IV

                                                                                                 VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO
                                                                                                 E O URBANISMO ILUMINISTA
                          EXPOSIÇÃO




   Localização dos Núcleos Expositivos

                                                      Rua D. Pedro V                                                                                          C.T.T.
                                                                                                                                          Rua Teófilo Braga




                                                   Rua Cândido dos Reis
              Rua Combatentes da Grande Guerra




                                                                                                                                                                       Rua Conselheiro Frederico Ramirez




                                                                                                                             Centro
                                                             Rua Gen. Humberto Delgado




                                                                                                                             Cultural
                                                                                                                                                                                                                      Rua Dr. Manuel de Arriaga




                                                                                           R. Doutor Sousa Martins
                                                                                                         Rua 5 de Outubro




                                                                                         R. 1º de Maio                                                                                                                                            R. António Capa
                                                   Largo                                                                                                                                                   Lrg Antº                                P.S.P.
                                                                                                                                                                                                            Aleixo
R. Estreita
                                                 Luthgarda
                                                 G. Caires                                                                              III                   Igreja
                                                                                                                              Praça
                                                                                                                             Marquês
                                                                                                                            de Pombal
                                                                                                                                                                                                             IV
                                                       Rua J. Algarve                                                                                                                                        Rua José Barão
                                                                                                                            Câmara
                                                                                                                            Municipal
                                                      Rua da Princesa
                                                                                                                             II
                                                                                                                              I                               Avenida da República

                                                    Doca de Recreio
                                                                                                                             Rio Guadiana
Núcleo IV
ENTRE O GUADIANA
E O MAR: O
DESENVOLVIMENTO
ECONÓMICO
Núcleo IV
ENTRE O GUADIANA
E O MAR: O
DESENVOLVIMENTO
ECONÓMICO
A IMPORTÂNCIA DE VILA
1‘   REAL DE SANTO ANTÓNIO
     NO SÉCULO XIX
     A IMPORTÂNCIA DE VILA REAL DE SANTO
     ANTÓNIO NO SÉCULO XIX
     Na segunda metade do século XIX, era para Vila         Na segunda metade do século XIX, era para Vila
     Real de Santo António que convergiam as grandes        Real de Santo António que convergiam as grandes
     quantidades de peixe capturado nos mares do            quantidades de peixe capturado nos mares do
     Sotavento algarvio. Nesta época, a vila pôde assim     Sotavento algarvio. Nesta época, a vila pôde assim
     afirmar-se como importante lota de venda de peixe,     afirmar-se como importante lota de venda de peixe,
     bem como importante centro produtor e exportador       bem como importante centro produtor e exportador
     de preparados piscícolas.                              de preparados piscícolas.
     Três factores interligados contribuíram para tal. O    Três factores interligados contribuíram para tal. O
     primeiro decorreu da liberdade de pesca concedida      primeiro decorreu da liberdade de pesca concedida
     pelas políticas liberais do século XIX, que vieram a   pelas políticas liberais do século XIX, que vieram a
     dar um grande incremento e dinamização às              dar um grande incremento e dinamização às
     pescarias no Algarve.                                  pescarias no Algarve.
     O segundo teve a ver com a própria localização         O segundo teve a ver com a própria localização
     estratégica e óptimas condições de acesso do porto     estratégica e óptimas condições de acesso do porto
     vilarealense, que admitia embarcações de grande        vilarealense, que admitia embarcações de grande
     calado e avultada capacidade de transporte, e          calado e avultada capacidade de transporte, e
     permitia também um fácil escoamento das                permitia também um fácil escoamento das
     mercadorias para as regiões do interior, bem como      mercadorias para as regiões do interior, bem como
     para fora do Reino.                                    para fora do Reino.
     A proximidade com Espanha também foi                   A proximidade com Espanha também foi
     determinante para tal, pois o reino vizinho foi o      determinante para tal, pois o reino vizinho foi o
     maior consumidor dos recursos piscícolas               maior consumidor dos recursos piscícolas
     portugueses no decurso do século XIX.                  portugueses no decurso do século XIX.
