Antártida   Os brasileiros que vivem no gelo A dura rotina dos militares da Marinha que se isolam um ano inteiro na Antártica, para dar impulso na carreira
A sirene do navio toca pontualmente às 6 da manhã e vale para todo mundo a bordo - marinheiros, pesquisadores ou jornalistas convidados. É hora do despertar no pequeno quinhão ocupado pelo Brasil na Antártica, o que inclui o navio Ary Rongel e a Estação Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, que está bem à nossa frente. A ordem, como em qualquer base naval da Marinha brasileira, é levantar da cama, tomar café e se preparar para um dia cheio de trabalho. Os primeiros barcos logo deixarão o navio em direção à estação e precisamos estar prontos para a travessia. A cada ano, a base do Brasil na Antártica cresce fisicamente e recebe mais gente. É assim desde 1984, quando 12 homens do arsenal da Marinha desembarcaram na Ilha Rei George para erguer os primeiros oito módulos da estação. A missão foi cumprida em 32 dias, e os construtores voltaram ao nosso país imediatamente depois. No ano seguinte, a estação foi ampliada, passando a ter 33 blocos. Atualmente já são 64 módulos, incluindo alojamentos, salas de estar e jantar, copa e cozinha, banheiros, biblioteca, 13 laboratórios de pesquisas, sala de computadores, cabines telefônicas, academia de ginástica, oficinas de veículos, despensa, lavanderia, centro cirúrgico, gabinete dentário e uma farmácia muito bem guarnecida de medicamentos. A base também deixou de ter atividade apenas no verão, passando a ser ocupada o ano inteiro.
Churrasco, futebol na TV, internet e celular com tarifa local ajudam a matar a saudade Do início de outubro, quando o navio Ary Rongel parte para a Antártica, ao final de março ou começo de abril, quando ele costuma regressar ao país, a Estação Comandante Ferraz recebe centenas de pesquisadores e visitantes. Na temporada que acaba de se encerrar, cerca de 230 pesquisadores estiveram na base brasileira, dedicados a estudos biológicos, atmosféricos e químicos no continente gelado. Vieram também vários senadores e deputados, como em quase todos os anos, e até o presidente da República dessa vez. O navio ficou 189 dias em águas antárticas, batendo o recorde de permanência na região. Agora, à medida que o inverno se aproxima, a base vai se esvaziando até se restringir a cerca de 25 moradores, entre militares e encarregados da manutenção das instalações. É esse pequeno grupo que tem de lidar com a solidão, o isolamento e o frio extremo nesse pedaço de fim de mundo. A Ilha Rei George - onde também ficam as bases do Chile, da Polônia, da China, do Uruguai, da Argentina, do Peru e da Coréia do Sul - está a mais de 60 graus na Latitude Sul. O outro meio de acesso a Ferraz é por um dos vôos anuais realizados em avião Hércules C-130. No período do verão austral são realizados quatro vôos, que têm início no Rio de Janeiro, fazem escalas em Pelotas (RS) e Punta Arenas (Chile) e seguem até a base chilena vizinha, que é provida de um campo de pouso. Dali até a estação brasileira são três horas de navio ou meia hora de helicóptero. Os vôos permitem a substituição de pesquisadores, resultando em maior variedade de pesquisas. No inverno, os vôos de apoio das aeronaves da Aeronáutica levam suprimentos para reabastecimento da estação, lançando a carga em pára-quedas. O segredo: salário triplicado.
Para fazer parte do seleto grupo de militares brasileiros na Antártica é preciso se submeter a rigorosos exames de seleção. Depois de uma bateria de testes de saúde, os aprovados recebem instruções de montanhismo e de sobrevivência no gelo, aplicadas pelo Clube de Alpinismo Paulista e pelo Batalhão de Operações Especiais do Corpo de Fuzileiros Navais. Em seguida, passam por uma severa prova psicotécnica. Todos os militares são voluntários e a disputa chega a ter 15 candidatos por vaga. A explicação de tamanha procura é simples: além de impulsionar a carreira na Marinha, a experiência antártica garante salários três vezes maiores que os normais. A contrapartida é ficar 12 meses longe de casa, da família e dos amigos. Por causa disso, é de se esperar que os voluntários sejam em sua maioria solteiros - mas não é assim. Dos dez militares que acabam de retornar ao Brasil, sete são casados. Entre eles, o capitão-de-mar-e-guerra Carlos Benício Sá de Mello, comandante da estação no último período, que lembra que os marinheiros, em geral, estão acostumados a se ausentar de casa. Além disso, "trabalhar na Antártica é motivo de muito orgulho para qualquer militar e uma experiência única". De fato, a visita ao continente gelado é algo para se guardar na memória pelo resto da vida. Nos sete dias em que passei em solo antártico, não deixei de me surpreender - e me fascinar - um minuto sequer com a natureza ao meu redor. Uma das primeiras lições que aprendi ao desembarcar foi sobre as bruscas alterações do tempo. Os ventos são muito fortes e mudam o tempo todo. Tive sorte. No primeiro dia, o sol apareceu. Os pingüins já esperavam para proporcionar um grande espetáculo. Focas e ossos de baleias também. Guiada por meus anfitriões, percorri as redondezas da estação num quadriciclo, escalei o Morro da Cruz, voei de helicóptero sobre a Baía do Almirantado e fui de barco até a Ilha de Deception, que, aliás, não merece o nome que tem - a sensação de entrar numa antiga cratera vulcânica navegando é muito especial.
