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Wendi Moomem
Título original: Call me Ridván
2000
Todos os direitos reservados:

Editora Bahá´í do Brasil
C.P. 198
13800-970 - Mogi Mirim - SP
www.bahai.org.br/editora

ISBN: 85-320-0051-7

1ª. EDIÇÃO: 2001
Tradução: Celestino A. Gonçalves Filho e
Christina Reynolds Gonçalves
Capa: Gustavo Pallone de Figueiredo
Impressão: R. Vieira Gráfica e Editora Ltda
Campinas
Para Sahdrat e Carmel
or que será que eles tiveram que me
dar este nome horrível”, pensou
Ridván Silva pela décima vez
naquele dia. Ele estava a caminho de casa e teria
que passar por um grupo de meninos que estavam
na série seguinte. À medida que se aproximava,
um menino chamado Eduardo, que morava na sua
rua, gritou: “Oi, Divã!”
Os outros o acompanhavam no cântico:
“Ridván, Divã, Ridván, Divã!” Ridván ficou
vermelho de vergonha, o que só serviu para os
meninos gozarem mais ainda dele. Isto vinha
acontecendo desde que perceberam ter dificuldades
em pronunciar o nome dele do jeito que ele mesmo
dizia: “Rez – van”. Ele os olhou com raiva e
caminhou um pouco mais rapidamente até
ultrapassá-los. Mas ao se aproximar de casa, ele
começou a andar cada vez mais devagar, chutando
a calçada com a ponta do tênis enquanto pensava.
Ridván e sua família tinham se mudado para
Rouxinol há apenas dois meses e ele e seu irmão
mais velho tiveram que ser transferidos para outra
escola bem no meio do segundo semestre. Isto já
era problema suficiente, Ridván pensava, mas com
este nome, puxa!
Rouxinol era uma cidade a uns 60 km de
Colibri, onde Ridván e sua família sempre tinham
morado. Não era um lugar muito agradável – nem
sequer cinema tinha. “Pensando bem, mais parece
uma aldeia do que uma cidade de verdade”,
resmungou Ridván. Sua família tinha se mudado
para lá porque era uma “meta”, seja lá o que fosse
!
isto, e por nenhum outro motivo que Ridván
pudesse perceber. Haviam alugado uma casa menor
que a antiga e agora Ridván tinha que repartir um
quarto com seu irmão, o que decididamente não
melhorou coisa alguma. E seu pai continuava no
mesmo emprego, tendo que sair cedinho para pegar
o ônibus que ia até Colibri e chegar mais tarde em
casa do que o costume. E todos os amigos de
Ridván ainda moravam em Colibri. E – puxa –
tantas outras coisa! A mudança não tinha trazido
nenhuma vantagem que Ridván pudesse ver, e ao
chegar em casa ele pensava: “Porque será, afinal
de contas, nos mudamos?
“Oi!”, disse a mãe, que estava dobrando roupa
na cozinha. Ela era uma senhora miúda, de cabelos
escuros, cujo rosto sorridente não conseguia
esconder por completo o cansaço. “Foi um
dia agradável?”
“Oi”, disse Ridván, meio desenxabido. “Tudo
bem”. E ele subiu para o seu quarto. Por sorte, seu
irmão ainda não tinha chegado; portanto, Ridván
tirou o uniforme e os sapatos e se deitou na cama.
Olhando as rachaduras do teto, ele começou a
pensar.
idván tinha 9 anos de idade. Seu irmão,
Pedro, tinha 11. Ridván pensava que isto era muito
injusto, já que aqueles dois anos de diferença
significavam que Pedro tinha recebido um nome
decente, enquanto ele, Ridván, recebera este nome
horrível. Pois foi no intervalo entre os nascimentos
!
dos dois meninos que seus pais tinham se tornado
bahá‘ís. “Eles se empolgaram”, ele pensou – e
mesmo que não fosse necessário, eles quiseram dar
ao seu bebê recém-nascido um nome bahá’í. “É
claro!” – pensou Ridván, aborrecido. Deram-lhe o
nome do Dia Sagrado, por ter nascido perto
do Ridván.
Não era tão ruim no começo. Naturalmente,
quando ele era bebê nem tinha percebido. E à
medida que crescia havia outras crianças com
nomes estranhos. Colibri era uma cidade grande
com gente de todas as partes do mundo. Sempre
havia algumas crianças com nomes como Alí ou
Mamadou; portanto, Ridván nem aparecia muito.
E em Colibri havia uma porção de bahá’ís,
especialmente depois que três famílias iranianas
se mudaram para lá. Todos achavam que o nome
de Ridván era maravilhoso. É claro que no começo
algumas de suas professoras tiveram dificuldades
em pronunciar seu nome, mas estavam tão
acostumadas com nomes que não eram brasileiros
que aprenderam rapidamente. De fato, Ridván não
tinha se incomodado quase nada com o nome, até
se mudarem para Rouxinol.
o ano passado, quando ele tinha 8 anos de
idade, Ridván começou a prestar atenção nas Festas
de Dezenove Dias, em vez de ficar pensando
quando é que iam parar de tanto falar e começar a
comer. Ele sempre ouvia alguma coisa sobre “o
plano”, mas ele não entendia muito bem o que
significava, exceto que tinha algo a ver com
!
“metas”. Seus pais pareciam falar disto o tempo
todo – o que podiam fazer para ajudar e assim por
diante. Foi mais ou menos nesta época que
começaram a falar em “sair como pioneiros”. Bem,
Ridván sabia o que era um pioneiro porque, durante
as férias, uma menina mais ou menos da sua idade
tinha vindo para Colibri fazer uma visita de duas
semanas. Ela disse que era pioneira. Sua família
havia sido pioneira na África desde que ela era bebê
e ela amava aquele continente. Giovana contou a
Ridván sobre as viagens de ensino por estradas
esburacadas, andando de jipe, para visitar os
bahá’ís em aldeias de cabanas de barro.
idván achou que ser pioneiro deveria ser
emocionante; portanto, quando seus pais
começaram a falar em pioneirismo, ficava
esperando ansiosamente o dia de partir. E então
ele começou a entender devagarinho o que a
Giovana queria dizer com pioneirismo e o que seus
pais queriam dizer eram duas coisas bem
diferentes. Seus pais não estavam falando em jipes
e cabanas de barro e coisas assim – estavam
discutindo quanto tempo levaria para o pai de
Ridván ir e voltar de trabalho e sobre mudanças
de escolas e se deveriam alugar ou comprar uma
casa. E assim, logo antes dele fazer nove anos,
“saíram como pioneiros” – para Rouxinol e não
África, coisa alguma! Pedro dizia que sabia o
tempo todo, mas Ridván estava terrivelmente
desapontado. Aparentemente, este tipo de
pioneirismo tinha algo a ver com o “plano” de que
!
ele tanto ouvira falar – não havia bahá’ís em
Rouxinol, portanto era uma “meta”. Quando sua
família saiu como pioneira para Rouxinol, isto
ajudava a cumprir o plano. Isto parecia deixar os
pais de Ridván muito felizes, mas Ridván achava
que era um substituto muito mixuruca para estradas
de terra e aldeias africanas.
“De fato” – pensava Ridván – “é muito pior
que isto”. Em Rouxinol nem sequer há outros
bahá’ís com crianças que poderiam compreender
seus sentimentos sobre o nome. Esta cidade parecia
feita de pessoas que sempre viveram aqui – não
havia nenhum Alí na escola! Nem mesmo as
professoras aqui conseguiam se lembrar da
pronúncia certa do seu nome. A Srta. Clara ainda
o chamava de Rid – van e o Sr. Paulo, o inspetor,
não se aproximava de novas pessoas – e olha que
chegavam quase todo dia, assim sendo ele quase
não conhecia ninguém em Rouxinol. A única coisa
boa parecia ser que esta escola pelo menos o
permitiria faltar nos Dias Sagrados Bahá’ís, coisa
que a escola antiga não aprovava. De fato, um dia
sagrado estava se aproximando, portanto, isto seria
ótimo. O problema é que já que não havia outros
bahá’ís por perto, não haveria festa como no ano
passado, quando todos trouxeram seus amigos e
comeram à vontade. Mesmo assim, era um dia
sem escola.
nquanto ele estava deitado na cama pensando
em tudo isto, ele ouviu seu irmão bater a porta da
frente e subir a escada. Ridván deu um pulo,
!
fingindo ler quando Pedro abriu a porta.
“Oi! Por que você não tirou o uniforme ainda?”,
Pedro indagou ao jogar sua pasta sobre a cama.
“Eu tinha que ler um pouco”, replicou Ridván,
guardando o livro e se dirigindo sem pressa ao
guarda-roupa.
“Pois apresse-se! Estão formando os times de
vôlei no ginásio de esportes hoje e queremos
chegar cedo”, disse Pedro. Ele arrancou o uniforme
e agarrou a roupa de vôlei.
Ridván começou a trocar de roupa, mas ainda
estava sentido com as gozações anteriores. “Acho
que não vou hoje”, ele disse.
“Ah, vamos!” disse o irmão. “Se você não for
hoje, não será escalado para nenhum time e não
vai ter nada para fazer nas férias.”
“Não, acho que não”, disse Ridván.
“Ouça aqui, vou me atrasar. Vamos de uma vez,
faça o favor!”, disse Pedro, tentando vestir a
camisa e amarrar o tênis na mesma hora.
“Não, vá você. Nem gosto tanto assim de
vôlei mesmo.”
Pedro olhou para Ridván sem acreditar, mas
apenas resmungou ao sair do quarto. Ridván ouviu
o “tchau” que ele gritou para a mãe. Ele terminou
de se trocar e deitou de novo na cama.
Na verdade, Ridván adorava vôlei. “Por que não
fui?” Por um lado, provavelmente haveria muitos
meninos mais velhos lá – os amigos de Pedro – ele
tinha feito tantas amizades – e talvez seriam muito
melhores jogadores do que ele. E era boa
caminhada até o ginásio de desportos – ele não
!
tinha certeza que queria andar tudo isto todos os
dias. Mas ele sabia que estas não eram as razões
verdadeiras. Ele não agüentaria mais gozação.
Ridván ficou deitado algum tempo, pensando
nos seus problemas e como tudo era tão injusto. E
então ele ouviu uma batida suave na porta. Ele se
sentou rapidamente e agarrou um livro escolar,
dizendo desanimadamente: “Entra!”
A mãe abriu a porta e ficou parada ali. Ela fez
cara feia para Ridván, dizendo: “Pensei que vocês
iam jogar vôlei hoje.”
“Resolvi não ir” – Ridván resmungou.
“Pedro foi”, a Sra. Silva comentou, embora isto
não fosse necessário.
“Sei” – disse Ridván – “alguns dos seus amigos
estarão lá.”
“Você podia ir assim mesmo”, insistiu a mãe.
“Poderia conhecer outros garotos.” E aí parou e
disse usando uma voz bondosa: “É difícil quando
a gente se muda para uma cidade diferente.”
Ridván olhou para sua mãe. “Ela acha que
entende” – ele pensou – “acha que eu só preciso
de mais amizades. Mas está errada – ela não
compreende nada”. Em voz alta ele disse, meio
grosseiramente: “Já tenho amigos de sobra!”
Sua mãe olhou para ele em desespero e disse:
“Você poderia tentar um pouco mais ser alegre,
Ridván. Afinal de contas, nos mudamos para
Rouxinol para ensinar as pessoas sobre a Fé Bahá’í.
Não vão ter uma impressão muito boa sobre ela se
você anda por aí com esta cara o tempo todo.”
Ridván ficou pensando por que será que toda
!
vez que alguém na família se aborrecia ou ficava
bravo ou ficava só um pouquinho triste, sua mãe
começava a apoquentar sobre ensinar a Fé Bahá’í.
Ele não conseguia enxergar qualquer relação entre
as duas coisas. No entanto, ela tinha razão: ele
realmente estava infeliz desde que deixaram
Colibri. Ele teria que pelo menos parecer mais
alegre, senão ela o perturbaria o tempo todo sobre
isto. Mas ele ainda se sentia infeliz e agora estava
chateado com a mãe também, portanto disse: “Está
bem, está bem! Vou tentar ser um pouco mais
alegre.” E deu um sorriso ridículo.
“Você, hein!”, disse a mãe, com voz cansada.
Ela se virou e saiu do quarto.
os dias seguintes, Ridván não se sentiu nada
melhor, mas tentava não dar muita demonstração
disto em casa. Relutantemente, acompanhou Pedro
ao ginásio de desportos um dia e descobriu que
nenhum dos meninos que gozavam dele tinha se
inscrito, a maioria estava no futebol. Resolveu
continuar indo. De fato, enquanto estava jogando
vôlei, ele realmente se sentia melhor, mas não por
muito tempo. Logo que ele saía para a escola de
manhã era obrigado a se lembrar de suas
dificuldades. Eduardo sempre estava lá, esperando
para gritar, “Olá, Divã!”, à medida que ele passava.
Ridván gostaria de poder ir à escola com Pedro,
mas ele ajudava a mãe a entregar os salgadinhos
que ela fazia para vender e ia direto à escola, de
bicicleta, em cima da hora.

!
O fim-de-semana era melhor porque ele não
tinha que ver o pessoal da escola. Também porque
seu pai estava em casa e, independentemente do
resto, a atenção da mãe se voltava para o marido e
não mais para Ridván. Domingo ficava um pouco
vazio – era o dia em que sempre iam às “aulas
bahá’í” quando viviam em Colibri, mas o Sr. Silva
disse que agora era longe demais para só uma hora
de aula, pois ele já viajava cinco dias por semana
e chega! No começo, este dia livre tinha sido ótimo,
mas agora o dia não parecia ter mais fim. Ridván
até se admirou ao sentir falta das aulas bahá’ís,
pois ele não gostava muito dela e era obrigado a
participar todo fim-de-semana.
uando a aula começou de novo na segundafeira, havia uma menina nova na sala. Srta. Clara
a apresentou como Alessandra. Quando esta sorriu
para a turma e disse “Oi!”, ficou óbvio que ela era
nordestina. Seu sotaque era diferente e ela até
pronunciava o próprio nome de maneira diferente:
com “ss” e não “x”; ela corrigiu, rindo, enquanto
as outras crianças a cercavam na hora do recreio
para perguntar tudo sobre as praias e os costumes
diferentes. Mas ninguém conseguia se lembrar da
pronúncia certa e todos continuavam a chamá-la
de Alessandra com “x” mesmo.
Ridván gostou de Alessandra. Ela tinha um
rosto agradável e ria enquanto falava. Parecia
sempre ter algo interessante para dizer ou alguma
idéia nova. E ela também era nova, como ele.

!
a quarta-feira, Ridván e Pedro levaram
bilhetes para a escola explicando que faltariam no
dia seguinte por causa do Dia Sagrado. A Srta.
Clara sorriu quando leu o bilhete e pediu a Ridván
que quando voltasse à aula na sexta-feira, contasse
à turma sobre o que era o Dia Sagrado. Isto
preocupou Ridván um pouco, porque ele não tinha
contado para ninguém que ele era bahá’í. Além
disto, ele sabia que quinta-feira era a Declaração
do
Báb
e
praticamente
nada
mais
além disto.
aquela noite, Pedro e ele puderam ficar
acordados até bem mais tarde. Ridván achou que
isto era porque não teriam aula no dia seguinte,
mas Pedro o lembrou que o dia bahá’í começa ao
pôr-do-sol e portanto a comemoração seria
naquela noite.
Depois do jantar, Ridván e Pedro fizeram a
lição enquanto esperavam o início da
comemoração. Em Colibri, a maioria das reuniões
bahá’í começava às 19:00h, mas já eram 19:30h
quando terminaram a lição e o Sr. e a Sra. Silva
a i n d a e s t a v a m s e n t a d o s à m e s a d o j a n t a r,
conversando e tomando café.
“Não
vamos
começar
logo?”,
perguntou Ridván.
“Já são sete e meia”, acrescentou Pedro.
“Pois é” – respondeu o Sr. Silva – “mas vocês
não se lembram que o Báb se declarou mais ou
menos duas horas após o pôr-do-sol? É nesta hora
que os bahá’ís festejam. Isto será aproximadamente
!"
oito e meia da noite.”
“Convidamos alguns dos vizinhos para
participar” – disse a Sra. Silva – “e deverão chegar
lá pelas oito. Vocês dois gostariam de arrumar as
xícaras para podermos tomar chá e biscoitos
depois? Vamos lá para a sala enquanto vocês
arrumam tudo.”
Os meninos resmungaram, mas a Sra. Silva
ergueu as sobrancelhas em sinal de aviso, portanto,
tiraram as xícaras usadas da mesa e pegaram as
limpas. Quando terminaram, o pai perguntou:
“Vocês gostariam de escolher uma oração para ler
hoje à noite ou preferem dizer uma daquelas que
já sabem?”
