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INFORME MENSAL ZAI GEZUNT
ANO 3 - MAIO/ JUNHO de 2.017 No 35
O TEATRO PROFISSIONAL ÍDISH EM SÃO PAULO
Milton Cipis *
O sobrenome Cipis, originalmente se pronunciava Tsipes. Os Tsipes são originários de
Makhnovka), um pequeno shteitl (aldeia) no interior da Ucrânia, que na época pertencia ao
império Russo. Meu trisavô saiu de Makhnovka para abrir com um sócio uma taberna em
Berditchev, uma cidade maior próxima da aldeia natal. Algum tempo depois, quando os negócios
deixaram de ir bem ele mudou-se com a família para Odessa, na beira do mar negro.
Nesta época, o jovem Iacov-Zeidl Tsipes, meu bisavô, foi trabalhar numa fábrica de charutos para
ajudar a família. Odessa era uma cidade grande com uma vida cultural agitada, e ele logo começou
a se interessar por teatro. Ele juntava centavos para poder ir assistir as peças, e acabou
conhecendo o pessoal da área. Quando ele tinha dezessete anos, para desgosto da sua família,
engajou-se numa trupe de teatro e se mandou. Casou com uma atriz e cantora chamada Ite Foigl.
Foigl em idish significa pássaro, e dizem que ela cantava feito um passarinho. Depois de passarem
por muitas trupes, inclusive a de Avram Goldfaden, o fundador do teatro idish, eles formaram uma
trupe familiar junto com os filhos, genros e noras. Usavam o pseudônimo Cipkus. No alfabeto
Cirílico o “P” tem som de “R”, e o pseudônimo era lido como CIRKUS.
A famíla Cirkus percorria a Europa oriental de carroça, alugando pequenos salões e montando
seus espetáculos. Na época, permeando as fronteiras oficiais entre os países, existia um imenso
país virtual de língua ídish, uma espécie de Idishland, com língua, cultura, religião e costumes
próprios. É por este país virtual que os Tsipes zanzavam fazendo o seu teatro mambembe em
ídish. Acredito que eles possam ter encenado alguma vez para algum Zygband, Strenger,
Millenbach, Segal, Feldmann, Terepins, Rudich, Farkas, Stern, Golubcic, Mehlson, Cohem, Maizel,
Reiter, Handfas, Proushan e Brandes, entre outros. Todas estas famílias faziam parte deste rico
caldo cultural, e por força do destino seus descendentes se encontrariam anos depois. Só não
encenaram para os Finzi Foá, porque eles moravam fora do circuito, na Itália.
Nem sempre o teatro ídish era tolerado pelas autoridades czaristas, e para contornar isto os
Tsipes recorriam a estratagemas, deixavam números ensaiados com canções russas, que eram
imediatamente entoadas no palco e pelo público depois de dado o alarme.
E isto acontecia sempre quando algum inspetor invadia o teatro.
A imensa e virtual Idishland foi desmantelada durante a 2ª Guerra Mundial. Em 14 de julho de
1941, Makhnovka foi capturada pelos alemães. Dos judeus moradores de lá, 835 foram levados
para floresta de Zhezhlevsk, a 5 km de lá e obrigados a cavar um imenso buraco, onde foram
fuzilados. Os mais ou menos 100 judeus que sobraram foram confinados num campo, nas
imediações, eles eram artesãos úteis para a guerra. Em dezembro de 1942 os últimos 7
sobreviventes deste grupo foram assassinados. Não sei quantos Tsipes haviam por ali naquela
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época. Em 1941, os meus Tsipes já haviam virado Cipis, e viviam em São Paulo. Apesar de serem
intelectuais de esquerda, eles imigraram para o Brasil em 1919, após terem apoiado a revolução
de 1917, por causa do clima hostil contra os judeus. Vieram quase todos, meu bisavô, 2 filhos e
noras.
Meu avô Mille (meu nome MILton é uma homenagem a ele), morreu de cirrose hepática em 1939.
Ele adorava uma vodka. Vivia de fazer teatro em São Paulo para a pequena população de judeus.
