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CONTIENE MUSICA DE FONDO
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Luiz de Camões
Sá de Miranda
Bernardim Ribeiro
Poesia Trovadoresca
Florbela Espanca
Fernando Pessoa
José Régio
Cesário Verde
para ler os poemas escolhe
a estante do autor e faz clic
Bocage
Almeida Garret
Contemporâneos
Sair
Luis de Camões
Lisboa 1524-1580
Nasceu em 1524/5, em Lisboa ou em Coimbra,
filho de Simão Vaz de Camões e D. Ana de Sá
e Macedo, familia nobre.
A sua formação académica decorreu em
Coimbra, onde o seu tio D. Bento de Camões
era Chanceler da Universidade
É apontado como sujeito folgado e briguento e
ganha a alcunha de Trinca-Fortes
Em 1542 apaixona-se por Dona Caterina de
Ataíde, dama da corte, imortalizada na sua
lírica sob o anagrama de Natércia
As suas desavenças e amores dão origem ao
seu desterro, em 1545 para Constancia do
Ribatejo até embarcar em 1547 para Ceuta
onde perde o olho direito
Volta a Lisboa e após uma rixa no Rossio, é
preso e desterrado em 1553 para a India.
Esteve em Macau, onde numa gruta, refúgio,
passa horas a escrever Os Lusíadas. Naufraga
em 1560 na foz do rio Mecong
Em 1567 segue para Moçambique e em 1570
regressa a Lisboa, saindo em 1572 a 1ª edição
de Os Lusíadas.
Em 10.6.1580 morre em Lisboa
Bárbara
Endechas a üa cativa com quem andava de
amores na Índia.
Aquela cativa, que me tem cativo, porque
nela vivo, já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa, em suaves molhos, que
para meus olhos, fosse mais fermosa.
Nem no campo flores, nem no céu estrelas,
me parecem belas, como os meus amores.
Rosto singular, olhos sossegados,
pretos e cansados, mas não de matar.
Üa graça viva, que neles lhe mora,
para ser senhora, de quem é cativa...
Pretos os cabelos,Onde o povo vão
Perde opinião,Que os louros são belos.
..Esta é a cativa, que me tem cativo.
E pois nela vivo, é força que viva.
Redondilha menor
Menina dos olhos verdes
Eles verdes são,
E têm por usança
Na cor, esperança,
E nas obras não
Vossa condição
Não é d' olhos verdes,
Porque me não vedes.
Havia de ser,
Por que possa vê-los,
Que uns olhos tão belos
Não se hão-de esconder;
Mas fazeis-me crer
Que já não são verdes,
Porque me não vedes
Verdes não o são
No que alcanço deles;
Verdes são aqueles
Que esperança dão.
Se na condição
Está serem verdes
Porque me não vedes?
Vilancete de 7 sílabas
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura
Leva na cabeça o pote
O testo nas mãos de prata
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta
Chove nela graça tanta
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
Redondilha de 5 silabas:
Verdes são os campos
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo,que te estendes
Com verdura bela
Ovelhas,que nela
Vosso pasto tendes
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão
E eu das lembranças
Do meu coração.
Gados que pasceis
Com contentamento
Vosso mantimento
Não no entendereis
Isso que comeis
Não são ervas, não
São graças dos olhos
Do meu coração
Soneto
Amor é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente
é um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer
É um não querer mais que bem querer
é andar solitário entre a gente
é nunca contentar-se de contente
é cuidar que se ganha em se perder
É querer estar preso por vontade
é servir a quem vence, o vencedor
é ter com quem nos mata lealdade
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade
se tão contrário a si é o mesmo amor
Soneto
Erros meus, má fortuna,amor ardente
em minha perdição se conjuraram
os erros e a fortuna sobejaram
que pera mim bastava o amor somente
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse,
As minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!
Soneto
Alma minha gentil que te partiste.
Tão cedo desta vida, descontente
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo,onde subiste
Memória desta vida se consente
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste
E se vires que pode merecer-te
Algu~a cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou
Soneto
O dia em que nasci moura e pereça
Não o queira jamais o tempo dar
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes
As lágrimas no rosto, a cor perdida
Cuidem que o mundo já se destruiu
.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!
Soneto
Ah, minha Dinamene, assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te!
Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te
tão asinha esta vida desprezaste!
Como já para sempre te apartaste
de quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
que não visses quem tanto magoaste?
Nem falar-te somente a dura morte
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste!
Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!
Que pena sentirei, que valha tanto,
que ainda tenho por pouco o viver triste
Soneto
Mudam-se os tempos,mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades
Diferentes em tudo da esperança
Do mal ficam as mágoas na lembrança
E do bem,se algum houve, as saudades
O tempo cobre o chão de verde manto
Que já coberto foi de neve fria
E em mim converte em choro o doce canto
.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Soneto
Transforma-se o amador na cousa amada
por virtude do muito imaginar
Não tenho logo mais que desejar
Pois em mim tenho a parte desejada
Se nela está minha alma transformada
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
Soneto
Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.
Soneto
Aquela triste e leda madrugada
Cheia toda de mágoa e de piedade
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada
Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade
Viu apartar-se dúa outra vontade
Que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio
Que de uns e de outros olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.
Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.
Soneto
Sete anos de pastor Jacó servia /Labão,
pai de Raquel, semana bela
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.
E os dias na esperança de um sò dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos,
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo:- mais servira, se não fora
Para do longo amor tão curta a vida.
Os Lusíadas
Canto 1
Proposição
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimara
-E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte
Canto 1
Proposição
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta
Que outro valor mais alto se alevanta
Invocação
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipoerene.
Os Lusíadas
Canto 1
Invocação
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso
Dedicatória
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antígua liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus,que todo o mande
Para do mundo a Deus dar parte grande;
Canto 1
Dedicatória
Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;
.
Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro,
O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro..
Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Fizeram, só por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte .
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro
E Orlando, inda que fora verdadeiro.
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
A cítara para eles só cobiço.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.
..
Canto 1
Grandes Feitos dos Portugueses
Canto 1
Grandes Feitos dos Portugueses
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.
Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.
Quis voar a u~a alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.
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Soneto Redondilha maior
Sá de Miranda (1481-
1558) Sá de Miranda
Com o grau de doutor em Direito na
Universidade de Lisboa.
Em Itália (1521-26) contactou
os poetas do Renascimento italiano
Introduz em Portugal o soneto e os
versos decassilabos
--------------------------------------------
Bernardim Ribeiro
Prosador (Menina e Moça)
e poeta renascentista,
Foi precursor do bucolismo e
introduz a sextina na nossa Lingua
..
--------------------------------------
Bernardim Ribeiro
(1482-1552)
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.
Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.
Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?
Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Sá de Miranda.
O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-me-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!
Sá de Miranda
Menina fermosa,
que nos meus olhos andais,
dizei porque mos quebrais.
Em vos vendo, vo-los dei:
logo vos passastes i;
nunca mais olhos abri,
nunca mais olhos çarrei.
Vós lhe sois regra, vós lei:
não fazem menos nem mais
daquilo que lhes mandais.
Em pago desta verdade,
que estranhais porque não se usa,
quebrais-mos… A alma confusa
não sabe quebrar vontade.
Menina, contra a idade,
contra todos os sinais,
cruel sois cada vez mais.
Tomais vingança da fé
que sempre convosco tive,
ou de quê? da alma que vive
por vós, onde quer que esté?
Dizei, menina, porqu'é?
Tam vossos olhos quebrais?
Não vo-los referto mais!
Sá de Miranda
Comigo me desavim,
Vejo-me em grande perigo;
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.
Antes que este mal tivesse,
Da outra gente fugia.
Agora já fugiria
De mim se de mim pudesse.
Que cabo espero ou que fim,
Deste cuidado que sigo,
Pois trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim.
------------------------------------------------
Antre tremor e desejo,
Vã espernça e vã dor,
Antre amor e desamor,
Meu triste coração vejo.
.
Nestes extremos cativo
Ando sem fazer mudança,
E já vivi d'esperança
E agora vivo de choro vivo.
Contra mi mesmo pelejo,
Vem d'ua dor outra dor
E d'um desejo maior
Nasce outro mor desejo.
Sá de Miranda
.
Aquela fé tão clara e verdadeira,
A vontade tão limpa e tão sem mágoa,
Tantas vezes provada em viva frágua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;
.
Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de água,
Por que eu ledo passei por tanta mágoa,
Culpa primeira minha e derradeira,
.
De que me aproveitou? Não de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.
.
Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E já assi se consola a alma perdida,
Se não achar piedade, ache perdão.
Sá de Miranda
Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.
Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda
Sextina
Ontem pôs-se o sol, e a noute
cobriu de sombra esta terra.
Agora é já outro dia,
tudo torna, torna o sol;
só foi a minha vontade,
para não tornar c’o tempo!
Tôdalas cousas, per tempo,
passam, como dia e noute;
ũa só, minha vontade,
não, que a dor comigo a aterra;
nela cuido em quanto há sol,
nela enquanto não há dia.
Mal quero per um só dia
a todo outro dia e tempo,
que a mim pôs-se-me o sol
onde eu só temia a noute;
tenho a mim sôbre a terra,
debaxo minha vontade.
Dentro na minha vontade
não há momento do dia
que não seja tudo terra;
ora ponho a culpa ao tempo,
ora a torno a pôr à noute:
no milhor pon-se-me o sol!
Haver de ser tudo terra
quanto há debaixo do sol
me descansa, porque o tempo
me vingará da vontade;
se não que antes dêste dia
há-de passar tanta noute!
Bernardim Ribeiro
(da Écloga de Jano e Franco)
Dentro de meu pensamento
há tanta contrariedade.
que sento contra o que sento
vontade e contra vontade.
Estou em tanto desvairo.
que não me entendo comigo.
Donde esperarei repairo?
que vejo grande o perigo
e muito mor o contrairo.
Quem me trouxe a esta terra
alheia, onde guardada
me estava tamanha guerra.
e a esperança levada?
Comigo me estou espantando
como em tão pouco me dei;
mas cuidando nisto estando.
os olhos com que outrem olhei
de mim se estavam vingando.”
Bernardim Ribeiro
.
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POESIA TROVADORESCA
Séc. XII-XIII
.
Poesia trovadoresca,
ou galaico-portuguesa,
Subdividia-se em 3 categorias:
Cantigas de amigo, exclusivamente ibéricas
(uma mulher canta acerca do seu amigo, amor),
Cantigas de amor (um homem canta o seu amor)
Cantigas de escárnio e maldizer (o trovador diz
mal de alguém numa alusão irónica velada, mais
tarde há um insulto directo)
Os Jograis épicos com suas Canções de Gesta:
Em Portugal o ciclo épico sobre D.Afonso
Henriques traduzido em Crónicas dos séc XIV e
XV
--- em Castela houvera o Cantar de Mio Cid
c.1200
---em França, a Chanson de Roland no séc XI
Cantiga de Amigo
"Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado!
ai Deus, e u é?“
autoria do rei D.Diniz
Nota:
e u é? (e onde está?)
Cantiga de amigo
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Martin Codax
Cantiga de Amigo
Madre velida, meu amigo vi,
non lhi falei e con el me perdí:
e moir'[o] agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv'en desdén;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
Se lh'eu fiz torto, lazerar-mi-o-ei
con gran dereito, ca lhi non falei:
e moir'[o] agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv'en desdén;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
Madre velida, ide-lhi dizer
que faça ben e me venha veer:
e moir'[o] agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv'en desdén;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
Airas Carpancho (jogral galego- séc. XIII)
Nota:
velida (formosa) ; ca (porque); lazerar (lastimar)
Cantiga de amor
A dona que eu am'e tenho por Senhor
amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr’ amostrade-me-a Deus
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte.
(de Bernal de Bonaval )
Cantiga de amor
Quer'eu em maneira de provençal
fazer agora un cantar d'amor,
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.
Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a faz, que a fez sabedor
de todo ben e de mui gran valor,
e con todo est'é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bon sen,
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh'outra foss'igual.
Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.
El-Rei D. Dinis,
Cantiga de escárnio
"Ai dona fea! Foste-vos queixar
Que vos nunca louv'en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei toda via;
E vedes como vos quero loar:
Dona fea, velha e sandia!
