REIS BOOK’S DIGITAL
O NOVO TESTAMENTO INTERPRETADO
VERSÍCULO POR VERSÍCULO
Russell Norman Champlin, Ph. D.
VOLUME IV
I CORÍNTIOS
II CORÍNTIOS
GÁLATAS
EFÉSIOS
★ ★ ★
Impressão e Acabamento na Gráfica da
Associação Religiosa Imprensa da Fé
São Paulo - SP - Brasil
9aReimpressão Setembro de 1995
Direitos reservados
Θ
Associação Religiosa
EDITORA E DISTRIBUIDORA CANDEIA
RuaBelarmino Cardoso de Almeida, 108
Cidade dutra — Interlagos — Cep: 04809-270
São Paulo - SP
1995
PRIMEIRA EPÍSTOLA
AOS CORÍNTIOS
INTRODUÇÃO
Conteúdo
I. Autor
II. Data e Proveniência
III. A Igreja em Corinto
IV. A Correspondência com Corinto
V. Razão Desta Epístola
VI. Temas Principais
VII. Conteúdo
VIII. Bibliografia
Ver algum as observações gerais sobre o corpus das
Epístolas Paulinas na introdução a Romanos, primeiros
parágrafos e na secção II.
A primeira epístola aos Coríntios é um dos escritos clássicos
de Paulo; acima de tudo ela preserva para nós não tanto a
doutrina cristã, e, sim, o padrão da ética cristã. Neste livro
encontramos os problemas enfrentados pelos primeiros
cristãos gentios, e como Paulo deu solução a esses problemas.
As epístolas aos Romanos e outras revelam com maior aptidão
a elevada mente de Paulo; mas nenhuma delas revela mais
claramente do que I Coríntios aquilo que os psicólogos
modernos gostam de chamar de «situações de vida real».
Diferentemente daqueles problemas que Paulo tentou solu­
cionar para os crentes da Galácia, que eram sobretudo
questões de opinião religiosa, este livro aborda antes questões
relativas à conduta cristã, questões morais da mais séria
natureza. Paulo, homem de formação essencialmente judaica,
tendo recebido idéias ainda mais elevadas por causa das
revelações que recebeu acerca do cristianismo, ficava perplexo
ante os costumes tolerados na igreja em Corinto, e que eram
praticados por membros firmes da mesma.
Caráter da Primeira Epístola aos Coríntios - A fim de poder
discernir o tipo de situação que o apóstolo Paulo enfrentou, o
leitor faria bem em examinar as notas expositivas sobre
Corinto e sobre o ministério de Paulo nessa cidade (Atos 18:1),
bem como as notas introdutórias gerais sobre esse citado
capítulo. Estrabão revela-nos que havia mil prostitutas
religiosas oficiais associadas aos cultos religiosos daquela
cidade, que tinham por principais divindades a Mãe Suprema,
Melcarte, Serápis, ísis e Afrodite. Naturalmente, isso atraía a
Corinto um avantajado número de turistas. Todavia, isso não
expressava toda a situação moral da cidade, porquanto muitos
de seus habitantes ocupavam-se de seus empreendimentos
particulares. Viver como um coríntio se tomou uma expressão
proverbial para indicar uma vida de dissipação moral.
Alcifrom escreveu em suas memórias: «Jamais estive em
Corinto, porquanto sei bem qual o tipo animalesco de conduta
os ricos desfrutam ali, e qual a miséria dos pobres». A
população da cidade de Corinto era a mais cosmopolita dos
centros gregos, e, de fato, era menos distintamente helênica do
que todas as outras cidades, tendo incorporado em sua
estrutura todos os vícios do paganism o, e isso de forma
exagerada.
O incisivo primeiro capítulo da epístola aos Romanos foi
escrito sob a influência da cultura coríntia, visto que essa
epístola foi escrita em Corinto; e a simples leitura desse citado
capítulo mostra-nos a atitude mental provocada no apóstolo
pela observação dos espantosos vícios do paganismo que ali
havia.
Embora existisse na mesma localização, a cidade que Paulo
conheceu não descendia diretamente daquela que encabeçara a
liga aqueana, durate o período helenístico. Aquela primeira
cidade fora destruída em cerca de 146 A.C., por Lúcio Múmio,
tendo ficado em ruínas por cem anos. A cidade foi então
reconstruída, provavelmente por ordem de Júlio César,
tendo-se tomado colônia romana. Os romanos, por conse­
guinte, é quem tinham reedificado a cidade de Corinto; e
bastaria isso para explicar por que, dentre todas as cidades
gregas, Corinto era a única que dispunha de um anfiteatro,
uma das construções favoritas dos romanos. Por essa mesma
★
razão é que muitos dos nomes pessoais, associados a Corinto,
que se podem encontrar nas epístolas de Paulo aos crentes
dessa cidade são de origem latina, e não grega, como Crispo,
Tito Justo e Fortunato. Por semelhante modo, a maioria das
inscrições atualmente achadas nessa cidade são latinas, e não
gregas. A própria cidade, entretanto, não demorou a
caracterizar-se como cidade cosm opolita, incluindo uma
numerosa colônia judaica. (Quanto a muitos outros detalhes
acerca de Corinto e sua história, ver as notas expositivas sobre
Atos 18:1).
I. AUTOR
Conforme lemos nas observações introdutórias, acima,
existem quatro epístolas paulinas clássicas, —entre
aquelas que chegaram até nosso conhecimento, havendo
acerca das mesmas pouquíssima desarmonia entre os
estudiosos. E esta primeira epístola aos Coríntios ocupa lugar
entre essas quatro. Questões como estilo literário, vocabulário
e conteúdo confirmam a comum autoria de Romanos, Gálatas,
I e II Coríntios. (Quanto às datas relativas da coletânea
paulina, ver a introdução à epístola aos Romanos, secção II,
que também contém diversas comparações e observações que
são úteis ao estudante). Mas, posto que a autoria desta
primeira epístola aos Coríntios não é posta em dúvida, talvez
seja mais util observarmos nesta altura as relações que havia
entre Paulo e os crentes de Corinto.
Paulo considerava a igreja cristã de Corinto uma das provas
palpáveis do seu ministério apostólico. Por causa da
penetração de certos problemas ali, como práticas más e vis,
contendas e divisões, que chegaram a ameaçar a sua aceitação
como um apóstolo de Cristo por aquela igreja, que Paulo lhes
escreveu com consternação mesclada com repreensão e
demonstrações de seu afeto. (Consultar I Cor. 3:10; 4:15; 9:2;
II Cor. 7:3-5; 12:15; 7:8 e s.; 3:1, quando a esses diversos
elementos, que demonstram a relação existente entre a igreja
de Corinto e o apóstolo dos gentios).
Quantas teriam sido as visitas feitas por Paulo a Corinto?
Alguns eruditos pensam que o trecho de II Cor. 12:14 - 13:10
subentende três visitas separadas do apóstolo, em que duas já
teriam sido feitas, e uma terceira estava prestes a ter lugar. E
essa suposição é mais natural do que a daqueles outros, que
opinam que o apóstolo tencionara por três vezes fazer essas
visitas, mas que, por algum motivo, principalmente porque
sabia que o encontro seria doloroso para ele e para eles, ele
ainda não os tinham realmente visitado nenhuma vez. O livro
de Atos menciona apenas uma visita de Paulo a Corinto.
Porém, devemos notar que o livro de Atos é notoriamente
abreviado sobre tais questões, e a sua exposição sobre os
ministérios de Paulo sempre é parcial, faltando-lhe muitos
pormenores sobre diversas visitas que podemos depreender
terem sido feitas no teor das próprias epístolas paulinas. O
trecho de II Cor. 2:1 menciona que Paulo queria poupar os
crentes coríntios de outra visita «dolorosa»; mas a visita
descrita no livro, de Atos não pode ser reputada dolorosa, razão
pela qual precisamos postular um maior número de visitas do
que aquela sobre a qual lemos no livro de Atos. (Quanto a
notas expositivas sobre como o livro de Atos e as epístolas aos
Coríntios se suplementam entre si, em que se destaca o fato
que mais detalhes históricos se depreendem das epístolas do
I CORÍNTIOS
que do livro de Atos, ver as notas introdutórias sobre o décimo
oitavo capítulo do livro de Atos).
Paulo, portanto, já havia visitado os crentes de Corinto e
permanecera algum tempo com eles, o que significa que tinha
mais íntimas relações com eles do que com qualquer outra
ijjreja cristã, com a única exceção possível da igreja em
Efeso.
A autenticidade da autoria paulina é confirmada por
diversos dos pais da igreja dos primeiros anos, a saber:
Clemente de Roma (Ep., cap. 47), Policarpo (Ep. aos
Filipenses, cap. 11), Inácio (aos E fésios, cap. 2) e Irineu
(Contra os Hereticos, iv. 27,3). Por semelhante modo fizeram
Hermas (100 D.C.; Sim. 5,7) e Barnabé (que fez alusões a I
Cor. 3:16, em sua epístola, 6:16). O lugar de I Coríntios no
cânon dos livros sagrados é tão antigo como o de qualquer das
demais epístolas paulinas, fazendo parte integrante das
primeiras coletâneas de escritos paulinos, segundo eram
conhecidas pelos pais da igreja desde o ano de 150 D.C. Seu
lugar no «cânon», por conseguinte, é tão antigo como qualquer
dos livros do N.T., visto que algumas das epístolas de Paulo
foram escritas antes de qualquer dos quatro evangelhos, e
quase todas elas foram escritas antes de qualquer desses
evangelhos, com a única exceção do evangelho de Marcos.
Quando foi preparado o primeiro «cânon» dos livros do N.T., a
primeira epístola aos Coríntios já se encontrava entre os livros
selecionados. (Quanto a maiores detalhes sobre as questões do
«cânon» do N .T ., consultar o artigo introdutório ao
comentário que versa sobre essa questão. Quanto a notas
expositivas completas sobre o «apóstolo Paulo», consultar o
artigo introdutório ao comentário intitulado «A Importância
de Paulo». Essa exposição transmite-nos o que se sabe acerca
do passado, da vida e das viagens m issionárias de Paulo,
descritas no livro de A tos, e também de seus ensinos,
conforme se tem conhecimento hoje em dia sobre ele).
II. DATA E PROVENIÊNCIA
O período da permanência de Paulo em Corinto, em
contraste com suas visitas a outras localidades, pode ser
determinado com grande precisão. No trecho de Atos 18:2 há a
menção do fato que Priscila e Ãquila chegaram a Corinto
devido à expulsão dos judeus da cidade de Roma, por decreto
do imperador Cláudio. (Isso é igualmente mencionado por
Suetônio, em Vida do Divinizado Cláudio, 25:4). Ora, a data
mais provável desse acontecimento é 49 D.C. Outrossim, a
passagem de A tos 18:12 informa-nos como Gálio foi feito
procônsul da Acaia. Sabé-se que esse personagem se chamava
Lúcio Júnio Anaeu Gálio, irmão do famoso filósofo estóico
romano Sêneca, que foi o tutor do terrível imperador Nero.
Além disso, certa inscrição encontrada em Delfos tornou
possível dar data a esse proconsulado dentro de bem estreitos
lim ites, de tal modo çjue se tem podido calcular que ele
começou a agir nesse oficio a Io de julho de 51 D.C.
Alguns estudiosos têm sugerido a inaguração do ofício de
Gálio um ano mais tarde; porém, seja como for, podemos
inferir com segurança que Gálio estava em Corinto em 50
D.C., pelo que também Paulo se encontrava ali. Mui
provavelmente o apóstolo chegou àquela cidade na primavera
de 50 D .C ., tendo partido dali no outono de 51 D.C. Essa
citada inscrição contém as palavras de uma carta de saudações
enviada pelo imperador Cláudio à cidade de Delfos, na qual ele
menciona a pessoa de Gálio. Com base nessa inscrição,
portanto, podemos datar, com qualquer grau de certezà, a
única dentre as viagens do apóstolo Paulo. (Quanto a outras
notas expositivas sobre essa inscrição, ver as notas
introdutórias sobre o décimo oitavo capítulo do livro de Atos).
Por conseguinte, pelo menos sabemos que a primeira
epístola aos Coríntios foi escrita algum tempo depois disso. A
epístola aos Gálatas já havia sido escrita, sendo muito
provável que a primeira e a segunda epístola aos Tessaloni-
censes foram escritas pouco mais tarde, após a permanência de
Paulo em Corinto, ou mesmo enquanto ele ainda se encontrava
ali, ou seja, antes da primeira epístola aos Coríntios ter sido
escrita. Porém, a primeira epístola aos Coríntios é reputada
como a quarta das epístolas de Paulo, na ordem da escrita,
tendo sido composta em Efeso, durante sua permanência ali,
que provavelmente se deu desde o verão de 52 até ao outono de
54 D.C.
Mui provavelmente Paulo escreveu essa primeira epístola
aos Coríntios poucos meses antes de deixar Éfeso, a fim de
visitar novamente as igrejas que havia fundado na Macedonia
e em Corinto. Podemos considerar as suas palavras em I Cor.
16:19, que dizem: «^4s igrejas deu Asia vos saúdam...» Ora,
Éfeso era o centro de operações do apóstolo Paulo enquanto ele
esteve na Asia, pelo que é lógico supormos que ele escreveu
essa epístola dessa cidade. Sua longa permanência em Éfeso, e
as perturbações que estouraram quase imediatamente na
igreja de Corinto servem para indicar que é natural a conclusão
que essa epístola foi escrita nessa cidade, quando Paulo ali
permaneceu por cerca de três anos. Devemos notar, por
semelhante modo, que esse versículo também faz alusão a
Aquila e Priscila, mencionando a congregação que se reunia na
casa deles; e isso subentende que ele residia onde havia um
grupo de cristãos, o que, por sua vez, subentende Éfeso.
(Quanto a isso pode-se consultar também o trecho de Atos
18:18,19,26). O trecho de I Cor. 16:5, todavia, não dá a
entender que a epístola provinha da Macedonia, mas
meramente que o apóstolo passaria por ali, a caminho de
Corinto, com o propósito de fazer a esta cidade uma outra
visita. Em contraste com isso, pode-se depreender, de II Cor.
7:5,6, que a segunda epístola aos Coríntios foi escrita da
Macedonia. Porém, a referência que não mais permite lugar
para disputas é a de I Cor. 16:8, que diz: «Ficarei, porém, em
Efeso até ao Pentecoste». Assim, pois, Paulo ficou em Éfeso
até à festa do Pentecoste, esperando poder partir dali pouco
depois; não obstante, foi inesperadamente impedido de fazê-lo,
tendo de adiar sua partida, conforme nos informa o trecho de I
Cor. 16:8 e s. É bem provável, pois, que Paulo tenha escrito a
epístola de I Coríntios durante a primavera, pouco antes da
festa de Pentecoste, em 54 D.C.
III. A IGREJA EM CORINTO
Paulo foi o primeiro missionário cristão a chegar à Grécia,
de conformidade com os registros históricos de que dispomos.
Chegou ele em Corinto proveniente de Atenas, sentindo-se
muito desencorajado, porquanto seus esforços ali haviam dado
bem pouco fruto. Parece-nos que ele não estava nada
confiante. (Ver I Cor. 2:3). Ficou em companhia de um casal
de judeus, Aquila e Priscila, que eram cristãos e tinham vindo
de Roma, em face da expulsão dos judeus da capital do
império, por decreto do imperador Cláudio. A igreja de
Corinto, por conseguinte, teve início na casa deles; e Silas fe
Timóteo não se demoraram a vir reunir-se a Paulo em Corinto,
trazendo boas notícias sobre o ministério do evangelho na
Macedonia. Assim, pois, renovado em suas forças e em seu
ânimo, Paulo iniciou seu trabalho com grande intensidade em
Corinto. (Ver I Tes. 3:6). Contudo, a oposição, especialmente
da parte dos líderes eclesiásticos dos judeus, se tornou
intensa. É possível que a esse tempo é que Priscila e Aquila
arriscaram suas vidas em favor de Paulo (ver Rom. 16:3).
Entretanto, Deus se pôs ao lado de seu apóstolo,
primeiramente na forma de uma visitação m ística, que
assegurou a Paulo tanto o êxito em sua missão em Corinto
como a sua segurança física pessoal. (Ver Atos 18:9 e ss.). E
foi assim que Paulo foi protegido por Gálio, que não se deixara
influenciar pelos judeus radicais, que haviam apresentado
queixa falsa contra o apóstolo.
A permanência de Paulo em Corinto se prolongou por
dezoito m eses, o que, para ele, representou uma longa
permanência em qualquer lugar. Aparte de Éfeso,onde Paulo
ficou por três anos, Corinto foi o lugar onde mais o apóstolo
permaneceu, durante todo o seu período de atividades
missionárias. Ora, isso lhe deu a oportunidade de desenvolver
um ministério mais profundo do que já pudera efetuar em
outros lugares, o que também fica implícito em I Cor. 3:6. E,
fazendo contraste com Atenas, parece que em Corinto o
cristianismo prosperou grandemente, pelo menos numerica­
mente falando, razão pela qual a cidade de Corinto se tomou
um dos mais importantes centros da primitiva igreja cristã.
Com os crentes de Corinto o apóstolo manteve a sua mais
extensa correspondência; e da cidade de Corinto pelo menos
três das epístolas de Paulo foram escritas, a saber; Romanos e
I e II Tessalonicenses.
Depois da partida do apóstolo Paulo, chegaram em Corinto
outros mestres do evangelho, entre os quais se destacava um
outro rabino judeu, de nome Apoio, homem dotado de
eloqüência singular, que deu prosseguimento à obra iniciada
por_ Paulo, não se tendo deixado envolver pessoalmente no
espírito de partidarismo que afetou aquela igreja. Priscila e
Aquilo ajudaram a Apoio com seus dons naturais, instruin-
do-o com maior precisão acerca da doutrina de Cristo. (Ver
Atos 18:24 e ss.).
I CORÍNTIOS 3
Todavia, depois do afastamento do apóstolo, a igreja de
Corinto desceu de forma alarmante quanto ao seu nível moral e
espiritual. Estouraram divisões amargas (ver o terceiro
capítulo); permitiram os vícios mais baixos entre eles (ver o
capítulo quinto e 6:9 e ss); abusaram da liberdade cristã (ver
os capítulos oitavo e décimo); deixaram-se influenciar por
mestres legalistas, que ensinavam de modo contrário a Paulo
(ver o nono capítulo); corromperam as formas cristãs de
adoração, agindo de forma ultrajante, até mesmo quando da
participação na Ceia do Senhor, comendo em excesso,
deixando-se embriagar e negligenciando os pobres da igreja,
que ficavam famintos e esquecidos. A celebração da Ceia do
Senhor, naquela época, incluía o «agape» ou «festa de amor»,
imitação da refeição da páscoa, o que nos explica a
oportunidade de alguns terem um opíparo banquete, ao passo
que outros ficavam famintos (ver o décimo primeiro capítulo).
Além disso, os crentes de Corintose mostravam extremamente
ativos no uso dos dons miraculosos; no entanto, abusavam
desses dons, criando a desordem nos cultos da igreja (ver os
capítulos doze e catorze). Também surgiram falsas doutrinas
entre eles, sendo tolerados os falsos m estres, sobretudo
aqueles que pervertiam o ensino acerca da ressurreição (ver o
decimo quinto capítulo). Esses se tornaram os graves vícios da
igreja de Corinto, condições essas que impeliram o apóstolo a
escrever esta primeira epístola aos Coríntios.
IV. A CORRESPONDÊNCIA COM CORINTO
Trata-se este de um assunto complexo, e as investigações
feitas sobre o mesmo não têm produzido qualquer coisa como
resultados certos. Pode-se dizer com confiança, entretanto,
que houve mais do que duas epístolas de Paulo aos crentes de
Corinto, e que as próprias epístolas I e II Coríntios
representam mais do que duas epístolas. Diversas reconstitui­
ções têm sido sugeridas, conforme os exemplos que damos
abaixo:
É provável que Paulo escreveu ao menos quatro epístolas
aos Coríntios, partes das quais estão contidas em nossas duas
epístolas tradicionais. Devemos observar cjue em I Cor. 5:9 há
menção de alguma outra epístola que o apostolo escreveu para
eles, e que evidentemente antecedeu o material apresentado na
primeira epístola aos Coríntios. Na reconstituição da
correspondência com a igreja de Corinto, as sugestões têm
'sido como a que mostramos abaixo:
1. II Cor. 6:14-7:1 seria fragmento de uma carta que fora
escrita acerca da questão do jugo desigual, mas que, mais
tarde, veio a ser incorporada com outros materiais da
correspondência paulina com a igreja de Corinto, tendo,
finalmente, sido formulada em uma única epístola, conforme
conhecemos hoje.
2. A primeira epístola aos Coríntios representa essencial­
mente uma única carta, embora o sétimo capítulo da mesma
possa ser umà secção separada; e o trecho de I Cor. 7:1 parece
indicar uma correspondência entre os coríntios e Paulo que
provavelmente consistiu da troca de várias cartas.
3. O trecho de II Cor. 10 -13 parece ser uma carta separada,
que alguns eruditos têm chamado de «carta amarga», por
causa de seu conteúdo severo. Essa epístola parece estar um
tanto deslocada, na presente posição em que se encontra, pois
os primeiros capítulos da segunda epístola aos Coríntios expõe
uma atmosfera de alívio e ações de graças, para éntão,
subitam ente, Paulo apelar para o sarcasmo e para as
denúncias violentas. Parece-nos melhor pensar que tais
denúncias na realidade pertençam ao tempo anterior à
composição da primeira porção da segunda epístola aos
Coríntios, e que elas faziam parte de outra missiva, que foi
enviada antes de II Coríntios. Alguns estudiosos também têm
procurado situar os capítulos décimo a décimo terceiro antes
da secção dos capítulos primeiro a nono, porquanto aqueles
capítulos parecem referir-se a questões futuras (ver II Cor.
10:6 e 13:2, 10), ao passo que os capítulos primeiro a nono
fazem alusões ao passado (ver II Cor. 1:23 e 2:3,9), tudo o que
sugere que houve deslocação de material, ou mesmo que se
tratavam de duas cartas paulinas separadas, que mais tarde
foram unidas, ainda que na ordem contrária da que foram
escritas.
4. A passagem de II Cor. 1 - 9, menos a secção de II Cor.
6:14 - 7:1, parece formar uma unidade, escrita após a grande
crise que houve entre Paulo e a igreja de Corinto. Essa
passagem, pois, tem sido denominada pelos estudiosos de
«carta pacifica». Mas -a secção dos capítulos décimo a
décimo terceiro, embora pesada e amarga, preserva para nós
um bom material biográfico, que se reveste de valor porque
nos permite conhecer um pouco mais da vida de Paulo. E
aquela «carga amarga», a que já nos referimos (II Cor. 10 -
13), provavelmente foi enviada entre I Coríntios e as outras
porções de II Coríntios.
Porém, outras reconstituições da correspondência paulina
com os crentes de Corinto têm sido propostas, como as idéias
de Johannes Weiss, The History of Primitive Christianity, I,
págs. 356-357.
1. A carta pré-canônica, referida em I Cor. 5:9, conteria II
Cor. 6:14 - 7:1; I Cor. 10:1-23; 6:12-20; 11:2-34, e talvez
16:7,8,20.
2. A resposta de Paulo à carta trazida de Corinto continha
talvez I Cor. 7 - 9; 10:24 - 11:1; 12:1 - 16:6 e, talvez, 16:16-19.
3. Uma terceira carta, que versava sobre as facções
existentes em Corinto, talvez tenha incluído os trechos de I
Cor. 1:1 - 6:11 e 16:10-14,22-24.
Maurice Goguel, em süa obra Introduction au Nouveau
Testament, ‘Les épistre pauliniennes’, Paris, Ernest Leroux,
1926, IV, págs. 72-86, 1926), diz essencialmente a mesma
coisa, embora com alguma redistribuição de material, a saber:
1. II Cor. 6:14 - 7:1; 6:12-20; 10:1-22.
2. I Cor. 5:1 - 6:11; 7:1 - 8:13; 10:23 - 14:40; 15:1-58;
16:1-9,12.
3. I Cor. 1:10 - 4:21; 9:1-27; 16:10,11.
Na realidade, não existe meios para a defesa dessas teorias,
com qualquer grau de certeza, não sendo provável que
qualquer dessas opiniões represente a verdade da questão.
Parece perfeitamente certo, todavia, que as duas epístolas que
possuím os, escritas pelo apóstolo Paulo aos Coríntios,
representam mais do que duas cartas, embora a primeira
epístola aos Coríntios parece ser uma unidade, apesar do que
pequenas porções da mesma talvez tenham feito parte de
alguma carta ou cartas separadas, que mais tarde foram
incorporadas à mesma.
Já a segunda epístola aos Coríntios pode ser mais facilmente
dividida, com muito maior grau de exatidão potencial. Pouca
dúvida pode haver que a complexa situação que houve em
Corinto não poderia ter sido solucionada por apenas uma
epístola ou duas, o que nos explica a complexidade das duas
epístolas propostas, as quais na realidade não seriam apenas
duas, mas antes, representariam três ou talvez até mesmo
quatro cartas diversas. E então, quando a coletânea de
escritos paulinos foi recolhida, o que ele escrevera a Corinto
veio a ser incorporado em apenas duas unidades, conforme as
conhecemos atualmente. E também é provável que tivessem
sido escritas ainda outras epístolas de Paulo a Corinto, mais
curtas ou mais longas, das quais não possuímos um fragmento
sequer.
As indagações que têm sido levantadas, no que tange à
correspondência de Paulo com a igreja de Corinto não incluem
qualquer idéia de dúvida acerca da autenticidade dessas
cartas—isto é, não se põe em dúvida que o apóstolo Paulo foi o
autor das mesmas—porquanto esse ponto é concordado pela
maioria esmagadora dos intérpretes de todas as escolas. (Ver
as notas expositivas sob o título «Autor», na secção I desta
introdução). (Quanto a fontes informativas acerca da natureza
da correspondência paulina com Corinto, ver as seguintes
obras: J.H. Kennedy, The Second and Third Epistles to the
Corinthians·, Kirsop Lake , The Earlier Epistles of Paul, 1927,
págs. 144 e ss.; R.V.G. Tasker, Expository Times, XLVII,
1935-1936, págs. 55-58; e ainda outras discussões acerca da
correspondência de Paulo com Corinto, podem ser encontradas
na introdução à segunda epístola aos Coríntios).
V. RAZAO DESTA EPÍSTOLA
A primeira epístola aos Coríntios é complexa por si mesma,
e aborda muitos problemas, motivo pelo qual é extremamente
difícil atribuirmos uma razão que teria levado o apóstolo Paulo
a compor a mesma. E isso se toma especialmente veraz se
aceitarmos a idéia de que temos na mesma, trechos reunidos
de mais de uma carta. Todavia, uma declaração de âmbito
geral pode ser feita, e que incorpora a maioria das muitas
razões. A conduta ética comum em Corinto, evidenciada pelos
próprios costumes da cidade, encontrara algum apoio na igreja
cristã dali. Isso produziu uma espécie de ética que era uma
mescla de princípios pagãos e cristãos. Esta primeira epístola,
por conseguinte, trataria de situações de conduta ética, na
vida diária. Além desses fatores, podemos pensar nos ataques
dos legalistas, dos falsos mestres e dos detratores do apóstolo
4 I CORÍNTIOS
Paulo, que ameaçavam destruir não somente a obra realizada
ali por Paulo, mas também a sua reputarão e autoridade como
apostolo de Cristo. Essa situação, pois, e que provoca algumas
das amargas refutações existentes nesse livro. Poderíamos
dizer, portanto, que I e II Coríntios registram a «história de
uma querela», conforme diz Kirsop Lake (ibid., pás. 117 e ss.).
Isso, entretanto, não tem por intuito indicar· que essa querela
não tivesse importância, ou que os contendores tenham
entrado nela negligentemente, conforme a palavra moderna
«querela» geralmente nos dá a entender.
Não muito depois de ter chegado a Éfeso, Paulo recebeu
recado, da parte de elementos da família de Cloé (I Cor. 1:11 e
ss.), acerca das contenções que tinham surgido entre os
crentes de Corinto, o que havia produzido facções entre eles,
cada uma das quais com o seu suposto líder ou herói, como
Paulo, Pedro, Apoio e Jesus Cristo. E os que trouxeram essas
notícias a Paulo evidentemente foram Estefanas, Fortunato e
Acaico (ver I Cor. 16:17). E é igualm ente patente que
trouxeram com eles, uma carta, enviada pelos crentes de
Corinto, pedindo os conselhos do apóstolo acerca de várias
questões que, evidentemente, vinham sendo debatidas entre
os cristãos daquela cidade. O resultado dessas indagações é a
primeira epístola aos Coríntios, ou, pelo menos, partes da
mesma.
A primeira porção da mesma trata das questões dos
perturbadores, em que o apóstolo repreende aqueles que eram
os causadores das divisões. A segunda porção responde, pela
ordem, as perguntas feitas pelos crentes de Corinto, questões
sobre princípios morais, matrimônio, ordem do culto na igreja,
a liberdade cristã e a questão sobre a ressurreição.
Na esperança de dar melhor solução ao caso em geral, o
apóstolo tencionava' fazer uma outra visita àquela igreja de
Corinto; mas, nesse ínterim, enviou-lhes Timóteo (ver I Cor.
4:18-21), esperando que ele fosse capaz de dar cobro à
situação. A ntes de escrever sua primeira epístola aos
Coríntios, parece que Paulo já lhes havia escrito uma outra
cárta, que versava sobre questões de moral, sem dúvida por
ter ouvido falar nas condições deficientes e mesmo escandalosas
daquela igreja. A regra determinada por Paulo era a separação
daqueles que assim se conduzissem, ficando tais elemeptos
isolados da igreja até que se arrependessem verdadeiramente,
com a modificação de suas condutas diárias. (Ver I Cor.
5:9-14). Contudo, a própria primeira epístola aos Coríntios
mostra-nos que essa suposta primeira carta ainda não
produzira seus esperados resultados, tendo sido necessário dar
prosseguimento, nesta chamada primeira epístola aos Corín­
tios, às reprimendas e advertências sobre o assunto. Muitos
pensam que ao menos uma parte dessa epístola não-canônica é
aquela representada pelo trecho de II Cor. 6:14 - 7:1, que
contém advertências de ordem moral, parecendo bastante fora
de lugar, na posição que ocupa dentro do corpo da segunda
epístola aos Coríntios. É possível, portanto, que essa citada
secção seja o mais antigo fragmento que possuím os da
correspondência de Paulo com a igreja de Corinto.
Retomando agora à questão dos perturbadores da ordem,
que pelo menos em parte provocaram a escrita da primeira
epístola aos Coríntios, parece-nos que eles se tinham dividido
em quatro grupos distintos (ver I Cor. 3:1), a saber:
1. Os que se diziam seguidores de A poio, o rabino de
Alexandria, o intelectual entre os líderes, e que tiveram algum
desempenho no desenvolvimento da igreja cristã de Corinto.
Provavelmente esse partido se compunha dos «entendidos»
dentre os crentes de Corinto. Pode-se imaginar que seu pecado
consistia do orgulho intelectual, juntamente com a mistura de
várias filosofias com a fé cristã simples, como os bons gregos
geralmente se sentiam tentados a fazer. No primeiro capitulo
dessa epístola, onde Paulo diz que a sabedoria deste mundo é
«loucura», provavelmente há nisso uma repreensão indireta a
esse partido, embora a igreja em geral talvez estivesse
envolvida em problemas dessa categoria.
2. Aqueles que eram os seguidores de Cefas, ou Pedro, e que
provavelmente eram os judaizantes ou legalistas da igreja,
muitos dos quais sem dúvida se haviam convertido do
judaísmo, naturalmente aderiam a antigas práticas ritualistas
e legalistas. O próprio apóstolo Pedro não teria encorajado tal
atitude, como Apoio também não teria encorajado o partido
dos «entendidos» para que o considerassem como uma espécie
de herói.
3. Além desses, havia os seguidores de Paulo, cujo herói era
o grande apóstolo dos gentios. Ê possível que esse grupo
envolvesse aqueles que faziam forte oposição ao legalismo e ao
intelectualism o,. preferindo o evangelho da graça, sem as
complicações da cultura judaica ou da cultura grega.
4. Além desses, havia os partidários de Cristo. E sses
certamente faziam objeção ao culto aos «heróis» e seus
partidários, e, acima de todos, faziam -se os grandes
seguidores de Cristo. O pecado destes últim os era ò do
exclusivismo, tão prevalente na moderna igreja evangélica,
que, nas mentes de alguns, cria a ilusão que eles, acima de
quaisquer outros, são os melhores discípulos que Cristo tem.
Isso e a antítese mesma do denominacionalismo, que
inevitavelmente cria outras e ainda mais estritas denomina­
ções. Em outras palavras, aqueles que se unem em combate
contra as denominações, nesse processo, geralmente criam
formas ainda mais estritas de denominacionalismo, embora
talvez não tenham qualquer nome específico, como fazem
outras denominações.
Um problema similar a esse era o dos perturbadores da
ordem, exaltados aos seus próprios olhos devido ao orgulho
espiritual, por exercerem dons espirituais miraculosos
autênticos ou aparentes. Esses se ufanavam de tal modo de
suas realizações espirituais que criavam o caos nos cultos da
igreja de Corinto. Sem dúvida era difícil para outrem ter
oportunidade de falar nas reuniões, porquanto estavam
sempre preparados com alguma profecia, com alguma língua,
com alguma exortação, com alguma mensagem, de forma
alguma se envergonhando por interromper tão desabrida-
mente aos outros, por estarem usando ininterruptamente da
palavra, em qualquer das reuniões da igreja. É por esse
motivo, pois, que nos capítulos décimo primeiro a décimo
quarto o apóstolo dá instruções que regulamentam os dons
espirituais e o seu uso. É bem provável que alguns elementos
desse mesmo grupo fossem aqueles que abusavam da
liberdade cristã, comprando e comendo came de lugares onde
tal came fora apresentada às divindades, em templos pagãos;
e talvez até se dispusessem a freqüentar certos ritos que eram
efetuados nesses tem plos, em companhia de seus amigos
pagãos, que os convidavam para as suas reuniões profanas.
Esses crentes, pois, consolavam-se dizendo que um idolo nada
é, e daí concluíam que comer carne que fora apresentada aos
ídolos também nada significa. Isso expressa uma verdade, até
certo ponto; mas a facção legalista da igreja de Corinto, que
exaltava a Pedro como seu grande herói, sem dúvida se sentia
ofendida com essa forma de conduta, e o resultado disso eram
sentimentos pesados, disputas e divisões, que ameaçavam
cindir a igreja de Corinto. (Ver os capítulos sexto e oitavo
dessa primeira epístola aos Coríntios).
No sétimo capítulo dessa primeira epístola aos Coríntios,
Paulo se volta para as perguntas que os próprios crentes de
Corinto lhe tinham feito por carta. (Ver I Cor. 7:1). A
expressão reiterada, «Quanto ao que me escrevestes...» (7:1),
«Com respeito às virgens...» (7:15), «A respeito dos dons
espirituais...» (12:1), «No que se refere às cousas sacrificadas
a ídolos...» (8:1). «Quanto a coleta para os santos...» (16:1) e
«Acerca do irmão Apoio...» (16:12), ela provavelmente dá
início às respostas às perguntas especificamente feitas pelos
crentes de Corinto a Paulo. Por conseguinte, a carta que eles
enviaram ao apóstolo dizia respeito aos seguintes temas·.
1. O valor do celibato e do matrimônio, bem como seus
valores relativos. Essa questão discute paralelamente o que o
Senhor Jesus disse acerca dos mesmos assuntos, segundo
vemos em Mat. 19:12. (Ver I Cor. 7).
2. A questão dos limites da liberdade cristã (ver I Cor. 6 e
8).
3. A questão inteira da busca, da posse e do uso dos dons
espirituais. (Ver I Cor. 11 - 14).
4. A questão do desejo que Paulo tinha de levantar uma
oferta para os crentes pobres da igreja de Jerusalém (16:1),
que foi, por assim dizer, uma das obcessões do apóstolo Paulo
durante sua terceira viagem m issionária, cuja entrega
provocou a sua última viagem a Jerusalém, onde também foi
aprisionado, tendo permanecido prisioneiro por muitos anos.
5. É evidente que a carta enviada a Paulo pelos crentes de
Corinto continha um pedido que Paulo lhes enviasse Apoio, a
fim de que novamente lhes ministrasse ali. Paulo procurara
convencer Apoio sobre essa necessidade, mas o próprio Apoio
não estava disposto a fazer tal visita, provavelmente não
querendo provocar mais ainda a situação que ali já prevalecia-,
sobretudo no que diz respeito às várias facções ali existentes,
uma das quais o escolhera como seu herói.
Podemos facilmente imaginar que a epístola enviada pelos
crentes de Corinto ao apóstolo Paulo lhe fizera indagações
I CORÍNTIOS 5
sobre a natureza da ressurreição, porquanto, em Corinto,
havia alguns que pareciam negar que se deveria esperar a
ressurreição, dizendo que a mesma já havia ocorrido,
provavelmente querendo dar a entender com isso que a
ressurreição de Cristo e outros eventos paralelos já tinham
tido lugar. É que esses falsos mestres não faziam a menor idéia
de como a ressurreição do Senhor Jesus garante a ressurreição
de todos os remidos. Parece que haviam abandonado a idéia
judaica comum de que os justos finalmente seriam
ressuscitados, sem falarmos na ressurreição geral dos
perdidos. Mui provavelmente esse problema doutrinário
surgiu em Corinto porque, entre os gentios, a doutrina da
ressurreição era um ensino estranho, embora não totalmente
desconhecido em seus mitos·, ou então porque, em Corinto
havia alguns que demonstravam tendências gnósticas, as
quais, de mistura com conceitos do judaísmo e da filosofia e
mitologia gregas, além dos conceitos cristãos, aquela gente
terminara por criar uma doutrina que reputava desnecessária
qualquer ressurreição do corpo físico. Isso provocou a escrita
do décimo quinto capítulo desta primeira epístola aos
Coríntios, a mais completa e profunda declaração que existe
sobre a questão, em toda a literatura mundial.
De modo geral, pois, procurando nós a razão pela qual esta
epístola foi escrita, bem como suas circunstâncias históricas,
que provocaram a sua escrita, podemos declarar o seguinte:
1. Paulo já havia escrito uma epístola anterior, mencionada
em I Cor. 5:9, que tinha o proposito definido de combater a
grosseira imoralidade que se abatera sobre a igreja de Corinto,
que ele ouvira de alguma fonte informativa acerca da qual
nada somos informados. Parte dessa epístola bem poderia ser
o trecho de II Cor. 6:14 - 7:1.
2. N esse ínterim, antes disso ou talvez após tais
acontecimentos terem começado, Apoio levara a efeito um
ministério ali; entretanto, retomara a Éfeso (I Cor. 16:12), e
então começara a criar-se um partido que exaltava o seu nome.
3. Pedro também fizera uma visita à igreja de Corinto, ou
pelo menos havia alguns judeus crentes cjue se tinham tomado
membros da mesma, cujo herói era o apostolo Pedro, os quais
levaram a igreja a praticar certas normas legalistas, criando
uma facção que se dizia seguidora de Cefas.
4. Uma réplica àquela primeira carta de Paulo fora enviada
pela igreja, através de Estéfanas, Fortunato e Acaico (I Cor.
16:15-18), carta essa que continha aquelas várias perguntas,
antes mencionadas. Grande parte da primeira epístola aos
Coríntios, pois, constitui-se de respostas feitas às perguntas
feitas na missiva dos coríntios a Paulo.
5. Lemos em I Cor. 1:11 que pessoas enviadas da parte de
Cloé, talvez escravos daquela casa, informaram a Paulo acerca
das divisões existentes na igreja de Corinto, sendo
perfeitamente possível que os indivíduos, mencionados no
quarto ponto (acima), tivessem sido os informantes do
apóstolo, os quais não somente entregaram a epístola enviada
pelos crentes de Corinto, mas que também puderam transmitir
verbalmente a Paulo várias informações. Provavelmente
relataram ao apóstolo até que ponto a sua reputação e
autoridade apostólica foram denegridas em Corinto. E foi
exatamente essa visita, acima de qualquer outro fator, que
tornou necessária a continuação da correspondência entre os
crentes de Corinto e o apóstolo Paulo, a começar pela maior
parte da primeira epístola aos Coríntios.
Evidentemente, entretanto, houve um fim feliz no tocante
aos problemas surgidos em Corinto. Pelo tempo em que foi
escrita a segunda epístola aos Coríntios (ou então as cartas
que foram incorporadas naquilo que hoje é chamado de
II Coríntios) o pior já tinha passado. (Ver II Cor. 1 e 2). A
projetada terceira visita de Paulo a Corinto, embora
potencialmente dolorosa para bolsões de resistência que ainda
persistiam na igreja de Corinto (ver II Cor. 10-6-11 e 13:1 e
ss.), pôde ser aludida em tons jubilosos; e a coleta para os
santos pobres de Jerusalém, para o que Paulo fizera arranjos,
ao projetar a sua visita mencionada em I Cor. 16:3,4, poderia
ser facilmente concluída quando dessa visita adicional.
A epístola aos Romanos, que foi escrita durante a terceira
visita de Paulo a Corinto, parece indicar um término feliz para
a tão prolongada perturbação. Agora o apóstolo aguardava
poder fazer uma visita a Roma, após muitos adiamentos e
frustrações, quando estivesse de viagem para o ocidente, para
a Espanha, onde tencionava desenvolver um ministério. Até
onde os seus labores em Corinto estavam envolvidos, ele
estava satisfeito com o progresso e o caráter dos mesmos, e
agora podia partir, deixando a continuação dos trabalhos
ministeriais ali a outros. (Ver II Cor. 1:10,13,15 e 15:28).
VI. TEMAS PRINCIPAIS
Quando abordamos a razão por detrás da escrita dessa
primeira epístola aos Coríntios, já tocamos de forma
suficiente sobre os temas principais. Contudo, olhando para
esses temas, de forma mais particular, podemos alistar o que
dizemos mais abaixo:
De maneira geral, pode-se asseverar que a primeira epístola
aosCoríntios não é essencialmente uma epístola doutrinária, à
semelhança de Romanos e Gálatas, ainda que sejam discutidas
certas questões doutrinárias importantes, sobretudo aquilo
que diz respeito à prática do governo da igreja. Seus temas,
entretanto, são essencialmente éticos e práticos; e por causa
dos muitos problemas acerca dos quais o apóstolo escreveu, no
intuito de corrigi-los, encontramos a mais completa declaração
ética da fé cristã, em todo o N.T. Em contraste com a epístola
aos Romanos, por exemplo, nessa primeira epístola aos
Coríntios não abordamos as relações entre o cristianismo e o
judaísmo, sobre como esses dois sistemas religiosos podem ser
harmonizados entre si, mas antes, lemos como a igreja cristã
pode entrar em um ambiente pagão, prosperando e
permanecendo pura.
Ora, isso é particularmente importante para a nossa época,
porquanto não existe nenhum problema mais agudo no
cristianismo atual do que esse. A maioria dos problemas que
os crentes de Corinto tiveram de enfrentar são os mesmos
comuns à experiência cristã hoje em dia, não havendo razão
alguma para supormos que as soluções propostas pelo
apóstolo Paulo não sejam igualmente válidas para os nossos
próprios dias, tais como o foram para os endereçados originais
dessa epístola canônica. Apresentamos, pois, os pontos
prometidos acima:
1. O evangelho no teor da primeira epístola aos Coríntios:
Nessa epístola não há qualquer tentativa para apresentar
qualquer exposição sistemática do evangelho cristão, em sua
natureza e conteúdo, a menos que a primeira porção do décimo
quinto capítulo seja considerada como tal; antes, por toda a
parte há elem entos do evangelho cristão, os quais,
considerados em seu conjunto, nos fornecem uma informação
suficiente sobre o assunto. Podem-se alinhar as seguintes
razões para isso:
a. Cristo é o centro da mensagem da epístola, do princípio ao
fim (ver I Cor. 1:3).
b. Cristo é o alvo final da criação (I Cor. 8:6).
c. Cristo é o alvo supremo da vida (I Cor. 15:28).
d. Cristo é o verdadeiro Deus (I Cor. 8:4-6).
e. Cristo é o poder que sustenta a natureza (I Cor. 3:6).
f. Cristo é quem ordena providencialmente os aconteci­
mentos entre os homens. (I Cor. 4:9; 7:7 e 12:6).
g. Os homens jamais conheceram a Deus por sua própria
sabedoria, mas podem vir a conhecê-lo por meio de Cristo, a
própria Sabedoria de Deus (I Cor. 1:21).
h. É Deus que se achega aos homens, em buscà deles, e não
ao contrário (I Cor. 1:27).
i. Aqueles que se achegam a Deus, recebem a revelação de
seus mistérios, por intermédio do Espírito Santo. (I Cor. 2:10
e 4:1).
j. A vida eterna, por meio da. ressurreição, nos é dada por
meio de Cristo (ver I Cor. 15).
1. Cristo é o Juiz supremo, e espera a observância dos seus
mandamentos. (I Cor. 4:5; 5:13 e 7:19).
m. Vários aspectos da redenção nos são oferecidos: Cristo é
a rocha, o sustentador, o supridor das necessidades espirituais
(I Cor. 8:6 e 10:4); os poderes das trevas têm sido derrotados
por meio de sua morte e ressurreição (I Cor. 2:6); a morte de
Cristo significa a nossa redenção da servidão (I Cor. 6:20 e
7:23); os crentes fazem parte do corpo místico de Cristo (I Cor.
6:15 e 12:12). A ressurreição (o que provavelmente inclui as
idéias da ascensão e da glorificação de Cristo, o que é comum
nas páginas do N.T.) garante a verdadeira vida eterna para os
crentes, e o décimo quinto capítulo desta epístola é a mais
completa declaração que possuímos sobre esse tema.
2. Os dons do Espirito Santo no teor da primeira epístola
aos Coríntios—A conduta ideal na igreja cristã, no que diz
respeito a essas m anifestações espirituais, também é
abordada. Dentre todos os temas que há neste livro de Paulo,
esse é aquele cujo tratamento recebe maior espaço. (Ver I Cor.
11 - 14). Vemos que os dons espirituais: a. Podem ser
abusados; b. podem ser usados erroneamente; c. podem ser
6 I CORÍNTIOS
falsificados; e d. podem ser exercidos até mesmo por crentes
carnais. Geralmente se supõe que os dons espirituais
assinalam uma elevada espiritualidade; no entanto, os maiores
perturbadores de todos, na igreja de Corinto, foram aqueles
que se deixaram arrebatar pelo orgulho de sua suposta
autoridade e desenvolvimento espirituais, pois esses, devido
ao seu orgulho, produziram confusão naquela igreja.
3. A reprimenda contra o abuso dos dons espirituais
inspirou o apóstolo a compor o magnificente décimo terceiro
capítulo desta epístola, cujo grande tema é o amor cristão, o
qual deve governar todas as atividades dos crentes, dentro e
fora da igreja local. Nenhum outro documento sagrado sobreo
amor cristão tem sido tão univèrsalmente considerado e nem
tem sido reputado tão majestático como o décimo terceiro
capítulo desta epístola. E ainda que se porventura Paulo
houvesse escrito uma epístola deficiente e plena de erros, a
preservação de tal epístola já estaria assegurada somente por
esse décimo terceiro capítulo. Ê interessante que embora a
expressão «fruto do Espírito» não seja empregada nesta
primeira epístola aos Coríntios, contudo, quase cada capítulo
da mesma tem algo a ver com o poder dominante do amor
cristão, em conexão com diversos aspectos da vida do crente, a
qual, na realidade, é a «vida no Espírito». A igreja de Corinto
sofreu com facções porque lhe faltava o amor cristão. (Ver I
Cor. 3:3). Som ente o amor é capaz de edificar, e não de
derrubar, conforme estava sucedendo naquela igreja local.
(Ver I Cor. 8:1). O amor é. superior a todos os dons espirituais
de que os homens se possam ufanar, sem o que o próprio uso
dos dons é vazio e até mesmo perigoso. Outrossim, o amor é
mais duradouro do que todos esses dons. (Ver I Cor. 13:2,8).
Portanto, tudo deveria ser efetuado com o condimento preciso
do amor. (Ver I Cor. 16:14).
4. A conduta sexual no teor da primeira epístola aos
Coríntios - Os habitantes da cidade de Corinto se
notabilizavam por suas práticas^ sexuais exageradas e
pervertidas. Era inevitável que esses vícios fossem levados ao
seio da igreja cristã de Corinto, por parte de alguns que se
desviaram de sua profissão cristã inicial, ou que jamais
haviam sido verdadeiramente regenerados, posto que tivessem
o nome de cristãos. A exposição do quinto capítulo dessa
primeira epístola aos Coríntios (quanto aos versículos primeiro
a quinto), mostra-nos que Paulo ainda era mais estrito sobre
essas questões que os rabinos judeus ordinários.
Foi em relação à conduta sexual que a questão do
matrimônio foi apresentada ao apóstolo, na carta que lhe
enviaram. Paulo, à semelhança do Senhor Jesus, mas
contrariamente às idéias judaicas comuns (ver Mat. 19:12),
reconhecia o grande valor do celibato, dando preferência ao
mesmo, acima do casamento, contanto que o indivíduo
envolvido houvesse sido chamado por Deus para esse estado.
Portanto, podemos dizer que Paulo não procurou criar nenhum
ministério eclesiástico caracterizado pelo celibato; tal exigên­
cia é antes um desenvolvimento histórico, o qual envolveu
vários séculos, não sendo nenhuma injunção neotestamen-
tária. Todavia, é verdade que as expectativas sobre a
«parousia» ou segunda vinda de Cristo talvez tivessem algo a
ver com o pensam ento de Paulo expresso nessa secção;
contudo, não podemos deixar de observar que Paulo
expressava os seus próprios sentimentos sobre a questão, e, ao
fazê-lo situou o estado do celibato acima do estado do
matrimônio, como um meio de servir a Deus com uma mente
mais desimpedida, livre das obrigações domésticas.
