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ARTIGOS 37Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
A nova Administração Pública e o direito administrativo
Gabriela de Carvalho
Advogada da União. Consultora Jurídica da União em Minas Gerais. Mestrado em Direito Público pela FUMEC/MG. Pós-Graduação
em Direito Processual Civil pela UFU/MG. Pós-Graduação em Direito Público pelo Fortium – Centros de Estudos Jurídicos/DF. Pós-
Graduação em Auditoria Interna e Controle Governamental pelo Instituto Serzedello Corrêa/TCU/DF. Pós-Graduação em Advocacia
Pública pelo IDDE/MG. E-mail: <gabriela.carvalho@agu.gov.br>.
Resumo: O presente artigo tem por finalidade a análise do pro-
blema da admissibilidade da utilização de formas jurídico-privadas
por parte da Administração Pública: a questão da liberdade de
escolha das formas de organização jurídico-privadas e a questão
da liberdade de escolha das respectivas formas de atuação. A
ideia de liberdade de escolha implica no reconhecimento de uma
espécie de “arte administrativa” para escolher a forma jurídica
mais apropriada às situações concretas. Contra o princípio da
liberdade de escolha têm sido apresentados receios ligados à
ideia de Estado de Direito. Assim, tal liberdade é problemática,
com base em dois fundamentos: gera incerteza jurídica, porque
o cidadão não sabe quais as formas jurídicas de que a Adminis-
tração vai se servir no caso concreto; acaba por atribuir à Admi-
nistração a possibilidade de escolher quais as regras jurídicas
que regerão a sua atuação. O tema foi explorado a partir de prin-
cípios constitucionais na sucessão das abordagens jurídicas das
principais correntes de alguns doutrinadores administrativistas e
constitucionalistas. Os regimes jurídicos público e privado foram
analisados e interpretados segundo a questão das exigências da
modernidade e pós-modernidade.
Palavras-chave: Formas jurídico-privadas. Administração Pública.
Princípio de liberdade de escolha. Princípio da legalidade. Estado
Democrático de Direito.
Sumário: 1 Introdução – 2 Princípios da prossecução do inte­
resse público – 3 O princípio da legalidade – 4 O princípio da
liberdade de escolha das formas jurídico-privadas – 5 O princípio
da especialidade das pessoas coletivas públicas – 6 Autonomia
privada da Administração Pública? – 7 O princípio da eficiência
e o novo perfil da Administração Pública – 8 Publicização do
direito privado – 9 Vinculações jurídico-públicas da Administração
Pública na utilização do direito privado – 10 A execução
associada por contrato e a sinergia da parceria – Espécies de
contratos administrativos – Consensualidade – 11 Princípio da
participação e da subsidiariedade – 12 Conclusão – Referências
1 Introdução
Um tema recorrente, inserido nos movimentos
reformadores e modernizadores do Estado, é o em-
prego em larga escala de métodos e técnicas nego-
ciais ou contratualizadas no campo das atividades
perpetradas pelos órgãos/entidades públicas. Tais
atividades podem envolver unicamente a participa-
ção de órgãos e entidades públicas, como também
contemplar a sua interação com organizações de
finalidade lucrativa (setor privado) ou desprovidas
de finalidade lucrativa (Terceiro Setor).
Insta afirmar que vem ganhando prestígio mun-
dial a discussão acerca de uma cultura do diálogo,
em que o Estado há de conformar suas ações em
face das emanações da diversidade social.1
Alude-
se à figura de um Estado “que conduz sua ação
1
	 BELLOUBET-FRIER; TIMSIT. L’administration en chantiers, p. 303.
pública segundo outros princípios, favorecendo o
diálogo da sociedade consigo mesma”.2
Nesse cenário, aponta-se para o surgimento
de uma Administração Pública dialógica, que con-
trastaria com a Administração Pública monológica,
refratária à instituição e ao desenvolvimento de pro-
cessos comunicacionais com a sociedade.
Jean-Pierre Gaudin refere-se à expansão de
uma política de contratualização que ensejaria a con­
tratualização da ação pública. Esclarecendo que na
França contratualização e descentralização são fenô-
menos imbricados, afirma que nesse país a difusão
de métodos contratuais operou-se em um enfoque
de dupla renovação: a) formas de participação e
consulta pública, e b) formas de coordenação en-
tre instituições e atores sociais que participam da
ação pública. Daí a expressão “governar por contra-
to”, que evocaria a necessidade do Estado continua-
mente estabelecer vínculos com a sociedade, como
meio para a melhor consecução de suas ações.
Convém ressaltar que vínculos são criados me-
diante um prévio e necessário processo de negocia-
ção, em que são discutidas as bases sobre as quais
eventualmente serão firmados acordos e contratos.
O conteúdo desses ajustes será o objeto do enten-
dimento, do possível consenso entre as partes; será
o resultado das concessões e dos intercâmbios rea­
lizados no transcurso do processo de negociação
que antecedeu ao compromisso. Por isso, convém
ressaltar que as posturas assumidas pelo Estado
mediador são distintas das posições tradicional-
mente ostentadas pelo Estado impositor, cuja nota
característica encontra-se justamente no poder de
impor obrigações, exercido em razão do atributo da
autoridade, imanente ao poder político ou estatal.
A análise do fenômeno do consensualismo
que se pretende empreender neste trabalho obvia-
mente ultrapassa o emprego do contrato para a
obtenção de resultados meramente econômicos ou
patrimoniais.
O ponto em destaque diz respeito à extensão
e à intensidade com que técnicas consensuais
vêm sendo empregadas, como soluções preferen-
ciais — e não unicamente alternativas — à utiliza-
ção de métodos estatais que veiculem unilateral
2
	 Ibid., p. 314.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
Gabriela de Carvalho
38 ARTIGOS
e impositivamente comandos para os cidadãos,
empresas e organizações da sociedade civil. Por
isso, uma das linhas de transformação do direito ad-
ministrativo consiste em evidenciar que, no âmbito
estatal, em campos habitualmente ocupados pela
imperatividade, há a abertura de consideráveis espa-
ços para a consensualidade.
Aplicada ao terreno da Administração Pública,
essa orientação gerou expressões como adminis-
trar por contrato, administrar por acordos, admi-
nistração paritária, administração dialógica e, mais
recentemente, administração consensual. Cumpre
notar que tal diversidade terminológica acaba ten-
do efeitos positivos, principalmente porque evoca
o fato de que administrar por meio de métodos ou
instrumentos consensuais não significa, necessa-
riamente, lançar mão da figura clássica do contrato
administrativo.
O sentido das expressões elencadas sinaliza
um novo caminho, no qual a Administração Pública
passa a valorizar (e por vezes privilegiar) uma forma
de gestão cujas referências são o acordo, a negocia-
ção, a coordenação, a cooperação, a colaboração,
a conciliação, a transação. Isso em setores e ati-
vidades preferencial ou exclusivamente reservados
ao tradicional modo de administrar: a Administração
por via impositiva ou autoritária.
O direito administrativo foi originado nas ba-
ses do modelo liberal de Estado, vigente a partir do
séc. XIX, período em que a imperatividade (noção
que expressava a autoridade do Estado frente aos
indivíduos, decorrente da soberania) acabou por
conformar os institutos e categorias desse ramo
jurídico. Em virtude desse poder de império, forjou-se
a ação administrativa típica, a qual era manifestada
por meio de atos administrativos, cujos atributos
essenciais sujeitavam-se à noção de autoridade. O
binômio autoridade-liberdade — matizador do direi-
to administrativo desde sua origem — tem funda-
mento no surgimento da Administração Pública; é
o momento da Administração autoritária, com seus
traços característicos de a) desigualdade entre a
Administração e os indivíduos e b) atribuição aos
órgãos e entes administrativos de poderes de auto-
ridade sobre os indivíduos.
Nas palavras de Giorgio Berti, isso ocorreu,
sobretudo, com o fito de conferir proteção a um
poder político “que pretendia garantir-se por meio
de uma apropriada e especial juridicidade”.3
E se-
gundo o autor, a configuração do ato imperativo da
Administração Pública não beneficiava ambas as
partes segundo a lógica do consensualismo, mas
tinha por referência tão somente a entidade admi-
nistrativa. Tal configuração autoritária e unilateral
3
	 BERTI. Il principio contrattuale nell´attività amministrativa. In:
GIANNINI. Scritti in onore di Massimo Severo Giannini, v. 2, p. 49.
extrapolava o momento da gênese do ato, predo-
minando por toda a relação por ele instaurada,
inclusive tornando possível à Administração unila-
teralmente modificá-lo ou mesmo restringir os seus
efeitos.4
Entretanto, como bem salienta José Casalta
Nabais, a ideia de que o direito público, nas rela-
ções entre o indivíduo e o Estado, tem como campo
de aplicação os atos de autoridade (atos em que
o Estado manifesta o seu imperium e impõe a sua
autoridade ao administrado) está, desde há muito
tempo, ultrapassada.
Odete Medauar destaca a importância do con­-
sensualismo no âmbito da Administração con­tem-
porânea:
A atividade de consenso-negociação entre Poder
Público e particulares, mesmo informal, passa a as-
sumir papel importante no processo de identificação
de interesses públicos e privados, tutelados pela
Administração. Esta não mais detém exclusividade
no estabelecimento do interesse público; a discricio-
nariedade se reduz, atenua-se a prática de imposição
unilateral e autoritária de decisões. A Administração
volta-se para a coletividade, passando a conhecer
melhor os problemas e aspirações da sociedade.
A Administração passa a ter atividade de mediação
para dirimir e compor conflitos de interesses entre
várias partes ou entre estas e a Administração. Daí
decorre um novo modo de agir, não mais centrado so-
bre o ato como instrumento exclusivo de definição e
atendimento do interesse público, mas como ativida-
de aberta à colaboração dos indivíduos. Passa a ter
relevo o momento do consenso e da participação.5
Em monografia dedicada ao tema, Diogo de
Figueiredo Moreira Neto assevera que: pela consen-
sualidade, o Poder Público vai além de estimular a
prática de condutas privadas de interesse público,
passando a estimular a criação de soluções priva-
das de interesse público, concorrendo para enrique-
cer seus modos e formas de atendimento.6
Odete Medauar apresenta uma síntese dos
principais fatores que provocaram a abertura da
Administração Pública para as variações consen-
suais como forma de exercício de suas atividades:
Um conjunto de fatores propiciou esse modo de
atuar, dentre os quais: a afirmação pluralista, a he-
terogeneidade de interesses detectados numa socie-
dade complexa; a maior proximidade entre Estado
e sociedade, portanto, entre Administração e so-
ciedade. Aponta-se o desenvolvimento, ao lado dos
mecanismos democráticos clássicos, de “formas
mais autênticas de direção jurídica autônoma das
4
	NABAIS. Contratos fiscais, p. 24
5
	MEDAUAR. Direito administrativo moderno, p. 257.
6
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 236.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
A nova Administração Pública e o direito administrativo
ARTIGOS 39
condutas”, que abrangem, de um lado, a conduta
do Poder Público no sentido de debater e negociar
periodicamente com interessados as medidas ou re-
formas que pretende adotar, e de outro, o interesse
dos indivíduos, isolados ou em grupos, na tomada
de decisões da autoridade administrativa, seja sob a
forma de atuação em conselhos, comissões, grupos
de trabalho no interior dos órgãos públicos, seja sob
a forma de múltiplos acordos celebrados. Associa-se
o florescimento de módulos contratuais também à
crise da lei formal como ordenadora de interesses,
em virtude de que esta passa a enunciar os objetivos
da ação administrativa e os interesses protegidos.
E, ainda: ao processo de deregulation; à emersão
de interesses metaindividuais; à exigência de racio-
nalidade, modernização e simplificação da atividade
administrativa, assim como de maior eficiência e pro-
dutividade, alcançados de modo mais fácil quando
há consenso sobre o teor das decisões.7
Nesse enfoque, Jean Rivero alude a uma for-
ma de atividade administrativa “na qual o acordo
contratual ganha um lugar crescente”.8
Embora
reconhecendo que o recurso a módulos convencio-
nais por parte da Administração Pública pode levar
à “colusão e mesmo a situações em que é fácil que
interesses individuais ou de grupo se sobreponham
aos interesses da colectividade”,9
Enzo Roppo vis-
lumbra potencialidades positivas para o emprego do
consensualimo administrativo, porque a procura e a
promoção do “consenso” dos “administrados” sig-
nificam desenvolvimento da sua ativa e consciente
“participação”, na qual, por sua vez, se encontra
um pressuposto de democracia e, ao mesmo tempo
de eficiência do procedimento administrativo. Neste
sentido, o contrato, com os valores que exprime,
coloca-se, de certo modo, com símbolo e suporte de
um novo e mais avançado modelo de relação entre
autoridade e liberdade.10
Nesse contexto, insta ressaltar a opinião aba-
lizada de Sabino Cassese, quando elenca novos
paradigmas do Estado, os quais colocam em dis-
cussão todas as noções, temas e problemas clássi-
cos do direito público, da natureza do Poder Público
e de sua atuação legal-racional orientada pela supe-
rioridade da lei, do lugar reservado à lei e de suas
implicações (legalidade e tipicidade) para as rela-
ções público-privadas.11
Um desses novos paradigmas é o fortaleci-
mento da negociação na esfera da Administração
Pública, expressada por via de acordos.
7
	MEDAUAR. Direito administrativo moderno, p. 259.
8
	RIVERO. Direito administrativo.
9
	 Ibid., p. 346.
10
	 Ibid., p. 346-347.
11
	 CASSESE. La arena pública: nuevos paradigmas para el Estado.
In: CASSESE. La crisis del Estado, p. 159.
Para Cassese, “passam ao primeiro plano a
negociação em lugar do procedimento, a liberdade
das formas em lugar da tipicidade, a permuta em lu-
gar da ponderação”.12
O paradigma bipolar Estado-
cidadão daria lugar ao paradigma multipolar, e por
isso afirma o autor que interesses privados coinci-
dentes com interesses públicos comunitários estão
em conflito com outros interesses públicos, de natu-
reza nacional. Não há distinção ou oposição entre
público-privado, assim como não há uma superiori-
dade do momento público sobre o privado.
E inerente ao paradigma multipolar é a presença
de múltiplos agentes e interessados na discussão de
assuntos públicos, fato que eventualmente redunda
em acordos, exigindo para tanto “permutas recípro-
cas, fundadas sobre a negociação”.13
Configurada a administração consensual e apre­
sentados os seus fundamentos dogmáticos, a seguir
serão expostas algumas de suas formas de expres-
são e de seus instrumentos de ação.
