PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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DO AUTOR:
LINHAS DO DESTINO
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A Deus, por não me deixar desistir.
Aos meus familiares, que teimam em
acreditar em mim.
A Sueli, pela paciência de ler os rascunhos
dos livros.
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Capitulo um
O ENCONTRO
Todos temos momentos bons ou ruins para
lembrarmos durante nossa existência. Aquele
dia foi um desses marcos. Nas ruas o vai e
vem da multidão preocupada em resolver seus
problemas, não o impedia que avançasse com
rapidez e determinação.
Algumas pessoas seguiam para o trabalho,
outras para as compras, outras apenas
caminhavam apreciando o movimento.
Faltavam alguns dias para o Natal, o
comércio, preparado para as vendas que
costumavam se aquecer durante essa época,
abusava dos enfeites com motivos natalinos.
Ele gostava dessa época porque o espírito
natalino modificava as pessoas, tornando-as
mais fraternas, caridosas, mais sensíveis.
Lamentava-se porque esses sentimentos
poderiam continuar durante o ano todo, mas
infelizmente isso não ocorria, passados as
festas, cada um voltava a pensar apenas nos
próprios problemas.
As pessoas se apinhavam procurando
satisfazer seus instintos de consumo
comprando de tudo. Enquanto ele caminhava
para o seu destino, pensou em tudo o que
aconteceu durante aquele ano. Estava de
volta, era um novo homem, nada seria igual.
No saguão, notou que tudo continuava do
mesmo jeito. Nada tinha modificado. O
porteiro apenas olhou para ele como outrora,
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não disse uma palavra, não questionou
absolutamente nada, permanecia atrás de um
balcão, como se a sua única atribuição fosse
permanecer imóvel como uma estátua na
entrada do edifício.
Seguiu, pelo corredor em direção aos
elevadores. O tumulto causado pelo número
de pessoas que entravam e saiam do edifício o
fazia pensar: – “Para onde estariam indo? O
que seria tão importante, o que fazia as
pessoas esquecerem de cumprimentar seus
semelhantes?”.
Dentro do elevador o silêncio era tão grande
que podia ouvir sua respiração.
As pessoas estavam muito próximas
fisicamente, mas sequer se olhavam. O único
ruído era causado pelo movimento dos cabos
e correntes do lado de fora.
No rosto das pessoas estava estampada a
infelicidade e angústia. À medida que o
elevador atingia os andares superiores, mais
vazio ficava. Não soube explicar porque desta
vez o fato de ficar sozinho dentro do elevador
para galgar os últimos três andares foi
diferente de outrora. Ao abrir a porta corta-
fogo de acesso ao terraço, da qual se lembrava
muito bem, não pôde acreditar no que estava
acontecendo.
***
Uma manhã quente típica de final de
primavera. Apesar da temperatura elevada,
estava suando frio. O que estava preste a fazer
mudaria radicalmente o rumo de sua vida.
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Voltar significava não resolver o problema.
Ficou surpreso, ao abrir a porta corta-fogo.
Última barreira para chegar ao terraço do
edifício. Não imaginou algo semelhante em
toda a sua vida. Para disfarçar sua real
intenção, se encostou a uma parede,
provavelmente da casa das máquinas e
aguardou o desenrolar dos acontecimentos.
Calado, ouvia o que diziam aqueles dois.
Um dos rapazes, um jovem senhor
aparentando uns 45 anos, cabelos e olhos
castanho-escuros. Estava sentado numa
cadeira de rodas. Vestia um terno cinza
chumbo um pouco surrado, camisa branca e
sapatos pretos impecavelmente engraxados.
O outro usava calças jeans, camiseta branca e
botas especiais presas por armação articulada
que era presa na cintura do rapaz e servia
como suporte para as pernas. Andava com o
auxílio de muletas apoiadas no antebraço.
Este tinha a aparência de ser bem mais jovem
que o primeiro, cabelos ruivos e olhos azuis-
claros. Nem de longe aquele corpo combinava
com as suas feições.
Braços finos, nas costas havia uma espécie de
corcova. O quadril muito estreito e as pernas
finas obrigavam-no a utilizar tal armação que
servia para sustentar o corpo e mantê-lo em
pé. O que estava sentado na cadeira de rodas
reclamava da atitude de uma outra pessoa,
que não se encontrava mais no local.
- Hoje em dia, não se pode confiar nas
pessoas.
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- Você ainda tem de quem reclamar. Eu vim
sozinho, vou reclamar com quem? –
Comentou o rapaz da muleta.
Os dois conversavam sem notarem a presença
de William, que se mantinha no mesmo local,
não conseguindo compreender sobre o que
falavam.
- Por que fazem essas muretas tão altas? –
Perguntou Jorge enquanto posicionava
melhor sua cadeira de rodas.
- Não sei! – Respondeu Oscar que se
esforçava ao extremo para escalá-la.
Depois de várias tentativas, resolveram
desistir.
Ao olharem para o lado perceberam a
presença de William que permanecia imóvel e
calado.
- Talvez o senhor possa nos ajudar. –
Disseram quase ao mesmo tempo.
Encostado na parede, William olhou a sua
volta, percebendo que era com ele que
falavam, respondeu com determinação.
- Podem esquecer!
- Não estamos conseguindo. – Disse Jorge.
- Somos uma dupla de incompetentes. –
Completou Oscar. – O senhor tem que nos
ajudar.
- Por que querem fazer a mesma coisa? –
Questionou William.
Pegos de surpresa com a pergunta, no
princípio ficaram calados, mas Jorge resolveu
responder primeiro. Como se mergulhasse
num passado próximo, iniciou com voz
amarga.
- O que se espera de um homem com ótimo
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emprego, casado com uma linda mulher e
filho. Quando decidiu ser hora de ter outro
filho, faz uma viagem de segunda lua de mel.
Num dia lindo de sol temperatura
extremamente quente vai nadar e sofre um
acidente na beira da piscina. Fratura a coluna
e é obrigado a viver numa cadeira de rodas?
Sem fazer qualquer comentário William
perguntou.
- Como aconteceu?
- Fui fazer graça para minha esposa e filho,
subi no trampolim da piscina do hotel. Não
contente com a altura, resolvi subir no ferro
que serve de corrimão. Escorreguei e bati as
costas na plataforma do trampolim. Caí
desmaiado dentro da piscina. Quando
acordei, três meses haviam passados.
Os dois ouviam sem fazerem comentários.
Jorge prosseguiu.
- Fiquei no hospital por quase um ano. Minha
esposa vinha visitar-me, no início todos os
dias. Com o adiantado da gestação começou a
diminuir a frequência dessas visitas.
- Vocês viram que coisa engraçada? –
Comentou rindo sozinho. – Em nossa última
relação engravidei minha mulher. Minha filha
Vivian nasceu enquanto eu ainda estava no
hospital.
– Com o meu retorno para casa passei a
cuidar dos meus filhos. Minha esposa
começou a trabalhar fora para completar a
renda.
– O tempo passou, comecei a perceber uma
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alteração no comportamento de minha
esposa. Alguns meses depois, – fez uma pausa
para tomar coragem e continuar seu relato. –
Ela imaginando que estivesse na fisioterapia,
acabou se descuidando.
- Quando retornei, depois de aguardar por
mais de uma hora pelo transporte que me
levaria para a fisioterapia e que não apareceu,
vi as luzes da sala apagadas. Não havia sons
indicando que ali moravam duas crianças.
Pensei num monte de coisas horríveis.
– Abri a porta da sala vagarosamente e entrei.
Ao chegar no quarto das crianças vi que
estavam dormindo. A porta do meu quarto
estava encostada, empurrei-a. Minha esposa e
o seu amante olharam para mim com cara de
idiotas, sem conseguirem dizer uma palavra
sequer.
– Dei meia volta, fui para sala. Não demorou
os dois chegaram dizendo: - “Não é o que está
pensando”. – Nesse momento riu novamente
e comentou. – Por que todos dizem isso?
Realmente o problema não é o que pensamos
é o que vemos!
Depois se calou e William resolveu poupá-lo
de novas perguntas.
- Com você o que aconteceu? – Perguntou,
dirigindo-se ao rapaz da muleta.
Oscar ficou em silêncio, como se buscasse em
sua memória, o que tinha restado de sua
história.
- Meu pai, – engoliu seco - foi embora quando
nasci, por isso não sei nada sobre ele, ou
melhor, sei que era um bom cantor, afinal
cantou minha mãe. – Brincou. - Tinha uma
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boa voz, minha mãe dizia que herdei isso
dele.
William já tinha notado desde o início a
beleza do timbre da voz do rapaz, poderia
trabalhar como locutor de rádio ou
atendimento público pelo telefone, mas não
fez qualquer comentário.
- Desde o meu nascimento sou esta coisinha
linda que estão vendo. Se não fosse por minha
mãe tinha servido de comida para os Urubus
em algum lixão.- Comentou. - Na escola
viviam colocando-me apelidos, gozavam da
minha cara, faziam corredor para que eu
passasse e me davam tapas para andar mais
rápido. Algumas vezes o incentivo era tão
grande que acabava de cara no chão.
- Essa tortura parou somente quando
revoltado, resolvi chamar o líder para a briga,
meu primeiro erro. O segundo foi ter ido ao
encontro marcado para o meu massacre.
- Estava indo tudo tão bem, ele me batendo
com o punho fechado na minha cara. Outras
eu com a minha cara no punho dele, até que
finalmente ele caiu exausto, não conseguiu
bater mais e finalmente, consegui vencê-lo
pelo cansaço.
- Apesar de quase me matar, ele resolveu dar-
me crédito pela minha loucura. A partir desse
dia pararam de me chatear. Afinal tinha
vencido o líder da matilha. – Riu novamente.
- Vivia com minha mãe num barraco que ela
comprou depois de tanto sofrimento e muito
trabalho. Ela passava o dia trabalhando na
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limpeza das casas e a noite lavava e passava
o uniforme dos times das proximidades.
- Alguns meses atrás minha mãe faleceu e
desde então atravesso momentos difíceis,
sinto muita saudade dela. – Parou para se
recompor.
– Não tenho parente, não tenho amigos
porque não saía de casa, apenas cuidava da
minha mãe. Depois que ela sofreu o derrame
não falava nem andava, somente vegetava.
Como podem notar não tinha forças para
cuidar dela. Algumas vizinhas vinham para
dar banho, trocar as roupas, mas - abaixou a
cabeça e parou de falar.
William pensou nos seus problemas. No
início, bebia socialmente, mas com o passar
do tempo já fazia parte de sua alma. Por ela
acabou com um casamento de quase dez
anos. Em seguida perdeu o emprego. Sem
emprego acabou vendendo o que possuía para
custear aluguel, comida entre outras dívidas
até que foi obrigado a morar nas ruas. Não
tinha coragem de visitar seus filhos. Não
queria mostrar a pessoa que se tornara. Estava
disposto a acabar com tudo.
- O que os senhores pretendem fazer agora? –
Perguntou William deixando suas
preocupações de lado.
Houve um silêncio por alguns minutos.
Colocando o coração em cada palavra Jorge
respondeu.
- Quando resolvi vir aqui, seria para dar um
basta nesta situação, nessa solidão, nesse
sofrimento. Pensei que minha partida deixaria
que meus filhos esquecessem de mim. –
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Chorou copiosamente.
Depois de alguns minutos em silêncio.
- Estava pensando! – Iniciou William. -
Viemos aqui para fazermos algo que
terminaria com nossos sofrimentos. Por
covardia? Egoísmo? Para não enfrentarmos os
problemas de frente? Por que não
conseguimos enxergar uma solução? – Deu
uma pausa.
- Por que nos encontramos exatamente neste
lugar? Não poderia ser numa praça, num
cinema, em outro lugar qualquer? – Mais um
tempo de silêncio.
- O que Deus quer da gente? – Continuou. –
Por que? Apesar de tudo, ainda somos
importantes para Ele?
Como num passe de mágica, se dirigiram para
o centro do terraço onde estava William e se
abraçaram. Ali eles choraram toda dor,
desespero, angústia que sentiam dentro da
alma. Como se estivessem sendo abraçados
pelos seus Anjos da Guarda sentiram paz e
alivio.
Depois de algum tempo.
- Esvaziei minha alma. – Disse Oscar.
Apesar de surpresos com a frase todos
concordaram.
- Hoje já me aconteceu de tudo! – Jorge
exclamou sorrindo. - Fui enganado por um
cara que contratei, desisti do meu objetivo e
ainda acabei encontrando dois malucos.
- Imaginem se alguém entra aqui e vê esta
cena. Três marmanjos abraçados. –
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Comentou Oscar.
A gargalhada foi generalizada, William não
conseguia se controlar e quase passou mal de
tanto rir ao olhar para aquela figura.
- O que vamos fazer agora? – Perguntou
Jorge.
- Vamos aguardar novas instruções. –
Respondeu William ainda rindo.
Caminharam na direção da porta, ainda
tinham uma etapa a ser transposta. A escada
para o andar onde pudessem utilizar o
elevador para deixarem o edifício.
- Será que consigo descer segurando você? –
William não estava seguro quanto ao seu
preparo físico.
- Podemos fazer o seguinte, você me inclina
para traz. Eu controlo a roda, acredito que
juntos nós conseguiremos. – Olhou para o
William sorriu e completou. - Confio
plenamente que estarei seguro em suas mãos,
já me salvou a vida hoje.
William não soube porque, mas sentiu-se bem
com as palavras.
O esforço foi grande, houve momentos que
William achou não conseguir segurá-lo por
mais tempo. Quando chegaram no andar
estavam exaustos, entraram no elevador,
pareciam crianças que acabavam de fazer
uma travessura.
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Capítulo dois
A CARTA
Os problemas que os carteiros têm para
entregarem suas correspondências são muitos.
A começar pela letra dos remetentes. Alguns
não se preocupam em escrever com letra
legível, pensam ser a obrigação dos correios
decifrarem os endereços.
Há pessoas que julgam que seus cachorros
não mordem porque são mansos e por isso
não os prendem. Há também os que nunca
são encontrados em suas próprias casas, o sol,
a chuva, o frio, o calor entre outros. Ser
carteiro é gostar de muita ação e adrenalina.
Geraldo era uma pessoa que gostava da
profissão.
Ele acordou disposto, o dia ensolarado
facilitava sua locomoção e a entrega de todas
as cartas parecia que seria simples. Como
sempre, na central dos correios, separou as
correspondências pelo nome das ruas e pelo
número das residências colocando clipes e
elásticos para facilitar seu trabalho.
Ao término da manhã tinha entregado a
maioria delas, mas no final do dia uma das
cartas voltou com ele. Era uma carta
registrada. Por três dias consecutivos tentou
efetuar a entrega, mas como não conseguiu,
foi obrigado a devolvê-la para as providências
necessárias.
Apesar de ter agido conforme os
procedimentos, Geraldo tinha a sensação de
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dever não cumprido. Sempre pensou, que
toda correspondência é muito importante,
pelo menos para o remetente e o destinatário.
Nelas poderiam estar a diferença entre a
felicidade e a infelicidade, o acordo ou
desacordo, enfim, entre o sim e o não.
Mesmo assim, avisaria o remetente tinha uma
boa memória e por coincidência era um velho
conhecido.
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Capítulo três
TUDO PELA JANTA
Na saída do edifício pararam. A pergunta que
surgiu entre eles foi: – O que faremos? Como
ninguém se pronunciou, resolveram caminhar
sem destino.
A tarde chegava ao seu final, o céu estava tão
colorido, que fez os três admirá-lo. O sol com
cor alaranjada, quase vermelha querendo
esconder-se no horizonte, contrastava com o
azul do céu e o branco das nuvens, fazendo
composição com as estruturas dos edifícios,
transformando-se num belíssimo quadro. A
noite preparava-se para tomar o seu lugar
enquanto o sol delicadamente se punha no
horizonte, prometendo no dia seguinte um
novo espetáculo. As luzes da cidade aos
poucos iam sendo acesas para iluminar as
ruas, avenidas e praças dando início a vida
noturna. Como formigas saindo do
formigueiro, as pessoas saiam dos edifícios e
caminhavam, algumas seguindo a mesma
direção, às vezes trombando com outras
pessoas, que vinham em sentido contrário,
desviavam-se para poder continuar seu
caminho, exatamente como as formigas.
- Não sei quanto a vocês, mas estou morrendo
de fome. – Disse Oscar.
- Todos estamos famintos. – Respondeu
William.
- O único problema e que não tenho dinheiro
algum. – Falou Oscar.
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Os outros verificaram seus bolsos.
Concluíram que a quantia total que eles
possuíam, não daria para pagar um lanche.
- Não temos dinheiro para nada, como fui sair
sem nada no bolso? – Questionou Jorge.
– Para onde estávamos querendo ir não
precisaríamos. – Completou Oscar.
- O que podemos fazer? - Perguntou Jorge.
– Posso cantar algumas músicas por comida.
– Respondeu Oscar tranquilamente.
– A quem vamos anunciar? – Emendou
William. – Elvis?
- Por que não Oscar o lindo? – Brincou.
- Não é preciso dizer nome algum é só
perguntarmos se posso cantar por um prato de
comida para cada um.
- A única coisa que pode acontecer é dizerem
não e não nós já temos. – Concluiu William.
O que você vai cantar? – Quem vai
acompanhá-lo?
- Eu posso acompanhá-lo no violão. –
Completou Jorge.
- Você está vendo William? - Disse Oscar. -
Estamos formando uma equipe. – Completou.
Está ótimo! Jorge me acompanha. Não se
preocupe, com essas muletas não dá para ir
longe.
- O que faço? – Perguntou William – fico
jantando?
- Pode ser nosso empresário. – Falou Jorge
sorrindo.
– Isso mesmo, nós precisamos de um
empresário para fechar os contratos. –
Concordou Oscar.
- Então! Lá vamos nós.
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Quando os três entraram no estabelecimento,
o proprietário olhou-os de cima a baixo, não
gostou do que viu, foi logo perguntando:
- O que os senhores desejam?
- Desejamos alimentar-nos, mas infelizmente
não temos dinheiro.- Disse William.
– Então por que entraram aqui? – Emendou o
sujeito.
– Estamos dispostos a pagá-lo com o nosso
trabalho. – Retrucou.
- O que os senhores estão dispostos a fazer
como pagamento? – Perguntou com
seriedade.
- Meus amigos poderão cantar algumas
músicas.
– Quem disse que em meu restaurante se pode
jantar com música ao vivo? – Interrompeu
novamente o proprietário do estabelecimento.
Vendo as coisas começando a dar errado,
Oscar propôs algo que deixou os outros dois
surpresos.
- Aceitaria, como pagamento por quatro
jantares, que fizesse um desenho do senhor
para colocar num quadro e pendurá-lo na
parede?
Houve um momento de apreensão. O homem
pensou, coçou o que restava de cabelos
ensebados na cabeça e respondeu.
- OK! Só não tenho muito tempo para servir
de modelo. – Avisou.
- O senhor pode ficar a vontade. Fazer o que
quiser. Só preciso olhar seus traços. –
Respondeu Oscar enquanto procurava um
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toco de grafite no bolso da calça.
- O senhor tem algum papel que pudesse
desenhar nele? - Perguntou meio sem jeito.
- Pode desenhar naquela parede que está
pintada de branco próxima do balcão, assim
não preciso comprar quadro algum. –
Respondeu sorrindo maliciosamente.
Disse apenas para dificultar o trabalho do
rapaz e fazer o custo do jantar maior do que
realmente valia. Oscar teria que subir em uma
cadeira para alcançar o local da pintura.
William perguntou sobre a possibilidade da
confecção do desenho naquele local, o rapaz
apenas assentiu com a cabeça.
- Você pode ajudar-me a subir na cadeira?
– Sim. Com todo prazer.
Pegando duas cadeiras colocou-as lado a lado
e subiu em uma. Segurando Oscar pelo tórax
puxou-o para cima e com muito esforço
conseguiu colocá-lo em pé sobre a outra
cadeira. Com a barra de grafite iniciou o
trabalho. Enquanto Oscar desenhava com
uma facilidade que impressionava os dois,
William segurava-o para que não despencasse
lá de cima. O trabalho durou mais de uma
hora, pela dificuldade que o local apresentava.
Quando o proprietário do restaurante viu o
desenho terminado, não acreditou que alguém
pudesse fazê-lo apenas com aquele material.
Serviu os três como combinado.
- Parabéns! – Disseram juntos os dois amigos.
– Você é um tremendo artista conseguiu fazer
o cara mais bonito do que é. – Completou
Jorge.
- Obrigado. – Disse emocionado.
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– Nós é que te agradecemos. – Emendou
William. – Conseguimos crédito para o jantar.
- Sem vocês não conseguiria fazê-lo. Se o
Jorge não me direcionasse nas proporções e
você não me segurasse.
– Nós estaríamos sem janta. - Disseram rindo.
O jantar estava simples, mas saboroso, antes
de sair, Oscar pegou o outro jantar que foi
colocado numa embalagem para viagem.
Quando saíram foi cambaleando com suas
muletas até um homem que estava sentado na
rua. Entregou a sacola com o alimento.
Voltou cantarolando, fazendo graça com a
música “Dançando na chuva”. Sua versão
“Dançando de muletas”. Chegando perto dos
outros disse emocionado.
- O cara me falou “Deus te abençoe”, não é
maravilhoso isso?
Os outros dois não entenderam e ficaram
quietos, mas ele continuou.
- Hoje é o dia mais feliz de minha vida. Deus
me mandou vocês para me salvarem, agora o
rapaz ali pede para Deus me abençoar. Ele já
me abençoou. – Oscar ria como uma criança.
Os dois ouviam-no dizer que Deus havia
mandado eles para salvá-lo, quando o
contrário pudesse ser a verdade ou cada um
estava salvando o outro.
O que importava agora é que estavam juntos
para superar os obstáculos.
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Capítulo quatro
KASUO
Desde o momento que começou a dar os
primeiros passos foi uma revolução que
aconteceu em sua casa. Sua mãe se
desdobrava para ensinar o caminho que podia
seguir dentro da sua própria casa.
A família Suzuki ficou feliz com o nascimento
do garoto que foi batizado por Kasuo.
Desde pequeno demonstrava ser muito
decidido e obstinado. Não havia obstáculo
que o fizesse desviar-se de seus objetivos.
A deficiência visual não era empecilho para
aquele menino valente e inquieto, ávido por
conhecer o mundo. A partir dos primeiros
momentos de sua existência lutou para
sobreviver. A gestação difícil e complicada
tornou-o um guerreiro antes mesmo do
nascimento e sua mãe o chamava de “Meu
pequeno Samurai”. Em seus primeiros passos,
sua mãe, para evitar acidentes, retirou do
caminho o banco do piano.
Para sua proteção, ele colocava a mãozinha
na frente procurando por obstáculos a sua
frente. Aconteceu, certa vez, esbarrar nas
teclas do piano. O som produzido chamou
sua atenção. A partir daí não parou de bater a
mãozinha e ouvir o som produzido.
O tempo passou o menino mostrou-se um
excelente pianista. O gosto pela música fê-lo
aprender canto, isso o facilitava na
composição das melodias.
Kasuo mostrava-se uma criança especial. Seu
dom musical era algo inexplicável, a
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facilidade em compor, em tocar, era
impressionante.
Nem tudo era um mar de rosas. O talento do
garoto ajudava seu pai e empresário agendar
um grande número de apresentações, por
outro lado, as viagens constantes não
permitiam criar raízes em lugar nenhum.
Durante uma dessas viagens, para uma
apresentação à terra de seus ancestrais,
ocorreu uma tragédia.
O automóvel em que estavam derrapou numa
camada fina de neve saindo da estrada.
Mesmo conhecendo a região, o motorista não
teve como evitar o acidente. O automóvel
desceu ribanceira abaixo capotando várias
vezes, até bater em uma árvore.
Kasuo foi o único sobrevivente. Sua mãe e
seu pai, para protegê-lo, sofreram a maior
parte do impacto das ferragens retorcidas.
Sem parentes foi encaminhado para um
orfanato de onde saiu depois de completar a
maioridade. Durante este tempo não sentiu
vontade de tocar, compor ou cantar. Sua
música aos poucos estava morrendo.
As propriedades e a excelente situação
financeira que seus pais deixaram eram
suficientes para seu sustento. Retornou a
mansão onde morou quando não estava em
viagem.
Kasuo estava entediado, aquela casa era
imensa, para duas pessoas e um cachorro
morarem.
Não suportando mais ouvir música, resolveu
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dar uma volta pela cidade. Assim que se
levantou do sofá, seu fiel amigo se colocou ao
seu lado para guiá-lo. Admirava a inteligência
e a fidelidade daquele animal. Sentia o toque
em sua perna todas as vezes que estava pronto
para o trabalho.
Romeu era um Lavrador treinado para ser
guia, dócil e inteligente, o único que
conseguia melhorar o humor de Kasuo.
Costumava passar horas ao lado de seu dono.
Muitas vezes colocava a cabeça no colo de
Kasuo somente para animá-lo.
Todos os dias abriam a porta para que Romeu
desse uma volta pela redondeza. Ao retornar
do passeio ele sentava-se na frente do portão e
latia para as pessoas que estivessem na rua,
como era conhecido pelos vizinhos, sempre
encontrava alguém para atendê-lo. Depois de
aberto o portão latia novamente “como
agradecimento ao seu benfeitor” e entrava
tranquilamente.
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Capítulo cinco
NO SUPERMERCADO
- Agora que estamos saciados, precisamos
arrumar um local para ficar. – Disse Jorge.
- Boa ideia, por que não vamos para o Hilton
hotel? - Brincou Oscar.
- Sei de um local que pelo menos servirá para
esta noite. Vamos ao supermercado,
precisamos comprar fósforos e velas. –
William lembrou-se da casa onde morou de
aluguel e que ainda estava vazia.
- Vamos dormir naquelas barracas de camping
expostas no supermercado? – Brincou Oscar.
Oscar foi o sorteado para comprar os fósforos,
enquanto os outros dois procurariam por
velas. Ao andar os seus movimentos
causavam ruído de metal devido ao atrito das
peças desajustadas.
Procurando a prateleira onde o produto
estava exposto, distraído, foi de encontro ao
Kasuo, que vinha em sentido contrário. O
choque foi inevitável, apesar de Kasuo ter
parado ao sinal de Romeu.
- Desculpe-me não o vi. – Disse Oscar
imediatamente.
- Não tem problema, porque continuo não te
vendo. – Respondeu Kasuo.
- Me desculpe novamente. – Tentou concertar
a situação.
- Não precisa ficar chateado, estou
acostumado com situações como esta.
- As pessoas não sabem como se portar em
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presença de pessoas com necessidades
especiais e ficam todas desajeitadas. –
Comentou Kasuo.
- Concordo plenamente. Sinto-me como você
quando olham para mim.
- Diga uma coisa. Que barulho foi esse? –
Perguntou Kasuo.
- Está falando do meu meio de transporte? –
Disse rindo.
- Você também tem necessidades especiais? –
Perguntou Kasuo surpreso.
- Sim. – Disse Oscar caindo na risada. - Sou
uma espécie em extinção e, olha eu quase fui
extinto hoje.
Para amenizar a situação, Oscar mudou de
assunto.
- Seu cachorro é muito bonito.
- O nome dele é Romeu. O meu é Kasuo,
muito prazer.
- O meu é Oscar, o prazer é todo meu.
Os dois ficaram conversando distraídos.
Oscar contou-lhe que viera comprar fósforos.
Kasuo por um instante ficou sério.
Imediatamente Oscar percebeu que algo
estava errado.
- O que aconteceu com você? – Perguntou
enquanto se ajeitava para poder pegar a caixa
de fósforos. – Você vai comprar alguma coisa?
Quando Kasuo respondeu, Oscar sentiu a
tristeza na voz do rapaz.
- Venho sempre aqui para evitar a solidão,
pelo menos, ouço as pessoas conversando
sobre diversos assuntos, algumas vezes
encontro alguém para conversar. – Disse em
tom amargo.
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- De solidão entendo bastante, isso quase me
levou a cometer um erro muito grande. –
Continuou – Graças a Deus conheci dois
anjos que me impediram de cometer um
terrível engano. Agora vamos procurar outro
caminho.
- Por falar nos anjos eles devem estar
pensando que me perdi. Ainda precisamos
encontrar um local para ficar. Foi um prazer
enorme te conhecer Kasuo, mas tenho que ir
andando, ou melhor, me arrastando.
- O prazer foi todo meu. Pela primeira vez
conversei com alguém que não me tratou de
maneira diferente.
Os dois despediram-se. Oscar brincou com
Romeu e afastou-se seguindo em direção ao
caixa. Antes que o som das muletas não fosse
mais ouvido, Kasuo chamou-o.
- Oscar! – Como não obteve resposta chamou
mais alto – Oscar!
Após alguns instantes Kasuo começou a ouvir
o barulho das muletas novamente vindo em
sua direção.
- Pois não, meu amigo, o que você deseja? –
Perguntou Oscar.
- Estava pensando no que você falou sobre
precisar de um local para ficar. Moro aqui
perto, nos fundos tem uma edícula, você
poderá ficar lá.
- Te agradeço, acontece que além de mim tem
os meus dois amigos. – Respondeu Oscar.
- Qual o problema? A edícula é grande, vocês
poderão ficar lá o tempo que quiserem, pelo
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menos, não terei que cuidar dela.
Não demorou muito, os dois que estavam
esperando por Oscar, vieram ver o que
acontecia porque estavam preocupados.
- Olá pessoal! - Começou Oscar. - Este é
Kasuo, nosso novo amigo.
- Não te falei Kasuo, que eles estariam
preocupados comigo.
Os dois cumprimentaram o rapaz e não
esqueceram de fazer um elogio ao Romeu,
que se mantinha ao lado do seu dono.
- Estava conversando com o Kasuo sobre
nossa procura por um local para ficarmos ele
nos ofereceu uma edícula nos fundos de sua
casa. O que vocês acham?
- Acho muito bom, mas infelizmente, não
temos como pagar, para dizer a verdade o
único dinheiro que temos quase não dá para
comprar um pacote de fósforos e um maço de
velas. – Anunciou William.
- Vocês não precisam pagar nada. A casa está
vazia e os móveis se acabando por falta de
uso. Por outro lado, farão companhia para
mim e meu amigo Romeu. – Pela primeira
vez Kasuo falou e a tristeza na voz tinha
desaparecido.
- Poderemos aceitar a oferta, depois faremos
qualquer coisa para pagarmos por nossa
estadia. O que vocês acham? – Sugeriu Jorge.
- Poderemos limpar, cozinhar fazer alguma
manutenção que necessite. Você concorda
Kasuo? – Perguntou William.
- Façam da maneira que vocês quiserem a
casa está vazia. Precisa de uma limpeza.
Vocês poderão ficar lá o tempo que quiserem.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
27
Depois de concordarem sobre a forma de
pagamento caminharam pelo supermercado
enquanto Kasuo fazia algumas compras.
William empurrava o carrinho e a comitiva
seguia por entre as gôndolas.
As pessoas olhavam, alguns sentindo pena,
outros não conseguiam disfarçar o medo
devido a aparência do grupo. Ao passarem no
caixa Oscar fez um comentário sobre a
quantidade de coisas compradas por Kasuo.
- Compro com o maior prazer. – Respondeu
Kasuo.
Os três se olharam. William foi quem tomou
a palavra.
- Hoje aconteceram coisas fabulosas comigo.
Ao sair de casa, não tinha propósito nenhum,
estava só. Em algumas horas tudo se
modificou. Conheci pessoas fantásticas.
Agora tenho até um novo propósito para
prosseguir!
Dividiram as sacolas plásticas, sobrou uma
até para o Romeu.
Seguiram em direção a casa de Kasuo, que
não ficava distante. Quando chegaram, foram
instalar-se na casa dos fundos, ao contrário do
que Kasuo havia dito, a casa estava
impecavelmente limpa.
- Se precisarem de roupas tem algumas
minhas que poderão usar, caso não sirva,
dentro do armário ficara algumas de meu pai
ele era mais alto.
Amanhã poderemos comprar roupas novas. –
Continuou enquanto se dirigia para a casa
L.P.OWEN
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principal.
Ao chegar pediu para Helena preparar chá
para todos. Sua governanta, uma jovem
senhora com seus 38 anos, havia divorciado
depois de sofrer agressões de seu marido por
quase cinco anos e por sorte encontrara
aquele jovem que precisava de cuidados.
Fazia alguns anos que trabalhava com ele e se
fosse possível jamais o deixaria.
Encontrara respeito, carinho, educação, tudo
o que não teve em seu casamento. Não
pensava no assunto, mas caso aparecesse
alguém que a amasse de verdade tentaria
novamente.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
29
Capítulo seis
RUAN
O caminho percorrido todos os dias por Ruan
e sua mãe foram fundamentais na sua
formação e desenvolvimento, era um garoto
que nasceu com Síndrome de Down.
No jardim da infância, uma de suas
professoras notou que ele, não parava quieto,
vivia tamborilando em todos os lugares.
Não aguentava mais ouvir o garoto bater nas
carteiras, paredes, portas e armários, entre
outras coisas, a professora sugeriu a sua mãe
que o matriculasse numa escola de música.
Depois de alertada pela professora, Vera
procurou um profissional para ensiná-lo. O
resultado foi muito bom. Diminuiu a
inquietação do garoto e favoreceu sua
coordenação motora e as atividades manuais,
recebendo elogio da professora do jardim.
Num dos Natais, Ruan acordou cedo, foi
olhar embaixo a árvore de Natal montada na
sala de estar. Ali o “Papai Noel” deixava os
presentes que trazia.
Ao chegar na sala não viu seu presente como
de costume. Ficou desapontado, mas não
disse nada.
Sua mãe sugeriu carinhosamente que
procurasse em outros lugares da casa. “Quem
sabe o Papai Noel se enganou!”.
Procurou em todos os lugares possíveis, mas
não encontrou nada.
- Vamos continuar procurando meu filho, não
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devemos desistir nunca. – Disse
carinhosamente.
Continuaram vasculhando por todos os
cantos da casa, ao entrarem na garagem,
Ruan não conseguiu se conter de felicidade ao
ver que o seu presente estava montado num
canto da garagem e gritou de felicidade.
Pulou para os braços de sua mãe beijando-a
muitas vezes.
- Em vez de ficar pulando, por que não a
experimenta? – Disse sorrindo.
A bateria era linda, vermelha, as ferragens
todas cromadas, os pratos na cor cobre
brilhavam de tão polido. Sentou-se na
banqueta, desaparecendo atrás do
instrumento, mas tentou tirar algumas notas.
Com o tempo a intimidade com o
instrumento surgiu.
Ruan passava muitas horas treinando. As
aulas que fazia lapidavam seus dons musicais.
Os anos passaram, sua primeira bateria foi
doada para uma escola, onde começou a
ensinar as crianças. Como prêmio sua mãe
lhe presenteou com uma bateria profissional
tornou-se um excelente baterista.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo sete
A DUPLA
Naquela manhã, Kasuo acordou inspirado e
para se distrair começou a tocar piano. Nos
primeiros acordes da música “O fantasma da
ópera” ouviu um ruído as suas costas,
reconheceu ser o atrito das muletas de Oscar e
parou de tocar.
- Desculpe ter atrapalhado.
- Sou eu quem devo desculpar-me por ter
acordado você. Estava apenas matando a
saudade do meu bom e velho companheiro,
relembrando alguns acordes. Desde a morte
de meus pais não toquei mais.
- O que fez você voltar a querer? – Perguntou
Oscar.
- Sonhei com meus pais. Nele estávamos
caminhando por um local cheio de flores e
plantas tão bonitas, como as que temos aqui
no jardim. Todas elas foram planadas por
minha mãe. – Comentou orgulhoso. - Ela me
pediu para não abandonar meus sonhos e
continuar tocando. Fazer um grande
concerto. Enfim alegrar as pessoas com a
música, que é um dom de Deus e seria um
desperdício não utilizá-lo. Falou-me também
que esta casa estava triste.
- Se a tua mãe falou que queria ouvir música,
você tem que obedecer. – Brincou Oscar.
- Adoro essa canção que estava tocando, se
permitir, posso acompanhar-te.
Kasuo reiniciou os acordes, Oscar começou a
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cantar fazendo o outro ficar admirado ao
ouvi-lo. Sua voz era extremamente agradável,
os agudos pareciam fáceis de serem
alcançados, isto fez Kasuo empolgar-se. Seus
dedos percorriam o teclado do piano fazendo
sua alma encher-se de alegria, transportando-
o para um local onde somente ele conhecia.
Ao terminarem, foram ovacionados por
William, Jorge e Helena que estavam
escutando extasiados.
- Meu Deus! Quanto talento existe em vocês!
– Desabafou William.
- Ainda bem que se encontraram. –
Completou Jorge.
- Ainda bem que os iguais se encontram e
quando isto acontece, o universo comemora.
– Retrucou Helena.
Ficaram ouvindo a dupla por algumas horas.
A música era tão boa que não perceberam o
tempo passar.
- Por que não montam uma banda? -
Comentou William.
- Para uma banda são necessários, alguns
músicos e muito ensaio. – Respondeu Kasuo.
- Aqui existe um pianista, um vocalista e um
guitarrista, já é um bom começo! –
Completou William.
- Onde poderíamos nos apresentar? –
Completou Oscar. – Naquele restaurante
onde jantamos? – Disse rindo relembrando o
incidente com o proprietário.
- O local a gente arruma. – Exclamou
William.
Durante o almoço surgiram várias ideias. A
conversa continuou durante uma caminhada,
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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à tardinha, pela cidade.
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Capítulo oito
A APRESENTAÇÃO
Por ser especial a dedicação tinha que ser
maior, mas Ruan era perseverante, gostava e
aprendia rapidamente. Seus pais sentiam
orgulho do filho, a síndrome de Down não o
impedia de conseguir superar os obstáculos e
colocar por terra os prognósticos médicos de
suas possibilidades e conquistas.
Algumas metas foram alcançadas, mas faltava
muito para Ruan realizar seus sonhos o de
participar de uma banda. Cada obstáculo que
aparecia em sua vida, Ruan fazia de tudo para
transpô-lo. Seu lema “desistir jamais”,
ensinado por sua mãe.
O mais recente foi uma pequena diferença em
uma de suas pernas que estava prejudicando
seu desenvolvimento. A observação foi feita
pelo professor, ao vê-lo caminhar.
A intervenção cirúrgica foi um sucesso.
Tratou-se de uma mistura de duas técnicas.
Uma era a técnica do alongamento em Z com
outra mais recente, a do enxerto do
combinado de células tronco e osso sintético.
Com o passar do tempo, seu interesse em
ajudar outras pessoas com deficiências
aumentou. Enquanto não conseguiu um local
para doar seu talento não sossegou.
Agora, ao dedicar-se a outras pessoas com
problemas diversos, sentia-se feliz.
O trajeto que fazia era longo, mas a
caminhada o ajudava no condicionamento
físico.
Ir todos os dias para ensinar pessoas era
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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muito gratificante. Em muitas ocasiões
recebera os cumprimentos do diretor da
escola. Isso o deixava muito contente. Ruan
tinha a impressão que o progresso feito pelos
seus alunos se devia ao entendimento das
dificuldades sentidas por eles e a dedicação de
cada um para romper o seu limite. Finalmente
o dia da apresentação chegou. Seu coração
estava feliz e ansioso ao mesmo tempo.
Aquele dia seria muito especial, seus alunos
tinham empreendido um grande esforço,
mesmo que ocorresse algum deslize, eles
seriam irrelevantes. Sentia-se orgulhoso por
eles. Ruan adorou quando notou que as luzes
que iluminavam o palco não permitiam ver as
pessoas na plateia. Isso ajudaria os mais
tímidos.
A apresentação foi simples, os alunos
acompanhavam playback de músicas de
sucesso. Ruan por sua vez, apenas ficava ao
lado no palco para dar mais tranquilidade as
crianças.
No final, quando as luzes da plateia foram
acesas, viu seu professor e amigo aplaudindo
seu trabalho sentado na primeira fila. Teve
que segurar a emoção. Sentiu a falta de seu
pai que havia falecido algum tempo atrás. Sua
mãe se desdobrava para criá-lo e pelo modo
como chorava sorrindo e aplaudindo ao
mesmo tempo dava para ver que estava muito
orgulhosa. Os aplausos não paravam,
enquanto isso, os participantes curvavam-se
em agradecimento. Na plateia, um grupo
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chamou a atenção de Ruan pelo
entusiasmo de seus componentes. No final da
apresentação se aproximaram e
cumprimentaram-no efusivamente.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo nove
O CONVITE
O passeio após o almoço foi muito agradável,
conversaram sobre diversos assuntos. Ao
atravessarem a praça, Oscar fez uma
observação enquanto tocava o ombro do
Kasuo.
- Veja que mulher maravilhosa! – Falou para
brincar com o rapaz.
- Oscar, por que você não corre atrás dela? –
Respondeu o outro rindo.
Todos riram. O passeio continuou até o final
da tarde. Estavam prestes a retornar, quando
viram pessoas aglomeradas próximas de uma
escola. Aproximaram-se para matarem a
curiosidade.
Quando perceberam, estavam sendo
conduzidos pelas pessoas que se
encaminhavam para dentro do auditório da
escola. Não estava lotado e sentados numa
fileira ao lado da porta puderam assistir ao
show dos alunos. Jorge colocou-se ao lado de
uma fileira de poltronas, o restante do pessoal
acomodou-se nas poltronas que estavam
vazias.
Jorge explicava os acontecimentos ao Kasuo
que estava se sentindo perdido.
Depois das crianças se apresentarem, Ruan
foi requisitado, pela direção da escola, a fazer
uma pequena demonstração.
Com extrema maestria fazia suas baquetas
tocarem em diversos modos e estilos. Mesmo
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alternando o ritmo, tudo era feito com
harmonia e precisão. O talento do rapaz
chamou a atenção de Kasuo.
- Será que ele está procurando tocar em
alguma banda? – Insinuou.
- Só faltaria um baixista. – Completou
William.
- Perguntar não ofende. – Avisou Oscar.
O show foi sensacional, aplaudiam
efusivamente. Quando acabou a apresentação
os quatros fizeram questão de cumprimentá-
lo.
- Agradeço por terem vindo e espero que
todos tenham gostado. – Disse Ruan.
- Gostado? Nós adoramos! – Disse Oscar.
Antes que o Ruan fosse a algum lugar
perguntou.
– Você não gostaria de fazer parte do grupo
que estamos montando?
Não teve tempo para responder, alguém o
puxou pelo braço, em poucos instantes, Ruan
já estava do outro lado do teatro recebendo os
cumprimentos dos pais dos alunos, parentes e
amigos.
Os quatros ficaram sem ação e resolveram ir
embora.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo dez
UM MENDIGO
Naquela manhã William saiu muito antes que
o pessoal acordasse. Caminhou durante
algum tempo sem destino.
Resolveu entrar numa igreja, naquele
momento havia muito poucas pessoas, seguiu
pelo corredor em direção ao altar, fez
reverência e seguiu em direção ao Sacrário.
Sentou num banco próximo ao altar do
Santíssimo.
Ficou quieto, de olhos fechados, sentindo a
tranquilidade e paz que transmitia aquele
local. Agradeceu por ter conhecido aqueles
dois antes de cometerem o maior erro de suas
vidas.
Pensou no filho caçula que comemorava seu
15º aniversário, há muito tempo não lhe dava
um abraço ou ouvia a sua voz. Por esse
motivo estava sentindo-se infeliz.
Estava tão concentrado em seus pensamentos
que não percebeu um homem com as roupas
surradas, sentar-se ao seu lado.
- Bom dia! – Exclamou o homem com olhar
fixo no altar.
- Oh! Desculpe-me, estava distraído. Bom dia!
Como vai o senhor? – Disse William meio
sem graça.
- Muito bem. – Respondeu o outro. – Por que
está tão triste?
- Deu para perceber? Está muito na cara?
- Sim! – Respondeu ainda sem desviar seu
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olhar. – Você não quer falar sobre isso?
William percebeu que desabafar um pouco
não faria mal. Contou o que acontecia. Falou
com orgulho de seus filhos Luís e Mário 18 e
15 anos respectivamente.
- Por que não vai visitá-los?
- Para ser sincero, não tive notícias deles há
alguns meses e também porque não tenho
coragem para encará-los. A bebida conseguiu
tirar-me o que tinha de mais precioso! A
minha dignidade. - O senhor o que faz aqui?
- Sempre venho conversar com Deus. –
Respondeu como antes sem olhá-lo.
- Eu entrei por acaso e resolvi fazer o mesmo,
mas não sei como começar. – Confessou
William.
- Todos temos dificuldades. Quando vou falar
com Deus, primeiro faço uma oração. – Disse
o homem.
- Não fiz oração alguma, talvez, por isso
tenho tanta dificuldade em iniciar.
- É possível. Quem sabe, não abriu seu
coração o suficiente. Por que não começa
novamente agradecendo o que tem e o que
não tem? – Comentou ainda olhando para o
altar.
- Como agradecer o que não tenho?
- Você não está doente! Está?
- Claro que não!
- Então agradeça por não ter uma doença
qualquer.
- Vou fazer isso. – O senhor poderia rezar
comigo? – Perguntou William olhando para o
homem ao seu lado.
- É isso o que realmente quer? – Perguntou,
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mas desta vez olhando-o nos olhos.
- Se puder, ficaria eternamente grato. – Disse
com os olhos marejados.
Os dois ficaram orando por alguns instantes,
quando terminaram William sentiu seu
coração bem mais tranquilo.
Agradeceu por tantas graças que Deus
concedia-lhe. Apenas sorriu para o homem ao
seu lado e agradeceu.
- Obrigado por ajudar-me. – Disse com o
brilho no olhar. - Vou orar por você também.
- Faça isso! É o que nos mantém caminhando.
- O que você faz para viver? – Perguntou
William.
- Apenas converso com aqueles que moram
na rua, os viciados, as prostitutas, os ricos,
todas as pessoas, vivo para aprender e ajudar.
- O que o senhor ganha com isso?
- Um sorriso, uma oração. – Disse o homem
olhando para o altar.
Antes mesmo que William dissesse alguma
palavra se retirou.
Repentinamente William lembrou-se de não
se apresentar, mas era tarde ele já tinha saído.
Continuou por mais algum tempo quieto,
sentindo a presença de Deus na paz que
estava sentindo.
L.P.OWEN
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Capítulo onze
A PROCURA
Todos estavam tomando café exceto William.
A preocupação tomou conta do grupo, porque
não tinha dito nada sobre ausentar-se.
- Por que não damos uma volta para ver se o
encontramos? – Questionou Oscar.
- Como vamos achá-lo numa cidade tão
grande como esta? – Disse Jorge.
- Podemos usar o Romeu é um cão de caça,
vai encontrá-lo facilmente. – Retrucou o
outro.
- Como faremos? – Disse Jorge em tom cético.
- Vou trazer uma meia do William para o
Romeu cheirar, se não passar mal com o
cheiro, poderá encontrá-lo facilmente.
Kasuo, que até então, não tinha dito nada,
iniciou jogando um banho de água fria nos
dois.
- Romeu não foi treinado para caça, mas para
ser guia. O que podemos fazer é sairmos à
procura dele.
Todos concordaram com ele, resolveram
apenas dar uma volta pela redondeza.
Andaram por algum tempo, mas não o
encontraram. Estavam quase desistindo
quando passaram em frente da igreja e
Romeu caminhou em direção a porta.
- Ele está querendo que entremos na igreja. –
Falou Oscar.
Oscar entrou, tomando o cuidado para não
fazer muito barulho com as muletas, seguiu
pelo corredor central indo sentar-se num
banco bem em frente ao altar do Santíssimo.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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- Como foi que me encontrou aqui? -
Perguntou William.
- Podemos dizer que seu cheiro atraiu a gente.
– Respondeu Oscar.
- O que você quis dizer com isso?
- Dei uma de suas meias para o Romeu
cheirar depois de se recuperar ele nos trouxe
até você. – Brincou. - Estávamos
preocupados. Poderia ter nos avisados. –
Desta vez disse sério.
- Vocês estavam dormindo, não quis
incomodá-los. Estava precisando ficar algum
tempo só. Se quiser podemos ir andando.
Os dois saíram ao encontro do restante do
pessoal, que aguardavam no lado de fora.
- Por que não entraram? – Perguntou
William.
- Nem sabíamos que estava aqui. Outro
motivo é o Romeu. – Respondeu Kasuo.
- Não acredito que Deus fique bravo. Ele
também é sua criação. – Disse William.
Enquanto caminhavam de volta para casa,
conversavam sobre o que fariam no futuro.
L.P.OWEN
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Capítulo doze
A DECEPÇÃO
Sua mãe estava eufórica com o sucesso da
apresentação, enquanto ela comemorava e
recebia os cumprimentos Ruan estava
distraído pensando no grupo que estava na
fileira lateral próximo a porta de entrada.
Ficou intrigado com aquele pessoal que o
aplaudia freneticamente. Infelizmente não
tivera oportunidade de conversar por mais
tempo. Lamentou, quando conseguiu ficar
livre e notou que tinham saído.
O dia amanheceu bonito, o sol brilhava
absoluto e prometia temperaturas elevadas.
As pessoas caminhavam pela praça, Ruan
costumava passear e ficar alguns momentos
relaxando ouvindo os sons das águas
provocados pela cascata que mantinha o nível
do aquário. Um tanque de concreto e em
alguns locais da parede havia mais de dois
metros de altura. Construído em terreno com
desnível, era possível apreciá-lo por dois
modos, por cima e lateralmente. Em vários
locais foram colocadas placas de vidro por
onde era possível ver os peixes nadando como
se o espectador mergulhasse junto a eles.
Estava sentado apreciando o movimento,
quando olhou em direção ao playground e viu
uma criança que brincava numa das balanças.
Ao ficar em pé o garoto perdeu o equilíbrio e
caiu.
Ruan instintivamente levantou-se e correu em
direção do garoto. Enquanto corria gritava
para chamarem um médico.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Percebendo que o garoto tinha quebrado um
dos braços. Notou também que estava
desacordado, mas respirava. Sua mãe,
descontrolada, queria pegá-lo no colo e levá-
lo ao hospital, mas por instinto, Ruan
segurou-a pelo braço, não permitindo que o
fizesse.
- Calma! – Pediu Ruan à mãe do menino.
A mulher não conseguia se controlar e o
acusava de não deixar socorrer seu filho.
- Se mexer nele pode complicar a situação. Os
médicos estão chegando.
Não acabou de falar e ao seu lado dois
paramédicos já estavam examinando o
garoto. Deixando-o em boas mãos, Ruan
deixou a praça retornando para casa.
- Olá meu filho! O que aconteceu?
Vera conhecia seu filho muito bem para
desconfiar que algo estava errado.
- Aconteceu um acidente com um garotinho
na praça. Fiquei chateado com isso. Lembrei-
me, quando sofri aquele acidente de bicicleta
e fiquei triste pelo garoto que num momento
estava brincando e em seguida não podia
mover o braço.
Depois de contar tudo para sua mãe ela disse
com voz doce:
- Você agiu corretamente filho, como sempre
lhe falamos. Se não sabemos o que fazer, o
melhor é pedir ajuda e não fazer nada.
Depois da conversa, foi para a garagem, onde
passava a maior parte do tempo fazendo o
que mais gostava, tocar bateria.
L.P.OWEN
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Capítulo treze
O SHOW ACABOU
Cláudio, um rapaz bonito, cabelos e olhos
castanho escuros, 1,85m de altura, porte
atlético. Era um dos que atraia maior número
de fãs para a banda. Apesar de todo assédio
que recebia das garotas que frequentava os
locais onde costumavam tocar, não tinha
namorada. Alguns pensavam que era
homossexual, mas o real motivo era o
complexo que tinha por usar uma prótese na
perna esquerda e um pequeno problema de
gagueira que era acentuado pela ansiedade ou
nervosismo.
O show como sempre, nos últimos tempos,
foi muito bom. Por ser o último, tinha um
sabor amargo, era verdade, mas deviam uma
ótima apresentação para os fãs que
conquistaram ao longo do tempo. No final,
cumprimentou os companheiros e saiu.
Como sempre fazia após cada apresentação,
passou uma flanela sobre as cordas do seu
contrabaixo para não oxidarem. Guardou-o
com carinho na maleta. Despediu-se do
pessoal e saiu a caminho de casa.
Enquanto caminhava, pensou na trajetória da
banda. Lembrou-se da maneira como passou
a integrá-la. Na época, com 22 anos, ao
retornar da escola, entrou no restaurante
apenas para tomar um suco e seguir seu
caminho. Ao colocar seu instrumento sobre a
mesa, não conseguiu passar desapercebido.
O líder da banda que se apresentava no local
foi em sua direção, parou na sua frente e
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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convidou-o a tocar com eles. Não foi
necessário dizer duas vezes.
Cláudio subiu no palco, durante a música a
banda parou para ouvi-lo. Ficaram admirados
com a apresentação do rapaz. Ver aquele
talento e deixá-lo partir seria um desperdício.
– Pensou o líder. Aplaudiram-no de pé por
algum tempo. Agradeceu e já ia se retirando,
quando foi convidado para ser o novo
integrante do grupo. A partir daí o sucesso da
banda foi aumentando até transformá-lo num
dos líderes do grupo.
Lembrou-se das viagens que fizeram, dos
locais onde se apresentaram, das dificuldades
e no momento em que deveriam colher os
frutos, os egos dos integrantes, falou mais
alto.
Na rua, caminhando sozinho, sentiu algumas
lagrimas rolando pelo rosto, assim como seus
sonhos, desmoronaram. Sua vontade, naquele
momento, era de sumir do mundo.
L.P.OWEN
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Capítulo catorze
UM PROJETO ESPECIAL
Sentado na varanda, apreciando o Sol que
iluminava o jardim, muito bem cuidado,
William pegou o lápis e o seu caderno de
notas e começou a escrever.
Você que me aquece;
Dá a vida e a luz;
Ilumina meu caminho;
O destino me conduz.
De dia estás ao meu lado;
À noite longe estás;
Sinto-me só, sinto frio;
Deitado em minha cama;
Como sempre acontece;
Quando acordo e abro a janela;
Lá me esperas tranquilo;
Ao ver-te, tudo se alegra.
Parou quando pressentiu a presença de Oscar.
- Bom dia! – Disse o rapaz.
- Bom dia! – Respondeu enquanto fechava o
caderno.
- Gosta de escrever?
- É uma terapia. Gosto de escrever algumas
coisas. Desabafo no papel.
- Você nunca nos fala o que sente.
- Sou um pouco retraído, escrevo, mas depois
acabo jogando fora. – Respondeu William.
- Poderia mostrá-las para as pessoas, quem
sabe pudessem ajudá-las a ver as coisas de
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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outra forma.
Ficou em silêncio.
- Você não teve mais notícias de seus filhos? –
Perguntou o outro.
- Não. Faz uns seis meses. A última vez foi no
aniversário do mais velho. Naquele dia,
resolvemos caminhar, durante o passeio
conversamos um pouco. Sentia vergonha por
não ter condições de cuidar deles. Não tive
condição de dar-lhe nenhum presente, nem
uma pequena lembrança.
- Será que ele não achou sua presença o maior
presente, ou melhor, a melhor lembrança que
pudesse ter ganhado?
- Me senti impotente, uma sensação muito
ruim. – William falou com tristeza na voz.
Novamente ficaram algum tempo em silêncio,
quando retomaram foi William quem mudou
de assunto.
- Por falar em sensação ruim, precisamos
conversar sobre as despesas que estamos
dando para o Kasuo.
- Você tem razão. Temos que arranjar um
trabalho o mais rápido possível.
- O que poderemos fazer? Trabalhava com
projetos e manutenções industriais. Com a
minha idade não consigo nem entrevista. –
Comentou William.
- Eu sei pintar, cantar e andar de muletas. –
Disse Oscar.
William riu. Gostava do humor do rapaz,
mesmo nas ocasiões mais difíceis sempre
mostrava seu bom humor.
L.P.OWEN
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“Oscar tinha idade para ser seu filho”.-
Pensou.
Admirava aquele ser maravilhoso que, a cada
dia, conhecia um pouco mais. Enquanto
falavam, Kasuo e Jorge se aproximaram para
participarem da conversa.
- Sobre o que estão conversando? – Quis saber
Jorge.
- Como faremos para pagar o Kasuo por
nossas despesas. – Respondeu William.
- Vocês poderiam pagar-me trabalhando num
projeto diferente de tudo o que já fizeram. –
Kasuo falou enigmático.
- E o que seria esse projeto? – Perguntaram
quase em conjunto.
- Os senhores poderiam acompanhar-me? –
Indagou Kasuo, enquanto seguiu pelo jardim
guiado por Romeu.
Caminharam em direção a um galpão situado
ao lado da casa. Pintado na cor Palha. Tinha
duas portas, uma localizada na lateral, dava
acesso a casa. A outra, na parte da frente,
tinha 5 metros de comprimento por 3 metros
de altura.
- Senhores preparem-se para o que vão
presenciar, porque até hoje não vi nada igual.
– Disse sério.
Todos riram. Quando Kasuo acionou o
controle remoto ouviu-se o ruído do motor
esforçando-se para erguer a porta enorme.
Todos estavam curiosos para saber o que
havia ali dentro.
Depois de inteiramente aberta, revelou-se o
que existia no galpão.
O sentimento estampado em cada um dos
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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semblantes foi desolador. Pelo silêncio, Kasuo
imaginou o tamanho da decepção do grupo.
A descrição exata era do verdadeiro caos,
estava inteiramente tomado por móveis,
caixas, havia de tudo um pouco. Um depósito
de tralhas.
- Estou com você. Kasuo, nunca vi algo
semelhante em toda minha vida. – Disse
Oscar.
- Calma pessoal! Explicarei minha ideia. Não
se impressionem com o que estão vendo. –
Tentou animá-los. - Pelo jeito deve estar pior
do que imaginei.
- Estou querendo limpar essa bagunça, jogar
as tralhas fora, separar o que pode ser usado.
O importante é liberarmos este espaço. –
Finalizou Kasuo.
- Não via a hora de fazer algo. Agora que já
sabemos o que fazer, mãos à obra. – Disse
William.
No final todos se empolgaram e meteram a
mão na massa. Cada um fez o que podia.
Separaram as coisas pequenas dos móveis
para um canto do quintal para serem doados
às entidades assistenciais.
Os materiais que poderiam ser reciclados
foram colocados em outro local. Depois disso,
foram retirados os móveis, com a ajuda dos
catadores. William notou a presença de um
automóvel colocado no fundo do galpão
coberto com uma lona. Ao removê-la deu um
grito de admiração.
- Mas o que é isto? Kasuo, você conseguiu
L.P.OWEN
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enganar a todos. - Completou.
- Em que estavam pensando? Somente em
limpar a garagem, jogando os entulhos fora? –
Respondeu orgulhoso.
- O verdadeiro motivo é criar espaço para
colocar este automóvel após sua reforma. –
Finalizou
O cansaço foi esquecido pelo grupo.
- Precisamos fazer uma avaliação para ver se
vale a pena. – Indagou Jorge.
- Quanto ao custo da reforma não se
preocupem. Não reformei antes porque não
tinha como verificar a qualidade do serviço.
Agora que tenho em quem confiar, podemos
iniciar o mais rápido possível, seu valor
sentimental é muito alto, afinal ele pertenceu
ao meu pai.
- Está propondo que apenas fiscalizemos o
serviço? – Perguntou Jorge.
- Fiscalizar, verificar onde podemos encontrar
profissionais de gabarito para a execução do
serviço. Precisamos de um meio de
transporte, ele será o nosso.
- Além de um automóvel precisamos de um
local para nossos ensaios acredito que
poderemos formar uma banda mais breve do
que pensei. Essa garagem é excelente, basta
melhorar sua acústica e será perfeita. Faremos
uma pequena reforma para separarmos a
garagem do estúdio.
- Você está propondo que formemos uma
banda? – Desta vez foi Oscar quem
perguntou.
- Pensei muito no que William tinha proposto
e achei algo razoável.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
53
- Então vamos começar agora mesmo. –
Oscar conclamou entusiasmado.
Cada um deu sua sugestão para execução do
projeto da reforma da garagem. O desenho do
projeto ficou por conta de William.
O segundo passo foi verificar as peças que
deveriam ser trocadas no automóvel, para
terem uma ideia mais precisa, limparam o
automóvel por completo.
No final, o automóvel estava limpo, mas ao
contrário, com a guerra de água iniciada por
Oscar, todos ficaram molhados.
- Até que não está tão estragado como você
pensava Kasuo! – Comentou Jorge.
L.P.OWEN
54
Capítulo quinze
RECADO DADO
Geraldo, como sempre, deu um beijo na
esposa, no filho de cinco anos e saiu.
Enquanto aguardava o ônibus imaginava a
forma de melhor aproveitar o dia.
Chegando na central, depois de 70 minutos de
viagem, cumprimentou seus colegas de
trabalho, recebeu a bolsa contendo todas as
cartas que deveriam ser entregues.
Com o bom humor, que todos admiravam,
saiu para cumprir sua obrigação. Passou em
frente da residência de William, mas como
antes, estava fechada.
Continuou seu caminho para fazer as entregas
das cartas em outras ruas do bairro.
Restavam poucas correspondências para
terminar seu trabalho. Estava compenetrado
em confirmar o endereço de uma entrega
quando, ao tocar a campainha, não percebeu
o perigo.
Sentiu uma dor muito aguda em seu
antebraço, a primeira impressão foi de receber
uma descarga elétrica muito forte, mas
quando se deu conta percebeu que estava
sendo dilacerado pela forte mandíbula de um
animal.
O ataque foi tão rápido que Geraldo não teve
tempo de se defender. Gritou por socorro,
mas não viu ninguém próximo que pudesse
ajudá-lo.
A única coisa que sentiu, antes de desmaiar
foi a presença de um homem lutando para
retirar seu braço da boca da fera.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
55
Quando acordou estava sendo tratado por um
médico dentro de um automóvel de resgate ao
lado um velho conhecido, que segurava a
barra de ferro utilizada para livrá-lo do ataque
do animal.
- Geraldo está tudo bem com você? –
Perguntou William.
- Sim! Somente me lembro de ser atacado por
um cachorro, o que aconteceu depois, não sei
de nada mais.
- Já está tudo sob controle. O cachorro está
em observação para saber se você não o
intoxicou. – Disse brincando. – A dona estava
lavando o local onde ele fica e não percebeu
que ele tinha escapado.
- Conheço esta senhora ela é gente boa.
Nunca tinha visto esse cachorro. – Respondeu
Geraldo.
- Ele fica na parte de trás da casa. O
importante é que você vai ser encaminhado
para o hospital, lá deixarão você novo em
folha. Daqui a alguns dias você estará pronto
para outra. – William riu novamente.
- Acabei de lembrar-me. Tentei entregar uma
carta registrada na casa onde morava. Como
não te encontrei devolvi para central. Ligue
para lá e procure se informar.
- Ah! Antes que me esqueça. Obrigado!
- Eu é que te agradeço por lembrar-se da
carta. – Respondeu William.
O rapaz foi levado para o hospital.
L.P.OWEN
56
Capítulo dezesseis
O CONSELHO
O dia amanheceu ensolarado, a temperatura
muito agradável, um excelente convite para as
atividades físicas. Ruan acordou cedo, seguiu
em direção a praça. Como de costume, fez
sua caminhada. Depois dos alongamentos,
sentou-se num banco próximo da cascata que
mantinha controlado o nível do aquário.
Distraiu-se olhando as crianças que
brincavam no parquinho em frente. Notou
que cada uma delas tinha preferência por um
determinado brinquedo. Algumas preferiam a
balança, outras trepa-trepa e etc.
Ruan apreciava o movimento, quando uma
sombra enorme surgiu no chão à sua frente.
Ao olhar para o lado deparou-se com o
causador do fenômeno. Um homem alto e
forte, barba por fazer. Usava um chapéu de
feltro, que escondia os cabelos castanhos,
parado à sua frente.
Trazia embaixo do braço um jornal muito
bem dobrado. Na mão, um saquinho pardo
impresso panificadora Coisa Boa.
- Bom dia! – disse o homem em tom alegre.
- Bom dia! – respondeu Ruan.
- Posso sentar-me ao seu lado? – Aguardando
a resposta em pé.
- Por favor! – Respondeu Ruan sorrindo.
- Obrigado! Aqui é um ótimo lugar para
relaxar, não acha? – Observou o andarilho.
- O senhor tem razão. Venho aqui todos os
dias. Faço uma caminhada, sento-me neste
banco, ouço o som das águas caindo,
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
57
enquanto aprecio as crianças brincando no
parque. Quase ia esquecendo-me dos pássaros
que vivem disputando os melhores lugares
nestas árvores. – Completou.
– Você está servido? – Mostrando o pacote
aberto com alguns pães.
- Obrigado. – Respondeu. - A propósito, meu
nome é Ruan muito prazer. – Completou.
- O meu é Sílvio e o prazer é todo meu.
Quando cheguei, notei que estava
preocupado. – Falou enquanto mordia um
dos pães.
- Na verdade lembrei-me de um garoto que
caiu do balanço. Gostaria que estivesse
passando bem.
- Você, como está passando? – Perguntou
Sílvio.
- Estou bem. – Respondeu evasivamente.
Quando Ruan olhou para o lado, os olhos de
Sílvio foram de encontro ao seu.
Imediatamente, sentiu seu rosto corar e
completou.
- Pensando melhor, não estou tão bem assim.
- O que te deixa infeliz? – Perguntou Sílvio
enquanto mordia novamente o pão.
A tranquilidade, a ternura transmitida na voz
incentivava as pessoas a abrirem seus
corações. Sua aparência simples despertava a
confiança nas pessoas, além disso, tinha o
dom de saber ouvir.
- Desde que me conheço por gente estou
sempre mostrando aos outros que sou capaz
de fazer o que me proponho. – Iniciou Ruan. -
L.P.OWEN
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Nasci com um pequeno problema, por isso
tenho algumas limitações. A música faz parte
da minha vida. Ela é como a minha alma, não
sou nada sem ela. Ao falar em tocar bateria,
as pessoas debocham, não me dão
oportunidade de mostrar o que posso fazer.
Tudo pelo preconceito.
- Há pouco tempo atrás recebi o convite, para
fazer parte de uma banda, de um pessoal que
estava assistindo minha apresentação onde
leciono. No tumulto não os vi mais. Talvez
tenha perdido minha oportunidade, dizem
que ela só aparece uma vez.
- Não acredito que se tenha apenas uma
oportunidade na vida. Você não acharia
injusto para os que perdessem essa chance? –
Perguntou Sílvio enquanto terminava de
amassar o saquinho de pão.
- Isso é o que dizem. – Retrucou Ruan.
- Se acredita realmente nessa afirmação, só
posso dizer que você perdeu sua
oportunidade, caso o contrário, digo que ela
ainda não apareceu, ou não era sua
verdadeira oportunidade. – Falava
docemente, mas com firmeza.
- Você imagina se Pedro não tivesse uma
segunda chance para seguir Jesus? – Sílvio
continuou.
– Muitas vezes queremos que as nossas
necessidades sejam satisfeitas no momento
que determinamos. Quando isso não acontece
o pensamento que surge em nossa mente é de
não termos outras oportunidades e ficamos
chorando nos cantos como crianças mimadas
que não tiveram suas vontades atendidas.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
59
Continue treinando que um dia, quando
menos esperar, terá sua oportunidade, então
se lembrará do que estou falando.
- Bem! A conversa está boa, mas tenho que ir
andando. – Sílvio despediu-se.
Ruan pensou nas palavras que acabara de
ouvir enquanto via Sílvio caminhar em
direção a lata de lixo para jogar o saquinho de
papel amassado.
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Capítulo dezessete
RUAN E CLÁUDIO
Cláudio tomou café da manhã e saiu. Estava
sentindo-se bem. Caminhar sempre lhe dava
prazer, aproveitava o tempo para pensar. As
pessoas estavam todas apressadas sequer
olhavam uma às outras. Ele, por sua vez,
estava tranquilo, apenas pensando em dar um
novo rumo para sua vida.
Compenetrado nos seus pensamentos, quase
atropelou Ruan, que se levantava do banco da
praça para ir ver os peixes que passavam
tranquilos próximos ao visor de vidro, não
dando importância para os humanos que
ficavam próximos do aquário.
O impacto de Ruan no corpo de Cláudio foi
tão forte, por pouco os dois não caíram
sentados no chão.
- Me desculpe estava distraído. – Disse Ruan
imediatamente.
- Eu que peço desculpas estava mergulhado
nos meus pensamentos que não percebi você
na minha frente – Respondeu Cláudio.
- Espero não ter machucado com minha perna
biônica. – Comentou Cláudio sorrindo.
Percebendo que Ruan não tinha entendido a
piada, resolveu mostrar-lhe a perna. A
surpresa de Ruan ficou estampada em sua
cara, mas no final os dois começaram a rir.
- Meu nome é Ruan muito prazer.
- O meu é Cláudio, o prazer é meu.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo dezoito
SÍLVIO
Sílvio ajudava as pessoas, mas seus próprios
problemas ficavam sem solução, não tinha
com quem desabafar. Eles haviam começado
alguns anos antes. Casado pai de um garoto
bonito e inteligente. Um homem trabalhador
que vivia para sua família.
Começou a beber, no início, socialmente até
se tornar um hábito. Algum tempo depois não
tinha mais controle sobre o vício. Sua vida
tornou-se um verdadeiro inferno.
As brigas com sua esposa começaram a fazer
parte do cotidiano. Até que um dia quase
chegaram a se agredir, antes que ocorresse
uma tragédia, resolveu sair de casa e não
voltou mais. Passou a viver na rua, dormindo
embaixo de viadutos, marquises. Sua
alimentação era conseguida por doação de
pessoas que encontrava. Seu estado de
embriaguez era permanente, dificilmente
estava sóbrio.
Em um momento raro de lucidez, quando
caminhava por uma avenida, viu uma
aglomeração ao redor de uma pessoa que
estava deitada no chão. Ao lado do corpo
notou um saco onde havia algumas
quinquilharias, pertences do rapaz que fora
atropelado. Aproximou-se para matar sua
curiosidade, levantou o plástico que cobria o
corpo, não suportou a emoção e desmaiou.
Cada um foi levado para um local diferente.
L.P.OWEN
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Sílvio foi encaminhado para um hospital
público onde ficou em observação e
encaminhado em seguida, para uma casa de
recuperação para dependente químico.
O rapaz foi levado para o IML.
No começo tudo era difícil, sentia falta da
ingestão do álcool, as dores eram intensas,
ansiedade, irritação, sensações horríveis. Com
o passar do tempo os sintomas diminuíram. A
única coisa que não passava era a dor que
sentia da perda. O arrependimento de ter
escolhido um caminho errado.
O tempo se arrastava, como uma forma de
fuga dos seus pensamentos, dedicou-se aos
afazeres do lugar e ajudar aos que estavam no
início do tratamento.
Quando saiu, voltou a morar nas ruas. Ficava
nos bancos das praças, embaixo dos viadutos
e etc.
Muitas vezes perguntou a Deus por que ele
vivia enquanto crianças e jovens morriam.
A resposta não tardou. Uma criança
caminhava sozinha chorando. As pessoas
passavam pelo garotinho sem notarem o que
acontecia, preocupadas com elas mesmas.
Sílvio resolveu se aproximar. Depois de
acalmá-la, pegou em sua mão, caminharam
em direção a uma base da polícia próxima de
uma praça.
Quando chegaram, viu um casal que estava
desesperado conversando com um policial em
uma sala próxima. Ao informar que havia
encontrado aquele garoto andando sem rumo
o casal se virou e os dois choraram de alegria.