De vez em quando viajava para o Rio, Recife e Buenos Aires para atuar. Mesmo sem ter um
emprego fixo, ele saia todas as manhãs religiosamente, e voltava no final do dia, ou quando
encenava, no final da noite. Meu pai achava que ele ficava num boteco enchendo a cara com
amigos, ou ia visitar as prostitutas polacas da Rua Mamoré. Eles viviam num pequeno quarto de
um cortiço da Rua da Graça, com cozinha e banheiro coletivos. Meu pai lembra de atores
frequentando o cortiço, bebendo, conversando e cantando em ídish. Apesar da vida miserável ele
sentia o maior orgulho dos pais artistas.
Do lado de minha mãe, os Epstein vieram da Bessarabia, do lado da Ucrânia. Depois de casar e ter
filhos em Vilna (na época Lituânia) meu trisavô saiu para comprar cigarros e se mandou para a
Inglaterra (é possível que eu seja parente do Brian Epstein!). Meu bisavô Hirsh Epstein era
maquinista de trem, e perdeu um olho quando uma fagulha em brasa entrou no seu olho no meio
de uma viagem. Quando eu era pequeno ficava impressionado com aquele velho magro, de bigodes
longos amarelados por causa do cigarro, com aquele rosto sério e com as pálpebras do olho
esquerdo costuradas sobre a órbita vazia. Os Epstein chegaram no Bom Retiro em 1929.
Os Epstein também tinham ideais esquerdistas. Meu avô Wolf casou-se e morreu logo depois, de
apendicite, com apenas 24 anos. Foi o suficiente para gerar a minha mãe, que foi batizada de Ofabi,
um acrônimo em ídish de Ofenung Far Ale Brider Internacional. A tradução é: Esperança Para
Todos Irmãos Internacionais. Ele foi operário da Funtimod (fabricante de tipos para tipografias), e
da São Paulo Railway. Era um cara habilidoso, e fez uma estrela de bronze e latão com o símbolo
da foice e o martelo, que eu tenho guardado comigo. O velho Hirsh Epstein também era habilidoso
e trabalhou como chaveiro no Bom Retiro, no tempo que as chaves eram enormes e feitas à mão.
Minha avó Ana, nascida na Polônia e casada com o Wolf, sempre dizia que era “brrasilerra”, com
aquele sotaque carregado polonês. Ela tinha ódio dos poloneses. Por causa das perseguições e
intolerâncias eles não criaram laços com os países de origem. Os laços que eles tinham era com a
cultura judaica, com a tal da Idishland.
Os Cipis e os Epstein se conheceram na chamada “Casa do Povo”, entidade cultural frequentada
pelos pais da maioria dos nossos colegas nascidos no Bom Retiro. Esta entidade foi fundada pelos
primeiros imigrantes com o nome de Jugnt Club (Clube da Juventude). Mais tarde mudou o nome
para Centro Cultura e Progresso e depois virou Instituto Cultural Israelita Brasileiro.
Foi essa entidade que fundou o Teatro TAIB e a Escola Scholem Aleichem, fundada em 1949, que
utilizava métodos pedagógicos modernos.
Na Casa do Povo meu pai participava do grupo de teatro amador, e chegou a ganhar um Prêmio
Governador do Estado das mãos do Jânio Quadros, pelo trabalho como diretor de teatro. Me
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lembro de assistir peças dele por trás do palco do TAIB quando eu era pequeno. Quando eu tinha 4
anos e meu irmão nasceu, meu pai foi com um grupo para Moscou num congresso da Juventude
Comunista. Logo depois ele abandonou a ideia do comunismo desgostoso com a ditadura de
Moscou e com o tratamento dispensado a Israel.
Foi neste ambiente que eu e os nossos colegas oriundos do Scholem nascemos. A Fanny e o Léo
contaram um pouquinho desta história. Apesar de toda esta politização, não recebemos um
ensinamento dogmático esquerdista, nem líamos O Capital no café da manhã. Não se falava disso
no dia a dia quando éramos crianças, o assunto só veio mais tarde, depois do Aplicação. A nossa
herança foi uma formação ética e humanista. Nossos pais tinham uma preocupação enorme com a
educação. Essa era uma preocupação comum a todos os pais judeus, religiosos ou ateus, de
esquerda ou direita.
Por conta disto tudo fui parar no Aplicação. Entrei na 2ª chamada, em 63º lugar. Prestei admissão
também no Scholem, que tinha acabado de abrir o ginásio, e lá entrei em 1º. Que belo contraste!