2 Princípios da prossecução do interesse
público
No direito administrativo as leis são, muitas ve-
zes, meras molduras, que deixam à Administração
Pública competência suficiente para definir as condi-
ções de realização dos objetivos fixados, dando-lhe,
ainda, um amplo poder de apreciação das situações
concretas, sobretudo se estivermos diante de solu-
ções técnicas que devem suplantar a morosidade
do processo legislativo.
O Estado Democrático de Direito envolve a par-
ticipação crescente do povo no processo decisório
e na formação dos atos de governo, por meio da
pluralidade de ideias, culturas e etnias.14
A pluralidade desse novo direito pode ser expli-
cada por meio de dois mecanismos: a) pluralismo
e b) negociação. O pluralismo apregoa que não é o
Estado a única fonte produtora de normas, mas as
normas produzidas convivem com um conjunto de
ordens jurídicas infraestatais, fundadas em solida-
riedades parciais ou locais, e de ordens jurídicas
supraestatais, nascidas da emergência do surgi-
mento de comunidades locais (comunidades urbanas
periféricas) ou regionais (ordem jurídica europeia) ou
mundiais (ordem jurídica internacional).
Como em rede, o pluralismo ganha também
o direito estatal e a Administração Pública, através
do desenvolvimento de centros de autonomia norma-
tiva no âmbito do aparelho do Estado, como aqueles
que resultam da extensão do poder regulamentar
local e da instituição de autoridades administrativas
independentes.
12
	 Ibid., p. 157.
13
	 Ibid., p. 106.
14
	DIAS. Direito administrativo pós-moderno, p. 61 et seq.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
Gabriela de Carvalho
40 ARTIGOS
O caráter negocial do Direito advém do paradigma
procedimental do direito proposto pela Teoria discur-
siva do direito e da democracia de Habermas, segundo
o qual a força obrigatória da regra jurídica advém do
consenso em torno do qual ela foi elaborada, fruto de
uma permanente tensão entre as autonomias públicas
e privadas. Esse consenso supõe que os destinatários
façam parte do concerto de forças na formação da
regra jurídica, de forma que o direito deva se tornar um
direito negocial, ao invés de coativo.
Nesse sentido, o direito tende a tornar-se uma
espécie de técnica de confluência de condutas, pro-
duto de um diálogo permanente entre governantes
e governados.
A ideia de procedimentalidade na Teoria Dis­
cursiva do direito e da democracia de Habermas é o
elemento prévio e fundante da legitimidade do direito.
Nesse sentido:
O direito legítimo encerra o círculo entre a autono-
mia de seus destinatários tratados igualitariamente
e a autonomia pública dos cidadãos que, enquanto
autores igualmente portadores de titularidade da
ordem jurídica, devem decidir, em última instancia,
sobre os critérios de igualdade de tratamento.
O outro pilar do direito pós-moderno, a flexi-
bilidade do direito, é dada por dois caracteres:
a) agilidade e b) adaptabilidade.15
A agilidade do direito pós-moderno seria sua
capacidade de se adaptar à evolução do real, so-
bretudo se considerarmos a pluralidade de fontes
de normatividade. Um exemplo evidente dessa nova
necessidade dos ordenamentos jurídicos é o cons-
tante apoio que o direito toma de outras normas de
conduta, como as normas técnicas, que são nor-
mas consensuais, e não obrigatórias, e sua aplicabi-
lidade depende dos interessados em seu conteúdo,
e ainda das relações entre o direito e a ética. Nesse
sentido, o direito passa a ser um instrumento de
guia a serviço de políticas que o ultrapassam e a
problemática da regulamentação recai, assim, sobre
uma visão instrumental do direito, passando para
segundo plano a ideia de imposição/obrigatorieda-
de que estava no cerne da concepção moderna.
A adaptabilidade, por sua vez, é a caracterís-
tica do direito de se adequar às novas situações
que vão surgindo, de maneira a se tornar um direito
transitório.
À medida que a esfera pública se amplia, a
necessidade de legitimação do direito também se
altera, ou seja, “quanto mais o direito é arrolado
como um meio de direção política e de planejamen-
to social, maior é o ônus de legitimação que recai
sobre a gênese democrática do direto”.
15
	DIAS. Direito administrativo pós-moderno, p. 62.
A Administração Pública se diferencia da atividade
privada pelo dever de prosseguir sempre o interesse
público. O interesse público é indissociável de toda
e qualquer atividade administrativa. Nesse sentido,
Marzuoli16
considera ser pacífico que o interesse pú-
blico diga respeito à atividade de direito privado da
Administração Pública.
As expressões gestão privada e gestão pública
significam que, no primeiro caso, a Administração
atua segundo as normas de direito privado; no se-
gundo, conforme as normas de direito público.
Freitas do Amaral17
afirma que este princípio
da prossecução do interesse público tem inúmeras
consequências práticas na Administração Pública e
enumera oito de seus corolários:
1º -	 Somente a lei pode definir os interes-
ses públicos a cargo da Administração
Pública, não podendo a Administração
Pública defini-los por si própria em razão
dos princípios da separação dos poderes
e da legalidade.
2º -	 Quando a lei não define por completo,
cabe à Administração Pública interpretar
os princípios e desenvolvê-los dentro dos
limites impostos pela lei.
3º -	 Em casos de determinação imprecisa do
interesse público, a Administração Pú­
blica recebe um poder discricionário para
determinar a conduta a ser adotada.
4º -	 Obrigatoriedade da prossecução do inte­
resse público. “O verdadeiro dever de
agir” (Rogério Soares).
5º -	 Princípio da especialidade das pessoas
coletivas públicas é o interesse público
que delimita a capacidade e competência
das pessoas coletivas públicas.
6º -	 Só o interesse público pode constituir o
“motivo principalmente determinante” da
atuação da Administração Pública, caso
contrário seria “desvio de poder”.
7º -	 Se houver prossecução de verdadeiros
interesses privados em vez de interesses
públicos então consistiria numa situação
mais grave, corrupção.
8º -	 Adotar sempre as melhores soluções pos­
síveis. “Dever de boa administração”.
A Administração Pública existe sempre para
prosseguir o interesse público e que a ideia de esse
interesse público é o seu norte, o seu guia, o seu
fim, não podendo deixar de aplicar-se em relação
16
	MARZUOLI. Princípio di legalità e attività di dirirro privato della
pubblica amministrazione, p. 134; ESTORNINHO. A fuga para o
direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito
privado da Administração Pública, p. 168.
17
	AMARAL. A responsabilidade da Administração no direito português,
v. 2, p. 77.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
A nova Administração Pública e o direito administrativo
ARTIGOS 41
a toda e qualquer atuação administrativa, seja por
meios jurídicos públicos, seja através das formas
de organização e atuação do direito privado.
3 O princípio da legalidade
Na passagem do Estado Liberal para o Estado
Social de Direito, o princípio da legalidade sofre al-
gumas transformações:
1º -	 A ideia de lei passa para a ideia de direi-
to. Todo o direito, todas as regras e prin-
cípios do direito devem ser levados em
conta na atividade administrativa.
2º -	 A lei não é apenas o limite mas o funda-
mento da atividade administrativa.
No período da monarquia, a Administração
Pública era limitada pela lei de forma negativa. O
rei podia fazer tudo o que bem entendesse, mas só
podia limitar direitos dos particulares se fundamen-
tado em lei anterior. Agora, ao contrário, a regra não
é esse princípio da liberdade, mas o princípio da
competência. A Administração só pode fazer o que
a lei permitir.
Atualmente, regem o princípio da legalidade
negativa onde há prevalência da lei e nenhum ato
de categoria inferior pode contrariar a lei e o princí-
pio da legalidade positiva onde há precedência da
lei, ou seja — reserva de Lei — o ato é praticado
com fundamento na lei.
A este propósito, Rogério Soares18
afirma que a
ideia de que “a cavalo dado não se olha os dentes”
já não se justifica de maneira nenhuma em relação
à atividade atual da Administração Pública, uma vez
que as prestações não são graças ocasionais, mas
a essência da própria Administração Pública.
Essas tarefas demandam dinheiro público são
impostos coativamente e advém de sacrifícios dos
cidadãos. A Administração faz despesas com funda-
mento na lei administrativa que por sua vez depende
da lei financeira.
Freitas do Amaral19
conclui que o princípio da
legalidade desdobra-se na necessidade de respeitar
tanto a legalidade administrativa quanto a legalidade
financeira.
Em um extremo estão aqueles doutrinadores
que exigem uma reserva de lei, ou seja, uma ex-
pressa previsão legal para todo e qualquer ato da
Administração Pública, quer seja no direito privado,
quer seja no direito público. No outro extremo estão
aqueles estudiosos que continuam a defender a
reserva de lei apenas nos moldes tradicionais, ou
seja, quando há restrições à liberdade privada. E
18
	 SOARES, Rogério Ehrahardt. Direito administrativo. Coimbra, [s.d.].
p. 53, 55. Lições ao Curso Complementar de Ciências Jurídico-
Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
19
	 AMARAL. Princípio da legalidade. Polis, v. 3, p. 976 et seq. 1985.
há a tese intermediária que exige a reserva de lei,
não a toda a administração de prestação, mas tão
só às chamadas “prestações necessárias à existên-
cia”, ou apenas aos atos em que a Administração
Pública exerce poder público, apesar de não praticar
ato administrativo.
O conceito de legalidade contém necessaria-
mente uma invocação sociológica. A lei não é um
produto arbitrário, gerado artificialmente pela von-
tade dos órgãos legislativos. Ela reflete e corporifica
as tendências do meio social da ordem econômica
e política. Quando, portanto, a legislação determina,
expressa ou implicitamente, a finalidade de com-
petência administrativa, consulta não somente
aquelas razões de moralidade, como, de um modo
amplo, a todos objetivos de interesse público. Não
é, porém, simplesmente, dessa emanação social,
que nasce a obediência do administrador aos fins
preestabelecidos. Essa obrigação jurídica resulta da
incorporação desses fins à própria substância da
lei, adquirindo assim executoriedade. A nulidade do
ato administrativo provém do conflito irreconciliado
com a essência da norma legal, com o conteúdo do
direito positivo. Não é porque seja imoral ou incon-
veniente que a manifestação de vontade do agente
deixa de adquirir eficácia jurídica, mas porque viola
a lei, ou em sua letra ou em seu espírito. O controle
de finalidade é, portanto, dentro do rigor científico,
uma perfeita condição der legalidade, possivelmente
a mais importante pelos seus reflexos e pela pro-
fundidade de suas consequências.20
4	O princípio da liberdade de escolha das
formas jurídico-privadas
A doutrina alemã tem sido favorável a essa
ideia de liberdade de escolha. Segundo a doutrina
maioritária tradicional, a Administração tem uma
dupla liberdade de escolha, podendo escolher tanto
as formas de organização quanto as formas de atua-
ção do direito privado.21
Contra o princípio da liberdade de escolha
têm sido apresentados receios ligados à ideia de
Estado de Direito. Entretanto, para não contrariar
o princípio típico do Estado de Direito, entende-se
que o consentimento jurídico negocial do cidadão
quando da aplicação de técnicas de atuação jurídico-­
privadas, não deve dispensar a exigência de uma lei
de autorização para tal atuação.
Muitos autores entendem que se pode atuar
sob a forma de direito privado, mas com uma vincu-
lação jurídico-pública.
20
	TÁCITO. Desvio de poder em matéria administrativa, 1951, f. 30;
1975, p. 72.
21
	ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o
estudo da actividade de direito privado da Administração Pública,
p. 207-221.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
Gabriela de Carvalho
42 ARTIGOS
Parte-se da ideia de direito público como direito
especial do Estado e das outras entidades públicas
e entende que, regra geral, eles devem desempe-
nhar as tarefas que lhes são atribuídas por normas
de direito público, a não ser que esteja expressa a
vontade de atuar por meio jurídico-privado.
Freitas do Amaral22
afirma não aceitar que vigore
no nosso direito a presunção legal segundo a qual
todo o contrato entre a Administração e um particu-
lar deve ser considerado, em caso de dúvida, um
contrato administrativo. Assim, considera que po-
dendo a Administração celebrar com os particulares
tanto contratos administrativos com contratos de
direito privado, nenhuma razão há para fazer fun-
cionar aqui uma presunção quer num sentido quer
noutro: se a lei e as cláusulas contratuais forem
omissas, é o exame do objeto e o fim do contrato
— e portanto, em última análise, o apuramento da
sua natureza — que permitirá em caso de dúvida,
definir o regime aplicável.
5 O princípio da especialidade das
pessoas coletivas públicas
Para Maria João Estorninho23
esta questão de
saber até que ponto vai a liberdade de escolha das
formas de organização e das formas de atuação por
parte de uma entidade administrativa pode recondu-
zir-se, no fundo, à questão, do âmbito de competên-
cia dos próprios órgãos dessas mesmas entidades.
Marcelo Caetano24
afirmava que, à exceção do
Estado, “todas as pessoas coletivas existem espe-
cialmente para aqueles fins em razão das quais a
personalidade lhes foi reconhecida, nisso se tradu-
zindo precisamente o tal princípio da especialidade
das pessoas coletivas”. Assim, esse princípio im-
plica, por um lado, a determinação precisa dos fins
justificativos do reconhecimento da personalidade
jurídica e, por outro, em ajustamento funcional do
exercício da capacidade dos fins a atingir.
A limitação da capacidade da pessoa coletiva
está principalmente neste dever de só exercer os
poderes para alcançar os fins institucionais, sem
que deles se possa desviar. Se se desviam dos
fins, os órgãos procedem “ultra vires”, excedem os
seus poderes.
Aquilo que a ordem jurídica pretende é que
a entidade administrativa proceda a uma satisfa-
ção formal do interesse público pondo em ação os
meios que lhe concedem os poderes jurídicos.
22
	 AMARAL. Princípio da legalidade. Polis, p. 976 et seq.
23
	ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o
estudo da actividade de direito privado da Administração Pública,
p. 199-206.
24
	 CAETANO, Marcelo. Competência contenciosa em matéria de con-
tratos administrativos apud ESTORNINHO. A fuga para o direito
privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado
da Administração Pública, p. 207 et seq.
