UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁMarlus Vinicius ForigoA REVISTA VEJA E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM PÚBLICA DELULA NAS ELEIÇÕES DE ...
Marlus Vinicius ForigoA REVISTA VEJA E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM PÚBLICA DELULA NAS ELEIÇÕES DE 1989: UM PROJETO NEOLIBERALDi...
TERMO DE APROVAÇÃOMarlus Vinicius ForigoA REVISTA VEJA E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM PÚBLICA DELULA NAS ELEIÇÕES DE 1989: UM PR...
AgradecimentosA melhor parte de mim, meus filhosCamila, Eduardo e CarolinaA minha alma gêmea,Eliane, pelo amor verdadeiroA...
De tudo ficaram três coisas:a certeza de que estamos sempre começando...a certeza de que é preciso continuar...a certeza d...
SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................
5.7 EDIÇÃO 1107 – LULA E O CAPITALISMO.....................................................985.8 EDIÇÃO 1109 – A BATALHA F...
RESUMOA dissertação é uma análise da articulação dos componentes verbais e não verbaisdos discursos relacionados à candida...
81 INTRODUÇÃO1.1 A OPÇÃO PELA REVISTA VEJAA revista Veja, do grupo Abril, é um produto que pode ser adquirido de duasforma...
9Em 1989, aconteceram as primeiras eleições para presidente depois dedécadas de ditadura militar; um acontecimento impresc...
10Para dar conta dessas perguntas foram escolhidos oito exemplares darevista, das quais se fez a análise dos elementos ver...
11Estar Social e do socialismo, afinal essa foi a temática que mais se fez presente nasreportagens sobre o processo eleito...
12modelo socialista. Sendo a revista Veja uma empresa de capital privado, é difícilimaginar que ela tenha sido imparcial e...
13cultural, inserido numa sociedade de classes e construído em função de uma sériede coerções, tanto ideológicas como de f...
14modelo de Estado e rumos econômicos que o Brasil deveria tomar, e o momentodessa escolha eram as eleições.No capítulo 4 ...
152 MEIOS DE COMUNICAÇÃO, IDEOLOGIA E APARELHOSIDEOLÓGICOS DE ESTADONão se pode atribuir aos meios de comunicação a respon...
16análise da articulação dos componentes verbais e não-verbais dos discursosrelacionados à candidatura de Lula, veiculados...
17com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, dependedas condições materiais de sua produção (MARX, 1999,...
182.1.2 O materialismo históricoPara Sodré (1999), a influência dos anunciantes foi ganhando cada vez maisespaço, em detri...
19entre si, ou melhor, a forma como os homens se organizam para produzir os bensnecessários à existência. No sistema capit...
20de trabalho que permitia o acúmulo de riquezas. O desenvolvimento das forçasprodutivas e a produção de excedentes acabar...
21hoje, na atual fase do modo de produção capitalista. É importante ressaltar que essaluta entre classe dominante e classe...
22sociedade civil estar dividida. Esses fatos vão ao encontro das idéias de Marx, poisconforme Kucinski (1996, p. 184), “p...
232.1.4 A superestruturaA superestrutura ou nível político-ideológico é formado por umasuperestrutura jurídico-política, q...
24compreendida e nem explicada fora de sua relação com a infra-estrutura econômica.Marx e Engels (apud POLITZER; BESSE; CA...
25espaço para o individualismo devido ao fato de a produção depender do esforçocoletivo. Fazendo uso de uma expressão, nov...
26A classe dominante de um determinado período histórico apresenta valores,crenças, idéias, representações e verdades e po...
27instituída e, nesse sentido, a função da ideologia é a de apresentar uma realidadeque só é interessante a um grupo de in...
28desta parte em três outras. Na primeira, demonstrar-se-á o que são e a importânciados Aparelhos Ideológicos de Estado, d...
29Note-se, pela relação acima, que os AIE, na sua maior parte, encontram-sedispersos na esfera do privado, ficando unicame...
30realidade de desigualdades e injustiças, mas também de criar uma consciêncialegitimadora dessa realidade.Os meios de com...
31Pinochet, sempre há quem venha interferir para fazer voltar a ideologia que interessaaos dominantes (GUARESCHI, 1987).Qu...
32Segundo Marx (1998, p. 68), a história é a mesma das lutas de classes. Noséculo XIX foram intensas as iniciativas dos tr...
33O não controle do tempo livre traz o risco de que o trabalhador passe arefletir criticamente sobre a realidade que o rod...
342.2.2 Ideologia e luta de classesPara Althusser (1998, p. 107), as ideologias não nascem dos AIE. Nascem,isto sim, da lu...
35injustiças e desigualdades. A este respeito Aranha e Martins (1992, p. 58) afirmamque:O discurso ideológico impede que o...
36está não só presente, como também se configura como “atos inscritos em práticas”(ALTHUSSER, 1998, p. 91).Não é o mundo r...
37imprimindo nos atos de sua prática material as suas próprias idéias enquantoindivíduo livre”.Outro aspecto importante do...
38O mais curioso é que as pessoas sempre crêem estar pensando e agindopor conta de sua restrita individualidade quando, mu...
393 CONTEXTO POLÍTICO-ECONÔMICO DAS ELEIÇÕES DE 1989: ACRISE DO ESTADO-PROVIDÊNCIA E ASCENSÃO DONEOLIBERALISMO3.1 A GLOBAL...
40Esse processo surgiu como uma forma de revitalizar o capitalismo,enfraquecido pelas políticas que permearam o Ocidente d...
41estendendo seus benefícios sociais a todas as áreas de distribuição vital para obem-estar societário. (TOLEDO, 1995, p. ...
42desempenho do seu trabalho para fixar-se nas suas necessidades ( ESPING-ANDERSEN, 1991).Segundo Esping-Andersen (1991, p...
43futuro tem que ser assegurado como pacto e como planejamento” (TOLEDO, 1995,p. 76). Para Rosanvallon (1997, p. 38), o pr...
44O estímulo ao consumo está assentado no equilíbrio entre investimento epoupança, conseguidos pela maior percentagem da r...
45além de gerar uma enorme inflação.Isso não aconteceu só no Brasil ou nos países sul-americanos, mas emtodos os países qu...
46interventor da economia.Por não ter conseguido atender a todas as necessidades, esse modelo deEstado foi classificado co...
47do crescimento econômico-industrial nem da ampliação dos direitos dos cidadãoscausado pela modernização da sociedade. O ...
48na economia, desde o planejamento e condução até a função de agente econômico,devendo pois se caracterizar como mínimo, ...
49contradições entre aspirações populares e funcionamento do Estado, gerando umpopulismo neoliberal (ROSANVALLON, 1997).O ...
50queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da URSS em 1991, bem como aascensão do modelo neoliberal capitaneada pelos EUA e...
51candidaturas Lula e Brizola respectivamente. Em outras palavras, a possibilidade daascensão de um destes candidatos repr...
524 A OPÇÃO PELA SEMIÓTICA GREIMASIANAEm páginas anteriores se discutiu “ideologia” na perspectiva marxista,“Aparelhos Ide...
53Não se deve esperar desse capítulo qualquer discussão mais profunda arespeito das tendências da semiótica discursiva. O ...
54sentido ou dos sentidos produzidos por Veja passa necessariamente pela análise doplano do conteúdo e da expressão articu...
55conceitos responsáveis não só pelo nascimento do texto, mas também peloenriquecimento dos sentidos presentes no mesmo so...
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  1. 1. UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁMarlus Vinicius ForigoA REVISTA VEJA E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM PÚBLICA DELULA NAS ELEIÇÕES DE 1989: UM PROJETO NEOLIBERALCuritiba2005
  2. 2. Marlus Vinicius ForigoA REVISTA VEJA E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM PÚBLICA DELULA NAS ELEIÇÕES DE 1989: UM PROJETO NEOLIBERALDissertação apresentada ao curso de Mestradoem Comunicação e Linguagens da Faculdade deCiências Sociais Aplicadas da Universidade Tuiutido Paraná, como requisito parcial para a obtençãodo título de Mestre.Orientadora: Profa. Dra. Kati Eliana Caetano.Curitiba2005
  3. 3. TERMO DE APROVAÇÃOMarlus Vinicius ForigoA REVISTA VEJA E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM PÚBLICA DELULA NAS ELEIÇÕES DE 1989: UM PROJETO NEOLIBERALEsta dissertação foi julgada e aprovada para a obtenção do título de Mestre em Comunicação eLinguagens no Programa de Mestrado em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti doParaná.Curitiba, 22 de setembro de 2005________________________________________________________Profa. Denize Correa Araújo, PhDMestrado em Comunicação e LinguagensUniversidade Tuiuti do ParanáOrientadora: Profa. Dra. Kati Eliana CaetanoUniversidade Tuiuti do ParanáProfa. Dra. Claudia Irene de QuadrosUniversidade Tuiuti do ParanáProf. Dr. Cláudio José LuchesaFaculdades Integradas Curitiba
  4. 4. AgradecimentosA melhor parte de mim, meus filhosCamila, Eduardo e CarolinaA minha alma gêmea,Eliane, pelo amor verdadeiroA Leonildo e Thereza, meus pais,que desde quando eu era criança,nunca mediram esforços para fazer de mimum homem honrado, culto e humanistaA minha orientadora,Kati Caetano, que por minha causa,e de outros como eu,garantiu um lugar no céuMauro, Marcio, Ana, Angela, Cristina,Dulce, Marina, Cacá, Carlos, Cidinha,Randy, Magali,Fassina, Rocio,Cláudia, Geraldo,pessoas que de alguma forma,grande ou pequena,contribuíram com essa dissertação.(espero não ter esquecido ninguém)
  5. 5. De tudo ficaram três coisas:a certeza de que estamos sempre começando...a certeza de que é preciso continuar...a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...PORTANTO DEVEMOSfazer da interrupção um caminho novo...da queda um passo de dança...do medo, uma escada...do sonho, uma ponte...da procura...um encontro”Fernando Sabino
  6. 6. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................81.1 A OPÇÃO PELA REVISTA VEJA......................................................................81.2 CORPUS: LULA E AS ELEIÇÕES DE 1989 PELA REVISTA VEJA ................91.3 A OPÇÃO POR MARX, ALTHUSSER E A SEMIÓTICA DE GREIMAS .........111.4 ORGANIZAÇÃO DA DISSERTAÇÃO..............................................................132 MEIOS DE COMUNICAÇÃO, IDEOLOGIA E APARELHOS IDEOLÓGICOS DEESTADO ...................................................................................................................152.1 IDEOLOGIA E COMUNICAÇÃO .....................................................................162.1.1 O materialismo dialético............................................................................162.1.2 O materialismo histórico............................................................................182.1.3 A infra-estrutura e a luta de classes..........................................................182.1.4 A superestrutura........................................................................................232.2 APARELHOS IDEOLÓGICOS DE ESTADO: A CONTRIBUIÇÃO DEALTHUSSER .........................................................................................................272.2.1 A reprodução das relações de produção...................................................282.2.2 Ideologia e luta de classes........................................................................342.2.3 Ideologia e comunicação...........................................................................353 CONTEXTO POLÍTICO-ECONÔMICO DAS ELEIÇÕES DE 1989: A CRISE DOESTADO-PROVIDÊNCIA E ASCENSÃO DO NEOLIBERALISMO .........................393.1 A GLOBALIZAÇÃO..........................................................................................393.2 O ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL ............................................................403.3 A CRISE DO MODELO DE ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL....................443.4 A SOLUÇÃO NEOLIBERAL ............................................................................453.5 O BRASIL NA CONJUNTURA DOS ANOS 80................................................494 A OPÇÃO PELA SEMIÓTICA GREIMASIANA.....................................................524.1 TEXTO SINCRÉTICO......................................................................................534.2 PLANO DO CONTEÚDO E PLANO DA EXPRESSÃO ...................................544.2.1 Plano do conteúdo ....................................................................................544.2.2 Percurso gerativo de sentido.....................................................................564.2.3 Plano da expressão...................................................................................605 ANÁLISE DAS CAPAS E REPORTAGENS DE VEJA .........................................625.1 EDIÇÃO 1074 – O TERREMOTO DA REFORMA SACODE O COMUNISMO635.1.1 Abaixo o comunismo em nome da liberdade ............................................655.1.2 Nível fundamental .....................................................................................665.1.3 Nível narrativo ...........................................................................................675.1.4 Nível discursivo .........................................................................................705.1.5 Iniciando a construção de uma imagem....................................................735.2 EDIÇÃO 1089 – A URSS ENFRENTA O SEU GRANDE DESAFIO ...............755.2.1 Disforia e não-disforia ou euforias x disforias?..........................................775.2.2 Nível narrativo ...........................................................................................805.2.3 Nível discursivo .........................................................................................815.3 EDIÇÃO 1095 - O Operário Vai a Luta ............................................................845.4 EDIÇÃO 1101 – A ESQUERDA SOBE............................................................875.5 EDIÇÃO 1105 - CHEGOU A HORA ................................................................915.5.1 Nível fundamental ....................................................................................915.5.2 Por um Brasil verde-amarelo....................................................................925.5.3 O sol nasce no ocidente............................................................................945.6 EDIÇÃO 1106 – PRESIDENTE COLLOR OU PRESIDENTE LULA................95
