Pânico e seus fantoches
Raphael Vaz

Todas as pessoas que dirigem qualquer espécie de negócio, desde uma banca de jornal até uma multinacional,
querem descobrir aquele fator “mágico” que faz com que todas as coisas boas aconteçam e o lucro se multipli-
que. Um facilitador dos processos e entraves que levem aos ganhos financeiros e conseqüentemente, à riqueza.

No meio televisivo não é diferente. Por vezes, ignoramos que a TV também é um negócio disposto a lucros. Os
maiores lucros possíveis. Colocamos um aparelho na sala de nossas casas e esquecemos que por trás da novela,
do programa de auditório ou do jornal da noite, existe uma gama de profissionais empenhados em obter a maior
audiência possível e, automaticamente, o lucro.

A diferença é que a TV parece já ter descoberto esta fórmula mágica que seduz o telespectador. E não é nada
assim tão recente. Desde os tempos do programa Discoteca do Chacrinha, do apresentador Abelardo Chacrinha
Barbosa, já se utilizava as chacretes, dançarinas que figuravam durante todo o programa com trajes decorosos,
mas que mesmo assim, compunham a erotização no imaginário de vários espectadores. Um dos maiores exem-
plos é Rita Cadillac, que surgiu nos programas do apresentador.

Desde aquela época, a TV já tinha a noção de que a sensualidade deveria fazer parte integrante na composição
de suas atrações. O que talvez não fosse tão claro é que em nossa época, este seria um fator tão explorado. Já
foi usado de forma discreta em flashes jornalísticos do SBT, em reality shows de várias emissoras e nas mais
variadas novelas. Tornou-se enfim, uma espécie de epidemia. É possível contar nos dedos quais os programas
que não fazem uso da sensualidade ou das conhecidas piadas dúbias, que costumam induzir o telespectador ao
pensamento do sexo ou algo relacionado.

Panorama

Para Emílio Surita e sua turma, tudo começou com um programa de rádio que de tanto sucesso, se estendeu
para o formato televisivo. A turma do Pânico, veiculado pela Rádio Jovem Pan, tornou-se também a turma do
Pânico na TV, transmitido pela RedeTV!, pela primeira vez em setembro de 2003. Nas primeiras transmissões,
o espetáculo parecia uma grande piada. Num cenário precário, os apresentadores pediam no ar que um patro-
cinador os financiasse. No entanto, bastaram algumas edições para que a atração se consolidasse e se tornasse
num dos programas de maior apelo ao público jovem.

E é claro que todo esse sucesso precisava ser mantido. Entretanto, permanecer sempre na ladainha dos primei-
ros programas não faria com que o Pânico na TV alcançasse todo o sucesso e popularidade que possuem hoje.
Manter sósias de figuras consagradas da televisão brasileira, como Silvio Santos, junto a um companheiro de-
stemido, importunando artistas em festas ou eventos não bastaria. A “fórmula mágica” da sexualidade precisava
ser utilizada.

Apelo sexual

“Lingeries em perigo” foi um dos primeiros quadros criados na grade do programa que explorava a sensualidade.
Como o próprio nome sugere, algumas moças trajando calcinha e sutiã se dispunham a tarefas inusitadas, como
passar o dia em um canavial como bóias-frias, ter o corpo coberto de milho para que algumas galinhas ciscassem
o alimento ou fazer uma montaria (exatamente como as de cavalos) em emas.

Atualmente, este quadro já foi deixado para trás. Mas se engana quem pensa que o apelo sexual deixou de
existir. Pelo contrário, a sexualidade continua presente e também dominou a maioria das inserções publicitárias
realizadas no palco. Foi o caso da última edição (21 de outubro). Uma marca de cuecas, por exemplo, oferece
uma roleta para que um selecionado da platéia a gire. A roleta aponta um desejo (a maioria das possibilidades
com algum indício de sensualidade) que a apresentadora e integrante da turma, Sabrina Sato (ex BBB), irá sat-
isfazer para o selecionado. O quadro tem um nome sugestivo: “Mexe na roleta da Sabrina”.
Uma segunda inserção, apresentada no mesmo dia, fazia o merchandising de um aparelho de barbear. Para a
interação com o público, foram trazidas ao palco duas moças que escolheriam dois rapazes da platéia para que
elas fizessem sua barba e comprovassem assim a eficiência do aparelho. O único detalhe é que as moças utiliza-
vam fantasias. Uma de “anjinha” e a outra de “capetinha”. Ambas com roupas íntimas.