2‘   A INDÚSTRIA
     CONSERVEIRA
     A INDÚSTRIA CONSERVEIRA
     Vila Real de Santo António foi o local privilegiado      Vila Real de Santo António foi o local privilegiado
     para a instalação da primeira fábrica moderna            para a instalação da primeira fábrica moderna
     portuguesa de conservas de atum em azeite,               portuguesa de conservas de atum em azeite,
     fundada no ano de 1865 por iniciativa do industrial      fundada no ano de 1865 por iniciativa do industrial
     andaluz Sebastián Ramirez.                               andaluz Sebastián Ramirez.
     Pode-se então afirmar que o ano de 1865 marca o          Pode-se então afirmar que o ano de 1865 marca o
     início da moderna actividade industrial conserveira      início da moderna actividade industrial conserveira
     em Vila Real de Santo António, no Algarve, e em          em Vila Real de Santo António, no Algarve, e em
     Portugal.                                                Portugal.
     Em 1879 é fundada a segunda fábrica de conservas         Em 1879 é fundada a segunda fábrica de conservas
     de Vila Real, a fábrica Santa Maria (que ficará          de Vila Real, a fábrica Santa Maria (que ficará
     simplesmente conhecida por fábrica Parodi), pelo         simplesmente conhecida por fábrica Parodi), pelo
     italiano Ângelo Parodi. Esta foi a primeira a dedicar-   italiano Ângelo Parodi. Esta foi a primeira a dedicar-
     se à conserva de atum em escabeche, vindo a              se à conserva de atum em escabeche, vindo a
     tornar-se numa das mais importantes. A ela se            tornar-se numa das mais importantes. A ela se
     seguiu, em 1880, a fábrica S. Francisco, do              seguiu, em 1880, a fábrica S. Francisco, do
     industrial espanhol Francisco Rodriguez Tenório,         industrial espanhol Francisco Rodriguez Tenório,
     também ela dedicada à conserva de atum em                também ela dedicada à conserva de atum em
     escabeche. Após estas, outras fábricas se                escabeche. Após estas, outras fábricas se
     instalaram.                                              instalaram.
     Mais tarde também se começaram a produzir                Mais tarde também se começaram a produzir
     conservas de sardinha e, embora em menor                 conservas de sardinha e, embora em menor
     importância, de biqueirão e de cavala.                   importância, de biqueirão e de cavala.
     Grandes quantidades destas conservas eram                Grandes quantidades destas conservas eram
     exportadas para Itália, o principal mercado das de       exportadas para Itália, o principal mercado das de
     atum, bem como para outros países da Europa,             atum, bem como para outros países da Europa,
     nomeadamente Alemanha, Bélgica, Inglaterra e             nomeadamente Alemanha, Bélgica, Inglaterra e
     França (estes últimos preferiam, ao contrário de         França (estes últimos preferiam, ao contrário de
     Itália, as conservas de sardinha), mas também para       Itália, as conservas de sardinha), mas também para
     a América e para as colónias portuguesas. Vila Real      a América e para as colónias portuguesas. Vila Real
     de Santo António tornou-se, pelos finais do século       de Santo António tornou-se, pelos finais do século
     XIX, o principal centro industrial algarvio produtor e   XIX, o principal centro industrial algarvio produtor e
     exportador de conservas.                                 exportador de conservas.
     A indústria conserveira permitiu o surgimento e          A indústria conserveira permitiu o surgimento e
     desenvolvimento de diversas outras indústrias,           desenvolvimento de diversas outras indústrias,
     vindo assim aumentar o surto económico de Vila           vindo assim aumentar o surto económico de Vila
     Real de Santo António.                                   Real de Santo António.
     Existiram as indústrias complementares à                 Existiram as indústrias complementares à
     conserveira, como as destinadas à extracção do           conserveira, como as destinadas à extracção do
     azeite de peixe, à construção naval, ao tratamento       azeite de peixe, à construção naval, ao tratamento
     do sal e ainda as carpintarias onde eram também          do sal e ainda as carpintarias onde eram também
     fabricadas as caixas para acondicionamento das           fabricadas as caixas para acondicionamento das
     latas de conserva destinadas à exportação.               latas de conserva destinadas à exportação.
     Havia ainda as indústrias subsidiárias, como as          Havia ainda as indústrias subsidiárias, como as
     litografias (oficinas onde se procedia à impressão       litografias (oficinas onde se procedia à impressão
     do desenho das folhas-de-flandres) e as latoarias        do desenho das folhas-de-flandres) e as latoarias
     (oficinas destinadas ao fabrico das latas de             (oficinas destinadas ao fabrico das latas de
     conserva).                                               conserva).
