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Título original: Los hijos de La Luz© Copyright 2005: Random House Mondadori, S.A., Barcelona© Copyright 2006: César Vidal...
SSSSSSSSuuuuuuuummmmmmmmáááááááárrrrrrrriiiiiiiiooooooooPrimeira parteOOSS FFIILLHHOOSS DDAA LLUUZZSegunda parteCCOONNSSPP...
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O patíbulo se erguia, assim, entre o caminho que levava aos Champs Eliseés eum curioso... pedestal? Sim, tudo parecia indi...
daquelas reflexões. Não serviu, no entanto, para aliviar o mal-estar que tinha tomadoconta dele. Pelo contrário: arrastou ...
pessoas portando as mais diferentes armas. Piques2, lanças, mosquetes...O condenado desceu do carro. Totalmente enfeitado ...
Fez isso justo no momento em que os soldados chegavam perto dele. Ele nãopoderia garantir, mas Karl teve a impressão de qu...
não saltou até o chão, mas caiu na cesta. Talvez, pensou, a pequenez da lâmina tenhaevitado aquela profanação extra.Um dos...
onde ele se encontrava. Deu dois, três, quatro empurrões para alcançá-lo. Mas, derepente, desapareceu. Angustiado, movimen...
DDDDDDDDooooooooiiiiiiiissssssssBaviera, 1775COMO É BONITA, DISSE A SI MESMO enquanto calculava na mão esquerda o pesodo a...
O caçador se lançou sobre os arbustos convencido de que pegaria aqueleanimalzinho. Estava enganado. A sombra daquela massa...
e coberto de insetos verde-azulados. O rosto parecia destruído, esmigalhado, esvaído,como se tivessem tentado desmanchá-lo...
TTTTTTTTrrrrrrrrêêêêêêêêssssssssBaviera, 1787WILHELM KOCH PASSOU A MÃO pelo queixo. Sentiu então um pequeno tufo depêlos m...
aqueduto de ordem que garantia, mais cedo ou mais tarde, que acabaria sendo resolvidode maneira segura. Tudo, a não ser o ...
— O que é que você sabe, seu pateta, sobre o estado ruinoso da naturezahumana?Os príncipes e as nações desaparecerão da fa...
essa Moralidade nos ensina a crescer, a nos libertarmos, a amadurecer ecaminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes.K...
lições: ensinou através de parábolas.Parábolas... nunca lhe teria ocorrido pensar que as parábolas contivessem umensinamen...
Sorriu satisfeito quando constatou que as costas respondiam devidamente. Deu algunspassos para contornar a mesa, colocou-s...
— Espartaco... Veja só. Nada menos do que Espartaco. Serviu outro café e otomou em pequenos goles enquanto cruzava o apose...
QQQQQQQQuuuuuuuuaaaaaaaattttttttrrrrrrrrooooooooFrança, maio de 1793— ENFORQUEM ELES! Enforquem eles!Quem lançava os grito...
— Dá pa saber, por exemplo — continuou o chefe improvisado — pru quêvocês tinham que vir neste povoado pra queimar a igrej...
século antes. Não havia chegado ao poder um revolucionário piedoso como Cromwellou uma rainha religiosa e prudente como An...
— Ali... Ali!A multidão acelerou o passo como se tivesse acabado de ouvir um ensalmo.Karl também apertou o passo para evit...
de que quem se atrevesse a destruir a religião, o fruto do duro trabalho cotidiano, afamília e a paz só poderia ser digno ...
sol encoberto por um mar de nuvens cinzas e algodoadas. E, justamente quando chegavaa esse ponto, uma mistura de repugnânc...
limites da normalidade. O problema era quando se examinava o restante do corpo. Opescoço, o peito e o rosto apresentavam a...
voluntária. Violentaram o rapaz. O alargamento do ânus não deixa margem a dúvidas.Desde já, espero que o tenham matado ant...
SSSSSSSSeeeeeeeeiiiiiiiissssssssBaviera, 1787MAIS DE UMA VEZ, mais de duas, mais de uma centena, Koch tinha seperguntado p...
— Ah, sim — disse Koch respirando fundo —, mas isso, padre, se me permitedizer, não é um crime.O sacerdote passou os dedos...
alguma coisa."— E o senhor escreveu?— Claro... claro que sim. Não vou esconder. Escrevi. E então... aí vem o pior...O sace...
invejável. De onde se encontrava, tinha apenas que andar alguns minutos para sedefrontar com algumas das pessoas mais nece...
localizar algum lugar em que pudesse colocar suas nádegas.Encontrou-no numa cadeira minúscula colocada entre duas pilhas d...
SSSSSSSSeeeeeeeetttttttteeeeeeeeParis, 24 de julho de 1794KARL LEVANTOU O OLHAR PARA O CÉU. Ele continuava cinzento, plúmb...
só Deus sabia onde os revolucionários iriam parar em seu plano de criar uma novasociedade. Lamentavelmente, ele não tinha ...
sinal de alerta. Parecia óbvio que ela queria alguma coisa e, ou ele estava muitoenganado, ou não iria sair de graça.— Vej...
estavam construindo. Ninguém se atrevia a confiar em ninguém e todos desconfiavamde todos. As palavras cidadão e cidadã, i...
inclusive, de parar um pouco para respirar fundo o ar da manhã, mas a mulher tinhacomeçado a descer a rua numa velocidade ...
OOOOOOOOiiiiiiiittttttttooooooooBaviera, 1775-1776STEINER SE INCLINOU, melancólico e meditabundo, sobre a caneca de cervej...
Velhos e crianças, religiosos e leigos, homens e mulheres, camponeses e artesãos. Tinhainterrogado a todos, mas não tinha ...
lhe dizia respeito, dificilmente poderia estar se sentindo mais desorientado.— Descartadas as testemunhas oculares — disse...
— O que o senhor deseja saber exatamente, herr Steiner? — perguntou oGaleno, olhando-o de maneira inquisitiva por cima de ...
agora se atreverem a azedar seu casamento simplesmente porque herr Koch tinha lheencomendado a missão de encontrar uma agu...
O policial esperou pacientemente que a senhora Muller encerrasse a discussãocom herr Heide. A disputa acabou quando o home...
o olhar no homem de cabelos alvos e o espetou:— Por cometer o pecado de Sodoma e Gomorra.Steiner teve que segurar herr Hei...
amigo, talvez?Koch hesitou um instante antes de responder. Sem dúvida, se dissesse que erapolicial, seria mais do que prov...
O crime dos illuminati   cesar vidal
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  1. 1. hhttttpp::////ggrroouuppss..ggooooggllee..ccoomm..bbrr//ggrroouupp//ddiiggiittaallssoouurrccee
  2. 2. CCééssaarr VViiddaallOO CCRRIIMMEE DDOOSSIILLLLUUMMIINNAATTIITTrraadduuççããooAANNTTÔÔNNIIOO FFEERRNNAANNDDOO BBOORRGGEESS
  3. 3. Título original: Los hijos de La Luz© Copyright 2005: Random House Mondadori, S.A., Barcelona© Copyright 2006: César Vidal Direitos cedidos para esta edição àEDIOURO PUBLICAÇÕES S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 - BonsucessoCEP 21042-235 - Rio de Janeiro, RJTel. (21)3882-8338 - Fax (21)2560-1183www.relumedumara.com.brA RELUME DUMARA É UMA EMPRESA EDIOURO PUBLICAÇÕESRevisão Maria Helena HuebraEditoração Dilmo MilheirosCapa Simone Villas-BoasCIP-Brasil. Catalogaçao-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.V691f Vidal, César, 1958-O crime dos Illuminati / César Vidal ; tradução AntônioFernando Borges. - Rio de Janeiro : Relume Dumará, 2006Tradução de: Los hijos de Ia luz ISBN 85-7316-491-31. Romance espanhol. I. Borges, Antônio Fernando, 1954-. II. Título.06-3160 CDD 863CDU 821.134.2-3Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, porqualquer meio, seja ela total ou parcial, constitui violação da Lei n° 5.988.Para aqueles que combatem, incansáveis,honrados e valentes, as obras ocultas das trevas
  4. 4. SSSSSSSSuuuuuuuummmmmmmmáááááááárrrrrrrriiiiiiiiooooooooPrimeira parteOOSS FFIILLHHOOSS DDAA LLUUZZSegunda parteCCOONNSSPPIIRRAAÇÇÃÃOOTerceira parteNNÊÊMMEESSIISSEpílogoA bela Lola, por Zoé Valdés
  5. 5. PPPPPPPPRRRRRRRRIIIIIIIIMMMMMMMMEEEEEEEEIIIIIIIIRRRRRRRRAAAAAAAA PPPPPPPPAAAAAAAARRRRRRRRTTTTTTTTEEEEEEEEOOOOOOOOssssssss ffffffffiiiiiiiillllllllhhhhhhhhoooooooossssssss ddddddddaaaaaaaa lllllllluuuuuuuuzzzzzzzzUUmmParis, 21 de janeiro de 1793REALMENTE É MUITO CURIOSA a maneira como as impressões ficam gravadasem nosso cérebro, para depois emergirem, de vez em quando, graças ao efeito quasemágico da memória. De um desfile demorado, recordamos não a aparência marcial doelegante capitão ou as palavras piedosas pronunciadas de maneira emotiva pelo capelãoao abençoar as tropas, nem mesmo a variedade de cores dos uniformes. O que ficaretido em nossa mente, pelo contrário, é o semblante acalorado de um soldadocamponês, suarento e avermelhado, a quem o uniforme de gala atormentava como se oestivesse submetendo a uma tortura. De um te-déum solene esquecemos a pregaçãosentida do Evangelho, o grande número de fiéis e até o motivo transcendental dacerimônia impressionante, mas no coração fica impressa a aparência sonolenta de umsacristão barbeado com descuido ou da anciã que cochilava durante a homilia. Assimage a memória, e a de Karl não era uma exceção entre as de outros tantos integrantes dogênero humano. Daquela manhã, ele se lembraria de muitas coisas, mas, principalmente,ficaria inscrita em suas lembranças a colocação assimétrica do patíbulo.Tratando-se de uma praça e levando-se em conta a quantidade nada desprezívelde espectadores — podia-se dizer que metade de Paris estava concentrada naquele lugar— o mais lógico teria sido instalar aquele ambiente de morte no centro, procurando aeqüidistância, para que o maior número possível de espectadores contemplasse, talvezaté com deleite, quase sempre com curiosidade, o que iria acontecer dentro de algunssegundos. No entanto, no fim das contas, os guardiães da revolução, os defensores daliberdade, os impulsionadores da igualdade tinham optado por colocá-lo quase numaesquina.
  6. 6. O patíbulo se erguia, assim, entre o caminho que levava aos Champs Eliseés eum curioso... pedestal? Sim, tudo parecia indicar que aquele volume enorme e quaseamorfo tinha sido um pedestal em algum momento de um passado talvez não distante.Se bem que, a ser assim, para que estátua exatamente ele tinha servido de plataforma?Devia ter sido uma escultura odiada, porque a tinham arrancado quase pela raiz. Nemmesmo o pedestal tinha se salvado da ação daquelas multidões que os dirigentes darevolução chamavam com vigor de "cidadãos" e de "o povo". Karl achou inclusive que,em outros tempos, o pedestal devia ter contado com um revestimento de mármore ebronze, mas desses materiais tão nobres só restavam agora fragmentos em mau estado.Até a pedra, que agora aparecia, riscada e triste, a descoberto, como uma mulher quetivessem tirado da cama para lhe arrancar a roupa em seguida, tinha um aspectodeplorável, como se alguém tivesse tido prazer em espancá-la e, no final, enfadado eexausto, tivesse desistido da tarefa extenuante.O cadafalso tinha sido erguido a poucos passos daquele vestígio lastimável deum passado que, de tão próximo, quase parecia presente e que os "cidadãos" desejavamarrancar pela raiz. Tinha sido coberto por tábuas compridas, colocadas de maneiratransversal, que serviam para esconder uma complicada estrutura que pareciaproveniente do Garde-Meuble1. Exatamente no extremo oposto ficava a escada sórdidaque terminava na parte alta do cadafalso, desprovida de corrimão.Karl sentiu como se uma bola de metal o atingisse violenta e inesperadamentena boca do estômago, quando contemplou um objeto de forma cilíndrica colocado sobreo patíbulo. Estava coberto de couro e, sim, não restava dúvida, era a cesta onde a cabeçado condenado deveria cair. Claro que não se tinha certeza de que fosse acontecer assim.De saída, a lâmina da guilhotina não parecia muito pesada. Na verdade, era pequena etinha uma forma curva, quase como um daqueles gorros frígios que muitos dospresentes usavam. Como não se via nenhum dispositivo que pudesse segurar a cabeçado réu uma vez que tivesse sido separada do corpo, podia-se imaginar que ela saltariado cadafalso e talvez chegasse até a multidão. Os servidores da liberdade teriampreparado tudo dessa maneira ou, pelo contrário, tratava-se de mais uma demonstraçãode incompetência, que por ser grosseira não era menos soberba, e da qual davammostras com tanta freqüência? Karl não sabia e, para falar a verdade, também não tinhanesses momentos um espírito suficientemente forte para se dispor a investigar isso.De maneira inesperada, uma rajada de vento percorreu a praça, arrancando-o1Edifício-museu onde ficavam expostos objetos e jóias da família real.
