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A conversão – 05.04.2017
Bom dia, amigos que às quartas-feiras acompanham Palavra Viva pela Rádio Cultura de Florianópolis, Rádio
Católica AM 1500 Mais Feliz com Jesus, de Balneário Camboriú, Rádio Conceição FM, de Itajaí, Rádio Arauto,
de Rancho Queimado, Web Rádio Missão Jovem, de São Paulo, Web Rádio Ilha da Magia, da Capital, e pelo site
conexaocatarinense.com.br Nossa saudação cordial e fraterna também para você que nos ouve no domingo,
quando este programa é reapresentado. Que a paz de Jesus reine em nossos corações e a Mãe Santíssima nos
leve nas dobras do seu manto, em mais este dia que a bondade do Pai nos concede.
Estamos na Quaresma, tempo especialmente propício para a conversão. Se séculos atrás Santo Agostinho dizia
o que ouviremos em seguida, como não estão as coisas nos dias de hoje? Afirmava o filho de Mônica: “A
penitência (a conversão) é uma tarefa diária. O homem caminha sem cessar por este mundo cheio de poluição
e torna-se praticamente impossível não se contaminar. Quando não de lama, ao menos de poeira”.
Sempre queremos adiar a nossa conversão: o próprio Agostinho queria converter-se, “mas não logo”. Até que
chegou o grande dia!
“Eis que de uma casa próxima escuto uma voz que canta, talvez de menino ou menina, que dizia e repetia
frequentemente: ‘Toma e lê!’ (...) Levantei-me interpretando aquela voz como uma ordem divina para que
eu abrisse o livro (a Bíblia) e lesse o primeiro versículo que, em primeiro lugar, se me apresentasse ao olhar.
De fato, eu tinha ouvido contar, a respeito de Antônio, que, tendo-se defrontado por acaso com o versículo
evangélico: ‘Vai, vende tudo o que tens...’ (Mt 19,21), havia-o interpretado como um conselho a ele dirigido
e, por tal ordem, converte-se de imediato a Ti.
Por isso, voltei a toda pressa aonde estava Alípio. Nesse momento tinha deixado o livro do Apóstolo (...)
Tomei-o, abri-o e silenciosamente li aquele versículo que, por primeiro, me caiu sob os olhos: 'Andemos
decentemente... não em devassidão e libertinagem... Mas vesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis
satisfazer os desejos da carne’ (Rm 13,13-14).
Ao chegar ao final, de repente, como se em meu coração se tivesse infundido uma luz de certeza, desfizeram-
se todas as trevas da dúvida. A mãe Mônica, que assiste quase atordoada a essa mudança, exulta ‘bendizendo-
Te porque és poderoso nas obras’” (“Confissões” VIII,12).
É o poder da divina Palavra!
“Cativados por Cristo” é um belo livro de Edições Paulinas escrito por D. Mariano Magrassi, que foi Arcebispo
de Bari-Bitonho, na Itália, e faleceu em abril de 2004. Diz com suave profundidade nosso autor:
“Também os santos foram pecadores. Não está na ausência do pecado a diferença entre nós e eles. Está,
antes de mais nada, nisto: eles não se submeteram jamais ao pecado. Souberam indefinidamente recomeçar.”
(página 110)
Recomeçar, não desistir. Dom Helder Câmara ensinava: “Aquele que cai mil vezes e levanta-se mil e uma, é
um santo”... E Dom Magrassi continua: “É preciso, antes do mais, que acolhamos o apelo que caracteriza os
inícios da pregação evangélica: ‘Convertei-vos e crede no Evangelho!’ (Mc 1,14-15). É um apelo urgente, como
um toque de trombeta, que atravessa todo o Evangelho.
Conversão implica uma ‘mudança de rota, de direção’; é a vida que muda, é o íntimo do homem que é como
que mudado pelo avesso. Tal mudança nos prepara para a nova relação da fé.
PROGRAMA PALAVRA VIVA
CARLOS MARTENDAL
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(...) O Evangelho de Cristo é aquela ‘coisa nova’ que, se aceita e recebida, me obriga a viver de um modo
novo. Assim ocorreu, em cada caso, com os Apóstolos. Se não tivessem cruzado com Jesus em seu caminho,
teriam continuado a fazer o que tinham feito até então.” (pp. 110-111)
E então Dom Magrassi lança um convite, um apelo até: é preciso “acolher o Evangelho como uma novidade.