Depois de muito abraço e choro, o pai do
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
63
garotinho foi em sua direção.
- Não sei como te agradecer. – Disse o pai do
garoto enquanto apertava a mão de Sílvio. –
Que Deus te abençoe.
- Quem tem de agradecer seu filho sou eu. –
Sílvio acabava de descobrir a resposta de sua
pergunta.
Retirou-se, deixando os pais do garoto sem
entenderem sobre o que estava falando.
L.P.OWEN
64
Capítulo dezenove
MÃOS À OBRA
Com a retirada das bugigangas, restando
somente o automóvel, o espaço da garagem
parecia bem maior do que anteriormente.
Fizeram contato com diversos
estabelecimentos de funilaria e pintura, para
execução de um orçamento.
- Vamos ter que aguardar a cotação completa
da parte mecânica, da funilaria e pintura. –
Disse William.
Kasuo não estava preocupado com o valor do
serviço, mas sim, com a qualidade.
- Como ficou a garagem? Vai ser necessário
pintarmos? – Perguntou Kasuo.
- É uma boa ideia. Poderemos pintá-la, assim
que retirarmos o automóvel. – Respondeu
William.
Todo material separado no dia anterior estava
sendo despachado por Oscar e Jorge. Os dois
presenciaram a felicidade do pessoal que
vieram retirar os materiais descartados que,
para eles, seria de muita serventia.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
65
Capítulo vinte
A VISITA
A campainha do interfone soou estridente,
Helena deixou seus afazeres para atendê-la.
Alguém do outro lado procurava pelo
William.
Quando abriu o portão, William ficou
contente ao ver que Geraldo estava com
ótima aparência, apesar do braço imobilizado.
- O que te fizeram no hospital? Uma
recauchutagem completa?
- Fui reformado por completo, mas muito
bem tratado. – Respondeu Geraldo. – O
motivo da minha visita é apenas para te
entregar o telefone e o endereço da central,
onde retornam as cartas não entregues.
- Vou verificar esse assunto. Desde já te
agradeço pela gentileza e preocupação.
- Como sempre digo, uma carta é sempre
importante para duas pessoas; o remetente e o
destinatário. – Disse Geraldo.
- Nunca pensei por esse lado. – Comentou
William.
- Bom! Agora preciso ir, ainda vou passar pelo
médico, não vejo a hora de tirar isso. - Disse
mostrando o braço.
- Você não quer entrar?
- Vamos deixar para outro dia, estou ficando
atrasado para a consulta.
- Então obrigado pela atenção. – Disse
William estendendo a mão.
- Eu é que devo agradecer-te por ter-me salvo.
L.P.OWEN
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Capítulo vinte e um
ALGO INESPERADO
Mais um dia havia passado sem notícia
alguma do paradeiro de seu marido e do seu
filho. Não entendia porque os dois resolveram
partir e nunca mais voltar. Eram, o que se
poderia dizer, uma família normal, com
momentos de altos e baixo. Apesar de ser
uma pessoa esclarecida, a atitude dos dois não
foi assimilada.
Maria, mulher guerreira, tinha traços bonitos,
alta, cabelos castanho-claros. Grandes olhos
castanhos davam a impressão de estarem
atentos a tudo ao seu redor. Não sofria com a
balança, seu peso não se alterava há anos, por
isso, sempre foi invejada pelas amigas.
Procurou por longo tempo encontrá-los num
hospital, numa prisão, necrotério, mas não
havia quem pudesse dizer onde os dois
estavam.
Nos últimos tempos já se acostumara a pensar
na hipótese de terem sido enterrados como
indigente. Seu coração já não suportava mais
desilusões, pistas que nunca a levou a um
lugar que pudesse ter certeza do que havia
ocorrido.
Há muito que deixara de procurá-los. Sentada
no sofá da sala enquanto jantava sozinha,
como de costume, quando se surpreendeu.
Pela televisão, assistia a edição do jornal,
quando mostraram um corpo coberto com
sacos plásticos.
Seu sexto sentido maternal imediatamente
deixou-a em estado de alerta de que pudesse
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
67
ser alguém querido, uma tristeza profunda
invadiu seu peito.
O prato de comida foi deixado sobre a mesa
ao lado. Agora sua atenção voltou-se para as
informações sobre o acidente quando, um
homem passando por trás do repórter chamou
sua atenção.
Novamente seu instinto deu sinais de que
conhecia aquele homem. Um pouco mais
velho e desalinhado, mas ainda assim
continuava sendo aquele que a fizera fugir de
casa para dividir o mesmo teto. Aquele que
ainda fazia seu coração bater mais forte e sua
respiração ficar ofegante.
Ao vê-lo desmaiar ao olhar para o corpo
estendido no chão, sua dúvida tornou-se
quase uma certeza e não conseguiu mais se
conter. Uma dor alucinante tomou conta de
seu peito, como se uma espada atravessasse
seu coração. Não demorou e o choro
convulsivo foi inevitável. Sozinha sem alguém
para confortá-la.
Foi difícil voltar ao estado normal
novamente, mas depois de tomar alguns
copos de água com açúcar conseguiu se
acalmar um pouco e colocar novamente as
ideias no lugar e planejar o que faria. Dormir
naquela noite, somente depois de muito custo
e vencida pelo cansaço.
Seu instinto mais uma vez não se enganara,
após alguns dias, recebeu a notícia de que seu
filho havia sido enterrado como indigente e
que deveria providenciar toda documentação
L.P.OWEN
68
para reverter o caso e transladar o corpo
para o jazigo de sua preferência.
Um pensamento não saia de sua mente, que
Sílvio teria dado informações sobre seu filho,
mas não soube explicar por que não a
procurou.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
69
Capítulo vinte e dois
ALGUNS MOMENTOS
O trabalho na garagem caminhava a todo
vapor, foram colocadas placas acústicas no
teto e parede, para evitar que o som se
propagasse e incomodasse os vizinhos.
Uma divisória foi feita, deixado um espaço
suficiente para o automóvel, que passava por
um conserto completo numa oficina
especializada.
Enquanto isso na oficina de funilaria e pintura
eram feitos os reparos em toda a lataria. Foi
necessário deixar o automóvel apenas no
chassi, para uma perfeita verificação do
estado do veiculo e fazer um trabalho perfeito.
Nesta etapa, já haviam removido todas as
partes podres e restauradas as amassadas,
restando apenas um fundo para proteção. A
obra de funilaria estava entregue, faltando
apenas pintura e polimento.
A parte mecânica era executada por outro
grupo. Motor, câmbio e suspensão estavam
desmontados. Todas as peças passavam por
inspeção detalhada a fim de verificar o estado
de conservação de cada uma para sua
reutilização.
***
Ruan estava feliz, receberia naquela tarde em
sua casa, uma visita muito importante.
Quando a campainha tocou Ruan caminhou
em direção à porta, alinhou a roupa, abriu-a.
L.P.OWEN
70
Ao ver Cláudio parado no portão ficou
muito contente, porque muitas pessoas
haviam combinado anteriormente com ele,
mas nenhuma tinha aparecido, Cláudio seria
o primeiro. Dona Vera não sabia o que fazer
para agradar o visitante.
Preparou um bolo de cenoura coberto com
muito chocolate, alguns sanduíches de atum e
maionese e um cafezinho feito na hora, que
exalava seu aroma, enfeitiçando a todos.
- Desse jeito vou vir aqui todos os dias! –
Disse Cláudio.
- Teremos um prazer enorme em te receber. –
Respondeu sorrindo.
Ruan mostrou a casa e o local onde sua
bateria estava montada para seus ensaios de
todos os dias. Quando Cláudio entrou na
garagem e viu o tamanho da bateria não se
conteve.
- Minha Nossa! Os seus vizinhos devem ficar
malucos com você! Ela é linda!
Cláudio tirou seu baixo da maleta e os dois
começaram a tocar. No início foi um Rock,
depois foram alterando os ritmos, até fazerem
um agrado para dona Vera tocando uma
valsa. As horas passaram rapidamente, os
dois combinaram outros ensaios.
***
Caminhando pelas ruas da cidade, sem rumo
é verdade, mas com a missão de ajudar
aqueles pobres coitados que, como ele, viviam
sob as estrelas, sem destino certo, sem bens
materiais, a não ser a roupa do corpo. Com o
seu faro para descobrir aqueles que estavam
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
71
com dificuldades, Sílvio abordou um rapaz
que estava preste a drogar-se.
- Olá meu rapaz! – Exclamou. - O que está
afligindo-te? – Perguntou enquanto agachava-
se para sentar ao seu lado.
- Pô tiozinho! Deixa quieto! – Respondeu
enquanto preparava-se para enfiar o rosto no
saco onde se encontrava a droga.
- Onde você mora?
- Aqui na rua tio!
- Onde morava antes de vir para as ruas? –
Insistiu ele.
Para despachar logo aquele homem
inoportuno resolveu responder-lhe todas as
perguntas.
- Você não gostaria de voltar para casa?
- Quem me quer lá? – Respondeu com
tristeza.
- Acredito que seus pais estejam preocupados
querendo que você volte.
Nesse momento o rapaz ficou calado por
alguns momentos, mas quando começou,
Sílvio sentiu toda a amargura na sua voz.
- Voltar pra que? – Para apanhar para acordar,
para almoçar, para jantar e para dormir? –
Continuou.
- O senhor não sabe o que é viver numa casa
como a minha. Meu pai tinha cometido um
roubo e foi preso. Na penitenciária, durante
uma rebelião, foi morto, não sei se pelos
policiais ou pelos presos.
- Minha mãe arranjou um namorado mais
torto ainda. - Enchia minha irmã de beijos e
L.P.OWEN
72
abraços. Comigo era só na pancadaria. Há
muito tempo tinha notado que minha irmã
estava diferente, calada e todas as vezes que
meu padrasto a pegava no colo ela estremecia
de medo. Até que um dia cheguei mais cedo
da escola, ao abrir a porta do barraco,
encontrei os dois nus na cama. Ele obrigava
minha irmã a fazer caricia nele dizendo que,
se ela contasse para alguém, mataria todo
mundo em casa.
- Quando vi aquela cena, não pensei duas
vezes, peguei uma faca na cozinha e voei para
cima dele. Não consegui matá-lo, mas o
estrago foi grande, a partir daí não vai poder
mexer com menina nenhuma. Nunca mais. –
Nesse momento sorriu.
- Quando minha mãe soube do que tinha
acontecido, deu parte na polícia para me
prender, por tentativa de homicídio. Quem
me salvou, foi o vizinho que presenciou tudo
o que aconteceu e contou aos policiais que
levaram o indivíduo. – Fez uma pausa e
concluiu. - Acredito que agora seja mulher de
algum preso ou já morreu.
O rapaz agora mais receptivo olhou para
Sílvio e disse:
- Você foi o único que conversou comigo até
agora para saber o que aconteceu. – Fez uma
pausa e agradeceu. - Obrigado!
- Por que não volta para casa? – Insistiu
Sílvio.
- Minha mãe é capaz de matar-me.
- Só existe uma forma de saber. É você indo lá
para ver. – Completou. – Se quiser posso
ajudar-te.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
73
- Estaria disposto a isso? – Perguntou o
garoto.
Sílvio apenas estendeu a mão e aguardou que
o rapaz a pegasse.
- Se quiser se ajudar, eu também te ajudo.
- A propósito, como você se chama? –
Perguntou Sílvio.
- Meu nome é José Luís, mas pode chamar-
me de Zé Luís.
Sílvio conseguiu levá-lo para o centro de
recuperação por onde ele mesmo já tinha
passado tempos atrás.
- Este é o primeiro passo, eu espero que
possamos dar outros. Estarei aqui para o que
precisar. – Disse enquanto dava um abraço de
despedida. – Tenho certeza que conseguirá
dar outros.
L.P.OWEN
74
Capítulo vinte e três
RUAN
A síndrome de Down acarretava algumas
dificuldades para ser transposta por Ruan,
uma era a dicção. Quando falava, algumas
palavras tinham a necessidade de serem
repetidas, isso o deixava nervoso e,
consequentemente, a necessidade de repetição
aumentava. Como de costume, Ruan seguiu
para fazer sua caminhada. A praça estava
repleta de gente. Ele aproveitava o momento
de suas caminhadas para fazer novas
amizades. Nas várias vezes em que caminhou
sozinho, ficou prestando atenção nas
diferenças entre as pessoas. Tinha aqueles que
se produziam, outros, utilizavam apenas
shorts e camisetas e assim por diante, cada
um ao seu estilo.
Suas roupas eram a mais confortável que
pudesse usar. Algo que lhe chamava a
atenção, era o fato, de algumas pessoas
somente conversarem sobre doenças,
enquanto cuidavam da saúde.
Ruan prestava atenção nas características das
pessoas que por ele passavam. Naquele
horário eram quase sempre as mesmas. Havia
um senhor, muito distinto, que fazia suas
caminhadas, nos dias mais frios, utilizando
jaqueta de jeans impecável. Admirava-se com
sua elegância.
Havia outro, um advogado, que
invariavelmente era acompanhado por um de
seus amigos, que não perdia a oportunidade
de fazer uma consulta grátis.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Ruan estava distraído em seus pensamentos,
quando alguém tocou em seu ombro.
- Bom dia! – Disse ao virar-se.
- Faz muito tempo que você está
caminhando? – Perguntou Cláudio.
- Uns quinze minutos. – Respondeu Ruan
com sua dificuldade peculiar na fala.
- Preciso que me faça o favor de ir mais
devagar! – Disse Cláudio.
- É a minha perna mecânica! – Completou
fazendo uma careta e encolhendo o ombro.
Os dois caminharam por pouco mais de uma
hora e depois fizeram alguns alongamentos,
em seguida sentaram-se num banco embaixo
de uma árvore enquanto apreciavam o
movimento e colocavam a conversa em dia.
- Espero que os pássaros nos poupem do
bombardeio. – Disse Cláudio.
Os dois riram muito, imaginando a cena, mas
permaneceram ali onde conversaram sobre
vários assuntos, um deles, não poderia deixar
de estar na pauta, a formação de uma banda.
L.P.OWEN
76
Capítulo vinte e quatro
NA OFICINA
Quase todos os dias e em horários próximos,
a janela da casa de Kasuo era atingida por
uma pedra. Todos ficavam chateados de não
conseguirem descobrir quem era o autor, por
esse motivo, resolveram manter a janela
fechada para que as pedras não machucassem
alguém.
Alguns dias mais tarde, Oscar saiu cedo, sua
missão, levar o novo projeto para a reforma
do automóvel. Kasuo havia avisado o
responsável, que seu homem de confiança
passaria por lá neste dia. O pessoal da
funilaria já estava aguardando ansioso por ele
e quando foi anunciada a presença de Oscar,
todos pararam o que estavam fazendo para
conhecerem o “homem de confiança”.
Quando aquela figura, parecendo um robô
desengonçado, que ao movimentar-se fazia
um barulho de metal rangendo, entrou na
oficina, quase não conseguiram manter a
seriedade.
Oscar caminhou lentamente em direção do
grupo, uma bolsa tiracolo contendo um tubo
de papelão, parecido com os recebidos na
colação de grau, porém um pouco maior. Os
rapazes aguardavam ansiosos por ele. Em
redor de uma bancada redonda, transformada
em mesa para reuniões, esperavam a
apresentação do projeto.
Oscar parou apoiando-se numa das cadeiras,
enquanto se debatia para pegar o tubo de
papelão, que teimou em acomodar-se nas suas
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
77
costas, onde se encontrava o projeto final do
automóvel.
Ao desenrolar o papel vegetal sobre a mesa,
não puderam acreditar no que estavam vendo
e com tamanha perfeição. Cada um dos
rapazes que olhava para o companheiro podia
notar a mesma expressão no rosto,
perplexidade.
- Me desculpem a qualidade do desenho,
espero que possa dar uma ideia do produto
acabado. – Disse Oscar pensando que não
tinham gostado do desenho.
- Ele está tão perfeito que é capaz de sair do
papel. Parece até que está desenhado em 3D.
– Brincou o chefe da oficina.
Oscar nem precisou dar explicações, porque o
desenho falava por si e todos não tinham
dúvidas sobre o que fariam. A conversa que se
seguiu foi sobre amenidades. Divertiram-se
tanto com Oscar que o comentário feito, não
causou nenhuma surpresa.
- Já que vocês são feras em funilaria como o
Kasuo diz, não teria um jeito de melhorar
minha carenagem? – Brincou Oscar.
- Se quiser, poderemos pelo menos tirar o
barulho!
- Seria muito bom, quase assustei vocês
quando cheguei. – Disse rindo.
Depois de algum tempo sentado, Oscar
recebeu seus suportes de pernas. Todas as
articulações do equipamento que possibilitava
sua locomoção estavam ajustadas e
lubrificadas, não fazendo mais barulho algum.
L.P.OWEN
78
- Nossa! Nunca pensei, que algum dia
poderia andar sem fazer barulho. Muito
obrigado por tudo que fez.
- Foi um prazer. – Respondeu o chefe.
Oscar se despediu e enquanto caminhava
fazia algumas graças para mostrar que
caminhava muito melhor agora e o principal,
sem barulho.
Enquanto se afastava em direção a saída, os
mecânicos se olhavam, no semblante de cada
um podia ser visto uma grande admiração por
aquela figura.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
79
Capítulo vinte e cinco
O DURO INÍCIO
Quando chegou à clínica, levado por Sílvio,
foi apresentado a um homem aparentando ter
entre 30 e 40 anos chamado Valter. Sua barba
e cabelos compridos davam-lhe o aspecto de
ser mais velho do que realmente era, a
primeira impressão era de ser uma pessoa
austera, mas no fundo, tinha um coração
enorme.
Ao ser apresentado ao Valter, José Luís
recebeu um terço de presente e junto um
livreto onde estava escrito “O Novo Rosário”.
Sem muita conversa foi indicado um quarto
onde dormiria naquela noite.
O quarto era pequeno, mal cabia a cama e um
armário. Num dos cantos tinha uma porta
que dava acesso a um banheiro.
- Tome um bom banho, escolha camisa, calça,
cueca, meias e sapato desse armário, depois
jogue toda sua roupa naquele saco plástico. –
Informou Valter.
- Os horários do café da manha, do almoço e
jantar estão neste folheto afixado no quadro
de avisos, se ocorrer atrasos, fica sem comer.
Vá tomar um banho depois virei buscá-lo para
o jantar.
Saiu deixando-o só. Pensou em ir embora,
mas resolveu tomar um banho e fazer como
fora instruído. Ficou aguardando deitado
enquanto lia o livreto que recebera. Pouco
depois Valter chegou para buscá-lo.
L.P.OWEN
80
- Vejo que estava lendo o livreto? – Disse
Valter.
- Sim, mas não entendi muito bem.
- Este livreto vai ajuda-lo na hora de rezar o
Terço. – Explicou Valter.
- Rezar o Terço?
- Sim o Terço. Todos os dias, após o café da
manhã e após o jantar você irá até a capela,
ficará rezando conforme as explicações do
livreto.
Nos primeiros dias fez o Terço com boa
vontade, mas com o passar dos dias começou
a se revoltar e não querer mais fazer as
orações. Resolveu falar com o diretor a
respeito.
Bateu na porta e uma voz deu permissão para
entrar.
- Posso falar com o senhor?
- Pois não! Em que posso ajuda-lo? –
Perguntou olhando por cima dos óculos.
- Estou aqui a mais de uma semana e as
únicas coisas que faço são: rezar o Terço de
manhã e à tarde. – Disse um pouco alterado
devido à abstinência.
- Então quer dizer que está cansado de rezar o
Terço, duas vezes por dia?
- É isso aí! – Respondeu balançando a cabeça
afirmativamente.
Valter parou de falar, como se estivesse
meditando algo, respondeu enquanto se
levantava da cadeira e caminhava em direção
a porta.
- OK! Já está na hora de parar de fazer o
Terço, amanhã comece a fazer o Rosário.
Sem esperar qualquer resposta, abriu a porta e
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
81
aguardou o rapaz sair da sala.
L.P.OWEN
82
Capítulo vinte e seis
UMA BOA CONVERSA
Oscar saiu da mecânica muito contente, o
suporte para as pernas não fazia mais barulho,
até a sua locomoção ficou mais fácil.
Kasuo havia determinado que Oscar utilizasse
táxi para sua locomoção, mas ele resolveu
voltar de ônibus.
Desceu alguns quarteirões antes para
caminhar um pouco e aproveitar o conforto
que o ajuste estava proporcionando.
Ao entrar na rua onde morava encontrou, por
acaso, com os dois adolescentes que
caminhavam um pouco mais à frente.
- Olá! – Oscar cumprimentou os dois no exato
momento em que jogavam uma pedra na
janela de Kasuo.
- Vamos nessa que sujou! – Disse um deles
dando o sinal para fugirem.
- Se vocês correrem, não vou conseguir
acompanhá-los. – Disse Oscar.
Quando perceberam que não poderiam ser
molestados por aquele ser estranho e indefeso.
Resolveram parar.
- Poderíamos conversar um pouco? –
Perguntou enquanto caminhava em direção
dos rapazes.
Vendo que os dois estavam parados
esperando por ele iniciou com tranquilidade.
- Nas primeiras vezes que jogaram pedra na
minha janela, imaginei apenas algumas
crianças procurando por aventura.
- Ao descobrir que vocês são quase dois
homens feitos, pensei no motivo que os levou
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
83
a esse ato, mas não consegui encontrar
nenhum. Isso me deixou triste porque vi que o
futuro próximo do meu País estará nas vossas
mãos. O que poderemos esperar de vocês?
Não esperou pela resposta ele mesmo
concluiu.
- Janelas quebradas? Espero que não! Imagino
serem inteligentes o bastante, para saberem
que isso não os levará a lugar algum, ou
melhor, poderá levá-los a lugares indesejáveis.
Só espero que antes que atirem uma pedra em
alguma janela, pensem nas vossas mães em
casa pensando que seus filhos queridos estão
fazendo algo mais útil. Pensem nos seus
irmãos menores, que exemplos, vocês
poderiam ser para eles? - Sem esperar
qualquer reação concluiu.
- Obrigado por ouvirem, se quiserem tomar
um café é só aparecer.
Oscar caminhou em direção ao portão e
entrou sem olhar para trás. Sabia que alguma
coisa mudaria a partir de então. Os dois
ficaram apenas ouvindo sem fazerem nenhum
comentário.
L.P.OWEN
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Capítulo vinte e sete
NOVAS PISTAS
Maria acordou disposta a continuar
recolhendo os pedaços, do que fora um dia,
sua vida. Tomou um banho quente para
relaxar e planejar a maneira como conduziria
as investigações.
O dia estava claro com poucas nuvens, o céu
muito azul, mas não estava quente. Pegou sua
bolsa, onde havia algumas fotos, carteira entre
outros objetos, mas o principal era um bloco
de notas com alguns endereços, datas e
telefones anotados.
Estava determinada a obter respostas para as
questões que ainda atormentavam sua alma.
No dia do atropelamento de seu filho, que
assistiu no telejornal, seu instinto maternal lhe
avisara do ocorrido, fato confirmado dias
mais tarde. Agora restavam outras questões
para serem esclarecidas.
Entrou em contato com o pessoal da emissora
para tentar rever a notícia sobre o
atropelamento e verificar com calma se as
suas suspeitas tinham algum fundamento.
Foi recebida por um rapaz com seus 25 anos
muito atencioso, que a conduziu para uma
sala onde havia alguns televisores pequenos.
- Bom dia! Meu nome é Dagoberto. Vou
mostrar para senhora a reportagem em nosso
equipamento de edição, assim a senhora
poderá ter uma visão melhor, poderemos
fazer diversos efeitos que não são possíveis
num aparelho comum de TV, aqui a
reportagem está completa, isto é, sem cortes.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
85
Maria fez um enorme esforço para rever as
imagens do acidente. Nelas apareceria o
corpo inerte de seu filho deitado naquele chão
coberto apenas com um plástico escuro.
Lágrimas rolaram pelo seu rosto, enquanto
tentava contê-las com as mãos, Dagoberto
estendeu-lhe gentilmente uma caixa de lenços
de papel.
- A senhora tem certeza de que quer ver estas
imagens?
- Está tudo bem, vou tentar concentrar-me no
que aconteceu ao redor. – Eu preciso ser forte
se quero descobrir toda a verdade. – Pensou.
- A senhora está pronta?
Ela apenas balançou a cabeça
afirmativamente, enquanto inspirava uma
grande quantidade de oxigênio para se
acalmar.
Assistiu por várias vezes o VT, até que não
teve mais dúvidas sobre o homem que havia
desmaiado ao lado do corpo de seu filho.
Apesar da dor que sentia em rever aquelas
cenas, observar todos os detalhes possíveis era
necessário.
Após assistir dezenas de vezes, conseguiu
obter detalhes sobre a ambulância, a quem
pertencia, o hospital para o qual se dirigiu,
horário e outras informações.
- Agradeço imensamente de todo o coração
tudo o que o senhor fez por mim. – Disse
Maria ao rapaz que a atendeu na emissora.
- Não por isso, estamos aqui para ajudar.
Espero, sinceramente, que as informações
L.P.OWEN
86
possam ajudá-la de alguma forma. –
Respondeu sorrindo.
Maria saiu confiante de que encontraria o que
procurava.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo vinte e oito
UM ALMOÇO
A caminhada havia terminado há algum
tempo.
Estavam apenas sentados apreciando o
movimento e conversando, quando ao longe
Cláudio avistou Sílvio que caminhava na
direção onde os dois estavam. Ele se
aproximou, cumprimentou-os ia passando
reto quando Ruan chamou-o.
- Sílvio!
- Pois não! – Respondeu imediatamente.
- Pensei que viesse falar com a gente? – Disse
Ruan.
- Imaginei ser uma conversa particular, por
isso não parei. Como vocês estão?
- Bem e você? – Responderam juntos.
- Os planos de montar a banda? Já saiu do
outro plano e chegou a este?
- Infelizmente ainda não conseguimos mais
nenhum louco para se juntar a nós. – Desta
vez quem respondeu foi Cláudio.
- Algum tempo atrás conheci uns rapazes que
estavam conversando sobre isso na porta de
uma igreja. – Informou Sílvio.
- Como eram? – Perguntou Ruan.
Sem esperar resposta ele mesmo respondeu.
- Eram meio esquisitos? Assim como nós? –
Completou.
- O que você quer dizer por esquisito? – Sílvio
quis saber.
- Desculpe me expressei mal. Tinham
L.P.OWEN
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necessidades especiais. Um dos rapazes
com deficiência visual, outro com necessidade
de cadeira de rodas, um outro com muletas e
o mais esquisito, aparentemente, não tinha
necessidade alguma. – Informou Ruan.
- Você já os conhece? – Disse Sílvio.
- Foram eles que me convidaram para
participar da banda que estavam formando. O
senhor sabe onde eles moram?
- Para ser sincero não, encontrei-os na porta
da igreja, mas acredito que não será difícil
encontrá-los.
- Poderia nos ajudar a procurá-los?
- Claro Ruan. Será o maior prazer ajudá-los.
Ando por tantos lugares, conheço muitas
pessoas. Vou ver o que posso fazer.
- Bem eu preciso ir andando, afinal o quanto
antes encontrá-los, melhor.
- Você aceita ir almoçar com a gente lá em
casa? – Perguntou Ruan.
- Puxa! Agora você me balançou! É a primeira
vez, desde quando comecei a morar sob as
estrelas, que alguém me convida para almoçar
em casa.
- Então é mais um motivo para você não
recusar.
- Estou mal vestido! - Tentou arranjar uma
desculpa.
- Não tem problema, nós vamos para minha
casa e não ao restaurante. – Disse Ruan
sorrindo.
Os três seguiram em direção a residência do
rapaz.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo vinte e nove
O PASSEIO
Oscar ouviu o som de pessoas conversando
vindo da garagem e resolveu dar uma olhada.
Ao entrar, todos levaram um susto, não
ouviram o ranger das articulações das pernas.
- O que vocês estão fazendo?
- Estamos nos preparando para iniciar os
ensaios. – Respondeu Kasuo.
- Como foi na mecânica? – Perguntou
William.
- Ótimo! Atenderam-me magnificamente bem.
- O que acharam? – Perguntou Jorge.
- Ao mostrar o projeto não puderam esconder
o que sentiram, foi desespero. – Sorriu.
- Por que se desesperariam? – Desta vez foi
Kasuo quem falou.
- Você não viu os detalhes da pintura? –
Brincou.
- Deixa de ser palhaço, Oscar e conta logo. –
Retrucou sorrindo.
- Adoraram o desenho e as cores! Até
reformaram minha carenagem, vocês não
notaram nada de diferente?
- Sim! Notamos! Você não faz barulho
quando anda. – Responderam juntos.
- O que mais me impressiona em vocês é que
apesar de não terem ensaiado, estão muito
afinados.
- Agora que as coisas estão arrumadas, que tal
darmos uma volta para arejarmos a cabeça? –
Sugeriu William.
L.P.OWEN
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- É uma ótima ideia. Poderemos ir até a
loja de instrumentos musicais e pesquisarmos
alguns instrumentos, teclados, guitarras,
equipamento para o som etc. – Kasuo estava
determinado a voltar a tocar.
Apenas deu um leve toque na guia e Romeu
colocou-se ao seu lado, pronto para protegê-lo
e levá-lo por caminhos seguros. Havia
confiança, afinidade e sintonia entre eles.
Quando saiam ninguém se preocupava com
Kasuo, sabiam que Romeu cuidaria dele, se
necessário, com a própria vida. A caminho da
loja conversavam sobre diversos assuntos, um
é sobre a necessidade de encontrar outros
integrantes para o grupo. Surgiram alguns
nomes para a banda, mas nenhum que
agradasse a maioria.
Kasuo estava feliz com o pessoal, nunca se
sentira tão bem quanto agora, seu semblante e
sua voz transmitiam a felicidade que estava
sentindo. Até o Romeu demonstrava estar
contente porque não parava de abanar o rabo
a todo o momento.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
91
Capítulo trinta
A SURPRESA
José Luís não havia entendido o que Valter
tinha dito, mas só o fato de não ter que rezar
o Terço já era uma boa notícia. No almoço
durante uma conversa com um amigo,
comentou sobre o encontro que tivera com o
diretor.
- Hoje falei com o diretor e disse que não
aguentava mais ficar rezando durante tanto
tempo. – Disse sentindo-se um herói.
- O que ele falou? – Perguntou já imaginando
a resposta.
- Falou que estava tudo bem, poderia parar de
rezar hoje mesmo.
- Não acredito, só isso? – Perguntou o outro
inconformado.
- Não! Disse que amanhã deverei passar a
rezar o Rosário duas vezes ao dia. –
Respondeu triunfante.
- Me diz uma coisa! – Falou mais baixo. - O
que é esse Rosário?
- Você não sabe? – Disse o outro, quase não
conseguindo falar de tanto rir.
- Um Rosário, nada mais é do que, três
Terços. Antes você rezava dois Terços por
dia, agora serão seis Terços. – Completou.
- Não brinca! Ele fez aquela cara de bonzinho,
de compreensivo e me apronta uma coisa
dessas.
- Hoje à tarde vou falar com ele novamente. –
Estava revoltado.
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- Não vai adiantar, mas se quiser tentar boa
sorte para você! – Disse o rapaz enquanto
levantava-se para ir cuidar da horta.
Ele resolveu acatar o conselho do amigo e
preocupou-se com o trabalho de limpeza que
tinha para ser feito.
Alguns dias depois e com a desintoxicação
mais adiantada, se sentia mais calmo.
Certo dia, enquanto cuidava da limpeza dos
banheiros coletivos, distraído com o trabalho
que estava tendo para remover o encardido do
teto, não percebeu a presença de Valter.
- Bom dia José Luís! – Cumprimentou-o o
diretor.
- Bom dia! O senhor quer usar o banheiro?
- Não, obrigado. Só vim conversar com você.
José Luís desceu da escada e saiu
acompanhando o diretor em direção do pátio.
- Você está fazendo as suas orações todos os
dias?
- Sim! No começo estava revoltado, porque
não via mudança nenhuma na minha vida,
agora estou até mais tranquilo.
- Nas suas orações, quais são os seus pedidos?
- O que mais peço é saúde para minha mãe e
minha irmã. Peço perdão por quase ter
matado aquele infeliz e agradeço aquele bom
homem por trazer-me para este lugar.
De costa para a recepção não viu a
aproximação de Sílvio que trazia consigo sua
mãe e a irmã.
- Zé! – Chamou sua mãe.
Ao virar-se na direção do som, suas pernas
ficaram fracas para sustentá-lo, quase caiu de
joelho no chão. Se não fosse por Valter
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
93
segurar-lhe, provavelmente se machucaria.
- Mãe! A senhora está bem? – Suas únicas
palavras.
Os dois não disseram mais nada, apenas se
abraçaram e choraram.
Valter e Sílvio visivelmente emocionados,
apenas ficaram calados esperando que a
saudade fosse amenizada naquele encontro.
Apesar da dificuldade que tivera em encontrar
os parentes do garoto Sílvio estava feliz, o
tratamento do rapaz estava quase chegando
ao seu final e dentro em breve poderia voltar
para casa.
Tatiana ficou esquecida momentaneamente e
demonstrou felicidade ao encontrar o irmão.
Quando José Luís lembrou-se dela, deu-lhe
um abraço levantando-a do chão.
- Zé me põe no chão. – Disse sorrindo.
- Nossa! Como você cresceu! Você está na
escola?
- Sim, estou na 4ª série e sou uma das
melhores alunas. – Disse a garota com
orgulho.
- Isso é ótimo. Fico feliz, que pelo menos você
consiga estudar.
- Me conta mãe, como a senhora descobriu
que eu estava aqui? – Antes que sua mãe
dissesse algo, entendeu.
Virou para Sílvio e um sorriso de eterna
gratidão apareceu nos seus lábios.
O dia passou tão rápido, mas quando
terminou, havia deixado um saldo muito
positivo para aquelas pessoas.
L.P.OWEN
94
José Luís ficaria mais algum tempo na
clinica, mas tinha a certeza de um lugar para
voltar quando saísse.
Demonstrou vontade de ajudar na
recuperação de outros, que como ele haviam
entrado nessa porta de entrada larga, que são
as drogas, mas que para sair torna-se muito
estreita e poucos conseguem ultrapassá-la.
Valter também estava contente, mais um que
deixava o sofrimento e passaria a viver sem
subterfúgios, teria condições de enfrentar os
problemas que, com certeza, apareceriam pelo
caminho, de peito aberto.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
95
Capítulo trinta e um
AS ENCOMENDAS
Naquele dia William acordou fora do seu
horário habitual, quando chegou na cozinha
para tomar café, percebeu que estava só.
Procurou em todos os cômodos, não
encontrou uma pessoa sequer. Resolveu ir até
a garagem, também ali estava vazia.
Pegou o jornal que estava sobre a mesa e
sentado na varanda fez sua leitura. Mal
começou, ouviu o barulho de um caminhão
que estacionava em frente ao portão da casa.
Não demorou e a campainha foi acionada,
fazendo-o sobressaltar na cadeira.
- Pois não! – Exclamou enquanto seguia em
direção a entrada.
- É a residência do senhor Kasuo? –
Perguntou o motorista que trazia na mão um
papel.
- Sim. Em que posso ajudá-lo?
- Nós viemos entregar os instrumentos
musicais que foram adquiridos por ele.
- Um minuto, por favor, vou abrir o portão e
se o senhor preferir poderá colocar o
caminhão aqui dentro para facilitar o
descarregamento. – Admirado com a rapidez
da entrega, não fazia muito tempo que a
compra fora feita.
Instantes depois, William abria o portão e o
motorista colocava seu caminhão próximo à
porta da garagem.
Em pouco mais de trinta minutos tudo estava
L.P.OWEN
96
no lugar devidamente montado como
solicitado por William.
Deu uma gorjeta para os rapazes em gratidão
pelo que fizeram.
O local estava maravilhoso, William sentiu-se
orgulhoso de ter participado e ao mesmo
tempo apreensivo em saber se o pessoal teria a
mesma impressão com a disposição dos
equipamentos.
Sentou-se novamente na varanda e voltou a
ler o jornal. Não demorou muito, o portão foi
aberto, o primeiro a entrar foi Jorge com sua
cadeira de rodas sendo empurrada por
Helena, em seguida Romeu guiando Kasuo e
finalmente Oscar que, como sempre, fazendo
uma de suas palhaçadas para que todos
rissem.
- Bom dia pessoal! – Disse William enquanto
dobrava o jornal e levantava-se para ir de
encontro deles.
Todos responderam ao cumprimento com um
sorriso nos lábios.
- Por que estão tão felizes? – Perguntou
William.
- Acabamos de encontrar uma senhora muito
alegre que nos convidou para fazermos uma
visita no asilo onde ela presta serviço como
voluntária. – Respondeu Kasuo. - Ela também
agradeceu pelos móveis e roupas que
mandamos quando fizemos aquela limpeza
da garagem.
Sem que percebessem, William fez com que
todos caminhassem em direção a garagem.
Ao entrar Oscar deu um grito de alegria
fazendo com que todos se sobressaltassem
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
97
com o susto, não escapou ninguém, até o
Romeu, com o grito, latiu.
- Não acredito no que estou vendo, por favor,
Jorge me belisca para ter certeza de que estou
acordado.
Não demorou e Oscar deu mais um grito, só
que desta vez foi de dor pelo beliscão.
- Não precisava ser tão forte assim. – Disse
Oscar enquanto passava a mão para diminuir
a dor que sentia.
- Foi você quem me pediu. – Respondeu o
outro enquanto sorria.
A felicidade era geral. Todos os equipamentos
estavam em sua embalagem de transporte.
No momento que Jorge olhou para o estojo
da sua guitarra na embalagem teve uma
grande surpresa. Kasuo havia trocado o
equipamento por outro de qualidade
infinitamente superior ao que tinha escolhido.
Abriu o estojo e sobre a guitarra havia um
tecido de veludo e sobre ele um cartão com a
dedicatória que dizia “Para aquele que tenta
esconder seu talento”. Apenas conseguiu
dizer obrigado.
A surpresa não parou por ai. Sem o tecido
sobre a guitarra, verificou que o seu nome
estava gravado no equipamento, não
conseguiu se segurar mais deixando que suas
emoções falassem por ele. Como uma criança
ao receber um presente tão esperado,
imediatamente ligou o amplificador e afinou a
guitarra, dedilhando alguns acordes.
William ajudou Oscar a montar e regular o
L.P.OWEN
98
som dos microfones.
- Por favor, alguém poderia conduzir-me até o
piano. – Disse Kasuo ansioso.
Helena se encarregou de ajudá-lo.
O som que começou a ocupar o ambiente foi
empolgando todo mundo a ponto de William
demonstrar seus dons musicais, até agora
guardados em segredo, fazendo dueto com
Oscar.
No término da música todos ovacionaram o
novo integrante da quase banda. Ficaram
durante muito tempo ensaiando novos
arranjos.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
99
Capítulo trinta e dois
MAIS PERTO
Havia anotado em seu bloco de notas, locais e
pessoas para contatar. Não queria perder
tempo, mas havia a necessidade de colocar as
coisas em ordem, resolveu entrar em um
restaurante, sentou-se em uma mesa que
estava localizada num dos cantos, onde
poderia ter a tranquilidade suficiente para
organizar um roteiro.
Um garçom se aproximou trazendo o
cardápio. Fez seu pedido e devolveu-o ao
rapaz que aguardava ao lado.
Enquanto seu pedido era providenciado ela
anotava em sua agenda os contatos que faria
em seguida.
Olhou por alguns instantes pela janela e
imaginou por onde andaria a pessoa que um
dia tinha passado por sua vida e caminhando
ainda pela mesma estrada, não conseguia
encontrá-lo.
Todas aquelas pessoas andando de um lado
para outro, cada uma com suas preocupações,
seus medos, suas ambições enfim, todos
tinham algo por resolver.
Lembrou-se dos momentos que passaram
juntos, de quando seu filho era apenas um
garotinho querendo descobrir o mundo, seu
marido cobrindo-a de carinho e atenção.
Sentiu falta daquela época e lamentou porque
havia terminado. Hoje não podia mais abraçá-
lo, beijá-lo e dizer o quanto o amava e essa
L.P.OWEN
100
vontade que não permitia que desistisse
enquanto não o encontrasse.
Imediatamente afastou de seus pensamentos a
tristeza que, vez por outra, teimava em
instalar-se no seu coração, mas ela tinha uma
missão e não descansaria enquanto não
cumprisse o que se propusera a fazer.
O garçom trouxe o seu pedido, como sempre
começou pela salada, depois comeu apenas
um filé de frango e algumas verduras cozidas.
Pagou e foi em direção a sua primeira etapa, a
empresa proprietária das ambulâncias.
Descobrir o hospital onde Sílvio tinha sido
levado não foi difícil, tinha o número da
ambulância e o dia da ocorrência. A tarde
estava chegando ao seu final, resolveu
continuar sua investigação no dia seguinte
pela manhã.
Voltar para casa e não ter quem esteja à sua
espera deixava Maria triste, sua casa que
antes era alegre, agora não havia mais piadas,
brincadeiras, não havia emoções, apenas
coisas terrivelmente arrumadas.
Tomou um banho, preparou um chá com
torradas, resolveu deitar-se mais cedo, para
acordar com os primeiros raios de sol e
continuar sua busca.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo trinta e três
O ASILO
Dona Vera, mãe de Ruan, uma mulher ativa
que gostava de ajudar as pessoas, sem
qualquer tipo de preconceito. Uma de suas
atividades era participar, como voluntária, de
uma creche e de um asilo.
A necessidade de deixar seu bebê Ruan, com
Síndrome de Down, aos cuidados de outras
pessoas, levou-a a fazer uma busca minuciosa
pela redondeza a procura de uma creche que
pudesse cuidar dele.
Ao chegar no endereço indicado por alguns
amigos, percebeu que em frente da creche
havia um asilo, como no período de
adaptação teria que ficar na secretaria para
qualquer necessidade de Ruan, aproveitou o
tempo ocioso e resolveu visitar o asilo. Não
demorou muito e já era uma das voluntárias.
Pelo menos, naquela época, duas vezes por
semana fazia sua visita. Ajudava na cozinha e
na limpeza, mas o que mais gostava de fazer
era cuidar das vovós e vovôs.
Sempre que falava com eles, utilizava a
palavra “Vovô ou Vovó” seguido pelo nome.
Uma de suas preferidas era vovó Dirce, que
infelizmente havia falecido alguns anos
depois.
Vera, como de costume nos finais de semana,
pegou sua sacola contendo vários objetos
utilizados pela maioria das mulheres, como
secador, escovas, estojo de maquiagem entre
L.P.OWEN
102
outras coisas e se dirigiu ao asilo, onde era
esperada por todos.
Sua chegada, nos sábados, modificava o astral
do asilo aguardavam por aquele momento a
semana toda. Com auxílio de outras
voluntárias lavavam, secavam e aplicavam
escova em todas as vovós. Ao terminarem
faziam a maquiagem e tiravam as cutículas.
Uma profissional encarregava-se de tratar dos
pés de cada um deles, nesse mutirão os vovôs
não eram esquecidos.
Por incrível que possa parecer ao retornar
para sua casa, no final da tarde, jamais se
sentia cansada.
- Me divirto muito com elas, me deixam com
a alma leve. – Era o que respondia quando
perguntada.
Ao chegar, como sempre bem-humorada, a
diretora veio cumprimentá-la.
- Olá minha querida como você está?
- Muito bem e a senhora, dona Emile.
- Também estou ótima! Estou muito
empolgada com a festa que estamos
preparando para o pessoal e gostaria de saber
se nosso asilo poderá contar novamente com
sua valiosa ajuda?
- Claro que pode! Estarei aqui se Deus assim
permitir.
- Nós estávamos pensando em procurar algum
conjunto que possa abrilhantar nossa festa,
mas até o momento não conseguimos
ninguém.
- Dona Emile, se a senhora quiser poderia
pedir para meu filho e um amigo dele tocar
alguma coisa caso não encontremos uma
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
103
banda.
- Como te falei não temos ninguém disposto a
fazê-lo, logo, seu filho e o amigo dele são
bem-vindos.
Vera seguia para a enfermaria para cuidar das
vovós, mas no caminho percebeu que alguns
móveis, caixas de papelão e outros tipos de
embrulhos estavam sendo selecionados e
separados para serem distribuídos.
- Nossa! Estão fazendo alguma mudança? –
Disse sorrindo.
- Isso é uma doação feita por um rapaz
vizinho da dona Emile. – Respondeu uma das
moças encarregadas do almoxarifado.
- Agora estou sabendo quem é, ela já me
havia falado sobre ele e se não me engano era
um grande pianista. – Replicou Vera.
O dia passou rápido, quando saiu o Sol ainda
brilhava no céu. Estava feliz, sentindo-se com
a alma leve por ter feito tantas pessoas felizes.
Não via a hora de chegar em casa, a primeira
coisa que fez foi informar Ruan, sobre o
convite da diretora do asilo e sua reação não
poderia ser outra.
- Mãe! O que deu em você para se
comprometer? Como apenas eu e o Cláudio
poderemos fazer um show. Sou baterista e ele
toca contrabaixo, faltam alguns instrumentos
e no momento não sei como arranjá-los.
Percebendo que sua mãe ficou entristecida
pela notícia, abraçou-a e completou.
- Poderemos ver o que arranjamos. Não se
preocupe. Como você sempre diz no final, se
L.P.OWEN
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for por uma boa causa, tudo se acerta.
Ela tinha algo em mente e colocaria em
prática o mais rápido possível.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo trinta e quatro
UMA OBRA-PRIMA
A campainha do interfone tocou, Helena
atendeu e uma voz masculina foi ouvida.
- Bom dia! O senhor Kasuo está?
- Quem gostaria de falar com ele?
- Vagner, trabalho na oficina onde o senhor
Kasuo deixou o automóvel para restauração.
- Um minuto que vou avisá-lo.
Minutos mais tarde, todos estavam no portão
principal. A curiosidade em saber o resultado
da restauração era generalizada.
Quando o portão foi aberto e Vagner entrou
com o automóvel a cena que seguiu poderia
ser considerada hilária.
Com exceção de Kasuo, estavam todos com a
boca aberta. A admiração pelo trabalho feito
pelos mecânicos estava estampada no rosto de
cada um.
- Então o que acharam? – Vagner sorria vendo
a expressão de cada um deles.
Kasuo que até o momento não tinha
entendido nada perguntou desesperado.
- Então como ficou o serviço?
- Um minutinho Kasuo enquanto nós
terminamos de babar com esta maravilha. –
Respondeu Oscar.
- Ficou uma obra de arte, parece até que saiu
de um ateliê agora pouco. – Completou
William.
- A documentação também está em ordem,
nosso despachante regularizou tudo. –
L.P.OWEN
106
Informou Vagner.
- Já que está tudo regularizado, para darmos
uma volta, só precisam arrumar um
motorista. – Completou.
- Posso dirigir, apesar de não ter automóvel
há algum tempo, minha carta foi renovada. –
Disse William.
- Faremos um passeio após o almoço! -
Informou Kasuo.
A chegada do automóvel provocou entre o
grupo uma animação como a ocorrida na
chegada dos instrumentos.
Vagner, que fora intimado a ficar para o
almoço, divertia-se com os comentários.
Nunca tivera a oportunidade de conviver com
pessoas tão doidas como aquele grupo.
Oscar, como sempre, fazendo o grupo se
divertir imitando alguns cantores conhecidos.
Após o almoço, foram para a sala, onde
Helena serviu um café saboroso que só ela
conseguia fazer.
- Terminei de almoçar e tomei meu café. Farei
como fazem os cachorros sem dono, vou
embora para oficina porque ainda tenho
muito a fazer esta tarde. – Disse Vagner. -
Falando em cachorro, esse aqui é muito
bonito e parece ser muito inteligente também.
- É um tremendo amigão. É só você fazer cara
de coitado e ele encosta-se em você pedindo
carinho para te distrair. – Informou Jorge.
- Não se preocupe Vagner, nós iremos levar
você até a oficina. – Disse Kasuo enquanto
entregava o cheque no valor combinado.
Chegado o momento de dirigir, depois de
muitos anos, William sentiu a boca seca, a
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
107
ansiedade transformara-se em temor. Vagner,
que não deixou de notar a insegurança de
William, através de uma conversa, sem que os
outros percebessem, tratou de tranquilizá-lo.
- Esse automóvel é muito simples de dirigir.
Nos automóveis automáticos a configuração
mais comum é: P: Park, que bloqueia as rodas
de tração para auxiliar o freio de
estacionamento, recomendada para dar a
partida e desligar o motor. É recomendado
acionar o freio de estacionamento antes de
mudar para esta posição. R: Reverse - Marcha
ré. N: Neutral pode-se usar esta posição para
desligar e dar partida, se diferencia do "P",
por não bloquear as rodas de tração. D:
Drive, utilizado na maior parte do tempo. Faz
o carro andar para frente utilizando todas as
marchas disponíveis. Os números 4, 3, 2,1:
Bloqueia o engate até a marcha do número
selecionado, deve ser ativado para usar o freio
motor, ou subir um aclive acentuado, quando
o câmbio fica mudando constantemente entre
duas marchas. Exemplo: Subindo a serra o
câmbio fica alternando entre a 3 e 4 marchas
em períodos curtos; colocar o câmbio na
posição 3 impede o engate da quarta marcha,
aumentando o conforto e a vida útil do
sistema. Na descida se pode usar o mesmo
artifício para usar o freio motor, mantendo a
terceira engatada.
Depois das explicações dadas por Vagner,
William sentiu-se mais seguro e conduziu
com tranquilidade e destreza. Antes que
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108
Vagner entrasse na oficina agradeceu a
dica. Ficou tão empolgado com a facilidade
para conduzir o veículo, que quase esqueceu
de perguntar onde o grupo queria passear.
Por unanimidade eles resolveram passear pelo
bairro. Oscar incumbiu-se de descrever a
paisagem para o amigo e o fez com tantos
detalhes que recebeu elogios de todos,
principalmente do próprio Kasuo que disse
não ter conhecido ninguém que o fizesse com
tantos detalhes.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
109
Capítulo trinta e cinco
VISITA PARA KASUO
Dona Vera tinha a incumbência de entregar o
convite, em nome da diretora do asilo, para o
senhor Kasuo em agradecimento pelo
mobiliário que havia enviado como doação
alguns dias atrás.
Antes de sair percebeu que Ruan estava muito
quieto e resolveu perguntar.
- O que te preocupa meu filho?
Ruan resolveu se abrir com sua mãe.
- Estou muito preocupado com o que vamos
tocar no asilo, afinal uma bateria e um
contrabaixo não é um som agradável para ser
ouvido por pessoas idosas.
- Meu filho! Não tem por que se preocupar. –
Continuou com voz doce. - Essas pessoas, em
alguns casos, não têm mais nada na vida.
Muitas vezes, até a esperança de dias
melhores já não possuem mais. O que for
feito por elas, desde que seja com amor, será
bem-vindo e apreciado. Apenas coloque todo
seu amor e deixe que elas decidam o que
gostam ou não.
Ruan gostava de conversar com sua mãe e
expor suas preocupações, sempre tinha uma
palavra que o ajudava nas decisões. Depois da
conversa com o filho e de ter certeza que tudo
estava bem, dona Vera resolveu atender o
pedido da diretora e entregar o convite para o
senhor Kasuo.
Ao chegar ao endereço mencionado no cartão
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110
tocou a campainha e aguardou.
Aparentemente tudo estava deserto, mesmo
assim, tocou novamente e nada de atenderem
ao interfone.
Depois de aguardar mais algum tempo
resolveu ir embora. No instante em que ia se
retirar um automóvel muito bonito parou em
frente da garagem. Ao vê-la parada no portão,
o motorista desceu vindo em sua direção.
- Boa tarde! No que podemos ajudá-la? –
Perguntou William enquanto descia do
automóvel.
- Boa tarde! Meu nome é Vera estou vindo em
nome de dona Emile diretora do asilo
Esperança, procuro pelo senhor Kasuo, ele
mora aqui?
Imediatamente a porta traseira foi aberta e o
primeiro a sair foi Romeu e Kasuo saiu em
seguida.
- Pois não, eu sou Kasuo, muito prazer! É
melhor entrarmos para conversarmos.
Vera ficou bem ao lado daqueles que
normalmente chamavam a atenção por onde
passavam. Sua conduta foi notada por Oscar,
que imediatamente comentou.
- Normalmente as pessoas tendem a sair
correndo quando encontram com esse bando
esquisito como o nosso, mas confesso que
fiquei surpreso com a senhora.
- As pessoas podem se surpreender com os
aspectos de vocês no primeiro momento, mas
tenho certeza, que com o tempo elas passem a
admirá-los por suas essências. – Disse com
seu jeito meigo de ser.
- A senhora aceita um café? – Helena
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
111
perguntou enquanto servia.
- Sim! Obrigada.
- Minha vinda aqui é para trazer um convite a
todos vocês, para uma festa que faremos no
asilo Esperança em homenagem aos nossos
internos. Outro motivo é para agradecer a
doação feita. – Continuou. – A festa será uma
forma de proporcionarmos um pouco de
diversão para eles. Pretendemos fazer um
jantar com música, mas por enquanto só
temos a bateria do meu filho e o contrabaixo
de um amigo dele.
Oscar, como sempre se propôs a ajudar.
- Se quiserem podem ter alguém que cante
estou disposto a ajudar.
- Se quiserem um guitarrista conte comigo. –
Disse Jorge.
- Um pianista conte comigo. – Disse Kasuo.
- Se quiser um carregador para tudo isso,
conte comigo. – Completou William sorrindo.
- Agora pouco estava conversando com meu
filho e ele estava preocupado por ter somente,
até aquela altura, dois instrumentos. Agora
temos quase uma orquestra. – Disse
emocionada.
- Caso eles queiram ensaiar conosco é só
aparecerem. Não será necessário trazer nada,
aqui temos todos esses instrumentos, só não
tínhamos quem os tocassem. – Kasuo estava
feliz em voltar a fazer de sua casa um local
onde a música imperava.
Conversaram por um longo período, dona
Vera não conseguia esconder a felicidade de
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112
ter encontrado aquelas pessoas e não via a
hora de contar a boa nova para o Ruan.
- Está muito agradável conversar com vocês,
mas estou ansiosa para falar com meu filho. –
Completou. - Como havia dito no começo, ao
invés de se esconderem, mostrem o quanto
vocês são maravilhosos.
Depois que Vera saiu o silêncio foi quebrado
por Jorge, um dos mais tímidos do grupo.
- Uma grande mulher acaba de deixar esta
casa. Só lamento não poder levantar-me em
sua homenagem.
- Bem senhores, agora que estamos todos
comprometidos com a festa, ensaiem para não
fazermos feio. – Disse Oscar para descontrair.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
113
Capítulo trinta e seis
NA IGREJA
Como sempre, saiu sem rumo, mas ao passar
por uma igreja resolveu entrar, havia poucas
pessoas e as que ali estavam precisavam de
algo, companhia para desabafar, uma oração,
até mesmo o silêncio ajudava.
Ele sabia o quanto era importante estar ali,
muitas vezes viera para ajudar os outros e no
final era ele o ajudado, porque saia dali mais
tranquilo e mais forte. Apenas conversando
com as pessoas, dando um pouco de atenção,
conseguia fazê-las se sentirem bem melhores e
elevar o ânimo de muitos.
Entrou, passou pelo altar, seguiu em direção
do Sacrário onde o Santíssimo se encontrava,
o local mais importante da igreja.
Como de costume, depois de reverenciar o
Senhor inclinando-se e ajoelhando-se, sentou
num banco vazio.
A paz daquele lugar, muitas vezes, fazia-o
esquecer de que existia um outro mundo lá
fora. Olhando para as pessoas ao redor que
estavam fazendo suas orações, pediu por elas.
- “Senhor, não sei porque me trouxe até
aqui”. – Sílvio pensou.
- “Sei Senhor, que tens meios únicos de fazer
as coisas para ajudar-nos, confesso que nem
sempre entendo imediatamente, somente
depois de algum tempo acabo por
compreender seus motivos”.
Sílvio ajoelhou-se e começou a orar, não
L.P.OWEN
114
demorou e sua concentração o fez
desligar-se do que estava acontecendo a sua
volta.
Suas lembranças fizeram com que ele
regressasse para o início de sua vida na
pequena propriedade rural encravada no sopé
do monte, onde muitas vezes subira a cavalo.
Muito rapidamente algumas imagens vieram
em sua mente, como num filme as etapas
passavam de forma desordenada, até que uma
figura muito conhecida e amada tomou conta
de seus pensamentos.
- “Quero pedir seu perdão por não ter sido um
bom pai, de fingir não estar ouvindo quando
me chamava dizendo que estava com medo,
pensando em torná-lo mais forte e
independente, de nunca ter tempo para as
suas brincadeiras, suas histórias, suas dúvidas,
porque eu estava sempre cansado do
trabalho”.
- “Sei que agora é tarde para pedir seu perdão,
porque muitas coisas me pediu e eu te neguei,
meu amor, minha paciência, até o que não era
meu te neguei, meu tempo”.
Enquanto pensava em seu filho, lágrimas
rolavam pelo seu rosto fazendo sua alma ficar
mais leve, tanto que as imagens que estava
vendo eram de seu filho sorrindo e dando-lhe
um beijo. Quando voltou a realidade percebeu
o que tinha acabado de acontecer. Desta vez
era ele quem estava sendo ajudado e
agradeceu a Deus por mais essa graça. Antes
de levantar-se e sair, pensou ter ouvido
alguém chamando por seu nome.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo trinta e sete
VERA FALA SOBRE KASUO
Era quase noite quando dona Vera chegou da
residência de Kasuo. Seu filho e o amigo
Cláudio estavam na garagem ensaiando
algumas músicas para apresentarem na festa
do asilo.
- Olá meus queridos! Como vocês estão?
Os dois cumprimentaram-na com um beijo.
- Vocês não estão com fome? – Preocupada
como todas as mães.
- Nós comemos os doces que estavam na
geladeira, talvez mais tarde. – Respondeu
Ruan.
- Hoje tive a oportunidade de conhecer
pessoas maravilhosas e elas se propuseram a
nos ajudar na festa que faremos no asilo. –
Disse Vera feliz.
- Cada vez que a senhora fala dessa festa, fico
mais preocupado, faltam poucos dias e não
encontramos quem toque conosco.
- O que a mamãe falou antes? – Ela mesma
respondeu. - Não falei para você fazer sua
parte com amor e carinho, que o restante
Deus te ajudaria? Acabei de conhecer um
pessoal que tem uma banda, ou melhor, estão
formando uma e aceitaram nosso convite.
Comentei sobre vocês dois e eles disseram
para vocês dois ensaiarem com eles.
- Agradecemos, mas o Cláudio já sofreu com
a discriminação e eu não quero passar por
isso.
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116
- Antes de tirarem conclusões, por que não
dão uma passada em sua casa e resolvem se
param ou continuam os ensaios.
- OK! Amanhã iremos até lá e conversaremos
com eles. – Prometeu Ruan. – Agora estamos
com fome.
Dona Vera retirou-se para a cozinha e depois
de algum tempo, quando voltou, carregava
uma bandeja com vários sanduíches e uma
jarra de suco.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
117
Capítulo trinta e oito
ALTA DA CLÍNICA
José Luís, como sempre fez durante sua
estada na clinica, depois de escovar os dentes
e arrumar sua cama, saiu em direção ao
refeitório. Enquanto saboreava seu café não
percebeu que Valter vinha em sua direção.
- Bom dia! – Disse Valter.
- Olá Seu Valter! O senhor precisa de algo?
Depois de algum tempo, José Luís percebeu
que o intuito do diretor era apenas ajudá-lo,
ainda mais após a visita que recebera de sua
mãe e irmã.
- Preciso que você deixe seu quarto em ordem
porque você vai nos deixar, você já está
pronto para o próximo desafio, talvez o maior
de sua vida, enfrentar a vontade de se drogar
sem que alguém possa impedi-lo, você estará
livre para decidir. Sinceramente espero que
você possa superar essa fase. Aviso-te que vai
ser briga de gato grande. – Completou.
- Já pensei nisso e vou fazer o possível para
nunca mais ter de voltar aqui para tratamento.
- Se você tiver vontade volte para ajudar.
Agora vá arrumar seu quarto porque sua mãe
e sua irmã estão esperando por você na
recepção.
José Luís fez como tinha determinado o
diretor e aproveitou para despedir-se do
pessoal com quem conviveu todo aquele
tempo, começando pelo pessoal da cozinha
da limpeza, enfim de todos os funcionários e
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voluntários com quem conviveu.
Enquanto caminhava em direção a recepção
sentiu o quanto tinha sorte, muitos, que por
ali passaram, não conseguiam fazer aquele
trajeto.
Lembrou-se da cena que presenciara não
muito tempo atrás, quando um dos rapazes
que havia saído num dia, no outro, tinha
morrido por overdose. A tristeza de Valter ao
saber do ocorrido foi presenciada por ele, que
ao entrar no escritório do diretor para fazer a
limpeza costumeira, encontrou-o chorando.
Quando perguntou o motivo, Valter apenas
respondeu que havia perdido uma grande
alma. Aquele dia foi o estopim para sua
admiração por ele. José Luís aprendera a
admirá-lo e a entendê-lo. Sabia que era um
bom homem escondido atrás de uma cara de
mau.
Seu coração batia mais forte à medida que se
aproximava da porta da secretaria. Sabia que
ao passar por ela sua mãe estaria lá para lhe
dar o apoio necessário, mas também tinha
plena convicção de que teria que se tornar
mais forte para resistir às tentações. Havia
conhecido vários jovens como ele, que
pensavam em usar drogas apenas uma vez,
para experimentar e depois parar. Alguns,
para conseguir sustentar o vício começaram a
retirar as coisas de casa para vender e com
isso manter seu vício, com o tempo já não
tinham mais o que vender, aí passavam a
praticar pequenos furtos depois roubos muito
maiores. No momento, ao defrontar-se com a
polícia somente tinham dois caminhos, o
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
119
cemitério ou a cadeia.
Recebeu um abraço demorado de sua mãe, ali
se lembrou das vezes que ao acordar com
medo de algum pesadelo que tivera durante a
madrugada e corria para proteger-se naquela
fortaleza. Os dois ficaram abraçados por
longo período.
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Capítulo trinta e nove
A BUSCA CONTINUA
Maria acordou com a sensação de estar no
caminho certo e por isso tinha esperança de
encontrar seu marido o mais rápido possível.
As informações obtidas na emissora de
televisão seriam de grande ajuda. Seu
primeiro passo entrar em contato com a
empresa proprietária da ambulância que
conduziu seu marido para o hospital. Discou
o número, foi atendida por uma jovem muito
atenciosa, ela revelou não poder informar
dados, por telefone, das pessoas
transportadas. Maria anotou o endereço e o
nome da pessoa responsável fornecidos pela
garota e desligou.
Tomou um café da manhã bem reforçado,
não tinha a intenção de parar para almoçar e
assim aproveitar melhor o dia. Teve o
cuidado na escolha de suas roupas e sapato
visando o conforto que precisaria para a longa
jornada. Ao chegar na empresa, foi atendida
por uma funcionária muito simpática.
- Bom dia! Meu nome é Maria, muito prazer!
- Bom dia! O meu é Gisele, em que posso
ajudá-la?
- Estou procurando meu marido. Ele sofreu
um desmaio na rua e foi transportado por
uma de suas ambulâncias.
- A senhora tem a data da ocorrência?
- Sim, aqui está. – Maria passou um papel
onde estava anotado data e hora da
ocorrência.
Num instante Gisele digitou os dados no
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
121
computador, imediatamente apareceu na tela
o registro do boletim de ocorrência.
Nele constava toda a informação necessária
para que Maria pudesse encontrar o que
estivesse procurando. Com o papel na mão
Maria agradeceu Gisele e saiu em direção ao
novo endereço.
Algum tempo depois entre ônibus, metrô e
caminhada, conseguiu chegar por volta das
15:00 horas no endereço indicado. Seguiu em
direção ao balcão de informação, lá uma
garota informou que não ocorreu nenhuma
internação com paciente masculino de nome
Sílvio na data solicitada conforme dizia
naquele boletim.
- Esta informação, eu consegui com a empresa
que presta serviço de remoção aqui no
município, lá me informaram que ele foi
trazido para este hospital.
- Pode ter sido trazido, mas não ficou
internado. – Respondeu a atendente.
- Se ele foi atendido aqui deve existir algum
registro do atendimento, onde posso
informar-me a respeito? – Maria não esperava
que obtivesse sucesso.
- Como não tenho nenhuma ficha de
internação e a senhora tem informações que
foi atendido neste hospital, então a única
possibilidade é que tenha sido no pronto-
socorro ou na emergência. A senhora precisa
dar a volta e entrar na rua ao lado e seguir até
a próxima esquina e informar-se no PS. – A
recepcionista devolveu-lhe o boletim e se
L.P.OWEN
122
virou para atender outra pessoa.
Maria aceitou a ideia da recepcionista e
seguiu para o pronto-socorro. Ao chegar no
local indicado, dirigiu-se para o balcão de
informações onde foi atendida por uma
senhora muito simpática.
- Boa tarde em que posso ajudá-la? –
Perguntou mantendo nos lábios um sorriso
franco.
Maria explicou a situação e com os dados na
mão a recepcionista fez a consulta no terminal
do computador e nele encontrou uma ponta
de esperança. No dia indicado no boletim de
ocorrência entregue, Elizete constatou o
atendimento.
- A senhora tem razão seu marido foi
atendido, porque teve um desmaio, após os
exames, não constatado nada ele ficou em
observação por algumas horas e foi liberado.
- Você poderia dizer-me qual endereço consta
na ficha?
- Infelizmente não temos o endereço, o que
consta aqui na ficha que no dia ele informou
que morava na rua, pelo menos está escrito no
campo de observações. – Completou Elizete.
Maria já tinha perdido a esperança de
encontrar seu marido, agradeceu e ia saindo
quando Elizete veio correndo em sua direção
e em sua mão um papel.
- Olha dona Maria, acabei de lembrar-me do
caso do seu marido, ele foi encaminhado para
uma clinica de recuperação de dependentes
químicos, aqui está o endereço.
Maria pegou o endereço, mas já era tarde e
não teria tempo para chegar lá, resolveu
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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deixar para o dia seguinte.
L.P.OWEN
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Capítulo quarenta
RUAN E CLÁUDIO
Ruan foi acordado por sua mãe com uma
xícara de café, tomou um banho e ficou
aguardando por Cláudio. Convidou-o para
que viesse tomar o café da manhã com ele.
Não demorou muito, os dois, já estavam a
caminho para conhecerem seus novos
companheiros.
Durante o caminho a conversa entre eles era
sobre a expectativa da nova situação. A
dúvida estava no fato dos dois se acharem
diferentes, não sabiam como seriam recebidos
pelo novo grupo, pelo senhor Kasuo que
parecia uma pessoa de mais idade que eles. O
trajeto deixou-os mais confiantes sabiam que
eram capazes, não seriam pequenos
problemas que os afastariam dos seus sonhos.
De fronte ao portão pararam, por alguns
instantes, a indecisão tomou conta dos dois,
até que Ruan decidiu apertar a campainha.
Aguardaram para serem atendidos. Não
houve quem os atendessem. O segundo toque
dado. Novamente o som da campainha foi
ouvido. Imediatamente uma voz feminina
solicitou, pelo interfone, que aguardassem um
momento.
- Em que posso ajudá-los? – Perguntou
Helena enquanto se aproximava do portão.
Ruan com seu jeito único de falar perguntou
sobre Kasuo.
- Bom dia! Meu nome é Ruan e gostaria de
falar com o senhor Kasuo.
Helena abriu o portão e os dois, um pouco
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
125
timidamente, entraram e seguiram-na até a
sala de estar. Aguardaram enquanto eram
anunciados.
- Tenho a impressão que ele vai se assustar ao
ver essas duas figuras na sua sala. – Disse
Cláudio que até o momento estava calado.
- Vamos procurar fazer uma cara bonita. –
Completou Ruan rindo da situação.
A porta foi aberta Helena entrou e avisou que
seu patrão em poucos minutos estaria
chegando.
- Os senhores aceitam um café ou uma água?
Os dois optaram por um pouco de água,
estavam com a boca seca devido ao
nervosismo. Não demorou muito, a porta
novamente foi aberta, desta vez é Kasuo
quem aparece acompanhado por Romeu. Os
dois ficaram surpresos ao verificarem que
além de ser bastante jovem, tinha uma
deficiência visual, imediatamente todo o
nervosismo passou, a partir de então,
começaram a ficar a vontade.
- Bom dia! Meu nome é Kasuo e estou feliz
por terem aceitado o convite.
- Bom dia! – Responderam ao mesmo tempo.
- Meu nome é Ruan e este é meu amigo
Cláudio...
Ao perceber que estava cometendo uma gafe
tratou de consertar.
- Me desculpe Kasuo.
- Não tem problema nenhum, depois de tanto
tempo já estou acostumado. Fique tranquilo
que você não é o primeiro nem será último.
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- Não sei se minha mãe falou, além do
problema de fala, que você deve ter notado,
tenho síndrome de Down leve.
- Eu sou o Cláudio, muito prazer! O meu
problema é o uso de pernas mecânicas e tenho
também um pouco de gagueira. – Completou.
– Não precisava nem dizer que sou meio
gago.
- Aqui cada um ajuda o outro, colabora com o
que tem. Formamos uma família.
Kasuo estava falando, quando a porta foi
aberta e os três entraram, Ruan e Cláudio
compreenderam o sentido das palavras dele.
William entrou primeiro empurrando a
cadeira de roda de Jorge, logo atrás Oscar,
com sua armadura e seu sorriso. William
incumbiu-se das apresentações dos outros,
Ruan e Cláudio fizeram o mesmo.
Kasuo comentou sobre o que cada um fazia.
- Eu sou pianista, Jorge toca guitarra, Oscar é
um excelente cantor e William, que acabamos
de descobrir nele um cantor que nem ele
conhecia, além disso, é nosso empresário.
Ruan informou que era baterista e Cláudio
tocava contrabaixo.
- Por que não vamos a garagem para
sabermos do que este bando de especiais é
capaz de fazer. – Sugeriu Oscar.
Sempre zombando da sua própria condição.
Costumam dizer que nasceu de teimoso e
vivia só para contrariar a classe médica.
- Vamos ver se somos capazes de agradar as
vovós. – Completou.
Antes de saírem em direção à garagem,
Kasuo perguntou à Helena se tudo estava
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
127
como lhe havia pedido.
- Tudo como pediu.
William foi o primeiro a entrar para acender
as luzes, ao olhar para uma cadeira que
costumava sentar, quando estavam tocando,
viu um estojo muito familiar e sobre ele um
cartão onde pode ler “Os dons, que Deus nos
dá, não serão mantidos escondidos
eternamente, seria um grande desperdício”.
Ao perceber do que se tratava, chorou
copiosamente. Todos, até os que acabavam de
entrar para o grupo, foram abraçá-lo.
- Deixa-me reapresentar o William para vocês
dois. – Disse Kasuo.
- Este é William, cantor, nosso empresário e
há pouco tempo descobrimos que também é
um violinista.
- Faz muito tempo que não toco. – Disse
timidamente. - Como descobriram?
- Você me mostrou uma foto - Disse Oscar -
nela pude notar que havia um estojo no sofá,
no começo não sabíamos qual instrumento
era por causa da qualidade da foto, mas em
uma conversa com o vendedor de uma loja
ele me disse que era de violino. Você pensou
que somente ficaria ouvindo música? –
Continuou com a gozação.