  7. 7. daquelas reflexões. Não serviu, no entanto, para aliviar o mal-estar que tinha tomadoconta dele. Pelo contrário: arrastou até seu nariz, mais forte e vigorosa, uma misturarepugnante e variada de cheiros. Roupa suja, suor acumulado em axilas e pés, baforadasde álcool mal digerido... tudo aquilo o envolveu com seu fedor espesso e, por ummomento, ele pensou que não conseguiria conter a ânsia de vômito. Mas conseguiu.Custara-lhe muito chegar até ali e não estava disposto a perder o espetáculo por culpado asco.Um murmúrio, inegável mas reprimido, avisou-o de que tudo iria começar emalguns instantes. Não se enganou. Em meio a um silêncio sepulcral, uma carroçadesgastada, puxada por cavalos, entrou na praça e se dirigiu para o cadafalso. Se nãofosse pelas pessoas que ficaram na ponta dos pés para poder observar melhor a cena, eque se espezinharam, e que amaldiçoaram, e que blasfemaram, quase teria parecido quenão havia ninguém naquele lugar.O carro chegou, lenta mas inexoravelmente, até o patíbulo, e Karl pôde ver queos carrascos eram quatro. Se não fosse pelas divisas, tricolores e desproporcionalmentegrandes, que usavam nos nada modestos chapéus de três pontas, qualquer um teria ditoque pertenciam ao antigo regime. As mesmas calças, as mesmas casacas, os mesmospenteados... bem, no fim das contas, também executavam o mesmo ofício realizadotantas vezes ao longo dos séculos.O réu estava acompanhado por três sacerdotes, era evidente, mas ocomportamento deles não poderia ser mais dessemelhante. Dois deles estavam vivendo,sem qualquer sombra de dúvida, um momento extraordinariamente divertido. Karlpestanejou para ter certeza de que o que estava vendo era real, e, claro, não teve dúvidaalguma: aqueles dois clérigos brincavam como se estivessem desfrutando de uma alegreromaria. Engoliu a saliva. A praça transbordava de inimigos do condenado, masninguém tinha se atrevido a se mostrar alegre naquelas circunstâncias. Aqueles doiseram a exceção. Inclusive, um deles tinha começado a apontar a barriga e os quadris doréu e a zombar de suas formas.O terceiro, pelo contrário, demonstrava um comportamento diametralmenteoposto. Da distância em que se encontrava, Karl não podia distinguir suas feições comclareza, mas tudo parecia indicar que era vítima de um forte retesamento que talvezpudesse ser atribuído à tristeza. Não, aquele sacerdote não apenas não se divertia com acena como, de fato, ela devia estar lhe causando uma dor insuportável.O carro parou, finalmente, no meio de um espaço amplo e vazio que rodeava ocadafalso. Sim, amplo e vazio, mas não desprotegido. Estava rodeado por canhões e
  8. 8. pessoas portando as mais diferentes armas. Piques2, lanças, mosquetes...O condenado desceu do carro. Totalmente enfeitado de branco, levava nasmãos um livrinho que Karl tentou em vão identificar e que acabou achando que fosseum missal, um livro de salmos ou talvez um Novo Testamento. Assim que o réu pisouno chão, três dos carrascos, daqueles carrascos que se vestiam tentando esconder suaorigem burguesa, rodearam-no e fizeram o gesto de lhe tirar a casaca. Com umadignidade que quase se poderia tocar como se fosse alguma coisa sólida, o homem fezum gesto para afastá-los e se livrou ele mesmo da peça de roupa.Por um momento, os carrascos pareceram totalmente desconcertados. Pareciaóbvio que não estavam acostumados à semelhante demonstração de dignidade —principalmente de aprumo — por parte de alguém a quem iriam separar a cabeça docorpo dentro de alguns minutos. No entanto, a atitude deles durou apenas um instante.De maneira imediata, como se impelidos por uma mola, aproximaram-se do réu etentaram segurá-lo pelos pulsos. Karl não pôde escutar o que o condenado respondeu,mas captou sem dúvida a firmeza, não empertigada mas natural, com que jogou o corpopara trás para impedir que os carrascos fizessem aquilo com ele.— O grande filho-da-puta não se deixa amarrar... — Karl escutou uma velhacolérica a seu lado resmungar. — Se fosse por mim, não iriam colocar a cordapropriamente nas mãos.Mas além daquela mulher — que talvez não tivesse tantos anos quanto asinfinitas rugas que sulcavam seu rosto aparentavam — ninguém disse nada. Ninguém anão ser os carrascos, que tinham começado a se agitar como se impelidos pelo ventinhoque soprava na praça. De repente, um deles levou a mão à boca como se fosse umatrombeta e gritou algo que Karl não chegou a entender. Dois soldados que usavam ogorro frígio vermelho se apressaram em atender a seu chamado.Foi então que os olhos de Karl se detiveram, de forma casual, no terceirosacerdote, aquele que parecia profundamente triste. Pela primeira vez reparou que,quase com toda a certeza, não era francês. Não, ele não era. Seus traços e suas feiçõesindicavam alguém de origem nórdica. Poderia se tratar de um alemão, de um holandês,inclusive de um inglês. Em todo caso, não era uma circunstância tão relevante. Osignificativo era que ele tinha se inclinado respeitosamente sobre o condenado e sedirigia a ele num tom que, pelos gestos, poderia ser qualificado de submisso, até desuplicante. Devem ter trocado apenas duas ou três frases, mas foram suficientes paraque o réu elevasse os olhos para o céu, sussurrasse alguma coisa e estendesse as mãos.2Lança antiga
  9. 9. Fez isso justo no momento em que os soldados chegavam perto dele. Ele nãopoderia garantir, mas Karl teve a impressão de que um dos carrascos amarrava o réucom uma expressão de triunfo insolente, como se fosse a consumação de um longoprocesso iniciado talvez muitos anos antes. Como se pretendessem sublinhar aquelegesto pleno de significado, os doze tamborileiros localizados ao lado do cadafalsocomeçaram a tocar seus instrumentos com mais energia e vontade do que arte.Quando o réu começou a subir a escadinha que levava até a guilhotina, Karlpercebeu que os degraus eram inclinados demais. Conteve nessa hora a respiraçãodesejando que o condenado não escorregasse, caísse ou tropeçasse naquela subidasinistra para a morte. Se não aconteceu nada disso, talvez se deva ao fato de que oterceiro sacerdote, o que não parecia francês, agarrou-o pelo braço com a intenção deajudá-lo. No entanto, aquela colaboração piedosa durou apenas o tempo de subida.Quando os dois atingiram a plataforma sobre a qual a guilhotina repousava, o réu sesoltou com um gesto seguro. Depois, com passos inusitadamente firmes, cruzou oespaço que havia entre o fim da escada e a guilhotina. Fez isso com tanta calma, comtanta segurança, com tanta serenidade que qualquer pessoa teria dito que ele passeavapor um jardim desfrutando do bom tempo.Achava-se a ponto de alcançar a lâmina, quando parou e olhou para ostamborileiros. À distância em que Karl se encontrava não lhe permitiu captar a cargaexata que o condenado colocou naquela expressão, mas o certo é que as mãos delesficaram suspensas no ar sem permitir que as baquetas sequer roçassem a pele dosinstrumentos.— Morro inocente de todos os crimes de que me acusam — disse o réu comuma voz sossegada, clara e suficientemente forte para que o escutassem com clarezamais além da praça. — Perdôo os autores de minha morte, e rogo a Deus para que osangue que vocês estão prestes a derramar não caia nunca sobre a França.Nem uma palavra, nem um grito, nem um silvo, nem um assovio repercutiramdepois que o condenado pronunciou aquelas últimas frases. Por um instante pareceu queo mundo, aquele mundo extraordinariamente convulso, tinha parado, que a terra tinhadeixado de girar, que o sol se fixara no firmamento. Então, uma mão, que parecia saídado nada, cravou-se no antebraço daquele homem vestido de branco e o puxou para aguilhotina. Não houve nenhuma resistência. O réu parecia reconciliado com seu destinocomo poucos teriam estado. Documente, quase com mansidão, permitiu que dois doscarrascos, que continuavam com os chapéus na cabeça, estendessem-no sob a lâmina. Aexecução durou alguns instantes mas, ao contrário do que Karl tinha temido, a cabeça
  10. 10. não saltou até o chão, mas caiu na cesta. Talvez, pensou, a pequenez da lâmina tenhaevitado aquela profanação extra.Um dos carrascos, alto, corpulento, com aparência brutal, aproximou-se dacesta e, agarrando a cabeça pelos cabelos, levantou-a para que a multidão a visse.Durante alguns momentos, deixou que o sangue jorrasse abundante do pedaço de corpojá sem vida. No entanto, aquela exibição de força triunfal não pareceu comover ospresentes, talvez impressionados demais com o que tinha acontecido durante os minutosanteriores. Foi então que o carrasco jogou a cabeça no cesto com um gesto depreciativoe de uma só puxada apanhou a casaca branca que estava caída no chão do cadafalso.Agitou-a por um instante no ar como se fosse uma bandeirola e depois a atirou comviolência sobre a multidão. Por um breve instante, a peça de roupa descreveu um vôocurto que foi abortado por um oceano de mãos que se lançaram para dela se apoderar.Entre rugidos e gritos, uivos e clamores, aquela brancura desapareceucompletamente no meio da massa. Como a vida daquele homem que tinha acabado deser guilhotinado, Luís XVI, o cidadão Capeto, um monarca de trinta e oito anos comque se encerravam oito séculos de dinastia bourbônica na França. Nada restava daqueladinastia que um dia tinha dominado metade da Europa. Num sentido nada metafórico,tinha sido cortada de um golpe só.Enquanto assim pensava, Karl observou como o terceiro sacerdote, o que nãoparecia francês, o que tinha tentado consolar o rei, descia agora do cadafalso,ultrapassava a primeira linha de soldados e se perdia no meio da multidão. Pareciaatordoado, exausto, submetido a um impacto que não podia suportar. Ninguém,absolutamente ninguém, prestou atenção nele.Karl enfiou a mão no bolso e tirou do colete desbotado um relógio dourado.Eram pouco mais de dez e quinze. E então, exatamente quando afastou o olhar da esferabranca, ele o viu. Era ele, sim, era ele. Sem nenhuma sombra de dúvida. Talvezestivesse um pouco mais magro, embora não muito, e seus cabelos estivessem maisralos e grisalhos, mas era ele. E o olhava. Olhava-o com aqueles olhos inquisitivos quepretendiam, e quase sempre conseguiam, esconder o que corria pelo fundo de seucoração.O coração de Karl começou a bater com mais força do que a que ostamborileiros tinham empregado para bater nos instrumentos. Sabia que o encontrariaali. Sempre soubera disso. Não poderia ser de outra maneira. E agora, enfim,encontrava-o. Ali, no mesmo lugar onde acabava de desaparecer a monarquia maisimportante da Europa. Apertou os punhos, respirou e tentou abrir caminho até o lugar
  11. 11. onde ele se encontrava. Deu dois, três, quatro empurrões para alcançá-lo. Mas, derepente, desapareceu. Angustiado, movimentou a cabeça para um lado e para o outro,até que seu pescoço doeu, enquanto procurava encontrá-lo.Empenhava-se nisso quando uma das abas da casaca ficou agarrada entre duasmatronas que conversavam animadamente, ainda que sem muito critério, sobre aexecução do Capeto. Conseguiu recuperá-la, suja e amarrotada, de um puxão, e,seguindo um impulso instintivo, tentou lhe devolver uma elegância que talvez tivesseperdido para sempre. Foi então, quando levantou a vista, com a desolação embargandoseu rosto, que ele o viu novamente. De maneira incrível, tinha conseguido se livrardaquele imenso mar de corpos malcheirosos, e se colocar na outra extremidade da praçaabarrotada. Mas como ele tinha conseguido isso? Karl cravava os cotovelos, os punhos,os antebraços em qualquer ser vivo que se interpusesse em seu caminho. Não, agora nãopodia tornar a escapar. Tinha que agarrá-lo.O fugitivo — porque ele era isso, de fato — livrou-se daquele pesadoespartilho humano entretecido com milhares de corpos quando Karl estava a quaseduzentos passos dele. Arfando, suando por todos os poros, reprimindo as maldições quelutavam para brotar de seus lábios, contemplou desesperado como sua presa inatingívelapertava o passo e, quando chegou a uma esquina, começava a correr.Demorou ainda alguns minutos para se livrar daquela maré, em que não erampoucos os que já se vangloriavam de contar com um retalho da casaca branca doCapeto. Quando conseguiu, começou a correr, embora estivesse consciente de que nãotinha rumo certo nem sabia em que direção seguir. Não poderia dizer o tempo que durouaquela corrida, mas, por fim, o esgotamento o obrigou a encerrá-la e Karl teve que seapoiar contra o muro gelado de uma rua desconhecida tossindo violentamente etentando recuperar o ritmo da respiração.Inalou gulosamente o vento frio da manhã, como se disso dependesse sua vida,como se num instante só pudesse conduzir aquele oxigênio indispensável até o últimolugar de seus pulmões, como se lhe fosse dado recuperar a juventude, o vigor e a alegriagastos naquele incidente longo, o mais longo de sua existência. Um incidente que tinhacomeçado anos atrás, em outro lugar e em outra época.
