O Cotidiano
  no Centro de
Educação Infantil




Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância
        Cadernos Pedagógicos – volume 4

             Brasília, janeiro de 2005
Edições UNESCO

                Conselho Editorial da UNESCO no Brasil
                            Jorge Werthein
                          Cecilia Braslavsky
                         Juan Carlos Tedesco
                            Adama Ouane
                           Célio da Cunha

                     Comitê para a Área de Educação
                               Alvana Bof
                            Candido Gomes
                             Célio da Cunha
                           Katherine Grigsby
                       Marilza Machado Regattieri




             Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação
     dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opiniões nele expressas,
         que não são necessariamente as da UNESCO, do Banco Mundial
e da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, nem comprometem as Organizações.
    As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo deste livro
    não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO
    a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região
ou de suas autoridades, nem tampouco a delimitação de suas fronteiras ou limites.
O Cotidiano
    no Centro de
  Educação Infantil




Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância
       Cadernos Pedagógicos – volume 4

                                            FUNDAÇAO
                                       MAURICIO SIROTKY SOBRINHO




               Organização: OMEP
Organização: Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar – OMEP, Brasil

                      Coordenação: Maria Helena Lopes

                                Elaboração:
    Elizabeth Amorin, Halei Cruz, Loide Pereira Trois, Maria Helena Lopes

              Colaboração: Maria da Graça Horn, Vital Didonet

                            Revisão Técnica:
                    UNESCO (Alessandra Schneider),
       Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (Alceu Terra Nascimento,
                Jéferson dos Santos, Márcio Mostardeiro)

               Revisão: Ana Maria Marschall, Marise Campos

                                  Capa:
                               Edson Fogaça

                      Projeto Gráfico e Edição de Arte:
                 Estúdio ADULTOS e CRIANÇAS CRIATIVAS




      © UNESCO, 2005

        O Cotidiano no Centro de Educação Infantil. – Brasília: UNESCO,
           Banco Mundial, Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, 2005.
           94 p. – (Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância:
           Cadernos Pedagógicos; 4)


            1. Educação infantil – Ensino de Ciências 2. Ensino de Ciências
        3. Educação Pré-escolar – Ensino de Ciências I. UNESCO II. Série
                                                                CDD 372

     BR/2005/PI/H/5
Sumário


Apresentação ........................................................................................................... 7

Introdução ............................................................................................................... 9

Educar versus cuidar .............................................................................................. 11
     Elizabeth Amorim

Entrando em um novo mundo ................................................................................ 17
     Elizabeth Amorim

Agressividade e limites: possibilidades de intervenção............................................ 23
     Loide Pereira Trois

Saúde da criança.................................................................................................... 31
      Halei Cruz

Organização do tempo e do espaço ...................................................................... 51
     Elizabeth Amorim

A pedagogia de projetos e a mediação do educador .............................................. 61
     Elizabeth Amorim e Maria Helena L opes

Proposta pedagógica e relações centro infantil, família e comunidade .................... 75
     Elizabeth Amorim e Maria Helena L opes

Acompanhamento e avaliação das crianças no centro infantil ................................ 85
     Elizabeth Amorim
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi
Apresentação
    O novo ordenamento legal, inaugurado pela Constituição Federal de 1988, assegura à criança
brasileira o atendimento em creche e pré-escola e, a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional, em 1996, a Educação Infantil passa a ser definida como a primeira
etapa da Educação Básica. Essa importante conquista nacional reitera um dos postulados da
Declaração Mundial de Educação para Todos, firmada em Jomtien, no ano de 1990, de que a
aprendizagem ocorre desde o nascimento e requer educação e cuidado na primeira infância.

    Nas últimas décadas, várias pesquisas têm demonstrado que os primeiros seis anos de vida
de uma criança se constituem em período de intenso aprendizado e desenvolvimento, em que
se assentam as bases do “aprender a conhecer”, “aprender a viver junto”, “aprender a fazer” e
“aprender a ser”. O atendimento educacional de qualidade, nessa fase da vida, tem um
impacto extremamente positivo no curto, médio e longo prazo, gerando benefícios
educacionais, sociais e econômicos mais expressivos do que qualquer outro investimento na
área social. Melhor desempenho na escolaridade obrigatória, menores taxas de reprovação e
abandono escolar, bem como maior probabilidade de completar o ensino médio foram
observados entre os que tiveram acesso à educação infantil de qualidade, quando comparados
aos que não tiveram essa oportunidade. A freqüência a instituições de educação infantil afeta
positivamente o itinerário de vida das crianças, contribuindo significativamente para a sua
realização pessoal e profissional.

   Esse reconhecimento levou as nações a assumirem em Dacar, em 2000, entre os compro-
missos pela Educação para Todos, a meta de ampliar a oferta e melhorar a qualidade da
educação e dos cuidados na primeira infância, com especial atenção às crianças em situação
de vulnerabilidade. Essa é uma das seis metas expressas no Marco de Ação de Dacar, do qual o
Brasil é um dos signatários, sendo a UNESCO a instituição das Nações Unidas que tem, entre
suas atribuições, a de apoiar os países no cumprimento dessa agenda.

    Em 2003, a Representação da UNESCO no Brasil, o Banco Mundial e a Fundação Maurício
Sirotsky Sobrinho firmaram parceria para a realização do Programa Fundo do Milênio para a
Primeira Infância em alguns estados do País. Esse desafio foi lançado pelo Banco Mundial e
prontamente acolhido pela UNESCO e pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, que com-
partilham a firme convicção de que garantir uma educação de qualidade desde os primeiros
anos de vida é um dos mais importantes investimentos que uma nação pode fazer.

   O Programa Fundo do Milênio para a Primeira Infância tem como principal objetivo a qualifica-
ção do atendimento em creches e pré-escolas, preferencialmente da rede privada sem fins
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

  lucrativos, isto é, de instituições comunitárias, filantrópicas e confessionais que atendem crianças em
  situação de vulnerabilidade social. A principal estratégia do programa é a formação em serviço dos
  profissionais de Educação Infantil, considerando que a qualificação do educador é reconhecidamente
  um dos fatores mais relevantes para a promoção de padrões de qualidade adequados na educação,
  qualquer que seja o nível, a etapa ou a modalidade. No caso da Educação Infantil, em que o
  profissional tem a dupla responsabilidade de cuidar e educar bebês e crianças de até seis anos, sua
  formação é uma das variáveis que maior impacto causa sobre a qualidade do atendimento.

      A série Fundo do Milênio para a Primeira Infância – Cadernos Pedagógicos constitui-se em
  importante recurso à formação continuada dos educadores. Seus quatro volumes, a saber, Olha-
  res das Ciências sobre as Crianças; A Criança Descobrindo, Interpretando e Agindo sobre o
  Mundo; Legislação, Políticas e Influências Pedagógicas na Educação Infantil e O Cotidiano no
  Centro de Educação Infantil, apresentam as principais temáticas relativas à aprendizagem e ao
  desenvolvimento infantil.

      Pretende-se, portanto, que o presente volume e os demais dessa série constituam-se em importante
  ferramenta de trabalho para os profissionais da área de Educação Infantil, proporcionando o acesso a
  novos e atualizados conhecimentos, a reflexão crítica e a construção de práticas inovadoras àqueles que
  têm em suas mãos a difícil e apaixonante tarefa de educar nossas crianças.

     Desejamos, ainda, compartilhar essa realização com a Organização Mundial de Educação
  Pré-escolar (OMEP – Porto Alegre), reconhecendo sua colaboração inestimável, e com os Empre-
  endedores Associados ao Programa Fundo do Milênio para a Primeira Infância, que comungam
  conosco a visão de que os primeiros anos de vida valem para sempre e de que a educação de
  qualidade, desde a mais tenra infância, é fundamental para a construção de um Brasil mais
  desenvolvido, mais humano e socialmente mais justo.


               Jorge Werthein                              Vinod Thomas                Nelson Pacheco Sirotsky
  Representante da UNESCO no Brasil               Diretor do Banco Mundial no Brasil    Presidente da Fundação
                                                                                       Maurício Sirotsky Sobrinho




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                              Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                              toda essa curiosidade, dessa avidez pela
        ntrodução                             descoberta, pela surpresa e pela alegria,
                                              as crianças abrem-se como pequenos
      Convidamos todos vocês a percorrerem “girassóis”, receptivas a tudo e a todos,
  conosco um espaço muito importante, que buscando a riqueza da luz. Ao recebê-las,
  chamamos “Educação Infantil”. São cami- o que precisamos é redescobrir com elas
  nhos que passam por diversas abordagens o ser poético, a espontaneidade, a capa-
  dos conteúdos de Educação Infantil,         cidade de filosofar sobre as coisas e
  oferencendo aos educadores várias           reconhecer suas diferenças e peculiaridades.
  possibilidades de despertarem para a
  sensibilidade e a sabedoria das crianças.       Assim, elas nos sensibilizarão ao retorno
                                              à natureza, à alegria do jogo, do brincar e
      É um trajeto interessante, vivo e       da poesia. Nós lhes daremos a certeza
  comprometido com a reflexão inteligente, de que trabalharemos pela defesa
  com a disposição afetiva e com o desejo de seus direitos.
  de tentar vencer os obstáculos.
                                                  Por elas, abriremos o livro da história e
      Nosso veículo será a leitura de alguns  das tradições. Partilharão conosco do
  textos importantes, que terão como centro mundo, serão também artífices da
  a Educação Infantil e as ações e vivências manifestação cultural e construtoras de
  que podemos realizar com nossas crian-      sua própria história.
  ças. Muitos desses assuntos já são conhe-
  cidos, mas uma releitura sempre traz            Com elas,
  novidades, assim como uma viagem em         construiremos um


                                                                                                               Foto: Sebastião Barbosa
  boa companhia. Na busca do melhor           futuro mais feliz,
  convívio possível, vamos nos envolver em porque através do
  reflexões sobre algumas teorias             deslumbramento
  importantes, que nos auxiliarão a repen- de seu olhar
  sarmos melhor as práticas com as crianças. reencontraremos a pureza de nossa alma e
                                              a certeza do profundo e transcendente
      Para que isso se torne realidade, temos milagre da vida.
  que aprender a observá-las e a ouvi-las,
  pois, quando se expressam, querem               Contamos com a parceria de todos
  sempre nos contar coisas e nos questionar. nessa desafiadora aventura pelo espaço
                                              muito especial que envolve a criança que
      Que mundo é este que nos recebe?        nos é confiada na maior parte de seu dia.
  Como são as pessoas? O que é a natureza?
  Quem sou eu? E muito mais. Diante de


                                                                                                        9
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                              Cadernos Pedagógicos – volume 4




                                                     Para transitar pelos
                                                  caminhos da infância, é
                                                  preciso ter um olhar atento,
                                                  pisar com suavidade,
                                                  reconhecer seu espaço e
                                                  abraçar seu tempo.
                                                     Tudo isso porque fazemos
                                                  parte de seu mundo. Somos
                                                  responsáveis pelas crianças,
                                                  por sua alegria, e cabe-nos
                                                  orientá-las para jogar o jogo
                                                  da vida.
                                                      Para seguir suas trilhas,
                                                  temos de conhecer seus
                                                  anseios, identificar suas
                                                  carências e apresentar-lhes
                                                  ricas possibilidades.
                                                      É preciso projetar
                                                  alternativas criativas e
                                                  oferecer-lhes um caminho
                                                  seguro em direção à
                                                  felicidade.




                                                                                   Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                                                                                 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


                                                                                          ducar versus Cuidar                                      Mesmo hoje, ainda vemos nomenclatu-
                                                                                                                                                   ras distintas para atendimento de 0 a 3
                                                                                                                      Elizabeth Amorim             anos e de 4 a 6 anos. Por isso, nos per-
                                                                                       Bebê
                                                                                                                                                   guntamos: por que creche e pré-escola, e
                                                                                       Coisinha deficiente, inconsciente, inerme,                  não somente educação infantil? Por que
                                                                                       inválida, trabalhosa, querida.                              reafirmar essa divisão, se o que
                                                                                                            Mário Quintana – Na volta da esquina
                                                                                                                                                   desejamos é exatamente o contrário?

                                                                                       Eu educo ou cuido? Cuido e educo?                               Na realidade, a educação infantil
                                                                                    Afinal, qual é o meu papel?                                    atende crianças de 0 a 6 anos, e é isso
                                                                                                                                                   que interessa. Crianças de origens diferen-
                                                                                       Provavelmente você já se questionou                         ciadas, mas que têm em comum o “ser
                                                                                    frente a essa dúvida, principalmente se                        criança”, que se assemelham em algumas
                                                                                    atende crianças até a faixa etária                             características e que brincam, inventam e
                                                                                    dos 3 anos.                                                    sonham.
                                                                                       Por muito tempo, a ênfase no cuidado                           Felizmente, os avanços nos estudos
                                                                                    dominou o atendimento nos programas                            referentes à aprendizagem e ao
                                                                                    de creches, enquanto os programas pré-                         desenvolvimento infantil comprovam
                                                                                    escolares tinham o enfoque educacional                         ser a criança uma curiosa exploradora
                                                                                    como predominância; portanto, o “divór-                        do mundo físico e social. Desde bebês,
                                                                                    cio” entre educar e cuidar apresenta
                                                                                    longa tradição no atendimento infantil.
Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF




                                                                                                                                                                                                         11
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

  as crianças são capazes de estabelecer               Isso significa, em outras palavras, que
  relações significativas com os adultos e        cuidar inclui também preocupar-se com a
  os companheiros numa variedade e                organização do Centro Infantil, de seus
  complexidade bem maiores do que o               horários, de seus espaços e dos materiais.
  constatado no passado. Igualmente               Isto é, que seja um ambiente acolhedor e
  percebemos a criança como um ser                agradável, seguro e alegre, que possa
  global, sejam quais forem as                    oferecer experiências ricas e adequadas
  circunstâncias e situações,                     para as crianças que ali convivem diaria-
  independentemente de classe social,             mente. O ambiente e os momentos po-
  raça ou quaisquer outras diferenças.            dem ser planejados de modo que
                                                  oportunizem autonomia nas rotinas,
     A relevante integração entre educar          como vestir-se e despir-se, proceder à
  e cuidar lembra-nos que as atividades           higiene das mãos e da boca, alimentar-se,
  rotineiras também auxiliam na constru-          etc. Cabe ao educador identificar em
  ção da identidade de uma criança. O             cada uma dessas ações de cuidados as
  que essa integração – educar e cuidar –         inúmeras possibilidades educativas. Por
  na realidade quer enfatizar é a relevân-        exemplo, nessas ações que citamos, as
  cia e o direito da criança de ser               crianças estarão experimentando a consis-
  educada e cuidada. Não existe uma               tência dos materiais de higiene, a leveza
  forma de atendimento que dicotomize             das roupas e a espessura dos panos, as
  o cuidar do educador na Educação                cores e os sabores dos alimentos.
  Infantil. Deve haver uma perfeita
  sintonia entre o adulto – educador e               Os cuidados com a saúde (higiene,
  cuidador – e a criança a ser educada e          alimentação, crescimento e desenvol-
  cuidada. Assim, em estado de                    vimento) são também educativos,
  harmonia, os momentos vividos serão             constituindo-se em funções a serem
  prazerosos e promoverão múltiplas               vivenciadas e executadas por crianças e
  aprendizagens, motivo pelo qual se faz          educadores.
  necessário proporcionar envolvimento
  e atividades compartilhadas, em que                Todos os momentos vividos pela
  ora a iniciativa é do adulto, ora é da          criança são educativos, na medida em
  criança. A maneira de pensar e agir             que ela está constantemente aprenden-
  que associa cuidado e educação preci-           do, através da sua interação com o meio
  sa permear todo o projeto pedagógico            que a rodeia. Dessa forma, as dimensões
  dos centros infantis.                           do cuidado relativo à alimentação, ao
                                                  sono, à higiene, à saúde, etc., são
                                                  educativas sim!


12
Cadernos Pedagógicos – volume 4                            Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

     Quando trocar a fralda de um bebê,       atendidos em suas necessidades básicas e
  por exemplo, é importante conversar         de afeto. A educação e o cuidado são
  com ele, pois os olhos se encontram, há     uma necessidade e um direito da criança
  toque, sensação tátil e movimento; este é   primeiramente, mas também das famílias
  um momento de interação, momento de         que depositam confiança no trabalho que
  vínculo e aprendizagem. Por outro lado,     os centros realizam.
  quando você está com um grupo na faixa
  etária de 4 a 5 anos realizando a higiene       A maneira como você recebe, todos os
  que antecede o lanche, há diálogos          dias, cada criança e tudo o que acontece
  sobre esse momento e sua necessidade,       com vocês até a hora da saída são
  igualmente o contato com a água,            vivências que contribuem para o desenvol-
  quente ou fria, a fricção com a toalha.     vimento infantil, são geradoras de
  Novamente este é um momento                 conhecimento e, portanto, educativas.
  educativo!                                  Então, o conjunto de todas essas experiên-
                                              cias que se interpenetram são,
     E o lanche então! Rico encontro social   intrinsecamente, educação e cuidado.
  e de aprendizado em
  que partilhamos, vemos
  se há comida para todo
  mundo, diferenciamos
  alimentos, comparamos,
  classificamos e assim
  por diante.
     Outro aspecto
  importante a destacar é
  a expectativa que as
  famílias têm ao deixa-
  rem seus filhos nos
                                                                                                             Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi




  Centros Infantis.
  Almejam uma
  educação de qualidade,
  que promova o desen-
  volvimento cognitivo e
  social, mas também
  esperam que seus filhos
  sejam bem cuidados e


                                                                                                    13
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                     Cadernos Pedagógicos – volume 4

      Nesse contexto, podemos hoje supe-          reciprocidade e da complementaridade
  rar a cisão maléfica na atuação com a           existente entre tudo e todos.
  criança; na realidade, jamais deveríamos
  utilizar separadamente esses dois termos           Concluindo – ou resumindo – as
  e, por conseqüência, o sentido deles.           idéias aqui expostas, reiteramos enfati-
  No educar, está “embutido” o cuidar,            camente a necessidade de se ter claro
  pois a instituição infantil possui um i-        que, na instituição infantil, todas as
  nequívoco caráter educacional, mesmo            tarefas, brincadeiras e atividades
  porque a criança tem não somente ne-            realizadas têm valor educativo e
  cessidade, mas também direito de ser            envolvem cuidado.
  cuidada e educada.                              Referências Bibliográficas

      Definitivamente, devemos tirar de           AMORIM, Elizabeth. A dimensão do cuidado essencial no fazer
                                                  pedagógico infantil como exigência primeira na construção da
  nossas mentes a dicotomia educar/cui-           cidadania planetária. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo,
  dar; somente assim não mais a verba-            Faculdade de Educação da UNISINOS, 2002.
  lizaremos e, o que é mais importante,           BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão
                                                  pela terra. 6.ed. Petrópolis Vozes, 2000.
  estaremos integrando cuidado e edu-             CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo:
  cação em nossos fazeres cotidianos.             Gente, 2001.
                                                  DIDONET, Vital. Não há educação sem cuidado. Porto Alegre,
      Sedimentando o que até agora discuti-       Pátio Educação Infantil, n.1, . p. 6-9 abr/jul. 2003.
                                                  HADDAD, Lenira. A ecologia do atendimento infantil:
  mos, não podemos deixar de conceituar o         construindo um modelo e sistema unificado de cuidado e
  cuidado na sua dimensão maior, que o            educação. Tese de Doutorado. São Paulo, Faculdade de Educação
                                                  da USP, 1997.
  designa não como um ato isolado, mas,           KULISZ, Beatriz. Prática pedagógica na educação infantil:
  antes, como uma atitude de zelo, preocupa-      indicações para a construção de um referencial pedagógico.
  ção, responsabilidade e envolvimento afeti-     Dissertação de Mestrado. Porto Alegre, Faculdade de Educação da
                                                  PUCRS, 2001.
  vo. Ou seja, o cuidado envolve atenção e        ROSSETTI-FERREIRA, Maria Clotilde. A necessária associação
  afeto, pois somente cuidamos daquilo que        entre educar e cuidar. Porto Alegre, Pátio Educação Infantil, n.1,
                                                  p.10-12, abr./jul. 2003.
  gostamos e desejamos preservar.
     O cuidado encontra-se na base da
  constituição do homem, já que sem ele
  não seríamos humanos. Implica aconche-
  go, afeto, ternura, sintonia e, sobretudo,
  implica valorizar e importar-se, com o
  outro e com o mundo, não focando so-
  mente o valor utilitário, mas primordial-
  mente a dimensão do respeito, da


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                          Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

    Atividades de Estudo e                                                     “Por sua própria natureza, cuidado inclui
  Aprofundamento                                                              duas significações básicas, intimamente
                                         Maria Helena Lopes                   ligadas entre si. A primeira, atitude de
                                                                              desvelo, de solicitude e de atenção para com
      “... gostaria de propor uma reflexão                                    o outro. A segunda, de preocupação e de
      interessante. Na época em que vivemos, em                               inquietação, porque a pessoa que tem
      que a maior ou menor oportunidade de                                    cuidado se sente envolvida e afetivamente
      acesso ao conhecimento define muitas vezes                              ligada ao outro.”
      o futuro de uma pessoa, as atividades de                                                                         Leonardo Boff
      cuidado assumem cada vez mais uma posição
      de destaque. As máquinas e os robôs                                      • Quais são as possibilidades educa-
      puderam substituir o ser humano em várias                            tivas das crianças ao serem atendidas em
      tarefas, mas não nas de cuidado! O setor no                          suas necessidades de alimentação,
      qual mais crescem as oportunidades de                                higienização, repouso, lazer e afeto?
      emprego é o de serviços. E a competência
      neles exigida envolve também delicadeza e
      cuidado no trato. Outros setores que
      apresentam acentuado crescimento dizem
      respeito diretamente ao cuidado das pessoas




                                                                                                                                           Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi
      e do ambiente ecológico. Cabe, então, a
      pergunta: será que estaremos preparando um
      futuro melhor para nossas crianças se
      deixarmos o cuidado de fora das tarefas
      educativas em nossas creches e pré-escolas?”
                          Maria Clotilde Rossetti-Ferreira (2003, p. 12)

      • Debata com seus colegas
  a citação acima, relacionando-a com
  as idéias do texto Educar versus Cuidar.
  A partir das idéias levantadas com
  o grupo, responda à pergunta
  que finaliza a citação.




                                                                                                                                  15
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                           Cadernos Pedagógicos – volume 4




                 Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                      Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                                              mesma, de acordo, é claro, com o seu
          ntrando em um Novo                                                  desenvolvimento. Sendo assim, será vá-
          Mundo                                                               lido denominarmos como adaptação o
                                               Elisabeth Amorim               tempo referente aos primeiros dias do
                                                                              ingresso da criança na instituição
     Conceitos1                                                               infantil?
     Adaptar: amoldar, apropriar,
                                                                                 O que realmente desejamos desse
  conformar.
                                                                              momento de transição: que a criança se
     Adaptado: acomodado, amoldado,
                                                                              molde ao meio, ou que se integre,
  ajustado.
                                                                              sentindo-se parte dele?
     Integrar: tornar-se inteiro; com-
  pletar, integrar, integralizar; juntar-se                                     É tempo de parar, parar e refletir sobre
  tornando-se parte integrante, reunir-se,                                    em que ideário estamos alicerçados...
  incorporar-se.
     Integrado: diz-se de cada uma das                                             “Com freqüência ‘deixar a casa’ é uma
  partes de um todo que se completam                                               experiência mais forte do que ‘entrar na
                                                                                   escola’.[...] Existe muito pouco crescimento se
  ou se complementam.
                                                                                   não há algum tipo de sofrimento ou ansiedade.
     Não poderíamos, neste momento,                                                Quando damos um passo à frente, para um
  deixar de refletir sobre os termos                                               novo estágio ou desafio, deixamos,
  mencionados, já que trataremos sobre a                                           necessariamente, algo para trás. Sem esses
                                                                                   altos e baixos a vida seria plana e as pessoas
  adaptação da criança à instituição
                                                                                   não se desenvolveriam. Quanto mais jovem for
  infantil.
                                                                                   o indivíduo, mais ajuda ele precisará ter para
      Muitas vezes, e esta é uma delas,                                            seguir em frente sem maiores sofrimentos.”
  utilizamos palavras sem realmente nos                                                                                            Nancy Balaban

  aprofundar sobre os seus significados e,                                        A separação é uma experiência que
  conseqüentemente, se ela é adequada à                                       ocorre em todas as fases da vida huma-
  situação.                                                                   na. Ela começa quando o bebê deixa o
      O termo adaptação é o mais indicado                                     conhecido e aconchegante útero mater-
  ao período a que nos referimos? É sabido                                    no e entra em um mundo de sons, luzes
  que a educação infantil tem a autonomia                                     e contatos. Daí em diante, ela se encon-
  como um de seus pilares, pois oferece                                       tra no aprender a andar, no dormir na
  situações para que a criança aja por si                                     casa dos avós, na entrada na escola, na
                                                                              briga com o(a) namorado(a), no casa-
      1
       Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s.d.




                                                                                                                                              17
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4


  mento e em inúmeras outras situações.              É ponto pacífico a forte e profunda
                                                  vinculação mãe/filho; por isso, Gilda
      Em todas esses acontecimentos, há o         Rizzo (2000) afirma que o período de
  abandono de um território familiar e o          integração “envolve muitos fatores e o
  ingresso no desconhecido, no novo               sentimento de, pelo menos, duas pes-
  ainda não experimentado. Também não é           soas: mãe e filho”, acrescentando ainda
  assim o que acontece conosco cada vez           que “o nível de segurança afetiva de uma
  que uma turminha nos “deixa” e entra            criança é muito dependente do nível de
  outra, ainda por nós desconhecida?              segurança afetiva básica da mãe”.
  Como será cada criança, como reagirá
  ao ambiente e a mim? Como EU reagi-                A integração de um bebê até em
  rei? Terei a sensibilidade necessária? É o      torno de 7 ou 8 meses é, normalmente,
  que nos perguntamos.                            tranqüila, pois ainda não entrou na cha-
                                                  mada época do “estranhamento” a am-
      Por isso, os dias iniciais na instituição   bientes e pessoas. Então, é a mãe que
  infantil exigem sempre um esforço de            “se integra”, passando alguns períodos
  integração conjunta da instituição, da          observando como as crianças são atendi-
  família e da criança. Até esse momento,         das nos diferentes momentos pela equipe
  habitualmente a criança conviveu basi-          do berçário.
  camente com sua família e no cotidiano
  somente com as pessoas de sua casa. No              A partir dessa idade, é comum as crian-
  lar, além da segurança da forte                 ças reagirem a novos ambientes; as carac-
  vinculação afetiva, há também a segu-           terísticas individuais nortearão as
  rança do lugar conhecido, que pode ser          diferentes reações que devem ser respeita-
  explorado a todo momento, tanto os              das, bem como a busca de alternativas
  cômodos quanto os objetos.                      facilitadoras deve estar presente, porque
                                                  precisamos lembrar que, até esse momen-
     Já na instituição infantil tudo é novo e,    to, o parâmetro da criança era a família,
  por conseqüência, desconhecido: mudam           seus hábitos e comportamentos. Dessa
  o espaço, a rotina, as pessoas... A criança     forma, ela espera que você aja e tenha as
  passa a conviver com mais adultos e crian-      mesmas reações dos adultos que ela co-
  ças em um ambiente estranho. O novo             nhece, principalmente dos pais. Leva
  mundo afeta também sua família, que sofre       tempo para as crianças perceberem que
  com esse processo de encaixar horários,         adultos diferentes se comportam de
  mudança de rotina e questionamentos             maneira diferente, e também demora um
  sobre como a criança será atendida.             pouco para elas diferenciarem o que



18
Cadernos Pedagógicos – volume 4                             Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  acontece em casa daquilo que acontece           O vínculo com a educadora, nesses
  no centro infantil.                          primeiros dias, é o objetivo primordial,
                                               visto ser através dele que a criança se
      Para a criança, as regras e os compor-   sentirá segura para interagir nesse novo
  tamentos familiares são universais; então,   mundo. É você quem vai auxiliar cada
  causa estranheza, por exemplo, poder         criança a familiarizar-se com o novo
  sujar as mãos se em casa não pode ou,        ambiente, seus hábitos e rotinas, é
  ainda, você agir de forma diferente de       você que, através de demonstrações de
  sua mãe. Por isso, é necessário “avaliar”    segurança e tranqüilidade, mostrará
  todo o ambiente que a cerca – humano e       que ela é aceita, respeitada e entendida
  físico – e essa “avaliação” é realizada de   nesse meio que, apesar de novo, é
  acordo com a maneira como cada               organizado e preparado para ela.
  criança reage a situações novas.
                                                  É por tudo isso que, no livro O início
      Esse novo mundo – o centro infantil –    da vida escolar, Nancy Balaban diz que
  traz curiosidade, expectativa, inseguran-    as crianças sentem-se estranhas num
  ça e, às vezes,
  muito medo!
  Será que vão
  saber cuidar de
  mim? E se eu
  ficar doente? Se
  eu cair? Se a
  mamãe não vier
  me buscar? Se
  eu fizer xixi nas
  calças? Se eu
  não quiser
  comer? Quem
                                                                                                         Foto: Unicef




  sabe que eu não
  gosto de beter-
  raba ou de abó-                              grupo novo que é diferente do seu grupo
  bora? Na verdade, são muitos “se”, são       familiar e no qual elas não têm um status
  várias e diferentes dúvidas que, consci-     especial. Nesse local, talvez só você,
  ente ou inconscientemente, causam            educadora, saiba seus nomes, e ninguém
  grande apreensão!                            realmente gosta ou não delas de alguma


                                                                                                     19
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

  maneira especial. Elas “não têm o seu           fase muitas vezes é confuso, pois,
  lugar natural nesse grupo, mas vão ter          mesmo percebendo que essa transição é
  que conquistá-lo através de seu compor-         necessária e boa para a criança, sentem-
  tamento. Embora elas ainda não saibam           se culpados, com sensação de perda e
  disto, é provável que o sintam”.                apreensivos por entregarem o que eles
                                                  têm de mais precioso a pessoas que, até
     Como vimos, as crianças reagem               aquele momento, ainda são estranhas.
  diferentemente umas das outras: algumas         Por isso, os pais precisam ser igualmente
  mostram-se desconfiadas, ou choram, ou          atendidos nessa fase de transição, devem
  não aceitam contato; outras ingressam           perceber que o centro infantil – e princi-
  querendo explorar todo o ambiente, ou           palmente você – entende que vários
  tentando deter-se em tudo ao mesmo              tipos de emoção estão aí envolvidos e
  tempo.                                          que é impossível compreender os senti-
     Essa transição e o estabelecimento de        mentos da criança sem avaliar simultane-
  confiança é gradativo, motivo pelo qual,        amente os sentimentos deles, uma vez
  durante os primeiros dias, é aconselhável       que este é um acontecimento significati-
  que a criança permaneça por um perío-           vo para ambos.
  do menor do que o normal na institui-               A reação da criança está muito ligada
  ção. Esse tempo vai sendo prolongado            ao estilo de vida de sua família, bem
  gradativamente, à medida que você               como ao tipo de relações dos adultos
  percebe que a criança tranqüiliza-se e          que a rodeiam e, principalmente, à sua
  age com maior naturalidade.                     relação com a mãe. Também a maneira
     Dentro do possível, é importante a           como a mãe encara essa separação
  presença familiar – principalmente a            influencia de forma direta o comporta-
  materna – no ambiente da instituição            mento da criança: se ela tem pena, medo
  durante esse processo, o que permite não        de dividir, ou fantasias em relação a
  somente maior segurança para a criança,         como seu filho será tratado, com certeza
  como também à família conhecer melhor           dificultará o processo.
  o local e a educadora. O comportamento             Quando há um bom nível de segu-
  familiar nesse momento é fundamental,           rança emocional, isto é, se a criança
  pois, com já dissemos, ele será um dos          estabeleceu uma relação de confiança
  parâmetros percebidos pela criança.             com a mãe, ela consegue, gradativa-
       Os sentimentos dos pais durante essa       mente, ficar afastada dela sem ter
                                                  medo de perdê-la. Tranqüilidade e



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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                       Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  segurança, sem sentimento de culpa, é a
                                                     “Vai aqui este pedido aos professores, pedido
  conduta indicada, e a instituição deve
                                                     de alguém que sofre ao ver o rosto aflito das
  encontrar-se permanentemente à disposi-
                                                     crianças: lembrem-se de que vocês são
  ção para esclarecer dúvidas e anseios. Por         pastores da alegria e de que sua responsa-
  isso, o período de integração deve ser             bilidade primeira é definida por um rosto
  cuidadosamente planejado para que                  que lhes faz um pedido ‘Por favor, me ajude
  sejam construídos a confiança e o conhe-           a ser feliz...’”
  cimento mútuos. É desse modo que                                                                      Rubem Alves
  acontece o estabelecimento de vínculos
                                                 Referências Bibliogáficas
  afetivos entre as crianças, as famílias e os
  educadores.                                    BALABAN, Nancy. O início da vida escolar: da separação à
                                                 independência. Porto Alegre: Artmed, 1998.
      Assim, é permitido à família               CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São
                                                 Paulo: Gente, 2001.
  conscientizar-se de que a instituição está     OLIVEIRA, Zilma de Moraes (Org.) Educação infantil: muitos
  habituada com esse momento e as educa-         olhares. São Paulo: Cortez, 1994.
                                                 OLIVEIRA, Zilma de Moraes et al. Creches, faz-de-conta e cia.
  doras, aptas a controlar as situações que      2.ed. Petrópolis: Vozes, 1992.
  surgirem. Essa parceria torna o processo de    RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Vozes, 2000.
  transição não somente mais tranqüilo, mas,     RIZZO, Gilda. Creche: organização, montagem e
                                                 funcionamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
  sobretudo, representa o início de
  uma desejada, agradável e
  gratificante caminhada.



                                                                                                                        Foto: Sebastião Barbosa




                                                                                                                 21
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                    Cadernos Pedagógicos – volume 4

       Atividades de Estudo e Aprofundamento
                                            Elisabeth Amorim

       “O vivido só se torna recordação da lei da
       narração(...). E aí se torna outra vez vivo,
       aberto, produtivo. A memória que lê e que
       conta é a memória em que o ‘era uma vez’
       converte-se em um ‘começa’!”
                                                   Jorge Larrosa


     • Você se lembra do seu primeiro dia
  na escola? Quais eram os sentimentos:
  ansiedade, medo, expectativa, excitação?
  A lancheira foi aberta? Como era a edu-
  cadora? O que marcou em você? Se você
  não se lembra desses detalhes, pergunte
  a seus pais como foi.
     • Recorde, através da narração,
  algum fato ou situação em que sua vida




                                                                                           Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi
  sofreu mudança e, portanto, o novo e o
  desconhecido foram enfrentados.
  Quais foram os sentimentos e as reações?
     • Cite alguns procedimentos
  indicados para o período de integração
  da criança ao Centro Infantil.




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                         Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                           de toda pulsão, de todo impulso,
          gressividade e Limites:                          constituindo nossos instintos de
          possibilidades de                                autopreservação, instintos sexuais, de
          intervenção                                      destruição e de todo desejo. São as
                                                           pulsões de vida e de morte que constitu-
                                  Loide Pereira Trois      em a natureza humana. Todos os indiví-
                                                           duos possuem instintos agressivos que se
       “É necessário que o adulto entenda, aceite e
                                                           desenvolvem à medida que crescemos e
       valorize que a criança, ao brincar, necessita
       derrubar a torre de blocos de montar para
                                                           interagimos com o nosso meio ambiente.
       que assim possa valorizar a sua própria             Esses impulsos podem ser observados em
       capacidade de construir e errar.”                   nossos comportamentos e atitudes, mas
                                         Donald Winicott
                                                           sua origem não é consciente, ou seja,
                                                           fazem parte de nosso psiquismo, do
     Para que possamos entender as dife-                   nosso inconsciente.
  rentes manifestações da agressividade, é
  importante considerar que o erro faz                        É importante destacar que os impulsos
  parte de toda aprendizagem. Assim, para                  agressivos são constituintes de nosso
  montar uma torre de blocos, teremos                      desenvolvimento humano e que, por isso,
  que aprender a derrubá-la e ir refazendo                 não podem ser analisados como patológi-
  esse gesto até a descoberta da                           cos. Cabe aqui diferenciarmos as manifes-
  construção desse novo conhecimento.                      tações da agressividade e o ato agressivo.
  Partimos, então, da noção de que, ao
  longo do desenvolvimento humano,
  existem momentos de acerto e de erro
  na construção de nossos valores e con-
                                                                                                                Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




  ceitos. O elemento fundamental nesse
  processo é a crença em nossa própria
  capacidade de superar conflitos e
  crescer com os desafios que nos são
  colocados.
     Conforme Sigmund Freud, grande
  pensador que estudou e desvendou a
  psique humana e nos deixou como
  legado a descoberta da noção de
  inconsciente, a agressividade faz parte



                                                                                                                                              23
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

      O ato agressivo dificulta a nossa           ser atendido em suas necessidades vitais.
  capacidade de pensar, indicando riscos          Posteriormente, a criança passa a explorar
  para nossa aprendizagem. Por trás de um         mais ativamente o meio em que está
  ato agressivo não existe uma intenciona-        inserida e, assim, puxa, empurra, bate, joga
  lidade hostil consciente da criança; ao         objetos que estão ao seu alcance para
  contrário, ela está nos mostrando que           conhecer e aprender sobre os mesmos.
  algo não vai bem, que ela não está con-
  seguindo lidar com seus impulsos agres-             Numa etapa seguinte, surgem as
  sivos de maneira sadia, ou seja, é um           mordidas, um período maturacional da
  pedido de ajuda para que o outro lhe            criança que é percebido pelo apareci-
  mostre um modo de veicular sua energia          mento dos dentes e sua conseqüente uti-
  de forma construtiva. É uma energia pul-        lização: ela morde pela necessidade de
  sional que necessita ser canalizada para        saciar sua ansiedade. Por volta dos 2 anos,
  fins socialmente aceitos e produtivos           a criança inicia seu processo de controle
  para que ocorra um crescimento pessoal          esfincteriano, que vai se consolidar por
  e aprendizagem.                                 volta dos 3 anos, período em que os im-
                                                  pulsos agressivos são manifestados através
      Se afirmamos que uma criança é agres-       da produção dos excrementos (fezes e u-
  siva, estamos considerando que esta é uma       rina), e a criança tenta controlar o meio
  característica e um traço da identidade         que a cerca.
  dela e impedindo a percepção de que a
  criança está em formação e que, portanto,           A partir dos 4 ou 5 anos, vemos que os
  trata-se de características que podem ser       impulsos agressivos são direcionados à
  transitórias em seu desenvolvimento.            figura dos adultos como desafio a autori-
  Desse modo, a criança está agressiva por        dade, ou seja, é uma fase de “ teste”, na
  alguma causa e pode cometer atos                qual a criança passa a questionar os limi-
  agressivos que posteriormente poderão ser       tes de suas ações. Os impulsos agressivos
  reparados em seu comportamento.                 são manifestados através de várias atitu-
                                                  des que interpelam a capacidade de to-
      Vejamos como se manifestam os impul-        lerância, paciência e firmeza da figura de
  sos agressivos ao longo de nosso desenvol-      autoridade evocada. Como resultado des-
  vimento humano. Inicialmente, os nossos         sa fase, temos a formação do sentimento
  impulsos agressivos são manifestados            de respeito e a noção de limite interna-
  através de nosso instinto de sobrevivência.     lizada pela criança. Podemos perceber
  O choro do bebê apresenta seu estado de         que os impulsos agressivos estão presen-
  desconforto, desprazer (dor, frio) ou neces-    tes e vão evoluindo ao longo de nosso
  sidade nutricional (fome): ele chora para       desenvolvimento. Uma vez que esses


24
Cadernos Pedagógicos – volume 4                            Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  impulsos sejam canalizados e desviados           Se como educadores não somos
  para outros fins, intensificando sua ma-     capazes de elaborar perguntas, formular
  nifestação, passam a ser considerados e      hipóteses e usar a nossa criatividade
  transformados em agressão ou ato             frente à agressão da criança, frente à
  agressivo.                                   situação que deu origem a esse ato, é o
                                               próprio educador que está se agredindo
     Como educadores, conhecemos bem o         por estar se considerando incapaz e
  que se sente diante de um ato agressivo.     impedindo seu próprio crescimento
  Vivencia-se sentimentos de angústia, de      diante desse desafio.
  dor, de não saber. O fundamental, nesse
  momento, é tomar distância do ocorrido e        É importante que possamos estabele-
  tentar escutar o que a criança está          cer laços afetivos seguros e verdadeiros
  querendo dizer em cada chute, em cada        com as crianças, compreendendo-as até
  empurrão, em cada palavra ou gesto.          mesmo em suas reações agressivas.
                                               Nessa compreensão, não se trata de
     É preciso se descentrar e incluir o       “deixar assim mesmo”, “esperar passar”
  pensamento como um terceiro termo            ou sentir pena da criança, mas
  entre o educador e a criança. Desse          justamente confiar na sua capacidade de
  modo, estaremos possibilitando um
  espaço de indagação e questionamento
  sobre o ato formulando perguntas, co-
  mo: a quem essa criança agride quando

                                                                                                Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi
  me agride?
      Quando um aluno enfrenta agressiva-
  mente o educador, e este pensa que a a-
  gressão é para ele, está colocando-se num
  nível imaginário a partir do qual só vai
  aumentar a atuação agressiva da criança,
  impedindo a formação de um espaço de
  diálogo e reflexão. É preciso ter em mente
  que a criança está agredindo através de
  mim outras situações presentes e
  passadas na sua história. É
  necessário, para compreender essa
  ação, descobrir a que ações, a que
  atitudes essa agressão se dirige.