Entretanto, não peca quem se casa, mesmo que o cônjuge
seja incrédulo, ficando destacado tão-somente o fato de que
isso é um jugo desigual que deve ser evitado pelos crentes.
Não obstante, aqueles que estiverem casados com incrédulos
são legitimamente casados, e não estão vivendo em pecado.
(Ver I Cor. 7:14 e II Cor. 6). Pois o cônjuge incrédulo, sem
importar se o mesmo é o marido ou a mulher, é «santificado»
pelo cônjuge crente. Tal matrimônio de crentes e incrédulos
não é ilegítim o, pois, conforme ensinavam os rabinos,
ordinariamente. Isso é tudo quanto o apóstolo Paulo quer dar
a entender pela palavra «.. .san tifica... », nesse caso —tal
casamento é legal, aos olhos de Deus e da igreja.
5. A conduta social e eclesiástica: as vestes e a conduta
femininas. Essa é outra das questões abordadas nesta
primeira epístola aos Coríntios. (Ver I Cor. 14:34 e ss.). Paulo
recomenda que as mulheres usem seUs cabelos compridos.
Entretanto, alguns estudiosos pensam que essa instrução
paulina deve ser posta dentro da categoria das «situações
culturalmente orientadas». Επί outras palavras, Paulo teria
recomendado que as mulheres crentes usassem os cabelos
compridos porque, naquela época, usar cabelos curtos era sinal
de prostituição, sendo um uso contrário aos costumes sociais
mais nobres da época. Por semelhante modo, o véu que as
mulheres devem usar, quando «oram ou profetizam», na
opinião de m uitos eruditos, cabe dentro dessa mesma
categoria. Porquanto a grande verdade é que Paulo ordenou
ambas as coisas: os cabelos compridos e o uso do véu, para as
mulheres crentes. No entanto, não são muitas as igrejas
evangélicas que estão obedecendo a essas injunções da
Palavra de Deus. Nessa mesma passagem Paúlo proíbe
claramente que as mulheres crentes falem na igreja. E a
maioria dos rabinos judeus teria emitido a mesma opinião, no
tocante às mulheres ensinarem ou falarem nas sinagogas
judaicas; e, além disso, nas culturas helenísticas distantes da
Palestina, ensinarem ou falarem as mulheres nas sinagogas
seria demonstração da conduta mais extremamente ímpia. E o
apóstolo Paulo deixa transparecer a mesma aversão; e ele
falava por inspiração divina, o que nos mostra que esse é
também o parecer da mente de Deus. No entanto, muitos
intérpretes dizem que essa instrução de Paulo também é
«culturalmente orientada».
O máximo que podemos dizer aqui é recomendar que cada
membro da igreja de Cristo examine os textos sagrados e os
problemas que circundam essas questões da conduta social e
eclesiástica, sobretudo no que diz respeito às mulheres crentes,
a fim de chegar às suas próprias decisões honestas. Na
atualidade, é difícil encontrar qualquer divisão da igreja cristã
que observe essas questões, em obediência à Palavra de Deus.
Há algumas denominações que insistem sobre a necessidade
do uso do véu, mas que negligenciam a questão dos cabelos
compridos das mulheres crentes, além de permitirem que elas
usem livremente da palavra em suas reuniões, havendo casos
extremos de «pastoras». Mas tudo isso é uma incoerência, em
confronto com o texto sagrado. Finalmente, a grande maioria
das igrejas evangélicas, não sabendo como dar solução ao
caso, ignora o problema em suas inteirezas, como se o mesmo
não existisse.
A ordem do culto nas igrejas locais, o uso dos dons
espirituais, a necessidade de haver oportunidade para todos, e
a ordem necessária quando da celebração da Ceia do Senhor
são os temas do décimo primeiro capítulo desta epístola. A
necessidade de não abusar da liberdade cristã é o assunto dos
capítulos sexto a oitavo da mesma.
6. A segunda vinda de Cristo, ou «parousia» é o último
grande tema doutrinário desta epístola. (Ver I Cor. 15:51-58).
Sobre esse tema, pois, não há explanação mais magnificente
do que a que se encontra nessa secção, que tem servido de
texto para inúmeros sermões e discursos escritos através da
história. Ela nos ensina as verdades sublimes da imortalidade
e da transformação do crente, acrescentando que certos
remidos passarão para esse estado sem experimentarem a
morte física, ao passo que outros chegarão ao mesmo, a
despeito da morte física. Apesar de que Paulo se demorou
sobre a sim ples imortalidade da alma (conforme fica
amplamente demonstrado no quinto capítulo da segunda
epístola aos Coríntios), a glorificação completa ocorrerá por
meio da ressurreição, quando houver novamente a reunião da
personalidade humana, em seus elementos constitutivos, bem
como através da ascensão e da glorificação juntamente com
Cristo, que fica implícita na doutrina da ressurreição.
VII. CONTEÜDO
I. Introdução, saudações e ação de graças (1:1-9).
II. Problema das divisões partidárias (1:10-4:21).
1. Polêmica contratais divisões: a. Exaltam ao homem, em detrimento
de Cristo (1:10-17). b. Derivam-se do orgulho e da sabedoria
humanos (1:18-2:5). Essa sabedoria é uma «loucura» para Deus.
c. A cruz é a sabedoria de Deus apresentada aos homens (1:18-25).
d. A comunidade cristã dos coríntios não fora chamada dentre os
sábios (1:26-31). e. Paulo lhes dera exemplo de conduta humilde
(2:1-5). f. A verdadeira sabedoria não é propriedade dos facciosos
(2:6-3:4), cuja atitude mostra antes a ausência das influências do
Espírito Santo. g. Os apóstolos verdadeiros não são rivais, mas
labutam na mesma lavoura, regando e colhendo (3:5-23).
2. Como o verdadeiro apóstolo deve ser julgado—secção contrária
aos detratores de Paulo, que haviam causado divisões (4:1-21).
III. Imoralidade e os Padrões Éticos Gerais e Cristãos (5:1*7:40).
1. Contra a imoralidade grosseira (5:1-13).
2. Contra os processos legais entre crentes (6:1-8).
3. O padrão do reino de Deus (6:9-11).
4. A moralidade pessoal do crente (6:12-20).
! CORÍNTIOS 7
2 .
3.
4.
5. O casamento e o celibato (7:1-40).
IV. Liberdade Cristã (8:1-11:1).
1. Alimentos oferecidos a ídolos e a utilização dos mesmos pelo
crente (8:1-13).
Paulo deu o exemplo, renunciando a seus direitos (9:1-23).
Os perigos da obstinação (9:24*10:22): a. A necessidade de
autodisciplina, ante as advertências dadas no deserto (10:1-13).
b. O caráter destruidor da idolatria (10:14-22).
Declarações finais: (10:23-11:1).
V. Regulamentos sobre a Adoração Cristã (11:22-14:40).
1. O véu das mulheres (11:2-16).
2. A Ceia do Senhor (11:17-34).
3. O uso dos dons espirituais (12:1-14:40).
4. O amor governa o uso dos dons e toda a conduta cristã (13:1-13).
VI. A Ressurreição dos Mortos (15:1-58).
1. A tradição e o fato (o evangelho) (15:1-11).
O significado da ressurreição (15:12-19).
O acontecimento e a sua ordem (15:20-34).
A natureza da ressurreição (15:35-50).
2 .
3.
4.
5. A parousia: imortalidade final (15:51-58).
VII. Questões Pessoais (16:1-24).
1. Coleta para os santos pobres de Jerusalém (16:1-4).
2. Os planos de Paulo sobre o futuro (16:5-12).
3. Exortações finais, saudações e bênção (16:13-24).
VIII. BIBLIOGRAFIA
Além daqueles comentários que são usados por toda a exposição do N.T.,
neste comentário, como fontes informativas, uma lista dos quais pode ser
encontrada na primeira parte da secção introdutória, recomendamos os livros
abaixo discriminados, para estudo especial:
Alio, E.B., Saint Paulpremiere épitreaux Corinthiens, Paris, J. Gagalda, 1934.
Enslin, Morton Scott, The Literature of the Christian Movement, New York,
Harper and Brothers, 1956.
Moffatt, James, The First Epistle of Paul to the Corinthians (Moffatt New
Testament Commentary), Nova Iorque: Harper and Bros., 1938.
Titus, Eric Lane, Essentials of New Testament Study, New York, The Ronald
Press, 1958.
Ver também: C. Hodge, 1857; T.C. Edwards, 1885; G. Godet, 1886; F.W.
Grosheide, 1954; L. Morris (Tyndale N.T. Commentary), 1958.
OInterpreter’s Bible está utilizado neste comentário pela gentil permissão da
Abingdon-Cokesbury Press, Nashville. Desta obra, são citados, em I
Coríntios, os autores Clarence Tucker Craig e John Short.
Capitulo 1
I. Introdução, saudações e ação de graças (I Cor. 1:1-9)
Na introdução geral a esta epístola são discutidos problemas como o da autoria, data e procedência, como o da natureza geral
da igreja cristã de Corinto, como o volume da correspondência de Paulo com a igreja de Corinto, e as razões e propósitos da
epístola, envolvendo também os seus temas principais. (Quanto a uma compreensão geral sobre esta epístola, em seu fundo
histórico, essa introdução pode também ser examinada).
Muitos dos temas paulinos têm sido comentados em outros trechos; por essa razão, nos comentários sobre esta primeira
epístola aos Coríntios aparecerão referências cruzadas e tais temas, as quais devem ser lidas para que o leitor obtenha omáximo
benefício e compreensão da mensagem que Paulo aqui apresenta.
1 Π αΰλος κλητός απόστολος Χ ρίστον Ί η σ ον διά θελήματος θζον, καί Σ ω σθίνης 6 άΒελφός,
ι κλητό?] om AD e
1:1: Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o
irmão Sóstenes,
• ...Paulo...» (Quanto a notas expositivas completas sobre esse apóstolo,
ver o artigo especial na introdução geral que diz respeito a ele, intitulado A
Importância de Paulo. Essas notas fornecem detalhes completos sobre o que
se sabe a respeito de sua vida, bem como acerca dos temas gerais que faziam
parte de sua doutrina).
«...chamado...» Paulo deixa esclarecido, desde o começo, que o seu
apostolado não era obra sua, como também não era idealização humana, e,
sim, uma chamada divina. Essa declaração tem um sentido parcialmente
apologético, porquanto, na igreja local de Corinto tinham surgido dúvidas
quanto a esse apostolado de Paulo. Os falsos mestres, que tinham causado
divisões, ali, haviam igualmente atacado o seu apostolado, dizendo, entre
outras coisas, que Paulo não recolhia salário daquela igreja porque não o
merecia, embora fosse tradição prática da igreja cristã, tomada por
empréstimo do judaísmo, que aqueles que vivem inteiramente dedicados à
vida religiosa (como ministros do evangelho), devem viver do evangelho, ou
seja, devem receber sustento financeiro da comunidade religiosa à qual
servem. (Ver a totalidade do nono capítulo desta epístola, onde Paulo
reivindica, incisivamente, o seu apostolado).
É notório que Paulo defende ainda mais vigorosamente o seu apostolado
na segunda epístola aos Coríntios, conforme vemos na prolongada secção
dos capítulos dez a doze da mesma, onde ele apresenta uma defesa
espalhada em várias frentes: seus labores espirituais abundantes e
obviamente produtivos (II Cor. 10:14-18); seu interesse apostólico especial
por aqueles crentes (II Cor. 11:1 e ss); seu ataque direto contra a falsidade
das reivindicações apostólicas de seus oponentes (II Cor. 11:13 e ss.); uma
completa descrição de seu ministério, que ultrapassava a tudo quanto
outros estivessem fazendo então (II Cor. 11:16 e ss.); e suas muitas e
grandiosas experiências místicas e espirituais (II Cor. 1 e ss.).
Ora, essa vigorosa defesa de seu apostolado se tornara necessária devido
aos golpes aplicados por seus adversários, em Corinto, os quais tinham
provocado o aparecimento do espírito de partidarismo, levando muitos a
duvidarem da autenticidade do apostolado de Paulo. E foi essa nota de
discórdia e dissensão que provocou o motivo da escrita da primeira e da
segunda epístolas aos Coríntios, por serem livros que têm por intuito
abordar os muitos «problemas» surgidos naquela igreja cristã, entre os quais
se destacava a dúvida em torno do apostolado de Paulo. (Com isso se pode
comparar a sua defesa ante os crentes da Galácia—Gál. 1:11 - 2:14). Talvez
nos surpreenda que tenha sido necessária essa defesa, tão firmemente
estabejecida é a autoridade apostólica de Paulo na igreja universal de nossos
dias. Ê óbvio, entretanto, que essa autoridade não era tão universalmente
aceita nos seus próprios dias, nem mesmo entre os crentes gentios, para
nada dizermos acerca das dificuldades de Paulo perante a igreja local de
Jerusalém. (Quanto a esse particular, ver o décimo quinto capítulo do livro
de Atos, bem como as próprias alusões do apóstolo dos gentios sobre o
assunto, em Rom. 15:31). Paulo tivera até mesmo razões para duvidar que a
oferta recolhida entre as igrejas gentílicas, para alívio dos santos pobres de
Jerusalém (ver as notas expositivas em Rom. 15:25 a esse respeito), não
seria bem aceita pelos orgulhosos elementos legalistas da capital religiosa da
Judéia.
Por todas essas razões é que Paulo afirma aqui que o seu apostolado era
segundo a «vontade de Deus». E esse apóstolo faz as mesmas reivindicações
nas introduções de suas seguintes epístolas: II Coríntios, Efésios,
Colossenses e II Timóteo. E é neste ponto que ele expande essa idéia,
mencionando a «chamada divina». Outro tanto é declarado em Rom. 1:1,
sendo o único outro trecho de suas epístolas onde ele afirma exatamente a
mesma coisa, ainda que o primeiro capítulo da epístola aos Gálatas
certamente diga a mesma coisa. Nessa epístola aos Gálatas é onde o
apóstolo Paulo desenvolve mais amplamente esse tema, aprofundando-se
mais em suas considerações, tendo chegado a afirmar que sua chamada
vinha do berço. Em outras palavras, Paulo teria vindo ao mundo com o
propósito específico de cumprir o elevado ofício de um apóstolo do Senhor
Jesus Cristo. (Ver Gál. 1:15). Esse chamamento, para dizer a verdade,
constituiu uma eleição original, mas Gál. 1:16 e ss. é uma passagem que
mostra que o propósito do apostolado foi o resultado necessário dessa
eleição original, contida na mesma. (Ver Rom. 1:1 e as notas expositivas ali
existentes, quanto ao desenvolvimento da idéia desse «chamamento de
Paulo», onde o conceito é desdobrado em seus vários aspectos).
«...apóstolo...» (Quanto a notas expositivas sobre esse ministério, ver
Mat. 10:1. Quanto a uma lista dos apóstolos, onde há uma breve descrição
acerca de cada um deles, ver Luc. 6:12. Quanto ao uso mais lato desse
termo, que inclui mais do que os doze apóstolos originais, ver Atos 14:4).
Paulo foi comissionado pelo Senhor para esse elevado ofício, a fim de que
fosse testemunha da ressurreição do Senhor Jesus. As visões que recebeu da
parte de Cristo qualificaram-no para tal ministério. Ora, aqui Paulo se
apresenta aos crentes de Corinto nessa capacidade, porquanto seu
apostolado não estava limitado geograficamente em qualquer sentido. Na
qualidade de apóstolo dos gentios, outrossim, ele exercia autoridade
especial sobre a igreja cristã de Corinto, sobretudo por haver sido o
fundador da mesma. Contudo, Paulo salienta apologeticamente essa sua
autoridade, porque estava prestes a fazer a tentativa de corrigir muitos
problemas difíceis que haviam surgido naquela congregação cristã.
Estando na cidade de Éfeso, na casa de amigos, a verificar os relatórios
acerca das condições existentes em Corinto, com o coração entristecido,
Paulo começou a escrever esta epístola. E sentiu ser lamentável que tivesse
de começar a mesma autenticando seu próprio ofício, afirmando que o
mesmo se devia à vontade de Deus, expressa por chamada divina. Sua
autoridade não provinha dos homens; e por essa mesma razão, tinha o
direito e a responsabilidade, que o próprio Senhor lhe dera, de tentar
corrigir os muitos erros que não demoraram a tornar-se as características
dominantes da igreja cristã de Corinto.
Paulo era possuidor de tremendo senso de sua missão, conforme
transparece claramente em todos os seus escritos. Para ele, seu trabalho no
evangelho se revestia de uma seriedade mortal, que consumia a sua
existência diária e os seus pensamentos. Era um vaso especialmente
escolhido pelo Senhor. Na verdade, entretanto, todos os seres humanos têm
alguma missão a cumprir, não menos que Paulo, embora talvez sejam
missões de menor injportância. O destino humano é o mesmo, todavia. E
esse destino é a completa transformação dos remidos à imagem de Cristo,
8 I CORÍNTIOS
em que venham a participar de tudo quanto ele é, moral e metafisicamente
falando, de modo que os homens venham a compartilhar da própria
natureza divina. (Ver as notas expositivas sobre esses temas, nos trechos de
Rom. 8:29 e II Ped. 1:4. Ver também os comentários sobre os «vasos
escolhidos» e sobre as «missões secundárias», em Atos 9:15 e 9:19,
respectivamente). Nossa missão consiste em chegarmos o mais perto
possível dessa transformação segundo a imagem de Cristo, pelo que ela se
reveste de capital importância, tal como Paulo valorizava a sua missão. A
vida terrena inteira nos serve de escola, de campo de treinamento, fazendo
parte integrante desse processo de transformação. Faríamos bem em levar a
vida tão a sério como o fazia o apóstolo Paulo, desenvolvendo um tão
elevado senso de missão como ele. ·
Não fomos nós que nos selecionamos a nós mesmos; mas Deus é quem
nos escolheu, a fim de formar Cristo em nós, tornando-nos instrumentos
sem-par de sua vontade. E isso não somente neste mundo,· mas igualmente
por toda a eternidade. (No que tange ao chamamento dos homens, da parte
de Deus, ver João 15:16. Ver Apo. 2:17 quanto às características todas
próprias e sem-par de cada discípulo de Cristo, o que redunda em glória
para a pessoa do Senhor Jesus, a começar nesta existência terrena, mas
atingindo uma fruição mais perfeita e maior nos lugares celestiais).
Os fariseus se tinham mostrado amargamente contrários a Jesus de
Nazaré mas este conquistara o vulto mais importante entre eles, a saber,
Saulo de Tarso. E este fora feito um instrumento sem igual para a
propagação do evangelho de Cristo. (Ver Fil. 3:5 e Fál. 2:20).
Ninguém deve ser feito ministro, na igreja cristã, como repre­
sentante do ministério de uma igreja local, se não for dotadodesse mesmo
compelidor senso de missão. O ministério precisa ser muito mais do que
uma mera profissão. O apóstolo Paulo tinha como seu exemplo e modelo a
pessoa de Cristo (ver I Cor. 4:14-16 e 11:1), e nós, por nossa vez, podemos
ter a ambos como nosso modelo. Se assim fizermos, teremos convicção
quanto ao nosso chamamento para o ministério, bem como teremos
autoridade para agir.
«...Sóstenes...» Talvez se trate do indivíduo do mesmo nome, que figura
em Atos 18:17, e que havia sido líder de uma sinagoga judaica, e que fora
espancado perante o tribunal presidido por Gálio. Ê possível que quanto a
esta primeira epístola aos Coríntios, Sóstenes tenha servido de amanuense
para Paulo. (Quanto ao costume que esse apóstolo tinha de utilizar-se do
trabalho de amanuenses, para ditar-lhes suas epístolas, ver as notas
expositivas sobre Rom. 16:22. Quanto aos diversos «Sóstenes» que
aparecem nas páginas do N.T., ver Atos 18:17).
Alguns estudiosos pensam ter havido um único Sóstenes; mas outros
opinam que o cooperador de Paulo em Éfeso não foi o mesmo «Sóstenes» de
Corinto, o qual é mencionado no décimo oitavo capítulo do livro de Atos. O
mais provável, todavia, é que se trate de um único indivíduo. Paulo
menciona Sóstenes como alguém a ele associado, porquanto, sem dúvida,
seu nome tinha autoridade e importância em Corinto, onde fora um dos
principais rabinos judeus, e onde, subseqüentemente, se convertera a Jesus
Cristo. (Clem. Alex. Hyv., conforme ficou preservado para nós na narrativa
histórica de Eusébio 1:12.1-2, afirmava ter sido Sóstenes um dos setenta
discípulos especiais referidos no décimo capítulo do evangelho de Lucas,
mas essa é uma informação extremamente incerta e improvável). Parece
que Sóstenes se opusera a Paulo, quando este apóstolo deu início ao seu
trabalho de evangelização em Corinto; posteriormente, entretanto, se
converteu ao cristianismo. «Sóstenes» significa «dotado de força segura». Se
antes fizera oposição a Paulo e a Cristo, agoríg porém, é chamado de
«...irmão...» E o fato de que o seu nome é anexado a esta primeira epístola
aos Coríntios mostra-nos que ele se tornara crente de alguma fama e
autoridade. Paulo encontrou apoio para sua própria autoridade apostólica,
em Corinto, mostrando que contava com a aprovação e com a amizade de
Sóstenes, sem dúvida um homem respeitado em Corinto.
2 Tjj εκκλησία τον θεόν rfj ovar) iv Κορίνθω , τ)γιασμ4νοις iv Χ ριστώ Ίη σ ο ν, κλητοΐς ά γίο ις ,α συν ττάσιν
τοΐς€τηκαλουμ€νοις το δνομα τον κνρίου ημώ ν Ί η σ ο ν Χ ρίστον iv τταντϊ τόπω , αντώ ν και η μ ώ ν
α 2 a minor: TR WH Bov Nes BF2 AV RV ASV NEB TT Zür Seg // a none: RSV Luth Jer 2 rfj €κκη σ ί(/....Ίη σ ο ν 1 Cor 6.11 π α σ ιν ...Χ ρ ίσ το ν Ac 9.14
Z τη ονστη . . Ιησον] trsp ηγ. ev Χρ. I. τ. ο. eu Κ. p 46BD*G it
Por um lado, uma minoria da comissão argumentou que a forma adotada para o texto, apoiada por peiV,'
iN A D 1 P Ψ
049 (056 0142 omitem Ίησον) e aparentemente todos os manuscritos, é secundária, já que é a mais fácil das duas variantes. Por
outro lado, porém, a forma rjyiaapeiOis èv Χριστώ Ίησον τν ούσγι kv Κορίνθω, embora apoiada
pela notável combinação de (p46 B D*·2 F G), para a maioria da comissão pareceu ser intrinsecamente difícil demais, bem
como basante nâo-paulina, em confronto com o estilo das saudações de outras epístolas paulinas. A forma aparentemente surgiu,
da omissão acidental de uma ou mais frases e sua subseqüente reintrodução na posição errada.
1:2: ò igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus,
chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de
nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:
«...igreja de Deus...» Comentou Crisóstomo (in loc.), a respeito dessas
palavras: «...não deste ou daquele homem». Isso Paulo escreveu em
preparação para a exposição do tema que se seguiria. (Quanto a notas
expositivas sobre a cidade de Corinto, ver a secção III da introdução a este
livro. Quanto a notas expositivas completas sobre o tema da «santificação»,
ver I Tes. 4:3. Quanto ao fato que os crentes são freqüentemente chamados
de «santos», nas páginas do N.T., ver Rom. 1:7. Quanto ao tema de «Jesus,
o Senhor», ver Rom. 1:4).
A cidade de «...Corinto...» fora destruída por Múmio, em 146 A.C., mas
cerca de cem anos mais tarde fora restaurada pelo imperador Júlio César,
mais ou menos em 44 A.C. Ao tempo de Paulo se transformara em uma
sociedade abastante, famosa por sua profunda corrupção, sobretudo
quanto ao vícios sensuais. O vocábulo «corintianizar» significava praticar
imoralidades, como parte da adoração à deusa Afrodite (a Vênus dos
romanos), bem como a prática de vícios particulares dessa mesma natureza.
Essa adoração pagã empregava um grande número de religiosas que eram
prostitutas profissionais. Além disso, na cidade campeavam outros vícios,
de natureza não-religiosa. Não obstante, Corinto era um dos centros da
erudição grega, tendo sido a mais cosmopolita de todas as cidades gregas.
Contava com escolas de retórica e de filosofia, em imitação ao que ocorria
em Atenas. (As notas expositivas referentes ao trecho de Atos 18:1
descrevem, com maior abundância de pormenores, o tipo de lugar onde
Paulo estabelecera a igreja cristã de Corinto; e a leitura desses comentários
mostra-nos por que, dentro de tão pouco tempo, haviam surgido tão graves
problemas naquela igreja).
Em contraste com os vícios que dominavam a cidade de Corinto, os
crentes deveriam ser um povo «...santificado...», separado, dedicado às
coisas santas do Senhor. A santificação tem início por ocasião da conversão;
pois é nesse instante que uma pessoa é separada para o Deus santo, para um
elevadíssimo destino. No entanto, essa santificação é progressiva, pois,
neste mundo, ninguém fica inteiramente livre da mancha do pecado, mas
sempre poderá ser purificado ainda mais. Todavia, é um processo que terá
conclusão, porquanto todos os remidos chegarão a certo grau de santidade
absoluta, ou seja, serão totalmente libertos da presença do pecado. Por
outro lado, a santificação consiste também na formação da natureza moral
de Cristo no crente individual, do que o alvo é a perfeição absoluta. Por
semelhante modo, poderíamos compreender a santificação como a
implantação da natureza positiva de Deus nos homens, de tal modo que o
indivíduo salvo venha a tomar-se tão santo quanto Deus é santo, possuidor
de suas mesmas características morais positivas, como o amor, a paciência,
a misericórdia, etc. (Quanto a notas expositivas acerca do tema da
«santificação», ver I Tes. 4:3).
«...com todos...» A pessoa de Cristo é objeto de nossa adoração, para
quem também dirigimos nossas orações legitimamente. A igreja cristã se
caracteriza pelo fato de ser uma comunidade composta de indivíduos que
têm a Jesus Cristo como seu Senhor, que invocam o seu nome, que exaltam
a sua pessoa, que imploram a sua ajuda para suas vidas diárias e para o seu
devido desenvolvimento espiritual, assim mostrando que dependem
inteiramente dele. (Ver também essa expressão, tomada por empréstimo da
Septuaginta, tradução do original hebraico do A.T. para o grego,
completada em cerca de duzentos anos antes da era cristã, em Rom. 10:12 e
Atos 2:21. Ver Zac. 13:9; Gên. 12:8; 13:4 e Sal. 115:17). Essa expressão
tem por fito indicar algo a respeito da «adoração» que imperava na
comunidade cristã; e o objetivo dessa adoração, naturalmente, subentende
dependência a Cristo, em Atos 7:59,60. Quanto a notas gerais sobre a
oração, ver João 14:13 eEfé. 6:18. Quanto a provas do fato de que, na igreja
cristã primitiva, os crentes dirigiam suas orações a Cristo, ver as notas
expositivas acerca de Atos 1:24 e 9:14. Várias referências são dadas nesses
comentários que comprovam o fato. Ver também Atos 2:21; 7:59,60; 22:16
e Apo. 22:20, Plínio, historiador romano, ao narrar o que soubera sobre a
adoração entre os cristãos, escreveu que eles costumavam orar a Cristo
«como se fosse Deus». (Ver Epist. x,97).
Podemos notar no presente versículo, por conseguinte, que Cristo Jesus
era adorado como Deus. A invocação do nome de nosso Senhor, nas páginas
do A.T., se refere à invocação do nome de Yahweh. Nas páginas do N.T.,
entretanto, se refere ao nome de Jesus Cristo. (Ver Atos 2:21 quanto a esse
fato, o qual é reiterado em Rom. 10:13). A verdade é que nenhuma oração
pode ser corretamente dirigida a uma mera criatura, já que a oração
subentende alguma forma de adoração. No contexto da passagem que ora
comentamos torna-se óbvio que a oração fazia parte da adoração. O próprio
conceito de Cristo como Senhor (o que é devidamente comentado no trecho
de Rom. 1:4), subentende sua adoração legítima. De fato, os crentes são
justamente aqueles que adoram a Cristo, embora, supostamente, existam
cristãos nominais, que não o adoram. (Ver Atos 7:59; II Cor. 12:8,9; Heb.
1:6 e Apo. 5:12 acerca do fato que Jesus Cristo é digno objeto de nossa
adoração à deidade).
O presente versículo tem natureza universalista. Alguns eruditos têm
procurado fazer desta primeira epístola aos Coríntios uma espécie de
epístola geral, e não endereçada especificamente à comunidade cristã
daquela cidade, devido ao fato que vários trechos seus indicam um caráter
universal. (Além do presente versículo, isso pode ser visto em I Cor. 4:17;
7:17; 11:16 e 14:33). Outros estudiosos têm imaginado que esses versículos
de natureza «geral» teriam sido acrescentados por escribas de séculos
posteriores. Mas, na realidade, não há razão alguma para supormos que
Paulo, ao escrever para uma comunidade cristã local, não pudesse ter feito
I CORÍNTIOS 9
declarações que tenham aplicação aos crentes de todos os lugares e de todas
as épocas. (Com esta declaração, comparar o que é dito em outros livros,
nesse mesmo sentido, como em Rom. 10:13; Fil. 2:11 e Atos 9:14).
«...Senhor deles e nosso...»A característica distintiva de um crente é que
ele tem a Jesus de Nazaré como seu Senhor. Não existe crente, no sentido
autêntico da palavra, que não aceite a Cristo como Senhor. Pois Jesus não é
Salvador daquele que não o tem também como Senhor. O estar «salvo»
subentende que o crente está sendo amoldado conforme a imagem de
Cristo, e isso, necessariamente, inclui estar sujeito ao seu senhorio. (Ver
Rom. 1:4 e as notas expositivas ali existentes, acerca de uma expansão dessa
idéia em geral). A declaração que aqui encontramos, além de enfatizar o
senhorio geral de Cristo, também salienta a autoridade apostólica de Paulo,
sobre Corinto e sobre toda a Acaia, porquanto Paulo foi também o
fundador daquelas igrejas cristãs locais, tendo sido ele o primeiro a
anunciar-lhes a pessoa de Cristo. (Quanto a notas expositivas sobre a «igreja
cristã», ver Efé. 3:10).
A igreja consiste dos «chamados», daqueles que vão sendo separados por
Deus do meio da sociedade humana, sendo retirados das corrupções
próprias dessa sociedade, e que se dedicam à causa de sua pátria celestial. A
igreja cristã é uma comunidade que compartilha dos interesses comuns da
fé e da transformação moral e metafísica na imagem de Cristo; e essa
comunidade se compõe daqueles que estão unidos em seu amor em fé como
um grupo, um grupo leal a Jesus Cristo.
A forte saliência que Paulo dava à unidade da igreja «católica» (termo
usado pela primeira vez por Inácio, (Ad Smyraeos, cap. 8)), pavimenta o
caminho para a sua repreensão contra aqueles que perturbavam essa
unidade, criando facções diversas dentro da igreja cristã, destruindo assim,
em parte, o senhorio universal de Jesus Cristo. (Ver I Cor. 1:10 e ss. Quanto
a notas expositivas completas sobre a expressão «em Cristo», ver o quarto
versículo deste mesmo capítulo).
3 χάρις ύμ ΐν καί ειρήνη από θεοΰ πατρός ήμώ ν και
1:3: Graça seja convosco, e paz, da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus
Cristo.
Essas palavras constituíam uma saudação muito costumeira para o
apóstolo dos gentios, a qual também pode ser vista no trecho de Rom. 1:7b,
na qual passagem é amplamente comentada. Essa mesma saudação se
encontra nos trechos de II Cor. 1:2; Gál. 1:3; Efé. 1:2; Fil. 1:2; Col. 1:2; I
Tes. 1:1; II Tes. 1:2). Na primeira e na segunda epístolas a Timóteo temos a
adição do vocábulo «misericórdia», nessa forma de saudação, perfazendo,
«graça, misericórdia e paz», o que também é duplicado em Tito 1:4. A
passagem de Fil. 1:3, entretanto, diz o que era mais costumeiro, «graça e
paz».
«Em sua saudação costumeira, Paulo une dois termos para indicar o dom
divino e as duas fontes originárias desse dom. A ‘graça’ é a bondade
desmerecida pelos homens. A ‘paz’é o termo semita para indicar a salvação
divina. Paulo, todavia, não queria dizer que Deus seja a origem da graça, e
que Cristo seja a origem da paz. Ambas essas qualidades procedem tanto de
Deus Pai como de Deus Filho, o Senhor. Paulo nunca emprega a palavra
‘Filho’, para Cristo, em uma salvação, ainda que, em outras porções de suas
κυρίου Ί-ησοΰ Χ ρίστου. 3 Ro 1.7
epístolas, essa expressão seja de ocorrência freqüente. As relações exatas,
entre Deus Pai e Deus Filho, não são aqui focalizadas; mas haverá
indicações sobre a posição de Paulo quanto a essa particularidade, mais
adiante nesta mesma epístola». (C.T. Craig, in loc.). (Quanto a notas
expositivas completas sobre a «graça divina», ver Efé. 2:8; quanto à «paz»,
ver as notas expositivas em João 14:27; 16:33 e Rom. 5:1).
Diz Vincent (m/oc.): «A ‘graça’ é a saudação grega; a ‘paz’ é a saudação
judaica. Ambas têm um sentido espiritual. (Comparar com Núm. 6:25,26).
Essa forma de saudação é comum em todas as epístolas de Paulo às
igrejas... Somente Tiago exibe a saudação ordinária e convencional,
«charein» (regozijai-vos, salve, saudações)».
«A ‘paz’ mostra qual a necessidade peculiar que havia na igreja de
Corinto». (Faucett, in loc.).
«A graça é a origem, é a consumação». (Edwards).
«O favor divino, naturalmente, contribui para a tranqüilidade mental. A
inimizade com Deus cessou, e a reconciliação se seguiu». (Robertson e
Plummer, in loc.). (Quanto a notas expositivas sobre a «paternidade de
Deus», ver os trechos de João 8:42 e Mat. 6:9).
4 Ε υχαριστώ τώ θεώ μου1 πάντοτε περί υμώ ν επί ττ/ χά ριτι του θεοΰ τύ δοθείση ύμϊν εν Χ ριστώ
Ί η σ ο υ,
1 4 {Β } 0€ω μου Η» A C D G Ρ Φ 33 81 104 181 326 330 436 451 614 629 I vg syrP-h copsa-bo a rm O rigen C h ry so sto m C y ril T h e o d o ret // θ*ω ήμώ ν
630 1241 1739 1877 1881 1962 2127 2492 2495 B y z L e d Η<*Γ
>·«ΐ·<»«η·*·ί·*·<'1>.ι·*.« | 491 // θίω N* B e th E p h ra em // om it τω θ^ω μου 1984
Embora seja possível que μου tenha penetrado no texto por assimilação a Rom. 1:8 ou Fil. 1:3, a comissão julgou mais
provável que a palavra foi omitida como imprópria por vários copistas (N* B etí Efraem). A forma θβω μου é fortemente
apoiada por grande variedade de testemunhos gregos e de versões (Na A C D G P f 33614 1739 Byz Lecí it vg sir (p,h) cop
(sa,bo) ara). A omissão de τω θβω μου (1984) e a forma θεώ ημών (491) são erros escribais feitos por acidente.
Ί :4: Sempre dou graças a Deus por vis, pela graça de Deus que vos foi dada em
Cristo Jesus,-
A palavra «... g r a ç a . neste versículo, dá a entender o «estado de graça»,
ou seja, as bênçãos espirituais em geral que os crentes coríntios haviam
recebido por meio de Cristo—sua salvação estava alicerçada sobre a graça
divina, conforme se vê em Efé. 2:8. Os «dons da graça» são resultados
naturais dessa graça geral, e, entre os crentes de Corinto, esses dons eram
abundantes. Considerado de maneira geral, o termo «graça» indica o estado
em que o crente vive sob a influência da redenção e da reconciliação que há
em Cristo, tornando-se capaz de servir ao Senhor mediante vários ofícios e
dons espirituais inspirados e conferidos pelo Espírito Santo. Com isso se
pode confrontar a declaração paulina sobre como ele mesmo recebera
«graça» e «apostolado», em Rom. 1:5, onde tais pensamentos são mais
amplamente desenvolvidos. Através da graça geral de Deus, na eleição, ele
recebera um ofício ou serviço específico, isto é, o apostolado. (Ver também
Rom. 12:3 e as notas expositivas ali existentes a respeito da «graça divina»,
por meio da qual ele era capaz de exortar à igreja).
Essa graça se encontra «.. .em Cristo...» A pessoa de Cristo é mencionada
por nada menos de dez vezes, nos primeiros dez versículos desta epístola.
Todas as bênçãos espirituais nos são propiciadas por meio de Cristo, como
também todos os ministérios. Ele é o alvo mesmo de toda a existência
humana, porquanto é em sua imagem, moral e metafisicamente falando,
que estamos sendo transformados, participando assim da própria natureza
divina, numa filiação autêntica para com Deus Pai. (Ver Rom. 8:29 e II
Ped. 1:4).
Embora muito perturbado ante a situação que imperava na igreja de
Corinto, conforme o restante desta epístola no-lo demonstra claramente,
Paulo ainda achava entre aqueles crentes muitos motivos pelos quais
poderia agradecer a Deus, posto que muito fora feito em favor de Cristo,
entre os coríntios, durante os dezoito meses que Paulo estivera entre eles, e
muito fruto resultara de seus esforços, a despeito das corrupções morais e
práticas que haviam penetrado ali.
Quanto ao conceito da «graça divina», poderemos compreendê-lo melhor
desdobrando-o nos seguintes pontos:
1. Pode estar em vista a sua natureza em geral, como é o caso da salvação
que nos é dada em Cristo, segundo se vê no oitavo capítulo da epístola aos
Romanos.
2. Pode estar em foco a sua eterna concessão, nos decretos de Deus,
segundo se vê no primeiro capítulo da epístola aos Efésios.
3. Mas geralmente se frisa, particularmente, a sua concessão dentro do
tempo, como quando o evangelho chegou aos habitantes de Corinto, através
da pregação de Paulo.
Cristo-Misticismo:
1. A expressão, em Cristo, se encontra por 164 vezes nas epístolas de
Paulo. Conforme a maioria dos intérpretes, ela indica comunhão mística.
Os crentes, por meio do Espírito, desfrutam de um genuíno contacto com
Cristo, por causa do que estão sendo transformados segundo a sua imagem,
e, portanto, estão adquirindo suas qualidades morais e também metafísicas
(ver as notas em Col. 2:10).
2. Por conseguinte, a expressão subentende a participação no tipo de vida
eterna que ele prometeu. (Ver notas completas sobre a «vida eterna», em
João 3:15).
3. Estar em Cristo significa que o Espírito está conduzindo o crente de um
estágio de glória para outro, ad infinitum. (Quanto a notas completas sobre
esse conceito, ver II Cor. 3:18). Fica obviamente implícita a presença
habitadora do Espírito (no crente, como seu templo—ver as notas em Efé.
2:20).
4. Em Cristo, os homens têm salvação, ou seja, a participação na própria
forma de vida que Deus tem, a sua vida necessária e independente (ver as
notas em João 5:25,26, e sobre a «salvação», em Heb. 2:3). A salvação é
mediada através da filiação (ver Rom. 8:14-17), e nenhum indivíduo fora de
Cristo (e, portanto, que não esteja «nele»), poderá aspirar a ser salvo.
5. Portanto, estar em Cristo significa participar da inteira plenitude de
Deus (ver Efé. 3:19), isto é, possuir os seus atributos divinos, com base na
participação em sua natureza.
6. Em segundo lugar, a expressão quer dizer «estar identificado com a
comunidade cristã». Isso confere ao crente um novo endereço. Portanto,
todo o crente tem dois endereços, um deles puram ente humano, a
localidade onde ele vive; o outro é de ordem espiritual, a identificação com
Cristo e a sua comunidade remida.
7. Essa expressão também fala de nossa união com Cristo, em seüs
aspectos presente e eterno. Esse é o tema mais freqüente dos escritos de
Paulo.
No trecho de Rom. 6:3 aprendemos que fomos todos «batizados em
Cristo». Uma vez mais, a comunhão ou participação em uma nova vida é o
tema central. Em Rom. 8:10 lemos que Cristo está em nós.
Podemos notar, em I Cor. 1:2, que esse estar em Cristo atua como
elemento santificador. O trecho de I Cor. 1:30, por sua vez, mostra-nos que
isso significa a obtenção da sabedoria, da retidão, da santificação e da
10 I CORÍNTIOS
redenção que há em Cristo. E a passagem de II Cor. 5:17 ensina-nos que
aqueles que estão em Cristo devem ser, necessariamente, novas criaturas,
seres que perenemente estão sendo transformados, até que Cristo seja
perfeitamente formado neles. (Ver II Cor. 3:18 e as notas expositivas a
respeito, quanto a esse tema). Ora, o alvo final de tudo isso é a perfeição
absoluta. (Ver Rom. 8:28). E Efé. 2:13 é passagem que mostra que o estado
de alienação de Deus é eliminado por essa nova participação na vida de
Cristo. Essa, pois, é a comunhão mística do corpo com a cabeça, da Noiva
com o Noivo celeste.
Estar em Cristo, outrossim, significa estar em uma nova posição
escatológica, isto é, sob o favor divino, no que tange ao segundo advento de
Cristo e ao julgamento final, bem como no que concerne às realizações
potenciais, da eternidade. Mas está envolvido ainda mais do que isso,
conforme as notas expositivas acima o demonstram. Ver as referências
seguintes, que usam essa expressão: Rom. 3:24; 6:3; 8:1,10; 12:5; 13:14;
16:7; I Cor. 1:2,4,30; 3:11; 15:22; 16:24; II Cor. 5:17; 13:5; Gál. 2:20,21;
3:27,28; 5:6; Efé. 1:1,3; 2:13; 3:17; Fil. 1:21; 3:3; Col. :1:27; 3:3,11 e II
Tim. 2:1,10.
Variante Textual·. As palavras «...meu Deus...» aparecem na .maioria dos
manuscritos gregos posteriores, como ACDEFGLP, as versões latinas,
siríacas, cópticas e armênias, incluindo os manuscritos que serviram de base
para a formulação do Textus Receptus. Mas algumas cópias antigas dizem
«...nosso Deus...», a saber, o ms 491 e alguns outros manuscritos sem
importância especial. Contudo, alguns dos manuscritos mais antigos, como
Aleph, B e algumas versões, como a etíope, e os escritos de Efraem, pai da
igreja, não exibem nem «meu» e nem «nosso», mas dizem meramente «...graças
a Deus...» E não há que duvidar que assim dizia o original. As variantes são
glosas escribais de pequena monta.
★★★
5 otl iv ττα ν τί ε π λ ο ν τ ίσ θ η τ ε €v α ν τ ίο , εν π α ν τ ι λ ο γ ω κ α ι ττα σ η γ ν ω σ β ί,
1:5: porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo o
conhecimento,
Paulo se sentia capaz de fazer uma avaliação verdadeira. Era verdade que
aqueles crentes de Corinto passavam por um período difícil, e isso por culpa
deles mesmos. Toleravam falsos mestres entre eles, estavam divididos em
facções diversas, alguns dentre eles negavam até mesmo a validade do
apostolado de Paulo, enquanto que outros abusavam dos dons miraculosos
e seus cultos eram extremamente desordenados. Além de todos esses males,
permitiam a permanência de pecados morais profundos.
Aquela era verdadeiramente uma igreja cristã gentílica, que viera do
paganismo, mas que continuava permeada pelo mesmo. A despeito disso,
eram superiores moralmente ao mundo, pois tinham evidências do fato que
a graça de Cristo operava entre eles. Estavam «...enriquecidos...» em
Cristo, na comunhão mística descrita no versículo anterior. Tinham grande
conhecimento das realidades espirituais, e, pelo menos em parte, haviam
aplicado essas realidades à sua vida diária. Assim sendo, Paulo pôde dar
graças a Deus (ver o versículo anterior). E agora se preparava para corrigir
algumas deficiências que restavam naquela igreja local, conforme havia
sido informado por vários elementos que tinham vindo de Corinto para
Éfeso.
Pouco mais adiante, Paulo haveria de criticar o «conhecimento» daqueles
crentes, porque, de diversas maneiras, eles tinham abusado do mesmo.
Tinham ficado orgulhosos por causa desse conhecimento. Paulo teve de
mostrar-lhes que precisavam muito mais do amor cristão do que de
conhecimento. (Ver I Cor. 1:18 - 2:5; 8:1-13 e a totalidade do seu décimo
terceiro capítulo).
«...palavra...» Está aqui em pauta a capacidade de expressar-se bem,
segundo se procurava desenvolver essa habilidade nas escolas de retórica, o
que os sofistas procuravam aplicar a seus sermões e discursos. Porém, talvez
também haja aqui alusão ao «falar em línguas». Os crentes coríntios,
todavia, haviam abusado até mesmo desse dom espiritual, o que provocou
as longas explanações a respeito, encontradas no décimo quarto capítulo
desta epístola. Vemos, por conseguinte, que até mesmo entre aquilo acerca
do que Paulo podia agradecer a Deus, como manifestações do Espírito
Santo entre os crentes de Corinto, havia de misturar alguma corrupção e
abuso. Com esta passagem podemos comparar o trecho de II Cor. 8:7, onde
Paulo tece elogios acerca da «fé», da «palavra» e dc «conhecimento» dos
crentes coríntios. Ora, todas essas qualidades são dons do Espírito Santo,
quando se manifestam em forma autêntica na igreja cristã. Mas cada um
desses dons pode ser imitado e abusado. (Ver I Cor. 1:17 - 4:20 e 8:1 e ss.).
6 καθώς το μαρτνριον τον Χρίστον εβεβαιώθη
1:6: assim como ο testemunho de Cristo foi confirmado entre vós;
(Quanto a um estudo completo sobre a pessoa do Senhor Jesus Cristo, ver
o artigo introdutório, no começo deste comentário. Quanto a notas
expositivas acerca de «Cristo», ver Mat. 1:16).
«...o testemunho de Cristo...» Temos aqui o testemunho concernente à ■
pessoa de Cristo, a mensagem do evangelho com tudo quanto nele está
implícito. Ora, os crentes de Corinto tinham ouvido e crido nesse
testemunho, e assim se tinham convertido. Eram testemunhas vivas da
realidade e do poder dessa mensagem que gira em torno de Cristo. (Ver
João 1:7; Atos 1:8 e II Tim. 1:8). Paulo se refere aqui à sua própria
pregação, que produzira tão abundante fruto em Corinto. (Ver Atos 18:10
onde Paulo, em um momento de descoroçoamento, e talvez de temor,
recebeu a certeza de que ali haveria grande colheita de almas). Paulo
ganhou coragem, e deu prosseguimento a seus labores naquela cidade, e a
promessa divina se cumpriu. Sim, houve a «confirmação» da eficácia e do
poder da mensagem que ele pregava. É exatamente a isso que Paulo se
reporta aqui, ao dar início à menção das coisas «boas» que podia dizer sobre
os crentes de Corinto, antes de começar as críticas a que se sentia forçado.
Orígenes interpretava este versículo pensando tratar-se do testemunho
que as Escrituras dão a respeito de Jesus Cristo, bem como do testemunho
que Cristo deu acerca de si mesmo, por ter sido ele as «primídas» da
humanidade, mediante a sua morte e ressurreição. O que Orígenes dizia é
verdade; mas o que Paulo tinha em mente aqui era a sua própria exposição
sobre a pessoa de Cristo na presença dos coríntios.
«...confirmado...» Essa palavra pode ser compreendida de diversas
7 ώ στε υμάς μη ύστερεΐσθαί iv μηόβνί χαρίσματι,
’Ιησον Χρίστον-
É possível que ο termo «...palavra...» inclua tanto o dom do ensino como
o falar em línguas. Parece tratar-se de um vocábulo geral relacionado ao
exercício de qualquer dom que envolva a capacidade de expressão. Apoio
possuía esse dom de maneira suprema. (Ver Atos 18:24). Podemos estar
certos de que em Corinto, onde havia famosas escolas de retórica, a
capacidade de falar com brilhantismo em público era reputada como de
grande valor; e podemos imaginar que, naquela igreja, os pregadores eram
julgados de acordo com essa capacidade. De conformidade com os seus
oponentes, Paulo se mostrava inadequado quanto a esse dom. (Ver II Cor.
10:10). Ele não era tão grande orador como eles pensavam que eram, e,
por causa disso, desprezavam-no. É que a sabedoria humana, naquela
comunidade cristã, havia tomado o lugar do ministério de ensino inspirado,
e o orgulho pessoal havia destruído a humildade espiritual inerente, o que
deveria caracterizar aqueles que realmente possuem dons espirituais. O
poder oratório de Paulo dependia antes de sua profunda convicção, que ele
expressava incisivamente. (Ver I Cor. 1:18; 2:4 e 4:20).
O «...conhecimento...» aqui aludido é abordado pelo apóstolo Paulo
como um dom espiritual, conforme vemos nas passagens de I Cor. 1:28;
13:2 e 14:6. O conhecimento verdadeiro é aquele que nos é conferido através
do Espírito Santo, na forma de compreensão espiritual, algo de natureza
intuitiva e até mesmo mística, e não meramente informações aprendidas em
escolas seculares. A erudição acadêmica é boa e até mesmo necessária para
muitas atividades, não sendo inerentemente má na igreja cristã. O padrão
de todos os ministros deveria ser possuírem uma erudição básica. Não
obstante, deveriam destacar-se sobretudo na erudição bíblica. E essa
erudição pode ser obtida nas escolas e seminários teológicos. No entanto, os
ministros do evangelho precisam de muito mais do que dessa erudição.
Deve haver aquele ensino do Espírito, aquele conhecimento pessoal de
Cristo e sobre as realidades espirituais que transcende a qualquer erudição
aprendida em compêndios e escolas.
«...todo conhecimento...» (Ver II Cor. 11:6 e as notas expositivas a
respeito, onde Paulo, reivindica tal conhecimento de forma extraordinária
para si mesmo. Ver Também I Cor. 8:1 e ss.).