No Aplicação fui um aluno preguiçoso, que passava sempre de raspão. Eu era tímido e detestava
futebol. Uma pena, pois o futebol era um ótimo passaporte para a socialização. Uma 2ª época de
matemática com a Dona Vanda me fez finalmente me dar bem com a matéria. Minha experiência
no Aplicação foi inversamente proporcional à experiência do Léo, o que foi o Scholem para ele,
para mim foi o Aplicação. Uma época difícil, com muitas cobranças e uma sensação de bullying
permanente no ar. Mas não foi só isso. Ao mesmo tempo foi uma época de aprendizado e
emancipação. Andávamos sozinhos pela cidade com apenas 11 anos. Este peso que eu sentia no
Aplicação se dissipou completamente no 1º colegial e no Equipe.
Só fui entender o que estas escolas significaram na minha vida (Scholem, Aplicação e Equipe)
quando entrei na faculdade. Percebi que eu tinha muita facilidade em argumentar e discutir, ao
contrário dos meus colegas, que além de não saber falar, viviam uma certa pasmaceira cultural.
É isso.
Com presente artigodoMilton Cipis prestamos homenagem aohumorista e ultimo ator profissional
do teatro ídish em São Paulo, seu pai, nosso querido amigo Boris Cipis, prematuramente falecido.
Um poeta popular: Mark Warshavsky
Mark Warshavsky nasceu em 1840 na cidade de Zhitomir, Rússia. Foi advogado de profissão e
cantor popular por natureza, tendo falecido na cidade de Kiev em 1907.
Ele improvisava versos e os cantava em público, em reuniões sociais e festivas acompanhado de
violão, mas não percebeu o valor literário e popular de suas canções até que Scholem Aleichem
encorajou-o a publicá-las, além de escrever a introdução para o livro de Warshavsky: “Canções
Populares com Notas” editado em 1900 e composto de 25 poemas.
Seu sucesso foi imediato, logo depois da publicação do livro, quando eles se associaram como
atores itinerantes para audiências judaicas, em que Scholem Aleichem lia suas histórias e
Warshavsky apresentava suas canções.
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As canções e os poemas de Warshavsky, escritos num estilo simples, descrevem com entusiasmo
o comportamento e os hábitos de vida dos judeus do shteitl, sua alegria e a tristeza da vida diária
Elas falam da criança, da família judia, bem como sobre o futuro do povo judeu.
Suas canções de casamento (bodas) e seus hinos a Sion trouxeram alegria, conforto e esperança
para os judeus russos, vítimas da opressão tzarista. As canções de Warshavsky tornaram-se
bastante populares e foram publicadas e cantadas tanto na Europa como nos Estados Unidos.
Vejamos uma de suas canções:
AZ DI YONTEFDIKE TEG ( DOS FREILECH SHNAIDERL)
Quando os feriados começam a surgir Az do iontevdike teg haibn zir on bavaizn
Torno-me um outro homem Ver ich bai mir a Godl
Eu ponho de lado minha tesoura e meu ferro Ich leig mir avec di sher un aizn
E toda e qualquer agulha que esteja comigo Un vu ich hob nor bai mir a nodl
Paro de costurar e procurar trabalho Oifgehert naien, arbet zuchn
Querido pai Hartzediker tate
Um pouco de vinho no feriado A bisele vain in iontov
Experimentar Tzu farzuchn
É melhor do que fazer um remendo Is besser vi leign a late
Quando os feriados terminam Az di iontevdike teg heibn on fargeien
Querido pai Hartzediker tate
De novo recomeça o corte e a costura Is vider shnaidn, vider neien
E de novo começo fazer remendos Un vider leign a late
De novo recomeça a velha vida Vider tzit zich dos alte lebn
É de doer o coração... Es nemt baim hartzn raisn...
Oh! Minha querida Chana Oi vei Chane sertse lebn
Realmente você não tem nada para comer? Tzu hostu nit mit vos tzu farbaisn?
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Aguardem para o dia 30 de julho mais um programa da série “O Mundo de Scholem Aleichem” no
Teatro Arthur Rubinstein da Hebraica, Domingo Meio Dia com entrada livre para o público em geral.
Zai Gezunt: Edição do Grupo Amigos do Ídish.