     As litografias podiam ser anexas às fábricas,            As litografias podiam ser anexas às fábricas,
     quando estas eram grandes e importantes. É o caso        quando estas eram grandes e importantes. É o caso
     da fábrica Parodi, que possuía uma. Mas também           da fábrica Parodi, que possuía uma. Mas também
     podiam ser independentes, às quais recorriam os          podiam ser independentes, às quais recorriam os
     industriais que não tinham como suportar uma             industriais que não tinham como suportar uma
     secção deste tipo na sua fábrica, fosse por falta de     secção deste tipo na sua fábrica, fosse por falta de
     capital, ou simplesmente por tal não se justificar,      capital, ou simplesmente por tal não se justificar,
     caso a produção de conservas não fosse muito             caso a produção de conservas não fosse muito
     avultada.                                                avultada.
     Quanto às latoarias, também denominadas oficinas         Quanto às latoarias, também denominadas oficinas
     de “vazio”, praticamente todas as fábricas tinham        de “vazio”, praticamente todas as fábricas tinham
     uma.                                                     uma.
3‘   APOGEU E DECLÍNIO
     DA INDÚSTRIA CONSERVEIRA
     APOGEU E DECLÍNIO DA INDÚSTRIA CONSERVEIRA
     O período áureo da indústria conserveira por todo o    O período áureo da indústria conserveira por todo o
     país (e também em Vila Real de Santo António)          país (e também em Vila Real de Santo António)
     iniciou-se com o desencadear da I Guerra Mundial.      iniciou-se com o desencadear da I Guerra Mundial.
     A exportação das conservas para os países              A exportação das conservas para os países
     europeus aumentou extraordinariamente, devido à        europeus aumentou extraordinariamente, devido à
     necessidade de abastecer as tropas.                    necessidade de abastecer as tropas.
     Mas as dificuldades começaram a fazer-se sentir        Mas as dificuldades começaram a fazer-se sentir
     pouco antes da II Guerra Mundial, pois a Itália, que   pouco antes da II Guerra Mundial, pois a Itália, que
     era o mais importante mercado de conservas de          era o mais importante mercado de conservas de
     atum, diminuiu bastante a sua procura e                atum, diminuiu bastante a sua procura e
     importação.                                            importação.
     Embora durante a II Grande Guerra tivesse havido       Embora durante a II Grande Guerra tivesse havido
     uma melhoria na produção e expansão das                uma melhoria na produção e expansão das
     conservas de peixe, a actividade conserveira           conservas de peixe, a actividade conserveira
     vilarealense começou a decair após o conflito,         vilarealense começou a decair após o conflito,
     nomeadamente a partir da segunda metade do             nomeadamente a partir da segunda metade do
     século XX, em consequência de uma menor procura        século XX, em consequência de uma menor procura
     dos mercados estrangeiros e de uma acentuada           dos mercados estrangeiros e de uma acentuada
     escassez de capturas de sardinha.                      escassez de capturas de sardinha.
O PORTO DE VILA REAL
4‘   DE SANTO ANTÓNIO:
     UMA VIA DE LIGAÇÃO
     ENTRE O RIO E O MAR
     NO SÉCULO XIX E NA
     PRIMEIRA METADE
     DO SÉCULO XX
     O PORTO DE VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO:
     UMA VIA DE LIGAÇÃO ENTRE O RIO E O MAR
     NO SÉCULO XIX E NA PRIMEIRA METADE DO
     SÉCULO XX
     O rio Guadiana foi, desde tempos remotos, uma             O rio Guadiana foi, desde tempos remotos, uma
     importante via de circulação de bens e pessoas. No        importante via de circulação de bens e pessoas. No
     século XIX e na primeira metade do século XX essa         século XIX e na primeira metade do século XX essa
     circulação intensificou-se com o desenvolvimento          circulação intensificou-se com o desenvolvimento
     do porto de Vila Real de Santo António que, pela          do porto de Vila Real de Santo António que, pela
     sua localização privilegiada, permitia o fácil e rápido   sua localização privilegiada, permitia o fácil e rápido
     escoamento das mercadorias, quer por via                  escoamento das mercadorias, quer por via
     marítima, quer por via fluvial.                           marítima, quer por via fluvial.