«...enriquecidos...» Essa palavra expressa a abundância e a variedade de
seus dons espirituais, dando a entender que tudo isso lhes fora outorgado
através de Cristo, em quem residem todas as riquezas espirituais. Diz
Robertson (in loc.) acerca desse aspecto: «O crente encontra suas
verdadeiras riquezas em Cristo, sendo esta uma das frases expressivas de
Paulo, prenhe do mais autêntico misticismo». (Com isso comparar os
trechos de Col. 3:16 e Rom. 2:4).
€V ν μ ΐν , 6 Χρίστου] θεού B*G al sapt
maneiras, a saber:
1. Poderia ser o testemunho cristão, estabelecido sobre bases duráveis,
capazes de perdurar para sempre.
2. Poderia estar em vista a mensagem cristã, estabelecida como verídica e
■ válida, devido à influência que exercera sobre os crentes de Corinto.
3. Poderia estar em foco o testemunho do Espírito, em confirmação dessa
mensagem, numa atuação que levou aqueles coríntios a acolherem 3
mensagem cristã com profunda convicção, lançando neles raízes pro^iru’nr-
e seguras.
É provável, entretanto, que todas essas verdades estejam inclusas aqui,
ainda que seja indiscutível que a segunda e a terceira dessas possibilidades
são diretamente referidas aqui. É notório que os sinais miraculosos tiveram
papel decisivo nessa confirmação. (Ver I Cor. 12:4 e ss. e Heb. 2:4. Ver
também I Cor. 2:4, onde Paulo diz especificamente que a sua prédica foi
confirmada, não mediante palavras persuasivas, e, sim, mediante
demonstração do Espírito e de poder. Com isso se deve comparar o trecho
de Rom. 1:16, onde Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus).
Variante Textual·. Ao invés de «...o testemunho de Cristo...», conforme
lemos aqui, alguns manuscritos antigos dizem «o testemunho de Deus». Assim
dizem os mss B (1) e G, além de algumas cópias da versão saídica. O texto que
aparece nesta tradução portuguesa, entretanto, sem dúvida alguma representa
o original, porque também é aquele que melhor se coaduna com o contexto. Pois
se realmente o apóstolo tivesse escrito «o testemunho de Deus», teríamos de
supor que isso envolve o testemunho do evangelho acerca da pessoa de Cristo,
porque essa era a palavra de Deus que Paulo pregava.
ά π ε κ δ ε χ ο μ έ ν ο ν ς τ η ν ά π o ká Á vip iv τ ο ν
7 την άττοκάλυψίν...Χρίστου Lk 17.30; 2 Th 1.7; Tt 2.13
κ ύ ρ ιο ν ή μ ω ν
I CORÍNTIOS 11
1:7: de maneira que nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de
nosso Senhor Jesus Cristo,
Os capítulos doze e catorze, desta mesma epístola, permitem-nos ver
quão profuso era o exercício dos dons espirituais na igreja de Corinto. Paulo
havia destacado o «conhecimento» e a palavra, no quinto versículo deste
mesmo capítulo, como aqueles que mais caracterizavam os crentes dali.
Todavia, as manifestações da «sabedoria», da «fé», dos «milagres», da
«profecia», do «discernimento de espíritos», do «falar em línguas» e da
«interpretação de línguas» também eram exercidas entre eles. Naturalmente
que ao lermos como essas manifestações eram abusadas, não é impossível
supormos que muitos daqueles que pensavam exercer tais dons, na
realidade não o faziam por impulso do Espírito Santo, e, sim, através do
impulso de outros «espíritos», de natureza humana ou demoníaca, ou
proveniente de alguma outra dimensão espiritual que ainda não
distinguimos. Além disso, esses dons podem ser imitados, até mesmo de
forma intencionalmente fraudulenta, através do exercício da vasta mente
subconsciente do homem; porque o homem é um ser espiritual, capaz de
notáveis realizações espirituais, conforme os estudos modernos da
parapsicologia têm demonstrado amplamente.
É digno de atenção que em muitos centros espíritos, onde não se faz
qualquer afirmativa de que o Espírito de Deus esteja em operação, muitos
dos supostos dons espirituais, incluindo as manifestações miraculosas, são
reproduzidos. Tem havido casos confirmados de blasfêmias e vulgaridades
proferidas durante o «falar em línguas», nas próprias igrejas evangélicas,
embora tudo seja feito em nome de Jesus Cristo. E claro que nada
disso provém do Espírito de Cristo.
Ver as notas expositivas adicionais a respeito da questão dos charismata,
palavra grega que significa «manifestações espirituais», em Rom. 12:6,
comentários esses que se aprofundam mais no problema aqui encontrado.
Ver também o trecho de Atos 2:4 acerca do «dom do Espírito», que é
idêntico ao «batismo do Espírito Santo». Ver também notas expositivas
sobre o «falar em línguas», em Atos 2:4).
Com base nas próprias palavras de Paulo, neste versículo, podemos supor
que esse apóstolo considerava o uso dos dons espirituais, por parte dos
crentes de Corinto, como manifestações legítimas do Espírito de Deus.
Naturalmente, isso não quer dizer que ele considerasse como tais todas as
manifestações ali havidas; pois certamente ele dá a entender, em I Cor.
12:39,30 e 14:26, que ele considerava espúria grande parte do uso desses
dons, porquanto ele via a necessidade de regulamentar a utilização desses
dons. E embora realmente seja admirável a profusão dessas manifestações,
é possível que ali houvesse muito abuso, ainda que com boas intenções, sem
a tentativa de fraude intencional, mas tão-somente de forma contrária à
intenção e impulso do Espírito Santo. Outrossim, vemos que aqueles
coríntios haviam se deixado arrastar por tremendo orgulho de seus talentos
espirituais. Na realidade, Corinto contava com uma das igrejas cristãs mais
carnais de todo ο N.T., pois ali se permitiam pecados graves, os quais se
multiplicavam entre eles. Ora, esses abusos não nos dão a entender a
existência de uma igreja local altamente espiritual, perfeitamente
controlada pelo Espírito Santo. Assim sendo, muitos dos impulsos
espirituais ali recebidos poderiam proceder de origens estranhas. Acerca
disso, não obstante, nada podemos afirmar com certeza, embora seja óbvio
que, no mundo moderno, encontramos tais manifestações espúrias,
podendo nós ter a certeza de que não são verdadeiras manifestações do
Espírito de Deus.
«...aguardando vós a revelação...» Paulo faz aqui alusão à parousia ou
segundo advento de Cristo, o que, evidentemente, ele esperava que
ocorresse em seu próprio período de vida terrena. (Ver I Cor. 15:51 e ss.,
onde se pode notar a palavra nós, subentendida em nossa versão portuguesa,
como se Paulo esperasse figurar entre os arrebatados, isto é, aqueles que
não experimentarão a morte física. Com isso se pode confrontar o trecho de
I Tes. 4:15, onde a referência ainda é mais clara). Paulo tinha essa
expectação porque não antecipou o grande «hiato» de tempo que é a nossa
«era da igreja». (Quanto a notas expositivas sobre o «arrebatamento», ver I
Tes. 4:15. Quanto ao «segundo advento de Cristo», ver Apo. 19:11 e as notas
expositivas ali existentes).
A «...revelação...» ou segunda vinda de Cristo será uma espécie de
cumprimento de todas as expectações dos crentes, do que todos os vários
dons espirituais são apenas sinais preliminares. Compete-nos nosocuparmos
numa vida cristã diária digna, incluindo nisso o exercício das manifestações
espirituais, procurando assim revelar a Cristo na igreja e no mundo; mas o
segundo advento de Cristo será uma revelação muito maior do que aquilo
que atualmente podemos refletir. Não obstante, os crentes devem ser
pessoas que se caracterizam por esse espírito de serviço e de expectação de
sua vinda. (Ver Gál. 5:5; Fil. 3:20 e Heb. 9:28, quanto à nossa expectação
pelo segundo advento de Cristo).
«Os crentes de Corinto estavam ricamente abençoados com bens
presentes, ao mesmo tempo que esperavam um bem que excedia a tudo:
uma advertência tácita acerca da satisfação imaginária com o presente».
(Findlay, in loc.).
Paulo, pois, exalta essa atitude de expectação pela vinda de Cristo, tanto
como uma elevada esperança, que aprimora a dedicação e as realizações
cristãs, como também como um fator contra a altivez de .espírito, que
impede os crentes de abusarem dos dons espirituais ou da vida cristã em
geral, porquanto todos haveremos de prestar contas ao Senhor acerca de
tudo isso. (Ver II Cor. 5:10).
8 os καί βεβαιώσει, ύμάς εω ς τέλους ανέγκλητους εν τη ήμερα του κυρίου ήμώ ν Ίη σ ο ΰ [Χ ρ ίσ το υ ]2.
8 Phpl.6; 1 Th 3.13; 5.23
’ 8 ICI Xp^roi K A C D G P Í3 ! 81"‘ 88 104 181 326 330 436 451 614 ^ , p ç . ^ 4β I
629 630 1241 1739 1877 1881 1962 1984 2127 2492 2495 Byz Led itar’d'dem
· J r 1
e.f.g.ri.t.x,* V
g S
yrp,h,pai C
O
p3
a.boarm origen // omit pi6B 1τ}μ€ρα παρουσία D G: die adventus e t vg |
A ausência de Χρίστου tanto de P (46) quanto de B é notável. A presença de Ίησον Χρίστου nos versículos anteriores e
seguintes pode ser tida como razão suficiente para Paulo não ter usado a palavra aqui, e para escribas ordinários terem-na
inserido! Por outro lado, porém, a palavra pode ter sido omitida acidentalmente, na cópia (Χρίστου era usualmente escrita em
forma contraída χγ) ou talvez deliberadamente, por razões estéticas (a fim de diferenciar a seqüência de três instâncias de
Ίησου Χρίστον). Em face do apoio forte e variegado em apoio a Χρίστου (S A C D G P Ψ 33 81”*
'*614 1739 e todas as
versões), a comissão sentiu-se forçada a incluir o termo no texto, mas resolveu deixá-lo entre colchetes, para indicar certa dose de
dúvida quanto à sua originalidade.
1:8: o qual também vos confirmara até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de
nosso Senhor Jesus Cristo.
(Quanto a outras referências ao «dia de Cristo», ver I Cor. 5:5; II Cor.
1:14; Fil. 1:6,10 e 2:16). O vocábulo «...dia...» é aplicado a várias ações
divinas decisivas, usualmente na forma de julgamentos. (Quanto a essa
questão, ver os trechos de I Cor. 3:13 e Apo. 19:19, bem como as notas
expositivas acerca dos mesmos).
O dia de Cristo revelará, isto é, lançará luz sobre os atos e motivos dos
homens. E isso será através do juízo, da purificação, do exame
perscrutador. Todavia, essa revelação também será a reversão da história
antiga, bem como a inauguração de uma nova era ou dispensação. No que
concerne aos crentes, essa revelação sujeitará a julgamento os motivos e
ações dos crentes, conforme aprendemos em I Cor. 13:13 e II Cor. 5:10,
onde essa questão é amplamente comentada. Mas essejuízo dos crentes não·
visará a determinação da salvação ou da perdição, mas tão-somente o
recebimento ou perda dos «galardões», isto é, dos prêmios espirituais em
face da fidelidade e da obediência, o que assumirá a forma de uma maior
transformação segundo a imagem de Cristo.
Com essas idéias podemos confrontar algo que Paulo escreveu aos crentes
de Filipos: «Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra
em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus». (Fil. 1:6).
Os crentes de Corinto haviam sido «confirmados», segundo lemos no
sexto versículo deste capítulo. E essa mesma palavra é aqui novamente
usada. Paulo esperava que essa confirmação ou fortalecimento tivesse
prosseguimento na experiência dos crentes de Corinto até à vinda de Cristo,
o que haveria de libertá-los do fardo da luta e da tensão espiritual. Paulo
esperava que essa libertação ocorreria quando do segundo advento do
Senhor, pensando que continuaria pessoalmente vivo quando isso tivesse
lugar. Também desejava que os crentes continuassem no âmbito da graça
de Cristo, embora sempre melhorando e avançando no progresso espiritual,
até àquele dia.
Ora, essa continuação haveria de fazer dos crentes «...irrepreensíveis...»,
isto é,sem defeito, irreprováveis. Ele embalava a esperança de que essa
condição haveria de caracterizar os crentes cada vez mais, culminando no
dia de Cristo, quando tivessem eles de comparecer perante o «tribunal de
Cristo». (Ver II Cor. 5:10 e as notas expositivas ali existentes, acerca dessa
solene doutrina neotestamentária). Perante o «tribunal de Cristo» é que nós,
os crentes, seremos julgados por aquilo que tivermos feito enquanto levamos
conosco nossa casa de barro, o que envolverá tanto o «bem» como o «mal»
que tivermos praticado. É óbvio, pois, que muitos crentes não serão
declarados então «irrepreensíveis», no sentido absoluto do termo. É verdade
que os remidos não serão lançados nas trevas exteriores, pois o Salvador nos
garante isso; mas tais crentes sofrerão perda, ou, de acordo com o fraseado
de I Cor. 3:15, «serão salvos como que através do fogo».
Podemos supor que esse resultado dependerá em muito das capacidades
que cada crente houver desenvolvido para servir ao Senhor. Aqueles que
não forem «aprovados», por conseguinte, como que se mutilarão,
espiritualmente falando, pois experimentarão uma menor transformação
segundo a imagem de Cristo; e isso, por sua vez, os tornará menos capazes
para o serviço. Na realidade, tornar-se-ão seres um tanto inferiores aos
demais crentes. Não obstante, dificilmente podemos considerar que essa
condição será permanente, visto que o alvo perene dos remidos será a
transformação constante segundo o modelo que é Cristo; e esse processo
prosseguirá pela eternidade afora, já que ele será sempre o grande alvo de
toda a existência humana, tanto nesta esfera terrena como nos lugares
celestiais. (Ver as notas expositivas acerca dos «que vivem e morrem no
Senhor», em Rom. 14:7,8. Ver também os comentários sobre as «coroas» ou
«galardões», em Rom. 14:10, onde o tema ventilado neste versículo é mais
amplamente desenvolvido).
Não obstante, Paulo tinha a fé que os crentes podem ser apresentados
«irrepreensíveis» a Cristo, isto é, irreprováveis; e isso devido ao poder e à
fidelidade de Deus, o que ele menciona no versículo seguinte. Não obstante,
a advertência que aqui encontramos não é artificial. Existem outros passos
bíblicos que nos mostram os perigos reais da «perda» espiritual, após a
conversão, apesar de haver outros trechos das Escrituras que nos mostrem
12 I CORÍNTIOS
que Cristo, finalmente, salvará todas as suas ovelhas, sem faltar uma
sequer. Essa perdição, portanto, talvez diga respeito meramente ao
«tempo», isto é, ao longo da história da alma, ela pode desviar-se do
rebanho. Mas isso diz respeito somente à longajornada da alma, ou seja, só
pode ocorrer enquanto estiver em algum ponto de sua experiência. Por
outro lado, a segurança dos crentes é «absoluta», o que significa que,
finalmente, ou neste mundo ou do outro lado da barreira a que chamamos
de «morte física», Cristo trará de volta a si toda a ovelha que porventura se
tiver desviado, porque isso nos foi garantido por suas promessas. (Quanto a
notas expositivas completas acerca desse conceito, onde também
apresentamos várias outras interpretações dos eruditos, ver Rom. 8:39).
Paulo apresenta aqui uma mui severa advertência. É possível, portanto, a
um crente ser «reprovado» ante o tribunal de Cristo. E isso pode dar a
entender uma «queda», embora isso não tenha sido diretamente afirmado.
Seja como for, trata-se de um soleníssimo aviso. E isso faz com que aquilo
que praticamos e somos, através do Espírito Santo, na presente existência,
seja algo revestido de suprema importância.
Paulo queria que, quando do tribunal de Cristo, estejamos «livres de
9 πιστός ο θεός δι’ ου εκλήθητε είς κοινωνίαν τοΰ
9 7Γ1aros ò 0eós Dt 7.9; 1 Cor 10.13; 1 Th 5.24
1:9: Fiel i Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus
Cristo nosso Senhor.
A confiança que Paulo tinha no poder e na fidelidade de Deus levou-o a
crer que poderiam ser vencidos os erros em que estavam envolvidos os
crentes coríntios, a fim de que fossem declarados inculpáveis quando
tivessem de comparecer ante o «tribunal de Cristo». De fato, a salvação, em
todos os seus variegados aspectos, depende inteiramente da fidelidade de
Deus, ainda que, por outro lado, dependa igualmente da resposta
afirmativa do homem, que é dotado de livre-arbítrio; pois, de outro modo,
a responsabilidade humana será uma falsa noção ética, e a justiça, a
recompensa e a retribuição seriam simplesmente impossíveis.
Nenhum ser humano pode vir a Cristo, ou permanecer-lhe fiel, sem a
ajuda decisiva do Espírito Santo, o qual ò conquista e sustém,
transformando-o gradativamente segundo a imagem de Cristo. Isso é uma
obra da alçada exclusiva de Deus, embora ao homem caiba corresponder
afirmativamente a cada passo do caminho. Se não houver essa cooperação
por parte do crente, a obra divina pode ser paralisada em sua experiência,
passando ele a agir de modo contrário à carreira cristã. Tudo isso é
salientado nas notas expositivas a respeito do «julgamento dos crentes», no
terceiro capítulo desta epístola e no quinto capítulo da segunda epístola aos
Coríntios, onde Paulo adverte severamente aos crentes acerca dessas
questões. No entanto, o apóstolo confiava e se mostrava otimista.
Aquele que é fiel—Deus—é também aquele que nos chamou para a
intimidade ou comunhão com Cristo. Deus deu início à obra que se seguiu
ao seu decreto, e agora garante que, finalmente, as ovelhas chamadas
atingirão o alvo colimado. O fato que tanto essa chamada como o seu
resultado final dependem da fidelidade de Deus é uma verdade que também
aparece em outros trechos bíblicos, como, por exemplo, em I Cor. 10:13; I
Tes. 5:24; Rom. 8:30 e Fil. 1:6. Deus é o agente, é a causa eficiente e final
dos altos propósitos que envolvem a redenção do homem. O Senhor é
«...fiel...», isto é, mostra-se «constante», jam ais hesitando em seus
propósitos, porquanto se mostra leal para com os seus remidos, de tal modo
que aquilo que foi por ele iniciado, também será levado à perfeição.
Ê lamentávelque os judeus incrédulos, posto que religiosos, imaginassem
que a fidelidade de Deus pode ser ilustrada pela fidelidade humana. Por
essa razão, costumavam narrar a seguinte história: «O rabino Simeão, filho
de Setaque, comprou um asno de alguns edomitas. No pescoço do animal
seus discípulos viram um diamante, dependurado; e lhe disseram: Rabi, a
bênção do Senhor enriquece {Prov. 10:22). Mas ele lhes respondeu:
Comprei o asno, mas não o diamante. E, assim dizendo, devolveu o
diamante dos edomitas. E assim, com base na fidelidade humana, podemos
conhecer a fidelidade de Deus».
Uma vez mais, neste versículo, o nome do Senhor Jesus Cristo é repetido.
Por nada menos de dez vezes é reiterado o nome do Senhor, nos primeiros
dez versículos do capítulo que ora comentamos. Crisóstomo supunha que a
razão disso é que o apóstolo queria desviar seus leitores originais do espírito
de partidarismo, fazendo seus olhos se voltarem para a única cabeça da
qualquer acusação». Pois nem todos os crentes estarão isentos dessa
acusação merecida, pois os crentes serão ali julgados com justiça. A
advertência paulina, assim sendo, é séria.
Variante Textual·. Os mais antigos manuscritos, como P (46), Aleph,
ABCLP, bem como as versões siríaca, cóptica e armênia dizem «...no dia...»,
ao passo que os outros manuscritos e versões dizem «no aparecimento», isto é,
quando do «aparecimento de Cristo», conforme se verifica nos mss DEFG e nos
escritos de Ambrosiastro, pai da igreja. Mas a primeira variante é que conta
com o apoio mais digno de confiança. A outra variante consiste de uma
modificação para um termo sinônimo. Ê interessante que o ms B omite a
palavra «Cristo», o que também se verifica no mais antigo manuscrito de I
Coríntios—P (46). E isso é uma prova conclusiva em favor da omissão dessa
palavra, ainda que, no que tange aos títulos divinos, era algo perfeitamente
natural os escribas omitirem ou expandirem os mesmos. E isso dificulta a
averiguação do que dizia exatamente o original a esse respeito. Pois a verdade é
que ambos os títulos eram freqüentemente usados pelo apóstolo Paulo. (No que
concerne a comentários sobre o título completo, «Senhor Jesus Cristo», ver o
trecho de Rom. 1:4, onde também há notas expositivas sobre o «senhorio de
Cristo».
υΐοΰ αύτοΰ Ίησοΰ Χρίστου τοΰ κυρίου ήμών.
κοινω νίαν...ήμώ ν 1 Jn 1.3
igreja, isto é, a pessoa de Cristo.
«Õ gloriosa expectação, sobretudo quando a fidelidade de Deus sai em
apoio às nossas esperanças! Aquele que nos chamou para a intimidade com
seu Filho, é fiel, e ele o fará. (Ver I Tes. 5:24)». (Matthew Henry, in loc.).
«...à comunhão do seu Filho...» (Ver as notas expositivas sobre o
«misticismo de Cristo», no quarto versículo deste mesmo capítulo.
Comparar com os trechos de Rom. 8:17; Fil. 3:10 e ss.). Essa comunhão ou
intimidade existe desde agora. Trata-se da comunhão de que desfruta a
família divina, a comunhão comum à mesma, produzida pela filiação a
Deus, conforme fica indicado no título aqui usado para destacar a pessoa de
Jesus, o «Filho». Ora, essa intimidade se estende por toda a eternidade,
conforme o oitavo capítulo da epístola aos Romanos tão claramente nos
mostra. Nisso consiste a condução de muitos filhos à glória, todos os quais
seguem o grande modelo, que é o Filho de Deus. (Ver Heb. 2:10).
A comunhão de que desfrutamos em Cristo é uma intimidade mística,
efetuada pelo Espírito Santo, conforme lemos nos trechos de Rom. 8:9 e ss.;
II Cor. 13:13 e Fil. 2:1. O apóstolo dos gentios frisa essa questão da
comunhão, e essa com o Filho de Deus, que é o Senhor e o Cristo,
imediatamente antes de prosseguir e mostrar como os crentes de Corinto
vinham ignorando e abusando dessa comunhão, através da tolerância a um
espírito de partidarismo, fazendo de líderes humanos os seus «senhores»,
com o que, por outro lado, negligenciavam o senhorio de Cristo. Com essa
atitude, pois, haviam quebrado a unidade da igreja cristã. Em contraste
com isso, aquele que se mostra atento para com a sua responsabilidade
diante de Cristo e que aceita o senhorio de Cristo e a comunhão com ele,
mostrar-se-á lento em reconhecer no homem, em qualquer homem, essa
forma de autoridade e de reivindicação de sua lealdade. Pelo contrário, será
um pacificador e um promotor da unidade da causa de Cristo, a igreja
cristã.
O vocábulo«...comunhão...» dá a entender a participação em uma causa
ou sociedade comum. (Ver II Cor. 13:13 e ss.; Fil. 2:1 e 3:10). Essa palavra
significa «intimidade», sobretudo no que tange ao amor e à paz. (Ver Atos
2:42; Gál. 2:9; II Cor. 6:14 e I João 1:3,7). Nas questões práticas, essa
comunhão se manifesta na forma de contribuições e de partilha das
necessidades básica com os irmãos. (Ver II Cor. 8:4; 9:13 e Fil. 1:5). O
sentido fundamental dessa palavra é «tornar-se sócio», «participar de», «ter
contacto mútuo com».
Proíbe, Senhor, que porventura
Eu me contente em viver longe de Ti,
Que eu tome o caminho que planejei,
E desconsidere Tua mão orientadora.
Oh, Salvador, não tenho ninguém por quem pleitear,
na terra cá embaixo, ou nos céus acima,
A não ser a minha profunda necessidade,
e teu grandiosissimo amor.
(Jane Crewdson).
★★★
II. O Problema das Divisões'Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21)
1. Polêmica contra tais divisões (1:10- 4:21)
a. Exaltar o homem é substituir a Cristo (1:10-17).
10 Παρακαλώ δε υμάς, αδελφοί, διά τοΰ ονόματος τοΰ κυρίου ήμών Ίησοΰ Χρίστου, ϊνα το αυτό λεγητε
παντες, και μη η εν ύμϊν σχίσματα, ήτε δε κατηρτισμενοι εν τώ αύτώ νοϊ και iv τη αύτη γνώμη.
10 ή τ€ ...ν ο ΐ Php 2.2
1:10: Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que sejais concordes
no falar, e que não haja dissensões entre vís; antes sejais unidos no mesmo
pensamento e no mesmo parecer.
Com a palavra «...Rogo-vos...» podemos comparar o trecho de Rom.
12:1. Visto que Paulo sentia intensamente essa questão, «pleiteou» com os
crentes coríntios no tocante à sua altivez e divisões partidárias. O
significado dessa palavra é «encorajar», «exortar», «implorar com
intensidade», fazendo um apelo sério e apaixonado. Quando se torna um
substantivo, «rogo», significa «exortação», «encorajamento», «apelo», e,
ΙΟ σχίσματα] -μα J)4833 sa
algumas vezes, por semelhante modo, «consolo». No presente contexto,
entretanto, está em foco o seu sentido de apelo intenso.
Era motivo de interesse supremo para o apóstolo dos gentios o que
sucedia na igreja cristã de Corinto. Podemos perceber a grande dedicação
dePauloà causa do Senhor nesse mesmo apelo. No momento ele se
encontrava em Éfeso e tinha muito trabalho a realizar ali; todavia, nunca se
sentiu livre, mental e espiritualmente, da responsabilidade por outras
«tarefas» que havia completado e deixado. No décimo primeiro capítulo da
segunda epístola aos Coríntios, Paulo repassa as suas muitas «credenciais»
que tinha como apóstolo, e, nessa descrição, fala sobre toda a exaustão, a
I CORÍNTIOS 13
fidelidade, as provações, os jejuns, os perigos e as ameaças que
experimentou, a fim de cumprir devidamente a sua missão. Entre as coisas
que recebiam seus cuidados especiais, que constituíam sua grande
preocupação, destacava-se o «cuidado por todas as igrejas». Sim, Paulo não
foi um ministro ordinário mas foi o grande apóstolo dos gentios, tendo
sentido profundamente o peso da responsabilidade que recaíra sobre os seus
ombros. (Ver o tema dos «apelos de Paulo a seus seguidores», com maior
amplitude, nas notas expositivas atinentes ao trecho de Rom. 12:1).
«...pelo «orne...» Pela décima vez o apóstolo usa o nome de Cristo, desde
o começo desta epístola. O nome de Cristo é utilizado por mais vezes, nesta
primeira epístola aos Coríntios, do que em qualquer dos demais livros de
Paulo. O senhorio de Cristo é fortemente enfatizado do princípio ao fim da
mesma. Esse apóstolo conclamava aos crentes para que abandonassem o
espírito de partidarismo, para que deixassem de seguir a meros líderes
humanos, entrando em harmonia uns com os outros, na unidade que deve
haver na comunidade da igreja cristã, quando, somente então, Cristo
poderia tornar-se, verdadeiramente, o Senhor de todos.
«O nome de Cristo era o vínculo de união e a realidade mais santa à qual
poderiam prestar lealdade». (Stanley).
«...irmãos...» Um tratamento afetuoso, afim de mostrar que nada dizia
Paulo motivado pela malícia ou pelo despeito, mas tão-somente porque
aqueles crentes também pertenciam ao mesmo Senhor, e formavam uma
única família com todo o povo de Deus. Comentam Robertson e Plummer
(in loc.), a respeito desse vocábulo: «Usado com grande afeto,
especialmente quando algo de doloroso precisa ser dito (ver I Cor. 7:29;
10:1 e 14:20). Provavelmente subentende que Paulo conhecia pessoalmente
a muitos daqueles aos quais se dirigia; e isso explica a ausência desse
tratamento nas epístolas aos Efésios e aos Colossenses».
«...que faleis...» Temos aqui, no original grego uma expressão
idiomática, extraída da vida política, cujo sentido é «estar em paz», ou
«resolver as diferenças», isto é, viver em harmonia, mediante a
reconciliação. (Ver Aristides, pol. III.iii). O apóstolo Paulo, pois,
demonstrou familiaridade com uma expressão idiomática grega comum, o
que talvez sirva para mostrar-nos que ele aprendeu a falar esse idioma desde
a infância. (Quanto à sua familiaridade com os autores gregos, o que sem
dúvida fazia parte de sua educação, desde seus tenros anos, ver os trechos
de I Cor. 15:34; Rom. 2:14 e Atos 17:28).
Paulo desejava que os crentes de Corinto estivessem acordes em suas
palavras; mas também era mister que houvesse entre eles harmonia e
concórdia de espírito, que é a fonte originária de onde as palavras
harmoniosas provêm. Portanto, ele diz aqui, indiretamente, que tinha
consciência das dissensões e argumentações, fomentadas por uma atitude
condenável, que havia entre eles, o que provocava calorosas polêmicas entre
irmãos na fé. (Ver o décimo segundo versículo deste mesmo capítulo onde se
percebe ao menos parte de suas dissensões verbais). Cada grupo, em que
aquela comunidade cristã se dividira, defendia os seus próprios líderes
escolhidos, os heróis de cada facção, e isso com profusão de palavras. Mas
isso simplesmente demonstrava o espírito contencioso que permitiram que
surgisse entre eles.
«...entre vós divisões...» A palavra «...divisões...» significa «dissensões».
(Comparar com João 7:43 e 19:16). Também significa «cismas», «partidos».
Entre aqueles crentes havia «cismas» heréticos, e é bem possível que essa
palavra queira dar a entender exatamente isso. Paulo se referia
principalmente àquelas facções que haviam sido criadas em torno das
supostas lideranças de Paulo, de Apoio e de Cefas (ver o décimo segundo
versículo deste mesmo capítulo); mas também não devemos esquecer que
Paulo foi lorçado a defender igualmente o seu apostolado. Havia elementos
judaizantes e outros falsos mestres, que haviam conquistado o coração dos
discípulos, dividindo ainda mais aquela igreja cristã. Por conseguinte,
nessas divisões, estavam envolvidas não apenas questões pessoais, e, sim,
por igual modo, questões doutrinárias.
A igreja cristã de Corinto fora uma túnica inconsútil de unidade, quando
Paulo se encontrava entre eles; mas agora aquela comunidade estava
desfacelada pelas dissensões, as facções haviam produzido muitos rasgões.'
É que essa palavra, «dissensões», aqui usada, no original grego também
significava «roturas» em peças de pano. (Pode-se ver esse uso do termo em
Marc. 2:21). Aqueles que não haviam respeitado a unidade dos irmãos, na
igreja, haviam rasgado impensadamente o pano da unidade cristã,
destruindo o tecido da harmonia que havia antes caracterizado aquela
congregação local.
Vincent (in loc.) alista algumas das razões havidas por detrás dessas
divisões, dizendo: «Aqui, ‘facção’...divisão dentro da comunidade cristã. As
divisões da igreja cristã surgiram em torno de questões como o casamento e
os alimentos (I Cor. 7:3,5,12); como a ingestão de alimentos oferecidos a
ídolos (I Cor.8:7 e 10:20); como o valor comparativo dos dons espirituais,
como o falar em ‘línguas’ (décimo quarto capítulo); como os privilégios e a
conduta das mulheres nas assembléias (I Cor. 11:5-15); como as relações
entre os crentes ricos e os crentes pobres, no agape ou festa de amor (I Cor.
11:7-22); como as prerrogativas dos diferentes mestres cristãos (I Cor.
1:12,13 e 3:3-22)».
A essa lista poderíamos acrescentar a questão dos falsos apóstolos e das
divisões por eles causadas, conforme a descrição do nono capítulo desta
epístola.
Em sentido geral, aquilo que Hodge diz (in loc.), mui provavelmente é
correto: «...em seu sentido eclesiástico (essas divisões) eram separações não
autorizadas que as dividiam da igreja. Contudo, o que havia em Corinto não
pertencia à categoria de sèitas hostis, cada qual se recusando a ter contacto
com as demais, e, sim, divisões que tendem por surgir no seio de uma
mesma comunidade, constante da alienação de sentimentos e do
partidarismo contencioso».
«...antes sejais inteiramente unidos...» Essas palavras, «....inteiramente
unidos...», dão a entender o reajustamento de peças quebradas ou rasgadas
por alguém, formando novamente uma peça inteira e unida. Isso
exigia a concórdia mental, a unidade de propósitos, um sentimento singelo,
o qual tem por seu objetivo agradar a Cristo, contribuindo para a unidade,
para a harmonia e para a paz no seio da comunidade. (Ver Mat. 4:21,
sobretudo a expressão «consertando as redes»). No original grego, era um
termo dos cirurgiões, para dar a entender o reajustamento de uma junta; e,
na linguagem dos políticos gregos, indicava a «composição de facções».
(Ver Herod. 5:28).
«...na mesma disposição mental...», isto é, com concórdia mental e nos
sentimentos, em seus desígnios e em seus alvos. Se fosse atingida essa
mesma disposição mental, não seria difícil produzir a unidade prática. O
que está aqui em foco é a idéia de «atitude mental», «atitude sentimental».
«...no mesmo parecer...» A palavra grega que há por detrás dessa
tradução, «gnome», significa «propósito», «intenção», «mente», «opinião»,
«parecer». Também pode significar «conhecimento prévio», «decisão»,
«declaração». É bem provável que, no presente texto, isso signifique as
decisões feitas, osjuízos proferidos, em resultado do temporamento geral ou
disposição mental harmoniosa de todos, o que é mencionado imediatamente
antes. Em quaisquer decisões a que tivessem de chegar, em quaisquer
declarações ou opiniões expressas, deveriam andar unidos, em uma unidade
originada pela concórdia mental. Em outras palavras, Paulo exortava-os a
que desistissem de suas crenças e preferências errôneas e egoístas, de seus
partidos e facções, a fim de buscarem estabelecer a unidade de propósitos
desde o íntimo. Essas duas palavras gregas, que podem ser sinônimos
quando usadas'juntas, de conformidade com Alford (in loc.), significam
«disposição e opinião». Hodge, por sua vez, sugere (in loc.), «sentimentos e
opinião».
11 εδηλώθη γάρ μοι περί υμών, αδελφοί μου, υπό τών Χλόης δτι εριδες iv ύμ
1:11: Pois α respeito de vis, irmãos meus, fui informado pelos da família de Cloé que
há contendas entre vis.
«...Cloé...» é um nome próprio feminino que, no original grego, significa
«verde», no sentido de «inexperiente», «jovem», «inocente». Não se sabe' dizer
se ela mesma era crente ou não, como também não sabemos precisar se ela
residia em Corinto ou em Éfeso, onde Paulo compôs esta primeira epístola
aos Coríntios. O mais provável é que ela residisse em Éfeso, e que as pessoas
de sua casa, aqui mencionadas, fossem escravas que tinham entrado em
contacto com os crentes de Corinto, tendo podido observar seu espírito
contencioso. É provável que grande parte do material constante nos
capítulos primeiro a sétimo desta epístola, onde o apóstolo descreve os
vários problemas surgidos em Corinto, fossem baseados em informes
recebidos por Paulo através do relatório feito por aqueles crentes
simples. Eles sabiam reconhecer uma desgraça, onde quer que a
encontrassem, ao passo que aqueles cristãos de Corinto, altivos em seu
orgulho pessoal, julgavam-se crentes altamente espirituais, especialmente
porque manifestavam abundância de manifestações espirituais. A verdade,
entretanto, é que eram crentes carnais. O terem sido chamados de
«carnais», mui provavelmente, deve tê-los surpreendido e ofendido.
É extremamente fácil sermos enganados pelo nosso próprio egoísmo,
quando está em pauta o verdadeiro estado de nossa alma e de nossa
expressão religiosa. Paulo precisou informar aos crentes de Corinto quais
haviam sido os seus informantes, a fim de remover qualquer suspeita contra
iv εισιν.
Estéfanas (ver I Cor. 16:15) ou contra Sóstenes —não fossem os coríntios
pensar que esses líderes se tinham mostrado delatores. Queria que aqueles
crentes soubessem que ninguém, dentre sua própria comunidade, os tinha
acusado. Pois não desejava criar ainda maior dose de sentimentos
amargurados e motivos de dissensões. E assim informou-os sobre quem lhe
dera notícias tão desagradáveis.
O apelativo Cloe era usado como epíteto de Demétria, deusa da terra e da
agricultura. Por esse motivo é que alguns eruditos têm pensado que a alusão'
que Paulo faz aqui é a alguma pessoa aderente, atual ou anterior, da
adoração a essa deusa pagã, a qual teria sido sua informante. Mas é
evidente que isso não está incluso nas idéias do texto. Antes, Cloé foi uma
pessoa verdadeira, a qual, embora talvez residente em Éfeso, evidentemente
conhecia os crentes de Corinto. E isso subentende que ela mesma era uma
irmã na fé. Outros estudiosos têm pensado que os informantes de Paulo são
apontados por nome em I Cor. 16:17; mas isso não passa de mera
conjectura, porque não há qualquer evidência textual ou histórica a
respeito.
«...contendas...» Palavra que significa «disputas», «debates verbais».
Platão, em sua obra, «República», distinguiu entre «disputas» (no grego,
«erides», o vocábulo aqui utilizado) e «discussões» (no grego, «dialegesthai»),
(Ver v. 454). Tais «disputas» ou contendas são alistadas entre as «obras da
carne», no trecho de Gál. 5:19 e ss., bem como nos catálogos dos vícios de
personalidade, em II Cor. 12:20; Rom. 1:19 e ss. e I Tim. 6:4.
12 λέγω 8è τοΰτο, δτι έκαστος υμών λέγει, ’Εγώ μεν είμι Παύλον, ’Εγώ δε Άπολλώ, ’Εγώ δε Κηφά,
Εγω Se Χρίστου. 1 2 I Cor 3.4 Ά π ο λ λ ώ Αο 18.24-28 Κ η φ ά Jn 1.42
14 I CORÍNTIOS
1:12: Quero dizer com isto, que cada umde vós diz: Eusou de Paulo; ou Eu de Apoio;
ou, Eu de Cefas; ou Eu de Cristo.
(Quanto a notas expositivas completas sobre Paulo, ver o artigo que versa
sobre ele, na introdução ao comentário, intitulado A Importância de Paulo.
Ver sobre «Apoio», nas notas expositivas sobre Atos 18:24. Quanto a
«Cefas» ou Simão Pedro, ver os comentários acerca de Luc. 6:12, onde há
uma lista dos doze apóstolos, com breve descrição sobre cada um deles.
Quanto ao «apostolado», ver Mat. 10:1. Quanto ao uso mais amplo do
termo «apóstolo», ver Atos 14:4. Quanto a «Cristo», ver as notas expositivas
sobre Mat. 1:16. E quanto a um estudo mais completo acerca da vida e dos .
ensinamentos de Jesus Cristo, ver o artigo que versa sobre esse tema, na
introdução ao comentário).
As «...contendas...» aludidas no versículo anterior, são agora
identificadas, ou, pelo menos, são apontadas as questões principais. Sem
dúvida havia vários outros pontos de atrito, conforme se percebe no teor dos
capítulos primeiro a sétimo desta epístola. Mas Paulo dá início às suas
críticas atacando as facções existentes naquela igreja, em que a «adoração a
heróis» substituía a adoração que deve ser conferida exclusivamente ao
nosso grande Herói, o Senhor Jesus. Quão comum essa atitude é até hoje,
entre os crentes. As próprias denominações evangélicas são resultados e
propagação desse mesmo espírito, pois, para a esmagadora maioria dos
crentes, não é suficiente serem eles chamados «cristãos». Precisam ser
identificados com os títulos de batistas, metodistas, presbiterianos,
pentecostais, luteranos, etc. Mas isso é gloriar-se em outros nomes, que não
o nome de Cristo.
Os amigos ou escravos de Cloé, portanto, anunciaram ao apóstolo Paulo
o que ocorria na igreja de Corinto, pois percebiam claramente como essas
dissensões desonravam o nome de Cristo. E aqueles que defendem
denominações e facções, exaltando assim outros nomes que não o de Cristo,
por semelhante modo, ordinariamente não percebem oopróbrioque essa
atitude faz redundar contra Cristo e a sua causa. Por isso mesmo será
necessário que Cristo restaure a unidade orgânica de sua igreja, o que sem
dúvida terá lugar antes de sua vinda. (Ver João 17:21-23 e Efé. 5:27).
Paulo é quem fora o fundador da igreja cristã em Corinto. Portanto, seu
nome era ali reverenciado. Alguns membros daquela congregação se
mantiveram leais a ele, quando surgiram disputas em torno da
autenticidade de seu apostolado. Mas alguns de seus seguidores, em seu
zelo em favor de Paulo, obscureceram assim o nome de Cristo. Também não
há que duvidar que Simão Pedro havia visitado Corinto. E alguns dos
crentes de tendências mais legalistas, ou, pelo menos, alguns membros
judeus daquela igreja, sentiram uma afinidade natural por Cefas. Todavia,
os crentes que eram gentios puros sentiam maior afinidade por Paulo.
Além disso, Apoio era um eloqüentíssimo judeu alexandrino, sendo o líder
cristão mais filosófico que se conhecia, e os irmãos com tendências para a
eloqüência e a filosofia passaram a apoiá-lo, o que não podiam fazer no caso
cdo apóstolo mais tipicamente judaico, Pedro. E assim, de conformidade
com os sentimentos e com as preferências pessoais, foram coroados pela
multidão dos discípulos de Corinto vários «heróis». E, nessa confusão, o
nome de Cristo foi esquecido.
Além disso, cada um desses três famosos líderes cristãos havia obtido
conversões; e os seus convertidos, naturalmente, tendiam por alinhar-se
junto a eles, tudo o que contribuía para aumentar as facções, o número
daqueles que se deixavam levar pelas dissensões.
É interessante que havia também o partido de Cristo. Mui provavelmente
esse partido era formado por crentes coríntios que negavam a autoridade
daqueles três citados líderes, e então, talvez com um ar de superioridade
espiritual, se declararam seguidores verdadeiros de «Cristo», em contraste
com os demais membros da igreja, cujos «heróis» eram apenas grandes
vultos do cristianismo. E possível que esse quarto grupo reivindicasse
receber revelações diretamente da parte de Cristo, julgando-se assim
elevados acima do nível comum dos crentes.Quiçá se mostrassem hostis
para com toda a autoridade «humana», sendo os mais orgulhosos de todos
os grupos facciosos aqui mencionados. Na verdade, não.possuímos
qualquer informação sobre eles, e, assim, podemos tão-somente conjecturar
sobre a natureza deles. Os ataques mais fortes de Paulo foram dirigidos
contra os que se diziam partidários de «Cefas» e os que se diziam seguidores
de «Apoio». Podemos imaginar, pois, que esses dois partidos eram formados,
por membros judeus altivos da igreja de Corinto e pelos elementos de
inclinações intelectuais, respectivamente.
«Paulo discutiu o problema dessas facções pí)r todo o restante dos
capítulos primeiro a quarto. Ele apresentou quatro acusações contra o
espírito de partidarismo: a. As facções davam a líderes particulares uma
posição que somente Cristo pode ocupar (I Cor. 1:13-17). b. Muitos dali
estavam considerando os apóstolos como mestres de filosofia, e não como
pregadores da Palavra da cruz (I Cor. 1:18- 2:5). c. A verdadeira sabedoria,
concedida pelo Espírito de Deus não era aquela que aquele espírito
faccioso pensava (I Cor. 2:6- 3:4). d. Aquelas divisões faziam dos apóstolos
rivais, e não cooperadores sob as ordens de Cristo (I Cor. 3:5-23). O quarto
capítulo conclui essa discussão com várias formas de apelo pessoal,
porquanto Paulo era grande estudioso da natureza humana, não caindo na
ilusão de pensar que bastava a lógica para determinar a conduta dôs
homens». (C. T. Craig, in loc.).
Devemos observar como Apoio se recusara a participar desse espírito
faccioso, e como, com base nisso, se recusara a retornar a Corinto, a fim de
que sua fama e influência não viessem a contribuir para exacerbar ainda
mais as controvérsias que rugiam naquela comunidade cristã. (Ver I
Cor. 16:12). Pedro, por sua vez, tomara posição ao lado de Paulo, devido ao
problema do legalismo. (Ver o décimo quinto capítulo do livro de Atos).
Não há qualquer evidência em favor da idéia, defendida por alguns
eruditos, de que não havia qualquer dissensão duradoura entre eles,
embora o trecho de Gál. 2:7-10 nos mostre que as águas, ali, nem sempre se
mostravam tranqüilas. Entretanto, Pedro pode ser classificado com os
líderes cristãos «liberais», no tocante à questão do legalismo, e não com o
grupo radical de Jerusalém, que pretendia obrigar os gentios a se tornarem
judeus, mediante a circuncisão e a observância dos preceitos mosaicos,
antes de se tornarem cristãos. (No que respeita a um estudo sobre o
problema legalista, surgido na igreja primitiva, ver as notas expositivas
sobre Atos 10:9).
O apelativo Cefas é o aramaico para o nome próprio «Petros», traduzido
em português por Pedro. (Ver João 1:42). «Petros» significa «seixo»; um
vocábulo grego cognato, «petra», significa «rocha». Essa distinção tem algo
a ver com a exegese de Mat. 16:16-18. Todavia, o termo aramaico «cefas»,
significa tanto «seixo» como «rocha». Ê interessante que Paulo
ordinariamente usava «Cefas», e não Pedro, quando se referia ao apóstolo
da circuncisão. Somente em Gál. 2:7,8 é que temos uma exceção a essa
regra.
Alguns intérpretes têm identificado o «partido de Cristo» com os amargos
oponentes do apostolado de Paulo, conforme se vê nos trechos de II Cor.
10:7,10,11 e 11:4,23. Os membros desse partido julgavam-se cristãos
especiais, rejeitando toda a autoridade humana fora da deles mesmos. Essa
facção estaria em rebeldia aberta e declarada contra Paulo. Porém, apesar
dessa facção existir, não sabemos como identificá-la com o «partido de
Cristo», que aparece no presente versículo. Mas, pelo menos vemos o tipo de
situação contra a qual Paulo se insurgiu.
Os Primórdios Das Denominações
1. Havia os legalistas: o herói deles era Pedro.
2. Havia os intelectuais e filósofos: o herói deles era Apoio.
3. Havia os liberais: o herói deles era Paulo.
4. Havia os cristãos; o herói deles era Jesus. Provavelmente esse grupo se
compunha de místicos, e por certo eram exclusivistas, reivindicando para si
mesmos um conhecimento e uma experiência superiores que os membros
das demais facções de Corinto. Parece que esse grupo negava ter conexão
com qualquer herói humano, jactando-se de uma pureza maior. Não
formavam uma denominação—compreenda-se bem! Estavam acima desse
tipo de coisa. Na verdade, talvez tivessem sido a denominação mais estrita,
dentre aquelas em formação, por serem o grupo mais exclusivista.
Quão moderna é essa situação toda? Ainda não se passara tempo
suficiente para aqueles grupos se separarem de vez em igrejas distintas, mas
isso não deve ter demorado muito tempo. Pelos fins do segundo século da
era cristã, havia mais de vinte grupos cristãos diferentes, organizações
completamente separadas umas das outras, todas elas reivindicando
alguma proximidade especial a Cristo, e algumas até mesmo reivindicando
singularidade: segundo sua opinião, eles eram os únicos verdadeiros
cristãos! Parece que coisa alguma é capaz de curar o coração humano desse
tipo de mentalidade e dessa forma de atividade.
Shore (in loc.) classifica os diversos grupos mencionados neste versículo,
como segue: 1. O partido da liberdade (seguidores de Paulo). 2. O partido
intelectual (seguidores de Apoio). 3. O partido judaizante (seguidores de
Cefas). 4. O partido exclusivista (aqueles que diziam, ‘sou de Cristo’). Ê
bem provável que a natureza geral de cada facção possa ser indicada por
meio dessas descrições simples.
13 μεμέρισrat3 ο Χριστός;h μή Παΰλος eW aυρώθη virèp υμών,0 η €ΐς το δνομα Παύλον εβατττίσθητε;'
3 13 {Cj μβμβρισταί H A B C D G Ρ Ψ 3,3 81 88 104 181 330 ·
614 629 C30 1241 1739 1877 1881 1984 2127 2492 2495' B yz Led it«.d.dem,e.
vg syrh eOpbc' goth A dam antius H μή μβμίρισταί ρ46 326 1962 lm sjt*3
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b 13 b question: TR WH">e Bov Nes BF2 AV RV ASV RSV TT Zür Luth Jer Beg.// 6 exclamation: ASV™s NEB // b statement: WH RV™s
c c 13 c minor, c question: TR WH Bov Nes BF2 Zür Seg // c question, c question: AV RV ASV RSV NEB TT Luth Jer <
·| (Xp/OTO? /] . Ambst Theod ; R m) |
vnep] 7repi p46BD*
Já que μεμέρισται ό Χριστός pode ser tida como uma declaração ou como uma pergunta, vários manuscritos, incluindo P
(46) 326 1962 Lect (599) sir (p,pal) cop (sa) ara, prefixam o interrogativo μή, assim aliviando a ambigüidade e conformando a
cláusula às perguntas que vêm a seguir.
1:13: Será que Cristo está dividido? foi Paulo crucificado por amor de vós? ou fostes
vós batizados em nome de Paulo?
O apóstolo dos gentios nos mostra aqui a verdade que nenhum mero
nome humano pode ser guindado à posição de herói. Cristo é quem realizou
a expíação capaz de levar os homens de volta a Deus. Em seu nome e
comunhão é que o crente é batizado, e esse próprio batismo é um sinal de
identificação com ele, em sua morte e ressurreição. (Ver Rom. 6:1 e ss.).
Ora, nenhum homem pode ser símbolo dessa identificação, quanto menos
I CORÍNTIOS 15
dessa realidade. As facções deixam subentendido que algum outro nome
merece honra, emNalgum sentido, tal como Cnsto é merecedor de. honra.
