamento, vão meu sono,
meus sonhos?
Pensamento não se mede,
vai além das distâncias, ignora o tempo?
Sentimentos interferem em pensamentos?
O que me alegra?
O que, semelhante ao meu desejo,
o outro deseja?
Que relações cultivo?
O que me impede ser quem desejo?
Meus medos de que?
Louco vive o que sente?
Saudável é palpável?
Sou melhor que o outro? Pior?
Comparo porque me falta?
240 241
O que me permito, o que a outros inibo?
O que posso? O que não?
O que cabe a mim, o que cabe ao outro?
A realidade determina a ordem dos passos?
147
O futuro é meu desconhecido. Sou o que hoje
sou, a cada futuro que adentro encontro o novo.
Sou neste momento experimentador. Tento, tro-
peço, aprendo.
148
Quando me repito, recordo, me educo. Tudo ten-
tativa. Como naquele jogo, batalha naval. Volta e
meia tiro n’água. A diferença é quando acerto.
Ganho e ninguém perde.
No meu manual tem: inspirar, expirar, respirar.
Atentar ao que sinto, ao que penso, falo, faço.
Aprender a compreender, aceitar a mim, ao outro.
Exercitar o afetuoso, comigo e ao redor. Separar
minhas loucuras das loucuras do outro. O humor
como indicador: se de bom humor, estou bem. Se
não, que faço?
149
Já no ventre, talvez antes dele, o básico individu-
al e coletivo satisfeito: que mais cada um de nós
necessitará? 
150
Tento, aprendo o virtuoso, singelo, belo, conten-
te? Escolho o que penso, escolho a palavra, sele-
ciono o que faço? Que desejo?
151
Sinto que cuidar de mim faz bem a mim e a quem
ao redor.
152
Governar. Cada vê mais admiro Dilma. Se é tão
difícil administrar minha casa, imagino um país,
onde os moradores têm livre arbítrio e caracteres
variados.E uns têm ética dentro de si e outros não.
153
Ditadura. Aprendi lá em casa: reconhecer que
errei me faz melhor. Desconfio de mim quando
não reconheço meu próprio erro. Se reconheço,
cresço. Se não reconheço, erro de novo. Confiarei
242 243
mais, mesmo em quem errou, se reconhece seus
erros. É errado colaborar com ditadores. A dita-
dura foi um erro. Qualquer ditadura: em mim,
em casa, no trabalho, no país.
154
Paraestarassim,dojeitoquemegosto,demoroutan-
to.Antes só soube ser do jeito que outros queriam.
155
O que me incomoda no outro é o que sinto em
mim. Pretensioso, julgo o outro pelo que sinto.
Não falo dele, falo de mim.
Tenho um padrão, minha voz me trai. Desejo ser
o modelo, desejo ser aceito, reconhecido. Tudo
um tanto por causa deste vazio que não conheço.
E quando conheço, não entendo.
156
Ralph Viana definiu: sério alegre. E foi e mais as
Alternativas no Espaço Psi – Psicologia Psiquia-
tria Psicanálise. Parque Lage, fronteira dos anos
70 e 80, mais de mil eus se encontram num peda-
ço do futuro à procura de si e de nós. Cada eu faz
seu passeio, seu mergulho, escolhe uma e outra e
mais outra das mais de cem vivências, palestras,
debates, performances... Arte, ciência, espiritu-
alidade, dúvidas misturadas como são. Lapso,
a memória afetiva se abstrai do tempo. Ali está
aqui. Somos espaço, eu e lá. Me incluo no mundo,
sou o mundo, represento o todo. Um homem co-
mum, como cada um.
157
Penso na pior hipótese antes de iniciar uma com-
pra, uma venda, um trato, um contrato. Penso em
soluções caso aconteça a pior hipótese. Se perma-
neço tranquilo, sabedor que há saídas saudáveis,
dou cada passo. Aprendi que dá muito trabalho
corrigir ignorâncias.
158
O que uma arquiteta arquiteta?
Tetos?
159
Domino mundos e perco guerras no interior de
mim mesmo.
244 245
160
Tudo me leva a crer que o mundo será o mesmo
sem mim.
161
Olho no espelho e não reconheço o velhinho.
Sou eu.
162
A morte é também uma escolha?
163
O conteúdo da programação é a essência. O con-
teúdo da comunicação é a essência. O conteúdo
do afeto é a essência. O jeito de afetar, essencial.
164
O homem ideal acrescenta conteúdos consisten-
tes em qualidade ao que vive. É cuidado. E cuida
de quem cuida.
165
Pessoas que trabalham a favor são fontes de mo-
vimentos libertários. Algumas dão chão: cuidam
da administração, criam condições para o traba-
lho de outras. Outras pesquisam, imaginam, pro-
põem e produzem produtos geradores de trans-
formações. Umas levam as informações onde o
povo está.
É mais simples como aqui parece. A base são as
pessoas. Motivadas, a insegurança – o tititi – de-
saparece, a paz reina. Informadas, todas sabem do
que acontece. Pessoas como eu se transformam
em realizadores. E outros, se interessados, ten-
dem a se qualificar como multifuncionais. Como
potencialmente somos todos.
166
Cuidados com quem cuida: pessoas são a base de
funcionamento de instituições.Parece fundamen-
tal o estímulo à auto-estima de cada um dos que
trabalham com o público, de forma que cada vez
mais todos tenhamos prazer no que fazemos.
Isto significa facilitar o crescimento humano, a
melhoria de qualidade de vida de cada funcioná-
rio acolhido no seio da instituição, inclusive atra-
vés do acesso a informações consistentes.
246 247
167
Estímulo à pró-atividade: o gostar de si mesmo –
fundamental para gostar espontaneamente de ou-
tros – implica em ter consciência de que realiza
trabalhos de qualidade, é útil e necessário.
	
A experiência nos diz: quem gosta do que faz di-
ficilmente necessita ser controlado. No máximo,
acolhido, respeitado, orientado. Este respeito se
traduz em decisões e atos que considerem huma-
namente cada pessoa pelo que é e realiza.
168
Cuidados com as expectativas. Oferece quem
tem. Como diria Rodrigo Fonseca, o sociólogo:
vaca não dá coca-cola. Não devo esperar coca-cola
de uma vaca, que já me mostrou que dá é leite.
169
Mesmo que os ditos superiores de cada um te-
nham – em princípio – uma visão do conjunto,
cada realizador de tarefas pode contribuir para
decisões acertadas, uma vez que – também pres-
suposto – é cada funcionário quem deve melhor
saber do seu ofício.
170
Talvez seja verdade que se a fé vem da experiência -
como preconiza corrente de teologia contemporânea
- a vivência-experiência, se consciente, aprofunda o
saber.
171
Humor estável é sinal de inteligência emocional?
172
Os mesmos fatos, visões diferentes. É assim em
relação à própria criação do universo, da terra,
do homem. Ser ou não ser, passam os séculos, ao
fundo permanecem esta e outras questões.
Cada homem, do seu jeito, cultiva – ou não – sua
própria evolução, em tentativas de viver melhor.
A soma destas revoluções individuais se traduz
na evolução da humanidade como um todo.
A memória nos lembra da nossa história recente:
vida rural, industrial, pós-industrial. Agora globali-
zação, fase de stresses, tendências desumanizadoras.
Indivíduos, bairros, cidades, países fortes e fracos - é
olhar ao redor - destinam recursos para as armas.
248 249
Volta e meia, implosões de insatisfações que –
juntas – se traduzem em conflitos coletivos, guer-
ras. A vida, breve: tempo curto para lutar contra.
O buraco – quase sempre – mais embaixo. O in-
consciente individual e coletivo – parece – induz
nossas ações.
Por outro lado, olhando bem, sinais de vida no
planeta Terra. A favor do homem.
Também aqui, cada ato se traduz no resultado.
Cabe a cada um de nós, no que pode neste barco,
refletir, nortear seus atos. Parece poesia, pode ser
também ato, fato.
173
Quando ouço uma boa gargalhada, lembro papai.
Ou quando alguém é prestativo.
174
Winnicott: a essência da democracia repousa no
homem comum,na mulher comum,no lar comum.
175
Freud: No exercício de uma arte vê-se mais uma vez
uma atividade destinada a apaziguar desejos não
gratificados – em primeiro lugar, do próprio artista e,
subsequentemente, de sua assistência ou espectadores.
176
Ser livre não significa fazer tudo que desejo, mas se-
guir as regras que eu escolho. Alguém me acertou.
Foi Kant?
177
Bilhete prum amigo: inda não aprendi falar com cal-
ma,entre tantas coisas que inda não aprendi.Já entre
o que aprendi, aprendi um tanto escutar meu corpo.
Meu corpo me dá prazeres,me sugere limites.
Outro dia fique três horas na cadeira do dentis-
ta. Anestesiado, meio dopado com um calmante
brabo. Fiquei cinco dias quieto, sopa, água, suco,
sono, leitura. Recuperei o equilíbrio, voltei ao tra-
balho, produzi mais tranquilo.
250 251
Sem querer querendo,costumo dar conselhos.Con-
traditório,tenho dificuldades em ouvir conselhos.
Do amigo, procuro respeitar suas decisões. E de-
sejo contribuir pra suas alegrias. Me alegro com
sua alegria. Por respeitar-lhe, agora me calo. Mas
saiba que desejo fazer o que está ao meu alcance,
em favor do nosso bem. Por favor me fale o que
deseja falar.Aprendo também que a vida terna me
faz a vida melhor.
178
Respondo rápido a perguntas que me faz, por
email, uma estudante de psicologia:
a. Porque escolheu este campo da psicologia para
atuar?
Sou um curioso. Leio sem ter que fazer pro-
vas: não sou profissional do ramo.Adoro insi-
ghts. Queira ou não, todo homem navega em
áreas psis quando interfere em emoções, nas
suas próprias e nas do outro.
b. Quais as dificuldades encontradas?
Em mim, minhas próprias resistências, meu
conforto arraigado. Em um ou outro, ausên-
cia de consciência, base, como afetos, da ética. 
c. Como é realizado seu trabalho neste local?
Rodas de conversas, com base na metodolo-
gia das Terapias Comunitárias - que não são
psicoterapias. Isto do lado, digamos, subjeti-
vo. Do lado objetivo, através da metodologia
das Redes Comunitárias.
d. Quais as diferenças da atuação em sua área
da teoria para a prática?
Quando penso, elaboro, escrevo, considero
meu mundo, minhas regras, minha cultura,
minhas referências. Quando em comunida-
des menos favorecidas, o mundo é outro, são
outras as regras, culturas, referências. 
e. No seu ponto de vista a psicoterapia corporal
pode ser um tipo de psicanálise?
São, digamos, métodos que se complementam.
Aprendi com Wilhelm Reich - e em mim, pela
prática da terapia reichiana - que, como todos?,
carrego minha história de vida no meu corpo.
Quando mexo no meu corpo, mexo em minha
252 253
memória afetiva e desperto lembranças e emo-
ções a elas associadas. Atos, digamos, psicanalí-
ticos me facilitam a compreensão emocional do
que vivo.
f. O que você acha da Psicoterapia Corporal em
grupo?
Quando percebo no outro vivências, questões
semelhantes às minhas, aprendo que minhas
questões não são só minhas, não estou só nes-
tes mistérios. Gente encontrando com gente é
pura humanidade. 
179
Quando Glauber falou“Nonatinho, treme a câme-
ra, treme a câmera...”, compreendi que também eu
poderia gravar. O jeito era linguagem, o que se-
ria errado poderia ser o certo. Zequinha Borges,
anos depois, foi direto quando eu, inseguro, lhe
pedi mais uma vez para registrar em vídeo o que
eu desejava:“Porra, Luiz. Vai à luta, filma você, ar-
risca.”. Arrisquei, errei, tropecei, acertei. E assim
vou, neste equilíbrio em risco.
180
A palavra enfezado vem de onde?
Cheio de fezes, enfezado?
181
Ações, imagino, funcionam assim. Acionistas, fa-
zemos uma vaquinha pra investir num negócio.
Somos, juntos, donos do negócio. Qualquer lu-
cro que o negócio der, vem pros donos das ações.
Mesmo que o negócio seja lá nos confins do mun-
do e vivamos aqui,no coração do que nomeio civi-
lização. Muitas vezes o fim do mundo é aqui. E os
acionistas estão lá, nos primeiros mundos. Parte
do nosso trabalho compõe o lucro de acionistas
que não conhecemos. É justo?
182
Sóagora,aos65,reconheçoqualidadesdemamãe,de
papai. Compreendo, amadureço. Surpreso, quando
minhas qualidades são tão cedo reconhecidas.
183
Na beira dos 66 anos, me sinto bem.
Os exames comprovam.
254 255
Teste ergométrico > cinecoronariografia, não.
Precordialgia, nenhuma. Aptidão respiratória,
boa. Tomografia da coluna > escoliose, sinais de
artrose lombar. Tomografia dos seios da face: es-
pessamento mucoso no seio maxilar direito, des-
vio do septo nasal.
Exame de sangue > normais as hemácias, he-
moglobina, hematócrito, anisocitose, leucócitos,
basófilos, eosinófilos, neutrófilos, bastões, seg-
mentados, linfócitos. Monócitos, 11%, quando o
normal seria entre 2 e 10%. Plaquetas, 155, quan-
do o normal seria entre150 e 450.Colesterol,172.
Triglicerídeos, 78. Colesterol HDL, 51. Coleste-
rol LDL, 105. Colesterol VLDL, 16. Colesterol
NÃO HDL, 121. Índice de Castelli I, 3,4. Índice
de Castelli II, 2,1. Antígeno superficial de Hepa-
tite B, não reativo. Anticorpos contra o antígeno
superficial de Hepatite B,não reativo.Pesquisa de
anticorpos para Hepatite C, não reativo. Anticor-
pos IgG anti-herpes simplex, reativo. Anticorpos
IgM anti-herpes simplex, não reativo. Antígeno
prostático específico, 3,12. Relação PSA livre/
PSA total, 0,22.
Sinto que devo diminuir ovos e queijo. E assistir a
maiscomédias,namorarmais,caminhardiariamente.
184
Aprendi: quando facilito o trabalho do lixeiro,
porteiro, carteiro, cozinheiro, feirante... – e de
nós todos, que entre nós nos cuidamos – facilito
também a minha vida. Quando cuido do outro, o
outro – do jeito que sente, que sabe, que pode –
cuida de mim.
185
Só o essencial é essencial?
Quem, o que é essencial em minha vida?
186
Elaboro um projeto quando respondo às pergun-
tas, básicas: o que, por que, quem, como, onde,
quando, quanto. Planejo a realização quando rela-
ciono as tarefas necessárias para alcançar o que de-
sejo. Se as tarefas estão numa coluna, crio outras
quatro colunas ao lado. E numa anoto até que dia,
noutra quem é responsável, em mais outra quanto
custa e numa última escrevo as observações.
256 257
187
Será?
Resistências ao sonhar e refletir desconside-
ram as origens do fazer.
Práticas comprovam que resultados são efe-
tivados e multiplicados quando ações são so-
nhadas, sentidas, pensadas com antecedência.
Há espaço para ética individual.A pessoa que
se cultiva ética, pratica suas escolhas do que
pensa, do que fala, do que age.
Pessoas que em si cultivam ética têm empatia
por quem também.
Uma instituição se torna ética quando se
compõe por pessoas que se cultivam éticas.
Fica mais claro quando a ética está presente.
Visões de mundo se ampliam. Saques, insi-
ghts, compreensões palpitam. Palpita vida.
Controles se tornam desnecessários quando a
ética está presente. São naturais as relações de
confiança e afetos.
Conteúdossãofunçãodasvisõesdemundo,tan-
to de quem cria quanto de quem facilita,realiza.
Quando me identifico afetivamente com o
que faço, trabalho é prazer.
Quando o trabalho é um prazer, eu sou o tra-
balho. Sou soluções.
188
Quando me deixo isolar pelas tarefas do dia-a-
-dia, minhas reflexões se ausentam, me acomodo.
189
Como imagino comum, não sei da importância
do que faço. Descubro nos frutos.
190
Construção da doença. Hoje vejo a morte – ou a vida
– como escolha,em cada ato que faço a favor ou contra
mim.Agradeçoaquemmefacilitaestarvivo.Amim,que
fiz,faço–efui,sou–oquesoube,seiser.
258 259
191
Numa livraria, mundos. Em cada um, nas linhas
e entrelinhas, no dito e no não dito, pontas como
de icebergs. Desisti de compreender tudo. Já bas-
ta o mundo que sou.
192
Nunca tive um time de futebol de coração.
Mas adoro jogadas bonitas.
193
Tento me limitar. Sou pouco pro que desejo.
Mas conversar, topo.
194
Tudo novo.Tentativas, tropeços, bambeios, apru-
mos e de novo. Sinto que a direção permanece.
Aprendo?
195
Tudo o que desejo imagino tão pouco.
Talvez seja muito. Desacelero?
196
Volta e meia, mexidas. Cada vez não fazer me atrai
mais. Quero me guiar pelo que vivo no caminho.
197
Entre o desejo e a realização
tenho gasto um tanto de mi vida.
198
Quando feliz, lembro a sorte que tenho
em desejar quem me deseja.
199
Volta e meia penso como desejo viver no futuro,
o que não vivo hoje mais o que já gosto. Hoje pro
futuro penso ser disponível o tempo todo pra esco-
lha que me enleva. E assim gravar, escrever quando
desejo.Antes, as relações com quem vivo, convivo.
200
Aprendo quando presto atenção no que penso,no
que sinto, falo, faço. Só sinto se presto atenção. Se
sinto – e não presto atenção – imagino presente,
na memória inconsciente. o ausente no conscien-
te. Um baú, em algum lugar de mim.
260
201
Filosofar é... pensar fora de mim? Pensar dentro
de mim? E pensar liga em que com sentir? Ou é
só livre pensar?
202
As coisas práticas: trazer a garra, prender o aba-
jour à prateleira de cima. Apoiar a venda do apar-
tamento da amiga, acompanhar a compra do ou-
tro. Interagir na diagramação do livro, articular a
impressão, facilitar a distribuição. Há uma lista
mutável. Cada objetivo, um conjunto de tarefas.
Defino prioridades, relaciono as tarefas e, nos seus
tempos, cada objetivo se realiza ou se transforma.
203
Lia O Cruzeiro. Copacabana, beleza, aventura,
alegria. Desejava vir pra cá, estudar no Pedro II,
morar no Rio. Eu, 14 anos, ali em Montes Claros,
1960. 1971, cheguei. Almejava dinheiro, mulher,
glória. Agora sinto saúde, sossego e meu sucesso
é outro. Lá fundo, desconfio era este meu desejo.
E não sabia.
Este livro foi impresso no inverno de 2012,
pela LGN Art Visual Ltda, Rio de Janeiro, Brasil.
Papel de miolo Pólen 70g/m2 e papel Duo Design 250 g/m2
Distribuição
LGN Art Visual Ltda
21 3902 1780
atendimentolgn@hotmail.com

Livro uma Vida Incomum Como Qualquer Um

  • 1.
  • 2.
    para Felipe ePedro e quem deseje Copyright © 2012 Luiz Fernando Sarmento Ilustração Capa Luiz Fernando Sarmento Diagramação e Capa Pedro Sarmento CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S255v Sarmento, Luiz Fernando Uma vida em comum como qualquer um / Luiz Fernando Sarmento. - 1.ed. - Rio de Janeiro : L. F. Sarmento, 2012. 264p. : 15 cm Índice ISBN 978-85-913883 1. Psicologia. I. Título. 12-4516. CDD: 150 CDU: 159.9 29.06.12 04.07.12 036637 uma vida incomum como qualquer um Luiz Fernando Sarmento
  • 3.
    1. Fora deOrdem 10 2. Mamãe 25 3. Um quase nada de quase tudo 29 4. Redes 34 5. Agências de inFormações 52 6. Vários eu 58 7. Lembranças 65 8. Psi 82 9. Rotina 87 10. Incertas 93 11. Reflexos 98 12. Balanços 113 13. Programas de TV 121 14. Piripaco 127 15. Talvez 131 16. Outro dia, um como outro 134 17. Pausa 143 18. Juntomisturado 145 19. Manual de manutenção 158 20. Hoje, já passado 161 21. Insights? 165 22. Ficção, desarrumações 167 23. Sensação de juventude 169 24. Anotações 172 índice
  • 4.
    Aqui os temposse misturam tanto quanto os assuntos. Fim e meio não sabem onde começam. Sorte de quem escolhe o que lê. E salta o que não lhe importa.
  • 5.
    10 11 1 fora deordem Tudo um tanto confuso, não sei direito quem sou, que faço. Só sinto, só penso. A novidade é que aqui e agora estou estru- turado, como desejei e produzi. Filhos cuidados, casa com cada coisa em seu lugar, despesas bási- cas de todo dia supridas – comida, condomínio, telefone, gás, luz, net-internet. Posso acordar e, em cada momento, escolher o que fazer da vida. Os desejos vão, vêm, se transformam.As variáveis que interferem nos meus desejos são inúmeras, inesperadas, fora do meu controle. O que é agora pode ser diferente depois. Quase como rotina, cuido de mim; alongo ao acordar, cozinho, lavo, mantenho o básico. Cada dia tem sido outro. De duas em duas semanas um casal arruma o apartamento. Outros amigos e colegas copiam vídeos que realizei só ou em par- cerias, incluem na internet, compõem programas alternativos de TV. Participo de encontros de in- teresse comum, ajo reativo ao processo de cada parceiro, despreocupado de tempos. Em relação ao bem-estar meu e do mundo, procuro distin- guir o que está ao meu alcance. Dentro de mim, cada vez mais tranquilo.Isto ontem,hoje de outro jeito, amanhã não sei. Quero agora escrever, fora de ordem. Princípio, meio, fim se misturam. E, dependentes de minha memória, se perdem ou nem se completam. Ima- gino – e proponho agora – cada leitor, se houver, cuide editar o que leia. Escolho o mais próximo do que sinto síntese. Vez ou outra me repito, como pra recordar. Detalhes, aprofundamentos, talvez mais adiante. Compartilho o que, inda que verde, me faz bem e imagino pos- sa fazer a outro. Se edito a prosa, encontro o verso. Se edito o ver- so, o hai-kai? Se edito o hai-kai, o silêncio. Nem tudo se resume a isto. Confesso, não sei direito o que é hai-kai.
  • 6.
    12 13 Em plenovôo, a aeromoça orienta. Quando as máscaras caírem, primeiro cuide de você, depois dos outros, mesmo crianças. Analogia imediata, cuidarei melhor do outro, se antes cuido de mim. Como você pode cuidar de mim, se não cuida de você? A pergunta que fiz a um amigo, tenho feito ao espelho: como posso cuidar do outro, se não cuido de mim? Tento inventar, descobrir, construir jeitos de rela- cionar-me que me supram.Aprendo que não pos- so dizer sim a algo que não está em mim. Facilita minha vida quando separo a loucura do outro da minha loucura. Se a mim não me permi- to, a outros inibo. E vice versa. Quando não beijo, por exemplo, muitas vezes não suporto outros se beijarem. Muitos“não!” que me chegam, são“lou- curas” de outros. Como Cacilda Becker, não tenho tido tempo pra lutar contra, só a favor. Como, talvez,Tom Jobim, aprendo que democracia é muito bom, inda mais se a pratico aqui com meus colegas de trabalho, lá em casa, com quem está ao meu alcance. Des- cubro que meus pensamentos são escolhas mi- nhas. Que gentilezas têm me gerado gentilezas. E quanto mais me conheço, melhor vivo. Na tentativa de tornar mais simples minha vida, aprendo que quanto menos tenho, mais leve me sinto. Um par de sapatos é suficiente, três me dão mais trabalho que um. Os objetos é que me têm, não eu que tenho os objetos. Carros dão traba- lhão. E plantas, animais: é o cachorro que me le- varia a passear, não eu a ele. Não posso deixar a casa sozinha se há plantas pra cuidar. Qualquer coisa que tenho, me dá trabalho. Um bibelô? Te- nho que espanar. Se tenho em excesso, trabalho em excesso. Sou assim quase escravo do que te- nho. Os objetivos também: pautam minha vida. Mas meus filhos não são meus, quase sempre eu me guio pelos meus filhos. Sinto bem. Os saldos positivos da minha vida estão relacionados aos afetos.Aprendo que um meu capital básico são as relações que cultivo, os afetos que me envolvem. Que sonhar me faz bem: me orienta o que faça. E que há vazios em mim que só eu posso aprender a preencher.
  • 7.
    14 15 Alguma compaixãome nasce em relação a quem dedica a vida a acumular coisas e sentimentos, em tentativas de preencher vazios que em si mesmo desconhece.Aprendo que melhor aprendo,fazen- do. E que melhor ensino, sendo. E eu, que não consigo resolver esta pretensão de que sei um tan- to sobre quase tudo? Como eu, imagino que uma mãe, um pai, professor, patrão, governante, sacerdote... desejam que um outro seja o que não é. Eventualmente inconscientes, projetam no outro seus próprios desejos. Nuns e noutro, quando cai a ficha – se cai – a consciência se dá,a compreensão se instala,o comportamento tende a mudar. Quando a ficha não cai, permane- cem – eternas? – incompreensões. Livre associo, misturo de um tudo.Nas ruas,louras,louras,lou- ras. Chego mais perto, são negras as raízes dos ca- belos. As louras, na verdade, são morenas. Barbie, modelo de beleza, american way of life, é referên- cia. Nas falsas-louras nativas, talvez angústia por não serem semelhantes aos ídolos adotados. Comunicação é meio, mesmo o meio sendo em si mensagem. O pri- meiro desafio que vivo é perceber o que meu próprio inconsciente tenta me comunicar. Apesar dos impedimentos por parte de ou- tras partes de mim. Fico atento aos sinais que me dão meus atos falhos. Ato falho não falha! Conteúdos que me tocam me emocionam. Mi- nha memória afetiva, sinto, permanece. Minha memória racional me escapa. De que mesmo eu estava falando? Quero aprender, como diz Simone de Beauvoir, a “viver sem tempos mortos”. Concordo com Sérgio Mello: os planos funcionam, difícil é o cronograma. Também com alguém, não me lembro quem: seja o que deseja ser. De vez em quando me pego muito eficiente, no caminho errado. Perdi minha vida por educação. Foi Verlaine quem disse?
  • 8.
    16 17 Esta aprendicom Adalberto de Paula Barreto – a pergunta que antes, submisso, fazia a outros, ago- ra tenho perguntado ao espelho: que você quer que eu queira, pr’eu querer? Aprendi e me tem feito bem: meu humor como indicador. Se estou de bom humor, estou bem. Se de mau humor, estou mal. Identifico-me com o que entendi do FIB, Felicidade Interna Bruta. Meus filhos,meus amigos aprendem comigo mais pelo que sou do que pelo que falo. Vice versa, eu também. Meus desejos me mobilizam. Eu me movimento a partir dos meus desejos. Desejos são básicos aos meus movimentos. Procuro descobrir quais meus desejos. Tento construir, pelas ações, pontes entre desejos e práticas. Pra facilitar, só quando preciso, numa coluna listo as tarefas que julgo necessárias para a realização do desejo. Ao lado de cada tarefa, em outras 4 colunas, prevejo datas, custos, responsá- veis e anoto outras observações. Dentro de mim, o conflito entre prever-planejar e não ter agenda, não limitar o futuro. Talvez eu possa planejar e adaptar à realidade o que antes previ. Se não gozo quando transo,permaneço com uma vi- vacidadejuvenil,oprazerpermanece.Ogozojánãoé meta.Ameta,seexiste,éoprazeremcadamomento. Onde vai meu pensamento, vai minha energia. Aprendo escolher pensamentos. De Freud entendi que muitos dos conteúdos dos sonhos estão relacionados a acontecimentos do dia anterior. Quando suporto alegria, antes de dormir, leio o que me faz sentir bem. Quando acordado, evito situações que me gerem senti- mentos desagradáveis. Outros em outras épocas já descobriram um tan- to disto tudo. Esta memória coletiva onde está? Sei que quando relaxo, capto. Volta e meia me pego, inconsciente, estragando prazeres: ao brigar com a namorada quando estava gostoso, ao chutar pe-
  • 9.
    18 19 dra quandoa caminhada tava boa, ao detonar um trabalho que me trazia enlevo... Muitas vezes senti como insuportável a alegria.A minha,as de outros. Percebi o mesmo em outros. Permaneço descon- fiado que isto se relaciona com minha cultura cristã, que proíbe emoções, prazeres – vide os 10 mandamentos e os 7 pecados capitais. Serei casti- gado – agora ou depois da morte – se transgrido alguma regra. Perdi minha inocência quando fui catequizado. Antes, em mim só existia um senso ético. Não existiam pecados mortais, veniais, in- fernos. A moral veio como doutrina. Internalizei as regras e as consequências de transgressões: dentro de mim associo o prazer ao castigo. Logo que percebo prazer, lembro castigo. Evito castigos eliminando prazeres. Os prazeres se tornam então insuportáveis. Agora, consciente, aprendo ser mais responsável por mim mesmo, minhas ações, minha vida. Sei que já não devo reclamar da pedra ao tropeçar nela. Eu é que não prestei atenção. Reclamo antes ao espelho. Algumas vezes minha vida ficou sem sentido. Tanto fazia viver, morrer. Não cheguei a procurar a morte. Mas a vida tava sem gosto. A lembran- ça dos filhos me animava. Eu era resiliente e não sabia: vim do quase fundo do poço ao equilíbrio dinâmico de agora. Antes dos 8 anos já sabia da proibição dos praze- res. Vivi prazer e medo em secretas descobertas infantis. E punhetas silenciosas das 2 da tarde au- mentavam culpas, pavores e rezas noturnas. Aos 14, no beco dos meninos, tive a sorte do acolhi- mento tranquilo naquele corpo diferente do meu. Aprendi a gostar de mulher. Mas perdi mesmo a grande inocência quando so- fri o catecismo. Não sabia de pecados – mortais, veniais – e castigos. Ficou um medo enorme do inferno eterno, chamas que nunca acabam. Foi como um insight ao contrário, um indark. Wilhelm Reich foi um choque bom. Perdi outra inocência, ganhei consciência: sou responsável por mim. Hoje leio sem ter que fazer provas. Só em boa companhia, adoro orelhas de livros, vejo
  • 10.
    20 21 trechos deFreud, Jung, Nise, Bubber, Moreno, Lobsang, Rajneesh, Lacan, Platão,Voltaire, Saint- -Exupéry, Szasz, Chang, Capra, Moody, Rogers, Beauvoir, Lobato, Quino, Monroe, Veríssimo, Barreto, Cançado, Ferenczi,Angeli, Brunton, Eco, Laing, Freire, Ziraldo, Ludemir, Nietzsche, Feito- sa, Pessoa, Moraes, Pontes, Chacal, Robin... e por aí vou. Se entendo, ai, que bom. Se não, vou em frente, volto, folheio. Antes de dormir, então, lei- turas facilitam o sono, os sonhos. É uma forma de oração, cuidar do que me vai dentro. As sínteses de Pontes, o Roberto: todo mundo é, todo mundo pode ser. E: o saber em todo ser. Mais ainda: amor e medo, emoções básicas. Lembro a Chiquita Bacana de João de Barro: existencialista, com toda razão, só faz o que manda o seu coração. E talvez Sartre: não importa o que fizeram com minha vida. Importa o que vou fazer com o que fizeram da minha vida. E o título do livro póstumo de Winnicott: Tudo Começa em Casa. Atos fractais, um pedaço representa o todo? Pequenos atos têm me dado informações sobre quem os pratica. Quem joga na rua o lixo que tem na mão me infor- ma que não cuida dos outros. E talvez não cuide dos outros porque não aprendeu cuidar de si.Ima- gino: se não cuida de si, como cuidará de outros? Mas, como diz Barreto, o Adalberto de Paula, só reconheço no outro o que conheço – tenho? – em mim. Pelo que percebo, outros pequenos atos me denunciam. Se jogo lixo no chão, se falo grosso, se furo fila, se bato em criança, se desperdiço água, se critico alegria,se rio das pegadinhas,da desgra- ça do outro... Parece óbvio, mas só há pouco tempo constatei que meu humor tem sido meu melhor indicador: se estou de bom humor, estou bem. Agora sei que só consigo comunicar-me com quem me escuta.E vice versa.Acomunicação se dá quan- do entendo o que me foi dito. E sou entendido. Eu me sinto bem com cada ato que realizo para difundir o que sinto me faz bem.