Pedro resolveu dizer uma que tinha decorado,
mas Ridván não tinha certeza de que seria capaz
de dizer uma oração inteira, sem errar. Faziam mais
de dois meses desde que havia freqüentado a última
aula bahá’í, onde tinha que recitar e decorar
orações toda semana, e ele estava meio fora
de forma.
Ridván subiu para o quarto e abriu o livro de
orações, procurando pela qual queria dizer. Durante
meia hora, ele se sentou em silêncio na beirada da
cama, lendo várias orações, à procura de uma que
fosse apropriada. Na verdade, ele não tinha olhado
muitas vezes o livro de orações desde que
chegaram em Rouxinol e realmente tinha se
esquecido de quantas orações diferentes havia. De
repente, encontrou a oração perfeita. Parecia
exprimir exatamente os seus sentimentos – solidão.
Ele a leu várias vezes para ter certeza que poderia
!!
pronunciar todas as palavras – afinal não queria se
atrapalhar na frente dos vizinhos!
Ainda havia bastante tempo antes de começar
a reunião e os pensamentos de Ridván se voltaram
novamente ao seu problema. Ele se deitou na cama.
Se ele conseguisse “bolar” um jeito de se livrar do
problema... Talvez pudesse voltar para Colibri
todos os dias com o pai, para a escola antiga, ou
talvez desistir da escola por completo... Ele não
teria que ir à escola se fosse para a África com
aquela menina... como era mesmo o nome dela?
Alexandra? Não, Giovana... Alessandra! Talvez ela
p u d e s s e a j u d a r. . . a m e n i n a n o v a , s e m p r e
sorridente... “ss” e não “x”...
idván, acorde! Todos já chegaram.” Era
Pedro, sacudindo-o. Ele havia adormecido.
“Que horas são?”, bocejou Ridván. Ele se
espreguiçou sobre a cama, pensou em ficar ali
mesmo e depois, mudando de idéia, levantou-se.
“Quase oito e meia; anda! Estamos esperando
por você.”
Pedro saiu enquanto Ridván arrumava a roupa.
Ele estava no alto da escada quando se lembrou do
livro de orações. Teve que voltar para pegá-lo. Ele
procurou por toda a cama que já estava
desarrumada e finalmente o achou enfiado entre o
colchão e a cabeceira. Umas poucas pétalas secas,
frágeis, caíram – eram pétalas que seus pais
t r o u x e r a m d a Te r r a S a n t a q u a n d o f i z e r a m
peregrinação alguns anos antes. Ele se ajoelhou e
estava tentado alcançá-las debaixo da cama,
!"
quando ouviu a mãe chamar, “Ridván! Puxa vida,
anda logo! Estamos todos esperando. Venha já!”
“Tô indo”, ele respondeu. Uma das pétalas
estava rasgada e a outra ainda estava em baixo da
cama, mas não dava para gastar mais tempo nisto
agora. Depressa, ele limpou a poeira dos joelhos
das calças e correu escada abaixo.
Ao ouvir vozes na sala, de repente ele se sentiu
envergonhado. “Não posso dizer uma oração na
frente de estranhos”, pensou, hesitante ao lado da
porta. Ele estava quase voltando lá para cima
quando a porta se abriu e o pai o enxergou.
“Ah! Taí! Entre. Estamos começando.”
Ridván entrou relutantemente e deu uma olhada
na sala. Parecia lotada – havia umas dez ou doze
pessoas, o que o surpreendeu. Em Colibri, ele teria
esperado uma porção de gente, mas não aqui. Ele
se pegou em flagrante quase dizendo
“Alláh’u’Abhá!” e mudou depressa para “Boa
noite”. Lembrou-se de que estas pessoas não eram
bahá’ís e poderiam estranhar a saudação bahá’í’.
“Olá!”, disse uma voz inconfundível. “Eu não
sabia que esta era sua casa!”
Ridván focou pasmo!
ra Alessandra – a menina nova da escola.
Sua boca abria e fechava, mas ele tinha perdido a
voz, de tão grande que era a surpresa. Finalmente,
conseguiu dizer um “oi” meio rouco e Alessandra
soltou aquela risada gostosa dela. Todos os outros
riram também. O Sr. Silva pigarreou.
“Bem, já que ele chegou, podemos começar e
!"
depois continuaremos a conversar.”
Ridván encostou-se à cadeira, já entediado. Seu
pai era um homem simpático, não muito velho, mas
quando ele começava a falar em reuniões, não
parava mais.
O pai de Ridván estava apenas fazendo a
introdução. “Minha família e eu gostaríamos de dar
as boas vindas a todos vocês esta noite para a
comemoração da Declaração do Báb. Em 1844...”
O Sr. Silva falou sobre a noite em que o Báb
declarou Sua Missão a Mullá Husayn e explicou
quem eram os bahá’ís, mas Ridván mal o ouvia.
Ele estava quebrando a cabeça sobre porque
Alessandra tinha vindo. Será que ele era bahá’í?
Não, a mãe lhe teria contado se outros bahá’ís
tivessem se mudado para Rouxinol. Seria vizinha?
Talvez, mas não de muito perto, senão ele a teria
visto no caminho da escola. O quê, então?
Um cutucão de Pedro em suas costelas trouxe
sua atenção de volta ao que estava acontecendo. O
pai já estava quase acabando.
“E assim, podem ver porque esta noite é tão
importante para os bahá’ís.”
Será que ele tinha perdido tanto, ou será que o
pai tinha falado menos do que o costume. Ele
realmente precisava parar de tanto divagar e tentar
se concentrar.
“Agora teremos algumas orações e depois
haverá chá e algo mais para comer. Ridván, você
poderia começar, depois Pedro, João, Bárbara, daí
Francisco e terminamos com Carolina. Pode
começar, Ridván.”
!"
Ridván abriu o livro de orações e começou a
ler cuidadosamente: “Ó meu Senhor, meu BemAmado, meu Desejo! Sê um amigo para mim em
minha solidão, e acompanha-me no exílio...”
excelente, ele pensou. É bem assim que me sinto e
realmente quero que Deus me ajude... Oh! Não!
Ridván corou profundamente ao ler o final da
oração. “... Torna-me uma de Tuas servas que
atingiram a Tua aprovação. Em verdade, és o
Benévolo, o Generoso!” Ele deu uma pequena
tossida no final. Como é que ele não tinha visto
isto antes? Ele tinha lido várias vezes, lá no quarto.
Era uma oração para meninas! Ele sentia Pedro se
contorcendo em silêncio na cadeira ao lado,
tentando não rir em voz alta. Ele lançou uma olhada
na direção de Alessandra e dos outros na sala.
Todos estavam sentados com os olhos fechados –
ninguém parecia ter percebido, exceto Pedro.
Agora este estava começando a recitar sua oração.
“Ó meu Deus! Une os corações de Teus servos...”
urante o resto das orações, Ridván manteve
seus olhos bem fechados e concentrou-se no que
estavam lendo. Na verdade, ele os abriu por um
instante quando ouviu um sotaque nordestino lendo
“Ó Deus, refresca e alegra meu espírito...” e um
pensamento lhe passou pela cabeça: a mãe de
Alessandra... talvez sejam bahá’ís, sim...
Sua mãe iria ler a última oração, uma bem
comprida, e todos se levantaram. Pedro se mexia
um pouco, mas Ridván ficou bem quietinho,
realmente tentando ouvir as palavras. A oração
!"
falava dos problemas do Báb – muito mais do que
ele mesmo tinha, Ridván pensou.
Quando a oração terminou, o Sr. Silva disse:
“Se quiserem ir para a sala ao lado, vamos servir
chá e alguma coisinha para comer. Meninos,
querem ajudar a servir?” Todos entraram na sala
de jantar. Ridván começou a passar travessas de
salgadinhos, enquanto Pedro perguntava quem
queria chá e quem queria café. Depois que ele tinha
contado e se retirado para a cozinha, Alessandra
se aproximou de Ridván.
“Gosto da sua casa”, ela disse. “Faz tempo que
você mora aqui?”
“Não” – Ridván respondeu – “só alguns meses.
Morávamos em Colibri.”
“Ah, é?,” disse Alessandra. “Onde fica isso? É
longe daqui?”
“Mais ou menos”, respondeu Ridván. “Uma
hora.” Ele descansou a travessa na mesa e se serviu
de uns salgadinhos.
“Isto não é longe! ‘Longe’ é que nem China ou
a Austrália. O Nordeste realmente fica longe daqui:
É de lá que eu venho.” Alessandra riu novamente
enquanto falava e Ridván podia perceber que ela
estava brincando.
“Como você chegou aqui esta noite?”,
ele perguntou.
“Bom, primeiro entramos no carro e depois uma
esquina à esquerda e outra à direita... Não, na
verdade, você quer saber por que estou aqui,
não é?”
A Sra. Silva entrou naquele instante com o chá
!"
e Ridván tinha de segui-la com o açucareiro,
portanto, demorou um pouco até poder conversar
com Alessandra outra vez. Quando todos estavam
servidos, os dois voltaram para a sala e se sentaram,
cada um tentando equilibrar um pratinho de bolo e
uma xícara.
“Muito bem, o que é que você está fazendo
aqui? Quero dizer...” Ridván estava tropeçando nas
palavras. Ele não queria ofendê-la. “É só que
eu não esperava...”
Alessandra interrompeu “Pois nós conhecíamos
os bahá’ís em Maracatu. Já assisti uma porção de
reuniões lá. Acho que mamãe procurou por vocês
na lista telefônica e aqui estamos.”
“Ridván sabia que isto era impossível: não
estavam ainda na lista telefônica. Mas ele tinha de
perguntar: “Então vocês são bahá’ís também?”
Pela primeira vez, Alessandra pareceu se
atrapalhar um pouco. Ela corou ligeiramente e
disse, com alguma hesitação: “Bem, ah, não, não
exatamente... sabe...”
“Tudo bem”, Ridván interrompeu. “Eu só
queria saber, você compreende, não é? Já que vocês
participam de reuniões bahá’ís. Quero dizer, quase
ninguém participa exceto os próprios bahá’ís.”
“Não, não lá donde eu venho”, disse
Alessandra, recuperando a calma. “Muita gente
participa das reuniões bahá’ís lá. São divertidas,
geralmente”, ela acrescentou. Houve uma pausa e
então ela disse: “Não, não somos bahá’ís. Estamos
pesquisando.”
“O quê?” perguntou Ridván. Pois não entendia
!"
o que ela queria dizer.
“Você sabe – que nem pesquisa independente
da verdade.” Ele ainda parecia confuso. “Estamos
procurando – somos contatos.”
“Ah!”, disse Ridván. Então era isto. Tanto tinha
ouvido falar em contato e eis uma bem aqui na sua
frente. Mas esta menina parecia saber mais de sua
religião do ele mesmo. Pelo menos, ela usava todas
as palavras certas. “Bem, está gostando da escola?”
Ele achou melhor mudar o assunto. Não queria que
ela usasse mais palavras que ele não entendia –
pensaria que ele era bobo.
Antes que Alessandra pudesse responder, uma
senhora se aproximou dos dois. “Olá, sou a mãe
de Alessandra – Bárbara Moreti. Estou contente
por vocês já se conhecerem.”
“Estamos na mesma turma na escola, mamãe”,
Alessandra respondeu. “Já nos conhecíamos
antes.”
“Pois, vejam só”, disse a Sra. Moreti. “Nem
pensávamos encontrar bahá’í algum aqui e agora
vejo que minha filha está na mesma turma com um!
Não é maravilhoso?”
A Sra. Moreti não parecia se dirigir a ninguém
em particular, portanto, Ridván não respondeu. Ele
só pensou como o mundo era engraçado, pois sua
família também se mudara para Rouxinol bem na
época em que a família de Alessandra, e queriam
encontrar bahá’ís. E então pensou: “Talvez não seja
tão engraçado; talvez Deus queria que
estivéssemos aqui por este mesmo motivo; talvez
Ele tinha algum tipo de plano.” Plano. Será que é
!"
isto que os bahá’ís queriam dizer quando discutiam
o “plano”? Estar num certo lugar bem na hora que
alguém naquele lugar quer saber sobre a Fé? Ele
precisava se lembrar de perguntar à mãe sobre isto.
s pessoas estavam começando a se
despedir. Alessandra se levantou e estendeu a mão,
dizendo: “Tchau. Obrigado pela reunião bacana.
Te v e j o n a e s c o l a a m a n h ã . Q u e r o d i z e r,
sexta-feira.”
Apertaram as mãos, coisa que Ridván nunca
fazia com alguém de sua idade. “De certo fazem
as coisas de maneira diferente no Nordeste”, ele
pensou, enquanto se despedia, primeiro de
Alessandra e seus pais e depois dos outros
convidados. Ele entrou na sala de jantar para ajudar
a tirar as coisas do chá. Estava com muito sono –
devia ser mais de dez e meia da noite.
Neste momento, Pedro cochichou no seu
ouvido: “Que oração boba você escolheu! Não
tinha nada a ver com a Declaração do Báb – e, além
disto, você não é menina!”
“Pedro!” A voz do Sr. Silva estava áspera.
“Chega!”
“Não vamos estragar esta linda noite, querido”.
Então, a Sra. Silva disse ao filho: “A oração de
Ridván era muito bonita, e a sua também. Falaram
muito bem. Estou orgulhosa dos dois.”
“Mas não era a oração certa para dizer”,
protestava Pedro. “Ele não é menina.”
O Sr. Silva olhou bravo para Pedro, mas a Sra.
Silva disse com suavidade: “Estamos todos
!"
cansados agora. Por que não vamos dormir agora
e falamos disto pela manhã?”
Os olhos de Ridván ardiam de lágrimas. Tinha
até se esquecido do seu erro enquanto conversava
com a Alessandra. Agora teria de conversar sobre
isto amanhã e estragar o novo dia também. “Não”,
ele gritou, batendo o pé. “Se temos que falar sobre
o assunto, que seja agora.”
Seus pais o olharam espantados, entreolharamse e então olharam para Pedro com desaprovação.
“Muito bem” – suspirou a Sra. Silva – “devemos
acabar com o assunto mesmo.” Ela foi para a sala
e se sentou. Os outros a seguiram.
“Vejam bem” – disse o pai – “cada oração que
há no livro de orações é a palavra de Deus, não
importa quem você é. Pode dizer a oração
que quiser.”
Ridván sentiu-se um pouco aliviado com isto,
mas Pedro disse: “Tudo bem, mas vocês têm que
admitir que algumas orações são para certas horas
e algumas para outras ocasiões.” Ele fez sinal de
pouco caso para Ridván.
“Em primeiro lugar” – disse a Sra. Silva –
“embora algumas orações realmente pareçam
encaixar melhor em certas ocasiões do que em
outras, cada um precisa decidir por si qual a oração
que ele quer fazer. Afinal de contas, é ele que está
orando. Em segundo lugar” – ela começou a falar
com a voz mais séria – “ninguém deveria criticar
a escolha do outro ou fazer gracinhas no meio de
alguma oração; isto é ser mal-educado e cruel. Em
terceiro lugar, tenho certeza que Ridván tinha um
!"
bom motivo para escolher aquela oração.”
“E em quarto lugar” – bocejava o Sr. Silva –
“estou cansado e quero dormir.” Ele se levantou e
foi lá pra cima, dizendo “boa noite” à medida
que saía.
ais tarde naquela noite, Ridván se torcia
e se batia na cama. Dava pra ver que Pedro estava
dormindo, devido à respiração vagarosa e
compassada, mas, embora ele realmente estivesse
c a n s a d o , n ã o c o n s e g u i a r e l a x a r. V á r i o s
pensamentos cruzavam sua mente: a Declaração do
Báb há mais de um século; como era estanho que
Alessandra tivesse vindo a sua casa; como ele era
tolo de ter escolhido uma oração para uma menina;
a palestra que ele teria de dar na sexta-feira – algo
que ele tinha esquecido; algo sobre Alessandra que
era a resposta ao seu problema...
Finalmente, os pensamentos se embolaram e
ele adormeceu.
a manhã seguinte, a Sra. Silva deixou os
meninos dormirem um pouco mais que o normal.
Quando acordaram, Ridván percebeu que seu pai
também tinha faltado ao serviço porque era um Dia
sagrado. Antes do café, cada um fez
uma oração.
“Este é outro aspecto de nossas vidas que
mudou desde que nos mudamos para Rouxinol”,
Ridván pensou. Em Colibri, sempre faziam as
orações matinais em família, reunidos, quase todos
os dias. Atualmente, o Sr. Silva tinha de sair tão
!"
"

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!!
!"
cedo que havia mais tempo. Ridván sabia que os
pais esperavam que os meninos fizessem as orações
matinais sozinhos, mas ele geralmente ficava na
cama até muito tarde ou se esquecia por completo.
Então, de repente, ele se lembrava na escola, no
meio da manhã, e prometia a si mesmo que
levantaria mais cedo no dia seguinte – mas
sempre esquecia.
o café de manhã, a família discutia os
planos para o dia. A Sra. Silva já tinha arrumado a
comida para um piquenique; portanto, era só uma
questão de decidir para onde iriam. Pedro queria
ir ao shopping, em Colibri, mas o Sr. Silva achou
que deviam ir para um lugar onde tivesse natureza.