Mas Paulo mostra-nos que há certa exclusividade no nome de Cristo,
porquanto somente ele é de estatura suficiente para encabeçar os crentes,
somente ele é suficiente para que uma fé religiosa receba o seu nome. Seguir
heróis humanos, pois, é um absurdo tão grande como substituir o Salvador,
enviado pelo Pai, que é Cristo Jesus, por um mero salvador humano.
(Quanto à «crucificação», ver Mat. 27;35 e João 19:18. Quanto à
«expiação», que está em foco aqui, em resultado da crucificação, e quanto à
obra especial que Cristo realizou, o que não pode ser atribuído a qualquer
homem, ver Rom. 3:25; quanto à «propiciação», ver essa mesma referência.
Ver a «redenção», nas notas expositivas sobre Rom. 3:24. Quanto a notas
expositivas sobre o «batismo», ver o seguinte: sua «significação», ver Rom.
6:3; seu «modo de aplicação», ver Atos 2:41; contra a doutrina errônea da
«regeneração batismal», ver Atos 2:38; a «imersão» como modo preferível de
batismo, ver Atos 2:41 e 8:36-39. Acerca da fórmula batismal, «em nome
de», ver Atos 2:38). Nos primeiros anos do cristianismo não era utilizada a
fórmula trinitária, mas o batismo em água era dado «em nome de Cristo» ou
«em nome de Jesus», o que também fica demonstrado pela referência deste
versículo, onde não fica subentendida nenhuma idéia trinitária.
O apóstolo Paulo era o progenitor espiritual daqueles crentes de Corinto;
e isso talvez lhe conferisse autoridade entre eles, uma autoridade que não
podia ser reivindicada por qualquer outro homem. Contudo, Paulo não
exaltava essa autoridade de tal modo que ultrapassasse da autoridade
exclusiva de Cristo, e, de fato, de tal modo que infringisse essa autoridade
do Sumo Pastor. Paulo é quem lhes anunciara pela primeira vez a expiação
que há em Cristo, bem como o batismo cristão; todavia, Paulo não era a
fonte originária de qualquer dessas realidades espirituais.
*...Cristo está dividido?...»Todas as declarações de Paulo assumem aqui
a forma de indagações, esperando, logicamente, respostas negativas.
Alguns intérpretes, todavia, pensam que Paulo esperava uma resposta
«afirmativa» para essa primeira indagação. É como se Paulo houvesse dito
que Cristo não deveria estar dividido, mas que, na realidade, fora dividido
pela insensibilidade egoísta dos crentes de Corinto, com grande detrimento
para a causa do cristianismo. Por isso é que Lightfoot comenta: «Cristo
havia sido dividido, mui infelizmente». Contudo, apesar disso refletir
exatamente as condições em que se encontrava a igreja de Corinto, não é o
que está de conformidade com o original grego desta passagem. Antes, o
apóstolo quis dar a entender que Cristo jamais poderia ficaf dividido, e que,
onde quer què os cristãos se dividam, não estarão vivendo o verdadeiro
cristianismo.
«A culpa daqueles facciosos não consistia de terem pontos de vista
diversos uns dos outros. Consistia não tanto de dizerem ‘Isto é a verdade', e,
sim, de dizerem, ‘Isto não é a verdade’. A culpa do cisma se salienta quando
cada grupo ou partido, ao invés de expressar plenamente a sua própria
verdade, se lança contra os outros, negando que os outros estejam na
verdade, em qualquer sentido». (F.W.Robertson, in loc.).
Teria Cristo se tornadopropriedade dè qualquer facção, como se somente
esta pudesse representá-lp, mas não ninguém mais? Essa é a idéia que
certamente fica subentendida no presente versículo. Uma das característi­
cas dominantes das denominações evangélicas consiste de suporem elas
que, de alguma forma toda especial, representam a Cristo como nenhum
outro grupo cristão é capaz da fazê-lo, até mesmo quando admitem que
outros grupos também podem ser «crentes verdadeiros». Antes, raciocinam,
que não podem ser tão bons crentes como os membros de seu próprio grupo.
Pensam que possuem a Cristo de forma toda especial e exclusiva, como
ninguém mais pode possuí-lo.
«...nome de P aulo...» A palavra «.. .nome...» significa o poder, a
autoridade e a identidade ou natureza de algo ou de alguém. Diz Robertson
(in loc.), acerca dessa palavra: «Esse uso do vocábulo ‘onoma’(termo grego
para ‘nome’) para indagar a pessoa em foco, não aparece somente na LXX
(Septuaginta), mas também nos papiros, nas ostracas e nas inscrições, que
fornecem numerosos exemplos do nome de algum rei ou deus a fim de
indicar o poder e autoridade desse rei ou deus. (Ver Deissmann, Bible
Studies, págs. 146 e ss.; 196 e ss.; Lightfrom the Ancient East, pág. 121)».
Com isso se pode comparar o décimo versículo deste mesmo capítulo, onde
Paulo faz um apelo em nome do Senhor Jesus Cristo, isto é, pela
«autoridade» e «poder» de Cristo.
No presente versículo, pois, Paulo lança mão do seu próprio nome como
homem, a respeito de quem as coisas declaradas, apesar de serem
verdadeiras quanto a Cristo, não poderiam ser ditas acerca dele mesmo. E
Paulo poderia ter negado essa possibilidade, por igual modo, com relação a
Cefas e a Apoio. Diz Neander (in loc.), comentando sobre essa questão: «O
Fato de que Paulo apresentou o seu próprio nome, em lugar de todos os
demais, mostra-nos o quão genuinamente ele se opunha àquele espírito
faccioso, e quão humildemente ele ansiava por que o nome de Cristo não
viesse a ser prejudicado por causa do seu próprio nome».
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14 Υίρίσττον Ac 18.8 Γ άιον Ac 19.29; Ro 16.23
É óbvio que a adição de μου após θβφ resultou de assimilação escribal ao vs. 4. É mais difícil, porém, decidir se τώ θβω caiu
acidentalmente na cópia (εγχΑ ριοτω τω θω ), ou se copistas suplementaram a expressão abreviada de Paulo com a adição de
τω θβω, segundo o modelo de Rom. 1:8; 7:25; I Cor. 1:4; 14:18; etc. Foi reputado mais seguro seguir o uso de Paulo e incluii
τώθβω no texto; por deferência, porém, ao peso de — IS* E 1739 al, que omitem essas palavras, foram deixadas entre
colchetes.
1:14: Dou graças a Deus que a nenhum de vis batizei, senão a Crispo e a Gaio;
E evidente que o apóstolo Paulo, a exemplo do Senhor Jesus, não tinha
por costume batizar pessoalmente os crentes, deixando essa tarefa ao
encargo de outros. Sua atitude inteira para com esse batismo em água,
conforme se vê nos versículos catorze a dezessete deste mesmo capítulo,
mostra-nos que ele jam ais poderia ter ensinado a falsa doutrina da
«regeneração batismal»; porquanto não teria subordinado sua prática, no
que diz respeito às suas ações pessoais, se porvéntura acreditasse que o
batismo constitui parte integrante da salvação. (Ver as notas expositivas
sobre essa questão, em Atos 2:38). O décimo sétimo versículo deste capítulo
é especialmente convincente a esse respeito, porquanto ali ele separa
especificamente o batismo em água do evangelho. Lemos ali que ele fora
enviado para pregar o evangelho, e não «para batizar». Por conseguinte,
ninguém pode dizer que o apóstolo dos gentios cria que o batismo em água é
necessário para a salvação; pois isso faria do batismo em água,
automaticamente, parte da mensagem do evangelho, como porção muito
im portante do mesmo, paralelamente ao arrependimento, à fé, à
regeneração e à glorificação. No entanto, Paulo separa o batismo da
salvação, por ter sido enviado a pregar o evangelho, e não a batizar.
«...Crispo...» é um nome próprio latino que significa «crespo», fazenáo
alusão aos cabelos. Provavelmente Crispo fora o chefe da sinagoga cuja
conversão é narrada no trecho de Atos 18:8. (Quanto ao que se sabe sobre
«Crispo», ver as notas expositivas referentes a esse citado versículo).
«...Gaio...», mui provavelmente, foi o hospedeiro de Paulo, estando esse
apóstolo em Corinto. (Ver Rom. 16:23). Ou então, se porventura o décimo
sexto capítulo não faz parte integrante da epístola aos Romanos, é possível
que se trate de um outro Gaio, visto que esse nome próprio era muito
comum nos tempos apostólicos. E, se esses dois não são uma só e a mesma
pessoa, então os fatos que se sabem sobre eles se constitui apenas na
menção de seus nomes, exceto aquela breve informação que é dada acerca
de Gaio, em Atos 19:19 e 20:4. Esse Gaio, associado à igreja cristã de Éfeso,
mui provavelmente, portanto, não é o mesmo indivíduo mencionado aqui
na primeira epístola aos Coríntios. (Ver as notas expositivas, em Atos 19:29,
acerca dos possíveis «vários» indivíduos de nome Gaio. Quanto ao sentido
do nome «Gaio», ver Rom. 16:23. «Gaio» era um prenome).
Paulo percebia um ato da providência divina no fato de que ele não
costumava batizar os convertidos, porquanto as.mentes facciosas poderiam
imaginar que as pessoas por ele batizadas deveriam formar um partido
favorável a esse apóstolo. Ninguém, portanto, poderia pensar que Paulo
desejava que a autoridade envolvida no nome de Cristo fosse compartilhada
com ele.
Na realidade, Paulo havia batizado a alguns poucos crentes (ver também
o décimo sexto versículo deste capítulo), mas o número desses indivíduos
era pequeno por demais, de tal maneira que ninguém podia acusá-lo de
estar tentando criar um grupo de discípulos especiais seus. E assim,
nenhum grupo maior de crentes poderia intitular-se de discípulos especiais
do apóstolo dos gentios, por ter ele batizado pessoalmente a eles. E agora
Paulo se regozijava desse fato, embora não houvesse predito esse perigo.
Ver notas completas sobre batismo em Rom. 6:3.
★★★
Variante Textual: As palavras «...Dou graças a Deus...» aparecem nos mss
Aleph (3), ACDEFGLP e na vulgata latina. Alguns manuscritos ainda têm
uma outra adição, dizendo, «Agradeço a meu Deus», segundo se lê nos mss A,
17, e nas versões siríaca, cóptica e armênia. Porém, o texto mais simples, que
sem dúvida representa o original, o qual também explica a existência das
variantes, diz meramente «Dou graças...» Assim dizem os mss P (46), Aleph,
B, 67 e os escritos de Crisóstomo, onde ele se refere a esta passagem. As outras
variantes são leves glosas escribais.
15 'ίνa μη τις εΐττη δτι els το εμόν δνομα εβαπτίσθητε.'1
d d 15-16 d major, d major: TE Bov Nes BF2 AV RV ASV TT Zür Luth Jer Seg // i minor, d major: WH // d major and dash, d major: NEB // d parens, d parens: ESV
15 ίβαπτισθητ* J)16NAB al lat syhms ; R] -ισθη 104 ·. ~íaa DG pm it syp· h Tert ς
16 I CORÍNTIOS
1:15: para que ninguém diga que fortes batizados em meu nome.
Ao assim declarar, isto é, que haviam sido batizados por Paulo, alguns
poderiam tê-lo escolhido como seu grande herói, elevando-o de um modo
que injuriava ao nome de Cristo. Paulo, todavia, não lhes havia permitido
nenhum precedente, através do que se pudesse criar uma facção que
recebesse o seu nome. Pouquíssimos crentes daquela época poderiam,
forçando a memória, lembrar-se que haviam sido batizados pelo grande
«apóstolo dos gentios». Sem qualquer desígnio ou malícia, Paulo havia
impedido que os crentes de Corinto, facciosos como eram, se escudassem
nesse pequeno combustível para suas idéias, o que, não fora aquela atitude
do apóstolo, sem dúvida teriam usado, para aumentar a combustão das
dissensões, formando-se um partido dàquelès que fossem batizados por
ele.
É bem provável que, na igreja coríntia, o batismo em água estivesse sendo
frisado como um fator importante, pelas diversas facções em que aquela
comunidade estava dividida. Ê possível que Pedro e Apoio tivessem
batizado a vários irmãos, o que servira tão-somente para aum entar o
orgulho de certos indivíduos facciosos. Mas Paulo se sentia grato porque o
seu nome não podia ser envolvido nessa controvérsia.
Variante Textual: As palavras «...que eu batizei...» aparecem nos mss C (3)
DEFGLP e na maioria dos manuscritos gregos minúsculos. Porém, o texto de
maior antiguidade, o qual também sem dúvida representa o original, é aquele
que põe essa frase na voz passiva, tal como se vê na tradução portuguesa que
serve de base textual a este comentário—«...que fostes batizados...» Assim
dizem os mss P (46), Aleph, ABD (1), na vulgata latina, e nas versões cóptica e
armênia.
16 εβάπτισα 8è και τον Στεφανά οίκον λοητόν ούκ οΐδα ε’
ί τινα άλλον άβαπτισα.0
16 τον Χτβφανα οίκον 1 Cor 16.15
1:16: É verdade, batizei tambim a familia de Estéfanas; além destes, não sei se
batizei algum outro.
Repentinamente Paulo se lembra de um outro pequeno grupo de crentes
a quem havia batizado. Mas talvez tivesse sido lembrado disso por seu
amanuense, que estava em sua companhia, ou então pelo próprio
Estéfanas, que estava com o apóstolo quando ele compunha esta epístola.
(Ver I Cor. 16:17). Estéfanas é chamado de primícias da Acaia, em I Cor.
16:15. As referências que há acerca dele, nas páginas do N.T., são I Cor.
1:16 e 16:15,17. Em muitas cópias antigas, no «post-scriptum», Estéfanas é
identificado como o amanuense que "Pauloempregou para que escrevesse
esta primeira epístola aos Coríntios; mas, no que diz respeito a isso, não
podemos ter qualquer certeza.
Alguns eruditos têm pensado que em face de Estéfanas haver sido
identificado como «primícias», isto é, como primeiro convertido a Cristo na
Acaia, que ele deveria ser ateniense; pois esse apóstolo obteve algumas
poucas conversões em Atenas, antes de dirigir-se à Corinto. O mais
provável, entretanto, é que esse apóstolo estivesse pensando na primeira
«família» ganha para a causa de Cristo, e não no primeiro indivíduo; ou
talvez simplesmente Paulo houvesse deixado de mencionar o ministério que
teve em Atenas, por ter sido quase totalmente improdutivo, sobretudo em
face do fato que estava, naquele exato momento, escrevendo para os crentes
de Corinto.
Éstéfanas, juntam ente com Fortunato e Acaico (ver I Cor. 16:17),
deleitaram ao apóstolo dos gentios com uma visita que lhe fizeram em
Éfeso. Mui provavelmente foram eles os portadores desta primeira epístola
aos Coríntios, quando voltaram para Corinto, depois de terem trazido para
esse apóstolo a missiva que lhe havia sido enviada por aqueles crentes (ver I
Cor. 7:1). Alguns estudiosos, por isso mesmo, têm identificado esses
homens com a casade Cloé (ver I Cor. 1:11), cujos membros haviam sido os
informantes de Paulo, acerca das péssimas condições em que se achava
aquela congregação cristã. Contudo, não temos qualquer prova histórica
nesse sentido. «Estéfanas» é uma forma contraída de «Stephanotos», que
significa «coroado». Uma forma moderna desse nome é «Estêvão».
«...algum outro...» Paulo não queria negar a possibilidade de outros
indivíduos terem sido batizados por ele; mas, se porventura isso sucedera,
ele não tinha memória do fato. Mas pelo menos pode-se concluir que, sem
importar o número exato dos batizados por Paulo, tal número deve ter sido
tão pequeno que não permitia a formação de nenhum partido religioso que
quisesse tomar ò seu nome, como cabeça de uma facção da igreja de
Corinto. Evidentemente havia essa tentação, porque, aparentemente, ele
mostrara um favor especial para com certos, batizando-os pessoalmente.
Deixando a questão assim indefinida, Paulo evitou o surgimento de
objeções contra a sua atuação em Corinto.
A posição a que Paulo relega aqui o batismo em água não significa que
ele julgasse não ter o mesmo importância. Entretanto, quis mostrar, nestes
versículos catorze a dezessete deste capítulo, que distinguia tal batismo do
«evangelho». E isso, por sua vez, significa que o batismo em água não pode
ser encarado como parte integrante da salvação ou regeneração. Não há que
duvidar que Paulo não era sacramentalista e nem legalista. Era um místico.
Mediante uma referência cruzada com o trecho de Rom. 16:5, alguns
estudiosos têm suposto que Epêneto pertencia à casa de Estéfanas; mas,
nesse citado trecho, o texto original diz «Ãsia», e não «Acaia», conforme
dizem alguns manuscritos. Por conseguinte, não havia qualquer conexão de
família entre Epêneto e Estéfanas. (Ver as notas expositivas sobre a
«Acaia», em Atos 18:12).
Paulo, à semelhança de Pedro (ver Atos 10:48) e do Senhor Jesus (ver
João 4:2), deixava o ato do batismo ao encargo de outros. E a menção do
fato que uma caía foi batizada nada prova em favor do «batismo infantil».
(Quanto a comentários sobre esse particular, ver Atos 16:15).
17 ου γάρ άπέστειλέν με Χριστός βαπτίζΐΐν άλλα εύαγγελίζεσθαι, ούκ iv σοφία λόγον, ΐνα μη κενωθη ό
σταυρός τον Χρίστου.
1:17: Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não
em sabedoria de palavras, para não se tomar vã a cruz de Cristo.
Nenhum pregador que creia na falsa doutrina da «regeneração batismal»
poderia jamais fazer uma declaração como a que Paulo faz neste versículo.
De fato, tal declaração degrada a importância do batismo em água, se
porventura este tivesse parte ativa no processo da regeneração. Entretanto,
Paulo não hesitou, um instante sequer, em estabelecer a devida distinção
entre o evangelho e o batismo em água. Ora, se o batismo em água
realmente faz parte da salvação, como algo necessário à mesma, é evidente
que também faria parte do evangelho. E de nada vale alguém dizer que
Paulo foi encarregado da comissão específica de «pregar o evangelho», ao
passo que o ato do batismo, como aspecto sacramental do evangelho, foi
deixado ao encargo de outros crentes. Pois isso é encontrar neste versículo.
uma distinção que não existe, distorcendo, especificamente por razões
polêmicas e tradicionais, aquilo que Paulo diz aqui com tanta clareza.
★★★
Consideremos Estes Fatos
1. Paulo não pode ter crido na idéia da regeneração batismal (ver notas a
respeito em Atos 2:3), pois, de outro modo, nunca teria falado como o faz
aqui. Neste ponto, Paulo separa o evangelho do batismo.
2. Em todas as suas discussões dogmáticas sobre a salvação (ver Rom.
1-5), ele nem ao menos faz menção do batismo em água.
3. Paulo ensinava que as cerimônias, os ritos e a observância da lei
mosaica não fazem parte integrante da salvação, embora possam essas
coisas servir-nos de mestres quanto a certos aspectos daquilo que se espera
de nós, em nosso andar espiritual. De que maneira o batismo cristão difere
da circuncisão praticada entre os judeus? Esta última não salva (embora os
judeus pensassem ao contrário), e nem a outra cerimônia—o batismo—
pode salvar, ainda que alguns cristãos pensem que é impossível adquirir-se
a salvação sem o batismo. (Ver as notas sobre esses conceitos em Col.
2 : 11, 12).
4. Ver notas completas sobre o «batismo» e seus significados, em Rom.
6:3.
Sem qualquer intuito especial, mas apenas como uma questão colateral,
Paulo nos mostra também que o batismo em águâ, como sacramento ou
17 ov yàp... eòayyfXÍÇeaOaL Mt 28.19; Jd 4.2
ordenança, não deve ser reservado para ser administrado somente por
elementos do ministério ou do clero, conforme se verifica com tanta
freqüência nas modernas igrejas evangélicas.
Assim ensinando, Paulo nunca quis depreciar o batismo em água, mas
tão-somente pô-lo dentro de sua categoria apropriada. Diz Adam Clarke (in
loc.), a esse respeito: «Parece suficientemente evidente que o ato de ‘batizar’
era considerado um ofício ‘inferior’; e embora todo o ministro de Cristo
deva administrá-lo, os apóstolos, entretanto, tinham um trabalho ‘mais
importante’a realizar. A preparação de pagãos adultos, para o batismo em
água, mediante a pregação contínua da Palavra, era de muito maior
conseqüência do que batizá-los, uma vez que estivessem preparados para
receber o batismo com proveito».
«A apostasia da igreja cristã consistiu em fazer com que os ritos se
tornassem mais importantes do que a verdade». (Hodge, in loc.).
Paulo talvez tenha querido dar a entender, segundo também Calvino
pensa {in loc.), que os seus oponentes (mencionados no nono capítulo desta
primeira epístola aos Coríntios), aquilatavam seu sucesso pelo número de
pessoas que batizavam pessoalmente. Paulo, entretanto, reduziu ao
máximo a importância do número de batismos efetuados.
Paulo fora «enviado», o que é vocábulo que faz alusão específica ao seu
ofício apostólico. (Ver as notas expositivas acerca de I Cor. 1:1 e Rom.
1:1,5). Esse ministério apostólico não visava especificamente que ele
batizasse, embora isso também pudesse ser incluído, e, sim, que ele
pregasse o evangelho de Cristo.
«...evangelho...» (Ver as notas expositivas completas sobre esse assunto,
em Rom. 1:16). Paulo fora eminentemente qualificado para ser pregador do
evangelho de Cristo, tendo labutado mais abundantemente que todos os
seus opositores, e, na realidade, mais abundantemente que qualquer dos
outros apóstolos; e isso era uma das provas de seu autêntico apostolado.
«...não com sabedoria de palavra...» Na cidade de Corinto havia escolas
de retórica, as quais ensinavam a arte de falar em público. Mas essas
escolas seguiam os métodos dos sofistas, para os quais dizer a verdade era
muito menos importante do que vencer um argumento através de várias
técnicas de debate. Não há que duvidar que, no seio da igreja cristã
primitiva, havia pregadores que eram muito mais filósofos do que ministros
de Cristo. Apoio, crente de grande eloqüência, homem educado em
Alexandria, no Egito, que era um dos grandes centros da erudição daquela
época, era homem que sabia falar em público e pregar, estabelecendo
I CORÍNTIOS 17
distinções claras e expressando pensamentos profundos de maneira nova. O
indiscutível, entretanto, é que Paulo não condenava aqui a Apoio. Não há
que duvidar que o apóstolo dos gentios não faria objeção contra o estilo de
pregação de Apoio; porém, havia muitos crentes em Corinto para quem
Apoio era seu grande «herói», os quais também procurando imitá-lo, e
usando de sofismas de sua própria criação, procuravam transformar a fé de
Cristo em uma escola filosófica. E essa tentação era muito forte em Corinto,
cidade que procurava imitar Atenas, no que tange ao desenvolvimento de
diversas escolas filosóficas. No trecho de Atos 17:18, as notas expositivas ali
existentes fornecem breves rascunhos sobre a natureza dessas várias escolas
filosóficas, como os epicureus, os estóicos, os cínicos e os hedonistas. Todas
essas escolas filosóficas, à sua maneira e de acordo com seus respectivos
estilos, estavam interessadas tão-somente pela exibição da «sabedoria»
humana.
O apóstolo Paulo não tivera formaçãofilosófica, ainda que, sendo natural
de Tarso da Cilícia, um dos grandes centros de estoicismo romano, ele
estava familiarizado com a filosofia grega. O estoicismo romano era a escola
filosófica mais predominante nos dias de Paulo, pois, naquela época, a
metafísica especulativa, que surgira com Platão, ainda não recebera novos
rumos, e as várias escolas «éticas» ocupavam ainda o estágio filosófico.
Paulo, entretanto, apesar dejudeu da dispersão, por haver sido treinado em
Jerusalém, aos pés de Gamaliel, rabino de pontos de vista tradicionais,
aceitava a «revelação divina» como a grande fonte da verdadeira sabedoria,
especialmente no que se refere às questões religiosas e à busca pela verdade
e por Deus. Portanto, tinha pouca paciência com a filosofia e pouco tempo
para dedicar à mesma.
★★★
Uso E Abuso Da Filosofia
1. O próprio Paulo tomou por empréstimo certo número de ilustrações e
lições morais derivadas do estoicismo romano, e em razão disso há paralelos
entre seus escritos e aqueles de Sêneca, o famoso filósofo estóico romano,
contemporâneo do apóstolo dos gentios. Com base nessa circunstância é
que surgiram as epístolas apócrifas de Paulo a Sêneca, e deste para aquele.
Apesar de serem obras apócrifas, sua própria existência implica na
similaridade de expressão (e pensamento moral) entre os dois homens.
2. A filosofia, entretanto, não conta com qualquer doutrina de redenção
que possa ser substituta da salvação em Jesus Cristo, embora Platão tivesse
antecipado certo número de doutrinas de elevado cunho espiritual que
fazem parte do sistema cristão.
3. As objeções de Paulo às idéias dos filósofos, tão evidentes no primeiro
capítulo de I Coríntios, estavam alicerçadas sobre o fato de que a porção
intelectual da igreja de Corinto (provavelmente seguidores de Apoio) havia
virtualmente abandonado a fé cristã (com sua mensagem central da cruz),
substituindo-a por um mero sistema de sabedoria humana. Conjecturó que
eles contavam com uma série de mistérios, em imitação às religiões
misteriosas da época, e que contavam com uma mensagem filosófica (com
uma mescla de estoicismo e platonismo). Acima de tudo, orgulhavam-se de
seus admiráveis poderes de oratória, no que imitavam aos sofistas. Muitos
deles, sem dúvida, tinham recebido treinamento formal na arte de falar em
público e de debater, as especialidades dos sofistas.
4. O relacionamento que porventura exista entre o cristianismo e a
filosofia, e aquilo que os comentários bíblicos declaram a respeito,
aparecem nos comentários sobre Col. 2:8.
Paulo também queria que compreendêssemos que não pode haver
substituto para a mensagem simples da cruz; porquanto é através da mesma
que o homem é levado de volta a Deus, através da reconciliação que há em
Cristo. Mui provavelmente ele levantava objeção contra as especulações
filosóficas, que tendem por detratar da im portância de Cristo, e não
meramente contra as «apresentações de tipo filosófico» da mensagem cristã.
«A eloqüência humana e a erudição humana com freqüência têm sido
usadas com êxito na defesa dos pontos secundários do cristianismo; mas a
simplicidade e a verdade é que lhe têm preservado a cidadela». (Adam
Clarke, in loc.).
Visto que o poder procede de Deus, e não do homem, isso pode ser
percebido mais claramente quando o instrumento usado por Deus não é
produto polido da sabedoria humana. Porém, para que isso realmente se
verifique, é mister que se faça presente o poder real de Deus. A mera
substituição de uma pregação erudita pela prédica inculta e ignorante não
manifesta, por si só, o poder de Deus; mas isso é tão-somente substituir a
sabedoria humana pela «ignorância humana». E tal medida faria das igrejas
evangélicas ainda mais enfadonhas, e não mais poderosas. Por outro lado,
quando o poder de Deus realmente se faz presente, não há necessidade
alguma de revestir a pregação com a habilidade retórica. Mas, quando esse
poder se ausenta, nem o discurso simples e ignorante (o que, para muitos,
parece ser um ponto de orgulho e ufania) e nem o discurso brilhante e
retórico pode ter grande valia. Assim sendo, se o poder de Deus estiver
presente, a maneira erudita de apresentar o evangelho não lhe servirá de
empecilho; antes, tal como se vê nas próprias epístolas de Paulo, onde há
passagens supremamente eloqüentes, esse brilhantismo pode ser usado para
atingir certos níveis de pessoas, onde uma apresentação ignorante e inculta
os repulsaria. O fato é que Paulo era homem de considerável eloqüência, o
que transparece em suas epístolas; mas ele ignorava as técnicas dos
retóricos ao expor a mensagem de Cristo. Evidentemente Apoio aplicava
tais habilidades, posto que não era falso para com a mensagem do Senhor.
Por isso mesmo, Apoio não é atingido aqui pelas críticas do apóstolo dos
gentios, embora alguns daqueles que faziam de Apoio o seu modelo
merecessem tais críticas.
Com a passagem geral que encontramos aqui no primeiro capítulo desta
epístola, podemos confrontar a atitude declarada por Justino Mártir (150
D.C.), um dos primeiros dos chamados «pais da igreja», e que foi o
principal apologista cristão de sua época. Ele fora um filósofo neoplatônico,
bem como um mestre ambulante de algum prestígio. Justino M ártir
afirmava que a filosofia o levara aos pés de Cristo, como se ele tivesse sido
um aio, mais ou menos como a lei mosaica o fora para alguns judeus. (Ver
Gál. 3:24,25). Aqueles que conhecem a filosofia platônica sabem que
existem pontos de grande similaridade entre seus conceitos básicos e as
idéias básicas do cristianismo, e que uma coisa pode realmente conduzir à
outra. E interessante que Justino Mártir nunca se despiu inteiramente de
sua capa de filósofo, tendo andado ao redor, procurando convencer as
classes intelectuais a virem a Cristo, utilizando-se de seu método filosófico.
No entanto, ao mesmo tempo, foi um dos maiores defensores do
cristianismo. O valor de seu exemplo não deveria ser completamente
olvidado por nós. Pode haver algum valor no mesmo.
Essa atitude de Justino Mártir foi compartilhada pelos pais alexandrinos
da igreja, como Clemente e Orígenes, os quais pensavam—que —a filosofia
grega os tinha preparado para o evangelho, sobretudo a filosofia platônica e
estóica, tal como a lei mosaica preparara o caminho para tantos judeus.
Justino Mártir foi um cristão supremamente dedicado a Cristo, que usou as
habilidades inerentes à sua personalidade, bem como as capacidades que
lhe foram conferidas por obra e graça do Espírito de Deus, a fim de
fomentar a causa do reino de Deus. Não é provável que Paulo tivesse
encontrado motivos para condená-lo por isso.
II. O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10-4:21).
1.Polêmica contra tais divisões
b. Elas se originam do orgulho e da sabedoria humanos (1:18-2:5). Essa sabedoria é uma insensatez aos olhos de Deus.
c. A cruz é a exibição da sabedoria de Deus aos olhos dos homens (1:18-25).
18 Ό Χόγος γάρ ο τον σταυρόν τοΐς μεν απολλνμενοις
0eoíi έστίν. 18 2 Cor 4.3; Ro 1.16 l8 Ο 2o] 07»
1:18: Porque α palavra do cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para
nis, que somos salvos, é o poder de Deus.
Facilmente notamos, nas epístolas de Paulo, quanto a importância da
cruz de Cristo era enfatizada por ele. (Ver II Cor. 13:4; Gál. 3:1; 5:11;
6:12,14; Fil. 2:8; 3:18; Col. 1:20 e 2:14). Naturalmente que o apóstolo dos
gentios não estava pensando na cruz de madeira em que Jesus fora
crucificado, e nem a mensagem da cruz, para ele, consistia dos detalhes
cruentos dos sofrimentos de Cristo, encravado na cruz. Antes, ao falar
assim, ele pensava sobre as boas novas que anunciam que, em Cristo, Deus
estava reconciliando o mundo consigo mesmo. (Ver II Cor. 5:19). Na cruz é
que se concretizou a reconciliação. Cristo fez por nós aquilo que não
podemos fazer por nós mesmos. Na hora crucial da agonia, Deus Pai,
aparentemente, abandonou seu Filho. Mas isso, na realidade, era
impossível. E assim, em Cristo, Deus aceita o mundo inteiro, sob a condição
única de arrependimento e fé. Cristo foi aquele que levou sobre si os nossos
pecados, encravando-os na sua cruz, tendo sido esse o ato culminante de
sua missão terrena. Quando falamos em «cruz», portanto, pensamos na
expiação realizada pelo sangue de Cristo. (Ver Rom. 3:35 e as notas
expositivas ali existentes quanto a isso, onde a palavra «propiciação» é
igualmente comentada). Assim também, quando falamos em «cruz»,
pensamos em «redenção» (comentado em Rom. 3:24); pensamos em
μωρία εστίν, τοΐς 8ε σωζομένοις ημΐν όύναμις
ρ46Β fc Iμ*ν om J)46i* e r Ir | ·ημιν om G 6 d e f r Mcion Ir Ambst Aug
«expiação pelo sangue» (comentado em Rom. 3:25 e 5:11); e pensamos em
«justificação», porque Cristo foi entregue pelas nossas ofensas e ressuscitou
visando nossa justificação (comentado em Rom. 3:24,28 e 4:25). (Quanto a
notas expositivas sobre o fato que «ajustificação inclui o arrependimento e o
perdão dos pecados», ver Rom. 4:7).
No entanto, o fato de que todas essas doutrinas verdadeiras estão
centralizadas em torno de um Salvador moribundo constitui uma
«...loucura...»para os incrédulos, sobretudo para os «eruditos», aqueles que
possuem treinamento filosófico e uma sabedoria humana geral. Ora,
conforme lemosno vigésimosegundo vs. deste capítulo,os gregos buscavam
«sabedoria». E essa «sabedoria» tinha o efeito de afastá-los para longe de
uma elevada mensagem espiritual, porquanto, para eles, esta parece
revestir-se de elementos de insensatez.
«...loucura...» No original grego, a palavra usada neste ponto não é tão
violenta. Antes, o termo grego tem o sentido de «tolice», «insensatez», sem
dar qualquer idéia de desarranjo mental ou insanidade, conforme a
tradução «loucura» nos dá a entender. Nossa palavra «moroso» se deriva
dela. Para os detratores do cristianismo, portanto, a mensagem da cruz
parecia «morosa», no sentido de faltar-lhe a percepção pronta da verdade, o
que caracteriza as superstições e as idéias ultrapassadas, derivadas dé
conceitos religiosos tolos, mas agora totalmente inaceitáveis para a mente
«moderna». O sentido básico dessa palavra, no original grego, é algo
18 I CORÍNTIOS
«embotado», «tolo», «pesado», «insípido». Da maneira como Paulo a
emprega aqui, dá a entender «embotamento mental». A sabedoria humana,
portanto, sente-se superior a essas antigas superstições, a essas crenças
«primitivas».
Porém, o que parece ser embotamento mental, por parte dos crentes, na
realidade é apenas um discernimento suficiente que lhe permite descobrir a
«sabedoria» de Deus, em meio às trevas da sabedoria humana, as quais, na
realidade, são aquilo que oculta a verdade, longe de revelá-la.
Ora, tudo isso nos fazlembrar da famosa declaração de Tertuliano: Creio
porque é absurdo. Isso significa que aquilo que parece absurdo para os
homens, pode ter tal aparência porque a mente deles está tão entenebrecida
que não pode apreender a verdade de Dèus. Soren Kierkegaard é lembrado
devido à sua atualmente famosa declaração: «Deus é o mais ridículo de
todos os seres». Com isso ele queria dizer que não precisamos de provas
racionais ou empíricas acerca da existência de Deus e acerca de sua
verdade, porquanto todas elas parecerão ridículas para os homens, de
qualquer modo, ainda que tais provas pudessem ser apresentadas. O fato é
que Deus simplesmente não precisa amòldár-se à sabedoria humana, nem
precisa ser atingido por ela, descrito por ela, para que seja real. A verdade
final, por conseguinte, nos é outorgada por meio da revelação divina; e essa
revelação pode ser aprendida intuitivamente, e é intuitivamente que
podemos concordar com ela; tudo, porém, será sempre e essencialmente,
um «dom de Deus», dado aos homens do alto, proveniente de uma fonte
externa a eles. Não depende, em qualquer grau, da aceitação por parte do
conhecimento ou da erudição dos homens.
«...para os que se perdem...» Esses são os que estão alienados de Dèus,
que fatalmente cairão na perdição eterna, se persistirem em seu caminho de
rebeldia. Paulo pensava aqui acerca do destino humano e do julgamento
final, bem como acerca daqueles que se encaminhavam nessa direção na
condição de perdidos. (Ver as notas expositivas sobre o «estado dos
perdidos», em I Ped. 3:18-20; 4:6 e Apo. 14:11). Tais indivíduos estão
alienados de Dèus em seus corações, em suas mentes e de conformidade
com suas ações, e dificilmente poderiam perceber mais do que insensatez na
cruz de Cristo. Habitam nas trevas porque seu ceticismo cegou o seu
entendimento. Suas mentes estão acostumadas a pensar segundo canais
negativos e infrutíferos, no que concerne à verdade espiritual; e somente a
iluminação divina pode modificar os seus hábitos mentais, de modo a virem
reconhecer a sabedoria (ver o vigésimo primeiro versículo deste mesmo
capítulo), onde antes viam apenas tolice.
«...nós, que somos salvos...» Uma mais perfeita tradução diria: «...nós,
que estamos sendo salvos...», porquanto aqui é expressa a salvação como
um processo, porquanto, naturalmente, ela também tem esse aspecto. A
regeneração ocorre através da conversão e do arrependimento, mediante o
veículo da fé. Segue-se então a santificação; e, no-futuro, a glorificação
coroará todo esse processo. Ora, esse processo pode ocupar um tempo
prolongado, e cada passo desse processo faz parte integrante da salvação.
Pode-se chamar de «salvação» à salvação inicial ou conversão, com toda a
legitimidade; mas a salvação também tem um aspecto presente e outro
futuro, não se tratando apenas de uma transação passada. No trecho de
Rom. 8:24, somos informados por Paulo que «...na esperança fomos
salvos». Contudo, ainda não contemplamos e nem temos compreendido
perfeitamente o objetivo maior dessa esperança. A salvação .presente é
apenas a garantia, a primeira prestação, por assim dizer, da salvação
futura. Mas estamos nos dirigindo verdadeiramente nesse sentido—estamos
«sendo salvos». (Ver as notas expositivas sobre Rom. 8:29, onde se comenta
a «natureza da salvação». A salvação consiste na transformação por que
passam os remidos no processo que os transmuta em Cristo, em que passam
a compartilhar de sua natureza moral e metafísica, até que, finalmente,
chegarão a participar da própria divindade, no dizer de II Ped. 1:4. (Ver o
trecho de Heb. 2:3, quanto a notas expositivas detalhadas sobre a
«salvação»).
«...poder de Deus...» Tal é o evangelho, mas somente para aqueles que
estão sendo salvos. A pregação da cruz tem resultados muito maiores do que
é possível para a sabedoria humana; pois o evangelho pode salvar uma alma
eterna, o que certamente é a obra mais elevada que a mente humana pode
conceber, quando se compreende, realmente, quão vasta obra é a salvação.
Pois não é coisa de pouca monta vir um pecador remido a compartilhar de
tudo quanto Cristo é e possui, tomando-se seu co-herdeime participante de
sua natureza divina, de modo a tornar-se um ser superior aos próprios
afljos. Somente o poder de Deus, atuando por intermédio do Espírito Santo,
é que pode transformar os homens dessa maneira.
Não é diminuto o poder que nos salva da condenação devido ao pecado e
da ilusão humana; mas isso é apenas o começo do poder que opera através
do evangelho de Cristo. Daí é que procede a completa transformação dos
remidos segundo a imagem de Cristo, em que os homens mortais vão sendo
transformados em seres divinos e imortais, participantes da vida necessária
e independente do próprio Deus, em meio a uma santidade perfeita. (Ver os
trechos de Mat. 5:48; João 5:25,26 e 6:57, onde esses conceitos são
devidamente comentados). Ora, a sabedoria humana não pode nem
aprender e nem concretizar qualquer dessas realidades espirituais. Mas
Deus pode torná-las experiências nossas, através do evangelho de Cristo.
(Ver o trecho de Rom. 1:16 quanto ao conceito do evangelho como o «poder
de Deus»).
«O evangelho não é produto da sabedoria humana. Em sua inquirição
pelo sentido da vida e por Deus, a mente humana jam ais poderia ter
concebido a verdade. Se, por um lado, a filosofia humana, em seu nível
mais elevado, é um impulso na direção de Deus, então, a filosofia de Deus,
é um impulso na direção do homem. Através de Jesus Cristo, e este
crucificado, um novo conceito do poder e da sabedoria de Deus invadiu o
mundo qual dilúvio». (John Short, in loc.).
«Existe uma palavra, uma eloqüência, que é a mais poderosa de todas, a
eloqüência da cruz». (Stanley, in loc.).
«Aquilo que, para o mundo, parece uma ‘debilidade’ nos planos de Deus
(ver o vigésimo quinto versículo deste capítulo), e em sua maneira de
exposição, por parte de seu apóstolo (ver I Cor. 2:3), na realidade é seu
‘poder’, o poder que nos confere a salvação. E aquilo que parece
‘insensatez’, por causa da insuficiência da ‘sabedoria das palavras’
humanas (ver o décimo sétimo versículo deste capítulo), na realidade é a
mais alta ‘sabedoria de Deus’ (ver o vigésimo quarto versículo deste
capítulo)». (Faucett, in loc.).
Um Pouco de Aprendizado
Aprender só um pouco é algo muito perigoso;
Sorve fundo, ou não proves da fonte da sabedoria;
Ali, goles pequenos intoxicam o cérebro,
E beber profundamente nos toma de novo sérios.
Não é aos olhos, ou aos lábios que achamos belos,
Mas ê ao conjunto, o resultado total de tudo.
Assim, ao contemplarmos alguma cúpula bem feita
(O mundo se admira, e até mesmo tu, ó Roma!),
Nenhuma porção isolada igualmente surpreende,
Tudo chega unido ante os olhos admirados;
Nenhuma altura desmedida, largura ou comprimento;
Mas o todo é, ao mesmo tempo, ousado e regular.
(Alexander Pope).
19 γέγραπται, γάρ, Ά π ολώ τήν σοφίαν των σοφών, καί τήν σύνεσιν των συνετών αθετήσω.
19 Ά 7τολώ ...ά06τήσω Is 29.14
1:19: Porque está escrito:
Destruirei a sabedoria dos sábios,
e aniquilarei o entendimento dos entendidos.
As palavras «...está escrito...» formam uma frase* constantemente usáda
nesta epístola, conforme se vê em I Cor. 1:19, 31; 2:9; 3:19; 4:6; 9:9,10;
10:7,11; 14:21 e 15:45,54. Também é de ocorrência muitíssimo freqüente
na epístola aos Romanos, onde aparece por dezessete vezes. (Ver as notas
expositivas sobre Rom. 3:10, onde há um comentário a respeito e a lista de
referências). Nas epístolas de Gálatas e segunda aos Coríntios, essa
expressão também aparece por diversas vezes. E também aparece por
algumas poucas outras vezes, no restante das epístolas de Paulo.
Utilizando-se dessa expressão, pois, Paulo vincula a sua mensagem a
muitos aspectos importantes do A.T. Assim sendo, vemos que esse apóstolo
defendia a continuação da mensagem do antigo pacto na revelação do N.T.,
o que, de resto, é uma idéia comum entre os escritores neotestamentários.
Isso subentende, naturalmente, que o Messias, prometido nas páginas do
A.T., é o Senhor Jesus do N.T. (Ver João 7:45 e as notas expositivas ali
existentes, onde há um sumário da primitiva apologia cristã acerca do
caráter messiânico de Jesus). Paulo, na presente referência, queria
mostrar-nos que ele não criara nenhum conceito novo ao degradar a
«sabedoria humana», porquanto isso já havia sido tema das Escrituras
proféticas do A.T.
Essa citação foi extraída do trecho de Isa. 29:14, segundo a versão da
Septuaginta (tradução do original hebraico do A.T. para o grego,
completada em cerca de 200 A.C.). Contudo, Paulo substitui aqui a palavra
«esconderá», que aparece no A.T., por «...aniquilarei...» Isso se coaduna
com a sua maneira livre de citar ο A.T., de acordo com os’seus propósitos
do momento. (Ver as notas expositivas em Rom. 10:6, quanto ao método
paulino de fazer citações, onde há várias ilustrações). É possívél que essa
citação seja uma combinação de Isa. 29:14 e de Sal. 33:10.
No A.T., es£a declaração profética se refere ao fracasso da sabedoria e da
política mundanas em Judá, em face do iminente juízo divino constituído
pela invasão assíria. A futilidade da sabedoria humana é um princípio que
pode ter diversas aplicações, e Paulo se utiliza dessa citação de uma das
mais importantes maneiras como ela pode ser aplicada. A aplicação feita
por Paulo, quanto à presente citação, salienta uma verdade mais
importante do que aquela contida na passagem original do A.T.
A sabedoria humana está sujeita à «destruição» e ao «aniquilamento».
Não possui ela qualquer poder inerente, que a capacite a salvar uma alma
ou a elevar um homem até Deus, o que, afinal de contas, é o propósito real e
o grande alvo da existência humana. A sabedoria humana, pois, não pode
desfazer o mal provocado pela queda no pecado, e nem pode ajudar o
homem a aproximar-se novamente de Deus.
Será este mundo vil um amigo da graça,
Que me ajude a prosseguir para Deus?
(Isaac Watts).
«...sabedoria... inteligência...», ou então, conforme dizem outran
traduções, «sabedoria...prudência», ou «sabedoria...entendimento». No
dizer de Vincent (in loc.), «Essas duas palavras com freqüência podem ser
encontradas juntas, conforme se vê em Exo. 31:3; Deut. 4:6; Col. 1:9. Com
isso comparar Mat. 11:25, que diz ‘sábios e entendidos’. Quanto à distinção
entre elas, ver ‘sophia’, ‘sabedoria’, em Rom. 11:33; quanto à ‘sunesis’,
compreensão, ver Marc. 12:33 e Luc. 2:47. A ‘sabedoria’ é o vocábulo mais
geral; trata-se da excelência mental, em seu sentido mais prenhe e elevado.
A ‘prudência’ é a aplicação especial da sabedoria; e se trata (áe seu
ajustamento crítico a casos particulares». Ver também as notas expositivas
em Rom. 11:33, onde esses mesmos conceitos são apresentados, embora a
palavra que ali se poderia traduzir por «conhecimento» seja, no grego, um
I CORÍNTIOS 19
vocábulo diferente. Não obstante, o termo grego «gnosis» pode ser usado
como sinônimo de «sunesis», a qual aparece neste texto, de tal modo que a
explicação de seus respectivos sentidos pode ser a mesma.
«...todos os céticos e deístas, com seus esquemas de religião e moralidade
naturais, não têm sido capazes de salvar uma única alma! Nenhum pecador
foi jamais convertido, do erro de seus caminhos, pelos seus discursos e
escritos». (Adam Clarke, in loc.).
«A aplicação disso ao tema que temos entre as mãos, é a seguinte: O
Senhor achou por bem punir a arrogância daqueles que, dependendo de seu
próprio juízo, pensam ser líderes de si mesmos e de outros; e se isso (a
destruição de sua sabedoria e o aniquilamento de sua prudência)
porventura ocorresse entre um povo cuja sabedoria as outras nações
tivessem oportunidade de admirar, o que se tornaria dos demais?» (Calvino,
in loc.).
★ ★
2 0 τ τ ο ν , σ ο φ ό ς ; π ο ΰ γ ρ α μ μ α τ ε ύ ς ; π ο ΰ σ υ ζ η τ η τ η ς τ ο ΰ α ΐ ώ ν ο ς τ ο ύ τ ο υ ; ο ύ χ ϊ ε μ ώ ρ α ν ε ν ο θ ε ό ς τ η ν
σ ο φ ί α ν Τ ο υ κ ο σ μ ο ν / 20 ττου σοφός Ι3 19.12 ττου Ύ ρ α μ μ α τ ΐ^ Is 33.18 ο ύχί...κ ό σ μ ο υ Is 44.25
Ο Textus Receptus, seguindo testemunhos posteriores (Kc C (3) D (c) F G L Ψ 104 326 1739 (c) al), com o que algumas
versões antigas concordam (it (d,g,r) vg sir (p,h,pal) cop (sa,bo) gót ara (mss)), adiciona τούτου. A influência exercida pela
expressão anterior του aioivos τούτου, teriá feito a adição do demonstrativo uma conclusão quase líquida; o notável é que
tantos copistas tenham resistido ao impulso de assimilar expressões (somente κόσμου aparece em p4
6 K* A B C* D gr* 33
181 206 314 429 917 1610 1758 1827 1836 1898 al).
1:20: Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século?
Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?
Paulo faz aqui alusão à passagem de Isa. 33:18; ou talvez,
inconscientemente, sem qualquer intuito especial, usou o fraseado do profeta
Isaías. Quanto ao pano de fundo original dessas palavras, Robertson e
Plummer (in loc.), brindaram-nos com a seguinte excelente nota: «O
apóstolo Paulo adaptou as palavras ao seu propósito imediato. A passagem
original se refere ao tempo que se seguiu ao desaparecimento do
conquistador assírio, com sua equipe de secretários, contabilistas e
registradores de inventário, os quais registraram os pormenores dos
despojos da cidade capturada. Na esteia de Salmaneser, na Galeria Assíria
do Museu Britânico, existe um quadro supreendentemente exato da cena
aqui descrita por Isaías. O maravilhoso desaparecimento do exército assírio
invasor foi, para Isaías, sinal que vindicava o poder e o cuidado de
Yahweh, servindo de refutação, não tanto dos ‘escribas’ do conquistador, e,
sim, dos mundanos conselheiros que havia em Jerusalém, os quais,
primeiramente, haviam pensado em enfrentar o invasor através de uma
aliança firmada com o Egito, apelando para outros métodos políticos cheios
de artimanha, para, em seguida, caírem no desespero mais desmoralizador.
O apóstolo Paulo se utilizou dessa passagem, por conseguinte, ainda que de
maneira bastante livre, não de forma desconexa para com seu pano de
fundo histórico... A pergunta é feita em um tom de triunfo».