  • 11.
    22 23 Ouvi econcordo: minha saúde é coisa muito séria para ficar nas mãos de outros. Se não cuido de mim, quem cuidará?   A autonomia que me permito, desejo a cada um que a deseje. O sítio de mamãe chamava sossego. Era seu de- sejo. Sem saber disso, meu terapeuta Romel sin- tetizava em cumprimento: saúde, sucesso, sossego.   Há espectadores que acreditam mais na TV que na realidade? Em mim, é lento o processo de absorção de uma nova ideia, de mudança de comportamento. Há 7 anos desejo um sofá. Há 35 quero escrever um livro. Há 50 sonho ser dono do meu próprio na- riz. O que é novo me incomoda, me ameaça. Já desenhei o sofá, tento pela enésima vez escrever um livro, mas inda confundo meu nariz com o de outros. Com defesas ativas como as minhas – que atra- palham a realização dos meus desejos originais – imagino quantas inovações,descobertas filosóficas, tecnológicas, insights, invenções, criações... estão disponíveis para a humanidade e não nos chegam ao conhecimento. Percebo que boa parte dos custos de empresas e empre- endimentos é gerada pelos controles. Controlar dá trabalho, dá despesas. Por outro lado, a neces- sidade de controles diminui quando confianças mútuas estão presentes. Nas relações pessoais, familiares isto é nítido. Tenho certo que necessidades de controle di- minuem, se cultivadas relações de confiança. O medo gera controles. O amor gera confiança. Percebo em minha prática individual que quando remunero satisfeito – financeira e emocionalmen- te – serviços que me são prestados, recebo de vol- ta empenho espontâneo, com envolvimento e boa vontade. Quando cuido do outro, o outro cuida de mim, naturalmente. Admiro a inteligência dos empresários que repar-
  • 12.
    24 25 tem lucroscom quem com eles trabalha. É na- tural que cada trabalhador reconhecido se sinta reconhecido. E, tanto como se fosse seu, passa a melhor cuidar de tudo ligado ao trabalho: seja de equipamentos e insumos, seja de relações huma- nas com o público, colegas, demais stakeholders. Administrador, gerente que cuida de quem tra- balha próximo dorme tranquilo, vive melhor, tem assunto com os filhos. Não precisa esconder dos filhos malfeitos para os quais co-labore. Feitores – antigamente? – tinham esta função: obrigar ao outro fazer o que não quer. Administrador que age amorosamente tem retorno amoroso. Pare- ce complicado, mas é simples. É o tal do amor. O tao do amor? 2 mamãe Após a morte de mamãe, minhas irmãs sugeri- ram que eu escrevesse um necrológio. 1919. Nas- ce Heloisa. Vem para os Anjos, família grande numa Montes Claros criança. Amizades profun- das com primas vizinhas de quintais. Tudo tran- quilo neste porto protegido. 1928? Bum! Morre o pai, ficam sua mãe Antônia e 8 filhos. O avô pa- terno, Antônio, orienta, distribui. Cada filho um tio, um parente. 1934, de novo, seu mundo treme. Com a irmã Wanda,sós,vai pro lugar que não co- nhece, Salinas. Imagino inseguranças, saudades, solidões. Vive compaixões, compartilhamentos, cria vínculos. Aprende na vida, ensina no Grupo Escolar. Enamora Rodrigo. 1938, casa.Vêm quatro filhos. Cai a ficha, acredi- ta em si, toma as rédeas. 1948. Salinas fica pequena. Agora vejo, a história como se repete – pra abrir caminhos de liberda- de, distribui por um tempo os filhos: Lina fica
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    26 27 com Wanda,Stella com tia Odília, Luiz com d. Rosinha. Rodrigo, o marido, cuida de si. Mamãe dá o salto. João vai junto. Belorizonte, Instituto de Educação, mergulha. Volta, respira, arruma as malas, barriguda de Heloisa Helena: volta às ori- gens,Montes Claros,1951.O marido,é o possível, vai à luta em São João do Paraíso. Contribui de lá. Só com os filhos, a mãe, como defesa, controla. Tudo ou quase. Articula. Rodrigo regressa, a fa- mília recompleta. Sempre, dá aulas, educa. Nos intervalos, costura, remenda, orienta, organiza. 1954. Nasce o D. João Antônio Pimenta, Heloisa diretora, funda um Grupo Escolar. À noite dá aulas no Sesi. Por um tempo, acumula o Colégio Dioce- sano. Conhece, reconhece gente, constrói amizades. Cuida da família, corresponde aos que solicitam, dá as mãos, ensina, ensina, educa, educa, trabalha, tra- balha. Agora cuida também das normalistas: ensina a ensinar. Planta plantas, rega como planta e cultiva ideias, conhecimentos, relações. Solidária em mo- mentos necessários, fortalece o bem. Guarda confi- dências. Reflete, aconselha. Direto e reto. Não deixa para amanhã o que é de hoje. É consigo o que é com outros.Ama os próximos quase como aos filhos. Delegada de ensino. Gosta. Conversas e conver- sas e decisões. Interage. Norte de Minas e capital. 42 municípios sob sua tutela. Viaja, vai, vem, vai, vem. Modera, modela, representa. Articula para tornar viável, realiza junto. Integra órgãos estadu- ais e cidades.Com a equipe,consensua.Assim,50 anos de trabalho efetivo. E mais 18, aposentada, sutil nos afetos, atenta, pronta para escutar, pen- sar, falar, agir. Em toda a vida, emociona-se com serenatas e boas conversas ao anoitecer. Tem mão boa para plantar. Cava, semeia, rega. Adora uma arruma- ção. Quem estiver perto entra na roda. Nos mo- mentos mais diversos, exercita a solidariedade, constrói vínculos, valoriza amizades. 2002.Gasto,o corpo cansa.Rápida como sempre, prevê, organiza, distribui o que suou. E vai. Mi- nha mãe permanece em mim, em nós. Passado um tempo, quanto mais vivo, cultivo minha mãe boa. Caem em névoa os beliscões, os olhares determinantes, as limitações. Sinto que me compreendo quando
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    28 29 compreendo mamãe.E olha que, raivoso, briguei com ela um mês antes de sua morte. Mamãe esta- va com câncer brabo, ali em órgãos que filtram, se espalhando. Num momento, ela, aos meus olhos, maltratou uma moça que dela cuidava. Eu – que nunca lhe havia falado grosso – fui duro, impulsi- vo, gritei com mamãe. Ela ali, me olhando estupe- fata, de baixo pra cima, da sua provisória cadeira de rodas. Nos dias seguintes, emudeceu comigo, não respondia a meus “benção, mamãe?”. Diante de minha insistência, foi clara: “Perdoar, perdôo. Mas esquecer, não esqueço.”. Em relação a mamãe, não sei explicar direito, sei que meu coração está cada vez mais tranquilo. Desconfio que é porque fui sincero comigo mes- mo, com ela. Como fui pró-ativo em muitos mo- mentos que tomei a iniciativa do abraço, do beijo, da palavra doce. Parece que, como mamãe, sou assim, variado também em doce e amargo. 3 um quase nada de quase tudo Então ficamos assim: falo bem de você, você fala bem de mim. Uma dificuldade enorme, aqui, de aceitar elogios e agradecimentos. Vou aprendendo, mesmo sa- bendo que muito do que me move é minha pró- pria satisfação. E identificação. Relembro Marx, o Groucho: clube que me aceita como sócio eu não entro. Não deve prestar. Sinal de saúde, me orgulho: não sei onde fica meu fígado. Sujismundo era um personagem sempre rodeado de moscas, sujo, sujador. A campanha na TV foi eficaz: quem jogava papel na rua, se olhado como Sujismundo, se envergonhava, recolhia o papel, se recolhia. A atitude sujismundo gerava culpa e vergonha. A cidade do Rio ficou mais limpa por
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    30 31 um tempo.Tive notícia também – salvo engano, ali pela Escandinávia – de anúncio audiovisual em que um carro passava excessivamente veloz e, plano seguinte, uma moça fazia um sinal para ou- tra moça – dedo indicador se aproxima de dedo polegar – sugerindo a pequenez talvez do pau do motorista.Anúncios que geram culpa e vergonha. Imagino agora campanhas publicitárias positivas gerando satisfação e prazer, valorizando a afetu- osidade de quem contribui pruma vida coletiva melhor. É que, passado um tempo, meus convi- vas contemporâneos acreditam mais no que sou, no que faço, do que no que falo e não faço e não sou. Alegria gera alegria, gentileza gera gentileza. Exemplo de campanha assim, pra cima, relembro os conceitos de Pontes para divulgação de colônia de férias pra crianças numa favela: todo mundo é, todo mundo pode ser. O outro, este voltado para a universidade popular: o saber em todo o ser. Agora eu sei.Cada ato talvez tenha um significado. Quando fumo, agrido meu próprio corpo. Se ajo assim comigo, com o outro mais ainda. Sou então coerente quando jogo cigarro no chão, invado um sinal vermelho, dou um tapa, um tiro, solto uma palavra indelicada. Mas já sei que outros equilí- brios são possíveis,quando transcendo minha cul- tura masoque, cuido de outros ao cuidar de mim. Se não cuido de mim, como cuidarei de outros? Tenho lembranças do século XIX, são reais. Na década de 40 do século XX, Salinas estava longe dos grandes centros. As modas che- gavam tempos depois.Sem rádio,televisão,jornal. As notícias corriam, lentas, de boca em boca. Os causos contados na porta de casa eram de mula sem cabeça, almas penadas. Os costumes eram antigos.No porão da sua casa,tia Odília guardava os ossos de seu pai, meu bisavô. Pra se pentear, ela subia num banquinho e só então soltava os cabe- los que chegavam ao chão. Fazia linguiça. Enfiava ingredientes na tripa de porco. Para socar, usava uma chave grande, antiga. E quando curioso eu perguntei: que é isto, tia?, ela – chouriço, menino. Carrego dentro de mim o que então vivi. Carrego tudo, mesmo agora, cidadão do mundo, o hori- zonte mais próximo, tudo tão mutante.
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    32 33 Repito etento: separar o que é meu, o que do ou- tro, especialmente os sentimentos. E quanto aos objetos e moedas, mais do que possuo as coisas, são as coisas que me têm. Wilhelm Reich me ensinou, na teoria e na práti- ca: meu corpo traz minha história. Quando faço o que gosto, sem perceber trabalho o tempo todo. Quando cai minha ficha, vejo o mundo diferente. Tento crescer, mas inda é difícil suportar alegrias. Tristeza é fácil, matava no peito todo dia. Posso me comunicar com o mundo. Quando compartilho, me acalmo, melhoro. Se não me permito, a outros inibo. Dou o livro que gosto, nem sei o que o presentea- do deseja. Só dou o que tenho. Meu corpo hoje me fala, volta e meia me relem- bra: se quero dormir bem, 5 horas antes já não como. Se como, regurgito, durmo sentado. Nos sonhos realizo meus desejos? Parece que quando vivencio situações sou quem melhor poderia conhecer estas situações que vi- vencio. Assim, talvez, potencialmente, seja eu quem melhor saiba das soluções das questões que vivencio. A consciência desta sabedoria talvez de- termine a possibilidade de ação transformadora em mim. Há expressões de outros – falas, atos, artes, escritos... – que me despertam consciências.
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    34 35 ção derelações, vínculos, confianças, descobertas de interesse comuns – temáticos, territoriais... E trocas, construções de parcerias, realizações de objetivos comuns. Assim se formam capitais so- ciais.Trabalhos sociais e comunitários dependem diretamente da participação coletiva, de cada um. Redes espontâneas: uma criança nasce, a tia te- lefona pra prima, que telefona pra avó, que fala pros netos, que espalham pros amigos... A rede nasce, cumpre sua função, desaparece. E reapare- ce quando necessária. Muitos agora sabem que a criança nasceu. São inúmeros os tipos de redes: presenciais, virtuais, fomentadas, redes de redes. Redes são diferentes de cadeias. Redes pressupõem espon- taneidade, ausência de hierarquia. Cadeias não: têm gente que manda em gente. Redes quando se somam, se multiplicam. Multiplicam de tamanho quando se articulam com outras redes. Por exem- plo,quando se comunicam entre si – movidos por interesse comuns – setores públicos, setores pri- vados, movimentos populares. 4 redes Fecho os olhos e respondo a mim mesmo: o que aqui procuro? O que aqui ofereço? Imagino agora que posso ex- pressar para todos: o que procuro e o que ofereço. Se este canal de comunicação se estabelece entre eu e outros, tendo cada um de nós esta liberdade de comunicação, estaremos em rede. Sei, imagino que todos sabemos, que conheci- mento é poder. E compartilhar conhecimento é compartilhar poder. Cássio Martinho me ensinou: rede é um esforço individual e coletivo de comunicação, um com- partilhamento de informações. Na rede, ausência de hierarquia, presença de iniciativa espontânea de quem participa. Eu praticava redes e não sabia. Redes fazem parte de um processo que pode chegar a transformações individuais e coletivas. Comunicações entre pessoas possibilitam cria-
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    36 37 Facilita aformação de redes presenciais a ausên- cia de discriminação de raça, crença, facção, parti- do político, ideologia, gênero, sexo...Também um espaço neutro, onde cada participante se sinta à vontade, seja evangélico, espírita, católico, budis- ta, maometano, taoista, ateu, agnóstico, duvido- so... Ou negro, branco, mulato, amarelo, albino, pobre, rico, remediado, democrata, liberal, socia- lista, anarquista, hétero, homo, bi, pan... Expansões da rede são estimuladas quando dis- ponibilizadas informações básicas – lista de pre- senças, com telefones, e-mails... – tanto durante os encontros quanto logo depois virtualmente pela internet. Mais ainda se também distribuídos, para cada um e para todos,os classificados sociais, que são descrições das ofertas e procuras que aconteceram durante os encontros. Os Classifi- cados Sociais e as Listas de Participantes servem para facilitar contatos e intercomunicações. Ten- do estas informações em mãos, depende de cada um a iniciativa de contatar e articular parcerias. E, naturalmente – base para relações humanas saudáveis – vínculos afetivos fortalecem redes. Linha do tempo Desde cedo trabalho. Hoje vejo o que plantei – onde investi minha vida, meus tempos e energias – e, acredito, compreendo um tanto porque me sinto bem à medida que amadureço. Em casa engraxava sapatos aos sábados, ajudava a passar a cera no assoalho, colaborava um pouco nos serviços domésticos. Aos 12, informalmente, vendi cestas de natal Titanus. Aos 16, dei aulas particulares de matemática. Aos 17 ou 18, pri- meira carteira assinada, auxiliar administrativo de uma distribuidora de bebidas. Em seguida, ou paralelo,não lembro,repórter policial do Jornal de Montes Claros. E fundei e publiquei, com amigos, o Setentrião, jornal distribuído gratuitamente. Já na Universidade de Brasília, fui monitor de estatística. Nas férias estagiei em escritório de planejamento e elaboração de projetos. Dei au- las pela Fundação Educacional do Distrito Fe- deral, trabalhei no Ministério da Agricultura, no Fundo Federal Agropecuário, um pouco para o Ministério da Educação. Com parceiros, monta- mos uma pequena tecelagem de camisas de ma-
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    38 39 lha. NoRio, agora no INCRA, participei de um grupo de trabalho que preparava uma reforma agrária: cuidei da seleção e treinamento de cap- tadores de dados relativos a parceiros, arrenda- tários, proprietários rurais... Em Amsterdam, quase como umas férias, des- cobertas pra vida inteira, ampliação de visão de mundo. Em Londres fui modelo para desenhis- tas, operário de obra, porteiro e vendedor de sor- vetes num teatro, voluntário na feitura de pães integrais. De volta ao Rio, funções variadas em um punhado de longas-metragens. Assessorei a direção da Embrafilme e, ainda lá, cuidei por seis meses do programa Coisas Nossas, veiculado pela TV Educativa. Na Globo Vídeo fui gerente de marketing sem saber direito o que era. Pulei para novos negócios. Na Fundação Roberto Ma- rinho dei continuidade ao Vídeo Escola, projeto que escrevi – a pedido da instituição anterior – e gerenciei a implantação. Nocorrerdavidarealizeiregistrosemvídeo,espe- cialmente na área psi, que sempre me atraiu. Com Ralph Viana,Valéria Pereira e muitos voluntários e parceiros ativos realizamos, no Parque Lage, o simpósio Alternativas no Espaço Psi – Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise. Antes, durante anos, co- laborei com a Rádice, revista de psicologia. Um pouco com o Luta & Prazer, jornal libertário de espírito juvenil. Fui sócio de uma livraria, a Espa- ço Psi. Estive em Moçambique, como cooperante junto ao Instituto Nacional de Cinema. Realizei e produzi, só ou com parceiros, algu- mas dezenas de vídeo-registros e documentários. Na maioria, singelos, focados mais nos conteú- dos que nas formas. Candomblé, Ilha Grande, Energia da Vida, Auto-hemoterapia, Aparelhos Orgônicos, Aids – Boas Notícias, uma série: Psi- coterapias Corporais. E Quilombo, Folhas Sa- gradas, Terapia Comunitária, outra série – Rio, Estado de Alegria. Também Artistas de Rua, Una Madre de Plaza de Mayo, Práticas Chinesas de Auto Cura... Na década de 80, criei e experimentei um método, Videomobilização: os limites dos conteúdos eram nossos limites, a propriedade da imagem e do som era da pessoa objeto de gravação. Sugeríamos que,
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    40 41 quando assistisseo que foi gravado – só ou em companhia do seu terapeuta – desse mais aten- ção aos sentimentos provocados pela sua própria imagem e sons. Compreensões mais profundas corresponderiam a insights tão desejados. Muitos dos clientes eram terapeutas. O Sesc Rio Mergulhei no Sesc em 2.000. Éramos poucos mais de 400 para 3 vagas. 7 meses, o processo de seleção. Fui contratado como coordenador técni- co e locado no Sesc Ramos, ao lado do Complexo do Alemão. Minha função era cuidar da progra- mação, facilitar o trabalho de colegas que produ- ziam eventos, atividades sócio-culturais, esporti- vas, de lazer e promoção da saúde. Quando cheguei, uma média de 150 pessoas fre- quentavam diariamente os espaços da unidade operacional. Quando sai dali pra trabalhar na sede, 1200 a 1500 pessoas diárias. Tudo mui- to em colaboração com os colegas da época que apoiaram transformações. Logo no início, com a intenção de desburocratizar, estudei os caminhos dos papéis. Na verdade, os caminhos desde a ideia à avaliação, passando pelo consenso na pro- gramação, alocamento de recursos, preparação, contratações, realização, pagamentos... Criamos e implantamos ali uma metodologia que chamei de Sistema Sesc de Produção. Processos e procedimentos se simplificaram e, com o tempo, natural e espontaneamente outras unidades operacionais do Sesc Rio adotaram a metodologia. Nela, o IBAS – Informações BÁ- Sicas – que nomeei em homenagem a Betinho, do IBASE, continha respostas às 7 perguntas básicas necessárias para a realização de eventos e atividades: o que, quando, porque, como, onde, quem, quanto. Criamos e distribuímos muitos e muitas folhetos e filipetas para os moradores da área, convites para frequentar o espaço. Experi- mentamos, junto a funcionários, um outro mé- todo que chamei de Rodízio Criativo. E criamos e implantamos as Redes Comunitárias, adotada posteriormente pela instituição como um todo. Ampliamos a atuação para fora do espaço físico do Sesc Ramos. Fomos até onde nosso público estava. Era o Sesc fora do Sesc.Tudo isto estimu- lado pela missão original do Sesc:
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    42 43 “O bem-estarsocial dos comerciários e seus dependentes, através de serviços de caráter sócio-educativo nas áreas da Saúde, Cultura, Educação, Lazer e Esporte, com qualidade e efetividade. Bem-estar social é aqui entendi- do como o resultado de ações de uma estrutu- ra de atividades e serviços de cunho educativo que contribuem para a informação, capacita- ção e desenvolvimento de valores. Os comerciários e seus dependentes repre- sentam o público prioritário do SESC-RJ na prestação de seus serviços, os quais são tam- bém extensivos à sociedade.” Lembro que o Sesc faz parte do Sistema S – Sesi, Senac, Senai, Sebrae, Sest, Senat, Senar... Do que entendi, o Sistema S trabalha com dinheiro público e tem missões originais voltadas para o público, especialmente trabalhadores e seus de- pendentes. Em relação ao Sesc, especificamente, comerciários e seus dependentes podem frequen- tar gratuitamente suas dependências e usufruir dos serviços que as unidades operacionais do Sesc oferecem: eventos e atividades nas áreas de esporte, lazer, sócio-educativa, turismo e saúde, como, por exemplo, assistência odontológica de boa qualidade. Sou profundamente agradecido à instituição pela oportunidade de ali realizar trabalhos com o senso ético que carrego em mim. Porém, não me identifico com a orientação definida pela direção do Sesc Rio nos últimos tempos em que lá traba- lhei, em 2011. Vídeos Já na sede,no Flamengo,na Assessoria de Projetos Comunitários supervisionada por Gilberto Fugi- moto, planejamos e realizamos diversas ações co- munitárias, enormes e pequenas. Para difundir a metodologia encomendamos e orientamos a reali- zação do vídeo institucional Redes Comunitárias. Um tanto pela importância daquilo que fazíamos, eu me propus realizar registros em vídeo, espe- cialmente de encontros de redes comunitárias. Comprei, com meus recursos, equipamentos – 2 conjuntos: câmeras, tripés, microfones direcio- nais, extensões... – e gravei. Gravei muito. Já no
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    44 45 momento dasedições, solicitei e recebi o apoio do Sesc, que pagou o trabalho de edição. Em contra- partida inclui nos créditos agradecimentos e auto- rizei copiagens para distribuição junto a pessoas e instituições interessadas na metodologia. A par- tir do movimento de cada um que se identificou – vivenciou e tomou conhecimento do novo jeito de se encontrar e objetivar conversas – as redes se ampliaram e se ampliam. No Sesc criamos outros encontros. O METS – Movimentos Emocional e Transformações So- ciais, com Michel Robin, nos espaços do Centro de Movimento Deborah Colker – encontro-pes- quisa em busca de informações sobre mudanças individuais e coletivas. O LPS – Livre Pensar So- cial, com Gilberto Fugimoto – roda de conversa entre instituições interessantes e interessadas no bem estar social. O CCI – Comunicação Comu- nitária Interativa – roda de conversa entre pesso- as atuantes em comunicações comunitárias, com a participação de George de Araújo. Os vídeos que realizei com o apoio do Sesc Rio estão disponíveis para que a instituição utilize em benefício do público. Estão acessíveis no www. luizsarmento.blogspot.com e no www.videolog. tv/luizfernandosarmento. Disponibilizamos tam- bém pouco mais de 500 classificados sociais, um a um,no http://www.youtube.com/redescomuni- tarias.Tudo um tanto singelo. Relações humanas incluem relações emocionais. O que me leva ou o que me impede relacionar com outro? Os METS foram encontros periódicos, às vezes esporádicos, que procuravam congregar quem considera desenvolvimento emocional como base para desenvolvimento humano e social. Demos um tempo nos METS quando conhecemos as TCs – Terapias Comunitárias, criadas por Adalberto de Paula Barreto. Nas TCs, teoria, metodologia e prática somam conhecimentos acadêmicos e populares.A TC é política pública no Brasil, hoje. Saiba + no www.abratecom.org.br, no www. luizsarmento.blogspot.com ou no www.videolog. tv/luizfernandosarmento Os LPS – Livre Pensar Social – eram encontros voltados para reflexões e fomento de políticas pú-
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    46 47 blicas.Articuladores,apoiadores erealizadores de projetos comunitários – sem compromisso con- clusivo ou deliberativo – compartilham ideias, in- formações e reflexões focadas em desenvolvimen- to humano, social, integral. Antes, apoiado nas práticas por Lídia Nobre, a assistente social, criamos as Redes Comunitárias, onde cada participante tem espaço para falar do que oferece e do que procura em relação ao lugar que vive ou ao tema que lhe interessa. Pra mim, redes comunitárias cuidam do objetivo. E terapia comunitária do subjetivo. Como tudo, ou quase, na vida, varia. A ideia das Agências de inFormação deu motivo para que George de Araújo e eu, com apoio de Carolina Pelegrino e Andrea Medrado, reali- zássemos os CCI – Comunicação Comunitária Interativa, encontros de pessoas e instituições ativas e interessadas em levar e trazer informa- ções para quem não é escutado e para quem não é representado por mídias formais. É gente que trabalha com jornais, rádios, TVs comunitários, folhetos, alto-falantes, comunicação popular. Gente que leva e traz informações e notícias,inte- rage com seu público. E que, nos encontros, refle- te sobre o que faz e comunica, conteúdo e forma. Estes encontros muitas vezes foram sementes que geraram vínculos, parcerias e movimentos. Tudo em ondas, frutos de contribuições de cada um, de acordo com suas possibilidades e desejos. Gravei em vídeo, com apoio de muitos, muitos destes encontros. Cada editor – criação e muito suor – deu personalidade a cada vídeo. Em sua maioria, os vídeos estão na internet. Os ouvintes querem falar: todos sabemos que há gente procurando e ofe- recendo de um tudo. Quando se encontram e se entendem, se suprem. Quando não sabem um do outro, oportunidades desaparecem. Início do milênio, Sesc Ramos, ao lado do Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Fórum Transformações Sociais – O que Pode dar Certo. Palestrantes experientes numa mesa,
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    48 49 trezentas pessoasna platéia. Nem mesmo falas interessantes interessaram aos presentes. Em menos de uma hora, evasão. Das trezentas, somente umas cinquenta, sessenta ficaram. Levamos o microfone ao público. Agarram, bo- tam pra fora:“o governo não presta...“. Muita gente na fila, todos querem falar. Eu, inseguro: “Peraí! Seja objetivo por favor: o que você veio procurar aqui? O que você veio oferecer? Dois minutos para cada um.”. Pronto, surgiu o jeito, a metodologia. Convida- mos quem se interessasse para uma primeira con- versa, juntos. Em roda, os tratos iniciais - aqui, neste momento, somos iguais em direitos e de- veres. Encontro sem palestra nem eventos, só as falas individuais... Cada um sintetiza quem-é-o-que-faz, se-repre- senta-uma-instituição, o que procura, o que ofe- rece. Tempo limitado, um-dois-cinco minutos, dependendo de quantos estão presentes e do tempo total que pretendemos estar juntos naque- le encontro. É um desafio sintetizar, falar pouco e objetivamente. Aprendemos juntos. Para facilitar o controle dos tempos individuais, há encontros em que utilizamos uma ampulheta, outros em que batemos palmas no limite ou simplesmente avisamos, cordiais: tempo esgotado. Depois que todos falam, os interessados se deslocam para o café. E, ao redor da mesa, cada um aprofunda a conversa com aqueles por cuja oferta-procura se interessou.Trocam informações, ideias, se conhe- cem. Constroem parcerias. Base das redes comunitárias, os encontros são voltados para a construção de realizações, para a prática de parcerias, através de pessoas repre- sentativas – interessantes e interessadas – de co- munidades e instituições privadas, públicas e do terceiro setor. De modo simples e objetivo, cada representante se apresenta e fala o que veio procu- rar e o que veio oferecer.Todos têm oportunidade de falar e ouvir. E, quando cada um sabe quem é quem,o espaço se abre para o aprofundamento de relações e formação de parcerias. Normalmente os encontros acontecem periodicamente – men- salmente, por exemplo – no mesmo local ou em
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    50 51 espaços alternados.A metodologia naturalmente é adaptável a cada realidade. O importante é que gere os frutos desejados e possíveis. Permanecem como memória os classificados so- ciais e a lista de participantes. Nos classificados, cada um descreve sinteticamente o que oferece, o que procura e dá seu nome, telefone, email. Estes dados são posteriormente digitados e disponibili- zados diretamente para cada um – via email – e quando possível para o público em geral, também virtualmente através da internet. Cópias xeroca- das podem ser distribuídas para os participantes de encontros posteriores. Estes classificados são cumulativos: a cada encontro,novas ofertas e pro- curas, relativas a novos e antigos interessados. Rodízio criativo: imagine uma instituição de porte médio: empre- sa, serviço público, ong... Em consenso interno, trabalhadores de um setor liberam um ou mais do grupo, por um ou mais dias, para visitarem- -estagiarem em outros setores. Os que permane- cem no setor original cuidam do cumprimento do conjunto das suas obrigações normais. Esta a ideia básica.   Parece ser bom para a instituição – e para o traba- lhador e seu grupo – que cada um tenha o olhar do todo,além de capacitação aliada ao seu próprio desejo. E parece ser bom para cada trabalhador ter acesso a oportunidades que facilitem acrésci- mos a seus conhecimentos pessoais e profissio- nais. A prática tem ensinado o melhor caminho.
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    52 53 5 agências de inFormações Consciência  Émais fácil eu compreender meus processos de transformações, quando reconheço e considero o que vai pelo meu inconsciente. Meus atos falhos me dão sinais. E o que eu compreendo em mim, talvez melhor compreenda no outro, nos outros. Reich, Freud, Jung me ensinam que eu, no correr da vida, adquiro e internalizo defesas. Elas têm a função de impedir incômodos, especialmente sentimentos. Por outro lado, a construção de relações de con- fiança facilita comunicações mais profundas. As- sim, antes de entrar propriamente nos conteúdos, é necessário cuidar de mim,estabelecer aproxima- ções comigo mesmo.E depois com o outro.Como no namoro: há o olhar, a empatia, a delicadeza na aproximação, as identificações comuns, os sinais, o pegar na mão, a construção da relação. As inFormações profundas somente chegam ao seu destino quando o destinatário está receptivo. Comunicar é uma arte. Agências de inFormações Retrato rápido: jornais pendurados nas bancas exibem quase sempre as mesmas notícias, escritas de forma um pouco diferentes.As fontes de infor- mações, parece, são as mesmas. No Brasil, umas poucas agências de notícias. Agências O Globo, Folha de São Paulo...? Uma jovem conhecida,na primeira década do sécu- lo XXI,registrou que manchetes de grandes jornais de 27 cidades européias exibiam,no mesmo dia,fo- tos semelhantes sobre a mesmo assunto. Também lá poucas agências como fontes de informações. Reuters, UPI, France Presse, China Press... Bom problema: como podemos contribuir para chegar a nós, à população, informações diversifi- cadas e com qualidade de conteúdo? É possível a realização de uma ou mais agências de inFormações independentes. Porém, estas
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    54 55 novas fontessó fazem sentido se os conteúdos das inFormações a serem oferecidos contribuí- rem para o bem-estar – individual e coletivo – de quem as produza e de quem as receba. De outro lado, observa-se, tudo potencialmente conspira a favor: conteú- dos, público, veículos, financiadores, apoiadores. Há conteúdos de qualidade ainda invisíveis para a maioria da população. Há veículos potencial- mente interessados em difundir estas inForma- ções. Há públicos potencialmente interessados nestes conteúdos. Há instituições potencial- mente apoiadoras e/ou financiadoras de agên- cias de inFormações voltadas para o bem-estar coletivo. Há pessoas e instituições animadas, in- teressadas em fazer circular estas inFormações. Como integrar estes conteúdos, veículos, públi- cos, apoiadores-financiadores, pessoas-institui- ções animadas? A ideia é simples Uma agência, inicialmente com inFormações atemporais. Uma pessoa, um espaço, que pode ser residencial ou institucional. Um computador, telefone, scanner, fax, internet, softwares que fa- cilitem acessos a veículos de comunicação. Havia no mercado – há ainda? – empresas espe- cializadas que oferecem softwares e dados atuali- zados sobre veículos de comunicação de todo o Brasil – rádios, jornais, TV, revistas... Informam seus endereços físicos e virtuais, telefones, emails, nome de editores de áreas específicas e mais. Assessorias de Imprensa utilizam estes serviços, talvez saibam melhor de quem fornece dados e softwares. Como exemplos, a confirmar, o Comu- nique-se www.comunique-se.com.br, o Meio & Mensagem www.meioemensagem.com.br Esta pessoa que se propõe ser um agente de in- Formações: contata e articula produtores de in- Formações atemporais, constrói um baú virtual de textos disponibilizáveis, contata e articula edi- tores e colunistas de veículos de comunicação em todo o país, oferece os textos do baú. Assim, trata e se relaciona com um conjunto de veículos que disponibilizam para seus leitores as informações originais que esta pessoa cuidou de produzir.