                                                                                                                                                    25
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

  resolver o conflito, de superar esse pro-          As saídas para as situações de agres-
  blema no amparo seguro da relação               são são complexas; no entanto, a resolu-
  afetiva com o educador.                         ção da agressão através de outra agressão
                                                  favorece a manutenção do comporta-
      A noção de limites se coloca através        mento agressivo. As punições e coações
  da formação do sentimento de respeito à         abusivas do adulto diminuem o comporta-
  figura de autoridade e da aposta na             mento agressivo temporariamente,
  capacidade de reparação do erro.                reaparecendo-o em contextos diferentes e,
      O importante é fazer com que a criança      muitas vezes, com mais intensidade.
  retire dessa situação elementos significati-       Somos adultos, mas a criança de
  vos para sua aprendizagem, repare o erro,       nossa infância habita dentro de nós e,
  procure tomar mais cuidado e atenção da         por vezes, precisamos revisar nossas
  próxima vez para que não volte a repetir o      próprias convicções morais, éticas, e
  ato agressivo. Assim, estamos conduzindo        pensar sobre a forma como fomos
  a criança a pensar sobre seus atos e modifi-    educados, como vivemos nossa
  car suas atitudes pela reflexão e pelo          infância, buscando qualificar a nossa
  entendimento do que ela mesmo faz e             formação pessoal e transformar a nossa
  provoca.                                        ação educativa.
      As atitudes de repressão, castigo               O educador é modelo, é uma refe-
  ou humilhações apenas provocam um               rência estruturante para a criança. As
  sentimento de desvalia e obediência             crianças aprendem não apenas com o
  cega, sem a conscientização do ato              que é dito, mas sobretudo com o que
  errado por parte da criança. Um outro           vêem, com a coerência entre as ações
  sentimento freqüente diante de situa-           e o discurso dos educadores; assim,
  ções de conflitos e brigas entre as             quando apresentamos modelos pau-
  crianças, e para o qual devemos ter             tados no diálogo, na cooperação, na
  bastante atenção, é quando uma crian-           solidariedade, esses serão repetidos e
  ça agride outra pessoa. Por vezes, po-          valorizados pela criança. Quando a
  demos nos identificar com o agredido            criança aprende a resolver verbalmen-
  e tomar partido frente à agressão.              te seus conflitos, explicando o que
  Aliando-nos com a pessoa agredida e             aconteceu e entendendo os motivos e
  culpabilizando ao extremo a criança             as conseqüências de seus atos, as
  envolvida, não estamos tomando dis-             situações de agressão e os atos agres-
  tância e refletindo sobre o ato                 sivos diminuem. Nesse caso, é funda-
  agressivo, mas sim fechando uma                 mental que haja a valorização dessa
  interpretação.

26
Cadernos Pedagógicos – volume 4                           Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  conquista, reforçando-se a aprendiza-
  gem da criança.
      Como educadores, temos a possibi-
  lidade de criar espaços de aprendiza-
  gem nos quais a agressividade possa
  se manifestar de forma sadia e equili-
  brada e nos quais os atos agressivos
  não sejam mais necessários. Acreditar
  em nossa capacidade de superar essas
  situações, tomando-as como desafios
  constantes em nosso fazer cotidiano, é
  acreditar em nossa capacidade de
  transformar e de educar.
  Referências Bibliográficas

  BIAGGIO, A. Psicologia do desenvolvimento. Rio de
  Janeiro: Vozes, 1985.
  DELL’AGLIO, D. Controle esfincteriano. UFRGS, 1993
  (mimeo).
  FERNANDEZ, A. A mulher escondida na professora:
  uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da
  corporeidade e da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed,
  1993.
  FERNANDEZ, A. Agressividade: qual teu papel na
  aprendizagem? Revista Paixão de Aprender.
  MACHADO, M. C.; NOGUEIRA, N. Como lidar com a
  criança agressiva. Revista Nova Escola, n.4, 1986.
  REDL, F.; WINEMAM, D. A criança agressiva. São Paulo:
  Martins Fontes, 1985.
                                                                                                    Ilustração de criança do abrigo Maria Goretti / Colombia




                                                                                                   27
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                                                     Cadernos Pedagógicos – volume 4

  Atividades de Estudo e Aprofundamento                         logo para a briga, empurra, joga objetos,
                                          Loide Pereira Trois   bate ou chuta os colegas.

    Leia com atenção o caso relatado                                A intervenção da educadora, nessas
  abaixo.                                                       situações, é utilizar o diálogo e buscar,
                                                                com ele, as explicações para seus atos
      Pedro é aluno de um Centro Infantil                       errados. Embora ele a escute e preste
  há três anos, sua adaptação foi bastante                      atenção em sua conversa, não consegue,
  tumultuada, não queria ficar no Centro                        posteriormente, cumprir exatamente o
  de Educação Infantil e nem separar-se de                      que foi combinado com ela e, algumas
  sua mãe, fato que a deixava muito ansio-                      vezes, explica à educadora: “eu não
  sa e insegura. Aos poucos, com a ajuda e                      consigo me segurar”   .
  intervenção da educadora e dos demais
  integrantes da instituição, foi adaptando-
  se ao grupo e participando da rotina
  diária.
      Desse modo, foi aceitando melhor a
  separação de sua mãe e promovendo uma
  maior segurança e bem-estar a ela. A mãe
  do menino começou a ficar mais
  confiante em seu filho, aspecto que lhe
  era muito difícil, pois na maioria das
  vezes considerava-o frágil, com “muita
  dificuldade” e necessitando sempre de
  ajuda para fazer qualquer coisa.
      Após esse período de adaptação, o
  menino passa a participar ativamente das
                                                                Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi




  atividades, entende a rotina diária, é
  interessado, discute suas idéias e brinca
  com todos os colegas; no entanto, quan-
  do é contrariado, fica irritado, muito
  furioso e não aceita nenhuma forma de
  negociação ou cumprimento das regras
  de convivência. Nesses momentos, cos-
  tuma reagir de forma impulsiva e parte


28
Cadernos Pedagógicos – volume 4              Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

     Responda e Registre
     • O que você pensa sobre as atitudes
  do menino?
     • Como podemos caracterizar o
  comportamento desse menino com
  relação à agressividade e aos limites?
     • Qual seria sua forma de atuação se
  fosses educador nesse caso?
      Leia com atenção a cena abaixo:
      Marcos e Pedro são colegas da escola
  e ambos tem 5 anos. Marcos é uma
  criança bastante ativa, interessada em
  conhecer o ambiente e aceita com muita
  facilidade desafios. Pedro não tem
  irmãos, mora com seus avós e adora
  brincar de jogar bola, subir em árvores,
  correr e superar limites.
     Numa tarde, na hora do pátio, quan-
  do estavam brincando de futebol, dispu-
  taram a bola para fazer o gol e acabaram
  se empurrando. Pedro ficou muito bravo
  e começou a gritar e a chutar Marcos.
  Marcos chorou muito e foi socorrido pela
  educadora que estava no pátio.
     Diante dessa cena do cotidiano e com
  base na leitura do texto, responda:
     • Qual seria a intervenção do educa-
  dor buscando promover a consciência
  do ato agressivo?




                                                                                      29
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância   Cadernos Pedagógicos – volume 4




   Foto: Sebastião Barbosa




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                      Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                                        dessas populações, através da educação
                                                                        e do cuidado das crianças.
           aúde da Criança
                                                      Halei Cruz            Nessas ações estão incluídos alguns
                                                                        fatores que devem fazer parte da prática
      “São direitos fundamentais da criança                             dos responsáveis pela saúde infantil
      a proteção à vida e à saúde, mediante a                           dentro e fora de creches e centros de
      efetivação das políticas sociais públicas que                     Educação Infantil.
      permitam o nascimento e o desenvolvimento
      harmonioso, em condições dignas de                                   Procuramos abordar, neste artigo, os
      existência.”                                                      conhecimentos fundamentais que dizem
                           Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA   respeito às medidas preventivas de risco
                                                                        à saúde das crianças, ao seu crescimento,
     Em primeiro lugar, pensar em saúde                                 à alimentação e aos cuidados.
  infantil, principalmente na faixa de 0 a 6
  anos, é caracterizar o cumprimento dos                                   Precisamos conhecer e operar dentro
  direitos da primeira infância a uma vida                              do trinômio educação + saúde + assis-
  digna, feliz e saudável.                                              tência social, com vistas a colaborar no
                                                                        desenvolvimento da criança com a maior
     É certo que já existem leis que                                    qualidade possível .
  regulamentam os direitos das crianças
  e políticas intersetoriais que operam                                    Nessa concepção, não há áreas estan-
  em seu favor. No entanto, há que se                                   ques. Devemos considerar a saúde de
  considerar as grandes dificuldades a                                  forma simultânea, como o conjunto de
  serem vencidas para que tais políticas                                ações nas quais estejam envolvidos os
  atendam, se não à totalidade, pelo                                    programas de serviços sociais básicos de
  menos a maioria de nossas crianças.                                   educação, assistência social, lazer e
                                                                        cultura.
      Muitas ações sociais ainda precisam
  ser desenvolvidas para que se dê plena                                   O crescimento da criança
  garantia de saúde a um número significa-                                 O crescimento, assim como o desen-
  tivo de crianças, principalmente àquelas                              volvimento, é o resultado de modifi-
  pertencentes às camadas mais carentes e                               cações estruturais e funcionais que
  que, em nosso país, representam um                                    ocorrem no indivíduo desde a concep-
  número considerável.                                                  ção até a idade adulta.
     As instituições de Educação Infantil                                  Muitas vezes, há confusão entre o
  assumem sua parcela de responsabilida-                                significado dos termos crescimento e
  de na tarefa de minimizar as carências                                desenvolvimento, mas cada fenômeno

                                                                                                                              31
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                Cadernos Pedagógicos – volume 4

                tem suas características próprias. En-    indivíduo poderá crescer.
                quanto o crescimento se refere ao            • Emocionais – o afeto, a atenção e a
                aumento das dimensões do corpo, o         sensação de segurança favorecem o
                desenvolvimento significa aquisição de    crescimento.
                habilidades como andar ou falar. O           • Socioeconômicos – crianças que
                crescimento se deve ao aumento de         vivem em ambiente de baixo nível socio-
                volume e do número de células do          econômico tendem a apresentar atraso
                organismo, e o desenvolvimento decorre    no crescimento.
                da maturação, da diferenciação e da          • Nutricionais – a alimentação ade-
                capacidade de ação integrada dos          quada fornece matéria-prima para o
                sistemas orgânicos.                       crescimento e a multiplicação das
                                                          células.
                   Todos os animais crescem e se             • Neuroendócrinos – os sistemas ner-
                desenvolvem, mas no homem esses           voso e endócrino (produtor de hormônios)
                processos ocorrem de forma mais lenta e   são responsáveis pela regulação do funcio-
                complexa. Os fatores que interferem no    namento do organismo. Desequilíbrios
                crescimento são:                          nesses sistemas produzem alterações no
                   • Genéticos – determinam o poten-      crescimento.
                cial de crescimento, isto é, o quanto o      O crescimento se inicia a partir da
                                                                                   fecundação,
                                                                                   isto é, da união
                                                                                   do espermato-
                                                                                   zóide com o
                                                                                   óvulo. O perío-
                                                                                   do de cresci-
                                                                                   mento da
                                                                                   criança dentro
                                                                                   do útero mater-
                                                                                   no é chamado
                                                                                   de período pré-
                                                                                   natal e, após o
                                                                                   nascimento,
                                                                                   período pós-
 Foto: UNICEF




                                                                                   natal.



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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                                                         Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                                                   O período pré-natal compreende duas      materna deficiente leva à maior probabi-
                                                                                fases: a embrionária e a fetal.             lidade de nascimento de uma criança
                                                                                                                            com baixo peso. Considera-se recém-
                                                                                    Na fase embrionária, correspondente     nascido de baixo peso a criança que
                                                                                ao primeiro trimestre da gravidez, o ser    apresenta peso inferior a 2.500 gramas
                                                                                em crescimento é denominado de em-          no momento do nascimento. Essas crian-
                                                                                brião. Nessa etapa, o crescimento é         ças têm maiores chances de adoecer e
                                                                                lento, ocorrendo a diferenciação das        até mesmo de morrer do que as crianças
                                                                                células para formar órgãos e sistemas. A    que nascem com peso adequado.
                                                                                exposição do embrião a agentes
                                                                                externos, como radiação, infecções, uso         O crescimento pós-natal se dá em
                                                                                de álcool, medicamentos e outras drogas     quatro fases:
                                                                                pela mãe, pode levar à ocorrência de            • Primeira Infância – do nascimento
                                                                                malformações que são alterações na          aos 3 anos. É uma fase de crescimento
                                                                                estrutura e no funcionamento de órgãos.     rápido, apesar de mais lento que na fase
                                                                                                                            fetal. Nessa etapa, as carências
                                                                                   Na fase fetal, correspondente aos        nutricionais e as infecções constituem os
                                                                                segundo e terceiro trimestres da gesta-     maiores riscos para a saúde e a vida das
                                                                                ção, há uma aceleração do processo de       crianças. Se compararmos o crescimento
                                                                                crescimento. A criança em formação é        do indivíduo em toda a sua vida, após o
                                                                                chamada, então, de feto. É a fase da vida   nascimento, essa etapa é aquela em que
                                                                                em que o crescimento se faz com maior       ele acontece com maior velocidade,
                                                                                velocidade e sofre grande influência do     principalmente no primeiro ano de vida.
                                                                                estado nutricional da mãe. A alimentação    Ao completar um ano, a criança triplicou
Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi/Kit Família Brasileira Fortalecida/UNICEF




                                                                                                                                                                                 33
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

  o seu peso de nascimento e aumentou                 As crianças com atraso no crescimen-
  em 50% a sua estatura.                          to, ocasionado por fatores como desnu-
                                                  trição ou infecções, tendem a apresentar
     • Segunda Infância – corresponde ao          velocidade de crescimento maior que a
  período entre os 3 e os 10 anos. A              esperada para a idade após a correção
  velocidade de crescimento se mantém             daqueles fatores. Esse fenômeno é cha-
  constante e mais lenta que na fase anterior.    mado crescimento compensatório e
     • Adolescência – correspondente ao           ocorre até que a criança alcance o nível
  período entre os 10 e os 18 a 20 anos.          que teria se não houvesse o atraso. É
  Há um período inicial de aceleração da          observado, principalmente, nas crianças
  velocidade de crescimento (estirão              abaixo de 2 anos.
  pubertário) cujo máximo se dá em torno              O acompanhamento do crescimento
  dos 12 anos, para as meninas, e 14 anos,        e do desenvolvimento da criança, nos
  para os meninos. A partir daí, a velocida-      serviços de saúde, permite detectar
  de de crescimento diminui.                      precocemente, e assim tratar eficazmen-
     • Parada do Crescimento – ocorre             te, problemas que podem comprometer,
  entre os 18 e os 21 anos, quando o              muitas vezes de forma grave, a sua saúde
  indivíduo alcança o seu ponto máximo            e o seu futuro.
  de crescimento. Alguns tecidos, como a             Para o acompanhamento do
  pele, continuam seu processo de multi-          crescimento, utilizam-se gráficos com
  plicação celular.                               curvas de referência. Os gráficos mais
     A necessidade de maior demanda               usados, para crianças, são os que
  nutricional no período de crescimento           permitem analisar a evolução do seu
  determina maior risco à saúde. Quanto           peso no decorrer do tempo, tomado em
  maior a velocidade de crescimento,              meses, chamados de gráficos de peso
  maior será o efeito nocivo da deficiência       para a idade. Outros tipos de gráficos
  nutricional no indivíduo. Portanto, os          podem ser utilizados, de acordo com o
  períodos de maior risco são o pré-natal,        objetivo da avaliação do crescimento,
  a primeira infância e a adolescência. Ao        como o de estatura para a idade ou o
  longo deles é que se deve atuar com             de peso para estatura.
  mais atenção aos cuidados de saúde,                Considera-se que o crescimento é
  como alimentação adequada e preven-             adequado quando a criança apresenta
  ção de infecções.                               sempre ganho de peso a cada avaliação,



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Cadernos Pedagógicos – volume 4                            Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  principalmente se a sua curva de             mentos, o que é chamado de desmame.
  crescimento acompanha as curvas do
  gráfico de referência.                          Devido ao seu valor nutritivo e às
                                               vantagens do seu uso, para a criança e
     Todas as crianças devem ter seu           para a mãe, o leite materno deve ser
  crescimento acompanhado, em avalia-          oferecido à criança até os 2 anos, segun-
  ções periódicas, nas consultas aos servi-    do a orientação da Organização Mundial
  ços de saúde.                                de Saúde (OMS).
     A vida e a saúde da criança são direi-        O leite de outros animais eventual-
  tos universais e garantidos pelo Estatuto    mente pode ser oferecido ao bebê, mas
  da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/   com grandes desvantagens em relação ao
  90), que regulamenta o artigo 227 da         leite humano. Isso porque cada animal
  Constituição da República Federativa do      produz leite de composição específica
  Brasil. O acompanhamento do cresci-          para as necessidades nutritivas e o ritmo
  mento é a ação de saúde que mais repre-      de crescimento dos indivíduos da sua
  senta a garantia dos direitos da criança.    espécie (Tabela 1).
     Alimentação da criança
     A alimentação é um dos mais impor-
  tantes fatores responsáveis pelo cresci-
  mento do indivíduo. É fundamental que
  todos os que trabalham com crianças
  contribuam para que elas tenham acesso
  à alimentação em quantidade adequada,
  de boa qualidade, tanto no valor
  nutritivo como no aspecto de higiene.
  No início de sua vida, o alimento mais
  importante para a criança é o leite de
  sua mãe. Até completar 6 meses,
                                                                                                             Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi/Kit Família Brasileira Fortalecida/UNICEF




  o bebê não necessita de outro
  alimento ou líquido que não
  seja o leite materno. A partir
  daí, deve continuar sendo
  amamentado ao peito,
  mas com acréscimo
  gradativo de outros ali-


                                                                                                    35
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                                          Cadernos Pedagógicos – volume 4



       Tabela 1 – Tempo para duplicação do                                possam causar reações alérgicas no seu
  peso de alguns animais                                                  organismo.
     Animal / Duplicação de peso
                                                                             Tabela 2 – Diferenças constitucionais
     Homem / 180 dias        Cavalo / 60 dias                             entre leites
     Vaca / 47 dias          Cabra / 22 dias                                                   Humano                  Vaca            Cabra
     Carneiro / 15 dias      Porco / 14 dias                               Energia (Kcal)          68                    68               72
     Gato / 09 dias          Cão / 09 dias                                 Proteínas (g/100ml)    1.2                   3.6              4.0
     Cobaia / 06 dias                                                      Gorduras (g/100ml)     3.8                   3.6              4.0
                                                  Fonte: Crespin, 1992.
                                                                           Lactose (g/100ml)      7.0                   4.5              4.0
                                                                           Minerais (g/100ml)     0.2                   0.7              0.8
     As vantagens do leite materno para                                                  Fontes: King, 2001; Wehba, 1991; Pernetta, 1979.
  o ser humano, em relação a outros
  tipos de leite, são numerosas e, entre                                     • Equilíbrio emocional – a amamen-
  elas, temos:                                                            tação possibilita o reforço do laço afetivo
                                                                          entre a mãe e a criança, proporcionando
     • Valor nutritivo – o leite materno                                  sensação de bem-estar para ambas.
  possui nutrientes na quantidade e na
                                                                             • Desenvolvimento – crianças ama-
  proporção ideais para o crescimento e o
                                                                          mentadas exclusivamente ao peito, nos
  desenvolvimento adequado da criança
                                                                          primeiros seis meses de vida, tendem a
  (Tabela 2).
                                                                          ser pessoas mais extrovertidas, confiantes
     • Digestão – devido à constituição                                   e inteligentes. Segundo alguns autores,
  adequada ao organismo do bebê, o leite                                  crianças alimentadas com leite materno
  materno é facilmente digerido, não                                      raramente apresentam, na idade adulta,
  provocando distúrbios digestivos como                                   distúrbios sexuais, tendência ao uso de
  diarréia ou “prisão de ventre”.                                         álcool, de outras drogas ou ao suicídio.
     • Imunidade – o leite humano possui                                     • Economia – o leite materno não
  substâncias e células que protegem o                                    precisa ser comprado, o que gera grande
  organismo do bebê das principais doen-                                  economia para a família.
  ças infecciosas que podem levar a graves
                                                                             • Praticidade – o leite materno já está
  conseqüências. Por isso, a criança que
                                                                          pronto e na temperatura ideal para o
  mama no peito raramente adoece.
                                                                          consumo da criança, dispensando gasto
    • Alergias – por ser produzido natural-                               de tempo para o preparo.
  mente para a criança, o leite materno
  não apresenta elementos estranhos que


36
Cadernos Pedagógicos – volume 4                              Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


     • Anticoncepção – mulheres que ama-           Na impossibilidade do uso de leite
  mentam seus bebês, exclusivamente e          materno, recomenda-se algum tipo de leite
  durante os seis primeiros meses, têm pouca   de vaca (em pó) modificado, a chamada
  probabilidade de engravidar nesse período.   fórmula infantil. Está demonstrado que
                                               alimentação de crianças menores de um
     • Prevenção de câncer – a                 ano com leite integral (em pó ou ao natural)
  amamentação confere à mãe proteção           não-humano pode provocar anemias,
  contra o câncer de mama (antes da            distúrbios nos intestinos e nos rins, além de
  menopausa) e de ovário. Essa proteção é      alergias, devido à composição estranha ao
  tanto maior quanto mais
  longo é o período de
  amamentação.
      • Retorno à forma
  física – o início da
  amamentação precoce,
  isto é, logo após o nasci-
  mento do bebê, reduz o
  sangramento uterino pós-
  parto e facilita a perda de
  peso da mãe, acelerando
  o processo de retorno do
  corpo à forma física
  anterior à gravidez.
     A amamentação não
  apresenta desvantagens e
  suas contra-indicações
  são raras, limitando-se ao
  uso de alguns medica-
                                                                                                          Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi




  mentos pela mãe e para a
  mãe portadora do vírus
  da imunodeficiência
  humana adquirida (HIV).




                                                                                                      37
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                              Cadernos Pedagógicos – volume 4

  seu organismo. As modificações produzidas       ingredientes devem ser cozidos e
  industrialmente nesses leites visam à redu-     amassados. Evita-se o uso de liquidificador
  ção da ocorrência desses distúrbios.            para que o estímulo à mastigação não seja
                                                  prejudicado. A papa deve conter, pelo
      A partir dos seis meses de vida, a crian-   menos, um alimento de cada grupo
  ça, mesmo amamentada no peito, deve             (Tabela 3).
  começar a receber outros alimentos, pois a
  partir daí o leite, isoladamente, não conse-       Tabela 3 – Grupos de alimentos constitu-
  gue suprir suas necessidades energéticas.       intes da papa de hortaliças
  Não é recomendada a introdução de                   Grupo / Nutriente Básico / Fonte
  alimentos que não o leite materno antes do
  sétimo mês de vida, porque só a partir dessa       Cereais e Tubérculos(alimentos de base) /
  idade o organismo estará preparado para            Carboidratos / Arroz, batata inglesa, aipim,
  recebê-los e digeri-los sem sofrer danos.          maisena, farinha de trigo, farinha de
                                                     mandioca, fubá, macarrão, etc.
     Inicia-se com a introdução de uma
  refeição de frutas sob a forma de sucos            Carnes, vísceras, ovos, leguminosas /
  (em copo) ou papas, oferecidas com                 Proteínas, minerais (fósforo, ferro, zinco,
  colher, em quantidades crescentes, de              etc.) e vitaminas do complexo B / Proteína
  acordo com a aceitação da criança,                 animal: carne de vaca,frango, peixe, ovos.
  preferencialmente pela manhã. Deve-se              Proteína vegetal: feijão, ervilha, lentilha, soja.
  preferir frutas maduras, da região e da            Vegetal (verduras, legumes) / Vitaminas e
  estação, por se apresentarem em melho-


                                                                                                          Fonte: Ministério da Saúde, 1998.
                                                     minerais / Cenoura, vagem, beterraba,
  res condições de qualidade e preço. A              abóbora, chuchu, tomate, folhas verdes, etc.
  criança nessa idade já não acorda à noite
  para comer e solicita refeições em ritmo           Gorduras / Lipídios / Óleo vegetal (milho,
  de quatro em quatro horas.                         girassol, soja, arroz, algodão), margarina,
                                                     manteiga, etc.
     Para os que não são amamentados ao
  peito, a fórmula infantil deve ser substitu-
  ída por uma adaptada ao segundo se-
                                                          A proporção da mistura deve ser de
  mestre de vida.
                                                  três partes do alimento base (carboidrato)
      Após a aceitação das frutas, inicia-se a    para uma do alimento protéico e uma dos
  introdução da papa de hortaliças, oferecida     outros grupos (3:1:1). Os cereais devem ser
  com colher, em quantidades crescentes. Os       oferecidos, de preferência, na forma inte-
                                                  gral.



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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                                   Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

           À medida que a criança cresce e                                                              O sal e o açúcar devem ser evitados
            adquire dentes, os alimentos devem                                                       na dieta infantil ou, se adicionados, em
               ser preparados e cortados em                                                          quantidades mínimas.
               pedaços pequenos.
                                                                                                        Os ingredientes da dieta devem ser
                                                                        A partir de sete a oito      bastante variados para evitar monotonia
                                                                     meses, a criança deve comer     no sabor e fazer com que ela seja mais
                                                                     a papa de hortaliças em duas    nutritiva. Cada refeição deve apresentar
                                                                     refeições diárias (almoço e     alimentos de cores variadas.
                                                                     jantar).
                                                                                                        Ao completar um ano, a criança já
               Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




                                                                          Os grãos de leguminosas,   tem condições de comer o alimento
                                                                     bem amassados, podem ser        habitual da família.
                                                                     incluídos aos oito ou nove
                                                                     meses. Antes dessa idade,          No segundo ano de vida, ocorre redu-
                                                                     utiliza-se o caldo das          ção natural do apetite. Isso se deve à
                                                                     leguminosas pela dificuldade    diminuição da velocidade de crescimento.
                                                                     de digestão da casca dos seus      A criança amamentada ao peito deve
                                                                     grãos.                          continuar com leite materno. Caso
                                                                        Ovo, pescados e tomate       contrário, já pode utilizar leite integral.
                                                                     são introduzidos na dieta a     Evita-se oferecer doces, guloseimas,
                                                                     partir dos nove meses, por      refrigerantes, alimentos em conserva,
                                                                     serem alimentos que provo-      enlatados e coloridos artificialmente,
                                                                       cam alergias em algumas       por conterem substâncias nocivas ao
                                                                       crianças predispostas.        organismo. O regime ideal segue a
                                                                                                     pirâmide dos alimentos.
                               Aos nove
                           meses, a criança                                                              Pirâmide dos alimentos
                           já é capaz de                                                                 Na sua base, temos as fontes de
  pegar os alimentos (pão, carne, biscoito,                                                          carboidratos complexos, que devem ser
  etc.) e leva-los à boca.                                                                           consumidos em maior proporção, e
                                                                                                     fibras. Esses alimentos são os cereais
      Quanto ao tempero da papa de horta-                                                            (principalmente integrais) e os tubérculos.
  liças, podem ser usadas ervas aromáticas                                                           No centro, as fontes de proteínas,
  (salsa, cebolinha, etc.), cebola e alho.                                                           vitaminas, minerais e fibras (vegetais),




                                                                                                                                                           39
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                              Cadernos Pedagógicos – volume 4

                             que devem ser consumidos em menores           As vitaminas e os minerais são indis-
                             proporções que as de carboidratos. Aí      pensáveis para as reações químicas que
                             temos as carnes, o leite, as frutas, as    ocorrem no organismo e permitem seu
                             hortaliças e os legumes. No ápice,         bom funcionamento. São, então, chama-
                             temos as fontes de carboidratos simples    dos de alimentos reguladores.
                             e gorduras, que devem ser consumidos
                             em pequenas quantidades.                      As fibras são substâncias não absorvi-
                                                                        das pelo organismo, mas importantes
                                Os carboidratos ou hidratos de car-     para o funcionamento do sistema digesti-
                             bono (açúcares) e as gorduras são fontes   vo. Impedem a absorção de gorduras e
                             de energia para o corpo, sendo chama-      açúcares em excesso e regulam o funcio-
                             dos, por isso, de alimentos energéticos.   namento dos intestinos, facilitando a
                                                                        eliminação de substâncias desnecessárias
                                As proteínas, por constituírem          e nocivas.
                             matéria-prima para a estrutura das
                             células, são chamadas de alimentos             A água constitui cerca de 70% do
                             plásticos ou construtores.                 corpo da criança e é um elemento
                                                                        fundamental para a vida. Ela deve ser
                                                                        oferecida, freqüentemente, sob a forma
                                                                        natural, de sucos de frutas ou outros
                                                                        líquidos. A exceção se faz para o bebê
                                                                        menor de seis meses, que mama
                                                                        exclusivamente no peito e em livre
                                                                         demanda (sempre que solicita), pois,
                                                                           nesse caso, a água contida no leite
                                                                            materno já supre perfeitamente suas
                                                                              necessidades.
                                                                                  Durante a infância, os cuida-
                                                                                 dos com a alimentação, procu-
   Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




                                                                                  rando-se oferecer alimentos
                                                                                    de boa qualidade, visam a
                                                                                      propiciar o crescimento e
                                                                                       o desenvolvimento da




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                             Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  criança e a criar hábitos saudáveis, pre-     escola deve ser amplo e com poucos
  venindo doenças como o diabetes, a            móveis, de modo que a criança tenha
  obesidade, a hipertensão, as doenças do       espaço para explorar e estimular seu
  coração e alguns tipos de câncer.             desenvolvimento, ser forrado e
                                                assoalhado, bem ventilado e construído
     Medidas preventivas de riscos à            em terreno seco. Não se pode ter preo-
  saúde da criança                              cupação, em demasia, com a “arruma-
     Os cuidados de prevenção à saúde se        ção” dos objetos, pois a criança, na sua
  relacionam às condições ambientais e          exploração do meio, tende a pegá-los e
  individuais. São os chamados cuidados         examiná-los, deixando “fora do lugar”.
  de higiene.                                   Portanto, objetos que possam ser que-
      Os cuidados ambientais se referem ao      brados ou ferir a criança devem ser
  local onde a criança vive, que pode ser       deixados longe do seu alcance.
  propício ou adverso ao seu crescimento           É importante que a luz do sol penetre
  e ao seu desenvolvimento. Cabe à famí-        no interior da casa ou da escola por um
  lia, à escola e à sociedade garantir um       grande período do dia, principalmente
  ambiente favorável ao crescimento e ao        no quarto e nos locais mais freqüentados
  desenvolvimento saudável da criança.          pela criança. As crianças acima de 2
     Os cuidados individuais se referem         anos necessitam de um espaço fora da
  ao trato direto com a criança, à satisfa-     casa (quintal ou jardim) onde possam
  ção de suas necessidades e à garantia         brincar, com segurança, parte da manhã
  da sua saúde.                                 e da tarde. As crianças abaixo dessa
                                                idade podem brincar ao ar livre, mas sob
     O ambiente da criança                      a observação de uma pessoa ou em um
     O ambiente onde a criança se insere        cercado espaçoso e livre de riscos.
  deve estar livre de qualquer tipo de polui-
  ção. A poluição pode ser: do ar (poeira,         A casa ou a escola devem ter rede de
  fumaça, odores desagradáveis, etc.); do       esgotos e de água tratada. O lixo deve
  som (ruídos altos ou desagradáveis); da       ser guardado em local apropriado, prote-
  água (impurezas, microrganismos, subs-        gido do acesso de insetos ou outros
  tâncias tóxicas, dejetos, etc.); da visão     animais e do contato das crianças, para o
  (cores muito intensas, excesso de figuras     destino adequado, preferencialmente a
  no ambiente).                                 coleta por serviço de limpeza pública.
                                                Mantém-se o ambiente limpo, tendo-se o
      O ambiente interno da casa ou da          cuidado de eliminar poeira, insetos e
                                                odores desagradáveis. A limpeza deve


                                                                                                     41
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                                                                                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

                                                                                     ser feita com a criança fora do ambiente.   dos e aqueles que são ingeridos crus
                                                                                                                                 devem ser lavados com água e sabão ou
                                                                                        O ambiente deve ser pintado com          imersos, por trinta minutos, em água
                                                                                     cores suaves e tinta lavável. A decoração   com hipoclorito de sódio. A água cuja
                                                                                     deve ser simples, evitando-se carpetes,     procedência for duvidosa também deve
                                                                                     tapetes, poltronas ou quaisquer objetos     ser tratada com hipoclorito de sódio, ou
                                                                                     que acumulem poeira. Havendo cortinas       fervida e filtrada, antes de ser utilizada.
                                                                                     e mosquiteiros, recomenda-se que sejam
                                                                                     lavados freqüentemente.                        Os recipientes usados na alimentação
                                                                                                                                 devem ter superfícies lisas, que são de
                                                                                         Higiene na alimentação                  fácil limpeza.
                                                                                         Cuidados de higiene também devem
                                                                                     ser tomados no trato direto com a crian-        Na medida do possível, evita-se o uso
                                                                                     ça e com sua alimentação. Recomenda-        de bicos (chupetas) e mamadeiras. Além
                                                                                     se, para a pessoa que cuida da criança, a   de outras desvantagens, os bicos são
                                                                                     lavagem das mãos sempre que for prepa-      facilmente contaminados e de limpeza
                                                                                     rar o alimento, como também antes e         difícil. As mamadeiras são substituídas
                                                                                     depois da troca de fraldas.                 por copos ou xícaras, mesmo para
                                                                                                                                 os bebês.
                                                                                        Os alimentos precisam ser bem cozi-
 Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                             Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                                                         A higiene bucal                             Os passeios
                                                                                         Inicia-se, desde cedo, antes do apare-      A partir da segunda quinzena de vida,
                                                                                    cimento dos dentes. Tem o objetivo de         a criança já pode sair de casa, para um
                                                                                    prevenir doenças infecciosas (principal-      passeio rápido, e tomar “banho de sol”,
                                                                                    mente a cárie), a mastigação deficiente,      sempre em ambiente livre de poluição.
                                                                                    os distúrbios da fala e a respiração bucal.   Com o tempo, os passeios se tornam
                                                                                    É feita a limpeza da boca da criança,         mais longos, permitindo que a criança se
                                                                                    inclusive da língua, com gaze molhada,        sinta livre e feliz.
                                                                                    após todas as refeições. Nas crianças que
                                                                                    já possuem dentes, pode-se usar uma              Banhos de sol
                                                                                    escova pequena com cerdas macias e               Os “banhos de sol” têm a finalidade
                                                                                    pouca quantidade de creme dental infan-       de expor a pele aos raios ultra-violeta,
                                                                                    til. Outros cuidados importantes se refe-     que facilitam a formação e o aproveita-
                                                                                    rem à higiene bucal das pessoas que           mento da vitamina D no organismo,
                                                                                    convivem com a criança; evitar oferecer       prevenindo, assim, a doença chamada de
                                                                                    à criança alimentos adoçados com              raquitismo. A exposição ao sol deve ser
                                                                                    sacarose (açúcar) e limitar ao máximo o       iniciada com cinco minutos, aumentan-
                                                                                    uso de bicos e mamadeiras.                    do-se, gradativamente, até trinta minutos
                                                                                                                                  por dia. Os horários recomendados são
                                                                                                                                      até as nove horas, no verão, e até as
                                                                                                                                        onze horas, no inverno. Quando a
                                                                                                                                             criança não puder ser retirada
                                                                                                                                                de casa, recomenda-se o
                                                                                                                                                banho do sol que entra pela
                                                                                                                                                janela, desde que os raios
                                                                                                                                                não atravessem o vidro. A
                                                                                                                                                exposição deve ser de corpo
                                                                                                                                                 inteiro, exceto a cabeça, pois
Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF




                                                                                                                                                 a claridade irrita os olhos da
                                                                                                                                                 criança. Caso não seja
                                                                                                                                                 possível, expõe-se pelo
                                                                                                                                                 menos as pernas.




                                                                                                                                                                                         43
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

      Atividade física                            pelo estado emocional da mãe ou pessoa
      Tem importância tanto no                    mais próxima.
  crescimento como no desenvolvimento
  da criança. O bebê pode ser estimulado              Não é recomendado que a criança
  a se exercitar, massageando-se seu corpo        durma na mesma cama dos pais. Para os
  e movimentando-se seus membros, em              bebês, há o risco de serem asfixiados por
  todos os sentidos, sempre delicadamen-          aqueles, inconscientemente, durante o
  te. À medida que cresce e se desenvolve,        sono. Para a criança maior, há o risco de
  o estímulo é feito com brinquedos, jogos        ter prejudicado o seu desenvolvimento
  e brincadeiras ao ar livre.                     psicológico e também há o inconvenien-
                                                  te de retirar a privacidade no relaciona-
     O sono                                       mento afetivo do casal.
     O sono, em todos os indivíduos, tem
  a função de reparar a energia física e             A posição ideal para dormir é aquela
  psíquica, gasta no período de vigília.          preferida pela criança, mas, nos bebês
  Cada um tem seu ritmo de sono, mas em           que ainda não sustentam a cabeça, a
  geral, quanto mais jovem a criança,             posição “de bruços” leva ao risco de
  maior a sua necessidade de sono. Um             sufocação. Prefere-se, então, a posição
  bebê com menos de três meses de vida            de lado direito, principalmente após
  chega a dormir 20 horas por dia. Esse           mamar, para evitar a aspiração do ali-
  tempo vai se reduzindo até que, com 5           mento, caso regurgite. Também se pode
  anos, ele necessita apenas de 10 horas          recomendar a elevação suave da cabe-
  de sono.                                        ceira do berço.

      Para um sono tranqüilo, as condições            As vacinas
  favoráveis se resumem à diminuição dos              A vacinação é o mais importante
  estímulos sensoriais. O ambiente calmo,         instrumento na prevenção de doenças
  escuro, a temperatura agradável, a sua          que podem debilitar, deixar seqüelas ou
  posição, as condições da cama e o               até levar à morte. Muitas doenças fre-
  cansaço favorecem o sono. A criança             qüentes e temidas até há algum tempo já
  dorme melhor se o ambiente lhe é famili-        estão erradicadas ou ocorrem raramente
  ar. Assim, o contato com um objeto de           graças à vacinação rotineira das crianças.
  seu uso, na hora de dormir, acalma a            É dever dos responsáveis pela criança
  criança e facilita o sono.                      manter atualizado o esquema básico de
                                                  vacinação, oferecido pelos serviços de
     As crianças, principalmente menores          saúde. A escola deve exigir que a vacina-
  de um ano, têm seu sono influenciado            ção da criança não esteja atrasada.


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                                    Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

      As doenças passíveis de prevenção                                                               fator importante para o desenvolvimento
  com as vacinas disponíveis nos postos de                                                            de ações preventivas.
  saúde são: tuberculose, hepatite B, polio-
  mielite (paralisia infantil), coqueluche                                                                A criança menor de seis meses corre
  (tosse comprida), tétano, difteria (crupe),                                                         maior risco na fase de aquisição de habili-
  meningite por Haemophylus (Hib), sa-                                                                dades motoras, como se virar ou pegar
  rampo, rubéola, caxumba e, em algumas                                                               objetos. Nessa fase, há o risco de queima-
  regiões, febre amarela.                                                                             duras, quedas e asfixia. As queimaduras
                                                                                                      são causadas por líquidos excessivamente
     Prevenção de acidentes                                                                           quentes em contato com a pele ou ingeri-
     Os acidentes são causas freqüentes de                                                            dos. As quedas acontecem de locais onde
  atendimento de crianças nos serviços de                                                             a criança se encontra deitada, como
  saúde, podendo, em alguns casos, levar à                                                            camas, bancos ou trocadores de fraldas. A
  hospitalização ou à morte.                                                                          asfixia é causada por estrangulamento ou
                                                                                                      engasgamento causados por objetos
                                                                                                      diversos. Alguns cuidados podem ser
                                                                                                      tomados para prevenir esses acidentes:
                                                                                                         – Sempre verificar a temperatura da água
                                                                                                      do banho do bebê, antes de imergi-lo.
                                                Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




                                                                                                         – Não manusear recipientes com
                                                                                                      líquidos quentes tendo a criança ao colo
                                                                                                      ou nas proximidades.
                                                                                                         – Só oferecer líquidos ou alimentos à
                                                                                                      criança após certificar-se de que estão na
                                                                                                      temperatura adequada.
     Na faixa etária entre 1 e 5 anos, os
  acidentes já ocupam lugar importante                                                                   – Quando colocado na cama ou no
  entre as causas de atendimento nos                                                                  berço, o bebê deve estar protegido por
  serviços de saúde.                                                                                  um cercado de grades, com pequeno
                                                                                                      espaço entre as barras. Os cercados de
     O conhecimento das principais cau-                                                               malha são os mais seguros.
  sas de acidentes com crianças, por parte
  dos pais ou professores, pode ser um                                                                   – Nunca deixar a criança sozinha
                                                                                                      sobre um trocador de fraldas, mesmo
                                                                                                      que por um curto espaço de tempo.


