Gerard J.M. Van den Aardweg
Homossexualidade e Esperança
Traduzido de HOMOSEXUALIDAD Y ESPERANZA - TERAPIA Y CURACIÓN EN LA EXPERIENCIA DE UN PSICÓLOGO
GERARD J.M. VAN DEN AARDWEG
ÍNDICE
INTRODUÇÃO................................................................................................................................03
CAPÍTULO 1: Atitudes sociais a respeito da homossexualidade....................................................06
CAPÍTULO 2: O que é ser homossexual?..............................................................................…......09
CAPÍTULO 3: A homossexualidade é inata?............................................................................…...14
CAPÍTULO 4: A homossexualidade como transtorno psíquico.................................................…..22
CAPÍTULO 5: O complexo de inferioridade homossexual..............................................................26
CAPÍTULO 6: Origem e mecanismos do complexo homossexual..................................................35
CAPÍTULO 7: Manifestações do complexo homossexual...............................................................42
CAPÍTULO 8: O caminho da mudança............................................................................................45
CAPÍTULO 9: A mudança sem psicoterapia....................................................................................52
CAPÍTULO 10: Os efeitos da terapia anti queixa.......................................................................….59
CAPÍTULO 11: A prevenção da homossexualidade........................................................................66
BIBLIOGRAFIA..............................................................................................................................67
NOTAS………………………………………………………………..………………………....….68
3
INTRODUÇÃO
por
PAUL C. VITZ
Nenhum aspecto da revolução sexual contemporânea mereceu mais destaque e provocou
mais polêmica que a homossexualidade. Há vários anos somos bombardeados por argumentos de
ambas as partes. De um lado, o movimento homossexual extremista, com exigências de tolerância e
aceitação. Do outro, (atualmente com menor expressão pública), estão aqueles que rejeitam
absolutamente o problema homossexual e não estão dispostos a encará-lo de modo algum.
No entanto, os aspectos mais importantes da homossexualidade não têm sido discutidos de
forma adequada. Entre eles, a investigação das causas e o exame das possibilidades de mudança
tanto no comportamento como na orientação homossexual. Atualmente, ao fim de muitos anos de
controvérsia exagerada, existe um desejo de se se chegar a alguma conclusão. Em parte, isto se
deve a uma mudança na forma como a opinião pública encara o problema. O movimento
homossexual extremista dos anos 60/70 começou claramente a recuar. Muito embora o público
tenha sido despertado para o tema da homossexualidade, passou também a abandonar a imensa
simpatia que nutria anteriormente pelo movimento homossexual.
Os próprios homossexuais começaram a pensar duas vezes na questão, refletindo melhor o
seu estilo de vida. A crise da AIDS evidenciou algumas das consequências da atitude “gay”
militante e completamente desinibida. Porém, este fenômeno relacionado com a AIDS é apenas
parte de uma tomada de consciência mais ampla, entre os homossexuais, pessoas em geral, de que o
estilo de vida homossexual, mesmo independentemente de qualquer consequência para a saúde, tem
se mostrado altamente nocivo para muitas pessoas.
Resumindo, julgo que atualmente é possível, na cultura norte-americana e ocidental, dar
início a uma reflexão racional, critica, porém simpática da homossexualidade. Por isso, a
publicação deste livro de Gerard Van den Aardweg, Homossexualidade e Esperança, ocorre em um
momento particularmente oportuno. O problema pode ser sintetizado assim: por um lado, temos
todas as razões para nutrir simpatia e preocupação com aquele que possui sentimentos
homossexuais, reconhecendo a realidade da sua situação. Não podemos ignorar essas pessoas, nem
pedir simplesmente uma mudança de comportamento. Portanto, aceitamos o problema homossexual
como importante e real, sem menosprezá-lo de nenhuma forma.
Por outro lado, vêm surgindo, nas últimas décadas, muitos estudos relevantes sobre as
origens da homossexualidade. Alguns demonstram claramente que a homossexualidade pode ser e
já tem sido de fato mudada. As referências bibliográficas pioneiras apontando nesta direção já
foram bem conhecidas e aceitas. Contudo, em consequência do movimento homossexual militante,
este ponto de vista foi posto de lado nos últimos 10 ou 15 anos e ficou restrito a uma posição
minoritária no campo da psicologia. O Prof., Van den Aardweg mostra o valor desta investigação e
das pesquisas mais recentes, insistindo na necessidade de olharmos para esses dados. Isto já é por si
só uma conquista importante. Mas, além disso, aceitando que a homossexualidade é um problema
sério, ele apresenta uma estratégia psicológica para abordá-lo. Com isso o Dr. Van de Aardweg situa
a homossexualidade em um novo contexto: a esperança de cura.
Qual é a importância dessa esperança? Afinal, muitos homossexuais parecem estar
interessados na total aceitação da sua forma de viver como intrinsecamente válida. Neste particular,
me parece que a realidade é clara. Um grande número de homossexuais está francamente
4
insatisfeito com a sua forma de vida. Quando descobrem que são homossexuais, quase todos eles se
sentem abatidos e deprimidos. O estilo de vida homossexual alimenta enormes quantidades de
remorso, e não sentimento neurótico de culpa (embora, estou convencido, também há algo neste
sentido), mas verdadeiro remorso: remorso por causa da promiscuidade sexual, remorso pelas
contínuas mentiras acerca de relações de amor eterno que se rompem em poucas semanas, às vezes
dias ou horas. Este remorso, juntamente com as esperanças frustradas acerca da vida homossexual,
pesa seriamente sobre muitos homossexuais. A esperança que aqui se propõe é a esperança de se
libertar de todos estes comportamentos, pensamentos e emoções, extremamente dolorosos.
Um quadro conceitual da cura também nos fornece uma perspectiva muito mais racional
para compreender o problema da homossexualidade e lidar com ele. Nos últimos anos, aprendemos
muito acerca de variadas condições psicológicas que perturbam e debilitam muitas pessoas. Temos
agora consciência dos milhões de pessoas que sofrem ou sofreram por situações como o alcoolismo,
obsessão de jogo, abuso de drogas, desordens maníaco-depressivas, esquizofrenia, anorexia,
bulimia, ansiedade angustiante, depressões e fobias. Talvez todos nós, em certa medida e em algum
momento das nossas vidas, seremos atingidos por algumas destas condições, assim como todos nós,
mais cedo ou mais tarde, sofremos de enfermidades físicas.
Acima de tudo, nos habituamos a encarar a cura das patologias psicológicas da mesma
forma que a das doenças físicas. Todos nós conhecemos pessoas que se recuperaram de um ataque
cardíaco e de pressão alta, pessoas que viveram muitos anos com câncer. Também sabemos de
pessoas que venceram o alcoolismo, ou problemas psicológicos tais como profundas depressões e
que estão bem. Talvez tenhamos experiência pessoal com estes casos.
O Prof., Van den Aardweg mostra que a homossexualidade é mais uma dessas patologias
que podem acometer qualquer pessoa. Ela tem origem no processo educativo e em várias
experiências da nossa vida. Como qualquer outra patologia, pode ser compreendida e curada. Van
den Aardweg retira a homossexualidade de uma perspectiva completamente irracional e conduz
uma abordagem racional e realista do tema.
A homossexualidade não é como uma condenação perpétua a viver de uma forma sempre
conflituosa com o padrão heterossexual e as principais instituições da sociedade. Os homossexuais
não estão condenados a uma vida que os aliena, segrega e restringe fortemente. Uma vez que, a
homossexualidade é vista como mais um problema psicológico, que pode ser ultrapassado, a atitude
em relação a ela muda de dois modos. Confere-se ao homossexual esperança de mudar e, ao mesmo
tempo, se passa a encarar a pessoa homossexual como parte integrante da sociedade humana
normal, sujeita, tal como todos nós, a patologias. Isto é particularmente verdade quando se olha
para a homossexualidade como uma condição que pode ser curada e da qual, mediante Deus, se
pode sair mais fortalecido, depois de ter conseguido vencer o desafio. É preciso sublinhar esta ideia.
Por exemplo, conheço um grupo de homossexuais na cidade de Nova Iorque, intitulado “Courage”.
Os membros deste grupo têm se esforçado seriamente para viver uma vida cristã, em particular,
uma vida sexualmente casta. O nome do grupo é perfeitamente apropriado, porque empreender
seriamente este tipo de vida exige efetivamente coragem. Ao pretender dar uma resposta cristã à sua
homossexualidade, estes homens estão também a se apresentarem como exemplos de força de
vontade e coragem para muitos outros — incluindo os heterossexuais. Até porque muitos
heterossexuais também sofrem de patologias comportamentais — em particular, diversos tipos de
comportamentos sexuais comuns entre os heterossexuais são, hoje em dia, vistos pelos psicólogos
como dependências, por exemplo, a dependência da promiscuidade sexual, a dependência do vício
da masturbação ou do fetichismo sexual. Os homossexuais que vencerem a sua condição podem ser
vistos como modelos de força e de esperança para muitas outras pessoas.
5
Neste livro, Van den Aardweg apresenta a autocompaixão como elemento central da
psicologia homossexual. É importante notar que as consequências neuróticas da autocompaixão não
se restringem de modo algum à homossexualidade. Isto é, a autocompaixão é uma condição que
afeta inúmeros tipos de pessoas. Uma das contribuições mais importantes de Van den Aardweg é
descrever a dinâmica que conduz a este processo e algumas das terapias psicológicas para controlá-
lo. Sob este aspecto, esta obra também é útil para quem estiver interessado nas modalidades em que
a autocompaixão afeta a vida das pessoas, incluindo as heterossexuais.
A utilização que o Prof., Van den Aardweg faz do humor como técnica terapêutica para
tratar o auto-compadecimento neurótico pode se estender a muitas outras situações. Qualquer
pessoa que sofra deste problema de autocompaixão é um potencial candidato ao tratamento pelo
humor. De fato, penso que o humor é uma ferramenta de espectro muito amplo em psicoterapia, e
mereceria mais atenção do que até agora tem recebido por parte dos psicólogos.
A tese do Prof., Van den Aardweg toca numa área importantíssima da psicologia —
educação infantil e, sobretudo, a relação entre a educação infantil e o desenvolvimento moral e
ético. Certamente, a incapacidade de desenvolver uma identidade sexual normal tem consequências
morais e éticas. Van den Aardweg descreve com grande perspicácia e de maneira concisa as atitudes
típicas e os valores subjacentes ao não desenvolvimento da orientação heterossexual da criança. A
sua interpretação da homossexualidade oferece uma visão acerca da psicologia do desenvolvimento,
em particular sobre o caráter moral e ético da criança. Convido os leitores interessados no
desenvolvimento infantil a prestar atenção particularmente às explicações e aos argumentos do
autor.
Finalmente, a abordagem do Prof., Van den Aardweg tem um significado especial para a
comunidade cristã. Ainda que ao interpretar clinicamente a homossexualidade ele não faça
referência a quaisquer conceitos ou doutrinas explicitamente cristãs, o seu livro é uma contribuição
interessante e profunda, do ponto de vista da atitude cristã a respeito da homossexualidade.
O orientador cristão que estivesse convencido de que a homossexualidade não pode ser
curada se depararia com um dilema moral muito sério. Ele poderia aceitar a pessoa, mas se a
orientação homossexual não pudesse ser mudada, seria também levado a aceitar o comportamento
homossexual. Agir dessa forma, sabendo que o judaísmo, do qual Jesus foi um legítimo
representante, condena a homossexualidade, seria rejeitar a Escritura e a Tradição da Igreja sobre
este ponto, não apenas os últimos 2000 anos de cristianismo, como também os anteriores 3000 anos
de vida judaica.
A alternativa pareceria sob alguns aspectos igualmente inaceitáveis, por exemplo, rejeitar o
homossexual, dizer que ele está agindo mal, sem oferecer ajuda nenhuma. Ambas as atitudes
pareceriam não cristãs e, aparentemente, não haveria meio termo.
Todos nós conhecemos a famosa história de Jesus e da mulher adúltera, onde Jesus Se
recusa a condenar a mulher e encontra sabiamente uma forma de mandar embora aqueles que
pretendiam condená-la. Apesar de tudo, quando os dois ficam sozinhos, Jesus declarou em termos
inequívocos: “Vai e não tornes a pecar”. Este livro, tal como obras recentes de outros psicólogos
tanto cristãos como não cristãos, que enfrentam o problema da homossexualidade, constitui uma
ajuda real. Este gênero de livros, como os do Prof. Van den Aardweg, fornecem indicações muito
valiosas sobre o modo de ajudar o pecador que quer honestamente ir e não voltar a pecar.
6
1- ATITUDES SOCIAIS A RESPEITO DA
HOMOSSEXUALIDADE
Hoje em dia, muitos julgam que os sentimentos homossexuais são uma simples questão de
escolha ou de gosto pessoal. Daí resulta um apelo à aceitação social, colocando as práticas
homossexuais no mesmo pé das relações heterossexuais. Muitos chegam até mesmo a fazer pressão
no sentido de as relações homossexuais receberem o mesmo reconhecimento legal que o casamento
e defendem uma maior informação da opinião pública, em que aquela condição seja aceita como
normal. O único problema da homossexualidade seria, segundo eles, de carácter social: convencer
as pessoas a aceitarem e a devolverem os direitos naturais a uma minoria há muito reprimida.
Alguns vão ainda mais longe e, convencidos de que todos os adultos são, por natureza, parcialmente
homossexuais, defendem que a educação das crianças seja modificada para um modalidade mais
aberta à homossexualidade, por exemplo, tratando os meninos e as meninas do mesmo modo.
Nesta questão, o chamado movimento de libertação homossexual caminha de mãos dadas
com o movimento feminista. Ambos estão de acordo sobre a necessidade de reformular
completamente os papéis masculinos e femininos e as relações homem-mulher. A palavra de ordem
é acabar com os modelos de papéis “pré-definidos”. E dizendo “pré-definidos” entendem que até
agora teríamos sido obrigados, pela pressão cultural, a assumir formas tradicionais de
masculinidade e feminilidade, a aceitar modalidades arbitrárias e coercitivas de relacionamento com
o outro sexo e a adotar o casamento como se fosse o único tipo imaginável de relação sexual. A
verdade é que —prossegue o raciocínio—, a sexualidade natural seria muito mais rica nas suas
“variantes” e a ciência moderna teria demonstrado a existência de formas completamente diversas,
mas igualmente naturais, de sexualidade, de amor sexual e de relações sexuais. A estrada a ser
percorrida, com o superação dos preconceitos antiquados parece perfeitamente clara para eles... de
modo que, não aceitar a homossexualidade como coisa normal, seria discriminai as pessoas só por
terem um modo de ser diferente, por serem “intrinsecamente” diferentes. Até sugerem a hipótese de
alguém fazer essa discriminação por teimar em reprimir a componente homossexual da sua própria
vida emocional ou, pior ainda, por sofrer de “homofobia”, um medo patológico da
homossexualidade.
Estas ideias, repetidas frequentemente na rádio e na televisão, nos jornais e nas revistas,
promovidas por organizações para a reforma sexual e por algumas instituições conceituadas de
saúde mental, deixaram pouco espaço para as outras opiniões. Tornou-se comum ensinar aos
estudantes das universidades e dos liceus que a homossexualidade é normal; um professor que se
atreva a expressar uma opinião diferente corre o risco de ser lapidado pela indignação pública.
Autores de textos e de artigos especializados de medicina e psicologia publicam regularmente de
acordo com esta mentalidade e, se alguma vez mencionam opiniões sobre a homossexualidade
diferentes daquelas dos movimentos de libertação homossexual, não escapam ao comentário
depreciativo e mordaz.
Não é de se estranhar que este não seja o clima ideal para novas investigações imparciais
sobre as causas da homossexualidade*, que as nossas instituições científicas abandonaram à própria
sorte, privando-as de terapia adequada. Muitos editores hesitam em publicar obras que não se
alinhem na orquestração habitual, para não chocar a facção maioritária. Um dos poucos que
protestaram contra a perda de liberdade motivado por a este clima de pressão social foi A. D. de
7
Groot, professor holandês de psicologia da personalidade. Em um debate sobre a hipótese de os
homossexuais serem mais neuróticos que os heterossexuais, escreveu:
O clube mais poderoso da nossa época, entre os intelectuais e os semi-intelectuais, é a
comunidade dos seguidores das opiniões predominantes, tendencialmente avançadas. Quem se
lembrar de propor uma teoria sobre diferenças entre grupos é acusado de “discriminação”.
A propaganda em favor da aceitação da homossexualidade teve origem sobretudo entre os
próprios homossexuais militantes, a quem tem sido dada oportunidade privilegiada de se
pronunciarem, cada vez que aparece nos meios de comunicação qualquer acontecimento
relacionado com a homossexualidade, ou sempre que sai um artigo, um livro ou um filme sobre o
assunto. Parecem ser considerados os melhores especialistas da sua condição emocional. No
entanto, olhando as coisas com mais atenção, há razões de sobra para supor que justamente eles
“não podem ser bons juízes em causa própria”, como diz um antigo provérbio.
(*) É interessante observar como a Força Tarefa Nacional Gay pressionou a Associação
Americana de Psiquiatria a suprimir a homossexualidade da lista de transtornos mentais (Nota do
Editor na língua espanhola)
A HOMOFILIA COMO PERTURBAÇÃO EMOCIONAL
—“Todos acham que é normal”. É um protesto que se ouve frequentemente, principalmente,
da parte de jovens, afetados por este problema. Nesta seção tentaremos explicar por quê o “todos”
está bastante longe da realidade. É um fato que pessoas com orientação homossexual são muitas
vezes informadas da sua normalidade por médicos, psicólogos e até padres, que as consolam: “Por
que se angustiar com isto? Aceite que é ‘assim’, arranje um parceiro, se associe a um círculo gay.
Não há nada que possa fazer”. No entanto, estas opiniões são infundadas, simples frases-feitas que
estão na moda. Analisemos, portanto, o outro ponto de vista.
Primeiro, será demonstrado que a homossexualidade é uma perturbação emocional
originada na infância e na adolescência. Depois, que, em muitos casos, as pessoas com esta
orientação podem conseguir melhorias profundas, se trabalharem com paciência, empenho e boa
vontadei
.
Não é fácil dizer a palavra certa. Normalmente, os homossexuais militantes fogem de um
debate aberto, querem apenas ouvir que têm razão, são surdos aos argumentos lógicos e aos fatos;
atacam, dramatizam a sua situação (e, pelo visto, com pleno êxito). Precisamos ser firmes para
resistir às pretensões desta militância furiosa.
Talvez tivesse sido boa ideia prestar mais atenção a uma parte significativa dos
homossexuais que não fazem tanto estardalhaço e frequentemente ficam esquecidos. Estas pessoas
vivem perturbadas pela sua difícil situação e pelas suas implicações, tais como o isolamento social,
o fato de ficarem solteiras e sozinhas. Muitas vezes, sentem-se infelizes e inferiores, até mesmo
desesperadas. Talvez deveríamos ter dado mais atenção aos grupos homossexuais bem
intencionados que levam uma vida homossexual sem encontrarem nela a paz, ou àqueles que se
sentem condenados a repetir, pela vida afora, “nunca serei normal”. Não pensem que é um pequeno
grupo. Quando se vai mais fundo numa conversa pessoal, se descobre que a maior parte das pessoas
com orientação homossexual estão insatisfeitas com isso e gostariam de mudar “se fosse possível”ii
.
É verdade que muitas resistem a encarar as suas sensações como neuróticas ou a se empenharem
em tentativas reais de mudar. Contudo, temos de admitir que, no mínimo, as opiniões sociais
8
predominantes agravam estas hesitações em mudar. Seja como for, estas pessoas —e a maior parte
daquelas que lutam para superar os seus sentimentos homossexuais— têm necessidade de uma
compreensão realista, não de uma compreensão superprotetora ou sentimental. Têm necessidade de
encorajamento, mas também precisam olhar racionalmente para si próprias. Por isso este livro
destina-se particularmente a elas, aos cônjuges, se são casadas, e aos pais que (se não estiverem
atordoados pela propaganda da Libertação Gay) sofrem pelo caminho tomado pelos seus filhos.
Este livro também poderá ser útil àqueles que, no trabalho ou na vida privada, têm de enfrentar os
problemas de colegas ou amigos com tendências homossexuais.
9
2- O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
As expressões “este homem é homossexual” ou “esta mulher é lésbica” sugerem que essa
pessoa pertence a uma variante da espécie humana, diferente da variante heterossexual. A
homossexualidade está sendo cada vez mais apresentada como uma “variante”, uma “preferência”,
uma «condição constitutiva» e estes termos podem dar a entender que a pessoa tenha nascido assim.
Contudo, a verdade não é bem essa. Os conhecimentos de que dispomos mostram que as pessoas
com orientação homossexual nasceram com o mesmo patrimônio biológico e psíquico comum a
toda pessoa. Por exemplo, o fato de uma certa porcentagem de homens com orientação
homossexual dar a impressão de falta de virilidade, ou parecer efeminados nos comportamentos ou
nos interesses, não é prova de “diversidade” natural inata, pois estes estilos resultam de uma
educação ou de uma autoimagem adquirida, aprendida. Da mesma forma, uma mulher
“masculinizada” com sentimentos lésbicos não é assim por disposição natural, mas por hábito e por
certo tipo de complexo de inferioridade. Além disso, existem mulheres lésbicas acentuadamente
femininas que poucos, à primeira vista, poderiam imaginá-las com estas tendências.
Com as palavras “complexo de inferioridade”, ESTOU ANTECIPANDO MINHA LINHA
DE ARGUMENTAÇÃO. Efetivamente, procurarei mostrar que a orientação homossexual nasce de
um tipo particular de complexo de inferioridade, pois constitucionalmente, as pessoas são
heterossexuais e não homossexuais. Isto é verdadeiro, independentemente de se ter ou não
consciência do fato; um homem ou uma mulher são essencialmente heterossexuais, mesmo que não
sintam ou só de forma muito atenuada a sua orientação heterossexual. Rigorosamente, não existem
“homossexuais”, nem sequer no reino animal; existem apenas pessoas que têm inclinações
homossexuais. Por esse motivo, evitaremos chamá-los “homossexuais”, preferindo usar designações
menos concisas tais como “pessoas com orientações homossexuais”.
SENTIMENTOS HOMOSSEXUAIS
Pode se definir o sentimento homossexual como a sensação de estar apaixonado ou sentir
atração erótica por pessoas do mesmo sexo; paralelamente, se verifica um escasso interesse erótico
para com o outro sexo, ou a ausência quase total de atração. Aqui, é preciso fazer uma reserva:
durante a adolescência (puberdade), até cerca dos dezessete anos, as sensações homossexuais, são
habitualmente passageiras e devem ser consideradas como uma etapa do desenvolvimento
psicossexual. Na fase seguinte, com o despontar dos sentimentos heterossexuais, esses interesses
desaparecem sem deixar rastro. Como será visto a seguir, a pré-puberdade e a puberdade são os
períodos mais decisivos para o eventual desencadear de uma homossexualidade “propriamente
dita”, isto é, de tendências homossexuais que permanecem ao longo da vida.
Convém também não esquecer que a palavra “homossexualidade” abarca uma grande
variedade de formas. Por exemplo, alguns homens têm uma excitação sexual com quase todos os
homens que encontram, enquanto outros só têm interesse em certos tipos masculinos. Para alguns, a
tendência homossexual está continuamente presente na imaginação, como uma obsessão, enquanto
que em outros aparece de modo bastante irregular. Alguns estão exclusivamente orientados para
parceiros com idade aproximada, outros para homens mais velhos, outros ainda para jovens,
adolescentes ou crianças (homossexuais pedófilos). Alguns outros, não têm preferências fixas por
um tipo de companheiro. Existe também diversidade nos papéis assumidos em relação aos
parceiros, pois alguns assumem predominantemente o papel ativo, enquanto outros o passivo,
10
embora muitos —a maior parte— não tenham um tipo de papel estabelecido. Algumas pessoas com
orientação homossexual podem às vezes sentir estímulos claramente heterossexuais, embora de
reduzida intensidade: estas pessoas são designadas por bissexuais. Outros, ainda, só têm impulsos
heterossexuais esporádicos, ou quase não chegam sequer a tê-los: são os chamados homossexuais
exclusivos. (Digo “quase” porque Freud afirmava com razão que, numa análise cuidadosa das
fantasias e dos sonhos de toda a vida de uma pessoa com fortes inclinações homossexuais, podem
sempre ser encontrados traços de uma disposição heterossexual normal, mesmo que esteja
profundamente escondida).
Mais uma distinção: alguns alimentam o desejo de um parceiro para uma relação duradoura;
outros não poderiam sequer suportar essa ideia. De todos os modos, entre o eventual desejo de
fidelidade e a sua realização vai uma grande distância; uma relação realmente duradoura e fiel é
extremamente rara, se é que isso é possível em algum caso. Por exemplo, segundo determinado
estudo, em setenta homens e mulheres com orientação homossexual que afirmavam terem aceito os
seus sentimentos como normais e viviam à maneira homossexual, mais de 70% desejavam uma
relação estável; mas, conforme as próprias declarações destas pessoas, só quatro homens e seis
mulheres daquele universo estatístico tiveram um único companheiro no curso dos dois anos
anterioresiii
. Independentemente do país ou da amostra de pessoas inclinadas à homossexualidade
que sirvam de base a este tipo de investigação, os resultados são invariavelmente os mesmos. Por
outro lado, é possível distinguir aqueles que procuram contatos transitórios (os tipos “cruzamento”)
e aqueles que vivem com um só parceiro durante um período mais longo, mesmo que na prática
acabe por não ser assim tão longo.
INCIDÊNCIA DA HOMOSSEXUALIDADE NO CONJUNTO DA POPULAÇÃO
Os militantes homossexuais encheram o mundo com O slogan “uma em cada vinte pessoas
é homossexual”. É pura propaganda. Aparentemente, há quem pense que uma alta incidência no
total da população tornaria esta condição mais normal, mas obviamente, não há nenhuma lógica
nisso. Não basta que uma alta porcentagem da população sofra de reumatismo para ele deixar de ser
uma doença. Se as incidências atribuídas à homossexualidade tossem verdadeiras, várias dezenas de
milhões de americanos seriam homossexuais; estes números não se apoiam em nenhuma
investigação. Os poucos estudos válidos — realizados, além disso, em grupos específicos—
apontam, no máximo, para 2 ou 3% da amostra; uma das sondagens não chegou sequer a encontrar
1 % de homossexuaisiv
. Recenseamentos recentes, mais vastos e seguros, têm confirmado este
último valor: para os Estados Unidosv
cerca de 1% e 1,5% no Reino Unidovi
. Também é preciso
lembrar que muito provavelmente existem menos mulheres com tendências homossexuais e a maior
parte das estimativas são extrapolações de amostras masculinas; além disso, cerca de 30 ou 40% das
pessoas com sentimentos homossexuais são bissexuais e poderiam ser contadas também pelo lado
da população não homossexual; e as crianças e os adolescentes deveriam ser excluídos do total
apurado dos homossexuais, pois o seu desenvolvimento ainda está em curso. Assim, se chega a
porcentagens ainda mais baixas.
Pode parecer que a homossexualidade tenha aumentado rapidamente nos últimos anos.
Duvido muito deste crescimento rápido; pode ser que tenha aumentado apenas o número daqueles
que traduzem a sua orientação em comportamentos homossexuais. A excessiva atenção dada ao
tema (não há revista de grande divulgação que não traga comentários sobre os homossexuais e os
seus problemas) contribui sem dúvida para dar a impressão de onipresença da homossexualidade. É
precisamente isto o que os defensores da normalidade do fenômeno “gay” pretendem conseguir. Ser
a favor da homossexualidade se tornou um sinal de visão progressista.
11
AUTO-IDENTIFICAÇÃO
Os jovens que percebem em si mesmos tendências homossexuais passam frequentemente
por maus bocados. Sentem-se cada vez mais afastados dos colegas da mesma idade por não
conseguirem partilhar o seu interesse pelo outro sexo, enquanto sentem-se obrigados a se comportar
como se estivessem interessados. Envergonham-se. Quando o tema da homossexualidade é tocado,
querem se esconder, para evitar que os outros os associem com essa condição. Sofrem em silêncio;
talvez se esforcem por negar ou dissimular os seus sentimentos, até mesmo para si próprios. Mas
chega o momento, crucial, geralmente por volta dos dezoito anos, em que têm de enfrentar a
situação. É então que acabam chegando a uma conclusão: “sou homossexual”.
Isto pode ser um alívio. A tensão aguda se apazígua momentaneamente, mas há certo preço
a pagar. Esses jovens mal se dão conta de terem atribuído a si mesmos um rótulo quase definitivo
com esta “auto-identificação”, classificando a si mesmos em uma “segunda classe” efetivamente
marginal. Alguns podem assumir uma atitude orgulhosa e até fazer de conta que são superiores às
pessoas normais, mas apesar dos esforços para parecerem contentes com a sua “orientação”, por
dentro, se dão conta de que o seu “ser diferente” é uma forma inferior de sexualidade. Pode ser um
consolo pertencer a uma minoria bem definida e se sentir em casa entre pessoas com uma
orientação idêntica, sem ter de enfrentar as dificuldades próprias do mundo heterossexual, no
entanto, a contrapartida disto é o fatalismo deprimente implícito na nova identificação: “sou mesmo
assim”. O jovem não pensa: “É verdade que tenho sentimentos ocasionais ou regulares de
homossexualidade, no entanto, constitutivamente, devo ter nascido como todos os outros”. Não:
tem a impressão de ser diferente e inferior, de levar em si uma condenação; olhar para si mesmo a
uma luz trágica.
Este rótulo trágico aplicado a si mesmos é o auge de um sentimento de inferioridade que se
vinha alimentando há algum tempo: a sensação de ser um pobre desgraçado. A ideia ‘não sou como
os demais” fica agora gravada na mente com a auto-identificação: “sou um homossexual”.
Voltaremos a este ponto mais adiante. A sensação de não ser como os outros, de não fazer parte do
grupo, com a consequência de manter uma profunda reserva a respeito dos outros, de ficar isolado,
é típica da maior parte das pessoas que têm este problema.
Este sofrimento dramático não será fruto da discriminação social? Não. É verdade que aqueles que
têm a orientação homossexual não são considerados normais pelos outros; mas a causa principal de
se sentirem tragicamente diferentes está dentro deles. Estas pessoas conservam esta impressão de
serem marginais mesmo quando vivem em um ambiente em que são aceitas. Faz parte da sua
neurose.
Como, hoje em dia, muitos julgam que o homossexual já nasça com uma tendência inata, e
que por isso seria melhor que fosse aceita, a auto-rotulagem fatalista é mais do que nunca
favorecida pelo mundo externo ao adolescente. Frequentemente, os jovens que exprimem os seus
possíveis e ainda não definidos sentimentos ou fantasias homoeróticas são informados pelos
“especialistas” de que são homossexuais. Isto pode ser um duro golpe e destruir qualquer esperança
de mudança. Quando um jovem desvenda os seus sentimentos secretos, sugiro que se diga antes
qualquer coisa deste gênero: “Você pode eventualmente sentir interesse pelo seu próprio gênero,
mas é só uma questão de imaturidade. Você não é assim por natureza. A sua natureza heterossexual
ainda não despertou. O que temos de discutir é um problema de personalidade, o seu complexo de
inferioridade”.
12
As tensões sexuais podem ser tão intensas que, um jovem com sentimentos homossexuais
pode crer facilmente que a prática homossexual seja a solução de todos os problemas, inclusive a
solidão. Contudo, mais cedo ou mais tarde, chegará à conclusão de ter caído em um modo de vida
completamente desordenado, na realidade de natureza neurótica. O seu estado profundo se
assemelha sob muitos aspectos a uma toxicomania.
O estilo de vida homossexual é apresentado pelos meios de comunicação social de forma
tendenciosa e cor-de-rosa: já se sabe que a propaganda é assim mas quando, ao longo de anos, se
conhecem as histórias reais dos homossexuais praticantes, se torna evidente que não há felicidade
nesse modo de vida. Incerteza nos contatos, solidão, inveja, depressões neuróticas e,
proporcionalmente, um elevado número de suicídios (sem falar nas doenças venéreas e em outras
doenças físicas) são o outro lado da moeda, que os meios de comunicação não mostram. Exemplo
disso é um famoso sexólogo alemão, também homossexual, que costumava aplaudir publicamente
as estáveis e fiéis relações homossexuais, e acabou por se suicidar depois da ruptura de uma
relação, a última, de muitas. A sua trágica morte mal foi mencionada pela imprensa, talvez para não
levantar dúvidas pertinentes em algumas pessoas.
W. Aaron, que tinha sido homossexual, resume assim o conjunto das suas muitas
observações sobre este tipo de comportamento: Apesar das aparências externas, acaba no
desesperovii
.
A jornalista americana Doris Hanson conviveu com muitas pessoas que tinham estilo de
vida homossexual:
“É um mundo terrível que eu não desejo nem ao meu pior inimigo”, disse um homem que
tinha passado por aquilo, como se fosse um “toxicómano”. “Ao longo dos anos vivi com uma série
de companheiros de quarto, alguns dos quais eu dizia amar. Eles juravam que me amavam. Mas os
laços homossexuais começam e acabam com o sexo. Não há mais nada além disso. Depois desse
período inicial apaixonado, o sexo se torna cada vez menos frequente; os parceiros ficam nervosos;
querem emoções novas, novas experiências, começam a se enganar mutuamente, primeiro às
escondidas, depois cada vez mais às claras... Há então cenas de ciúmes e intrigas. Nessa altura,
ocorre a separação e cada um parte à procura de um novo amante”viii
.
A mãe de uma jovem, com tendências lésbicas e que se suicidou, dizia da sua filha:
Helen procurou toda a vida o amor. A certa altura com a sua última parceira, pensava que o
havia encontrado, mas era um amor baseado em uma mentira. Nunca poderia ter funcionado.
Doris Hanson considera que a declaração daquela mãe reflete exatamente o que ela própria
havia aprendido em suas entrevistas:
É exatamente assim que funciona. É um mundo em que as emoções estão construídas sobre
mentiras. Para obterem uma satisfação sexual momentânea, os homossexuais afirmam: “eu te amo”
com a mesma frequência com que dizem “bom dia!”. Depois de passada a experiência, só estão
dispostos a dizer “adeus!”. A caça recomeça.
Considero que nada disto é exagero obscuro ou moralista. A pessoa com orientação
homossexual é arrastada para uma vida neurótica de conflitos. Teimosa e obstinadamente hostil a
todas as sugestões, apesar de fazer os pais sofrerem, os jovens com este problema agarram-se à sua
“opção” que confundem por ignorância com a “felicidade”. Não querem outra coisa, por nada deste
13
mundo. Pode parecer duro, mas é verdade: muitos deles entram em decadência, o seu vigor juvenil
e sua alegria desaparecem; se tornam fracos sob muitos aspectos, como drogados.
Felizmente, no entanto, há homens e mulheres com sentimentos homossexuais que querem
seguir um caminho bem diferente.
14
3- A HOMOSSEXUALIDADE É INATA?
A crença a homossexualidade é inata está muito estabelecida. A maior parte das pessoas
continua a considerar a homossexualidade anormal —contrariamente ao que muitos “educadores
sexuais” gostariam que se pensasse— mas muitos ainda julgam que se nasce “assim”ix
.
Até onde eu sei, ainda não foram feitas sondagens confiáveis entre os médicos, mas
suspeito que a maior parte esteja convencida de que existe alguma causa congênita ou, pelo menos,
de ordem física. Pelo contrário, os psiquiatras americanos tendem a vê-la como um bloqueio no
desenvolvimento psicossexual do indivíduo e não atribuem muita importância a causas físicas ou
hereditárias.x
Seja como for, o peso desta posição sobre a “opinião médica” geral está bem longe de
ser decisivo. Aliás, em 1973, o conselho diretivo da American Psychiatric Association, ao definir a
homossexualidade no seu manual oficial de diagnóstico, substituiu a palavra “transtorno” pelo
termo neutro “condição”. Isto, depois de intensas manobras dos grupos de pressão dos
homossexuais militantes.
É compreensível que as pessoas com orientação homossexual tenham muitas vezes a
impressão de que os seus sentimentos têm raiz biológica, como se fosse um instinto muito forte;
além disso, recordam que já tinham a consciência de serem diferentes na juventude, embora nessa
altura o fato não estivesse relacionado com a sexualidade. Muitas vezes tinham a impressão de se
comportarem de modo diferente das pessoas da mesma idade e do mesmo sexo e de terem outras
preferências e aversões. Frequentemente, já se sentiam diferentes antes das primeiras sensações
homossexuais e por isso são levados a pensar que a sua natureza seria, de fato, diferente e
pertenceriam a um “terceiro sexo”. A tendência de se gabar de “ser diferentes dos outros” está de
acordo com tudo isto; alguns chegam a pensar que a sua sexualidade seja sinal de um especial dom
emocional e consideram a si mesmos como mais sensíveis e dotados de maior sentido artístico do
que as tediosas pessoas normais. O sentido de inferioridade se converte numa ilusão de
superioridade, mas tudo isto só pode se sustentar no pressuposto de que se trate de uma disposição
inata. Numa análise mais atenta, os interesses artísticos dos homens homossexuais são explicados
facilmente por fatores educativos e de ambiente. Por exemplo, alguns preferem atividades
“brandas” e interesses que não impliquem audácia e têm uma aversão correspondente às tarefas
mais “duras”, mais “viris”. Ser muito sensível é típico de muitos neuróticos e tem a ver com um
“eu” que se sente vulnerável, como mostraremos a seguir.
Tanto a convicção de que existe uma causa hereditária, como a crença em outras causas
físicas presentes desde o nascimento, levam a uma visão pessimista acerca da possibilidade de
mudança. E as pessoas com orientação homossexual que não querem abandonar esse
comportamento se agarram a essa eventual “base biológica”. Por exemplo, segundo os membros de
uma “igreja gay” americana, a homossexualidade seria uma forma de amor criada por Deus: como
poderia então ser ilícito viver segundo os princípios do Criador?
A teoria da hereditariedade vai sobrevivendo graças aos esforços dos círculos homossexuais
militantes e dos seus apoiantes libertários, apesar da crescente evidência no sentido contrário.
Eventualmente, publicam o resultado de alguma investigação isolada com pretensões de confirmar
a ideia da normalidade, sem se preocuparem com a interpretação correta dos resultados ou o seu
valor científico, motivo pelo qual os estudos sobre a homossexualidade devem ser vistos de
maneira sóbria e crítica, especialmente quando provêm de ambientes favoráveis à causa.
15
Um exemplo é o relatório, já mencionado, de Bell e seus colaboradoresxi
, que considera
altamente provável a base biológica da homossexualidade e tira a conclusão de que os pais
deveriam educar os filhos “de acordo com a natureza”. Isto significa que as crianças com tendências
homossexuais teriam necessidade de um tratamento completamente especial (obviamente,
favorecendo a homossexualidade), como se a sua presumida preferência fosse um fato consumado
desde o princípio e claramente reconhecível por parte dos pais. Este trabalho é uma manipulação da
opinião pública: um dos autores é efetivamente conhecido pela sua posição favorável à
homossexualidade. As estatísticas recolhidas pelo autores não têm nada a ver com a biologia, mas
com a infância, o comportamento social e outros aspectos do comportamento das pessoas que
praticam a homossexualidade. Aquele material comprova que estes indivíduos se sentiam isolados
dos companheiros de brincadeira, o que efetivamente é verdade, mas não tem nada a ver com a
biologia.
Nos anos setenta, entre os homossexuais europeus mais sofisticados, se proliferou o hábito
de apresentar o estudo de Schofieldxii
como prova da existência de uma variante normal (e
presumivelmente inata) de homossexualidade. O estudo não tratava da normalidade ou
anormalidade, mas do desempenho social e, mais especificamente, profissional. O autor tinha
conseguido descobrir um subgrupo de homossexuais bem adaptados, o que não justifica nenhuma
conclusão acerca da normalidade ou anormalidade.
Outro caso, foi o de alguns investigadores que não encontraram diferenças entre os
resultados dos testes de personalidade dos homossexuais e heterossexuais; como era previsível, este
fato foi interpretado como evidência da normalidade da condição homossexual. No entanto, o que
aqueles testes medem —ou tem a pretensão de medir— não tem a ver diretamente com a
normalidade psíquica, ou com a saúde mental, ou com o fato de esta forma de sexualidade poder ou
não ser definida como uma «variante» normal.
HORMÔNIOS
As expressões “normal”, “com raízes biológicas”, “hereditário”, “inato” e “com causa
física” são muitas vezes usadas indiferentemente, embora não sejam equivalentes. Que a
homossexualidade não possa ser normal de um ponto de vista lógico e biológico é o que
discutiremos a seguir: mas devemos primeiro abordar a questão das possíveis causas físicas,
hereditárias ou não hereditárias.
“Não será talvez um problema de hormônios?”, muita gente se pergunta. Não, segundo
Perloff, um grande especialista da matéria, que já no distante ano de 1965 escrevia: “É um
fenômeno meramente psíquico... e não pode ser modificado com substâncias endócrinas
(hormôniosxiii
)”. Esta afirmação ainda hoje é válida. É verdade que algum autor detectou uma
concentração comparativamente baixa de hormônios sexuais masculinos (testosterona) no sangue
dos homens com orientação homossexualxiv
, e também quantidades anômalas de gorduras e
produtos metabólicos dos hormônios adrenérgicosxv
. Mas tais resultados não devem ser
interpretados precipitadamente, o que já tem acontecido, em benefício da teoria que explica a
homossexualidade por peculiaridades hormonais. Por que não? Em primeiro lugar, porque esta
diferença das concentrações hormonais entre homens com inclinação homossexual e homens com
inclinação heterossexual não têm sido confirmadas pelas medições dos outros investigadores. No
período 1972-1976 se podem contar pelo menos seis estudos, e em nenhum deles foram
encontrados valores hormonais anômalos nos grupos homossexuaisxvi
. Os desvios que às vezes se
detectam estão relacionados possivelmente com as características específicas do grupo em estudo e,
portanto, não são universalmente válidos. Fatores muito simples, tais como diferenças dos vários
grupos quanto a hábitos alimentares, hábitos de vida e de trabalho, o fato de estarem ou não
16
casados, as atividades musculares ou o exercício muscular; além de outros fatores, como o uso de
drogas ou de medicamentos, ou diferenças de idade, são suficientes para explicar aquelas
oscilações.
Num grupo de homens com tendências homossexuais, Evans detectou concentrações
anômalas dos produtos do metabolismo dos hormônios adrenérgicos: tanto das gorduras como de
um produto metabólico associado ao desenvolvimento muscular; também encontrou desvios do
peso e da força muscular, mas não verificou nenhuma alteração dos hormônios sexuaisxvii
. Com base
nessa observação, este autor sugeriu a hipótese de que um “reduzido desenvolvimento muscular”
pudesse contribuir para reforçar alguma orientação homossexual. Este é um dos poucos estudos que
aponta para algo semelhante a um fator físico anômalo dos homens homossexuais, e por essa razão
merece aqui um exame mais concreto para avaliar corretamente o peso destes resultados.
Como todas as investigações científicas, a correlação encontrada por Evans só adquirirá
valor de prova quando se verificar que aqueles resultados experimentais aparecem exclusivamente
entre a população homossexual. Não se pode estabelecer uma relação entre um fator e a tendência
homossexual sem se proceder a uma série de medições comparáveis em vários grupos de
amostragem. Suponhamos, por um momento, que o futuro nos traga um conjunto de resultados
semelhantes que se confirmem uns aos outros; embora isto não seja nada provável e, mesmo que
fosse, não constituiria um argumento irrefutável a favor de uma causa física. A possível correlação
entre homossexualidade e “fraqueza muscular” poderia significar muitas coisas diferentes. Por
exemplo, que os rapazes com um deficiente crescimento muscular correm maior risco de se
tornarem sexualmente desviados por causa da sensação de inferioridade associada a isso. Seria um
exemplo do fenômeno da “inferioridade orgânica” descrito pelo conhecido psiquiatra Alfred Adler:
um rapaz pode desenvolver em si sentimentos de inferioridade por qualquer malformação ou atraso
físico e, como se verá, é justamente um sentido de inferioridade juvenil devido ao aspecto físico, à
estrutura corpórea, etc., que pode motivar o desenvolvimento da tendência homossexual. Mas talvez
esta explicação dos resultados do famoso teórico seja excessivamente indireta. Talvez o fenômeno
se deva simplesmente ao fato de que os homens com orientação homossexual têm menos tendência
a fazer movimentos de certo tipo, praticando menos certos esportes, comendo mais ou ingerindo
mais gorduras do que outros homens. Uma explicação deste gênero não seria nada surpreendente,
por estar de acordo com os estilos de vida que encontramos em inúmeras pessoas com inclinação
homossexual.
O fato de as pessoas com desvios hormonais devido a perturbações funcionais das gônadas
não darem necessariamente lugar a anomalias sexuais é outra indicação de que a causa da
homossexualidade não deve ser procurada em anomalias dos hormônios sexuais. Por exemplo, as
mulheres hermafroditas (que têm características físicas de ambos os sexos, devido a problemas
genéticos) que são biologicamente (e geneticamente) femininas, apresentam um excesso do
hormônio sexual masculino (testosterona) desde o estágio embrionário, sem que isso as
predisponha a ser lésbicasxviii
.
Portanto, tudo parece indicar que os hormônios sexuais não são os culpados. Ora, como os
cromossomos regulam a produção dos hormônios, a saúde hormonal das pessoas com tendência
homossexual é sinal de normal funcionamento dos cromossomos sexuais.
HEREDITARIEDADE
Os cromossomos sexuais, estruturas moleculares extremamente complexas que contem os
códigos genéticos transferíveis hereditariamente, podem ser examinados diretamente mediante
17
técnicas laboratoriais. Ora, os homens e as mulheres com orientação homossexual possuem os
cromossomos normais, masculinos ou femininos, respectivamentexix
. Isto significa que, em
princípio, todos os órgãos e as funções relacionadas com a sexualidade, desde a anatomia dos
órgãos aos centros sexuais do cérebro — e, portanto, toda a “infraestrutura” da sexualidade — são
normais, do ponto de vista hereditário. A teoria de um desvio inato da sexualidade ou da preferência
sexual não se confirma.
Todavia, se houvesse suspeita de um eventual fator hereditário, ele só poderá ser um fator
de predisposição, que facilitaria o desenvolvimento homossexual. Kallmann tinha em mente um
fator deste tipo em 1958, para explicar os relevantes e interessantes resultados da sua investigação
sobre gêmeos monozigóticos e dizigóticos (gêmeos verdadeiros e não-verdadeiros) masculinos com
tendências homossexuaisxx
. Ele descobriu que todos os gêmeos monozigóticos das pessoas
tendencialmente homossexuais do seu grupo também tinham tendências homossexuais, embora não
na mesma medida. Mas só 12% dos gêmeos dizigóticos de homens com orientação homossexual
indicavam não ter interesses homossexuais. Os 100% de semelhança e concordância na
homossexualidade entre os monozigóticos, que têm um património genético perfeitamente idêntico,
não é um resultado comprovado por outros investigadores e parece ser uma consequência do todo
de amostragem empregado por Kallmann. Desde 1960, há muitas notícias de pares de gêmeos
univitelinos, examinados a fundo, em que um deles tem tendências homossexuais e o outro é
heterossexualxxi
. Além disso, há uma consciência crescente de que este tipo de investigações com
gêmeos, embora fascinantes em si mesmas, não podem ser decisivas para verificar se uma
propriedade ou característica da personalidade fica determinada hereditariamente. Dados como os
de Kallmann também podem ser explicados pela educação e outros fatores ambientais, ou por
fatores psicológicos, tais como o alto grau de identificação mútua, tão surpreendente entre os
gêmeos. A concordância bastante elevada encontrada por Kallmann entre os dizigóticos (12%)
sugere a importância deste tipo de influência, porque esta porcentagem é mais significativa neles do
que entre irmãos não-gémeos embora os gêmeos dizigóticos difiram entre si na estrutura genética
como qualquer par de irmãos não-gêmeos. Em outras palavras, a maior semelhança relativamente à
homossexualidade nos dizigóticos não se deve a causas genéticas mas pode ter a ver com a
identificação recíproca relativamente mais forte, comparada com a dos irmãos não-gêmeos, ou seja,
a sua sensação de serem o alter ego um do outro, e o fato de serem tratados e considerados de
maneira idêntica pelo ambiente em que vivem.
No estudo de Kallmann existem ainda algumas lacunas, que não vêm agora ao caso: o leitor
interessado pode consultar uma explicação detalhada referida na bibliografiaxxii
. O ponto importante
na análise que estamos realizando é esclarecer que dados como os de Kallmann e outros autores
depois dele não podem ser usados como base para uma teoria da base genética da
homossexualidade. Nem sequer fornecem indícios sólidos de fatores genéticos que tornem algumas
pessoas mais propensas à homossexualidade.
Portanto, não foram detectadas causas genéticas — sexual ou de outro tipo — que possam
distinguir as pessoas com tendências homossexuais das outras. Alguns investigadores deixam em
aberto a possibilidade teórica de que exista algum fator ainda desconhecido, de ordem genética ou
hormonal, pelo menos para algum subgrupo de pessoas com tendências homossexuais. Suponho
que essa posição tenha a ver com alguns homens homossexuais que impressionam por serem tão
efeminados e algumas mulheres lésbicas de comportamento muito masculino. Mas esses
investigadores também não atribuem influência decisiva àquele fator hipotético, reconhecendo que
as causas principais não estão nos hormônios ou nos genes. Masters e Johnson defendem esta
posiçãoxxiii
. Estes investigadores, provenientes da escola de Kinsey, apesar de manifestarem
claramente a opinião de que o comportamento homossexual seja normal e plenamente aceitável,
escrevem palavras significativas:
18
É de importância vital que todos os profissionais no campo da saúde mental se lembrem de
que o homem ou a mulher homossexual é homem ou é mulher por determinação genética e tem
tendências homossexuais por preferência adquirida.
Provavelmente para evitar a acusação de terem preconceitos, se apressam em acrescentar
que a preferência heterossexual também não tem uma base genética: afirmação acrítica que pode
ser refutada com facilidade. Contudo, o seu alerta “a todos os que trabalham no campo da saúde
mental” acerca da homossexualidade como “comportamento adquirido” não deve ser esquecido,
mesmo não aceitando a gaffe grosseiramente progressista acerca da heterossexualidade.
A história da teoria da natureza homossexual como condição inata —isto é, “conatural”— é
uma longa história. Esta teoria foi entrando em decadência e hoje já não resta praticamente nada.
No livro Changing Homosexuality in the Male (“Mudar a homossexualidade masculina”) o
psiquiatra L. J. Hatterer afirma isso sem ambiguidades:
Os psiquiatras chegaram finalmente à conclusão de que os fatores genéticos, hereditários,
constitucionais, glandulares e hormonais não têm nenhuma importância como causas da
homossexualidadexxiv
.
Nos meios de comunicação social tem-se feito uma insistente propaganda de supostas
descobertas de uma causa biológica da homossexualidade. Em 1991, anunciaram uma pretensa
particularidade de uma minúscula região cerebral constatada em determinados homens
homossexuaisxxv
; em 1993 divulgou-se que tinha sido descoberto um “gene da
homossexualidade”xxvi
. Pouco ou nada destas notícias sobrevive a uma análise mais atenta; pelo
contrário, os resultados de investigações recentes, acerca de gêmeos, têm tornado cada vez mais
improvável a explicação por mecanismos hereditáriosxxvii
.
Portanto, hoje em dia, se pode afirmar objetivamente que não há motivo para admitir a
existência de um tipo de homossexualidade transmitida por via hereditária, ou causada por
disfunções hormonais antes ou depois do nascimento; também não é provocada por perturbações do
crescimento corpóreo, da constituição orgânica, da estrutura do cérebro, do sistema nervoso ou das
glândulas.
Seria me alongar de mais fazer aqui a enumeração completa das investigações científicas
mais relevantes: bastam as conclusões gerais. Até que seja demonstrado de modo convincente que a
pessoa com tendências homossexuais possui qualquer peculiaridade física, hereditária ou não, que
não seja produzida pelo seu modo de vida, podemos admitir que há uma perfeita normalidade do
ponto de vista biológico. E, à medida que o tempo passa, parece cada vez mais improvável que esta
posição tenha de ser revista.
“O meu avô também era homossexual”. “Também duas filhas da minha tia são”. Às vezes
se ouvem explicações deste gênero da boca de alguém com este problema emocional. Isto não
significa que naquelas famílias exista qualquer causa hereditária, tal como não podemos atribuir aos
genes a responsabilidade pelo fato de o avô ou o tio serem católicos ou socialistas. Se a tendência
homossexual se apresenta com certa frequência em certas famílias, normalmente também
encontramos nessas famílias desequilíbrios nos papéis desempenhados pelos dois sexos: os filhos
são educados de acordo com modelos insuficientes dos papéis sexuais e pode acontecer que estes,
por sua vez, repitam o método educativo distorcido com os filhos. Nessas famílias, as mulheres
podem se comportar com modos pouco femininos e educar as filhas de modo pouco feminino,
facilitando assim o aparecimento de complexos de inferioridade de tipo homossexual. Mais tarde,
essas moças podem ter dificuldade em aceitar os papeis sexuais, em geral, e, portanto, não serem
capazes de educar — e de reconhecer — um menino como menino e uma menina como menina.
19
São válidas observações análogas em relação aos pais. Fora disto, a relação entre a família e a
homossexualidade é muito ténuexxviii
.
NORMALIDADE
Outro aspecto tem de ser também esclarecido. Suponhamos que tenha sido demonstrada
uma causa genética ou física para a homossexualidade, por exemplo, uma particular conjunção de
hormônios; isto não permitiria afirmar que a homossexualidade fosse normal. Tal fator, meramente
hipotético, deveria ser necessariamente identificado como fator de disfunção ou doença. Seria um
desvio dos cromossomos ou dos hormônios, uma disfunção do desenvolvimento fisiológico normal,
uma infecção ou outra coisa desse tipo. É bom compreender bem isto, porque se poderia facilmente
pensar que o ter nascido “assim” seria equivalente a ter uma tendência “natural”.
SOMOS TODOS BISSEXUAIS?
A ideia da “homossexualidade inata” é falsa. Mas haverá qualquer ponta de verdade na
convicção de alguns psicólogos e psiquiatras de que todo o ser humano tenha uma disposição
bissexual inata? No início, todos os homens e todas as mulheres teriam a mesma probabilidade de
se desenvolverem em direção à homossexualidade ou à heterossexualidade e a evolução de cada
indivíduo em um ou em outro sentido dependeria dos métodos educativos usados na família e, mais
em geral, das influências de todo o ambiente social da infância. Esta é a opinião de Masters e
Johnsonxxix
,e era a opinião do próprio Sigmund Freud. Contudo, a ideia de uma bissexualidade
universal não é sustentável. Freud defendia a sua teoria com argumentos fisiológicos hoje
obsoletos; além de que a sua teoria não estava isenta de equívocos, problema que não vamos
abordar neste momento.
Se fossem somente os hábitos educativos ou os costumes culturais a encaminhar a
orientação de uma criança para a homossexualidade ou a heterossexualidade, ou para alguma opção
intermediária, Deus (ou a natureza, se preferir) teria pendurado a sobrevivência do gênero humano
de um fiozinho muito frágil. Bastaria ter existido certa moda cultural em qualquer sociedade
primitiva a favor da homossexualidade, ou terem educado os filhos nessa direção, para provocar a
extinção do gênero humano; e uma moda pode surgir a qualquer momento. Em contrapartida,
vemos que em nenhum caso, na natureza, a propagação de uma espécie correu tal risco, nem
encontramos exemplos de sobrevivência regulada com tanto descuido.
No mundo animal a verdadeira homossexualidade, como se descreveu, não existe. Os
animais podem se comportar de maneira homossexual, mas só no caso de ausência de um parceiro
heterossexual ou por aquilo que se poderia chamar um erro de percepção ou de avaliação. De fato,
os animais podem reagir sexualmente a determinadas características dos animais da sua espécie:
formas, cores, movimentos. Em princípio, estas características correspondem ao sexo oposto, mas
podem também constituir um estímulo se o animal encontrá-las em um indivíduo do mesmo sexo,
especialmente na ausência de um parceiro heterossexual. Contudo, isto não é homossexualidade em
sentido estritoxxx
. A homossexualidade propriamente dita implica uma resposta frustrada aos
estímulos do sexo oposto. Em suma: é como se a natureza (ou o seu Criador) tivesse sido tão
desleixada com o homem — que é muito mais complicado e refinado que qualquer outro animal e é
claramente o produto natural mais esplêndido— a ponto de, conferindo-lhe toda a complexidade
anatômica, neurofisiológica e hormonal que regula a sobrevivência da espécie, ter descuidado
justamente aquele último passo, que é a motivação sexual pelo sexo oposto. A natureza teria se
esquecido de fazer com o homem aquilo que fez corretamente com os animais: implantar uma
orientação heterossexual estável e duradoura no tempo?
20
A pergunta já é uma resposta.
Por outro lado, a teoria da bissexualidade está em contradição com os fatos. A. Karlen,
historiador da sexualidade, ao estudar a homossexualidade em outros tempos e em outras culturas,
diferentes da nossa, escreve que o mais que se pode dizer é que a homossexualidade foi encarada
pelas várias culturas com maior ou menor tolerância mas nunca como um fim desejável em si
mesmoxxxi
. O ser humano nunca sentiu a inclinação de educar os filhos para a homossexualidade: a
esmagadora maioria das pessoas, em todas as culturas e em todos os tempos, sempre foi
heterossexual. Por natureza, os seres humanos são atraídos pelo sexo oposto. Se assim não fosse,
entre os numerosos povos que viveram ao longo dos séculos teria havido exceções, pelo menos
alguma, à regra de a maioria ser heterossexual.
E os antigos gregos? Parece que a concepção popular tenha necessidade de alguma pequena
correção neste ponto. Os historiadores constatam que a cultura grega sempre foi substancialmente
heterossexualxxxii
. O comportamento homossexual — ou, melhor, a chamada pederastia, ou amor
pelas crianças e adolescentes — esteve na moda em certos períodos e em certos círculos, mas não
era certamente a expressão sexual preferida ou desejada pela maioria. Também se devem entender
com certa proporção as descrições dos hábitos sexuais dos gregos apresentadas apenas por alguns
poucos autores daquele tempo. É duvidoso que seja legítimo da nossa parte generalizar aquilo que
os líricos gregos dizem, tal como não ficaríamos com uma imagem correta dos hábitos sexuais do
nosso tempo estudando a literatura moderna. Tudo aquilo que é excêntrico e desviado adquire na
literatura e na arte uma imagem mais marcada do que tem realmente na sociedade.
A afirmação de que o ser humano se tornaria heterossexual em virtude dos métodos
educativos, reprimindo a sua componente homossexual, igualmente forte, é impressionantemente
artificiosa, especialmente sabendo como se dá habitualmente a escolha do objeto heterossexual.
Pareceria muito mais exato dizer que o desenvolvimento para a heterossexualidade é um impulso
automático e instintivo. Em certo momento, geralmente durante a adolescência, a atração para o
sexo oposto é sentida como irresistível, mesmo por parte dos adolescentes educados em um clima
sexualmente restritivo ou sem nenhuma educação sexual. Também é sintomático da base hereditária
da heterossexualidade o fato de nunca se encontrarem pessoas jovens livres de tensões emotivas, de
complexos de inferioridade e de frustrações internas — em outras palavras, jovens equilibrados e
bem constituídos — que sintam atração pela homossexualidade. Os jovens não neuróticos são
invariavelmente heterossexuais.