«...sábio...» Temos aqui uma alusão definida aos gregos, com sua
filosofia e com sua busca pela sabedoria mundana, o que, no conceito de
Paulo, não era e nem é suficiente para descobrir os tesouros das realidades
espirituais. (Ver o vigésimo segundo versículo deste capítulo, que requer
essa identificação com os gregos, embora todas as nações da terra tenham
seus próprios «sábios»). Onde está o sábio? Isto é, que foi feito de sua
sabedoria? Foi reduzido a nada, quando submetido a teste, pela sabedoria
divina. A sabedoria divina salva a alma; a sabedoria humana, quando
muito, torna a mente curiosa. A sabedoria divina é poderosa; a sabedoria
humana, finalmente, é reduzida a nada. A sabedoria humana tão-somente
enche de orgulho o seu possuidor; a sabedoria divina leva o remido a
compartilhar da imagem de Cristo. Tal como os oficiais do rei assírio,
Salmeneser, haviam desaparecido da cena, tendo sido extintos pelo Senhor
Deus, em que seus esforços deram em nada, assim também sucede com
aqueles que buscam a sabedoria humana à parte de Deus, ou que tentam
substituir a sabedoria divina pela sabedoria humana.
«...escriba...» Temos aqui uma alusão aos «eruditos» do povo de Israel,
isto é, aqueles que estudavam a lei, que eram técnicos em suas minúcias, e
que ensinavam os preceitos mosaicos ao povo judeu. Esse é o sentido que
essa palavra sempre tem no N.T., com a única exceção de Atos 19:35, onde
está em foco o «escrivão da cidade» de Êfeso. (Ver notas expositivas
completas sobre os «escribas», em Atos 3:22). Assim como, para os gregos, o
filósofo preparado era o pináculo da sabedoria terrena, assim também, para
os judeus, era o escriba. Os escribas eram os eruditos profissionais entre os
judeus, guardiães de todo o conhecimento que o povo israelita julgava
importante. No entanto, em que resultava tal sabedoria, separada de
Cristo, que é a Sabedoria de Deus? Resultava na mesma negação e
inutilidade que ocorria no caso dos sábios gregos: nada. Porquanto nem a
lei e nem o conhecimento da mesma podem salvar a alma perdida, levando
o pecador de volta a Deus, ainda que isso possa mostrar até que ponto o
homem se distanciou de Deus.
«...inquiridor deste século?...» Essas palavras se referem, particular­
mente, às escolas gregas dos sofistas, ainda que não se limitem aos sofistas.
Os filósofos, preparados na retórica, na lógica e na metafísica, facilmente
podiam fazer com que «o pior argumento se tornasse o melhor», segundo
Sócrates foi acusado de fazer. Sócrates possuía grande capacidade de
debater, sabia como apresentar e defender delicadas distinções em seus
argumentos. Por semelhante modo, entre os judeus também havia
indivíduos dotados dessa habilidade, ainda que esse termo pareça aplicar-se
com mais propriedade aos filósofos gregos. Ê possível que Paulo não
estivesse fazendo aqui distinções pormenorizadas, mas antes, falasse em
termos gerais. Seja como for, a sua mensagem é clara. A sabedoria
humana, sem importar a sua variedade,-e sem importar se proveniente dos
gregos ou dos judeus, desvinculada de Cristo, se reduz a nada. Por igual
modo, ela não é necessária para dar apoio e validar a sabedoria de Deus, a
sabedoria que é o Senhor Jesus Cristo, e que se manifesta através do plano
de redenção, que ele veio realizar.
«...deste século?...» Os sábios aqui aludidos são aqueles desta esfera
terrena, da era presente. Esses sábios não tardarão a desaparecer, em
contraste com a sabedoria que é lá de cima, a qual é eterna. Esse termo,
«século», denota o período anterior à era messiânica, ou seja, a «era
vindoura». (Ver Luc. 18:30 e 20:35). Trata-se daquele período de tempo que
caracteriza a sabedoria e as atividades humanas sobre a terra; mas é um
período de condições fugidias, saturado do egoísmo humano, de motivos
éticos vis, de cegueria para com as realidades espirituais, prenhe de
irreligião e de blasfêmia. E o tempo em que o homem tateia buscando luz; é
o tempo do embotamento, do ceticismo e do desespero. (Ver I Cor. 2:6; II
Cor. 4:4 e Efé. 2:2). É o nosso próprio tempo, antes da inauguração do
período futuro, de grande iluminação divina.
«...tornou Deus louca a sabedoria do mundo...» Deus tornou morosa esta
chamada era da sabedoria humana, ou seja, «embotada», «estúpida»,
«insensata», desde que permitiu que brilhasse a luz de Cristo. (Com essa
declaração paulina confrontar os trechos de Rom. 1:22,23; Isa. 19:11 e
44:25,33). A passagem citada da epístola aos Romanos é o melhor
comentário acerca desse pensamento, e as notas expositivas a respeito são
amplas. Deus provou, portanto, que a chamada sabedoria dos homens é
uma insensatez. Demonstrou sua fraqueza e sua irrelevância para com o
verdadeiro destino dos homens, para com a elevada chamada de Deus, em
Cristo Jesus, porquanto é em Cristo que existimos, nos movemos e temos o
nosso ser. A sabedoria humana tem errado porque se tem esquecido da
fonte originária de toda a sabedoria, que é Deus, e esta manifestada na
pessoa do Senhor Jesus Cristo, (Ver o trigésimo versículo deste mesmo
capítulo). E, dessa maneira, Deus demonstrou que a suposta sabedoria
humana não passa de pura ignorância, estando destituída de qualquer valor
espiritual, não tendo podido aproximar em coisa alguma as almas de Deus,
o qual é o verdadeiro alvo de toda a existência humana. (Ver I Cor. 8:6).
A palavra «...mundo...», neste caso, não é a mesma palavra traduzida
neste versículo como «século», embora seja sinônimo virtual da mesma; pois
a alusão, neste caso, é à comunidade dos homens, que populam esta terra
física, e não ao globo terrestre propriamente dito. Os homens é quem fazem
a sabedoria deste mundo tornar-se o que ela é. O mundo, lugar da matéria
crassa e grosseira, sob hipótese alguma poderia produzir a sabedoria
celestial, não podendo nem mesmo compreendê-la, sem o auxílio da
iluminação divina. (Quanto aos diversos significados do vocábulo grego
«kosmos», «mundo», ver as notas expositivas sobre João 1:10. Essa nota
também dá a lista das várias palavras gregas que são traduzidas por
«mundo», nas páginas do N.T.).
A sabedoria não encontrou lugar onde pudesse habitar;
Então lhe foi determinado um lugar de habitação nos céus.
A sabedoria foi ver se habitava entre os filhos dos homens,
Mas não encontrou morada ali.
(Livro de Enoque 42:1,2).
ο κόσμος δια της σοφίας τον θεόν, εύδόκησεν ο θεός διά
πιστεύοντας. 2ΐ M
t 11.25
21 επειδή γάρ εν τη σοφία τοΰ θεοΰ ούκ εγνω
της μωρίας τοΰ κηρύγματος σώσαι τούς
1:21: Visto como ηα sabedoria de Deus 0 mundo pela sua sabedoria não conheceu a
Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que crêem.
Comenta Calvino (in loc.), a respeito destas palavras de Paulo:
«Precisamos dar cuidadosa atenção a estas duas coisas: Que o conhecimento
de todas as ciências não passa de fumaça, onde a ciência celeste não se faz
presente; e que os homens, apesar de toda a sua perspicácia, são tão
estúpidos, na obtenção do conhecimento dos mistérios de Deus, por si
mesmos, como um asno é incapaz de compreender as harmonias, musicais.
Paulo, entretanto, não condenou expressamente nem a perspicácia natural
do homem, nem a sabedoria adquirida com a prática e com a experiência,
e nem o cultivo das faculdades mentais, através do aprendizado;
tão-somente declara que nada disso tem valor para quem quer adquirir a
sabedoria espiritual».
A sabedoria mundana dos homens serve de obstáculo para eles mesmos,
razão pela qual não puderam conhecer a Deus, mediante essa sabedoria
20 I CORÍNTIOS
mundana, mas antes, permaneceram na ignorância quanto ao verdadeiro
sentido da existência. (E com isso se pode comparar o trecho de Rom. 1:22,
onde se lê que os homens professam possuir sabedoria, mas que, ao fazê-lo,
fazem-se de insensatos. E o versículo anterior desse mesmo capítulo
mostra-nos que aquilo que os homens consideram como sabedoria não
passa de raciocínios «nulos», em vista do que também os seus corações
atoleimados se obscurecem.
Agostinho declarou: «Creio, a fim de poder compreender». Mas ele
deixou bem claro que esse «entendimento» nos é dado através da «fé», isto é,
da confiança em Deus e em seu Cristo; e que o ceticismo, na realidade,
eqüivale às trevas. Nem um único raio da luz de entendimento verdadeiro
pode ser adquirido, enquanto os homens não abandonam o terreno
tenebroso das dúvidas e da incredulidade em que se encontram.
Foi por decreto da sabedoria de Deus que os homens estão
impossibilitados de encontrar a Deus, através de sua sabedoria mundana.
Nisso parece transparecer a idéia de um pronunciamento judicial. Em
outras palavras, Deus julgou este mundo como insensato, por terem os seus
habitantes rejeitado à verdadeira sabedoria, e porque os homens se tinham
voltado para a sabedoria puramente humana, a qual não serve de veículo de
iluminação espiritual. Essa é, em sua essência, a idéia que também
encontramos em Rom. 1:19-22. Nessa passagem descobrimos que o próprio
mundo, na natureza, contém a sabedoria de Deus de tal' maneira que,
homens honestos, que não queiram perverter suas próprias faculdades
intelectuais e seus sentimentos, podem chegar a descobrir a existência e o
poder de Deus. No entanto, os homens se mostram desonestos e pervertidos.
Por causa disso é que Deus pune judicialmente aos homens, deixando-os a
braços com um ludibrio, reduzidos à sua própria sabedoria mundana, mas
perenemente condenados à futilidade de que se reveste essa sabedoria
carnal.
Este versículo, não obstante, suporta uma outra interpretação ainda, a
saber, que essafutilidade se reflete nas insensatas ciências dos homens, mas
que isso, finalmente, leva os homens a se voltarem para Deus, buscando a
sabedoria divina autêntica. E então que a acham na pessoa de Jesus Cristo,
bem como na «loucura» da pregação, que tem por grande tema a pessoa e
a obra de Cristo. Portanto, de acordo com essa oiitra interpretação, até
mesmo a punição judicial de Deus pode redundar em bem, uma vez que os
homens se deixem convencer de seu fatal equívoco. Ora, quanto à
mensagem, isso se assemelha à passagem de Rom. 11:32, onde aprendemos
que o fato de Deus ter «encerrado a todos debaixo da incredulidade» tinha
por finalidade, realmente, usar de «misericórdia» perfeita para com todos.
E mister um prolongadíssimo processo histórico, entretanto,· para que os
homens se deixem convencer do seu gravíssimo erro, para então se voltarem
de todo o coração para Cristo, o Salvador. Isso porque Deus não força os
homens a isso. Mas tão-somente os vai convencendo, gradualmente, através
de todas as lições administradas pela história, de que eles precisam de
Jesus Cristo. E assim, espontaneamente, movidos por seu livre-arbítrio, os
homens eventualmente viriam a compreender e a aceitar a sabedoria divina.
Deus é sábio em suas relações para com a humanidade, na história das
necessidades humanas e de suas tentativas baldadas de retorno a Deus.
Deus é quem permite a ignorância deles, como lição objetivã, para que
Jn 4.48 "EXXrçves σοφ ίαν ζ η το νσ ιν Ac 17.18, 32
1:22: Pois,.enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria.
Os judeus, por causa de sua formação religiosa mística, onde os milagres
e os prodígios eram comuns, tomaram-se tão presunçosos que pensavam
que Deus lhes daria algum sinal ou prodígio a qualquer instante que o
desejassem. Na sua incredulidade e rèbeldia, ignoraram convenientemente
a abundância de sinais e milagres efetuados por Jesus de Nazaré; e então,
perversamente, subitamente exigiam sinais ainda maiores e mais
numerosos. Os judeus não tinham uma mentalidade cética, conforme
sucedia a tantos filósofos gregos, mas antes, criam no sobrenatural. Mas
tentavam escravizar o sobrenatural aos seus próprios caprichos. E o povo de
Israel, em sua cegueira espiritual, veio assim a rejeitar ao próprio Messias,
devido à dureza de coração produzida pelo pecado voluntarioso.
Tornaram-se os judeus moralmente incapazes de dar acolhida ao seu
próprio Messias, e assim exigiram dele, incredulamente, mais e mais
provas, quando, na realidade, ele já havia exibido provas mais do que
suficientes para conv.encer qualquer homem honesto de que ele era
realmente o Filho de Deus. Nos evangelhos (como em Marc. 8:11,12; 12:38;
João 4:48 e 6:30), vemos quão veraz é esta declaração de Paulo, no tocante à
busca dos judeus por sinais prodigiosos.
Porém, a grande verdade é que um coração rebelde, sem a ajuda divina e
não estando sintonizado com Deus, pode contemplar muitíssimos sinais,
para então, embora perplexo ante os mesmos, continuar em sua rebeldia,
não se arrependendo de seu pecado. (Quanto a isso, ver a totalidade do
nono capítulo do evangelho de João). Os judeus reconheciam a grandeza
dos milagres operados por Jesus, porém, moral e religiosamente, não se
deixavam convencer pelos mesmos. Alguns dentre eles procuravam
encontrar explicações «naturais» para os prodígios de Jesus (a exemplo
do que tantas pessoas continuam fazendo, até hoje); e outros julgavam que
a verdadeira origem daqueles milagres era o diabo (ver Mat. 12:24 e ss.).
Naturalmente, sempre haverá o magno problema de determinar a fonte
originária das «maravilhas», pois nem todas são de Deus* Alguns desses
prodígios podem ter uma origem puramente humana, já que o homem é um
ser espiritual, capaz de realizar aquilo a que chamamos de «milagres», tal
como curas e várias manifestações psíquicas. Além disso, há uma dimensão
de seres espirituais, de espíritos bons e maus, que não chegam até Deus. E
esses seres também são fontes originárias possíveis de sinais e maravilhas.
finalmente possam vir a conhecer a Deus, voltando-se para ele. Mas a
iniciativa deve partir da parte do Senhor, e jamais dos homens. (Com isso
comparar os trechos de Atos 17:30; Rom. 11:32; Atos 14:16 e Rom. 1:24).
Algumas traduções, como a versão portuguesa que serve de base textual
para este comentário, dizem «...a loucura da pregação...», enfatizando o
ato da prédica, e não aquilo que é pregado. Mas outras traduções dizem
«...a loucura do que pregamos...», ou seja, o conteúdo do que se prega, o
que seria eqüivalente à pregação de Cristo e sua cruz. (Ver os versículos
dezoito e vinte e três). Não dispomos de meios seguros para determinar o
que se deve entender aqui exatamente. Ambas essas traduções são
gramaticalmente verdadeiras, e talvez a referência de Paulo seja
suficientemente lata para incluir ambas as idéias.
A palavra grega traduzida aqui por «pregar», «kyrusseim, ainda que aqui
seja usada a forma substantivada, significa «proclamar», tendo passado
para o vocabulário neotestamentário com o sentido de proclamar as boas
novas, isto é, o evangelho. A expressão «loucura da pregação» é uma ousada
declaração (com parar com o vigésimo quinto versículo deste mesmo
capítulo), pressupondo e interpretando, ao mesmo tempo, a mensagem do
décimo oitavo versículo. Sim, a pregação do evangelho é uma insensatez
para os homens, e assim Paulo retém esse termo, embora, na realidade, seja
a sabedoria e o poder de Deus, quando corretamente compreendida essa
pregação, porquanto é capaz de «salvar» a alma, o que a sabedoria
puramente humana jamais poderia fazer.
«A loucura da pregação não é a pregação da loucura... As religiões
misteriosas ofereciam todas, a salvação por iniciação e ritual, tal como os
fariseus a ofereciam por cerimonialismo. A religião cristã atinge o coração
diretamente, mediante a confiança em Cristo, como Salvador. Essa é a
sabedoria de Deus». (Robertson, in loc.).
Uma outra interpretação possível deste versículo é como segue: «O
mundo não veio a conhecer a Deus, em sua sabedoria». Em outras palavras,
não obteve visão clara de Deus como ser Supremo e todo-sábio, ainda que,
na criação mesma, existam evidências suficientes para levar os homens a
essa conclusão. Essa interpretação expressa um aspecto da verdade, mas a
mensagem ensinada neste versículo é que, «mediante os decretos de Deus,
alicerçados em sua sabedoria, a sabedoria do mundo foi reputada
inadequada como meio de adquirir a iluminação de Deus». Portanto, Deus
decretara que o divino não pode vir a ser conhecido através do que é
puramente humano. Deve haver a iluminação e a revelação celestiais. Ora,
tanto uma como a outra coisa vieram por intermédio de Cristo; e assim
ditava o sábio plano de Deus. Que o mundo não pode conhecer a Deus
mediante a sabedoria puramente humana é um fato que força aos
verdadeiros inquiridores a se achegarem pelo caminho determinado por
Deus, e isso faz parte do seu plano e dos seus decretos sábios.
A sabedoria de Deus, nesta passagem, mui provavelmente inclui a
revelação que nos é dada por meio da natureza (conforme se lê em Rom.
1:20 e ss. e Atos 17:27); mas certamente também inclui a revelação e a
iluminação especiais que nos são conferidas através de Cristo e através do
evangelho. Assim sendo, primeiramente é salientado o «fracasso» do
mundo, e, em seguida, o «sucesso» do método divino, por outro lado.
22 ’Ιο υ δ α ίο ι σημαία α ίτουσ ιν Mt 12.38;
Um sinal, por si mesmo, assim sendo, não pude comprovar uma doutrina,
embora possa levar os homens a reconhecerem a existência do mundo dos
espíritos, o que é proveitoso para os homens. No entanto, um sinal
verdadeiramente conferido por Deus é reconhecido por homens honestos e
crentes, aqueles que verdadeiramente buscam a Deus. Pelo menos essa é a
confiança refletida nas páginas do N.T., onde vemos que homens honestos e
bons se congregaram em torno de Cristo. Mas aqueles que preferiam
prosseguir em seus assaltos às casas das viúvas e em seus assassínios,
embora tivessem contemplado os mesmos sinais que outros viram, foram
repelidos pelos mesmos, visto que de Cristo brilhava a santa luz de Deus,
que ofendia seus corações entenebrecidos.
«...pedem ...» Essa palavra, no original grego, pode significar,
simplesmente, «requerem», mas também pode ter o sentido de «exigir». (Ver
Luc. 12:48 e I Ped. 3:15). A tradução «exigem» seria a que mais de perto
concordaria com a atitude altiva daqueles judeus incrédulos, sendo
provavelmente isso que o apóstolo queria dar a entender aqui.
Não obstante, os judeus asseveravam ser possuidores da verdade, apesar
de se deixarem dominar por dúvidas, com relação a toda a verdade que
porventura parecesse contradizer suas noções preconcebidas. Poderiam ter
feito a seguinte oração, com toda a propriedade:
Da covardia que teme novas verdades,
Da preguiça que aceita meias-verdades,
Da arrogância que pensa conhecer toda a verdade,
Õ Senhor, livra-nos.
(Arthur Ford).
«...os gregos buscam sabedoria...»Essas palavras não têm a intenção de
dar a entender que não havia abundância de religiosidade e de
misticismo na cultura greco-romana. Paulo sabia que havia esses elementos
ali. Porém, ao escrever para Corinto, que era um dos centros da erudição
filosófica dos gregos, esse apóstolo frisou os vícios helênicos. Os gregos
exigiam provas lógicas e filosóficas das idéias expostas. Não eram altivos de
espírito como os judeus, pensando que já conheciam toda a verdade; antes,
eram inquiridores da verdade. Contudo, deixavam-se limitar a certos meios,
todos alicerçados sobre a sabedoria humana, perdendo assim de vista o
conhecimento místico, ridicularizando de todas as coisas espirituais que,
naturalmente, estão fora da capacidade de alcance dos métodos filosóficos.
22 επειδή και 'Ιουδαίοι σημεία αίτοΰσιν και "Ελληνες σοφίαν ζητοΰσιν,
I CORÍNTIOS 21
Tolamente os gregos imaginavam que a verdade poderia ser reduzida a
meras proposições filosóficas. Ignoravam o alcance da intuição e da
revelação divina. Aquilatavam como bárbara a palavra da cruz, como se se
tratasse de uma superstição, tal e qual consideravam a muitos particulares
de sua própria mitologia, onde abundavam as lendas de deuses de ações
vergonhosas, que procuravam envolver aos homens. Muitos filósofos eram
agnósticos no que diz respeito aos deuses antropomórficos da mitologia
grega, e teriam encarado a mensagem de Cristo, em sua encarnação, em sua
morte expiatória, etc., como mera variação de suas próprias lendas.
Haviam abandonado a mitologia pela especulação filosófica, e agora, a
mensagem da cruz haveria de parecer-lhes «insensata».
Contudo, as mentes inquisitivas dos gregos não haviam subido o bastante,
porquanto se tinham olvidado de investigar a religião celestial, revelada
pelo criador. Se porventura se tivessem assemelhado um pouco mais a
Platão, talvez pudessem ter reconhecido as reivindicações de Jesus Cristo.
Porém, nos dias de Paulo, prevaleciam os filósofos da categoria mais cética,
excetuando aqueles que se inclinavam mais estritamente para os princípios
éticos, como os estóicos. Até mesmo a famosa Academia de Platão, nos dias
do apóstolo dos gentios, desde há muito que cessara em sua propagação da
doutrina platônica, mas se transformara em uma escola propaladora do
ceticismo, crendo que somente o conhecimento que nos chega através da
percepção dos sentidos é que constitui verdadeiro conhecimento, mas que,
em vista da percepção dos sentidos não ser digna de confiança, por ser
ilusória, então os homens não dispõem de meios para chegar à certeza do
conhecimento. E a escola peripatética, composta por discípulos dp
Aristóteles, havia abraçado idêntico ponto de vista.
Acima de tudo, o fato que Jesus Cristo fora crucificado, era um ponto
adverso para a propagação da fé cristã. Pois a morte na cruz, reservada
para os mais vis e piores criminosos, era olhada com horror pela polida
sociedade greco-romana. (Ver o horror expresso por Cícero ante a execução
por crucificação, em Pro Rabir 5, bem como a referência de Luciano a
Cristo como o «sábio pregado em um poste», em De mort. Peregr. 13), que
talvez expresse um ponto de vista derrisório da pessoa de Cristo. Além disso,
na Palestina, foi encontrada a caricatura da crucificação de Cristo,
constante de um escravo que se inclinava ante uma figura crucificada,
dotada de cabeça de burro, e por baixo a seguinte inscrição: «Em
recompensa, ele adora a um deus». Essa forma de atitude desprezível para
com Cristo mui provavelmente era comum entre os «intelectuais» da cultura
pagã dos primeiros dias do cristianismo, certamente uma atitude não muito
diferente da dos intelectuais dos nossos próprios dias, os quais, através de
sua sabedoria vã, não chegam jamais a conhecer a Deus.
23 ημείς δε κηρνσσομεν Χριστόν εστανρωμένον, ’Ιουδαίοις μεν σκανδαλον εθνεσιν δε μωρίαν,
23 Ί ο ν δ α ίο ιϊ μεν σκανδαλον Ro 9.32 'ίθνεσιν ôe μω ρίαν 1 Cor 2.14
Ο Textus Receptus, seguindo vários manuscritos posteriores (C (3)D (c) 6 177 206 326 489 919 920 1739 1835at),substitui
Wveaiv por "Ελλησι. A mudança foi impelida pelo desejo defazer a terminologia paulina coerente nos vss.22,23 e 24.
1:23: nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura
para os gregos,
(Cristo como pedra de escândalo no conceito judaico, é uma
particularidade comentada com abundância, em Rom. 9:32,33). A palavra
«...escândalo...» significa «armadilha», algo que leva um homem a tropeçar
e cair, o que, por sua vez, causa «repulsão», sendo uma «tentação ao
pecado». Os judeus, pois, que supostamente se encontravam no caminho
que conduz de volta a Deus, tropeçaram no «obstáculo» que é Cristo; pois
julgavam-no um motivo de escândalo, visto que, de outro modo, jamais o
teriam crucificado. Isso fizeram, contudo, devido à sua rebeldia voluntária.
Por essa razão é que Cristo se tornou para eles uma «armadilha», um
empecilho, que fez com que se desviassem inteiramente na sua busca por
Deus.
O apóstolo Paulo mostra-nos, em Rom. 11:11, contudo, que os judeus
não tropeçaram a fim de caírem de forma final e «irrevogável», e, sim, a fim
de que, mediante uma queda parcial quanto ao tempo, a salvação pudesse
ser estendida aos povos gentíiicos; e a fim de que, por sua vez, através da
realização desse propósito, todo o Israel pudesse vir a ser finalmente salvo.
(VerRom. 11:26). Quanto ao presente contudo, os judeus se encontram
completamente excluídos dessa corrida, porquanto foram marginalizados
em face de se terem escandalizado de Cristo, do seu próprio Messias.
Nenhum progresso espiritual pode ser feito pelos judeus, enquanto não for
corrigido esse equívoco fatal, essa maldade proveniente do próprio coração.
Para os gregos, entretanto, Cristo e sua mensagem não passam de uma
«insensatez». Isso é reiteração das idéias que aparecem nos versículos
décimo oitavo até vigésimo primeiro. A palavra «loucura», que esta versão
portuguesa prefere, ao invés de «insensatez», é comentada nas notas
expositivas sobre o décimo oitavo versículo deste capítulo.
«...nóspregamos a Cristo crucificado...», isto é, um «Messias crucificado»
'(Ver I Cor. 2:2 e Gál. 3:1). Era justamente em torno deste ponto que tanto
os gregos como os judeus encontravam a sua grande dificuldade, embora
encarassem essa questão de diferentes ângulos. (Ver as notas expositivas
sobre o vigésimo segundo versículo deste capítulo, que ilustram esse
particular).
Os judeus aguardavam um Messias militarmente vitorioso, uma poderosa
figura política, que livrasse o povo israelita do jugo romano. Pensavam ver
isso claramente ensinado nas profecias do A.T. No entanto, compreen­
deram de forma totalmente errada o ensino bíblico do Messias como «Servo
Sofredor» de Yahweh. (No que tange a esse tema, ver as notas expositivas
acerca de Atos 3:18, que salientam as diversas profecias do A.T., quanto a
esse aspecto da missão do Messias). Os judeus, portanto, deixaram de levar
em conta «todas» as profecias bíblicas sobre o Messias; antes, selecionaram
para sua meditação apenas aquelas que lhes agradavam. (Ver Atos 3:22
quanto ao testemunho geral do A.T. em favor de Cristo, onde também
muitas das profecias do A.T. são alistadas, mostrando como elas tiveram
cumprimento no decorrer da narrativa histórica do N.T. Acerca de como as
profecias sobre o «reino» dizem respeito a Cristo, ver Atos 3:21, no terceiro
ponto, sob o título Restauração). Ora, dotados de uma compreensão tão
parcial sobre a natureza do Messias, os judeus tropeçaram e caíram por
causa de Jesus Cristo, o qual, em sua vida e em sua missão, cumpriu
aspectos daquelas profecias que eles nem antecipavam.
Os gregos, por sua vez, teriam esperado um Platão ou um Aristóteles
glorificado, como seu Messias, se porventura houvessem considerado a
vinda de um Messias, numa espécie de clímax de toda a sua sabedoria
filosófica. Ficavam ofendidos, portanto, ante a figura de um humilde
nazareno, um homem supremamente religioso e dedicado, e que, embora
fosse sábio, como poderiam admitir, não possuía a sabedoria filosófica.
Mas isso porque se tinham esquecido da lição de Sócrates, o qual fora
reconhecidamente o melhor e mais sábio dos homens, a despeito do que
viera a ser desprezado e, finalmente, fora oficialmente executado pelo
estado, tal como sucedera com Jesus de Nazaré.
«...Cristo crucificado...» Sim, porque foi na cruz de Cristo que a expiação
petos nossos pecados teve lugar. (Ver Rom. 5:11). É ainda em Cristo que
temos a «propiciação» (ver Rom. 3:25), a «justificação» (ver Rom. 3:24,28) e
a «glorificação» (ver Rom. 8:29,30). Também em Cristo se firma a nossa
«esperança» (ver Rom. 8:24,25), e nele é que somos «adotados» como filhos,
na família de Deus (ver Rom. 8:15).
«Não um Messias guerreiro, a dardejar sinais do céu, a quebrar o jugo
imposto pelos pagãos; e, sim, um Messias que morria em impotência e
vergonha. Ver II Cor. 4:10; 13:4 e Deut. 21:23, o ‘pendurado’, conforme é
chamado no Talmude». (Findlay, in loc.).
24 αύτοϊς δε τοις κλητοΐς, Ίονδαίοις τε και 'Έλλησιν, Χριστόν θεοΰ δνναμιν και θεον σοφίαν
24 Χ ρ ισ τό ν ...σ ο φ ία ν Col 2.3 24 Χρίστον . . . σοφίαν] Χρίστος θ · -fus €στ( κ. -ια CO C l Ephr.
1:24: mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos. Cristo, poder de
Deus, e sabedoria de Deus.
O quadro não era totalmente negro, entretando. Havia tanto judeus como
gentios que haviam aceito a Jesus Cristo. Esses eram os indivíduos
iluminados, aqueles que haviam transcendido tanto as perversões do
judaísmo, que recebera sinais do Senhor, mas não reconhecera a nenhum
dos mesmos e ainda exigia mais e maiores sinais, como o embotamento
filosófico dos gregos, a mera sabedoria humana.
Naturalmente, essa iluminação é outorgada aos homens espiritualmente e
não apenas sobre o intelecto. E se torna real quando da chamada ou eleição
dos crentes, os quais, dessa maneira, se tornam capazes de receber os
impulsos e as revelações divinas. (Ver as notas expositivas completas sobre a
«eleição», em Efé. 1:4,5. Ver também João 15:16). Esse «chamamento» vem
da parte de Deus, através do seu Santo Espírito. Não opera mediante a
sabedoria humana, e, de fato, pode ser entravada por ela. Por isso mesmo,
precisa transcender à sabedoria humana, atingindo aos homens no nível da
alma, e não apenas nos níveis emocional ou intelectual. No terceiro capítulo
de Romanos, o apóstolo Paulo apresenta 0 ensino sobre a impossibilidade
dos homens caídos virem a Deus por seus próprios esforços e pela
inteligência humana. É mister que haja a intervenção e a iluminação divinas
para tanto. Essas são conferidas quando da «chamada» através do
evangelho, chamada essa baseada nos eternos decretos de Deus.
Não obstante, o impulso do Espírito Santo deve ser sempre correspondido
por parte da vontade humana. Pois se o livre-arbítrio humano não pode
obter a salvação por si mesmo, pode acolhê-la. Por outro lado, se a vontade
humana perverter os impulsos do Espírito Santo, estes não produzirão o
efeito desejado. Assim, pois, a salvação é dada ao pecador tanto através da
agência divina como através da agência humana; e todos os homens são
assim conduzidos aos pés de Cristo.
A atitude acolhedora é criada na alma humana através da preparação do
caráter. O certo é que a «fé» é a reação favorável da alma para com os
impulsos do Espírito Santo, não sendo uma mera propriedade intelectual.
(Quanto a esse tema, ver os trechos de João 3:15 e Heb. 11:1). A alma, por
ser uma entidade espiritual, possui determinado caráter, bem como certa
visão de Cristo e das realidades espirituais. Quando essa visão é clara, o
homem mortal, em sua própria alma, acolhe a mensagem do evangelho.
Mas, nos casos em que essa visão é obscura, ou completamente confusa, o
homem mortal rejeita a Cristo. Muitas dessas pessoas nem ao menos
compreendem que são seres essencialmente espirituais, e tolamente
imaginam que o corpo material é a explanação de toda a sua existência
(materialismo). Tais pessoas dificilmente se deixam atrair pela mensagem
altamente espiritual de Cristo, não reagindo favoravelmente a ela.
«...poder de Deus...» No caso daqueles que são chamados, que se
achegam a Cristo, o evangelho é o poder de Deus, porquanto gira em torno
de Cristo, que é o tema central do evangelho. Isso Pauló já havia salientado,
22 I CORÍNTIOS
no décimo oitavo versículo deste capítulo. (Ver também Rom. 1:16 e os
comentários ali existentes, sobre «opoder de Deus»), O poder de Deus faz o
que a sabedoria humana não é capaz de fazer: salva a alma e a eleva para
Deus, que é o grande alvo e o propósito de toda a existência humana. (Ver
os trechos de 1'Cor. 8:6 e Rom. 11:36, quanto a esse tema).
Na cruz, Jesus Cristo se tornou tanto o «poder» como a «sabedoria» de
Deus, conforme lemos nos versículos vigésimo primeiro e vigésimo terceiro
deste capítulo. Os judeus desejavam «sinais prodigiosos», demonstração de
poder espiritual. Os gregos desejavam elevadas manifestações de
«sabedoria». Ora, Cristo é ambas as coisas. (Ver o trigésimo versículo deste
capítulo, que reitera a idéia essencial desta passagem). Cristo, crucificado,
é a solução que Deus apresentou tanto para os judeus —que buscavam
poder— como para os gregos, que buscavam sabedoria. Isso porque os
elevadíssimos propósitos de Deus se cumprem na cruz de Cristo, à maneira
de Deus, e não conforme pensavam os gregos ou os judeus.
«Aqui ‘nos termos <poder> e <sabedoria> de Deus* encontramos a antítese
do ‘escândalo’ e da ‘loucura’. Enquanto os judeus indagavam como é que
uma pessoa crucificada e maldita poderia ser o Salvador de Israel, como
alguém tão destituído de força podeHa ser capaz de derrubar todos os
poderes hostis, e enquanto os gregos julgavam absurdo a salvação da parte
de alguém que tivera um fim tão miserável, por outro lado, os escolhidos de
Deus, experimentam e confessam que é do Redentor crucificado que se
origina o poder divino, o poder da vida e da paz celestiais, bem como um
poder renovador, santificador, beatífico, como não poderia ser encontrado
em coisa alguma pertencente à criatura. Esses escolhidos reconhecem que
em Cristo é que existe a sabedoria divina, capaz de solucionar os problemas
mais difíceis, os problemas de iluminar as trevas que impediam os homens
de perceberem os caminhos de Deus, de cumprir os mais nobres propósitos
de Deus, trazendo de volta para as veredas da vida aqueles que se tinham
desviado, conduzindo-os, afinal, para seu destino final». (Kling, in loc.).
«Porque dessa maneira foi satisfeita a justiça, naquela natureza que
pecara e que Satanás desgraçara, naquela natureza que fora a sua própria
ruína; dessa maneira o pecado foi condenado, ao mesmo tempo que o
pecador foi salvo. O perdão e ajustificação nos são oferecidos pelo caminho
da graça, apesar de tudo ser efetuado com justiça estrita. As perfeições
divinas são assim harmonizadas e glorificadas, e dessa maneira Deus
executou seus sábios desígnios e seus conselhos eternos. Sim, até mesmo a
sabedoria de Deus é vista na morte de Cristo sobre a cruz, na qual ele foi
encravado a fim de tornar-se maldição por nós, a fim de que nos pudesse
redimir da maldição imposta pela lei, para que a bênção de Abraão pudesse
ser derramada sobre nós». (John Gill, in loc.).
25 o t í το μω ρόν το ΰ θεοΰ σοφώ τερον τω ν ανθρώ πω ν εσ τίν, καί το άσθβνες το ΰ θεοΰ ΙσγυρότερΟ ν τώ ν
ανθρώ πω ν. 25 τό àaO evh.. .ανθρώ πω ν 2 Cor 13.4
1:25: Porque α loucura de Deus é mais sàbia que os homens; e a fraqueza de Deus é
mais forte que os homens.
Paulo dá prosseguimento aos seus paradoxos e ousadas declarações. Em
sentido literal, não podemos atribuir qualquer «loucura» a Deus. Mas Paulo
usou esse vocábulo, porque é isso que os homens com freqüência pensam
sobre o plano divino da redenção em Cristo. E assim, se por um lado
usamos esse termo, na realidade está em foco a elevadíssima e infinita
sabedoria de Deus, porquanto a «...loucura de Deus...» consegue realizar
aquilo que a sabedoria humana não é capaz de concretizar. Também
sabemos que não podemos atribuir fraqueza a Deus. Mas Paulo usou esse
vocábulo porque era isso que alguns judeus e gregos pensavam ser a grande
característica da vida e do final trágico da vida de Jesus de Nazaré. Essa
aparente fraqueza, entretanto, esconde uma força todo-poderosa (ver os
versículos dezoito e vinte e quatro deste mesmo capítulo).
Esse poder se manifesta na salvação das almas, o feito mais
extraordinário que pode ser concebido pelos homens; pois não é pequeno o
prodígio mediante o qual um ser humano mortal vem a participar da
própria imagem moral e metafísica de Cristo, vindo a compartilhar da
divindade (ver Rom. 8:29 e II Ped. 1:4). E é exatamente isso que essa
suposta «...fraqueza de Deus...» realiza. E assim, quando lemos aqui
«loucura», devemos realmente compreender «elevadíssima e celestial
sabedoria»; e quando lemos «fraqueza», devemos entender «elevadíssima e
celestial fortaleza». Em ambos os casos, quer o da sabedoria, quer o do
poder, falamos de realidades totalm ente acima das capacidades e do
alcance de meros homens.
Indiretamente, pois, Paulo como que estava dizendo: «Portanto, digamos
que o evangelho de Cristo seja uma espécie de insensatez, na mente divina; e
suponhamos que o poder inerente em Cristo, na realidade, seja uma espécie
de fraqueza divina. Até mesmo nesse caso, essa insensatez é suficientemente
sábia para destacar-se acima, muito acima, de qualquer sabedoria humana,
ao mesmo tempo que a fraqueza de Deus é suficientemente poderosa para
' fazer o que toda a força humana não pode fazer».
Por conseguinte, a sabedoria de Deus, mesmo quando considerada «em
sua mais chã manifestação», é mais sábia que os homens. E o poder de
Deus, até mesmo visto em seu nível mais débil, é mais forte que o poder
humano. Mediante tais argumentos, pois, o apóstolo Paulo salienta o
caráter «divino» e «celestial» do evangelho e do Cristo por este anunciado.
Tal evangelho simplesmente transcende a tudo quanto é humano.
Tertuliano, um dos pais da igreja, declarou: «Creio, porque é ridículo». E
isso se coaduna com o que Paulo afirma nesta passagem. O evangelho pode
parecer ridículo para a mente humana; mas exatamente essa falsa
impressão pode ser uma indicação do fato que sua mensagem transcende à
capacidade humana de raciocínio .mental, isto é, pode ser uma indicação
que o evangelho é de origem e natureza sobrenatural.
«A cruz parecia a grande derrota de Deus. Mas tem conquistado ao
mundo, e é a força mais poderosa à face da terra». (Robertson, in loc.).
II. O Pròblema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21).
1. A polêmica contras tais divisões:
d. Os coríntios, como comunidade cristã, não haviam sido chamados dentre os sábios (1:26-31).
Paulo ilustra aqui a tese detque a sabedoria e o poder humanos não podem atingir finalidades e alvos espirituais, salientando o
fato de que a igreja cristã de Corinto não se compunha de homens poderosos, de nobre nascimento e sábios, conforme o mundo
costuma considerar essas coisas. Os humildes e os pobres, tradicionalmente, são aqueles que acolhem favoravelmente o
chamamento de Cristo, provavelmente porque têm menos «bagagem» de que precisam desfazer-se, antes de porem os pés no
caminho, tomando da cruz e seguindo a Cristo.
Por toda esta passagem, pois, o apóstolo frisa, ante os seus leitores originais, o seu tema anterior, ou seja, a sua polêmica
contra aqueles que haviam criado divisões na igreja, exaltando a si mesmos como «sábios», «eruditos», e «nobres».
Evidentemente ele atacava aqui o partido que elegera por seu «herói» a Apoio, o eloqüente judeu alexandrino que estivera em
Corinto. Paulo havia mostrado que a sabedoria humana não tem valor espiritual, e que certamente não pode produzir a redenção
humana. £ ele mesmo, aopregar a mensagem de Cristo, nunca se preocupava em agradar aos homens, em imitar o estilo dos
retóricos, dos sábios conforme as escolas gregas de filosofia. Pelo contrário, mostrou que tal atitude só teria servido para
«Nenhuma outra vida sobre a face do planeta tem sido tão poderosa entre
os homens. A mais largamente propagada das religiões da humanidade, o
cristianismo, tem Jesus como sua personagem central... De Jesus, através
do cristianismo, têm partido impulsos que têm ajudado a amoldar cada fase
da civilização». (Kenneth Scott Latourette, The Unquenchable Light, Nova
Iorque, Harper & Brothers, 1941, págs. ii- xii).
«Aquele poder e aquela sabedoria de Deus, aninhados na ‘palavra da
cruz’, continuam no nosso encalço, porquanto o seu reino ainda não foi
conquistado. Mas o ‘cão de caça dos céus’ está na trilha. Não podemos
escapar dele. Podemos levantar barricadas em todas as portas de nossa
vida, à nossa vontade; mas Cristo esperará, batendo e pleiteando. No fim,
as barreiras necessariamente ruirão, em amor ou em julgamento; porque há
um limite para a solidão que o homem é capaz de suportar, e a solidão
máxima é a da alma destituída de Deus.
Contudo, que ele se ponha a descansar,
Mas que os guarde com desassossego amadurecido;
Que seja ele rico e cansado, a fim de que, por fim,
Se a bondade não puder conduzi-lo, o cansaço, contudo,
Possa lançá-lo em meu peito. /
(George Herbert)
«Apalavra da cruz é o tema dominante desta epístola, e, de fato, de todas
as epístolas de Paulo. Nelas, esse tema aparece explícita ou implicitamente,
até mesmo na epístola a Filemom. Esse tema determina o tom e o padrão
para tudo quanto se se^ue. Como o eco de uma detonação, reboa através
desta primeira epístola aos Coríntios, e, quando lhe damos ouvidos, suas
reverberações retêm ainda o seu poder antigo». (John Short, in loc.).
«A natureza humana se deleita em realizar grandes feitos. Deus, pelo
contrário, em suas dispensações terrenas, sempre aparece como alguém
fraco e pequeno, a princípio, e é somente mais tarde que revela o poder
avassalador que está oculto nos instrumentos de que se utiliza». (Neander,
in loc.).
«...nenhum homem pode deixar de perceber que, propriamente falando,
nem insensatez e nem fraqueza podem ser atribuídas a Deus; mas era
necessário, através de tão irônicas expressões, abater as loucas presunções
da carne, que não têm o escrúpulo de tentar furtar de Deus toda a sua
glória». (Calvino, in loc.).
«Considerando em retrospecto este parágrafo, vemos que não é difícil, se
as evidências forem consideradas por si mesmas, interpretarmos Paulo
como um pregador que dava pouco valor a toda a erudição. Todavia, isso
seria uma conclusão distorcida e distante da verdade. Porquanto ele mesmo
era homem de erudição autêntica, embora se restringisse. Nunca atacou o
conhecimento como tal. Mas estava absolutamente convicto que esta não
pode conduzir os homens a Deus. Isso depende do próprio ato divino da
redenção, na cruz de Cristo. O acesso a Deus não se efetua mediante a
filosofia humana, mas através da revelação histórica, em Cristo», (C. T.
Craig, in loc.).
I CORÍNTIOS 23
prejudicar a mensagem simples da cruz; e isso era algo que ele não desejava fazer. Agora, porem, Paulo continua comprovando o
ponto por ele salientado, isto é, que a sabedoria de Deus é superior à dos homens, mostrando que, através dessa sabedoria, os
'ignorantes, os pobres e os desprezados eram justamente os que tinham vindo a participar do poder de Deus, com todos os seus
benefícios. Sendo assim as coisas, por qual motivo um ministro de Cristo se faria sofista? Não seria isso um detrimento para a
causa cristã? Sem dúvida que seria.
Paulo mostrava, por conseguinte, que a igreja cristã de Corinto em nada se assemelhava com as escolas gregas, e que tal
semelhança seria errada. Aqueles crentes, portanto, deveriam ter o cuidado de não aplaudir os pregadores que tentassem influir a
igreja de Cristo com seus métodos filosóficos. Isso só serviria para criar uma facção, um grupo de discípulos que seguisse seus
«eruditos mestres», desprezando aos simples e ignorantes do resto da congregação.
A igreja de Cristo não possui nenhuma nova filosofia a ser exposta. Se porventura algum pregador se inclina pelas questões
filosóficas, deve dirigir-se às academias de filosofia, onde, mui provavelmente, ouvirão sua mensagem, aplaudindo-o ou
criticando-o, conforme acharem por bem. A exibição da simples sabedoria humana, e, sobretudo, o uso dessa sabedoria por parte
de uma facção intelectual, entricheirada na igreja cristã, e uma atividade evidentemente fora de lugar.
■26 -DΛ6776T6 γαρ την κλησιν υμώ ν, αδελφοί, οτι ον
π ολλοί εύγενεΐς· 26 Mt 1 1 .25; jn 7.48; Jas 2.1-5
1:26: Ora, vede, irmãos, o vosso vocação, que não são muitos os sábios segundo a
carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados.
«...na vossa vocação...»Está aqui em foco a eleição em Cristo, a chamada
íntima por parte do Espírito Santo, a chamada externa mediante a pregação
do evangelho. Essa chamada se concretiza quando se ouve e se aceita o
evangelho. E de que maneira ocorreu essa vocação? através da sabedoria
humana, com suas ciências e sua filosofia? Não, mas antes, através do
poder e da sabedoria de Deus, conforme podem ser vistos na pessoa e na
obra de Jesus Cristo. E para quem foi dirigida essa chamada? aos ricos, aos
nobres e aos que tinham notáveis realizações acadêmicas e intelectuais?
Que os crentes de Corinto considerassem suas próprias pessoas, e assim
obteriam a resposta. Essa chamada fora dirigida às classes humildes, a
homens de origem popular, dotados de talento e realizações ordinários.
Ora, tudo isso serve de comprovação da «sabedoria» de Deus, pois se a
sabedoria humana é que produzisse a redenção humana, praticamente
nenhum dos membros da igreja de Corinto teria recebido a salvação.
«...irmãos...» Um termo afetuoso que suaviza um tanto a severidade das
palavras de reprimenda de Paulo. (Ver o décimo versículo deste capítulo,
quanto a comentários sobre isso).
«...nãoforam chamados muitos sábios...» Não foram muitos os sofistas e
retóricos que se voltaram para Jesus Cristo. Não são muitos os intelectuais
que sentem atração pela sua doutrina. Não são muitos os filósofos a quem
Deus permite verem em Jesus, através da lógica e da metafísica, o Salvador
e o Senhor de todas as coisas! Porquanto os intelectuais já possuem um
sistema que aparentemente os satisfaz. Todavia, mediante essa sabedoria,
perdem inteiramente de vista a demonstração da sabedoria de Deus. (Ver o
vigésimo primeiro versículo deste capítulo). Os crentes de Corinto mesmo
poderiam fazer uma averiguação entre eles, confirmando assim o
argumento que Paulo apresenta aqui, que não são muitos os homens, que
tanto eles admiravam, e por causa de quem haviam criado facções na sua
igreja, que figuram entre os chamados e os redimidos. Sendo as coisas
assim, por qual razão exaltavam à sabedoria terrena? Porque, ao invés
disso, não exaltavam à pessoa do Senhor Jesus Cristo?
«...nem muitos poderosos...» Não são muitas as pessoas procedentes de
famílias reinantes, de políticos, de governadores, de oficiais do governo, de
27 άλλα τα μω ρά τον κόσμον εζελεζατο ό θεός
κόσμον εξελεξατο ό θεός ϊνα καταισχύνη τα
1:27: Pelo contrário. Deus escolheu ai coisas loucas do mundo para confundir os
sábios; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes;
Por três vezes (incluindo o próximo versículo) vemos Deus a escolher; e
isso enfatiza o lado divino da eleição, o manancial mesmo da redenção
humana. A sabedoria divina operou de forma inesperada para a natureza
humana, e, de fato, de maneira contrária à natureza dos homens; no
entanto, realizou o elevadíssimo alvo da redenção, o que os homens não
podiam fazer em seu próprio benefício. É aqui enfatizada, portanto, «a
intervenção divina» da eleição. Paulo atribui ao Senhor Deus a iniciativa da
redenção, e exclusivamente a ele. Portanto, toda e qualquer jactância e
altivez humanas estão inteiramente fora de lugar, no seio da igreja cristã.
Antes, seja Deus, exclusivamente, louvado.
«...para envergonhar...» Essa idéia ê usada com relação aos «fracos» e aos
insensatos. No vers. seguinte, porém, a expressão reduzir a nada, é usada a
fim de indicar as coisas desprezadas pelos homens, bem como seus efeitos
sobre as coisas «elevadas» é «nobres». A palavra «...envergonhar...» é aqui
usada para dar a entender uma certa forma de lançamento de confusão,
para que se evidencie a inferioridade daquilo que fica confundido. Pois
aqueles que eram reputadamente «insensatos» tomam-se capazes, uma vez
que recebam o poder de Cristo, de realizar notáveis «prodígios». Além disso,
seus seres são moralmente transformados, tornando-se muito superiores aos
«nobres» quanto à conduta moral. E nisso se mostram mais excelentes que
os filósofos morais, como os estóicos, os epicureus, os cínicos e os
hedonistas. Na realidade, os crentes, apesar de reputados como «fracos»,
são melhores que os mais nobres dentre os seres humanos sem Cristo; mas
isso, não por si mesmos, e, sim, por causa daquilo que Cristo tem operado
neles.
Ora, isso é que sujeita à vergonha aos sábios e poderosos deste mundo;
porquanto a sabedoria destes últimos nunca foi capaz de realizar o que se vê
ocorrendo entre os seguidores de Cristo. As riquezas materiais dos
πολλοί σοφοί κατά σάρκα, ού πολλοί δννατοί, ού
militares e de outras camadas da alta sociedade que são atraídas para
Cristo. Também não são chamados muitos homens provenientes das classes
abastadas, as quais, inevitavelmente, ocupam os poderes e a liderança em
qualquer sociedade humana. E evidente, portanto, que o poder humano
não é a verdadeira origem dobem-estar espiritual, não servindo isso de base
para as seleções feitas por Deus. Ora, se o poder humano não é o alicerce de
qualquer valor espiritual autêntico, por qual motivo o poder humano seria
tão exaltado na igreja dos coríntios, a ponto de criarem eles partidos entre
si, à moda de facções aristocráticas?