                                                                                                                                                            45
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                                                                                          Cadernos Pedagógicos – volume 4


                                                                                         – Transportar a criança, em veículo,      balões de borracha, travesseiros macios,
                                                                                     sempre no colo de um adulto e, no ca-         fios, cordões de pescoço, etc.).
                                                                                     so de automóveis, no banco traseiro.
                                                                                                                                      – Oferecer à criança brinquedos gran-
                                                                                     Há assentos apropriados para o trans-         des, arredondados, de madeira lisa ou
                                                                                     porte de bebês que devem ser utiliza-         plástico maleável, que não podem ser
                                                                                     dos de acordo com as orientações do           engolidos, quebrados e não apresentam
                                                                                     fabricante.                                   pontas que possam ferir.
                                                                                        – Não oferecer ou deixar ao alcance           Dos sete aos doze meses, as crianças
                                                                                     da criança objetos pequenos (botões,          começam a engatinhar, ficar de pé e,
                                                                                     contas, grãos, etc.), perfurantes ou          em alguns casos, a andar. Reconhecem
                                                                                     cortantes (agulhas, alfinetes, tesouras,      objetos pelo contato com a boca e já
                                                                                     facas, etc.) e afixiantes (sacos plásticos,   começam a explorar o ambiente. Então,
                                                                                                                                     há os riscos de afogamento, quedas
                                                                                                                                     da própria altura, queimaduras,
                                                                                                                                     choque elétrico, intoxicação,
                                                                                                                                     ferimentos e asfixia.
                                                                                                                                        Os cuidados nessa faixa etária são:
                                                                                                                                       – Nunca deixar a criança na ba-
                                                                                                                                     nheira sem a vigilância de um adulto.
                                                                                                                                        – Não permitir o acesso da criança
                                                                                                                                     à cozinha, utilizando grades de prote-
                                                                                                                                     ção na porta.
                                                                                                                                        – Sempre utilizar as “bocas” posterio-
 Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF




                                                                                                                                     res do fogão para cozinhar. Os cabos
                                                                                                                                     das panelas devem estar sempre volta-
                                                                                                                                     dos para a parte posterior do fogão.
                                                                                                                                         – Deixar líquidos ou alimentos quen-
                                                                                                                                     tes, torradeiras, ferro de passara roupa,
                                                                                                                                     fios elétricos, etc., fora do alcance das
                                                                                                                                     crianças.




46
Cadernos Pedagógicos – volume 4                              Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

     – Isolar as tomadas elétricas das pare-      – Manter sempre travadas as portas
  des com protetores especiais.                dos automóveis.
     – Evitar o uso de toalha de mesa que         – Viajar sempre com a criança no
  possa ser alcançada e puxada.                banco traseiro e protegida com o cinto
                                               de segurança.
     – Colocar portas ou portões nos acessos
  à escadas e mantê-los sempre fechados.          – Segurar sempre a mão da criança ao
                                               caminhar próximo a vias de tráfego de
     – Manter medicamentos, material de        veículos e ao atravessá-las.
  limpeza e outros produtos tóxicos em
  armários fechados à chave e em local             – Iniciar a orientação à criança de como
  elevado, longe do alcance da criança.        se comportar com segurança nas ruas.
     – Não cultivar plantas tóxicas em casa      – Inspecionar previamente equipa-
  ou no jardim.                              mentos de parques infantis a serem
                                             utilizados pelas crianças. Verificar a
      As crianças de 1 a 5 anos, na busca do presença de objetos que sejam
  conhecimento do ambiente em que            cortantes ou que possam ser engolidos
  vivem, estão mais expostas aos perigos.    pela criança.
  Nessa fase, estão propensas a quedas da
  própria altura e de alturas superiores a       – Manter objetos que possam ferir a
  sua, queimaduras, afogamento, asfixia,     criança, como copos ou garrafas de
  ferimentos, intoxicação e atropelamentos. vidro, tesouras, facas, fósforos, isqueiros,
  Nessa fase, é importante:                  etc., longe do seu alcance.
     – Manter fechados portas ou portões       – Nunca guardar armas de fogo em
  de acesso a vias de tráfego de veículos e casa e, se ocorrer, deixar longe do alcan-
  não permitir que as crianças brinquem na ce físico e visual da criança e sempre
  suas imediações.                          descarregada (sem munição).
     – Usar sempre tapetes não-derrapantes     – Os responsáveis e os professores
  nos banheiros.                            devem estar atentos a outros riscos que
                                            dependerão do ambiente em que a
     – Instalar grades ou telas de proteção criança está inserida.
  nas janelas, principalmente nas que se
  abrem para lugares altos.                    – Deve partir do adulto o exemplo de
                                            como se comportar com segurança.



                                                                                                      47
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                                                                                          Cadernos Pedagógicos – volume 4

       Referências Bibliográficas

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  Florianópolis, 2002.                                                                                                   inadequação do leite de vaca integral. O Berço, nº 14. Areueil,
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  crescimento e do desenvolvimento – ações básicas na                                                                    Paulo: Byk, 1982.
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  Saúde, 1984.                                                                                                           de saúde do escolar II. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de
  BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde da criança:                                                                         Pediatria, 1994.
  acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento                                                                     SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Passaporte para a
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  BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Atendimento integrado à                                                                   UNICEF. O aleitamento materno e o município. Brasília:
  saúde e desenvolvimento da criança – Módulo I. Brasília:                                                               Ministério da Saúde, 1996.
  Ministério da Saúde, 1994.                                                                                             WEHBA, Jamal. Nutrição da criança. São Paulo: Byk, 1999.
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  para profissionais de saúde. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1994.
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                                                                     Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                    Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                                                         Atividades de Estudo                                 • Peça a enfermeiros, médicos e
                                                                                      e Aprofundamento                                     dentistas para fazerem palestras e de-
                                                                                                                      Maria Helena Lopes   monstrações para crianças e familiares
                                                                                                                                           abordando aspectos da educação para a
                                                                                          O autocontrole em saúde depende                  saúde. Registre a experiência colhen-
                                                                                      consideravelmente do desenvolvimento                 do um parecer dos pais sobre o
                                                                                      de hábitos e atitudes que se forjam nas              conteúdo das palestras.
                                                                                      infâncias e da oportunidade de exercitar
                                                                                      habilidades para desenvolvê-las.                        • Os profissionais da saúde também
                                                                                                                                           podem colaborar na organização de
                                                                                                                                           programas de acompanhamento do cres-
                                                                                                                                           cimento das crianças ou de prevenção de
                                                                                                                                           acidentes. Tente uma das alternativas e
                                                                                                                                           registre como julgar mais adequado.
Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF




                                                                                                                                                                                                49
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância   Cadernos Pedagógicos – volume 4




   Foto: Sebastião Barbosa




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                            Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                                E, como a criança está sem espaço e
           rganização do Tempo                               sem tempo – pois se não há espaço o
           e do Espaço                                       tempo tem que ser preenchido –, a
                                  Elizabeth Amorim           agenda fica cheia de compromissos:
                                                             judô, balé, natação, inglês, futebol... Ufa!
      “Qualquer situação planejada como contexto
      para o desenvolvimento da criança envolve
                                                                 Já nas classes menos afortunadas,
      uma proposta de atividades e o planejamento            algumas crianças saem muito cedo, junta-
      do tempo e do espaço para a realização das             mente com os pais, quando não sozinhas,
      mesmas.”                                               para a escola ou para o comércio informal
                                  Zilma de Moraes Oliveira   a fim de ganhar a vida.
      Gostaríamos de iniciar este artigo                        E brincar de criança quando? No
  refletindo um pouco sobre a pressa que                     Centro de Educação Infantil! Por isso, a
  vem atingindo de maneira esmagadora a                      instituição infantil deve ter como grande
  sociedade de nosso tempo e, por conse-                     preocupação a de ser o lugar que
  qüência, a criança: parece que há pressa                   permita a criança ser criança, necessita
  para que a infância acabe logo!                            ser o espaço privilegiado para que a
                                                             criança sinta e desfrute a vida com ale-
     Não há pressa, já aconselhava                           gria e prazer. Frente a esse importante
  Rousseau. Sem ela, há tempo de viver as                    papel, ela deve estar organizada de tal
  experiências próprias da infância, do                      forma que propicie à criança extrair o
  jogar, do brincar, do divertir-se na água e                máximo das experiência nela vividas.
  acompanhar a bolinha de sabão até que
  ela estoure ou suma nas alturas.                               Organizando o tempo
                                                                 Sabemos que o dia-a-dia é constituído
     Em tempos de grades nas janelas e                       de atividades rotineiras. No entanto, não
  portões, de apartamentos, de calçadas e                    fica restrito a elas; ao contrário, é muito
  ruas perigosas em todos os sentidos, de                    mais do que o repetitivo, quase automático
  espaços lúdicos delimitados em praças e                    do “todo dia ela faz tudo sempre igual”,
  shoppings, não há mais lugar para ser                      como canta Chico Buarque.
  criança sem hora marcada. Isso quando
  os pais têm tempo de marcar hora!                             Assim, a organização do tempo na
                                                             instituição infantil não deve ser rígida e
     Assim, vemos pais dizendo, orgulho-                     tampouco obedecer ao pré-estabelecimento
  sos, que sua criança tem tantas aulas                      de momentos. Se as atividades obedecem –
  especializadas, tornando-a efetivamente                    como esquema – a uma ordem, hierar-
  um adulto em miniatura.                                    quia e tempo pré-determinados,

                                                                                                                    51
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

  transformam-se em uma “rotina da                rentes atividades do dia rotina estejam
  infância, que pode tornar-se uma                adequadas à faixa etária do grupo, a fim
  alternativa de dominação por não                de que sejam respeitados tempo de
  considerar o ritmo, a participação, a           concentração e interesses das crianças.
  relação com o mundo, a realização, a            Dessa forma, os fazeres da rotina dos
  fruição, a liberdade, a consciência, a          berçários será diferente das crianças de 3
  imaginação e as diversas formas de socia-       anos, que por sua vez não será igual ao
  bilidade das crianças nela envolvidas”.         grupo de 5 anos. Ao mesmo tempo,
                                                  devemos intercalar atividades individu-
      A criança não tem hora para viver, e        ais/grupais/coletivas, movimentadas/
  as teorias de desenvolvimento compro-           semimovimentadas/calmas, alternando
  vam que a criança pequena aprende               também as propostas que exigem maior
  mediante ação e experimentação, daí a           atenção e concentração.
  necessidade de vivências que sejam
  realmente significativas. Não negamos               Para você auxiliar as crianças na
  aqui a organização do tempo: há que se          orientação espaço-temporal, uma vez
  ter um plano de ação sim! A nossa preo-         que necessitam de referências para
  cupação é como acontece o planejamen-           situarem-se (é comum perguntarem se é
  to e a organização.                             antes ou depois do almoço, do pátio,
                                                  etc.), é aconselhável iniciar o dia com o
      O que não concordamos é com uma             planejamento da rotina e das atividades.
  seqüência de momentos que precisam              É na rodinha da conversa que, entre
  ser cumpridas, como obrigação. Igual-           outros assuntos, planejamos os nossos
  mente as atividades não devem “surgir           momentos; inicialmente é realizado por
  do nada”, sem sentido nem significado           nós e apresentado ao grupo, mas
  para as crianças, pois assim fica a             gradativamente vai sendo feito junto com
  atividade pela atividade, sem significado.      as crianças. Mesmo o grupo de 2 anos já
  Atividade mecânica, simplesmente dese-          é capaz de opinar escolhendo momentos
  nhar, por exemplo, porque é hora do             e fazeres. A maneira de pensar as
  desenho; jogar porque é hora do jogo e          atividades, possibilitando o entrosamento
  não por estarem fazendo parte de um             das crianças em sua elaboração, terá
  contexto maior que dê sentido ao fazer e        dimensões diferentes se tomarmos como
  para que as crianças entendam o que             referência a idade delas. Com crianças
  estão realizando e percebam o porquê e          bem pequenas, são os gestos, os olhares
  o para quê.                                     e o choro as manifestações que devemos
       Igualmente importante é que as dife-       observar, enquanto nas maiores as


52
Cadernos Pedagógicos – volume 4                            Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  combinações já são compartilhadas pelo         – Cuidado Pessoal: momentos de
  diálogo, mesmo que a expressão oral         alimentação, higiene e descanso.
  ainda não esteja totalmente estabelecida.
  O que importa é a participação da              É claro que no berçário essas ativida-
  criança!                                    des ocupam boa parte do tempo, visto as
                                              crianças necessitarem de maior atenção
     Lembrete:
  Como todos os
  fazeres são
  educativos, ali-
  mentação, higiene
  e sono fazem
  parte do planeja-
  mento diário.
     As atividades
  podem ser organi-
  zadas em quatro
  grupos que devem,
  como já sabemos,
  estar adequados ao
  desenvolvimento
  das crianças e aos
  nossos objetivos.
     – Planejamento
  Coletivo: envolve
  o todo, seja na
  sala – como ar-
  rumação da mes-
  ma –, seja na
  instituição, como
                                                                                                       Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




  passeios, teatros e
  comemorações.




                                                                                                    53
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

  nos cuidados físicos. No entanto, os                Quando as crianças chegam diaria-
  fazeres devem ser parâmetros, e não             mente ao centro infantil, gostam de
  “severos fiscais” que impedem a espon-          sentir-se esperadas, aguardadas, pois esta
  taneidade e o prazer que os diferentes          é também uma das formas de demons-
  momentos provocam.                              trarmos que temos vínculos com elas.
                                                  Não aguardamos com satisfação a che-
     – Orientadas: atividades coordena-           gada em nossa casa de uma pessoa da
  das por nós, educadores, envolvendo             qual gostamos muito?
  todo o grupo.
                                                     Assim, recebemos nossas crianças
     Nesses momentos, percebemos como             com afeto e alegria, abraçando e conver-
  as crianças atendem propostas coletivas         sando com cada uma que chega. Da
  e exigem, muitas vezes, atenção e con-          mesma maneira, devemos preparar o
  centração. O planejamento coletivo é            ambiente com propostas e brinquedos
  uma dessas atividades, como também as           que permitam a cada uma – individual-
  que envolvem os projetos em desenvolvi-         mente ou em grupos – manter-se
  mento; os relatos de situações vividas;         envolvida até que o grande grupo esteja
  pesquisas em diferentes fontes; rodas           completo.
  cantadas; atividades corporais orientadas
  e baseadas em técnicas de artes plásti-              Ao finalizar essas reflexões sobre os
  cas, entre outras.                              momentos no Centro de Educação Infan-
                                                  til, não poderíamos deixar de fazer refe-
      – Livres: momentos de escolha livre por     rência ao estabelecimento de regras, pois
  parte das crianças. Tanto em espaço inter-      sem elas não há organização, e nada é
  no na sala do grupo e salas coletivas           produzido se não organizado, nem que
  quanto em espaço externo, como pátio e          seja de forma mínima.
  pracinha. Aqui temos inúmeras
  oportunidades de interagir com as crianças         Inicialmente, algumas regras necessi-
  e incentivar a interação entre elas. É          tam ser impostas por você, até por segu-
  também o momento em que podemos                 rança das crianças, como, por exemplo,
  conversar individualmente com cada uma          não sair da sala sem avisar, não atirar
  das crianças para conhecê-las melhor.           brinquedos, etc. As regras devem ser
                                                  claras e explícitas para evitar interpreta-
     Atenção: momentos livres não                 ções diferentes, bem como explicadas
  significam crianças soltas e educadoras         para que a criança entenda o porquê e
  conversando!                                    não saia obedecendo cegamente, só por
                                                  porque a orientação partiu de um adulto.


54
Cadernos Pedagógicos – volume 4                          Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

     Então, você vai auxiliando,            no desenvolvimento das crianças, a orga-
  gradativamente, o grupo a discutir e      nização do espaço é tão importante quan-
  elaborar as próprias regras a partir de   to a organização das atividades, pois é nele
  situações surgidas. Um exemplo            que elas acontecem, é nele que as crianças
  típico é o das canetinhas hidrocor        permanecem, interagindo com ele e com
  com a ponta para dentro. A regra          os outros, sendo protagonistas de suas
  “não bater com as canetinhas” só terá     ações. A organização espaço/ambiente
  sentido e poderá ser construída pelo      oportuniza a construção da autonomia,
  grupo depois de ter vivido a situação     porque oferece distintas opções “de fazer”,
  de que a caneta não funciona com a        sem a interferência do educador, brincan-
  ponta para dentro.                        do com liberdade e independência.
      A educadora deve, de
  forma tranqüila e natural,
  fazer uso de sua autoridade
  sendo firme e coerente, pois
  as crianças precisam de refe-
  rência e segurança. Isso não
  quer dizer chantagear, castigar
  ou ameaçar, mas conter a
  criança se assim for necessá-
  rio, não permitindo que utilize
  inadequadamente algum
  brinquedo ou material, ou
  mesmo agrida algum compa-
  nheiro. As sanções devem ser
  imediatas e por reciprocidade:
  rasgou o livro, vamos colá-lo.
  Jamais tirar o recreio – por
  exemplo – que não tem
  relação nenhuma com a rea-
  ção indesejada.
     Organizando o espaço
                                                                                                      Foto: Sebastião Barbosa




     Partindo da premissa de que
  o meio e o espaço influenciam



                                                                                                  55
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

      É claro que, ao organizar o espaço,            Esses arranjos espaciais possibilitam
  você deve considerar o tamanho da sala,         às crianças buscarem os pequenos gru-
  o mobiliário disponível, a faixa etária e o     pos de acordo com os interesses, sem
  número de crianças que ali permanecerão,        necessidade da constante atenção e
  evitando – no desejo de oferecer várias         interferência do adulto. A interação entre
  situações e cantinhos – transformar a sala      as crianças – tão importante quanto a
  num verdadeiro “brique”. Se o seu espaço        interação adulto/criança – também é
  é pequeno, faça rodízio (semanal ou             favorecida nesses espaços definidos, que
  mensal) do material. A possibilidade de         podem ser organizado em “cantinhos”
  modificar o ambiente é atraente às crian-       com temas assim estruturados:
  ças, sempre curiosas por novidades,
  porém às vezes causa transtornos e exige            – Casa de Bonecas: composta de obje-
  dedicação dos educadores.                       tos e utensílios de uma casa, que poderão
                                                  inclusive ser confeccionados com sucata.
      Dividir o espaço por áreas de ativida-
  des em arranjo espacial semi-aber to,              – Canto da Fantasia: como o nome
  onde são utilizados móveis baixos cuja          sugere, tem fantasias, roupas de adultos
  característica principal é o seu fecha-         chapéus, maquiagem, espelho, panos
  mento em pelo menos três lados, promo-          diversos, gravatas, echarpes, etc.
  ve relacionamentos agradáveis entre                 – Canto da Biblioteca: além de
  adultos e crianças. A criação de ambien-        livros, jornais e revistas, pode ser ambi-
  tes atraentes, além de propiciar desco-         entado com almofadas e/ou tapete.
  bertas e aprendizes, contribuem para o
  bem-estar, a harmonia e a segurança das            – Canto dos Jogos e Brinquedos:
  crianças.                                       incluindo quebra-cabeças, jogos de
                                                  montar, de encaixe e de armar, brin-
      Dessa forma, a delimitação do espaço        quedos diversificados. Procure ter mais
  é feita através de estantes, aparadouros,       que um brinquedo de cada tipo, evi-
  um fogãozinho (no canto da casinha), ou         tando, assim, disputas desnecessárias.
  mesmo almofadas e tapetes. Quando
  forem móveis, o importante é que sejam             – Cantos Alternativos: variam de
  baixos para que as crianças possam ver a        acordo com o interesse do grupo ou os
  educadora, principalmente se o seu              projetos em desenvolvimento, po-
  grupo é de faixa etária até 3 anos. Até         dendo focalizar Música, Supermerca-
  essa idade, para a criança sentir-se segura,    do, Museu, Cabelereiro, Oficina e
  é fundamental a proximidade física e            tudo o mais que você e seu grupo de
  visual de quem cuida dela.                      crianças idealizarem.


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                      Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                              O espaço na instituição infantil,             Logicamente, nos berçários os arran-
                          então, deve ser visto como parte inte-         jos espaciais são diferentes, porque os
                          grante da ação pedagógica, pois exerce         interesses e as necessidades dos bebês
                          influência em quem nele convive.               são outras. Mas as divisórias em dife-
                          Igualmente, mostra-se como “vitrine” dos       rentes tamanhos estão presentes, uma
                          pressupostos teóricos que orientam a           vez que oferecem desafios para aqueles
                          prática daquele educador e do tipo de          que já engatinham, assim como os pe-
                          relações que são estabelecidas. Estantes       quenos túneis e barraquinhas abertas,
                          e prateleiras altas não permitem a plena       que podem ser confeccionadas com
                          comunicação entre as crianças. Nesse           caixas de papelão em diferentes tama-
                          ambiente, o grupo não tem acesso aos           nhos, decorados com pinturas ou for-
                          materiais sem a interferência do adulto,       radas com tecidos ou papéis.
                          demonstrando ser ele (adulto) o centro do
                          processo, não havendo, portanto, estímulo         O espaço do berçário deve dar opor-
                          à construção intelectual e social, já que as   tunidade de movimento, exploração e
                          crianças dependem da educadora até para        interação com objetos e entre os bebês.
                          alcançar-lhes o que desejam.                   Assim, espelhos, bolas, objetos sonoros,
                                                                         mordedores de diferentes formatos,
Foto: Sebastião Barbosa




                                                                                                                              57
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                    Cadernos Pedagógicos – volume 4

  carrinhos, bonecas, garrafas plásticas          outros podem ter uma idéia para a amplia-
  vazias e/ou contendo objetos, são               ção dos estudos. Então, penduramos
  alguns exemplos do que é interessante           móbiles, expomos fotos deles e das famílias
  para os bebês.                                  e podemos pôr algumas figuras de bebês
                                                  e bichinhos também. Porém, tudo de
     Como educadora, você deve estar              forma aconchegante, em tons claros,
  atenta aos progressos e interesses das          para que o espaço não fique poluído de
  crianças para que possa ir mudando os           imagens e cores.
  estímulos e apresentando novos e
  interessantes desafios. Elas precisam              Devemos lembrar sempre que a crian-
  empurrar e puxar objetos, encaixar,             ça precisa da diversidade de espaço,
  empilhar, imitar, esconder, engatinhar,         materiais e brinquedos. Então, livros de
  agarrar e agarrar-se, virar-se, balançar,       história, material de desenho, cordas,
  rasgar, experimentar macio/áspero,              cordões, tacos de madeira, jogos varia-
  mole/duro, enfim, elas precisam                 dos, sucatas, caixas e muitos outros
  contatar com o mundo! Então, entram             devem estar à disposição e ao alcance de
  colchonetes, balanços, almofadas em             cada um. O material não precisa ser
  tamanhos e texturas diferentes,                 caro, tampouco sofisticado, basta que
  escorregadores, objetos sonoros e de            desafie a curiosidade da criança.
  diferentes texturas e tamanhos.
                                                     Com certeza, você possui criatividade
      Quanto à decoração, salientamos a           suficiente para enriquecer, juntamente
  importância da estética e do capricho.          com as crianças, o espaço de vocês e,
  Nas paredes, devem estar a produção             sem dúvida, o tempo será preenchido
  artística ou os escritos das crianças, seus     com atividades enriquecedoras porque
  desenhos e “bilhetinhos”, cartazes feitos       variadas, significativas e prazerosas.
  por elas para ilustrar projetos, enfim,         Referências Bibliográficas
  elementos que tenham sentido e                  HORN, Maria da Graça. Sabores, cores, sons, aromas: a organização
  significado para o grupo.                       dos espaços na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2003.
                                                  OLIVEIRA, Zilma Morais de. (Org.). Educação infantil: muitos
                                                  olhares. São Paulo: Cortez,1994.
      Os bebês ainda não desenham, recor-         ______. et al. Creches: crianças, faz-de-conta & cia. Petrópolis:
  tam ou colam, portanto o material               Vozes, 1992.
  exposto deve “comunicar” a crianças e           REDIN, Euclides. O espaço e o tempo da criança: se der tempo
                                                  a gente brinca. Porto Alegre: Mediação,1998.
  adultos o que se está fazendo no Centro         RIZZO, Gilda. Creches: organização, currículo, montagem e
  de Educação Infantil. Observando os             funcionamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
  trabalhos expostos, pais e visitantes           ROSSETI-FERREIRA, Mª Clotilde. et al. Os fazeres na educação
                                                  infantil. São Paulo: Cortez, 2001.
  podem trazer outros materiais, enquanto


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                               Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


                                                              Atividades de Estudo e
                                                            Aprofundamento
                                                                                     Maria Helena Lopes

                                                               • Após a leitura do texto, faça uma
                                                            análise comparativa das fotografias
                                                            abaixo, refletindo sobre a organização
                                                            do espaço.
                                                               • Observe uma sala de berçário ou
                                                            maternal avaliando suas instalações
                                                            quanto à estética e às possibilidades de
                                                            exploração dos objetos. Registre sua
                                                            observação.
                                                               • Confeccione uma maquete ideali-
                                                            zando a sala onde você gostaria de estar
                                                            diariamente com suas crianças. Utilize
                                                            sucatas e muita imaginação.
Foto: Sebastião Barbosa




                                                                                                                                 59
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                       Cadernos Pedagógicos – volume 4

     Pontos de Reflexão e Ação                    pleno é o tempo presente: passado e
     Euclides Redin, em seu livro O Espa-         futuro só contam se forem presentes com
  ço e o tempo da criança: se der tempo a         seu peso, seu fogo, sua esperança, sua
  gente brinca, diz que:                          garra(...).”
      “A vida não existe em função de                • O que você pensa sobre estas pala-
  nenhuma etapa ou período: a vida deve           vras? Converse com os colegas e juntos
  ser plena em todo o tempo. O tempo              façam uma poesia.




                                                                                                  Foto: Sebastião Barbosa




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                   Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


         Pedagogia de Projetos e                     as formas peculiares e originais de as
                                                     crianças se expressarem. O conhecimen-
         a Mediação do Educador                      to sobre a faixa etária na qual atuamos é
             Elizabeth Amorim e Maria Helena Lopes   a ferramenta que nos permite melhor
                                                     interpretar a criança em suas ações e
      Relato de uma professora:                      diferentes linguagens, bem como perce-
      Quando as crianças dão-se conta                bermos suas necessidades e potenci-
   de que são capazes de realizar                    alidades. Aprendendo como é a criança,
   descobertas através da pesquisa,                  você poderá observá-la melhor, estando
   tornam-se cada vez mais curiosas                  atenta a seus movimentos, brincadeiras,
   e ávidas por iniciar novas jornadas               jogos e todos os desafios que ela nos
   de estudo.                                        impõe, porque ela tem a sua maneira
      Mal “terminam” um projeto e já                 peculiar de pensar e é capaz de viver o
   estão pensando sobre o próximo.                   mundo através do brinquedo, do sonho e
      – Profe, quando a gente terminar               da fantasia. Há coisas de criança que só
   de estudar os morcegos, o que nós                 se aprende com criança.
   vamos fazer?
                                                         Realmente o mundo infantil nos desafia,
                                                     talvez porque tenhamos esquecido (ou
     Não podemos falar em ação pedagó-
  gica sem nos referirmos a
  um pré-requisito
  fundamental para que ela
  aconteça de forma
  adequada: a observação.
      Sim, é a observação
  constante das crianças e
  de seus fazeres, tanto in-
  dividuais quanto grupais,
  que nos permite realizar
                                                                                                                    Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




  a leitura adequada da su-
  as necessidades e interes-
  ses. Por isso, é preciso
  estar de olhos bem aber-
  tos e ouvidos atentos para
  que possamos interpretar


                                                                                                           61
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

  abafado?) o nosso lado criança, o               mesma forma, possuem hipóteses sobre
  encantamento e o lúdico. Você já experi-        o mundo, assim como avidez de des-
  mentou estar, efetivamente, junto com as        coberta e experimentação. Por isso são
  suas crianças, sendo parte integrante do        seres ativos, barulhentos, capazes e
  grupo? Isso significa mergulhar nos             exploradores do meio que os rodeia. A
  fazeres cotidianos, realizando junto            ênfase na observação das crianças é
  algumas propostas e participando das            desencadeadora de contextos ou situa-
  brincadeiras e construções.                     ções que se tornarão temas de estudos,
                                                  ou melhor, de projetos pedagógicos.
      Há quanto tempo você não “suja” as
  mãos com barro, areia ou tinta junto com o         Na organização da ação educativa
  grupo? E o prazer de “amassar” a argila?        através de projetos, a chamada pedago-
  Qual foi o seu personagem quando as             gia de projetos, as atividades se relacio-
  crianças se fantasiaram naquele dia? Quan-      nam, organizadas segundo temas
  do entrou nas brincadeiras de faz-de-conta?     pertinentes à vida das crianças. Os
  Se não lembra, que pena, você perdeu bons       projetos assim desenvolvidos, respeitan-
  e proveitosos momentos! Primeiro, porque        do o contexto sociocultural das crian-
  deixou de se deliciar; segundo, porque          ças, bem como seus interesses,
  perdeu (de novo!) grandiosas oportunidades      necessidades e questionamentos, devem
  de entender (ou lembrar?) um pouco mais o       possibilitar que elas questionem, criem,
  universo infantil; terceiro, porque deixou de   estabeleçam relações sociais e compre-
  observar e perceber mais detalhadamente         endam o significado e o funcionamento
  interesses e necessidades dos seus              das coisas e do mundo.
  pequenos amigos.                                   Não há fórmula nem esquema para a
      É possível constatar, então, a impor-       construção de projetos, pois sua estrutura
  tância e a necessidade da observação no         depende do assunto a ser tratado, das ca-
  nosso cotidiano pedagógico, pois é através      racterísticas do grupo, do tipo de relações
  dela que obtemos as pistas para propor          que estabelecem, das experiências prévias
  atividades significativas e contextualizadas    e do tipo de problema exposto. Além dis-
  porque originadas no e do grupo.                so, o tempo é variável, na medida em
                                                  que está ligado a essas condições citadas,
     Vale lembrar que lidamos com seres           por isso, pode durar um dia, uma semana,
  que têm uma história familiar e social          um mês...
  (mesmo um bebê de três meses já tem
  uma história de três meses!) e, portanto,          Apresentamos de forma sucinta,
  experiências socioculturais variadas. Da        porém bastante esclarecedora, os possí-


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                                Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                      veis passos de um projeto de trabalho na        Em outras situações, os projetos po-
                                                      instituição infantil.                       dem surgir a partir da observação das
                                                                                                  brincadeiras e dos jogos realizados pelas
                                                         Escolha do tema                          crianças. Assim foi no grupo de 3 anos
                                                         Pode organizar-se em projetos            no qual as freqüentes e cotidianas care-
                                                      anteriores, em situações vividas pelas      tas frente ao espelho originaram o “Meu
                                                      crianças, em proposições da educadora e     rosto se mexe”, que teve continuidade no
                                                      da escola, em atividades como passeios      projeto “Todo o meu corpo se mexe?”.
                                                      e visitas, em anseios dos pais.
                                                                                                      Em outra situação, uma determinada
                                                         Às vezes, um acontecimento “bom-         escola julgou necessário trazer para
                                                      bástico” pode originar um projeto, como     estudo e reflexão a temática dos senti-
                                                      aconteceu em um grupo de crianças           mentos e valores, devido às manifesta-
                                                      entre 4 e 5 anos. Certo dia, uma das        ções excessivamente agressivas das
                                                      crianças chega mais tarde, causando um      crianças. O grupo de educadores deci-
                                                      grande rebuliço no grupo: estava com o      diu abordar a temática da paz, ficando a
                                                      pé engessado (inclusive o gesso ainda       critério de cada um, com seus alunos, a
                                                      não estava bem seco) e, mais, trazia jun-   maneira de abordagem ou o caminho a
                                                      to a radiografia que mostrava claramente    ser percorrido. Encaminhadas as
                                                      o osso partido! A admiração foi geral,      reflexões sobre o tema, cada grupo
                                                      surgiram inúmeros questionamentos e         organizou uma atividade que expressou
                                                      hipóteses que resultaram no projeto         seus sentimentos sobre a importância
                                                      “Todos nós temos esqueleto”, que durou      das relações interpessoais harmoniosas.
                                                      o tempo do “engessamento” , como as         Foram elas: teatro, criação de letras e
                                                      crianças diziam.                            músicas, entre outros.
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




                                                                                                                                                        63
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

     Relato de Experiência                 relação direta com a nossa realidade. As
  Professora Janice Oliveira               crianças começaram a perceber que, na
                                           maioria das vezes, quem age correta-
      A turma do Jardim A1 já vinha discu- mente acaba lucrando, pois torna-se uma
  tindo algumas questões de convivência    pessoa benquista por todos à sua volta.
  entre o grupo, quando a escola propôs    Elas perceberam que quem bate no
  que realizássemos uma grande campanha colega, arranca brinquedos das mãos dos
  para o trabalho com a PAZ.               outros ou não consegue respeitar as
      Começamos a investigar com as        pessoas que convivem ao seu lado acaba
  crianças a maneira como todas as pesso- ficando sozinho, sem amigos.
  as gostam de ser tratadas. Podemos bater     Para a finalização do projeto, planeja-
  nas pessoas que estão à nossa volta?     mos a execução de um jogo que conti-
  Podemos mexer nos objetos dos outros     vesse toda essa tomada de consciência.
  sem permissão? Quando queremos algo, Num jogo de trilha, em que as equipes
  como é que pedimos? O que fazer          jogam um dado para ver quantas casas
  quando alguém bate na gente? E quando devem andar, aparecem situações “boas”
  batemos nos outros? O que acontece       e “ruins” do nosso cotidiano. Através de
  com pessoas que não cumprem as           cartas que significavam “sorte” ou “azar” ,
  “regras básicas” de convivência? Estas e as crianças ilustraram tais situações.
  outras questões serviram de introdução a Cada criança escolheu uma situação
  esse trabalho que apresentou um          para ilustrar de duas formas: uma positi-
  excelente resultado para o grupo.        va e outra negativa. Por exemplo: quem
      Trouxemos para as crianças uma cole-        escolheu ilustrar crianças emprestando
  ção de livros da editora Moderna chamada        seu brinquedo deveria ilustrar a negativa
  “Valores” dos autores Brian Moses e Mike
            ,                                     dessa situação, ou seja, as crianças
  Gordon. São quatro livros com os seguin-        brigando pela disputa de um brinquedo.
  tes títulos: “Com licença?” Aprendendo          Colamos os desenhos de boas ações em
  sobre convivência; “Deixa que eu faço”          cartas vermelhas e os de más ações em
  Aprendendo sobre responsabilidade; “Não         cartas amarelas. Quando uma equipe
  fui eu!” Aprendendo sobre honestidade; “E       caísse numa casa da trilha que contivesse
  eu com isso?” Aprendendo sobre respeito.        uma estrela amarela, deveria comprar
                                                  uma carta amarela, que traria consigo
      A partir da leitura das histórias, que      um “castigo”, do tipo “fique uma rodada
  mostram situações bastante comuns no            sem jogar” ou “volte duas casas” junta-
                                                                                    ,
  cotidiano das crianças, fazíamos uma            mente com a descrição da ação ilustrada,


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                               Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                    e o contrário acontecia com quem com-         sentido para outro grupo de crianças que
                                                    prasse uma carta vermelha, tendo maiores      não tivesse vivenciado o processo com
                                                    chances de chegar ao final do jogo. Por       os mesmos passos que nós. Passamos a
                                                    fim, a equipe que concluísse primeiro,        perceber uma grande diferença no
                                                    ganhava como “prêmio” a mensagem:             tratamento entre as crianças depois desse
                                                                                                  trabalho. Atualmente, percebemos com
                                                       “PARABÉNS! VOCÊ CHEGOU AO                  freqüência situações em que os colegas
                                                    FINAL DO JOGO E SABE O QUE                    se ajudam, se respeitam em suas diferen-
                                                    CONQUISTOU? UMA PORÇÃO DE                     ças e, o mais importante de tudo, são
                                                    AMIGOS”, reforçando a idéia de que,           felizes com os amigos que têm.
                                                    quanto mais nos empenharmos em
                                                    tornar as pessoas ao nosso redor felizes,        Esboço do Jogo
                                                    mais felizes seremos também.
                                                                                                      Cartas amarelas (16), com situações
                                                       A idéia inicial era a de que empr estás-   ilustradas e descritas como o exemplo
                                                    semos o jogo para as outras turmas joga-      abaixo:
                                                    rem. No entanto, chegamos à conclusão
                                                    de que talvez esse jogo não fizesse muito        Você debochou de um colega e ele
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi




                                                                                                                                                       65
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

  começou a chorar. Você vai ter que dar          que já têm do assunto, o que desejam
  um jeito nisso. Volte uma casa.                 saber e aprender e, ainda, como vão
      Cartas vermelhas (16), com situações        fazer para que isso aconteça.
  ilustradas e descritas como o exemplo:          Normalmente, fazemos uma listagem por
      Você elogiou o cabelo de uma amiga          escrito dos itens citados pelo grupo para
  e ela ficou muito feliz. Jogue outra vez.       ordenarmos as idéias; também seleciona-
      5 PEÕES COLORIDOS (tampinhas de             mos os recursos que serão utilizados.
  amaciante)
      5 PEQUENOS CRACHÁS DA COR DE                   A listagem sobre “o que já sabemos”,
  CADA PEÃO (para identificar as equipes)         “o que queremos saber” e “como vamos
      1 DADO GRANDE COM NÚMEROS                   fazer” além de servir de base para o
                                                        ,
  DE 1 A 6                                        planejamento das atividades (individuais,
      1 TRILHA (contendo cenas dos livros         em pequenos e grande grupo) e da distri-
  utilizados, para ilustração)                    buição do tempo, é também o momento
                                                  da avaliação inicial. Esse momento servirá,
      Já com bebês, os temas são                  posteriormente, como parâmetro da avalia-
  resultado basicamente da observação             ção final do projeto. Não esquecendo que
  que você realiza no seu grupo e de              cabe a nós “enlaçarmos” os temas aos
  cada criança individualmente. Por isso,         objetivos gerais previstos para o semestre
  você deve estar muito atenta às mani-           ou o ano e igualmente prever possíveis
  festações e reações para melhor                 assuntos que poderão ser desenvolvidos.
  interpretá-las, lembrando sempre o
  quanto é importante a organização de               Aprendizagem do educador
  um ambiente estruturado de modo a               e das crianças
  desafiar a exploração do espaço e dos              Ensinando também se aprende (em
  materiais. Um exemplo poderia ser               todos os sentidos). Então, ao elegermos
  sobre a alimentação dos bebês. Ofere-           um tema, devemos nos atualizar em
  cer papinhas geladas e quentes,                 relação a ele e, inúmeras vezes, aprende-
  alimentos doces e salgados, registrando         mos mesmo! Principalmente entre crian-
  através de fotografias as expressões            ças a partir de 4 anos, é comum surgirem
  faciais das crianças.                           conteúdos que exigem de nossa parte um
                                                  aprofundamento maior em relação a ele,
     Organização das atividades                   mesmo porque cabe a nós ampliar os
     É quando, após a escolha do tema,            conhecimentos do grupo e fazer-lhe
  você organiza situações em que as               novas propostas de trabalho. Um exem-
  crianças manifestam o conhecimento              plo que ilustra esse aspecto foi o interes-



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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                              Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  se de um grupo de crianças sobre o dia                                                        que as crianças realizam, por isso
  em que aconteceu um eclipse solar. O                                                          devemos manter os pais informados sobre
  interesse foi tamanho, que obrigou a                                                          os projetos em andamento, seja através de
  educadora a estudar muito sobre os                                                            bilhetes, cartazes, avisos na porta ou
  astros do sistema solar e seus fenômenos.                                                     reuniões.
      Coleta de informações                                                                        Materiais
      É realizada por todos, isto é, você, as                                                      Lembremo-nos de que os materiais
  crianças e os pais. Como o título sugere,                                                     precisam estar acessíveis às crianças e o
  é o momento de ir em busca das infor-                                                         espaço organizado para elas e por nós.
  mações que ampliarão os conhecimen-                                                           Devemos estar disponíveis como apoio
  tos sobre o assunto em foco. As fontes                                                        nesse ambiente de pesquisa. Registrar
  diversas não somente enriquecem, co-                                                          por escrito as situações é necessário,
  mo também, através de suas diferentes                                                         porque os registros orientam o que
  linguagens, possibilitam atingir os esti-                                                     devemos selecionar e eleger como mais
  los de aprender de cada criança. Então,                                                       significativo para realizar.
  livros variados, jornais, revistas, passei-                                                      No berçário, podemos dizer que os
  os orientados, observações, entrevistas,                                                      materiais e o ambiente são os “informan-
  exploração de materiais e experiências                                                        tes”, pois são fonte de socialização e
  concretas são algumas fontes que bus-
  camos.
     É interessante, dentro do possível, en-
  volver os pais, que por sinal muito nos
  auxiliam no desenvolvimento dos proje-
  tos. Além de ser muito bom para a crian-
  ça envolver-se junto com a família, os
  pais são ótimos informantes, e as infor-
  mações chegam variadas, tanto em lin-
  guagem como na maneira de exposição.
  Essa alternativa igualmente proporciona
                                                Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




  uma aproximação maior da família com
  a instituição, com a educadora, com as
  demais crianças e respectivas famílias do
  grupo de seu filho. Sabemos sobre a im-
  portância das famílias acompanharem o



                                                                                                                                                      67
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4




  estimulação dos bebês. O ambiente deve          E o pinto foi substituído, posteriormente,
  ser visto como “educador auxiliar”, pois,       pela Tuca (uma caturrita) e pelo Teteco (um
  se bem estruturado, pode ser um provo-          canário) que acompanharam as peripécias
  cador de aprendizagens com suas almo-           daquele grupo até o fim do ano!
  fadas, cestas de brinquedos, bolas, jogos
  de manipulação, brinquedos de constru-              Sistematização das informações
  ção e tantos outros materiais já apresen-           É realizada na apresentação do mate-
  tados, bem como a organização do                rial coletado e no momento em que são
  tempo e do espaço. O registro escrito aqui      feitas as relações e comparações entre as
  também existe como auxílio na reflexão          informações. É quando realmente as
  sobre os fazeres. “O Prazer do Banho”,          coisas acontecem com todos tendo
  “Rolando com Garrafas”, “Na Caixa de            participação ativa em esforço coope-
  Areia” são alguns dos exemplos de               rativo. Há diálogo e interações, com
  projetos alegres que podemos vivenciar.         fazeres individuais e coletivos.
      A partir dos 3 anos, muitas vezes as            Você deve preocupar-se em utilizar
  crianças querem “estudar” o que já conhe-       diferentes linguagens (desenho, modela-
  cem, cabendo à educadora auxiliá-las,           gem, pintura) e organizar as informações
  criando possibilidades de conhecerem mais       de tal forma que apresentem variedade de
  sobre o assunto e organizando um ambiente       enfoque. Assim, são construídos jogos,
  que estimule novos conhecimentos. Assim,        textos coletivos, teatros e dramatizações,
  quando Vitória (3a3m) levou para a sala o       maquetes, livros, esculturas e demais
  pintinho que havia ganho da madrinha, foi       sugestões combinadas com e no grupo. É
  uma festa. O bichinho passou a tarde com o      o momento de entrarem em cena também
  grupo (a primeira de muitas!). As crianças      vocabulário específico, experiências cientí-
  sabiam algumas “coisas de pinto: que ele é      ficas, formas geométricas, classificações e
  filho da galinha, não tem mão, tem penas, a     seriações, números, etc.
  boca é um bico e ele fica grande, do
  tamanho da galinha e do galo”.                     A história “O Rei Bigodeira e a Sua
                                                  Banheira” suscitou grande curiosidade em
     A visita do pintinho resultou, a partir      uma turma de crianças entre 5 e 6 anos,
  das hipóteses e perguntas surgidas desde        que ficou muito intrigada com “aquele
  então (aliadas à observação da educadora        tempo dos castelos em que não existia
  e suas interferências), no projeto “Tem
                                                  torneira, as pessoas usavam roupas goza-
  pena, bico e bota ovo: que bicho é esse?”.