A escolha dos meios não é uma escolha indi-
ferente, mas terá que ser a do meio conveniente,
aquele capaz de satisfazer integralmente a neces-
sidade final.
Se a finalidade de qualquer ato administrativo é
atender ao interesse público, no caso do ato vinculado,
tal interesse já foi a priori demarcado pelo legislador,
condicionado de modo preciso à futura conduta do
agente administrativo. Ora, se o Administrador, no
uso do poder discricionário de que dispõe, deixa de
atender ao fim legal a que está indissoluvelmente
ligado, é claro que exorbita do poder que a lei lhe
conferiu. Daí, o dizer-se com inequívoca precisão que
o fim legal é o teto, a baliza, a faixa demarcadora do
poder discricionário, limite no qual esbarra a discri-
cionariedade. Conhecer esse limite é de importância
primordial para cada cidadão, porque aí reside nossa
defesa contra a arbitrariedade administrativa.25
Se a opção administrativa desatende a essa
finalidade, deve-se concluir que extralimitou da sua
zona livre, violando uma prescrição jurídica, expressa
ou implícita, o que a transpõe, por definição, para a
zona vinculada.26
Em vez de falar de limites do poder discricio-
nário, em razão de um fim imposto, é mais correto
dizer que o poder, sendo discricionário quanto ao
objeto e ficando pleno e sem limite discricionário,
pode cessar e cessa sempre de ser discricionário,
para tornar-se vinculado, no que se refere ao fim.27
6	Autonomia privada da Administração
Pública?
O problema da admissibilidade da utilização de
formas jurídico-privadas por parte da Administração
Pública tem sido desdobrado em duas questões
diferentes: por um lado, a questão da liberdade de
escolha das formas de organização jurídico-privadas
e, por outro, a questão da liberdade de escolha das
respectivas formas de atuação.
Ehlers,28
a propósito daquela que parece ser a
posição dominante, afirma que a ideia de liberdade
de escolha implica no reconhecimento de uma es-
pécie de “arte administrativa” para escolher a forma
jurídica mais apropriada às situações concretas.
Contra o princípio da liberdade de escolha têm
sido apresentados receios ligados à ideia de Estado
de Direito. Assim, tal liberdade é problemática, com
base em dois fundamentos: por um lado, gera in-
certeza jurídica, porque o cidadão não sabe quais
25
	 CRETELLA JÚNIOR. O desvio de poder na Administração Pública.
26
	LEAL. Problemas de direito público, p. 285.
27
	BONNARD. Précis de droit administratif, p. 67.
28
	EHLERS apud ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contribu-
to para o estudo da actividade de direito privado da Administração
Pública, p. 192.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
A nova Administração Pública e o direito administrativo
ARTIGOS 43
as formas jurídicas de que a Administração vai se
servir no caso concreto; por outro, acaba por atribuir
à Administração a possibilidade de escolher quais
as regras jurídicas que vão reger a sua atuação.
A escolha entre a obrigatoriedade e a liberdade
de formas deve ser feita tomando necessariamente
em conta dois tipos de interesses fundamentais
que têm constituído duas preocupações-chave da
doutrina das formas de atuação da Administração:
a necessidade de assegurar a proteção do particu-
lar e a necessidade de permitir à Administração o
cumprimento eficiente das suas tarefas.
Pestalloza29
defende que, perante qualquer
atuação jurídico-privada do Estado, há que ultrapas-
sar a dupla barreira jurídica de colisão, ou seja, o
fato de, em certas circunstâncias, ele poder deixar
o âmbito do seu direito especial (primeira barreira)
não significa que lhe seja aberta automaticamente
a porta para o terreno do direito privado (segunda
barreira).
Pode-se dizer, assim, que o ponto de partida
dessa tese de Pestalloza é o ator e não o ato, uma
vez que a aplicação do direito público a uma deter-
minada relação acaba por depender do fato de o
Estado nela participar ou não. Ou seja, o que inte-
ressa é a natureza de quem atua e não a natureza
da atuação.
Para Maria João Estorninho,30
só optando por
um conceito depurado de autonomia, compatível
com a existência de inúmeras limitações e vincula-
ções, se poderá eventualmente falar em autonomia
privada da Administração Pública, ou seja, não existe
autonomia privada da Administração Pública.
É inegável que, no contrato moderno, o papel
da autonomia da vontade a bem pouco se reduziu,
para não dizer que em muitos casos praticamente
desapareceu. Perante isto, acaba-se por defender
que pouco importará que as pessoas possam determi-
nar, livremente, na totalidade ou em parte, o objeto
da relação; mas é essencial que, dado determinado
objeto, as pessoas possam ou não vincular-se a
seu respeito.
Sérvulo Correia31
chama atenção para o fato
de os pressupostos ideológicos da autonomia pri-
vada no Estado Social de Direito já não serem os
do individualismo jurídico, mas o seu fulcro conti-
nuar, todavia, a ser ainda a liberdade de princípio
da conduta humana, o respeito do poder jurígeno
da pessoa, na medida em que se concilie com os
interesses da coletividade.
29
	PESTALLOZA apud ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contri-
buto para o estudo da actividade de direito privado da Administração
Pública, p. 197.
30
	ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo
da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 207-221.
31
	CORREIA. Legalidade e autonomia contratual nos contratos admi­-
ni­strativos.
O Código Civil italiano, hoje, reconhece a capaci-
dade geral de direito privado às pessoas coletivas pú-
blicas e a maioria dos autores passou a admitir que a
Administração Pública goza de autonomia privada.32
A Administração Pública que atua sob as formas
jurídico-privadas está vinculada pelo princípio da lega-
lidade, pelas regras de competência, a propósito das
quais vale o princípio da especialidade e à prosse-
cução do interesse público, traduzida nomeadamente
numa vinculação a um vínculo de fim.
No exame da legalidade do ato administrativo, o
fim é elemento essencial, básico, sujeito à aprecia-
ção dos órgãos judiciários. O conceito de legalidade
não existe separado da realidade social, porque a
lei não é simples norma, sem apoio na sociedade
para a qual se elabora. Se a ação humana subordi-
na-se a um fim ou alvo, há uma direção, uma pauta,
assinalando a linha de desenvolvimento do ato. A
expressão dessa pauta de comportamento é o que
chamamos de norma ou de regra.33
7	O princípio da eficiência e o novo perfil
da Administração Pública
Quando se trata acerca de um novo perfil da
Administração Pública, são dois os aspectos essen-
ciais a serem destacados: a) os efeitos da subordi-
nação da Administração Pública a uma nova ordem
constitucional, no contexto de um Estado Democrático
de Direito; e b) o fato de a Administração Pública
estar vinculada a uma nova técnica de legitimação
de sua atuação: o procedimento ou processualidade
administrativa.
Quanto à primeira das questões em relevo,
não é desconhecido que a Constituição de 1988
estabeleceu no Brasil um novo paradigma jurídico-­
constitucional às relações entre o Estado e o indi-
víduo. Isso resta demonstrado, sobretudo, em face
do destaque estabelecido pelo texto constitucional
aos direitos fundamentais, tanto como direitos
fundamentais de proteção da pessoa em relação
ao Estado, quanto como direito fundamentais de
prestação, exigindo do Estado-Administração que as-
segure acesso a uma série de bens considerados
essenciais a uma vida digna. Esta influência dos di-
reitos fundamentais sobre a Administração Pública
e o direito administrativo, como reflexo do próprio
fenômeno denominado de constitucionalização do
direito, não é exclusivo do direito brasileiro.34
Isso implica, de um lado, a mitigação da vi-
são da Administração Pública como titular de prer-
rogativas absolutas em relação ao administrado e
32
	ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o
estudo da actividade de direito privado da Administração Pública,
p. 207-221.
33
	REALE. Filosofia do direito, p. 335.
34
	MIRAGEM. A nova Administração Pública e o direito administrativo,
p. 45.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
Gabriela de Carvalho
44 ARTIGOS
mesmo da supremacia do interesse público como
princípio com traços de aplicação preferencial, afas-
tando como regra o interesse particular. Da mes-
ma forma, exige-se da Administração Pública, no
seu proceder, uma constante legitimação, à luz do
Estado Democrático de Direito estabelecido, que
assegure a participação dos cidadãos nas questões
administrativas de interesse geral.
Essa legitimação se estabelece, então: a) pela
exigência de um procedimento administrativo e a
garantia da sua regularidade; e b) pela disciplina
de mecanismos que assegurem aos administrados
o máximo de acesso a informações e efetiva par-
ticipação no processo de tomada de decisões da
Administração Pública.
A exigência de um regular procedimento admi-
nistrativo põe em relevo característica já havida pelo
direito administrativo, mas que ora se renova, a que
a doutrina nacional denominou processualidade do
direito administrativo.
Conforme refere Odete Medauar, em des-
tacada monografia sobre o tema, “o exercício do
poder, em um Estado de Direito que reconhece e
garante direitos fundamentais, não é absoluto;
canaliza-se a um fim, implica deveres, ônus, sujei-
ções, transmuta-se em funções, o que leva o orde-
namento a determinar o filtro de processualidade
em várias situações revestidas de poder”.
A processualidade pressupõe, além do ade-
quado cotejo dos direitos e interesse em eventual
disputa no âmbito da atuação administrativa, tam-
bém a conformidade desta atuação com os direitos
fundamentais e os deveres de proporcionalidade e
razoabilidade da conduta da Administração Pública
e do seu resultado concreto.
No tocante à disposição de mecanismos que
assegurem o máximo acesso a informações, assim
como a participação dos administrados no processo
de formação da vontade estatal, o princípio democrá-
tico que emerge da Constituição vai exigir, em primei-
ro lugar, a institucionalização desses mecanismos,
de modo que não fiquem submetidos à incerteza
das orientações de governo; da mesma forma que
os níveis de participação venham acompanhados de
efetivo acesso a informações que permitam a for-
mação de convencimento, inclusive técnico, sobre
as questões em debate; e, por fim, que o resultado
dos processos de participação, e embora não deva
necessariamente vincular a decisões do agente pú-
blico, dê causa a um dever de motivação específico,
um ônus de argumentação técnico-jurídica, quando a
decisão da Administração não convergir para o con-
teúdo das manifestações trazido no processo de
participação dos administrados.35
35
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 237.
Tais aspectos integram o conceito jurídico de
eficiência da Administração Pública e não podem
ser desconsiderados. Integram-se, pois, com fun-
damento constitucional, aos métodos de gestão a
serem exigidos dos agentes públicos, assim como
constituem meios de validação dos resultados a se-
rem obtidos no âmbito da gestão pública, o que se
coaduna com o novo perfil da Administração Pública
gerencial e seus desafios atuais no âmbito do direito
brasileiro.
8 Publicização do direito privado
A utilização de formas tipicamente privadas
pela Administração Pública não pode significar um
afastamento das vinculações jurídico-públicas fun-
damentais da Administração, sob pena de não se
tratar de uma mera “fuga para o direito privado”,
mas de uma “fuga do ordenamento jurídico”, “fuga
do direito”. Portanto, qualquer que seja a atividade
da Administração, ela deve ser limitada pelas vincu-
lações jurídico-públicas, sobretudo no que diz res-
peito aos direitos fundamentais.
Portanto,emrespostaaessa“tentativa”defuga
das vinculações jurídico-públicas da Administração
através do direito privado, o que ocorre é um pro-
cesso reflexo à privatização, que seja, a publiciza-
ção do direito privado utilizado pela Administração,
podendo-se inclusive se falar em um direito priva-
do especial, o direito privado da Administração.36
Nessa esteira, surgiu na Alemanha o conceito de
Verwaltungsprivatrecht, enquanto direito privado
publicizado utilizado pela Administração. A princípio
atribui-se a H. J. Wolff, juspublicista alemão, a formu-
lação inicial desse conceito, mas contemporanea-
mente, Wolfgang Siebert, partindo do direito privado,
fez formulação similar. Pouco importa qual dos dois
doutrinadores foi o primeiro a definir essa caracterís-
tica sui generis do direito privado da Administração,
interessante é que, mesmo Wolff partindo de uma
perspectiva de direito público e Siebert partindo
do direito privado, ambos chegaram ao ponto em
comum de identificar que os instrumentos jurídico-­
privados utilizados pela Administração Pública eram
necessariamente alvo de um publicização.37
A Administração, seja atuando por meio de
instrumentos tipicamente jurídico-públicos, seja por
instrumentos jurídico-privados, não deixará de assu-
mir uma posição diferenciada do particular, estando
cerceada de uma hipotética autonomia privada.
As normas de direito privado, nesse caso, seriam
“complementadas, ultrapassadas e modificadas”
pelas normas de direito público.
36
	ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo
da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 129.
37
	 BIELSCHOWSKY. Privatização da Administração Pública. Âmbito
Jurídico.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
A nova Administração Pública e o direito administrativo
ARTIGOS 45
Assim, enquanto aspectos dessa publicização,
pode-se destacar, por exemplo, a exigência de au-
torização legal para a atividade jurídico-privada da
Administração, vinculações especiais na utilização
dos instrumentos de direito privado (principalmente
no que concerne às vinculações ligadas à proteção
de direitos fundamentais) ou mesmo confundir, ou
misturar as atividades da Administração em funções
de soberania com aquelas que não desempenham
esse papel.
9	Vinculações jurídico-públicas da
Administração Pública na utilização do
direito privado
Qualquer que seja a atuação da Administração
Pública, será sempre pautada por uma série de
valores, de ordem legal e constitucional, que fun-
cionam como modeladores da vida administrativa
do Estado e entidades públicas. Porém, é possível
observar-se diferentes graus de influência dessas
vinculações dentro da atividade pública. Enquanto,
por exemplo, em um patamar de extrema vinculação
identifica-se o desempenho de funções de sobera-
nia, em outro, como na atuação empresarial estatal
vê-se menor influência. Todavia, não há como se
falar em qualquer atuação pública que não observe
esses limites.