A Sra. Silva achava que um passeio no parque da
cidade seria ótimo, mas os meninos não queriam
porque não tinha graça. Ridván finalmente sugeriu
que andassem de barco numa represa, que haviam
visitado uma vez.
“Se o tempo esquentar, podemos nadar” – ele
disse a Pedro – “e sempre seria um passeio num
grande parque”, ele acrescentou, olhando para
a mãe.
Todos gostaram da idéia. Os meninos foram
buscar os calções de banho e agasalhos, e
começaram a subir a escada, quando o telefone
tocou. Era a Sra. Moreti, a mãe de Alessandra.
la agradeceu a Sra. Silva pela noite passada
e acrescentou que decidira não mandar a filha para
a escola naquele dia, em parte devido ao horário e
!"
em parte devido ao Dia Sagrado em si.
“Por algum motivo parecia errado” – ela
explicou à Sra. Silva no telefone – “mandar
Alessandra para a escola num Dia Sagrado. Sei que
não somos bahá’ís, mas, ora... não parecia certo.”
“Nós vamos fazer um passeio de barco e um
piquenique”, disse a mãe de Ridván. “Por que
vocês duas não vêm juntas? Há bastante espaço e
posso fazer mais alguns sanduíches.”
“Puxa, eu adoraria, mas infelizmente não
podemos. É que estamos esperando um telefonema
de meus parentes hoje. Mas agradeço o convite,
assim mesmo.”
“Então, porque não deixa a Alessandra vir? Nós
poderíamos apanhá-la e levá-la para casa depois”,
disse a Sra. Silva, interrogando seu marido com o
olhar. Ele fez que “sim” com a cabeça.
A mãe de Alessandra pensou um pouco e então
respondeu: “É claro, seria ótimo para ela – se vocês
têm certeza que não iria atrapalhá-los. Posso fazer
uns sanduíches para ela.”
“Não, não” – disse a Sra. Silva ao telefone –
“já fiz bastante. Ela vai precisar de um maiô e de
uma toalha. Podemos passar por aí daqui uns
20 minutos.”
As duas mulheres se despediram e a Sra. Silva
desligou o telefone.
Ridván ficou contente com as novidades, mas
Pedro não gostou muito. “Ia ser um dia de família”,
ele resmungou. Agora está tudo estragado –
e por uma menina!”
“Pedro” – disse o pai – “você anda reclamando
!"
muito ultimamente. Ontem à noite, agora,
novamente. Relaxe – divirta-se.”
“Além disto”, acrescentou a mãe, “Dias
Sagrados não são simplesmente feriados, você
sabe. Também são oportunidades para ensinar a Fé
aos outros – a Alessandra, por exemplo.”
“Lá vai ela outra vez”, pensou Ridván, juntando
o azedume de Pedro ao ensino. Mas ele estava
estranhando a reação de seu irmão e lhe ocorreu
que realmente seu irmão estava mesmo mais
irritadiço que o normal nestas últimas semanas.
Será que vir a Rouxinol também tinha apresentado
algum problema para Pedro? E de repente, Ridván
percebeu que pela primeira vez em muito tempo
ele estava se preocupando com alguém que não
fosse ele mesmo. Ele olhou para seu irmão com
uma nova compreensão – talvez tinham mais em
comum do que ele pensara.
dia esquentou mais do que o Sr. Silva tinha
esperado. Quando chegaram à represa estavam sós,
exceto o dono dos barcos de aluguel, e ele se
surpreendeu ao ver as crianças, já que era dia de
aula. A Sra. Silva explicou que era um Dia Sagrado
bahá’í e que os bahá’ís não trabalham nem vão à
escola em Dias Sagrados.
“Bahá’ís?” o homem refletiu. “Onde foi que
ouvi este nome antes?” Ele parou para pensar,
franzindo a testa. De repente, sua fisionomia se
iluminou. “É uma religião, não é? Vocês são de
Colibri? Lembro-me de ter ouvido algo assim lá.”
Ridván se surpreendeu. Ele não encontrara
!"
muitas pessoas que tinham ouvido falar da Fé
Bahá’í antes e, de repente, numa semana, ele
encontra a família Moreti e este homem.
O Sr. Silva explicou que a família havia se
mudado recentemente de Colibri para Rouxinol e
perguntou se o homem havia participado de alguma
reunião em Colibri.
“Não” – respondeu – “não tenho tempo para
este tipo de coisa. Nem sei mesmo se acredito
nestas coisas ou não. Deus e coisas assim...”
Ridván levou um choque. Ele sabia que muitas
pessoas não sabiam sobre Bahá’u’lláh e, portanto,
não eram bahá’ís; mas não acreditar em Deus! Sem
refletir, ele falou: “Mas todos acreditam em Deus!”
O homem sorriu e a Sra. Silva disse suavemente
ao filho: “Nem todos, querido.”
O Sr. Silva sorriu também e disse ao dono dos
barcos: “Acho melhor já lhe pagar pelo barco. E
como não há muita gente por aí, talvez o senhor
possa nos acompanhar para o almoço mais tarde e
poderemos conversar mais.”
O homem disse que teria de ver como as coisas
estariam mais tarde e o Sr. Silva o pagou.
odos colocaram coletes salva-vidas e
entraram no barco a remo. Alessandra deu um
pequeno tropeço quando entrou e o barco balançou
de leve, mas Ridván a agarrou pelo braço para não
cair. “Teremos que sentar bem quietinhos no
barco”, disse o pai dos meninos. “Não podem pular
ou se levantar de repente, senão o barco vira.”
Todos fizeram sinal que concordavam e, quando
!"
já estavam acomodados, o Sr. Silva pegou os remos
e, sem esforço maior, partiu remando.
emaram pela represa por algum tempo e
depois Pedro disse que gostaria de tentar remar. Ele
trocou de lugar com o pai cuidadosamente e segurou
os remos da mesma maneira. Embora estivessem
presos nas beiradas do barco, o remo escorregou em
direção à água e o cabo pulou da mão de Pedro de
repente. Enquanto ele tentava alcançá-la, deixou
escapar o outro, o qual o golpeou no estômago. O
Sr. Silva deu uma risadinha – Pedro não estava
realmente machucado, só assustado. Finalmente, ele
conseguiu segurar ambos os remos ao mesmo tempo.
Seu pai lhe mostrou como mergulhar os remos na
água enquanto empurrava os cabos para longe. Após
algumas tentativas, Pedro começou a remar
vagarosamente, embora de uma maneira não
muito suave.
“Não enxergo para onde estou indo!”, exclamou.
O Sr. Silva riu. “Sinto muito, mas isto faz parte
de remar.”
Pedro remou por mais uns minutos, com o pai
lhe dando orientação às vezes. Ridván e a mãe
conversavam com Alessandra. E então Pedro parou
de remar.
“Puxa! Cansei. Remar é serviço pesado – meus
braços estão doendo.”
“Querem que eu reme um pouco?” perguntou
a mãe.

!"
idván estivera sentado quietinho olhando o
irmão. Ele sabia que podia fazer melhor. Agora
esquecera de ficar parado. Pulou de repente,
bradando: “Não, deixem pra mim, deixem
pra mim!”
O barco balançou violentamente e Ridván
perdeu o equilíbrio. Na tentativa de evitar que o
irmão caísse, Pedro estendeu de repente os braços
e os remos foram puxados para trás, batendo-os na
boca do estômago. Pedro tentou afastá-los, mas não
conseguia e bateu outra vez, bem no peito. Todos
gritavam ordens para os outros. Ridván balançava
loucamente os braços, tentando o equilíbrio. A Sra.
Silva se inclinou para frente para tentar segurar
Ridván e enquanto fazia isto, o braço passou pelo
rosto, derrubando os óculos-de-sol na água.
As pernas de Ridván se dobraram debaixo dele
e ele sentou abruptamente no fundo do barco. Este
já balançou de maneira um pouco mais suave e
todos olharam para o lado. Lá estavam os óculosde-sol da Sra. Silva, afundando lentamente
na represa.
“Sra. Silva” – exclamou Alessandra –
“os óculos!”
“Foram-se”, disse melancolicamente a mãe
dos meninos.
“Você deveria ter tido mais cuidado”, gritou
Pedro com raiva. “Por que teve que pular
daquele jeito?”

!"
idván sentia-se miserável. Tudo o que fazia
estava errado.
“Sabe Pedro, você ficou tão engraçado,
tentando afastar aqueles remos.”
“Você também ficou um tanto engraçado” –
disse o Sr. Silva à esposa, em tom de brincadeira –
“quando se jogou pra frente daquele jeito. Não é
pra menos que perdeu os óculos!”
Então Alessandra descreveu Ridván, que ficou
engraçado, balançando os braços e pulando de um
pé para o outro. “Tem sorte de não ter caído
n’água”, ela disse.
Ridván ficou um pouco mais à vontade. Em
seguida, Pedro deu uma gargalhada e logo todos
estavam rindo.
Depois o Sr. Silva disse: “Daqui a pouco, vamos
sair d’água. Além disto, estou com fome. Vamos
ver se o barqueiro quer almoçar conosco.” E
trocando de lugar com Pedro novamente, ele pegou
os remos e remou em direção ao ancoradouro. O
barqueiro, no entanto, disse que agora estava muito
ocupado – havia chegado mais gente – portanto, o
Sr. Silva remou até o outro lado da represa, onde
havia um bosque. Pedro e Ridván amarraram o
barco a uma árvore e a Sra. Silva arrumou o lanche
que havia trazido.
epois do almoço, o Sr. Silva cochilou e a
Sra. Silva e Pedro foram passear no bosque. Ridván
e Alessandra permaneceram na margem da represa,
comendo o finzinho dos brigadeiros e tentando
fazer pedras pular pela superfície da água.
!"
“Fiquei muito contente que você me convidou
para vir junto hoje”, disse Alessandra.
“Pois é, você tem sorte que a sua mãe deixou
você faltar à aula, já que você não é bahá’í.” Ridván
jogou uma pedra n’água.
“Quase sou”, disse Alessandra, enquanto
procurava uma pedra achatada na areia. “Acredito
em Bahá’u’lláh e acho que isto é a parte mais
importante, não é?”
Ridván não sabia o que dizer. Nunca discutia
este tipo de coisas com os outros – pelo menos,
não com pessoas que não eram bahá’ís. Às vezes,
nas aulas bahá’ís, o professor pedia a cada um que
escrevesse os motivos pelos quais eram bahá’ís.
Quando ele era mais novo, Ridván não podia ver
outro motivo exceto o fato de seus pais serem
bahá’ís, portanto, é claro que ele também era. Á
medida que crescia, ele percebeu que não bastava
só seguir seus pais – ele tinha de saber e entender
por si mesmo. Ele sentia que agora ele sabia, sim,
sobre Bahá’u’lláh – porque Ele viera, toda história
e tudo aquilo – bem, sabia mais ou menos – mais
que qualquer outra criança de sua idade, pelo
menos! Mas acreditar em Bahá’u’lláh? Que
pergunta! Bahá’u’lláh viera e pronto. Uma vez que
você descobria sobre Ele, você se declarava,
assinava um cartão e pronto – você era um bahá’í.
Em voz alta, indagou: “O que você quer dizer
por acreditar em Bahá’u’lláh?” Ele jogou uma
pedra, que pulou duas vezes.
Alessandra pensou por um momento e então ela
também jogou uma pedra. Afundou.
!"
“Bem” – disse ela – “ minha família é católica,
de uma certa maneira. Não vamos à igreja nem
nada, mas acreditamos em Deus. Quando minha
mãe ouviu falar da Fé Bahá’í, resolveu descobrir
o que era.” Ela jogou outra pedra, a qual
também afundou.
“Você tem que pegar uma pedra mais achatada,”
disse Ridván.
“Então ela foi falar com alguns bahá’ís, para
descobrir do que se tratava e começou a freqüentar
as reuniões bahá’ís. Aprendi bastante.” A terceira
pedra também afundou.
“Olhe! Assim!” Ridván mostrou como se joga
a pedra com a mão estendida para fazê-la pular.
“Muito bem, então vocês descobriram a Fé Bahá’í.
Mas o que tem isto a ver com ‘acreditar ’
em Bahá’u’lláh?”
Alessandra jogou outra pedra do jeito que
Ridván mostrara. Pulou uma vez antes de afundar.
“Ei! Consegui! ... o quê?”
Ridván repetiu a pergunta.
Alessandra respondeu: “Bem, nós, quero dizer,
meus pais, não têm certeza se Bahá’u’lláh
realmente foi enviado por Deus ou não. Mas eu
tenho. Acho que isto faz de mim uma bahá’í,
não é?”
idván refletiu. Ele nunca encontrara alguém
como Alessandra. Todas as crianças bahá’ís que
ele conhecia tinham pais bahá’ís e sabiam sobre
Bahá’u’lláh a vida inteira. Nenhum dos amigos da
escola jamais quis falar de Deus ou religião. E eis
!"
aqui Alessandra, falando de Deus e de Bahá’u’lláh,
sem se encabular. E decidiu que ela era bahá’í,
mesmo que os pais não fossem. Como ele estava
abismado! Mesmo assim, pensou se ela tinha razão:
“Se você aceita Bahá’u’lláh, você é bahá’í. Afinal
de contas, o que mais há?”
Em voz alta, comentou: “É, acho que sim.”
Os dois permaneceram em pé, em silêncio, na
m a rg e m d o l a g o , j o g a n d o p e d r a s n a á g u a .
Alessandra praticava fazer as pedras pularem, mas
a maioria afundava. Ela batia palmas e soltava um
gritinho de alegria cada vez que uma dava um
pulinho. Ridván tinha mais experiência e fazia
todas as pedras pularem. Ele estava perdido
nos pensamentos.
“Esta menina é realmente diferente”, refletia.
Não tinha medo de dizer o que pensava e parecia
estar completamente à vontade num ambiente
novo. Afinal, ela só estava naquela cidade há uma
semana e pouco! Ela fazia amizade com facilidade
– todos na escola gostavam dela. E havia mais uma
outra coisa.
lessandra?”, disse Ridván, quebrando o
silêncio. Ele pronunciou seu nome com cuidado,
com o som de “ss” que ela usava.
“Sim?” ela respondeu distraidamente,
concentrando toda a atenção numa pedra que
jogava n’água e que também afundara.
“Você não se incomoda quando os outros
pronunciam seu nome errado?” Finalmente,
descobria o que havia nela que tanto o intrigava.
!!
“Não”, respondeu com simplicidade.
“Deveria?”
“Bem, quero dizer, como é – dizem ‘Alexandra’
em vez de ‘Alessandra’. Isto não a incomoda?”
“Não”, ela repetiu. “Acho até um
pouco engraçado.”
“Engraçado!” exclamou Ridván. “Como pode
ser engraçado?”
Alessandra o olhou com curiosidade. “Porque
é”, respondeu. “Sei que sou diferente de todas as
outras crianças por aqui. Vim de outro estado, falo
com sotaque diferente, uso nomes diferentes para
as coisas. Como isto por exemplo”, disse tocando
o moletom. “Eu o chamo de abrigo. Acho
engraçado ouvir você dizer moletom. E tantas
outras coisas têm nomes diferentes por aqui!
Estava vendo com a ‘mãinha’ – aí, ‘mãinha’, em
vez de mãe. De qualquer forma, outro dia, na loja,
‘mãinha’ disse ‘fecho ecler’ e vocês chamam de
‘zíper’; vocês chamam de mandioca a macaxeira;
bala, pra nós é queimado. A bala toffee que outro
dia me deu, chamo de bombom. Nós nos cobrimos
com ‘acolchoado’, que vocês chamam de
‘edredom’. Meu pai usa ‘peixeira’, que seu pai
chama de ‘facão’. Você não acha engraçado?” e
ela riu enquanto fazia uma pedra pular.
idván refletiu. Dava pra entender seu ponto
de vista. Realmente eram bastante engraçadas as
palavras nordestinas. Mas isto não era igual a ter
o próprio nome como motivo de gozação.
!"
“Mas o seu nome”, ele disse. “Você não se
importa que todos pronunciem errado?”
“Não” – ela respondeu – “porque eu sei como
deveria ser pronunciado. Sei algo que ninguém
mais sabe! Por que deveria me incomodar se todos
os outros estão errados? O problema é deles, não
meu. Além disso, qualquer dia aprenderão a
pronúncia certa e aí eles serão o motivo de riso.
Mas nem me preocupo muito com isto.”
Ela parou e então perguntou com suavidade: “É
porque a Sra. Clara pronuncia o seu nome errado
que está me fazendo todas estas perguntas?”
Ridván hesitou. De certo ela não sabia quanto
ele era motivo de gozação dos meninos por causa
disto. Deveria lhe contar?
“Bem...”, ele começou.