  12. 12. DDDDDDDDooooooooiiiiiiiissssssssBaviera, 1775COMO É BONITA, DISSE A SI MESMO enquanto calculava na mão esquerda o pesodo animal. Sim, e como é gorda. E olhe que era raro neste tipo de animal. Mas a lebre...bem, a lebre era uma delícia. Pele suave, cor deliciosa e aparência opulenta. Não deveriater sofrido muito. Tinha se emaranhado no laço na altura do pescoço e pelejando para selibertar só tinha conseguido se estrangular mais rapidamente. Acontecia de vez emquando com estes animaizinhos. Dava um pouco de pena, mas precisava comer.Balançou a cabeça como se quisesse arrancar dela qualquer vislumbre de compaixão e,com um gesto rápido, soltou o animal da armadilha que tinha lhe arrancado a vida, e ojogou no embornal. Foi nesse momento que o viu.Foi apenas um instante e — com toda a certeza — não teria percebido nada senão tivesse sacudido o cangote justo nesse mesmo momento em que seu olhar seentrecruzou com o que saía de uns olhinhos miúdos, redondos e pretos, incrustados norosto assustado e trêmulo de um filhote de coelho.Com gesto rápido, o caçador ficou de pé de um salto e se precipitou sobre apresa inesperada. Sem dúvida, era uma cria da lebre enorme que tinha acabado deapanhar. Tinha que ficar com ela.Conseguiu dar dois passos antes que o animalzinho se precavesse do perigoque avançava em sua direção. Sem dúvida, tinha contemplado como sua mãe ficarapresa e como tinha perdido a vida no curso de um ritual que nunca tivera antes aoportunidade de contemplar. Agora, o medo e o espanto o impediram de reagir a tempo.No entanto, de qualquer forma conseguiu se mexer. Deu um salto instintivo à direitapara evitar aquelas manoplas que se lançaram sobre ele e depois, ainda presa do estupor,começou a correr.Foi uma corrida inexperiente, desajeitada e lenta. Típica de alguém que atéaquele momento não sabia o que era ter que se salvar de um agressor. Impelido maispelo susto do que por um medo suficiente para ativar seu instinto de autopreservação, ofilhote de lebre tratou de se esconder entre uns arbustos.
  13. 13. O caçador se lançou sobre os arbustos convencido de que pegaria aqueleanimalzinho. Estava enganado. A sombra daquela massa se precipitando sobre eleacabou tirando do estupor aquele infeliz filhote de lebre. Deu um novo pulinho e, agorasim, começou a correr para se afastar daquele ser que ele não tinha visto antes mas queparecia representar um verdadeiro perigo.Com as orelhas transformadas em antenas que o avisavam da proximidade deseu inimigo, o filhote de lebre descreveu uma corrida em ziguezague que não o afastouda cilada persistente, mas pelo menos impediu que ela se transformasse numa realidadeletal. Ofegante, o caçador procurava se aproximar do animalzinho e prendê-lo entre ovazio ameaçador que suas mãos formavam, mas, repetidas vezes, aquele ser miúdoevitou a tenaz. Com o instinto que só a experiência proporciona, compreendeu que suaúnica oportunidade de encurtar distâncias e alcançar o animalzinho era enganá-lo. Deuuma passada com a perna direita que assustou o filhote de lebre e fez com que saltassepara a esquerda e, justo nesse momento, precipitou-se sobre ele.Ele lhe escapou por duas míseras polegadas, mas era óbvio que o caçador tinhaencontrado o método que lhe permitiria sair com sucesso daquela missão. Bem, era sóuma questão de repetir a jogada no momento exato em que o animalzinho estivessesuficientemente próximo.Não fez isso. Enquanto o filhote de lebre corria para se pôr a salvo à maiordistância possível, o caçador vislumbrou algo que distraiu sua atenção. No início, sóchegou até seu corpo uma soma de sensações fortes e absorventes. Um cheiropenetrante de carne em decomposição, o zumbido irrequieto do que pareciam sercentenas de moscas, os raios de sol descendo entrecortados sobre um tronco de árvorepara se atirar depois pela casca e, revolta, rutilante e avermelhada, uma cabeleira que sópodia pertencer a um ser humano.Ele parou, inalou uma golfada de ar, passou a mão pela testa suarenta e, poralguns instantes, procurou compreender o que significava tudo aquilo que se oferecia,agressivo e pujante, a seus sentidos. Não conseguiu àquela distância e, tendo já relaxadoa perseguição ao filhote de lebre, deu alguns passos na direção da inesperadadescoberta.O fedor de podridão arranhou suas fossas nasais, mas não o deteve. Espantoucom furiosos golpes de mão o bando de moscas e conseguiu distinguir uma imagemdiferente de qualquer outra que já tinha se oferecido antes a suas pupilas.Tratava-se de um homem jovem, sem dúvida. Era até possível que não tivesseultrapassado a casa dos vinte anos. No entanto, agora não passava de um despojo fétido
  14. 14. e coberto de insetos verde-azulados. O rosto parecia destruído, esmigalhado, esvaído,como se tivessem tentado desmanchá-lo até torná-lo irreconhecível. No entanto, ocaçador disse a si mesmo que o mais certo era que aquela terrível abrasão se devesse àação combinada das feras e das moscas. Quanto ao resto do corpo... As meias estavamdestruídas, mas enquanto o pé direito conservava um sapato, no esquerdo os dedos,avermelhados e roídos, do morto sobressaíam no meio do tecido. As calças, sujas ecobertas de lama, estavam espantosamente rasgadas na altura das virilhas, embora osrasgões se encontrassem quase totalmente cobertos por espessas nuvens de moscas quese movimentavam febrilmente em busca de uma presa que o caçador não sabia ao certoqual era. Finalmente, as folhas pareciam ter ajudado a cobrir pudicamente as mãos, osbraços e o peito do defunto.Por um instante, contemplou aquele ser humano, agora à mercê de algunspredadores que, por serem menores, não eram mais compassivos ou menos eficazes doque ele. Então, de forma inesperada, sem qualquer aviso prévio, sentiu um enjôo cálidoe incontrolável que subia desde o ventre. Teve, primeiro, um espasmo seco que lhearrancou algumas lágrimas e impregnou sua testa de suor. Titubeante, aproximou-se deuma árvore em que se apoiou subitamente mareado. Antes que tivesse apoiado os dedosda mão sobre o tronco, começou a vomitar, tomado por irresistíveis espasmos. Podia-sedizer que, ao expulsar todo o conteúdo de seus espasmos, se abrisse diante dele apossibilidade de reter a vida.
  15. 15. TTTTTTTTrrrrrrrrêêêêêêêêssssssssBaviera, 1787WILHELM KOCH PASSOU A MÃO pelo queixo. Sentiu então um pequeno tufo depêlos mal barbeados, localizado duas ou três polegadas abaixo da têmpora. Aqueleshóspedes inesperados e, sobretudo, indesejados arrancaram dele um ricto de mal-estarque saltitou de seus lábios. Por alguma razão que não era fácil de descobrir — as regrasfamiliares, a educação com os jesuítas, um motivo cósmico etc. — não podia tolerar adesordem nem a falta de harmonia. Era uma atitude extensiva tanto ao traçado de umarua quanto à limpeza de suas camisas, a uma operação aritmética bem resolvida ou àluta implacável contra o crime. Não suportava nada que parecesse dissonante, torto, feioou ruim. Talvez por isso poderia ter sido arquiteto, músico ou matemático. Certamentepor isso era um policial. Ele era, e dos melhores. Dificilmente se poderia encontrar, emtoda a Baviera, um outro igual.Ao longo de vinte anos de serviço, tudo tinha corrido bem, ou seja, de maneiraordenada. Roubos, fraudes, violações, assassinatos... raras foram as transgressões da leique não soubera enfrentar com sucesso. E tudo, absolutamente tudo, era devido a seumétodo. Na opinião de Koch, a questão se limitava a encontrar o ponto exato em que aharmonia que governava o cosmos era quebrada. Da mesma forma como uma tubulaçãoquebrada só pode ser consertada quando se descobre o lugar onde ocorre o vazamento, ocrime exigia que se detectasse a partir de quando a ordem social foi rompida. Um paique não se comportava de acordo com a moral, uma mãe que esquecia suas obrigações,filhos que passavam por cima de seus deveres filiais... e com o que nos deparávamos?Um desfalque, um adultério, ou até um assassinato. Sim, na verdade, o trabalho de Kochconsistia em algo muito parecido com os encanamentos. Justamente por isso,incomodava-lhe que suas camisas não estivessem devidamente passadas, as botasimpecavelmente lustradas ou o rosto perfeitamente barbeado.O que tinha agora diante dos olhos dava a sensação de ser outro vazamentointolerável no âmago do edifício social. Tinha se deparado com ela pedindo osprocessos atrasados para rever o que estava pendente. Tudo já se achava canalizado num
  16. 16. aqueduto de ordem que garantia, mais cedo ou mais tarde, que acabaria sendo resolvidode maneira segura. Tudo, a não ser o processo que agora estava aberto diante de seusolhos. Este, em resumo, de forma intolerável, não trazia número de referência, nemmenção ao agente que o tinha começado, nem data de entrada. Era uma pasta nua,perdida no arquivo, era cujo interior jazia o que não deixava de ser uma carta comotantas outras, escrita com tinta preta, com traços regulares, sobre um papel grossoembora não necessariamente caro. Mas o conteúdo era uma outra questão.Nada nos seria mais útil do que uma história da Humanidade que fosseadequada. O despotismo roubou a liberdade. Como os fracos podem sedefender? Só através da união, mas esta no fim das contas é rara...Até ali, a carta apenas repetia os lugares-comuns de tantos inimigos damonarquia e da religião. Todas aquelas besteiras sobre a liberdade, o despotismo e osfracos. Inclusive o chamamento em busca da união. No entanto, quando se chegava aesse ponto, aquela carta dava uma guinada importante, totalmente reveladora:Nada pode ajudar a conseguir tudo isto além das sociedades secretas...— As sociedades secretas... — repetiu Koch num sussurro enquanto estendia amão direita até uma xicrinha de café que repousava sobre sua limpa e organizadaescrivaninha.Por um instante, limitou-se a saborear aquela beberagem preta, forte e amarga.Não suportava o café com mel ou com açúcar. Achava que adoçá-lo era uma forma deprivar o líquido de sua força, de um vigor que acabava sendo indispensável para aclararsua mente. Procurou com a língua qualquer resto de café que pudesse ter ficado nointerior da boca e continuou a leitura.As escolas secretas de sabedoria são os meios que um dia libertarão os homensde seus grilhões. Em todas as épocas, foram os arquivos da natureza e dosdireitos do homem; e graças a elas a natureza humana se erguerá desse seuestado ruinoso.Koch bebeu outro gole de café e, enquanto sua boca se franzia num esgar dedesprezo, disse:
  17. 17. — O que é que você sabe, seu pateta, sobre o estado ruinoso da naturezahumana?Os príncipes e as nações desaparecerão da face da terra. A raça humana setransformará então numa família, e o mundo será a morada dos Homensracionais.— Da face da terra... — disse Koch, que tinha se detido naqueles parágrafos eos repetia várias vezes como se quisesse ruminá-los.Certamente, podem ocorrer alguns distúrbios; mas, pouco a pouco, osdesiguais chegarão a ser iguais; e depois da tempestade, virá a calmaria.Acaso as conseqüências mais lamentáveis irão permanecer justamentequanto os motivos de discórdia tiverem desaparecido? Homens, erguei-vos!Koch passou a mão pela parte de seu rosto em que o barbeiro não tinhademonstrado exatamente um excesso de eficiência. Franziu os lábios com fastio, porquedeterminou que não ia se deixar distrair. Não podia se permitir isso, sem dúvida. Talvezaquele personagem fosse simplesmente um louco - nunca se podia descartar essahipótese —, mas a experiência lhe dizia que a falta de juízo não só não garantia asegurança como, não poucas vezes, era seu pior inimigo.A Moralidade é que conseguirá tudo isto; e a Moralidade é fruto daIluminação. Os direitos e os deveres são recíprocos. Se Otávio não temdireito, Catão não tem nenhuma obrigação em relação a ele.Koch pousou a xicrinha no pires, procurando fazer com que a posição ficassesimétrica. Em seguida, pegou uma pena de ganso que repousava, branca e inflexível, naescrivaninha polida, e a molhou com suave energia num tinteiro gordo de prata. Depois,escreveu numa folha de papel os nomes de Otávio e Catão. Pelo que lhe constava, eramreferências ao imperador dos romanos e ao famoso censor, não se tratava de nomesverdadeiros, mas, ao mesmo tempo, sabia que podiam ser pseudônimos de personagenstão tangíveis quanto a poltrona em que se encontrava sentado.A Iluminação nos mostra quais são nossos direitos, e a Moralidade a segue;