Lembremos a síntese do romance de Mário Pomilio (O Quinto Evangelho):
‘Se se leem com olhos novos os quatro Evangelhos é como ter descoberto um quinto, que ainda não nos havia
ocorrido ler’. Nasce aquela fé viva, que liga minha vida a Cristo e é continuamente alimentada pela escuta da
Palavra, uma Palavra, entende-se, escutada com o coração, que, penetrando no íntimo, mistura todas as
partes da nossa vida.” (p. 111)
Aí está a ‘receita’: é preciso escutar todos os dias a Palavra, escutá-la com o coração, e pedir a Deus a graça
e a força de colocá-la em prática na vida. Garante Dom Magrassi que “a escuta quotidiana da Palavra é a
grande mola que impulsiona à conversão” (página 112).
São Cesário de Arles, Bispo que socorreu os pobres vendendo os tesouros de sua Igreja, no século VI, nos
admoesta assim:
“Começaste a sair do precipício do desespero, mas agora paras como no meio: não quero que tu caias no
oposto. Não nutras desconfiança sobre teus pecados por desespero, mas não confies numa vida mais longa.
‘Converto-me amanhã’, dizes. E por que não hoje? ‘Que mal há em me converter amanhã?’ E que mal há em
te converteres hoje? ‘É que sei que terei uma longa vida.’ Não foi certamente Deus quem te prometeu isso;
no melhor dos casos, foi um astrólogo.
Se saíste do desespero, escuta agora como sairás de uma esperança malposta e te fundarás numa justa
esperança. Escuta o que diz o Senhor a ti, que esperas de modo errado e discordas dia após dia da conversão:
Não esperar para converter-se a Deus e não adiar dia após dia. São palavras de Deus, não minhas. Não é de
mim que ouviste, mas eu as ouço contigo. Não esperes, diz, para converter-te ao Senhor. Tu, pelo contrário,
respondes: ‘Amanhã, amanhã’.” (“Sermoni, 17”, in “Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do
Oriente”, Paulinas, pp. 485-486)
Parece que é sempre assim: amanhã, amanhã, amanhã! Um antigo provérbio ensina: “Não deixes para amanhã
o que podes fazer hoje”. E o Cardeal Albino Luciani, mais tarde Papa João Paulo I, deixou escrito: “Quem
anda pela estrada do depois, acaba no caminho do nunca”... Converter-se, pois, e logo!
Santo Expedito é celebrado em 19 de abril. “Não temos muitas notícias sobre este santo mártir. Segundo a
tradição, Expedito era chefe da XII Legião Romana, de maioria de soldados cristãos.
Narra-se que, pensando em tornar-se cristão, apareceu-lhe um corvo, que gritava ‘cras’, que significa
‘amanhã’, em latim. Expedito teria então pisoteado o corvo e gritava ‘hodie’, que significa ‘hoje’,
reafirmando o propósito da conversão definitiva.
Convertido, Expedito foi perseguido pelo imperador Diocleciano, por causa de sua fé. Foi flagelado, depois
decapitado, no ano 303. Pelo modo decidido como se deu sua conversão, e também por causa de seu nome,
que significa ‘rápido’, ‘veloz’, Santo Expedito é invocado como o santo das causas urgentes e de difícil
solução”, ensina Frei Sandro Roberto da Costa, OFM (verso da pagela da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus
de 18.04.2012).
Em reunião que tivemos no mês de outubro de 2007, a querida Yana, esposa do Daniel Gil, fraternos amigos
das Equipes de Nossa Senhora, disse-nos algo que me fez pensar muito: “Perder-se é fácil, muito fácil; aí tem
que ter paciência para achar o caminho”! E esse Caminho, que é Cristo, se deixa encontrar tão facilmente...
São João Paulo II, durante a Santa Missa para os universitários, em preparação para o Natal e o Grande Jubileu
de 2000, em 14 de dezembro de 1999, disse o seguinte: “A impedir ou deter a conversão são o orgulho, a
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presunção, a confiança em si mesmo, que se traduzem em prepotência, mentira e iniquidade”. Sem dúvida,
isso diz respeito a cada um de nós e seria oportuno e importante nos questionarmos a respeito.
Atribuem-se a São Remígio, Arcebispo de Reims no século V, estas preciosas palavras ao dar o batismo cristão
a Clóvis, rei dos francos: “Inclina a cabeça, orgulhoso Sicambro: adora o que queimaste, queima o que
adoraste”. (‘Sicambro’ era o indivíduo de um povo antigo que habitou a Alemanha setentrional e que depois
se misturou com os francos, os franceses).
‘Inclina a cabeça’, isto é, humilha-te, abandona o orgulho, que te impede a conversão. Também nós somos
convidados a inclinar a cabeça, a deixar de lado o orgulho, porque o Mestre mandou que aprendêssemos d’Ele
a ser mansos e humildes de coração! (cf. Mt 11,29).