- Quero agradecer a todos, não sei o que seria
de mim sem vocês, mas como disse faz muito
tempo.
- Desculpem-nos! – Iniciou Kasuo dirigindo-
se aos novos componentes. Tínhamos
preparado essa surpresa para ele.
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- Que tal começar o nosso ensaio, afinal, a
apresentação não está tão longe assim!
- A propósito, a bateria e o contrabaixo
estavam esperando por vocês dois, portanto,
aos seus lugares.
Cada um se posicionou no instrumento e a
primeira etapa foi para afinação.
- Nós não vamos tocar o pesadelo dos
músicos? – Comentou Oscar.
- Pesadelo de quem? – Perguntou Helena.
- Dos músicos! – Retrucou Oscar. – Vocês
nunca participaram de alguma reunião, onde
o mestre de cerimônia, para homenagear
alguém, pede para os músicos dar a
introdução do “Parabéns a você” e em poucos
instantes estão cantando cada um num ritmo
diferente e os músicos deixam de acompanhar
e acabam perseguindo os cantores.
A risada foi geral; em poucos instantes todos
estavam descontraídos, inclusive os novos.
A primeira música ensaiada foi o Fantasma
da Ópera, depois de algum tempo de ensaio,
em dado momento, todos pararam para ouvir
o solo da bateria, Ruan deu seu show e ao
terminar, foi aplaudido por todos em seguida
foi Cláudio, que também foi muito aplaudido
pelo grupo. Nascia uma banda.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo quarenta e um
COM MUITA ESPERANÇA
O relógio acionou o alarme no horário
estipulado. Normalmente tinha o hábito de
levantar-se antes de ouvi-lo, mas desta vez,
não estava disposta, não queria ter mais uma
decepção. Tocou levemente no botão para
desligá-lo temporariamente, aproveitou para
se decidir sobre o que faria. Não demorou
muito, o alarme tocou novamente.
- “Não vou ter sossego enquanto não
levantar”. – Pensou.
Enquanto esquentava um pouco de água para
o café aproveitou para selecionar a roupa que
usaria. Gostaria de poder ficar um pouco mais
no banho, mas o tempo era implacável e
teimava em passar muito rapidamente.
Tomou um café reforçado. Saiu sem muita
convicção quanto ao sucesso de sua busca.
Olhou o endereço anotado no papel e seguiu
na direção do ponto de ônibus.
Maria conhecia a cidade, porém, não tinha a
menor ideia da localização da rua.
Ao chegar numa praça central da cidade
resolveu pedir informação sobre a clínica, mas
ninguém soube informá-la. Estava quase
desistindo quando um senhor, que acabara de
passar por ela, ouviu-a e explicou com clareza
onde ficava a rua que ela desejava.
No ônibus indicado passou pela roleta, pagou
a passagem e sentou-se próxima do cobrador
para ser informada quando deveria descer. A
L.P.OWEN
130
viagem demorou mais do que previra, o
motivo não era distância e sim o itinerário.
Ao ser avisada, aguardou que o ônibus
parasse e desceu.
Por sorte, o ponto situava-se próximo da
clinica. Parada defronte ao portão, seu
coração começou a bater mais forte com a
expectativa do reencontro. Uma senhora
caminhou em sua direção, mas a informação
que recebera sobre Sílvio foi negativa.
- A senhora sabe onde ele mora? – Perguntou
desesperada.
- Raramente ele vem aqui. – Respondeu a
mulher.
- Faz uns dois meses que não o vejo, estive em
férias e voltei a trabalhar hoje. Fale com o
diretor, eles são amigos. – Completou.
- Se puder gostaria muito.
O portão foi aberto, Maria entrou. Foi
encaminhada para uma porta na qual estava
escrito “Diretor entre sem bater”. Deu um
leve toque na porta e entrou. Foi recebida por
uma garota que acabava de desligar o
telefone.
- Bom dia! – Disse Maria. – Gostaria de falar
com o diretor, ele está?
- Quem gostaria de falar com ele?
- Meu nome é Maria, sou esposa de Sílvio e...
Não precisou terminar de falar Valter já
estava cumprimentando-a.
- Bom dia! Meu nome é Valter.
- Bom dia! O meu é Maria estou procurando
por Sílvio. Fui informada que ele passou
algum tempo aqui com os senhores.
- Passou algum tempo conosco, mas não
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
131
mora mais aqui. Para ser mais preciso vem
aqui somente quando tem alguém que
necessite de nossa ajuda.
- O senhor não sabe onde poderei encontrá-lo?
- Ele vive nas ruas da cidade, andando de um
lado para outro, pode estar em qualquer lugar,
não tem um endereço fixo. Convidei muitas
vezes que ficasse morando aqui, mas ele não
aceitou.
- Pensei estar próxima dele, mas tenho a
impressão que nunca mais vou encontrá-lo.
- Não pense nisso, um dia as coisas acabam se
acertando, basta confiar.
- Agradeço pela atenção e, caso ele volte, aqui
está meu telefone e endereço. – Entregou um
papel dobrado.
- Pode ficar tranquila, caso ele volte entregarei
o bilhete.
Não entendia o que estava acontecendo.
Depois de andar de um lado para o outro se
sentiu cansada. Estava precisando de ânimo,
resolveu entrar em uma igreja, que tinha visto
na praça. Aproveitaria para descansar o corpo
e aliviar o espírito.
Havia poucas pessoas em seu interior,
caminhou em direção ao altar do Santíssimo
como sempre fazia com Sílvio.
- “Toda procura não levou a lugar algum”. –
Pensou enquanto caminhava em direção ao
altar.
De joelhos e cabeça baixa, nos seus
pensamentos se perguntava por que o destino
quis que ficasse só, quando seu maior sonho
L.P.OWEN
132
era ter uma família grande. Perdera tudo
que amava. Durante sua conversa com Deus,
pediu que acalmasse seu coração, que
orientasse seus passos e ordenasse seus
pensamentos, então de olhos fechados
procurou sentir a paz daquele lugar. Quanto
mais se concentrava, mais tranquila e serena
ficava. Em seus pensamentos todos os
acontecimentos eram exibidos, como um
filme de sua vida. No seu íntimo um novo
sentimento surgiu.
- “Agradeço-te Senhor, por me fazer entender,
que mesmo sendo breve o momento que
temos com os que amamos o importante é
que sejam intensos como o fogo que purifica e
a música que faz bem a nossa alma e o amor
que nos transforma”.
Alguém tocou delicadamente seu ombro,
enquanto lhe perguntava “em que posso
ajudá-lo?”, ao soerguer a cabeça levou um
susto ao ver aquela figura enorme com cara
de espanto, usando roupas surradas, cabelo
comprido e barba por fazer, teve vontade de
sair correndo, mas não conseguia se mexer
nem responder.
Já refeita, reconheceu, apesar da aparência,
quem era. Não conseguiu se conter abraçou-o,
beijou-o ao mesmo tempo em que chorava de
alegria, queria contar e perguntar tudo de uma
só vez. O tempo parou, nada mais importava,
queria apenas viver aquele momento tão
esperado, aproveitar cada instante
intensamente e recuperar todo o tempo
perdido.
Sílvio não acreditava no que estava
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
133
acontecendo. Não sabia porque teve a ideia
de perguntar se podia ajudar, quando ele era
quem mais precisava de ajuda.
- “Seria um sonho ou estarei enlouquecendo”.
– Pensou ele.
Ficaram abraçados, sem dizer palavra alguma
que pudesse atrapalhar o som das batidas dos
seus corações. Depois de algum tempo
puderam voltar ao mundo real. Cada um
contou sobre o que tinham passado.
- Quando acordei hoje cedo, estava sentindo
uma tristeza enorme. Sempre corri para este
local quando me sentia assim e procurava
ajudar outras pessoas. Dessa forma, conseguia
recarregar minhas forças, desta vez, Deus me
trouxe aqui, não para ajudar outras pessoas
que precisavam de uma palavra, do calor da
proximidade de um semelhante, ou mesmo o
silêncio, mas para me ajudar. – Sílvio foi
quem primeiro falou.
- Neste lugar, encontrei-me com diversas
pessoas e Deus estava preparando-me para
este momento, porque sentia vontade de estar
neste lugar. Durante muito tempo deixei de
aparecer depois do atropelamento de n...
Não conseguiu terminar a frase, a cena de seu
filho deitado no chão coberto com saco
plástico preto ainda não havia desaparecido
de sua mente.
Maria que já sabia do ocorrido tocou-o nos
lábios com a ponta dos dedos e deu-lhe um
abraço.
- Por que não me procurou? – Ela desejou
L.P.OWEN
134
saber.
- Procurei depois de algum tempo quando
consegui ficar sem beber, mas você já não
morava mais naquela casa e os vizinhos
disseram que havia mudado e não deixara
nenhum endereço ou telefone para contato.
- Como me encontrou? – Sílvio quis saber.
Enquanto ela explicava todos os caminhos até
encontrá-lo, um garoto se aproximou e
sentou-se no banco ao lado.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
135
Capítulo quarenta e dois
O AVÔ
José Luís estava apreensivo com a expectativa
do retorno. Quando chegaram no portão de
casa notou que algumas coisas estavam
mudadas, a começar pelo portão que estava
pintado na cor grafite, o quintal estava limpo
e gramado, algumas pedras colocadas
formavam o caminho até a casa.
A pintura deu uma aparência de uma casa
nova. O rapaz sentiu que ali agora parecia um
lar, quando perguntou para sua mãe quem
tinha feito tudo aquilo ficou surpreso com a
resposta.
- Não se preocupe que você já vai saber. –
Respondera sua mãe.
Enquanto se aproximava da porta da cozinha
sentiu o aroma familiar, entrou e se
surpreendeu com a presença de um homem
que estava em pé coando café. Não se
encontravam desde que sua irmã tinha
nascido.
- Não acredito no que vejo! – Disse o garoto.
– Estava com muita saudade de você.
Correu na direção daquele homem que tanto
amava e admirava, seu único e verdadeiro
herói.
- O que te fez voltar? – Perguntou enquanto
dava um abraço de boas vindas.
- Pensa ser fácil para eu ficar longe de vocês?
– Respondeu com doçura.
- Você vai morar com a gente? – Perguntou o
L.P.OWEN
136
garoto.
- Você gostaria?
- Você sabe, isto é o que mais quero. –
Respondeu olhando nos olhos daquele que
tanto admirava.
Enquanto colocava as xícaras com o café na
mesa falou com emoção.
- A saudade de um garoto que deixei, de uma
garotinha, e uma filha que descobri ser uma
grande guerreira, que apesar de estar sozinha
conseguiu criar vocês, foi o que me fez voltar.
Não consegui viver longe sabendo que vocês
estavam aqui e poderiam estar passando
necessidade, como vocês não foram para
minha casa resolvi mudar para cá.
- Esta é a melhor notícia que recebi, então
poderemos ficar juntos de agora em diante? –
Perguntou para o avô. Foi o senhor quem
arrumou tudo por aqui?
- Você gostou?
- Claro! Está como na clínica onde passei
algum tempo. Lá nós cuidávamos da horta,
jardins, limpeza e tudo mais. Aprendi
algumas coisas, poderemos cuidar de tudo por
aqui.
- Então posso contar com você para me
ajudar?
- Pode estar certo disso. Poderemos fazer
muitas coisas. – Respondeu sorrindo.
Zé Luís, como era chamado pelo avô que
também se chamava José, desde muito novo
fizera de seu avô o seu melhor amigo.
Durante alguns anos, viveram juntos, em todo
o lugar que o avô ia levava o neto junto. Os
dois, às vezes, pareciam crianças ora
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
137
brincando, ora fazendo bagunça e sendo
repreendidos pela filha.
Certo dia, por insistência do genro, teve que
se separar do seu neto amado. A mudança
para outro estado impossibilitaria de
encontrá-lo mais assiduamente. Fora a pior
notícia que recebeu, ele sabia qual era o real
motivo do seu genro querer se mudar.
Desconfiara do romance dele com uma
vizinha, que alguns dias antes havia mudado
para a mesma cidade. A partir de então
somente o sofrimento e saudade do neto e da
filha.
Sozinho morando numa chácara acabou
desistindo do cuidado com a ordem e limpeza
do terreno, do jardim que ele havia plantado.
Tudo era passado, agora estava junto com
aqueles que amava e não queria pensar nas
coisas ruins.
Para aproveitar todo o tempo possível,
convidou José Luís para construir mais um
quartinho nos fundos da casa.
L.P.OWEN
138
Capítulo quarenta e três
OS PREPARATIVOS
Dona Vera saiu em direção ao asilo, queria
ajudar nos preparativos para a festa. O pátio
foi liberado para receber os internos e seus
parentes e os funcionários, para ouvirem o
concerto que seria apresentado. Algumas
pessoas voluntárias estavam fazendo a pintura
e limpeza do local, verificando tudo o que
poderia ser melhorado, dando os últimos
retoques. A diretora estava muito contente
com a notícia que dona Vera trouxera de que
haveria uma apresentação de músicos.
- Hoje meu filho foi até a casa do senhor
Kasuo que virá com sua banda.
- Fico feliz, assim poderemos alegrar nossos
internos por alguns instantes. – Disse Emile
visivelmente emocionada.
- Tenho certeza de que será um lindo dia.
- Deus te ouça. – Completou Emile.
- Recebemos doação de roupas, sapatos entre
outras coisas, eles estarão todos lindos.
- Que notícia excelente Emile, no início, nós
tínhamos uma ideia, agora falta apenas alguns
detalhes, a propósito, preciso saber quando os
rapazes poderão vir aqui para verificar o local
onde tocarão.
- O pessoal termina tudo hoje à tarde, a partir
de amanhã já poderão vir sem problema
nenhum. Minha única preocupação ainda é
com a alimentação que vamos servir.
- Esse item a mim também tem sido motivo
de preocupação. O estoque que temos não vai
ser suficiente para festa e para o restante do
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
139
mês.
- Quem sempre me diz para ter fé, que tudo
vai dar certo? – Lembrou Emile.
- Sou eu! Vamos confiar que tudo vai dar
certo, como sempre. Não da forma que
queremos, mas como deve ser.
Antes de sair, Vera sorriu para Emile, tinha
uma caminhada longa até sua casa. Esperava
encontrar seu filho Ruan quando chegasse,
mas para sua surpresa ainda não tinha
voltado. Resolveu preparar uma xícara de
chá. Foi até o quintal, onde mantinha uma
horta bem cuidada, ali selecionou alguns
ramos de hortelã. Depois de preparar o chá,
sentou-se e fez um balanço de tudo o que
ainda era necessário para a festa do asilo.
Apesar de ser apenas uma simples voluntária,
se preocupava com o bem-estar daquelas
pessoas que ao término de sua jornada eram
tão carentes de afeto, principalmente o
familiar, de necessidades materiais, cuidados
médicos entre outras coisas. Fazia algum
tempo que Helena trabalhava como
voluntária a convite de sua grande amiga
Emile, esta causa que abraçara com tanto
empenho muitas vezes era o motivo de sua
maior preocupação.
Estava distraída em seus pensamentos, que
não percebeu o tempo passar, quando se deu
conta já anoitecia.
Ouviu o barulho, muito conhecido da porta
de entrada sendo aberta e a costumeira frase,
“Mãe cheguei!”, que Ruan sempre usava.
L.P.OWEN
140
Não sabia porque adorava tanto esta frase,
se pelo jeito carinhoso como era dita ou por
saber que seu tesouro havia voltado em
segurança ou uma mistura dos dois. Estava
tão radiante que sua mãe ficou ainda mais
curiosa para saber o que tinha ocorrido no
encontro com os rapazes.
Depois do beijo e abraço costumeiro.
- Como foram as coisas?
- Ótimo! Não poderia ser melhor. Foram eles
que no dia da minha apresentação me
convidaram para tocar, mas com o tumulto
que estava acabei não dando uma resposta.
- Você conheceu os outros rapazes? –
Perguntou Ruan.
- Sim todos eles.
- Por que chama-o de senhor Kasuo, ele tem
apenas alguns anos mais que eu?
- É verdade! Não sei exatamente. Uma
questão de respeito? – Disse sem muita
convicção.
- Agora me diz como te receberam?
- Me senti como se estivesse na minha casa, a
maioria deles tem necessidades especiais.
- O Oscar parece um robô. Ele utiliza uma
muleta e suas pernas precisam estar presas
com esses ferros até a cintura, mas é o cara
mais engraçado que já conheci em toda
minha vida.
- No começo, achara o Cláudio um rapaz
“normal” sem problemas físico. Quando ele
se apresentou, o Oscar comentou que ele
parecia produto pirateado que somente
olhando não achamos o defeito.
- Todos rimos inclusive o Cláudio que quase
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
141
engasgou de tanto rir enquanto levantava a
barra da calça para mostrar sua perna
mecânica.
- Então vocês não ensaiaram nenhuma
música?
- Claro que ensaiamos! Também conversamos
um pouco, afinal ninguém é de ferro.
Vera e Ruan conversaram por muito tempo
enquanto sorviam um delicioso chá.
L.P.OWEN
142
Capitulo quarenta e quatro
NO RESTAURANTE
- Os dois são muitos simpáticos! – Comentou
William após o ensaio.
- Tocam muito bem. O Ruan não é o rapaz
que convidamos para tocar com a gente
algum tempo atrás? – Perguntou Kasuo.
- O próprio! - Respondeu Oscar. – Como
descobriu.
- Vejo coisas que vocês não veem. –
Respondeu rindo.
- Agora que completamos a turma é só
ensaiarmos com bastante afinco para
fazermos bonito na festa do asilo. – Disse
Jorge que não era de falar muito.
- Precisamos fechar o repertório para
ensaiarmos mais, até que fique na ponta dos
cascos. Gostaria que todos colaborassem com
sugestões das músicas, assim teremos maior
chance de agradá-los.
A solicitação de Kasuo foi acatada, cada um
indicou algumas que seriam apresentadas.
- Faz muito tempo que estamos aqui dentro
desta casa. Que tal sairmos para jantarmos em
algum lugar tranquilo? – Sugeriu Kasuo.
- Até que enfim alguém teve uma ideia genial,
acredito até que a Helena está disposta a
deixar a masmorra. Não é de admirar,
cuidando desse bando de marmanjos, cansa
qualquer um. – Oscar foi o primeiro a apoiar
a ideia de Kasuo.
Vestidos impecavelmente aguardavam na sala
de estar Kasuo fazer a reserva de última hora.
- Podemos ir! – Informou Kasuo.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
143
Depois de acomodados seguiram em direção
ao restaurante onde Kasuo e seus pais
costumavam jantar.
Na recepção o manobrista, ao reparar no
automóvel, ficou maravilhado com o seu
estado de conservação.
Romeu colocou-se ao lado de seu dono e
aguardou o comando pacientemente.
Indicaram uma mesa situada num local muito
tranquilo.
- O que vocês acham deste local? – Quis saber
Kasuo.
- É perfeito de fácil acesso e muito tranquilo,
aqui poderemos conversar bastante. –
Comentou Jorge.
A causa de sua preocupação com o espaço
estava ligada a sua cadeira de rodas. Certa vez
lembrou-os das dificuldades de utilizar uma
cadeira de rodas nas ruas das grandes cidades,
porque quase nada era adaptado aos seus
usuários. Sem contar os egoístas que
colocavam seus carros sobre as calçadas, ou
de forma a impedir a passagem de seu
semelhante.
No restaurante, algumas pessoas,
acomodadas em mesas centrais, não paravam
de olhar para eles. Outras, no momento que
entravam no restaurante, ao notarem a
presença daquele grupo, procuravam pedir
mesas mais distantes.
Kasuo sendo guiado por Romeu, seguiu a
frente do grupo, logo atrás, William
empurrando a cadeira de Jorge, por último,
L.P.OWEN
144
Oscar e Helena, todos em direção aos
pratos frios.
- Me sinto um rei quando todos me olham
com essa cara de curiosidade. – Comentou
Oscar para Helena.
- Fico imaginando o que estariam pensando
ao verem um cara todo espacial como eu ao
lado de uma lady. - Completou não
conseguindo segurar a risada.
Um dos garçons, que trabalhava no
restaurante na época em que os pais de Kasuo
costumavam frequentá-lo, reconheceu-o.
Imediatamente se dirigiu a ele com a
amabilidade que sempre o fizera.
- Boa noite! Como o senhor tem passado
senhor Kasuo? Faz algum tempo, desde a
última vez que esteve aqui, mas gostaria de
dizer que estou muito contente em poder
servi-lo novamente.
- Agora já sei quem é você! – Como está
senhor Mário? – Sorrindo ao lembrar-se dos
chocolates que ganhava ao sair.
- Estou ótimo! – Lamento o ocorrido com
seus pais.
- Obrigado! Como o senhor me reconheceu?
- As pessoas podem mudar por fora, mas
procuro guardar a fisionomia interna, por
mais que mude, suas marcas são deixadas
pelo caminho e o carinho que demonstra
quando fala com as pessoas é a sua. O senhor
continua tocando piano?
- Sim! Reiniciei minhas atividades algum
tempo atrás depois que conheci esse pessoal. –
Disse apontando para o grupo. - Desculpe
minha indelicadeza, não apresentei meus
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
145
amigos ainda.
- Disse ao meu patrão que o senhor é um
excelente pianista e perguntei se ele se
importaria caso o senhor tocasse um pouco
para matar minha saudade e ele adorou a
ideia, então gostaria de saber se poderia tocar
algo para nós.
- Claro que sim. Que música o senhor gostaria
de ouvir?
- Para ser franco o que me encanta é o modo
como o senhor toca, as músicas são meros
detalhes.
- Como anteriormente, se me permitir, vou
preparar aquela salada que o senhor sempre
comia quando vinha aqui.
- Se você se lembrar, ficarei grato. Agora onde
está o piano?
O garçom fez menção de levá-lo, mas Kasuo,
gentilmente, informou da necessidade de ser
conduzido por seu cão-guia. Kasuo deu o
comando, imediatamente Romeu começou a
caminhar vagarosamente em direção ao
piano. Kasuo ajeitou-se no banco e iniciou
sua apresentação com algumas músicas de
Frédéric Choppin. Não notou que o pessoal se
aprontava para acompanhá-lo, ao iniciar os
primeiros acordes de uma música chamada
“Nostalgia” composta por Yanni, percebeu
que não estava só, no improviso fizeram uma
apresentação, que ao final foi aplaudida em
pé pelos presentes. Agradeceram e para
encerrar Kasuo tocou “I’m Still Standing” do
Elton John, Oscar incumbiu-se do vocal, o
L.P.OWEN
146
mais impressionante foram, além da voz,
suas coreografias.
Caminharam em direção aos seus lugares
para jantarem, agora com uma diferença,
todos olhavam aquele grupo com admiração.
Foram tratados como convidados especiais.
- Definitivamente não consigo entender o ser
humano! – Disse Oscar.
- Por que diz isso? – Quis saber Kasuo.
- Acredito que não tenha visto como nos
olhavam, quando entramos.
Kasuo não se aguentou de tanto rir com a
colocação feita.
- Com certeza nem reparei.
- Esta é sua grande vantagem. As pessoas
tendem a fazer um preconceito de tudo.
Quando era jovem não comia certos tipos de
alimento dizendo que não gostava, isto sem
ter provado. O mesmo ocorre com as pessoas,
às vezes não a conhecemos, mas a criticamos.
- Como você está fazendo agora? – Disse
Jorge.
Oscar foi o primeiro a rir com a colocação e
parou sua crítica. Kasuo pediu a conta, mas o
garçom informou que o proprietário tinha
oferecido aquele jantar em agradecimento
pelos momentos musicais.
- Agradeço e quando precisarem de uma
banda é só me avisar. – Informou sorrindo.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
147
Capítulo quarenta e cinco
MARIA E SÍLVIO
- O senhor tem uma moeda para comprar um
lanche?
Sílvio olhou aquele garoto com os pés
descalços, roupa suja, lembrou-se dos muitos
garotos que viviam pelas ruas se drogando
para se alienar, esquecer os medos, angústias
e as revoltas. Aquela moeda, provavelmente
não seria para comprar alimento, apenas
algumas pedras de craque.
Certa vez, ao perguntar por que usava drogas,
um garoto respondeu que enquanto estivesse
sem consciência tinha menos tempo para
sentir saudades de sua família. Sílvio ajeitou
um lugar para o garoto sentar ao seu lado.
- Senta aqui para conversarmos um pouco e
depois vamos almoçar todos juntos.
O garoto ficou um pouco receoso, mas
resolveu aceitar a proposta.
- Você mora onde?
- Na rua, não tenho um lugar certo para ficar.
– Respondeu o garoto.
- Sei como é isso! – Disse Sílvio
compreensivo.
- Se o senhor sabe, então por que pergunta?
Maria olhou para Sílvio, fez uma careta como
quem diz: você é quem pediu.
- Você tem razão, mas perguntei para iniciar a
conversa. Qual é o seu nome?
- Edmundo! Meu apelido é Dinho.
- Muito prazer, meu nome é Sílvio e esta é
L.P.OWEN
148
minha esposa Maria.
Maria ficou emocionada com a forma como
foi apresentada, apesar de ser a correta, fazia
tempo que não o ouvia falar dessa maneira.
- Muito prazer! - Disse o garoto estendendo a
mão suja para cumprimentá-la.
- O prazer é meu! – Respondeu Maria
visivelmente emocionada.
- Quantos anos têm? – Perguntou ela.
- Tenho 10 anos.
- Os seus pais onde estão? – Perguntou Sílvio.
- Não sei quem é meu pai e minha mãe sumiu
com um homem que era namorado dela.
- Você tem irmãos ou outros parentes?
- Não. Minha mãe veio quando era pequena
para cá e nunca mais voltou, ela também foi
abandonada.
- Olha Edmundo se você quiser morar com a
gente até encontrar sua mãe não terá
problema nenhum. – O instinto materno falou
mais alto.
- A senhora esta falando sério?
- Claro que estou!
- Você não quer passar para pegar suas coisas?
– Sílvio quis saber.
- O que tenho está comigo. – Mostrou uma
sacola plástica onde tinha uma manta
surrada.
- Para morar com a gente nós teremos que ir
perante um juiz e pedir autorização, mas
antes você tem que estar de acordo.
- Podemos ir agora mesmo. – Respondeu o
garoto.
- Podemos deixar para depois, primeiro temos
que comer algo, depois comprar algumas
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
149
roupas para você e seguirmos para casa tomar
um bom banho e amanhã resolveremos o
restante. – Disse ela.
Maria estava feliz e sentia que aquele garoto
foi enviado por Deus e todos teriam um novo
recomeço.
Antes de sair Sílvio olhou para trás e
agradeceu.
- O senhor já havia preparado tudo isso, não
é? – Sorriu enquanto saia.
L.P.OWEN
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Capítulo quarenta e seis
NO BANCO
Oscar acordou com muita disposição. Estava
tão disposto que se ofereceu para fazer as
tarefas na rua.
- Hoje o dia está tão bonito que me despertou
a vontade de fazer uma boa caminhada. Tem
alguma coisa que possa fazer?
– Perguntou para o Kasuo que acabara de
sentar-se para tomar seu café.
Kasuo adorou a ideia, tinha verdadeiro pavor
do tempo perdido dentro dos bancos.
- Pode pagar algumas taxas no banco ficaria
muito grato.
- Deixa comigo! Onde estão as “crianças”. –
Referindo-se as contas.
- Estão numa pasta encima da mesa do
escritório.
Helena trouxe a pasta e entregou-a para o
Kasuo. Não demorou muito, Oscar estava a
caminho do banco.
Cumprimentou os vizinhos que cuidavam de
seus jardins e prosseguiu caminhando com
seu jeito particular.
Certa vez, num de seus comentários dirigido a
Helena, disse que as mulheres tinham uma
facilidade de se apaixonar por ele por causa
do seu rebolado ao caminhar. Helena apenas
riu.
Ao chegar no banco havia algumas pessoas na
sua frente esperando a abertura das portas. A
entrada, como medida de segurança, era feita
de uma pessoa por vez. Aguardou
pacientemente que todos entrassem, mas
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
151
notou que a maioria colocava seus celulares,
molho de chaves, canetas, guarda-chuva entre
outras coisas dentro de uma caixa acrílica,
mas quando tentavam passar pela porta
giratória ela travava. Teve o caso de uma
senhora que após três tentativas e depois de
ter esvaziado a bolsa, colocou-a no chão e
girou a porta, mesmo assim, a bendita porta
teimava em travar.
Irritada com a situação, não teve duvidas,
retirou sua ponte móvel e colocou na caixa
acrílica. Mesmo assim não conseguiu entrar.
Foi necessário que o segurança liberasse a
porta.
Depois de presenciar aquela cena, não teve
dúvidas, colocou o rosto próximo da caixa
acrílica e gritou para o guarda.
- Acho um pouco difícil conseguir entrar por
aqui. – Disse mostrando todos os metais que
carregava com ele.
Os que esperavam na fila começaram a rir.
Como não houve resposta do segurança,
insistiu.
- Meu caro, se colocar todos os metais que
tenho no corpo, essa caixa vai ser pequena.
Recebeu um sinal do segurança e entrou sem
maiores problemas. Já dentro do banco,
procurou pelo caixa onde deveria efetuar os
pagamentos, havia tantas placas que se sentiu
perdido. Uma atendente percebeu sua
dificuldade e veio em seu auxílio. Ao verificar
o tipo de transação que faria, indicou-lhe um
caixa especial e por coincidência sua posição
L.P.OWEN
152
na fila seria após a senhora da porta
giratória.
Enquanto aguardava sua vez, prestava
atenção às pessoas. Suas feições, a maneira
como se comportavam, imaginando como
estavam se sentindo naquele momento. Havia
um senhor na fila ao lado, que não parava de
olhar para o relógio, Oscar arriscou.
- “Deve estar preocupado, porque não
colocou o cartão de estacionamento no
veículo”.
Perdido em seus pensamentos não percebeu o
que estava acontecendo a sua volta. A
senhora, a sua frente, olhava em sua direção
dizendo: - “Ai meu Deus!” Repetidas vezes.
Ao virar-se, entendeu o que ocorria, sua
tranquilidade acabou.
O banco já estava lotado, mas verificou uma
arma parecida com uma metralhadora
pequena que parecia de brinquedo, reluzia de
tão brilhante e polida, erguida acima das
cabeças dos que ali estavam. Fez uma
avaliação do que poderia ser feito, mas
chegou à conclusão mais acertada de ficar
quieto em seu lugar.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
153
Capítulo quarenta e sete
RUAN VAI AO NOVO ENSAIO
Ruan ligou para a residência de Kasuo para
informar-se do horário do novo ensaio.
- Bom dia Helena! O Kasuo está?
- Está sim! É o Ruan quem está falando?
- Sim.
- Vou passar o telefone para ele.
Ruan agradeceu e aguardou até ouvir a voz de
Kasuo cumprimentando-o.
- Estou ligando para saber sobre o ensaio.
- Pode vir agora mesmo, aguardaremos
somente o Oscar chegar do banco e iniciamos.
- OK! Vou avisar o Cláudio e iremos
imediatamente.
Assim que Ruan desligou o telefone, ouviu a
campainha tocar.
- Não morre mais, acabei de falar de você!
- Bom dia! Falou bem ou mal? – Quis saber
Cláudio.
- Falei mal! O Kasuo disse que podemos ir
agora mesmo.
- Então o que estamos esperando?
Os dois seguiram à residência de Kasuo,
durante o trajeto o trânsito ficou
congestionado nas proximidades do ponto
onde deveriam descer.
O tempo gasto foi bem maior do que o
necessário, contra a sua vontade, demoraram
a chegar.
- Lamento Kasuo, mas atrasamos, porque está
um congestionamento enorme próximo
L.P.OWEN
154
daqui. O cobrador disse que assaltaram
um banco. – Desculpou-se Ruan.
- Minha Nossa! O Oscar foi nesse banco. –
Alarmou-se Kasuo.
- Será que ele ainda está lá? – Quis saber
Helena.
- Por que não ligamos a TV? - Sugeriu
William. - Provavelmente dirão algo a
respeito.
- Boa ideia! – Disse Kasuo.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
155
Capítulo quarenta e oito
NO INTERIOR DO BANCO
O número de assaltantes era elevado. Pelos
seus cálculos havia pelo menos uns 10 deles
muito bem armados e dispostos a tudo.
Oscar, como todos os outros, foi conduzido a
um canto da agência. Dois elementos
armados mantinham o grupo sob vigilância.
Estavam encapuzados, mas percebeu que,
pelo menos dois tinham formas e trejeitos
femininos.
Um dos funcionários, ferido pelos golpes
recebidos como exemplo para os outros
reféns, foi jogado pelos bandidos aos pés de
Oscar. Ao fazer menção de ajudá-lo, foi
interpelado por um dos assaltantes que tinha,
na mão, uma metralhadora apontada em sua
direção.
- Deixe-o onde está. – Determinou.
- Mas ele está muito ferido. – Retrucou Oscar.
- Você não quer ficar como ele, não é? – Disse
dando uma risada sarcástica.
- Gostaria de saber o que faria se estivéssemos
em posições trocadas. – Retrucou com
coragem.
Mal terminou sua frase, levou um soco que
fez sangrar seu nariz, mesmo tendo
dificuldade para se manter em pé não se
calou.
- Se quiser pode matar-me, mas não vou
deixar de ajudá-lo.
Pegou um lenço no bolso, com muita
L.P.OWEN
156
dificuldade, se abaixou deixando cair suas
muletas no chão, até conseguir se sentar e
começou a cuidar do rapaz.
Seu agressor ficou irritado com sua
petulância, se preparou para desferir uma
coronhada na cabeça de Oscar, quando foi
interpelado por uma garota encapuzada, que
o afastou dali enquanto outro assumia seu
lugar. Conseguiu fazer parar o sangramento
do supercílio do rapaz, percebeu que já estava
consciente.
- Obrigado! – Disse o rapaz num sussurro.
Oscar apenas deu-lhe um leve aperto no braço
e sorriu. Com muito esforço, porque todos
estavam com medo de se mexerem, levantou-
se e sem medir as consequências foi em
direção do que aparentemente era o líder.
Estava na metade do caminho, algumas
armas foram apontadas para ele, mesmo
assim continuou sem hesitação.
- Aquele rapaz precisa de atendimento
médico.
- O que tenho com isso?
- Pois vou dizer o que você tem com isso.
Você como líder tem o dever de proteger seus
liderados.
- O que tem isso com ele precisar de médico?
- Muito simples! Vocês entraram numa barca
furada, o plano falhou. A melhor coisa a fazer
é negociar com a polícia, que a essa altura
deve ter cercado tudo e obter alguma
vantagem.
- Você não precisa de tanta gente aqui como
refém, elas só vão atrapalhar, mais pessoas
tomando água, para alimentar, para ir ao
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
157
banheiro, entre outros inconvenientes.
- Liberte os doentes em troca de algo que você
queira.
- Quer que apague esse tagarela? – Perguntou
aquele que tinha dado o soco.
- Não! Tenho outros planos para ele.
- Você vai negociar isso com a polícia para a
gente. – Disse o líder virando-se para Oscar. –
Bem-vindo ao bando.
Um dos que estavam sendo mantidos no
canto levantou a mão pedindo permissão para
falar.
- Fala! – Disse o líder.
- Sou médico, posso cuidar dele, preciso de
alguns medicamentos, mas ele necessita de ser
encaminhado a um hospital para exames
complementares.
- Me diz o que você precisa, vou entrar em
contato com a polícia. – Oscar falou com
firmeza.
Pegou o telefone e discou o código de
emergência, uma policial transferiu a ligação
para o comandante do grupo que havia
cercado o banco. Oscar explicou rapidamente
o que estava ocorrendo.
- Agora que o senhor está a par dos
acontecimentos, o que pode oferecer em troca
deste rapaz?
- O que vocês querem?
- Comandante, como já disse, só estou
negociando com o senhor, como não me
disseram o que eles querem, mande algum
juiz corregedor. É o que sempre pedem, não
L.P.OWEN
158
é?
- Vai demorar um pouco até ele chegar aqui.
- Então mande água e uma maleta médica
para o doutor que está aqui atender as pessoas
que estão passando mal.
- Isso estará à disposição imediatamente, mas
quem será libertado? Quantos estão feridos?
- Eu e um rapaz. Vou tentar liberá-lo, ele está
muito ferido. Por favor, mantenha os
paramédicos em alerta.
Desligou e comunicou ao líder sobre o
resultado da negociação.
- Agora você decide quem vai buscar o que foi
pedido, em cinco minutos será colocado na
porta.
Oscar retornou para avisar ao rapaz que ele
seria libertado e que os médicos já estavam
esperando para cuidar dele.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
159
Capítulo quarenta e nove
NA TV
O repórter informou que havia muitas pessoas
no interior do banco naquele momento e não
tinham informações quanto ao número exato
de clientes, funcionários e assaltantes que
estavam dentro do estabelecimento. A
movimentação feita pelos policiais do efetivo
empregado dava uma noção da gravidade da
situação.
- A polícia cercou todas as ruas. Essa medida
dificultou a circulação nas imediações. -
Comentou Cláudio que até o momento estava
calado.
Na TV, informavam que os assaltantes
tinham pedido medicamentos para
atendimento das pessoas que estavam
passando mal. As imagens transmitidas pela
TV eram descritas por Helena para Kasuo.
- Os policiais estão colocando pacotes de
garrafas de água e uma maleta próxima da
porta do banco. Agora estão se retirando. A
porta foi aberta, alguém está se preparando
para pegar as águas e a maleta.
Um breve silêncio seguiu deixando Kasuo
impaciente. Ainda mais ouvindo as frases
curtas que eram ditas pelos companheiros.
- O que é aquilo? – Perguntou Jorge quase se
levantando da cadeira de rodas.
- Parece a ponta de uma arma de grosso
calibre. – Completou William. – Uma
espingarda?
L.P.OWEN
160
- Parece muito esquisito para ser uma
arma. – Cláudio disse.
- Por favor! Aumenta o volume da TV. –
Pediu Kasuo.
O comandante deu ordem para que ninguém
atirasse. No momento seguinte a curiosidade
de Kasuo foi satisfeita.
- É o Oscar! – Disseram ao mesmo tempo.
Saiu acompanhado de um rapaz para ajudá-lo
no transporte das águas. Num piscar de olhos
ao ver os policiais e a possibilidade de se
salvar, não pensou duas vezes, saiu correndo
em direção aos policiais, deixando o outro só
sem saber o que fazer. Sem se abalar, apenas
reclamou.
“Os senhores não poderiam colocar isso tudo
mais perto?” – Ouviram Oscar pelo som
captado pela emissora de TV.
- Não acredito no que estou vendo! Oscar é
um tremendo gozador, ou um maluco.
- O que está acontecendo Helena? – Quis
saber Kasuo.
- Ele está fazendo das suas.
“Alguém poderia entregar-me à maleta,
porque não consigo agachar”. “Será que não
entenderam que não consigo pegar essa
maleta? - Gritou para que todos pudessem
ouvi-lo”.
Um policial aproximou-se com cautela,
abaixou-se para pegar a maleta entregá-la ao
rapaz que se apoiava nas muletas, quando
ficou surpreso com o que ouviu.
- Contei dez, mas acredito que tenha mais
algum infiltrado no meio dos clientes. Estão
bem armados.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
161
Pegou a maleta e informou que, a água,
alguém viria pegá-la depois, agradeceu,
retornou para o banco. Assim que entrou a
porta foi fechada novamente.
Seus amigos que assistiam pela TV estavam
desesperados.
- O que podemos fazer? – Indagou Jorge
quebrando o silêncio.
- Não tenho a menor ideia. – Respondeu
William.
- Lá não teremos mais do que temos agora. –
Ponderou Kasuo. - Além do mais poderemos
atrapalhar. - Pessoa sem ter o que fazer é o
que mais eles têm.
Resolveram continuar acompanhando os
acontecimentos pelo noticiário.
***
O rapaz que havia deixado Oscar sozinho foi
recebido com desprezo pelos policiais, mas o
comandante determinou que o ajudassem e
tomassem seu depoimento, mas antes de
liberá-lo, que fizessem averiguações sobre ele.
Alguém estava à procura do comandante. Era
o policial que havia ajudado Oscar a pegar a
maleta. Queria transmitir-lhe a mensagem
recebida.
O comandante Freitas agora com o número
aproximado dos invasores teria maior cautela,
porque o contingente era muito grande e uma
ação precipitada certamente faria muitas
vítimas.
Em pensamento agradeceu aquele sujeito
L.P.OWEN
162
esquisito que tinha visto pouco tempo
atrás.
Alguém gritou anunciando que a porta estava
sendo aberta. Novamente todas as armas
foram apontadas para lá. O comandante deu
ordem para que não atirassem, a tensão
elevou-se, a adrenalina subiu a níveis
altíssimos, que somente homens experientes e
bem treinados eram capazes de suportar e
manter o equilíbrio emocional nesses
momentos.
Novamente Oscar saiu anunciando que o
rapaz que estava necessitando de cuidados
médicos seria carregado para fora.
- Como foi combinado estamos trazendo um
dos feridos, gostaria que trouxessem uma
maca e que os paramédicos pudessem cuidar
dele.
O rapaz, carregado por quatro homens, estava
deitado numa rede improvisada com tecido
retirado da cortina de uma das janelas.
Colocado delicadamente no chão. Os
paramédicos vieram trazendo consigo uma
maca e equipamentos para imobilizá-lo.
Poderia ser ouvido o bater das asas da libélula
devido ao silêncio que pairava na rua por
causa da apreensão de todos que assistiam
aquelas imagens.
Ao colocarem o rapaz na ambulância, uma
salva de palmas foi ouvida.
Enquanto o ferido era encaminhado para o
hospital, os outros reféns voltaram para o
interior do banco levando as garrafas de água
que estavam lá há algum tempo.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
163
Capítulo cinquenta
O DESESPERO CONTINUA
No interior da agência o terrorismo continuou
e o alvo foi novamente Oscar que, ficou na
frente para que não atirassem no rapaz
quando fugia.
O assaltante, que desde o início era antipático
a sua figura, deu-lhe outro soco causando-lhe
nova hemorragia.
- Lamento que só tenha isso para oferecer. –
Oscar falou com pena.
Quando seu algoz se preparou para dar outro
soco, foi interrompido pelo toque do telefone.
- Estamos fechados para balanço. – Disse o
líder do grupo.
- Aqui fala o comandante Freitas e quero falar
com o líder de vocês.
- É o próprio, comandante Fuminho ao seu
dispor. – Riu de sua piada.
- Preciso saber qual a sua reivindicação, para
libertação dos reféns e rendição do grupo.
- Tudo simples assim? – Perguntou num tom
debochado. - O senhor tem ideia de quantas
pessoas estão aqui conosco?
- Não! Por outro lado, você não quer, como
eu também não quero, um confronto. –
Continuou em tom enérgico. - Por que não
me diz o que você quer em troca dos reféns?
- Simples! Nossa liberdade.
- Você sabe que não posso fazer isso.
- Se libertar os reféns como terei a certeza de
que vamos ser tratados com justiça?
L.P.OWEN
164
Essas palavras foram um sinal, para o
comandante, de que o acordo estava próximo,
mas não interrompeu seu interlocutor.
- Queremos um juiz corregedor, meu
advogado e a imprensa aqui dentro.
- A presença da imprensa não será difícil. O
juiz corregedor está a caminho, mas vai
demorar um pouco. Quanto ao seu advogado,
poderá chamá-lo.
- Liguei para ele há bastante tempo deve estar
a caminho, quando chegar mande-o entrar.
- OK! Você deixa sair todas as mulheres e
crianças e os que precisarem de cuidados
médicos, o advogado e a imprensa entram.
- Você me libera um advogado e eu tenho que
libertar 10 ou 12 reféns?
- Você sabe que esse tipo de refém só dá
trabalho.
- Manda o doutor e a imprensa entrar, então,
verei o que posso fazer.
***
Uma grande movimentação de repórteres se
formou em torno de um homem usando terno
preto muito bem talhado, no dedo mínimo
um anel de ouro cravejado de brilhantes,
impossível não ser notado, no pulso um
relógio, que pela TV, supunha-se ser em ouro
e uma pulseira em ouro muito espessa. Usava
um brinco, em ouro e Pérola, em cada orelha.
Conforme a opinião de Helena, ele fumava
em frente às câmeras apenas para exibir a
grande quantidade de ouro que possuía em
apenas um dos braços.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
165
- A roupa e os acessórios que ele usa, valem
mais que muitos carros que vemos por aí. –
Comentou Jorge.
- Você deve estar brincando! – Retrucou
Helena indignada.
- Ele está falando sério. – Confirmou William.
O silêncio voltou a reinar na sala quando as
câmeras se voltaram novamente para o doutor
Rangel que iniciava seu pronunciamento. O
advogado mantinha uma pose arrogante e
respondia as perguntas com desdém. Estava
tão eloquente em suas respostas que não
percebeu a presença do comandante da
polícia.
- O senhor já pode entrar. – Disse o
comandante apontando para o banco.
O advogado ia solicitar um instante, mas foi
surpreendido.
- Agora! – Ordenou o comandante sem olhar
para traz.
Não estava habituado a receber ordens,
principalmente quando dava entrevista, mas
não teve opção o seu show teria que continuar
em outro momento. Saiu quase correndo para
alcançar o comandante que se distanciava.
Aguardaram por instantes, em frente ao
banco, a porta ser aberta, e após a entrada do
advogado, novamente foi fechada.
L.P.OWEN
166
Capítulo cinquenta e um
MOMENTO DE ANGÚSTIA
Conforme haviam combinado, foram
libertadas todas as mulheres, crianças e o
gerente do banco que não estava passando
bem.
Apesar de estar machucado Oscar não foi
liberado ficando num canto ao lado do
médico.
As pessoas liberadas eram encaminhadas aos
paramédicos em seguida ao pessoal
responsável pelo setor de identificação e
cadastro, por último, eram feitas algumas
perguntas de rotina.
Todos respondiam as mesmas perguntas,
feitas pelos policiais, para confronto das
informações, entre elas, o número de pessoas
que haviam invadido o banco.
Na agência o advogado informava sobre as
complicações dos atos cometidos por eles e
qual seria o trâmite legal.
Após varias discussões, resolveram que todos
se entregariam, mas queriam que a imprensa
pudesse transmitir ao vivo o ato para não
permitir abusos por parte dos policiais.
***
Antes que a imprensa fosse autorizada a
entrar, ouviu-se, o barulho de tiros e muita
gritaria vinda do interior da agência. O caos
havia instalado. O comandante que esperava
encerrar o caso ficou atônito, pela primeira
vez em sua vida de policial, baixou sua
guarda por alguns instantes, julgando o caso
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
167
encerrado. Os policiais queriam agir
imediatamente. No rádio do comandante, o
que ele mais ouvia era o pedido de permissão
para invadir o local. Seu cérebro treinado para
situações como esta, em apenas alguns
instantes se refez da surpresa, determinou que
aguardassem sua ordem. Em pouco tempo,
no interior da agência, voltou a reinar o
silêncio. O comandante preocupado com a
vida dos reféns ligou para saber o que
ocorrera.
Alguém atendeu ao telefone, mas não era a
pessoa com quem havia conversado
anteriormente.
- Onde está o líder de vocês? – Perguntou
preocupado.
- Foi baleado. – Respondeu do outro lado
uma voz fria.
O raciocínio do comandante foi rápido nas
considerações da nova situação. Não sabia o
estado do líder, se fora deposto do cargo ou
não, caso houvesse outro no comando teria
que obter um novo compromisso de garantia
do restante dos reféns.
- Quem está no comando agora? – Perguntou
em tom neutro.
- Ainda é o Fuminho. – Respondeu a voz para
seu alívio.
- Poderia falar com ele?
Algum tempo depois, ouve uma voz
entrecortada por alguns gemidos.
- O que aconteceu? Ouvimos tiros.
- Estamos comemorando o aniversário de um
L.P.OWEN
168
dos nossos, hoje é aniversário de
falecimento dele. - Omitira o motivo da
insubordinação ter início após a liberação do
gerente da agência.
- O pessoal da TV não vai entrar? – Falou
para mudar o assunto.
- Você está bem? Está ferido?
- Ferido, mas vou sobreviver.
- Não quer que envie um médico para te
atender?
- Já temos um aqui. Você não lembra? No
momento está chuleando meu ferimento.
- Você me criou um problema, todas as
emissoras querem o furo.
- Se for de bala estamos a disposição. –
Respondeu após novo gemido.
- Qual emissora prefere? – Disse sabendo que
alguns policiais estavam sendo treinados para
ajudantes de câmera.
- Não tenho preferências são todas iguais.
- Vou sortear uma e te avisarei para que
entrem em segurança.
O comandante verificou se a equipe estava
pronta e telefonou. Fuminho foi avisado sobre
a entrada da imprensa.
A equipe de TV, composta de policiais,
entrou na agência, imediatamente foi recebida
pelo líder.
- Por que não trouxeram uma câmera portátil?
– Desconfiou.
- Trouxemos uma fixa e outra portátil para
termos mobilidade na gravação e podermos
fazer os cortes sem deixar os telespectadores
vomitando do outro lado cada vez que
viramos a câmera. – Respondeu o técnico.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
169
- Quando estiverem prontos me avisem. –
Disse fuminho.
Enquanto o advogado dava as últimas
instruções para seu cliente e preparava-se para
estar bem alinhado diante das câmeras.
O médico, agora atendia um outro rapaz que
fora atingido de raspão, por uma bala. O
telefone tocou novamente, quando Fuminho
atendeu demonstrou insegurança ao retrucar.
– Quando eu estiver pronto direi que estamos
saindo, não antes.
L.P.OWEN
170
Capítulo cinquenta e dois
EM FRENTE DA TV
Na TV, em imagens gravadas, o repórter
comenta sobre o som de tiros ouvidos durante
as transmissões.
- “O que se ouviu há poucos minutos foram
tiros que vieram do interior da agência. A
polícia, até o momento, não tem ideia do que
ocorreu. A tensão aumentou, houve um
princípio de tumulto, os policiais aqui
presentes ensaiaram uma invasão
generalizada, mas foram contidos
imediatamente pelo comandante Freitas”.
Na sala todos estavam apreensivos em saber o
que ocorrera dentro do banco. Kasuo era o
mais ansioso, porque em alguns momentos
não sabia o que estava acontecendo devido ao
silêncio dos seus companheiros.
- O que será que ocorreu lá dentro? Atiraram
em algum refém? – Perguntou William.
- Onde estará Oscar? – Quis saber Helena.
- Aumenta o som, o comandante vai fazer
alguma declaração! – Informou Jorge ao notar
a movimentação da imprensa.
Todas as atenções se voltaram para o receptor
de TV.
- Senhoras e senhores iniciou, quero informar,
que os estalidos ouvidos foram tiros vindos do
interior do banco. A causa foi uma das armas
ter sido disparada acidentalmente, mas
felizmente, não causou ferimento em nenhum
dos reféns.
- Os únicos atingidos neste incidente, foram
os equipamentos e móveis. Foi o que me
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
171
garantiu o líder com quem estamos
negociando. – Mentiu para tranquilizar a
população.
- Eles fazem as coisas parecerem muito
simples. – Comentou Cláudio que até o
momento estava calado.
Novo silêncio na sala para ouvir mais um
pronunciamento do comandante.
- Estamos negociando para a rendição de
todos eles nos próximos momentos e
consequentemente a liberação dos reféns.
***
Ainda estava falando quando seu celular
tocou e recebeu a tão esperada notícia. Ele
tinha pressa, não queria que a rendição fosse
feita ao anoitecer por motivo de segurança.
- Estamos prontos! Vamos sair agora. – Disse
Fuminho ao comandante.
Determinou que saíssem com as mãos na
cabeça e devagar. Um a um, os reféns foram
saindo do banco e conduzidos para
identificação, Oscar e o médico, foram os
últimos a saírem.
- Deixa-me ir ao seu lado, porque não vai ser
possível colocar as mãos na cabeça, só faltava
levar um tiro da polícia. – Comentou ao
doutor rindo.
Finalmente os invasores saíram em fila
indiana também com as mãos na cabeça,
guiada pelo advogado e seguida pelos
policiais que estavam filmando toda ação
L.P.OWEN
172
dentro da agência. Todos foram
algemados. Os policiais assumiram o controle
da situação para reunir o maior número de
provas possíveis e a remoção do corpo de um
dos bandidos.
O arsenal deixado no interior do banco era
digno de um exército, chegando a
impressionar os policiais.
A quadrilha possuía submetralhadoras UZI,
pistolas semiautomáticas, espingardas calibre
12, alguns fuzis 7.62 e muita munição.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
173
Capítulo cinquenta e três
O RETORNO
À medida que ambos, o médico e Oscar
caminhavam, a multidão ali presente
começou a aplaudir os dois. Oscar ainda com
a roupa suja de sangue ficou ainda mais sem
jeito.
- Dessa maneira vou perder todo meu
rebolado. – Comentou para o doutor ao seu
lado.
- Gostaria de conhecer um cara como você
por dia! – Retrucou o outro sorrindo.
Até o comandante ensaiou algumas palmas,
mas resolveu não levar a cabo para manter a
postura.
- Vocês estão bem? – Perguntou enquanto
fazia continência.
- Obrigado, mas não merecemos. – Disseram.
- Tenho outras informações a respeito dos
senhores. – Retrucou o comandante.
Como todos os outros foram encaminhados
para eventual atendimento médico e os
depoimentos de praxe. Durante seu
depoimento, Oscar comentou sobre o líder.
- Quando fui falar com ele, notei que sempre
olhava sobre meus ombros, parecia estar
pedindo o consentimento de alguma outra
pessoa atrás de mim para responder. Somente
depois de algum tempo me respondia. Outro
fato é que ele não tinha autoridade sobre o
grupo, haja vista, que aconteceu um duelo
entre ele e o que foi morto e o motivo foi a
L.P.OWEN
174
saída do gerente da agência com os reféns.
- Vamos investigar, mas por hora te
agradecemos. Se quiser podemos mandar
uma viatura te levar para casa. – Disse o
comandante.
- Agradeço, mas moro próximo daqui. Vou
aproveitar para terminar minha caminhada
que comecei pela manhã. – Disse sorrindo.
- Vou entrar para o livro dos recordes como a
caminhada de muletas mais demorada do
mundo. – Completou.
Todos acompanharam com um olhar aquela
figura esquisita, porém impressionante, se
afastando.
***
Seus companheiros não viam a hora de vê-lo
entrar pela porta da sala fazendo suas piadas.
Quando isso aconteceu, todos correram em
sua direção, ele fez menção de sair
novamente.
- Preparei uma comida especial para você!
Espero que esteja com fome? – Helena
indagou.
- Estou morrendo de fome, mas confesso que
estou mais feliz por estar de volta. Vou tomar
um banho e trocar essas roupas sujas de
sangue do meu nariz que esborrachou a mão
do cara. – Falou sério.
- Já voltou ao normal. – William sorrindo
comentou.
Momento depois estava saboreando seu prato
preferido, espaguete ao sugo e um bom bife
acebolado.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
175
Comeu até não poder aguentar mais e como
sempre fazia deu graças.
– “Graças a Deus comi como um padre”.
Jorge, que sempre ouvia aquelas palavras,
ditas após as refeições, não entendia o
significado de “comer como um padre”,
perguntou.
- O que significa comer como um padre? Eles
comem muito?
- Antes de iniciar suas refeições você agradece
à Deus? – Questionou Oscar.
- Muitas vezes não. - Respondeu o outro.
- Então você come como um porco. – Riu.
Todos riram inclusive Jorge. Kasuo lembrou
dos momentos que passou naquela casa sem a
presença daqueles que agora o faziam sorrir
com as pequenas coisas da vida. Sabia que
seus pais torceram e ainda torciam por ele.
Como Oscar sempre brincava dizendo
“somos um bando de deficientes
excepcionais”, sabia que ele tinha razão
porque já não saberia viver sem a companhia
daquelas pessoas.
Cada uma tinha suas limitações, mas em
compensação eram poços de fraternidade,
carinho, amizade que minava até a borda para
se espalhar por todos os lados, além de outros
talentos que possuíam.
Kasuo, em seus pensamentos, fazia uma
análise do grupo.
Jorge falava apenas o essencial, alternava
momentos de alegria e tristeza. Tinha algo
para desabafar, mas não chegara o momento
L.P.OWEN
176
de fazê-lo, foi para a cozinha dar palpites,
por isso vivia recebendo bronca de Helena.
No fundo ele tinha a impressão de que os dois
gostavam dessas discussões. Tinha prazer em
voar e pular de paraquedas, mas isso era coisa
do passado.
William, o mais velho do grupo, intercalava
momentos de alegria com seriedade, mas
escondia-se quando estava triste. Havia
pressentido momentos em que o amigo
estivesse chorando pelo tom de sua voz. Certa
vez ouviu Oscar comentar sobre sua poesia,
mas não tinha certeza se ele escrevia
constantemente e o que elas continham.
Oscar, sem sombra de dúvida, era o mais
alegre. Helena havia comentado que ele tinha
uma feição angelical, olhos azuis da cor do
céu e cabelos e sobrancelhas ruivas. Ele
conseguia encher o ambiente com sua
presença. Kasuo chegou à conclusão de que
todos eles tinham algo especial.
Estava perdido em seus pensamentos, quando
ouviu apenas “o que você acha” e pediu
desculpas por não ter compreendido.
- Vamos fazer um ensaio agora ou deixamos
para amanhã? – Perguntou William.
- Seria interessante começarmos amanhã cedo
se você puder levar o Cláudio e o Ruan te
agradeceria. Irei junto para te fazer
companhia.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
177
Capítulo cinquenta e quatro
VERA
Vera acordou Ruan, deixou seu café da
manhã preparado e saiu. O dia seria
extenuante, havia muito por fazer, muitos
preparativos para o grande dia. Tinha pouco
tempo para organizar tudo o que ainda
faltava.
Enquanto a diretora se preocupava com a
alimentação, bebidas e a compra dos
materiais de última hora, Vera cuidava da
decoração do local onde seria o show.
Organizava também alguns voluntários, entre
eles, cabeleireiros, barbeiros, manicuras,
maquiadores e o pessoal da limpeza. Algumas
costureiras trabalhavam sem descanso para
ajustar as roupas que seriam usadas na festa.
Todos se dedicando ao máximo para deixar
os velhinhos bonitos.
Em sua agenda, algumas tarefas poderiam ser
riscadas como concluídas e uma delas, a
ligação para o senhor Kasuo informando a
mudança do local da apresentação.
Vera adorava visitar o asilo. Cada uma
daquelas pessoas que ali vivia tinha uma
história de vida, de alegrias e sofrimentos.
Gostava de conversar com elas, sempre
aprendia algo novo. Havia pessoas que
recebiam visita de parentes, mas a grande
maioria era visitada por pessoas estranhas,
mas com muito amor para oferecer e
passavam a adotá-los como da família.
L.P.OWEN
178
Com algumas delas, conversar era tão
agradável que não percebia as horas
passarem. Dona Olga era um exemplo, estava
sempre arrumada, com os cabelos penteados,
unhas feitas e o perfume que usava era muito
agradável. Não dispensava suas joias, dizia
que eram as únicas coisas que os filhos não
tinham posto a mão. Tinha dúvidas quanto ao
acidente que sofreu juntamente com seu
marido, onde ele faleceu e ela precisou ficar
internada em um hospital por meses até se
recuperar e ser transferida para aquele asilo.
No começo recebia visitas semanais dos dois
filhos, noras e netos, mas a partir do
momento em que assinou seu testamento,
decretou sua solidão.
Dona Olga considerava Vera como uma filha.
As duas se davam muito bem. Como sempre
comentava que ela era a filha que não tivera.
Outra pessoa que Vera adorava conversar era
o senhor Yuri, sua descendência russa
transmitiu-lhe um charmoso sotaque. Vivia
agradecendo Vera por ter-lhe apresentado
Olga. Dizia que ela foi o caminho para o
encontro de sua alma gêmea.
- Encontrei meu amor no final de minha vida,
meu único alento é que ainda temos a
eternidade para desfrutá-lo. – Disse numa
tarde quando os três conversavam.
Vera achava-o um poeta, mas Yuri dizia-se
apenas um apaixonado. Lembrou-se de outro
dia quando de repente ele olhou para dona
Olga e falou, “Não importa quanta vezes
nasci ou morri, o importante é que finalmente
eu encontrei minha nova razão de viver”.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
179
Os dois passavam a maior parte do tempo
conversando de mãos dadas passeando pelos
jardins.
Havia outras pessoas como dona Josefa, uma
baiana muito alegre. Onde ela estava, tinha
alegria. Não podia ver ninguém triste que
dava um jeito de fazer a pessoa se alegrar
novamente.
Dona Zefa, como gostava de ser chamada,
tinhas feições joviais, não aparentando a
idade que possuía. Vera suspeitava sobre o
motivo de sua aparência jovial ser a alegria
que tinha em viver.
Verificado o andamento dos trabalhos
concentrou-se no mais atrasado, após a
mudança de local, a decoração do palco e do
auditório. Foi até onde algumas voluntárias
dedicavam-se na confecção de pequenos vasos
de flores, que seriam colocados nas mesas
como lembranças. Outras faziam bordados
nas toalhas de mesa. Para ter uma ideia,
decorou apenas uma das mesas e ficou feliz
com o resultado.
Atendeu o telefonema do pessoal responsável
pela transportadora contratada por Kasuo.
- Boa tarde dona Vera! Meu nome é Mário,
fui contratado pelo senhor Kasuo, ele
informou-me que deveria acertar com a
senhora para saber se poderemos estar aí
amanhã cedo. Vamos montar os
equipamentos de som e instalaremos a
iluminação.
- O senhor poderá vir no momento que
L.P.OWEN
180
desejar, estarei aqui a partir das oito da
manhã. O senhor Kasuo informou-lhe o novo
endereço?
- Sim! Fomos avisados que não será mais no
asilo.
O tempo voava, olhou para o relógio
instalado em uma das paredes o dia estava
terminando, ainda tinha algumas coisas para
deixar em ordem.
Emile que acabara de chegar resolveu fazer
uma pequena reunião para um balanço do
andamento das tarefas e saber se haveria
necessidade de ajudá-la.
- Aqui estamos apenas dando os retoques
finais na decoração. – Vera informou.
- As confirmações e pagamentos dos ingressos
já foram feitos, pelo menos temos uma
estimativa do número de pessoas que virão.
Contando os internos, parentes e convidados
extras está em torno de quinhentas pessoas.
- Já que estamos com quase tudo acertado,
vamos descansar um pouco que amanhã
teremos muitas coisas para finalizar. – Emile
propôs.
Vera chegou em casa, mas Ruan estava fora.
Resolveu tomar um banho e comer algo e se
recolher. Antes que entrasse para o banho, o
telefone tocou.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
181
Capítulo cinquenta e cinco
O ÚLTIMO ENSAIO
Conforme haviam combinado, William saiu
logo após o café para buscar Ruan e Cláudio.
Durante o trajeto passou em frente ao banco
onde, no dia anterior, fora o palco de
momentos de apreensão e angústia. Agora
está tudo tranquilo como sempre, pensou.
Havia poucos vestígios do que tinha
acontecido. Procurou no interior do bolso do
paletó o envelope da carta que havia retirado
na central dos correios, lembrou-se de que
deveria fazer algo a respeito, mas resolveu
esperar até o momento oportuno. Chegando
em frente da residência de Ruan, apenas deu
um leve toque na buzina e o rapaz saiu
imediatamente. A segunda parada seria na
casa de Cláudio que ficava a uns dez minutos
dali. Não foi necessário sequer chamá-lo.
Estava esperando em frente ao portão.
Durante o trajeto, aproveitaram para se
conhecerem melhor. Cada um comentou a
maneira pela qual entraram na música.
- Desde que comecei a segurar objetos, eles
eram utilizados para espancar outras coisas de
casa, na verdade gostava de ouvir o som que
faziam. – Falou Ruan. - Minha mãe
comentou que não ficava quieto um minuto,
bastava ter nas mãos uma colher, um canudo
de suco, ou algo que pudesse fazer de
baquetas para montar minha batera. Um dia
uma professora reclamou com ela e sugeriu
L.P.OWEN
182
que me colocasse numa escola de música.
Aí eu sosseguei. Um pouco.
- Cláudio como começou? – Quis saber
William.
- Comecei tocando guitarra depois de algum
tempo, alguns amigos e eu, montamos uma
banda, mas tinha guitarristas demais, então
comecei a tocar baixo. Hoje não troco por
nada.
- William como aprendeu violino? –
Perguntou Cláudio.
- Na realidade meus pais me colocaram numa
escola de piano, mas minha paixão era o
violino, além de ser mais fácil de levá-lo para
escola. - Disse rindo.
William entrou com o carro no quintal, em
seguida foram para o estúdio, onde já se
encontravam Kasuo e Oscar. Todos se
cumprimentaram e cada um ocupou seu
lugar. Antes do início, Kasuo comentou as
boas novas.
- Acabei de receber a notícia de dona Vera.
Ela me informou que está tudo pronto para
nossa apresentação. Foi doado, por uma
pessoa de bom coração, o aluguel de um salão
muito bom com capacidade para abrigar os
parentes e as pessoas que quiserem nos assistir
e toda renda será revertida para custeio do
asilo.
- Levaremos os instrumentos amanhã pela
manhã. Contratei uma empresa de transporte
que fará todas as instalações. À tarde nós
aproveitaremos para ensaiarmos no local.
Acharam excelente a ideia. Assim poderiam
ajustar o som, luzes, posicionamento e etc.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
183
- Então vamos ensaiar para fazermos um dia
memorável, afinal eles merecem. – Disse
William.
- Todos merecemos. – Completou Jorge.
O ensaio transcorreu como sempre, algumas
paradas para pequenas correções, mas no
geral estavam prontos. Num dos intervalos
para o café, Oscar iniciou a capela de “TIME
TO SAY GOODBYE” quando menos
esperava, Helena começou a cantar com ele.
O pessoal, que saboreava um delicioso café,
ficou em silêncio para ouvi-los. As vozes
combinaram perfeitamente, Helena não teve o
menor constrangimento, sua voz de soprano
deu mais charme a canção.
“O que começou como uma brincadeira de
Oscar acabou se tornando algo sério, teriam
que encontrar uma forma de colocar os dois
para cantarem juntos, pelo menos esta
música”. – Pensou Kasuo.
Várias horas se passaram até que o cansaço
começasse a pegá-los.
- Acredito que estamos prontos! Amanhã
teremos um longo dia para acertos finais.
Gostaria que todos descansassem e se
preparassem para a apresentação. – Finalizou
Kasuo.
- Por que não avisam suas mães e ficam aqui?
– Sugeriu Kasuo.
- Não trouxe roupas e estou louco para tomar
um bom banho. – Respondeu Ruan.
- Roupa é o que mais temos aqui, é só
escolher alguma que te sirva.
L.P.OWEN
184
- OK! Então vamos aproveitar para
desmontar os equipamentos para o transporte.
– Disse Cláudio.
Enquanto Ruan avisava sua mãe e Cláudio a
dele o restante do pessoal desmontava e
encaixotava os equipamentos que seriam
transportados no dia seguinte.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
185
Capítulo cinquenta e seis
O DIA “D”
O show estava programado para as 19:00h
daquele sábado, cada um se preparou da
maneira preferida. Alguns resolveram apenas
descansar, outros caminharam um pouco,
mas tinham em comum a ansiedade do
primeiro show que seria para uma plateia tão
especial.
No asilo, os preparativos começaram assim
que o dia clareou. Vera, como sempre, chegou
antes do horário, encontrou Emile que
também não se conteve e resolvera chegar
mais cedo.
- Bom dia Vera! – Disse Emile.
- Hoje será um ótimo dia! – Respondeu.
Mal tiveram tempo para um café juntas, cada
uma foi para seus afazeres. Enquanto
caminhava para o local onde as últimas
senhoras eram penteadas Vera foi
surpreendida pelo gesto do senhor Yuri, que
se aproximou e entregou-lhe uma flor.
- Esta flor representa o carinho que eu e a
Olga sentimos por você e em agradecimento
por tudo que você faz por todos nós.
Vera que até o momento estava ansiosa
parou, e sem saber o que falar abraçou-o, deu-
lhe um beijo no rosto e saiu para não mostrar
que estava chorando.
Dona Olga, que observava de longe sorriu
imaginando o que Yuri teria dito. “Sempre
aprontando das suas, fazendo as pessoas se
L.P.OWEN
186
emocionarem”. – Pensou.
A exemplo de Emile, Vera também se
preparou no asilo para não perder tempo e
deixar tudo sob controle. No horário
combinado os ônibus de turismo
estacionaram em frente ao asilo. Eram
destinados ao transporte do pessoal até o local
do show.
O astral estava muito agradável, para onde se
olhava, havia um sorriso.
Os internos seguiam em direção ao pátio onde
Emile e Vera organizavam a fila para o
embarque nos ônibus.
Pareciam alunos de uma escola aguardando
para embarcar nos ônibus antes de uma
excursão. Um por um foram se acomodando
no interior do veículo, que por sinal era muito
confortável.
Dona Alzira, uma das internas, ficou
emocionada quando entrou e verificou o luxo
dos ônibus.
- Por que a senhora está chorando dona
Alzira? – Perguntou Vera preocupada.
- Nunca me trataram tão bem assim.
- A senhora pode escolher o local onde quer
ficar, isso é para todos vocês. – Vera deu-lhe
um beijo delicadamente.
Vera e Emile entraram cada uma em um
ônibus para coordenar o pessoal. Assim que
os motores foram acionados a bagunça
começou, todos voltaram a ser crianças, não
foi possível manter a ordem. Vera deixou as
coisas de lado e entrou na bagunça também.
Mais tarde descobriu que não fora apenas ela
quem esqueceu de manter a ordem.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
187
Ao pegar o microfone de bordo, o barulho
parou imediatamente, como num passe de
mágica.
- Estamos quase chegando, gostaria de pedir a
gentileza de mantermo-nos em ordem.
Durante a saída, primeiro os que estão nos
primeiros assentos e assim por diante.
A colaboração foi total e em pouco tempo
todos estavam em fila para entrarem no salão.
Vera pediu que aguardassem um pouco
enquanto foi verificar se estava tudo pronto.
Os rapazes da banda estavam usando ternos
iguais, variando apenas as cores das camisas.
Helena usava vestido preto longo, bordado a
mão, com detalhes de lantejoulas e paetês.
Estava tão bonita, que recebeu elogios de
todos, especialmente de Jorge.
- Está cada vez mais linda. – Disse. - Se Deus
me concedesse um desejo, pediria para poder
levantar-me e poder te dar um beijo.
Não foi necessário, ela abaixou e beijou-o.
- Estão todos prontos? – Perguntou William.
Ao receber a afirmativa, seguiu em direção a
garagem para pegar o automóvel.
- Vamos deixar o ego em casa para ter mais
espaço no automóvel. – Brincou Oscar.
Enquanto seguiam para o clube conversaram
sobre assuntos diversos, um deles foi o
excelente trabalho feito por Vera, mãe de
Ruan, junto ao asilo. William estacionou o
veículo e foram recebidos pelo diretor do
clube. Cada um dos componentes tomou seu
lugar e aguardaram pacientemente a chegada
L.P.OWEN
188
do público.
Assim que Vera entrou, Ruan se emocionou,
ao abraçá-la sentiu um nó na garganta. Ela
também estava orgulhosa do filho, estava
grata aos rapazes por aceitá-lo como
integrante da banda.