Ai dona fea! Se Deus mi pardon!
E pois havedes tan gran coraçon
Que vos eu loe en esta razon,
Vos quero já loar toda via;
E vedes qual será a loaçon:
Dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pero muito trobei;
Mais ora já en bom cantar farei
En que vos loarei toda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!"
Pero Garcia Burgalês,
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Florbela Espanca
1894-1930
Florbela Espanca
Poetisa portuguesa.de nome
Flor Bela de Alma da Conceição Espanca,
nasceu em Vila Viçosa em 1894
Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a
frequentar o curso secundário, onde lia obras
de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco,
Guerra Junqueiro, Garrett.
Em 1919 saiu a sua primeira obra,
Livro de Mágoas, um livro de sonetos.
Em Janeiro de 1923 é publicada a sua segunda
coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade
Em fins de1930 dá-se a publicação da sua
obra-prima Charneca em Flor.
Morre a 8 de Dezembro de 1930 em Matozinhos
por sobredose de barbitúricos
.
Ser Poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!.
Perdi os Meus Fantásticos Castelos
Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...
.
Versos
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês...
O Maior Bem
Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda a gente.
Mesmo a beijar-me a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!...
Mas que me importa a mim que me não queiras
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo,
Do teu frio desamor, dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo? -.”
Os versos que te fiz
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Se tu viesses ver-me...
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti....
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Fernando Pessoa
(Lisboa 1888-1935
Fernando António Nogueira Pessoa
Nasceu em 1888 em Lisboa. Aos 6 anos foi
para a África do Sul, em virtude do 2º casamento de
sua mãe com o cônsul em Durban.
Aí foi educado, aprendeu o inglês, língua em que
escreveu poesia e prosa desde a adolescência.
Regressou a Lisboa aos 17 anos.
Ao longo da vida trabalhou em firmas comerciais de
Lisboa como correspondente de língua inglesa e
francesa.
Foi também empresário, editor, crítico literário,
jornalista, tradutor, publicitário, ao mesmo tempo que
produzia a sua obra literária em verso e em prosa.
É considerado um dos maiores poetas da Língua
Portuguesa e da Literatura Universal, muitas vezes
comparado com Luís de Camões.
Como poeta, desdobrou-se em múltiplas
personalidades –os heterónimos, Álvaro de Campos,
Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares
No seu percurso intelectual há sobretudo o relato de
uma grande viagem de descoberta, crendo que todos
os caminhos são verdadeiros e que o que é preciso é
navegar (no mundo das ideias)
.
. Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
Álvaro de Campos
Poesias Inéditas
A NOVELA inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.
Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
A primavera floria
Sem que houvesse primavera.
Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?
--------------------------------------------
A Ciência
A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
Cancioneiro
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela ?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça ?
Que amor não se explica ?
É a vela que passa
Na noite que fica.
----------------------------------------
AMEAÇOU CHUVA. E a negra
Nuvem passou sem mais...
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.
Nuvem que passa... Céu
Que fica e nada diz...
Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz...
E a terra é verde, verde...
Por que então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?
Não Sei Quantas Almas Tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
¡Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Somos do tamanho de nossos sonhos
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Cancioneiro
Ó sino da minha aldeia
Ó sino da minha aldeia
dolente na tarde calma,
cada tua badalada
soa dentro da minha alma...
E é tão lento o teu soar,
tão como triste da vida,
que já a primeira pancada
tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto,
quando passo, sempre errante,
és para mim como um sonho,
soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
vibrante no céu aberto,
sinto o passado mais longe,
sinto a saudade mais perto...
Cancioneiro
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
Cancioneiro
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela
Serena a passar,
Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho
.
Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.
Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
----------------------------------------
O amor, quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente.
Cala: parece esquecer.
Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
quem quer dizer quanto sente
fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente!
Cancioneiro
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.
Cancioneiro
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
..
Cancioneiro
Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.
São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.
Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.
Liberdade
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é
Atento ao que eu sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu"?
Deus sabe, porque o escreveu.
Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
--- * ---
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte,
varria para um lado,
E segui o caminho
para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva
e não me Sinto pensar.
Alberto Caeiro
Mensagem
.
1ª PARTE – BRASÃO (19 poemas)
Pessoa, percorre as peças e figuras de um
brasão real do séc XV, associando a cada,
uma personalidade da nossa história.
2ª PARTE – MAR PORTUGUÊS
Aborda a Idade das Descobertas
3ª PARTE – O ENCOBERTO
Trata do advento do Quinto Império
do Mundo, que será liderado por um
português - O Encoberto, o Rei ou
D.Sebastião, como é indistintamente
chamado.
Mensagem.
2ª Parte
I-O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Mensagem.
2ª Parte:
X-Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Mensagem.
3ª Parte
O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa,
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raíz
Ter por vida sepultura
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa- os quatro se vão
Para onde vae toda edade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu Dom Sebastião?
.
. Voltar à biblioteca
José Régio
Vila do Conde (1901-
1969)
José Maria dos Reis Pereira
Poeta, com o pseudónimo José Régio.
Nascido em Vila do Conde, formou-se em
Coimbra em Filologia Românica.
Viveu grande parte da sua vida na cidade
de Portalegre, onde lecionou no Liceu
local, Português e Francês de 1928 a 1967.
Em 1927, com Branquinho da Fonseca e
João Gaspar Simões, fundou a revista
Presença, publicada durante 13 anos
É considerado um dos grandes criadores
da moderna literatura portuguesa.
Refletiu na sua obra problemas relativos
ao conflito entre Deus e o Homem,
o indivíduo e a sociedade
Hoje, as suas casas em Vila do Conde e em
Portalegre são casas-museu.
CÂNTICO NEGRO
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
.!
CÂNTICO NEGRO (continuação)
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
-Sei que não vou por aí!
FADO PORTUGUÊS
O fado nasceu num dia
Em que o vento mal bulia
E o céu o mar prolongava,
Na amurada dum veleiro,
No peito de um marinheiro
Que estando triste, cantava.
(- Saudades da terra firme,
Da terra onde o mar acabe,
Da casinha, e das mulheres,
Guitarra, vem assistir-me,
Que a gente é bruto e não sabe,
Expressa-as tu, se souberes...)
Por esse mar além fora,
A guitarra, dim... dom, chora,
Tem pausas, ais e soluços.
E tão bem faz isso à gente,
Que o triste bruto valente
Chora sobre ela de bruços!
(- Mãe, adeus! Adeus, Maria!
Guarda bem no teu sentido
Que aqui te faço uma jura
Que ou te levo à sacristia,
Ou foi Deus que foi servido
Dar-me no mar sepultura!).
FADO PORTUGUÊS (continuação)
Por mar além, chão que treme,
O dim-dom da corda freme
De espanto, angústia, incerteza;
Mas reluz no olhar do triste
Não sei que alto apelo em riste
Contra essa humana fraqueza...
(- Que terra é esta..., este mar
Que só acaba nos céus,
Ou nem lá tem sua fim?...
Ou hei-de-o eu acabar;
Ou hei-de, querendo Deus!,
Ou ele acabar a mim!) .
Casada à trémula corda,
Sobe a voz trémula..., acorda
Tristezas do peito inteiro,
E as sereias que enlevadas
Se agarram às amuradas
Do frágil barco veleiro.
(- Ai que lindeza tamanha,
Meu chão, meu monte, meu vale,
De folhas, flores, frutos de ouro!
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Olhar ceguinho de choro...)
.
FADO PORTUGUÊS (contª)
Deitando o olhar às lonjuras,
Só vê funduras, alturas
Das águas, dos céus, da bruma
E as rijas pomas redondas,
De bico a boiar nas ondas,
Das sereias cor de espuma.
(- Sei eu, sequer, porque venho,
Deixando a jeira de chão
Que ao menos me não fugia,
Atrás de não sei que tenho
Tão dentro do coração
Que inté julguei que existia...?)
E à voz que sobe a tremer,
Morre lá longe..., e ao morrer,
Sobe outra vez, mais se aferra,
Que etéreo coro responde
De vozes que chegam de onde
Não seja nem mar nem terra!
(- Quem canta com voz tão benta
Que ou são-nos anjos nos céus
Ou é demónio a atentar?
Se é demónio, não me atenta,
Que a minh´alma é só de Deus,
O corpo, dou-o eu ao mar...)
FADO PORTUGUÊS (contª)
Na boca do marinheiro
Do frágil barco veleiro,
Morrendo, a canção magoada
Diz o pungir dos desejos
Do lábio a queimar de beijos
Que beija o ar, e mais nada.
(- Mãe, adeus! Adeus, Maria!
Guarda bem no teu sentido
Que aqui te faço uma jura
Que ou te levo à sacristia,
Ou foi Deus que foi servido
Dar-me no mar sepultura!)
Sob o alvor da lua cheia,
Naquela noite, a sereia
Cujo seio mais se enrista
Da aurora até ao sereno
Beijou o corpo moreno
Do moço nauta fadista...
(- Que terra é esta..., este mar
Que só acaba nos céus
Ou nem lá tem sua fim?...
Ou hei-de-o eu acabar;
Ou hei-de, querendo Deus!,
Ou ele acabar a mim!)
FADO PORTUGUÊS (contª)
Nas vias lácteas faiscantes
Que esmigalhado em diamantes
O luar no mar espraia,
Um dim-dom..., dim-dom tremente,
Mais doces queixas de gente,
Vão ter a uma certa praia.
(- Ai que lindeza tamanha,
Meu chão, meu monte, meu vale,
De folhas, flores, frutos de ouro!
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Olhar ceguinho de choro...)
E as mães de filhos ausentes
Acordam batendo os dentes,
Torcendo as mãos, e carpindo,
Sabendo todas que é a morte
Que chega daquela sorte,
No luar funéreo e lindo...
Ora eis que embora, outro dia,
Quando o vento nem bulia
E o céu o mar prolongava,
À proa doutro veleiro,
Velava outro marinheiro
Que estava triste e cantava.
SABEDORIA
Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.
Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.
Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.
Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.
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Cesário Verde
Natural de Caneças, Loures, oriundo de uma família
burguesa abastada. O pai era lavrador e comerciante
(com uma loja de ferragens na baixa lisboeta).
Por essas duas actividades práticas, se repartia a
vida do poeta. e paralelamente, ia alimentando o
seu gosto pela leitura e pela criação literária,
embora longe dos meios literários oficiais .
A partir de 1875 produziu alguns dos seus
melhores poemas: «Num Bairro Moderno» (1877),
«Em Petiz» (1878) e «O Sentimento dum
Ocidental» (1880). Este último foi escrito por
ocasião do 3º centenário da morte de Camões e é,
ainda hoje, um dos textos mais conhecidos do poeta
Em 1884, no poema «Nós», a cidade e o campo
surgem como tema principal neste longo poema
narrativo autobiográfico
Formado dentro dos moldes do realismo literário,
Cesário afirmou-se pela sua oposição ao lirismo
tradicional. Deteve-se em deambulações pela
cidade ou pelo campo, através de processos
impressionistas, de grande sugestividade .
Cesário Verde
1855-86
Num Bairro Moderno
Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.
Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.
E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.
E eu, apesar do sol, examinei-a.
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.
Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais." È muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.
E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.
As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.
Heroísmos
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente,
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
.
Eu e Ela
Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;
Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.
Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.
Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.
.
Em Petiz - De Tarde
Mais morta do que viva, a minha companheira
Nem força teve em si para soltar um grito;
E eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito,
Como um homenzarrão servi-lhe de barreira!
Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas,
Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
E, tetas a abanar, as mães, de largas ancas,
Desciam mais atrás, malhadas e turinas.
Do seio do lugar - casitas com postigos -
Vem-nos o leite. Mas batizam-no primeiro.
Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
Cujo pregão vos tira ao vosso sono, amigos!
Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:
Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos!
E os fartos animais, ao recolher dos pastos,
Roçavam pelo teu "costume de percale".
Já não receias tu essa vaquita preta,
Que eu seguirei, prendi por um chavelho? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!
.