Como são verdadeiras estas palavras de Eric Hobsbawm, historiador inglês que faleceu em 2012: “Ou
mudamos ou será a escuridão”! Nós não fomos criados por Deus para ser escuridão, mas para nos tornarmos
“luz do mundo”! (cf. Mt 5,14).
O Papa Francisco escreveu, em 2016, o Prefácio a uma antologia das obras do Cardeal Joseph Ratzinger, Papa
Bento XVI. A certa altura, transcreve palavras de seu predecessor:
“Nestes dias, li a narração que o grande escritor francês Julien Green faz da sua conversão. Escreve que no
período entre as duas guerras ele vivia precisamente como vive o homem de hoje: permitia-se tudo o que
queria, vivia acorrentado pelos prazeres contrários a Deus, de tal forma que, por um lado, precisava deles
para tornar a sua vida suportável, enquanto, por outro, julgava insustentável exatamente aquela mesma
existência.
Procura uma saída, estabelece relacionamentos. Vai ter com o grande teólogo Henri Bremond, mas o seu
diálogo permanece no plano acadêmico, pormenores teóricos não o ajudam.
Instaura uma relação com dois grandes filósofos, os cônjuges Jacques e Raïssa Maritain. Raïssa indica-lhe um
dominicano polaco. Encontra-se com ele e descreve-lhe a sua vida dilacerada.
Mas o sacerdote pergunta-lhe: ‘E o senhor concorda em viver assim?’. ‘Não, naturalmente, não!’, responde.
‘Portanto, quer viver de outro modo, está arrependido?’. ‘Sim!’, responde-lhe Green. E depois acontece algo
inesperado. O padre dominicano pede-lhe: ‘Ajoelhe-se! Eu te absolvo dos teus pecados!’.
Julien Green escreve: ‘Então dei-me conta de que no fundo eu sempre tinha esperado aquele momento,
sempre tinha aguardado alguém que me dissesse: Ajoelhe-se, eu te absolvo! Fui para casa: eu não era outra
pessoa, não, tornei-me finalmente eu mesmo!” (in L’Osservatore Romano de 30 de junho de 2016, página 15)
Paul Claudel, falecido em 1955, converteu-se ao catolicismo no final de sua juventude. Estou lendo dele,
nestes dias, “O Sapato de Cetim”. Em certo momento, ele põe nos lábios de um padre jesuíta estas palavras
que, penso, relatam um pouco a sua conversão e, oxalá, sirvam também para nós: “Senhor, não é fácil
escapar de Vós”! (p. 16)
Pe. Caffarel transcreve - contada pelo próprio Claudel - como se deu a conversão do escritor e diplomata
francês. “Ao tentar, escreve ele, como fiz muitas vezes, reconstituir os minutos que sucederam a este
instante extraordinário (o de sua conversão repentina na catedral de Paris), recordo-me dos seguintes
elementos que, entretanto, enfeixavam-se num só relâmpago, numa só arma, de que a divina Providência se
servia para atingir e finalmente abrir para si o coração (o ‘espírito’) de um pobre filho desesperado:
‘Como são felizes as pessoas que creem! E se, apesar de tudo, fosse verdade? É verdade! Deus existe. Ele aí
está. É alguém, é um ser tão pessoal como eu! Ele me ama. Ele me chama!’
Emoção muito suave, à qual todavia se mesclava um sentimento de pavor e quase de horror! Pois as minhas
convicções filosóficas quedavam-se intactas. Desdenhosamente, Deus as deixara ficar ali onde estavam, eu
nada via para mudar ali, a religião católica continuava a parecer-me o mesmo amontoado de anedotas
absurdas, seus padres e fiéis inspiravam-me a mesma aversão que beirava o ódio e o nojo”, (in “Novas Cartas
sobre a Oração", Equipes de Nossa Senhora, página 27)
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Continua, agora Pe. Caffarel: “A graça atingira o jovem Claudel no mais íntimo do seu ser; de repente o seu
‘espírito’ fora ferido, iluminado, convencido, ao passo que a razão, a afetividade permaneciam inalteradas,
desafinadas, contrapostas.