- Agradeço pelo esforço que os senhores
fizeram e continuam fazendo para participar
desta nossa homenagem aos que vivem no
nosso asilo. - Vera cumprimentou um por um.
Nesse momento, Emile, entrava apressada.
- Faço minha as palavras de Vera. Agradeço
imensamente todos vocês. Não tenho
palavras, mas desejo que Deus abençoe todos.
- O povo já está começando a fazer alvoroço,
podemos começar quando os senhores
preferirem. – Completou Emile.
- É para já. – Respondeu Kasuo.
No palco foi instalado um conjunto de
dezenas de lâmpadas que acendiam e
apagavam ao ritmo da música. Algumas das
luzes se moviam de forma sincronizada, por
todo o salão, uma profusão de cores, tons,
brilhos e intensidades das mais variadas
possíveis. Num canto estava o responsável
por aquele show. Um especialista em som e
iluminação contratado por Kasuo. Vera e
Emile caminharam em direção a porta do
salão, abriram-na convidando-os a tomarem
os seus lugares. Nos primeiros acordes de
“Charriots Of Fire, Carruagem de Fogo –
Vangelis”, as luzes iluminaram o salão,
algumas acompanhando o ritmo da música,
outras se mantinham acesas iluminando o
caminho que o público deveria seguir até
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
189
chegarem aos seus lugares. Cada um recebeu
de Helena e Vera uma rosa. A felicidade
estampada nos rostos, marcados pelo tempo e
pela vida, daquelas pessoas, fez Helena se
emocionar, tendo que fazer um grande
esforço para não borrar a maquiagem.
Prepararam-se com muito carinho e bom
gosto. Estavam vestidos, os homens de terno e
as mulheres trajando vestidos longos. O
cavalheirismo, que assim como eles, fora
esquecido nos dias atuais, podia finalmente
ser apreciado novamente.
Cada um foi ocupando seu lugar nas mesas
em ordem, ao som da banda.
O jantar começou a ser servido e o cardápio
muito bem elaborado, o cuidado com a dieta
daqueles que tinham problemas, não passou
desapercebido.
- Boa noite a todas as damas e cavalheiros
aqui presentes. – Iniciou Oscar. - Espero que
possam aproveitar e se divertirem bastante,
por isso estamos aqui.
Kasuo iniciou os acordes de uma música
composta e gravada por Roberto Carlos
chamada “Aleluia”.
Durante o refrão a plateia cantou junto e com
os braços erguidos agitando-os de um lado
para o outro fizeram a coreografia. Mantendo
o clima Oscar emendou outra.
- “Quando eu quero falar com Deus” – Disse
Oscar. - Apenas canto essa música. Composta
pelo rei Roberto Carlos e Erasmo Carlos. –
Começou a cantar.
L.P.OWEN
190
Enquanto cantava não se ouvia um som
diferente, prestavam atenção à letra e alguns
deles até aproveitavam para uma reflexão.
Na terceira música Kasuo deu o tom e Helena
começou a cantar “Vivere” (A. Anastásio – C.
Valli – G. Trovatto) em seguida Oscar
começou a cantar fazendo um dueto e ao final
da apresentação foram aplaudidos de pé. Na
música seguinte quem começou a cantar foi
Oscar. Ele e Helena cantaram “Vivo per lei”
(V. Zelli - M. Mengali – G. Panceri).
Ficaram impressionados com o talento
daquele pessoal e não paravam de aplaudir.
Enquanto isso na mesa, Yuri não conseguia
esconder a emoção que estava sentindo,
ansioso pelo momento em que Vera desse o
sinal de OK.
Assim que a música parou Oscar pediu um
minuto de atenção.
- Gostaria de pedir a atenção de todos para
chamar ao palco um convidado nosso, me
parece que vai cantar com a gente. Por favor,
peço que aplaudam o senhor Yuri.
Quando Yuri levantou e foi em direção ao
palco, Olga que não sabia o que estava
acontecendo, acreditou nas palavras de Oscar.
- Muito prazer senhor Yuri, espero que não
tenha estacionado o automóvel em local
proibido. – Brincou. - Desculpe não é nada
disso, eu peguei o papel com o texto errado. -
Fique a vontade o microfone é todo seu.
A atenção estava voltada para o palco, mais
precisamente para Yuri, que pela primeira vez
não encontrava palavras. Estava mudo.
Durante algum tempo o silêncio tomou conta
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
191
do local.
Vera a única que sabia o motivo de tudo
aquilo, não conseguia tirar os olhos de Yuri
na esperança que ele falasse algo antes que
alguém pudesse fazer alguma graça.
Ao cruzarem os olhares, Yuri sentiu o pedido
que Vera lhe fazia, para iniciar o mais rápido
possível.
- “Por favor, senhor Yuri diga algo”. – Dizia
Vera com o olhar.
- Gostaria da permissão de todos – iniciou
para ganhar tempo – e pedir um minuto de
vossa atenção. Como vivemos alguns anos
juntos, considero vocês como minha família,
portanto gostaria de participá-los de algo
muito importante.
- Antigamente fazíamos as coisas
precipitadamente, porque não tínhamos
cabeça, hoje agimos da mesma maneira,
porque não temos muito tempo, – disse
sorrindo.
- Durante minha vida tive altos e baixo,
quando jovem pensava em ter, ter, ter e ter.
Não sabia nem por ou para que precisava ter
tanto. Nesse tempo todo colhi muitos
espinhos, mas agora a vida resolveu dar-me
uma flor. – Disse apontando na direção de
Olga.
Uma luz branca iluminou Olga, que não teve
alternativa, senão levantar-se. Yuri tirou o
microfone do pedestal caminhou em sua
direção iluminado por uma luz azul.
- Sinto que meu coração neste momento é do
L.P.OWEN
192
tamanho do universo, mas este universo é
frio, vazio e escuro sem você.
Os olhos castanho-escuros de Olga tinham o
brilho intenso e na presença de Yuri tornava-
se ainda mais iluminados. Não era bela, mas
possuía algo que o tempo não conseguiu
sequer diminuir, sua delicadeza ao mover-se,
seu modo de falar e o tom de voz, para
resumir, seu charme.
Yuri estendeu sua mão e Olga delicadamente
segurou-a. Sentiu que ele estava muito
emocionado, seu tom de voz havia mudado,
suas mãos estavam geladas.
- Todas as vezes que me perguntavam a
respeito de quando me casaria, minha
resposta foi sempre a mesma, - “Caminhamos
para o lugar onde marcamos nosso encontro”.
– Iniciou.
Desde garoto sempre fora um sonhador, um
romântico. Era um homem que ainda
conservava os traços da beleza de sua
mocidade, mantinha seu preparo físico com
exercícios, longas caminhadas e uma
alimentação saudável. Tinha cabelos e olhos
castanhos, mantinha as costeletas bem
aparadas não dispensava o chapéu de feltro.
- É este o local onde marcamos nosso
encontro e gostaria de saber se você quer
seguir comigo pela eternidade? – Continuou
ele. - Esperei muito por este momento e não
devo sequer pensar em deixá-lo escapar.
Ao som de fundo “Em algum lugar do
passado” tocado por Kasuo, Olga respondeu.
- Como você sempre diz que “foi necessário
viver muitas vidas para me encontrar” eu te
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
193
digo que te esperei em todas elas.
Com um beijo Olga aceitou o convite.
Vera aproximou-se trazendo consigo uma
cesta onde um par de alianças estava
delicadamente colocado sobre a almofada
branca de cetim.
Yuri pegou uma e colocou no dedo de Olga.
- Esta aliança simboliza todo meu amor.
Como ela meu amor também não tem
começo nem fim. Ele é eterno.
Agora era Olga quem colocava o anel no
dedo de Yuri.
- Como o mar recebe os rios eu te recebo e
prometo envolver-te com águas tranquilas,
proteger-te com vales profundos de amor e,
depois de misturados nossos seres, nos
tornemos enfim indivisível.
Enquanto o casal selava o compromisso com
um beijo, a banda começou a tocar uma valsa.
No instante seguinte a pista estava repleta de
casais.
Alguns internos receberam a visita de
parentes, outros sabiam que continuariam
sozinhos. Este era o caso de dona Zefa, que
desde muito tempo estava só, mas procurava
manter o sorriso nos lábios.
Casou aos 14 anos, aos 16 anos estava
separada. Morando nas ruas de uma cidade
infinitamente maior do que o local de onde
viera. Nas horas de solidão, recordava de
alguns momentos de sua infância, pensava
com saudade em sua mãe e seus irmãos, mas
infelizmente o ódio por seu pai corroía seu
L.P.OWEN
194
coração. Era apenas uma criança que
gostava de brincar de bonecas, seu pai não
tinha o direito de vendê-la para um homem
muito velho e violento como aquele. Durante
o tempo em que estivera casada com aquele
crápula, sofreu muito.
A situação ficou pior, por mais incrível que
pudesse parecer, depois de ter sido posta fora
de casa como um objeto que não tinha mais
serventia tudo porque não conseguira
engravidar. Perambulou pela cidade durante
algum tempo até encontrar uma senhora que
lhe deu um lar, não demorou e já era tratada
como filha. Teve oportunidade de aprender a
ler e escrever, só não constituiu uma outra
família porque não poderia abandonar aquela
que a acolhera quando mais ela precisava e
ensinando-lhe tudo, inclusive a perdoar. A
partir do momento que perdoou seu pai nunca
mais o seu sorriso e a alegria de viver deixou
seu rosto. Após a morte de sua benfeitora,
Josefa foi convidada, pelos irmãos de dona
Lídia a deixar a casa para que pudessem
vendê-la e dividir o dinheiro entre eles.
Sempre recebeu cantada, mas não se permitia
amar ninguém porque aqueles a quem amou
não ficaram com ela. Não era bonita, mas sua
simpatia e seu sorriso faziam a diferença.
Sempre morou só, após sua aposentadoria
resolveu morar num asilo, pelo menos teria
companhia. Seu lema era “Viverei o hoje!
Amanhã? Viverei amanhã!”.
Deixava para chorar, sua saudade dos que
amou, quando estava deitada na cama, na
hora em que todos estivessem dormindo.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo cinquenta e sete
O SEGREDO DE YURI
Durante o intervalo, Oscar foi ao banheiro.
No corredor viu que o senhor Yuri
conversava com um homem muito bem
vestido. Achou que fosse alguém do asilo,
mas quando fechou a porta, ainda ouviu o
que o senhor Yuri falou ao outro.
- “Agradeço o senhor pela discrição”.
- “O valor cobrado pelo aluguel do salão foi
um pouco mais alto do que havíamos
combinado, porque tivemos que contratar
mais pessoas para melhorar a segurança”. –
Disse o outro.
- “Não tem problema, aqui está o cheque do
combinado e este outro é do excedente”.
Os dois estavam tão compenetrados nos
negócios que não perceberam a presença de
Oscar. De volta, não conseguiu guardar o
segredo e comentou para o grupo.
- Como você descobriu? – Perguntou William.
- Eles estavam conversando próximo ao
acesso dos lavatórios.
- Será que foi ele quem doou o salão para a
festa? – Quis saber Ruan.
- Como você sabe que foi doação? - Disse
Oscar surpreso.
- Você não sabe que a mãe dele participou da
organização da festa. – Replicou Jorge.
Kasuo que até o momento não tinha dito
nada a respeito apenas comentou.
- Bem senhores! Isso não nos diz respeito.
L.P.OWEN
196
Que tal doarmos a nossa parte com uma
linda canção?
A música escolhida foi “Who wants to live
forever” cantada por Helena.
Quando os aplausos terminaram, Oscar deu
um grito no microfone dando um susto no
pessoal que não esperava, inclusive seus
companheiros.
- Senhoras e senhores, agora vocês sacudirão
o esqueleto.
Como um maestro comandando sua
orquestra começou a comandar a plateia.
- Por favor, venham mais próximo do palco.
Vamos acompanhar a música com palmas.
Não vou fazer o mesmo porque posso cair. –
Disse arrancando gargalhadas da plateia.
A banda percebeu que os ensaios tinham sido
em vão. Ruan fez um improviso na bateria
para um breve aquecimento, enquanto o
pessoal na pista seguia as ordens de Oscar
acompanhando com palmas. Deu um sinal e
Helena começou a cantar (I will surviver –
Glória Gainor). A música fez o público
dançar como loucos.
- Você deve ter ficado maluco! – Disse Kasuo
ao ouvir Oscar pedir para tocarem (YMCA –
Village People).
- O pessoal está adorando estão pulando de
alegria. Estão felizes e isso é o que importa. –
Respondeu.
A festa foi um sucesso, quando Oscar
começou falar os que estavam no salão
aplaudiram de pé.
- Gostaria de dizer em nome de todos nós da
banda...- ficou sem saber o que dizer por
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
197
alguns instantes, como não deram sugestões,
emendou. – Por incrível que pareça não temos
nome, alguém poderia dizer um?
Na plateia, alguém gritou “Vocês são
demais”. Não teve dúvidas e batizou.
- Nós da banda “WE ARE LIKE THIS”
agradecemos pela companhia de todos vocês.
Antes que Oscar dissesse algo mais, a plateia
grita o nome da banda.
- “WE ARE LIKE THIS”. “WE ARE LIKE
THIS”.
- Esse cara não existe! – Disse William
colocando as mãos na cabeça, como aquele,
que não crê no que está acontecendo.
- Como estava dizendo, agradecemos a
oportunidade de compartilharmos esta noite
com os senhores e esperamos que tenham
gostado e acima de tudo, - deu uma pausa -
divertido.
Enquanto a banda tocava alguns acordes,
Oscar começou a apresentar os componentes
da banda.
- Senhoras e senhores, na bateria, Ruan, filho
de nossa querida Vera. No contrabaixo,
Cláudio. Na guitarra Jorge. Ao violino
William. Ao piano, Kasuo, nosso líder e nos
vocais Helena e Oscar este que vos fala.
William pensava em como era estranho,
senão cômico, ouvir aquela voz maravilhosa e
ao mesmo tempo presenciar aquela figura.
Achava que Oscar, até nisso era gozador.
Estava mergulhado em seus pensamentos,
quando ouviu os acordes do piano iniciando
L.P.OWEN
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uma nova música. Não demorou em
descobrir que era uma de “Elton John – I’m
still standing”. No final foram aplaudidos de
pé por alguns minutos e quanto mais
agradeciam, mais eram ovacionados.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
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Capítulo cinquenta e oito
A VOLTA PARA CASA
Enquanto arrumavam e guardavam os
instrumentos nas caixas onde seriam
transportados novamente para a casa de
Kasuo, Emile e Vera se aproximaram, cada
uma delas carregando algumas caixas
embrulhadas em papel de presente, que foram
distribuídas a todos da banda.
Emile estava emocionada com o sucesso da
festa e depois de entregar para Kasuo, Ruan e
Cláudio, uma pequena lembrança, dirigiu-se
ao grupo.
- Quero agradecer a todos vocês pelo
espetáculo maravilhoso que nos
proporcionaram. Que Deus os abençoe e, tão
breve seja possível, eu tenha a felicidade de
ouvi-los novamente num outro de maiores
proporções.
- Trabalho com este pessoal há muito tempo e
até hoje nunca tinha presenciado tamanha
felicidade. Todos demonstraram isso em cada
olhinho brilhando, assim como o meu deve
estar agora. – Brincou. – Muito obrigada por
tudo.
Vera que, juntamente com Helena, não
paravam de enxugar as lagrimas que
escorriam, com um lenço de papel já bastante
ensopado, iniciaram uma salva de palmas,
que acabou com o grupo aplaudindo também.
No final, formaram um círculo, todos
abraçados.
L.P.OWEN
200
- Até algum tempo atrás eu estava morto,
mas apareceram algumas pessoas e mudaram
minha vida totalmente. – Kasuo estava muito
emocionado e feliz. – Já fiz concertos em
locais com muitas pessoas, badalação, mas
este foi o mais importante, foi o dia em que
renasci.
Oscar, sem que os outros percebessem,
afastou-se e sentado ao piano começou a tocar
uma música de “Elton John – Can you fell
love tonigth”, ficaram surpresos porque não
sabiam que tocava piano.
- Estava precisando esvaziar minha alma. –
Disse quando se aproximou do grupo.
Helena abraçou-o e Oscar desabafou.
- Gostaria que meu pai pudesse estar aqui
para ver que não sou tão imprestável quanto
ele imaginou.
Ele mesmo quebrou o silêncio, tristeza não
fazia mais parte da sua vida.
- Se você ficar abraçando-me o Jorge vai ficar
com ciúmes. – Disse sorrindo.
Aquele foi um dia exaustivo, mal
conseguiram tomar um banho e foram
dormir.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
201
Capítulo cinquenta e nove
O SENHOR IVO MOURA
Convidado por Emile e sendo um homem
acostumado a gestos filantrópicos, não
poderia deixar de estar presente. Era uma boa
oportunidade para sair de casa e lutar contra a
depressão que cada dia tornava-se mais
implacável. Com o falecimento de sua
adorável Catarina tinha desmoronado todo o
castelo de felicidade que construíra durante
todos aqueles anos. Não tinha mais motivos
para viver, hoje se arrependia de não ter filhos
e ao receber o convite, achou, que tudo seria
um tédio, mas tinha dado sua palavra, não
deixaria de prestigiar sua grande amiga. Na
porta, ao ver a multidão, que se aglomerava
eufórica, ansiosa para entrar no salão, teve
vontade de voltar para o lugar de onde não
deveria ter saído, pensou, sua cama. Não
sabia o que estava acontecendo, mesmo com
vontade de sair correndo, sua curiosidade,
que algumas vezes em sua vida colocou-o em
algumas encrencas, mantinha sua necessidade
de descobrir os causadores daquele som
agradável que vinha do interior do salão. Foi
um dos últimos a entrar. Na porta foi recebido
com o abraço fervoroso de Emile, que o
encaminhou para uma das mesas reservadas
aos seus convidados.
Depois de acomodado, sua atenção voltou-se
aos detalhes da decoração, das pessoas ao
redor.
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202
Um homem que gostava de apreciar os
detalhes. - “É nos pequenos detalhes que
Deus faz as grandes diferenças”. –
Comentava.
Não deixou de notar aquele grupo estranho
que conseguia fazer sua alma mais feliz com
as músicas que apresentavam. - “Meu Deus
devo ter enlouquecido! Jamais pensei
encontrar uma música tão boa num lugar
deste”. – Pensou.
Novamente algo chamou sua atenção. Desta
vez foi uma voz angelical que anunciava o
número seguinte “Quando eu quero falar com
Deus” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos).
Muitas vezes tentou conversar com Deus,
mas achava que ele jamais ouvira suas preces,
porque se as tivesse ouvido, Catarina ainda
estaria ao seu lado.
A única coisa em que acreditava agora era
nos remédios que tomava, antidepressivos,
calmantes, estimulantes, entre outros.
Com o decorrer da apresentação dos rapazes,
a cada melodia que ouvia, ficava mais
encantado com aquele grupo. Em sua vida,
ouvira diversas bandas, duplas e orquestra,
mas eles tinham um detalhe a mais. Divertiu-
se como nunca e saiu com uma lição de que
“a primeira impressão, na maioria das vezes,
nos leva a cometer erros”.
Precisava tomar um banho e relaxar um
pouco para conseguir dormir. Deitou-se em
sua cama enquanto recordava-se dos detalhes
da festa, adormeceu. Seu sono foi embalado
pelas lembranças do que ouviu e por sonhos
onde ocorreu o que mais esperava, o encontro
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
203
com Catarina. Ela sorria enquanto
caminhavam ao redor de um lindo lago ao
som de uma música, que os seus ouvidos,
mesmo treinados, não conseguia decifrar, mas
que era harmoniosa.
Acordou cedo e feliz, achando que ainda
havia muito por fazer, precisava dar alguns
telefonemas.
L.P.OWEN
204
Capítulo sessenta
A PROCURA DA ESPOSA
A vida havia tomado um rumo diferente
daquele que planejara. Após a tentativa
frustrada de dar um fim em tudo e não ter
conseguido, pensou ter fracassado
novamente.
O que a princípio achou ser um exagero,
agora tinha a certeza de ter tomado a melhor
decisão. Uma carta registrada dificilmente é
extraviada, caso o destinatário não seja
encontrado, ela é devolvida ao remetente.
Graças a isso, agora sabia que sua família
jamais fora encontrada. Tateando o bolso
interno de seu paletó sentiu a presença do
envelope. Nele havia um carimbo onde
constava, mudou-se, como motivo da
devolução.
Ao chegar no endereço, onde supunha ainda
ser o local que sua esposa e filhos estivessem
morando desde sua saída de casa, parou o
carro, a dúvida transformou-se em decepção.
Pendurada na grade da janela, uma placa
onde estava escrito o nome e telefone da
imobiliária que estava vendendo o imóvel.
Procurou, com os vizinhos, sobre o paradeiro
dos antigos moradores, mas não obteve
informações que pudessem levá-lo até eles.
Sem saber o que fazer resolveu dar uma volta
pela redondeza, ainda tinha a esperança de ter
confundido o endereço. Descobriu, por acaso,
quando encontrou seu filho caçula entrando
ali algum tempo atrás. A vergonha que sentia
com os seus fracassos impediu-o de conversar
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
205
com ele na ocasião. Notou que havia algumas
correspondências e propagandas jogadas pelo
chão. Nelas constatou que os nomes dos
antigos moradores eram desconhecidos.
Resolveu retornar para casa e continuar a
procurá-los um outro dia. Já estava chegando
o horário do almoço e não tinha avisado o
pessoal. Ao se aproximar de sua residência
encontrou um homem parado em frente ao
portão. Tinha cabelos brancos, usava óculos
escuros, vestia terno cinza, feito sob medida.
Procurava nos bolsos alguma coisa. Por fim
desdobrou um papel e assim que percebeu a
presença de um automóvel se aproximando,
guardou-o novamente no bolso e caminhou
em sua direção. William desceu o vidro e
cumprimentou-o com um sorriso. O outro se
desculpou pelo inconveniente de estar parado
em frente a sua residência. No momento em
que ia se apresentar o celular tocou deixando
William ainda mais curioso.
L.P.OWEN
206
Capítulo sessenta e um
OS PRIMEIROS CONTATOS
O telefone indicava que a chamada se
completara. Após o terceiro toque, sua
paciência se esgotou. Não sabia o motivo,
mas tornava-se outro homem ao telefone. Já
estava quase desistindo, quando ouviu uma
voz conhecida.
- Alô! – Dito entre bocejos.
- Espero não tê-lo acordado! – Disse Ivo
Moura, sabendo ser exatamente o contrário.
- Devo ter um oitavo sentido. Tinha certeza
que era você. – Resmungou o outro. - O único
que me liga de madrugada só para me
acordar.
- Madrugada? São quase nove horas! Tenho
algo muito importante para dizer.
- O que é mais importante do que meu sono?
– Respondeu o outro.
- Gostaria de te apresentar os rapazes de uma
banda que conheci ontem. Ligue para mim
próximo da hora do almoço e terei maiores
detalhes.
Sem esperar por resposta alguma desligou.
- Não sei por que não se despede como todos
fazem, dizendo até mais, um abraço, até logo
e etc. – Pensou Joel quase explodindo de
raiva.
Odiava quando Ivo fazia isso. Por outro lado
adorava-o pelo ser humano que era. Um
pedido seu, sempre era por uma boa causa e
sabia que desta vez, não seria diferente.
Estava contente com o retorno do amigo.
Apesar da diferença de idade entre eles, Joel
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
207
considerava-o seu melhor amigo. Não sabia o
que tinha acontecido para sair daquele estado
depressivo, mas não importava o motivo,
tinha-o trazido de volta e isso bastava.
Como sempre, quando Ivo ligava, Joel
iniciava os preparativos para algo grandioso.
Resolveu por o pessoal em estado de alerta. A
primeira ligação foi para seu assistente.
- Alô! – Disse Homero.
- O homem voltou. Prepare-se! – Disse Joel
em seguida desligou.
- Odeio quando faz assim, por que não se
despede antes, como todos fazem, dizendo
um até breve ou algo parecido. – Pensou
Homero.
L.P.OWEN
208
Capítulo sessenta e dois
AO SOM DO TELEFONE
7:00 Horas, acordado pelo seu fiel escudeiro,
que sempre subia na cama sorrateiramente e
como um gesto de carinho lambia seu rosto.
Kasuo adorava-o, sentia-se seguro ao seu
lado. Bastava qualquer sinal de Romeu para
Kasuo se deixar levar. Sabia que sua
segurança dependia disso e se fosse
necessário, Romeu daria sua vida por ele.
Presente de um amigo da família, treinado
para guiá-lo e protegê-lo, tornou-se um
excelente cão-guia. Quando o telefone tocou,
desceu da cama, retirou o telefone do gancho
em seguida levou-o até Kasuo.
- Grande garoto. – Acariciou-o enquanto
retirava o telefone de sua boca.
- Alô!
- Bom dia! O senhor Kasuo, por favor!
- É ele.
- Bom dia senhor Kasuo! O senhor não me
conhece. Meu nome é Ivo Moura e gostaria
de agendar um horário para conversarmos.
- Sobre o que conversaremos?
- Música!
- Quando gostaria de marcar?
- Pode ser hoje à tarde?
- Poderíamos marcar um almoço! – Disse
Kasuo.
- Por mim está ótimo, em qual restaurante o
senhor prefere?
- O senhor poderia vir hoje aqui em casa.
Pode anotar o endereço?
Depois de anotar o endereço Ivo completou.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
209
- OK! Se não for incomodo, estarei aí por
volta das 11:00 horas.
- Ótimo! Estarei aguardando. - Kasuo
desligou o telefone e pediu para Helena
providenciar o que fosse necessário.
Na sala, Jorge e Oscar comentavam sobre a
qualidade do espetáculo da noite anterior. A
conversa transcorria com algumas
divergências, mas num ponto eles
concordavam, que os ouvintes divertiram-se
durante todo o espetáculo. Ao entrar na sala,
Kasuo comentou sobre o telefonema e a
reunião marcada com o senhor Ivo. Oscar
pensou ter ouvido esse nome em algum
momento, mas não sabia onde ou quando.
- Onde está o William? – Perguntou Kasuo. –
Não ouço sua voz.
- Ele saiu há algum tempo e não disse aonde
ia. – Informou Jorge.
- Caso não chegue até a hora do almoço,
paciência! Gostaria que estivesse aqui!
Continuaram conversando sobre os
acontecimentos daquela apresentação.
- Este nome Ivo não me é estranho. – Disse
Oscar.
Ao lembrar-se, onde tinha ouvido, exclamou
tão alto que assustou os outros dois.
- Já sei! – Sem esperar comentários. – Foi no
corredor próximo aos banheiros. Estava
conversando com dona Emile. Havia uma
terceira pessoa com eles, só não estou certo de
quem era. O que ele quer?
- Disse apenas que seria sobre música. –
L.P.OWEN
210
Respondeu Kasuo. – Vamos ter que
perguntar quando ele chegar.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
211
Capítulo sessenta e três
NO ESCRITÓRIO
Joel chegou no escritório mais cedo do que de
costume. Com a depressão de Ivo, seu amigo
e sócio, fez com que perdesse o entusiasmo de
estar ali sozinho, procurava resolver tudo por
telefone, não conseguia olhar para a mesa
vazia.
Homero, o “Braço de Ferro”, como era
chamado, até aquele momento, trabalhou ali
sozinho, ficou surpreso com a presença do
chefe que havia chegado antes dele.
- Bom dia senhor Joel! Que surpresa vê-lo no
escritório.
- Obrigado e tenha um bom dia Homero! Não
me diga que chegou agora para abrir o
escritório?
- Mesmo não tendo muito trabalho, ainda
assim temos que pagar algumas despesas,
como condomínio e por isso fui ao banco.
- Acho que teremos muito trabalho, de agora
em diante, como nos velhos tempos. Ivo está
voltando, ele está com muitas ideias novas e
vontade para trabalhar, pediu-me que ligasse
por volta das 11:00 horas para me informar às
novidades.
Mal terminou de falar o telefone soou e
Homero atendeu.
- IVEL Produções, Bom dia!
Do outro lado da linha, Ivo sentiu uma ponta
de orgulho e esboçou um sorriso de felicidade
ao ouvir o nome da empresa que fundou.
L.P.OWEN
212
Sentiu estar vivendo novamente.
- Bom dia Homero, meu querido Braço de
Ferro! Está pronto para voltar à ativa?
- Sempre estarei senhor Ivo.
- Ótimo! Passa-me para o Joel.
Como sempre não demorou em ouvir a voz
do amigo.
- Joel! Marquei um almoço com o líder da
banda hoje as 11:00 horas. Se aceitarem
minha oferta, vai valer a pena fazerem uma
nova apresentação, mas desta vez, em local
maior.
Como sempre, disse o que queria e desligou.
Depois de ouvir o clique do aparelho sendo
desligado, chamou Homero pelo interfone
para inteirá-lo das novidades.
Passou para ele uma lista contendo alguns
nomes que deveriam se contatados para uma
reunião durante os próximos dias. Na lista
havia alguns nomes conhecidos de Homero,
como Marcos Sá engenheiro de som, que
participava de todos os eventos produzidos
pela IVEL. Considerado excelente
profissional, quando se apresentava utilizava
o pseudônimo de MS. Só para simplificar.
Outro nome da lista Fred, que sabia como
iluminar o mundo, tanto que foi apelidado
por engenheiro. Seu verdadeiro nome
Frederico. Por último Gildete, encarregado da
supervisão da montagem do palco e tudo que
fosse necessário para produzir os efeitos
especiais, era também um dos mais revoltados
com o próprio nome e com sua família. Ele
odiava sua madrinha por sugerir tal nome a
sua mãe. Nome que sempre lhe causou
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
213
embaraços, por isso resolveu transformá-lo
em Gil.
Sempre que alguma pessoa necessitava
chamá-lo em voz alta, adicionava dona
Gildete, senhora Gildete e etc, deixando-o
irritado e constrangido. A gota d’água
aconteceu quando ao sair com uma garota
pela primeira vez...
- Muito prazer! Meu nome é Gildete. – Disse
ela.
- O prazer é meu! Meu nome é Gil. –
Tentando disfarçar sua vergonha.
- Nossa! Que coincidência! Quase temos o
mesmo nome.
Esse foi o primeiro e último encontro com a
garota.
Ficaram contentes com a notícia da
recuperação de Ivo e prontos para agirem a
qualquer momento.
Informado por Homero sobre a
disponibilidade do pessoal, Joel resolveu ligar
para Ivo.
- A equipe está pronta. – Desligou em seguida
só para ter o gostinho de fazer do mesmo
modo que Ivo.
Um sorriso maldoso surgiu em sua boca.
L.P.OWEN
214
Capítulo sessenta e quatro
O ALMOÇO
William aguardou pacientemente que
desligasse o aparelho.
- Em que posso ajudá-lo!
- Meu nome é Ivo, marquei com o senhor
Kasuo, mas acho que anotei o número errado.
- O senhor está absolutamente certo está é a
residência dele. Muito prazer, meu nome é
William.
- Puxa! Pensei ter errado, afinal nunca
encontrei um oriental com cabelos castanhos
e olhos esverdeados e ainda por cima com
1,90m de altura. – Disse sorrindo para
quebrar o gelo.
- 1,85m apenas! - Completou William. – Não
sei se está, mas se marcou com o senhor, com
certeza estará esperando.
Os dois entraram. Kasuo aguardava-o com o
pessoal na sala. Após as apresentações Ivo
iniciou suas explanações.
- Como falei pelo telefone, meu interesse é
musical. Depois que perdi minha esposa,
estive alguns meses morto por uma depressão.
Confesso, que ao receber o convite de Emile
para assistir ao espetáculo dedicado aos
internos do asilo, não tive a menor vontade de
aceitar. Ficar deitado em minha enorme cama
vazia era o que mais queria.
Enquanto abria seu coração sentiu Romeu
colocar a cabeça sobre sua perna como se
compartilhasse de sua dor.
- Emile é como uma filha, por isso aceitei e
me esforcei para cumprir minha palavra de
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
215
que estaria lá.
- No início, um pouco cético ainda, apenas vi
um grupo...Um grupo... – Nesse momento
ficou constrangido, mas foi socorrido por
Oscar.
- Um grupo esquisito. – Disse sorrindo.
- Obrigado! Um grupo esquisito mostrando
uma qualidade musical que não é sempre que
se vê. Por esse motivo estou aqui. Vim para
saber se os senhores têm interesse em fazer
uma apresentação para um público maior?
Por alguns instantes, novamente o silêncio
tomou conta do lugar.
- Se me perguntasse algum tempo atrás, antes
de conhecer essa turma, minha resposta seria
não, porque, como o senhor, também estive
morto por algum tempo se aceitarem sua
proposta, estarei com eles. – Kasuo falou.
- Nós nos conhecemos após um momento
digno de ser esquecido. Por acaso
encontramos Kasuo e nenhum de nós tinha a
pretensão de fazer qualquer coisa referente à
música. Foi por acaso também, que
começamos a tocar e muito mais ao acaso foi
ter recebido o convite de dona Vera para a
apresentação no asilo. Agora temos outra
proposta que não esperávamos. Acredito que
o céu está conspirando em nosso favor e
sendo assim, quem somos nós para não
aceitarmos. – William fez um aceno com a
cabeça, recebendo o apoio dos outros dois.
- Temos além de nós, Helena, Cláudio e Ruan
para consultar, mas acredito que seja vontade
L.P.OWEN
216
deles montar uma banda. – Completou
Kasuo.
- Precisamos marcar uma reunião para
acertarmos alguns detalhes. Acredito que o
primeiro passo será definirmos alguns
parâmetros para que a equipe possa trabalhar,
como tipo de espetáculo, onde será realizado
e etc. – Comentou Ivo.
- Seria por acaso um roteiro? – Indagou
Oscar.
- Exatamente! É o que precisamos para não
colocar os pés pelas mãos. – Completou o
outro.
- Vamos marcar para amanhã no final da
tarde. Precisamos avisar o Cláudio e o Ruan.
– Completou Kasuo. – Por hora vamos
almoçar, porque ninguém é de ferro.
Do outro lado da linha Ruan não acreditava
no que estava ouvindo sobre a visita de Ivo e
a proposta para o espetáculo.
- Você está falando sério Oscar?
- Claro! Sou um homem sério! – Disse rindo.
- Avisarei o Cláudio e amanhã estaremos ai.
- Venha amanhã cedo. Vamos ter que
conversar sobre alguns detalhes. – Completou
Oscar.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
217
Capítulo sessenta e cinco
PARECIA UM SONHO
Vera não entendia o motivo para tanto
contentamento do filho. Estava colocando a
mesa para o almoço quando Ruan entrou na
cozinha.
- Oscar acabou de falar comigo sobre um
homem que assistiu a nossa apresentação.
Gostou tanto que convidou-nos para um
outro num local maior.
- Parabéns para vocês! Tomara que dê tudo
certo.
- Agora preciso avisar o Cláudio.
- Primeiro almoça depois você liga.
- Não vou aguentar esperar tanto tempo.
Daqui a pouco eu almoço.
Dessa forma a notícia se espalhou
rapidamente. A felicidade dos rapazes era
contagiante. Faziam planos ambiciosos para o
futuro.
Tocar para uma plateia maior, uma casa de
espetáculos lotada seria a realização do sonho
de todos eles. Antes, porém precisavam
arranjar um nome para a banda, escolher um
bom repertório e ensaiar muito.
- Passarei por ai e iremos juntos. – Disse
Cláudio.
Aquela noite foi a mais longa de sua vida.
A claridade do dia estava dando sinais de sua
chegada na janela de seu quarto e ele não
havia conseguido dormir. Seus pensamentos
voltaram no tempo quando ao retornar para
L.P.OWEN
218
sua casa após o último espetáculo no bar.
Pensou em sua mãe, ao abraçá-lo com
carinho, anunciou que encontraria outro
pessoal e formariam um grande grupo. Jamais
imaginou que seria tão rápido. Resolveu
levantar-se e tomar um bom banho. Tomou
um café e saiu a caminho da casa de Ruan.
Ao chegar, ficou constrangido de tocar a
campainha achando ser muito cedo. Sua
surpresa foi ainda maior ao encontrar Ruan,
parado na porta, pedindo que entrasse.
- Desculpe-me, mas minha cama estava cheia
de pregos, não consegui dormir um minuto de
tamanha felicidade.
- Por que acha que estou acordado tão cedo?
- Não sei quanto a você, Ruan, mas não
consegui parar de pensar no assunto.
- Muito menos eu! Quando fechava o olho,
ouvia a voz de Oscar me dizendo para
chegarmos pela manhã. Você imaginou meu
pesadelo sonhando com ele fazendo graça
durante a noite toda?
- Pelo menos você ficou se divertindo.
- Olha minha cara, repare quanto me diverti.
Vamos tomar um café, depois iremos. Minha
mãe não aceita não como resposta ela já
preparou tudo para nós dois.
Entraram e foram recebidos com o sorriso de
dona Vera que terminara de por a mesa.
- Bom dia dona Vera!
- Bom dia Cláudio! Sua mãe como vai?
- Muito Bem! Graças a Deus!
- Você também está ansioso?
- Não consegui dormir.
- Isso acontece quando estamos diante de algo
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
219
que queremos muito e não sabemos como
vamos nos sair. Basta confiarmos em Deus e
fazermos o que tem que ser feito Ele nos
ajudará.
L.P.OWEN
220
Capítulo sessenta e seis
O ACERTO DA BANDA
Ainda era cedo quando os dois chegaram na
casa de Kasuo, apesar disso, já estavam todos
de pé.
Na sala teve início a reunião entre os rapazes
para que os dois fossem inteirados sobre os
últimos acontecimentos.
- Bem! Como Oscar já tinha informado vocês
dois. – Iniciou Kasuo. - Recebemos uma
proposta de um senhor chamado Ivo Moura
para montar uma apresentação. Sua proposta
é para ser numa casa de espetáculos ou em
um ginásio de esportes. Teremos apenas que
nos preocupar com os instrumentos e as
músicas e é por isso que estamos aqui, para
definir alguns pontos.
Kasuo deu a palavra para William para
decisão das questões pendentes.
- Conforme Kasuo me pediu listei alguns
tópicos, mas se alguém tiver alguma ideia a
acrescentar é só falar.
Tudo começa com o batismo, por isso acho
importante dar um nome para a banda.
O segundo, qual o estilo de música que
tocaremos? Qual o repertório. Quem tiver
alguma sugestão, por favor, pode começar.
Oscar iniciou e todos acharam que estivesse
brincando.
- Quanto ao nome acho que “WE ARE LIKE
THIS” é bom. Quanto ao repertório, por que
não tocamos as clássicas com estilo e arranjos
atuais e vice e versa. Contaríamos com a
presença de uma orquestra. Só teríamos que
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
221
ter cuidado nos arranjos.
Pela expressão no semblante dos presentes
notou que havia dúvidas e um pouco de
receio, em relação às suas palavras.
- Fred Mercury da banda Queen, por
exemplo, roqueiro com um toque lírico.
- Poderemos apresentar as mais conhecidas
com arranjos diferentes - Sugeriu William.
- Eu acho que o repertório pode ficar para
mais tarde. Temos urgência em dar um nome
para banda. O que acham de “WE ARE
LIKE THIS”?
Outro ponto para ser discutido, é se usaremos
uma orquestra, mas para isso precisamos
saber o tamanho do local.
- Você tem toda razão Kasuo. Devemos votar
e decidir o nome para a banda. Podemos
colocar outros nomes e depois escolher o mais
votado. - Completou Jorge.
Foram escolhidos três nomes conforme Jorge
tinha sugerido. Vários deles foram colocados,
alguns espalhafatosos outros tímidos, uns
alegres, outros tristes e no final sobraram
apenas três deles.
O escolhido, “WE ARE LIKE THIS”.
L.P.OWEN
222
Capítulo sessenta e sete
COMO ANTES
Ainda era noite quando saiu, estava feliz por
ter algo que o motivasse mais do que a
depressão. Os primeiros raios de luz davam
conta de que o dia seria ensolarado. Há muito
tempo não prestava atenção ao amanhecer,
tinha até esquecido de como eram bonitas as
cores que o céu adquiria. Agradeceu a
oportunidade de presenciar tamanho
espetáculo, lembrou-se de agradecer também
por ter encontrado aquele pessoal. Estava
disposto a fazer um grande trabalho com eles.
As ideias fervilhavam em sua cabeça.
Procurava imaginar o local, o palco, a
iluminação, o som, enfim, estava voltando ao
mundo. Ao posicionar seu veículo no portão
de acesso a garagem; Ivo foi abordado pelo
segurança que estranhou a presença de um
automóvel naquele horário. Baixou o vidro e
disse:
- Bom dia Carlos!
- Bom dia! O senhor por aqui a esta hora,
senhor Ivo?
- Desculpe-me não ter avisado que viria, mas
preciso preparar um material.
- Não tem problema nenhum, vou abrir o
portão para o senhor.
- Obrigado!
No escritório do sétimo andar situado na face
norte do edifício, entrou e seguiu direto até a
cozinha para preparar um café. Não tinha o
hábito, mas colocou o pó e água na cafeteira e
ligou-a. Abriu as janelas para que o ar da
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
223
manhã pudesse entrar, não estava disposto a
respirar o ar produzido pelo equipamento de
refrigeração. Percebeu que antes encontrava
tudo preparado, café, ar condicionado ligado,
mesa limpa, com as correspondências
colocadas sobre ela, então se deu conta da
eficiência e existência de Homero.
O aroma que o café exalava invadia suas
narinas e provocava aumento na salivação.
Encheu uma xícara foi até sua sala, ali,
enquanto sorvia seu café lentamente em
pequenos goles, olhava para o horizonte
fazendo planos para o futuro enquanto o dia
ocupava o lugar da noite tornando tudo
visível.
Joel e Homero viram as luzes acesas e ficaram
preocupados. Ao entrarem encontraram Ivo
bem-humorado.
- Bom dia! Os senhores parecem bem-
dispostos.
- Colocaram prego na sua cama? – Disse Joel.
- Preparei o café peguem uma xícara, mas não
aceito reclamações. – Completou Ivo.
- Acabei de perder meu emprego! –
Resmungou Homero.
- Não precisa se preocupar, não tenho
intenção de tomar o seu lugar. – Brincou o
outro.
- Vocês estão preparados para a reunião de
hoje? – Questionou Ivo.
Homero foi quem respondeu enquanto
saboreava seu café.
- Entrei em contato com todo o pessoal e eles
L.P.OWEN
224
virão hoje pela manhã. Todos me
confirmaram a presença.
Não demorou e o interfone tocou anunciando
a chegada de Fred, Gil e MS. Após os
cumprimentos e o café, Ivo iniciou explicando
os reais motivos da reunião.
- Hoje os senhores terão o prazer de conhecer
um grupo esquisito, mas tão fantástico. Posso
garantir que a primeira vista, o sentimento vai
ser de dúvida, mas ao ouvi-los, cada um terá a
impressão de não estar à altura de prepararem
seus equipamentos. – Continuou ele. -
Confesso que antes de entrar no salão, ouvi-
los, me motivou a querer conhecê-los, porque
se fosse o contrário não esperaria a
apresentação começar.
- Para quem tem os nomes como os nossos, a
gente tira de letra. – Comentou Gil.
O comentário feito foi o estopim para uma
gargalhada generalizada. As ideias e sugestões
eram todas anotadas por Homero
encarregado de providenciar o necessário para
colocar em prática o que os rapazes haviam
decidido.
O bate papo avançou o horário do almoço,
somente percebido quando MS informou que
seu estomago já estava digerindo seu esôfago
de fome.
- Minha Nossa! Já é quase uma hora, vamos
comer algo aqui mesmo, porque o pessoal
está para chegar.
Homero se incumbiu de telefonar para o
restaurante e fazer as encomendas das
refeições para todo o pessoal. Mal terminaram
de almoçar e tomar um café feito na hora,
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
225
desta vez por Homero, o porteiro anunciou a
chegada dos rapazes.
L.P.OWEN
226
Capítulo sessenta e oito
NO TRAJETO
- Bom pessoal está na hora! – Disse Kasuo.
Cada um ocupou seu lugar no automóvel,
William ao volante, Kasuo e Jorge na frente,
Cláudio, Ruan, Oscar e Helena no banco
traseiro. Oscar assoviou e Romeu, sem
hesitar, pulou no colo dos que estavam
sentados no banco traseiro.
- Estão todos acomodados? – Perguntou Jorge
fazendo piada.
- Estamos ótimos! – Respondeu Oscar em tom
de sussurro.
William acelerou e o automóvel ganhou
velocidade passando por avenidas
arborizadas, ladeadas por edifícios, dos quais,
a luz do sol era refletida nas vidraças.
Repentinamente Oscar grita e com ele a
reclamação dos outros três.
- Abram os vidros estou sufocando. Romeu!
Não me diga que você soltou um pum?
A agitação tomou conta de todos que estavam
no banco traseiro, em busca de ar puro.
Romeu, por sua vez achando que estavam
brincando com ele latia e abanava o rabo de
felicidade.
- Pare de zombar da gente, seu cão
despudorado! O que andou comendo nos
últimos dias? – Ele mesmo respondeu. –
Minhas meias?
Apesar do mau cheiro, era difícil não achar
graça de Oscar. Riram da situação, quando
Cláudio quis fazer um comentário e sua
gagueira não permitiu que completasse a
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
227
palavra, deram mais risadas.
- Vo..vo...vo......
Oscar não deixou passar e brincou com
Cláudio.
- Você viu Romeu o que fez para o rapaz?
Cláudio respirou fundo e falou de uma só vez.
- Você queria que ele segurasse?
Novamente todos riram.
Não demorou e estavam estacionando no
edifício, onde ficava o escritório de Ivo. O
porteiro ficou impressionado com o aspecto
do grupo. Foi Oscar quem os anunciou para
quebrar o gelo.
- Boa tarde! Gostaríamos de falar com o
senhor Ivo.
- A quem devo anunciar?
- A nós mesmos. – Brincou.
- Seu nome. Por Favor.
- Meu nome é Oscar, por favor, diga que é por
parte do senhor Kasuo. – Disse apontando em
sua direção.
O porteiro anunciou-os. Enquanto
aguardavam no saguão apreciavam alguns
quadros ali expostos.
L.P.OWEN
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Capítulo sessenta e nove
1ª IMPRESSÃO
Sobre a mesa, encontravam-se as anotações
de tudo o que já haviam acertado. Foi Gil
quem abriu a porta para atendê-los. Após as
apresentações seguiram para a sala de
reunião. Ivo quem iniciou a conversa, não
escondia a felicidade em trabalhar com os
rapazes.
- Agradeço a presença dos senhores aqui em
nossa sede. Como já havia antecipado no
almoço que tivemos, nossa intenção é
montarmos um espetáculo com vocês. Fiz
questão de apresentá-los minha equipe e meu
sócio para definirmos alguns pontos. Havia
pensado num teatro, mas como sou
ambicioso, confesso que um ginásio de
esporte não será má ideia.
Ivo deu uma pausa para Joel fazer seus
comentários iniciais.
- Quando Ivo me disse que havia um grupo
com o qual ele tinha muito interesse em fazer
um trabalho conjunto, naquele momento tive
a certeza de que eram músicos fora de série,
caso contrário, não conseguiria fazer Ivo
voltar à ativa. Por esse motivo agradeço por
terem vindo. - Joel prosseguiu. - Deste
momento em diante teremos muitas coisas
para definir. Acredito que a primeira delas é
sabermos o tamanho do espetáculo que
queremos fazer e a partir daí planejar os
passos futuros.
Houve consenso sobre o que Joel acabara de
falar. Definido o local como sendo um ginásio
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
229
de esportes, resolveram fazer uma estimativa
do tempo necessário para aluguel do local e a
montagem do espetáculo. Definiram como
data provável final de novembro e meados de
dezembro. Ao término da reunião que se
prolongou até o inicio da noite tinham quase
tudo acertado, onde e quando seria a
apresentação, tempo de duração, numero de
músicos entre outras coisas.
- Bem senhores agora que temos quase tudo
praticamente acertado poderão fazer um
contrato e assiná-lo na semana que vem. –
Informou Joel.
- De nossa parte não há problemas, basta nos
avisar. - Replicou Kasuo.
A volta foi mais tranquila e rápida. Em casa o
que mais se ouvia eram reclamações sobre
estarem cansados e famintos. Resolveram
pedir comida italiana.
L.P.OWEN
230
Capítulo setenta
INÍCIO DOS TRABALHOS
Na manhã do dia seguinte, bem cedo, já
estavam trabalhando no projeto. Gil disposto
a fazer do palco com muita segurança, porém,
com alguns detalhes permitindo a utilização
de efeitos especiais, que pudessem interagir
com os rapazes. Tinha várias ideias, mas
todas teriam de obedecer a critérios rigorosos
para garantir a segurança principalmente de
Oscar que tinha dificuldade para locomoção,
no entanto, prezaria por espaços livres
favorecendo sua movimentação por todos os
lados do palco.
Ao mesmo tempo MS imaginava os tipos de
microfones, equipamentos de som suficiente
para cobrir todo o local sem interferir na
qualidade.
Fred, encarregado da parte elétrica e
iluminação, por sua vez quebrava a cabeça
com o projeto do palco e tamanho do ginásio
para dimensionar a quantidade de energia
necessária.
O começo de todo projeto é sempre assim,
basta dar o pontapé inicial e tudo fica mais
fácil. – Pensou.
Por sua vez Ivo e Joel saíram em busca de
patrocinadores. Não seria fácil, mas poderia
contar com parceiros de outros eventos.
Ivo estava empenhado em fazê-lo, mesmo que
fosse seu último trabalho. Em sua primeira
visita foram recebidos com muita alegria e o
acordo selado com um brinde de água sem
gás no seu melhor estilo.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
231
O tempo passou rapidamente e quando
menos esperavam, estavam às vésperas da
apresentação. O consumo de café crescia à
medida que o prazo diminuía. Enfim o dia D
chegou.
L.P.OWEN
232
Capítulo setenta e um
ATÉ A EXAUSTÃO
Sem exceção, todos estavam tomando o café
da manhã e o dia não havia amanhecido. 6:00
Horas em ponto, a campainha tocou e pelo
interfone ouviu-se a voz de Ruan e Cláudio
dizendo “Podemos entrar?”.
- Eles não dormiram! – Disse Oscar, pois
estava impressionado com o horário.
- Vocês poderiam ficar aqui com a gente,
assim não precisariam acordar tão cedo.
- Precisamos perguntar para nossas mães,
afinal elas ficarão sozinhas durante esse
período e depois te informamos Kasuo. –
Respondeu Cláudio.
Os ensaios começaram como sempre com
muitas paradas para acerto de detalhes. Cada
um procurava dar sugestão para melhorar a
performance do grupo.
Não havia líder nem liderado apenas pessoas
fazendo o melhor de si. Um novo local foi
necessário para os ensaios com a orquestra e o
coral.
Como acontece sempre o tempo é implacável.
Estavam exaustos depois de tantos ensaios,
mas apesar de preparados o frio na barriga era
inevitável.
- Estamos a poucas horas do maior e melhor
dia de nossas vidas. Acredito que foi para esse
dia que nascemos. Tudo o que Deus nos deu
foi para nos preparar para esse momento e
tenho certeza de que será inesquecível para
todos nós. Já fiz diversas apresentações, mas
nenhuma será tão importante para mim do
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
233
que esta que faremos juntos.
Gostaria de agradecer todo o empenho de
cada um e pedir para que amanhã vocês
acima de tudo divirtam-se.
Ao terminar, Kasuo estava emocionado por
perceber que ali estavam pessoas que como as
lagartas transformaram-se e no dia seguinte
fariam seu primeiro voo.
L.P.OWEN
234
Capítulo setenta e dois
RETOQUES FINAIS
Durante a noite todas as equipes, de Gil, Fred
e MS trabalharam dando os retoques finais. O
som e a iluminação estavam sendo ajustados
para que todos os equipamentos
funcionassem cem por cento para o ensaio
que aconteceria na manhã seguinte.
Com o mapa na mão, Fred revisou toda a
programação feita na mesa de iluminação.
Por sua vez MS preocupava-se no ajuste da
equalização do som.
A madrugada já estava em sua metade final
quando foram descansar um pouco. Os três,
muito cansados com a maratona, teriam que
estar prontos durante o último ensaio da
banda para eventuais ajustes.
O sol nem tinha aparecido por completo e os
músicos já verificavam a afinação dos
instrumentos. As cópias do roteiro do
espetáculo eram afixadas em pontos
estratégicos. Os rapazes da banda ensaiaram
suas marcações, todos os detalhes foram
revistos cuidadosamente.
Foram servidos lanches e ingeridos ali mesmo
no local dos trabalhos. As horas passavam,
ainda havia muito trabalho por fazer e a
segunda metade do dia já batia à porta.
Finalmente, depois de tudo checado,
resolveram descansar um pouco até o início
do espetáculo. Para evitar locomoções
desnecessárias, haviam montado alojamentos
e camarins confortáveis atrás do palco.
O grande momento estava chegando, os
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
235
nervos estavam à flor da pele. Do lado de fora
o público aguardava a abertura dos portões.
Há muito tempo, se aglomeravam próximos
da entrada.
Conforme planejado, os portões foram
abertos as 19:00 Horas, duas horas antes do
início da apresentação.
A noite estava quente sem nuvens que
demonstrassem mudanças no tempo. As
pessoas corriam para ficarem próximas do
palco. O planejamento e colocação dos telões
e o cuidado com a perfeita distribuição do
som possibilitaram aos presentes assistirem
todos os acontecimentos do espetáculo.
Os Spots iluminavam apenas o público. O
palco, com a cortina ainda fechada e sem
iluminação alguma, aumentava a curiosidade
do público.
No camarim, estavam reunidos os músicos da
banda e da orquestra, o coral e os
colaboradores para o momento de orações.
- Gostaria de agradecer primeiramente a Deus
pela possibilidade de estar aqui com todos
vocês que se empenharam na montagem de
toda essa estrutura e de acordo com o Oscar,
nós deveremos dar o nosso melhor lá no
palco, porque vocês fizeram o melhor. Peço
também que Deus abençoe todos vocês. A
hora é esta.
Em seguida cada um assumiu seu posto para
o início da apresentação.
L.P.OWEN
236
Capítulo setenta e três
O ESPETÁCULO
Em pé num canto do palco Ivo fazia um
balanço do trabalho feito. A divulgação do
evento tinha sido perfeita, considerando que o
grupo era desconhecido do público,
conseguiram lotar um ginásio de esportes.
Nas chamadas publicitárias foram utilizados
trechos da apresentação no asilo e para os
panfletos e cartazes, as fotos foram
produzidas por um jovem no início de
carreira, mas que com muita dedicação e
competência tinha feito um grande trabalho.
- Vieram por curiosidade? – Pensou.
Sabia que teriam uma grande surpresa, assim
como ele no dia em que os ouviu pela
primeira vez.
Aqueles meses foram de trabalho árduo, tanto
na busca de recursos com patrocinadores,
quanto na divulgação do evento nos meios de
comunicações.
Foi necessário usar de toda forma de
persuasão, para obter espaço na mídia, afinal
era o preço do anonimato. Devia favores para
várias pessoas, mas o importante é que
conseguiu atingir sua meta, o resto seria com
os rapazes. O sucesso dependia da
apresentação neste espetáculo.
Pouco antes de ser abordado por Emile e Vera
disse em voz alta: “Desejo para todos vocês
muita merda”.
As duas vinham acompanhadas por um
jovem senhor que foi acomodado próximo do
palco junto das cadeiras reservadas para eles.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
237
- Olá garotas! Vejo que conseguiram.
- Deu trabalho, mas conseguimos. – Replicou
Emile.
- Tivemos que bancar detetives. A ideia que
nos deu de começar pelo cartório foi
importante para nosso sucesso. – Completou
Vera.
- Pensei que tivessem fugido, faz mais de três
dias que procuro falar com vocês e não as
encontro.
- Tivemos que viajar para o interior de Minas
Gerais. Nossas informações nos levaram até
uma chácara e mesmo assim não tínhamos
certeza se eram corretas. O importante é que
nós conseguimos. – Concluiu Emile.
L.P.OWEN
238
Capítulo setenta e quatro
A SIMPLES VERDADE
Com os integrantes da banda em seus lugares
no palco, foi dado o sinal para o início do
espetáculo. Todas as luzes que iluminavam a
plateia foram apagadas e a escuridão fez
aumentar a expectativa das pessoas ali
presentes. Repentinamente do lado oposto ao
palco surgiu um facho de luz produzido por
um holofote muito potente iluminando
aleatoriamente grupos de pessoas que estavam
na plateia. Ao mesmo tempo em que era
ouvido o som de hélices girando, uma
corrente de ar muito forte sendo lançada sobre
as pessoas faziam-nas sentir a sensação de
terem um helicóptero sobre suas cabeças. Os
equipamentos responsáveis por tais efeitos,
ventiladores potentes, estavam colocados no
teto do ginásio. Enquanto a plateia se
preocupava em procurar o “tal aparelho” a
cortina foi aberta. Ainda com as luzes do
palco apagadas a banda iniciou a música
“THE PAPIEST DAYS OF OUR LIVES e
ANOTHER BRICK IN THE WALL, parte 2
– Pink Floyd”, cantadas por Jorge e as três
garotas lideradas por Helena.
No fundo do palco, um coral de 50 vozes
ladeava a bateria que estava colocada num
nível mais elevado isolada por acrílico
transparente. Logo abaixo a orquestra regida
por um maestro amigo de Ivo. À frente, o
piano de Kasuo, Jorge em sua cadeira de
rodas, Cláudio, William e Helena e as duas
garotas que faziam back-vocal. Oscar tinha
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
239
um espaço na frente do palco onde podia
caminhar livremente sem perigo de tropeçar
em fios com suas muletas. A plateia vibrou
com o som produzido pela banda. Assim que
o último acorde foi dado, novamente todas as
luzes foram apagadas. Em poucos segundos,
no centro do palco, Oscar em seu terno
branco, que iluminado por um facho de luz
negra tornou-se azulado, era erguido por um
elevador hidráulico, de cuja base saia uma
fumaça densa produzida por uma máquina,
dando a impressão de que estivesse levitando
em meio à neblina.
À medida que Oscar era erguido,
acompanhada pela orquestra, a banda
iniciava os acordes de “WIND OF CHANGE
– Scorpions” com uma roupagem diferente.
Quando a música terminou, enquanto a
plateia aplaudia, assoviava, gritava. Um novo
efeito visual iniciou. A luz que o iluminava
apagou e imediatamente outras lâmpadas
passaram a iluminar todos os músicos que
estavam no palco, fazendo Oscar desaparecer
como num passe de mágica.
Assim que o elevador baixou, um dos
seguranças pegou Oscar no colo e correu em
direção ao fundo do palco, onde um carro
elétrico o aguardava para levá-lo até o outro
lado do ginásio atrás da plateia.
O assistente trocou seu paletó branco por um
preto com apliques de lantejoulas, enquanto
um outro retirou a calça branca com um
pequeno puxão, embaixo apareceu outra de
L.P.OWEN
240
cor preta. A grande ideia de utilizar
Velcron nas costuras, para facilitar a remoção,
foi dada pela mãe de Ruan.
- Foi outra grande ideia ter colocado duas
calças, senão teria que ficar pelado! Imaginem
as garotas correndo atrás de nós por minha
causa? – Comentou para os rapazes que o
acompanhavam.
- Ia ser uma loucura, teríamos que aumentar o
número de seguranças. – Replicou um dos
rapazes.
Em pouco tempo Oscar estava no lado oposto
do palco pronto para entrar em cena.
Enquanto isso, no palco, Helena cantava
“WHO WANTS TO LIVE FOREVER”.
Assim que a música encerrou todas as luzes
foram apagadas novamente e a escuridão
tomou conta do local, algumas pessoas
acendiam seus isqueiros inutilmente na
tentativa de enxergar algo, outras assoviavam
ou gritavam até que uma voz se fez ouvir.
- Olá! Onde colocaram o maldito interruptor?
Por favor, alguém poderia acender a luz do
banheiro? Não consigo ver nada.
A plateia fez silêncio imaginando que algum
integrante da banda tivesse ido ao toalete com
o microfone ligado sem perceber.
- Como vou conseguir acertar isso? Vai cair
para fora do vaso!
O som de água caindo no chão foi ouvido.
- O que será esse botão? Será a descarga?
Nessa escuridão só tem uma maneira de
saber.
O som que o público ouviu foi de uma
descarga quebrada que não parava de despejar
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
241
água dentro do vaso sanitário.
- Nossa! Não para de cair água. Desse jeito
vai acabar com toda água do planeta.
Socorro! – Gritou. - Alguém poderia fazer ela
parar de desperdiçar tanta água.
Essa era a deixa. Um canhão apontou seu
facho de luz na pista central, onde se via um
rapaz caminhando com dificuldades em
direção ao palco enquanto cenas de lugares
áridos da terra eram apresentadas nos telões.
A banda, por sua vez, iniciava a introdução
da música “TERRA PLANETA ÁGUA –
Guilherme Arantes”. Alguns ficaram
impressionados com aquela figura se
arrastando em direção ao palco, mas quando
ouviram-no e no tom de sua voz, perceberam
que a brincadeira fora para alertar de algo
muito sério que ocorria em muitos lares,
aplaudiram efusivamente. Sem pausa entre
elas, iniciou os acordes de “EVA – Rádio
Táxi”. Enquanto era cantada, nos telões, via-
se a poluição tomando conta do ar, testes com
bombas nucleares, homens devastando as
matas, pessoas jogando lixo nas ruas e rios
das grandes cidades. Em seguida, os furacões,
maremotos, degelo dos polos, alagamentos,
regiões devastadas por erosões, enfim o caos.
Assim que foi dado o último acorde, fez um
pequeno alerta.
- Precisamos refletir com carinho em todas as
nossas ações, o que vemos, o que escutamos e
o que fazemos.
– O que vemos pelos meios de comunicações,
L.P.OWEN
242
sobre a degradação dos homens
pertencentes às instituições públicas e
privadas nos faz achar que todas as maçãs
estejam podres. Acreditem, isso não pode ser
verdade, porque ainda resta você.
- O que escutamos sobre a libertação de
criminosos perigosos, em nome da aplicação
das leis de “direitos adquiridos” ou coisa que
o valha. Jamais se ouve dizer, que elas foram
mudadas para que se puna com rigor o
culpado de crimes hediondos e não ocorra
mais esse tipo de privilégios. Não me
assustam os “defensores dos Direitos
humanos” somente se preocuparem com os
agressores. As vítimas, essas já não precisam
de Direitos Humanos, porque já não são mais
humanas, tornaram-se somente estatísticas.
- O que fazemos ou podemos fazer? A
resposta pode estar com cada um de nós,
porque para alterarmos a matéria, devemos
alterar a estrutura do átomo e para mudar a
sociedade, devemos transformar o indivíduo.
Como me preocupar, em mudar o mundo, se
não consigo modificar as atitudes do cara do
espelho?
- Enquanto os políticos se preocupam em
fazer conchavos, em planejarem formas e
fórmulas de ganharem mais, homens,
mulheres, crianças e idosos, sofrem ou
morrem jogados pelos corredores dos
hospitais públicos. Nas ruas dos grandes
centros, jovens são consumidos por drogas,
enquanto isso no parlamento a pauta
principal é o novo salário dos parlamentares.
A quantia de dinheiro desviada dos cofres
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
243
públicos é suficiente para resolver quase todos
os problemas na saúde, de moradia e de
infraestrutura. Agora pergunto! – Fez uma
pausa. - O que fará o cara do espelho?
Oscar, como sempre, falou de improviso,
deixando os outros sem saber o que fazer,
mas no final todos concordavam com ele.
Enquanto cantavam “WE ARE THE
WORLD – Michael Jackson” no telão tudo o
que foi dito por Oscar era exibido em forma
de videoclipe. A plateia acompanhou
cantando junto.
Durante o espetáculo foram apresentadas
diversas canções. Ficaram boquiabertos com
o grupo, com os efeitos especiais
apresentados, com a iluminação, as bolhas de
sabão que caiam como chuva refletindo cores
diversas à medida que as luzes incidiam sobre
elas.
A orquestra iniciou “SWEPT AWAY –
Yanni” e nos telões, eram mostradas
situações que a união dos povos poderia
tornar-se realidade. Pessoas se abraçando,
flores desabrochando, crianças caminhando
de mãos dadas com idosos, no final apenas o
Sol se pondo no horizonte. Ao olhar de
relance para o telão, Jorge viu que ele também
precisava seguir as palavras que Oscar tinha
dito.
Oscar apresentou os componentes da banda e
o nome do maestro que regia a orquestra.
O final da apresentação estava próximo, uma
canção do grupo “Scorpions – LIFE IS TOO
L.P.OWEN
244
SHORT” fez os ouvintes se empolgarem.
O arranjo feito pelo maestro da orquestra
incluiu as vozes de todo o coral. Enquanto
cantavam, nos telões eram mostradas cenas
gravadas durante os vários ensaios feitos pelos
rapazes.
Como sempre, na maior parte do clipe,
estavam dando risada das palhaçadas de
Oscar.
Os aplausos, os assovios, os gritos eram
ouvidos a uma distância razoável fora do
ginásio. A impressão que causava aquele
tumulto era de um terremoto.
Os integrantes da banda se reuniram na parte
da frente do palco e agradeceram.
Todos estavam emocionados pela
receptividade e pelo carinho recebidos.
Permanecendo de pé, aplaudiram durante
alguns minutos. Oscar foi até um dos
microfones visivelmente emocionado e
agradeceu.
- Só temos uma forma de retribuir todo esse
carinho!
O grupo entendeu a mensagem e cada um
ocupou o seu lugar.
- Em homenagem a todas as mulheres, porque
sem elas, não seríamos nada. Em especial,
para as que não estão presentes.
A música escolhida por Oscar foi
“BOHEMIAN RHAPSODY – Queen”.
Na platéia, Vera e Emile, muito emocionadas,
não paravam de gritar, chorar, aplaudir.
- Vocês estão bem? – Perguntou Ivo.
- Sim. Gostaria de agradecer ao senhor por ter
dado esse presente para os rapazes. Falo em
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
245
nome de meu filho e tenho certeza que o
sentimento de gratidão é de todos. – Disse
Vera.
- Na verdade devo mais a eles do que eles a
mim. – Comentou Ivo. – Se não fosse por
Emile levar-me para vê-los no asilo estaria
deitado na minha cama sem vontade de viver.
Ao lado, apreensivo e visivelmente
emocionado, aguardando o momento mais
importante de sua vida, que até então foi
cheia de remorsos e tristezas, José Lira
segurava nas mãos suadas um microfone sem
fio que lhe fora entregue por Emile.
- Esta canção que vamos apresentar agora é
um pedido de uma pessoa muito especial
chamada Emile. – Disse Oscar enquanto o
pessoal se preparava para acompanhá-lo.
Um canhão iluminou Emile que não teve
escolha a não ser levantar-se para receber os
aplausos do público.
Oscar iniciou a música “PAI – Fábio Júnior”
e em determinado momento José Lira
levantou-se e começou a subir a escada de
acesso ao palco. À medida que se
aproximava, Oscar tinha a nítida impressão
de conhecer aquela figura, pensava estar
olhando para o espelho, a única diferença,
não usava muletas e estava um pouco mais
velho. Ao se dar conta sobre o que estava
ocorrendo, não conseguiu mais cantar, sua
voz não mais saia.
Os outros percebendo que Oscar estava muito
emocionado continuaram tocando e
L.P.OWEN
246
cantando.
José Lira caminhando em direção a Oscar
abraçou-o enquanto beijava-o e pedia perdão.
O público percebeu que estava ocorrendo algo
inesperado e aplaudiu.
- Filho! – Disse José Lira no microfone. –
Depois de saber da sua existência, não parei
mais de pensar em você. Sonhei várias vezes
com esse momento, com o nosso encontro e
descobri o quanto você é importante para
mim. Será que podemos cantar juntos?
- Se eu conseguir tirar esse gato da garganta
poderemos tentar. – Disse sorrindo enquanto
enxugava as lágrimas.
Abraçados, cantaram desde o início e quando
um começava a engasgar o outro socorria.
Depois de muitas palmas, assovios e gritos
Ruan fez a marcação para a última música “I
DON’T WANNNA GO ON WITH YOU
LIKE THAT – Elton John” a plateia
levantou-se acompanhando o ritmo da
melodia com palmas.
O pedido de bis, no início timidamente,
cresceu em volume obrigando-os a mais uma
canção.
A escolhida foi “HOLIDAY – Scorpions” que
Oscar cantou feliz por estar ao lado do pai.
Ao final agradeceram e a cortina foi fechada.
Nos bastidores da mesma forma como
fizeram antes da apresentação, reuniram-se
novamente todos os participantes para
agradecerem a Deus o sucesso.
Oscar e José Lira tinham muitas coisas para
conversarem, muitos pontos para acertarem.
Durante a conversa Oscar descobriu como
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
247
Emile e Vera haviam encontrado seu pai.
Descobriu que através de sua certidão de
nascimento conseguiram um nome. A partir
daí procuraram nos catálogos telefônicos, nas
concessionárias de energia até que, por pura
sorte, após três meses, obtiveram sua
localização no interior de Minas Gerais.
Ainda um pouco tímido Oscar iniciou a
conversa mais importante de sua vida.
- Por que nunca me procurou?
- Quando conheci tua mãe éramos apenas
dois jovens, para dizer a verdade, apenas tive
um relacionamento muito breve com ela e
quando mudei de cidade não sabia que estava
grávida.
Por isso nunca te procurei. Minha mãe havia
falecido e meu pai resolveu mudar de cidade.
– Continuou. - Amava sua mãe e por isso
nunca me casei. Só fiquei sabendo que você
existia através da dona Emile que apareceu na
minha cidade e me contou a história toda.
- Se não sabia como me registrou como seu
filho?
- Não registrei, mas se soubesse da sua
existência, teria registrado com prazer.
- Por isso que minha mãe nunca falou mal de
você para mim.
- Sua mãe era uma grande mulher, se não
fosse tão jovem ao invés de partir ficaria com
ela e caso soubesse da sua concepção teria
casado com ela, porque foi o meu grande e
único amor.
Durante o restante da noite tiveram condição
L.P.OWEN
248
de esclarecer todas as dúvidas que existia.
Haviam preparado uma pequena recepção
para os participantes e convidados que durou
tempo suficiente para chegarem em casa ao
raiar do dia.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
249
Capítulo setenta e cinco
MAU PRESSENTIMENTO
Dias após da apresentação, William estava
pensando no Natal que seria comemorado
nos próximos dias e uma ponta de melancolia
invadiu seu coração. Estava triste por não ter
encontrado seus familiares apesar de todas as
tentativas.
Pensou, que em breve completariam um ano
de amizade do grupo e quantas coisas
aconteceram nesse pequeno espaço de tempo.
Apalpou o envelope que o acompanhava há
algum tempo e que de agora em diante não
teria mais serventia. Sem que os outros
soubessem, resolveu sair e caminhar para
espairecer um pouco. Estava disposto a
colocar um ponto final em tudo, deixaria que
o destino tomasse seu curso.
Oscar foi o primeiro a notar a falta de
William. Procurou por todos os lugares,
inclusive na garagem, mas não o encontrou.
Resolveu informar sobre a ausência aos
outros companheiros.
- Não encontrei William em lugar algum da
casa. Deve ter saído muito cedo.
- E onde acha que ele pode ter ido? –
Perguntou Jorge.
- Fazer compras? – Respondeu Kasuo com
uma pergunta.