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Cadernos Pedagógicos – volume 4                               Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância




  das” e, ainda por cima, “dormiam todas         tizações.                    Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi



  juntas numa camona”!
                                                     Culminância do projeto
       Então, no decorrer do projeto “No             É o momento em que as crianças,
  tempo dos castelos”, foram construídos         utilizando as diferentes linguagens,
  dominós e jogos de memória, com armas e        expõem o que foi construído no decorrer
  utensílios da época, uma linha de tempo        no projeto. No exemplo anterior, o teatro
  com gráficos e atividades comparativas         realizado pelas crianças foi a atividade em
  com o nosso tempo. Durante o processo, o       que, utilizando a linguagem dramática, o
  grupo foi construindo um castelo medie-        grupo recontou e narrou a aprendizagem
  val, utilizando caixas de papelão em           significativa. É muito importante para as
  diferentes tamanhos e sucatas as mais          crianças que elas expressem e divulguem o
  diversas (imagine os conceitos e relações      que estão fazendo e aprendendo.
  envolvidos nessa atividade!), que foi na           É também chegada a hora da avaliação
  culminância do projeto, o cenário do           do trabalho, realizada a partir da situação
  teatro encenado pelas crianças. As rou-        inicial de “o que sabemos...?” É quando
  pas de época utilizadas pelos “artistas”       comparamos a proposta e os resultados
  foram confeccionadas por eles utilizando
                                                 obtidos, as combinações realizadas – ou
  jornal, papéis e caixas. Um projeto e tanto!
                                                 não – e o porquê. Daí podem surgir novas
      O educador deve auxiliar acompa-           perguntas ou questões que darão
  nhando todas as atividades realizadas,         origem a novos projetos.
  ajudando o grupo de
  crianças a registrar
  suas tarefas e
  conquistas,
  e, quando
  necessário,
                                                                                                                                    Foto: Fantoches do Programa ADULTOS e CRIANÇAS CRIATIVAS




  fazer
  interme-
  diações,
  novas pes-
  quisas e
  sistema-



                                                                                                                        69
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                   Cadernos Pedagógicos – volume 4

     Como vimos até aqui, alguns critérios           Mediação do educador na
  são importantes nesse processo. Assim,          aprendizagem da criança
  todo projeto deve:                                 O educador, no seu papel de
                                                  instigador e organizador de um ambien-
     • ser do interesse das crianças              te onde a fruição é presença constante,
  e da educadora;                                 deve promover situações nas quais as
     • partir do que o grupo já sabe;             crianças sintam-se desafiadas pelo novo
     • respeitar as diferenças individuais;       e deliciem-se no descobrir, no conhecer.
     • apresentar experiências diversificadas;
     • estimular a participação, a                   Promover – nesse contexto – signifi-
  cooperação e a criatividade;                    ca: facilitar, acompanhar, possibilitar,
     • ser rico em atividades, tanto livres       compartilhar, problematizar, envolver,
  quanto dirigidas;                               reconhecer, comunicar, expressar, entu-
     • estabelecer relações compreensíveis        siasmar. É o que você, como mediadora,
  para as crianças;                               realiza cotidianamente junto às suas
     • contemplar e ampliar conhecimentos,        crianças e que, de forma explícita ou
  experiências, atitudes e habilidades.           implícita, está demonstrado em vários
                                                  textos deste estudo.
      Por isso, você deve ser como um guia,
  companheira experiente, atenta e
  disponível. Sabendo escutar e estimulan-           Devemos abrir caminhos:
  do a expressão, propiciando igualmente             Novos e flexíveis,
  um clima democrático, onde todos                   Através dos quais talvez só
  participam e são valorizados, porque               transitemos uma única vez;
  vistos como competentes e capazes.                 Novos e sensíveis,
                                                     Que precedam sempre as
     Como organizadora da ação pedagó-               cartilhas pré-estabelecidas;
  gica, você deve estar atenta em “entrela-          Novos e vivenciais,
  çar” os assuntos discutidos a outros               Abertos ao holístico e à
  temas e à realidade. Devem ser também              realidade da vida
  considerados o papel das diferenças                       Francisco Gutierrez – Ecopedagogia e cidadania planetária

  culturais, bem como os hábitos e costu-             Sem cartilhas padronizadas, sem ativida-
  mes dos diferentes grupos humanos.              des demasiadamente orientadas, sem trei-
                                                  nos que compartimentalizam: assim
                                                  norteia-se o fazer pedagógico na instituição
                                                  infantil. Aí reina o pensamento e a ação, um



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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                                                        Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                          lugar alegre para a criança viver, pensar,     criar situações de mediação entre as crian-
                                                          aprender e agir. Dessa maneira, desenvolve-    ças, as suas emoções e o seu ambiente.
                                                          se o hábito do pensamento criativo e inde-
                                                          pendente, passaporte do fazer autônomo e           A criança deve ser estimulada a participar
                                                                                                         ativamente de atividades não-reprodutoras,
                                                          da capacidade de enfrentar situações desafi-
                                                                                                         mas que lhe são significativas porque partem
                                                          adoras ou conflitantes.
                                                                                                         do seu interesse e têm a sua efetiva contribui-
                                                              Saber fazer alguma coisa é, antes de       ção, necessitando de sua iniciativa e de es-
                                                          mais nada, um processo gradativo de            tratégias por ela elaboradas.
                                                          evolução do pensamento, e não simples-
                                                                                                            A sociedade exige, a cada dia, não mais
                                                          mente aprender a memorizar uma informa-
                                                                                                         somente a técnica, mas também habilida-
                                                          ção, dar a resposta certa ou fazer como o
                                                                                                         des e alternativas. Assim, é necessário opor-
                                                          modelo. Por isso, você deve ter um com-
                                                                                                         tunizar a expressão e o fazer infantil nas
                                                          portamento interrogativo e, habitualmente,
                                                                                                         suas diferentes linguagens, para que, então,
                                                          questionar à criança: “porque você fez
                                                                                                         a criança conviva com a diferença, com o
                                                          assim?”, “Tem outro jeito?”, “Como você
                                                                                                         antagônico e confronte-se consigo mesma.
                                                          pensou para resolver isso?”. É importante
                                                                                                                                           Dando ênfase
                                                                                                                                       à atividade, à
                                                                                                                                       ação mais do que
                                                                                                                                       à cópia de mode-
                                                                                                                                       los, a educação
                                                                                                                                       infantil conduz a
                                                                                                                                       criança para ide-
                                                                                                                                       alizar e con-
                                                                                                                                       cretizar seus
                                                                                                                                       objetivos, testar
                                                                                                                                       suas hipóteses,
                                                                                                                                       elaborar seu
 Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF




                                                                                                                                       brincar, opinar,
                                                                                                                                       aceitar ou rejei-
                                                                                                                                       tar, confron-
                                                                                                                                       tando-se com
                                                                                                                                       seus iguais. En-
                                                                                                                                       fim, propicia-lhe




                                                                                                                                                                71
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

  ser agente ativa do seu ato de aprender e       mento de reciprocidade. É o momento
  de fazer.                                       dos jogos em equipe, das atividades
                                                  grupais em todas as áreas: artes, teatro,
     Como já foi visto no estudo do tema          elaboração de textos coletivos, diálogos,
  sobre o desenvolvimento da criança, por         desafios matemáticos... Enfim, o cotidi-
  ser o egocentrismo – inicialmente mar-          ano infantil deve permitir e promover
  cante e com gradativo decréscimo –              constantemente situações em que a cola-
  característica que envolve o pensamento         boração criança/criança se faz necessária
  e a ação da criança, o aprender a viver         e a presença do outro, significativa.
  em grupo é desafio constante na
  educação infantil.                                  Para que esse ambiente se estabeleça
                                                  na sua plenitude, o planejamento também
      Quando bem pequena, até por volta           deve ser participativo e, como a própria
  de 3 a 4 anos, a incapacidade de se co-         nomenclatura sugere, é um planejar de
  locar no lugar do outro dificulta à crian-      todos, realizado em conjunto. Nesse
  ça realizar a integração com os iguais.         momento, você e as crianças projetam
  Como explica Jean Piaget, o indivíduo,          coletivamente o quê, o como e o quando
  no seu espírito egocêntrico, assimila para      dos fazeres. Também com a participação
  si e sob seu ponto de vista. Assim, as          de todos, são estabelecidas as regras e as
  ações e os pensamentos são centrados            combinações a serem seguidas no transcor-
  no eu para suprir necessidades próprias.        rer das brincadeiras e atividades.
     Nesse contexto, você cria situações de           Dessa maneira, a educação infantil
  jogos, brincadeiras e atividades em con-        está não só estimulando, mas principal-
  junto. Mesmo sabedora de que o inter-           mente propiciando o desenvolvimento
  câmbio social não se estabelece                 de objetivos comuns. Somente assim as
  efetivamente, procure constantemente            crianças vivenciam efetivamente a im-
  oferecer situações grupais.                     portância da cooperação, em que não a
                                                  rivalidade, mas sim o objetivo comum
     Em torno dos 5 anos, nota-se sensivel-       seja priorizado. Cabe esclarecer que, ao
  mente o declínio egocêntrico e, nesse           priorizar o grupo, não estamos estimu-
  momento, o relacionamento da criança            lando a uniformidade.
  com companheiros é fundamental. A
  cooperação inicia-se, bem como o senti-             O verdadeiro sentido da educação
                                                  infantil deve ser o de contribuir para o
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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                    Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

  realize todas as capacidades humanas          instrumentalizada a facilitar e encorajar
  características do período em que está        a criança a descobrir-se, a pensar e agir
  vivendo. Na verdade, o ser humano é uma       com autonomia nos mais diversos tipos
  totalidade, não sendo possível separar o      de situações.
  aspecto sócio-emocional do físico e do
  cognitivo. Do contrário, ao privilegiarmos        Tendo a autonomia como finalidade, a
  um, comprometeríamos os demais.               educação infantil deve promover a unidade
                                                dessa criança. Percebendo-se parte de uma
     A mediação da educadora deve criar e       coletividade, com direitos e deveres, num
  promover as condições mais adequadas          processo de cooperação, socializando-se e
  para o desenvolvimento global das crianças.   descentrando o mundo ao redor de si, a
  É o espaço de ser criança, de brincar, de     criança está desenvolvendo-se como um ser
  descobrir e conhecer o mundo através do       livre, independente, com determinação
  lúdico, de se relacionar com o ambiente,      individual, intelectual e social.
  com as pessoas e com os iguais.
                                                    Referências Bibliográficas

     A criança precisa ser encorajada a         BEE, Helen; SANDRA, L.; MITCHELL, K. A pessoa em desenvol-
  verbalizar suas idéias, a estabelecer         vimento. São Paulo: Editora Harper & Row do Brasil Ltda, 1984.
  todos os tipos de relações, a descobrir-      BRASIL. Ministério da Educação. Professor da pré-escola. Rio de
                                                Janeiro: 1991, v. 1, v. 2.
  se como ser único. Deve ser vista indivi-     BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Referencial
  dualmente, tendo sua liberdade                curricular para a educação Infantil. Secretaria de Educação
                                                Fundamental. Volumes I, II e III. Brasília: SEF, 1998.
  garantida na livre escolha de atividades,     CUNHA, Suzana Rangel Vieira da. Cor, som e movimento: a
  bem como nos seus posicionamentos.            expressão plástica, musical e dramática no cotidiano das
                                                crianças. Porto Alegre: Mediação, 1999.
     A redução do poder da educadora,           FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo. Rio de
                                                Janeiro: Paz e Terra, 1989.
  nessas circunstâncias, não significa          GARDNER, Howard. A criança pré-escolar: como pensa e como a
  passividade; ao contrário, o comprome-        escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artmed, 1994.
  timento com as crianças enfatiza o seu        GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Secretaria
                                                de Educação. Rio Grande do Sul. Educação para crescer. Projeto
  papel mediador. Como organizadora de          Melhoria da qualidade no ensino. Educação pré-escolar. Da
  um ambiente adequado às necessidades          reflexão à construção. 1993.
                                                OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação infantil: fundamentos e
  e exigências infantis e intercedendo          métodos. Coleção Docência em Formação. São Paulo: Cortez,
  com experiências que contemplem um            2002.
  desenvolvimento integrado, você estará        PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação. Porto
                                                Alegre. Cadernos pedagógicos n. 15. Proposta pedagógica da
                                                educação infantil. Porto Alegre, 1999.
                                                ROSSETI-FERREIRA, Maria Clotilde et al. Os fazeres na
                                                educação infantil. São Paulo: Cortez Editora, 1998.




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                                                               Atividades
                                                               de Estudo                                                significativo. Registre palavras, gestos,
                                                                                                                        sentimentos, conceitos, frases, etc. A
                                                                                                                        cada dia, escolha momentos diferen-
                                                                 e Aprofu
                                                                         ndament                                        ciados da rotina para observar e regis-
                                                                                o
                                                                                                                        trar. Após duas semanas (no mínimo)
                                                                                    Maria Helena Lopes                  de observação e registro sistemático,
                                                                                                                        releia seus escritos. Comente quais
                                                                      O fundamento principal da                         foram as idéias que surgiram, a partir
                                                                   experiência baseada na prática,                      da reflexão que o registro possibilita.
                                                                   na teoria e na pesquisa é a
                                                                   imagem de uma criança rica,                             • Registre suas observações mais
                                                                   forte, poderosa ...                                  significativas, escrevendo em seu
                                                                      É uma afirmação que se                            caderno. Converse com os colegas
                                                                   contrapõe à tendência de                             sobre elas.
                                                                   realçar as necessidades, as
                                                                   fraquezas, os temores                                    • O planejamento coletivo favorece
                                                                   das crianças e a calar,                              o desenvolvimento da autonomia. A
                                                                   lamentavelmente, suas                                meditação da educadora é fundamen-
                                                                   potencialidades e direitos.                          tal nesse processo, quando ajuda as
                                                                   Giordana Rabitt – À Procura da Dimensão Perdida:     crianças no estabelecimento de regras
                                                                              uma escola de infância de Reggio Emília
                                                                                                                        e no encaminhamento de combinações
                                                             O registro das observações                                 das atividades. Como tem sido com sua
                                                         possibilita um excelente começo para                           turma o exercício de combinar juntos o
                                                         a realização de projetos de estudos                            que irão fazer? Faça um relato escrito
   Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




                                                         com as crianças. Através dela, você                            de uma atividade realizada.
                                                         perceberá os interesses das crianças.
                                                                                                                           • Assista com seus colegas
                                                            Mantenha um caderno                                         aos seguintes vídeos:
                                                         e um lápis sempre com você.                                     – E Assim Nasce um Projeto.
                                                            Escreva tudo o que lhe pareça                                – Vamos Viajar na Vassoura da Bruxa?




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                       Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


         roposta Pedagógica e                                            no qual refletimos, entre outros temas,
                                                                         sobre a saúde da criança, a integração da
        Relações Centro Infantil,                                        instituição infantil, o modo como
        Família e Comunidade                                             organizamos tempo, espaço e fazeres, sobre
                                                                         os indissociáveis educar/cuidar.
             Elizabeth Amorim e Maria Helena Lopes
                                                                             Pois bem, todos esses conteúdos e
      Escrever o que se vive                                             reflexões decorrentes nos levam a con-
       é coisa de pouca ou                                               cepções sobre a criança e sobre o educar,
      nenhuma graça.
                                                                         enfim, nos trazem uma visão de mundo,
      O desafio está em viver o
                                                                         de homem, de educação e de sociedade.
      que se escreve.
                                                                         E são esses preceitos que norteiam a
                        Eduardo Galeano – A escola do mundo às avessas
                                                                         proposta pedagógica de uma instituição
      Discutimos ao longo deste estudo,                                  infantil, que se configura como um instru-
  através da interação na Mesa Educadora,                                mento de apoio à organização da ação
  as leituras dos quatro cadernos de                                     institucional e, principalmente, à atuação
  estudos e as reflexões nas atividades de                               dos educadores. Portanto, é igualmente
  aprofundamento. Sem dúvida, aprende-                                   possibilidade de crescimento do Centro
  mos, nos inquietamos, inúmeras pergun-                                 Infantil, bem como de todos que dele
  tas surgiram e algumas ficaram
  sem respostas. É assim o cami-
  nho de quem quer seguir
  sempre adiante, vivendo e
  escrevendo a própria história.
      Discutimos as concepções
  de infância, o desenvolvimento
  físico e emocional da criança,
  como aprende, como
  experiencia o meio, os objetos
                                                                                                                                        Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi




  e as situações. Falamos tam-
  bém sobre o perfil do educa-
  dor, sobre a legislação da
  educação infantil e as políticas
  sociais relativas à infância.
  O cotidiano nos centros
  infantis é o foco deste caderno,


                                                                                                                               75
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

  participam. Apresenta ainda a política          cia de as propostas pedagógicas promo-
  pública vigente no âmbito municipal,            verem em suas práticas educativas e de
  estadual e federal.                             cuidados o atendimento aos aspectos do
                                                  desenvolvimento físico, emocional,
     Em abril de 1999, o Conselho Nacio-          afetivo, cognitivo e social das crianças.
  nal de Educação fixou as Diretrizes
  Curriculares em Nível Nacional para a               Constitui-se também em diretrizes a
  Educação Infantil. As DCN, como são             interação entre as diversas áreas do
  chamadas, são oficias e têm força de lei.       conhecimento, através de atividades
  Elas definem diretrizes para a elaboração       espontâneas ou dirigidas, devendo ex-
  das propostas pedagógicas das creches e         pressar objetivos e garantindo, assim, a
  pré-escolas.                                    intencionalidade das ações na Educação
                                                  Infantil e a constituição de conhecimentos.
        A primeira delas diz respeito aos
  fundamentos da Educação Infantil,                  O processo de avaliação tem desta-
  desdobrando-se em:                              que nas DCN, afirmando a importância
                                                  do registro nas etapas, “sem o objetivo
     – Princípios éticos da autonomia, do         de promoção, mesmo para o ensino
  respeito, da solidariedade e do respeito        fundamental”, conforme a Lei nº 9.394/
  ao bem comum.                                   96, seção II, artigo 31.
     – Princípios políticos dos direitos e           O Referencial Curricular Nacional
  deveres da cidadania, da criticidade e do       para a Educação Infantil (RCNEI) foi
  respeito à ordem democrática.                   publicado pelo Ministério de Educação,
     – Princípios estéticos da sensibilidade,     em 1988, é consentâneo com as DCN e
  da criatividade, da ludicidade e da diver-      tem como finalidade apresentar subsídios
  sidade de manifestações artísticas e            para a organização de propostas
  culturais.                                      pedagógicas. É leitura necessária a todos
                                                  os educadores, porém não deve ser
      As instituições de Educação Infantil        encarado como uma orientação única a
  devem conviver com as diversas identi-          ser seguida, mas como subsídio para a
  dades das crianças e de suas famílias,          construção de propostas pedagógicas.
  acatando as diversidades étnicas,
  religiosas, econômicas, de gênero ou               Quem planeja, programa e projeta
  necessidades especiais.                         pedagogicamente está elaborando um
                                                  roteiro de interações com múltiplas
       Outra diretriz aponta para a importân-     experiências significativas para as crian-


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                             Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


   ças. Falamos aqui em proposta                metodologia utilizada. Sabemos que
   (pedagógica) não no sentido de               nenhuma prática é neutra, pois,
   determinação, “tipo fôrma de gelo onde       explicitamente ou não, está atrelada a
   os cubinhos saem todos iguais”; ao           princípios que norteiam os objetivos.
   contrário, tratamos proposta como algo          Algumas formas de organização da
   flexível, que permite adequa-
   ções, reformulações, avanços e
   retrocessos, pois pressupõe um
   olhar atento sobre a realidade.
     Sintetizando, afirmamos que
   uma proposta pedagógica:
      • é um caminho construído




                                                                                                              Foto: Sebastião Barbosa
   cotidianamente;
      • contempla a história da
   instituição e sua função;
      • não é modelo pronto a ser
   copiado na íntegra;
                                                proposta pedagógica são as seguintes:
      • respeita fatores sociais e culturais,
   promovendo a autonomia da conquista e        Áreas de Desenvolvimento
   da cooperação;                               Contemplam os aspectos social-
      • envolve toda a comunidade escolar    afetivo, psicomotor e cognitivo. A crian-
   na sua construção;                        ça é caracterizada, então, na perspectiva
      • é parte de uma política pública,     da psicologia do desenvolvimento e a
   contendo um projeto político de sociedade;preocupação volta-se para as característi-
      • deve facilitar aos educadores o      cas relativas à faixa etária de 0 a 6 anos.
   acesso ao conhecimento na área da         Os objetivos são organizados conside-
   educação e da cultura em geral.           rando e respeitando cada área do desen-
                                             volvimento infantil. Por tratar-se do
      Assim, observamos várias maneiras de
                                             desenvolvimento da criança, a orienta-
   organizar uma proposta pedagógica que,
                                             ção, o parâmetro do enfoque é um de-
   repetimos, contém os pressupostos (idéias
                                             senvolvimento ideal, para uma criança
   e conceitos) que embasam a ação pe-
                                             igualmente ideal!
   dagógica, bem como especifica a




                                                                                                     77
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                        Cadernos Pedagógicos – volume 4

      Temas Geradores                             ções, pois partem de uma leitura atenta
      São o ponto de partida e os                 do grupo. Para tanto, é urgente que os
  articuladores das atividades. O tema é          educadores eduquem os ouvidos e
  visto como um fio condutor dos fazeres          reaprendam a olhar a criança, o grupo e
  educativos em que há preocupação com            suas manifestações.
  o interesse da criança. No entanto, a
  escolha do tema não pode ser um                    Vêm crescendo consideravelmente as
  pretexto para a listagem de atividades          propostas pedagógicas que contemplam
  repetidas mecanicamente, em que não             os projetos como eixo condutor da sua
  são priorizados efetivamente os conheci-        organização. Pela sua abrangência,
  mentos envolvidos, as hipóteses das             podemos trabalhar com projetos em
  crianças, a exploração e a pesquisa.            qualquer grupo de crianças de 0 a 6
  Como, por exemplo, no tema “O índio”,           anos, é claro, considerando a faixa
  em que as crianças recortam índios, mo-         etária, os interesses e as características
  delam instrumentos indígenas, ouvem             de cada grupo.
  histórias sobre índios, desenham índios,            Esse encaminhamento está focado e
  etc., sem uma articulação maior, sem            melhor discutido neste caderno sob o
  desafios, sem que efetivamente novos            título Pedagogia de Projetos; no entanto,
  conhecimentos sejam construídos.                julgamos pertinente mais uma considera-
     Áreas de Conhecimento                        ção final. Parece-nos que os projetos
     Língua Portuguesa, Matemática,               atendem melhor às necessidades do
  Ciências Sociais e Ciências Naturais,           nosso tempo, já que consideram a reali-
  cujo principal objetivo é o contato da          dade sociocultural das crianças, bem
  criança com os conhecimentos acumula-           como o desenvolvimento e as caracterís-
  dos pela humanidade, o que proporciona          ticas próprias do momento em que estão
  desenvolvimento, pois a criança está            vivendo, disponibilizando os conheci-
  adquirindo e também produzindo novos            mentos do mundo físico e social.
  conhecimentos. No entanto, esse                     Seja qual for o enfoque de uma
  enfoque pode transformar-se em                  proposta pedagógica, ela deve trazer a
  “conteudista”, excluindo, assim, as             idéia de que o conhecimento não é
  especificidades do atendimento infantil.        “transmitido” à criança, tampouco
     Projetos de Estudo                           rigidamente sistematizado. A educação
     Trazem uma idéia de horizonte, de            infantil não possui (felizmente)
  linhas gerais que podem, no processo,           “conteúdos” nem programas a cumprir;
  receber novos contornos, maiores defini-        por isso, tem o privilégio da autonomia


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                               Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                          para – ao mesmo tempo em que focaliza                  pando de relações sociais num processo
                          alguns temas, aprofundando-os de acor-                 psicológico, social, cultural e histórico.
                          do com o nível e interesse do grupo –                  Assim, o lugar dos pequenos deve ser
                          “oferecer o mundo” para as crianças, um                estimulante da imaginação infantil, rico
                          “mundo” que deve ser vivido por elas de                em desafios, que priorizem não a res-
                          maneira a propiciar-lhes ricas e diversifi-            posta, mas sim os caminhos percorridos
                          cadas experiências.                                    na busca de soluções.
                             Por que me impões o que sabes                          No cotidiano farto em experiências
                             se eu quero aprender                                diversificadas – que incluem, muitas
                             o desconhecido                                      vezes em uma mesma proposta, exigên-
                             e ser forte                                         cias de várias áreas –, a criança vivencia o
                             em minha própria descoberta?                        prazer do desafio do aprender, o que
                                                             Humberto Maturana
                                                                                 certamente lhe causará marcas indeléveis.
                             A criança desenvolve-se no seu                         Nesse contexto, o erro não é sinônimo
                          aspecto social, emocional e intelectual                de falha, porém interpretado como uma
                          pela interação com o mundo, partici-                   etapa do processo, uma vez que “as
Foto: Sebastião Barbosa




                                                                                                                                       79
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                           Cadernos Pedagógicos – volume 4

  idéias erradas das crianças não são erros            Se desejamos uma proposta pedagógica que
  que podemos corrigir, mas relações que          realmente contemple tal relação, devemos
  elas coordenarão cognitivamente e de            articular meios para que isso aconteça.
  forma gradativa ao longo de seu
  desenvolvimento”.                                   A família representa um papel muito
                                                  importante para qualquer indivíduo, pois é
      Sem o medo do erro, com um ambiente         através dessas relações de troca que as pessoas
  rico em situações de descobertas, a criança,    vão descobrindo o mundo ao seu redor.
  curiosa por natureza, sente-se livre para
  ousar na busca de melhor compreender o             Esse mundo é representado pela
  mundo que a rodeia. E, o que é principal,       vizinhança, pela igreja, pelos locais de
  aprendendo a aprender com prazer e              diversão que a pessoa freqüenta, enfim,
  sentindo-se, acima de tudo, capaz.              pela comunidade onde vive.

     Centro infantil, família e comunidade            É importante que saibamos mais sobre
     A relação entre a comunidade e o             “nossas” crianças e suas famílias – isso vai
  centro infantil deve ser alicerçada em          além da entrevista com os pais e das
  confiança mútua.                                conversas ocasionais. Encontramos
                                                  crianças das mais diferentes origens
     Os educadores têm importante papel           familiares e, conseqüentemente, com os
  a esse respeito. De fato, devem ter a           mais variados valores, crenças, costumes e
  responsabilidade de planejar sistemática        hábitos. Quando se entendem essas
  e deliberadamente para que isso ocorra,         diversidades, aprende-se a respeitar mais o
  propiciando uma atmosfera agradável e           modo de vida das crianças, sabendo que é
  amigável no Centro Infantil, de modo            na família que se inicia a sua socialização.
  que o saber dos pais e de outros                Esse processo terá continuidade na
  representantes da comunidade seja               Educação Infantil. Então, deve ser feito
  valorizado.                                     um estudo exploratório para
                                                  efetivamente sabermos os tipos e as
       O centro infantil não é um espaço          condições de moradia e o número de
  hermeticamente fechado para o mundo,            pessoas que ali habitam. O nível de
  nem – como se ilha fosse – isolado. Ora,        escolaridade dos pais, a profissão e a
  se vemos a criança inserida em um contexto,     renda familiar permitem contatar as
  se consideramos sua história e suas             diferentes classes sociais que conosco
  interações com o meio que a rodeia, como        convivem; é interessante sabermos
  não vamos nós estabelecer esse contato e        também se há outras atividades (remu-
  essa integração?                                neradas ou não) entre os adultos.


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                       Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                          Fundamental é o conhecimento da               inseridas diferentes origens, religiões, raças,
                          constituição familiar, com quem vive a        tipos de trabalho, etc., motivo pelo qual é
                          criança (pais, avós, só pai ou só mãe,        necessário investigar igualmente com as
                          primeiro casamento, etc.), bem como o         crianças, através de conversas, sobre seus
                          relacionamento adultos/crianças, como         hábitos e costumes, seus amigos, etc.
                          agem nos conflitos, sanções e castigos,       Também é importante realizar com elas
                          manifestações afetivas, cuidados relati-      passeios nos espaços sociais, como lojas,
                          vos à saúde e higiene, “ajudas” das           praças, igrejas, áreas de lazer e visitas
                          crianças nas tarefas domésticas e mes-        onde a produção é local em relação a
                          mo fora de casa. Assim estaremos mais         artesanato, produtos alimentícios e tudo o
                          perto de quem são nossas crianças e de        mais que a sua comunidade produzir.
                          qual é seu contexto de vida.
                                                                           As portas do Centro Infantil devem
                             As características gerais de uma comuni-   estar permanentemente abertas para
                          dade são parecidas; no entanto, ali estão     todas as famílias, pois assim elas ficam
Foto: Sebastião Barbosa




                                                                                                                               81
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

  sabendo o que acontece nos diversos             do lugar: como era, o que havia, histórias e
  momentos, como funciona a instituição e         casos acontecidos; um jovem que toque e
  as pessoas aí envolvidas. Chamar as             cante para/com as crianças. Podemos
  famílias não somente para reuniões, mas         receber a enfermeira, o dentista, o sapatei-
  também para conversas grupais sobre             ro, a florista, o artesão...
  como as crianças aprendem, a importân-
  cia do brincar, as características infantis,        O Centro Infantil, com o objetivo de
  mostram as produções das crianças e             integrar-se à comunidade, promove ou
  demais assuntos que você considerar             participa de ações e campanhas conjuntas
  interessante para o seu grupo de famílias.      e, mesmo individualmente, pode lançar
  Além desses momentos, a presença dos            algum projeto que venha atender alguma
  pais dentro da instituição também é impor-      necessidade local. Por exemplo: campa-
  tante para que haja integração com as           nhas de seleção e aproveitamento de lixo,
  crianças na realização de algumas ativida-      mobilização junto a órgãos de saúde, etc.
  des com elas, seja jogando, brincando ou            Com certeza, você e a sua instituição
  “ensinando” algo como jogar pião, construir     infantil estão inseridos, participando
  uma pandorga...                                 porque estão ouvindo e vendo as crian-
     Lembramos que estes são hábitos e            ças, a família e a comunidade e, acima de
  comportamentos que não se estabelecem           tudo, estão cumprindo o papel e a função
  do dia para a noite; é um processo que se       social que lhes cabe.
  constrói no coletivo gradativamente. Inici-         A aproximação dos pais à escola
  almente, talvez você não obtenha resulta-       depende muito de uma atividade aberta e
  dos magníficos, mas não esmoreça, seja          receptiva a eles. Essa aproximação é uma
  otimista, gratificando-se com aqueles que       aprendizagem e um trabalho de conquis-
  responderam ao chamado, e não lamente-          ta; irá acontecendo aos poucos, à medida
  se dos ausentes. Um dia, eles virão!            que os pais forem compreendendo o
     Uma das formas de promover a aproxi-         trabalho, vendo que suas opiniões são
  mação com a comunidade é trazer para o          aceitas e que sua presença é necessária.
  Centro Infantil pessoas que possam contri-          O educador tem a importante tarefa de
  buir no processo de formação das crianças:      integrar seu conhecimento, os valores que
  é necessário repassar a história do bairro.     sustentam o bem-estar da comunidade por
  O conhecimento pode ser trazido por um          intermédio da proposta pedagógica.
  idoso que conte sobre os “outros tempos”




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                     Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                                               construção de uma proposta pedagógica
      Há um instante mágico na                                 que contemple os aspectos políticos,
      vida em que,                                             sociais e humanos.
      Nem mesmo sabendo por que,
      Ficamos envolvidos num jogo.                                 As atualizações através de reuniões,
      Num jogo de ensinar.                                     palestras, visitas, sessões de filme e vídeos
      Fazemos parcerias.                                       para educadores e a participação em even-
      Não só com os outros,                                    tos deve propiciar o compartilhamento de
      Mas também parcerias internas                            conhecimentos teóricos e práticos. Esse
      nos propondo desafios.
      Porém, só ficamos nesse estado
                                                               processo possibilita o debate de idéias, que
      de total cumplicidade com o saber                        deverá culminar na construção de uma
      se este tem sentido para nós.                            proposta pedagógica que contemple um
      Caso contrário,                                          caminho, uma trilha na qual todos formem
      somos apenas espectadores                                o coletivo, criando condições para que o
      do saber do outro.                                       trabalho seja desenvolvido, compreendido e
                                  Martins, Picosque & Guerra   assumido por todos.
                                                                    Referências Bibliográficas

  A formação contínua dos educadores                           BARBOSA, Mª Carmen; DORNELLES, Leni Vieira. As instituições
     A formação continuada deve ser                            de educação infantil e a comunidade. In: CRAIDY, Carmen
  planejada pela gestão institucional,                         M.(Org.). Convivendo com crianças de 0 a 6 anos. Cadernos de
                                                               Educação Infantil. V.5. Porto Alegre: Mediação,1998.
  ocorrendo de forma sistemática.                              EDUCAÇÃO: Um tesouro a descobrir. Relatório para a
                                                               UNESCO. Comissão Internacional sobre Educação para o Século
     A proposta de um trabalho efetivamente                    XXI. São Paulo: Cortez, MEC, UNESCO, 1999.
  coletivo não pode prescindir de momentos                     FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo. Rio de
                                                               Janeiro: Paz e Terra, 1989.
  em que todos, crianças, educadores,                          GARDNER, Howard. A criança pré-escolar: como pensa e como a
  familiares e comunidade, possam                              escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artmed,1994.
  explicitar suas diferenças e expectativas                    GUTIERRES, Francisco; PRADO, Cruz. Ecopedagogia e cidadania
                                                               planetária. São Paulo: Cortez, 1999.
  de modo democrático e pluralista.                            KRAMER, Sonia (org.). Com a pré-escola nas mãos: uma
                                                               alternativa curricular para a educação infantil. 10. ed. São Paulo:
     Um cronograma destinado à                                 Ática, 1997.
  formação deve possibilitar o encontro                        OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação infantil: fundamentos e
                                                               método. Coleção Docência em Formação. São Paulo: Cortez,
  entre os educadores para a troca de                          2002.
  idéias sobre prática, para estudo sobre os                   OSTETTO, Luciana E. (Org.). Encontros e encantamentos na
                                                               educação infantil. São Paulo: Papirus, 2000.
  temas da Educação Infantil, para a                           PIAGET, Jean. O raciocínio da criança. Rio de Janeiro: Record,
  organização e o planejamento da rotina,                      1967.
  do tempo e das atividades, para a



                                                                                                                              83
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

    Atividades de Estudo e                         O processo de construção da proposta
  Aprofundamento                               pedagógica implica também a conquista
                            Maria Helena Lopes da autonomia e da cooperação, atendendo
                                               aos princípios básicos da cidadania, como:
     A prática pedagógica não é construída respeito, responsabilidade, formação de
  a partir de propostas pedagógicas escritas autoconceito.
  e prontas, mas da reflexão-ação de todos
  os sujeitos nela envolvidos: crianças,           • A partir da leitura do texto Proposta
  educadores, famílias e comunidade.           Pedagógica e das afirmativas acima:

     Toda proposta pedagógica é expressão          – Comente com seus colegas, desta-
  de um projeto político e cultural e          cando as idéias do texto que ilustram as
  reúne tanto bases teóricas quanto            afirmativas.
  diretrizes práticas.                                – A capacitação dos educadores é um
     Toda proposta pedagógica expressa o          direito e um dever. Analisando os seus
  “lugar de onde fala”, ou seja, os valores       estudos e vivências na Mesa Educadora,
  que a constituem e a heterogeneidade            reflita sobre os subsídios que os mesmos
  dos sujeitos envolvidos.                        lhe oportunizaram para a elaboração da
                                                  proposta pedagógica no Centro Infantil.
                                                                          Faça um esquema
                                                                          sintetizado e rela-
                                                                          cionando seus es-
                                                                          tudos com a
                                                                          proposta pedagó-
                                                                          gica no seu Centro
                                                                          Infantil.
                                                                         Edward Hopper- O vagão com bancos, 1965




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                               Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


           companhamento e                                                           Encontramos diferentes formas de
                                                                                  demonstrar o acompanhamento das
            Avaliação das Crianças                                                aprendizagens das crianças. Essas formas
            no Centro Infantil                                                    também mostram como a instituição
                                                                                  considera o ato de ensinar e o ato de
                                  Elizabeth Amorim                                aprender. Portanto, se a avaliação é
      “O importante e bonito do mundo é isso:                                     instrumento de controle e seleção que
      que as pessoas não estão sempre iguais,                                     julga e exclui, ou se possui um caráter
      ainda não foram terminadas, mas que elas                                    global e formativo, que realmente acom-
      vão sempre mudando. Afirmam                                                 panhe as ações das crianças através de
      desafirmam.”                                                                instrumentos variados.
                                       Guimarães Rosa
                                                                                     Embora convivamos diariamente com
      A mensagem de Guimarães Rosa vem                                            a avaliação, ela ainda é tema gerador de
  reforçar o papel da Educação Infantil,                                          controvérsias. Diante disso, como então,
  através de diferentes e criativas aborda-                                       no momento da avaliação, sentenciar
  gens, experiências e vivências, pro-                                            cada criança através de fichas que
  porcionando ao educador e à criança
  possibilidades de uma ação educativa,
  voltadas ao respeito às diferenças, aos
  momentos de interação e à liberdade do
  ser e do pensar.
       Afirmamos de diferentes maneiras,
  nos quatro Cadernos de Estudos, que
  devemos oferecer condições à criança
  para educar-se e socializar-se de forma
  independente e autônoma, criando
  espaços para que se aproprie do processo
  de aprendizagem como sujeito de sua
  história.
     A educação atual exige uma avalia-
  ção como processo dinâmico, que leve
                                                        Foto: Sebastião Barbosa




  em conta a realidade da criança com
  suas nuances, a realidade do Centro
  Infantil e seu contexto sociocultural.


                                                                                                                                       85
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                                       Cadernos Pedagógicos – volume 4

                           classificam comportamentos, habilidades           vez, etc.) ideais que devem ser alcançados.
                           e desempenhos?                                    Não lidamos com crianças ideais, mas
                                                                             reais, de carne e osso, com desejos,
                              Uma das maneiras de avaliação ina-             potenciais, habilidades e necessidades.
                           dequada que ainda hoje encontramos                Crianças que convivem diariamente
                           em algumas instituições de Educação               conosco, que devem ser entendidas para
                           Infantil é a que indica o que foi (ou não)        que possamos oferecer adequadas situa-
                           alcançado pela criança, como neste                ções de aprendizagem e que respondem
                           exemplo que focaliza a área motora.               diferentemente porque diferentes são.
                           Habilidade/Atividades          Sim Não Às vezes
                                                                                Encontramos também relatórios
                           Sobe escadas alternando os pés
                                                                             escritos, chamados muitas vezes de pa-
                           Pula com os pés juntos
                           Caminha entre obstáculos                          receres descritivos, que vêm sendo cada
                           Salta em pequena distância                        vez mais utilizados por objetivarem, co-
                           Pára a um sinal dado                              mo o próprio nome sugere, descrever as
                                                                             ações da criança. No entanto, observa-
                               A visão de “que a criança seja capaz          mos “descrições”, como o pequeno tre-
                           de”, exemplificada parcialmente acima,            cho retirado de uma delas que a seguir
                           nada mais é do que uma listagem de                transcrevemos:
                           conteúdos (nomear cores, identificar
                                                                               “José participa das atividades artísticas,
                           animais, etc.) e de comportamentos e
                                                                             mas ainda não consegue pintar respeitando
                           atitudes (repartir brinquedos, esperar sua
                                                                                                            limites. Utiliza a
                                                                                                            tesoura, embora
                                                                                                           nem sempre
                                                                                                           consiga segurá-
                                                                                                           la adequada-
                                                                                                           mente, o que
                                                                                                          dificulta seus
                                                                                                          recortes. Perma-
                                                                                                          nece por bom
                                                                                                          tempo dese-
                                                                                                         nhando e relaci-
 Foto: Sebastião Barbosa




                                                                                                         ona as cores
                                                                                                         usadas nas
                                                                                                         representações
                                                                                                         com a realidade.


