Monografia: A morte de Osama Bin Laden como Acontecimento Midiático no Twitter | Racquel Tomaz

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Trabalho de Conclusão de Curso.

Resumo:
O presente estudo tem como objetivo trazer à tona discussões sobre a dinâmica dos acontecimentos midiáticos em rede a partir de um estudo de caso sobre a construção da morte do líder da Al Qaeda Osama Bin Laden, em maio de 2011, como um acontecimento midiático no Twitter. É a partir do conceito de acontecimento e das características da dinâmica em rede, bem como as especificidades do acontecimento midiático em rede, que a análise foi feita, levando em consideração o funcionamento do Twitter como plataforma de interação de redes sociais na Internet.

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Monografia: A morte de Osama Bin Laden como Acontecimento Midiático no Twitter | Racquel Tomaz

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL A MORTE DE OSAMA BIN LADEN COMOACONTECIMENTO MIDIÁTICO NO TWITTER Racquel Pereira Tomaz Belo Horizonte 2012
  2. 2. 1 Racquel Pereira Tomaz A MORTE DE OSAMA BIN LADEN COMOACONTECIMENTO MIDIÁTICO NO TWITTER Monografia apresentada ao Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção de título de Bacharel em Comunicação Social. Orientadora: Prof. Geane Alzamora Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - FAFICH Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG Belo Horizonte 2012
  3. 3. 2 Aos meus pais,a quem devo todas as minhas conquistas.
  4. 4. 3AGRADECIMENTOS Agradeço à minha família por todo o apoio, à minha orientadora Geane por toda a ajuda e a todos que, de alguma forma, contribuíram para a conclusão desse trabalho.
  5. 5. 4 RESUMOO presente estudo tem como objetivo trazer à tona discussões sobre a dinâmica dosacontecimentos midiáticos em rede a partir de um estudo de caso sobre a construção damorte do líder da Al Qaeda Osama Bin Laden, em maio de 2011, como um acontecimentomidiático no Twitter. É a partir do conceito de acontecimento e das características dadinâmica em rede, bem como as especificidades do acontecimento midiático em rede, que aanálise foi feita, levando em consideração o funcionamento do Twitter como plataforma deinteração de redes sociais na Internet.
  6. 6. 5 ABSTRACTThis study has the intent of bringing up discussions about the network mediatic eventsdynamics from a case study about the construction of Al Qaeda leader Osama Bin Laden‟sdeath, in May of 2011, as a mediatic event in Twitter. It is from the concept of event and thenetwork dynamics characteristics, as well as the network mediatic event specificities, that theanalysis was made, considering the Twitter functioning as a Internet social networksinteraction platform.
  7. 7. 6 SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO........................................................................................................072 ACONTECIMENTO MIDIÁTICO EM DINÂMICA DE REDE...................................09 2.1 Sobre a noção de acontecimento midiático........................................09 2.2 Dinâmica de rede................................................................................17 2.3 Acontecimento midiático em rede.......................................................243 ACONTECIMENTO MIDIÁTICO NO TWITTER......................................................26 3.1 Twitter como ambiente sociocomunicacional em rede........................26 3.1.1 O serviço de microblogging.............................................26 3.1.2 Características sociocomunicacionais do Twitter............28 3.2 Entre o banal e o jornalístico...............................................................31 3.3 “O que está acontecendo agora?”.......................................................334 A MORTE DE OSAMA BIN LADEN NO TWITTER................................................40 4.1 A singularidade do acontecimento......................................................40 4.2 Aspectos metodológicos......................................................................41 4.3 O relato em tempo real........................................................................43 4.4 A construção do acontecimento no Twitter.........................................475 CONCLUSÃO.........................................................................................................54REFERÊNCIAS..........................................................................................................57
  8. 8. 71 INTRODUÇÃO A presente monografia tem como objetivo trazer à tona discussões sobrea dinâmica dos acontecimentos midiáticos em rede a partir de um estudo de casosobre a construção da morte do líder da Al Qaeda Osama Bin Laden, em maio de2011, como um acontecimento midiático no Twitter. Dessa maneira, pretende-secompreender as contribuições dos usuários do Twitter na construção dosacontecimentos midiáticos. No capítulo dois é discutido como se dá a irrupção midiática deacontecimentos cotidianos e jornalísticos, levando em conta o papel da mídia nessaconstrução, ao atribuir-lhes visibilidade, segundo a noção de acontecimento emautores como Rodrigues (1993), Berger e Tavares (2010), Lage (2011) e Antunes(2007), entre outros. A midiatização da sociedade é abordada como um processo que temmodificado as interações e os processos sociais na medida em que os indivíduostêm trazido para o contexto sociocultural as lógicas de funcionamento da mídia.Esse conceito, suas características e consequências são abordados a partir deautores como Muniz Sodré (2006) e Braga (2006). A partir da apresentação desse conceito, a compreensão da interação,bem como o papel da mídia em atribuir visibilidade aos acontecimentos(THOMPSON 1999; 2008; FLORES & BARICHELLO, 2009), pode ser maisfacilmente compreendida. Para discutir como a interação mediada por computador (THOMPSON,2009) interfere na construção dos acontecimentos midiáticos, foi estudada adinâmica em rede, considerando os princípios do rizoma apresentados por Deleuzee Guattari (1995) e segundo, sobretudo, os estudos de Recuero (2010) e Recuero eZago (2011). São destacados os valores intrínsecos às redes sociais na Internet e aparticipação dos atores sociais no compartilhamento de informações. A partir daí, é possível definir diversas características específicas doacontecimento midiático em rede, relativas a um tipo de acontecimento midiatizado
  9. 9. 8conforme a dinâmica de rede, contexto no qual é produzido, construído esocialmente disseminado. Com o intuito de obter uma melhor compreensão do estudo de casoproposto, o capítulo três é composto da apresentação do Twitter como um site deinteração de redes sociais (Recuero, 2009) que tem obtido adesão social. Trata-sede um ambiente midiático de construção social de acontecimentos em rede, que seconecta com outros ambientes midiáticos online através da hipertextualidade. Foramabordadas as suas características e como estas fazem do Twitter um ambientesociocomunicacional com o potencial de apontar acontecimentos midiáticos. Dessa forma, é possível apreender as contribuições que a plataforma e osseus usuários oferecem para que os acontecimentos em rede sejam construídos, apartir da resposta que os indivíduos dão à pergunta proposta pelo Twitter “O queestá acontecendo agora?” e aos compartilhamentos feitos por eles. No capítulo quatro, o caso proposto é estudado a partir das perspectivastratadas nos capítulos anteriores. Dessa forma, é possível ver como a morte deOsama Bin Laden foi construída por meio de uma plataforma em rede e como issose repercutiu e interferiu na mídia tradicional. Através do método de observaçãosistemática, foram analisadas publicações em sites de notícia que tratavam arelação entre o ataque e morte de Bin Laden e a sua repercussão no Twitter, bemcomo os perfis de dois usuários citados em algumas dessas matérias. Com isso, foi possível compreender qual o papel do Twitter e seususuários na construção de um acontecimento de repercussão global e como isso sereverberou para outros meios – no caso, no âmbito do jornalismo online. Por fim, é apresentada no último capítulo a conclusão sobre aparticipação dos diversos atores na construção dos acontecimentos midiáticos noTwitter, acerca da filtragem e compartilhamento das informações, alcançandovisibilidade na rede.
  10. 10. 92 ACONTECIMENTO MIDIÁTICO EM DINÂMICA DE REDE2.1 Sobre a noção de acontecimento midiático A noção de acontecimento pode ser descrita sumariamente como “tudoaquilo que irrompe na superfície lisa da história de entre uma multiplicidade aleatóriade factos virtuais” (RODRIGUES, 1993, p. 27). Enquanto o fato é toda e qualquerocorrência da vida cotidiana, o acontecimento se destaca em meio à realidade erompe com a rotina de forma inesperada. De acordo com José Rebelo (APUD BERGER & TAVARES, 2010), para ofato ser considerado acontecimento, ele deve aliar-se a seu potencial de atualidadee pregnância. Sendo que a noção de atualidade está relacionada à produção doacontecimento em si no espaço e tempo, enquanto a pregnância relaciona-se com aruptura causada na normalidade. A diferenciação entre fato e acontecimento é particularmente relevantenos estudos sobre jornalismo. Mas, segundo Berger e Tavares (2010), não épossível fazer separação rigorosa entre acontecimento cotidiano e acontecimentojornalístico, já que, como afirma Mouillaud (1997), o acontecimento cotidiano é asubstância que mantém o ecossistema da mídia, que funciona de forma a selecionare transformar os acontecimentos a serem noticiados. O acontecimento jornalísticodiz respeito, de acordo com Berger e Tavares (2010), à construção doacontecimento em forma de notícia. Elton Antunes (2007) dispõe, ao diferenciar acontecimento deacontecimento jornalístico, que o primeiro funciona “como uma ocorrência inicial quedemanda a construção de uma interpretação” (ANTUNES, 2007, p. 30) e essainterpretação se dá, para o autor, na forma de acontecimentos jornalísticos.Segundo Antunes, enquanto o acontecimento cotidiano se dá pela ruptura, oacontecimento jornalístico se dá pela marcação, pois este é um fato assinalado eselecionado segundo os critérios de noticiabilidade determinados pela práticajornalística.
  11. 11. 10 Berger e Tavares dissertam, ao falar do acontecimento jornalístico, que ahermenêutica jornalística pode ser explicada, em primeiro lugar, pela necessidadedo ser humano de “falar (a alguém) sobre o que acontece no mundo” (BERGER &TAVARES, 2010, p. 131), necessidade esta que não é exclusiva da mídia, mas éintrínseca ao ser humano. Adriano Duarte Rodrigues (1993) aborda o acontecimento jornalísticocomo sendo um acontecimento de natureza peculiar que compõe um conjuntolimitado, pertencente a um universo muito vasto de acontecimentos e é a suanotabilidade que o torna digno de ser registrado como notícia. Para o autor, são trêsos fatores que atuam no processo de tornar os acontecimentos notáveis e, logo,noticiáveis: o excesso, a falha e a inversão. O excesso, característica mais comum, refere-se ao funcionamentoatípico da norma e na forma excessiva do funcionamento natural dos corpos. Afalha, por sua vez, está relacionada ao defeito no funcionamento regular. Já ainversão caracteriza-se pelo chamado acontecimento boomerang, como nosimbólico exemplo, dado por Rodrigues (1993), do dono que morde seu cão ao invésde ser mordido por ele. Lage (2011) afirma que é através da mídia que “as causas, o cerne, adinâmica e as consequências, enquanto componentes imprescindíveis para ainteligibilidade do acontecimento, são-nos dadas” (LAGE, 2011, p. 3), já que o papelda mídia não está apenas na publicização do acontecimento, mas, também, emconstruí-lo. E é por meio dos meios de comunicação de massa que osacontecimentos podem marcar sua presença e obter visibilidade (NORA APUDLAGE, 2011), devido à projeção em larga escala que a mídia faz dosacontecimentos. O acontecimento, quando adquire grande visibilidade nos meios decomunicação, passa a caracterizar-se como acontecimento midiático. Para DanielDayan, “eventos midiáticos [...] convidam seu público a deixar de ser espectadores ea se tornar testemunhas ou participantes de uma performance da televisão”(DAYAN, 2009, p. 25, tradução nossa).