- Não foi fazer compras. Hoje faz um ano que
nos conhecemos. – Disse Oscar.
- Então precisamos comemorar! – Exclamou
L.P.OWEN
250
Kasuo sem saber do motivo da
preocupação dos outros dois.
- Acho que precisamos ir até lá novamente. –
Comentou Oscar.
– Como vamos atrás dele se ninguém sabe
dirigir precisamos de um táxi.
Saíram e no caminho colocaram Kasuo e
Helena a par do que tinha acontecido com
eles. Na rua onde o edifício situava-se não era
permitido a entrada de automóveis, por isso,
teriam que caminhar por uns quinhentos
metros.
A quantidade de pessoas por metro quadrado
era muito elevada, dificultando a locomoção
de qualquer indivíduo, mais ainda, daqueles
com necessidades especiais.
- Quando for prefeito desta cidade colocarei
faixas exclusivas de trânsito para os
portadores de necessidades especiais. – Oscar
disse em voz alta.
Quando conseguiram chegar na portaria do
edifício, como sempre, todos acompanharam
com olhares e expressões diversas, a comitiva
que entrou no saguão. Aproximando-se de
um segurança, Oscar pediu ajuda para
conseguirem alcançar o terraço na cobertura.
- Por que querem ir ao terraço?
- Como o senhor pode ver não há aqui
ninguém que consiga levar meu amigo com a
cadeira e eu gostaria de mostrar-lhe a vista
que se pode ter da cidade. – Respondeu ao
segurança.
- Infelizmente não posso sair daqui agora,
mas acho que o rapaz da limpeza poderá
ajudar-te.
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
251
Ao encontrar com o rapaz incumbido de levá-
los, Oscar não pôde deixar de fazer seu
comentário.
- Acredito que além de você, Jorge, ele poderá
levar todos nós no colo. Ele parece um
guarda-roupa. Tem certeza de que ele não é
segurança?
Todos riram inclusive o rapaz.
L.P.OWEN
252
Capítulo setenta e seis
O FIM?
Ao descer do elevador, vários pensamentos e
lembranças passaram por sua mente e ao abrir
a porta corta-fogo que dava acesso ao terraço,
não teve como não se surpreender. Foi
recebido com uma calorosa patada no peito e
uma tremenda lambida no rosto.
- Romeu? O que vocês estão fazendo aqui?
- Viemos a sua procura. – Informou Jorge.
- Por que?
- Para comemorarmos juntos. – Respondeu o
outro. - E você por que veio aqui?
- Não pensei em vir, apenas vim. – Disse
William. – Estava querendo desfazer-me de
algo e achei que aqui seria um ótimo lugar.
- Será que podemos saber do que se trata? –
Oscar perguntou desconfiado, pois temia que
o amigo, mesmo apesar dos acontecimentos
estaria infeliz.
Sem muito rodeio William contou.
- Há pouco mais de um ano fiz um seguro e
coloquei minha esposa e meus filhos como
beneficiários, caso acontecesse algo comigo
eles estariam amparados. Enviei a apólice via
correio para o endereço que possuía na época.
Minha sorte foi ter enviado em carta
registrada, como não localizaram o
destinatário, ela retornou para mim e desde
então venho procurando por eles, mas não os
encontrei.
- O que pretende fazer agora? – Quis saber
Kasuo.
- Vim aqui apenas me desfazer desta carta no
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
253
local onde tudo começou. - Falou enquanto
rasgava o envelope e tudo o que estava
dentro.
Deu um beijo nos papéis picados e jogou para
o alto, o vento se incumbiu de espalhá-los,
caindo sobre as pessoas que passavam pela
calçada do edifício. Mal conseguiu se desfazer
da correspondência todos cercaram-no e o
abraçaram cantando Parabéns a Você. Oscar,
como sempre, não deixou passar em branco.
- Que tal brindarmos com um champanhe?
- Só falta o champanhe. – Responderam.
Fazendo um pouco de charme ao retirar uma
garrafa da mochila que carregava.
- Já não falta mais. – Sorriu.
- Mas ela está quente. – Reclamaram todos.
- Me desculpem, mas eu não sou perfeito!
O grupo ficou rindo enquanto tomavam a
bebida quente.
Após alguns momentos de recordações
resolveram partir.
- Bem senhores aqui nossos caminhos tomam
direções diferentes. – Disse William ao
chegarem na rua.
Aproximando-se de Kasuo, abraçou-o com
carinho.
- Quero agradecer por tudo que fez por mim,
jamais te esquecerei e quero que saiba que
sinto muito orgulho de ser teu amigo.
Virando deu um beijo na testa de Helena,
inclinou-se e fez o mesmo com Jorge.
- Te cuida. Quero ser convidado para o
casamento.
L.P.OWEN
254
- Para onde pensa que vai? – Perguntou
Oscar sem perceber o que estava ocorrendo.
- Preciso ir atrás do meu destino, saber dos
meus, daqueles que um dia abandonei. Sinto
que minha história não teria um final sem
procurá-los. Sinto-me agora um vencedor, de
alguma forma, vocês conseguiram mostrar
que ainda sou capaz. Eu preciso mostrar esse
novo homem para minha esposa e meus
filhos.
- E a banda como fará sem o nosso violinista?
– Disse tentando não chorar.
- Você poderá substituir-me perfeitamente
Oscar, afinal você é um excelente músico.
- Você sabe que não é disso que falo.
- Também sentirei saudades, mas preciso
resolver esse assunto que me coroe a cada dia.
- O que vai fazer enquanto não os encontra?
- Descobrirei talentos. – Brincou. – Não
descobri vocês?
William aproximou-se de Oscar e ao abraçá-
lo não conseguiu segurar a emoção e chorou
copiosamente, tinha-o como um filho. Nesse
abraço cada um demonstrou o amor, a
admiração e a amizade que os unia. Quase
sem conseguir falar Oscar esforçou-se para
dizer o quanto amava o amigo.
- Não sei por que amamos, por que temos
sentimentos. Será que precisamos sempre
sofrer por alguém que parte, por algo que
perdemos?
Entre um soluço e outro enquanto enxugava
as lágrimas que caiam, continuou.
- Por que sempre procuramos conquistar a
nossa meta, nosso objetivo, se eles são o final
PORQUE AS BORBOLETAS VOAM
255
de algo que tanto desejávamos. O alpinista
não vê a hora de chegar no topo da montanha
e quando conquista o que acontece?
Queremos conquistar o mundo, mas nos
esquecemos de pensar no que fazer depois da
conquista. O problema não é conseguir, mas o
que fazer depois.
- A vida é feita de idas e vindas, chegadas e
partidas, ganhos e perdas de sim e não. –
William tentou consolá-lo.
- Muitas vezes, sequer temos tempo de
entender o que está acontecendo e de uma
hora para outra tudo se modifica
drasticamente. O que era felicidade
transforma-se em tristeza e vice-versa.
- Não quero que pense que o final seja algo
ruim. Pense no final, como um novo começo.
Como o final do dia ensolarado, no começo
de uma noite estrelada e o contrário também é
verdadeiro. – Disse William antes de seguir
seu caminho.
A certa distância ouviu.
- Então esses dias ensolarados que passamos
juntos vão transformar-se numa linda noite de
luar.
Sem olhar para traz e demonstrar sua tristeza
partiu enquanto o Sol se punha no horizonte.
L.P.OWEN
256
EM ALGUM MOMENTO DE NOSSAS
VIDAS, TEMOS QUE NOS
TRANSFORMAR. ENTÃO, DESEJO-LHE,
QUE DE LAGARTA VOCÊ SE
TRANSFORME EM UMA LINDA
BORBOLETA”.

PORQUE AS BORBOLETAS VOAM

  • 1.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 1 DO AUTOR: LINHAS DO DESTINO
  • 2.
    L.P.OWEN 2 A Deus, pornão me deixar desistir. Aos meus familiares, que teimam em acreditar em mim. A Sueli, pela paciência de ler os rascunhos dos livros.
  • 3.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 3 Capitulo um O ENCONTRO Todos temos momentos bons ou ruins para lembrarmos durante nossa existência. Aquele dia foi um desses marcos. Nas ruas o vai e vem da multidão preocupada em resolver seus problemas, não o impedia que avançasse com rapidez e determinação. Algumas pessoas seguiam para o trabalho, outras para as compras, outras apenas caminhavam apreciando o movimento. Faltavam alguns dias para o Natal, o comércio, preparado para as vendas que costumavam se aquecer durante essa época, abusava dos enfeites com motivos natalinos. Ele gostava dessa época porque o espírito natalino modificava as pessoas, tornando-as mais fraternas, caridosas, mais sensíveis. Lamentava-se porque esses sentimentos poderiam continuar durante o ano todo, mas infelizmente isso não ocorria, passados as festas, cada um voltava a pensar apenas nos próprios problemas. As pessoas se apinhavam procurando satisfazer seus instintos de consumo comprando de tudo. Enquanto ele caminhava para o seu destino, pensou em tudo o que aconteceu durante aquele ano. Estava de volta, era um novo homem, nada seria igual. No saguão, notou que tudo continuava do mesmo jeito. Nada tinha modificado. O porteiro apenas olhou para ele como outrora,
  • 4.
    L.P.OWEN 4 não disse umapalavra, não questionou absolutamente nada, permanecia atrás de um balcão, como se a sua única atribuição fosse permanecer imóvel como uma estátua na entrada do edifício. Seguiu, pelo corredor em direção aos elevadores. O tumulto causado pelo número de pessoas que entravam e saiam do edifício o fazia pensar: – “Para onde estariam indo? O que seria tão importante, o que fazia as pessoas esquecerem de cumprimentar seus semelhantes?”. Dentro do elevador o silêncio era tão grande que podia ouvir sua respiração. As pessoas estavam muito próximas fisicamente, mas sequer se olhavam. O único ruído era causado pelo movimento dos cabos e correntes do lado de fora. No rosto das pessoas estava estampada a infelicidade e angústia. À medida que o elevador atingia os andares superiores, mais vazio ficava. Não soube explicar porque desta vez o fato de ficar sozinho dentro do elevador para galgar os últimos três andares foi diferente de outrora. Ao abrir a porta corta- fogo de acesso ao terraço, da qual se lembrava muito bem, não pôde acreditar no que estava acontecendo. *** Uma manhã quente típica de final de primavera. Apesar da temperatura elevada, estava suando frio. O que estava preste a fazer mudaria radicalmente o rumo de sua vida.
  • 5.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 5 Voltar significava não resolver o problema. Ficou surpreso, ao abrir a porta corta-fogo. Última barreira para chegar ao terraço do edifício. Não imaginou algo semelhante em toda a sua vida. Para disfarçar sua real intenção, se encostou a uma parede, provavelmente da casa das máquinas e aguardou o desenrolar dos acontecimentos. Calado, ouvia o que diziam aqueles dois. Um dos rapazes, um jovem senhor aparentando uns 45 anos, cabelos e olhos castanho-escuros. Estava sentado numa cadeira de rodas. Vestia um terno cinza chumbo um pouco surrado, camisa branca e sapatos pretos impecavelmente engraxados. O outro usava calças jeans, camiseta branca e botas especiais presas por armação articulada que era presa na cintura do rapaz e servia como suporte para as pernas. Andava com o auxílio de muletas apoiadas no antebraço. Este tinha a aparência de ser bem mais jovem que o primeiro, cabelos ruivos e olhos azuis- claros. Nem de longe aquele corpo combinava com as suas feições. Braços finos, nas costas havia uma espécie de corcova. O quadril muito estreito e as pernas finas obrigavam-no a utilizar tal armação que servia para sustentar o corpo e mantê-lo em pé. O que estava sentado na cadeira de rodas reclamava da atitude de uma outra pessoa, que não se encontrava mais no local. - Hoje em dia, não se pode confiar nas pessoas.
  • 6.
    L.P.OWEN 6 - Você aindatem de quem reclamar. Eu vim sozinho, vou reclamar com quem? – Comentou o rapaz da muleta. Os dois conversavam sem notarem a presença de William, que se mantinha no mesmo local, não conseguindo compreender sobre o que falavam. - Por que fazem essas muretas tão altas? – Perguntou Jorge enquanto posicionava melhor sua cadeira de rodas. - Não sei! – Respondeu Oscar que se esforçava ao extremo para escalá-la. Depois de várias tentativas, resolveram desistir. Ao olharem para o lado perceberam a presença de William que permanecia imóvel e calado. - Talvez o senhor possa nos ajudar. – Disseram quase ao mesmo tempo. Encostado na parede, William olhou a sua volta, percebendo que era com ele que falavam, respondeu com determinação. - Podem esquecer! - Não estamos conseguindo. – Disse Jorge. - Somos uma dupla de incompetentes. – Completou Oscar. – O senhor tem que nos ajudar. - Por que querem fazer a mesma coisa? – Questionou William. Pegos de surpresa com a pergunta, no princípio ficaram calados, mas Jorge resolveu responder primeiro. Como se mergulhasse num passado próximo, iniciou com voz amarga. - O que se espera de um homem com ótimo
  • 7.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 7 emprego, casado com uma linda mulher e filho. Quando decidiu ser hora de ter outro filho, faz uma viagem de segunda lua de mel. Num dia lindo de sol temperatura extremamente quente vai nadar e sofre um acidente na beira da piscina. Fratura a coluna e é obrigado a viver numa cadeira de rodas? Sem fazer qualquer comentário William perguntou. - Como aconteceu? - Fui fazer graça para minha esposa e filho, subi no trampolim da piscina do hotel. Não contente com a altura, resolvi subir no ferro que serve de corrimão. Escorreguei e bati as costas na plataforma do trampolim. Caí desmaiado dentro da piscina. Quando acordei, três meses haviam passados. Os dois ouviam sem fazerem comentários. Jorge prosseguiu. - Fiquei no hospital por quase um ano. Minha esposa vinha visitar-me, no início todos os dias. Com o adiantado da gestação começou a diminuir a frequência dessas visitas. - Vocês viram que coisa engraçada? – Comentou rindo sozinho. – Em nossa última relação engravidei minha mulher. Minha filha Vivian nasceu enquanto eu ainda estava no hospital. – Com o meu retorno para casa passei a cuidar dos meus filhos. Minha esposa começou a trabalhar fora para completar a renda. – O tempo passou, comecei a perceber uma
  • 8.
    L.P.OWEN 8 alteração no comportamentode minha esposa. Alguns meses depois, – fez uma pausa para tomar coragem e continuar seu relato. – Ela imaginando que estivesse na fisioterapia, acabou se descuidando. - Quando retornei, depois de aguardar por mais de uma hora pelo transporte que me levaria para a fisioterapia e que não apareceu, vi as luzes da sala apagadas. Não havia sons indicando que ali moravam duas crianças. Pensei num monte de coisas horríveis. – Abri a porta da sala vagarosamente e entrei. Ao chegar no quarto das crianças vi que estavam dormindo. A porta do meu quarto estava encostada, empurrei-a. Minha esposa e o seu amante olharam para mim com cara de idiotas, sem conseguirem dizer uma palavra sequer. – Dei meia volta, fui para sala. Não demorou os dois chegaram dizendo: - “Não é o que está pensando”. – Nesse momento riu novamente e comentou. – Por que todos dizem isso? Realmente o problema não é o que pensamos é o que vemos! Depois se calou e William resolveu poupá-lo de novas perguntas. - Com você o que aconteceu? – Perguntou, dirigindo-se ao rapaz da muleta. Oscar ficou em silêncio, como se buscasse em sua memória, o que tinha restado de sua história. - Meu pai, – engoliu seco - foi embora quando nasci, por isso não sei nada sobre ele, ou melhor, sei que era um bom cantor, afinal cantou minha mãe. – Brincou. - Tinha uma
  • 9.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 9 boa voz, minha mãe dizia que herdei isso dele. William já tinha notado desde o início a beleza do timbre da voz do rapaz, poderia trabalhar como locutor de rádio ou atendimento público pelo telefone, mas não fez qualquer comentário. - Desde o meu nascimento sou esta coisinha linda que estão vendo. Se não fosse por minha mãe tinha servido de comida para os Urubus em algum lixão.- Comentou. - Na escola viviam colocando-me apelidos, gozavam da minha cara, faziam corredor para que eu passasse e me davam tapas para andar mais rápido. Algumas vezes o incentivo era tão grande que acabava de cara no chão. - Essa tortura parou somente quando revoltado, resolvi chamar o líder para a briga, meu primeiro erro. O segundo foi ter ido ao encontro marcado para o meu massacre. - Estava indo tudo tão bem, ele me batendo com o punho fechado na minha cara. Outras eu com a minha cara no punho dele, até que finalmente ele caiu exausto, não conseguiu bater mais e finalmente, consegui vencê-lo pelo cansaço. - Apesar de quase me matar, ele resolveu dar- me crédito pela minha loucura. A partir desse dia pararam de me chatear. Afinal tinha vencido o líder da matilha. – Riu novamente. - Vivia com minha mãe num barraco que ela comprou depois de tanto sofrimento e muito trabalho. Ela passava o dia trabalhando na
  • 10.
    L.P.OWEN 10 limpeza das casase a noite lavava e passava o uniforme dos times das proximidades. - Alguns meses atrás minha mãe faleceu e desde então atravesso momentos difíceis, sinto muita saudade dela. – Parou para se recompor. – Não tenho parente, não tenho amigos porque não saía de casa, apenas cuidava da minha mãe. Depois que ela sofreu o derrame não falava nem andava, somente vegetava. Como podem notar não tinha forças para cuidar dela. Algumas vizinhas vinham para dar banho, trocar as roupas, mas - abaixou a cabeça e parou de falar. William pensou nos seus problemas. No início, bebia socialmente, mas com o passar do tempo já fazia parte de sua alma. Por ela acabou com um casamento de quase dez anos. Em seguida perdeu o emprego. Sem emprego acabou vendendo o que possuía para custear aluguel, comida entre outras dívidas até que foi obrigado a morar nas ruas. Não tinha coragem de visitar seus filhos. Não queria mostrar a pessoa que se tornara. Estava disposto a acabar com tudo. - O que os senhores pretendem fazer agora? – Perguntou William deixando suas preocupações de lado. Houve um silêncio por alguns minutos. Colocando o coração em cada palavra Jorge respondeu. - Quando resolvi vir aqui, seria para dar um basta nesta situação, nessa solidão, nesse sofrimento. Pensei que minha partida deixaria que meus filhos esquecessem de mim. –
  • 11.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 11 Chorou copiosamente. Depois de alguns minutos em silêncio. - Estava pensando! – Iniciou William. - Viemos aqui para fazermos algo que terminaria com nossos sofrimentos. Por covardia? Egoísmo? Para não enfrentarmos os problemas de frente? Por que não conseguimos enxergar uma solução? – Deu uma pausa. - Por que nos encontramos exatamente neste lugar? Não poderia ser numa praça, num cinema, em outro lugar qualquer? – Mais um tempo de silêncio. - O que Deus quer da gente? – Continuou. – Por que? Apesar de tudo, ainda somos importantes para Ele? Como num passe de mágica, se dirigiram para o centro do terraço onde estava William e se abraçaram. Ali eles choraram toda dor, desespero, angústia que sentiam dentro da alma. Como se estivessem sendo abraçados pelos seus Anjos da Guarda sentiram paz e alivio. Depois de algum tempo. - Esvaziei minha alma. – Disse Oscar. Apesar de surpresos com a frase todos concordaram. - Hoje já me aconteceu de tudo! – Jorge exclamou sorrindo. - Fui enganado por um cara que contratei, desisti do meu objetivo e ainda acabei encontrando dois malucos. - Imaginem se alguém entra aqui e vê esta cena. Três marmanjos abraçados. –
  • 12.
    L.P.OWEN 12 Comentou Oscar. A gargalhadafoi generalizada, William não conseguia se controlar e quase passou mal de tanto rir ao olhar para aquela figura. - O que vamos fazer agora? – Perguntou Jorge. - Vamos aguardar novas instruções. – Respondeu William ainda rindo. Caminharam na direção da porta, ainda tinham uma etapa a ser transposta. A escada para o andar onde pudessem utilizar o elevador para deixarem o edifício. - Será que consigo descer segurando você? – William não estava seguro quanto ao seu preparo físico. - Podemos fazer o seguinte, você me inclina para traz. Eu controlo a roda, acredito que juntos nós conseguiremos. – Olhou para o William sorriu e completou. - Confio plenamente que estarei seguro em suas mãos, já me salvou a vida hoje. William não soube porque, mas sentiu-se bem com as palavras. O esforço foi grande, houve momentos que William achou não conseguir segurá-lo por mais tempo. Quando chegaram no andar estavam exaustos, entraram no elevador, pareciam crianças que acabavam de fazer uma travessura.
  • 13.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 13 Capítulo dois A CARTA Os problemas que os carteiros têm para entregarem suas correspondências são muitos. A começar pela letra dos remetentes. Alguns não se preocupam em escrever com letra legível, pensam ser a obrigação dos correios decifrarem os endereços. Há pessoas que julgam que seus cachorros não mordem porque são mansos e por isso não os prendem. Há também os que nunca são encontrados em suas próprias casas, o sol, a chuva, o frio, o calor entre outros. Ser carteiro é gostar de muita ação e adrenalina. Geraldo era uma pessoa que gostava da profissão. Ele acordou disposto, o dia ensolarado facilitava sua locomoção e a entrega de todas as cartas parecia que seria simples. Como sempre, na central dos correios, separou as correspondências pelo nome das ruas e pelo número das residências colocando clipes e elásticos para facilitar seu trabalho. Ao término da manhã tinha entregado a maioria delas, mas no final do dia uma das cartas voltou com ele. Era uma carta registrada. Por três dias consecutivos tentou efetuar a entrega, mas como não conseguiu, foi obrigado a devolvê-la para as providências necessárias. Apesar de ter agido conforme os procedimentos, Geraldo tinha a sensação de
  • 14.
    L.P.OWEN 14 dever não cumprido.Sempre pensou, que toda correspondência é muito importante, pelo menos para o remetente e o destinatário. Nelas poderiam estar a diferença entre a felicidade e a infelicidade, o acordo ou desacordo, enfim, entre o sim e o não. Mesmo assim, avisaria o remetente tinha uma boa memória e por coincidência era um velho conhecido.
  • 15.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 15 Capítulo três TUDO PELA JANTA Na saída do edifício pararam. A pergunta que surgiu entre eles foi: – O que faremos? Como ninguém se pronunciou, resolveram caminhar sem destino. A tarde chegava ao seu final, o céu estava tão colorido, que fez os três admirá-lo. O sol com cor alaranjada, quase vermelha querendo esconder-se no horizonte, contrastava com o azul do céu e o branco das nuvens, fazendo composição com as estruturas dos edifícios, transformando-se num belíssimo quadro. A noite preparava-se para tomar o seu lugar enquanto o sol delicadamente se punha no horizonte, prometendo no dia seguinte um novo espetáculo. As luzes da cidade aos poucos iam sendo acesas para iluminar as ruas, avenidas e praças dando início a vida noturna. Como formigas saindo do formigueiro, as pessoas saiam dos edifícios e caminhavam, algumas seguindo a mesma direção, às vezes trombando com outras pessoas, que vinham em sentido contrário, desviavam-se para poder continuar seu caminho, exatamente como as formigas. - Não sei quanto a vocês, mas estou morrendo de fome. – Disse Oscar. - Todos estamos famintos. – Respondeu William. - O único problema e que não tenho dinheiro algum. – Falou Oscar.
  • 16.
    L.P.OWEN 16 Os outros verificaramseus bolsos. Concluíram que a quantia total que eles possuíam, não daria para pagar um lanche. - Não temos dinheiro para nada, como fui sair sem nada no bolso? – Questionou Jorge. – Para onde estávamos querendo ir não precisaríamos. – Completou Oscar. - O que podemos fazer? - Perguntou Jorge. – Posso cantar algumas músicas por comida. – Respondeu Oscar tranquilamente. – A quem vamos anunciar? – Emendou William. – Elvis? - Por que não Oscar o lindo? – Brincou. - Não é preciso dizer nome algum é só perguntarmos se posso cantar por um prato de comida para cada um. - A única coisa que pode acontecer é dizerem não e não nós já temos. – Concluiu William. O que você vai cantar? – Quem vai acompanhá-lo? - Eu posso acompanhá-lo no violão. – Completou Jorge. - Você está vendo William? - Disse Oscar. - Estamos formando uma equipe. – Completou. Está ótimo! Jorge me acompanha. Não se preocupe, com essas muletas não dá para ir longe. - O que faço? – Perguntou William – fico jantando? - Pode ser nosso empresário. – Falou Jorge sorrindo. – Isso mesmo, nós precisamos de um empresário para fechar os contratos. – Concordou Oscar. - Então! Lá vamos nós.
  • 17.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 17 Quando os três entraram no estabelecimento, o proprietário olhou-os de cima a baixo, não gostou do que viu, foi logo perguntando: - O que os senhores desejam? - Desejamos alimentar-nos, mas infelizmente não temos dinheiro.- Disse William. – Então por que entraram aqui? – Emendou o sujeito. – Estamos dispostos a pagá-lo com o nosso trabalho. – Retrucou. - O que os senhores estão dispostos a fazer como pagamento? – Perguntou com seriedade. - Meus amigos poderão cantar algumas músicas. – Quem disse que em meu restaurante se pode jantar com música ao vivo? – Interrompeu novamente o proprietário do estabelecimento. Vendo as coisas começando a dar errado, Oscar propôs algo que deixou os outros dois surpresos. - Aceitaria, como pagamento por quatro jantares, que fizesse um desenho do senhor para colocar num quadro e pendurá-lo na parede? Houve um momento de apreensão. O homem pensou, coçou o que restava de cabelos ensebados na cabeça e respondeu. - OK! Só não tenho muito tempo para servir de modelo. – Avisou. - O senhor pode ficar a vontade. Fazer o que quiser. Só preciso olhar seus traços. – Respondeu Oscar enquanto procurava um
  • 18.
    L.P.OWEN 18 toco de grafiteno bolso da calça. - O senhor tem algum papel que pudesse desenhar nele? - Perguntou meio sem jeito. - Pode desenhar naquela parede que está pintada de branco próxima do balcão, assim não preciso comprar quadro algum. – Respondeu sorrindo maliciosamente. Disse apenas para dificultar o trabalho do rapaz e fazer o custo do jantar maior do que realmente valia. Oscar teria que subir em uma cadeira para alcançar o local da pintura. William perguntou sobre a possibilidade da confecção do desenho naquele local, o rapaz apenas assentiu com a cabeça. - Você pode ajudar-me a subir na cadeira? – Sim. Com todo prazer. Pegando duas cadeiras colocou-as lado a lado e subiu em uma. Segurando Oscar pelo tórax puxou-o para cima e com muito esforço conseguiu colocá-lo em pé sobre a outra cadeira. Com a barra de grafite iniciou o trabalho. Enquanto Oscar desenhava com uma facilidade que impressionava os dois, William segurava-o para que não despencasse lá de cima. O trabalho durou mais de uma hora, pela dificuldade que o local apresentava. Quando o proprietário do restaurante viu o desenho terminado, não acreditou que alguém pudesse fazê-lo apenas com aquele material. Serviu os três como combinado. - Parabéns! – Disseram juntos os dois amigos. – Você é um tremendo artista conseguiu fazer o cara mais bonito do que é. – Completou Jorge. - Obrigado. – Disse emocionado.
  • 19.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 19 – Nós é que te agradecemos. – Emendou William. – Conseguimos crédito para o jantar. - Sem vocês não conseguiria fazê-lo. Se o Jorge não me direcionasse nas proporções e você não me segurasse. – Nós estaríamos sem janta. - Disseram rindo. O jantar estava simples, mas saboroso, antes de sair, Oscar pegou o outro jantar que foi colocado numa embalagem para viagem. Quando saíram foi cambaleando com suas muletas até um homem que estava sentado na rua. Entregou a sacola com o alimento. Voltou cantarolando, fazendo graça com a música “Dançando na chuva”. Sua versão “Dançando de muletas”. Chegando perto dos outros disse emocionado. - O cara me falou “Deus te abençoe”, não é maravilhoso isso? Os outros dois não entenderam e ficaram quietos, mas ele continuou. - Hoje é o dia mais feliz de minha vida. Deus me mandou vocês para me salvarem, agora o rapaz ali pede para Deus me abençoar. Ele já me abençoou. – Oscar ria como uma criança. Os dois ouviam-no dizer que Deus havia mandado eles para salvá-lo, quando o contrário pudesse ser a verdade ou cada um estava salvando o outro. O que importava agora é que estavam juntos para superar os obstáculos.
  • 20.
    L.P.OWEN 20 Capítulo quatro KASUO Desde omomento que começou a dar os primeiros passos foi uma revolução que aconteceu em sua casa. Sua mãe se desdobrava para ensinar o caminho que podia seguir dentro da sua própria casa. A família Suzuki ficou feliz com o nascimento do garoto que foi batizado por Kasuo. Desde pequeno demonstrava ser muito decidido e obstinado. Não havia obstáculo que o fizesse desviar-se de seus objetivos. A deficiência visual não era empecilho para aquele menino valente e inquieto, ávido por conhecer o mundo. A partir dos primeiros momentos de sua existência lutou para sobreviver. A gestação difícil e complicada tornou-o um guerreiro antes mesmo do nascimento e sua mãe o chamava de “Meu pequeno Samurai”. Em seus primeiros passos, sua mãe, para evitar acidentes, retirou do caminho o banco do piano. Para sua proteção, ele colocava a mãozinha na frente procurando por obstáculos a sua frente. Aconteceu, certa vez, esbarrar nas teclas do piano. O som produzido chamou sua atenção. A partir daí não parou de bater a mãozinha e ouvir o som produzido. O tempo passou o menino mostrou-se um excelente pianista. O gosto pela música fê-lo aprender canto, isso o facilitava na composição das melodias. Kasuo mostrava-se uma criança especial. Seu dom musical era algo inexplicável, a
  • 21.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 21 facilidade em compor, em tocar, era impressionante. Nem tudo era um mar de rosas. O talento do garoto ajudava seu pai e empresário agendar um grande número de apresentações, por outro lado, as viagens constantes não permitiam criar raízes em lugar nenhum. Durante uma dessas viagens, para uma apresentação à terra de seus ancestrais, ocorreu uma tragédia. O automóvel em que estavam derrapou numa camada fina de neve saindo da estrada. Mesmo conhecendo a região, o motorista não teve como evitar o acidente. O automóvel desceu ribanceira abaixo capotando várias vezes, até bater em uma árvore. Kasuo foi o único sobrevivente. Sua mãe e seu pai, para protegê-lo, sofreram a maior parte do impacto das ferragens retorcidas. Sem parentes foi encaminhado para um orfanato de onde saiu depois de completar a maioridade. Durante este tempo não sentiu vontade de tocar, compor ou cantar. Sua música aos poucos estava morrendo. As propriedades e a excelente situação financeira que seus pais deixaram eram suficientes para seu sustento. Retornou a mansão onde morou quando não estava em viagem. Kasuo estava entediado, aquela casa era imensa, para duas pessoas e um cachorro morarem. Não suportando mais ouvir música, resolveu
  • 22.
    L.P.OWEN 22 dar uma voltapela cidade. Assim que se levantou do sofá, seu fiel amigo se colocou ao seu lado para guiá-lo. Admirava a inteligência e a fidelidade daquele animal. Sentia o toque em sua perna todas as vezes que estava pronto para o trabalho. Romeu era um Lavrador treinado para ser guia, dócil e inteligente, o único que conseguia melhorar o humor de Kasuo. Costumava passar horas ao lado de seu dono. Muitas vezes colocava a cabeça no colo de Kasuo somente para animá-lo. Todos os dias abriam a porta para que Romeu desse uma volta pela redondeza. Ao retornar do passeio ele sentava-se na frente do portão e latia para as pessoas que estivessem na rua, como era conhecido pelos vizinhos, sempre encontrava alguém para atendê-lo. Depois de aberto o portão latia novamente “como agradecimento ao seu benfeitor” e entrava tranquilamente.
  • 23.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 23 Capítulo cinco NO SUPERMERCADO - Agora que estamos saciados, precisamos arrumar um local para ficar. – Disse Jorge. - Boa ideia, por que não vamos para o Hilton hotel? - Brincou Oscar. - Sei de um local que pelo menos servirá para esta noite. Vamos ao supermercado, precisamos comprar fósforos e velas. – William lembrou-se da casa onde morou de aluguel e que ainda estava vazia. - Vamos dormir naquelas barracas de camping expostas no supermercado? – Brincou Oscar. Oscar foi o sorteado para comprar os fósforos, enquanto os outros dois procurariam por velas. Ao andar os seus movimentos causavam ruído de metal devido ao atrito das peças desajustadas. Procurando a prateleira onde o produto estava exposto, distraído, foi de encontro ao Kasuo, que vinha em sentido contrário. O choque foi inevitável, apesar de Kasuo ter parado ao sinal de Romeu. - Desculpe-me não o vi. – Disse Oscar imediatamente. - Não tem problema, porque continuo não te vendo. – Respondeu Kasuo. - Me desculpe novamente. – Tentou concertar a situação. - Não precisa ficar chateado, estou acostumado com situações como esta. - As pessoas não sabem como se portar em
  • 24.
    L.P.OWEN 24 presença de pessoascom necessidades especiais e ficam todas desajeitadas. – Comentou Kasuo. - Concordo plenamente. Sinto-me como você quando olham para mim. - Diga uma coisa. Que barulho foi esse? – Perguntou Kasuo. - Está falando do meu meio de transporte? – Disse rindo. - Você também tem necessidades especiais? – Perguntou Kasuo surpreso. - Sim. – Disse Oscar caindo na risada. - Sou uma espécie em extinção e, olha eu quase fui extinto hoje. Para amenizar a situação, Oscar mudou de assunto. - Seu cachorro é muito bonito. - O nome dele é Romeu. O meu é Kasuo, muito prazer. - O meu é Oscar, o prazer é todo meu. Os dois ficaram conversando distraídos. Oscar contou-lhe que viera comprar fósforos. Kasuo por um instante ficou sério. Imediatamente Oscar percebeu que algo estava errado. - O que aconteceu com você? – Perguntou enquanto se ajeitava para poder pegar a caixa de fósforos. – Você vai comprar alguma coisa? Quando Kasuo respondeu, Oscar sentiu a tristeza na voz do rapaz. - Venho sempre aqui para evitar a solidão, pelo menos, ouço as pessoas conversando sobre diversos assuntos, algumas vezes encontro alguém para conversar. – Disse em tom amargo.
  • 25.
    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 25 - De solidão entendo bastante, isso quase me levou a cometer um erro muito grande. – Continuou – Graças a Deus conheci dois anjos que me impediram de cometer um terrível engano. Agora vamos procurar outro caminho. - Por falar nos anjos eles devem estar pensando que me perdi. Ainda precisamos encontrar um local para ficar. Foi um prazer enorme te conhecer Kasuo, mas tenho que ir andando, ou melhor, me arrastando. - O prazer foi todo meu. Pela primeira vez conversei com alguém que não me tratou de maneira diferente. Os dois despediram-se. Oscar brincou com Romeu e afastou-se seguindo em direção ao caixa. Antes que o som das muletas não fosse mais ouvido, Kasuo chamou-o. - Oscar! – Como não obteve resposta chamou mais alto – Oscar! Após alguns instantes Kasuo começou a ouvir o barulho das muletas novamente vindo em sua direção. - Pois não, meu amigo, o que você deseja? – Perguntou Oscar. - Estava pensando no que você falou sobre precisar de um local para ficar. Moro aqui perto, nos fundos tem uma edícula, você poderá ficar lá. - Te agradeço, acontece que além de mim tem os meus dois amigos. – Respondeu Oscar. - Qual o problema? A edícula é grande, vocês poderão ficar lá o tempo que quiserem, pelo
  • 26.
    L.P.OWEN 26 menos, não tereique cuidar dela. Não demorou muito, os dois que estavam esperando por Oscar, vieram ver o que acontecia porque estavam preocupados. - Olá pessoal! - Começou Oscar. - Este é Kasuo, nosso novo amigo. - Não te falei Kasuo, que eles estariam preocupados comigo. Os dois cumprimentaram o rapaz e não esqueceram de fazer um elogio ao Romeu, que se mantinha ao lado do seu dono. - Estava conversando com o Kasuo sobre nossa procura por um local para ficarmos ele nos ofereceu uma edícula nos fundos de sua casa. O que vocês acham? - Acho muito bom, mas infelizmente, não temos como pagar, para dizer a verdade o único dinheiro que temos quase não dá para comprar um pacote de fósforos e um maço de velas. – Anunciou William. - Vocês não precisam pagar nada. A casa está vazia e os móveis se acabando por falta de uso. Por outro lado, farão companhia para mim e meu amigo Romeu. – Pela primeira vez Kasuo falou e a tristeza na voz tinha desaparecido. - Poderemos aceitar a oferta, depois faremos qualquer coisa para pagarmos por nossa estadia. O que vocês acham? – Sugeriu Jorge. - Poderemos limpar, cozinhar fazer alguma manutenção que necessite. Você concorda Kasuo? – Perguntou William. - Façam da maneira que vocês quiserem a casa está vazia. Precisa de uma limpeza. Vocês poderão ficar lá o tempo que quiserem.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 27 Depois de concordarem sobre a forma de pagamento caminharam pelo supermercado enquanto Kasuo fazia algumas compras. William empurrava o carrinho e a comitiva seguia por entre as gôndolas. As pessoas olhavam, alguns sentindo pena, outros não conseguiam disfarçar o medo devido a aparência do grupo. Ao passarem no caixa Oscar fez um comentário sobre a quantidade de coisas compradas por Kasuo. - Compro com o maior prazer. – Respondeu Kasuo. Os três se olharam. William foi quem tomou a palavra. - Hoje aconteceram coisas fabulosas comigo. Ao sair de casa, não tinha propósito nenhum, estava só. Em algumas horas tudo se modificou. Conheci pessoas fantásticas. Agora tenho até um novo propósito para prosseguir! Dividiram as sacolas plásticas, sobrou uma até para o Romeu. Seguiram em direção a casa de Kasuo, que não ficava distante. Quando chegaram, foram instalar-se na casa dos fundos, ao contrário do que Kasuo havia dito, a casa estava impecavelmente limpa. - Se precisarem de roupas tem algumas minhas que poderão usar, caso não sirva, dentro do armário ficara algumas de meu pai ele era mais alto. Amanhã poderemos comprar roupas novas. – Continuou enquanto se dirigia para a casa
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    L.P.OWEN 28 principal. Ao chegar pediupara Helena preparar chá para todos. Sua governanta, uma jovem senhora com seus 38 anos, havia divorciado depois de sofrer agressões de seu marido por quase cinco anos e por sorte encontrara aquele jovem que precisava de cuidados. Fazia alguns anos que trabalhava com ele e se fosse possível jamais o deixaria. Encontrara respeito, carinho, educação, tudo o que não teve em seu casamento. Não pensava no assunto, mas caso aparecesse alguém que a amasse de verdade tentaria novamente.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 29 Capítulo seis RUAN O caminho percorrido todos os dias por Ruan e sua mãe foram fundamentais na sua formação e desenvolvimento, era um garoto que nasceu com Síndrome de Down. No jardim da infância, uma de suas professoras notou que ele, não parava quieto, vivia tamborilando em todos os lugares. Não aguentava mais ouvir o garoto bater nas carteiras, paredes, portas e armários, entre outras coisas, a professora sugeriu a sua mãe que o matriculasse numa escola de música. Depois de alertada pela professora, Vera procurou um profissional para ensiná-lo. O resultado foi muito bom. Diminuiu a inquietação do garoto e favoreceu sua coordenação motora e as atividades manuais, recebendo elogio da professora do jardim. Num dos Natais, Ruan acordou cedo, foi olhar embaixo a árvore de Natal montada na sala de estar. Ali o “Papai Noel” deixava os presentes que trazia. Ao chegar na sala não viu seu presente como de costume. Ficou desapontado, mas não disse nada. Sua mãe sugeriu carinhosamente que procurasse em outros lugares da casa. “Quem sabe o Papai Noel se enganou!”. Procurou em todos os lugares possíveis, mas não encontrou nada. - Vamos continuar procurando meu filho, não
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    L.P.OWEN 30 devemos desistir nunca.– Disse carinhosamente. Continuaram vasculhando por todos os cantos da casa, ao entrarem na garagem, Ruan não conseguiu se conter de felicidade ao ver que o seu presente estava montado num canto da garagem e gritou de felicidade. Pulou para os braços de sua mãe beijando-a muitas vezes. - Em vez de ficar pulando, por que não a experimenta? – Disse sorrindo. A bateria era linda, vermelha, as ferragens todas cromadas, os pratos na cor cobre brilhavam de tão polido. Sentou-se na banqueta, desaparecendo atrás do instrumento, mas tentou tirar algumas notas. Com o tempo a intimidade com o instrumento surgiu. Ruan passava muitas horas treinando. As aulas que fazia lapidavam seus dons musicais. Os anos passaram, sua primeira bateria foi doada para uma escola, onde começou a ensinar as crianças. Como prêmio sua mãe lhe presenteou com uma bateria profissional tornou-se um excelente baterista.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 31 Capítulo sete A DUPLA Naquela manhã, Kasuo acordou inspirado e para se distrair começou a tocar piano. Nos primeiros acordes da música “O fantasma da ópera” ouviu um ruído as suas costas, reconheceu ser o atrito das muletas de Oscar e parou de tocar. - Desculpe ter atrapalhado. - Sou eu quem devo desculpar-me por ter acordado você. Estava apenas matando a saudade do meu bom e velho companheiro, relembrando alguns acordes. Desde a morte de meus pais não toquei mais. - O que fez você voltar a querer? – Perguntou Oscar. - Sonhei com meus pais. Nele estávamos caminhando por um local cheio de flores e plantas tão bonitas, como as que temos aqui no jardim. Todas elas foram planadas por minha mãe. – Comentou orgulhoso. - Ela me pediu para não abandonar meus sonhos e continuar tocando. Fazer um grande concerto. Enfim alegrar as pessoas com a música, que é um dom de Deus e seria um desperdício não utilizá-lo. Falou-me também que esta casa estava triste. - Se a tua mãe falou que queria ouvir música, você tem que obedecer. – Brincou Oscar. - Adoro essa canção que estava tocando, se permitir, posso acompanhar-te. Kasuo reiniciou os acordes, Oscar começou a
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    L.P.OWEN 32 cantar fazendo ooutro ficar admirado ao ouvi-lo. Sua voz era extremamente agradável, os agudos pareciam fáceis de serem alcançados, isto fez Kasuo empolgar-se. Seus dedos percorriam o teclado do piano fazendo sua alma encher-se de alegria, transportando- o para um local onde somente ele conhecia. Ao terminarem, foram ovacionados por William, Jorge e Helena que estavam escutando extasiados. - Meu Deus! Quanto talento existe em vocês! – Desabafou William. - Ainda bem que se encontraram. – Completou Jorge. - Ainda bem que os iguais se encontram e quando isto acontece, o universo comemora. – Retrucou Helena. Ficaram ouvindo a dupla por algumas horas. A música era tão boa que não perceberam o tempo passar. - Por que não montam uma banda? - Comentou William. - Para uma banda são necessários, alguns músicos e muito ensaio. – Respondeu Kasuo. - Aqui existe um pianista, um vocalista e um guitarrista, já é um bom começo! – Completou William. - Onde poderíamos nos apresentar? – Completou Oscar. – Naquele restaurante onde jantamos? – Disse rindo relembrando o incidente com o proprietário. - O local a gente arruma. – Exclamou William. Durante o almoço surgiram várias ideias. A conversa continuou durante uma caminhada,
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 33 à tardinha, pela cidade.
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    L.P.OWEN 34 Capítulo oito A APRESENTAÇÃO Porser especial a dedicação tinha que ser maior, mas Ruan era perseverante, gostava e aprendia rapidamente. Seus pais sentiam orgulho do filho, a síndrome de Down não o impedia de conseguir superar os obstáculos e colocar por terra os prognósticos médicos de suas possibilidades e conquistas. Algumas metas foram alcançadas, mas faltava muito para Ruan realizar seus sonhos o de participar de uma banda. Cada obstáculo que aparecia em sua vida, Ruan fazia de tudo para transpô-lo. Seu lema “desistir jamais”, ensinado por sua mãe. O mais recente foi uma pequena diferença em uma de suas pernas que estava prejudicando seu desenvolvimento. A observação foi feita pelo professor, ao vê-lo caminhar. A intervenção cirúrgica foi um sucesso. Tratou-se de uma mistura de duas técnicas. Uma era a técnica do alongamento em Z com outra mais recente, a do enxerto do combinado de células tronco e osso sintético. Com o passar do tempo, seu interesse em ajudar outras pessoas com deficiências aumentou. Enquanto não conseguiu um local para doar seu talento não sossegou. Agora, ao dedicar-se a outras pessoas com problemas diversos, sentia-se feliz. O trajeto que fazia era longo, mas a caminhada o ajudava no condicionamento físico. Ir todos os dias para ensinar pessoas era
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 35 muito gratificante. Em muitas ocasiões recebera os cumprimentos do diretor da escola. Isso o deixava muito contente. Ruan tinha a impressão que o progresso feito pelos seus alunos se devia ao entendimento das dificuldades sentidas por eles e a dedicação de cada um para romper o seu limite. Finalmente o dia da apresentação chegou. Seu coração estava feliz e ansioso ao mesmo tempo. Aquele dia seria muito especial, seus alunos tinham empreendido um grande esforço, mesmo que ocorresse algum deslize, eles seriam irrelevantes. Sentia-se orgulhoso por eles. Ruan adorou quando notou que as luzes que iluminavam o palco não permitiam ver as pessoas na plateia. Isso ajudaria os mais tímidos. A apresentação foi simples, os alunos acompanhavam playback de músicas de sucesso. Ruan por sua vez, apenas ficava ao lado no palco para dar mais tranquilidade as crianças. No final, quando as luzes da plateia foram acesas, viu seu professor e amigo aplaudindo seu trabalho sentado na primeira fila. Teve que segurar a emoção. Sentiu a falta de seu pai que havia falecido algum tempo atrás. Sua mãe se desdobrava para criá-lo e pelo modo como chorava sorrindo e aplaudindo ao mesmo tempo dava para ver que estava muito orgulhosa. Os aplausos não paravam, enquanto isso, os participantes curvavam-se em agradecimento. Na plateia, um grupo
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    L.P.OWEN 36 chamou a atençãode Ruan pelo entusiasmo de seus componentes. No final da apresentação se aproximaram e cumprimentaram-no efusivamente.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 37 Capítulo nove O CONVITE O passeio após o almoço foi muito agradável, conversaram sobre diversos assuntos. Ao atravessarem a praça, Oscar fez uma observação enquanto tocava o ombro do Kasuo. - Veja que mulher maravilhosa! – Falou para brincar com o rapaz. - Oscar, por que você não corre atrás dela? – Respondeu o outro rindo. Todos riram. O passeio continuou até o final da tarde. Estavam prestes a retornar, quando viram pessoas aglomeradas próximas de uma escola. Aproximaram-se para matarem a curiosidade. Quando perceberam, estavam sendo conduzidos pelas pessoas que se encaminhavam para dentro do auditório da escola. Não estava lotado e sentados numa fileira ao lado da porta puderam assistir ao show dos alunos. Jorge colocou-se ao lado de uma fileira de poltronas, o restante do pessoal acomodou-se nas poltronas que estavam vazias. Jorge explicava os acontecimentos ao Kasuo que estava se sentindo perdido. Depois das crianças se apresentarem, Ruan foi requisitado, pela direção da escola, a fazer uma pequena demonstração. Com extrema maestria fazia suas baquetas tocarem em diversos modos e estilos. Mesmo
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    L.P.OWEN 38 alternando o ritmo,tudo era feito com harmonia e precisão. O talento do rapaz chamou a atenção de Kasuo. - Será que ele está procurando tocar em alguma banda? – Insinuou. - Só faltaria um baixista. – Completou William. - Perguntar não ofende. – Avisou Oscar. O show foi sensacional, aplaudiam efusivamente. Quando acabou a apresentação os quatros fizeram questão de cumprimentá- lo. - Agradeço por terem vindo e espero que todos tenham gostado. – Disse Ruan. - Gostado? Nós adoramos! – Disse Oscar. Antes que o Ruan fosse a algum lugar perguntou. – Você não gostaria de fazer parte do grupo que estamos montando? Não teve tempo para responder, alguém o puxou pelo braço, em poucos instantes, Ruan já estava do outro lado do teatro recebendo os cumprimentos dos pais dos alunos, parentes e amigos. Os quatros ficaram sem ação e resolveram ir embora.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 39 Capítulo dez UM MENDIGO Naquela manhã William saiu muito antes que o pessoal acordasse. Caminhou durante algum tempo sem destino. Resolveu entrar numa igreja, naquele momento havia muito poucas pessoas, seguiu pelo corredor em direção ao altar, fez reverência e seguiu em direção ao Sacrário. Sentou num banco próximo ao altar do Santíssimo. Ficou quieto, de olhos fechados, sentindo a tranquilidade e paz que transmitia aquele local. Agradeceu por ter conhecido aqueles dois antes de cometerem o maior erro de suas vidas. Pensou no filho caçula que comemorava seu 15º aniversário, há muito tempo não lhe dava um abraço ou ouvia a sua voz. Por esse motivo estava sentindo-se infeliz. Estava tão concentrado em seus pensamentos que não percebeu um homem com as roupas surradas, sentar-se ao seu lado. - Bom dia! – Exclamou o homem com olhar fixo no altar. - Oh! Desculpe-me, estava distraído. Bom dia! Como vai o senhor? – Disse William meio sem graça. - Muito bem. – Respondeu o outro. – Por que está tão triste? - Deu para perceber? Está muito na cara? - Sim! – Respondeu ainda sem desviar seu
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    L.P.OWEN 40 olhar. – Vocênão quer falar sobre isso? William percebeu que desabafar um pouco não faria mal. Contou o que acontecia. Falou com orgulho de seus filhos Luís e Mário 18 e 15 anos respectivamente. - Por que não vai visitá-los? - Para ser sincero, não tive notícias deles há alguns meses e também porque não tenho coragem para encará-los. A bebida conseguiu tirar-me o que tinha de mais precioso! A minha dignidade. - O senhor o que faz aqui? - Sempre venho conversar com Deus. – Respondeu como antes sem olhá-lo. - Eu entrei por acaso e resolvi fazer o mesmo, mas não sei como começar. – Confessou William. - Todos temos dificuldades. Quando vou falar com Deus, primeiro faço uma oração. – Disse o homem. - Não fiz oração alguma, talvez, por isso tenho tanta dificuldade em iniciar. - É possível. Quem sabe, não abriu seu coração o suficiente. Por que não começa novamente agradecendo o que tem e o que não tem? – Comentou ainda olhando para o altar. - Como agradecer o que não tenho? - Você não está doente! Está? - Claro que não! - Então agradeça por não ter uma doença qualquer. - Vou fazer isso. – O senhor poderia rezar comigo? – Perguntou William olhando para o homem ao seu lado. - É isso o que realmente quer? – Perguntou,
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 41 mas desta vez olhando-o nos olhos. - Se puder, ficaria eternamente grato. – Disse com os olhos marejados. Os dois ficaram orando por alguns instantes, quando terminaram William sentiu seu coração bem mais tranquilo. Agradeceu por tantas graças que Deus concedia-lhe. Apenas sorriu para o homem ao seu lado e agradeceu. - Obrigado por ajudar-me. – Disse com o brilho no olhar. - Vou orar por você também. - Faça isso! É o que nos mantém caminhando. - O que você faz para viver? – Perguntou William. - Apenas converso com aqueles que moram na rua, os viciados, as prostitutas, os ricos, todas as pessoas, vivo para aprender e ajudar. - O que o senhor ganha com isso? - Um sorriso, uma oração. – Disse o homem olhando para o altar. Antes mesmo que William dissesse alguma palavra se retirou. Repentinamente William lembrou-se de não se apresentar, mas era tarde ele já tinha saído. Continuou por mais algum tempo quieto, sentindo a presença de Deus na paz que estava sentindo.
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    L.P.OWEN 42 Capítulo onze A PROCURA Todosestavam tomando café exceto William. A preocupação tomou conta do grupo, porque não tinha dito nada sobre ausentar-se. - Por que não damos uma volta para ver se o encontramos? – Questionou Oscar. - Como vamos achá-lo numa cidade tão grande como esta? – Disse Jorge. - Podemos usar o Romeu é um cão de caça, vai encontrá-lo facilmente. – Retrucou o outro. - Como faremos? – Disse Jorge em tom cético. - Vou trazer uma meia do William para o Romeu cheirar, se não passar mal com o cheiro, poderá encontrá-lo facilmente. Kasuo, que até então, não tinha dito nada, iniciou jogando um banho de água fria nos dois. - Romeu não foi treinado para caça, mas para ser guia. O que podemos fazer é sairmos à procura dele. Todos concordaram com ele, resolveram apenas dar uma volta pela redondeza. Andaram por algum tempo, mas não o encontraram. Estavam quase desistindo quando passaram em frente da igreja e Romeu caminhou em direção a porta. - Ele está querendo que entremos na igreja. – Falou Oscar. Oscar entrou, tomando o cuidado para não fazer muito barulho com as muletas, seguiu pelo corredor central indo sentar-se num banco bem em frente ao altar do Santíssimo.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 43 - Como foi que me encontrou aqui? - Perguntou William. - Podemos dizer que seu cheiro atraiu a gente. – Respondeu Oscar. - O que você quis dizer com isso? - Dei uma de suas meias para o Romeu cheirar depois de se recuperar ele nos trouxe até você. – Brincou. - Estávamos preocupados. Poderia ter nos avisados. – Desta vez disse sério. - Vocês estavam dormindo, não quis incomodá-los. Estava precisando ficar algum tempo só. Se quiser podemos ir andando. Os dois saíram ao encontro do restante do pessoal, que aguardavam no lado de fora. - Por que não entraram? – Perguntou William. - Nem sabíamos que estava aqui. Outro motivo é o Romeu. – Respondeu Kasuo. - Não acredito que Deus fique bravo. Ele também é sua criação. – Disse William. Enquanto caminhavam de volta para casa, conversavam sobre o que fariam no futuro.
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    L.P.OWEN 44 Capítulo doze A DECEPÇÃO Suamãe estava eufórica com o sucesso da apresentação, enquanto ela comemorava e recebia os cumprimentos Ruan estava distraído pensando no grupo que estava na fileira lateral próximo a porta de entrada. Ficou intrigado com aquele pessoal que o aplaudia freneticamente. Infelizmente não tivera oportunidade de conversar por mais tempo. Lamentou, quando conseguiu ficar livre e notou que tinham saído. O dia amanheceu bonito, o sol brilhava absoluto e prometia temperaturas elevadas. As pessoas caminhavam pela praça, Ruan costumava passear e ficar alguns momentos relaxando ouvindo os sons das águas provocados pela cascata que mantinha o nível do aquário. Um tanque de concreto e em alguns locais da parede havia mais de dois metros de altura. Construído em terreno com desnível, era possível apreciá-lo por dois modos, por cima e lateralmente. Em vários locais foram colocadas placas de vidro por onde era possível ver os peixes nadando como se o espectador mergulhasse junto a eles. Estava sentado apreciando o movimento, quando olhou em direção ao playground e viu uma criança que brincava numa das balanças. Ao ficar em pé o garoto perdeu o equilíbrio e caiu. Ruan instintivamente levantou-se e correu em direção do garoto. Enquanto corria gritava para chamarem um médico.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 45 Percebendo que o garoto tinha quebrado um dos braços. Notou também que estava desacordado, mas respirava. Sua mãe, descontrolada, queria pegá-lo no colo e levá- lo ao hospital, mas por instinto, Ruan segurou-a pelo braço, não permitindo que o fizesse. - Calma! – Pediu Ruan à mãe do menino. A mulher não conseguia se controlar e o acusava de não deixar socorrer seu filho. - Se mexer nele pode complicar a situação. Os médicos estão chegando. Não acabou de falar e ao seu lado dois paramédicos já estavam examinando o garoto. Deixando-o em boas mãos, Ruan deixou a praça retornando para casa. - Olá meu filho! O que aconteceu? Vera conhecia seu filho muito bem para desconfiar que algo estava errado. - Aconteceu um acidente com um garotinho na praça. Fiquei chateado com isso. Lembrei- me, quando sofri aquele acidente de bicicleta e fiquei triste pelo garoto que num momento estava brincando e em seguida não podia mover o braço. Depois de contar tudo para sua mãe ela disse com voz doce: - Você agiu corretamente filho, como sempre lhe falamos. Se não sabemos o que fazer, o melhor é pedir ajuda e não fazer nada. Depois da conversa, foi para a garagem, onde passava a maior parte do tempo fazendo o que mais gostava, tocar bateria.
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    L.P.OWEN 46 Capítulo treze O SHOWACABOU Cláudio, um rapaz bonito, cabelos e olhos castanho escuros, 1,85m de altura, porte atlético. Era um dos que atraia maior número de fãs para a banda. Apesar de todo assédio que recebia das garotas que frequentava os locais onde costumavam tocar, não tinha namorada. Alguns pensavam que era homossexual, mas o real motivo era o complexo que tinha por usar uma prótese na perna esquerda e um pequeno problema de gagueira que era acentuado pela ansiedade ou nervosismo. O show como sempre, nos últimos tempos, foi muito bom. Por ser o último, tinha um sabor amargo, era verdade, mas deviam uma ótima apresentação para os fãs que conquistaram ao longo do tempo. No final, cumprimentou os companheiros e saiu. Como sempre fazia após cada apresentação, passou uma flanela sobre as cordas do seu contrabaixo para não oxidarem. Guardou-o com carinho na maleta. Despediu-se do pessoal e saiu a caminho de casa. Enquanto caminhava, pensou na trajetória da banda. Lembrou-se da maneira como passou a integrá-la. Na época, com 22 anos, ao retornar da escola, entrou no restaurante apenas para tomar um suco e seguir seu caminho. Ao colocar seu instrumento sobre a mesa, não conseguiu passar desapercebido. O líder da banda que se apresentava no local foi em sua direção, parou na sua frente e
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 47 convidou-o a tocar com eles. Não foi necessário dizer duas vezes. Cláudio subiu no palco, durante a música a banda parou para ouvi-lo. Ficaram admirados com a apresentação do rapaz. Ver aquele talento e deixá-lo partir seria um desperdício. – Pensou o líder. Aplaudiram-no de pé por algum tempo. Agradeceu e já ia se retirando, quando foi convidado para ser o novo integrante do grupo. A partir daí o sucesso da banda foi aumentando até transformá-lo num dos líderes do grupo. Lembrou-se das viagens que fizeram, dos locais onde se apresentaram, das dificuldades e no momento em que deveriam colher os frutos, os egos dos integrantes, falou mais alto. Na rua, caminhando sozinho, sentiu algumas lagrimas rolando pelo rosto, assim como seus sonhos, desmoronaram. Sua vontade, naquele momento, era de sumir do mundo.
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    L.P.OWEN 48 Capítulo catorze UM PROJETOESPECIAL Sentado na varanda, apreciando o Sol que iluminava o jardim, muito bem cuidado, William pegou o lápis e o seu caderno de notas e começou a escrever. Você que me aquece; Dá a vida e a luz; Ilumina meu caminho; O destino me conduz. De dia estás ao meu lado; À noite longe estás; Sinto-me só, sinto frio; Deitado em minha cama; Como sempre acontece; Quando acordo e abro a janela; Lá me esperas tranquilo; Ao ver-te, tudo se alegra. Parou quando pressentiu a presença de Oscar. - Bom dia! – Disse o rapaz. - Bom dia! – Respondeu enquanto fechava o caderno. - Gosta de escrever? - É uma terapia. Gosto de escrever algumas coisas. Desabafo no papel. - Você nunca nos fala o que sente. - Sou um pouco retraído, escrevo, mas depois acabo jogando fora. – Respondeu William. - Poderia mostrá-las para as pessoas, quem sabe pudessem ajudá-las a ver as coisas de
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 49 outra forma. Ficou em silêncio. - Você não teve mais notícias de seus filhos? – Perguntou o outro. - Não. Faz uns seis meses. A última vez foi no aniversário do mais velho. Naquele dia, resolvemos caminhar, durante o passeio conversamos um pouco. Sentia vergonha por não ter condições de cuidar deles. Não tive condição de dar-lhe nenhum presente, nem uma pequena lembrança. - Será que ele não achou sua presença o maior presente, ou melhor, a melhor lembrança que pudesse ter ganhado? - Me senti impotente, uma sensação muito ruim. – William falou com tristeza na voz. Novamente ficaram algum tempo em silêncio, quando retomaram foi William quem mudou de assunto. - Por falar em sensação ruim, precisamos conversar sobre as despesas que estamos dando para o Kasuo. - Você tem razão. Temos que arranjar um trabalho o mais rápido possível. - O que poderemos fazer? Trabalhava com projetos e manutenções industriais. Com a minha idade não consigo nem entrevista. – Comentou William. - Eu sei pintar, cantar e andar de muletas. – Disse Oscar. William riu. Gostava do humor do rapaz, mesmo nas ocasiões mais difíceis sempre mostrava seu bom humor.
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    L.P.OWEN 50 “Oscar tinha idadepara ser seu filho”.- Pensou. Admirava aquele ser maravilhoso que, a cada dia, conhecia um pouco mais. Enquanto falavam, Kasuo e Jorge se aproximaram para participarem da conversa. - Sobre o que estão conversando? – Quis saber Jorge. - Como faremos para pagar o Kasuo por nossas despesas. – Respondeu William. - Vocês poderiam pagar-me trabalhando num projeto diferente de tudo o que já fizeram. – Kasuo falou enigmático. - E o que seria esse projeto? – Perguntaram quase em conjunto. - Os senhores poderiam acompanhar-me? – Indagou Kasuo, enquanto seguiu pelo jardim guiado por Romeu. Caminharam em direção a um galpão situado ao lado da casa. Pintado na cor Palha. Tinha duas portas, uma localizada na lateral, dava acesso a casa. A outra, na parte da frente, tinha 5 metros de comprimento por 3 metros de altura. - Senhores preparem-se para o que vão presenciar, porque até hoje não vi nada igual. – Disse sério. Todos riram. Quando Kasuo acionou o controle remoto ouviu-se o ruído do motor esforçando-se para erguer a porta enorme. Todos estavam curiosos para saber o que havia ali dentro. Depois de inteiramente aberta, revelou-se o que existia no galpão. O sentimento estampado em cada um dos
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 51 semblantes foi desolador. Pelo silêncio, Kasuo imaginou o tamanho da decepção do grupo. A descrição exata era do verdadeiro caos, estava inteiramente tomado por móveis, caixas, havia de tudo um pouco. Um depósito de tralhas. - Estou com você. Kasuo, nunca vi algo semelhante em toda minha vida. – Disse Oscar. - Calma pessoal! Explicarei minha ideia. Não se impressionem com o que estão vendo. – Tentou animá-los. - Pelo jeito deve estar pior do que imaginei. - Estou querendo limpar essa bagunça, jogar as tralhas fora, separar o que pode ser usado. O importante é liberarmos este espaço. – Finalizou Kasuo. - Não via a hora de fazer algo. Agora que já sabemos o que fazer, mãos à obra. – Disse William. No final todos se empolgaram e meteram a mão na massa. Cada um fez o que podia. Separaram as coisas pequenas dos móveis para um canto do quintal para serem doados às entidades assistenciais. Os materiais que poderiam ser reciclados foram colocados em outro local. Depois disso, foram retirados os móveis, com a ajuda dos catadores. William notou a presença de um automóvel colocado no fundo do galpão coberto com uma lona. Ao removê-la deu um grito de admiração. - Mas o que é isto? Kasuo, você conseguiu
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    L.P.OWEN 52 enganar a todos.- Completou. - Em que estavam pensando? Somente em limpar a garagem, jogando os entulhos fora? – Respondeu orgulhoso. - O verdadeiro motivo é criar espaço para colocar este automóvel após sua reforma. – Finalizou O cansaço foi esquecido pelo grupo. - Precisamos fazer uma avaliação para ver se vale a pena. – Indagou Jorge. - Quanto ao custo da reforma não se preocupem. Não reformei antes porque não tinha como verificar a qualidade do serviço. Agora que tenho em quem confiar, podemos iniciar o mais rápido possível, seu valor sentimental é muito alto, afinal ele pertenceu ao meu pai. - Está propondo que apenas fiscalizemos o serviço? – Perguntou Jorge. - Fiscalizar, verificar onde podemos encontrar profissionais de gabarito para a execução do serviço. Precisamos de um meio de transporte, ele será o nosso. - Além de um automóvel precisamos de um local para nossos ensaios acredito que poderemos formar uma banda mais breve do que pensei. Essa garagem é excelente, basta melhorar sua acústica e será perfeita. Faremos uma pequena reforma para separarmos a garagem do estúdio. - Você está propondo que formemos uma banda? – Desta vez foi Oscar quem perguntou. - Pensei muito no que William tinha proposto e achei algo razoável.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 53 - Então vamos começar agora mesmo. – Oscar conclamou entusiasmado. Cada um deu sua sugestão para execução do projeto da reforma da garagem. O desenho do projeto ficou por conta de William. O segundo passo foi verificar as peças que deveriam ser trocadas no automóvel, para terem uma ideia mais precisa, limparam o automóvel por completo. No final, o automóvel estava limpo, mas ao contrário, com a guerra de água iniciada por Oscar, todos ficaram molhados. - Até que não está tão estragado como você pensava Kasuo! – Comentou Jorge.
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    L.P.OWEN 54 Capítulo quinze RECADO DADO Geraldo,como sempre, deu um beijo na esposa, no filho de cinco anos e saiu. Enquanto aguardava o ônibus imaginava a forma de melhor aproveitar o dia. Chegando na central, depois de 70 minutos de viagem, cumprimentou seus colegas de trabalho, recebeu a bolsa contendo todas as cartas que deveriam ser entregues. Com o bom humor, que todos admiravam, saiu para cumprir sua obrigação. Passou em frente da residência de William, mas como antes, estava fechada. Continuou seu caminho para fazer as entregas das cartas em outras ruas do bairro. Restavam poucas correspondências para terminar seu trabalho. Estava compenetrado em confirmar o endereço de uma entrega quando, ao tocar a campainha, não percebeu o perigo. Sentiu uma dor muito aguda em seu antebraço, a primeira impressão foi de receber uma descarga elétrica muito forte, mas quando se deu conta percebeu que estava sendo dilacerado pela forte mandíbula de um animal. O ataque foi tão rápido que Geraldo não teve tempo de se defender. Gritou por socorro, mas não viu ninguém próximo que pudesse ajudá-lo. A única coisa que sentiu, antes de desmaiar foi a presença de um homem lutando para retirar seu braço da boca da fera.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 55 Quando acordou estava sendo tratado por um médico dentro de um automóvel de resgate ao lado um velho conhecido, que segurava a barra de ferro utilizada para livrá-lo do ataque do animal. - Geraldo está tudo bem com você? – Perguntou William. - Sim! Somente me lembro de ser atacado por um cachorro, o que aconteceu depois, não sei de nada mais. - Já está tudo sob controle. O cachorro está em observação para saber se você não o intoxicou. – Disse brincando. – A dona estava lavando o local onde ele fica e não percebeu que ele tinha escapado. - Conheço esta senhora ela é gente boa. Nunca tinha visto esse cachorro. – Respondeu Geraldo. - Ele fica na parte de trás da casa. O importante é que você vai ser encaminhado para o hospital, lá deixarão você novo em folha. Daqui a alguns dias você estará pronto para outra. – William riu novamente. - Acabei de lembrar-me. Tentei entregar uma carta registrada na casa onde morava. Como não te encontrei devolvi para central. Ligue para lá e procure se informar. - Ah! Antes que me esqueça. Obrigado! - Eu é que te agradeço por lembrar-se da carta. – Respondeu William. O rapaz foi levado para o hospital.
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    L.P.OWEN 56 Capítulo dezesseis O CONSELHO Odia amanheceu ensolarado, a temperatura muito agradável, um excelente convite para as atividades físicas. Ruan acordou cedo, seguiu em direção a praça. Como de costume, fez sua caminhada. Depois dos alongamentos, sentou-se num banco próximo da cascata que mantinha controlado o nível do aquário. Distraiu-se olhando as crianças que brincavam no parquinho em frente. Notou que cada uma delas tinha preferência por um determinado brinquedo. Algumas preferiam a balança, outras trepa-trepa e etc. Ruan apreciava o movimento, quando uma sombra enorme surgiu no chão à sua frente. Ao olhar para o lado deparou-se com o causador do fenômeno. Um homem alto e forte, barba por fazer. Usava um chapéu de feltro, que escondia os cabelos castanhos, parado à sua frente. Trazia embaixo do braço um jornal muito bem dobrado. Na mão, um saquinho pardo impresso panificadora Coisa Boa. - Bom dia! – disse o homem em tom alegre. - Bom dia! – respondeu Ruan. - Posso sentar-me ao seu lado? – Aguardando a resposta em pé. - Por favor! – Respondeu Ruan sorrindo. - Obrigado! Aqui é um ótimo lugar para relaxar, não acha? – Observou o andarilho. - O senhor tem razão. Venho aqui todos os dias. Faço uma caminhada, sento-me neste banco, ouço o som das águas caindo,
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 57 enquanto aprecio as crianças brincando no parque. Quase ia esquecendo-me dos pássaros que vivem disputando os melhores lugares nestas árvores. – Completou. – Você está servido? – Mostrando o pacote aberto com alguns pães. - Obrigado. – Respondeu. - A propósito, meu nome é Ruan muito prazer. – Completou. - O meu é Sílvio e o prazer é todo meu. Quando cheguei, notei que estava preocupado. – Falou enquanto mordia um dos pães. - Na verdade lembrei-me de um garoto que caiu do balanço. Gostaria que estivesse passando bem. - Você, como está passando? – Perguntou Sílvio. - Estou bem. – Respondeu evasivamente. Quando Ruan olhou para o lado, os olhos de Sílvio foram de encontro ao seu. Imediatamente, sentiu seu rosto corar e completou. - Pensando melhor, não estou tão bem assim. - O que te deixa infeliz? – Perguntou Sílvio enquanto mordia novamente o pão. A tranquilidade, a ternura transmitida na voz incentivava as pessoas a abrirem seus corações. Sua aparência simples despertava a confiança nas pessoas, além disso, tinha o dom de saber ouvir. - Desde que me conheço por gente estou sempre mostrando aos outros que sou capaz de fazer o que me proponho. – Iniciou Ruan. -
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    L.P.OWEN 58 Nasci com umpequeno problema, por isso tenho algumas limitações. A música faz parte da minha vida. Ela é como a minha alma, não sou nada sem ela. Ao falar em tocar bateria, as pessoas debocham, não me dão oportunidade de mostrar o que posso fazer. Tudo pelo preconceito. - Há pouco tempo atrás recebi o convite, para fazer parte de uma banda, de um pessoal que estava assistindo minha apresentação onde leciono. No tumulto não os vi mais. Talvez tenha perdido minha oportunidade, dizem que ela só aparece uma vez. - Não acredito que se tenha apenas uma oportunidade na vida. Você não acharia injusto para os que perdessem essa chance? – Perguntou Sílvio enquanto terminava de amassar o saquinho de pão. - Isso é o que dizem. – Retrucou Ruan. - Se acredita realmente nessa afirmação, só posso dizer que você perdeu sua oportunidade, caso o contrário, digo que ela ainda não apareceu, ou não era sua verdadeira oportunidade. – Falava docemente, mas com firmeza. - Você imagina se Pedro não tivesse uma segunda chance para seguir Jesus? – Sílvio continuou. – Muitas vezes queremos que as nossas necessidades sejam satisfeitas no momento que determinamos. Quando isso não acontece o pensamento que surge em nossa mente é de não termos outras oportunidades e ficamos chorando nos cantos como crianças mimadas que não tiveram suas vontades atendidas.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 59 Continue treinando que um dia, quando menos esperar, terá sua oportunidade, então se lembrará do que estou falando. - Bem! A conversa está boa, mas tenho que ir andando. – Sílvio despediu-se. Ruan pensou nas palavras que acabara de ouvir enquanto via Sílvio caminhar em direção a lata de lixo para jogar o saquinho de papel amassado.