Editor: Eng. Samuel Belk EMail: belk@uol.com.br
Colaborador: Eng. Moysés Worcman EMail: worcmosh@gmail.com

Zai Gezunt Nº 35

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    1 INFORME MENSAL ZAIGEZUNT ANO 3 - MAIO/ JUNHO de 2.017 No 35 O TEATRO PROFISSIONAL ÍDISH EM SÃO PAULO Milton Cipis * O sobrenome Cipis, originalmente se pronunciava Tsipes. Os Tsipes são originários de Makhnovka), um pequeno shteitl (aldeia) no interior da Ucrânia, que na época pertencia ao império Russo. Meu trisavô saiu de Makhnovka para abrir com um sócio uma taberna em Berditchev, uma cidade maior próxima da aldeia natal. Algum tempo depois, quando os negócios deixaram de ir bem ele mudou-se com a família para Odessa, na beira do mar negro. Nesta época, o jovem Iacov-Zeidl Tsipes, meu bisavô, foi trabalhar numa fábrica de charutos para ajudar a família. Odessa era uma cidade grande com uma vida cultural agitada, e ele logo começou a se interessar por teatro. Ele juntava centavos para poder ir assistir as peças, e acabou conhecendo o pessoal da área. Quando ele tinha dezessete anos, para desgosto da sua família, engajou-se numa trupe de teatro e se mandou. Casou com uma atriz e cantora chamada Ite Foigl. Foigl em idish significa pássaro, e dizem que ela cantava feito um passarinho. Depois de passarem por muitas trupes, inclusive a de Avram Goldfaden, o fundador do teatro idish, eles formaram uma trupe familiar junto com os filhos, genros e noras. Usavam o pseudônimo Cipkus. No alfabeto Cirílico o “P” tem som de “R”, e o pseudônimo era lido como CIRKUS. A famíla Cirkus percorria a Europa oriental de carroça, alugando pequenos salões e montando seus espetáculos. Na época, permeando as fronteiras oficiais entre os países, existia um imenso país virtual de língua ídish, uma espécie de Idishland, com língua, cultura, religião e costumes próprios. É por este país virtual que os Tsipes zanzavam fazendo o seu teatro mambembe em ídish. Acredito que eles possam ter encenado alguma vez para algum Zygband, Strenger, Millenbach, Segal, Feldmann, Terepins, Rudich, Farkas, Stern, Golubcic, Mehlson, Cohem, Maizel, Reiter, Handfas, Proushan e Brandes, entre outros. Todas estas famílias faziam parte deste rico caldo cultural, e por força do destino seus descendentes se encontrariam anos depois. Só não encenaram para os Finzi Foá, porque eles moravam fora do circuito, na Itália. Nem sempre o teatro ídish era tolerado pelas autoridades czaristas, e para contornar isto os Tsipes recorriam a estratagemas, deixavam números ensaiados com canções russas, que eram imediatamente entoadas no palco e pelo público depois de dado o alarme. E isto acontecia sempre quando algum inspetor invadia o teatro. A imensa e virtual Idishland foi desmantelada durante a 2ª Guerra Mundial. Em 14 de julho de 1941, Makhnovka foi capturada pelos alemães. Dos judeus moradores de lá, 835 foram levados para floresta de Zhezhlevsk, a 5 km de lá e obrigados a cavar um imenso buraco, onde foram fuzilados. Os mais ou menos 100 judeus que sobraram foram confinados num campo, nas imediações, eles eram artesãos úteis para a guerra. Em dezembro de 1942 os últimos 7 sobreviventes deste grupo foram assassinados. Não sei quantos Tsipes haviam por ali naquela