Figurando no palco, está o tradicional da maioria dos programas de auditório, como o Caldeirão do Huck ou o Do-
mingo Legal. Garotas, também chamadas de assistentes de palco, que se balançam de um lado para o outro num
ritmo constante com o mínimo de roupas possível. A maioria usa maiôs, mas algumas também trajam biquínis
ou mini saias. O Pânico na TV não foge a essa regra. Faz uso desses fantoches sexuais. Quanto ao figurino, era
o mesmo caso da apresentadora Sabrina Sato, que usava uma espécie de maiô, com a exceção de um pano por
cima de tudo, semelhante a uma tanga.

Vou, não vou

Esse é o título de um dos quadros de maior sucesso na atual grade do Pânico na TV. Dois personagens visitam
lugares diversos, classificando as mulheres em “vou” ou “não vou”. Entenda-se por esses termos, ficaria e teria
relações sexuais ou não ficaria e não teria relações sexuais, respectivamente. Na edição deste último domingo
(21 de outubro), o local visitado foi a praia de Búzios. Obviamente, o bom senso não pede que as pessoas es-
tejam de calça jeans e camiseta na praia. No entanto, os closes das câmeras induzem à sexualidade. Focos nas
nádegas e nos seios femininos e na genitália masculina marcada nas sungas, além do tradicional pedido da volt-
inha para as mulheres classificadas como “vou”. Para as mulheres acima do peso, que fogem ao estereótipo de
beleza, não sobram mais que ridicularizações.

Neste mesmo quadro, Mano Mendigo e Mano Quietinho (imitação do cantor Netinho), integrantes da dupla que
fazem o quadro, encontraram um casal que namorava há um mês. Durante a entrevista, um deles pergunta
ao rapaz se ele já teve relações com a moça ou se está preservando-a. Ele responde que está preservando.
Imediatamente, os dois fazem uma cara de reprovação e iniciam uma campanha com as pessoas que estão em
volta, observando a entrevista. Puxando um coro de “Libera Carol”, eles fazem mais uma incitação clara a uma
vertente da natureza sexual.

Além desta parte, a primeira entrevista exibida no “vou, não vou”, também chama atenção. Uma moça com uma
tanga que cobre todo corpo, aparece no meio dos dois apresentadores. Eles questionam o porquê de a moça
estar daquele jeito na praia. No meio da entrevista, um deles pergunta quantos anos ela tem. Ela responde 18.
Em contrapartida à resposta, Mano Mendigo rebate: “Já pode”. Uma frase dúbia que faz referência à possibili-
dade da prática do ato sexual.

Responsabilidade social?

O programa também se faz, às vezes, de responsável social. Foi o exemplo deste último domingo, em que foi
abordado o caso da dengue no Brasil. O apresentador cita fatos que demonstram a preocupação que o País deve
ter com a doença e então entra em cena a ONG do Pânico, cujo nome é “Por um mundo cheio de peitudas”. A
mobilização da ONG é semelhante ao programa governamental que coloca agentes verificando se as casas estão
ou não se precavendo contra o mosquito da dengue.

No caso do Pânico, uma mulher trajando uma saia justa e apertada visita os lares, verificando se existem ou não
focos para que o mosquito da dengue se reproduza e conseqüentemente, possibilite o aumento dos casos da
doença. Para conferir se a caixa d’água está corretamente tampada, a modelo, que faz o papel de agente, tem
de subir uma escada que dá acesso à caixa. No mesmo momento, o câmera coloca-se ao pé da escada, para
filmá-la sob uma perspectiva que valorize as partes do seu corpo que estão sob a saia. Num segundo momento,
a modelo se reclina para frente, com o intuito de tampar algumas garrafas. O câmera também se coloca atrás
da modelo, de modo que quando ela se inclina, sua saia justa escorrega para cima, revelando de igual modo o
conteúdo do seu corpo que está encoberto pela minúscula peça de roupa.

Fantoches e polêmicas

O Pânico na TV já enfrentou algumas polêmicas e processos judiciais. Em um desses processos, o programa foi
impedido de ser transmitido em seu horário de costume (18 horas) e foi obrigado a ser exibido a partir das 20
horas, horário que segundo a classificação indicativa brasileira, tem um conteúdo permitido para maiores de
12 anos. No entanto, será que crianças de 12 anos estão maduras o suficiente para terem uma postura e visão
crítica sobre um programa que tem como seu maior pilar a exploração da imagem sexual?