«...nem muitos de nobre nascimento...» O termo grego por detrás dessas
palavras dá a entender «nascimento bom» ou «nascimento elevado». Ora, a
igreja de Corinto não se compunha de aristocratas, de descendentes de reis e
de príncipes, e nem mesmo de filhos de governadores, prefeitos e oficiais
subalternos do governo. Em face do fato da Grécia ser uma sociedade
democrática, os indivíduos da «nobreza», ali, eram aqueles que pertenciam
às classes abastadas, e não os que provinham de linhagens reais. Por
conseguinte, por qual motivo, no seio daquela igreja cristã, alguém se
estribaria em alguma suposta vantagem de nascimento ou de linhagem,
exaltando a certos membros da mesma, com detrimento dos menos
afortunados e mais simples? Não havia razão alguma para essa atitude;
contudo, nesse erro tinham caído os crentes coríntios facciosos.
«...segundo a carne...» Em outras palavras, de conformidade com «os
padrões terrenos». Esta frase, que aparece contígua a «sábios»,
provavelmente tem por intuito modificar todas as três classes. Assim, pois,
havia sábios segundo os padrões terrenos, havia poderosos segundo os
padrões terrenos e havia nobres de nascimento segundo os padrões terrenos.
No entanto, havia pouquíssimos desses elementos na comunidade cristã de
Corinto. (Ver as notas expositivas acerca do versículo seguinte, quanto ao
baixo prestígio e à procedência popular dos crentes dos primeiros séculos do
cristianismo, o que fica demonstrado em várias referências literárias
antigas).
«A história inteira da igreja de Cristo é uma vitória progressiva dos
ignorantes sobre os eruditos, dos humildes sobre os exaltados, até que o
próprio imperador (Constantino), depositou a sua coroa perante a cruz de
Cristo». (Olshausen, in loc.).
tva καταισχύνη τούς σοφούς, καί τα άσθενη τοΰ
ισχυρά,
poderosos nunca foram capazes de efetuar em um homem o que Cristo faz
nos seus remidos. De nada vale, nesse sentido, a sabedoria e o prestígio
político dos nobres de nascimento.
Vemos, portanto, que Paulo apela aqui para aquilo que Cristo é capaz de
fazer em um homem, transformando-o radicalmente em outra criatura. A
presença do Espírito Santo, operando entre os humildes cristãos, e a
manifestação de seus diversos dons espirituais, eram comuns entre os
crentes. Além disso, os seguidores de Cristo possuíam uma forma de
conhecimento, um poder espiritual e uma bondade que eram inteiramente
desconhecidos para todos os demais homens. Outrossim, embora não
pudessem comprová-lo então, os crentes tinham um destino muito superior
a tudo quanto os homens mundanos poderiam jamais aspirar. Os crentes se
dirigem para um futuro no qual haverão de com partilhar do próprio
conhecimento, do poder, da sabedoria e até mesmo da natureza do próprio
Deus, segundo aprendemos no trecho de II Ped. 1:4. Ver também Col. 2:10
e Efé. 3:19.
Ora, tudo isso se realiza por causa da escolha divina, como também em
face do fato de que Jesus Cristo cumpriu com êxito a sua missão terrena e
celestial, já que os remidos estão sendo transformados naquilo que Cristo é,
compartilhando igualmente daquilo que ele tem. (Quanto a isso, ver Rom.
8:29). E evidente que nenhuma sabedoria ou poder de origem humana
poderiam jamais efetuar tais feitos. E tudo isso contribui para demonstrar a
superioridade da sabedoria de Deus, a superioridade daqueles sobre quem
desce esse poder divino e essa sabedoria do Senhor.
Os crentes primitivos eram de nascimento humilde e destituídos de
posição na sociedade. Isso fica claramente evidenciado em seus nomes
pessoais, a maioria dos quais eram apelativos próprios de escravos ou de
libertos, e não dos orgulhosos e originais cidadãos romanos. Grande
número desses nomes próprios, encontrados nas catacumbas de Roma,
sobrs lápides, inscrições, etc., também comprova o fato. Sabe-se que o fato
24 I CORÍNTIOS
dos cristãos geralmente virem de classes humildes se tornou motivo de
motejo entre os literatos da época, conforme se vê nos Anais de Tácito
(xv.44), nos escritos de Justino Mártir (Apol. 2:9), nas obras de Orígenes
(Contra Celsum, ii.79; Minuc. Felix, vii. 12). Os cristãos eram apodados de
«rudes», «incultos», «aldeões» ou «lavradores». (Ver também a Epístola de
Plínio a Trajano (x.97). Plínio referiu-se aos cristãos como indivíduos
provenientes de todas as classes ordinárias da sociedade.
«Quem é aquele...que mede a sabedoria pela simplicidade, a força pelo
sofrimento, e a dignidade pela baixeza? Quem é aquele que pensa que o
primeiro é o último, que alguma coisa não é nada, e que se julga muito
importante, somente porque é um servo? Contudo, quando Deus teve por
bem subjugar o mundo e o inferno ao mesmo tempo, parte daquele para a
salvação e totalidade deste último para a perdição, não fez escolha de
quaisquer outras armas ou auxíliares além desses, sem importar se os
destinava para a salvação ou para a destruição. Teria sido prodígio pequeno
para ele colocar suas legiões em ordem de batalha, flanqueando-as com os
seus trovões; portanto, enviou a Insensatez para confutar a Sabedoria,
a Fraqueza para amarrar a Força, e o Desprezo para conquistar o Orgulho.
Nisso consiste o grande mistério do evangelho, que pode ser verificado na
experiência do próprio Cristo, o qual não veio para ser servido, mas para
servir, o que também se deve cumprir em todos os seus ministros, até ao seu
segundo advento». (Milton).
Naturalmente, havia exceções à regra geral exposta no presente versículo.
Assim é que Dionísio, de Atenas, fora um dos principais líderes políticos
daquela cidade. (Ver Atos 17:34). Erasto fora o tesoureiro de Corinto (ver
Rom. 16:23). Havia mulheres «nobres» de Tessalônica e de Beréia, que se
tinham associado de todo o coração à causa cristã. (Ver Atos 17:4,12).
Entretanto, aqueles que são declarados pertencentes à casa de César não
devem ser reputados como tais, porque, de acordo com o vocabulário
antigo, essa expressão significa, meramente, os escravos que trabalhavam
ali, ou, quando muito, oficiais inferiores sob o seu comando. Além disso,
esse termo era usado acerca de todos os crentes populacionais do mundo
greco-romano, não sendo indicados apenas os auxiliares de César que
viviam na capital do império. Não obstante, não havia muitos crentes
provenientes das classes sociais superiores.
Paulo, assim sendo, mostrou que era exatamente aquele rebotalho de
gente, na concepção do mundo, que era importante para Deus. Por
conseguinte, por qual razão os humildes haveriam de ser desprezados no
seio da igreja cristã, sendo exaltados os ricos e poderosos?
28 καί τα αγενή τοΰ κόσμου καί τα εξουθενημενα εξελέζατο 6 θεός, τα μη
καταργηση,
οντα ινα τα οντα
s 28 {C } τά μη όντα ρ“ Ν* A C* D* ti 0129 33 1739 it·*"·'·» cop»” '
e th ro M areion T ertullian ()rigen*rl/7 Ambrosiaster Tyconius Pelagius
E uthulius II και τά μη οντα. W Β C3 D 1
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Chrysostom Theodoret John-Dam ascus
Apresençade καί antesde τά μη οντα (Nc B CJ D b P Ψ 81614 Byz at) parece ser uma interpolação provocada pela série
anterior de objetos, cada qual unido ao próximo por καί (ver Blass-Debrunner-Funk, § 490). Ao adicionar o termo, porém,
escribas olvidaram a força da expressão τά μη οντα, que (como Zahn frisa, in loc.) não é outro item da série, mas é uma
caracterização compreensível e climática de todos os itens anteriores. A forma mais breve é fortemente apoiada por j>4tK*AC*
D* G 0129 33 1739 al.
1:28: e Deus escolheu as coisas ignóbeis do mundo, e as desprezadas, e as que não
são, para reduzir a nada as que são;
(Quanto à significação das palavras «...Deus escolheu...», que se repete
por nada menos de três vezes nesta secção, ver o começo das notas
expositivas sobre o versículo anterior).
«.. .cousas humildes...» Essas palavras se referem ao nível social em geral,
dos membros da igreja de Corinto, conforme um ponto de vista tipicamente
humano. Esses membros eram geralmente escravos, libertos, trabalhadores
braçais, servos e negociantes. As «cousas humildes», expressão que também
poderia ser traduzida por «coisas vis», formam a antítese das coisas de
«nobre nascimento» (conforme diz o vigésimo sexto versículo). Não
provinham de linhagem nobre, ou, pelo menos, não podiam traçar tal
linhagem. Por outro lado, é evidente que todos nós somos filhos de reis e de
escravos, dos indivíduos mais nobres, dos mais humanitários, como
/ também dos piores criminosos, assassinos, ladrões e homens violentos.
Cada ser humano descende da mesma raça humana; e basta-nos um ligeiro
exame na história do homem para que não nos orgulhemos de nossa
ascendência.
As coisas «...desprezadas...», as quais literalmente estão sendo
«reduzidas a nada», não meramente são olhadas com ar de superioridade
por parte dos altivos, mas também são literalmente vilipendiadas. Essa era
a atitude que os estranhos ao cristianismo tinham para com os cristãos. Mas
tudo isso é apenas uma descrição genuína da humanidade não-redimida,
refletindo o estado de rebeldia em que se encontram contra Deus, a qual,
longe de mortificar-se por causa disso, enche-se de tolo orgulho. Deus é
quem infunde a verdàdeira nobreza e a verdadeira riqueza em uma pessoa,
pois, através da atuação íntima do Espírito Santo, os remidos estão sendo
transformados na nobilíssima imagem de Cristo, sendo levados a
compartilhar de suas riquezas, de sua natureza e de suas expressões morais
e metafísicas. Essa maravilhosa operação divina tem lugar através do poder
do evangelho, e não mediante a sabedoria humana.
«...aquelas que não são...» Aqui é usada uma hipérbole. Os cristãos eram
tão desprezados pelos demais que eram considerados como se nem ao
menos existissem. Eram contados como nada, na escala de valores
concebida pelos homens, não cabendo nem mesmo dentro das categorias
mais desprezíveis. Eram reputados como aquelas pessoas que podem
morrer à míngua nas ruas, à noite, que no dia seguinte ninguém sentiria a
sua ausência.
«As classes para as quais o cristianismo era atrativo, para os filósofos e
estadistas eram ‘não-entidades’, eram ‘zeros’em sua avaliação». (Findlay, in
loc.).
Trata-se das mesmas classes de pessoas que, nas sociedades modernas,
são meros números, buscadas apenas com a finalidade de pagamento de
impostos e para figurarem nos recenseamentos.
«...são...» é o oposto de «não são». Os que «são» seriam os nobres, os
ricos, os poderosos, os famosos, os governantes, os sábios —a aristocracia
em geral, numa palavra. ^
«...reduzira nada...» A proposição de Paulo é que aqueles que «não são»
reduzirão a nada aos que «são». E essa é uma expressão mais forte do que a
idéia de «envergonhar», que aparece no vigésimo sétimo versículo. Significa
«reduzir uma pessoa ou uma coisa à total ineficácia», «tornar inútil e
inoperante». O que Paulo quis transmitir a seus leitores é que a sabedoria e
,o poder de Deus se evidenciarão de tal maneira naqueles que são
^«chamados», qualidades essas tão ausentes nos sábios e nos de nobre
nascimento, que, finalmente, tornar-se-á patente ondejaz o valor autêntico.
Aqueles que estão sem Cristo é que aparecerão, aos olhos de todos, como
miseravelmente paupérrimos, como nulidades, como destituídos de
qualquer sabedoria ou riqueza duradouras. Em contraste com isso, os que
confiam em Cristo aparecerão como possuidores de toda a riqueza, de todo
o poder e de toda a nobreza de Deus, visto que estão sendo transformados
segundo sua imagem moral e metafísica.
Isso significa que o prestígio humano será aniquilado, porque isso é o que
foi decretado por Deus. Paulo não queria que entendêssemos que os
próprios cristãos reduzirão a nada o poder e o orgulho deste mundo. Antes,
isso será realizado pelo próprio Deus, quando as suas relações para com os
que «são» e para com os que «não são», forem levadas a termo. (Quanto a
uma declaração, saída dos lábios de Jesus, que expressa idêntica idéia,
ainda que expressa mediante palavras diferentes, ver os trechos de Mat.
11:25 e Luc. 14:21, onde o leitor pode examinar as notas expositivas. Com
isso se pode comparar também a passagem de Jer. 9:23,24, a qual
provavelmente influiu sobre os pensamentos de Paulo, ao escrever estes
versículos).
«Todas as vantagens naturais se tornarão perfeitamente inúteis;
porquanto dependemos totalmente do dom de Deus». (C.T. Craig, in loc.).
Paulo quis ilustrar aqui a insensatez dos membros da igreja cristã de
Corinto, que desprezavam a alguns irmãos na fé e exaltavam a outros.
Somente Deus pode fazer isso. Quando o homem tenta fazer outro tanto,
torna-se um ladrão das prerrogativas de Deus.
«O evangelho foi adaptado por Deus para eliminar a altivez de espírito
tanto dosjudeus como dos gregos, envergonhando as jactanciosas ciências e
erudições dos gregos, e desvalorizando aquela constituição sobre a qual os
judeus tanto se ufanavam, o que os levava a desprezarem o resto do mundo
ao seu derredor. E tudo isso para que nenhuma carne se gloriasse na
presença do Senhor». (Matthew Henry, in loc.).
29 οττως μη καυχησηται πάσα σαρξ ενώπιον τοΰ θεοΰ. 29 Ro 3.27; Eph 2.9
1:29: para que nenhum mortal se glorie no presença de Deus.
Deus é o padrão final de valores, e os valores espirituais são todos
aquilatados por ele. Portanto, os valores humanos, estritamente terrenos,
que são utilizados pelos homens como bases de orgulho pessoal e de facções,
não podem permanecer de pé diante do Senhor, como também não podem
permanecer de pé diante de Deus os jactanciosos. A conclamação à
humildade, e o fato que o orgulho e a ufania não podem caracterizar as
pessoas verdadeiramente piedosas e espirituais, são princípios freqüente­
mente ensinados por todas as Sagradas Escrituras. Com isso se pode
comparar a passagem de Rom. 3:27, onde se mostra que a jactância dos
judeus, na lei mosaica, foi totalmente eliminada em Cristo.
Por semelhante modo, no que diz respeito aos dons espirituais e seu uso, o
apóstolo dos gentios mostrou que ó orgulho não pode fazer parte dessa
atividade, em I Cor. 4:7, porquanto nada possuímos, em absoluto, que não
tenhamos recebido através da dispensação divina e dç sua graça. Por
conseguinte, se for necessário que nos gloriemos, só nos podemos gloriar no
doador de todas as coisas, que é o Senhor. Jesus, pois, elogiou aos pobres e
humildes, pois deles, eventualmente, será o reino dos céus. (Ver Mat. 5:3).
I CORÍNTIOS 25
O orgulho é um dos pecados mais comuns mas também é uma das mais
mortais das transgressões. Separa os homens entre si, e separa os homens de
Deus. Trata-se de uma estimativa exagerada que o indivíduo faz de si
mesmo, e isso o leva, inevitavelmente, a subestimar e desprezar ao
próximo.O orgulho ê que tinha causado as divisões na igreja cristã de
Corinto sobre o que lemos nesta epístola; e o orgulho é que levara tantos
judeus e gentios, igualmente, a se manterem distantes e frios para com Jesus
Cristo. Foi igualmente o orgulho que causou a queda de Lúcifer, bem como
dos anjos que se precipitaram juntamente com ele. E essa é a barreira que se
levanta, diante de todos os povos, impedindo-os que recebam as bênçãos
espirituais decorrentes do evangelho.
«O orgulho é o começo do pecado». (Ben Siraque, Livro da Sabedoria).
«O orgulho, a inveja e a avareza—essas são as fagulhas que têm
incendiado os corações de todos os homens». (Dante, Inferno).
«A guerra é filha do orgulho, e o orgulho é rebento das riquezas».
(Jonathan Swift, Battle o f the Books).
«A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda». (Pro. 16:18).
«Não é nem o orgulho intelectual e nem a posição e o prestígio civis que
realmente contam aos olhos de Deus. As pessoas que se inclinam para essas
coisas tendem por mostrar-se arrogantes e soberbas, e geralmente^cometem
o pecado dos fariseus, a saber, o pecado de u‘a mente fechada. É para os
dotados de humildade mental, sem sofisticação, que é dirigida essa
chamada divina, tal como o próprio Senhor chamou os pescadores que
puxavam suas redes à beira-mar. O espírito auto-suficiente não tem lugar
reservado para Deus...Naquela ocasião não'parecia assim, mas a história
desde então tem demonstrado a verdade dessas proféticas palavras de
Paulo. Aqueles crentes de Corinto, à semelhança dos primeiros discípulos,
eram indivíduos insignificantes e sem importância na sociedade. Ninguém
que os conhecia haveria de dizer que eles representavam alguma coisa
promissora, para os séculos futuros. No entanto, os homens de maior
significação no império romano, há quase dois mil anos atrás, foram
30 αντον 8è υμείς eare iv Χ ριστώ Ίη σ οΰ, δς eyev
αγιασμός και άττολυτρωσis,
1:30: Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nó» foi feito por Deus
sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção;
(Quanto ao fato que o próprio Cristo Jesus é a «sabedoria» e o «poder» de
Deus, ver as notas expositivas referentes ao vigésimo quarto versículo deste
capítulo). A essa lista de atribuições, o apóstolo dos gentios agora
acrescenta a «justiça», a «santificação» e a «redenção», e, neste versículo,
não repete a idéia de «poder». Paulo se utilizou desses vários termos a fim de
descrever uma só e a mesma salvação, embora contemplada de diferentes
ângulos.
A Sabedoria De Deus
1. Essa sabedoria é um dos atributos divinos (ver I Sam. 2:3); é
insondável (ver Rom. 11:33); e é a base de toda a bondade humana,
sobretudo do bem-estar espiritual, particularizando-se a salvação (ver Efé.
1:8).
2. O evangelho contém os tesouros da sabedoria divina (ver I Cor. 2:7).
3. Paulo faz contraste entre a sabedoria humana (ensinada na filosofia) e
a sabedoria de Deus (que se manifesta na mensagem do evangelho). A
sabedoria humana gera o orgulho; a sabedoria divina conduz à salvação da
alma.
4. A sabedoria divina se manifesta em Cristo (ver notas completas sobre
essa expressão em I Cor. 1:4).
5. O próprio Cristo é a personificação da sabedoria divina, conforme é
ensinado por este versículo. É Cristo quem proporciona aos homens os
benefícios prometidos pela sabedoria divina.
Tudo quanto os homens podem conhecer acerca da verdadeira sabedoria,
precisam conhecê-la em Cristo; põis, para os homens, Cristo é a sabedoria
de Deus. (Ver o desenvolvimento desse tema, em Col. 2:2 e ss.). A sabedoria
de Deus é demonstrada do seu plano, relativo à redenção da humanidade,
plano esse que concretiza algo que a sabedoria humana sob hipótese
nenhuma poderia concretizar. E a palavra ou mensagem da cruz é o tema
central dessa sabedoria. (Ver o décimo oitavo versículo deste capítulo). Por
igual modo, essa sabedoria é a única que permanecerá de pé sob oteste do
juízo divino. (Ver o décimo nono versículo). Através da sabedoria de Deus é
que o mundo inteiro pode ser potencialmente salvo. (Ver o vigésimo
primeiro versículo). Tudo isso pode parecer um escândalo, uma insensatez e
uma pedra de tropeço para os homens (ver os versículos vinte e dois e vinte e
três), mas Jesus Cristo é a própria personificação da sabedoria de Deus.
(Ver os versículos vinte e quatro e aquele que ora comentamos). A grande
verdade é que a sabedoria de Deus, que tantos homens reputam como
insensatez, é mais sábia que a sabedoria humana, porquanto cumpre aquilo .
que o engenho humano está impossibilitado de fazer. (Ver o vigésimo
quinto versículo). Mas esse cumprimento só se verifica no caso de homens
humildes, que reconheçam sua ignorância espiritual; pois Deus dá
iluminação espiritual a esses, mas resiste aos soberbos. (Ver os versículos
vinte e seis e vinte e oito). Sim, Cristo é a verdadeira sabedoria de Deus,
fazendo violento contraste com a falsa sabedoria humana.
«...se nos tornou...» Deus fez de Jesus Cristo essa «sabedoria» e essas
outras quálidades, aqui mencionadas. Fê-lo das seguintes maneiras:
1. Mediante os seus decretos, baixados desde a eternidade.
2. Mediante a encarnação do Filho de Deus.
3. Mediante o ministério terreno de Jesus Cristo.
4. Mediante a sua exaltação à mão direita de Deus Pai, onde foi feito
aqueles pecadores da Galiléia, e as pessoas-chaves do vastíssimo
desdobramento, no gigantesco panorama da história subseqüente, foram os
membros da comunidade cristã. A despeito de. suas fraquezas, de seus
fracassos e de suas estúpidas dissensões, foram os instrumentos de um
Espírito que haveria de passar varrendo pelo império romano, bem como
através dos séculos, muito depois que o próprio império romano já se
extinguira». (John Short, in loc.).
«...ninguém...» No original grego encontramos o reflexo de um
hebraísmo—«toda a carne»—(ver Atos 2:17 e as notas expositivas referentes
a esse trecho), que indica a totalidade da humanidade. Temos um tesouro
em nossos vasos de barro. Mas esse tesouro não é propriamente nosso,
embora nos transforme à semelhança de Cristo. Porém, não podemos nós
ufanar disso. (Ver II Çor. 4:7 e as notas expositivas a respeito).
, «O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a
terra». (Heb. 2:20).
Agiu com o seu braço valorosamente;
dispersou os que no coração alimentavam pensamentos soberbos.
Derrubou dos seus tronos os poderosos
e exaltou os humildes. (Luc. 1:51,52).
«Entendemos com isso que Deus, ao confundir os poderosos, os sábios e
os grandes, não tinha por propósito inchar de orgulho os fracos, os iletrados
e os abjetos, mas antes, reduzir todos eles a um único nível». (Calvino, in
loc.).
Variante Textual: Alguns manuscritos dizem, neste versículo, «...em sua
presença...», conforme lemos no ms C (1) e em algumas versões latinas e
siriacas, o que é seguido pelas traduções AC, GD, KJ e F. Todas as outras
traduções, usadas para efeito de comparação, por este comentário (catorze ao
todo, nove em inglês e cinco em português), dizem como diz esta versão
portuguesa, «...na presença de Deus». (Quanto à lista de abreviações que
indicam essas traduções, ver a introdução ao comentário). Essa variante
concorda com os mss P(46), Aleph ABC(3)DEFGLP, os quais, certamente,
representam o texto original, porquanto esses são os manuscritos mais antigos.
ήθη σοφία ή μ ΐν άττο θεοΰ, δικαιοσύνη τ€ και
30 δς.,.άττολύτρω σι? Jr 23.5-6; Jn 17.19; 2 Cor 5.21
Senhor e Cristo, e de onde brande toda a autoridade, nos céus e na terra,
segundo também lemos em Mat. 28:18. Ora, todos esses aspectos estavam
designados de antemão com o propósito de produzir a redenção humana.
«...em Cristo Jesus...» Todos os benefícios do plano remidor nos são
outorgados mediante a nossa identificação e comunhão com o Filho do
homem, Jesus Cristo. Aqui temos a reiteração da idéia do «misticismo de
Cristo», conceito tão comum nos escritos do apóstolo Paulo. (Quanto a
notas expositivas completas sobre essa questão, ver a exposição referente ao
quarto versículo deste mesmo capítulo). Essa expressão subentende a
intimidade mística com Cristo, criada através da agência do Espírito Santo.
Deus é a fonte originária de todos os benefícios de natureza espiritual; mas
todos esses benefícios nos são derramados por intermédio de Jesus Cristo, e
isso através de meios místicos. Muito mais está em vista aqui do que alguma
nova posição escatológica. Em outras palavras, Paulo não via esses
benefícios serem derramados sobre nós somente quando o reino de Cristo
for finalmente estabelecido, quando então seriamos favorecidos por sermos
verdadeiros discípulos do Senhor. Não, mas esses benefícios são nossos
desde agora, embora venham a ser mais plenamente possuídos na vida
futura, em continuação da comunhão com o Senhor, através da
transformação segundo sua imagem moral e metafísica, nos termos de Rom.
8:29, onde o leitor deve examinar as notas expositivas , para melhor
entendimento acerca desse magno tema do evangelho de Cristo.
«...justiça...» Cristo é a nossa retidão. E isso significa muito mais do que
o fato que fomos forensicamente declarados perfeitos em Cristo, embora
isso também expresse uma verdade. O que aprendemos aqui é que seremos
feitos perfeitos como é perfeito o próprio Deus Pai. Novamente se
destaca a idéia da transformação moral, que faz parte da transformação
íntima operada pelo Espírito Santo. Por conseguinte, isso faz parte do
«misticismo de Cristo», acerca do qual Paulo falava aqui.
Dessa maneira, tornamo-nos, mediante o sistema da graça divina,
naquilo em que a lei mosaica não nos podia transformar. Tudo quanto os
preceitos da lei podiam fazer era mostrar-nos quão distanciados tínhamos
ficado de Deus, devido à corrupção do pecado. Qra, a transformação moral
provoca a transformação metafísica. Em outras palavras, aqueles que se
tiverem tornado moralmente perfeitos, em termos correspondentes também
virão a compartilhar da natureza metafísica de Jesus Cristo. Assim sendo, a
justiça de Deus precisa tornar-se nossa, não apenas posicionalmente, por
estarmos em Cristo, mas como experiência real em nossas vidas diárias.
(Quanto a notas expositivas detalhadas sobre essa questão, ver Rom. 3:21).
A justificação éum tema paralelo. E isso apesar de alguns estudiosos não
concordarem que a justificação seja mais que uma simples declaração
forense da parte de Deus, a nosso respeito. Na verdade, a justificação
envolve mais que uma mera declaração divina. (Ver as notas expositivas
sobre Rom. 3:24 e 28, onde essa questão é devidamente esclarecida).
O tornar-se alguém perfeito ou santo como Deus (ver Mat. 5:48), em que
o crente virá a com partilhar de sua perfeita natureza moral, envolve
muitíssimo mais do que apenas a ausência de pecado, ou do que o perdão
dos pecados. É igualmente a participação na natureza moral positiva de
Deus, conforme descobrimos em Gál. 5:22,23. O Espírito Santo é quem
forma em nós a natureza moral positiva de Deus, proporcionando-nos as
qualidades de Jesus Cristo, como, por exemplo, a sua bondade, a sua
alegria, a sua longanimidade, etc. E precisamos admitir que isso envolve
muito mais do que a mera ausência de pecado. A «justiça» que temos aqui,
por conseguinte, fala sobre a natureza moral transformada dos remidos, o
26 I CORÍNTIOS
que se alicerça e se origina em nossa fé e em nossa intimidade mística com
Jesus Cristo. Ver também os trechos de Rom. 10:4,10; 6:13; Gál. 4:5 e Fil.
3:9. E ver igualmente a passagem de Rom. 1:17.
Natureza Da Santificação
1. A santificação é a continuação da conversão, e, na realidade, é apenas
um outro nome dado à total transformação que Cristo opera em nós:
primeiramente no aspecto moral (para participarmos da própria santidade
de Deus, ver Mat. 5:48), e então no aspecto metafísico (para
compartilharmos das virtudes positivas de Deus, e, finalmente, de sua
própria natureza divina, segundo se vê nas notas sobre Gál. 5:22 e Efé.
3:19).
2. A santificação, portanto, é um termo que usamos a fim de dizermos
como a «salvação» vai se concretizando em nós, especialmente do ponto de
vista ético. (Ver as notas sobre a «salvação», em Heb. 2:3).
3. A santificação não é uma opção, que podemos aceitar se nos for
conveniente, ou rejeitar se suas exigências nos parecerem difíceis demais. A
santificação é um aspecto real da salvação, porquanto estamos sendo salvos
do pecado e seu poder. Sem a santificação, ninguém jamais verá Deus (ver
Heb. 12:14).
4. A santificação é fruição da justificação, servindo de elo necessário com
a glorificação. Assim, a cadeia dourada da salvação que Deus dá conta,
como um de seus elos, com a santificação.
5. Apesar de haver um aspecto inicial da santificação (quando Deus nos
separa do mundo, por ocasião da conversão), e de haver um aspecto
contínuo da santificação (quando Deus vai formando em nós a natureza
moral de Cristo), também existe um aspecto futuro na santificação(quanáo
seremos completamente libertados do princípio do pecado, quando
tivermos plenamente formadas em nós as virtudes morais positivas de Deus,
como o amor, a bondade, etc.). E esse aspecto futuro será um processo
eterno, porquanto a natureza moral positiva de Deus é infinita.
6. A santificação é realização do Espírito (ver I Cor. 6:11). Pode ser
imitada pelo esforço humano, pelas resoluções nobres, mas o homem não
pode produzir a santificação autêntica.
7. Sem a santificação, é impossível alguém herdar o reino de Deus (ver I
Cor. 6:9-11).
8. Ver notas completas sobre esse tema, em I Tes. 4:3.
«.. .redenção...»De todos os vocábulos que Paulo usa neste versículo, este
31 Iva καθώ ς γ έ γ ρ α π τα ι, 'Ο καυχώμενος έν κυρίω καυχάσθω.
31 Κύριοί] Θεω ρ4βΤ ert
1:31: poro que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.
Temos, neste versículo, uma citação livre de Jer. 9:23,24 de mistura com I
é o mais prenhe de sentido. Inclui o «resgate» que nos livra do pecado,
conforme o termo grego por detrás dessa tradução pode significar; mas
também fala da totalidade de nossa salvação em Cristo, incluindo todos os
seus aspectos. Esse é o grande tema do evangelho. Envolve os seguintes
aspectos:
1. A conversão e a regeneração inicial.
2. A justificação.
3. A participação na retidão de Cristo, mediante a santificação.
4. E inclui igualmente a glorificação final.
Essa palavra envolve o drama sagrado da alma em sua inteireza,
mostrando como ela regressa à presença de Deus e vem a participar da
natureza de Cristo Jesus. Indica o resgate da alma, a redenção da alma
humana, antes vagabunda e distanciada de Deus. Acompanha a orientação
dada à alma, ao longo da vereda de volta a Deus, até que, finalmente, a
alma chega ao seu lar e fonte originária, Deus. Envolve até mesmo o térmico
da jornada da alma, não visando apenas algum estágio ao longo do
caminho.
O vocábulo redenção, considerado em seu contexto profano, sugere a
redenção de um escravo, que era oferecido à venda em algum antigo
mercado de escravos. Por semelhante modo, a alma crente é reconduzida ao
seu lar e destino apropriados, em Cristo Jesus, tendo sido restaurada de
todo o seu desvio, tal como um escravo é redimido ou restaurado de sua vida
de humilhação na servidão. A alma humana se acha em estado de servidão
ao pecado, até que é restaurada a Deus.
No tocante a essa «redenção· final» em Cristo, ver os trechos de Luc.
21:28; Efé. 1:14 e 4:30. O termo grego apolutrosis («redenção») é usado por
dez vezes nas páginas do N.T. Sua forma verbal, todavia, é usada por nada
menos de sessenta e nove vezes, com sentidos como «libertar», «soltar», etc.
Posto que essa palavra é μsada com significados tão diversos, o conceito é
muito amplo, podendo indicar a salvação inicial, a conversão, a libertação
do próprio eu e do mundo, e o retorno para Deus. Além disso, pode servir
de termo lato e todo-inclusivo, designando a totalidade da salvação, a
obtenção do grande alvo espiritual. É neste último sentido que essa palavra é
empregada aqui, pois é colocada em último lugar na grande lista exposta
por Paulo, com o intuito de incorporar todas as idéias anteriores. (Ver o
trecho de Rom. 3:24, quanto a outras notas expositivas acerca desse
conceito. Esse comentário explica os vários usos e os sentidos básicos desse
vocábulo, juntamente com referências bíblicas ilustrativas).
31 Ό καυχώ μβνος...καυχάσθω Jr 9.24 (2 Cor 10.17)
Sam 2:10, que é muito similar ao primeiro trecho, extraída da versão da
Septuaginta (tradução do original hebraico dó A.T. para o grego,
completada cerca de duzentos anos antes do início da era cristã). (Quanto a
vim esclarecimento completo acerca da expressão «está escrito», e como
essas palavras foram usadas pelo apóstolo Paulo para vincular idéias
neotestamentárias com ο A.T., ver o décimo nono versículo deste mesmo
capítulo. Essa expressão ocorre por doze vezes nesta epístola, por dezessete
vezes na epístola aos Romanos, além de um bom número de vezes dispersas
pelas epístolas aos Gálatas e segunda aos Coríntios, além de algumas outras
poucas vezes, pelas demais epístolas do apóstolo Paulo. O apóstolo dos
gentios encontrava, nas Escrituras do A.T., a autoridade para os seus
ensinamentos, vinculando o antigo pacto ao novo, como uma revelação
divina contínua.
Cristo significa todas as coisas para nós, nossa redenção do princípio ao
fim, sendo ele a sabedoria e o poder de Deus. Dessa maneira, nenhum
homem pode vangloriar-se de si mesmo. O crente deve gloriar-se; mas
tão-somente no Senhor, que é Cristo Jesus. Na referência original desta
citação, a palavra «Senhor» é uma alusão a Yahweh, o Deus do A.T.
Todavia, nas páginas do N.T., esse termo se refere mais freqüentemente ao
Senhor Jesus Cristo. (Ver as notas expositivas referentes a Rom. 1:4, onde
isso fica demonstrado e onde se comprova também a natureza do senhorio
de Jesus Cristo. Quanto ao fato de que Cristo toma o lugar de Yahweh, eni
várias citações dessa natureza, mediante a transferência do termo «Senhor»
para Jesus Cristo, ver outros trechos bíblicos, como segue: I Cor. 2:16;,
10:22; II Cor. 10:17; Fil. 2:11 e Rom. 10:13. Ver também I Ped. 2:3).
Supor alguém que Paulo e os demais escritores sagrados do N.T.
lançaram mão apenas de versículos convenientes para se referirem à pessoa
de Jesus Cristo, sem atribuir a ele a glória e a autoridade que acompanham
tais passagens do A.T. que citaram, é supor uma profunda ignorância da
parte dos apóstolos, como se estes pensassem poder usar tais trechos
bíblicos, totalmente fora de seu contexto, aplicando-os erroneamente a
Cristo. Não nos olvidemos que os apóstolos eram judeus acostumados a
manusear com as Escrituras do A.T. Não há que duvidar que sabiam
aplicar devidamente as passagens de que se utilizaram. Propositadamente
usaram-nas para indicar Jesus Cristo, porquanto ele é o Senhor, o criador
de todas as coisas, a fonte e o alvo de toda a criação, conforme esse conceito
é desenvolvido em passagens como o primeiro capítulo da epístola aos
Efésios e o segundo capítulo da epístola aos Colossenses.
Ora, visto que toda a glória pertence exclusivamente ao Senhor, então os
crentes muito erram quando selecionam heróis, criando facções em torno
deles. O apóstolo Paulo recomenda a humildade, como remédio para esse
estado de coisas, contradizendo a atitude de orgulho, conforme já fizera no
vigésimo nono versículo. Aqui, contudo, Paulo adiciona a única base
legítima para a ufania, mostrando também em quem o crente pode e deve
gloriar-se, o que ele não incluíra naquele versículo.
Aquele que está caído, não precisa temer a queda;
Aquele que é humilde, não precisa temer ao orgulho;
E aquele que é pequeno aos próprios olhos,
Sempre terá a Deus como seu guia.
(Wendell Phillips).
Com o presente versículo podemos comparar a declaração que Paulo faz
em Gál. 6:14, onde a cruz de Cristo figura como o único fundamento no
qual o crente pode gloriar-se com razão.
Deissmann (New Light on the N .T ., pág.7) observa acerca da
importância dessa passagem em geral, do ponto de vfsta histórico, dizendo:
«...no que concerne à origem de suas congregações, entre as classes
humildes das grandes cidades, isso serve de um dos mais importantes
testemunhos históricos acerca do cristianismo primitivo». (Ver também,
desse mesmo autor, «Light from the Ancient East», págs. 7,14,60 e 142).
Capitulo 2
II: O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21).
1.Polêmica contra tais divisões:
e. Paulo lhes mostrara um exemplo de conduta humilde (2:1-5).
A refutação de Paulo contra a sabedoria humana, e sua exaltação da sabedoria divina, levou-o a expor três argumentos, a
S&D6T!
1. A cruz, em sua mensagem, não representa uma nova espécie de sabedoria, a ser anunciada por sofistas cristãos, o que,
erroneamente, estava sucedendo em Corinto. (Ver I Cor. 1:18-25).
2;.J.SS0, fic£|va comprovado pela natureza muito humilde dos próprios crentes de Corinto, que dificilmente poderiam ser
qualificados de sábios e nobres.(Ver I Cor. 1:26-31).
3 A própria conduta de Paulo mostrava que a fé cristã não representava alguma nova sabedoria, a ser propalada mediante a
habilidade retórica. Paulo apareceu em cena como humilde ministro de Cristo, não se exaltando a si mesmo, diferentemente do
qué os sofistas cristãos faziam. Antes, Paulo exaltava exclusivamente a Cristo, reconhecendo apenas a sua autoridade. Sua
apresentação não era do tipo sofista, mas uma simples declaração da verdade de Deus em Cristo. Ele mesmo esteve em Corinto
em debilidade física, de mistura com temor. Todavia, pregou a eles no poder do Espirito, e isso foi a confirmação de seu
ministério, o qual ficou assim estabelecido no poder de Deus, e não na base da sabedoria dos homens. (Ver I Cor. 2:1-5).
Paulo havia tentado pregar com algum método filosófico em Atenas (ver o décimo sétimo capítulo do livro de Atos). Talvez por
esse motivo é que ele resolveu não experimentar o método intelectual em Corinto, embora tal método sem dúvida fosse popular
ali. Naturalmente supomos que Lucas narrou fielmente a «apologia» de Paulo a Atenas. Não há razão alguma para supormos que
Paulo não teria usado esse método entre os atenienses. Paulo não quis dizer que usar esse método é algo errôneo por si mesmo;
mas descobrira, nesse caso, tratar-se de um método ineficaz. Seja como for, não era Paulo competidor para os filosofos gregos,
em seu próprio território. Não que lhes fosse intelectualmente inferior; isso não é provável. Não obstante, ele não era um retórico
e um sofista treinado. Sentia-se muito mais à vontade na sinagoga do que na escola filosófica; e resolveu que, sendo todos os
hnmpns pecadores, e sendo Cristo o Salvador universal, não precisava ele apresentar a Cristo de maneira diferente para homens
de culturas diversas.
Além disso, Paulo tinha a vantagem de contar com o poder de Deus; o seu ministério era autenticado convincentemente pela
inspiração do Espírito Santo, o que lhe permitiarealizarmuitos milagres, sinais e maravilhas. Não precisava, portanto, além de
tudo isso, da habilidade retórica dos gregos. Deus honrou ao seu ministério de dezoito meses em Corinto, e lhe deu muitos
convertidos; e assim teve começo a igreja cristã daquela cidade. Por conseguinte, ele não tinha do que se envergonhar, porquanto
fizera bem o seu trabalho, com óbvios resultados positivos. Ficou subentendido, por conseguinte, que esse apóstolo usara o
método correto, pelo menos quanto a ele, a despeito do que sem dúvida ele não negaria que um ministro verdadeiro de Cristo,
como Apoio, por exemplo, poderia usar um método diferente, recebendo as bênçãos e a aprovação_ do Espírito Santo. Não
•obstante, Paulo fazia forte objeção aos meros imitadores de Apoio, aqueles que haviam criado uma facção em torno do seu nome,
supostamente sob o seu patrocínio, os quais também desprezavam a Paulo e à sua apresentação no estilo da «sinagoga», visto
que ele não falàva com os floreios que eles tanto admiravam. (Ver II Cor. 10:10, onde se lê que afirmavam que sua palavra era
«desprezível»). O próprio Paulo assevera, em II Cor. 11:6, que ele era «falto no falar», ou seja, cru, simples, sem polidez, em
comparação com os padrões dos sofistas e retóricos, embora não lhe faltasse «conhecimento». De fato, nada havia de cru ou
elementar em seu conhecimento.
Paulo vinha pregando o evangelho por nada menos de quinze anos, quando chegou a Corinto. E durante todo esse tempo
fizera-o sob o poder do Espirito Santo. Não precisava ficar por demais preocupado com as críticas feitas à sua pregação, em
Corinto. Paulo não fazia objeção a outras maneiras de discursar; sua única objeção era contra ós «intelectuais», que haviam
provocado facções na igreja de Corinto, visto que enfatizavam exageradamente a sabedoria humana, no conteúdo e na
apresentação da mensagem cristã. Pois, em contraste com essa atitude, Deus havia tencionado que a fé cristã e sua expressão
religiosa se estribasse exclusivamente em Cristo, e não sobre alguma suposta sabedoria humana, sem importar a forma assumida
poresta. * * *
2 Κ άγώ ελθών προς νμάς, αδελφοί, ηλθον ον καθ’ νπερο-χήν λόγον η σοφίας καταγγελλω ν ύμΐν το
μνστήριον1τον θεοΰ. 2ιιC
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I CORÍNTIOS 27
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Theodoret // σωτήριον 489 ^98pt·59
9
Do pontode vista exegético, a forma μαρτύρων του θβον, embora bèm apoiada (Kc B D G P SP 33 81 6l4 1739 Byz it
(d,g) vg sir (h) cop (sa) ara etí Orígenes al), é inferior a μυστήρων, que tem apoio mais limitado, embora antigo, em
p4»vtd> A C 88 436 it (r,6l) sir (p) cop (bo) Hipólito Ambrosiastro Efraem Ambrósio Pelágio Agostinho Antíoco. A forma
μαρτύριόν parece ser memória de 1:6, ao passo que μυστήριον aqui prepara o caminho para seu uso no vs. 7.
2:1: Eeu, irmãos, quando fui ter eonvosco, anunciando-vos o testemunho de Deus,
não fui cam sublimidade de palavras ou de sabedoria.
O Poder De Paulo
1. Paulo não imitava aquela eloqüência exaltada do partido dos filósofos.
Sua maneira de falar era crua (ver II Cor. 10:10). No entanto, era ele um
homem dotado de poder, tendo realizado prodigiosos empreendimentos no
ministério do evangelho, com o acompanhamento de milagres notáveis.
2. Sua mensagem, embora não fosse demonstração de eloqüência
rebuscada, anunciava aos homens um evangelho capaz de salvar-lhes a
alma (ver I Cor. 1:30).
3. O poder demonstrado por Paulo autenticava a sua mensagem. Ele não
precisava da erudição própria dos sofistas.
«...o testemunho de Deus...» Alguns manuscritos dizem aqui, ao invés de
«...testemunho...», «mistério». (Ver a nota textual que se segue). Paulo se
referia à «mensagem da cruz», tal como já fizera em I Cor. 1:18. Essa é
também a «sabedoria de Deus», conforme se lê em I Cor. 1:21,25. Essa
sabedoria divina servia de «escândalo» para osjudeus e de «loucura» para os
gregos (ver I Cor. 1:23). O «testemunho de Deus», por conseguinte, é a
mensagem acerca de «Cristo crucificado», conforme se lê em I Cor. 1:23. No
entanto, a despeito dessa mensagem ser encarada como uma insensatez e
como uma fraqueza (ver I Cor. 1:25), na realidade é a sabedoria e o poder
de Deus. (Ver I Cor. 1:18,25). Paulo queria salientar aqui o evangelho que é
o anúncio a respeito de Cristo. Esse evangelho é chamado aqui «... de
Deus...» porque Cristo foi enviado por Deus Pai, o que perfaz um dos
principais temas do N.T., sobretudo no quarto evangelho. Há notas
expositivas sobre essa idéia, no trecho de João 3:17. Assim sendo, o
testemunho concernente a Cristo, concernente à sua missão remidora, é, ao
mesmo tempo, o «testemunho de Deus» para os homens; porquanto, no que
diz respeito a essas questões, não se pode estabelecer qualquer distinção
entre os propósitos de Deus Pai e os propósitos de Deus Filho, Jesus Cristo.
Com essa declaração de Paulo podem ser comparadas as seguintes
referências paulinas: I Cor. 15:15; II Tes. 1:10; I Tim. 2:6 e II Tim. 1:8. A
primeira delas é bastante similar à declaração que encontramos neste
versículo, fazendo alusão ao fato da ressurreição, o que, naturalmente, ê
um dos temas centrais e básicos do evangelho. (Ver o trecho de I Cor. 1:6,
onde a mensagem cristã é chamada de «o testemunho de Cristo». Essa
expressão, «o testemunho de Deus», são expressões sinônimas).
«...não...com ostentação de linguagem...» Algumas traduções preferem
dizer aqui «excelência de linguagem». Uma tradução mais literal,
entretanto, diria, «...segundo elevação de linguagem...» No trecho de I Tim.
2:2, essa mesma palavra é traduzida por «autoridade», o que representa a
única outra menção desse termo, em todo o N.T. Tal vocábulo, no grego,
significa «projeção» ou «proeminência». Portanto, «ostentação» é uma
interpretação, ainda que provavelmente correta. Paulo, pois, não se
preocupava èm que sua linguagem fosse de categoria superior ou notável,
conforme foi sempre a preocupação dos sofistas e dos ostentosos filósofos
gregos, sendo o objetivo central das escolas de retórica. Paulo se interessava
antes pelo «testemunho de Deus», a fim de que esse testemunho fosse
claramente exposto e compreendido. Alguns dos seus detratores,
entretanto, cuidavam mais em como poderiam impressionar favoravelmente
aos homens, com a erudição que tinham, do que mesmo com a clara
transmissão da mensagem cristã.
«...ou de sabedoria...» Está aqui em foco a sabedoria, a erudição, o
raciocínio humano, tudo o que tem sido comentado plenamente em I Cor.
1:19,21,22. Essa é a forma de sabedoria que serve de empecilho aos
homens, impedindo que achem a Deus. Tal sabedoria em nada nos ajuda
na inquirição por Deus, pelo que também cumpre que seja evitada; ou, pelo
menos, não se deve ensiná-la nas igrejas cristãs. Na igreja se deve ensinar
aquela sabedoria mais elevada de Deus. (Ver I Cor. 1:24). E a real
sabedoria de Deus foi personificada na pessoa de Jesus Cristo, segundo se
aprende em I Cor. 1:30.
A palavra «...eu...», com que este versículo tem início, é enfática, fazendo
forte contraste com os ostentosos opositores de Paulo, «...irmãos...», por
sua vez, é um termoque indica afeto, suavizando suas severas reprimendas.
(Ver as notas expositivas sobre essa suavização, em I Cor. 1:10),
Variante Textual: A palavra *...testemunho...» aparece nos mss Aleph, (3),
BDEFGLP, bem como nas versões da vulgata latina, saidica, etiope e
aramaica, sendo seguida pelas traduções AA, AC, ASV, NE, BR, F, M e
RSV. Em lugar disso, os mss P (46), Aleph (1), AC, a versão latina r, o Si (p) e
28 I CORÍNTIOS
o boh, além dos escritos dos pais da igreja Ambrósio, Anibrosiaster e
Agostinho, dizem «mistério», no que são seguidos pelas traduções GD, PH e
WM. A evidência textual, portanto, está dividida meio a meio, em favor de
uma ou outra dessas variantes, de tal modo que nos é impossível determinar
qual é o texto original neste caso. O fato, porém, é que o «testemunho» de
Cristo é também o «mistério» (um termo paulino comum; ver Rom. 11:25
acerca de um sumário de todos os «mistérios doN.T.»). Por conseguinte, Paulo
facilmente poderia ter usado um ou outro desses vocábulos. Uma minoria dos
editores textuais, entretanto, dá preferência ao termo «testemunho», que
talvez seja a palavra que se deveria esperar com maiores probabilidades nesta
passagem. Note-se, entretanto, que o vocábulo «mistério» é usado no sétimo
versículo deste segundo capítulo. È possível, portanto, que sua presença aqui
tenha sido tomada por empréstimo do sétimo versículo. Seja como for, a mesma
mensagem é transmitida, com o emprego de um ou de outro desses dois
vocábulos.
2 ο ύ γ α ρ έ κ ρ ιν α τ ι e lS é v a i iv ύ μ ΐν εΐ μ η Ί η σ ο ϋ ν Χ ρ ισ τ ό ν κ α ι τ ο ύ τ ο ν β σ τα υ ρ ω μ ε ν ο ν . 2 Ga 6.14
2:2: Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este
crucificado.
A palavra «...decidi...» dá a entender um ato definitivo da vontade,
alguma decisão proposital. É possível que depois de Paulo haver tentado
usar o método filosófico, em Atenas (ver o décimo sétimo capítulo do livro
de Atos), Paulo tenha decidido voltar ao seu método mais simples, em face
dos escassos resultados obtidos com aquele método. O método mais simples
era aquele geralmente utilizado nas sinagogas, em que havia uma exposição
singela da mensagem espiritual, sem qualquer preocupação com as
minúcias retóricas.
Paulo não procurava apresentar uma mensagem artística e impressionan­
te aos ouvidos, para então, ao longo da mesma, deixar escapar algumas das
reivindicações de Cristo. Pelo contrário, seguia diretam ente para a
apresentação da pessoa de Jesus Cristo e para otema central de sua expiação
na cruz do Calvário. (Comparar com I Cor. 1:23, acerca de idêntica
declaração, onde esse conceito é comentado). Naturalmente, isso não quer
dizer que Paulo pregasse exclusivamente sobre a crucificação de Jesus,
sobre a expiação, sobre a reconciliação e sobre o perdão dos pecados, pois
suas epístolas mostram-nos que ele pregava sobre uma gama
extremamente variada de temas, ainda que fizesse tudo subordinar-se a
Cristo.
