Cada literatura requertratamento
peculiar, em virtude dos seus
problemas específicos ou da relação
que mantém com outras.
A brasileira é recente, gerou no seio
da portuguesa e dependeu da
influência de mais duas ou três para
se constituir.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos
decisivos. 2. ed. rev. São Paulo: Martins Fontes, 1964.
•Por que estudar a literatura da Idade Média?
Nosso vinculo colonial com Portugal determinou o
curso literário brasileiro. Por isso, para entender a
Literatura Brasileira, é preciso compreender como
se iniciou a literatura em Portugal e conhecer aquilo
que chamamos de tradição literária em Língua
Portuguesa. Por mais distante que essa escrita
possa estar hoje de nós, leitores do século XXI,
saber o que foi produzido de literatura na Europa
da Baixa Idade Média permite identificar uma
tradição de escrita cujos reflexos são notados ainda
hoje.
Como falantes de Língua Portuguesa, temos a
linguagem como uma das maiores heranças
deixadas por nossos antepassados. A literatura
também faz parte desse legado e, por meio da
3.
O Trovadorismo correspondeà primeira
fase da história portuguesa – durante a
Idade Média (XI e XIV)– período de
formação de Portugal como reino
independente.
Feudalismo em declínio;
Teocentrismo;
Aproximação da música e da poesia.
Contexto Histórico
4.
• O marcoinicial do Trovadorismo é a “Cantiga da
Ribeirinha” (conhecida também como “Cantiga da
Garvaia”) escrita por Paio Soares de Taveirós.
• Na lírica medieval, os trovadores eram os artistas
de origem nobre, que compunham e cantavam,
com o acompanhamento de instrumentos
musicais, as cantigas (poesias cantadas).
Classificação dos artistas medievais
Trovador: nobre, cultura erudita, criava pelo gosto
do que fazia sem receber por suas composições.
Jogral: compositor saltimbanco ou ator sendo pago
por suas apresentações.
Segrel: fidalgo em decadência que apresentava-se
nas cortes em troca de dinheiro.
Menestrel: artista que servia a uma determinada
corte.
Jogralesca ou Soldadeira: moça que acompanhava
os artistas dançando, cantando e tocando
castanholas.
5.
As cantigas erammanuscritas e reunidas em
livros, conhecidos como Cancioneiros.
Temos conhecimento de apenas três
Cancioneiros. São eles: “Cancioneiro da
Biblioteca”, “Cancioneiro da Ajuda” e “Cancioneiro
da Vaticana”.
Os trovadores de maior destaque na lírica galego-
portuguesa são: Dom Duarte, Dom Dinis, Paio
Soares de Taveirós, João Garcia de Guilhade, Aires
Nunes e Meendinho.
Língua: galego-português.
Tradição oral e coletiva.
A literatura trovadoresca portuguesa foi
manifestada na poesia e na prosa.
Na poesia destacam-se as cantigas líricas e
satíricas, que eram escritas pelos trovadores e
cantadas pelos jograis.
Na prosa, destacam-se os cronicões, os livros de
6.
As cantigas deamor exprimem a
paixão infeliz, o amor não
correspondido que um trovador
dedica a sua senhora;
A dama é identificada por suas
qualidades físicas, morais e sociais;
portanto é uma mulher idealizada(“Mia
senhor”, “Dona”) e seu nome jamais é
revelado pelo trovador;
O eu-lírico é sempre masculino e
dirige seus elogios a uma dama;
O trovador se diz coitado, cativo,
enlouquecido, sofredor;
Amor Cortês: submissão; “vassalagem”:
como se o homem fosse vassalo e a
mulher, seu suserano; honrar e servir à
dama; não abalar reputação da dama (não
pode revelar seus sentimentos por ela);
Cantigas Líricas
Cantigas de Amor
Estrutura complexa: poucas
repetições de versos.
*Vassalagem amorosa
(devoção e submissão à
pessoa amada, implorando
7.
Senhor fremosa, poisme nom
queredes
creer a coita 'm que me tem
Amor,
por meu mal é que tam bem
parecedes
e por meu mal vos filhei por
senhor
e por meu mal tam muito bem oí
dizer de vós e por meu mal vos
vi:
pois meu mal é quanto bem vós
havedes.
Formosa senhora, não queres,
pois acreditar na coita¹ que Amor
me dá, para meu mal é que te
pareces tão bela e, para meu
mal, tu és minha senhora e para
meu mal maior ouço dizer bem
de ti e para meu mal te vi, pois
meu mal é que tu és muito boa.
Vocabulário:
¹coita: sofrimento.
