QUANDO ME TORNEI
           INVISÍVEL
TRADUÇÃO HELSAN




hamiltonslide@gmail.com




                           HAMILTON
Já não sei em que data estamos. Lá em
casa não há calendários e na minha
memória as datas estão todas
misturadas. Me recordo daquelas
folhinhas grandes, uns primores,
ilustradas com imagens dos santos que
colocávamos no lado da penteadeira. Já
não há nada disso. Todas as coisas
antigas foram desaparecendo. E sem
que ninguém desse conta, eu me fui
apagando também....
Primeiro me trocaram de quarto, pois a
família cresceu. Depois me passaram
para outro menor ainda com a
companhia de minhas bisnetas.




                                         HAMILTON
Agora ocupo um desvão, que está no
pátio de trás. Prometeram trocar o vidro
quebrado da janela, porém se
esqueceram, e todas as noites por ali
circula um ar gelado que aumenta
minhas dores reumáticas.
Mas tudo bem...
Desde há muito tempo tinha intenção de
escrever, porém passava semanas
procurando um lápis. E quando o
encontrava, eu mesma voltava a
esquecer onde o tinha posto. Na minha
idade as coisas se perdem facilmente:
claro, não é uma enfermidade delas, das
coisas, porque estou segura de tê-las,
porém sempre desaparecem.




                                           HAMILTON
Noutra tarde dei-me conta que minha voz
também tinha desaparecido. Quando eu
falo com meus netos ou com meus filhos
não me respondem. Todos falam sem me
olhar, como se eu não estivesse com eles,
escutando atenta o que dizem. As vezes
intervenho na conversação, segura de
que o que vou lhes dizer não ocorrera a
nenhum deles, e de que lhes vai ser de
grande utilidade.
Porém não me ouvem, não me olham, não
me respondem. Então cheia de tristeza
me retiro para meu quarto e vou beber
minha xícara de café.




                                            HAMILTON
E faço assim, de propósito, para que
compreendam que estou aborrecida,
para que se dêem conta que me
entristecem e venham buscar-me e me
peçam perdão …Porém ninguém vem....
Quando meu genro ficou doente, pensei
ter a oportunidade de ser-lhe útil, lhe
levei um chá especial que eu mesma
preparei. Coloquei-o na mesinha e me
sentei a esperar que o tomasse, só que
ele estava vendo televisão e nem um só
movimento me indicou que se dera
conta da minha presença. O chá pouco a
pouco foi esfriando……e junto com ele,
meu coração...




                                          HAMILTON
Então noutro dia lhes disse que quando
eu morresse todos iriam se arrepender.
Meu neto menor disse: “Ainda estás viva
vovó? “. Eles acharam tanta graça, que
não pararam de rir. Três dias estive
chorando no meu quarto, até que numa
manhã entrou um dos rapazes para retirar
umas rodas velhas e nem o bom dia me
deu.
Foi então quando me convenci de que sou
invisível...Parei no meio da sala para ver,
se me tornando um estorvo me olhavam.
Porém minha filha seguiu varrendo sem
me tocar, os meninos correram em minha
volta, de um lado para o outro, sem
tropeçar em mim.




                                              HAMILTON
Um dia se agitaram os meninos, e me
vieram dizer que no dia seguinte nós
iríamos todos passar um dia no campo.
Fiquei muito contente. Fazia tanto tempo
que não saía e mais ainda ia ao campo!
No sábado fui a primeira a levantar-me.
Quis arrumar as coisas com calma. Nós
os velhos tardamos muito em fazer
qualquer coisa, assim que adiantei meu
tempo para não atrazá-los. Rápido
entravam e saíam da casa correndo e
levavam as bolsas e brinquedos para o
carro. Eu já estava pronta e muito alegre,
permaneci no saguão
a esperá-los.




                                             HAMILTON
Quando me dei conta eles já tinham
partido e o carro desapareceu envolto
em algazarra, compreendi que eu não
estava convidada, talvez porque não
coubesse no carro,
Ou porque meus passos tão lentos
impediriam que todos os demais
caminhassem a seu gosto pelo
bosque. Senti claro como meu coração
se encolheu e a minha face ficou
tremendo como quando a gente tem
que engolir a vontade de chorar.
Eu os entendo, eles vivem o mundo
deles. Riem, gritam, sonham, choram,
se abraçam, se beijam. E eu, já nem
sinto mais o gosto de um beijo.




                                        HAMILTON
Antes beijava os pequeninos, era um
prazer enorme tê-los em meus braços,
como se fossem meus.
Sentia sua pele tenrinha e sua
respiração doce bem perto de mim. A
vida nova me produzia um alento e até
me dava vontade de cantar canções
que nunca acreditara me lembrar.
Porém um dia minha neta Laura, que
acabava de ter um bebê disse que não
era bom que os anciãos beijassem aos
bebês, por questões de saúde...




                                        HAMILTON
Desde então já não me aproximo deles, não
  quero lhes passar algo mal por minhas
   imprudências. Tenho tanto medo de
              contagiá-los !

   Eu os bendigo a todos e lhes perdôo,
                porque...

‘QUE CULPA EU TENHO DE TER ME TORNADO
               INVISÍVEL?’