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    56 57 Se háinteração com os leitores, novas inForma- ções chegam às agências, realimentando o proces- so, dinâmico. Vão e vêm inFormações. Esta pessoa: ao aprender-fazendo, testa e recria- -adapta à sua realidade uma metodologia singela que poderá ser compartilhada com instituições e pessoas ativas, interessadas em montar suas pró- prias agências para fomentar a difusão – através de veículos de comunicação já existentes – de in- Formações específicas atemporais. Na prática, o que agências de inFormações poderão oferecer: no mínimo, artigos e contribuições para pautas de veículos de comunicação já ativos. Imagine agências independentes de inFormações focadas em conhecimentos de interesse público.Inu- meráveis. Só de pensar o que me interessa – e, acre- dito, também a muitos – sonho de estalo agências voltadas para educação, saúde, agronomia, alimenta- ção...Ouespecíficasparapais,paracrianças,escolas... E para psicologia-psiquiatria-psicanálise, para oferta e procura de trabalhos,esportes,teatro,brincadeiras, voluntariado, solidariedade... Podem ser inForma- ções específicas.Ou gerais... Imagino um mundo com inFormações variadas, de fontes diversas... que eu tenha prazer em saber e compartilhar com meus filhos,vizinhos,amigos, com o mundo ao meu alcance. Vejo os jornais e me angustio com a constante escolha do Esta- do-polícia pela atuação mortal ao invés de utilizar inteligência e afeto. E me pergunto: que atuações benéficas estão ao meu alcance? Ao meu alcance está cuidar de mim e das minhas relações com quem convivo: filhos, amigos, vizi- nhos, colegas de trabalho. Escutar um e outro que procuram por escuta, me colocar no lugar do ou- tro, seja próximo ou passante. Cuidar de mim significa também mudar para o melhor programa, fugir da fofoca, escolher meus pensamentos. Lembro Wittgenstein, de quem penso que sei só isto: o pensamento é a linguagem.
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    58 59 6 vários eu Sintoum pedaço do mundo Outra noite encontrei uma moça a chorar de dor. Está com medo de caminhar sozinha. Relata que alguém tapou sua boca, tentou estuprá-la. Ao re- agir, levou um paralelepípedo na cabeça, dói e dói. Quer ir ao pronto-socorro, quer fazer queixa à polícia. Não sabe escrever nem ler. Caminhamos de quase Parque Guinle até o Largo do Macha- do. Só consegui escutar e oferecer o da condução. Inda nervosa, inda com medo, toma o ônibus pro hospital. Um tanto de sua tristeza e impotência ficam comigo. Negra, pobre, gorda, catarro e tos- se, lágrimas, tristeza, raiva e rua como residência. Relembro pra não me esquecer Aquela de Adalberto de Paula Barreto: que você quer que eu queira preu querer? Toda vez que me lembro dela, lembro de meus momentos de sub- missão. Hoje sei que é uma pergunta que só devo fazer ao espelho. Do que entendi de Freud, sonho com o desejo re- alizado. Em Interpretação dos Sonhos, ele fala de que, quando à noite come azeitonas ou algo sal- gado, vem sede durante o sono e tende a sonhar tomando algo que supra a sede que de fato sente. Quando acorda, acorda com sede. Mas sonha su- prindo a sede, realizando o desejo. A comunicação se dá quando o outro entende o que falo. Alguém já disse algo como a comunica- ção se dá quando o outro entende. As coisas me têm, mesmo que eu tenha as coisas. Se tenho um carro, um trabalho para mantê-lo. Se dois, mais trabalho. Se tenho um computa- dor, devo limpá-lo, espaná-lo. Ou trabalho eu ou quem eu trate para trabalhar por mim. Ah, se eliminássemos os controles do mundo, quanto trabalho a menos, quantos recursos libe- rados. Talvez, lá no fundo, os medos sejam as ori- gens dos controles. Aqui escolhas constantes entre prazer e dor.Treino esboço de sorriso,arris- co o palco que desejo. Tropeço, volto pro espelho,
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    60 61 reclamo demim mesmo. Como num bolero, dois pra frente, um pra trás. Não me lembro quem me lembra: seja o mundo que você quer. Outros eus No viver minha vida construo minha visão de mundo, que se transforma de acordo com o que vivencio. Tem gente que sente que o mundo lhe deve. Acu- mula. Tem gente que sente que deve ao mundo. Se sacrifica. Tem gente que o mundo e o eu são um só. Compartilha com o outro que é eu. Ora é um,ora é outro.Como eu,ora sou um,ora outros. Outra noite – que outro dia foi ontem – ainda incomodado com um documentário sobre a re- pressão de 40 anos de ditadura na Albânia, olhei no espelho. Eu tinha 18 anos quando militares tomaram o poder em 64. E 39 quando houve no- vamente eleições,mesmo que indiretas.Nestes 21 anos de minha juventude aprendi o medo de me expressar livremente. A quase paranóia, descubro chateado, volta à tona volta e meia. Tanta coisa pra desaprender... Olhopratrás,praantesdemime,umtantoinseguro, confirmo que o homem que domina outro homem está presente no decorrer dos tempos. Dominador e dominado se complementam,talvez co-responsáveis pela situação. Um age como se o mundo lhe devesse umtanto...etomadooutrocomosefosseseu.Outro se submete,como sem saber do que é capaz. Natentativadeolharcomoolhardooutro–daque- le para quem o outro não tem valor – a associação que faço,imediata,é de que algo lhe foi tirado.Se na infância ele viveu em si, incompreendida, uma falta, ele quer agora isto e aquilo e mais. Aquela falta ge- rou uma necessidade constante de ser tapada, como se fosse um buraco“agora dentro de mim”.Sem cons- ciência da falta original, consome a vida em busca de poder, objetos e afins.Arrisco: se desmamado de repente,fica um vazio incompreendido? A mesma falta afetou os afetos.Agora, uma busca constante de afetos perdidos, de reconhecimento. Não só isto, mas um tanto.
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    62 63 Já ooprimido aprendeu desde cedo que não tem valor. Relembro Groucho Marx – clube que me aceita como sócio, não entro. Quem o aceita, não serve. Tão desvalorizado diante de si mesmo, como respeitar a quem o valoriza? Ao contrário, parece que o complexo de inferiori- dade esconde o de superioridade. Ah, você pensa que sou fraquinho? Você não sabe como sou forte. Você vai ver! Me engano que gosto. Reconheço este homem – um e outro – a partir do que me conheço. Antes desvalorizado ante mim mesmo, descubro pouco a pouco meus va- lores. Tanta vida aprendendo o que agora procu- ro desaprender. Tantas faltas sem sentido ago- ra se esclarecem, mesmo difusas. A alegria fica mais próxima, o poder menos necessário, obje- tos também. E estes menos dão menos trabalho, libertam-me. Mas dói quando vejo recursos empregados pra suprir reconhecimentos e faltas, pra mostrar po- deres que nem são. Pedaço de conversa de rua, duas mulheres que passam:“...não viveu a vida, morreu cedo. Todo mundo se ajeitou.” Civilização? Quanto tempo os vikings demora- ram pra se transformar em suecos? Mudanças de comportamento, do que tenho aprendido, mais se dão com o passar de anos. Às vezes na mesma geração, às vezes não. Ferenczi pra Freud. Freud pra Ferenczi, corres- pondências. Papo reto, direto. Atos falhos expos- tos.Tudo com delicadeza.A dureza do dito agora espanta, em seguida aproxima. Auto-análises, ex- posições do confuso, da dúvida. Ferenczi ama a mulher mais velha. Comparti- lham interesses intelectuais. Ela é quase comple- ta, só lhe falta juventude. Ferenczi analisa a filha da mulher que ama, contra-transfere, se apaixo- na. Pede ajuda, Freud analisa a moça. Os 4 sabem do triângulo familiar. Ferenczi dá razão à razão, transpõe a emoção. Amizades se constroem. A psicanálise se refina.
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    64 65 Fofoca Esta ouvido Dr. Fritz, em transe: João falou pro Pedro: quero lhe contar o que aconteceu com Joa- quim. Pedro perguntou: o que você vai me contar, é bom pro Joaquim? E João: não. Pedro continua: e pra você? João: não. Pedro, de novo: e pra mim? João: não, não é bom pra você também. Pedro arremata: então não me conte não. De Agnès Jaoui, que exerce múltiplas funções, em matéria d’O Globo: Ser atriz e cantora é como ser criança, a gente brinca. Escrever é como ser adulto. E dirigir é como ser um pai ou uma mãe, você tem que prestar atenção a todo mundo. São profissões di- ferentes, por isso amo todas. 7 lembranças Escrevo para lembrar: olha eu aqui, existo. Também para me entender, a mim, a outros, ao mundo. Quero ser reconhecido, amado. Tenho medo do que não compreendo. O que não compreendo, no início, é difuso, confu- so. Não enxergo um palmo diante do nariz. Sin- to que viver é perigoso, mas não viver parece ser mais. Quando apalpo, ando, chego mais perto, a vista se acostuma à névoa, o mistério vai clarean- do, a compreensão substitui o medo, alguma or- dem se segue ao caos. O tempo passa, a memória me trai, multiplicam- -se os mistérios. Sessenta e um anos e permane- cem marcas infantis, desejos juvenis, dúvidas an- teriores a mim. Tem coisas que sinto que sei. Um tanto aprendi do que vivi.Outros tantos do que li, ouvi, encostei, cheirei, provei. Agora a memória mais remota é porta de rua, gente grande conversando, eu com dois, três anos.
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    66 67 Ficaram históriasde almas de outro mundo, mu- las sem cabeça, uma foto de uma morta num cai- xão. No berço, sombras. Os olhos fechados pra fugir dos medos. Tão apertados que distorceram – na segunda infância, sem enxergar direito, fui Luiz Ceguim. Eu era pobre e não sabia. Não havia o que compa- rar, felicidade e infelicidade eram desconhecidas. Não havia rádio, telefone, televisão, internet, luz elétrica. Calorão tropical. Farinha na cuia pros que pediam esmola à porta. Água do pote pra be- ber. Chão de espécie de tijolo. Arroz, feijão, fari- nha, rapadura, carne seca. Gamela, pilão. Banana, melancia, manga. Café torrado, fogão a lenha. Ba- nho frio na bacia, toalha de saco. Roupa lavada no rio. Praça com cruzeiro, esquina de rua que leva ao cemitério, mortos que passam carregados em seus caixões.O vizinho que estudou muito e ficou doido.A tia mocetona, presa no quarto, canta ser- taneja se eu pudesse, se papai do céu me desse duas asas pra voar... Hoje sinto que era rico e não sabia. Não sabia se eu era pobre ou era rico. Nem sabia o que era ser rico ou ser pobre. Daquele tempo ficou em mim, forte, a memória afetiva. Já os fatos, como névoas. Mamãe chegou a Salinas pra dar aulas, aos quinze anos. Papai já estava lá, amado e mi- mado pelo pai adotivo. Cheguei quando meu ir- mão e duas irmãs já tinham nascido. Mamãe aos vinte e sete, quando se percebeu grávida de mim, imagino o sentimento imediato: ah, não! Talvez só minha imaginação, não ter sido desejado no primeiro momento. Soube por mamãe que, aos 29, cuidou cuidar da própria vida. Um filho em cada casa de amigo, o mais velho com ela, foi se capacitar em Belorizon- te. Isso facilitou a nossa mudança, dois anos de- pois, para Montes Claros, onde mamãe estava em casa, próxima a muitos dos seus catorze irmãos, parentes e amigos de infância. De Salinas minha memória traz os cheiros, os sons, o sol, uns medos, uns deslumbramentos. Imagens das pernas de presos pra fora das janelas da cela, um clima de festa na feira dos sábados – bruacas, animais, sacos de grãos e farinhas, gente,
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    68 69 muita gente.Eu num vai e vem, movimento no movimento. Panelas, boizinhos e cavalinhos de barro, colheres de pau, biscoito, requeijão, pão de queijo, tacho de cobre. Um bocado de mistérios. Já em Montes Claros, medo mesmo tive no cate- cismo. Aquele inferno que nunca acaba, chamas eternas, pavores. E as dúvidas do que era pecado mortal, venial. Quaresma, panos roxos cobrem os santos, carne nenhuma à mesa. Os olhares tris- tes das imagens, os ferimentos de cristo. Os dez mandamentos, os sete pecados capitais. A proibi- ção do ócio, do sexo, da raiva, da alegria, das ex- pressões de emoções. Eu era pecador e não sabia. Antes eventualmente sofria, agora o sofrimento estava dentro de mim, constante. À crueldade dos adultos se somou a das crianças. Mamãe definiu: brigou na rua, apanha em casa. Inseguro, provocado, tirava os óculos, fechava os olhos, dobrava o corpo e dava murros às cegas. Apanhava na rua, apanhava em casa.Até hoje não sei brigar. Mas brincava de roda, pegador, seu rei mandou dizer. Ouvia serenatas, me lambuzava de manga, pipoca era uma festa. O cheiro que a chuva pro- voca na terra, finca, bilboquê, luta de espadas, pa- pagaio na linha, pé no chão. Latim, matemática, desenho, trabalhos manuais, português, geografia, religião, história. Um pouco de francês, inglês, co- ral. Recreio, trabalho na cantina. Férias. São João, passeios no mato,banho de rio.Tarzan,Mandrake, Fantasma, Cavaleiro Negro, Zorro. Matinê, seria- do, Rock Lane, Roy Rogers, Kung Fu. A boiada passando na porta de casa. Os compromissos es- colares,as obrigações caseiras – comprar o pão,en- graxar sapatos, passar cera no assoalho, arrumar a cama,levar e trazer o que for preciso,eventualmen- te buscar marmita. E olhares afetuosos de quem gostava de si. E de mim. Permaneço criança, fantasiado de adulto. Sinto hoje minha criança presente em tudo o que sou e faço.Amadurecendo, aprendo agora gostar de mim. Reconheço – recor- do que fiz o melhor que soube,que pude em quase, se não todos, momentos da minha vida.
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    70 71 Depois, horasdançantes, desejos fortes. Os apertos de mãos,o bate-coxas,os rostos colados,os beijos de língua, as mãos nos peitos. A iniciação no bequinho dosmeninos,orisco,ofrisson,ogozorápido.Sempre presente,proibido – um tanto fora,um tanto dentro de mim – o sexo. Aosdoze,paraganharumpouco,vendicestasdena- tal.Que alegria um dinheirinho fruto do meu traba- lho.Depois,lápeloscatorze,aulasdematemáticapro filho do representante da Brahma na região, que me contratou depois como auxiliar administrativo.Fiz o segundo científico em Belorizonte, o primeiro e ter- ceiro em Montes Claros.Vestibular – não passei em BH– escolhi,mesmosemsaberoqueera,economia eláfuieupraBrasília.Deiaulasdematemáticaànoi- te no Gama,fui monitor de estatística na UnB,esta- giário no Ministério daAgricultura,Socorrofoimeu amor e com razão me deixou. Sai de dois serviços públicos, errei como pequeno industrial de malhas. Arrisquei o Rio. Início dos anos setenta Conjugado dividido em Copa, um karman-ghia, paquera aleatória diária, sexo como objetivo. Cul- pas misturadas com prazeres. Trabalho no Insti- tuto de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, aqui responsável pela coordenação do treinamen- to e seleção de quem cuidaria de fazer os levanta- mentos de dados em campo. O combinado era uma passiva reforma agrária, através da taxação progressiva tanto das pro- priedades menores, os minifúndios, quanto das propriedades maiores, os latifúndios. Maiores ou menores em relação à área definida em cada mi- crorregião como a suficiente para a sobrevivência e desenvolvimento econômico de uma família tra- balhadora. Levantamento feito, memória difusa, quem detinha o poder de assinar, decidir optou pela proteção aos latifúndios. Larguei mais este serviço público, vendi o carro – já um fusca – e, com Ana, pegamos o navio em direção incerta, hippies sem saber que éramos. Uma semana em Barcelona, dez dias em An- dorra acolhidos por um índio peruano, um frio danado, atravessamos a Europa batendo a mão, carona pura até Amsterdam. Lá, centro da cidade, na redlight, mulheres na vitrine, encontramos um
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    72 73 quarto bom,ambienteaquecido,chuveiro externo quentão,baratinho.Ana foi posar na escola de de- senho e pintura, eu aprender a bater perna. O Kosmos, um choque. Centro cultural para jo- vens holandeses, financiado pelo governo, duas moedas pra entrar, de cara um salão grande, algu- ma fumaça com cheiro bom como os dos bolos e tortas, música suave, pessoas calmas espalhadas. Outra porta, um forno elétrico, barro à vontade para quem quisesse esculpir e levar. Depois um salão, cubos grandes em muitos níveis, espaço para apresentações de artistas passantes, asiáti- cos, europeus, africanos, latinos, americanos, de outros mundos. Desço escada, uma cozinha com aquelas comidas estranhas, cheirosas, leves, casei- ras, que depois descobri macrobióticas e naturais. Sauna grandona, homens e mulheres conversam e agem como se não estivessem nus. Tudo muito paraíso. Noutro lugar, à noite, o Paradiso. Coca e maconha oferecidos na calçada, música a mais moderna adentro. Corri da coca, medroso de me apaixonar. Aos meus olhos tudo muito leve, tudo muito puro. Alegria quase insuportável. Assim as portas se me abriram para outras janelas. Antes, em Brasília, vislumbre de nova vida. 1965, dezoito anos, meus tempos e afazeres por minha conta. Duzentos e trinta professores demitidos, greve boa parte do ano na universidade. Estudos intercalados com aventuras. A população masculina predomina- va. Zona boêmia, rendez-vous só fora do distrito federal. Pegava carona, lá ia eu mendigar por amor, carinho, consideração. Bati errante, errado em portas erradas. Madrugadas frias, solidão. Também por carência - necessidade de estar pró- ximo a colegas, de ser aceito - perdi no baralho muito de minhas mesadas.Já no segundo ano,mo- nitor de estatística na universidade, estagiário de economia no Ministério da Agricultura, professor de matemática para o ginasial de escola da Fun- dação Educacional do Distrito Federal. Em 66 já tinha um fusquinha. Em 67 completei rapidi- nho todas as matérias do currículo de Economia, fiz outras de Administração Pública enquanto esperava o tempo mínimo para me diplomar. Muito jovem aprendi a ser bonzinho.Pra não apa- nhar, literal e simbolicamente. Como uma defesa
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    74 75 diante domundo. Meu humor era leve, brincava fácil. Cedo percebi que podia escolher meus ru- mos. Era só me responsabilizar pelos resultados do que fazia. Atenção redobrada ao que acontecia fora e dentro de mim, ao que era real e ao imaginado. Medos antecedendo às decisões.Culpas depois das ações. A cada fugida da regra, da normalidade, medos e culpas e reflexões. Erro e acerto, tateando atento, emimesmado. A regra de ouro presente: não fazer a outro o que não desejo pra mim. Como auto-referência, meu humor. Se bem-humorado, vale, valeu. Se mal, o que está ao meu alcance? Adulto jovem descobri que quando alguém me diz não! devo rapidim verificar se este não é de quem diz ou é meu.Volta e meia querem cortar meu cabelo,mu- dar meu jeito, trocar minha camisa, que eu cons- trua uma pirâmide. Normalmente é problema de quem tem problema com seu próprio cabelo, seu jeito, camisa. E de quem complica sua vida cons- truindo as pirâmides que inventa. Agora mesmo agradeço oportunidade de me candidatar a recursos para realizar documen- tário que quero. O assunto, terapia comunitá- ria, me interessa profundamente. Mas me an- gustiam prazos, prestações formais de contas, limitações externas de conteúdos. Acordei já com o estômago contraído. Decido pelo que desejo e está ao meu próprio alcance, com meus recursos e tempos. Imediatamente meu corpo relaxa, meus pensamentos se aquietam, me acalmo. Nada a ver, tudo a ver, uma quase dúvida: juven- tude é estado de espírito? E velhice? Amsterdam se foi inesperadamente A morte da mãe de Ana nos trouxe de volta. Fo- mos até Cádiz, atravessamos o estreito de Gi- braltar, Marrocos. Meu rabo de cavalo agora em coque, receio não ser aceito cabeludo em cultura estranha. Tetuan, o ônibus tosco pega e deixa pelo caminho gente, carga e animais. Punhais
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    76 77 saem dedjelabs para descascar frutas, cortar nacos de carne. Camelos passam ao largo. Aos trancos, Marrakesh. No Zoco, mercado central, montes de castanhas, aquela música serpenteante vinte e quatro horas por dia. Gente que conversa pegando na gente. Um que passa com duas luvas de boxe à procu- ra de contendores que apostem no seu próprio taco. Às tardinhas, o mesmo personagem – aga- chado como seus espectadores – conta histórias como novelas. Um menino me puxa e oferece atento a tudo – kif, kif, cinq dirrans! Compro aquela mão cheia de maconha - haxixe? - vou esgueirando pra pensão, aperto um baseado com alguns desconhecidos aventureiros espanhóis, fica tudo escuro de re- pente, perco a visão por catorze horas. Badtrip. Talvez decorrência daquele ácido potente que to- mei inocente no banheiro em Amsterdam, alguns dias atrás – fiquei então seis horas em orgasmo contínuo, e outras tantas em puro terror, a zanzar pelas ruas e canais da cidade estranha. Na África a visão voltou, meus medos me fizeram limitar-me ao botequim frequentado por euro- peus errantes como eu. Enquanto Ana, como se estivesse em casa, já com vestimenta local, andava pelos becos a descobrir de um tudo da cidade e sua gente. Só Jung pra explicar esta memória an- cestral de Ana, nascida Aben-Athar. Pegamos o destino errado, na volta Só homens no vagão, o chefe de trem sacou o pe- rigo e nos acomodou numa cabine isolada. Passa- da a noite em nebulosa direção, retomamos não sei como o caminho para Casablanca. Dali, Espa- nha, Portugal ainda salazariano, avião pro Brasil de Médici. Ou Geisel. No Rio, busca de uma nova rotina, burocracias. Nos meses que antecederam a ida pra Europa morávamos sete numa casa, comunidade urba- na criada por nós – Ana, Paulo Cangussú e eu. Inicialmente três, colocamos anúncio em jornal, talvez Pasquim ou JB, e acolhemos quatro desco- nhecidos. Era tanto movimento que volta e meia dormíamos fora, em busca de sossego.
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    78 79 Uma vez,emIpanema,na praia,quando acordamos, Paulo, primo amigo comunitário original, deu por faltadosóculos.Procuradaliedaqui,rastrosderatos nos levaram aos seus buracos. As lentes continham celulose,apetitosaprosroedores.Foram-seosóculos. Outra vez abri a parte de cima do armário do meu quartoe,lá,numasacoladasCasasdaBanha,daque- la de papel, maconha até o tampo. Surpresa que ex- plicou tamanho entra e sai de gente estranha.Talvez ali a gota d’água pra dissolver a casa e a comunidade. 1973 Alugamos com Roberto Amaral um sala e quarto na Barra. Prédio com cento e quarenta e quatro pequenos apartamentos, só nós morando duran- te a semana. Água potável trazíamos de fora. Em busca de glória, dinheiro e de não sei mais de que, catálogo telefônico nas mãos, ofereci de porta em porta meu trabalho gratuito a produtoras de cine- ma. Memória insegura. Um concunhado que era filho de uma prima de Lucy, mulher de Luiz Carlos Barreto, entrea- briu uma fresta. Barreto me acolheu, me deixou à vontade. Durante três meses cheguei cedinho, sai noitinha, mexendo, escutando, atento. Espe- cialmente a partir de informações de Lucy, escre- vi um manual de produção de cinema, com tudo quanto é tarefa e controle. Frilança, fiz uma se- cretaria de produção d’A Estrela Sobe, de Bruno. Nelson Pereira dos Santos, talvez não se lembre, sem me conhecer, me marcou pela atenção com afeto.A produtora era um centro cultural, vaivém de gente diferente. Dali fui segundo assistente de montagem de Es- corel e Amaury no Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro. Na Mapa de Zelito, na Urca, rolava no fi- nal das tardes uma comida caseira deliciosa e à mesa sentavam os chamados senadores do cine- ma novo – Cacá, Leon, Jabor, além de Joaquim, Nelson, Zelito, e, olha a memória curta, talvez Glauber. Ali, acredito, o berço da Embrafilme. No Largo do Machado encontrei Carlos Alberto Prates Correia. Carlos Alberto, minha referência amiga mais forte no cinema, me ensinou ser dire- tor de produção de seu filme Perdida, que arreba- nhou em Gramado a maioria dos kikitos daquele
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    80 81 ano. E,na história da Embrafilme, único filme a devolver dinheiro não gasto do financiamento. 1976 De novo, navio mais barato que avião, doze dias no mar, Europa. Londres, rapidinho encontra- mos o porão certo da casa condenada. North Go- wer Street, pertinho da Union London University, a ULU, onde – para nosso fraco inglês não nos denunciar intrusos – calados entrávamos, calados almoçávamos e tomávamos banho. Na casa comunitária da esquina da nossa rua aju- dávamos fazer pães integrais. Ana trazia doces indianos deliciosos do restaurante onde trabalha- va na cozinha. Eu, não sei como – imagino fazia mímicas – arrumava trabalho por telefone. Pulei de operário ajudante de obra para modelo de es- cola de desenho. Depois lanterninha e vendedor de sorvete no teatro da ULU. Lia as poesias de Mao em português, comia kebab, batia perna pelo centro da cidade. Desconfiei serem agentes do DOPS os fotógrafos que clicavam em passeata de protesto contra Gei- sel, em visita oficial a Londres. Medroso de não poder voltar ao Brasil, arrumamos rapidinho as malas e, seis meses após nossa chegada, voltamos de avião para casa. Não sei agora a ordem das coisas. Na fronteira de Santa Tereza com o Silvestre, a Equitativa tinha um quê de paraíso – a floresta da Tijuca à jane- la, gente em busca alternativa como nós, aluguel barato de um apartamento velho por restaurar, uma pracinha com vista de cartão postal da baia da Guanabara.
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    82 83 8 psi Wilhelm Reichfoi um choque Almir, jornalista agitado, apresentou o Combate Sexual da Juventude, escrito na década de trin- ta para jovens alemães. Pela primeira vez, uma orientação sexual não moralista. Eu trazia em mim as culpas do catecismo,reforçadas pela leitu- ra do limitado Vida Sexual de Solteiros e Casados, de João Mohana, padre e médico. Que experiên- cias teriam homens com voto de castidade para dar orientações sexuais a inocentes crédulos? Mergulhei, fui fundo em Reich, li A Função do Orgasmo, Revolução Sexual, Psicologia de Massas do Fascismo, Irrupção da Moral Sexual Repressiva, Escuta Zé Ninguém, Casamento Indissolúvel ou Re- lação Sexual Duradoura, Análise do Caráter. Para sentir, só me restava viver. O pecado seria não ex- perimentar.A regra de ouro permanecia: não faço a outros o que não desejo que façam a mim. Romel Alves Costa, psiquiatra, também tinha sido tocado por Reich. Experimentou técnicas te- rapêuticas com um colega, deixou o emprego no INSS, abriu espaço e colocou anúncio-tijolinho no Jornal do Brasil. Lá fui eu, por cinco anos, muitas vezes por sema- na, hora marcada, nu de corpo e alma, me emo- cionar,tentar me sentir e me entender.Respiração e movimentos, atento. Volta e meia formigamen- tos. Se os suportava, vinham reflexos. Com os reflexos afloravam sensações, sentimentos, pen- samentos. A memória fazia presente o passado. Fichas caiam, compreendia dentro de mim, insi- ghts bem vindos. Movimentos de braços, pernas, pélvis, olhos... Em meu corpo, minha memória, minha história. Na penumbra, seguia com os olhos a luzinha manuseada pelo tera- peuta.Derepente,tantasvezes,lapsos.Quandodava pormim,estavaemposiçãofetal,comlembrançasre- motas de infância. Eu no berço, antes dos dois anos, os olhos muito apertados, um jeito de fugir daquele medoqueassombrasmetraziam.Medodealmasde outro mundo,mulas sem cabeça,defuntos.
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    84 85 Descobri alino consultório de Romel a origem de minha visão distorcida. De tanto apertar os olhos, acredito ter forçado a musculatura local a ponto de perder a elasticidade. Com os exercícios, pouco a pouco recuperei esta mobilidade muscu- lar. A lente direita de meus óculos diminuiu de quatro graus e meio para zero vírgula setenta e cinco. Depois de usar óculos por vinte e sete anos, passei três anos de cara limpa, enxergando tudo, suficientemente bem. Ao mesmo tempo, medos presentes, antigos e novos. Passado um tempo, não suportei nem os medos nem as alegrias. Voltei a usar óculos, mas perdi outra inocência: sou responsável por mim mes- mo. Reclamo primeiro ao espelho. Na Equitativa conheci Ralph Viana A Rádice já estava no sexto ou sétimo número. Era uma revista de psicologia com visão ampla. Trazia da Inglaterra a antipsiquiatria de Laing, da Itália o movimento antimanicomial de Basa- glia, apresentava Nise da Silveira e seu Museu de Imagens do Inconsciente, abria espaço para os argentinos, para a latinoamérica, pro universo psi mundial. Além de Freud, Jung, Reich, Lowen, Alex Polari, outros visionários chegavam a quem abrisse suas páginas. Meu coração se juntou às ondas. Me ajudei, aju- dando. Resumos de livros, administração, dis- tribuição, divulgação, próximo de quase tudo. Imagino: mesmo quem não foi saberá como eram maravilhosas as festas de Ralph quando se re- cordar das suas próprias melhores lembranças. Guerrilha cultural, jornais e revistas nasciam, cumpriam sua missão, eram colecionadas lá den- tro de quem lia.A Teoria Crítica mergulhava mais fundo. O Luta & Prazer era leve. O Espaço Psi, o Nexos, o Estar Bem, o Bem-estar..., como todos jornais, eram distribuídos gratuitamente. E os simpósios? O Alternativas no Espaço Psi – Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, cento e doze eventos em três ou quatro dias intensos. Em vários espaços, ao mesmo tempo, palestras, de- bates, vivências, intercalado com festas, recreios, namoros. Clima fraterno, solidário. Com zero ou quase de dinheiro, uma multiplicação de ajun- tamentos do que cada um co-laborava. Valéria
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    86 87 Pereira, Ralph,eu – e muita gente, Sérgio, Dau Bastos, Viola, quem mais? – interagíamos com os voluntários. Mas não éramos sós. Tarefas relacionadas, um a um definia o que se propunha realizar e em que prazo. Exercício de autonomia integrada. Rede sem sabermos que era rede. Parque Laje, eventos diferentes a cada duas horas em cada um dos oito espaços. Quem entrava se dirigia para o que esco- lhia. Foram, na verdade, mil e cem simpósios, um para cada uma das mil e cem pessoas presentes. Os conteúdos, os jeitos de fazer se espalharam pelos brasis, adaptados às realidades locais. Hoje teses acadêmicas recuperam memórias, sopram novos movimentos libertários. 9 rotina Escrevo para me confortar, gostar de mim, alegrar com o que vivo e com o que vivi. 2011, até abril. Outro dia, quase rotina. O pri- meiro toque do celular-despertador tem sido às seis. Depois, seis e meia, seis e quarenta e cinco. Meia hora pra espreguiçar, obnubilado nesta né- voa da volta ao dia.Novo toque,se já não comecei, levanto as pernas pra cima, permaneço um pouco em cada posição, me dobro até os pés encontra- rem o espaço atrás de minha cabeça. Ao mesmo tempo, entreabertos olhos, circulo o olhar exercitando a musculatura. Pernas pra cima de novo, depois, um pouco, me aperto em posição fetal, equilibro um tantinho as pernas no ar e me curvo pra frente, sentado, as mãos segurando os pés. Sento de novo, torço meu tórax prum lado, pro outro. Repito tudo.