A conclusão inevitável é que a heterossexualidade já está definida no patrimônio genético.
Os cérebros do homem e da mulher diferem em virtude de processos embrionários de natureza
hormonalxxxiii
e provavelmente algumas destas estruturas cerebrais constituem a base biológica das
profundas diferenças psicológicas no campo da sexualidadexxxiv
. Também se podem deduzir alguns
argumentos interessantes a favor do carácter inato da heterossexualidade a partir das investigações
relativas ao desenvolvimento sexual de certos tipos de hermafroditas, isto é, pacientes com defeitos
dos cromossomos sexuaisxxxv
.
UM ESTÁGIO TRANSITÓRIO BISSEXUAL
Há uma variante da teoria da bissexualidade que é aceitável: diz respeito ao fato de os
adolescentes passarem, durante o desenvolvimento para a maturidade biológica e psicológica, por
um estágio no qual, durante certo tempo, podem sentir atração erótica por pessoas do mesmo sexo.
Neste estágio, o desenvolvimento sexual ainda não está completo e ainda não amadureceu até à
plena descoberta do seu objeto, o sexo oposto. E nesta fase de crescimento que vários objetos e
situações, humanas e não humanas — crianças e pessoas adultas, mas também configurações
21
inanimadas e situações emotivamente excitantes — podem ser associadas na imaginação com o
despertar de sensações eróticas, ainda indefinidas. A sexualidade de um adolescente neste estágio de
desenvolvimento pode se chamar bissexual, embora a princípio haja bons motivos para lhe chamar
“multissexual”. O desenvolvimento sexual dos homossexuais, tal como boa parte do
desenvolvimento sobretudo emocional, ficou interrompido neste estágio intermediário.
Isto não significa que cada adolescente deva passar claramente — nem sequer
confusamente — pelos vários tipos possíveis de atração erótica nesta fase da vida. Talvez não mais
de 30% dos adolescentes tenham a certa altura aquilo a que se poderiam chamar sensações
homoeróticas. Nesta fase, os interesses eróticos dependem estreitamente do conjunto da
personalidade e da emotividade do adolescente, das suas relações com os outros, da sua posição
social e da sua autoimagem. Quando as fantasias, os interesses ou as práticas homoeróticas se
desenvolvem, elas acabam por ser habitualmente superficiais e tendem a se desvanecer rapidamente
logo que a atração física do sexo oposto se impõe à atenção do jovem que, em muitos casos, vive
essa descoberta com uma atitude do tipo: “Isto é justamente o que eu estava procurando!”.
No estágio de sexualidade indeterminada, os impulsos homoeróticos podem coexistir com o
início da atração heterossexual. Em outros casos, o início dos interesses heterossexuais pode ficar
bloqueado pela manifestação dos sentimentos homossexuais, especialmente se o adolescente se
sente frustrado na sua primeira ocasião de amor heterossexual.
Quando as potencialidades do sexo oposto foram plenamente descobertas, o processo é
irreversível. Os “objetos” anteriores ficam simplesmente desprovidos de interesse, sem nenhuma
aprendizagem imposta pelo mundo exterior mas simplesmente como consequência do próprio
instinto sexual orientado e focalizado no seu fim.
22
4- A HOMOSSEXUALIDADE COMO TRANSTORNO PSÍQUICO
Os primeiros estudos sistemáticos sobre a homossexualidade foram feitos no século XIX
por autores como Krafft-Ebing e no início do século XX por Magnus Hirschfield, que interpretaram
as suas observações à luz das teorias fisiológicas e biológicas dominantes naquele tempo. A noção
de “terceiro sexo” ou de “sexo intermediário”, por exemplo, ganharam popularidade naquele
período. Sigmund Freud foi o pioneiro das teorias da homossexualidade que enfatizavam a dos
fatores psicológicos. Por exemplo, segundo ele, o rapaz com inclinações homossexuais deveria ter
sofrido, quando criança, uma super-identificação com a mãe e deveria ter tido uma relação
conflituosa com o pai; da mesma forma, a moça lésbica teria sofrido uma super-identificação com o
pai e teria tido relações muito difíceis com a mãe.
Freud procurou as causas na infância e, em particular, na relação entre pais e filhos. Para
ele, a homossexualidade era essencialmente uma perturbação psíquica, talvez reforçada por
condicionamentos biológicos ainda desconhecidos (sugeriu a hereditariedade). Um dos primeiros
—e talvez o primeiro— a não acreditar na importância de qualquer predisposição hereditária foi um
discípulo de Freud, Alfred Adler. Este autor fala pela primeira vez do complexo de inferioridade e
apresentou a homossexualidade como consequência deste complexo, já em 1917xxxvi
. As suas
observações mostraram-lhe que as pessoas com tendências homossexuais têm invariavelmente
sentimentos de inferioridade a respeito da sua masculinidade ou feminilidade.
Um outro discípulo de Freud que acumulou uma impressionante experiência clínica com
gente afetada por problemas psicossexuais e que descreveu algumas observações originais sobre os
seus pacientes com tendências homossexuais foi Wilhelm Stekelxxxvii
. Ele prognosticou que uma das
causas da homossexualidade fosse o medo do sexo oposto. Confirmando as ideias de Freud a
respeito de a homossexualidade ter origem em dinamismos psicológicos da infância, Stekel
minimizou a importância da hipotética predisposição hereditária, mais ainda que Freud, e foi
possivelmente o primeiro a classificar a homossexualidade como neurose. Além disso, discordou de
Freud quanto às responsabilidades do famoso “complexo de Édipo” e indicou, em contrapartida, um
conjunto de erros de educação das crianças, suscetíveis de levar à neurose homossexual. Também
destacou o papel do pai frequentemente como mais importante que o papel da mãe na origem da
homossexualidade masculina. Ressaltou o estilo caracteristicamente infantil da vida psicológica
destes pacientes —encarando a homossexualidade como uma forma de “infantilismo psíquico”xxxviii
— e evidenciou que a motivação homossexual está intrinsecamente ligada a sentimentos de
infelicidade. Stekel acreditou, mais que Freud, na possibilidade de uma mudança radical da
orientação homossexual, embora estivesse convencido de que só se conseguiria em casos
relativamente raros. As suas observações influenciaram profundamente o pensamento dos seus
discípulos.
A segunda e terceira gerações de psicanalistas construíram sobre os fundamentos
preparados pelos predecessores. Um elemento original foi introduzido pelo psiquiatra austríaco-
americano E. Bergler, observando o chamado masoquismo psíquico de quem sofre este
complexoxxxix
. O impulso homossexual contém, segundo ele, uma espécie de auto-tormento, uma
necessidade inconsciente de se sentir marginalizado e, em geral, de “colecionar” injustiças,
situações desagradáveis e experiências que proporcionam sofrimento (como se diz de algumas
pessoas que andam à procura de problemas).
I. Bieber, psiquiatra norte-americano, e os seus colaboradores estimularam notavelmente as
investigações psicológicas posteriores acerca da homossexualidade, com a sua extenso estudo
23
estatístico sobre a personalidade e os fatores psicológicos infantis na homossexualidade masculinaxl
.
Como já mencionado, são escassos os dados fisiológicos e biológicos. Bieber, e os seus sucessores,
têm publicado com regularidade sobre certo número de fatores infantis mais ou menos específicos
em homens com orientação homossexual. Estes fatores estão interligados e constituem um modelo
identificável, que deve ser visto em estreita ligação com as causas deste processo. Esse modelo é
constituído por relações interpessoais com o pai e a mãe, com os irmãos e o chamado grupo dos
pares, e ainda por outros dados do desenvolvimento psíquico que não é difícil relacionar com o
pensamento dos teóricos da moderna psicologiaxli
. As estatísticas de Bieber e dos seus seguidores
podem também ser utilizadas como base para a teoria da homossexualidade que se apresentará a
seguir. Esse é o conjunto de dados mais confiável, tanto mais que as pesquisas incluíram uma
grande variedade de subgrupos de pessoas inclinadas à homossexualidade e em várias nações.
Esta teoria não surgiu de repente, mas é o resultado de um progresso gradual no estudo das
neuroses e da homossexualidade, por parte de psicoterapeutas que utilizam técnicas psicanalíticas.
O fundador desta teoria, o psiquiatra holandês Johan Leonard Arndt (1892-1965) reuniu uma grande
variedade de observações e de conclusões dos teóricos precedentes, em particular de Adler e do seu
próprio mestre, Stekel. O estudo de Arndt confirmou e completou algumas observações de Stekel,
tais como: “Ele (o homossexual) é infeliz, sentindo-se condenado pelo destino ao sofrimento”;
“nunca vi um homossexual feliz ou são”; “é uma eterna criança...em luta com o adulto”xlii
.
Introduzindo o princípio da autocompaixão, Arndt não anulou as observações dos seus
antecessores, antes as completou numa síntese que integra também outros elementos relevantes de
observação, recolhidos por autores contemporâneos das mais variadas orientações teóricas. O
homossexual, dizia ele, tal como os outros pacientes neuróticos, se rege por uma estrutura interior
que se comporta de maneira autônoma como o Eu infantil, uma criança forçada a ceder à
autocompaixão. Depois de ter descoberto este mecanismo em muitos casos de neuroses sem
manifestações claramente sexuaisxliii
, Arndt foi percebendo gradualmente que isso era comum aos
vários tipos de neuroses, e também o reconheceu nos homossexuaisxliv
.
Impressionado pela tendência dos neuróticos adultos a se lamentarem como crianças e pela sua
persistência e resistência à mudança, Arndt recorreu à noção freudiana de “repressão” para explicar
a fixação das reações de aflição e de autocompaixão da infância, tal como o seu carácter autônomo
e repetitivo. Para Freud, o importante conceito de repressão estava intimamente ligado a uma outra
noção essencial: a do inconscientexlv
. Já na sua primeira publicação sobre a histeria, escrita em
colaboração com Joseph Breuerxlvi
, Freud lançou a hipótese de que as emoções fortes de reação às
frustrações às vezes não são mentalizadas mas recalcadas à viva força, afastadas do nível
consciente, mas conservando toda a sua carga emotiva no subconsciente. Breuer e Freud se referiam
sobretudo às emoções de aflição, com as correspondentes manifestações de lágrimas, suspiros e
raiva.
Arndt identificou o núcleo da reação de aflição como autocompaixão, admitindo que essa
emoção tivesse sido recalcada para o inconsciente, obrigando o neurótico a alimentar
continuamente os impulsos de autocompaixão sem conseguir reconhecê-los como tais. A terapia
desta condição deveria consistir, obviamente, em trazer para o nível consciente a autocompaixão
inconsciente daquela “criança que existe por dentro e se queixa”. Deste modo, ela perderia o seu
poder compulsivo sobre a mente.
Comecei por aderir à teoria da repressão, de Arndtxlvii
, mas o passar dos anos me levou a
colocá-la cada vez mais em questão, até que acabei por abandoná-la. É inegável que a “repressão”
pode explicar muitos fenómenos que se encontram habitualmente na psicoterapia; por exemplo, é
bem notório o fenômeno da resistência a admitir a própria autocompaixão justamente no momento
24
em que esta se dá. Portanto, é possível dizer que qualquer coisa se opõe ao reconhecimento
consciente da autocompaixão. Contudo, penso que essa “qualquer coisa” tenha bastante de “orgulho
ferido”. Além disso, o processo de superação de uma neurose, concretamente de uma neurose
homossexual, corresponde mais a um misto de conquista da própria autoconsciência e de luta
generalizada contra o próprio infantilismo, uma vez reconhecido. Não é tanto o desbloqueio das
repressões que é responsável pela mudança, mas a diminuição gradual sobre hábitos emocionais
infantis profundamente enraizados, tais como a autocompaixão e as reações a ela associadas. A
característica mais impressionante da personalidade neurótica é o estar centrada em si mesma e a
autocompaixão é, talvez, o aspecto mais saliente dessa atitude geral. A conquista da maturidade
emocional implica, sobretudo, uma diminuição do egocentrismo.
Estou convencido de que a repetitividade neurótica e a resistência à mudança se
compreendem melhor como efeitos da formação de um hábito ou como uma espécie de
“psicodependência” da autocompaixão e de outras tendências intimamente ligadas a ela. Sem um
esforço deliberado da parte da pessoa neurótica, destinado a tomar consciência de si mesma e a
combater a autocompaixão, este impulso tenderá a procurar a própria satisfação, acabando por se
reforçar. Superar uma neurose significa romper a prisão que aprisiona a pessoa na autocompaixão.
A concepção freudiana de repressão para o inconsciente e o próprio conceito de inconsciente
parecem excessivamente românticos e eu sou um dos que não acreditam no inconsciente freudiano,
cuja existência ainda não encontrou prova experimentalxlviii
.
Na última década, muitos outros psicoterapeutas eminentes estudaram a homossexualidade
de um ponto de vista psicodinâmico; as suas observações e muitas das suas concepções teóricas são
contribuições altamente qualificadas, que não serão discutidas nas páginas seguintes. Alguns nomes
proeminentes são os de Karen Horneyxlix
, H. S. Sullivanl
, o psiquiatra e neurologista francês Marcel
Eckli
e os psiquiatras de New York Charles Socarideslii
e Lawrence Hattererliii
. O livro de Hatterer
merece uma menção especial, porque não descreve uma teoria geral mas um procedimento prático
para a cura dos homossexuais do sexo masculino. Baseando-se na sua experiência com os pacientes,
Hatterer apresenta bastantes exemplos de reações comportamentais e emotivas, tais como sensações
de inferioridade, idealização do parceiro homossexual e tendência a se sentir como vítima. Estas e
outras observações de fenômenos encontrados durante terapia têm um valor notável e se enquadram
perfeitamente na teoria da autocompaixão.
Os apoiantes da teoria que admite a homossexualidade como coisa normal afirmam que
aquele que continuar a acreditar que se trata de uma condição de perturbação, mais especificamente
de uma neurose (ou seja, um distúrbio emocional), vive ainda no passado; a ideia de que a
perturbação possa ser superada, seria indício de uma mentalidade ainda mais retrógrada. No
entanto, não se dão conta de que a sua posição é que está hoje ultrapassada pelo progresso da
terapia, se mantendo presos à teoria de que a homossexualidade é inata, que é exatamente o ponto
de vista do século passado. Os avanços no estudo das peculiaridades emocionais das pessoas que
têm este problema e a sua identificação como neurose são recentes, tal corno alguns dos métodos de
cura.
Embora o conceito de neurose seja indispensável na prática clínica e se verifique um
razoável consenso no diagnóstico das neuroses nos casos individuais, não foi ainda possível
encontrar um instrumento objetivo de diagnóstico para medi-la. As tentativas com testes
«objetivos» de carácter fisiológico e psicológico para distinguir os neuróticos dos não-neuróticos
não tiveram até agora qualquer êxitoliv
. Portanto, os investigadores têm de se valer da única prova
“subjetiva” eficaz: o questionário que, nas palavras de um dos principais investigadores, “pode ser
usado com segurança para distinguir claramente os sujeitos normais e os neuróticos”lv
.
25
O que é certo é que, com os testes mais variados e nos países e grupos econômico-sociais mais
diversos, os investigadores têm encontrado o mesmo resultado: os grupos homossexuais figuram em um
nível nitidamente mais alto nas escalas que medem a neuroselvi
. Esta correlação fornece uma boa prova
científica a favor do carácter neurótico da homossexualidade, tanto é que estes estudos abrangeram
grupos com acompanhamento clínico, ou que já haviam procurado alguma forma de psicoterapia, e
pessoas razoavelmente integradas na vida sociallvii
.
Parece-me que o conjunto das investigações fisiológicas e psicológicas até agora publicadas
indica, sem margem para dúvidas, que a interpretação mais adequada da homossexualidade é a de
uma variante da neurose. O fato de aparentemente poucos especialistas de outras ciências humanas
seguirem esta conclusão, aliás praticamente desconhecida da opinião pública, resulta da pressão das
tendências libertárias favoráveis à homossexualidade, que eliminam sistematicamente qualquer voz
discordante. A situação é ao mesmo tempo caricata e triste, porque foi precisamente nas últimas
décadas que a atitude fatalista em relação à cura da homossexualidade se tornou, mais que nunca,
injustificada.
Este livro foi escrito depois de mais de vinte anos de estudos sobre a homossexualidade e
depois de ter tratado mais de 225 homens homossexuais e um grupo de 30 mulheres lésbicas,
seguindo os princípios da teoria da autocompaixão. Considero esta teoria, originalmente formulada
por Arndt, muito mais que uma síntese nova, elaborada a partir de material antigo: é um efetivo
progresso em relação às concepções anteriores. A correta compreensão da natureza deste mal é mais
que um exercício académico: representa a esperança de que pessoas, prisioneiras do antigo
preconceito de que a homossexualidade seja inata e imutável, possam ser ajudadas a se tornar
emocionalmente mais maduras.
26
5-O COMPLEXO DE INFERIORIDADE HOMOSSEXUAL
A criança é egocêntrica por natureza. Ela tem a impressão de que o seu “Eu” seja o centro e
a coisa mais importante do mundo. É por isso que está, sobretudo, orientada sobre si própria ou, em
outras palavras, tem um sentido muito forte da importância do Eu. Em consequência de estar
voltada para si mesma, a criança se compara continuamente com os outros (com os outros tal como
são mas, especialmente com os outros tal como os vê na concepção subjetiva que tem deles).
Quando o resultado desta comparação é negativo, o que acontece frequentemente, a criança sente-se
ferida: enganada, ofendida, menos estimada e objeto de menor respeito e apreço que as outras
pessoas, reais ou imaginárias. Se a criança, com a sua grande necessidade de afeto e de apreço se
sente suficientemente atendida, fica contente e feliz. Da mesma forma, fica contente quando se
sente privilegiada em relação aos outros ou, pelo menos, é tratada ao mesmo nível pelas pessoas e
pela vida. No entanto, como já se disse, a criança tem uma forte inclinação a se ver menos
privilegiada, menos amada, colocada numa posição menos favorável.
Precisamente por estar tão sedenta de apreço, a criança fica profundamente desiludida com
qualquer falta de afeto ou de apreço, real ou imaginária. Nessas circunstâncias, tem a sensação de
que o seu valor como pessoa diminuiu; tende então a se ver como inferior aos outros e,
eventualmente, privada de valor.
A importância inata do Eu, na criança, faz com que ela sobrevalorize certas experiências em
que detectou menor estima e sobrevalorizar o significado de “ser” menos valiosa em certos aspectos
particulares da personalidade. O fato de “ser inferior” em qualquer aspecto secundário da sua
personalidade ou das condições de vida leva a criança rapidamente a se tornar, a seus próprios
olhos, inferior em tudo. Para a criança, a ideia ou a própria imagem de “ser gorda”, “ser menos
apreciada que um irmão”, “gaguejar um pouco”, “ser filha de pais de condição social humilde”, ou
“ir mal na escola” atingem a pessoa em um todo. A criança sente-se, então, inferior sob todos os
aspectos, como se a inferioridade parcial tivesse se alastrado sobre toda a personalidade. É por esta
razão que ser apreciada sob um determinado aspecto da personalidade não exclui uma imagem
inferior de si mesma em vários outros aspectos.
Sentir-se inferior significa pensar que os outros não podem amá-la por falta de valor; que
não a aceitam verdadeiramente, de modo que não tem verdadeiramente lugar entre eles. Algumas
das reações emocionais que correspondem a esta perspectiva são: vergonha, solidão, autodesprezo
e, naturalmente, tristeza ou raiva.
A impressão de inferioridade pode ter origem nas comparações com os outros (a própria
criança é a primeira a fazê-lo) e também das críticas, de modo especial dos pais e dos membros da
família, em segundo lugar dos companheiros de jogo e de outras pessoas relevantes exteriores ao
meio familiar, tais como os professores. Com o passar do tempo, quando a impressão de
inferioridade é reforçada pela repetição de experiências externas ou internas entendidas pela criança
(ou pelo adolescente, no caso que estamos estudando) como análogas às anteriormente sofridas, a
impressão pode se tornar crônica. Transforma-se numa convicção profundamente enraizada acerca
da própria identidade (o “Eu”), como um absoluto, uma imagem negativa de si que começa a viver
por sua própria conta. Uma vez desencadeado, esse processo se toma resistente a novas experiências
que o poderiam modificar e a novas aprendizagens. Este mecanismo é rígido e autônomo; todo o
afeto e o apreço do mundo são incapazes de anulá-lo. É por isso que se chama complexo de
27
inferioridade. Para compreender melhor a peculiaridade deste fenômeno convém reparar numa
importante reação emotiva que se desenvolve com o complexo de inferioridade e que é uma parte
essencial dele; a reação emocional primária perante o Eu ofendido, numa criança ou em um
adolescente: a compaixão por si mesmo.
Se uma criança ou um adolescente, que acabou por se sentir inferior e não apreciado ou
excluído, pudesse aceitar a sua condição desfavorável, a sua suposta menor importância, certamente
se sentiria mal pela privação de amor, pelo desprezo, pelas deficiências que notou em si mesma
mas, se aceitando efetivamente, o sofrimento diminuiria em pouco tempo, recuperaria o equilíbrio
interior e o gosto pela vida. Por outro lado, numa criança, ou em um adolescente, esta reconciliação
consigo mesma não é fácil, por causa do seu inato sentido da importância do próprio Eu. A
relativização de si mesma não é uma das qualidades da criança.
O Eu infantil reage com uma emoção centrada na própria pessoa e fica obsedado pela
autocompaixão: “Causo pena! Não me querem, não me estimam, riem de mim, não querem me
aceitar”, e por aí fora. E pensando em si próprio, vendo a si mesmo como uma pobre criatura,
começa a ter uma intensa piedade por aquele ser sofredor. Sente piedade, tal como sentiria por outra
pessoa que visse sofrer e merecesse dó. As afirmações “sou feio, impopular, fraco, não sirvo para
nada, rejeitado, em desvantagem em relação ao meu irmão ou à minha irmã” implicam um
“coitadinho de mim!”.
A autocompaixão é a compaixão de si próprio. Talvez não haja experiência ou impressão
mais eficaz para provocar a autocompaixão de uma criança do que a ideia “estou sozinha, sou
menos apreciada”. A autocompaixão absorve cada vez mais a atenção da pessoa, suas energias
mentais, o Eu quer se confortar a si mesmo com a autocompaixão que é essencialmente uma forma
de amor: uma forma de amor de si mesmo. O Eu da criança quer tratar a si mesmo como um pobre
coitadinho, como trataria outra pessoa nas mesmas circunstâncias.
A autocompaixão fornece calor humano, consolo, quer proteger e mimar e se sente no
direito de obter compensações confortantes. A autocompaixão se exprime nas palavras e nos
lamentos interiores, nas lágrimas e suspiros; se manifesta claramente no tom queixoso da voz, na
expressão do rosto e nas atitudes do corpo. Quase sempre a autocompaixão origina emoções de
protesto, sob a forma de cólera, de hostilidade, de rebelião ou de amargura, sempre que a criança se
sente tratada injustamente.
Analisando melhor, parece evidente que aquilo que se designa popularmente como
complexo de inferioridade (segundo a descrição de Adler) e exatamente a autocompaixão crônica
de quem se sente inferior. Presto as minhas homenagens ao psicanalista holandês Johan Arndt por
ter demonstrado o mecanismo desta emoção universal, e tão humana, que é a autocompaixão.
Um caso de complexo de inferioridade é também um caso de autocompaixão crônicalviii
.
Sem ela, as sensações de inferioridade não teriam consequências negativas. Arndt chamou à
autocompaixão das crianças e dos adolescentes “auto-dramatização”, porque a criança sente e vê a
si mesma como uma personalidade importante, digna de compaixão: “O meu sofrimento é único”.
A consciência de si torna-se consciência do “coitadinho de mim”.
A CRIANÇAAUTO-COMPADECIDA NO ADULTO
As expressões de autocompaixão (como o chorar, queixar, procurar conforto e consolo)
podem aliviar e ajudar a assimilar as experiências que causaram a pena (o trauma). Crianças e
28
adolescentes que se sentem sozinhos com as suas sensações desagradáveis durante um longo
período, em geral não abrem a alma a uma pessoa de confiança; se envergonham ou julgam que
ninguém está em condições de compreendê-las. Como resultado, continuam a alimentar as suas
autocompaixões.
As crianças não param facilmente, depois de entrarem neste processo: isto vale para muitas
emoções e comportamentos, como também para a autocompaixão das crianças e dos adolescentes.
Depois de se sentirem tristes em si mesmas, tendem a perseverar nessa tristeza e até a cultivá-la,
pois a autocompaixão tem este doce efeito inerente à lástima: o consolo. Pode ser muito gratificante
se sentir como o pobre coitadinho, incompreendido, rejeitado e abandonado. Sob este aspecto a
autocompaixão e a auto-dramatização têm qualquer coisa de ambivalente.
Uma autocompaixão repetidamente alimentada pela criança e pelo adolescente pode gerar
uma psicodependência de autocompaixão. Em outras palavras, se torna um hábito autônomo de
íntima comiseração.
Este estado emocional da mente é descrito pela expressão: “a criança (ou o adolescente)
auto-compadecida no adulto”. A personalidade do “pobre de mim” da infância (ou da adolescência)
sobrevive na mesma forma; toda a personalidade infantil permanece na pessoa.
Há, portanto, três conceitos que geralmente se sobrepõem: complexo de inferioridade,
criança no adulto e hábito de autocompaixão (chamado por vezes de “doença dos lamentos”). São
estes descrições adequadas dos fenômenos que se verificam na mente de uma pessoa neurótica, isto
é, afetada por variadas hesitações, emoções obsessivas, sentimentos imotivados de insegurança e
conflitos interiores.
As linhas gerais da personalidade neurótica correspondem às características descritas acima.
Em primeiro lugar, observamos uma continuidade modelos de comportamento infantis e pueris. De
certa maneira, a pessoa continua a ser, do ponto de vista psicológico, a criança ou adolescente de
antigamente; mantendo-se os desejos concretos, as sensibilidades, as lutas e o modo de pensar das
crianças. No entanto, o complexo não conserva no adulto todas as coisas da criança. O
amadurecimento da pessoa só fica seriamente comprometido naquelas zonas onde as frustrações
infantis intervieram, ou seja, onde a autocompaixão e o sentido de inferioridade tiveram origem.
Nos outros campos, a pessoa pode ser psicologicamente amadurecida. Nos casos em que a “criança
lamurienta” evalece, então toda a personalidade fica imatura, “infantil”.
A homossexualidade é justamente um tipo de neurose. A pessoa que sofre este complexo
leva dentro uma certa “criança que se auto-compadece”. Por isso é que Bergler observou: “Aos
cinquenta anos o homem com inclinações homossexuais encontra-se, do ponto de vista emocional,
nos anos da adolescência”lix
.
Uma segunda característica da neurose é a tendência à autocompaixão — habitualmente
manifesta, mas em algumas pessoas é mais reservadas — tão imensamente descrita por Arndt. O
neurótico grave manifesta de modo muito evidente a necessidade de se compadecer; parece
continuamente à procura de motivos de autocompaixão — e ele consegue —; talvez sentindo-se
cronicamente objeto de injustiça, ou sempre frustrado e sempre sofredor por qualquer coisa. Os
seus lamentos podem consistir em qualquer coisa negativa: sentimentos de desilusão, de ter sido
deixado só, de ser incompreendido, de falta de estima, de carência de amor, de incapacidade física,
de dor, etc. É como se a mente do neurótico não pudesse passar sem a sensação de autocompaixão,
de auto-dramatização; por isso, esta situação pode ser vista como uma “psicodependência” ou como
29
— o que é o mesmo — um mecanismo compulsivo de compaixão. O resultado é que, no neurótico,
a confiança da pessoa em si mesma, a segurança e a alegria de viver ficam seriamente
comprometidas.
Uma outra característica frequente do neurótico é um desejo infantil de atenção, de aprovação e
de simpatia, além de uma tendência geral à autoafirmação. A expectativa de estima e de calor da
criança que tem por dentro, é inesgotável e gira à volta da pessoa como na criança propriamente
dita. De muitos modos, este Eu infantil pode procurar ser importante, interessante, atraente para os
outros, estar no centro das atenções tanto na vida real como na imaginação.
É preciso mencionar como último aspecto a atitude mental egocêntrica. Uma grande parte
da consciência psíquica pode estar ocupada, ou girar em torno, do infantil “coitadinho de mim!”.
Para usar uma comparação: a “criança compadecida que está no adulto” mima e cuida de si mesma
como uma criancinha carinhosa acariciaria uma boneca que trata como algo que merece compaixão.
Todo o sentimento de amor pelas outras pessoas, baseado em um interesse genuíno por elas,
é bloqueado por uma atitude neurótica compulsiva centrada sobre si própria e que se desenvolve
mais ou menos espontaneamente.
O COMPLEXO DE INFERIORIDADE HOMOSSEXUAL
São inúmeros os tipos de complexo de inferioridade e as variantes da “criança auto-
compadecida do passado, conservada no interior”. Um deles é o complexo de inferioridade
homossexual. Portanto, à parte o sintoma concreto de um certo tipo de apetite sexual, a
homossexualidade não é um fenômeno isolado mas se integra no conjunto dos problemas da
neurose.
Como já mencionado anteriormente, os sentimentos de inferioridade podem se manifestar
em muitos setores da chamada esfera da personalidade individual. A criança ou adolescente
perturbado por fantasias e atrações homoeróticas tem uma impressão de inferioridade em relação à
sua identidade sexual ou “identidade de gênero”, isto é, o fato de ser rapaz ou moça. O rapaz sente-
se inferior comparado com os outros rapazes em relação às suas qualidades de homem: resistência,
espírito decidido, atitudes desportivas, audácia, força ou aspecto masculino. Uma moça sente-se
inferior comparada com as outras moças quanto à feminilidade nos interesses, comportamentos ou
aspecto físico. Esta regra pode ter variantes, mas as linhas gerais são inconfundíveis. Um elemento
fundamental desta impressão de inferioridade é a consciência de não pertencer realmente ao mundo
dos homens ou das mulheres, de não ser um rapaz, (homens) ou uma moça (mulheres).
Na maior parte dos casos, esta autoimagem de inferioridade aparece na pré-puberdade e na
puberdade, entre os oito e os dezesseis anos, com um pico entre os doze e os dezesseis. O adulto
com orientação homossexual irá conservar o característico tipo infantil do “Eu auto-compadecido”,
com o seu cortejo de antigas fantasias e frustrações e a sua concepção pueril das pessoas do mesmo
sexo.
O ponto de partida é uma autoimagem de inferioridade, concretamente, a de não pertencer
ao mundo dos homens ou das mulheres. Às vezes, estas sensações são plenamente conscientes: a
criança pode expressá-las, como aquele rapaz de dez anos que mais de uma vez se lamentava com a
mãe, quando lhe falava contrariado do seu relacionamento com os outros rapazes da escola: “sou
mesmo tão fraco!” (contou-me a mãe, quando veio para discutirmos a homossexualidade do filho).
Outros jovens podem ter as mesmas sensações sem verbalizá-las claramente; e podem se dar conta
30
somente depois de alguns anos: “Olhando para trás, me dou conta de que sempre me senti
deslocada e pouco atraente, comparada com as outras moças”, observava uma mulher lésbica, “mas
nunca tinha me dado conta disso”.
Mais ou menos conscientes, as crianças e os adolescentes sofrem por este sentido de
inferioridade que os corrói por dentro. Muitas vezes têm vergonha de admitir diante de si próprios
este sofrimento, porque o reconhecimento consciente da inferioridade pode ser uma experiência
desagradável, que ofende o Eu, o amor próprio, ou a importância do Eu infantil.
Os sentimentos de inferioridade de uma criança ou de um adolescente podem distorcer a
sua imagem das outras pessoas, algumas das quais podem lhes parecer superiores. No caso do
rapaz, outros rapazes podem parecer mais masculinos ou mais fortes. No caso da moça, outras
moças e algumas mulheres podem parecer mais femininas, mais belas, mais engraçadas, mais
próximas do ideal feminino. Neste modo de ver podem ter mais importância as características
físicas dos outros; em outros casos, prevalecem as atitudes e os comportamentos; mas, de uma
forma ou de outra, as pessoas do mesmo sexo, em particular algumas delas, são idealizadas e até
idolatradas.
Uma certa idealização das pessoas do mesmo sexo é normal durante a pré-adolescência e a
adolescência. Os rapazes da mesma idade são admiradores dos desportistas, heróis, aventureiros,
pioneiros: homens cheios de coragem, de força e de sucesso social. Sentem-se atraídos pelos
exemplos de homens dominadores: o vigor masculino e a audácia são tidos em grande apreço. Por
isso pode acontecer que admirem rapazes um pouco maiores, que são já “mais homens” que eles, e
os queiram imitar. Pela sua parte, as moças têm um particular interesse pelos atributos de graça e
feminidade das outras moças e mulheres mais maduras: admiram os dotes femininos para as
relações sociais, a graça feminina.
MASCULINIDADE E FEMINILIDADE: ESTEREÓTIPOS CULTURAIS?
Nesta altura não podemos deixar de fazer um inciso para comentar algumas considerações
sobre uma convicção relativamente comum, que pretende pôr de lado as ideias tradicionais de
masculinidade e feminilidade e os correspondentes “papéis” como simples produtos da cultura.
Segundo esta opinião, a cultura tradicional já teria ficado obsoleta e portanto seria já
desaconselhável “doutrinar” as crianças com os estereótipos dos vários papéis ligados ao sexo. Na
realidade, saber se os modelos de masculinidade e de feminilidade são naturais não é uma questão
decisiva para a explicação da homossexualidade que estamos a apresentar. Efetivamente, os
sentimentos homossexuais provêm de a pessoa se sentir deficiente na própria masculinidade e/ou
feminilidade, tal como é entendida pela criança (ou pelo adolescente) na sua comparação com os
outros. Portanto, em sentido estrito, é irrelevante se a masculinidade ou a feminilidade são relativas
ao contexto cultural ou são parte da herança biológica da pessoa, ou ainda ambas as coisas ao
mesmo tempo.
Contudo, a hipótese, admitida hoje por alguns, da equivalência dos sexos pode confundir
um juízo correto acerca dos comportamentos sexualmente desviados. Além disso, os sistemas
educativos que resultam dessa concepção igualitária dos rapazes e das moças põem gravemente em
perigo o seu desenvolvimento emocional saudável e, especialmente, o seu desenvolvimento sexual.
A teoria da equivalência é insustentável. Em todas as culturas e em todos os tempos e em
todo o mundo, os homens e as mulheres diferem entre si em várias dimensões fundamentais do
comportamento. A interpretação mais plausível desta constatação de fato está na hereditariedade.
31
Os rapazes e os homens são hereditariamente mais propensos, em relação às moças e às mulheres, a
uma tendência para o “domínio social”, para o exercício da autoridade na vida sociallx
; eles são os
“lutadores”, nos vários significados da palavra; e o seu modo de pensar é também mais orientado
para as coisas concretas. As mulheres, em contrapartida, estão mais orientadas para as pessoas,
reagem mais fortemente aos estímulos emocionais e são emocionalmente mais expressivas. Não é
uma mera questão de aprendizagem dos estereótipos tradicionais o fato de serem mais atentas e
conseguirem uma maior “empatia” emocional. Quem quiser se aprofundar neste tema controverso
pode ler a síntese elaborada por May sobre as investigações relativas a estas diferenças entre os
sexos, efetuadas com crianças de diversas culturas, incluída a nossa, com adultos e com alguns
primatas mais desenvolvidos que aparentemente apresentam as mesmas diversidades macho-
fêmealxi
.
Portanto, os papéis tradicionais ideais, hoje tão mal vistos, dos rapazes como “seguros”,
“fortes”, “leaders” e “dominadores do mundo”, e das moças sobretudo como “atentas” e
“afetuosas” contém muito mais que um só grãozinho de verdade. Isto não significa que se devam
exagerar as diferenças psicológicas nem que se possam deduzir delas regras rígidas e absolutas de
comportamento e relação, por exemplo, às ocupações concretas e às profissões mais adaptadas aos
homens e às mulheres. Mas significa que é antinatural atribuir os mesmos papéis sociais ou inverter
os papéis comportamentais dos rapazes e das moças (homens e mulheres). E significa que é
antinatural se comportar como se o fato de existirem diferentes percentagens de homens e de
mulheres em um certo número de profissões e funções fosse índice de “discriminação” e de
injustiça social. Isto quer dizer que deveria ser feita uma distinção clara na educação entre os papéis
atribuídos aos rapazes e às moças. Não é nada sábio, nem útil para toda a sociedade negar as
evidentes preferências e os dotes para certas ocupações e papéis relacionados com o sexo e não tirar
partido dessas capacidades e qualidades.
A psicologia humana é profundamente masculina ou feminina. Isto pode ser observado nas
crianças educadas quase sem nenhuma pressão que as oriente para os papéis correspondentes ao seu
gênero natural. Por exemplo, os rapazes educados como moças por uma mãe onipresente e
feminilizante, com quem se identificavam ou que imitavam, ou educados por pais idosos, numa
situação ambiental que não encorajava um comportamento de rapaz: mesmo esses, o que gostam, do
fundo do coração, é de coisas de rapazes, ainda que eventualmente o seu comportamento seja pouco
masculino. E, geralmente, admiram os outros rapazes que lhes parecem mais homens. Uma moça
educada com certas atitudes de desprezo pelas coisas de mulheres e pelo papel feminino (“cozinhar
e todas essas coisas de moça não são para mim!”) pode apesar de tudo ficar impressionada por
outras moças que irradiam feminilidade, admirando-as profundamente. Mais de uma vez observei
que as mulheres que lutam contra o “papel feminino opressivo” se sentem de fato inferiores nesse
papel. Na realidade, admiram as mulheres que abraçam livremente a própria feminilidade.
Isto pode ser visto de outra perspectiva. Jovens moças e rapazes que são serenos, felizes e
livres de conflitos interiores, nunca parecem sentir problemas de papel a desempenhar. Sentem certa
orientação masculina ou feminina nos vários domínios da vida como qualquer coisa de imediata
evidência; e nunca têm problemas com a relação “tradicional” homem-mulher.
Tendo em conta tudo isto, a atitude psicológica mais saudável consiste em tomar as
fundamentais diferenças de comportamento dos sexos como ponto de partida para construir as
relações entre homens e mulheres, dentro e fora do casamento. Dependendo do tempo e das
circunstâncias, as expressões concretas deste relacionamento podem mudar em parte, mas sem
abandonar o modelo estabelecido pela natureza. Os papéis dos dois sexos são complementares, em
conformidade com a natureza complementar das qualidades ligadas ao sexo. A abolição forçada dos
modelos normais de comportamento relacionados com o sexo, seja inspirada por frustrações
32
neuróticas ou por uma errada imposição igualitária, só pode levantar obstáculos às relações entre os
dois sexos e não ajuda a realização psicológica de nenhum.
A HOMOSSEXUALIDADE NO DESENVOLVIMENTO SEXUAL
As pessoas têm um impulso natural a se identificarem com o seu sexo. Um rapaz quer
pertencer ao mundo dos outros rapazes e dos homens, uma moça ao mundo das outras moças e das
mulheres. O desejo de ser reconhecido como rapaz (ou como moça) é inato também naqueles
rapazes e moças que têm um sentimento de inferioridade relativamente à sua masculinidade ou
feminilidade, respectivamente.
Como já se viu, o sentimento de inferioridade produz a autocompaixão e a auto-
dramatização. A amarga consciência de ser diferente — em sentido negativo — produz o desejo de
ser reconhecido e apreciado por aqueles que foram idealizados, como um deles. Às vezes este
desejo reveste formas de inveja, o que é compreensível por se basear numa compaixão de tipo
infantil: “coitadinho de mim! Gostaria de ser um deles”; ou então: “quem me dera que algum deles
reparasse em mim e se importasse comigo!”. O adolescente triste que se auto-compadece procura
sobretudo um contato: compreensão, consolo, compaixão, afeto. Acrescente-se a isto que ele se
sente só e frequentemente não tem facilidade de relação com os outros e se torna fácil entender que
o desejo de ser amigo de alguém admirado pode atingir uma grande intensidade. Isto acontece em
primeiro lugar na imaginação do adolescente. Ele pode “se apaixonar” (desta maneira peculiar) de
qualquer companheiro da sua idade, frequentemente um pouco mais velho. É geralmente um amor à
distância. A tendência emocional íntima é, em qualquer caso: “nunca conseguirei! Nunca serei
capaz de conquistar a sua atenção e o seu amor”. É um desejo de calor e de estima desencadeado
pela autocompaixão, justamente na idade em que a orientação sexual, até aí indiferenciada, começa
a despertar. Uma necessidade patética de afeto pode então conduzir a fantasias eróticas de
intimidade com qualquer amigo admirado. Noutros casos, o desejo de contato físico e proximidade
física não é completamente claro para o próprio adolescente, embora ele seja capaz de se dar conta,
a seguir, de que estava latente. Olhar outros rapazes pelas ruas intencionalmente é talvez o sintoma
mais comum do despertar das atrações homoeróticas. O adolescente quer tocar e acariciar os objetos
da sua admiração e ser acariciado por eles, estar perto deles, ter intimidade com eles, sentir a sua
atenção e o calor do seu afeto. “Se ele me amasse!”, suspira o rapaz. A extensão natural desta
necessidade de calor e de amor é uma ânsia erótica. Isto não é estranho, como poderia parecer.
Nesse momento particular do desenvolvimento psicológico que corresponde à pré-adolescência e ao
início da adolescência, o instinto sexual se encontra no estágio inicial do seu desabrochar, não tendo
ainda chegado à sua meta final, o sexo oposto; por isso, é possível que um rapaz, durante esta fase
de gradual maturação das emoções sexuais, desenvolva sentimentos e sensações eróticas orientadas
para uma pessoa do mesmo sexo. Isto pode acontecer mais facilmente no caso de rapazes e de
moças que já se sintam excluídos da companhia dos outros ou se sintam sós e inferiores, desejosos
de afeto. Então, o seu interesse e admiração pelas aparências físicas ou características da
personalidade de outras pessoas pertencentes ao mesmo sexo adquirem uma dimensão erótica; os
sonhos eróticos de olhos abertos ou as fantasias da masturbação giram assim em volta das figuras
das pessoas adoradas do mesmo sexo, e o desejo homossexual aparece.
Normalmente, o interesse transitório por pessoas do mesmo sexo, com tintas mais ou menos
eróticas, se dissipa quando o rapaz ou a moça, crescendo, descobre os aspectos sexuais muito mais
atraentes do outro sexo. Contudo, este interesse adquire uma especial profundidade no caso da
criança que se auto-compadece, esmagada pela compaixão de inferioridade a respeito precisamente
da sua própria identidade sexual. Para essa criança ou esse adolescente, um contato físico com
qualquer um dos adorados torna-se o cumprimento de uma apaixonada ânsia de amor e de
aceitação, o auge da felicidade. Um contato dessa natureza teria o poder de afastar, na mente do
33
patético adolescente, qualquer miséria interior, qualquer inferioridade e solidão. Neste modo, se
pode criar, durante a adolescência, uma interligação entre o desejo de contato da criança que se
sente merecedora de compaixão e o erotismo.
A inveja de uma pessoa do mesmo sexo é passiva, um desejo de ser tratada com afeto; não é
uma experiência feliz e alegre, como a do apaixonado normal: parte de uma sensação de desespero,
uma espécie de aflição. Este pedido de amor está, de maneira evidente, orientado para a própria
pessoa; o amor homoerótico é egocêntrico, “narcisista”.
As sensações homoeróticas, que seguem aproximadamente as linhas gerais descritas acima,
podem ser relativamente fracas no início, mas depois vão se tornando cada vez mais intensas. Este
reforço é frequentemente causado pelo agravamento do sentimento de solidão. A contribuição das
fantasias eróticas na masturbação pode multiplicá-las consideravelmente. A dada altura, esta busca
erótica da “criança que se compadece”, ganha independência na vida emocional, formando aquilo a
que se chama um “complexo”. É como se a mente tivesse se tornado psicodependente desta mistura
de autocompaixão e ansiedade erótica.
Muitas pessoas com inclinações homossexuais veem a sua própria tendência sexual como
uma obsessão, crónica ou transitória. Os seus sentimentos sexuais absorvem muitas vezes grande
parte da sua atenção e ocupam a maior parte dos pensamentos, mais que nas pessoas heterossexuais.
Os impulsos homossexuais têm um efeito realmente opressivo, se assemelhando às outras
perturbações neuróticas, tais como as fobias, as ânsias obsessivas e as neuroses obsessivo-
compulsivas. Não dão trégua para o indivíduo que sofre dela. A força motriz desta situação
opressiva é a insatisfação associada ao lamento de inferioridade. Isto torna o desejo insaciável,
porque a própria ferida sangra de modo persistente.
Uma relação homossexual não pode trazer satisfação ou dar certa felicidade, a não ser uma
satisfação emocional de curta duração. A fonte ideal de calor afetivo só existe na imaginação
insaciável de quem sofre deste complexo e, portanto, nunca é encontrada. O sociólogo alemão
Dannecker, que se auto-define homossexual, atraiu sobre si a fúria do movimento homossexual
quando declarou frontalmente que a “fiel amizade homossexual” é um mito. O mito, acrescenta ele
cinicamente, pode ter alguma utilidade para habituar a sociedade ao fenômeno da
homossexualidade —a proclamada “amizade duradoura” vende-se melhor—, mas agora deveríamos
acabar por aceitar a situação na sua efetiva realidade e conseguir que a opinião pública a aceite. Esta
realidade, admite ele, é que nós buscamos vários parceiros, devido à nossa “inclinação”. Dannecker
confirma a sua afirmação apresentando comparações estatísticas com as pessoas heterossexuaislxii
. O
que ele afirma não é novo, ilustra apenas o carácter compulsivo da homossexualidade, o seu frenesi
próprio. A homossexualidade não é “gay”*, alegre: é uma psicodependência sufocante.
(* O autor opta por fazer um jogo de palavras com “gay” e seu significado literal “alegre”)
Um exemplo do curso inevitável dos acontecimentos é o de um homem com orientação
homossexual que tinha pensado encontrar finalmente, depois de anos de relações ocasionais, um
companheiro para amar por toda a vida: “A princípio, pensei ter encontrado a mim mesmo na sua
companhia. Estava seguro de que a agitação que sempre havia tido derivava da necessidade de um
parceiro fixo. No entanto, o estranho é que a mesma agitação voltou e bastante depressa. Mais uma
vez, me vi na necessidade de me conceder relações furtivas, apesar da boa relação com o meu
parceiro (durante um par de meses)”. A conclusão deste homem foi a de que a homossexualidade
deveria ser efetivamente uma opressão neurótica (embora não tivesse a certeza de que queria se ver
livre dela).
34
Em resumo, inconscientemente, o homossexual não está a caminho de encontrar alguém e
de ser feliz, mas da amargura e do sofrimento exigidos pela necessidade de alimentar a auto-
dramatização.
35
6- ORIGEM E MECANISMOS DO COMPLEXO HOMOSSEXUAL
Há pessoas que desenvolvem o complexo de ser abandonadas pelos outros, outras de ser
incompreendidas, outras ainda de ser um desastre, de ser incompetentes, de não ser aceitas, e assim
por diante. A sua autoimagem de inferioridade (“eu não passo de...”) é invariavelmente e
estreitamente acompanhada pela autocompaixão e pela sensação de “coitadinho de mim!”. É
característico do complexo homossexual o estar associado a sentimentos de inferioridade relativos à
própria identidade sexual. Por que é que algumas pessoas desenvolvem na sua juventude um
complexo homossexual e outras um complexo de inferioridade de tipo não sexual?
ORIGEM NO HOMEM
Um rapaz pode acabar por se sentir menos masculino, menos viril, quando é educado de
maneira hiper-protetora e hiper-ansiosa por uma mãe intrometida e quando o pai teve uma
importância muito pequena na sua educaçãolxiii
. Na maior parte dos casos, a combinação destes dois
estilos de educação materna e paterna criou a predisposição para o desenvolvimento do complexo
homossexual.
Antes de continuar, convém fazer uma pausa para um comentário breve sobre a questão da
culpalxiv
. Ao avaliar as faltas e as deficiências dos pais em relação aos filhos pode parecer que se
aponta o dedo contra eles; mas não é assim. Em primeiro lugar, a abordagem que fazemos é de
natureza psicológica e não moral, o que significa que nos limitamos a apontar certas correlações que
se observam entre o comportamento dos pais e o comportamento correspondente dos filhos. Em
segundo lugar, as deficiências e debilidades da personalidade verificadas numa certa porcentagem
dos pais das pessoas inclinadas à homossexualidade não podem ser imputadas a eles
simplisticamente como uma culpa. Normalmente estes pais atuam de acordo com modelos de que
dificilmente têm consciência e, muitas vezes, não estão em condições de ver com clareza como
algumas das suas maneiras de tratar um filho podem prejudicá-lo. Além disso, os pais também são
em parte o produto da sua própria infância. Não elimino o seu livre arbítrio e, portanto, a sua
responsabilidade moral; haverá certa parte de culpa, pois ninguém pode dizer que foi
completamente programado pela educação e pelas circunstâncias em que cresceu. Contudo, a
dimensão da culpa dos pais não pode ser avaliada como maior do que a de quaisquer outros pais em
relação aos erros cometidos na educação dos filhos. A natureza das nossas deficiências como pais
pode ser diferente, mas todos nós temos hábitos egocêntricos e outras debilidades, sejamos ou não
conscientes delas. Portanto, embora os pais das pessoas com orientação homossexual possam ter a
sua parte de culpa, em geral, ela será provavelmente semelhante à dos outros pais.
As pessoas com tendências neuróticas para a lamúria têm às vezes uma atitude de
reprovação pelo que os pais lhes fizeram. É preciso perceber que isto pode ser mais um tipo de
lamentação. Além do que as longas recriminações contra os pais — de que a pessoa se lamenta e se
sente vítima — são quase sempre baseadas numa visão não realista dos pais. A visão da criança que
se queixa dos pais é, por definição, uma visão infantil, condicionada por sensações centradas no
próprio eu. É necessário corrigir esta distorção se queremos que a pessoa fique emocionalmente
mais madura. Os neuróticos homossexuais que se lamentam podem ter tendência para continuar a
sentir e a exprimir queixas em relação aos comportamentos errados dos seus pais. De fato, isto
alimenta a atitude de “criança queixosa” e, portanto, os laços infantis que a prendem à mãe e ao pai,
laços ao mesmo tempo de apego doentio e de aversão.
36
Os cristãos têm mais uma razão para superar essa lamentação persistente sobre os erros dos
pais, se compreenderem que devem perdoar. De fato, isso pode constituir uma vantagem, pois
alguns casos de pacientes com tendências homossexuais mostram justamente que o progresso
terapêutico pode ser bloqueado pela incapacidade ou pela falta de vontade de perdoar ao pai ou à
mãe.
Outra consequência de alimentar as queixas infantis em relação aos pais é essa atitude
impedir a pessoa de assumir as suas próprias responsabilidades. Por outras palavras, a “criança
queixosa” que está dentro do neurótico, e que proclama “não posso fazer nada”, não aceita a
responsabilidade do seu comportamento e das suas inclinações.
Chegamos assim à questão da eventual culpabilidade do neurótico homossexual. Será ele
responsável pela sua situação? Ou é completamente vítima da sua doença, um doente passivo? A
resposta deve evitar os dois extremos. O neurótico homossexual, como qualquer outra pessoa
neurótica e como qualquer outro ser humano, não é inteiramente inocente. Todas as fraquezas
humanas e os hábitos emocionais de um ser humano médio —categoria a que pertencem também as
pessoas com orientação homossexual— foram crescendo por terem lhes dado corda. Isto também se
aplica à autocompaixão, ao costume de dar mimo a si próprio, de cair na autoafirmação infantil e de
saborear a própria importância, de chamar a atenção, etc. Pode haver certo grau de culpa quando a
pessoa inclinada à homossexualidade segue muito facilmente aos seus impulsos, mediante a
masturbação ou procurando relações; e pode haver ainda mais responsabilidade se justifica o seu
comportamento e o favorece. Mas esta conjectura é tudo o que podemos dizer sobre o assunto. É
inquestionável que há uma boa parte de automatismo em um complexo neurótico, e as culpas só em
parte podem ser atribuídas à pessoa; aliás, é assim com todas as doenças do carácter e da
personalidade (não tomamos aqui em consideração as pessoas afetadas por verdadeiras doenças
mentais, como os esquizofrênicos).
AS RELAÇÕES COM OS PAIS
Verifica-se que em 60 a 70% dos casos a mãe foi excessivamente “possessiva”:
excessivamente preocupada, hiper-protetora, ansiosa, autoritária, intriguista ou mãe-galinha; ela
aconchegou muitas vezes o filho nesse ambiente mimado, ou tratou-o como favorito e confidente
privilegiado. Ora, este relacionamento contribui para tornar o rapaz dependente e fraco, sufoca o
seu espírito de iniciativa e o impede de adquirir coragem e confiança em si próprio. Uma mãe
demasiado preocupada e ansiosa transmite ao filho a sua atitude de medo pela vida; uma mãe que
quer decidir tudo em lugar do filho anula a sua vontade e a sua iniciativa. Os rapazes educados
deste modo correspondem bem pouco àquele maroto travesso que há dentro de qualquer rapaz
normal; são super-obedientes e inibidos.
Pode também acontecer que um filho se torne excessivamente apegado à mãe por causa do
desmesurado afeto da mãe — essencialmente egocêntrico — e dos mimos que colocam o filho
numa posição muito privilegiada. É então provável que ele queira voltar à atmosfera aconchegante
e segura da mãe, tão logo o mundo externo não o trate com amabilidade. Quem quiser um exemplo
dos efeitos perniciosos deste amor doentio mãe-filho deveria ler a biografia do romancista francês
Marcel Proust: na adolescência chegou a escrever cartas de amor à sua mãe, embora vivessem na
mesma casa!
Em certos casos, o amor da mãe é ao mesmo tempo opressivo. Por exemplo, quando a mãe
ameaça fazer cenas histéricas se o filho não for carinhoso com ela. Em outros casos, impõe-se ao
filho de um modo amigável, mas se impõe da mesma forma.
37
Por mais que os militantes homossexuais e reformadores sexuais tentem minimizar esta
situação, com atitudes liberalizantes, é um fato indiscutível que as mães ocuparam um lugar
excessivamente central na educação da vida emocional de numerosos homens homossexuais. Por
causa disso, o rapaz se tornou excessivamente dependente dela e, no seu íntimo de “criança
queixosa”, conserva intacta esta atitude para com a mãe. Esta “criança” tenderá a viver tal atitude
também com outras mulheres, como imagens da mãe. É assim que alguns viraram os “meninos
queridos da mãe”, “a criança obediente e temerosa”, o “menino dependente” e, às vezes, “o rapaz
reprimido e tiranizado”. Estas ligações com a mãe não são saudáveis e inibem seriamente a entrada
do filho na vida adulta.
O investigador e terapeuta I. Bieber, se referindo a um grande número de entrevistas com
homens afligidos por sentimentos homossexuais, realizadas ao longo da sua vida profissional,
escreve não ter encontrado um só caso de homem homossexual em que houvesse um
relacionamento pai-filho normallxv
. A minha experiência é idêntica. Uma análise mais aprofundada
de uma série de fatores psicológicos infantis em um subgrupo de 120 pacientes meus, homens, com
este problema, mostrou dois ou no máximo três casos em que a relação pai-filho poderia ser
considerada boa. Mas também nestes casos a relação com o pai era à distância. O pai de um destes
homens com tendências homossexuais já era idoso quando o filho nasceu e em um outro caso a
ligação afetiva entre o pai e o filho me pareceu bastante tênue. Portanto, podemos dizer que
raramente a relação pai-filho é positiva: um homem que desenvolve um complexo de inferioridade
homossexual encontrou geralmente no seu pai a imagem de um pai insuficiente.
A relação deficiente com o pai pode ter diversas causas. As vezes, um pai psicologicamente
distante se descuida de um filho, por exemplo, um dos mais pequenos de uma família relativamente
numerosa: o interesse do pai pode ter se concentrado nos filhos mais velhos. Em alguns casos, o pai
considera o rapaz como incumbência da mulher: a existência de um laço exclusivista mãe-filho
pode ter condicionado este tipo de atitude do pai.
Um exemplo eloquente deste tipo de situação é o do romancista holandês Louis Couperus,
que viveu no início do nosso século. Ele desenvolveu um complexo de inferioridade julgando «ser
um inepto». Esta autoimagem teve origem no fato de se sentir ferido pela falta de estima da parte do
pai. Este tinha deixado Louis, o filho mais novo, aos cuidados da mãe e das irmãs mais velhas e não
o tinha aceitado no seu próprio mundo que partilhava com os irmãos mais velhos do rapazlxvi
.
Em outros casos, o pai estava muito ocupado para passar tempo suficiente com a família e,
em particular, com algum dos rapazes. Outro grupo de pais era formado por exemplos típicos das
chamadas “personalidades fracas”, eles próprios não eram suficientemente masculinos, mas
dependentes, temerosos, às vezes excessivamente apoiados nas suas mulheres; eram modelos fracos
de virilidade, de modo que os filhos tiveram um modelo deficiente com o qual se identificar.
Pertencem a esta categoria os pais, eventualmente idosos, com falta de dinamismo juvenil
necessário ao desenvolvimento dos seus filhos, os pais que não jogam com eles e não encorajam a
sua atividade de rapazes. O resultado é o comportamento dos filhos se tornar artificial, semelhante
ao de uns “pequenos velhinhos”.
Em cerca de um quarto da minha casuística e da de outros investigadores, constatou-se que
o filho tinha um conceito decididamente negativo do pai. O pai o criticava, não o encorajava, de
modo que o filho se sentia rejeitado pelo homem mais importante do seu pequeno mundo. O rapaz
também se sentia ferido pelo fato de o pai o comparar continuamente com os irmãos e as irmãs.
38
Numa certa porcentagem de casos — provavelmente cerca de 20% — o sentimento de ter sido
rejeitado pelo pai parece ter sido a fator crucial do trauma psíquico, que fez com que o rapaz se
sentisse excluído do mundo dos homens.
Para um rapaz, o pai é o protótipo do homem e sentir-se apreciado pelo pai é essencial para
a sua autoconfiança como homem. A mesma coisa é válida para as moças, em relação à mãe.
OUTRAS INFLUÊNCIAS
Nos rapazes, em média, a influência do fator paterno me parece maior que a do fator
materno, mas as possibilidades de uma evolução homossexual ficam substancialmente acrescidas
na presença de ambos os fatores. Regra geral, a homossexualidade masculina é o resultado desta
combinação das deficiências do pai e da mãe.
Em relação a isto, convém notar que, em uma grande parte dos casos que pudemos
acompanhar, existiam problemas profundos do casal. Estes problemas eram geralmente deste tipo:
às vezes a mãe era claramente a personalidade mais “forte”, mais dominante, e obrigava o marido a
se afastar para o segundo plano. Às vezes, a mãe sofria por ser abandonada pelo marido e a sua
insatisfação a levava a estar mais próxima de um dos filhos. Como, a princípio, uma mulher tem a
tendência natural a fazer de um dos homens do seu ambiente o “seu homem”, se não tem uma
ligação emocional forte com o marido, pode acabar por criar alternativas na ligação com o filho.
Naturalmente, podem ocorrer diversos tipos de tensões no casal, tanto originados em
diversos hábitos egocêntricos como nas modalidades ainda infantis de agir e de reagir que a pessoa
transporta para a vida matrimonial. O que é fato é que a frequência de casais relativamente
harmoniosos é mais baixa nos pais das pessoas com sentimentos homossexuais do que nos casais
cujos filhos não desenvolveram este complexo. Isto ajuda a compreender, mais uma vez, que a
homossexualidade não é apenas um fenômeno do indivíduo afetado, mas também é sintoma de
desequilíbrio na família e, muitas vezes, sinal de discórdia entre os pais.