  7. 7. 5.7 EDIÇÃO 1107 – LULA E O CAPITALISMO.....................................................985.8 EDIÇÃO 1109 – A BATALHA FINAL PARA MUDAR O BRASIL ...................1015.8.1 Nível fundamental ..................................................................................1015.8.2 Estruturas narrativas ..............................................................................1045.8.3 Estruturas discursivas ............................................................................1055.9 AS TRÊS FACES DO CANDIDATO OPERÁRIO ..........................................1095.9.1 Um operário de hábitos humildes e grosseiros: o conto do torneiroborralheiro........................................................................................................1105.9.2 Lula, o pt e as esquerdas: a marca do anacronismo...............................1145.9.3 A ameaça comunista...............................................................................1206 CONCLUSÃO ......................................................................................................1246.1 QUE TIPO DE IMAGEM A REVISTA VEJA CONSTRUIU DO POLÍTICO LUIZINÁCIO LULA DA SILVA, E AO CONSTRUÍ-LA, DE QUE MANEIRA TENTOUINTERFERIR NO PROCESSO DE ESCOLHA DO ELEITOR?...........................1256.2 QUAIS AS ESTRATÉGIAS UTILIZADAS? ....................................................1266.3 DE QUAIS INTERESSES E IDÉIAS VEJA É PARTÍCIPE?...........................128GLOSSÁRIO...........................................................................................................129REFERÊNCIAS.......................................................................................................131BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ............................................................................135
  8. 8. RESUMOA dissertação é uma análise da articulação dos componentes verbais e não verbaisdos discursos relacionados à candidatura de Lula, nas eleições presidenciais de1989, constituídos pelas capas e reportagens da revista Veja. O objetivo é desvelaro papel ideológico exercido pela revista Veja, na implementação do modeloneoliberal no país, tendo em vista que, debates sobre a crise do modelo socialista,sobre o fim do modelo de Estado de Bem-Estar Social, e do perigo “vermelho” eestatizante que ainda pairava sobre a sociedade brasileira, deram a tônica às capase reportagens de Veja. O corpus de análise compreende oito edições publicadas em1989, que serão examinadas na sua relação intertextual e inseridas no contextopolítico-ideológico dos anos 80. Para a análise do papel da revista no quadro dasociedade brasileira, recorre-se a abordagens teóricas que dêem conta não só docontexto sócio-histórico e econômico do país, como também da compreensão dasmídias na formação de valores ideológicos e de uma economia política dacomunicação. Para a análise do corpus, teorias de análise da imagem e de textossincréticos são utilizadas para o exame do modo de funcionamento dos discursos ede seus efeitos de sentido.Palavras chave: Revista Veja, sincretismo, capas de revista, imagem, texto econtexto.RESUMÉL’étude présente est une analyse de l’articulation des éléments verbaux et nonverbaux des discours proférés pendant la candidature aux élections à la presidencedu candidat Lula, pendant la campagne de 1989, qui ont fait l’objet de reportages dupériodique Veja. L’objet principal de cette analyse est d’éclaircir le rôle idéologiquejoué par le périodique Veja dans l’implantation du modèle néo-libéral au Brésil, enprenant en compte les débats à propos de la crise du modèle socialiste, à propos del’État du Bien Être-Social et du danger « rouge » et étatique qui menaçaient lasociété brésilienne et qui, pendant cette période, constituaient les premières pageset les reportages de Veja.Le corpus de l’analyse comprend huit exemplaires publiés en 1989, qui sontexaminés dans une relation interposée et dans un contexte politique-idéologique desannées 80. Pour l’analyse du rôle du périodique dans le cadre de la sociétébrésilienne, nous avons pris en considération les abordages théoriques qui fontétude non seulement du contexte socio-historique et économique du pays, maisaussi la compréhension des rôles des médias dans la formation des valeursidéologiques aussi bien que d’une économie politique de la communication.Finalement, pour la démonstration du corpus sont utilises des théories d’analyses etd’images et textes syncrétiques pour mieux comprendre le mode de fonctionnementdes discours et leurs possibles effets de sens/signification.Mots clés: Périodique Veja, syncrétisme, première-page de magazine et périodique,image, texte et contexte.
  9. 9. 81 INTRODUÇÃO1.1 A OPÇÃO PELA REVISTA VEJAA revista Veja, do grupo Abril, é um produto que pode ser adquirido de duasformas: por assinatura ou pela compra de exemplares avulsos em banquinhas dejornal e supermercados. Como qualquer outro produto, para sair da prateleira, devedespertar algum tipo de interesse, necessidade ou desejo nos possíveiscompradores. A idéia de estudar como o candidato Lula foi retratado, durante aseleições de 1989, pelas capas e reportagens da revista Veja, poderia ter surgido dapergunta: o que leva alguém a gastar R$ 7,30 (sete reais e trinta centavos)1, peloexemplar de uma revista? Informação é a resposta. Informação é o produtoencontrado nas páginas de Veja.Apesar de tratar de variedades como saúde, livros, cinema, ecomportamento, dentre outros assuntos, a vocação da revista é oferecer informaçãojornalística de cunho político e econômico para um público não especializado,formado principalmente pela classe média brasileira, uma vez que a maioria dosbrasileiros, pelo baixo poder aquisitivo, não pode se dar ao luxo de trocar umarefeição por páginas repletas de imagens coloridas e reportagens.Sem a intenção de discorrer sobre o mérito, a camada social à que Veja sedirige, é conhecida como formadora de opinião pública. Indiferente a isso, o fato éque, quem a compra, busca informação, e a principal informação veiculada por Veja,diz respeito à vida política e econômica do país.1Valor atualizado do exemplar avulso.
  10. 10. 9Em 1989, aconteceram as primeiras eleições para presidente depois dedécadas de ditadura militar; um acontecimento imprescindível para a consolidaçãoda democracia no Brasil e para os rumos que tomaria a sociedade brasileira. Umevento dessa relevância não poderia ocupar um papel secundário nas páginas darevista jornalística de maior circulação e tiragem até hoje no país. Desde 1995 sãoimpressos mais de 1 milhão de exemplares semanalmente (HERNANDES, 2001, p.8). Não só os números são impressionantes, mas pensar que em suas páginas, emrazão do produto que vende, é possível encontrar uma direção para as açõescidadãs da sociedade brasileira, é conclusivo que, se a revista não é um poder por simesma, no mínimo toma parte do jogo de forças ideológico que permeia a vidapolítica.Pesquisar e desvelar a posição de Veja em relação às eleições de 1989, eexplicar o processo da construção de sentido dos seus textos, por meio da interaçãoentre linguagem verbal e não-verbal, se tornou um desafio cientificamente tentador.1.2 CORPUS: LULA E AS ELEIÇÕES DE 1989 PELA REVISTA VEJAToda pesquisa implica escolhas e recortes, e o desta dissertação estárelacionado a três indagações: Que tipo de imagem a revista Veja construiu do político Luiz Inácio Lula daSilva, e ao construí-la, de que maneira tentou interferir no processo deescolha do eleitor? Quais as estratégias utilizadas? De quais interesses e idéias Veja é partícipe?
  11. 11. 10Para dar conta dessas perguntas foram escolhidos oito exemplares darevista, das quais se fez a análise dos elementos verbais e não-verbais de suascapas, além de 26 reportagens, ensaios e entrevistas das respectivas edições.As edições escolhidas para a análise e manchetes de capa são:1ª - Edição 1074, de 05/04/89 – “O terremoto da reforma sacode ocomunismo: o vento da liberdade que varre a Europa do Leste”;2ª - Edição 1089, de 26/07/89 – “A URSS enfrenta o seu grande desafio”;3ª - Edição 1095, de 06/09/89 – “O candidato operário: a dura jornada deLula na sucessão”;4ª - Edição 1101, de 18/10/89 – “A esquerda sobe: Lula encosta em Brizolae entra na briga pelo segundo turno”;5ª - Edição 1105, de 15/11/89 – “Chegou a Hora!”6ª - Edição 1106, de 22/11/89 – “Presidente Collor ou Presidente Lula”;7ª - Edição 1107, de 29/11/89 – “Lula e o capitalismo: as mudanças que oPT promete dividem o Brasil”;8ª - Edição 1109, de 13/12/89 – “A batalha final para mudar o Brasil: o quepode ocorrer no país com Lula ou com Collor”.As edições trazem reportagens que discutem as reformas políticas no Lesteeuropeu, o papel do Estado na economia, a crise dos modelos intervencionistas deEstado, a vitória da democracia liberal, o comunismo, a economia de mercado, asideologias políticas e econômicas e os programas de governo dos candidatos àpresidência da República.Para fazer o recorte da pesquisa e a seleção dos exemplares para a análise,levou-se em consideração o contexto global da crise do modelo de Estado de Bem-
  12. 12. 11Estar Social e do socialismo, afinal essa foi a temática que mais se fez presente nasreportagens sobre o processo eleitoral brasileiro.O ponto de partida para as análises foram as capas das revistas e levaramem consideração os elementos verbais (parte escrita) e não-verbais (imagens,diagramação, cores, etc). As análises não se restringiram às capas, mas seestenderam às reportagens, entrevistas e ensaios que de alguma maneira serelacionaram às eleições.Apesar desse recorte, houve a necessidade de se delimitar ainda mais oobjeto de estudo. Como as eleições foram pautadas pelo debate entre esquerda edireita, fez-se a opção por demonstrar os sentidos dos textos de Veja a partir daconstrução da imagem do candidato Lula, que se depreende de suas páginas. Essaescolha se deu pelo fato de Lula ser um forte concorrente de esquerda ao Planalto.O que vai ser demonstrado ao longo dessa dissertação é que Veja adotouconstruir como estratégia, um sentido positivo para as propostas neoliberais a partirde um antidiscurso socialista feito sobre o candidato Lula.Em defesa dos valores do capital, Veja combateu qualquer ideologia ouinimigo em potencial da reestruturação do capitalismo. As eleições para presidentede 1989 podiam colocar o Brasil nos trilhos do modelo neoliberal ou criar obstáculos,caso houvesse uma vitória do PT ou do PDT.1.3 A OPÇÃO POR MARX, ALTHUSSER E A SEMIÓTICA DEGREIMASComo já afirmado, as eleições presidenciais de 1989, foram marcadas pelodebate ideológico entre esquerda e direita e realizados à luz da crise do Estado e do
  13. 13. 12modelo socialista. Sendo a revista Veja uma empresa de capital privado, é difícilimaginar que ela tenha sido imparcial e se colocasse acima do jogo de forças quecaracteriza a política. Como se demonstrará nessa dissertação, a revista Vejaintercedeu nas eleições de 1989, em favor do grande capital nacional einternacional.Em regimes autoritários a sociedade é coagida pela força das armas, masnuma sociedade democrática essa dominação não pode ser sob a forma da coerçãofísica, e sim por meio de uma manipulação sutil e discreta da consciência social.Marx, no século XIX, afirmava que toda sociedade se assenta sob umadeterminada infra-estrutura econômica e que a essa corresponde uma determinadasuperestrutura ideológica, cuja função é legitimar ideologicamente as relações dedominação existentes na base econômica. Louis Althusser retoma a questão daideologia sob a forma de mecanismos voltados para fins de dominação ideológica,os aparelhos ideológicos de Estado e Veja atuou como aparelho ideológico à serviçodo capital.Se um texto, verbal ou não-verbal, está a serviço de uma ideologia énecessário um instrumento para realizar a análise desse texto. Um instrumento queajude a revelar como se produz o sentido de um texto e que sentido é este. SegundoGreimas, a semiótica é uma disciplina ancilar à área de humanas, e nessaperspectiva é que instrumentos da semiótica greimasiana serão utilizados pararevelar os sentidos do discurso de Veja. Segundo Hernandes (2001, p. 11) a teoria(semiótica) “permite examinar o texto como objeto de comunicação entre sujeitos etambém como objeto de significação. Torna possível, em outras palavras umaanálise interna, ou estrutural, e uma externa, que examina o texto como objeto
  14. 14. 13cultural, inserido numa sociedade de classes e construído em função de uma sériede coerções, tanto ideológicas como de formato da própria mídia”.1.4 ORGANIZAÇÃO DA DISSERTAÇÃOAlém da introdução e da conclusão, o trabalho foi dividido em quatro partes:No capítulo 2 – MEIOS DE COMUNICAÇÃO, IDEOLOGIA E APARELHOSIDEOLÓGICOS DE ESTADO – é feita uma apresentação da contribuição teórica deMarx, acerca do materialismo dialético e histórico, e sobre a ideologia e sobre osaparelhos ideológicos de Estado de Althusser.Soma-se a essa discussão as contribuições de autores como BernardoKucinski, Nelson Werneck Sodré, Maria Lília D. de Castro, César R. S. Bolaño eAntônio Albino C. Rubim.O objetivo desse capítulo é discutir o que é ideologia, o seu papel nasociedade de classes e de construir pressupostos que permitam compreender comoum veículo de comunicação pode reproduzir ideologicamente as relações dedominação existentes nas relações de produção.No capítulo 3 - CONTEXTO POLÍTICO-ECONÔMICO DAS ELEIÇÕES DE1989: A CRISE DO ESTADO-PROVIDÊNCIA E ASCENSÃO DONEOLIBERALISMO - é feita a contextualização histórica do período em queocorrem as eleições de 1989.As eleições ocorreram em meio a crise do modelo de Estado de Bem-EstarSocial, da queda dos regimes socialistas no Leste da Europa e da ascensão doneoliberalismo. Esses acontecimentos internacionais pautaram a discussão sobre o
  15. 15. 14modelo de Estado e rumos econômicos que o Brasil deveria tomar, e o momentodessa escolha eram as eleições.No capítulo 4 - A OPÇÃO PELA SEMIÓTICA GREIMASIANA – será feitauma breve explanação da semiótica greimasiana. O objetivo é inserir o leitor emalguns dos principais conceitos e procedimentos da semiótica, enquanto instrumentode análise do texto.No capítulo 5 - ANÁLISE DAS CAPAS E REPORTAGENS DE VEJA - édemonstrada a existência de um discurso, que em seu conteúdo estão presentesvalores pertencentes a uma classe dominante. Este discurso é produzido na relaçãodialogal entre os vários textos, sejam verbais ou não-verbais, difuso capilarmentepelas várias edições analisadas, cujo objetivo é induzir o leitor da revista a não votarem Lula, por ser um candidato incapaz, de esquerda, e de partilhar de idéiasretrógradas e decadentes.