                   ///////




                                            HAMILTON
HAMILTON SLIDE
      MÚSICA DE:
    Ernesto Cortazar
    Corazon Solitario




                                HAMILTON

                        www.educamor.net

Invisivel

  • 1.
    QUANDO ME TORNEI INVISÍVEL TRADUÇÃO HELSAN hamiltonslide@gmail.com HAMILTON
  • 2.
    Já não seiem que data estamos. Lá em casa não há calendários e na minha memória as datas estão todas misturadas. Me recordo daquelas folhinhas grandes, uns primores, ilustradas com imagens dos santos que colocávamos no lado da penteadeira. Já não há nada disso. Todas as coisas antigas foram desaparecendo. E sem que ninguém desse conta, eu me fui apagando também.... Primeiro me trocaram de quarto, pois a família cresceu. Depois me passaram para outro menor ainda com a companhia de minhas bisnetas. HAMILTON
  • 3.
    Agora ocupo umdesvão, que está no pátio de trás. Prometeram trocar o vidro quebrado da janela, porém se esqueceram, e todas as noites por ali circula um ar gelado que aumenta minhas dores reumáticas. Mas tudo bem... Desde há muito tempo tinha intenção de escrever, porém passava semanas procurando um lápis. E quando o encontrava, eu mesma voltava a esquecer onde o tinha posto. Na minha idade as coisas se perdem facilmente: claro, não é uma enfermidade delas, das coisas, porque estou segura de tê-las, porém sempre desaparecem. HAMILTON
  • 4.
    Noutra tarde dei-meconta que minha voz também tinha desaparecido. Quando eu falo com meus netos ou com meus filhos não me respondem. Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles, escutando atenta o que dizem. As vezes intervenho na conversação, segura de que o que vou lhes dizer não ocorrera a nenhum deles, e de que lhes vai ser de grande utilidade. Porém não me ouvem, não me olham, não me respondem. Então cheia de tristeza me retiro para meu quarto e vou beber minha xícara de café. HAMILTON
  • 5.
    E faço assim,de propósito, para que compreendam que estou aborrecida, para que se dêem conta que me entristecem e venham buscar-me e me peçam perdão …Porém ninguém vem.... Quando meu genro ficou doente, pensei ter a oportunidade de ser-lhe útil, lhe levei um chá especial que eu mesma preparei. Coloquei-o na mesinha e me sentei a esperar que o tomasse, só que ele estava vendo televisão e nem um só movimento me indicou que se dera conta da minha presença. O chá pouco a pouco foi esfriando……e junto com ele, meu coração... HAMILTON
  • 6.
    Então noutro dialhes disse que quando eu morresse todos iriam se arrepender. Meu neto menor disse: “Ainda estás viva vovó? “. Eles acharam tanta graça, que não pararam de rir. Três dias estive chorando no meu quarto, até que numa manhã entrou um dos rapazes para retirar umas rodas velhas e nem o bom dia me deu. Foi então quando me convenci de que sou invisível...Parei no meio da sala para ver, se me tornando um estorvo me olhavam. Porém minha filha seguiu varrendo sem me tocar, os meninos correram em minha volta, de um lado para o outro, sem tropeçar em mim. HAMILTON
  • 7.
    Um dia seagitaram os meninos, e me vieram dizer que no dia seguinte nós iríamos todos passar um dia no campo. Fiquei muito contente. Fazia tanto tempo que não saía e mais ainda ia ao campo! No sábado fui a primeira a levantar-me. Quis arrumar as coisas com calma. Nós os velhos tardamos muito em fazer qualquer coisa, assim que adiantei meu tempo para não atrazá-los. Rápido entravam e saíam da casa correndo e levavam as bolsas e brinquedos para o carro. Eu já estava pronta e muito alegre, permaneci no saguão a esperá-los. HAMILTON
  • 8.
    Quando me deiconta eles já tinham partido e o carro desapareceu envolto em algazarra, compreendi que eu não estava convidada, talvez porque não coubesse no carro, Ou porque meus passos tão lentos impediriam que todos os demais caminhassem a seu gosto pelo bosque. Senti claro como meu coração se encolheu e a minha face ficou tremendo como quando a gente tem que engolir a vontade de chorar. Eu os entendo, eles vivem o mundo deles. Riem, gritam, sonham, choram, se abraçam, se beijam. E eu, já nem sinto mais o gosto de um beijo. HAMILTON
  • 9.
    Antes beijava ospequeninos, era um prazer enorme tê-los em meus braços, como se fossem meus. Sentia sua pele tenrinha e sua respiração doce bem perto de mim. A vida nova me produzia um alento e até me dava vontade de cantar canções que nunca acreditara me lembrar. Porém um dia minha neta Laura, que acabava de ter um bebê disse que não era bom que os anciãos beijassem aos bebês, por questões de saúde... HAMILTON
  • 10.
    Desde então jánão me aproximo deles, não quero lhes passar algo mal por minhas imprudências. Tenho tanto medo de contagiá-los ! Eu os bendigo a todos e lhes perdôo, porque... ‘QUE CULPA EU TENHO DE TER ME TORNADO INVISÍVEL?’ /////// HAMILTON
  • 11.
    HAMILTON SLIDE MÚSICA DE: Ernesto Cortazar Corazon Solitario HAMILTON www.educamor.net