Assim sendo, ele não pretende oferecer-nos aqui uma lista exaustiva dos
temas que expunha; antes, indicou aqui o centro (e não a circunferência) da
sua mensagem. A cruz não pode ser separada da mensagem inteira da
redenção por intermédio de Cristo, a qual também inclui a ressurreição e a
glorificação finais, além de vários outros temas. Pois, se começarmos com
Cristo, na cruz, terminaremos com Cristo, na glória. Também
entenderemos que o crente está identificado com ambos esses aspectos,
com a morte de Cristo e com a sua vida ressurrecta. Aquilo que causava
ofensa para os judeus, levando-os a tropeçarem, e que parecia uma
insensatez para os gregos, era exatamente o que Paulo frisava em sua
mensagem.
Podemos supor, com base na maneira enfática como Paulo declara essa
questão, que alguns de seus detratores, fazendo-se imitadores de Apoio, em
suas eruditas mensagens propositadamente excluíam qualquer menção à
cruz, o que Paulo reputava como o epicentro mesmo da mensagem cristã.
Se essa suposição está com a razão, então podemos compreender por qual
razão ele já havia salientado tão fortemente essa mensagem. Talvez a
mensagem da cruz fosse ofensiva para alguns, ou mesmo uma pedra de
tropeço para outros, na própria igreja cristã de Corinto, e não somente para
judeus e gregos incrédulos, estranhos àquela comunidade. Os oradores
cristãos que tendiam para a ostentação, pois, procuravam reduzir ao
mínimo o tema central que Paulo salientava ao máximo.
«Ele ‘Paulo’ resolveu aferrar-se a esse método até mesmo depois de ter
pregado em Atenas, onde fora praticamente expulso dentre seus ouvintes
com gargalhadas. A cruz só aumentava ainda mais o ‘scandalon’ da
encarnação; mas Paulo se mantinha fiel à vereda principal, tendo chegado a
Corinto». (Robertson, in loc.).
«O propósito de Paulo, ao assim dizer, era o de evitar as teorias de todas
as modalidades, aderindo rigidamente ao cristianismo, em sua forma mais
concreta, conforme se vê na pessoa e na obra de seu fundador». (Kling, in
loc.).
Por essas razões, aqueles, em nossos tempos modernos, que pregam mais
contra o modernismo e contra o comunismo do que anunciam a Cristo,
como também aqueles cujas mensagens não se centralizam em Cristo,
deveriam dar nova atenção aos métodos e à mensagem do apóstolo dos
gentios. A preocupação de Paulo, em manter-se dentro dos limites dessa
forma de mensagem se derivava do fato que ele estava convencido de que
somente através dessa mensagem os homens podem ser reconduzidos a
Deus. A sabedoria humana de forma alguma pode concretizar isso. (Ver I
Cor. 1:21. Quanto à resolução de Paulo, de que nada lhe interessava saber,
senão a cruz, ver as notas expositivas sobre Gál. 3:1; I Tes. 4:14; 5:9 e ss.; e
Atos 13:38 e ss.). Para nós, a cruz tem sido como que glorificada, devido a
muitos séculos de tradição eclesiástica. Até mesmo no mundo profano essa
palavra tem adquirido certos sentidos simbólicos positivos, sendo
empregada como símbolo de empreendimentos de valor, tendo sido incluída
nos nomes de cidades e organizações diversas. Para os homens dos tempos
apostólicos, entretanto, a palavra «cruz» dava a impressão de opróbrio e
derrisão. Por conseguinte, fazer da cruz o centro da mensagem cristã
pareceria, para alguns, ser uma medida detrimente para o progresso do
cristianismo.
★★★
3 κ ά ,γώ iv ά σ θ ε ν ε ία κ α ι iv φ ό β ω κ α ι iv τ ρ ό μ ω π ο λ λ ώ ε γ ε ν ό μ η ν π ρ ο ς υ μ ά ς , 3 Ac 18.9; 2 Cor 10.1
2:3: Ε eu estive convosco em fraqueza, e em temor, o em grande tremor.
Paulo sabia que, em si mesmo, nada possuía do poder de Deus (ver I Cor.
1:18), e nem da sabedoria de Deus (ver I Cor. 24:30), que eram necessários
para levar homens aos pés de Cristo, apegando-se à sua mensagem e ao seu
trabalho até que este se cumprisse. Bem pelo contrário, a mensagem do
evangelho era efetuada através de um vaso débil e temente; não obstante, o
poder de Deus prevaleceu na vida e no ministério de Paulo.
«...fraqueza...», palavra que talvez indique debilidade ou enfermidade
física, conforme se vê em II Cor. 12:7, o «espinho na carne». Contudo,
mesmo que se inclua essa idéia, certamente Paulo igualmente se referia ao
seu estado mental, visto ser o apóstolo dos gentios homem caçado por
temores e perseguições. Paulo deixa subentendido que sua condição de
«desamparo» ou desânimo se originou das circunstâncias de sua visita a
Corinto. Ele tentara realizar grandes coisas para Deus, contra condições
adversas tremendas, e em face de severas perseguições. Apesar de sua
coragem, Paulo geralmente vivia em temor, e algumas vezes sentia bem
perto a derrota. Algumas vezes chegou a titubear, tal como o próprio
Senhor Jesus agonizou quando de sua grande provação, no jardim do
Oetsêmani. Paulo chegou perto de tropeçar e cair, desviando-se do grande
propósito de sua vida. Todavia, a exemplo de Jesus, e também devido aos
seus muitos anos de treinamento, de autodisciplina e de suprema dedicação
à causa de Cristo, embora tenha hesitado em determinados momentos,
jamais abandonou a luta, mostrou-se triunfante até ao fim.
Um triunfo significa muito mais quando é obtido através de dificuldades
e provações, quando vencemos nossas fraquezas naturais, triunfando a
despeito de tudo, do que quando as coisas nos correm favoravelmente.
Contudo, o que Paulo fez, fê-lo por meio do poder de Deus, tendo sido o
primeiro a admitir essa verdade. Pode-se observar o trecho de Atos 18:5.
Paulo se sentia alipressionado ou agitado em seu espírito. Atos 18:6 mostra
que ele sofreu oposições e perseguições. O versículo nono, desse mesmo
capítulo, mostra-nos que ele precisou do encorajamento de uma visão
especial, porquanto temeu que talvez fosse até mesmo assassinado,
ou que tivesse de enfrentar algum outro problema severo. Sob
tais circunstâncias, portanto é que ele chegara em Corinto.
Paulo sofria de certa debilidade física·. No que tange à natureza de seus
supostos sofrimentos físicos, parece perfeitamente claro, com base em II
Cor. 12:7, que ele padecia de alguma debilidade física. E em Gál. 6:11
ficamos sabendo que pelo menos parte dessa dificuldade envolvia os seus
olhos. A maioria dos comentadores bíblicos concorda com isso. Mas
existem eruditos que especulam que ele também sofria ataques de malária,
epilepsia, ou ambas as coisas; mas tudo isso é apenas pura especulação, sem
qualquer fundamento histórico. Paulo recebera o dom de curas, tendo até
mesmo ressuscitado a mortos; mas, conforme geralmente sucede com os
que recebem esse dom, evidentemente não podia curar a si mesmo. Além
disso, a passagem de II Tim. 4:20 mostra-nos que nem sempre ele teve a
capacidade de curar seus cooperadores nas lides do evangelho, porquanto
Trófimo fora deixado enfermo em Mileto.
É comum aos crentes dotados da manifestação de curas terem alguma
enfermidade pessoal. Muito se equivocam aqueles que pensam que a
enfermidade resulta, sempre e necessariamente, do pecado. Uma
enfermidade pode ser uma medida disciplinar ou uma lição que o Senhor
nos queira dar. Outrossim, a enfermidade corporal pode resultar de algo,
na história da alma (para incluir a sua preexistência, segundo pensam
muitos bons intérpretes bíblicos), e, portanto, não fazer parte da história
mortal do indivíduo. Acrescente-se a isso o fato de que Paulo fora um cruel
perseguidor da igreja de Cristo, tendo perpetrado até mesmo assassínios
autorizados pelas autoridades eclesiásticas dos judeus. Ora, tudo quanto
um homem semear, isso também ceifará. Isso foi dito acerca dos crentes
(ver Gál. 6:7,8), aplicando-se a eles, apesar de terem sido perdoados de seus
pecados. Pois o perdão dos pecados não elimina a necessidade de colher o
mal anteriormente praticado, tal como se vê no caso de Davi, o qual, a
despeito de haver sido perdoado de seu pecado de adultério e homicídio,
nunca cessou de sofrer por causa disso, conforme a sua vida subseqüente nos
mostra.
Precisamos aprender a seriedade do pecado, e o sofrimento físico é uma
das lições objetivas. Não deveríamos ficar surpreendidos, portanto, por ver
o notável apóstolo dos gentios sofrer, porquanto fora o grande perseguidor
dos crentes primitivos. Um certo sentimento vão pode supor que os pecados
perdoados eliminam, automaticamente, qualquer razão para o sofrimento
físico; mjis isso é um ponto de vista demasiadamente estreito da natureza do
sofrimento físico. Todos os seres mortais estão devidamente sujeitos à
enfermidade e à morte física; e a maioria dos casos de falecimento, pelo que
todos nós precisamos passar, resulta de alguma enfermidade física. Os
próprios crentes dotados do dom de curas morrem; e outro tanto sucede a
todos os seguidores de Jesus Cristo. Ordinariamente o pecado é a causafinal
da morte, mas não precisa ser a causa imediata da enfermidade, e nem
mesmo é a sua única causa.
«...temor...tremor...»Ansiedades mentais que se originam de debilidades
mentais e espirituais. (Essas duas palavras também aparecem juntas nos
I CORÍNTIOS 29
trechos de II Cor. 7:15 e Fil. 2:12). Paulo foi um herói da fé, dotado de
coragem heróica; mas também havia momentos de temor, de ansiedade, de
tropeços, de dúvidas, de descoroçoamento. Afinal de contas, ele foi apenas
um ser humano. E confessa aqui essas debilidades aos crentes de Corinto a
fim de enfatizar que aquilo que fazia em prol do reino de Deus, fazia-o não
com suas próprias forças, e, sim, por impulso do poder de Deus; e, dessa
maneira, todo o louvor pertencia a Deus, e não aos homens. Já os seus
oponentes, em contraste com isso, davam a glória ao homem, gloriando-se
em sua própria sabedoria e poder.
Paulo apresentou aos crentes de Corinto a idéia de um personagem
humilde, modesto, a fim de que toda a glória pudesse pertencer somente a
Cristo. Notemos, em II Cor. 10:10, como os seus detratores mencionavam
que sua presença corpórea era «fraca». Não, Paulo não era nenhum
super-homem, nem fisicamente e nem em uma linguagem ousada e
poderosa; mas o poder de Deus operava por intermédio dele. É um toque
muito humano vermos Paulo, o homem que julgávamos ser um
super-homem, diminuindo-se perante as dificílimas condições que
prevaleciam na igreja de Corinto.
é και ό λόγος μου και το κήρυγμά μου ούκ εν π ειθ ο ΐ[ς] σοφίας [Aóyoiç]2 αλλ εν αποδείξει πνεύματος
και δννάμεως, 4 1 Th 1.5
2 4 jl ) | 7
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* 33 7rií?ots) ])c 181
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tom Severian Jerome Cyril Theodoret John-Dam ascus // 7rei0ots σοφίας καί
XÓJols 131 H T€l6ols ανθρώπινης σοφίας λό-γοις ü e C Ψ (A P 326 330
ΙΓίθοΐς) 81 88 104 436 451 614 629 (630 omit λόγοι?) 1241 1984 2127 2492 BifZ
ftíao.c.gig.x.z1
”4 Vgci Sy rh Copbo Origen Eusebius Ambrosiaster A thanasius
Basil Cyril-Jerusalem // παθοϊ σοφίας ανθρώπινης λόγοι? (1962 vtdois)
2495 // 7reiθόΐ σοφίας λόγου ανθρώπου c()pb"'"s?’' et.h>’p // πζιθοΐ σοφίas
'όyoLς 1 18 42 205 209 216* 234 605'' 3518 // παθοΐ σοφίας λό^ω ν 440 (itd·*)
syrp cop3
1
* Origen? // πειθοΊς σοφίας ρ46 Ο // παθοι σοφίας 35* itf-« //
πειθοΐ λόγου ethro // παθός λόγοΐ5 σοφίας and omit kv arm
Dentre as onze variantes desta passagem, aquelas que dizem ανθρώπινης antes ou depois de σοφίας (Nc A CP Ψ 81 6l4
1962 2495 Byz (it 61) sir (h) cop (bo) al), são obviamente secundárias. Se o termo fosse original, não haveria boa razão por que o
mesmo foi apagado; pelo contrário, parece ser uma glosa explicativa, inserida por copistas (em diferentes lugares) a fim de
identificar mais exatamente a nuance que há em σοφίας. É bem mais difícil decidir o que fazer com τειθοΐς, adjetivo achado
em nenhuma outra passagem de toda a literatura grega. A raridade do termo produziu confusão na transmissão do texto? Ou é
realmente uma vox nulla, tendo surgido de um equívoco escribal ao copiar σοφίας (πειθοΐ, πειθοΐ caso dat. do
■substantivo πειθώ, que significa «persuasão»)? A fim de representar a diversidade da evidência, a maioria da comissão resolveu
imprimir 7retθο1[ς], e com base em P (46) G 35*, aos quais falta λό^οις, resolveu-se deixar essa última palavra entre colchetes.
2:4: A minha linguagem ea minha pregação não consistiram em palavras persuasivas feita pelo Espirito, era «...do Espirito...», isto é, provinha do Espírito
de sabedoria, mas em demonstração do Espirito e de poder; Santo.
(Ver as passagens de II Cor. 10:10 e 11:6, onde há indicações sobre a«A fé não repousa sobre argumentos persuasivos, e, sim, sobre a obra de
debilidade da oratória de Paulo, quando confrontada com as habilidades
filosóficas e retóricas dos gregos. Aqueles filósofos, especialmente os
sofistas, eram eficientes oradores e mestres da oratória dinâmina em
público. Tinham muitos truques e técnicas que empregavam em seus
discursos, tudo calculado para impressionar os ouvintes. Mas ao apóstolo
dos gentios simplesmente faltava esse treinamento e a disposição natural
para esse tipo de espetáculo teatral. Os discursos preservados até nós, feitos
por diversos sofistas, são deveras impressionantes, e até mesmo comoventes.
Apoio possuía tal habilidade, mas usava-a para exaltar a pessoa de
Cristo, e Paulo não o teria criticado. Mas os detratores deste último,
imitadores baratos de Apoio, não exaltavam a pessoa de Cristo com seus
belos discursos, e, sim, a si mesmos, provocando o surgimento de facções
que eram uma desgraça para a igreja de Corinto e para a causa de Cristo em
geral.
«...as pessoas crédulas são alvos fáceis para esses oradores plausíveis do
púlpito». (Robertson, in loc.).
Alguns pregadores não passam de atores de palco, que erraram de
profissão. Paulo procurava evitar esses espetáculos teatrais na igreja. Por
outro lado, homens ignorantes, com seus discursos e pregações de baixo
nível, não podem melhorar essas condições, pois os tais nem possuem
eloqüência e nem o poder de Deus; e as igrejas que caem sob a liderança de
tais homens têm reuniões maçantes, ao passo que os sofistas pelo menos
dirigem reuniões interessantes e divertidas. Paulo, entretanto, não aprovava
nem um e nem outro desses dois extremos, como também não aprovava
qualquer tendência para o espetáculo. No entanto, como esses defeitos se
tornaram comuns hoje em dia!
«...minhapalavra...»Mui provavelmente temos aqui uma menção de sua
«doutrina», o tema de suas pregações; e a sua forma de apresentação ele
indica pelas palavras «...minha pregação...» Nem seus temas e nem seu
modo de apresentação seguiam o modelo dos sofistas e retóricos. Alguns
estudiosos pensam que-«palavra» significa aqui «discursos privados», e que
«pregação» significa «discursos em público», mas essa explicação não é
satisfatória. Ainda outros eruditos opinam que «palavra» é eqüivalente ao
que se lê em I Cor. 1:18, «o evangelho», ao passo que «pregação» seria a
proclamação real desse evangelho. Uma distinção parecida com isso deve
ter sido utilizada por Paulo.
«...persuasiva...», isto é, «convincente». Deriva-se de um vocábulo grego
escrito de forma estranha, «pithos», sem dúvida uma variação de «peithos»,
que era uma palavra rara, e que em todo o N.T. é encontrada
exclusivamente aqui. Nos manuscritos, pois, essa palavra tem sido sujeita a
diversas modificações. Sem importar qual a forma original em que foi
gravada, mui provavelmente se deriva de «peithos», que significa
«convencer», «persuadir», «conquistar para os pontos de vista de». Paulo não
declara que não tentava convencer ou persuadir aos homens, e, sim, que
não procurava usar de métodos dúbios para isso, como também não lançava
mão de uma linguagem floreada e lisonjeadora, para conquistar os homens
com esses golpes baixos. Não tinha mesmo necessidade de apelar para tais
métodos, porquanto o Espírito de Deus estava sobre ele, operando por seu
intermédio; e o Espírito Santo é o melhor agente persuasor dos homens,
utilizando-se tanto de prodígios como de palavras.
«...demonstração...» Literalmente traduzida, a palavra grega por detrás
desse termo daria «exibição». Os argumentos de Paulo não eram meramente
«plausíveis», mas também eram exibições reais, em sua vida, em suas
palavras, e no poder e sabedoria do Espírito Santo. E essa demonstração era
Deus nos corações dos homens. Éo Espírito que torna possível a fé.
Conforme veremos em I Cor. 12:9, a fé mesma é um dom do Espírito».
(C.T. Craig, in loc.).
A palavra grega aqui traduzida por «demonstração», pode significar
tanto uma «exibição» como também uma «prova inequívoca». É bem
provável que Paulo a tenha empregado com este último sentido, embora ele
não estivesse falando sobre alguma prova empírica ou científica. As provas
por ele expostas eram espirituais, místicas, e só podiam ser aceitas e
reconhecidas intuitivamente. A mera sabedoria humana pode ofuscar e
entreter, mas a sabedoria divina convence a alma; e isso é o que importa,
afinal de contas.
-...do Espírito...», e não «do espírito (humano)», conforme essa expressão
grega poderia ser gramaticalmente traduzida. O Espírito de Deus é que é o
grande agente divino da sabedoria e do poder de Deus na vida dos homens,
o transformador dos remidos segundo a imagem de Cristo, o agente
santificador. E, nesta passagem, ele aparece como confirmador da pregação
que tem por centro a pessoa de Jesus Cristo.
«...depoder...» Temos aqui novamente o confronto entre opoder de Deus
e o poder do homem, conformejá víramos em I Cor. 1:18,24,25. O poder de
Deus se acha personificado em Cristo, conforme mostram esses citados
versículos; e opera por meio do evangelho, o que inclui a «palavra da cruz»
(ver I Cor. 1:23,24). (E com isso se pode comparar os trechos de I Tes. 1:5 e
2:13). O evangelho surgiu no mundo não apenas na forma de palavras, mas
também revestido do poder do Espírito Santo. Mui provavelmente Paulo
quer dar a entender aqui, embora não o diga diretamente, que esse poder
inclui as provas, sinais e prodígios operados por intermédio dele. Ora, seum
ministro do evangelho dispõe dessas provas, da demonstração do Espírito e
de poder, jam ais precisará das habilidades retóricas para confirmar a
validade de sua mensagem. Sem essas qualidades, porém, todas as
qualidades retóricas de nada aproveitarão, nem ao pregador e nem aos seus
ouvintes.
Variantes Textuais·. Em face do fato da palavra grega «pithos» ser um
vocábulo raro, ordinariamente empregado como substantivo, e não como
adjetivo, diversos manuscritos o manuseiam diferentemente. No texto que ora
comentamos, parece ter sido usado còmo adjetivo; e a maioria dos manuscritos
assim retêm essa palavra, embora com variações quanto à maneira de gravá-la
e quanto à ordem das palavras. Assim lemos nos mss P (46), Aleph, ABCD,
que são os principais representantes textuais desta passagem. Contudo, o ms
440, as versões latinas em geral e o Si (P), o saídico e os escritos de Orígenes,
entre os pais da igreja, transmutam essa palavra para um substantivo, na
forma de «peithoi sophias», o que poderia ser traduzido em algo como «na
persuasão da sabedoria». Contudo, ainda que isso faça bom sentido, mui
provavelmente consiste na simplificação de um texto duro e difícil. Todavia, é
possível que o problema seja mais um problema de tradução do que realmente
uma questão textual, pois quem pode dizer que esse substantivo também não
era usado como adjetivo, nos tempos de Paulo? O apelo à literatura da época, a
fim de demonstrar que essa palavra era, pelo menos, rara, nada prova. Paulo
poderia estar refletindo aqui um uso raro, raro para nós, bem entendido—mas
que facilmente fazia parte comum do grego «koihé».
«...dos homens...» são palavras ligadas com o termo «sabedoria», de
conformidade com algumas traduções, as quais acompanham os mss
Aleph(3), ACLP e as versões cópticas. Mas os mss P(46), Aleph(l), BD e
muitas outras autoridades, omitem essas palavras. Trata-se de uma glosa
escribal, procurando identificar o tipo de sabedoria a que Paulo fazia
menção aqui, procurando fazer harmonia com os trechos dei Cor. 1:19,21 e
2:5.
★★★
?
> iva ή πίστις ύμών μή fj εν σοφία ανθρώπων άλλ’ εν δυνάμει θεοΰ.
30 I CORÍNTIOS
2:5: para que a vossa fé não se apoiassena sabedoria dos homens, mas no poder de
Deus.
Paulo já havia demonstrado longa e cabalmente que a «sabedoria»
humana não pode salvar a alma. É mister o «poder de Deus» para tanto. E
esse poder opera por meio de Cristo e sua cruz, de acordo com a
proclamação do evangelho. Essa é a mensagem básica do trecho inteiro de I
Cor. 1:18-30. Para que seja válida, portanto, a ié precisa ser estabelecida,
firmada e arraigada no poder de Deus. E a própria fé é um dos aspectos do
fruto do Espírito de Deus, uma qualidade da alma, e não apenas uma
qualidade emocional ou intelectual. A sabedoria humana pode persuadir os
homens acerca de certas idéias ou doutrinas, levando-os assim a darem
assentimento mental às mesmas, como se elas fossem verdadeiras. Mas a
verdadeira fé não é apenas uma qualidade intelectual. É antes a reação
favorável da alma, com base naquilo que ela sabe acerca da mensagem de
Cristo. È à «entrega» da alma ao destino que Deus reservou para os homens
em Cristo. Por conseguinte, a fé é uma qualidade espiritual, uma motivação
e uma característica espirituais do indivíduo, e não da natureza meramente
intelectual.
Somente através dessa modalidade bíblica de fé é que'uma alma pode
novamente ser posta no caminho de retorno a Deus. (Há notas expositivas
completas sobre a «fé», nos trechos de João 3:16 e Heb. 11:1). Na igreja às
vezes a fé tem sido reduzida a mera persuasão mental e a «assentimento
verbal» diante de certas proposições doutrinárias. Ora, jsso jamais poderá
salvar uma alma, porquanto a fé é o começo da «conversão», sinônimo da.
mesma. É uma espécie de transformação inicial, operada pelo Espírito
Santo; e, como princípio, continua a transformar aos homens, porquanto o
justo viverá por fé, e avançará de fé em fé. (Quanto a notas expositivas sobre
a fé, consultar também os trechos de João 3:20; 20:29,31 e Atos 16:31).
«Aquilo que depende de um argumento engenhoso fica à mercê de um
argumento ainda mais engenhoso. Mas a fé, que em sua raiz consiste de
confiança pessoal, se origina do contacto vital da personalidade humana
com a personalidade divina. Suas afirmações não são meras declarações
abstratas, mas envolvem a experiência do livramento pessoal». (Robertson e
Plummer, in loc.).
Paulo demonstrava, pois, mediante todo o seu argumento, que a
«sabedoria humana» é algo fora de lugar na igreja cristã. Contudo, os
crentes de Corinto, por estarem erroneamente persuadidos a respeito dessa
sabedoria, tinham por isso mesmo criado facções entre eles, o que era
detrimente para o louvor e a glória de Cristo. (Ver I Cor. 1:31). Somente o
«poder de Deus» deveria ser permitido pelos crentes como a motivação e a
força controladora na apresentação da mensagem cristã. Esse é o poder que
nos compete buscar. A pregação deve repousar sobre o poder de Deus, e
jamais sobre a eloqüência humana. Não obstante, se um pregador conta
com ambas essas vantagens, então sua pregação é duplamente abençoada.
Tal pregador deve mostrar-se humilde, a exemplo de Apoio, que tanto era
eloqüente como falava com o poder do Espírito Santo. Mas aquilo que
porventura repousar sobre a «sabedoria deste mundo», perecerá juntamente
com essa sabedoria mundana.
2:6: Na verdade, entre os perfeitos falamos sabedoria, não porém a sabedoria deste
mundo, nem dos príncipes deste mundo, que estão sendo reduzidos a nada;
★★★
«...sabedoria...»
II. II. O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21).
1. Polêmica contra tais divisões: x
f. A sabedoria verdadeira não é propriedade dos facciosos, cujo espirito demonstra antes a ausência da influência d
Espirito Santo (2:6- 3:4).
E m seus argumentos contra os partidos facciosos, Paulo já havia mostrado que esses partidos:
1. Elevavam o homem ao lugar que só Cristo pode ocupar (I Cor. 1:13-17).
2. Àos olhos de Deus, são uma loucura, pois a sabedoria humana é insensatez para Deus; e a própria cruz não é algum novo
tipo de sabedoria; razão pela qual nenhuma facção se deveria basear sobre a suposição de que o evangelho tem essa natureza (I
Cor. 1:18-2:1).
3. Não estão de conformidade com o exemplo deixado por ele, pois, apesar de Paulo ser um humilde ministro de Cristo,
contudo, mostrava-se poderoso e eficaz em seu ministério, através do Espirito Santo, o que jamais pôde provocar divisões entre
os crentes.
4. E agora Paulo expunha um quarto argumento: A verdadeira sabedoria de Deus é transmitida aos remidos exclusivamente
pelo Espírito Santo, e não através do engenho humano. Mas os promotores de facções mostravam não possuir qualquer
manifestação real dessa sabedoria divina, em suas vidas., De fato, naquilo em que se ufanavam da sabedoria humana deixavam
entrever que o Espirito de Deus não os controlava. E issò ficava tanto mais comprovado pelo seu espirito faccioso, que só servia
para detratar da glória de Deus, na pessoa de Cristo, a quem cabe toda a glória, em todas as atividades da igreja cristã. (I Cor.
1:31).
6 Σοφίαν 8è λαλοΰμεν èv τοΐς τελείους, σοφίαν δε ου του αίώνος τούτου ovSè των αρχόντων τον αίώνος
τούτον των καταργονμενών - 6 2o0íai/...T eX cíoisEph4.13;Php3.15
informais, privadas e públicas, todas as vezes em que anunciava a Cristo,
ele ensinava a mesma mensagem.
«...entre os experimentados...» Paulo estava usando, novamente, o
vocabulário das religiões misteriosas, referindo-se aqui aos «perfeitos», aos
«iniciados». Mas, com isso, dava a entender tão-somente os crentes
maduros, aqueles que verdadeiramente estavam sendo transformados
segundo a imagem moral de Cristo, destinados a participarem também de
sua imagem metafísica. Não reduzia Paulo o cristianismo ao nível de outra
religião misteriosa, e nem aceitava seus preceitos como tais. Mas fez alusão
aqui aos crentes maduros, experimentados, em contraste com os que eram
«crianças» na fé, com os infantis na experiência cristã, segundo se lê em I
Cor. 3:1. Por conseguinte, estão aqui em foco os «espirituais»: (Quanto a
essa palavra, «espirituais», comparar com os trechos de I Cor. 14:20; Fil.
3:15 e Efé. 4:13).
Os «experimentados», que algumas traduções dizem perfeitos, são os
crentes já dotados de altas experiências cristãs; também são chamados de
«espirituais», porquanto Paulo usa esses termos de forma intercambiável.
Os gnósticos erigiam fortes barreiras entre os «perfeitos» e os simples
aderentes de sua fé; e isso causou o aparecimento de distinções radicais, em
alguns documentos cristãos de natureza mística, conforme aqueles
provenientes de Alexandria, que se referem a cristãos «esotéricos» e
«exotéricos». (Ver Eusébio, História Eclesiástica v.xi.). É verdade que Paulo
reconhecia a existência de certa gradação entre os cristãos, de conformidade
com a perfeição e a maturidade a que haviam chegado em Cristo; porém,
não estava fazendo o tipo de distinções «místicas» que havia entre os
gnósticos e entre certos cristãos de séculos posteriores. Não queria dar a
entender Paulo, com as palavras por ele utilizadas aqui, que alguns cristãos
pertenciam a alguma categoria especial por causa de experiências místicas
quanto aos mistérios reyelados, ao passo que outros ficavam do «lado de
fora» desse grupo seleto, por serem crentes de qualidade mais prosaica. Não
obstante, em um sentido bem real, isso pode refletir certa verdade. Todavia,
se Paulo se utilizava da linguagem dos místicos, não dava a tais vocábulos os
mesmos sentidos que eles lhes davam. Neste ponto ele simplesmente
estabelecia certa distinção entre crentes maduros e crentes imaturos. Os
crentes maduros, pois, podiam compreender como Paulo pregava escudado
no poder e na sabedoria de Deus, porque tinham entendimento sobre esse
aspecto da verdade. Já os imaturos preferiam sair em busca da mera
sabedoria humana, aquela sabedoria típica deste mundo ímpio, causando
ainda divisões no seio das igrejas cristãs, por causa dessa questão.
A Sabedoria De Deus
1. Sob esse título, são expostas notas completas acerca desse téma, em I
Cor. 1:30.
2. Paulo, em sua prédica, falava através da sabedoria de Deus, a saber,
Cristo, no que fazia contraste com o partido intelectualizado, que haviam
criado um evangelho filosófico. (Quanto a notas sobre esse tema, ver I Cor.
1:17 sob o título «Uso e abuso da filosofia»). É possível que os filósofos da
igreja de Corinto se inclinassem um tanto para o gnosticismo. (Ver as notas
sobre o «gnosticismo» em Col. 2:18).
3. Paulo estabelece o contraste entre a sabedoria divina, que é a fonte de
todo o bem-estar humano—incluindo a salvação—e a sabedoria humana, a
qual gera o orgulho e não consegue salvar uma alma sequer, embora possa
servir de entretenimento para a mente. Paulo mostrava-se mui amargo
contra aqueles que tinham substituído o evangelho por qualquer filosofia
humana, pois os desmascarou como orgulhosos sofistas.
O versículo seguinte dá início a uma expansão dessa idéia, falando acerca
da sabedoria de Deus, que antes estivera oculta em mistério. Porém, em
Cristo e mediante as revelações conferidas a Paulo, os segredos de Deus
agora foram «abertos» ou «revelados» (ver o nono versículo deste mesmo
capítulo), não estando mais ocultos para os crentes, e nem sendo mais
matéria de conhecimento somente dos iniciados, conforme era a situação
entre as religiões misteriosas que eram tão numerosas nos dias de Paulo,
como, por exemplo, ocorria entre muitos gnósticos. Assim sendo, se Paulo
se deixou influenciar pelos vocábulos nessas religiões misteriosas, por outro
lado não se deixou macular pelos seus conceitos, porque, em caso contrário,
ter-se-ia deixado influenciar pela própria sabedoria humana que ele
deprecia neste texto. (Quanto a notas expositivas sobre o «gnosticismo», ver
o trecho de Col. 2:18).
«...expomos...»Embora tenha usado aqui uma palavra diferente, «laleo»,
o apóstolo dos gentios não queria estabelecer qualquer distinção para com a
«pregação» que já havia mencionado. Naturalmente que nas discussões
I CORÍNTIOS 31
O que Paulo dizia acerca daqueles que causam facções, portanto, bem
como acerca daqueles que seguem tais líderes, é que eram crentes imaturos;
eram crentes carnais, e não espirituais. Apesar de talvez serem verdadeiros
crentes, não eram perfeitamente iluminados ainda, a despeito de toda a sua
exibição de sabedoria humana, porquanto a verdadeira sabedoria jamais
concorrerá para quebrar aünidade cristã, e nem atribuirá glória aos
homens, e não a Cristo.
«...a sabedoria deste século...» Com essas palavras podem ser
comparadas aquelas outras, de I Cor. 1:20, «o inquiridor deste século»,
onde também aparece o termo grego aqui traduzido por «século», e onde se
explica o sentido do mesmo. O apóstolo dos gentios esperava por um outro
«século» ou «era», a saber, a era do Messias, que haverá de caracterizar-se
pela sabedoria de Deus, pelos padrões celestiais do conhecimento, em
contraste com a «insensatez» ou «loucura» dos homens da presente
«dispensação», a qual, erroneamente, tem recebido o título de «sabedoria».
(Quanto a referências diretas e à exposição do conceito dessa sabedoria
terrena, ver o trecho de I Cor. 1:19,20).
«...nem a dos poderosos desta época...» Estão aqui em foco os sábios
deste mundo, os quais, acima de todos, possuem a sabedoria que
caracteriza os homens e ainda se ufanam da mesma, ao invés de se
gloriarem daquela sabedoria que caracteriza as realidades espirituais. Os
filósofos gregos, bem como outros homens importantes, estavam em foco,
dentro dessa classificação, não tendo o apóstolo feito menção específica aos
governantes políticos, conforme esse termo ordinariamente dá a entender,
ainda que tais políticos devem ter sido incluídos na declaração tão geral de
Paulo. É possível que esse apóstolo se tivesse referido aqui a indivíduos como
os membros do sinédrio, como os fariseus, os saduceus, os escribas,
Herodes, Pilatos, etc. Em outras palavras, os supostos sábios e poderosos
deste mundo, na realidade não são tais, porquanto todos tiveram
participação na crucificação do Messias, assim demonstrando sua imensa
estupidez, no que concerne à sabedoria e às obras de Deus. Pois a verdade é
que a hierarquia dos poderes humanos, de maneira geral, faz oposição à
sabedoria de Deus.
Alguns intérpretes cristãos, como Orígenes, um dos pais da igreja, além
de muitos outros, nos séculos que se seguiram, ensinaram que os
«poderosos», que figuram neste versículo, são os seres angelicais, que
influenciariam aos homens e explicariam muito de suas ações, sendo os
7 άλλα λαλοΰμβν θΐον σοφυ
els 8όζαν -ημών
2:7: mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, que esteve oculta, a qual Deus
preordenou antes dos séculos para nossa glória;
Essa é uma das excelentes afirmativas do apóstolo Páulo, a qual
certamente representa uma verdade eterna. Nossa mensagem cristã é a
exposição da sabedoria de Deus. (Ver as referências a esse respeito, no
versículo anterior, onde também há alusões a vários lugares, no primeiro
capítulo desta epístola, onde são expostas porções dessa doutrina tão
importante).
A sabedoria de Deus está contida no mistério. Esse mistério é o «segredo
revelado» da completa redenção em Cristo, o que sem dúvida é uma
amplíssima aplicação desse termo, «redenção», em contraste com outros
lugares, onde a palavra «mistério» envolve apenas porções do grande
mistério cristão, como, por exemplo, o mistério da igreja, o mistério da
piedade trazida por Cristo, o mistério da permanência habitadora de Cristo,
etc. (Quanto a uma nota expositiva que sumaria todos esses «mistérios», ver
Rom. 11:25). Assim sendo, em contraste com os mistérios do gnosticismo e
das religiões gregas misteriosas, temos aqui um «segredo revelado». Trata:se
de algo anteriormente escondido, mas que agora foi desvendado. E essa
revelação é feita por meio do Espírito de Deus, e não mediante a inteligência
e a perspicácia humanas. Outrossim, visto que ela é de origem divina, não
podemos aspirar a compreendê-la em sua inteireza. Não obstante, não se
trata de alguma doutrina secreta e oculta, conforme esse termo queria
dizer, no vocabulário das religiões misteriosas. Paulo talvez tenha tomado
por empréstimo esse termo, mas não a doutrina aqui ensinada.
«...outrora oculta...» (Com essas palavras podemos comparar os trechos
de Efé. 3:5; Col. 1:26 e Rom. 16:25). Essa sabedoria divina estivera òculta
de homens de outras eras ou dispensações, incluindo até mesmo os profetas
antigos, que dirá os homens comuns. No dizer dessa última referência, «...a
revelação do mistério, guardado em silêncio nos tempos eternos».'No
entanto, tal sabedoria foi finalmente revelada para aqueles que se inclinam
por dar-lhe acolhimento, isto é, os que confiam em Jesus Cristo, depois que
o ministério messiânico de Jesus, entre os homens, se completou. Foi então
que, de conformidade com a tabela divina, tal mistério foi revelado aos
homens.
«...a qual Deus preordenou...» O plano remidor, em todas as suas
dimensões, estivera oculto dos homens, antes da vinda de Jesus Cristo. Os
homens não tinham então meios de perceber a magnitude da transformação
dos remidos segundo a imagem de Cristo. Nem mesmo compreendiam a
grandiosidade da estatura de Cristo, quanto menos como os homens
haveriam de compartilhar de sua exaltada natureza. Porém, na mente
divina e de acordo com os decretos divinos,-a glória a ser revelada, mediante
a concretização dos sábios planos de Deus, não teve começo. A raiz grega
aqui traduzida por «...preordenou...» é «prooridzo», que indica «declarar
com antecedência», «predestinar». Trata-se do mesmo vocábulo empregado
em Efé. 1:5, que gira em torno da idéia da eleição eterna, porquanto ali
lemos que fomos «predestinados» para a adoção de filhos. O versículo
anterior a esse fala da eleição como algo que vem desde «antes da fundação
do mundo». A doutrina que Paulo aqui apresenta, portanto, é
essencialmente a mesma que ele expõe no primeiro capítulo da epístola aos
mesmos «principados» e «poderes» aludidos em passagens tais como Rom.
8:38 e Efé. 1:21. Porém, apesar dessa ser uma maneira legítima de
compreender o uso desse vocábulo, não é muito provável que esse seja o
significado que Paulo tencionava dar ao mesmo. (Quanto a uma definição
desse termo, poderosos, ver o oitavo versículo deste mesmo capítulo e as
notas expositivas relativas ao mesmo). É verdade, contudo, que essas
autoridades conspiraram contra Jesus Cristo; mas ele as venceu na cruz,
conforme aprendemos em Col. 2:15. Além disso, também é verdade que os
governantes desta dispensação ímpia podem ser identificados, de certa
maneira, com os espíritos malignos que sobre eles exercem influência,
conforme vemos em Gál. 4:3,9 e Col. 2:8.
Todos esses poderes, entretanto, de natureza humana, demoníaca ou
angelical, estão destinados a desaparecerem, juntam ente com sua
pseudo-sabedoria. Podemos confiar, entretanto, que a sabedoria de Deus,
na pessoa de Jesus Cristo, é de caráter permanente. Ora, se esses poderes e
sua sabedoria terão fatalmente de desaparecer, que vantagem se ganharia
por exaltá-los no seio da igreja cristã? O oitavo versículo deste capítulo
parece limitar os «poderes» aqui mencionados a esta esfera terrena; mas isso
não elimina a outra idéia, que também transparece nos ensinamentos de
Paulo. Tão-somente significa que ele não a estava ensinando nesta
passagem.
De conformidade com a escatologia paulina, a redução a nada dos
poderosos deste mundo se verificará quando da parousia ou segundo
advento de Jesus Cristo. Agora mesmo, no que diz respeito ao reino de
Cristo e até onde tem avançado esse reino, tais poderes humanos estão
derrotados. Mas o seu desaparecimento será então completo. Tais poderes
«desaparecerão no nada»! Por conseguinte, aqueles que exaltam a sabedoria
humana, ainda que talvez inconscientemente, pretendem adiar para mais
tarde a manifestação da glória de Cristo. Mas tais indivíduos, a despeito de
todas as suas exaltadas declarações de conhecimento humano, não sabem
muito acerca da verdadeira sabedoria, aquela que nos vem por intermédio
de Cristo. A sabedoria humana é transitória; e assim deve ser estimada por
nós. Somente a saberdoria de Deus é eterna. Com isso se pode comparar o
trecho de Apo. 19:11 e ss. Cristo, pois, haverá de ferir às nações da terra,
passando a governá-las com vara de ferro, pois ele é o Rei dos reis e Senhor
dos senhores. No dizer de Apo. 11:15: «O reino do mundo se tornou de
nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos».
iv μυστήριοι, τήν (πτοκΐκρυμμίνην, ήν ττροώρισζν ό θεός προ των αιώνων
7 Θί0ν...α.ττ0κ€κρνμμΐν7)ν Ro 16.25; Col 1.26
Efésios, e chega ao mesmo resultado, isto é, à glorificação.
«...para a nossa glória...» Isso indica nossa participação pessoal na glória
de Jesus Cristo. Notemos que o mistério de Deus culmina na glorificação
humana, que será o ponto mais alto da redenção e da salvação dos remidos.
Essa é exatamente a verdade que temos destacado com grande saliência nas
notas expositivas acerca do oitavo capítulo da epístola aos Romanos; e essa
passagem é o melhor comentário sobre o conceito que encontramos aqui.
Nesse capítulo a salvação é descrita em termos da presença habitadora do
Espírito Santo (ver o nono versículo), da adoção (ver o décimo quinto
versículo), da herança (ver o décimo sétimo versículo), da esperança (ver os
versículos vinte e quatro e vinte e cinco), da redenção do corpo e da
personalidade inteira (ver o vigésimo terceiro versículo), da justificação, e,
finalmente, da glorificação (ver os versículos vigésimo oitavo a trigésimo).
Em cada uma dessas referências oferecemos notas de sumário sobre seus
respectivos temas.
A glorificação é o resultado e o alvo de todos os demais aspectos da
salvação. Consiste na perfeita participação em tudo quanto Cristo tem e é.
Consiste na obtenção de sua imagem moral e metafísica, em que o crente
virá a participar da própria divindade (Efé. 3:19; Col. 2:9,10). Ora, é a isso
que nos conduz a «sabedoria de Deus», antes oculta em «mistério», sendo
esse, por igual modo, o mais elevado conceito do evangelho.
No «mistério» revelado, por conseguinte, não contemplamos o sentido que
as religiões gregas misteriosas davam a essa palavra, ou seja, um conjunto
de doutrinas esotéricas; mas antes, devemos compreender uma realidade da
existência humana, que é a completa glorificação dos homens que estão em
Cristo. Essa doutrina cristã, como é óbvio, é extremamente diferente dos
mistérios daqueles cultos antigos. E não nos devemos olvidar, neste ponto
de que o «amor cristão» é a vereda mais rápida que nos leva a essa
glorificação, conforme aprendemos no nono versículo deste mesmo
capítulo. Isso é que produz aquela transformação moral que, por sua vez,
provoca a transformação metafísica. É fruto do Espírito Santo, resultado
das suas operações no íntimo. Toda essa questão se reveste de um sentido
místico, divino, e não legalista ou cerimonial, porquanto nela é que se fala
sobre o contacto entre a alma humana e o Espírito de Deus. Eis a razão pela
qual devemos buscar ao Espírito Santo, bem como a concretização de sua
obra no íntimo. E nisso passamos a compartilhar da natureza de Cristo,
pois ele é o alvo mesmo de toda a existência.
Ora, sendo essa verdade, quão grande era a insensatez daqueles crentes
coríntios quando davam tão exagerada importância à sabedoria humana, a
qual é incapaz de salvar a alma, visto que essa sabedoria humana está
condenada a ser reduzida a nada. (Ver I Cor. 1:18,19,25,31 e 2:6).
Alguns comentadores bíblicos de tendências legalistas têm pensado que
este versículo dá apoio à sua noção de disciplina arcani, ou seja,
«ensinamentos ocultos», isto é, doutrinas conhecidas somente por
determinadas autoridades eclesiásticas. Mas era justamente desse modo
que os gnósticos se utilizavam de tal idéia, sendo o oposto daquilo que Paulo
queria ensinar aqui. Para nós, os remidos, tudo será finalmente um
«segredo desvendado», e não escondido; e isso certamente se aplica a todos
os crentes, e não meramente a alguns poucos indivíduos seletos.
32 I CORÍNTIOS
«E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho,
a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria
imagem, comt> pelo Senhor, o Espírito» (II Cor. 3:18).
fjv ούδείς τω ν αρχόντω ν
εστανρω σαν.
δόξη
αίωνος τούτον
8 Lk 23.34
εγνώσαν, ουκ αν τον κύριον της
2:8: α qual nenhum das príncipes deste mundo compreendeu; porque se o tivessem
compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glíria.
Alguma sabedoria divina, se existente nesses «...poderosos...», tê-los-ia
feito reconhecer a presença do Senhor da glória entre eles, personificada no
Senhor Jesus Cristo. Contudo, faltava-lhes inteiramente essa sabedoria; e,
por esse motivo, praticaram o pior crime da presente dispensação, a
crucificação do próprio Messias. Foram os sábios da terra, sobretudo as
autoridades religiosas da Palestina, que provocaram as agonias e a paixão
de Cristo. E porventura os cristãos, para detrimento do nome de Cristo e da
unidade da igreja cristã, haveriam novamente de buscar tal sabedoria, ao
invés de se contentarem com a superior mensagem da cruz? É incrível, mas
assim é que estava acontecendo na igreja cristã de Corinto. A sabedoria
mundana não havia impedido, mas antes, havia provocado o maior de todos
os crimes, e a ausência de sabedoria divina fez com que não houvesse
qualquer proteção para aqueles que caíram nesse hediondo pecado.
Poderia, pois, a igreja cristã inquirir por essa sabedoria mundana, ao
mesmo tempo que negligenciaria e até mesmo desprezaria a verdadeira e
celestial sabedoria? Nenhum crente «experimentado» ou maduro, embora
fraco, poderia fazer isso. Mas os cristãos infantis e carnais se inclinavam
por tão grande equívoco, chegando mesmo a ufanar-se de sua suposta
sabedoria superior.
John Masefield, em sua imaginária conversação entre Prócula, esposa de
Pilatos, e Longinus, o centurião que foi o chefe da guarda que esteve ao pé
da cruz, diz o seguinte:
—Pensas que ele está morto?
—Não, senhora, penso que não.
—Então onde ele estará?
—Solto no mundo, senhora, onde nem romanos e nem judeus podem
abafar-lhe a verdade. (Ver «The Trial of Jesus», Nova Iorque, The
Macmillan Co., 1925, pág. 111).
Acerca dessa verdade, que sobreviveu à crucificação de Cristo, e que os
apóstolos conheceram com tanta riqueza, especialmente nas revelações do
apóstolo Paulo, e, mais particularmente ainda, nos seus mistérios (ver Rom.
11:25), o mundo dos sábios desta terra nada soube; portanto, desses
homens só poderiam vir atos violentos e ilógicos. Ora, o apóstolo dos gentios
não queria que a igreja, e nem qualquer de seus membros imitassem tais
indivíduos. (Pode-se comparar a «ignorância» aqui mencionada com a
menção que Pedro fez, acerca da ignorância dos judeus, que cometeram
esse mesmo crime, em Atos 3:17,19).
O trecho de João 7:28 mostra-nos que, em certo sentido, as autoridades
religiosas dos judeus, que exigiram a crucificação de Jesus Cristo, não
ignoravam o que faziam. Portanto, para solucionar essa dificuldade,
Calvino (in loc.) supôs a existência de dois tipos de ignorância. Disse ele: «O
primeiro tipo se origina de um zelo sem consideração, que não rejeita
' expressamente o que é bom, mas que tem uma impressão que é má... juízo e
toda a inteligência, na mente dos homens, algumas vezes são abafados tão
eficazmente, que nada mais, senão a mais pura ignorância, é vista pelos
outros, ou mesmo pelo próprio indivíduo. Assim se encontrava Paulo, antes
de haver sido iluminado... contudo, ele não estava isento de hipocrisia e de
orgulho... A outra variedade de ignorância tem mais a aparência de
insanidade, de desarranjo mental, do que mesmo de mera ignorância. Pois
εγνω κεν, et γα ρ
τον κύριον τή ς δόξης ,Jas 2.1
àqueles que espontaneamente se levantam contra Deus, são indivíduos
tomados por um frenesi, os quais, apesar de olharem, não vêem, no dizer de
Mat. 13:13».
Foi este último tipo de ignorância, pois, que Paulo atribuiu aos «poderes»
ou autoridades que crucificaram a Jesus Cristo. Tais autoridades,
arrebatadas em seu ódio louco, não conheceratn ao «Senhor da glória».
Contudo, conheceram-no em certo sentido limitado; mas, devido ao seu zelo
cego, pensaram que a sua bondade infinita não passava de maldade. E isso
os enganou completamente, até que, gradualmente, sua mente se
descontrolou. Todavia, isso não os desculpa, conforme também as Sagradas
Escrituras deixam bem claro. Não obstante, se tivessem reconhecido a
sabedoria de Deus, bem como ao Senhor da glória como tal, jam ais
tê-lo-iam crucificado. (Quanto à «crucificação», ver as notas expositivas
sobre o trecho de Mat. 27:35).
«...Senhor da glória...» (Com isso podemos comparar os trechos de Sal.
29:1; Atos 7:2; Efé. 1:17 e Tia. 2:1). Cristb recebeu esse título pelos
seguintes motivos:
1. Por ser ele o Filho de Deus, o que significa que a glória de Deus lhe é
inerente. (Ver João 1:14).
2. Porque ele retornou à «glória», isto é, à presença de Deus Pai, após ter
completado com sucesso a sua missão terrena.
3. Porque como homem, sendo ele agora o Senhor dos homens, ele foi
glorificado, tendo recebido um nome que está acima de todo e qualquer
outro nome, no dizer de Fil. 2:10,11.