“Ou é por causa dos meninos que fazem
tanta gozação?”
Então ela sabia! Ele sentiu um alívio!
Finalmente, poderia conversar com alguém que o
compreendia. Ela teria pena dele, estaria do
lado dele.
“É” – ele exclamou – “é isto mesmo. E odeio o
meu nome. Não acho nem um pouco engraçado.”
“Hum...”, disse Alessandra, pensativamente.
Ela se sentou e começou a brincar com algumas
‘plantas-dorminhocas’. Quando as tocava, elas se
fechavam. Ridván se sentou ao seu lado.
“Posso entender seu problema” – ela disse –
“mas, sabe, de certo modo você convida
essa provocação.”
Ridván a olhou, irado. Ela deveria estar do lado
!"
dele. Que é que estava acontecendo? Ele nunca
deveria ter levantado o assunto.
Alessandra percebeu seu olhar e sorriu. “Não
quero parecer grosseira, mas alguma vez você
explicou aos outros como pronunciar seu nome ou
participou da brincadeira? Eles só fazem isto, sabe,
porque sabem que você vai ficar encabulado
ou bravo.”
idván começou a entender o que Alessandra
queria dizer. Não, de fato ele nunca contara como
era a pronúncia correta de seu nome. Desde o
primeiro dia, a Srta. Clara dissera errado e ele
tentara só uma vez corrigi-la, antes de desistir. No
intervalo, naquele primeiro dia, algumas crianças
da turma tinham se reunido em torno dele, assim
como fizeram com a Alessandra no primeiro dia
dela. É claro que perguntaram o seu nome, mas o
acharam estranho e difícil de pronunciar. Mas, em
vez de tomar parte na brincadeira, rindo junto como
fez Alessandra quando pronunciaram o nome dela
incorretamente, ele ficara encabulado e vermelho.
Alessandra ainda estava falando. “Você tem que
ajudar as pessoas, tá entendendo? Nunca ouviram
um nome como o seu. E é claro que não percebem
o que ele significa – suponho que você nunca lhes
contou, não é?” ela perguntou, em tom de acusação.
“O quê? Contar que meu nome significa Dia
Sagrado? Aí sim que iriam rir de mim!”
Alessandra o olhou bem e então deu uma
gargalhada. Ridvánparecia incomodado.
“Se você pensa que é só isto que significa seu
!"
nome, é melhor ficar contente que não deram nome
em homenagem ao dia de hoje! Imagine se você
fosse ‘Declaração-do-Báb-Silva’!”
Ridván achou graça da idéia. Logo viu a mãe e
o irmão saindo do bosque, vindo em direção a eles.
Acenaram.
“Vamos nadar”, Pedro gritou e durante a meia
hora seguinte, mais ou menos, os três nadaram e
brincaram na represa. Não se falou mais a respeito
de nomes ou problemas.
inalmente, chegou a hora de sair e se
enxugar. Esfregaram-se com as toalhas enquanto a
Sra. Silva servia chá quente de uma garrafa
térmica. Quando estavam mais ou menos secos, o
Sr. Silva olhou o relógio e disse que achava que
estava na hora de se arrumarem para voltar.
Colocaram as coisas na cesta de piquenique e as
tolhas no barco, puseram novamente os coletes
salva-vidas e partiram para o outro lado do lago.
Depois de alguns minutos, o Sr. Silva parou de
remar e dirigiu-se a Ridván: “Se você prometer não
saltar por todos os lados, pode vir aqui e remar um
pouco, se quiser.”
Ridván trocou cuidadosamente de lugar com o
pai. Pegou os remos – eram mais pesados do que
imaginava. Ele tentou fazer o que o pai mostrara a
Pedro, mas por algum motivo os braços não
queriam trabalhar juntos. Quando ele puxava o
remo direito o barco saía numa direção. Quando
puxava o esquerdo, de repente, saía na outra.
“Juntos, puxe-os juntos”, gritava o pai. Ridván
!"
tentava, mas os remos pareciam ter vida própria.
Era muito difícil sequer puxá-los pela água, quanto
mais ao mesmo tempo!
O Sr. Silva orientava: “Para dentro, dois, três;
para fora, dois, três”, mas os remos se mexiam
quase que sozinhos. Ridván os segurava com
firmeza – não queria levar um soco no estômago,
como seu irmão levara antes.
Finalmente, ele conseguiu fazer ambos
funcionarem mais ou menos ao mesmo tempo.
Como seu braço direito era mais forte que o
esquerdo, ele puxava mais o remo direito. O barco
começou a girar.
“Endireite o barco, filho, endireite o barco”, o
pai gritava. Ridván se confundia e puxou mais forte
ainda no remo direito. O barco começou a rodar
em círculo.
“O esquerdo, o esquerdo! Puxe o esquerdo!”,
o Sr. Silva dizia.
Ridván ainda puxava o direito. À medida que
o barco girava em círculo na água, Pedro e
Alessandra começaram a dar risada baixinho. O Sr.
Silva ainda orientava: “Puxe o esquerdo, Ridván,
o remo esquerdo.”
Na tentativa de seguir as instruções do pai,
Ridván empurrou o remo esquerdo na água – e o
barco deu outra volta. Todos estavam gargalhando
agora. Ele ergueu ambos os remos e suspirou. O
barco parou.
“Tente de novo”, o pai falou. “Puxe os dois na
mesma hora.”
Ridván deu de ombro, fez que sim com a cabeça
!"
e começou de novo. Desta vez parecia estar dando
certo, pois o barco partiu numa linha mais ou
menos reta, em direção à margem.
Após alguns minutos, Ridván percebeu que
Pedro tinha razão. Era serviço pesado mesmo! Ele
trocou de lugar com a mãe, de muita boa vontade,
depois que Alessandra recusou um convite para
tentar remar também.
“Afinal de contas, quero chegar em casa ainda
hoje!”, ela disse.
epois de todo esforço, conseguiram chegar
ao ancoradouro. A Sra. Silva ajeitou as crianças
no carro, enquanto o Sr. Silva amarrava o barco.
Ele parecia demorar toda vida.
“Desculpem, pessoal”, ele disse, quando
retornou. “Eu só estava trocando uma palavrinha
com o barqueiro. Dei o número do nosso telefone,
caso ele quisesse falar sobre a Fé.”
Não conversaram muito no caminho de casa –
estavam cansados demais. A Sra. Silva distribuiu
maçãs. Ridván mastigava a sua enquanto pensava
sobre os acontecimentos do dia. Que será que
Alessandra queria dizer quando comentou que seu
nome tinha um significado? Ele remoía o assunto
durante todo o caminho de casa, mas não
conseguia compreender.
arde naquela noite, após deixar a Alessandra
em casa, jantar e lavar a louça, Ridván de repente
se lembrou que no dia seguinte teria de contar na
!"
aula sobre o Dia Sagrado. Ele não gostava de fazer
palestras na frente da turma, mas não via maneira
de escapar. A Srta. Clara fazia todo mundo falar,
cedo ou tarde. O que será que ele poderia dizer?
Pedro
estava
ocupado
na
sua
escrivaninha, escrevendo.
“O que você está fazendo?”, Ridván indagou,
sem muito interesse.
“É só uma coisa que tenho de aprender para
amanhã”, Pedro respondeu.
“Lição de casa, né?”, Ridván comentou,
solidariamente. Sempre havia tanta lição!
“Não é bem isso”, Pedro respondeu. “Fiquei de
contar à minha turma por que não fui à escola hoje.
Pensei que seria melhor escrever um esquema do
que queria falar.”
“Eu também tenho de fazer isto”, Ridván disse,
começando a se interessar. “O que você vai dizer?”
“Tá, leia você mesmo”, Pedro disse, ao entregar
o papel ao irmão.
Ridván olhou com curiosidade. Era só
uma lista:
1) Báb – quem Ele era;
2) Mullá Husayn – o que ele fez;
3) A noite de 22 de maio de 1844;
4) Por que o Báb veio;
5) Bahá’u’lláh;
6) Ridván;
7) Os princípios – um só Deus, um só povo,
uma só religião.

!"
idván levou um susto ao ver o seu nome na
l i s t a . “ P o r q u e i s t o e s t á a q u i ? ” p e rg u n t o u ,
apontando para o sexto item da lista.
“ R i d v á n . Vo c ê s a b e , a D e c l a r a ç ã o d e
Bahá’u’lláh. Você não pensou que era você,
pensou?”, Pedro disse, mexendo com o irmão.
“Mas o que isto tem a ver com a Declaração do
Báb?” Ridván perguntou.
Seu irmão disse: “Pensei que seria boa idéia
contar um pouco sobre a Fé Bahá’í, também. Se o
Báb veio para contar às pessoas que Bahá’u’lláh
viria em seguida, eu não poderia deixar de contar
à turma sobre o Báb, sem falar de Bahá’u’lláh,
poderia?”
Ridván começou a ficar impaciente. “Mas por
que Ridván?”, ele gritou. “O que isto tem a ver
com Ridván?”
“Meninos! Que barulheira é essa, aí em cima?”,
o Sr. Silva gritou lá da sala, no andar de baixo.
Pedro olhou seu irmão com curiosidade. “Não
p r e c i s a g r i t a r, n é ” , e l e d i s s e , u m p o u c o n a
defensiva. Houve uma pausa e ele começou de
novo. “Como eu estava dizendo, Ridván é a data
em que Bahá’u’lláh declarou que era o Prometido.
Os dozes dias no jardim de Ridván. Pelo menos
isto você deve ter aprendido na aula bahá’í!” Sendo
mais velho, Pedro sempre estivera em turma
diferente de Ridván.
Ridván sacudiu a cabeça. Tinha certeza que
nunca tinha ouvido isto antes. Mentalmente, ele
repassou as coisas que aprendera na aula bahá’í:
orações, é... uma porção de orações; os Reinos de
!"
Deus – quantas vezes ele aprendera sobre os
diferentes reinos e os diferentes Manifestantes; um
em seguida do outro, até Bahá’u’lláh. E era
praticamente só isso. Bom, havia os princípios
também. E o calendário. Ah, e algumas
canções bahá’ís.
“Não”, ele respondeu. “Acho que nunca
chegaram lá.”
“Você quer dizer que durante todo este tempo,
você nunca soube da Declaração de Bahá’u’lláh?”,
Pedro perguntou.
“É claro que isso eu sabia”, Ridván respondeu.
“Sei que Ridván é um Dia Sagrado, também. Só
não sabia que os dois eram a mesma coisa.”
“Mas você não presta atenção nas
comemorações dos Dias Sagrados?” Pedro
perguntou. “Você já assistiu muitas comemorações
de Ridván!”
Ridván corou – ainda ontem à noite estava
pensando que deveria prestar mais atenção nas
reuniões. “Nem sempre”, ele sussurrou.
“Pois deveria”, Pedro retorquiu. “Poderia
aprender alguma coisa.” Ele se debruçou na
escrivaninha e começou a escrever novamente.
idván começou a pensar que talvez seu
irmão pudesse lhe ajudar com a pergunta que o
estava atormentando. Alessandra tinha dito à tarde
que o nome dele tinha um significado. Será que
Pedro sabia qual era? Ele resolveu tentar.
“Você poderia... você poderia me contar o que
significa ‘Ridván’...?” Ele engoliu em seco.
“... por favor?”
!"
Pedro se virou para o irmão. Parecia que ia dar
risada, mas ele deve ter refletido melhor, pois disse
numa voz suave: “Ridván é um jardim perto de
Bagdá, onde Bahá’u’lláh ficou por dez anos quando
foi exilado da Pérsia. Ele havia sido mandado para
outro lugar, mas, antes de sair de Bagdá, Ele ficou
neste jardim por doze dias. Foi lá que Ele disse a
todos que era Aquele que o Báb dissera que viria.”
Pedro parou e olhou seu irmão. Ridván estava com
o olhar fixo na distância, tentando se concentrar
no que o irmão dizia.
Pedro continuou: “isto foi Sua Declaração,
entende? O jardim era um lugar muito bonito, um
paraíso, por isto é chamado Ridván. Isto quer dizer
paraíso. Suponho que você sabe o que é
paraíso, né?”
Ridván fez que sim com a cabeça – isso tinha
aprendido na escola. Ele se manteve em silêncio.
De repente, toda sua visão mudara. Remoía na
mente o que o irmão dissera. Embora seu nome
fosse muito diferente, sem dúvida era um nome
especial. Então era isto que Alessandra queria dizer
quando comentou que seu nome tinha um
significado. Agora ele compreendia porque ela riu
quando ele disse que era simplesmente um Dia
Sagrado – era muito mais que isto!
Ridván se sentia mais feliz do que jamais
estivera desde que chegara a Rouxinol. Queria
contar a Pedro todos os seus problemas com
Eduardo e os outros meninos, mas Pedro estava
absorto na sua tarefa. E então Ridván se lembrou
de Eduardo! Ele nem se importaria que Ridván
!"
fosse um nome bahá’í especial – Eduardo nem era
bahá’í. Ridván se entristeceu outra vez. Mesmo que
seu nome tivesse um significado maravilhoso,
Eduardo e seus amigos ainda gozariam dele. Na
verdade, nada realmente tinha mudado.
Então Ridván se lembrou de algo que
Alessandra dissera: ela não se incomodava que a
chamassem de ‘Alexandra’ em vez de ‘Alessandra’,
porque ela mesma sabia a pronúncia certa do seu
nome. Eram os outros que estavam errados – e ela
dissera que um dia eles aprenderiam o certo e
veriam que eles mesmos eram motivo de piada, mas
Alessandra também dissera que era preciso ‘dar
uma mão’ para as pessoas. De fato, ele refletiu,
não podia esperar que soubessem pronunciar certo
seu nome ou compreender seu significado, se ele
nunca havia contado. Mas ele poderia contar agora,
depois de tanta gozação? Talvez ele pudesse
abordar o assunto de alguma maneira na sua
palestra amanhã. Isso mesmo! Ele faria o mesmo
que Pedro – falaria do Báb e Bahá’u’lláh juntos e
depois explicaria como seu nome estava
no assunto.
or um instante, Ridván se sentia satisfeito.
Pegou um lápis e papel e começou a escrever
rapidamente uma lista como a de Pedro. De
repente, deixou o lápis cair e bateu na testa com a
mão. Eduardo nem estava na turma dele! Nem
ouviria a palestra de Ridván.
Ridván se sentia miserável. Sentou na beirada
da cama, olhando o chão fixamente. Os olhos
!!
focalizaram numa mancha rósea no chão – o que
seria? Ele se dobrou para apanhá-la. Era uma das
pétalas que caíram do seu livro de orações na noite
anterior – aquela que ele não alcançara. Deve ter
saído debaixo da cama. Ridván alcançou o livro
de orações. Havia um marcador e o livro abriu
naquele lugar, Ridván colocou a pétala entre as
páginas e deu uma olhada na oração da página
marcada. Era aquela que ele lera na noite anterior.
Ele estremeceu à lembrança de seu erro, mas leu a
oração novamente: “... remove meu pesar, faze-me
a d o r a r Tu a B e l e z a , a f a s t a - m e d e t u d o ,
salvo de Ti...”
Se ele se concentrasse em se aproximar de
Deus, talvez a gozação cessaria. Mas ele duvidava
– Eduardo era assim mesmo. Se ele tentasse ser
um bahá’í melhor talvez as coisas não o
incomodariam tanto. Ele simplesmente tentaria ser
corajoso ao compreender que Deus o ajudaria – não
era assim que todas estas orações diziam? Ele se
lembrou que uma das orações que decorara era
justamente para este propósito – pedir ajuda a
Deus. Na verdade, era uma oração do Báb. Ele
fechou os olhos e recitou: “Há quem remova as
dificuldades a não ser Deus? Dize: Louvado seja
Deus! Ele é Deus. Todos são Seus servos e todos
obedecem a Seu Mandamento.”
Já estava se sentindo melhor. “Amanhã” – ele
disse para si mesmo, à medida que se arrumava
para dormir – “farei isto amanhã mesmo.”

!"
aquela noite, Ridván não dormiu muito
bem. Duas vezes acordou de sobressalto ao se
lembrar do suplício que o aguardava. A palestra
na sala de aula seria relativamente fácil, já que
Pedro tinha lhe dado a idéia de fazer a lista. Mas
confrontar Eduardo e seus amigos... Só de pensar
nisto, Ridván se arrepiava. Ele se preocupava muito
com isto. Mas cada vez que acordava acabava
finalmente se lembrando da decisão que tomara de
confiar em Deus e recitava novamente a oração do
Báb. Isto o acalmava e por fim adormecia,
sonhando com represas e óculos-de-sol e remando,
barcos cheios de nordestinos...
o dia seguinte, Ridván acordou mais cedo
que de costume; ele murmurou a oração do Báb à
medida que se levantava, contente consigo mesmo
por ter se lembrado das orações matinais,
finalmente. Ele deu “tchau” para a mãe ao sair para
a escola. Caminhando pela rua, ele pensava na
decisão da noite anterior e na palestra que daria
naquele dia. Mas como o tempo estava legal, seus
pensamentos logo vagavam para outras coisas:
vôlei naquela tarde, férias na semana seguinte,
quando poderia visitar seus amigos em Colibri,
uma viagem ao litoral, se o tempo continuasse bom.