Aqueles que fazem uma tal experiência passam em geral anos sem recuperar a consciência desse centro
misterioso que, um dia, experimentou neles exaltação, luz e fervor. É preciso que, graças a uma perseverante
mortificação dos apetites mais ou menos anárquicos e excessivamente ruidosos nas zonas periféricas do seu
ser - corpo, afetividade, inteligência - aprendam pouco a pouco a se dar conta da vida secreta, discreta,
ciciante do ‘espírito’ em seu contato com o Espírito Santo.” (idem, páginas 27-28)
Ouvimos, há pouco, Dom Mariano Magrassi afirmar que a conversão nasce da escuta, que a escuta quotidiana
da Palavra de Deus é a grande mola que impulsiona à conversão. Frei Patrício Sciadini, carmelita descalço,
escreve sobre a resistência para me converter. Assim:
“Sempre tenho escutado que a Quaresma é um tempo privilegiado para se converter, mudar de vida e ser uma
pessoa nova. Porém, neste ano, entrei numa crise existencial, porque depois de tantos anos não consigo
considerar-me uma pessoa ‘convertida’, mas sim me reencontro com um acúmulo de defeitos e uma certa
desilusão diante dessa realidade pessoal.
Continuo a retomar o caminho e tentando encontrá-lo, porém uma razão para as resistências que há dentro do
meu coração é que não consigo superar as barreiras que me impedem de deixar que a Palavra de Deus me
transforme numa criatura nova. Essa análise me leva a colocar em evidência três causas:
A primeira é que Jesus, para mim, não é ainda uma pessoa viva, que bate à minha porta e pede para entrar na
minha história como ‘protagonista’ e não como hóspede estranho. Escutar o grito de Jesus que diz ‘convertei-
vos’ é para mim uma palavra que fortalece a minha vontade para mudar de atitude, para ser capaz de dizer
não aos ídolos que preenchem minha vida. Sinto que a minha vontade ainda é fraca, mas tenho a certeza de
que, com a graça de Deus, vou conseguir superar tudo isso e um dia vou ser um ‘convertido’ capaz de crer na
força de Jesus, que me chama para uma vida nova.
O segundo motivo pelo qual ainda não me converti é porque acho que os meus pecados são, como diz o povo,
‘pecadinhos’ que não fazem mal, que podem coexistir com a Palavra de Deus, com minha vida de cristão. Não
sou muito ruim e nem muito bom, sou ‘passável’. Parece-me que sou chamado - e gostaria de também
convidar a todos - a ver que não é suficiente ser bom, devemos ser ótimos. Porém, o pecado é como uma
gripe que, mal curada, se transforma em pneumonia e em doença grave.
O terceiro motivo que impede de me converter é que quero discutir com o diabo que me tenta. Quando Jesus
no Evangelho nos ensina que com o diabo nunca se deve discutir é porque corremos o risco de perder.
Devemos resistir e combatê-lo com a mesma Palavra de Deus, como fez Jesus quando o demônio o tentou.”
E finaliza Frei Patrício Sciadini, sacerdote e carmelita: “Espero que esta minha confissão e que esta
radiografia me ajudem e ajudem também aos outros para começarmos o caminho para a Páscoa que está aí.
Conversão não é só no tempo da Quaresma, mas em todos os dias da nossa vida.” (“O São Paulo”, 10 a 15 de
março de 2016, página 5)
Essa confissão de Frei Patrício encontrei em “O São Paulo”, jornal da Arquidiocese de São Paulo, que
semanalmente o caro amigo Professor Manoel Cardoso tem a gentileza de me encaminhar. Vale uma bela
reflexão.
Converter-se é modificar-se, é tornar-se o que Deus quer. Sören Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês
falecido em 1855, dizia que “só quem já se modificou pode modificar os outros”. E fácil daí deduzir que “só
quem já se converteu pode converter os outros”. Que o bom Deus nos dê esta graça, a graça da conversão.
Afinal, aqui estamos, preparando-nos para viver com Ele “por longos dias”, como escreve o salmista (Sl 22
[23],6)!
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Num CD muito bonito – “Em nome de Jesus Joana interpreta Pe. Zezinho” -, há uma canção que me toca
particularmente: “Alô, meu Deus”. Lembra que faz tanto tempo que não mais procuro o Senhor, que estou
sentindo saudades e, por isso, voltei. Voltei porque “meu coração cansado resolveu voltar”, pois “restou-me a
esperança de outra vez te encontrar”. E tem um refrão e tanto: “Eu não me acostumei nas terras onde
andei”. Que isso aconteça com cada um de nós. E, com o coração arrependido, dolorido, voltemos a Deus,
pois só n’Ele encontraremos a verdadeira paz!
faixa 5 - 3min13s
Obrigado, amigos que acompanharam Palavra Viva pela Rádio Cultura de Florianópolis, Rádio Católica AM 1500
Mais Feliz com Jesus, de Balneário Camboriú, Rádio Conceição FM, de Itajaí, Rádio Arauto, de Rancho
Queimado, Web Rádio Missão Jovem, de São Paulo, Web Rádio Ilha da Magia, da Capital, e pelo site
conexaocatarinense.com.br Até quarta-feira que vem, às 08h30min, e no domingo às 13h30min, se Deus
quiser!