Além disso, o Pânico tenta em alguns momentos demonstrar uma imagem de preocupação social. Contudo, ig-
nora esta mesma responsabilidade, quando com ridicularizações a respeito de um casal de namorados que ainda
não praticou o ato sexual, influenciam jovens e adolescentes (faixa de maior identificação com o programa), a
praticarem sexo. Fator que atua de forma direta no crescimento do número de doenças sexualmente transmis-
síveis e gravidez na adolescência. Por sua vez, pode condicionar a famílias desestruturadas, que podem gerar
indivíduos envolvidos com a criminalidade, um dos fatores mais criticados pela mídia e combatidos pelo governo.
Chega a ser um contra senso. Emissoras que criticam em seus programas jornalísticos estes fatores, que emper-
ram o crescimento nacional, mas que apóiam de forma indireta em sua programação normal.

A TV aberta brasileira prioriza a programação com menos ênfase no conteúdo e maior preocupação no entre-
tenimento de seus telespectadores. Como em alguns momentos, faltam opções do que transmitir para entreter,
os programas encontraram formas de inserir, mesmo que de maneira secundária, a sexualidade. O Pânico na
TV é um fiel exemplo deste modelo. Mas ao invés de colocar a sexualidade em segundo plano, fez deste fator
a prioridade do programa. Assistentes de palco seminuas ou quadros de entretenimento que apelam de forma
gritante para a exposição do corpo, numa demonstração da falta de valor próprio pela imagem, inteligência ou
mesmo princípios.

Ao abordar este tipo de programação, o Pânico na TV usa fantoches femininos para criar um espetáculo que visa
prender telespectadores às curvas femininas, com maior incidência, ou masculinas, com menor incidência. As-
sistindo um programa com essa estrutura, voltado para primórdios paleozóicos, que dispõe a mulher e o corpo
humano como meros objetos, o telespectador também assume o papel de fantoche, colocando-se nas mãos
de produtores que pecam pela falta de criatividade e caem na mesmice de uma maioria de programas. Profis-
sionais que se acomodaram no lugar comum. A partir daí, vêem-se espectadores que abandonam a função de
cidadãos pensantes e passam ao papel de conivência com a falta de conteúdo e que apóiam, mesmo que sem
um consenso, a proliferação do modelo de descarte ao ser humano pensante e ao progresso, seja ele material,
intelectual ou televisivo.