  18. 18. essa Moralidade nos ensina a crescer, a nos libertarmos, a amadurecer ecaminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes.Koch segurou agora a carta com as duas mãos e cravou o olhar na última frase,"...caminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes... caminhar sem as amarras desacerdotes e príncipes... caminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes." Quando sequer dominar uma sociedade, é preciso aniquilar primeiro aqueles que a governam...Respirou fundo, verificou com enfado que não restava café na xícara elançando mão de uma sineta que se erguia marcialmente a algumas polegadas de suamão esquerda tocou-a com força. Passaram-se apenas alguns instantes e na porta maciçado aposento se ouviram algumas pancadas curtas, como se temessem incomodar.— Entre — disse Koch com uma voz que soou fria e carregada de autoridade.Um rapagão de barba loura e eriçada enfiou seu rosto avermelhado pela fenda abertaentre o umbral e a porta.— Alguma ordem, siô? — perguntou com uma voz que pretendia aparentaruma atitude serviçal mas que pouco conseguia.— Mais café — respondeu Koch apontando com o indicador a xícara vazia.— Uma xícara, siô? — indagou o jovem.— Uma jarra — respondeu Koch — e não se demore, Steiner. Tinha quereconhecer que a advertência carecia de sentido. Na verdade, Steiner, apesar dajuventude, constituía um verdadeiro exemplo de ordem e delicadeza. Uma ordem quelhe dava era obedecida de maneira imediata e eficiente. Com certeza, não tinha seenganado quando permitiu sua entrada na corporação, e ao colocá-lo perto dele.Quando Steiner fechou a porta, Koch se felicitou pela contribuição à ordemque o agente representava. Bem que gostaria de dedicar alguns instantes àautocomplacência, mas teria que ser mais tarde. No momento... no momento, existiamprioridades.Jesus de Nazaré, o Grão-Mestre de nossa ordem, apareceu numa época em queo mundo se encontrava na mais absoluta Desordem, e entre pessoas quedurante séculos tinham gemido sob o jugo da Escravidão. Ensinou-lhes aslições da razão. Para agir de uma forma mais eficaz, serviu-se da Religião —das opiniões que eram correntes naquela época — e, de uma forma muitoastuta, combinou suas doutrinas secretas com a religião popular, e com oscostumes que tinha a seu alcance. Foi justamente neles que envolveu suas
  19. 19. lições: ensinou através de parábolas.Parábolas... nunca lhe teria ocorrido pensar que as parábolas contivessem umensinamento secreto vinculado a causas políticas. Sem dúvida, tinha que reconhecer quea carta era, além de disparatada, substanciosa.Jesus escondeu o significado valioso e as conseqüências de suas doutrinas, masas revelou com cuidado a alguns poucos eleitos. Fala do reino dos justos e dosfiéis, do Reino de seu Pai, de quem somos filhos. Limitemo-nos a tomar aliberdade e a igualdade como os grandes objetivos de sua doutrina, e aMoralidade como o caminho para os alcançar, e todo o Novo Testamento serácompreensível; e Jesus aparecerá como o redentor dos escravos.Koch não era um homem especialmente religioso. Certamente, acreditava emtudo o que a Santa Madre Igreja ensinava e guardava minuciosamente os dias santos,mas não poderia determinar que o que o impelia a isso era a devoção ou o desejo de quea ordem não se rompesse. Contudo, apesar de seu pouco entusiasmo, tinha suficienteconhecimento da religião para chegar à conclusão de que aquilo que tinha acabado deler não passava de puro disparate. Então, pensou com ironia, católicos e protestantespassaram dois séculos se enfrentando em terras alemãs, em metade da Europa, do outrolado do oceano, simplesmente porque não tinham compreendido que o cristianismo selimitava a impelir a liberdade dos escravos... Que ridículo! Que idiota poderia acreditarem semelhante tolice? Bem, precisava concluir aquela leitura o quanto antes.— Sim, entre — disse quando ouviu que batiam na porta. Steiner depositou umbule de café fumegante sobre a mesa.— Quer que eu o sirva, siô? — perguntou solícito o rapaz de rostoavermelhado.Koch fez um gesto com a mão indicando-lhe que deveria sair do aposento. Umtanto surpreso, o jovem inclinou a cabeça e cochichou algumas palavras de cortesiaantes de sair.Pousou a carta sobre a escrivaninha, impulsionou com um movimento apoltrona para poder se afastar do móvel em que se apoiava e ficou de pé. Notou entãoque estava com as articulações inchadas, cansadas, como que dormentes. Levou as duasmãos aos rins e esticou o tórax para trás. Em outra ocasião, teria produzido um estalo naaltura das vértebras lombares, mas agora sentiu apenas um alívio agradável e rápido.
  20. 20. Sorriu satisfeito quando constatou que as costas respondiam devidamente. Deu algunspassos para contornar a mesa, colocou-se diante da jarra e serviu-se de uma nova xícarado líquido amargo. Segurou-a com as duas mãos como se sustentasse um cálice e, porum momento, permitiu que seu olhar divagasse pela espuma do café. Finalmente,aproximou o recipiente dos lábios e bebeu um gole longo, quente e eletrizante que olevou a fechar os olhos para aproveitá-lo melhor.— Bem — disse em voz baixa. — Terminemos com isto o quanto antes.Alguns poucos eleitos receberam as doutrinas em segredo, e elas nos foramtransmitidas — embora freqüentemente quase soterradas sob o lixo dainvenção humana — pelos maçons. As três condições da sociedade humanaestão expressas pela pedra bruta, pela pedra lascada e pela pedra polida. Apedra bruta e a pedra lascada expressam nossa condição sob o governo. É brutapor causa da terrível desigualdade de condição, e lascada porque já não somosuma família e além disso nos encontramos divididos por diferenças de governo,de classe, de propriedade e de religião; mas quando nos vemos reunidos numafamília nos vemos representados pela pedra polida. G é a Graça, a Estrelaflamífera é a Tocha da Razão. Aqueles que possuem este conhecimento sãocertamente Illuminati...Illuminati ? Koch esfregou o queixo com uma expressão pensativa. Era umapalavra latina ou italiana? Illuminati... sim, claro, respondeu com um sorriso. Osiluminados! Só podia ser isso. Aqueles que têm a luz que não atinge a outros e quemostra os conhecimentos secretos são iluminados! Que coisa óbvia! Tinha custado aencontrar o significado, mas a culpa era desse pessoal. Empenhavam-se em ser tãoretumbantes, tão pedantes, tão rebuscados que acabavam obscurecendo o trivial.Aqueles que possuem este conhecimento são certamente Illuminati — tornou aler. — Hiram é nosso Grão-Mestre fictício, morto pela REDENÇÃO DOSESCRAVOS; os Nove Mestres são os Fundadores da Ordem. A Maçonaria é aArte Real, na medida em que nos ensina a caminhar sem travas, e a governar anós mesmos.O olhar de Koch desceu até o pé da página e deu com uma assinatura na qual,com toda a nitidez, podia se ler Espartaco.
  21. 21. — Espartaco... Veja só. Nada menos do que Espartaco. Serviu outro café e otomou em pequenos goles enquanto cruzava o aposento com passos tranqüilos epausados. Estava mergulhado nas reflexões mais profundas e, quando ocorria taleventualidade, a rapidez com que sua mente funcionava contrastava com a lentidão queimpunha a seus gestos. Finalmente, parou, respirou fundo e murmurou:Lebendig, Lebendig...
  22. 22. QQQQQQQQuuuuuuuuaaaaaaaattttttttrrrrrrrrooooooooFrança, maio de 1793— ENFORQUEM ELES! Enforquem eles!Quem lançava os gritos era um homem cujo rosto parecia cinzelado pelo sol donorte da França. Avermelhado, seco, enrugado, toda a força de seu corpo endurecidoparecia se concentrar em volta de seus lábios, uns lábios fendidos que pediam morte.— Sim, enforquem eles! — repetiu como um eco uma anciã.— Enforcá-los? — respondeu outra voz. — A pauladas! Deviam ser mortos apauladas!— Pena não termos uma... uma daquelas máquinas que eles têm em Paris —lamentou-se um rapaz de no máximo quinze anos.Karl deu uma olhada nos prisioneiros. Era óbvio que estavam tomados por umainsuportável sensação de pânico. Quantos eram. Um, dois... seis. Nada menos do queseis. E era com seis homens que o governo republicano de Paris pretendia impor seuprograma político? Com certeza, ou eles se valorizavam em excesso ou tinham umaidéia muito pobre dos camponeses franceses. É verdade que eles impressionavam comaquelas casacas azuis, com aquelas divisas enormes presas aos chapéus e,principalmente, com os sabres e as pistolas, mas como lhes tinha ocorrido pisotear deforma tão ousada os sentimentos daquelas pessoas?— Acabem com eles! Acabem... com máquinas. A pedradas.— Vocês têm alguma coisa a dizer — perguntou o que assumia o comando. —Alguma decraração a fazer?Não, não dava a impressão de que os detidos estivessem para muitasdeclarações. Os cinco soldados estavam realmente apavorados — e não era para menos— e quanto ao suboficial... era óbvio que tentava manter o ânimo, mas seu bigodetremia de maneira incômoda. Estava, no mínimo, tão apavorado quanto seussubordinados. Pobre infeliz!
  23. 23. — Dá pa saber, por exemplo — continuou o chefe improvisado — pru quêvocês tinham que vir neste povoado pra queimar a igreja?Karl teve que intuir as últimas palavras. A pergunta mal tinha chegado aoverbo queimar quando um clamor irado, feroz, com ressonâncias de morte, preencheu oar espesso e quente que os envolvia.— Sim, pruguê?. Pruquê? — gritavam num francês áspero, mastigado esombrio os habitantes do povoado.Karl disse a si mesmo que, provavelmente, a única resposta era: por umamistura de defeitos humanos... soberba, orgulho, sectarismo, nevoeiro mental,ressentimento... Tudo aquilo tinha se misturado nos corações dos soldados e, comoresultado direto, tinham decidido proclamar a liberdade universal ateando fogo namodesta igreja do povoado. Era preciso reconhecer que não deixava de ser uma idéiapeculiar do que significava ajudar a liberdade. Para assegurá-la, acabavam com aliberdade de culto. Era — não havia como duvidar — um dos muitos paradoxos daquelarevolução que parecia não terminar nunca. Certamente, os homens de Paris — e seusexecutores de províncias — podiam emitir uma argumentação para justificar aquele atode destruição. Como a Igreja Católica era um instrumento de opressão, sua pulverização— sua incineração, melhor dizendo — acabaria tendo como resultado imediato aliberdade do gênero humano. Talvez, mas aquela liberdade conseguida a golpes detocha e tiros de pistola não conseguia convencer Karl. Pior: na verdade, dava-lhe umasensação de inquietude muito parecida com a angústia.— Dá no mesmo. Dá no mesmo! — começou a dizer um homenzinho de unsquarenta anos, calvo e usando um calção ridiculamente amarelo. — Se os matarmos... seos matarmos...— Nada de "se", Pierre — interrompeu o que tinha defendido que osenforcassem. — Vamos matá-los. Vamos fazer com que esse pessoal de Paris recebaum castigo. Mas... o que é que eles estão pensando? Eles acham que podem vir até aquie nos tirar o trigo e levar nosso vinho e ainda cagar na Virgem? É isso o que elesacham? Ah, isso não, isso não. Vamos, uma corda.Em outras circunstâncias, Karl teria tentado argumentar com aquelas pessoasque tinham se transformado numa massa enfurecida que gritava seus desejos de morte.Sim, sem dúvida, teria feito isso, mas naquele povoadozinho do norte da França...Durante meses, um pequeno grupo de advogados e jornalistas, de nobres progressistas,de maçons, tinha empurrado a velha monarquia dos Capeto para o aniquilamento. Mas oque tinha acontecido depois era muito diferente daquilo que a Inglaterra tinha vivido um
  24. 24. século antes. Não havia chegado ao poder um revolucionário piedoso como Cromwellou uma rainha religiosa e prudente como Ana. Não. Os novos governantes da Françaestavam convencidos de que podiam mudar o país com a mesma facilidade com que umoleiro dá a um pedaço de barro a forma que quer. Bem, talvez pudessem fazer isso emParis — e Karl tinha suas dúvidas — mas no campo...— Aqui está a corda — gritou uma mulher bonita, viçosa, alta.— Precisamos de mais — disse o homem seco com um tom de voz queoscilava entre a reprovação pela escassez e a pressa em corrigir isso.Demoraram apenas alguns minutos para reunir as cordas, fazer um nócorrediço e colocá-las no pescoço dos presos. Antes que Karl conseguisse ver o queestava acontecendo, os homens eram arrastados como se fossem cães levados pelacoleira. Levantando uma poeirada seca e amarela, saíram do povoado, enquantocuspiam ameaças e insultos sobre os revolucionários.— Parem! Parem!Karl tentou ver quem tinha dado a ordem detendo aquela massa no meio daqual ele se movia procurando não se ver envolvido. Não conseguiu.— Saia aí do meio, monsieur Blondel — escutou o homem seco dizer. — Opovoado vai zecutar justiça.O povoado vai zecutar justiça... Sim, a gramática era deplorável, mas as idéiasnão poderiam ser mais claras. Eles — a mulher bonita, a velha, o homem seco, os quetinham fornecido as cordas, o rapaz que tinha desejado ter uma guilhotina... — todoseles representavam o povoado e não iam permitir que os homens de Paris lhesimpusessem sua revolução, essa revolução que começava levando os produtos do campoe em seguida queimava igrejas e plantava uma guilhotina na praça do lugar. Àresistência a esse plano revolucionário — libertador e cidadão, teriam dito em Paris —eles chamavam zecutar justiça. Com certeza, nem Marat, nem Danton nem Robespierreestariam de acordo com aquele julgamento e, certamente, teriam sérias restrições emconsiderar povo aqueles que estavam dispostos a enfrentá-los.Reiniciaram a caminhada. Karl então reparou num homem vestido de maneiramodesta, embora melhor do que o resto dos camponeses, afastado à beira da estrada.Tinha os olhos avermelhados e o horror estampado no rosto. Devia ser o tal Blondel.Bem que ele gostaria de sair do tumulto e lhe dizer que não se preocupasse, que tinhafeito o possível, que até tinha chegado às raias do heroísmo com seu comportamento.Não fez isso, porque a vontade de saber onde aquilo ia dar era mais poderosa naquelemomento do que qualquer outra consideração.