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Cadernos Pedagógicos – volume 4                              Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

      Conta suas novidades utilizando lingua-   dos diferentes momentos de aprendiza-
  gem clara e lógica, mas ainda encontra        gem, que a criança efetivamente mostra
  dificuldade em transmitir recados”.           sua compreensão do mundo e as rela-
                                                ções que estabelece. Como sentar na frente
     Pareceres descritivos como este nada       dos bebês com uma lista contendo ativida-
  mais são do que uma “tradução” em             des programadas para determinado perío-
  palavras das cruzinhas que indicam se a       do a fim de verificar o que alcançaram?
  criança alcançou, não alcançou ou
  alcançou em parte os objetivos propos-            Como processo, a avaliação não “com-
  tos. É uma clara demonstração de que as       bina” com um planejamento rígido, cujas
  crianças não são vistas como diferentes       atividades são pré-estabelecidas porque os
  entre si porque têm histórias diferentes,     temas também o são, nem com a rotina
  pois espera-se que obtenham idênticos         inflexível em que você a tudo comanda.
  resultados: alcançar um mesmo objetivo           Devemos, pois, ter a preocupação de
  em um mesmo período de tempo!                 considerar a identidade da criança que está
     Você já se deu conta das infinitas         sendo avaliada e a identidade da educadora
  vezes em que ontem a criança não              que trabalha com ela. Por isso, devem ser
  realizava e hoje já faz, apresentando,        considerados o cotidiano da criança e a
  assim, superação em termos de desenvol-       postura pedagógica do educador.
  vimento? É, é de pensar....
      A avaliação
  não pode ser
  vista “como
  produto final”
  em que se
  verifica o que
  a criança
  conquistou,
  mas encarada
  como
  processo, e é
  no seu trans-
                                                                                                         Foto: Sebastião Barbosa




  curso, através




                                                                                                      87
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                         Cadernos Pedagógicos – volume 4

      Como mediadora das atividades, é            Além disso, aparecem aí algumas
  somente compreendendo e observando a            interferências e procedimentos efetuados
  criança que a educadora percebe a sua           por você. Veja bem, não é uma descrição
  prática e realiza as adequações necessá-        pura e simples, na qual são apontados
  rias para que as interações tenham quali-       itens e situações esporádicas. Trata-se do
  dade. É a nossa interação com a criança         registro de acompanhamento do
  que justifica a avaliação em educação           processo de construção do conhecimen-
  infantil, e não certezas e julgamentos do       to da criança, como por exemplo:
  que ela é, ou não, capaz de realizar.
                                                     Maria mostra-se curiosa em relação
      Não somos nós os responsáveis por           aos assuntos trabalhados. Contribui com
  oferecer às crianças oportunidades de           sugestões e traz experiências vividas fora
  conhecer a si próprias e a realidade,           do centro. Esses aspectos transparecem
  através de diversificadas atividades e          em algumas de suas perguntas.
  experiências? Então...
                                                     – Iara (educadora) quando é que a
     Utiliza-se o termo “avaliação media-         gente vai fazer aquela maquete que a
  dora” exatamente por considerar que a           gente combinou?
  relação educadora/criança parte do                 – Todos os ossos são brancos?
  processo, pois você está todos os dias
  com as crianças, observando, intervindo,            Inicialmente, as atividades relaciona-
  mediando e pensando em como propor              das aos movimentos corporais a inibem,
  ou realizar determinada atividade.              pois preferia observar as corridas, os
                                                  saltos, etc. Sem forçá-la, eu a estimulava
      E é justamente essa “história”, sua e       a participar. Então, conforme foi sentindo-
  da criança, que irá compor o relatório          se mais segura, passou a realizar algumas
  que você escreverá sobre cada criança,          propostas. Hoje, é com entusiasmo que
  demonstrando o acompanhamento das               participa dessas atividades.
  aprendizagens por ela construídas. Ilus-
  trará o dinâmico processo do desenvolvi-           Relaciona-se de forma tranqüila com
  mento infantil, envolvendo igualmente o         os amigos e, muitas vezes, dá idéias para
  cotidiano educadora/criança.                    brincadeiras ou construções, que são
                                                  suas preferidas. No entanto, nem sempre
      Assim, os relatórios do processo            aceita as dos colegas, sendo necessária a
  avaliativo permitem acompanhar a histó-         minha interferência, explicando-lhe que
  ria da vida da criança no centro infantil,      todos têm direitos a sugestões e que nem
  relatórios nos quais você escreve sobre         sempre as nossas são as escolhidas.
  preferências, temperamentos e reações.

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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                    Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância
Foto: Sebastião Barbosa




                          Algumas mudanças nesta reação já são        também como subsídios para novas
                          observadas.[...]                            propostas. Devemos registrar ainda
                                                                      dados sobre as crianças individualmen-
                              O trecho acima demonstra o acompa-      te, suas reações e seus comportamentos
                          nhamento da evolução da criança, suas       frente a situações e vivências. Os escri-
                          particularidades, e a presença da educa-    tos são grandes aliados, pois, além da
                          dora como observadora e mediadora do        reflexão sobre as nossas ações, servem
                          processo. Não há, em nenhum momen-          de base e complemento quando elabo-
                          to, a idéia do definitivo e acabado,        ramos os relatórios de avaliação de
                          tampouco comparações; ao contrário,         cada criança.
                          transparece a idéia de para onde a crian-
                          ça se encaminha, demonstrando que              Na prática do processo avaliativo,
                          todo “agora” é resultado de conquistas      devemos constantemente nos questionar
                          passadas e anúncio de novas aquisições.     sobre quais foram as conquistas da crian-
                                                                      ça, quais os caminhos que percorre ou
                             Escritos diários, com anotações sobre    percorreu, como reage frente a conflitos e
                          acontecimentos do dia, oferecem o           contrariedades, quais suas perguntas e
                          acompanhamento das ações desenvolvi-        comentários, como reage frente a dificulda-
                          das junto com as crianças e servem

                                                                                                                            89
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                      Cadernos Pedagógicos – volume 4

  des em jogos e atividades que a desafiam, e          Sabemos que o processo avaliativo é
  muitas outras perguntas são parte do nosso      difícil porque é complexo, envolve
  cotidiano. Percebe-se assim que, para a         muitas interrogações e impasses, idas e
  elaboração de um relatório de avaliação, é      vindas. É uma construção gradativa, que
  extremamente necessário o acompanha-            exige de nós dedicação e envolvimento.
  mento, através de anotações diárias sobre o
  que você considera relevante.                         Para que os relatórios de avaliação
                                                  sejam significativos para você e para as
     Não podemos deixar de refletir aqui          crianças, reafirmamos a necessidade de
  sobre as propostas que “não deram               instrumentos variados (registro de obser-
  certo”. Explicamos: você apresenta cor-         vação, diário de aula, anotações de cada
  das para as crianças com a intenção             criança, etc.) e utilizados em diferentes
  (objetivos) de propor, através de uma           situações para que possamos, efetiva-
  história (sessão historiada), que elas          mente, acompanhar e entender a criança
  andem em cima das cordas esticadas no           em suas variadas formas de interação
  chão, engatinhem por baixo delas, etc.          com o meio que a cerca.
  Então, o que acontece? As crianças quase
                                                      “Cada etapa da vida da criança é altamente
  não a ouvem e utilizam as cordas de
                                                      significativa e precede as novas
  todas as formas possíveis e imagináveis!
                                                      conquistas. Assim, ela estará sempre no
     A atividade “não deu certo” para                 seu ‘melhor’ momento, enquanto ser
  quem? Para você, com sua expectativa                inacabado, buscando respostas próprias ou
  adulta sobre as maneiras de ser das                 alternativas de solução para os conflitos de
                                                      natureza intelectual ou moral.[...] Daí que a
  crianças, sobre como brincam, jogam e
                                                      avaliação não tem sentido ao apontar
  exploram os diferentes materiais. Para as           resultados obtidos, pontos de chegada
  crianças deu “mais do que certo”, pois as           definitivos a cada idade ou etapa...”
  cordas foram grande fonte de diversifi-                                      Jussara Hoffmann – Avaliação na Pré-Escola
  cadas e divertidas explorações!
      Mais uma dica: você apresentou              Referências Bibliográficas

  (primeira vez) cordas para as crianças e        HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora. In: Uma prática em
  não lembrou que todo primeiro contato           construção da pré-escola à universidade. Porto Alegre:
                                                  Mediação, 1993.
  da criança com qualquer material deve           HOFFMANN, Jussara. Avaliação na pré–escola: um olhar
  ser livre para que ela possa explorá-lo         sensível e reflexivo sobre a criança. In: Educação Infantil. V.3.
  descobrindo possíveis jeitos de utilizá-lo.     Porto Alegre: Mediação, 1996.




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Cadernos Pedagógicos – volume 4                                                            Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

                                  Atividades de Estudo e                         • Identifique também os momentos
                                Aprofundamento                                importantes em que a interação com os seus
                                                         Maria Helena Lopes   colegas e as mediações da coordenadora
                                                                              técnica contribuíram para você aprender.
                                   • Faça um Relatório de Avaliação do        Leia atentamente o texto, seguindo as orien-
                                seu desempenho na Mesa Educadora.             tações oferecidas para realizar a sua auto-
                                Recorra à sua memória e às suas               avaliação e o seu relatório.
                                anotações, procurando identificar quais
                                foram as suas aprendizagens mais                 • Como tem sido a avaliação das
                                significativas e a influência que tiveram     crianças do seu grupo? Escreva sobre suas
                                na melhoria da qualidade do seu               tentativas, anexe seus registros e
                                trabalho e do seu crescimento pessoal.        instrumentos.
Edvard Munch - De manhã, 1884




                                                                                                                                    91
Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância                                        Cadernos Pedagógicos – volume 4




                                           Nota sobre os Autores
                                           1º Texto – Educar e Cuidar
                                           ELIZABETH AMORIM
                                           Mestre em educação pela Universidade do Vale
                                           do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga
                                           clínica, diretora e coordenadora pedagógica do
                                           Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977.

                                           2º Texto – Entrando em um Novo Mundo
                                           ELIZABETH AMORIM
                                           Mestre em educação pela Universidade do Vale
                                           do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga
                                           clínica, diretora e coordenadora pedagógica do
                                           Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977.

                                           3ºTexto – Agressividade e Limites:
                                           Possibilidades de Intervenção
                                           LOIDE PEREIRA TROIS
                                           Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela
                                           Universidade Federal do Rio Grande do Sul/
                                           UFRGS. Atua no Programa Fundo do Milênio
                                           para a Infância, realizado pela Fundação
                                           Maurício Sirotsky Sobrinho, pela Unesco, pelo
                                           Banco Mundial e pela OMEP como
                                           coordenadora técnica da Mesa Educadora de
                                           Porto Alegre.

                                           4º Texto – Saúde da Criança
                                           HALEI CRUZ
                                           Formado em Medicina pela Universidade
                                           Federal de Santa Catarina. Coordenador da
                                           Divisão de Saúde da Mulher, Criança e
                                           Adolescente da Secretaria de Estado da
                                           Saúde de Santa Catarina e Mestrando em
                                           Ciências Médicas pela Universidade Federal
                                           de Santa Catarina.




92
Cadernos Pedagógicos – volume 4                                     Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância




             Colega Educador!
               Você conseguiu chegar ao final de mais uma jornada em sua vida.
               Muitas outras a sucederão e novamente, com esforço e dedicação, você
             vencerá, trilhando livre e criativamente os caminhos do seu crescimento
             e qualiaficação adequados. Parabéns!
                                                                              Os Organizadores



  5º Texto – Organização do Tempo                    OMEP/Brasil.
  e do Espaço                                        7º Texto – Proposta Pedagógica e Relações
  ELIZABETH AMORIM                                   Centro Infantil, Família e Comunidade
  Mestre em educação pela Universidade do Vale       ELIZABETH AMORIM
  do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga           Mestra em educação pela Universidade do Vale
  clínica, diretora e coordenadora pedagógica do     do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga
  Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977.     clínica, diretora e coordenadora pedagógica do
                                                     Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977.
  6º Texto – A Pedagogia de Projetos e a
  Mediação do Educador                               MARIA HELENA LOPES
  ELIZABETH AMORIM                                   Mestre em Educação na área de Aconselhamento
  Mestre em educação pela Universidade do Vale       Psicopedagógico pela Pontifícia Universidade
  do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga           Católica do Rio Grande do Sul. Preside a OMEP/
  clínica, diretora e coordenadora pedagógica do     BR/RS/Porto Alegre e ocupa a vice-presidência da
  Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977.     OMEP/Brasil.

  MARIA HELENA LOPES                                 8º Texto – Acompanhamento e Avaliação
  Mestre em Educação na área de Aconselhamento       das Crianças no Centro Infantil
  Psicopedagógico pela Pontifícia Universidade       ELIZABETH AMORIM
  Católica do Rio Grande do Sul. Preside a OMEP/     Mestre em educação pela Universidade do Vale
  BR/RS/Porto Alegre e ocupa a vice-presidência da   do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga
                                                     clínica, diretora e coordenadora pedagógica do
                                                     Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977.