Por outro lado, a personalidade dos pais, as suas relações recíprocas e com os filhos, além
da forma seguida na educação dos filhos, não são os fatores únicos que predispõem à
homossexualidade. Dentro da própria família, alguns dos seguintes fatores podem contribuir para
uma evolução neste sentido: posição do rapaz na série dos filhos; proporção entre rapazes e moças;
rivalidade entre os filhos ou problemas muito agudos. Por exemplo, segundo certos estudos, os
homens com orientação homossexual são, com mais frequência que nos heterossexuais, os filhos
mais novos de famílias numerosas. Isto sugere uma maior hiper-proteção por parte da mãe e talvez
um pai mais idoso e distante. Alguns homens com este complexo provinham de famílias com mais
rapazes que moças, situação que pode ter induzido a mãe a tratar algum dos filhos como uma filha.
Além disso, um rapaz pode ser levado a desenvolver este complexo ao se ver como o mais fraco, o
menos viril dos seus irmãos, como resultado de se comparar com eles, ou da maneira de eles
mexem ou tiraram sarro dele. O fator “mexer com ele” foi extremamente importante em um certo
número de pessoas que conheci, vítimas deste complexo de inferioridade. Noutros casos, a
comparação com algum irmão considerado mais resoluto e mais vigoroso parece ter sido o fator que
fez a balança pender para o lado errado.
Enfim, é preciso sublinhar a importância dos fatores de predisposição tais como se
considerar feio e fisicamente débil. Um rapaz que sofreu durante certo tempo com a ideia de ser
flácido, adoentado, asmático, muito baixo, muito magro ou muito gordo, pode entender estas
autoimagens como variantes de ser pouco atraente, nada forte, na qualidade de homem.
39
A conjugação da influência dos pais com a de outros fatores pode ser a perda de
masculinidade no comportamento e nos interesses e em particular a perda da capacidade de ousar e
da confiança em si próprio em atividades juvenis, como o competir. O rapaz foge dessas atividades
dizendo: “Não são para mim”. Por exemplo, as estatísticas revelam que a maior parte dos homens
com este complexo teve uma clara aversão infantil pelo futebol e outros jogos de grupo. Esses jogos
são uma espécie de modelo das atividades juvenis dos rapazes na nossa cultura; exigem competir
com outros rapazes e certo espírito de luta, e são índice da capacidade de adaptação ao grupo dos
rapazes da mesma idadelxvii
.
O passo seguinte na evolução do complexo homossexual é decisivo. Trata-se da
comparação que o rapaz faz de si próprio com os outros rapazes da mesma idade. Se um rapaz, que
tenha por trás as influências familiares negativas já descritas, consegue ultrapassar as dificuldades
das atividades dos rapazes e entrar assim no seu mundo, eventualmente com o encorajamento dos
outros, o perigo de cair na homossexualidade fica definitivamente posto de lado. Mas, às vezes, as
coisas não se encaminham desta maneira positiva e, em lugar de conquistar um lugar entre os pares,
o rapaz se retira desencorajado, oprimido pela sensação de insuficiência e pela autocompaixão; se
consegue ter algum amigo, será alguém posto de lado, como ele; sente-se só e marginalizado.
Frequentemente, os rapazes nesta situação são alvo de chacota pela sua falta de audácia, porque são
“umas meninas”, “uns maricas”, e assim por diante.
Muitos passaram através de um período de pré-adolescência ou de adolescência feito de
solidão e de depressão. Começa então o terceiro passo no processo evolutivo. O rapaz sonha ser
como os outros e ter um amigo semelhante a ele. O desejo homoerótico de compaixão e de conforto
se associa com o desencadear da auto-dramatização.
Do ponto de vista estatístico, a homossexualidade está ainda mais estreitamente ligada a estes
fatores de “adaptação social”, ou “fatores de paridade”, que aos fatores relativos aos pais ou às
situações familiareslxviii
. O drama interior destes homens quando eram crianças ou adolescentes era
de não poderem sentir-se efetivamente parte da comunidade dos rapazes.
ORIGEM NA MULHER
A situação da moça que acaba por sentir uma atração homossexual por outras mulheres é
sob vários aspectos simétrica a do rapaz, embora a comparação não seja absoluta, pois a variedade
dos fatores preparatórios é maior que no homemlxix
.
Quando eram crianças, muitas mulheres com inclinações lésbicas tiveram a sensação de não
serem compreendidas pela mãe. Esta sensação de distância da mãe apresenta muitas facetas. Um
exemplo significativo é o de uma mulher que me dizia: “A minha mãe fez tudo por mim, mas era
muito difícil conseguir falar com ela das minhas coisas pessoais e do meu mundo afetivo”. Outras
queixas: “A minha mãe nunca tinha tempo para mim”; “A minha mãe se dava muito mais com a
minha irmã do que comigo”; “Ela tratava de todas as coisas por mim e fez com que eu ficasse uma
criancinha pequena”; “Ela estava muitas vezes doente”; “Esteve internada várias vezes em um
hospital psiquiátrico”; “Abandonou a família quando eu era ainda pequena”; etc.
Às vezes a moça teve de assumir o papel materno relativamente ao resto da família, por ser
a irmã mais velha, ou teve de se fazer de mãe por esta não exercer a função como devia. Empurrada
para esta situação, a moça sentiu-se, ela própria, privada do calor de uma mãe que a compreendesse.
40
Também há casos em que a mãe se sentiu inibida como mulher, não ficando à vontade no
seu papel feminino, inspirando à filha uma atitude critica contra aquilo que entendia por papel
feminino, transferindo essa imagem à filha, de modo que a moça alimentou uma atitude de rejeição
contra a sua própria natureza feminina. Algumas mulheres lésbicas tinham a impressão de que a sua
mãe teria preferido um filho homem em vez delas e, portanto, sentiram-se levadas a imitar
comportamentos e proezas de rapaz, em lugar dos que seriam próprios de uma moça.
É a mãe que contribui em primeiro lugar para a confiança de uma moça em si própria como
mulher. Quando a mãe consegue que a sua filha se sinta apreciada como mulher, a moça se sentirá à
vontade no mundo feminino e entre as companheiras da sua idade. Nas mulheres com orientação
homossexual, muito frequentemente, o relacionamento com a mãe não era pessoal e confidencial;
não havia partilha de interesses femininos, nenhuma atividade de carácter feminino realizada em
conjunto. Em consequência, a moça não se sentiu devidamente apreciada como uma moça: quer
dizer, diferente de um rapaz, mas tão digna de apreço como ele.
O modelo das relações pai-filha também parece assumir um número considerável de
variantes. Algumas mulheres com tendências lésbicas estavam excessivamente apegadas ao pai
como o “amigo especial”. Às vezes esta dependência era uma espécie de escravidão, pois o pai
queria que desempenhassem uma função especifica, de modo que a relação não era natural e livre
de coação. Em alguns casos o pai teria preferido que a filha fosse um filho, um camarada, e
estimulava nela certas atitudes, interesses, atividades de tipo masculino, dando uma importância
desproporcionada, por exemplo, aos seus resultados profissionais na escola ou às suas classificações
desportivas ou ao desempenho de papéis sociais importantes. Compreensivelmente, a moça sentia-
se incompreendida no seu íntimo e não aceita de forma realista como a pessoa que de fato era.
Em outros casos, o pai via na filha o apoio e o conforto de uma figura materna, tinha o
costume de exaltá-la e colocá-la em uma situação privilegiada mas, na realidade, fazia isto para
comprar a sua dedicação. Também se registaram casos de pais com personalidade fraca, que se
apoiavam excessivamente na mulher. Em todas estas situações, os laços emocionais da mulher
lésbica adulta com o pai continuam a girar à volta da “criança de antigamente”, que ela leva em si.
Ao contrário, outras mulheres com este problema não tinham sido as «meninas do papai»
mas antes as filhas não desejadas e não aceitas, pelo menos a julgar pelo modo em que elas próprias
viram a sua situação. Frequentemente eram criticadas, sentiam o desprezo ou pelo menos a falta de
interesse em relação a elas. Os comportamentos e interesses masculinos hiper-compensativos de
algumas destas mulheres podem ser atribuídos a uma reação contra esta atitude de não aceitação por
parte do pai, levando a moça a olhar o papel masculino como superior e procurando desempenhá-lo.
Foi assim que, as sensações negativas contra o pai juntamente com os esforços masculinizantes
hiper-compensativos, com o objetivo de viver ao seu nível e de conquistar o seu apreço,
convergiram no complexo neurótico.
Para concluir, uma boa e normal relação pai-filha é estatisticamente menos frequente nas
mulheres com orientação homossexual que nas mulheres heterossexuais.
OUTRAS INFLUÊNCIAS
Em algumas mulheres, um complexo de serem feias, de se sentirem menos femininas ou
menos atraentes como moças, pode ter tido uma influência como fator desencadeante da evolução
homossexual. Em outros casos, o impulso partiu da comparação com uma irmã, considerada (pela
própria moça ou pelo ambiente) como mais atraente ou melhor sob outros aspectos. Em outros
41
casos ainda, a moça sentia-se inferior em relação aos seus irmãos — “sou apenas uma moça” —,
procurando imitá-los na sua masculinidade. Na adolescência, o tipo de atenção de que foi objeto por
parte do outro sexo pode ter aberto a ferida: “Não me acham atraente como as outras moças”, “Não
me convidam”, e situações semelhantes. Uma moça que se sente menos apreciada pelos rapazes
pode chegar a admirar a feminilidade de outras moças em que os outros reparam mais. Alguns
fatores de predisposição como os mencionados acima atuam e se reforçam mutuamente, tanto nas
moças como nos rapazes.
Uma parte das moças que posteriormente desenvolveu um complexo lésbico se comportava
de certo modo menos como moças ou como mulheres do que corresponderia à sua idade; isto
produzia nelas uma impressão de insegurança no papel feminino, com possíveis reações hiper-
compensativas, tais como o assumir atitudes de desleixo e indiferença, de querer liderar e dominar à
viva força, procurando superar os rapazes em masculinidade, ousando tudo, se comportando de
modo agressivo, sendo rudes e duras. Podem ter mesmo alimentado um manifesto desagrado pelos
comportamentos, os vestidos e as atividades domésticas femininas. Esta afirmação masculina de
hiper-compensação aparece marcada pela perda da doçura natural. Aliás, esta segurança é uma
exibição: se percebe bem toda a tensão emocional que corre por baixo.
Isto não quer dizer que as mulheres com este complexo tendam sempre a se comportar de
modo “masculino”; nem que as mulheres que assumem aquelas atitudes tenham por dedução
inclinações lésbicas; mas existe uma correlação. De qualquer modo, um comportamento
excessivamente masculino nas mulheres é quase sempre um sintoma de complexo de inferioridade.
O principal fator no desenvolvimento de uma orientação lésbica é a comparação que a moça
faz com as outras da mesma idade e com certas mulheres “ideais” mais maduras. Tal como no caso
dos rapazes, o fator crucial é subjetivo, isto é, a imagem que a moça tem de si mesma. Por esta
razão, às vezes, embora não seja o mais frequente, uma moça cujo comportamento, objetivamente,
seja perfeitamente feminino pode evoluir no sentido de um complexo lésbico.
Na adolescência uma moça quer ter amigas e ser uma delas. A sua solidão e o seu sentido de
marginalização fazem suspirar por amigas admiradas ou algumas figuras de mulheres ideais. Se
uma moça se sente privada do afeto e da compreensão da mãe, pode se voltar para um tipo de
mulher ideal que possui aos seus olhos as características maternais desejáveis: por exemplo, uma
professora afetuosa ou condescendente, ou uma moça mais velha que se apresenta com atitudes
maternais. A moça que se auto-compadece quer ter a atenção exclusiva do seu ídolo e se agarra a
essa esperança: “Quem me dera que ela me quisesse me dar o seu amor!”.
“A queixa de muitas mulheres lésbicas era que bem poucas tiveram verdadeiras amizades
na sua adolescência”, escrevem os psicólogos americanos Gundlach e Riess nas conclusões de uma
investigação sobre mais de 200 mulheres socialmente bem adaptadas que sofriam deste complexolxx
.
A “criança queixosa” interior continua a se alimentar dos mesmos sentimentos que tinha na
juventude: inferioridade, solidão, autocompaixão e uma ânsia insaciável.
42
7- MANIFESTAÇÕES DO COMPLEXO HOMOSSEXUAL
Quando se tenta mostrar a verdadeira natureza do amor homossexual, se encontra
frequentemente uma resistência indignada. “Porque não me deixa ser feliz, se eu sou assim?”, é a
exclamação dramática, facilmente previsível. No entanto, a questão não está em ser ou não
permitido, mas em ser “vivível”. Muitas pessoas com orientação homossexual não estão nada
dispostas a se privar dos seus sentimentos ilusórios, como os alcoólicos ou os toxicodependentes
não querem se abster dos seus estimulantes.
A partir da experiência clínica e da literatura científica existente sobre o tema podem ser
delineadas algumas características gerais do complexo homossexual, tanto nos homens como nas
mulheres.
1. A busca repetitiva de um amante. Embora as mulheres com orientação
homossexual tenham em média relações de maior duração que os homens com orientação
homossexual, as relações nunca duram pelos anos afora. A dependência neurótica das sensações
de ânsias insatisfeitas — em outras palavras, os lamentos neuróticos — apertam as esporas e
obrigam a correr sempre, atrás de novas ilusões.
O desejo homossexual é transitório e superficial. Os desejos homossexuais e a sede de
calor e de compaixão a eles associada podem ser vistos pela pessoa como a coisa mais bela e mais
profunda na vida de alguém. Isto já é um autoengano. Os apetites homossexuais, exaltados às vezes
como «puro amor» e como um amor mais profundo que o amor entre marido e mulher, na realidade,
não têm nada a ver com o verdadeiro amor. Trata-se de um “amor” centrado sobre a própria pessoa;
é um pedir, até mesmo um suplicar, carinho e atenção. Este fato se manifesta claramente no modo
em que as relações homossexuais costumam terminar. Como o parceiro serve para satisfazer as
exigências de um Eu infantil, mas não é realmente amado como pessoa, o resultado é que se pode
viver agarrado ao parceiro e, ao mesmo tempo, sentir uma profunda e completa indiferença por ele.
É significativo que estas pessoas possam falar das suas relações passadas sem nenhuma emoção,
como crianças que descartam um brinquedo em que já não estão interessadas.
As pessoas com inclinações homossexuais, tal como os outros neuróticos, sofrem de uma
autocompaixão compulsiva. Nem todas exprimem a sua autocompaixão e a tendência a se
autoconsolar com palavras dramáticas e lamentos verbais, mas quando se começa a conhecê-las um
pouco melhor, se torna quase sempre manifesto um pano de fundo de autocompaixão. Tendem a
pensar em termos de problemas e temores: algumas pessoas são evidentemente hiper-emotivas;
outras são do tipo chorão; outras são hipercríticas relativamente a si próprias e aos outros; algumas
se queixam regularmente de mal-estar físico (que dramatizam); outras sofrem depressões, passam, a
intervalos de tempo regulares, através de “crises neuróticas” ou se lamentam da solidão, da sua
própria apatia, das suas dificuldades nas relações humanas, etc. A boa disposição e a verdadeira
alegria são exatamente o oposto desta patologia queixosa. É verdade que alguns homossexuais
representam o papel do brincalhão descontraído, mas um exame um pouco mais atento deixa ver,
por trás da representação, a criança deprimida que se compadece. Essa atitude pode ser uma forma
pueril de atrair a atenção e a admiração sobre o próprio Eu infantil. Por baixo, há sempre agitação.
4. As pessoas com inclinações homossexuais têm uma espécie de fome de atenção,
que pode se traduzir de várias maneiras. Uma delas é se impor aos outros para absorver a sua
43
atenção; outra é se apresentar de propósito como vítima e apelar aos sentimentos de compaixão dos
outros, para obter ajuda e proteção; outra é se impor no ambiente, monopolizando-o, precisamente
como as crianças fazem às vezes. Procuram principalmente a atenção de certo parceiro desejado,
mas este chamar a atenção pode se generalizar como a maneira habitual de se relacionar com os
outros.
5. Outra característica universal do neurótico é o estar centrado em si mesmo. Isto
implica que os sentimentos e os pensamentos girem em torno do eu, tornando-os incapazes de se
abrirem aos outros e de os amarem verdadeiramente. “O meu marido faz de tudo para as pessoas à
sua volta”, me disse uma vez a mulher de um homem casado homossexual, “mas é incapaz de ter
amor, nem sabe o que isso é”. Quanto mais o complexo homossexual predomina na vida emocional
da pessoa, tanto mais esta descrição corresponde à verdade.
6. No adulto, a “criança que se auto-compadece” mantém a vida emocional a um
nível de imaturidade também em outros campos, para além do sexual. O infantilismo emocional
das pessoas que têm um complexo homossexual faz com que elas se comportem e pensem como
crianças e, em particular, as leva a reprimir o crescimento emocional normal, em maior ou menor
grau, conforme a força do complexo.
7. O fato de ficar em parte como uma criança repercute também no relacionamento
com os pais. Por isso, os homens com este complexo têm frequentemente certa “ligação com a mãe”
ou alimentam uma atitude de reprovação ou de hostilidade para com o pai, típica de uma “ligação
negativa com o pai”. Nas mulheres lésbicas acontece algo semelhante. A ligação estabelecida com
os pais, mantida sem evolução, pode conter elementos ambivalentes: uma mulher pode ter uma
relação de dependência da mãe e, ao mesmo tempo, tender a entrar em conflito com ela para
descarregar a irritação que sente em relação a ela.
8. A “criança interior de antigamente” conserva atitudes e sentimentos infantis em
relação ao outro sexo. O homem homossexual pode continuar a detestar as mulheres segundo a
mesma perspectiva com que o adolescente do passado as via, como intrusas na sua vida ou como
rivais que quisessem roubar os seus companheiros, ou, simplesmente, como “aquelas moças
estúpidas” que estragam as brincadeiras dos rapazes. Pode sentir-se ainda inferior e temeroso frente
a elas, se envergonhando da sua escassa virilidade. Pode continuar a ver algumas mulheres como
figuras protetoras, maternas, cheias de desvelo, e não como mulheres adultas com quem se
relacionar como homem adulto. De modo equivalente, a “menina que sobrevive dentro da mulher
lésbica” pode continuar a ver os homens através de lentes deformantes, por aversão, inveja, temor
ou aborrecimento.
9. As pessoas com orientação homossexual têm dificuldade em aceitar plenamente a
sua identidade sexual, a chamada “identidade de gênero”. O homem se sente como se as coisas
masculinas não pertencessem a ele; a mulher lésbica não está à vontade nas coisas femininas.
Contudo, é errado pensar que intimamente, estes homens se sintam mulheres, ou as mulheres
lésbica se sintam homens.
10. Enfim, não é supérfluo notar que um complexo homossexual é apenas uma parte
da personalidade total de uma pessoa. A pessoa, como um todo, é algo mais que a sua
personalidade infantil, ainda que algumas pessoas com sentimentos homossexuais impressionem
pela sua notável imaturidade. Reparando melhor, se descobre que cada homem ou mulher afligido
pela homossexualidade tem muitas qualidades e tendências de adulto. Por dizer respeito à parte
infantil da sua personalidade, este estudo poderia eventualmente deixar a impressão errônea de que
se trata de pessoas completamente doentes; contudo, o psicoterapeuta se apoia justamente na parte
44
adulta da personalidade homossexual e é com ela que trabalha, é desta parte que se pode esperar
uma visão realista da própria pessoa, a boa vontade e as outras energias terapêuticas. A parte adulta
da personalidade é também a mais interessante das duas: está viva, enquanto a componente infantil
do Eu se parece mais com um mecanismo fossilizado e estereotipado. Na vida, todos os dias, o que
mais encontramos é uma mistura dos aspectos maduros e dos aspectos infantis da personalidade.
Os casos de bissexualidade derivam desta estrutura de dupla personalidade: a inclinação
sexual que deriva da parte mais adulta, quando se desenvolve, se orienta para o objeto maduro da
sexualidade, isto é, o sexo oposto; por outro lado, a “criança que se auto-compadece” arrasta a
sexualidade para os seus objetos imaturos. Assim, como uma parte da personalidade bissexual anula
a outra, é evidente que a heterossexualidade destas pessoas ainda não está completamente
desenvolvida.
45
8- O CAMINHO DA MUDANÇA
Uma pessoa com sentimentos homossexuais deveria se forçar a ter interesses heterossexuais
ou um comportamento heterossexual? Seria errado conduzir o tema deste modo. Em minha opinião,
seria talvez desejável certo esforço pessoal no sentido de procurar a si próprio e não reprimir
descobertas desagradáveis ou distorcer certas realidades de que, se quisesse, a pessoa se daria conta.
Depois deste passo, adquirida certa noção dos hábitos neuróticos e especialmente da sua motivação
(por exemplo, o egocentrismo), a pessoa com orientação homossexual deve enfrentar a decisão de
combatê-lo, ou pelo menos de contê-los.
Com a ajuda de alguma forma de psicoterapia, o processo de mudança pode conduzir a
resultados verdadeiramente satisfatórios, embora o êxito dependa de vários fatores. As condições
são: que o paciente esteja motivado para mudar seja constante, sincero consigo mesmo; o
prognóstico depende ainda da intensidade global da sua neurose e das influências sociais, como o
encorajamento da parte dos outros (como antídoto ao sentimento de estar só, de não fazer parte de
um grupo social). Em princípio, é possível uma mudança real e profunda.
De acordo com a experiência de outros investigadores e os relatos de alguns ex-
homossexuais que ouvi e acompanhei pessoalmente, às vezes se alcança uma mudança radical com
a ajuda de um “método” religioso, embora, em quase todos os casos de mudança efetiva de que tive
conhecimento, os resultados advêm ao fim de um tempo relativamente longo e, só em casos
absolutamente excepcionais, teve lugar de maneira imprevista, com o aspecto de um milagre
psicológico. Julgo que o processo de crescimento em todos esses casos tenha seguido sempre a
mesma pauta, quer por intervenção da psicoterapia ou por outra forma de ajuda. No próximo
capítulo se apresentam alguns casos de cura obtida sem uma psicoterapia formal.
O processo de mudança é comparável à subida de uma escada cujo fim não seja claramente
visível: não se sabe exatamente onde vai dar, mas cada degrau é uma melhoria, um progresso. Em
primeiro lugar, não devemos nos preocupar em qual será o resultado final. Certamente não é realista
ver o casamento como o fim último de todas as pessoas com este complexo que começam a terapia.
Teoricamente, o ser emocionalmente maduro para casar (incluindo a maturidade das emoções
sexuais) é o objetivo mais perfeito e muitas vezes pode ser alcançado, mas nem sempre se chega lá,
mesmo dentro de um prazo relativamente longo. Convém não esquecer que o desejo que algumas
pessoas com orientação homossexual têm de se casar, pode, às vezes, ser motivado por compaixões
infantis, como a de não ser como os outros; portanto, não se deseja o casamento em si mesmo, mas
como uma solução infantil para ficar “no nível dos outros”. A compaixão infantil pela sua solidão
pode ser outra das principais motivações do desejo de se casarem. Para começar, é preciso
desmontar o apego neurótico ao lamento de “eu não estou casado”: a pessoa tem de aceitar de modo
adulto a sua situação, tanto do ponto de vista interior como social.
A primeira etapa do caminho que conduz à mudança consiste em ultrapassar a orientação
homossexual. Isto requer normalmente alguns anos. Depois do que se expôs anteriormente sobre a
homossexualidade, se compreende que o carácter imperativo do comportamento homossexual é
apenas uma parcela de uma complexa estrutura de tendências comportamentais infantis. Assim se
explica que a gradual redução dos sentimentos de inferioridade e de autoconsolo egocêntrico
arrefeça o apetite homossexual.
46
Um psicoterapeuta que se ocupe de alguém com uma neurose homossexual tem de começar
por explorar o passado do paciente, o seu modo de ver a si mesmo, de ver os pais, os irmãos e os
companheiros de brincadeira, na infância e na adolescência, além de examinar a sua historia
homossexual. Esta abordagem proporciona um diagnóstico global da neurose do paciente e oferece
quase sempre um fio condutor para identificar os seus sentimentos infantis de sofrimento e de
inferioridade. A seguir, o psicoterapeuta tem de explicar a teoria da “criança que se compadece”, em
uma ou duas “lições”. Naturalmente, a linguagem e os vários exemplos devem se adequar ao nível
cultural do paciente, o que não oferece dificuldade, porque as ideias fundamentais podem ser
perfeitamente comunicadas numa linguagem simples, explícita e compreensível.
Também é preciso esclarecer que o processo de superação é feito de auto-observação e de
luta por parte do paciente; que ele tem de fazer por si a parte essencial do trabalho duro e que o
papel do psicoterapeuta é o de lhe proporcionar uma orientação, como um treinador desportivo, ou
qualquer professor.
Depois, em geral, se o paciente está viciado na prática homossexual, o psicoterapeuta
sugere que ele reprima os desejos de contato ou que rompa a sua relação com o companheiro
homossexual. Alguns tentam chegar a um compromisso sobre a questão: querem mudar, mas ao
mesmo tempo, continuar as suas relações emocionalmente agradáveis. É preciso esclarecer logo
que, agindo dessa forma, estão a satisfazer os desejos da sua “criança interior”, alimentando a
neurose e criando obstáculos à mudança esperada. Às vezes, esta sugestão relativamente dura pode
ser adiada por motivos de oportunidade, mas em geral, é preferível mostrar logo que as opções
radicais são o caminho mais rápido para a cura. Por outro lado, o psicoterapeuta tem de procurar
desdramatizar muitas feridas do paciente: “Sou um homossexual, um deslocado: tenho de mudar!
Não consigo continuar a viver assim mais tempo; tenho de me casar como os outros”, etc. Pode ser
o momento de explicar que a “criança interior” se serve da consciência de ser diferente do ponto de
vista do apetite sexual para fazer disso um grande drama e conseguir engrossar o processo de
autoconsolação.
CONHECIMENTO DE SI MESMO E LUTA
Parece-me muito difícil que um homossexual se liberte do seu complexo sem adquirir um
conhecimento suficiente das suas motivações e uma imagem mais objetiva do próprio
comportamento. Portanto, a pessoa em questão deve conhecer o seu Eu infantil, a sua
autocompaixão e a sua tendência para se consolar interiormente, a sua sofreguidão de simpatia e de
apreço. O maior conhecimento de si mesmo nestes aspectos gera frequentemente uma maior
liberdade interior em relação à obsessão exercida pelo complexo autônomo, embora não chegue,
por si mesmo, a superá-lo completamente.
A auto-observação e a autoanálise para identificar as queixas infantis são tarefas
progressivas. Cada paciente descobre por sua conta as referências que lhe indicam que “neste
momento, ou neste sentimento ou pensamento, se manifesta a tendência para as lamentações”.
Os sintomas que podem alertá-lo em relação à atividade do seu “Eu queixoso” são as
sensações de agitação, irritação, inferioridade, apatia, as emoções e pensamentos negativos e, em
geral as depressões. Estes impulsos aparecem como mais ou menos impostos, como se viessem de
fora do próprio Eu (“fui apanhado por...”, “fui assaltado por...”, etc.). Cada paciente aprende a
reconhecer a sua “criança auto-compadecida” através das suas peculiaridades individuais, porque a
temática principal da compaixão é específica para cada indivíduo concreto e há sempre variantes
individuais no tema central dos lamentos. Os principais se repetem na mente adulta.
47
Muitas pessoas em tratamento por uma neurose homossexual chegam a compreender que
nas suas emoções existia uma tendência crónica para a autocompaixão. Veem esta tendência
claramente patente ou então como um pano de fundo emocional de sentido negativo, que
frequentemente esvazia as sensações e as experiências positivas. Progressivamente, estas pessoas se
dão conta de que as suas sensações de infelicidade não têm origem nos problemas da vida, em
circunstâncias externas, ou em outras pessoas, mas provêm dessa força negativa que têm dentro.
Naturalmente, o paciente tem de ser honesto consigo mesmo, se quer tirar partido deste
método de auto-observação e autoanálise. Não é agradável para o Eu infantil ter de admitir
repetidamente que sentia, pensava e atuava como uma criança e, ainda mais, que condescendia na
autocompaixão. Admiti-lo plenamente significa não procurar desculpas ou explicações, nenhum
“sim, mas”, e tentar não atribuir culpas a outras pessoas ou “às circunstâncias”. Para superar a
resistência em reconhecer plenamente os sentimentos de “coitadinho de mim!” o paciente tem de
equacionar oportunamente a importância que dá ao seu Eu. Deste modo, passo a passo, a atitude
infantil de autocompaixão egocêntrica se torna evidente e assume contornos cada vez mais
concretos.
Quando uma pessoa já sabe fazer introspecção, começa um período de trabalho e de esforço
em que a parte adulta da pessoa, a sua vontade, tenta de um modo ou de outro travar as tendências
infantis reconhecidas, usando os métodos mais adequados. A força do complexo diminui porque os
hábitos egocêntricos de pensamento e de ação jã não estão sendo “alimentados” e, especialmente,
por se combater a autocompaixão infantil.
Inevitavelmente, qualquer pessoa bem intencionada com orientação homossexual
encontrará pela frente o obstáculo da dependência do prazer. O vício homossexual está fortemente
enraizado em muitas destas pessoas, por terem satisfeito este impulso com algum parceiro ou na sua
imaginação (masturbação), e, para cortar com o hábito, não basta se dar conta intelectualmente do
seu carácter infantil — consciência que é sempre indispensável —, é preciso também força de
vontade e paciência. Em certas ocasiões, tais como momentos de particular cansaço, de humilhação,
de impressão de inferioridade ou de solidão, pode ser especialmente fácil ter recaídas.
Como já se viu, a fantasia homossexual aparece como solução ilusória de um drama interior
e, frequentemente, o prazer associado aos atos representa muito mais que uma simples satisfação
sexual. Por isso, é bastante compreensível que o esforço de abandonar estas satisfações sexuais
pueris (na imaginação ou na prática da homossexualidade) encontre geralmente uma notável
resistência.
Se uma pessoa quer mudar profundamente, isto é, superar o seu infantilismo, tem de
empreender um esforço contínuo de vontade. Às vezes, isto significa simplesmente o se negar a
tendências reconhecidas como criancices; outras vezes, implica fazer certas coisas que exigem uma
boa dose de esforço e certa coragem. Como psicoterapeuta especializado em descobrir expressões
de autocompaixão, treino muitas vezes os meus pacientes em algumas técnicas de humor que
neutralizam as variadas manifestações da emoção neurótica subjacente. Sorrir e rir das criancices do
“coitadinho de mim!” pode ser um antídoto muito eficaz para controlar a virulência das lamúrias
infantis. Em qualquer caso, o êxito deste tipo de técnica, como o “hiper-dramatizar” a
autocompaixão da criança interior, depende da vontade do paciente em usá-las efetivamente no dia-
a-dia.
48
A luta interior que é preciso empreender contra a parte neurótica da mente implica também
várias outras coisas. Por exemplo, é preciso cortar com a tentativa de chamar a atenção, abandonar
hábitos e fugir a sete pés de uma série de situações e de comportamentos, desmontar a excessiva
indulgência consigo mesmo e a pieguice, corrigir as imagens distorcidas de si mesmo e dos outros
(passando da perspectiva infantil a uma visão mais madura), curar a dependência da
autocompaixão. As lamúrias de menor intensidade podem ser cortadas terminantemente, mal se
detecte o seu carácter de compaixões infantis. Tal propósito é eficaz em muitas ocasiões em que a
pessoa se dá logo conta da atitude interior negativa, chorona ou sentimental. Outras lamúrias
requerem técnicas mais “fortes”. Tem de se aprender ou intensificar o interesse pelos outros,
desenvolver a generosidade e a capacidade de amar. Um toque de auto-ironia pode facilitar tudo
isto: começando a tratar o Eu infantil com saudável ironia se reduz a sua solene importância e,
quanto menos este Eu se sentir importante ou digno de compaixão, tanto mais a personalidade
adulta consegue ganhar em autoridade e tanto mais o descontentamento infantil dará lugar a
sentimentos mais confiantes e alegres. A pessoa perde gradualmente a sensação de ser fraca e
adquire estabilidade, optimismo, serenidade.
A HIPER-DRAMATIZAÇÃO
Na minha experiência de psicoterapeuta tive oportunidade de verificar a eficácia de
diversas técnicas de auto-humorismo usadas para ultrapassar tendências infantis, especialmente as
manifestações de autocompaixão pueril. O objetivo destas técnicas é o substituir uma lamúria pelo
seu oposto, um sorriso. Em geral, a intenção é neutralizar a importância da “criança interior”. O
auto-humorismo tem, de fato, um grande poder terapêutico: ajuda a pessoa a reconhecer também
emocionalmente e não apenas racionalmente certas distorções e desproporções da sua forma de ver
as coisas e de agir e aí reside a excelente força do humor como antídoto contra muitos impulsos
neuróticos. O auto-humor, como o humor em geral, desarma. A mera compreensão racional e até
uma observação lúcida das próprias dificuldades e emoções infantis — objetivo da auto-observação
e da autoanálise — não conseguem libertar uma pessoa atingida pela neurose porque é necessário
atuar também a nível emocional, fornecendo estímulos que se contraponham às fortes emoções
infantis de autocompaixão: a busca de atenção, o desejo de ser importante, etc. Ora, precisamente, o
Eu infantil não resiste à emoção suscitada pelo sorriso e pelo riso.
Quando um paciente é capaz de reconhecer na vida do dia-a-dia a forma de atuar da
“criança interior”, pode aproveitar as técnicas do auto-humor. Para isso, terá de ser treinado a
aplicá-las imediatamente, mal tenha identificado uma expressão de lamentação infantil. O princípio
básico é imaginar a sua “criancinha” ali diante, em carne e osso, ou ver a si mesmo, na imaginação,
como a “criança” de antigamente e começar a falar com ela do mesmo modo que se consola alguém
de modo caricatural. Comece a contar para a criança o quão aflito está: imaginando uma série de
razões fantasiosas para as suas queixas e tornando patente aos olhos dessa criança um drama
exagerado (hiper-dramatização), centrado nessas suas queixas. Um exemplo sucinto pode ajudar a
perceber os traços fundamentais desta técnica.
Determinado paciente homossexual sentiu-se ofendido pelo chefe, que o preteriu em favor
de outra pessoa para representá-lo em um encontro de trabalho. O sentimento de autocompaixão se
exprimia verbalmente nesta forma: “O chefe me considera sem nenhum valor e não tem nenhuma
consideração por mim”. Esta lamúria tinha ainda outro componente de ciúme do colega. Ao se dar
conta de que aqui estava a sua “criancinha” em ação, o homem hiper-dramatizou assim o
acontecimento: “Coitadinho, tem toda razão incomensurável para derramar lágrimas amargas, em
soluços incontidos. Foi verdadeiramente um caso de inaudita violência contra uma criancinha
inocente. Você, que trabalha sempre e incansavelmente sem pedir nenhuma retribuição, foi chamado
aos gritos pelo chefe, como se estivesse chamando um cão. Todo trêmulo, se apresentou diante dele
49
na presença dos teus colegas, todos sentados em cômodas poltronas. Um, o Colega Preferido, estava
sentado em uma poltrona decorada de uma forma especialíssima, com um enorme e caríssimo
charuto na boca (um presente do chefe), e sorria com ar petulante enquanto se aproximava. Nessa
altura, o chefe pegou solenemente em um pergaminho, arrancou o selo de lacre e começou a ler em
alta voz: "Eu, abaixo assinado, declaro pela presente que este miserável deslocado (você!) é
totalmente inepto para me representar e exprimo os sentimentos da minha mais profunda repulsa em
relação a ele. Felizmente, porém, existe Alguém de extraordinária superioridade que compensa este
monstruoso farrapo de gente: o Colega X. Nessa altura, todos foram cumprimentar o Colega X, lhe
atirar flores e abrir, em sua honra, garrafas de champanhe, enquanto tiravam sarro de você e te
jogavam ovos pobres. E você ali, com a camisa ensopada em lágrimas. Por fim, caiu de joelhos e se
arrastou para fora do gabinete, para o frio da rua, onde chorou, escorrendo lágrimas que se
misturavam com a chuva que caía.... Se necessário, a pessoa pode continuar com a visão
dramatizada do triunfo do colega. Por exemplo, pode supor que esse colega passe por ele em um
Rolls-Royce com chofer e ela, esfarrapada e suja, pode se imaginar passando pela humilhação de
ver as cinzas de charuto voando na sua cara, ao ver seu colega abrindo a janela do carro em
movimento.
Depois desta encenação imaginada, este paciente conseguiu perceber o mecanismo pelo
qual o sentimento de ter sido ofendido o teria empurrado para o desejo homossexual, como reação
de compensação. Uma possível hiper-dramatização desse desejo secundário, fruto da
autocomiseração, seria a seguinte: “Sim, agora tem realmente a necessidade de uma coisa: que
alguém te demonstre com fatos um verdadeiro e terno amor. Um abraço apaixonado, dois olhos
másculos, mas movidos por um enorme sentimento, a olharem para você com a mais sincera
compaixão, um amigo murmurando ao seu ouvido que você pode sentar eternamente ao seu colo,
com o teu bracinho à volta do seu pescoço, enquanto a sua grande mão, cheia de pelos e musculosa,
acaricia a sua face de menino doentinho, etc”. O paciente aprende a construir o seu próprio
repertório de cenas e enredos hiper-dramáticos e a utilizá-los quando se dá conta de uma lamentação
infantil.
Tudo é possível na imaginação: podem ser inventadas as situações mais absurdas, segundo
o senso de humor de cada um, desde que se refiram diretamente à lamúria que se pretende anular. O
paciente também aprende a formular variantes e versões abreviadas desta técnica. Por exemplo,
trata a sua “criança” interior como “o meu pobre menino!”, dizendo: “Aquela crítica que fizeram de
você foi mesmo repugnante! Agora, o Presidente da República proclamará uma Jornada Nacional de
Luto em seu favor!”. Ou dirá, mais brevemente: “Pobre menino! Isto é a morte!”. Quanto mais viva
for a representação, quanto mais carregada for a caricatura da “criancinha” no momento da
compaixão, tanto maior será o efeito. Com o êxito de uma hiper-dramatização a lamúria cicatriza e
desaparece, rápida ou gradualmente. Todos os meios de provocar um sorriso ou uma gargalhada
acerca de uma lamentação são aconselhados. O método é inclusivamente recomendado para
manifestações de orgulho infantil de hiper-compensação. Por exemplo: “É maravilhoso! O que você
fez (ou a sua intervenção, ou opinião,...) foram absolutamente um espanto! Estou até vendo a
estátua que vão levantar, exatamente aqui, neste lugar: você, montado em cima de um cavalo alto,
como Napoleão, com a mão enfiada displicentemente no casaco...”. Embora pareça fácil, aplicar o
auto-humorismo exige uma forte determinação. Rir do próprio Eu auto-compadecido é a última
coisa que apetece naqueles momentos em que se está enredado em um lamento infantil.
A CURA
A saída do complexo segue um determinado percurso. Primeiro, o carácter obsessivo das
emoções e dos comportamentos infantis diminui; as depressões, as ansiedades, os temores, as
preocupações, os sentimentos de inferioridade e os desejos homossexuais se tornam mais
50
controláveis; começa a despontar uma maior autoconfiança, incluída a confiança no próprio sexo,
masculino ou feminino. Tudo isto é resultado de a “coitadinha” da criancinha interior ter perdido
importância e a pessoa já não levar tão a sério esta faceta da sua personalidade. O apetite
homossexual resiste ainda, com altos e baixos, mas cada vez menos soberbo, até se dissipar por
completo, de maneira pouco importante, em função do progressivo crescimento de uma
emotividade cada vez mais positiva e madura.
As alterações no campo sexual devem ser vistas como parte de toda a reorientação
emocional da pessoa.
Os homossexuais que querem ser “curados” têm muitas vezes uma perspectiva
compreensivelmente restrita daquilo que é preciso mudar e tendem a prestar atenção quase
exclusivamente às mudanças nos sentimentos sexuais. É verdade que uma mudança sexual real e
profunda reflete também a mudança noutros sectores mentais, mas o efeito de uma terapia ou de
uma autoterapia (como é, em grande parte aquela que adotamos) não se deve avaliar sobretudo em
termos estritamente eróticos. As mudanças dos sentimentos sexuais aparecem mais ou menos como
“subprodutos” e só se verificam estavelmente quando e à medida que se deixa morrer de fome a
“criança queixosa” do paciente. Não é, portanto, aconselhável que o psicoterapeuta e o paciente
fixem a atenção e façam a conversa girar excessivamente em torno da sexualidade. As intervenções
decisivas da mudança dizem respeito às lamentações e ao infantilismo emotivo geral do paciente.
Naturalmente, qualquer evolução neste setor influi no âmbito erótico, mas a relação é de tipo
hierárquico: quanto mais profundamente o paciente avança nas dimensões fundamentais do
infantilismo e da autocompaixão, tanto mais radical será a sua reorientação sexual.
Podemos dizer que, na maior parte dos casos, a pessoa passa por um estágio intermediário
no qual a orientação homossexual já quase não existe, mas a heterossexualidade ainda não
despertou. Em alguns casos, este período intermediário pode durar até alguns anos. A pessoa pode
“descobrir” o outro sexo gradualmente ou de repente, depois do processo de amadurecimento
daqueles anos intermediários. Algumas se apaixonam uma ou duas vezes e acabam por casar; para
outras, é preciso bastante tempo antes de conseguirem aguentar uma relação heterossexual estável.
Portanto, todo o processo é uma espécie de auto-reeducação. Geralmente, passa por altos e baixos,
com recaídas ocasionais; pode haver momentos, e até longos períodos, de perda de esperança. O
processo varia amplamente nos detalhes, de um indivíduo para outro.
As pessoas com orientação homossexual, mesmo que estejam, a princípio, ansiosas para
mudar, no início têm sérias dúvidas sobre as suas possibilidades realistas de conseguir uma
melhoria profunda. Estas dúvidas reaparecem periodicamente, ainda que os progressos sejam
claramente visíveis, e só acabam completamente quando a alteração dos apetites é absolutamente
evidente. As dúvidas retornam cada vez que estas pessoas ouvem ou leem os clichês sobre a
homossexualidade, tais como: “Se você é homossexual, vai continuar sendo”. Bem analisadas, estas
dúvidas são uma nova versão das lamúrias neuróticas: “Nunca mais serei normal, este é o meu
destino: coitadinho de mim!”. Portanto, a fé e a esperança são excelentes barreiras para estes
pensamentos perniciosos, que roubam da pessoa entusiasmo e energias. Uma atitude realista
também é um bom remédio para estas dúvidas paralisantes: “Seja como for, devo combater tudo
aquilo que reconheci como infantil e errado; e se persevero neste esforço acredito que haverá algum
progresso, mesmo que seja só uma pequena mudança”.
Ao longo da nossa experiência clínica, comprovamos tantas e tantas vezes, que quem faz o
esforço consegue ser mais feliz. A pessoa não deve ficar obcecada com a incerteza sobre se vai ou
51
não atingir um resultado pleno, o que convém é se alegrar com cada passo que tiver dado. Afinal de
contas, esta é a atitude mental mais útil para aproximar o paciente do seu objetivo.
Trabalhar sobre si mesmo, para não falar já da luta contra os próprios hábitos egocêntricos e
os apegos indesejáveis, não é atividade que goza de popularidade nestes tempos, impregnados de
permissivismo e de pouco apreço pelo esforço. Certamente há muita coisa escrita sobre terapias
psicológicas e são elaboradas variadíssimas teorias e técnicas de tratamento, mas só uma pequena
parte delas encoraja a lutar verdadeiramente contra os próprios erros e fragilidades para superá-los.
Geralmente, convidam o paciente a desistir, se entregando ao egoísmo pueril e até à imoralidade. O
conselho equivocado de a pessoa se “aceitar como é” pode levá-la a se render à imaturidade e a
reprimir a “melhor parte” da sua personalidade. (Esta “melhor parte”, o Eu adulto, pode ter a
aspiração saudável de levar uma vida mais madura, se sentir aborrecido quando tem de aturar o Eu
infantil e talvez até sinta uma consciência normal de culpabilidade). Agrade ou não, a realidade
psicológica é esta: é preciso optar entre tendências contrapostas e, se não se tem cuidado, “se
aceitar como se é” se torna um pretexto em favor do infantilismo. A alternativa de trabalhar sobre si
mesmo é árdua, mas é o único modo de alcançar a felicidade interior e a paz do espírito.
As relativamente poucas pessoas que empreendem este esforço sobre si mesmas para se
libertarem da orientação homossexual não encontram, à sua volta, muita gente disposta a
compreendê-las e a animá-las. Tantas vezes, esbarram em todos os desencorajamentos possíveis.
Espero que estas páginas sejam uma ajuda para conseguirem se libertar do falso slogan “não há
nada a fazer”.
52
9- A MUDANÇA SEM PSICOTERAPIA
Antes de apresentar os resultados da terapia “autocompaixão” traçada anteriormente,
gostaria de descrever alguns casos de curas conseguidas por outros procedimentos. Neste capítulo
serão apresentados dois exemplos, documentados em algumas publicações, que demonstram como
é possível encontrar os mesmos mecanismos do tratamento psicológico da “autocompaixão” fora
das consultas de psicoterapia.
O primeiro caso é o de uma mulher ex-lésbica que contou a sua história a um psiquiatra
holandês, ele próprio homossexual, paladino da “aceitação”, mas que registou o caso em um dos
seus trabalhoslxxi
, contando fielmente a entrevista com a mulher e anotando que “ela dava a
impressão de ser uma pessoa perfeitamente normal, com um emotividade normal, um riso calmo e
sereno. Uma testemunha perfeitamente confiável”. O caso é ainda mais significativo porque a cura
foi registada por uma pessoa absolutamente céptica quanto à possibilidade de vencer a
homossexualidade. “Ainda que seu artigo não ofereça muitas esperanças, o fato é que eu com trinta
e sete anos estou curada. O senhor pode imaginar a minha felicidade: não é comparável com
nenhuma outra coisa. Trinta e sete anos de infelicidade, de miséria, de procura de ajuda, de oração,
de esperanças, etc., durante os quais não via mais nada no mundo a não ser a minha miséria, que me
magoava profundamente. E, sobretudo, com a firme convicção de que, ao fim de tantos anos, ainda
teria de aguentar até à morte”: estas foram as palavras da mulher. Além de mencionar a fé e a
esperança, esta passagem contém uma frase muito instrutiva, que não queremos deixar de sublinhar:
“não via mais nada no mundo a não ser a minha miséria, que me magoava profundamente”. E um
belo epitáfio para a neurose de outros tempos e um retrato das suas características essenciais: o
excessivo egocentrismo dos sentimentos de autocompaixão. Esta senhora olha para a sua situação
anterior com uma oportuna ironia, como se risse do seu dramático “coitadinha de mim!” de
antigamente.
Como é que tudo isto aconteceu? Ela era enfermeira e, frequentemente, se apaixonava por
mulheres mais velhas (“isto me ocupava completamente, era como uma nuvem fechada à minha
volta”) e chegou a tentar uma vez o suicídio depois de uma daquelas relações não ter dado em nada
(ela nunca chegou a ter contatos homossexuais). A mulher sentiu-se completamente perdida e
queria desesperadamente se libertar das suas obsessões. Talvez um abatimento tão doloroso
predisponha a pessoa a mudar, porque vê que já não pode ficar pior. Neste estado de espírito
encontrou um padre, compreensivo, mas também realista, que, depois de ter escutado com toda a
atenção as lamúrias, fez algumas observações duras que a sacudiram. “Cada vez que estava com
ele, me sentia como se tivesse me virado do avesso, como se tivesse me lavado o cérebro. Mas uma
vez me disse uma coisa de que nunca me esquecerei: ‘Minha menina, você não é de fato uma
pessoa madura: é como se ainda tivesse apenas dezesseis anos’. Nessa noite, de repente, às 21:30
horas, no quarto, percebi tudo o que acontecia”. Esta mulher localizava a sua “mudança”
precisamente naquele instante de autoanálise curativa. Era uma criança, com comportamentos e
sentimentos de criança, quando aquele homem fez com que visse esta sua faceta interior e, a partir
do momento em que reconheceu a situação, entrou no caminho da cura.
Depois de ter visto a sua personalidade infantil, se empenhou vigorosamente para
ultrapassar esse estágio, sob vários aspectos. É o que ela chamava de “adaptação”, a “mudança”
para “uma sociedade real, porque antes eu vivia numa sociedade inventada por mim”. Teve de
descobrir a realidade, depois viver anos de um modo excessivamente subjetivo, ao sabor das
emoções. “Eu, antes, estava sendo vivida”. Isto exprime bem a sua obsessão neurótica, dominada
por uma emotividade que deformava a realidade. Efetivamente, o neurótico é uma pessoa que vive
53
numa atmosfera de emoções que em regra geral é uma realidade distorcida em lamúrias. “Como as
pessoas devem ter pensado que eu era ingênua!” e era na realidade uma criança que julgava o
ambiente à sua volta com parâmetros e sentimentos de menina. A “adaptação” que teve lugar depois
de reconhecer que era uma criança “durou cerca de um ano”: um período que eu considero muito
breve.
Esta mulher, não só descreve a sua mudança como um abandono da meninice como
também a associa à superação de um complexo de inferioridade. “Eu tinha um grave complexo de
inferioridade”, diz ela. “Antes, qualquer coisa e qualquer pessoa era sempre superior a mim”. Além
disso, ela refere a mudança que se verificou também nos seus sentimentos de vergonha: antes, se
envergonhava de coisas que não eram nada vergonhosas; eram apenas sentimentos de inferioridade.
A impressão de inferioridade se manifestava também sob a forma de uma submissão exagerada.
“Antigamente, fazia tudo por qualquer pessoa. Ainda hoje faço coisas pelas pessoas mas há sempre
um ‘mas’. Talvez também isto fosse uma insensatez, eu não pensar antes em mim mesma”. O seu
sentimento de inferioridade tinha assumido esta forma: “Não sirvo para nada. Tenho de me
submeter a todos porque sou a pior de todos”.
Esta senhora recorda as suas antigas invejas, a sua falta de verdadeiros sentimentos de
simpatia pelas pessoas que sofriam, apesar de ajudá-las (com egocentrismo), a sua antiga visão de
Deus (antes, aparecia como uma figura castigadora que metia medo; agora, pelo contrário, sentia
muita gratidão e respeito); os tiques nervosos que tinha na boca, os passos ansiosos, encostada às
paredes das casas, em vez de andar pelo meio da calçada. “Tudo mudou”. E uma experiência
comum nos homossexuais, depois de curados, é a aquisição uma “personalidade novinha em folha”;
a cura da homossexualidade é, em primeiro lugar e, sobretudo uma mudança emocional ou
mudança de personalidade.
Que aconteceu com a mudança erótica desta mulher ex-lésbica? “Antes, os homens não
tinham para mim nenhum atrativo, absolutamente nenhum. E eu nem sequer tinha pensado em me
casar. Quando fiquei adulta, a relação sexual entre um homem e uma mulher me parecia uma coisa
estranha; não conseguia entendê-la e não me dizia nada. Um homem provocava em mim a mesma
reação que um gato”. De tudo isto, a conclusão segura é a de que em seu desenvolvimento erótico
esta mulher permanecia uma criança, nem sequer uma adolescente. Seu primeiro choque, ter
descoberto que tinha ficado bloqueada na infância, provocou uma grande alegria e uma enorme
sensação de alívio. “O mundo inteiro era meu: me sentia tão feliz. Não tinha desejos nem de
mulheres nem de homens”. O curso dos acontecimentos é clássico, como em muitos outros casos
em processo de cura: a alegria desloca os atrativos homoeróticos (que são queixas, e portanto o
oposto da alegria e da felicidade); o paciente passa através de uma fase em que parece não haver
qualquer componente erótico, em nenhuma das duas direções. “Só nos anos seguintes é que
apareceu, pouco a pouco, o interesse erótico pelos homens”. As emoções heterossexuais só podem
se manifestar livremente depois do desaparecimento da sexualidade neurótica, fundada na
autocompaixão; tal como esta mulher afirma, a evolução pode demorar algum tempo, pois tem as
características de um processo de crescimento. Quando a heterossexualidade despertou, começou a
ter as características adolescentes de um interesse por vários homens ao mesmo tempo, de paixões
múltiplas: “Parecia que queria casar com todos os homens ao mesmo tempo”. Por fim, esta fase foi
superada; adquiriu a calma e se casou com o homem que é hoje o seu marido. Quanto às suas
obsessivas ânsias sexuais de antigamente, tem a sensação de “ter se libertado daquelas ideias fixas
sexuais”. Tendo em conta que esta mulher tinha 44 anos na altura da entrevista, esta perspectiva
deve ser interpretada como um sinal de maturidade. Acerca do seu interesse lésbico de outros
tempos, ela diz: “É como uma perna que foi amputada e não pode voltar a crescer. Ainda não
consigo compreender como é que pude aguentar aquela vida durante tantos anos; nem sequer
consigo perceber como foi possível”. Esta mudança efetiva — a ponto de as antigas pulsões lésbicas
54
terem se tornado dificilmente imagináveis para ela — já durava sete anos quando fez estas
declarações, um prazo muito razoável para garantir o resultado.
Somando os mais importantes fatores de cura que se podem identificar neste caso, os
psicoterapeutas habituados a tratar este tipo de lamentações reconhecerão aqui certo número de
elementos positivos, bem familiares: a resistência de todo coração a se identificar
irremediavelmente como homossexual, fator que coloca a paciente nas melhores condições de
abertura mental para tirar partido de qualquer ponto de apoio susceptível de a ajudar a evoluir
favoravelmente; o reconhecimento do seu “eu infantil”, descoberto mediante uma autoanálise; a
luta para superar as tendências infantis no pensamento e nos hábitos; a honestidade consigo mesma;
a confiança no seu “psicoterapeuta”, que foi efetivamente a pessoa indicada para ela, porque
percebeu o seu infantilismo e conseguiu proporcionar o tipo adequado de compreensão e de apoio
para ela.
CONVERSÃO RELIGIOSA
Em algumas pessoas, se verifica uma alteração profunda da orientação homossexual na
sequência de uma conversão religiosa, no entanto, em geral, convém ter reservas em relação a estas
histórias, pela possibilidade de autoengano característica da personalidade neurótica, que às vezes
leva a pessoa a acreditar naquilo em que está ardentemente interessada. Só um exame sério pode
eliminar estas reservas e confirmar a cura. Tive oportunidade de examinar várias pessoas que
afirmavam ter sido “curadas” pela conversão religiosa, mas realmente, não estavam curadas.
Rejeitavam e desaprovavam com tal veemência os seus interesses homossexuais, ou assumiam o
papel do “homossexual mudado”, se agarrando de tal modo à sua nova religião, que davam a
impressão de a sua neurose ter simplesmente se deslocado de um tipo de obsessão para outro. É
típico destas pessoas não responderem direito às perguntas sobre a sua vida erótica atual ou sobre a
exata natureza dos seus sentimentos sexuais, começando, em vez disso, a fazer um sermão, para
convencer os outros — e se convencerem a si mesmos — de que mudaram realmente. Afinal, este
tipo de autoengano não é apenas um duvidoso privilégio de quem tenta o caminho da religião para
conseguir mudar, é um fenômeno que pode acontecer igualmente em qualquer tratamento e contra o
qual é preciso estar de sobreaviso: o desejo de ficar normal pode ser excessivamente imperioso e
levar a pessoa a se persuadir de que, de fato, já mudou. Além disso, o homossexual convertido a
uma religião pode sentir-se egoistamente feliz de já pertencer a um grupo religioso e talvez até
numa posição destacada (como o “convertido” ou o “pregador”).
Contudo, sei também de várias pessoas que ficaram efetivamente curadas mediante um vida
religiosa ativa, e cuja saúde eu pude verificar ao cabo de repetidas entrevistas, em que analisei
cuidadosamente os seus sentimentos e atitudes. Falavam com calma e sem inibição das suas
emoções e dos seus comportamentos; não se esquivavam às perguntas diretas, mas davam respostas
diretas, sem mostrar nenhum desejo sôfrego de me convencer. Na minha opinião estes casos são
talvez mais frequentes do que se pensa, porque muitos preferem ficar anônimos e não assumir o
papel público de modelos do “homossexual convertido e curado”. Em alguns destes casos, estou
convencido de que até mesmo qualquer mínimo impulso homossexual desapareceu totalmente há
vários anos e essas pessoas passaram a ter sentimentos heterossexuais. Por outro lado, também
ficaram livres de várias perturbações emocionais, estados depressivos e de ansiedade, e se tornaram
consideravelmente menos egocêntricas nos pensamentos e no modo de sentir. É bastante
característico que consigam falar do seu passado com senso de humor. Todas elas destacam a
importância da vontade: “Um homossexual pode se lamentar, desejar mudar, etc”, dizia um deles,
“mas, depois, parece excessivamente bom conseguir se livrar realmente de tudo aquilo. Sua vontade
está meio endurecida , este é o grande problema”. Entrevistadas alguns anos depois de mudança na
orientação homossexual ter acontecido — em dois casos, vários anos depois —, todas aquelas
55
pessoas afirmavam que a evolução emocional tinha sido gradual e que ainda sentiam uma certa
impressão de inferioridade em algumas situações, ainda que isso não as afetasse seriamente, pois
era apenas uma pequena mancha na sua sensação geral de bem-estar.
Pelas minhas conversas com homossexuais cujas mudanças foram induzidas por causas
religiosas, confirmei que tinha sido verdadeiramente importante para eles encontrar a fé, descobrir
certezas e um significado profundo para a vida e comprovei que aquela descoberta fez com que se
sentissem mais felizes, e lhes deu uma grande força e tinha sido fonte de emoções maravilhosas.
Isto fez com que vissem o seu problema homossexual como uma coisa secundária, despojando-o da
importância prioritária que ocupava antes na sua consciência psíquica. Deixaram de ficar tensos e
de se lamentarem por causa dele ou, então, se deram conta de que o fundamental era seguir a
vontade de Deus e não o próprio capricho, começando, deste modo, a superação da fixação
egocêntrica.
Uma senhora, ex-lésbica, me disse uma vez: “Eu não estava servindo a Deus com os meus
queixumes. Tentei fazer aquilo que pensava que Deus queria de mim e esse passou a ser o meu
programa de vida. Foi isto que, pouco a pouco, mas de forma radical, acabou mudando a minha
vida”. Os efeitos benéficos daquela nova atitude são compreensíveis. O neurótico, pessoa
egocêntrica, que pensa antes de mais em si mesma, ao submeter a sua própria vontade à vontade de
Deus, isto é, a metas que o ultrapassam, se liberta de si mesmo. Neste processo, sem dúvida,
começa a perceber até que ponto estava polarizado em si (mais precisamente, no seu Eu infantil). A
reorientação que desmonta este “Eu” será geralmente árdua e custosa, porque implica sacrificar um
certo número de coisas muito estimadas por aquele “Eu” infantil, além de exigir meditação, oração,
estudo da Bíblia e formação para conhecer a “vontade de Deus”, novo objetivo da vidalxxii
.
