Mal Estar, Sintoma e Sofrimento
(O sofrimento hoje no Brasil)
É preciso ser feliz? O Objetivo é discutir o sofrimento nessa cultura do sucesso.
“Como o brasileiro sofre hoje de acordo com a escuta de um psicanalista?”
“Se alguém procura um psicanalista em qualquer situação é porque ali há um sofrimento”.
“Ninguém procura um psicanalista porque está bem. Se for o caso, melhor que não o faça. No
mínimo, irá virar uma questão”.
“A clínica psicanalítica funciona como um espelho da cultura, o reflexo da cultura”.
“Quando um sujeito leva seu sofrimento a um psicanalista, ele não leva simplesmente as questões
ligadas a ele e ao mundo. Ele leva questões ligadas no mundo”.
“Ali onde se sofre, é aí que o psicanalista vai ter acesso”.
“Para a psicanálise, desde Freud, há uma relação intrínseca entre Inconsciente, Subjetividade e
Cultura. Donde se parte do princípio básico e que a constituição da subjetividade humana e
também as modificações que ocorrem com essa subjetividade se dão no campo da ‘alteridade’.
Alteridade é o campo da relação com o outro. Ou se preferir, a subjetividade se constitui e se
modifica no que a gente chama de Laço Social. Neste sentido nos interessa muito de perto,
examinar o que estabelece entre a subjetividades e das mudanças da ordem social, de ordem
política, econômica, financeira de uma época. Em outras palavras, interessa ao psicanalista
estudar as relações entre contemporaneidade e processos psíquicos”.
Neste mesmo pensamento, Lacan reforça a relação clínica e cultura. E escreve: “Que antes
renuncie a tudo isso (exercer a psicanálise) aquele que não conseguir alcançar em seu horizonte
a subjetividade da sua época.
“Freud era um grande crítico da cultura.”
“Qual a crítica que fazemos hoje da cultura a qual pertencemos e a qual testemunhamos?”
“Hoje sofre-se de um modo que não é igual a que se sofria na época de Freud. Lembrando que
as estruturas continuam as mesmas. Mas, as contingências são outras. A cultura é outra, o tempo
é outro.”
“Qual a dor, o sofrimento que acompanham a clínica hoje?” E aqui não falamos apenas em
consultórios, na clínica, mas também nas instituições, especialmente nas instituições de saúde.
“O modo singular de sofrimento de cada um que interessa a Psicanálise”.
“Dificilmente alguém vai procurar um psiquiatra quando sai do cinema ou ler um livro. Mas, não
é estranho procurar o psicólogo ou psicanalista quando é aprovado em um melhor cargo na
empresa, quando seu irmão foi morar em outro país, etc. São coisas que não tem no DSM”.
“Lembrando que esses fatores (ir ao cinema, etc), não são fatores de riscos, fatores
desencadeantes de patologias. Nem mesmo podemos dizer que sofrer é uma patologia”.
“É possível que pessoas sofram por se sentirem arruinadas pelo êxito. Esse sofrimento é muito
subjetivo. Ela sofre por alguma razão que não tem em manual algum. Sofre na realização de um
projeto que se dedicou a vida inteira. São coisas que nem o paciente sabe. Por isso, fala-se tanto
na psicanálise “sofre-se pelo o que não se sabe”.
“O que interessa na psicanálise é sofrimento singular de cada um. O que a psicanálise chama de
lógica da singularidade”.
“Alcançar ou chegar perto disso que chamamos em nossa cultura, alguns ideais de felicidade,
coincide muitas vezes com o motivo pelo o qual alguém procurou um tratamento”.
“Vivemos em uma cultura que propõe uma felicidade articulada nesse campo do coletivo. Como
se tivesse a possibilidade de uma felicidade possível para todos. E a psicanálise por sua vez, vem
atestar, com segurança de que cada um perto desses ideais sofre ao seu modo. E, portanto, se o
que nos interessa de cada um, nós só podemos pensar em tratar o sofrimento de cada um”.
“Se a subjetividade se constituí neste campo da alteridade, todo expressão de sofrimento trás em
si uma demanda de reconhecimento. Isso é uma coisa bem sútil. O que seria isso: sofrer é
demandar reconhecimento”?
“Podemos constatar o sofrimento que decorre do desejo de reconhecimento. Por exemplo, as
pessoas não nos reconhecem no lugar que a gente acha que devia ser reconhecido ou gostaria de
ser reconhecido. É uma possiblidade. Há também outra possibilidade: A falta de reconhecimento
do nosso desejo. A falta de reconhecimento por parte do outro nossa condição de desejante”.