Escrito por:
Carlos Martendal
programapalavraviva@gmail.com

2017.04.05 a conversão

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    1 A conversão –05.04.2017 Bom dia, amigos que às quartas-feiras acompanham Palavra Viva pela Rádio Cultura de Florianópolis, Rádio Católica AM 1500 Mais Feliz com Jesus, de Balneário Camboriú, Rádio Conceição FM, de Itajaí, Rádio Arauto, de Rancho Queimado, Web Rádio Missão Jovem, de São Paulo, Web Rádio Ilha da Magia, da Capital, e pelo site conexaocatarinense.com.br Nossa saudação cordial e fraterna também para você que nos ouve no domingo, quando este programa é reapresentado. Que a paz de Jesus reine em nossos corações e a Mãe Santíssima nos leve nas dobras do seu manto, em mais este dia que a bondade do Pai nos concede. Estamos na Quaresma, tempo especialmente propício para a conversão. Se séculos atrás Santo Agostinho dizia o que ouviremos em seguida, como não estão as coisas nos dias de hoje? Afirmava o filho de Mônica: “A penitência (a conversão) é uma tarefa diária. O homem caminha sem cessar por este mundo cheio de poluição e torna-se praticamente impossível não se contaminar. Quando não de lama, ao menos de poeira”. Sempre queremos adiar a nossa conversão: o próprio Agostinho queria converter-se, “mas não logo”. Até que chegou o grande dia! “Eis que de uma casa próxima escuto uma voz que canta, talvez de menino ou menina, que dizia e repetia frequentemente: ‘Toma e lê!’ (...) Levantei-me interpretando aquela voz como uma ordem divina para que eu abrisse o livro (a Bíblia) e lesse o primeiro versículo que, em primeiro lugar, se me apresentasse ao olhar. De fato, eu tinha ouvido contar, a respeito de Antônio, que, tendo-se defrontado por acaso com o versículo evangélico: ‘Vai, vende tudo o que tens...’ (Mt 19,21), havia-o interpretado como um conselho a ele dirigido e, por tal ordem, converte-se de imediato a Ti. Por isso, voltei a toda pressa aonde estava Alípio. Nesse momento tinha deixado o livro do Apóstolo (...) Tomei-o, abri-o e silenciosamente li aquele versículo que, por primeiro, me caiu sob os olhos: 'Andemos decentemente... não em devassidão e libertinagem... Mas vesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne’ (Rm 13,13-14). Ao chegar ao final, de repente, como se em meu coração se tivesse infundido uma luz de certeza, desfizeram- se todas as trevas da dúvida. A mãe Mônica, que assiste quase atordoada a essa mudança, exulta ‘bendizendo- Te porque és poderoso nas obras’” (“Confissões” VIII,12). É o poder da divina Palavra! “Cativados por Cristo” é um belo livro de Edições Paulinas escrito por D. Mariano Magrassi, que foi Arcebispo de Bari-Bitonho, na Itália, e faleceu em abril de 2004. Diz com suave profundidade nosso autor: “Também os santos foram pecadores. Não está na ausência do pecado a diferença entre nós e eles. Está, antes de mais nada, nisto: eles não se submeteram jamais ao pecado. Souberam indefinidamente recomeçar.” (página 110) Recomeçar, não desistir. Dom Helder Câmara ensinava: “Aquele que cai mil vezes e levanta-se mil e uma, é um santo”... E Dom Magrassi continua: “É preciso, antes do mais, que acolhamos o apelo que caracteriza os inícios da pregação evangélica: ‘Convertei-vos e crede no Evangelho!’ (Mc 1,14-15). É um apelo urgente, como um toque de trombeta, que atravessa todo o Evangelho. Conversão implica uma ‘mudança de rota, de direção’; é a vida que muda, é o íntimo do homem que é como que mudado pelo avesso. Tal mudança nos prepara para a nova relação da fé. PROGRAMA PALAVRA VIVA CARLOS MARTENDAL
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    2 (...) O Evangelhode Cristo é aquela ‘coisa nova’ que, se aceita e recebida, me obriga a viver de um modo novo. Assim ocorreu, em cada caso, com os Apóstolos. Se não tivessem cruzado com Jesus em seu caminho, teriam continuado a fazer o que tinham feito até então.” (pp. 110-111) E então Dom Magrassi lança um convite, um apelo até: é preciso “acolher o Evangelho como uma novidade. Lembremos a síntese do romance de Mário Pomilio (O Quinto Evangelho): ‘Se se leem com olhos novos os quatro Evangelhos é como ter descoberto um quinto, que ainda não nos havia ocorrido ler’. Nasce aquela fé viva, que liga minha