  16. 16. 152 MEIOS DE COMUNICAÇÃO, IDEOLOGIA E APARELHOSIDEOLÓGICOS DE ESTADONão se pode atribuir aos meios de comunicação a responsabilidade por tudoo que as pessoas pensam, imaginam, desejam ou como conduzem sua vidacotidiana. Mas é inegável que em boa parte de suas vidas, elas são espectadoras deprogramas televisivos, ouvintes de rádio, freqüentadores de sites e leitores derevistas e jornais e que, não raras vezes, os têm como referência da realidadepolítica, econômica e social constituindo-os como suporte do seu imaginário. Osmeios de comunicação, principalmente a partir da modernidade, com a invenção dostipos móveis, tornaram-se se não o principal, mas um importante meio de difusão deidéias, valores e comportamentos.Esse é o caso da revista Veja, e o propósito desta exposição é demonstrar oque essa revista diz, enquanto texto sincrético, e como o faz para dizê-lo.Partindo do pressuposto de que como meio midiático Veja é capaz de, emdeterminados momentos da vida, influir nas ações humanas, seria o caso de explicarcomo faz isso e quais as estratégias empregadas.O caminho escolhido para verificar essa possibilidade busca um respaldoteórico para explicar como Veja se constitui em um instrumento ideológico.Esclarecer o que é Ideologia, situá-la dentro de uma determinada construção teórica,nesse caso, a de Marx, por este entender que a ideologia é uma construção socialde uma classe dominante, com a intenção de preservar seus interesses, ocultandoas condições de exploração que impõe à classe dominada, para em seguida,desvelar pela análise dos sentidos, posturas ideológicas comprometidas cominteresses relacionados a determinadas conjunturas históricas, a partir de uma
  17. 17. 16análise da articulação dos componentes verbais e não-verbais dos discursosrelacionados à candidatura de Lula, veiculados pela revista Veja.2.1 IDEOLOGIA E COMUNICAÇÃOO conceito de ideologia foi inicialmente empregado por Karl Marx em seutrabalho de análise e de crítica ao sistema capitalista do século XIX, e sua função élegitimar o poder da classe dominante sobre o conjunto da sociedade. Apesar de oconceito possuir diferentes definições, será empregado o que está presente no livro“A Ideologia Alemã” (1999): toda forma de pensamento e de representação presenteem um determinado modo de produção.Para se compreender como se dá a dominação de uma classe sobre outra ea origem da ideologia, é necessário avançar em alguns aspectos do pensamentomarxista, por serem resultantes de uma determinada formação econômica.2.1.1 O materialismo dialéticoAo contrário de Friedrich Hegel que afirmava serem as contradições doespírito o motor da história, para Marx não são as idéias que movem o mundo, massim, as contradições presentes nas relações de produção, e mais, são as idéias quederivam das condições materiais de produção e reprodução da existência, o quesignifica dizer que a matéria é o dado primário, do qual derivam as idéias, ou naspalavras do próprio Marx (1999, p. 37): “não é a consciência que determina a vida,mas a vida que determina a consciência”.Tal como os indivíduos manifestam sua vida, assim são eles. O que elessão coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem como
  18. 18. 17com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, dependedas condições materiais de sua produção (MARX, 1999, p. 28).Para Nelson Werneck Sodré (1999), por exemplo, existe uma relaçãodialética entre a imprensa e o capitalismo facilmente perceptível pela tendência deuniformidade, mas por outro lado, essa mesma imprensa que é capaz de levar oshomens à uniformidade de valores éticos e culturais, exercendo até certo ponto umpapel importante na formação da consciência social, é em última instância,profundamente influenciada pela lógica do desenvolvimento das forças produtivas.No caso das sociedades capitalistas, as condições materiais de existência,trazem um apelo à padronização de valores, repassada pelos meios decomunicação. Essa padronização dispensa a consciência individual em prol doinconsciente coletivo.São as condições materiais preponderando sobre valores éticos, espirituaisou relacionais. Sodré (apesar de que toda época possui suas contradições), concluique:Houve um tempo, como na Idade Média, em que não se trocava senão osupérfluo, o excedente da produção sobre o consumo. Houve, também,tempo em que não somente o supérfluo, mas todos os produtos, toda aexistência industrial, passaram ao comércio, em que a produção inteiradependia da troca. Veio, finalmente, tempo em que tudo o que os homenstinham visto como inalienável tornou-se objeto de troca, de tráfico, e podiaser alienado. Este foi o tempo em que as próprias coisas que, até então,eram transmitidas, mas jamais compradas — virtude, amor, opinião, ciência,consciência, etc. — em que tudo, enfim, passou ao comércio. Esse foi otempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termosde Economia Política, o tempo em que tudo, moral ou físico, tornando-sevalor venal, é levado ao mercado para ser apreciado no justo valor (SODRÉ,1999, p. 8).E esse é o tempo ou a época da revista Veja.
  19. 19. 182.1.2 O materialismo históricoPara Sodré (1999), a influência dos anunciantes foi ganhando cada vez maisespaço, em detrimento do leitor2, configurando a imprensa como parte dasuperestrutura econômica que tomou conta da sociedade.Superestrutura econômica é um conceito de materialismo histórico. É ummétodo de análise utilizado para a compreensão da história, desenvolvido por Marxcom a intenção de entender o capitalismo no século XIX. É a aplicação domaterialismo dialético ao estudo da História.Marx desenvolveu o materialismo histórico para explicar as formas como oshomens, independente da época e do lugar, organizaram-se e organizam-se paraproduzir o que necessitam para sua sobrevivência. Quer dizer, explica-se a históriapelos fatores econômicos e técnicos (ARANHA; MARTINS, 1993). A essasdiferentes formas de organização Marx chama de modos de produção e estes seestruturam em níveis: infra-estrutura e superestrutura. Para Marx, um modo deprodução ou o modelo infra-estrutural é a base econômica sob a qual se erguerá ese determinará a superestrutura.2.1.3 A infra-estrutura e a luta de classesA infra-estrutura é explicada como o nível da base econômica e dele fazemparte as relações que o homem estabelece com a natureza visando à reprodução daexistência e se dá pela mediação do trabalho. Para trabalhar e garantir a existênciatambém são necessárias e fazem parte da infra-estrutura as relações dos homens2Pode-se substituir atualmente por espectador, ouvinte ou navegador.
  20. 20. 19entre si, ou melhor, a forma como os homens se organizam para produzir os bensnecessários à existência. No sistema capitalista, essas relações são entreproprietários dos bens de produção (exploradores) e os não proprietários(explorados) e também com os meios e os objetos de trabalho. No modo deprodução capitalista, a relação entre burguesia e proletariado (proprietários e nãoproprietários respectivamente), vai compor o que Marx vai chamar de lutas declasses. Para Marx, a história de todas as sociedades existentes até hoje tem sido ahistória das lutas de classes.Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, membros dacorporação e aprendiz, em suma, opressores e oprimidos, estiveram emconstante antagonismo entre si, travaram uma luta ininterrupta, umas vezesoculta, outras aberta, uma luta que acabou sempre com uma transformaçãorevolucionária de toda a sociedade inteira ou com o declínio comum dasclasses em luta (MARX, 1998, p. 68).Porém, nem sempre a luta de classes existiu. Nas comunidades primitivasas forças produtivas3ou condições materiais de produção eram atrasadas,inexistindo classes sociais, propriedade privada e produção de excedentes4. Eramcomunidades nômades, que, com o desenvolvimento das forças produtivascaracterizadas pelo processo de domesticação de animais, do desenvolvimento deinstrumentos de trabalho e da descoberta da agricultura, foram se tornandosedentárias. Com a sedentarização e o desenvolvimento incessante das forçasprodutivas, foi surgindo a noção de propriedade privada, do planejamento daprodução e da distribuição de excedentes, e conseqüentemente da divisão dotrabalho que dará origem à divisão da sociedade em classes. O escravismo surgecomo conseqüência do desenvolvimento das forças produtivas. Era uma nova força3Segundo Cristina Costa (1997, p. 91) implicam o “conjunto de forças naturais já transformadas eadaptadas pelo homem, como ferramentas ou máquinas, utilizadas segundo uma orientação técnicaespecífica. E o próprio homem que [...] é o principal elemento das forças produtivas, uma vez que é oresponsável por fazer a ligação entre a natureza e a técnica e os instrumentos”.4Ou sistema comunal primitivo. Basicamente essas comunidades viviam da caça e da coleta dealimentos.
