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calças um lenço de assoar.Usou-o para limpar a testa e voltou a guardá-lo. Desta vez no bolso traseiro. Atou acorda ao fer...
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mas a inquietação manteve-se e, nem mesmo ao meio-dia, quando as primeiras pedrasda muralha começaram a cair, sentiu qualq...
O muro by A. Alfredo Poeiras
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O muro by A. Alfredo Poeiras

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O muro by A. Alfredo Poeiras

  1. 1. O MuroO homem, deitado de bruços, soergueu-se e rodou sobre si próprio, lentamente.Alguns metros à frente, uma parede levantava-se em toda a sua volta. Uniforme.Aproximou-se e estendeu o braço direito.Tocando o muro, experimentou-lhe a solidez e percorreu-o em toda a sua extensão,detendo-se exactamente no local de onde partira.Impossível saltar. E a parede, completamente lisa, impedia qualquer tentativa deescalada.Retrocedeu.No centro do recinto voltou a girar sobre si próprio. Nenhuma solução.Levantou os olhos para o céu e seguiu o avanço suave de uma nuvem.Descobriu uma pedra de não muito grandes dimensões e um feitio aparentementeadequado. Seria suficientemente sólida?Apanhou-a e avançou para o muro em passo decidido. Procuraria abrir algumas fendasna parede, onde apoiaria os pés e as mãos numa tentativa de escalada.Sentou-se no chão. O primeiro sulco abri-lo-ia a uns quarenta centímetros de altura.Iniciou o trabalho com uma batida forte, lenta e ritmada.Fustigava o muro há já algum tempo sem qualquer resultado quando a pedra se desfez.Contrariedade enorme, esta. A solidez da parede obrigava à procura de outra solução.Reergueu-se e caminhou lentamente, com as mãos nos bolsos.Pensou em tecer uma corda utilizando as ervas altas. Talvez assim conseguisse aescalada. O êxito da operação ficaria dependente de um objecto que, colocado numa dasextremidades da corda, permitisse a sua fixação no topo do muro.Arrancou um tufo de ervas e dirigiu-se para a sombra. Sentado, iniciou a construção datrança.Quando ficou pronta, enrolou-a em torno do braço esquerdo e iniciou a busca do objectoadequado à fixação da corda no alto da muralha.Olhou primeiro para a esquerda e depois para a direita, decidindo-se por caminhar emfrente.Pousou a corda no chão.Finalmente, depois de muito procurar, encontrou três pedaços de verga de ferro.Dobrou-os e atou-os uns aos outros de forma a obter uma fateixa.Voltou ao local onde havia deixado a corda, procurando no bolso do lado direito das
  2. 2. calças um lenço de assoar.Usou-o para limpar a testa e voltou a guardá-lo. Desta vez no bolso traseiro. Atou acorda ao ferro, afastou-se alguns passos da parede e lançou a fateixa em direcção aotopo do muro, o coração ligeiramente acelarado pelo esforço e pela esperança de veresse mesmo esforço resultar positivamente.A primeira tentativa falhou, não porque o aparelho se revelasse inoperante, mas por nãolhe ter imprimido a força necessária para que atingisse o topo da muralha.A segunda tentativa fahou igualmente. De novo a força empregue se revelarainsuficiente.Abriu um pouco mais o ângulo, volteou a corda e conseguiu um arremesso perfeito.Num voo eficaz, a fateixa ultrapassou o muro e desapareceu no lado contrário.Puxou com força para nova desilusão. A superfície lisa e o cimo redondo da paredeimpediam o ferro de encontrar um ponto de fixação.Após uma nova tentativa abandonou também este método.A muralha defendia-se de todos os seus ataques, mas teria de haver uma solução.Nessa altura, a noite lançara já o seu manto de estrelas sobre o recinto onde o homemenfrentava a sua impotência. Sentiu-se cansado e deitou-se.Dormiu.Ao acordar, a posição do sol fê-lo pensar ter dormido muito mais do que queria.Mas talvez o sono não tivesse sido um desperdício. Sonhara uma máquina passível deresolver o problema. Assim ela funcionasse.Procurou nos bolsos o lenço de assoar que sabia possuir por tê-lo utilizado na véspera.Encontrado este no bolso traseiro das calças, abriu-o e fez um nó em cada uma das suasquatro pontas, por forma a poder utilizá-lo na cabeça como um chapéu, para protecçãocontra os raios solares.A passos firmes dirigiu-se para o centro do recinto e, aí, traçou, com a ajuda da corda,um círculo perfeito, cujo raio era igual a exactamente três metros.Limpou minuciosamente a área no interior do círculo e deu início à recolha de todos osmateriais passíveis de virem a ser úteis à sua empresa.Cantarolou.Com extraordinária competência e a um ritmo francamente animador, deu início àconstrução do seu sonho.Não sentia qualquer dificuldade na concepção do engenho. Tudo estava muito