Ao longo desta caminhada, as obsessões homossexuais desaparecem da consciência
psíquica e os interesses heterossexuais vão surgindo sem que a pessoa esteja excessivamente
preocupada com o assunto. A mudança efetiva vai se desenrolando nos níveis mais centrais da
personalidade e as mudanças dos apetites sexuais ocorrem como consequência mais ou menos
natural da mudança básica. Por isso, não se pode falar, em tais casos, de “sublimação” da
homossexualidade, porque a sublimação é essencialmente uma distração da atenção. Os casos
anteriores de falsas curas que degeneraram em “neuroses com conotações religiosas” é que
correspondem às tais “sublimações”.
JOHAN V.
O livro Ik ben niet meer “zo” (“Eu já não sou ‘assim’”lxxiii
), que conta a história da mudança
do holandês Johan V., oferece um exemplo de influência da conversão religiosa na cura da
homossexualidade. Mais de dez anos depois de a sua mudança fundamental ter se consolidado e
vários anos depois do seu casamento, estou convencido de que esta mudança é autêntica. Ele
próprio me contou ter sido ocasionalmente afetado por impulsos neuróticos menores, durante um
período longo na sequência da sua mudança.
Johan V. é uma pessoa muito aberta e muito honesta a respeito dos seus próprios
sentimentos. A princípio, admite a eventualidade de recair em relações homossexuais, em
circunstâncias extremas, mas acha essa possibilidade muito improvável. “Quero dizer”, esclareceu
ele, “que não posso responder à sua pergunta, tal como a formula (‘Não consegue sequer imaginar
que possa voltar a ter uma relação homossexual, mesmo em circunstâncias extraordinárias?’) com
um ‘não’ rotundo e dizer que a imaginação desse encontro homossexual me inspire uma
repugnância física”. Nestas condições, segundo critérios estritos, a mudança de Johan V. não pode
ser considerada perfeita, no entanto, dada a quase completa ausência, durante vários anos, de
56
impulsos homossexuais na imaginação ou na consciência psíquica e tendo em conta, também, a
presença de interesses heterossexuais, o resultado final não pode deixar de ser considerado muito
significativo, do ponto de vista da cura da homossexualidade. Vou citar as notas autobiográficas de
Johan V., não porque a sua mudança seja a mais radical das que tenho encontrado, mas pela a
narrativa conter algumas observações relativas a fenômenos que acontecem com frequência durante
a mudança de um homossexual, tais como o se entregar louca, desesperada e infantilmente àquilo
que viu ser a sua salvação —neste caso, o Movimento Pentecostallxxiv
—, os seus períodos de
profundo desespero e os de alegria exultante e, sobretudo, o fato de a mudança ter se dado e ter
consistido em um crescimento normal ou processo de aprendizagem, que pode ser facilmente
traduzido em termos psicológicos.
Johan fora diagnosticado por um conhecido sexólogo como sendo um homossexual
“primário” ou “nuclear”, irremediavelmente condenado a ser homossexual. E depois de ter vivido a
homossexualidade, com cerca de trinta anos, não encontrou nessas amizades a satisfação emocional
que desejava e as via intimamente como algo contrário aos seus princípios religiosos.
Considerações religiosas à parte, percebeu que praticar a homossexualidade não poderia fazê-lo
feliz.
Experimentei [a homossexualidade] de forma entusiasmada. Mas não me
proporcionou de fato uma grande felicidade... “Amar não é pecado”, eu protestava. Mas,
por dentro, me sentia vazio. Dificilmente lia a Bíblia, se é que alguma vez pegava nela, e
vivia profundamente neurótico... Estava completamente exausto... dificilmente me atrevia a
andar com alguém.
Uma conversa com um cristão que contou que também foi homossexual durante vários anos
mas depois conseguiu se livrar dessa obsessão, faz com que ele compreendesse que o seu modo de
viver, a sua relação com o parceiro, era claramente um pecado. “Foi como se naquele momento
entrasse uma luz muito forte no quarto, que fizesse desaparecer a imensa escuridão da minha vida”;
mas, nessa mesma noite, achou que seria impossível mudar e se apaixonar por uma moça: até sentia
repugnância em imaginar algo assim. Sim e não: a luta interior de tantos homossexuais, presos a
impulsos que lhes parecem “naturais”. Apesar de tudo, tinha consciência de que devia romper a
relação “pecaminosa” com o parceiro. Muitos homossexuais podem reconhecer a si mesmos neste
relato:
As últimas noites que passei com ele antes de deixá-lo, em Bergen op Zoom
[cidade holandesa], foram horríveis. No último momento, eu julgava que não seria capaz
de resistir ao rompimento entre nós. Tínhamos vivido juntos durante três anos e
gostávamos muito um do outro. Eu estava nervosíssimo e chorei até não poder mais. Mas
foi como se uma força sobrenatural tivesse me tornado capaz de me desligar dele. Quando
cheguei a Rotterdam senti um alívio, pela primeira vez em muitos anos, como se tivessem
tirado de cima de mim um peso esmagador.
A seguir, veio uma fase que oscilava entre a esperança e o desânimo, rezando a Deus,
quando sentia o recrudescer das tendências homossexuais que o faziam desejar o parceiro, e
procurando apoio nos pregadores do Movimento Pentecostal. Apesar de certo espírito crítico para
com aquela gente, aceitou que impusessem as mãos sobre ele, convencido de receber o Espírito
Santo. Nessa época, havia um casal cristão que o ajudava e animava, reforçando a sua confiança de
que haveria realmente, com a ajuda de Deus, de superar a homossexualidade. Tudo isto lhe deu
força para destruir literalmente todas as lembranças do seu passado homossexual (objetos, livros,
57
fotografias) e para continuar a rejeitar completamente todos os pensamentos e impulsos
homossexuais.
Aproximadamente dois meses depois da minha libertação, comecei a ver as moças
com outros olhos. Descobri que não eram propriamente seres inferiores. Pouco a pouco,
fui reconhecendo a minha masculinidade. Deus me fez descobrir a beleza das mulheres.
Comecei a me sentir atraído por elas. Dava-me conta: “Já estou caminhando lentamente
nesta direção”. Também fui encarando as relações normais entre um homem e uma mulher
de modo cada vez mais correto.
Aqui, Johan V. repete o que se pode observar em muitos homossexuais a caminho da
normalidade: primeiro, o interesse homossexual diminui e se dá, em geral, uma alteração do
panorama emocional em direção a emoções positivas; depois, decorrido algum tempo, despontam
os primeiros sentimentos heterossexuais. Repare que aquele homem descreve este processo em
paralelo com o reforço da sua sensação de ser masculino, isto é, acompanhando o enfraquecimento
da sua lamúria de ser inferior do ponto de vista masculino. A nova forma de ver as moças aparece
mais madura que a anterior perspectiva infantil: criaturas caprichosas de um mundo diferente, que
não pertenciam ao “clube dos rapazes”.
Johan V. teve, de vez em quando, algumas recaídas, como a maior parte dos neuróticos em
vias de cura; às vezes, quedas fortes. Mas persistiu na sua estratégia: procurar viver como julgava
que Deus queria, rezando nos momentos de “tentação” e usando a sua força de vontade. Poucos
anos mais tarde, se casou com a moça com quem se apaixonou e hoje, passados dez anos, é um
homem razoável, pacato e feliz. A última vez em que os impulsos homossexuais apareceram, me
contou, foram pensamentos fugazes na sequência de alguma frustração infantil, tais como ocasiões
em que a namorada recebia a visita de uma amiga e ele se sentia privado da sua atenção.
Atualmente, a impressão que este homem dá é a de alguém que não se lamenta nem tem
propensão para sentimentalismos patéticos, apesar de a sua autobiografia mostrar claramente que,
em tempos, a sua personalidade era altamente dramática e inclinada a queixas. Como já disse, não
pretendo explicar o processo de cura da neurose de Johan V. como coisa sobrenatural. Qualquer
psicólogo minimamente a par dos trabalhos de William James ou de Maslow sabe que as emoções
religiosas são as experiências mais fortes que podem eventualmente tocar a vida emocional de uma
pessoa. No caso de Johan V., estas experiências são descritas por ele como momentos em que a sua
esperança conseguiu romper as nuvens e sentiu uma alegria exultante; estas emoções não anularam
diretamente a neurose homossexual, mas lhe ofereceram uma base emocional de sentido positivo
para poder se apoiar: o optimismo, uma certa sensação de felicidade e uma perspectiva clara em que
a sua vida aparecia rica de significado. Além disso, lhe asseguraram que a homossexualidade tinha
de ser reversível, pois não era compatível com a sua natureza real de homem, tal como havia sido
criado por Deus. Enfim, a convicção religiosa alimentou a repulsa de qualquer sentimento
homossexual e de todas as coisas ligadas a ela, enquanto reconhecidas como pecaminosas,
negativas e miseráveis. Não deveremos subestimar este último fator, pois o neurótico homossexual
é uma pessoa muito apegada aos seus suspiros como se fossem coisas muito preciosas, grandes,
belas e tesouros de felicidade. A conclusão é que uma conversão religiosa pode fornecer a um
homossexual a esperança e a energia que ele necessita para a luta.
Um homossexual que queira se curar precisa absolutamente deste combustível de esperança
e energia, pois o desespero em que vive é grande, a sua dependência é forte, a sua vontade de lutar é
frequentemente uma meia vontade, minada pelo negativismo próprio da sua tendência para se auto-
compadecer. As vivências religiosas podem colocá-lo transitoriamente em outro horizonte interior
58
mas, depois, tem de lutar com constância, porque elas não afastam definitivamente a neurose.
Servem como fontes poderosas de energia e de motivação, ao passo que o processo psicológico de
mudança consiste em um constante e radical deixar “morrer de fome” as emoções neuróticas: é o
que poderíamos chamar uma cura de emagrecimento. Por isso, não deve parecer estranho que tudo
isso exija algum tempo, nem que possa haver grandes e pequenas recaídas. Como o próprio Johan
V. observa o despertar da sua heterossexualidade, “vai avançando lentamente”. A experiência
religiosa parece desencadear os “recursos interiores”: força de vontade, conhecimento próprio e
emoções positivas; isto faz com que a pessoa lute realmente e fornece o empurrão necessário para
prosseguir. Seria contrário ao critério científico descurar estes fatos empíricos, por mais que alguns
investigadores resistam a tomá-los em consideração.
Uma cura como a de Johan V. não é um milagre religioso, que acontece em um instante. Há
homossexuais que confundem as suas vivências religiosas com uma cura psicológica ou apregoam
curas instantâneas obtidas por conversão religiosa (a chamada “fé terapêutica”). Em minha opinião,
estes casos redundam numa desilusão. Rezam, rezam, rezam, mas “não lhes acontece nada” do que
esperavam. Também há casos em que as pessoas se convencem euforicamente de ter “expulsado o
seu demônio”. Ora, a verdadeira prova de uma cura é dada pela análise séria de toda a vida
emocional da pessoa, incluindo os aspectos sexuais. Um homossexual realmente curado é
totalmente o oposto de uma personalidade encolhida, histérica ou fanática: sente-se calmo, é realista
na introspecção e não tem nada a esconder a si mesmo.
Os casos de homossexuais que conseguiram mudar sem psicoterapia mostram que “muitos
caminhos vão dar em Roma”. Além de que estes homossexuais parecem ter seguido, grosso modo,
o mesmo itinerário psicológico: de uma forma ou de outra, “condenaram à fome” a sua tendência
infantil para a autocompaixão, juntamente com as suas consequências de egocentrismo, de sentido
de inferioridade e de ânsias infantis. Por outro lado, todos esses casos confirmam a afirmação de
Hatterer segundo a qual a “vontade de mudança” é condição indispensável para melhorar e o
próprio mecanismo de mudança implica esforço, pois é um processo de crescimento pilotado pela
vontadelxxv
. Os fenômenos que vão ser encontrados durante a caminhada são: recaídas quase
universais; fases de desencorajamento; aumento da introspecção; aparecimento de interesses
heterossexuais apenas depois de ter sido superada, pelo menos em boa parte, a inclinação
homossexual; um período de consolidação, que pode durar vários anos depois da mudança básica.
Contudo, não queremos deixar de chamar a atenção para as vantagens de uma terapia mais
sistemática, que conjugue os elementos positivos mencionados acima e tire partido dos
conhecimentos teóricos da homossexualidade como patologia de autocompaixão infantil. Estas
introspecções também podem ser úteis aos homossexuais motivados por razões religiosas porque
lhes proporcionam uma estrutura intelectual clara para reconhecer a sua neurose e, mais do que
isso, lhes oferecem armas concretas para combater, de modo que, com o mapa e a bússola da
psicologia, podem avançar melhor pela estrada que escolheram. A terapia anti queixa é uma
abordagem sistemática e veremos agora, nas páginas seguintes, como é o mapa que ela oferece e
como funciona a bússola.
59
10- OS EFEITOS DA TERAPIAANTI QUEIXA
A neurose homossexual pode ser superada como qualquer outra neurose. A ideia fatalista de
que esta neurose seja irreversível é apenas um boato, alimentado pelas vozes do movimento
militante dos homossexuais e por outros defensores da moral relativista. Não pretendo dizer que
seja fácil obter uma mudança radical dos apetites homossexuais, como também nenhuma mudança é
fácil em um neurótico fóbico ou obsessivo-compulsivo, mas existe certamente a possibilidade de
uma mudança substancial para melhor. Muito depende da sinceridade da pessoa para se conhecer a
si mesma e da sua vontade, que é uma esplêndida e subestimada faculdade da mente.
De uma extensa análise de 101 pacientes que acompanhei como terapeuta,lxxvi
recolhi as
conclusões que apresento a seguir sobre a eficácia da técnica de tratamento seguida. Dos que
continuaram até ao fim a terapia, isto é, cerca de 60% do total do grupo, aproximadamente dois
terços atingiram um estágio satisfatório durante um período longo, entendendo por satisfatório os
casos em que, ou as pulsões homossexuais já aparecem somente, quando muito, como fenômenos
episódicos, enquanto a tendência sexual evoluiu predominantemente para a heterossexualidade, ou
as sensações homossexuais foram mesmo eliminadas completamente, com ou sem predomínio de
interesse heterossexual. Pode se considerar que cerca de um terço das pessoas deste grupo chegou a
uma mudança «radical», querendo dizer com isto que já não sentem nenhum atrativo homossexual,
têm sensações heterossexuais normais e, além disso, apresentam uma mudança fundamental de toda
a emotividade negativa em emotividade positiva — passando da instabilidade a uma normal e
razoável estabilidade, verificadas, pelo menos, durante um período de observação de dois anos.
Seja como for, a “mudança satisfatória” não tem o caráter de um patamar mental definitivo,
porque a pessoa pode continuar a crescer lenta e ininterruptamente. Habitualmente, passa através de
novas crises emocionais, mais ou menos sérias, e muitas vezes é capaz de tirar partido das
experiências da vida para se integrar emocionalmente em um nível superior. Não é raro assistir, com
o passar dos anos, a um progresso tranquilo, apesar dos altos e baixos.
Por exemplo, um homem que interrompeu as consultas regulares comigo neste estágio de
“mudança satisfatória”, se apaixonou de uma moça com quem depois se casou. Voltei a vê-lo doze
anos mais tarde. Revendo a sua vida emocional, me disse que tinha sentido ocasionalmente alguns
estímulos homossexuais durante o primeiro ano de casado, mas com um impacto emocional muito
menor do que antigamente, lhe dando a impressão de acontecerem fora dele. Depois, estas chamas
fugazes tinham se esvaído e ele comentava: “Já não me recordo de ter tido algum interesse desse
tipo há muitos anos. Quando sinto algum atrativo erótico por alguém que não seja a minha esposa,
se trata sempre de uma mulher. Se o casamento falhasse eu iria procurar relações íntimas com
mulheres, não com homens”. Contou-me também que durante algum tempo teve vontade de se
fechar, triste e tímido, em particular na sequência de desavenças familiares (a mulher também não
estava isenta de mecanismos infantis), no entanto, conseguiu reconhecer estes seus hábitos reativos
como novas repetições do seu infantilismo ao se ver contrariado, resíduos da sua “criancinha digna
de compaixão”. Isso o levou a dominar os seus choramingos infantis. Quando julgava
objetivamente que o comportamento da mulher não estava sendo razoável, era capaz de responder a
si próprio: “Isto não te dá o direito de sentir pena de si mesmo”. Em conclusão, tinha ficado muito
mais maduro, com o passar dos anos.
Um céptico poderá notar que apenas um terço daqueles que não abandonaram a terapia
conseguiu chegar a uma mudança radical. Estou de acordo que os resultados estão bem longe da
perfeição, mas também não se podem fazer interpretações fatalistas destes dados. Parece-me que há
60
bons motivos para dizer que o copo está mais meio--cheio que meio--vazio. Os casos de mudança
radical — passando da total homossexualidade a uma heterossexualidade normal— bastam para
refutar a teoria que considera a homossexualidade como uma doença sem cura. Justamente por
poucos homossexuais tentarem mudar seriamente e por poucos psicoterapeutas os encorajarem a
mudar, a ideia de que a homossexualidade seja irreversível assume o carácter de uma profecia que
faz cumprir a si mesma. Se ninguém tenta, ninguém vai conseguir.
Porque temos de adotar uma posição fatalista em relação à possibilidade de melhoria,
quando uma porcentagem razoável consegue melhorias substanciais? As porcentagens de sucesso
no tratamento de outras neuroses são da mesma ordem de grandeza e devem ser vistas como os
prognósticos das doenças físicas nem sempre curáveis. Seria lógico desistir dos remédios, só porque
o êxito não é 100% garantido?
Neste sentido, acho que a possibilidade de cura da homossexualidade deve ser encarada
com otimismo. Mesmo nos 20% de homossexuais submetidos a tratamento e que parece não terem
mudado de modo perceptível pode haver algumas melhorias, ainda que se trate geralmente de
neuróticos graves e viciados numa multiplicidade de relações sexuais, sofrendo de depressões
profundas e com uma clara sensação de vazio na sua vida. Recordo, por exemplo, um homem que
acompanhei periodicamente durante mais de quinze anos. Provavelmente, eu sou a única pessoa
com quem ele consegue falar abertamente. Era profundamente neurótico, obcecado por numerosos
lamentos e por impulsos sexuais que detestava sempre. Apesar do meu ceticismo de que ainda
pudesse conseguir algum progresso ao fim de tanto tempo, ele começou a referir que já tinha
ultrapassado as suas profundas depressões com conotações suicidas e teve de admitir que, de modo
geral, estava mais tranquilo e optimista. De fato, o seu comportamento condizia com esta lenta
evolução.
Este tipo de caso nos ensina a jamais abandonar a esperança. Não pretendo que apenas esta
terapia baseada no problema da autocompaixão seja capaz de modificar uma neurose homossexual;
mas estou convencido de que a perspectiva da “criança queixosa” e a utilização das técnicas da
auto-ironia podem ajudar muito aqueles que estiverem decididos a combater a sua neurose. Estas
técnicas estimulam as forças salutares da mente, a sã introspecção, o interesse de a pessoa se
conhecer a si mesma e, sobretudo, a força de vontade. Provavelmente, são estas mesmas forças que
atuam na evolução dos homossexuais que conseguiram mudar sem intervenção terapêutica.
A maior parte das pessoas com orientação homossexual apresenta o complexo homossexual
numa forma que se poderia chamar “de intensidade média”. Também neles a emotividade infantil
pode ter mergulhado raízes muito fundas e criado hábitos neuróticos muito fortes mas, se houver
vontade perseverante de combater estes vícios, o prognóstico de cura radical é, em princípio,
bastante bom.
Para ilustrar os efeitos da terapia anti queixa, relato a seguir alguns casos da minha
experiência profissional. O primeiro é um exemplo de uma evolução moderadamente positiva. Diz
respeito a um homem novo que foi melhorando com muito custo e me parece ser um exemplo
bastante representativo.
BEN
Ben ainda não tinha vinte anos quando veio me consultar. Desde a adolescência tinha
imaginações eróticas com homens de 30-35 anos, sobretudo quando se masturbava. Não sentia
61
nenhuma atração por moças, não tinha amigos (nem relações homossexuais) e ficava a maior parte
do tempo em casa. A sua emotividade neurótica era patente na expressão do rosto: contrariado,
amuado, maneiras moles e sem vigor. Tinha sido “estragado” e superprotegido pela mãe de quem
continuava a depender. Por sua vez, ela se preocupava excessivamente com ele. Uma vez em que
falei com ela, se referia ao filho de modo insistentemente sentimental como “esta criancinha”. O pai
havia tido um papel muito reduzido na educação do rapaz, era um homem distante, que deixava o
filho nas mãos da mulher (que dava a impressão de que, de qualquer modo, teria feito muito para
conseguir esse resultado). Parecia que a mãe adorava o filho mas desejando que ele fosse aquilo que
ela tinha em mente. Ben não se atrevia a lhe dizer o que pensava. Na escola, era um estranho e, por
causa da educação recebida, não se dava com os outros rapazes; se afastava com uma atitude
silenciosa e um pouco arrogante, que não conseguia disfarçar o seu nítido sentimento de
inferioridade.
Nesta fase difícil tinha conhecido um amigo dos pais, um homem novo e casado, de
maneiras simpáticas e amáveis, que foi atencioso com o Ben e o convidou alguma vez para dar um
passeio com a sua jovem família. Na sua imaginação infantil, Ben começou a idealizar este amigo,
colocando a si próprio no papel do menino desgraçado que conquista a atenção dele. Varreu do
pensamento a mulher e o filho daquele homem e, mentalmente, pensou ter se tornado o objeto
favorito do amor do amigo que admirava, possuidor de todos os dotes em que Ben se sentia inferior.
De quando em quando, estas divagações voltavam, ao se masturbar.
Queria ver se remediava a sua orientação homossexual que, entretanto, havia se convertido
em uma obsessão. Não queria ceder a esses sentimentos; tinha muita vergonha deles, sobretudo
porque era mais uma prova da sua inferioridade em relação aos outros homens; e tinha repetidos
acessos de choro que beiram a histeria. Era um jovem inerte, habituado aos caprichos e a fugir de
tudo o que o pudesse lhe perturbar ou exigir esforço. Nessa época, as suas tentativas de afrontar a
«criança interior» não tinham consistência. As fadigas e as contrariedades normais eram sempre
uma ocasião de se auto-compadecer e, quando compreendeu que tinha de passar por um longo
período de esforço, reagiu da forma habitual.
Embora as mudanças fossem lentas, se verificaram algumas pequenas melhorias. Por
exemplo, perdeu um pouco da inveja que tinha dos seus colegas, combatendo a queixa de onde
partiam os seus sentimentos: “Sou inferior a eles; eles conseguem atenção e estima, eu não:
coitadinho de mim!”. Diminuiu a frequência das masturbações, que eram para ele uma válvula de
escape infantil e, apesar do elemento de prazer, reforçavam a compaixão em que tinham origem. Na
tentativa de combater a impressão de inferioridade nos esportes, se associou a um clube e encontrou
aí inúmeras circunstâncias que ele podia considerar como desafios. Aos poucos, começou a mudar o
hábito inveterado de deixar as decisões para os outros (entre os quais a mãe figurava em primeiro
lugar). Apesar disso, frequentemente, evitava contrariar a mãe e acabava numa verdadeira
capitulação à vontade dela. Os ataques de depressão desapareceram completamente; em
contrapartida, isso não aconteceu com a infraestrutura psicológica que os alimentava, a
autocompaixão derivada das frustrações do dia-a-dia, nomeadamente as sensações de ser posto de
lado, de ser incapaz, de não ter êxito ou de ser excluído.
Por fim, ao fim de dois anos de psicoterapia, esta autocompaixão de fundo foi se
desvanecendo de várias maneiras. Deu-se conta dos sentimentos de inferioridade e de
autocompaixão que sentia em quase todas as companhias e relativamente a todos aqueles que
encontrava. Descobriu que era ele que assumia a posição de “eu sou inferior e causo imensa pena” e
a se colocar imediatamente no papel de vítima, enquanto antes pensava que a culpa era do mundo,
que o tratava como um ser inferior.
62
Muito poderia ser dito sobre toda uma série de pequenas descobertas íntimas e de mudanças
em aspectos secundários. Por exemplo, deu um efetivo passo em frente quando decidiu não voltar a
colocar certas roupas que tinha comprado por mera vaidade infantil, para causar impressão e
chamar a atenção dos outros. A luta contra a autocompaixão e a tendência a se lamentar deve ser
enfrentada na vida do dia-a-dia, nas pequenas frustrações, contrariedades, impulsos de apatia,
irritações exageradas, cansaços depois do trabalho, etc., e, com Ben, as coisas não eram diferentes.
Ele atacou o seu hábito de fugir das responsabilidades e de se queixar de que as suas iniciativas
estavam condenadas ao fracasso. Passou a ser mais ativo. A sua imaginação homossexual, que o
levava a se fixar em alguns tipos de rapazinhos, pelo menos em pensamento, foi perdendo a
capacidade inicial de fascínio. Naturalmente, voltava a aparecer na consulta esporadicamente,
quando se sentia sem ajuda e sem esperança. As vezes, surgiam sentimentos de atração pelas moças,
especialmente quando atravessava uma fase otimista. Ultimamente, arranjou uma namorada,
embora esta relação pareça muito imatura (por ambas as partes, para dizer a verdade). Tenho a
impressão de que Ben olha a moça muito como se fosse a mãe e não está seriamente apaixonado por
ela, apesar de sentir um certo gosto heterossexual por ela.
No conjunto, o progresso deste homem é evidente, tanto para o psicoterapeuta como para as
pessoas que o conhecem bem. Desde há uns cinco anos é uma pessoa mais independente, mais
homem e mais optimista. A orientação homossexual não desapareceu, embora tenha perdido
intensidade e influência sobre a sua imaginação. Necessita ainda de alguns poucos anos para
atravessar decididamente o limiar da virilidade adulta.
O SENHOR L.
Está quase nos quarenta e conta com um intenso curriculum de homossexual. Está relutante
em continuar o seu modo de vida porque já não acredita em relações homossexuais estáveis.
Contava que quando parecia evidente que já tinha encontrado o parceiro certo, invariavelmente,
pouco depois entrava em conflito com ele e acabava rompendo a relação. “Por quê?”, perguntava-se
ele. Por outro lado, as mulheres não significavam grande coisa para ele, embora se desse bem com
elas a um nível superficial.
Tinha modos mais do que atenciosos e amistosos; dificilmente exprimia uma opinião e, se
previa um desacordo com as suas ideias, condescendia facilmente. Ficava muito impressionado
pelos tipos masculinos agressivos e, em geral, com as expressões de autoridade. Por exemplo, o seu
superior direto no escritório lhe causava uma tensão muito forte e não era capaz de se encontrar
com ele quando ele estava irritado; por outro lado, o admirava desmedidamente. Às vezes o senhor
L. ficava deprimido e havia fases em que não tinha forças para trabalhar.
A mãe sempre esteve na sombra e ocupou uma posição de segundo plano na sua vida
emocional, embora tenha me dado a impressão de que o seu estilo de educar o filho tinha sido
excessivamente brando e cheio de ternuras excessivas. A figura central em casa era o pai; ele é que
determinava tudo e a sua vontade condicionava até as pequenas coisas da gestão doméstica. O pai
tinha sido a pessoa decisiva na juventude do senhor L. Geralmente agressivo, muito exigente e
severo com os filhos; inibiu assim o desenvolvimento emocional do rapaz. O senhor L. nunca
reverenciou o pai; este jamais o encorajava e ele sempre ficou com a ideia de que o pai o
considerava o menos interessante dos irmãos e o achava um fraco. Os irmãos brilhavam em vários
esportes enquanto ele se sentia inferior nesse campo. Mais tarde, procurou uma compensação se
lançando nas corridas automobilísticas, mas o complexo de inferioridade não diminuiu.
63
O senhor L. ainda se lembrava de uma grande quantidade de más experiências da
adolescência, que contribuíram para aumentar o complexo de inferioridade: comentários críticos e
irônicos da parte do pai, que ao mesmo tempo temia e admirava; insucessos desportivos; períodos
de solidão no quarto; sensações de ser ofendido. Assim, começou a ter ânsias de ser apreciado por
um amigo que o tratasse paternalmente. E, de fato, aos vinte anos tinha encontrado um bom amigo,
em relação ao qual se comportava mais ou menos como um escravo, mas o amigo mudou para outra
região e a seguir começou a namorar uma moça. Como consolação, os sonhos homoeróticos do
senhor L. aumentaram ainda mais.
O processo de mudança, até ao momento atual, já dura três anos. Durante muito tempo,
viveu interiormente dilacerado, ao se dar conta de não poder refazer a vida sem uma limpeza geral,
muito mais geral que o tema inicial das suas queixas, que se limitavam aos episódios depressivos e
à sua incapacidade de ter relações homossexuais estáveis. A certa altura, começou a compreender
claramente o comportamento da sua “criancinha interior” e começou a detectar várias atitudes
infantis: concretamente, o sentir-se insultado e humilhado por tudo e por nada; o sentir-se inferior,
nos comportamentos e resultados, aos homens do seu ambiente; o ceder à autocompaixão quando
estava sozinho no quarto; o sentir-se muito contrariado por coisas sem importância; o se lamentar
do seu estado de saúde quando na realidade era forte e saudável. A sua sinceridade lhe foi de grande
ajuda. Alguma vez reagiu mal, quando foi posto perante certas realidades da sua vida e certas
motivações, mas conseguiu perceber que havia algo de verdade nas observações que eu fazia,
embora lhe custassem. Foi também aplicando as técnicas da auto-ironia e do auto-humor às
manifestações da sua compaixão infantil (“coitadinho de mim!”) em diversas situações da sua vida
cotidiana.
Tornou-se mais independente nas relações com outros homens. Não gastamos muito tempo
discutindo os seus sentimentos e manifestações homossexuais; falamos apenas do seu
comportamento não sexual com os parceiros com quem ainda tinha estado ocasionalmente durante
o período da psicoterapia. Para ele, era evidente que os seus sentimentos eram como o sonhar de
olhos abertos de um adolescente lamuriento à procura de calor para o seu pobre Eu interior e cheio
de admiração pela aparente virilidade alheia. Dava-se conta de que andava atrás de contatos
humanos ilusórios que não tinham nada a ver com amar o parceiro desejado. Precisamente, a ânsia
de encontrar o tal parceiro, reforçava os laços que o aprisionavam no egocentrismo e, portanto,
tornava impossível uma comunhão duradoura de intenções. As lamentações “estou sozinho” tinham
de aparecer. Era previsível que acabaria no isolamento porque não ia aguentar viver sem a
autocompaixão própria da situação de vítima.
Separou-se com hesitação do ambiente homossexual e do mundo interior das suas fantasias
homossexuais. Por vezes, recaiu, voltando a se empenhar novamente em contatos homossexuais,
mas já sem a excitação de antigamente. Adquiriu consciência da sua atitude em relação à vida e aos
outros era de distanciamento, de não contribuir para nada, de fazer figura de marginalizado
ofendido. Por causa desta descoberta, passou a ser menos cínico e abandonou a máscara de
superioridade que assumia como compensação. Compreendeu que devia dedicar a vida a valores,
depois de ter aceitado a ideia de que não é verdade que tudo seja relativo e de se convencer que a
sua vida não era um absurdo sem sentido, ao contrário do que pensava antes. Reconheceu que a sua
capacidade de se dar aos outros, de amar, era bem pequena. “Eu terei chegado alguma vez a amar?”,
se perguntava. A sua imagem com relação as mulheres mudou, e ele começou a olhar para elas e a
apreciar o porte feminino e as qualidades físicas de determinada mulher. Neste momento, tem a
impressão de estar crescendo em direção à capacidade de ter uma relação estável com uma mulher.
64
O SENHOR V.
Este homem novo, com pouco mais de vinte anos, passou através de uma tragédia interior
análoga, incluindo uns poucos episódios de marcado abatimento; ao fim de cerca de dois anos de
esforço sobre si próprio, com acompanhamento psicoterapêutico, apaixonou-se por uma moça. A
relação amorosa lhe trouxe novas dificuldades. Mal começou a desejá-la, percebeu a dimensão dos
temores e dos sentimentos de inferioridade que tinha em relação ao sexo oposto. O seu “papel de
adaptação” que tinha desempenhado anteriormente, como rapaz fascinante e bondoso, cedeu no
confronto pessoal com uma mulher, nas situações em que ele deveria ter sido o homem. Às vezes,
ficava em pânico; teve de lutar vários meses contra os sentimentos de inferioridade e de
autocompaixão. Contudo, também havia momentos em que se sentia calmo e conseguia se
identificar com a ideia de “ser homem”. Nessas alturas, despertava também a sua
heterossexualidade, enquanto nos momentos de mau humor a heterossexualidade se esvaía
completamente.
Os primeiros anos de casamento foram bons. Foi crescendo continuamente, abandonando
os infantilismos, as ansiedades quando se encontrava perante uma situação que requeria
independência ou uma certa dose normal de agressividade, e deixando também de ceder com
excessiva facilidade à autocompaixão quando algo o contrariava. Vê os seus interesses
homossexuais, que nunca chegou a pôr em prática a não ser na imaginação, como uma tendência da
infância que pertence a uma fase passada da vida, devendo agora enveredar pelo caminho certo.
A MENINA W.
Esta mulher com cerca de trinta anos me contou que era perturbada, desde a adolescência,
por uma necessidade compulsiva de olhar para as mulheres e para as moças e ter sido atormentada
por vários gêneros de fantasias eróticas com figuras do seu próprio sexo. Tudo isto acontecia contra
a sua vontade e nunca havia tido a intenção de aceitar como coisa normal. Estes sintomas sexuais
pareciam a expressão de um complexo que minava por todos os lados a sua vida emocional. Ficava
ansiosa quando estava com alguém, pensava que os outros a olhavam com desprezo e andava
frequentemente deprimida; às vezes reagia de modo furioso e rebelde. Quanto à sua infância,
marcada por problemas e preocupações familiares, só quero agora comentar a influência negativa da
falta de compreensão por parte da mãe e as observações destrutivas e desanimadoras que o pai
costumava fazer sobre ela.
Já na escola primária se sentia ridícula e inferior comparativamente às outras moças, quase
sob todos os aspectos: modo de vestir e de falar, aparência física e situação familiar. Durante anos
arrastou uma ferida aberta — autocompaixão — acerca do seu destino infeliz, acompanhada por
uma atitude generalizada de protesto. Na adolescência, tudo isto foi um terreno fértil para admirar
as outras mulheres e desejar uma amizade íntima com elas.
Durante o seu processo de melhoria, o tema central era se tornar menos pessimista. Isto
implicava não se deixar guiar tanto por ideias de autocrítica acerca da sua falta de simpatia, falta de
valor, incapacidades, da expectativa doentia de ser vítima de todo o tipo de desgraças e
principalmente da atitude de auto-compadecimento que fazia com que ela dissesse que “estava
destinada para a miséria”. Era um exemplo clássico de pessoa queixosa e, apesar de reconhecê-lo,
continuava interiormente convencida de ter direito a se compadecer de si mesma. Com a ajuda da
sua boa vontade, conseguiu ultrapassar as depressões mais graves; combatia a tendência crônica
para a compaixão e para a revolta e, como resultado, se registou uma melhoria geral dos seus
estados de ânimo. As imaginações lésbicas ainda a preocuparam durante mais alguns anos, mas
65
finalmente se viu livre delas. Procurou aceitar o papel feminino e algumas vezes descobriu que
tinha razoável êxito como mulher. Quanto aos seus sentimentos com relação aos homens, nunca
tinha deixado de sentir algum interesse, embora não tivessem um papel central na sua vida
emocional. Durante um tempo curto, se empenhou em um namoro com um rapaz aproximadamente
da mesma idade mas, apesar de gostar dele e de sentir atração erótica por ele, havia excessivos
problemas entre os dois e pareceu mais sensato acabar com o namoro. Conseguiu aceitar a sua
solidão, depois de uma curta crise; hoje tem um desejo normal de se casar e de ter filhos.
* * *
Foram breves descrições de alguns “casos típicos”. Espero que o leitor tenha chegado à
conclusão de que há muitas coisas positivas para fazer, desde que haja boa vontade, sinceridade e
perseverança. Em alguns casos, o processo de mudança evoluiu mais velozmente e com melhores
resultados que nos casos apresentados; em outras situações, pelo contrário, não correspondeu tanto
às expectativas e foi mais conturbado. Há alguns fatores sociais preciosos que não queremos deixar
de apontar, como ter amigos que deem coragem e ter uma situação familiar favorável. As
convicções morais saudáveis e uma vida religiosa pessoal e profunda também são contribuições de
enorme ajuda. Os elementos desfavoráveis são um carácter fraco, o estar permanentemente com
dúvidas e possuir um baixo critério moral, além de, obviamente, ter vivido escravizado durante
muito tempo por satisfações homossexuais.
Em minha opinião, uma coisa é certa: uma atitude derrotista acerca da possibilidade de
modificar a orientação homossexual não tem razão de existir.
66
11 - A PREVENÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE
O slogan segundo o qual a homossexualidade deveria ser aceita como boa forma de vida
entrou, com disfarces humanitários, na convicção bem intencionada de bastantes pessoas; existem
mesmo pessoas de tal modo alheias à realidade que até admitem a louca pretensão de as relações
homossexuais passarem a ter os mesmos direitos que o casamento. Essas pessoas, entusiasmadas
ingenuamente pela vida homossexual, não repararam na infelicidade que ela costuma trazer e
parecem indiferentes à situação dos adolescentes e dos jovens adultos que corre o risco de falhar em
um aspecto central da vida, quando o impulso homossexual as arrasta para um beco sem saída. E
também se esquecem de prevenir tudo isto, apesar de, objetivamente, não haver fundamento para
assumir a priori uma posição fatalista.
As páginas anteriores já forneceram algumas ideias sobre a profilaxia da homossexualidade.
As primeiras e mais importantes pessoas que podem evitar este crescimento raquítico das crianças
são naturalmente os pais. A eles compete oferecer aos filhos o primeiro exemplo de uma relação
normal entre um homem e uma mulher. Se o casamento é sólido e se conseguem criar um ambiente
razoável de afeto e de união, as possibilidades de surgir nos filhos qualquer complexo neurótico,
incluído o homossexual, se reduzem consideravelmente.
No que diz respeito à maneira de educar os filhos, tanto o pai quanto a mãe devem se
lembrar de tratar os rapazes como rapazes e as moças como moças. Isto não é forçá-los a
desempenhar “papéis pré-estabelecidos”, mas apoiar as tendências naturais, sem esquecer as
diversidades inatas de comportamento ligadas ao sexo.
O principal fator de prevenção é os pais apreciarem os rapazes como rapazes e as moças
como moças. Os filhos têm de sentir este apreço. Como se pôs em evidência, este ponto é de crucial
importância.
Os períodos críticos do desenvolvimento da autoconfiança da pessoa como homem ou como
mulher são a pré-adolescência e a adolescência. Nesta idade, não apenas os pais, como também
outras pessoas à volta da família podem exercer uma influência benéfica. Os professores, por
exemplo, podem contribuir de maneira positiva para reforçar uma saudável confiança na identidade
sexual do aluno, ajudando cada rapaz ou moça a superar determinadas limitações. Veja-se, por
exemplo, o caso do rapaz que fica sistematicamente atrás nos jogos e no esporte, que anda isolado
do grupo da sua faixa etária; considero que a devida importância da compreensão personalizada de
um professor ou outro adulto, manifestada numa conversa ou de outra maneira, podem ajudar o
adolescente a evitar o risco de acabar na auto-dramatização.
Um outro fator preventivo é uma boa educação sexual. Os adolescentes que têm certos tipos
de complexos de inferioridade originários podem sofrer um choque depressivo quando alguma
autoridade “iluminada”, como um professor, lhes ensina que “a homossexualidade está inscrita no
cérebro”. Esta afirmação absurda pode amarrar um rapaz às suas hesitações sobre a sua identidade e
pode orientar uma mente indecisa e imatura numa direção desastrada. Pelo contrário, os jovens
precisam ouvir que os sentimentos homossexuais da adolescência são problemas emocionais
próprios do desenvolvimento e que não existe homossexualidade inata; além de que ela corresponde
a um complexo de inferioridade que pode ser superado: deste modo, o educador dá esperança e
aponta um caminho pelo qual se pode crescer interiormente.
67
BIBLIOGRAFIA
BRAATEN, L.J.-DARLING, C.D., Overt and Covert Homosexual Problems among
Male College Students, en “Generic Psychology Monographs”, 71 (1965), pp. 269-
310
FREEDMAN, M., Homosexuality and Psychological Functioning, Brooks & Cole
Publishing Company, Belmont 1971
HOPKINS, J.H., The Lesbian Personality, en “British Journal of Psychiatry”, 115
(1969), pp. 1433-36
SULLIVAN HARRY STACK, The Interpersonal Theory of Psychiatry, Norton, New
York 1953
i DE GROOT A.D., Hypothesen over homofilie, en “De Psycholoog” 17 (1982), pp. 244-245.
ii É significativo que (em um universo de aproximadamente 1000 homossexuais “socialmente bem
adaptados”) 60% tivessem solicitado, alguma vez, ajuda psicológica ou psiquiátrica. Veja-se A. P. Bell,
M.S. Weinberg e S. K. Hammersmith, Sexual Preference: Its Development in Men and Women, Indiana
University Press, Bloomington, 1981.
iii E. Sbardelini e E.T. Sbardclini, Homossexualismo Masculino e Homossexualismo Feminino:
Neurticismo e Falares Psicológicos na Infância relatório interno. Universidade Católica, Departamento
de Psicologia. Campinas, S. Paulo, 1977.
iv SIGMUND, G., Die Natur der menschlichen Sexualität, J.w. Naumann, Würzburg 1972
v ALAN GUTTMACHER INSTITUTE, The Sexual Behavior of Men in the U.S., en “Family Planning
Perspectives”, 25 (1933), pp. 52-62.
vi WELLINGS, K. Y OTROS, Sexual Behavior in Britain, Penguin, Hardmonsworth 1994.
vii A história de sua difícil, porém vitoriosa, luta para se livrar de seus sentimentos homossexuais é
contada em AARÓN, W., Straight: A Heterosexual Talks about His Homosexual Past, Doubelday, New
York 1972.
viii HANSON, D., Homosexuality: The International Disease, L.S. Publications, New York 1965
ix MEILOF – OONK S. Y OTROS, Homosexualiteit: Een onderzoek naar beeldvorming en attitude bij
de Meerderjarige Nederlandse bevolking, Stichting Vevordering Social Onderzoek Minderheden,
Ámsterdam 1969
x Sick again?, em “Time”, 20 de Fevereiro de 1969.
xi BELL, A.P. – WEINBERG, M.S. – HAMMERSMITH, S.K., Sexual Preference: Its Development in
Men and Women, Indiana University Press, Bloomington, 1981.
xii SCHOFIELD, M., Sociological Aspects of Homosexuality, Longmans, Green, London 1965
xiii PERLOFF, W.H., Hormones and Homosexuality, en Sexual Inversion, al cuidado de J. MARMOR,
Basic Books, New York 1965.
xiv KOLODNY, R.C. Y OTROS, Plasma Testosterone and Semen Análisis in Male Homosexuals, en
“New England Journal of Medicine”, 285 (1971), pp. 1170-1174
xv EVANS, R.B., Physical and Biochemical Characteristics of Homosexual Men, en “Journal of
Consulting and Clinical Psychology”, 39 (1972), pp. 140-147.
xvi VAN DEN AARDWEG, G.J.M. – BONDA, J., Een netelig vraagstuk: Homofilie, geloof en
psychologie, Callenbach, Nijkerk 1981
xvii EVANS, R.B., Physical and Biochemical Characteristics of Homosexual Men, cit.
xviii MONEY, J. – EHRHARDT, A.A., Man and Woman, Boy and Girl: The Differentiation and
Dimorphism of Gender Identity from conception to Maturity, johns Hopkins University Press, Baltimore
1972.
xix WEST, D.J., Homosexuality, Penguin Books, Londres 1960.
xx KALLMAN, F.J., Comparative Twin Studies on the Genetic Aspects of Male Homosexuality, en
“Journal of Nervous and Mental Disease”, 115 (1952), pp. 283-298.
xxi RAINER, J.D. Y OTROS, Homosexuality and Heterosexuality in Identical Twins, en
“Psychosomatic Medicine”, 222 (1960), pp. 251-259; FRIEDMAN, R.C. Y OTROS, Psychological
Development and Blood Level of Sex Steroids in Male Identical Twins of divergent Sexual Orientation,
en “Journal of Nervous and Mental Disease”, 163 (1974), pp. 282-288.
xxii VAN DEN AARDWEG – BONDA, Een netelig vraagstuk: Homofilie, geloof en psychologie, cit.
xxiii MASTERS, W.H. – JOHNSON, V.E., Homosexuality in Perspective (Boston: Little, Brown and
Company, 1979)
xxiv HATTERER, L.J., Changing Homosexuality in the Male (New York: McGraw-Hill, 1970).
xxv LEVAY, S., A difference in Hypotalamic Structure Between Heterosexual and Homosexual Men,
en “Science”, 253 (1991), pp. 1034-1037.
xxvi HAMMER, D. H.-HU, MAGNUSON, V.L.-HU, N-PATTATUCCI, A.M.L., A Linkage Between DNA
Markers on the X Chromosome and male Sexual Orientation, en “Science”, 261 (1993), pp. 312-327.
xxvii BYNE, W., The Biological Evidence Challenged, en “Scientific American”, 270 (1994), pp. 26-31.
Por lo que concierne al estudio de HAMMER, D.H. (un militante “gay”) Y OTROS: uno de sus
colaboradores lo ha acusado de manipulación fraudulenta de los datos de investigación. Actualmente
la acusación está pendiente ante el Federal Office of Research Integrity. En cualquier caso, EBERS,
G. (University of Western Notario), después de efectuar una contraprueba del estudio de Hammer, ha
declarado no haber encontrado ninguna correlación entre homosexualidad y ciertos indicadores
(“markers”), ni el cromosoma-X ni en cualquier otro cromosoma (“Scientific American” noviembre
1995).
xxviii VAN DEN AARDWEG, G.J.M., Homophilie, neurose en dwangzelfbeklag (Ámsterdam:
Polak&Van Gennep, 1967).
xxix MASTERS – JOHNSON, Homosexuality in Perspective, cit.
xxx EIBL EIBESFELD, I., Liebe und Hass (Munich: Piper, 1970)
xxxi KARLEN, A., Sexuality and Homosexuality, (New York: Norton, 1971)
xxxii FLACELIÉRE, R., Amour en Gréce (Paris: Hachette, 1960).
xxxiii GOY, R.W. – MCEWEN, B.S., Sexual Differentiation of the Brain (Cambridge, Mass.: MIT Press,
1980)
xxxiv MAY, R., Sex and Fantasy: Patterns of Male and Female Development (New York: Norton,
1980)
xxxv VAN DEN AARDWEG – BONDA, Een netelig vraagstuk: Homofilie, geloof en psychologie, cit.;
MONEY – HER-HARDT, Man and Woman.
xxxvi ADLER, ALFRED, Das Problem der Homosexualität, Reinhardt, Munich 1917.
xxxvii STEKEL, W., Onanie und Homosexualität, Urban&Schwarzenberg, Viena 1921.
xxxviii STEKEL, W., Psychosexueller Infantilismus, Urban&Schwarzenberg, Viena 1922.
xxxix BERGLER, E., Homosexuality: Disease or Way of Life?, Hill&Wang, Nueva York 1957.
xl BIEBER, I. Y OTROS, Homosexuality: a Psychoanalystic Study, Basic Books, Nueva York 1962.
xli Algunos estudios informando acerca de estos factores: EVANS, R.B., Childhood Parental
Relationships of Homosexual Men, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology, 33 (1969), pp
129-135; SNORTUM, J.R. Y OTROS, Family Dynamics and Homosexuality, en “Psychological
Reports, 24 (1969), pp 763-770; THOMSON, N.L. Y OTROS, Parent-Child Relationships and Sexual
Identity in Male and Female Homosexuals and Heterosexuals, en “Journal of consulting and Clinical
Psychology”, 41 (1975), pp 120-127; STEPHAN, W.G., Parental Relationships and Early Social
Experiences of Activist Male Homosexuals and Male Heterosexuals, en “Journal of Abnormal
Psychology, 82 (1973), pp. 506-513; SIEGELMAN, M., Parental Backgrounds of Male Homosexuals
and Heterosexuals, en “Archives of Sexual Behavior”, 3 (1974), pp. 3-18; VAN DEN AARDWEG,
G.J.M., De factor klaagziekte, neurose en homofilie, en “Psychologica Belgica, 13 (1973), pp. 295-
311.
xlii STEKEL, W., Onanie und Homosexualität, ya cit.
xliii ARNDT, J.L., Zelfdramatisering, Stenfert Kroese, Leiden 1950.
xliv ARNDT, J.L., Een bijdrage tot het inzicht in de homosexualiteit, en “Geneeskundige Bladen”, 3
(1961), pp 65-105.
xlv MADISON, P., Freud´s Concept of Repression and Defense, University of Minnesota Press,
Minneapolis 1961.
xlvi BREUER, J. Y FREUD, SIGMUND, Studien Ubre Hysterie, Deuticke, Viena 1895.
xlvii VAN DEN AARDWEG, G.J., A Grief Theory of Homosexuality, en “American Journal of
Psychotherapy”, 26 (1972), pp. 52-68.
xlviii HOLMES, D.S. Investigations of repression, en “Psychologial Bulletin” 81 (1974), pp. 632-653.
xlix HORNEY, KAREN, Our Inner Conflicts, Norton, Nueva York 1975.
l STACK SULLIVAN, HARRY, The Interpersonal Theory of Psychiatry, Norton, Nueva York 1953.
li ECK, M., Sodome: Essay sur l´homosexualité, Anthéme Fayard, París 1966
lii SOCARIDES, C. W., The Overt Homosexual, Grune and Stratton, Nueva York 1968, idem,
Homosexuality Aronson, Nueva York 1978.
liii HATTERER, L.J., Changing Homosexuality in the Male, McGraw-Hill, Nueva York 1970.
liv Sobre tales intentos: EYSENCK, H.J., The Scientific Study of Personality, Routledge & Kegan
Paul, Londres 1952; idem, The Dynamics of Anxiety and Hysteria, Routledge & Kegan Paul, Londres
1957; idem, Experiments in Personality, 2 vols. Routledge & Kegan Paul, Londres 1960; EYSENCK,
H.J., GRANGER, G.W. Y BRENGELMANN, J.C., Perceptual Processes and Mental Illness, Chapman
and Hall, Londres, 1957; CATTELL, R.B. Y SCHEIER, I.H., The meaning and Measurement of
Neuroticism and Anxiety, Ronald Press, Nueva York 1961. Un posible candidato a test, EYSENCK,
H.J, Dimensions in Personality, Routledge & Kegan Paul, Londres 1947, quedó descartado en la
repetición del estudio: CLARIDGE, G., The Excitation-Inhibition Balance in Neurotics, en
“Experiments in Personality”, editado por EYSENCK, H.J., vol. 2, Routledge & Kegan Paul, Londres
1960.
lv EYSENCK, Scientific Study of Personality, ya citado.
lvi Existen muchos cuestionarios de este tipo, denominados cuestionarios “neuroticistas”: varias
escalas o subcuestionarios del Minnesota Multiple Personality Inventory (MMPI) (DAHLSTROM, W.G.
Y WELSH, G.S., An MMPI Handbook North Publishing Company, St Paul 1960)); el MAS (TAYLOR
J.A., A Personality Scale of Manifest Anxiety, en “Journal of Abnormal and Social Psychology” 48
(1953), pp. 285-290); el Cornell Medical Index (BRODMAN, K., ERDMAN, A.J., LORGE, I.,
GERHENSON, C.P. Y WOLFF, H.G., The Cornell Medical Index Health Questionnaire III; The
Evaluation of Emotional Disturbance, en “Journal of Clinical Psychology”, 8 (1952), pp 119-124);
algunas escalas del Sixteen Personality Factor Test (16PF) (CATTEL, R.B. Y STICE, G.F., Handbook
of the Sixteen Personality Factor Questionnaire (Institute for Personality and Ability Testing,
Champaign, Illinois 1957)); del Maudsley Personality Inventory (MPI) (EYSENCK, H.J., Manual of the
Maudsley Personality Inventory, University of London Press, Londres 1959)); y del Eysenck
Personality Inventory (EPI) (EYSENCK, S.B.G., Manual fo the Eysenck Personality Inventory,
University of London Press, Londres 1964)). Han recibido diferentes nombres, pero los estudios de
factor analítico han dejado claro que todos están tan altamente correlacionados que se puede decir
que son más o menos idénticos, y miden el mismo factor general de “neuroticismo” o “emotividad
neurótica”. BENDIG, .w., Factor Analices of “Anxiety” and “Neuroticism” Inventories, en “Journal of
Consulting Psychology, 24 (1960), pp. 161-168, EYSENCK, H.J. Y EYSENCK, S.B.G., Personality
Structure and Measurement, Routledge & Kegan Paul, Londres 1969; y GUILFORD, J.P., Factors and
factors of Personality, en “Psychological Bulletin”, 82 (1975), pp. 802-814.
lvii Los test que confirman este hallazgo han usado el MMPI, el 16PF, el MPI, el EPI, la Neuroticism
Scale Questionnaire (NSQ), y el Maudsley Medical Questionnaire (MMQ). Estudios sobre grupos
clínicos de personas con tendencia a la homosexualidad (personas en tratamiento) son: VAN DEN
AARDWEG, G.J.M., Homofilie, neurose en dwangzelfbeklag, Polak & Van Gennep, Ámsterdam 1967
(Holanda, MMPI y MPI); OLIVER , W.A. Y MOSHER, D.L., Psychopathology and Guilt in Heterosexual
and Subgroups of Homosexual Reformatory Inmates, en “Journal of Abnormal Psychology” 73 (1968),
pp. 323-329 (EEUU, MMPI); CATTELL, R.B. Y MORONY, J.H., The Use of 16PF in Distinguishing
Homosexuals, Normals, and General Criminals, en “Journal of Consulting Psychology”, 26 (1952), pp.
531-540 (Australia, 16PF); VERMEUL, A.W. – VAN MULLEM, Het voorkomen van de zogenaamde
homosexuele signs in de Rorschachtest (investigación sin publicar, Gemeente Universiteit,
Department of Psychology, Ámsterdam 1960) (Holanda MMQ); y FELDMAN, M.P. Y MACCULLOCH,
M.J., Homosexual Behaviour Therapy and Assessment, Pergamon Press, Oxford 1971 (Gran Bretaña,
16PF y EPI). Aquellos que no usan grupos clínicos son CATTELL, R.B. Y MORONY, Use of the 16PF;
DOIDGE, W.T. Y HOLTZMAN, W.H., Implications of Homosexuality Among Air Force Trainees, en
“Journal of Consulting Psychology”, 24 (1960), pp. 9-13 (EEUU, MMPI); DEAN, R.B. Y
RICHARDSON, H., Analysis of MMPI Profiles of Forty College-Educated Overt Male Homosexuals, en
“Journal of Consulting Psychology”, 28 (1964), pp. 483-486 (EEUU, MMPI); BRAATEN, L.J. Y
DARLING, C.D., Overt and Covert Homosexual Problems Among Male College Students, en “Genetic
Psychology Monographs”, 71 (1965), pp, 269-310 (EEUU, MMPI), MANOSEVITZ, M., Early Sexual
Behaviour in Adult Homosexual and Heterosexual Males, en “Journal of Abnormal Psychology” 76
(1970), pp. 396-402 (EEUU, MMPI); idem, Education and MMPI-MfSocres in Homosexual and
Heterosexual Males, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 36 (1971), pp. 395-399
(EEUU, MMPI); EVANS, R.B., Sixteen Personality Factor Questionnaire Scores of Homosexual Men,
en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 34 (1970), pp 212-215 (EEUU, 16PF);
SIEGELMAN, M., Adjustment of Male Homosexuals and Heterosexuals, en “Archives of Sexual
Behaviour”, 2 (1972), pp. 9-25 (EEUU, NSQ); idem, Psychological Adjustment of Homosexual and
Heterosexual Men: A Cross-national Replication, en “Archives of Sexual Behaviour”, 7 (1978), pp. 1-
11 (Gran Bretaña, NSQ);, LIONG A KONG, H,P., Neurotische labiliteit en homfilie bij mannen
(investigación no publicada, Vrije Universiteit, Department of Psychology, Amsterdam 1965) (Holanda,
MPI); y SBARDELINI, E. Y SBARDELINI, E. T., Homosesexualismo masculine e homossexualismo
feminine: Neuroticismo e fatores psicológicos na infancia (investigación no publicada, Universidade
Católica, Department of Psychology, Campinas, Sao Paulo 1977).
lviii ARNDT, J.L., Genese en psychotherapie der neurose, 2 vols. Boucher, La Haya 1962.
lix BERGLER, E., Counterfeit Sex. Grunne & Stratton, Nueva York 1958.
lx GOLDBERG, S., The Inevitability of Patriarchy. Temple Smith, Londres 1977.
lxi MAY, R., Sex and Fantasy, Patterns of Male and Female Development. Norton, Nueva York 1980.
lxii DANNECKER, M., Der Homosexuelle und die Homosexualitat. Syndikat, Frankfurt 1978.
lxiii Muchos estudios han confirmado este modelo. Se puede consultar en BIEBER, I et al.
Homosexuality: A psychoanalityc Study, Basic Books, Nueva York 1962; EVANS, R.B., Childhood
Parental Relationships of Homosexual Men, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 33
(1969), pp. 129-135; SNORTUM, J.R. et al., Family Dynamics and Homosexuality, en “Psychological
Reports” 24 (1969), pp 763-770; THOMSON, N.L. et al., Parent-Child Relationships and Sexual
Identity in Male and Female Homosexuals and Heterosexuals, en “Journal of Consulting and Clinical
Psychology”, 41 (1975), pp. 120-127; STEPHAN, W.G., Parental Relationships and Early Social
Experiences of Activist Male Homosexuals and Male Heterosexuals, en “Journal of Abnormal
Psychology” 82 (1973), pp 506-513; SIEGELMAN, M., Parental Backgrounds of Male Homosexuals
and Heterosexuals, en “Archives of Sexual Behavior”, 3 (1974), pp. 3-18; VAN DEN AARDWEG, De
factor “klaagziekte”, neurose en homofilie, en “Psychologica Belgica”, 13 (1973), pp 295-311.
lxiv El autor trata con más detalle esta cuestión en VAN DEN AARDWEG, G.J.M., Parents of
Homosexuals: Not Guilty?, en “American Journal of Psychotherapy”, 38 (1984), pp 180-189.
lxv BIEBER, I y BIEBER, T. Male Homosexuality, en “Canadian Journal of Psychiatry”, 24 (1979), pp.