  12. 12. 11 Há dois grandes incentivadores que estimulam a visibilidade e tornam oacontecimento, um acontecimento midiático: o imprevisto, que desestabiliza osistema da normalidade, criando acontecimentos essencialmente midiáticos por seucaráter acidental e inesperado; e o agendado que pode ser programado – eventoanunciado previamente – ou suscitado – evento induzido para tornar-se notícia(BERGER & TAVARES, 2010). Os acontecimentos programados são eventos públicos, o casamento deuma celebridade ou a estreia de um filme. Os acontecimentos suscitados, por suavez, são planejados por indivíduos que não a mídia, mas para a mídia. Esse foi o caso do ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center nodia 11 de setembro de 2001: a intenção era chamar a atenção de todas as câmerase meios de comunicação para o acontecimento em curso. Por isso, o intervalo dequase trinta minutos entre o choque do primeiro avião à Torre Norte e o segundoavião à Torre Sul: o primeiro choque atraiu as lentes das câmeras e os olhares dosespectadores diante da televisão e o segundo choque foi um espetáculo transmitidoao vivo pela televisão de Nova York para o mundo. Segundo Cláudia Álvares, com relação ao acontecimento de 11 desetembro, “o ritual mediático ao qual dá origem foi, em parte, ditado pelo „outro‟, como intuito de utilizar os media como espaço público de contestação, combate econfronto em tempo real” (ÁLVARES, 2005, pp. 56-57). Há também os casos em que a própria mídia afeta o acontecimento aomidiatizá-lo. Um exemplo dessa afetação é o sequestro do ônibus 174, ocorrido em2000, em que um assalto ao ônibus tornou-se um sequestro de grandes proporções,pelo fato de o sequestrador perceber a presença da mídia ao entorno do ônibus edecidir, por isso, adequar suas ações ao espetáculo que o fato se tornara. Ao notar a presença das câmeras de TV, o próprio seqüestrador estabelece estratégias de comunicação com o público: ele força uma das reféns a escrever com um batom, no pára-brisa do ônibus, frases como, “ele vai matar todo mundo”; encena dramatizações de maus tratos às vítimas e simula a morte de outra refém, ordenando que o
  13. 13. 12 grupo demonstrasse pânico. [...] o seqüestro do ônibus tomou proporções de [...] características de “espetáculo”, exatamente por causa da audiência, estimada em 54 milhões de espectadores (MAIA, 2006, p. 03). Rodrigues (1993) lembra, por sua vez, que a própria visibilidade é um dosfatores que atribui notoriedade aos acontecimentos, ao fazer deles acontecimentosmidiáticos: É o próprio discurso do acontecimento que emerge como acontecimento notável a partir do momento em que se torna dispositivo de visibilidade universal, assegurando assim a identificação e a notoriedade do mundo, das pessoas, das coisas, das instituições [...] O que torna o discurso jornalístico fonte de acontecimentos notáveis é o facto de ele próprio ser dispositivo de notabilidade (RODRIGUES, 1993, p. 29). Essa característica de os meios de comunicação atribuírem notoriedadeaos acontecimentos fez-se presente no exemplo do sequestro do ônibus 174, aoconsiderar que assaltos a ônibus não eram fatos que atraíam a atenção da mídia emsituações comuns, pela sua grande frequência em cidades como o Rio de Janeiro.Mas a visibilidade conferida durante as mais de quatro horas de transmissão ao vivonão só afetou o fato, em si, mas atraiu o interesse público – além da comoção dasociedade – para um acontecimento que era, a princípio, quando limitava-se a umassalto, considerado parte do cotidiano. A visibilidade midiática permite que acontecimentos ampliem suadimensão pública, interferindo em suas possibilidades interacionais, que seexpandem para além da copresença espaço-temporal, como afirma Thompson: Um indivíduo não precisa mais estar presente no mesmo âmbito espácio-temporal para que possa ver um outro indivíduo ou para
  14. 14. 13 acompanhar uma ação ou acontecimento: uma ação ou acontecimento pode fazer-se visível para outras pessoas através da gravação e transmissão para os que não se encontram presentes fisicamente no lugar e no momento do ocorrido (THOMPSON, 2008, pp. 20-21). É do conjunto das emissões da mídia por uma gama diversa deconteúdos, da qual o jornalismo é apenas um elemento, que a visibilidade midiáticaé composta. A mídia é um instrumento que conecta a sociedade, gerando essainteração que independe da copresença (THOMPSON, 2008). Daiana de Oliveira Martins afirma que os meios de comunicação operam,diariamente, na divulgação de fatos que adquirem o caráter de acontecimento aogerar notícias e reproduzi-las em larga escala (MARTINS, 2009). As tecnologiasapoiadas, sobretudo, na Internet, para Muniz Sodré (2006), não modificam a noçãode media, tornando-se os principais ambientes canalizadores das interações virtuais. Isso porque os meios de comunicação não são apenas plataformasresponsáveis pela publicização dos acontecimentos, mas “apresentam-se comomoduladores das formas de vida e de visão de mundo” (FLORES & BARICHELLO,2009, p.4) ao serem tomados como novas possibilidades de atuação com suaslógicas de funcionamento, uso e significados. Essa visão de mundo, para as autoras,está relacionada com a produção discursiva da sociedade: Na contemporaneidade, o elevado nível de crescimento da tecnologia impulsiona juntamente com outros fenômenos sociais e culturais uma aceleração das formas de vida. É notável também um tratamento mais superficial e veloz dado às questões-chave da sociedade e às relações sociais, como se tudo acontecesse numa atmosfera de agitação e fluidez materializada nos constantes e instantâneos estímulos visuais e sonoros aos quais os indivíduos são submetidos cotidianamente (FLORES & BARICHELLO, 2009, p. 3).
  15. 15. 14 As tecnologias resultam em novas formas de relacionamento entre oindivíduo e o mundo e em novos processos comunicacionais, os quais não sãodeterminados pelos aparatos tecnológicos em si, mas constituídos na relação entreos indivíduos e estes aparatos. Esta relação, expressa na dinâmica de inúmerosfenômenos sociais e culturais contemporâneos, traz transformações na sociedade,como se observa desde o surgimento da fotografia, do cinema e da televisão – achamada era das imagens. As relações humanas, transformadas pelas neotecnologias, tendem a sercada vez mais virtualizadas devido à midiatização. A esta midiatização quetransforma as relações humanas, Muniz Sodré define como: uma ordem de mediações socialmente realizadas – um tipo particular de interação, portanto, a que poderíamos chamar de tecnomediações – caracterizadas por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium (SODRÉ, 2006, p. 20). A midiatização transforma e condiciona as experiências vividas “namedida em que permite hibridizações com outras formas vigentes no real-histórico”(SODRÉ, 2006, p. 21), caracterizando-se inclusive, segundo o autor, como“tecnocultura”. A midiatização resulta numa mediação social exacerbada, quandocomparada às formas interativas das mediações tradicionais. Os efeitos dos meios de comunicação têm se tornado cada vez maisintrínsecos aos próprios acontecimentos e a presença destes, mais constantes. Amidiatização da sociedade tem ocorrido, principalmente, com o advento de novosdispositivos tecnológicos que, hoje, permeiam ou ao menos afetam a maior partedas interações sociais. O termo midiatização pode se referir, segundo José Luiz Braga (2006),tanto aos processos de interação social que passam a ser desenvolvidos segundoas lógicas da mídia, quanto à midiatização da própria sociedade. Isso porque
  16. 16. 15 a sociedade constrói a realidade social através de processos interacionais pelos quais os indivíduos e grupos e setores da sociedade se relacionam [...]. Construímos socialmente a realidade social exatamente na medida em que, tentativamente, vamos organizando possibiblidades de interação (BRAGA, 2006, p. 3). As interações e os processos sociais, quando desenvolvidos a partir daslógicas de funcionamento da mídia, iniciam o processo de midiatização dasociedade. Esse processo, ainda em continuidade, tem relação com odesenvolvimento de novas tecnologias não só porque a tecnologia incita o processode midiatização, mas porque esta é um processo social que gera a tecnologia. Comoafirma Braga (2006), a própria sociedade, que está em processo de midiatização,tem necessidade de tecnologia. A Internet ampliou a importância das novas formas de visibilidade queforam criadas pela própria mídia e tornou-as mais complexas. Afinal, essa revoluçãotecnológica não introduz apenas novas máquinas, mas um novo modo de produzir ede comunicar, novas sensibilidades e novos modos de percepção da linguagem(MARTÍN-BARBERO, 2006). Ao falar das novas tecnologias e as mudanças que essas trazem para asocialidade, Thompson (2008) diz que o avanço da tecnologia dos meios decomunicação institui novos campos de ação e interação, envolvendo novas formasde visualidade e podendo tomar caminhos imprevisíveis. Essas novas formas devisibilidade, trazidas por essa exacerbação midiática, possuem características quevariam de um meio para outro, moldadas pelos aspectos sociais e técnicos e pelasformas de interação possíveis por cada um deles. Segundo Leandro Lage (2011), pensar o acontecimento no contextodessa sociedade midiatizada é pensar que o interesse não está primordialmente noacontecimento em si, mas em promovê-lo para que este penetre a esfera midiática.Para o autor,
  17. 17. 16 a mediatização instaura uma condição em que os acontecimentos não são mais simplesmente anteriores à apreensão jornalística enquanto forma de julgamento daquelas rupturas no curso das coisas. As ocorrências são, muitas vezes, medidas e pesadas para que ganhem espaço na esfera de visibilidade midiática. (LAGE, 2011, p. 8). Uma característica importante da comunicação midiática contemporâneaé explicada por Charaudeau, quando este afirma que a transmissão e o consumo doacontecimento estão cada vez mais consubstanciais ao seu surgimento(CHARAUDEAU APUD FONSECA & VIEIRA, 2011). Apesar de não se caracterizar, necessariamente, pela copresençaespaço-temporal, a comunicação midiática contemporânea carrega o caráter dacotemporalidade, segundo Fonseca e Vieira (2011), na medida em que aproxima oinstante do surgimento do acontecimento e o instante do consumo da notícia. Considerar o cenário da sociedade midiatizada na análise doacontecimento midiático implica em rever as diferentes formas de interação social ecomo as mídias comunicacionais tem-nas transformado. O livro de Thompson, AMídia e A Modernidade (1999), é uma referência recorrente nesta discussão. Nesselivro, o autor aborda as diferenças entre a interação face a face, interação mediada ea quase-interação mediada. Para o autor, a interação face a face se caracteriza pelocompartilhamento de mesma estrutura de espaço e tempo, numa situação decopresença, o fluxo comunicacional é dialógico e há multiplicidade de referênciassimbólicas: palavras, gestos, entonação e expressões, por exemplo. As mídias comunicacionais trouxeram novas formas de interação comcaracterísticas intrinsecamente diferentes. Thompson chama de interação mediadaatividades como a escrita de cartas e a conversa ao telefone, que são atividades que“implicam uso de um meio técnico (papel, fios elétricos, ondas eletromagnéticas,etc.) que possibilitam a transmissão de informação e conteúdo simbólico paraindivíduos situados remotamente no espaço, no tempo, ou em ambos”(THOMPSON, 1999, p. 78). As interações mediadas fogem da copresença, reduz asreferências simbólicas, mas mantém o caráter dialógico.