Em Petiz – Irmãozinhos
Pois eu, que no deserto dos caminhos,
Por ti me expunha imenso, contra as vacas;
Eu, que apartava as mansas das velhacas,
Fugia com terror dos pobrezinhos!
Vejo-os no pátio, ainda! Ainda os ouço!
Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
E os cegos que se apóiam sobre o moço.
Ah! Os ceguinhos com a cor dos barros,
Os que a poeira no suor mascarra,
Chegam das feiras a tocar guitarra,
Rolam os olhos como dois escarros!
E os pobres metem medo! Os de marmita,
Para forrar, por ano, alguns patacos,
Entrapam-se nas mantas com buracos,
Choramingando, a voz rachada, aflita.
Outros pedincham pelas cinco chagas;
E no poial, tirando as ligaduras,
Mostram as pernas pútridas, maduras,
Com que se arrastam pelas azinhagas!
Querem viver! E picam-se nos cardos;
Correm as vilas; sobem os outeiros;
E às horas de calor, nos esterqueiros,
De roda deles zumbem os moscardos.
Aos sábados, os monstros, que eu lamento,
Batiam ao portão com seus cajados;
E um aleijado com os pés quadrados,
Pedia-nos de cima de um jumento.
O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
AVÉ-MARIAS
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
AVÉE-MARIAS (continuação)
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
DE TARDE
Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
VAIDOSA
Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio..
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Bocage
(Manuel Maria Barbosa
du)
Bocage
Poeta, possivelmente, o maior representante do
arcadismo lusitano (aderiu à Nova Arcádia em
1790 com o pseudónimo de Elmano Sadino).
.
Estudou os clássicos e as mitologias grega e
latina, estudou francês e latim .
Fez estudos na Escola da Marinha Real, sendo
nomeado guarda-marinha por D. Maria I..
Em 1786, foi como oficial de marinha para a
Índia, tendo desertado em 1789
A década seguinte é a da sua maior produção
literária e também o período de maior boémia e
vida de aventuras.
Foi preso 1 ano por ordem do Intendente Pina
Manique por ser “desordenado nos costumes”
Bocage cultivou diversos géneros poéticos,
como o soneto, a sátira, a ode, a canção, o
epigrama e a alegoria, seu talento evidenciou-
se de forma bem diferenciada em cada um
deles
ue cedo Entre os braços de Nise, entre estas flores, Furtivas glórias, tácitos favores, Hei-de enfim possuir: porém segredo! Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Setúbal, 1765 – Lisboa, 1805
Já Bocage não sou!... À cova escura
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!.
Proposição das rimas do poeta
Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.!
O autor aos seus versos
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:
Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.
A Camões, comparando com os dele
os seus próprios infortúnios
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co’o sacrílego gigante:
Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:
Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:
Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.
Retrato próprio
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!
Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:
Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!
Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.
A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro
Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;
Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:
Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e c'roa
A malfadada Inês na sepultura.!
Esperança Amorosa
Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz! --- Longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.
Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores,
Hei-de enfim possuir: porém segredo!
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Não leveis, não façais isto patente,
Quem nem quero que o saiba o pai dos numes:
Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque, se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente..
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Almeida Garrett
1799 Porto - 1854 Lisboa
João Baptista da Silva Leitão de Almeida
Garrett mais tarde 1.º Visconde de Almeida
Garrett,
foi um escritor e dramaturgo, uma das figuras
maiores do romantismo português .
Participou na revolução liberal em 1820, esteve
exilado em Inglaterra em 1823, onde tomou
contacto com o movimento romântico inglês.
Tomou parte no Desembarque dos Liberais no
Mindelo e Cerco do Porto em 1832-33,
exercendo depois cargos políticos
Em 1838 publica Um Auto de Gil Vicente, em
1841 O Alfageme de Santarém, em 1843 o
drama Frei Luis de Sousa, em 1845 os romances
Arco de Santana e Viagens na minha Terra
Nos últimos 10 anos, criou as suas melhores
obras poéticas, “Flores sem fruto” (1845) e
“Folhas Caídas” (1853).
Faleceu de cancro em 1854. em Lisboa.
Este inferno de amar
Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que d'antes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tam serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei
Almeida Garret
.
Barca bela
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
.
Não és tu
Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.
Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.
Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração
Almeida Garret
.
.
Não és tu (continuação)
Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.
Mas não és tu...ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.
Almeida Garret
Nau Catrineta
Lá vem a Nau Catrineta Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores, Uma história de pasmar.
Passava mais de ano e dia Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer, Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija, Que a não puderam tragar.
Deitaram sortes à ventura Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte No capitão general.
- "Sobe, sobe, marujinho, Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha, As praias de Portugal!"
- "Não vejo terras de Espanha, Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas Que estão para te matar."
- "Acima, acima, gageiro, Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha, Areias de Portugal!"
- "Alvíssaras, capitão, Meu capitão general!
Já vejo terras de Espanha, Areias de Portugal!"
Mais enxergo três meninas, Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser, Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas Está no meio a chorar.“
Almeida Garret
-
Nau Catrineta (continuação)
“
Todas três são minhas filhas, Oh!quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas Contigo a hei-de casar."
- "A vossa filha não quero, Que vos custou a criar.”
- "Dar-te-ei tanto dinheiro Que o não possas contar."
- "Não quero o vosso dinheiro Pois vos custou a ganhar.”
- Dou-te o meu cavalo branco, Que nunca houve outro
igual .”
- "Guardai o vosso cavalo, Que vos custou a ensinar.”
- "Dar-te-ei a Catrineta, Para nela navegar."
- "Não quero a Nau Catrineta, Que a não sei governar.”
- Que queres tu, meu gageiro, Que alvíssaras te hei-de dar?"
- "Capitão, quero a tua alma, Para comigo a levar!"
- "Renego de ti, demónio, Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus; O corpo dou eu ao mar."
Tomou-o um anjo nos braços, Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio, Acalmaram vento e mar;
E à noite a Nau Catrineta Estava em terra a varar.
Almeida Garret
Contemporâneos
Vitorino Nemésio (1901-78)
Poeta de origem açoreana e romancista (Mau Tempo no
Canal), professor da Faculdade de Letras em Lisboa
Escreveu poesia de forma ininterrupta desde 1918 (Canto
Matinal) a 1976 (Era do Átomo Crise do Homem)
Teve na RTP o conhecido programa Se Bem me Lembro
António Gedeão (1906-97)
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, sob o pseudónimo
de António Gedeão, professor de Físico-Química, poeta.
Pedra Filosofal e Lágrima de Preta
são dois dos seus mais célebres poemas
Ary dos Santos (1937-84)
José Carlos Ary dos Santos, em 1969
inicia a sua atividade política e participa nas sessões
intituladas de poesia do "canto livre”
Foi autor de mais de 600 poemas para canções
Seus poemas Desfolhada e Tourada obtiveram os 1ºs
prémios no Festival da Canção (RTP)
.
Contemporâneos
Sophia de Mello Breyner (1919-2004)
Foi a 1ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões
em 1999 (o mais importante da Língua Portuguesa),
e em 2003 teve em Espanha o Prémio Rainha Sofia.
Além da poesia, distinguiu-se no conto e em
livros infantis
Manuel Alegre (1936, Águeda)
Fez os estudos secundários no Porto e em 1956 entrou
na Fac. de Direito(Coimbra) onde inicia o percurso
político de oposição à Ditadura.
Em 1964 passou à clandestinidade em Paris e Argel e
saem os seus livros Praça da Canção e O Canto e as
Armas. Poemas seus são cantados
por Amália, Zeca Afonso e muitos outros .
Eugénio de Andrade (1923-2005)
José Fontinha, com pseudónimo de Eugénio d?Andrade,
inicia sua obra poética,com Adolescente(1942) e As
Mãos e os Frutos (1948) até 2003 com Os Sulcos da
Sede. A sua poesia essencialmente lírica, dá importância
à palavra, em poemas curtos às vezes, mas densos
Recebeu o Prémio Camões em 2001 e muitos outros,.
Já não Escreverei Romances
Já não escreverei romances
Nem contos da fada e o rei.
Vão-se-me todas as chances
De grande escritor. Parei.
Mas na chispa do verso,
Com Marga a aquecer-me,
Já não serei disperso
Nem poderei perder-me.
Tudo nela é verbo e vida;
Xale, cílio, tosse, joelho,
Tudo respinga e acalma.
Passo, óculos, nada é velho:
Quase corpo, menos que alma.
Já não lavrarei novelas,
Ultrapassado de ficto:
A vida dá-me janelas
A toda a extensão do dicto.
Mas sem elas, mas sem elas
(As suas mãos) fico aflito.
Vitorino Nemésio
Tenho uma Saudade tão Braba
Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.
Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.
Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio d’ um Padre Nosso.
Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, qu’ ainda canta.
Vitorino Nemésio .
Pedra filosofal
Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida
tão concreta e definida como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos, que em oiro se agitam,
como estas aves que gritam em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho é vinho,é espuma,é fermento,
bichinho alacre e sedento, de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral, contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia, que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante, rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista, que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim, florete de espadachim,
bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim,
passarola voadora, pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva, alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar, ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão na superfície lunar.
Eles não sabem,nem sonham,que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança
como bola colorida entre as mãos de uma criança.
Gedeão
Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio..
Gedeão
Cavalo à Solta
Minha laranja amarga e doce meu poema
feito de gomos de saudade minha pena
pesada e leve secreta e pura
minha passagem para o breve, breve instante da loucura
Minha ousadia meu galope
minha rédea meu potro doido
minha chama minha réstia
de luz intensa de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa
Em ti respiro em ti eu provo
por ti consigo esta força que de novo
em ti persigo em ti percorro
cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
Por isso digo canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo
Meu desafio minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura
Ary dos Santos
.
Poeta castrado, não!
Serei tudo o que disserem por inveja ou negação
: cabeçudo dromedário fogueira de exibição
teorema corolário poema de mão em mão
lãzudo publicitário malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não!
Os que entendem como eu as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse sempre que faço um poema;
saudade que se partisse me alagaria de pena;
e também uma alegria uma coragem serena
em renegar a poesia quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu a força que tem um verso
reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história - a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem por temor ou negação:
Demagogo mau profeta falso médico ladrão
prostituta proxeneta espoleta televisão .
Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não .!
Ary dos Santos
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Poque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Cesário Verde
Quis dizer o mais claro e o mais corrente
Em fala chã e em lúcida esquadria
Ser e dizer na justa luz do dia
Falar claro falar limpo falar rente
Porém nas roucas ruas da cidade
A nítida pupila se alucina
Cães se miram no vidro de retina
E ele vai naufragando como um barco
Amou vinhas e searas e campinas
Horizontes honestos e lavados
Mas bebeu a cidade a longos tragos
Deambulou por praças por esquinas
Fugiu da peste e da melancolia
Livre se quis e não servo dos fados
Diurno se quis - porém a luzidia
Noite assombrou os olhos dilatados
Reflectindo o tremor da luz nas margens
Entre ruelas vê-se ao fundo o rio
Ele o viu com seus olhos de navio
Atentos à surpresa das imagens .
Sophia de Mello Breyner Andresen
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca
Eugénio d’Andrade
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconheciao
teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Poema XVIII
Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.
Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.
Eugénio d’Andrade
Trova do vento que passa
Pergunto ao vento que passa notícias do meu país
e o vento cala a desgraça o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas que morro por meu país..
. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar!
Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade aqueles pra quem eu escrevo. Mas
há sempre uma candeia dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não
. Manuel Alegre
E alegre se fez triste
Aquela clara madrugada
que viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
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que fez tão triste a clara madrugada.