Assinala-se no modelo sistêmico, em vez de
abstenção, o crescimento das intervenções admi-
nistrativas no setor privado, só que com tendência,
na medida da democratização, para a utilização de
formas predominantemente consensuais e de cola-
boração. Na classificação de Laubadère, as interven-
ções podem ser: a) diretas e indiretas, hoje optando
a Administração, sempre que possível, pelas medi-
das indiretas (estímulos fiscais, empréstimos, ação
sobre o crédito etc...) em lugar de medidas imperati-
vas, com resultados positivos, aquelas, em setores
como meio ambiente, transportes, comunicações
e infraestrutura; b) unilaterais (política econômica)
e convencionais (acordos e contratos de colabora-
ção), preferindo-se as últimas. Verifica-se que “para
assegurar o controle de um sector, o Estado, atual-
mente, emprega processos mais maleáveis que a
criação de uma empresa pública propriamente dita;
a conclusão de contratos de colaboração particular-
mente estreita permite-lhe realizar associações que
tornam mais relativa que outrora a distinção do sec-
tor público e sector privado”.38
Falam-se em tendência para a administração
concertada ou pactuada e em um novo contratua-
lismo, caracterizado por tratativas, negociações,
transações, compromissos, convenções, acordos
38
	MOREIRA. Direito administrativo, p. 148 et seq.
entre grandes grupos de interesses ou de poder;
e, ainda, de relação triangular (não mais binária,
Estado-indivíduo) na qual o governo, idealmente
repre­sentante dos interesses nacionais, intervém
só na qualidade de mediador, entre as partes so-
ciais, e, no máximo, como garante do cumprimento
do acordo.39
A concertação é um método que consiste na
troca de ideias e negociação entre os interessados,
com vista a encontrar uma linha comum de conduta.
É o “regime em que os representantes do Estado
(ou das coletividades secundárias) se reúnem de
maneira organizada, para trocar as suas informa-
ções, para confrontar as suas previsões e para, em
conjunto, ora tomar decisões, ora formular parece-
res dirigidos ao governo”.40
O planejamento indicativo (não prescritivo)
transforma a economia, antes dirigida, em orien-
tada. Na França, o plano indicativo é instrumento
empregado, sobretudo, no ordenamento do terri-
tório, nas localizações industriais e no urbanismo.
Utilizam-se licitações, encorajamento, prêmios, be-
nefícios fiscais, subvenções e atrativos financeiros
para que os envolvidos busquem espontaneamente
alcançar as metas, estas, às vezes, previamente
negociadas. Como exemplo, cita-se a utilização des-
se método para efeito de obter o reagrupamento
de pequenas comunidades, de modo a tornar mais
racional a implantação de equipamentos coletivos,
redes de vias públicas, telecomunicações etc.41
A consequência inevitável de todas as evolu-
ções é a criação de situações de verdadeira mis-
celânea, nas quais os direitos público e privado se
misturam até as últimas consequências.42
Assim, por um lado, o direito administrativo
(microcosmos jurídico que tende a abarcar todas as
áreas de atuação) abrange hoje a atuação de toda a
Administração Pública, e também, em certa medida,
a atividade das verdadeiras entidades privadas que
colaboram com a Administração.
10	A execução associada por contrato
e a sinergia da parceria – Espécies
de contratos administrativos –
Consensualidade
A modalidade de sinergia contratual, por ser
estável, produz uma parceria entre o Poder Público
e os entes da sociedade, um tipo de relaciona-
mento que gravita em torno de empreendimentos
de substrato econômico.43
39
	LAUBADÈRE. Direito público econômico.
40
	BLOCH-LAINÉ apud MOREIRA. Direito administrativo, p. 148 et seq.
41
	LAUBADÈRE apud MOREIRA. Direito administrativo, p. 148 et seq.
42
	ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo
da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 379.
43
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 341 et seq.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
Gabriela de Carvalho
46 ARTIGOS
Outras modalidades de parceria poderão ser
também instituídas por atos administrativos, mas,
como resultado óbvio, tais relações serão sempre
precárias, não se prestando para empreendimen-
tos associativos de natureza econômica de porte,
embora sirvam para conciliar o interesse econômico
individual de menor monta com o interesse público,
durante algum tempo e em restritas condições.
As modalidades contratuais de parceria ten-
dem a se multiplicar no direito administrativo con­tem­
porâneo, e isso em razão da extrema diversidade de
situações encontradas na área econômica, como um
simples elenco exemplificativo demonstra: conces-
sões de serviços públicos e de uso de bem público,
permissão de serviços públicos, arrendamento por-
tuário, arrendamento operacional, franquia pública,
gerenciamento privado de entidade pública, venda
de bilheteria e contrato de risco.
A administração consensual não deve ser pen-
sada radicalmente nem ideologicamente. Não deve
ser considerada panaceia, nem tomada como regra.
Dela não se esperam milagres, mas o desenvolvi-
mento da confiança e do diálogo, e sempre dentro
dos limites da legalidade.
Sua introdução racional nas atividades da
Administração está destinada a acrescentar às po-
tencialidades de criatividade e de ação da sociedade.
Bem empregada, adequadamente e sem excessos,
ela tem condições de fazer das miríades de organiza-
ções sociais leais parcerias do Estado-administrador.
Essa parceria pode revolucionar o próprio con-
ceito republicano, valorizando a cidadania, por isso,
mais importante ainda do que possam ser as pro-
messas de suas muitas potencialidades práticas,
deve-se pensar o consenso na ação do Estado como
um grande aperfeiçoamento ético nas relações en-
tre os indivíduos e o Estado. O Estado do futuro,
assim, poderá ter no exercício do consenso e não
no da coerção, a primeira das opções relacionais.44
11	Princípio da participação e da
subsidiariedade
Atende-se melhormente ao princípio de subsi-
diariedade sempre que a decisão do Poder Público
venha a ser tomada da forma mais próxima possí-
vel dos cidadãos a quem se destinem.45
Tal proxi-
midade serve para garantir que o órgão titular do
Poder Público considerará sempre, em suas deci-
sões: primeiro que sejam respeitados os direitos e
iniciativas dos cidadãos e das entidades privadas;
segundo, que qualquer intervenção administrativa
44
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 349.
45
	 ORTIZ. La empresa pública. In: GARRIDO FALLA et al. El modelo
economico em la Constitucion espanola apud MOREIRA NETO.
Mutações do direito público, p. 377.
somente se produza em caso de inexistência ou de
insuficiência da iniciativa individual ou social; tercei-
ro, que mesmo neste caso, a intervenção somente
se faça na medida indispensável para atender ao
interesse público legal e legitimamente definido; e
quarto, que se assegure que os outros entes ou
órgãos administrativos, maiores ou menores, não
tenham condições de agir com maior eficiência.
Nessa nova continuidade fenomênica em
cons­trução entre sociedade e Estado, com intensa
participação das pessoas, individualmente ou por en-
tidades secundárias organizadas, não mais se defi-
nirá uma nítida distinção entre o público e privado e,
em consequência, entre categorias de direitos aplicá-
veis sob o critério subjetivo. Mas enquanto o Direito
não se unificar, desfeita a milenar distinção romana,
permanecerá o critério finalístico para definir qual de
seus ramos regerá cada tipo de relações, o público
ou o privado.
No entanto, na projeção feita, o papel do
Estado, longe de diminuir, ganhará em importância,
já que, fortalecido pela segurança ética que lhe dará
o princípio de subsidiariedade, concentrará decidida-
mente sua ação em seu próprio campo decisional, o
da finalidade pública, uma vez que esta só pode ser
realizada efetivamente com sua ação: “Um Estado
que agora, sobretudo, regula, vigia, inspeciona, san-
ciona. Acentua esse papel vigilante, sem prejuízo de
que às vezes preste diretamente serviços”.46
Portanto, em síntese, levando em conta e pon-
derando as mutações em marcha, uma nova classi-
ficação já se pode vislumbrar no horizonte do que
admite ser confortavelmente denominado serviços
públicos em sentido amplo: ter-se-ia, de um lado,
os serviços públicos estatais, de prestação exclusi-
va pelo Estado, que são extra commercium e sujei-
tos a um regime jurídico exclusivamente público, e,
de outro lado, recuperando a velha nomenclatura,
agora mais adequada, os serviços de utilidade pú-
blica, que são intra commercium e por isso devem
ser prestados pelas entidades da sociedade e, ex-
cepcionalmente, quando se justifique, pelo próprio
Estado, porém que, em razão dos interesses públi-
cos envolvidos e segundo sua predominância em
cada caso, se sujeitam a regimes jurídicos mistos
de direito público e privado.47
12 Conclusão
Nessa nova conjuntura vê-se uma permu-
ta de valores e formas entre público e privado.
Vinculações classicamente típicas a figuras públi-
cas passam também a reger a atuação de entes
46
	 REBOLLO, Luis Martín. Servicios públicos y servicios de interés ge-
neral. In: MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo (Coord.). Uma ava-
liação das tendências contemporâneas do direito administrativo:
obra em homenagem a Eduardo García de Enterría. Rio de Janeiro:
Renovar, 2003. p. 111.
47
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 379.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
A nova Administração Pública e o direito administrativo
ARTIGOS 47
particulares, bem como instrumentos tipicamente
privados tornam-se comuns também à atuação da
Administração Pública. Assim, pode-se falar em
uma diluição (ainda que não haja uma eliminação)
das fronteiras entre esses dois campos, sobretudo,
no que diz respeito à clássica dicotomia entre direito
público e privado.
Atualmente, a questão da reforma e reestrutu-
ração da Administração Pública se reveste dos valo-
res da competitividade e liberdade de escolha, por
poderem potenciar novas práticas e novas formas
de bem-estar que vão ao encontro da qualidade, da
racionalidade e da convergência.
Nesse sentido, alguma discussão se faz pre-
sente quanto ao reconhecimento pelo ordenamento
jurídico do princípio da liberdade de escolha das for-
mas jurídico-privadas de atuação da Administração
Pública. Naturalmente, a “liberdade” do setor pú-
blico sempre estará limitada pela legalidade, razão
base de qualquer atuação dentro da esfera pública.
Reconhece-se que a atividade administrativa
não só tem limites jurídicos, opostos a seu emprego
para evitar abusos, como condicionantes políticos,
para que possa alcançar maior eficiência adminis-
trativa. Afirma-se, então, que o princípio da le­galidade
estrita foi substituído pelo princípio da legitimidade
ou juridicidade, que caracteriza a moderna concep-
ção jurídica do “Direito por princípios”. A perspecti-
va que se projeta, tanto ao nível do direito quanto
ao nível da organização administrativa, é a supera-
ção da rigidez lógico-formal.48
O setor empresarial público pode, por razões
de eficiência e persecução do interesse público,
utilizar formas organizativas tipicamente jurídico-­
privadas para assim atingir melhor seus objetivos,
em se considerando sempre ser esta uma “liber-
dade” condicionada pelos parâmetros de legalidade.
Assim sendo, não se poderia tratar propriamente de
um “princípio de liberdade de iniciativa e organiza-
ção empresarial pelo setor público”, mas tão so-
mente, de uma “liberdade política” do legislador e
dos agentes públicos em decidir quais os melhores
meios e formas para atingir-se o interesse público.
Embora originariamente, nas sociedades mono­
classe e biclasse, tenha bastado uma participação
reduzida à escolha de agentes políticos, parece hoje
fora de dúvida que a complexidade dos problemas
e das soluções demanda novas formas de parti-
cipação voltadas à escolha de políticas públicas
com grau de diferenciação suficiente para atender
às especificidades dos diversos subgrupos sociais
reivindicantes.49
A participação pública nas decisões e a pro-
cessualidade adequada complementam o conteúdo
48
	FERRAZ. Direito público moderno, p. 159.
49
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 332.
impulsionador da eficiência da ação do Estado. A
exigência de uma forma adequada pode disciplinar
com fidelidade e segurança o processo de forma-
ção da vontade participativa, ou seja, a processua­
lidade adequada como garantia de instrumento
democrático.
É inegável que o consenso como forma alter-
nativa de ação estatal representa para a Política
e para o Direito uma benéfica renovação e para a
ação administrativa, em especial, o consenso pode
ser adotado não apenas pela via contratual, como
tradicionalmente se tem feito, mas pela via do acor-
do não contratual, ainda incipientemente utilizado
no Brasil, pois quase que restrito a duas modali-
dades mais familiares, a dos convênios e a dos
contratos.50
Pela consensualidade, o Poder Público vai
além de estimular a prática de condutas privadas
de interesse público, passando a estimular a cria-
ção de soluções privadas de interesse público, con-
correndo para enriquecer seus modos e formas de
atendimento.
Assim, um Estado de juridicidade plena (de lega-
lidade, de legitimidade e de licitude), um Estado de
Justiça, não pode prescindir dessa interação hori-
zontal e sadia com a sociedade, devendo refletir-­
se em sua atuação, de modo que ações suasórias
sempre precedam ações dissuasórias e estas, as
sancionatórias: a face imperativa do Poder só deve
aparecer quando absolutamente necessário e no
que for absolutamente indispensável.51
Diante disso, a escolha entre a obrigatoriedade
de formas e a liberdade de formas deve ser feita
tomando necessariamente em conta dois tipos de
interesses fundamentais que têm constituído duas
preocupações-chave da doutrina das formas de
atua­ção da Administração: a necessidade de asse-
gurar a proteção do particular e a necessidade de
permitir à Administração o cumprimento eficiente
das suas tarefas.
Nesse contexto, observa-se uma difusão da Ad­
mi­nistração Pública através de formas e instrumen-
tos jurídico-privados, podendo identificar inclu­sive
um fenômeno nomeado “fuga para direi­to privado”.
Se é verdade que a utilização do direito privado pela
Administração é válida, na medida em que signifi-
que sua desburocratização e maior fluência da ati-
vidade administrativa, por outro lado ela não pode
significar uma fuga das vinculações essenciais que
devem pautar a atuação da Administração Pública,
sob pena de se caracterizar uma real “fuga do
Direito”.
50
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 333.
51
	 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 348.
Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014
Gabriela de Carvalho
48 ARTIGOS
Nesse sentido, é notável que o direito privado
utilizado pela Administração é o mesmo aplicado
pelo particular, sofrendo assim influências das vincu-
lações administrativas, havendo portanto um proces-
so reflexo à privatização, o da publicização do direito
privado utilizado pela Administração, podendo-se in-
clusive falar em um direito privado da Administração.
Hoje, muitos são os autores que se pronunciam
no sentido de um alargamento dessa vinculação da
Administração Pública às formas jurídico-privadas.
Mas chama-se atenção para o fato de, em bom ri-
gor, a atividade da Administração nunca poder ser
considerada exatamente igual à dos particulares.
Significativo nessa matéria é o fato de que a
Administração Pública que atua sob as formas jurí-
dico-privadas está vinculada pelo princípio da legali-
dade, pelas regras de competência, a propósito das
quais vale o princípio da especialidade e a prosse-
cução do interesse público, traduzida nomeadamen-
te em uma vinculação a um vínculo de fim.