  25. 25. — Ali... Ali!A multidão acelerou o passo como se tivesse acabado de ouvir um ensalmo.Karl também apertou o passo para evitar se ver envolvido. Foi assim que chegou,suarento e sufocado, até uma esplanada. Com certeza, aquele terreno devia ser bonitoem circunstâncias normais. Era uma pradaria branda e suave que ficava muito perto deuma pequena floresta, Sim, seguramente os aldeões deviam se reunir ali em dias de festapara beber e se divertir. Era o lugar ideal.— Venham! Ali mesmo!Karl viu agora com toda a nitidez o lugar que o outro apontava. Tratava-se deum pequeno grupo de árvores robustas, circunspectas, transpirando dignidade. Pareciamestar esperando ali desde a aurora dos tempos para cumprirem sua missão solene eespecial, de servirem de patíbulos aos que tinham se atrevido a arrasar o que aquelesque arrancavam seu sustento da mãe Terra consideravam mais sagrado.Quase como sefossem um só homem, meia dúzia de lavradores atiraram as cordas até a copa dasárvores. As sogas não chegaram a tocar o chão. Antes que terminassem de cair, seisgrupos de pessoas, orquestrados como se tivessem ensaiado a execução dezenas devezes, apoderaram-se da ponta e começaram a puxar com todas as suas forças.Karl observou horrorizado a maneira como os corpos dos soldados se elevavamno ar enquanto seus rostos se congestionavam pela pressão que a soga exercia em suasgargantas. Era duvidoso que os enforcassem. Seguramente, em vez dessa morte quaserápida que vem determinada pela fratura da nuca, sofriam os estertores doestrangulamento. De fato, eles se retorciam como peixes tirados da água, enquanto seuspés se separavam do chão.Teve a sensação de que a agonia se prolongava eternamente, mas, na verdade,ela foi rápida. Apenas em um deles, o que parecia mais jovem, a vida pareceu resistir àidéia de abandonar um corpo que tinha vivido pouco. A batalha estava perdida deantemão e, além do mais, a conclusão se acelerou quando uma anciã se agarrou aos pésdo réu e puxou. Não conseguia entender a dureza daquelas mulheres que tinhamultrapassado com folga a casa dos sessenta anos. A que poderia obedecer aquelainsensibilidade, aquela ânsia, aquela falta de piedade? Talvez não fosse possívelgeneralizar e cada caso acabasse sendo diferente. Para as mulheres, que tinha visto emParis entusiasmadas com os estragos causados pela guilhotina, talvez aquelas execuçõesfossem apenas uma confirmação de que a injustiça, real ou imaginária, estava sendopunida: aplaudiam uma espécie de eqüidade cósmica implantada sobre rios de sangue.Para as daquele povoado, o motivo certamente era diferente: deviam estar convencidas
  26. 26. de que quem se atrevesse a destruir a religião, o fruto do duro trabalho cotidiano, afamília e a paz só poderia ser digno de uma morte rápida.Contemplou por um instante os seis corpos. Sim, estavam mortos. Quanto aisso, não havia a menor dúvida. Mesmo porque pelas pernas de suas calças, como umtestemunho sujo e humilhante, escorriam filetes de urina e excrementos.CCCCCCCCiiiiiiiinnnnnnnnccccccccooooooooBaviera, 1775STEINER SE INCLINOU SOBRE OS restos mortais do jovem. Custou-lhe muitoreprimir uma mistura de asco e mal-estar que tinha se agarrado a seu pescoço como sefosse um cachecol de lã. Apesar dos anos de serviço que já tinha na polícia deIngolstadt, não conseguia controlar uma certa aversão por cadáveres. Descobrir ladrões,vigiar suspeitos, estabelecer cada passo seguido para urdir uma fraude engenhosa emesmo redigir relatórios e instruir processos lhe pareciam tarefas toleráveis, aceitáveis,até divertidas. No entanto, não conseguia se acostumar ao exame de um cadáver. Játinha se perguntado mil vezes qual era o motivo de sua aversão e nunca conseguiaelucidá-lo completamente. Por certo, havia o aspecto físico da decomposição da carne.Por mais que o catecismo se referisse a ela ou a lembrasse pontualmente na celebraçãoda quarta-feira de cinzas, Steiner não conseguia se familiarizar com o fato de que umcorpo que ontem respirava, que até se mostrava viçoso e saudável, acabasse reduzido àcondição de carniça pestilenta. Sentia isso, sentia-o na alma, mas não conseguia seacostumar.No entanto, seu desconforto asfixiante e indesejável não se limitava ao aspectoda decomposição de órgãos e músculos. Não, de forma alguma, quem dera fosse assim.Na verdade, o que lhe causava mais desgosto era a inegável evidência de que a mortesignifica um final realmente terrível e que não existia a certeza de que tudo nãoterminasse no meio de vermes e de putrefação. Certamente, havia os ensinamentosreligiosos, e a afirmação do Credo sobre a ressurreição da carne, e até os diferentesmeios oferecidos pela Santa Madre Igreja para facilitar a sorte dos condenados aopurgatório. Tudo aquilo ele conhecia e, é claro, acreditava.O problema era que, quando se encontrava cara a cara com um cadáver, seussentidos se viam tão invadidos pelo cheiro de morte, pela visão da morte e pelo toque damorte, que a fé numa vida duradoura era, talvez, não aniquilada, mas ofuscada como o
  27. 27. sol encoberto por um mar de nuvens cinzas e algodoadas. E, justamente quando chegavaa esse ponto, uma mistura de repugnância e mal-estar, de repúdio e desagrado,apoderava-se dele, provocando-lhe suor nas mãos e angústia no peito.De boa vontade ele teria se desligado da investigação dos homicídios, massemelhante graça não lhe foi concedida. Koch se sentia tão satisfeito com sua maneirade trabalhar — uma faca de dois gumes, sem dúvida — que não apenas tinha setransformado num ajudante privilegiado para seu trabalho de resolução, mas também,em algumas ocasiões, insistia em que fosse encarregado de dar os primeiros passos.Exatamente por causa disso, tinha agora que examinar aquele despojo sujo e carcomidoque um caçador infeliz tinha encontrado.O homem tinha chegado tremendo ao posto de polícia e, num primeiromomento, os agentes que o viram pensaram que ele tinha acabado de sofrer algumadesgraça. E, até certo ponto, era verdade. Enquanto passava por terras que não eramsuas, tinha encontrado um cadáver. Em outras circunstâncias, o peso da lei teria caídosobre ele, acusando-o de caçar furtivamente ou, pelo menos, de invasão de propriedadeprivada. Agora, no entanto, aqueles detalhes estavam amenizados pela gravidade de umhomicídio. Bem, sucedera assim porque Koch tinha enviado Steiner para examinar ocorpo e ele tinha decidido que era uma perda de tempo atacar um pobre homem quecaçava lebres de forma ilegal, quando graças a ele se podia botar as mãos numdelinqüente de muito maior envergadura. Koch nunca teria aprovado essa maneira deagir. "Por acaso devemos perdoar o transgressor menor porque existe outro maior?",teria perguntado de forma retórica, para depois acrescentar indignado: "De formaalguma, Steiner, de forma alguma." Mas ele encarava isso de outra maneira, e agia deacordo com isso. Agradeceu ao homem, disse-lhe num aparte discreto que não deveriadizer a ninguém o que estava fazendo naquele território de caça e, ato contínuo,mandou-o ir descansar em casa.Levantaram o cadáver na presença de um dos juízes mais experientes deIngolstadt, que pensava em se aposentar em menos de um ano, mas, no momento,insistia em se manter na ativa.— Coisa ruim — disse quando passou os olhos sobre o morto. —Alimentaram-se do rapaz.Não era nenhum exagero. A pancada que tinham lhe aplicado na cabeça e que,quase com certeza, tinha ocasionado a sua morte não era nada do outro mundo. Tratava-se do típico traumatismo que deixa claro e manifesto como é fácil obrigar um pobreinfeliz a cruzar o umbral que separa a vida da morte. Até aí, tudo estava dentro dos
  28. 28. limites da normalidade. O problema era quando se examinava o restante do corpo. Opescoço, o peito e o rosto apresentavam arranhões nada desprezíveis, mas o pior era aregião que se estendia pela frente do umbigo até o início das coxas e por trás em tornodo ânus. Os animais tinham-se fartado, não havia dúvida, mas tudo parecia indicar quealguém tinha se antecipado a eles.— Qual a sua opinião, herr doktor3? — perguntou o juiz quando o galenoterminou o exame do cadáver sob os olhares atentos dos presentes.— Pobre rapaz... — murmurou de forma quase inaudível o médico. Ninguémpodia negar a justeza daquelas palavras, mas, para falar a verdade, não esclareciammuito a situação. Pobre rapaz, sim, mas por quê?— Poderia ser um pouco mais... explícito? — atreveu-se a dizer Steiner.O médico respirou fundo e, sem afastar os olhos do cadáver, começou a cevarum cachimbo de tubo longo. Era um bonito exemplar de artesanato bávaro, com umbocal de madeira entalhada primorosamente e um fornilho alongado de porcelana.Devia ter lhe custado bem caro, pensou Steiner.— Bitte4, algum de vocês tem fogo? — perguntou o médico depois de tercerteza de que o tabaco estava bem assentado no interior do cachimbo.Foi o juiz quem atendeu à sua solicitação e, imediatamente, o ambiente seencheu de uma fumaça azulada que desprendia um cheiro agradável de uma substânciaque Steiner não conseguiu identificar, mas que ele agradeceu porque encobria, pelomenos em parte, o fedor da morte.— Eles o mataram de um só golpe. Isso é indubitável, mas... — interrompeu aexplicação para dar uma nova sugada no cachimbo — mas o mais terrível é que o crimeveio acompanhado de um comportamento... bem, recuso-me até a qualificá-lo. Umpouco antes ou um pouco depois da morte, a vítima foi sodomizada.— Desculpe?... — exclamou Steiner, que não tinha certeza de ter escutadodireito.— Ele foi sodomizado — disse o médico, com a mesma serenidade com queteria comentado que as nuvens anunciavam chuva.— Está querendo dizer... — começou a dizer Steiner, que não conseguia darcrédito às palavras do galeno.— Estou querendo dizer que o assassino cometeu com este infeliz o pecadopelo qual Deus destruiu as cidades ímpias de Sodoma e Gomorra. Mas não foi uma ação3Em alemão, no original.4Em alemão, no original.
  29. 29. voluntária. Violentaram o rapaz. O alargamento do ânus não deixa margem a dúvidas.Desde já, espero que o tenham matado antes.— E as feridas no púbis? — perguntou Steiner.— Algumas podem ter sido ocasionadas por animais, mas tenho a impressão deque já encontraram o trabalho bem adiantado. O assassino se fartou com as partes dorapaz.— O senhor acha que pode ter sido uma vingança por ele ter se recusado a seentregar? — perguntou Steiner.O doutor encolheu os ombros, deu uma nova sugada no cachimbo e lançou noar uma baforada de fumaça azulada. Desta vez não foi uma seqüência de gestosprazerosos, mas um encadeamento de movimentos cansados, quase dolorosos.— Talvez... talvez... — disse. — Em todo caso, depois de o matar, parece quese deleitou em profanar o cadáver.Um silêncio incômodo desceu sobre o aposento. Dava a impressão de quenenhum dos presentes queria estar ali, de que teriam dado alguma coisa valiosa parapoderem se livrar da obrigação de examinar o cadáver. Sentiam-se surpresos diante deuma manifestação da maldade humana que ultrapassava aquilo que estavamacostumados a presenciar em seu papel de médico, juiz ou policial.— O assassino deixou alguma pista? — quebrou finalmente o silêncio Steiner.— Quer dizer, cabelos, um botão, um pedaço de roupa...— Absolutamente nada — respondeu o médico. — Quase... quase dá aimpressão de que se preocupou em apagar qualquer pista depois de matar e sodomizar orapaz. Ou então era um fantasma...— Ora, vamos! — protestou o juiz quando ouviu as últimas palavras. — Tudoisso já é bastante complicado em si para que o senhor se dedique a brincar com aspalavras.Um fantasma, repetiu mentalmente Steiner. Definitivamente, nada daquilo iriaagradar a herr Koch.