“A condição desejante de um sujeito equivale por estrutura sua condição de faltante. As pessoas
muitas vezes tendem a nos ver por completos, inteiros, sem faltas. Isso é uma fonte muito
importante de sofrimento.”
“É muito difícil para algumas pessoas se colocarem no laço social como portadores de falta, por
conta desses ideais de completude e felicidade que toma conta da nossa cultura. Essa situação,
faz com que as pessoas comecem a interpretar suas faltas como falhas, desordens que precisam
ser ordenadas. Elas se apresentam como pessoas problemas. Não conseguem ver a falta como
elemento que lhe constitui como sujeito”.
“Qual a relação do sujeito com os ideais de completude, beleza, felicidade?”
Além do Ideal de “Autenticidade e Autonomia”...
O ideal é que você seja autentico. Mas, lê-se por autêntico, “seja você mesmo”. Isso é
complicado: ser você mesmo, por ondem de uma cultura. Enfim... Aqui nos ajuda a melhor
compreender as condições de Mal Estar, Sintoma e Sofrimento.
Agora iremos tentar entender melhor em 3 ideais:
1) O IDEAL DE SUCESSO – As transformações da cultura ao longo do tempo permitiram
que a felicidade fosse deslocada do campo do sonho (sonho de ser feliz) ao campo dos
ideais. Quando a felicidade sai do campo do sonho para o campo do ideal (como aquilo
que norteia, que é um norte para a vida subjetiva de uma pessoa, é aquilo que orienta a
decisão de uma pessoa). Um exemplo bastante comum, são os jovens diante do desafio
da escolha de uma profissão. Isso gera angústia. É bem difícil realizar uma escolha assim
com os ideais da cultura. Se fosse pelos ideais da família, seria tranquilo, ele iria direto.
O problema é que se você diz para um jovem “tenha visão de futuro, você abre uma porta
chamada angústia”. Talvez a ideia de uma visão de futuro seja uma das coisas mais
angustiantes que uma pessoa lúcida possa imaginar. Se ficarmos presos nessa visão de
futuro, talvez não queiramos estar aqui para ver.
Portanto, decidir alguma coisa hoje pautada na visão de futuro, alguém que teve uma crise
de angústia, só pode planejar o seu futuro baseado em elementos de seu passado. Ele vai
ter que se posicionar frente a algo que lhe antecedeu para imaginar o que ele deseja ser
daqui para frente.
Na visão da psicanálise, toda decisão a ser tomada, não será tomada apenas no tempo
presente, porque os elementos do tempo presentes são muito frágeis. Para decidir coisas
ligadas ao futuro a gente lança mão dos ideais e lança mãos das experiências passadas,
muitas delas que a gente nem lembra. Decisão é uma coisa muito difícil: estamos diante
o momento presente, entre o que a gente não lembra (passado) e o que a gente não sabe
(futuro). Não é uma das situações psíquicas mais confortáveis...
Se decisões ao ser tomadas, levam em conta os ideais. Os ideais de nossa cultura (que
não é uma só) muitas vezes podem ou são representadas por expressões, como: “seja
feliz”, “tenha sucesso”, “seja autêntico”, “seja bela”, “tenha autonomia”, “seja você
mesmo” (obedeça a mim, mas seja você mesmo. Engraçado não?).
Tudo bem que os ideais tem a função de orientar decisões. O problema é quando os ideais
são interpretados por cada sujeito como “imperativos”. Aí começa a entrar em um campo
bastante problemático, porque está interpretação que transforma os ideais em
imperativos, transformam frases do tipo “o ideal é que você seja” em frases do tipo “seja,
porque você tem que ser”. Essas frases são bem diferentes.
“Se somos pessoas que nos constituímos na relação com o outro, no que a psicanálise
chama de campo da alteridade. É claro que a autonomia é uma condição psíquica que não
e dada, ela vai ser constituída, construída junto justamente numa relação na qual eu sou
um dependente, porque eu chego no mundo com a condição essencialmente de desamparo
e não consigo me tornar de fato um ser humano se não for pelo acolhimento de um outro”.
A Autonomia é uma condição psíquica altamente complexa, herdeira portanto numa
relação de dependência, herdeira portanto numa relação que Lacan chama de “alienação”.
O que quero dizer é: “ninguém consegue chegar nesta condição de autônomo se não tiver
sido um bom desamparado”. Ninguém consegue se separar do outro se não tiver sido
muito bem alienado. É nesta relação de dependência que eu me constituo como um sujeito
autônomo. Preciso do outro para ser autônomo. É essa saída, de uma posição de alienação
para uma oposição de autonomia. O sujeito não faz isso sozinho. Ele faz isso por meio da
relação com o outro.
Na atualidade, não apenas nos discursos da educação e na saúde em si, vê-se muito um
imperativo de autonomia.