  21. 21. 20de trabalho que permitia o acúmulo de riquezas. O desenvolvimento das forçasprodutivas e a produção de excedentes acabaram por produzir a exploração dohomem pelo homem.De acordo com Georges Politzer (1993), a sociedade de classes transformouprofundamente a psicologia do homem. Por isso, o autor dá razão a Rousseau queresponsabilizou a sociedade pela corrupção da natureza humana. A partir daexploração do homem pelo homem, este foi impedido de dispor do fruto do seupróprio trabalho, sendo separado de sua obra. O explorador apropriou-se do seutrabalho, alienando-o. A conseqüência é que, tendo sido separado do seu trabalho, ohomem separou-se de si próprio. De acordo com o autor, a atividade produtora e ainiciativa criadora perfazem a natureza humana, sendo essa natureza que odistingue do animal. Ao mesmo tempo em que o trabalhador-explorado é despojadodo produto do seu trabalho, o explorador apropria-se do que não produziu. Comisso, mutila-se a consciência do explorado por não poder realizar seus finslivremente. Mas a consciência do explorador também se encontra separada de siprópria, porque se acostumou com a mentira. Assim, a consciência de ambos reflete,cada qual a seu modo, a exploração.Para Marx, só é possível compreender o funcionamento e a forma deorganização de uma sociedade, a partir do estudo dos modos de produção. Além domodo de produção citado, o sistema comunal primitivo, Marx identificou outros mais.São eles: o asiático, o de produção antigo ou escravista, o germânico, o feudal e omodo de produção capitalista (COSTA, 1997, p. 92), que é o contexto histórico noqual se encontra o corpus desta dissertação.A partir do surgimento da sociedade de classes, independente do modo deprodução específico, a luta de classes tem sido o motor da história e assim o é ainda
  22. 22. 21hoje, na atual fase do modo de produção capitalista. É importante ressaltar que essaluta entre classe dominante e classe dominada, ou especificamente, no caso docapitalismo, o confronto entre a classe burguesa e a classe proletária, não se dásomente no nível econômico, ou infra-estrutural, mas também no nível das idéias, ouno plano ideológico.O surgimento da imprensa veio contribuir para a disseminação das idéias, noplano ideológico. Nascendo com o capitalismo e acompanhando o seudesenvolvimento, tornou-se facilmente um instrumento da classe dominante. Asempresas jornalísticas ganhavam proporções semelhantes a qualquer outraempresa capitalista, fato impulsionado pelo avanço do rádio e da televisão, gerandoum conglomerado empresarial capitalista que agrupou a imprensa falada e a escrita.Com essa caracterização, predomina na imprensa o aspecto privado(capitalista), persistindo o confronto entre as classes. Numa empresa jornalística, aconvicção de Sodré (1999), é de que existem pelo menos três classes sociais: osproprietários (capitalistas); os intelectuais (classe média è às vezes burguesa) e osoperários (proletariado), cujos interesses são contraditórios. Quase sempreprevalece a lei do mais forte, isto é, dos proprietários dos jornais, facilitando então, apropagação dos ideais burgueses, e caracterizando a mesma luta de classes que sedá em outro tipo de empresa.Já para Maria Lília Dias de Castro (2000, p. 276):O traço burguês da empresa é facilmente perceptível, aliás, nas campanhaspolíticas, quando acompanha as correntes mais avançadas, e em particularnos episódios mais críticos, os das sucessões. O problema, cujacomplexidade é indiscutível, revela-se, assim, na questão política sempreséria que é a sucessão dos chefes de Estado...Bernardo Kucinski (1996), concorda com a idéia de que a imprensacolaborou com a implantação do projeto neoliberal, em especial na campanha pelasprivatizações. A imprensa esteve a favor da ideologia do Estado, apesar de a
  23. 23. 22sociedade civil estar dividida. Esses fatos vão ao encontro das idéias de Marx, poisconforme Kucinski (1996, p. 184), “por ser exercido por uma elite intelectual e porseu papel decisivo na criação de expectativas e no jogo do poder, o jornalismo émuito condicionado pelas assimetrias que caracterizam as democracias liberais...”Faz-se mister acrescentar que os proprietários estão sempre correndo atrásde mais lucros e, para isso, abrem seus jornais ou revistas à publicidade. Isso podefacilmente ser percebido ao se folhear a revista Veja. Sodré (1999, p. 3), registra queesse fato vem ocorrendo desde a ascensão da imprensa e do capitalismo, numacomprovação ostensiva “... das ligações entre a imprensa e as demais formas deprodução de mercadorias”. Citando um exemplo, ao relatar o histórico da imprensanorte-americana, o autor diz que na primeira metade do século XIX, um dos jornaisnascidos quatro anos antes, já atingia a casa dos 30.000 mil exemplares, mesmotendo dobrado o tamanho das páginas. Isso para acomodar os anúncios cujo afluxocrescia sempre.Assim, segundo Sodré (1999), não é a verdade dos fatos o que mais lhesinteressa, tampouco o leitor que compra a notícia, mas o que a revista vai render empublicidade. E ainda, por depender também do poder público, no que diz respeito aofornecimento de máquinas, papel e até empréstimos financeiros, ficam à mercê dosetor, perdendo uma parcela significativa de sua autonomia. Sendo assim, apesarde os jornalistas proclamarem independência e objetividade em suas matérias, nacobertura dos acontecimentos, persiste o “oficialismo”, principalmente aquele quetem por protagonista o próprio Estado a serviço do capital.
  24. 24. 232.1.4 A superestruturaA superestrutura ou nível político-ideológico é formado por umasuperestrutura jurídico-política, que existe na esfera do Estado e do direito, e pelasuperestrutura ideológica e diz respeito às diferentes formas da consciência social,presentes na religião, nas leis, na escola, na cultura, nas ciências, e nos valores. Damesma maneira que ocorre uma subordinação dos não-proprietários aosproprietários no nível infraestrutural (exploração do trabalho), também ocorre umasubordinação no nível superestrutural, pois, a superestrutura reflete as idéias evalores dos proprietários ou da classe dominante. Por superestrutura entendam-setodas as idéias e instituições que refletem as relações de produção dominantes,sendo elas também dominantes (POLITZER; BESSE; CAVEING, 1993)5. E aindasegundo os autores:Sendo as idéias parte integrante da superestrutura, e em sendo estadeterminada pela infra-estrutura, o seu conteúdo não passa de um reflexoda realidade objetiva da sociedade, não possuindo gênese própria eindependência:... a moral, a religião, a metafísica e todo o restante daideologia, bem como as formas de consciência a elas correspondentesperdem logo toda aparência de autonomia. Não têm história, não têmdesenvolvimento; ao contrário, são os homens que, desenvolvendo suaprodução material e suas relações materiais, transformam com a realidadeque lhes é própria, seu pensamento e também os produtos do seupensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida quedetermina a consciência (POLITZER; BESSE; CAVEING, 1993, p. 19-20).Qual seria então a razão de existir da superestrutura, e maisespecificamente da superestrutura ideológica? A resposta é: a manutenção dasrelações de dominação presentes na infra-estrutura, legitimando-a e justificando-a,além de criar dificuldades para o surgimento e propagação de qualquer idéia quevenha a colocar em risco o seu status quo. A ideologia não pode, portanto, ser5Por exigência de Guy Besse e Maurice Caveing o nome do mestre Georges Politzer deveria vir nafrente. Ambos eram alunos de Politzer e a obra que leva o nome dos três é o resultado da compilaçãodas aulas e cursos ministrados por Politzer.
  25. 25. 24compreendida e nem explicada fora de sua relação com a infra-estrutura econômica.Marx e Engels (apud POLITZER; BESSE; CAVEING, 1993), exemplificam esse fatoao falar do dogma calvinista. Para eles, tal dogma correspondia às exigências damais avançada burguesia da época. O êxito ou o fracasso da atividade do mundocomercial correspondia a um desígnio de natureza religiosa, verificada pela doutrinada predestinação. Não dependia, portando da habilidade humana ou dascircunstâncias que, por sua vez, também não dependiam da vontade, nem da açãohumanas, mas de forças econômicas superiores e desconhecidas.A idéia da predestinação justifica e legitima os efeitos indesejados da livreconcorrência que estão num plano puramente material transpondo-os para o planodo sagrado, da onisciência e dos desígnios de Deus, mascarando, desta feita, etransformando em realidade imutável algo objetivamente positivo, ou seja,econômico. Isto colocado de uma maneira simplista e desconsiderando tudo o quedepende das circunstâncias variáveis da época e do meio, seria o mesmo que dizerque se uma pessoa nasce numa sociedade capitalista pensará como um capitalista,sendo ou não um capitalista. Este terá desejo de ascensão social, será muitoprovavelmente individualista e egoísta e motivado por um desejo de consumo nãoraras vezes inconsciente. Agora, se essa mesma pessoa nasce numa sociedadecujo modo de produção é o feudal, dificilmente seria motivado pelo desejo deconsumir, não que esse não existisse, mas não com a mesma força e determinismoque existe numa sociedade capitalista, haja vista que numa sociedadeessencialmente agrária não há muito para ser consumido. Também não teria desejode ascender socialmente, pois na Idade Média, não existia essa possibilidade,porque ser senhor feudal ou camponês era condição de nascimento, inexistindoqualquer possibilidade de mobilidade e ascensão social. Ainda mais, havia pouco
  26. 26. 25espaço para o individualismo devido ao fato de a produção depender do esforçocoletivo. Fazendo uso de uma expressão, novamente simplista, mas, perfeitamentecabível, seria o mesmo que dizer que o homem é fruto do meio, entendendo-se pormeio, a forma pela qual os homens produzem os bens necessários à sua existência.O mesmo pode ser aplicado ao jornalismo da atualidade. Pertencendo auma sociedade cujos valores são eminentemente capitalistas, a economiatorna-se o centro da temática, para a qual utilizam, segundo Kucinscki (1996, p.187), o pensamento neoliberal, mas de “... forma simplista, para justificar a tese deque preocupações éticas com a distribuição de renda não só nada têm a ver com ateoria econômica, como levam ao efeito contrário. Por essa tese só uma economiana qual os empresários tenham a total liberdade de ação produz bons resultados”.Nessa linha de pensamento, o autor complementa a idéia dizendo que aideologia do livre mercado, em suas várias manifestações (desde o marginalismo atéo neoliberalismo) fez com que o homem escolhesse o capital, em detrimento delepróprio, como sujeito de suas histórias e objeto de suas preocupações. Nega-se osocial, prefere-se o capital ao homem, sob a égide de teorias econômicas eneoliberais desumanizantes (KUCINSKI, 1996).Feitas essas considerações, pergunta-se: como exatamente se produz aideologia na infra-estrutura? Para Marx, com o surgimento da propriedade surgetambém a luta de classes, dominantes (proprietários dos bens de produção) edominados (portadores da força de trabalho), e é nesta relação principalmente, nãoa única6, que a ideologia ganha existência material, uma vez que sua existênciaemana dos interesses da classe beneficiária de um determinado modo de produção.6Seria anti-dialético supor a impossibilidade do surgimento de premissas ideológicas de outrasinstâncias fora da relação entre dominantes e dominados. A malfadada experiência soviética foi bemum exemplo da ideologia surgida dentro da esfera do Estado, em uma sociedade sem classes. Oculto a personalidade, no caso de Stálin foi uma situação exemplar.