Conclui-se, portanto, que mesmo que a Admi­
nistração Pública utilize formas de organização de
direito privado, essas formas são vinculadas à pros-
secução do interesse público e, por isso, devem
aplicar um direito privado especial da Administração,
vinculado aos direitos e princípios constitucionais,
principalmente, à igualdade e imparcialidade.
Abstract: This article aims to analyze the issue of the admissibility
of the use of private legal forms by the Public Administration. On
the one hand, the question of freedom of choice of legal forms
of organization-private and, secondly, the question of freedom of
choice of their forms of action. The idea of freedom of choice
implies that recognition as a kind of “art administrative” to choose
the most appropriate legal form to concrete situations. Against
the principle of freedom of choice have been presented concerns
connected with the idea of rule of law. Thus, such freedom
is problematic, based on two grounds: firstly, creates legal
uncertainty, because the citizen does not know what the legal
forms of management to serve the case, however, turns out to give
the Administration the ability to choose which legal rules which will
govern its operations. The theme was explored from constitutional
principles, in the succession of legal approaches of mainstream
administrativistas some scholars and constitutionalists. The legal
public/private were analyzed and interpreted according to the
requirements of the question of modernity and post modernity.
Key words: Legal forms by Private-Public Administration. Principle
of freedom of choice. Principle of legality. Democratic State.
Referências
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no direito português, 1972. v. 2.
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(Doutorado em Direito Administrativo). Mimeografada, 1951.
Informação bibliográfica deste texto, conforme a NBR 6023:2002
da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT):
CARVALHO, Gabriela de. A nova Administração Pública e o direito
administrativo. Fórum Administrativo — FA, Belo Horizonte, ano 14,
n. 158, p. 37-48, abr. 2014.

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  • 1. ARTIGOS 37Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 A nova Administração Pública e o direito administrativo Gabriela de Carvalho Advogada da União. Consultora Jurídica da União em Minas Gerais. Mestrado em Direito Público pela FUMEC/MG. Pós-Graduação em Direito Processual Civil pela UFU/MG. Pós-Graduação em Direito Público pelo Fortium – Centros de Estudos Jurídicos/DF. Pós- Graduação em Auditoria Interna e Controle Governamental pelo Instituto Serzedello Corrêa/TCU/DF. Pós-Graduação em Advocacia Pública pelo IDDE/MG. E-mail: <gabriela.carvalho@agu.gov.br>. Resumo: O presente artigo tem por finalidade a análise do pro- blema da admissibilidade da utilização de formas jurídico-privadas por parte da Administração Pública: a questão da liberdade de escolha das formas de organização jurídico-privadas e a questão da liberdade de escolha das respectivas formas de atuação. A ideia de liberdade de escolha implica no reconhecimento de uma espécie de “arte administrativa” para escolher a forma jurídica mais apropriada às situações concretas. Contra o princípio da liberdade de escolha têm sido apresentados receios ligados à ideia de Estado de Direito. Assim, tal liberdade é problemática, com base em dois fundamentos: gera incerteza jurídica, porque o cidadão não sabe quais as formas jurídicas de que a Adminis- tração vai se servir no caso concreto; acaba por atribuir à Admi- nistração a possibilidade de escolher quais as regras jurídicas que regerão a sua atuação. O tema foi explorado a partir de prin- cípios constitucionais na sucessão das abordagens jurídicas das principais correntes de alguns doutrinadores administrativistas e constitucionalistas. Os regimes jurídicos público e privado foram analisados e interpretados segundo a questão das exigências da modernidade e pós-modernidade. Palavras-chave: Formas jurídico-privadas. Administração Pública. Princípio de liberdade de escolha. Princípio da legalidade. Estado Democrático de Direito. Sumário: 1 Introdução – 2 Princípios da prossecução do inte­ resse público – 3 O princípio da legalidade – 4 O princípio da liberdade de escolha das formas jurídico-privadas – 5 O princípio da especialidade das pessoas coletivas públicas – 6 Autonomia privada da Administração Pública? – 7 O princípio da eficiência e o novo perfil da Administração Pública – 8 Publicização do direito privado – 9 Vinculações jurídico-públicas da Administração Pública na utilização do direito privado – 10 A execução associada por contrato e a sinergia da parceria – Espécies de contratos administrativos – Consensualidade – 11 Princípio da participação e da subsidiariedade – 12 Conclusão – Referências 1 Introdução Um tema recorrente, inserido nos movimentos reformadores e modernizadores do Estado, é o em- prego em larga escala de métodos e técnicas nego- ciais ou contratualizadas no campo das atividades perpetradas pelos órgãos/entidades públicas. Tais atividades podem envolver unicamente a participa- ção de órgãos e entidades públicas, como também contemplar a sua interação com organizações de finalidade lucrativa (setor privado) ou desprovidas de finalidade lucrativa (Terceiro Setor). Insta afirmar que vem ganhando prestígio mun- dial a discussão acerca de uma cultura do diálogo, em que o Estado há de conformar suas ações em face das emanações da diversidade social.1 Alude- se à figura de um Estado “que conduz sua ação 1 BELLOUBET-FRIER; TIMSIT. L’administration en chantiers, p. 303. pública segundo outros princípios, favorecendo o diálogo da sociedade consigo mesma”.2 Nesse cenário, aponta-se para o surgimento de uma Administração Pública dialógica, que con- trastaria com a Administração Pública monológica, refratária à instituição e ao desenvolvimento de pro- cessos comunicacionais com a sociedade. Jean-Pierre Gaudin refere-se à expansão de uma política de contratualização que ensejaria a con­ tratualização da ação pública. Esclarecendo que na França contratualização e descentralização são fenô- menos imbricados, afirma que nesse país a difusão de métodos contratuais operou-se em um enfoque de dupla renovação: a) formas de participação e consulta pública, e b) formas de coordenação en- tre instituições e atores sociais que participam da ação pública. Daí a expressão “governar por contra- to”, que evocaria a necessidade do Estado continua- mente estabelecer vínculos com a sociedade, como meio para a melhor consecução de suas ações. Convém ressaltar que vínculos são criados me- diante um prévio e necessário processo de negocia- ção, em que são discutidas as bases sobre as quais eventualmente serão firmados acordos e contratos. O conteúdo desses ajustes será o objeto do enten- dimento, do possível consenso entre as partes; será o resultado das concessões e dos intercâmbios rea­ lizados no transcurso do processo de negociação que antecedeu ao compromisso. Por isso, convém ressaltar que as posturas assumidas pelo Estado mediador são distintas das posições tradicional- mente ostentadas pelo Estado impositor, cuja nota característica encontra-se justamente no poder de impor obrigações, exercido em razão do atributo da autoridade, imanente ao poder político ou estatal. A análise do fenômeno do consensualismo que se pretende empreender neste trabalho obvia- mente ultrapassa o emprego do contrato para a obtenção de resultados meramente econômicos ou patrimoniais. O ponto em destaque diz respeito à extensão e à intensidade com que técnicas consensuais vêm sendo empregadas, como soluções preferen- ciais — e não unicamente alternativas — à utiliza- ção de métodos estatais que veiculem unilateral 2 Ibid., p. 314.
  • 2. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 Gabriela de Carvalho 38 ARTIGOS e impositivamente comandos para os cidadãos, empresas e organizações da sociedade civil. Por isso, uma das linhas de transformação do direito ad- ministrativo consiste em evidenciar que, no âmbito estatal, em campos habitualmente ocupados pela imperatividade, há a abertura de consideráveis espa- ços para a consensualidade. Aplicada ao terreno da Administração Pública, essa orientação gerou expressões como adminis- trar por contrato, administrar por acordos, admi- nistração paritária, administração dialógica e, mais recentemente, administração consensual. Cumpre notar que tal diversidade terminológica acaba ten- do efeitos positivos, principalmente porque evoca o fato de que administrar por meio de métodos ou instrumentos consensuais não significa, necessa- riamente, lançar mão da figura clássica do contrato administrativo. O sentido das expressões elencadas sinaliza um novo caminho, no qual a Administração Pública passa a valorizar (e por vezes privilegiar) uma forma de gestão cujas referências são o acordo, a negocia- ção, a coordenação, a cooperação, a colaboração, a conciliação, a transação. Isso em setores e ati- vidades preferencial ou exclusivamente reservados ao tradicional modo de administrar: a Administração por via impositiva ou autoritária. O direito administrativo foi originado nas ba- ses do modelo liberal de Estado, vigente a partir do séc. XIX, período em que a imperatividade (noção que expressava a autoridade do Estado frente aos indivíduos, decorrente da soberania) acabou por conformar os institutos e categorias desse ramo jurídico. Em virtude desse poder de império, forjou-se a ação administrativa típica, a qual era manifestada por meio de atos administrativos, cujos atributos essenciais sujeitavam-se à noção de autoridade. O binômio autoridade-liberdade — matizador do direi- to administrativo desde sua origem — tem funda- mento no surgimento da Administração Pública; é o momento da Administração autoritária, com seus traços característicos de a) desigualdade entre a Administração e os indivíduos e b) atribuição aos órgãos e entes administrativos de poderes de auto- ridade sobre os indivíduos. Nas palavras de Giorgio Berti, isso ocorreu, sobretudo, com o fito de conferir proteção a um poder político “que pretendia garantir-se por meio de uma apropriada e especial juridicidade”.3 E se- gundo o autor, a configuração do ato imperativo da Administração Pública não beneficiava ambas as partes segundo a lógica do consensualismo, mas tinha por referência tão somente a entidade admi- nistrativa. Tal configuração autoritária e unilateral 3 BERTI. Il principio contrattuale nell´attività amministrativa. In: GIANNINI. Scritti in onore di Massimo Severo Giannini, v. 2, p. 49. extrapolava o momento da gênese do ato, predo- minando por toda a relação por ele instaurada, inclusive tornando possível à Administração unila- teralmente modificá-lo ou mesmo restringir os seus efeitos.4 Entretanto, como bem salienta José Casalta Nabais, a ideia de que o direito público, nas rela- ções entre o indivíduo e o Estado, tem como campo de aplicação os atos de autoridade (atos em que o Estado manifesta o seu imperium e impõe a sua autoridade ao administrado) está, desde há muito tempo, ultrapassada. Odete Medauar destaca a importância do con­- sensualismo no âmbito da Administração con­tem- porânea: A atividade de consenso-negociação entre Poder Público e particulares, mesmo informal, passa a as- sumir papel importante no processo de identificação de interesses públicos e privados, tutelados pela Administração. Esta não mais detém exclusividade no estabelecimento do interesse público; a discricio- nariedade se reduz, atenua-se a prática de imposição unilateral e autoritária de decisões. A Administração volta-se para a coletividade, passando a conhecer melhor os problemas e aspirações da sociedade. A Administração passa a ter atividade de mediação para dirimir e compor conflitos de interesses entre várias partes ou entre estas e a Administração. Daí decorre um novo modo de agir, não mais centrado so- bre o ato como instrumento exclusivo de definição e atendimento do interesse público, mas como ativida- de aberta à colaboração dos indivíduos. Passa a ter relevo o momento do consenso e da participação.5 Em monografia dedicada ao tema, Diogo de Figueiredo Moreira Neto assevera que: pela consen- sualidade, o Poder Público vai além de estimular a prática de condutas privadas de interesse público, passando a estimular a criação de soluções priva- das de interesse público, concorrendo para enrique- cer seus modos e formas de atendimento.6 Odete Medauar apresenta uma síntese dos principais fatores que provocaram a abertura da Administração Pública para as variações consen- suais como forma de exercício de suas atividades: Um conjunto de fatores propiciou esse modo de atuar, dentre os quais: a afirmação pluralista, a he- terogeneidade de interesses detectados numa socie- dade complexa; a maior proximidade entre Estado e sociedade, portanto, entre Administração e so- ciedade. Aponta-se o desenvolvimento, ao lado dos mecanismos democráticos clássicos, de “formas mais autênticas de direção jurídica autônoma das 4 NABAIS. Contratos fiscais, p. 24 5 MEDAUAR. Direito administrativo moderno, p. 257. 6 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 236.