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    88 89 Levanto efaço a saudação ao sol, que Regina me ensinou. Duas vezes, intercalada com balançares de braços como li em Castañeda e como aprendi com Juracy Cançado. Rodo a cabeça, pra esquer- da, pra direita, como metaleiro em show. Antes, bem antes, em algum momento, quase sempre, um e outro movimento bioenergético – bater pernas e braços como neném, balançar meu corpo deitado como geleia, focar longe e perto... – da- queles que vivi com Romel. Sei que o terceiro toque do despertador aconte- ce quarenta e cinco minutos depois do primeiro. Tomo um banho, faço um cafezinho, sento aqui por uma hora, uma e meia e me divirto em livre associação, se não inteira, quase. Tenho gostado de viver. Em casa não tenho remédios. Nenhum, me orgulho. Almoço no Panela de Barro, comida leve, saladas e algo de soja ou queijo, eventualmente um arroz, feijão. De vez em quando um refresco de guaraná dito natural. E depois, descoberta, uma cocadi- nha de Minas, feita com ameixa ou abóbora. O vício, uns cafezinhos de máquina durante o dia, lá onde também trabalho todo dia útil, pela manhã e à tarde, oito a dez horas. 2012, feiras às terças, às vezes aos sábados. Faço arroz, feijão pra três, quatro dias. Bem simples, só água e fogo. Preparo o almoço: na frigideira seca, terfal, um pouco de queijo curado, arroz, fogo baixo, tampo. Pico algo como salsa, cebolinha, coentro. Boto em cima do arroz. Do feijão já es- quentado, pego um pouco sem caldo, acrescento. Corto o inhame ou a batata baroa já cozida, co- loco na frigideira. Tudo quente, viro de uma vez num prato grande. Pronto meu almoço. Talvez uma couve esquentada na água. Com certeza, na mesa, pimenta malagueta. É minha refeição prin- cipal, no meio do dia. Pela manhã, mamão, eventualmente junto com banana ou abacate. Durante o dia, quando dá vontade, corto laranjas em quatro, retiro a cas- ca com as mãos, uma delícia. O fazedor italiano – aquele sextavado que já se tornou popular – me oferece café quente e novo umas três, quatro vezes ao dia. Água, va-
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    90 91 rio, tomopouco, sinto que deveria tomar mais um tanto. Lavo mas não passo. Mantenho mas não varro. Molho as plantas. Cada dia tem sido novo dia. Gasto só o que tenho.Depois de 49 anos de traba- lho, salve o INSS, sou um aposentado, digamos, ativo. Mais foco no que sinto, no que penso, no que falo, no que faço. Aprendo atenção nos meus sentimentos, pensamentos, palavras e gestos. Im- pressionante como volta e meia me descubro co- locando pedras em meu caminho. Tropeço, dou aquela corridinha que o tropeço causa, às vezes caio.Aprendizado mais lento do que desejo. Mas, confesso,nisto dependo só de mim.Reclamações? Vou pro espelho. Leio. Mergulho quando me toco.Alguns livros na cabeceira, minha mão vai instintivamente onde meu desejo da hora me leva. Evito televisão. Só o necessário. Lembro Freud quando ele afirma que a maioria dos sonhos tem a ver com o dia anterior. Cuido de hoje pra ter bons sonhos. Ah! E toma de tomar banho.Alterno frio e quen- te. Pouco sabão. Nos cabelos, neca de xampu e condicionador, só água. Nada radical, como com a comida. Em Roma, como os romanos. Quando visito minha família mineira, como carne, ovo fri- to, pão de queijo. Fantasio que sei o nome da gali- nha sacrificada, como talvez soubesse nos tempos de infância. Limpo os óculos várias vezes ao dia. Sabão de coco e água, ficam transparentes as lentes. De duas em duas semanas um casal amigo, Jorge, o Russo – e Eliany – dá uma geral aqui em casa. Maravilha, um auxílio luxuoso. Hoje mesmo – que já é passado – gravo aqui em casa, só, as apresentações que faço dos programas Saiba+ que têm ido ao ar pela TV Comunitá- ria do Rio. Tento torná-los atemporais, pra que possam ser veiculados em qualquer época. Os re- cheios são os vídeos-registros-documentários que realizei ou produzi, só ou com amigos e colegas. Imagino possam ser veiculados como programas de rádio, se não sem, quase sem alterações. Para gravar, sei apertar os botões básicos da câmera
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    92 93 simples eboa que Elizeu me sugeriu. Já editar, não sei, sou suprido por profissionais amigos. E escrevo,re-escrevo,de acordo com os sentimen- tos que variam em mim. O FGTS que recebi quando fui demitido do Sesc Rio tem sido a base para as despesas extras, como a impressão do livro, a edição dos programas. Já financiou parte das despesas com um Blogspot onde reúno quase tudo que me exponho, textos e links. E a página que o Videolog me oferece, onde disponibilizo quase todos os vídeos. Já o desejado sofá, só quando entrar um dinheiro extra de um trabalho extra.A vida simples, mas boa, do dia-a- -dia, o salário simples de aposentado garante. 10 incertas Por limitações humanas, quantas ideias, invenções, soluções simples foram e estão sendo deixadas de lado por cada um de nós? O que faz com que alguém acumule o que não necessita e que poderia ser útil para outros? O preenchimento de vazios dentro de si mesmos? Se vazios, que vazios seriam estes? Quais origens destes vazios individuais que talvez gerem tanto consumo, tanta necessidade de poder? Tenho fei- to a mim estas perguntas que faço a outros. Pouco a pouco percebo como meus próprios va- zios estimulam meus comportamentos. Dói to- mar consciência do que sou, dissolver a imagem ideal que tenho de mim. Tranquiliza reconhecer meus limites, o que me falta. Facilita agir a partir do que disponho. Fico do meu tamanho. Ligo a TV e alguém que não conheço me informa que preciso ter algo que antes des- conhecia. Tenho em mim agora uma necessi-
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    94 95 dade. Setenho recursos para supri-la, satisfa- ção momentânea. Se não, um sentimento de impotência, incompetência, outro vazio. Me faz mal, muito mal, esta publicidade do que não me faz bem... nem está ao meu alcance. Imagino crianças e adultos inocentes, a todo momento chamados para novas necessidades que não têm condições de adquirir. E que não suprem os afetos básicos, alicerces de bem- -estar de fato. Ronald Laing, em Laços, sintetiza: Mamãe me ama. Eu me acho bom. Eu me acho bom porque mamãe me ama. E, se mamãe não me ama, eu me acho mau. Criança inocente – imagino como muitas – de- samores, desatenções alimentaram meus vazios. Descubro em mim, não tenho esta dúvida: os va- zios que vivi e não transcendi, repito diariamente nos meus sentimentos, pensamentos, palavras, gestos.Hoje,invertendo,talvez mamãe aqui signi- fique aquela mamãe que volta e meia tenho opor- tunidades de ser. Comigo, com o outro. Compreendo ato falho como algo que – diferente da minha intenção consciente – espontaneamente penso, falo, faço. Desde, sem querer-querendo, chamar o outro pelo nome errado até pegar o caminho da casa da na- morada quando aparentemente intencionava ir para outro lugar. Assim, atos falhos me interes- sam, traduzem o que lá dentro – fora da consci- ência – guardo, retenho, sou. Pulo No mundo, hoje, grande parte dos recursos são gastos em controles. Mas, acredito, se responsabilidades e direitos – ganhos e perdas incluídos – são compartilhados com os trabalhadores de cada empreendimento ou instituição, naturalmente cada um cuida me- lhor do que também é seu. Neste cenário hu- manizado, os custos e os controles diminuiriam consideravelmente. A tendência, co-laboradora, o ganha-ganha. Talvez aqui uma contribuição para transcendência de crises econômicas. Na origem de tudo, o desejo de quem decide o que está ao seu alcance.
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    96 97 Reflexões singelascomo estas – quando o olhar para fora é voltado para dentro de mim – me aju- dam orientar meus caminhos. Atento ao que está ao meu alcance, reconheço o que falta e me falta, delimito, ajo, realizo. Descubro na internet que existe uma rede de tecnologia social em que soluções inventadas são disponibilizadas gratuita- mente para quem deseje.A cisterna que o pedreiro nordestino construiu e que acumula água de chu- vas é referência.Cisternas semelhantes já minoram a falta d’água para centenas de milhares de famílias. Imagino uma pequena mudança de atitude minha ou de qualquer um e de muitos: compartilho o que aprendi e me facilita a vida, torno minha vida mais agradável. Ofereço pelo prazer de dar. Co- migo isto se torna mais fácil quando me permito pequenos grandes prazeres.Ando descalço, espre- guiço, como com as mãos, digo uns sins, digo uns nãos. Abraço inteiro, brinco com o corpo, rio de mim, divago. Trabalho sem perceber: quando me dedico ao que gosto, 24 horas por dia estou atento sem saber. Livres associações são imediatas. Sempre que mudo de trabalho me dá um medo danado. Depois de tantas mudanças aprendi que dá tudo certinho, sou capaz de aprender o que não acreditava possível. Sei também que quando trabalho com o que não me identifico, sofro, fico mal-humorado, chateio quem não tem nada a ver. E,quando me permito estar bem comigo,trato aos próximos como trato a mim. Fico bonito, me sinto assim. Mas – mesmo já sabendo tanto – vario.
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    98 99 nham. Sirvoao público com o melhor de mim. Sou um servidor público. A regra de ouro, presente, me tranquiliza: não faço a outros o que pra mim não desejo.Tudo ao mesmo tempo aqui e agora. Se reclamasse, seria de barriga cheia. Não tenho um comprimido em casa, comida gostosa todo dia, banho quente ou frio, máquina de lavar, la- vanderia que leva e passa, arrumadores que var- rem e cuidam, vizinhos que me protegem, telefo- ne que funciona, eu desligado da tv. É meu, meu tempo.Preciso ser atento e forte, não tenho tempo de temer a morte, agradeço a Caetano. Desejo recu- perar meu humor primário. Entreabro a porta de minha segunda infância. Eu também? Posso ter entendido Winnicott diferente do que escreveu. Arrisco. Ele fala da conveniência de uma moça querer ser uma mulher. E de um rapaz desejar ser um homem. Mas constata que não é sempre assim. Quando se considera o in- consciente e os sentimentos mais profundos, descobre-se facilmente um homem durão que- rendo muito ser uma moça. E uma adolescente 11 reflexos Há tempos, um dia qualquer Ontemehojemisturados:temposforadeordem,as datas variam nestes escritos. Falo de outros, falo de mim.Agendatãocheiaquenãotenhotempoprame aproximar de mim mesmo.Escondo-me de mim no trabalho, não me dou limites. Só posso reclamar ao espelho. Ajo como se não tivesse consciência. Apa- rente let it be, laissez-faire, deixa a vida me levar. Terapia Comunitária me tocou,vou às aulas,pratico as rodas, decido internamente fazer um vídeo, es- tou em produção. Escrever como aqui me tem feito bem. Levanto cedinho, três, quatro vezes por sema- na,escrevo.Chega às minhas mãos uma transcrição da fala do Dr. Luiz Moura no vídeo Auto-hemotera- pia, já produzo a impressão de livreto, penso agora como fazê-los chegar a quem precisa e se interessa. Desegundaasexta,diainteironoSesc,cuidandodo que me propus,burilando o que me decidiram.An- tecipo,proponho movimentos antes que me propo-
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    100 101 com umaconstante inveja dos homens. Isto pode estar escondido no inconsciente reprimido. Me angustio com os que perambulam sem tudo – afeto, traba- lho, comida, teto... Não sei o que fazer, dou um real aqui, um olhar ali, pago um prato. Muito de vez em quando quero saber, converso. Quando não suporto, mudo de calçada, o coração aperta- do, uma culpa danada. Minha memória, alguém me diz,é de peixe,esque- ço nomes, fatos. O que me comprometo, anoto, agendo.Quase tudo é como se fosse a primeira vez. Ajudo meus filhos quando cuido de minhas pró- prias angústias. Quando não transfiro meus dese- jos. Ajudo mais se consigo compreendê-los, aco- lhê-los e a mim, lembrar-lhes quem somos. Estas luzes são raras.O mais frequente,evito atrapalhá- -los nas suas próprias buscas. Quando estou equilibrado, aí sou bom. Suprido, escuto. Solidarizo, fortaleço. Enquanto não sou assim – aos meus olhos quase perfeito – me pro- ponho ser. Pisco, tropeço em meus próprios bu- racos.Com dores,paro,sinto,reflito,experimento um passo atrás, pro lado, pra frente. Vivo como aprendo a dançar. Este outro meu capital, o que vivi, o que vivo. Pausa pra escutar os homens do Bope que na rua em frente correm agora cantando canções de morte e guerra. Imagino se canções de ni- nar, de roda, de dança. Antonio Faundez, em conversa com Paulo Freire, do que entendi, uti- lizava a filosofia como meio para analisar a situação política,a vida no mundo concreto.Estudava filoso- fia como uma maneira de se apropriar de conceitos, de capacidade crítica para entender a realidade. Mais ou menos um dia Um dia destes. O avião ronca. Quatro da matina, cochilo, lembro da importância do som neste do- cumentário. A entrevista com Adalberto, a roda da terapia comunitária, as possibilidades de insi- ghts ao vivo, os depoimentos de quem viveu. Este o plano. Agora é com a realidade.
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    102 103 Ontem diainteiro de reunião com o UNICEF, focado no repensar o Encontros, experiência em que jovens de camadas sociais diferentes se re- únem e, desejo dos que promovem – Michel, Cláudia, Gilberto, Luciana, Charles, Fernando... – ampliam conhecimentos sobre si, o outro, o mundo. Antes, cedinho, saudação ao sol, café, imeios, tele- fonemas, embalo livretos de autohemo, pra Gló- ria, por favor, despachar pelos correios. À noite converso com Elizeu sobre o roteiro que montou e a busca de financiamento da Fiocruz. Arrumo a mala, molho as plantas, telefono, lavo e estendo a roupa, boto correspondência em dia, carrego as baterias das câmeras, tomo banho, como caqui e melancia e desço correndo pra en- contrar Michel no táxi que nos leva ao encontro de Hélio no aeroporto, rumo às Ocas do Índio, em Morro Branco, pertinho de Fortaleza.A caminho sinto falta das chaves de casa, telefono à uma da manhã pro Jorge. Descobre que algum outro vizi- nho já as trouxe, sãs e salvas, pra dentro. À espera do embarque, entre conversas curtas, puxo uma, Hélio, cordialmente crítico, me lembra que sempre tenho uma solução pro mundo. Entalo. É verdade. Ocas do Índio 2008. Oito dias de frente prum mar morno e céu estrelado, tempo todo mais atento a mim e a ou- tros. Bioenergética cedinho, intercalo, intercala- mos razões e emoções, descobertas e compaixões, dores e prazeres. O clima é de reconhecimentos. Somos entre trinta e quarenta, agora mais que profissionais, pessoas. As noites são calmas, leves as comidas e os pensamentos. Cuidando de mim, aprendo um tanto cuidar de nós. Os que vivemos nos tornamos próximos. Adalberto de Paula Barreto é o mestre,maestro.Sua Terapia Comunitária, já sabemos, facilita rapidinho solidariedades. Neste espaço, combinamos antes, cada um só fala a partir do que viveu, experienciou. Conselhos, julgamentos não valem. Todos têm oportunidade de se expressar. Quando cada um que deseja fala – das suas alegrias ou, mais comum, do
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    104 105 que lheatormenta –,todos escutam.É democratica- mente escolhido, para aprofundamento, o problema como qualmaispessoasseidentificam.Embuscade melhor compreensão, quem fica na berlinda dá mais informações e responde a perguntas. Contextualiza. Depois, em silêncio, ouve quem contribui com o re- lato de suas próprias vivências similares. Emoções afloram, pipocam identificações, pesso- as se aproximam. Ao final, os que querem, falam do que levam desta roda. Muitas vezes conforto, tranquilidade, compreensões, auto-conhecimento e estima. Germinam vínculos, fortalecem-se laços, nascem e se realizam projetos voltados para inte- resses comuns ali descobertos. Cultura,o que é? Antonio Faundez lembra Paulo Freire e se identifi- ca com o que ele dizia que descobrir uma cultura é aceitaroutracultura,tolerá-la.Eafirmaqueacultura é mais do que manifestação artística ou intelectual através do pensamento. Sua manifestação mais pro- funda está nos gestos simples do cotidiano, como os diferentes jeitos de comer, dar a mão, relacionar-se com o outro. Eu próprio quando leio Faundez, o escuto im- pregnado de minha própria cultura. Já não é mais Faundez puro. Somos agora misturados, inclusive a Paulo Freire. Posses Tudo muito bem, tudo muito certo. Reconheço, já não tenho meu tempo. Descobri maduro que não sou eu que tenho as coisas, são as coisas que me têm. O carro que não tenho me obrigaria cuidá- -lo,guardá-lo,emplacá-lo,mantê-lo.O animal que não tive me pede atenção, cuidados. O dinheiro requer guarda, controle. O que guardo nas prate- leiras, no guarda-roupas me pede limpeza, arru- mação. Tudo me pede tempo. Se não pede, toma. Hoje, ainda, como não tenho meu tempo, corro. Na minha infância não soube de faltas até o momento em que, na cidade maior, vi a vitri- ne. Desejei o que não tinha. E por muitas ve- zes me angustiei por não me suprir das novas necessidades criadas. Só agora compreendi que o que aparentemente possuo é que me possui. Minhas posses me aprisionam.
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    106 107 Foi bomtê-las – estas coisas que me têm – e agora deixá-las a uma e outra. Por mim, hoje, só escreveria, filmaria. Muito do que me impede é minha carência, que me faz querer ser reconheci- do, admirado, mesmo eu sabendo que – se minha auto-estima depender do olhar de outros – posso eu próprio não me reconhecer. Como diz o Adal- berto, o que você quer que eu queira, pra eu querer? Winnicott dedicou a vida à pediatria e à psicanálise, especialmente a infantil. Fez, nos últimos anos de vida, palestras para os públicos mais diversos. Tudo Começa em Casa é o título do livro póstumo que contém estas palestras. Cada capítulo se en- cerra em si mesmo.Sua leitura tem me facilitado a vida, um tanto pela melhor compreensão de mim mesmo, outro tanto pela compreensão do outro, mamãe inclusive. E meus lados mãe, pai, filho. Livre pensar, levitação de tempo e espaço. Ausência de nada, presença de tudo. Pulsação, inspiração, expiração. O fio invisível que me abre o fluxo. Limbo Eu, 65, de repente mudança de referências. Me desculpo, confundo, misturo vida e trabalho, constante busca, antecipação de futuro – experi- mento já desejos pro futuro. Utilizo indicadores: tranquilo humorado me sinto no caminho certo. Se não, que realizo para novo equilíbrio? Algo clareia: aprender a viver – tranquilo humo- rado – com o que está ao meu alcance? Ficção A busca-em-ação, a buscação é descoberta, expe- rimentação, sim e não. Olho pra trás, domina a memória enevoada. Quando emergem lembran- ças, as felizes sobressaem. Tudo muito variado, umas vezes assim, outra incorporado. E eu, aqui, em qualquer momento, impregnado de mim. Confuso e lúcido. Em conversa cifrada co- migo mesmo, num misto de coragem e medo. Meu universo pulsa, sou centro e partícula, sou todo volume e não sou. E a prática de realizar: sonhar, lembrar, uma história, um plano passo a
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    108 109 passo,fazer passo-a-passo.Primeiroa estrutura – o lugar de morar, a saúde para cozinhar, lavar não passar, a feira, o mercado, o pequeno conserto, a manutenção, cada coisa tem seu lugar. Aos que frequentam, livre estar e cada coisa volta pro seu lugar. + a destinação dos objetos acumulados que me tornam um carregador do que possuo. As cai- xas numeradas. E alimentação de processos que dependem de outros. Antes a ruptura. A palavra já não mais presa, a consciência serena, a ética como o básico. A se- gunda carta aberta, o email geral: compartilho as perguntas que me faço, as respostas que me dou.A primeira, aos mesmos contemporâneos da instituição, sugestões para a prática interativa de transmissão de conhecimentos que a lei determi- na e os recursos estão aqui. Esta gera uma chama- da de atenção formal. A outra, a demissão. Dor e prazer. Alegria também pela alforria, raiva pela cegueira do outro, tristeza pela recusa e falta. Diluiu? Evaporou? Passado um tempo, já é passa- do. E neste enorme cenário em vivo, tenho focado no que me mantém tranquilo, também procuro mel dentro do azedo. Dos bônus, o fundo de ga- rantia, uma segurança. O plano de saúde mantém o custo, cumpre a lei. Então! Estrutura, a casa pronta Que mais? Com método, cada tarefa agendada. Pesquisa do necessário, separação de documen- tos, reprodução, consulta a quem sabe como é o processo todo. Contagem do tempo das contri- buições, marcação apresentação. Um dia após 65 anos, entrevista, papéis corretos, direitos garanti- dos, aposentadoria. Orçamento responsável: despesa nunca maior que receita. Adapto-me, camaleão. Vida mais simples, comida saudável, nova rotina que nem sei. Permanecem a saudação ao sol, os primeiros movimentos bioenergéticos. Simplifico o vestuá- rio. Estou organizado. Aposentadoria,plano de saúde,objetivos alcança- dos. O plano funcionou, o cronograma diferente do previsto. Cuido da legalização da morada.
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    110 111 Tostão De novo,quando leio, entendo do meu jeito. E arrisco. O jogador, pensante, filosofa. Lembra da solidariedade e da impossível liberdade total so- nhada por Sócrates, o do Platão. A utopia como referência, alimentação do desejo. Inalcançável. A lembrança de Tostão me anima, faz bem. Sonho, sem me limitar ao possível. Narciso Olho no espelho e me surpreendo, tão jovem e com estas marcas... E é eu. Insight O mundo muda quando cai a ficha. Quando o que compreendo me toca emocionalmente,minha vida ganha novo sentido. Mudaram meus desejos atuais quando me toquei que muitas das minhas necessidades recentes de poder – e dinheiro e ob- jetos – estavam relacionadas a afetos que desejei e não tive na minha infância. Tenho me sentido melhor quando hoje procuro suprir diretamente os afetos que hoje desejo. Primeiro, aprendi do que vi, ouvi, tateei, cheirei, botei na boca e senti. Desde criança transformei-me no que me foi apresentado como modelo. Estou fundamentalmente impregnado de in- formações que, no correr da vida, recebi tanto da escola, igreja, família quanto dos meios de comunicações e dos que estão ao meu redor. Eu mesmo colaboro para a manutenção da moral atual, quando nos atos e encontros de toda hora transmito meus preconceitos aos meus filhos, amigos, vizinhos, colegas de tra- balho. Enfim: o homem que sou hoje é fruto do que antes senti, aprendi. O homem que serei amanhã deverá ser fruto do que hoje aprendo e sinto. O que percebi em mim, percebo em outros. Ma- puto, 1981, foi quando isto ficou claro pra mim. Desde então faz parte de minha visão de mundo. Desisto de mim ou de você? O que é bom pra nós – pra mim, pra você – de- fine o que podemos? Descomplicando, talvez já
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    112 113 saibamos comotornar possível nossa relação: respeitar-me a mim e à outra, ao outro. Quero, por exemplo publicar o que escrevo, inda mais quando escrevo o que sinto. Me limito, me emu- deço ou faço o que desejo? Desisto de mim ou de você? Ou não desisto e realizo meu desejo, independente de você? Amor implica em depen- dência? Ou ao contrário? Amor não como pri- são, mas como estímulo à liberdade? Vice versa? Eu aqui com meus sentimentos. 12 balanços Presente Tempos passados, semana dessas...A semana co- meça, dois dias e já me canso do trabalho que não escolhi. Me pego ansioso em relação ao que me propus: realizar o vídeo Terapias Comunitárias e escrever um livro. Tenho tido prazer em levantar cedo e escrever sem compromisso. Gravar situ- ações emocionantes também é prazeroso. A an- siedade, desconfio, vem da inclusão de limitações ao tempo. Determinar datas me obriga a cumpri- -las. E aí, já sei, minhas escolhas perdem sentido. Que fazer? Uma primeira opção é respeitar os tempos na- turais, meus e dos outros. Uma série de tarefas preparatórias antecede gravações. Depoimentos conceituais, opiniões, visões do método, da sua aplicação, eficiência, eficácia, já colhi suficientes – com a ajuda de Michel, Naly, Carolina, outros colegas do curso de formação. Agora são neces- sárias rodas de TC. Fiz os primeiros contatos
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    114 115 com terapeutas,os equipamentos de gravação estão comigo, as autorizações de imagem e som estão impressas, prontas para preenchimentos e assinaturas, está à mão o dinheiro necessário pras despesas de transportes e pequenos gastos. Posso agendar com quem deseje. E articular com Elizeu ou Jun Kawaguchi ou Jorge uma segunda câmera. Em busca de financiamento, Elizeu preparou as informações e deu entrada na Fiocruz. Neste ca- minho, nos colocamos como parceiros, intencio- namos construir juntos direção, roteiro, produ- ção. Está prevista resposta em trinta dias. Outra trilha é a minha usual. Planejo, mesmo sa- bendo que a realidade será diferente. Nos meus tempos – com o apoio de um amigo aqui, um voluntário ali, prestadores de serviços acolá – ar- ticulo, produzo, gravo, oriento a transcrição, de- cupagem, roteiro, edição. Então, matriz, capa e rótulos prontos, encomendo cópias e parceirizo distribuição caseira. Deu certo assim com o Energia da Vida, o Apare- lhos Orgônicos e, maior sucesso, com o Auto-He- moterapia, Contribuições para a Saúde – Conversa com Dr. Luiz Moura. Permanecem prontos à es- pera e em busca de seus públicos o Candomblé, o Ilha Grande, o Práticas Chinesas de Auto-Cura, os Psicoterapias Corporais, o Energia Orgônica e Saú- de Pública.Como todos são atemporais,em algum momento, acredito, passarão em tv aberta. Quem participou das feituras – Victor, Ipojucan, Bruno, Pedro Farias, Bel, Raul, Sônia, Pedro Sarmento, Fran, Elizeu, Félix, Katty, Christiane, Thiago, Rudá, Oscar, Grasiela, Thamires, Mejia, Phillip, Gilberto, Ana, Regina, Rafael, Pavel, Caetano, Lucas... tanta gente – gostará. Quanto ao livro, estamos aqui, nesta brincadeira eventual ou de quase todo dia. Fiquei surpreso e satisfeito com o livreto que produzi com o conteúdo da entrevista feita por mim e Ana com Dr. Luiz Moura, a capa com design de meu filho Pedro, ilustração de Fran Junqueira, a experiência de Leandro Godoy. Ficou bonito, atraente mesmo. Estou satisfeito também com meu prefácio.O livreto me estimula este livro. Pensei uma parte subjetiva, outra objetiva. Mas, como Lennon já disse, a vida acontece enquanto a
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    116 117 gente planeja.Tudo muda num instante. Aliás, como sou o que aprendi, li, escutei..., toda ou quase cada letra – palavra, oração, frase... – que escrevo merece citação de quem a inventou, descobriu, idealizou. Porém, ai, porém, sinto, as ideias estão no ar. É só relaxar que elas chegam, pra mim, pra outros. A quem pertencem? E o tal do inconsciente coletivo? É certo falar é meu? É ético possuir direitos autorais? Pra parte objetiva pensei descrever o que criei, co-inventei e entendo prático. A metodologia de redes comunitárias e que mais? Imagine Um espaço onde, em roda, se encontrem mora- dores de comunidades populares menos favore- cidas, além de pessoas e instituições interessadas no bem-bom de todos. Naquele momento, um de cada vez se apresenta e sinteticamente diz o que oferece, o que procura. Quando todos sabem o que cada um procura e o que cada um oferece, a roda se desfaz. E, na- turalmente, cada um se aproxima daqueles com quem se identifica, em busca de mais informações e construção de parcerias. Imagine ainda que estas ofertas e procuras decla- radas em cada encontro sejam escritas e distribu- ídas, para que outras pessoas, mesmo se não esti- veram presentes, possam participar. Imagine também que você possa compartilhar co- nhecimentos que você adquiriu no correr da vida. Por exemplo, como voluntário, ensinando o que sabe a quem procura por este saber. Ou que aque- le objeto - que você guarda e não é mais útil para você - possa ser utilizado por outros.Um carrinho de bebê, um cobertor, um móvel, uma ferramenta. Imagine que você possa entrar na roda, estando lá ou, incógnito, via internet. Redes Base das Redes Comunitárias, os encontros pre- senciais são voltados para a prática de parcerias entre quem deseje. Moradores – a grande maio- ria de comunidades populares – e pessoas liga- das a instituições privadas, públicas e do terceiro
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    118 119 setor, alémde profissionais autônomos e volun- tários. E curiosos. De modo simples e objetivo, cada um dos presen- tes, representantes de instituições e de comuni- dades, se apresenta e fala do que veio procurar e do que veio oferecer. Todos têm oportunidade de falar e de ouvir. E, quando cada um sabe quem é quem,o espaço se abre para o aprofundamento de relações e formação de parcerias. Para facilitar articulações entre todos, cada um recebe – impressa ou virtualmente – uma rela- ção atualizada de participantes, com endereços, telefones, e-mails. E os Classificados Sociais, que descrevem sinteticamente o que é oferecido, o que é procurado. A cada novo encontro, estas listas são acrescidas, atualizadas, compartilhadas. Só O passado volta e meia presente. Dia destes... Acordei com este sentimento que traduzo solitu- de.Sou responsável pelas minhas atitudes.Como naquele símbolo das olimpíadas, o desenho que imagino de relações ideais se compõe de círcu- los parcialmente superpostos, cada círculo re- presentando uma pessoa. Os interesses comuns são representados pelas áreas comuns. As áreas externas aos entrelaçamentos correspondem aos interesses específicos de cada um. Ali sou só, ali vive minha solitude. Quando respeito meus interesses específicos, fica mais simples respeitar os dos outros.Mas quando não me respeito, lá vem raiva, culpa, contenção, tristeza. E pra evitar estes sentimentos tão chatos, me afasto, acabo por evitar contatos mais profun- dos. Aí é solidão. A compaixão que mereço vem de quem procura olhar com meus olhos. E vice versa. Sinto assim quando experimento o olhar do outro. Contraditoriamente, ou não, em busca de crescimento, quando necessário ofereço ao próximo a crueza do que percebo. Na verdade, desconfio, só exponho incômodos a quem de al- guma forma me interessa. Se não – inconsciente? – a indiferença e o esquecimento prevalecem.