                                                                                                             93

Cotidiano Na Educacao Infantil

  • 1.
    O Cotidiano no Centro de Educação Infantil Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Brasília, janeiro de 2005
  • 2.
    Edições UNESCO Conselho Editorial da UNESCO no Brasil Jorge Werthein Cecilia Braslavsky Juan Carlos Tedesco Adama Ouane Célio da Cunha Comitê para a Área de Educação Alvana Bof Candido Gomes Célio da Cunha Katherine Grigsby Marilza Machado Regattieri Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da UNESCO, do Banco Mundial e da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, nem comprometem as Organizações. As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo deste livro não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região ou de suas autoridades, nem tampouco a delimitação de suas fronteiras ou limites.
  • 3.
    O Cotidiano no Centro de Educação Infantil Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 FUNDAÇAO MAURICIO SIROTKY SOBRINHO Organização: OMEP
  • 4.
    Organização: Organização Mundialpara a Educação Pré-Escolar – OMEP, Brasil Coordenação: Maria Helena Lopes Elaboração: Elizabeth Amorin, Halei Cruz, Loide Pereira Trois, Maria Helena Lopes Colaboração: Maria da Graça Horn, Vital Didonet Revisão Técnica: UNESCO (Alessandra Schneider), Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (Alceu Terra Nascimento, Jéferson dos Santos, Márcio Mostardeiro) Revisão: Ana Maria Marschall, Marise Campos Capa: Edson Fogaça Projeto Gráfico e Edição de Arte: Estúdio ADULTOS e CRIANÇAS CRIATIVAS © UNESCO, 2005 O Cotidiano no Centro de Educação Infantil. – Brasília: UNESCO, Banco Mundial, Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, 2005. 94 p. – (Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância: Cadernos Pedagógicos; 4) 1. Educação infantil – Ensino de Ciências 2. Ensino de Ciências 3. Educação Pré-escolar – Ensino de Ciências I. UNESCO II. Série CDD 372 BR/2005/PI/H/5
  • 5.
    Sumário Apresentação ........................................................................................................... 7 Introdução............................................................................................................... 9 Educar versus cuidar .............................................................................................. 11 Elizabeth Amorim Entrando em um novo mundo ................................................................................ 17 Elizabeth Amorim Agressividade e limites: possibilidades de intervenção............................................ 23 Loide Pereira Trois Saúde da criança.................................................................................................... 31 Halei Cruz Organização do tempo e do espaço ...................................................................... 51 Elizabeth Amorim A pedagogia de projetos e a mediação do educador .............................................. 61 Elizabeth Amorim e Maria Helena L opes Proposta pedagógica e relações centro infantil, família e comunidade .................... 75 Elizabeth Amorim e Maria Helena L opes Acompanhamento e avaliação das crianças no centro infantil ................................ 85 Elizabeth Amorim
  • 6.
    Ilustração: Estúdio CRIANÇASCRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi
  • 7.
    Apresentação O novo ordenamento legal, inaugurado pela Constituição Federal de 1988, assegura à criança brasileira o atendimento em creche e pré-escola e, a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1996, a Educação Infantil passa a ser definida como a primeira etapa da Educação Básica. Essa importante conquista nacional reitera um dos postulados da Declaração Mundial de Educação para Todos, firmada em Jomtien, no ano de 1990, de que a aprendizagem ocorre desde o nascimento e requer educação e cuidado na primeira infância. Nas últimas décadas, várias pesquisas têm demonstrado que os primeiros seis anos de vida de uma criança se constituem em período de intenso aprendizado e desenvolvimento, em que se assentam as bases do “aprender a conhecer”, “aprender a viver junto”, “aprender a fazer” e “aprender a ser”. O atendimento educacional de qualidade, nessa fase da vida, tem um impacto extremamente positivo no curto, médio e longo prazo, gerando benefícios educacionais, sociais e econômicos mais expressivos do que qualquer outro investimento na área social. Melhor desempenho na escolaridade obrigatória, menores taxas de reprovação e abandono escolar, bem como maior probabilidade de completar o ensino médio foram observados entre os que tiveram acesso à educação infantil de qualidade, quando comparados aos que não tiveram essa oportunidade. A freqüência a instituições de educação infantil afeta positivamente o itinerário de vida das crianças, contribuindo significativamente para a sua realização pessoal e profissional. Esse reconhecimento levou as nações a assumirem em Dacar, em 2000, entre os compro- missos pela Educação para Todos, a meta de ampliar a oferta e melhorar a qualidade da educação e dos cuidados na primeira infância, com especial atenção às crianças em situação de vulnerabilidade. Essa é uma das seis metas expressas no Marco de Ação de Dacar, do qual o Brasil é um dos signatários, sendo a UNESCO a instituição das Nações Unidas que tem, entre suas atribuições, a de apoiar os países no cumprimento dessa agenda. Em 2003, a Representação da UNESCO no Brasil, o Banco Mundial e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho firmaram parceria para a realização do Programa Fundo do Milênio para a Primeira Infância em alguns estados do País. Esse desafio foi lançado pelo Banco Mundial e prontamente acolhido pela UNESCO e pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, que com- partilham a firme convicção de que garantir uma educação de qualidade desde os primeiros anos de vida é um dos mais importantes investimentos que uma nação pode fazer. O Programa Fundo do Milênio para a Primeira Infância tem como principal objetivo a qualifica- ção do atendimento em creches e pré-escolas, preferencialmente da rede privada sem fins
  • 8.
    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 lucrativos, isto é, de instituições comunitárias, filantrópicas e confessionais que atendem crianças em situação de vulnerabilidade social. A principal estratégia do programa é a formação em serviço dos profissionais de Educação Infantil, considerando que a qualificação do educador é reconhecidamente um dos fatores mais relevantes para a promoção de padrões de qualidade adequados na educação, qualquer que seja o nível, a etapa ou a modalidade. No caso da Educação Infantil, em que o profissional tem a dupla responsabilidade de cuidar e educar bebês e crianças de até seis anos, sua formação é uma das variáveis que maior impacto causa sobre a qualidade do atendimento. A série Fundo do Milênio para a Primeira Infância – Cadernos Pedagógicos constitui-se em importante recurso à formação continuada dos educadores. Seus quatro volumes, a saber, Olha- res das Ciências sobre as Crianças; A Criança Descobrindo, Interpretando e Agindo sobre o Mundo; Legislação, Políticas e Influências Pedagógicas na Educação Infantil e O Cotidiano no Centro de Educação Infantil, apresentam as principais temáticas relativas à aprendizagem e ao desenvolvimento infantil. Pretende-se, portanto, que o presente volume e os demais dessa série constituam-se em importante ferramenta de trabalho para os profissionais da área de Educação Infantil, proporcionando o acesso a novos e atualizados conhecimentos, a reflexão crítica e a construção de práticas inovadoras àqueles que têm em suas mãos a difícil e apaixonante tarefa de educar nossas crianças. Desejamos, ainda, compartilhar essa realização com a Organização Mundial de Educação Pré-escolar (OMEP – Porto Alegre), reconhecendo sua colaboração inestimável, e com os Empre- endedores Associados ao Programa Fundo do Milênio para a Primeira Infância, que comungam conosco a visão de que os primeiros anos de vida valem para sempre e de que a educação de qualidade, desde a mais tenra infância, é fundamental para a construção de um Brasil mais desenvolvido, mais humano e socialmente mais justo. Jorge Werthein Vinod Thomas Nelson Pacheco Sirotsky Representante da UNESCO no Brasil Diretor do Banco Mundial no Brasil Presidente da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho 8
  • 9.
    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância toda essa curiosidade, dessa avidez pela ntrodução descoberta, pela surpresa e pela alegria, as crianças abrem-se como pequenos Convidamos todos vocês a percorrerem “girassóis”, receptivas a tudo e a todos, conosco um espaço muito importante, que buscando a riqueza da luz. Ao recebê-las, chamamos “Educação Infantil”. São cami- o que precisamos é redescobrir com elas nhos que passam por diversas abordagens o ser poético, a espontaneidade, a capa- dos conteúdos de Educação Infantil, cidade de filosofar sobre as coisas e oferencendo aos educadores várias reconhecer suas diferenças e peculiaridades. possibilidades de despertarem para a sensibilidade e a sabedoria das crianças. Assim, elas nos sensibilizarão ao retorno à natureza, à alegria do jogo, do brincar e É um trajeto interessante, vivo e da poesia. Nós lhes daremos a certeza comprometido com a reflexão inteligente, de que trabalharemos pela defesa com a disposição afetiva e com o desejo de seus direitos. de tentar vencer os obstáculos. Por elas, abriremos o livro da história e Nosso veículo será a leitura de alguns das tradições. Partilharão conosco do textos importantes, que terão como centro mundo, serão também artífices da a Educação Infantil e as ações e vivências manifestação cultural e construtoras de que podemos realizar com nossas crian- sua própria história. ças. Muitos desses assuntos já são conhe- cidos, mas uma releitura sempre traz Com elas, novidades, assim como uma viagem em construiremos um Foto: Sebastião Barbosa boa companhia. Na busca do melhor futuro mais feliz, convívio possível, vamos nos envolver em porque através do reflexões sobre algumas teorias deslumbramento importantes, que nos auxiliarão a repen- de seu olhar sarmos melhor as práticas com as crianças. reencontraremos a pureza de nossa alma e a certeza do profundo e transcendente Para que isso se torne realidade, temos milagre da vida. que aprender a observá-las e a ouvi-las, pois, quando se expressam, querem Contamos com a parceria de todos sempre nos contar coisas e nos questionar. nessa desafiadora aventura pelo espaço muito especial que envolve a criança que Que mundo é este que nos recebe? nos é confiada na maior parte de seu dia. Como são as pessoas? O que é a natureza? Quem sou eu? E muito mais. Diante de 9
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Para transitar pelos caminhos da infância, é preciso ter um olhar atento, pisar com suavidade, reconhecer seu espaço e abraçar seu tempo. Tudo isso porque fazemos parte de seu mundo. Somos responsáveis pelas crianças, por sua alegria, e cabe-nos orientá-las para jogar o jogo da vida. Para seguir suas trilhas, temos de conhecer seus anseios, identificar suas carências e apresentar-lhes ricas possibilidades. É preciso projetar alternativas criativas e oferecer-lhes um caminho seguro em direção à felicidade. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi 10
  • 11.
    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância ducar versus Cuidar Mesmo hoje, ainda vemos nomenclatu- ras distintas para atendimento de 0 a 3 Elizabeth Amorim anos e de 4 a 6 anos. Por isso, nos per- Bebê guntamos: por que creche e pré-escola, e Coisinha deficiente, inconsciente, inerme, não somente educação infantil? Por que inválida, trabalhosa, querida. reafirmar essa divisão, se o que Mário Quintana – Na volta da esquina desejamos é exatamente o contrário? Eu educo ou cuido? Cuido e educo? Na realidade, a educação infantil Afinal, qual é o meu papel? atende crianças de 0 a 6 anos, e é isso que interessa. Crianças de origens diferen- Provavelmente você já se questionou ciadas, mas que têm em comum o “ser frente a essa dúvida, principalmente se criança”, que se assemelham em algumas atende crianças até a faixa etária características e que brincam, inventam e dos 3 anos. sonham. Por muito tempo, a ênfase no cuidado Felizmente, os avanços nos estudos dominou o atendimento nos programas referentes à aprendizagem e ao de creches, enquanto os programas pré- desenvolvimento infantil comprovam escolares tinham o enfoque educacional ser a criança uma curiosa exploradora como predominância; portanto, o “divór- do mundo físico e social. Desde bebês, cio” entre educar e cuidar apresenta longa tradição no atendimento infantil. Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF 11
  • 12.
    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 as crianças são capazes de estabelecer Isso significa, em outras palavras, que relações significativas com os adultos e cuidar inclui também preocupar-se com a os companheiros numa variedade e organização do Centro Infantil, de seus complexidade bem maiores do que o horários, de seus espaços e dos materiais. constatado no passado. Igualmente Isto é, que seja um ambiente acolhedor e percebemos a criança como um ser agradável, seguro e alegre, que possa global, sejam quais forem as oferecer experiências ricas e adequadas circunstâncias e situações, para as crianças que ali convivem diaria- independentemente de classe social, mente. O ambiente e os momentos po- raça ou quaisquer outras diferenças. dem ser planejados de modo que oportunizem autonomia nas rotinas, A relevante integração entre educar como vestir-se e despir-se, proceder à e cuidar lembra-nos que as atividades higiene das mãos e da boca, alimentar-se, rotineiras também auxiliam na constru- etc. Cabe ao educador identificar em ção da identidade de uma criança. O cada uma dessas ações de cuidados as que essa integração – educar e cuidar – inúmeras possibilidades educativas. Por na realidade quer enfatizar é a relevân- exemplo, nessas ações que citamos, as cia e o direito da criança de ser crianças estarão experimentando a consis- educada e cuidada. Não existe uma tência dos materiais de higiene, a leveza forma de atendimento que dicotomize das roupas e a espessura dos panos, as o cuidar do educador na Educação cores e os sabores dos alimentos. Infantil. Deve haver uma perfeita sintonia entre o adulto – educador e Os cuidados com a saúde (higiene, cuidador – e a criança a ser educada e alimentação, crescimento e desenvol- cuidada. Assim, em estado de vimento) são também educativos, harmonia, os momentos vividos serão constituindo-se em funções a serem prazerosos e promoverão múltiplas vivenciadas e executadas por crianças e aprendizagens, motivo pelo qual se faz educadores. necessário proporcionar envolvimento e atividades compartilhadas, em que Todos os momentos vividos pela ora a iniciativa é do adulto, ora é da criança são educativos, na medida em criança. A maneira de pensar e agir que ela está constantemente aprenden- que associa cuidado e educação preci- do, através da sua interação com o meio sa permear todo o projeto pedagógico que a rodeia. Dessa forma, as dimensões dos centros infantis. do cuidado relativo à alimentação, ao sono, à higiene, à saúde, etc., são educativas sim! 12
  • 13.
    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Quando trocar a fralda de um bebê, atendidos em suas necessidades básicas e por exemplo, é importante conversar de afeto. A educação e o cuidado são com ele, pois os olhos se encontram, há uma necessidade e um direito da criança toque, sensação tátil e movimento; este é primeiramente, mas também das famílias um momento de interação, momento de que depositam confiança no trabalho que vínculo e aprendizagem. Por outro lado, os centros realizam. quando você está com um grupo na faixa etária de 4 a 5 anos realizando a higiene A maneira como você recebe, todos os que antecede o lanche, há diálogos dias, cada criança e tudo o que acontece sobre esse momento e sua necessidade, com vocês até a hora da saída são igualmente o contato com a água, vivências que contribuem para o desenvol- quente ou fria, a fricção com a toalha. vimento infantil, são geradoras de Novamente este é um momento conhecimento e, portanto, educativas. educativo! Então, o conjunto de todas essas experiên- cias que se interpenetram são, E o lanche então! Rico encontro social intrinsecamente, educação e cuidado. e de aprendizado em que partilhamos, vemos se há comida para todo mundo, diferenciamos alimentos, comparamos, classificamos e assim por diante. Outro aspecto importante a destacar é a expectativa que as famílias têm ao deixa- rem seus filhos nos Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi Centros Infantis. Almejam uma educação de qualidade, que promova o desen- volvimento cognitivo e social, mas também esperam que seus filhos sejam bem cuidados e 13
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Nesse contexto, podemos hoje supe- reciprocidade e da complementaridade rar a cisão maléfica na atuação com a existente entre tudo e todos. criança; na realidade, jamais deveríamos utilizar separadamente esses dois termos Concluindo – ou resumindo – as e, por conseqüência, o sentido deles. idéias aqui expostas, reiteramos enfati- No educar, está “embutido” o cuidar, camente a necessidade de se ter claro pois a instituição infantil possui um i- que, na instituição infantil, todas as nequívoco caráter educacional, mesmo tarefas, brincadeiras e atividades porque a criança tem não somente ne- realizadas têm valor educativo e cessidade, mas também direito de ser envolvem cuidado. cuidada e educada. Referências Bibliográficas Definitivamente, devemos tirar de AMORIM, Elizabeth. A dimensão do cuidado essencial no fazer pedagógico infantil como exigência primeira na construção da nossas mentes a dicotomia educar/cui- cidadania planetária. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo, dar; somente assim não mais a verba- Faculdade de Educação da UNISINOS, 2002. lizaremos e, o que é mais importante, BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 6.ed. Petrópolis Vozes, 2000. estaremos integrando cuidado e edu- CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: cação em nossos fazeres cotidianos. Gente, 2001. DIDONET, Vital. Não há educação sem cuidado. Porto Alegre, Sedimentando o que até agora discuti- Pátio Educação Infantil, n.1, . p. 6-9 abr/jul. 2003. HADDAD, Lenira. A ecologia do atendimento infantil: mos, não podemos deixar de conceituar o construindo um modelo e sistema unificado de cuidado e cuidado na sua dimensão maior, que o educação. Tese de Doutorado. São Paulo, Faculdade de Educação da USP, 1997. designa não como um ato isolado, mas, KULISZ, Beatriz. Prática pedagógica na educação infantil: antes, como uma atitude de zelo, preocupa- indicações para a construção de um referencial pedagógico. ção, responsabilidade e envolvimento afeti- Dissertação de Mestrado. Porto Alegre, Faculdade de Educação da PUCRS, 2001. vo. Ou seja, o cuidado envolve atenção e ROSSETTI-FERREIRA, Maria Clotilde. A necessária associação afeto, pois somente cuidamos daquilo que entre educar e cuidar. Porto Alegre, Pátio Educação Infantil, n.1, p.10-12, abr./jul. 2003. gostamos e desejamos preservar. O cuidado encontra-se na base da constituição do homem, já que sem ele não seríamos humanos. Implica aconche- go, afeto, ternura, sintonia e, sobretudo, implica valorizar e importar-se, com o outro e com o mundo, não focando so- mente o valor utilitário, mas primordial- mente a dimensão do respeito, da 14
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo e “Por sua própria natureza, cuidado inclui Aprofundamento duas significações básicas, intimamente Maria Helena Lopes ligadas entre si. A primeira, atitude de desvelo, de solicitude e de atenção para com “... gostaria de propor uma reflexão o outro. A segunda, de preocupação e de interessante. Na época em que vivemos, em inquietação, porque a pessoa que tem que a maior ou menor oportunidade de cuidado se sente envolvida e afetivamente acesso ao conhecimento define muitas vezes ligada ao outro.” o futuro de uma pessoa, as atividades de Leonardo Boff cuidado assumem cada vez mais uma posição de destaque. As máquinas e os robôs • Quais são as possibilidades educa- puderam substituir o ser humano em várias tivas das crianças ao serem atendidas em tarefas, mas não nas de cuidado! O setor no suas necessidades de alimentação, qual mais crescem as oportunidades de higienização, repouso, lazer e afeto? emprego é o de serviços. E a competência neles exigida envolve também delicadeza e cuidado no trato. Outros setores que apresentam acentuado crescimento dizem respeito diretamente ao cuidado das pessoas Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi e do ambiente ecológico. Cabe, então, a pergunta: será que estaremos preparando um futuro melhor para nossas crianças se deixarmos o cuidado de fora das tarefas educativas em nossas creches e pré-escolas?” Maria Clotilde Rossetti-Ferreira (2003, p. 12) • Debata com seus colegas a citação acima, relacionando-a com as idéias do texto Educar versus Cuidar. A partir das idéias levantadas com o grupo, responda à pergunta que finaliza a citação. 15
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi 16
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância mesma, de acordo, é claro, com o seu ntrando em um Novo desenvolvimento. Sendo assim, será vá- Mundo lido denominarmos como adaptação o Elisabeth Amorim tempo referente aos primeiros dias do ingresso da criança na instituição Conceitos1 infantil? Adaptar: amoldar, apropriar, O que realmente desejamos desse conformar. momento de transição: que a criança se Adaptado: acomodado, amoldado, molde ao meio, ou que se integre, ajustado. sentindo-se parte dele? Integrar: tornar-se inteiro; com- pletar, integrar, integralizar; juntar-se É tempo de parar, parar e refletir sobre tornando-se parte integrante, reunir-se, em que ideário estamos alicerçados... incorporar-se. Integrado: diz-se de cada uma das “Com freqüência ‘deixar a casa’ é uma partes de um todo que se completam experiência mais forte do que ‘entrar na escola’.[...] Existe muito pouco crescimento se ou se complementam. não há algum tipo de sofrimento ou ansiedade. Não poderíamos, neste momento, Quando damos um passo à frente, para um deixar de refletir sobre os termos novo estágio ou desafio, deixamos, mencionados, já que trataremos sobre a necessariamente, algo para trás. Sem esses altos e baixos a vida seria plana e as pessoas adaptação da criança à instituição não se desenvolveriam. Quanto mais jovem for infantil. o indivíduo, mais ajuda ele precisará ter para Muitas vezes, e esta é uma delas, seguir em frente sem maiores sofrimentos.” utilizamos palavras sem realmente nos Nancy Balaban aprofundar sobre os seus significados e, A separação é uma experiência que conseqüentemente, se ela é adequada à ocorre em todas as fases da vida huma- situação. na. Ela começa quando o bebê deixa o O termo adaptação é o mais indicado conhecido e aconchegante útero mater- ao período a que nos referimos? É sabido no e entra em um mundo de sons, luzes que a educação infantil tem a autonomia e contatos. Daí em diante, ela se encon- como um de seus pilares, pois oferece tra no aprender a andar, no dormir na situações para que a criança aja por si casa dos avós, na entrada na escola, na briga com o(a) namorado(a), no casa- 1 Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s.d. 17
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 mento e em inúmeras outras situações. É ponto pacífico a forte e profunda vinculação mãe/filho; por isso, Gilda Em todas esses acontecimentos, há o Rizzo (2000) afirma que o período de abandono de um território familiar e o integração “envolve muitos fatores e o ingresso no desconhecido, no novo sentimento de, pelo menos, duas pes- ainda não experimentado. Também não é soas: mãe e filho”, acrescentando ainda assim o que acontece conosco cada vez que “o nível de segurança afetiva de uma que uma turminha nos “deixa” e entra criança é muito dependente do nível de outra, ainda por nós desconhecida? segurança afetiva básica da mãe”. Como será cada criança, como reagirá ao ambiente e a mim? Como EU reagi- A integração de um bebê até em rei? Terei a sensibilidade necessária? É o torno de 7 ou 8 meses é, normalmente, que nos perguntamos. tranqüila, pois ainda não entrou na cha- mada época do “estranhamento” a am- Por isso, os dias iniciais na instituição bientes e pessoas. Então, é a mãe que infantil exigem sempre um esforço de “se integra”, passando alguns períodos integração conjunta da instituição, da observando como as crianças são atendi- família e da criança. Até esse momento, das nos diferentes momentos pela equipe habitualmente a criança conviveu basi- do berçário. camente com sua família e no cotidiano somente com as pessoas de sua casa. No A partir dessa idade, é comum as crian- lar, além da segurança da forte ças reagirem a novos ambientes; as carac- vinculação afetiva, há também a segu- terísticas individuais nortearão as rança do lugar conhecido, que pode ser diferentes reações que devem ser respeita- explorado a todo momento, tanto os das, bem como a busca de alternativas cômodos quanto os objetos. facilitadoras deve estar presente, porque precisamos lembrar que, até esse momen- Já na instituição infantil tudo é novo e, to, o parâmetro da criança era a família, por conseqüência, desconhecido: mudam seus hábitos e comportamentos. Dessa o espaço, a rotina, as pessoas... A criança forma, ela espera que você aja e tenha as passa a conviver com mais adultos e crian- mesmas reações dos adultos que ela co- ças em um ambiente estranho. O novo nhece, principalmente dos pais. Leva mundo afeta também sua família, que sofre tempo para as crianças perceberem que com esse processo de encaixar horários, adultos diferentes se comportam de mudança de rotina e questionamentos maneira diferente, e também demora um sobre como a criança será atendida. pouco para elas diferenciarem o que 18
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância acontece em casa daquilo que acontece O vínculo com a educadora, nesses no centro infantil. primeiros dias, é o objetivo primordial, visto ser através dele que a criança se Para a criança, as regras e os compor- sentirá segura para interagir nesse novo tamentos familiares são universais; então, mundo. É você quem vai auxiliar cada causa estranheza, por exemplo, poder criança a familiarizar-se com o novo sujar as mãos se em casa não pode ou, ambiente, seus hábitos e rotinas, é ainda, você agir de forma diferente de você que, através de demonstrações de sua mãe. Por isso, é necessário “avaliar” segurança e tranqüilidade, mostrará todo o ambiente que a cerca – humano e que ela é aceita, respeitada e entendida físico – e essa “avaliação” é realizada de nesse meio que, apesar de novo, é acordo com a maneira como cada organizado e preparado para ela. criança reage a situações novas. É por tudo isso que, no livro O início Esse novo mundo – o centro infantil – da vida escolar, Nancy Balaban diz que traz curiosidade, expectativa, inseguran- as crianças sentem-se estranhas num ça e, às vezes, muito medo! Será que vão saber cuidar de mim? E se eu ficar doente? Se eu cair? Se a mamãe não vier me buscar? Se eu fizer xixi nas calças? Se eu não quiser comer? Quem Foto: Unicef sabe que eu não gosto de beter- raba ou de abó- grupo novo que é diferente do seu grupo bora? Na verdade, são muitos “se”, são familiar e no qual elas não têm um status várias e diferentes dúvidas que, consci- especial. Nesse local, talvez só você, ente ou inconscientemente, causam educadora, saiba seus nomes, e ninguém grande apreensão! realmente gosta ou não delas de alguma 19
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 maneira especial. Elas “não têm o seu fase muitas vezes é confuso, pois, lugar natural nesse grupo, mas vão ter mesmo percebendo que essa transição é que conquistá-lo através de seu compor- necessária e boa para a criança, sentem- tamento. Embora elas ainda não saibam se culpados, com sensação de perda e disto, é provável que o sintam”. apreensivos por entregarem o que eles têm de mais precioso a pessoas que, até Como vimos, as crianças reagem aquele momento, ainda são estranhas. diferentemente umas das outras: algumas Por isso, os pais precisam ser igualmente mostram-se desconfiadas, ou choram, ou atendidos nessa fase de transição, devem não aceitam contato; outras ingressam perceber que o centro infantil – e princi- querendo explorar todo o ambiente, ou palmente você – entende que vários tentando deter-se em tudo ao mesmo tipos de emoção estão aí envolvidos e tempo. que é impossível compreender os senti- Essa transição e o estabelecimento de mentos da criança sem avaliar simultane- confiança é gradativo, motivo pelo qual, amente os sentimentos deles, uma vez durante os primeiros dias, é aconselhável que este é um acontecimento significati- que a criança permaneça por um perío- vo para ambos. do menor do que o normal na institui- A reação da criança está muito ligada ção. Esse tempo vai sendo prolongado ao estilo de vida de sua família, bem gradativamente, à medida que você como ao tipo de relações dos adultos percebe que a criança tranqüiliza-se e que a rodeiam e, principalmente, à sua age com maior naturalidade. relação com a mãe. Também a maneira Dentro do possível, é importante a como a mãe encara essa separação presença familiar – principalmente a influencia de forma direta o comporta- materna – no ambiente da instituição mento da criança: se ela tem pena, medo durante esse processo, o que permite não de dividir, ou fantasias em relação a somente maior segurança para a criança, como seu filho será tratado, com certeza como também à família conhecer melhor dificultará o processo. o local e a educadora. O comportamento Quando há um bom nível de segu- familiar nesse momento é fundamental, rança emocional, isto é, se a criança pois, com já dissemos, ele será um dos estabeleceu uma relação de confiança parâmetros percebidos pela criança. com a mãe, ela consegue, gradativa- Os sentimentos dos pais durante essa mente, ficar afastada dela sem ter medo de perdê-la. Tranqüilidade e 20
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância segurança, sem sentimento de culpa, é a “Vai aqui este pedido aos professores, pedido conduta indicada, e a instituição deve de alguém que sofre ao ver o rosto aflito das encontrar-se permanentemente à disposi- crianças: lembrem-se de que vocês são ção para esclarecer dúvidas e anseios. Por pastores da alegria e de que sua responsa- isso, o período de integração deve ser bilidade primeira é definida por um rosto cuidadosamente planejado para que que lhes faz um pedido ‘Por favor, me ajude sejam construídos a confiança e o conhe- a ser feliz...’” cimento mútuos. É desse modo que Rubem Alves acontece o estabelecimento de vínculos Referências Bibliogáficas afetivos entre as crianças, as famílias e os educadores. BALABAN, Nancy. O início da vida escolar: da separação à independência. Porto Alegre: Artmed, 1998. Assim, é permitido à família CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Gente, 2001. conscientizar-se de que a instituição está OLIVEIRA, Zilma de Moraes (Org.) Educação infantil: muitos habituada com esse momento e as educa- olhares. São Paulo: Cortez, 1994. OLIVEIRA, Zilma de Moraes et al. Creches, faz-de-conta e cia. doras, aptas a controlar as situações que 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1992. surgirem. Essa parceria torna o processo de RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Vozes, 2000. transição não somente mais tranqüilo, mas, RIZZO, Gilda. Creche: organização, montagem e funcionamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. sobretudo, representa o início de uma desejada, agradável e gratificante caminhada. Foto: Sebastião Barbosa 21
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo e Aprofundamento Elisabeth Amorim “O vivido só se torna recordação da lei da narração(...). E aí se torna outra vez vivo, aberto, produtivo. A memória que lê e que conta é a memória em que o ‘era uma vez’ converte-se em um ‘começa’!” Jorge Larrosa • Você se lembra do seu primeiro dia na escola? Quais eram os sentimentos: ansiedade, medo, expectativa, excitação? A lancheira foi aberta? Como era a edu- cadora? O que marcou em você? Se você não se lembra desses detalhes, pergunte a seus pais como foi. • Recorde, através da narração, algum fato ou situação em que sua vida Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi sofreu mudança e, portanto, o novo e o desconhecido foram enfrentados. Quais foram os sentimentos e as reações? • Cite alguns procedimentos indicados para o período de integração da criança ao Centro Infantil. 22
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância de toda pulsão, de todo impulso, gressividade e Limites: constituindo nossos instintos de possibilidades de autopreservação, instintos sexuais, de intervenção destruição e de todo desejo. São as pulsões de vida e de morte que constitu- Loide Pereira Trois em a natureza humana. Todos os indiví- duos possuem instintos agressivos que se “É necessário que o adulto entenda, aceite e desenvolvem à medida que crescemos e valorize que a criança, ao brincar, necessita derrubar a torre de blocos de montar para interagimos com o nosso meio ambiente. que assim possa valorizar a sua própria Esses impulsos podem ser observados em capacidade de construir e errar.” nossos comportamentos e atitudes, mas Donald Winicott sua origem não é consciente, ou seja, fazem parte de nosso psiquismo, do Para que possamos entender as dife- nosso inconsciente. rentes manifestações da agressividade, é importante considerar que o erro faz É importante destacar que os impulsos parte de toda aprendizagem. Assim, para agressivos são constituintes de nosso montar uma torre de blocos, teremos desenvolvimento humano e que, por isso, que aprender a derrubá-la e ir refazendo não podem ser analisados como patológi- esse gesto até a descoberta da cos. Cabe aqui diferenciarmos as manifes- construção desse novo conhecimento. tações da agressividade e o ato agressivo. Partimos, então, da noção de que, ao longo do desenvolvimento humano, existem momentos de acerto e de erro na construção de nossos valores e con- Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi ceitos. O elemento fundamental nesse processo é a crença em nossa própria capacidade de superar conflitos e crescer com os desafios que nos são colocados. Conforme Sigmund Freud, grande pensador que estudou e desvendou a psique humana e nos deixou como legado a descoberta da noção de inconsciente, a agressividade faz parte 23
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 O ato agressivo dificulta a nossa ser atendido em suas necessidades vitais. capacidade de pensar, indicando riscos Posteriormente, a criança passa a explorar para nossa aprendizagem. Por trás de um mais ativamente o meio em que está ato agressivo não existe uma intenciona- inserida e, assim, puxa, empurra, bate, joga lidade hostil consciente da criança; ao objetos que estão ao seu alcance para contrário, ela está nos mostrando que conhecer e aprender sobre os mesmos. algo não vai bem, que ela não está con- seguindo lidar com seus impulsos agres- Numa etapa seguinte, surgem as sivos de maneira sadia, ou seja, é um mordidas, um período maturacional da pedido de ajuda para que o outro lhe criança que é percebido pelo apareci- mostre um modo de veicular sua energia mento dos dentes e sua conseqüente uti- de forma construtiva. É uma energia pul- lização: ela morde pela necessidade de sional que necessita ser canalizada para saciar sua ansiedade. Por volta dos 2 anos, fins socialmente aceitos e produtivos a criança inicia seu processo de controle para que ocorra um crescimento pessoal esfincteriano, que vai se consolidar por e aprendizagem. volta dos 3 anos, período em que os im- pulsos agressivos são manifestados através Se afirmamos que uma criança é agres- da produção dos excrementos (fezes e u- siva, estamos considerando que esta é uma rina), e a criança tenta controlar o meio característica e um traço da identidade que a cerca. dela e impedindo a percepção de que a criança está em formação e que, portanto, A partir dos 4 ou 5 anos, vemos que os trata-se de características que podem ser impulsos agressivos são direcionados à transitórias em seu desenvolvimento. figura dos adultos como desafio a autori- Desse modo, a criança está agressiva por dade, ou seja, é uma fase de “ teste”, na alguma causa e pode cometer atos qual a criança passa a questionar os limi- agressivos que posteriormente poderão ser tes de suas ações. Os impulsos agressivos reparados em seu comportamento. são manifestados através de várias atitu- des que interpelam a capacidade de to- Vejamos como se manifestam os impul- lerância, paciência e firmeza da figura de sos agressivos ao longo de nosso desenvol- autoridade evocada. Como resultado des- vimento humano. Inicialmente, os nossos sa fase, temos a formação do sentimento impulsos agressivos são manifestados de respeito e a noção de limite interna- através de nosso instinto de sobrevivência. lizada pela criança. Podemos perceber O choro do bebê apresenta seu estado de que os impulsos agressivos estão presen- desconforto, desprazer (dor, frio) ou neces- tes e vão evoluindo ao longo de nosso sidade nutricional (fome): ele chora para desenvolvimento. Uma vez que esses 24
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância impulsos sejam canalizados e desviados Se como educadores não somos para outros fins, intensificando sua ma- capazes de elaborar perguntas, formular nifestação, passam a ser considerados e hipóteses e usar a nossa criatividade transformados em agressão ou ato frente à agressão da criança, frente à agressivo. situação que deu origem a esse ato, é o próprio educador que está se agredindo Como educadores, conhecemos bem o por estar se considerando incapaz e que se sente diante de um ato agressivo. impedindo seu próprio crescimento Vivencia-se sentimentos de angústia, de diante desse desafio. dor, de não saber. O fundamental, nesse momento, é tomar distância do ocorrido e É importante que possamos estabele- tentar escutar o que a criança está cer laços afetivos seguros e verdadeiros querendo dizer em cada chute, em cada com as crianças, compreendendo-as até empurrão, em cada palavra ou gesto. mesmo em suas reações agressivas. Nessa compreensão, não se trata de É preciso se descentrar e incluir o “deixar assim mesmo”, “esperar passar” pensamento como um terceiro termo ou sentir pena da criança, mas entre o educador e a criança. Desse justamente confiar na sua capacidade de modo, estaremos possibilitando um espaço de indagação e questionamento sobre o ato formulando perguntas, co- mo: a quem essa criança agride quando Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi me agride? Quando um aluno enfrenta agressiva- mente o educador, e este pensa que a a- gressão é para ele, está colocando-se num nível imaginário a partir do qual só vai aumentar a atuação agressiva da criança, impedindo a formação de um espaço de diálogo e reflexão. É preciso ter em mente que a criança está agredindo através de mim outras situações presentes e passadas na sua história. É necessário, para compreender essa ação, descobrir a que ações, a que atitudes essa agressão se dirige. 25
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 resolver o conflito, de superar esse pro- As saídas para as situações de agres- blema no amparo seguro da relação são são complexas; no entanto, a resolu- afetiva com o educador. ção da agressão através de outra agressão favorece a manutenção do comporta- A noção de limites se coloca através mento agressivo. As punições e coações da formação do sentimento de respeito à abusivas do adulto diminuem o comporta- figura de autoridade e da aposta na mento agressivo temporariamente, capacidade de reparação do erro. reaparecendo-o em contextos diferentes e, O importante é fazer com que a criança muitas vezes, com mais intensidade. retire dessa situação elementos significati- Somos adultos, mas a criança de vos para sua aprendizagem, repare o erro, nossa infância habita dentro de nós e, procure tomar mais cuidado e atenção da por vezes, precisamos revisar nossas próxima vez para que não volte a repetir o próprias convicções morais, éticas, e ato agressivo. Assim, estamos conduzindo pensar sobre a forma como fomos a criança a pensar sobre seus atos e modifi- educados, como vivemos nossa car suas atitudes pela reflexão e pelo infância, buscando qualificar a nossa entendimento do que ela mesmo faz e formação pessoal e transformar a nossa provoca. ação educativa. As atitudes de repressão, castigo O educador é modelo, é uma refe- ou humilhações apenas provocam um rência estruturante para a criança. As sentimento de desvalia e obediência crianças aprendem não apenas com o cega, sem a conscientização do ato que é dito, mas sobretudo com o que errado por parte da criança. Um outro vêem, com a coerência entre as ações sentimento freqüente diante de situa- e o discurso dos educadores; assim, ções de conflitos e brigas entre as quando apresentamos modelos pau- crianças, e para o qual devemos ter tados no diálogo, na cooperação, na bastante atenção, é quando uma crian- solidariedade, esses serão repetidos e ça agride outra pessoa. Por vezes, po- valorizados pela criança. Quando a demos nos identificar com o agredido criança aprende a resolver verbalmen- e tomar partido frente à agressão. te seus conflitos, explicando o que Aliando-nos com a pessoa agredida e aconteceu e entendendo os motivos e culpabilizando ao extremo a criança as conseqüências de seus atos, as envolvida, não estamos tomando dis- situações de agressão e os atos agres- tância e refletindo sobre o ato sivos diminuem. Nesse caso, é funda- agressivo, mas sim fechando uma mental que haja a valorização dessa interpretação. 26
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância conquista, reforçando-se a aprendiza- gem da criança. Como educadores, temos a possibi- lidade de criar espaços de aprendiza- gem nos quais a agressividade possa se manifestar de forma sadia e equili- brada e nos quais os atos agressivos não sejam mais necessários. Acreditar em nossa capacidade de superar essas situações, tomando-as como desafios constantes em nosso fazer cotidiano, é acreditar em nossa capacidade de transformar e de educar. Referências Bibliográficas BIAGGIO, A. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Vozes, 1985. DELL’AGLIO, D. Controle esfincteriano. UFRGS, 1993 (mimeo). FERNANDEZ, A. A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporeidade e da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1993. FERNANDEZ, A. Agressividade: qual teu papel na aprendizagem? Revista Paixão de Aprender. MACHADO, M. C.; NOGUEIRA, N. Como lidar com a criança agressiva. Revista Nova Escola, n.4, 1986. REDL, F.; WINEMAM, D. A criança agressiva. São Paulo: Martins Fontes, 1985. Ilustração de criança do abrigo Maria Goretti / Colombia 27
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo e Aprofundamento logo para a briga, empurra, joga objetos, Loide Pereira Trois bate ou chuta os colegas. Leia com atenção o caso relatado A intervenção da educadora, nessas abaixo. situações, é utilizar o diálogo e buscar, com ele, as explicações para seus atos Pedro é aluno de um Centro Infantil errados. Embora ele a escute e preste há três anos, sua adaptação foi bastante atenção em sua conversa, não consegue, tumultuada, não queria ficar no Centro posteriormente, cumprir exatamente o de Educação Infantil e nem separar-se de que foi combinado com ela e, algumas sua mãe, fato que a deixava muito ansio- vezes, explica à educadora: “eu não sa e insegura. Aos poucos, com a ajuda e consigo me segurar” . intervenção da educadora e dos demais integrantes da instituição, foi adaptando- se ao grupo e participando da rotina diária. Desse modo, foi aceitando melhor a separação de sua mãe e promovendo uma maior segurança e bem-estar a ela. A mãe do menino começou a ficar mais confiante em seu filho, aspecto que lhe era muito difícil, pois na maioria das vezes considerava-o frágil, com “muita dificuldade” e necessitando sempre de ajuda para fazer qualquer coisa. Após esse período de adaptação, o menino passa a participar ativamente das Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi atividades, entende a rotina diária, é interessado, discute suas idéias e brinca com todos os colegas; no entanto, quan- do é contrariado, fica irritado, muito furioso e não aceita nenhuma forma de negociação ou cumprimento das regras de convivência. Nesses momentos, cos- tuma reagir de forma impulsiva e parte 28
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Responda e Registre • O que você pensa sobre as atitudes do menino? • Como podemos caracterizar o comportamento desse menino com relação à agressividade e aos limites? • Qual seria sua forma de atuação se fosses educador nesse caso? Leia com atenção a cena abaixo: Marcos e Pedro são colegas da escola e ambos tem 5 anos. Marcos é uma criança bastante ativa, interessada em conhecer o ambiente e aceita com muita facilidade desafios. Pedro não tem irmãos, mora com seus avós e adora brincar de jogar bola, subir em árvores, correr e superar limites. Numa tarde, na hora do pátio, quan- do estavam brincando de futebol, dispu- taram a bola para fazer o gol e acabaram se empurrando. Pedro ficou muito bravo e começou a gritar e a chutar Marcos. Marcos chorou muito e foi socorrido pela educadora que estava no pátio. Diante dessa cena do cotidiano e com base na leitura do texto, responda: • Qual seria a intervenção do educa- dor buscando promover a consciência do ato agressivo? 29
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Foto: Sebastião Barbosa 30
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância dessas populações, através da educação e do cuidado das crianças. aúde da Criança Halei Cruz Nessas ações estão incluídos alguns fatores que devem fazer parte da prática “São direitos fundamentais da criança dos responsáveis pela saúde infantil a proteção à vida e à saúde, mediante a dentro e fora de creches e centros de efetivação das políticas sociais públicas que Educação Infantil. permitam o nascimento e o desenvolvimento harmonioso, em condições dignas de Procuramos abordar, neste artigo, os existência.” conhecimentos fundamentais que dizem Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA respeito às medidas preventivas de risco à saúde das crianças, ao seu crescimento, Em primeiro lugar, pensar em saúde à alimentação e aos cuidados. infantil, principalmente na faixa de 0 a 6 anos, é caracterizar o cumprimento dos Precisamos conhecer e operar dentro direitos da primeira infância a uma vida do trinômio educação + saúde + assis- digna, feliz e saudável. tência social, com vistas a colaborar no desenvolvimento da criança com a maior É certo que já existem leis que qualidade possível . regulamentam os direitos das crianças e políticas intersetoriais que operam Nessa concepção, não há áreas estan- em seu favor. No entanto, há que se ques. Devemos considerar a saúde de considerar as grandes dificuldades a forma simultânea, como o conjunto de serem vencidas para que tais políticas ações nas quais estejam envolvidos os atendam, se não à totalidade, pelo programas de serviços sociais básicos de menos a maioria de nossas crianças. educação, assistência social, lazer e cultura. Muitas ações sociais ainda precisam ser desenvolvidas para que se dê plena O crescimento da criança garantia de saúde a um número significa- O crescimento, assim como o desen- tivo de crianças, principalmente àquelas volvimento, é o resultado de modifi- pertencentes às camadas mais carentes e cações estruturais e funcionais que que, em nosso país, representam um ocorrem no indivíduo desde a concep- número considerável. ção até a idade adulta. As instituições de Educação Infantil Muitas vezes, há confusão entre o assumem sua parcela de responsabilida- significado dos termos crescimento e de na tarefa de minimizar as carências desenvolvimento, mas cada fenômeno 31
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 tem suas características próprias. En- indivíduo poderá crescer. quanto o crescimento se refere ao • Emocionais – o afeto, a atenção e a aumento das dimensões do corpo, o sensação de segurança favorecem o desenvolvimento significa aquisição de crescimento. habilidades como andar ou falar. O • Socioeconômicos – crianças que crescimento se deve ao aumento de vivem em ambiente de baixo nível socio- volume e do número de células do econômico tendem a apresentar atraso organismo, e o desenvolvimento decorre no crescimento. da maturação, da diferenciação e da • Nutricionais – a alimentação ade- capacidade de ação integrada dos quada fornece matéria-prima para o sistemas orgânicos. crescimento e a multiplicação das células. Todos os animais crescem e se • Neuroendócrinos – os sistemas ner- desenvolvem, mas no homem esses voso e endócrino (produtor de hormônios) processos ocorrem de forma mais lenta e são responsáveis pela regulação do funcio- complexa. Os fatores que interferem no namento do organismo. Desequilíbrios crescimento são: nesses sistemas produzem alterações no • Genéticos – determinam o poten- crescimento. cial de crescimento, isto é, o quanto o O crescimento se inicia a partir da fecundação, isto é, da união do espermato- zóide com o óvulo. O perío- do de cresci- mento da criança dentro do útero mater- no é chamado de período pré- natal e, após o nascimento, período pós- Foto: UNICEF natal. 32
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância O período pré-natal compreende duas materna deficiente leva à maior probabi- fases: a embrionária e a fetal. lidade de nascimento de uma criança com baixo peso. Considera-se recém- Na fase embrionária, correspondente nascido de baixo peso a criança que ao primeiro trimestre da gravidez, o ser apresenta peso inferior a 2.500 gramas em crescimento é denominado de em- no momento do nascimento. Essas crian- brião. Nessa etapa, o crescimento é ças têm maiores chances de adoecer e lento, ocorrendo a diferenciação das até mesmo de morrer do que as crianças células para formar órgãos e sistemas. A que nascem com peso adequado. exposição do embrião a agentes externos, como radiação, infecções, uso O crescimento pós-natal se dá em de álcool, medicamentos e outras drogas quatro fases: pela mãe, pode levar à ocorrência de • Primeira Infância – do nascimento malformações que são alterações na aos 3 anos. É uma fase de crescimento estrutura e no funcionamento de órgãos. rápido, apesar de mais lento que na fase fetal. Nessa etapa, as carências Na fase fetal, correspondente aos nutricionais e as infecções constituem os segundo e terceiro trimestres da gesta- maiores riscos para a saúde e a vida das ção, há uma aceleração do processo de crianças. Se compararmos o crescimento crescimento. A criança em formação é do indivíduo em toda a sua vida, após o chamada, então, de feto. É a fase da vida nascimento, essa etapa é aquela em que em que o crescimento se faz com maior ele acontece com maior velocidade, velocidade e sofre grande influência do principalmente no primeiro ano de vida. estado nutricional da mãe. A alimentação Ao completar um ano, a criança triplicou Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi/Kit Família Brasileira Fortalecida/UNICEF 33
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 o seu peso de nascimento e aumentou As crianças com atraso no crescimen- em 50% a sua estatura. to, ocasionado por fatores como desnu- trição ou infecções, tendem a apresentar • Segunda Infância – corresponde ao velocidade de crescimento maior que a período entre os 3 e os 10 anos. A esperada para a idade após a correção velocidade de crescimento se mantém daqueles fatores. Esse fenômeno é cha- constante e mais lenta que na fase anterior. mado crescimento compensatório e • Adolescência – correspondente ao ocorre até que a criança alcance o nível período entre os 10 e os 18 a 20 anos. que teria se não houvesse o atraso. É Há um período inicial de aceleração da observado, principalmente, nas crianças velocidade de crescimento (estirão abaixo de 2 anos. pubertário) cujo máximo se dá em torno O acompanhamento do crescimento dos 12 anos, para as meninas, e 14 anos, e do desenvolvimento da criança, nos para os meninos. A partir daí, a velocida- serviços de saúde, permite detectar de de crescimento diminui. precocemente, e assim tratar eficazmen- • Parada do Crescimento – ocorre te, problemas que podem comprometer, entre os 18 e os 21 anos, quando o muitas vezes de forma grave, a sua saúde indivíduo alcança o seu ponto máximo e o seu futuro. de crescimento. Alguns tecidos, como a Para o acompanhamento do pele, continuam seu processo de multi- crescimento, utilizam-se gráficos com plicação celular. curvas de referência. Os gráficos mais A necessidade de maior demanda usados, para crianças, são os que nutricional no período de crescimento permitem analisar a evolução do seu determina maior risco à saúde. Quanto peso no decorrer do tempo, tomado em maior a velocidade de crescimento, meses, chamados de gráficos de peso maior será o efeito nocivo da deficiência para a idade. Outros tipos de gráficos nutricional no indivíduo. Portanto, os podem ser utilizados, de acordo com o períodos de maior risco são o pré-natal, objetivo da avaliação do crescimento, a primeira infância e a adolescência. Ao como o de estatura para a idade ou o longo deles é que se deve atuar com de peso para estatura. mais atenção aos cuidados de saúde, Considera-se que o crescimento é como alimentação adequada e preven- adequado quando a criança apresenta ção de infecções. sempre ganho de peso a cada avaliação, 34
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância principalmente se a sua curva de mentos, o que é chamado de desmame. crescimento acompanha as curvas do gráfico de referência. Devido ao seu valor nutritivo e às vantagens do seu uso, para a criança e Todas as crianças devem ter seu para a mãe, o leite materno deve ser crescimento acompanhado, em avalia- oferecido à criança até os 2 anos, segun- ções periódicas, nas consultas aos servi- do a orientação da Organização Mundial ços de saúde. de Saúde (OMS). A vida e a saúde da criança são direi- O leite de outros animais eventual- tos universais e garantidos pelo Estatuto mente pode ser oferecido ao bebê, mas da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/ com grandes desvantagens em relação ao 90), que regulamenta o artigo 227 da leite humano. Isso porque cada animal Constituição da República Federativa do produz leite de composição específica Brasil. O acompanhamento do cresci- para as necessidades nutritivas e o ritmo mento é a ação de saúde que mais repre- de crescimento dos indivíduos da sua senta a garantia dos direitos da criança. espécie (Tabela 1). Alimentação da criança A alimentação é um dos mais impor- tantes fatores responsáveis pelo cresci- mento do indivíduo. É fundamental que todos os que trabalham com crianças contribuam para que elas tenham acesso à alimentação em quantidade adequada, de boa qualidade, tanto no valor nutritivo como no aspecto de higiene. No início de sua vida, o alimento mais importante para a criança é o leite de sua mãe. Até completar 6 meses, Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi/Kit Família Brasileira Fortalecida/UNICEF o bebê não necessita de outro alimento ou líquido que não seja o leite materno. A partir daí, deve continuar sendo amamentado ao peito, mas com acréscimo gradativo de outros ali- 35