  18. 18. 17 À interação gerada pelos meios de comunicação de massa, Thompson(1999) dá o nome de quase-interação mediada. Em discussão posterior, eleargumenta que é “altamente monológica e que envolve a produção de formassimbólicas direcionadas a um espectro indefinido de receptores em potencial”(THOMPSON, 2008, p. 19). Há, também, escassez de referências simbólicas edistensão da interação no tempo e no espaço. Essas características não excluem ofato de os meios de comunicação de massa gerarem, sim, interação e vínculossociais. O autor acrescenta, nesta discussão posterior, características dacomunicação mediada por computador. Thompson (2008) a analisa de formasemelhante às formas de interação e quase-interação mediada. A interação mediadapor computador consegue mesclar diversas das características dos outros tipos deinteração. Quanto à relação espaço-tempo, ela pode tanto presumir um contexto decopresença, quanto a sua separação e também proporcionar uma disponibilidadeestendida no tempo e no espaço. As deixas simbólicas são mais limitadas que nainteração face a face, mas ainda mantém o seu caráter de multiplicidade. Acomunicação mediada por computador pode se dar de forma dialogal oumonológica, com interlocutores definidos ou pressupondo um número indeterminadode receptores potenciais. Isso acontece porque são diversas as situações deinteração proporcionadas por tais tecnologias que vão desde a troca de e-mails emensagens instantâneas aos blogs, por exemplo (THOMPSON, 2008). Falar de interação mediada por computador implica em falar numainteração em rede, na qual a midiatização da sociedade contemporânea é tecida. Eé nessa interação em rede, também, que se processam os acontecimentosmidiáticos, em conexões de mídias digitais. E, para entendê-los, é primordialcompreender o funcionamento e a dinâmica dessa rede.2.2 Dinâmica de rede Para entender a dinâmica de rede, é preciso, primeiramente, conhecer oselementos que a compõem. Uma rede é formada, essencialmente, por doiselementos: os nós e as conexões entre eles. Sendo assim, as redes se caracterizam
  19. 19. 18pela topologia, pela sua estrutura, isto é, apenas as relações entre os pontos sãoconsideradas, como enfatiza Virgínia Kastrup: Pouco importam suas dimensões. Pode-se aumentá-la ou diminuí-la sem que perca suas características de rede, pois ela não é definida por sua forma, por seus limites de extremos, mas por suas conexões, por seus pontos de convergência e de bifurcação. Por isso a rede deve ser entendida com base numa lógica das conexões, e não numa lógica das superfícies. (KASTRUP, 2004, p. 80). O conceito de rizoma, trazido por Deleuze e Guattari (1995), se destacadentre as figuras topológicas da rede, sobretudo quando se trata de rede social.Esse conceito busca abranger a multiplicidade de conexões assimétricas, com seusfluxos de comunicação não-regulares, e caracteriza um alto grau deimprevisibilidade. Uma das principais características desse conceito, descrita por Deleuze eGuattari (1995; APUD KASTRUP, 2004), refere-se ao princípio de conexão, quesustenta que qualquer nó pode se conectar a qualquer outro. Dessa forma, éimpossível identificar um gerador único de informação. O rizoma não obedece ordemhierárquica. Ele se caracteriza pela multidirecionalidade: cresce em todas asdireções. “As conexões ou agenciamentos provocam modificações nas linhasconectadas, imprimindo-lhes novas direções, condicionando, sem determinar,conexões futuras” (KASTRUP, 2004, p. 81). Outro princípio de funcionamento do rizoma que vale ser destacado é oprincípio da heterogeneidade de seus nós, em que relações e sentidos sãoestabelecidos de formas diversas: a linguagem é apenas uma das muitas linhas quedele fazem parte (DELEUZE & GUATTARI, 1995; KASTRUP, 2004)1.1 Além dos princípios da conexão e da heterogeneidade, Deleuze e Guattari (1995) descrevem maisquatro princípios do rizoma: princípio da multiplicidade, da ruptura, de cartografia e de decalcomania.Os dois primeiros princípios foram destacados por serem mais pertinentes à discussão proposta pelotrabalho.
  20. 20. 19 Para a abordagem proposta neste trabalho, as redes que serão tratadassão as redes sociais na Internet, que são redes criadas pela interação mediada pelocomputador, ao conectar pessoas e organizações, transformando as formas deidentidade, conversação e mobilização social. No caso das redes sociais, os nós sãorepresentações, geralmente individualizadas e personalizadas, de atores sociais,que são os indivíduos envolvidos na rede, que moldam as estruturas sociais(RECUERO, 2009; 2010). As conexões se dão através da interação social entre osatores mediada pela Internet, nas suas mais diversas formas. Recuero (2009) lembra que as redes sociais na Internet não devem serconfundidas com os sites que as suportam. Na verdade, os chamados sites de redessociais podem abarcar várias delas e as publicizam. Orkut, Facebook e o próprioTwitter, por exemplo, são sites que dão suporte a diversas redes sociais que seapropriam dos sistemas oferecidos por eles. Para entender parte da dinâmica das redes sociais, Capra (2008),comparou-as com as redes biológicas e destacou suas principais características. Aprimeira delas é a autogeneração: as redes sociais criam-se, recriam-se e passampor transformações estruturais contínuas. As redes sociais, como redes decomunicação, geram estruturas imateriais – pensamentos e significados, regras ecomportamentos compartilhados, as estruturas de sentidos – e materiais – quandose refere à documentação, como é o caso dos textos escritos. Para Capra (2008),essas estruturas são “incorporações de sentido compartilhado gerado pelas redesde comunicações da sociedade” (p. 27). Outra característica descrita pelo autor refere-se aos limites daidentidade. As interações mútuas entre os diversos nós da rede criam um sistemacompartilhado de sentido e conhecimento: a cultura. E é através dela que a redegera seu próprio limite de identidade, “o qual é permanentemente mantido erenegociado pela rede de comunicações” (CAPRA, 2008, p. 23). São regras decomportamento produzidas pela própria rede social e impõem restrições aocomportamento dos seus próprios membros. Os estudos de Raquel Recuero (2010) convergem com o que é dito porCapra (2008) ao dizer que as redes sociais estão sempre sofrendo modificações.
  21. 21. 20Modificações estas que são influenciadas pelas interações entre os atores. Thacker(APUD RECUERO, 2010) afirma que “as redes são inerentemente dinâmicas, commudanças constantes e variáveis, ambas dentro da composição dos nós individuaise das relações entre os nós” (p. 80). Um aspecto da dinâmica de rede social destacada por Recuero (2010) équanto à sua emergência. Essa característica está relacionada ao surgimento decomportamentos coletivos, que vêm de baixo para cima. Em sistemas complexostais como as redes sociais, esses comportamentos emergentes e coletivos serãoevidenciados e serão capazes de impactar a estrutura da rede. Fenômenos emergentes essenciais para a manutenção dessa dinâmicadas redes sociais são a cooperação, a competição e o conflito. A cooperação é, paraRecuero, o “processo formador das estruturas sociais” (RECUERO, 2010, p. 81). Oconflito tende a gerar hostilidade, desgaste e ruptura na estrutura social (casosupere a cooperação). A competição é caracterizada pela luta, mas não estánecessariamente relacionada à hostilidade do conflito; pode, inclusive, gerarcooperação entre os membros de uma mesma rede. Outros comportamentos emergentes citados pela autora são a agregaçãoe o rompimento de indivíduos com a estrutura da rede social, além da auto-organização e adaptação da própria rede. Há alguns valores e aspectos, mencionados por Recuero (2010) que sãointrínsecos às redes sociais na Internet, devido ao caráter da comunicação mediadapor computador. O primeiro é o valor da visibilidade. Ao permitir que os atoressociais estejam mais conectados, os sites de redes sociais na Internet provocam umaumento da sua visibilidade. Desta forma, quanto mais visível é o ator, maior aprobabilidade de ele receber certas informações que estejam, porventura, circulandoem meio à rede. O valor da reputação está muito ligado à visibilidade. Refere-se à relaçãoentre um nó e aqueles para os quais está visível e à percepção deste construída poreles. É a consequência das impressões emitidas e percebidas. Desta forma, areputação constrói uma noção de confiança naquela interação.