Canal da Imprensa - 78

  • 1.
    Pânico e seusfantoches Raphael Vaz Todas as pessoas que dirigem qualquer espécie de negócio, desde uma banca de jornal até uma multinacional, querem descobrir aquele fator “mágico” que faz com que todas as coisas boas aconteçam e o lucro se multipli- que. Um facilitador dos processos e entraves que levem aos ganhos financeiros e conseqüentemente, à riqueza. No meio televisivo não é diferente. Por vezes, ignoramos que a TV também é um negócio disposto a lucros. Os maiores lucros possíveis. Colocamos um aparelho na sala de nossas casas e esquecemos que por trás da novela, do programa de auditório ou do jornal da noite, existe uma gama de profissionais empenhados em obter a maior audiência possível e, automaticamente, o lucro. A diferença é que a TV parece já ter descoberto esta fórmula mágica que seduz o telespectador. E não é nada assim tão recente. Desde os tempos do programa Discoteca do Chacrinha, do apresentador Abelardo Chacrinha Barbosa, já se utilizava as chacretes, dançarinas que figuravam durante todo o programa com trajes decorosos, mas que mesmo assim, compunham a erotização no imaginário de vários espectadores. Um dos maiores exem- plos é Rita Cadillac, que surgiu nos programas do apresentador. Desde aquela época, a TV já tinha a noção de que a sensualidade deveria fazer parte integrante na composição de suas atrações. O que talvez não fosse tão claro é que em nossa época, este seria um fator tão explorado. Já foi usado de forma discreta em flashes jornalísticos do SBT, em reality shows de várias emissoras e nas mais variadas novelas. Tornou-se enfim, uma espécie de epidemia. É possível contar nos dedos quais os programas que não fazem uso da sensualidade ou das conhecidas piadas dúbias, que costumam induzir o telespectador ao pensamento do sexo ou algo relacionado. Panorama Para Emílio Surita e sua turma, tudo começou com um programa de rádio que de tanto sucesso, se estendeu para o formato televisivo. A turma do Pânico, veiculado pela Rádio Jovem Pan, tornou-se também a turma do Pânico na TV, transmitido pela RedeTV!, pela primeira vez em setembro de 2003. Nas primeiras transmissões, o espetáculo parecia uma grande piada. Num cenário precário, os apresentadores pediam no ar que um patro- cinador os financiasse. No entanto, bastaram algumas edições para que a atração se consolidasse e se tornasse num dos programas de maior apelo ao público jovem. E é claro que todo esse sucesso precisava ser mantido. Entretanto, permanecer sempre na ladainha dos primei- ros programas não faria com que o Pânico na TV alcançasse todo o sucesso e popularidade que possuem hoje. Manter sósias de figuras consagradas da televisão brasileira, como Silvio Santos, junto a um companheiro de- stemido, importunando artistas em festas ou eventos não bastaria. A “fórmula mágica” da sexualidade precisava ser utilizada. Apelo sexual “Lingeries em perigo” foi um dos primeiros quadros criados na grade do programa que explorava a sensualidade. Como o próprio nome sugere, algumas moças trajando calcinha e sutiã se dispunham a tarefas inusitadas, como passar o dia em um canavial como bóias-frias, ter o corpo coberto de milho para que algumas galinhas ciscassem o alimento ou fazer uma montaria (exatamente como as de cavalos) em emas. Atualmente, este quadro já foi deixado para trás. Mas se engana quem pensa que o apelo sexual deixou de existir. Pelo contrário, a sexualidade continua presente e também dominou a maioria das inserções publicitárias realizadas no palco. Foi o caso da última edição (21 de outubro). Uma marca de cuecas, por exemplo, oferece uma roleta para que um selecionado da platéia a gire. A roleta aponta um desejo (a maioria das possibilidades com algum indício de sensualidade) que a apresentadora e integrante da turma, Sabrina Sato (ex BBB), irá sat- isfazer para o selecionado. O quadro tem um nome sugestivo: “Mexe na roleta da Sabrina”.
  • 2.
    Uma segunda inserção,apresentada no mesmo dia, fazia o merchandising de um aparelho de barbear. Para a interação com o público, foram trazidas ao palco duas moças que escolheriam dois rapazes da platéia para que elas fizessem sua barba e comprovassem assim a eficiência do aparelho. O único detalhe é que as moças utiliza- vam fantasias. Uma de “anjinha” e a outra de “capetinha”. Ambas com roupas íntimas. Figurando no palco, está o tradicional da maioria dos programas de auditório, como o Caldeirão do Huck ou o Do- mingo Legal. Garotas, também chamadas de assistentes de palco, que se balançam de um lado para o outro num ritmo constante com o mínimo de roupas possível. A maioria usa maiôs, mas algumas também trajam biquínis ou mini saias. O Pânico na TV não foge a essa regra. Faz uso desses fantoches sexuais. Quanto ao figurino, era o mesmo caso da apresentadora Sabrina Sato, que usava uma espécie de maiô, com a exceção de um pano por cima de tudo, semelhante a uma tanga. Vou, não vou Esse é o título de um dos quadros de maior sucesso na atual grade do Pânico na TV. Dois personagens visitam lugares diversos, classificando as mulheres em “vou” ou “não vou”. Entenda-se por esses termos, ficaria e teria relações sexuais ou não ficaria e não teria relações sexuais, respectivamente. Na edição deste último domingo (21 de outubro), o local visitado foi a praia de Búzios. Obviamente, o bom senso não pede que as pessoas es- tejam de calça jeans e camiseta na praia. No entanto, os closes das câmeras induzem à sexualidade. Focos nas nádegas e nos