vida a Cristo e é continuamente alimentada pela escuta da Palavra, uma Palavra, entende-se, escutada com o coração, que, penetrando no íntimo, mistura todas as partes da nossa vida.” (p. 111) Aí está a ‘receita’: é preciso escutar todos os dias a Palavra, escutá-la com o coração, e pedir a Deus a graça e a força de colocá-la em prática na vida. Garante Dom Magrassi que “a escuta quotidiana da Palavra é a grande mola que impulsiona à conversão” (página 112). São Cesário de Arles, Bispo que socorreu os pobres vendendo os tesouros de sua Igreja, no século VI, nos admoesta assim: “Começaste a sair do precipício do desespero, mas agora paras como no meio: não quero que tu caias no oposto. Não nutras desconfiança sobre teus pecados por desespero, mas não confies numa vida mais longa. ‘Converto-me amanhã’, dizes. E por que não hoje? ‘Que mal há em me converter amanhã?’ E que mal há em te converteres hoje? ‘É que sei que terei uma longa vida.’ Não foi certamente Deus quem te prometeu isso; no melhor dos casos, foi um astrólogo. Se saíste do desespero, escuta agora como sairás de uma esperança malposta e te fundarás numa justa esperança. Escuta o que diz o Senhor a ti, que esperas de modo errado e discordas dia após dia da conversão: Não esperar para converter-se a Deus e não adiar dia após dia. São palavras de Deus, não minhas. Não é de mim que ouviste, mas eu as ouço contigo. Não esperes, diz, para converter-te ao Senhor. Tu, pelo contrário, respondes: ‘Amanhã, amanhã’.” (“Sermoni, 17”, in “Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente”, Paulinas, pp. 485-486) Parece que é sempre assim: amanhã, amanhã, amanhã! Um antigo provérbio ensina: “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”. E o Cardeal Albino Luciani, mais tarde Papa João Paulo I, deixou escrito: “Quem anda pela estrada do depois, acaba no caminho do nunca”... Converter-se, pois, e logo! Santo Expedito é celebrado em 19 de abril. “Não temos muitas notícias sobre este santo mártir. Segundo a tradição, Expedito era chefe da XII Legião Romana, de maioria de soldados cristãos. Narra-se que, pensando em tornar-se cristão, apareceu-lhe um corvo, que gritava ‘cras’, que significa ‘amanhã’, em latim. Expedito teria então pisoteado o corvo e gritava ‘hodie’, que significa ‘hoje’, reafirmando o propósito da conversão definitiva. Convertido, Expedito foi perseguido pelo imperador Diocleciano, por causa de sua fé. Foi flagelado, depois decapitado, no ano 303. Pelo modo decidido como se deu sua conversão, e também por causa de seu nome, que significa ‘rápido’, ‘veloz’, Santo Expedito é invocado como o santo das causas urgentes e de difícil solução”, ensina Frei Sandro Roberto da Costa, OFM (verso da pagela da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus de 18.04.2012). Em reunião que tivemos no mês de outubro de 2007, a querida Yana, esposa do Daniel Gil, fraternos amigos das Equipes de Nossa Senhora, disse-nos algo que me fez pensar muito: “Perder-se é fácil, muito fácil; aí tem que ter paciência para achar o caminho”! E esse Caminho, que é Cristo, se deixa encontrar tão facilmente... São João Paulo II, durante a Santa Missa para os universitários, em preparação para o Natal e o Grande Jubileu de 2000, em 14 de dezembro de 1999, disse o seguinte: “A impedir ou deter a conversão são o orgulho, a
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    3 presunção, a confiançaem si mesmo, que se traduzem em prepotência, mentira e iniquidade”. Sem dúvida, isso diz respeito a cada um de nós e seria oportuno e importante nos questionarmos a respeito. Atribuem-se a São Remígio, Arcebispo de Reims no século V, estas preciosas palavras ao dar o batismo cristão a Clóvis, rei dos francos: “Inclina a cabeça, orgulhoso Sicambro: adora o que queimaste, queima o que adoraste”. (‘Sicambro’ era o indivíduo de um povo antigo que habitou a Alemanha setentrional e que depois se misturou com os francos, os franceses). ‘Inclina a cabeça’, isto é, humilha-te, abandona o orgulho, que te impede a conversão. Também nós somos convidados a inclinar a cabeça, a deixar de lado o orgulho, porque o Mestre mandou que aprendêssemos d’Ele a ser mansos e humildes de coração! (cf. Mt 11,29). Como são verdadeiras