Manuel Alegre
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Uma viagem por 800 anos da Poesia Portuguesa

  • 1. Acende a luz, faz clic no botão
  • 2. CONTIENE MUSICA DE FONDO Agora acende a lareira fazendo clic no botão
  • 3. Luiz de Camões Sá de Miranda Bernardim Ribeiro Poesia Trovadoresca Florbela Espanca Fernando Pessoa José Régio Cesário Verde para ler os poemas escolhe a estante do autor e faz clic Bocage Almeida Garret Contemporâneos Sair
  • 4. Luis de Camões Lisboa 1524-1580 Nasceu em 1524/5, em Lisboa ou em Coimbra, filho de Simão Vaz de Camões e D. Ana de Sá e Macedo, familia nobre. A sua formação académica decorreu em Coimbra, onde o seu tio D. Bento de Camões era Chanceler da Universidade É apontado como sujeito folgado e briguento e ganha a alcunha de Trinca-Fortes Em 1542 apaixona-se por Dona Caterina de Ataíde, dama da corte, imortalizada na sua lírica sob o anagrama de Natércia As suas desavenças e amores dão origem ao seu desterro, em 1545 para Constancia do Ribatejo até embarcar em 1547 para Ceuta onde perde o olho direito Volta a Lisboa e após uma rixa no Rossio, é preso e desterrado em 1553 para a India. Esteve em Macau, onde numa gruta, refúgio, passa horas a escrever Os Lusíadas. Naufraga em 1560 na foz do rio Mecong Em 1567 segue para Moçambique e em 1570 regressa a Lisboa, saindo em 1572 a 1ª edição de Os Lusíadas. Em 10.6.1580 morre em Lisboa
  • 5. Bárbara Endechas a üa cativa com quem andava de amores na Índia. Aquela cativa, que me tem cativo, porque nela vivo, já não quer que viva. Eu nunca vi rosa, em suaves molhos, que para meus olhos, fosse mais fermosa. Nem no campo flores, nem no céu estrelas, me parecem belas, como os meus amores. Rosto singular, olhos sossegados, pretos e cansados, mas não de matar. Üa graça viva, que neles lhe mora, para ser senhora, de quem é cativa... Pretos os cabelos,Onde o povo vão Perde opinião,Que os louros são belos. ..Esta é a cativa, que me tem cativo. E pois nela vivo, é força que viva. Redondilha menor Menina dos olhos verdes Eles verdes são, E têm por usança Na cor, esperança, E nas obras não Vossa condição Não é d' olhos verdes, Porque me não vedes. Havia de ser, Por que possa vê-los, Que uns olhos tão belos Não se hão-de esconder; Mas fazeis-me crer Que já não são verdes, Porque me não vedes Verdes não o são No que alcanço deles; Verdes são aqueles Que esperança dão. Se na condição Está serem verdes Porque me não vedes?
  • 6. Vilancete de 7 sílabas Descalça vai para a fonte Lianor pela verdura; Vai fermosa, e não segura Leva na cabeça o pote O testo nas mãos de prata Cinta de fina escarlata, Sainho de chamelote; Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura. Vai fermosa e não segura. Descobre a touca a garganta, Cabelos de ouro entrançado Fita de cor de encarnado, Tão linda que o mundo espanta Chove nela graça tanta Que dá graça à fermosura. Vai fermosa e não segura. Redondilha de 5 silabas: Verdes são os campos De cor de limão: Assim são os olhos Do meu coração. Campo,que te estendes Com verdura bela Ovelhas,que nela Vosso pasto tendes De ervas vos mantendes Que traz o Verão E eu das lembranças Do meu coração. Gados que pasceis Com contentamento Vosso mantimento Não no entendereis Isso que comeis Não são ervas, não São graças dos olhos Do meu coração
  • 7. Soneto Amor é fogo que arde sem se ver é ferida que dói e não se sente é um contentamento descontente é dor que desatina sem doer É um não querer mais que bem querer é andar solitário entre a gente é nunca contentar-se de contente é cuidar que se ganha em se perder É querer estar preso por vontade é servir a quem vence, o vencedor é ter com quem nos mata lealdade Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade se tão contrário a si é o mesmo amor Soneto Erros meus, má fortuna,amor ardente em minha perdição se conjuraram os erros e a fortuna sobejaram que pera mim bastava o amor somente Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram Que as magoadas iras me ensinaram A não querer já nunca ser contente Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa [a] que a Fortuna castigasse, As minhas mal fundadas esperanças. De amor não vi senão breves enganos. Oh! quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Génio de vinganças!
  • 8. Soneto Alma minha gentil que te partiste. Tão cedo desta vida, descontente Repousa lá no Céu eternamente E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo,onde subiste Memória desta vida se consente Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste E se vires que pode merecer-te Algu~a cousa a dor que me ficou Da mágoa, sem remédio, de perder-te Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou Soneto O dia em que nasci moura e pereça Não o queira jamais o tempo dar Não torne mais ao Mundo, e, se tornar Eclipse nesse passo o Sol padeça. A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça, Mostre o Mundo sinais de se acabar, Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, A mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas, de ignorantes As lágrimas no rosto, a cor perdida Cuidem que o mundo já se destruiu . Ó gente temerosa, não te espantes, Que este dia deitou ao Mundo a vida Mais desgraçada que jamais se viu!
  • 9. Soneto Ah, minha Dinamene, assi deixaste quem não deixara nunca de querer-te! Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te tão asinha esta vida desprezaste! Como já para sempre te apartaste de quem tão longe estava de perder-te? Puderam estas ondas defender-te que não visses quem tanto magoaste? Nem falar-te somente a dura morte me deixou, que tão cedo o negro manto em teus olhos deitado consentiste! Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte! Que pena sentirei, que valha tanto, que ainda tenho por pouco o viver triste Soneto Mudam-se os tempos,mudam-se as vontades Muda-se o ser, muda-se a confiança Todo o mundo é composto de mudança Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades Diferentes em tudo da esperança Do mal ficam as mágoas na lembrança E do bem,se algum houve, as saudades O tempo cobre o chão de verde manto Que já coberto foi de neve fria E em mim converte em choro o doce canto . E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía.
  • 10. Soneto Transforma-se o amador na cousa amada por virtude do muito imaginar Não tenho logo mais que desejar Pois em mim tenho a parte desejada Se nela está minha alma transformada Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si sómente pode descansar Pois consigo tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que, como o acidente em seu sujeito, Assim co'a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; [E] o vivo e puro amor de que sou feito, Como matéria simples busca a forma. Soneto Busque Amor novas artes, novo engenho Pera matar-me, e novas esquivanças, Que não pode tirar-me as esperanças, Que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, Andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas, enquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê, Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como e dói não sei porquê.
  • 11. Soneto Aquela triste e leda madrugada Cheia toda de mágoa e de piedade Enquanto houver no mundo saudade Quero que seja sempre celebrada Ela só, quando amena e marchetada Saía, dando ao mundo claridade Viu apartar-se dúa outra vontade Que nunca poderá ver-se apartada. Ela só viu as lágrimas em fio Que de uns e de outros olhos derivadas Se acrescentaram em grande e largo rio. Ela ouviu as palavras magoadas Que puderam tornar o fogo frio E dar descanso às almas condenadas. Soneto Sete anos de pastor Jacó servia /Labão, pai de Raquel, semana bela Mas não servia ao pai, servia a ela, Que a ela só por prêmio pretendia. E os dias na esperança de um sò dia Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela Em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos, Lhe fora assim negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida; Começa de servir outros sete anos, Dizendo:- mais servira, se não fora Para do longo amor tão curta a vida.
  • 12. Os Lusíadas Canto 1 Proposição As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimara -E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte Canto 1 Proposição Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta Que outro valor mais alto se alevanta Invocação E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene.
  • 13. Os Lusíadas Canto 1 Invocação Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso Dedicatória E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus,que todo o mande Para do mundo a Deus dar parte grande; Canto 1 Dedicatória Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio;
  • 14. . Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.. Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte . Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas Que excedem as sonhadas, fabulosas, Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro E Orlando, inda que fora verdadeiro. Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. .. Canto 1 Grandes Feitos dos Portugueses Canto 1 Grandes Feitos dos Portugueses
  • 15. Eu cantarei de amor tão docemente, Por uns termos em si tão concertados, Que dois mil acidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente. Farei que amor a todos avivente, Pintando mil segredos delicados, Brandas iras, suspiros magoados, Temerosa ousadia e pena ausente. Também, Senhora, do desprezo honesto De vossa vista branda e rigorosa, Contentar-me-ei dizendo a menor parte. Porém, pera cantar de vosso gesto A composição alta e milagrosa Aqui falta saber, engenho e arte. Perdigão perdeu a pena Não há mal que lhe não venha. Perdigão que o pensamento Subiu a um alto lugar, Perde a pena do voar, Ganha a pena do tormento. Não tem no ar nem no vento Asas com que se sustenha: Não há mal que lhe não venha. Quis voar a u~a alta torre, Mas achou-se desasado; E, vendo-se depenado, De puro penado morre. Se a queixumes se socorre, Lança no fogo mais lenha: Não há mal que lhe não venha.  Voltar à biblioteca Soneto Redondilha maior
  • 16. Sá de Miranda (1481- 1558) Sá de Miranda Com o grau de doutor em Direito na Universidade de Lisboa. Em Itália (1521-26) contactou os poetas do Renascimento italiano Introduz em Portugal o soneto e os versos decassilabos -------------------------------------------- Bernardim Ribeiro Prosador (Menina e Moça) e poeta renascentista, Foi precursor do bucolismo e introduz a sextina na nossa Lingua .. -------------------------------------- Bernardim Ribeiro (1482-1552)
  • 17. Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho, e vejo o que não vi nunca, nem cri que houvesse cá, recolhe-se a alma a si e vou tresvaliando, como em sonho. Isto passado, quando me desponho, e me quero afirmar se foi assi, pasmado e duvidoso do que vi, m'espanto às vezes, outras m'avergonho. Que, tornando ante vós, senhora, tal, Quando m'era mister tant' outr' ajuda, de que me valerei, se alma não val? Esperando por ela que me acuda, e não me acode, e está cuidando em al, afronta o coração, a língua é muda. Sá de Miranda. O sol é grande, caem co'a calma as aves, do tempo em tal sazão, que soe ser fria; esta água que d'alto cai acordar-me-ia do sono não, mas de cuidados graves. Ó cousas, todas vãs, todas mudaves, qual é tal coração qu'em vós confia? Passam os tempos, vai dia trás dia, incertos muito mais que ao vento as naves. Eu vira já aqui sombras, vira flores, vi tantas águas, vi tanta verdura, as aves todas cantavam d'amores. Tudo é seco e mudo; e, de mestura, também mudando-m'eu fiz doutras cores: e tudo o mais renova, isto é sem cura! Sá de Miranda
  • 18. Menina fermosa, que nos meus olhos andais, dizei porque mos quebrais. Em vos vendo, vo-los dei: logo vos passastes i; nunca mais olhos abri, nunca mais olhos çarrei. Vós lhe sois regra, vós lei: não fazem menos nem mais daquilo que lhes mandais. Em pago desta verdade, que estranhais porque não se usa, quebrais-mos… A alma confusa não sabe quebrar vontade. Menina, contra a idade, contra todos os sinais, cruel sois cada vez mais. Tomais vingança da fé que sempre convosco tive, ou de quê? da alma que vive por vós, onde quer que esté? Dizei, menina, porqu'é? Tam vossos olhos quebrais? Não vo-los referto mais! Sá de Miranda Comigo me desavim, Vejo-me em grande perigo; Não posso viver comigo, Não posso fugir de mim. Antes que este mal tivesse, Da outra gente fugia. Agora já fugiria De mim se de mim pudesse. Que cabo espero ou que fim, Deste cuidado que sigo, Pois trago a mim comigo, Tamanho imigo de mim. ------------------------------------------------ Antre tremor e desejo, Vã espernça e vã dor, Antre amor e desamor, Meu triste coração vejo. . Nestes extremos cativo Ando sem fazer mudança, E já vivi d'esperança E agora vivo de choro vivo. Contra mi mesmo pelejo, Vem d'ua dor outra dor E d'um desejo maior Nasce outro mor desejo. Sá de Miranda