(Tradução do autor)
SOARES, Martim. Cancioneiro da Vaticana,46. In: SPINA, Segismundo. A linca
trovadoresca. São Paulo: Editora Grifo USP, 1972. p. 46. [Fragmento)
Observe como o eu lírico expressa seu fiel amor e sua dedicação à dama. É submisso a
ela e se porta como sofredor e cativo do amor proibido e não correspondido, visto que
a dama é casada. Perceba também que a dama não é nomeada, a amada é chamada
apenas de "senhora". Trata-se de um artificio típico das regras do código do amor
cortês: ao utilizar essa espécie de pseudônimo, o trovador resguarda a reputação da
dama.
8.
As cantigas deamigo falam de
uma relação amorosa que
acontece entre camponeses;
O tema central é a saudade;
O eu-lírico é sempre feminino e
representa a voz de uma mulher
(amiga) que manifesta a saudade pela
ausência do amigo (namorado);
Expõe a visão feminina da
saudade e do amor;
O amor é real e ocorre entre
pessoas de condição social
semelhante;
O cenário sempre caracteriza um
ambiente campesino;
*Quem compõe as cantigas é um
homem, o trovador, que cria um eu
lírico feminino;
Cantigas Líricas
Cantigas de Amigo
Estrutura simples: poucos
versos + refrão (repetição dos
mesmo verso ao final de cada
estrofe.
Confidências ao amigo, à mãe
ou a elementos da natureza
personificados
9.
Levad', amigo, quedormides as manhanas
frias
Levad', amigo, que dormides as manhanas
frias
tôdalas aves do mundo d'amor dizia[m]:
leda m'and’eu.
[...]
Tôdalas aves do mundo d'amor diziam,
do meu amor e do voss[o] em ment'haviam:
leda m'and’eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor cantavam,
do meu amor e do voss[o] i enmentavam:
leda m'and’eu.
Do meu amor e do voss[o] em ment'haviam
vós lhi tolhestes os ramos em que siíam:
leda m'and’eu.
Do meu amor e do voss[o] i enmentavam
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam:
leda m'and’eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que siíam
e lhis secastes as fontes em que beviam;
Ergue-te amigo que dormes nas manhãs frias!
Ergue-te amigo que dormes nas manhãs frias!
Todas as aves do mundo, de amor, diziam:
alegre eu ando.
[...]
Todas as aves do mundo, de amor, diziam;
do meu amor e do teu se lembrariam:
alegre eu ando.
Todas as aves do mundo d'amor de amor
cantavam, do meu amor e do teu se recordavam:
alegre eu ando
Do meu amor e do teu se lembrariam;
tu lhes tolheste os ramos em que eu as via:
alegre eu ando.
Do meu amor e do teu se recordavam:
tu lhes tolheste os ramos em que pousavam:
alegre eu ando.
Tu lhes tolheste os ramos em que eu as via;
e lhes secaste as fontes em que bebiam:
alegre eu ando.
Perceba como nessa canção, diferentemente do que ocorre
nas canções de amor, a relação amorosa é tomada como
algo concretizado. Geralmente, assim são a maioria dessas cantigas,
com a diferença de não apresentarem o idealismo das cantigas de amor
Ai dona fea,fostes-vos queixar
que vos nunca louv’en[o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei todavia;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
João Garcia de Guilhade
Ai dona feia, fostes-vos queixar
que vos nunca louvei em meu cantar;
mas agora quero fazer um cantar
em que vos louvarei ainda;
e vedes como vos quero louvar:
dona feia, velha e idiota!
O eu lírico começa dizendo que a “dona feia” reclamou que ele nunca a
louvou (elogio), mas ele “resolve” fazer isso no seu canto — só que o
“elogio” é, na verdade, uma série de insultos: feia, velha e idiota. A ironia
está em fingir que quer elogiar, mas o conteúdo é ofensivo.
A ũa velhaquisera trobar
quand’em Toledo fiquei desta vez;
e veo-me Orraca López rogar
e disso-m’assi: — Por Deus que vos fez,
nom trobedes a nulha velh’aqui
ca cuidarám que trobades a mim.
Afonso Anes do Cotom
A uma velha quisera trovar
quando em Toledo fiquei desta vez;
e veio-me Urraca López rogar
e disse-me assim: — Por Deus que vos fez,
não troveis a nenhuma velha aqui
pois acharão que trovastes para mim.
O eu lírico estava em Toledo e queria compor uma cantiga contra uma velha, provavelmente para
ridicularizá-la ou ofendê-la. Urraca López, uma pessoa mencionada, pede para que ele não cante
contra nenhuma velha naquele lugar, para que ninguém associe a crítica a ela.
A cantiga mostra a censura social que pode existir até mesmo entre os próprios pares, porque fazer
uma crítica pode gerar mal-entendidos ou conflitos.
Revela a delicadeza e o cuidado em evitar ofensas que possam atingir pessoas erradas.
Há uma tensão entre o desejo do trovador de criticar e a necessidade de evitar repercussões
negativas.