  3. 3. claramente definido na sua memória. Todos os procedimentos relativos à construção eao funcionamento da máquina. Tudo!As paragens e os consequentes atrasos na evolução da obra foram invariavelmentemotivados pela necessidade de encontrar os materiais ou fabricar os equipamentos quelhe permitissem continuar os trabalhos.Numa das paragens ditadas pela falta de matéria-prima, pensou na possibilidadede,utilizando a corda e a fateixa, procurar materiais no exterior do recinto, do outro ladoda parede, ideia posta em prática com pleno êxito.Cantou, entoando de forma quase fadista, um fragmento de um poema de Gedeão."Uma emoção pequeniname vem do lado de lá.Rompe através da cortinaQue envolve o mundo de cá."O êxito alcançado na captura de materiais no exterior permitiu-lhe encarar comoptimismo a resolução de um outro eventual problema: talvez viesse a necessitar dematérias combustíveis para assegurar o funcionamento da máquina. Animado, iniciouigualmente a acumulação de materiais deste género.Na posse de todas as soluções técnicas e práticas, pôde trabalhar durante trinta e oitodias consecutivos, parando apenas para se alimentar e dormir o suficiente para nãovacilar.Terminada a construção, olhou carinhosamente o produto de tanto esforço e afagousuavemente a superfície áspera da máquina. Caminhou em seu redor e pareceu contente.Afastou-se. Voltou a aproximar-se. Sorriu. Estava seguro da eficácia do engenho nahora de ser posto em movimento.Confiante, decidiu-se por uma breve pausa.Ao fim de alguns minutos, ergueu-se e lançou um olhar em redor. Respirou fundo e deuinício à recolha de materiais combustíveis para alimentar a voragem da maravilhamecânica acabada de construir. Empilharia resíduos combustíveis em quantidadesuficiente para lhe garantir a libertação do tempo necessário ao descanso e à execuçãode outras tarefas. O tempo fluía. Tudo fluía, como um rio correndo em direcção ao mar.
  4. 4. "Uma emoção pequeninaMe vem do lado de lá."Uma enorme pilha composta dos mais variados detritos começou a emergir do solojunto à máquina. Sorriu com orgulho.E mais sorriu ainda ao passar os dedos de mansinho pela estranha construção.Pensou dar-lhe um nome, e isso pareceu-lhe normal.Enrolou a corda. Deste modo tê-la-ia sempre pronta a ser utilizada.Olhou para o céu, respirou fundo e deitou-se.Manhã cedo. Manhã magnífica.Deu uma volta em torno do mecanismo ainda inerte, certificando-se do estado de todosos seus componentes. Contente com o resultado da análise, deu início ao trabalho.A obra tinha resultado numa estranha construção, um equipamento complexo, ondefacilmente podiam ser identificadas estruturas e conceitos importados de outrasmáquinas. Activava-se com a energia produzida numa caldeira pela combustão de todoo tipo de resíduos. Os detritos desta combustão, uma pasta viscosa, permitiamreutilização, o que resultava numa economia, ambiental como pessoal, nadadesprezível.Uma vez o gigante em funcionamento, do seu corpo saíriam quatro braços colocadosem oposição e agindo a cerca de metro e meio do solo. Tais braços estender-se-iam,segundo o princípio do telescópio, até alcançarem o muro. nessa altura dar-se-ia início aum movimento de vaivém, e os braços agiriam sobre a parede como se de martelospneumáticos se tratassem, atingindo-a com sucessivos golpes de uma violênciasucessivamente ampliada e tendo como efeito a derrocada daquela estúpida muralha.Colocara os longos braços mecânicos a um metro e sessenta centímetros do solo. Emcaso de não haver derrocada e vir a ter necessidade de trabalhar manualmente numaeventual fenda para conseguir uma zona de evacuação, essa altitude permitir-lhe-ia gerir
  5. 5. melhor o esforço e, consequentemente, obter melhores e mais rápidos resultados.Também a existência de quatro braços colocados em oposição, atacando o muro emquatro lugares distintos, obedecia à intenção de reduzir maximamente as possibilidadesde derrota nesta empresa. Com as disposições tomadas e a eficácia do aparelho, a vitóriaestava garantida.Encheu a caldeira e retomou a busca de materiais combustíveis, fazendo-o tanto nointerior como no exterior, utilizando neste caso, e como sempre fazia, a corda com afateixa, que trazia enrolada cuidadosamente e em bandoleira, para tornar a sua utilizaçãomais eficaz.Parou.O sol escondera-se e todo o espaço à sua volta se transformara num círculo de sombra.Levantou a cabeça, esticou-se, abriu os braços e passou as costas da mão direita pela suatesta suada.Em passo firme dirigiu-se para o local onde costumava dormir. Acreditava ser esse omelhor lugar para o fazer, apesar de nunca ter pensado no assunto.Quando os primeiros raios de sol invadiram o círculo murado, levantou-se. Hoje, osbraços da máquina iniciariam a sua viagem em direcção ao muro. A verificação doestado geral de todo o engenho tomou-lhe as duas primeiras horas do dia. Satisfeito,respirou fundo e, num gesto firme, pôs o aparelho em funcionamento. Depois, retomoua procura de combustíveis, actividade na qual se manteve até ao pôr do sol, altura emque procedeu ao reabastecimento da caldeira.Nos quatro dias seguintes, a sua rotina manteve-se inalterável.Ao quinto dia mediu o espaço percorrido pelos braços mecânicos. Alguns cálculosrápidos informaram-no de que, não havendo contratempos, o muro caíria dentro de,exactamente, nove dias.