seios femininos e na genitália masculina marcada nas sungas, além do tradicional pedido da volt- inha para as mulheres classificadas como “vou”. Para as mulheres acima do peso, que fogem ao estereótipo de beleza, não sobram mais que ridicularizações. Neste mesmo quadro, Mano Mendigo e Mano Quietinho (imitação do cantor Netinho), integrantes da dupla que fazem o quadro, encontraram um casal que namorava há um mês. Durante a entrevista, um deles pergunta ao rapaz se ele já teve relações com a moça ou se está preservando-a. Ele responde que está preservando. Imediatamente, os dois fazem uma cara de reprovação e iniciam uma campanha com as pessoas que estão em volta, observando a entrevista. Puxando um coro de “Libera Carol”, eles fazem mais uma incitação clara a uma vertente da natureza sexual. Além desta parte, a primeira entrevista exibida no “vou, não vou”, também chama atenção. Uma moça com uma tanga que cobre todo corpo, aparece no meio dos dois apresentadores. Eles questionam o porquê de a moça estar daquele jeito na praia. No meio da entrevista, um deles pergunta quantos anos ela tem. Ela responde 18. Em contrapartida à resposta, Mano Mendigo rebate: “Já pode”. Uma frase dúbia que faz referência à possibili- dade da prática do ato sexual. Responsabilidade social? O programa também se faz, às vezes, de responsável social. Foi o exemplo deste último domingo, em que foi abordado o caso da dengue no Brasil. O apresentador cita fatos que demonstram a preocupação que o País deve ter com a doença e então entra em cena a ONG do Pânico, cujo nome é “Por um mundo cheio de peitudas”. A mobilização da ONG é semelhante ao programa governamental que coloca agentes verificando se as casas estão ou não se precavendo contra o mosquito da dengue. No caso do Pânico, uma mulher trajando uma saia justa e apertada visita os lares, verificando se existem ou não focos para que o mosquito da dengue se reproduza e conseqüentemente, possibilite o aumento dos casos da doença. Para conferir se a caixa d’água está corretamente tampada, a modelo, que faz o papel de agente, tem de subir uma escada que dá acesso à caixa. No mesmo momento, o câmera coloca-se ao pé da escada, para filmá-la sob uma perspectiva que valorize as partes do seu corpo que estão sob a saia. Num segundo momento, a modelo se reclina para frente, com o intuito de tampar algumas garrafas. O câmera também se coloca atrás da modelo, de modo que quando ela se inclina, sua saia justa escorrega para cima, revelando de igual modo o conteúdo do seu corpo que está encoberto pela minúscula peça de roupa. Fantoches e polêmicas O Pânico na TV já enfrentou algumas polêmicas e processos judiciais. Em um desses processos, o programa foi impedido de ser transmitido em seu horário de costume (18 horas) e foi obrigado a ser exibido a partir das 20 horas, horário que segundo a classificação indicativa brasileira, tem um conteúdo permitido para maiores de 12 anos. No entanto, será que crianças de 12 anos estão maduras o suficiente para terem uma postura e visão
  • 3.
    crítica sobre umprograma que tem como seu maior pilar a exploração da imagem sexual? Além disso, o Pânico tenta em alguns momentos demonstrar uma imagem de preocupação social. Contudo, ig- nora esta mesma responsabilidade, quando com ridicularizações a respeito de um casal de namorados que ainda não praticou o ato sexual, influenciam jovens e adolescentes (faixa de maior identificação com o programa), a praticarem sexo. Fator que atua de forma direta no crescimento do número de doenças sexualmente transmis- síveis e gravidez na adolescência. Por sua vez, pode condicionar a famílias desestruturadas, que podem gerar indivíduos envolvidos com a criminalidade, um dos fatores mais criticados pela mídia e combatidos pelo governo. Chega a ser um contra senso. Emissoras que criticam em seus programas jornalísticos estes fatores, que emper- ram o crescimento nacional, mas que apóiam de forma indireta em sua programação normal. A TV aberta brasileira prioriza a programação com menos ênfase no conteúdo e maior preocupação no entre- tenimento de seus telespectadores. Como em alguns momentos, faltam opções do que transmitir para entreter, os programas encontraram formas de inserir, mesmo que de maneira secundária, a sexualidade. O Pânico na TV é um fiel exemplo deste modelo. Mas ao invés de colocar a sexualidade em segundo plano, fez deste fator a prioridade do programa. Assistentes de palco seminuas ou quadros de entretenimento que apelam de forma gritante para a exposição do corpo, numa demonstração da falta de valor próprio pela imagem, inteligência ou mesmo princípios. Ao abordar este tipo de programação, o Pânico na TV usa fantoches femininos para criar um espetáculo que visa prender telespectadores às curvas femininas, com maior incidência, ou masculinas, com menor incidência. As- sistindo um programa com essa estrutura, voltado para primórdios paleozóicos, que dispõe a mulher e o corpo humano como meros objetos, o telespectador também assume o papel de fantoche, colocando-se nas mãos de produtores que pecam pela falta de criatividade e caem na mesmice de uma maioria de programas. Profis- sionais que se acomodaram no lugar comum. A partir daí, vêem-se espectadores que abandonam a função de cidadãos pensantes e passam ao papel de conivência com a falta de conteúdo e que apóiam, mesmo que sem um consenso, a proliferação do modelo de descarte ao ser humano pensante e ao progresso, seja ele material, intelectual ou televisivo.