  • 3. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 A nova Administração Pública e o direito administrativo ARTIGOS 39 condutas”, que abrangem, de um lado, a conduta do Poder Público no sentido de debater e negociar periodicamente com interessados as medidas ou re- formas que pretende adotar, e de outro, o interesse dos indivíduos, isolados ou em grupos, na tomada de decisões da autoridade administrativa, seja sob a forma de atuação em conselhos, comissões, grupos de trabalho no interior dos órgãos públicos, seja sob a forma de múltiplos acordos celebrados. Associa-se o florescimento de módulos contratuais também à crise da lei formal como ordenadora de interesses, em virtude de que esta passa a enunciar os objetivos da ação administrativa e os interesses protegidos. E, ainda: ao processo de deregulation; à emersão de interesses metaindividuais; à exigência de racio- nalidade, modernização e simplificação da atividade administrativa, assim como de maior eficiência e pro- dutividade, alcançados de modo mais fácil quando há consenso sobre o teor das decisões.7 Nesse enfoque, Jean Rivero alude a uma for- ma de atividade administrativa “na qual o acordo contratual ganha um lugar crescente”.8 Embora reconhecendo que o recurso a módulos convencio- nais por parte da Administração Pública pode levar à “colusão e mesmo a situações em que é fácil que interesses individuais ou de grupo se sobreponham aos interesses da colectividade”,9 Enzo Roppo vis- lumbra potencialidades positivas para o emprego do consensualimo administrativo, porque a procura e a promoção do “consenso” dos “administrados” sig- nificam desenvolvimento da sua ativa e consciente “participação”, na qual, por sua vez, se encontra um pressuposto de democracia e, ao mesmo tempo de eficiência do procedimento administrativo. Neste sentido, o contrato, com os valores que exprime, coloca-se, de certo modo, com símbolo e suporte de um novo e mais avançado modelo de relação entre autoridade e liberdade.10 Nesse contexto, insta ressaltar a opinião aba- lizada de Sabino Cassese, quando elenca novos paradigmas do Estado, os quais colocam em dis- cussão todas as noções, temas e problemas clássi- cos do direito público, da natureza do Poder Público e de sua atuação legal-racional orientada pela supe- rioridade da lei, do lugar reservado à lei e de suas implicações (legalidade e tipicidade) para as rela- ções público-privadas.11 Um desses novos paradigmas é o fortaleci- mento da negociação na esfera da Administração Pública, expressada por via de acordos. 7 MEDAUAR. Direito administrativo moderno, p. 259. 8 RIVERO. Direito administrativo. 9 Ibid., p. 346. 10 Ibid., p. 346-347. 11 CASSESE. La arena pública: nuevos paradigmas para el Estado. In: CASSESE. La crisis del Estado, p. 159. Para Cassese, “passam ao primeiro plano a negociação em lugar do procedimento, a liberdade das formas em lugar da tipicidade, a permuta em lu- gar da ponderação”.12 O paradigma bipolar Estado- cidadão daria lugar ao paradigma multipolar, e por isso afirma o autor que interesses privados coinci- dentes com interesses públicos comunitários estão em conflito com outros interesses públicos, de natu- reza nacional. Não há distinção ou oposição entre público-privado, assim como não há uma superiori- dade do momento público sobre o privado. E inerente ao paradigma multipolar é a presença de múltiplos agentes e interessados na discussão de assuntos públicos, fato que eventualmente redunda em acordos, exigindo para tanto “permutas recípro- cas, fundadas sobre a negociação”.13 Configurada a administração consensual e apre­ sentados os seus fundamentos dogmáticos, a seguir serão expostas algumas de suas formas de expres- são e de seus instrumentos de ação. 2 Princípios da prossecução do interesse público No direito administrativo as leis são, muitas ve- zes, meras molduras, que deixam à Administração Pública competência suficiente para definir as condi- ções de realização dos objetivos fixados, dando-lhe, ainda, um amplo poder de apreciação das situações concretas, sobretudo se estivermos diante de solu- ções técnicas que devem suplantar a morosidade do processo legislativo. O Estado Democrático de Direito envolve a par- ticipação crescente do povo no processo decisório e na formação dos atos de governo, por meio da pluralidade de ideias, culturas e etnias.14 A pluralidade desse novo direito pode ser expli- cada por meio de dois mecanismos: a) pluralismo e b) negociação. O pluralismo apregoa que não é o Estado a única fonte produtora de normas, mas as normas produzidas convivem com um conjunto de ordens jurídicas infraestatais, fundadas em solida- riedades parciais ou locais, e de ordens jurídicas supraestatais, nascidas da emergência do surgi- mento de comunidades locais (comunidades urbanas periféricas) ou regionais (ordem jurídica europeia) ou mundiais (ordem jurídica internacional). Como em rede, o pluralismo ganha também o direito estatal e a Administração Pública, através do desenvolvimento de centros de autonomia norma- tiva no âmbito do aparelho do Estado, como aqueles que resultam da extensão do poder regulamentar local e da instituição de autoridades administrativas independentes. 12 Ibid., p. 157. 13 Ibid., p. 106. 14 DIAS. Direito administrativo pós-moderno, p. 61 et seq.
  • 4. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 Gabriela de Carvalho 40 ARTIGOS O caráter negocial do Direito advém do paradigma procedimental do direito proposto pela Teoria discur- siva do direito e da democracia de Habermas, segundo o qual a força obrigatória da regra jurídica advém do consenso em torno do qual ela foi elaborada, fruto de uma permanente tensão entre as autonomias públicas e privadas. Esse consenso supõe que os destinatários façam parte do concerto de forças na formação da regra jurídica, de forma que o direito deva se tornar um direito negocial, ao invés de coativo. Nesse sentido, o direito tende a tornar-se uma espécie de técnica de confluência de condutas, pro- duto de um diálogo permanente entre governantes e governados. A ideia de procedimentalidade na Teoria Dis­ cursiva do direito e da democracia de Habermas é o elemento prévio e fundante da legitimidade do direito. Nesse sentido: O direito legítimo encerra o círculo entre a autono- mia de seus destinatários tratados igualitariamente e a autonomia pública dos cidadãos que, enquanto autores igualmente portadores de titularidade da ordem jurídica, devem decidir, em última instancia, sobre os critérios de igualdade de tratamento. O outro pilar do direito pós-moderno, a flexi- bilidade do direito, é dada por dois caracteres: a) agilidade e b) adaptabilidade.15 A agilidade do direito pós-moderno seria sua capacidade de se adaptar à evolução do real, so- bretudo se considerarmos a pluralidade de fontes de normatividade. Um exemplo evidente dessa nova necessidade dos ordenamentos jurídicos é o cons- tante apoio que o direito toma de outras normas de conduta, como as normas técnicas, que são nor- mas consensuais, e não obrigatórias, e sua aplicabi- lidade depende dos interessados em seu conteúdo, e ainda das relações entre o direito e a ética. Nesse sentido, o direito passa a ser um instrumento de guia a serviço de políticas que o ultrapassam e a problemática da regulamentação recai, assim, sobre uma visão instrumental do direito, passando para segundo plano a ideia de imposição/obrigatorieda- de que estava no cerne da concepção moderna. A adaptabilidade, por sua vez, é a caracterís- tica do direito de se adequar às novas situações que vão surgindo, de maneira a se tornar um direito transitório. À medida que a esfera pública se amplia, a necessidade de legitimação do direito também se altera, ou seja, “quanto mais o direito é arrolado como um meio de direção política e de planejamen- to social, maior é o ônus de legitimação que recai sobre a gênese democrática do direto”. 15 DIAS. Direito administrativo pós-moderno, p. 62. A Administração Pública se diferencia da atividade privada pelo dever de prosseguir sempre o interesse público. O interesse público é indissociável de toda e qualquer atividade administrativa. Nesse sentido, Marzuoli16 considera ser pacífico que o interesse pú- blico diga respeito à atividade de direito privado da Administração Pública. As expressões gestão privada e gestão pública significam que, no primeiro caso, a Administração atua segundo as normas de direito privado; no se- gundo, conforme as normas de direito público. Freitas do Amaral17 afirma que este princípio da prossecução do interesse público tem inúmeras consequências práticas na Administração Pública e enumera oito de seus corolários: 1º - Somente a lei pode definir os interes- ses públicos a cargo da Administração Pública, não podendo a Administração Pública defini-los por si própria em razão dos princípios da separação dos poderes e da legalidade. 2º - Quando a lei não define por completo, cabe à Administração Pública interpretar os princípios e desenvolvê-los dentro dos limites impostos pela lei. 3º - Em casos de determinação imprecisa do interesse público, a Administração Pú­ blica recebe um poder discricionário para determinar a conduta a ser adotada. 4º - Obrigatoriedade da prossecução do inte­ resse público. “O verdadeiro dever de agir” (Rogério Soares). 5º - Princípio da especialidade das pessoas coletivas públicas é o interesse público que delimita a capacidade e competência das pessoas coletivas públicas. 6º - Só o interesse público pode constituir o “motivo principalmente determinante” da atuação da Administração Pública, caso contrário seria “desvio de poder”. 7º - Se houver prossecução de verdadeiros interesses privados em vez de interesses públicos então consistiria numa situação mais grave, corrupção. 8º - Adotar sempre as melhores soluções pos­ síveis. “Dever de boa administração”. A Administração Pública existe sempre para prosseguir o interesse público e que a ideia de esse interesse público é o seu norte, o seu guia, o seu fim, não podendo deixar de aplicar-se em relação 16 MARZUOLI. Princípio di legalità e attività di dirirro privato della pubblica amministrazione, p. 134; ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 168. 17 AMARAL. A responsabilidade da Administração no direito português, v. 2, p. 77.
  • 5. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 A nova Administração Pública e o direito administrativo ARTIGOS 41 a toda e qualquer atuação administrativa, seja por meios jurídicos públicos, seja através das formas de organização e atuação do direito privado. 3 O princípio da legalidade Na passagem do Estado Liberal para o Estado Social de Direito, o princípio da legalidade sofre al- gumas transformações: 1º - A ideia de lei passa para a ideia de direi- to. Todo o direito, todas as regras e prin- cípios do direito devem ser levados em conta na atividade administrativa. 2º - A lei não é apenas o limite mas o funda- mento da atividade administrativa. No período da monarquia, a Administração Pública era limitada pela lei de forma negativa. O rei podia fazer tudo o que bem entendesse, mas só podia limitar direitos dos particulares se fundamen- tado em lei anterior. Agora, ao contrário, a regra não é esse princípio da liberdade, mas o princípio da competência. A Administração só pode fazer o que a lei permitir. Atualmente, regem o princípio da legalidade negativa onde há prevalência da lei e nenhum ato de categoria inferior pode contrariar a lei e o princí- pio da legalidade positiva onde há precedência da lei, ou seja — reserva de Lei — o ato é praticado com fundamento na lei. A este propósito, Rogério Soares18 afirma que a ideia de que “a cavalo dado não se olha os dentes” já não se justifica de maneira nenhuma em relação à atividade atual da Administração Pública, uma vez que as prestações não são graças ocasionais, mas a essência da própria Administração Pública. Essas tarefas demandam dinheiro público são impostos coativamente e advém de sacrifícios dos cidadãos. A Administração faz despesas com funda- mento na lei administrativa que por sua vez depende da lei financeira. Freitas do Amaral19 conclui que o princípio da legalidade desdobra-se na necessidade de respeitar tanto a legalidade administrativa quanto a legalidade financeira. Em um extremo estão aqueles doutrinadores que exigem uma reserva de lei, ou seja, uma ex- pressa previsão legal para todo e qualquer ato da Administração Pública, quer seja no direito privado, quer seja no direito público. No outro extremo estão aqueles estudiosos que continuam a defender a reserva de lei apenas nos moldes tradicionais, ou seja, quando há restrições à liberdade privada. E 18 SOARES, Rogério Ehrahardt. Direito administrativo. Coimbra, [s.d.]. p. 53, 55. Lições ao Curso Complementar de Ciências Jurídico- Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. 19 AMARAL. Princípio da legalidade. Polis, v. 3, p. 976 et seq. 1985. há a tese intermediária que exige a reserva de lei, não a toda a administração de prestação, mas tão só às chamadas “prestações necessárias à existên- cia”, ou apenas aos atos em que a Administração Pública exerce poder público, apesar de não praticar ato administrativo. O conceito de legalidade contém necessaria- mente uma invocação sociológica. A lei não é um produto arbitrário, gerado artificialmente pela von- tade dos órgãos legislativos. Ela reflete e corporifica as tendências do meio social da ordem econômica e política. Quando, portanto, a legislação determina, expressa ou implicitamente, a finalidade de com- petência administrativa, consulta não somente aquelas razões de moralidade, como, de um modo amplo, a todos objetivos de interesse público. Não é, porém, simplesmente, dessa emanação social, que nasce a obediência do administrador aos fins preestabelecidos. Essa obrigação jurídica resulta da incorporação desses fins à própria substância da lei, adquirindo assim executoriedade. A nulidade do ato administrativo provém do conflito irreconciliado com a essência da norma legal, com o conteúdo do direito positivo. Não é porque seja imoral ou incon- veniente que a manifestação de vontade do agente deixa de adquirir eficácia jurídica, mas porque viola a lei, ou em sua letra ou em seu espírito. O controle de finalidade é, portanto, dentro do rigor científico, uma perfeita condição der legalidade, possivelmente a mais importante pelos seus reflexos e pela pro- fundidade de suas consequências.20 4 O princípio da liberdade de escolha das formas jurídico-privadas A doutrina alemã tem sido favorável a essa ideia de liberdade de escolha. Segundo a doutrina maioritária tradicional, a Administração tem uma dupla liberdade de escolha, podendo escolher tanto as formas de organização quanto as formas de atua- ção do direito privado.21 Contra o princípio da liberdade de escolha têm sido apresentados receios ligados à ideia de Estado de Direito. Entretanto, para não contrariar o princípio típico do Estado de Direito, entende-se que o consentimento jurídico negocial do cidadão quando da aplicação de técnicas de atuação jurídico-­ privadas, não deve dispensar a exigência de uma lei de autorização para tal atuação. Muitos autores entendem que se pode atuar sob a forma de direito privado, mas com uma vincu- lação jurídico-pública. 20 TÁCITO. Desvio de poder em matéria administrativa, 1951, f. 30; 1975, p. 72. 21 ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 207-221.