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    120 121 Entre osefeitos de minhas neuroses está um tan- to a impaciência, às vezes a indelicadeza. Pero, mineiramente, aprendo evitar confrontos. Tenho constância no respeito a tratos. E, tentando enfrentar culpas apreendidas em mi- nha infância, experimento cada vez mais suportar prazeres. E pra evitar obstáculos, contorno mon- tanhas. Um passo atrás, dois à frente, quase um bolero, estes tempos. Se consciente e forte, esco- lho o que pode dar certo. Volta e meia, quando em conflito, acordo à noite, suo, sofro. Não gosto. Prefiro viver com quem me identifico, troco. Isto significa critérios, valoração. São escolhas. 13 programa de tv Imagino um No palco, tudo muito simples. Pessoas em roda, vieram pela oportunidade de compartilhar ques- tões de todo dia. Falar, ouvir, sempre a partir do que cada um viveu.As frases, é combinado, são na primeira pessoa, começam com Eu. A metodolo- gia pode ser, por exemplo, a da Terapia Comuni- tária. Como ela, há outras maneiras de facilitar expressões mais profundas e estimular solidarie- dades. Isto acontece todo dia e nós temos acesso. Imagino outro. Outro ambiente. Central do Bra- sil, por exemplo. Um palhaço faz a pergunta que deve ser respondida em um minuto pelo passante. O que você pode fazer para melhorar suas relações com sua família? Esta pergunta – e outras, diretas – estimulam respostas relacionadas a experiências pessoais. O espectador, na medida em que se identifique com o relatado, tenderá a também se questionar.
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    122 123 E quandocai a ficha... muda a visão de mundo... e o mundo muda. Dois câmeras atentos a si e ao outro.Os sentimen- tos inesperados que afloram devem ser suporta- dos, focados, gravados. Para que os espectadores tenham também possibilidades de se identificar com estes sentimentos, perceberem que não são só seus, solidarizar-se com os que sentem. Nas- cem vínculos entre quem vê e sente e quem origi- nalmente vive e sente. Toda semana os câmeras gravam, os espectadores interagem sentimentalmente. Ambos, além dos protagonistas, podem se desenvolver a partir da consciência do que sentem, do que são. E quando caem as fichas – quando cada um se compreende um tanto, emocionalmente – espaços se abrem para o entendimento de causas de comportamen- tos atuais. E, no tornar-se consciente – a perda da inocência –, possibilidades de transformações. Nenhuma velocidade estonteante, são outras as sensações. O caminho é emocionante, pra quem se permite, atento, sentir. Ao fim de cada encontro, cada um carrega consigo o que sen- tiu, vivenciou. E, no cotidiano, sua memória emocional o acompanha, estimula a consciên- cia dos seus sentimentos, pensamentos, pala- vras, atos. E aquele antes espectador tende a desvendar caminhos, a dar passos como prota- gonista de sua própria vida. Isto acontece todo dia. Faltam os câmeras e aqueles que realizam e veiculam programas de TV. Sonhei uma multidão - 400 pessoas? - disponível para uma brincadeira de crescimento. Sugeri de imediato que cada um de nós, a partir deste momento, só falássemos o que porventura fosse bom pra si mesmo, pra quem escutasse ou para aqueles a quem a fala se referisse. E ofereci escolhessem. Vivenciarmos juntos uma sessão de terapia comunitária. Ou, divididos em grupos de até 40, fizéssemos rodas onde cada um pudesse em 1 ou 2 minutos falar do que oferecia e do que procurava aqui, agora.
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    124 125 Eu poderiafacilitar um encontro ou outro. Acordei. Entrevistas O repórter, aqui, é produtor, observador. O en- trevistado é convidado a falar para outro, alguém que faz parte do público a quem se destinam as informações que oferece.O entrevistador,agora,é leigo, curioso. O inesperado: a entrevista se trans- forma em conversa, entrevistador e entrevistado se alternam. O entrevistado encontra a linguagem do público. O público agradece. Focos nos conteúdos Como convidada, aquela pessoa especial, cuja fala corresponde às suas ações, ao que é. Como entre- vistadora, aquela pessoa interessada. Estão próxi- mas,o que permite o tom de voz normal.A convi- dada fala diretamente para quem a entrevista. No meio, atrás ou ligeiramente de lado, voltada para a convidada, uma câmera ligada está esquecida, não há operador. No quadro, cabeça, ombros, talvez os gestos das mãos. Microfone direcional, de la- pela? Quando reproduzida na tela, a entrevistada estará olhando diretamente para os espectadores. Sensação de proximidade. Quem ouve atento, se comove, compreende, internaliza novos conheci- mentos, se sente mais inteiro que antes. Somos todos artistas? Aconteceu no Teatro Carlos Gomes. Quem es- teve presente nunca será o mesmo. Saiu mais vivo que entrou. Pura promoção de saúde. Bom negócio pra todo mundo. Ficou gravado só nos corações. Pode acontecer toda semana? Gravar também audiovisual, passar na televisão? Assisti outro dia um programa ganha-ganha. Criação coletiva, com dedos do Pontes, o Rober- to – o saber em todo ser. E de Vitor, o Pordeus, o médico-ator. O artista-facilitador, Vitor, cede espaço para quem chega mais. Facilita, estimu- la a expressão do outro. No palco, auxiliares são receptivos. Os músicos intercalam popular e clássico, vinhetas criam climas. O público espelha o apresentador, acolhe e é acolhido. Palco e pla- teia interagem, trocam de lugar naturalmente. Na plateia, no palco, roupas, chapéus, acessórios estão disponíveis, espalhados por todos lugares,
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    126 127 acessíveis aquem deseja, somos todos artistas. O público-artista,na maioria,da periferia do Rio.Na programação, ciência e arte dialogam, conversam como se fosse comigo. Na produção, tudo junto e misturado, pessoas ativas de comunidades popu- lares, de serviços públicos, de ONGs, voluntários. Outro programa assim, produzido por quem de espírito semelhante – Pordeus pensador ativo,in- clusive – foi o Loucura Total, no Instituto Nise da Silveira, Museu de Imagens do Inconsciente. Até hoje não sei quem era público, quem era médico, doido ou paciente. Música, letra e festa da melhor qualidade. Não ficou dúvida: somos todos iguais. Em programas assim, o fim é o bem-estar. A for- ma e o conteúdo são meios. Quantos mais sin- gela a forma, menos chama a atenção sobre si. A forma, aqui, se torna mensagem. Reafirma o fim, a função do próprio conteúdo. O pensamento, o sentimento é a linguagem. O meio, a mensagem. 14 piripaco Mais passado Outro dia. Sinto o lábio superior, à direita, como que levemente anestesiado. Mesmo es- tranho, não esquento. Uma e outra vez o olho direito embaça, lacrimeja. Dois ou três dias assim,estou num almoço amigo, uma amiga me fala que um lado do meu rosto está diferente do outro. Os presentes se ligam. Cláu- dia insiste, vamos à emergência do hospital São Lucas. Sala de espera cheia, receio de AVC ou algo assim, priorizam meu atendimento. A médica me examina em pé, solicita ali mesmo exames. Já sentado, uma auxiliar retira meu san- gue, instala o pinga-pinga do soro. Próximo pas- so, tomografia. É tarde de domingo, movimento crescente na emergência. Um dedo quebrado, o excepcional em crise, um letárgico em cadeira de rodas, outro que já chega morto, uma idosa à procura de escuta, todos em busca de cuidados e
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    128 129 afetos, osnove boxes cheios, os espaços de espera também. A médica me diagnostica, talvez para- lisia parcial periférica. Causas ainda indefinidas. Receita o que considera necessário, me orienta para um neurologista. Anoitece, saio confortado com o atendimento, me senti cuidado. Na segunda, no lusco-fusco da madrugada re- lembro e faço, como exercícios, movimentos com os olhos e músculos. Telefono pros bem próxi- mos, tranquilizo, me emociono, agradeço acom- panhamentos, disposições e disponibilidades. Já com os resultados da tomografia e do sangue, neurologista. Sangue bom – todos os indicado- res de acordo com as referências. Resultados nor- mais, reflexos também. Aventa causas possíveis. Meu plano de saúde facilita, o médico solicita outros exames. Chegou a noite.Tomo um açaí na lanchonete, vou pra casa. Terça, enquanto marco exames, me fortaleço.Au- to-hemoterapia, 5 milímetros retirados do meu braço e aplicados imediatamente na nádega. Jun, acupuntor amigo, pesquisa oriente e ocidente, traz informações, também aventa causas, me faz perguntas.Faz sentido: um choque térmico talvez tenha sido provocado por aquele vento forte do ventilador novo que mantive ligado ao meu lado direito enquanto utilizo em casa o computador. Jun define uns poucos pontos, aplica. Na terceira agulha durmo profundamente. Acordo uma hora depois, sonolento, vou com ele à portaria, regres- so direto pra cama. Quarta, cedinho, experimento... e já consigo fazer o que antes não conseguia. O olho direito abre e fecha, sozinho, ao meu comando. O sorriso ago- ra menos torto. Terceiro e último dia da minha licença, escondo minha agenda e, um tanto cul- pado, aprendo relaxar. Alguma certeza, mais que os remédios receitados e – lidas as bulas – criti- camente não acolhidos, redescubro, meu melhor remédio sou eu. Quero saúde, me cuido. Quinta e sexta pela manhã a bioenergética facial agora diária, a saudação ao sol – ioga singela. Pra movimentar a área da boca mastigo chicletes como nunca desde terça.A alimentação permane- ce saudável. Água – que tomo pouco diariamente – agora um litro e meio.
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    130 131 Eu, queme orgulho de não ter comprimidos em casa – nem mercúrio cromo – procurei semana passada um gastroenterologista, atraído pelas orientações que deu ao meu filho mais novo e em busca de mais informações sobre minha já incor- porada prisão de ventre (associo: mau-humor, enfezado, fezes). Dr. Hélio me falou da água, das fibras. Pressão 11x7, batimentos 60. Tudo bem pros meus quase 63 anos. Quando soube que fu- mei brabo dos 10 aos 50, sugeriu exames: raios-x, sangue,ultrassonografia prostática.Os resultados dizem que está tudo certinho.Também tenho me cuidado, especialmente com o que aprendi com mamãe, Ana, Regina e Romel. Alimentação leve, bebidas – álcool, refrigerantes – só eventualmen- te. Todo dia, ou quase, 15 minutos de ioga, respi- ração mais funda, movimentos bioenergéticos, al- guns quarteirões a pé. Mas se subo escadas, arfo: sequelas da Souza Cruz, a que fabrica morte por meio de cigarros. Falo pra mim: moral da história, a vida é curta, curta a vida, tento curtir a vida. Maior obstáculo, as culpas sem sentido. 15 talvez Abstraio o tempo Antecipo o futuro, vivo agora o que desejo. Mas hoje foi ontem: hoje tento separar minhas neuroses das de ou- tros. Não posso viver o que não é meu. Isto tem sido aplicado no meu dia-a-dia atual.No trabalho especialmente. É que a instituição em que vivo está confusa, insegura. Não tenho informações suficientes para avaliar. Quando falo eu talvez re- presente nós. Sei que os dirigentes não tomam conhecimento do que realizo. E assim não recebo reconheci- mento. Como tenho estado seguro em relação ao que crio e faço, vou em frente. Arrisco. A ética me guia.A missão da instituição me facilita: trabalho pelo bem-estar de menos favorecidos, articulo re- des comunitárias,fomento circulação de informa- ções de interesse coletivo.
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    132 133 Talvez algumascausas da insegurança institucio- nal estejam na sua cúpula. Tudo talvez: briga de cachorro grande pelo poder? Que inclui interfe- rir no cotidiano e no futuro de mais de mil fun- cionários, no destino de centenas de milhões de reais – dinheiro público – disponíveis anualmen- te, na utilização da infraestrutura física e técnica construída nos últimos sessenta anos. Periga a credibilidade, interna e externa. A rádio-corredor traz notícias, saiu ontem o di- retor-geral, entra o terceiro deste ano. Neste mais de 8 anos aqui, não conheço um funcionário pró- ximo que tenha tido acesso humanista ao presi- dente. Um e outros funcionários são demitidos. Tudo isto sem nenhum comunicado ao conjun- to dos que trabalham. Se as avaliações são pelos erros, “melhor nada fazer”. A sensação é de des- proteção, menosprezo. Parece que a insuficiente inteligência emocional da cúpula estimula o de- sequilibro do corpo da instituição. Interrupção brusca de projetos, ausência de definições, corte nas comunicações humanas são base para insegu- rança e desmotivação crescente. Ficam dúvidas: como pode um diretor geral com formação em finanças – pressupõe-se interesse prioritário pelo lucro financeiro – cuidar de uma instituição cuja missão visa lucro social? Como pode uma instituição com fins sociais ter um fabricante e comerciante de bebidas alcoólicas como seu presidente? Talvez até estejam sofrendo lá em cima. Nem posso ser solidário se nada sei. Talvez não saibam que sua função é servir ao público, facilitar o tra- balho dos que comandam. Talvez, também, esta insegurança coletiva esteja contribuindo para o afloramento de doenças em outros, como em mim. E talvez um ou outro – cada um dos funcioná- rios? – não esteja exercendo a responsabilidade incômoda de expressar juntos seus incômodos.
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    134 135 oito, aroda se amplia. O cheiro da fruta, os tons amenos das vozes, o sentarmos no chão, cada de- talhe contribui um tanto pra estarmos à vontade. Chegam mais duas e são acolhidas. Quem deseja propor uma brincadeira leve, rápida? Um fala o próprio nome e o nome de outro que conhece e está na roda. O que foi nomeado fala seu próprio nome, diz quem o nomeou anterior- mente e acrescenta o nome de outro que também está na roda. E assim por diante, sempre repetin- do todos os nomes já falados e acrescentando ou- tro. Um esquecimento aqui, uma ajuda ali, todos ou quase todos memorizaram os nomes de todos ou quase. Antes houve consenso, não precisáva- mos saber o que cada um faz, de onde veio. Está- vamos à procura do que somos. Alguém se lembra das combinações da Terapia? Falar a partir da própria vivência, a partir do Eu. Não vale julgar nem dar conselhos. É um espa- ço para compartilhar questões que afligem ou alegram cada um. Não é um lugar para segredos: segredos não compartilhamos. É um espaço de escuta – um fala de cada vez, outros escutam. Se 16 outro dia, um como outro Pela manhã Esta semana enviei convites virtuais pra todos que estão no catálogo do meu email Yahoo. Te- rapia Comunitária quase todas as sextas. Michel, com quem faço dupla normalmente, está fazendo oficinas do Rio Abierto na Rússia. Levanto cedi- nho, pernas pra cima, saudação ao sol, no cami- nho compro tangerinas, tomo café com leite, pão com manteiga. No espaço parceiro – o Centro de Movimento Deborah Colker – duas moças já chegaram. Va- mos pra sala, conversamos um pouco, falo das redes comunitárias, do sempre presente emocio- nal como pano de fundo, dos encontros METS – Movimento Emocional e Transformação So- cial –, da dica da Maria Teresa Maldonado sobre Adalberto e a metodologia que construiu. Outras pessoas chegam, já somos sete, mais um pouco,
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    136 137 alguém selembra de uma música – ou provérbio, ou causo ou piada – pede licença e apresenta...Po- demos combinar assim? Se um de nós se esquece do combinado, lembraremos... Imagino que outros, como eu, se acalmam ao to- marem antecipadamente conhecimento da pauta. Todos confirmam, querem saber. Sintetizo a se- quência, prevejo o tempo que estaremos aqui. E início a próxima fase: Quem deseja compartilhar algum incômodo ou alguma alegria? Uma mulher compartilha. Aposentou-se há dois meses, está em processo de busca de satisfação maior no viver... Anoto, sintetizo o que compre- endi e lhe pergunto se esta síntese traduz o seu sentimento. Depois de duas ou três tentativas, chegamos: O que vou fazer agora de minha vida? Cada um de cada vez, os que desejam, fala um tanto do que lhe incomoda e, com o auxílio de um ou outro, constrói uma síntese da sua questão. Outra mulher se pergunta como praticar sua teo- ria.E o resumo: Angústia pela procura de satisfação em minha vida. E mais outra fala do Medo de sair da zona de conforto e ser feliz com coisas novas. Alguém, 45 anos, filha mais velha dos seis filhos, única solteira e que permanece em casa: Sofro com a dificuldade de relacionamento com minha mãe. Os rostos e movimentos à volta expressam identifica- ções. Outra se expõe: Não consigo não atender às ne- cessidades da minha mãe. E mais outra: Como preser- var meu espaço, tendo que agora cuidar da minha mãe? Entramos na fase da escolha do tema que juntos cuidaremos. Cada um pode votar somente uma vez.O tema escolhido será aquele com quem mais de nós se identificar neste momento. Relembro todas as sínteses das questões apresentadas. Você pode votar em qualquer tema, inclusive o que você própria apresentou. E repito um a um, para vota- ção. O tema é escolhido: Sofro com a dificuldade de relacionamento com minha mãe. Agradecemos àquelas que expuseram seus sofri- mentos, lembramos que, se desejarem, poderão reapresentá-los nas próximas rodas. E que esta- mos disponíveis para conversas individuais, logo após o presente encontro.
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    138 139 Pedimos entãoa quem nos trouxe o tema esco- lhido que nos conte mais sobre seu sofrimento. E ela detalha, focada em seus próprios sentimentos. Perguntas são feitas, em tentativas de despertar, em nós todos, compreensões mais profundas. Sua emoção estimula que nos aproximemos, fechan- do bem a roda. Alguém sugere e, abraçados, ba- lançando, cantamos juntos uma cantiga de mãe, e mais uma. Lançamos uma pergunta-chave, procurando am- pliar o tema: Quem de nós sentiu dificuldades em relacionamentos com pessoas próximas... e pode con- tribuir expondo o que aprendeu desta vivência? Uma participante conta sua história, suas dificul- dades com a mãe, as transformações do relaciona- mento após conversas sinceras, o alívio. Outra da roda fala de si, da mãe solteira em am- biente religioso conservador, do casamento ne- cessário, do padrasto bruto, de sentir-se ameaça- da por abuso, de não sentir-se amada pela mãe, da sua própria dificuldade em conversar com ela e das mudanças positivas no relacionamento que ocorreram a partir da saída da casa materna. E como esta nova situação facilitou aproximações e reconhecimentos. Mais alguém relata a satisfação da mãe, de origem humilde,com a formação universitária da filha,ao mesmo tempo em que ainda a via como a garota de quinze anos que andava com ela de braços da- dos. Fala das diferenças e dos transtornos. E de como as conversas francas facilitaram o aprofun- damento das suas relações. E uma mulher fala do que viveu e aprendeu. O clima de agora já é diferente do início. Os olha- res são mais ternos.Há algo como solidariedade no ar. Somos vários, como se fôssemos também um. Levantamos e, à pergunta Que estou levando da- qui?, uma fala do sentimento de solidariedade, outra de amor, outro de algum alívio de culpa, e mais outra de como se sente bem em estar aqui... Alguém inicia A minha mãe, é mãe soltei- ra... mamadeira, todo dia... trabalha como empa- cotadeira, nas Casas Bahia. O ritmo chega aos corpos, uma ciranda é lembrada, dançamos em
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    140 141 roda... ecom calma nos despedimos, cada um de um e outro. Emoções de todo dia À tarde, Jun e o filho, Mitsuhito, chegam alguns minutos depois das três. Apresento superficial- mente as câmeras gravadoras e lá vamos de táxi em direção à casa de atendimento comunitário aos pés do Turano, no Rio Comprido. Mitsu prepara sua câmera fotográfica, Jun a dvcam, eu a também pequena hdv. Converso com duas es- tudantes de psicologia. E com nossa anfitriã, que todo dia ativa a casa. Chegam algumas senhoras moradoras da comunidade... Depois Alex e San- dra, responsáveis neste dia pela Terapia Comuni- tária. Somos em torno de dez pessoas. Entre os problemas, a votação maior definiu o escolhido. Uma senhora, em lágrimas, relata seu sofrimento com as vidas de seus dois filhos. Um, na ilegalidade, foi morto pela polícia. O mais novo, preso por motivos semelhantes, não retor- nou à prisão quando foi liberado para visitar sua família. Permanece ilegal. Enquanto preso, a mãe, mesmo passando constrangimento, o visitava o tanto permitido. Ela sofre também por não ser reconhecida e valorizada pelo filho vivo. Ao final, como tenho vivido em sessões de tera- pia comunitária, os abraços, olhares e conversas traduzem os sentimentos, a solidariedade. A mãe sofredora se declara confortada, mais animada. Vamos em paz. No dia seguinte Na minha formação, uma vez por mês participo de uma intervisão, sábado inteiro. Pela manhã, muitas vezes, um convidado fala sobre algo novo para nós. Anteontem conheci um tanto de Equipe Reflexiva, uma ideia e prática original de Thomas Andersen. Do que entendi, enquanto uma família é atendida por um terapeuta, outros terapeutas observam em silêncio e refletem. Os dois grupos trocam de posi- ções, se a família deseja. Os que observavam falam entresidassuaspercepções,enquantoafamíliaagora osobserva.Finalmenteosmembrosdafamíliafazem seus comentários.É um processo reflexivo. À tarde, roda de terapia comunitária. Alguém apresenta sua dificuldade quanto à presença de
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    142 143 público nasrodas que realiza. Outra fala da sua dificuldade no relacionamento com a filha adoles- cente. Esta última foi o tema escolhido, houve um maior número de pessoas que, por se identifica- rem com ele, nele votaram. A mãe detalha, responde a perguntas, se emocio- na. Fala da sensação de perda do amor materno, da vontade de matar, intercala choro e desabafo. Depois, em silêncio, escuta experiências compar- tilhadas por uma ou outra mãe presentes. Duas filhas contam, sob outro ângulo, o que viveram de semelhante. Por duas vezes, dor de barriga, a mãe na berlinda vai ao banheiro. O corpo fala. Volta, escuta, compreende um tanto, sorri entre lágri- mas, se acalma. Na roda de despedida, músicas e o que levo daqui. Olhares complementam as palavras. Os gestos expressam afetos. Mais próximos do que antes, nos despedimos com abraços. 17 pausa Horizontes Lá na frente, como me vejo? Fecho os olhos, me sinto adolescente. Abro, a imagem me choca, um velho. Quem é este homem maduro, enrugado? Sei que agora não me reconheço ao espelho. Hoje Ou ontem, amanhã, o tempo se dilui em minha memória frágil. Meu sofrimento hoje é alguma tristeza difusa, talvez profunda atrás deste meu fa- zer vídeo,fazer livro,fazer encontros de terapia,fa- zer,fazer.Talvez esta irritação na garganta expresse o incômodo que sinto e do qual não me aproximo. Se a vida, o mundo, é um palco enorme, em cada espaço algo acontece. Como atos de teatros. Aqui e ali um nascimento, uma morte, uma dança, tiro- teio, um canto, um olhar, um desvio, choro, sorri- so, arrepio, descanso, tensão, medo, uma criação, destruição, solidão, um conforto, desconsideração, solidariedade.
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    144 145 Quando souo ator, tenho escolhido neste palco o bem-estar que suporto. Quando espectador, uma vez visto, internalizo, não releio notícias, desgraças. Minha referência tem sido meu humor.Se bem hu- morado, é por aqui. Se mal-humorado, não.Tenho cuidado de me compreender. Já sei que meu gosto pelo outro passa pelo meu gostar de mim. Em casa, nenhum remédio. Nem comprimido, alémdaMaravilha Curativaquecicatriza,nenhum. Muito de vez em quando, como estes últimos dias, um sinal. Como esta irritação de garganta, um iní- cio de catarro, remelas ao acordar.Talvez meu cor- po expresse algum sentimento contido. Desconfio de tristeza. Há alguns dias, a maior parte de mim não deseja encontrar-se com ela. 18 juntomisturado Simples assim Homens hipnotizados passam agora correndo em frente. Cantam firmes, uníssonos. Dentre os ver- sos escuto ...É a vontade de matar... Escolheram a morte como meio.Pra deles me defender,tento en- tendê-los, olhar com seus olhares. Sinto medo dos seus medos. Pressinto que por medo, atiram. Suas ações nascem das pressões que internalizaram – as ordens, os castigos, suas missões – e do medo de sofrerem. E ainda ganham medalhas e parabéns. São, somos, sou o mesmo guerreiro de ontem e de hoje. Têm, temos, tenho um tanto da idade da pedra.Repetem,repetimos,repito os bárbaros,do- mino mundos e perco guerras no interior de mim mesmo.São,somos,sou semelhante a soldados hu- nos, persas, egípcios, romanos, espanhóis, ingleses, alemães, americanos. Seus, nossos, meus medos têm raízes em minha infância, são reforçados na adolescência, enrijecidos agora adulto. Seus, nos- sos,meus horizontes são curtos.Imagino a atenção
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    146 147 constante, oinimigo em cada lugar, cada desco- nhecido uma possível vingança. Quando matam, matamos, mato o outro, mato um tanto de mim. E não percebem, não percebemos, percebo. Como quando elevam, elevamos, elevo o outro, a mim elevo. Parafraseio Laing. Alguém me ama, me acho bom. Alguém não me ama, me acho mau. E lembro Lennon, all we need is love. Love is all we need. Empírico, sei, quem apanha em casa é quem mais briga na rua. Tudo começa em casa: Winnicott tinha razão? Perguntas que me faço... Em cada outro, um pedaço de mim? Em cada pessoa, um tanto da minha pessoa? Quando percebo algo no outro, é algo que já conheço? Em mim? Livre arbítrio, o que é em mim? Pratico? Ética, o que é em mim? Quando não fui ético? Afeto, o que é em mim? Sou afetuoso com quem desejo? O mundo anda enquanto paro? E o amor, o que é o amor? Como descrever o gosto da banana? E o gozo, pra quem não gozou? E o amor, se só vislumbro? Desconfio que estou amando quando desejo para o outro o que, lá no meu profundo, desejo pra mim. Se é assim o amor, meu amor é nosso amor. Meu amor é como um reflexo.Sou espelho do que recebo e percebo. Sou amado pelo que ofereço. Talvez eu saiba o que o amor não é. Não possuo nem sou possuído. Não limito nem sou limitado. Meu amor não é excludente. Amo um e uma e amo outros. Amo a mim, amo aqueles que dese- jam pra mim o que desejam – lá nos seus profun- dos – pra si mesmos. Só amo outro quando amo a mim. Sou dou o que tenho. Anos depois, leio Contardo Caligaris e me iden- tifico: Eu não tenho ciúme. Se alguém que eu amo
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    148 149 me deixapor outro, eu me desespero como todo mun- do. Mas se alguém que eu amo, sei lá, está viajando, continua me amando, mas tem a oportunidade de se divertir com outro parceiro por um par de dias ou de semanas, eu fico feliz por ela. Pergunta que, sei, só devo fazer ao espelho: que você quer que eu queira, para eu querer? E o livro? Alguém já disse que o escultor, pra realizar sua obra, vai retirando do objeto bruto o que está em excesso. Constrói pela retirada. Disseram tam- bém que escrever é cortar palavras.Tentei. E foram tantos cortes que a prosa tomou forma de poesia. A poesia, cortada, virou o que? Haicai? Mas se enxuto este que imagino haicai, sobra o silêncio. Agora tento de novo, cortando menos, na espe- rança que cada leitor edite. Assim como acontece comigo, fico de cada leitura somente com o que me toca. O que posso me dizer? Quantomaismaduro,melhormesinto.Soucentro do meu universo.A vida é um fluxo variado.Cuido de mim.Meu humor é um indicador.Quanto mais faço o que quero, melhor pra todos. Ando cheio de sabedoria. Quando tropeço, duvi- do. Se atento,aprendo.Desatento,tropeço de novo... E o Tao Te King? Eu gostaria de ser sábio a ponto de conhecer a mim mesmo. Tão forte que capaz de me domi- nar. Rico, rico de viver contente. E terno, eterno, transcendente da morte. E sofrimentos? Eu sofro porque desejo? Eu desejo porque sinto falta? Minhas faltas onde nasceram? O que eu ti- nha que não tenho? Cinema e vídeo Na década de 70, operário de cinema, exerci fun- ções variadas. Como voluntário, no escritório dos Barreto, atento ao tudo novo, bolei e pratiquei controles administrativos. Depois, em Perdida, de Carlos Alberto Prates Correia,aprendi direção de produção. Generoso, Carlos Alberto abriu portas e janelas. Pratiquei assistência de montagem com
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    150 151 Amauri Alvese Eduardo Escorel, no Guerra Con- jugal, de Joaquim Pedro. Cada corte, muito traba- lho manual. Frequentei anos a Mapa, produtora de Zelito Viana, desde os tempos da Urca. Na Embrafilme fiqueiàdisposiçãodeRobertoFariase,nosetorde rádio e televisão, sob o olhar da Martha Alencar, dirigi – hoje sei, sem estar preparado – o Coisas Nossas, programa com exibição de documentários veiculado pela TVE. Lá, por um ou poucos dias, fui assistente de som do Jorge Amado, documen- tário de Glauber Rocha. Participei também da sua montagem,também como assistente.Glauber chegava, orientava Carlos Cox – o montador – e voltava depois. Os neurônios da memória salti- tam. Fiquei sem voz ao dar de cara com Caetano no corredor. E, tão fã, ao invés de me aproximar de Gil, fotografei. Tive uma câmera VHS, daquelas ligadas por um fio à unidade de gravação. Minhas mãos eram muitas para – simploriamente, apaixonadamen- te, inocentemente? – produzir e gravar o que me atraia.Cenas familiares,movimentos e,no campo psi, vivências, simpósios, depoimentos, entrevis- tas. Com dinheiro curto, me limitei ao possível. Utilizava copiões – cópias para trabalho, feitas a partir das fitas originais – para assistir repeti- damente o que havia gravado. Selecionava, rotei- rizava. Alguns documentários ficaram prontos. E cópias, feitas por empresas especializadas. A capa, embalagem, distribuição, presenteios e ven- das, mão-a-mão apoiado por amigos. Um tanto assim até hoje. Sempre me propus conteúdos atemporais. Com- preendi que qualidades técnicas contemporâneas estavam fora do meu alcance. As formas, as mais simples. Câmera na mão ou fixa. Cortes secos, fa- des out e in. Comprei uma Canon 16mm,emprestei.Roubada no local da filmagem, fui ressarcido em prestações mensais. De outra vez pedi a um amigo que es- tava vendendo sua própria câmera que também vendesse a minha SHVS. Um comprador se in- teressou, propôs depositar o valor. Voltou com o recibo do banco, levou a câmera. O cheque depo- sitado era roubado... Sonhos interrompidos.