  22. 22. 21 A popularidade refere-se à audiência, ao grau de centralidade de um nódentro da rede, já que um nó central possui mais pessoas a ele conectadas. Devidoa essa centralidade, esse ator social com maior grau de centralidade tende a teruma maior capacidade de influência que outros atores pertencentes à mesma rede. A esse poder de influência, dá-se o nome de autoridade, o último valordescrito por Recuero (2010). Também está fortemente relacionado à reputação, jáque transmite a ideia de confiança. Mais um aspecto que caracteriza as redes sociais na Internet é quanto àcirculação de informações. A estrutura das redes influencia e causa alterações nacirculação de informações (RECUERO & ZAGO, 2011) e a Internet permite que,como resultado das interações nas redes sociais e da sua dinâmica, os processosde difusão de informações emirjam, geralmente, como coloca Recuero (2010), “deforma quase epidêmica, alcançando grandes proporções tanto on-line quanto off-line” (p. 116). Raquel Recuero e Gabriela Zago (2011) destacam que o valor não estána informação em si, mas no acesso a ela e ao seu conteúdo. E são três oselementos, de acordo com Burt (APUD RECUERO & ZAGO, 2011), que traz oreferido valor: o acesso, o tempo e as referências. O acesso refere-se à obtenção deinformações que sejam relevantes. O tempo tem relação com a velocidade doacesso, com o recebimento de informações antes dos demais atores da rede social.Esse é um elemento importante, porque “se uma informação nova é colocada narede, ela tende a receber mais atenção”, afirmam Recuero e Zago (2011, p. 4). Asreferências se relacionam com processo de filtragem das informações recebidas ecom a legitimação das que lhes são interessantes. Com a liberação do polo da emissão, a mídia de massa não mais detémpor completo o poder da informação. Esse poder é compartilhado com mídiassociais na perspectiva da circulação dos acontecimentos midiatizados. Juntamentecom os sites de redes sociais na Internet, surgiram, também, novas formas deproduzir informações e fazê-las circular (Recuero, 2011). Dessa maneira, os própriosatores criam e difundem as informações dentro da rede social da qual fazem parte. Aprópria tecnologia e características dos sites de redes sociais contribuem para esse
  23. 23. 22processo de criação e circulação de informação, ao proporcionar a publicização einterconexão social. Essa nova "dimensão" de rede social também passou a ser utilizada em serviços informativos modificando os fluxos informacionais também no ciberespaço. Sites como o Twitter, o Facebook e, mais recentemente, o Google+ passaram assim a dar também uma nova dimensão informativa para a sociedade, gerada pela construção e pelo espalhamento das informações pelas redes sociais suportadas pelas ferramentas. Com isso, ferramentas cujo princípio basilar seria social passam a ter um novo valor informativo diferenciado. (RECUERO, 2011, p. 6). Esses fragmentos de informação reconhecíveis que sobrevivem e sãoreproduzidos e difundidos pelos próprios atores através das redes sociais na Internetsão chamados de memes (RECUERO, 2010). A partir dessa perspectiva, o meme éparte da dinâmica social da rede e é potencializado por ela. E, para compreendercomo essas informações são compartilhadas e difundidas por meio das redessociais, vale salientar a classificação dos memes proposta por Recuero (2010). Aautora classifica-os segundo quatro características, que são essenciais àsobrevivência dos memes: fidelidade da cópia, longevidade, fecundidade e alcance. A fidelidade está relacionada à capacidade de o meme gerar cópiassemelhantes ao original e demonstra o valor interacional do meme, devido ao fato dese referir à participação dos atores na personalização e alteração dos memes e àstrocas sociais. Neste quesito, os memes podem ser replicadores – passam porvariação reduzida, com principal função de informar um fato –, metamórficos –sofrem por alterações e reinterpretações completas, com função principal dediscussão da informação compartilhada, incentivando a interação – ou miméticos –sofrem transformações, mas a estrutura dos memes permanece a mesma, sendofacilmente reconhecidos como imitações e tem como característica principal o fatode permitir a personalização.
  24. 24. 23 A longevidade se caracteriza pela capacidade do meme de permanecerao longo do tempo e, apesar de não indicar o valor construído pelo meme, mostra ograu de valor agregado a ele: “Quanto mais tempo um meme permanece, mais valoragregado está à sua difusão” (RECUERO, 2010, p. 127). Os memes podem ser,nessa perspectiva, persistentes – continuam sendo difundidos e compartilhadosdurante um largo espaço de tempo ou voltam a serem compartilhados depois deterem desaparecido por um tempo – ou voláteis – têm um curto período de difusãoou são modificados a ponto de se tornarem novos memes. Já a fecundidade de um meme se refere à sua capacidade de gerarcópias de si mesmo. Os memes são epidêmicos – aqueles que apresentam alto graude difusão nas redes sociais, geralmente determinados por modismos – ou fecundos– não chegam a se caracterizar como epidêmicos, mas se espalham por gruposmenores. A última característica essencial dos memes, descrita por Recuero (2010),é quanto ao alcance do meme na rede. Eles podem ser globais – alcançam nósdistantes entre si, mesmo que não sejam caracterizados como fecundos,transitando, em sua maior parte, pelos laços fracos da rede – ou locais – ficamrestritos a poucos nós que são mais próximos, através, geralmente, de laços fortes,o que não impede que se tornem memes globais. É importante destacar, ao se tratar de compartilhamento através dasredes sociais, que esta não é uma cultura inaugurada com a Internet. Ocompartilhamento e a troca de informações fazem parte da interação da sociedade ede toda dinâmica cultural (LEMOS, 2004). Mas a cultura que gira em torno daInternet é fruto das facilidades de cooperação e troca de arquivos e informações.Lemos (2004) considera natural que a cultura do compartilhamento se estabeleça deforma tão forte no ciberespaço, pelo fato de a Internet ser um ambiente social emrede que é aberto, lugar de contato e interação, caracterizando, como jámencionado, a liberação do polo da emissão. É nessa interação, a partir do compartilhamento de informações atravésdas redes sociais na Internet, e na integração entre lógicas jornalísticas e lógicas deredes sociais conectadas que se dão os acontecimentos em rede, aqui investigados.
  25. 25. 242.3 Acontecimento midiático em rede O acontecimento se institui sempre segundo as dinâmicas e lógicas defuncionamento desse ambiente no qual se engendra. Pierre Nora (APUD HENN,2011) sugere que a sua natureza passa a conter as dinâmicas dos meios em que elese forma. A Internet torna-se, então, uma ambiência de geração e de divulgação deacontecimentos, que são chamados, por Ronaldo Henn (2011) dewebacontecimentos: Neste cenário propõe-se o termo webacontecimento para designar acontecimentos que se constituem a partir de lógicas específicas das plataformas instituídas no ambiente da web tanto no que diz respeito à sua produção quanto à sua disseminação. (HENN, 2011, p. 7). Algumas características são próprias desses acontecimentos em rede, ouwebacontecimentos, ao tratar tanto da produção, quanto da difusão destes atravésdas redes sociais. O primeiro ponto a ser destacado é quanto ao papel dos atores sociais nadivulgação. Enquanto a prática do jornalismo tradicional detinha o poder de escolhados acontecimentos que ganhariam visibilidade midiática por meio do jornalismo,segundo os critérios de noticiabilidade, no caso do acontecimento em rede, aescolha é muitas vezes feita pelos usuários, segundo o que lhes interessa na rede,seja a escolha referente a acontecimento jornalístico ou não. Os atores sociais,representados em cada nó das redes sociais, filtram as informações no momento decompartilhá-las com os atores a eles conectados – que, por sua vez, têm o poder deampliar a propagação de tais acontecimentos em suas redes específicas. Trata-se,assim, de acontecimentos que se expandem em conexões entre redes de redes naInternet. E é através dessas mediações sobrepostas que os acontecimentos emrede se propagam.
  26. 26. 25 Dessa forma, o acontecimento que circula nas redes sociais podeconquistar grande visibilidade midiática, independente de terem sido tematizadospelos meios de comunicação de massa tradicionais. Muitas vezes, as mídiastradicionais veem-se impelidas a tratar de acontecimentos em rede que conquistamgrande visibilidade nas conexões de mídias digitais, incorporando-os como parte dasua própria agenda (HENN, 2011; ANTOUN & MALINI, 2010). E essa visibilidaderelaciona-se, em parte, com a velocidade com que a circulação e difusão deinformações na rede ocorre, muitas vezes com repercussão seja imediata. A visibilidade de um acontecimento adquirida em redes sociais na Interneto tornam um acontecimento midiático e, ao ser abordado como pauta jornalística,configura-se como acontecimento jornalístico. Com isso, o acontecimento alcançaainda mais visibilidade, o que faz dele ainda mais presente nas discussões ecompartilhamentos nas redes sociais na Internet. O inverso também acontece, namedida em que um acontecimento jornalístico, por sua visibilidade e característicade acontecimento midiático, é divulgado e discutido nas redes da Internet,conquistando maior visibilidade e audiência e, por isso, é novamente veiculado pormeio do jornalismo tradicional. Outra característica dos acontecimentos midiáticos em rede se refere àsnovas configurações espaço-temporais que são estabelecidas. A instantaneidadecom que as informações são divulgadas nos sites de redes sociais na Internet fazcom que o fator da atualidade seja ainda mais valorizado quando tratamos deacontecimento em rede. Afinal, informações mais recentes tendem a ser maisvalorizadas e a receber mais atenção e visibilidade na rede. E essa urgência do queé instantâneo e a dinâmica do fluxo de conteúdo no tempo ultrapassam as barreirasespaciais, que são suprimidas num grau cada vez mais rápido (HENN, 2011). Algumas outras características da produção e difusão do acontecimentoem rede estão diretamente relacionadas à plataforma (ou plataformas) de redesocial na qual ele circula. No presente trabalho, o caso é analisado com base na suacirculação no Twitter e, para que isso aconteça, o próximo capítulo aprofundará emquestões específicas desse site de redes sociais.
  27. 27. 263 ACONTECIMENTO MIDIÁTICO NO TWITTER3.1 O Twitter como ambiente sociocomunicacional em rede Como um site de redes sociais, o Twitter é uma ambiência que ofereceinteração entre diversos atores sociais que se conectam em diversas instâncias.Através de curtas publicações, reproduções de postagens já feitas ou estabelecendorelações de amizade, por exemplo, os usuários do site interagem, criando laçosentre si. O site foi lançado em julho de 2006 e é estimado que tenha cerca de 140milhões de contas ativas no mundo inteiro2. A forte adesão social tem sido umgrande diferencial do Twitter quando comparado a outras plataformas semelhantesoferecidas por outros sites.3.1.1 O serviço de microblogging O Twitter foi criado com o propósito de microblogging, isto é, uma formade publicação de blog que permite que os usuários façam atualizações curtas – nocaso do Twitter, o limite é de 140 caracteres, mas outros serviços podem estender olimite até 200 caracteres, geralmente. Dois outros sites ofereciam serviços semelhantes ao Twitter: o Jaiku e oPownce. O Jaiku foi lançado em fevereiro de 2006 e comprado pela Google em2007. Porém, a Google passou, em 2009, a não mais se responsabilizar pelodesenvolvimento da ferramenta, que teve seu desenvolvimento feito, a partir daí, porvoluntários. Com o lançamento do serviço Google+ e a baixa adesão ao Jaiku, aplataforma foi fechada em janeiro de 2012. O Pownce teve ainda menos tempo deexistência: foi lançado em junho de 2007 e fechou em dezembro de 2008, apesar deter recebido boas críticas quando comparado ao Twitter, principalmente por ser2 Esse dado foi divulgado no blog do Twitter, em março de 2012, apesar de a empresa não divulgar onúmero exato de contas criadas (Disponível em: http://blog.twitter.com/2012/03/twitter-turns-six.html.Acesso em: 19 de maio, 2012). Outras empresas realizam estudos com estimativas do número deperfis criados, como é o caso da Semiocast (http://semiocast.com) que estimou que o Twitter tem 383milhões de contas criadas, sendo que o Brasil é o segundo país com maior número de perfis criados– 33,3 milhões (Acesso em: 15 de maio, 2012).