E então ele viu Eduardo sentado num muro com os
outros meninos. Todo o pensamento das férias que
se aproximavam desapareceu. O coração de Ridván
batia cada vez mais depressa, à medida que se
aproximava do grupo. Ele queria sair correndo –
sabia que gozariam dele outra vez. Dito e feito! Aí
!"
vinha Eduardo, que já descera do muro.
“Oi Divã”, ele gritou.
Um menino fez uma careta e gritou:
“Divã, Divã.”
Outro entrou no cântico conhecido: “Divã, pã,
pã, pã, Divã!”
Ridván sentia a cor tomar conta de seu rosto.
Talvez devesse passar como sempre fizera. Então
decidiu que não. Tinha de acabar com isto de uma
vez por todas. Lembrou-se da noite anterior e
repetiu a pequena oração do Báb em silêncio.
Respirou fundo. E então ele sorriu, dirigiu-se
diretamente ao Eduardo e disse numa voz amigável
e calma: “Oi, Eduardo. Meu nome é ‘Rez-van’.”

!"
!"
!"
!"
Meu+nome+e+ridvan
Meu+nome+e+ridvan

Meu+nome+e+ridvan

  • 3.
  • 5.
  • 6.
    Título original: Callme Ridván 2000 Todos os direitos reservados: Editora Bahá´í do Brasil C.P. 198 13800-970 - Mogi Mirim - SP www.bahai.org.br/editora ISBN: 85-320-0051-7 1ª. EDIÇÃO: 2001 Tradução: Celestino A. Gonçalves Filho e Christina Reynolds Gonçalves Capa: Gustavo Pallone de Figueiredo Impressão: R. Vieira Gráfica e Editora Ltda Campinas
  • 7.
  • 9.
    or que seráque eles tiveram que me dar este nome horrível”, pensou Ridván Silva pela décima vez naquele dia. Ele estava a caminho de casa e teria que passar por um grupo de meninos que estavam na série seguinte. À medida que se aproximava, um menino chamado Eduardo, que morava na sua rua, gritou: “Oi, Divã!” Os outros o acompanhavam no cântico: “Ridván, Divã, Ridván, Divã!” Ridván ficou vermelho de vergonha, o que só serviu para os meninos gozarem mais ainda dele. Isto vinha acontecendo desde que perceberam ter dificuldades em pronunciar o nome dele do jeito que ele mesmo dizia: “Rez – van”. Ele os olhou com raiva e caminhou um pouco mais rapidamente até ultrapassá-los. Mas ao se aproximar de casa, ele começou a andar cada vez mais devagar, chutando a calçada com a ponta do tênis enquanto pensava. Ridván e sua família tinham se mudado para Rouxinol há apenas dois meses e ele e seu irmão mais velho tiveram que ser transferidos para outra escola bem no meio do segundo semestre. Isto já era problema suficiente, Ridván pensava, mas com este nome, puxa! Rouxinol era uma cidade a uns 60 km de Colibri, onde Ridván e sua família sempre tinham morado. Não era um lugar muito agradável – nem sequer cinema tinha. “Pensando bem, mais parece uma aldeia do que uma cidade de verdade”, resmungou Ridván. Sua família tinha se mudado para lá porque era uma “meta”, seja lá o que fosse !
  • 10.
    isto, e pornenhum outro motivo que Ridván pudesse perceber. Haviam alugado uma casa menor que a antiga e agora Ridván tinha que repartir um quarto com seu irmão, o que decididamente não melhorou coisa alguma. E seu pai continuava no mesmo emprego, tendo que sair cedinho para pegar o ônibus que ia até Colibri e chegar mais tarde em casa do que o costume. E todos os amigos de Ridván ainda moravam em Colibri. E – puxa – tantas outras coisa! A mudança não tinha trazido nenhuma vantagem que Ridván pudesse ver, e ao chegar em casa ele pensava: “Porque será, afinal de contas, nos mudamos? “Oi!”, disse a mãe, que estava dobrando roupa na cozinha. Ela era uma senhora miúda, de cabelos escuros, cujo rosto sorridente não conseguia esconder por completo o cansaço. “Foi um dia agradável?” “Oi”, disse Ridván, meio desenxabido. “Tudo bem”. E ele subiu para o seu quarto. Por sorte, seu irmão ainda não tinha chegado; portanto, Ridván tirou o uniforme e os sapatos e se deitou na cama. Olhando as rachaduras do teto, ele começou a pensar. idván tinha 9 anos de idade. Seu irmão, Pedro, tinha 11. Ridván pensava que isto era muito injusto, já que aqueles dois anos de diferença significavam que Pedro tinha recebido um nome decente, enquanto ele, Ridván, recebera este nome horrível. Pois foi no intervalo entre os nascimentos !
  • 11.
    dos dois meninosque seus pais tinham se tornado bahá‘ís. “Eles se empolgaram”, ele pensou – e mesmo que não fosse necessário, eles quiseram dar ao seu bebê recém-nascido um nome bahá’í. “É claro!” – pensou Ridván, aborrecido. Deram-lhe o nome do Dia Sagrado, por ter nascido perto do Ridván. Não era tão ruim no começo. Naturalmente, quando ele era bebê nem tinha percebido. E à medida que crescia havia outras crianças com nomes estranhos. Colibri era uma cidade grande com gente de todas as partes do mundo. Sempre havia algumas crianças com nomes como Alí ou Mamadou; portanto, Ridván nem aparecia muito. E em Colibri havia uma porção de bahá’ís, especialmente depois que três famílias iranianas se mudaram para lá. Todos achavam que o nome de Ridván era maravilhoso. É claro que no começo algumas de suas professoras tiveram dificuldades em pronunciar seu nome, mas estavam tão acostumadas com nomes que não eram brasileiros que aprenderam rapidamente. De fato, Ridván não tinha se incomodado quase nada com o nome, até se mudarem para Rouxinol. o ano passado, quando ele tinha 8 anos de idade, Ridván começou a prestar atenção nas Festas de Dezenove Dias, em vez de ficar pensando quando é que iam parar de tanto falar e começar a comer. Ele sempre ouvia alguma coisa sobre “o plano”, mas ele não entendia muito bem o que significava, exceto que tinha algo a ver com !
  • 12.
    “metas”. Seus paispareciam falar disto o tempo todo – o que podiam fazer para ajudar e assim por diante. Foi mais ou menos nesta época que começaram a falar em “sair como pioneiros”. Bem, Ridván sabia o que era um pioneiro porque, durante as férias, uma menina mais ou menos da sua idade tinha vindo para Colibri fazer uma visita de duas semanas. Ela disse que era pioneira. Sua família havia sido pioneira na África desde que ela era bebê e ela amava aquele continente. Giovana contou a Ridván sobre as viagens de ensino por estradas esburacadas, andando de jipe, para visitar os bahá’ís em aldeias de cabanas de barro. idván achou que ser pioneiro deveria ser emocionante; portanto, quando seus pais começaram a falar em pioneirismo, ficava esperando ansiosamente o dia de partir. E então ele começou a entender devagarinho o que a Giovana queria dizer com pioneirismo e o que seus pais queriam dizer eram duas coisas bem diferentes. Seus pais não estavam falando em jipes e cabanas de barro e coisas assim – estavam discutindo quanto tempo levaria para o pai de Ridván ir e voltar de trabalho e sobre mudanças de escolas e se deveriam alugar ou comprar uma casa. E assim, logo antes dele fazer nove anos, “saíram como pioneiros” – para Rouxinol e não África, coisa alguma! Pedro dizia que sabia o tempo todo, mas Ridván estava terrivelmente desapontado. Aparentemente, este tipo de pioneirismo tinha algo a ver com o “plano” de que !
  • 13.
    ele tanto ouvirafalar – não havia bahá’ís em Rouxinol, portanto era uma “meta”. Quando sua família saiu como pioneira para Rouxinol, isto ajudava a cumprir o plano. Isto parecia deixar os pais de Ridván muito felizes, mas Ridván achava que era um substituto muito mixuruca para estradas de terra e aldeias africanas. “De fato” – pensava Ridván – “é muito pior que isto”. Em Rouxinol nem sequer há outros bahá’ís com crianças que poderiam compreender seus sentimentos sobre o nome. Esta cidade parecia feita de pessoas que sempre viveram aqui – não havia nenhum Alí na escola! Nem mesmo as professoras aqui conseguiam se lembrar da pronúncia certa do seu nome. A Srta. Clara ainda o chamava de Rid – van e o Sr. Paulo, o inspetor, não se aproximava de novas pessoas – e olha que chegavam quase todo dia, assim sendo ele quase não conhecia ninguém em Rouxinol. A única coisa boa parecia ser que esta escola pelo menos o permitiria faltar nos Dias Sagrados Bahá’ís, coisa que a escola antiga não aprovava. De fato, um dia sagrado estava se aproximando, portanto, isto seria ótimo. O problema é que já que não havia outros bahá’ís por perto, não haveria festa como no ano passado, quando todos trouxeram seus amigos e comeram à vontade. Mesmo assim, era um dia sem escola. nquanto ele estava deitado na cama pensando em tudo isto, ele ouviu seu irmão bater a porta da frente e subir a escada. Ridván deu um pulo, !
  • 14.
    fingindo ler quandoPedro abriu a porta. “Oi! Por que você não tirou o uniforme ainda?”, Pedro indagou ao jogar sua pasta sobre a cama. “Eu tinha que ler um pouco”, replicou Ridván, guardando o livro e se dirigindo sem pressa ao guarda-roupa. “Pois apresse-se! Estão formando os times de vôlei no ginásio de esportes hoje e queremos chegar cedo”, disse Pedro. Ele arrancou o uniforme e agarrou a roupa de vôlei. Ridván começou a trocar de roupa, mas ainda estava sentido com as gozações anteriores. “Acho que não vou hoje”, ele disse. “Ah, vamos!” disse o irmão. “Se você não for hoje, não será escalado para nenhum time e não vai ter nada para fazer nas férias.” “Não, acho que não”, disse Ridván. “Ouça aqui, vou me atrasar. Vamos de uma vez, faça o favor!”, disse Pedro, tentando vestir a camisa e amarrar o tênis na mesma hora. “Não, vá você. Nem gosto tanto assim de vôlei mesmo.” Pedro olhou para Ridván sem acreditar, mas apenas resmungou ao sair do quarto. Ridván ouviu o “tchau” que ele gritou para a mãe. Ele terminou de se trocar e deitou de novo na cama. Na verdade, Ridván adorava vôlei. “Por que não fui?” Por um lado, provavelmente haveria muitos meninos mais velhos lá – os amigos de Pedro – ele tinha feito tantas amizades – e talvez seriam muito melhores jogadores do que ele. E era boa caminhada até o ginásio de desportos – ele não !
  • 15.
    tinha certeza quequeria andar tudo isto todos os dias. Mas ele sabia que estas não eram as razões verdadeiras. Ele não agüentaria mais gozação. Ridván ficou deitado algum tempo, pensando nos seus problemas e como tudo era tão injusto. E então ele ouviu uma batida suave na porta. Ele se sentou rapidamente e agarrou um livro escolar, dizendo desanimadamente: “Entra!” A mãe abriu a porta e ficou parada ali. Ela fez cara feia para Ridván, dizendo: “Pensei que vocês iam jogar vôlei hoje.” “Resolvi não ir” – Ridván resmungou. “Pedro foi”, a Sra. Silva comentou, embora isto não fosse necessário. “Sei” – disse Ridván – “alguns dos seus amigos estarão lá.” “Você podia ir assim mesmo”, insistiu a mãe. “Poderia conhecer outros garotos.” E aí parou e disse usando uma voz bondosa: “É difícil quando a gente se muda para uma cidade diferente.” Ridván olhou para sua mãe. “Ela acha que entende” – ele pensou – “acha que eu só preciso de mais amizades. Mas está errada – ela não compreende nada”. Em voz alta ele disse, meio grosseiramente: “Já tenho amigos de sobra!” Sua mãe olhou para ele em desespero e disse: “Você poderia tentar um pouco mais ser alegre, Ridván. Afinal de contas, nos mudamos para Rouxinol para ensinar as pessoas sobre a Fé Bahá’í. Não vão ter uma impressão muito boa sobre ela se você anda por aí com esta cara o tempo todo.” Ridván ficou pensando por que será que toda !
  • 16.
    vez que alguémna família se aborrecia ou ficava bravo ou ficava só um pouquinho triste, sua mãe começava a apoquentar sobre ensinar a Fé Bahá’í. Ele não conseguia enxergar qualquer relação entre as duas coisas. No entanto, ela tinha razão: ele realmente estava infeliz desde que deixaram Colibri. Ele teria que pelo menos parecer mais alegre, senão ela o perturbaria o tempo todo sobre isto. Mas ele ainda se sentia infeliz e agora estava chateado com a mãe também, portanto disse: “Está bem, está bem! Vou tentar ser um pouco mais alegre.” E deu um sorriso ridículo. “Você, hein!”, disse a mãe, com voz cansada. Ela se virou e saiu do quarto. os dias seguintes, Ridván não se sentiu nada melhor, mas tentava não dar muita demonstração disto em casa. Relutantemente, acompanhou Pedro ao ginásio de desportos um dia e descobriu que nenhum dos meninos que gozavam dele tinha se inscrito, a maioria estava no futebol. Resolveu continuar indo. De fato, enquanto estava jogando vôlei, ele realmente se sentia melhor, mas não por muito tempo. Logo que ele saía para a escola de manhã era obrigado a se lembrar de suas dificuldades. Eduardo sempre estava lá, esperando para gritar, “Olá, Divã!”, à medida que ele passava. Ridván gostaria de poder ir à escola com Pedro, mas ele ajudava a mãe a entregar os salgadinhos que ela fazia para vender e ia direto à escola, de bicicleta, em cima da hora. !
  • 17.
    O fim-de-semana eramelhor porque ele não tinha que ver o pessoal da escola. Também porque seu pai estava em casa e, independentemente do resto, a atenção da mãe se voltava para o marido e não mais para Ridván. Domingo ficava um pouco vazio – era o dia em que sempre iam às “aulas bahá’í” quando viviam em Colibri, mas o Sr. Silva disse que agora era longe demais para só uma hora de aula, pois ele já viajava cinco dias por semana e chega! No começo, este dia livre tinha sido ótimo, mas agora o dia não parecia ter mais fim. Ridván até se admirou ao sentir falta das aulas bahá’ís, pois ele não gostava muito dela e era obrigado a participar todo fim-de-semana. uando a aula começou de novo na segundafeira, havia uma menina nova na sala. Srta. Clara a apresentou como Alessandra. Quando esta sorriu para a turma e disse “Oi!”, ficou óbvio que ela era nordestina. Seu sotaque era diferente e ela até pronunciava o próprio nome de maneira diferente: com “ss” e não “x”; ela corrigiu, rindo, enquanto as outras crianças a cercavam na hora do recreio para perguntar tudo sobre as praias e os costumes diferentes. Mas ninguém conseguia se lembrar da pronúncia certa e todos continuavam a chamá-la de Alessandra com “x” mesmo. Ridván gostou de Alessandra. Ela tinha um rosto agradável e ria enquanto falava. Parecia sempre ter algo interessante para dizer ou alguma idéia nova. E ela também era nova, como ele. !
  • 18.
    a quarta-feira, Ridváne Pedro levaram bilhetes para a escola explicando que faltariam no dia seguinte por causa do Dia Sagrado. A Srta. Clara sorriu quando leu o bilhete e pediu a Ridván que quando voltasse à aula na sexta-feira, contasse à turma sobre o que era o Dia Sagrado. Isto preocupou Ridván um pouco, porque ele não tinha contado para ninguém que ele era bahá’í. Além disto, ele sabia que quinta-feira era a Declaração do Báb e praticamente nada mais além disto. aquela noite, Pedro e ele puderam ficar acordados até bem mais tarde. Ridván achou que isto era porque não teriam aula no dia seguinte, mas Pedro o lembrou que o dia bahá’í começa ao pôr-do-sol e portanto a comemoração seria naquela noite. Depois do jantar, Ridván e Pedro fizeram a lição enquanto esperavam o início da comemoração. Em Colibri, a maioria das reuniões bahá’í começava às 19:00h, mas já eram 19:30h quando terminaram a lição e o Sr. e a Sra. Silva a i n d a e s t a v a m s e n t a d o s à m e s a d o j a n t a r, conversando e tomando café. “Não vamos começar logo?”, perguntou Ridván. “Já são sete e meia”, acrescentou Pedro. “Pois é” – respondeu o Sr. Silva – “mas vocês não se lembram que o Báb se declarou mais ou menos duas horas após o pôr-do-sol? É nesta hora que os bahá’ís festejam. Isto será aproximadamente !"