  • 19. . Aquela fé tão clara e verdadeira, A vontade tão limpa e tão sem mágoa, Tantas vezes provada em viva frágua De fogo, i apurada, e sempre inteira; . Aquela confiança, de maneira Que encheu de fogo o peito, os olhos de água, Por que eu ledo passei por tanta mágoa, Culpa primeira minha e derradeira, . De que me aproveitou? Não de al por certo Que dum só nome tão leve e tão vão, Custoso ao rosto, tão custoso à vida. . Dei de mim que falar ao longe e ao perto; E já assi se consola a alma perdida, Se não achar piedade, ache perdão. Sá de Miranda Dezarrezoado amor, dentro em meu peito tem guerra com a razão. Amor, que jaz i já de muitos dias, manda e faz tudo o que quer, a torto e a direito. Não espera razões, tudo é despeito, tudo soberba e força, faz, desfaz, sem respeito nenhum, e quando em paz cuidais que sois, então tudo é desfeito. Doutra parte a razão tempos espia, espia ocasiões de tarde em tarde, que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia. Então não tem lugar certo onde aguarde amor; trata treições, que não confia nem dos seus. Que farei quando tudo arde? Sá de Miranda
  • 20. Sextina Ontem pôs-se o sol, e a noute cobriu de sombra esta terra. Agora é já outro dia, tudo torna, torna o sol; só foi a minha vontade, para não tornar c’o tempo! Tôdalas cousas, per tempo, passam, como dia e noute; ũa só, minha vontade, não, que a dor comigo a aterra; nela cuido em quanto há sol, nela enquanto não há dia. Mal quero per um só dia a todo outro dia e tempo, que a mim pôs-se-me o sol onde eu só temia a noute; tenho a mim sôbre a terra, debaxo minha vontade. Dentro na minha vontade não há momento do dia que não seja tudo terra; ora ponho a culpa ao tempo, ora a torno a pôr à noute: no milhor pon-se-me o sol! Haver de ser tudo terra quanto há debaixo do sol me descansa, porque o tempo me vingará da vontade; se não que antes dêste dia há-de passar tanta noute! Bernardim Ribeiro (da Écloga de Jano e Franco) Dentro de meu pensamento há tanta contrariedade. que sento contra o que sento vontade e contra vontade. Estou em tanto desvairo. que não me entendo comigo. Donde esperarei repairo? que vejo grande o perigo e muito mor o contrairo. Quem me trouxe a esta terra alheia, onde guardada me estava tamanha guerra. e a esperança levada? Comigo me estou espantando como em tão pouco me dei; mas cuidando nisto estando. os olhos com que outrem olhei de mim se estavam vingando.” Bernardim Ribeiro .  Voltar à biblioteca
  • 21. POESIA TROVADORESCA Séc. XII-XIII . Poesia trovadoresca, ou galaico-portuguesa, Subdividia-se em 3 categorias: Cantigas de amigo, exclusivamente ibéricas (uma mulher canta acerca do seu amigo, amor), Cantigas de amor (um homem canta o seu amor) Cantigas de escárnio e maldizer (o trovador diz mal de alguém numa alusão irónica velada, mais tarde há um insulto directo) Os Jograis épicos com suas Canções de Gesta: Em Portugal o ciclo épico sobre D.Afonso Henriques traduzido em Crónicas dos séc XIV e XV --- em Castela houvera o Cantar de Mio Cid c.1200 ---em França, a Chanson de Roland no séc XI
  • 22. Cantiga de Amigo "Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! ai Deus, e u é? Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado! ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs comigo! ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do que mi há jurado! ai Deus, e u é?“ autoria do rei D.Diniz Nota: e u é? (e onde está?) Cantiga de amigo Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo! E ai Deus, se verrá cedo! Ondas do mar levado, se vistes meu amado! E ai Deus, se verrá cedo! Se vistes meu amigo, o por que eu sospiro! E ai Deus, se verrá cedo! Se vistes meu amado, por que hei gran cuidado! E ai Deus, se verrá cedo! Martin Codax
  • 23. Cantiga de Amigo Madre velida, meu amigo vi, non lhi falei e con el me perdí: e moir'[o] agora, querendo-lhi ben; non lhi falei, ca o tiv'en desdén; moiro eu, madre, querendo-lhi ben. Se lh'eu fiz torto, lazerar-mi-o-ei con gran dereito, ca lhi non falei: e moir'[o] agora, querendo-lhi ben; non lhi falei, ca o tiv'en desdén; moiro eu, madre, querendo-lhi ben. Madre velida, ide-lhi dizer que faça ben e me venha veer: e moir'[o] agora, querendo-lhi ben; non lhi falei, ca o tiv'en desdén; moiro eu, madre, querendo-lhi ben. Airas Carpancho (jogral galego- séc. XIII) Nota: velida (formosa) ; ca (porque); lazerar (lastimar) Cantiga de amor A dona que eu am'e tenho por Senhor amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for, se non dade-me-a morte. A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus e porque choran sempr’ amostrade-me-a Deus se non dade-me-a morte. Essa que Vós fezestes melhor parecer de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer, se non dade-me-a morte. A Deus, que me-a fizestes mais amar, mostrade-me-a algo possa con ela falar, se non dade-me-a morte. (de Bernal de Bonaval )
  • 24. Cantiga de amor Quer'eu em maneira de provençal fazer agora un cantar d'amor, e querrei muit'i loar mia senhor a que prez nen fremusura non fal, nen bondade; e mais vos direi en: tanto a fez Deus comprida de ben que mais que todas las do mundo val. Ca mia senhor quiso Deus fazer tal, quando a faz, que a fez sabedor de todo ben e de mui gran valor, e con todo est'é mui comunal ali u deve; er deu-lhi bon sen, e des i non lhi fez pouco de ben, quando non quis que lh'outra foss'igual. Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal, mais pôs i prez e beldad'e loor e falar mui ben, e riir melhor que outra molher; des i é leal muit', e por esto non sei oj'eu quen possa compridamente no seu ben falar, ca non á, tra-lo seu ben, al. El-Rei D. Dinis, Cantiga de escárnio "Ai dona fea! Foste-vos queixar Que vos nunca louv'en meu trobar Mais ora quero fazer un cantar En que vos loarei toda via; E vedes como vos quero loar: Dona fea, velha e sandia! Ai dona fea! Se Deus mi pardon! E pois havedes tan gran coraçon Que vos eu loe en esta razon, Vos quero já loar toda via; E vedes qual será a loaçon: Dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei En meu trobar, pero muito trobei; Mais ora já en bom cantar farei En que vos loarei toda via; E direi-vos como vos loarei: Dona fea, velha e sandia!" Pero Garcia Burgalês,  Voltar à biblioteca
  • 25. Florbela Espanca 1894-1930 Florbela Espanca Poetisa portuguesa.de nome Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, nasceu em Vila Viçosa em 1894 Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso secundário, onde lia obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Garrett. Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. Em Janeiro de 1923 é publicada a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade Em fins de1930 dá-se a publicação da sua obra-prima Charneca em Flor. Morre a 8 de Dezembro de 1930 em Matozinhos por sobredose de barbitúricos .
  • 26. Ser Poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens!Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Áquem e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!. Perdi os Meus Fantásticos Castelos Perdi meus fantásticos castelos Como névoa distante que se esfuma... Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: Quebrei as minhas lanças uma a uma! Perdi minhas galeras entre os gelos Que se afundaram sobre um mar de bruma... - Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! Perdi a minha taça, o meu anel, A minha cota de aço, o meu corcel, Perdi meu elmo de ouro e pedrarias... Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... Sobre o meu coração pesam montanhas... Olho assombrada as minhas mãos vazias... .
  • 27. Versos Versos! Versos! Sei lá o que são versos... Pedaços de sorriso, branca espuma, Gargalhadas de luz, cantos dispersos, Ou pétalas que caem uma a uma... Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar, Um verso é o teu sorriso e os de Dante Eram o teu amor a soluçar Aos pés da sua estremecida amante! Meus versos!... Sei eu lá também que são... Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração Partido em mil pedaços são talvez... Versos! Versos! Sei lá o que são versos... Meus soluços de dor que andam dispersos Por este grande amor em que não crês... O Maior Bem Este querer-te bem sem me quereres, Este sofrer por ti constantemente, Andar atrás de ti sem tu me veres Faria piedade a toda a gente. Mesmo a beijar-me a tua boca mente... Quantos sangrentos beijos de mulheres Pousa na minha a tua boca ardente, E quanto engano nos seus vãos dizeres!... Mas que me importa a mim que me não queiras Se esta pena, esta dor, estas canseiras, Este mísero pungir, árduo e profundo, Do teu frio desamor, dos teus desdéns, É, na vida, o mais alto dos meus bens? É tudo quanto eu tenho neste mundo? -.”
  • 28. Os versos que te fiz Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem pra te dizer! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim pra te oferecer. Têm dolência de veludos caros, São como sedas pálidas a arder... Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer! Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda... Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz! Amo-te tanto! E nunca te beijei... E nesse beijo, Amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz! Se tu viesses ver-me... Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços... Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti....  Voltar à biblioteca
  • 29. Fernando Pessoa (Lisboa 1888-1935 Fernando António Nogueira Pessoa Nasceu em 1888 em Lisboa. Aos 6 anos foi para a África do Sul, em virtude do 2º casamento de sua mãe com o cônsul em Durban. Aí foi educado, aprendeu o inglês, língua em que escreveu poesia e prosa desde a adolescência. Regressou a Lisboa aos 17 anos. Ao longo da vida trabalhou em firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa. Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, tradutor, publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária em verso e em prosa. É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades –os heterónimos, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares No seu percurso intelectual há sobretudo o relato de uma grande viagem de descoberta, crendo que todos os caminhos são verdadeiros e que o que é preciso é navegar (no mundo das ideias) .
  • 30. . Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas. A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas. Álvaro de Campos Poesias Inéditas A NOVELA inacabada, Que o meu sonho completou, Não era de rei ou fada Mas era de quem não sou. Para além do que dizia Dizia eu quem não era... A primavera floria Sem que houvesse primavera. Lenda do sonho que vivo, Perdida por a salvar... Mas quem me arrancou o livro Que eu quis ter sem acabar? -------------------------------------------- A Ciência A CIÊNCIA, a ciência, a ciência... Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência Ante a riqueza da emoção! Aquela mulher que trabalha Como uma santa em sacrifício, Com tanto esforço dado a ralha! Contra o pensar, que é o meu vício! A ciência! Como é pobre e nada! Rico é o que alma dá e tem.
  • 31. Cancioneiro Ao longe, ao luar, No rio uma vela, Serena a passar, Que é que me revela ? Não sei, mas meu ser Tornou-se-me estranho, E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho. Que angústia me enlaça ? Que amor não se explica ? É a vela que passa Na noite que fica. ---------------------------------------- AMEAÇOU CHUVA. E a negra Nuvem passou sem mais... Todo o meu ser se alegra Em alegrias iguais. Nuvem que passa... Céu Que fica e nada diz... Vazio azul sem véu Sobre a terra feliz... E a terra é verde, verde... Por que então minha vista Por meus sonhos se perde? De que é que a minha alma dista? Não Sei Quantas Almas Tenho Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que sogue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: “Fui eu?” Deus sabe, porque o escreveu
  • 32. O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração. ¡Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Somos do tamanho de nossos sonhos Sim, sei bem Que nunca serei alguém. Sei de sobra Que nunca terei uma obra. Sei, enfim, Que nunca saberei de mim. Sim, mas agora, Enquanto dura esta hora, Este luar, estes ramos, Esta paz em que estamos, Deixem-me crer O que nunca poderei ser.
  • 33. Cancioneiro Ó sino da minha aldeia Ó sino da minha aldeia dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma... E é tão lento o teu soar, tão como triste da vida, que já a primeira pancada tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto, quando passo, sempre errante, és para mim como um sonho, soas-me na alma distante. A cada pancada tua, vibrante no céu aberto, sinto o passado mais longe, sinto a saudade mais perto... Cancioneiro Dorme enquanto eu velo... Deixa-me sonhar... Nada em mim é risonho. Quero-te para sonho, Não para te amar. A tua carne calma É fria em meu querer. Os meus desejos são cansaços. Nem quero ter nos braços Meu sonho do teu ser. Dorme, dorme. dorme, Vaga em teu sorrir... Sonho-te tão atento Que o sonho é encantamento E eu sonho sem sentir.