     O grande fluxo de mercadorias no porto de Vila            O grande fluxo de mercadorias no porto de Vila
     Real dá-se a partir de meados do século XIX, altura       Real dá-se a partir de meados do século XIX, altura
     em que são reactivadas as velhas minas de S.              em que são reactivadas as velhas minas de S.
     Domingos, localizadas no concelho de Mértola, que         Domingos, localizadas no concelho de Mértola, que
     utilizavam o Guadiana como via para escoar o              utilizavam o Guadiana como via para escoar o
     minério extraído. Uma vez transportado até ao porto       minério extraído. Uma vez transportado até ao porto
     de Vila Real, o minério seguia daí com destino ao         de Vila Real, o minério seguia daí com destino ao
     mercado internacional: França, Alemanha e,                mercado internacional: França, Alemanha e,
     sobretudo, Inglaterra, o seu principal cliente.           sobretudo, Inglaterra, o seu principal cliente.
     Para além do minério, desciam o Guadiana vindos           Para além do minério, desciam o Guadiana vindos
     do Baixo-Alentejo e interior algarvio outros produtos     do Baixo-Alentejo e interior algarvio outros produtos
     como o vinho, pouco produzido na região algarvia, o       como o vinho, pouco produzido na região algarvia, o
     azeite, utilizado na iluminação e na indústria            azeite, utilizado na iluminação e na indústria
     conserveira, e os cereais, sobretudo o trigo,             conserveira, e os cereais, sobretudo o trigo,
     exportado para outras regiões a partir do porto           exportado para outras regiões a partir do porto
     vilarealense. No sentido inverso, subiam o rio            vilarealense. No sentido inverso, subiam o rio
     produtos de que as povoações ribeirinhas do               produtos de que as povoações ribeirinhas do
     Guadiana careciam, dos quais se destaca o peixe           Guadiana careciam, dos quais se destaca o peixe
     da costa, fresco ou salgado, e o sal, fundamental         da costa, fresco ou salgado, e o sal, fundamental
     para a conservação de alimentos como a carne e o          para a conservação de alimentos como a carne e o
     peixe e que provinha sobretudo das salinas de             peixe e que provinha sobretudo das salinas de
     Castro Marim.                                             Castro Marim.
     O porto de Vila Real de Santo António, um dos             O porto de Vila Real de Santo António, um dos
     principais da região algarvia durante a segunda           principais da região algarvia durante a segunda
     metade do século XIX e primeira metade do XX,             metade do século XIX e primeira metade do XX,
     perdeu importância a partir de 1966, devido ao            perdeu importância a partir de 1966, devido ao
     abandono da Mina de S. Domingos, que causou               abandono da Mina de S. Domingos, que causou
     uma grande quebra no fluxo de exportações.                uma grande quebra no fluxo de exportações.
     Finaliza, por esta altura, o importante ciclo de          Finaliza, por esta altura, o importante ciclo de
     actividade comercial registado por este porto nos         actividade comercial registado por este porto nos
     decénios anteriores.                                      decénios anteriores.
PELAS ROTAS E MEMÓRIAS
5‘   DO CONTRABANDO NO
     BAIXO-GUADIANA
     PELAS ROTAS E MEMÓRIAS DO
     CONTRABANDO NO BAIXO-GUADIANA
     O contrabando, a introdução clandestina de            O contrabando, a introdução clandestina de
     produtos desviados aos direitos fiscais, é uma        produtos desviados aos direitos fiscais, é uma
     actividade tão antiga como o estabelecimento das      actividade tão antiga como o estabelecimento das
     fronteiras entre os territórios. Desde que há         fronteiras entre os territórios. Desde que há
     fronteiras, há contrabando.                           fronteiras, há contrabando.
     A coberto da noite, e constantemente perseguidos      A coberto da noite, e constantemente perseguidos
     por carabineiros espanhóis de um lado e guardas-      por carabineiros espanhóis de um lado e guardas-
     fiscais portugueses do outro, os contrabandistas do   fiscais portugueses do outro, os contrabandistas do
     Guadiana arriscavam a vida a cada travessia. Entre    Guadiana arriscavam a vida a cada travessia. Entre
     as mercadorias mais frequentemente                    as mercadorias mais frequentemente
     contrabandeadas estavam os géneros alimentícios.      contrabandeadas estavam os géneros alimentícios.