  30. 30. SSSSSSSSeeeeeeeeiiiiiiiissssssssBaviera, 1787MAIS DE UMA VEZ, mais de duas, mais de uma centena, Koch tinha seperguntado por que Lebendig e, principalmente, a casa de Lebendig não lheprovocavam nenhuma sensação de mal-estar. E isso apesar de que, sem nenhumaespécie de dúvida, nunca tinha conhecido ninguém tão desorganizado quanto ele. Não,nem antes nem depois que cruzara seu caminho ele tinha tido oportunidade de veralguém semelhante. Era curioso mas, para dizer a verdade, suas vidas nunca teriam secruzado se não fosse por aquele padre bêbado. Sim, bendito padre bêbado.Tinha chegado numa manhã, fazia nove anos, sufocado e furioso, afirmandoque desejava recuperar alguns papéis pessoais que andavam em poder de um talLebendig. Durante alguns minutos, o policial que o atendia o ouvira com enormeinteresse, quase com devoção — se fosse possível usar essa expressão de uma formaque não soasse imprópria —, mas não tinha demorado a perceber que aquele homemdizia apenas incoerências e que nada indicava que tivesse sido objeto de algum atopunido pela lei. Foi nesse momento que, alegando que o caso que lhe expunha requeriauma pessoa mais importante, tinham-no encaminhado para ele.Koch tinha precisado apenas de dois minutos para compreender que o clérigoem questão se sentia enormemente ofendido e que transpirava desejos de vingança porcada poro da pele. O máximo que podia se perceber, no entanto, era que um sujeitochamado Lebendig tinha dado dinheiro ao padre em troca de que escrevesse em algunspapéis. Pensou imediatamente que devia se tratar de um analfabeto necessitado de umcopista. Havia-os — tanto uns quanto outros — aos montes em Ingolstadt.— Tratava-se de alguma carta para a noiva ou a mãe? — perguntou Koch aoébrio sacerdote.— Não — respondeu acalorado. — Não, não, não. Ora essa! Ele me faziaescrever... só isso.
  31. 31. — Ah, sim — disse Koch respirando fundo —, mas isso, padre, se me permitedizer, não é um crime.O sacerdote passou os dedos pelo rosto como se quisesse arrancar alguma coisamuito grave que tivesse ficado agarrada à sua pele.— Calma, calma, é que... Bem, primeiro, ele me fez escrever. Nada emespecial. O que eu quisesse. E eu escrevi. Eu escrevi! Modéstia à parte, posso dizer quedesde meus tempos de seminário poucas pessoas tiveram uma letra melhor do que aminha. E assim era. Não ficaria bem eu negar isso...Koch concordou com a cabeça, enquanto se perguntava mentalmente quantotempo seria capaz de suportar aquela história.— Então ele me manteve escrevendo um tempinho. Não muito. Um tempinho.— Um tempinho — repetiu Koch, procurando lhe dar segurança.— Mas depois começou a me dar bebida — continuou o padre com umamistura de arrependimento e raiva na voz.— À força? — perguntou Koch, embora tivesse consciência de que a perguntaera totalmente desnecessária.— À força? Bem, não... não acho que se possa dizer que ele tenha me forçado.Não, na verdade ele não fez isso mas...— Mas... — repetiu Koch, tentando ajudar o clérigo a continuar seu relato.— Mas olhou minha letra, sim, olhou minha letra e disse: "Estupendo,estupendo, o que eu pensava."— "Estupendo, estupendo, o que eu pensava" — repetiu Koch sem tirar osolhos do clérigo.— Isso, ele disse isso. "Estupendo, estupendo, o que eu pensava." Então meavaliou outro tempinho e, de repente, saiu do aposento, voltou ao final de outrotempinho e me disse: "Sinto muito, padre, mas acabam de me dizer que o telhado de suaigreja acaba de desabar."— Uma desgraça — pensou em voz alta Koch.— E como, e como! O senhor poderia jurar — disse com os olhos abertoscomo pratos o sacerdote. — Naquele momento, é claro, eu tentei me levantar, partir, irembora. O senhor me diga. Com a paróquia em ruínas, que outra coisa eu podia fazer?Koch concordou mas não abriu a boca. Ou o padre estava louco de se internarou estava prestes a chegar ao cerne da questão.— Mas quando tentei me levantar, esse... esse Lebendig pôs a mão em meuombro e me disse: "Padre, eu lhe suplico, escreva alguma coisa. O que for, mas escreva
  32. 32. alguma coisa."— E o senhor escreveu?— Claro... claro que sim. Não vou esconder. Escrevi. E então... aí vem o pior...O sacerdote se apoiou na mesa, aproximou o rosto do de Koch e, ao mesmotempo era que lhe lançava uma baforada de álcool que o policial achou insuportável,disse:— Ele leu o que eu tinha escrito e disse: "O que eu imaginava." O senhorouviu? Ele disse: "O que eu imaginava!" Naturalmente, eu aproveitei que ele estavalendo o papel para começar a correr até minha paróquia...— Naturalmente — concordou Koch.— Bem, pois cheguei à minha paróquia e o senhor sabe o que estavaacontecendo?— Não faço a menor idéia — respondeu o policial.— Pois nada — disse o clérigo —, nada. Nada! A igreja estava como sempreesteve. Sem uma rachadura.Koch se recostou no espaldar de sua cadeira quando escutou aquelas palavras.Naturalmente, toda a história podia ser falsa, mas, se não fosse, o que ele tinha pelafrente exatamente? Uma zombaria com a religião? Não, ninguém tinha perpetradoqualquer escárnio contra Deus, a Virgem nem contra nenhum santo. Uma fraude? Pelocontrário. O padre em questão era quem tinha recebido o dinheiro. Era verdade que ahistória do teto da paróquia era falsa, mas isso não podia ser considerado um crime. Emoutras circunstâncias, Koch teria prometido ao sacerdote ocupar-se do caso e, atocontínuo, teria tratado de arquivá-lo, mas alguma coisa lhe dizia que o tal Lebendig eraum personagem peculiar, tão peculiar que podia interferir na ordem, impoluta e perfeita,que caracterizava a tranqüila cidade de Ingolstadt.— Não se preocupe, padre — disse por fim. — Dê-me o endereço dessepersonagem e eu, pessoalmente, vou me ocupar de perguntar o que houve.Um sorriso de felicidade paralisou o rosto do clérigo quando ouviu aquelaspalavras. Sem dúvida, já estava quase convencido de que ninguém o atenderia. E agora,agora aquele policial tão atencioso, tão ponderado, tão diligente ia lhe dar atenção. Foiembora feliz, risonho, quase entusiasmado. Tanto que resolveu comemorar issoentrando na primeira taberna que cruzou seu caminho.Koch não agiu imediatamente. Deixou passar uns dois dias e, finalmente, foiaté a casa do tal Lebendig. Ele morava num prédio não muito antigo de uma área quasepróspera da cidade. Com apenas algumas varas a mais, sua casa estaria numa área
  33. 33. invejável. De onde se encontrava, tinha apenas que andar alguns minutos para sedefrontar com algumas das pessoas mais necessitadas de Ingolstadt.O policial alisou o queixo enquanto corria os olhos pela entrada do prédio,depois respirou fundo e atravessou o umbral. Um cheiro de comida, não exatamenteagradável, invadiu suas narinas enquanto subia os degraus. Não se poderia dizer que aescada estivesse suja, mas Koch teve a sensação de que aquele lugar não contava comtoda a limpeza necessária. Era como se os vizinhos não tivessem um interesse especialem manter a dignidade, embora também não se pudesse acusá-los de sujos. Sem deixarde olhar as paredes e os degraus, chegou até o andar onde o padre tinha dito que aqueleestranho indivíduo morava.— Herr Lebendig? — perguntou quando abriam a porta.— Sim, herr — respondeu a mulher cuja silhueta aparecia no umbral, aomesmo tempo em que acompanhava sua breve resposta com um movimento ligeiro decabeça.— Gostaria de vê-lo — disse Koch num tom correto, mas que deixava claroque não aceitaria uma negativa.— Espere, bitte — disse a mulher enquanto fechava a porta.Koch ouviu alguns passos no interior, suficientemente quietos para afastar ahipótese de que alguém quisesse fugir à ação da justiça. Ao fim de alguns instantes, aporta voltou a se abrir, confirmando seu ponto de vista.— Entre, bitte.A mulher foi na frente, ao longo de um corredor peculiar. Não era estreitodemais e também não estava mal iluminado, mas num de seus lados estava apoiada umaestante comprida repleta de livros. Livros! Para que o morador daquela casa podiaquerer tantos livros? E, sobretudo, como é que o padre não lhe tinha dito nada arespeito?A pergunta lhe pareceu ainda mais obrigatória quando ele desembocou,seguindo a mulher, numa saleta. Em outra casa, aquele cômodo estaria ocupado pordiversos móveis. Um aparador onde expor melhor a baixela, cadeiras, talvez umas duasmesas, e até um piano ou um cravo... No entanto, aquela saleta também estava tomadapelos livros. Abarrotavam as estantes das paredes, mas também se remoinhavam - sim,remoinhar-se era a palavra apropriada - pelo chão do aposento. Ao mesmo tempo emque reprimia um calafrio, Koch pensou que aquelas montanhas formadas pelos volumeslembravam os tufos de ervas daninhas que abarrotam um jardim malcuidado.— Sente-se, herr — disse a mulher, mas Koch demorou alguns instantes para
  34. 34. localizar algum lugar em que pudesse colocar suas nádegas.Encontrou-no numa cadeira minúscula colocada entre duas pilhas de livrosquase tão altas quanto o assento. Ocupou-a e, ao se sentar, percebeu que aqueladesordem tinha lhe provocado uma desagradável transpiração na palma das mãos. Tiroude sua manga direita um lencinho e as secou, enquanto se perguntava que crimes umapessoa tão desorganizada chegaria a cometer.— Em que posso servi-lo?
  35. 35. SSSSSSSSeeeeeeeetttttttteeeeeeeeParis, 24 de julho de 1794KARL LEVANTOU O OLHAR PARA O CÉU. Ele continuava cinzento, plúmbeo,asfixiante. Não parecia que fosse descarregar uma só gota que pudesse aliviar aquelaescuridão. Pena. Nesta Paris da Revolução, onde a sujeira, a fome e a violência sealternavam com a lei de suspeitos e as execuções diárias, teria agradecido pela chuva.Passou a mão pela testa para retirar o espesso suor que a cobria. Foi então que seusolhos, fatigados e aborrecidos, detiveram-se na lareira. Tinha se transformado numacavidade enegrecida, suja e, talvez, obstruída. Só Deus sabia ao certo o tempo que deviafazer desde que a tinham acendido pela última vez. Graças a Ele, era verão. Sem dúvida,ninguém podia negar que os revolucionários estavam conseguindo a igualdade. Porbaixo, claro, mas igualdade afinal de contas, e para a imensa maioria da população. Emtoda a França.Quarenta e oito horas depois de terem cortado a cabeça do desafortunadoCapeto, tinha-se proclamado a Convenção. Já não havia monarquia, nem mesmolimitada por aquilo que os filósofos chamavam de Constituição. Àquela altura Karltinha certeza de que a ação da guilhotina não ia parar em Luís XVI. Depois seria a vezdos familiares próximos ao rei decapitado. Seria fácil justificar mais umas tantas dúziasde execuções alegando-se que assim se arrancava pela raiz a planta perniciosa damonarquia, que a liberdade do povo exigia isso, que à luz da razão, e que blá-blá-blá.Sim, ele conhecia de sobra todo aquele palavrório revolucionário. Conhecia-o inclusiveantes que saísse à luz, difundido pelos jornais e outros meios. Tinha certeza de que setratava apenas do primeiro passo. Porque depois viriam os aristocratas (por acaso nãoeram parentes dos reis?), os antigos funcionários (por acaso não tinham servido aosreis?), os clérigos (por acaso não tinham abençoado os reis?), os militares (por acasonão tinham defendido os reis?), os professores (por acaso não tinham ensinado aobediência aos reis?), os juízes (por acaso não tinham aplicado as leis dos reis?) e os...