Na saúde tem muito isto, o que pelo pouco conhecimento que tenho na área, acho
preocupante, de que um sujeito que está doente, ele está mais grave se ele tiver menos
autonomia. Se ele estiver menos dependente do cuidado de um outro.
Para a Lívia Tourinho (Psicanalista da USP), acredita que “educar ou administrar
situações aonde falta autonomia acaba sendo muito perigosa ter isso ao pé da letra”. Por
exemplo, uma criança escutar uma expressão como essa de “seja independente, se vire
sozinho”, as chances de uma criança escutar uma expressão dessa como abandono,
desemparo é muito grande. Isso pode ser até mesmo traumático. A ideia de que você tem
que se virar sozinho, demonstra uma ideia que de você não me interessa, o que acontece
com você não me interessa. Não estou generalizando, mas isso põe pais muito bem
intencionados muito angustiados. “Até que pondo deixar sozinho é cuida ou abandonar?”
Eis aí uma questão bem contemporânea.
O importante aqui é que vocês entendam que qualquer tipo de protocolo é arriscado,
porque ele nega a singularidade de cada um.
Para ter uma criança autônoma, precisamos de várias condições. Duas delas talvez
mereçam ser destacadas aqui:
• Precisamos de um adulto que acredite que ali naquela criança há um sujeito capaz
de decidir.
• E a outra condição é o desejo. O desejo deste adulto de que está criança torne um
sujeito capaz de decidir. (Portanto, estou dizendo de um desejo de produzir um
sujeito abrindo mão da criança como objeto de “própria satisfação”).
Sendo assim, a questão da autonomia e da autenticidade acabe sento muito irônico que a
gente escute algo assim como ideais da sociedade... você tem que ser autônomo, tem que
ter sucesso, etc. Isso não se compra. Isso faz parte da subjetividade e é constituído ou não
em um determinado momento da vida.
“A autonomia é a condição psíquica de se diferenciar do outro. Não é se distanciar do
outro. Não é mandar o filho para o fim do mundo para ele voltar autônomo. E ainda diz:
ele voltou ótimo. Não depende nada de mim. Tudo bem. Não depende, mas
provavelmente vai estar gravemente, porque não tem condições de decidir nada. A
autonomia é a condição de decidir”. “Não sou aquele que me sirvo como objeto de
satisfação de quem me rege”.
2) AS NARRATIVAS DE SOFRIMENTO, MODOS DE APRESENTAÇÃO DO
SOFRIMENTO
Narrativas são formas de apresentação.
Há 3 narrativas de sofrimento:
1 – NARRATIVA DO FRACASSO PESSOAL
A narrativa que traz consigo uma forma de sofrimento, onde esse sujeito se apresenta
como fracassado. (Os imperativos produzem fracassados, pois eles trazem em si algo da
forma do impossível).
Se eu sigo o imperativo da autonomia, como um soldado, parece que sou autônomo. Mas,
não sou. É uma contradição ao próprio conceito de autonomia.
Ele sofre por se sentir um fracassado, pois acredita que não é o que se esperava dele. E se
apresenta desta forma, com esse tipo de narrativa.
Há uma grande diferença entre “impossível e impotência”. O sujeito interpreta o
impossível de ser com algo relativo à sua impotência. Por exemplo, não posso sair daqui
hoje e ir tomar uma cerveja com o meu amigo na Bahia. Portanto, não posso dizer que
sou um fracasso por isso e/ou me sentir impotente.
Se o sofrimento tem a ver com a demanda de reconhecimento. Está seria uma demanda
de reconhecimento de uma impotência que nós não podemos avalizar. Neste caso, não se
trata de impotência. Trata-se de impossibilidade. Se interpreta o impossível como
impotência, talvez seja uma ilusão de onipotência.
Você pode desejar o impossível. Mas, transformar isso em impossibilidade é sintoma.
Por exemplo, se doentes em hospitais transformam o impossível em impotência, elas
perdem empotencia para lutar.
“Ante o impossível, cabe o luto. Frente ao que é possível, cabe a luta”.
As pessoas hoje têm vergonha de adoecer.
“O corpo é prova viva da passagem do tempo”. É só prestar atenção no corpo, que vemos
o tempo passar.
O adoecimento é uma experiência singular que indica que ali, onde você não pensava
nisto, a finitude. Por isso, é muito normal quando a pessoa estar doente, pergunta: vou
ficar bom?
O adoecimento impõe limites. Talvez por isso as pessoas hoje em dia tem vergonha de
adoecerem.