  • 6. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 Gabriela de Carvalho 42 ARTIGOS Parte-se da ideia de direito público como direito especial do Estado e das outras entidades públicas e entende que, regra geral, eles devem desempe- nhar as tarefas que lhes são atribuídas por normas de direito público, a não ser que esteja expressa a vontade de atuar por meio jurídico-privado. Freitas do Amaral22 afirma não aceitar que vigore no nosso direito a presunção legal segundo a qual todo o contrato entre a Administração e um particu- lar deve ser considerado, em caso de dúvida, um contrato administrativo. Assim, considera que po- dendo a Administração celebrar com os particulares tanto contratos administrativos com contratos de direito privado, nenhuma razão há para fazer fun- cionar aqui uma presunção quer num sentido quer noutro: se a lei e as cláusulas contratuais forem omissas, é o exame do objeto e o fim do contrato — e portanto, em última análise, o apuramento da sua natureza — que permitirá em caso de dúvida, definir o regime aplicável. 5 O princípio da especialidade das pessoas coletivas públicas Para Maria João Estorninho23 esta questão de saber até que ponto vai a liberdade de escolha das formas de organização e das formas de atuação por parte de uma entidade administrativa pode recondu- zir-se, no fundo, à questão, do âmbito de competên- cia dos próprios órgãos dessas mesmas entidades. Marcelo Caetano24 afirmava que, à exceção do Estado, “todas as pessoas coletivas existem espe- cialmente para aqueles fins em razão das quais a personalidade lhes foi reconhecida, nisso se tradu- zindo precisamente o tal princípio da especialidade das pessoas coletivas”. Assim, esse princípio im- plica, por um lado, a determinação precisa dos fins justificativos do reconhecimento da personalidade jurídica e, por outro, em ajustamento funcional do exercício da capacidade dos fins a atingir. A limitação da capacidade da pessoa coletiva está principalmente neste dever de só exercer os poderes para alcançar os fins institucionais, sem que deles se possa desviar. Se se desviam dos fins, os órgãos procedem “ultra vires”, excedem os seus poderes. Aquilo que a ordem jurídica pretende é que a entidade administrativa proceda a uma satisfa- ção formal do interesse público pondo em ação os meios que lhe concedem os poderes jurídicos. 22 AMARAL. Princípio da legalidade. Polis, p. 976 et seq. 23 ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 199-206. 24 CAETANO, Marcelo. Competência contenciosa em matéria de con- tratos administrativos apud ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 207 et seq. A escolha dos meios não é uma escolha indi- ferente, mas terá que ser a do meio conveniente, aquele capaz de satisfazer integralmente a neces- sidade final. Se a finalidade de qualquer ato administrativo é atender ao interesse público, no caso do ato vinculado, tal interesse já foi a priori demarcado pelo legislador, condicionado de modo preciso à futura conduta do agente administrativo. Ora, se o Administrador, no uso do poder discricionário de que dispõe, deixa de atender ao fim legal a que está indissoluvelmente ligado, é claro que exorbita do poder que a lei lhe conferiu. Daí, o dizer-se com inequívoca precisão que o fim legal é o teto, a baliza, a faixa demarcadora do poder discricionário, limite no qual esbarra a discri- cionariedade. Conhecer esse limite é de importância primordial para cada cidadão, porque aí reside nossa defesa contra a arbitrariedade administrativa.25 Se a opção administrativa desatende a essa finalidade, deve-se concluir que extralimitou da sua zona livre, violando uma prescrição jurídica, expressa ou implícita, o que a transpõe, por definição, para a zona vinculada.26 Em vez de falar de limites do poder discricio- nário, em razão de um fim imposto, é mais correto dizer que o poder, sendo discricionário quanto ao objeto e ficando pleno e sem limite discricionário, pode cessar e cessa sempre de ser discricionário, para tornar-se vinculado, no que se refere ao fim.27 6 Autonomia privada da Administração Pública? O problema da admissibilidade da utilização de formas jurídico-privadas por parte da Administração Pública tem sido desdobrado em duas questões diferentes: por um lado, a questão da liberdade de escolha das formas de organização jurídico-privadas e, por outro, a questão da liberdade de escolha das respectivas formas de atuação. Ehlers,28 a propósito daquela que parece ser a posição dominante, afirma que a ideia de liberdade de escolha implica no reconhecimento de uma es- pécie de “arte administrativa” para escolher a forma jurídica mais apropriada às situações concretas. Contra o princípio da liberdade de escolha têm sido apresentados receios ligados à ideia de Estado de Direito. Assim, tal liberdade é problemática, com base em dois fundamentos: por um lado, gera in- certeza jurídica, porque o cidadão não sabe quais 25 CRETELLA JÚNIOR. O desvio de poder na Administração Pública. 26 LEAL. Problemas de direito público, p. 285. 27 BONNARD. Précis de droit administratif, p. 67. 28 EHLERS apud ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contribu- to para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 192.
  • 7. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 A nova Administração Pública e o direito administrativo ARTIGOS 43 as formas jurídicas de que a Administração vai se servir no caso concreto; por outro, acaba por atribuir à Administração a possibilidade de escolher quais as regras jurídicas que vão reger a sua atuação. A escolha entre a obrigatoriedade e a liberdade de formas deve ser feita tomando necessariamente em conta dois tipos de interesses fundamentais que têm constituído duas preocupações-chave da doutrina das formas de atuação da Administração: a necessidade de assegurar a proteção do particu- lar e a necessidade de permitir à Administração o cumprimento eficiente das suas tarefas. Pestalloza29 defende que, perante qualquer atuação jurídico-privada do Estado, há que ultrapas- sar a dupla barreira jurídica de colisão, ou seja, o fato de, em certas circunstâncias, ele poder deixar o âmbito do seu direito especial (primeira barreira) não significa que lhe seja aberta automaticamente a porta para o terreno do direito privado (segunda barreira). Pode-se dizer, assim, que o ponto de partida dessa tese de Pestalloza é o ator e não o ato, uma vez que a aplicação do direito público a uma deter- minada relação acaba por depender do fato de o Estado nela participar ou não. Ou seja, o que inte- ressa é a natureza de quem atua e não a natureza da atuação. Para Maria João Estorninho,30 só optando por um conceito depurado de autonomia, compatível com a existência de inúmeras limitações e vincula- ções, se poderá eventualmente falar em autonomia privada da Administração Pública, ou seja, não existe autonomia privada da Administração Pública. É inegável que, no contrato moderno, o papel da autonomia da vontade a bem pouco se reduziu, para não dizer que em muitos casos praticamente desapareceu. Perante isto, acaba-se por defender que pouco importará que as pessoas possam determi- nar, livremente, na totalidade ou em parte, o objeto da relação; mas é essencial que, dado determinado objeto, as pessoas possam ou não vincular-se a seu respeito. Sérvulo Correia31 chama atenção para o fato de os pressupostos ideológicos da autonomia pri- vada no Estado Social de Direito já não serem os do individualismo jurídico, mas o seu fulcro conti- nuar, todavia, a ser ainda a liberdade de princípio da conduta humana, o respeito do poder jurígeno da pessoa, na medida em que se concilie com os interesses da coletividade. 29 PESTALLOZA apud ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contri- buto para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 197. 30 ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 207-221. 31 CORREIA. Legalidade e autonomia contratual nos contratos admi­- ni­strativos. O Código Civil italiano, hoje, reconhece a capaci- dade geral de direito privado às pessoas coletivas pú- blicas e a maioria dos autores passou a admitir que a Administração Pública goza de autonomia privada.32 A Administração Pública que atua sob as formas jurídico-privadas está vinculada pelo princípio da lega- lidade, pelas regras de competência, a propósito das quais vale o princípio da especialidade e à prosse- cução do interesse público, traduzida nomeadamente numa vinculação a um vínculo de fim. No exame da legalidade do ato administrativo, o fim é elemento essencial, básico, sujeito à aprecia- ção dos órgãos judiciários. O conceito de legalidade não existe separado da realidade social, porque a lei não é simples norma, sem apoio na sociedade para a qual se elabora. Se a ação humana subordi- na-se a um fim ou alvo, há uma direção, uma pauta, assinalando a linha de desenvolvimento do ato. A expressão dessa pauta de comportamento é o que chamamos de norma ou de regra.33 7 O princípio da eficiência e o novo perfil da Administração Pública Quando se trata acerca de um novo perfil da Administração Pública, são dois os aspectos essen- ciais a serem destacados: a) os efeitos da subordi- nação da Administração Pública a uma nova ordem constitucional, no contexto de um Estado Democrático de Direito; e b) o fato de a Administração Pública estar vinculada a uma nova técnica de legitimação de sua atuação: o procedimento ou processualidade administrativa. Quanto à primeira das questões em relevo, não é desconhecido que a Constituição de 1988 estabeleceu no Brasil um novo paradigma jurídico-­ constitucional às relações entre o Estado e o indi- víduo. Isso resta demonstrado, sobretudo, em face do destaque estabelecido pelo texto constitucional aos direitos fundamentais, tanto como direitos fundamentais de proteção da pessoa em relação ao Estado, quanto como direito fundamentais de prestação, exigindo do Estado-Administração que as- segure acesso a uma série de bens considerados essenciais a uma vida digna. Esta influência dos di- reitos fundamentais sobre a Administração Pública e o direito administrativo, como reflexo do próprio fenômeno denominado de constitucionalização do direito, não é exclusivo do direito brasileiro.34 Isso implica, de um lado, a mitigação da vi- são da Administração Pública como titular de prer- rogativas absolutas em relação ao administrado e 32 ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 207-221. 33 REALE. Filosofia do direito, p. 335. 34 MIRAGEM. A nova Administração Pública e o direito administrativo, p. 45.
  • 8. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 Gabriela de Carvalho 44 ARTIGOS mesmo da supremacia do interesse público como princípio com traços de aplicação preferencial, afas- tando como regra o interesse particular. Da mes- ma forma, exige-se da Administração Pública, no seu proceder, uma constante legitimação, à luz do Estado Democrático de Direito estabelecido, que assegure a participação dos cidadãos nas questões administrativas de interesse geral. Essa legitimação se estabelece, então: a) pela exigência de um procedimento administrativo e a garantia da sua regularidade; e b) pela disciplina de mecanismos que assegurem aos administrados o máximo de acesso a informações e efetiva par- ticipação no processo de tomada de decisões da Administração Pública. A exigência de um regular procedimento admi- nistrativo põe em relevo característica já havida pelo direito administrativo, mas que ora se renova, a que a doutrina nacional denominou processualidade do direito administrativo. Conforme refere Odete Medauar, em des- tacada monografia sobre o tema, “o exercício do poder, em um Estado de Direito que reconhece e garante direitos fundamentais, não é absoluto; canaliza-se a um fim, implica deveres, ônus, sujei- ções, transmuta-se em funções, o que leva o orde- namento a determinar o filtro de processualidade em várias situações revestidas de poder”. A processualidade pressupõe, além do ade- quado cotejo dos direitos e interesse em eventual disputa no âmbito da atuação administrativa, tam- bém a conformidade desta atuação com os direitos fundamentais e os deveres de proporcionalidade e razoabilidade da conduta da Administração Pública e do seu resultado concreto. No tocante à disposição de mecanismos que assegurem o máximo acesso a informações, assim como a participação dos administrados no processo de formação da vontade estatal, o princípio democrá- tico que emerge da Constituição vai exigir, em primei- ro lugar, a institucionalização desses mecanismos, de modo que não fiquem submetidos à incerteza das orientações de governo; da mesma forma que os níveis de participação venham acompanhados de efetivo acesso a informações que permitam a for- mação de convencimento, inclusive técnico, sobre as questões em debate; e, por fim, que o resultado dos processos de participação, e embora não deva necessariamente vincular a decisões do agente pú- blico, dê causa a um dever de motivação específico, um ônus de argumentação técnico-jurídica, quando a decisão da Administração não convergir para o con- teúdo das manifestações trazido no processo de participação dos administrados.35 35 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 237. Tais aspectos integram o conceito jurídico de eficiência da Administração Pública e não podem ser desconsiderados. Integram-se, pois, com fun- damento constitucional, aos métodos de gestão a serem exigidos dos agentes públicos, assim como constituem meios de validação dos resultados a se- rem obtidos no âmbito da gestão pública, o que se coaduna com o novo perfil da Administração Pública gerencial e seus desafios atuais no âmbito do direito brasileiro. 8 Publicização do direito privado A utilização de formas tipicamente privadas pela Administração Pública não pode significar um afastamento das vinculações jurídico-públicas fun- damentais da Administração, sob pena de não se tratar de uma mera “fuga para o direito privado”, mas de uma “fuga do ordenamento jurídico”, “fuga do direito”. Portanto, qualquer que seja a atividade da Administração, ela deve ser limitada pelas vincu- lações jurídico-públicas, sobretudo no que diz res- peito aos direitos fundamentais. Portanto,emrespostaaessa“tentativa”defuga das vinculações jurídico-públicas da Administração através do direito privado, o que ocorre é um pro- cesso reflexo à privatização, que seja, a publiciza- ção do direito privado utilizado pela Administração, podendo-se inclusive se falar em um direito priva- do especial, o direito privado da Administração.36 Nessa esteira, surgiu na Alemanha o conceito de Verwaltungsprivatrecht, enquanto direito privado publicizado utilizado pela Administração. A princípio atribui-se a H. J. Wolff, juspublicista alemão, a formu- lação inicial desse conceito, mas contemporanea- mente, Wolfgang Siebert, partindo do direito privado, fez formulação similar. Pouco importa qual dos dois doutrinadores foi o primeiro a definir essa caracterís- tica sui generis do direito privado da Administração, interessante é que, mesmo Wolff partindo de uma perspectiva de direito público e Siebert partindo do direito privado, ambos chegaram ao ponto em comum de identificar que os instrumentos jurídico-­ privados utilizados pela Administração Pública eram necessariamente alvo de um publicização.37 A Administração, seja atuando por meio de instrumentos tipicamente jurídico-públicos, seja por instrumentos jurídico-privados, não deixará de assu- mir uma posição diferenciada do particular, estando cerceada de uma hipotética autonomia privada. As normas de direito privado, nesse caso, seriam “complementadas, ultrapassadas e modificadas” pelas normas de direito público. 36 ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 129. 37 BIELSCHOWSKY. Privatização da Administração Pública. Âmbito Jurídico.
  • 9. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 A nova Administração Pública e o direito administrativo ARTIGOS 45 Assim, enquanto aspectos dessa publicização, pode-se destacar, por exemplo, a exigência de au- torização legal para a atividade jurídico-privada da Administração, vinculações especiais na utilização dos instrumentos de direito privado (principalmente no que concerne às vinculações ligadas à proteção de direitos fundamentais) ou mesmo confundir, ou misturar as atividades da Administração em funções de soberania com aquelas que não desempenham esse papel. 9 Vinculações jurídico-públicas da Administração Pública na utilização do direito privado Qualquer que seja a atuação da Administração Pública, será sempre pautada por uma série de valores, de ordem legal e constitucional, que fun- cionam como modeladores da vida administrativa do Estado e entidades públicas. Porém, é possível observar-se diferentes graus de influência dessas vinculações dentro da atividade pública. Enquanto, por exemplo, em um patamar de extrema vinculação identifica-se o desempenho de funções de sobera- nia, em outro, como na atuação empresarial estatal vê-se menor influência. Todavia, não há como se falar em qualquer atuação pública que não observe esses limites. Assinala-se no modelo sistêmico, em vez de abstenção, o crescimento das intervenções admi- nistrativas no setor privado, só que com tendência, na medida da democratização, para a utilização de formas predominantemente consensuais e de cola- boração. Na classificação de Laubadère, as interven- ções podem ser: a) diretas e indiretas, hoje optando a Administração, sempre que possível, pelas medi- das indiretas (estímulos fiscais, empréstimos, ação sobre o crédito etc...) em lugar de medidas imperati- vas, com resultados positivos, aquelas, em setores como meio ambiente, transportes, comunicações e infraestrutura; b) unilaterais (política econômica) e convencionais (acordos e contratos de colabora- ção), preferindo-se as últimas. Verifica-se que “para assegurar o controle de um sector, o Estado, atual- mente, emprega processos mais maleáveis que a criação de uma empresa pública propriamente dita; a conclusão de contratos de colaboração particular- mente estreita permite-lhe realizar associações que tornam mais relativa que outrora a distinção do sec- tor público e sector privado”.38 Falam-se em tendência para a administração concertada ou pactuada e em um novo contratua- lismo, caracterizado por tratativas, negociações, transações, compromissos, convenções, acordos 38 MOREIRA. Direito administrativo, p. 148 et seq. entre grandes grupos de interesses ou de poder; e, ainda, de relação triangular (não mais binária, Estado-indivíduo) na qual o governo, idealmente repre­sentante dos interesses nacionais, intervém só na qualidade de mediador, entre as partes so- ciais, e, no máximo, como garante do cumprimento do acordo.39 A concertação é um método que consiste na troca de ideias e negociação entre os interessados, com vista a encontrar uma linha comum de conduta. É o “regime em que os representantes do Estado (ou das coletividades secundárias) se reúnem de maneira organizada, para trocar as suas informa- ções, para confrontar as suas previsões e para, em conjunto, ora tomar decisões, ora formular parece- res dirigidos ao governo”.40 O planejamento indicativo (não prescritivo) transforma a economia, antes dirigida, em orien- tada. Na França, o plano indicativo é instrumento empregado, sobretudo, no ordenamento do terri- tório, nas localizações industriais e no urbanismo. Utilizam-se licitações, encorajamento, prêmios, be- nefícios fiscais, subvenções e atrativos financeiros para que os envolvidos busquem espontaneamente alcançar as metas, estas, às vezes, previamente negociadas. Como exemplo, cita-se a utilização des- se método para efeito de obter o reagrupamento de pequenas comunidades, de modo a tornar mais racional a implantação de equipamentos coletivos, redes de vias públicas, telecomunicações etc.41 A consequência inevitável de todas as evolu- ções é a criação de situações de verdadeira mis- celânea, nas quais os direitos público e privado se misturam até as últimas consequências.42 Assim, por um lado, o direito administrativo (microcosmos jurídico que tende a abarcar todas as áreas de atuação) abrange hoje a atuação de toda a Administração Pública, e também, em certa medida, a atividade das verdadeiras entidades privadas que colaboram com a Administração. 10 A execução associada por contrato e a sinergia da parceria – Espécies de contratos administrativos – Consensualidade A modalidade de sinergia contratual, por ser estável, produz uma parceria entre o Poder Público e os entes da sociedade, um tipo de relaciona- mento que gravita em torno de empreendimentos de substrato econômico.43 39 LAUBADÈRE. Direito público econômico. 40 BLOCH-LAINÉ apud MOREIRA. Direito administrativo, p. 148 et seq. 41 LAUBADÈRE apud MOREIRA. Direito administrativo, p. 148 et seq. 42 ESTORNINHO. A fuga para o direito privado: contributo para o estudo da actividade de direito privado da Administração Pública, p. 379. 43 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 341 et seq.