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    L.P.OWEN 60 Capítulo dezessete RUAN ECLÁUDIO Cláudio tomou café da manhã e saiu. Estava sentindo-se bem. Caminhar sempre lhe dava prazer, aproveitava o tempo para pensar. As pessoas estavam todas apressadas sequer olhavam uma às outras. Ele, por sua vez, estava tranquilo, apenas pensando em dar um novo rumo para sua vida. Compenetrado nos seus pensamentos, quase atropelou Ruan, que se levantava do banco da praça para ir ver os peixes que passavam tranquilos próximos ao visor de vidro, não dando importância para os humanos que ficavam próximos do aquário. O impacto de Ruan no corpo de Cláudio foi tão forte, por pouco os dois não caíram sentados no chão. - Me desculpe estava distraído. – Disse Ruan imediatamente. - Eu que peço desculpas estava mergulhado nos meus pensamentos que não percebi você na minha frente – Respondeu Cláudio. - Espero não ter machucado com minha perna biônica. – Comentou Cláudio sorrindo. Percebendo que Ruan não tinha entendido a piada, resolveu mostrar-lhe a perna. A surpresa de Ruan ficou estampada em sua cara, mas no final os dois começaram a rir. - Meu nome é Ruan muito prazer. - O meu é Cláudio, o prazer é meu.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 61 Capítulo dezoito SÍLVIO Sílvio ajudava as pessoas, mas seus próprios problemas ficavam sem solução, não tinha com quem desabafar. Eles haviam começado alguns anos antes. Casado pai de um garoto bonito e inteligente. Um homem trabalhador que vivia para sua família. Começou a beber, no início, socialmente até se tornar um hábito. Algum tempo depois não tinha mais controle sobre o vício. Sua vida tornou-se um verdadeiro inferno. As brigas com sua esposa começaram a fazer parte do cotidiano. Até que um dia quase chegaram a se agredir, antes que ocorresse uma tragédia, resolveu sair de casa e não voltou mais. Passou a viver na rua, dormindo embaixo de viadutos, marquises. Sua alimentação era conseguida por doação de pessoas que encontrava. Seu estado de embriaguez era permanente, dificilmente estava sóbrio. Em um momento raro de lucidez, quando caminhava por uma avenida, viu uma aglomeração ao redor de uma pessoa que estava deitada no chão. Ao lado do corpo notou um saco onde havia algumas quinquilharias, pertences do rapaz que fora atropelado. Aproximou-se para matar sua curiosidade, levantou o plástico que cobria o corpo, não suportou a emoção e desmaiou. Cada um foi levado para um local diferente.
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    L.P.OWEN 62 Sílvio foi encaminhadopara um hospital público onde ficou em observação e encaminhado em seguida, para uma casa de recuperação para dependente químico. O rapaz foi levado para o IML. No começo tudo era difícil, sentia falta da ingestão do álcool, as dores eram intensas, ansiedade, irritação, sensações horríveis. Com o passar do tempo os sintomas diminuíram. A única coisa que não passava era a dor que sentia da perda. O arrependimento de ter escolhido um caminho errado. O tempo se arrastava, como uma forma de fuga dos seus pensamentos, dedicou-se aos afazeres do lugar e ajudar aos que estavam no início do tratamento. Quando saiu, voltou a morar nas ruas. Ficava nos bancos das praças, embaixo dos viadutos e etc. Muitas vezes perguntou a Deus por que ele vivia enquanto crianças e jovens morriam. A resposta não tardou. Uma criança caminhava sozinha chorando. As pessoas passavam pelo garotinho sem notarem o que acontecia, preocupadas com elas mesmas. Sílvio resolveu se aproximar. Depois de acalmá-la, pegou em sua mão, caminharam em direção a uma base da polícia próxima de uma praça. Quando chegaram, viu um casal que estava desesperado conversando com um policial em uma sala próxima. Ao informar que havia encontrado aquele garoto andando sem rumo o casal se virou e os dois choraram de alegria. Depois de muito abraço e choro, o pai do
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 63 garotinho foi em sua direção. - Não sei como te agradecer. – Disse o pai do garoto enquanto apertava a mão de Sílvio. – Que Deus te abençoe. - Quem tem de agradecer seu filho sou eu. – Sílvio acabava de descobrir a resposta de sua pergunta. Retirou-se, deixando os pais do garoto sem entenderem sobre o que estava falando.
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    L.P.OWEN 64 Capítulo dezenove MÃOS ÀOBRA Com a retirada das bugigangas, restando somente o automóvel, o espaço da garagem parecia bem maior do que anteriormente. Fizeram contato com diversos estabelecimentos de funilaria e pintura, para execução de um orçamento. - Vamos ter que aguardar a cotação completa da parte mecânica, da funilaria e pintura. – Disse William. Kasuo não estava preocupado com o valor do serviço, mas sim, com a qualidade. - Como ficou a garagem? Vai ser necessário pintarmos? – Perguntou Kasuo. - É uma boa ideia. Poderemos pintá-la, assim que retirarmos o automóvel. – Respondeu William. Todo material separado no dia anterior estava sendo despachado por Oscar e Jorge. Os dois presenciaram a felicidade do pessoal que vieram retirar os materiais descartados que, para eles, seria de muita serventia.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 65 Capítulo vinte A VISITA A campainha do interfone soou estridente, Helena deixou seus afazeres para atendê-la. Alguém do outro lado procurava pelo William. Quando abriu o portão, William ficou contente ao ver que Geraldo estava com ótima aparência, apesar do braço imobilizado. - O que te fizeram no hospital? Uma recauchutagem completa? - Fui reformado por completo, mas muito bem tratado. – Respondeu Geraldo. – O motivo da minha visita é apenas para te entregar o telefone e o endereço da central, onde retornam as cartas não entregues. - Vou verificar esse assunto. Desde já te agradeço pela gentileza e preocupação. - Como sempre digo, uma carta é sempre importante para duas pessoas; o remetente e o destinatário. – Disse Geraldo. - Nunca pensei por esse lado. – Comentou William. - Bom! Agora preciso ir, ainda vou passar pelo médico, não vejo a hora de tirar isso. - Disse mostrando o braço. - Você não quer entrar? - Vamos deixar para outro dia, estou ficando atrasado para a consulta. - Então obrigado pela atenção. – Disse William estendendo a mão. - Eu é que devo agradecer-te por ter-me salvo.
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    L.P.OWEN 66 Capítulo vinte eum ALGO INESPERADO Mais um dia havia passado sem notícia alguma do paradeiro de seu marido e do seu filho. Não entendia porque os dois resolveram partir e nunca mais voltar. Eram, o que se poderia dizer, uma família normal, com momentos de altos e baixo. Apesar de ser uma pessoa esclarecida, a atitude dos dois não foi assimilada. Maria, mulher guerreira, tinha traços bonitos, alta, cabelos castanho-claros. Grandes olhos castanhos davam a impressão de estarem atentos a tudo ao seu redor. Não sofria com a balança, seu peso não se alterava há anos, por isso, sempre foi invejada pelas amigas. Procurou por longo tempo encontrá-los num hospital, numa prisão, necrotério, mas não havia quem pudesse dizer onde os dois estavam. Nos últimos tempos já se acostumara a pensar na hipótese de terem sido enterrados como indigente. Seu coração já não suportava mais desilusões, pistas que nunca a levou a um lugar que pudesse ter certeza do que havia ocorrido. Há muito que deixara de procurá-los. Sentada no sofá da sala enquanto jantava sozinha, como de costume, quando se surpreendeu. Pela televisão, assistia a edição do jornal, quando mostraram um corpo coberto com sacos plásticos. Seu sexto sentido maternal imediatamente deixou-a em estado de alerta de que pudesse
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 67 ser alguém querido, uma tristeza profunda invadiu seu peito. O prato de comida foi deixado sobre a mesa ao lado. Agora sua atenção voltou-se para as informações sobre o acidente quando, um homem passando por trás do repórter chamou sua atenção. Novamente seu instinto deu sinais de que conhecia aquele homem. Um pouco mais velho e desalinhado, mas ainda assim continuava sendo aquele que a fizera fugir de casa para dividir o mesmo teto. Aquele que ainda fazia seu coração bater mais forte e sua respiração ficar ofegante. Ao vê-lo desmaiar ao olhar para o corpo estendido no chão, sua dúvida tornou-se quase uma certeza e não conseguiu mais se conter. Uma dor alucinante tomou conta de seu peito, como se uma espada atravessasse seu coração. Não demorou e o choro convulsivo foi inevitável. Sozinha sem alguém para confortá-la. Foi difícil voltar ao estado normal novamente, mas depois de tomar alguns copos de água com açúcar conseguiu se acalmar um pouco e colocar novamente as ideias no lugar e planejar o que faria. Dormir naquela noite, somente depois de muito custo e vencida pelo cansaço. Seu instinto mais uma vez não se enganara, após alguns dias, recebeu a notícia de que seu filho havia sido enterrado como indigente e que deveria providenciar toda documentação
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    L.P.OWEN 68 para reverter ocaso e transladar o corpo para o jazigo de sua preferência. Um pensamento não saia de sua mente, que Sílvio teria dado informações sobre seu filho, mas não soube explicar por que não a procurou.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 69 Capítulo vinte e dois ALGUNS MOMENTOS O trabalho na garagem caminhava a todo vapor, foram colocadas placas acústicas no teto e parede, para evitar que o som se propagasse e incomodasse os vizinhos. Uma divisória foi feita, deixado um espaço suficiente para o automóvel, que passava por um conserto completo numa oficina especializada. Enquanto isso na oficina de funilaria e pintura eram feitos os reparos em toda a lataria. Foi necessário deixar o automóvel apenas no chassi, para uma perfeita verificação do estado do veiculo e fazer um trabalho perfeito. Nesta etapa, já haviam removido todas as partes podres e restauradas as amassadas, restando apenas um fundo para proteção. A obra de funilaria estava entregue, faltando apenas pintura e polimento. A parte mecânica era executada por outro grupo. Motor, câmbio e suspensão estavam desmontados. Todas as peças passavam por inspeção detalhada a fim de verificar o estado de conservação de cada uma para sua reutilização. *** Ruan estava feliz, receberia naquela tarde em sua casa, uma visita muito importante. Quando a campainha tocou Ruan caminhou em direção à porta, alinhou a roupa, abriu-a.
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    L.P.OWEN 70 Ao ver Cláudioparado no portão ficou muito contente, porque muitas pessoas haviam combinado anteriormente com ele, mas nenhuma tinha aparecido, Cláudio seria o primeiro. Dona Vera não sabia o que fazer para agradar o visitante. Preparou um bolo de cenoura coberto com muito chocolate, alguns sanduíches de atum e maionese e um cafezinho feito na hora, que exalava seu aroma, enfeitiçando a todos. - Desse jeito vou vir aqui todos os dias! – Disse Cláudio. - Teremos um prazer enorme em te receber. – Respondeu sorrindo. Ruan mostrou a casa e o local onde sua bateria estava montada para seus ensaios de todos os dias. Quando Cláudio entrou na garagem e viu o tamanho da bateria não se conteve. - Minha Nossa! Os seus vizinhos devem ficar malucos com você! Ela é linda! Cláudio tirou seu baixo da maleta e os dois começaram a tocar. No início foi um Rock, depois foram alterando os ritmos, até fazerem um agrado para dona Vera tocando uma valsa. As horas passaram rapidamente, os dois combinaram outros ensaios. *** Caminhando pelas ruas da cidade, sem rumo é verdade, mas com a missão de ajudar aqueles pobres coitados que, como ele, viviam sob as estrelas, sem destino certo, sem bens materiais, a não ser a roupa do corpo. Com o seu faro para descobrir aqueles que estavam
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 71 com dificuldades, Sílvio abordou um rapaz que estava preste a drogar-se. - Olá meu rapaz! – Exclamou. - O que está afligindo-te? – Perguntou enquanto agachava- se para sentar ao seu lado. - Pô tiozinho! Deixa quieto! – Respondeu enquanto preparava-se para enfiar o rosto no saco onde se encontrava a droga. - Onde você mora? - Aqui na rua tio! - Onde morava antes de vir para as ruas? – Insistiu ele. Para despachar logo aquele homem inoportuno resolveu responder-lhe todas as perguntas. - Você não gostaria de voltar para casa? - Quem me quer lá? – Respondeu com tristeza. - Acredito que seus pais estejam preocupados querendo que você volte. Nesse momento o rapaz ficou calado por alguns momentos, mas quando começou, Sílvio sentiu toda a amargura na sua voz. - Voltar pra que? – Para apanhar para acordar, para almoçar, para jantar e para dormir? – Continuou. - O senhor não sabe o que é viver numa casa como a minha. Meu pai tinha cometido um roubo e foi preso. Na penitenciária, durante uma rebelião, foi morto, não sei se pelos policiais ou pelos presos. - Minha mãe arranjou um namorado mais torto ainda. - Enchia minha irmã de beijos e
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    L.P.OWEN 72 abraços. Comigo erasó na pancadaria. Há muito tempo tinha notado que minha irmã estava diferente, calada e todas as vezes que meu padrasto a pegava no colo ela estremecia de medo. Até que um dia cheguei mais cedo da escola, ao abrir a porta do barraco, encontrei os dois nus na cama. Ele obrigava minha irmã a fazer caricia nele dizendo que, se ela contasse para alguém, mataria todo mundo em casa. - Quando vi aquela cena, não pensei duas vezes, peguei uma faca na cozinha e voei para cima dele. Não consegui matá-lo, mas o estrago foi grande, a partir daí não vai poder mexer com menina nenhuma. Nunca mais. – Nesse momento sorriu. - Quando minha mãe soube do que tinha acontecido, deu parte na polícia para me prender, por tentativa de homicídio. Quem me salvou, foi o vizinho que presenciou tudo o que aconteceu e contou aos policiais que levaram o indivíduo. – Fez uma pausa e concluiu. - Acredito que agora seja mulher de algum preso ou já morreu. O rapaz agora mais receptivo olhou para Sílvio e disse: - Você foi o único que conversou comigo até agora para saber o que aconteceu. – Fez uma pausa e agradeceu. - Obrigado! - Por que não volta para casa? – Insistiu Sílvio. - Minha mãe é capaz de matar-me. - Só existe uma forma de saber. É você indo lá para ver. – Completou. – Se quiser posso ajudar-te.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 73 - Estaria disposto a isso? – Perguntou o garoto. Sílvio apenas estendeu a mão e aguardou que o rapaz a pegasse. - Se quiser se ajudar, eu também te ajudo. - A propósito, como você se chama? – Perguntou Sílvio. - Meu nome é José Luís, mas pode chamar- me de Zé Luís. Sílvio conseguiu levá-lo para o centro de recuperação por onde ele mesmo já tinha passado tempos atrás. - Este é o primeiro passo, eu espero que possamos dar outros. Estarei aqui para o que precisar. – Disse enquanto dava um abraço de despedida. – Tenho certeza que conseguirá dar outros.
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    L.P.OWEN 74 Capítulo vinte etrês RUAN A síndrome de Down acarretava algumas dificuldades para ser transposta por Ruan, uma era a dicção. Quando falava, algumas palavras tinham a necessidade de serem repetidas, isso o deixava nervoso e, consequentemente, a necessidade de repetição aumentava. Como de costume, Ruan seguiu para fazer sua caminhada. A praça estava repleta de gente. Ele aproveitava o momento de suas caminhadas para fazer novas amizades. Nas várias vezes em que caminhou sozinho, ficou prestando atenção nas diferenças entre as pessoas. Tinha aqueles que se produziam, outros, utilizavam apenas shorts e camisetas e assim por diante, cada um ao seu estilo. Suas roupas eram a mais confortável que pudesse usar. Algo que lhe chamava a atenção, era o fato, de algumas pessoas somente conversarem sobre doenças, enquanto cuidavam da saúde. Ruan prestava atenção nas características das pessoas que por ele passavam. Naquele horário eram quase sempre as mesmas. Havia um senhor, muito distinto, que fazia suas caminhadas, nos dias mais frios, utilizando jaqueta de jeans impecável. Admirava-se com sua elegância. Havia outro, um advogado, que invariavelmente era acompanhado por um de seus amigos, que não perdia a oportunidade de fazer uma consulta grátis.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 75 Ruan estava distraído em seus pensamentos, quando alguém tocou em seu ombro. - Bom dia! – Disse ao virar-se. - Faz muito tempo que você está caminhando? – Perguntou Cláudio. - Uns quinze minutos. – Respondeu Ruan com sua dificuldade peculiar na fala. - Preciso que me faça o favor de ir mais devagar! – Disse Cláudio. - É a minha perna mecânica! – Completou fazendo uma careta e encolhendo o ombro. Os dois caminharam por pouco mais de uma hora e depois fizeram alguns alongamentos, em seguida sentaram-se num banco embaixo de uma árvore enquanto apreciavam o movimento e colocavam a conversa em dia. - Espero que os pássaros nos poupem do bombardeio. – Disse Cláudio. Os dois riram muito, imaginando a cena, mas permaneceram ali onde conversaram sobre vários assuntos, um deles, não poderia deixar de estar na pauta, a formação de uma banda.
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    L.P.OWEN 76 Capítulo vinte equatro NA OFICINA Quase todos os dias e em horários próximos, a janela da casa de Kasuo era atingida por uma pedra. Todos ficavam chateados de não conseguirem descobrir quem era o autor, por esse motivo, resolveram manter a janela fechada para que as pedras não machucassem alguém. Alguns dias mais tarde, Oscar saiu cedo, sua missão, levar o novo projeto para a reforma do automóvel. Kasuo havia avisado o responsável, que seu homem de confiança passaria por lá neste dia. O pessoal da funilaria já estava aguardando ansioso por ele e quando foi anunciada a presença de Oscar, todos pararam o que estavam fazendo para conhecerem o “homem de confiança”. Quando aquela figura, parecendo um robô desengonçado, que ao movimentar-se fazia um barulho de metal rangendo, entrou na oficina, quase não conseguiram manter a seriedade. Oscar caminhou lentamente em direção do grupo, uma bolsa tiracolo contendo um tubo de papelão, parecido com os recebidos na colação de grau, porém um pouco maior. Os rapazes aguardavam ansiosos por ele. Em redor de uma bancada redonda, transformada em mesa para reuniões, esperavam a apresentação do projeto. Oscar parou apoiando-se numa das cadeiras, enquanto se debatia para pegar o tubo de papelão, que teimou em acomodar-se nas suas
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 77 costas, onde se encontrava o projeto final do automóvel. Ao desenrolar o papel vegetal sobre a mesa, não puderam acreditar no que estavam vendo e com tamanha perfeição. Cada um dos rapazes que olhava para o companheiro podia notar a mesma expressão no rosto, perplexidade. - Me desculpem a qualidade do desenho, espero que possa dar uma ideia do produto acabado. – Disse Oscar pensando que não tinham gostado do desenho. - Ele está tão perfeito que é capaz de sair do papel. Parece até que está desenhado em 3D. – Brincou o chefe da oficina. Oscar nem precisou dar explicações, porque o desenho falava por si e todos não tinham dúvidas sobre o que fariam. A conversa que se seguiu foi sobre amenidades. Divertiram-se tanto com Oscar que o comentário feito, não causou nenhuma surpresa. - Já que vocês são feras em funilaria como o Kasuo diz, não teria um jeito de melhorar minha carenagem? – Brincou Oscar. - Se quiser, poderemos pelo menos tirar o barulho! - Seria muito bom, quase assustei vocês quando cheguei. – Disse rindo. Depois de algum tempo sentado, Oscar recebeu seus suportes de pernas. Todas as articulações do equipamento que possibilitava sua locomoção estavam ajustadas e lubrificadas, não fazendo mais barulho algum.
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    L.P.OWEN 78 - Nossa! Nuncapensei, que algum dia poderia andar sem fazer barulho. Muito obrigado por tudo que fez. - Foi um prazer. – Respondeu o chefe. Oscar se despediu e enquanto caminhava fazia algumas graças para mostrar que caminhava muito melhor agora e o principal, sem barulho. Enquanto se afastava em direção a saída, os mecânicos se olhavam, no semblante de cada um podia ser visto uma grande admiração por aquela figura.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 79 Capítulo vinte e cinco O DURO INÍCIO Quando chegou à clínica, levado por Sílvio, foi apresentado a um homem aparentando ter entre 30 e 40 anos chamado Valter. Sua barba e cabelos compridos davam-lhe o aspecto de ser mais velho do que realmente era, a primeira impressão era de ser uma pessoa austera, mas no fundo, tinha um coração enorme. Ao ser apresentado ao Valter, José Luís recebeu um terço de presente e junto um livreto onde estava escrito “O Novo Rosário”. Sem muita conversa foi indicado um quarto onde dormiria naquela noite. O quarto era pequeno, mal cabia a cama e um armário. Num dos cantos tinha uma porta que dava acesso a um banheiro. - Tome um bom banho, escolha camisa, calça, cueca, meias e sapato desse armário, depois jogue toda sua roupa naquele saco plástico. – Informou Valter. - Os horários do café da manha, do almoço e jantar estão neste folheto afixado no quadro de avisos, se ocorrer atrasos, fica sem comer. Vá tomar um banho depois virei buscá-lo para o jantar. Saiu deixando-o só. Pensou em ir embora, mas resolveu tomar um banho e fazer como fora instruído. Ficou aguardando deitado enquanto lia o livreto que recebera. Pouco depois Valter chegou para buscá-lo.
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    L.P.OWEN 80 - Vejo queestava lendo o livreto? – Disse Valter. - Sim, mas não entendi muito bem. - Este livreto vai ajuda-lo na hora de rezar o Terço. – Explicou Valter. - Rezar o Terço? - Sim o Terço. Todos os dias, após o café da manhã e após o jantar você irá até a capela, ficará rezando conforme as explicações do livreto. Nos primeiros dias fez o Terço com boa vontade, mas com o passar dos dias começou a se revoltar e não querer mais fazer as orações. Resolveu falar com o diretor a respeito. Bateu na porta e uma voz deu permissão para entrar. - Posso falar com o senhor? - Pois não! Em que posso ajuda-lo? – Perguntou olhando por cima dos óculos. - Estou aqui a mais de uma semana e as únicas coisas que faço são: rezar o Terço de manhã e à tarde. – Disse um pouco alterado devido à abstinência. - Então quer dizer que está cansado de rezar o Terço, duas vezes por dia? - É isso aí! – Respondeu balançando a cabeça afirmativamente. Valter parou de falar, como se estivesse meditando algo, respondeu enquanto se levantava da cadeira e caminhava em direção a porta. - OK! Já está na hora de parar de fazer o Terço, amanhã comece a fazer o Rosário. Sem esperar qualquer resposta, abriu a porta e
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 81 aguardou o rapaz sair da sala.
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    L.P.OWEN 82 Capítulo vinte eseis UMA BOA CONVERSA Oscar saiu da mecânica muito contente, o suporte para as pernas não fazia mais barulho, até a sua locomoção ficou mais fácil. Kasuo havia determinado que Oscar utilizasse táxi para sua locomoção, mas ele resolveu voltar de ônibus. Desceu alguns quarteirões antes para caminhar um pouco e aproveitar o conforto que o ajuste estava proporcionando. Ao entrar na rua onde morava encontrou, por acaso, com os dois adolescentes que caminhavam um pouco mais à frente. - Olá! – Oscar cumprimentou os dois no exato momento em que jogavam uma pedra na janela de Kasuo. - Vamos nessa que sujou! – Disse um deles dando o sinal para fugirem. - Se vocês correrem, não vou conseguir acompanhá-los. – Disse Oscar. Quando perceberam que não poderiam ser molestados por aquele ser estranho e indefeso. Resolveram parar. - Poderíamos conversar um pouco? – Perguntou enquanto caminhava em direção dos rapazes. Vendo que os dois estavam parados esperando por ele iniciou com tranquilidade. - Nas primeiras vezes que jogaram pedra na minha janela, imaginei apenas algumas crianças procurando por aventura. - Ao descobrir que vocês são quase dois homens feitos, pensei no motivo que os levou
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 83 a esse ato, mas não consegui encontrar nenhum. Isso me deixou triste porque vi que o futuro próximo do meu País estará nas vossas mãos. O que poderemos esperar de vocês? Não esperou pela resposta ele mesmo concluiu. - Janelas quebradas? Espero que não! Imagino serem inteligentes o bastante, para saberem que isso não os levará a lugar algum, ou melhor, poderá levá-los a lugares indesejáveis. Só espero que antes que atirem uma pedra em alguma janela, pensem nas vossas mães em casa pensando que seus filhos queridos estão fazendo algo mais útil. Pensem nos seus irmãos menores, que exemplos, vocês poderiam ser para eles? - Sem esperar qualquer reação concluiu. - Obrigado por ouvirem, se quiserem tomar um café é só aparecer. Oscar caminhou em direção ao portão e entrou sem olhar para trás. Sabia que alguma coisa mudaria a partir de então. Os dois ficaram apenas ouvindo sem fazerem nenhum comentário.
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    L.P.OWEN 84 Capítulo vinte esete NOVAS PISTAS Maria acordou disposta a continuar recolhendo os pedaços, do que fora um dia, sua vida. Tomou um banho quente para relaxar e planejar a maneira como conduziria as investigações. O dia estava claro com poucas nuvens, o céu muito azul, mas não estava quente. Pegou sua bolsa, onde havia algumas fotos, carteira entre outros objetos, mas o principal era um bloco de notas com alguns endereços, datas e telefones anotados. Estava determinada a obter respostas para as questões que ainda atormentavam sua alma. No dia do atropelamento de seu filho, que assistiu no telejornal, seu instinto maternal lhe avisara do ocorrido, fato confirmado dias mais tarde. Agora restavam outras questões para serem esclarecidas. Entrou em contato com o pessoal da emissora para tentar rever a notícia sobre o atropelamento e verificar com calma se as suas suspeitas tinham algum fundamento. Foi recebida por um rapaz com seus 25 anos muito atencioso, que a conduziu para uma sala onde havia alguns televisores pequenos. - Bom dia! Meu nome é Dagoberto. Vou mostrar para senhora a reportagem em nosso equipamento de edição, assim a senhora poderá ter uma visão melhor, poderemos fazer diversos efeitos que não são possíveis num aparelho comum de TV, aqui a reportagem está completa, isto é, sem cortes.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 85 Maria fez um enorme esforço para rever as imagens do acidente. Nelas apareceria o corpo inerte de seu filho deitado naquele chão coberto apenas com um plástico escuro. Lágrimas rolaram pelo seu rosto, enquanto tentava contê-las com as mãos, Dagoberto estendeu-lhe gentilmente uma caixa de lenços de papel. - A senhora tem certeza de que quer ver estas imagens? - Está tudo bem, vou tentar concentrar-me no que aconteceu ao redor. – Eu preciso ser forte se quero descobrir toda a verdade. – Pensou. - A senhora está pronta? Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente, enquanto inspirava uma grande quantidade de oxigênio para se acalmar. Assistiu por várias vezes o VT, até que não teve mais dúvidas sobre o homem que havia desmaiado ao lado do corpo de seu filho. Apesar da dor que sentia em rever aquelas cenas, observar todos os detalhes possíveis era necessário. Após assistir dezenas de vezes, conseguiu obter detalhes sobre a ambulância, a quem pertencia, o hospital para o qual se dirigiu, horário e outras informações. - Agradeço imensamente de todo o coração tudo o que o senhor fez por mim. – Disse Maria ao rapaz que a atendeu na emissora. - Não por isso, estamos aqui para ajudar. Espero, sinceramente, que as informações
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    L.P.OWEN 86 possam ajudá-la dealguma forma. – Respondeu sorrindo. Maria saiu confiante de que encontraria o que procurava.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 87 Capítulo vinte e oito UM ALMOÇO A caminhada havia terminado há algum tempo. Estavam apenas sentados apreciando o movimento e conversando, quando ao longe Cláudio avistou Sílvio que caminhava na direção onde os dois estavam. Ele se aproximou, cumprimentou-os ia passando reto quando Ruan chamou-o. - Sílvio! - Pois não! – Respondeu imediatamente. - Pensei que viesse falar com a gente? – Disse Ruan. - Imaginei ser uma conversa particular, por isso não parei. Como vocês estão? - Bem e você? – Responderam juntos. - Os planos de montar a banda? Já saiu do outro plano e chegou a este? - Infelizmente ainda não conseguimos mais nenhum louco para se juntar a nós. – Desta vez quem respondeu foi Cláudio. - Algum tempo atrás conheci uns rapazes que estavam conversando sobre isso na porta de uma igreja. – Informou Sílvio. - Como eram? – Perguntou Ruan. Sem esperar resposta ele mesmo respondeu. - Eram meio esquisitos? Assim como nós? – Completou. - O que você quer dizer por esquisito? – Sílvio quis saber. - Desculpe me expressei mal. Tinham
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    L.P.OWEN 88 necessidades especiais. Umdos rapazes com deficiência visual, outro com necessidade de cadeira de rodas, um outro com muletas e o mais esquisito, aparentemente, não tinha necessidade alguma. – Informou Ruan. - Você já os conhece? – Disse Sílvio. - Foram eles que me convidaram para participar da banda que estavam formando. O senhor sabe onde eles moram? - Para ser sincero não, encontrei-os na porta da igreja, mas acredito que não será difícil encontrá-los. - Poderia nos ajudar a procurá-los? - Claro Ruan. Será o maior prazer ajudá-los. Ando por tantos lugares, conheço muitas pessoas. Vou ver o que posso fazer. - Bem eu preciso ir andando, afinal o quanto antes encontrá-los, melhor. - Você aceita ir almoçar com a gente lá em casa? – Perguntou Ruan. - Puxa! Agora você me balançou! É a primeira vez, desde quando comecei a morar sob as estrelas, que alguém me convida para almoçar em casa. - Então é mais um motivo para você não recusar. - Estou mal vestido! - Tentou arranjar uma desculpa. - Não tem problema, nós vamos para minha casa e não ao restaurante. – Disse Ruan sorrindo. Os três seguiram em direção a residência do rapaz.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 89 Capítulo vinte e nove O PASSEIO Oscar ouviu o som de pessoas conversando vindo da garagem e resolveu dar uma olhada. Ao entrar, todos levaram um susto, não ouviram o ranger das articulações das pernas. - O que vocês estão fazendo? - Estamos nos preparando para iniciar os ensaios. – Respondeu Kasuo. - Como foi na mecânica? – Perguntou William. - Ótimo! Atenderam-me magnificamente bem. - O que acharam? – Perguntou Jorge. - Ao mostrar o projeto não puderam esconder o que sentiram, foi desespero. – Sorriu. - Por que se desesperariam? – Desta vez foi Kasuo quem falou. - Você não viu os detalhes da pintura? – Brincou. - Deixa de ser palhaço, Oscar e conta logo. – Retrucou sorrindo. - Adoraram o desenho e as cores! Até reformaram minha carenagem, vocês não notaram nada de diferente? - Sim! Notamos! Você não faz barulho quando anda. – Responderam juntos. - O que mais me impressiona em vocês é que apesar de não terem ensaiado, estão muito afinados. - Agora que as coisas estão arrumadas, que tal darmos uma volta para arejarmos a cabeça? – Sugeriu William.
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    L.P.OWEN 90 - É umaótima ideia. Poderemos ir até a loja de instrumentos musicais e pesquisarmos alguns instrumentos, teclados, guitarras, equipamento para o som etc. – Kasuo estava determinado a voltar a tocar. Apenas deu um leve toque na guia e Romeu colocou-se ao seu lado, pronto para protegê-lo e levá-lo por caminhos seguros. Havia confiança, afinidade e sintonia entre eles. Quando saiam ninguém se preocupava com Kasuo, sabiam que Romeu cuidaria dele, se necessário, com a própria vida. A caminho da loja conversavam sobre diversos assuntos, um é sobre a necessidade de encontrar outros integrantes para o grupo. Surgiram alguns nomes para a banda, mas nenhum que agradasse a maioria. Kasuo estava feliz com o pessoal, nunca se sentira tão bem quanto agora, seu semblante e sua voz transmitiam a felicidade que estava sentindo. Até o Romeu demonstrava estar contente porque não parava de abanar o rabo a todo o momento.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 91 Capítulo trinta A SURPRESA José Luís não havia entendido o que Valter tinha dito, mas só o fato de não ter que rezar o Terço já era uma boa notícia. No almoço durante uma conversa com um amigo, comentou sobre o encontro que tivera com o diretor. - Hoje falei com o diretor e disse que não aguentava mais ficar rezando durante tanto tempo. – Disse sentindo-se um herói. - O que ele falou? – Perguntou já imaginando a resposta. - Falou que estava tudo bem, poderia parar de rezar hoje mesmo. - Não acredito, só isso? – Perguntou o outro inconformado. - Não! Disse que amanhã deverei passar a rezar o Rosário duas vezes ao dia. – Respondeu triunfante. - Me diz uma coisa! – Falou mais baixo. - O que é esse Rosário? - Você não sabe? – Disse o outro, quase não conseguindo falar de tanto rir. - Um Rosário, nada mais é do que, três Terços. Antes você rezava dois Terços por dia, agora serão seis Terços. – Completou. - Não brinca! Ele fez aquela cara de bonzinho, de compreensivo e me apronta uma coisa dessas. - Hoje à tarde vou falar com ele novamente. – Estava revoltado.
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    L.P.OWEN 92 - Não vaiadiantar, mas se quiser tentar boa sorte para você! – Disse o rapaz enquanto levantava-se para ir cuidar da horta. Ele resolveu acatar o conselho do amigo e preocupou-se com o trabalho de limpeza que tinha para ser feito. Alguns dias depois e com a desintoxicação mais adiantada, se sentia mais calmo. Certo dia, enquanto cuidava da limpeza dos banheiros coletivos, distraído com o trabalho que estava tendo para remover o encardido do teto, não percebeu a presença de Valter. - Bom dia José Luís! – Cumprimentou-o o diretor. - Bom dia! O senhor quer usar o banheiro? - Não, obrigado. Só vim conversar com você. José Luís desceu da escada e saiu acompanhando o diretor em direção do pátio. - Você está fazendo as suas orações todos os dias? - Sim! No começo estava revoltado, porque não via mudança nenhuma na minha vida, agora estou até mais tranquilo. - Nas suas orações, quais são os seus pedidos? - O que mais peço é saúde para minha mãe e minha irmã. Peço perdão por quase ter matado aquele infeliz e agradeço aquele bom homem por trazer-me para este lugar. De costa para a recepção não viu a aproximação de Sílvio que trazia consigo sua mãe e a irmã. - Zé! – Chamou sua mãe. Ao virar-se na direção do som, suas pernas ficaram fracas para sustentá-lo, quase caiu de joelho no chão. Se não fosse por Valter
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 93 segurar-lhe, provavelmente se machucaria. - Mãe! A senhora está bem? – Suas únicas palavras. Os dois não disseram mais nada, apenas se abraçaram e choraram. Valter e Sílvio visivelmente emocionados, apenas ficaram calados esperando que a saudade fosse amenizada naquele encontro. Apesar da dificuldade que tivera em encontrar os parentes do garoto Sílvio estava feliz, o tratamento do rapaz estava quase chegando ao seu final e dentro em breve poderia voltar para casa. Tatiana ficou esquecida momentaneamente e demonstrou felicidade ao encontrar o irmão. Quando José Luís lembrou-se dela, deu-lhe um abraço levantando-a do chão. - Zé me põe no chão. – Disse sorrindo. - Nossa! Como você cresceu! Você está na escola? - Sim, estou na 4ª série e sou uma das melhores alunas. – Disse a garota com orgulho. - Isso é ótimo. Fico feliz, que pelo menos você consiga estudar. - Me conta mãe, como a senhora descobriu que eu estava aqui? – Antes que sua mãe dissesse algo, entendeu. Virou para Sílvio e um sorriso de eterna gratidão apareceu nos seus lábios. O dia passou tão rápido, mas quando terminou, havia deixado um saldo muito positivo para aquelas pessoas.
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    L.P.OWEN 94 José Luís ficariamais algum tempo na clinica, mas tinha a certeza de um lugar para voltar quando saísse. Demonstrou vontade de ajudar na recuperação de outros, que como ele haviam entrado nessa porta de entrada larga, que são as drogas, mas que para sair torna-se muito estreita e poucos conseguem ultrapassá-la. Valter também estava contente, mais um que deixava o sofrimento e passaria a viver sem subterfúgios, teria condições de enfrentar os problemas que, com certeza, apareceriam pelo caminho, de peito aberto.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 95 Capítulo trinta e um AS ENCOMENDAS Naquele dia William acordou fora do seu horário habitual, quando chegou na cozinha para tomar café, percebeu que estava só. Procurou em todos os cômodos, não encontrou uma pessoa sequer. Resolveu ir até a garagem, também ali estava vazia. Pegou o jornal que estava sobre a mesa e sentado na varanda fez sua leitura. Mal começou, ouviu o barulho de um caminhão que estacionava em frente ao portão da casa. Não demorou e a campainha foi acionada, fazendo-o sobressaltar na cadeira. - Pois não! – Exclamou enquanto seguia em direção a entrada. - É a residência do senhor Kasuo? – Perguntou o motorista que trazia na mão um papel. - Sim. Em que posso ajudá-lo? - Nós viemos entregar os instrumentos musicais que foram adquiridos por ele. - Um minuto, por favor, vou abrir o portão e se o senhor preferir poderá colocar o caminhão aqui dentro para facilitar o descarregamento. – Admirado com a rapidez da entrega, não fazia muito tempo que a compra fora feita. Instantes depois, William abria o portão e o motorista colocava seu caminhão próximo à porta da garagem. Em pouco mais de trinta minutos tudo estava
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    L.P.OWEN 96 no lugar devidamentemontado como solicitado por William. Deu uma gorjeta para os rapazes em gratidão pelo que fizeram. O local estava maravilhoso, William sentiu-se orgulhoso de ter participado e ao mesmo tempo apreensivo em saber se o pessoal teria a mesma impressão com a disposição dos equipamentos. Sentou-se novamente na varanda e voltou a ler o jornal. Não demorou muito, o portão foi aberto, o primeiro a entrar foi Jorge com sua cadeira de rodas sendo empurrada por Helena, em seguida Romeu guiando Kasuo e finalmente Oscar que, como sempre, fazendo uma de suas palhaçadas para que todos rissem. - Bom dia pessoal! – Disse William enquanto dobrava o jornal e levantava-se para ir de encontro deles. Todos responderam ao cumprimento com um sorriso nos lábios. - Por que estão tão felizes? – Perguntou William. - Acabamos de encontrar uma senhora muito alegre que nos convidou para fazermos uma visita no asilo onde ela presta serviço como voluntária. – Respondeu Kasuo. - Ela também agradeceu pelos móveis e roupas que mandamos quando fizemos aquela limpeza da garagem. Sem que percebessem, William fez com que todos caminhassem em direção a garagem. Ao entrar Oscar deu um grito de alegria fazendo com que todos se sobressaltassem
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 97 com o susto, não escapou ninguém, até o Romeu, com o grito, latiu. - Não acredito no que estou vendo, por favor, Jorge me belisca para ter certeza de que estou acordado. Não demorou e Oscar deu mais um grito, só que desta vez foi de dor pelo beliscão. - Não precisava ser tão forte assim. – Disse Oscar enquanto passava a mão para diminuir a dor que sentia. - Foi você quem me pediu. – Respondeu o outro enquanto sorria. A felicidade era geral. Todos os equipamentos estavam em sua embalagem de transporte. No momento que Jorge olhou para o estojo da sua guitarra na embalagem teve uma grande surpresa. Kasuo havia trocado o equipamento por outro de qualidade infinitamente superior ao que tinha escolhido. Abriu o estojo e sobre a guitarra havia um tecido de veludo e sobre ele um cartão com a dedicatória que dizia “Para aquele que tenta esconder seu talento”. Apenas conseguiu dizer obrigado. A surpresa não parou por ai. Sem o tecido sobre a guitarra, verificou que o seu nome estava gravado no equipamento, não conseguiu se segurar mais deixando que suas emoções falassem por ele. Como uma criança ao receber um presente tão esperado, imediatamente ligou o amplificador e afinou a guitarra, dedilhando alguns acordes. William ajudou Oscar a montar e regular o
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    L.P.OWEN 98 som dos microfones. -Por favor, alguém poderia conduzir-me até o piano. – Disse Kasuo ansioso. Helena se encarregou de ajudá-lo. O som que começou a ocupar o ambiente foi empolgando todo mundo a ponto de William demonstrar seus dons musicais, até agora guardados em segredo, fazendo dueto com Oscar. No término da música todos ovacionaram o novo integrante da quase banda. Ficaram durante muito tempo ensaiando novos arranjos.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 99 Capítulo trinta e dois MAIS PERTO Havia anotado em seu bloco de notas, locais e pessoas para contatar. Não queria perder tempo, mas havia a necessidade de colocar as coisas em ordem, resolveu entrar em um restaurante, sentou-se em uma mesa que estava localizada num dos cantos, onde poderia ter a tranquilidade suficiente para organizar um roteiro. Um garçom se aproximou trazendo o cardápio. Fez seu pedido e devolveu-o ao rapaz que aguardava ao lado. Enquanto seu pedido era providenciado ela anotava em sua agenda os contatos que faria em seguida. Olhou por alguns instantes pela janela e imaginou por onde andaria a pessoa que um dia tinha passado por sua vida e caminhando ainda pela mesma estrada, não conseguia encontrá-lo. Todas aquelas pessoas andando de um lado para outro, cada uma com suas preocupações, seus medos, suas ambições enfim, todos tinham algo por resolver. Lembrou-se dos momentos que passaram juntos, de quando seu filho era apenas um garotinho querendo descobrir o mundo, seu marido cobrindo-a de carinho e atenção. Sentiu falta daquela época e lamentou porque havia terminado. Hoje não podia mais abraçá- lo, beijá-lo e dizer o quanto o amava e essa
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    L.P.OWEN 100 vontade que nãopermitia que desistisse enquanto não o encontrasse. Imediatamente afastou de seus pensamentos a tristeza que, vez por outra, teimava em instalar-se no seu coração, mas ela tinha uma missão e não descansaria enquanto não cumprisse o que se propusera a fazer. O garçom trouxe o seu pedido, como sempre começou pela salada, depois comeu apenas um filé de frango e algumas verduras cozidas. Pagou e foi em direção a sua primeira etapa, a empresa proprietária das ambulâncias. Descobrir o hospital onde Sílvio tinha sido levado não foi difícil, tinha o número da ambulância e o dia da ocorrência. A tarde estava chegando ao seu final, resolveu continuar sua investigação no dia seguinte pela manhã. Voltar para casa e não ter quem esteja à sua espera deixava Maria triste, sua casa que antes era alegre, agora não havia mais piadas, brincadeiras, não havia emoções, apenas coisas terrivelmente arrumadas. Tomou um banho, preparou um chá com torradas, resolveu deitar-se mais cedo, para acordar com os primeiros raios de sol e continuar sua busca.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 101 Capítulo trinta e três O ASILO Dona Vera, mãe de Ruan, uma mulher ativa que gostava de ajudar as pessoas, sem qualquer tipo de preconceito. Uma de suas atividades era participar, como voluntária, de uma creche e de um asilo. A necessidade de deixar seu bebê Ruan, com Síndrome de Down, aos cuidados de outras pessoas, levou-a a fazer uma busca minuciosa pela redondeza a procura de uma creche que pudesse cuidar dele. Ao chegar no endereço indicado por alguns amigos, percebeu que em frente da creche havia um asilo, como no período de adaptação teria que ficar na secretaria para qualquer necessidade de Ruan, aproveitou o tempo ocioso e resolveu visitar o asilo. Não demorou muito e já era uma das voluntárias. Pelo menos, naquela época, duas vezes por semana fazia sua visita. Ajudava na cozinha e na limpeza, mas o que mais gostava de fazer era cuidar das vovós e vovôs. Sempre que falava com eles, utilizava a palavra “Vovô ou Vovó” seguido pelo nome. Uma de suas preferidas era vovó Dirce, que infelizmente havia falecido alguns anos depois. Vera, como de costume nos finais de semana, pegou sua sacola contendo vários objetos utilizados pela maioria das mulheres, como secador, escovas, estojo de maquiagem entre
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    L.P.OWEN 102 outras coisas ese dirigiu ao asilo, onde era esperada por todos. Sua chegada, nos sábados, modificava o astral do asilo aguardavam por aquele momento a semana toda. Com auxílio de outras voluntárias lavavam, secavam e aplicavam escova em todas as vovós. Ao terminarem faziam a maquiagem e tiravam as cutículas. Uma profissional encarregava-se de tratar dos pés de cada um deles, nesse mutirão os vovôs não eram esquecidos. Por incrível que possa parecer ao retornar para sua casa, no final da tarde, jamais se sentia cansada. - Me divirto muito com elas, me deixam com a alma leve. – Era o que respondia quando perguntada. Ao chegar, como sempre bem-humorada, a diretora veio cumprimentá-la. - Olá minha querida como você está? - Muito bem e a senhora, dona Emile. - Também estou ótima! Estou muito empolgada com a festa que estamos preparando para o pessoal e gostaria de saber se nosso asilo poderá contar novamente com sua valiosa ajuda? - Claro que pode! Estarei aqui se Deus assim permitir. - Nós estávamos pensando em procurar algum conjunto que possa abrilhantar nossa festa, mas até o momento não conseguimos ninguém. - Dona Emile, se a senhora quiser poderia pedir para meu filho e um amigo dele tocar alguma coisa caso não encontremos uma
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 103 banda. - Como te falei não temos ninguém disposto a fazê-lo, logo, seu filho e o amigo dele são bem-vindos. Vera seguia para a enfermaria para cuidar das vovós, mas no caminho percebeu que alguns móveis, caixas de papelão e outros tipos de embrulhos estavam sendo selecionados e separados para serem distribuídos. - Nossa! Estão fazendo alguma mudança? – Disse sorrindo. - Isso é uma doação feita por um rapaz vizinho da dona Emile. – Respondeu uma das moças encarregadas do almoxarifado. - Agora estou sabendo quem é, ela já me havia falado sobre ele e se não me engano era um grande pianista. – Replicou Vera. O dia passou rápido, quando saiu o Sol ainda brilhava no céu. Estava feliz, sentindo-se com a alma leve por ter feito tantas pessoas felizes. Não via a hora de chegar em casa, a primeira coisa que fez foi informar Ruan, sobre o convite da diretora do asilo e sua reação não poderia ser outra. - Mãe! O que deu em você para se comprometer? Como apenas eu e o Cláudio poderemos fazer um show. Sou baterista e ele toca contrabaixo, faltam alguns instrumentos e no momento não sei como arranjá-los. Percebendo que sua mãe ficou entristecida pela notícia, abraçou-a e completou. - Poderemos ver o que arranjamos. Não se preocupe. Como você sempre diz no final, se
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    L.P.OWEN 104 for por umaboa causa, tudo se acerta. Ela tinha algo em mente e colocaria em prática o mais rápido possível.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 105 Capítulo trinta e quatro UMA OBRA-PRIMA A campainha do interfone tocou, Helena atendeu e uma voz masculina foi ouvida. - Bom dia! O senhor Kasuo está? - Quem gostaria de falar com ele? - Vagner, trabalho na oficina onde o senhor Kasuo deixou o automóvel para restauração. - Um minuto que vou avisá-lo. Minutos mais tarde, todos estavam no portão principal. A curiosidade em saber o resultado da restauração era generalizada. Quando o portão foi aberto e Vagner entrou com o automóvel a cena que seguiu poderia ser considerada hilária. Com exceção de Kasuo, estavam todos com a boca aberta. A admiração pelo trabalho feito pelos mecânicos estava estampada no rosto de cada um. - Então o que acharam? – Vagner sorria vendo a expressão de cada um deles. Kasuo que até o momento não tinha entendido nada perguntou desesperado. - Então como ficou o serviço? - Um minutinho Kasuo enquanto nós terminamos de babar com esta maravilha. – Respondeu Oscar. - Ficou uma obra de arte, parece até que saiu de um ateliê agora pouco. – Completou William. - A documentação também está em ordem, nosso despachante regularizou tudo. –
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    L.P.OWEN 106 Informou Vagner. - Jáque está tudo regularizado, para darmos uma volta, só precisam arrumar um motorista. – Completou. - Posso dirigir, apesar de não ter automóvel há algum tempo, minha carta foi renovada. – Disse William. - Faremos um passeio após o almoço! - Informou Kasuo. A chegada do automóvel provocou entre o grupo uma animação como a ocorrida na chegada dos instrumentos. Vagner, que fora intimado a ficar para o almoço, divertia-se com os comentários. Nunca tivera a oportunidade de conviver com pessoas tão doidas como aquele grupo. Oscar, como sempre, fazendo o grupo se divertir imitando alguns cantores conhecidos. Após o almoço, foram para a sala, onde Helena serviu um café saboroso que só ela conseguia fazer. - Terminei de almoçar e tomei meu café. Farei como fazem os cachorros sem dono, vou embora para oficina porque ainda tenho muito a fazer esta tarde. – Disse Vagner. - Falando em cachorro, esse aqui é muito bonito e parece ser muito inteligente também. - É um tremendo amigão. É só você fazer cara de coitado e ele encosta-se em você pedindo carinho para te distrair. – Informou Jorge. - Não se preocupe Vagner, nós iremos levar você até a oficina. – Disse Kasuo enquanto entregava o cheque no valor combinado. Chegado o momento de dirigir, depois de muitos anos, William sentiu a boca seca, a
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 107 ansiedade transformara-se em temor. Vagner, que não deixou de notar a insegurança de William, através de uma conversa, sem que os outros percebessem, tratou de tranquilizá-lo. - Esse automóvel é muito simples de dirigir. Nos automóveis automáticos a configuração mais comum é: P: Park, que bloqueia as rodas de tração para auxiliar o freio de estacionamento, recomendada para dar a partida e desligar o motor. É recomendado acionar o freio de estacionamento antes de mudar para esta posição. R: Reverse - Marcha ré. N: Neutral pode-se usar esta posição para desligar e dar partida, se diferencia do "P", por não bloquear as rodas de tração. D: Drive, utilizado na maior parte do tempo. Faz o carro andar para frente utilizando todas as marchas disponíveis. Os números 4, 3, 2,1: Bloqueia o engate até a marcha do número selecionado, deve ser ativado para usar o freio motor, ou subir um aclive acentuado, quando o câmbio fica mudando constantemente entre duas marchas. Exemplo: Subindo a serra o câmbio fica alternando entre a 3 e 4 marchas em períodos curtos; colocar o câmbio na posição 3 impede o engate da quarta marcha, aumentando o conforto e a vida útil do sistema. Na descida se pode usar o mesmo artifício para usar o freio motor, mantendo a terceira engatada. Depois das explicações dadas por Vagner, William sentiu-se mais seguro e conduziu com tranquilidade e destreza. Antes que
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    L.P.OWEN 108 Vagner entrasse naoficina agradeceu a dica. Ficou tão empolgado com a facilidade para conduzir o veículo, que quase esqueceu de perguntar onde o grupo queria passear. Por unanimidade eles resolveram passear pelo bairro. Oscar incumbiu-se de descrever a paisagem para o amigo e o fez com tantos detalhes que recebeu elogios de todos, principalmente do próprio Kasuo que disse não ter conhecido ninguém que o fizesse com tantos detalhes.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 109 Capítulo trinta e cinco VISITA PARA KASUO Dona Vera tinha a incumbência de entregar o convite, em nome da diretora do asilo, para o senhor Kasuo em agradecimento pelo mobiliário que havia enviado como doação alguns dias atrás. Antes de sair percebeu que Ruan estava muito quieto e resolveu perguntar. - O que te preocupa meu filho? Ruan resolveu se abrir com sua mãe. - Estou muito preocupado com o que vamos tocar no asilo, afinal uma bateria e um contrabaixo não é um som agradável para ser ouvido por pessoas idosas. - Meu filho! Não tem por que se preocupar. – Continuou com voz doce. - Essas pessoas, em alguns casos, não têm mais nada na vida. Muitas vezes, até a esperança de dias melhores já não possuem mais. O que for feito por elas, desde que seja com amor, será bem-vindo e apreciado. Apenas coloque todo seu amor e deixe que elas decidam o que gostam ou não. Ruan gostava de conversar com sua mãe e expor suas preocupações, sempre tinha uma palavra que o ajudava nas decisões. Depois da conversa com o filho e de ter certeza que tudo estava bem, dona Vera resolveu atender o pedido da diretora e entregar o convite para o senhor Kasuo. Ao chegar ao endereço mencionado no cartão
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    L.P.OWEN 110 tocou a campainhae aguardou. Aparentemente tudo estava deserto, mesmo assim, tocou novamente e nada de atenderem ao interfone. Depois de aguardar mais algum tempo resolveu ir embora. No instante em que ia se retirar um automóvel muito bonito parou em frente da garagem. Ao vê-la parada no portão, o motorista desceu vindo em sua direção. - Boa tarde! No que podemos ajudá-la? – Perguntou William enquanto descia do automóvel. - Boa tarde! Meu nome é Vera estou vindo em nome de dona Emile diretora do asilo Esperança, procuro pelo senhor Kasuo, ele mora aqui? Imediatamente a porta traseira foi aberta e o primeiro a sair foi Romeu e Kasuo saiu em seguida. - Pois não, eu sou Kasuo, muito prazer! É melhor entrarmos para conversarmos. Vera ficou bem ao lado daqueles que normalmente chamavam a atenção por onde passavam. Sua conduta foi notada por Oscar, que imediatamente comentou. - Normalmente as pessoas tendem a sair correndo quando encontram com esse bando esquisito como o nosso, mas confesso que fiquei surpreso com a senhora. - As pessoas podem se surpreender com os aspectos de vocês no primeiro momento, mas tenho certeza, que com o tempo elas passem a admirá-los por suas essências. – Disse com seu jeito meigo de ser. - A senhora aceita um café? – Helena
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 111 perguntou enquanto servia. - Sim! Obrigada. - Minha vinda aqui é para trazer um convite a todos vocês, para uma festa que faremos no asilo Esperança em homenagem aos nossos internos. Outro motivo é para agradecer a doação feita. – Continuou. – A festa será uma forma de proporcionarmos um pouco de diversão para eles. Pretendemos fazer um jantar com música, mas por enquanto só temos a bateria do meu filho e o contrabaixo de um amigo dele. Oscar, como sempre se propôs a ajudar. - Se quiserem podem ter alguém que cante estou disposto a ajudar. - Se quiserem um guitarrista conte comigo. – Disse Jorge. - Um pianista conte comigo. – Disse Kasuo. - Se quiser um carregador para tudo isso, conte comigo. – Completou William sorrindo. - Agora pouco estava conversando com meu filho e ele estava preocupado por ter somente, até aquela altura, dois instrumentos. Agora temos quase uma orquestra. – Disse emocionada. - Caso eles queiram ensaiar conosco é só aparecerem. Não será necessário trazer nada, aqui temos todos esses instrumentos, só não tínhamos quem os tocassem. – Kasuo estava feliz em voltar a fazer de sua casa um local onde a música imperava. Conversaram por um longo período, dona Vera não conseguia esconder a felicidade de
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    L.P.OWEN 112 ter encontrado aquelaspessoas e não via a hora de contar a boa nova para o Ruan. - Está muito agradável conversar com vocês, mas estou ansiosa para falar com meu filho. – Completou. - Como havia dito no começo, ao invés de se esconderem, mostrem o quanto vocês são maravilhosos. Depois que Vera saiu o silêncio foi quebrado por Jorge, um dos mais tímidos do grupo. - Uma grande mulher acaba de deixar esta casa. Só lamento não poder levantar-me em sua homenagem. - Bem senhores, agora que estamos todos comprometidos com a festa, ensaiem para não fazermos feio. – Disse Oscar para descontrair.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 113 Capítulo trinta e seis NA IGREJA Como sempre, saiu sem rumo, mas ao passar por uma igreja resolveu entrar, havia poucas pessoas e as que ali estavam precisavam de algo, companhia para desabafar, uma oração, até mesmo o silêncio ajudava. Ele sabia o quanto era importante estar ali, muitas vezes viera para ajudar os outros e no final era ele o ajudado, porque saia dali mais tranquilo e mais forte. Apenas conversando com as pessoas, dando um pouco de atenção, conseguia fazê-las se sentirem bem melhores e elevar o ânimo de muitos. Entrou, passou pelo altar, seguiu em direção do Sacrário onde o Santíssimo se encontrava, o local mais importante da igreja. Como de costume, depois de reverenciar o Senhor inclinando-se e ajoelhando-se, sentou num banco vazio. A paz daquele lugar, muitas vezes, fazia-o esquecer de que existia um outro mundo lá fora. Olhando para as pessoas ao redor que estavam fazendo suas orações, pediu por elas. - “Senhor, não sei porque me trouxe até aqui”. – Sílvio pensou. - “Sei Senhor, que tens meios únicos de fazer as coisas para ajudar-nos, confesso que nem sempre entendo imediatamente, somente depois de algum tempo acabo por compreender seus motivos”. Sílvio ajoelhou-se e começou a orar, não
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    L.P.OWEN 114 demorou e suaconcentração o fez desligar-se do que estava acontecendo a sua volta. Suas lembranças fizeram com que ele regressasse para o início de sua vida na pequena propriedade rural encravada no sopé do monte, onde muitas vezes subira a cavalo. Muito rapidamente algumas imagens vieram em sua mente, como num filme as etapas passavam de forma desordenada, até que uma figura muito conhecida e amada tomou conta de seus pensamentos. - “Quero pedir seu perdão por não ter sido um bom pai, de fingir não estar ouvindo quando me chamava dizendo que estava com medo, pensando em torná-lo mais forte e independente, de nunca ter tempo para as suas brincadeiras, suas histórias, suas dúvidas, porque eu estava sempre cansado do trabalho”. - “Sei que agora é tarde para pedir seu perdão, porque muitas coisas me pediu e eu te neguei, meu amor, minha paciência, até o que não era meu te neguei, meu tempo”. Enquanto pensava em seu filho, lágrimas rolavam pelo seu rosto fazendo sua alma ficar mais leve, tanto que as imagens que estava vendo eram de seu filho sorrindo e dando-lhe um beijo. Quando voltou a realidade percebeu o que tinha acabado de acontecer. Desta vez era ele quem estava sendo ajudado e agradeceu a Deus por mais essa graça. Antes de levantar-se e sair, pensou ter ouvido alguém chamando por seu nome.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 115 Capítulo trinta e sete VERA FALA SOBRE KASUO Era quase noite quando dona Vera chegou da residência de Kasuo. Seu filho e o amigo Cláudio estavam na garagem ensaiando algumas músicas para apresentarem na festa do asilo. - Olá meus queridos! Como vocês estão? Os dois cumprimentaram-na com um beijo. - Vocês não estão com fome? – Preocupada como todas as mães. - Nós comemos os doces que estavam na geladeira, talvez mais tarde. – Respondeu Ruan. - Hoje tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e elas se propuseram a nos ajudar na festa que faremos no asilo. – Disse Vera feliz. - Cada vez que a senhora fala dessa festa, fico mais preocupado, faltam poucos dias e não encontramos quem toque conosco. - O que a mamãe falou antes? – Ela mesma respondeu. - Não falei para você fazer sua parte com amor e carinho, que o restante Deus te ajudaria? Acabei de conhecer um pessoal que tem uma banda, ou melhor, estão formando uma e aceitaram nosso convite. Comentei sobre vocês dois e eles disseram para vocês dois ensaiarem com eles. - Agradecemos, mas o Cláudio já sofreu com a discriminação e eu não quero passar por isso.
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    L.P.OWEN 116 - Antes detirarem conclusões, por que não dão uma passada em sua casa e resolvem se param ou continuam os ensaios. - OK! Amanhã iremos até lá e conversaremos com eles. – Prometeu Ruan. – Agora estamos com fome. Dona Vera retirou-se para a cozinha e depois de algum tempo, quando voltou, carregava uma bandeja com vários sanduíches e uma jarra de suco.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 117 Capítulo trinta e oito ALTA DA CLÍNICA José Luís, como sempre fez durante sua estada na clinica, depois de escovar os dentes e arrumar sua cama, saiu em direção ao refeitório. Enquanto saboreava seu café não percebeu que Valter vinha em sua direção. - Bom dia! – Disse Valter. - Olá Seu Valter! O senhor precisa de algo? Depois de algum tempo, José Luís percebeu que o intuito do diretor era apenas ajudá-lo, ainda mais após a visita que recebera de sua mãe e irmã. - Preciso que você deixe seu quarto em ordem porque você vai nos deixar, você já está pronto para o próximo desafio, talvez o maior de sua vida, enfrentar a vontade de se drogar sem que alguém possa impedi-lo, você estará livre para decidir. Sinceramente espero que você possa superar essa fase. Aviso-te que vai ser briga de gato grande. – Completou. - Já pensei nisso e vou fazer o possível para nunca mais ter de voltar aqui para tratamento. - Se você tiver vontade volte para ajudar. Agora vá arrumar seu quarto porque sua mãe e sua irmã estão esperando por você na recepção. José Luís fez como tinha determinado o diretor e aproveitou para despedir-se do pessoal com quem conviveu todo aquele tempo, começando pelo pessoal da cozinha da limpeza, enfim de todos os funcionários e
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    L.P.OWEN 118 voluntários com quemconviveu. Enquanto caminhava em direção a recepção sentiu o quanto tinha sorte, muitos, que por ali passaram, não conseguiam fazer aquele trajeto. Lembrou-se da cena que presenciara não muito tempo atrás, quando um dos rapazes que havia saído num dia, no outro, tinha morrido por overdose. A tristeza de Valter ao saber do ocorrido foi presenciada por ele, que ao entrar no escritório do diretor para fazer a limpeza costumeira, encontrou-o chorando. Quando perguntou o motivo, Valter apenas respondeu que havia perdido uma grande alma. Aquele dia foi o estopim para sua admiração por ele. José Luís aprendera a admirá-lo e a entendê-lo. Sabia que era um bom homem escondido atrás de uma cara de mau. Seu coração batia mais forte à medida que se aproximava da porta da secretaria. Sabia que ao passar por ela sua mãe estaria lá para lhe dar o apoio necessário, mas também tinha plena convicção de que teria que se tornar mais forte para resistir às tentações. Havia conhecido vários jovens como ele, que pensavam em usar drogas apenas uma vez, para experimentar e depois parar. Alguns, para conseguir sustentar o vício começaram a retirar as coisas de casa para vender e com isso manter seu vício, com o tempo já não tinham mais o que vender, aí passavam a praticar pequenos furtos depois roubos muito maiores. No momento, ao defrontar-se com a polícia somente tinham dois caminhos, o
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 119 cemitério ou a cadeia. Recebeu um abraço demorado de sua mãe, ali se lembrou das vezes que ao acordar com medo de algum pesadelo que tivera durante a madrugada e corria para proteger-se naquela fortaleza. Os dois ficaram abraçados por longo período.
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    L.P.OWEN 120 Capítulo trinta enove A BUSCA CONTINUA Maria acordou com a sensação de estar no caminho certo e por isso tinha esperança de encontrar seu marido o mais rápido possível. As informações obtidas na emissora de televisão seriam de grande ajuda. Seu primeiro passo entrar em contato com a empresa proprietária da ambulância que conduziu seu marido para o hospital. Discou o número, foi atendida por uma jovem muito atenciosa, ela revelou não poder informar dados, por telefone, das pessoas transportadas. Maria anotou o endereço e o nome da pessoa responsável fornecidos pela garota e desligou. Tomou um café da manhã bem reforçado, não tinha a intenção de parar para almoçar e assim aproveitar melhor o dia. Teve o cuidado na escolha de suas roupas e sapato visando o conforto que precisaria para a longa jornada. Ao chegar na empresa, foi atendida por uma funcionária muito simpática. - Bom dia! Meu nome é Maria, muito prazer! - Bom dia! O meu é Gisele, em que posso ajudá-la? - Estou procurando meu marido. Ele sofreu um desmaio na rua e foi transportado por uma de suas ambulâncias. - A senhora tem a data da ocorrência? - Sim, aqui está. – Maria passou um papel onde estava anotado data e hora da ocorrência. Num instante Gisele digitou os dados no
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 121 computador, imediatamente apareceu na tela o registro do boletim de ocorrência. Nele constava toda a informação necessária para que Maria pudesse encontrar o que estivesse procurando. Com o papel na mão Maria agradeceu Gisele e saiu em direção ao novo endereço. Algum tempo depois entre ônibus, metrô e caminhada, conseguiu chegar por volta das 15:00 horas no endereço indicado. Seguiu em direção ao balcão de informação, lá uma garota informou que não ocorreu nenhuma internação com paciente masculino de nome Sílvio na data solicitada conforme dizia naquele boletim. - Esta informação, eu consegui com a empresa que presta serviço de remoção aqui no município, lá me informaram que ele foi trazido para este hospital. - Pode ter sido trazido, mas não ficou internado. – Respondeu a atendente. - Se ele foi atendido aqui deve existir algum registro do atendimento, onde posso informar-me a respeito? – Maria não esperava que obtivesse sucesso. - Como não tenho nenhuma ficha de internação e a senhora tem informações que foi atendido neste hospital, então a única possibilidade é que tenha sido no pronto- socorro ou na emergência. A senhora precisa dar a volta e entrar na rua ao lado e seguir até a próxima esquina e informar-se no PS. – A recepcionista devolveu-lhe o boletim e se
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    L.P.OWEN 122 virou para atenderoutra pessoa. Maria aceitou a ideia da recepcionista e seguiu para o pronto-socorro. Ao chegar no local indicado, dirigiu-se para o balcão de informações onde foi atendida por uma senhora muito simpática. - Boa tarde em que posso ajudá-la? – Perguntou mantendo nos lábios um sorriso franco. Maria explicou a situação e com os dados na mão a recepcionista fez a consulta no terminal do computador e nele encontrou uma ponta de esperança. No dia indicado no boletim de ocorrência entregue, Elizete constatou o atendimento. - A senhora tem razão seu marido foi atendido, porque teve um desmaio, após os exames, não constatado nada ele ficou em observação por algumas horas e foi liberado. - Você poderia dizer-me qual endereço consta na ficha? - Infelizmente não temos o endereço, o que consta aqui na ficha que no dia ele informou que morava na rua, pelo menos está escrito no campo de observações. – Completou Elizete. Maria já tinha perdido a esperança de encontrar seu marido, agradeceu e ia saindo quando Elizete veio correndo em sua direção e em sua mão um papel. - Olha dona Maria, acabei de lembrar-me do caso do seu marido, ele foi encaminhado para uma clinica de recuperação de dependentes químicos, aqui está o endereço. Maria pegou o endereço, mas já era tarde e não teria tempo para chegar lá, resolveu
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 123 deixar para o dia seguinte.
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    L.P.OWEN 124 Capítulo quarenta RUAN ECLÁUDIO Ruan foi acordado por sua mãe com uma xícara de café, tomou um banho e ficou aguardando por Cláudio. Convidou-o para que viesse tomar o café da manhã com ele. Não demorou muito, os dois, já estavam a caminho para conhecerem seus novos companheiros. Durante o caminho a conversa entre eles era sobre a expectativa da nova situação. A dúvida estava no fato dos dois se acharem diferentes, não sabiam como seriam recebidos pelo novo grupo, pelo senhor Kasuo que parecia uma pessoa de mais idade que eles. O trajeto deixou-os mais confiantes sabiam que eram capazes, não seriam pequenos problemas que os afastariam dos seus sonhos. De fronte ao portão pararam, por alguns instantes, a indecisão tomou conta dos dois, até que Ruan decidiu apertar a campainha. Aguardaram para serem atendidos. Não houve quem os atendessem. O segundo toque dado. Novamente o som da campainha foi ouvido. Imediatamente uma voz feminina solicitou, pelo interfone, que aguardassem um momento. - Em que posso ajudá-los? – Perguntou Helena enquanto se aproximava do portão. Ruan com seu jeito único de falar perguntou sobre Kasuo. - Bom dia! Meu nome é Ruan e gostaria de falar com o senhor Kasuo. Helena abriu o portão e os dois, um pouco
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 125 timidamente, entraram e seguiram-na até a sala de estar. Aguardaram enquanto eram anunciados. - Tenho a impressão que ele vai se assustar ao ver essas duas figuras na sua sala. – Disse Cláudio que até o momento estava calado. - Vamos procurar fazer uma cara bonita. – Completou Ruan rindo da situação. A porta foi aberta Helena entrou e avisou que seu patrão em poucos minutos estaria chegando. - Os senhores aceitam um café ou uma água? Os dois optaram por um pouco de água, estavam com a boca seca devido ao nervosismo. Não demorou muito, a porta novamente foi aberta, desta vez é Kasuo quem aparece acompanhado por Romeu. Os dois ficaram surpresos ao verificarem que além de ser bastante jovem, tinha uma deficiência visual, imediatamente todo o nervosismo passou, a partir de então, começaram a ficar a vontade. - Bom dia! Meu nome é Kasuo e estou feliz por terem aceitado o convite. - Bom dia! – Responderam ao mesmo tempo. - Meu nome é Ruan e este é meu amigo Cláudio... Ao perceber que estava cometendo uma gafe tratou de consertar. - Me desculpe Kasuo. - Não tem problema nenhum, depois de tanto tempo já estou acostumado. Fique tranquilo que você não é o primeiro nem será último.
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    L.P.OWEN 126 - Não seise minha mãe falou, além do problema de fala, que você deve ter notado, tenho síndrome de Down leve. - Eu sou o Cláudio, muito prazer! O meu problema é o uso de pernas mecânicas e tenho também um pouco de gagueira. – Completou. – Não precisava nem dizer que sou meio gago. - Aqui cada um ajuda o outro, colabora com o que tem. Formamos uma família. Kasuo estava falando, quando a porta foi aberta e os três entraram, Ruan e Cláudio compreenderam o sentido das palavras dele. William entrou primeiro empurrando a cadeira de roda de Jorge, logo atrás Oscar, com sua armadura e seu sorriso. William incumbiu-se das apresentações dos outros, Ruan e Cláudio fizeram o mesmo. Kasuo comentou sobre o que cada um fazia. - Eu sou pianista, Jorge toca guitarra, Oscar é um excelente cantor e William, que acabamos de descobrir nele um cantor que nem ele conhecia, além disso, é nosso empresário. Ruan informou que era baterista e Cláudio tocava contrabaixo. - Por que não vamos a garagem para sabermos do que este bando de especiais é capaz de fazer. – Sugeriu Oscar. Sempre zombando da sua própria condição. Costumam dizer que nasceu de teimoso e vivia só para contrariar a classe médica. - Vamos ver se somos capazes de agradar as vovós. – Completou. Antes de saírem em direção à garagem, Kasuo perguntou à Helena se tudo estava
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 127 como lhe havia pedido. - Tudo como pediu. William foi o primeiro a entrar para acender as luzes, ao olhar para uma cadeira que costumava sentar, quando estavam tocando, viu um estojo muito familiar e sobre ele um cartão onde pode ler “Os dons, que Deus nos dá, não serão mantidos escondidos eternamente, seria um grande desperdício”. Ao perceber do que se tratava, chorou copiosamente. Todos, até os que acabavam de entrar para o grupo, foram abraçá-lo. - Deixa-me reapresentar o William para vocês dois. – Disse Kasuo. - Este é William, cantor, nosso empresário e há pouco tempo descobrimos que também é um violinista. - Faz muito tempo que não toco. – Disse timidamente. - Como descobriram? - Você me mostrou uma foto - Disse Oscar - nela pude notar que havia um estojo no sofá, no começo não sabíamos qual instrumento era por causa da qualidade da foto, mas em uma conversa com o vendedor de uma loja ele me disse que era de violino. Você pensou que somente ficaria ouvindo música? – Continuou com a gozação. - Quero agradecer a todos, não sei o que seria de mim sem vocês, mas como disse faz muito tempo. - Desculpem-nos! – Iniciou Kasuo dirigindo- se aos novos componentes. Tínhamos preparado essa surpresa para ele.