  • 19.
    oito e meiada noite.” “Convidamos alguns dos vizinhos para participar” – disse a Sra. Silva – “e deverão chegar lá pelas oito. Vocês dois gostariam de arrumar as xícaras para podermos tomar chá e biscoitos depois? Vamos lá para a sala enquanto vocês arrumam tudo.” Os meninos resmungaram, mas a Sra. Silva ergueu as sobrancelhas em sinal de aviso, portanto, tiraram as xícaras usadas da mesa e pegaram as limpas. Quando terminaram, o pai perguntou: “Vocês gostariam de escolher uma oração para ler hoje à noite ou preferem dizer uma daquelas que já sabem?” Pedro resolveu dizer uma que tinha decorado, mas Ridván não tinha certeza de que seria capaz de dizer uma oração inteira, sem errar. Faziam mais de dois meses desde que havia freqüentado a última aula bahá’í, onde tinha que recitar e decorar orações toda semana, e ele estava meio fora de forma. Ridván subiu para o quarto e abriu o livro de orações, procurando pela qual queria dizer. Durante meia hora, ele se sentou em silêncio na beirada da cama, lendo várias orações, à procura de uma que fosse apropriada. Na verdade, ele não tinha olhado muitas vezes o livro de orações desde que chegaram em Rouxinol e realmente tinha se esquecido de quantas orações diferentes havia. De repente, encontrou a oração perfeita. Parecia exprimir exatamente os seus sentimentos – solidão. Ele a leu várias vezes para ter certeza que poderia !!
  • 20.
    pronunciar todas aspalavras – afinal não queria se atrapalhar na frente dos vizinhos! Ainda havia bastante tempo antes de começar a reunião e os pensamentos de Ridván se voltaram novamente ao seu problema. Ele se deitou na cama. Se ele conseguisse “bolar” um jeito de se livrar do problema... Talvez pudesse voltar para Colibri todos os dias com o pai, para a escola antiga, ou talvez desistir da escola por completo... Ele não teria que ir à escola se fosse para a África com aquela menina... como era mesmo o nome dela? Alexandra? Não, Giovana... Alessandra! Talvez ela p u d e s s e a j u d a r. . . a m e n i n a n o v a , s e m p r e sorridente... “ss” e não “x”... idván, acorde! Todos já chegaram.” Era Pedro, sacudindo-o. Ele havia adormecido. “Que horas são?”, bocejou Ridván. Ele se espreguiçou sobre a cama, pensou em ficar ali mesmo e depois, mudando de idéia, levantou-se. “Quase oito e meia; anda! Estamos esperando por você.” Pedro saiu enquanto Ridván arrumava a roupa. Ele estava no alto da escada quando se lembrou do livro de orações. Teve que voltar para pegá-lo. Ele procurou por toda a cama que já estava desarrumada e finalmente o achou enfiado entre o colchão e a cabeceira. Umas poucas pétalas secas, frágeis, caíram – eram pétalas que seus pais t r o u x e r a m d a Te r r a S a n t a q u a n d o f i z e r a m peregrinação alguns anos antes. Ele se ajoelhou e estava tentado alcançá-las debaixo da cama, !"
  • 21.
    quando ouviu amãe chamar, “Ridván! Puxa vida, anda logo! Estamos todos esperando. Venha já!” “Tô indo”, ele respondeu. Uma das pétalas estava rasgada e a outra ainda estava em baixo da cama, mas não dava para gastar mais tempo nisto agora. Depressa, ele limpou a poeira dos joelhos das calças e correu escada abaixo. Ao ouvir vozes na sala, de repente ele se sentiu envergonhado. “Não posso dizer uma oração na frente de estranhos”, pensou, hesitante ao lado da porta. Ele estava quase voltando lá para cima quando a porta se abriu e o pai o enxergou. “Ah! Taí! Entre. Estamos começando.” Ridván entrou relutantemente e deu uma olhada na sala. Parecia lotada – havia umas dez ou doze pessoas, o que o surpreendeu. Em Colibri, ele teria esperado uma porção de gente, mas não aqui. Ele se pegou em flagrante quase dizendo “Alláh’u’Abhá!” e mudou depressa para “Boa noite”. Lembrou-se de que estas pessoas não eram bahá’ís e poderiam estranhar a saudação bahá’í’. “Olá!”, disse uma voz inconfundível. “Eu não sabia que esta era sua casa!” Ridván focou pasmo! ra Alessandra – a menina nova da escola. Sua boca abria e fechava, mas ele tinha perdido a voz, de tão grande que era a surpresa. Finalmente, conseguiu dizer um “oi” meio rouco e Alessandra soltou aquela risada gostosa dela. Todos os outros riram também. O Sr. Silva pigarreou. “Bem, já que ele chegou, podemos começar e !"
  • 22.
    depois continuaremos aconversar.” Ridván encostou-se à cadeira, já entediado. Seu pai era um homem simpático, não muito velho, mas quando ele começava a falar em reuniões, não parava mais. O pai de Ridván estava apenas fazendo a introdução. “Minha família e eu gostaríamos de dar as boas vindas a todos vocês esta noite para a comemoração da Declaração do Báb. Em 1844...” O Sr. Silva falou sobre a noite em que o Báb declarou Sua Missão a Mullá Husayn e explicou quem eram os bahá’ís, mas Ridván mal o ouvia. Ele estava quebrando a cabeça sobre porque Alessandra tinha vindo. Será que ele era bahá’í? Não, a mãe lhe teria contado se outros bahá’ís tivessem se mudado para Rouxinol. Seria vizinha? Talvez, mas não de muito perto, senão ele a teria visto no caminho da escola. O quê, então? Um cutucão de Pedro em suas costelas trouxe sua atenção de volta ao que estava acontecendo. O pai já estava quase acabando. “E assim, podem ver porque esta noite é tão importante para os bahá’ís.” Será que ele tinha perdido tanto, ou será que o pai tinha falado menos do que o costume. Ele realmente precisava parar de tanto divagar e tentar se concentrar. “Agora teremos algumas orações e depois haverá chá e algo mais para comer. Ridván, você poderia começar, depois Pedro, João, Bárbara, daí Francisco e terminamos com Carolina. Pode começar, Ridván.” !"
  • 23.
    Ridván abriu olivro de orações e começou a ler cuidadosamente: “Ó meu Senhor, meu BemAmado, meu Desejo! Sê um amigo para mim em minha solidão, e acompanha-me no exílio...” excelente, ele pensou. É bem assim que me sinto e realmente quero que Deus me ajude... Oh! Não! Ridván corou profundamente ao ler o final da oração. “... Torna-me uma de Tuas servas que atingiram a Tua aprovação. Em verdade, és o Benévolo, o Generoso!” Ele deu uma pequena tossida no final. Como é que ele não tinha visto isto antes? Ele tinha lido várias vezes, lá no quarto. Era uma oração para meninas! Ele sentia Pedro se contorcendo em silêncio na cadeira ao lado, tentando não rir em voz alta. Ele lançou uma olhada na direção de Alessandra e dos outros na sala. Todos estavam sentados com os olhos fechados – ninguém parecia ter percebido, exceto Pedro. Agora este estava começando a recitar sua oração. “Ó meu Deus! Une os corações de Teus servos...” urante o resto das orações, Ridván manteve seus olhos bem fechados e concentrou-se no que estavam lendo. Na verdade, ele os abriu por um instante quando ouviu um sotaque nordestino lendo “Ó Deus, refresca e alegra meu espírito...” e um pensamento lhe passou pela cabeça: a mãe de Alessandra... talvez sejam bahá’ís, sim... Sua mãe iria ler a última oração, uma bem comprida, e todos se levantaram. Pedro se mexia um pouco, mas Ridván ficou bem quietinho, realmente tentando ouvir as palavras. A oração !"
  • 24.
    falava dos problemasdo Báb – muito mais do que ele mesmo tinha, Ridván pensou. Quando a oração terminou, o Sr. Silva disse: “Se quiserem ir para a sala ao lado, vamos servir chá e alguma coisinha para comer. Meninos, querem ajudar a servir?” Todos entraram na sala de jantar. Ridván começou a passar travessas de salgadinhos, enquanto Pedro perguntava quem queria chá e quem queria café. Depois que ele tinha contado e se retirado para a cozinha, Alessandra se aproximou de Ridván. “Gosto da sua casa”, ela disse. “Faz tempo que você mora aqui?” “Não” – Ridván respondeu – “só alguns meses. Morávamos em Colibri.” “Ah, é?,” disse Alessandra. “Onde fica isso? É longe daqui?” “Mais ou menos”, respondeu Ridván. “Uma hora.” Ele descansou a travessa na mesa e se serviu de uns salgadinhos. “Isto não é longe! ‘Longe’ é que nem China ou a Austrália. O Nordeste realmente fica longe daqui: É de lá que eu venho.” Alessandra riu novamente enquanto falava e Ridván podia perceber que ela estava brincando. “Como você chegou aqui esta noite?”, ele perguntou. “Bom, primeiro entramos no carro e depois uma esquina à esquerda e outra à direita... Não, na verdade, você quer saber por que estou aqui, não é?” A Sra. Silva entrou naquele instante com o chá !"
  • 25.
    e Ridván tinhade segui-la com o açucareiro, portanto, demorou um pouco até poder conversar com Alessandra outra vez. Quando todos estavam servidos, os dois voltaram para a sala e se sentaram, cada um tentando equilibrar um pratinho de bolo e uma xícara. “Muito bem, o que é que você está fazendo aqui? Quero dizer...” Ridván estava tropeçando nas palavras. Ele não queria ofendê-la. “É só que eu não esperava...” Alessandra interrompeu “Pois nós conhecíamos os bahá’ís em Maracatu. Já assisti uma porção de reuniões lá. Acho que mamãe procurou por vocês na lista telefônica e aqui estamos.” “Ridván sabia que isto era impossível: não estavam ainda na lista telefônica. Mas ele tinha de perguntar: “Então vocês são bahá’ís também?” Pela primeira vez, Alessandra pareceu se atrapalhar um pouco. Ela corou ligeiramente e disse, com alguma hesitação: “Bem, ah, não, não exatamente... sabe...” “Tudo bem”, Ridván interrompeu. “Eu só queria saber, você compreende, não é? Já que vocês participam de reuniões bahá’ís. Quero dizer, quase ninguém participa exceto os próprios bahá’ís.” “Não, não lá donde eu venho”, disse Alessandra, recuperando a calma. “Muita gente participa das reuniões bahá’ís lá. São divertidas, geralmente”, ela acrescentou. Houve uma pausa e então ela disse: “Não, não somos bahá’ís. Estamos pesquisando.” “O quê?” perguntou Ridván. Pois não entendia !"
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    o que elaqueria dizer. “Você sabe – que nem pesquisa independente da verdade.” Ele ainda parecia confuso. “Estamos procurando – somos contatos.” “Ah!”, disse Ridván. Então era isto. Tanto tinha ouvido falar em contato e eis uma bem aqui na sua frente. Mas esta menina parecia saber mais de sua religião do ele mesmo. Pelo menos, ela usava todas as palavras certas. “Bem, está gostando da escola?” Ele achou melhor mudar o assunto. Não queria que ela usasse mais palavras que ele não entendia – pensaria que ele era bobo. Antes que Alessandra pudesse responder, uma senhora se aproximou dos dois. “Olá, sou a mãe de Alessandra – Bárbara Moreti. Estou contente por vocês já se conhecerem.” “Estamos na mesma turma na escola, mamãe”, Alessandra respondeu. “Já nos conhecíamos antes.” “Pois, vejam só”, disse a Sra. Moreti. “Nem pensávamos encontrar bahá’í algum aqui e agora vejo que minha filha está na mesma turma com um! Não é maravilhoso?” A Sra. Moreti não parecia se dirigir a ninguém em particular, portanto, Ridván não respondeu. Ele só pensou como o mundo era engraçado, pois sua família também se mudara para Rouxinol bem na época em que a família de Alessandra, e queriam encontrar bahá’ís. E então pensou: “Talvez não seja tão engraçado; talvez Deus queria que estivéssemos aqui por este mesmo motivo; talvez Ele tinha algum tipo de plano.” Plano. Será que é !"
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    isto que osbahá’ís queriam dizer quando discutiam o “plano”? Estar num certo lugar bem na hora que alguém naquele lugar quer saber sobre a Fé? Ele precisava se lembrar de perguntar à mãe sobre isto. s pessoas estavam começando a se despedir. Alessandra se levantou e estendeu a mão, dizendo: “Tchau. Obrigado pela reunião bacana. Te v e j o n a e s c o l a a m a n h ã . Q u e r o d i z e r, sexta-feira.” Apertaram as mãos, coisa que Ridván nunca fazia com alguém de sua idade. “De certo fazem as coisas de maneira diferente no Nordeste”, ele pensou, enquanto se despedia, primeiro de Alessandra e seus pais e depois dos outros convidados. Ele entrou na sala de jantar para ajudar a tirar as coisas do chá. Estava com muito sono – devia ser mais de dez e meia da noite. Neste momento, Pedro cochichou no seu ouvido: “Que oração boba você escolheu! Não tinha nada a ver com a Declaração do Báb – e, além disto, você não é menina!” “Pedro!” A voz do Sr. Silva estava áspera. “Chega!” “Não vamos estragar esta linda noite, querido”. Então, a Sra. Silva disse ao filho: “A oração de Ridván era muito bonita, e a sua também. Falaram muito bem. Estou orgulhosa dos dois.” “Mas não era a oração certa para dizer”, protestava Pedro. “Ele não é menina.” O Sr. Silva olhou bravo para Pedro, mas a Sra. Silva disse com suavidade: “Estamos todos !"
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    cansados agora. Porque não vamos dormir agora e falamos disto pela manhã?” Os olhos de Ridván ardiam de lágrimas. Tinha até se esquecido do seu erro enquanto conversava com a Alessandra. Agora teria de conversar sobre isto amanhã e estragar o novo dia também. “Não”, ele gritou, batendo o pé. “Se temos que falar sobre o assunto, que seja agora.” Seus pais o olharam espantados, entreolharamse e então olharam para Pedro com desaprovação. “Muito bem” – suspirou a Sra. Silva – “devemos acabar com o assunto mesmo.” Ela foi para a sala e se sentou. Os outros a seguiram. “Vejam bem” – disse o pai – “cada oração que há no livro de orações é a palavra de Deus, não importa quem você é. Pode dizer a oração que quiser.” Ridván sentiu-se um pouco aliviado com isto, mas Pedro disse: “Tudo bem, mas vocês têm que admitir que algumas orações são para certas horas e algumas para outras ocasiões.” Ele fez sinal de pouco caso para Ridván. “Em primeiro lugar” – disse a Sra. Silva – “embora algumas orações realmente pareçam encaixar melhor em certas ocasiões do que em outras, cada um precisa decidir por si qual a oração que ele quer fazer. Afinal de contas, é ele que está orando. Em segundo lugar” – ela começou a falar com a voz mais séria – “ninguém deveria criticar a escolha do outro ou fazer gracinhas no meio de alguma oração; isto é ser mal-educado e cruel. Em terceiro lugar, tenho certeza que Ridván tinha um !"
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    bom motivo paraescolher aquela oração.” “E em quarto lugar” – bocejava o Sr. Silva – “estou cansado e quero dormir.” Ele se levantou e foi lá pra cima, dizendo “boa noite” à medida que saía. ais tarde naquela noite, Ridván se torcia e se batia na cama. Dava pra ver que Pedro estava dormindo, devido à respiração vagarosa e compassada, mas, embora ele realmente estivesse c a n s a d o , n ã o c o n s e g u i a r e l a x a r. V á r i o s pensamentos cruzavam sua mente: a Declaração do Báb há mais de um século; como era estanho que Alessandra tivesse vindo a sua casa; como ele era tolo de ter escolhido uma oração para uma menina; a palestra que ele teria de dar na sexta-feira – algo que ele tinha esquecido; algo sobre Alessandra que era a resposta ao seu problema... Finalmente, os pensamentos se embolaram e ele adormeceu. a manhã seguinte, a Sra. Silva deixou os meninos dormirem um pouco mais que o normal. Quando acordaram, Ridván percebeu que seu pai também tinha faltado ao serviço porque era um Dia sagrado. Antes do café, cada um fez uma oração. “Este é outro aspecto de nossas vidas que mudou desde que nos mudamos para Rouxinol”, Ridván pensou. Em Colibri, sempre faziam as orações matinais em família, reunidos, quase todos os dias. Atualmente, o Sr. Silva tinha de sair tão !"