  27. 27. 26A classe dominante de um determinado período histórico apresenta valores,crenças, idéias, representações e verdades e por um processo de generalizaçãoestende-se a toda a sociedade, apresentando-se como verdades universais eeternas. Apresenta seus interesses particulares como interesses de todo o conjuntosocial. Assim, a propriedade privada e a liberdade, por exemplo, são apresentadascomo valores universais e eternos, tendo sua legitimidade por si mesmas, quando narealidade, são resultados de determinadas organizações produtivas e interessantessomente a uma minoria que usufrui os benefícios advindos dessas instituições e quese dão às custas da exploração do trabalho alheio. Marx demonstra isso no livro “AQuestão Judaica” (2000) quando discute a afirmação presente na constituiçãofrancesa de que todos os homens são iguais perante a lei garantindo-se a todos aliberdade, a segurança e a propriedade. Já afirmava Montesquieu, no século XVIII,em o “O Espírito das Leis”, que as leis afirmam não a igualdade entre os homens,mas sua desigualdade, e que elas só afirmariam a igualdade se os homens fossemsocialmente iguais. Em Marx isso não é diferente, uma vez que segundo ele aliberdade não é outra coisa senão o direito de desfrutar de seus bens da forma quelhe convier, independente de qualquer função social que estes possam ter, ou seja,[...] a liberdade individual e esta aplicação sua constituem o fundamento dasociedade burguesa. Sociedade que faz com que todo homem encontrenoutros homens não a realização de sua liberdade, mas, pelo contrário, alimitação desta (MARX, 2000, p. 36).As leis dizem coisas diferentes para homens socialmente diferentes apesarde aparentemente estarem dizendo o mesmo para todos. As leis garantem apropriedade para quem as possui e garante a liberdade de delas dispor, mas deforma sutil diz para os desafortunados que não se coloquem dentro do limite dascercas, e nem lhes garantem o acesso à propriedade. As leis burguesas existemapenas para proteger o status quo contra qualquer tentativa de alteração da ordem
  28. 28. 27instituída e, nesse sentido, a função da ideologia é a de apresentar uma realidadeque só é interessante a um grupo de indivíduos como sendo interessante a todos osindivíduos. A ideologia representa algo como sendo real para todos, quando só o épara alguns. Isto ocorre devido a separação entre o trabalho manual e o trabalhointelectual.Segundo Marilena Chauí (2002, p. 62), ideologia é “um sistema ordenado deidéias ou representações e das normas e regras como algo separado eindependente das condições materiais”. Isto porque seus produtores (teóricos,ideólogos e intelectuais) não estão diretamente vinculados à produção material dascondições de existência, como se as idéias pudessem ser separadas da produçãomaterial.Se uma classe é economicamente dominante, essa dominação também sedará no plano das idéias, ou no plano superestrutural, uma vez que, segundo Chauí(2002, p. 79), “a ideologia é um dos instrumentos da dominação de classe e uma dasformas da luta de classe”. A ideologia da classe dominante manifestar-se-á nãosomente no plano da produção material, mas, também no plano da produção ereprodução das idéias que ocorrem no que Louis Althusser chama de AparelhosIdeológicos de Estado.2.2 APARELHOS IDEOLÓGICOS DE ESTADO: A CONTRIBUIÇÃO DEALTHUSSERPara entender o que são os Aparelhos Ideológicos de Estado em Althusser,optou-se por fazer esta explicação já dentro do contexto no qual se insere estetrabalho; o da sociedade capitalista. Outro ponto a ser evidenciado é a da subdivisão
  29. 29. 28desta parte em três outras. Na primeira, demonstrar-se-á o que são e a importânciados Aparelhos Ideológicos de Estado, doravante referidos por AIE; na segundaparte, evidenciar-se-á a relação necessária existente entre ideologia e a luta declasses e na terceira, estabelecer-se-á a relação entre ideologia e comunicação.2.2.1 A reprodução das relações de produçãoPara Althusser (1998, p. 68), os AIE referem-se a um certo número derealidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituiçõesdistintas e especializadas, que têm por função superestrutural a sustentação noplano das idéias da infra-estrutura econômica, sendo determinados por elas. Assim,“todos os aparelhos ideológicos de Estado, quaisquer que sejam, concorrem para omesmo fim: a reprodução das relações de produção, isto é, das relações deexploração capitalistas” (ALTHUSSER, 1998, p. 78). Os espaços de reprodução edifusão da ideologia dominante estão contidos na religião, na escola, na família, nosistema jurídico, no sistema político, na cultura e até mesmo no sistema sindical eparticularmente aquele que terá destaque nesse trabalho: os meios de comunicaçãocomo a imprensa escrita, o rádio, a televisão e outros. De acordo com Kucinski(1996, p. 188), o jornalismo torna-se, ao lado da escola e da Igreja, quase um“aparelho ideológico de Estado”. É um dos mecanismos não coercitivos que as elitesdominantes ou o Estado usam para manter as condições de reprodução do sistema,mas que pode atuar questionando e até mesmo denunciando a ideologia dominante,como por exemplo os Zapateros no México em 2001, que furaram o bloqueioimposto pelo Estado e pela mídia constituída, utilizando como meio de informação, arede mundial de computadores.
  30. 30. 29Note-se, pela relação acima, que os AIE, na sua maior parte, encontram-sedispersos na esfera do privado, ficando unicamente sob restrito domínio público,(afirmação ideológica uma vez que na concepção marxista, o Estado é orepresentante dos interesses da classe dominante, só que regulamentado pelodireito público, que também é ideológico), o que Althusser vai chamar de AparelhoRepressivo do Estado, ou simplesmente, ARE, que são basicamente a polícia, oexército, os presídios, os tribunais, dentre outros, cuja função é fazer uso da coerçãofísica para garantir a reprodução das relações de produção capitalistas. O queAlthusser quer dizer com isto não é outra coisa senão que “a noção de Estado nãose esgotava no aparelho repressivo (ARE), compreendendo também instituições dasociedade civil, como as escolas, as igrejas, os sindicatos” (CÂMARA, 1993, p. 427).À conclusão semelhante chega César Bolaño (2000), que, ao analisar a obrade Marx, afirma que a “forma comunicação” está adequada às determinações geraisdo capital. Ora, se o Estado é o representante dos interesses da classe dominante(capitalista), é fato também que a forma com que as comunicações de massa entramna vida das pessoas, embora seja veiculada pela iniciativa privada, é controlada deforma a representar a ideologia dessa classe.Hegel afirmava que o Estado é a esfera do público enquanto que asociedade civil é a esfera do privado. No entanto, quando se pensa a esfera dopúblico e a esfera do privado dentro da ótica marxista, e quando ainda se pensa emAIE, é perceptível que a diferença é retórica, pois a ação desses diferentes atoresnão propriamente estatal (AIE), não passa de mera conformação a uma formaçãosocial estruturada pela classe dominante que se dá no plano das idéias e dosvalores, ou seja, no plano ideológico e cuja função é a de não só ocultar uma
  31. 31. 30realidade de desigualdades e injustiças, mas também de criar uma consciêncialegitimadora dessa realidade.Os meios de comunicação, tal como existem hoje, podem ser de muitaeficiência no processo de legitimação da realidade social. Segundo AfonsoAlbuquerque (1998), toda veiculação noticiosa é manipulada segundo as forças quea regem: patrocinadores, audiência e interesses comerciais da empresa jornalísticaque entram em choque com os próprios critérios de quem faz a notícia. Vence omais forte, que quase sempre são os interesses comerciais da empresa.Situação semelhante viveram os reis durante o período feudal e amodernidade. No primeiro, eram os senhores feudais que na prática detinham opoder e com a passagem para a modernidade e a afirmação do absolutismomonárquico não era exatamente o rei que detinha o poder, mas segundo LeoHuberman (1986, p. 93), “os ricos mercadores e financistas” que estavam atrásdeles. No caso do jornalista, criador da notícia, nem sempre ele tem autonomia,estando muitas vezes sujeito, ao “poder” que está por trás e que determina suasações. Para Hall (apud ALBUQUERQUE, 1998, p. 15), não existe hegemonia porquea classe dominante dirige, coage, organiza e “conquista” o consenso das classessubordinadas.Nessas “classes subordinadas” pode-se entender o próprio jornalista, quedará a notícia conforme a coerção nele exercida, como em toda a classe dominada,e que provavelmente a consumirá e assimilará como certa, sem questionar,dificultando a formação de outra consciência a não ser aquela resultante daideologia vigente. Quando porventura alguma mídia adere a causa da classetrabalhadora (classe dominada), como foi o caso do Chile, durante o regime de
  32. 32. 31Pinochet, sempre há quem venha interferir para fazer voltar a ideologia que interessaaos dominantes (GUARESCHI, 1987).Quer dizer, o modo com que os meios de comunicação organizam-se, traz ainterferência, ou condução da informação, que passa a dominar a consciência dosdominados. Ainda segundo Guareschi (1993, p. 19):A posse da comunicação e a informação tornam-se instrumento privilegiadode dominação, pois criam a possibilidade de dominar a partir dainterioridade da consciência do outro, criando evidências e adesões, queinteriorizam e introjetam nos grupos destituídos a verdade e a evidência domundo do dominador, condenando e estigmatizando a prática e a verdadedo oprimido como prática anti-social.A consciência existente dentro de uma formação social capitalista não surge doacaso, é necessária e resultante desse modo de produção ou, dito de outra maneira,o modo de produção capitalista para manter-se, necessita de uma determinadaformação social, que é resultante dele mesmo e que deve reproduzir as condiçõesde produção dominantes, ou seja, deve reproduzir não só os meios de produção eas forças produtivas, mas também, as relações de produção existentes. SegundoMarx (apud ALTHUSSER, 1998, p. 53), uma formação social que não reproduz ascondições de produção ao mesmo tempo em que produz, não sobrevive por muitotempo.A reprodução das condições dominantes, conta com a ajuda da chamadaIndústria Cultural7, ou economia cultural como querem alguns, pois segundo Bolaño(2000, p. 71), é no capitalismo “[...] que a informação adquire a relevância inusitadaque acabou por adquirir na manutenção do sistema, tanto do ponto de vista da suareprodução ideológica quanto do da própria acumulação de capital”.7Conceito criado pelos filósofos Adorno e Horkheimer para designar a exploração, com finalidadescomerciais e econômicas, de bens culturais.
  33. 33. 32Segundo Marx (1998, p. 68), a história é a mesma das lutas de classes. Noséculo XIX foram intensas as iniciativas dos trabalhadores para acabarem com asinjustiças. O Ludismo8, o Movimento Cartista9, as primeiras associações detrabalhadores, a organização dos sindicatos, a fundação dos partidos operários e atomada do poder pelos trabalhadores franceses, conhecida como a Comuna deParis em 1848, são exemplos de manifestações contra as injustiças sociais eeconômicas do modelo capitalista e que na época foram duramente reprimidas peloEstado que não hesitou em fazer uso da força bruta. Não obstante, a classedominante teve lucidez para perceber que somente o uso dos ARE não seriasuficiente para sustentar o capitalismo como modo de produção dominante. Serianecessário que também as idéias e valores da burguesia permeassem a consciênciada classe trabalhadora. É nesse sentido que se pode afirmar que a submissão daclasse dominada ocorre não só por força da repressão, mas também pela ideologiada classe dominante disseminada pelos AIE, e diga-se, de forma mais eficiente.Mais recentemente os meios de comunicação de massa têm cumprido com méritoseste papel. Segundo Marcuse:a partir do dia de trabalho, a alienação e a arregimentação se alastrampara o tempo livre. [...] O controle básico do tempo de ócio é realizado pelaprópria duração do tempo de trabalho, pela rotina fatigante e mecânica dotrabalho alienado, o que requer que o lazer seja um relaxamento passivo euma recuperação de energias para o trabalho. Só quando se atingiu o maisrecente estágio da civilização industrial, [...] a técnica de manipulação dasmassas criou então uma indústria de entretenimentos, a qual controladiretamente o tempo de lazer. [...] Não se pode deixar o indivíduo sozinho,entregue a si próprio [...] (apud ARANHA; MARTINS, 1992, p. 44).8Movimento operário surgido na Inglaterra do século XIX, que, tinha por prática a quebra violenta demáquinas. Fazia isso por transferir a culpa de males sociais que acometiam os operários para asmáquinas. Para o movimento, as máquinas eram as responsáveis pelo desemprego e pelos baixossalários.9Movimento operário britânico surgido em maio de 1838. Recebeu esse nome devido a umdocumento que exigia reformas eleitorais e abolição do critério de posse para ingresso no parlamentodentre outras reivindicações, e que ficou conhecido como “Carta do Povo”.
  34. 34. 33O não controle do tempo livre traz o risco de que o trabalhador passe arefletir criticamente sobre a realidade que o rodeia e conseqüentemente coloque emrisco as idéias que sustentam as relações de produção capitalistas.Um bom exemplo dessa manipulação é mostrado por Mariani (1998), aoapresentar uma notícia veiculada no Jornal do Brasil sobre um fato da IntentonaComunista em 1935, ocorrido no Rio de Janeiro. O texto do jornal, dizia que “omovimento extremista” tinha sido “controlado” pelo Estado, como se toda apopulação concordasse que a situação seria de fato “extremista”. Quer dizer,qualquer pessoa que lesse a notícia teria que entender esse movimento como“extremista”, sem possibilidade de fazer sua própria crítica.A esse respeito, Guareshi (1987, p. 52), lembra que uma das metas dogoverno, era a de “reforçar a consciência dos perigos e soluções comunistas para osproblemas nacionais ou regionais”. Qualquer movimento seria então, “extremista”,segundo o entendia o próprio governo.Outro aspecto relevante é o da legitimidade da ideologia imposta. No casoretratado, “comunismo” era uma palavra perigosa; em se tratando de um movimento,o comunismo colocava em risco, segundo o pensamento da minoria dominante, osrumos do País. Não importava que o que se pretendia era fazer diminuir a pobrezaou outro objetivo qualquer. Sendo um movimento, toda e qualquer atividade derepressão seria legitimada pelo Estado. Dessa forma, pode-se entender a ideologiacomo uma pretensão a legitimar as atividades, como as das mídias, para resguardaro próprio Estado.