     Esporadicamente, principalmente em épocas             Esporadicamente, principalmente em épocas
     politicamente mais conturbadas, os contrabandistas    politicamente mais conturbadas, os contrabandistas
     ajudavam também a dar o salto, isto é, a atravessar   ajudavam também a dar o salto, isto é, a atravessar
     clandestinamente a fronteira. Foi assim durante a     clandestinamente a fronteira. Foi assim durante a
     Guerra Civil espanhola, e foi assim durante a         Guerra Civil espanhola, e foi assim durante a
     ditadura salazarista em Portugal.                     ditadura salazarista em Portugal.
     Mais do que meio de enriquecimento, o                 Mais do que meio de enriquecimento, o
     contrabando constituiu frequentemente um meio         contrabando constituiu frequentemente um meio
     adicional de sustento para as populações              adicional de sustento para as populações
     fronteiriças, autêntica economia paralela que,        fronteiriças, autêntica economia paralela que,
     durante séculos, permitiu mitigar a dureza da vida    durante séculos, permitiu mitigar a dureza da vida
     na raia.                                              na raia.

21272 modulos exposicao nucleo 04

  • 1.
    IV VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO E O URBANISMO ILUMINISTA EXPOSIÇÃO Localização dos Núcleos Expositivos Rua D. Pedro V C.T.T. Rua Teófilo Braga Rua Cândido dos Reis Rua Combatentes da Grande Guerra Rua Conselheiro Frederico Ramirez Centro Rua Gen. Humberto Delgado Cultural Rua Dr. Manuel de Arriaga R. Doutor Sousa Martins Rua 5 de Outubro R. 1º de Maio R. António Capa Largo Lrg Antº P.S.P. Aleixo R. Estreita Luthgarda G. Caires III Igreja Praça Marquês de Pombal IV Rua J. Algarve Rua José Barão Câmara Municipal Rua da Princesa II I Avenida da República Doca de Recreio Rio Guadiana
  • 2.
    Núcleo IV ENTRE OGUADIANA E O MAR: O DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO Núcleo IV ENTRE O GUADIANA E O MAR: O DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
  • 3.
    A IMPORTÂNCIA DEVILA 1‘ REAL DE SANTO ANTÓNIO NO SÉCULO XIX A IMPORTÂNCIA DE VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO NO SÉCULO XIX Na segunda metade do século XIX, era para Vila Na segunda metade do século XIX, era para Vila Real de Santo António que convergiam as grandes Real de Santo António que convergiam as grandes quantidades de peixe capturado nos mares do quantidades de peixe capturado nos mares do Sotavento algarvio. Nesta época, a vila pôde assim Sotavento algarvio. Nesta época, a vila pôde assim afirmar-se como importante lota de venda de peixe, afirmar-se como importante lota de venda de peixe, bem como importante centro produtor e exportador bem como importante centro produtor e exportador de preparados piscícolas. de preparados piscícolas. Três factores interligados contribuíram para tal. O Três factores interligados contribuíram para tal. O primeiro decorreu da liberdade de pesca concedida primeiro decorreu da liberdade de pesca concedida pelas políticas liberais do século XIX, que vieram a pelas políticas liberais do século XIX, que vieram a dar um grande incremento e dinamização às dar um grande incremento e dinamização às pescarias no Algarve. pescarias no Algarve. O segundo teve a ver com a própria localização O segundo teve a ver com a própria localização estratégica e óptimas condições de acesso do porto estratégica e óptimas condições de acesso do porto vilarealense, que admitia embarcações de grande vilarealense, que admitia embarcações de grande calado e avultada capacidade de transporte, e calado e avultada capacidade de transporte, e permitia também um fácil escoamento das permitia também um fácil escoamento das mercadorias para as regiões do interior, bem como mercadorias para as regiões do interior, bem como para fora do Reino. para fora do Reino. A proximidade com Espanha também foi A proximidade com Espanha também foi determinante para tal, pois o reino vizinho foi o determinante para tal, pois o reino vizinho foi o maior consumidor dos recursos piscícolas maior consumidor dos recursos piscícolas portugueses no decurso do século XIX. portugueses no decurso do século XIX.
  • 4.