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    2 época. Em 1941,os meus Tsipes já haviam virado Cipis, e viviam em São Paulo. Apesar de serem intelectuais de esquerda, eles imigraram para o Brasil em 1919, após terem apoiado a revolução de 1917, por causa do clima hostil contra os judeus. Vieram quase todos, meu bisavô, 2 filhos e noras. Meu avô Mille (meu nome MILton é uma homenagem a ele), morreu de cirrose hepática em 1939. Ele adorava uma vodka. Vivia de fazer teatro em São Paulo para a pequena população de judeus. De vez em quando viajava para o Rio, Recife e Buenos Aires para atuar. Mesmo sem ter um emprego fixo, ele saia todas as manhãs religiosamente, e voltava no final do dia, ou quando encenava, no final da noite. Meu pai achava que ele ficava num boteco enchendo a cara com amigos, ou ia visitar as prostitutas polacas da Rua Mamoré. Eles viviam num pequeno quarto de um cortiço da Rua da Graça, com cozinha e banheiro coletivos. Meu pai lembra de atores frequentando o cortiço, bebendo, conversando e cantando em ídish. Apesar da vida miserável ele sentia o maior orgulho dos pais artistas. Do lado de minha mãe, os Epstein vieram da Bessarabia, do lado da Ucrânia. Depois de casar e ter filhos em Vilna (na época Lituânia) meu trisavô saiu para comprar cigarros e se mandou para a Inglaterra (é possível que eu seja parente do Brian Epstein!). Meu bisavô Hirsh Epstein era maquinista de trem, e perdeu um olho quando uma fagulha em brasa entrou no seu olho no meio de uma viagem. Quando eu era pequeno ficava impressionado com aquele velho magro, de bigodes longos amarelados por causa do cigarro, com aquele rosto sério e com as pálpebras do olho esquerdo costuradas sobre a órbita vazia. Os Epstein chegaram no Bom Retiro em 1929. Os Epstein também tinham ideais esquerdistas. Meu avô Wolf casou-se e morreu logo depois, de apendicite, com apenas 24 anos. Foi o suficiente para gerar a minha mãe, que foi batizada de Ofabi, um acrônimo em ídish de Ofenung Far Ale Brider Internacional. A tradução é: Esperança Para Todos Irmãos Internacionais. Ele foi operário da Funtimod (fabricante de tipos para tipografias), e da São Paulo Railway. Era um cara habilidoso, e fez uma estrela de bronze e latão com o símbolo da foice e o martelo, que eu tenho guardado comigo. O velho Hirsh Epstein também era habilidoso e trabalhou como chaveiro no Bom Retiro, no tempo que as chaves eram enormes e feitas à mão. Minha avó Ana, nascida na Polônia e casada com o Wolf, sempre dizia que era “brrasilerra”, com aquele sotaque carregado polonês. Ela tinha ódio dos poloneses. Por causa das perseguições e intolerâncias eles não criaram laços com os países de origem. Os laços que eles tinham era com a cultura judaica, com a tal da Idishland. Os Cipis e os Epstein se conheceram na chamada “Casa do Povo”, entidade cultural frequentada pelos pais da maioria dos nossos colegas nascidos no Bom Retiro. Esta entidade foi fundada pelos primeiros imigrantes com o nome de Jugnt Club (Clube da Juventude). Mais tarde mudou o nome para Centro Cultura e Progresso e depois virou Instituto Cultural Israelita Brasileiro. Foi essa entidade que fundou o Teatro TAIB e a Escola Scholem Aleichem, fundada em 1949, que utilizava métodos pedagógicos modernos. Na Casa do Povo meu pai participava do grupo de teatro amador, e chegou a ganhar um Prêmio Governador do Estado das mãos do Jânio Quadros, pelo trabalho como diretor de teatro. Me
  • 3.