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    cedo que haviamais tempo. Ridván sabia que os pais esperavam que os meninos fizessem as orações matinais sozinhos, mas ele geralmente ficava na cama até muito tarde ou se esquecia por completo. Então, de repente, ele se lembrava na escola, no meio da manhã, e prometia a si mesmo que levantaria mais cedo no dia seguinte – mas sempre esquecia. o café de manhã, a família discutia os planos para o dia. A Sra. Silva já tinha arrumado a comida para um piquenique; portanto, era só uma questão de decidir para onde iriam. Pedro queria ir ao shopping, em Colibri, mas o Sr. Silva achou que deviam ir para um lugar onde tivesse natureza. A Sra. Silva achava que um passeio no parque da cidade seria ótimo, mas os meninos não queriam porque não tinha graça. Ridván finalmente sugeriu que andassem de barco numa represa, que haviam visitado uma vez. “Se o tempo esquentar, podemos nadar” – ele disse a Pedro – “e sempre seria um passeio num grande parque”, ele acrescentou, olhando para a mãe. Todos gostaram da idéia. Os meninos foram buscar os calções de banho e agasalhos, e começaram a subir a escada, quando o telefone tocou. Era a Sra. Moreti, a mãe de Alessandra. la agradeceu a Sra. Silva pela noite passada e acrescentou que decidira não mandar a filha para a escola naquele dia, em parte devido ao horário e !"
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    em parte devidoao Dia Sagrado em si. “Por algum motivo parecia errado” – ela explicou à Sra. Silva no telefone – “mandar Alessandra para a escola num Dia Sagrado. Sei que não somos bahá’ís, mas, ora... não parecia certo.” “Nós vamos fazer um passeio de barco e um piquenique”, disse a mãe de Ridván. “Por que vocês duas não vêm juntas? Há bastante espaço e posso fazer mais alguns sanduíches.” “Puxa, eu adoraria, mas infelizmente não podemos. É que estamos esperando um telefonema de meus parentes hoje. Mas agradeço o convite, assim mesmo.” “Então, porque não deixa a Alessandra vir? Nós poderíamos apanhá-la e levá-la para casa depois”, disse a Sra. Silva, interrogando seu marido com o olhar. Ele fez que “sim” com a cabeça. A mãe de Alessandra pensou um pouco e então respondeu: “É claro, seria ótimo para ela – se vocês têm certeza que não iria atrapalhá-los. Posso fazer uns sanduíches para ela.” “Não, não” – disse a Sra. Silva ao telefone – “já fiz bastante. Ela vai precisar de um maiô e de uma toalha. Podemos passar por aí daqui uns 20 minutos.” As duas mulheres se despediram e a Sra. Silva desligou o telefone. Ridván ficou contente com as novidades, mas Pedro não gostou muito. “Ia ser um dia de família”, ele resmungou. Agora está tudo estragado – e por uma menina!” “Pedro” – disse o pai – “você anda reclamando !"
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    muito ultimamente. Ontemà noite, agora, novamente. Relaxe – divirta-se.” “Além disto”, acrescentou a mãe, “Dias Sagrados não são simplesmente feriados, você sabe. Também são oportunidades para ensinar a Fé aos outros – a Alessandra, por exemplo.” “Lá vai ela outra vez”, pensou Ridván, juntando o azedume de Pedro ao ensino. Mas ele estava estranhando a reação de seu irmão e lhe ocorreu que realmente seu irmão estava mesmo mais irritadiço que o normal nestas últimas semanas. Será que vir a Rouxinol também tinha apresentado algum problema para Pedro? E de repente, Ridván percebeu que pela primeira vez em muito tempo ele estava se preocupando com alguém que não fosse ele mesmo. Ele olhou para seu irmão com uma nova compreensão – talvez tinham mais em comum do que ele pensara. dia esquentou mais do que o Sr. Silva tinha esperado. Quando chegaram à represa estavam sós, exceto o dono dos barcos de aluguel, e ele se surpreendeu ao ver as crianças, já que era dia de aula. A Sra. Silva explicou que era um Dia Sagrado bahá’í e que os bahá’ís não trabalham nem vão à escola em Dias Sagrados. “Bahá’ís?” o homem refletiu. “Onde foi que ouvi este nome antes?” Ele parou para pensar, franzindo a testa. De repente, sua fisionomia se iluminou. “É uma religião, não é? Vocês são de Colibri? Lembro-me de ter ouvido algo assim lá.” Ridván se surpreendeu. Ele não encontrara !"
  • 35.
    muitas pessoas quetinham ouvido falar da Fé Bahá’í antes e, de repente, numa semana, ele encontra a família Moreti e este homem. O Sr. Silva explicou que a família havia se mudado recentemente de Colibri para Rouxinol e perguntou se o homem havia participado de alguma reunião em Colibri. “Não” – respondeu – “não tenho tempo para este tipo de coisa. Nem sei mesmo se acredito nestas coisas ou não. Deus e coisas assim...” Ridván levou um choque. Ele sabia que muitas pessoas não sabiam sobre Bahá’u’lláh e, portanto, não eram bahá’ís; mas não acreditar em Deus! Sem refletir, ele falou: “Mas todos acreditam em Deus!” O homem sorriu e a Sra. Silva disse suavemente ao filho: “Nem todos, querido.” O Sr. Silva sorriu também e disse ao dono dos barcos: “Acho melhor já lhe pagar pelo barco. E como não há muita gente por aí, talvez o senhor possa nos acompanhar para o almoço mais tarde e poderemos conversar mais.” O homem disse que teria de ver como as coisas estariam mais tarde e o Sr. Silva o pagou. odos colocaram coletes salva-vidas e entraram no barco a remo. Alessandra deu um pequeno tropeço quando entrou e o barco balançou de leve, mas Ridván a agarrou pelo braço para não cair. “Teremos que sentar bem quietinhos no barco”, disse o pai dos meninos. “Não podem pular ou se levantar de repente, senão o barco vira.” Todos fizeram sinal que concordavam e, quando !"
  • 36.
    já estavam acomodados,o Sr. Silva pegou os remos e, sem esforço maior, partiu remando. emaram pela represa por algum tempo e depois Pedro disse que gostaria de tentar remar. Ele trocou de lugar com o pai cuidadosamente e segurou os remos da mesma maneira. Embora estivessem presos nas beiradas do barco, o remo escorregou em direção à água e o cabo pulou da mão de Pedro de repente. Enquanto ele tentava alcançá-la, deixou escapar o outro, o qual o golpeou no estômago. O Sr. Silva deu uma risadinha – Pedro não estava realmente machucado, só assustado. Finalmente, ele conseguiu segurar ambos os remos ao mesmo tempo. Seu pai lhe mostrou como mergulhar os remos na água enquanto empurrava os cabos para longe. Após algumas tentativas, Pedro começou a remar vagarosamente, embora de uma maneira não muito suave. “Não enxergo para onde estou indo!”, exclamou. O Sr. Silva riu. “Sinto muito, mas isto faz parte de remar.” Pedro remou por mais uns minutos, com o pai lhe dando orientação às vezes. Ridván e a mãe conversavam com Alessandra. E então Pedro parou de remar. “Puxa! Cansei. Remar é serviço pesado – meus braços estão doendo.” “Querem que eu reme um pouco?” perguntou a mãe. !"
  • 37.
    idván estivera sentadoquietinho olhando o irmão. Ele sabia que podia fazer melhor. Agora esquecera de ficar parado. Pulou de repente, bradando: “Não, deixem pra mim, deixem pra mim!” O barco balançou violentamente e Ridván perdeu o equilíbrio. Na tentativa de evitar que o irmão caísse, Pedro estendeu de repente os braços e os remos foram puxados para trás, batendo-os na boca do estômago. Pedro tentou afastá-los, mas não conseguia e bateu outra vez, bem no peito. Todos gritavam ordens para os outros. Ridván balançava loucamente os braços, tentando o equilíbrio. A Sra. Silva se inclinou para frente para tentar segurar Ridván e enquanto fazia isto, o braço passou pelo rosto, derrubando os óculos-de-sol na água. As pernas de Ridván se dobraram debaixo dele e ele sentou abruptamente no fundo do barco. Este já balançou de maneira um pouco mais suave e todos olharam para o lado. Lá estavam os óculosde-sol da Sra. Silva, afundando lentamente na represa. “Sra. Silva” – exclamou Alessandra – “os óculos!” “Foram-se”, disse melancolicamente a mãe dos meninos. “Você deveria ter tido mais cuidado”, gritou Pedro com raiva. “Por que teve que pular daquele jeito?” !"
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    idván sentia-se miserável.Tudo o que fazia estava errado. “Sabe Pedro, você ficou tão engraçado, tentando afastar aqueles remos.” “Você também ficou um tanto engraçado” – disse o Sr. Silva à esposa, em tom de brincadeira – “quando se jogou pra frente daquele jeito. Não é pra menos que perdeu os óculos!” Então Alessandra descreveu Ridván, que ficou engraçado, balançando os braços e pulando de um pé para o outro. “Tem sorte de não ter caído n’água”, ela disse. Ridván ficou um pouco mais à vontade. Em seguida, Pedro deu uma gargalhada e logo todos estavam rindo. Depois o Sr. Silva disse: “Daqui a pouco, vamos sair d’água. Além disto, estou com fome. Vamos ver se o barqueiro quer almoçar conosco.” E trocando de lugar com Pedro novamente, ele pegou os remos e remou em direção ao ancoradouro. O barqueiro, no entanto, disse que agora estava muito ocupado – havia chegado mais gente – portanto, o Sr. Silva remou até o outro lado da represa, onde havia um bosque. Pedro e Ridván amarraram o barco a uma árvore e a Sra. Silva arrumou o lanche que havia trazido. epois do almoço, o Sr. Silva cochilou e a Sra. Silva e Pedro foram passear no bosque. Ridván e Alessandra permaneceram na margem da represa, comendo o finzinho dos brigadeiros e tentando fazer pedras pular pela superfície da água. !"
  • 39.
    “Fiquei muito contenteque você me convidou para vir junto hoje”, disse Alessandra. “Pois é, você tem sorte que a sua mãe deixou você faltar à aula, já que você não é bahá’í.” Ridván jogou uma pedra n’água. “Quase sou”, disse Alessandra, enquanto procurava uma pedra achatada na areia. “Acredito em Bahá’u’lláh e acho que isto é a parte mais importante, não é?” Ridván não sabia o que dizer. Nunca discutia este tipo de coisas com os outros – pelo menos, não com pessoas que não eram bahá’ís. Às vezes, nas aulas bahá’ís, o professor pedia a cada um que escrevesse os motivos pelos quais eram bahá’ís. Quando ele era mais novo, Ridván não podia ver outro motivo exceto o fato de seus pais serem bahá’ís, portanto, é claro que ele também era. Á medida que crescia, ele percebeu que não bastava só seguir seus pais – ele tinha de saber e entender por si mesmo. Ele sentia que agora ele sabia, sim, sobre Bahá’u’lláh – porque Ele viera, toda história e tudo aquilo – bem, sabia mais ou menos – mais que qualquer outra criança de sua idade, pelo menos! Mas acreditar em Bahá’u’lláh? Que pergunta! Bahá’u’lláh viera e pronto. Uma vez que você descobria sobre Ele, você se declarava, assinava um cartão e pronto – você era um bahá’í. Em voz alta, indagou: “O que você quer dizer por acreditar em Bahá’u’lláh?” Ele jogou uma pedra, que pulou duas vezes. Alessandra pensou por um momento e então ela também jogou uma pedra. Afundou. !"
  • 40.
    “Bem” – disseela – “ minha família é católica, de uma certa maneira. Não vamos à igreja nem nada, mas acreditamos em Deus. Quando minha mãe ouviu falar da Fé Bahá’í, resolveu descobrir o que era.” Ela jogou outra pedra, a qual também afundou. “Você tem que pegar uma pedra mais achatada,” disse Ridván. “Então ela foi falar com alguns bahá’ís, para descobrir do que se tratava e começou a freqüentar as reuniões bahá’ís. Aprendi bastante.” A terceira pedra também afundou. “Olhe! Assim!” Ridván mostrou como se joga a pedra com a mão estendida para fazê-la pular. “Muito bem, então vocês descobriram a Fé Bahá’í. Mas o que tem isto a ver com ‘acreditar ’ em Bahá’u’lláh?” Alessandra jogou outra pedra do jeito que Ridván mostrara. Pulou uma vez antes de afundar. “Ei! Consegui! ... o quê?” Ridván repetiu a pergunta. Alessandra respondeu: “Bem, nós, quero dizer, meus pais, não têm certeza se Bahá’u’lláh realmente foi enviado por Deus ou não. Mas eu tenho. Acho que isto faz de mim uma bahá’í, não é?” idván refletiu. Ele nunca encontrara alguém como Alessandra. Todas as crianças bahá’ís que ele conhecia tinham pais bahá’ís e sabiam sobre Bahá’u’lláh a vida inteira. Nenhum dos amigos da escola jamais quis falar de Deus ou religião. E eis !"
  • 41.
    aqui Alessandra, falandode Deus e de Bahá’u’lláh, sem se encabular. E decidiu que ela era bahá’í, mesmo que os pais não fossem. Como ele estava abismado! Mesmo assim, pensou se ela tinha razão: “Se você aceita Bahá’u’lláh, você é bahá’í. Afinal de contas, o que mais há?” Em voz alta, comentou: “É, acho que sim.” Os dois permaneceram em pé, em silêncio, na m a rg e m d o l a g o , j o g a n d o p e d r a s n a á g u a . Alessandra praticava fazer as pedras pularem, mas a maioria afundava. Ela batia palmas e soltava um gritinho de alegria cada vez que uma dava um pulinho. Ridván tinha mais experiência e fazia todas as pedras pularem. Ele estava perdido nos pensamentos. “Esta menina é realmente diferente”, refletia. Não tinha medo de dizer o que pensava e parecia estar completamente à vontade num ambiente novo. Afinal, ela só estava naquela cidade há uma semana e pouco! Ela fazia amizade com facilidade – todos na escola gostavam dela. E havia mais uma outra coisa. lessandra?”, disse Ridván, quebrando o silêncio. Ele pronunciou seu nome com cuidado, com o som de “ss” que ela usava. “Sim?” ela respondeu distraidamente, concentrando toda a atenção numa pedra que jogava n’água e que também afundara. “Você não se incomoda quando os outros pronunciam seu nome errado?” Finalmente, descobria o que havia nela que tanto o intrigava. !!
  • 42.
    “Não”, respondeu comsimplicidade. “Deveria?” “Bem, quero dizer, como é – dizem ‘Alexandra’ em vez de ‘Alessandra’. Isto não a incomoda?” “Não”, ela repetiu. “Acho até um pouco engraçado.” “Engraçado!” exclamou Ridván. “Como pode ser engraçado?” Alessandra o olhou com curiosidade. “Porque é”, respondeu. “Sei que sou diferente de todas as outras crianças por aqui. Vim de outro estado, falo com sotaque diferente, uso nomes diferentes para as coisas. Como isto por exemplo”, disse tocando o moletom. “Eu o chamo de abrigo. Acho engraçado ouvir você dizer moletom. E tantas outras coisas têm nomes diferentes por aqui! Estava vendo com a ‘mãinha’ – aí, ‘mãinha’, em vez de mãe. De qualquer forma, outro dia, na loja, ‘mãinha’ disse ‘fecho ecler’ e vocês chamam de ‘zíper’; vocês chamam de mandioca a macaxeira; bala, pra nós é queimado. A bala toffee que outro dia me deu, chamo de bombom. Nós nos cobrimos com ‘acolchoado’, que vocês chamam de ‘edredom’. Meu pai usa ‘peixeira’, que seu pai chama de ‘facão’. Você não acha engraçado?” e ela riu enquanto fazia uma pedra pular. idván refletiu. Dava pra entender seu ponto de vista. Realmente eram bastante engraçadas as palavras nordestinas. Mas isto não era igual a ter o próprio nome como motivo de gozação. !"
  • 43.
    “Mas o seunome”, ele disse. “Você não se importa que todos pronunciem errado?” “Não” – ela respondeu – “porque eu sei como deveria ser pronunciado. Sei algo que ninguém mais sabe! Por que deveria me incomodar se todos os outros estão errados? O problema é deles, não meu. Além disso, qualquer dia aprenderão a pronúncia certa e aí eles serão o motivo de riso. Mas nem me preocupo muito com isto.” Ela parou e então perguntou com suavidade: “É porque a Sra. Clara pronuncia o seu nome errado que está me fazendo todas estas perguntas?” Ridván hesitou. De certo ela não sabia quanto ele era motivo de gozação dos meninos por causa disto. Deveria lhe contar? “Bem...”, ele começou. “Ou é por causa dos meninos que fazem tanta gozação?” Então ela sabia! Ele sentiu um alívio! Finalmente, poderia conversar com alguém que o compreendia. Ela teria pena dele, estaria do lado dele. “É” – ele exclamou – “é isto mesmo. E odeio o meu nome. Não acho nem um pouco engraçado.” “Hum...”, disse Alessandra, pensativamente. Ela se sentou e começou a brincar com algumas ‘plantas-dorminhocas’. Quando as tocava, elas se fechavam. Ridván se sentou ao seu lado. “Posso entender seu problema” – ela disse – “mas, sabe, de certo modo você convida essa provocação.” Ridván a olhou, irado. Ela deveria estar do lado !"