estas palavras de Eric Hobsbawm, historiador inglês que faleceu em 2012: “Ou mudamos ou será a escuridão”! Nós não fomos criados por Deus para ser escuridão, mas para nos tornarmos “luz do mundo”! (cf. Mt 5,14). O Papa Francisco escreveu, em 2016, o Prefácio a uma antologia das obras do Cardeal Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI. A certa altura, transcreve palavras de seu predecessor: “Nestes dias, li a narração que o grande escritor francês Julien Green faz da sua conversão. Escreve que no período entre as duas guerras ele vivia precisamente como vive o homem de hoje: permitia-se tudo o que queria, vivia acorrentado pelos prazeres contrários a Deus, de tal forma que, por um lado, precisava deles para tornar a sua vida suportável, enquanto, por outro, julgava insustentável exatamente aquela mesma existência. Procura uma saída, estabelece relacionamentos. Vai ter com o grande teólogo Henri Bremond, mas o seu diálogo permanece no plano acadêmico, pormenores teóricos não o ajudam. Instaura uma relação com dois grandes filósofos, os cônjuges Jacques e Raïssa Maritain. Raïssa indica-lhe um dominicano polaco. Encontra-se com ele e descreve-lhe a sua vida dilacerada. Mas o sacerdote pergunta-lhe: ‘E o senhor concorda em viver assim?’. ‘Não, naturalmente, não!’, responde. ‘Portanto, quer viver de outro modo, está arrependido?’. ‘Sim!’, responde-lhe Green. E depois acontece algo inesperado. O padre dominicano pede-lhe: ‘Ajoelhe-se! Eu te absolvo dos teus pecados!’. Julien Green escreve: ‘Então dei-me conta de que no fundo eu sempre tinha esperado aquele momento, sempre tinha aguardado alguém que me dissesse: Ajoelhe-se, eu te absolvo! Fui para casa: eu não era outra pessoa, não, tornei-me finalmente eu mesmo!” (in L’Osservatore Romano de 30 de junho de 2016, página 15) Paul Claudel, falecido em 1955, converteu-se ao catolicismo no final de sua juventude. Estou lendo dele, nestes dias, “O Sapato de Cetim”. Em certo momento, ele põe nos lábios de um padre jesuíta estas palavras que, penso, relatam um pouco a sua conversão e, oxalá, sirvam também para nós: “Senhor, não é fácil escapar de Vós”! (p. 16) Pe. Caffarel transcreve - contada pelo próprio Claudel - como se deu a conversão do escritor e diplomata francês. “Ao tentar, escreve ele, como fiz muitas vezes, reconstituir os minutos que sucederam a este instante extraordinário (o de sua conversão repentina na catedral de Paris), recordo-me dos seguintes elementos que, entretanto, enfeixavam-se num só relâmpago, numa só arma, de que a divina Providência se servia para atingir e finalmente abrir para si o coração (o ‘espírito’) de um pobre filho desesperado: ‘Como são felizes as pessoas que creem! E se, apesar de tudo, fosse verdade? É verdade! Deus existe. Ele aí está. É alguém, é um ser tão pessoal como eu! Ele me ama. Ele me chama!’ Emoção muito suave, à qual todavia se mesclava um sentimento de pavor e quase de horror! Pois as minhas convicções filosóficas quedavam-se intactas. Desdenhosamente, Deus as deixara ficar ali onde estavam, eu nada via para mudar ali, a religião católica continuava a parecer-me o mesmo amontoado de anedotas absurdas, seus padres e fiéis inspiravam-me a mesma aversão que beirava o ódio e o nojo”, (in “Novas Cartas sobre a Oração", Equipes de Nossa Senhora, página 27)
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    4 Continua, agora Pe.Caffarel: “A graça atingira o jovem Claudel no mais íntimo do seu ser; de repente o seu ‘espírito’ fora ferido, iluminado, convencido, ao passo que a razão, a afetividade permaneciam inalteradas, desafinadas, contrapostas. Aqueles que fazem uma tal experiência passam em geral anos sem recuperar a consciência desse centro misterioso que, um dia, experimentou neles exaltação, luz e fervor. É preciso que, graças a uma perseverante mortificação dos apetites mais ou menos anárquicos e excessivamente ruidosos nas zonas periféricas do seu ser - corpo, afetividade, inteligência - aprendam pouco a pouco a se dar conta da vida secreta, discreta, ciciante do ‘espírito’ em seu contato com o Espírito Santo.” (idem, páginas 27-28) Ouvimos, há pouco, Dom Mariano Magrassi afirmar que a conversão nasce da escuta, que a escuta quotidiana