    2‘ A INDÚSTRIA CONSERVEIRA A INDÚSTRIA CONSERVEIRA Vila Real de Santo António foi o local privilegiado Vila Real de Santo António foi o local privilegiado para a instalação da primeira fábrica moderna para a instalação da primeira fábrica moderna portuguesa de conservas de atum em azeite, portuguesa de conservas de atum em azeite, fundada no ano de 1865 por iniciativa do industrial fundada no ano de 1865 por iniciativa do industrial andaluz Sebastián Ramirez. andaluz Sebastián Ramirez. Pode-se então afirmar que o ano de 1865 marca o Pode-se então afirmar que o ano de 1865 marca o início da moderna actividade industrial conserveira início da moderna actividade industrial conserveira em Vila Real de Santo António, no Algarve, e em em Vila Real de Santo António, no Algarve, e em Portugal. Portugal. Em 1879 é fundada a segunda fábrica de conservas Em 1879 é fundada a segunda fábrica de conservas de Vila Real, a fábrica Santa Maria (que ficará de Vila Real, a fábrica Santa Maria (que ficará simplesmente conhecida por fábrica Parodi), pelo simplesmente conhecida por fábrica Parodi), pelo italiano Ângelo Parodi. Esta foi a primeira a dedicar- italiano Ângelo Parodi. Esta foi a primeira a dedicar- se à conserva de atum em escabeche, vindo a se à conserva de atum em escabeche, vindo a tornar-se numa das mais importantes. A ela se tornar-se numa das mais importantes. A ela se seguiu, em 1880, a fábrica S. Francisco, do seguiu, em 1880, a fábrica S. Francisco, do industrial espanhol Francisco Rodriguez Tenório, industrial espanhol Francisco Rodriguez Tenório, também ela dedicada à conserva de atum em também ela dedicada à conserva de atum em escabeche. Após estas, outras fábricas se escabeche. Após estas, outras fábricas se instalaram. instalaram. Mais tarde também se começaram a produzir Mais tarde também se começaram a produzir conservas de sardinha e, embora em menor conservas de sardinha e, embora em menor importância, de biqueirão e de cavala. importância, de biqueirão e de cavala. Grandes quantidades destas conservas eram Grandes quantidades destas conservas eram exportadas para Itália, o principal mercado das de exportadas para Itália, o principal mercado das de atum, bem como para outros países da Europa, atum, bem como para outros países da Europa, nomeadamente Alemanha, Bélgica, Inglaterra e nomeadamente Alemanha, Bélgica, Inglaterra e França (estes últimos preferiam, ao contrário de França (estes últimos preferiam, ao contrário de Itália, as conservas de sardinha), mas também para Itália, as conservas de sardinha), mas também para a América e para as colónias portuguesas. Vila Real a América e para as colónias portuguesas. Vila Real de Santo António tornou-se, pelos finais do século de Santo António tornou-se, pelos finais do século XIX, o principal centro industrial algarvio produtor e XIX, o principal centro industrial algarvio produtor e exportador de conservas. exportador de conservas. A indústria conserveira permitiu o surgimento e A indústria conserveira permitiu o surgimento e desenvolvimento de diversas outras indústrias, desenvolvimento de diversas outras indústrias, vindo assim aumentar o surto económico de Vila vindo assim aumentar o surto económico de Vila Real de Santo António. Real de Santo António. Existiram as indústrias complementares à Existiram as indústrias complementares à conserveira, como as destinadas à extracção do conserveira, como as destinadas à extracção do azeite de peixe, à construção naval, ao tratamento azeite de peixe, à construção naval, ao tratamento do sal e ainda as carpintarias onde eram também do sal e ainda as carpintarias onde eram também fabricadas as caixas para acondicionamento das fabricadas as caixas para acondicionamento das latas de conserva destinadas à exportação. latas de conserva destinadas à exportação. Havia ainda as indústrias subsidiárias, como as Havia ainda as indústrias subsidiárias, como as litografias (oficinas onde se procedia à impressão litografias (oficinas onde se procedia à impressão do desenho das folhas-de-flandres) e as latoarias do desenho das folhas-de-flandres) e as latoarias (oficinas destinadas ao fabrico das latas de (oficinas destinadas ao fabrico das latas de conserva). conserva). As litografias podiam ser anexas às fábricas, As litografias podiam ser anexas às fábricas, quando estas eram grandes e importantes. É o caso quando estas eram grandes e importantes. É o caso da fábrica Parodi, que possuía uma. Mas também da fábrica Parodi, que possuía uma. Mas também podiam ser independentes, às quais recorriam os podiam ser independentes, às quais recorriam os industriais que não tinham como suportar uma industriais que não tinham como suportar uma secção deste tipo na sua fábrica, fosse por falta de secção deste tipo na sua fábrica, fosse por falta de capital, ou simplesmente por tal não se justificar, capital, ou simplesmente por tal não se justificar, caso a produção de conservas não fosse muito caso a produção de conservas não fosse muito avultada. avultada. Quanto às latoarias, também denominadas oficinas Quanto às latoarias, também denominadas oficinas de “vazio”, praticamente todas as fábricas tinham de “vazio”, praticamente todas as fábricas tinham uma. uma.