– Sofrimento e sintoma não são a mesma coisa –
“Uma das formas de alguém tornar manifesto o sofrimento é o sintoma, fazer um sintoma,
inclusive um sintoma no corpo. Ele não sabe falar do que ele sofre. Mas, ele sofre por
meio do corpo”.
“Estar doente e não ter seu sofrimento reconhecido como seu é um pesadelo. Isso aumenta
significativamente a dificuldade de nomeação do mal-estar, do modo ruim de estar no
mundo”.
“Há uma tendência importante no discurso técnico-cientifico se tomar o sofrimento pela
vertente da patologização. E a consequência disso é a medicalização, que já está até
mesmo na infância. Portanto, tomar o sofrimento pela vertente da patologia não trata. Isso
pode indicar uma indisposição a lidar com o sofrimento.
3) A NARRATIVA DE ALGUÉM QUE SE APRESENTA SEM NENHUM TIPO DE
QUESTIONAMENTO
A pessoa chega dando o seu diagnóstico. Não se implica, não tem nenhum tipo de autoria.
Há uma expressão de vazio do sentido da vida.
As pessoas antes falavam da dor da perda. Era uma elaboração de luto.
É uma demanda melancólica.
Mas, neste caso, o paciente é o único objeto perdido.
Nestes pacientes é importante estudar as relações dele com os imperativos de sucesso.
Neste caso, lida-se de um sofrimento sem sujeito.
- Como tratar este sofrimento hoje?
Lacan dizia; “Que renuncie esse que não pode prestar atenção na subjetividade da sua
época”.
Quais são os dispositivos clínicos que a psicanálise tem para fazer emergir um sujeito e
possibilitar a ele processo criativos, distanciá-lo desta lógica da alienação, processo
criativos e modos de subjetivação mais aliado com a subjetividade?
Quais são os conflitos que estas que se apresentam sem conflitos deviam ter?
Os jovens de hoje escondem o que senti. Por que, sentir determinadas coisas, parece que
não implica em uma boa aceitação, em um determinado grupo. “Eles escondem que
sofre”. E muitas vezes escondem isso até de si mesmo.
Então, no fundo, talvez não estamos diante de um sofrimento sem sujeito, mas sim de
alguém que esconde de si mesmo o fato humano de sofrer. Eles sofrem por muitas coisas
diferente da época do Freud, mas há algumas coisas que permanece: eles sofrem pelo o
que não tem.
Quando a gente vive em uma cultura de sucesso, onde os ideias se transforma em
imperativos, a gente encontra um leque de possibilidades muito diferentes dos nossos
avós, que viviam em uma cultura bem diferente. O pai dizia você vai ser isso, porque eu
sou seu pai e quero que você seja. E hoje, esse sonho de liberdade parece ter se
transformado em um pesadelo, gerando angústias. As pessoas tem muitas dificuldades de
decidir o que elas querem. E diante destas dificuldades, elas se retornam não só aos ideais,
mas aos imperativos.
“O sonho de liberdade muitas vezes se transforma no pesadelo da escolha”.
4) COMO A PSICANÁLISE TEM PENSADO EM TRATAR DISTO HOJE?
Trata-se levando em conta levando em conta os princípios freudianos de excelência. Se a
subjetividade se constitui na relação com o outro, na alteridade. A pergunta de um
psicanalista hoje é: “Qual é outro, outro, eu devo oferecer a esse que me procura”? Qual
é a posição que eu ocupo nisso que chamamos de relação transferencial? O psicanalista
não é o ideal que vai se ofertar a esse que lhe procura, lhe pedir inclusive orientação.
Esse tipo de cultura produz um sofrimento. E todo tipo de sofrimento produz um mercado.
Não é a toa que a gente ver o quanto é pródigo o mercado de “Coach”. (Alguém precisa
me orientar, pois não sei o que fazer da vida). Nisto coloco também as religiões, as
tribos... “Me digam o que tenho que ser”.
A psicanálise não tem nada disto para oferecer.
Todo mercado que decorre desse tipo de cultura, concorre com a psicanálise na medida
em que o psicanalista não vai se oferecer no lugar de ideal, sobretudo, ele está entendendo
que a pessoa que lhe procura sofre, demandando mais uma vez, como se fosse droga, uma
“nova alienação”.
Então, na falta de quem determine um caminho, quando essa pessoa chega ao consultório,
o psicanalista vai lhe fazer um convite a “resistir” a submissão. A psicanálise convoca o
sujeito a subverter está ordem, fazendo oposição clara a esse movimento. Porque a
psicanálise desde o princípio se põe a favor da alteridade, mas também da singularidade.
Nesta relação com o analista o analista não se oferece ao sofrimento do paciente como
lugar de ideal, mais um imperativo. Mas o psicanalista sabe perfeitamente sabe
perfeitamente que a psicanálise, ela no própria no lugar ideal fracassa. O vigor da proposta
psicanalista, está justamente na proposta de fazer com que este seja um (1) entre vários.