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Tabela 1 – Tempo para duplicação do possam causar reações alérgicas no seu peso de alguns animais organismo. Animal / Duplicação de peso Tabela 2 – Diferenças constitucionais Homem / 180 dias Cavalo / 60 dias entre leites Vaca / 47 dias Cabra / 22 dias Humano Vaca Cabra Carneiro / 15 dias Porco / 14 dias Energia (Kcal) 68 68 72 Gato / 09 dias Cão / 09 dias Proteínas (g/100ml) 1.2 3.6 4.0 Cobaia / 06 dias Gorduras (g/100ml) 3.8 3.6 4.0 Fonte: Crespin, 1992. Lactose (g/100ml) 7.0 4.5 4.0 Minerais (g/100ml) 0.2 0.7 0.8 As vantagens do leite materno para Fontes: King, 2001; Wehba, 1991; Pernetta, 1979. o ser humano, em relação a outros tipos de leite, são numerosas e, entre • Equilíbrio emocional – a amamen- elas, temos: tação possibilita o reforço do laço afetivo entre a mãe e a criança, proporcionando • Valor nutritivo – o leite materno sensação de bem-estar para ambas. possui nutrientes na quantidade e na • Desenvolvimento – crianças ama- proporção ideais para o crescimento e o mentadas exclusivamente ao peito, nos desenvolvimento adequado da criança primeiros seis meses de vida, tendem a (Tabela 2). ser pessoas mais extrovertidas, confiantes • Digestão – devido à constituição e inteligentes. Segundo alguns autores, adequada ao organismo do bebê, o leite crianças alimentadas com leite materno materno é facilmente digerido, não raramente apresentam, na idade adulta, provocando distúrbios digestivos como distúrbios sexuais, tendência ao uso de diarréia ou “prisão de ventre”. álcool, de outras drogas ou ao suicídio. • Imunidade – o leite humano possui • Economia – o leite materno não substâncias e células que protegem o precisa ser comprado, o que gera grande organismo do bebê das principais doen- economia para a família. ças infecciosas que podem levar a graves • Praticidade – o leite materno já está conseqüências. Por isso, a criança que pronto e na temperatura ideal para o mama no peito raramente adoece. consumo da criança, dispensando gasto • Alergias – por ser produzido natural- de tempo para o preparo. mente para a criança, o leite materno não apresenta elementos estranhos que 36
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância • Anticoncepção – mulheres que ama- Na impossibilidade do uso de leite mentam seus bebês, exclusivamente e materno, recomenda-se algum tipo de leite durante os seis primeiros meses, têm pouca de vaca (em pó) modificado, a chamada probabilidade de engravidar nesse período. fórmula infantil. Está demonstrado que alimentação de crianças menores de um • Prevenção de câncer – a ano com leite integral (em pó ou ao natural) amamentação confere à mãe proteção não-humano pode provocar anemias, contra o câncer de mama (antes da distúrbios nos intestinos e nos rins, além de menopausa) e de ovário. Essa proteção é alergias, devido à composição estranha ao tanto maior quanto mais longo é o período de amamentação. • Retorno à forma física – o início da amamentação precoce, isto é, logo após o nasci- mento do bebê, reduz o sangramento uterino pós- parto e facilita a perda de peso da mãe, acelerando o processo de retorno do corpo à forma física anterior à gravidez. A amamentação não apresenta desvantagens e suas contra-indicações são raras, limitando-se ao uso de alguns medica- Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi mentos pela mãe e para a mãe portadora do vírus da imunodeficiência humana adquirida (HIV). 37
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 seu organismo. As modificações produzidas ingredientes devem ser cozidos e industrialmente nesses leites visam à redu- amassados. Evita-se o uso de liquidificador ção da ocorrência desses distúrbios. para que o estímulo à mastigação não seja prejudicado. A papa deve conter, pelo A partir dos seis meses de vida, a crian- menos, um alimento de cada grupo ça, mesmo amamentada no peito, deve (Tabela 3). começar a receber outros alimentos, pois a partir daí o leite, isoladamente, não conse- Tabela 3 – Grupos de alimentos constitu- gue suprir suas necessidades energéticas. intes da papa de hortaliças Não é recomendada a introdução de Grupo / Nutriente Básico / Fonte alimentos que não o leite materno antes do sétimo mês de vida, porque só a partir dessa Cereais e Tubérculos(alimentos de base) / idade o organismo estará preparado para Carboidratos / Arroz, batata inglesa, aipim, recebê-los e digeri-los sem sofrer danos. maisena, farinha de trigo, farinha de mandioca, fubá, macarrão, etc. Inicia-se com a introdução de uma refeição de frutas sob a forma de sucos Carnes, vísceras, ovos, leguminosas / (em copo) ou papas, oferecidas com Proteínas, minerais (fósforo, ferro, zinco, colher, em quantidades crescentes, de etc.) e vitaminas do complexo B / Proteína acordo com a aceitação da criança, animal: carne de vaca,frango, peixe, ovos. preferencialmente pela manhã. Deve-se Proteína vegetal: feijão, ervilha, lentilha, soja. preferir frutas maduras, da região e da Vegetal (verduras, legumes) / Vitaminas e estação, por se apresentarem em melho- Fonte: Ministério da Saúde, 1998. minerais / Cenoura, vagem, beterraba, res condições de qualidade e preço. A abóbora, chuchu, tomate, folhas verdes, etc. criança nessa idade já não acorda à noite para comer e solicita refeições em ritmo Gorduras / Lipídios / Óleo vegetal (milho, de quatro em quatro horas. girassol, soja, arroz, algodão), margarina, manteiga, etc. Para os que não são amamentados ao peito, a fórmula infantil deve ser substitu- ída por uma adaptada ao segundo se- A proporção da mistura deve ser de mestre de vida. três partes do alimento base (carboidrato) Após a aceitação das frutas, inicia-se a para uma do alimento protéico e uma dos introdução da papa de hortaliças, oferecida outros grupos (3:1:1). Os cereais devem ser com colher, em quantidades crescentes. Os oferecidos, de preferência, na forma inte- gral. 38
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância À medida que a criança cresce e O sal e o açúcar devem ser evitados adquire dentes, os alimentos devem na dieta infantil ou, se adicionados, em ser preparados e cortados em quantidades mínimas. pedaços pequenos. Os ingredientes da dieta devem ser A partir de sete a oito bastante variados para evitar monotonia meses, a criança deve comer no sabor e fazer com que ela seja mais a papa de hortaliças em duas nutritiva. Cada refeição deve apresentar refeições diárias (almoço e alimentos de cores variadas. jantar). Ao completar um ano, a criança já Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi Os grãos de leguminosas, tem condições de comer o alimento bem amassados, podem ser habitual da família. incluídos aos oito ou nove meses. Antes dessa idade, No segundo ano de vida, ocorre redu- utiliza-se o caldo das ção natural do apetite. Isso se deve à leguminosas pela dificuldade diminuição da velocidade de crescimento. de digestão da casca dos seus A criança amamentada ao peito deve grãos. continuar com leite materno. Caso Ovo, pescados e tomate contrário, já pode utilizar leite integral. são introduzidos na dieta a Evita-se oferecer doces, guloseimas, partir dos nove meses, por refrigerantes, alimentos em conserva, serem alimentos que provo- enlatados e coloridos artificialmente, cam alergias em algumas por conterem substâncias nocivas ao crianças predispostas. organismo. O regime ideal segue a pirâmide dos alimentos. Aos nove meses, a criança Pirâmide dos alimentos já é capaz de Na sua base, temos as fontes de pegar os alimentos (pão, carne, biscoito, carboidratos complexos, que devem ser etc.) e leva-los à boca. consumidos em maior proporção, e fibras. Esses alimentos são os cereais Quanto ao tempero da papa de horta- (principalmente integrais) e os tubérculos. liças, podem ser usadas ervas aromáticas No centro, as fontes de proteínas, (salsa, cebolinha, etc.), cebola e alho. vitaminas, minerais e fibras (vegetais), 39
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 que devem ser consumidos em menores As vitaminas e os minerais são indis- proporções que as de carboidratos. Aí pensáveis para as reações químicas que temos as carnes, o leite, as frutas, as ocorrem no organismo e permitem seu hortaliças e os legumes. No ápice, bom funcionamento. São, então, chama- temos as fontes de carboidratos simples dos de alimentos reguladores. e gorduras, que devem ser consumidos em pequenas quantidades. As fibras são substâncias não absorvi- das pelo organismo, mas importantes Os carboidratos ou hidratos de car- para o funcionamento do sistema digesti- bono (açúcares) e as gorduras são fontes vo. Impedem a absorção de gorduras e de energia para o corpo, sendo chama- açúcares em excesso e regulam o funcio- dos, por isso, de alimentos energéticos. namento dos intestinos, facilitando a eliminação de substâncias desnecessárias As proteínas, por constituírem e nocivas. matéria-prima para a estrutura das células, são chamadas de alimentos A água constitui cerca de 70% do plásticos ou construtores. corpo da criança e é um elemento fundamental para a vida. Ela deve ser oferecida, freqüentemente, sob a forma natural, de sucos de frutas ou outros líquidos. A exceção se faz para o bebê menor de seis meses, que mama exclusivamente no peito e em livre demanda (sempre que solicita), pois, nesse caso, a água contida no leite materno já supre perfeitamente suas necessidades. Durante a infância, os cuida- dos com a alimentação, procu- Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi rando-se oferecer alimentos de boa qualidade, visam a propiciar o crescimento e o desenvolvimento da 40
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância criança e a criar hábitos saudáveis, pre- escola deve ser amplo e com poucos venindo doenças como o diabetes, a móveis, de modo que a criança tenha obesidade, a hipertensão, as doenças do espaço para explorar e estimular seu coração e alguns tipos de câncer. desenvolvimento, ser forrado e assoalhado, bem ventilado e construído Medidas preventivas de riscos à em terreno seco. Não se pode ter preo- saúde da criança cupação, em demasia, com a “arruma- Os cuidados de prevenção à saúde se ção” dos objetos, pois a criança, na sua relacionam às condições ambientais e exploração do meio, tende a pegá-los e individuais. São os chamados cuidados examiná-los, deixando “fora do lugar”. de higiene. Portanto, objetos que possam ser que- Os cuidados ambientais se referem ao brados ou ferir a criança devem ser local onde a criança vive, que pode ser deixados longe do seu alcance. propício ou adverso ao seu crescimento É importante que a luz do sol penetre e ao seu desenvolvimento. Cabe à famí- no interior da casa ou da escola por um lia, à escola e à sociedade garantir um grande período do dia, principalmente ambiente favorável ao crescimento e ao no quarto e nos locais mais freqüentados desenvolvimento saudável da criança. pela criança. As crianças acima de 2 Os cuidados individuais se referem anos necessitam de um espaço fora da ao trato direto com a criança, à satisfa- casa (quintal ou jardim) onde possam ção de suas necessidades e à garantia brincar, com segurança, parte da manhã da sua saúde. e da tarde. As crianças abaixo dessa idade podem brincar ao ar livre, mas sob O ambiente da criança a observação de uma pessoa ou em um O ambiente onde a criança se insere cercado espaçoso e livre de riscos. deve estar livre de qualquer tipo de polui- ção. A poluição pode ser: do ar (poeira, A casa ou a escola devem ter rede de fumaça, odores desagradáveis, etc.); do esgotos e de água tratada. O lixo deve som (ruídos altos ou desagradáveis); da ser guardado em local apropriado, prote- água (impurezas, microrganismos, subs- gido do acesso de insetos ou outros tâncias tóxicas, dejetos, etc.); da visão animais e do contato das crianças, para o (cores muito intensas, excesso de figuras destino adequado, preferencialmente a no ambiente). coleta por serviço de limpeza pública. Mantém-se o ambiente limpo, tendo-se o O ambiente interno da casa ou da cuidado de eliminar poeira, insetos e odores desagradáveis. A limpeza deve 41
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 ser feita com a criança fora do ambiente. dos e aqueles que são ingeridos crus devem ser lavados com água e sabão ou O ambiente deve ser pintado com imersos, por trinta minutos, em água cores suaves e tinta lavável. A decoração com hipoclorito de sódio. A água cuja deve ser simples, evitando-se carpetes, procedência for duvidosa também deve tapetes, poltronas ou quaisquer objetos ser tratada com hipoclorito de sódio, ou que acumulem poeira. Havendo cortinas fervida e filtrada, antes de ser utilizada. e mosquiteiros, recomenda-se que sejam lavados freqüentemente. Os recipientes usados na alimentação devem ter superfícies lisas, que são de Higiene na alimentação fácil limpeza. Cuidados de higiene também devem ser tomados no trato direto com a crian- Na medida do possível, evita-se o uso ça e com sua alimentação. Recomenda- de bicos (chupetas) e mamadeiras. Além se, para a pessoa que cuida da criança, a de outras desvantagens, os bicos são lavagem das mãos sempre que for prepa- facilmente contaminados e de limpeza rar o alimento, como também antes e difícil. As mamadeiras são substituídas depois da troca de fraldas. por copos ou xícaras, mesmo para os bebês. Os alimentos precisam ser bem cozi- Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF 42
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância A higiene bucal Os passeios Inicia-se, desde cedo, antes do apare- A partir da segunda quinzena de vida, cimento dos dentes. Tem o objetivo de a criança já pode sair de casa, para um prevenir doenças infecciosas (principal- passeio rápido, e tomar “banho de sol”, mente a cárie), a mastigação deficiente, sempre em ambiente livre de poluição. os distúrbios da fala e a respiração bucal. Com o tempo, os passeios se tornam É feita a limpeza da boca da criança, mais longos, permitindo que a criança se inclusive da língua, com gaze molhada, sinta livre e feliz. após todas as refeições. Nas crianças que já possuem dentes, pode-se usar uma Banhos de sol escova pequena com cerdas macias e Os “banhos de sol” têm a finalidade pouca quantidade de creme dental infan- de expor a pele aos raios ultra-violeta, til. Outros cuidados importantes se refe- que facilitam a formação e o aproveita- rem à higiene bucal das pessoas que mento da vitamina D no organismo, convivem com a criança; evitar oferecer prevenindo, assim, a doença chamada de à criança alimentos adoçados com raquitismo. A exposição ao sol deve ser sacarose (açúcar) e limitar ao máximo o iniciada com cinco minutos, aumentan- uso de bicos e mamadeiras. do-se, gradativamente, até trinta minutos por dia. Os horários recomendados são até as nove horas, no verão, e até as onze horas, no inverno. Quando a criança não puder ser retirada de casa, recomenda-se o banho do sol que entra pela janela, desde que os raios não atravessem o vidro. A exposição deve ser de corpo inteiro, exceto a cabeça, pois Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF a claridade irrita os olhos da criança. Caso não seja possível, expõe-se pelo menos as pernas. 43
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividade física pelo estado emocional da mãe ou pessoa Tem importância tanto no mais próxima. crescimento como no desenvolvimento da criança. O bebê pode ser estimulado Não é recomendado que a criança a se exercitar, massageando-se seu corpo durma na mesma cama dos pais. Para os e movimentando-se seus membros, em bebês, há o risco de serem asfixiados por todos os sentidos, sempre delicadamen- aqueles, inconscientemente, durante o te. À medida que cresce e se desenvolve, sono. Para a criança maior, há o risco de o estímulo é feito com brinquedos, jogos ter prejudicado o seu desenvolvimento e brincadeiras ao ar livre. psicológico e também há o inconvenien- te de retirar a privacidade no relaciona- O sono mento afetivo do casal. O sono, em todos os indivíduos, tem a função de reparar a energia física e A posição ideal para dormir é aquela psíquica, gasta no período de vigília. preferida pela criança, mas, nos bebês Cada um tem seu ritmo de sono, mas em que ainda não sustentam a cabeça, a geral, quanto mais jovem a criança, posição “de bruços” leva ao risco de maior a sua necessidade de sono. Um sufocação. Prefere-se, então, a posição bebê com menos de três meses de vida de lado direito, principalmente após chega a dormir 20 horas por dia. Esse mamar, para evitar a aspiração do ali- tempo vai se reduzindo até que, com 5 mento, caso regurgite. Também se pode anos, ele necessita apenas de 10 horas recomendar a elevação suave da cabe- de sono. ceira do berço. Para um sono tranqüilo, as condições As vacinas favoráveis se resumem à diminuição dos A vacinação é o mais importante estímulos sensoriais. O ambiente calmo, instrumento na prevenção de doenças escuro, a temperatura agradável, a sua que podem debilitar, deixar seqüelas ou posição, as condições da cama e o até levar à morte. Muitas doenças fre- cansaço favorecem o sono. A criança qüentes e temidas até há algum tempo já dorme melhor se o ambiente lhe é famili- estão erradicadas ou ocorrem raramente ar. Assim, o contato com um objeto de graças à vacinação rotineira das crianças. seu uso, na hora de dormir, acalma a É dever dos responsáveis pela criança criança e facilita o sono. manter atualizado o esquema básico de vacinação, oferecido pelos serviços de As crianças, principalmente menores saúde. A escola deve exigir que a vacina- de um ano, têm seu sono influenciado ção da criança não esteja atrasada. 44
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância As doenças passíveis de prevenção fator importante para o desenvolvimento com as vacinas disponíveis nos postos de de ações preventivas. saúde são: tuberculose, hepatite B, polio- mielite (paralisia infantil), coqueluche A criança menor de seis meses corre (tosse comprida), tétano, difteria (crupe), maior risco na fase de aquisição de habili- meningite por Haemophylus (Hib), sa- dades motoras, como se virar ou pegar rampo, rubéola, caxumba e, em algumas objetos. Nessa fase, há o risco de queima- regiões, febre amarela. duras, quedas e asfixia. As queimaduras são causadas por líquidos excessivamente Prevenção de acidentes quentes em contato com a pele ou ingeri- Os acidentes são causas freqüentes de dos. As quedas acontecem de locais onde atendimento de crianças nos serviços de a criança se encontra deitada, como saúde, podendo, em alguns casos, levar à camas, bancos ou trocadores de fraldas. A hospitalização ou à morte. asfixia é causada por estrangulamento ou engasgamento causados por objetos diversos. Alguns cuidados podem ser tomados para prevenir esses acidentes: – Sempre verificar a temperatura da água do banho do bebê, antes de imergi-lo. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi – Não manusear recipientes com líquidos quentes tendo a criança ao colo ou nas proximidades. – Só oferecer líquidos ou alimentos à criança após certificar-se de que estão na temperatura adequada. Na faixa etária entre 1 e 5 anos, os acidentes já ocupam lugar importante – Quando colocado na cama ou no entre as causas de atendimento nos berço, o bebê deve estar protegido por serviços de saúde. um cercado de grades, com pequeno espaço entre as barras. Os cercados de O conhecimento das principais cau- malha são os mais seguros. sas de acidentes com crianças, por parte dos pais ou professores, pode ser um – Nunca deixar a criança sozinha sobre um trocador de fraldas, mesmo que por um curto espaço de tempo. 45
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 – Transportar a criança, em veículo, balões de borracha, travesseiros macios, sempre no colo de um adulto e, no ca- fios, cordões de pescoço, etc.). so de automóveis, no banco traseiro. – Oferecer à criança brinquedos gran- Há assentos apropriados para o trans- des, arredondados, de madeira lisa ou porte de bebês que devem ser utiliza- plástico maleável, que não podem ser dos de acordo com as orientações do engolidos, quebrados e não apresentam fabricante. pontas que possam ferir. – Não oferecer ou deixar ao alcance Dos sete aos doze meses, as crianças da criança objetos pequenos (botões, começam a engatinhar, ficar de pé e, contas, grãos, etc.), perfurantes ou em alguns casos, a andar. Reconhecem cortantes (agulhas, alfinetes, tesouras, objetos pelo contato com a boca e já facas, etc.) e afixiantes (sacos plásticos, começam a explorar o ambiente. Então, há os riscos de afogamento, quedas da própria altura, queimaduras, choque elétrico, intoxicação, ferimentos e asfixia. Os cuidados nessa faixa etária são: – Nunca deixar a criança na ba- nheira sem a vigilância de um adulto. – Não permitir o acesso da criança à cozinha, utilizando grades de prote- ção na porta. – Sempre utilizar as “bocas” posterio- Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF res do fogão para cozinhar. Os cabos das panelas devem estar sempre volta- dos para a parte posterior do fogão. – Deixar líquidos ou alimentos quen- tes, torradeiras, ferro de passara roupa, fios elétricos, etc., fora do alcance das crianças. 46
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância – Isolar as tomadas elétricas das pare- – Manter sempre travadas as portas des com protetores especiais. dos automóveis. – Evitar o uso de toalha de mesa que – Viajar sempre com a criança no possa ser alcançada e puxada. banco traseiro e protegida com o cinto de segurança. – Colocar portas ou portões nos acessos à escadas e mantê-los sempre fechados. – Segurar sempre a mão da criança ao caminhar próximo a vias de tráfego de – Manter medicamentos, material de veículos e ao atravessá-las. limpeza e outros produtos tóxicos em armários fechados à chave e em local – Iniciar a orientação à criança de como elevado, longe do alcance da criança. se comportar com segurança nas ruas. – Não cultivar plantas tóxicas em casa – Inspecionar previamente equipa- ou no jardim. mentos de parques infantis a serem utilizados pelas crianças. Verificar a As crianças de 1 a 5 anos, na busca do presença de objetos que sejam conhecimento do ambiente em que cortantes ou que possam ser engolidos vivem, estão mais expostas aos perigos. pela criança. Nessa fase, estão propensas a quedas da própria altura e de alturas superiores a – Manter objetos que possam ferir a sua, queimaduras, afogamento, asfixia, criança, como copos ou garrafas de ferimentos, intoxicação e atropelamentos. vidro, tesouras, facas, fósforos, isqueiros, Nessa fase, é importante: etc., longe do seu alcance. – Manter fechados portas ou portões – Nunca guardar armas de fogo em de acesso a vias de tráfego de veículos e casa e, se ocorrer, deixar longe do alcan- não permitir que as crianças brinquem na ce físico e visual da criança e sempre suas imediações. descarregada (sem munição). – Usar sempre tapetes não-derrapantes – Os responsáveis e os professores nos banheiros. devem estar atentos a outros riscos que dependerão do ambiente em que a – Instalar grades ou telas de proteção criança está inserida. nas janelas, principalmente nas que se abrem para lugares altos. – Deve partir do adulto o exemplo de como se comportar com segurança. 47
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Referências Bibliográficas ALMEIDA, Isabel Cristina Santos. Importância dos primeiros três NÓBREGA, F. J. Clínica pediátrica. Rio de Janeiro: anos de vida na saúde bucal da criança. Pediatria dia a dia, ano Guanabara,1987. 4, nº 22. Associação dos Pediatras do Hospital Florianópolis: PALMA, Domingos. Alimentação no primeiro ano de vida: Florianópolis, 2002. inadequação do leite de vaca integral. O Berço, nº 14. Areueil, ASSIS, Simone Gonçalvez de. Crescer sem violência, um desafio França: Help Medical, 2003. para educadores. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1994. PERNETTA, César. Alimentação da criança. São Paulo: Byk. 1979. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Acompanhamento do PERNETTA, César. Amor e liberdade na educação da criança. São crescimento e do desenvolvimento – ações básicas na Paulo: Byk, 1982. assistência integral à saúde da criança. Brasília: Ministério da RAMOS, Byron de Oliveira; LOCH, Jussara de Azambuja. Manual Saúde, 1984. de saúde do escolar II. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde da criança: Pediatria, 1994. acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Passaporte para a infantil. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. seguraça – cartilha. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Atendimento integrado à UNICEF. O aleitamento materno e o município. Brasília: saúde e desenvolvimento da criança – Módulo I. Brasília: Ministério da Saúde, 1996. Ministério da Saúde, 1994. WEHBA, Jamal. Nutrição da criança. São Paulo: Byk, 1999. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guias alimentares para crianças menores de dois anos no Centro-Oeste do Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 1998. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Violência contra a criança e o adolescente. Brasília: Ministério da Saúde, 1993. CRESPIN, Jacques. Puericultura: ciência, arte e amor. São Paulo: Byk, 1992. CUSMINSKY, M.; LEJARRAGA, H.; MERCER, R.; MARTELL, M.; FESCINA, R. Manual de crecimiento y desarrollo del niño. Washington: Organización Panamericana de La Salud, 1986. DESLANDES, Suely Ferreira. Prevenir a violência, um desafio para profissionais de saúde. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1994. KING, F. Savage. Como ajudar as mães a amamentar. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. MARCONDES, Eduardo; ALCÂNTARA, Pedro de. Pediatria básica. São Paulo: Sarvier, 1974. MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO. Redução das vulnerabilidades aos desastres e acidentes na infância. Brasília: Dedec, 1996. MURAHOVSCHI, Jaime. Alimentação no primeiro ano de vida. Pediatria Dia a Dia, ano 5, nº 25. Florianópolis, SC: Associação dos Pediatras do Hospital Florianópolis. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi 48
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo • Peça a enfermeiros, médicos e e Aprofundamento dentistas para fazerem palestras e de- Maria Helena Lopes monstrações para crianças e familiares abordando aspectos da educação para a O autocontrole em saúde depende saúde. Registre a experiência colhen- consideravelmente do desenvolvimento do um parecer dos pais sobre o de hábitos e atitudes que se forjam nas conteúdo das palestras. infâncias e da oportunidade de exercitar habilidades para desenvolvê-las. • Os profissionais da saúde também podem colaborar na organização de programas de acompanhamento do cres- cimento das crianças ou de prevenção de acidentes. Tente uma das alternativas e registre como julgar mais adequado. Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF 49
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Foto: Sebastião Barbosa 50
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância E, como a criança está sem espaço e rganização do Tempo sem tempo – pois se não há espaço o e do Espaço tempo tem que ser preenchido –, a Elizabeth Amorim agenda fica cheia de compromissos: judô, balé, natação, inglês, futebol... Ufa! “Qualquer situação planejada como contexto para o desenvolvimento da criança envolve Já nas classes menos afortunadas, uma proposta de atividades e o planejamento algumas crianças saem muito cedo, junta- do tempo e do espaço para a realização das mente com os pais, quando não sozinhas, mesmas.” para a escola ou para o comércio informal Zilma de Moraes Oliveira a fim de ganhar a vida. Gostaríamos de iniciar este artigo E brincar de criança quando? No refletindo um pouco sobre a pressa que Centro de Educação Infantil! Por isso, a vem atingindo de maneira esmagadora a instituição infantil deve ter como grande sociedade de nosso tempo e, por conse- preocupação a de ser o lugar que qüência, a criança: parece que há pressa permita a criança ser criança, necessita para que a infância acabe logo! ser o espaço privilegiado para que a criança sinta e desfrute a vida com ale- Não há pressa, já aconselhava gria e prazer. Frente a esse importante Rousseau. Sem ela, há tempo de viver as papel, ela deve estar organizada de tal experiências próprias da infância, do forma que propicie à criança extrair o jogar, do brincar, do divertir-se na água e máximo das experiência nela vividas. acompanhar a bolinha de sabão até que ela estoure ou suma nas alturas. Organizando o tempo Sabemos que o dia-a-dia é constituído Em tempos de grades nas janelas e de atividades rotineiras. No entanto, não portões, de apartamentos, de calçadas e fica restrito a elas; ao contrário, é muito ruas perigosas em todos os sentidos, de mais do que o repetitivo, quase automático espaços lúdicos delimitados em praças e do “todo dia ela faz tudo sempre igual”, shoppings, não há mais lugar para ser como canta Chico Buarque. criança sem hora marcada. Isso quando os pais têm tempo de marcar hora! Assim, a organização do tempo na instituição infantil não deve ser rígida e Assim, vemos pais dizendo, orgulho- tampouco obedecer ao pré-estabelecimento sos, que sua criança tem tantas aulas de momentos. Se as atividades obedecem – especializadas, tornando-a efetivamente como esquema – a uma ordem, hierar- um adulto em miniatura. quia e tempo pré-determinados, 51
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 transformam-se em uma “rotina da rentes atividades do dia rotina estejam infância, que pode tornar-se uma adequadas à faixa etária do grupo, a fim alternativa de dominação por não de que sejam respeitados tempo de considerar o ritmo, a participação, a concentração e interesses das crianças. relação com o mundo, a realização, a Dessa forma, os fazeres da rotina dos fruição, a liberdade, a consciência, a berçários será diferente das crianças de 3 imaginação e as diversas formas de socia- anos, que por sua vez não será igual ao bilidade das crianças nela envolvidas”. grupo de 5 anos. Ao mesmo tempo, devemos intercalar atividades individu- A criança não tem hora para viver, e ais/grupais/coletivas, movimentadas/ as teorias de desenvolvimento compro- semimovimentadas/calmas, alternando vam que a criança pequena aprende também as propostas que exigem maior mediante ação e experimentação, daí a atenção e concentração. necessidade de vivências que sejam realmente significativas. Não negamos Para você auxiliar as crianças na aqui a organização do tempo: há que se orientação espaço-temporal, uma vez ter um plano de ação sim! A nossa preo- que necessitam de referências para cupação é como acontece o planejamen- situarem-se (é comum perguntarem se é to e a organização. antes ou depois do almoço, do pátio, etc.), é aconselhável iniciar o dia com o O que não concordamos é com uma planejamento da rotina e das atividades. seqüência de momentos que precisam É na rodinha da conversa que, entre ser cumpridas, como obrigação. Igual- outros assuntos, planejamos os nossos mente as atividades não devem “surgir momentos; inicialmente é realizado por do nada”, sem sentido nem significado nós e apresentado ao grupo, mas para as crianças, pois assim fica a gradativamente vai sendo feito junto com atividade pela atividade, sem significado. as crianças. Mesmo o grupo de 2 anos já Atividade mecânica, simplesmente dese- é capaz de opinar escolhendo momentos nhar, por exemplo, porque é hora do e fazeres. A maneira de pensar as desenho; jogar porque é hora do jogo e atividades, possibilitando o entrosamento não por estarem fazendo parte de um das crianças em sua elaboração, terá contexto maior que dê sentido ao fazer e dimensões diferentes se tomarmos como para que as crianças entendam o que referência a idade delas. Com crianças estão realizando e percebam o porquê e bem pequenas, são os gestos, os olhares o para quê. e o choro as manifestações que devemos Igualmente importante é que as dife- observar, enquanto nas maiores as 52
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância combinações já são compartilhadas pelo – Cuidado Pessoal: momentos de diálogo, mesmo que a expressão oral alimentação, higiene e descanso. ainda não esteja totalmente estabelecida. O que importa é a participação da É claro que no berçário essas ativida- criança! des ocupam boa parte do tempo, visto as crianças necessitarem de maior atenção Lembrete: Como todos os fazeres são educativos, ali- mentação, higiene e sono fazem parte do planeja- mento diário. As atividades podem ser organi- zadas em quatro grupos que devem, como já sabemos, estar adequados ao desenvolvimento das crianças e aos nossos objetivos. – Planejamento Coletivo: envolve o todo, seja na sala – como ar- rumação da mes- ma –, seja na instituição, como Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi passeios, teatros e comemorações. 53
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 nos cuidados físicos. No entanto, os Quando as crianças chegam diaria- fazeres devem ser parâmetros, e não mente ao centro infantil, gostam de “severos fiscais” que impedem a espon- sentir-se esperadas, aguardadas, pois esta taneidade e o prazer que os diferentes é também uma das formas de demons- momentos provocam. trarmos que temos vínculos com elas. Não aguardamos com satisfação a che- – Orientadas: atividades coordena- gada em nossa casa de uma pessoa da das por nós, educadores, envolvendo qual gostamos muito? todo o grupo. Assim, recebemos nossas crianças Nesses momentos, percebemos como com afeto e alegria, abraçando e conver- as crianças atendem propostas coletivas sando com cada uma que chega. Da e exigem, muitas vezes, atenção e con- mesma maneira, devemos preparar o centração. O planejamento coletivo é ambiente com propostas e brinquedos uma dessas atividades, como também as que permitam a cada uma – individual- que envolvem os projetos em desenvolvi- mente ou em grupos – manter-se mento; os relatos de situações vividas; envolvida até que o grande grupo esteja pesquisas em diferentes fontes; rodas completo. cantadas; atividades corporais orientadas e baseadas em técnicas de artes plásti- Ao finalizar essas reflexões sobre os cas, entre outras. momentos no Centro de Educação Infan- til, não poderíamos deixar de fazer refe- – Livres: momentos de escolha livre por rência ao estabelecimento de regras, pois parte das crianças. Tanto em espaço inter- sem elas não há organização, e nada é no na sala do grupo e salas coletivas produzido se não organizado, nem que quanto em espaço externo, como pátio e seja de forma mínima. pracinha. Aqui temos inúmeras oportunidades de interagir com as crianças Inicialmente, algumas regras necessi- e incentivar a interação entre elas. É tam ser impostas por você, até por segu- também o momento em que podemos rança das crianças, como, por exemplo, conversar individualmente com cada uma não sair da sala sem avisar, não atirar das crianças para conhecê-las melhor. brinquedos, etc. As regras devem ser claras e explícitas para evitar interpreta- Atenção: momentos livres não ções diferentes, bem como explicadas significam crianças soltas e educadoras para que a criança entenda o porquê e conversando! não saia obedecendo cegamente, só por porque a orientação partiu de um adulto. 54
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Então, você vai auxiliando, no desenvolvimento das crianças, a orga- gradativamente, o grupo a discutir e nização do espaço é tão importante quan- elaborar as próprias regras a partir de to a organização das atividades, pois é nele situações surgidas. Um exemplo que elas acontecem, é nele que as crianças típico é o das canetinhas hidrocor permanecem, interagindo com ele e com com a ponta para dentro. A regra os outros, sendo protagonistas de suas “não bater com as canetinhas” só terá ações. A organização espaço/ambiente sentido e poderá ser construída pelo oportuniza a construção da autonomia, grupo depois de ter vivido a situação porque oferece distintas opções “de fazer”, de que a caneta não funciona com a sem a interferência do educador, brincan- ponta para dentro. do com liberdade e independência. A educadora deve, de forma tranqüila e natural, fazer uso de sua autoridade sendo firme e coerente, pois as crianças precisam de refe- rência e segurança. Isso não quer dizer chantagear, castigar ou ameaçar, mas conter a criança se assim for necessá- rio, não permitindo que utilize inadequadamente algum brinquedo ou material, ou mesmo agrida algum compa- nheiro. As sanções devem ser imediatas e por reciprocidade: rasgou o livro, vamos colá-lo. Jamais tirar o recreio – por exemplo – que não tem relação nenhuma com a rea- ção indesejada. Organizando o espaço Foto: Sebastião Barbosa Partindo da premissa de que o meio e o espaço influenciam 55
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 É claro que, ao organizar o espaço, Esses arranjos espaciais possibilitam você deve considerar o tamanho da sala, às crianças buscarem os pequenos gru- o mobiliário disponível, a faixa etária e o pos de acordo com os interesses, sem número de crianças que ali permanecerão, necessidade da constante atenção e evitando – no desejo de oferecer várias interferência do adulto. A interação entre situações e cantinhos – transformar a sala as crianças – tão importante quanto a num verdadeiro “brique”. Se o seu espaço interação adulto/criança – também é é pequeno, faça rodízio (semanal ou favorecida nesses espaços definidos, que mensal) do material. A possibilidade de podem ser organizado em “cantinhos” modificar o ambiente é atraente às crian- com temas assim estruturados: ças, sempre curiosas por novidades, porém às vezes causa transtornos e exige – Casa de Bonecas: composta de obje- dedicação dos educadores. tos e utensílios de uma casa, que poderão inclusive ser confeccionados com sucata. Dividir o espaço por áreas de ativida- des em arranjo espacial semi-aber to, – Canto da Fantasia: como o nome onde são utilizados móveis baixos cuja sugere, tem fantasias, roupas de adultos característica principal é o seu fecha- chapéus, maquiagem, espelho, panos mento em pelo menos três lados, promo- diversos, gravatas, echarpes, etc. ve relacionamentos agradáveis entre – Canto da Biblioteca: além de adultos e crianças. A criação de ambien- livros, jornais e revistas, pode ser ambi- tes atraentes, além de propiciar desco- entado com almofadas e/ou tapete. bertas e aprendizes, contribuem para o bem-estar, a harmonia e a segurança das – Canto dos Jogos e Brinquedos: crianças. incluindo quebra-cabeças, jogos de montar, de encaixe e de armar, brin- Dessa forma, a delimitação do espaço quedos diversificados. Procure ter mais é feita através de estantes, aparadouros, que um brinquedo de cada tipo, evi- um fogãozinho (no canto da casinha), ou tando, assim, disputas desnecessárias. mesmo almofadas e tapetes. Quando forem móveis, o importante é que sejam – Cantos Alternativos: variam de baixos para que as crianças possam ver a acordo com o interesse do grupo ou os educadora, principalmente se o seu projetos em desenvolvimento, po- grupo é de faixa etária até 3 anos. Até dendo focalizar Música, Supermerca- essa idade, para a criança sentir-se segura, do, Museu, Cabelereiro, Oficina e é fundamental a proximidade física e tudo o mais que você e seu grupo de visual de quem cuida dela. crianças idealizarem. 56
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância O espaço na instituição infantil, Logicamente, nos berçários os arran- então, deve ser visto como parte inte- jos espaciais são diferentes, porque os grante da ação pedagógica, pois exerce interesses e as necessidades dos bebês influência em quem nele convive. são outras. Mas as divisórias em dife- Igualmente, mostra-se como “vitrine” dos rentes tamanhos estão presentes, uma pressupostos teóricos que orientam a vez que oferecem desafios para aqueles prática daquele educador e do tipo de que já engatinham, assim como os pe- relações que são estabelecidas. Estantes quenos túneis e barraquinhas abertas, e prateleiras altas não permitem a plena que podem ser confeccionadas com comunicação entre as crianças. Nesse caixas de papelão em diferentes tama- ambiente, o grupo não tem acesso aos nhos, decorados com pinturas ou for- materiais sem a interferência do adulto, radas com tecidos ou papéis. demonstrando ser ele (adulto) o centro do processo, não havendo, portanto, estímulo O espaço do berçário deve dar opor- à construção intelectual e social, já que as tunidade de movimento, exploração e crianças dependem da educadora até para interação com objetos e entre os bebês. alcançar-lhes o que desejam. Assim, espelhos, bolas, objetos sonoros, mordedores de diferentes formatos, Foto: Sebastião Barbosa 57
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 carrinhos, bonecas, garrafas plásticas outros podem ter uma idéia para a amplia- vazias e/ou contendo objetos, são ção dos estudos. Então, penduramos alguns exemplos do que é interessante móbiles, expomos fotos deles e das famílias para os bebês. e podemos pôr algumas figuras de bebês e bichinhos também. Porém, tudo de Como educadora, você deve estar forma aconchegante, em tons claros, atenta aos progressos e interesses das para que o espaço não fique poluído de crianças para que possa ir mudando os imagens e cores. estímulos e apresentando novos e interessantes desafios. Elas precisam Devemos lembrar sempre que a crian- empurrar e puxar objetos, encaixar, ça precisa da diversidade de espaço, empilhar, imitar, esconder, engatinhar, materiais e brinquedos. Então, livros de agarrar e agarrar-se, virar-se, balançar, história, material de desenho, cordas, rasgar, experimentar macio/áspero, cordões, tacos de madeira, jogos varia- mole/duro, enfim, elas precisam dos, sucatas, caixas e muitos outros contatar com o mundo! Então, entram devem estar à disposição e ao alcance de colchonetes, balanços, almofadas em cada um. O material não precisa ser tamanhos e texturas diferentes, caro, tampouco sofisticado, basta que escorregadores, objetos sonoros e de desafie a curiosidade da criança. diferentes texturas e tamanhos. Com certeza, você possui criatividade Quanto à decoração, salientamos a suficiente para enriquecer, juntamente importância da estética e do capricho. com as crianças, o espaço de vocês e, Nas paredes, devem estar a produção sem dúvida, o tempo será preenchido artística ou os escritos das crianças, seus com atividades enriquecedoras porque desenhos e “bilhetinhos”, cartazes feitos variadas, significativas e prazerosas. por elas para ilustrar projetos, enfim, Referências Bibliográficas elementos que tenham sentido e HORN, Maria da Graça. Sabores, cores, sons, aromas: a organização significado para o grupo. dos espaços na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2003. OLIVEIRA, Zilma Morais de. (Org.). Educação infantil: muitos olhares. São Paulo: Cortez,1994. Os bebês ainda não desenham, recor- ______. et al. Creches: crianças, faz-de-conta & cia. Petrópolis: tam ou colam, portanto o material Vozes, 1992. exposto deve “comunicar” a crianças e REDIN, Euclides. O espaço e o tempo da criança: se der tempo a gente brinca. Porto Alegre: Mediação,1998. adultos o que se está fazendo no Centro RIZZO, Gilda. Creches: organização, currículo, montagem e de Educação Infantil. Observando os funcionamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. trabalhos expostos, pais e visitantes ROSSETI-FERREIRA, Mª Clotilde. et al. Os fazeres na educação infantil. São Paulo: Cortez, 2001. podem trazer outros materiais, enquanto 58
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo e Aprofundamento Maria Helena Lopes • Após a leitura do texto, faça uma análise comparativa das fotografias abaixo, refletindo sobre a organização do espaço. • Observe uma sala de berçário ou maternal avaliando suas instalações quanto à estética e às possibilidades de exploração dos objetos. Registre sua observação. • Confeccione uma maquete ideali- zando a sala onde você gostaria de estar diariamente com suas crianças. Utilize sucatas e muita imaginação. Foto: Sebastião Barbosa 59
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Pontos de Reflexão e Ação pleno é o tempo presente: passado e Euclides Redin, em seu livro O Espa- futuro só contam se forem presentes com ço e o tempo da criança: se der tempo a seu peso, seu fogo, sua esperança, sua gente brinca, diz que: garra(...).” “A vida não existe em função de • O que você pensa sobre estas pala- nenhuma etapa ou período: a vida deve vras? Converse com os colegas e juntos ser plena em todo o tempo. O tempo façam uma poesia. Foto: Sebastião Barbosa 60
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Pedagogia de Projetos e as formas peculiares e originais de as crianças se expressarem. O conhecimen- a Mediação do Educador to sobre a faixa etária na qual atuamos é Elizabeth Amorim e Maria Helena Lopes a ferramenta que nos permite melhor interpretar a criança em suas ações e Relato de uma professora: diferentes linguagens, bem como perce- Quando as crianças dão-se conta bermos suas necessidades e potenci- de que são capazes de realizar alidades. Aprendendo como é a criança, descobertas através da pesquisa, você poderá observá-la melhor, estando tornam-se cada vez mais curiosas atenta a seus movimentos, brincadeiras, e ávidas por iniciar novas jornadas jogos e todos os desafios que ela nos de estudo. impõe, porque ela tem a sua maneira Mal “terminam” um projeto e já peculiar de pensar e é capaz de viver o estão pensando sobre o próximo. mundo através do brinquedo, do sonho e – Profe, quando a gente terminar da fantasia. Há coisas de criança que só de estudar os morcegos, o que nós se aprende com criança. vamos fazer? Realmente o mundo infantil nos desafia, talvez porque tenhamos esquecido (ou Não podemos falar em ação pedagó- gica sem nos referirmos a um pré-requisito fundamental para que ela aconteça de forma adequada: a observação. Sim, é a observação constante das crianças e de seus fazeres, tanto in- dividuais quanto grupais, que nos permite realizar Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi a leitura adequada da su- as necessidades e interes- ses. Por isso, é preciso estar de olhos bem aber- tos e ouvidos atentos para que possamos interpretar 61
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 abafado?) o nosso lado criança, o mesma forma, possuem hipóteses sobre encantamento e o lúdico. Você já experi- o mundo, assim como avidez de des- mentou estar, efetivamente, junto com as coberta e experimentação. Por isso são suas crianças, sendo parte integrante do seres ativos, barulhentos, capazes e grupo? Isso significa mergulhar nos exploradores do meio que os rodeia. A fazeres cotidianos, realizando junto ênfase na observação das crianças é algumas propostas e participando das desencadeadora de contextos ou situa- brincadeiras e construções. ções que se tornarão temas de estudos, ou melhor, de projetos pedagógicos. Há quanto tempo você não “suja” as mãos com barro, areia ou tinta junto com o Na organização da ação educativa grupo? E o prazer de “amassar” a argila? através de projetos, a chamada pedago- Qual foi o seu personagem quando as gia de projetos, as atividades se relacio- crianças se fantasiaram naquele dia? Quan- nam, organizadas segundo temas do entrou nas brincadeiras de faz-de-conta? pertinentes à vida das crianças. Os Se não lembra, que pena, você perdeu bons projetos assim desenvolvidos, respeitan- e proveitosos momentos! Primeiro, porque do o contexto sociocultural das crian- deixou de se deliciar; segundo, porque ças, bem como seus interesses, perdeu (de novo!) grandiosas oportunidades necessidades e questionamentos, devem de entender (ou lembrar?) um pouco mais o possibilitar que elas questionem, criem, universo infantil; terceiro, porque deixou de estabeleçam relações sociais e compre- observar e perceber mais detalhadamente endam o significado e o funcionamento interesses e necessidades dos seus das coisas e do mundo. pequenos amigos. Não há fórmula nem esquema para a É possível constatar, então, a impor- construção de projetos, pois sua estrutura tância e a necessidade da observação no depende do assunto a ser tratado, das ca- nosso cotidiano pedagógico, pois é através racterísticas do grupo, do tipo de relações dela que obtemos as pistas para propor que estabelecem, das experiências prévias atividades significativas e contextualizadas e do tipo de problema exposto. Além dis- porque originadas no e do grupo. so, o tempo é variável, na medida em que está ligado a essas condições citadas, Vale lembrar que lidamos com seres por isso, pode durar um dia, uma semana, que têm uma história familiar e social um mês... (mesmo um bebê de três meses já tem uma história de três meses!) e, portanto, Apresentamos de forma sucinta, experiências socioculturais variadas. Da porém bastante esclarecedora, os possí- 62
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância veis passos de um projeto de trabalho na Em outras situações, os projetos po- instituição infantil. dem surgir a partir da observação das brincadeiras e dos jogos realizados pelas Escolha do tema crianças. Assim foi no grupo de 3 anos Pode organizar-se em projetos no qual as freqüentes e cotidianas care- anteriores, em situações vividas pelas tas frente ao espelho originaram o “Meu crianças, em proposições da educadora e rosto se mexe”, que teve continuidade no da escola, em atividades como passeios projeto “Todo o meu corpo se mexe?”. e visitas, em anseios dos pais. Em outra situação, uma determinada Às vezes, um acontecimento “bom- escola julgou necessário trazer para bástico” pode originar um projeto, como estudo e reflexão a temática dos senti- aconteceu em um grupo de crianças mentos e valores, devido às manifesta- entre 4 e 5 anos. Certo dia, uma das ções excessivamente agressivas das crianças chega mais tarde, causando um crianças. O grupo de educadores deci- grande rebuliço no grupo: estava com o diu abordar a temática da paz, ficando a pé engessado (inclusive o gesso ainda critério de cada um, com seus alunos, a não estava bem seco) e, mais, trazia jun- maneira de abordagem ou o caminho a to a radiografia que mostrava claramente ser percorrido. Encaminhadas as o osso partido! A admiração foi geral, reflexões sobre o tema, cada grupo surgiram inúmeros questionamentos e organizou uma atividade que expressou hipóteses que resultaram no projeto seus sentimentos sobre a importância “Todos nós temos esqueleto”, que durou das relações interpessoais harmoniosas. o tempo do “engessamento” , como as Foram elas: teatro, criação de letras e crianças diziam. músicas, entre outros. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi 63
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Relato de Experiência relação direta com a nossa realidade. As Professora Janice Oliveira crianças começaram a perceber que, na maioria das vezes, quem age correta- A turma do Jardim A1 já vinha discu- mente acaba lucrando, pois torna-se uma tindo algumas questões de convivência pessoa benquista por todos à sua volta. entre o grupo, quando a escola propôs Elas perceberam que quem bate no que realizássemos uma grande campanha colega, arranca brinquedos das mãos dos para o trabalho com a PAZ. outros ou não consegue respeitar as Começamos a investigar com as pessoas que convivem ao seu lado acaba crianças a maneira como todas as pesso- ficando sozinho, sem amigos. as gostam de ser tratadas. Podemos bater Para a finalização do projeto, planeja- nas pessoas que estão à nossa volta? mos a execução de um jogo que conti- Podemos mexer nos objetos dos outros vesse toda essa tomada de consciência. sem permissão? Quando queremos algo, Num jogo de trilha, em que as equipes como é que pedimos? O que fazer jogam um dado para ver quantas casas quando alguém bate na gente? E quando devem andar, aparecem situações “boas” batemos nos outros? O que acontece e “ruins” do nosso cotidiano. Através de com pessoas que não cumprem as cartas que significavam “sorte” ou “azar” , “regras básicas” de convivência? Estas e as crianças ilustraram tais situações. outras questões serviram de introdução a Cada criança escolheu uma situação esse trabalho que apresentou um para ilustrar de duas formas: uma positi- excelente resultado para o grupo. va e outra negativa. Por exemplo: quem Trouxemos para as crianças uma cole- escolheu ilustrar crianças emprestando ção de livros da editora Moderna chamada seu brinquedo deveria ilustrar a negativa “Valores” dos autores Brian Moses e Mike , dessa situação, ou seja, as crianças Gordon. São quatro livros com os seguin- brigando pela disputa de um brinquedo. tes títulos: “Com licença?” Aprendendo Colamos os desenhos de boas ações em sobre convivência; “Deixa que eu faço” cartas vermelhas e os de más ações em Aprendendo sobre responsabilidade; “Não cartas amarelas. Quando uma equipe fui eu!” Aprendendo sobre honestidade; “E caísse numa casa da trilha que contivesse eu com isso?” Aprendendo sobre respeito. uma estrela amarela, deveria comprar uma carta amarela, que traria consigo A partir da leitura das histórias, que um “castigo”, do tipo “fique uma rodada mostram situações bastante comuns no sem jogar” ou “volte duas casas” junta- , cotidiano das crianças, fazíamos uma mente com a descrição da ação ilustrada, 64
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância e o contrário acontecia com quem com- sentido para outro grupo de crianças que prasse uma carta vermelha, tendo maiores não tivesse vivenciado o processo com chances de chegar ao final do jogo. Por os mesmos passos que nós. Passamos a fim, a equipe que concluísse primeiro, perceber uma grande diferença no ganhava como “prêmio” a mensagem: tratamento entre as crianças depois desse trabalho. Atualmente, percebemos com “PARABÉNS! VOCÊ CHEGOU AO freqüência situações em que os colegas FINAL DO JOGO E SABE O QUE se ajudam, se respeitam em suas diferen- CONQUISTOU? UMA PORÇÃO DE ças e, o mais importante de tudo, são AMIGOS”, reforçando a idéia de que, felizes com os amigos que têm. quanto mais nos empenharmos em tornar as pessoas ao nosso redor felizes, Esboço do Jogo mais felizes seremos também. Cartas amarelas (16), com situações A idéia inicial era a de que empr estás- ilustradas e descritas como o exemplo semos o jogo para as outras turmas joga- abaixo: rem. No entanto, chegamos à conclusão de que talvez esse jogo não fizesse muito Você debochou de um colega e ele Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi 65