  28. 28. 27considerado melhor na capacidade de monitoramento de discussões dentro do site3.O seu fechamento também foi devido à incapacidade de concorrer com o Twitter. Algumas outras plataformas de microblogging pouco popularespermanecem até hoje, como é o caso do Confabular4 e Camping Club5, que utilizama ferramenta de software livre StatusNet6, plataforma que oferece integração aoTwitter, ao mesmo tempo que se propõe como uma alternativa a ele. Dessa forma,esses sites acabam por referenciar o Twitter como sendo a maior plataforma demicroblogging. Um dos principais fatores do sucesso do Twitter pode ser atribuído à forteadesão social a ele. O grande número de usuários participantes do site, desde o seuinício, fez com que outros indivíduos já conectados a eles de alguma forma fossematraídos pela plataforma em detrimento de outra semelhante. A vantagem do Twitterde oferecer acesso a partir de aparelhos móveis – como celulares e tablets –também contribui para que ele tenha mais popularidade que outros microblogs. Recuero e Zago (2009), porém, renunciam a essa definição do Twittercomo um microblog pelo fato de a plataforma diferir do sistema de blog em aspectosque vão além da extensão das publicações. Por esse motivo, as autoras optam porse referir ao site como um serviço de micromensagens. Algumas dessas diferenças entre plataformas como o Twitter e os blogsreferem-se à estrutura, à audiência da postagem feita, às informações econversações e à temporalidade. Diferem quanto à estrutura no sentido em que,enquanto os espaços de fala no Twitter são todos iguais, os blogs oferecem espaçosdistintos entre quem faz uma publicação e quem a comenta. As diferençasreferentes à audiência das publicações estão relacionadas ao fato de que por maisque o acesso ao perfil do Twitter seja público, a postagem é, geralmente, destinadaapenas aos seguidores do perfil em questão, enquanto as publicações feitas emblogs são sempre abertas a qualquer indivíduo. As informações e conversações são3 Como apresentado por Rafe Needleman, numa matéria que comparava o Pownce ao Twitter,mencionando também o Jaiku. Disponível em: <http://news.cnet.com/8301-17939_109-9739958-2.html>. Acesso em: 04 de junho, 2012.4 http://www.confabular.com.br5 http://www.campingclub.com.br6 http://status.net
  29. 29. 28diferentes devido ao fato de que os conteúdos publicados em blogs são, geralmente,mais aprofundados e completos, enquanto no Twitter as conversações sãoresumidas e as informações, breves e rápidas. Já a diferença quanto àtemporalidade refere-se à questão de que postagens antigas feitas em blogs sãofacilmente acessadas, enquanto as publicações feitas no Twitter são perdidas eraramente acessadas, já que os usuários da rede dificilmente recorrem ao que foifalado no passado, mas valorizam e eternizam o presente.3.1.2 Características sociocomunicacionais do Twitter Pela brevidade do conteúdo publicado no Twitter, característico do serviçode microblogging ou micromensagem, pouco tempo e esforço é requerido aosusuários, o que incentiva que o perfil dos usuários seja atualizado com maiorfrequência que em um blog convencional: enquanto um blog é geralmente atualizadouma vez a cada poucos dias, o Twitter pode ser atualizado mais de uma vez por dia(JAVA et al., 2007). Outra característica que contribui para maior frequência deatualização é a possibilidade de o site ser acessado de qualquer lugar, através deaplicativos para celular, por exemplo. Esses fatores favorecem a instantaneidade dapublicação de conteúdo no site: a qualquer hora, de qualquer lugar, com poucoesforço e tempo necessário. É devido às interações em rede que se dão entre os diversos atoressociais que participam do Twitter, representados pelos seus perfis, que o site seconfigura como um site de redes sociais. Essas interações ocorrem, prioritariamente,de duas formas: seguindo ou sendo seguido. Quando o usuário segue outro, ele vêtodas as suas publicações em tempo real. Da mesma forma, quando este é seguido,todas as suas postagens são vistas pelo seu seguidor. Essa relação pode ser mútua– ao seguir e ser seguido por este usuário – ou não. Categorizando os usuários segundo o tipo de relações que elesestabelecem, pode-se afirmar que quando as suas conexões mútuas sãopredominantes, o usuário se classifica como amigo, ao manter e priorizar relaçõesde amizade com os outros indivíduos na rede através, principalmente, de conversaspor meio do site (JAVA et al., 2007). Quando o indivíduo tem um grande número deseguidores, principalmente quando é mais seguido do que segue outros usuários,
  30. 30. 29trata-se de uma fonte de informações. Mesmo que esse usuário faça publicaçõescom pouca frequência, o seu número de seguidores permanece alto pela relevânciadas suas atualizações para os seus seguidores. Já quanto àqueles que seguemmais usuários do que são seguidos e não se preocupam tanto com a frequência dassuas postagens, Java et al (2007) classifica-os como buscadores de informação. Vale lembrar que o Twitter congrega tanto usuários anônimos, quantocelebridades. A reputação, autoridade e visibilidade já conquistadas por essascelebridades fora da Internet são transportadas para a rede. Com isso, essesindivíduos adquirem rapidamente um grande número de seguidores, que lhesatribuem ainda mais visibilidade, caracterizando a centralidade desses nós na rede. Por outro lado, diversas celebridades surgem a partir do Twitter. Pelareplicação de suas publicações e compartilhamentos, a visibilidade, a autoridade e areputação de usuários antes anônimos são aumentadas e, dessa forma, maisseguidores são adquiridos. Outra forma de interação entre os nós das redes sociais acontece pormeio das conversações, que podem ser públicas – com um tuite direcionado ao seudestinatário, independente de seguir ou ser seguido por ele – ou privadas – atravésdas direct messages (DMs), que são mensagens enviadas diretamente a um usuáriopor quem é seguido. Os usuários do Twitter também podem interagir através de retuites, quesão replicações de um tuite, uma espécie de citação de outro usuário. O retuite podeser manual – a postagem é antecedida da sigla “RT” e o nome do usuário que fez apublicação original ou seguida da palavra “via” e o nome do usuário que tuitou otexto original, podendo ser editado – ou automático, através da opção “retweet” queo próprio site oferece, que distribui aquela publicação aos seus seguidores. Por seruma possibilidade dada pelo próprio sistema, o retuite é o principal facilitador docompartilhamento e circulação de informações e notícias no Twitter. O retuite segue o conceito de fidelidade no compartilhamento do meme.Quando feito de forma automática, ele se caracteriza pela replicação, ao criar cópiasexatas da informação publicada. Já quando ele ocorre de forma manual, ele permitea alteração da postagem, dando oportunidade à sua metamorfose.
  31. 31. 30 Essas diversas interações ocorridas no Twitter se dão conforme adefinição de interação mediada por computador de Thompson (2008), em que hámultiplicidade das deixas simbólicas, embora limitadas e oportunidade deacontecimento de diálogos através das possibilidades de resposta com um tuitedirecionado ou mensagens diretas. Quanto aos interlocutores, eles são, a princípio,definidos: os seguidores de cada usuário são o público ao qual as mensagens sãodestinadas. Porém, ele pode ser aumentado conforme a postagem é retuitada, porexemplo. As informações postadas e circuladas no Twitter são, na maior parte dasvezes, compartilhadas através de links. Esse compartilhamento tem sido muitofacilitado através de ferramentas como o botão de tuite que pode ser incluído emsites para que, antes, durante ou depois da sua leitura, o visitante do site possacompartilhar a informação. Outros facilitadores são os encurtadores de URL, quereduzem o número de caracteres da URL que o usuário deseja compartilhar, paraque seu tuite não ultrapasse o número máximo de 140 caracteres. Sobre o espalhamento de informações no site, Recuero e Zago (2011)defendem que a principal função do usuário quanto ao compartilhamento é, além dadivulgação em si, a filtragem das informações que são divulgadas. Para que a informação chegue a pontos mais distantes das redes no Twitter, é preciso que usuários ativos estejam dispostos a dispender tempo e atenção selecionando publicações para repassar [...]. A ação de alguns gera um benefício coletivo, que é a divulgação e a filtragem das informações. (MAIA, 2006, p. 03). Recuero (2009) destaca também que, quando a informaçãocompartilhada é proveniente de um veículo de notícias, o ator, ao replicá-la, dácredibilidade à sua fonte, mas também toma parte dessa credibilidade para si. Nessecontexto, Zago (2010) reforça o argumento de que, os atores das redes sociais naInternet não utilizam deste ambiente apenas para o compartilhamento de notícias einformações, mas também para comentá-las.
  32. 32. 31 Duas funcionalidades do Twitter contribuem para a organização dessescomentários. A primeira são os Trending Topics, uma listagem em tempo realfornecida pela própria plataforma que dispõe os assuntos que estão sendo maisdiscutidos no site numa determinada localidade – que pode ser mundial, um paísespecífico ou até mesmo uma cidade –, sejam eles referentes a acontecimentosjornalísticos ou não. Através dessa lista, pode-se visualizar o que está sendo faladopelos participantes do site sobre determinado assunto. Outra funcionalidade é a possibilidade de gerar as chamadas hashtags,que são palavras ou assuntos antecedidos do sinal #, que cria um link automáticopara o termo que leva a uma página que dispõe, também em tempo real, todas aspublicações feitas com a utilização daquela mesma hashtag. Através dessas duas funcionalidades, mesmo os atores que não tinhamconexões entre si, passam a interagir através de discussões sobre o mesmo tópico.Além disso, diversas vezes, os assuntos mais discutidos agendam os veículosjornalísticos, servindo de fonte de informações para a mídia, já que são capazes degerar mobilizações e conversações de interesse jornalístico (RECUERO, 2009;ZAGO, 2010).3.2 Entre o banal e o jornalístico No Twitter, é possível perceber mais facilmente a imposibilidade deseparação entre os acontecimentos banais e os acontecimentos jornalísticos, poiseles se confundem ainda mais. O agendamento das pautas jornalísticas que oTwitter proporciona muitas vezes não acontece pelos acontecimentos enquadrarem-se nos critérios determinados pela prática jornalística, mas, sim, pela visibilidade edifusão que o tema alcançou dentro do site. São acontecimentos que nem sempre se caracterizam pelo excesso, pelafalha ou pela inversão, que são os atributos de notabilidade definidos por Rodrigues(1993). Notabilidade esta que é conferida – muitas vezes exclusivamente – pelavisibilidade e repercussão que o acontecimento alcançou no Twitter.