Mais um, singular, sem comparação. -

Livro do Mal Estar, Sintoma e Sofrimento

  • 1.
    Mal Estar, Sintomae Sofrimento (O sofrimento hoje no Brasil) É preciso ser feliz? O Objetivo é discutir o sofrimento nessa cultura do sucesso. “Como o brasileiro sofre hoje de acordo com a escuta de um psicanalista?” “Se alguém procura um psicanalista em qualquer situação é porque ali há um sofrimento”. “Ninguém procura um psicanalista porque está bem. Se for o caso, melhor que não o faça. No mínimo, irá virar uma questão”. “A clínica psicanalítica funciona como um espelho da cultura, o reflexo da cultura”. “Quando um sujeito leva seu sofrimento a um psicanalista, ele não leva simplesmente as questões ligadas a ele e ao mundo. Ele leva questões ligadas no mundo”. “Ali onde se sofre, é aí que o psicanalista vai ter acesso”. “Para a psicanálise, desde Freud, há uma relação intrínseca entre Inconsciente, Subjetividade e Cultura. Donde se parte do princípio básico e que a constituição da subjetividade humana e também as modificações que ocorrem com essa subjetividade se dão no campo da ‘alteridade’. Alteridade é o campo da relação com o outro. Ou se preferir, a subjetividade se constitui e se modifica no que a gente chama de Laço Social. Neste sentido nos interessa muito de perto, examinar o que estabelece entre a subjetividades e das mudanças da ordem social, de ordem política, econômica, financeira de uma época. Em outras palavras, interessa ao psicanalista estudar as relações entre contemporaneidade e processos psíquicos”. Neste mesmo pensamento, Lacan reforça a relação clínica e cultura. E escreve: “Que antes renuncie a tudo isso (exercer a psicanálise) aquele que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade da sua época. “Freud era um grande crítico da cultura.” “Qual a crítica que fazemos hoje da cultura a qual pertencemos e a qual testemunhamos?” “Hoje sofre-se de um modo que não é igual a que se sofria na época de Freud. Lembrando que as estruturas continuam as mesmas. Mas, as contingências são outras. A cultura é outra, o tempo é outro.”
  • 2.
    “Qual a dor,o sofrimento que acompanham a clínica hoje?” E aqui não falamos apenas em consultórios, na clínica, mas também nas instituições, especialmente nas instituições de saúde. “O modo singular de sofrimento de cada um que interessa a Psicanálise”. “Dificilmente alguém vai procurar um psiquiatra quando sai do cinema ou ler um livro. Mas, não é estranho procurar o psicólogo ou psicanalista quando é aprovado em um melhor cargo na empresa, quando seu irmão foi morar em outro país, etc. São coisas que não tem no DSM”. “Lembrando que esses fatores (ir ao cinema, etc), não são fatores de riscos, fatores desencadeantes de patologias. Nem mesmo podemos dizer que sofrer é uma patologia”. “É possível que pessoas sofram por se sentirem arruinadas pelo êxito. Esse sofrimento é muito subjetivo. Ela sofre por alguma razão que não tem em manual algum. Sofre na realização de um projeto que se dedicou a vida inteira. São coisas que nem o paciente sabe. Por isso, fala-se tanto na psicanálise “sofre-se pelo o que não se sabe”. “O que interessa na psicanálise é sofrimento singular de cada um. O que a psicanálise chama de lógica da singularidade”. “Alcançar ou chegar perto disso que chamamos em nossa cultura, alguns ideais de felicidade, coincide muitas vezes com o motivo pelo o qual alguém procurou um tratamento”. “Vivemos em uma cultura que propõe uma felicidade articulada nesse campo do coletivo. Como se tivesse a possibilidade de uma felicidade possível para todos. E a psicanálise por sua vez, vem atestar, com segurança de que cada um perto desses ideais sofre ao seu modo. E, portanto, se o que nos interessa de cada um, nós só podemos pensar em tratar o sofrimento de cada um”. “Se a subjetividade se constituí neste campo da alteridade, todo expressão de sofrimento trás em si uma demanda de reconhecimento. Isso é uma coisa bem sútil. O que seria isso: sofrer é demandar reconhecimento”? “Podemos constatar o sofrimento que decorre do desejo de reconhecimento. Por exemplo, as pessoas não nos reconhecem no lugar que a gente acha que devia ser reconhecido ou gostaria de ser reconhecido. É uma possiblidade. Há também outra possibilidade: A falta de reconhecimento do nosso desejo. A falta de reconhecimento por parte do outro nossa condição de desejante”. “A condição desejante de um sujeito equivale por estrutura sua condição de faltante. As pessoas muitas vezes tendem a nos ver por completos, inteiros, sem faltas. Isso é uma fonte muito importante de sofrimento.”