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    dele. Que éque estava acontecendo? Ele nunca deveria ter levantado o assunto. Alessandra percebeu seu olhar e sorriu. “Não quero parecer grosseira, mas alguma vez você explicou aos outros como pronunciar seu nome ou participou da brincadeira? Eles só fazem isto, sabe, porque sabem que você vai ficar encabulado ou bravo.” idván começou a entender o que Alessandra queria dizer. Não, de fato ele nunca contara como era a pronúncia correta de seu nome. Desde o primeiro dia, a Srta. Clara dissera errado e ele tentara só uma vez corrigi-la, antes de desistir. No intervalo, naquele primeiro dia, algumas crianças da turma tinham se reunido em torno dele, assim como fizeram com a Alessandra no primeiro dia dela. É claro que perguntaram o seu nome, mas o acharam estranho e difícil de pronunciar. Mas, em vez de tomar parte na brincadeira, rindo junto como fez Alessandra quando pronunciaram o nome dela incorretamente, ele ficara encabulado e vermelho. Alessandra ainda estava falando. “Você tem que ajudar as pessoas, tá entendendo? Nunca ouviram um nome como o seu. E é claro que não percebem o que ele significa – suponho que você nunca lhes contou, não é?” ela perguntou, em tom de acusação. “O quê? Contar que meu nome significa Dia Sagrado? Aí sim que iriam rir de mim!” Alessandra o olhou bem e então deu uma gargalhada. Ridvánparecia incomodado. “Se você pensa que é só isto que significa seu !"
  • 45.
    nome, é melhorficar contente que não deram nome em homenagem ao dia de hoje! Imagine se você fosse ‘Declaração-do-Báb-Silva’!” Ridván achou graça da idéia. Logo viu a mãe e o irmão saindo do bosque, vindo em direção a eles. Acenaram. “Vamos nadar”, Pedro gritou e durante a meia hora seguinte, mais ou menos, os três nadaram e brincaram na represa. Não se falou mais a respeito de nomes ou problemas. inalmente, chegou a hora de sair e se enxugar. Esfregaram-se com as toalhas enquanto a Sra. Silva servia chá quente de uma garrafa térmica. Quando estavam mais ou menos secos, o Sr. Silva olhou o relógio e disse que achava que estava na hora de se arrumarem para voltar. Colocaram as coisas na cesta de piquenique e as tolhas no barco, puseram novamente os coletes salva-vidas e partiram para o outro lado do lago. Depois de alguns minutos, o Sr. Silva parou de remar e dirigiu-se a Ridván: “Se você prometer não saltar por todos os lados, pode vir aqui e remar um pouco, se quiser.” Ridván trocou cuidadosamente de lugar com o pai. Pegou os remos – eram mais pesados do que imaginava. Ele tentou fazer o que o pai mostrara a Pedro, mas por algum motivo os braços não queriam trabalhar juntos. Quando ele puxava o remo direito o barco saía numa direção. Quando puxava o esquerdo, de repente, saía na outra. “Juntos, puxe-os juntos”, gritava o pai. Ridván !"
  • 46.
    tentava, mas osremos pareciam ter vida própria. Era muito difícil sequer puxá-los pela água, quanto mais ao mesmo tempo! O Sr. Silva orientava: “Para dentro, dois, três; para fora, dois, três”, mas os remos se mexiam quase que sozinhos. Ridván os segurava com firmeza – não queria levar um soco no estômago, como seu irmão levara antes. Finalmente, ele conseguiu fazer ambos funcionarem mais ou menos ao mesmo tempo. Como seu braço direito era mais forte que o esquerdo, ele puxava mais o remo direito. O barco começou a girar. “Endireite o barco, filho, endireite o barco”, o pai gritava. Ridván se confundia e puxou mais forte ainda no remo direito. O barco começou a rodar em círculo. “O esquerdo, o esquerdo! Puxe o esquerdo!”, o Sr. Silva dizia. Ridván ainda puxava o direito. À medida que o barco girava em círculo na água, Pedro e Alessandra começaram a dar risada baixinho. O Sr. Silva ainda orientava: “Puxe o esquerdo, Ridván, o remo esquerdo.” Na tentativa de seguir as instruções do pai, Ridván empurrou o remo esquerdo na água – e o barco deu outra volta. Todos estavam gargalhando agora. Ele ergueu ambos os remos e suspirou. O barco parou. “Tente de novo”, o pai falou. “Puxe os dois na mesma hora.” Ridván deu de ombro, fez que sim com a cabeça !"
  • 47.
    e começou denovo. Desta vez parecia estar dando certo, pois o barco partiu numa linha mais ou menos reta, em direção à margem. Após alguns minutos, Ridván percebeu que Pedro tinha razão. Era serviço pesado mesmo! Ele trocou de lugar com a mãe, de muita boa vontade, depois que Alessandra recusou um convite para tentar remar também. “Afinal de contas, quero chegar em casa ainda hoje!”, ela disse. epois de todo esforço, conseguiram chegar ao ancoradouro. A Sra. Silva ajeitou as crianças no carro, enquanto o Sr. Silva amarrava o barco. Ele parecia demorar toda vida. “Desculpem, pessoal”, ele disse, quando retornou. “Eu só estava trocando uma palavrinha com o barqueiro. Dei o número do nosso telefone, caso ele quisesse falar sobre a Fé.” Não conversaram muito no caminho de casa – estavam cansados demais. A Sra. Silva distribuiu maçãs. Ridván mastigava a sua enquanto pensava sobre os acontecimentos do dia. Que será que Alessandra queria dizer quando comentou que seu nome tinha um significado? Ele remoía o assunto durante todo o caminho de casa, mas não conseguia compreender. arde naquela noite, após deixar a Alessandra em casa, jantar e lavar a louça, Ridván de repente se lembrou que no dia seguinte teria de contar na !"
  • 48.
    aula sobre oDia Sagrado. Ele não gostava de fazer palestras na frente da turma, mas não via maneira de escapar. A Srta. Clara fazia todo mundo falar, cedo ou tarde. O que será que ele poderia dizer? Pedro estava ocupado na sua escrivaninha, escrevendo. “O que você está fazendo?”, Ridván indagou, sem muito interesse. “É só uma coisa que tenho de aprender para amanhã”, Pedro respondeu. “Lição de casa, né?”, Ridván comentou, solidariamente. Sempre havia tanta lição! “Não é bem isso”, Pedro respondeu. “Fiquei de contar à minha turma por que não fui à escola hoje. Pensei que seria melhor escrever um esquema do que queria falar.” “Eu também tenho de fazer isto”, Ridván disse, começando a se interessar. “O que você vai dizer?” “Tá, leia você mesmo”, Pedro disse, ao entregar o papel ao irmão. Ridván olhou com curiosidade. Era só uma lista: 1) Báb – quem Ele era; 2) Mullá Husayn – o que ele fez; 3) A noite de 22 de maio de 1844; 4) Por que o Báb veio; 5) Bahá’u’lláh; 6) Ridván; 7) Os princípios – um só Deus, um só povo, uma só religião. !"
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    idván levou umsusto ao ver o seu nome na l i s t a . “ P o r q u e i s t o e s t á a q u i ? ” p e rg u n t o u , apontando para o sexto item da lista. “ R i d v á n . Vo c ê s a b e , a D e c l a r a ç ã o d e Bahá’u’lláh. Você não pensou que era você, pensou?”, Pedro disse, mexendo com o irmão. “Mas o que isto tem a ver com a Declaração do Báb?” Ridván perguntou. Seu irmão disse: “Pensei que seria boa idéia contar um pouco sobre a Fé Bahá’í, também. Se o Báb veio para contar às pessoas que Bahá’u’lláh viria em seguida, eu não poderia deixar de contar à turma sobre o Báb, sem falar de Bahá’u’lláh, poderia?” Ridván começou a ficar impaciente. “Mas por que Ridván?”, ele gritou. “O que isto tem a ver com Ridván?” “Meninos! Que barulheira é essa, aí em cima?”, o Sr. Silva gritou lá da sala, no andar de baixo. Pedro olhou seu irmão com curiosidade. “Não p r e c i s a g r i t a r, n é ” , e l e d i s s e , u m p o u c o n a defensiva. Houve uma pausa e ele começou de novo. “Como eu estava dizendo, Ridván é a data em que Bahá’u’lláh declarou que era o Prometido. Os dozes dias no jardim de Ridván. Pelo menos isto você deve ter aprendido na aula bahá’í!” Sendo mais velho, Pedro sempre estivera em turma diferente de Ridván. Ridván sacudiu a cabeça. Tinha certeza que nunca tinha ouvido isto antes. Mentalmente, ele repassou as coisas que aprendera na aula bahá’í: orações, é... uma porção de orações; os Reinos de !"
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    Deus – quantasvezes ele aprendera sobre os diferentes reinos e os diferentes Manifestantes; um em seguida do outro, até Bahá’u’lláh. E era praticamente só isso. Bom, havia os princípios também. E o calendário. Ah, e algumas canções bahá’ís. “Não”, ele respondeu. “Acho que nunca chegaram lá.” “Você quer dizer que durante todo este tempo, você nunca soube da Declaração de Bahá’u’lláh?”, Pedro perguntou. “É claro que isso eu sabia”, Ridván respondeu. “Sei que Ridván é um Dia Sagrado, também. Só não sabia que os dois eram a mesma coisa.” “Mas você não presta atenção nas comemorações dos Dias Sagrados?” Pedro perguntou. “Você já assistiu muitas comemorações de Ridván!” Ridván corou – ainda ontem à noite estava pensando que deveria prestar mais atenção nas reuniões. “Nem sempre”, ele sussurrou. “Pois deveria”, Pedro retorquiu. “Poderia aprender alguma coisa.” Ele se debruçou na escrivaninha e começou a escrever novamente. idván começou a pensar que talvez seu irmão pudesse lhe ajudar com a pergunta que o estava atormentando. Alessandra tinha dito à tarde que o nome dele tinha um significado. Será que Pedro sabia qual era? Ele resolveu tentar. “Você poderia... você poderia me contar o que significa ‘Ridván’...?” Ele engoliu em seco. “... por favor?” !"
  • 51.
    Pedro se viroupara o irmão. Parecia que ia dar risada, mas ele deve ter refletido melhor, pois disse numa voz suave: “Ridván é um jardim perto de Bagdá, onde Bahá’u’lláh ficou por dez anos quando foi exilado da Pérsia. Ele havia sido mandado para outro lugar, mas, antes de sair de Bagdá, Ele ficou neste jardim por doze dias. Foi lá que Ele disse a todos que era Aquele que o Báb dissera que viria.” Pedro parou e olhou seu irmão. Ridván estava com o olhar fixo na distância, tentando se concentrar no que o irmão dizia. Pedro continuou: “isto foi Sua Declaração, entende? O jardim era um lugar muito bonito, um paraíso, por isto é chamado Ridván. Isto quer dizer paraíso. Suponho que você sabe o que é paraíso, né?” Ridván fez que sim com a cabeça – isso tinha aprendido na escola. Ele se manteve em silêncio. De repente, toda sua visão mudara. Remoía na mente o que o irmão dissera. Embora seu nome fosse muito diferente, sem dúvida era um nome especial. Então era isto que Alessandra queria dizer quando comentou que seu nome tinha um significado. Agora ele compreendia porque ela riu quando ele disse que era simplesmente um Dia Sagrado – era muito mais que isto! Ridván se sentia mais feliz do que jamais estivera desde que chegara a Rouxinol. Queria contar a Pedro todos os seus problemas com Eduardo e os outros meninos, mas Pedro estava absorto na sua tarefa. E então Ridván se lembrou de Eduardo! Ele nem se importaria que Ridván !"
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    fosse um nomebahá’í especial – Eduardo nem era bahá’í. Ridván se entristeceu outra vez. Mesmo que seu nome tivesse um significado maravilhoso, Eduardo e seus amigos ainda gozariam dele. Na verdade, nada realmente tinha mudado. Então Ridván se lembrou de algo que Alessandra dissera: ela não se incomodava que a chamassem de ‘Alexandra’ em vez de ‘Alessandra’, porque ela mesma sabia a pronúncia certa do seu nome. Eram os outros que estavam errados – e ela dissera que um dia eles aprenderiam o certo e veriam que eles mesmos eram motivo de piada, mas Alessandra também dissera que era preciso ‘dar uma mão’ para as pessoas. De fato, ele refletiu, não podia esperar que soubessem pronunciar certo seu nome ou compreender seu significado, se ele nunca havia contado. Mas ele poderia contar agora, depois de tanta gozação? Talvez ele pudesse abordar o assunto de alguma maneira na sua palestra amanhã. Isso mesmo! Ele faria o mesmo que Pedro – falaria do Báb e Bahá’u’lláh juntos e depois explicaria como seu nome estava no assunto. or um instante, Ridván se sentia satisfeito. Pegou um lápis e papel e começou a escrever rapidamente uma lista como a de Pedro. De repente, deixou o lápis cair e bateu na testa com a mão. Eduardo nem estava na turma dele! Nem ouviria a palestra de Ridván. Ridván se sentia miserável. Sentou na beirada da cama, olhando o chão fixamente. Os olhos !!
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    focalizaram numa mancharósea no chão – o que seria? Ele se dobrou para apanhá-la. Era uma das pétalas que caíram do seu livro de orações na noite anterior – aquela que ele não alcançara. Deve ter saído debaixo da cama. Ridván alcançou o livro de orações. Havia um marcador e o livro abriu naquele lugar, Ridván colocou a pétala entre as páginas e deu uma olhada na oração da página marcada. Era aquela que ele lera na noite anterior. Ele estremeceu à lembrança de seu erro, mas leu a oração novamente: “... remove meu pesar, faze-me a d o r a r Tu a B e l e z a , a f a s t a - m e d e t u d o , salvo de Ti...” Se ele se concentrasse em se aproximar de Deus, talvez a gozação cessaria. Mas ele duvidava – Eduardo era assim mesmo. Se ele tentasse ser um bahá’í melhor talvez as coisas não o incomodariam tanto. Ele simplesmente tentaria ser corajoso ao compreender que Deus o ajudaria – não era assim que todas estas orações diziam? Ele se lembrou que uma das orações que decorara era justamente para este propósito – pedir ajuda a Deus. Na verdade, era uma oração do Báb. Ele fechou os olhos e recitou: “Há quem remova as dificuldades a não ser Deus? Dize: Louvado seja Deus! Ele é Deus. Todos são Seus servos e todos obedecem a Seu Mandamento.” Já estava se sentindo melhor. “Amanhã” – ele disse para si mesmo, à medida que se arrumava para dormir – “farei isto amanhã mesmo.” !"
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    aquela noite, Ridvánnão dormiu muito bem. Duas vezes acordou de sobressalto ao se lembrar do suplício que o aguardava. A palestra na sala de aula seria relativamente fácil, já que Pedro tinha lhe dado a idéia de fazer a lista. Mas confrontar Eduardo e seus amigos... Só de pensar nisto, Ridván se arrepiava. Ele se preocupava muito com isto. Mas cada vez que acordava acabava finalmente se lembrando da decisão que tomara de confiar em Deus e recitava novamente a oração do Báb. Isto o acalmava e por fim adormecia, sonhando com represas e óculos-de-sol e remando, barcos cheios de nordestinos... o dia seguinte, Ridván acordou mais cedo que de costume; ele murmurou a oração do Báb à medida que se levantava, contente consigo mesmo por ter se lembrado das orações matinais, finalmente. Ele deu “tchau” para a mãe ao sair para a escola. Caminhando pela rua, ele pensava na decisão da noite anterior e na palestra que daria naquele dia. Mas como o tempo estava legal, seus pensamentos logo vagavam para outras coisas: vôlei naquela tarde, férias na semana seguinte, quando poderia visitar seus amigos em Colibri, uma viagem ao litoral, se o tempo continuasse bom. E então ele viu Eduardo sentado num muro com os outros meninos. Todo o pensamento das férias que se aproximavam desapareceu. O coração de Ridván batia cada vez mais depressa, à medida que se aproximava do grupo. Ele queria sair correndo – sabia que gozariam dele outra vez. Dito e feito! Aí !"
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    vinha Eduardo, quejá descera do muro. “Oi Divã”, ele gritou. Um menino fez uma careta e gritou: “Divã, Divã.” Outro entrou no cântico conhecido: “Divã, pã, pã, pã, Divã!” Ridván sentia a cor tomar conta de seu rosto. Talvez devesse passar como sempre fizera. Então decidiu que não. Tinha de acabar com isto de uma vez por todas. Lembrou-se da noite anterior e repetiu a pequena oração do Báb em silêncio. Respirou fundo. E então ele sorriu, dirigiu-se diretamente ao Eduardo e disse numa voz amigável e calma: “Oi, Eduardo. Meu nome é ‘Rez-van’.” !"
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