  36. 36. só Deus sabia onde os revolucionários iriam parar em seu plano de criar uma novasociedade. Lamentavelmente, ele não tinha se enganado.Não pôde suportar por mais de um mês a voragem revolucionária. O assalto àsigrejas, o confisco de edifícios, o saque ao comércio, os insultos aos clérigos ousimplesmente aos que não andavam maltrapilhos pela rua... não, não podia tolerar pormais de alguns dias nem isso nem o insuportável, pedante e vazio palavróriorevolucionário. Com frio, chuvas e vento, abandonou Paris pensando no fato de que eledeveria estar em algum lugar, mas que com toda aquela confusão e desordem nãoconseguiria localizá-lo facilmente. Sua saída da capital não teve, portanto, caráterdefinitivo. Era uma retirada estratégica, fadada a um retorno assim que a situação sedesanuviasse.A situação não se desanuviou. Pelo contrário: à medida que adentrava noterritório francês, Karl foi vendo que seus piores vaticínios se cumpriam. Se em algunspovoados os camponeses, animados pelos agentes de Paris, queimavam os registros depropriedade, apossavam-se das terras, arrasavam as igrejas e assassinavam os patrões,em outros esses mesmos camponeses defendiam de peitos nus as capelas, enfrentavamcom foices e forcados os fuzis dos sans-culottes, e transformavam numa guerra santa apreservação de suas terras, suas igrejas e seus lares. Para uns, tratava-se de criar ummundo novo; para outros, de preservar o seu universo — o que tinham erguido ao longode gerações com o suor de seus rostos e seus braços — e nessa luta não se concederiamquartel. Era difícil prever quem venceria a peleja mas, com toda certeza, quando elaterminasse os rios de sangue teriam se transformado em oceanos.Algumas pancadas na porta arrancaram Karl de suas reflexões sombrias.— Cidadão, cidadão... está aí?— Sim, cidadã, o que você quer? — respondeu procurando dar a suas palavrasum tom de naturalidade.— Abre, que eu lhe conto.Karl se levantou do catre onde estava deitado e foi até a porta. Abriu-a comdificuldade por causa da mistura de sujeira e ferrugem que a emperrava.— Diga-me, cidadã — disse Karl.A mulher não disse uma só palavra, mas deu um empurrão em Karl e, depoisde abrir caminho de uma forma tão específica quanto mal-educada, andou até a metadedo cômodo.— É melhor eu fechar — explicou em voz baixa enquanto empurrava a porta.O brilho que saía dos olhos miúdos da mulher disparou no íntimo de Karl um
  37. 37. sinal de alerta. Parecia óbvio que ela queria alguma coisa e, ou ele estava muitoenganado, ou não iria sair de graça.— Veja, cidadão — começou a dizer enquanto um sorriso viscoso se juntavaao brilho inquietante de suas pupilas —, eu... eu conheço alguém...Fez uma pausa e piscou para ele o olho esquerdo. Era, sem dúvida, um sinal decumplicidade, mas Karl não conseguiu saber a que ele podia se referir. Por isso achoumais sensato manter silêncio e esperar que a "cidadã" lhe dissesse de uma vez o quequeria.—...conheço alguém que... que tem leite... leite e ovos... bem, poderia atéconseguir um frango...Karl procurou controlar todos os músculos de seu rosto, embora, certamente, aidéia de poder comer um ovo, e nem digamos um pedaço de frango, tinha-lhe provocadoum verdadeiro terremoto dentro do peito.— Você é muito sortuda, cidadã — comentou com frieza.— Ora, vamos! — disse com voz de fastio, ao mesmo tempo em que lhe davauma cutucada. — Com certeza você tem fome, cidadão.Pela segunda vez desde que a mulher tinha batido na porta, Karl pressentiu operigo. Era uma coisa difícil de explicar, mas tão inegável quanto a exalação de umcheiro fétido ou uma corrente de ar.— Necessito comer como todos os cidadãos — respondeu, preservando-semuito de dizer que tinha fome — ...cidadã.Sim, pensou, essa era a melhor resposta que podia dar. Constava que estavamprendendo pessoas simplesmente por se queixarem de que não havia pão. Não tinha amenor vontade de que aquela mulherzinha, inimiga de morte da água e do sabonete,denunciasse-o por dizer que tinha fome, em outras palavras, por propaganda contra-revolucionária.Uma sombra de inquietação pousou sobre o rosto da mulher. Mau negócio, seela não esperava essa resposta. Claro que também não lhe convinha que ela chegasse àconclusão de que ele abrigava alguma suspeita.— Cidadã — disse Karl —, se o que você me oferece é legal, se nossaConvenção autoriza, continue falando, porque eu sou um republicano leal e não estoudisposto a permitir nenhuma deslealdade. Nenhuma, cidadã.A inquietação deu lugar ao pânico no rosto na mulher. Sim, não havia dúvidade que ela tinha ficado assustada. Agora era ela que tinha medo de ser denunciada. Karldisse para si que era um belo universo de liberdade e sabedoria aquele que os jacobinos
  38. 38. estavam construindo. Ninguém se atrevia a confiar em ninguém e todos desconfiavamde todos. As palavras cidadão e cidadã, isso sim, não lhes saía da boca.— E então, cidadã? — insistiu com firmeza Karl, que desejava livrar-se oquanto antes daquela criatura malcheirosa.— É... é legal, claro, cidadão — respondeu num tom trêmulo. — Posso lheoferecer...Concluiu a frase aproximando seus lábios do ouvido de Karl.— ...e por apenas...Karl refletiu por um momento. Em situações normais, aquela oferta teria sidoconsiderada um verdadeiro roubo, capaz de mobilizar as massas para assassinar ovendedor. Mas isso tinha sido na época da odiosa monarquia. Agora, era precisoreconhecer que parecia barato demais para ser verdade.Agarrou o pulso esquerdo da mulher e o apertou com força. Não pôde evitaruma ânsia de compaixão. Ela não passava de um punhado de ossos fracos e finosenvoltos apenas por uma pele prematuramente envelhecida.— Se o que você pretende é contra-revolucionário — disse, arrastando aspalavras —, se vai contra a república, não descansarei até que sua cabeça role como ado Capeto. Entendeu bem... cidadã?Com as feições desfiguradas, a mulher concordou.— Quando?— Agora... agora mesmo, se quiser... — balbuciou assustada.— Então vamos — disse Karl.Ajeitou a desgastada casaca enquanto desciam os degraus da suja escada demadeira. Podia compreender que não houvesse comida, que o sabão escasseasse, que aroupa, qualquer roupa, tivesse se transformado em artigo de luxo, mas que motivopoderia justificar o fato de não limparem uma escada? Talvez, disse para si, a pessoaencarregada dessa tarefa tivesse decidido que era uma demonstração de servidão quedeveria ser combatida. Bem, que magnífico, porcos mas livres. Seguramente algumdesses filósofos — intelectuais, como gostavam de chamá-los — que tanto abundavamna França acabaria escrevendo um ensaio intitulado "A imundície como expressão daliberdade". Não: da liberdade, não. Da liberdade cidadã.Um cheiro desagradável de couve arrancou-o de seus pensamentos, avisando-ode que se achavam perto da cozinha e, portanto, a alguns passos da rua. A mistura decheiro de sujeira, de verdura cozinhando e de suor era tão pesada que Karl sentiu umalívio momentâneo quando se viu do lado de fora da hospedaria. Bem que gostaria,
  39. 39. inclusive, de parar um pouco para respirar fundo o ar da manhã, mas a mulher tinhacomeçado a descer a rua numa velocidade que ninguém poderia imaginar.Floreal5... Karl se virou e observou uma mãe preocupada em evitar que seufilho de... seis?... sete anos?... atravessasse a rua sem olhar. Floreal... um dos nomestrazidos pela revolução. Como se chamaria aquele menino, na verdade? Jean? Pierre?Paul? Com certeza, teria o nome de algum apóstolo, de algum personagem dasEscrituras, de algum santo medieval, ao menos. Mas esses nomes já não erampermitidos. Indicavam falta de lealdade à república dos cidadãos. Agora tinham que sechamar Heliotropo ou Frutidor6... ou Floreal. Não havia problema para os recém-nascidos, mas aquela pobre criança... com certeza, no começo não entendia por quetinha passado de uma coisa a outra sem aviso prévio. Por um momento, Karl nãoconseguiu reprimir um sorriso. No entanto, não podia se distrair. Não enquantoestivesse com a mulher. A pobre velha estava tão empenhada em não ser descoberta quequalquer policial acostumado teria percebido que tinha a intenção de realizar um atoilegal. Pensou nesse momento em abandoná-la e pegar um caminho diametralmenteoposto, mas, por fim, disse a si mesmo que era pouco provável que houvesse muitosagentes da ordem naquela Paris dos cidadãos. Certamente, alguém teria tentado se juntaraos novos donos da rua, seria o natural, mas daí a conseguirem ia uma distância nadapequena. Apertou, portanto, o passo para alcançar a mulher e disse a si mesmo que,hoje, talvez pudesse proporcionar a seu corpo algo realmente substancioso. Seconseguisse isso, poderia classificar o acontecimento de uma autêntica revolução.5Floreal: oitavo mês do calendário republicano francês, cujos dias primeiro e últimocoincidiam, respectivamente, com o 20 de abril e o 19 de maio.6Frutidor: décimo segundo mês do calendário republicano francês, de 18 de agosto a16 de setembro.
  40. 40. OOOOOOOOiiiiiiiittttttttooooooooBaviera, 1775-1776STEINER SE INCLINOU, melancólico e meditabundo, sobre a caneca de cerveja.Em outra ocasião, teria se preparado para dar conta rapidamente daquele líquidodourado e espumante, mas agora seu estado de espírito dificilmente poderia ser pior.Fazia várias semanas que vinha alternando suas tarefas cotidianas — que, para falar averdade, não eram poucas — com algo tão volátil e difícil de encontrar como umsuposto sodomita assassino. Aí é que estava! Como se fosse pouco complicadodescobrir alguém que tinha acabado com a vida do próximo, ainda por cima neste casotinha que ser um invertido. Podiam também andar atrás do rastro — se é que existia —de um ladrão zarolho, de um estuprador de vista curta ou de um vigarista de cabelobranco... Bem que gostaria de não estar naquela enrascada, mas era óbvio que fugir aocumprimento do dever — e o dever eram as ordens firmes e categóricas de herr Koch— estava muito além de sua capacidade.A morte e sodomização — ou a sodomização e morte — daquele jovem, queum desavisado caçador furtivo encontrou certa manhã enquanto perseguia um filhote delebre, tinha se transformado numa pesada armadilha para a mente metódica eimpregnada de sentimento de justiça de seu superior. Era óbvio que, como em tantosoutros casos anteriores, o desejo que o dominava era o de recompor a ordem rompidapelo crime. Até aí tudo era normal, mas agora a missão estava se revelando mais difícildo que o habitual. E isso porque, tal qual o médico tinha informado, nem no cadávernem no local onde ele tinha sido encontrado se tinha detectado o menor vestígiosuscetível de conduzir até o assassino ou que permitisse, ao menos, estabelecer aidentidade da vítima.Durante as semanas seguintes, Steiner tinha se dedicado a percorrer osarredores da floresta, perguntando a todos aqueles que estiveram a seu alcance e,certamente, a todas as pessoas que fizeram o possível para não serem interrogadas.
  41. 41. Velhos e crianças, religiosos e leigos, homens e mulheres, camponeses e artesãos. Tinhainterrogado a todos, mas não tinha obtido informação de ninguém. A julgar pelainvestigação, não havia testemunhas oculares do crime, e o máximo que Steinerconseguiu foi que uma velha com o rosto transformado num verdadeiro canteiro derugas se benzesse horrorizada ao ouvir suas perguntas.— A senhora sabe de alguma coisa, vovó? — tinha perguntado com algumaesperança de que, afinal, pudesse fincar o pé em algum terreno menos movediço.— Meu filho — respondeu a mulher —, já se sabe aonde as más companhiaspodem levar, e para quem fica em casa em segurança nunca acontece nada de mau...Não houve jeito de lhe arrancar nem mais uma frase, e Steiner ficou seperguntando durante meses se a lacônica anciã estava emitindo um juízo categóricosobre o morto ou se o advertia para se manter à margem daquela história, ou as duascoisas ao mesmo tempo, ou simplesmente nenhuma delas. No fim das contas, por maisque Steiner se esforçasse, ninguém conseguiu informar quem era aquele a quem um diatinham arrancado a vida e submetido a uma cerimônia perversa. Ninguém tinhapresenciado nada. Ninguém tinha visto ninguém. Ninguém tinha a menor idéia de nada.Era como se um autêntico furacão de silêncio e esquecimento tivesse soprado sobreaquele cadáver martirizado, arrastando qualquer fiapo mínimo que pudesse ajudar noesclarecimento do caso.— Tudo parece indicar que não vamos conseguir nenhuma testemunha ocular— disse Koch numa manhã de segunda-feira, logo depois de tomar um generoso gole decafé.— E agora? — atreveu-se a perguntar Steiner. — Quer dizer, qual deve ser orumo da investigação...— Não se deter e seguir em frente — respondeu seu superior com um sorrisopaternal. — Se você está voltando do campo de carroça, despenca uma tempestade evocê fica atolado no caminho, você procura chegar até a cidade do jeito que for ou ficaesperando que um arcanjo venha tirar as rodas da lama?Steiner disse a si mesmo que, se a carroça tivesse alguma cobertura, certamenteele ficaria quietinho ali dentro esperando que a chuva parasse, mas já conhecia seuchefe o suficiente para imaginar a resposta que ele esperava.— Seguiria em frente — respondeu, procurando aparentar uma segurança queabsolutamente não tinha.— Pois é isso mesmo que vamos fazer — afirmou Koch.Sim, Steiner concordou, mas continuar exatamente por onde? Porque, no que
  42. 42. lhe dizia respeito, dificilmente poderia estar se sentindo mais desorientado.— Descartadas as testemunhas oculares — disse Koch, como se corresse emauxílio do naufrágio interior de Steiner —, devemos nos direcionar para a localizaçãodos possíveis criminosos. Obviamente, tanto se se tratar de um quanto de vários, o lugaradequado para os encontrar é em algum desses antros onde se reúnem os perpetradoresdaquele pecado que levou Deus a afundar Sodoma e Gomorra numa chuva de fogo eenxofre.— Desculpe, herr — disse um Steiner ainda mais inquieto, depois de escutaraquelas palavras. — Onde se pode imaginar que vou encontrar essas pessoas? Querdizer... desculpe minha ignorância, mas... existem bordéis para sodomitas ou... oupodem ser encontrados de alguma outra maneira?— Steiner, pensei que soubesse mais sobre a vida — tinha respondido Kochum tanto incomodado, enquanto tornava a encher de café a fina xícara de porcelana.— Sobre a vida, sim — respondeu Steiner com uma voz encharcada deingenuidade —, mas de homens que gostam de homens... bem, confesso que não seinada sobre isso. Sei que eles existem, claro. Ouvi falar disso algumas vezes... Atéconheço algumas piadas sobre esse assunto, mas a verdade é que nunca os encontrei.Koch pousou o olhar sobre seu ajudante. Não era um olhar impregnado deamabilidade, mas Steiner não saberia dizer se nele prevalecia a desaprovação, odesgosto ou a simples contrariedade. Durante alguns segundos, o ajudante esperou queseu superior explicasse o que estava pensando. Foi, infelizmente para ele, uma esperainfrutífera.— Steiner — disse Koch por fim —, talvez você não esteja tão desorientado.Siga por esse caminho.Por qual caminho?, perguntou-se Steiner enquanto saía do gabinete de seusuperior e se preparava para sair às ruas de Ingolstadt à procura de uma pista quepudesse ajudar a esclarecer um crime horrendo.Durante os dias que se seguiram, Steiner experimentou uma verdadeira agonia.Primeiro, socorreu-se com um pároco a quem deixou claro que não pretendia que elequebrasse o segredo da confissão, mas lhe agradeceria se ele o orientasse naquele tema.O sacerdote — que, obviamente, não chegou a entendê-lo de maneira adequada —expulsou-o de seu escritório com muita raiva, ao mesmo tempo em que lhe perguntava oque ele estava pensando sobre seus paroquianos. Steiner não tinha imaginado nada.Queria apenas um pouco de orientação. O passo seguinte o levou até o médico que tinhaexaminado o cadáver do pobre rapaz.