  33. 33. 32 Como já mencionado, os acontecimentos midiáticos em rede sãodeterminados pelos filtros que os próprios usuários aplicam e é a partir dessafiltragem que certos acontecimentos têm sua visibilidade ampliada, chamando aatenção da mídia tradicional. Com isso, muitos dos acontecimentos que têm seuinício nas redes sociais e são abordados pelo jornalismo, alcançam notoriedade eficam em meio aos dois extremos: acontecimento banal e acontecimento jornalístico. É por essa visibilidade adquirida, geralmente devido ao grande número deseguidores do usuário – quando se trata de uma celebridade, principalmente –, àquantidade de retuites, que faz com que a postagem alcance nós distantes um dooutro na rede, ou à caracterização do tema como uma tendência – que é o caso dosTrending Topics –, que o acontecimento, mesmo banal, passa a ter potencialjornalístico. A visibilidade traz a notoriedade, que é fator importante para que oassunto seja tratado na mídia. Sites de jornalismo online como o G17 e o Folha.com8, por exemplo,noticiam diariamente os assuntos populares do Twitter – os Trending Topics –,explicando cada um deles e comentando cada tema. Além disso, várias notícias sãopublicadas utilizando, como fontes principais, tuites de celebridades, políticos ouempresas. Um exemplo recente é acerca de tuites da atriz Susana Vieira referindo-se ao vazamento de fotos de sua colega Carolina Dieckmann. A atriz CarolinaDieckmann teve fotos íntimas divulgadas na Internet no início do mês de maio de2012, assunto que foi muito comentado em sites de redes sociais, principalmente noTwitter – alcançando os Trending Topics – e também na mídia tradicional. Oposicionamento de Susana Vieira com relação ao ocorrido – publicado através detuites como “Feliz em ver que a policia está agindo no caso da Carolina Dieckmann.Privacidade é um direito de TODO ser humano!”9 – rendeu diversas matérias emsites jornalísticos.7 http://g1.globo.com8 http://folha.uol.com.br9 Tuite publicado no dia 15 de maio de 2012. Disponível em: http://twitter.com/eususanavieira. Acessoem 19 de maio, 2012.
  34. 34. 33 Outro exemplo se deu em janeiro de 2012, quando a hashtag“#LuizaEstanoCanada” e a frase “menos Luiza, que está no Canadá” 10 ganharampopularidade entre os brasileiros no Twitter, alcançando os Trending Topics noBrasil. Com a visibilidade atribuída ao caso, ele repercutiu não só nos sites de redessociais, mas também nos meios de comunicação tradicionais – como no Jornal Hoje,da Rede Globo, que recebeu a visita e entrevistou Luiza, falando sobre oacontecimento. Foi um meme que emergiu no Twitter e se propagou até ganharvisibilidade o suficiente para atrair a atenção da mídia. A banalidade do cotidiano compartilhada no site está de acordo com aproposta do próprio Twitter. Porém, os tuites vão além desse contexto ao, muitasvezes, abranger aspectos testemunhais dos usuários e publicizar momentos deruptura na rotina de cada indivíduo, caracterizando o surgimento de acontecimentosem rede. A necessidade do ser humano de falar de si e o que acontece ao seu redor(BERGER & TAVARES, 2010) unida à lógica de funcionamento da mídiaincorporada pela sociedade, através do processo de midiatização (SODRÉ, 2006;BRAGA, 2006), leva os usuários a compartilharem parte do seu cotidiano e,principalmente, aquilo que dele irrompe. Inúmeras vezes os atores sociais que participam do Twitter publicizam erepercutem acontecimentos que são nitidamente de natureza jornalística, quasesempre de forma imediata ao surgimento do acontecimento, ao responder apergunta proposta pelo site.3.3 “O que está acontecendo agora?” O Twitter, quando lançado, provocava os seus usuários a responderem,através da sua publicação, a uma pergunta: “O que você está fazendo?”. Asrespostas a essa pergunta falariam sobre qual música estão ouvindo, qual livroestão lendo, o que estão comendo e o que estão assistindo, por exemplo. Porém, narealidade, as atualizações feitas no site eram mais do que simples respostas àpergunta proposta. Os atores sociais que participavam do site compartilhavam10 Referente a um trecho de um comercial de empreendimento imobiliário em João Pessoa, em que opai de Luiza Rabello, que estrelava o comercial, estando acompanhado da família, explicava que umade suas filhas – Luiza – não estava presente por estar em intercâmbio no Canadá. O vídeo, que foicompartilhado no YouTube, passou a ser divulgado no Twitter, acrescido da hashtag.
  35. 35. 34imagens, vídeos e links que consideravam importantes, divulgavam notíciasrecentes e informavam sobre acidentes. Por esse motivo11, em novembro de 2009, o Twitter substituiu a antigapergunta pelo questionamento: “O que está acontecendo agora?”. Portanto, amudança da pergunta proposta emergiu coletivamente dos próprios atores sociaisparticipantes do serviço, a partir da utilização que faziam dele. A nova pergunta, apesar de ter permanecido apenas até a últimamudança de layout do site em dezembro de 201112, abrange os tipos de conteúdopublicados pelos usuários no site e a relação deles com o surgimento deacontecimentos midiáticos no Twitter. Sobre eles, é preciso compreender algumascaracterísticas que são intrínsecas a esse ambiente em que eles são engendrados. O surgimento de acontecimentos midiáticos no Twitter se dá, numprimeiro instante, pela resposta dos usuários à pergunta proposta pelo site – “O queestá acontecendo agora?” – através de um tuite. O potencial de tornar-se umacontecimento midiático depende do grau de visibilidade que o compartilhamentoatingir, segundo o conceito de fecundidade do meme. É nesse ponto que o papel dos usuários de atuarem como filtros deinformações é importante. A escolha da informação que será reproduzida ecompartilhada, no momento da filtragem, se dá a partir do conteúdo postado e dosconceitos de reputação e autoridade atribuídos pelo ator ao indivíduo que publicooriginalmente ou àquele, a quem ele está conectado, que já replicou o tuite – nocaso de um retuite de um retuite. São os valores relacionados à confiança queregem a credibilidade atribuída ao conteúdo a ser compartilhado. Quando aconfiança está presente na relação entre os nós, o retuite – acrescido ou não decomentários – é feito. Quando essa atitude é tomada de forma coletiva – tanto o relato doacontecimento quanto, principalmente, o compartilhamento desse fato podem ser11 Conforme foi dito no blog oficial do Twitter. Disponível em: http://blog.twitter.com/2009/11/whats-happening.html. Acesso em: 19 de maio, 2012.12 Após a última mudança de layout, o texto “Publique um novo Tweet...” aparece sem muitodestaque, na caixa de texto destinada à redação dos tuites, ao invés da pergunta “O que você estáfazendo agora?”.