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    152 153 Tempo passado,mergulho na terapia comunitá- ria. Horas e horas de gravação, agora com uma HDV Canon pequeninha, sugerida pelo Elizeu Ewald, pioneiro em tecnologias virtuais. Medos semelhantes aos de trinta anos atrás se aproxi- mam de mim. Mas aprendi que prazos me angus- tiam... e já não me imponho datas nem socieda- des. Está quase se tornando um prazer, o fazer. Aprendo. Rico O que desejo pra mim é o que desejo pra ti. Eu, aqui, agora no processo de aprender a estar con- tente. Rico por viver contente. Este o desejo. Decisões Indecisas Gostei da ideia. Decretos pessoais. Avalio melhor que ninguém meus próprios desejos e viabilida- des. Determino a mim o que faço ou não. Come- ço pequeno. Hoje fico mais meia hora em casa pra escrever. Cumpro a missão da instituição que me contrata – contribuir pro bem-estar dos menos favoreci- dos. Coincide com o que desejo, me alegro: inda me pagam pra trabalhar no que gosto. Tenho este olhar internalizado como sentimento. Faço o bem, não olho a quem, mesmo fora da hora. No banho, na cama, no trabalho, na rua, em qualquer lugar – quando relaxo – fica tudo um tanto mais claro, as soluções se desvendam. Estou tranquilo. Uma contabilidade cósmica indica justo equilíbrio. Escolhas Os custos de controles invadem orçamentos. Controle significa instrumento de domínio. Con- troles me enfraquecem. Mas quando eu gosto do que faço, faço o que gosto, pra que controle? Imagino-me suprido, desde aquela explosão de afetos que me gerou. Papai e mamãe se olham e seus olhares são ternura e tesão. Calmamente se sentem,se tocam,têm o tempo como amigo.Mer- gulham no barato que vivem, se babam, se riem, arrepiam. O prazer toma conta, gozam. Passa um tempo... E lá venho eu, energias misturadas, em- brião, parte de cada um. Cresço cuidado, descubro o mundo, me cui- do e partilho. Desejos e sentimentos vêm e vão.
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    154 155 Aprendo transformá-lose a mim, como cachoei- ra em luz, ventos em ondas, trovões em matérias. Compreendo lá dentro, desfaço mal-entendidos, me supro cada buraco em cada momento. Não carrego vazios. Nada possuo além de mim mes- mo. Sou inteiro. Componho o mundo, sou parte e sou todo. O que percebo fora é o que reconhe- ço porque sou. Não desejo possuir o que é parte de mim. Sou também vegetal quando como. E sol quando me esquento e brilho. E o ar que respiro, a água que bebo. Internalizo e reflito o olhar, a emoção, o pensamento que recebo. Produzo o que preciso, supro outros como sou e fui suprido.Pertenço ao mundo sem ser possuído. Decreto pessoal: sou livre. Vago Tudo me leva a crer que o mundo será o mesmo sem mim. Já meu mundo existe em mim, sou cen- tro do meu universo. Só me resta viver. Étãobomestudarsemterquefazerprovas,escrever despreocupadodenotas.Mascomonãoferiraquele a quem minha escrita porventura se refira? Sentimentos de tristeza me assaltam se me toco do que fiz no impulso, como ontem, quando pressionei um jovem mendigo aidético: se é lá sua terra, se é lá que tem tratamento gratuito, volte pra lá. Constante no diálogo uma mistura de minha impotência e raiva, atrás do meu aparente afeto e desprendimento. Saquei que associar alegria a castigo me dificulta viver o prazer. Agora todo dia enfrento medos e culpas. Quando venço, rio, me alegro, gozo. Outras vezes, quando transo, cultivo o pra- zer d’agora, evito o orgasmo. Permane- ce um quente no corpo, uma animação su- til, ausência de ânsia, pronto pra outras. Um tanto tantra. A meta, se existe, é o prazer du- rante, não o orgasmo ao final. Por outro lado, esta sensação dejavu volta e meia me lembra do que antevi. Pressinto o que vem. Sinto uma ponta de tristeza quando com ironia
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    156 157 sou chamadode poeta, filósofo, doidão. Sinais que estimulei defesas, não fui entendido. Sei que o sonhar, o imaginar – mesmo não conscientes – antecedem em mim cada realização. Meu mun- do é feito a partir de meus sonhos, imaginações. Sonhos podem ser leves. Se pesados, pesadelos. Como escolher sonhos leves? Se durmo de barriga cheia, é batata, pesadelos. Mas com a digestão já tranquila – e a cabeça no travesseiro, os olhos fechados –, se me volto pra agradáveis lembranças, imaginações prazerosas, batata!, leves sonhos. Toda noite – só quando consciente do que faço – escolho. Perdi minha vida por educação.Verlaine? Algumas vezes leio só passando os olhos, outras tento en- tender tudo. Se atento demais, fico tenso, vou e volto, às vezes entendo, fica ou não fica.Tenho me permitido ler mesmo sem entender tudo. Sinto que mais que só algo permanece. Salteio páginas de Freud, me atenho ao que me toca. Passo os olhos em quase tudo que me cai em mãos. Já não sei de quem vieram – se de um ou outro,ou desconhecido ou de mim ou de nenhum – estes entendimentos que já fazem parte de mim. Já fo- lhetos, folheio. E se uma palavra, uma frase, uma ideia me desperta um sentimento, vem a curiosi- dade, leio. E quando me toca, cresço. Dos livros, também, adoro orelhas: às vezes fico só nelas.
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    158 159 Dados derealidade, nem eu nem ninguém que conheço tem só as qualidades que me atraem. Sempre uma mistura de atrações e recusas. Sinto também que não devo, antes de conhecer, definir a quem procuro. Devo então permanecer atento aos sinais em mim. Os batimentos do coração, as li- vres associações, os atos falhos, os sentimentos. Se quero e me permito despertar variações, já sei, um filme bom, uma festa, alguns arriscos. Reconheço, dá trabalho me manter vivo como me gosto. Ao editor Imaginei um espelho como capa do livro. E as páginas iniciais brancas, como um caderno novo disponível pro leitor. O formato, de bolso. Ou aquele que facilita xerox? Letras de forma e ta- manho que facilitem a leitura. Aquele papel meio amarelo claro. Textos enxutos, conteúdos e esti- los variados, mistura de subjetivo e objetivo. Ora ficção, ora realidade. Entrelinhas que estimulem atenção. Em algum momento a sugestão: leia aos poucos, em momentos calmos. E > é permitido acrescentar, reproduzir e distribuir para fins humanitários. Um livro como um meu retrato, o meu eu idealizado. 19 manual de manutenção Se a vida é uma escola, qual meu dever de casa? Realizar meus desejos, ser sincero comigo, respei- tar meus sentimentos? E na relação de namoro, casamento? Hoje uma tristeza que freia. Só, sinto falta do aconchego, do calor, da doçura. Da calma, do prazer que acalma. Sinto um desejo difuso, não é claro o que desejo. Tento pelas bordas, pinço en- tão o que não desejo – ser alvo de ciúmes, hora marcada pra tesão, ser cobrado pelo que não sou nem me comprometi. Clareia um pouco, sei que quero do bom que pro- vei,usufruí.Ser desejado pelo que sou,como dese- jo pelo que é. O mel do beijo quente, ativo. O arre- pio do olhar, do toque. A sensação de eternidade, ausência do tempo. A pulsação, em que do nada me espalho em ondas. Nestes momentos, memó- ria e futuro ausentes, só presente o presente.
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    160 161 Imaginei umlivro como movimento. E um leitor que simplesmente leia. Ou – se lhe convier – ao se identificar, amplie, invente, acrescente e assine, multiplique, distribua, de acordo com seus dese- jos e possibilidades. Gosto muito de uma regra de ouro, faça ao outro o que deseja para si. 20 hoje, já passado Pedaços Não sei definir direitinho meu estado civil. Há momentos em que sou maridão. Feira juntos, dis- ponível na manutenção da casa, furadeira empu- nho, retratos na parede, qual chá hoje? Relatos ao telefone,TV cedinho, só vou se você for, o que você quer pra que eu queira. Canso, sensação de aprisio- namento,de viver uma vida que não é minha.Gota d’água, me rebelo. Volto pra minha base solitária, repito, invento, reinvento rotinas. Viro namorado, duas vezes por semana. Cinema, passeio, cada um cuida do que se propõe, volto aos meus projetos, escrevo, gravo, alguns encontros com amigos. Em intervalos, sentimentos de solidão. # Tudo muda a cada instante, também sei. Não sei definir com precisão minha profissão. Leio com frequência. Na cabeceira literatura psi, romances, esporadicamente livros técnicos, revistas. Jornal, uma vez por semana? Vejo um bom filme, leio
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    162 163 algo queme fica, sei de uma notícia interessável, falo com um e outro, reproduzo, distribuo, imeio. Penso como rede. Raciocínio inverso, a partir dos objetivos, planejo de lá pra cá. Há muito tempo tinha vergonha de falar o que pensava. Terapia, convivência com gente mais resolvida que eu, leituras, dois passos pra lá, um pra cá, ampliei no meu tempo minhas limitações, comecei a me expressar. Hoje primo por livres associações, ora foras, ora dentro em cheio. Se me incomoda o incômodo de outros, tento distinguir o que é meu, o que é de outros. Sei que me sinto vivo quando vivo o que escolho, o que sou eu. # Um ontem, gravei em Barra do Piraí um encontro de terapia comunitária. Paula, a terapeuta. Praça principal, gente mais velha, o tema escolhido foi a preocupação com os filhos, mesmo os já adultos. É um que bebe e fuma, outro que anda de moto- cicleta, chega tarde e assim vai. Uma senhora se emociona ao relembrar a recente morte, AVC, de pessoa próxima.Alguém inicia uma música, abra- çam-se em roda, balançam enquanto cantam, tro- cam olhares compreensivos, ternos. Um ou outra que permanecia mudo se expressa, ainda tímida, voz baixa, bota pra fora o que lhe incomoda. Uns quantos chegaram solitários, partem agora um tanto solidários.Sexo não tem idade.Sexualidade. # Semanas passadas.Vem se acumulando uma sen- sação de excesso de compromissos comigo mes- mo. Iniciei semana passada o que imagino uma série de entrevistas. Luiz Soares é um morador de Manguinhos, comunicador ativo, leva-e-traz informações que beneficiam os que ouvem, nos encontros comunitários que participa. Já o vi, dis- creto, atento, em meio a muitos, nos cantos das telas, em três documentários recentes que assisti. Segunda por volta das nove nos encontramos aqui em casa, de frente um para o outro, um em cada cadeira, uma câmera nele, outra em mim. Fala do que é, do que faz, dos planos. Invertemos, ele me entrevista, conto o que imagino sou, faço, da terapia comunitária. Trocamos de cadeira de novo,ele desfia realizações que têm dado certo em comunidades menos favorecidas, frutos de inicia- tivas de moradores locais. Aventamos também
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    164 165 entrevistá-los aqui,nas semanas vindouras. En- trego as fitas gravadas, brutas, para ele. Mostrará para amigos da TV Comunitária – canal fechado da net – com a intenção de, juntos, editarem e veicularem. Dois dias depois já me informa en- controu interessados e que em vinte e cinco dias terá resposta. Anteontem contei para Evandro Ouriques, da Escola de Comunicação da UFRJ. Combina- mos entrevista daqui a duas semanas. Antes eu já havia comprado alguns equipamentos comple- mentares, alternativos, baratos: dois rolos de chro- makey,duas luminárias-tipo-panelas de alumínio, lâmpadas fluorescentes e mais umas coisinhas pra montar um estúdio caseiro aqui no que é meu teto. Busquei dicas com quem sabe. A câmera dvcam de Michel permanece comigo, Pedro meu filho me informa dos softwares, Jorge Rodrigues ternamente se oferece e constrói os materiais que tenho me permitido aceitar. Como uma sopa de pedras. Sementes de programas de tv? 21 insights? Volta e meia meu corpo me avisa pr’eu me cuidar. Bom menino, quando escuto meu corpo, relaxo sem culpa. Meu corpo é, às vezes, uma mãe... Tenho me sentido no limbo. Sabe o que é limbo? No catecismo, quando perdi minha inocência, aprendi que o limbo é aquele lugar pra onde vão os anjinhos,as crianças que morrem sem batismo. Lá, do que entendo, é vazio, é um nada. Meu lim- bo atual é este não saber quem sou, onde estou, de onde vim, pr’onde vou, que desejo. Como não sei, permaneço... Minhas realidades pouco a pouco se enevoam... e eu gosto. Não sei descrevê-las, tudo um tanto difuso. Sigo a intuição, quase o impulso, mesmo sabendo que não sei. Tá vendo? - brincadeira - imagino além de mim, outros. Os objetos têm perdido antigos sentidos de suprirem vazios. Saem os objetos, ficam os vazios, pelo menos não
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    166 167 me engano.E o melhor, tenho me sentido melhor. Paralelo, o pique corporal diminui, os desejos, a ansiedade também. Serei o santo que desejei ser quando perdi a inocência no catecismo? Pois é, sinto que a vida é o que sinto. Volta e meia me pergunto o que está ao meu alcance...e me sur- preendo com o que posso fazer por mim mesmo. Esta foi mais uma vez em que perdi outra inocên- cia: se não cuido de mim, quem cuidará? Quando tento olhar com os olhos de quem me cuidou ou cuida, minha mãe por exemplo, desconfio que o outro - ela - vive tantas questões pessoais que não conseguiu resolver... Quando, assim, sinto com- paixão por ela, me permito compaixão por mim mesmo. Se minha mãe foi não perfeita - nem meu pai, meus modelos - como eu? Aí então me pergunto: o que está ao meu alcance fazer por mim? Viver contente? Rio, rio, rio... e não sei por que. Acho que tou no caminho cer- to. Tudo muito novo, pra mim, isso de alimentar alegria. Rio de mim? E se rio do outro, no fundo rio de mim? 22 ficção, desarrumações Falo das qualidades do produto, desperto seu desejo. Omito quanto ganharei de você pelo que agora lhe vendo. Sou esperto, mais ainda porque lucro muito. E você ainda me valoriza pelo que acumulo. Deseja ser rico como eu. Já nem preciso de tanto. Gasto muito de mim na conservação do que estoco. Nem tenho prestado atenção nestas contradições que o excesso me pro- voca. Ser rico dá trabalho. Fico de olho em outros que agirão como eu se tiverem oportunidade.Gen- te que volta e meia muda as regras. Ou transgride. Eu mesmo tomo minhas providências, quando a lei não é suficiente. Não tenho muitas dúvidas. Insônia,gastrite,hipertensão,estas dores é que me atrapalham. E os pesadelos, os sobressaltos? Não tenho podido usufruir do que possuo.Tanta gente próxima pelo que tenho, que já nem sei quem me ama pelo que sou. Minha prática em mentir nos negócios é que me protege um pouco: reconheço
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    168 169 logo quemtambém mente.Mas não tenho amado, desaprendi reconhecer quem me ama. Tem também estas coisas que acontecem e não entendo. Lembro uns pedaços do que sonhei esta noite. Uma mistura de quente e frio, vendavais, maremotos, calmarias. Túneis, desertos. Névoas e sol a pino. Ora era eu o ator, ora desconhecidos. Minha mulher me disse que suei, gritei, chorei e ri. Tinha pela frente uma encruzilhada quando acordei com o toque dela. Ficou esta dúvida do que fazer com minha vida. Ai que saudades de minha inocência. 23 sensação de juventude Isto de sensação de vitalidade, sinto que tem a ver com minha constante tentativa de fazer o que meu coração diz. Desde que me lembro. Mudanças de rumo, cidade, profissão, um tanto incompreendido, outro tanto aceito. Agora mes- mo, estável na multiplicidade do que faço, inven- to, uma recorrente vontade de simplificar o ser e o fazer. Neste agosto de 2008, crente na criação de um sistema mutante de comunicação, de um lado ligado numa rede autônoma de agências de inFormações – jajá me explico – e de outro, sob o mesmo guarda-chuva,em plena produção de uma série de classificados sociais em vídeo. Além das Terapias Comunitárias, rodas práticas e vídeos. Tudo considerando o processo que vai da ideia à interação, passando pela preparação, produção, gravação, edição, divulgação, veiculação, retorno. Considerando os recursos que disponho ou te- nho acesso. Tudo muito singelo.
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    170 171 Sou umapeça de movimentos de pessoas com de- sejos comuns.Funciono a partir da participação de quem deseja e toma iniciativa de contribuir com o que escolhe. Tudo muito aparentemente confuso como qualquer movimento, onde equilíbrios se dão de maneira dinâmica, em espiral, em ondas que vêm e vão, desaparecem e renascem. Caos que antecede ordem que antecede caos. Movimento talvez semelhante ao que compreendo como tese, antítese, síntese. Sem metas quantificadas, só ob- jetivos difusos,uma vez que,se sei,talvez saiba um pouco do que não sei, do que não desejo. Aspiro este bem-estar que volta e meia sinto, indefinível como o gosto do pequi e como a sensação que me inclui no todo. Assim, nestes momentos, quando desejo pra mim, desejo pra todos. Que não são to- dos, é todo, é um, também eu. Os produtos carregam as intenções, são partes dos gestos. Parece confuso e é, enquanto não se torna claro, o que depende de quem vê. Também assim, cada olhar determina a realidade que lhe corresponde. Até onde agora enxergo, a aceita- ção de mim como sou – com as diversidades dos meus instantes – pode ser caminho para a acei- tação do outro? Este outro que faz parte do todo do qual também participo. Se me aceito, tendo a aceitar ao outro. A livre associação me leva à dica de Gentileza, o homem > Gentileza gera Gentileza. Mas sou muito prático. Quando relaxo e me vêm ideias, se uma ideia me toca, fica. Se desejo, ra- ciocínio ao inverso. Relaciono o que é necessá- rio para realizar o que agora é desejo. Decupo em tarefas o que me leva à sua realização. Abro colunas numa tabela. Além das tarefas, avento os tempos, os custos, quem poderia se interessar por realizar uma e outra, anoto observações. Dá mais certo quando trabalho partes do meu ego, já que lá mais fundo permanece um orgulho si- lencioso pelo que contribuí. Domingo chuvoso, escolho agora entre ler Caeta- no Veloso – Verdade Tropical – e me mover para rever Pedro, meu filho. Bom problema esta esco- lha, ambos me surpreendem, confortam, alegram.
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    172 173 24 anotações 00 Emalgum momentopassado,remotoerecente,cada letra,espaço, palavra, frase daqui. Em algum mo- mento presente,já no futuro,mistura de tempos. 01 Quando escrevo, me organizo. Lembro o que sin- to. Expresso meu mundo. Aprendo a me compre- ender, me aceitar. Facilita aceitar o outro, diferen- te de mim e um tanto semelhante. Escrever é um risco. Arrisco. 02 Wilhelm Reich me ajudou a eu próprio me com- preender, me aceitar, me desenvolver. O Combate Sexual da Juventude me ajudou desculpabilizar- -me em relação ao sexo. A Função do Orgasmo me ensina como pode ser o processo. A Análise do Carater me dá métodos de me cuidar. Tudo, na- turalmente, do jeito que entendo a cada releitura. 03 A cartas trocadas por Ferenczi e Freud me ensi- nam da amizade. Em cada consideração, algo que um oferece ao outro e a mim. 04 Freud se humaniza quando se expõe. Isto de in- consciente e consciente me faz pesquisador de mim mesmo. Quanto mundo reconheço em mim. 05 Compreendi melhor Laing, a pessoa, no seu Fatos da Vida. Sua dedicação ao acolhimento do outro faz sentido com o que ele próprio viveu. Antes ele tinha me tocado com o Laços. Ele fala de mim quando fala do outro. Os chamados loucos têm um tanto de mim. Eu tenho um tanto dos loucos. Acredito que como todos, ou quase todos, nós. 06 Winnicott dedicou a vida à pediatria e à psica- nálise. Tudo Começa em Casa é composto por palestras que fez durante a vida. Cada capítulo se completa em si mesmo. É um livro póstumo. Mamãe já morreu, mas hoje aprendo a melhor
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    174 175 compreendê-la eamá-la com o que Winnicott me oferece. A comunicação permeia todo o fazer. Sua insu- ficiência interfere nas relações. A partir daqui in- terfere em tudo. A comunicação se dá com o ou- tro e, indo fundo, consigo mesmo. O pensamento já é mensagem. Quando há realização de desejo de compartilha- mento de informações, as comunicações se ini- ciam. Quando eu próprio entendo o que comu- nico – e o outro também – as comunicações se animam. Quando eu entendo o que o outro me comunica, as comunicações se completam. 07 Bubber me ensinou que quando vejo uma árvore e percebo suas características – o caule, as folhas, as raízes, as flores... – a árvore está fora de mim, é um isto. Mas quando eu sinto a árvore, a árvore sou eu, somos eu-tu. Eu-tu é um livro de Bubber. 08 Tostão me surpreende quando escreve sobre fu- tebol. Ali o futebol representa a vida. Tostão bate bola com insights. 09 Ludemir mergulha onde vive e relata. Conheço um pouco de favela também através do que es- creve. Sou um tanto favelado, somos semelhantes pelos sentimentos. 10 Outro tanto de favela conheço através d’As Cores de Acari, de Marcos Alvito. Aparentes pobrezas escondem riquezas. Lembro Adalberto de Paula Barreto, que, em relação à Europa, fala dos favela- dos existenciais. Lá, riquezas aparentes escondem pobrezas emocionais. Em muito, desconfio, fave- las e europas se complementam.Talvez aprendam uns com outros. Só questão de desejos e gestos. 11 Em Por Uma Pedagogia da Pergunta, Antonio Faundez conversa com Paulo Freire.Diz que a cul- tura não é apenas uma manifestação artística ou intelectual que se expressa através do pensamento. A cultura se manifesta nos gestos mais simples do
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    176 177 cotidiano. Culturaé comer de maneira diferente, é relacionar-se com o outro de maneira diferente. 12 Mirian Goldenberg, na Folha de SP, diz que seus “...pesquisados apontam três ingredientes no casa- mento: amor, paixão e amizade. O amor aparece como um sentimento amplo e difícil de ser definido. É diferente da paixão, inicial e provisória, que se transforma em amor ou acaba.”. 13 Procuro me conhecer? Atento, tento, ao senti- mento, ao pensamento, à palavra, à obra? 14 David Bornstein, em Como Mudar o Mundo, es- timula quem tem ideias inovadoras focadas no bem-estar coletivo. 15 Já Charles Feitosa, em Explicando Filosofia com Arte, trata de questões profundas de uma manei- ra tão acessível... e quando a gente menos espera se vê refletindo sobre o todo, o nada, o essencial. 16 Gosto da superfície, de orelhas de livros, mas eventualmente mergulho, me aproximo do meu próprio inconsciente, do inconsciente de outros, do inconsciente coletivo, que está aqui e ali e não sei direito o que é. Carl Gustav Jung me ajuda, permanece vivo. Tanto através de Nise da Silvei- ra, que escreveu Jung, Vida e Obra, quanto através de suas Memórias, Sonhos e Reflexões e d’O Ho- mem e Seus Símbolos, finalizado poucos dias antes de sua morte. Jung dedicou a vida à compreensão dos sonhos, dos mundos interiores. 17 Thomas Szasz me ensinou a cuidar de tratos. Nem me lembro como, mas ficou em mim um tanto de sua A Ética da Psicanálise. 18 Eu era pobre e não sabia.Na minha infância,den- tro de mim, não soube de faltas até o momento em que, na cidade maior, vi a vitrine. Desejei o que não tinha. E por muitas vezes me angustiei por não me suprir as novas necessidades criadas.
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    178 179 Demorei meiavida para compreender que o que aparentemente possuo é que me possui. O carro me pede manutenção,taxas,estacionamento,gaso- lina,óleo.O cachorro solicita atenção,alimentação, passeios, cuidados. Minhas posses me aprisionam. 19 Surpreendi-me com o que Freud diz, em cartas, a Ana, sua filha. Meus preconceitos o colocavam transcendendo o humano. E ele se mostra gente um tanto como a gente. 20 Sonhei uma escola de desenvolvimento. Ela se concretiza onde se realizam aprendizados de de- senvolvimento integral – econômico, emocional e mais. Aprendizes interagem com mestres onde os conhecimentos estão. Mestres, naturalmen- te - nos momentos que também aprendem - são aprendizes. Aprendizes, naturalmente - nos mo- mentos que ensinam - se tornam mestres. 21 Gentileza gera gentileza. Aprendo toda hora: quando sou gentil, quando são comigo gentis. 22 Anotações para um manifesto em favor de infor- mações saudáveis: todo dia, ou quase, nas bancas, os mesmos jornais diferentes, as mesmas notícias semelhantes entre si. Isto aqui no Brasil. Isto na Europa. Talvez em todo o mundo. Como fontes, três ou quatro ou poucas mais agências de notí- cias, quando não uma só. CNN, Reuters, UPI, France Presse... Aqui, agências O Globo, Folha de São Paulo... Em que posso contribuir para me- lhorar, diversificar visões de mundo? 23 Passado recente, 2009: eu, sessenta e dois anos e nove meses. O horizonte mais perto. Cálculo otimista, sessenta por cento da vida já vivida. A intenção, há alguns meses, era só gravar vídeos e escrever. Tenho mais gravado que escrito. Giro em torno de encontros de redes comunitárias e de rodas de terapia comunitária. Gravei, com apoio de muitos, muitos destes encontros. Caetano Dable transcreveu um tanto. Pedro Sarmento criou vinhetas. Cineastas amigos editam – Elizeu Ewald, Félix Ferreira, Katty Cuel, Alberto Mejia, Roberto Pontes, Phillip
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    180 181 Johnston, ChrisAgnese, Thiago Catarino, Tainá Diniz – um vídeo cada um de cada vez. Pedro realiza o design do DVD. Mejia e Phillip cuidam da veiculação na TV Comunitária do Rio de Janeiro. Rudá Almeida inicia o Youtube. Oscar Pereira, o Oscardigital, complementa e am- plia pro Videolog. Glória, Jorge dão força. Russo, Eliany cuidam da casa. Combinamos cuidar das falas e atos editados como gostamos que cuidem de nós. Evitamos constrangimentos, procuramos contribuir para o gosto de cada um por si mesmo. Os custos são limitados aos recursos disponíveis. Há intenção de que os vídeos possam ser úteis em qualquer época – são atemporais. O presente está assim. Já prontos o Terapia Co- munitária – Conversa com Adalberto de Paula Barreto. E os Classificados Sociais de São Gonça- lo, Tijuca, Ramos, São João de Meriti, Niterói, Madureira, Vila Aliança, Expo Brasil. Os Livre Pensar Social relativos ao Desenvolvimento Local e à Sociedade que Desejo. Em edição o Rede Co- munitária de Cultura de Minas Gerais, o Rede de Cultura de Santa Catarina, os Classificados Santa Luzia, o Contribuições para a Plataforma Urbana do UNICEF, o Vila Aliança, o Terapia Comunitá- ria – 4 Varas. Auto-Estima e o Retalhos, com de- poimentos de terapeutas comunitários. Os custos integrais dos Terapia são meus. O Sesc contribui para a edição dos relativos a Redes e Livre Pensar. Tudo singelo. Mais que documentários eu cha- maria de falas-úteis. 24 Depois que papai e mamãe morreram, tenho sido meu próprio filho. 25 2006, 3 ideias possíveis. a) Agências de Notícias: textos simples, pe- riódicos ou não, atemporais, são disponibili- zados-oferecidos a veículos de comunicação - jornais, revistas, rádios, tvs - de todo o país. Em médio prazo, também a outros países de língua portuguesa e espanhola. Temas, como exemplos, sobre comportamento, desenvolvi- mento integral do ser humano, boas notícias, brincadeiras passo a passo, provocações de insights. E mais, textos instigantes de reflexão,
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    182 183 destinados especificamenteaos mais variados públicos: pais, crianças, professores, empresá- rios, babás, políticos, funcionários públicos, profissionais de saúde... Podem ser formatados, ou não. Se sim, por exemplo, em cadernos-tipo-cultura, com espaços para inserções publicitárias locais. Podem, ou não, ter um ético patrocinador- -cliente que arque com as despesas básicas e, em contrapartida, tenha sua inserção publici- tária ética presente nos veículos que aceitem os produtos intelectuais oferecidos. b) BRincadeiras: saem brinquedos, entram brincadeiras. Novas, antigas. Jogos cooperati- vos, integradores, por faixas etárias e interge- racionais. Um primeiro dvd com, digamos, 60 minutos, atemporal, com 30 brincadeiras apresentadas de forma que quem vê aprende e entra e faz. 400 mil cópias, destinadas a cerca de 400 mil escolas hoje existentes no Brasil. Oferecidas por uma instituição, Petrobrás Distribuidora, por exemplo. Parceria com os Correios, que entregará o dvd em cada escola. Já disponível, pesquisa bruta com centenas de brincadeiras. c) Povo da Rua: redes de interessados em se aproximar, cuidar de moradores de rua, con- siderando, cada um, seu desejo-competência- -possibilidade. Da higiene à alimentação, da educação à transformação. A metodologia dos encontros pode ser semelhante à das re- des comunitárias: em roda, o que cada um oferece, o que cada um procura. É bom saber o que um morador de rua deseja. Se deseja açúcar, quem sabe aceite o mel que não co- nhecia. 26 Como limite, internalizo uma regra de ouro: não faço a outro o que não desejo me façam. 27 Sou melhor escutado quando falo do que vivo. Sou menos escutado quando falo o que outro deve ser, fazer.