  43. 43. — O que o senhor deseja saber exatamente, herr Steiner? — perguntou oGaleno, olhando-o de maneira inquisitiva por cima de suas lentes redondas e reluzentes.— Pois eu...Não chegou a dizer mais nada.— Sabemos muito pouco sobre a inversão sexual — disse o médico. — Semdúvida, é um comportamento antinatural, porque se todos o seguissem a espécie seacabaria, mas ainda desconhecemos o que é que impele alguém a se comportar de formatão contrária àquilo que somos.— Isso não me interessa muito... — atreveu-se a dizer Steiner, temeroso de queo médico o transformasse em ouvinte solitário de uma explanação sobre a sodomia... —na verdade, eu...— Pessoalmente — começou a dizer o doutor sem dar a menor importância àspalavras do policial —, acho que obedece a diferentes causas. Certamente, há oconhecimento dos prazeres da carne dessa maneira e a dificuldade para os orientardepois de maneira natural, e podemos acrescentar a isso a falta de mulheres quando seestá na prisão ou em alto mar, o fastio de algumas pessoas já muito entregues àdepravação...— Herr doktor — levantou a voz Steiner, disposto a se salvar da liçãoprofessoral —, sem dúvida tudo isso é interessante... para o senhor e para outros sábios,mas eu... bem, eu me contentaria em saber onde poderia encontrar essas pessoas dadasa... essas práticas.A verdade é que fazia muito frio quando a porta do embaraçado médico sefechou às suas costas e Steiner se encontrou na rua sem saber uma vírgula a mais do queo que conhecia ao entrar na casa.E aquilo foi apenas o início de suas aflições. Os policiais mais veteranosolhavam para ele com estranheza quando ouviam a pergunta, as prostitutas riam em suacara, uma delas inclusive disparou se ele sabia bem o que estava fazendo (e o que elapensava que ele estava fazendo?), e até sua própria esposa começou a se inquietar porcausa daquela dedicação a um assunto tão espinhoso.— Gretchen — disse quase irritado —, trata-se de uma investigação comoqualquer outra.Gretchen, que, como uma esposa perfeita, nunca o contestava, também não ofez dessa vez, mas por sua expressão Steiner deduziu que não tinha conseguidoconvencê-la. Também não quis insistir sobre o que poderia estar passando por suacabeça. Fazia muitos anos que estavam juntos e tinham três filhos encantadores para
  44. 44. agora se atreverem a azedar seu casamento simplesmente porque herr Koch tinha lheencomendado a missão de encontrar uma agulha — bastante esquisita, sem dúvida —num palheiro.Durante aqueles meses, Steiner alimentou algumas vezes a esperança de quetudo se dissipasse como uma tempestade de verão. Talvez tudo acabasse sendodescoberto casualmente — como acontece muitas vezes no curso de uma investigaçãopolicial —, talvez o assassino, crivado pelo remorso, acorresse para confessar seu crimeàs dependências da polícia de Ingolstadt, talvez herr Koch se esquecesse de tudo,absorvido na resolução de violações da lei igualmente graves. Semelhante desejo foidesmentido várias vezes. Se estavam atrás de um ladrão de gado, atrás de umfalsificador de moedas, ou atrás de um falsificador, herr Koch sempre encontrava omomento apropriado para lhe perguntar pelo andamento de suas investigações a respeitodo misterioso assassinato da floresta. Nessas horas, Steiner sentia uma aflição imensa euma vergonha igualmente considerável se apoderava dele. Numa dessas ocasiões, esteveaté a ponto de começar a chorar. Conteve-se, porque pertencia à corporação da polícia...mas não por falta de vontade.Agora, sentado na taberna, não podia evitar de se sentir oprimido pelainfelicidade. Se não tivesse uma família para sustentar — quem sabe? — já teriaabandonado aquela ocupação sagrada a que tinha entregado tantos anos de sua vida.Aproximou a caneca de cerveja dos lábios, tomou um gole que lhe pareceu amargocomo o fel e deu um suspiro.— Pretende me cobrar tudo isso por uma camisa, herr Heide? - ouviu o quedizia a mulher do taberneiro.— Foi o que combinamos... — respondeu uma voz esganiçada que levouSteiner a voltar o olhar até o lugar de onde ela vinha.— Olhe, não me lembro disso, Herr Heide — respondeu a bojuda taberneira —, mas o trabalho... ele deixa muito a desejar... olhe, olhe só o acabamento...— O que é que tem meu acabamento? — perguntou indignado o homem devozinha aguda. — Frau Muller...Mas Steiner não estava absolutamente interessado na disputa sobre a camisa ouna forma, menos ou mais adequada, como o tal Heide poderia tê-la rematado. O que lheinteressava era sua aparência. Tratava-se de um velhote enfeitado, de baixa estatura,pele avermelhada — de fato, ia assumindo uma cor mais intensa à medida que adiscussão avançava — e cabelos imaculadamente brancos. Até aí tudo parecia normal,mas a forma como mexia as mãos, o timbre vocal...
  45. 45. O policial esperou pacientemente que a senhora Muller encerrasse a discussãocom herr Heide. A disputa acabou quando o homem parecia a ponto de morrer de umacongestão. Talvez o medo de que ele caísse fulminado em seu estabelecimento tenhasido o que acabou convencendo a estalajadeira a pagar e dar o assunto por encerrado.Depois, empinando o queixo num gesto de indignação mais ou menos sincero, o talHeide tinha se encaminhado para a porta e deixado o local.Steiner, movido por aquilo que alguns chamam de instinto, mas que, com todaa certeza, é apenas a experiência acumulada, adiantou-se até o balcão, pagou eatravessou a soleira. Chegar até a rua e olhar para um lado e para o outro da calçada lhecustou apenas alguns segundos. O homenzinho de voz esganiçada se movimentavaapressado a uns cinqüenta passos dele. Pois muito bem. Como se ele se incomodasse emcorrer. Steiner apertou o passo e conseguiu chegar perto em uns dois minutos. Então,fazendo um último esforço, adiantou-se a ele pela esquerda, interrompeu-lhe apassagem e lhe disse:— Sou agente da polícia de Ingolstadt. Herr Heide, tenha a bondade de meacompanhar.O homenzinho de cabelos brancos e de voz esganiçada encarou-o com asurpresa estampada no rosto redondo e avermelhado. Abriu a boca umas duas vezes semconseguir articular uma única frase e, finalmente, com um fiapo de voz, perguntou numtom situado a meio caminho entre a indignação e a surpresa:— Eu? Por quê?Steiner percebeu naquele mesmo momento que não tinha o menor motivo paradeter o velho. Bem, dava no mesmo. Uma vez que tinha a sensação de ter encontradouma pista, não estava disposto a largá-la por um detalhe desses.— Faça o favor de me acompanhar — disse, fingindo uma autoridade e umaconvicção que praticamente não tinha naquele momento.— Mas... mas... posso saber ao menos por quê?Steiner engoliu em seco ao mesmo tempo em que desejava de todo coração queo gesto não fosse percebido por aquele reticente sujeito.— Você sabe por quê — respondeu com uma firmeza invejável o agenteSteiner.— Eu? — quase gritou o costureiro enquanto levava as mãos ao peito numgesto rápido e suave. — O que é que eu sei? Uma pessoa tem que ouvir cada coisa!Saiba o senhor...O policial não tinha a menor intenção de saber nada naquele momento. Cravou
  46. 46. o olhar no homem de cabelos alvos e o espetou:— Por cometer o pecado de Sodoma e Gomorra.Steiner teve que segurar herr Heide em seus braços para evitar que, desmaiado,ele se estatelasse no chão.NNNNNNNNoooooooovvvvvvvveeeeeeeeBaviera, 1787A voz ARRANCOU KOCH de suas reflexões. Era extremamente clara e sossegadae, talvez por conta disso, chocou-o a figura da qual provinha. Tratava-se de um homemde estatura mediana, um tanto carregado no peso, vestido de forma desalinhada, emboralimpo e barbeado. Poderia ter sido um comerciante, um advogado, provavelmente umprofessor, mas... um sujeito dedicado a zombar de clérigos aos quais, previamente, teriaembriagado?— O senhor é herr Lebendig? — perguntou Koch.— Sim, sou eu.— O senhor conhece um sacerdote... chamado List?O rosto de Lebendig se iluminou, ao mesmo tempo em que suas sobrancelhasse arquearam levemente. Koch teria jurado que, longe de se inquietar, ele estavafazendo força para não deixar transparecer que a simples menção do nome era no fimdas contas divertida para ele.— Sim, claro que conheço o padre List — respondeu Lebendig. — Esteve aquihá alguns dias. Dei-lhe uma pequena remuneração para que colaborasse em minhasexperiências.Uma sensação incômoda de desorientação tomou conta de Koch ao ouviraquelas palavras. Não se tratava apenas do fato de que Lebendig não demonstrasse omenor sinal de inquietação, de que estava absolutamente tranqüilo, e até pareciaserenamente divertido: havia, além disso, aquela referência inquietante a algumasexperiências. A que espécie de experiências ele estaria se referindo?— É uma pessoa agradável — prosseguiu Lebendig, enquanto retirava algunslivros que pareciam quase suspensos no vazio e debaixo deles aparecia uma cadeira emque conseguiu se sentar. — Com uma vida tranqüila, bem, como costuma acontecercom a maioria dos párocos. Esta foi uma das razões por que achei que poderia ser ideal.A propósito, a que se deve seu interesse pelo padre List? O senhor é parente dele? Um
  47. 47. amigo, talvez?Koch hesitou um instante antes de responder. Sem dúvida, se dissesse que erapolicial, seria mais do que provável que aquele homem tratasse de esconder a verdade...— Sou sobrinho dele — mentiu com absoluta naturalidade.— Sobrinho... — repetiu Lebendig. — Pois o senhor faz muito bem, cuidandode seu tio. É uma pessoa um tanto ingênua. Se tivesse cruzado com outro que não fosseeu, sabe-se lá o que poderia ter-lhe ocorrido.— O senhor se referiu a algumas experiências... — disse Koch justo nomomento em que a mulher que lhe tinha aberto a porta entrava no aposento carregandouma bandeja.O policial ficou em silêncio enquanto observava, surpreso, como a recém-chegada conseguia colocar umas xícaras e uma chaleira sobre uma mesinha coberta delivros. Assustava-o pensar o que poderia aparecer debaixo de tantos volumes.— Sim — respondeu Lebendig com a maior naturalidade, ao mesmo tempo emque se inclinava sobre os recipientes. — Gostaria de um pouco de café?— Sim, danke7.— E como vai querer?— Puro. Sem açúcar e sem leite.Lebendig despejou o líquido preto numa xicrinha e a estendeu ao policial, quea apanhou e a aproximou dos lábios. Mal tinha acabado de afastá-la da boca — estavabem-feito aquele café, era preciso reconhecer — quando seu anfitrião começou a falar.— Repare nessa parede — disse.Koch dirigiu o olhar para o muro, mas não viu nada além de uma série amorfade montes de livros, nada diferente daquilo que já tinha visto em outros lugares daquelacasa quase insuportavelmente desorganizada.— Está vendo essa sombra? Koch pestanejou.— Sim — disse por fim.— O senhor diria que ela corresponde a quê?— É a sombra de minha mão... e da xícara...— Exato, exato — disse Lebendig esboçando um sorriso. — Agora eu lhepergunto: por que o senhor consegue ver essa sombra na parede?— Bem... — começou a dizer Koch —, imagino que a luz que entra pela janelachega até a parede e... e quando encontra minha mão no caminho lança uma sombra.— Sim, mais ou menos — concordou com um sorriso Lebendig. — O fato é7Em alemão, no original.

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