  36. 36. 35ações feitas por diversos atores ao mesmo tempo –, a visibilidade do acontecimentotende a crescer, tornando o acontecimento, um acontecimento midiático. A própria estrutura de rede presente no Twitter contribui para que adifusão das informações aconteça de forma rápida e envolvendo até mesmo nósdistantes da rede. Um usuário pode retuitar ou comentar uma informação publicadapor outro usuário com quem nunca havia estabelecido uma interação antes, tantopor ter visto o conteúdo postado por ele através dos comentários ecompartilhamentos feitos por quem ele segue, quanto por acompanhar algumahashtag ou termo popular nos Trending Topics. Nós distantes da rede passam a falar sobre o mesmo acontecimento,compartilhando da mesma confiança atribuída, conquistando visibilidade em meio àsredes sociais do sistema e chamando a atenção da mídia, que utiliza dasinformações ali compartilhadas para a produção de um conteúdo jornalístico. E,depois de presente no ambiente do jornalismo, o acontecimento retorna ao ambienteem rede do Twitter, já que, enquanto leem uma matéria no jornal impresso ouassistem ao telejornal, por exemplo, os participantes do Twitter compartilhamnovamente aquela informação. Ou, ainda, de forma mais fácil, quando se trata dejornalismo online, em que os usuários podem compartilhar a URL da notíciasimplesmente clicando na opção de tweet geralmente disponibilizada nos sites. Esse ciclo do acontecimento que se engendra no Twitter, vai para alémdele e retorna ao seu local de origem – agora com visibilidade e autoridade em grauainda mais elevado –, com suas facilidades de compartilhamento e difusão, é quecaracteriza o funcionamento do acontecimento midiático no Twitter. Porém, umprocesso invertido pode acontecer, quando o Twitter é considerado um local decirculação e recirculação de acontecimentos jornalísticos. Nesse aspecto, o Twitter não se configura apenas como um ambiente deagendamento ou fonte jornalística em tempo real. Hoje, ele também tem um papelessencial nas etapas de circulação e recirculação jornalística (ZAGO, 2010; 2011).Ele atua na fase de circulação quando o material jornalístico é compartilhado pelaspróprias organizações jornalísticas que participam do Twitter ou quando um usuáriodivulga a notícia antes mesmo de consumir o produto jornalístico. A recirculação
  37. 37. 36acontece quando o conteúdo é divulgado por um indivíduo no Twitter depois deconsumí-lo e ele passa a circular novamente nesse ambiente. Um acontecimento jornalístico, ao ser compartilhado no site por umusuário, atinge os seus inúmeros seguidores e tem a possibilidade de sernovamente divulgado – através de um retuite, por exemplo – para os seguidoresdestes, contribuindo para o processo de circulação jornalística e aumentando avisibilidade do acontecimento. Assim, no Twitter, um acontecimento pode ser experienciado de diversas formas na ferramenta. Pode-se utilizar a ferramenta para relatá-lo em primeira mão, para comentá-lo após receber de outras fontes, ou ainda para repassá-los após ter visto em outros lugares ou no próprio Twitter. Acontecimentos jornalísticos, por sua vez, costumam circular pela ferramenta de forma bem rápida, através de comentários, mensagens direcionadas a outros usuários e retweets (ZAGO, 2011, p. 61). Perfis como G1 13 e Folha de S. Paulo14 são exemplos de como, muitasvezes, as próprias organizações jornalísticas presentes no Twitter contribuem para acirculação de notícias no site. Como essas organizações são seguidas por muitosusuários e desfrutam, junto a estes, de reputação e autoridade, o conteúdo por elescompartilhados tendem a ser retuitados, comentados e discutidos, o que cooperapara a circulação de acontecimentos jornalísticos no Twitter e para o aumento davisibilidade destes. Porém, os próprios usuários do Twitter podem iniciar esse processo decirculação e recirculação quando optam por compartilhar a matéria jornalística noTwitter, antes, durante ou depois de a terem consumido – seja copiando o link queleva à matéria, seja através de um tuite automático padronizado ao clicar nos botõesde tweet presentes em muitos sites ou apenas fazendo referência a ela naplataforma do Twitter. Dessa forma, os acontecimentos jornalísticos conquistam13 http://twitter.com/g114 http://twitter.com/folha_com
  38. 38. 37espaço entre as redes sociais na Internet, devido à visibilidade que já lhe foiatribuida pela mídia. Ao serem incorporados pelas redes sociais, os acontecimentos sãodiscutidos, comentados e compartilhados. As opiniões dos atores sociais sãopublicadas em rede e o Twitter passa a potencializar a circulação e a discussãosobre os acontecimentos para além dos meios tradicionais de distribuição deinformações jornalísticas (ZAGO, 2011). Um dos pontos importantes a serem levantados quando se fala desurgimento e circulação de acontecimentos no Twitter é quanto à credibilidadedestes. Essa credibilidade é definida pelo grau de confiabilidade ou deespecialização de quem diz algo e é geralmente tratada quanto à sua atribuição aojornalismo dos meios de comunicação mais tradicionais (CARVALHO & TAVARES,2011). Para as autoras, ela é “essencial à seleção de uma informação midiática porparte do receptor” (CARVALHO & TAVARES, 2011, p. 5) e relaciona-se com o filtrofeito pela audiência que considera a probabilidade de ocorrência de inverdades nainformação recebida. Nesse sentido, é papel do jornalista conservar a confiabilidadea ele atribuída. Porém, quando falamos de jornais online, principalmente, ou dejornalismo feito ou baseado nas redes sociais na Internet, é possível afirmar que nosencontramos num momento de transição no que se refere à credibilidade jornalística(SOSTER APUD CARVALHO & TAVARES, 2011). Isso principalmente pelo fato deque a velocidade ocasionada pelas novas tecnologias passa a ocupar um lugar demaior importância que a própria veracidade. No Twitter, como uma das suas principais funções é repassar ainformação de forma rápida e como qualquer indivíduo que participa do sistemapode fazer publicações, é difícil definir, a princípio, a veracidade da informaçãodivulgada. Muitos casos ocorreram, a nível local e global, em que uma falsainformação tornou-se midiática e, em muitas dessas ocasiões, a repercussão dentrodo Twitter foi motivo para que as organizações jornalísticas a tomassem como
  39. 39. 38pauta, fazendo com que falsas notícias fossem divulgadas. Esse é um dos pontos daproblematização de se utilizar conteúdo publicado no Twitter como fonte jornalística. É certo que o conteúdo disseminado pelo Twitter não possui uma checagem antes de ser publicado. Afinal, uma das principais particularidades do meio é essa: ser ágil (CARVALHO & TAVARES, 2011, p. 9). No Brasil, em junho de 2011, foi repercutido no Twitter o supostofalecimento de Amin Khader que, depois de seu amigo, David Brazil, lamentar suamorte em seu perfil no Twitter, jornalistas da Rede Record chegaram a confirmar ofato em programa ao vivo, além de diversas matérias publicadas em sitesjornalísticos. Mais tarde, a situação teve de ser desmentida ao se descobrir queKhader estava vivo. Tudo isso aconteceu em questão de minutos e em nívelnacional. Muitos outros casos semelhantes aconteceram com outras celebridades amundialmente. Essas são falhas no sistema de filtro dos usuários, que atribuemconfiança e credibilidade a falsos acontecimentos que circulam no Twitter e estespassam a repercutir a nível midiático na plataforma e fora dela. Alguns participantes do Twitter afirmam não confiar em informaçõespublicadas no site e, segundo pesquisa desenvolvida por Zago (2011), os motivospara a falta de credibilidade por parte de muitos atores se dá pela rapidez com queas informações são publicadas e compartilhadas no site, a presença de usuáriosmal-intencionados ou fakes ou até mesmo a informalidade do serviço – não ser umambiente organizado com o propósito de prover informações. Outros dizem preferirconfirmar a informação vista no Twitter em outros meios antes de considerá-laconfiável. Entretanto, aqueles que afirmam confiar nas informações publicadas nosite justificam que escolheram seguir apenas pessoas a quem atribuem confiança –devido à reputação e autoridade referentes aos indivíduos seguidos – e, por isso,podem confiar no que é postado por eles. O que caracteriza o filtro que é feito pelos
  40. 40. 39próprios atores da rede social. A imediaticidade que é considerada um pontonegativo para alguns dos que não confiam nas informações circuladas no Twitter é,ao mesmo tempo, uma questão que confere credibilidade para outros usuários àmedida que a veracidade das publicações pode ser verificada também de formaimediata. Apesar da questão da credibilidade ser uma problemática presente noTwitter, o site não deixa de ser um meio que produz, faz circular e dá visibilidade aacontecimentos, tornando-se um ambiente de grande potencial jornalístico, com acontribuição dos diversos atores sociais ali presentes.
  41. 41. 404 A MORTE DE OSAMA BIN LADEN NO TWITTER4.1 A singularidade do acontecimento A morte do líder da Al Qaeda Osama Bin Laden foi um acontecimento derepercussão mundial, principalmente pela sua importância política. Apesar de secaracterizar como um acontecimento imprevisto, a sua ocorrência era esperadadesde o ataque, planejado e executado pela Al Qaeda, ao World Trade Center, em11 de setembro de 2001. Desde então, o governo dos Estados Unidos vemtrabalhando no que o país chama de “luta ao terror”, tendo Bin Laden como principalalvo. Osama se tornou, então, um forte símbolo do terrorismo para osestadunidenses e também, por isso, para grande parte do mundo. A importância política se dá principalmente pelo fato de que foram quasedez anos de busca pelo esconderijo e captura do líder da Al Qaeda por parte dogoverno estadunidense. Por se tratar de uma potência mundial, é comum arepercussão global daquilo que tem forte apelo dentro do país. Mas o principal motivo para o estudo desse caso no presente trabalho é opapel essencial exercido pelo Twitter e seus usuários na construção e repercussãodesse acontecimento. Estima-se que o acontecimento rendeu um recorde de tráfegode conversações no Twitter: durante o pronunciamento do presidente dos EstadosUnidos Barack Obama, houve picos de mais de cinco mil tuites publicados porsegundo15. Seguindo a perspectiva de Dayan (2009), em que a audiência torna-separticipante do que lhe é apresentado em meios de comunicação como a TV, pode-se perceber que essa interação da audiência fica mais evidenciada nas redessociais na Internet. O Twitter teve importante atuação, também, devido ao fato de o ataque aoesconderijo de Osama ter sido narrado em tempo real por um usuário do Twitter,mesmo antes de saber que se tratava de algo relacionado a Bin Laden. Além disso,15 Segundo gráfico publicado pelo próprio Twitter em seu perfil do website Flickr. Disponível em:http://www.flickr.com/photos/twitteroffice/5681263084/in/photostream. Acesso em: 05 de junho, 2012.
  42. 42. 41foi através do site que os primeiros rumores sobre a morte do líder da Al Qaedasurgiram.4.2 Aspectos metodológicos A análise apresentada se configura como um estudo de caso: a morte dolíder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, e a sua repercussão no site de redes sociaisTwitter. Para que o acontecimento fosse analisado, através de observaçãosistemática, foram coletados dados que giraram em torno de dois perfis no Twitter,seus tuites relacionados à morte de Osama Bin Laden e alguns de seusdesdobramentos, tanto dentro do próprio site do Twitter, quanto em matériasjornalísticas. A repercussão estudada se limitou à circulação online do acontecimento,baseada no Twitter como ambiente de propagação em rede. Tuites puderam seracessados e coletados através dos perfis dos usuários analisados, já que é possívelver publicações feitas há um longo período de tempo. Os usuários foramselecionados pelas menções feitas a eles e repercussão de seus tuites nos meios decomunicação, principalmente nas matérias jornalísticas também analisadas. Os perfis analisados foram de Sohaib Athar – que utiliza o nome deusuário “@ReallyVirtual”16 na plataforma – e de Keith Urbahn – sob o nome deusuário “@keithurbahn”17. O perfil de Sohaib Athar foi escolhido pelo fato de ele terficado conhecido como a pessoa que narrou o ataque ao esconderijo de Bin Ladenao vivo no Twitter. A escolha de Keith Urbahn se deu por ele ter sido considerado oprimeiro a dar a notícia da morte de Bin Laden, também pelo Twitter. No total, foram11 tuites analisados, sendo 7 publicados por Athar e 4, por Urbahn. Os tuites deambos foram feitos, originalmente, em inglês, os quais foram traduzidos para oportuguês para que pudessem ser aqui reproduzidos. Pelo fato de o sistema de busca interna do site do Twitter limitar-se apublicações feitas num tempo máximo de três dias anteriores, o monitoramento de16 http://twitter.com/ReallyVirtual. Acessado em 26 de maio, 2012.17 http://twitter.com/keithurbahn. Acessado em 26 de maio, 2012.