  • 10. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 Gabriela de Carvalho 46 ARTIGOS Outras modalidades de parceria poderão ser também instituídas por atos administrativos, mas, como resultado óbvio, tais relações serão sempre precárias, não se prestando para empreendimen- tos associativos de natureza econômica de porte, embora sirvam para conciliar o interesse econômico individual de menor monta com o interesse público, durante algum tempo e em restritas condições. As modalidades contratuais de parceria ten- dem a se multiplicar no direito administrativo con­tem­ porâneo, e isso em razão da extrema diversidade de situações encontradas na área econômica, como um simples elenco exemplificativo demonstra: conces- sões de serviços públicos e de uso de bem público, permissão de serviços públicos, arrendamento por- tuário, arrendamento operacional, franquia pública, gerenciamento privado de entidade pública, venda de bilheteria e contrato de risco. A administração consensual não deve ser pen- sada radicalmente nem ideologicamente. Não deve ser considerada panaceia, nem tomada como regra. Dela não se esperam milagres, mas o desenvolvi- mento da confiança e do diálogo, e sempre dentro dos limites da legalidade. Sua introdução racional nas atividades da Administração está destinada a acrescentar às po- tencialidades de criatividade e de ação da sociedade. Bem empregada, adequadamente e sem excessos, ela tem condições de fazer das miríades de organiza- ções sociais leais parcerias do Estado-administrador. Essa parceria pode revolucionar o próprio con- ceito republicano, valorizando a cidadania, por isso, mais importante ainda do que possam ser as pro- messas de suas muitas potencialidades práticas, deve-se pensar o consenso na ação do Estado como um grande aperfeiçoamento ético nas relações en- tre os indivíduos e o Estado. O Estado do futuro, assim, poderá ter no exercício do consenso e não no da coerção, a primeira das opções relacionais.44 11 Princípio da participação e da subsidiariedade Atende-se melhormente ao princípio de subsi- diariedade sempre que a decisão do Poder Público venha a ser tomada da forma mais próxima possí- vel dos cidadãos a quem se destinem.45 Tal proxi- midade serve para garantir que o órgão titular do Poder Público considerará sempre, em suas deci- sões: primeiro que sejam respeitados os direitos e iniciativas dos cidadãos e das entidades privadas; segundo, que qualquer intervenção administrativa 44 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 349. 45 ORTIZ. La empresa pública. In: GARRIDO FALLA et al. El modelo economico em la Constitucion espanola apud MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 377. somente se produza em caso de inexistência ou de insuficiência da iniciativa individual ou social; tercei- ro, que mesmo neste caso, a intervenção somente se faça na medida indispensável para atender ao interesse público legal e legitimamente definido; e quarto, que se assegure que os outros entes ou órgãos administrativos, maiores ou menores, não tenham condições de agir com maior eficiência. Nessa nova continuidade fenomênica em cons­trução entre sociedade e Estado, com intensa participação das pessoas, individualmente ou por en- tidades secundárias organizadas, não mais se defi- nirá uma nítida distinção entre o público e privado e, em consequência, entre categorias de direitos aplicá- veis sob o critério subjetivo. Mas enquanto o Direito não se unificar, desfeita a milenar distinção romana, permanecerá o critério finalístico para definir qual de seus ramos regerá cada tipo de relações, o público ou o privado. No entanto, na projeção feita, o papel do Estado, longe de diminuir, ganhará em importância, já que, fortalecido pela segurança ética que lhe dará o princípio de subsidiariedade, concentrará decidida- mente sua ação em seu próprio campo decisional, o da finalidade pública, uma vez que esta só pode ser realizada efetivamente com sua ação: “Um Estado que agora, sobretudo, regula, vigia, inspeciona, san- ciona. Acentua esse papel vigilante, sem prejuízo de que às vezes preste diretamente serviços”.46 Portanto, em síntese, levando em conta e pon- derando as mutações em marcha, uma nova classi- ficação já se pode vislumbrar no horizonte do que admite ser confortavelmente denominado serviços públicos em sentido amplo: ter-se-ia, de um lado, os serviços públicos estatais, de prestação exclusi- va pelo Estado, que são extra commercium e sujei- tos a um regime jurídico exclusivamente público, e, de outro lado, recuperando a velha nomenclatura, agora mais adequada, os serviços de utilidade pú- blica, que são intra commercium e por isso devem ser prestados pelas entidades da sociedade e, ex- cepcionalmente, quando se justifique, pelo próprio Estado, porém que, em razão dos interesses públi- cos envolvidos e segundo sua predominância em cada caso, se sujeitam a regimes jurídicos mistos de direito público e privado.47 12 Conclusão Nessa nova conjuntura vê-se uma permu- ta de valores e formas entre público e privado. Vinculações classicamente típicas a figuras públi- cas passam também a reger a atuação de entes 46 REBOLLO, Luis Martín. Servicios públicos y servicios de interés ge- neral. In: MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo (Coord.). Uma ava- liação das tendências contemporâneas do direito administrativo: obra em homenagem a Eduardo García de Enterría. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 111. 47 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 379.
  • 11. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 A nova Administração Pública e o direito administrativo ARTIGOS 47 particulares, bem como instrumentos tipicamente privados tornam-se comuns também à atuação da Administração Pública. Assim, pode-se falar em uma diluição (ainda que não haja uma eliminação) das fronteiras entre esses dois campos, sobretudo, no que diz respeito à clássica dicotomia entre direito público e privado. Atualmente, a questão da reforma e reestrutu- ração da Administração Pública se reveste dos valo- res da competitividade e liberdade de escolha, por poderem potenciar novas práticas e novas formas de bem-estar que vão ao encontro da qualidade, da racionalidade e da convergência. Nesse sentido, alguma discussão se faz pre- sente quanto ao reconhecimento pelo ordenamento jurídico do princípio da liberdade de escolha das for- mas jurídico-privadas de atuação da Administração Pública. Naturalmente, a “liberdade” do setor pú- blico sempre estará limitada pela legalidade, razão base de qualquer atuação dentro da esfera pública. Reconhece-se que a atividade administrativa não só tem limites jurídicos, opostos a seu emprego para evitar abusos, como condicionantes políticos, para que possa alcançar maior eficiência adminis- trativa. Afirma-se, então, que o princípio da le­galidade estrita foi substituído pelo princípio da legitimidade ou juridicidade, que caracteriza a moderna concep- ção jurídica do “Direito por princípios”. A perspecti- va que se projeta, tanto ao nível do direito quanto ao nível da organização administrativa, é a supera- ção da rigidez lógico-formal.48 O setor empresarial público pode, por razões de eficiência e persecução do interesse público, utilizar formas organizativas tipicamente jurídico-­ privadas para assim atingir melhor seus objetivos, em se considerando sempre ser esta uma “liber- dade” condicionada pelos parâmetros de legalidade. Assim sendo, não se poderia tratar propriamente de um “princípio de liberdade de iniciativa e organiza- ção empresarial pelo setor público”, mas tão so- mente, de uma “liberdade política” do legislador e dos agentes públicos em decidir quais os melhores meios e formas para atingir-se o interesse público. Embora originariamente, nas sociedades mono­ classe e biclasse, tenha bastado uma participação reduzida à escolha de agentes políticos, parece hoje fora de dúvida que a complexidade dos problemas e das soluções demanda novas formas de parti- cipação voltadas à escolha de políticas públicas com grau de diferenciação suficiente para atender às especificidades dos diversos subgrupos sociais reivindicantes.49 A participação pública nas decisões e a pro- cessualidade adequada complementam o conteúdo 48 FERRAZ. Direito público moderno, p. 159. 49 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 332. impulsionador da eficiência da ação do Estado. A exigência de uma forma adequada pode disciplinar com fidelidade e segurança o processo de forma- ção da vontade participativa, ou seja, a processua­ lidade adequada como garantia de instrumento democrático. É inegável que o consenso como forma alter- nativa de ação estatal representa para a Política e para o Direito uma benéfica renovação e para a ação administrativa, em especial, o consenso pode ser adotado não apenas pela via contratual, como tradicionalmente se tem feito, mas pela via do acor- do não contratual, ainda incipientemente utilizado no Brasil, pois quase que restrito a duas modali- dades mais familiares, a dos convênios e a dos contratos.50 Pela consensualidade, o Poder Público vai além de estimular a prática de condutas privadas de interesse público, passando a estimular a cria- ção de soluções privadas de interesse público, con- correndo para enriquecer seus modos e formas de atendimento. Assim, um Estado de juridicidade plena (de lega- lidade, de legitimidade e de licitude), um Estado de Justiça, não pode prescindir dessa interação hori- zontal e sadia com a sociedade, devendo refletir-­ se em sua atuação, de modo que ações suasórias sempre precedam ações dissuasórias e estas, as sancionatórias: a face imperativa do Poder só deve aparecer quando absolutamente necessário e no que for absolutamente indispensável.51 Diante disso, a escolha entre a obrigatoriedade de formas e a liberdade de formas deve ser feita tomando necessariamente em conta dois tipos de interesses fundamentais que têm constituído duas preocupações-chave da doutrina das formas de atua­ção da Administração: a necessidade de asse- gurar a proteção do particular e a necessidade de permitir à Administração o cumprimento eficiente das suas tarefas. Nesse contexto, observa-se uma difusão da Ad­ mi­nistração Pública através de formas e instrumen- tos jurídico-privados, podendo identificar inclu­sive um fenômeno nomeado “fuga para direi­to privado”. Se é verdade que a utilização do direito privado pela Administração é válida, na medida em que signifi- que sua desburocratização e maior fluência da ati- vidade administrativa, por outro lado ela não pode significar uma fuga das vinculações essenciais que devem pautar a atuação da Administração Pública, sob pena de se caracterizar uma real “fuga do Direito”. 50 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 333. 51 MOREIRA NETO. Mutações do direito público, p. 348.
  • 12. Fórum Administrativo – FA, Belo Horizonte, ano 14, n. 158, p. 37-48, abr. 2014 Gabriela de Carvalho 48 ARTIGOS Nesse sentido, é notável que o direito privado utilizado pela Administração é o mesmo aplicado pelo particular, sofrendo assim influências das vincu- lações administrativas, havendo portanto um proces- so reflexo à privatização, o da publicização do direito privado utilizado pela Administração, podendo-se in- clusive falar em um direito privado da Administração. Hoje, muitos são os autores que se pronunciam no sentido de um alargamento dessa vinculação da Administração Pública às formas jurídico-privadas. Mas chama-se atenção para o fato de, em bom ri- gor, a atividade da Administração nunca poder ser considerada exatamente igual à dos particulares. Significativo nessa matéria é o fato de que a Administração Pública que atua sob as formas jurí- dico-privadas está vinculada pelo princípio da legali- dade, pelas regras de competência, a propósito das quais vale o princípio da especialidade e a prosse- cução do interesse público, traduzida nomeadamen- te em uma vinculação a um vínculo de fim. Conclui-se, portanto, que mesmo que a Admi­ nistração Pública utilize formas de organização de direito privado, essas formas são vinculadas à pros- secução do interesse público e, por isso, devem aplicar um direito privado especial da Administração, vinculado aos direitos e princípios constitucionais, principalmente, à igualdade e imparcialidade. Abstract: This article aims to analyze the issue of the admissibility of the use of private legal forms by the Public Administration. On the one hand, the question of freedom of choice of legal forms of organization-private and, secondly, the question of freedom of choice of their forms of action. The idea of freedom of choice implies that recognition as a kind of “art administrative” to choose the most appropriate legal form to concrete situations. Against the principle of freedom of choice have been presented concerns connected with the idea of rule of law. Thus, such freedom is problematic, based on two grounds: firstly, creates legal uncertainty, because the citizen does not know what the legal forms of management to serve the case, however, turns out to give the Administration the ability to choose which legal rules which will govern its operations. The theme was explored from constitutional principles, in the succession of legal approaches of mainstream administrativistas some scholars and constitutionalists. The legal public/private were analyzed and interpreted according to the requirements of the question of modernity and post modernity. Key words: Legal forms by Private-Public Administration. Principle of freedom of choice. Principle of legality. Democratic State. 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