409-422.
lxvi VAN DEN AARDWEG, G.J.M., De neurose van Couperus, en “Nederlands Tijdschrift voor de
Psychologie”, 20 (1965), pp. 293-307.
lxvii BIEBER et al., Homosexuality; EVANS, Childhood Parental Relationships; THOMSON et al.,
Parent-Child Relationships and Sexual Identity; STEPHAN, Parental Relationships; SBARDELINI, E. y
SBARDELINI, E. T., Homossexualismo masculine e homossexualismo feminine: Neuroticísmo e
fatóres psicológicos na infancia, inédito; Universidade Católica, Department of Psychology. Campinas,
Sao Paulo 1977
lxviii Se ha dicho que efectos como los descritos en las relaciones paterno-filiales de personas con
tendencias homosexuales sólo suceden a aquellos que visitan el consultorio de psicólogo y del
psiquiatra. Esto no es verdad. Como en el caso de los test de personalidad (ver las notas 19-22 del
capítulo 4), se han recogido estadísticas y observaciones en todo tipo de grupos, incluyendo
personas con tendencias homosexuales que están socialmente integradas.
lxix Algunos estudios sobre este tema: BENE, E., On the Genesis of Female Homosexuality, en
“British Journal of Psychiatry”, 111 (1965), pp. 815-821; KAYE, E. et al., Homosexuality in Women, en
“Archives of General Psychiatry”, 17 (1967), pp. 626-634; KENYON, F.E., Studies in Female
Homosexuality: Psychological Test Results, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 32
(1968), pp. 510-513; KREMER, M. W. Y RIFKIN, A.H., Early Development of Homosexuality: A Study
of Adolescent Lesbians, en “American Journal of Psychiatry”, 126 (1969), pp. 91-96; GUNDLACH,
R.H. Y RIESS, B.F., Self and Sexual Identity in the Female: A Study of Female Homosexuals, en “New
Directions in Mental Health”, editado por B.F. RIESS, Grune&Stratton, Nueva York 1968; y
SWANSON, D.W. et al., Clinical Features of the Female Homosexual Patient: A Comparison with the
Heterosexual Patient, en “Journal of Nervous and Mental Disease” 155 (1972), pp. 119-124.
lxx GUNDLACH Y RIESS, Self and Sexual Identity.
lxxi SENGERS, W.J., Homoseksualiteit als klacht: Een psychiatrische studie. Paul Brand, Bussum
1969.
lxxii La reorientación religiosa de la vida se usa, a veces, como método, por ejemplo, por el método
jesuita de “discernimiento de espíritus” (qué “espíritu” o actitud mental es la correcta, la deseada por
Dios, y cuál es la equivocada, la que debemos evitar). La aplicación de este método puede llegar a
curar a un homosexual como “efecto lateral”, según me ha comunicado el sacerdote católico y
publicista holandés Dr. Penning de Vries. Sin embargo, la meta primaria de este método no es curar
una neurosis, sino reorientar la vida de una persona de acuerdo con los principios cristianos.
lxxiii BOS, J.T., Ik ben niet meer “zo”. Gideon, Hoornaar 1969.
lxxiv Aun permaneciendo profundamente religioso, la exaltación de este hombre se ha calmado
mucho desde entonces. Él mismo se inclina ahora a ver su cambio como un esfuerzo psíquico,
motivado yen gran parte animado por su conversión religiosa, la oración y, sobre todo, por un cambio
total en la forma de vida.
lxxv HATTERER, L.J., Changing Homosexuality in the Male. McGraw-Hill, Nueva York 1970.
lxxvi G. J. M. Van den Aardweg, On the Origins and Therapy of Homosexuality: A Psychoanalitic
Reinterpretation, Praeger, New York, 1986. .Tradução alemã: Das Drama des gewõhnlichen
Homosexuellen, Hanssler Verlag, Ncuhausen, 1992 (Postfach 1220, I) 73762 Neuhausen, fax 07158-
177-119).

Homossexualidade e Esperança

  • 1.
    Gerard J.M. Vanden Aardweg Homossexualidade e Esperança Traduzido de HOMOSEXUALIDAD Y ESPERANZA - TERAPIA Y CURACIÓN EN LA EXPERIENCIA DE UN PSICÓLOGO GERARD J.M. VAN DEN AARDWEG
  • 2.
    ÍNDICE INTRODUÇÃO................................................................................................................................03 CAPÍTULO 1: Atitudessociais a respeito da homossexualidade....................................................06 CAPÍTULO 2: O que é ser homossexual?..............................................................................…......09 CAPÍTULO 3: A homossexualidade é inata?............................................................................…...14 CAPÍTULO 4: A homossexualidade como transtorno psíquico.................................................…..22 CAPÍTULO 5: O complexo de inferioridade homossexual..............................................................26 CAPÍTULO 6: Origem e mecanismos do complexo homossexual..................................................35 CAPÍTULO 7: Manifestações do complexo homossexual...............................................................42 CAPÍTULO 8: O caminho da mudança............................................................................................45 CAPÍTULO 9: A mudança sem psicoterapia....................................................................................52 CAPÍTULO 10: Os efeitos da terapia anti queixa.......................................................................….59 CAPÍTULO 11: A prevenção da homossexualidade........................................................................66 BIBLIOGRAFIA..............................................................................................................................67 NOTAS………………………………………………………………..………………………....….68
  • 3.
    3 INTRODUÇÃO por PAUL C. VITZ Nenhumaspecto da revolução sexual contemporânea mereceu mais destaque e provocou mais polêmica que a homossexualidade. Há vários anos somos bombardeados por argumentos de ambas as partes. De um lado, o movimento homossexual extremista, com exigências de tolerância e aceitação. Do outro, (atualmente com menor expressão pública), estão aqueles que rejeitam absolutamente o problema homossexual e não estão dispostos a encará-lo de modo algum. No entanto, os aspectos mais importantes da homossexualidade não têm sido discutidos de forma adequada. Entre eles, a investigação das causas e o exame das possibilidades de mudança tanto no comportamento como na orientação homossexual. Atualmente, ao fim de muitos anos de controvérsia exagerada, existe um desejo de se se chegar a alguma conclusão. Em parte, isto se deve a uma mudança na forma como a opinião pública encara o problema. O movimento homossexual extremista dos anos 60/70 começou claramente a recuar. Muito embora o público tenha sido despertado para o tema da homossexualidade, passou também a abandonar a imensa simpatia que nutria anteriormente pelo movimento homossexual. Os próprios homossexuais começaram a pensar duas vezes na questão, refletindo melhor o seu estilo de vida. A crise da AIDS evidenciou algumas das consequências da atitude “gay” militante e completamente desinibida. Porém, este fenômeno relacionado com a AIDS é apenas parte de uma tomada de consciência mais ampla, entre os homossexuais, pessoas em geral, de que o estilo de vida homossexual, mesmo independentemente de qualquer consequência para a saúde, tem se mostrado altamente nocivo para muitas pessoas. Resumindo, julgo que atualmente é possível, na cultura norte-americana e ocidental, dar início a uma reflexão racional, critica, porém simpática da homossexualidade. Por isso, a publicação deste livro de Gerard Van den Aardweg, Homossexualidade e Esperança, ocorre em um momento particularmente oportuno. O problema pode ser sintetizado assim: por um lado, temos todas as razões para nutrir simpatia e preocupação com aquele que possui sentimentos homossexuais, reconhecendo a realidade da sua situação. Não podemos ignorar essas pessoas, nem pedir simplesmente uma mudança de comportamento. Portanto, aceitamos o problema homossexual como importante e real, sem menosprezá-lo de nenhuma forma. Por outro lado, vêm surgindo, nas últimas décadas, muitos estudos relevantes sobre as origens da homossexualidade. Alguns demonstram claramente que a homossexualidade pode ser e já tem sido de fato mudada. As referências bibliográficas pioneiras apontando nesta direção já foram bem conhecidas e aceitas. Contudo, em consequência do movimento homossexual militante, este ponto de vista foi posto de lado nos últimos 10 ou 15 anos e ficou restrito a uma posição minoritária no campo da psicologia. O Prof., Van den Aardweg mostra o valor desta investigação e das pesquisas mais recentes, insistindo na necessidade de olharmos para esses dados. Isto já é por si só uma conquista importante. Mas, além disso, aceitando que a homossexualidade é um problema sério, ele apresenta uma estratégia psicológica para abordá-lo. Com isso o Dr. Van de Aardweg situa a homossexualidade em um novo contexto: a esperança de cura. Qual é a importância dessa esperança? Afinal, muitos homossexuais parecem estar interessados na total aceitação da sua forma de viver como intrinsecamente válida. Neste particular, me parece que a realidade é clara. Um grande número de homossexuais está francamente
  • 4.
    4 insatisfeito com asua forma de vida. Quando descobrem que são homossexuais, quase todos eles se sentem abatidos e deprimidos. O estilo de vida homossexual alimenta enormes quantidades de remorso, e não sentimento neurótico de culpa (embora, estou convencido, também há algo neste sentido), mas verdadeiro remorso: remorso por causa da promiscuidade sexual, remorso pelas contínuas mentiras acerca de relações de amor eterno que se rompem em poucas semanas, às vezes dias ou horas. Este remorso, juntamente com as esperanças frustradas acerca da vida homossexual, pesa seriamente sobre muitos homossexuais. A esperança que aqui se propõe é a esperança de se libertar de todos estes comportamentos, pensamentos e emoções, extremamente dolorosos. Um quadro conceitual da cura também nos fornece uma perspectiva muito mais racional para compreender o problema da homossexualidade e lidar com ele. Nos últimos anos, aprendemos muito acerca de variadas condições psicológicas que perturbam e debilitam muitas pessoas. Temos agora consciência dos milhões de pessoas que sofrem ou sofreram por situações como o alcoolismo, obsessão de jogo, abuso de drogas, desordens maníaco-depressivas, esquizofrenia, anorexia, bulimia, ansiedade angustiante, depressões e fobias. Talvez todos nós, em certa medida e em algum momento das nossas vidas, seremos atingidos por algumas destas condições, assim como todos nós, mais cedo ou mais tarde, sofremos de enfermidades físicas. Acima de tudo, nos habituamos a encarar a cura das patologias psicológicas da mesma forma que a das doenças físicas. Todos nós conhecemos pessoas que se recuperaram de um ataque cardíaco e de pressão alta, pessoas que viveram muitos anos com câncer. Também sabemos de pessoas que venceram o alcoolismo, ou problemas psicológicos tais como profundas depressões e que estão bem. Talvez tenhamos experiência pessoal com estes casos. O Prof., Van den Aardweg mostra que a homossexualidade é mais uma dessas patologias que podem acometer qualquer pessoa. Ela tem origem no processo educativo e em várias experiências da nossa vida. Como qualquer outra patologia, pode ser compreendida e curada. Van den Aardweg retira a homossexualidade de uma perspectiva completamente irracional e conduz uma abordagem racional e realista do tema. A homossexualidade não é como uma condenação perpétua a viver de uma forma sempre conflituosa com o padrão heterossexual e as principais instituições da sociedade. Os homossexuais não estão condenados a uma vida que os aliena, segrega e restringe fortemente. Uma vez que, a homossexualidade é vista como mais um problema psicológico, que pode ser ultrapassado, a atitude em relação a ela muda de dois modos. Confere-se ao homossexual esperança de mudar e, ao mesmo tempo, se passa a encarar a pessoa homossexual como parte integrante da sociedade humana normal, sujeita, tal como todos nós, a patologias. Isto é particularmente verdade quando se olha para a homossexualidade como uma condição que pode ser curada e da qual, mediante Deus, se pode sair mais fortalecido, depois de ter conseguido vencer o desafio. É preciso sublinhar esta ideia. Por exemplo, conheço um grupo de homossexuais na cidade de Nova Iorque, intitulado “Courage”. Os membros deste grupo têm se esforçado seriamente para viver uma vida cristã, em particular, uma vida sexualmente casta. O nome do grupo é perfeitamente apropriado, porque empreender seriamente este tipo de vida exige efetivamente coragem. Ao pretender dar uma resposta cristã à sua homossexualidade, estes homens estão também a se apresentarem como exemplos de força de vontade e coragem para muitos outros — incluindo os heterossexuais. Até porque muitos heterossexuais também sofrem de patologias comportamentais — em particular, diversos tipos de comportamentos sexuais comuns entre os heterossexuais são, hoje em dia, vistos pelos psicólogos como dependências, por exemplo, a dependência da promiscuidade sexual, a dependência do vício da masturbação ou do fetichismo sexual. Os homossexuais que vencerem a sua condição podem ser vistos como modelos de força e de esperança para muitas outras pessoas.
  • 5.
    5 Neste livro, Vanden Aardweg apresenta a autocompaixão como elemento central da psicologia homossexual. É importante notar que as consequências neuróticas da autocompaixão não se restringem de modo algum à homossexualidade. Isto é, a autocompaixão é uma condição que afeta inúmeros tipos de pessoas. Uma das contribuições mais importantes de Van den Aardweg é descrever a dinâmica que conduz a este processo e algumas das terapias psicológicas para controlá- lo. Sob este aspecto, esta obra também é útil para quem estiver interessado nas modalidades em que a autocompaixão afeta a vida das pessoas, incluindo as heterossexuais. A utilização que o Prof., Van den Aardweg faz do humor como técnica terapêutica para tratar o auto-compadecimento neurótico pode se estender a muitas outras situações. Qualquer pessoa que sofra deste problema de autocompaixão é um potencial candidato ao tratamento pelo humor. De fato, penso que o humor é uma ferramenta de espectro muito amplo em psicoterapia, e mereceria mais atenção do que até agora tem recebido por parte dos psicólogos. A tese do Prof., Van den Aardweg toca numa área importantíssima da psicologia — educação infantil e, sobretudo, a relação entre a educação infantil e o desenvolvimento moral e ético. Certamente, a incapacidade de desenvolver uma identidade sexual normal tem consequências morais e éticas. Van den Aardweg descreve com grande perspicácia e de maneira concisa as atitudes típicas e os valores subjacentes ao não desenvolvimento da orientação heterossexual da criança. A sua interpretação da homossexualidade oferece uma visão acerca da psicologia do desenvolvimento, em particular sobre o caráter moral e ético da criança. Convido os leitores interessados no desenvolvimento infantil a prestar atenção particularmente às explicações e aos argumentos do autor. Finalmente, a abordagem do Prof., Van den Aardweg tem um significado especial para a comunidade cristã. Ainda que ao interpretar clinicamente a homossexualidade ele não faça referência a quaisquer conceitos ou doutrinas explicitamente cristãs, o seu livro é uma contribuição interessante e profunda, do ponto de vista da atitude cristã a respeito da homossexualidade. O orientador cristão que estivesse convencido de que a homossexualidade não pode ser curada se depararia com um dilema moral muito sério. Ele poderia aceitar a pessoa, mas se a orientação homossexual não pudesse ser mudada, seria também levado a aceitar o comportamento homossexual. Agir dessa forma, sabendo que o judaísmo, do qual Jesus foi um legítimo representante, condena a homossexualidade, seria rejeitar a Escritura e a Tradição da Igreja sobre este ponto, não apenas os últimos 2000 anos de cristianismo, como também os anteriores 3000 anos de vida judaica. A alternativa pareceria sob alguns aspectos igualmente inaceitáveis, por exemplo, rejeitar o homossexual, dizer que ele está agindo mal, sem oferecer ajuda nenhuma. Ambas as atitudes pareceriam não cristãs e, aparentemente, não haveria meio termo. Todos nós conhecemos a famosa história de Jesus e da mulher adúltera, onde Jesus Se recusa a condenar a mulher e encontra sabiamente uma forma de mandar embora aqueles que pretendiam condená-la. Apesar de tudo, quando os dois ficam sozinhos, Jesus declarou em termos inequívocos: “Vai e não tornes a pecar”. Este livro, tal como obras recentes de outros psicólogos tanto cristãos como não cristãos, que enfrentam o problema da homossexualidade, constitui uma ajuda real. Este gênero de livros, como os do Prof. Van den Aardweg, fornecem indicações muito valiosas sobre o modo de ajudar o pecador que quer honestamente ir e não voltar a pecar.
  • 6.
    6 1- ATITUDES SOCIAISA RESPEITO DA HOMOSSEXUALIDADE Hoje em dia, muitos julgam que os sentimentos homossexuais são uma simples questão de escolha ou de gosto pessoal. Daí resulta um apelo à aceitação social, colocando as práticas homossexuais no mesmo pé das relações heterossexuais. Muitos chegam até mesmo a fazer pressão no sentido de as relações homossexuais receberem o mesmo reconhecimento legal que o casamento e defendem uma maior informação da opinião pública, em que aquela condição seja aceita como normal. O único problema da homossexualidade seria, segundo eles, de carácter social: convencer as pessoas a aceitarem e a devolverem os direitos naturais a uma minoria há muito reprimida. Alguns vão ainda mais longe e, convencidos de que todos os adultos são, por natureza, parcialmente homossexuais, defendem que a educação das crianças seja modificada para um modalidade mais aberta à homossexualidade, por exemplo, tratando os meninos e as meninas do mesmo modo. Nesta questão, o chamado movimento de libertação homossexual caminha de mãos dadas com o movimento feminista. Ambos estão de acordo sobre a necessidade de reformular completamente os papéis masculinos e femininos e as relações homem-mulher. A palavra de ordem é acabar com os modelos de papéis “pré-definidos”. E dizendo “pré-definidos” entendem que até agora teríamos sido obrigados, pela pressão cultural, a assumir formas tradicionais de masculinidade e feminilidade, a aceitar modalidades arbitrárias e coercitivas de relacionamento com o outro sexo e a adotar o casamento como se fosse o único tipo imaginável de relação sexual. A verdade é que —prossegue o raciocínio—, a sexualidade natural seria muito mais rica nas suas “variantes” e a ciência moderna teria demonstrado a existência de formas completamente diversas, mas igualmente naturais, de sexualidade, de amor sexual e de relações sexuais. A estrada a ser percorrida, com o superação dos preconceitos antiquados parece perfeitamente clara para eles... de modo que, não aceitar a homossexualidade como coisa normal, seria discriminai as pessoas só por terem um modo de ser diferente, por serem “intrinsecamente” diferentes. Até sugerem a hipótese de alguém fazer essa discriminação por teimar em reprimir a componente homossexual da sua própria vida emocional ou, pior ainda, por sofrer de “homofobia”, um medo patológico da homossexualidade. Estas ideias, repetidas frequentemente na rádio e na televisão, nos jornais e nas revistas, promovidas por organizações para a reforma sexual e por algumas instituições conceituadas de saúde mental, deixaram pouco espaço para as outras opiniões. Tornou-se comum ensinar aos estudantes das universidades e dos liceus que a homossexualidade é normal; um professor que se atreva a expressar uma opinião diferente corre o risco de ser lapidado pela indignação pública. Autores de textos e de artigos especializados de medicina e psicologia publicam regularmente de acordo com esta mentalidade e, se alguma vez mencionam opiniões sobre a homossexualidade diferentes daquelas dos movimentos de libertação homossexual, não escapam ao comentário depreciativo e mordaz. Não é de se estranhar que este não seja o clima ideal para novas investigações imparciais sobre as causas da homossexualidade*, que as nossas instituições científicas abandonaram à própria sorte, privando-as de terapia adequada. Muitos editores hesitam em publicar obras que não se alinhem na orquestração habitual, para não chocar a facção maioritária. Um dos poucos que protestaram contra a perda de liberdade motivado por a este clima de pressão social foi A. D. de
  • 7.
    7 Groot, professor holandêsde psicologia da personalidade. Em um debate sobre a hipótese de os homossexuais serem mais neuróticos que os heterossexuais, escreveu: O clube mais poderoso da nossa época, entre os intelectuais e os semi-intelectuais, é a comunidade dos seguidores das opiniões predominantes, tendencialmente avançadas. Quem se lembrar de propor uma teoria sobre diferenças entre grupos é acusado de “discriminação”. A propaganda em favor da aceitação da homossexualidade teve origem sobretudo entre os próprios homossexuais militantes, a quem tem sido dada oportunidade privilegiada de se pronunciarem, cada vez que aparece nos meios de comunicação qualquer acontecimento relacionado com a homossexualidade, ou sempre que sai um artigo, um livro ou um filme sobre o assunto. Parecem ser considerados os melhores especialistas da sua condição emocional. No entanto, olhando as coisas com mais atenção, há razões de sobra para supor que justamente eles “não podem ser bons juízes em causa própria”, como diz um antigo provérbio. (*) É interessante observar como a Força Tarefa Nacional Gay pressionou a Associação Americana de Psiquiatria a suprimir a homossexualidade da lista de transtornos mentais (Nota do Editor na língua espanhola) A HOMOFILIA COMO PERTURBAÇÃO EMOCIONAL —“Todos acham que é normal”. É um protesto que se ouve frequentemente, principalmente, da parte de jovens, afetados por este problema. Nesta seção tentaremos explicar por quê o “todos” está bastante longe da realidade. É um fato que pessoas com orientação homossexual são muitas vezes informadas da sua normalidade por médicos, psicólogos e até padres, que as consolam: “Por que se angustiar com isto? Aceite que é ‘assim’, arranje um parceiro, se associe a um círculo gay. Não há nada que possa fazer”. No entanto, estas opiniões são infundadas, simples frases-feitas que estão na moda. Analisemos, portanto, o outro ponto de vista. Primeiro, será demonstrado que a homossexualidade é uma perturbação emocional originada na infância e na adolescência. Depois, que, em muitos casos, as pessoas com esta orientação podem conseguir melhorias profundas, se trabalharem com paciência, empenho e boa vontadei . Não é fácil dizer a palavra certa. Normalmente, os homossexuais militantes fogem de um debate aberto, querem apenas ouvir que têm razão, são surdos aos argumentos lógicos e aos fatos; atacam, dramatizam a sua situação (e, pelo visto, com pleno êxito). Precisamos ser firmes para resistir às pretensões desta militância furiosa. Talvez tivesse sido boa ideia prestar mais atenção a uma parte significativa dos homossexuais que não fazem tanto estardalhaço e frequentemente ficam esquecidos. Estas pessoas vivem perturbadas pela sua difícil situação e pelas suas implicações, tais como o isolamento social, o fato de ficarem solteiras e sozinhas. Muitas vezes, sentem-se infelizes e inferiores, até mesmo desesperadas. Talvez deveríamos ter dado mais atenção aos grupos homossexuais bem intencionados que levam uma vida homossexual sem encontrarem nela a paz, ou àqueles que se sentem condenados a repetir, pela vida afora, “nunca serei normal”. Não pensem que é um pequeno grupo. Quando se vai mais fundo numa conversa pessoal, se descobre que a maior parte das pessoas com orientação homossexual estão insatisfeitas com isso e gostariam de mudar “se fosse possível”ii . É verdade que muitas resistem a encarar as suas sensações como neuróticas ou a se empenharem em tentativas reais de mudar. Contudo, temos de admitir que, no mínimo, as opiniões sociais
  • 8.
    8 predominantes agravam estashesitações em mudar. Seja como for, estas pessoas —e a maior parte daquelas que lutam para superar os seus sentimentos homossexuais— têm necessidade de uma compreensão realista, não de uma compreensão superprotetora ou sentimental. Têm necessidade de encorajamento, mas também precisam olhar racionalmente para si próprias. Por isso este livro destina-se particularmente a elas, aos cônjuges, se são casadas, e aos pais que (se não estiverem atordoados pela propaganda da Libertação Gay) sofrem pelo caminho tomado pelos seus filhos. Este livro também poderá ser útil àqueles que, no trabalho ou na vida privada, têm de enfrentar os problemas de colegas ou amigos com tendências homossexuais.
  • 9.
    9 2- O QUEÉ SER HOMOSSEXUAL? As expressões “este homem é homossexual” ou “esta mulher é lésbica” sugerem que essa pessoa pertence a uma variante da espécie humana, diferente da variante heterossexual. A homossexualidade está sendo cada vez mais apresentada como uma “variante”, uma “preferência”, uma «condição constitutiva» e estes termos podem dar a entender que a pessoa tenha nascido assim. Contudo, a verdade não é bem essa. Os conhecimentos de que dispomos mostram que as pessoas com orientação homossexual nasceram com o mesmo patrimônio biológico e psíquico comum a toda pessoa. Por exemplo, o fato de uma certa porcentagem de homens com orientação homossexual dar a impressão de falta de virilidade, ou parecer efeminados nos comportamentos ou nos interesses, não é prova de “diversidade” natural inata, pois estes estilos resultam de uma educação ou de uma autoimagem adquirida, aprendida. Da mesma forma, uma mulher “masculinizada” com sentimentos lésbicos não é assim por disposição natural, mas por hábito e por certo tipo de complexo de inferioridade. Além disso, existem mulheres lésbicas acentuadamente femininas que poucos, à primeira vista, poderiam imaginá-las com estas tendências. Com as palavras “complexo de inferioridade”, ESTOU ANTECIPANDO MINHA LINHA DE ARGUMENTAÇÃO. Efetivamente, procurarei mostrar que a orientação homossexual nasce de um tipo particular de complexo de inferioridade, pois constitucionalmente, as pessoas são heterossexuais e não homossexuais. Isto é verdadeiro, independentemente de se ter ou não consciência do fato; um homem ou uma mulher são essencialmente heterossexuais, mesmo que não sintam ou só de forma muito atenuada a sua orientação heterossexual. Rigorosamente, não existem “homossexuais”, nem sequer no reino animal; existem apenas pessoas que têm inclinações homossexuais. Por esse motivo, evitaremos chamá-los “homossexuais”, preferindo usar designações menos concisas tais como “pessoas com orientações homossexuais”. SENTIMENTOS HOMOSSEXUAIS Pode se definir o sentimento homossexual como a sensação de estar apaixonado ou sentir atração erótica por pessoas do mesmo sexo; paralelamente, se verifica um escasso interesse erótico para com o outro sexo, ou a ausência quase total de atração. Aqui, é preciso fazer uma reserva: durante a adolescência (puberdade), até cerca dos dezessete anos, as sensações homossexuais, são habitualmente passageiras e devem ser consideradas como uma etapa do desenvolvimento psicossexual. Na fase seguinte, com o despontar dos sentimentos heterossexuais, esses interesses desaparecem sem deixar rastro. Como será visto a seguir, a pré-puberdade e a puberdade são os períodos mais decisivos para o eventual desencadear de uma homossexualidade “propriamente dita”, isto é, de tendências homossexuais que permanecem ao longo da vida. Convém também não esquecer que a palavra “homossexualidade” abarca uma grande variedade de formas. Por exemplo, alguns homens têm uma excitação sexual com quase todos os homens que encontram, enquanto outros só têm interesse em certos tipos masculinos. Para alguns, a tendência homossexual está continuamente presente na imaginação, como uma obsessão, enquanto que em outros aparece de modo bastante irregular. Alguns estão exclusivamente orientados para parceiros com idade aproximada, outros para homens mais velhos, outros ainda para jovens, adolescentes ou crianças (homossexuais pedófilos). Alguns outros, não têm preferências fixas por um tipo de companheiro. Existe também diversidade nos papéis assumidos em relação aos parceiros, pois alguns assumem predominantemente o papel ativo, enquanto outros o passivo,
  • 10.
    10 embora muitos —amaior parte— não tenham um tipo de papel estabelecido. Algumas pessoas com orientação homossexual podem às vezes sentir estímulos claramente heterossexuais, embora de reduzida intensidade: estas pessoas são designadas por bissexuais. Outros, ainda, só têm impulsos heterossexuais esporádicos, ou quase não chegam sequer a tê-los: são os chamados homossexuais exclusivos. (Digo “quase” porque Freud afirmava com razão que, numa análise cuidadosa das fantasias e dos sonhos de toda a vida de uma pessoa com fortes inclinações homossexuais, podem sempre ser encontrados traços de uma disposição heterossexual normal, mesmo que esteja profundamente escondida). Mais uma distinção: alguns alimentam o desejo de um parceiro para uma relação duradoura; outros não poderiam sequer suportar essa ideia. De todos os modos, entre o eventual desejo de fidelidade e a sua realização vai uma grande distância; uma relação realmente duradoura e fiel é extremamente rara, se é que isso é possível em algum caso. Por exemplo, segundo determinado estudo, em setenta homens e mulheres com orientação homossexual que afirmavam terem aceito os seus sentimentos como normais e viviam à maneira homossexual, mais de 70% desejavam uma relação estável; mas, conforme as próprias declarações destas pessoas, só quatro homens e seis mulheres daquele universo estatístico tiveram um único companheiro no curso dos dois anos anterioresiii . Independentemente do país ou da amostra de pessoas inclinadas à homossexualidade que sirvam de base a este tipo de investigação, os resultados são invariavelmente os mesmos. Por outro lado, é possível distinguir aqueles que procuram contatos transitórios (os tipos “cruzamento”) e aqueles que vivem com um só parceiro durante um período mais longo, mesmo que na prática acabe por não ser assim tão longo. INCIDÊNCIA DA HOMOSSEXUALIDADE NO CONJUNTO DA POPULAÇÃO Os militantes homossexuais encheram o mundo com O slogan “uma em cada vinte pessoas é homossexual”. É pura propaganda. Aparentemente, há quem pense que uma alta incidência no total da população tornaria esta condição mais normal, mas obviamente, não há nenhuma lógica nisso. Não basta que uma alta porcentagem da população sofra de reumatismo para ele deixar de ser uma doença. Se as incidências atribuídas à homossexualidade tossem verdadeiras, várias dezenas de milhões de americanos seriam homossexuais; estes números não se apoiam em nenhuma investigação. Os poucos estudos válidos — realizados, além disso, em grupos específicos— apontam, no máximo, para 2 ou 3% da amostra; uma das sondagens não chegou sequer a encontrar 1 % de homossexuaisiv . Recenseamentos recentes, mais vastos e seguros, têm confirmado este último valor: para os Estados Unidosv cerca de 1% e 1,5% no Reino Unidovi . Também é preciso lembrar que muito provavelmente existem menos mulheres com tendências homossexuais e a maior parte das estimativas são extrapolações de amostras masculinas; além disso, cerca de 30 ou 40% das pessoas com sentimentos homossexuais são bissexuais e poderiam ser contadas também pelo lado da população não homossexual; e as crianças e os adolescentes deveriam ser excluídos do total apurado dos homossexuais, pois o seu desenvolvimento ainda está em curso. Assim, se chega a porcentagens ainda mais baixas. Pode parecer que a homossexualidade tenha aumentado rapidamente nos últimos anos. Duvido muito deste crescimento rápido; pode ser que tenha aumentado apenas o número daqueles que traduzem a sua orientação em comportamentos homossexuais. A excessiva atenção dada ao tema (não há revista de grande divulgação que não traga comentários sobre os homossexuais e os seus problemas) contribui sem dúvida para dar a impressão de onipresença da homossexualidade. É precisamente isto o que os defensores da normalidade do fenômeno “gay” pretendem conseguir. Ser a favor da homossexualidade se tornou um sinal de visão progressista.
  • 11.
    11 AUTO-IDENTIFICAÇÃO Os jovens quepercebem em si mesmos tendências homossexuais passam frequentemente por maus bocados. Sentem-se cada vez mais afastados dos colegas da mesma idade por não conseguirem partilhar o seu interesse pelo outro sexo, enquanto sentem-se obrigados a se comportar como se estivessem interessados. Envergonham-se. Quando o tema da homossexualidade é tocado, querem se esconder, para evitar que os outros os associem com essa condição. Sofrem em silêncio; talvez se esforcem por negar ou dissimular os seus sentimentos, até mesmo para si próprios. Mas chega o momento, crucial, geralmente por volta dos dezoito anos, em que têm de enfrentar a situação. É então que acabam chegando a uma conclusão: “sou homossexual”. Isto pode ser um alívio. A tensão aguda se apazígua momentaneamente, mas há certo preço a pagar. Esses jovens mal se dão conta de terem atribuído a si mesmos um rótulo quase definitivo com esta “auto-identificação”, classificando a si mesmos em uma “segunda classe” efetivamente marginal. Alguns podem assumir uma atitude orgulhosa e até fazer de conta que são superiores às pessoas normais, mas apesar dos esforços para parecerem contentes com a sua “orientação”, por dentro, se dão conta de que o seu “ser diferente” é uma forma inferior de sexualidade. Pode ser um consolo pertencer a uma minoria bem definida e se sentir em casa entre pessoas com uma orientação idêntica, sem ter de enfrentar as dificuldades próprias do mundo heterossexual, no entanto, a contrapartida disto é o fatalismo deprimente implícito na nova identificação: “sou mesmo assim”. O jovem não pensa: “É verdade que tenho sentimentos ocasionais ou regulares de homossexualidade, no entanto, constitutivamente, devo ter nascido como todos os outros”. Não: tem a impressão de ser diferente e inferior, de levar em si uma condenação; olhar para si mesmo a uma luz trágica. Este rótulo trágico aplicado a si mesmos é o auge de um sentimento de inferioridade que se vinha alimentando há algum tempo: a sensação de ser um pobre desgraçado. A ideia ‘não sou como os demais” fica agora gravada na mente com a auto-identificação: “sou um homossexual”. Voltaremos a este ponto mais adiante. A sensação de não ser como os outros, de não fazer parte do grupo, com a consequência de manter uma profunda reserva a respeito dos outros, de ficar isolado, é típica da maior parte das pessoas que têm este problema. Este sofrimento dramático não será fruto da discriminação social? Não. É verdade que aqueles que têm a orientação homossexual não são considerados normais pelos outros; mas a causa principal de se sentirem tragicamente diferentes está dentro deles. Estas pessoas conservam esta impressão de serem marginais mesmo quando vivem em um ambiente em que são aceitas. Faz parte da sua neurose. Como, hoje em dia, muitos julgam que o homossexual já nasça com uma tendência inata, e que por isso seria melhor que fosse aceita, a auto-rotulagem fatalista é mais do que nunca favorecida pelo mundo externo ao adolescente. Frequentemente, os jovens que exprimem os seus possíveis e ainda não definidos sentimentos ou fantasias homoeróticas são informados pelos “especialistas” de que são homossexuais. Isto pode ser um duro golpe e destruir qualquer esperança de mudança. Quando um jovem desvenda os seus sentimentos secretos, sugiro que se diga antes qualquer coisa deste gênero: “Você pode eventualmente sentir interesse pelo seu próprio gênero, mas é só uma questão de imaturidade. Você não é assim por natureza. A sua natureza heterossexual ainda não despertou. O que temos de discutir é um problema de personalidade, o seu complexo de inferioridade”.
  • 12.
    12 As tensões sexuaispodem ser tão intensas que, um jovem com sentimentos homossexuais pode crer facilmente que a prática homossexual seja a solução de todos os problemas, inclusive a solidão. Contudo, mais cedo ou mais tarde, chegará à conclusão de ter caído em um modo de vida completamente desordenado, na realidade de natureza neurótica. O seu estado profundo se assemelha sob muitos aspectos a uma toxicomania. O estilo de vida homossexual é apresentado pelos meios de comunicação social de forma tendenciosa e cor-de-rosa: já se sabe que a propaganda é assim mas quando, ao longo de anos, se conhecem as histórias reais dos homossexuais praticantes, se torna evidente que não há felicidade nesse modo de vida. Incerteza nos contatos, solidão, inveja, depressões neuróticas e, proporcionalmente, um elevado número de suicídios (sem falar nas doenças venéreas e em outras doenças físicas) são o outro lado da moeda, que os meios de comunicação não mostram. Exemplo disso é um famoso sexólogo alemão, também homossexual, que costumava aplaudir publicamente as estáveis e fiéis relações homossexuais, e acabou por se suicidar depois da ruptura de uma relação, a última, de muitas. A sua trágica morte mal foi mencionada pela imprensa, talvez para não levantar dúvidas pertinentes em algumas pessoas. W. Aaron, que tinha sido homossexual, resume assim o conjunto das suas muitas observações sobre este tipo de comportamento: Apesar das aparências externas, acaba no desesperovii . A jornalista americana Doris Hanson conviveu com muitas pessoas que tinham estilo de vida homossexual: “É um mundo terrível que eu não desejo nem ao meu pior inimigo”, disse um homem que tinha passado por aquilo, como se fosse um “toxicómano”. “Ao longo dos anos vivi com uma série de companheiros de quarto, alguns dos quais eu dizia amar. Eles juravam que me amavam. Mas os laços homossexuais começam e acabam com o sexo. Não há mais nada além disso. Depois desse período inicial apaixonado, o sexo se torna cada vez menos frequente; os parceiros ficam nervosos; querem emoções novas, novas experiências, começam a se enganar mutuamente, primeiro às escondidas, depois cada vez mais às claras... Há então cenas de ciúmes e intrigas. Nessa altura, ocorre a separação e cada um parte à procura de um novo amante”viii . A mãe de uma jovem, com tendências lésbicas e que se suicidou, dizia da sua filha: Helen procurou toda a vida o amor. A certa altura com a sua última parceira, pensava que o havia encontrado, mas era um amor baseado em uma mentira. Nunca poderia ter funcionado. Doris Hanson considera que a declaração daquela mãe reflete exatamente o que ela própria havia aprendido em suas entrevistas: É exatamente assim que funciona. É um mundo em que as emoções estão construídas sobre mentiras. Para obterem uma satisfação sexual momentânea, os homossexuais afirmam: “eu te amo” com a mesma frequência com que dizem “bom dia!”. Depois de passada a experiência, só estão dispostos a dizer “adeus!”. A caça recomeça. Considero que nada disto é exagero obscuro ou moralista. A pessoa com orientação homossexual é arrastada para uma vida neurótica de conflitos. Teimosa e obstinadamente hostil a todas as sugestões, apesar de fazer os pais sofrerem, os jovens com este problema agarram-se à sua “opção” que confundem por ignorância com a “felicidade”. Não querem outra coisa, por nada deste
  • 13.
    13 mundo. Pode parecerduro, mas é verdade: muitos deles entram em decadência, o seu vigor juvenil e sua alegria desaparecem; se tornam fracos sob muitos aspectos, como drogados. Felizmente, no entanto, há homens e mulheres com sentimentos homossexuais que querem seguir um caminho bem diferente.
  • 14.
    14 3- A HOMOSSEXUALIDADEÉ INATA? A crença a homossexualidade é inata está muito estabelecida. A maior parte das pessoas continua a considerar a homossexualidade anormal —contrariamente ao que muitos “educadores sexuais” gostariam que se pensasse— mas muitos ainda julgam que se nasce “assim”ix . Até onde eu sei, ainda não foram feitas sondagens confiáveis entre os médicos, mas suspeito que a maior parte esteja convencida de que existe alguma causa congênita ou, pelo menos, de ordem física. Pelo contrário, os psiquiatras americanos tendem a vê-la como um bloqueio no desenvolvimento psicossexual do indivíduo e não atribuem muita importância a causas físicas ou hereditárias.x Seja como for, o peso desta posição sobre a “opinião médica” geral está bem longe de ser decisivo. Aliás, em 1973, o conselho diretivo da American Psychiatric Association, ao definir a homossexualidade no seu manual oficial de diagnóstico, substituiu a palavra “transtorno” pelo termo neutro “condição”. Isto, depois de intensas manobras dos grupos de pressão dos homossexuais militantes. É compreensível que as pessoas com orientação homossexual tenham muitas vezes a impressão de que os seus sentimentos têm raiz biológica, como se fosse um instinto muito forte; além disso, recordam que já tinham a consciência de serem diferentes na juventude, embora nessa altura o fato não estivesse relacionado com a sexualidade. Muitas vezes tinham a impressão de se comportarem de modo diferente das pessoas da mesma idade e do mesmo sexo e de terem outras preferências e aversões. Frequentemente, já se sentiam diferentes antes das primeiras sensações homossexuais e por isso são levados a pensar que a sua natureza seria, de fato, diferente e pertenceriam a um “terceiro sexo”. A tendência de se gabar de “ser diferentes dos outros” está de acordo com tudo isto; alguns chegam a pensar que a sua sexualidade seja sinal de um especial dom emocional e consideram a si mesmos como mais sensíveis e dotados de maior sentido artístico do que as tediosas pessoas normais. O sentido de inferioridade se converte numa ilusão de superioridade, mas tudo isto só pode se sustentar no pressuposto de que se trate de uma disposição inata. Numa análise mais atenta, os interesses artísticos dos homens homossexuais são explicados facilmente por fatores educativos e de ambiente. Por exemplo, alguns preferem atividades “brandas” e interesses que não impliquem audácia e têm uma aversão correspondente às tarefas mais “duras”, mais “viris”. Ser muito sensível é típico de muitos neuróticos e tem a ver com um “eu” que se sente vulnerável, como mostraremos a seguir. Tanto a convicção de que existe uma causa hereditária, como a crença em outras causas físicas presentes desde o nascimento, levam a uma visão pessimista acerca da possibilidade de mudança. E as pessoas com orientação homossexual que não querem abandonar esse comportamento se agarram a essa eventual “base biológica”. Por exemplo, segundo os membros de uma “igreja gay” americana, a homossexualidade seria uma forma de amor criada por Deus: como poderia então ser ilícito viver segundo os princípios do Criador? A teoria da hereditariedade vai sobrevivendo graças aos esforços dos círculos homossexuais militantes e dos seus apoiantes libertários, apesar da crescente evidência no sentido contrário. Eventualmente, publicam o resultado de alguma investigação isolada com pretensões de confirmar a ideia da normalidade, sem se preocuparem com a interpretação correta dos resultados ou o seu valor científico, motivo pelo qual os estudos sobre a homossexualidade devem ser vistos de maneira sóbria e crítica, especialmente quando provêm de ambientes favoráveis à causa.
  • 15.
    15 Um exemplo éo relatório, já mencionado, de Bell e seus colaboradoresxi , que considera altamente provável a base biológica da homossexualidade e tira a conclusão de que os pais deveriam educar os filhos “de acordo com a natureza”. Isto significa que as crianças com tendências homossexuais teriam necessidade de um tratamento completamente especial (obviamente, favorecendo a homossexualidade), como se a sua presumida preferência fosse um fato consumado desde o princípio e claramente reconhecível por parte dos pais. Este trabalho é uma manipulação da opinião pública: um dos autores é efetivamente conhecido pela sua posição favorável à homossexualidade. As estatísticas recolhidas pelo autores não têm nada a ver com a biologia, mas com a infância, o comportamento social e outros aspectos do comportamento das pessoas que praticam a homossexualidade. Aquele material comprova que estes indivíduos se sentiam isolados dos companheiros de brincadeira, o que efetivamente é verdade, mas não tem nada a ver com a biologia. Nos anos setenta, entre os homossexuais europeus mais sofisticados, se proliferou o hábito de apresentar o estudo de Schofieldxii como prova da existência de uma variante normal (e presumivelmente inata) de homossexualidade. O estudo não tratava da normalidade ou anormalidade, mas do desempenho social e, mais especificamente, profissional. O autor tinha conseguido descobrir um subgrupo de homossexuais bem adaptados, o que não justifica nenhuma conclusão acerca da normalidade ou anormalidade. Outro caso, foi o de alguns investigadores que não encontraram diferenças entre os resultados dos testes de personalidade dos homossexuais e heterossexuais; como era previsível, este fato foi interpretado como evidência da normalidade da condição homossexual. No entanto, o que aqueles testes medem —ou tem a pretensão de medir— não tem a ver diretamente com a normalidade psíquica, ou com a saúde mental, ou com o fato de esta forma de sexualidade poder ou não ser definida como uma «variante» normal. HORMÔNIOS As expressões “normal”, “com raízes biológicas”, “hereditário”, “inato” e “com causa física” são muitas vezes usadas indiferentemente, embora não sejam equivalentes. Que a homossexualidade não possa ser normal de um ponto de vista lógico e biológico é o que discutiremos a seguir: mas devemos primeiro abordar a questão das possíveis causas físicas, hereditárias ou não hereditárias. “Não será talvez um problema de hormônios?”, muita gente se pergunta. Não, segundo Perloff, um grande especialista da matéria, que já no distante ano de 1965 escrevia: “É um fenômeno meramente psíquico... e não pode ser modificado com substâncias endócrinas (hormôniosxiii )”. Esta afirmação ainda hoje é válida. É verdade que algum autor detectou uma concentração comparativamente baixa de hormônios sexuais masculinos (testosterona) no sangue dos homens com orientação homossexualxiv , e também quantidades anômalas de gorduras e produtos metabólicos dos hormônios adrenérgicosxv . Mas tais resultados não devem ser interpretados precipitadamente, o que já tem acontecido, em benefício da teoria que explica a homossexualidade por peculiaridades hormonais. Por que não? Em primeiro lugar, porque esta diferença das concentrações hormonais entre homens com inclinação homossexual e homens com inclinação heterossexual não têm sido confirmadas pelas medições dos outros investigadores. No período 1972-1976 se podem contar pelo menos seis estudos, e em nenhum deles foram encontrados valores hormonais anômalos nos grupos homossexuaisxvi . Os desvios que às vezes se detectam estão relacionados possivelmente com as características específicas do grupo em estudo e, portanto, não são universalmente válidos. Fatores muito simples, tais como diferenças dos vários grupos quanto a hábitos alimentares, hábitos de vida e de trabalho, o fato de estarem ou não
  • 16.
    16 casados, as atividadesmusculares ou o exercício muscular; além de outros fatores, como o uso de drogas ou de medicamentos, ou diferenças de idade, são suficientes para explicar aquelas oscilações. Num grupo de homens com tendências homossexuais, Evans detectou concentrações anômalas dos produtos do metabolismo dos hormônios adrenérgicos: tanto das gorduras como de um produto metabólico associado ao desenvolvimento muscular; também encontrou desvios do peso e da força muscular, mas não verificou nenhuma alteração dos hormônios sexuaisxvii . Com base nessa observação, este autor sugeriu a hipótese de que um “reduzido desenvolvimento muscular” pudesse contribuir para reforçar alguma orientação homossexual. Este é um dos poucos estudos que aponta para algo semelhante a um fator físico anômalo dos homens homossexuais, e por essa razão merece aqui um exame mais concreto para avaliar corretamente o peso destes resultados. Como todas as investigações científicas, a correlação encontrada por Evans só adquirirá valor de prova quando se verificar que aqueles resultados experimentais aparecem exclusivamente entre a população homossexual. Não se pode estabelecer uma relação entre um fator e a tendência homossexual sem se proceder a uma série de medições comparáveis em vários grupos de amostragem. Suponhamos, por um momento, que o futuro nos traga um conjunto de resultados semelhantes que se confirmem uns aos outros; embora isto não seja nada provável e, mesmo que fosse, não constituiria um argumento irrefutável a favor de uma causa física. A possível correlação entre homossexualidade e “fraqueza muscular” poderia significar muitas coisas diferentes. Por exemplo, que os rapazes com um deficiente crescimento muscular correm maior risco de se tornarem sexualmente desviados por causa da sensação de inferioridade associada a isso. Seria um exemplo do fenômeno da “inferioridade orgânica” descrito pelo conhecido psiquiatra Alfred Adler: um rapaz pode desenvolver em si sentimentos de inferioridade por qualquer malformação ou atraso físico e, como se verá, é justamente um sentido de inferioridade juvenil devido ao aspecto físico, à estrutura corpórea, etc., que pode motivar o desenvolvimento da tendência homossexual. Mas talvez esta explicação dos resultados do famoso teórico seja excessivamente indireta. Talvez o fenômeno se deva simplesmente ao fato de que os homens com orientação homossexual têm menos tendência a fazer movimentos de certo tipo, praticando menos certos esportes, comendo mais ou ingerindo mais gorduras do que outros homens. Uma explicação deste gênero não seria nada surpreendente, por estar de acordo com os estilos de vida que encontramos em inúmeras pessoas com inclinação homossexual. O fato de as pessoas com desvios hormonais devido a perturbações funcionais das gônadas não darem necessariamente lugar a anomalias sexuais é outra indicação de que a causa da homossexualidade não deve ser procurada em anomalias dos hormônios sexuais. Por exemplo, as mulheres hermafroditas (que têm características físicas de ambos os sexos, devido a problemas genéticos) que são biologicamente (e geneticamente) femininas, apresentam um excesso do hormônio sexual masculino (testosterona) desde o estágio embrionário, sem que isso as predisponha a ser lésbicasxviii . Portanto, tudo parece indicar que os hormônios sexuais não são os culpados. Ora, como os cromossomos regulam a produção dos hormônios, a saúde hormonal das pessoas com tendência homossexual é sinal de normal funcionamento dos cromossomos sexuais. HEREDITARIEDADE Os cromossomos sexuais, estruturas moleculares extremamente complexas que contem os códigos genéticos transferíveis hereditariamente, podem ser examinados diretamente mediante
  • 17.
    17 técnicas laboratoriais. Ora,os homens e as mulheres com orientação homossexual possuem os cromossomos normais, masculinos ou femininos, respectivamentexix . Isto significa que, em princípio, todos os órgãos e as funções relacionadas com a sexualidade, desde a anatomia dos órgãos aos centros sexuais do cérebro — e, portanto, toda a “infraestrutura” da sexualidade — são normais, do ponto de vista hereditário. A teoria de um desvio inato da sexualidade ou da preferência sexual não se confirma. Todavia, se houvesse suspeita de um eventual fator hereditário, ele só poderá ser um fator de predisposição, que facilitaria o desenvolvimento homossexual. Kallmann tinha em mente um fator deste tipo em 1958, para explicar os relevantes e interessantes resultados da sua investigação sobre gêmeos monozigóticos e dizigóticos (gêmeos verdadeiros e não-verdadeiros) masculinos com tendências homossexuaisxx . Ele descobriu que todos os gêmeos monozigóticos das pessoas tendencialmente homossexuais do seu grupo também tinham tendências homossexuais, embora não na mesma medida. Mas só 12% dos gêmeos dizigóticos de homens com orientação homossexual indicavam não ter interesses homossexuais. Os 100% de semelhança e concordância na homossexualidade entre os monozigóticos, que têm um património genético perfeitamente idêntico, não é um resultado comprovado por outros investigadores e parece ser uma consequência do todo de amostragem empregado por Kallmann. Desde 1960, há muitas notícias de pares de gêmeos univitelinos, examinados a fundo, em que um deles tem tendências homossexuais e o outro é heterossexualxxi . Além disso, há uma consciência crescente de que este tipo de investigações com gêmeos, embora fascinantes em si mesmas, não podem ser decisivas para verificar se uma propriedade ou característica da personalidade fica determinada hereditariamente. Dados como os de Kallmann também podem ser explicados pela educação e outros fatores ambientais, ou por fatores psicológicos, tais como o alto grau de identificação mútua, tão surpreendente entre os gêmeos. A concordância bastante elevada encontrada por Kallmann entre os dizigóticos (12%) sugere a importância deste tipo de influência, porque esta porcentagem é mais significativa neles do que entre irmãos não-gémeos embora os gêmeos dizigóticos difiram entre si na estrutura genética como qualquer par de irmãos não-gêmeos. Em outras palavras, a maior semelhança relativamente à homossexualidade nos dizigóticos não se deve a causas genéticas mas pode ter a ver com a identificação recíproca relativamente mais forte, comparada com a dos irmãos não-gêmeos, ou seja, a sua sensação de serem o alter ego um do outro, e o fato de serem tratados e considerados de maneira idêntica pelo ambiente em que vivem. No estudo de Kallmann existem ainda algumas lacunas, que não vêm agora ao caso: o leitor interessado pode consultar uma explicação detalhada referida na bibliografiaxxii . O ponto importante na análise que estamos realizando é esclarecer que dados como os de Kallmann e outros autores depois dele não podem ser usados como base para uma teoria da base genética da homossexualidade. Nem sequer fornecem indícios sólidos de fatores genéticos que tornem algumas pessoas mais propensas à homossexualidade. Portanto, não foram detectadas causas genéticas — sexual ou de outro tipo — que possam distinguir as pessoas com tendências homossexuais das outras. Alguns investigadores deixam em aberto a possibilidade teórica de que exista algum fator ainda desconhecido, de ordem genética ou hormonal, pelo menos para algum subgrupo de pessoas com tendências homossexuais. Suponho que essa posição tenha a ver com alguns homens homossexuais que impressionam por serem tão efeminados e algumas mulheres lésbicas de comportamento muito masculino. Mas esses investigadores também não atribuem influência decisiva àquele fator hipotético, reconhecendo que as causas principais não estão nos hormônios ou nos genes. Masters e Johnson defendem esta posiçãoxxiii . Estes investigadores, provenientes da escola de Kinsey, apesar de manifestarem claramente a opinião de que o comportamento homossexual seja normal e plenamente aceitável, escrevem palavras significativas:
  • 18.
    18 É de importânciavital que todos os profissionais no campo da saúde mental se lembrem de que o homem ou a mulher homossexual é homem ou é mulher por determinação genética e tem tendências homossexuais por preferência adquirida. Provavelmente para evitar a acusação de terem preconceitos, se apressam em acrescentar que a preferência heterossexual também não tem uma base genética: afirmação acrítica que pode ser refutada com facilidade. Contudo, o seu alerta “a todos os que trabalham no campo da saúde mental” acerca da homossexualidade como “comportamento adquirido” não deve ser esquecido, mesmo não aceitando a gaffe grosseiramente progressista acerca da heterossexualidade. A história da teoria da natureza homossexual como condição inata —isto é, “conatural”— é uma longa história. Esta teoria foi entrando em decadência e hoje já não resta praticamente nada. No livro Changing Homosexuality in the Male (“Mudar a homossexualidade masculina”) o psiquiatra L. J. Hatterer afirma isso sem ambiguidades: Os psiquiatras chegaram finalmente à conclusão de que os fatores genéticos, hereditários, constitucionais, glandulares e hormonais não têm nenhuma importância como causas da homossexualidadexxiv . Nos meios de comunicação social tem-se feito uma insistente propaganda de supostas descobertas de uma causa biológica da homossexualidade. Em 1991, anunciaram uma pretensa particularidade de uma minúscula região cerebral constatada em determinados homens homossexuaisxxv ; em 1993 divulgou-se que tinha sido descoberto um “gene da homossexualidade”xxvi . Pouco ou nada destas notícias sobrevive a uma análise mais atenta; pelo contrário, os resultados de investigações recentes, acerca de gêmeos, têm tornado cada vez mais improvável a explicação por mecanismos hereditáriosxxvii . Portanto, hoje em dia, se pode afirmar objetivamente que não há motivo para admitir a existência de um tipo de homossexualidade transmitida por via hereditária, ou causada por disfunções hormonais antes ou depois do nascimento; também não é provocada por perturbações do crescimento corpóreo, da constituição orgânica, da estrutura do cérebro, do sistema nervoso ou das glândulas. Seria me alongar de mais fazer aqui a enumeração completa das investigações científicas mais relevantes: bastam as conclusões gerais. Até que seja demonstrado de modo convincente que a pessoa com tendências homossexuais possui qualquer peculiaridade física, hereditária ou não, que não seja produzida pelo seu modo de vida, podemos admitir que há uma perfeita normalidade do ponto de vista biológico. E, à medida que o tempo passa, parece cada vez mais improvável que esta posição tenha de ser revista. “O meu avô também era homossexual”. “Também duas filhas da minha tia são”. Às vezes se ouvem explicações deste gênero da boca de alguém com este problema emocional. Isto não significa que naquelas famílias exista qualquer causa hereditária, tal como não podemos atribuir aos genes a responsabilidade pelo fato de o avô ou o tio serem católicos ou socialistas. Se a tendência homossexual se apresenta com certa frequência em certas famílias, normalmente também encontramos nessas famílias desequilíbrios nos papéis desempenhados pelos dois sexos: os filhos são educados de acordo com modelos insuficientes dos papéis sexuais e pode acontecer que estes, por sua vez, repitam o método educativo distorcido com os filhos. Nessas famílias, as mulheres podem se comportar com modos pouco femininos e educar as filhas de modo pouco feminino, facilitando assim o aparecimento de complexos de inferioridade de tipo homossexual. Mais tarde, essas moças podem ter dificuldade em aceitar os papeis sexuais, em geral, e, portanto, não serem capazes de educar — e de reconhecer — um menino como menino e uma menina como menina.
  • 19.
    19 São válidas observaçõesanálogas em relação aos pais. Fora disto, a relação entre a família e a homossexualidade é muito ténuexxviii . NORMALIDADE Outro aspecto tem de ser também esclarecido. Suponhamos que tenha sido demonstrada uma causa genética ou física para a homossexualidade, por exemplo, uma particular conjunção de hormônios; isto não permitiria afirmar que a homossexualidade fosse normal. Tal fator, meramente hipotético, deveria ser necessariamente identificado como fator de disfunção ou doença. Seria um desvio dos cromossomos ou dos hormônios, uma disfunção do desenvolvimento fisiológico normal, uma infecção ou outra coisa desse tipo. É bom compreender bem isto, porque se poderia facilmente pensar que o ter nascido “assim” seria equivalente a ter uma tendência “natural”. SOMOS TODOS BISSEXUAIS? A ideia da “homossexualidade inata” é falsa. Mas haverá qualquer ponta de verdade na convicção de alguns psicólogos e psiquiatras de que todo o ser humano tenha uma disposição bissexual inata? No início, todos os homens e todas as mulheres teriam a mesma probabilidade de se desenvolverem em direção à homossexualidade ou à heterossexualidade e a evolução de cada indivíduo em um ou em outro sentido dependeria dos métodos educativos usados na família e, mais em geral, das influências de todo o ambiente social da infância. Esta é a opinião de Masters e Johnsonxxix ,e era a opinião do próprio Sigmund Freud. Contudo, a ideia de uma bissexualidade universal não é sustentável. Freud defendia a sua teoria com argumentos fisiológicos hoje obsoletos; além de que a sua teoria não estava isenta de equívocos, problema que não vamos abordar neste momento. Se fossem somente os hábitos educativos ou os costumes culturais a encaminhar a orientação de uma criança para a homossexualidade ou a heterossexualidade, ou para alguma opção intermediária, Deus (ou a natureza, se preferir) teria pendurado a sobrevivência do gênero humano de um fiozinho muito frágil. Bastaria ter existido certa moda cultural em qualquer sociedade primitiva a favor da homossexualidade, ou terem educado os filhos nessa direção, para provocar a extinção do gênero humano; e uma moda pode surgir a qualquer momento. Em contrapartida, vemos que em nenhum caso, na natureza, a propagação de uma espécie correu tal risco, nem encontramos exemplos de sobrevivência regulada com tanto descuido. No mundo animal a verdadeira homossexualidade, como se descreveu, não existe. Os animais podem se comportar de maneira homossexual, mas só no caso de ausência de um parceiro heterossexual ou por aquilo que se poderia chamar um erro de percepção ou de avaliação. De fato, os animais podem reagir sexualmente a determinadas características dos animais da sua espécie: formas, cores, movimentos. Em princípio, estas características correspondem ao sexo oposto, mas podem também constituir um estímulo se o animal encontrá-las em um indivíduo do mesmo sexo, especialmente na ausência de um parceiro heterossexual. Contudo, isto não é homossexualidade em sentido estritoxxx . A homossexualidade propriamente dita implica uma resposta frustrada aos estímulos do sexo oposto. Em suma: é como se a natureza (ou o seu Criador) tivesse sido tão desleixada com o homem — que é muito mais complicado e refinado que qualquer outro animal e é claramente o produto natural mais esplêndido— a ponto de, conferindo-lhe toda a complexidade anatômica, neurofisiológica e hormonal que regula a sobrevivência da espécie, ter descuidado justamente aquele último passo, que é a motivação sexual pelo sexo oposto. A natureza teria se esquecido de fazer com o homem aquilo que fez corretamente com os animais: implantar uma orientação heterossexual estável e duradoura no tempo?
  • 20.