  43. 43. 42retuites se deu através do site Favstar.fm18, que dispõe o número de retuites daspostagens mais populares de cada usuário. Esse número se limita aos RTsautomáticos que o próprio Twitter possibilita, já que a ferramenta não conseguecontabilizar as reproduções manuais feitas pelos usuários. Há possibilidade de onúmero não ser preciso, porém a aproximação já é útil para que a noção dacirculação dos dados na rede seja apurada. Não é possível saber data e horário dos retuites contabilizados pelaprópria ferramenta do site Favstar.fm. Outra limitação é com relação à aquisição deseguidores – que são conexões da rede – ao longo do tempo. O único dado possívelde ser acessado é o número total de seguidores no momento do acesso aos perfisdos usuários em questão. Portanto, esses dados foram desconsiderados durante aanálise, que utilizou apenas os dados disponíveis. Vale ressaltar, também, que os horários de publicações dos tuites forampadronizados segundo o horário de Brasília. O destaque dessa padronização éimportante já que houve eventos no Paquistão – local onde se deu o ataque aoesconderijo de Osama Bin Laden – e nos Estados Unidos – de onde veio aconfirmação da morte do líder da Al Qaeda e as primeiras matérias jornalísticas erumores a respeito do acontecimento. A hora de publicação dos tuites e notícias contribuem bastante para arelação de temporalidade estabelecida, ao considerar a instantaneidade dos tuitesde Sohaib Athar e a antecedência do tuite de Keith Urbahn, além do tempo levadopara que os dois casos recebessem atenção da mídia. Todos os tuites analisadosforam reproduzidos em ordem cronológica, para melhor compreensão dessa relaçãoe melhor representação dos relatos em tempo real. Além disso, outras relações entre a morte de Osama Bin Laden e a suarepercussão no Twitter também foram analisadas, através de notícias queabordaram a repercussão do acontecimento no site, com o propósito de destacar acirculação do acontecimento na plataforma. Foram selecionados alguns dos principais sites de notícias brasileirospara que se pudesse verificar como eles abordaram o compartilhamento e a18 http://favstar.fm. Acessado em 26 de maio, 2012.
  44. 44. 43reverberação da morte de Bin Laden no Twitter na semana do acontecimento. Adelimitação de sites de notícias brasileiros se deu por dois motivos: o idioma e apercepção de alcance global do acontecimento, já que não se trata de nenhum dospaíses mais interessados no ocorrido – Estados Unidos, que lideraram o ataque, ePaquistão, país atacado, onde Bin Laden estava escondido. As matérias jornalísticas consideradas para análise foram coletadas desites de jornalismo online como G1, R7, Terra, Uol, Estadão e Jornal do Brasil.Primeiramente, tentou-se selecionar as matérias a partir de pesquisa através domecanismo de busca Google. Porém, como os sites apresentados eram muitodiversos, apresentando dificuldade no aprofundamento em canais específicos, foramselecionados cinco sites de jornalismo online de referência no Brasil e a pesquisapelo material se deu diretamente pela busca interna de cada um dos domínios. OJornal do Brasil foi o último site a ser incluído, para que houvesse uma melhor formade comparação entre as categorias em que os sites escolhidos são enquadrados:G1 e R7 são portais verticais de jornalismo, Uol e Terra se enquadram como portaismais horizontalizados e o Estadão e Jornal do Brasil são jornais veiculados noambiente online. Outros dados importantes para a percepção da participação do Twitter eseus usuários na construção do acontecimento são os que foram disponibilizadospela própria organização do Twitter: publicações feitas no blog e divulgação dedados – como o gráfico de atividade na plataforma, que mostra o número de tuitespor segundo alcançados em diversos momentos da noite do dia 1º de maio para odia 02 de maio de 2011, publicado no perfil da empresa no Flickr. Todos os dados recolhidos e aqui apresentados serão analisados a partirda discussão conceitual presente nos capítulos anteriores, quanto à caracterizaçãodo acontecimento e a sua configuração como acontecimento em rede no Twitter,bem como às características da plataforma como ambiente sociocomunicacional deinteração em rede, de forma a entender como se deu o desenvolvimento desteprocesso. Para isso, há de se observar as características de cada tuite e suacirculação quanto aos aspectos já mencionados e estudados.
  45. 45. 444.3 Relato em tempo real Uma grande participação do Twitter na construção da morte de Bin Ladencomo acontecimento em rede foi devido aos tuites de Sohaib Athar, que narraram,em tempo real, o ataque ao esconderijo de Osama Bin Laden no dia 1º de maio de2011. Athar iniciou seu relato a partir do fato de que escutava helicópterossobrevoando a cidade de Abbottabad, no Paquistão, no meio da madrugada nohorário local. Tuite 1 - @ReallyVirtual: “Helicóptero pairando sobre Abbottabad à 1 da manhã (é algo raro).”19 (1º de maio, 2011, às 16h58). Foram a raridade desse fato e o incômodo que o barulho causava asrazões iniciais para as publicações. Vê-se, com isso, a ruptura no cotidiano aliada àatualidade da ocorrência, irrompendo o acontecimento. O tuite seguinte mostra sinais de humor mesclado com o mesmoincômodo, comum no site Twitter, como um lugar de relato do seu cotidiano paraaqueles que seguem o usuário: Tuite 2 - @ReallyVirtual: “Vá embora helicóptero – antes que eu pegue meu mata-moscas gigante :-/” (1º de maio, 2011, às 17h05). A continuidade dos eventos fez com que o próprio usuário percebesse oirrompimento do acontecimento, ainda que não o percebendo tal qual ele era. Tuite 3 - @ReallyVirtual: “Um enorme estrondo de chacoalhar a janela aqui em Abbottabad Cantt. Espero que não seja o começo de algo desagradável :-S” (1º de maio, 2011, às 17h09).19 Este e todos os demais tuites foram traduzidos por mim.
  46. 46. 45 Com a queda de um dos helicópteros, o acontecimento passou ainteressar todos os moradores da cidade e, também, a mídia local. Questionamentose análises sobre o ocorrido passaram a acontecer, bem como especulações sobre oque estava causando. Sites jornalísticos são mencionados por Sohaib Athar, bemcomo informações que ele coleta ao entrar em contato com outros moradores dacidade. O surgimento da hashtag “#abbottabad” também teve início nesse momentoem que a discussão era o descobrimento das razões da presença de helicópteros eda queda de um deles. Tuite 4 - @ReallyVirtual: “Já que o talibã (provavelmente) não tem helicópteros, e já que estão dizendo que não era „nosso‟, então deve ser uma situação complicada #abbottabad” (1º de maio, 2011, às 18h02). Tuite 5 - @ReallyVirtual: “O helicóptero/OVNI de abbottabad foi derrubado perto da área de Bilal Town, e há relatos de um clarão. Pessoas estão dizendo que pode ter sido um helicóptero teleguiado.” (1º de maio, 2011, às 18h10). Até o momento, não se sabia do que se tratava o ataque. Afinal, a mortede Osama Bin Laden foi oficialmente revelada pelo presidente dos Estados Unidos,Barack Obama, apenas às 0h35 do dia 2 de maio. Porém, antes disso, o site Twitterjá contemplava especulações de que o pronunciamento de Obama que foianunciado para o final da noite era a respeito da morte de Bin Laden. O primeirotuite a contemplar essa possibilidade foi de Keith Urbahn: Tuite 6 - @keithurbahn: “Fui informado por uma pessoa respeitável que mataram Osama Bin Laden. Que coisa.” (1º de maio, 2011, às 23h24).
  47. 47. 46 Para estabelecer grau de credibilidade no seu tuite, Keith Urbahn, quehavia trabalhado na Secretaria de Defesa do governo Bush, transferiu aconfiabilidade para uma fonte não mencionada. Porém, para se defender e nãoprejudicar a credibilidade a ele atribuída, caso a informação a ele repassada e porele publicada não fosse verídica, Urbahn acrescentou minutos depois: Tuite 7 - @keithurbahn: “Não sei se é verdade, mas vamos orar para que seja.” (1º de maio, 2011, às 23h26). Não havia, nos tuites de Keith Urbahn, o aspecto testemunhal geralmenteapreciado no Twitter. Afinal, até o momento, a informação divulgada se tratavaapenas de um rumor que pretendia responder ao mote do Twitter “o que estáacontecendo agora?”. Porém, devido à sua visibilidade – principalmente por ele ter trabalhadodiretamente com o Secretário de Defesa do governo anterior, ele era dotado deautoridade e reputação atribuídas pelos seus seguidores –, o “rumor” compartilhadopor ele começou a repercutir antes mesmo que os fatos fossem checados. Portanto,o filtro feito pelos usuários foi baseado na reputação do autor e não na credibilidadeda informação compartilhada. Assim que a morte de Osama Bin Laden foi noticiada pelos meios decomunicação e confirmada pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama, otuite de Urbahn foi ainda mais reproduzido, dessa vez, pelo fato de ter sidoconsiderado o primeiro tuite que noticiou que Bin Laden havia morrido. Foram, nototal, 309 RTs automáticos. A repercussão dos tuites de Sohaib Athar veio apenas depois daconfirmação do fato, quando as pessoas passaram a comentar sobre o local doesconderijo de Bin Laden – Abbottabad – e, ao monitorar as menções feitas àcidade, foi possível encontrar o relato ao vivo feito por Athar. A mídia tradicionalcomeçou a entrar em contato com ele, ao que ele percebeu a repercussão de suaspublicações:
  48. 48. 47 Tuite 8 - @ReallyVirtual: “Uh Oh, agora eu sou o cara que blogou ao vivo o ataque a Osama sem saber.” (2 de maio, 2011, à 1h41). Essa sua publicação (tuite 8) foi retuitada por 5824 usuários do Twitter,tendo grande repercussão e visibilidade na plataforma. O tuite 1, obteve o númerode 3149 RTs e o tuite 3, totalizou 1813 retuites. Antes das 04h do dia 2 de maio de 2011, Urbahn já havia aumentado seunúmero de seguidores em cerca de 3000, conforme ele mesmo tuitou: Tuite 9 - @keithurbahn: “Me entregando a 2 horas de sono Aos 3.000 novos tweeps [seguidores no Twitter], prazer em tê-los conhecido nessa noite agitada.” (2 de maio, 2011, às 03h57). No total, o seu tuite que mencionou, pela primeira vez, a morte de BinLaden – tuite 6 – alcançou o número de 309 retuites. Vemos que, mesmo sendoconsiderado um “furo jornalístico”, foi o relato do acontecimento em tempo real feitopor Sohaib Athar que atraiu maior visibilidade e compartilhamentos, mesmoalcançando esta visibilidade apenas após o conhecimento geral do ataque e a suaconfirmação. A narração feita em tempo real não chamou a atenção apenas dosusuários, mas, também, da própria mídia. Enquanto todos os cinco sites jornalísticosanalisados abordaram o fato, apenas três citaram Keith Urbahn como quem teriasido o primeiro a noticiar a morte do de Osama Bin Laden no Twitter.4.4 A construção do acontecimento no Twitter É possível notar a maior consubstancialidade entre a transmissão e osurgimento do acontecimento descrita por Fonseca e Vieira (2011) ao verificar aimediaticidade da narração do acontecimento feita por Sohaib Athar, caracterizandoa cotemporalidade das etapas do processo. Importa destacar também que, aprincípio, os tuites por ele publicados são referentes a ocorrências banais – o que é

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