  35. 35. 342.2.2 Ideologia e luta de classesPara Althusser (1998, p. 107), as ideologias não nascem dos AIE. Nascem,isto sim, da luta das classes sociais, pelas suas condições de existência, de suaspráticas e experiências de luta.Uma sociedade em que existem proprietários e não-proprietários dos bensde produção configura-se como uma sociedade de classes em que é clara a divisãoentre trabalho manual e trabalho intelectual e principalmente a exploração dotrabalho manual. A grande maioria das pessoas encontra-se alienada não só dasriquezas que produzem, mas por conta disso, também se encontra alienada de umacondição humana autônoma, uma vez que, se não decide sobre seu salário e seuritmo de trabalho, na prática perde o controle de boa parte de sua existência. Taiscondições já seriam mais que suficientes para que os não-proprietários serevoltassem contra tal situação. No entanto, não se revoltam ou pelo menos não deforma a alterar profundamente a ordem das coisas, devido à ideologia que, se nãoimpede totalmente a percepção desse processo excludente, no mínimo o dificulta.Essa condição persiste em todos os setores da sociedade capitalista,inclusive nos próprios meios de comunicação, quase todos de capital privado,caracterizando os funcionários, ou não-proprietários como parte da sociedade declasses.A ideologia, por conseguinte, mantém a coesão social por meio de umconsenso em torno das idéias da classe dominante que passam a ter um caráter deuniversalidade, imutabilidade e unidade ocultando e encobrindo o fato de serem asrelações de produção existentes entre as classes sociais as responsáveis pelas
  36. 36. 35injustiças e desigualdades. A este respeito Aranha e Martins (1992, p. 58) afirmamque:O discurso ideológico impede que o oprimido tenha uma visão própria domundo porque lhe impõe os valores da classe dominante, tornadosuniversais. Além disso, “naturaliza” as ações humanas, explicando-as comodecorrentes da “ordem natural das coisas” e não como resultado da injustarepartição dos bens.Isto não significa que alguns conheçam a realidade e a maior parte seencontre “enganada” pela ideologia. Esta permeia toda a sociedade, o quepermite que a classe privilegiada considere natural sua dominação.Complementando com um exemplo desse processo de assimilação dosvalores da classe dominante por parte da classe dominada, mantendo-a na ideologiavigente, é o da propaganda veiculada nos meios de comunicação, que, pela maneiracom que constrói imagens públicas, pode ser considerada como técnica dedominação ideológica. Embutida nos conteúdos está a mensagem de que o que ébom para um o é para todos.2.2.3 Ideologia e comunicaçãoPara demonstrar a relação existente entre ideologia e comunicação, convémfazer algumas considerações ainda a respeito da ideologia, dos conceitos de sujeitoe interpelação e da materialidade da ideologia no plano do discurso.Para Althusser, a ideologia não existe no plano das idéias, ou no espiritual,nem está distante dos indivíduos, ou seja, tomando emprestadas as palavras dePascal (apud ALTHUSSER, 1998, p. 91), “ajoelhai-vos, orai e acreditareis”, conclui-se que, com um exemplo de natureza religiosa, Deus não foi criado para que oshomens lhe prestassem devoção e o temessem, pelo contrário, foram os atos dedevoção e práticas rituais que levaram à crença em Deus. O que significa estaafirmação? Significa que a ideologia não existe numa realidade transcendente, mas
  37. 37. 36está não só presente, como também se configura como “atos inscritos em práticas”(ALTHUSSER, 1998, p. 91).Não é o mundo real ou as condições reais da existência que se encontramrepresentadas na ideologia. Não se pode entender por ideologia o simplesocultamento da realidade. O que os AIE fazem por meio de suas práticas e rituais élegitimar as condições reais de existência, fazendo com que pareçam naturais etranscendentes. É por isso que Althusser (1998, p. 87), afirma que a ideologiarepresenta as relações dos homens com as condições reais de existência. À medidaque os homens nascem, crescem e tomam consciência da sua existência, sãocontinuamente inseridos pelos AIE, em atos e rituais que materializam a sua relaçãocom o mundo real.A consciência dos homens dentro de uma formação social capitalista surgenão da imposição violenta por parte dos aparelhos repressivos de Estado (ARE),mas das práticas e rituais ideológicos que existem sempre em um AIE(ALTHUSSER, 1998, p. 89), o que faz com que a ideologia tenha uma existênciamaterial e não simplesmente ideal. Essa materialidade pode ser vista também naprodução cultural das sociedades capitalistas. Tal produção torna-se “mercadoria”,comprada livremente, não por imposição. Mas o que está disponível para venda é oque os “donos” da produção cultural reproduzem, isto é, a sua própria marca. Aocomprar, o indivíduo tem a sensação de ter “escolhido”.Todo indivíduo age conforme suas crenças e idéias e isso, o indivíduo fazcom a convicção de ser um ato de sua livre escolha ou, como dito por Althusser(1998, p. 90), “todo ‘sujeito’ dotado de uma ‘consciência’ e crendo nas ‘idéias’ quesua consciência lhe inspira, aceitando-as livremente deve ‘agir segundo suas idéias’,
  38. 38. 37imprimindo nos atos de sua prática material as suas próprias idéias enquantoindivíduo livre”.Outro aspecto importante do pensamento althusseriano é o de que “aideologia tem por função ‘constituir’ indivíduos concretos em sujeitos” (ALTHUSSER,1998, p. 93), por meio do que ele chama de interpelação. Dentro de uma formaçãosocial os indivíduos deixam de ser indivíduos e no seu lugar surge o sujeito.Exemplificando: tome-se um AIE como um órgão de informação, maisespecificamente a revista Veja, que possui uma identidade que é a de serinformativa, e como já é amplamente difundido por qualquer órgão de informação,tem a missão de apresentar a notícia como ela é, isenta de qualquer posição deparcialidade. Ao colocar na capa de uma de suas edições a notícia da privatizaçãode uma estatal, como a Copel, a revista está interpelando os indivíduos que passampela revistaria e na qual ela se encontra exposta. Dizendo de outro modo: — Eu,revista Veja, sujeito portador de uma informação que diz respeito a sua vidaindividual (a privatização pode aumentar ou diminuir a sua conta de luz), estou lhedizendo que a privatização desta estatal pode ser ruim, ou boa para você (não fazdiferença a conseqüência). O fato é que ao comprar e ler a revista, o leitor, muitopossivelmente passará a pensar e a agir em relação à privatização da Copel, a partirda assimilação de determinados conteúdos da reportagem, da mesma forma quemuitos outros leitores que também tiveram acesso à revista.O mesmo ocorre com a publicidade. De acordo com Lazzarotto e Rossi (1993,p. 30), “O produto a ser anunciado aparece interligado com os aspectos cotidianosdo mundo do comprador (sujeito), levando-o a interagir de forma automatizada naaquisição ou compra do tal produto”. Muitos nem percebem que estão sendomanipulados, pois a linguagem utilizada é a do cotidiano.
  39. 39. 38O mais curioso é que as pessoas sempre crêem estar pensando e agindopor conta de sua restrita individualidade quando, muitas vezes estão simplesmentereproduzindo as relações de produção da forma que interessa a classe dominante,que também, diga-se, tem sua ação permeada pela forma como atualmente sereproduzem as condições e relações de produção, agora sob a couraça neoliberal.Inconscientemente, esse indivíduo está legitimando uma ideologia que já vemformada pela sociedade e que lhe é repassada por uma revista de grande circulaçãoe credibilidade.Essas colocações se fazem necessárias para compreender o que Althusserquer dizer quando afirma que a ideologia tem uma existência material em atosinscritos em práticas, como antes citado, uma vez que atos inscritos em práticas,para existirem, precisam do sujeito concreto, caracterizando assim a materialidadeda ideologia.A existência humana é, portanto, ideológica, e sendo também material tudoque está ligado às ações humanas é material e em sendo a linguagem um doselementos que, juntamente com a capacidade de transformar o mundo, faz daespécie homo sapiens a espécie humana, a linguagem, o discurso, enquantopráticas humanas são materiais e ideológicas, pois não fazem outra coisa senãoreproduzir as condições materiais de existência. Esse é um dos motivos que leva oindivíduo a identificar-se com o conteúdo de matérias de revistas como a Veja, oudos programas de TV, que reproduzem fatos do seu cotidiano.Para Bolaño (2000, p. 69), ao longo do século XX, os meios decomunicação serviram para expandir a lógica capitalista a todas as esferas dasociabilidade humana, “a ponto de constituir-se em âmbito planetário”.
  40. 40. 393 CONTEXTO POLÍTICO-ECONÔMICO DAS ELEIÇÕES DE 1989: ACRISE DO ESTADO-PROVIDÊNCIA E ASCENSÃO DONEOLIBERALISMO3.1 A GLOBALIZAÇÃOA globalização econômica mundial é uma realidade. Os recursos, sejamhumanos, materiais ou de capital, estão sendo direcionados para os mais diversospontos do planeta, a fim de conquistar a sua melhor remuneração e perpetuarganhos e posições. A abertura econômica e o estímulo à competitividade dasempresas têm sido os objetivos do grande capital internacional, nacional e dosgovernantes, de maneira especial os dos países do hemisfério norte, no intuito deadequar os países a essa nova ordem mundial, estimulando as empresas aalcançarem melhores níveis de qualidade e produtividade.A globalização é o processo pelo qual se expande o mercado e as fronteirasnacionais. Trata-se da continuação do processo de internacionalização do capital,iniciado com a extensão do comércio de mercadorias e serviços, passando pelaexpansão dos empréstimos e financiamentos, generalizando o deslocamento docapital industrial por meio do desenvolvimento das empresas transnacionais.Outra face desse processo aponta para a tendência da uniformização deagendas explícitas de governo, envolvendo uma mesma desregulamentação nosdistintos âmbitos das atividades econômicas. Essa tendência está relacionada com anecessidade de harmonização das políticas que afetam o desempenho econômico,cuja unidade de análise relevante vai deixando de ser o Estado Nacional e passandoa ser constituída por todos os países.