  6. 6. Chegou a noite e, deitado sob um céu saturado de estrelas, adormeceu serena eprofundamente.Os seus dias eram total e completamente consagrados à tarefa de manter aqueleorganismo magnífico em funcionamento. Tudo quanto pudesse perturbar a sua tarefaera imediata e metodicamente eliminado.Ao sétimo dia, uma chuva persistente e miudinha veio opor-se à tranquilidade optimistados dias anteriores.nesse dia sentiu aquele amontoado de sucata vibrante como uma extensão de si próprio.Os braços movimentando-se em direcção ao muro eram os seus próprios braçosmovidos pelos seus próprios músculos.Não dormiu no mesmo local.Na tarde seguinte a chuva parou. cansado pela luta travada para evitar a extinção dobrasido da caldeira, despiu a camisa e limpou cuidadosamente cada centímetro dasuperfície da máquina. A tarefa terminou já depois de a noite ter estendido o seu negromanto sobre a Terra. Deitou-se numa cavidade sob a arfante massa mecânica. O únicolugar que lhe pareceu seco e abrigado.No dia seguinte retomou a rotina interrompida pela chuva. Pelos seus cálculos, perderaapenas um dia. Nada de grave, portanto.À noite voltou a deitar-se no local onde acordara nessa manhã. ali vigiaria melhor odesempenho do seu engenho.Ao acordar do décimo dia o coração batia-lhe a um ritmo superior ao normal. Atingira odia previsto para a queda do muro sem qualquer outro contratempo. podia ler-se orgulhoe inquietação no seu olhar.Como fazia todas as manhãs, mesmo quando chovera, verificou o funcionamento, um aum, de cada elemento do maquinismo e retomou a tarefa de manter o nível da pilha decombustíveis.Às dez horas assaltou-o uma angústia indefinível. Abandonou o trabalho, dirigiu-se paraa máquina e iniciou uma minuciosa operação de limpeza. como se preparasse o engenhopara um desfile em parada.
  7. 7. mas a inquietação manteve-se e, nem mesmo ao meio-dia, quando as primeiras pedrasda muralha começaram a cair, sentiu qualquer alívio.Três horas e alguns minutos depois, levantou-se e rodou sobre si próprio,acompanhando o ruir fragoroso da parede.serenamente, sem um único pensamento, aguardou a consumação da derrocada.As enormes paredes aluíram e sentiu uma brisa fresca que talvez por ali sempre tivessecorrido.Escalou os escombros com segurança, como se toda a vida tivesse trepado por aquelaspedras e, chegado ao alto, voltou-se para trás, num último olhar sobre a arena ondetravara o fantástico combate daqueles dias.Atrás de si a máquina fremia ruidosamente, os braços desferindo inúteis golpes novazio. Um pouco mais para a direita erguia-se, agora quase totalmente consumida, apilha de materiais combustíveis.Em todo o corpo sentia a terra vibrante. Algumas lágrimas afloraram-lhe o rosto. Olhouas mãos calosas e desceu.desceu até à máquina, deu um ligeiro toque num tufo de ervas com o bico do sapato,olhou o céu sem nuvens e desatou a encher a caldeira. Reorientou a acção dos braçosmetálicos, lançou-se freneticamente na apanha de combustível e organizou mentalmenteas tarefas seguintes.Conhecedor de todos os segredos daquela engrenagem, sabia quão atarefados seriam osseus dias.Manter a pilha de combustível, reconstruir o muro, zelar pelo bom funcionamentodaquela maravilha arquejante e, a todo o custo, evitar qualquer possibilidade decolapso.Trabalho e vigilância seriam, doravante, o princípio e o fim da sua vida.

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