José Miguel Sardica
             Professor da Universidade Católica Portuguesa


     «Deutschland über alles» («A Alemanha acima de “contentado” em retirar à Checoslováquia apenas
     todos»), título do hino nacional germânico desde a região dos Sudetas. O alívio durou seis meses:
     os tempos da República de Weimar, é um bom ró- em 1939, Hitler anexou o que restava da Checos-
     tulo qualificativo das atitudes que a diplomacia lováquia e varreu do mapa a última democracia
     de Berlim tem tomado nos últimos dias em rela- subsistente no leste europeu. Oxalá não seja esta
     ção à Europa periférica e pobre.                  a história da Grécia no médio prazo.
     Ao cabo de semanas de suspense e tumulto em Entretanto, a Portugal, os alemães enviam re-
     Atenas, o parlamento grego, à beira do motim paros, avisos e recados. Angela Merkel, Martin
     e a custo controlado                                                       Schulz e Christian Wulff
     pelo governo de Lucas                                                      proferiram declarações
                                As negociações com Atenas

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     Papademos,       aprovou                                                   públicas que, em diver-
     finalmente no passa- pareceram-se com a Conferência                         sos estilos, mostram o
     do Domingo o plano de de Munique em 1938. Nessa                            zelo germânico em en-
     austeridade (mais um) altura, enquanto Hitler, Mussolini,                  sinar aos “indígenas”
     sem o qual a Alemanha Chamberlain e Daladier conversavam                   da periferia portuguesa
     e a Europa não desblo-                                                     como devem comportar-
     queariam o novo paco-
                                sobre o que fazer aos Sudetas e à               se na Europa “deles”. E
     te de ajuda de 130 mil Checoslováquia, os pobres delegados                 houve ainda a conversa
     milhões de euros. O di- do governo checo aguardavam numa                   privada, mas tornada
     álogo – se “diálogo” se sala ao lado para saberem se ainda                 pública, do ministro das
     pode chamar às ordens teriam um país para onde voltar                      finanças alemão, Wol-
     dadas por um Estado so-                                                    fgang Schäuble, com o
     berano a outro – foi tão
                                quando os grandes acabassem a                   seu homólogo portu-
     duro que o ministro das discussão                                          guês, Vítor Gaspar. Os
     finanças Evangelos Veni-                                                    pressurosos    ministros
     zelos chegou a invocar a humilhação que sentia Miguel Relvas e Paulo Portas interpretaram a
     como representante de um país com 25 séculos de abertura de Schäuble para vir a equacionar um
     história. As negociações com Atenas pareceram- plano de reestruturação da ajuda a Portugal
     se com a Conferência de Munique em 1938. Nessa como um elogio e um voto de confiança de Berlim
     altura, enquanto Hitler, Mussolini, Chamberlain a Lisboa. Duvido que tenha sido isso. O que o mi-
     e Daladier conversavam sobre o que fazer aos nistro alemão disse implicitamente é que Berlim
     Sudetas e à Checoslováquia, os pobres delegados tem dúvidas sobre a capacidade de Portugal cum-
     do governo checo aguardavam numa sala ao lado prir as suas metas e que daqui a uns meses Gaspar
     para saberem se ainda teriam um país para onde poderá estar no mesmo aperto de Venizelos.
     voltar quando os gran-                                                     A Alemanha está pro-
     des acabassem a discus- O que o ministro alemão disse                      fundamente, porventu-
     são. Assim está o gover- implicitamente é que Berlim tem                   ra mais do que quere-
     no grego sempre que o dúvidas sobre a capacidade de                        ria, inserida no espaço
     directório europeu ou a Portugal cumprir as suas metas e que europeu. Não podendo
     troika se reúnem. Estará                                                   ser uma superpotência
                                daqui a uns meses Gaspar poderá
     a Grécia a salvo? Só por                                                   mundial, precisa da Eu-
     milagre. Os cortes que estar no mesmo aperto de Venizelos.                 ropa para continuar a
     Atenas terá que fazer,                                                     ser a Alemanha rica e
     em salários, pensões, empregos e despesa pública dominante que é. Não deve dar ao mundo a ideia
     são de tal ordem que os custos sociais vão dispa- de que a Grécia, Portugal e quem mais venha po-
     rar, num país onde o desemprego já ultrapassa os derão ser expulsos do Euro quando e como der
     20% e em que 1/3 da população já vive na pobre- mais jeito a Berlim – e muito menos de que os
     za. Os delegados checos enviados à Conferência grandes da Europa sustentam os pequenos como
     de Munique regressaram a Praga com um suspiro a corda segura o enforcado. Se assim for, adeus
     de alívio: afinal, os grandes da Europa tinham-se Europa!