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 começou a chorar. Você vai ter que dar que já têm do assunto, o que desejam um jeito nisso. Volte uma casa. saber e aprender e, ainda, como vão Cartas vermelhas (16), com situações fazer para que isso aconteça. ilustradas e descritas como o exemplo: Normalmente, fazemos uma listagem por Você elogiou o cabelo de uma amiga escrito dos itens citados pelo grupo para e ela ficou muito feliz. Jogue outra vez. ordenarmos as idéias; também seleciona- 5 PEÕES COLORIDOS (tampinhas de mos os recursos que serão utilizados. amaciante) 5 PEQUENOS CRACHÁS DA COR DE A listagem sobre “o que já sabemos”, CADA PEÃO (para identificar as equipes) “o que queremos saber” e “como vamos 1 DADO GRANDE COM NÚMEROS fazer” além de servir de base para o , DE 1 A 6 planejamento das atividades (individuais, 1 TRILHA (contendo cenas dos livros em pequenos e grande grupo) e da distri- utilizados, para ilustração) buição do tempo, é também o momento da avaliação inicial. Esse momento servirá, Já com bebês, os temas são posteriormente, como parâmetro da avalia- resultado basicamente da observação ção final do projeto. Não esquecendo que que você realiza no seu grupo e de cabe a nós “enlaçarmos” os temas aos cada criança individualmente. Por isso, objetivos gerais previstos para o semestre você deve estar muito atenta às mani- ou o ano e igualmente prever possíveis festações e reações para melhor assuntos que poderão ser desenvolvidos. interpretá-las, lembrando sempre o quanto é importante a organização de Aprendizagem do educador um ambiente estruturado de modo a e das crianças desafiar a exploração do espaço e dos Ensinando também se aprende (em materiais. Um exemplo poderia ser todos os sentidos). Então, ao elegermos sobre a alimentação dos bebês. Ofere- um tema, devemos nos atualizar em cer papinhas geladas e quentes, relação a ele e, inúmeras vezes, aprende- alimentos doces e salgados, registrando mos mesmo! Principalmente entre crian- através de fotografias as expressões ças a partir de 4 anos, é comum surgirem faciais das crianças. conteúdos que exigem de nossa parte um aprofundamento maior em relação a ele, Organização das atividades mesmo porque cabe a nós ampliar os É quando, após a escolha do tema, conhecimentos do grupo e fazer-lhe você organiza situações em que as novas propostas de trabalho. Um exem- crianças manifestam o conhecimento plo que ilustra esse aspecto foi o interes- 66
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância se de um grupo de crianças sobre o dia que as crianças realizam, por isso em que aconteceu um eclipse solar. O devemos manter os pais informados sobre interesse foi tamanho, que obrigou a os projetos em andamento, seja através de educadora a estudar muito sobre os bilhetes, cartazes, avisos na porta ou astros do sistema solar e seus fenômenos. reuniões. Coleta de informações Materiais É realizada por todos, isto é, você, as Lembremo-nos de que os materiais crianças e os pais. Como o título sugere, precisam estar acessíveis às crianças e o é o momento de ir em busca das infor- espaço organizado para elas e por nós. mações que ampliarão os conhecimen- Devemos estar disponíveis como apoio tos sobre o assunto em foco. As fontes nesse ambiente de pesquisa. Registrar diversas não somente enriquecem, co- por escrito as situações é necessário, mo também, através de suas diferentes porque os registros orientam o que linguagens, possibilitam atingir os esti- devemos selecionar e eleger como mais los de aprender de cada criança. Então, significativo para realizar. livros variados, jornais, revistas, passei- No berçário, podemos dizer que os os orientados, observações, entrevistas, materiais e o ambiente são os “informan- exploração de materiais e experiências tes”, pois são fonte de socialização e concretas são algumas fontes que bus- camos. É interessante, dentro do possível, en- volver os pais, que por sinal muito nos auxiliam no desenvolvimento dos proje- tos. Além de ser muito bom para a crian- ça envolver-se junto com a família, os pais são ótimos informantes, e as infor- mações chegam variadas, tanto em lin- guagem como na maneira de exposição. Essa alternativa igualmente proporciona Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi uma aproximação maior da família com a instituição, com a educadora, com as demais crianças e respectivas famílias do grupo de seu filho. Sabemos sobre a im- portância das famílias acompanharem o 67
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 estimulação dos bebês. O ambiente deve E o pinto foi substituído, posteriormente, ser visto como “educador auxiliar”, pois, pela Tuca (uma caturrita) e pelo Teteco (um se bem estruturado, pode ser um provo- canário) que acompanharam as peripécias cador de aprendizagens com suas almo- daquele grupo até o fim do ano! fadas, cestas de brinquedos, bolas, jogos de manipulação, brinquedos de constru- Sistematização das informações ção e tantos outros materiais já apresen- É realizada na apresentação do mate- tados, bem como a organização do rial coletado e no momento em que são tempo e do espaço. O registro escrito aqui feitas as relações e comparações entre as também existe como auxílio na reflexão informações. É quando realmente as sobre os fazeres. “O Prazer do Banho”, coisas acontecem com todos tendo “Rolando com Garrafas”, “Na Caixa de participação ativa em esforço coope- Areia” são alguns dos exemplos de rativo. Há diálogo e interações, com projetos alegres que podemos vivenciar. fazeres individuais e coletivos. A partir dos 3 anos, muitas vezes as Você deve preocupar-se em utilizar crianças querem “estudar” o que já conhe- diferentes linguagens (desenho, modela- cem, cabendo à educadora auxiliá-las, gem, pintura) e organizar as informações criando possibilidades de conhecerem mais de tal forma que apresentem variedade de sobre o assunto e organizando um ambiente enfoque. Assim, são construídos jogos, que estimule novos conhecimentos. Assim, textos coletivos, teatros e dramatizações, quando Vitória (3a3m) levou para a sala o maquetes, livros, esculturas e demais pintinho que havia ganho da madrinha, foi sugestões combinadas com e no grupo. É uma festa. O bichinho passou a tarde com o o momento de entrarem em cena também grupo (a primeira de muitas!). As crianças vocabulário específico, experiências cientí- sabiam algumas “coisas de pinto: que ele é ficas, formas geométricas, classificações e filho da galinha, não tem mão, tem penas, a seriações, números, etc. boca é um bico e ele fica grande, do tamanho da galinha e do galo”. A história “O Rei Bigodeira e a Sua Banheira” suscitou grande curiosidade em A visita do pintinho resultou, a partir uma turma de crianças entre 5 e 6 anos, das hipóteses e perguntas surgidas desde que ficou muito intrigada com “aquele então (aliadas à observação da educadora tempo dos castelos em que não existia e suas interferências), no projeto “Tem torneira, as pessoas usavam roupas goza- pena, bico e bota ovo: que bicho é esse?”. 68
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância das” e, ainda por cima, “dormiam todas tizações. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi juntas numa camona”! Culminância do projeto Então, no decorrer do projeto “No É o momento em que as crianças, tempo dos castelos”, foram construídos utilizando as diferentes linguagens, dominós e jogos de memória, com armas e expõem o que foi construído no decorrer utensílios da época, uma linha de tempo no projeto. No exemplo anterior, o teatro com gráficos e atividades comparativas realizado pelas crianças foi a atividade em com o nosso tempo. Durante o processo, o que, utilizando a linguagem dramática, o grupo foi construindo um castelo medie- grupo recontou e narrou a aprendizagem val, utilizando caixas de papelão em significativa. É muito importante para as diferentes tamanhos e sucatas as mais crianças que elas expressem e divulguem o diversas (imagine os conceitos e relações que estão fazendo e aprendendo. envolvidos nessa atividade!), que foi na É também chegada a hora da avaliação culminância do projeto, o cenário do do trabalho, realizada a partir da situação teatro encenado pelas crianças. As rou- inicial de “o que sabemos...?” É quando pas de época utilizadas pelos “artistas” comparamos a proposta e os resultados foram confeccionadas por eles utilizando obtidos, as combinações realizadas – ou jornal, papéis e caixas. Um projeto e tanto! não – e o porquê. Daí podem surgir novas O educador deve auxiliar acompa- perguntas ou questões que darão nhando todas as atividades realizadas, origem a novos projetos. ajudando o grupo de crianças a registrar suas tarefas e conquistas, e, quando necessário, Foto: Fantoches do Programa ADULTOS e CRIANÇAS CRIATIVAS fazer interme- diações, novas pes- quisas e sistema- 69
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Como vimos até aqui, alguns critérios Mediação do educador na são importantes nesse processo. Assim, aprendizagem da criança todo projeto deve: O educador, no seu papel de instigador e organizador de um ambien- • ser do interesse das crianças te onde a fruição é presença constante, e da educadora; deve promover situações nas quais as • partir do que o grupo já sabe; crianças sintam-se desafiadas pelo novo • respeitar as diferenças individuais; e deliciem-se no descobrir, no conhecer. • apresentar experiências diversificadas; • estimular a participação, a Promover – nesse contexto – signifi- cooperação e a criatividade; ca: facilitar, acompanhar, possibilitar, • ser rico em atividades, tanto livres compartilhar, problematizar, envolver, quanto dirigidas; reconhecer, comunicar, expressar, entu- • estabelecer relações compreensíveis siasmar. É o que você, como mediadora, para as crianças; realiza cotidianamente junto às suas • contemplar e ampliar conhecimentos, crianças e que, de forma explícita ou experiências, atitudes e habilidades. implícita, está demonstrado em vários textos deste estudo. Por isso, você deve ser como um guia, companheira experiente, atenta e disponível. Sabendo escutar e estimulan- Devemos abrir caminhos: do a expressão, propiciando igualmente Novos e flexíveis, um clima democrático, onde todos Através dos quais talvez só participam e são valorizados, porque transitemos uma única vez; vistos como competentes e capazes. Novos e sensíveis, Que precedam sempre as Como organizadora da ação pedagó- cartilhas pré-estabelecidas; gica, você deve estar atenta em “entrela- Novos e vivenciais, çar” os assuntos discutidos a outros Abertos ao holístico e à temas e à realidade. Devem ser também realidade da vida considerados o papel das diferenças Francisco Gutierrez – Ecopedagogia e cidadania planetária culturais, bem como os hábitos e costu- Sem cartilhas padronizadas, sem ativida- mes dos diferentes grupos humanos. des demasiadamente orientadas, sem trei- nos que compartimentalizam: assim norteia-se o fazer pedagógico na instituição infantil. Aí reina o pensamento e a ação, um 70
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância lugar alegre para a criança viver, pensar, criar situações de mediação entre as crian- aprender e agir. Dessa maneira, desenvolve- ças, as suas emoções e o seu ambiente. se o hábito do pensamento criativo e inde- pendente, passaporte do fazer autônomo e A criança deve ser estimulada a participar ativamente de atividades não-reprodutoras, da capacidade de enfrentar situações desafi- mas que lhe são significativas porque partem adoras ou conflitantes. do seu interesse e têm a sua efetiva contribui- Saber fazer alguma coisa é, antes de ção, necessitando de sua iniciativa e de es- mais nada, um processo gradativo de tratégias por ela elaboradas. evolução do pensamento, e não simples- A sociedade exige, a cada dia, não mais mente aprender a memorizar uma informa- somente a técnica, mas também habilida- ção, dar a resposta certa ou fazer como o des e alternativas. Assim, é necessário opor- modelo. Por isso, você deve ter um com- tunizar a expressão e o fazer infantil nas portamento interrogativo e, habitualmente, suas diferentes linguagens, para que, então, questionar à criança: “porque você fez a criança conviva com a diferença, com o assim?”, “Tem outro jeito?”, “Como você antagônico e confronte-se consigo mesma. pensou para resolver isso?”. É importante Dando ênfase à atividade, à ação mais do que à cópia de mode- los, a educação infantil conduz a criança para ide- alizar e con- cretizar seus objetivos, testar suas hipóteses, elaborar seu Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF brincar, opinar, aceitar ou rejei- tar, confron- tando-se com seus iguais. En- fim, propicia-lhe 71
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 ser agente ativa do seu ato de aprender e mento de reciprocidade. É o momento de fazer. dos jogos em equipe, das atividades grupais em todas as áreas: artes, teatro, Como já foi visto no estudo do tema elaboração de textos coletivos, diálogos, sobre o desenvolvimento da criança, por desafios matemáticos... Enfim, o cotidi- ser o egocentrismo – inicialmente mar- ano infantil deve permitir e promover cante e com gradativo decréscimo – constantemente situações em que a cola- característica que envolve o pensamento boração criança/criança se faz necessária e a ação da criança, o aprender a viver e a presença do outro, significativa. em grupo é desafio constante na educação infantil. Para que esse ambiente se estabeleça na sua plenitude, o planejamento também Quando bem pequena, até por volta deve ser participativo e, como a própria de 3 a 4 anos, a incapacidade de se co- nomenclatura sugere, é um planejar de locar no lugar do outro dificulta à crian- todos, realizado em conjunto. Nesse ça realizar a integração com os iguais. momento, você e as crianças projetam Como explica Jean Piaget, o indivíduo, coletivamente o quê, o como e o quando no seu espírito egocêntrico, assimila para dos fazeres. Também com a participação si e sob seu ponto de vista. Assim, as de todos, são estabelecidas as regras e as ações e os pensamentos são centrados combinações a serem seguidas no transcor- no eu para suprir necessidades próprias. rer das brincadeiras e atividades. Nesse contexto, você cria situações de Dessa maneira, a educação infantil jogos, brincadeiras e atividades em con- está não só estimulando, mas principal- junto. Mesmo sabedora de que o inter- mente propiciando o desenvolvimento câmbio social não se estabelece de objetivos comuns. Somente assim as efetivamente, procure constantemente crianças vivenciam efetivamente a im- oferecer situações grupais. portância da cooperação, em que não a rivalidade, mas sim o objetivo comum Em torno dos 5 anos, nota-se sensivel- seja priorizado. Cabe esclarecer que, ao mente o declínio egocêntrico e, nesse priorizar o grupo, não estamos estimu- momento, o relacionamento da criança lando a uniformidade. com companheiros é fundamental. A cooperação inicia-se, bem como o senti- O verdadeiro sentido da educação infantil deve ser o de contribuir para o desenvolvimento da criança, a fim de que 72
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância realize todas as capacidades humanas instrumentalizada a facilitar e encorajar características do período em que está a criança a descobrir-se, a pensar e agir vivendo. Na verdade, o ser humano é uma com autonomia nos mais diversos tipos totalidade, não sendo possível separar o de situações. aspecto sócio-emocional do físico e do cognitivo. Do contrário, ao privilegiarmos Tendo a autonomia como finalidade, a um, comprometeríamos os demais. educação infantil deve promover a unidade dessa criança. Percebendo-se parte de uma A mediação da educadora deve criar e coletividade, com direitos e deveres, num promover as condições mais adequadas processo de cooperação, socializando-se e para o desenvolvimento global das crianças. descentrando o mundo ao redor de si, a É o espaço de ser criança, de brincar, de criança está desenvolvendo-se como um ser descobrir e conhecer o mundo através do livre, independente, com determinação lúdico, de se relacionar com o ambiente, individual, intelectual e social. com as pessoas e com os iguais. Referências Bibliográficas A criança precisa ser encorajada a BEE, Helen; SANDRA, L.; MITCHELL, K. A pessoa em desenvol- verbalizar suas idéias, a estabelecer vimento. São Paulo: Editora Harper & Row do Brasil Ltda, 1984. todos os tipos de relações, a descobrir- BRASIL. Ministério da Educação. Professor da pré-escola. Rio de Janeiro: 1991, v. 1, v. 2. se como ser único. Deve ser vista indivi- BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Referencial dualmente, tendo sua liberdade curricular para a educação Infantil. Secretaria de Educação Fundamental. Volumes I, II e III. Brasília: SEF, 1998. garantida na livre escolha de atividades, CUNHA, Suzana Rangel Vieira da. Cor, som e movimento: a bem como nos seus posicionamentos. expressão plástica, musical e dramática no cotidiano das crianças. Porto Alegre: Mediação, 1999. A redução do poder da educadora, FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. nessas circunstâncias, não significa GARDNER, Howard. A criança pré-escolar: como pensa e como a passividade; ao contrário, o comprome- escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artmed, 1994. timento com as crianças enfatiza o seu GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Secretaria de Educação. Rio Grande do Sul. Educação para crescer. Projeto papel mediador. Como organizadora de Melhoria da qualidade no ensino. Educação pré-escolar. Da um ambiente adequado às necessidades reflexão à construção. 1993. OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação infantil: fundamentos e e exigências infantis e intercedendo métodos. Coleção Docência em Formação. São Paulo: Cortez, com experiências que contemplem um 2002. desenvolvimento integrado, você estará PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação. Porto Alegre. Cadernos pedagógicos n. 15. Proposta pedagógica da educação infantil. Porto Alegre, 1999. ROSSETI-FERREIRA, Maria Clotilde et al. Os fazeres na educação infantil. São Paulo: Cortez Editora, 1998. 73
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo significativo. Registre palavras, gestos, sentimentos, conceitos, frases, etc. A cada dia, escolha momentos diferen- e Aprofu ndament ciados da rotina para observar e regis- o trar. Após duas semanas (no mínimo) Maria Helena Lopes de observação e registro sistemático, releia seus escritos. Comente quais O fundamento principal da foram as idéias que surgiram, a partir experiência baseada na prática, da reflexão que o registro possibilita. na teoria e na pesquisa é a imagem de uma criança rica, • Registre suas observações mais forte, poderosa ... significativas, escrevendo em seu É uma afirmação que se caderno. Converse com os colegas contrapõe à tendência de sobre elas. realçar as necessidades, as fraquezas, os temores • O planejamento coletivo favorece das crianças e a calar, o desenvolvimento da autonomia. A lamentavelmente, suas meditação da educadora é fundamen- potencialidades e direitos. tal nesse processo, quando ajuda as Giordana Rabitt – À Procura da Dimensão Perdida: crianças no estabelecimento de regras uma escola de infância de Reggio Emília e no encaminhamento de combinações O registro das observações das atividades. Como tem sido com sua possibilita um excelente começo para turma o exercício de combinar juntos o a realização de projetos de estudos que irão fazer? Faça um relato escrito Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi com as crianças. Através dela, você de uma atividade realizada. perceberá os interesses das crianças. • Assista com seus colegas Mantenha um caderno aos seguintes vídeos: e um lápis sempre com você. – E Assim Nasce um Projeto. Escreva tudo o que lhe pareça – Vamos Viajar na Vassoura da Bruxa? 74
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância roposta Pedagógica e no qual refletimos, entre outros temas, sobre a saúde da criança, a integração da Relações Centro Infantil, instituição infantil, o modo como Família e Comunidade organizamos tempo, espaço e fazeres, sobre os indissociáveis educar/cuidar. Elizabeth Amorim e Maria Helena Lopes Pois bem, todos esses conteúdos e Escrever o que se vive reflexões decorrentes nos levam a con- é coisa de pouca ou cepções sobre a criança e sobre o educar, nenhuma graça. enfim, nos trazem uma visão de mundo, O desafio está em viver o de homem, de educação e de sociedade. que se escreve. E são esses preceitos que norteiam a Eduardo Galeano – A escola do mundo às avessas proposta pedagógica de uma instituição Discutimos ao longo deste estudo, infantil, que se configura como um instru- através da interação na Mesa Educadora, mento de apoio à organização da ação as leituras dos quatro cadernos de institucional e, principalmente, à atuação estudos e as reflexões nas atividades de dos educadores. Portanto, é igualmente aprofundamento. Sem dúvida, aprende- possibilidade de crescimento do Centro mos, nos inquietamos, inúmeras pergun- Infantil, bem como de todos que dele tas surgiram e algumas ficaram sem respostas. É assim o cami- nho de quem quer seguir sempre adiante, vivendo e escrevendo a própria história. Discutimos as concepções de infância, o desenvolvimento físico e emocional da criança, como aprende, como experiencia o meio, os objetos Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi e as situações. Falamos tam- bém sobre o perfil do educa- dor, sobre a legislação da educação infantil e as políticas sociais relativas à infância. O cotidiano nos centros infantis é o foco deste caderno, 75
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 participam. Apresenta ainda a política cia de as propostas pedagógicas promo- pública vigente no âmbito municipal, verem em suas práticas educativas e de estadual e federal. cuidados o atendimento aos aspectos do desenvolvimento físico, emocional, Em abril de 1999, o Conselho Nacio- afetivo, cognitivo e social das crianças. nal de Educação fixou as Diretrizes Curriculares em Nível Nacional para a Constitui-se também em diretrizes a Educação Infantil. As DCN, como são interação entre as diversas áreas do chamadas, são oficias e têm força de lei. conhecimento, através de atividades Elas definem diretrizes para a elaboração espontâneas ou dirigidas, devendo ex- das propostas pedagógicas das creches e pressar objetivos e garantindo, assim, a pré-escolas. intencionalidade das ações na Educação Infantil e a constituição de conhecimentos. A primeira delas diz respeito aos fundamentos da Educação Infantil, O processo de avaliação tem desta- desdobrando-se em: que nas DCN, afirmando a importância do registro nas etapas, “sem o objetivo – Princípios éticos da autonomia, do de promoção, mesmo para o ensino respeito, da solidariedade e do respeito fundamental”, conforme a Lei nº 9.394/ ao bem comum. 96, seção II, artigo 31. – Princípios políticos dos direitos e O Referencial Curricular Nacional deveres da cidadania, da criticidade e do para a Educação Infantil (RCNEI) foi respeito à ordem democrática. publicado pelo Ministério de Educação, – Princípios estéticos da sensibilidade, em 1988, é consentâneo com as DCN e da criatividade, da ludicidade e da diver- tem como finalidade apresentar subsídios sidade de manifestações artísticas e para a organização de propostas culturais. pedagógicas. É leitura necessária a todos os educadores, porém não deve ser As instituições de Educação Infantil encarado como uma orientação única a devem conviver com as diversas identi- ser seguida, mas como subsídio para a dades das crianças e de suas famílias, construção de propostas pedagógicas. acatando as diversidades étnicas, religiosas, econômicas, de gênero ou Quem planeja, programa e projeta necessidades especiais. pedagogicamente está elaborando um roteiro de interações com múltiplas Outra diretriz aponta para a importân- experiências significativas para as crian- 76
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância ças. Falamos aqui em proposta metodologia utilizada. Sabemos que (pedagógica) não no sentido de nenhuma prática é neutra, pois, determinação, “tipo fôrma de gelo onde explicitamente ou não, está atrelada a os cubinhos saem todos iguais”; ao princípios que norteiam os objetivos. contrário, tratamos proposta como algo Algumas formas de organização da flexível, que permite adequa- ções, reformulações, avanços e retrocessos, pois pressupõe um olhar atento sobre a realidade. Sintetizando, afirmamos que uma proposta pedagógica: • é um caminho construído Foto: Sebastião Barbosa cotidianamente; • contempla a história da instituição e sua função; • não é modelo pronto a ser copiado na íntegra; proposta pedagógica são as seguintes: • respeita fatores sociais e culturais, promovendo a autonomia da conquista e Áreas de Desenvolvimento da cooperação; Contemplam os aspectos social- • envolve toda a comunidade escolar afetivo, psicomotor e cognitivo. A crian- na sua construção; ça é caracterizada, então, na perspectiva • é parte de uma política pública, da psicologia do desenvolvimento e a contendo um projeto político de sociedade;preocupação volta-se para as característi- • deve facilitar aos educadores o cas relativas à faixa etária de 0 a 6 anos. acesso ao conhecimento na área da Os objetivos são organizados conside- educação e da cultura em geral. rando e respeitando cada área do desen- volvimento infantil. Por tratar-se do Assim, observamos várias maneiras de desenvolvimento da criança, a orienta- organizar uma proposta pedagógica que, ção, o parâmetro do enfoque é um de- repetimos, contém os pressupostos (idéias senvolvimento ideal, para uma criança e conceitos) que embasam a ação pe- igualmente ideal! dagógica, bem como especifica a 77
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Temas Geradores ções, pois partem de uma leitura atenta São o ponto de partida e os do grupo. Para tanto, é urgente que os articuladores das atividades. O tema é educadores eduquem os ouvidos e visto como um fio condutor dos fazeres reaprendam a olhar a criança, o grupo e educativos em que há preocupação com suas manifestações. o interesse da criança. No entanto, a escolha do tema não pode ser um Vêm crescendo consideravelmente as pretexto para a listagem de atividades propostas pedagógicas que contemplam repetidas mecanicamente, em que não os projetos como eixo condutor da sua são priorizados efetivamente os conheci- organização. Pela sua abrangência, mentos envolvidos, as hipóteses das podemos trabalhar com projetos em crianças, a exploração e a pesquisa. qualquer grupo de crianças de 0 a 6 Como, por exemplo, no tema “O índio”, anos, é claro, considerando a faixa em que as crianças recortam índios, mo- etária, os interesses e as características delam instrumentos indígenas, ouvem de cada grupo. histórias sobre índios, desenham índios, Esse encaminhamento está focado e etc., sem uma articulação maior, sem melhor discutido neste caderno sob o desafios, sem que efetivamente novos título Pedagogia de Projetos; no entanto, conhecimentos sejam construídos. julgamos pertinente mais uma considera- Áreas de Conhecimento ção final. Parece-nos que os projetos Língua Portuguesa, Matemática, atendem melhor às necessidades do Ciências Sociais e Ciências Naturais, nosso tempo, já que consideram a reali- cujo principal objetivo é o contato da dade sociocultural das crianças, bem criança com os conhecimentos acumula- como o desenvolvimento e as caracterís- dos pela humanidade, o que proporciona ticas próprias do momento em que estão desenvolvimento, pois a criança está vivendo, disponibilizando os conheci- adquirindo e também produzindo novos mentos do mundo físico e social. conhecimentos. No entanto, esse Seja qual for o enfoque de uma enfoque pode transformar-se em proposta pedagógica, ela deve trazer a “conteudista”, excluindo, assim, as idéia de que o conhecimento não é especificidades do atendimento infantil. “transmitido” à criança, tampouco Projetos de Estudo rigidamente sistematizado. A educação Trazem uma idéia de horizonte, de infantil não possui (felizmente) linhas gerais que podem, no processo, “conteúdos” nem programas a cumprir; receber novos contornos, maiores defini- por isso, tem o privilégio da autonomia 78
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância para – ao mesmo tempo em que focaliza pando de relações sociais num processo alguns temas, aprofundando-os de acor- psicológico, social, cultural e histórico. do com o nível e interesse do grupo – Assim, o lugar dos pequenos deve ser “oferecer o mundo” para as crianças, um estimulante da imaginação infantil, rico “mundo” que deve ser vivido por elas de em desafios, que priorizem não a res- maneira a propiciar-lhes ricas e diversifi- posta, mas sim os caminhos percorridos cadas experiências. na busca de soluções. Por que me impões o que sabes No cotidiano farto em experiências se eu quero aprender diversificadas – que incluem, muitas o desconhecido vezes em uma mesma proposta, exigên- e ser forte cias de várias áreas –, a criança vivencia o em minha própria descoberta? prazer do desafio do aprender, o que Humberto Maturana certamente lhe causará marcas indeléveis. A criança desenvolve-se no seu Nesse contexto, o erro não é sinônimo aspecto social, emocional e intelectual de falha, porém interpretado como uma pela interação com o mundo, partici- etapa do processo, uma vez que “as Foto: Sebastião Barbosa 79
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 idéias erradas das crianças não são erros Se desejamos uma proposta pedagógica que que podemos corrigir, mas relações que realmente contemple tal relação, devemos elas coordenarão cognitivamente e de articular meios para que isso aconteça. forma gradativa ao longo de seu desenvolvimento”. A família representa um papel muito importante para qualquer indivíduo, pois é Sem o medo do erro, com um ambiente através dessas relações de troca que as pessoas rico em situações de descobertas, a criança, vão descobrindo o mundo ao seu redor. curiosa por natureza, sente-se livre para ousar na busca de melhor compreender o Esse mundo é representado pela mundo que a rodeia. E, o que é principal, vizinhança, pela igreja, pelos locais de aprendendo a aprender com prazer e diversão que a pessoa freqüenta, enfim, sentindo-se, acima de tudo, capaz. pela comunidade onde vive. Centro infantil, família e comunidade É importante que saibamos mais sobre A relação entre a comunidade e o “nossas” crianças e suas famílias – isso vai centro infantil deve ser alicerçada em além da entrevista com os pais e das confiança mútua. conversas ocasionais. Encontramos crianças das mais diferentes origens Os educadores têm importante papel familiares e, conseqüentemente, com os a esse respeito. De fato, devem ter a mais variados valores, crenças, costumes e responsabilidade de planejar sistemática hábitos. Quando se entendem essas e deliberadamente para que isso ocorra, diversidades, aprende-se a respeitar mais o propiciando uma atmosfera agradável e modo de vida das crianças, sabendo que é amigável no Centro Infantil, de modo na família que se inicia a sua socialização. que o saber dos pais e de outros Esse processo terá continuidade na representantes da comunidade seja Educação Infantil. Então, deve ser feito valorizado. um estudo exploratório para efetivamente sabermos os tipos e as O centro infantil não é um espaço condições de moradia e o número de hermeticamente fechado para o mundo, pessoas que ali habitam. O nível de nem – como se ilha fosse – isolado. Ora, escolaridade dos pais, a profissão e a se vemos a criança inserida em um contexto, renda familiar permitem contatar as se consideramos sua história e suas diferentes classes sociais que conosco interações com o meio que a rodeia, como convivem; é interessante sabermos não vamos nós estabelecer esse contato e também se há outras atividades (remu- essa integração? neradas ou não) entre os adultos. 80
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Fundamental é o conhecimento da inseridas diferentes origens, religiões, raças, constituição familiar, com quem vive a tipos de trabalho, etc., motivo pelo qual é criança (pais, avós, só pai ou só mãe, necessário investigar igualmente com as primeiro casamento, etc.), bem como o crianças, através de conversas, sobre seus relacionamento adultos/crianças, como hábitos e costumes, seus amigos, etc. agem nos conflitos, sanções e castigos, Também é importante realizar com elas manifestações afetivas, cuidados relati- passeios nos espaços sociais, como lojas, vos à saúde e higiene, “ajudas” das praças, igrejas, áreas de lazer e visitas crianças nas tarefas domésticas e mes- onde a produção é local em relação a mo fora de casa. Assim estaremos mais artesanato, produtos alimentícios e tudo o perto de quem são nossas crianças e de mais que a sua comunidade produzir. qual é seu contexto de vida. As portas do Centro Infantil devem As características gerais de uma comuni- estar permanentemente abertas para dade são parecidas; no entanto, ali estão todas as famílias, pois assim elas ficam Foto: Sebastião Barbosa 81
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 sabendo o que acontece nos diversos do lugar: como era, o que havia, histórias e momentos, como funciona a instituição e casos acontecidos; um jovem que toque e as pessoas aí envolvidas. Chamar as cante para/com as crianças. Podemos famílias não somente para reuniões, mas receber a enfermeira, o dentista, o sapatei- também para conversas grupais sobre ro, a florista, o artesão... como as crianças aprendem, a importân- cia do brincar, as características infantis, O Centro Infantil, com o objetivo de mostram as produções das crianças e integrar-se à comunidade, promove ou demais assuntos que você considerar participa de ações e campanhas conjuntas interessante para o seu grupo de famílias. e, mesmo individualmente, pode lançar Além desses momentos, a presença dos algum projeto que venha atender alguma pais dentro da instituição também é impor- necessidade local. Por exemplo: campa- tante para que haja integração com as nhas de seleção e aproveitamento de lixo, crianças na realização de algumas ativida- mobilização junto a órgãos de saúde, etc. des com elas, seja jogando, brincando ou Com certeza, você e a sua instituição “ensinando” algo como jogar pião, construir infantil estão inseridos, participando uma pandorga... porque estão ouvindo e vendo as crian- Lembramos que estes são hábitos e ças, a família e a comunidade e, acima de comportamentos que não se estabelecem tudo, estão cumprindo o papel e a função do dia para a noite; é um processo que se social que lhes cabe. constrói no coletivo gradativamente. Inici- A aproximação dos pais à escola almente, talvez você não obtenha resulta- depende muito de uma atividade aberta e dos magníficos, mas não esmoreça, seja receptiva a eles. Essa aproximação é uma otimista, gratificando-se com aqueles que aprendizagem e um trabalho de conquis- responderam ao chamado, e não lamente- ta; irá acontecendo aos poucos, à medida se dos ausentes. Um dia, eles virão! que os pais forem compreendendo o Uma das formas de promover a aproxi- trabalho, vendo que suas opiniões são mação com a comunidade é trazer para o aceitas e que sua presença é necessária. Centro Infantil pessoas que possam contri- O educador tem a importante tarefa de buir no processo de formação das crianças: integrar seu conhecimento, os valores que é necessário repassar a história do bairro. sustentam o bem-estar da comunidade por O conhecimento pode ser trazido por um intermédio da proposta pedagógica. idoso que conte sobre os “outros tempos” 82
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância construção de uma proposta pedagógica Há um instante mágico na que contemple os aspectos políticos, vida em que, sociais e humanos. Nem mesmo sabendo por que, Ficamos envolvidos num jogo. As atualizações através de reuniões, Num jogo de ensinar. palestras, visitas, sessões de filme e vídeos Fazemos parcerias. para educadores e a participação em even- Não só com os outros, tos deve propiciar o compartilhamento de Mas também parcerias internas conhecimentos teóricos e práticos. Esse nos propondo desafios. Porém, só ficamos nesse estado processo possibilita o debate de idéias, que de total cumplicidade com o saber deverá culminar na construção de uma se este tem sentido para nós. proposta pedagógica que contemple um Caso contrário, caminho, uma trilha na qual todos formem somos apenas espectadores o coletivo, criando condições para que o do saber do outro. trabalho seja desenvolvido, compreendido e Martins, Picosque & Guerra assumido por todos. Referências Bibliográficas A formação contínua dos educadores BARBOSA, Mª Carmen; DORNELLES, Leni Vieira. As instituições A formação continuada deve ser de educação infantil e a comunidade. In: CRAIDY, Carmen planejada pela gestão institucional, M.(Org.). Convivendo com crianças de 0 a 6 anos. Cadernos de Educação Infantil. V.5. Porto Alegre: Mediação,1998. ocorrendo de forma sistemática. EDUCAÇÃO: Um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO. Comissão Internacional sobre Educação para o Século A proposta de um trabalho efetivamente XXI. São Paulo: Cortez, MEC, UNESCO, 1999. coletivo não pode prescindir de momentos FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. em que todos, crianças, educadores, GARDNER, Howard. A criança pré-escolar: como pensa e como a familiares e comunidade, possam escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artmed,1994. explicitar suas diferenças e expectativas GUTIERRES, Francisco; PRADO, Cruz. Ecopedagogia e cidadania planetária. São Paulo: Cortez, 1999. de modo democrático e pluralista. KRAMER, Sonia (org.). Com a pré-escola nas mãos: uma alternativa curricular para a educação infantil. 10. ed. São Paulo: Um cronograma destinado à Ática, 1997. formação deve possibilitar o encontro OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação infantil: fundamentos e método. Coleção Docência em Formação. São Paulo: Cortez, entre os educadores para a troca de 2002. idéias sobre prática, para estudo sobre os OSTETTO, Luciana E. (Org.). Encontros e encantamentos na educação infantil. São Paulo: Papirus, 2000. temas da Educação Infantil, para a PIAGET, Jean. O raciocínio da criança. Rio de Janeiro: Record, organização e o planejamento da rotina, 1967. do tempo e das atividades, para a 83
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo e O processo de construção da proposta Aprofundamento pedagógica implica também a conquista Maria Helena Lopes da autonomia e da cooperação, atendendo aos princípios básicos da cidadania, como: A prática pedagógica não é construída respeito, responsabilidade, formação de a partir de propostas pedagógicas escritas autoconceito. e prontas, mas da reflexão-ação de todos os sujeitos nela envolvidos: crianças, • A partir da leitura do texto Proposta educadores, famílias e comunidade. Pedagógica e das afirmativas acima: Toda proposta pedagógica é expressão – Comente com seus colegas, desta- de um projeto político e cultural e cando as idéias do texto que ilustram as reúne tanto bases teóricas quanto afirmativas. diretrizes práticas. – A capacitação dos educadores é um Toda proposta pedagógica expressa o direito e um dever. Analisando os seus “lugar de onde fala”, ou seja, os valores estudos e vivências na Mesa Educadora, que a constituem e a heterogeneidade reflita sobre os subsídios que os mesmos dos sujeitos envolvidos. lhe oportunizaram para a elaboração da proposta pedagógica no Centro Infantil. Faça um esquema sintetizado e rela- cionando seus es- tudos com a proposta pedagó- gica no seu Centro Infantil. Edward Hopper- O vagão com bancos, 1965 84
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância companhamento e Encontramos diferentes formas de demonstrar o acompanhamento das Avaliação das Crianças aprendizagens das crianças. Essas formas no Centro Infantil também mostram como a instituição considera o ato de ensinar e o ato de Elizabeth Amorim aprender. Portanto, se a avaliação é “O importante e bonito do mundo é isso: instrumento de controle e seleção que que as pessoas não estão sempre iguais, julga e exclui, ou se possui um caráter ainda não foram terminadas, mas que elas global e formativo, que realmente acom- vão sempre mudando. Afirmam panhe as ações das crianças através de desafirmam.” instrumentos variados. Guimarães Rosa Embora convivamos diariamente com A mensagem de Guimarães Rosa vem a avaliação, ela ainda é tema gerador de reforçar o papel da Educação Infantil, controvérsias. Diante disso, como então, através de diferentes e criativas aborda- no momento da avaliação, sentenciar gens, experiências e vivências, pro- cada criança através de fichas que porcionando ao educador e à criança possibilidades de uma ação educativa, voltadas ao respeito às diferenças, aos momentos de interação e à liberdade do ser e do pensar. Afirmamos de diferentes maneiras, nos quatro Cadernos de Estudos, que devemos oferecer condições à criança para educar-se e socializar-se de forma independente e autônoma, criando espaços para que se aproprie do processo de aprendizagem como sujeito de sua história. A educação atual exige uma avalia- ção como processo dinâmico, que leve Foto: Sebastião Barbosa em conta a realidade da criança com suas nuances, a realidade do Centro Infantil e seu contexto sociocultural. 85
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 classificam comportamentos, habilidades vez, etc.) ideais que devem ser alcançados. e desempenhos? Não lidamos com crianças ideais, mas reais, de carne e osso, com desejos, Uma das maneiras de avaliação ina- potenciais, habilidades e necessidades. dequada que ainda hoje encontramos Crianças que convivem diariamente em algumas instituições de Educação conosco, que devem ser entendidas para Infantil é a que indica o que foi (ou não) que possamos oferecer adequadas situa- alcançado pela criança, como neste ções de aprendizagem e que respondem exemplo que focaliza a área motora. diferentemente porque diferentes são. Habilidade/Atividades Sim Não Às vezes Encontramos também relatórios Sobe escadas alternando os pés escritos, chamados muitas vezes de pa- Pula com os pés juntos Caminha entre obstáculos receres descritivos, que vêm sendo cada Salta em pequena distância vez mais utilizados por objetivarem, co- Pára a um sinal dado mo o próprio nome sugere, descrever as ações da criança. No entanto, observa- A visão de “que a criança seja capaz mos “descrições”, como o pequeno tre- de”, exemplificada parcialmente acima, cho retirado de uma delas que a seguir nada mais é do que uma listagem de transcrevemos: conteúdos (nomear cores, identificar “José participa das atividades artísticas, animais, etc.) e de comportamentos e mas ainda não consegue pintar respeitando atitudes (repartir brinquedos, esperar sua limites. Utiliza a tesoura, embora nem sempre consiga segurá- la adequada- mente, o que dificulta seus recortes. Perma- nece por bom tempo dese- nhando e relaci- Foto: Sebastião Barbosa ona as cores usadas nas representações com a realidade. 86
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Conta suas novidades utilizando lingua- dos diferentes momentos de aprendiza- gem clara e lógica, mas ainda encontra gem, que a criança efetivamente mostra dificuldade em transmitir recados”. sua compreensão do mundo e as rela- ções que estabelece. Como sentar na frente Pareceres descritivos como este nada dos bebês com uma lista contendo ativida- mais são do que uma “tradução” em des programadas para determinado perío- palavras das cruzinhas que indicam se a do a fim de verificar o que alcançaram? criança alcançou, não alcançou ou alcançou em parte os objetivos propos- Como processo, a avaliação não “com- tos. É uma clara demonstração de que as bina” com um planejamento rígido, cujas crianças não são vistas como diferentes atividades são pré-estabelecidas porque os entre si porque têm histórias diferentes, temas também o são, nem com a rotina pois espera-se que obtenham idênticos inflexível em que você a tudo comanda. resultados: alcançar um mesmo objetivo Devemos, pois, ter a preocupação de em um mesmo período de tempo! considerar a identidade da criança que está Você já se deu conta das infinitas sendo avaliada e a identidade da educadora vezes em que ontem a criança não que trabalha com ela. Por isso, devem ser realizava e hoje já faz, apresentando, considerados o cotidiano da criança e a assim, superação em termos de desenvol- postura pedagógica do educador. vimento? É, é de pensar.... A avaliação não pode ser vista “como produto final” em que se verifica o que a criança conquistou, mas encarada como processo, e é no seu trans- Foto: Sebastião Barbosa curso, através 87
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Como mediadora das atividades, é Além disso, aparecem aí algumas somente compreendendo e observando a interferências e procedimentos efetuados criança que a educadora percebe a sua por você. Veja bem, não é uma descrição prática e realiza as adequações necessá- pura e simples, na qual são apontados rias para que as interações tenham quali- itens e situações esporádicas. Trata-se do dade. É a nossa interação com a criança registro de acompanhamento do que justifica a avaliação em educação processo de construção do conhecimen- infantil, e não certezas e julgamentos do to da criança, como por exemplo: que ela é, ou não, capaz de realizar. Maria mostra-se curiosa em relação Não somos nós os responsáveis por aos assuntos trabalhados. Contribui com oferecer às crianças oportunidades de sugestões e traz experiências vividas fora conhecer a si próprias e a realidade, do centro. Esses aspectos transparecem através de diversificadas atividades e em algumas de suas perguntas. experiências? Então... – Iara (educadora) quando é que a Utiliza-se o termo “avaliação media- gente vai fazer aquela maquete que a dora” exatamente por considerar que a gente combinou? relação educadora/criança parte do – Todos os ossos são brancos? processo, pois você está todos os dias com as crianças, observando, intervindo, Inicialmente, as atividades relaciona- mediando e pensando em como propor das aos movimentos corporais a inibem, ou realizar determinada atividade. pois preferia observar as corridas, os saltos, etc. Sem forçá-la, eu a estimulava E é justamente essa “história”, sua e a participar. Então, conforme foi sentindo- da criança, que irá compor o relatório se mais segura, passou a realizar algumas que você escreverá sobre cada criança, propostas. Hoje, é com entusiasmo que demonstrando o acompanhamento das participa dessas atividades. aprendizagens por ela construídas. Ilus- trará o dinâmico processo do desenvolvi- Relaciona-se de forma tranqüila com mento infantil, envolvendo igualmente o os amigos e, muitas vezes, dá idéias para cotidiano educadora/criança. brincadeiras ou construções, que são suas preferidas. No entanto, nem sempre Assim, os relatórios do processo aceita as dos colegas, sendo necessária a avaliativo permitem acompanhar a histó- minha interferência, explicando-lhe que ria da vida da criança no centro infantil, todos têm direitos a sugestões e que nem relatórios nos quais você escreve sobre sempre as nossas são as escolhidas. preferências, temperamentos e reações. 88
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Foto: Sebastião Barbosa Algumas mudanças nesta reação já são também como subsídios para novas observadas.[...] propostas. Devemos registrar ainda dados sobre as crianças individualmen- O trecho acima demonstra o acompa- te, suas reações e seus comportamentos nhamento da evolução da criança, suas frente a situações e vivências. Os escri- particularidades, e a presença da educa- tos são grandes aliados, pois, além da dora como observadora e mediadora do reflexão sobre as nossas ações, servem processo. Não há, em nenhum momen- de base e complemento quando elabo- to, a idéia do definitivo e acabado, ramos os relatórios de avaliação de tampouco comparações; ao contrário, cada criança. transparece a idéia de para onde a crian- ça se encaminha, demonstrando que Na prática do processo avaliativo, todo “agora” é resultado de conquistas devemos constantemente nos questionar passadas e anúncio de novas aquisições. sobre quais foram as conquistas da crian- ça, quais os caminhos que percorre ou Escritos diários, com anotações sobre percorreu, como reage frente a conflitos e acontecimentos do dia, oferecem o contrariedades, quais suas perguntas e acompanhamento das ações desenvolvi- comentários, como reage frente a dificulda- das junto com as crianças e servem 89
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 des em jogos e atividades que a desafiam, e Sabemos que o processo avaliativo é muitas outras perguntas são parte do nosso difícil porque é complexo, envolve cotidiano. Percebe-se assim que, para a muitas interrogações e impasses, idas e elaboração de um relatório de avaliação, é vindas. É uma construção gradativa, que extremamente necessário o acompanha- exige de nós dedicação e envolvimento. mento, através de anotações diárias sobre o que você considera relevante. Para que os relatórios de avaliação sejam significativos para você e para as Não podemos deixar de refletir aqui crianças, reafirmamos a necessidade de sobre as propostas que “não deram instrumentos variados (registro de obser- certo”. Explicamos: você apresenta cor- vação, diário de aula, anotações de cada das para as crianças com a intenção criança, etc.) e utilizados em diferentes (objetivos) de propor, através de uma situações para que possamos, efetiva- história (sessão historiada), que elas mente, acompanhar e entender a criança andem em cima das cordas esticadas no em suas variadas formas de interação chão, engatinhem por baixo delas, etc. com o meio que a cerca. Então, o que acontece? As crianças quase “Cada etapa da vida da criança é altamente não a ouvem e utilizam as cordas de significativa e precede as novas todas as formas possíveis e imagináveis! conquistas. Assim, ela estará sempre no A atividade “não deu certo” para seu ‘melhor’ momento, enquanto ser quem? Para você, com sua expectativa inacabado, buscando respostas próprias ou adulta sobre as maneiras de ser das alternativas de solução para os conflitos de natureza intelectual ou moral.[...] Daí que a crianças, sobre como brincam, jogam e avaliação não tem sentido ao apontar exploram os diferentes materiais. Para as resultados obtidos, pontos de chegada crianças deu “mais do que certo”, pois as definitivos a cada idade ou etapa...” cordas foram grande fonte de diversifi- Jussara Hoffmann – Avaliação na Pré-Escola cadas e divertidas explorações! Mais uma dica: você apresentou Referências Bibliográficas (primeira vez) cordas para as crianças e HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora. In: Uma prática em não lembrou que todo primeiro contato construção da pré-escola à universidade. Porto Alegre: Mediação, 1993. da criança com qualquer material deve HOFFMANN, Jussara. Avaliação na pré–escola: um olhar ser livre para que ela possa explorá-lo sensível e reflexivo sobre a criança. In: Educação Infantil. V.3. descobrindo possíveis jeitos de utilizá-lo. Porto Alegre: Mediação, 1996. 90
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo e • Identifique também os momentos Aprofundamento importantes em que a interação com os seus Maria Helena Lopes colegas e as mediações da coordenadora técnica contribuíram para você aprender. • Faça um Relatório de Avaliação do Leia atentamente o texto, seguindo as orien- seu desempenho na Mesa Educadora. tações oferecidas para realizar a sua auto- Recorra à sua memória e às suas avaliação e o seu relatório. anotações, procurando identificar quais foram as suas aprendizagens mais • Como tem sido a avaliação das significativas e a influência que tiveram crianças do seu grupo? Escreva sobre suas na melhoria da qualidade do seu tentativas, anexe seus registros e trabalho e do seu crescimento pessoal. instrumentos. Edvard Munch - De manhã, 1884 91
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    Série Fundo doMilênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Nota sobre os Autores 1º Texto – Educar e Cuidar ELIZABETH AMORIM Mestre em educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 2º Texto – Entrando em um Novo Mundo ELIZABETH AMORIM Mestre em educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 3ºTexto – Agressividade e Limites: Possibilidades de Intervenção LOIDE PEREIRA TROIS Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ UFRGS. Atua no Programa Fundo do Milênio para a Infância, realizado pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, pela Unesco, pelo Banco Mundial e pela OMEP como coordenadora técnica da Mesa Educadora de Porto Alegre. 4º Texto – Saúde da Criança HALEI CRUZ Formado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenador da Divisão de Saúde da Mulher, Criança e Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina e Mestrando em Ciências Médicas pela Universidade Federal de Santa Catarina. 92
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    Cadernos Pedagógicos –volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Colega Educador! Você conseguiu chegar ao final de mais uma jornada em sua vida. Muitas outras a sucederão e novamente, com esforço e dedicação, você vencerá, trilhando livre e criativamente os caminhos do seu crescimento e qualiaficação adequados. Parabéns! Os Organizadores 5º Texto – Organização do Tempo OMEP/Brasil. e do Espaço 7º Texto – Proposta Pedagógica e Relações ELIZABETH AMORIM Centro Infantil, Família e Comunidade Mestre em educação pela Universidade do Vale ELIZABETH AMORIM do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga Mestra em educação pela Universidade do Vale clínica, diretora e coordenadora pedagógica do do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 6º Texto – A Pedagogia de Projetos e a Mediação do Educador MARIA HELENA LOPES ELIZABETH AMORIM Mestre em Educação na área de Aconselhamento Mestre em educação pela Universidade do Vale Psicopedagógico pela Pontifícia Universidade do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga Católica do Rio Grande do Sul. Preside a OMEP/ clínica, diretora e coordenadora pedagógica do BR/RS/Porto Alegre e ocupa a vice-presidência da Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. OMEP/Brasil. MARIA HELENA LOPES 8º Texto – Acompanhamento e Avaliação Mestre em Educação na área de Aconselhamento das Crianças no Centro Infantil Psicopedagógico pela Pontifícia Universidade ELIZABETH AMORIM Católica do Rio Grande do Sul. Preside a OMEP/ Mestre em educação pela Universidade do Vale BR/RS/Porto Alegre e ocupa a vice-presidência da do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 93