  • 34. Cancioneiro Ao longe, ao luar, No rio uma vela Serena a passar, Que é que me revela? Não sei, mas meu ser Tornou-se-me estranho, E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho . Que angústia me enlaça? Que amor não se explica? É a vela que passa Na noite que fica. Não: não digas nada! Supor o que dirá A tua boca velada É ouvi-lo já É ouvi-lo melhor Do que o dirias. O que és não vem à flor Das frases e dos dias. És melhor do que tu. Não digas nada: sê! Graça do corpo nu Que invisível se vê. ---------------------------------------- O amor, quando se revela, não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente. Cala: parece esquecer. Ah, mas se ela adivinhasse, se pudesse ouvir o olhar, e se um olhar lhe bastasse pra saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; quem quer dizer quanto sente fica sem alma nem fala, fica só, inteiramente!
  • 35. Cancioneiro Entre o sono e sonho, Entre mim e o que em mim É o quem eu me suponho Corre um rio sem fim. Passou por outras margens, Diversas mais além, Naquelas várias viagens Que todo o rio tem. Chegou onde hoje habito A casa que hoje sou. Passa, se eu me medito; Se desperto, passou. E quem me sinto e morre No que me liga a mim Dorme onde o rio corre - Esse rio sem fim. Cancioneiro Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Qual porém é a verdadeira E qual errada, ninguém Nos saberá explicar; E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar. ..
  • 36. Cancioneiro Grandes mistérios habitam O limiar do meu ser, O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. São aves cheias de abismo, Como nos sonhos as há. Hesito se sondo e cismo, E à minha alma é cataclismo O limiar onde está. Então desperto do sonho E sou alegre da luz, Inda que em dia tristonho; Porque o limiar é medonho E todo passo é uma cruz. Liberdade Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer! Ler é maçada, estudar é nada. O sol doira sem literatura. O rio corre bem ou mal, sem edição original. E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal como tem tempo, não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto melhor é quando há bruma. Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol que peca Só quando, em vez de criar, seca. E mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças, Nem consta que tivesse biblioteca...
  • 37. Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é Atento ao que eu sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem, Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que segue prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: "Fui eu"? Deus sabe, porque o escreveu. Eu amo tudo o que foi Tudo o que já não é A dor que já não me dói A antiga e errônea fé O ontem que a dor deixou O que deixou alegria Só porque foi, e voou E hoje é já outro dia. --- * --- Hoje de manhã saí muito cedo, Por ter acordado ainda mais cedo E não ter nada que quisesse fazer... Não sabia que caminho tomar Mas o vento soprava forte, varria para um lado, E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas. Assim tem sido sempre a minha vida, e Assim quero que possa ser sempre – Vou onde o vento me leva e não me Sinto pensar. Alberto Caeiro
  • 38. Mensagem . 1ª PARTE – BRASÃO (19 poemas) Pessoa, percorre as peças e figuras de um brasão real do séc XV, associando a cada, uma personalidade da nossa história. 2ª PARTE – MAR PORTUGUÊS Aborda a Idade das Descobertas 3ª PARTE – O ENCOBERTO Trata do advento do Quinto Império do Mundo, que será liderado por um português - O Encoberto, o Rei ou D.Sebastião, como é indistintamente chamado. Mensagem. 2ª Parte I-O Infante Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!
  • 39. Mensagem. 2ª Parte: X-Mar Português Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Mensagem. 3ª Parte O Quinto Império Triste de quem vive em casa, Contente com o seu lar, Sem que um sonho, no erguer de asa, Faça até mais rubra a brasa, Da lareira a abandonar! Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. Nada na alma lhe diz Mais que a lição da raíz Ter por vida sepultura Grécia, Roma, Cristandade, Europa- os quatro se vão Para onde vae toda edade. Quem vem viver a verdade Que morreu Dom Sebastião? . . Voltar à biblioteca
  • 40. José Régio Vila do Conde (1901- 1969) José Maria dos Reis Pereira Poeta, com o pseudónimo José Régio. Nascido em Vila do Conde, formou-se em Coimbra em Filologia Românica. Viveu grande parte da sua vida na cidade de Portalegre, onde lecionou no Liceu local, Português e Francês de 1928 a 1967. Em 1927, com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, fundou a revista Presença, publicada durante 13 anos É considerado um dos grandes criadores da moderna literatura portuguesa. Refletiu na sua obra problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade Hoje, as suas casas em Vila do Conde e em Portalegre são casas-museu.
  • 41. CÂNTICO NEGRO "Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. .! CÂNTICO NEGRO (continuação) Como, pois sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos… Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou -Sei que não vou por aí!
  • 42. FADO PORTUGUÊS O fado nasceu num dia Em que o vento mal bulia E o céu o mar prolongava, Na amurada dum veleiro, No peito de um marinheiro Que estando triste, cantava. (- Saudades da terra firme, Da terra onde o mar acabe, Da casinha, e das mulheres, Guitarra, vem assistir-me, Que a gente é bruto e não sabe, Expressa-as tu, se souberes...) Por esse mar além fora, A guitarra, dim... dom, chora, Tem pausas, ais e soluços. E tão bem faz isso à gente, Que o triste bruto valente Chora sobre ela de bruços! (- Mãe, adeus! Adeus, Maria! Guarda bem no teu sentido Que aqui te faço uma jura Que ou te levo à sacristia, Ou foi Deus que foi servido Dar-me no mar sepultura!). FADO PORTUGUÊS (continuação) Por mar além, chão que treme, O dim-dom da corda freme De espanto, angústia, incerteza; Mas reluz no olhar do triste Não sei que alto apelo em riste Contra essa humana fraqueza... (- Que terra é esta..., este mar Que só acaba nos céus, Ou nem lá tem sua fim?... Ou hei-de-o eu acabar; Ou hei-de, querendo Deus!, Ou ele acabar a mim!) . Casada à trémula corda, Sobe a voz trémula..., acorda Tristezas do peito inteiro, E as sereias que enlevadas Se agarram às amuradas Do frágil barco veleiro. (- Ai que lindeza tamanha, Meu chão, meu monte, meu vale, De folhas, flores, frutos de ouro! Vê se vês terras de Espanha, Areias de Portugal, Olhar ceguinho de choro...) .
  • 43. FADO PORTUGUÊS (contª) Deitando o olhar às lonjuras, Só vê funduras, alturas Das águas, dos céus, da bruma E as rijas pomas redondas, De bico a boiar nas ondas, Das sereias cor de espuma. (- Sei eu, sequer, porque venho, Deixando a jeira de chão Que ao menos me não fugia, Atrás de não sei que tenho Tão dentro do coração Que inté julguei que existia...?) E à voz que sobe a tremer, Morre lá longe..., e ao morrer, Sobe outra vez, mais se aferra, Que etéreo coro responde De vozes que chegam de onde Não seja nem mar nem terra! (- Quem canta com voz tão benta Que ou são-nos anjos nos céus Ou é demónio a atentar? Se é demónio, não me atenta, Que a minh´alma é só de Deus, O corpo, dou-o eu ao mar...) FADO PORTUGUÊS (contª) Na boca do marinheiro Do frágil barco veleiro, Morrendo, a canção magoada Diz o pungir dos desejos Do lábio a queimar de beijos Que beija o ar, e mais nada. (- Mãe, adeus! Adeus, Maria! Guarda bem no teu sentido Que aqui te faço uma jura Que ou te levo à sacristia, Ou foi Deus que foi servido Dar-me no mar sepultura!) Sob o alvor da lua cheia, Naquela noite, a sereia Cujo seio mais se enrista Da aurora até ao sereno Beijou o corpo moreno Do moço nauta fadista... (- Que terra é esta..., este mar Que só acaba nos céus Ou nem lá tem sua fim?... Ou hei-de-o eu acabar; Ou hei-de, querendo Deus!, Ou ele acabar a mim!)
  • 44. FADO PORTUGUÊS (contª) Nas vias lácteas faiscantes Que esmigalhado em diamantes O luar no mar espraia, Um dim-dom..., dim-dom tremente, Mais doces queixas de gente, Vão ter a uma certa praia. (- Ai que lindeza tamanha, Meu chão, meu monte, meu vale, De folhas, flores, frutos de ouro! Vê se vês terras de Espanha, Areias de Portugal, Olhar ceguinho de choro...) E as mães de filhos ausentes Acordam batendo os dentes, Torcendo as mãos, e carpindo, Sabendo todas que é a morte Que chega daquela sorte, No luar funéreo e lindo... Ora eis que embora, outro dia, Quando o vento nem bulia E o céu o mar prolongava, À proa doutro veleiro, Velava outro marinheiro Que estava triste e cantava. SABEDORIA Desde que tudo me cansa, Comecei eu a viver. Comecei a viver sem esperança... E venha a morte quando Deus quiser. Dantes, ou muito ou pouco, Sempre esperara: Às vezes, tanto, que o meu sonho louco Voava das estrelas à mais rara; Outras, tão pouco, Que ninguém mais com tal se conformara. Hoje, é que nada espero. Para quê, esperar? Sei que já nada é meu senão se o não tiver; Se quero, é só enquanto apenas quero; Só de longe, e secreto, é que inda posso amar... E venha a morte quando Deus quiser. Mas, com isto, que têm as estrelas? Continuam brilhando, altas e belas.  Voltar à biblioteca
  • 45. Cesário Verde Natural de Caneças, Loures, oriundo de uma família burguesa abastada. O pai era lavrador e comerciante (com uma loja de ferragens na baixa lisboeta). Por essas duas actividades práticas, se repartia a vida do poeta. e paralelamente, ia alimentando o seu gosto pela leitura e pela criação literária, embora longe dos meios literários oficiais . A partir de 1875 produziu alguns dos seus melhores poemas: «Num Bairro Moderno» (1877), «Em Petiz» (1878) e «O Sentimento dum Ocidental» (1880). Este último foi escrito por ocasião do 3º centenário da morte de Camões e é, ainda hoje, um dos textos mais conhecidos do poeta Em 1884, no poema «Nós», a cidade e o campo surgem como tema principal neste longo poema narrativo autobiográfico Formado dentro dos moldes do realismo literário, Cesário afirmou-se pela sua oposição ao lirismo tradicional. Deteve-se em deambulações pela cidade ou pelo campo, através de processos impressionistas, de grande sugestividade . Cesário Verde 1855-86
  • 46. Num Bairro Moderno Dez horas da manhã; os transparentes Matizam uma casa apalaçada; Pelos jardins estancam-se as nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamizada. Rez-de-chaussée repousam sossegados, Abriram-se, nalguns, as persianas, E dum ou doutro, em quartos estucados, Ou entre a rama do papéis pintados, Reluzem, num almoço, as porcelanas. Como é saudável ter o seu conchego, E a sua vida fácil! Eu descia, Sem muita pressa, para o meu emprego, Aonde agora quase sempre chego Com as tonturas duma apoplexia. E rota, pequenina, azafamada, Notei de costas uma rapariga, Que no xadrez marmóreo duma escada, Como um retalho da horta aglomerada Pousara, ajoelhando, a sua giga. E eu, apesar do sol, examinei-a. Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos; E abre-se-lhe o algodão azul da meia, Se ela se curva, esguelhada, feia, E pendurando os seus bracinhos brancos. Do patamar responde-lhe um criado: "Se te convém, despacha; não converses. Eu não dou mais." È muito descansado, Atira um cobre lívido, oxidado, Que vem bater nas faces duns alperces. Subitamente - que visão de artista! - Se eu transformasse os simples vegetais, À luz do Sol, o intenso colorista, Num ser humano que se mova e exista Cheio de belas proporções carnais?! Bóiam aromas, fumos de cozinha; Com o cabaz às costas, e vergando, Sobem padeiros, claros de farinha; E às portas, uma ou outra campainha Toca, frenética, de vez em quando. E eu recompunha, por anatomia, Um novo corpo orgânico, ao bocados. Achava os tons e as formas. Descobria Uma cabeça numa melancia, E nuns repolhos seios injetados. As azeitonas, que nos dão o azeite, Negras e unidas, entre verdes folhos, São tranças dum cabelo que se ajeite; E os nabos - ossos nus, da cor do leite, E os cachos de uvas - os rosários de olhos.