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    L.P.OWEN 128 - Que talcomeçar o nosso ensaio, afinal, a apresentação não está tão longe assim! - A propósito, a bateria e o contrabaixo estavam esperando por vocês dois, portanto, aos seus lugares. Cada um se posicionou no instrumento e a primeira etapa foi para afinação. - Nós não vamos tocar o pesadelo dos músicos? – Comentou Oscar. - Pesadelo de quem? – Perguntou Helena. - Dos músicos! – Retrucou Oscar. – Vocês nunca participaram de alguma reunião, onde o mestre de cerimônia, para homenagear alguém, pede para os músicos dar a introdução do “Parabéns a você” e em poucos instantes estão cantando cada um num ritmo diferente e os músicos deixam de acompanhar e acabam perseguindo os cantores. A risada foi geral; em poucos instantes todos estavam descontraídos, inclusive os novos. A primeira música ensaiada foi o Fantasma da Ópera, depois de algum tempo de ensaio, em dado momento, todos pararam para ouvir o solo da bateria, Ruan deu seu show e ao terminar, foi aplaudido por todos em seguida foi Cláudio, que também foi muito aplaudido pelo grupo. Nascia uma banda.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 129 Capítulo quarenta e um COM MUITA ESPERANÇA O relógio acionou o alarme no horário estipulado. Normalmente tinha o hábito de levantar-se antes de ouvi-lo, mas desta vez, não estava disposta, não queria ter mais uma decepção. Tocou levemente no botão para desligá-lo temporariamente, aproveitou para se decidir sobre o que faria. Não demorou muito, o alarme tocou novamente. - “Não vou ter sossego enquanto não levantar”. – Pensou. Enquanto esquentava um pouco de água para o café aproveitou para selecionar a roupa que usaria. Gostaria de poder ficar um pouco mais no banho, mas o tempo era implacável e teimava em passar muito rapidamente. Tomou um café reforçado. Saiu sem muita convicção quanto ao sucesso de sua busca. Olhou o endereço anotado no papel e seguiu na direção do ponto de ônibus. Maria conhecia a cidade, porém, não tinha a menor ideia da localização da rua. Ao chegar numa praça central da cidade resolveu pedir informação sobre a clínica, mas ninguém soube informá-la. Estava quase desistindo quando um senhor, que acabara de passar por ela, ouviu-a e explicou com clareza onde ficava a rua que ela desejava. No ônibus indicado passou pela roleta, pagou a passagem e sentou-se próxima do cobrador para ser informada quando deveria descer. A
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    L.P.OWEN 130 viagem demorou maisdo que previra, o motivo não era distância e sim o itinerário. Ao ser avisada, aguardou que o ônibus parasse e desceu. Por sorte, o ponto situava-se próximo da clinica. Parada defronte ao portão, seu coração começou a bater mais forte com a expectativa do reencontro. Uma senhora caminhou em sua direção, mas a informação que recebera sobre Sílvio foi negativa. - A senhora sabe onde ele mora? – Perguntou desesperada. - Raramente ele vem aqui. – Respondeu a mulher. - Faz uns dois meses que não o vejo, estive em férias e voltei a trabalhar hoje. Fale com o diretor, eles são amigos. – Completou. - Se puder gostaria muito. O portão foi aberto, Maria entrou. Foi encaminhada para uma porta na qual estava escrito “Diretor entre sem bater”. Deu um leve toque na porta e entrou. Foi recebida por uma garota que acabava de desligar o telefone. - Bom dia! – Disse Maria. – Gostaria de falar com o diretor, ele está? - Quem gostaria de falar com ele? - Meu nome é Maria, sou esposa de Sílvio e... Não precisou terminar de falar Valter já estava cumprimentando-a. - Bom dia! Meu nome é Valter. - Bom dia! O meu é Maria estou procurando por Sílvio. Fui informada que ele passou algum tempo aqui com os senhores. - Passou algum tempo conosco, mas não
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 131 mora mais aqui. Para ser mais preciso vem aqui somente quando tem alguém que necessite de nossa ajuda. - O senhor não sabe onde poderei encontrá-lo? - Ele vive nas ruas da cidade, andando de um lado para outro, pode estar em qualquer lugar, não tem um endereço fixo. Convidei muitas vezes que ficasse morando aqui, mas ele não aceitou. - Pensei estar próxima dele, mas tenho a impressão que nunca mais vou encontrá-lo. - Não pense nisso, um dia as coisas acabam se acertando, basta confiar. - Agradeço pela atenção e, caso ele volte, aqui está meu telefone e endereço. – Entregou um papel dobrado. - Pode ficar tranquila, caso ele volte entregarei o bilhete. Não entendia o que estava acontecendo. Depois de andar de um lado para o outro se sentiu cansada. Estava precisando de ânimo, resolveu entrar em uma igreja, que tinha visto na praça. Aproveitaria para descansar o corpo e aliviar o espírito. Havia poucas pessoas em seu interior, caminhou em direção ao altar do Santíssimo como sempre fazia com Sílvio. - “Toda procura não levou a lugar algum”. – Pensou enquanto caminhava em direção ao altar. De joelhos e cabeça baixa, nos seus pensamentos se perguntava por que o destino quis que ficasse só, quando seu maior sonho
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    L.P.OWEN 132 era ter umafamília grande. Perdera tudo que amava. Durante sua conversa com Deus, pediu que acalmasse seu coração, que orientasse seus passos e ordenasse seus pensamentos, então de olhos fechados procurou sentir a paz daquele lugar. Quanto mais se concentrava, mais tranquila e serena ficava. Em seus pensamentos todos os acontecimentos eram exibidos, como um filme de sua vida. No seu íntimo um novo sentimento surgiu. - “Agradeço-te Senhor, por me fazer entender, que mesmo sendo breve o momento que temos com os que amamos o importante é que sejam intensos como o fogo que purifica e a música que faz bem a nossa alma e o amor que nos transforma”. Alguém tocou delicadamente seu ombro, enquanto lhe perguntava “em que posso ajudá-lo?”, ao soerguer a cabeça levou um susto ao ver aquela figura enorme com cara de espanto, usando roupas surradas, cabelo comprido e barba por fazer, teve vontade de sair correndo, mas não conseguia se mexer nem responder. Já refeita, reconheceu, apesar da aparência, quem era. Não conseguiu se conter abraçou-o, beijou-o ao mesmo tempo em que chorava de alegria, queria contar e perguntar tudo de uma só vez. O tempo parou, nada mais importava, queria apenas viver aquele momento tão esperado, aproveitar cada instante intensamente e recuperar todo o tempo perdido. Sílvio não acreditava no que estava
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 133 acontecendo. Não sabia porque teve a ideia de perguntar se podia ajudar, quando ele era quem mais precisava de ajuda. - “Seria um sonho ou estarei enlouquecendo”. – Pensou ele. Ficaram abraçados, sem dizer palavra alguma que pudesse atrapalhar o som das batidas dos seus corações. Depois de algum tempo puderam voltar ao mundo real. Cada um contou sobre o que tinham passado. - Quando acordei hoje cedo, estava sentindo uma tristeza enorme. Sempre corri para este local quando me sentia assim e procurava ajudar outras pessoas. Dessa forma, conseguia recarregar minhas forças, desta vez, Deus me trouxe aqui, não para ajudar outras pessoas que precisavam de uma palavra, do calor da proximidade de um semelhante, ou mesmo o silêncio, mas para me ajudar. – Sílvio foi quem primeiro falou. - Neste lugar, encontrei-me com diversas pessoas e Deus estava preparando-me para este momento, porque sentia vontade de estar neste lugar. Durante muito tempo deixei de aparecer depois do atropelamento de n... Não conseguiu terminar a frase, a cena de seu filho deitado no chão coberto com saco plástico preto ainda não havia desaparecido de sua mente. Maria que já sabia do ocorrido tocou-o nos lábios com a ponta dos dedos e deu-lhe um abraço. - Por que não me procurou? – Ela desejou
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    L.P.OWEN 134 saber. - Procurei depoisde algum tempo quando consegui ficar sem beber, mas você já não morava mais naquela casa e os vizinhos disseram que havia mudado e não deixara nenhum endereço ou telefone para contato. - Como me encontrou? – Sílvio quis saber. Enquanto ela explicava todos os caminhos até encontrá-lo, um garoto se aproximou e sentou-se no banco ao lado.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 135 Capítulo quarenta e dois O AVÔ José Luís estava apreensivo com a expectativa do retorno. Quando chegaram no portão de casa notou que algumas coisas estavam mudadas, a começar pelo portão que estava pintado na cor grafite, o quintal estava limpo e gramado, algumas pedras colocadas formavam o caminho até a casa. A pintura deu uma aparência de uma casa nova. O rapaz sentiu que ali agora parecia um lar, quando perguntou para sua mãe quem tinha feito tudo aquilo ficou surpreso com a resposta. - Não se preocupe que você já vai saber. – Respondera sua mãe. Enquanto se aproximava da porta da cozinha sentiu o aroma familiar, entrou e se surpreendeu com a presença de um homem que estava em pé coando café. Não se encontravam desde que sua irmã tinha nascido. - Não acredito no que vejo! – Disse o garoto. – Estava com muita saudade de você. Correu na direção daquele homem que tanto amava e admirava, seu único e verdadeiro herói. - O que te fez voltar? – Perguntou enquanto dava um abraço de boas vindas. - Pensa ser fácil para eu ficar longe de vocês? – Respondeu com doçura. - Você vai morar com a gente? – Perguntou o
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    L.P.OWEN 136 garoto. - Você gostaria? -Você sabe, isto é o que mais quero. – Respondeu olhando nos olhos daquele que tanto admirava. Enquanto colocava as xícaras com o café na mesa falou com emoção. - A saudade de um garoto que deixei, de uma garotinha, e uma filha que descobri ser uma grande guerreira, que apesar de estar sozinha conseguiu criar vocês, foi o que me fez voltar. Não consegui viver longe sabendo que vocês estavam aqui e poderiam estar passando necessidade, como vocês não foram para minha casa resolvi mudar para cá. - Esta é a melhor notícia que recebi, então poderemos ficar juntos de agora em diante? – Perguntou para o avô. Foi o senhor quem arrumou tudo por aqui? - Você gostou? - Claro! Está como na clínica onde passei algum tempo. Lá nós cuidávamos da horta, jardins, limpeza e tudo mais. Aprendi algumas coisas, poderemos cuidar de tudo por aqui. - Então posso contar com você para me ajudar? - Pode estar certo disso. Poderemos fazer muitas coisas. – Respondeu sorrindo. Zé Luís, como era chamado pelo avô que também se chamava José, desde muito novo fizera de seu avô o seu melhor amigo. Durante alguns anos, viveram juntos, em todo o lugar que o avô ia levava o neto junto. Os dois, às vezes, pareciam crianças ora
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 137 brincando, ora fazendo bagunça e sendo repreendidos pela filha. Certo dia, por insistência do genro, teve que se separar do seu neto amado. A mudança para outro estado impossibilitaria de encontrá-lo mais assiduamente. Fora a pior notícia que recebeu, ele sabia qual era o real motivo do seu genro querer se mudar. Desconfiara do romance dele com uma vizinha, que alguns dias antes havia mudado para a mesma cidade. A partir de então somente o sofrimento e saudade do neto e da filha. Sozinho morando numa chácara acabou desistindo do cuidado com a ordem e limpeza do terreno, do jardim que ele havia plantado. Tudo era passado, agora estava junto com aqueles que amava e não queria pensar nas coisas ruins. Para aproveitar todo o tempo possível, convidou José Luís para construir mais um quartinho nos fundos da casa.
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    L.P.OWEN 138 Capítulo quarenta etrês OS PREPARATIVOS Dona Vera saiu em direção ao asilo, queria ajudar nos preparativos para a festa. O pátio foi liberado para receber os internos e seus parentes e os funcionários, para ouvirem o concerto que seria apresentado. Algumas pessoas voluntárias estavam fazendo a pintura e limpeza do local, verificando tudo o que poderia ser melhorado, dando os últimos retoques. A diretora estava muito contente com a notícia que dona Vera trouxera de que haveria uma apresentação de músicos. - Hoje meu filho foi até a casa do senhor Kasuo que virá com sua banda. - Fico feliz, assim poderemos alegrar nossos internos por alguns instantes. – Disse Emile visivelmente emocionada. - Tenho certeza de que será um lindo dia. - Deus te ouça. – Completou Emile. - Recebemos doação de roupas, sapatos entre outras coisas, eles estarão todos lindos. - Que notícia excelente Emile, no início, nós tínhamos uma ideia, agora falta apenas alguns detalhes, a propósito, preciso saber quando os rapazes poderão vir aqui para verificar o local onde tocarão. - O pessoal termina tudo hoje à tarde, a partir de amanhã já poderão vir sem problema nenhum. Minha única preocupação ainda é com a alimentação que vamos servir. - Esse item a mim também tem sido motivo de preocupação. O estoque que temos não vai ser suficiente para festa e para o restante do
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 139 mês. - Quem sempre me diz para ter fé, que tudo vai dar certo? – Lembrou Emile. - Sou eu! Vamos confiar que tudo vai dar certo, como sempre. Não da forma que queremos, mas como deve ser. Antes de sair, Vera sorriu para Emile, tinha uma caminhada longa até sua casa. Esperava encontrar seu filho Ruan quando chegasse, mas para sua surpresa ainda não tinha voltado. Resolveu preparar uma xícara de chá. Foi até o quintal, onde mantinha uma horta bem cuidada, ali selecionou alguns ramos de hortelã. Depois de preparar o chá, sentou-se e fez um balanço de tudo o que ainda era necessário para a festa do asilo. Apesar de ser apenas uma simples voluntária, se preocupava com o bem-estar daquelas pessoas que ao término de sua jornada eram tão carentes de afeto, principalmente o familiar, de necessidades materiais, cuidados médicos entre outras coisas. Fazia algum tempo que Helena trabalhava como voluntária a convite de sua grande amiga Emile, esta causa que abraçara com tanto empenho muitas vezes era o motivo de sua maior preocupação. Estava distraída em seus pensamentos, que não percebeu o tempo passar, quando se deu conta já anoitecia. Ouviu o barulho, muito conhecido da porta de entrada sendo aberta e a costumeira frase, “Mãe cheguei!”, que Ruan sempre usava.
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    L.P.OWEN 140 Não sabia porqueadorava tanto esta frase, se pelo jeito carinhoso como era dita ou por saber que seu tesouro havia voltado em segurança ou uma mistura dos dois. Estava tão radiante que sua mãe ficou ainda mais curiosa para saber o que tinha ocorrido no encontro com os rapazes. Depois do beijo e abraço costumeiro. - Como foram as coisas? - Ótimo! Não poderia ser melhor. Foram eles que no dia da minha apresentação me convidaram para tocar, mas com o tumulto que estava acabei não dando uma resposta. - Você conheceu os outros rapazes? – Perguntou Ruan. - Sim todos eles. - Por que chama-o de senhor Kasuo, ele tem apenas alguns anos mais que eu? - É verdade! Não sei exatamente. Uma questão de respeito? – Disse sem muita convicção. - Agora me diz como te receberam? - Me senti como se estivesse na minha casa, a maioria deles tem necessidades especiais. - O Oscar parece um robô. Ele utiliza uma muleta e suas pernas precisam estar presas com esses ferros até a cintura, mas é o cara mais engraçado que já conheci em toda minha vida. - No começo, achara o Cláudio um rapaz “normal” sem problemas físico. Quando ele se apresentou, o Oscar comentou que ele parecia produto pirateado que somente olhando não achamos o defeito. - Todos rimos inclusive o Cláudio que quase
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 141 engasgou de tanto rir enquanto levantava a barra da calça para mostrar sua perna mecânica. - Então vocês não ensaiaram nenhuma música? - Claro que ensaiamos! Também conversamos um pouco, afinal ninguém é de ferro. Vera e Ruan conversaram por muito tempo enquanto sorviam um delicioso chá.
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    L.P.OWEN 142 Capitulo quarenta equatro NO RESTAURANTE - Os dois são muitos simpáticos! – Comentou William após o ensaio. - Tocam muito bem. O Ruan não é o rapaz que convidamos para tocar com a gente algum tempo atrás? – Perguntou Kasuo. - O próprio! - Respondeu Oscar. – Como descobriu. - Vejo coisas que vocês não veem. – Respondeu rindo. - Agora que completamos a turma é só ensaiarmos com bastante afinco para fazermos bonito na festa do asilo. – Disse Jorge que não era de falar muito. - Precisamos fechar o repertório para ensaiarmos mais, até que fique na ponta dos cascos. Gostaria que todos colaborassem com sugestões das músicas, assim teremos maior chance de agradá-los. A solicitação de Kasuo foi acatada, cada um indicou algumas que seriam apresentadas. - Faz muito tempo que estamos aqui dentro desta casa. Que tal sairmos para jantarmos em algum lugar tranquilo? – Sugeriu Kasuo. - Até que enfim alguém teve uma ideia genial, acredito até que a Helena está disposta a deixar a masmorra. Não é de admirar, cuidando desse bando de marmanjos, cansa qualquer um. – Oscar foi o primeiro a apoiar a ideia de Kasuo. Vestidos impecavelmente aguardavam na sala de estar Kasuo fazer a reserva de última hora. - Podemos ir! – Informou Kasuo.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 143 Depois de acomodados seguiram em direção ao restaurante onde Kasuo e seus pais costumavam jantar. Na recepção o manobrista, ao reparar no automóvel, ficou maravilhado com o seu estado de conservação. Romeu colocou-se ao lado de seu dono e aguardou o comando pacientemente. Indicaram uma mesa situada num local muito tranquilo. - O que vocês acham deste local? – Quis saber Kasuo. - É perfeito de fácil acesso e muito tranquilo, aqui poderemos conversar bastante. – Comentou Jorge. A causa de sua preocupação com o espaço estava ligada a sua cadeira de rodas. Certa vez lembrou-os das dificuldades de utilizar uma cadeira de rodas nas ruas das grandes cidades, porque quase nada era adaptado aos seus usuários. Sem contar os egoístas que colocavam seus carros sobre as calçadas, ou de forma a impedir a passagem de seu semelhante. No restaurante, algumas pessoas, acomodadas em mesas centrais, não paravam de olhar para eles. Outras, no momento que entravam no restaurante, ao notarem a presença daquele grupo, procuravam pedir mesas mais distantes. Kasuo sendo guiado por Romeu, seguiu a frente do grupo, logo atrás, William empurrando a cadeira de Jorge, por último,
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    L.P.OWEN 144 Oscar e Helena,todos em direção aos pratos frios. - Me sinto um rei quando todos me olham com essa cara de curiosidade. – Comentou Oscar para Helena. - Fico imaginando o que estariam pensando ao verem um cara todo espacial como eu ao lado de uma lady. - Completou não conseguindo segurar a risada. Um dos garçons, que trabalhava no restaurante na época em que os pais de Kasuo costumavam frequentá-lo, reconheceu-o. Imediatamente se dirigiu a ele com a amabilidade que sempre o fizera. - Boa noite! Como o senhor tem passado senhor Kasuo? Faz algum tempo, desde a última vez que esteve aqui, mas gostaria de dizer que estou muito contente em poder servi-lo novamente. - Agora já sei quem é você! – Como está senhor Mário? – Sorrindo ao lembrar-se dos chocolates que ganhava ao sair. - Estou ótimo! – Lamento o ocorrido com seus pais. - Obrigado! Como o senhor me reconheceu? - As pessoas podem mudar por fora, mas procuro guardar a fisionomia interna, por mais que mude, suas marcas são deixadas pelo caminho e o carinho que demonstra quando fala com as pessoas é a sua. O senhor continua tocando piano? - Sim! Reiniciei minhas atividades algum tempo atrás depois que conheci esse pessoal. – Disse apontando para o grupo. - Desculpe minha indelicadeza, não apresentei meus
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 145 amigos ainda. - Disse ao meu patrão que o senhor é um excelente pianista e perguntei se ele se importaria caso o senhor tocasse um pouco para matar minha saudade e ele adorou a ideia, então gostaria de saber se poderia tocar algo para nós. - Claro que sim. Que música o senhor gostaria de ouvir? - Para ser franco o que me encanta é o modo como o senhor toca, as músicas são meros detalhes. - Como anteriormente, se me permitir, vou preparar aquela salada que o senhor sempre comia quando vinha aqui. - Se você se lembrar, ficarei grato. Agora onde está o piano? O garçom fez menção de levá-lo, mas Kasuo, gentilmente, informou da necessidade de ser conduzido por seu cão-guia. Kasuo deu o comando, imediatamente Romeu começou a caminhar vagarosamente em direção ao piano. Kasuo ajeitou-se no banco e iniciou sua apresentação com algumas músicas de Frédéric Choppin. Não notou que o pessoal se aprontava para acompanhá-lo, ao iniciar os primeiros acordes de uma música chamada “Nostalgia” composta por Yanni, percebeu que não estava só, no improviso fizeram uma apresentação, que ao final foi aplaudida em pé pelos presentes. Agradeceram e para encerrar Kasuo tocou “I’m Still Standing” do Elton John, Oscar incumbiu-se do vocal, o
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    L.P.OWEN 146 mais impressionante foram,além da voz, suas coreografias. Caminharam em direção aos seus lugares para jantarem, agora com uma diferença, todos olhavam aquele grupo com admiração. Foram tratados como convidados especiais. - Definitivamente não consigo entender o ser humano! – Disse Oscar. - Por que diz isso? – Quis saber Kasuo. - Acredito que não tenha visto como nos olhavam, quando entramos. Kasuo não se aguentou de tanto rir com a colocação feita. - Com certeza nem reparei. - Esta é sua grande vantagem. As pessoas tendem a fazer um preconceito de tudo. Quando era jovem não comia certos tipos de alimento dizendo que não gostava, isto sem ter provado. O mesmo ocorre com as pessoas, às vezes não a conhecemos, mas a criticamos. - Como você está fazendo agora? – Disse Jorge. Oscar foi o primeiro a rir com a colocação e parou sua crítica. Kasuo pediu a conta, mas o garçom informou que o proprietário tinha oferecido aquele jantar em agradecimento pelos momentos musicais. - Agradeço e quando precisarem de uma banda é só me avisar. – Informou sorrindo.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 147 Capítulo quarenta e cinco MARIA E SÍLVIO - O senhor tem uma moeda para comprar um lanche? Sílvio olhou aquele garoto com os pés descalços, roupa suja, lembrou-se dos muitos garotos que viviam pelas ruas se drogando para se alienar, esquecer os medos, angústias e as revoltas. Aquela moeda, provavelmente não seria para comprar alimento, apenas algumas pedras de craque. Certa vez, ao perguntar por que usava drogas, um garoto respondeu que enquanto estivesse sem consciência tinha menos tempo para sentir saudades de sua família. Sílvio ajeitou um lugar para o garoto sentar ao seu lado. - Senta aqui para conversarmos um pouco e depois vamos almoçar todos juntos. O garoto ficou um pouco receoso, mas resolveu aceitar a proposta. - Você mora onde? - Na rua, não tenho um lugar certo para ficar. – Respondeu o garoto. - Sei como é isso! – Disse Sílvio compreensivo. - Se o senhor sabe, então por que pergunta? Maria olhou para Sílvio, fez uma careta como quem diz: você é quem pediu. - Você tem razão, mas perguntei para iniciar a conversa. Qual é o seu nome? - Edmundo! Meu apelido é Dinho. - Muito prazer, meu nome é Sílvio e esta é
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    L.P.OWEN 148 minha esposa Maria. Mariaficou emocionada com a forma como foi apresentada, apesar de ser a correta, fazia tempo que não o ouvia falar dessa maneira. - Muito prazer! - Disse o garoto estendendo a mão suja para cumprimentá-la. - O prazer é meu! – Respondeu Maria visivelmente emocionada. - Quantos anos têm? – Perguntou ela. - Tenho 10 anos. - Os seus pais onde estão? – Perguntou Sílvio. - Não sei quem é meu pai e minha mãe sumiu com um homem que era namorado dela. - Você tem irmãos ou outros parentes? - Não. Minha mãe veio quando era pequena para cá e nunca mais voltou, ela também foi abandonada. - Olha Edmundo se você quiser morar com a gente até encontrar sua mãe não terá problema nenhum. – O instinto materno falou mais alto. - A senhora esta falando sério? - Claro que estou! - Você não quer passar para pegar suas coisas? – Sílvio quis saber. - O que tenho está comigo. – Mostrou uma sacola plástica onde tinha uma manta surrada. - Para morar com a gente nós teremos que ir perante um juiz e pedir autorização, mas antes você tem que estar de acordo. - Podemos ir agora mesmo. – Respondeu o garoto. - Podemos deixar para depois, primeiro temos que comer algo, depois comprar algumas
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 149 roupas para você e seguirmos para casa tomar um bom banho e amanhã resolveremos o restante. – Disse ela. Maria estava feliz e sentia que aquele garoto foi enviado por Deus e todos teriam um novo recomeço. Antes de sair Sílvio olhou para trás e agradeceu. - O senhor já havia preparado tudo isso, não é? – Sorriu enquanto saia.
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    L.P.OWEN 150 Capítulo quarenta eseis NO BANCO Oscar acordou com muita disposição. Estava tão disposto que se ofereceu para fazer as tarefas na rua. - Hoje o dia está tão bonito que me despertou a vontade de fazer uma boa caminhada. Tem alguma coisa que possa fazer? – Perguntou para o Kasuo que acabara de sentar-se para tomar seu café. Kasuo adorou a ideia, tinha verdadeiro pavor do tempo perdido dentro dos bancos. - Pode pagar algumas taxas no banco ficaria muito grato. - Deixa comigo! Onde estão as “crianças”. – Referindo-se as contas. - Estão numa pasta encima da mesa do escritório. Helena trouxe a pasta e entregou-a para o Kasuo. Não demorou muito, Oscar estava a caminho do banco. Cumprimentou os vizinhos que cuidavam de seus jardins e prosseguiu caminhando com seu jeito particular. Certa vez, num de seus comentários dirigido a Helena, disse que as mulheres tinham uma facilidade de se apaixonar por ele por causa do seu rebolado ao caminhar. Helena apenas riu. Ao chegar no banco havia algumas pessoas na sua frente esperando a abertura das portas. A entrada, como medida de segurança, era feita de uma pessoa por vez. Aguardou pacientemente que todos entrassem, mas
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 151 notou que a maioria colocava seus celulares, molho de chaves, canetas, guarda-chuva entre outras coisas dentro de uma caixa acrílica, mas quando tentavam passar pela porta giratória ela travava. Teve o caso de uma senhora que após três tentativas e depois de ter esvaziado a bolsa, colocou-a no chão e girou a porta, mesmo assim, a bendita porta teimava em travar. Irritada com a situação, não teve duvidas, retirou sua ponte móvel e colocou na caixa acrílica. Mesmo assim não conseguiu entrar. Foi necessário que o segurança liberasse a porta. Depois de presenciar aquela cena, não teve dúvidas, colocou o rosto próximo da caixa acrílica e gritou para o guarda. - Acho um pouco difícil conseguir entrar por aqui. – Disse mostrando todos os metais que carregava com ele. Os que esperavam na fila começaram a rir. Como não houve resposta do segurança, insistiu. - Meu caro, se colocar todos os metais que tenho no corpo, essa caixa vai ser pequena. Recebeu um sinal do segurança e entrou sem maiores problemas. Já dentro do banco, procurou pelo caixa onde deveria efetuar os pagamentos, havia tantas placas que se sentiu perdido. Uma atendente percebeu sua dificuldade e veio em seu auxílio. Ao verificar o tipo de transação que faria, indicou-lhe um caixa especial e por coincidência sua posição
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    L.P.OWEN 152 na fila seriaapós a senhora da porta giratória. Enquanto aguardava sua vez, prestava atenção às pessoas. Suas feições, a maneira como se comportavam, imaginando como estavam se sentindo naquele momento. Havia um senhor na fila ao lado, que não parava de olhar para o relógio, Oscar arriscou. - “Deve estar preocupado, porque não colocou o cartão de estacionamento no veículo”. Perdido em seus pensamentos não percebeu o que estava acontecendo a sua volta. A senhora, a sua frente, olhava em sua direção dizendo: - “Ai meu Deus!” Repetidas vezes. Ao virar-se, entendeu o que ocorria, sua tranquilidade acabou. O banco já estava lotado, mas verificou uma arma parecida com uma metralhadora pequena que parecia de brinquedo, reluzia de tão brilhante e polida, erguida acima das cabeças dos que ali estavam. Fez uma avaliação do que poderia ser feito, mas chegou à conclusão mais acertada de ficar quieto em seu lugar.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 153 Capítulo quarenta e sete RUAN VAI AO NOVO ENSAIO Ruan ligou para a residência de Kasuo para informar-se do horário do novo ensaio. - Bom dia Helena! O Kasuo está? - Está sim! É o Ruan quem está falando? - Sim. - Vou passar o telefone para ele. Ruan agradeceu e aguardou até ouvir a voz de Kasuo cumprimentando-o. - Estou ligando para saber sobre o ensaio. - Pode vir agora mesmo, aguardaremos somente o Oscar chegar do banco e iniciamos. - OK! Vou avisar o Cláudio e iremos imediatamente. Assim que Ruan desligou o telefone, ouviu a campainha tocar. - Não morre mais, acabei de falar de você! - Bom dia! Falou bem ou mal? – Quis saber Cláudio. - Falei mal! O Kasuo disse que podemos ir agora mesmo. - Então o que estamos esperando? Os dois seguiram à residência de Kasuo, durante o trajeto o trânsito ficou congestionado nas proximidades do ponto onde deveriam descer. O tempo gasto foi bem maior do que o necessário, contra a sua vontade, demoraram a chegar. - Lamento Kasuo, mas atrasamos, porque está um congestionamento enorme próximo
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    L.P.OWEN 154 daqui. O cobradordisse que assaltaram um banco. – Desculpou-se Ruan. - Minha Nossa! O Oscar foi nesse banco. – Alarmou-se Kasuo. - Será que ele ainda está lá? – Quis saber Helena. - Por que não ligamos a TV? - Sugeriu William. - Provavelmente dirão algo a respeito. - Boa ideia! – Disse Kasuo.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 155 Capítulo quarenta e oito NO INTERIOR DO BANCO O número de assaltantes era elevado. Pelos seus cálculos havia pelo menos uns 10 deles muito bem armados e dispostos a tudo. Oscar, como todos os outros, foi conduzido a um canto da agência. Dois elementos armados mantinham o grupo sob vigilância. Estavam encapuzados, mas percebeu que, pelo menos dois tinham formas e trejeitos femininos. Um dos funcionários, ferido pelos golpes recebidos como exemplo para os outros reféns, foi jogado pelos bandidos aos pés de Oscar. Ao fazer menção de ajudá-lo, foi interpelado por um dos assaltantes que tinha, na mão, uma metralhadora apontada em sua direção. - Deixe-o onde está. – Determinou. - Mas ele está muito ferido. – Retrucou Oscar. - Você não quer ficar como ele, não é? – Disse dando uma risada sarcástica. - Gostaria de saber o que faria se estivéssemos em posições trocadas. – Retrucou com coragem. Mal terminou sua frase, levou um soco que fez sangrar seu nariz, mesmo tendo dificuldade para se manter em pé não se calou. - Se quiser pode matar-me, mas não vou deixar de ajudá-lo. Pegou um lenço no bolso, com muita
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    L.P.OWEN 156 dificuldade, se abaixoudeixando cair suas muletas no chão, até conseguir se sentar e começou a cuidar do rapaz. Seu agressor ficou irritado com sua petulância, se preparou para desferir uma coronhada na cabeça de Oscar, quando foi interpelado por uma garota encapuzada, que o afastou dali enquanto outro assumia seu lugar. Conseguiu fazer parar o sangramento do supercílio do rapaz, percebeu que já estava consciente. - Obrigado! – Disse o rapaz num sussurro. Oscar apenas deu-lhe um leve aperto no braço e sorriu. Com muito esforço, porque todos estavam com medo de se mexerem, levantou- se e sem medir as consequências foi em direção do que aparentemente era o líder. Estava na metade do caminho, algumas armas foram apontadas para ele, mesmo assim continuou sem hesitação. - Aquele rapaz precisa de atendimento médico. - O que tenho com isso? - Pois vou dizer o que você tem com isso. Você como líder tem o dever de proteger seus liderados. - O que tem isso com ele precisar de médico? - Muito simples! Vocês entraram numa barca furada, o plano falhou. A melhor coisa a fazer é negociar com a polícia, que a essa altura deve ter cercado tudo e obter alguma vantagem. - Você não precisa de tanta gente aqui como refém, elas só vão atrapalhar, mais pessoas tomando água, para alimentar, para ir ao
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 157 banheiro, entre outros inconvenientes. - Liberte os doentes em troca de algo que você queira. - Quer que apague esse tagarela? – Perguntou aquele que tinha dado o soco. - Não! Tenho outros planos para ele. - Você vai negociar isso com a polícia para a gente. – Disse o líder virando-se para Oscar. – Bem-vindo ao bando. Um dos que estavam sendo mantidos no canto levantou a mão pedindo permissão para falar. - Fala! – Disse o líder. - Sou médico, posso cuidar dele, preciso de alguns medicamentos, mas ele necessita de ser encaminhado a um hospital para exames complementares. - Me diz o que você precisa, vou entrar em contato com a polícia. – Oscar falou com firmeza. Pegou o telefone e discou o código de emergência, uma policial transferiu a ligação para o comandante do grupo que havia cercado o banco. Oscar explicou rapidamente o que estava ocorrendo. - Agora que o senhor está a par dos acontecimentos, o que pode oferecer em troca deste rapaz? - O que vocês querem? - Comandante, como já disse, só estou negociando com o senhor, como não me disseram o que eles querem, mande algum juiz corregedor. É o que sempre pedem, não
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    L.P.OWEN 158 é? - Vai demorarum pouco até ele chegar aqui. - Então mande água e uma maleta médica para o doutor que está aqui atender as pessoas que estão passando mal. - Isso estará à disposição imediatamente, mas quem será libertado? Quantos estão feridos? - Eu e um rapaz. Vou tentar liberá-lo, ele está muito ferido. Por favor, mantenha os paramédicos em alerta. Desligou e comunicou ao líder sobre o resultado da negociação. - Agora você decide quem vai buscar o que foi pedido, em cinco minutos será colocado na porta. Oscar retornou para avisar ao rapaz que ele seria libertado e que os médicos já estavam esperando para cuidar dele.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 159 Capítulo quarenta e nove NA TV O repórter informou que havia muitas pessoas no interior do banco naquele momento e não tinham informações quanto ao número exato de clientes, funcionários e assaltantes que estavam dentro do estabelecimento. A movimentação feita pelos policiais do efetivo empregado dava uma noção da gravidade da situação. - A polícia cercou todas as ruas. Essa medida dificultou a circulação nas imediações. - Comentou Cláudio que até o momento estava calado. Na TV, informavam que os assaltantes tinham pedido medicamentos para atendimento das pessoas que estavam passando mal. As imagens transmitidas pela TV eram descritas por Helena para Kasuo. - Os policiais estão colocando pacotes de garrafas de água e uma maleta próxima da porta do banco. Agora estão se retirando. A porta foi aberta, alguém está se preparando para pegar as águas e a maleta. Um breve silêncio seguiu deixando Kasuo impaciente. Ainda mais ouvindo as frases curtas que eram ditas pelos companheiros. - O que é aquilo? – Perguntou Jorge quase se levantando da cadeira de rodas. - Parece a ponta de uma arma de grosso calibre. – Completou William. – Uma espingarda?
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    L.P.OWEN 160 - Parece muitoesquisito para ser uma arma. – Cláudio disse. - Por favor! Aumenta o volume da TV. – Pediu Kasuo. O comandante deu ordem para que ninguém atirasse. No momento seguinte a curiosidade de Kasuo foi satisfeita. - É o Oscar! – Disseram ao mesmo tempo. Saiu acompanhado de um rapaz para ajudá-lo no transporte das águas. Num piscar de olhos ao ver os policiais e a possibilidade de se salvar, não pensou duas vezes, saiu correndo em direção aos policiais, deixando o outro só sem saber o que fazer. Sem se abalar, apenas reclamou. “Os senhores não poderiam colocar isso tudo mais perto?” – Ouviram Oscar pelo som captado pela emissora de TV. - Não acredito no que estou vendo! Oscar é um tremendo gozador, ou um maluco. - O que está acontecendo Helena? – Quis saber Kasuo. - Ele está fazendo das suas. “Alguém poderia entregar-me à maleta, porque não consigo agachar”. “Será que não entenderam que não consigo pegar essa maleta? - Gritou para que todos pudessem ouvi-lo”. Um policial aproximou-se com cautela, abaixou-se para pegar a maleta entregá-la ao rapaz que se apoiava nas muletas, quando ficou surpreso com o que ouviu. - Contei dez, mas acredito que tenha mais algum infiltrado no meio dos clientes. Estão bem armados.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 161 Pegou a maleta e informou que, a água, alguém viria pegá-la depois, agradeceu, retornou para o banco. Assim que entrou a porta foi fechada novamente. Seus amigos que assistiam pela TV estavam desesperados. - O que podemos fazer? – Indagou Jorge quebrando o silêncio. - Não tenho a menor ideia. – Respondeu William. - Lá não teremos mais do que temos agora. – Ponderou Kasuo. - Além do mais poderemos atrapalhar. - Pessoa sem ter o que fazer é o que mais eles têm. Resolveram continuar acompanhando os acontecimentos pelo noticiário. *** O rapaz que havia deixado Oscar sozinho foi recebido com desprezo pelos policiais, mas o comandante determinou que o ajudassem e tomassem seu depoimento, mas antes de liberá-lo, que fizessem averiguações sobre ele. Alguém estava à procura do comandante. Era o policial que havia ajudado Oscar a pegar a maleta. Queria transmitir-lhe a mensagem recebida. O comandante Freitas agora com o número aproximado dos invasores teria maior cautela, porque o contingente era muito grande e uma ação precipitada certamente faria muitas vítimas. Em pensamento agradeceu aquele sujeito
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    L.P.OWEN 162 esquisito que tinhavisto pouco tempo atrás. Alguém gritou anunciando que a porta estava sendo aberta. Novamente todas as armas foram apontadas para lá. O comandante deu ordem para que não atirassem, a tensão elevou-se, a adrenalina subiu a níveis altíssimos, que somente homens experientes e bem treinados eram capazes de suportar e manter o equilíbrio emocional nesses momentos. Novamente Oscar saiu anunciando que o rapaz que estava necessitando de cuidados médicos seria carregado para fora. - Como foi combinado estamos trazendo um dos feridos, gostaria que trouxessem uma maca e que os paramédicos pudessem cuidar dele. O rapaz, carregado por quatro homens, estava deitado numa rede improvisada com tecido retirado da cortina de uma das janelas. Colocado delicadamente no chão. Os paramédicos vieram trazendo consigo uma maca e equipamentos para imobilizá-lo. Poderia ser ouvido o bater das asas da libélula devido ao silêncio que pairava na rua por causa da apreensão de todos que assistiam aquelas imagens. Ao colocarem o rapaz na ambulância, uma salva de palmas foi ouvida. Enquanto o ferido era encaminhado para o hospital, os outros reféns voltaram para o interior do banco levando as garrafas de água que estavam lá há algum tempo.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 163 Capítulo cinquenta O DESESPERO CONTINUA No interior da agência o terrorismo continuou e o alvo foi novamente Oscar que, ficou na frente para que não atirassem no rapaz quando fugia. O assaltante, que desde o início era antipático a sua figura, deu-lhe outro soco causando-lhe nova hemorragia. - Lamento que só tenha isso para oferecer. – Oscar falou com pena. Quando seu algoz se preparou para dar outro soco, foi interrompido pelo toque do telefone. - Estamos fechados para balanço. – Disse o líder do grupo. - Aqui fala o comandante Freitas e quero falar com o líder de vocês. - É o próprio, comandante Fuminho ao seu dispor. – Riu de sua piada. - Preciso saber qual a sua reivindicação, para libertação dos reféns e rendição do grupo. - Tudo simples assim? – Perguntou num tom debochado. - O senhor tem ideia de quantas pessoas estão aqui conosco? - Não! Por outro lado, você não quer, como eu também não quero, um confronto. – Continuou em tom enérgico. - Por que não me diz o que você quer em troca dos reféns? - Simples! Nossa liberdade. - Você sabe que não posso fazer isso. - Se libertar os reféns como terei a certeza de que vamos ser tratados com justiça?
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    L.P.OWEN 164 Essas palavras foramum sinal, para o comandante, de que o acordo estava próximo, mas não interrompeu seu interlocutor. - Queremos um juiz corregedor, meu advogado e a imprensa aqui dentro. - A presença da imprensa não será difícil. O juiz corregedor está a caminho, mas vai demorar um pouco. Quanto ao seu advogado, poderá chamá-lo. - Liguei para ele há bastante tempo deve estar a caminho, quando chegar mande-o entrar. - OK! Você deixa sair todas as mulheres e crianças e os que precisarem de cuidados médicos, o advogado e a imprensa entram. - Você me libera um advogado e eu tenho que libertar 10 ou 12 reféns? - Você sabe que esse tipo de refém só dá trabalho. - Manda o doutor e a imprensa entrar, então, verei o que posso fazer. *** Uma grande movimentação de repórteres se formou em torno de um homem usando terno preto muito bem talhado, no dedo mínimo um anel de ouro cravejado de brilhantes, impossível não ser notado, no pulso um relógio, que pela TV, supunha-se ser em ouro e uma pulseira em ouro muito espessa. Usava um brinco, em ouro e Pérola, em cada orelha. Conforme a opinião de Helena, ele fumava em frente às câmeras apenas para exibir a grande quantidade de ouro que possuía em apenas um dos braços.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 165 - A roupa e os acessórios que ele usa, valem mais que muitos carros que vemos por aí. – Comentou Jorge. - Você deve estar brincando! – Retrucou Helena indignada. - Ele está falando sério. – Confirmou William. O silêncio voltou a reinar na sala quando as câmeras se voltaram novamente para o doutor Rangel que iniciava seu pronunciamento. O advogado mantinha uma pose arrogante e respondia as perguntas com desdém. Estava tão eloquente em suas respostas que não percebeu a presença do comandante da polícia. - O senhor já pode entrar. – Disse o comandante apontando para o banco. O advogado ia solicitar um instante, mas foi surpreendido. - Agora! – Ordenou o comandante sem olhar para traz. Não estava habituado a receber ordens, principalmente quando dava entrevista, mas não teve opção o seu show teria que continuar em outro momento. Saiu quase correndo para alcançar o comandante que se distanciava. Aguardaram por instantes, em frente ao banco, a porta ser aberta, e após a entrada do advogado, novamente foi fechada.
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    L.P.OWEN 166 Capítulo cinquenta eum MOMENTO DE ANGÚSTIA Conforme haviam combinado, foram libertadas todas as mulheres, crianças e o gerente do banco que não estava passando bem. Apesar de estar machucado Oscar não foi liberado ficando num canto ao lado do médico. As pessoas liberadas eram encaminhadas aos paramédicos em seguida ao pessoal responsável pelo setor de identificação e cadastro, por último, eram feitas algumas perguntas de rotina. Todos respondiam as mesmas perguntas, feitas pelos policiais, para confronto das informações, entre elas, o número de pessoas que haviam invadido o banco. Na agência o advogado informava sobre as complicações dos atos cometidos por eles e qual seria o trâmite legal. Após varias discussões, resolveram que todos se entregariam, mas queriam que a imprensa pudesse transmitir ao vivo o ato para não permitir abusos por parte dos policiais. *** Antes que a imprensa fosse autorizada a entrar, ouviu-se, o barulho de tiros e muita gritaria vinda do interior da agência. O caos havia instalado. O comandante que esperava encerrar o caso ficou atônito, pela primeira vez em sua vida de policial, baixou sua guarda por alguns instantes, julgando o caso
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 167 encerrado. Os policiais queriam agir imediatamente. No rádio do comandante, o que ele mais ouvia era o pedido de permissão para invadir o local. Seu cérebro treinado para situações como esta, em apenas alguns instantes se refez da surpresa, determinou que aguardassem sua ordem. Em pouco tempo, no interior da agência, voltou a reinar o silêncio. O comandante preocupado com a vida dos reféns ligou para saber o que ocorrera. Alguém atendeu ao telefone, mas não era a pessoa com quem havia conversado anteriormente. - Onde está o líder de vocês? – Perguntou preocupado. - Foi baleado. – Respondeu do outro lado uma voz fria. O raciocínio do comandante foi rápido nas considerações da nova situação. Não sabia o estado do líder, se fora deposto do cargo ou não, caso houvesse outro no comando teria que obter um novo compromisso de garantia do restante dos reféns. - Quem está no comando agora? – Perguntou em tom neutro. - Ainda é o Fuminho. – Respondeu a voz para seu alívio. - Poderia falar com ele? Algum tempo depois, ouve uma voz entrecortada por alguns gemidos. - O que aconteceu? Ouvimos tiros. - Estamos comemorando o aniversário de um
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    L.P.OWEN 168 dos nossos, hojeé aniversário de falecimento dele. - Omitira o motivo da insubordinação ter início após a liberação do gerente da agência. - O pessoal da TV não vai entrar? – Falou para mudar o assunto. - Você está bem? Está ferido? - Ferido, mas vou sobreviver. - Não quer que envie um médico para te atender? - Já temos um aqui. Você não lembra? No momento está chuleando meu ferimento. - Você me criou um problema, todas as emissoras querem o furo. - Se for de bala estamos a disposição. – Respondeu após novo gemido. - Qual emissora prefere? – Disse sabendo que alguns policiais estavam sendo treinados para ajudantes de câmera. - Não tenho preferências são todas iguais. - Vou sortear uma e te avisarei para que entrem em segurança. O comandante verificou se a equipe estava pronta e telefonou. Fuminho foi avisado sobre a entrada da imprensa. A equipe de TV, composta de policiais, entrou na agência, imediatamente foi recebida pelo líder. - Por que não trouxeram uma câmera portátil? – Desconfiou. - Trouxemos uma fixa e outra portátil para termos mobilidade na gravação e podermos fazer os cortes sem deixar os telespectadores vomitando do outro lado cada vez que viramos a câmera. – Respondeu o técnico.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 169 - Quando estiverem prontos me avisem. – Disse fuminho. Enquanto o advogado dava as últimas instruções para seu cliente e preparava-se para estar bem alinhado diante das câmeras. O médico, agora atendia um outro rapaz que fora atingido de raspão, por uma bala. O telefone tocou novamente, quando Fuminho atendeu demonstrou insegurança ao retrucar. – Quando eu estiver pronto direi que estamos saindo, não antes.
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    L.P.OWEN 170 Capítulo cinquenta edois EM FRENTE DA TV Na TV, em imagens gravadas, o repórter comenta sobre o som de tiros ouvidos durante as transmissões. - “O que se ouviu há poucos minutos foram tiros que vieram do interior da agência. A polícia, até o momento, não tem ideia do que ocorreu. A tensão aumentou, houve um princípio de tumulto, os policiais aqui presentes ensaiaram uma invasão generalizada, mas foram contidos imediatamente pelo comandante Freitas”. Na sala todos estavam apreensivos em saber o que ocorrera dentro do banco. Kasuo era o mais ansioso, porque em alguns momentos não sabia o que estava acontecendo devido ao silêncio dos seus companheiros. - O que será que ocorreu lá dentro? Atiraram em algum refém? – Perguntou William. - Onde estará Oscar? – Quis saber Helena. - Aumenta o som, o comandante vai fazer alguma declaração! – Informou Jorge ao notar a movimentação da imprensa. Todas as atenções se voltaram para o receptor de TV. - Senhoras e senhores iniciou, quero informar, que os estalidos ouvidos foram tiros vindos do interior do banco. A causa foi uma das armas ter sido disparada acidentalmente, mas felizmente, não causou ferimento em nenhum dos reféns. - Os únicos atingidos neste incidente, foram os equipamentos e móveis. Foi o que me
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 171 garantiu o líder com quem estamos negociando. – Mentiu para tranquilizar a população. - Eles fazem as coisas parecerem muito simples. – Comentou Cláudio que até o momento estava calado. Novo silêncio na sala para ouvir mais um pronunciamento do comandante. - Estamos negociando para a rendição de todos eles nos próximos momentos e consequentemente a liberação dos reféns. *** Ainda estava falando quando seu celular tocou e recebeu a tão esperada notícia. Ele tinha pressa, não queria que a rendição fosse feita ao anoitecer por motivo de segurança. - Estamos prontos! Vamos sair agora. – Disse Fuminho ao comandante. Determinou que saíssem com as mãos na cabeça e devagar. Um a um, os reféns foram saindo do banco e conduzidos para identificação, Oscar e o médico, foram os últimos a saírem. - Deixa-me ir ao seu lado, porque não vai ser possível colocar as mãos na cabeça, só faltava levar um tiro da polícia. – Comentou ao doutor rindo. Finalmente os invasores saíram em fila indiana também com as mãos na cabeça, guiada pelo advogado e seguida pelos policiais que estavam filmando toda ação
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    L.P.OWEN 172 dentro da agência.Todos foram algemados. Os policiais assumiram o controle da situação para reunir o maior número de provas possíveis e a remoção do corpo de um dos bandidos. O arsenal deixado no interior do banco era digno de um exército, chegando a impressionar os policiais. A quadrilha possuía submetralhadoras UZI, pistolas semiautomáticas, espingardas calibre 12, alguns fuzis 7.62 e muita munição.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 173 Capítulo cinquenta e três O RETORNO À medida que ambos, o médico e Oscar caminhavam, a multidão ali presente começou a aplaudir os dois. Oscar ainda com a roupa suja de sangue ficou ainda mais sem jeito. - Dessa maneira vou perder todo meu rebolado. – Comentou para o doutor ao seu lado. - Gostaria de conhecer um cara como você por dia! – Retrucou o outro sorrindo. Até o comandante ensaiou algumas palmas, mas resolveu não levar a cabo para manter a postura. - Vocês estão bem? – Perguntou enquanto fazia continência. - Obrigado, mas não merecemos. – Disseram. - Tenho outras informações a respeito dos senhores. – Retrucou o comandante. Como todos os outros foram encaminhados para eventual atendimento médico e os depoimentos de praxe. Durante seu depoimento, Oscar comentou sobre o líder. - Quando fui falar com ele, notei que sempre olhava sobre meus ombros, parecia estar pedindo o consentimento de alguma outra pessoa atrás de mim para responder. Somente depois de algum tempo me respondia. Outro fato é que ele não tinha autoridade sobre o grupo, haja vista, que aconteceu um duelo entre ele e o que foi morto e o motivo foi a
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    L.P.OWEN 174 saída do gerenteda agência com os reféns. - Vamos investigar, mas por hora te agradecemos. Se quiser podemos mandar uma viatura te levar para casa. – Disse o comandante. - Agradeço, mas moro próximo daqui. Vou aproveitar para terminar minha caminhada que comecei pela manhã. – Disse sorrindo. - Vou entrar para o livro dos recordes como a caminhada de muletas mais demorada do mundo. – Completou. Todos acompanharam com um olhar aquela figura esquisita, porém impressionante, se afastando. *** Seus companheiros não viam a hora de vê-lo entrar pela porta da sala fazendo suas piadas. Quando isso aconteceu, todos correram em sua direção, ele fez menção de sair novamente. - Preparei uma comida especial para você! Espero que esteja com fome? – Helena indagou. - Estou morrendo de fome, mas confesso que estou mais feliz por estar de volta. Vou tomar um banho e trocar essas roupas sujas de sangue do meu nariz que esborrachou a mão do cara. – Falou sério. - Já voltou ao normal. – William sorrindo comentou. Momento depois estava saboreando seu prato preferido, espaguete ao sugo e um bom bife acebolado.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 175 Comeu até não poder aguentar mais e como sempre fazia deu graças. – “Graças a Deus comi como um padre”. Jorge, que sempre ouvia aquelas palavras, ditas após as refeições, não entendia o significado de “comer como um padre”, perguntou. - O que significa comer como um padre? Eles comem muito? - Antes de iniciar suas refeições você agradece à Deus? – Questionou Oscar. - Muitas vezes não. - Respondeu o outro. - Então você come como um porco. – Riu. Todos riram inclusive Jorge. Kasuo lembrou dos momentos que passou naquela casa sem a presença daqueles que agora o faziam sorrir com as pequenas coisas da vida. Sabia que seus pais torceram e ainda torciam por ele. Como Oscar sempre brincava dizendo “somos um bando de deficientes excepcionais”, sabia que ele tinha razão porque já não saberia viver sem a companhia daquelas pessoas. Cada uma tinha suas limitações, mas em compensação eram poços de fraternidade, carinho, amizade que minava até a borda para se espalhar por todos os lados, além de outros talentos que possuíam. Kasuo, em seus pensamentos, fazia uma análise do grupo. Jorge falava apenas o essencial, alternava momentos de alegria e tristeza. Tinha algo para desabafar, mas não chegara o momento
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    L.P.OWEN 176 de fazê-lo, foipara a cozinha dar palpites, por isso vivia recebendo bronca de Helena. No fundo ele tinha a impressão de que os dois gostavam dessas discussões. Tinha prazer em voar e pular de paraquedas, mas isso era coisa do passado. William, o mais velho do grupo, intercalava momentos de alegria com seriedade, mas escondia-se quando estava triste. Havia pressentido momentos em que o amigo estivesse chorando pelo tom de sua voz. Certa vez ouviu Oscar comentar sobre sua poesia, mas não tinha certeza se ele escrevia constantemente e o que elas continham. Oscar, sem sombra de dúvida, era o mais alegre. Helena havia comentado que ele tinha uma feição angelical, olhos azuis da cor do céu e cabelos e sobrancelhas ruivas. Ele conseguia encher o ambiente com sua presença. Kasuo chegou à conclusão de que todos eles tinham algo especial. Estava perdido em seus pensamentos, quando ouviu apenas “o que você acha” e pediu desculpas por não ter compreendido. - Vamos fazer um ensaio agora ou deixamos para amanhã? – Perguntou William. - Seria interessante começarmos amanhã cedo se você puder levar o Cláudio e o Ruan te agradeceria. Irei junto para te fazer companhia.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 177 Capítulo cinquenta e quatro VERA Vera acordou Ruan, deixou seu café da manhã preparado e saiu. O dia seria extenuante, havia muito por fazer, muitos preparativos para o grande dia. Tinha pouco tempo para organizar tudo o que ainda faltava. Enquanto a diretora se preocupava com a alimentação, bebidas e a compra dos materiais de última hora, Vera cuidava da decoração do local onde seria o show. Organizava também alguns voluntários, entre eles, cabeleireiros, barbeiros, manicuras, maquiadores e o pessoal da limpeza. Algumas costureiras trabalhavam sem descanso para ajustar as roupas que seriam usadas na festa. Todos se dedicando ao máximo para deixar os velhinhos bonitos. Em sua agenda, algumas tarefas poderiam ser riscadas como concluídas e uma delas, a ligação para o senhor Kasuo informando a mudança do local da apresentação. Vera adorava visitar o asilo. Cada uma daquelas pessoas que ali vivia tinha uma história de vida, de alegrias e sofrimentos. Gostava de conversar com elas, sempre aprendia algo novo. Havia pessoas que recebiam visita de parentes, mas a grande maioria era visitada por pessoas estranhas, mas com muito amor para oferecer e passavam a adotá-los como da família.
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    L.P.OWEN 178 Com algumas delas,conversar era tão agradável que não percebia as horas passarem. Dona Olga era um exemplo, estava sempre arrumada, com os cabelos penteados, unhas feitas e o perfume que usava era muito agradável. Não dispensava suas joias, dizia que eram as únicas coisas que os filhos não tinham posto a mão. Tinha dúvidas quanto ao acidente que sofreu juntamente com seu marido, onde ele faleceu e ela precisou ficar internada em um hospital por meses até se recuperar e ser transferida para aquele asilo. No começo recebia visitas semanais dos dois filhos, noras e netos, mas a partir do momento em que assinou seu testamento, decretou sua solidão. Dona Olga considerava Vera como uma filha. As duas se davam muito bem. Como sempre comentava que ela era a filha que não tivera. Outra pessoa que Vera adorava conversar era o senhor Yuri, sua descendência russa transmitiu-lhe um charmoso sotaque. Vivia agradecendo Vera por ter-lhe apresentado Olga. Dizia que ela foi o caminho para o encontro de sua alma gêmea. - Encontrei meu amor no final de minha vida, meu único alento é que ainda temos a eternidade para desfrutá-lo. – Disse numa tarde quando os três conversavam. Vera achava-o um poeta, mas Yuri dizia-se apenas um apaixonado. Lembrou-se de outro dia quando de repente ele olhou para dona Olga e falou, “Não importa quanta vezes nasci ou morri, o importante é que finalmente eu encontrei minha nova razão de viver”.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 179 Os dois passavam a maior parte do tempo conversando de mãos dadas passeando pelos jardins. Havia outras pessoas como dona Josefa, uma baiana muito alegre. Onde ela estava, tinha alegria. Não podia ver ninguém triste que dava um jeito de fazer a pessoa se alegrar novamente. Dona Zefa, como gostava de ser chamada, tinhas feições joviais, não aparentando a idade que possuía. Vera suspeitava sobre o motivo de sua aparência jovial ser a alegria que tinha em viver. Verificado o andamento dos trabalhos concentrou-se no mais atrasado, após a mudança de local, a decoração do palco e do auditório. Foi até onde algumas voluntárias dedicavam-se na confecção de pequenos vasos de flores, que seriam colocados nas mesas como lembranças. Outras faziam bordados nas toalhas de mesa. Para ter uma ideia, decorou apenas uma das mesas e ficou feliz com o resultado. Atendeu o telefonema do pessoal responsável pela transportadora contratada por Kasuo. - Boa tarde dona Vera! Meu nome é Mário, fui contratado pelo senhor Kasuo, ele informou-me que deveria acertar com a senhora para saber se poderemos estar aí amanhã cedo. Vamos montar os equipamentos de som e instalaremos a iluminação. - O senhor poderá vir no momento que
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    L.P.OWEN 180 desejar, estarei aquia partir das oito da manhã. O senhor Kasuo informou-lhe o novo endereço? - Sim! Fomos avisados que não será mais no asilo. O tempo voava, olhou para o relógio instalado em uma das paredes o dia estava terminando, ainda tinha algumas coisas para deixar em ordem. Emile que acabara de chegar resolveu fazer uma pequena reunião para um balanço do andamento das tarefas e saber se haveria necessidade de ajudá-la. - Aqui estamos apenas dando os retoques finais na decoração. – Vera informou. - As confirmações e pagamentos dos ingressos já foram feitos, pelo menos temos uma estimativa do número de pessoas que virão. Contando os internos, parentes e convidados extras está em torno de quinhentas pessoas. - Já que estamos com quase tudo acertado, vamos descansar um pouco que amanhã teremos muitas coisas para finalizar. – Emile propôs. Vera chegou em casa, mas Ruan estava fora. Resolveu tomar um banho e comer algo e se recolher. Antes que entrasse para o banho, o telefone tocou.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 181 Capítulo cinquenta e cinco O ÚLTIMO ENSAIO Conforme haviam combinado, William saiu logo após o café para buscar Ruan e Cláudio. Durante o trajeto passou em frente ao banco onde, no dia anterior, fora o palco de momentos de apreensão e angústia. Agora está tudo tranquilo como sempre, pensou. Havia poucos vestígios do que tinha acontecido. Procurou no interior do bolso do paletó o envelope da carta que havia retirado na central dos correios, lembrou-se de que deveria fazer algo a respeito, mas resolveu esperar até o momento oportuno. Chegando em frente da residência de Ruan, apenas deu um leve toque na buzina e o rapaz saiu imediatamente. A segunda parada seria na casa de Cláudio que ficava a uns dez minutos dali. Não foi necessário sequer chamá-lo. Estava esperando em frente ao portão. Durante o trajeto, aproveitaram para se conhecerem melhor. Cada um comentou a maneira pela qual entraram na música. - Desde que comecei a segurar objetos, eles eram utilizados para espancar outras coisas de casa, na verdade gostava de ouvir o som que faziam. – Falou Ruan. - Minha mãe comentou que não ficava quieto um minuto, bastava ter nas mãos uma colher, um canudo de suco, ou algo que pudesse fazer de baquetas para montar minha batera. Um dia uma professora reclamou com ela e sugeriu
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    L.P.OWEN 182 que me colocassenuma escola de música. Aí eu sosseguei. Um pouco. - Cláudio como começou? – Quis saber William. - Comecei tocando guitarra depois de algum tempo, alguns amigos e eu, montamos uma banda, mas tinha guitarristas demais, então comecei a tocar baixo. Hoje não troco por nada. - William como aprendeu violino? – Perguntou Cláudio. - Na realidade meus pais me colocaram numa escola de piano, mas minha paixão era o violino, além de ser mais fácil de levá-lo para escola. - Disse rindo. William entrou com o carro no quintal, em seguida foram para o estúdio, onde já se encontravam Kasuo e Oscar. Todos se cumprimentaram e cada um ocupou seu lugar. Antes do início, Kasuo comentou as boas novas. - Acabei de receber a notícia de dona Vera. Ela me informou que está tudo pronto para nossa apresentação. Foi doado, por uma pessoa de bom coração, o aluguel de um salão muito bom com capacidade para abrigar os parentes e as pessoas que quiserem nos assistir e toda renda será revertida para custeio do asilo. - Levaremos os instrumentos amanhã pela manhã. Contratei uma empresa de transporte que fará todas as instalações. À tarde nós aproveitaremos para ensaiarmos no local. Acharam excelente a ideia. Assim poderiam ajustar o som, luzes, posicionamento e etc.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 183 - Então vamos ensaiar para fazermos um dia memorável, afinal eles merecem. – Disse William. - Todos merecemos. – Completou Jorge. O ensaio transcorreu como sempre, algumas paradas para pequenas correções, mas no geral estavam prontos. Num dos intervalos para o café, Oscar iniciou a capela de “TIME TO SAY GOODBYE” quando menos esperava, Helena começou a cantar com ele. O pessoal, que saboreava um delicioso café, ficou em silêncio para ouvi-los. As vozes combinaram perfeitamente, Helena não teve o menor constrangimento, sua voz de soprano deu mais charme a canção. “O que começou como uma brincadeira de Oscar acabou se tornando algo sério, teriam que encontrar uma forma de colocar os dois para cantarem juntos, pelo menos esta música”. – Pensou Kasuo. Várias horas se passaram até que o cansaço começasse a pegá-los. - Acredito que estamos prontos! Amanhã teremos um longo dia para acertos finais. Gostaria que todos descansassem e se preparassem para a apresentação. – Finalizou Kasuo. - Por que não avisam suas mães e ficam aqui? – Sugeriu Kasuo. - Não trouxe roupas e estou louco para tomar um bom banho. – Respondeu Ruan. - Roupa é o que mais temos aqui, é só escolher alguma que te sirva.
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    L.P.OWEN 184 - OK! Entãovamos aproveitar para desmontar os equipamentos para o transporte. – Disse Cláudio. Enquanto Ruan avisava sua mãe e Cláudio a dele o restante do pessoal desmontava e encaixotava os equipamentos que seriam transportados no dia seguinte.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 185 Capítulo cinquenta e seis O DIA “D” O show estava programado para as 19:00h daquele sábado, cada um se preparou da maneira preferida. Alguns resolveram apenas descansar, outros caminharam um pouco, mas tinham em comum a ansiedade do primeiro show que seria para uma plateia tão especial. No asilo, os preparativos começaram assim que o dia clareou. Vera, como sempre, chegou antes do horário, encontrou Emile que também não se conteve e resolvera chegar mais cedo. - Bom dia Vera! – Disse Emile. - Hoje será um ótimo dia! – Respondeu. Mal tiveram tempo para um café juntas, cada uma foi para seus afazeres. Enquanto caminhava para o local onde as últimas senhoras eram penteadas Vera foi surpreendida pelo gesto do senhor Yuri, que se aproximou e entregou-lhe uma flor. - Esta flor representa o carinho que eu e a Olga sentimos por você e em agradecimento por tudo que você faz por todos nós. Vera que até o momento estava ansiosa parou, e sem saber o que falar abraçou-o, deu- lhe um beijo no rosto e saiu para não mostrar que estava chorando. Dona Olga, que observava de longe sorriu imaginando o que Yuri teria dito. “Sempre aprontando das suas, fazendo as pessoas se
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    L.P.OWEN 186 emocionarem”. – Pensou. Aexemplo de Emile, Vera também se preparou no asilo para não perder tempo e deixar tudo sob controle. No horário combinado os ônibus de turismo estacionaram em frente ao asilo. Eram destinados ao transporte do pessoal até o local do show. O astral estava muito agradável, para onde se olhava, havia um sorriso. Os internos seguiam em direção ao pátio onde Emile e Vera organizavam a fila para o embarque nos ônibus. Pareciam alunos de uma escola aguardando para embarcar nos ônibus antes de uma excursão. Um por um foram se acomodando no interior do veículo, que por sinal era muito confortável. Dona Alzira, uma das internas, ficou emocionada quando entrou e verificou o luxo dos ônibus. - Por que a senhora está chorando dona Alzira? – Perguntou Vera preocupada. - Nunca me trataram tão bem assim. - A senhora pode escolher o local onde quer ficar, isso é para todos vocês. – Vera deu-lhe um beijo delicadamente. Vera e Emile entraram cada uma em um ônibus para coordenar o pessoal. Assim que os motores foram acionados a bagunça começou, todos voltaram a ser crianças, não foi possível manter a ordem. Vera deixou as coisas de lado e entrou na bagunça também. Mais tarde descobriu que não fora apenas ela quem esqueceu de manter a ordem.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 187 Ao pegar o microfone de bordo, o barulho parou imediatamente, como num passe de mágica. - Estamos quase chegando, gostaria de pedir a gentileza de mantermo-nos em ordem. Durante a saída, primeiro os que estão nos primeiros assentos e assim por diante. A colaboração foi total e em pouco tempo todos estavam em fila para entrarem no salão. Vera pediu que aguardassem um pouco enquanto foi verificar se estava tudo pronto. Os rapazes da banda estavam usando ternos iguais, variando apenas as cores das camisas. Helena usava vestido preto longo, bordado a mão, com detalhes de lantejoulas e paetês. Estava tão bonita, que recebeu elogios de todos, especialmente de Jorge. - Está cada vez mais linda. – Disse. - Se Deus me concedesse um desejo, pediria para poder levantar-me e poder te dar um beijo. Não foi necessário, ela abaixou e beijou-o. - Estão todos prontos? – Perguntou William. Ao receber a afirmativa, seguiu em direção a garagem para pegar o automóvel. - Vamos deixar o ego em casa para ter mais espaço no automóvel. – Brincou Oscar. Enquanto seguiam para o clube conversaram sobre assuntos diversos, um deles foi o excelente trabalho feito por Vera, mãe de Ruan, junto ao asilo. William estacionou o veículo e foram recebidos pelo diretor do clube. Cada um dos componentes tomou seu lugar e aguardaram pacientemente a chegada
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    L.P.OWEN 188 do público. Assim queVera entrou, Ruan se emocionou, ao abraçá-la sentiu um nó na garganta. Ela também estava orgulhosa do filho, estava grata aos rapazes por aceitá-lo como integrante da banda. - Agradeço pelo esforço que os senhores fizeram e continuam fazendo para participar desta nossa homenagem aos que vivem no nosso asilo. - Vera cumprimentou um por um. Nesse momento, Emile, entrava apressada. - Faço minha as palavras de Vera. Agradeço imensamente todos vocês. Não tenho palavras, mas desejo que Deus abençoe todos. - O povo já está começando a fazer alvoroço, podemos começar quando os senhores preferirem. – Completou Emile. - É para já. – Respondeu Kasuo. No palco foi instalado um conjunto de dezenas de lâmpadas que acendiam e apagavam ao ritmo da música. Algumas das luzes se moviam de forma sincronizada, por todo o salão, uma profusão de cores, tons, brilhos e intensidades das mais variadas possíveis. Num canto estava o responsável por aquele show. Um especialista em som e iluminação contratado por Kasuo. Vera e Emile caminharam em direção a porta do salão, abriram-na convidando-os a tomarem os seus lugares. Nos primeiros acordes de “Charriots Of Fire, Carruagem de Fogo – Vangelis”, as luzes iluminaram o salão, algumas acompanhando o ritmo da música, outras se mantinham acesas iluminando o caminho que o público deveria seguir até
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 189 chegarem aos seus lugares. Cada um recebeu de Helena e Vera uma rosa. A felicidade estampada nos rostos, marcados pelo tempo e pela vida, daquelas pessoas, fez Helena se emocionar, tendo que fazer um grande esforço para não borrar a maquiagem. Prepararam-se com muito carinho e bom gosto. Estavam vestidos, os homens de terno e as mulheres trajando vestidos longos. O cavalheirismo, que assim como eles, fora esquecido nos dias atuais, podia finalmente ser apreciado novamente. Cada um foi ocupando seu lugar nas mesas em ordem, ao som da banda. O jantar começou a ser servido e o cardápio muito bem elaborado, o cuidado com a dieta daqueles que tinham problemas, não passou desapercebido. - Boa noite a todas as damas e cavalheiros aqui presentes. – Iniciou Oscar. - Espero que possam aproveitar e se divertirem bastante, por isso estamos aqui. Kasuo iniciou os acordes de uma música composta e gravada por Roberto Carlos chamada “Aleluia”. Durante o refrão a plateia cantou junto e com os braços erguidos agitando-os de um lado para o outro fizeram a coreografia. Mantendo o clima Oscar emendou outra. - “Quando eu quero falar com Deus” – Disse Oscar. - Apenas canto essa música. Composta pelo rei Roberto Carlos e Erasmo Carlos. – Começou a cantar.