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    184 185 28 Tenho tidoo maior cuidado com minhas expec- tativas, especialmente em relação a outro. Se não falo da minha expectativa para o outro, como o outro saberá da expectativa que tenho em rela- ção a ele? 29 O que em mim dá certo? O que posso melhorar? 30 Filme bom é aquele que assisto e saio melhor que entrei. Quando entro um e saio outro. Pra quem gosta de emoções: As Canções, de Eduardo Cou- tinho. E A Música Segundo Tom Jobim, de Nel- son Pereira dos Santos e Dora Jobim. E Habemus Papam, de Nino Moretti. E Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat. E Paralelo 10, de Sílvio Da-rin. Tantos filmes que me fizeram bem... 31 É orgulho, eu sei. Quando alguém na rua me escolhe pra pedir um apoio, imagino que viu qualidades em mim que eu próprio não percebo. Aprendi com um amigo a facilitar a vida de artistas que, também na rua, facilitam a minha com sua arte. 32 Em terapia, nos anos 70, Romel me sugeriu: per- ceba o que sente quando a transa finda. E como seu corpo se comporta. Descobri que, junto com culpa, minha pélvis se contraia, impedia o fluxo normal de energia, de sangue. Neste ambiente fragilizado qualquer bichinho fazia a festa.Gono- cocos, estafilococos se alternavam. Estas doenças venéreas sumiram da minha vida quando passei a cuidar dos meus medos, culpas e corpo. 33 Desconfio que roupas – especialmente as peças íntimas – feitas com materiais inorgânicos difi- cultam a circulação de energia, fragilizam defesas do organismo. Falas no vídeo Energia da Vida contribuem para este entendimento. 34 Cada unidade de trabalho incorpora procedi- mentos administrativos próprios. Algumas criam
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    186 187 soluções criativase desburocratizadoras. Outras ainda não. Trocas de know-how informais são riscos de solu- ções desconhecidas. 35 Quem participa dos frutos do seu trabalho cuida do trabalho como se fosse seu. E é. 36 Ser ético é um estado de espírito? 37 A existência de uma instituição pública só é pos- sível pelo que já tem: base política que possibilita base financeira, base física e, o próprio fim e meio, base humana. Quando a ética está presente, estas estruturas possibilitam um cotidiano que inclui cuidados com os recursos, com os conteúdos, com os públi- cos e com quem cuida. Todos ganham. 38 Conteúdos inadequados estimulam inclusões so- ciais subordinadas a culturas retrógradas. Vide, por exemplo, grande parte dos programas de TV. 39 De outubro de 2000 a maio de 2011 trabalhei no Sesc Rio. Em momentos inseguros, me pautei pela sua missão, vigente quando fui contratado. E com a qual me identifiquei.   Na tentativa de manter-me saudável, procurei a todo momento separar minha loucura da do ou- tro. Um tanto porque o que faz me sentir ame- açado – e posso por isto adoecer – é ter minha vida pautada por quem não me conhece e nem eu próprio conheço.   Escrevo isto, confesso, para manter-me vivo. Sei que quando a boca cala, o corpo fala. E quando a boca fala, o corpo sara. 40 Agosto 2009. Ahora, além de las redes comunita- rias, las terapias comunitarias. Gravo algumas en-
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    188 189 trevistas, reuniões...e uma ou outra vai pro youtu- be e pra canais comunitários de tv.Uma ideia anda me rondando, estamos devagarzinho experimen- tando. Michel tem viajado bastante pelo mundo, grupos com homens especialmente... Auto-hemo volta e meia faço: o movimento se espalha pelo mundo. Já há no youtube versão em espanhol. E logologo em inglês e esperanto. Tudo por iniciati- va de um e outro que tem se beneficiado. No meio destes ventos, intuitivamente vou me or- ganizando pra não ter mais agenda.É o que desejo, acordar e descobrir o que fazer ou não. Saúde boa, um pouco de ioga diária, alimentação mais pra leve. Filmes, mais as comédias. Enfim, vida boa... 41 Do que me lembro, por orientação e insistência do meu querido dentista, tomei alguns compri- midos quando do implante de quatro dos meus dentes. Mas, fora isto, há mais de 10 anos não uso remédio alopático, de farmácia. Em casa, nem mercúrio cromo. Gripe, passa longe. Dor de cabeça, estresse, pânico... só sei de escutar. Exceção, A Maravilha Curativa tenho em casa. De um lado, procuro separar as loucuras que são minhas das loucuras que são do outro. Ou as res- ponsabilidades que são minhas das que são de outros. Já não carrego nos ombros o que indepen- de de mim. Sou só solidário. De outro, nos últimos anos, uns meses sim, ou- tros não, reforço minha imunidade ao retirar um pouco de sangue de minha veia e aplicar em meus músculos. Nenhuma contraindicação. Só saúde. É a auto-hemoterapia. 42 Me interesso pela articulação de uma rede de vei- culação de informações estimuladoras de cresci- mento emocional. Tenho, na verdade, visto como folhas em branco de caderno novo estas oportuni- dades que, à primeira vista, parecem problemas... 43 Estive em Vila Aliança ontem de novo. Impres- sionantes os helicópteros blindados sobrevoan-
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    190 191 do acomunidade, enquanto embaixo viaturas da polícia e homens a pé buscavam seus alvos. Doze carros da imprensa acompanhavam a invasão. O morador mais próximo: lá vão os urubus. Nossa reunião de planejamento de Desenvolvi- mento Local de Vila Aliança acontecia paralela e, conforme o local dos confrontos mudava, mu- dávamos de sala. Sei que não sou de heroísmos, nem intenciono. Mas tudo isto reforça em mim o valor do que fazemos, cuidando das plantinhas aqui dentro e lá fora. Mas aprendi que só posso dar o que tenho... 44 Julho de 2011. Imagino. Cada encontro como uma página em branco. Confesso que – mesmo cuidando das minhas expectativas – imagino cada um de nós fazendo espontaneamente o que está ao próprio alcance. Imagino cada um selecionando o melhor dos con- teúdos que deseja comunicar ao mundo. Imagino este conteúdo sintetizado, em respeito à inteligên- cia e ao tempo seu e dos leitores.Imagino este con- teúdo chegando a cada um de nós, a partir da ini- ciativa de quem cuidou de sua qualidade integral. Imagino agora cada um de nós compartilhando este conteúdo com quem poderá dele se benefi- ciar. Imagino cada novo leitor se beneficiando desta inFormação que lhe chega através de cada um de nós. Imagino este leitor sendo agora um de nós. Ima- gino que também ele, como cada um de nós, se- lecionará o melhor dos conteúdos para comparti- lhar com o mundo. Imagino que somos agora – cada um e todos que assim desejem – uma agência individual-inde- pendente de inFormações. Imagino eu, você, nós enlevados com o que sen- timos ao aprender estas novas qualidades que eu, você, nós interativamente nos compartilhamos. Imagino isto já.
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    192 193 45 O textoVisão de Mundo é o reconhecimento do meu eu. À procura de visões parceiras, comparti- lhei aleatoriamente no início: xeroquei, email-ei. Visão de Mundo foi, no momento em que escrevi, meu espelho. Hoje imagino minha visão ampliada. O texto Redes Humanitárias Comunitárias teve a intenção de sistematizar, do meu jeito, a me- todologia que por acaso criei. Estimulado pelos resultados de sua aplicação em Ramos – lá com o apoio essencial da prática da assistente social Lí- dia Nobre – me aproximei de Gilberto Fugimoto, responsável pela Assessoria de Projetos Comu- nitários. Gilberto, estudioso de redes, acolheu a mim e à metodologia e, juntos com cada colega que se animou, ampliamos o campo de atuação. 46 Sobre redes. Encontros de Redes Comunitárias acontecem periodicamente em unidades operacio- nais do Sesc Rio. Uma rede de artistas de rua se ex- pande e já abrange quase todos os estados do Brasil. Em Minas, também recriando a metodologia que utilizamos,nasceu a Rede Comunitária de Cultura. Em Vila Aliança, em Bangu, no Rio, projetos estão sendo realizados a partir da união de re- cursos  – humanos, materiais, espirituais – que encontros de pessoas e instituições facilitam. In- clusive um Fórum de Desenvolvimento Comunitá- rio. É a inteligência coletiva em funcionamento. Não sei de outros encontros – utilizando meto- dologias de redes – que estejam sendo realizados em outros territórios. Ou focados em temas es- pecíficos. Realizamos vídeo-registros de encontros de rede realizados em Minas, Vila Aliança, Cuiabá, São João do Meriti, Niterói, São Gonçalo. E, além de Santa Luzia, no centro do Rio, nos bairros de Ramos, Tijuca, Centro, Madureira, Engenho de Dentro... Outros registros em vídeos, ainda sobre redes, de palestra de Augusto de Franco e conver- sa entre Cássio Martinho, Célia Schlithler, Gil- berto Fugimoto e eu. Também fizemos vídeos que documentam um tanto o que vem acontecendo no Quilombo São José, em Valença. E sobre o Fado de Quissamã. E
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    194 195 Talvez sejanecessária esta clareza de objetivos – e um texto que descreva o que objetivamos, texto de preferência conciso e também claro e objetivo. Assim, se entrarmos em movimento, entraremos com clareza de finalidade. Como vejo, tenho dúvidas. Posso contribuir, mas neste momento estou sem pique-motivação para me envolver profundamente. Eu normalmente não lutaria contra o CFM. Eu não o considero competente para decidir sobre minha vida. Focaria, por exemplo, nos resultados positivos da auto-hemoterapia... e dirigiria as inFormações mais para as pessoas que necessitam do que para as instituições que se negam ouvir-nos. 48 Sobre o julgamento do Dr Luiz Moura no CFM. Aprendi que só consigo comunicar-me com quem me escuta. E vice versa.   Entendo que não ouvem, se órgãos que opinam (como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA ou o Conselho Federal de Medicina – sobre a Ilha Grande.E sobre o Candomblé.E sobre a Auto-hemoterapia. E sobre psicoterapias e tera- pia comunitária... Ao olhar para trás,tenho prazer.Compartilho o que aprendi. A difusão do que lhe toca está ao alcance e depende da iniciativa de cada um,a partir do seu de- sejo: http://luizsarmento.blogspot.com.br/ 47 Tenho dúvidas se me empenho agora na divulga- ção de algo. Divulgar que texto? Seria um mani- festo? Qual o objetivo da divulgação: esclarecer a quem deseje? Gerar movimento em defesa da auto-hemoterapia e do Dr. Luiz Moura? É o momento de valorizarmos decisões do CFM - Conselho sobre o qual tenho dúvidas das inten- ções e qualidade? Seria focado na auto-hemote- rapia ou no Dr. Luiz Moura? Dr. Luiz deseja este movimento em seu favor? O que penso neste momento é na necessidade de definir objetivos claros, em favor dos quais nos mobilizaríamos e estimularíamos movimentos...
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    196 197 CFM) serecusam a tomar conhecimento de pes- quisas recentes – como a do Dr.Flávio Alves Lara, a do Dr. João Veiga, a da Telma Geovanini – e de pesquisas anteriores, como a do Dr. Jesse Teixeira.   Se, além disto, estes mesmos órgãos se recusam a considerar o que a população beneficiada fala com suas práticas e resultados, entendo que estes órgãos públicos falham.   Vejo aqui um estímulo para que eu próprio deci- da sobre minha saúde e faça por ela o que percebo como melhor. A autonomia que me permito, de- sejo a cada um que a deseje.   Por outro lado, hoje acredito que mudanças se dão, muitas vezes, uma geração depois. Acupuntura, homeopatia demoraram muitos anos para serem aceitas formalmente, no Brasil, como medicinas. E olha que homeopatia tem 200 anos e a acupuntura cerca de 5.000.E a medicina ayurvédica, mais antiga ainda? E as medicinas indígenas, africa- nas,da Oceania e de outros pedaços do mundo? Imagino que há muitas outras descobertas e in- venções que podem facilitar nossas vidas – na área da saúde e em outras áreas – e que não che- gam a nosso conhecimento. Mesmo assim percebo que pouco a pouco a auto- -hemoterapia ganha espaço. Daí esta sensação boa que estamos no caminho certo, ao fazermos cada um o que deseja e que está ao próprio alcance. E divulgarmos o que per- cebemos como bom para nós mesmos. Até há pouco fui o tempo todo cartesiano. Isto ou aquilo. Aprendi com um amigo mais velho – 90 anos – que facilita quando é isto e aquilo. Assim se somam iniciativas. Re-escrevo isto estimulado pela mobilização em defesa de Dr. Luiz Moura e da auto-hemoterapia. Este movimento todo, espontâneo, tem trazido alegrias pra tantos de nós...
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    198 199 49 Dúvidas. Quenome dar a este livro? Passou pela cabeça: Título com. Minha vida é cada canal que cli- co - escolho um tanto quem sou. Outros es- critos. Não sou eu que tenho os objetos, os objetos é que me têm. Meu umbigo. Ideias, desejos & movimentos... Hoje, já passado. Perguntas que me faço. Livre pensar. Um quase nada de quase tudo. Vários eu. Talvez de interesse. Palavras à procura de imagens. Palavras à procura de sentimentos. Letras à procura de músicas. Se sinto, se penso, que faço?. Redes, ideias & movimentos... E mais: O que está ao meu alcance. Subjetivo?. Sai- ba+. Aposentado. Cidadão do mundo. O que vai pela cabeça. Meu lugar no mundo. Quem lava minha roupa? Gavetas na memória. No- vidades e repetições. Falhas memórias. 50 Ideias aqui expostas podem ser utilizadas livre- mente para fins humanitários. Naturalmente só posso oferecer o que está ao meu alcance, ideias que sejam consideradas minhas, se é que prevale- ce isto de propriedade de ideias. 51 Hoje me sinto um cidadão do mundo. 52 ChegueiemBrasíliaem1965.Lembro–amemória pode ser falha – duzentos e tantos professores fo- ram mandados embora da Universidade de Brasília. Uma greve longa já no primeiro ano de faculdade. Morei em casa pública ocupada por nós estudantes. Ummundonovo,estacidadenova,comgentedeto- dos os lugares. Uma vida juvenil, agitada. Zona bo- êmia só fora do Distrito Federal,era a lei.Um passo alémdafronteira,umapequenavilacomprostitutas. Na minha solidão, uma garrafa de Martini debaixo dobraço,emfinaisdesemana,numaaventura,péna estrada, pegava caronas. Lá quase implorava pelos favores gratuitos de quem vendia o prazer. Quando acolhido,um paraíso neste oásis de solidão.
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    200 201 Joguei oque não tinha, perdia minhas mesadas mensalmente no carteado. Só trinta anos passa- dos vim saber que talvez houvesse roubo no jogo. Parei quando, pra pagar o que perdi e não tinha, comprei à prestação um jogo de pneus pro carro de quem ganhou. Em casa chegamos a fazer o jogo da garrafa. Em roda, uma garrafa era girada no centro. Quando parava, a boca apontava quem deveria tirar uma peça de roupa. Uma fome danada, uma vez comemos de nos far- tar numa pizzaria almejada. Sobrou pra mim cor- rer por último. Sorte que estava com botas. Gar- çons atrás, me enfiei no mato. Brasília tinha mato. Uma boa moça – Batalhão foi o apelido agrega- do ao nome – nos acolhia em seus braços com carinho. Num mato, um amigo se alegrou com seus gemidos. Findo o amor, era um espinho o motivo dos ais. Que bom antes da aula, cedinho, ter dinheiro pra comer 7 pães com manteiga com café-com-leite. Que chato, ao voltar pra casa – já morando em alojamento no campus – ser obrigado a marchar feito barata tonta.Eram os soldados se divertindo. A UnB toda rodeada por militares armados, um a cada poucos metros, em todo o seu perímetro. Fui preso uma vez,junto com duas dezenas de co- legas, como represália pela retenção – sequestro, aprisionamento? – de um policial por estudantes ativos. Foi um dia só. Na prisão, quem pedia pra fazer necessidades voltada apanhado. Morri de medo. Só passei a ver militares com ou- tros olhos quando, em Moçambique, vi soldados conversando naturalmente de mãos dadas com civis. 53 Dr Fritz colocava critério: esta história que você vai me contar sobre o Pedro, faz bem a mim? E a Pedro? E a você? Se não faz bem, não me conte. 54 Dou razão a Cacilda Becker: só tenho tempo para lutar a favor.
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    202 203 55 E estavontade de acordar sem ter agenda, a vida atenta como um laissez-faire? 56 O que são erros pra um, talvez acertos pra outro? 57 Quando minha auto-estima está presente, lem- bro a sorte de quem me tem. 58 Dentro do fogo, só vejo chama. Se saio fora, vejo o incêndio. Se apago o fogo, sobram cinzas, em- baixo brasas. Se sopra outro vento, voltam as cha- mas. Se aprendo, já não me queimo. 59 Palestra boa é aquela que vira conversa e pode- mos todos participar. Uma fala de 10 minutos já é suficiente para apresentar conteúdos, ideias. E o tempo que nos resta aproveitamos bem, conver- samos sobre o que realmente nos interessa, a cada um dos presentes.Tudo mutável, inclusive regras, como é a vida. 60 Somos todos inteligentes.Uns têm facilidade com matemática, outros com línguas, uns são genera- listas, outros cientistas. Alguns têm inteligência concreta, outros abstrata. Uns são inteligentes nas emoções, outros são duros, duros. Inteligên- cia mesmo, sinto, exercito quando utilizo minha inteligência para facilitar o estar contente. 61 Uma fala, já sei, pode ser fora de ordem. Cada um edita, coloca em sua própria ordem, de acordo com suas prioridades conscientes... ou não. 62 E se em encontros cada um se apresentasse, eu também, expressando o que é - ou sente que é -, não o que faz? Esta aprendi com Michel. 63 Sonhos, ideias, reflexões antecedem ações. Caos antecede ordenação. O emocional como pano de fundo. Atos falhos não falham. Insights abrem outras janelas.
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    204 205 64 Reflexões. Douo livro que gosto, não o que o ou- tro deseja. Só dá quem tem. Se não me permito, a outros inibo. 65 Pra facilitar minha prática, não me canso de lem- brar o dito que penso ser de Tom Jobim: democra- cia é muito bom. Lá em casa pratico todo dia. 66 Que sociedade desejo? Quando converso sobre isto com quem intenciono ser parceiro, fico im- pressionado como somos diferentes. Foco no que somos e no que desejamos em comum. 67 Do que entendi, eficiência se refere a quando faço bem o que me proponho. Eficácia é quando há resultados. Efetividade é quando os resultados permanecem, frutificam. 68 Facilita uma parceria, quando descobrimos inte- resses comuns.A imagem que vem: sabe o símbo- lo olímpico, composto por aquelas argolas entre- laçadas? Imagine que parte de uma argola – que me representa – superpõe parte de outra argola, que representa você. Esta área que é comum às duas argolas representa o que temos em comum. Já a parceria acontecerá em função da iniciativa de cada um de nós e do nosso consenso. 69 Cada um de nós tem algo a oferecer e procura por algo. Há pessoas que oferecem o que outros pro- curam e vice versa. Questão agora de se encon- trarem. Assim se formam casais, comunidades, sociedades, redes. 70 Quando chego na hora ao encontro, estou dizen- do: eu te respeito, eu me respeito. Quando chego atrasado, desconfio de mim: será que me sinto su- perior ao outro? E, se sim, que complexo de infe- rioridade escondo neste aparente sentimento de superioridade? 71 Quando falo e não escuto, é que não quero ouvir?
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    206 207 Neste momento,estou fechado em mim? Não me interessa o outro? 72 Em algum momento, quando eu ainda no Sesc, escrevi como lembrança: Nestes momentos de incertezas, desconfio que a necessidade que sinto de ser solidário é a contrapartida que ofereço por necessitar de solidariedade.Tudo isto relacionado ao medo de deixar o Sesc, onde, identificado com sua missão, ganho para trabalhar em benefício de menos favorecidos. Quem não conhece o que faço, não valoriza o que faço, não me reconhece. E vice versa, uma vez que também eu não conheço o que fazem os que se propõem pautar minha vida e as vi- das dos que aqui trabalham. Nesta crise, opto por me orientar pelo meu senso ético e pela missão original da instituição. Procuro pres- tar serviços em favor do público que, direta ou indiretamente, me remunera para dele cuidar. Dói entrar no espaço do Sesc-Senac Flamen- go e ver um evento caro, sobre Coco Chanel, sendo preparado para um público limitado. Como a do Senac, a missão original do Sesc se dissolve. E o foco já não é o seu público, os comerciários e seus dependentes. Freio o impulso de demitir-me quando faço as con- tas mensais da sobrevivência. Decido então continuar aplicando meu tempo de trabalho no que meu senso ético me orienta. Minhas ações se guiam pela missão original ampliada: utilizando o que está ao meu alcance, no meu campo de poder, cuido em contribuir para o bem-estar dos comerciários, seus dependen- tes. E das comunidades populares onde vive grande parte das suas famílias. Assisti à transformação da Globo Vídeo num departamento da Som Livre. Ali a intenção era claramente diminuir custos, racionalizar negócios. Ali, nas empresas Globo, a ideolo- gia era a do lucro. Já o Sesc objetiva lucro social. Não entendo quando agora se fala do Sesc como empresa,
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    208 209 quando açõespriorizam a visibilidade mais que os conteúdos. 73 Rede, vivência agora. Desafio: saber e expressar objetivamente o que faz, procura, o que oferece. Já sabe? Escreva em mínimas linhas. Depois, num minuto, na fala, sintetize na essência: o que faço, o que ofereço, o que procuro. Imagine encontros de pessoas: interessadas num mesmo tema. Ou habitantes de um mesmo ter- ritório. Cada um – entre aqueles que desejam – fala objetivamente o que oferece, o que procura. Isto num tempo limitado, combinado em função do número de pessoas e do horário de término do encontro. Todos sabem agora de cada um dos que falaram. Recreio – um café, um lanche? Cada um que deseja conversa com quem deseja, reflete, define, articula parcerias. Perde-se o controle, as redes se espalham. 74 Aqui, a questão básica é comunicação. Como sa- ber do outro, que faço para outros saberem de mim? Num mundo onde cada um, eu falo por mim, sente necessidade de se expressar. Eu tam- bém quero falar. Estamos na fase da fala? 75 Fórum ou palestra. Interatividade ou atividade? Palco tipo italiano ou arena? Roda ou auditório? Epa! Se substituo neste parágrafo o ou por o e... de maneira que as comunicações se deem, cada um do seu jeito.O que importa é o processo como resultado. E resultado bom é quando me sinto bem e os outros também. 76 Das coisas objetivas algo sei. Como cada um de nós sabe do seu equilíbrio.Ou faz,como me pego, me engano, faço que não sei? E as coisas subjeti- vas antecedem às objetivas? Objetos, por exem- plo, nascem de desejos? 77 A emoção equilibra com a razão? 78 Uma ponte entre a ideia e a realização é o plane-
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    210 211 jamento. E,pra mim, ele anda bastante quando consigo responder a 7 perguntas básicas: o que, porque, quem, quando, como, onde, quanto ... Antes de mergulhar nos fazimentos, pra facilitar, gosto de montar um quadrinho com 5 colunas. Na primeira coluna,as tarefas.Na segunda,quem se responsabiliza por cada uma. Na terceira, até que data. Na quarta, o custo de cada tarefa. Na quinta, observações. Ordeno então as tarefas pela ordem das datas. E no dia-a-dia vou à luta. Lembro que quanto mais deta- lhadas as tarefas,mais possibilidades de acertos. 79 Adoro xerocar, distribuir textos que me tocam. Tem um, não sei o autor: As crianças aprendem aquilo que vivem Se uma criança vive criticada, aprende a condenar Se uma criança vive com hostilidade, aprende a brigar Se uma criança vive envergonhada, aprende a sentir-se culpada Se uma criança vive com tolerância, aprende a ser tolerante Se uma criança vive com estímulo, aprende a confiar Se uma criança vive apreciada, aprende a apreciar Se uma criança vive com equidade, aprende a ser justa Se uma criança vive com segurança, aprende a ter fé Se uma criança vive com aceitação, aprende a respeitar-se Se uma criança vive com aceitação e amizade, aprende a encontrar o amor no mundo 80 Criança, a Alma do Negócio é um documentário sobre publicidade, consumo e infância. Quem as- siste, amplia o olhar. Está em www.youtube.com/playli st?list=PLE2ABADAEF30E4007 81 Já o livreto Por Que a Publicidade Faz Mal para Crianças está em www.alana.org.br/banco_arquivos/Ar- quivos/downloads/ebooks/por-que-a-publicidade-faz-mal- -para-as-criancas.pdf
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    212 213 Outras informaçõese muitos caminhos se abrem a partir do Instituto Alana, que cuida d’A união da educação, da cultura e da assistência social para o desenvolvimento da cidadania e da qualidade de vida de todos nós. www.alana.org.br 82 Tiro por mim. Demoro anos para modificar algo que me facilite ampliar minha zona de conforto. Alterações de comportamento, os mais velhos sa- bem, demoram uma geração ou mais. Mas vale a pena plantar o que me faz bem e a outros, acom- panhar o crescimento, usufruir dos frutos. 83 O Jornal do Commercio, de 17 de dezembro de 1836, anuncia: Comprão-se escravos com officios e sem elles, escravas com prendas e sem ellas, tanto para a Cidade como para fora; na rua detraz do Hospicio n. 81. Vende-se huma preta com huma cria de 3 mezes, muito carinhosa para crianças, e com leite; e hum preto da roça, sabendo fazer fari- nha e derrubar mato, e o mais serviço, de 23 annos, muito robusto; no Campo da Honra, lado da Rua do Conde n. 63. Vende-se um preto padeiro, na rua do Sabão n. 118. Precisa-se alugar hum bom cozinheiro, no hotel de Johnston; na rua do Ouvidor n. 215. Aluga-se na rua do Lavradio n. 90, huma pre- ta boa ama de leite. Vende-se huma preta de nação, que engom- ma, cozinha e lava, tudo com perfeição, e cose alguma cousa; na rua de S. Pedro n. 183. Vende-se um moleque de 16 a 18 annos de idade; na praia dos Mineiros n. 79. 84 É comum eu sair de encontros com mais dúvidas do que no início.
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    214 215 85 Mamãe dizia:quando um não quer, dois não bri- gam. Contribuiu pr’eu ser assim, pacifista como penso que sou. Antes, apanhei muito, nesta de não entrar na briga. De não querer, querendo? 86 As gargalhadas de papai soam dentro de mim até hoje. E sua solicitude, senso ético, bom humor. Era pródigo, deu muito do que tinha. Não sabia, do que sei, fazer um café, fritar um ovo. Mas co- mia bem, era um bom garfo. Numa época, cada garfada uma pimenta malagueta. Gostava de fa- zendas, bois, de vacas. E de mulas, éguas, cava- los. Muito mais de mulher. Imagino que um bom amante, tão delicado com elas, eu imagino. Lem- bro de papai, me alegro. Sou um tanto ele. Sou um tanto também mamãe, que pegou as rédeas da casa quando eu era inda pequenini- nho. Mamãe gostava de conversar. Articulava bem. Não me lembro de mamãe com abraços. Lembro dos chás, das gemadas que me curavam nas minhas febres. E das decisões decididas. Se enternecia com uma serenata, com uma mesa farta, marido e filhos servindo-se, supridos de falas e comidas. Meu irmão morreu cedo, aos 41, 42. Era o mais velho de nós cinco. Inteligente pra caramba, pri- meiro lugar até o fim do científico. Depois, oito anos pra fazer um curso de engenharia que pedia quatro. Divertiu pra valer em Ouro Preto. Joga- va sinuca, ganhava com frequência. Quando já empregado na CBA, subiu rápido pra chefia de departamento. Enviava uma boa parte – acho que um quarto – do seu salário pra mim, quando eu estudava em Brasília e ainda não trabalhava. Lembro dele me levar junto pra peladas da infân- cia: primeiro pras peladas de futebol, depois pras peladas da zona. Era puro amor fraternal e eu não sabia. Dá saudades. Stella me antecedeu na chegada ao mundo. Lina veio antes de Stella, depois de João Porphírio. E Heloisa Helena se juntou a nós depois de mim. João foi pra fora, pra universidade, quando eu tinha 11 anos. Só nos vimos esporadicamente por uns tempos. Convivi com Lina, Stella, Ló diariamente até meus 16 anos, quando fui fazer
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    216 217 o segundoano do científico em Belo Horizonte. Voltei, fiz o terceiro em Montes Claros. E aos 18 anos fui pra Brasília,fazer Economia,que até hoje não sei direito o que é. Novinho, eu queria ir jun- to com os mais velhos pros bailes que não podia. Mas tive um bom período de festas, descoberta de outros mundos, logo adolesci. Tinha hora pra voltar, no início. Depois os tempos se alargaram. A visão de mundo de mamãe facilitou nossa vida familiar.Avançada pro seu tempo, moças e moços tinham os mesmos direitos em casa. E cada um tinha seus deveres. Aos sábados eu engraxava os sapatos, Eventualmente ajudava a encerar a casa. Mas não só. Tive um berço bom, sinto-me amado. Stella, Lina, Ló, permanecemos amigos durante nossa vida.Temos sido solidários. É prazeroso nos encontrarmos. Conversamos de um tudo, recorda- mos, nos atualizamos, jogamos buraco, comemos, passeamos. Aprendemos desde cedo o respeito pelo jeito de ser de cada um. Me sinto em casa em suas casas, tenho gosto. São portos afetivos. De Vera com João, veio Roberta. De Magda com João, nasceram Ludmila e Rodrigo Luiz. De Lina e Paulo vieram Paulinho, Cláudia e Juliana. De Stella e Alceu, Marina e Lucas. De Ló e Carlos Alberto, Pedro Gustavo, Ana Julieta, Maria Elisa e João Luiz. De Ana comigo, Felipe. Com Vânia, tivemos Pedro. Regina e eu nos cultivamos.Antes, com Ricardo,Regina teve Gabriela,André,Rafael. Cláudia e Iesus tiveram Iesinho e Larissa. Heitor e Heloisa nasceram de Clarice e Paulinho. Rober- ta e Laércio tiveram Clara, Heloisa e João. Leoni- ce e Rodrigo Luiz tiveram Guilherme e Bárbara. Juliana e Marcelo tiveram Luiza. Felipe casou com Vanessa, Marina casou com Carlinhos, Ga- briela casou com Bruno, André noiva Amanda, Rafael namora Cássia. Iesinho está com Zhairah. Pedro namora Irene, Lucas namora Isabela, João Luiz namora Elena, Lili namora Pedro Henrique. Cada um do seu jeito. Uns ou outras talvez te- nham amores que não conheço. 87 Jogador de futebol: cada bola que chega, um novo problema para ser resolvido rapidamente.
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    218 219 88 Instituições sãocompostas por pessoas as mais diversas. Umas com umas características, outras com outras. Ando refletindo sobre comporta- mento, o meu, o de outros. Tenho vazios que levo desde muuuuuito tempo atrás... e tenho descoberto que muitas das mi- nhas carências atuais têm que ver com estes va- zios antigos. Imagino que pessoas que roubam ou mesmo que acumulam coisas e sentimentos talvez tenham, por exemplo, sido desmamados cedo. Ficou aque- le vazio “que não sei o que é, só sinto...”. E aquele sentimento que “o mundo me deve... e tomo do mundo o que o mundo me deve...”. Enfim, pessoas que sentem que o mundo lhes deve. Chutando, se psicopatia define aqueles que não têm remorso, não sentem culpa... e com isto, na- turalmente sofrem sem saber “com este vazio que não sei de onde vem...”, tendo a sentir medo e, con- traditório?, compaixão. Enquanto isto, como diz o cantador popular, a cada passo que dou o mundo muda de lugar. 89 Aqui em casa, quase sempre há água no fogo, prum café ou prum feijão. 90 O presente passa. Em relação ao outro, de um lado muitas e boas satisfações. Leveza no trato, profundidade nos assuntos, comida e diversão saudáveis. De outro, cada vez mais frequentes e intensas, crenças e interesses diferentes. Temos, boa parte do tempo, conversas repetidas, círcu- los viciosos. Sofremos. Copos cheios, gotas de irritações, transbordes. Vaivém agudo. Relem- bro, quando o passado era presente, o que senti, refleti, me escrevi. Histórias se repetem, dife- rentes, semelhantes. A imagem, espirais como retratos de repetições, mas novidades. Nas novi- dades, outros ciclos despontam, agora virtuosos. Como na história bíblica, vacas magras interca- lam gordas vacas.