  41. 41. 40Esse processo surgiu como uma forma de revitalizar o capitalismo,enfraquecido pelas políticas que permearam o Ocidente desde o final da SegundaGuerra Mundial, que tornaram o Estado o grande produtor de bens públicos eregulamentador do mercado. A ineficiência apresentada pelo Estado em fazer valersuas políticas protecionistas e gerar bens públicos fez com que houvesse um novoreordenamento da estrutura de poder mundial, culminando com o processo deglobalização da economia e no neoliberalismo como modelo de Estado.3.2 O ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIALO Estado intervencionista, chamado de Estado de Bem-Estar Social,Estado-providência ou Welfare State, surgiu como uma forma de reverter o processoimposto pelo liberalismo e como um prolongamento natural dos direitos civis.Adotado no Brasil, teve entre as suas funções a redistribuição da renda, aregulamentação das relações sociais e a responsabilidade por determinadosserviços coletivos, todos providos pela rede social criada por esse tipo de Estado.Essas funções estão assentadas no direito de segurança e tranqüilidade que todosos indivíduos têm, inclusive aqueles que não têm propriedade (em contraposição aomodelo liberal que procurava proteger as propriedades). Trata-se de mecanismos deproteção social para garantir a cidadania dos indivíduos, e que são realizados pormeio da intervenção do Estado, restringindo os privilégios empresarias e, por isso,contando com grande apoio popular. (ROSANVALLON, 1997).O Estado de Bem-Estar Social veio tentar substituir as regras impostas pelomercado que dominavam a sociedade, compensando suas fraquezas e riscos,fortalecendo os movimentos de trabalhadores, assegurando os direitos sociais e
  42. 42. 41estendendo seus benefícios sociais a todas as áreas de distribuição vital para obem-estar societário. (TOLEDO, 1995, p. 75 ).Toledo (1995, p. 75), resume a extensão do Estado de Bem-EstarSocial da seguinte maneira:1) a redefinição das relações clássicas entre sociedade civil e política, apolitização das relações civis por meio da intervenção do Estado naeconomia e das corporações na política econômica, e um processo de‘civilização’ das relações políticas (pela importância da planificação nasdecisões políticas);2) a legalização da classe operária e de suas organizações,institucionalizando uma parte do conflito interclasses. A sociedade deixa deser pensada como somatório de indivíduos e implicitamente reconhece-seconformada por classes sociais; as organizações, representantes deinteresses setoriais (não simplesmente de cidadãos), além de seremlegitimadas, podem participar de pactos e relações que transcendem ademocracia parlamentar. Os pactos corporativos assumem um papelcentral nas grandes decisões das políticas do Estado. Finalmente, assume-se que o conflito interclasses, em vez de ser abolido em nome de supostashomogeneidades liberais de natureza humana, deve ser canalizado atravésde instituições e regulado com normas especiais a serem constituídas; 3)em síntese, o Estado social é, em parte, investidor econômico, em parteregulador da economia e dos conflitos, mas também Estado benfeitor queprocura conciliar crescimento econômico com legitimidade da ordem social.Para Paulo Netto (1995, p. 68), esse foi o “... único ordenamento sócio-político que, na ordem do capital, visou expressamente compatibilizar a dinâmica daacumulação e da valorização capitalista com a garantia de direitos políticos e sociaismínimos”.Para a formulação de suas políticas, o Estado de Bem-Estar Social tevecomo base, o direito de recursos sociais, saúde e educação dos trabalhadores,aumentando as capacidades políticas e reduzindo as divisões sociais. Constitui-seainda de programas direcionados em contraposição aos programas universalistas doantigo modelo liberal, tendo como objetivo a garantia do direito de cidadania detodos os indivíduos. É a desmercadorização do indivíduo, enquanto trabalhador.Quer dizer, os direitos do indivíduo deixam de estar dependentes unicamente do
  43. 43. 42desempenho do seu trabalho para fixar-se nas suas necessidades ( ESPING-ANDERSEN, 1991).Segundo Esping-Andersen (1991, p. 93), esse tipo de Estado é maisfacilmente incorporado por economias pequenas e abertas, vulneráveis aosmercados internacionais porque, “... há uma tendência maior a administrar osconflitos de distribuição entre as classes por meio do governo e do acordo deinteresses quando tanto as empresas quanto os trabalhadores estão à mercê deforças que estão fora do controle doméstico”. E aí reside a principal explicação paraa sua instalação no Brasil e em outros países sul-americanos.Além disso, os processos prolíficos sul-americanos incluíram ditadurasmilitares (como o Brasil e o Chile) ou outras formas de Estado autoritário,dificultando os processos democráticos e restringindo a ação de partidos, sindicatose organizações que poderiam fazer reivindicações para um maior alcance daspolíticas sociais, e dessa maneira, não conseguiram salvaguardar a liberdadedessas organizações.Um outro fator de diferenciação seria a distinção da estrutura de classesentre os países sul-americanos e os europeus e o norte-americano. Na América doSul existe uma maior diferença entre as classes, empobrecimento e desemprego daspopulações urbanas. Tudo isso determinou muito maior carência de apoio daspolíticas sociais que os países antes assinalados, elevando o poder do Estado.Assim, naqueles países, os programas de assistência médica, aposentadoria, auxílioà perda da renda por acidente, doença ou maternidade e até mesmo os dehabitação, subvenções familiares e lazer, são divididos com o setor privado,enquanto na América Latina ficou tudo por conta do Estado.Esse modelo teve como pressuposto a teoria de Keynes, para quem “o
  44. 44. 43futuro tem que ser assegurado como pacto e como planejamento” (TOLEDO, 1995,p. 76). Para Rosanvallon (1997, p. 38), o princípio de Keynes, que norteia o Estadode Bem-Estar Social é o “... da correspondência global entre os imperativos docrescimento econômico e as exigências de uma maior eqüidade social no âmbito deum Estado econômica e socialmente ativo”.O capitalismo imperante na Europa e Estados Unidos, durante a década de30, não estava conseguindo alcançar o pleno emprego, necessitando da intervençãoestatal para prover recursos suficientes à sobrevivência do capital. O clima era deinsegurança e instabilidade.Segundo Keynes, as exigências salariais dos trabalhadores deveriam seratendidas como forma de contribuir para o pleno emprego, pois salários baixosacarretavam insuficiência de poder aquisitivo, o que poderia conduzir à contração dademanda e, conseqüentemente, à baixa de preços, superprodução e desemprego.Ainda segundo Keynes, o que ocorria na época era a queda da demanda econseqüentemente sobra de produto.A solução para o desemprego só poderia ser obtida por intervenção estatal,desencorajando o entesouramento, em proveito das despesas produtivas. Para isso,o Estado deve reduzir a taxa de lucro; incrementar os investimentos públicos;estimular o consumo por meio da redistribuição da renda em benefício das classesmenos favorecidas, e encorajar a exportação. Essa política, diretamente oposta àsteses deflacionistas, permitiria a intervenção do Estado sem atingir a autonomia daempresa privada.O crescimento econômico deveria ser incrementado a partir do esforçoprodutivo das economias nacionais, contido na demanda de bens de investimento.(NOVELLO, 1995, p.57).
  45. 45. 44O estímulo ao consumo está assentado no equilíbrio entre investimento epoupança, conseguidos pela maior percentagem da renda que lhe é destinada. Aexportação, “... tem efeito multiplicador ao exterior, na mesma proporção em quetornam possível a produção” (NOVELLO, 1995 p. 57). Os investimentos públicosreferem-se àquelas sobras do consumo e que podem garantir alguma rentabilidade.A política fiscal e a determinação da redução da taxa de juros regulam onível adequado ao pleno emprego da propensão para consumir. Para Keynes, aintervenção do Estado na economia não é contraditório ao crescimento do mercado.Ao contrário, segundo Rosanvallon (1997, p. 40), “Progresso social e eficáciaeconômica caminharão logicamente juntos.”Para Keynes, o social ― isto é, a organização das relações sociais ― éimediatamente compreendido como estruturante interno da dinâmicaeconômica. Sua teoria integra, no próprio movimento de sua formação, asrelações do capital e do trabalho, para falar em outros termos. Novaconcepção das condições do crescimento e reorganização das relações declasses são indissociáveis...” (ROSANVALLON1997, p.40).Assim, o objetivo de sua teoria aponta para a intervenção econômica doEstado a fim de que haja a redistribuição social e a regulamentação das relaçõessociais.3.3 A CRISE DO MODELO DE ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIALO modelo originado da teoria de Keynes, o Estado do Bem-Estar Social,entrou em crise a partir dos anos de 1970, sendo questionado porque, enquantomodelo econômico, fez aumentar o déficit público, propiciou o crescimento deempresas improdutivas, desestimulou o trabalho e a competitividade, reduziu acapacidade de poupança e o excedente de capital para ser reinvestido na produção,
  46. 46. 45além de gerar uma enorme inflação.Isso não aconteceu só no Brasil ou nos países sul-americanos, mas emtodos os países que o adotaram como modelo de Estado. A crise do Estado de Bem-Estar Social veio junto com a crise do socialismo, culminando assim, numa criseglobal. (PAULO NETTO, 1995). Entretanto, suas conseqüências foram diferentes. Aprimeira, aponta para a falência do Estado enquanto ordenador político; a segunda,para a inépcia do capital, em promover o crescimento econômico-social em escalaampla e de garantir a geração de emprego.3.4 A SOLUÇÃO NEOLIBERALA crise do Estado de Bem-Estar Social, “evidencia que a dinâmica críticadesta ordem alçou-se a um nível no interior do qual a sua reprodução tende arequisitar, progressivamente, a eliminação das garantias sociais e dos controlesmínimos a que o capital foi obrigado naquele arranjo”. (PAULO NETTO, 1995, p. 70).Quer dizer, o capital não conseguiu compatibilizar o seu desenvolvimento com asnecessidades das aglomerações humanas. Ao contrário, trouxe ônus à condiçãohumana de existência, qual seja, a crescente diferença entre o mundo rico e omundo pobre, a ascensão do racismo e da xenofobia, além da crise ecológica.A crise nesse modelo de Estado assenta-se principalmente no fato de que aprodução diminuiu e as despesas sociais aumentaram. (ROSANVALLON, 1997).Com a produção em queda há a diminuição do PIB. A conseqüência natural foi oaumento das despesas sociais, que não tendo onde se amparar, reduziu acapacidade do Estado pondo em perigo o modelo. O propalado equilíbrio defendidopor Keynes deixa de existir, mostrando a ineficácia do Estado em atuar como
  47. 47. 46interventor da economia.Por não ter conseguido atender a todas as necessidades, esse modelo deEstado foi classificado como restrito e incompleto, pois seus programas limitam-seem critérios de seletividade, o que o tornou injusto. Isso porque esses programasnão atingiram o universalismo pretendido e, portanto, não houve igualdade nadistribuição de benefícios. (LAURELL, 1995, p. 160 ).Para Esping-Andersen (1991, p. 104), o Estado de Bem-Estar Social reforçou aestratificação social e negligenciou o relacionamento entre cidadania e classe social,por meio do seu próprio planejamento. São suas as seguintes palavras:A tradição de ajuda aos pobres e a assistência social a pessoascomprovadamente necessitadas, derivação contemporânea da primeira, foivisivelmente planejada com o propósito de estratificação. Ao punir eestigmatizar seus beneficiários, promove dualismos sociais e por isso éum alvo importante de ataques por parte de movimentos de trabalhadores.Isso porque não unifica, ao contrário, muitas vezes promove guetos,frustrando os objetivos da classe trabalhadora em mobilizar-se.Para os neoliberalistas, o Estado de Bem-Estar Social asfixia as energiassociais porque impede que a iniciativa privada participe do desenvolvimento social,deformando os mercados e gerando a inflação (NOVELLO, 1995, p. 53). Alémdisso, teve um baixo impacto redistributivo entre o capital e o trabalho. Esse efeitoesteve presente apenas entre setores da classe trabalhadora, como por exemplo,entre os metalúrgicos, e isso porque eles reivindicaram. (NAVARRO, 1995, p. 116).Segundo os neoliberalistas, o Estado de Bem-Estar Social causou,principalmente na América Latina, um retrocesso social dramático, comempobrecimento da população trabalhadora e incorporação de novos grupos sociaisà condição de pobreza e até mesmo de extrema pobreza. Nesse sentido,(LAURELL, 1995, p. 151), a expansão dos benefício sociais não é resultado simples