  • 3.
    “É muito difícilpara algumas pessoas se colocarem no laço social como portadores de falta, por conta desses ideais de completude e felicidade que toma conta da nossa cultura. Essa situação, faz com que as pessoas comecem a interpretar suas faltas como falhas, desordens que precisam ser ordenadas. Elas se apresentam como pessoas problemas. Não conseguem ver a falta como elemento que lhe constitui como sujeito”. “Qual a relação do sujeito com os ideais de completude, beleza, felicidade?” Além do Ideal de “Autenticidade e Autonomia”... O ideal é que você seja autentico. Mas, lê-se por autêntico, “seja você mesmo”. Isso é complicado: ser você mesmo, por ondem de uma cultura. Enfim... Aqui nos ajuda a melhor compreender as condições de Mal Estar, Sintoma e Sofrimento. Agora iremos tentar entender melhor em 3 ideais: 1) O IDEAL DE SUCESSO – As transformações da cultura ao longo do tempo permitiram que a felicidade fosse deslocada do campo do sonho (sonho de ser feliz) ao campo dos ideais. Quando a felicidade sai do campo do sonho para o campo do ideal (como aquilo que norteia, que é um norte para a vida subjetiva de uma pessoa, é aquilo que orienta a decisão de uma pessoa). Um exemplo bastante comum, são os jovens diante do desafio da escolha de uma profissão. Isso gera angústia. É bem difícil realizar uma escolha assim com os ideais da cultura. Se fosse pelos ideais da família, seria tranquilo, ele iria direto. O problema é que se você diz para um jovem “tenha visão de futuro, você abre uma porta chamada angústia”. Talvez a ideia de uma visão de futuro seja uma das coisas mais angustiantes que uma pessoa lúcida possa imaginar. Se ficarmos presos nessa visão de futuro, talvez não queiramos estar aqui para ver. Portanto, decidir alguma coisa hoje pautada na visão de futuro, alguém que teve uma crise de angústia, só pode planejar o seu futuro baseado em elementos de seu passado. Ele vai ter que se posicionar frente a algo que lhe antecedeu para imaginar o que ele deseja ser daqui para frente. Na visão da psicanálise, toda decisão a ser tomada, não será tomada apenas no tempo presente, porque os elementos do tempo presentes são muito frágeis. Para decidir coisas ligadas ao futuro a gente lança mão dos ideais e lança mãos das experiências passadas, muitas delas que a gente nem lembra. Decisão é uma coisa muito difícil: estamos diante o momento presente, entre o que a gente não lembra (passado) e o que a gente não sabe (futuro). Não é uma das situações psíquicas mais confortáveis...
  • 4.
    Se decisões aoser tomadas, levam em conta os ideais. Os ideais de nossa cultura (que não é uma só) muitas vezes podem ou são representadas por expressões, como: “seja feliz”, “tenha sucesso”, “seja autêntico”, “seja bela”, “tenha autonomia”, “seja você mesmo” (obedeça a mim, mas seja você mesmo. Engraçado não?). Tudo bem que os ideais tem a função de orientar decisões. O problema é quando os ideais são interpretados por cada sujeito como “imperativos”. Aí começa a entrar em um campo bastante problemático, porque está interpretação que transforma os ideais em imperativos, transformam frases do tipo “o ideal é que você seja” em frases do tipo “seja, porque você tem que ser”. Essas frases são bem diferentes. “Se somos pessoas que nos constituímos na relação com o outro, no que a psicanálise chama de campo da alteridade. É claro que a autonomia é uma condição psíquica que não e dada, ela vai ser constituída, construída junto justamente numa relação na qual eu sou um dependente, porque eu chego no mundo com a condição essencialmente de desamparo e não consigo me tornar de fato um ser humano se não for pelo acolhimento de um outro”. A Autonomia é uma condição psíquica altamente complexa, herdeira portanto numa relação de dependência, herdeira portanto numa relação que Lacan chama de “alienação”. O que quero dizer é: “ninguém consegue chegar nesta condição de autônomo se não tiver sido um bom desamparado”. Ninguém consegue se separar do outro se não tiver sido muito bem alienado. É nesta relação de dependência que eu me constituo como um sujeito autônomo. Preciso do outro para ser autônomo. É essa saída, de uma posição de alienação para uma oposição de autonomia. O sujeito não faz isso sozinho. Ele faz isso por meio da relação com o outro. Na atualidade, não apenas nos discursos da educação e na saúde em si, vê-se muito um imperativo de autonomia. Na saúde tem muito isto, o que pelo pouco conhecimento que tenho na área, acho preocupante, de que um sujeito que está doente, ele está mais grave se ele tiver menos autonomia. Se ele estiver menos dependente do cuidado de um outro. Para a Lívia Tourinho (Psicanalista da USP), acredita que “educar ou administrar situações aonde falta autonomia acaba sendo muito perigosa ter isso ao pé da letra”. Por exemplo, uma criança escutar uma expressão como essa de “seja independente, se vire sozinho”, as chances de uma criança escutar uma expressão dessa como abandono, desemparo é muito grande. Isso pode ser até mesmo traumático. A ideia de que você tem que se virar sozinho, demonstra uma ideia que de você não me interessa, o que acontece com você não me interessa. Não estou generalizando, mas isso põe pais muito bem
  • 5.