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    220 221 91 Tenho outroslados. Sou um tanto Tarzan, Man- drake, Super-homem. E São Francisco, Reich, Rajeneesh, Freud, Laing, Jung. Sou meu irmão, minhas irmãs. Meus filhos e eu somos um tanto um e outro. Sou papai, sou mamãe. Algo fica em mim de quem me emociono. 92 Tãobomlersemterquefazerprovas.Relaxoegosto. 93 Pedro fala: muita gente reclama de falta de tempo. Pra mim é falta de organização. Eu complemento: também falta de se dar limites. 94 Compartilhar sentimentos, conhecimentos e ob- jetos têm me trazido sentimentos, conhecimentos e reconhecimentos. 95 Botar em prática minhas sacações - insights? - tem sido trabalhoso,pero gratificante.A vida com me- nos tem sido mais livre, melhor. 96 Tive sacações com sacações de outros. Sem a cer- teza das autorias, relembro. O tempo não para. Cazuza A mente se move e se move e a energia vai onde  o pensamento vai. Dito chinês Por princípios, eu luto. Dionino Colaneri Relações de confiança são base para formação do Capital Social. Gilberto Fugimoto Conhecimento se origina da experimentação. Lou Marinoff Uma verdade científica não triunfa porque se consiga convencer a seus opositores e fazer que vejam as coisas com clareza, mas sim porque os opositores acabam por morrer e surge uma nova geração que se familiariza com a nova verdade. Max Planck Conhecimento é poder. Francis Bacon
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    222 223 Sobre simesmo, seu corpo, sua mente, o indiví- duo é soberano. John Stuart Mill Não vemos as coisas como elas são. Nós as ve- mos como nós somos. Anais Nin Os planos funcionam. O problema é o cronograma. Sérgio Mello Só quero saber do que pode dar certo. Caetano Veloso Como posso dizer sim a algo que não está em mim? Regina Rodrigues Chaves Complexidade: ao invés de isto ou aquilo, isto e aquilo. Mário Magalhães Chaves 97 Tomo tento do meu tamanho quando lembro do que entendi do que Alvin Toffler escreveu – e eu soube através de Carl Rogers, no seu livro Grupos de Encontro. Para o homem, uma das questões bá- sicas de agora e do futuro é a rapidez com que o organismo humano pode adaptar-se à velocidade de mudanças provocadas pela tecnologia. Toffler refere-se a isto como um choque futuro e sugere que pessoas terão colapsos ao tentar adaptar-se às inacreditáveis mudanças operadas. Ele fala que, se o homem existe há cinquenta mil anos, este tempo corresponde a aproximadamente oitocentas gerações de sessenta e tantos anos. Seis- centas e cinquenta destas gerações foram vividas nas cavernas. Há apenas setenta gerações surgiu a escrita e foi possível a comunicação de uma geração para outra. E só há seis – ou sete? – gerações che- gou a palavra impressa. O motor elétrico há duas – ou três? – gerações. E a maior parte do que hoje usamos no dia-a-dia foi construída no presente. Eu sinto em todos meus sentidos o desenvolvi- mento tecnológico contemporâneo. Já o desenvol- vimento emocional, aqui e ali, num ritmo menor. Como se afetos se retraíssem para dar lugar ao corre-corre tecnológico. Será isto um colapso? Pois sei em mim que a internalização de senso ético está ligada diretamente às práticas das afetividades.
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    224 225 98 Se aluz que vejo de uma estrela foi emitida há algum tempo significa que vejo o que foi emitido no passado... vejo no presente o passado. Da mesma forma, o gesto que faço agora poderá ser visto pelos que estejam naquela mesma estre- la, daqui a algum tempo? Esta luz da estrela caminha de lá pra cá? Esta imagem do meu gesto caminha daqui pra lá? Es- tas memórias que andam – a luz, o gesto – são os tais registros akháshicos? 99 Quando me desequilibro me sinto adoentado, penso em auto-hemoterapia. Se mais intenso, peço atenção do Jun Kawaguchi, amigo e acupun- tor. Paralelo, bebo mais água, como mais leve. E descanso e respiro, descanso e respiro... Prefiro ir a médicos quando estou saudável. Fico mais de igual pra igual, troco ideias, informações, eventualmente afetos, criamos vínculos. Promovo minha saúde quando me cuido, caminho um tan- to, como o que me faz bem, convivo com quem me sinto à vontade, faço o que desejo, cuido do outro como de mim. E escolho o que sinto, penso, falo, faço. 100 Nos jornais, entrelinhas são atos falhos? 101 Eu desejo porque sinto falta? A falta que sinto é como um buraco de onde foi retirado algo que eu tinha? Se sou suprido, permanece o desejo? 102 Volta e meia me faço perguntas. Por isso tanta in- terrogação? Ou interrogações já existiam, antes mesmo das perguntas? 103 Construo meu futuro presente em cada ato de agora? Não vislumbro meu futuro se não sei do meu presente? 104 Esta contabilidade cósmica, que sinto, existe?
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    226 227 Não preciso,então, anotar débitos e créditos? Posso parar de controlar? 105 Antecipo para hoje o que desejo no futuro? Expe- rimento um tanto do futuro agora? 106 A propaganda é feita de metáforas? Parábolas também são feitas com metáforas? 107 Mudanças radicais passam não pela razão, mas pelos sentimentos? Pela fé, por exemplo? 108 O sentimento define o comportamento? A cultu- ra define a moral? Comportamento, combinação de sentimento e razão? 109 Já assisti palestras sobre sexualidade que só mos- travam doenças. Já li textos que condenam o sexo. Fiquei com medo. O que me salva é o que apren- do com quem vive bem sua própria sexualidade. 110 A pílula foi um marco. Antes, o medo de engravi- dar alimentava o medo de transar. Depois, a ale- gria de transar alimentou a alegria de viver. 111 O movimento hippie ampliou meu mundo. Tudo tão novo e tão simples. A comida, a música, a ati- tude, o amor. 112 O viagra inda é um mistério. Funciona, mas não sei se causa efeitos colaterais. 113 De tempos em tempos, uma praga delimita, dá limites. Recentes, tuberculose, sífilis, gonorreia, hiv, hpv.Tantos amores contidos, interrompidos... 114 Ser fiel a mim e ser fiel ao outro? Como posso combinar o futuro se o futuro é mistério? 115 A fé vem da vivência? Tenho fé quando experi-
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    228 229 mento? Tudonum átimo, o tempo todo fora e dentro se misturam? 116 Aprendo, delimito a realização de meus desejos ao considerar o sentimento do outro. 117 Alimenta minha alegria passear no Boitatá. Tam- bém fico contente no ambiente do Céu da Terra. E na Orquestra Voadora, no Maracutaia, na praça São Salvador. Em cada bloco de carnaval, um mo- vimento, uma sabedoria própria. 118 Que é mesmo livre arbítrio? 119 O amor será assim, uma amostra do paraíso? Gente como eu, em estado de alegria? O tempo vira agora, o espaço é aqui, serenidade e eu somos um só? 120 Na vida, a síntese do desejo é estarmos contentes? 121 Lembra aquela história do pescador? Vilazinha do interior, beira de rio, o pescador adormece, o peixe morde, a vara treme. O turista vê: vou mexer com este caipira. Pega a vara, pesca, pesca, pesca. Acorda o pescador, aponta o cesto cheio: olha o que você perdeu! Inda zonzo do cochilo, o pesca- dor: o que? O turista: os peixes, olha o tanto. O pescador: pra que? O outro: pra vender, ganhar dinheiro. Fazer o que você gosta. O pescador: mas já tô fazeno... Eu me sinto assim, nesta fase que curto enquan- do é.Eu,satisfeito comigo,desejos ausentes,tento atento viver contente. Difícil é suportar a alegria. Tristeza era fácil, matava no peito todo dia. 122 Entre graves e agudos, este jeito de escrever. Crônicas breves? 123 O que sou hoje é o que construi antes em cada ato passado. Mas vivo mesmo só o presente.
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    230 231 124 Vestidos. Saiasem casa? Serão frescas, arejarão meu corpo? Práticas, as saias? E o olhar do outro? E eu me olhar com saias? Só mudo e escondido? Se em relação a saias sou assim, como serei em relação a cada possibilidade de prazer? 125 Os pecados mortais, os pecados veniais. O pra- zer perde espaço.Um aprendizado,estar contente agora, aqui. Já o futuro, noutro lugar: ali, é misté- rio, é novo. Só saberei ao experimentar. 126 Relembrando Laing, o Ronald, quero agora in- vestigar como aqui cheguei,o que faço neste mun- do, porque eu, nós aqui nos encontramos, quem somos. Mas antes, treinar alegria. 127 Muita coisa já esqueci, um tanto de livros que li. Algo do DNA de lá passou pro DNA de cá. Sou assim um saldo do que me entra, do que me sai. Da soma do que permanece, ora as células, ora os conhecimentos, os sentimentos, as memórias. 128 Estou grávida de me tornar mais inteira. O pensa- mento é a linguagem, o meio é a mensagem. Estas ideias vieram de outros que não eu. Imagino flu- tuantes. De repente atraídas, se tornaram insights. Agora são também minhas. Compartilhadas, per- manecem sem donos, mesmo sendo suas, minhas, deles, nossas. 129 Falsa memória, lembro de encontros comigo em que eu não estava lá. Presentes só na memória. De fato, talvez só desejos. Lembro de fatos imaginados. Brinco com esta memória que me supre, me torna quem não sou. Conto só pra mim. 130 Separações na minha vida: as que me lembro, car- rego comigo. São aparentes separações?
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    232 233 131 O queescrevo, se já sei, é mais uma recordação. 132 Sinal de saúde, não sei onde fica meu fígado. 133 Sou imaturo no que sou ignorante. Quanto mais ignoro o que sinto, mais verde sou. 134 Hoje distribuímos quentinhas que Regina, Bru- no e Vera produziram. Os olhares, as palavras de quem, com fome, recebia, enterneceram nossos corações. Dar traz prazer. 135 Sexo: as dúvidas de meu avô permanecem geração após geração. Na infância, sexo um mistério. Na adolescência, sexo um segredo. Na fase adulta, que faço com meu tesão por gente que não devia? Maduro, acalma-se um tanto. Morto, ausência de libido, ausência de conflitos. 136 Fui outro dia a um hospício. No palco, na pla- teia, não tinha ideia: quem era público, cuidador ou louco. Loucura total, ali, era o mesmo que sanidade total. Percebi que em mim tenho um tanto de cada, sou normal. 137 Robert A.Monroe,em Viagens Fora do Corpo,en- sina passos pra viajar. No meio do caminho, me deu um medão danado. Não fui. 138 Quando solto um pum alto, ai que vergonha. É que, sem querer, relaxei. Estou à vontade. 139 Relaxo? Se divago, sonho. Se sonho... Mas o so- nhar não antecede toda realização?  140 Que faço pra atrapalhar minha própria vida?
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    234 235 141 Repito omesmo drama do ano passado. Fui ao Boitatá, bloco bom, praça XV. Cheguei, procurei minha carteira, cadê? Fui à delegacia de polícia, bem atendido, fiz o registro de ocorrência. Furto? Outras pessoas, mesma hora, mesma delegacia, situa- ções semelhantes: furto. Agora me preparo pra contac- tarCEF,CPF,carteirasdeidentidadeemotorista,cartão doSesc,cartãodaAMIL,cartãoMetrô,cartãoRiocard. Toda vez que tropeço numa pedra, reclamava. Hoje reclamodapedra,masantesdemim:nãopresteiaten- ção.Sei agora,sabia antes,não devo levar meus prin- cipais documentos prum lugar com riscos de furto. Penitência:  procedimentos necessários para co- municar a cada órgão público correspondente aos documentos perdidos, furtados. Domingo de car- naval, vou... O telefone toca. 142 Eta mundo bom.O círculo virtuoso toma assento. Sem a carteira que ontem perdi – furtaram? – no mesmo dia tomei providências relativas a alguns documentos e hoje me preparei para cuidar dos outros. Trim, trim trimmmmm:.. Da mesma vez que no ano passado... Alô! Encontrei sua carteira! Lembrei do que entendi do filme Dúvida. Uma freira faz comentários sobre a vida sexual de um padre. O boato se espalha. Cai a ficha, a freira procura o padre, pede perdão. O padre: perdôo. Mas antes, sabe um travesseiro com penas? Chegue na janela, solte as penas ao vento, depois recolha pena por pena... Pronto,estou recolhendo as penas.Reforcei minha visão de mundo. O mundo tá ruim e tá bom, vi- cioso e virtuoso, depende um tanto do meu olhar... E dos olhares de outros com quem me identifico... 143 Labirinto. Tristezas se aproximam.Tudo um tan- to embaralhado. O primeiro pensamento é fuga. Perdido nestas emoções, procuro, procuro, não encontro responsáveis fora de mim. Sem limites entre eu e o mundo. Telefono a cada outro, escu- to impaciente, não ouço o que desejo. Se não sei pr’onde ir, não vou? Respiro, me acalmo.
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    236 237 144 Gera trabalhopara outros - terá dificuldade em sua autonomia futura? - a criança que não apren- deu ajudar na manutenção da casa: lavar pratos, roupas, arrumar cama e mesa, varrer, ir à feira, ao supermercado, à padaria, ao banco, fazer um café, encher o filtro, limpar a geladeira, cozinhar... 145 Roberto, o Pontes, conversa livre, saca: amor e medo, afetos básicos. Bate no meu peito, direto à compreensão. Mais próximo do início, o fio de meada: amor e medo. Antes, inda mistério. 146 Perguntas que me faço: imagine... Qualquer um, eu, você como eu, diante de si mesmo, a se fazer perguntas. Sou diferente do que deveria ser? Devo limitar-me à ética? Aprendo fazendo? Ensino sendo? O sofrimento que gero em mim é fronteira, é limite? Em mim, onde está minha alegria? Se contente, o que me facilita estar, permanecer? Em que me impeço? Que faço pra atrapalhar minha própria vida? O que está ao meu alcance? O que, em mim, alimento? Que sei que não sei? Que sinto que sei? Afeto, berço de ética? Humanidade, prioridade? O pensamento vem do sentimento? Onde nasce o que sinto? Moral é o que aprendi? Ética é o que sinto certo? Moral varia em cada cultura? Ética é uma sabedoria que não sei de onde veio nem quando? Ética é deus em mim? Quanto mais pergunto, menos sei? Quanto mais aprofundo, mais mistérios, mais perguntas?
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    238 239 Ausência dememória diminui os desejos? Menos desejos, menos angústias? O que é público, o que é privado? O que me permito, o que a outros inibo? O que está em meu poder de realização, o que depende de outros? O que cabe a mim, o que cabe ao outro? Sentir, sacar, refletir? A realidade determina a ordem dos passos? Ética é pressuposto? Sou do jeito que gosto? E se o suficiente impera,  que faço com meus tempos, minha vida? Afinal, quem está paciente? O médico, o doente? Escolho o que penso, falo, faço? E o que sinto, que desejo? Cuido de mim? Que está ao meu alcance? Em mim, onde está minha alegria? Onde vai meu pensamento, vão meu sono, meus sonhos? Pensamento não se mede, vai além das distâncias, ignora o tempo? Sentimentos interferem em pensamentos? O que me alegra? O que, semelhante ao meu desejo, o outro deseja? Que relações cultivo? O que me impede ser quem desejo? Meus medos de que? Louco vive o que sente? Saudável é palpável? Sou melhor que o outro? Pior? Comparo porque me falta?
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    240 241 O queme permito, o que a outros inibo? O que posso? O que não? O que cabe a mim, o que cabe ao outro? A realidade determina a ordem dos passos? 147 O futuro é meu desconhecido. Sou o que hoje sou, a cada futuro que adentro encontro o novo. Sou neste momento experimentador. Tento, tro- peço, aprendo. 148 Quando me repito, recordo, me educo. Tudo ten- tativa. Como naquele jogo, batalha naval. Volta e meia tiro n’água. A diferença é quando acerto. Ganho e ninguém perde. No meu manual tem: inspirar, expirar, respirar. Atentar ao que sinto, ao que penso, falo, faço. Aprender a compreender, aceitar a mim, ao outro. Exercitar o afetuoso, comigo e ao redor. Separar minhas loucuras das loucuras do outro. O humor como indicador: se de bom humor, estou bem. Se não, que faço? 149 Já no ventre, talvez antes dele, o básico individu- al e coletivo satisfeito: que mais cada um de nós necessitará?  150 Tento, aprendo o virtuoso, singelo, belo, conten- te? Escolho o que penso, escolho a palavra, sele- ciono o que faço? Que desejo? 151 Sinto que cuidar de mim faz bem a mim e a quem ao redor. 152 Governar. Cada vê mais admiro Dilma. Se é tão difícil administrar minha casa, imagino um país, onde os moradores têm livre arbítrio e caracteres variados.E uns têm ética dentro de si e outros não. 153 Ditadura. Aprendi lá em casa: reconhecer que errei me faz melhor. Desconfio de mim quando não reconheço meu próprio erro. Se reconheço, cresço. Se não reconheço, erro de novo. Confiarei
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    242 243 mais, mesmoem quem errou, se reconhece seus erros. É errado colaborar com ditadores. A dita- dura foi um erro. Qualquer ditadura: em mim, em casa, no trabalho, no país. 154 Paraestarassim,dojeitoquemegosto,demoroutan- to.Antes só soube ser do jeito que outros queriam. 155 O que me incomoda no outro é o que sinto em mim. Pretensioso, julgo o outro pelo que sinto. Não falo dele, falo de mim. Tenho um padrão, minha voz me trai. Desejo ser o modelo, desejo ser aceito, reconhecido. Tudo um tanto por causa deste vazio que não conheço. E quando conheço, não entendo. 156 Ralph Viana definiu: sério alegre. E foi e mais as Alternativas no Espaço Psi – Psicologia Psiquia- tria Psicanálise. Parque Lage, fronteira dos anos 70 e 80, mais de mil eus se encontram num peda- ço do futuro à procura de si e de nós. Cada eu faz seu passeio, seu mergulho, escolhe uma e outra e mais outra das mais de cem vivências, palestras, debates, performances... Arte, ciência, espiritu- alidade, dúvidas misturadas como são. Lapso, a memória afetiva se abstrai do tempo. Ali está aqui. Somos espaço, eu e lá. Me incluo no mundo, sou o mundo, represento o todo. Um homem co- mum, como cada um. 157 Penso na pior hipótese antes de iniciar uma com- pra, uma venda, um trato, um contrato. Penso em soluções caso aconteça a pior hipótese. Se perma- neço tranquilo, sabedor que há saídas saudáveis, dou cada passo. Aprendi que dá muito trabalho corrigir ignorâncias. 158 O que uma arquiteta arquiteta? Tetos? 159 Domino mundos e perco guerras no interior de mim mesmo.
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    244 245 160 Tudo meleva a crer que o mundo será o mesmo sem mim. 161 Olho no espelho e não reconheço o velhinho. Sou eu. 162 A morte é também uma escolha? 163 O conteúdo da programação é a essência. O con- teúdo da comunicação é a essência. O conteúdo do afeto é a essência. O jeito de afetar, essencial. 164 O homem ideal acrescenta conteúdos consisten- tes em qualidade ao que vive. É cuidado. E cuida de quem cuida. 165 Pessoas que trabalham a favor são fontes de mo- vimentos libertários. Algumas dão chão: cuidam da administração, criam condições para o traba- lho de outras. Outras pesquisam, imaginam, pro- põem e produzem produtos geradores de trans- formações. Umas levam as informações onde o povo está. É mais simples como aqui parece. A base são as pessoas. Motivadas, a insegurança – o tititi – de- saparece, a paz reina. Informadas, todas sabem do que acontece. Pessoas como eu se transformam em realizadores. E outros, se interessados, ten- dem a se qualificar como multifuncionais. Como potencialmente somos todos. 166 Cuidados com quem cuida: pessoas são a base de funcionamento de instituições.Parece fundamen- tal o estímulo à auto-estima de cada um dos que trabalham com o público, de forma que cada vez mais todos tenhamos prazer no que fazemos. Isto significa facilitar o crescimento humano, a melhoria de qualidade de vida de cada funcioná- rio acolhido no seio da instituição, inclusive atra- vés do acesso a informações consistentes.
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    246 247 167 Estímulo àpró-atividade: o gostar de si mesmo – fundamental para gostar espontaneamente de ou- tros – implica em ter consciência de que realiza trabalhos de qualidade, é útil e necessário. A experiência nos diz: quem gosta do que faz di- ficilmente necessita ser controlado. No máximo, acolhido, respeitado, orientado. Este respeito se traduz em decisões e atos que considerem huma- namente cada pessoa pelo que é e realiza. 168 Cuidados com as expectativas. Oferece quem tem. Como diria Rodrigo Fonseca, o sociólogo: vaca não dá coca-cola. Não devo esperar coca-cola de uma vaca, que já me mostrou que dá é leite. 169 Mesmo que os ditos superiores de cada um te- nham – em princípio – uma visão do conjunto, cada realizador de tarefas pode contribuir para decisões acertadas, uma vez que – também pres- suposto – é cada funcionário quem deve melhor saber do seu ofício. 170 Talvez seja verdade que se a fé vem da experiência - como preconiza corrente de teologia contemporânea - a vivência-experiência, se consciente, aprofunda o saber. 171 Humor estável é sinal de inteligência emocional? 172 Os mesmos fatos, visões diferentes. É assim em relação à própria criação do universo, da terra, do homem. Ser ou não ser, passam os séculos, ao fundo permanecem esta e outras questões. Cada homem, do seu jeito, cultiva – ou não – sua própria evolução, em tentativas de viver melhor. A soma destas revoluções individuais se traduz na evolução da humanidade como um todo. A memória nos lembra da nossa história recente: vida rural, industrial, pós-industrial. Agora globali- zação, fase de stresses, tendências desumanizadoras. Indivíduos, bairros, cidades, países fortes e fracos - é olhar ao redor - destinam recursos para as armas.
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    248 249 Volta emeia, implosões de insatisfações que – juntas – se traduzem em conflitos coletivos, guer- ras. A vida, breve: tempo curto para lutar contra. O buraco – quase sempre – mais embaixo. O in- consciente individual e coletivo – parece – induz nossas ações. Por outro lado, olhando bem, sinais de vida no planeta Terra. A favor do homem. Também aqui, cada ato se traduz no resultado. Cabe a cada um de nós, no que pode neste barco, refletir, nortear seus atos. Parece poesia, pode ser também ato, fato. 173 Quando ouço uma boa gargalhada, lembro papai. Ou quando alguém é prestativo. 174 Winnicott: a essência da democracia repousa no homem comum,na mulher comum,no lar comum. 175 Freud: No exercício de uma arte vê-se mais uma vez uma atividade destinada a apaziguar desejos não gratificados – em primeiro lugar, do próprio artista e, subsequentemente, de sua assistência ou espectadores. 176 Ser livre não significa fazer tudo que desejo, mas se- guir as regras que eu escolho. Alguém me acertou. Foi Kant? 177 Bilhete prum amigo: inda não aprendi falar com cal- ma,entre tantas coisas que inda não aprendi.Já entre o que aprendi, aprendi um tanto escutar meu corpo. Meu corpo me dá prazeres,me sugere limites. Outro dia fique três horas na cadeira do dentis- ta. Anestesiado, meio dopado com um calmante brabo. Fiquei cinco dias quieto, sopa, água, suco, sono, leitura. Recuperei o equilíbrio, voltei ao tra- balho, produzi mais tranquilo.
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    250 251 Sem quererquerendo,costumo dar conselhos.Con- traditório,tenho dificuldades em ouvir conselhos. Do amigo, procuro respeitar suas decisões. E de- sejo contribuir pra suas alegrias. Me alegro com sua alegria. Por respeitar-lhe, agora me calo. Mas saiba que desejo fazer o que está ao meu alcance, em favor do nosso bem. Por favor me fale o que deseja falar.Aprendo também que a vida terna me faz a vida melhor. 178 Respondo rápido a perguntas que me faz, por email, uma estudante de psicologia: a. Porque escolheu este campo da psicologia para atuar? Sou um curioso. Leio sem ter que fazer pro- vas: não sou profissional do ramo.Adoro insi- ghts. Queira ou não, todo homem navega em áreas psis quando interfere em emoções, nas suas próprias e nas do outro. b. Quais as dificuldades encontradas? Em mim, minhas próprias resistências, meu conforto arraigado. Em um ou outro, ausên- cia de consciência, base, como afetos, da ética.  c. Como é realizado seu trabalho neste local? Rodas de conversas, com base na metodolo- gia das Terapias Comunitárias - que não são psicoterapias. Isto do lado, digamos, subjeti- vo. Do lado objetivo, através da metodologia das Redes Comunitárias. d. Quais as diferenças da atuação em sua área da teoria para a prática? Quando penso, elaboro, escrevo, considero meu mundo, minhas regras, minha cultura, minhas referências. Quando em comunida- des menos favorecidas, o mundo é outro, são outras as regras, culturas, referências.  e. No seu ponto de vista a psicoterapia corporal pode ser um tipo de psicanálise? São, digamos, métodos que se complementam. Aprendi com Wilhelm Reich - e em mim, pela prática da terapia reichiana - que, como todos?, carrego minha história de vida no meu corpo. Quando mexo no meu corpo, mexo em minha
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    252 253 memória afetivae desperto lembranças e emo- ções a elas associadas. Atos, digamos, psicanalí- ticos me facilitam a compreensão emocional do que vivo. f. O que você acha da Psicoterapia Corporal em grupo? Quando percebo no outro vivências, questões semelhantes às minhas, aprendo que minhas questões não são só minhas, não estou só nes- tes mistérios. Gente encontrando com gente é pura humanidade.  179 Quando Glauber falou“Nonatinho, treme a câme- ra, treme a câmera...”, compreendi que também eu poderia gravar. O jeito era linguagem, o que se- ria errado poderia ser o certo. Zequinha Borges, anos depois, foi direto quando eu, inseguro, lhe pedi mais uma vez para registrar em vídeo o que eu desejava:“Porra, Luiz. Vai à luta, filma você, ar- risca.”. Arrisquei, errei, tropecei, acertei. E assim vou, neste equilíbrio em risco. 180 A palavra enfezado vem de onde? Cheio de fezes, enfezado? 181 Ações, imagino, funcionam assim. Acionistas, fa- zemos uma vaquinha pra investir num negócio. Somos, juntos, donos do negócio. Qualquer lu- cro que o negócio der, vem pros donos das ações. Mesmo que o negócio seja lá nos confins do mun- do e vivamos aqui,no coração do que nomeio civi- lização. Muitas vezes o fim do mundo é aqui. E os acionistas estão lá, nos primeiros mundos. Parte do nosso trabalho compõe o lucro de acionistas que não conhecemos. É justo? 182 Sóagora,aos65,reconheçoqualidadesdemamãe,de papai. Compreendo, amadureço. Surpreso, quando minhas qualidades são tão cedo reconhecidas. 183 Na beira dos 66 anos, me sinto bem. Os exames comprovam.
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    254 255 Teste ergométrico> cinecoronariografia, não. Precordialgia, nenhuma. Aptidão respiratória, boa. Tomografia da coluna > escoliose, sinais de artrose lombar. Tomografia dos seios da face: es- pessamento mucoso no seio maxilar direito, des- vio do septo nasal. Exame de sangue > normais as hemácias, he- moglobina, hematócrito, anisocitose, leucócitos, basófilos, eosinófilos, neutrófilos, bastões, seg- mentados, linfócitos. Monócitos, 11%, quando o normal seria entre 2 e 10%. Plaquetas, 155, quan- do o normal seria entre150 e 450.Colesterol,172. Triglicerídeos, 78. Colesterol HDL, 51. Coleste- rol LDL, 105. Colesterol VLDL, 16. Colesterol NÃO HDL, 121. Índice de Castelli I, 3,4. Índice de Castelli II, 2,1. Antígeno superficial de Hepa- tite B, não reativo. Anticorpos contra o antígeno superficial de Hepatite B,não reativo.Pesquisa de anticorpos para Hepatite C, não reativo. Anticor- pos IgG anti-herpes simplex, reativo. Anticorpos IgM anti-herpes simplex, não reativo. Antígeno prostático específico, 3,12. Relação PSA livre/ PSA total, 0,22. Sinto que devo diminuir ovos e queijo. E assistir a maiscomédias,namorarmais,caminhardiariamente. 184 Aprendi: quando facilito o trabalho do lixeiro, porteiro, carteiro, cozinheiro, feirante... – e de nós todos, que entre nós nos cuidamos – facilito também a minha vida. Quando cuido do outro, o outro – do jeito que sente, que sabe, que pode – cuida de mim. 185 Só o essencial é essencial? Quem, o que é essencial em minha vida? 186 Elaboro um projeto quando respondo às pergun- tas, básicas: o que, por que, quem, como, onde, quando, quanto. Planejo a realização quando rela- ciono as tarefas necessárias para alcançar o que de- sejo. Se as tarefas estão numa coluna, crio outras quatro colunas ao lado. E numa anoto até que dia, noutra quem é responsável, em mais outra quanto custa e numa última escrevo as observações.
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    256 257 187 Será? Resistências aosonhar e refletir desconside- ram as origens do fazer. Práticas comprovam que resultados são efe- tivados e multiplicados quando ações são so- nhadas, sentidas, pensadas com antecedência. Há espaço para ética individual.A pessoa que se cultiva ética, pratica suas escolhas do que pensa, do que fala, do que age. Pessoas que em si cultivam ética têm empatia por quem também. Uma instituição se torna ética quando se compõe por pessoas que se cultivam éticas. Fica mais claro quando a ética está presente. Visões de mundo se ampliam. Saques, insi- ghts, compreensões palpitam. Palpita vida. Controles se tornam desnecessários quando a ética está presente. São naturais as relações de confiança e afetos. Conteúdossãofunçãodasvisõesdemundo,tan- to de quem cria quanto de quem facilita,realiza. Quando me identifico afetivamente com o que faço, trabalho é prazer. Quando o trabalho é um prazer, eu sou o tra- balho. Sou soluções. 188 Quando me deixo isolar pelas tarefas do dia-a- -dia, minhas reflexões se ausentam, me acomodo. 189 Como imagino comum, não sei da importância do que faço. Descubro nos frutos. 190 Construção da doença. Hoje vejo a morte – ou a vida – como escolha,em cada ato que faço a favor ou contra mim.Agradeçoaquemmefacilitaestarvivo.Amim,que fiz,faço–efui,sou–oquesoube,seiser.
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    258 259 191 Numa livraria,mundos. Em cada um, nas linhas e entrelinhas, no dito e no não dito, pontas como de icebergs. Desisti de compreender tudo. Já bas- ta o mundo que sou. 192 Nunca tive um time de futebol de coração. Mas adoro jogadas bonitas. 193 Tento me limitar. Sou pouco pro que desejo. Mas conversar, topo. 194 Tudo novo.Tentativas, tropeços, bambeios, apru- mos e de novo. Sinto que a direção permanece. Aprendo? 195 Tudo o que desejo imagino tão pouco. Talvez seja muito. Desacelero? 196 Volta e meia, mexidas. Cada vez não fazer me atrai mais. Quero me guiar pelo que vivo no caminho. 197 Entre o desejo e a realização tenho gasto um tanto de mi vida. 198 Quando feliz, lembro a sorte que tenho em desejar quem me deseja. 199 Volta e meia penso como desejo viver no futuro, o que não vivo hoje mais o que já gosto. Hoje pro futuro penso ser disponível o tempo todo pra esco- lha que me enleva. E assim gravar, escrever quando desejo.Antes, as relações com quem vivo, convivo. 200 Aprendo quando presto atenção no que penso,no que sinto, falo, faço. Só sinto se presto atenção. Se sinto – e não presto atenção – imagino presente, na memória inconsciente. o ausente no conscien- te. Um baú, em algum lugar de mim.
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    260 201 Filosofar é... pensarfora de mim? Pensar dentro de mim? E pensar liga em que com sentir? Ou é só livre pensar? 202 As coisas práticas: trazer a garra, prender o aba- jour à prateleira de cima. Apoiar a venda do apar- tamento da amiga, acompanhar a compra do ou- tro. Interagir na diagramação do livro, articular a impressão, facilitar a distribuição. Há uma lista mutável. Cada objetivo, um conjunto de tarefas. Defino prioridades, relaciono as tarefas e, nos seus tempos, cada objetivo se realiza ou se transforma. 203 Lia O Cruzeiro. Copacabana, beleza, aventura, alegria. Desejava vir pra cá, estudar no Pedro II, morar no Rio. Eu, 14 anos, ali em Montes Claros, 1960. 1971, cheguei. Almejava dinheiro, mulher, glória. Agora sinto saúde, sossego e meu sucesso é outro. Lá fundo, desconfio era este meu desejo. E não sabia.
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    Este livro foiimpresso no inverno de 2012, pela LGN Art Visual Ltda, Rio de Janeiro, Brasil. Papel de miolo Pólen 70g/m2 e papel Duo Design 250 g/m2 Distribuição LGN Art Visual Ltda 21 3902 1780 atendimentolgn@hotmail.com