                                                                     r/com renascença comunicação multimédia, 2012

Europa

  • 1.
    José Miguel Sardica Professor da Universidade Católica Portuguesa «Deutschland über alles» («A Alemanha acima de “contentado” em retirar à Checoslováquia apenas todos»), título do hino nacional germânico desde a região dos Sudetas. O alívio durou seis meses: os tempos da República de Weimar, é um bom ró- em 1939, Hitler anexou o que restava da Checos- tulo qualificativo das atitudes que a diplomacia lováquia e varreu do mapa a última democracia de Berlim tem tomado nos últimos dias em rela- subsistente no leste europeu. Oxalá não seja esta ção à Europa periférica e pobre. a história da Grécia no médio prazo. Ao cabo de semanas de suspense e tumulto em Entretanto, a Portugal, os alemães enviam re- Atenas, o parlamento grego, à beira do motim paros, avisos e recados. Angela Merkel, Martin e a custo controlado Schulz e Christian Wulff pelo governo de Lucas proferiram declarações As negociações com Atenas 03 Papademos, aprovou públicas que, em diver- finalmente no passa- pareceram-se com a Conferência sos estilos, mostram o do Domingo o plano de de Munique em 1938. Nessa zelo germânico em en- austeridade (mais um) altura, enquanto Hitler, Mussolini, sinar aos “indígenas” sem o qual a Alemanha Chamberlain e Daladier conversavam da periferia portuguesa e a Europa não desblo- como devem comportar- queariam o novo paco- sobre o que fazer aos Sudetas e à se na Europa “deles”. E te de ajuda de 130 mil Checoslováquia, os pobres delegados houve ainda a conversa milhões de euros. O di- do governo checo aguardavam numa privada, mas tornada álogo – se “diálogo” se sala ao lado para saberem se ainda pública, do ministro das pode chamar às ordens teriam um país para onde voltar finanças alemão, Wol- dadas por um Estado so- fgang Schäuble, com o berano a outro – foi tão quando os grandes acabassem a seu homólogo portu- duro que o ministro das discussão guês, Vítor Gaspar. Os finanças Evangelos Veni- pressurosos ministros zelos chegou a invocar a humilhação que sentia Miguel Relvas e Paulo Portas interpretaram a como representante de um país com 25 séculos de abertura de Schäuble para vir a equacionar um história. As negociações com Atenas pareceram- plano de reestruturação da ajuda a Portugal se com a Conferência de Munique em 1938. Nessa como um elogio e um voto de confiança de Berlim altura, enquanto Hitler, Mussolini, Chamberlain a Lisboa. Duvido que tenha sido isso. O que o mi- e Daladier conversavam sobre o que fazer aos nistro alemão disse implicitamente é que Berlim Sudetas e à Checoslováquia, os pobres delegados tem dúvidas sobre a capacidade de Portugal cum- do governo checo aguardavam numa sala ao lado prir as suas metas e que daqui a uns meses Gaspar para saberem se ainda teriam um país para onde poderá estar no mesmo aperto de Venizelos. voltar quando os gran- A Alemanha está pro- des acabassem a discus- O que o ministro alemão disse fundamente, porventu- são. Assim está o gover- implicitamente é que Berlim tem ra mais do que quere- no grego sempre que o dúvidas sobre a capacidade de ria, inserida no espaço directório europeu ou a Portugal cumprir as suas metas e que europeu. Não podendo troika se reúnem. Estará ser uma superpotência daqui a uns meses Gaspar poderá a Grécia a salvo? Só por mundial, precisa da Eu- milagre. Os cortes que estar no mesmo aperto de Venizelos. ropa para continuar a Atenas terá que fazer, ser a Alemanha rica e em salários, pensões, empregos e despesa pública dominante que é. Não deve dar ao mundo a ideia são de tal ordem que os custos sociais vão dispa- de que a Grécia, Portugal e quem mais venha po- rar, num país onde o desemprego já ultrapassa os derão ser expulsos do Euro quando e como der 20% e em que 1/3 da população já vive na pobre- mais jeito a Berlim – e muito menos de que os za. Os delegados checos enviados à Conferência grandes da Europa sustentam os pequenos como de Munique regressaram a Praga com um suspiro a corda segura o enforcado. Se assim for, adeus de alívio: afinal, os grandes da Europa tinham-se Europa! r/com renascença comunicação multimédia, 2012