  • 47. Heroísmos Eu temo muito o mar, o mar enorme, Solene, enraivecido, turbulento, Erguido em vagalhões, rugindo ao vento; O mar sublime, o mar que nunca dorme. Eu temo o largo mar, rebelde, informe, De vítimas famélico, sedento, E creio ouvir em cada seu lamento Os ruídos dum túmulo disforme. Contudo, num barquinho transparente, No seu dorso feroz vou blasonar, Tufada a vela e n'água quase assente, E ouvindo muito ao perto o seu bramar, Eu rindo, sem cuidados, simplesmente, Escarro, com desdém, no grande mar! . Eu e Ela Cobertos de folhagem, na verdura, O teu braço ao redor do meu pescoço, O teu fato sem ter um só destroço, O meu braço apertando-te a cintura; Num mimoso jardim, ó pomba mansa, Sobre um banco de mármore assentados. Na sombra dos arbustos, que abraçados, Beijarão meigamente a tua trança. Nós havemos de estar ambos unidos, Sem gozos sensuais, sem más idéias, Esquecendo para sempre as nossas ceias, E a loucura dos vinhos atrevidos. Nós teremos então sobre os joelhos Um livro que nos diga muitas cousas Dos mistérios que estão para além das lousas, Onde havemos de entrar antes de velhos. Outras vezes buscando distração, Leremos bons romances galhofeiros, Gozaremos assim dias inteiro, Formando unicamente um coração. .
  • 48. Em Petiz - De Tarde Mais morta do que viva, a minha companheira Nem força teve em si para soltar um grito; E eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito, Como um homenzarrão servi-lhe de barreira! Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas, Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas; E, tetas a abanar, as mães, de largas ancas, Desciam mais atrás, malhadas e turinas. Do seio do lugar - casitas com postigos - Vem-nos o leite. Mas batizam-no primeiro. Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro, Cujo pregão vos tira ao vosso sono, amigos! Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale: Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos! E os fartos animais, ao recolher dos pastos, Roçavam pelo teu "costume de percale". Já não receias tu essa vaquita preta, Que eu seguirei, prendi por um chavelho? Juro Que estavas a tremer, cosida com o muro, Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta! . Em Petiz – Irmãozinhos Pois eu, que no deserto dos caminhos, Por ti me expunha imenso, contra as vacas; Eu, que apartava as mansas das velhacas, Fugia com terror dos pobrezinhos! Vejo-os no pátio, ainda! Ainda os ouço! Os velhos, que nos rezam padre-nossos; Os mandriões que rosnam, altos, grossos; E os cegos que se apóiam sobre o moço. Ah! Os ceguinhos com a cor dos barros, Os que a poeira no suor mascarra, Chegam das feiras a tocar guitarra, Rolam os olhos como dois escarros! E os pobres metem medo! Os de marmita, Para forrar, por ano, alguns patacos, Entrapam-se nas mantas com buracos, Choramingando, a voz rachada, aflita. Outros pedincham pelas cinco chagas; E no poial, tirando as ligaduras, Mostram as pernas pútridas, maduras, Com que se arrastam pelas azinhagas! Querem viver! E picam-se nos cardos; Correm as vilas; sobem os outeiros; E às horas de calor, nos esterqueiros, De roda deles zumbem os moscardos. Aos sábados, os monstros, que eu lamento, Batiam ao portão com seus cajados; E um aleijado com os pés quadrados, Pedia-nos de cima de um jumento.
  • 49. O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL AVÉ-MARIAS Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. O céu parece baixo e de neblina, O gás extravasado enjoa-me, perturba-me; E os edifícios, com as chaminés, e a turba Toldam-se duma cor monótona e londrina. Batem os carros de aluguer, ao fundo, Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! Ocorrem-me em revista, exposições, países: Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo! Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações somente emadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros. Voltam os calafates, aos magotes, De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos, Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos, Ou erro pelos cais a que se atracam botes. E evoco, então, as crónicas navais: Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! Singram soberbas naus que eu não verei jamais! O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL AVÉE-MARIAS (continuação) E o fim da tarde inspira-me; e incomoda! De um couraçado inglês vogam os escaleres; E em terra num tinido de louças e talheres Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda. Num trem de praça arengam dois dentistas; Um trôpego arlequim braceja numas andas; Os querubins do lar flutuam nas varandas; Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! Vazam-se os arsenais e as oficinas; Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, Correndo com firmeza, assomam as varinas. Vêm sacudindo as ancas opulentas! Seus troncos varonis recordam-me pilastras; E algumas, à cabeça, embalam nas canastras Os filhos que depois naufragam nas tormentas. Descalças! Nas descargas de carvão, Desde manhã à noite, a bordo das fragatas; E apinham-se num bairro aonde miam gatas, E o peixe podre gera os focos de infecção!
  • 50. DE TARDE Naquele pique-nique de burguesas, Houve uma coisa simplesmente bela, E que, sem ter história nem grandezas, Em todo o caso dava uma aguarela. Foi quando tu, descendo do burrico, Foste colher, sem imposturas tolas, A um granzoal azul de grão-de-bico Um ramalhete rubro de papoulas. Pouco depois, em cima duns penhascos, Nós acampámos, inda o Sol se via; E houve talhadas de melão, damascos, E pão-de-ló molhado em malvasia. Mas, todo púrpuro a sair da renda Dos teus dois seios como duas rolas, Era o supremo encanto da merenda O ramalhete rubro das papoulas! VAIDOSA Dizem que tu és pura como um lírio E mais fria e insensível que o granito, E que eu que passo aí por favorito Vivo louco de dor e de martírio. Contam que tens um modo altivo e sério, Que és muito desdenhosa e presumida, E que o maior prazer da tua vida, Seria acompanhar-me ao cemitério. Chamam-te a bela imperatriz das fátuas, A déspota, a fatal, o figurino, E afirmam que és um molde alabastrino, E não tens coração como as estátuas. E narram o cruel martirológio Dos que são teus, ó corpo sem defeito, E julgam que é monótono o teu peito Como o bater cadente dum relógio. Porém eu sei que tu, que como um ópio Me matas, me desvairas e adormeces, És tão loira e doirada como as messes, E possuis muito amor... muito amor próprio..  Voltar à biblioteca
  • 51. Bocage (Manuel Maria Barbosa du) Bocage Poeta, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano (aderiu à Nova Arcádia em 1790 com o pseudónimo de Elmano Sadino). . Estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, estudou francês e latim . Fez estudos na Escola da Marinha Real, sendo nomeado guarda-marinha por D. Maria I.. Em 1786, foi como oficial de marinha para a Índia, tendo desertado em 1789 A década seguinte é a da sua maior produção literária e também o período de maior boémia e vida de aventuras. Foi preso 1 ano por ordem do Intendente Pina Manique por ser “desordenado nos costumes” Bocage cultivou diversos géneros poéticos, como o soneto, a sátira, a ode, a canção, o epigrama e a alegoria, seu talento evidenciou- se de forma bem diferenciada em cada um deles ue cedo Entre os braços de Nise, entre estas flores, Furtivas glórias, tácitos favores, Hei-de enfim possuir: porém segredo! Nas asas frouxos ais, brandos queixumes Setúbal, 1765 – Lisboa, 1805
  • 52. Já Bocage não sou!... À cova escura Já Bocage não sou!... À cova escura Meu estro vai parar desfeito em vento... Eu aos céus ultrajei! O meu tormento Leve me torne sempre a terra dura. Conheço agora já quão vã figura Em prosa e verso fez meu louco intento. Musa!... Tivera algum merecimento, Se um raio da razão seguisse, pura! Eu me arrependo; a língua quase fria Brade em alto pregão à mocidade, Que atrás do som fantástico corria: Outro Aretino fui... A santidade Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia, Rasga meus versos, crê na eternidade!. Proposição das rimas do poeta Incultas produções da mocidade Exponho a vossos olhos, ó leitores: Vede-as com mágoa, vede-as com piedade, Que elas buscam piedade, e não louvores: Ponderai da Fortuna a variedade Nos meus suspiros, lágrimas e amores; Notai dos males seus a imensidade, A curta duração de seus favores: E se entre versos mil de sentimento Encontrardes alguns cuja aparência Indique festival contentamento, Crede, ó mortais, que foram com violência Escritos pela mão do Fingimento, Cantados pela voz da Dependência.!
  • 53. O autor aos seus versos Chorosos versos meus desentoados, Sem arte, sem beleza e sem brandura, Urdidos pela mão da Desventura, Pela baça Tristeza envenenados: Vede a luz, não busqueis, desesperados, No mudo esquecimento a sepultura; Se os ditosos vos lerem sem ternura, Ler-vos-ão com ternura os desgraçados: Não vos inspire, ó versos, cobardia Da sátira mordaz o furor louco, Da maldizente voz e tirania: Desculpa tendes, se valeis tão pouco, Que não pode cantar com melodia Um peito de gemer cansado e rouco. A Camões, comparando com os dele os seus próprios infortúnios Camões, grande Camões, quão semelhante Acho teu fado ao meu quando os cotejo! Igual causa nos fez perdendo o Tejo Arrostar co’o sacrílego gigante: Como tu, junto ao Ganges sussurrante Da penúria cruel no horror me vejo; Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, Também carpindo estou, saudoso amante: Ludíbrio, como tu, da sorte dura, Meu fim demando ao Céu, pela certeza De que só terei paz na sepultura: Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!... Se te imito nos transes da ventura, Não te imito nos dons da natureza.
  • 54. Retrato próprio Magro, de olhos azuis, carão moreno, Bem servido de pés, meão na altura, Triste da facha, o mesmo de figura, Nariz alto no meio, e não pequeno. Incapaz de assistir num só terreno, Mais propenso ao furor do que à ternura; Bebendo em níveas mãos por taça escura De zelos infernais letal veneno: Devoto incensador de mil deidades (Digo, de moças mil) num só momento, E somente no altar amando os frades: Eis Bocage, em quem luz algum talento; Saíram dele mesmo estas verdades Num dia em que se achou mais pachorrento. Quantas vezes, Amor, me tens ferido? Quantas vezes, Amor, me tens ferido? Quantas vezes, Razão, me tens curado? Quão fácil de um estado a outro estado O mortal sem querer é conduzido! Tal, que em grau venerando, alto e luzido, Como que até regia a mão do fado, Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado, Depois com ferros vis se vê cingido: Para que o nosso orgulho as asas corte, Que variedade inclui esta medida, Este intervalo da existência à morte! Travam-se gosto, e dor; sossego e lida; É lei da natureza, é lei da sorte, Que seja o mal e o bem matiz da vida.
  • 55. A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro Da triste, bela Inês, inda os clamores Andas, Eco chorosa, repetindo; Inda aos piedosos Céus andas pedindo Justiça contra os ímpios matadores; Ouvem-se inda na Fonte dos Amores De quando em quando as náiades carpindo; E o Mondego, no caso reflectindo, Rompe irado a barreira, alaga as flores: Inda altos hinos o universo entoa A Pedro, que da morte formosura Convosco, Amores, ao sepulcro voa: Milagre da beleza e da ternura! Abre, desce, olha, geme, abraça e c'roa A malfadada Inês na sepultura.! Esperança Amorosa Grato silêncio, trémulo arvoredo, Sombra propícia aos crimes e aos amores, Hoje serei feliz! --- Longe, temores, Longe, fantasmas, ilusões do medo. Sabei, amigos Zéfiros, que cedo Entre os braços de Nise, entre estas flores, Furtivas glórias, tácitos favores, Hei-de enfim possuir: porém segredo! Nas asas frouxos ais, brandos queixumes Não leveis, não façais isto patente, Quem nem quero que o saiba o pai dos numes: Cale-se o caso a Jove omnipotente, Porque, se ele o souber, terá ciúmes, Vibrará contra mim seu raio ardente..  Voltar à biblioteca
  • 56. Almeida Garrett 1799 Porto - 1854 Lisboa João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett mais tarde 1.º Visconde de Almeida Garrett, foi um escritor e dramaturgo, uma das figuras maiores do romantismo português . Participou na revolução liberal em 1820, esteve exilado em Inglaterra em 1823, onde tomou contacto com o movimento romântico inglês. Tomou parte no Desembarque dos Liberais no Mindelo e Cerco do Porto em 1832-33, exercendo depois cargos políticos Em 1838 publica Um Auto de Gil Vicente, em 1841 O Alfageme de Santarém, em 1843 o drama Frei Luis de Sousa, em 1845 os romances Arco de Santana e Viagens na minha Terra Nos últimos 10 anos, criou as suas melhores obras poéticas, “Flores sem fruto” (1845) e “Folhas Caídas” (1853). Faleceu de cancro em 1854. em Lisboa.