  • 5.
    3‘ APOGEU E DECLÍNIO DA INDÚSTRIA CONSERVEIRA APOGEU E DECLÍNIO DA INDÚSTRIA CONSERVEIRA O período áureo da indústria conserveira por todo o O período áureo da indústria conserveira por todo o país (e também em Vila Real de Santo António) país (e também em Vila Real de Santo António) iniciou-se com o desencadear da I Guerra Mundial. iniciou-se com o desencadear da I Guerra Mundial. A exportação das conservas para os países A exportação das conservas para os países europeus aumentou extraordinariamente, devido à europeus aumentou extraordinariamente, devido à necessidade de abastecer as tropas. necessidade de abastecer as tropas. Mas as dificuldades começaram a fazer-se sentir Mas as dificuldades começaram a fazer-se sentir pouco antes da II Guerra Mundial, pois a Itália, que pouco antes da II Guerra Mundial, pois a Itália, que era o mais importante mercado de conservas de era o mais importante mercado de conservas de atum, diminuiu bastante a sua procura e atum, diminuiu bastante a sua procura e importação. importação. Embora durante a II Grande Guerra tivesse havido Embora durante a II Grande Guerra tivesse havido uma melhoria na produção e expansão das uma melhoria na produção e expansão das conservas de peixe, a actividade conserveira conservas de peixe, a actividade conserveira vilarealense começou a decair após o conflito, vilarealense começou a decair após o conflito, nomeadamente a partir da segunda metade do nomeadamente a partir da segunda metade do século XX, em consequência de uma menor procura século XX, em consequência de uma menor procura dos mercados estrangeiros e de uma acentuada dos mercados estrangeiros e de uma acentuada escassez de capturas de sardinha. escassez de capturas de sardinha.
  • 6.
    O PORTO DEVILA REAL 4‘ DE SANTO ANTÓNIO: UMA VIA DE LIGAÇÃO ENTRE O RIO E O MAR NO SÉCULO XIX E NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX O PORTO DE VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO: UMA VIA DE LIGAÇÃO ENTRE O RIO E O MAR NO SÉCULO XIX E NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX O rio Guadiana foi, desde tempos remotos, uma O rio Guadiana foi, desde tempos remotos, uma importante via de circulação de bens e pessoas. No importante via de circulação de bens e pessoas. No século XIX e na primeira metade do século XX essa século XIX e na primeira metade do século XX essa circulação intensificou-se com o desenvolvimento circulação intensificou-se com o desenvolvimento do porto de Vila Real de Santo António que, pela do porto de Vila Real de Santo António que, pela sua localização privilegiada, permitia o fácil e rápido sua localização privilegiada, permitia o fácil e rápido escoamento das mercadorias, quer por via escoamento das mercadorias, quer por via marítima, quer por via fluvial. marítima, quer por via fluvial. O grande fluxo de mercadorias no porto de Vila O grande fluxo de mercadorias no porto de Vila Real dá-se a partir de meados do século XIX, altura Real dá-se a partir de meados do século XIX, altura em que são reactivadas as velhas minas de S. em que são reactivadas as velhas minas de S. Domingos, localizadas no concelho de Mértola, que Domingos, localizadas no concelho de Mértola, que utilizavam o Guadiana como via para escoar o utilizavam o Guadiana como via para escoar o minério extraído. Uma vez transportado até ao porto minério extraído. Uma vez transportado até ao porto de Vila Real, o minério seguia daí com destino ao de Vila Real, o minério seguia daí com destino ao mercado internacional: França, Alemanha e, mercado internacional: França, Alemanha e, sobretudo, Inglaterra, o seu principal cliente. sobretudo, Inglaterra, o seu principal cliente. Para além do minério, desciam o Guadiana vindos Para além do minério, desciam o Guadiana vindos do Baixo-Alentejo e interior algarvio outros produtos do Baixo-Alentejo e interior algarvio outros produtos