  48. 48. 47do crescimento econômico-industrial nem da ampliação dos direitos dos cidadãoscausado pela modernização da sociedade. O nível relativo dos gastos sociais,geralmente, está relacionado com o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) de umpaís e não significa que o conteúdo, orientação e efeitos da política social sejamuniformes. Além disso, o simples fato de pertencer a uma dada sociedade, nãogarante ao cidadão o acesso aos bens sociais nem ao Estado a obrigação degaranti-los. Ainda um outro motivo para a falência do Estado de Bem-Estar Social éa produção-administração privada, que é sempre maior que a pública, seja emeducação, saúde ou pensão, precarizando o público.Para os neoliberais, o Estado de Bem-Estar Social enfraqueceu os alicercesda família, reduziu o incentivo para o trabalho, a poupança e a inovação, fez diminuira acumulação do capital e limitou a liberdade humana. Isso ocorreu porque, namedida em que o Estado não conseguiu fornecer estrutura suficiente para diminuir apobreza, a iniciativa privada foi obrigada a voltar-se para o social. (PAULO NETTO,1995). Como conseqüência, investiu menos em seu próprio capital, deixando deinovar, investir em tecnologia e aumentar e fazendo diminuir postos de trabalho.E ainda, o intervencionismo do Estado é antieconômico eantiprodutivo, porque desestimula o capital a investir e os trabalhadores atrabalhar. É portanto, ineficaz e ineficiente.Ineficaz porque tende ao monopólio econômico estatal e à tutela dosinteresses particulares de grupos de produtores organizados, em vez deresponder às demandas dos consumidores espalhados no mercado; eineficiente por não conseguir eliminar a pobreza e, inclusive, piorá-la com aderrocada das formas tradicionais de proteção social, baseadas na família ena comunidade. E, para completar, imobilizou os pobres, tornando-osdependentes do paternalismo estatal. Em resumo, uma violação à liberdadeeconômica, moral e política, que só o capitalismo liberal pode garantir.( PAULO NETTO, 1995, p. 162).Os neoliberais postulam a necessidade de eliminar a intervenção do Estado
  49. 49. 48na economia, desde o planejamento e condução até a função de agente econômico,devendo pois se caracterizar como mínimo, quer dizer, só deve produzir um mínimoem bens e serviços, que a iniciativa privada não consiga, para aliviar a pobreza. Osdireitos sociais e a obrigação da sociedade de garanti-los por meio da ação estatalnão existem, assim como não deve existir a universalidade, a igualdade ou agratuidade dos serviços sociais. Por isso, deve haver cortes nos gastos sociais eeliminação de programas de benefícios, reduzindo-os à indigência.Diante da ineficácia do Estado do Bem-Estar Social, surge um novo tipo deEstado, o Estado Neoliberal, cujas políticas apontam para um “... Estado mínimo,normativo e administrador, que não interfira no funcionamento do mercado, já quesua intervenção, além de deformar os mercados de fatores, produtos e ativos,geraria espirais inflacionários...” (NOVELLO, 1995, p. 68). Quer dizer, o mercadodeve ser muito maior do que o Estado.Para isso, os países que adotaram o modelo neoliberal de Estado traçarampolíticas econômicas que têm como base:1) a superioridade do livre mercado (vitória da eficiência);2) o individualismo metodológico (cada empreendimento usa métodopróprio);3) contradição entre liberdade e igualdade (é a desigualdade que impele ainiciativa pessoal e a competição); desregulamentações estatais eprivatizações, o que dá outro nível de liberdade (TOLEDO, 1995, p. 80).O sentido de liberdade entendido pelos neoliberais é o resultado dasdiferentes escolhas que os indivíduos fazem. A política neoliberal é a fusão doconservadorismo com o autoritarismo, porque, ao mesmo tempo em que combinavalores tradicionais de família, autoridade e respeito às hierarquias, explora certas
  50. 50. 49contradições entre aspirações populares e funcionamento do Estado, gerando umpopulismo neoliberal (ROSANVALLON, 1997).O neoliberalismo postula que o mercado “... é o melhor mecanismo dosrecursos econômicos e da satisfação das necessidades dos indivíduos.” (LAURELL,1995, p. 161). Sobre o bem-estar social, os neoliberais defendem que esse é umcampo que pertence ao âmbito privado e deve ser solucionado pela família,comunidade e serviços privados, com o Estado intervindo apenas com um mínimodirigido à população comprovada de extrema pobreza.Pode-se resumir a política neoliberal como sendo “[...] uma argumentaçãoteórica que restaura o mercado como instância mediadora societal elementar einsuperável e uma proposição política que repõe o Estado mínimo como únicaalternativa e forma para a democracia” (PAULO NETTO, 1995, p. 77). Sendo assim,a economia não pode ser planejada. A livre iniciativa garante um crescimentoeconômico capaz de promover, por si só, o bem estar social. “A liberdade econômicasó possível sobre o mercado livre (isto é, sem mecanismos extra-econômicos deregulação), que funda a liberdade civil e política” (PAULO NETTO, 1995, p. 77).Nessa concepção, é o mercado que determina o espaço legítimo do Estadoe só concebe sua intervenção em face de extremos. Em suma, é o Estado máximopara o capital e mínimo para a população.3.5 O BRASIL NA CONJUNTURA DOS ANOS 80O contexto histórico-político de meados da década de 80 até seu final émarcado, no mundo, pela crise do modelo socialista iniciada em 1985 com aascensão de Gorbatchev ao governo russo. Os momentos mais marcantes são a
  51. 51. 50queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da URSS em 1991, bem como aascensão do modelo neoliberal capitaneada pelos EUA e Inglaterra.Na América Latina, nos anos oitenta se vivenciou o fim das ditadurasmilitares e conseqüente abertura democrática. No Brasil, especificamente, após vinteanos de autoritarismo de direita, os brasileiros se encontravam às vésperas daprimeira eleição direta para a presidência da República depois do golpe militar de1964. Com a abertura democrática e a reforma eleitoral em dezembro de 1979passou a existir de fato uma linha bem demarcada entre a situação conservadora euma oposição à esquerda. A partir de 1985 esta demarcação política ficou maisnítida com a legalização de organizações políticas que até então, apesar da reformaeleitoral de 79, permaneciam na clandestinidade como o PCB e o PC do B. Numavisão maniqueísta, para os dias de hoje, na época nem tanto, em razão dasnovidades trazidas pelas transformações políticas, de um lado havia, portanto, adireita representada pelos herdeiros da antiga Arena como o PFL, PDS e PL, e deoutro a esquerda por PT, PDT, PCB e PC do B, e de centro e centro-esquerdaPSDB, e PMDB. Após o longo período de autoritarismo militar, muitas eram asanálises que apontavam que aquela eleição teria um final matizado com as cores daesquerda. Corroborava com tal tese o fato de as candidaturas mais tradicionaiscomo as de Ulisses Guimarães, Aureliano Chaves e Paulo Maluf estarem muito atrásnas pesquisas de intenção de voto. Essas candidaturas, se não estavam afinadascom as idéias mais conservadoras, ao menos não representavam grandesmudanças estruturais no cenário político- econômico brasileiro.Diante dessas perspectivas eleitorais, restou àqueles que não simpatizavamcom a esquerda se alinharem e unirem suas forças em torno da candidatura Collorno intuito de afastar o espectro do socialismo e do populismo representados pelas
  52. 52. 51candidaturas Lula e Brizola respectivamente. Em outras palavras, a possibilidade daascensão de um destes candidatos representava uma ameaça à direita política, aogrande capital nacional e transnacional, não pela possibilidade de uma revoluçãoproletária, mas pela provável manutenção do modelo de Estado de Bem-Estar sociale pelo atraso que isso representaria na implantação das reformas neoliberais noBrasil.
  53. 53. 524 A OPÇÃO PELA SEMIÓTICA GREIMASIANAEm páginas anteriores se discutiu “ideologia” na perspectiva marxista,“Aparelhos Ideológicos de Estado” em Althusser, e a crise do Estado de Bem-EstarSocial. Sendo a revista Veja objeto de estudo desta dissertação, é fácil concluir quea premissa da qual se está partindo, é a de que a revista, veículo de jornalismopolítico-econômico, atuou como AIE. A intenção é determinar como Veja, enquantotexto sincrético diz, como o diz e para que o faz (BARROS, 2000, p. 83).Veja não só retratou o Brasil nesse período como também é um retrato docontexto político e econômico. Enquanto veículo de comunicação, a revista fez partedesses acontecimentos e o seu papel é algo que pode ser revelado pela construçãoe desconstrução do texto Veja para chegar aos sentidos. Para tanto é necessárionão só o exame interno dos exemplares selecionados, mas colocá-los dentro docontexto das formações ideológicas da crise do Estado e da ascensão do modeloneoliberal.Para desvelar o sentido ou os sentidos dos discursos da revista Veja énecessário um instrumento de análise que permita o diálogo interdisciplinar, afinalestão envolvidos no processo elementos de economia, política, ideologia e coberturajornalística. Entre esses elementos, como se demonstrará, existe uma relaçãonecessária, daí a opção por um estudo semiótico dos oito exemplares de Vejaselecionados. Para a semiótica, em particular a de Greimas, a parte só é importantena sua relação com o todo. Isoladamente cada edição selecionada tem pouco amostrar e para semioticistas como Diana Luz Pessoa de Barros e José Luiz Fiorin, acontextualização do texto dentro da realidade objetiva, é um procedimentonecessário para a sua construção e desconstrução.
  54. 54. 53Não se deve esperar desse capítulo qualquer discussão mais profunda arespeito das tendências da semiótica discursiva. O que se pretende não é detalhartoda a complexidade da teoria semiótica greimasiana, mas tão somente esclareceralgumas categorias que foram utilizadas na análise das capas e reportagensescolhidas, por isso os conceitos teóricos utilizados e relacionados à semiótica estãodefinidos em glossário.O propósito deste capítulo é explicar alguns conceitos e procedimentosteóricos utilizados para a análise das capas e reportagens da revista Veja.4.1 TEXTO SINCRÉTICONa capa e nas páginas de Veja, é comum a presença de textos sincréticos.Textos sincréticos são aqueles que fazem uso de linguagens verbal e não-verbal. Nocaso da revista Veja, por ser um veículo impresso, essa reunião de linguagens, ousincretismo textual, se manifesta, nas capas, por exemplo, na cor de fundo dasletras, no tipo de letra, na disposição espacial dos elementos que a compõem, o queestá embaixo, em cima, ao lado do elemento principal, na expressão do fotografado,quando o caso, e nas manchetes entre outros. Nas reportagens acontece o mesmo,talvez não com tanta riqueza de recursos e estratégias, mas também essesincretismo está presente no texto em si mesmo, na colocação de um box, umapalavra em negrito, fotos, desenhos, gráficos etc.A reunião dessas várias linguagens acaba por produzir um texto único,dotado de um ou mais sentidos que só podem ser devidamente compreendidos narelação das várias partes componentes, o que significa dizer que a compreensão do
  55. 55. 54sentido ou dos sentidos produzidos por Veja passa necessariamente pela análise doplano do conteúdo e da expressão articulados.4.2 PLANO DO CONTEÚDO E PLANO DA EXPRESSÃOApesar de que, como já dito, serem oito as edições a serem analisadas, opressuposto do qual se parte é o de que todas constituem um único texto em meio avários discursos. Por texto deve-se entender a união do plano do conteúdo com oplano da expressão e por discurso as falas ideológicas e socialmente localizadas eque estão presentes principalmente no plano do conteúdo: Por exemplo: sendo arevista Veja uma empresa de capital privado, é natural que se posicione contraqualquer proposta política de intervenção estatal nos meios produtivos. Se fosse umjornal operário é possível que adotasse um discurso diferente. O texto já é a uniãoentre os dois planos, o do conteúdo e o da expressão. O que vem exatamente a serum e outro?4.2.1 Plano do conteúdoO plano do conteúdo é o lugar do inteligível e do passional, do discursosocialmente localizado. É principalmente nesse plano que ocorre o percurso gerativodo sentido que será mais bem explicado adiante. Segundo Nilton Hernandes (2001,p. 35) “uma das mais importantes conquistas teóricas da semiótica foi hierarquizar oplano do conteúdo e estabelecer mais níveis de abstração para analisá-lo: ofundamental, o narrativo e o discursivo”. É nesse plano que se localizam os
  56. 56. 55conceitos responsáveis não só pelo nascimento do texto, mas também peloenriquecimento dos sentidos presentes no mesmo sob a forma de um percursogerativo que segundo Barros (2003, p. 9), “vai do mais simples e abstrato ao maiscomplexo e concreto”.É no plano do conteúdo que o texto diz o que diz por meio das temáticasgeradas e dos investimentos figurativos que se manifestam nas oposiçõessemânticas, pela estrutura narrativa e estrutura discursiva em que os valoresnarrativos são assumidos por sujeitos e de responsabilidade de um sujeito daenunciação (BARROS, 2003). Para proceder a análise de um texto é possível fazê-lo a partir de qualquer um dos níveis. Nessa dissertação, as oposições semânticasestabelecidas pelo nível discursivo, serão o ponto de partida.Por exemplo, o slogan dos cigarros Free “Cada um na sua, mas comalguma coisa em comum”, presente em várias peças publicitárias como naseqüência de um comercial televisivo em que uma garota afirma que, se alguémtentar tirar sua liberdade ela irá morder, está presente a temática sócio-política, cujasoposições fundamentais são opressão e liberdade, esta última figurativizada portemas e pelo próprio ato de fumar aquela marca de cigarros. Liberdade para fazer oque se quer é um pressuposto valioso para a sociedade de consumo, onde oindividualismo e a capacidade de consumir é a justa medida da afirmação social.Seria muito estranha uma publicidade de cigarros que categoricamente e por livreiniciativa apontasse os malefícios do ato de fumar10.10O aviso de que fumar faz mal à saúde presente na publicidade de cigarros e nos maços e carteirasé uma imposição legal.

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