    intencionados muito angustiados.“Até que pondo deixar sozinho é cuida ou abandonar?” Eis aí uma questão bem contemporânea. O importante aqui é que vocês entendam que qualquer tipo de protocolo é arriscado, porque ele nega a singularidade de cada um. Para ter uma criança autônoma, precisamos de várias condições. Duas delas talvez mereçam ser destacadas aqui: • Precisamos de um adulto que acredite que ali naquela criança há um sujeito capaz de decidir. • E a outra condição é o desejo. O desejo deste adulto de que está criança torne um sujeito capaz de decidir. (Portanto, estou dizendo de um desejo de produzir um sujeito abrindo mão da criança como objeto de “própria satisfação”). Sendo assim, a questão da autonomia e da autenticidade acabe sento muito irônico que a gente escute algo assim como ideais da sociedade... você tem que ser autônomo, tem que ter sucesso, etc. Isso não se compra. Isso faz parte da subjetividade e é constituído ou não em um determinado momento da vida. “A autonomia é a condição psíquica de se diferenciar do outro. Não é se distanciar do outro. Não é mandar o filho para o fim do mundo para ele voltar autônomo. E ainda diz: ele voltou ótimo. Não depende nada de mim. Tudo bem. Não depende, mas provavelmente vai estar gravemente, porque não tem condições de decidir nada. A autonomia é a condição de decidir”. “Não sou aquele que me sirvo como objeto de satisfação de quem me rege”. 2) AS NARRATIVAS DE SOFRIMENTO, MODOS DE APRESENTAÇÃO DO SOFRIMENTO Narrativas são formas de apresentação. Há 3 narrativas de sofrimento: 1 – NARRATIVA DO FRACASSO PESSOAL A narrativa que traz consigo uma forma de sofrimento, onde esse sujeito se apresenta como fracassado. (Os imperativos produzem fracassados, pois eles trazem em si algo da forma do impossível). Se eu sigo o imperativo da autonomia, como um soldado, parece que sou autônomo. Mas, não sou. É uma contradição ao próprio conceito de autonomia.
  • 6.
    Ele sofre porse sentir um fracassado, pois acredita que não é o que se esperava dele. E se apresenta desta forma, com esse tipo de narrativa. Há uma grande diferença entre “impossível e impotência”. O sujeito interpreta o impossível de ser com algo relativo à sua impotência. Por exemplo, não posso sair daqui hoje e ir tomar uma cerveja com o meu amigo na Bahia. Portanto, não posso dizer que sou um fracasso por isso e/ou me sentir impotente. Se o sofrimento tem a ver com a demanda de reconhecimento. Está seria uma demanda de reconhecimento de uma impotência que nós não podemos avalizar. Neste caso, não se trata de impotência. Trata-se de impossibilidade. Se interpreta o impossível como impotência, talvez seja uma ilusão de onipotência. Você pode desejar o impossível. Mas, transformar isso em impossibilidade é sintoma. Por exemplo, se doentes em hospitais transformam o impossível em impotência, elas perdem empotencia para lutar. “Ante o impossível, cabe o luto. Frente ao que é possível, cabe a luta”. As pessoas hoje têm vergonha de adoecer. “O corpo é prova viva da passagem do tempo”. É só prestar atenção no corpo, que vemos o tempo passar. O adoecimento é uma experiência singular que indica que ali, onde você não pensava nisto, a finitude. Por isso, é muito normal quando a pessoa estar doente, pergunta: vou ficar bom? O adoecimento impõe limites. Talvez por isso as pessoas hoje em dia tem vergonha de adoecerem. – Sofrimento e sintoma não são a mesma coisa – “Uma das formas de alguém tornar manifesto o sofrimento é o sintoma, fazer um sintoma, inclusive um sintoma no corpo. Ele não sabe falar do que ele sofre. Mas, ele sofre por meio do corpo”. “Estar doente e não ter seu sofrimento reconhecido como seu é um pesadelo. Isso aumenta significativamente a dificuldade de nomeação do mal-estar, do modo ruim de estar no mundo”. “Há uma tendência importante no discurso técnico-cientifico se tomar o sofrimento pela vertente da patologização. E a consequência disso é a medicalização, que já está até mesmo na infância. Portanto, tomar o sofrimento pela vertente da patologia não trata. Isso pode indicar uma indisposição a lidar com o sofrimento.