como o vinho, pouco produzido na região algarvia, o como o vinho, pouco produzido na região algarvia, o azeite, utilizado na iluminação e na indústria azeite, utilizado na iluminação e na indústria conserveira, e os cereais, sobretudo o trigo, conserveira, e os cereais, sobretudo o trigo, exportado para outras regiões a partir do porto exportado para outras regiões a partir do porto vilarealense. No sentido inverso, subiam o rio vilarealense. No sentido inverso, subiam o rio produtos de que as povoações ribeirinhas do produtos de que as povoações ribeirinhas do Guadiana careciam, dos quais se destaca o peixe Guadiana careciam, dos quais se destaca o peixe da costa, fresco ou salgado, e o sal, fundamental da costa, fresco ou salgado, e o sal, fundamental para a conservação de alimentos como a carne e o para a conservação de alimentos como a carne e o peixe e que provinha sobretudo das salinas de peixe e que provinha sobretudo das salinas de Castro Marim. Castro Marim. O porto de Vila Real de Santo António, um dos O porto de Vila Real de Santo António, um dos principais da região algarvia durante a segunda principais da região algarvia durante a segunda metade do século XIX e primeira metade do XX, metade do século XIX e primeira metade do XX, perdeu importância a partir de 1966, devido ao perdeu importância a partir de 1966, devido ao abandono da Mina de S. Domingos, que causou abandono da Mina de S. Domingos, que causou uma grande quebra no fluxo de exportações. uma grande quebra no fluxo de exportações. Finaliza, por esta altura, o importante ciclo de Finaliza, por esta altura, o importante ciclo de actividade comercial registado por este porto nos actividade comercial registado por este porto nos decénios anteriores. decénios anteriores.
  • 7.
    PELAS ROTAS EMEMÓRIAS 5‘ DO CONTRABANDO NO BAIXO-GUADIANA PELAS ROTAS E MEMÓRIAS DO CONTRABANDO NO BAIXO-GUADIANA O contrabando, a introdução clandestina de O contrabando, a introdução clandestina de produtos desviados aos direitos fiscais, é uma produtos desviados aos direitos fiscais, é uma actividade tão antiga como o estabelecimento das actividade tão antiga como o estabelecimento das fronteiras entre os territórios. Desde que há fronteiras entre os territórios. Desde que há fronteiras, há contrabando. fronteiras, há contrabando. A coberto da noite, e constantemente perseguidos A coberto da noite, e constantemente perseguidos por carabineiros espanhóis de um lado e guardas- por carabineiros espanhóis de um lado e guardas- fiscais portugueses do outro, os contrabandistas do fiscais portugueses do outro, os contrabandistas do Guadiana arriscavam a vida a cada travessia. Entre Guadiana arriscavam a vida a cada travessia. Entre as mercadorias mais frequentemente as mercadorias mais frequentemente contrabandeadas estavam os géneros alimentícios. contrabandeadas estavam os géneros alimentícios. Esporadicamente, principalmente em épocas Esporadicamente, principalmente em épocas politicamente mais conturbadas, os contrabandistas politicamente mais conturbadas, os contrabandistas ajudavam também a dar o salto, isto é, a atravessar ajudavam também a dar o salto, isto é, a atravessar clandestinamente a fronteira. Foi assim durante a clandestinamente a fronteira. Foi assim durante a Guerra Civil espanhola, e foi assim durante a Guerra Civil espanhola, e foi assim durante a ditadura salazarista em Portugal. ditadura salazarista em Portugal. Mais do que meio de enriquecimento, o Mais do que meio de enriquecimento, o contrabando constituiu frequentemente um meio contrabando constituiu frequentemente um meio adicional de sustento para as populações adicional de sustento para as populações fronteiriças, autêntica economia paralela que, fronteiriças, autêntica economia paralela que, durante séculos, permitiu mitigar a dureza da vida durante séculos, permitiu mitigar a dureza da vida na raia. na raia.