A rotina na estação segue padrões militares. Além das funções a que cada um foi designado, todos devem participar da faxina - inclusive os visitantes. Um dos locais que chamam atenção é a sala Rio 40 graus, onde são secados os macacões, gorros, luvas, cachecóis e botas que chegam molhados de neve. O lugar é um pedacinho do Brasil e é o mais quente da estação. A base brasileira chega a acomodar até 70 pessoas durante o verão, quando as temperaturas costumam oscilar entre os 10 graus positivos e os 10 graus negativos. No inverno, os poucos habitantes que restaram enfrentam frio de até 25 graus abaixo de zero e ventos acima dos 100 km/h. As atividades externas são reduzidas e as salas de computadores, agora com internet banda larga, são o maior alento. Desde o ano passado, os brasileiros que vivem no gelo também podem se comunicar com o país por celular, pagando tarifa local (quando a ligação for para o Rio de Janeiro, cidade da maioria deles) ou a mesma taxa para interurbanos cobrada no Brasil (quando o telefonema for para outras cidades). Churrascos e transmissões esportivas ao vivo também ajudam a quebrar o "gelo" e a rotina. Comida é o que não falta: a estação é abastecida anualmente com cerca de 4 toneladas de carnes diversas, 775 quilos de peixes e frutos do mar, 500 quilos de feijão e 1.200 quilos de arroz, além de pães, doces e enlatados abundantes. Junto com o salário triplicado, a fartura ajuda a suavizar a saudade de casa.
O Ary Rongel em frente à Ilha Rei George: suporte à base brasileira
O balé de pingüins do lado de fora: um luxo
Criada em 1984, a base brasileira se divide em 64 módulos, que incluem biblioteca, 13 laboratórios de pesquisa, academia de ginástica e centro cirúrgico
Na sala de TV, novela e futebol em tempo real
A sala Rio 40 graus: o lugar mais aconchegante
A proa do Ary Rongel congelada: e nem era  inverno
Em 2007, a base recebeu 230 pesquisadores
Na despensa, alimentos às toneladas para o ano todo
Fonte: Revista Terra edição Maio de 2008  Organizado por Elô Steffens Julho de 2008

Antártida

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    Antártida Os brasileiros que vivem no gelo A dura rotina dos militares da Marinha que se isolam um ano inteiro na Antártica, para dar impulso na carreira
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    A sirene donavio toca pontualmente às 6 da manhã e vale para todo mundo a bordo - marinheiros, pesquisadores ou jornalistas convidados. É hora do despertar no pequeno quinhão ocupado pelo Brasil na Antártica, o que inclui o navio Ary Rongel e a Estação Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, que está bem à nossa frente. A ordem, como em qualquer base naval da Marinha brasileira, é levantar da cama, tomar café e se preparar para um dia cheio de trabalho. Os primeiros barcos logo deixarão o navio em direção à estação e precisamos estar prontos para a travessia. A cada ano, a base do Brasil na Antártica cresce fisicamente e recebe mais gente. É assim desde 1984, quando 12 homens do arsenal da Marinha desembarcaram na Ilha Rei George para erguer os primeiros oito módulos da estação. A missão foi cumprida em 32 dias, e os construtores voltaram ao nosso país imediatamente depois. No ano seguinte, a estação foi ampliada, passando a ter 33 blocos. Atualmente já são 64 módulos, incluindo alojamentos, salas de estar e jantar, copa e cozinha, banheiros, biblioteca, 13 laboratórios de pesquisas, sala de computadores, cabines telefônicas, academia de ginástica, oficinas de veículos, despensa, lavanderia, centro cirúrgico, gabinete dentário e uma farmácia muito bem guarnecida de medicamentos. A base também deixou de ter atividade apenas no verão, passando a ser ocupada o ano inteiro.
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    Churrasco, futebol naTV, internet e celular com tarifa local ajudam a matar a saudade Do início de outubro, quando o navio Ary Rongel parte para a Antártica, ao final de março ou começo de abril, quando ele costuma regressar ao país, a Estação Comandante Ferraz recebe centenas de pesquisadores e visitantes. Na temporada que acaba de se encerrar, cerca de 230 pesquisadores estiveram na base brasileira, dedicados a estudos biológicos, atmosféricos e químicos no continente gelado. Vieram também vários senadores e deputados, como em quase todos os anos, e até o presidente da República dessa vez. O navio ficou 189 dias em águas antárticas, batendo o recorde de permanência na região. Agora, à medida que o inverno se aproxima, a base vai se esvaziando até se restringir a cerca de 25 moradores, entre militares e encarregados da manutenção das instalações. É esse pequeno grupo que tem de lidar com a solidão, o isolamento e o frio extremo nesse pedaço de fim de mundo. A Ilha Rei George - onde também ficam as bases do Chile, da Polônia, da China, do Uruguai, da Argentina, do Peru e da Coréia do Sul - está a mais de 60 graus na Latitude Sul. O outro meio de acesso a Ferraz é por um dos vôos anuais realizados em avião Hércules C-130. No período do verão austral são realizados quatro vôos, que têm início no Rio de Janeiro, fazem escalas em Pelotas (RS) e Punta Arenas (Chile) e seguem até a base chilena vizinha, que é provida de um campo de pouso. Dali até a estação brasileira são três horas de navio ou meia hora de helicóptero. Os vôos permitem a substituição de pesquisadores, resultando em maior variedade de pesquisas. No inverno, os vôos de apoio das aeronaves da Aeronáutica levam suprimentos para reabastecimento da estação, lançando a carga em pára-quedas. O segredo: salário triplicado.