    20 A pergunta jáé uma resposta. Por outro lado, a teoria da bissexualidade está em contradição com os fatos. A. Karlen, historiador da sexualidade, ao estudar a homossexualidade em outros tempos e em outras culturas, diferentes da nossa, escreve que o mais que se pode dizer é que a homossexualidade foi encarada pelas várias culturas com maior ou menor tolerância mas nunca como um fim desejável em si mesmoxxxi . O ser humano nunca sentiu a inclinação de educar os filhos para a homossexualidade: a esmagadora maioria das pessoas, em todas as culturas e em todos os tempos, sempre foi heterossexual. Por natureza, os seres humanos são atraídos pelo sexo oposto. Se assim não fosse, entre os numerosos povos que viveram ao longo dos séculos teria havido exceções, pelo menos alguma, à regra de a maioria ser heterossexual. E os antigos gregos? Parece que a concepção popular tenha necessidade de alguma pequena correção neste ponto. Os historiadores constatam que a cultura grega sempre foi substancialmente heterossexualxxxii . O comportamento homossexual — ou, melhor, a chamada pederastia, ou amor pelas crianças e adolescentes — esteve na moda em certos períodos e em certos círculos, mas não era certamente a expressão sexual preferida ou desejada pela maioria. Também se devem entender com certa proporção as descrições dos hábitos sexuais dos gregos apresentadas apenas por alguns poucos autores daquele tempo. É duvidoso que seja legítimo da nossa parte generalizar aquilo que os líricos gregos dizem, tal como não ficaríamos com uma imagem correta dos hábitos sexuais do nosso tempo estudando a literatura moderna. Tudo aquilo que é excêntrico e desviado adquire na literatura e na arte uma imagem mais marcada do que tem realmente na sociedade. A afirmação de que o ser humano se tornaria heterossexual em virtude dos métodos educativos, reprimindo a sua componente homossexual, igualmente forte, é impressionantemente artificiosa, especialmente sabendo como se dá habitualmente a escolha do objeto heterossexual. Pareceria muito mais exato dizer que o desenvolvimento para a heterossexualidade é um impulso automático e instintivo. Em certo momento, geralmente durante a adolescência, a atração para o sexo oposto é sentida como irresistível, mesmo por parte dos adolescentes educados em um clima sexualmente restritivo ou sem nenhuma educação sexual. Também é sintomático da base hereditária da heterossexualidade o fato de nunca se encontrarem pessoas jovens livres de tensões emotivas, de complexos de inferioridade e de frustrações internas — em outras palavras, jovens equilibrados e bem constituídos — que sintam atração pela homossexualidade. Os jovens não neuróticos são invariavelmente heterossexuais. A conclusão inevitável é que a heterossexualidade já está definida no patrimônio genético. Os cérebros do homem e da mulher diferem em virtude de processos embrionários de natureza hormonalxxxiii e provavelmente algumas destas estruturas cerebrais constituem a base biológica das profundas diferenças psicológicas no campo da sexualidadexxxiv . Também se podem deduzir alguns argumentos interessantes a favor do carácter inato da heterossexualidade a partir das investigações relativas ao desenvolvimento sexual de certos tipos de hermafroditas, isto é, pacientes com defeitos dos cromossomos sexuaisxxxv . UM ESTÁGIO TRANSITÓRIO BISSEXUAL Há uma variante da teoria da bissexualidade que é aceitável: diz respeito ao fato de os adolescentes passarem, durante o desenvolvimento para a maturidade biológica e psicológica, por um estágio no qual, durante certo tempo, podem sentir atração erótica por pessoas do mesmo sexo. Neste estágio, o desenvolvimento sexual ainda não está completo e ainda não amadureceu até à plena descoberta do seu objeto, o sexo oposto. E nesta fase de crescimento que vários objetos e situações, humanas e não humanas — crianças e pessoas adultas, mas também configurações
  • 21.
    21 inanimadas e situaçõesemotivamente excitantes — podem ser associadas na imaginação com o despertar de sensações eróticas, ainda indefinidas. A sexualidade de um adolescente neste estágio de desenvolvimento pode se chamar bissexual, embora a princípio haja bons motivos para lhe chamar “multissexual”. O desenvolvimento sexual dos homossexuais, tal como boa parte do desenvolvimento sobretudo emocional, ficou interrompido neste estágio intermediário. Isto não significa que cada adolescente deva passar claramente — nem sequer confusamente — pelos vários tipos possíveis de atração erótica nesta fase da vida. Talvez não mais de 30% dos adolescentes tenham a certa altura aquilo a que se poderiam chamar sensações homoeróticas. Nesta fase, os interesses eróticos dependem estreitamente do conjunto da personalidade e da emotividade do adolescente, das suas relações com os outros, da sua posição social e da sua autoimagem. Quando as fantasias, os interesses ou as práticas homoeróticas se desenvolvem, elas acabam por ser habitualmente superficiais e tendem a se desvanecer rapidamente logo que a atração física do sexo oposto se impõe à atenção do jovem que, em muitos casos, vive essa descoberta com uma atitude do tipo: “Isto é justamente o que eu estava procurando!”. No estágio de sexualidade indeterminada, os impulsos homoeróticos podem coexistir com o início da atração heterossexual. Em outros casos, o início dos interesses heterossexuais pode ficar bloqueado pela manifestação dos sentimentos homossexuais, especialmente se o adolescente se sente frustrado na sua primeira ocasião de amor heterossexual. Quando as potencialidades do sexo oposto foram plenamente descobertas, o processo é irreversível. Os “objetos” anteriores ficam simplesmente desprovidos de interesse, sem nenhuma aprendizagem imposta pelo mundo exterior mas simplesmente como consequência do próprio instinto sexual orientado e focalizado no seu fim.
  • 22.
    22 4- A HOMOSSEXUALIDADECOMO TRANSTORNO PSÍQUICO Os primeiros estudos sistemáticos sobre a homossexualidade foram feitos no século XIX por autores como Krafft-Ebing e no início do século XX por Magnus Hirschfield, que interpretaram as suas observações à luz das teorias fisiológicas e biológicas dominantes naquele tempo. A noção de “terceiro sexo” ou de “sexo intermediário”, por exemplo, ganharam popularidade naquele período. Sigmund Freud foi o pioneiro das teorias da homossexualidade que enfatizavam a dos fatores psicológicos. Por exemplo, segundo ele, o rapaz com inclinações homossexuais deveria ter sofrido, quando criança, uma super-identificação com a mãe e deveria ter tido uma relação conflituosa com o pai; da mesma forma, a moça lésbica teria sofrido uma super-identificação com o pai e teria tido relações muito difíceis com a mãe. Freud procurou as causas na infância e, em particular, na relação entre pais e filhos. Para ele, a homossexualidade era essencialmente uma perturbação psíquica, talvez reforçada por condicionamentos biológicos ainda desconhecidos (sugeriu a hereditariedade). Um dos primeiros —e talvez o primeiro— a não acreditar na importância de qualquer predisposição hereditária foi um discípulo de Freud, Alfred Adler. Este autor fala pela primeira vez do complexo de inferioridade e apresentou a homossexualidade como consequência deste complexo, já em 1917xxxvi . As suas observações mostraram-lhe que as pessoas com tendências homossexuais têm invariavelmente sentimentos de inferioridade a respeito da sua masculinidade ou feminilidade. Um outro discípulo de Freud que acumulou uma impressionante experiência clínica com gente afetada por problemas psicossexuais e que descreveu algumas observações originais sobre os seus pacientes com tendências homossexuais foi Wilhelm Stekelxxxvii . Ele prognosticou que uma das causas da homossexualidade fosse o medo do sexo oposto. Confirmando as ideias de Freud a respeito de a homossexualidade ter origem em dinamismos psicológicos da infância, Stekel minimizou a importância da hipotética predisposição hereditária, mais ainda que Freud, e foi possivelmente o primeiro a classificar a homossexualidade como neurose. Além disso, discordou de Freud quanto às responsabilidades do famoso “complexo de Édipo” e indicou, em contrapartida, um conjunto de erros de educação das crianças, suscetíveis de levar à neurose homossexual. Também destacou o papel do pai frequentemente como mais importante que o papel da mãe na origem da homossexualidade masculina. Ressaltou o estilo caracteristicamente infantil da vida psicológica destes pacientes —encarando a homossexualidade como uma forma de “infantilismo psíquico”xxxviii — e evidenciou que a motivação homossexual está intrinsecamente ligada a sentimentos de infelicidade. Stekel acreditou, mais que Freud, na possibilidade de uma mudança radical da orientação homossexual, embora estivesse convencido de que só se conseguiria em casos relativamente raros. As suas observações influenciaram profundamente o pensamento dos seus discípulos. A segunda e terceira gerações de psicanalistas construíram sobre os fundamentos preparados pelos predecessores. Um elemento original foi introduzido pelo psiquiatra austríaco- americano E. Bergler, observando o chamado masoquismo psíquico de quem sofre este complexoxxxix . O impulso homossexual contém, segundo ele, uma espécie de auto-tormento, uma necessidade inconsciente de se sentir marginalizado e, em geral, de “colecionar” injustiças, situações desagradáveis e experiências que proporcionam sofrimento (como se diz de algumas pessoas que andam à procura de problemas). I. Bieber, psiquiatra norte-americano, e os seus colaboradores estimularam notavelmente as investigações psicológicas posteriores acerca da homossexualidade, com a sua extenso estudo
  • 23.
    23 estatístico sobre apersonalidade e os fatores psicológicos infantis na homossexualidade masculinaxl . Como já mencionado, são escassos os dados fisiológicos e biológicos. Bieber, e os seus sucessores, têm publicado com regularidade sobre certo número de fatores infantis mais ou menos específicos em homens com orientação homossexual. Estes fatores estão interligados e constituem um modelo identificável, que deve ser visto em estreita ligação com as causas deste processo. Esse modelo é constituído por relações interpessoais com o pai e a mãe, com os irmãos e o chamado grupo dos pares, e ainda por outros dados do desenvolvimento psíquico que não é difícil relacionar com o pensamento dos teóricos da moderna psicologiaxli . As estatísticas de Bieber e dos seus seguidores podem também ser utilizadas como base para a teoria da homossexualidade que se apresentará a seguir. Esse é o conjunto de dados mais confiável, tanto mais que as pesquisas incluíram uma grande variedade de subgrupos de pessoas inclinadas à homossexualidade e em várias nações. Esta teoria não surgiu de repente, mas é o resultado de um progresso gradual no estudo das neuroses e da homossexualidade, por parte de psicoterapeutas que utilizam técnicas psicanalíticas. O fundador desta teoria, o psiquiatra holandês Johan Leonard Arndt (1892-1965) reuniu uma grande variedade de observações e de conclusões dos teóricos precedentes, em particular de Adler e do seu próprio mestre, Stekel. O estudo de Arndt confirmou e completou algumas observações de Stekel, tais como: “Ele (o homossexual) é infeliz, sentindo-se condenado pelo destino ao sofrimento”; “nunca vi um homossexual feliz ou são”; “é uma eterna criança...em luta com o adulto”xlii . Introduzindo o princípio da autocompaixão, Arndt não anulou as observações dos seus antecessores, antes as completou numa síntese que integra também outros elementos relevantes de observação, recolhidos por autores contemporâneos das mais variadas orientações teóricas. O homossexual, dizia ele, tal como os outros pacientes neuróticos, se rege por uma estrutura interior que se comporta de maneira autônoma como o Eu infantil, uma criança forçada a ceder à autocompaixão. Depois de ter descoberto este mecanismo em muitos casos de neuroses sem manifestações claramente sexuaisxliii , Arndt foi percebendo gradualmente que isso era comum aos vários tipos de neuroses, e também o reconheceu nos homossexuaisxliv . Impressionado pela tendência dos neuróticos adultos a se lamentarem como crianças e pela sua persistência e resistência à mudança, Arndt recorreu à noção freudiana de “repressão” para explicar a fixação das reações de aflição e de autocompaixão da infância, tal como o seu carácter autônomo e repetitivo. Para Freud, o importante conceito de repressão estava intimamente ligado a uma outra noção essencial: a do inconscientexlv . Já na sua primeira publicação sobre a histeria, escrita em colaboração com Joseph Breuerxlvi , Freud lançou a hipótese de que as emoções fortes de reação às frustrações às vezes não são mentalizadas mas recalcadas à viva força, afastadas do nível consciente, mas conservando toda a sua carga emotiva no subconsciente. Breuer e Freud se referiam sobretudo às emoções de aflição, com as correspondentes manifestações de lágrimas, suspiros e raiva. Arndt identificou o núcleo da reação de aflição como autocompaixão, admitindo que essa emoção tivesse sido recalcada para o inconsciente, obrigando o neurótico a alimentar continuamente os impulsos de autocompaixão sem conseguir reconhecê-los como tais. A terapia desta condição deveria consistir, obviamente, em trazer para o nível consciente a autocompaixão inconsciente daquela “criança que existe por dentro e se queixa”. Deste modo, ela perderia o seu poder compulsivo sobre a mente. Comecei por aderir à teoria da repressão, de Arndtxlvii , mas o passar dos anos me levou a colocá-la cada vez mais em questão, até que acabei por abandoná-la. É inegável que a “repressão” pode explicar muitos fenómenos que se encontram habitualmente na psicoterapia; por exemplo, é bem notório o fenômeno da resistência a admitir a própria autocompaixão justamente no momento
  • 24.
    24 em que estase dá. Portanto, é possível dizer que qualquer coisa se opõe ao reconhecimento consciente da autocompaixão. Contudo, penso que essa “qualquer coisa” tenha bastante de “orgulho ferido”. Além disso, o processo de superação de uma neurose, concretamente de uma neurose homossexual, corresponde mais a um misto de conquista da própria autoconsciência e de luta generalizada contra o próprio infantilismo, uma vez reconhecido. Não é tanto o desbloqueio das repressões que é responsável pela mudança, mas a diminuição gradual sobre hábitos emocionais infantis profundamente enraizados, tais como a autocompaixão e as reações a ela associadas. A característica mais impressionante da personalidade neurótica é o estar centrada em si mesma e a autocompaixão é, talvez, o aspecto mais saliente dessa atitude geral. A conquista da maturidade emocional implica, sobretudo, uma diminuição do egocentrismo. Estou convencido de que a repetitividade neurótica e a resistência à mudança se compreendem melhor como efeitos da formação de um hábito ou como uma espécie de “psicodependência” da autocompaixão e de outras tendências intimamente ligadas a ela. Sem um esforço deliberado da parte da pessoa neurótica, destinado a tomar consciência de si mesma e a combater a autocompaixão, este impulso tenderá a procurar a própria satisfação, acabando por se reforçar. Superar uma neurose significa romper a prisão que aprisiona a pessoa na autocompaixão. A concepção freudiana de repressão para o inconsciente e o próprio conceito de inconsciente parecem excessivamente românticos e eu sou um dos que não acreditam no inconsciente freudiano, cuja existência ainda não encontrou prova experimentalxlviii . Na última década, muitos outros psicoterapeutas eminentes estudaram a homossexualidade de um ponto de vista psicodinâmico; as suas observações e muitas das suas concepções teóricas são contribuições altamente qualificadas, que não serão discutidas nas páginas seguintes. Alguns nomes proeminentes são os de Karen Horneyxlix , H. S. Sullivanl , o psiquiatra e neurologista francês Marcel Eckli e os psiquiatras de New York Charles Socarideslii e Lawrence Hattererliii . O livro de Hatterer merece uma menção especial, porque não descreve uma teoria geral mas um procedimento prático para a cura dos homossexuais do sexo masculino. Baseando-se na sua experiência com os pacientes, Hatterer apresenta bastantes exemplos de reações comportamentais e emotivas, tais como sensações de inferioridade, idealização do parceiro homossexual e tendência a se sentir como vítima. Estas e outras observações de fenômenos encontrados durante terapia têm um valor notável e se enquadram perfeitamente na teoria da autocompaixão. Os apoiantes da teoria que admite a homossexualidade como coisa normal afirmam que aquele que continuar a acreditar que se trata de uma condição de perturbação, mais especificamente de uma neurose (ou seja, um distúrbio emocional), vive ainda no passado; a ideia de que a perturbação possa ser superada, seria indício de uma mentalidade ainda mais retrógrada. No entanto, não se dão conta de que a sua posição é que está hoje ultrapassada pelo progresso da terapia, se mantendo presos à teoria de que a homossexualidade é inata, que é exatamente o ponto de vista do século passado. Os avanços no estudo das peculiaridades emocionais das pessoas que têm este problema e a sua identificação como neurose são recentes, tal corno alguns dos métodos de cura. Embora o conceito de neurose seja indispensável na prática clínica e se verifique um razoável consenso no diagnóstico das neuroses nos casos individuais, não foi ainda possível encontrar um instrumento objetivo de diagnóstico para medi-la. As tentativas com testes «objetivos» de carácter fisiológico e psicológico para distinguir os neuróticos dos não-neuróticos não tiveram até agora qualquer êxitoliv . Portanto, os investigadores têm de se valer da única prova “subjetiva” eficaz: o questionário que, nas palavras de um dos principais investigadores, “pode ser usado com segurança para distinguir claramente os sujeitos normais e os neuróticos”lv .
  • 25.
    25 O que écerto é que, com os testes mais variados e nos países e grupos econômico-sociais mais diversos, os investigadores têm encontrado o mesmo resultado: os grupos homossexuais figuram em um nível nitidamente mais alto nas escalas que medem a neuroselvi . Esta correlação fornece uma boa prova científica a favor do carácter neurótico da homossexualidade, tanto é que estes estudos abrangeram grupos com acompanhamento clínico, ou que já haviam procurado alguma forma de psicoterapia, e pessoas razoavelmente integradas na vida sociallvii . Parece-me que o conjunto das investigações fisiológicas e psicológicas até agora publicadas indica, sem margem para dúvidas, que a interpretação mais adequada da homossexualidade é a de uma variante da neurose. O fato de aparentemente poucos especialistas de outras ciências humanas seguirem esta conclusão, aliás praticamente desconhecida da opinião pública, resulta da pressão das tendências libertárias favoráveis à homossexualidade, que eliminam sistematicamente qualquer voz discordante. A situação é ao mesmo tempo caricata e triste, porque foi precisamente nas últimas décadas que a atitude fatalista em relação à cura da homossexualidade se tornou, mais que nunca, injustificada. Este livro foi escrito depois de mais de vinte anos de estudos sobre a homossexualidade e depois de ter tratado mais de 225 homens homossexuais e um grupo de 30 mulheres lésbicas, seguindo os princípios da teoria da autocompaixão. Considero esta teoria, originalmente formulada por Arndt, muito mais que uma síntese nova, elaborada a partir de material antigo: é um efetivo progresso em relação às concepções anteriores. A correta compreensão da natureza deste mal é mais que um exercício académico: representa a esperança de que pessoas, prisioneiras do antigo preconceito de que a homossexualidade seja inata e imutável, possam ser ajudadas a se tornar emocionalmente mais maduras.
  • 26.
    26 5-O COMPLEXO DEINFERIORIDADE HOMOSSEXUAL A criança é egocêntrica por natureza. Ela tem a impressão de que o seu “Eu” seja o centro e a coisa mais importante do mundo. É por isso que está, sobretudo, orientada sobre si própria ou, em outras palavras, tem um sentido muito forte da importância do Eu. Em consequência de estar voltada para si mesma, a criança se compara continuamente com os outros (com os outros tal como são mas, especialmente com os outros tal como os vê na concepção subjetiva que tem deles). Quando o resultado desta comparação é negativo, o que acontece frequentemente, a criança sente-se ferida: enganada, ofendida, menos estimada e objeto de menor respeito e apreço que as outras pessoas, reais ou imaginárias. Se a criança, com a sua grande necessidade de afeto e de apreço se sente suficientemente atendida, fica contente e feliz. Da mesma forma, fica contente quando se sente privilegiada em relação aos outros ou, pelo menos, é tratada ao mesmo nível pelas pessoas e pela vida. No entanto, como já se disse, a criança tem uma forte inclinação a se ver menos privilegiada, menos amada, colocada numa posição menos favorável. Precisamente por estar tão sedenta de apreço, a criança fica profundamente desiludida com qualquer falta de afeto ou de apreço, real ou imaginária. Nessas circunstâncias, tem a sensação de que o seu valor como pessoa diminuiu; tende então a se ver como inferior aos outros e, eventualmente, privada de valor. A importância inata do Eu, na criança, faz com que ela sobrevalorize certas experiências em que detectou menor estima e sobrevalorizar o significado de “ser” menos valiosa em certos aspectos particulares da personalidade. O fato de “ser inferior” em qualquer aspecto secundário da sua personalidade ou das condições de vida leva a criança rapidamente a se tornar, a seus próprios olhos, inferior em tudo. Para a criança, a ideia ou a própria imagem de “ser gorda”, “ser menos apreciada que um irmão”, “gaguejar um pouco”, “ser filha de pais de condição social humilde”, ou “ir mal na escola” atingem a pessoa em um todo. A criança sente-se, então, inferior sob todos os aspectos, como se a inferioridade parcial tivesse se alastrado sobre toda a personalidade. É por esta razão que ser apreciada sob um determinado aspecto da personalidade não exclui uma imagem inferior de si mesma em vários outros aspectos. Sentir-se inferior significa pensar que os outros não podem amá-la por falta de valor; que não a aceitam verdadeiramente, de modo que não tem verdadeiramente lugar entre eles. Algumas das reações emocionais que correspondem a esta perspectiva são: vergonha, solidão, autodesprezo e, naturalmente, tristeza ou raiva. A impressão de inferioridade pode ter origem nas comparações com os outros (a própria criança é a primeira a fazê-lo) e também das críticas, de modo especial dos pais e dos membros da família, em segundo lugar dos companheiros de jogo e de outras pessoas relevantes exteriores ao meio familiar, tais como os professores. Com o passar do tempo, quando a impressão de inferioridade é reforçada pela repetição de experiências externas ou internas entendidas pela criança (ou pelo adolescente, no caso que estamos estudando) como análogas às anteriormente sofridas, a impressão pode se tornar crônica. Transforma-se numa convicção profundamente enraizada acerca da própria identidade (o “Eu”), como um absoluto, uma imagem negativa de si que começa a viver por sua própria conta. Uma vez desencadeado, esse processo se toma resistente a novas experiências que o poderiam modificar e a novas aprendizagens. Este mecanismo é rígido e autônomo; todo o afeto e o apreço do mundo são incapazes de anulá-lo. É por isso que se chama complexo de
  • 27.
    27 inferioridade. Para compreendermelhor a peculiaridade deste fenômeno convém reparar numa importante reação emotiva que se desenvolve com o complexo de inferioridade e que é uma parte essencial dele; a reação emocional primária perante o Eu ofendido, numa criança ou em um adolescente: a compaixão por si mesmo. Se uma criança ou um adolescente, que acabou por se sentir inferior e não apreciado ou excluído, pudesse aceitar a sua condição desfavorável, a sua suposta menor importância, certamente se sentiria mal pela privação de amor, pelo desprezo, pelas deficiências que notou em si mesma mas, se aceitando efetivamente, o sofrimento diminuiria em pouco tempo, recuperaria o equilíbrio interior e o gosto pela vida. Por outro lado, numa criança, ou em um adolescente, esta reconciliação consigo mesma não é fácil, por causa do seu inato sentido da importância do próprio Eu. A relativização de si mesma não é uma das qualidades da criança. O Eu infantil reage com uma emoção centrada na própria pessoa e fica obsedado pela autocompaixão: “Causo pena! Não me querem, não me estimam, riem de mim, não querem me aceitar”, e por aí fora. E pensando em si próprio, vendo a si mesmo como uma pobre criatura, começa a ter uma intensa piedade por aquele ser sofredor. Sente piedade, tal como sentiria por outra pessoa que visse sofrer e merecesse dó. As afirmações “sou feio, impopular, fraco, não sirvo para nada, rejeitado, em desvantagem em relação ao meu irmão ou à minha irmã” implicam um “coitadinho de mim!”. A autocompaixão é a compaixão de si próprio. Talvez não haja experiência ou impressão mais eficaz para provocar a autocompaixão de uma criança do que a ideia “estou sozinha, sou menos apreciada”. A autocompaixão absorve cada vez mais a atenção da pessoa, suas energias mentais, o Eu quer se confortar a si mesmo com a autocompaixão que é essencialmente uma forma de amor: uma forma de amor de si mesmo. O Eu da criança quer tratar a si mesmo como um pobre coitadinho, como trataria outra pessoa nas mesmas circunstâncias. A autocompaixão fornece calor humano, consolo, quer proteger e mimar e se sente no direito de obter compensações confortantes. A autocompaixão se exprime nas palavras e nos lamentos interiores, nas lágrimas e suspiros; se manifesta claramente no tom queixoso da voz, na expressão do rosto e nas atitudes do corpo. Quase sempre a autocompaixão origina emoções de protesto, sob a forma de cólera, de hostilidade, de rebelião ou de amargura, sempre que a criança se sente tratada injustamente. Analisando melhor, parece evidente que aquilo que se designa popularmente como complexo de inferioridade (segundo a descrição de Adler) e exatamente a autocompaixão crônica de quem se sente inferior. Presto as minhas homenagens ao psicanalista holandês Johan Arndt por ter demonstrado o mecanismo desta emoção universal, e tão humana, que é a autocompaixão. Um caso de complexo de inferioridade é também um caso de autocompaixão crônicalviii . Sem ela, as sensações de inferioridade não teriam consequências negativas. Arndt chamou à autocompaixão das crianças e dos adolescentes “auto-dramatização”, porque a criança sente e vê a si mesma como uma personalidade importante, digna de compaixão: “O meu sofrimento é único”. A consciência de si torna-se consciência do “coitadinho de mim”. A CRIANÇAAUTO-COMPADECIDA NO ADULTO As expressões de autocompaixão (como o chorar, queixar, procurar conforto e consolo) podem aliviar e ajudar a assimilar as experiências que causaram a pena (o trauma). Crianças e
  • 28.
    28 adolescentes que sesentem sozinhos com as suas sensações desagradáveis durante um longo período, em geral não abrem a alma a uma pessoa de confiança; se envergonham ou julgam que ninguém está em condições de compreendê-las. Como resultado, continuam a alimentar as suas autocompaixões. As crianças não param facilmente, depois de entrarem neste processo: isto vale para muitas emoções e comportamentos, como também para a autocompaixão das crianças e dos adolescentes. Depois de se sentirem tristes em si mesmas, tendem a perseverar nessa tristeza e até a cultivá-la, pois a autocompaixão tem este doce efeito inerente à lástima: o consolo. Pode ser muito gratificante se sentir como o pobre coitadinho, incompreendido, rejeitado e abandonado. Sob este aspecto a autocompaixão e a auto-dramatização têm qualquer coisa de ambivalente. Uma autocompaixão repetidamente alimentada pela criança e pelo adolescente pode gerar uma psicodependência de autocompaixão. Em outras palavras, se torna um hábito autônomo de íntima comiseração. Este estado emocional da mente é descrito pela expressão: “a criança (ou o adolescente) auto-compadecida no adulto”. A personalidade do “pobre de mim” da infância (ou da adolescência) sobrevive na mesma forma; toda a personalidade infantil permanece na pessoa. Há, portanto, três conceitos que geralmente se sobrepõem: complexo de inferioridade, criança no adulto e hábito de autocompaixão (chamado por vezes de “doença dos lamentos”). São estes descrições adequadas dos fenômenos que se verificam na mente de uma pessoa neurótica, isto é, afetada por variadas hesitações, emoções obsessivas, sentimentos imotivados de insegurança e conflitos interiores. As linhas gerais da personalidade neurótica correspondem às características descritas acima. Em primeiro lugar, observamos uma continuidade modelos de comportamento infantis e pueris. De certa maneira, a pessoa continua a ser, do ponto de vista psicológico, a criança ou adolescente de antigamente; mantendo-se os desejos concretos, as sensibilidades, as lutas e o modo de pensar das crianças. No entanto, o complexo não conserva no adulto todas as coisas da criança. O amadurecimento da pessoa só fica seriamente comprometido naquelas zonas onde as frustrações infantis intervieram, ou seja, onde a autocompaixão e o sentido de inferioridade tiveram origem. Nos outros campos, a pessoa pode ser psicologicamente amadurecida. Nos casos em que a “criança lamurienta” evalece, então toda a personalidade fica imatura, “infantil”. A homossexualidade é justamente um tipo de neurose. A pessoa que sofre este complexo leva dentro uma certa “criança que se auto-compadece”. Por isso é que Bergler observou: “Aos cinquenta anos o homem com inclinações homossexuais encontra-se, do ponto de vista emocional, nos anos da adolescência”lix . Uma segunda característica da neurose é a tendência à autocompaixão — habitualmente manifesta, mas em algumas pessoas é mais reservadas — tão imensamente descrita por Arndt. O neurótico grave manifesta de modo muito evidente a necessidade de se compadecer; parece continuamente à procura de motivos de autocompaixão — e ele consegue —; talvez sentindo-se cronicamente objeto de injustiça, ou sempre frustrado e sempre sofredor por qualquer coisa. Os seus lamentos podem consistir em qualquer coisa negativa: sentimentos de desilusão, de ter sido deixado só, de ser incompreendido, de falta de estima, de carência de amor, de incapacidade física, de dor, etc. É como se a mente do neurótico não pudesse passar sem a sensação de autocompaixão, de auto-dramatização; por isso, esta situação pode ser vista como uma “psicodependência” ou como
  • 29.
    29 — o queé o mesmo — um mecanismo compulsivo de compaixão. O resultado é que, no neurótico, a confiança da pessoa em si mesma, a segurança e a alegria de viver ficam seriamente comprometidas. Uma outra característica frequente do neurótico é um desejo infantil de atenção, de aprovação e de simpatia, além de uma tendência geral à autoafirmação. A expectativa de estima e de calor da criança que tem por dentro, é inesgotável e gira à volta da pessoa como na criança propriamente dita. De muitos modos, este Eu infantil pode procurar ser importante, interessante, atraente para os outros, estar no centro das atenções tanto na vida real como na imaginação. É preciso mencionar como último aspecto a atitude mental egocêntrica. Uma grande parte da consciência psíquica pode estar ocupada, ou girar em torno, do infantil “coitadinho de mim!”. Para usar uma comparação: a “criança compadecida que está no adulto” mima e cuida de si mesma como uma criancinha carinhosa acariciaria uma boneca que trata como algo que merece compaixão. Todo o sentimento de amor pelas outras pessoas, baseado em um interesse genuíno por elas, é bloqueado por uma atitude neurótica compulsiva centrada sobre si própria e que se desenvolve mais ou menos espontaneamente. O COMPLEXO DE INFERIORIDADE HOMOSSEXUAL São inúmeros os tipos de complexo de inferioridade e as variantes da “criança auto- compadecida do passado, conservada no interior”. Um deles é o complexo de inferioridade homossexual. Portanto, à parte o sintoma concreto de um certo tipo de apetite sexual, a homossexualidade não é um fenômeno isolado mas se integra no conjunto dos problemas da neurose. Como já mencionado anteriormente, os sentimentos de inferioridade podem se manifestar em muitos setores da chamada esfera da personalidade individual. A criança ou adolescente perturbado por fantasias e atrações homoeróticas tem uma impressão de inferioridade em relação à sua identidade sexual ou “identidade de gênero”, isto é, o fato de ser rapaz ou moça. O rapaz sente- se inferior comparado com os outros rapazes em relação às suas qualidades de homem: resistência, espírito decidido, atitudes desportivas, audácia, força ou aspecto masculino. Uma moça sente-se inferior comparada com as outras moças quanto à feminilidade nos interesses, comportamentos ou aspecto físico. Esta regra pode ter variantes, mas as linhas gerais são inconfundíveis. Um elemento fundamental desta impressão de inferioridade é a consciência de não pertencer realmente ao mundo dos homens ou das mulheres, de não ser um rapaz, (homens) ou uma moça (mulheres). Na maior parte dos casos, esta autoimagem de inferioridade aparece na pré-puberdade e na puberdade, entre os oito e os dezesseis anos, com um pico entre os doze e os dezesseis. O adulto com orientação homossexual irá conservar o característico tipo infantil do “Eu auto-compadecido”, com o seu cortejo de antigas fantasias e frustrações e a sua concepção pueril das pessoas do mesmo sexo. O ponto de partida é uma autoimagem de inferioridade, concretamente, a de não pertencer ao mundo dos homens ou das mulheres. Às vezes, estas sensações são plenamente conscientes: a criança pode expressá-las, como aquele rapaz de dez anos que mais de uma vez se lamentava com a mãe, quando lhe falava contrariado do seu relacionamento com os outros rapazes da escola: “sou mesmo tão fraco!” (contou-me a mãe, quando veio para discutirmos a homossexualidade do filho). Outros jovens podem ter as mesmas sensações sem verbalizá-las claramente; e podem se dar conta
  • 30.
    30 somente depois dealguns anos: “Olhando para trás, me dou conta de que sempre me senti deslocada e pouco atraente, comparada com as outras moças”, observava uma mulher lésbica, “mas nunca tinha me dado conta disso”. Mais ou menos conscientes, as crianças e os adolescentes sofrem por este sentido de inferioridade que os corrói por dentro. Muitas vezes têm vergonha de admitir diante de si próprios este sofrimento, porque o reconhecimento consciente da inferioridade pode ser uma experiência desagradável, que ofende o Eu, o amor próprio, ou a importância do Eu infantil. Os sentimentos de inferioridade de uma criança ou de um adolescente podem distorcer a sua imagem das outras pessoas, algumas das quais podem lhes parecer superiores. No caso do rapaz, outros rapazes podem parecer mais masculinos ou mais fortes. No caso da moça, outras moças e algumas mulheres podem parecer mais femininas, mais belas, mais engraçadas, mais próximas do ideal feminino. Neste modo de ver podem ter mais importância as características físicas dos outros; em outros casos, prevalecem as atitudes e os comportamentos; mas, de uma forma ou de outra, as pessoas do mesmo sexo, em particular algumas delas, são idealizadas e até idolatradas. Uma certa idealização das pessoas do mesmo sexo é normal durante a pré-adolescência e a adolescência. Os rapazes da mesma idade são admiradores dos desportistas, heróis, aventureiros, pioneiros: homens cheios de coragem, de força e de sucesso social. Sentem-se atraídos pelos exemplos de homens dominadores: o vigor masculino e a audácia são tidos em grande apreço. Por isso pode acontecer que admirem rapazes um pouco maiores, que são já “mais homens” que eles, e os queiram imitar. Pela sua parte, as moças têm um particular interesse pelos atributos de graça e feminidade das outras moças e mulheres mais maduras: admiram os dotes femininos para as relações sociais, a graça feminina. MASCULINIDADE E FEMINILIDADE: ESTEREÓTIPOS CULTURAIS? Nesta altura não podemos deixar de fazer um inciso para comentar algumas considerações sobre uma convicção relativamente comum, que pretende pôr de lado as ideias tradicionais de masculinidade e feminilidade e os correspondentes “papéis” como simples produtos da cultura. Segundo esta opinião, a cultura tradicional já teria ficado obsoleta e portanto seria já desaconselhável “doutrinar” as crianças com os estereótipos dos vários papéis ligados ao sexo. Na realidade, saber se os modelos de masculinidade e de feminilidade são naturais não é uma questão decisiva para a explicação da homossexualidade que estamos a apresentar. Efetivamente, os sentimentos homossexuais provêm de a pessoa se sentir deficiente na própria masculinidade e/ou feminilidade, tal como é entendida pela criança (ou pelo adolescente) na sua comparação com os outros. Portanto, em sentido estrito, é irrelevante se a masculinidade ou a feminilidade são relativas ao contexto cultural ou são parte da herança biológica da pessoa, ou ainda ambas as coisas ao mesmo tempo. Contudo, a hipótese, admitida hoje por alguns, da equivalência dos sexos pode confundir um juízo correto acerca dos comportamentos sexualmente desviados. Além disso, os sistemas educativos que resultam dessa concepção igualitária dos rapazes e das moças põem gravemente em perigo o seu desenvolvimento emocional saudável e, especialmente, o seu desenvolvimento sexual. A teoria da equivalência é insustentável. Em todas as culturas e em todos os tempos e em todo o mundo, os homens e as mulheres diferem entre si em várias dimensões fundamentais do comportamento. A interpretação mais plausível desta constatação de fato está na hereditariedade.
  • 31.
    31 Os rapazes eos homens são hereditariamente mais propensos, em relação às moças e às mulheres, a uma tendência para o “domínio social”, para o exercício da autoridade na vida sociallx ; eles são os “lutadores”, nos vários significados da palavra; e o seu modo de pensar é também mais orientado para as coisas concretas. As mulheres, em contrapartida, estão mais orientadas para as pessoas, reagem mais fortemente aos estímulos emocionais e são emocionalmente mais expressivas. Não é uma mera questão de aprendizagem dos estereótipos tradicionais o fato de serem mais atentas e conseguirem uma maior “empatia” emocional. Quem quiser se aprofundar neste tema controverso pode ler a síntese elaborada por May sobre as investigações relativas a estas diferenças entre os sexos, efetuadas com crianças de diversas culturas, incluída a nossa, com adultos e com alguns primatas mais desenvolvidos que aparentemente apresentam as mesmas diversidades macho- fêmealxi . Portanto, os papéis tradicionais ideais, hoje tão mal vistos, dos rapazes como “seguros”, “fortes”, “leaders” e “dominadores do mundo”, e das moças sobretudo como “atentas” e “afetuosas” contém muito mais que um só grãozinho de verdade. Isto não significa que se devam exagerar as diferenças psicológicas nem que se possam deduzir delas regras rígidas e absolutas de comportamento e relação, por exemplo, às ocupações concretas e às profissões mais adaptadas aos homens e às mulheres. Mas significa que é antinatural atribuir os mesmos papéis sociais ou inverter os papéis comportamentais dos rapazes e das moças (homens e mulheres). E significa que é antinatural se comportar como se o fato de existirem diferentes percentagens de homens e de mulheres em um certo número de profissões e funções fosse índice de “discriminação” e de injustiça social. Isto quer dizer que deveria ser feita uma distinção clara na educação entre os papéis atribuídos aos rapazes e às moças. Não é nada sábio, nem útil para toda a sociedade negar as evidentes preferências e os dotes para certas ocupações e papéis relacionados com o sexo e não tirar partido dessas capacidades e qualidades. A psicologia humana é profundamente masculina ou feminina. Isto pode ser observado nas crianças educadas quase sem nenhuma pressão que as oriente para os papéis correspondentes ao seu gênero natural. Por exemplo, os rapazes educados como moças por uma mãe onipresente e feminilizante, com quem se identificavam ou que imitavam, ou educados por pais idosos, numa situação ambiental que não encorajava um comportamento de rapaz: mesmo esses, o que gostam, do fundo do coração, é de coisas de rapazes, ainda que eventualmente o seu comportamento seja pouco masculino. E, geralmente, admiram os outros rapazes que lhes parecem mais homens. Uma moça educada com certas atitudes de desprezo pelas coisas de mulheres e pelo papel feminino (“cozinhar e todas essas coisas de moça não são para mim!”) pode apesar de tudo ficar impressionada por outras moças que irradiam feminilidade, admirando-as profundamente. Mais de uma vez observei que as mulheres que lutam contra o “papel feminino opressivo” se sentem de fato inferiores nesse papel. Na realidade, admiram as mulheres que abraçam livremente a própria feminilidade. Isto pode ser visto de outra perspectiva. Jovens moças e rapazes que são serenos, felizes e livres de conflitos interiores, nunca parecem sentir problemas de papel a desempenhar. Sentem certa orientação masculina ou feminina nos vários domínios da vida como qualquer coisa de imediata evidência; e nunca têm problemas com a relação “tradicional” homem-mulher. Tendo em conta tudo isto, a atitude psicológica mais saudável consiste em tomar as fundamentais diferenças de comportamento dos sexos como ponto de partida para construir as relações entre homens e mulheres, dentro e fora do casamento. Dependendo do tempo e das circunstâncias, as expressões concretas deste relacionamento podem mudar em parte, mas sem abandonar o modelo estabelecido pela natureza. Os papéis dos dois sexos são complementares, em conformidade com a natureza complementar das qualidades ligadas ao sexo. A abolição forçada dos modelos normais de comportamento relacionados com o sexo, seja inspirada por frustrações
  • 32.
    32 neuróticas ou poruma errada imposição igualitária, só pode levantar obstáculos às relações entre os dois sexos e não ajuda a realização psicológica de nenhum. A HOMOSSEXUALIDADE NO DESENVOLVIMENTO SEXUAL As pessoas têm um impulso natural a se identificarem com o seu sexo. Um rapaz quer pertencer ao mundo dos outros rapazes e dos homens, uma moça ao mundo das outras moças e das mulheres. O desejo de ser reconhecido como rapaz (ou como moça) é inato também naqueles rapazes e moças que têm um sentimento de inferioridade relativamente à sua masculinidade ou feminilidade, respectivamente. Como já se viu, o sentimento de inferioridade produz a autocompaixão e a auto- dramatização. A amarga consciência de ser diferente — em sentido negativo — produz o desejo de ser reconhecido e apreciado por aqueles que foram idealizados, como um deles. Às vezes este desejo reveste formas de inveja, o que é compreensível por se basear numa compaixão de tipo infantil: “coitadinho de mim! Gostaria de ser um deles”; ou então: “quem me dera que algum deles reparasse em mim e se importasse comigo!”. O adolescente triste que se auto-compadece procura sobretudo um contato: compreensão, consolo, compaixão, afeto. Acrescente-se a isto que ele se sente só e frequentemente não tem facilidade de relação com os outros e se torna fácil entender que o desejo de ser amigo de alguém admirado pode atingir uma grande intensidade. Isto acontece em primeiro lugar na imaginação do adolescente. Ele pode “se apaixonar” (desta maneira peculiar) de qualquer companheiro da sua idade, frequentemente um pouco mais velho. É geralmente um amor à distância. A tendência emocional íntima é, em qualquer caso: “nunca conseguirei! Nunca serei capaz de conquistar a sua atenção e o seu amor”. É um desejo de calor e de estima desencadeado pela autocompaixão, justamente na idade em que a orientação sexual, até aí indiferenciada, começa a despertar. Uma necessidade patética de afeto pode então conduzir a fantasias eróticas de intimidade com qualquer amigo admirado. Noutros casos, o desejo de contato físico e proximidade física não é completamente claro para o próprio adolescente, embora ele seja capaz de se dar conta, a seguir, de que estava latente. Olhar outros rapazes pelas ruas intencionalmente é talvez o sintoma mais comum do despertar das atrações homoeróticas. O adolescente quer tocar e acariciar os objetos da sua admiração e ser acariciado por eles, estar perto deles, ter intimidade com eles, sentir a sua atenção e o calor do seu afeto. “Se ele me amasse!”, suspira o rapaz. A extensão natural desta necessidade de calor e de amor é uma ânsia erótica. Isto não é estranho, como poderia parecer. Nesse momento particular do desenvolvimento psicológico que corresponde à pré-adolescência e ao início da adolescência, o instinto sexual se encontra no estágio inicial do seu desabrochar, não tendo ainda chegado à sua meta final, o sexo oposto; por isso, é possível que um rapaz, durante esta fase de gradual maturação das emoções sexuais, desenvolva sentimentos e sensações eróticas orientadas para uma pessoa do mesmo sexo. Isto pode acontecer mais facilmente no caso de rapazes e de moças que já se sintam excluídos da companhia dos outros ou se sintam sós e inferiores, desejosos de afeto. Então, o seu interesse e admiração pelas aparências físicas ou características da personalidade de outras pessoas pertencentes ao mesmo sexo adquirem uma dimensão erótica; os sonhos eróticos de olhos abertos ou as fantasias da masturbação giram assim em volta das figuras das pessoas adoradas do mesmo sexo, e o desejo homossexual aparece. Normalmente, o interesse transitório por pessoas do mesmo sexo, com tintas mais ou menos eróticas, se dissipa quando o rapaz ou a moça, crescendo, descobre os aspectos sexuais muito mais atraentes do outro sexo. Contudo, este interesse adquire uma especial profundidade no caso da criança que se auto-compadece, esmagada pela compaixão de inferioridade a respeito precisamente da sua própria identidade sexual. Para essa criança ou esse adolescente, um contato físico com qualquer um dos adorados torna-se o cumprimento de uma apaixonada ânsia de amor e de aceitação, o auge da felicidade. Um contato dessa natureza teria o poder de afastar, na mente do
  • 33.
    33 patético adolescente, qualquermiséria interior, qualquer inferioridade e solidão. Neste modo, se pode criar, durante a adolescência, uma interligação entre o desejo de contato da criança que se sente merecedora de compaixão e o erotismo. A inveja de uma pessoa do mesmo sexo é passiva, um desejo de ser tratada com afeto; não é uma experiência feliz e alegre, como a do apaixonado normal: parte de uma sensação de desespero, uma espécie de aflição. Este pedido de amor está, de maneira evidente, orientado para a própria pessoa; o amor homoerótico é egocêntrico, “narcisista”. As sensações homoeróticas, que seguem aproximadamente as linhas gerais descritas acima, podem ser relativamente fracas no início, mas depois vão se tornando cada vez mais intensas. Este reforço é frequentemente causado pelo agravamento do sentimento de solidão. A contribuição das fantasias eróticas na masturbação pode multiplicá-las consideravelmente. A dada altura, esta busca erótica da “criança que se compadece”, ganha independência na vida emocional, formando aquilo a que se chama um “complexo”. É como se a mente tivesse se tornado psicodependente desta mistura de autocompaixão e ansiedade erótica. Muitas pessoas com inclinações homossexuais veem a sua própria tendência sexual como uma obsessão, crónica ou transitória. Os seus sentimentos sexuais absorvem muitas vezes grande parte da sua atenção e ocupam a maior parte dos pensamentos, mais que nas pessoas heterossexuais. Os impulsos homossexuais têm um efeito realmente opressivo, se assemelhando às outras perturbações neuróticas, tais como as fobias, as ânsias obsessivas e as neuroses obsessivo- compulsivas. Não dão trégua para o indivíduo que sofre dela. A força motriz desta situação opressiva é a insatisfação associada ao lamento de inferioridade. Isto torna o desejo insaciável, porque a própria ferida sangra de modo persistente. Uma relação homossexual não pode trazer satisfação ou dar certa felicidade, a não ser uma satisfação emocional de curta duração. A fonte ideal de calor afetivo só existe na imaginação insaciável de quem sofre deste complexo e, portanto, nunca é encontrada. O sociólogo alemão Dannecker, que se auto-define homossexual, atraiu sobre si a fúria do movimento homossexual quando declarou frontalmente que a “fiel amizade homossexual” é um mito. O mito, acrescenta ele cinicamente, pode ter alguma utilidade para habituar a sociedade ao fenômeno da homossexualidade —a proclamada “amizade duradoura” vende-se melhor—, mas agora deveríamos acabar por aceitar a situação na sua efetiva realidade e conseguir que a opinião pública a aceite. Esta realidade, admite ele, é que nós buscamos vários parceiros, devido à nossa “inclinação”. Dannecker confirma a sua afirmação apresentando comparações estatísticas com as pessoas heterossexuaislxii . O que ele afirma não é novo, ilustra apenas o carácter compulsivo da homossexualidade, o seu frenesi próprio. A homossexualidade não é “gay”*, alegre: é uma psicodependência sufocante. (* O autor opta por fazer um jogo de palavras com “gay” e seu significado literal “alegre”) Um exemplo do curso inevitável dos acontecimentos é o de um homem com orientação homossexual que tinha pensado encontrar finalmente, depois de anos de relações ocasionais, um companheiro para amar por toda a vida: “A princípio, pensei ter encontrado a mim mesmo na sua companhia. Estava seguro de que a agitação que sempre havia tido derivava da necessidade de um parceiro fixo. No entanto, o estranho é que a mesma agitação voltou e bastante depressa. Mais uma vez, me vi na necessidade de me conceder relações furtivas, apesar da boa relação com o meu parceiro (durante um par de meses)”. A conclusão deste homem foi a de que a homossexualidade deveria ser efetivamente uma opressão neurótica (embora não tivesse a certeza de que queria se ver livre dela).
  • 34.
    34 Em resumo, inconscientemente,o homossexual não está a caminho de encontrar alguém e de ser feliz, mas da amargura e do sofrimento exigidos pela necessidade de alimentar a auto- dramatização.
  • 35.
    35 6- ORIGEM EMECANISMOS DO COMPLEXO HOMOSSEXUAL Há pessoas que desenvolvem o complexo de ser abandonadas pelos outros, outras de ser incompreendidas, outras ainda de ser um desastre, de ser incompetentes, de não ser aceitas, e assim por diante. A sua autoimagem de inferioridade (“eu não passo de...”) é invariavelmente e estreitamente acompanhada pela autocompaixão e pela sensação de “coitadinho de mim!”. É característico do complexo homossexual o estar associado a sentimentos de inferioridade relativos à própria identidade sexual. Por que é que algumas pessoas desenvolvem na sua juventude um complexo homossexual e outras um complexo de inferioridade de tipo não sexual? ORIGEM NO HOMEM Um rapaz pode acabar por se sentir menos masculino, menos viril, quando é educado de maneira hiper-protetora e hiper-ansiosa por uma mãe intrometida e quando o pai teve uma importância muito pequena na sua educaçãolxiii . Na maior parte dos casos, a combinação destes dois estilos de educação materna e paterna criou a predisposição para o desenvolvimento do complexo homossexual. Antes de continuar, convém fazer uma pausa para um comentário breve sobre a questão da culpalxiv . Ao avaliar as faltas e as deficiências dos pais em relação aos filhos pode parecer que se aponta o dedo contra eles; mas não é assim. Em primeiro lugar, a abordagem que fazemos é de natureza psicológica e não moral, o que significa que nos limitamos a apontar certas correlações que se observam entre o comportamento dos pais e o comportamento correspondente dos filhos. Em segundo lugar, as deficiências e debilidades da personalidade verificadas numa certa porcentagem dos pais das pessoas inclinadas à homossexualidade não podem ser imputadas a eles simplisticamente como uma culpa. Normalmente estes pais atuam de acordo com modelos de que dificilmente têm consciência e, muitas vezes, não estão em condições de ver com clareza como algumas das suas maneiras de tratar um filho podem prejudicá-lo. Além disso, os pais também são em parte o produto da sua própria infância. Não elimino o seu livre arbítrio e, portanto, a sua responsabilidade moral; haverá certa parte de culpa, pois ninguém pode dizer que foi completamente programado pela educação e pelas circunstâncias em que cresceu. Contudo, a dimensão da culpa dos pais não pode ser avaliada como maior do que a de quaisquer outros pais em relação aos erros cometidos na educação dos filhos. A natureza das nossas deficiências como pais pode ser diferente, mas todos nós temos hábitos egocêntricos e outras debilidades, sejamos ou não conscientes delas. Portanto, embora os pais das pessoas com orientação homossexual possam ter a sua parte de culpa, em geral, ela será provavelmente semelhante à dos outros pais. As pessoas com tendências neuróticas para a lamúria têm às vezes uma atitude de reprovação pelo que os pais lhes fizeram. É preciso perceber que isto pode ser mais um tipo de lamentação. Além do que as longas recriminações contra os pais — de que a pessoa se lamenta e se sente vítima — são quase sempre baseadas numa visão não realista dos pais. A visão da criança que se queixa dos pais é, por definição, uma visão infantil, condicionada por sensações centradas no próprio eu. É necessário corrigir esta distorção se queremos que a pessoa fique emocionalmente mais madura. Os neuróticos homossexuais que se lamentam podem ter tendência para continuar a sentir e a exprimir queixas em relação aos comportamentos errados dos seus pais. De fato, isto alimenta a atitude de “criança queixosa” e, portanto, os laços infantis que a prendem à mãe e ao pai, laços ao mesmo tempo de apego doentio e de aversão.
  • 36.
    36 Os cristãos têmmais uma razão para superar essa lamentação persistente sobre os erros dos pais, se compreenderem que devem perdoar. De fato, isso pode constituir uma vantagem, pois alguns casos de pacientes com tendências homossexuais mostram justamente que o progresso terapêutico pode ser bloqueado pela incapacidade ou pela falta de vontade de perdoar ao pai ou à mãe. Outra consequência de alimentar as queixas infantis em relação aos pais é essa atitude impedir a pessoa de assumir as suas próprias responsabilidades. Por outras palavras, a “criança queixosa” que está dentro do neurótico, e que proclama “não posso fazer nada”, não aceita a responsabilidade do seu comportamento e das suas inclinações. Chegamos assim à questão da eventual culpabilidade do neurótico homossexual. Será ele responsável pela sua situação? Ou é completamente vítima da sua doença, um doente passivo? A resposta deve evitar os dois extremos. O neurótico homossexual, como qualquer outra pessoa neurótica e como qualquer outro ser humano, não é inteiramente inocente. Todas as fraquezas humanas e os hábitos emocionais de um ser humano médio —categoria a que pertencem também as pessoas com orientação homossexual— foram crescendo por terem lhes dado corda. Isto também se aplica à autocompaixão, ao costume de dar mimo a si próprio, de cair na autoafirmação infantil e de saborear a própria importância, de chamar a atenção, etc. Pode haver certo grau de culpa quando a pessoa inclinada à homossexualidade segue muito facilmente aos seus impulsos, mediante a masturbação ou procurando relações; e pode haver ainda mais responsabilidade se justifica o seu comportamento e o favorece. Mas esta conjectura é tudo o que podemos dizer sobre o assunto. É inquestionável que há uma boa parte de automatismo em um complexo neurótico, e as culpas só em parte podem ser atribuídas à pessoa; aliás, é assim com todas as doenças do carácter e da personalidade (não tomamos aqui em consideração as pessoas afetadas por verdadeiras doenças mentais, como os esquizofrênicos). AS RELAÇÕES COM OS PAIS Verifica-se que em 60 a 70% dos casos a mãe foi excessivamente “possessiva”: excessivamente preocupada, hiper-protetora, ansiosa, autoritária, intriguista ou mãe-galinha; ela aconchegou muitas vezes o filho nesse ambiente mimado, ou tratou-o como favorito e confidente privilegiado. Ora, este relacionamento contribui para tornar o rapaz dependente e fraco, sufoca o seu espírito de iniciativa e o impede de adquirir coragem e confiança em si próprio. Uma mãe demasiado preocupada e ansiosa transmite ao filho a sua atitude de medo pela vida; uma mãe que quer decidir tudo em lugar do filho anula a sua vontade e a sua iniciativa. Os rapazes educados deste modo correspondem bem pouco àquele maroto travesso que há dentro de qualquer rapaz normal; são super-obedientes e inibidos. Pode também acontecer que um filho se torne excessivamente apegado à mãe por causa do desmesurado afeto da mãe — essencialmente egocêntrico — e dos mimos que colocam o filho numa posição muito privilegiada. É então provável que ele queira voltar à atmosfera aconchegante e segura da mãe, tão logo o mundo externo não o trate com amabilidade. Quem quiser um exemplo dos efeitos perniciosos deste amor doentio mãe-filho deveria ler a biografia do romancista francês Marcel Proust: na adolescência chegou a escrever cartas de amor à sua mãe, embora vivessem na mesma casa! Em certos casos, o amor da mãe é ao mesmo tempo opressivo. Por exemplo, quando a mãe ameaça fazer cenas histéricas se o filho não for carinhoso com ela. Em outros casos, impõe-se ao filho de um modo amigável, mas se impõe da mesma forma.
  • 37.
    37 Por mais queos militantes homossexuais e reformadores sexuais tentem minimizar esta situação, com atitudes liberalizantes, é um fato indiscutível que as mães ocuparam um lugar excessivamente central na educação da vida emocional de numerosos homens homossexuais. Por causa disso, o rapaz se tornou excessivamente dependente dela e, no seu íntimo de “criança queixosa”, conserva intacta esta atitude para com a mãe. Esta “criança” tenderá a viver tal atitude também com outras mulheres, como imagens da mãe. É assim que alguns viraram os “meninos queridos da mãe”, “a criança obediente e temerosa”, o “menino dependente” e, às vezes, “o rapaz reprimido e tiranizado”. Estas ligações com a mãe não são saudáveis e inibem seriamente a entrada do filho na vida adulta. O investigador e terapeuta I. Bieber, se referindo a um grande número de entrevistas com homens afligidos por sentimentos homossexuais, realizadas ao longo da sua vida profissional, escreve não ter encontrado um só caso de homem homossexual em que houvesse um relacionamento pai-filho normallxv . A minha experiência é idêntica. Uma análise mais aprofundada de uma série de fatores psicológicos infantis em um subgrupo de 120 pacientes meus, homens, com este problema, mostrou dois ou no máximo três casos em que a relação pai-filho poderia ser considerada boa. Mas também nestes casos a relação com o pai era à distância. O pai de um destes homens com tendências homossexuais já era idoso quando o filho nasceu e em um outro caso a ligação afetiva entre o pai e o filho me pareceu bastante tênue. Portanto, podemos dizer que raramente a relação pai-filho é positiva: um homem que desenvolve um complexo de inferioridade homossexual encontrou geralmente no seu pai a imagem de um pai insuficiente. A relação deficiente com o pai pode ter diversas causas. As vezes, um pai psicologicamente distante se descuida de um filho, por exemplo, um dos mais pequenos de uma família relativamente numerosa: o interesse do pai pode ter se concentrado nos filhos mais velhos. Em alguns casos, o pai considera o rapaz como incumbência da mulher: a existência de um laço exclusivista mãe-filho pode ter condicionado este tipo de atitude do pai. Um exemplo eloquente deste tipo de situação é o do romancista holandês Louis Couperus, que viveu no início do nosso século. Ele desenvolveu um complexo de inferioridade julgando «ser um inepto». Esta autoimagem teve origem no fato de se sentir ferido pela falta de estima da parte do pai. Este tinha deixado Louis, o filho mais novo, aos cuidados da mãe e das irmãs mais velhas e não o tinha aceitado no seu próprio mundo que partilhava com os irmãos mais velhos do rapazlxvi . Em outros casos, o pai estava muito ocupado para passar tempo suficiente com a família e, em particular, com algum dos rapazes. Outro grupo de pais era formado por exemplos típicos das chamadas “personalidades fracas”, eles próprios não eram suficientemente masculinos, mas dependentes, temerosos, às vezes excessivamente apoiados nas suas mulheres; eram modelos fracos de virilidade, de modo que os filhos tiveram um modelo deficiente com o qual se identificar. Pertencem a esta categoria os pais, eventualmente idosos, com falta de dinamismo juvenil necessário ao desenvolvimento dos seus filhos, os pais que não jogam com eles e não encorajam a sua atividade de rapazes. O resultado é o comportamento dos filhos se tornar artificial, semelhante ao de uns “pequenos velhinhos”. Em cerca de um quarto da minha casuística e da de outros investigadores, constatou-se que o filho tinha um conceito decididamente negativo do pai. O pai o criticava, não o encorajava, de modo que o filho se sentia rejeitado pelo homem mais importante do seu pequeno mundo. O rapaz também se sentia ferido pelo fato de o pai o comparar continuamente com os irmãos e as irmãs.
  • 38.