  • 7.
    3) A NARRATIVADE ALGUÉM QUE SE APRESENTA SEM NENHUM TIPO DE QUESTIONAMENTO A pessoa chega dando o seu diagnóstico. Não se implica, não tem nenhum tipo de autoria. Há uma expressão de vazio do sentido da vida. As pessoas antes falavam da dor da perda. Era uma elaboração de luto. É uma demanda melancólica. Mas, neste caso, o paciente é o único objeto perdido. Nestes pacientes é importante estudar as relações dele com os imperativos de sucesso. Neste caso, lida-se de um sofrimento sem sujeito. - Como tratar este sofrimento hoje? Lacan dizia; “Que renuncie esse que não pode prestar atenção na subjetividade da sua época”. Quais são os dispositivos clínicos que a psicanálise tem para fazer emergir um sujeito e possibilitar a ele processo criativos, distanciá-lo desta lógica da alienação, processo criativos e modos de subjetivação mais aliado com a subjetividade? Quais são os conflitos que estas que se apresentam sem conflitos deviam ter? Os jovens de hoje escondem o que senti. Por que, sentir determinadas coisas, parece que não implica em uma boa aceitação, em um determinado grupo. “Eles escondem que sofre”. E muitas vezes escondem isso até de si mesmo. Então, no fundo, talvez não estamos diante de um sofrimento sem sujeito, mas sim de alguém que esconde de si mesmo o fato humano de sofrer. Eles sofrem por muitas coisas diferente da época do Freud, mas há algumas coisas que permanece: eles sofrem pelo o que não tem. Quando a gente vive em uma cultura de sucesso, onde os ideias se transforma em imperativos, a gente encontra um leque de possibilidades muito diferentes dos nossos avós, que viviam em uma cultura bem diferente. O pai dizia você vai ser isso, porque eu sou seu pai e quero que você seja. E hoje, esse sonho de liberdade parece ter se transformado em um pesadelo, gerando angústias. As pessoas tem muitas dificuldades de decidir o que elas querem. E diante destas dificuldades, elas se retornam não só aos ideais, mas aos imperativos. “O sonho de liberdade muitas vezes se transforma no pesadelo da escolha”. 4) COMO A PSICANÁLISE TEM PENSADO EM TRATAR DISTO HOJE?
  • 8.
    Trata-se levando emconta levando em conta os princípios freudianos de excelência. Se a subjetividade se constitui na relação com o outro, na alteridade. A pergunta de um psicanalista hoje é: “Qual é outro, outro, eu devo oferecer a esse que me procura”? Qual é a posição que eu ocupo nisso que chamamos de relação transferencial? O psicanalista não é o ideal que vai se ofertar a esse que lhe procura, lhe pedir inclusive orientação. Esse tipo de cultura produz um sofrimento. E todo tipo de sofrimento produz um mercado. Não é a toa que a gente ver o quanto é pródigo o mercado de “Coach”. (Alguém precisa me orientar, pois não sei o que fazer da vida). Nisto coloco também as religiões, as tribos... “Me digam o que tenho que ser”. A psicanálise não tem nada disto para oferecer. Todo mercado que decorre desse tipo de cultura, concorre com a psicanálise na medida em que o psicanalista não vai se oferecer no lugar de ideal, sobretudo, ele está entendendo que a pessoa que lhe procura sofre, demandando mais uma vez, como se fosse droga, uma “nova alienação”. Então, na falta de quem determine um caminho, quando essa pessoa chega ao consultório, o psicanalista vai lhe fazer um convite a “resistir” a submissão. A psicanálise convoca o sujeito a subverter está ordem, fazendo oposição clara a esse movimento. Porque a psicanálise desde o princípio se põe a favor da alteridade, mas também da singularidade. Nesta relação com o analista o analista não se oferece ao sofrimento do paciente como lugar de ideal, mais um imperativo. Mas o psicanalista sabe perfeitamente sabe perfeitamente que a psicanálise, ela no própria no lugar ideal fracassa. O vigor da proposta psicanalista, está justamente na proposta de fazer com que este seja um (1) entre vários. Mais um, singular, sem comparação. -