da Palavra de Deus é a grande mola que impulsiona à conversão. Frei Patrício Sciadini, carmelita descalço, escreve sobre a resistência para me converter. Assim: “Sempre tenho escutado que a Quaresma é um tempo privilegiado para se converter, mudar de vida e ser uma pessoa nova. Porém, neste ano, entrei numa crise existencial, porque depois de tantos anos não consigo considerar-me uma pessoa ‘convertida’, mas sim me reencontro com um acúmulo de defeitos e uma certa desilusão diante dessa realidade pessoal. Continuo a retomar o caminho e tentando encontrá-lo, porém uma razão para as resistências que há dentro do meu coração é que não consigo superar as barreiras que me impedem de deixar que a Palavra de Deus me transforme numa criatura nova. Essa análise me leva a colocar em evidência três causas: A primeira é que Jesus, para mim, não é ainda uma pessoa viva, que bate à minha porta e pede para entrar na minha história como ‘protagonista’ e não como hóspede estranho. Escutar o grito de Jesus que diz ‘convertei- vos’ é para mim uma palavra que fortalece a minha vontade para mudar de atitude, para ser capaz de dizer não aos ídolos que preenchem minha vida. Sinto que a minha vontade ainda é fraca, mas tenho a certeza de que, com a graça de Deus, vou conseguir superar tudo isso e um dia vou ser um ‘convertido’ capaz de crer na força de Jesus, que me chama para uma vida nova. O segundo motivo pelo qual ainda não me converti é porque acho que os meus pecados são, como diz o povo, ‘pecadinhos’ que não fazem mal, que podem coexistir com a Palavra de Deus, com minha vida de cristão. Não sou muito ruim e nem muito bom, sou ‘passável’. Parece-me que sou chamado - e gostaria de também convidar a todos - a ver que não é suficiente ser bom, devemos ser ótimos. Porém, o pecado é como uma gripe que, mal curada, se transforma em pneumonia e em doença grave. O terceiro motivo que impede de me converter é que quero discutir com o diabo que me tenta. Quando Jesus no Evangelho nos ensina que com o diabo nunca se deve discutir é porque corremos o risco de perder. Devemos resistir e combatê-lo com a mesma Palavra de Deus, como fez Jesus quando o demônio o tentou.” E finaliza Frei Patrício Sciadini, sacerdote e carmelita: “Espero que esta minha confissão e que esta radiografia me ajudem e ajudem também aos outros para começarmos o caminho para a Páscoa que está aí. Conversão não é só no tempo da Quaresma, mas em todos os dias da nossa vida.” (“O São Paulo”, 10 a 15 de março de 2016, página 5) Essa confissão de Frei Patrício encontrei em “O São Paulo”, jornal da Arquidiocese de São Paulo, que semanalmente o caro amigo Professor Manoel Cardoso tem a gentileza de me encaminhar. Vale uma bela reflexão. Converter-se é modificar-se, é tornar-se o que Deus quer. Sören Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês falecido em 1855, dizia que “só quem já se modificou pode modificar os outros”. E fácil daí deduzir que “só quem já se converteu pode converter os outros”. Que o bom Deus nos dê esta graça, a graça da conversão. Afinal, aqui estamos, preparando-nos para viver com Ele “por longos dias”, como escreve o salmista (Sl 22 [23],6)!
  • 5.
    5 Num CD muitobonito – “Em nome de Jesus Joana interpreta Pe. Zezinho” -, há uma canção que me toca particularmente: “Alô, meu Deus”. Lembra que faz tanto tempo que não mais procuro o Senhor, que estou sentindo saudades e, por isso, voltei. Voltei porque “meu coração cansado resolveu voltar”, pois “restou-me a esperança de outra vez te encontrar”. E tem um refrão e tanto: “Eu não me acostumei nas terras onde andei”. Que isso aconteça com cada um de nós. E, com o coração arrependido, dolorido, voltemos a Deus, pois só n’Ele encontraremos a verdadeira paz! faixa 5 - 3min13s Obrigado, amigos que acompanharam Palavra Viva pela Rádio Cultura de Florianópolis, Rádio Católica AM 1500 Mais Feliz com Jesus, de Balneário Camboriú, Rádio Conceição FM, de Itajaí, Rádio Arauto, de Rancho Queimado, Web Rádio Missão Jovem, de São Paulo, Web Rádio Ilha da Magia, da Capital, e pelo site conexaocatarinense.com.br Até quarta-feira que vem, às 08h30min, e no domingo às 13h30min, se Deus quiser! Escrito por: Carlos Martendal programapalavraviva@gmail.com