    38 Numa certa porcentagemde casos — provavelmente cerca de 20% — o sentimento de ter sido rejeitado pelo pai parece ter sido a fator crucial do trauma psíquico, que fez com que o rapaz se sentisse excluído do mundo dos homens. Para um rapaz, o pai é o protótipo do homem e sentir-se apreciado pelo pai é essencial para a sua autoconfiança como homem. A mesma coisa é válida para as moças, em relação à mãe. OUTRAS INFLUÊNCIAS Nos rapazes, em média, a influência do fator paterno me parece maior que a do fator materno, mas as possibilidades de uma evolução homossexual ficam substancialmente acrescidas na presença de ambos os fatores. Regra geral, a homossexualidade masculina é o resultado desta combinação das deficiências do pai e da mãe. Em relação a isto, convém notar que, em uma grande parte dos casos que pudemos acompanhar, existiam problemas profundos do casal. Estes problemas eram geralmente deste tipo: às vezes a mãe era claramente a personalidade mais “forte”, mais dominante, e obrigava o marido a se afastar para o segundo plano. Às vezes, a mãe sofria por ser abandonada pelo marido e a sua insatisfação a levava a estar mais próxima de um dos filhos. Como, a princípio, uma mulher tem a tendência natural a fazer de um dos homens do seu ambiente o “seu homem”, se não tem uma ligação emocional forte com o marido, pode acabar por criar alternativas na ligação com o filho. Naturalmente, podem ocorrer diversos tipos de tensões no casal, tanto originados em diversos hábitos egocêntricos como nas modalidades ainda infantis de agir e de reagir que a pessoa transporta para a vida matrimonial. O que é fato é que a frequência de casais relativamente harmoniosos é mais baixa nos pais das pessoas com sentimentos homossexuais do que nos casais cujos filhos não desenvolveram este complexo. Isto ajuda a compreender, mais uma vez, que a homossexualidade não é apenas um fenômeno do indivíduo afetado, mas também é sintoma de desequilíbrio na família e, muitas vezes, sinal de discórdia entre os pais. Por outro lado, a personalidade dos pais, as suas relações recíprocas e com os filhos, além da forma seguida na educação dos filhos, não são os fatores únicos que predispõem à homossexualidade. Dentro da própria família, alguns dos seguintes fatores podem contribuir para uma evolução neste sentido: posição do rapaz na série dos filhos; proporção entre rapazes e moças; rivalidade entre os filhos ou problemas muito agudos. Por exemplo, segundo certos estudos, os homens com orientação homossexual são, com mais frequência que nos heterossexuais, os filhos mais novos de famílias numerosas. Isto sugere uma maior hiper-proteção por parte da mãe e talvez um pai mais idoso e distante. Alguns homens com este complexo provinham de famílias com mais rapazes que moças, situação que pode ter induzido a mãe a tratar algum dos filhos como uma filha. Além disso, um rapaz pode ser levado a desenvolver este complexo ao se ver como o mais fraco, o menos viril dos seus irmãos, como resultado de se comparar com eles, ou da maneira de eles mexem ou tiraram sarro dele. O fator “mexer com ele” foi extremamente importante em um certo número de pessoas que conheci, vítimas deste complexo de inferioridade. Noutros casos, a comparação com algum irmão considerado mais resoluto e mais vigoroso parece ter sido o fator que fez a balança pender para o lado errado. Enfim, é preciso sublinhar a importância dos fatores de predisposição tais como se considerar feio e fisicamente débil. Um rapaz que sofreu durante certo tempo com a ideia de ser flácido, adoentado, asmático, muito baixo, muito magro ou muito gordo, pode entender estas autoimagens como variantes de ser pouco atraente, nada forte, na qualidade de homem.
  • 39.
    39 A conjugação dainfluência dos pais com a de outros fatores pode ser a perda de masculinidade no comportamento e nos interesses e em particular a perda da capacidade de ousar e da confiança em si próprio em atividades juvenis, como o competir. O rapaz foge dessas atividades dizendo: “Não são para mim”. Por exemplo, as estatísticas revelam que a maior parte dos homens com este complexo teve uma clara aversão infantil pelo futebol e outros jogos de grupo. Esses jogos são uma espécie de modelo das atividades juvenis dos rapazes na nossa cultura; exigem competir com outros rapazes e certo espírito de luta, e são índice da capacidade de adaptação ao grupo dos rapazes da mesma idadelxvii . O passo seguinte na evolução do complexo homossexual é decisivo. Trata-se da comparação que o rapaz faz de si próprio com os outros rapazes da mesma idade. Se um rapaz, que tenha por trás as influências familiares negativas já descritas, consegue ultrapassar as dificuldades das atividades dos rapazes e entrar assim no seu mundo, eventualmente com o encorajamento dos outros, o perigo de cair na homossexualidade fica definitivamente posto de lado. Mas, às vezes, as coisas não se encaminham desta maneira positiva e, em lugar de conquistar um lugar entre os pares, o rapaz se retira desencorajado, oprimido pela sensação de insuficiência e pela autocompaixão; se consegue ter algum amigo, será alguém posto de lado, como ele; sente-se só e marginalizado. Frequentemente, os rapazes nesta situação são alvo de chacota pela sua falta de audácia, porque são “umas meninas”, “uns maricas”, e assim por diante. Muitos passaram através de um período de pré-adolescência ou de adolescência feito de solidão e de depressão. Começa então o terceiro passo no processo evolutivo. O rapaz sonha ser como os outros e ter um amigo semelhante a ele. O desejo homoerótico de compaixão e de conforto se associa com o desencadear da auto-dramatização. Do ponto de vista estatístico, a homossexualidade está ainda mais estreitamente ligada a estes fatores de “adaptação social”, ou “fatores de paridade”, que aos fatores relativos aos pais ou às situações familiareslxviii . O drama interior destes homens quando eram crianças ou adolescentes era de não poderem sentir-se efetivamente parte da comunidade dos rapazes. ORIGEM NA MULHER A situação da moça que acaba por sentir uma atração homossexual por outras mulheres é sob vários aspectos simétrica a do rapaz, embora a comparação não seja absoluta, pois a variedade dos fatores preparatórios é maior que no homemlxix . Quando eram crianças, muitas mulheres com inclinações lésbicas tiveram a sensação de não serem compreendidas pela mãe. Esta sensação de distância da mãe apresenta muitas facetas. Um exemplo significativo é o de uma mulher que me dizia: “A minha mãe fez tudo por mim, mas era muito difícil conseguir falar com ela das minhas coisas pessoais e do meu mundo afetivo”. Outras queixas: “A minha mãe nunca tinha tempo para mim”; “A minha mãe se dava muito mais com a minha irmã do que comigo”; “Ela tratava de todas as coisas por mim e fez com que eu ficasse uma criancinha pequena”; “Ela estava muitas vezes doente”; “Esteve internada várias vezes em um hospital psiquiátrico”; “Abandonou a família quando eu era ainda pequena”; etc. Às vezes a moça teve de assumir o papel materno relativamente ao resto da família, por ser a irmã mais velha, ou teve de se fazer de mãe por esta não exercer a função como devia. Empurrada para esta situação, a moça sentiu-se, ela própria, privada do calor de uma mãe que a compreendesse.
  • 40.
    40 Também há casosem que a mãe se sentiu inibida como mulher, não ficando à vontade no seu papel feminino, inspirando à filha uma atitude critica contra aquilo que entendia por papel feminino, transferindo essa imagem à filha, de modo que a moça alimentou uma atitude de rejeição contra a sua própria natureza feminina. Algumas mulheres lésbicas tinham a impressão de que a sua mãe teria preferido um filho homem em vez delas e, portanto, sentiram-se levadas a imitar comportamentos e proezas de rapaz, em lugar dos que seriam próprios de uma moça. É a mãe que contribui em primeiro lugar para a confiança de uma moça em si própria como mulher. Quando a mãe consegue que a sua filha se sinta apreciada como mulher, a moça se sentirá à vontade no mundo feminino e entre as companheiras da sua idade. Nas mulheres com orientação homossexual, muito frequentemente, o relacionamento com a mãe não era pessoal e confidencial; não havia partilha de interesses femininos, nenhuma atividade de carácter feminino realizada em conjunto. Em consequência, a moça não se sentiu devidamente apreciada como uma moça: quer dizer, diferente de um rapaz, mas tão digna de apreço como ele. O modelo das relações pai-filha também parece assumir um número considerável de variantes. Algumas mulheres com tendências lésbicas estavam excessivamente apegadas ao pai como o “amigo especial”. Às vezes esta dependência era uma espécie de escravidão, pois o pai queria que desempenhassem uma função especifica, de modo que a relação não era natural e livre de coação. Em alguns casos o pai teria preferido que a filha fosse um filho, um camarada, e estimulava nela certas atitudes, interesses, atividades de tipo masculino, dando uma importância desproporcionada, por exemplo, aos seus resultados profissionais na escola ou às suas classificações desportivas ou ao desempenho de papéis sociais importantes. Compreensivelmente, a moça sentia- se incompreendida no seu íntimo e não aceita de forma realista como a pessoa que de fato era. Em outros casos, o pai via na filha o apoio e o conforto de uma figura materna, tinha o costume de exaltá-la e colocá-la em uma situação privilegiada mas, na realidade, fazia isto para comprar a sua dedicação. Também se registaram casos de pais com personalidade fraca, que se apoiavam excessivamente na mulher. Em todas estas situações, os laços emocionais da mulher lésbica adulta com o pai continuam a girar à volta da “criança de antigamente”, que ela leva em si. Ao contrário, outras mulheres com este problema não tinham sido as «meninas do papai» mas antes as filhas não desejadas e não aceitas, pelo menos a julgar pelo modo em que elas próprias viram a sua situação. Frequentemente eram criticadas, sentiam o desprezo ou pelo menos a falta de interesse em relação a elas. Os comportamentos e interesses masculinos hiper-compensativos de algumas destas mulheres podem ser atribuídos a uma reação contra esta atitude de não aceitação por parte do pai, levando a moça a olhar o papel masculino como superior e procurando desempenhá-lo. Foi assim que, as sensações negativas contra o pai juntamente com os esforços masculinizantes hiper-compensativos, com o objetivo de viver ao seu nível e de conquistar o seu apreço, convergiram no complexo neurótico. Para concluir, uma boa e normal relação pai-filha é estatisticamente menos frequente nas mulheres com orientação homossexual que nas mulheres heterossexuais. OUTRAS INFLUÊNCIAS Em algumas mulheres, um complexo de serem feias, de se sentirem menos femininas ou menos atraentes como moças, pode ter tido uma influência como fator desencadeante da evolução homossexual. Em outros casos, o impulso partiu da comparação com uma irmã, considerada (pela própria moça ou pelo ambiente) como mais atraente ou melhor sob outros aspectos. Em outros
  • 41.
    41 casos ainda, amoça sentia-se inferior em relação aos seus irmãos — “sou apenas uma moça” —, procurando imitá-los na sua masculinidade. Na adolescência, o tipo de atenção de que foi objeto por parte do outro sexo pode ter aberto a ferida: “Não me acham atraente como as outras moças”, “Não me convidam”, e situações semelhantes. Uma moça que se sente menos apreciada pelos rapazes pode chegar a admirar a feminilidade de outras moças em que os outros reparam mais. Alguns fatores de predisposição como os mencionados acima atuam e se reforçam mutuamente, tanto nas moças como nos rapazes. Uma parte das moças que posteriormente desenvolveu um complexo lésbico se comportava de certo modo menos como moças ou como mulheres do que corresponderia à sua idade; isto produzia nelas uma impressão de insegurança no papel feminino, com possíveis reações hiper- compensativas, tais como o assumir atitudes de desleixo e indiferença, de querer liderar e dominar à viva força, procurando superar os rapazes em masculinidade, ousando tudo, se comportando de modo agressivo, sendo rudes e duras. Podem ter mesmo alimentado um manifesto desagrado pelos comportamentos, os vestidos e as atividades domésticas femininas. Esta afirmação masculina de hiper-compensação aparece marcada pela perda da doçura natural. Aliás, esta segurança é uma exibição: se percebe bem toda a tensão emocional que corre por baixo. Isto não quer dizer que as mulheres com este complexo tendam sempre a se comportar de modo “masculino”; nem que as mulheres que assumem aquelas atitudes tenham por dedução inclinações lésbicas; mas existe uma correlação. De qualquer modo, um comportamento excessivamente masculino nas mulheres é quase sempre um sintoma de complexo de inferioridade. O principal fator no desenvolvimento de uma orientação lésbica é a comparação que a moça faz com as outras da mesma idade e com certas mulheres “ideais” mais maduras. Tal como no caso dos rapazes, o fator crucial é subjetivo, isto é, a imagem que a moça tem de si mesma. Por esta razão, às vezes, embora não seja o mais frequente, uma moça cujo comportamento, objetivamente, seja perfeitamente feminino pode evoluir no sentido de um complexo lésbico. Na adolescência uma moça quer ter amigas e ser uma delas. A sua solidão e o seu sentido de marginalização fazem suspirar por amigas admiradas ou algumas figuras de mulheres ideais. Se uma moça se sente privada do afeto e da compreensão da mãe, pode se voltar para um tipo de mulher ideal que possui aos seus olhos as características maternais desejáveis: por exemplo, uma professora afetuosa ou condescendente, ou uma moça mais velha que se apresenta com atitudes maternais. A moça que se auto-compadece quer ter a atenção exclusiva do seu ídolo e se agarra a essa esperança: “Quem me dera que ela me quisesse me dar o seu amor!”. “A queixa de muitas mulheres lésbicas era que bem poucas tiveram verdadeiras amizades na sua adolescência”, escrevem os psicólogos americanos Gundlach e Riess nas conclusões de uma investigação sobre mais de 200 mulheres socialmente bem adaptadas que sofriam deste complexolxx . A “criança queixosa” interior continua a se alimentar dos mesmos sentimentos que tinha na juventude: inferioridade, solidão, autocompaixão e uma ânsia insaciável.
  • 42.
    42 7- MANIFESTAÇÕES DOCOMPLEXO HOMOSSEXUAL Quando se tenta mostrar a verdadeira natureza do amor homossexual, se encontra frequentemente uma resistência indignada. “Porque não me deixa ser feliz, se eu sou assim?”, é a exclamação dramática, facilmente previsível. No entanto, a questão não está em ser ou não permitido, mas em ser “vivível”. Muitas pessoas com orientação homossexual não estão nada dispostas a se privar dos seus sentimentos ilusórios, como os alcoólicos ou os toxicodependentes não querem se abster dos seus estimulantes. A partir da experiência clínica e da literatura científica existente sobre o tema podem ser delineadas algumas características gerais do complexo homossexual, tanto nos homens como nas mulheres. 1. A busca repetitiva de um amante. Embora as mulheres com orientação homossexual tenham em média relações de maior duração que os homens com orientação homossexual, as relações nunca duram pelos anos afora. A dependência neurótica das sensações de ânsias insatisfeitas — em outras palavras, os lamentos neuróticos — apertam as esporas e obrigam a correr sempre, atrás de novas ilusões. O desejo homossexual é transitório e superficial. Os desejos homossexuais e a sede de calor e de compaixão a eles associada podem ser vistos pela pessoa como a coisa mais bela e mais profunda na vida de alguém. Isto já é um autoengano. Os apetites homossexuais, exaltados às vezes como «puro amor» e como um amor mais profundo que o amor entre marido e mulher, na realidade, não têm nada a ver com o verdadeiro amor. Trata-se de um “amor” centrado sobre a própria pessoa; é um pedir, até mesmo um suplicar, carinho e atenção. Este fato se manifesta claramente no modo em que as relações homossexuais costumam terminar. Como o parceiro serve para satisfazer as exigências de um Eu infantil, mas não é realmente amado como pessoa, o resultado é que se pode viver agarrado ao parceiro e, ao mesmo tempo, sentir uma profunda e completa indiferença por ele. É significativo que estas pessoas possam falar das suas relações passadas sem nenhuma emoção, como crianças que descartam um brinquedo em que já não estão interessadas. As pessoas com inclinações homossexuais, tal como os outros neuróticos, sofrem de uma autocompaixão compulsiva. Nem todas exprimem a sua autocompaixão e a tendência a se autoconsolar com palavras dramáticas e lamentos verbais, mas quando se começa a conhecê-las um pouco melhor, se torna quase sempre manifesto um pano de fundo de autocompaixão. Tendem a pensar em termos de problemas e temores: algumas pessoas são evidentemente hiper-emotivas; outras são do tipo chorão; outras são hipercríticas relativamente a si próprias e aos outros; algumas se queixam regularmente de mal-estar físico (que dramatizam); outras sofrem depressões, passam, a intervalos de tempo regulares, através de “crises neuróticas” ou se lamentam da solidão, da sua própria apatia, das suas dificuldades nas relações humanas, etc. A boa disposição e a verdadeira alegria são exatamente o oposto desta patologia queixosa. É verdade que alguns homossexuais representam o papel do brincalhão descontraído, mas um exame um pouco mais atento deixa ver, por trás da representação, a criança deprimida que se compadece. Essa atitude pode ser uma forma pueril de atrair a atenção e a admiração sobre o próprio Eu infantil. Por baixo, há sempre agitação. 4. As pessoas com inclinações homossexuais têm uma espécie de fome de atenção, que pode se traduzir de várias maneiras. Uma delas é se impor aos outros para absorver a sua
  • 43.
    43 atenção; outra ése apresentar de propósito como vítima e apelar aos sentimentos de compaixão dos outros, para obter ajuda e proteção; outra é se impor no ambiente, monopolizando-o, precisamente como as crianças fazem às vezes. Procuram principalmente a atenção de certo parceiro desejado, mas este chamar a atenção pode se generalizar como a maneira habitual de se relacionar com os outros. 5. Outra característica universal do neurótico é o estar centrado em si mesmo. Isto implica que os sentimentos e os pensamentos girem em torno do eu, tornando-os incapazes de se abrirem aos outros e de os amarem verdadeiramente. “O meu marido faz de tudo para as pessoas à sua volta”, me disse uma vez a mulher de um homem casado homossexual, “mas é incapaz de ter amor, nem sabe o que isso é”. Quanto mais o complexo homossexual predomina na vida emocional da pessoa, tanto mais esta descrição corresponde à verdade. 6. No adulto, a “criança que se auto-compadece” mantém a vida emocional a um nível de imaturidade também em outros campos, para além do sexual. O infantilismo emocional das pessoas que têm um complexo homossexual faz com que elas se comportem e pensem como crianças e, em particular, as leva a reprimir o crescimento emocional normal, em maior ou menor grau, conforme a força do complexo. 7. O fato de ficar em parte como uma criança repercute também no relacionamento com os pais. Por isso, os homens com este complexo têm frequentemente certa “ligação com a mãe” ou alimentam uma atitude de reprovação ou de hostilidade para com o pai, típica de uma “ligação negativa com o pai”. Nas mulheres lésbicas acontece algo semelhante. A ligação estabelecida com os pais, mantida sem evolução, pode conter elementos ambivalentes: uma mulher pode ter uma relação de dependência da mãe e, ao mesmo tempo, tender a entrar em conflito com ela para descarregar a irritação que sente em relação a ela. 8. A “criança interior de antigamente” conserva atitudes e sentimentos infantis em relação ao outro sexo. O homem homossexual pode continuar a detestar as mulheres segundo a mesma perspectiva com que o adolescente do passado as via, como intrusas na sua vida ou como rivais que quisessem roubar os seus companheiros, ou, simplesmente, como “aquelas moças estúpidas” que estragam as brincadeiras dos rapazes. Pode sentir-se ainda inferior e temeroso frente a elas, se envergonhando da sua escassa virilidade. Pode continuar a ver algumas mulheres como figuras protetoras, maternas, cheias de desvelo, e não como mulheres adultas com quem se relacionar como homem adulto. De modo equivalente, a “menina que sobrevive dentro da mulher lésbica” pode continuar a ver os homens através de lentes deformantes, por aversão, inveja, temor ou aborrecimento. 9. As pessoas com orientação homossexual têm dificuldade em aceitar plenamente a sua identidade sexual, a chamada “identidade de gênero”. O homem se sente como se as coisas masculinas não pertencessem a ele; a mulher lésbica não está à vontade nas coisas femininas. Contudo, é errado pensar que intimamente, estes homens se sintam mulheres, ou as mulheres lésbica se sintam homens. 10. Enfim, não é supérfluo notar que um complexo homossexual é apenas uma parte da personalidade total de uma pessoa. A pessoa, como um todo, é algo mais que a sua personalidade infantil, ainda que algumas pessoas com sentimentos homossexuais impressionem pela sua notável imaturidade. Reparando melhor, se descobre que cada homem ou mulher afligido pela homossexualidade tem muitas qualidades e tendências de adulto. Por dizer respeito à parte infantil da sua personalidade, este estudo poderia eventualmente deixar a impressão errônea de que se trata de pessoas completamente doentes; contudo, o psicoterapeuta se apoia justamente na parte
  • 44.
    44 adulta da personalidadehomossexual e é com ela que trabalha, é desta parte que se pode esperar uma visão realista da própria pessoa, a boa vontade e as outras energias terapêuticas. A parte adulta da personalidade é também a mais interessante das duas: está viva, enquanto a componente infantil do Eu se parece mais com um mecanismo fossilizado e estereotipado. Na vida, todos os dias, o que mais encontramos é uma mistura dos aspectos maduros e dos aspectos infantis da personalidade. Os casos de bissexualidade derivam desta estrutura de dupla personalidade: a inclinação sexual que deriva da parte mais adulta, quando se desenvolve, se orienta para o objeto maduro da sexualidade, isto é, o sexo oposto; por outro lado, a “criança que se auto-compadece” arrasta a sexualidade para os seus objetos imaturos. Assim, como uma parte da personalidade bissexual anula a outra, é evidente que a heterossexualidade destas pessoas ainda não está completamente desenvolvida.
  • 45.
    45 8- O CAMINHODA MUDANÇA Uma pessoa com sentimentos homossexuais deveria se forçar a ter interesses heterossexuais ou um comportamento heterossexual? Seria errado conduzir o tema deste modo. Em minha opinião, seria talvez desejável certo esforço pessoal no sentido de procurar a si próprio e não reprimir descobertas desagradáveis ou distorcer certas realidades de que, se quisesse, a pessoa se daria conta. Depois deste passo, adquirida certa noção dos hábitos neuróticos e especialmente da sua motivação (por exemplo, o egocentrismo), a pessoa com orientação homossexual deve enfrentar a decisão de combatê-lo, ou pelo menos de contê-los. Com a ajuda de alguma forma de psicoterapia, o processo de mudança pode conduzir a resultados verdadeiramente satisfatórios, embora o êxito dependa de vários fatores. As condições são: que o paciente esteja motivado para mudar seja constante, sincero consigo mesmo; o prognóstico depende ainda da intensidade global da sua neurose e das influências sociais, como o encorajamento da parte dos outros (como antídoto ao sentimento de estar só, de não fazer parte de um grupo social). Em princípio, é possível uma mudança real e profunda. De acordo com a experiência de outros investigadores e os relatos de alguns ex- homossexuais que ouvi e acompanhei pessoalmente, às vezes se alcança uma mudança radical com a ajuda de um “método” religioso, embora, em quase todos os casos de mudança efetiva de que tive conhecimento, os resultados advêm ao fim de um tempo relativamente longo e, só em casos absolutamente excepcionais, teve lugar de maneira imprevista, com o aspecto de um milagre psicológico. Julgo que o processo de crescimento em todos esses casos tenha seguido sempre a mesma pauta, quer por intervenção da psicoterapia ou por outra forma de ajuda. No próximo capítulo se apresentam alguns casos de cura obtida sem uma psicoterapia formal. O processo de mudança é comparável à subida de uma escada cujo fim não seja claramente visível: não se sabe exatamente onde vai dar, mas cada degrau é uma melhoria, um progresso. Em primeiro lugar, não devemos nos preocupar em qual será o resultado final. Certamente não é realista ver o casamento como o fim último de todas as pessoas com este complexo que começam a terapia. Teoricamente, o ser emocionalmente maduro para casar (incluindo a maturidade das emoções sexuais) é o objetivo mais perfeito e muitas vezes pode ser alcançado, mas nem sempre se chega lá, mesmo dentro de um prazo relativamente longo. Convém não esquecer que o desejo que algumas pessoas com orientação homossexual têm de se casar, pode, às vezes, ser motivado por compaixões infantis, como a de não ser como os outros; portanto, não se deseja o casamento em si mesmo, mas como uma solução infantil para ficar “no nível dos outros”. A compaixão infantil pela sua solidão pode ser outra das principais motivações do desejo de se casarem. Para começar, é preciso desmontar o apego neurótico ao lamento de “eu não estou casado”: a pessoa tem de aceitar de modo adulto a sua situação, tanto do ponto de vista interior como social. A primeira etapa do caminho que conduz à mudança consiste em ultrapassar a orientação homossexual. Isto requer normalmente alguns anos. Depois do que se expôs anteriormente sobre a homossexualidade, se compreende que o carácter imperativo do comportamento homossexual é apenas uma parcela de uma complexa estrutura de tendências comportamentais infantis. Assim se explica que a gradual redução dos sentimentos de inferioridade e de autoconsolo egocêntrico arrefeça o apetite homossexual.
  • 46.
    46 Um psicoterapeuta quese ocupe de alguém com uma neurose homossexual tem de começar por explorar o passado do paciente, o seu modo de ver a si mesmo, de ver os pais, os irmãos e os companheiros de brincadeira, na infância e na adolescência, além de examinar a sua historia homossexual. Esta abordagem proporciona um diagnóstico global da neurose do paciente e oferece quase sempre um fio condutor para identificar os seus sentimentos infantis de sofrimento e de inferioridade. A seguir, o psicoterapeuta tem de explicar a teoria da “criança que se compadece”, em uma ou duas “lições”. Naturalmente, a linguagem e os vários exemplos devem se adequar ao nível cultural do paciente, o que não oferece dificuldade, porque as ideias fundamentais podem ser perfeitamente comunicadas numa linguagem simples, explícita e compreensível. Também é preciso esclarecer que o processo de superação é feito de auto-observação e de luta por parte do paciente; que ele tem de fazer por si a parte essencial do trabalho duro e que o papel do psicoterapeuta é o de lhe proporcionar uma orientação, como um treinador desportivo, ou qualquer professor. Depois, em geral, se o paciente está viciado na prática homossexual, o psicoterapeuta sugere que ele reprima os desejos de contato ou que rompa a sua relação com o companheiro homossexual. Alguns tentam chegar a um compromisso sobre a questão: querem mudar, mas ao mesmo tempo, continuar as suas relações emocionalmente agradáveis. É preciso esclarecer logo que, agindo dessa forma, estão a satisfazer os desejos da sua “criança interior”, alimentando a neurose e criando obstáculos à mudança esperada. Às vezes, esta sugestão relativamente dura pode ser adiada por motivos de oportunidade, mas em geral, é preferível mostrar logo que as opções radicais são o caminho mais rápido para a cura. Por outro lado, o psicoterapeuta tem de procurar desdramatizar muitas feridas do paciente: “Sou um homossexual, um deslocado: tenho de mudar! Não consigo continuar a viver assim mais tempo; tenho de me casar como os outros”, etc. Pode ser o momento de explicar que a “criança interior” se serve da consciência de ser diferente do ponto de vista do apetite sexual para fazer disso um grande drama e conseguir engrossar o processo de autoconsolação. CONHECIMENTO DE SI MESMO E LUTA Parece-me muito difícil que um homossexual se liberte do seu complexo sem adquirir um conhecimento suficiente das suas motivações e uma imagem mais objetiva do próprio comportamento. Portanto, a pessoa em questão deve conhecer o seu Eu infantil, a sua autocompaixão e a sua tendência para se consolar interiormente, a sua sofreguidão de simpatia e de apreço. O maior conhecimento de si mesmo nestes aspectos gera frequentemente uma maior liberdade interior em relação à obsessão exercida pelo complexo autônomo, embora não chegue, por si mesmo, a superá-lo completamente. A auto-observação e a autoanálise para identificar as queixas infantis são tarefas progressivas. Cada paciente descobre por sua conta as referências que lhe indicam que “neste momento, ou neste sentimento ou pensamento, se manifesta a tendência para as lamentações”. Os sintomas que podem alertá-lo em relação à atividade do seu “Eu queixoso” são as sensações de agitação, irritação, inferioridade, apatia, as emoções e pensamentos negativos e, em geral as depressões. Estes impulsos aparecem como mais ou menos impostos, como se viessem de fora do próprio Eu (“fui apanhado por...”, “fui assaltado por...”, etc.). Cada paciente aprende a reconhecer a sua “criança auto-compadecida” através das suas peculiaridades individuais, porque a temática principal da compaixão é específica para cada indivíduo concreto e há sempre variantes individuais no tema central dos lamentos. Os principais se repetem na mente adulta.
  • 47.
    47 Muitas pessoas emtratamento por uma neurose homossexual chegam a compreender que nas suas emoções existia uma tendência crónica para a autocompaixão. Veem esta tendência claramente patente ou então como um pano de fundo emocional de sentido negativo, que frequentemente esvazia as sensações e as experiências positivas. Progressivamente, estas pessoas se dão conta de que as suas sensações de infelicidade não têm origem nos problemas da vida, em circunstâncias externas, ou em outras pessoas, mas provêm dessa força negativa que têm dentro. Naturalmente, o paciente tem de ser honesto consigo mesmo, se quer tirar partido deste método de auto-observação e autoanálise. Não é agradável para o Eu infantil ter de admitir repetidamente que sentia, pensava e atuava como uma criança e, ainda mais, que condescendia na autocompaixão. Admiti-lo plenamente significa não procurar desculpas ou explicações, nenhum “sim, mas”, e tentar não atribuir culpas a outras pessoas ou “às circunstâncias”. Para superar a resistência em reconhecer plenamente os sentimentos de “coitadinho de mim!” o paciente tem de equacionar oportunamente a importância que dá ao seu Eu. Deste modo, passo a passo, a atitude infantil de autocompaixão egocêntrica se torna evidente e assume contornos cada vez mais concretos. Quando uma pessoa já sabe fazer introspecção, começa um período de trabalho e de esforço em que a parte adulta da pessoa, a sua vontade, tenta de um modo ou de outro travar as tendências infantis reconhecidas, usando os métodos mais adequados. A força do complexo diminui porque os hábitos egocêntricos de pensamento e de ação jã não estão sendo “alimentados” e, especialmente, por se combater a autocompaixão infantil. Inevitavelmente, qualquer pessoa bem intencionada com orientação homossexual encontrará pela frente o obstáculo da dependência do prazer. O vício homossexual está fortemente enraizado em muitas destas pessoas, por terem satisfeito este impulso com algum parceiro ou na sua imaginação (masturbação), e, para cortar com o hábito, não basta se dar conta intelectualmente do seu carácter infantil — consciência que é sempre indispensável —, é preciso também força de vontade e paciência. Em certas ocasiões, tais como momentos de particular cansaço, de humilhação, de impressão de inferioridade ou de solidão, pode ser especialmente fácil ter recaídas. Como já se viu, a fantasia homossexual aparece como solução ilusória de um drama interior e, frequentemente, o prazer associado aos atos representa muito mais que uma simples satisfação sexual. Por isso, é bastante compreensível que o esforço de abandonar estas satisfações sexuais pueris (na imaginação ou na prática da homossexualidade) encontre geralmente uma notável resistência. Se uma pessoa quer mudar profundamente, isto é, superar o seu infantilismo, tem de empreender um esforço contínuo de vontade. Às vezes, isto significa simplesmente o se negar a tendências reconhecidas como criancices; outras vezes, implica fazer certas coisas que exigem uma boa dose de esforço e certa coragem. Como psicoterapeuta especializado em descobrir expressões de autocompaixão, treino muitas vezes os meus pacientes em algumas técnicas de humor que neutralizam as variadas manifestações da emoção neurótica subjacente. Sorrir e rir das criancices do “coitadinho de mim!” pode ser um antídoto muito eficaz para controlar a virulência das lamúrias infantis. Em qualquer caso, o êxito deste tipo de técnica, como o “hiper-dramatizar” a autocompaixão da criança interior, depende da vontade do paciente em usá-las efetivamente no dia- a-dia.
  • 48.
    48 A luta interiorque é preciso empreender contra a parte neurótica da mente implica também várias outras coisas. Por exemplo, é preciso cortar com a tentativa de chamar a atenção, abandonar hábitos e fugir a sete pés de uma série de situações e de comportamentos, desmontar a excessiva indulgência consigo mesmo e a pieguice, corrigir as imagens distorcidas de si mesmo e dos outros (passando da perspectiva infantil a uma visão mais madura), curar a dependência da autocompaixão. As lamúrias de menor intensidade podem ser cortadas terminantemente, mal se detecte o seu carácter de compaixões infantis. Tal propósito é eficaz em muitas ocasiões em que a pessoa se dá logo conta da atitude interior negativa, chorona ou sentimental. Outras lamúrias requerem técnicas mais “fortes”. Tem de se aprender ou intensificar o interesse pelos outros, desenvolver a generosidade e a capacidade de amar. Um toque de auto-ironia pode facilitar tudo isto: começando a tratar o Eu infantil com saudável ironia se reduz a sua solene importância e, quanto menos este Eu se sentir importante ou digno de compaixão, tanto mais a personalidade adulta consegue ganhar em autoridade e tanto mais o descontentamento infantil dará lugar a sentimentos mais confiantes e alegres. A pessoa perde gradualmente a sensação de ser fraca e adquire estabilidade, optimismo, serenidade. A HIPER-DRAMATIZAÇÃO Na minha experiência de psicoterapeuta tive oportunidade de verificar a eficácia de diversas técnicas de auto-humorismo usadas para ultrapassar tendências infantis, especialmente as manifestações de autocompaixão pueril. O objetivo destas técnicas é o substituir uma lamúria pelo seu oposto, um sorriso. Em geral, a intenção é neutralizar a importância da “criança interior”. O auto-humorismo tem, de fato, um grande poder terapêutico: ajuda a pessoa a reconhecer também emocionalmente e não apenas racionalmente certas distorções e desproporções da sua forma de ver as coisas e de agir e aí reside a excelente força do humor como antídoto contra muitos impulsos neuróticos. O auto-humor, como o humor em geral, desarma. A mera compreensão racional e até uma observação lúcida das próprias dificuldades e emoções infantis — objetivo da auto-observação e da autoanálise — não conseguem libertar uma pessoa atingida pela neurose porque é necessário atuar também a nível emocional, fornecendo estímulos que se contraponham às fortes emoções infantis de autocompaixão: a busca de atenção, o desejo de ser importante, etc. Ora, precisamente, o Eu infantil não resiste à emoção suscitada pelo sorriso e pelo riso. Quando um paciente é capaz de reconhecer na vida do dia-a-dia a forma de atuar da “criança interior”, pode aproveitar as técnicas do auto-humor. Para isso, terá de ser treinado a aplicá-las imediatamente, mal tenha identificado uma expressão de lamentação infantil. O princípio básico é imaginar a sua “criancinha” ali diante, em carne e osso, ou ver a si mesmo, na imaginação, como a “criança” de antigamente e começar a falar com ela do mesmo modo que se consola alguém de modo caricatural. Comece a contar para a criança o quão aflito está: imaginando uma série de razões fantasiosas para as suas queixas e tornando patente aos olhos dessa criança um drama exagerado (hiper-dramatização), centrado nessas suas queixas. Um exemplo sucinto pode ajudar a perceber os traços fundamentais desta técnica. Determinado paciente homossexual sentiu-se ofendido pelo chefe, que o preteriu em favor de outra pessoa para representá-lo em um encontro de trabalho. O sentimento de autocompaixão se exprimia verbalmente nesta forma: “O chefe me considera sem nenhum valor e não tem nenhuma consideração por mim”. Esta lamúria tinha ainda outro componente de ciúme do colega. Ao se dar conta de que aqui estava a sua “criancinha” em ação, o homem hiper-dramatizou assim o acontecimento: “Coitadinho, tem toda razão incomensurável para derramar lágrimas amargas, em soluços incontidos. Foi verdadeiramente um caso de inaudita violência contra uma criancinha inocente. Você, que trabalha sempre e incansavelmente sem pedir nenhuma retribuição, foi chamado aos gritos pelo chefe, como se estivesse chamando um cão. Todo trêmulo, se apresentou diante dele
  • 49.
    49 na presença dosteus colegas, todos sentados em cômodas poltronas. Um, o Colega Preferido, estava sentado em uma poltrona decorada de uma forma especialíssima, com um enorme e caríssimo charuto na boca (um presente do chefe), e sorria com ar petulante enquanto se aproximava. Nessa altura, o chefe pegou solenemente em um pergaminho, arrancou o selo de lacre e começou a ler em alta voz: "Eu, abaixo assinado, declaro pela presente que este miserável deslocado (você!) é totalmente inepto para me representar e exprimo os sentimentos da minha mais profunda repulsa em relação a ele. Felizmente, porém, existe Alguém de extraordinária superioridade que compensa este monstruoso farrapo de gente: o Colega X. Nessa altura, todos foram cumprimentar o Colega X, lhe atirar flores e abrir, em sua honra, garrafas de champanhe, enquanto tiravam sarro de você e te jogavam ovos pobres. E você ali, com a camisa ensopada em lágrimas. Por fim, caiu de joelhos e se arrastou para fora do gabinete, para o frio da rua, onde chorou, escorrendo lágrimas que se misturavam com a chuva que caía.... Se necessário, a pessoa pode continuar com a visão dramatizada do triunfo do colega. Por exemplo, pode supor que esse colega passe por ele em um Rolls-Royce com chofer e ela, esfarrapada e suja, pode se imaginar passando pela humilhação de ver as cinzas de charuto voando na sua cara, ao ver seu colega abrindo a janela do carro em movimento. Depois desta encenação imaginada, este paciente conseguiu perceber o mecanismo pelo qual o sentimento de ter sido ofendido o teria empurrado para o desejo homossexual, como reação de compensação. Uma possível hiper-dramatização desse desejo secundário, fruto da autocomiseração, seria a seguinte: “Sim, agora tem realmente a necessidade de uma coisa: que alguém te demonstre com fatos um verdadeiro e terno amor. Um abraço apaixonado, dois olhos másculos, mas movidos por um enorme sentimento, a olharem para você com a mais sincera compaixão, um amigo murmurando ao seu ouvido que você pode sentar eternamente ao seu colo, com o teu bracinho à volta do seu pescoço, enquanto a sua grande mão, cheia de pelos e musculosa, acaricia a sua face de menino doentinho, etc”. O paciente aprende a construir o seu próprio repertório de cenas e enredos hiper-dramáticos e a utilizá-los quando se dá conta de uma lamentação infantil. Tudo é possível na imaginação: podem ser inventadas as situações mais absurdas, segundo o senso de humor de cada um, desde que se refiram diretamente à lamúria que se pretende anular. O paciente também aprende a formular variantes e versões abreviadas desta técnica. Por exemplo, trata a sua “criança” interior como “o meu pobre menino!”, dizendo: “Aquela crítica que fizeram de você foi mesmo repugnante! Agora, o Presidente da República proclamará uma Jornada Nacional de Luto em seu favor!”. Ou dirá, mais brevemente: “Pobre menino! Isto é a morte!”. Quanto mais viva for a representação, quanto mais carregada for a caricatura da “criancinha” no momento da compaixão, tanto maior será o efeito. Com o êxito de uma hiper-dramatização a lamúria cicatriza e desaparece, rápida ou gradualmente. Todos os meios de provocar um sorriso ou uma gargalhada acerca de uma lamentação são aconselhados. O método é inclusivamente recomendado para manifestações de orgulho infantil de hiper-compensação. Por exemplo: “É maravilhoso! O que você fez (ou a sua intervenção, ou opinião,...) foram absolutamente um espanto! Estou até vendo a estátua que vão levantar, exatamente aqui, neste lugar: você, montado em cima de um cavalo alto, como Napoleão, com a mão enfiada displicentemente no casaco...”. Embora pareça fácil, aplicar o auto-humorismo exige uma forte determinação. Rir do próprio Eu auto-compadecido é a última coisa que apetece naqueles momentos em que se está enredado em um lamento infantil. A CURA A saída do complexo segue um determinado percurso. Primeiro, o carácter obsessivo das emoções e dos comportamentos infantis diminui; as depressões, as ansiedades, os temores, as preocupações, os sentimentos de inferioridade e os desejos homossexuais se tornam mais
  • 50.
    50 controláveis; começa adespontar uma maior autoconfiança, incluída a confiança no próprio sexo, masculino ou feminino. Tudo isto é resultado de a “coitadinha” da criancinha interior ter perdido importância e a pessoa já não levar tão a sério esta faceta da sua personalidade. O apetite homossexual resiste ainda, com altos e baixos, mas cada vez menos soberbo, até se dissipar por completo, de maneira pouco importante, em função do progressivo crescimento de uma emotividade cada vez mais positiva e madura. As alterações no campo sexual devem ser vistas como parte de toda a reorientação emocional da pessoa. Os homossexuais que querem ser “curados” têm muitas vezes uma perspectiva compreensivelmente restrita daquilo que é preciso mudar e tendem a prestar atenção quase exclusivamente às mudanças nos sentimentos sexuais. É verdade que uma mudança sexual real e profunda reflete também a mudança noutros sectores mentais, mas o efeito de uma terapia ou de uma autoterapia (como é, em grande parte aquela que adotamos) não se deve avaliar sobretudo em termos estritamente eróticos. As mudanças dos sentimentos sexuais aparecem mais ou menos como “subprodutos” e só se verificam estavelmente quando e à medida que se deixa morrer de fome a “criança queixosa” do paciente. Não é, portanto, aconselhável que o psicoterapeuta e o paciente fixem a atenção e façam a conversa girar excessivamente em torno da sexualidade. As intervenções decisivas da mudança dizem respeito às lamentações e ao infantilismo emotivo geral do paciente. Naturalmente, qualquer evolução neste setor influi no âmbito erótico, mas a relação é de tipo hierárquico: quanto mais profundamente o paciente avança nas dimensões fundamentais do infantilismo e da autocompaixão, tanto mais radical será a sua reorientação sexual. Podemos dizer que, na maior parte dos casos, a pessoa passa por um estágio intermediário no qual a orientação homossexual já quase não existe, mas a heterossexualidade ainda não despertou. Em alguns casos, este período intermediário pode durar até alguns anos. A pessoa pode “descobrir” o outro sexo gradualmente ou de repente, depois do processo de amadurecimento daqueles anos intermediários. Algumas se apaixonam uma ou duas vezes e acabam por casar; para outras, é preciso bastante tempo antes de conseguirem aguentar uma relação heterossexual estável. Portanto, todo o processo é uma espécie de auto-reeducação. Geralmente, passa por altos e baixos, com recaídas ocasionais; pode haver momentos, e até longos períodos, de perda de esperança. O processo varia amplamente nos detalhes, de um indivíduo para outro. As pessoas com orientação homossexual, mesmo que estejam, a princípio, ansiosas para mudar, no início têm sérias dúvidas sobre as suas possibilidades realistas de conseguir uma melhoria profunda. Estas dúvidas reaparecem periodicamente, ainda que os progressos sejam claramente visíveis, e só acabam completamente quando a alteração dos apetites é absolutamente evidente. As dúvidas retornam cada vez que estas pessoas ouvem ou leem os clichês sobre a homossexualidade, tais como: “Se você é homossexual, vai continuar sendo”. Bem analisadas, estas dúvidas são uma nova versão das lamúrias neuróticas: “Nunca mais serei normal, este é o meu destino: coitadinho de mim!”. Portanto, a fé e a esperança são excelentes barreiras para estes pensamentos perniciosos, que roubam da pessoa entusiasmo e energias. Uma atitude realista também é um bom remédio para estas dúvidas paralisantes: “Seja como for, devo combater tudo aquilo que reconheci como infantil e errado; e se persevero neste esforço acredito que haverá algum progresso, mesmo que seja só uma pequena mudança”. Ao longo da nossa experiência clínica, comprovamos tantas e tantas vezes, que quem faz o esforço consegue ser mais feliz. A pessoa não deve ficar obcecada com a incerteza sobre se vai ou
  • 51.
    51 não atingir umresultado pleno, o que convém é se alegrar com cada passo que tiver dado. Afinal de contas, esta é a atitude mental mais útil para aproximar o paciente do seu objetivo. Trabalhar sobre si mesmo, para não falar já da luta contra os próprios hábitos egocêntricos e os apegos indesejáveis, não é atividade que goza de popularidade nestes tempos, impregnados de permissivismo e de pouco apreço pelo esforço. Certamente há muita coisa escrita sobre terapias psicológicas e são elaboradas variadíssimas teorias e técnicas de tratamento, mas só uma pequena parte delas encoraja a lutar verdadeiramente contra os próprios erros e fragilidades para superá-los. Geralmente, convidam o paciente a desistir, se entregando ao egoísmo pueril e até à imoralidade. O conselho equivocado de a pessoa se “aceitar como é” pode levá-la a se render à imaturidade e a reprimir a “melhor parte” da sua personalidade. (Esta “melhor parte”, o Eu adulto, pode ter a aspiração saudável de levar uma vida mais madura, se sentir aborrecido quando tem de aturar o Eu infantil e talvez até sinta uma consciência normal de culpabilidade). Agrade ou não, a realidade psicológica é esta: é preciso optar entre tendências contrapostas e, se não se tem cuidado, “se aceitar como se é” se torna um pretexto em favor do infantilismo. A alternativa de trabalhar sobre si mesmo é árdua, mas é o único modo de alcançar a felicidade interior e a paz do espírito. As relativamente poucas pessoas que empreendem este esforço sobre si mesmas para se libertarem da orientação homossexual não encontram, à sua volta, muita gente disposta a compreendê-las e a animá-las. Tantas vezes, esbarram em todos os desencorajamentos possíveis. Espero que estas páginas sejam uma ajuda para conseguirem se libertar do falso slogan “não há nada a fazer”.
  • 52.
    52 9- A MUDANÇASEM PSICOTERAPIA Antes de apresentar os resultados da terapia “autocompaixão” traçada anteriormente, gostaria de descrever alguns casos de curas conseguidas por outros procedimentos. Neste capítulo serão apresentados dois exemplos, documentados em algumas publicações, que demonstram como é possível encontrar os mesmos mecanismos do tratamento psicológico da “autocompaixão” fora das consultas de psicoterapia. O primeiro caso é o de uma mulher ex-lésbica que contou a sua história a um psiquiatra holandês, ele próprio homossexual, paladino da “aceitação”, mas que registou o caso em um dos seus trabalhoslxxi , contando fielmente a entrevista com a mulher e anotando que “ela dava a impressão de ser uma pessoa perfeitamente normal, com um emotividade normal, um riso calmo e sereno. Uma testemunha perfeitamente confiável”. O caso é ainda mais significativo porque a cura foi registada por uma pessoa absolutamente céptica quanto à possibilidade de vencer a homossexualidade. “Ainda que seu artigo não ofereça muitas esperanças, o fato é que eu com trinta e sete anos estou curada. O senhor pode imaginar a minha felicidade: não é comparável com nenhuma outra coisa. Trinta e sete anos de infelicidade, de miséria, de procura de ajuda, de oração, de esperanças, etc., durante os quais não via mais nada no mundo a não ser a minha miséria, que me magoava profundamente. E, sobretudo, com a firme convicção de que, ao fim de tantos anos, ainda teria de aguentar até à morte”: estas foram as palavras da mulher. Além de mencionar a fé e a esperança, esta passagem contém uma frase muito instrutiva, que não queremos deixar de sublinhar: “não via mais nada no mundo a não ser a minha miséria, que me magoava profundamente”. E um belo epitáfio para a neurose de outros tempos e um retrato das suas características essenciais: o excessivo egocentrismo dos sentimentos de autocompaixão. Esta senhora olha para a sua situação anterior com uma oportuna ironia, como se risse do seu dramático “coitadinha de mim!” de antigamente. Como é que tudo isto aconteceu? Ela era enfermeira e, frequentemente, se apaixonava por mulheres mais velhas (“isto me ocupava completamente, era como uma nuvem fechada à minha volta”) e chegou a tentar uma vez o suicídio depois de uma daquelas relações não ter dado em nada (ela nunca chegou a ter contatos homossexuais). A mulher sentiu-se completamente perdida e queria desesperadamente se libertar das suas obsessões. Talvez um abatimento tão doloroso predisponha a pessoa a mudar, porque vê que já não pode ficar pior. Neste estado de espírito encontrou um padre, compreensivo, mas também realista, que, depois de ter escutado com toda a atenção as lamúrias, fez algumas observações duras que a sacudiram. “Cada vez que estava com ele, me sentia como se tivesse me virado do avesso, como se tivesse me lavado o cérebro. Mas uma vez me disse uma coisa de que nunca me esquecerei: ‘Minha menina, você não é de fato uma pessoa madura: é como se ainda tivesse apenas dezesseis anos’. Nessa noite, de repente, às 21:30 horas, no quarto, percebi tudo o que acontecia”. Esta mulher localizava a sua “mudança” precisamente naquele instante de autoanálise curativa. Era uma criança, com comportamentos e sentimentos de criança, quando aquele homem fez com que visse esta sua faceta interior e, a partir do momento em que reconheceu a situação, entrou no caminho da cura. Depois de ter visto a sua personalidade infantil, se empenhou vigorosamente para ultrapassar esse estágio, sob vários aspectos. É o que ela chamava de “adaptação”, a “mudança” para “uma sociedade real, porque antes eu vivia numa sociedade inventada por mim”. Teve de descobrir a realidade, depois viver anos de um modo excessivamente subjetivo, ao sabor das emoções. “Eu, antes, estava sendo vivida”. Isto exprime bem a sua obsessão neurótica, dominada por uma emotividade que deformava a realidade. Efetivamente, o neurótico é uma pessoa que vive
  • 53.
    53 numa atmosfera deemoções que em regra geral é uma realidade distorcida em lamúrias. “Como as pessoas devem ter pensado que eu era ingênua!” e era na realidade uma criança que julgava o ambiente à sua volta com parâmetros e sentimentos de menina. A “adaptação” que teve lugar depois de reconhecer que era uma criança “durou cerca de um ano”: um período que eu considero muito breve. Esta mulher, não só descreve a sua mudança como um abandono da meninice como também a associa à superação de um complexo de inferioridade. “Eu tinha um grave complexo de inferioridade”, diz ela. “Antes, qualquer coisa e qualquer pessoa era sempre superior a mim”. Além disso, ela refere a mudança que se verificou também nos seus sentimentos de vergonha: antes, se envergonhava de coisas que não eram nada vergonhosas; eram apenas sentimentos de inferioridade. A impressão de inferioridade se manifestava também sob a forma de uma submissão exagerada. “Antigamente, fazia tudo por qualquer pessoa. Ainda hoje faço coisas pelas pessoas mas há sempre um ‘mas’. Talvez também isto fosse uma insensatez, eu não pensar antes em mim mesma”. O seu sentimento de inferioridade tinha assumido esta forma: “Não sirvo para nada. Tenho de me submeter a todos porque sou a pior de todos”. Esta senhora recorda as suas antigas invejas, a sua falta de verdadeiros sentimentos de simpatia pelas pessoas que sofriam, apesar de ajudá-las (com egocentrismo), a sua antiga visão de Deus (antes, aparecia como uma figura castigadora que metia medo; agora, pelo contrário, sentia muita gratidão e respeito); os tiques nervosos que tinha na boca, os passos ansiosos, encostada às paredes das casas, em vez de andar pelo meio da calçada. “Tudo mudou”. E uma experiência comum nos homossexuais, depois de curados, é a aquisição uma “personalidade novinha em folha”; a cura da homossexualidade é, em primeiro lugar e, sobretudo uma mudança emocional ou mudança de personalidade. Que aconteceu com a mudança erótica desta mulher ex-lésbica? “Antes, os homens não tinham para mim nenhum atrativo, absolutamente nenhum. E eu nem sequer tinha pensado em me casar. Quando fiquei adulta, a relação sexual entre um homem e uma mulher me parecia uma coisa estranha; não conseguia entendê-la e não me dizia nada. Um homem provocava em mim a mesma reação que um gato”. De tudo isto, a conclusão segura é a de que em seu desenvolvimento erótico esta mulher permanecia uma criança, nem sequer uma adolescente. Seu primeiro choque, ter descoberto que tinha ficado bloqueada na infância, provocou uma grande alegria e uma enorme sensação de alívio. “O mundo inteiro era meu: me sentia tão feliz. Não tinha desejos nem de mulheres nem de homens”. O curso dos acontecimentos é clássico, como em muitos outros casos em processo de cura: a alegria desloca os atrativos homoeróticos (que são queixas, e portanto o oposto da alegria e da felicidade); o paciente passa através de uma fase em que parece não haver qualquer componente erótico, em nenhuma das duas direções. “Só nos anos seguintes é que apareceu, pouco a pouco, o interesse erótico pelos homens”. As emoções heterossexuais só podem se manifestar livremente depois do desaparecimento da sexualidade neurótica, fundada na autocompaixão; tal como esta mulher afirma, a evolução pode demorar algum tempo, pois tem as características de um processo de crescimento. Quando a heterossexualidade despertou, começou a ter as características adolescentes de um interesse por vários homens ao mesmo tempo, de paixões múltiplas: “Parecia que queria casar com todos os homens ao mesmo tempo”. Por fim, esta fase foi superada; adquiriu a calma e se casou com o homem que é hoje o seu marido. Quanto às suas obsessivas ânsias sexuais de antigamente, tem a sensação de “ter se libertado daquelas ideias fixas sexuais”. Tendo em conta que esta mulher tinha 44 anos na altura da entrevista, esta perspectiva deve ser interpretada como um sinal de maturidade. Acerca do seu interesse lésbico de outros tempos, ela diz: “É como uma perna que foi amputada e não pode voltar a crescer. Ainda não consigo compreender como é que pude aguentar aquela vida durante tantos anos; nem sequer consigo perceber como foi possível”. Esta mudança efetiva — a ponto de as antigas pulsões lésbicas
  • 54.
    54 terem se tornadodificilmente imagináveis para ela — já durava sete anos quando fez estas declarações, um prazo muito razoável para garantir o resultado. Somando os mais importantes fatores de cura que se podem identificar neste caso, os psicoterapeutas habituados a tratar este tipo de lamentações reconhecerão aqui certo número de elementos positivos, bem familiares: a resistência de todo coração a se identificar irremediavelmente como homossexual, fator que coloca a paciente nas melhores condições de abertura mental para tirar partido de qualquer ponto de apoio susceptível de a ajudar a evoluir favoravelmente; o reconhecimento do seu “eu infantil”, descoberto mediante uma autoanálise; a luta para superar as tendências infantis no pensamento e nos hábitos; a honestidade consigo mesma; a confiança no seu “psicoterapeuta”, que foi efetivamente a pessoa indicada para ela, porque percebeu o seu infantilismo e conseguiu proporcionar o tipo adequado de compreensão e de apoio para ela. CONVERSÃO RELIGIOSA Em algumas pessoas, se verifica uma alteração profunda da orientação homossexual na sequência de uma conversão religiosa, no entanto, em geral, convém ter reservas em relação a estas histórias, pela possibilidade de autoengano característica da personalidade neurótica, que às vezes leva a pessoa a acreditar naquilo em que está ardentemente interessada. Só um exame sério pode eliminar estas reservas e confirmar a cura. Tive oportunidade de examinar várias pessoas que afirmavam ter sido “curadas” pela conversão religiosa, mas realmente, não estavam curadas. Rejeitavam e desaprovavam com tal veemência os seus interesses homossexuais, ou assumiam o papel do “homossexual mudado”, se agarrando de tal modo à sua nova religião, que davam a impressão de a sua neurose ter simplesmente se deslocado de um tipo de obsessão para outro. É típico destas pessoas não responderem direito às perguntas sobre a sua vida erótica atual ou sobre a exata natureza dos seus sentimentos sexuais, começando, em vez disso, a fazer um sermão, para convencer os outros — e se convencerem a si mesmos — de que mudaram realmente. Afinal, este tipo de autoengano não é apenas um duvidoso privilégio de quem tenta o caminho da religião para conseguir mudar, é um fenômeno que pode acontecer igualmente em qualquer tratamento e contra o qual é preciso estar de sobreaviso: o desejo de ficar normal pode ser excessivamente imperioso e levar a pessoa a se persuadir de que, de fato, já mudou. Além disso, o homossexual convertido a uma religião pode sentir-se egoistamente feliz de já pertencer a um grupo religioso e talvez até numa posição destacada (como o “convertido” ou o “pregador”). Contudo, sei também de várias pessoas que ficaram efetivamente curadas mediante um vida religiosa ativa, e cuja saúde eu pude verificar ao cabo de repetidas entrevistas, em que analisei cuidadosamente os seus sentimentos e atitudes. Falavam com calma e sem inibição das suas emoções e dos seus comportamentos; não se esquivavam às perguntas diretas, mas davam respostas diretas, sem mostrar nenhum desejo sôfrego de me convencer. Na minha opinião estes casos são talvez mais frequentes do que se pensa, porque muitos preferem ficar anônimos e não assumir o papel público de modelos do “homossexual convertido e curado”. Em alguns destes casos, estou convencido de que até mesmo qualquer mínimo impulso homossexual desapareceu totalmente há vários anos e essas pessoas passaram a ter sentimentos heterossexuais. Por outro lado, também ficaram livres de várias perturbações emocionais, estados depressivos e de ansiedade, e se tornaram consideravelmente menos egocêntricas nos pensamentos e no modo de sentir. É bastante característico que consigam falar do seu passado com senso de humor. Todas elas destacam a importância da vontade: “Um homossexual pode se lamentar, desejar mudar, etc”, dizia um deles, “mas, depois, parece excessivamente bom conseguir se livrar realmente de tudo aquilo. Sua vontade está meio endurecida , este é o grande problema”. Entrevistadas alguns anos depois de mudança na orientação homossexual ter acontecido — em dois casos, vários anos depois —, todas aquelas
  • 55.
    55 pessoas afirmavam quea evolução emocional tinha sido gradual e que ainda sentiam uma certa impressão de inferioridade em algumas situações, ainda que isso não as afetasse seriamente, pois era apenas uma pequena mancha na sua sensação geral de bem-estar. Pelas minhas conversas com homossexuais cujas mudanças foram induzidas por causas religiosas, confirmei que tinha sido verdadeiramente importante para eles encontrar a fé, descobrir certezas e um significado profundo para a vida e comprovei que aquela descoberta fez com que se sentissem mais felizes, e lhes deu uma grande força e tinha sido fonte de emoções maravilhosas. Isto fez com que vissem o seu problema homossexual como uma coisa secundária, despojando-o da importância prioritária que ocupava antes na sua consciência psíquica. Deixaram de ficar tensos e de se lamentarem por causa dele ou, então, se deram conta de que o fundamental era seguir a vontade de Deus e não o próprio capricho, começando, deste modo, a superação da fixação egocêntrica. Uma senhora, ex-lésbica, me disse uma vez: “Eu não estava servindo a Deus com os meus queixumes. Tentei fazer aquilo que pensava que Deus queria de mim e esse passou a ser o meu programa de vida. Foi isto que, pouco a pouco, mas de forma radical, acabou mudando a minha vida”. Os efeitos benéficos daquela nova atitude são compreensíveis. O neurótico, pessoa egocêntrica, que pensa antes de mais em si mesma, ao submeter a sua própria vontade à vontade de Deus, isto é, a metas que o ultrapassam, se liberta de si mesmo. Neste processo, sem dúvida, começa a perceber até que ponto estava polarizado em si (mais precisamente, no seu Eu infantil). A reorientação que desmonta este “Eu” será geralmente árdua e custosa, porque implica sacrificar um certo número de coisas muito estimadas por aquele “Eu” infantil, além de exigir meditação, oração, estudo da Bíblia e formação para conhecer a “vontade de Deus”, novo objetivo da vidalxxii . Ao longo desta caminhada, as obsessões homossexuais desaparecem da consciência psíquica e os interesses heterossexuais vão surgindo sem que a pessoa esteja excessivamente preocupada com o assunto. A mudança efetiva vai se desenrolando nos níveis mais centrais da personalidade e as mudanças dos apetites sexuais ocorrem como consequência mais ou menos natural da mudança básica. Por isso, não se pode falar, em tais casos, de “sublimação” da homossexualidade, porque a sublimação é essencialmente uma distração da atenção. Os casos anteriores de falsas curas que degeneraram em “neuroses com conotações religiosas” é que correspondem às tais “sublimações”. JOHAN V. O livro Ik ben niet meer “zo” (“Eu já não sou ‘assim’”lxxiii ), que conta a história da mudança do holandês Johan V., oferece um exemplo de influência da conversão religiosa na cura da homossexualidade. Mais de dez anos depois de a sua mudança fundamental ter se consolidado e vários anos depois do seu casamento, estou convencido de que esta mudança é autêntica. Ele próprio me contou ter sido ocasionalmente afetado por impulsos neuróticos menores, durante um período longo na sequência da sua mudança. Johan V. é uma pessoa muito aberta e muito honesta a respeito dos seus próprios sentimentos. A princípio, admite a eventualidade de recair em relações homossexuais, em circunstâncias extremas, mas acha essa possibilidade muito improvável. “Quero dizer”, esclareceu ele, “que não posso responder à sua pergunta, tal como a formula (‘Não consegue sequer imaginar que possa voltar a ter uma relação homossexual, mesmo em circunstâncias extraordinárias?’) com um ‘não’ rotundo e dizer que a imaginação desse encontro homossexual me inspire uma repugnância física”. Nestas condições, segundo critérios estritos, a mudança de Johan V. não pode ser considerada perfeita, no entanto, dada a quase completa ausência, durante vários anos, de
  • 56.