    3 lembro de assistirpeças dele por trás do palco do TAIB quando eu era pequeno. Quando eu tinha 4 anos e meu irmão nasceu, meu pai foi com um grupo para Moscou num congresso da Juventude Comunista. Logo depois ele abandonou a ideia do comunismo desgostoso com a ditadura de Moscou e com o tratamento dispensado a Israel. Foi neste ambiente que eu e os nossos colegas oriundos do Scholem nascemos. A Fanny e o Léo contaram um pouquinho desta história. Apesar de toda esta politização, não recebemos um ensinamento dogmático esquerdista, nem líamos O Capital no café da manhã. Não se falava disso no dia a dia quando éramos crianças, o assunto só veio mais tarde, depois do Aplicação. A nossa herança foi uma formação ética e humanista. Nossos pais tinham uma preocupação enorme com a educação. Essa era uma preocupação comum a todos os pais judeus, religiosos ou ateus, de esquerda ou direita. Por conta disto tudo fui parar no Aplicação. Entrei na 2ª chamada, em 63º lugar. Prestei admissão também no Scholem, que tinha acabado de abrir o ginásio, e lá entrei em 1º. Que belo contraste! No Aplicação fui um aluno preguiçoso, que passava sempre de raspão. Eu era tímido e detestava futebol. Uma pena, pois o futebol era um ótimo passaporte para a socialização. Uma 2ª época de matemática com a Dona Vanda me fez finalmente me dar bem com a matéria. Minha experiência no Aplicação foi inversamente proporcional à experiência do Léo, o que foi o Scholem para ele, para mim foi o Aplicação. Uma época difícil, com muitas cobranças e uma sensação de bullying permanente no ar. Mas não foi só isso. Ao mesmo tempo foi uma época de aprendizado e emancipação. Andávamos sozinhos pela cidade com apenas 11 anos. Este peso que eu sentia no Aplicação se dissipou completamente no 1º colegial e no Equipe. Só fui entender o que estas escolas significaram na minha vida (Scholem, Aplicação e Equipe) quando entrei na faculdade. Percebi que eu tinha muita facilidade em argumentar e discutir, ao contrário dos meus colegas, que além de não saber falar, viviam uma certa pasmaceira cultural. É isso. Com presente artigodoMilton Cipis prestamos homenagem aohumorista e ultimo ator profissional do teatro ídish em São Paulo, seu pai, nosso querido amigo Boris Cipis, prematuramente falecido. Um poeta popular: Mark Warshavsky Mark Warshavsky nasceu em 1840 na cidade de Zhitomir, Rússia. Foi advogado de profissão e cantor popular por natureza, tendo falecido na cidade de Kiev em 1907. Ele improvisava versos e os cantava em público, em reuniões sociais e festivas acompanhado de violão, mas não percebeu o valor literário e popular de suas canções até que Scholem Aleichem encorajou-o a publicá-las, além de escrever a introdução para o livro de Warshavsky: “Canções Populares com Notas” editado em 1900 e composto de 25 poemas. Seu sucesso foi imediato, logo depois da publicação do livro, quando eles se associaram como atores itinerantes para audiências judaicas, em que Scholem Aleichem lia suas histórias e Warshavsky apresentava suas canções.
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    4 As canções eos poemas de Warshavsky, escritos num estilo simples, descrevem com entusiasmo o comportamento e os hábitos de vida dos judeus do shteitl, sua alegria e a tristeza da vida diária Elas falam da criança, da família judia, bem como sobre o futuro do povo judeu. Suas canções de casamento (bodas) e seus hinos a Sion trouxeram alegria, conforto e esperança para os judeus russos, vítimas da opressão tzarista. As canções de Warshavsky tornaram-se bastante populares e foram publicadas e cantadas tanto na Europa como nos Estados Unidos. Vejamos uma de suas canções: AZ DI YONTEFDIKE TEG ( DOS FREILECH SHNAIDERL) Quando os feriados começam a surgir Az do iontevdike teg haibn zir on bavaizn Torno-me um outro homem Ver ich bai mir a Godl Eu ponho de lado minha tesoura e meu ferro Ich leig mir avec di sher un aizn E toda e qualquer agulha que esteja comigo Un vu ich hob nor bai mir a nodl Paro de costurar e procurar trabalho Oifgehert naien, arbet zuchn Querido pai Hartzediker tate Um pouco de vinho no feriado A bisele vain in iontov Experimentar Tzu farzuchn É melhor do que fazer um remendo Is besser vi leign a late Quando os feriados terminam Az di iontevdike teg heibn on fargeien Querido pai Hartzediker tate De novo recomeça o corte e a costura Is vider shnaidn, vider neien E de novo começo fazer remendos Un vider leign a late De novo recomeça a velha vida Vider tzit zich dos alte lebn É de doer o coração... Es nemt baim hartzn raisn... Oh! Minha querida Chana Oi vei Chane sertse lebn Realmente você não tem nada para comer? Tzu hostu nit mit vos tzu farbaisn? --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Aguardem para o dia 30 de julho mais um programa da série “O Mundo de Scholem Aleichem” no Teatro Arthur Rubinstein da Hebraica, Domingo Meio Dia com entrada livre para o público em geral. Zai Gezunt: Edição do Grupo Amigos do Ídish. Editor: Eng. Samuel Belk EMail: belk@uol.com.br Colaborador: Eng. Moysés Worcman EMail: worcmosh@gmail.com