  • 57. Este inferno de amar Este inferno de amar - como eu amo! Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? Esta chama que alenta e consome, Que é a vida - e que a vida destrói - Como é que se veio a atear, Quando - ai quando se há-de ela apagar? Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que d'antes vivi Era um sonho talvez... - foi um sonho - Em que paz tam serena a dormi! Oh! que doce era aquele sonhar... Quem me veio, ai de mim! despertar? Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus. Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei; Mas nessa hora a viver comecei Almeida Garret . Barca bela Pescador da barca bela, Onde vais pescar com ela. Que é tão bela, Oh pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela, Oh pescador! Deita o lanço com cautela, Que a sereia canta bela... Mas cautela, Oh pescador! Não se enrede a rede nela, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Oh pescador. Pescador da barca bela, Inda é tempo, foge dela Foge dela Oh pescador! .
  • 58. Não és tu Era assim, tinha esse olhar, A mesma graça, o mesmo ar, Corava da mesma cor, Aquela visão que eu vi Quando eu sonhava de amor, Quando em sonhos me perdi. Toda assim; o porte altivo, O semblante pensativo, E uma suave tristeza Que por toda ela descia Como um véu que lhe envolvia, Que lhe adoçava a beleza. Era assim; o seu falar, Ingénuo e quase vulgar, Tinha o poder da razão Que penetra, não seduz; Não era fogo, era luz Que mandava ao coração Almeida Garret . . Não és tu (continuação) Nos olhos tinha esse lume, No seio o mesmo perfume, Um cheiro a rosas celestes, Rosas brancas, puras, finas, Viçosas como boninas, Singelas sem ser agrestes. Mas não és tu...ai! não és: Toda a ilusão se desfez. Não és aquela que eu vi, Não és a mesma visão, Que essa tinha coração, Tinha, que eu bem lho senti. Almeida Garret
  • 59. Nau Catrineta Lá vem a Nau Catrineta Que tem muito que contar! Ouvide agora, senhores, Uma história de pasmar. Passava mais de ano e dia Que iam na volta do mar, Já não tinham que comer, Já não tinham que manjar. Deitaram sola de molho Para o outro dia jantar; Mas a sola era tão rija, Que a não puderam tragar. Deitaram sortes à ventura Qual se havia de matar; Logo foi cair a sorte No capitão general. - "Sobe, sobe, marujinho, Àquele mastro real, Vê se vês terras de Espanha, As praias de Portugal!" - "Não vejo terras de Espanha, Nem praias de Portugal; Vejo sete espadas nuas Que estão para te matar." - "Acima, acima, gageiro, Acima ao tope real! Olha se enxergas Espanha, Areias de Portugal!" - "Alvíssaras, capitão, Meu capitão general! Já vejo terras de Espanha, Areias de Portugal!" Mais enxergo três meninas, Debaixo de um laranjal: Uma sentada a coser, Outra na roca a fiar, A mais formosa de todas Está no meio a chorar.“ Almeida Garret - Nau Catrineta (continuação) “ Todas três são minhas filhas, Oh!quem mas dera abraçar! A mais formosa de todas Contigo a hei-de casar." - "A vossa filha não quero, Que vos custou a criar.” - "Dar-te-ei tanto dinheiro Que o não possas contar." - "Não quero o vosso dinheiro Pois vos custou a ganhar.” - Dou-te o meu cavalo branco, Que nunca houve outro igual .” - "Guardai o vosso cavalo, Que vos custou a ensinar.” - "Dar-te-ei a Catrineta, Para nela navegar." - "Não quero a Nau Catrineta, Que a não sei governar.” - Que queres tu, meu gageiro, Que alvíssaras te hei-de dar?" - "Capitão, quero a tua alma, Para comigo a levar!" - "Renego de ti, demónio, Que me estavas a tentar! A minha alma é só de Deus; O corpo dou eu ao mar." Tomou-o um anjo nos braços, Não no deixou afogar. Deu um estouro o demónio, Acalmaram vento e mar; E à noite a Nau Catrineta Estava em terra a varar. Almeida Garret
  • 60. Contemporâneos Vitorino Nemésio (1901-78) Poeta de origem açoreana e romancista (Mau Tempo no Canal), professor da Faculdade de Letras em Lisboa Escreveu poesia de forma ininterrupta desde 1918 (Canto Matinal) a 1976 (Era do Átomo Crise do Homem) Teve na RTP o conhecido programa Se Bem me Lembro António Gedeão (1906-97) Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, sob o pseudónimo de António Gedeão, professor de Físico-Química, poeta. Pedra Filosofal e Lágrima de Preta são dois dos seus mais célebres poemas Ary dos Santos (1937-84) José Carlos Ary dos Santos, em 1969 inicia a sua atividade política e participa nas sessões intituladas de poesia do "canto livre” Foi autor de mais de 600 poemas para canções Seus poemas Desfolhada e Tourada obtiveram os 1ºs prémios no Festival da Canção (RTP) . Contemporâneos Sophia de Mello Breyner (1919-2004) Foi a 1ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões em 1999 (o mais importante da Língua Portuguesa), e em 2003 teve em Espanha o Prémio Rainha Sofia. Além da poesia, distinguiu-se no conto e em livros infantis Manuel Alegre (1936, Águeda) Fez os estudos secundários no Porto e em 1956 entrou na Fac. de Direito(Coimbra) onde inicia o percurso político de oposição à Ditadura. Em 1964 passou à clandestinidade em Paris e Argel e saem os seus livros Praça da Canção e O Canto e as Armas. Poemas seus são cantados por Amália, Zeca Afonso e muitos outros . Eugénio de Andrade (1923-2005) José Fontinha, com pseudónimo de Eugénio d?Andrade, inicia sua obra poética,com Adolescente(1942) e As Mãos e os Frutos (1948) até 2003 com Os Sulcos da Sede. A sua poesia essencialmente lírica, dá importância à palavra, em poemas curtos às vezes, mas densos Recebeu o Prémio Camões em 2001 e muitos outros,.
  • 61. Já não Escreverei Romances Já não escreverei romances Nem contos da fada e o rei. Vão-se-me todas as chances De grande escritor. Parei. Mas na chispa do verso, Com Marga a aquecer-me, Já não serei disperso Nem poderei perder-me. Tudo nela é verbo e vida; Xale, cílio, tosse, joelho, Tudo respinga e acalma. Passo, óculos, nada é velho: Quase corpo, menos que alma. Já não lavrarei novelas, Ultrapassado de ficto: A vida dá-me janelas A toda a extensão do dicto. Mas sem elas, mas sem elas (As suas mãos) fico aflito. Vitorino Nemésio Tenho uma Saudade tão Braba Tenho uma saudade tão braba Da ilha onde já não moro, Que em velho só bebo a baba Do pouco pranto que choro. Os meus parentes, com dó, Bem que me querem levar, Mas talvez que nem meu pó Mereça a Deus lá ficar. Enfim, só Nosso Senhor Há-de decidir se posso Morrer lá com esta dor, A meio d’ um Padre Nosso. Quando se diz «Seja feita» Eu sentirei na garganta A mão da Morte, direita A este peito, qu’ ainda canta. Vitorino Nemésio .
  • 62. Pedra filosofal Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso,em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos, que em oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho,é espuma,é fermento, bichinho alacre e sedento, de focinho pontiagudo, que foça através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa dos ventos, Infante, caravela quinhentista, que é cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão de átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem,nem sonham,que o sonho comanda a vida. Que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança. Gedeão Lágrima de preta Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.. Gedeão
  • 63. Cavalo à Solta Minha laranja amarga e doce meu poema feito de gomos de saudade minha pena pesada e leve secreta e pura minha passagem para o breve, breve instante da loucura Minha ousadia meu galope minha rédea meu potro doido minha chama minha réstia de luz intensa de voz aberta minha denúncia do que pensa do que sente a gente certa Em ti respiro em ti eu provo por ti consigo esta força que de novo em ti persigo em ti percorro cavalo à solta pela margem do teu corpo Minha alegria minha amargura minha coragem de correr contra a ternura. Por isso digo canção castigo amêndoa travo corpo alma amante amigo por isso canto por isso digo alpendre casa cama arca do meu trigo Meu desafio minha aventura minha coragem de correr contra a ternura Ary dos Santos . Poeta castrado, não! Serei tudo o que disserem por inveja ou negação : cabeçudo dromedário fogueira de exibição teorema corolário poema de mão em mão lãzudo publicitário malabarista cabrão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não! Os que entendem como eu as linhas com que me escrevo reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo: ternura como já disse sempre que faço um poema; saudade que se partisse me alagaria de pena; e também uma alegria uma coragem serena em renegar a poesia quando ela nos envenena. Os que entendem como eu a força que tem um verso reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso: Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa – mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança? Do frio não reza a história - a morte é branda e letal – mas que dizer da memória de uma bomba de napalm? E o resto que pode ser o poema dia a dia? - Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia; um filho que vai nascer parido por asfixia?! - Ah não me venham dizer que é fonética a poesia! Serei tudo o que disserem por temor ou negação: Demagogo mau profeta falso médico ladrão prostituta proxeneta espoleta televisão . Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não .! Ary dos Santos
  • 64. Porque Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não. Poque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não. Sophia de Mello Breyner Andresen A Cesário Verde Quis dizer o mais claro e o mais corrente Em fala chã e em lúcida esquadria Ser e dizer na justa luz do dia Falar claro falar limpo falar rente Porém nas roucas ruas da cidade A nítida pupila se alucina Cães se miram no vidro de retina E ele vai naufragando como um barco Amou vinhas e searas e campinas Horizontes honestos e lavados Mas bebeu a cidade a longos tragos Deambulou por praças por esquinas Fugiu da peste e da melancolia Livre se quis e não servo dos fados Diurno se quis - porém a luzidia Noite assombrou os olhos dilatados Reflectindo o tremor da luz nas margens Entre ruelas vê-se ao fundo o rio Ele o viu com seus olhos de navio Atentos à surpresa das imagens . Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 65. É urgente o Amor, É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros, e a luz impura até doer. É urgente o amor, É urgente permanecer. Respiro o teu corpo: sabe a lua-de-água ao amanhecer, sabe a cal molhada, sabe a luz mordida, sabe a brisa nua, ao sangue dos rios, sabe a rosa louca, ao cair da noite sabe a pedra amarga, sabe à minha boca Eugénio d’Andrade As palavras que te envio são interditas até, meu amor, pelo halo das searas; se alguma regressasse, nem já reconheciao teu nome nas suas curvas claras. Dói-me esta água, este ar que se respira, dói-me esta solidão de pedra escura, estas mãos nocturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura. E a noite cresce apaixonadamente. Nas suas margens nuas, desoladas, cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas. Poema XVIII Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. Eugénio d’Andrade
  • 66. Trova do vento que passa Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país.. . E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar! Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te crucificada nos braços negros da fome. E o vento não me diz nada só o silêncio persiste. Vi minha pátria parada à beira de um rio triste. Ninguém diz nada de novo se notícias vou pedindo nas mãos vazias do povo vi minha pátria florindo. E a noite cresce por dentro dos homens do meu país. Peço notícias ao vento e o vento nada me diz. Quatro folhas tem o trevo liberdade quatro sílabas. Não sabem ler é verdade aqueles pra quem eu escrevo. Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça há sempre alguém que semeia canções no vento que passa. Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não . Manuel Alegre E alegre se fez triste Aquela clara madrugada que viu lágrimas correrem no teu rosto e alegre se fez triste como se chovesse de repente em pleno Agosto. Ela só viu meus dedos nos teus dedos meu nome no teu nome. E demorados viu nossos olhos juntos nos segredos que em silêncio dissemos separados. A clara madrugada em que parti. Só ela viu teu rosto olhando a estrada por onde um automóvel se afastava. E viu que a pátria estava toda em ti. E ouviu dizer-me adeus: essa palavra que fez tão triste a clara madrugada. Manuel Alegre  Voltar à biblioteca