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    L.P.OWEN 190 Enquanto cantava nãose ouvia um som diferente, prestavam atenção à letra e alguns deles até aproveitavam para uma reflexão. Na terceira música Kasuo deu o tom e Helena começou a cantar “Vivere” (A. Anastásio – C. Valli – G. Trovatto) em seguida Oscar começou a cantar fazendo um dueto e ao final da apresentação foram aplaudidos de pé. Na música seguinte quem começou a cantar foi Oscar. Ele e Helena cantaram “Vivo per lei” (V. Zelli - M. Mengali – G. Panceri). Ficaram impressionados com o talento daquele pessoal e não paravam de aplaudir. Enquanto isso na mesa, Yuri não conseguia esconder a emoção que estava sentindo, ansioso pelo momento em que Vera desse o sinal de OK. Assim que a música parou Oscar pediu um minuto de atenção. - Gostaria de pedir a atenção de todos para chamar ao palco um convidado nosso, me parece que vai cantar com a gente. Por favor, peço que aplaudam o senhor Yuri. Quando Yuri levantou e foi em direção ao palco, Olga que não sabia o que estava acontecendo, acreditou nas palavras de Oscar. - Muito prazer senhor Yuri, espero que não tenha estacionado o automóvel em local proibido. – Brincou. - Desculpe não é nada disso, eu peguei o papel com o texto errado. - Fique a vontade o microfone é todo seu. A atenção estava voltada para o palco, mais precisamente para Yuri, que pela primeira vez não encontrava palavras. Estava mudo. Durante algum tempo o silêncio tomou conta
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 191 do local. Vera a única que sabia o motivo de tudo aquilo, não conseguia tirar os olhos de Yuri na esperança que ele falasse algo antes que alguém pudesse fazer alguma graça. Ao cruzarem os olhares, Yuri sentiu o pedido que Vera lhe fazia, para iniciar o mais rápido possível. - “Por favor, senhor Yuri diga algo”. – Dizia Vera com o olhar. - Gostaria da permissão de todos – iniciou para ganhar tempo – e pedir um minuto de vossa atenção. Como vivemos alguns anos juntos, considero vocês como minha família, portanto gostaria de participá-los de algo muito importante. - Antigamente fazíamos as coisas precipitadamente, porque não tínhamos cabeça, hoje agimos da mesma maneira, porque não temos muito tempo, – disse sorrindo. - Durante minha vida tive altos e baixo, quando jovem pensava em ter, ter, ter e ter. Não sabia nem por ou para que precisava ter tanto. Nesse tempo todo colhi muitos espinhos, mas agora a vida resolveu dar-me uma flor. – Disse apontando na direção de Olga. Uma luz branca iluminou Olga, que não teve alternativa, senão levantar-se. Yuri tirou o microfone do pedestal caminhou em sua direção iluminado por uma luz azul. - Sinto que meu coração neste momento é do
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    L.P.OWEN 192 tamanho do universo,mas este universo é frio, vazio e escuro sem você. Os olhos castanho-escuros de Olga tinham o brilho intenso e na presença de Yuri tornava- se ainda mais iluminados. Não era bela, mas possuía algo que o tempo não conseguiu sequer diminuir, sua delicadeza ao mover-se, seu modo de falar e o tom de voz, para resumir, seu charme. Yuri estendeu sua mão e Olga delicadamente segurou-a. Sentiu que ele estava muito emocionado, seu tom de voz havia mudado, suas mãos estavam geladas. - Todas as vezes que me perguntavam a respeito de quando me casaria, minha resposta foi sempre a mesma, - “Caminhamos para o lugar onde marcamos nosso encontro”. – Iniciou. Desde garoto sempre fora um sonhador, um romântico. Era um homem que ainda conservava os traços da beleza de sua mocidade, mantinha seu preparo físico com exercícios, longas caminhadas e uma alimentação saudável. Tinha cabelos e olhos castanhos, mantinha as costeletas bem aparadas não dispensava o chapéu de feltro. - É este o local onde marcamos nosso encontro e gostaria de saber se você quer seguir comigo pela eternidade? – Continuou ele. - Esperei muito por este momento e não devo sequer pensar em deixá-lo escapar. Ao som de fundo “Em algum lugar do passado” tocado por Kasuo, Olga respondeu. - Como você sempre diz que “foi necessário viver muitas vidas para me encontrar” eu te
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 193 digo que te esperei em todas elas. Com um beijo Olga aceitou o convite. Vera aproximou-se trazendo consigo uma cesta onde um par de alianças estava delicadamente colocado sobre a almofada branca de cetim. Yuri pegou uma e colocou no dedo de Olga. - Esta aliança simboliza todo meu amor. Como ela meu amor também não tem começo nem fim. Ele é eterno. Agora era Olga quem colocava o anel no dedo de Yuri. - Como o mar recebe os rios eu te recebo e prometo envolver-te com águas tranquilas, proteger-te com vales profundos de amor e, depois de misturados nossos seres, nos tornemos enfim indivisível. Enquanto o casal selava o compromisso com um beijo, a banda começou a tocar uma valsa. No instante seguinte a pista estava repleta de casais. Alguns internos receberam a visita de parentes, outros sabiam que continuariam sozinhos. Este era o caso de dona Zefa, que desde muito tempo estava só, mas procurava manter o sorriso nos lábios. Casou aos 14 anos, aos 16 anos estava separada. Morando nas ruas de uma cidade infinitamente maior do que o local de onde viera. Nas horas de solidão, recordava de alguns momentos de sua infância, pensava com saudade em sua mãe e seus irmãos, mas infelizmente o ódio por seu pai corroía seu
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    L.P.OWEN 194 coração. Era apenasuma criança que gostava de brincar de bonecas, seu pai não tinha o direito de vendê-la para um homem muito velho e violento como aquele. Durante o tempo em que estivera casada com aquele crápula, sofreu muito. A situação ficou pior, por mais incrível que pudesse parecer, depois de ter sido posta fora de casa como um objeto que não tinha mais serventia tudo porque não conseguira engravidar. Perambulou pela cidade durante algum tempo até encontrar uma senhora que lhe deu um lar, não demorou e já era tratada como filha. Teve oportunidade de aprender a ler e escrever, só não constituiu uma outra família porque não poderia abandonar aquela que a acolhera quando mais ela precisava e ensinando-lhe tudo, inclusive a perdoar. A partir do momento que perdoou seu pai nunca mais o seu sorriso e a alegria de viver deixou seu rosto. Após a morte de sua benfeitora, Josefa foi convidada, pelos irmãos de dona Lídia a deixar a casa para que pudessem vendê-la e dividir o dinheiro entre eles. Sempre recebeu cantada, mas não se permitia amar ninguém porque aqueles a quem amou não ficaram com ela. Não era bonita, mas sua simpatia e seu sorriso faziam a diferença. Sempre morou só, após sua aposentadoria resolveu morar num asilo, pelo menos teria companhia. Seu lema era “Viverei o hoje! Amanhã? Viverei amanhã!”. Deixava para chorar, sua saudade dos que amou, quando estava deitada na cama, na hora em que todos estivessem dormindo.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 195 Capítulo cinquenta e sete O SEGREDO DE YURI Durante o intervalo, Oscar foi ao banheiro. No corredor viu que o senhor Yuri conversava com um homem muito bem vestido. Achou que fosse alguém do asilo, mas quando fechou a porta, ainda ouviu o que o senhor Yuri falou ao outro. - “Agradeço o senhor pela discrição”. - “O valor cobrado pelo aluguel do salão foi um pouco mais alto do que havíamos combinado, porque tivemos que contratar mais pessoas para melhorar a segurança”. – Disse o outro. - “Não tem problema, aqui está o cheque do combinado e este outro é do excedente”. Os dois estavam tão compenetrados nos negócios que não perceberam a presença de Oscar. De volta, não conseguiu guardar o segredo e comentou para o grupo. - Como você descobriu? – Perguntou William. - Eles estavam conversando próximo ao acesso dos lavatórios. - Será que foi ele quem doou o salão para a festa? – Quis saber Ruan. - Como você sabe que foi doação? - Disse Oscar surpreso. - Você não sabe que a mãe dele participou da organização da festa. – Replicou Jorge. Kasuo que até o momento não tinha dito nada a respeito apenas comentou. - Bem senhores! Isso não nos diz respeito.
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    L.P.OWEN 196 Que tal doarmosa nossa parte com uma linda canção? A música escolhida foi “Who wants to live forever” cantada por Helena. Quando os aplausos terminaram, Oscar deu um grito no microfone dando um susto no pessoal que não esperava, inclusive seus companheiros. - Senhoras e senhores, agora vocês sacudirão o esqueleto. Como um maestro comandando sua orquestra começou a comandar a plateia. - Por favor, venham mais próximo do palco. Vamos acompanhar a música com palmas. Não vou fazer o mesmo porque posso cair. – Disse arrancando gargalhadas da plateia. A banda percebeu que os ensaios tinham sido em vão. Ruan fez um improviso na bateria para um breve aquecimento, enquanto o pessoal na pista seguia as ordens de Oscar acompanhando com palmas. Deu um sinal e Helena começou a cantar (I will surviver – Glória Gainor). A música fez o público dançar como loucos. - Você deve ter ficado maluco! – Disse Kasuo ao ouvir Oscar pedir para tocarem (YMCA – Village People). - O pessoal está adorando estão pulando de alegria. Estão felizes e isso é o que importa. – Respondeu. A festa foi um sucesso, quando Oscar começou falar os que estavam no salão aplaudiram de pé. - Gostaria de dizer em nome de todos nós da banda...- ficou sem saber o que dizer por
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 197 alguns instantes, como não deram sugestões, emendou. – Por incrível que pareça não temos nome, alguém poderia dizer um? Na plateia, alguém gritou “Vocês são demais”. Não teve dúvidas e batizou. - Nós da banda “WE ARE LIKE THIS” agradecemos pela companhia de todos vocês. Antes que Oscar dissesse algo mais, a plateia grita o nome da banda. - “WE ARE LIKE THIS”. “WE ARE LIKE THIS”. - Esse cara não existe! – Disse William colocando as mãos na cabeça, como aquele, que não crê no que está acontecendo. - Como estava dizendo, agradecemos a oportunidade de compartilharmos esta noite com os senhores e esperamos que tenham gostado e acima de tudo, - deu uma pausa - divertido. Enquanto a banda tocava alguns acordes, Oscar começou a apresentar os componentes da banda. - Senhoras e senhores, na bateria, Ruan, filho de nossa querida Vera. No contrabaixo, Cláudio. Na guitarra Jorge. Ao violino William. Ao piano, Kasuo, nosso líder e nos vocais Helena e Oscar este que vos fala. William pensava em como era estranho, senão cômico, ouvir aquela voz maravilhosa e ao mesmo tempo presenciar aquela figura. Achava que Oscar, até nisso era gozador. Estava mergulhado em seus pensamentos, quando ouviu os acordes do piano iniciando
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    L.P.OWEN 198 uma nova música.Não demorou em descobrir que era uma de “Elton John – I’m still standing”. No final foram aplaudidos de pé por alguns minutos e quanto mais agradeciam, mais eram ovacionados.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 199 Capítulo cinquenta e oito A VOLTA PARA CASA Enquanto arrumavam e guardavam os instrumentos nas caixas onde seriam transportados novamente para a casa de Kasuo, Emile e Vera se aproximaram, cada uma delas carregando algumas caixas embrulhadas em papel de presente, que foram distribuídas a todos da banda. Emile estava emocionada com o sucesso da festa e depois de entregar para Kasuo, Ruan e Cláudio, uma pequena lembrança, dirigiu-se ao grupo. - Quero agradecer a todos vocês pelo espetáculo maravilhoso que nos proporcionaram. Que Deus os abençoe e, tão breve seja possível, eu tenha a felicidade de ouvi-los novamente num outro de maiores proporções. - Trabalho com este pessoal há muito tempo e até hoje nunca tinha presenciado tamanha felicidade. Todos demonstraram isso em cada olhinho brilhando, assim como o meu deve estar agora. – Brincou. – Muito obrigada por tudo. Vera que, juntamente com Helena, não paravam de enxugar as lagrimas que escorriam, com um lenço de papel já bastante ensopado, iniciaram uma salva de palmas, que acabou com o grupo aplaudindo também. No final, formaram um círculo, todos abraçados.
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    L.P.OWEN 200 - Até algumtempo atrás eu estava morto, mas apareceram algumas pessoas e mudaram minha vida totalmente. – Kasuo estava muito emocionado e feliz. – Já fiz concertos em locais com muitas pessoas, badalação, mas este foi o mais importante, foi o dia em que renasci. Oscar, sem que os outros percebessem, afastou-se e sentado ao piano começou a tocar uma música de “Elton John – Can you fell love tonigth”, ficaram surpresos porque não sabiam que tocava piano. - Estava precisando esvaziar minha alma. – Disse quando se aproximou do grupo. Helena abraçou-o e Oscar desabafou. - Gostaria que meu pai pudesse estar aqui para ver que não sou tão imprestável quanto ele imaginou. Ele mesmo quebrou o silêncio, tristeza não fazia mais parte da sua vida. - Se você ficar abraçando-me o Jorge vai ficar com ciúmes. – Disse sorrindo. Aquele foi um dia exaustivo, mal conseguiram tomar um banho e foram dormir.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 201 Capítulo cinquenta e nove O SENHOR IVO MOURA Convidado por Emile e sendo um homem acostumado a gestos filantrópicos, não poderia deixar de estar presente. Era uma boa oportunidade para sair de casa e lutar contra a depressão que cada dia tornava-se mais implacável. Com o falecimento de sua adorável Catarina tinha desmoronado todo o castelo de felicidade que construíra durante todos aqueles anos. Não tinha mais motivos para viver, hoje se arrependia de não ter filhos e ao receber o convite, achou, que tudo seria um tédio, mas tinha dado sua palavra, não deixaria de prestigiar sua grande amiga. Na porta, ao ver a multidão, que se aglomerava eufórica, ansiosa para entrar no salão, teve vontade de voltar para o lugar de onde não deveria ter saído, pensou, sua cama. Não sabia o que estava acontecendo, mesmo com vontade de sair correndo, sua curiosidade, que algumas vezes em sua vida colocou-o em algumas encrencas, mantinha sua necessidade de descobrir os causadores daquele som agradável que vinha do interior do salão. Foi um dos últimos a entrar. Na porta foi recebido com o abraço fervoroso de Emile, que o encaminhou para uma das mesas reservadas aos seus convidados. Depois de acomodado, sua atenção voltou-se aos detalhes da decoração, das pessoas ao redor.
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    L.P.OWEN 202 Um homem quegostava de apreciar os detalhes. - “É nos pequenos detalhes que Deus faz as grandes diferenças”. – Comentava. Não deixou de notar aquele grupo estranho que conseguia fazer sua alma mais feliz com as músicas que apresentavam. - “Meu Deus devo ter enlouquecido! Jamais pensei encontrar uma música tão boa num lugar deste”. – Pensou. Novamente algo chamou sua atenção. Desta vez foi uma voz angelical que anunciava o número seguinte “Quando eu quero falar com Deus” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos). Muitas vezes tentou conversar com Deus, mas achava que ele jamais ouvira suas preces, porque se as tivesse ouvido, Catarina ainda estaria ao seu lado. A única coisa em que acreditava agora era nos remédios que tomava, antidepressivos, calmantes, estimulantes, entre outros. Com o decorrer da apresentação dos rapazes, a cada melodia que ouvia, ficava mais encantado com aquele grupo. Em sua vida, ouvira diversas bandas, duplas e orquestra, mas eles tinham um detalhe a mais. Divertiu- se como nunca e saiu com uma lição de que “a primeira impressão, na maioria das vezes, nos leva a cometer erros”. Precisava tomar um banho e relaxar um pouco para conseguir dormir. Deitou-se em sua cama enquanto recordava-se dos detalhes da festa, adormeceu. Seu sono foi embalado pelas lembranças do que ouviu e por sonhos onde ocorreu o que mais esperava, o encontro
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 203 com Catarina. Ela sorria enquanto caminhavam ao redor de um lindo lago ao som de uma música, que os seus ouvidos, mesmo treinados, não conseguia decifrar, mas que era harmoniosa. Acordou cedo e feliz, achando que ainda havia muito por fazer, precisava dar alguns telefonemas.
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    L.P.OWEN 204 Capítulo sessenta A PROCURADA ESPOSA A vida havia tomado um rumo diferente daquele que planejara. Após a tentativa frustrada de dar um fim em tudo e não ter conseguido, pensou ter fracassado novamente. O que a princípio achou ser um exagero, agora tinha a certeza de ter tomado a melhor decisão. Uma carta registrada dificilmente é extraviada, caso o destinatário não seja encontrado, ela é devolvida ao remetente. Graças a isso, agora sabia que sua família jamais fora encontrada. Tateando o bolso interno de seu paletó sentiu a presença do envelope. Nele havia um carimbo onde constava, mudou-se, como motivo da devolução. Ao chegar no endereço, onde supunha ainda ser o local que sua esposa e filhos estivessem morando desde sua saída de casa, parou o carro, a dúvida transformou-se em decepção. Pendurada na grade da janela, uma placa onde estava escrito o nome e telefone da imobiliária que estava vendendo o imóvel. Procurou, com os vizinhos, sobre o paradeiro dos antigos moradores, mas não obteve informações que pudessem levá-lo até eles. Sem saber o que fazer resolveu dar uma volta pela redondeza, ainda tinha a esperança de ter confundido o endereço. Descobriu, por acaso, quando encontrou seu filho caçula entrando ali algum tempo atrás. A vergonha que sentia com os seus fracassos impediu-o de conversar
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 205 com ele na ocasião. Notou que havia algumas correspondências e propagandas jogadas pelo chão. Nelas constatou que os nomes dos antigos moradores eram desconhecidos. Resolveu retornar para casa e continuar a procurá-los um outro dia. Já estava chegando o horário do almoço e não tinha avisado o pessoal. Ao se aproximar de sua residência encontrou um homem parado em frente ao portão. Tinha cabelos brancos, usava óculos escuros, vestia terno cinza, feito sob medida. Procurava nos bolsos alguma coisa. Por fim desdobrou um papel e assim que percebeu a presença de um automóvel se aproximando, guardou-o novamente no bolso e caminhou em sua direção. William desceu o vidro e cumprimentou-o com um sorriso. O outro se desculpou pelo inconveniente de estar parado em frente a sua residência. No momento em que ia se apresentar o celular tocou deixando William ainda mais curioso.
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    L.P.OWEN 206 Capítulo sessenta eum OS PRIMEIROS CONTATOS O telefone indicava que a chamada se completara. Após o terceiro toque, sua paciência se esgotou. Não sabia o motivo, mas tornava-se outro homem ao telefone. Já estava quase desistindo, quando ouviu uma voz conhecida. - Alô! – Dito entre bocejos. - Espero não tê-lo acordado! – Disse Ivo Moura, sabendo ser exatamente o contrário. - Devo ter um oitavo sentido. Tinha certeza que era você. – Resmungou o outro. - O único que me liga de madrugada só para me acordar. - Madrugada? São quase nove horas! Tenho algo muito importante para dizer. - O que é mais importante do que meu sono? – Respondeu o outro. - Gostaria de te apresentar os rapazes de uma banda que conheci ontem. Ligue para mim próximo da hora do almoço e terei maiores detalhes. Sem esperar por resposta alguma desligou. - Não sei por que não se despede como todos fazem, dizendo até mais, um abraço, até logo e etc. – Pensou Joel quase explodindo de raiva. Odiava quando Ivo fazia isso. Por outro lado adorava-o pelo ser humano que era. Um pedido seu, sempre era por uma boa causa e sabia que desta vez, não seria diferente. Estava contente com o retorno do amigo. Apesar da diferença de idade entre eles, Joel
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 207 considerava-o seu melhor amigo. Não sabia o que tinha acontecido para sair daquele estado depressivo, mas não importava o motivo, tinha-o trazido de volta e isso bastava. Como sempre, quando Ivo ligava, Joel iniciava os preparativos para algo grandioso. Resolveu por o pessoal em estado de alerta. A primeira ligação foi para seu assistente. - Alô! – Disse Homero. - O homem voltou. Prepare-se! – Disse Joel em seguida desligou. - Odeio quando faz assim, por que não se despede antes, como todos fazem, dizendo um até breve ou algo parecido. – Pensou Homero.
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    L.P.OWEN 208 Capítulo sessenta edois AO SOM DO TELEFONE 7:00 Horas, acordado pelo seu fiel escudeiro, que sempre subia na cama sorrateiramente e como um gesto de carinho lambia seu rosto. Kasuo adorava-o, sentia-se seguro ao seu lado. Bastava qualquer sinal de Romeu para Kasuo se deixar levar. Sabia que sua segurança dependia disso e se fosse necessário, Romeu daria sua vida por ele. Presente de um amigo da família, treinado para guiá-lo e protegê-lo, tornou-se um excelente cão-guia. Quando o telefone tocou, desceu da cama, retirou o telefone do gancho em seguida levou-o até Kasuo. - Grande garoto. – Acariciou-o enquanto retirava o telefone de sua boca. - Alô! - Bom dia! O senhor Kasuo, por favor! - É ele. - Bom dia senhor Kasuo! O senhor não me conhece. Meu nome é Ivo Moura e gostaria de agendar um horário para conversarmos. - Sobre o que conversaremos? - Música! - Quando gostaria de marcar? - Pode ser hoje à tarde? - Poderíamos marcar um almoço! – Disse Kasuo. - Por mim está ótimo, em qual restaurante o senhor prefere? - O senhor poderia vir hoje aqui em casa. Pode anotar o endereço? Depois de anotar o endereço Ivo completou.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 209 - OK! Se não for incomodo, estarei aí por volta das 11:00 horas. - Ótimo! Estarei aguardando. - Kasuo desligou o telefone e pediu para Helena providenciar o que fosse necessário. Na sala, Jorge e Oscar comentavam sobre a qualidade do espetáculo da noite anterior. A conversa transcorria com algumas divergências, mas num ponto eles concordavam, que os ouvintes divertiram-se durante todo o espetáculo. Ao entrar na sala, Kasuo comentou sobre o telefonema e a reunião marcada com o senhor Ivo. Oscar pensou ter ouvido esse nome em algum momento, mas não sabia onde ou quando. - Onde está o William? – Perguntou Kasuo. – Não ouço sua voz. - Ele saiu há algum tempo e não disse aonde ia. – Informou Jorge. - Caso não chegue até a hora do almoço, paciência! Gostaria que estivesse aqui! Continuaram conversando sobre os acontecimentos daquela apresentação. - Este nome Ivo não me é estranho. – Disse Oscar. Ao lembrar-se, onde tinha ouvido, exclamou tão alto que assustou os outros dois. - Já sei! – Sem esperar comentários. – Foi no corredor próximo aos banheiros. Estava conversando com dona Emile. Havia uma terceira pessoa com eles, só não estou certo de quem era. O que ele quer? - Disse apenas que seria sobre música. –
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    L.P.OWEN 210 Respondeu Kasuo. –Vamos ter que perguntar quando ele chegar.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 211 Capítulo sessenta e três NO ESCRITÓRIO Joel chegou no escritório mais cedo do que de costume. Com a depressão de Ivo, seu amigo e sócio, fez com que perdesse o entusiasmo de estar ali sozinho, procurava resolver tudo por telefone, não conseguia olhar para a mesa vazia. Homero, o “Braço de Ferro”, como era chamado, até aquele momento, trabalhou ali sozinho, ficou surpreso com a presença do chefe que havia chegado antes dele. - Bom dia senhor Joel! Que surpresa vê-lo no escritório. - Obrigado e tenha um bom dia Homero! Não me diga que chegou agora para abrir o escritório? - Mesmo não tendo muito trabalho, ainda assim temos que pagar algumas despesas, como condomínio e por isso fui ao banco. - Acho que teremos muito trabalho, de agora em diante, como nos velhos tempos. Ivo está voltando, ele está com muitas ideias novas e vontade para trabalhar, pediu-me que ligasse por volta das 11:00 horas para me informar às novidades. Mal terminou de falar o telefone soou e Homero atendeu. - IVEL Produções, Bom dia! Do outro lado da linha, Ivo sentiu uma ponta de orgulho e esboçou um sorriso de felicidade ao ouvir o nome da empresa que fundou.
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    L.P.OWEN 212 Sentiu estar vivendonovamente. - Bom dia Homero, meu querido Braço de Ferro! Está pronto para voltar à ativa? - Sempre estarei senhor Ivo. - Ótimo! Passa-me para o Joel. Como sempre não demorou em ouvir a voz do amigo. - Joel! Marquei um almoço com o líder da banda hoje as 11:00 horas. Se aceitarem minha oferta, vai valer a pena fazerem uma nova apresentação, mas desta vez, em local maior. Como sempre, disse o que queria e desligou. Depois de ouvir o clique do aparelho sendo desligado, chamou Homero pelo interfone para inteirá-lo das novidades. Passou para ele uma lista contendo alguns nomes que deveriam se contatados para uma reunião durante os próximos dias. Na lista havia alguns nomes conhecidos de Homero, como Marcos Sá engenheiro de som, que participava de todos os eventos produzidos pela IVEL. Considerado excelente profissional, quando se apresentava utilizava o pseudônimo de MS. Só para simplificar. Outro nome da lista Fred, que sabia como iluminar o mundo, tanto que foi apelidado por engenheiro. Seu verdadeiro nome Frederico. Por último Gildete, encarregado da supervisão da montagem do palco e tudo que fosse necessário para produzir os efeitos especiais, era também um dos mais revoltados com o próprio nome e com sua família. Ele odiava sua madrinha por sugerir tal nome a sua mãe. Nome que sempre lhe causou
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 213 embaraços, por isso resolveu transformá-lo em Gil. Sempre que alguma pessoa necessitava chamá-lo em voz alta, adicionava dona Gildete, senhora Gildete e etc, deixando-o irritado e constrangido. A gota d’água aconteceu quando ao sair com uma garota pela primeira vez... - Muito prazer! Meu nome é Gildete. – Disse ela. - O prazer é meu! Meu nome é Gil. – Tentando disfarçar sua vergonha. - Nossa! Que coincidência! Quase temos o mesmo nome. Esse foi o primeiro e último encontro com a garota. Ficaram contentes com a notícia da recuperação de Ivo e prontos para agirem a qualquer momento. Informado por Homero sobre a disponibilidade do pessoal, Joel resolveu ligar para Ivo. - A equipe está pronta. – Desligou em seguida só para ter o gostinho de fazer do mesmo modo que Ivo. Um sorriso maldoso surgiu em sua boca.
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    L.P.OWEN 214 Capítulo sessenta equatro O ALMOÇO William aguardou pacientemente que desligasse o aparelho. - Em que posso ajudá-lo! - Meu nome é Ivo, marquei com o senhor Kasuo, mas acho que anotei o número errado. - O senhor está absolutamente certo está é a residência dele. Muito prazer, meu nome é William. - Puxa! Pensei ter errado, afinal nunca encontrei um oriental com cabelos castanhos e olhos esverdeados e ainda por cima com 1,90m de altura. – Disse sorrindo para quebrar o gelo. - 1,85m apenas! - Completou William. – Não sei se está, mas se marcou com o senhor, com certeza estará esperando. Os dois entraram. Kasuo aguardava-o com o pessoal na sala. Após as apresentações Ivo iniciou suas explanações. - Como falei pelo telefone, meu interesse é musical. Depois que perdi minha esposa, estive alguns meses morto por uma depressão. Confesso, que ao receber o convite de Emile para assistir ao espetáculo dedicado aos internos do asilo, não tive a menor vontade de aceitar. Ficar deitado em minha enorme cama vazia era o que mais queria. Enquanto abria seu coração sentiu Romeu colocar a cabeça sobre sua perna como se compartilhasse de sua dor. - Emile é como uma filha, por isso aceitei e me esforcei para cumprir minha palavra de
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 215 que estaria lá. - No início, um pouco cético ainda, apenas vi um grupo...Um grupo... – Nesse momento ficou constrangido, mas foi socorrido por Oscar. - Um grupo esquisito. – Disse sorrindo. - Obrigado! Um grupo esquisito mostrando uma qualidade musical que não é sempre que se vê. Por esse motivo estou aqui. Vim para saber se os senhores têm interesse em fazer uma apresentação para um público maior? Por alguns instantes, novamente o silêncio tomou conta do lugar. - Se me perguntasse algum tempo atrás, antes de conhecer essa turma, minha resposta seria não, porque, como o senhor, também estive morto por algum tempo se aceitarem sua proposta, estarei com eles. – Kasuo falou. - Nós nos conhecemos após um momento digno de ser esquecido. Por acaso encontramos Kasuo e nenhum de nós tinha a pretensão de fazer qualquer coisa referente à música. Foi por acaso também, que começamos a tocar e muito mais ao acaso foi ter recebido o convite de dona Vera para a apresentação no asilo. Agora temos outra proposta que não esperávamos. Acredito que o céu está conspirando em nosso favor e sendo assim, quem somos nós para não aceitarmos. – William fez um aceno com a cabeça, recebendo o apoio dos outros dois. - Temos além de nós, Helena, Cláudio e Ruan para consultar, mas acredito que seja vontade
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    L.P.OWEN 216 deles montar umabanda. – Completou Kasuo. - Precisamos marcar uma reunião para acertarmos alguns detalhes. Acredito que o primeiro passo será definirmos alguns parâmetros para que a equipe possa trabalhar, como tipo de espetáculo, onde será realizado e etc. – Comentou Ivo. - Seria por acaso um roteiro? – Indagou Oscar. - Exatamente! É o que precisamos para não colocar os pés pelas mãos. – Completou o outro. - Vamos marcar para amanhã no final da tarde. Precisamos avisar o Cláudio e o Ruan. – Completou Kasuo. – Por hora vamos almoçar, porque ninguém é de ferro. Do outro lado da linha Ruan não acreditava no que estava ouvindo sobre a visita de Ivo e a proposta para o espetáculo. - Você está falando sério Oscar? - Claro! Sou um homem sério! – Disse rindo. - Avisarei o Cláudio e amanhã estaremos ai. - Venha amanhã cedo. Vamos ter que conversar sobre alguns detalhes. – Completou Oscar.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 217 Capítulo sessenta e cinco PARECIA UM SONHO Vera não entendia o motivo para tanto contentamento do filho. Estava colocando a mesa para o almoço quando Ruan entrou na cozinha. - Oscar acabou de falar comigo sobre um homem que assistiu a nossa apresentação. Gostou tanto que convidou-nos para um outro num local maior. - Parabéns para vocês! Tomara que dê tudo certo. - Agora preciso avisar o Cláudio. - Primeiro almoça depois você liga. - Não vou aguentar esperar tanto tempo. Daqui a pouco eu almoço. Dessa forma a notícia se espalhou rapidamente. A felicidade dos rapazes era contagiante. Faziam planos ambiciosos para o futuro. Tocar para uma plateia maior, uma casa de espetáculos lotada seria a realização do sonho de todos eles. Antes, porém precisavam arranjar um nome para a banda, escolher um bom repertório e ensaiar muito. - Passarei por ai e iremos juntos. – Disse Cláudio. Aquela noite foi a mais longa de sua vida. A claridade do dia estava dando sinais de sua chegada na janela de seu quarto e ele não havia conseguido dormir. Seus pensamentos voltaram no tempo quando ao retornar para
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    L.P.OWEN 218 sua casa apóso último espetáculo no bar. Pensou em sua mãe, ao abraçá-lo com carinho, anunciou que encontraria outro pessoal e formariam um grande grupo. Jamais imaginou que seria tão rápido. Resolveu levantar-se e tomar um bom banho. Tomou um café e saiu a caminho da casa de Ruan. Ao chegar, ficou constrangido de tocar a campainha achando ser muito cedo. Sua surpresa foi ainda maior ao encontrar Ruan, parado na porta, pedindo que entrasse. - Desculpe-me, mas minha cama estava cheia de pregos, não consegui dormir um minuto de tamanha felicidade. - Por que acha que estou acordado tão cedo? - Não sei quanto a você, Ruan, mas não consegui parar de pensar no assunto. - Muito menos eu! Quando fechava o olho, ouvia a voz de Oscar me dizendo para chegarmos pela manhã. Você imaginou meu pesadelo sonhando com ele fazendo graça durante a noite toda? - Pelo menos você ficou se divertindo. - Olha minha cara, repare quanto me diverti. Vamos tomar um café, depois iremos. Minha mãe não aceita não como resposta ela já preparou tudo para nós dois. Entraram e foram recebidos com o sorriso de dona Vera que terminara de por a mesa. - Bom dia dona Vera! - Bom dia Cláudio! Sua mãe como vai? - Muito Bem! Graças a Deus! - Você também está ansioso? - Não consegui dormir. - Isso acontece quando estamos diante de algo
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 219 que queremos muito e não sabemos como vamos nos sair. Basta confiarmos em Deus e fazermos o que tem que ser feito Ele nos ajudará.
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    L.P.OWEN 220 Capítulo sessenta eseis O ACERTO DA BANDA Ainda era cedo quando os dois chegaram na casa de Kasuo, apesar disso, já estavam todos de pé. Na sala teve início a reunião entre os rapazes para que os dois fossem inteirados sobre os últimos acontecimentos. - Bem! Como Oscar já tinha informado vocês dois. – Iniciou Kasuo. - Recebemos uma proposta de um senhor chamado Ivo Moura para montar uma apresentação. Sua proposta é para ser numa casa de espetáculos ou em um ginásio de esportes. Teremos apenas que nos preocupar com os instrumentos e as músicas e é por isso que estamos aqui, para definir alguns pontos. Kasuo deu a palavra para William para decisão das questões pendentes. - Conforme Kasuo me pediu listei alguns tópicos, mas se alguém tiver alguma ideia a acrescentar é só falar. Tudo começa com o batismo, por isso acho importante dar um nome para a banda. O segundo, qual o estilo de música que tocaremos? Qual o repertório. Quem tiver alguma sugestão, por favor, pode começar. Oscar iniciou e todos acharam que estivesse brincando. - Quanto ao nome acho que “WE ARE LIKE THIS” é bom. Quanto ao repertório, por que não tocamos as clássicas com estilo e arranjos atuais e vice e versa. Contaríamos com a presença de uma orquestra. Só teríamos que
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 221 ter cuidado nos arranjos. Pela expressão no semblante dos presentes notou que havia dúvidas e um pouco de receio, em relação às suas palavras. - Fred Mercury da banda Queen, por exemplo, roqueiro com um toque lírico. - Poderemos apresentar as mais conhecidas com arranjos diferentes - Sugeriu William. - Eu acho que o repertório pode ficar para mais tarde. Temos urgência em dar um nome para banda. O que acham de “WE ARE LIKE THIS”? Outro ponto para ser discutido, é se usaremos uma orquestra, mas para isso precisamos saber o tamanho do local. - Você tem toda razão Kasuo. Devemos votar e decidir o nome para a banda. Podemos colocar outros nomes e depois escolher o mais votado. - Completou Jorge. Foram escolhidos três nomes conforme Jorge tinha sugerido. Vários deles foram colocados, alguns espalhafatosos outros tímidos, uns alegres, outros tristes e no final sobraram apenas três deles. O escolhido, “WE ARE LIKE THIS”.
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    L.P.OWEN 222 Capítulo sessenta esete COMO ANTES Ainda era noite quando saiu, estava feliz por ter algo que o motivasse mais do que a depressão. Os primeiros raios de luz davam conta de que o dia seria ensolarado. Há muito tempo não prestava atenção ao amanhecer, tinha até esquecido de como eram bonitas as cores que o céu adquiria. Agradeceu a oportunidade de presenciar tamanho espetáculo, lembrou-se de agradecer também por ter encontrado aquele pessoal. Estava disposto a fazer um grande trabalho com eles. As ideias fervilhavam em sua cabeça. Procurava imaginar o local, o palco, a iluminação, o som, enfim, estava voltando ao mundo. Ao posicionar seu veículo no portão de acesso a garagem; Ivo foi abordado pelo segurança que estranhou a presença de um automóvel naquele horário. Baixou o vidro e disse: - Bom dia Carlos! - Bom dia! O senhor por aqui a esta hora, senhor Ivo? - Desculpe-me não ter avisado que viria, mas preciso preparar um material. - Não tem problema nenhum, vou abrir o portão para o senhor. - Obrigado! No escritório do sétimo andar situado na face norte do edifício, entrou e seguiu direto até a cozinha para preparar um café. Não tinha o hábito, mas colocou o pó e água na cafeteira e ligou-a. Abriu as janelas para que o ar da
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 223 manhã pudesse entrar, não estava disposto a respirar o ar produzido pelo equipamento de refrigeração. Percebeu que antes encontrava tudo preparado, café, ar condicionado ligado, mesa limpa, com as correspondências colocadas sobre ela, então se deu conta da eficiência e existência de Homero. O aroma que o café exalava invadia suas narinas e provocava aumento na salivação. Encheu uma xícara foi até sua sala, ali, enquanto sorvia seu café lentamente em pequenos goles, olhava para o horizonte fazendo planos para o futuro enquanto o dia ocupava o lugar da noite tornando tudo visível. Joel e Homero viram as luzes acesas e ficaram preocupados. Ao entrarem encontraram Ivo bem-humorado. - Bom dia! Os senhores parecem bem- dispostos. - Colocaram prego na sua cama? – Disse Joel. - Preparei o café peguem uma xícara, mas não aceito reclamações. – Completou Ivo. - Acabei de perder meu emprego! – Resmungou Homero. - Não precisa se preocupar, não tenho intenção de tomar o seu lugar. – Brincou o outro. - Vocês estão preparados para a reunião de hoje? – Questionou Ivo. Homero foi quem respondeu enquanto saboreava seu café. - Entrei em contato com todo o pessoal e eles
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    L.P.OWEN 224 virão hoje pelamanhã. Todos me confirmaram a presença. Não demorou e o interfone tocou anunciando a chegada de Fred, Gil e MS. Após os cumprimentos e o café, Ivo iniciou explicando os reais motivos da reunião. - Hoje os senhores terão o prazer de conhecer um grupo esquisito, mas tão fantástico. Posso garantir que a primeira vista, o sentimento vai ser de dúvida, mas ao ouvi-los, cada um terá a impressão de não estar à altura de prepararem seus equipamentos. – Continuou ele. - Confesso que antes de entrar no salão, ouvi- los, me motivou a querer conhecê-los, porque se fosse o contrário não esperaria a apresentação começar. - Para quem tem os nomes como os nossos, a gente tira de letra. – Comentou Gil. O comentário feito foi o estopim para uma gargalhada generalizada. As ideias e sugestões eram todas anotadas por Homero encarregado de providenciar o necessário para colocar em prática o que os rapazes haviam decidido. O bate papo avançou o horário do almoço, somente percebido quando MS informou que seu estomago já estava digerindo seu esôfago de fome. - Minha Nossa! Já é quase uma hora, vamos comer algo aqui mesmo, porque o pessoal está para chegar. Homero se incumbiu de telefonar para o restaurante e fazer as encomendas das refeições para todo o pessoal. Mal terminaram de almoçar e tomar um café feito na hora,
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 225 desta vez por Homero, o porteiro anunciou a chegada dos rapazes.
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    L.P.OWEN 226 Capítulo sessenta eoito NO TRAJETO - Bom pessoal está na hora! – Disse Kasuo. Cada um ocupou seu lugar no automóvel, William ao volante, Kasuo e Jorge na frente, Cláudio, Ruan, Oscar e Helena no banco traseiro. Oscar assoviou e Romeu, sem hesitar, pulou no colo dos que estavam sentados no banco traseiro. - Estão todos acomodados? – Perguntou Jorge fazendo piada. - Estamos ótimos! – Respondeu Oscar em tom de sussurro. William acelerou e o automóvel ganhou velocidade passando por avenidas arborizadas, ladeadas por edifícios, dos quais, a luz do sol era refletida nas vidraças. Repentinamente Oscar grita e com ele a reclamação dos outros três. - Abram os vidros estou sufocando. Romeu! Não me diga que você soltou um pum? A agitação tomou conta de todos que estavam no banco traseiro, em busca de ar puro. Romeu, por sua vez achando que estavam brincando com ele latia e abanava o rabo de felicidade. - Pare de zombar da gente, seu cão despudorado! O que andou comendo nos últimos dias? – Ele mesmo respondeu. – Minhas meias? Apesar do mau cheiro, era difícil não achar graça de Oscar. Riram da situação, quando Cláudio quis fazer um comentário e sua gagueira não permitiu que completasse a
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 227 palavra, deram mais risadas. - Vo..vo...vo...... Oscar não deixou passar e brincou com Cláudio. - Você viu Romeu o que fez para o rapaz? Cláudio respirou fundo e falou de uma só vez. - Você queria que ele segurasse? Novamente todos riram. Não demorou e estavam estacionando no edifício, onde ficava o escritório de Ivo. O porteiro ficou impressionado com o aspecto do grupo. Foi Oscar quem os anunciou para quebrar o gelo. - Boa tarde! Gostaríamos de falar com o senhor Ivo. - A quem devo anunciar? - A nós mesmos. – Brincou. - Seu nome. Por Favor. - Meu nome é Oscar, por favor, diga que é por parte do senhor Kasuo. – Disse apontando em sua direção. O porteiro anunciou-os. Enquanto aguardavam no saguão apreciavam alguns quadros ali expostos.
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    L.P.OWEN 228 Capítulo sessenta enove 1ª IMPRESSÃO Sobre a mesa, encontravam-se as anotações de tudo o que já haviam acertado. Foi Gil quem abriu a porta para atendê-los. Após as apresentações seguiram para a sala de reunião. Ivo quem iniciou a conversa, não escondia a felicidade em trabalhar com os rapazes. - Agradeço a presença dos senhores aqui em nossa sede. Como já havia antecipado no almoço que tivemos, nossa intenção é montarmos um espetáculo com vocês. Fiz questão de apresentá-los minha equipe e meu sócio para definirmos alguns pontos. Havia pensado num teatro, mas como sou ambicioso, confesso que um ginásio de esporte não será má ideia. Ivo deu uma pausa para Joel fazer seus comentários iniciais. - Quando Ivo me disse que havia um grupo com o qual ele tinha muito interesse em fazer um trabalho conjunto, naquele momento tive a certeza de que eram músicos fora de série, caso contrário, não conseguiria fazer Ivo voltar à ativa. Por esse motivo agradeço por terem vindo. - Joel prosseguiu. - Deste momento em diante teremos muitas coisas para definir. Acredito que a primeira delas é sabermos o tamanho do espetáculo que queremos fazer e a partir daí planejar os passos futuros. Houve consenso sobre o que Joel acabara de falar. Definido o local como sendo um ginásio
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 229 de esportes, resolveram fazer uma estimativa do tempo necessário para aluguel do local e a montagem do espetáculo. Definiram como data provável final de novembro e meados de dezembro. Ao término da reunião que se prolongou até o inicio da noite tinham quase tudo acertado, onde e quando seria a apresentação, tempo de duração, numero de músicos entre outras coisas. - Bem senhores agora que temos quase tudo praticamente acertado poderão fazer um contrato e assiná-lo na semana que vem. – Informou Joel. - De nossa parte não há problemas, basta nos avisar. - Replicou Kasuo. A volta foi mais tranquila e rápida. Em casa o que mais se ouvia eram reclamações sobre estarem cansados e famintos. Resolveram pedir comida italiana.
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    L.P.OWEN 230 Capítulo setenta INÍCIO DOSTRABALHOS Na manhã do dia seguinte, bem cedo, já estavam trabalhando no projeto. Gil disposto a fazer do palco com muita segurança, porém, com alguns detalhes permitindo a utilização de efeitos especiais, que pudessem interagir com os rapazes. Tinha várias ideias, mas todas teriam de obedecer a critérios rigorosos para garantir a segurança principalmente de Oscar que tinha dificuldade para locomoção, no entanto, prezaria por espaços livres favorecendo sua movimentação por todos os lados do palco. Ao mesmo tempo MS imaginava os tipos de microfones, equipamentos de som suficiente para cobrir todo o local sem interferir na qualidade. Fred, encarregado da parte elétrica e iluminação, por sua vez quebrava a cabeça com o projeto do palco e tamanho do ginásio para dimensionar a quantidade de energia necessária. O começo de todo projeto é sempre assim, basta dar o pontapé inicial e tudo fica mais fácil. – Pensou. Por sua vez Ivo e Joel saíram em busca de patrocinadores. Não seria fácil, mas poderia contar com parceiros de outros eventos. Ivo estava empenhado em fazê-lo, mesmo que fosse seu último trabalho. Em sua primeira visita foram recebidos com muita alegria e o acordo selado com um brinde de água sem gás no seu melhor estilo.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 231 O tempo passou rapidamente e quando menos esperavam, estavam às vésperas da apresentação. O consumo de café crescia à medida que o prazo diminuía. Enfim o dia D chegou.
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    L.P.OWEN 232 Capítulo setenta eum ATÉ A EXAUSTÃO Sem exceção, todos estavam tomando o café da manhã e o dia não havia amanhecido. 6:00 Horas em ponto, a campainha tocou e pelo interfone ouviu-se a voz de Ruan e Cláudio dizendo “Podemos entrar?”. - Eles não dormiram! – Disse Oscar, pois estava impressionado com o horário. - Vocês poderiam ficar aqui com a gente, assim não precisariam acordar tão cedo. - Precisamos perguntar para nossas mães, afinal elas ficarão sozinhas durante esse período e depois te informamos Kasuo. – Respondeu Cláudio. Os ensaios começaram como sempre com muitas paradas para acerto de detalhes. Cada um procurava dar sugestão para melhorar a performance do grupo. Não havia líder nem liderado apenas pessoas fazendo o melhor de si. Um novo local foi necessário para os ensaios com a orquestra e o coral. Como acontece sempre o tempo é implacável. Estavam exaustos depois de tantos ensaios, mas apesar de preparados o frio na barriga era inevitável. - Estamos a poucas horas do maior e melhor dia de nossas vidas. Acredito que foi para esse dia que nascemos. Tudo o que Deus nos deu foi para nos preparar para esse momento e tenho certeza de que será inesquecível para todos nós. Já fiz diversas apresentações, mas nenhuma será tão importante para mim do
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 233 que esta que faremos juntos. Gostaria de agradecer todo o empenho de cada um e pedir para que amanhã vocês acima de tudo divirtam-se. Ao terminar, Kasuo estava emocionado por perceber que ali estavam pessoas que como as lagartas transformaram-se e no dia seguinte fariam seu primeiro voo.
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    L.P.OWEN 234 Capítulo setenta edois RETOQUES FINAIS Durante a noite todas as equipes, de Gil, Fred e MS trabalharam dando os retoques finais. O som e a iluminação estavam sendo ajustados para que todos os equipamentos funcionassem cem por cento para o ensaio que aconteceria na manhã seguinte. Com o mapa na mão, Fred revisou toda a programação feita na mesa de iluminação. Por sua vez MS preocupava-se no ajuste da equalização do som. A madrugada já estava em sua metade final quando foram descansar um pouco. Os três, muito cansados com a maratona, teriam que estar prontos durante o último ensaio da banda para eventuais ajustes. O sol nem tinha aparecido por completo e os músicos já verificavam a afinação dos instrumentos. As cópias do roteiro do espetáculo eram afixadas em pontos estratégicos. Os rapazes da banda ensaiaram suas marcações, todos os detalhes foram revistos cuidadosamente. Foram servidos lanches e ingeridos ali mesmo no local dos trabalhos. As horas passavam, ainda havia muito trabalho por fazer e a segunda metade do dia já batia à porta. Finalmente, depois de tudo checado, resolveram descansar um pouco até o início do espetáculo. Para evitar locomoções desnecessárias, haviam montado alojamentos e camarins confortáveis atrás do palco. O grande momento estava chegando, os
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 235 nervos estavam à flor da pele. Do lado de fora o público aguardava a abertura dos portões. Há muito tempo, se aglomeravam próximos da entrada. Conforme planejado, os portões foram abertos as 19:00 Horas, duas horas antes do início da apresentação. A noite estava quente sem nuvens que demonstrassem mudanças no tempo. As pessoas corriam para ficarem próximas do palco. O planejamento e colocação dos telões e o cuidado com a perfeita distribuição do som possibilitaram aos presentes assistirem todos os acontecimentos do espetáculo. Os Spots iluminavam apenas o público. O palco, com a cortina ainda fechada e sem iluminação alguma, aumentava a curiosidade do público. No camarim, estavam reunidos os músicos da banda e da orquestra, o coral e os colaboradores para o momento de orações. - Gostaria de agradecer primeiramente a Deus pela possibilidade de estar aqui com todos vocês que se empenharam na montagem de toda essa estrutura e de acordo com o Oscar, nós deveremos dar o nosso melhor lá no palco, porque vocês fizeram o melhor. Peço também que Deus abençoe todos vocês. A hora é esta. Em seguida cada um assumiu seu posto para o início da apresentação.
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    L.P.OWEN 236 Capítulo setenta etrês O ESPETÁCULO Em pé num canto do palco Ivo fazia um balanço do trabalho feito. A divulgação do evento tinha sido perfeita, considerando que o grupo era desconhecido do público, conseguiram lotar um ginásio de esportes. Nas chamadas publicitárias foram utilizados trechos da apresentação no asilo e para os panfletos e cartazes, as fotos foram produzidas por um jovem no início de carreira, mas que com muita dedicação e competência tinha feito um grande trabalho. - Vieram por curiosidade? – Pensou. Sabia que teriam uma grande surpresa, assim como ele no dia em que os ouviu pela primeira vez. Aqueles meses foram de trabalho árduo, tanto na busca de recursos com patrocinadores, quanto na divulgação do evento nos meios de comunicações. Foi necessário usar de toda forma de persuasão, para obter espaço na mídia, afinal era o preço do anonimato. Devia favores para várias pessoas, mas o importante é que conseguiu atingir sua meta, o resto seria com os rapazes. O sucesso dependia da apresentação neste espetáculo. Pouco antes de ser abordado por Emile e Vera disse em voz alta: “Desejo para todos vocês muita merda”. As duas vinham acompanhadas por um jovem senhor que foi acomodado próximo do palco junto das cadeiras reservadas para eles.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 237 - Olá garotas! Vejo que conseguiram. - Deu trabalho, mas conseguimos. – Replicou Emile. - Tivemos que bancar detetives. A ideia que nos deu de começar pelo cartório foi importante para nosso sucesso. – Completou Vera. - Pensei que tivessem fugido, faz mais de três dias que procuro falar com vocês e não as encontro. - Tivemos que viajar para o interior de Minas Gerais. Nossas informações nos levaram até uma chácara e mesmo assim não tínhamos certeza se eram corretas. O importante é que nós conseguimos. – Concluiu Emile.
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    L.P.OWEN 238 Capítulo setenta equatro A SIMPLES VERDADE Com os integrantes da banda em seus lugares no palco, foi dado o sinal para o início do espetáculo. Todas as luzes que iluminavam a plateia foram apagadas e a escuridão fez aumentar a expectativa das pessoas ali presentes. Repentinamente do lado oposto ao palco surgiu um facho de luz produzido por um holofote muito potente iluminando aleatoriamente grupos de pessoas que estavam na plateia. Ao mesmo tempo em que era ouvido o som de hélices girando, uma corrente de ar muito forte sendo lançada sobre as pessoas faziam-nas sentir a sensação de terem um helicóptero sobre suas cabeças. Os equipamentos responsáveis por tais efeitos, ventiladores potentes, estavam colocados no teto do ginásio. Enquanto a plateia se preocupava em procurar o “tal aparelho” a cortina foi aberta. Ainda com as luzes do palco apagadas a banda iniciou a música “THE PAPIEST DAYS OF OUR LIVES e ANOTHER BRICK IN THE WALL, parte 2 – Pink Floyd”, cantadas por Jorge e as três garotas lideradas por Helena. No fundo do palco, um coral de 50 vozes ladeava a bateria que estava colocada num nível mais elevado isolada por acrílico transparente. Logo abaixo a orquestra regida por um maestro amigo de Ivo. À frente, o piano de Kasuo, Jorge em sua cadeira de rodas, Cláudio, William e Helena e as duas garotas que faziam back-vocal. Oscar tinha
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 239 um espaço na frente do palco onde podia caminhar livremente sem perigo de tropeçar em fios com suas muletas. A plateia vibrou com o som produzido pela banda. Assim que o último acorde foi dado, novamente todas as luzes foram apagadas. Em poucos segundos, no centro do palco, Oscar em seu terno branco, que iluminado por um facho de luz negra tornou-se azulado, era erguido por um elevador hidráulico, de cuja base saia uma fumaça densa produzida por uma máquina, dando a impressão de que estivesse levitando em meio à neblina. À medida que Oscar era erguido, acompanhada pela orquestra, a banda iniciava os acordes de “WIND OF CHANGE – Scorpions” com uma roupagem diferente. Quando a música terminou, enquanto a plateia aplaudia, assoviava, gritava. Um novo efeito visual iniciou. A luz que o iluminava apagou e imediatamente outras lâmpadas passaram a iluminar todos os músicos que estavam no palco, fazendo Oscar desaparecer como num passe de mágica. Assim que o elevador baixou, um dos seguranças pegou Oscar no colo e correu em direção ao fundo do palco, onde um carro elétrico o aguardava para levá-lo até o outro lado do ginásio atrás da plateia. O assistente trocou seu paletó branco por um preto com apliques de lantejoulas, enquanto um outro retirou a calça branca com um pequeno puxão, embaixo apareceu outra de
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    L.P.OWEN 240 cor preta. Agrande ideia de utilizar Velcron nas costuras, para facilitar a remoção, foi dada pela mãe de Ruan. - Foi outra grande ideia ter colocado duas calças, senão teria que ficar pelado! Imaginem as garotas correndo atrás de nós por minha causa? – Comentou para os rapazes que o acompanhavam. - Ia ser uma loucura, teríamos que aumentar o número de seguranças. – Replicou um dos rapazes. Em pouco tempo Oscar estava no lado oposto do palco pronto para entrar em cena. Enquanto isso, no palco, Helena cantava “WHO WANTS TO LIVE FOREVER”. Assim que a música encerrou todas as luzes foram apagadas novamente e a escuridão tomou conta do local, algumas pessoas acendiam seus isqueiros inutilmente na tentativa de enxergar algo, outras assoviavam ou gritavam até que uma voz se fez ouvir. - Olá! Onde colocaram o maldito interruptor? Por favor, alguém poderia acender a luz do banheiro? Não consigo ver nada. A plateia fez silêncio imaginando que algum integrante da banda tivesse ido ao toalete com o microfone ligado sem perceber. - Como vou conseguir acertar isso? Vai cair para fora do vaso! O som de água caindo no chão foi ouvido. - O que será esse botão? Será a descarga? Nessa escuridão só tem uma maneira de saber. O som que o público ouviu foi de uma descarga quebrada que não parava de despejar
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 241 água dentro do vaso sanitário. - Nossa! Não para de cair água. Desse jeito vai acabar com toda água do planeta. Socorro! – Gritou. - Alguém poderia fazer ela parar de desperdiçar tanta água. Essa era a deixa. Um canhão apontou seu facho de luz na pista central, onde se via um rapaz caminhando com dificuldades em direção ao palco enquanto cenas de lugares áridos da terra eram apresentadas nos telões. A banda, por sua vez, iniciava a introdução da música “TERRA PLANETA ÁGUA – Guilherme Arantes”. Alguns ficaram impressionados com aquela figura se arrastando em direção ao palco, mas quando ouviram-no e no tom de sua voz, perceberam que a brincadeira fora para alertar de algo muito sério que ocorria em muitos lares, aplaudiram efusivamente. Sem pausa entre elas, iniciou os acordes de “EVA – Rádio Táxi”. Enquanto era cantada, nos telões, via- se a poluição tomando conta do ar, testes com bombas nucleares, homens devastando as matas, pessoas jogando lixo nas ruas e rios das grandes cidades. Em seguida, os furacões, maremotos, degelo dos polos, alagamentos, regiões devastadas por erosões, enfim o caos. Assim que foi dado o último acorde, fez um pequeno alerta. - Precisamos refletir com carinho em todas as nossas ações, o que vemos, o que escutamos e o que fazemos. – O que vemos pelos meios de comunicações,
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    L.P.OWEN 242 sobre a degradaçãodos homens pertencentes às instituições públicas e privadas nos faz achar que todas as maçãs estejam podres. Acreditem, isso não pode ser verdade, porque ainda resta você. - O que escutamos sobre a libertação de criminosos perigosos, em nome da aplicação das leis de “direitos adquiridos” ou coisa que o valha. Jamais se ouve dizer, que elas foram mudadas para que se puna com rigor o culpado de crimes hediondos e não ocorra mais esse tipo de privilégios. Não me assustam os “defensores dos Direitos humanos” somente se preocuparem com os agressores. As vítimas, essas já não precisam de Direitos Humanos, porque já não são mais humanas, tornaram-se somente estatísticas. - O que fazemos ou podemos fazer? A resposta pode estar com cada um de nós, porque para alterarmos a matéria, devemos alterar a estrutura do átomo e para mudar a sociedade, devemos transformar o indivíduo. Como me preocupar, em mudar o mundo, se não consigo modificar as atitudes do cara do espelho? - Enquanto os políticos se preocupam em fazer conchavos, em planejarem formas e fórmulas de ganharem mais, homens, mulheres, crianças e idosos, sofrem ou morrem jogados pelos corredores dos hospitais públicos. Nas ruas dos grandes centros, jovens são consumidos por drogas, enquanto isso no parlamento a pauta principal é o novo salário dos parlamentares. A quantia de dinheiro desviada dos cofres
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 243 públicos é suficiente para resolver quase todos os problemas na saúde, de moradia e de infraestrutura. Agora pergunto! – Fez uma pausa. - O que fará o cara do espelho? Oscar, como sempre, falou de improviso, deixando os outros sem saber o que fazer, mas no final todos concordavam com ele. Enquanto cantavam “WE ARE THE WORLD – Michael Jackson” no telão tudo o que foi dito por Oscar era exibido em forma de videoclipe. A plateia acompanhou cantando junto. Durante o espetáculo foram apresentadas diversas canções. Ficaram boquiabertos com o grupo, com os efeitos especiais apresentados, com a iluminação, as bolhas de sabão que caiam como chuva refletindo cores diversas à medida que as luzes incidiam sobre elas. A orquestra iniciou “SWEPT AWAY – Yanni” e nos telões, eram mostradas situações que a união dos povos poderia tornar-se realidade. Pessoas se abraçando, flores desabrochando, crianças caminhando de mãos dadas com idosos, no final apenas o Sol se pondo no horizonte. Ao olhar de relance para o telão, Jorge viu que ele também precisava seguir as palavras que Oscar tinha dito. Oscar apresentou os componentes da banda e o nome do maestro que regia a orquestra. O final da apresentação estava próximo, uma canção do grupo “Scorpions – LIFE IS TOO
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    L.P.OWEN 244 SHORT” fez osouvintes se empolgarem. O arranjo feito pelo maestro da orquestra incluiu as vozes de todo o coral. Enquanto cantavam, nos telões eram mostradas cenas gravadas durante os vários ensaios feitos pelos rapazes. Como sempre, na maior parte do clipe, estavam dando risada das palhaçadas de Oscar. Os aplausos, os assovios, os gritos eram ouvidos a uma distância razoável fora do ginásio. A impressão que causava aquele tumulto era de um terremoto. Os integrantes da banda se reuniram na parte da frente do palco e agradeceram. Todos estavam emocionados pela receptividade e pelo carinho recebidos. Permanecendo de pé, aplaudiram durante alguns minutos. Oscar foi até um dos microfones visivelmente emocionado e agradeceu. - Só temos uma forma de retribuir todo esse carinho! O grupo entendeu a mensagem e cada um ocupou o seu lugar. - Em homenagem a todas as mulheres, porque sem elas, não seríamos nada. Em especial, para as que não estão presentes. A música escolhida por Oscar foi “BOHEMIAN RHAPSODY – Queen”. Na platéia, Vera e Emile, muito emocionadas, não paravam de gritar, chorar, aplaudir. - Vocês estão bem? – Perguntou Ivo. - Sim. Gostaria de agradecer ao senhor por ter dado esse presente para os rapazes. Falo em
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 245 nome de meu filho e tenho certeza que o sentimento de gratidão é de todos. – Disse Vera. - Na verdade devo mais a eles do que eles a mim. – Comentou Ivo. – Se não fosse por Emile levar-me para vê-los no asilo estaria deitado na minha cama sem vontade de viver. Ao lado, apreensivo e visivelmente emocionado, aguardando o momento mais importante de sua vida, que até então foi cheia de remorsos e tristezas, José Lira segurava nas mãos suadas um microfone sem fio que lhe fora entregue por Emile. - Esta canção que vamos apresentar agora é um pedido de uma pessoa muito especial chamada Emile. – Disse Oscar enquanto o pessoal se preparava para acompanhá-lo. Um canhão iluminou Emile que não teve escolha a não ser levantar-se para receber os aplausos do público. Oscar iniciou a música “PAI – Fábio Júnior” e em determinado momento José Lira levantou-se e começou a subir a escada de acesso ao palco. À medida que se aproximava, Oscar tinha a nítida impressão de conhecer aquela figura, pensava estar olhando para o espelho, a única diferença, não usava muletas e estava um pouco mais velho. Ao se dar conta sobre o que estava ocorrendo, não conseguiu mais cantar, sua voz não mais saia. Os outros percebendo que Oscar estava muito emocionado continuaram tocando e
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    L.P.OWEN 246 cantando. José Lira caminhandoem direção a Oscar abraçou-o enquanto beijava-o e pedia perdão. O público percebeu que estava ocorrendo algo inesperado e aplaudiu. - Filho! – Disse José Lira no microfone. – Depois de saber da sua existência, não parei mais de pensar em você. Sonhei várias vezes com esse momento, com o nosso encontro e descobri o quanto você é importante para mim. Será que podemos cantar juntos? - Se eu conseguir tirar esse gato da garganta poderemos tentar. – Disse sorrindo enquanto enxugava as lágrimas. Abraçados, cantaram desde o início e quando um começava a engasgar o outro socorria. Depois de muitas palmas, assovios e gritos Ruan fez a marcação para a última música “I DON’T WANNNA GO ON WITH YOU LIKE THAT – Elton John” a plateia levantou-se acompanhando o ritmo da melodia com palmas. O pedido de bis, no início timidamente, cresceu em volume obrigando-os a mais uma canção. A escolhida foi “HOLIDAY – Scorpions” que Oscar cantou feliz por estar ao lado do pai. Ao final agradeceram e a cortina foi fechada. Nos bastidores da mesma forma como fizeram antes da apresentação, reuniram-se novamente todos os participantes para agradecerem a Deus o sucesso. Oscar e José Lira tinham muitas coisas para conversarem, muitos pontos para acertarem. Durante a conversa Oscar descobriu como
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 247 Emile e Vera haviam encontrado seu pai. Descobriu que através de sua certidão de nascimento conseguiram um nome. A partir daí procuraram nos catálogos telefônicos, nas concessionárias de energia até que, por pura sorte, após três meses, obtiveram sua localização no interior de Minas Gerais. Ainda um pouco tímido Oscar iniciou a conversa mais importante de sua vida. - Por que nunca me procurou? - Quando conheci tua mãe éramos apenas dois jovens, para dizer a verdade, apenas tive um relacionamento muito breve com ela e quando mudei de cidade não sabia que estava grávida. Por isso nunca te procurei. Minha mãe havia falecido e meu pai resolveu mudar de cidade. – Continuou. - Amava sua mãe e por isso nunca me casei. Só fiquei sabendo que você existia através da dona Emile que apareceu na minha cidade e me contou a história toda. - Se não sabia como me registrou como seu filho? - Não registrei, mas se soubesse da sua existência, teria registrado com prazer. - Por isso que minha mãe nunca falou mal de você para mim. - Sua mãe era uma grande mulher, se não fosse tão jovem ao invés de partir ficaria com ela e caso soubesse da sua concepção teria casado com ela, porque foi o meu grande e único amor. Durante o restante da noite tiveram condição
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    L.P.OWEN 248 de esclarecer todasas dúvidas que existia. Haviam preparado uma pequena recepção para os participantes e convidados que durou tempo suficiente para chegarem em casa ao raiar do dia.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 249 Capítulo setenta e cinco MAU PRESSENTIMENTO Dias após da apresentação, William estava pensando no Natal que seria comemorado nos próximos dias e uma ponta de melancolia invadiu seu coração. Estava triste por não ter encontrado seus familiares apesar de todas as tentativas. Pensou, que em breve completariam um ano de amizade do grupo e quantas coisas aconteceram nesse pequeno espaço de tempo. Apalpou o envelope que o acompanhava há algum tempo e que de agora em diante não teria mais serventia. Sem que os outros soubessem, resolveu sair e caminhar para espairecer um pouco. Estava disposto a colocar um ponto final em tudo, deixaria que o destino tomasse seu curso. Oscar foi o primeiro a notar a falta de William. Procurou por todos os lugares, inclusive na garagem, mas não o encontrou. Resolveu informar sobre a ausência aos outros companheiros. - Não encontrei William em lugar algum da casa. Deve ter saído muito cedo. - E onde acha que ele pode ter ido? – Perguntou Jorge. - Fazer compras? – Respondeu Kasuo com uma pergunta. - Não foi fazer compras. Hoje faz um ano que nos conhecemos. – Disse Oscar. - Então precisamos comemorar! – Exclamou
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    L.P.OWEN 250 Kasuo sem saberdo motivo da preocupação dos outros dois. - Acho que precisamos ir até lá novamente. – Comentou Oscar. – Como vamos atrás dele se ninguém sabe dirigir precisamos de um táxi. Saíram e no caminho colocaram Kasuo e Helena a par do que tinha acontecido com eles. Na rua onde o edifício situava-se não era permitido a entrada de automóveis, por isso, teriam que caminhar por uns quinhentos metros. A quantidade de pessoas por metro quadrado era muito elevada, dificultando a locomoção de qualquer indivíduo, mais ainda, daqueles com necessidades especiais. - Quando for prefeito desta cidade colocarei faixas exclusivas de trânsito para os portadores de necessidades especiais. – Oscar disse em voz alta. Quando conseguiram chegar na portaria do edifício, como sempre, todos acompanharam com olhares e expressões diversas, a comitiva que entrou no saguão. Aproximando-se de um segurança, Oscar pediu ajuda para conseguirem alcançar o terraço na cobertura. - Por que querem ir ao terraço? - Como o senhor pode ver não há aqui ninguém que consiga levar meu amigo com a cadeira e eu gostaria de mostrar-lhe a vista que se pode ter da cidade. – Respondeu ao segurança. - Infelizmente não posso sair daqui agora, mas acho que o rapaz da limpeza poderá ajudar-te.
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 251 Ao encontrar com o rapaz incumbido de levá- los, Oscar não pôde deixar de fazer seu comentário. - Acredito que além de você, Jorge, ele poderá levar todos nós no colo. Ele parece um guarda-roupa. Tem certeza de que ele não é segurança? Todos riram inclusive o rapaz.
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    L.P.OWEN 252 Capítulo setenta eseis O FIM? Ao descer do elevador, vários pensamentos e lembranças passaram por sua mente e ao abrir a porta corta-fogo que dava acesso ao terraço, não teve como não se surpreender. Foi recebido com uma calorosa patada no peito e uma tremenda lambida no rosto. - Romeu? O que vocês estão fazendo aqui? - Viemos a sua procura. – Informou Jorge. - Por que? - Para comemorarmos juntos. – Respondeu o outro. - E você por que veio aqui? - Não pensei em vir, apenas vim. – Disse William. – Estava querendo desfazer-me de algo e achei que aqui seria um ótimo lugar. - Será que podemos saber do que se trata? – Oscar perguntou desconfiado, pois temia que o amigo, mesmo apesar dos acontecimentos estaria infeliz. Sem muito rodeio William contou. - Há pouco mais de um ano fiz um seguro e coloquei minha esposa e meus filhos como beneficiários, caso acontecesse algo comigo eles estariam amparados. Enviei a apólice via correio para o endereço que possuía na época. Minha sorte foi ter enviado em carta registrada, como não localizaram o destinatário, ela retornou para mim e desde então venho procurando por eles, mas não os encontrei. - O que pretende fazer agora? – Quis saber Kasuo. - Vim aqui apenas me desfazer desta carta no
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 253 local onde tudo começou. - Falou enquanto rasgava o envelope e tudo o que estava dentro. Deu um beijo nos papéis picados e jogou para o alto, o vento se incumbiu de espalhá-los, caindo sobre as pessoas que passavam pela calçada do edifício. Mal conseguiu se desfazer da correspondência todos cercaram-no e o abraçaram cantando Parabéns a Você. Oscar, como sempre, não deixou passar em branco. - Que tal brindarmos com um champanhe? - Só falta o champanhe. – Responderam. Fazendo um pouco de charme ao retirar uma garrafa da mochila que carregava. - Já não falta mais. – Sorriu. - Mas ela está quente. – Reclamaram todos. - Me desculpem, mas eu não sou perfeito! O grupo ficou rindo enquanto tomavam a bebida quente. Após alguns momentos de recordações resolveram partir. - Bem senhores aqui nossos caminhos tomam direções diferentes. – Disse William ao chegarem na rua. Aproximando-se de Kasuo, abraçou-o com carinho. - Quero agradecer por tudo que fez por mim, jamais te esquecerei e quero que saiba que sinto muito orgulho de ser teu amigo. Virando deu um beijo na testa de Helena, inclinou-se e fez o mesmo com Jorge. - Te cuida. Quero ser convidado para o casamento.
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    L.P.OWEN 254 - Para ondepensa que vai? – Perguntou Oscar sem perceber o que estava ocorrendo. - Preciso ir atrás do meu destino, saber dos meus, daqueles que um dia abandonei. Sinto que minha história não teria um final sem procurá-los. Sinto-me agora um vencedor, de alguma forma, vocês conseguiram mostrar que ainda sou capaz. Eu preciso mostrar esse novo homem para minha esposa e meus filhos. - E a banda como fará sem o nosso violinista? – Disse tentando não chorar. - Você poderá substituir-me perfeitamente Oscar, afinal você é um excelente músico. - Você sabe que não é disso que falo. - Também sentirei saudades, mas preciso resolver esse assunto que me coroe a cada dia. - O que vai fazer enquanto não os encontra? - Descobrirei talentos. – Brincou. – Não descobri vocês? William aproximou-se de Oscar e ao abraçá- lo não conseguiu segurar a emoção e chorou copiosamente, tinha-o como um filho. Nesse abraço cada um demonstrou o amor, a admiração e a amizade que os unia. Quase sem conseguir falar Oscar esforçou-se para dizer o quanto amava o amigo. - Não sei por que amamos, por que temos sentimentos. Será que precisamos sempre sofrer por alguém que parte, por algo que perdemos? Entre um soluço e outro enquanto enxugava as lágrimas que caiam, continuou. - Por que sempre procuramos conquistar a nossa meta, nosso objetivo, se eles são o final
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    PORQUE AS BORBOLETASVOAM 255 de algo que tanto desejávamos. O alpinista não vê a hora de chegar no topo da montanha e quando conquista o que acontece? Queremos conquistar o mundo, mas nos esquecemos de pensar no que fazer depois da conquista. O problema não é conseguir, mas o que fazer depois. - A vida é feita de idas e vindas, chegadas e partidas, ganhos e perdas de sim e não. – William tentou consolá-lo. - Muitas vezes, sequer temos tempo de entender o que está acontecendo e de uma hora para outra tudo se modifica drasticamente. O que era felicidade transforma-se em tristeza e vice-versa. - Não quero que pense que o final seja algo ruim. Pense no final, como um novo começo. Como o final do dia ensolarado, no começo de uma noite estrelada e o contrário também é verdadeiro. – Disse William antes de seguir seu caminho. A certa distância ouviu. - Então esses dias ensolarados que passamos juntos vão transformar-se numa linda noite de luar. Sem olhar para traz e demonstrar sua tristeza partiu enquanto o Sol se punha no horizonte.
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    L.P.OWEN 256 EM ALGUM MOMENTODE NOSSAS VIDAS, TEMOS QUE NOS TRANSFORMAR. ENTÃO, DESEJO-LHE, QUE DE LAGARTA VOCÊ SE TRANSFORME EM UMA LINDA BORBOLETA”.