  • 4.
    Para fazer partedo seleto grupo de militares brasileiros na Antártica é preciso se submeter a rigorosos exames de seleção. Depois de uma bateria de testes de saúde, os aprovados recebem instruções de montanhismo e de sobrevivência no gelo, aplicadas pelo Clube de Alpinismo Paulista e pelo Batalhão de Operações Especiais do Corpo de Fuzileiros Navais. Em seguida, passam por uma severa prova psicotécnica. Todos os militares são voluntários e a disputa chega a ter 15 candidatos por vaga. A explicação de tamanha procura é simples: além de impulsionar a carreira na Marinha, a experiência antártica garante salários três vezes maiores que os normais. A contrapartida é ficar 12 meses longe de casa, da família e dos amigos. Por causa disso, é de se esperar que os voluntários sejam em sua maioria solteiros - mas não é assim. Dos dez militares que acabam de retornar ao Brasil, sete são casados. Entre eles, o capitão-de-mar-e-guerra Carlos Benício Sá de Mello, comandante da estação no último período, que lembra que os marinheiros, em geral, estão acostumados a se ausentar de casa. Além disso, "trabalhar na Antártica é motivo de muito orgulho para qualquer militar e uma experiência única". De fato, a visita ao continente gelado é algo para se guardar na memória pelo resto da vida. Nos sete dias em que passei em solo antártico, não deixei de me surpreender - e me fascinar - um minuto sequer com a natureza ao meu redor. Uma das primeiras lições que aprendi ao desembarcar foi sobre as bruscas alterações do tempo. Os ventos são muito fortes e mudam o tempo todo. Tive sorte. No primeiro dia, o sol apareceu. Os pingüins já esperavam para proporcionar um grande espetáculo. Focas e ossos de baleias também. Guiada por meus anfitriões, percorri as redondezas da estação num quadriciclo, escalei o Morro da Cruz, voei de helicóptero sobre a Baía do Almirantado e fui de barco até a Ilha de Deception, que, aliás, não merece o nome que tem - a sensação de entrar numa antiga cratera vulcânica navegando é muito especial.
  • 5.
    A rotina naestação segue padrões militares. Além das funções a que cada um foi designado, todos devem participar da faxina - inclusive os visitantes. Um dos locais que chamam atenção é a sala Rio 40 graus, onde são secados os macacões, gorros, luvas, cachecóis e botas que chegam molhados de neve. O lugar é um pedacinho do Brasil e é o mais quente da estação. A base brasileira chega a acomodar até 70 pessoas durante o verão, quando as temperaturas costumam oscilar entre os 10 graus positivos e os 10 graus negativos. No inverno, os poucos habitantes que restaram enfrentam frio de até 25 graus abaixo de zero e ventos acima dos 100 km/h. As atividades externas são reduzidas e as salas de computadores, agora com internet banda larga, são o maior alento. Desde o ano passado, os brasileiros que vivem no gelo também podem se comunicar com o país por celular, pagando tarifa local (quando a ligação for para o Rio de Janeiro, cidade da maioria deles) ou a mesma taxa para interurbanos cobrada no Brasil (quando o telefonema for para outras cidades). Churrascos e transmissões esportivas ao vivo também ajudam a quebrar o "gelo" e a rotina. Comida é o que não falta: a estação é abastecida anualmente com cerca de 4 toneladas de carnes diversas, 775 quilos de peixes e frutos do mar, 500 quilos de feijão e 1.200 quilos de arroz, além de pães, doces e enlatados abundantes. Junto com o salário triplicado, a fartura ajuda a suavizar a saudade de casa.
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    O Ary Rongelem frente à Ilha Rei George: suporte à base brasileira
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    O balé depingüins do lado de fora: um luxo
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    Criada em 1984,a base brasileira se divide em 64 módulos, que incluem biblioteca, 13 laboratórios de pesquisa, academia de ginástica e centro cirúrgico
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    Na sala deTV, novela e futebol em tempo real
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    A sala Rio40 graus: o lugar mais aconchegante
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    A proa doAry Rongel congelada: e nem era inverno
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    Em 2007, abase recebeu 230 pesquisadores
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    Na despensa, alimentosàs toneladas para o ano todo
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    Fonte: Revista Terraedição Maio de 2008 Organizado por Elô Steffens Julho de 2008