    56 impulsos homossexuais naimaginação ou na consciência psíquica e tendo em conta, também, a presença de interesses heterossexuais, o resultado final não pode deixar de ser considerado muito significativo, do ponto de vista da cura da homossexualidade. Vou citar as notas autobiográficas de Johan V., não porque a sua mudança seja a mais radical das que tenho encontrado, mas pela a narrativa conter algumas observações relativas a fenômenos que acontecem com frequência durante a mudança de um homossexual, tais como o se entregar louca, desesperada e infantilmente àquilo que viu ser a sua salvação —neste caso, o Movimento Pentecostallxxiv —, os seus períodos de profundo desespero e os de alegria exultante e, sobretudo, o fato de a mudança ter se dado e ter consistido em um crescimento normal ou processo de aprendizagem, que pode ser facilmente traduzido em termos psicológicos. Johan fora diagnosticado por um conhecido sexólogo como sendo um homossexual “primário” ou “nuclear”, irremediavelmente condenado a ser homossexual. E depois de ter vivido a homossexualidade, com cerca de trinta anos, não encontrou nessas amizades a satisfação emocional que desejava e as via intimamente como algo contrário aos seus princípios religiosos. Considerações religiosas à parte, percebeu que praticar a homossexualidade não poderia fazê-lo feliz. Experimentei [a homossexualidade] de forma entusiasmada. Mas não me proporcionou de fato uma grande felicidade... “Amar não é pecado”, eu protestava. Mas, por dentro, me sentia vazio. Dificilmente lia a Bíblia, se é que alguma vez pegava nela, e vivia profundamente neurótico... Estava completamente exausto... dificilmente me atrevia a andar com alguém. Uma conversa com um cristão que contou que também foi homossexual durante vários anos mas depois conseguiu se livrar dessa obsessão, faz com que ele compreendesse que o seu modo de viver, a sua relação com o parceiro, era claramente um pecado. “Foi como se naquele momento entrasse uma luz muito forte no quarto, que fizesse desaparecer a imensa escuridão da minha vida”; mas, nessa mesma noite, achou que seria impossível mudar e se apaixonar por uma moça: até sentia repugnância em imaginar algo assim. Sim e não: a luta interior de tantos homossexuais, presos a impulsos que lhes parecem “naturais”. Apesar de tudo, tinha consciência de que devia romper a relação “pecaminosa” com o parceiro. Muitos homossexuais podem reconhecer a si mesmos neste relato: As últimas noites que passei com ele antes de deixá-lo, em Bergen op Zoom [cidade holandesa], foram horríveis. No último momento, eu julgava que não seria capaz de resistir ao rompimento entre nós. Tínhamos vivido juntos durante três anos e gostávamos muito um do outro. Eu estava nervosíssimo e chorei até não poder mais. Mas foi como se uma força sobrenatural tivesse me tornado capaz de me desligar dele. Quando cheguei a Rotterdam senti um alívio, pela primeira vez em muitos anos, como se tivessem tirado de cima de mim um peso esmagador. A seguir, veio uma fase que oscilava entre a esperança e o desânimo, rezando a Deus, quando sentia o recrudescer das tendências homossexuais que o faziam desejar o parceiro, e procurando apoio nos pregadores do Movimento Pentecostal. Apesar de certo espírito crítico para com aquela gente, aceitou que impusessem as mãos sobre ele, convencido de receber o Espírito Santo. Nessa época, havia um casal cristão que o ajudava e animava, reforçando a sua confiança de que haveria realmente, com a ajuda de Deus, de superar a homossexualidade. Tudo isto lhe deu força para destruir literalmente todas as lembranças do seu passado homossexual (objetos, livros,
  • 57.
    57 fotografias) e paracontinuar a rejeitar completamente todos os pensamentos e impulsos homossexuais. Aproximadamente dois meses depois da minha libertação, comecei a ver as moças com outros olhos. Descobri que não eram propriamente seres inferiores. Pouco a pouco, fui reconhecendo a minha masculinidade. Deus me fez descobrir a beleza das mulheres. Comecei a me sentir atraído por elas. Dava-me conta: “Já estou caminhando lentamente nesta direção”. Também fui encarando as relações normais entre um homem e uma mulher de modo cada vez mais correto. Aqui, Johan V. repete o que se pode observar em muitos homossexuais a caminho da normalidade: primeiro, o interesse homossexual diminui e se dá, em geral, uma alteração do panorama emocional em direção a emoções positivas; depois, decorrido algum tempo, despontam os primeiros sentimentos heterossexuais. Repare que aquele homem descreve este processo em paralelo com o reforço da sua sensação de ser masculino, isto é, acompanhando o enfraquecimento da sua lamúria de ser inferior do ponto de vista masculino. A nova forma de ver as moças aparece mais madura que a anterior perspectiva infantil: criaturas caprichosas de um mundo diferente, que não pertenciam ao “clube dos rapazes”. Johan V. teve, de vez em quando, algumas recaídas, como a maior parte dos neuróticos em vias de cura; às vezes, quedas fortes. Mas persistiu na sua estratégia: procurar viver como julgava que Deus queria, rezando nos momentos de “tentação” e usando a sua força de vontade. Poucos anos mais tarde, se casou com a moça com quem se apaixonou e hoje, passados dez anos, é um homem razoável, pacato e feliz. A última vez em que os impulsos homossexuais apareceram, me contou, foram pensamentos fugazes na sequência de alguma frustração infantil, tais como ocasiões em que a namorada recebia a visita de uma amiga e ele se sentia privado da sua atenção. Atualmente, a impressão que este homem dá é a de alguém que não se lamenta nem tem propensão para sentimentalismos patéticos, apesar de a sua autobiografia mostrar claramente que, em tempos, a sua personalidade era altamente dramática e inclinada a queixas. Como já disse, não pretendo explicar o processo de cura da neurose de Johan V. como coisa sobrenatural. Qualquer psicólogo minimamente a par dos trabalhos de William James ou de Maslow sabe que as emoções religiosas são as experiências mais fortes que podem eventualmente tocar a vida emocional de uma pessoa. No caso de Johan V., estas experiências são descritas por ele como momentos em que a sua esperança conseguiu romper as nuvens e sentiu uma alegria exultante; estas emoções não anularam diretamente a neurose homossexual, mas lhe ofereceram uma base emocional de sentido positivo para poder se apoiar: o optimismo, uma certa sensação de felicidade e uma perspectiva clara em que a sua vida aparecia rica de significado. Além disso, lhe asseguraram que a homossexualidade tinha de ser reversível, pois não era compatível com a sua natureza real de homem, tal como havia sido criado por Deus. Enfim, a convicção religiosa alimentou a repulsa de qualquer sentimento homossexual e de todas as coisas ligadas a ela, enquanto reconhecidas como pecaminosas, negativas e miseráveis. Não deveremos subestimar este último fator, pois o neurótico homossexual é uma pessoa muito apegada aos seus suspiros como se fossem coisas muito preciosas, grandes, belas e tesouros de felicidade. A conclusão é que uma conversão religiosa pode fornecer a um homossexual a esperança e a energia que ele necessita para a luta. Um homossexual que queira se curar precisa absolutamente deste combustível de esperança e energia, pois o desespero em que vive é grande, a sua dependência é forte, a sua vontade de lutar é frequentemente uma meia vontade, minada pelo negativismo próprio da sua tendência para se auto- compadecer. As vivências religiosas podem colocá-lo transitoriamente em outro horizonte interior
  • 58.
    58 mas, depois, temde lutar com constância, porque elas não afastam definitivamente a neurose. Servem como fontes poderosas de energia e de motivação, ao passo que o processo psicológico de mudança consiste em um constante e radical deixar “morrer de fome” as emoções neuróticas: é o que poderíamos chamar uma cura de emagrecimento. Por isso, não deve parecer estranho que tudo isso exija algum tempo, nem que possa haver grandes e pequenas recaídas. Como o próprio Johan V. observa o despertar da sua heterossexualidade, “vai avançando lentamente”. A experiência religiosa parece desencadear os “recursos interiores”: força de vontade, conhecimento próprio e emoções positivas; isto faz com que a pessoa lute realmente e fornece o empurrão necessário para prosseguir. Seria contrário ao critério científico descurar estes fatos empíricos, por mais que alguns investigadores resistam a tomá-los em consideração. Uma cura como a de Johan V. não é um milagre religioso, que acontece em um instante. Há homossexuais que confundem as suas vivências religiosas com uma cura psicológica ou apregoam curas instantâneas obtidas por conversão religiosa (a chamada “fé terapêutica”). Em minha opinião, estes casos redundam numa desilusão. Rezam, rezam, rezam, mas “não lhes acontece nada” do que esperavam. Também há casos em que as pessoas se convencem euforicamente de ter “expulsado o seu demônio”. Ora, a verdadeira prova de uma cura é dada pela análise séria de toda a vida emocional da pessoa, incluindo os aspectos sexuais. Um homossexual realmente curado é totalmente o oposto de uma personalidade encolhida, histérica ou fanática: sente-se calmo, é realista na introspecção e não tem nada a esconder a si mesmo. Os casos de homossexuais que conseguiram mudar sem psicoterapia mostram que “muitos caminhos vão dar em Roma”. Além de que estes homossexuais parecem ter seguido, grosso modo, o mesmo itinerário psicológico: de uma forma ou de outra, “condenaram à fome” a sua tendência infantil para a autocompaixão, juntamente com as suas consequências de egocentrismo, de sentido de inferioridade e de ânsias infantis. Por outro lado, todos esses casos confirmam a afirmação de Hatterer segundo a qual a “vontade de mudança” é condição indispensável para melhorar e o próprio mecanismo de mudança implica esforço, pois é um processo de crescimento pilotado pela vontadelxxv . Os fenômenos que vão ser encontrados durante a caminhada são: recaídas quase universais; fases de desencorajamento; aumento da introspecção; aparecimento de interesses heterossexuais apenas depois de ter sido superada, pelo menos em boa parte, a inclinação homossexual; um período de consolidação, que pode durar vários anos depois da mudança básica. Contudo, não queremos deixar de chamar a atenção para as vantagens de uma terapia mais sistemática, que conjugue os elementos positivos mencionados acima e tire partido dos conhecimentos teóricos da homossexualidade como patologia de autocompaixão infantil. Estas introspecções também podem ser úteis aos homossexuais motivados por razões religiosas porque lhes proporcionam uma estrutura intelectual clara para reconhecer a sua neurose e, mais do que isso, lhes oferecem armas concretas para combater, de modo que, com o mapa e a bússola da psicologia, podem avançar melhor pela estrada que escolheram. A terapia anti queixa é uma abordagem sistemática e veremos agora, nas páginas seguintes, como é o mapa que ela oferece e como funciona a bússola.
  • 59.
    59 10- OS EFEITOSDA TERAPIAANTI QUEIXA A neurose homossexual pode ser superada como qualquer outra neurose. A ideia fatalista de que esta neurose seja irreversível é apenas um boato, alimentado pelas vozes do movimento militante dos homossexuais e por outros defensores da moral relativista. Não pretendo dizer que seja fácil obter uma mudança radical dos apetites homossexuais, como também nenhuma mudança é fácil em um neurótico fóbico ou obsessivo-compulsivo, mas existe certamente a possibilidade de uma mudança substancial para melhor. Muito depende da sinceridade da pessoa para se conhecer a si mesma e da sua vontade, que é uma esplêndida e subestimada faculdade da mente. De uma extensa análise de 101 pacientes que acompanhei como terapeuta,lxxvi recolhi as conclusões que apresento a seguir sobre a eficácia da técnica de tratamento seguida. Dos que continuaram até ao fim a terapia, isto é, cerca de 60% do total do grupo, aproximadamente dois terços atingiram um estágio satisfatório durante um período longo, entendendo por satisfatório os casos em que, ou as pulsões homossexuais já aparecem somente, quando muito, como fenômenos episódicos, enquanto a tendência sexual evoluiu predominantemente para a heterossexualidade, ou as sensações homossexuais foram mesmo eliminadas completamente, com ou sem predomínio de interesse heterossexual. Pode se considerar que cerca de um terço das pessoas deste grupo chegou a uma mudança «radical», querendo dizer com isto que já não sentem nenhum atrativo homossexual, têm sensações heterossexuais normais e, além disso, apresentam uma mudança fundamental de toda a emotividade negativa em emotividade positiva — passando da instabilidade a uma normal e razoável estabilidade, verificadas, pelo menos, durante um período de observação de dois anos. Seja como for, a “mudança satisfatória” não tem o caráter de um patamar mental definitivo, porque a pessoa pode continuar a crescer lenta e ininterruptamente. Habitualmente, passa através de novas crises emocionais, mais ou menos sérias, e muitas vezes é capaz de tirar partido das experiências da vida para se integrar emocionalmente em um nível superior. Não é raro assistir, com o passar dos anos, a um progresso tranquilo, apesar dos altos e baixos. Por exemplo, um homem que interrompeu as consultas regulares comigo neste estágio de “mudança satisfatória”, se apaixonou de uma moça com quem depois se casou. Voltei a vê-lo doze anos mais tarde. Revendo a sua vida emocional, me disse que tinha sentido ocasionalmente alguns estímulos homossexuais durante o primeiro ano de casado, mas com um impacto emocional muito menor do que antigamente, lhe dando a impressão de acontecerem fora dele. Depois, estas chamas fugazes tinham se esvaído e ele comentava: “Já não me recordo de ter tido algum interesse desse tipo há muitos anos. Quando sinto algum atrativo erótico por alguém que não seja a minha esposa, se trata sempre de uma mulher. Se o casamento falhasse eu iria procurar relações íntimas com mulheres, não com homens”. Contou-me também que durante algum tempo teve vontade de se fechar, triste e tímido, em particular na sequência de desavenças familiares (a mulher também não estava isenta de mecanismos infantis), no entanto, conseguiu reconhecer estes seus hábitos reativos como novas repetições do seu infantilismo ao se ver contrariado, resíduos da sua “criancinha digna de compaixão”. Isso o levou a dominar os seus choramingos infantis. Quando julgava objetivamente que o comportamento da mulher não estava sendo razoável, era capaz de responder a si próprio: “Isto não te dá o direito de sentir pena de si mesmo”. Em conclusão, tinha ficado muito mais maduro, com o passar dos anos. Um céptico poderá notar que apenas um terço daqueles que não abandonaram a terapia conseguiu chegar a uma mudança radical. Estou de acordo que os resultados estão bem longe da perfeição, mas também não se podem fazer interpretações fatalistas destes dados. Parece-me que há
  • 60.
    60 bons motivos paradizer que o copo está mais meio--cheio que meio--vazio. Os casos de mudança radical — passando da total homossexualidade a uma heterossexualidade normal— bastam para refutar a teoria que considera a homossexualidade como uma doença sem cura. Justamente por poucos homossexuais tentarem mudar seriamente e por poucos psicoterapeutas os encorajarem a mudar, a ideia de que a homossexualidade seja irreversível assume o carácter de uma profecia que faz cumprir a si mesma. Se ninguém tenta, ninguém vai conseguir. Porque temos de adotar uma posição fatalista em relação à possibilidade de melhoria, quando uma porcentagem razoável consegue melhorias substanciais? As porcentagens de sucesso no tratamento de outras neuroses são da mesma ordem de grandeza e devem ser vistas como os prognósticos das doenças físicas nem sempre curáveis. Seria lógico desistir dos remédios, só porque o êxito não é 100% garantido? Neste sentido, acho que a possibilidade de cura da homossexualidade deve ser encarada com otimismo. Mesmo nos 20% de homossexuais submetidos a tratamento e que parece não terem mudado de modo perceptível pode haver algumas melhorias, ainda que se trate geralmente de neuróticos graves e viciados numa multiplicidade de relações sexuais, sofrendo de depressões profundas e com uma clara sensação de vazio na sua vida. Recordo, por exemplo, um homem que acompanhei periodicamente durante mais de quinze anos. Provavelmente, eu sou a única pessoa com quem ele consegue falar abertamente. Era profundamente neurótico, obcecado por numerosos lamentos e por impulsos sexuais que detestava sempre. Apesar do meu ceticismo de que ainda pudesse conseguir algum progresso ao fim de tanto tempo, ele começou a referir que já tinha ultrapassado as suas profundas depressões com conotações suicidas e teve de admitir que, de modo geral, estava mais tranquilo e optimista. De fato, o seu comportamento condizia com esta lenta evolução. Este tipo de caso nos ensina a jamais abandonar a esperança. Não pretendo que apenas esta terapia baseada no problema da autocompaixão seja capaz de modificar uma neurose homossexual; mas estou convencido de que a perspectiva da “criança queixosa” e a utilização das técnicas da auto-ironia podem ajudar muito aqueles que estiverem decididos a combater a sua neurose. Estas técnicas estimulam as forças salutares da mente, a sã introspecção, o interesse de a pessoa se conhecer a si mesma e, sobretudo, a força de vontade. Provavelmente, são estas mesmas forças que atuam na evolução dos homossexuais que conseguiram mudar sem intervenção terapêutica. A maior parte das pessoas com orientação homossexual apresenta o complexo homossexual numa forma que se poderia chamar “de intensidade média”. Também neles a emotividade infantil pode ter mergulhado raízes muito fundas e criado hábitos neuróticos muito fortes mas, se houver vontade perseverante de combater estes vícios, o prognóstico de cura radical é, em princípio, bastante bom. Para ilustrar os efeitos da terapia anti queixa, relato a seguir alguns casos da minha experiência profissional. O primeiro é um exemplo de uma evolução moderadamente positiva. Diz respeito a um homem novo que foi melhorando com muito custo e me parece ser um exemplo bastante representativo. BEN Ben ainda não tinha vinte anos quando veio me consultar. Desde a adolescência tinha imaginações eróticas com homens de 30-35 anos, sobretudo quando se masturbava. Não sentia
  • 61.
    61 nenhuma atração pormoças, não tinha amigos (nem relações homossexuais) e ficava a maior parte do tempo em casa. A sua emotividade neurótica era patente na expressão do rosto: contrariado, amuado, maneiras moles e sem vigor. Tinha sido “estragado” e superprotegido pela mãe de quem continuava a depender. Por sua vez, ela se preocupava excessivamente com ele. Uma vez em que falei com ela, se referia ao filho de modo insistentemente sentimental como “esta criancinha”. O pai havia tido um papel muito reduzido na educação do rapaz, era um homem distante, que deixava o filho nas mãos da mulher (que dava a impressão de que, de qualquer modo, teria feito muito para conseguir esse resultado). Parecia que a mãe adorava o filho mas desejando que ele fosse aquilo que ela tinha em mente. Ben não se atrevia a lhe dizer o que pensava. Na escola, era um estranho e, por causa da educação recebida, não se dava com os outros rapazes; se afastava com uma atitude silenciosa e um pouco arrogante, que não conseguia disfarçar o seu nítido sentimento de inferioridade. Nesta fase difícil tinha conhecido um amigo dos pais, um homem novo e casado, de maneiras simpáticas e amáveis, que foi atencioso com o Ben e o convidou alguma vez para dar um passeio com a sua jovem família. Na sua imaginação infantil, Ben começou a idealizar este amigo, colocando a si próprio no papel do menino desgraçado que conquista a atenção dele. Varreu do pensamento a mulher e o filho daquele homem e, mentalmente, pensou ter se tornado o objeto favorito do amor do amigo que admirava, possuidor de todos os dotes em que Ben se sentia inferior. De quando em quando, estas divagações voltavam, ao se masturbar. Queria ver se remediava a sua orientação homossexual que, entretanto, havia se convertido em uma obsessão. Não queria ceder a esses sentimentos; tinha muita vergonha deles, sobretudo porque era mais uma prova da sua inferioridade em relação aos outros homens; e tinha repetidos acessos de choro que beiram a histeria. Era um jovem inerte, habituado aos caprichos e a fugir de tudo o que o pudesse lhe perturbar ou exigir esforço. Nessa época, as suas tentativas de afrontar a «criança interior» não tinham consistência. As fadigas e as contrariedades normais eram sempre uma ocasião de se auto-compadecer e, quando compreendeu que tinha de passar por um longo período de esforço, reagiu da forma habitual. Embora as mudanças fossem lentas, se verificaram algumas pequenas melhorias. Por exemplo, perdeu um pouco da inveja que tinha dos seus colegas, combatendo a queixa de onde partiam os seus sentimentos: “Sou inferior a eles; eles conseguem atenção e estima, eu não: coitadinho de mim!”. Diminuiu a frequência das masturbações, que eram para ele uma válvula de escape infantil e, apesar do elemento de prazer, reforçavam a compaixão em que tinham origem. Na tentativa de combater a impressão de inferioridade nos esportes, se associou a um clube e encontrou aí inúmeras circunstâncias que ele podia considerar como desafios. Aos poucos, começou a mudar o hábito inveterado de deixar as decisões para os outros (entre os quais a mãe figurava em primeiro lugar). Apesar disso, frequentemente, evitava contrariar a mãe e acabava numa verdadeira capitulação à vontade dela. Os ataques de depressão desapareceram completamente; em contrapartida, isso não aconteceu com a infraestrutura psicológica que os alimentava, a autocompaixão derivada das frustrações do dia-a-dia, nomeadamente as sensações de ser posto de lado, de ser incapaz, de não ter êxito ou de ser excluído. Por fim, ao fim de dois anos de psicoterapia, esta autocompaixão de fundo foi se desvanecendo de várias maneiras. Deu-se conta dos sentimentos de inferioridade e de autocompaixão que sentia em quase todas as companhias e relativamente a todos aqueles que encontrava. Descobriu que era ele que assumia a posição de “eu sou inferior e causo imensa pena” e a se colocar imediatamente no papel de vítima, enquanto antes pensava que a culpa era do mundo, que o tratava como um ser inferior.
  • 62.
    62 Muito poderia serdito sobre toda uma série de pequenas descobertas íntimas e de mudanças em aspectos secundários. Por exemplo, deu um efetivo passo em frente quando decidiu não voltar a colocar certas roupas que tinha comprado por mera vaidade infantil, para causar impressão e chamar a atenção dos outros. A luta contra a autocompaixão e a tendência a se lamentar deve ser enfrentada na vida do dia-a-dia, nas pequenas frustrações, contrariedades, impulsos de apatia, irritações exageradas, cansaços depois do trabalho, etc., e, com Ben, as coisas não eram diferentes. Ele atacou o seu hábito de fugir das responsabilidades e de se queixar de que as suas iniciativas estavam condenadas ao fracasso. Passou a ser mais ativo. A sua imaginação homossexual, que o levava a se fixar em alguns tipos de rapazinhos, pelo menos em pensamento, foi perdendo a capacidade inicial de fascínio. Naturalmente, voltava a aparecer na consulta esporadicamente, quando se sentia sem ajuda e sem esperança. As vezes, surgiam sentimentos de atração pelas moças, especialmente quando atravessava uma fase otimista. Ultimamente, arranjou uma namorada, embora esta relação pareça muito imatura (por ambas as partes, para dizer a verdade). Tenho a impressão de que Ben olha a moça muito como se fosse a mãe e não está seriamente apaixonado por ela, apesar de sentir um certo gosto heterossexual por ela. No conjunto, o progresso deste homem é evidente, tanto para o psicoterapeuta como para as pessoas que o conhecem bem. Desde há uns cinco anos é uma pessoa mais independente, mais homem e mais optimista. A orientação homossexual não desapareceu, embora tenha perdido intensidade e influência sobre a sua imaginação. Necessita ainda de alguns poucos anos para atravessar decididamente o limiar da virilidade adulta. O SENHOR L. Está quase nos quarenta e conta com um intenso curriculum de homossexual. Está relutante em continuar o seu modo de vida porque já não acredita em relações homossexuais estáveis. Contava que quando parecia evidente que já tinha encontrado o parceiro certo, invariavelmente, pouco depois entrava em conflito com ele e acabava rompendo a relação. “Por quê?”, perguntava-se ele. Por outro lado, as mulheres não significavam grande coisa para ele, embora se desse bem com elas a um nível superficial. Tinha modos mais do que atenciosos e amistosos; dificilmente exprimia uma opinião e, se previa um desacordo com as suas ideias, condescendia facilmente. Ficava muito impressionado pelos tipos masculinos agressivos e, em geral, com as expressões de autoridade. Por exemplo, o seu superior direto no escritório lhe causava uma tensão muito forte e não era capaz de se encontrar com ele quando ele estava irritado; por outro lado, o admirava desmedidamente. Às vezes o senhor L. ficava deprimido e havia fases em que não tinha forças para trabalhar. A mãe sempre esteve na sombra e ocupou uma posição de segundo plano na sua vida emocional, embora tenha me dado a impressão de que o seu estilo de educar o filho tinha sido excessivamente brando e cheio de ternuras excessivas. A figura central em casa era o pai; ele é que determinava tudo e a sua vontade condicionava até as pequenas coisas da gestão doméstica. O pai tinha sido a pessoa decisiva na juventude do senhor L. Geralmente agressivo, muito exigente e severo com os filhos; inibiu assim o desenvolvimento emocional do rapaz. O senhor L. nunca reverenciou o pai; este jamais o encorajava e ele sempre ficou com a ideia de que o pai o considerava o menos interessante dos irmãos e o achava um fraco. Os irmãos brilhavam em vários esportes enquanto ele se sentia inferior nesse campo. Mais tarde, procurou uma compensação se lançando nas corridas automobilísticas, mas o complexo de inferioridade não diminuiu.
  • 63.
    63 O senhor L.ainda se lembrava de uma grande quantidade de más experiências da adolescência, que contribuíram para aumentar o complexo de inferioridade: comentários críticos e irônicos da parte do pai, que ao mesmo tempo temia e admirava; insucessos desportivos; períodos de solidão no quarto; sensações de ser ofendido. Assim, começou a ter ânsias de ser apreciado por um amigo que o tratasse paternalmente. E, de fato, aos vinte anos tinha encontrado um bom amigo, em relação ao qual se comportava mais ou menos como um escravo, mas o amigo mudou para outra região e a seguir começou a namorar uma moça. Como consolação, os sonhos homoeróticos do senhor L. aumentaram ainda mais. O processo de mudança, até ao momento atual, já dura três anos. Durante muito tempo, viveu interiormente dilacerado, ao se dar conta de não poder refazer a vida sem uma limpeza geral, muito mais geral que o tema inicial das suas queixas, que se limitavam aos episódios depressivos e à sua incapacidade de ter relações homossexuais estáveis. A certa altura, começou a compreender claramente o comportamento da sua “criancinha interior” e começou a detectar várias atitudes infantis: concretamente, o sentir-se insultado e humilhado por tudo e por nada; o sentir-se inferior, nos comportamentos e resultados, aos homens do seu ambiente; o ceder à autocompaixão quando estava sozinho no quarto; o sentir-se muito contrariado por coisas sem importância; o se lamentar do seu estado de saúde quando na realidade era forte e saudável. A sua sinceridade lhe foi de grande ajuda. Alguma vez reagiu mal, quando foi posto perante certas realidades da sua vida e certas motivações, mas conseguiu perceber que havia algo de verdade nas observações que eu fazia, embora lhe custassem. Foi também aplicando as técnicas da auto-ironia e do auto-humor às manifestações da sua compaixão infantil (“coitadinho de mim!”) em diversas situações da sua vida cotidiana. Tornou-se mais independente nas relações com outros homens. Não gastamos muito tempo discutindo os seus sentimentos e manifestações homossexuais; falamos apenas do seu comportamento não sexual com os parceiros com quem ainda tinha estado ocasionalmente durante o período da psicoterapia. Para ele, era evidente que os seus sentimentos eram como o sonhar de olhos abertos de um adolescente lamuriento à procura de calor para o seu pobre Eu interior e cheio de admiração pela aparente virilidade alheia. Dava-se conta de que andava atrás de contatos humanos ilusórios que não tinham nada a ver com amar o parceiro desejado. Precisamente, a ânsia de encontrar o tal parceiro, reforçava os laços que o aprisionavam no egocentrismo e, portanto, tornava impossível uma comunhão duradoura de intenções. As lamentações “estou sozinho” tinham de aparecer. Era previsível que acabaria no isolamento porque não ia aguentar viver sem a autocompaixão própria da situação de vítima. Separou-se com hesitação do ambiente homossexual e do mundo interior das suas fantasias homossexuais. Por vezes, recaiu, voltando a se empenhar novamente em contatos homossexuais, mas já sem a excitação de antigamente. Adquiriu consciência da sua atitude em relação à vida e aos outros era de distanciamento, de não contribuir para nada, de fazer figura de marginalizado ofendido. Por causa desta descoberta, passou a ser menos cínico e abandonou a máscara de superioridade que assumia como compensação. Compreendeu que devia dedicar a vida a valores, depois de ter aceitado a ideia de que não é verdade que tudo seja relativo e de se convencer que a sua vida não era um absurdo sem sentido, ao contrário do que pensava antes. Reconheceu que a sua capacidade de se dar aos outros, de amar, era bem pequena. “Eu terei chegado alguma vez a amar?”, se perguntava. A sua imagem com relação as mulheres mudou, e ele começou a olhar para elas e a apreciar o porte feminino e as qualidades físicas de determinada mulher. Neste momento, tem a impressão de estar crescendo em direção à capacidade de ter uma relação estável com uma mulher.
  • 64.
    64 O SENHOR V. Estehomem novo, com pouco mais de vinte anos, passou através de uma tragédia interior análoga, incluindo uns poucos episódios de marcado abatimento; ao fim de cerca de dois anos de esforço sobre si próprio, com acompanhamento psicoterapêutico, apaixonou-se por uma moça. A relação amorosa lhe trouxe novas dificuldades. Mal começou a desejá-la, percebeu a dimensão dos temores e dos sentimentos de inferioridade que tinha em relação ao sexo oposto. O seu “papel de adaptação” que tinha desempenhado anteriormente, como rapaz fascinante e bondoso, cedeu no confronto pessoal com uma mulher, nas situações em que ele deveria ter sido o homem. Às vezes, ficava em pânico; teve de lutar vários meses contra os sentimentos de inferioridade e de autocompaixão. Contudo, também havia momentos em que se sentia calmo e conseguia se identificar com a ideia de “ser homem”. Nessas alturas, despertava também a sua heterossexualidade, enquanto nos momentos de mau humor a heterossexualidade se esvaía completamente. Os primeiros anos de casamento foram bons. Foi crescendo continuamente, abandonando os infantilismos, as ansiedades quando se encontrava perante uma situação que requeria independência ou uma certa dose normal de agressividade, e deixando também de ceder com excessiva facilidade à autocompaixão quando algo o contrariava. Vê os seus interesses homossexuais, que nunca chegou a pôr em prática a não ser na imaginação, como uma tendência da infância que pertence a uma fase passada da vida, devendo agora enveredar pelo caminho certo. A MENINA W. Esta mulher com cerca de trinta anos me contou que era perturbada, desde a adolescência, por uma necessidade compulsiva de olhar para as mulheres e para as moças e ter sido atormentada por vários gêneros de fantasias eróticas com figuras do seu próprio sexo. Tudo isto acontecia contra a sua vontade e nunca havia tido a intenção de aceitar como coisa normal. Estes sintomas sexuais pareciam a expressão de um complexo que minava por todos os lados a sua vida emocional. Ficava ansiosa quando estava com alguém, pensava que os outros a olhavam com desprezo e andava frequentemente deprimida; às vezes reagia de modo furioso e rebelde. Quanto à sua infância, marcada por problemas e preocupações familiares, só quero agora comentar a influência negativa da falta de compreensão por parte da mãe e as observações destrutivas e desanimadoras que o pai costumava fazer sobre ela. Já na escola primária se sentia ridícula e inferior comparativamente às outras moças, quase sob todos os aspectos: modo de vestir e de falar, aparência física e situação familiar. Durante anos arrastou uma ferida aberta — autocompaixão — acerca do seu destino infeliz, acompanhada por uma atitude generalizada de protesto. Na adolescência, tudo isto foi um terreno fértil para admirar as outras mulheres e desejar uma amizade íntima com elas. Durante o seu processo de melhoria, o tema central era se tornar menos pessimista. Isto implicava não se deixar guiar tanto por ideias de autocrítica acerca da sua falta de simpatia, falta de valor, incapacidades, da expectativa doentia de ser vítima de todo o tipo de desgraças e principalmente da atitude de auto-compadecimento que fazia com que ela dissesse que “estava destinada para a miséria”. Era um exemplo clássico de pessoa queixosa e, apesar de reconhecê-lo, continuava interiormente convencida de ter direito a se compadecer de si mesma. Com a ajuda da sua boa vontade, conseguiu ultrapassar as depressões mais graves; combatia a tendência crônica para a compaixão e para a revolta e, como resultado, se registou uma melhoria geral dos seus estados de ânimo. As imaginações lésbicas ainda a preocuparam durante mais alguns anos, mas
  • 65.
    65 finalmente se viulivre delas. Procurou aceitar o papel feminino e algumas vezes descobriu que tinha razoável êxito como mulher. Quanto aos seus sentimentos com relação aos homens, nunca tinha deixado de sentir algum interesse, embora não tivessem um papel central na sua vida emocional. Durante um tempo curto, se empenhou em um namoro com um rapaz aproximadamente da mesma idade mas, apesar de gostar dele e de sentir atração erótica por ele, havia excessivos problemas entre os dois e pareceu mais sensato acabar com o namoro. Conseguiu aceitar a sua solidão, depois de uma curta crise; hoje tem um desejo normal de se casar e de ter filhos. * * * Foram breves descrições de alguns “casos típicos”. Espero que o leitor tenha chegado à conclusão de que há muitas coisas positivas para fazer, desde que haja boa vontade, sinceridade e perseverança. Em alguns casos, o processo de mudança evoluiu mais velozmente e com melhores resultados que nos casos apresentados; em outras situações, pelo contrário, não correspondeu tanto às expectativas e foi mais conturbado. Há alguns fatores sociais preciosos que não queremos deixar de apontar, como ter amigos que deem coragem e ter uma situação familiar favorável. As convicções morais saudáveis e uma vida religiosa pessoal e profunda também são contribuições de enorme ajuda. Os elementos desfavoráveis são um carácter fraco, o estar permanentemente com dúvidas e possuir um baixo critério moral, além de, obviamente, ter vivido escravizado durante muito tempo por satisfações homossexuais. Em minha opinião, uma coisa é certa: uma atitude derrotista acerca da possibilidade de modificar a orientação homossexual não tem razão de existir.
  • 66.
    66 11 - APREVENÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE O slogan segundo o qual a homossexualidade deveria ser aceita como boa forma de vida entrou, com disfarces humanitários, na convicção bem intencionada de bastantes pessoas; existem mesmo pessoas de tal modo alheias à realidade que até admitem a louca pretensão de as relações homossexuais passarem a ter os mesmos direitos que o casamento. Essas pessoas, entusiasmadas ingenuamente pela vida homossexual, não repararam na infelicidade que ela costuma trazer e parecem indiferentes à situação dos adolescentes e dos jovens adultos que corre o risco de falhar em um aspecto central da vida, quando o impulso homossexual as arrasta para um beco sem saída. E também se esquecem de prevenir tudo isto, apesar de, objetivamente, não haver fundamento para assumir a priori uma posição fatalista. As páginas anteriores já forneceram algumas ideias sobre a profilaxia da homossexualidade. As primeiras e mais importantes pessoas que podem evitar este crescimento raquítico das crianças são naturalmente os pais. A eles compete oferecer aos filhos o primeiro exemplo de uma relação normal entre um homem e uma mulher. Se o casamento é sólido e se conseguem criar um ambiente razoável de afeto e de união, as possibilidades de surgir nos filhos qualquer complexo neurótico, incluído o homossexual, se reduzem consideravelmente. No que diz respeito à maneira de educar os filhos, tanto o pai quanto a mãe devem se lembrar de tratar os rapazes como rapazes e as moças como moças. Isto não é forçá-los a desempenhar “papéis pré-estabelecidos”, mas apoiar as tendências naturais, sem esquecer as diversidades inatas de comportamento ligadas ao sexo. O principal fator de prevenção é os pais apreciarem os rapazes como rapazes e as moças como moças. Os filhos têm de sentir este apreço. Como se pôs em evidência, este ponto é de crucial importância. Os períodos críticos do desenvolvimento da autoconfiança da pessoa como homem ou como mulher são a pré-adolescência e a adolescência. Nesta idade, não apenas os pais, como também outras pessoas à volta da família podem exercer uma influência benéfica. Os professores, por exemplo, podem contribuir de maneira positiva para reforçar uma saudável confiança na identidade sexual do aluno, ajudando cada rapaz ou moça a superar determinadas limitações. Veja-se, por exemplo, o caso do rapaz que fica sistematicamente atrás nos jogos e no esporte, que anda isolado do grupo da sua faixa etária; considero que a devida importância da compreensão personalizada de um professor ou outro adulto, manifestada numa conversa ou de outra maneira, podem ajudar o adolescente a evitar o risco de acabar na auto-dramatização. Um outro fator preventivo é uma boa educação sexual. Os adolescentes que têm certos tipos de complexos de inferioridade originários podem sofrer um choque depressivo quando alguma autoridade “iluminada”, como um professor, lhes ensina que “a homossexualidade está inscrita no cérebro”. Esta afirmação absurda pode amarrar um rapaz às suas hesitações sobre a sua identidade e pode orientar uma mente indecisa e imatura numa direção desastrada. Pelo contrário, os jovens precisam ouvir que os sentimentos homossexuais da adolescência são problemas emocionais próprios do desenvolvimento e que não existe homossexualidade inata; além de que ela corresponde a um complexo de inferioridade que pode ser superado: deste modo, o educador dá esperança e aponta um caminho pelo qual se pode crescer interiormente.
  • 67.
    67 BIBLIOGRAFIA BRAATEN, L.J.-DARLING, C.D.,Overt and Covert Homosexual Problems among Male College Students, en “Generic Psychology Monographs”, 71 (1965), pp. 269- 310 FREEDMAN, M., Homosexuality and Psychological Functioning, Brooks & Cole Publishing Company, Belmont 1971 HOPKINS, J.H., The Lesbian Personality, en “British Journal of Psychiatry”, 115 (1969), pp. 1433-36 SULLIVAN HARRY STACK, The Interpersonal Theory of Psychiatry, Norton, New York 1953
  • 68.
    i DE GROOTA.D., Hypothesen over homofilie, en “De Psycholoog” 17 (1982), pp. 244-245. ii É significativo que (em um universo de aproximadamente 1000 homossexuais “socialmente bem adaptados”) 60% tivessem solicitado, alguma vez, ajuda psicológica ou psiquiátrica. Veja-se A. P. Bell, M.S. Weinberg e S. K. Hammersmith, Sexual Preference: Its Development in Men and Women, Indiana University Press, Bloomington, 1981. iii E. Sbardelini e E.T. Sbardclini, Homossexualismo Masculino e Homossexualismo Feminino: Neurticismo e Falares Psicológicos na Infância relatório interno. Universidade Católica, Departamento de Psicologia. Campinas, S. Paulo, 1977. iv SIGMUND, G., Die Natur der menschlichen Sexualität, J.w. Naumann, Würzburg 1972 v ALAN GUTTMACHER INSTITUTE, The Sexual Behavior of Men in the U.S., en “Family Planning Perspectives”, 25 (1933), pp. 52-62. vi WELLINGS, K. Y OTROS, Sexual Behavior in Britain, Penguin, Hardmonsworth 1994. vii A história de sua difícil, porém vitoriosa, luta para se livrar de seus sentimentos homossexuais é contada em AARÓN, W., Straight: A Heterosexual Talks about His Homosexual Past, Doubelday, New York 1972. viii HANSON, D., Homosexuality: The International Disease, L.S. Publications, New York 1965 ix MEILOF – OONK S. Y OTROS, Homosexualiteit: Een onderzoek naar beeldvorming en attitude bij de Meerderjarige Nederlandse bevolking, Stichting Vevordering Social Onderzoek Minderheden, Ámsterdam 1969 x Sick again?, em “Time”, 20 de Fevereiro de 1969. xi BELL, A.P. – WEINBERG, M.S. – HAMMERSMITH, S.K., Sexual Preference: Its Development in Men and Women, Indiana University Press, Bloomington, 1981. xii SCHOFIELD, M., Sociological Aspects of Homosexuality, Longmans, Green, London 1965 xiii PERLOFF, W.H., Hormones and Homosexuality, en Sexual Inversion, al cuidado de J. MARMOR, Basic Books, New York 1965. xiv KOLODNY, R.C. Y OTROS, Plasma Testosterone and Semen Análisis in Male Homosexuals, en “New England Journal of Medicine”, 285 (1971), pp. 1170-1174 xv EVANS, R.B., Physical and Biochemical Characteristics of Homosexual Men, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 39 (1972), pp. 140-147. xvi VAN DEN AARDWEG, G.J.M. – BONDA, J., Een netelig vraagstuk: Homofilie, geloof en psychologie, Callenbach, Nijkerk 1981 xvii EVANS, R.B., Physical and Biochemical Characteristics of Homosexual Men, cit.
  • 69.
    xviii MONEY, J.– EHRHARDT, A.A., Man and Woman, Boy and Girl: The Differentiation and Dimorphism of Gender Identity from conception to Maturity, johns Hopkins University Press, Baltimore 1972. xix WEST, D.J., Homosexuality, Penguin Books, Londres 1960. xx KALLMAN, F.J., Comparative Twin Studies on the Genetic Aspects of Male Homosexuality, en “Journal of Nervous and Mental Disease”, 115 (1952), pp. 283-298. xxi RAINER, J.D. Y OTROS, Homosexuality and Heterosexuality in Identical Twins, en “Psychosomatic Medicine”, 222 (1960), pp. 251-259; FRIEDMAN, R.C. Y OTROS, Psychological Development and Blood Level of Sex Steroids in Male Identical Twins of divergent Sexual Orientation, en “Journal of Nervous and Mental Disease”, 163 (1974), pp. 282-288. xxii VAN DEN AARDWEG – BONDA, Een netelig vraagstuk: Homofilie, geloof en psychologie, cit. xxiii MASTERS, W.H. – JOHNSON, V.E., Homosexuality in Perspective (Boston: Little, Brown and Company, 1979) xxiv HATTERER, L.J., Changing Homosexuality in the Male (New York: McGraw-Hill, 1970). xxv LEVAY, S., A difference in Hypotalamic Structure Between Heterosexual and Homosexual Men, en “Science”, 253 (1991), pp. 1034-1037. xxvi HAMMER, D. H.-HU, MAGNUSON, V.L.-HU, N-PATTATUCCI, A.M.L., A Linkage Between DNA Markers on the X Chromosome and male Sexual Orientation, en “Science”, 261 (1993), pp. 312-327. xxvii BYNE, W., The Biological Evidence Challenged, en “Scientific American”, 270 (1994), pp. 26-31. Por lo que concierne al estudio de HAMMER, D.H. (un militante “gay”) Y OTROS: uno de sus colaboradores lo ha acusado de manipulación fraudulenta de los datos de investigación. Actualmente la acusación está pendiente ante el Federal Office of Research Integrity. En cualquier caso, EBERS, G. (University of Western Notario), después de efectuar una contraprueba del estudio de Hammer, ha declarado no haber encontrado ninguna correlación entre homosexualidad y ciertos indicadores (“markers”), ni el cromosoma-X ni en cualquier otro cromosoma (“Scientific American” noviembre 1995). xxviii VAN DEN AARDWEG, G.J.M., Homophilie, neurose en dwangzelfbeklag (Ámsterdam: Polak&Van Gennep, 1967). xxix MASTERS – JOHNSON, Homosexuality in Perspective, cit. xxx EIBL EIBESFELD, I., Liebe und Hass (Munich: Piper, 1970) xxxi KARLEN, A., Sexuality and Homosexuality, (New York: Norton, 1971) xxxii FLACELIÉRE, R., Amour en Gréce (Paris: Hachette, 1960). xxxiii GOY, R.W. – MCEWEN, B.S., Sexual Differentiation of the Brain (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1980)
  • 70.
    xxxiv MAY, R.,Sex and Fantasy: Patterns of Male and Female Development (New York: Norton, 1980) xxxv VAN DEN AARDWEG – BONDA, Een netelig vraagstuk: Homofilie, geloof en psychologie, cit.; MONEY – HER-HARDT, Man and Woman. xxxvi ADLER, ALFRED, Das Problem der Homosexualität, Reinhardt, Munich 1917. xxxvii STEKEL, W., Onanie und Homosexualität, Urban&Schwarzenberg, Viena 1921. xxxviii STEKEL, W., Psychosexueller Infantilismus, Urban&Schwarzenberg, Viena 1922. xxxix BERGLER, E., Homosexuality: Disease or Way of Life?, Hill&Wang, Nueva York 1957. xl BIEBER, I. Y OTROS, Homosexuality: a Psychoanalystic Study, Basic Books, Nueva York 1962. xli Algunos estudios informando acerca de estos factores: EVANS, R.B., Childhood Parental Relationships of Homosexual Men, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology, 33 (1969), pp 129-135; SNORTUM, J.R. Y OTROS, Family Dynamics and Homosexuality, en “Psychological Reports, 24 (1969), pp 763-770; THOMSON, N.L. Y OTROS, Parent-Child Relationships and Sexual Identity in Male and Female Homosexuals and Heterosexuals, en “Journal of consulting and Clinical Psychology”, 41 (1975), pp 120-127; STEPHAN, W.G., Parental Relationships and Early Social Experiences of Activist Male Homosexuals and Male Heterosexuals, en “Journal of Abnormal Psychology, 82 (1973), pp. 506-513; SIEGELMAN, M., Parental Backgrounds of Male Homosexuals and Heterosexuals, en “Archives of Sexual Behavior”, 3 (1974), pp. 3-18; VAN DEN AARDWEG, G.J.M., De factor klaagziekte, neurose en homofilie, en “Psychologica Belgica, 13 (1973), pp. 295- 311. xlii STEKEL, W., Onanie und Homosexualität, ya cit. xliii ARNDT, J.L., Zelfdramatisering, Stenfert Kroese, Leiden 1950. xliv ARNDT, J.L., Een bijdrage tot het inzicht in de homosexualiteit, en “Geneeskundige Bladen”, 3 (1961), pp 65-105. xlv MADISON, P., Freud´s Concept of Repression and Defense, University of Minnesota Press, Minneapolis 1961. xlvi BREUER, J. Y FREUD, SIGMUND, Studien Ubre Hysterie, Deuticke, Viena 1895. xlvii VAN DEN AARDWEG, G.J., A Grief Theory of Homosexuality, en “American Journal of Psychotherapy”, 26 (1972), pp. 52-68. xlviii HOLMES, D.S. Investigations of repression, en “Psychologial Bulletin” 81 (1974), pp. 632-653. xlix HORNEY, KAREN, Our Inner Conflicts, Norton, Nueva York 1975. l STACK SULLIVAN, HARRY, The Interpersonal Theory of Psychiatry, Norton, Nueva York 1953.
  • 71.
    li ECK, M.,Sodome: Essay sur l´homosexualité, Anthéme Fayard, París 1966 lii SOCARIDES, C. W., The Overt Homosexual, Grune and Stratton, Nueva York 1968, idem, Homosexuality Aronson, Nueva York 1978. liii HATTERER, L.J., Changing Homosexuality in the Male, McGraw-Hill, Nueva York 1970. liv Sobre tales intentos: EYSENCK, H.J., The Scientific Study of Personality, Routledge & Kegan Paul, Londres 1952; idem, The Dynamics of Anxiety and Hysteria, Routledge & Kegan Paul, Londres 1957; idem, Experiments in Personality, 2 vols. Routledge & Kegan Paul, Londres 1960; EYSENCK, H.J., GRANGER, G.W. Y BRENGELMANN, J.C., Perceptual Processes and Mental Illness, Chapman and Hall, Londres, 1957; CATTELL, R.B. Y SCHEIER, I.H., The meaning and Measurement of Neuroticism and Anxiety, Ronald Press, Nueva York 1961. Un posible candidato a test, EYSENCK, H.J, Dimensions in Personality, Routledge & Kegan Paul, Londres 1947, quedó descartado en la repetición del estudio: CLARIDGE, G., The Excitation-Inhibition Balance in Neurotics, en “Experiments in Personality”, editado por EYSENCK, H.J., vol. 2, Routledge & Kegan Paul, Londres 1960. lv EYSENCK, Scientific Study of Personality, ya citado. lvi Existen muchos cuestionarios de este tipo, denominados cuestionarios “neuroticistas”: varias escalas o subcuestionarios del Minnesota Multiple Personality Inventory (MMPI) (DAHLSTROM, W.G. Y WELSH, G.S., An MMPI Handbook North Publishing Company, St Paul 1960)); el MAS (TAYLOR J.A., A Personality Scale of Manifest Anxiety, en “Journal of Abnormal and Social Psychology” 48 (1953), pp. 285-290); el Cornell Medical Index (BRODMAN, K., ERDMAN, A.J., LORGE, I., GERHENSON, C.P. Y WOLFF, H.G., The Cornell Medical Index Health Questionnaire III; The Evaluation of Emotional Disturbance, en “Journal of Clinical Psychology”, 8 (1952), pp 119-124); algunas escalas del Sixteen Personality Factor Test (16PF) (CATTEL, R.B. Y STICE, G.F., Handbook of the Sixteen Personality Factor Questionnaire (Institute for Personality and Ability Testing, Champaign, Illinois 1957)); del Maudsley Personality Inventory (MPI) (EYSENCK, H.J., Manual of the Maudsley Personality Inventory, University of London Press, Londres 1959)); y del Eysenck Personality Inventory (EPI) (EYSENCK, S.B.G., Manual fo the Eysenck Personality Inventory, University of London Press, Londres 1964)). Han recibido diferentes nombres, pero los estudios de factor analítico han dejado claro que todos están tan altamente correlacionados que se puede decir que son más o menos idénticos, y miden el mismo factor general de “neuroticismo” o “emotividad neurótica”. BENDIG, .w., Factor Analices of “Anxiety” and “Neuroticism” Inventories, en “Journal of Consulting Psychology, 24 (1960), pp. 161-168, EYSENCK, H.J. Y EYSENCK, S.B.G., Personality Structure and Measurement, Routledge & Kegan Paul, Londres 1969; y GUILFORD, J.P., Factors and factors of Personality, en “Psychological Bulletin”, 82 (1975), pp. 802-814. lvii Los test que confirman este hallazgo han usado el MMPI, el 16PF, el MPI, el EPI, la Neuroticism Scale Questionnaire (NSQ), y el Maudsley Medical Questionnaire (MMQ). Estudios sobre grupos clínicos de personas con tendencia a la homosexualidad (personas en tratamiento) son: VAN DEN AARDWEG, G.J.M., Homofilie, neurose en dwangzelfbeklag, Polak & Van Gennep, Ámsterdam 1967 (Holanda, MMPI y MPI); OLIVER , W.A. Y MOSHER, D.L., Psychopathology and Guilt in Heterosexual and Subgroups of Homosexual Reformatory Inmates, en “Journal of Abnormal Psychology” 73 (1968), pp. 323-329 (EEUU, MMPI); CATTELL, R.B. Y MORONY, J.H., The Use of 16PF in Distinguishing Homosexuals, Normals, and General Criminals, en “Journal of Consulting Psychology”, 26 (1952), pp. 531-540 (Australia, 16PF); VERMEUL, A.W. – VAN MULLEM, Het voorkomen van de zogenaamde homosexuele signs in de Rorschachtest (investigación sin publicar, Gemeente Universiteit, Department of Psychology, Ámsterdam 1960) (Holanda MMQ); y FELDMAN, M.P. Y MACCULLOCH,
  • 72.
    M.J., Homosexual BehaviourTherapy and Assessment, Pergamon Press, Oxford 1971 (Gran Bretaña, 16PF y EPI). Aquellos que no usan grupos clínicos son CATTELL, R.B. Y MORONY, Use of the 16PF; DOIDGE, W.T. Y HOLTZMAN, W.H., Implications of Homosexuality Among Air Force Trainees, en “Journal of Consulting Psychology”, 24 (1960), pp. 9-13 (EEUU, MMPI); DEAN, R.B. Y RICHARDSON, H., Analysis of MMPI Profiles of Forty College-Educated Overt Male Homosexuals, en “Journal of Consulting Psychology”, 28 (1964), pp. 483-486 (EEUU, MMPI); BRAATEN, L.J. Y DARLING, C.D., Overt and Covert Homosexual Problems Among Male College Students, en “Genetic Psychology Monographs”, 71 (1965), pp, 269-310 (EEUU, MMPI), MANOSEVITZ, M., Early Sexual Behaviour in Adult Homosexual and Heterosexual Males, en “Journal of Abnormal Psychology” 76 (1970), pp. 396-402 (EEUU, MMPI); idem, Education and MMPI-MfSocres in Homosexual and Heterosexual Males, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 36 (1971), pp. 395-399 (EEUU, MMPI); EVANS, R.B., Sixteen Personality Factor Questionnaire Scores of Homosexual Men, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 34 (1970), pp 212-215 (EEUU, 16PF); SIEGELMAN, M., Adjustment of Male Homosexuals and Heterosexuals, en “Archives of Sexual Behaviour”, 2 (1972), pp. 9-25 (EEUU, NSQ); idem, Psychological Adjustment of Homosexual and Heterosexual Men: A Cross-national Replication, en “Archives of Sexual Behaviour”, 7 (1978), pp. 1- 11 (Gran Bretaña, NSQ);, LIONG A KONG, H,P., Neurotische labiliteit en homfilie bij mannen (investigación no publicada, Vrije Universiteit, Department of Psychology, Amsterdam 1965) (Holanda, MPI); y SBARDELINI, E. Y SBARDELINI, E. T., Homosesexualismo masculine e homossexualismo feminine: Neuroticismo e fatores psicológicos na infancia (investigación no publicada, Universidade Católica, Department of Psychology, Campinas, Sao Paulo 1977). lviii ARNDT, J.L., Genese en psychotherapie der neurose, 2 vols. Boucher, La Haya 1962. lix BERGLER, E., Counterfeit Sex. Grunne & Stratton, Nueva York 1958. lx GOLDBERG, S., The Inevitability of Patriarchy. Temple Smith, Londres 1977. lxi MAY, R., Sex and Fantasy, Patterns of Male and Female Development. Norton, Nueva York 1980. lxii DANNECKER, M., Der Homosexuelle und die Homosexualitat. Syndikat, Frankfurt 1978. lxiii Muchos estudios han confirmado este modelo. Se puede consultar en BIEBER, I et al. Homosexuality: A psychoanalityc Study, Basic Books, Nueva York 1962; EVANS, R.B., Childhood Parental Relationships of Homosexual Men, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 33 (1969), pp. 129-135; SNORTUM, J.R. et al., Family Dynamics and Homosexuality, en “Psychological Reports” 24 (1969), pp 763-770; THOMSON, N.L. et al., Parent-Child Relationships and Sexual Identity in Male and Female Homosexuals and Heterosexuals, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 41 (1975), pp. 120-127; STEPHAN, W.G., Parental Relationships and Early Social Experiences of Activist Male Homosexuals and Male Heterosexuals, en “Journal of Abnormal Psychology” 82 (1973), pp 506-513; SIEGELMAN, M., Parental Backgrounds of Male Homosexuals and Heterosexuals, en “Archives of Sexual Behavior”, 3 (1974), pp. 3-18; VAN DEN AARDWEG, De factor “klaagziekte”, neurose en homofilie, en “Psychologica Belgica”, 13 (1973), pp 295-311. lxiv El autor trata con más detalle esta cuestión en VAN DEN AARDWEG, G.J.M., Parents of Homosexuals: Not Guilty?, en “American Journal of Psychotherapy”, 38 (1984), pp 180-189. lxv BIEBER, I y BIEBER, T. Male Homosexuality, en “Canadian Journal of Psychiatry”, 24 (1979), pp. 409-422. lxvi VAN DEN AARDWEG, G.J.M., De neurose van Couperus, en “Nederlands Tijdschrift voor de Psychologie”, 20 (1965), pp. 293-307.
  • 73.
    lxvii BIEBER etal., Homosexuality; EVANS, Childhood Parental Relationships; THOMSON et al., Parent-Child Relationships and Sexual Identity; STEPHAN, Parental Relationships; SBARDELINI, E. y SBARDELINI, E. T., Homossexualismo masculine e homossexualismo feminine: Neuroticísmo e fatóres psicológicos na infancia, inédito; Universidade Católica, Department of Psychology. Campinas, Sao Paulo 1977 lxviii Se ha dicho que efectos como los descritos en las relaciones paterno-filiales de personas con tendencias homosexuales sólo suceden a aquellos que visitan el consultorio de psicólogo y del psiquiatra. Esto no es verdad. Como en el caso de los test de personalidad (ver las notas 19-22 del capítulo 4), se han recogido estadísticas y observaciones en todo tipo de grupos, incluyendo personas con tendencias homosexuales que están socialmente integradas. lxix Algunos estudios sobre este tema: BENE, E., On the Genesis of Female Homosexuality, en “British Journal of Psychiatry”, 111 (1965), pp. 815-821; KAYE, E. et al., Homosexuality in Women, en “Archives of General Psychiatry”, 17 (1967), pp. 626-634; KENYON, F.E., Studies in Female Homosexuality: Psychological Test Results, en “Journal of Consulting and Clinical Psychology”, 32 (1968), pp. 510-513; KREMER, M. W. Y RIFKIN, A.H., Early Development of Homosexuality: A Study of Adolescent Lesbians, en “American Journal of Psychiatry”, 126 (1969), pp. 91-96; GUNDLACH, R.H. Y RIESS, B.F., Self and Sexual Identity in the Female: A Study of Female Homosexuals, en “New Directions in Mental Health”, editado por B.F. RIESS, Grune&Stratton, Nueva York 1968; y SWANSON, D.W. et al., Clinical Features of the Female Homosexual Patient: A Comparison with the Heterosexual Patient, en “Journal of Nervous and Mental Disease” 155 (1972), pp. 119-124. lxx GUNDLACH Y RIESS, Self and Sexual Identity. lxxi SENGERS, W.J., Homoseksualiteit als klacht: Een psychiatrische studie. Paul Brand, Bussum 1969. lxxii La reorientación religiosa de la vida se usa, a veces, como método, por ejemplo, por el método jesuita de “discernimiento de espíritus” (qué “espíritu” o actitud mental es la correcta, la deseada por Dios, y cuál es la equivocada, la que debemos evitar). La aplicación de este método puede llegar a curar a un homosexual como “efecto lateral”, según me ha comunicado el sacerdote católico y publicista holandés Dr. Penning de Vries. Sin embargo, la meta primaria de este método no es curar una neurosis, sino reorientar la vida de una persona de acuerdo con los principios cristianos. lxxiii BOS, J.T., Ik ben niet meer “zo”. Gideon, Hoornaar 1969. lxxiv Aun permaneciendo profundamente religioso, la exaltación de este hombre se ha calmado mucho desde entonces. Él mismo se inclina ahora a ver su cambio como un esfuerzo psíquico, motivado yen gran parte animado por su conversión religiosa, la oración y, sobre todo, por un cambio total en la forma de vida. lxxv HATTERER, L.J., Changing Homosexuality in the Male. McGraw-Hill, Nueva York 1970. lxxvi G. J. M. Van den Aardweg, On the Origins and Therapy of Homosexuality: A Psychoanalitic Reinterpretation, Praeger, New York, 1986. .Tradução alemã: Das Drama des gewõhnlichen Homosexuellen, Hanssler Verlag, Ncuhausen, 1992 (Postfach 1220, I) 73762 Neuhausen, fax 07158- 177-119).