4. Porque ele é o modelo de todos os seres remidos e glorificados, bem
como o Senhor de todos quantos atingirão a glorificação. (Ver II Cor. 3:18 e
Rom. 8:29).
Apesar da deidade de Cristo ser uma idéia inerente a essa declaração
paulina, contudo, a ênfase recai sobre a grandeza do Filho de Deus
encarnado, o qual triunfou e assumiu sua legítima posição de autoridade,
nos lugares celestiais, como cabeça da criação inteira. (Ver Efé. 1:10 e ss.).
Em face de sua obediência e do cumprimento cabal de sua missão, como
homem, é que Jesus Cristo é agora, legitimamente, o alvo de toda a
existência humana, bem como o Senhor absoluto dessa existência.
«O genitivo é aqui qualificativo; mas a força atributiva é aqui fortemente
enfática, fazendo o contraste entre as indignidades da cruz (ver Heb. 12:2) e
a majestade da Vítima (ver Luc. 22:69 e 23:43)». (Robertson e Plummer, in
° ' X expressão, «Senhor da glória» não é sinônimo da expressão «glorioso
Senhor»; pelo contrário, é análoga à expressão «Pai da glória» (ver Efé.
1:17), ou aquela outra, «Deus da glória» (ver Atos 7:2). Por conseguinte,
Cristo aqui aparece como «Senhor e possuidor de toda a glória divina e
celestial».
O vocábulo glória é um termo que se aplica aos seguintes aspectos da
verdade:
1. A presença de Deus.
2. A natureza e atributos de Deus.
3. A glória que Deus confere a outros.
Ora, Cristo Jesus participa plenamente de todos esses aspectos da
«glória». Mas, para nós, ele participa dos mesmos por causa de seu triunfo,
em sua missão terrena, como também devido ao cumprimento presente de
sua missão celestial. A nós foi prometida a mesma glorificação.
9 άλλα καθώ ς γ έ γ ρ α π τα ι, "A οφθαλμός ούκ είδεν καί οΰς ούκ ήκουσεν καί εττι καρόίαν άνθρω πον ουκ άνεβη,
a, T jT o if-L a U eV 6 Oeòs το ΐς άγαττώ σιν α ν τά ν .α αα 9-10 a major, a minor: T
KAV RV ASV Zür Luth // a minor, a major: RSV NEB // a major,
o major: Seg H a major with different text, a minor: WÊ Bov Nes BF2 RVme ASVme (TT) Jer 9 ' Α ...ήκονσ€Ρ...αυτόν Is 64.4; 52.15 ro ts ά γ α π ώ σ ιv αυτόν Sir 1.10
2:9: As coisas quê olhos não viram,
nem ouvidos ouviram,
nem penetraram o coração do homem,
são as que Deus preparou para os que o amam.
(Quanto ao significado e ao uso da expressão «está escrito», ver as notas
expositivas em I Cor. 1:19). Não se sabe ao certo de que porção das
Escrituras foi extraída essa citação. Origenes pensava que Paulo fez uma
citação do livro apócrifo Apocalipse de Elias; e Jerônimo a atribuía ao livro
apócrifo Ascensão delsaías. Porém, parece que essas obras vieram a existir
muito depois de Paulo, o que significa que ele não pode tê-las usado nessa
citação. Mas Clemente de Alexandria declarou que pensava que Paulo
fizera tal citação do trecho de Isa. 64:4, de acordo com a Septuaginta. O
mais provável é que Paulo tenha combinado e citado livremente trechos
bíblicos como Isa. 64:4; 65:17 e 52:15, de conformidade com seus
propósitos, algo que ele já fizera no tocante ao trecho de Rom. 3:10-18.
(Quanto à maneira como Paulo citava trechos bíblicos, adaptando-os
segundo os seus propósitos do momento, ver o trecho de Rom. 10:6, onde a
questão é exposta e ilustrada).
O original hebraico de Isa. 64:4, agora vertido para o português, declara:
«Desde antigamente os homens não têm ouvido, nem têm percebido com os
ouvidos, nem o olho tem visto um Deus além de Ti, que opera gloriosamente
em favor daquele que espera em Ti». E a tradução da Septuaginta (tradução
do original hebraico do A.T. para o grego, completada cerca de duzentos
anos antes da era cristã) diz: «Desde os dias antigos não temos ouvido, nem
nossos olhos têm visto Deus além de Ti, nem as tuas obras, que farás por
aqueles que esperam pela tua misericórdia».
Isso deixa claro que a glória que será proporcionada aos remidos, e o
apóstolo Paulo ainda se demorava sobre esse tema, tendo acabado de
mencionar a glória do Senhor, virá da parte de Deus, que é a fonte
originária da mesma, embora por intermédio de Cristo. Combinando essa
declaração com o que diz o versículo anterior, podemos compreender que
essa glória deve ser dispensada por meio de Jesus Cristo; e isso, por sua vez,
e confirmado no trecho de II Cor. 3:18, bem como na longa passagem que
versa sobre o mesmo assunto, que é o oitavo capítulo da epístola aos
Romanos.
O olho e o ouvido são mencionados por serem esses os veículos de
comunicação para a consciência do ser humano. Assim, pois, nenhuma
percepção física tem podido jamais revelar a grandiosidade da glorificação
dos remidos em Cristo. Nenhuma percepção física ou busca intuitiva tem
conseguido tal prodígio. Somente a revelação pode fazer isso (ver o décimo
versículo deste capítulo), porquanto os mistérios de Deus nos são dados
mediante revelação, e não através do esforço humano de qualquer
categoria. A riqueza da nossa herança em Cristo excede a todos os sentidos
e pensamentos humanos; a intuição pode apreendê-la mui nebulosamente;
e só pode vir a ser compreendida, na extensão possível para o entendimento
humano, através do Espírito de Deus.
«...coração.. ,»Essa palavra indicaohomem interior, queé mais do que o
intelecto e as emoções, porquanto envolve a alma, o homem essencial.
Nenhum ser humano tem podido compreender, em sua própria alma, qual é
o seu destino, porquanto ninguém pode pôr cinqüenta litros de líquido em
um vaso de um litro somente, e todas as tentativas de cálculo serão
perfeitamente vãs. Deus, porém, nos revela os seus mistérios por meio do
I CORÍNTIOS 33
seu Santo Espírito, e o homem é fortalecido no íntimo a fim de poder
entender, áinda que parcialmente, essa revelação divina.
Podemos notar, no trecho de Efé. 1:15 e ss., que Paulo orava para que os
crentes fossem «iluminados», através dos «olhos da alma», a fim de poderem
reconhecer as riquezas da glória da herança que possuímos em Cristo.
As Coisas Que Nos Foram Dadas
1. Quais são aquelas coisas que Deus «tem preparado» para nós (ver o vs.
9), e que nos são reveladas pelo Espírito (ver o vs. 10)? Tudo aquilo que está
envolvido na salvação, o que é o bem-estar final do homem.
2. Realidades tão elevadas só podem ser conhecidas por meio da
revelação divina (ver o vs. 10), ou sejà, por meio da iluminação espiritual
(ver Efé. 1:15 e ss.). A sabedoria humana nãò pode produzir qualquer coisa
parecida com essa revelação.
3. Visto que nossa salvação é uma realidade revelada, permanecem ainda
muitos mistérios que ainda teremos de aprender algum dia. Aquilo de que
já conhecemos, entretanto, é imenso. Na salvação (ver notas a respeito em
-Heb. 2:3), os homens chegam a participar da imagem e natureza de Cristo
(ver Rom. 8:29), de sua plenitude (ver Col. 2:10), da plenitude do Pai (o que
envolve sua natureza e seus atributos, ver Efé. 3:19), e o progresso na
redenção, que nos vai levando de um estágio de glória a outro, através do
poder do Espírito Santo (ver II Cor. 3:18).
«...aqueles que o amam...»
A Natureza Do Amor
1. O N.T. apresenta o amor como uma propriedade comum da família
divina (ver notas em João 14:21 e 15:10). Portanto, o amor é a fonte
originária de todo o bem-estar no seio daquela família. A própria salvação
consiste de filiação, pelo que está alicerçada sobre um relacionamento de
amor. A providência de Deus, que conduz os homens a Cristo e guia às suas
vidas, também está baseada sobre o amor (ver as notas sobre a «providência
' divina» em João 7:6; 11:4 e Atos 7:9,10).
2. O amor é um dos aspectos do fruto do Espírito, cultivo seu (ver Gál.
5:22). Todo o amor genuíno existente neste mundo, entre os crentes ou
entre os incrédulos, se origina daquela fonte divina.
3. O amor serve de prova da espiritualidade, e tem sua origem no novo
nascimento (ver I João 4:7,8).
4. A princípio, amamos a Deus quando amamos ao próximo (ver Mat.
25:35ess.), sendo essa a forma mais básica de nosso amor a Deus, aquela
forma a que podemos chegar antes mesmo de atingirmos um imenso
desenvolvimento espiritual. O trecho de Tia. 2:15 e ss. enfatiza isso.
5. Também amamos ao Filho de Deus, o qual tomou sobre si mesmo a
nossa natureza humana. Quando nossas almas chegarem àquele nível,
então nosso amor será mais místico, mais profundo, mais puro. Isso
também se dará por cultivo do Espírito, o que se vê em II Cor. 5:14.
6. Mediante o assentimento da alma, um crente pode chegar a amar a
Deus (à pessoa de Deus) diretamente. Essa é uma elevada forma de
espiritualidade, sendo produto de grande desenvolvimento espiritual. Para
a maioria dos homens, Deus é apenas um conceito abstrato, impossível de
ser amado em qualquer sentido mais verdadeiro.
Existem dois fatores importantes no amor a Deus. O primeiro é o amor a
Jesus Cristo. É muito mais fácil amarmos a Cristo, por ser ele o nosso
Salvador, e porque ele é um homem, tendo assumido a natureza humana; e
assim, embora nunca o tenhamos visto com òs olhos físicos, ainda
podemos amá-lo devido ao seu gracioso serviço em nosso favor. Más amar a
Cristo é amar a Deus Pai. Em segundo lugar, o vigésimo quinto capítulo do
evangelho de Mateus deixa claro que amar a Cristo e a Deus Pai é amar
também aos nossos -semelhantes; por conseguinte, se verdadeiramente
amamos aos outros seres humanos, na economia divina isso eqüivale áo
amor a Deus, sendo divinamente reconhecido como tal. Ora, todos nós
podemos atingir essa forma de amor, o que significa que o amor dirigido
diretamente a Deus pode ser obtido mediante a operação do Espirito Santo,
em nosso íntimo, porquanto o Espírito de Deus, em última anàüse, é a fonte
originária de todo o amor de cunho espiritual. Aquele que se encontra em
estado de bem-estar, espiritualmente falando, percebe que lhe é possível
amar, tanto a Deus como ao próximo, da mesma maneira que percebe ser
possível manifestar os demais aspectos do fruto do Espírito Santo. (Com o
presente versículo pode-se comparar o trecho de Rom. 8:28, onde somos
informados que todas as coisas contribuem juntamente para o nosso bem,
contanto que amemos a Deus; e o resultado final dessa concorrência ,de
todas,as coisas para o nosso bem é a glorificação final. Por essa razão é que
o texto do oitavo capítulo da epístola aos Romanos é diretamente paralelo
deste segundo capítulo da primeira epístola aos Coríntios). (Ver também as
seguintes notas expositivas sobre o «amor», onde também oferecemos
poesias ilustrativas: Quanto ao «amor como princípio orientador na família
de Deus, ver João 14:21 e 15:10; quanto ao «auto-sacrifício», como elevado
princípio moral, ver João 12:24,25; quanto à «providência de Deus», que
põe em ordem nosso presente e nosso futuro, fazendo todas as coisas
cooperarem juntamente para nosso bem, ver João 7:6; 11:4; Atos 7:9,10;
10:19; 16:10; 25:4; 27:25 e a totalidade do décimo terceiro capítulo desta
primeira epístola aos Coríntios).
O amor é a estrada mais rápida de retomo a Deus. Em outras palavras, o
amor é aquela qualidade moral e espiritual que nos leva de volta a Deus
mais prontamente que qualquer outra coisa. O amor cristão é superior a
todos os dons e poderes espirituais, conforme Paulo deixa bem claro no
trecho de I Cor. 12:31 -13. Bastaria esse fato para demonstrar a vastíssima
importância daquela virtude espiritual à qual denominamos de «amor».
Também é esse o principal atributo de Deus, porque «Deus é amor», no
dizer de I João 4:16. Além disso, aquele que ama habita em Deus, e Deus
nele habita (ver I João 4:16). Outrossim, o amor consiste no fato de que
Deus nos amou e deu o seu próprio Filho como «propiciação» pelos nossos
pecados. (Ver I João 4:10). Aquele que verdadeiramente ama é «nascido de
Deus, e conhece a Deus» (I João 4:7). Também não nos devemos olvidar que
o amor é aperfeiçoado por intermédio da comunhão ou intimidade mística
com Deus, conforme aprendemos em I João 4:17. «Nós amamos porque ele
nos amou primeiro» (I João 4:19). Nenhum homem pode amar a Deus,
ao mesmo tempo que odeia a seu semelhante, segundo lemos em I João
4:20.
Este versículo, portanto, pode e deve ter aplicações presentes. Agora é
que somos abençoados com os dons do Espírito Santo, bem como com a
regeneração e a fé. Essas bênçãos visam ao nosso presente benefício
espiritual, mas a bênção maior da glorificação está mais especificamente em
foco neste versículo, sendo também a sua interpretação primária.
Este versículo era erroneamente usado pelos antigos gnósticos como
prova de seu conhecimento esotérico, oculto e místico, o qual,
supostamente, era conhecido apenas por alguns poucos iniciados.
Infelizmente, nos tempos modernos, este versículo continua sendo usado
sem qualquer conexão com o versículo seguinte, o qual ensina que o
mistério concernente à nossa glorificação é um «segredo revelado», e não
mais fechado. Naturalmente, o próprio fato de que se trata de um mistério,
de uma doutrina «divina», mostra-nos que nosso conhecimento, até mesmo
dos fatos revelados, é parcial, porquanto nenhum pensamento divino pode
ser totalmente apreendido pelo homem.
10 ημΐν 8è3 άπεκάλυφεν 6 θεός διά τον πνεύματος'α το γαρ πνεύμα πάντα εραυνά, και τα βάθη τον θεοΰ.
1 10 {C{ Sé Ν A C D G Ρ Ψ 33 81 104 330 436 451 614 629 630 1241 1881
1962 1984 1985 2495 B yz i f · vg syrP.n COpbo-·· arm et],
Origenerlat A m brosiaster H ilary A thanasius Apollinaris D idym user-lat
M acarius Epiphanius Chrysostom Pelagius Theodoret John-D am ascus H
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Basil E uthalius A ntiochus // omit Lect copb°m‘
10 ή μ 7 ν...π νεύμ α το ς M t 13.11 Πνεύμαt o s ]add αυτου D G 6ç iço8 pi latt 8γ ς
Ο uso frouxo do conectivo δέ (N A C D G P 33 81.614 Byz al) concorda bem como a maneira de Paulo, ao passo que
y áp, embora fortemente apoiada por P (46) B 1739 Clemente al, parece seruma melhoria introduzida por copistas.
O Textus Receptus, seguindo KCD P G L quase todos os minúsculos Latim Antigo vg sir (p,h) cop (sa) ara eá al, adiciona a
palavra explicativa αύτου. A comissão preferiu a forma mais antiga e mais breve, apoiada por P (46,vid) — - N* A B C 33
(vid) 1611 cop (bo) Clemente Cirilo Basílio al.
2:10: Porque Deus no-la» revelou pelo «eu Espírito; pois o Espirito esquadrinha todas
as coisas, mesmo as profundezas de Deus.
Ilumnação espiritual. A palavra «...no-lo...» se refere «àquilo que Deus
preparou para nós», ou seja, as «coisas» que Deus preparou para nós. Não
aparece no original grego, embora fique subentendido, com base no
versículo anterior. Nesse versículo aparece como palavra plural, um
pronome neutro, que poderia ser traduzida como «coisas». Contudo, pode
também ser traduzida como um indefinido singular, como «aquilo que»,
sem desvio nenhum de sentido. E as «coisas» assim subentendidas são todas
aquelas «bênçãos» espirituais relacionadas com a nossa glorificação, a
salvação geral que nos é propiciada em Jesus Cristo.
Todas essas coisas, ou então essa coisa, encarada coletivamente, nos tem
sido revelada. Antes tudo isso estava oculto, como segredo de Deus, como
mistério de sua vontade. (Ver Efé. 1:10 e o sétimo versículo deste capítulo).
Porém, desde o advento de Cristo e das revelações feitas por meio de seus
apóstolos, e especialmente de Paulo, o segredo agora nos tem sido revelado.
Natureza Da Iluminação Espiritual
1. Essa iluminação não nos é dada pela percepção dos sentidos, que os
homens possuem em comum com os animais.
2. Ela pode residir em parte na «intuição» natural (a qual o homem possui
por ser um espírito) e na intuição sobrenatural (o discernimento conferido
pelo Espírito).
3. Mais particularmente, é obra do Espírito. (Ver Efé. 1:15 e ss.). Os
mistérios de Deus não podem ser conhecidos através dos sentidos, da razão
ou da intuição humanos. Chegam a nós por meio da revelação diviná.
4. A iluminação espiritual pode mesmo ser embaçada pela sabedoria
humana. Eis por que Paulo fazia objeção ao evangelho deturpado pelos
crentes filosóficos de Corinto.
5 .0 homem possui um espírito, o qual pode ser iluminado, pois o espírito
humano é o homem essencial, sujeito às revelações do Espírito (ver os vss.
l i e ss.). A iluminação se verifica do Espírito Santo para o espírito humano.
Existe certa afinidade entre o Espírito Santo e o espírito humano, que a
queda no pecado não conseguiu anular, e que a regeneração renova. Nós, os
crentes, temos a mente de Cristo (ver I Cor. 2:16).
34 I CORÍNTIOS
Não obstante, esse entendimento místico pode determinar o curso inteiro
da?vida de uma pessoa, pois o crente reconhece intuitivamente que isso
ccinsfitui o significado verdadeiro da existência, como alvo e destino do
homem. Então entende o crente que ainda que porventura tivesse de viver
por mil vezes, não daria nenhuma dessas vidas ao mundo, mas antes, todas
pertenceriam ao Senhor. Com base nessa compreensão intuitiva é que
aparece a dedicação do crente a Jesus Cristo, bem como seu amor a Cristo e
a Deus Pai, bem como aos seus semelhantes humanos. E isso porque o
crente é um tipo diferente de criatura, uma criatura que está sendo
transformada segundo a imagem de Cristo Jesus.
Que essa revelação divina é mística é comprovado pelo fato que envolve
até mesmo as coisas profundas de Deus; e isso seria impossível para o mero
processo intelectual. Mediante a simples erudição intelectual é impossível a
alguém chegar a conhecer essas profundezas. Ninguém pode chegar a
conhecê-las somente porque «estuda a Bíblia», ainda que esse exercício
tenha sua utilidade indiscutível. Pois basta que retiremos o Espírito Santo
de toda essa questão, e até mesmo os crentes estariam sem iluminação.
Talvez esse seja um dos motivos por que, na moderna igreja evangélica, o
verdadeiro evangelho, que inclui a transformação do crente segundo a
imagem de Cristo, é tão superficialmente conhecido que chega a ser quase
ignorado. Podemos compreender intelectualmente no que consiste o
«perdão» dos pecados. Também podemos entender intelectualmente o que
significa «mudar-se para outro mundo», a saber, para os lugares celestiais.
Porém, assumir alguém a natureza de Cristo se tomam palavras vazias, até
que o Espírito Santo as torna reais para nós. O Espírito Santo, no
momento, está formando Cristo em nós, e a nossa natureza está atualmente
sendo transformada; mas aquele alcance infinito para o qual o processo
presente aponta só pode ser compreendido e tomado real pára a alma, no
nível da alma, mediante a comunhão com o Espírito de Deus.
«...no-lo...» O «nós» é aqui enfático, em contraste com os «governantes
deste século», os quais nada sabem acerca dessas coisas. Paulo dava
prosseguimento à sua polêmica contra as divisões surgidas na igreja de
Corinto, por causa da «sabedoria humana». Ele já havia mostrado que
somente os «experimentados» (os crentes maduros) são verdadeiramente
iluminados acerca da «sabedoria» de Deus (ver o sexto versículo deste
mesmo capítulo); como também já havia mostrado que os crentes carnais,
que imitam os homens do mundo, em sua busca pela mera sabedoria
humana, dificilmente são donos de uma profunda compreensão acerca da
sabedoria divina. O remédio para essa carnalidade, pois, consiste em
esquecer a sabedorià humana, e buscar a sabedoria celeste, como alvo
primário. E isso se concretiza através da iluminação dada pelo Espírito
Santo, e certamente não através de qualquer modalidade da sabedoria
humana.
«...revelou...» No original grego, o tempo aoristo em que foi vazado este
vocábulo aponta para algum momento definido em que nos foi feita essa
11 τις γάρ oiSev ανθρώπων τα. τον άνθρωπον el μ,ή το πνβνμα τον άνθρωπον το iv αντω ; οντu>s και τα
τοΰ θξον ούδίΐς έ'γνωκ€ν et μη το π νΐΰμ α τον θΐοΰ. ιι τκ.,.αύτώ ρΓ20
.2
7
11 του άνθρωπον 2o] om Gm bo Eus Ambr
revelação. Naturalmente, esse momento foi quando Cristo entrou no palco
da existênciaTiumana. Contudo, essa revelação tem e terá prosseguimento
em Cristo, conforme também somos informados em Efé. 1:18, onde
encontramos as palavras «iluminados os olhos do vosso coração», que dizem
respeito ao presente processo de iluminação, sobretudo se considerarmos
essa declaração no original grego, cuja tradução mais correta seria «estando
sendo iluminados», etc. Que esse processo é presente fica demonstrado
também pela palavra «...perscruta...», que figura no versículo que ora
comentamos. Em outras palavras, o Espírito de Deus «está perscrutando» as
coisas profundas de Deus, e essas coisas são aquelas que ele revela aos
crentes gradativamente.
Portanto, no dizer de Findlay (in loc.): «O Espírito Santo é o órgão do
entendimento entre o homem e Deus».
«O ponto frisado por Paulo é simplesmente que o Espírito Santo
compreende perfeitamente a profundidade da natureza de Deus, e assim
também seus planos graciosos, tornando-se assim totalmente competente
para fazer aquela revelação aqui referida». (Robertson, in loc.).
«...perscruta...» Não perscruta a fim de descobrir; mas está em foco a
sondagem das profundezas de Deus, pelo Espírito Santo, em uma atividade
contínua, exata e cuidadosa». (Vincent, in loc.).
«Isso indica nâo ignorância, e, sim, um conhecimento exato, bem como o
deleite na contemplação (ver Apo. 2:23). Com isso se pode confrontar a
idéia das profundezas de Satanás (ver Apo. 2:24)». (Faucett, in loc.).
«...aqui é declarado um discernimento profundo, em virtude de sua
possessão do Espírito Santo, por parte do escritor do livro Sabedoria de
Salomão, sétimo capítulo...»(Findlay, in loc.). E a idéia aqui expressa pelo
apóstolo Paulo nâo está longe do que diz Findlay nesta citação.
«...asprofundezas...» O «espírito do homem» conhece as «profundezas do
homem», porquanto é capaz disso. Mas o Espírito de Deus é quem conhece
e revela as «profundezas» de Deus, pois somente ele pode fazer tal coisa.
(Ver o versículo seguinte).
Somente o Espírito Santo é capaz de conferir o conhecimento sobre as
profundas verdades de Deus; e isso ele fará para a alma honesta, que espera
no Senhor. Sem o Espírito Santo, porém, essas profundezas não podem ser
exploradas. Essa linguagem simbólica evidentemente é tomada por
empréstimo das coisas do mar, cujas profundezas são supostamente
insondáveis, desconhecidas para o homem-, (Ver Sal. 36:7; 92:6 e Jó 11:8).
Acerca dessas «profundezas», diz Meyer (in loc.): «Está aqui em foco toda
a abundante plenitude que Deus possui em si mesmo, tudo quanto
contribui para formar o seu ser, os seus atributos, os seus pensamentos, os
seus planos e os seus decretos». Naturalmente, esses planos e decretos
incluem o esquema inteiro da redenção humana, conforme se vê no nono
versículo deste capítulo. (Quanto às «profundezas de Deus», ver as notas
expositivas acerca de Rom. 11:33).
2:11: Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão 0espirito do homem
que nele está? assim também as coisas do Deus, ninguém as compreendeu, senão 0
Espirito de Deus.
A primeira menção da palavra «...espirito...» deve ser gravada em letra
inicial minúscula, embora no original grego não houvesse diferenciação
entre letras maiúsculas e minúsculas, porquanto está aqui em vista o
espírito humano. A palavra «...Espírito...», que aparece em seguida, é um
artifício modemo de impressão, para indicar o Espírito Santo de Deus.
Algumas vezes é simplesmente impossível saber-se com certeza se está em
foco, em uma dada passagem neotestanientária, o espírito humano ou o
Espírito de Deus. Nem mesmo a presença ou a ausência do artigo definido,
no original grego, serve de grande valia nesse caso. No presente versículo,
entretanto, não aparece esse problema, porquanto o espírito do homem é
aqui contrastado com o Espírito Santo, pois o qualificativo, «...de Deus...»,
deixa isso claro, já que isso não pode dar a entender o espírito humano. .
O «espírito» é a porção imaterial do homem, a alma, que representa o
homem essencial, a verdadeira personalidade do indivíduo. O que Paulo
provavelmente desejava dizer é que, mediante o processo intuitivo, através
da comunicação com a alma, um homem pode vir a conhecer as
profundezas do seu próprio ser. O pleno conhecimento dessa realidade é
uma espécie de processo místico, e não um mero funcionamento intelectual.
Não obstante, Paulo declara que esse processo é possível, embora não seja
usual na experiência da grande maioria dos homens. Seja como for, se um
indivíduo tiver de conhecer as profundezas de seu próprio ser, a verdadeira
natureza de sua pessoa, isso só poderá ocorrer dentro do nível do «espírito»
de ser ser, e não meramente dentro dos níveis intelectual ou emocional.
O argumento, pois, é perfeitamente claro, as «
profundezas» de Deus só
podem ser conhecidas através do Espírito de Deus, porque somente ele é
capaz de penetrar no ser de Deus e compreendê-lo. Por conseguinte, o
Espírito Santo é o agente da revelação de qualquer coisa que sabemos
concernente a Deus, sem importar se pensarmos em sua pessoa, em seus
decretos ou em suas obras, pois isso necessariamente inclui tudo quanto é
inerente ao plano universal da redenção humana. Se tivermos de
compreender a glorificação dos remidos, na pessoa de Cristo, segundo a sua
imagem, á participação em tudo quanto ele tem e é, somente o Espírito
Santo pode transm itir a nós tal conhecimento. Esse tema ten} sido
abundantemente comentado nas notas expositivas sobre o versículo
anterior. Neste ponto Paulo tão-somente confirma o que ele disse ali,
mediante a adição dos pensamentos que encontramos neste versículo.
Além disso, Paulo havia de mostrar logo em seguida, no décimo segundo
versículo deste capítulo, que essas palavras se aplicavam igualmente à sua
polêmica contra as divisões provocadas pela busca da sabedoria humana na
igreja dos coríntios.” Ficamos sabendo o que devemos saber acerca das
realidades espirituais mediante essa revelação divina do Espírito Santo, e
não mediante 0 estudo acadêmico, porquanto esse estudo pode ser
destrutivo, e não benéfico. Infelizmente, porém, muitos dos crentes de
Corinto eram «carnais» (ver I Cor. 3:1), não buscando a verdadeira
sabedoria e não estando primariamente interessados pela iluminação do
Espírito; antes, buscavam a sabedoria do mundo, que glorifica ao homem.
Do Espírito Para O Espirito
1. Posto que a iluminação procede do Espírito Santo para o espírito
humano, é impossível obtê-la através da sabedoria humana. Paulo
prossegue em seu ataque contra o partido intelectualizado de Corinto, que
substituíra o evangelho por uma mensagem alicerçada sobre a sabedoria
humana, e não sobre a revelação divina.
2. Os filósofos emprestavam excessiva importância à capacidade de
raciocinar que o ser humano possui, e pensavam que elevadas verdades
podiam ser atingidas por esse meio. Paulo, porém, insistia sobre a
necessidade da iluminação através do Espírito Santo, se qualquer sabedoria
autêntica tiver de ser alcançada.
3. Paulo dava apoio às reivindicações dos místicos: Deus existe e pode
revelar-se ao homem, em sua sabedoria divina. A definição básica do
misticismo é que se trata de um contacto genuíno com o sobrenatural,
contacto esse que transcende à percepção dos sentidos, à razão e à intuição,
apesar de poder operar através da intuição.
4. Mui naturalmente, o homem é autoconsciente. Através da influência
exercida pelo Espírito, pode tomar consciência de Deus. Por meio da
iluminação é que chegamos a saber algo a respeito de Deus, de suas obras e
de seus desígnios para conosco e o gênero humano.
«Ele(Paulo)... faz uma tremenda reivindicação nesta passagem. Quando
da outorga do Espírito Santo, os homens recebem nada menos que a
autoconsciência de Deus. Portanto, tornam-se capazes de compreender sua
sabedoria secreta». (C.T. Craig, in loc.). (Quanto a notas expositivas
completas sobre o «Espírito Santo», ver o trecho de Rom. 8:1; quanto à
«trindade», ver I João 5:7. Quanto a outras notas expositivas sobre a
«iluminação conferida por Deus», ver Efé. 1:18. Quanto áo vocábulo grego
«pneuma», que designa/í) espírito humano, ver os trechos de I Cor. 5:5;
7:34; II Cor. 7:1; I Tes. 5:23 e I Ped. 3:19).
I CORÍNTIOS 35
Paulo separou aqui, naturalmente, o espírito do corpo. E assim sendo,
apegava-se à doutrina da existência de uma parte imaterial no homem. O
«espírito» se encontra «no» homem. (Quanto a maiores esclarecimentos
sobre «a alma e a sua imortalidade», ver o artigo que há na introdução ao
comentário e que versa sobre esse assunto, onde vários artigos são
apresentados, alguns deles de autoria de pessoas famosas. Consultar
também o trecho de i Cor. 15:1-10, a passagem paulina central acerca da
«imortalidade». Há versículos desse citado capítulo que sumariam as
«provas da existência da. alma e de sua sobrevivência»).
12 ημεΐς δε ου το πνεύμα τοΰ κόσμον ελάβομεν αλλά το πνεύμα το εκ τον θεοΰ, ϊνα είδώμεν τα νπό
T O V θ ε ο ν ^ α ρ ί ο θ ε ν τ α η μ ΐ ν 12 το πνβυμα το ν ...ή μ ϊν Jn 16.13—
14 12 etScu/iev] ίδα>μ€ΐ>p46D °G °p m
Influenciados por expressão similar no vs. 6 (του αίωι>os τούτου) çopistas adicionaram o demonstrativo, produzindo
roD κόσμου τούτου (D E F G it (d,g,r) cop (sa,mss)). O texto mais breve é decisivamente apoiado por p4
6 K A B C L P
todos os minúsculos (vid) vg sir (p) al.
2:12: Ora, nós não temos recebido o espirito do mundo, mas sim o Espirito que
provém de Deus, a fim de compreendermos as coisas que nos foram dadas
gratuitamente por Deus;
A palavra «...espírito...» (no grego, «pneuma»), indica aqui as
disposições, a sabedoria do mundo. Paulo fez a vinculação entre esse
«espírito» e a sua discussão inteira acerca da sabedoria humana e mundana.
(Ver I Cor. 1:19,21 e 2:1,4-6). Mas essa expressão tem recebido certa
variedade de interpretações, conforme a lista abaixo:
1. Alguns pensam que as palavras o espírito do mundo significam o
sistema organizado da maldade, que possui seus próprios princípios e leis.
(Comparar com Efé. 2:2; 6:11; João 12:31; I João 4:3; 5:19 e II Cor. 4:4). A
palavra grega «kosmos» é usada aqui a fim de indicar o sistema do mundo,
que se compõe da comunidade dos homens. (Quanto aos diversos vocábulos
gregos traduzidos por «mundo», nas páginas do N.T., incluindo
informações sobre os vários sentidos da palavra grega «kosmos», ver as
notas expositivas referentes a João 1:10). O «mundo» (no grego, «kosmos»),
nãp é mau por si mesmo; mas, com freqüência, nas páginas do N.T., essa
palavra tem um mau sentido. Então aparece como algo humano e até
mesmo satânico, porquanto pode ser controlado pelas forças das trevas. Por
isso mesmo, o «mundo» jamais é considerado como «divino», em qualquer
sentido. Nem sempre é reputado na Bíblia como algo inerentemente
perverso, ainda que com freqüência seja concebido como algo «controlado»
pelo mal.
2. Outros estudiosos pensam que a palavra «espírito», nessa expressão,
pode significar temperamento ou «disposição». Assim sendo, estaria aqui
em foco a «disposição do mundo», ordinariamente alienada de Deus, e
sempre alienada do Senhor, à parte da regeneração. Essa interpretação faz
com que essa expressão se torne virtual sinônimo da expressão «sabedoria
do mundo», que Paulo usara um pouco antes.
3. Não obstante, essa expressão, «espírito do mundo», não pode ser
compreendida em qualquer sentido pessoal, como se estivesse em vista
algum «espírito maligno», algum «demônio», ou o espírito do próprio
Satanás. Esse termo é impessoal, referindo-se a um sistema, a uma
disposição do mundo, e não a alguma entidade viva. A primeira e a segunda
dessas três interpretações, pois, incluem elementos recomendáveis, e talvez
ambas estejam inclusas na declaração geral que Paulo faz neste ponto.
Dentro do argumento de Paulo, tudo isso significa que, por intermédio do.
Espírito Santo, temos o que temos e sabemos o que sabemos. E disso é que
deve consistir a nossa «espiritualidade» e a nossa «ufania». Na igreja cristã
de Corinto, entretanto, vários indivíduos exaltavam a sabedoria mundana,
estando realmente possuídos pelo espírito dessa sabedoria mundana; e por
essa causa exata é que provocaram divisões e dissensões em sua igreja. Isso
serviu para mostrar que eles eram crentes carnais, e não eram,
verdadeiramente, a elite espiritual daquela comunidade cristã, embora
assim se julgassem. Portanto, tais indivíduos não deveriam ser seguidos
como líderes pelos outros crentes.
Espera-se de nós, Os crentes, que reconheçamos a «graça» de Deus, e que
reconheçamos como essa graça nos deu tanto e tão gratuitamente. Contudo,
a graça divina só pode vir a ser reconhecida através da revelação dada pelo
Espírito Santo, e não através da sabedoria carnal e humana, aquela
sabedoria que era enfatizada por alguns crentes carnais de Corinto.
«O espírito do homem respira nos homens que fazem parte do mundo; o
Espírito de Deus procede de Deus, e nos visita proveniente de outra esfera,
trazendo o conhecimento de coisas distantes de nossa apreensão natural».
(Findlay, in loc.).
As Coisas Dadas E Reveladas
Aquilo que temos, foi recebido por meio da graça divina
1. No vs. 9, sob o título «As coisas que nos foram dadas», temos indicado
o que Paulo pretendia dizer aqui.
2. Neste ponto é ressaltado o dom da graça divina, isto é, sabemos dessas
coisas atinentes à nossa salvação, e participamos delas, por meio da graça
divina. São realidades elevadas demais para serem obtidas através da
sabedoria ou das obras humanas.
3. Cristo é a sabedoria de Deus personificada (ver I Cor. 1:30), e através
dele recebemos essas dádivas. (Ver notas completas sobre a.graça, em Efé.
2:8).
«...'coisas... dadas gratuitamente...’ Essas coisas são aquelas mesmas
aludidas no nono versículo, como algo que foi ‘preparado’ para nós.
(Comparar com I Cor. 1:30; Rom. 8:24; 6:23; Efé. 2:8-9)... dons da graça
gratuita». (Kling, in loc.).
13 ά και λαλοΰμεν ούκ εν διδακτοί? ανθρώπινης σοφίας λόγοις άλλ’ εν διδακτοί? πνεύματος,
πνενματικοΐς πνενματίκα σνγκρινοντες. i3 iCor2.4 13Ίτν^νματικοις']-k(o
s Β 33
concretizaram em forma escrita, em nosso Novo Testamento.
2:13: as quais tambémfalamos, não compalavras ensinadas pela sabedoria Humana,
mas com palavras ensinadas pelo Espírito Santo, comparando coisas espirituais com
espirituais.
A palavra «...falam os...» se refere àquilo que dizemos no tocante a
diversas questões espirituais, como o evangelho, a glorificação dos remidos
em Cristo e a iluminação espiritual necessária, que nos é conferida pelo
Espírito Santo, e não pelo mundo. Também falamos do fato que aquilo que
possuímos procede do Espírito de Deus e não do murçdo. E disso consiste o
argumento inteiro deste texto, porquanto, para Paulo, todas essas
realidades nos são outorgadas pelo Espírito, com base em princípios
totalmente espirituais, e jamais através da sabedoria humana, como se
pudéssemos comparar coisas espirituais com terrenas. Paulo, por
conseguinte, reivindicava possuir 0 discernimento divino para compreender
todo esse vasto problema. Todavia, não falava com base apenas em sua
própria sabedoria, com o intuito de expor uma apologia contra a facção
intelectual da igreja de Corinto. Aquilo que ele dizia é a verdade, e essa
verdade nos é desvendada por intermédio do Espírito Santo de Deus.
«...sabedoria humana...» (Quanto a notas expositivas completas sobre
esse assunto, que é um dos temas centrais de toda esta secção da primeira
epístola aos Coríntios, ver os trechos de I Cor. 1:18,19,21 e 2:1,4-6).
Tudo quanto Paulo havia dito com referência ao destino dos crentes e seu
privilégio em Cristo, bem como com referência à facção intelectual da igreja
cristã de Corinto, foi dito inteiramente à parte de qualquer erudição
intelectual que lhe fosse própria, à parte de qualquer habilidade retórica,
lógica ou filosófica, mas antes, através do conhecimento que ele recebera da
parte do Espírito Santo. Bastaria isso para servir de reprimenda ao partido
dos intelectuais que havia em Corinto. Em contraste com Paulo, eles diziam
o que diziam, escudados na sabedoria humana, sabedoria essa que Paulo
degrada nesta passagem, contrastando-a com seus próprios ensinamentos
espirituais.
Paulo reivindica aqui uma inspiração. Suas «informações» procediam do
Espírito Santo, embora tudo passasse pela agência humana desse apóstolo,
e embora tudo fosse formulado com palavras humanas. Naturalmente, este
vers. não ê uma afirmação sobre a inspiração das Santas Escrituras, por
parte do Espírito de Deus, porquanto essa verdade não está em foco neste
ponto. Algumas revelações e idéias paulinas, entretanto, posteriormente se
«...conferindo cousas espirituais com espirituais...» Essas palavras têm
ocasionado certa variedade de interpretações. Existem essencialmente dois
problemas que envolvem essa declaração, a saber:
1. Qual é o sentido exato do verbo grego «sugkrino»? Pode significar
comparar (conforme se vê em II Cor. 10:12), mas também pode significar
«interpretar» ou «combinar». O sentido mais clássico é «compor» ou
«combinar». A versão da Septuaginta usa essa palavra grega com o sentido
de «interpretar», como, por exemplo, no caso da interpretação de sonhos.
(Ver Gên. 40:8,16,22; 41:12,15; Juí. 7:15; Dan. 5:12 e 7:15,16). Todavia, o
uso dessa palavra grega com o sentido de «comparar» se tomou comum
entre os escritores gregos, de Aristóteles em diante. É possível que Paulo se
tivesse utilizado desse verbo com qualquer desses significados, que são três,
não havendo qualquer modo absoluto de determinarmos qual foi o sentido
exato que ele quis dar aqui a -esse termo. As traduções e os intérpretes
diferem entre si quanto a esse particular. (Ver as várias possibilidades, nas
notas que aparecem mais abaixo).
2. O segundo problema consiste em como devemos entender a segunda
palavra aqui traduzida por «espírito», porque, no original grego, estando no
caso dativo, pode ser compreendida tanto como pertencente ao gênero
masculino como ao gênero neutro. E, com base nessas circunstâncias, certar
variedade de sentidos poderia ser derivada dessa expressão. Abaixo damos
um exemplo dessa variedade:
Se considerarmos a palavra grega pneumatikois como pertencente ao
gênero neutro juntamente com as várias traduções possíveis do verbo, o que
mencionamos em 1. acima; poderíamos entender:
1. A combinação de coisas espirituais (as palavras) com coisas espirituais
(ou assunto).
2. A interpretação (esclarecimento) de coisas espirituais mediante coisas
espirituais.
Mas até mesmo isso pode ser compreendido de diversas maneiras, a
saber:
a. A interpretação de tipos do A.T. mediante doutrinas neotestamen-
tárias.
b. A interpretação de verdades espirituais mediante uma linguagem
espiritual.
36 I CORÍNTIOS
c. A interpretação de verdades espirituais mediante as faculdades
espirituais.
Dessas três possibilidades somente a primeira, (a), é totalm ente
impossível, porquanto, quando Paulo assim escreveu, ainda não existia o
«cânon» do N.T. E as duas outras possibilidades são defendidas por seus
respectivos advogados.
Se considerarmos a palavra grega pneumatikois como pertencente ao
gênero masculino, então existem as seguintes possibilidades:
1. Poderia estar em foco a adaptação (combinação) de assuntos
espirituais para ouvintes espirituais (que talvez fossem os crentes
«experientes» ou maduros, que são mencionados no sexto versículo deste
capítulo, ou talvez fossem todos os crentes, os quais são aceitos como
possuidores do Espírito Santo; embora a primeira dessas possibilidades seja
a que mais se coaduna com o presente contexto).
2. Também pode estar em foco a interpretação de verdades espirituais
por parte de ouvintes espirituais (com as mesmas variações possíveis que na
primeira posição, acima).
Em favor do gênero neutro da palavra grega «pneumatikois» poder-se-ia
argumentar que isso preservaria o mesmo gênero para ambas as palavras
aqui usadas para indicar «espírito». Porém, por qual motivo Paulo seria
forçado a observar alguma minúcia gram atical dessa ordem? Se
porventura ele desejava dizer alguma oútra coisa (conforme se imagina, nas
duas últimas interpretações), ser-lhe-ia impossível ter preservado o mesmo
gênero.
Em favor do gênero masculino dessa palavra grega tem sido dito que isso
concordaria melhor com aquilo que aparece em seguida, neste mesmo
capítulo, isto é, que Paulo estava tratando com pessoas «espirituais» (o que
seria expresso através do gênero masculino, e não do gênero neutro). (Ver os
versículos décimo quarto a décimo sexto deste mesmo capítulo). Talvez essa
seja uma boa observação. Na realidade, entretanto, não dispomos de meios
que nos capacitem a decidir, de modo absoluto, de que lado está a razão.
As traduções abaixo citadas ilustram os sentidos possíveis envolvidos
nesse vocábulo grego, usado por Paulo·.
1. A tradução portuguesa IB, que serve de base textual deste
comentário, conforme vimos acima, dá preferência ao gênero neutro, dando
ao verbo o sentido de «conferir», evidentemente com a significação de
«comparar». Ver também a tradução inglesa KJ.
2. As traduções inglesas RSV e NE, aqui traduzidas para o português,
dizem: «...interpretando a verdade espiritual para aqueles que possuem o
Espírito». Essas traduções pensam que «interpretar» é o sentido do verbo
grego, e que o vocábulo grego pertence ao gênero masculino, daí a tradução
«Espírito», dando a entender a presença habitadora do Espírito de Deus, e
não meramente aqueles que possuem qualidades cristãs sazonadas.
3. A tradução inglesa WM, aqui vertida para o português, prefere
traduzir: «Adaptando palavras espirituais a verdades espirituais». O verbo
aparece então com o sentido de «combinar», ao passo que o gênero neutro é
escolhido para a palavra «espírito». Assim também diz a tradução
portuguesa BR, em sua substância.
Na verdade, não dispomos de qualquer maneira de determinar qual é a
tradução correta. Todas essas traduções envolvem alguma verdade, e toda a
questão gira em torno da verdade exata que Paulo queria frisar aqui.
Mas pelo menos podemos dizer com certeza que Paulo desligou toda a
nossa pregação e ministério do terreno carnal e inclinado para as coisas do
mundo, com o que o partido dos «intelectuais», na igreja cristã de Corinto,
havia vinculado o ensinamento cristão, porquanto enfatizavam a sabedoria
humana, provocando o surgimento de facções naquela comunidade cristã.
14 φνχίκός Sè άνθρωπος ού δεχεται τα τον πνεύματος τον θεοΰ1
1
, μωρία γά ρ αύτώ εστιν, καί ον
δύναται γνώ ναι, οτι πνενματικώ ς άνακρίνεται·
* 14 jC j του θίοΰ p'·'"''··» Ν A Β C D G Ρ Ϋ 33 81 88 104 181 326 436
614 629 630 1241 1739 1877 1881 1962 1984 1985 2127 2492 2495 Byz Lect
itar’d·dem.e, f.K.m.r*,*,* Vg syrh cop®8·bo·fay arm Naassenes Valentinians C lem ent
Origenf!r'lllt Eusebius Ambrosiaster H ilary Ambrose Didym us A ugustine //
àyíov eth // omit 330 451 syrP M arcion V alentinians1
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· 10 Irenaeue Irenaeus*r'!ftt
C lem ent Tertullian Origen H ilary A thanasius Epiphanius Chrysostom
Jerom e Theodotus-Ancyra
14 μ ω ρ ία ...k a n v 1 Cor 1.23
A omissão de του θεοΰ (uma omissão que aguça a precisão do argumento do apóstolo) é apoiada por vários manuscritos
minúsculos gregos (2 216* 255 330 440 451 823 1827), o Siríaco Peshitta,. e certa variedade de escritores patrísticos
(Valentiniano (sg. Irineu (gr,lat) Clemente (2/3) Tertuliano (vid) Orígenes (2/6) Hilário (1/2) Atanásio (1/2) Epifânio
Crisóstomo Teodoreto (1 / 2)Jerômio (2 / 3) Teodoto-Ancira). Por outro lado, o consenso esmagador dos testemunhos gregos e das
versões antigas diz του θεοΰ (a forma singular αγίου no etíope, é uma substituição compreensível), bem como por certa
variedade de escritores patrísticos, alguns dos quais também citam a forma mais breve. Embora a comissão tivesse considerado
seriamente a possibilidade gue a forma mais breve fosse a original, em face do peso, da antigüidade e diversidade da evidência
externa em apoio a του θεοΰ, sentiu-se compelida a incluir essas palavras no texto, apesar da possibilidade que sejam uma
adição natural introduzida por copistas.
2:14: Ora, o homem natural não acolta as coisas do Espirito de Deus, porque para ele
são loucura; e não pode entendS-las, porque elas se discernem espiritualmente.
A palavra aqui traduzida por «...natural...», se fosse mais literalmente
traduzida seria «psíquico», isto é, controlado pela «alma». Paulo se utiliza
aqui da forma adjetivada da palavra grega «psuche», que usualmente é
usada nas páginas do N.T. para indicar a porção «imaterial» do ser
humano, e que foi o vocábulo usualmente empregado por Platão. Essa
palavra grega, todavia, não precisa significar necessariamente isso; pois
também pode ter certa variedade de significados, conforme se vê abaixo:
1. Pode significar o princípio vital da existência, sem qualquer alusão à
porção imaterial do homem.
2. Pode significar a «vida terrena», sem qualquer tentativa de descrever a
natureza metafísica do homem. (Ver Mat. 6:25; Luc. 12:22 e ss.; Atos
20:24,27).
3. Pode significar a alma imortal do homem. (Ver Luciano, Dial. Mort.,
17,2; Josefo, Antiq. 6:332; Atos 2:27; Sal. 16:10), Dessa maneira é que
Platão usualmente empregava esse termo grego. (Ver Platão, Edon, 28p,
80a).
4. Pode significar a sede ou centro da vida interior do homem, incluindo
os seus deSejos, as suas emoções, etc., mas sem qualquer tentativa de
descrever metafisicamente ao homem. (Ver Bar. 2:18b; Apo. 18:14; Heb.
12:3 e Isa. 58:3,5).
Em sua forma adjetivada, sobretudo quando esse termo é contrastado
com o vocábulo «espiritual», que é o caso aqui encontrado, pode significar
simplesmente aquilo que é «físico», que é «não-espiritual», que é natural.
Em I Cor. 15:44a há uma referência ao «corpo físico», em contraste com o
corpo espiritual. Também se pode examinar I Cor. 15:46. E, no trecho de
Jud. 19 essa palavra é usada como sinônimo de «mundano».
Por igual modo, poder-se-ia conceber que essa palavra indique os crentes
«carnais», aqueles a quem Paulo aqui repreendia, os membros do «partido
intelectual», que dava excessiva importância à sabedoria humana. Esse
sentido pode ser percebido se levarmos em conta apenas o mundo, e não o
contraste com os crentes «espirituais». Porém, isso não é muito provável
quando consideramos que no primeiro versículo do terceiro capítulo desta
epístola encontramos outro vocábulo para indicar esses irmãos na fé, a
saber, a palavra «carnais», que é tradução do termo grego «sarkikoi».
Também precisamos notar que esse mesmo versículo exige que falemos de
um homem natural, e não meramente de um homem carnal. Portanto,
encontramos aqui a menção de três classes de indivíduos:
1. O homem «natural» (no grego, psuchixos), que é o indivíduo em estado
natural, sem o Espírito de Deus, o homem ainda não regenerado.
2. O homem «espiritual» (no grego, pneum atikos), que é o homem
regenerado. Paulo não fazia distinção, no décimo quarto versículo, entre
esses e os «experimentados» ou espiritualmente maduros.
3. Então, em I Cor. 3:1, aparece o homem «carnal» (no grego, sarkinos),
que é o crente que ainda não é maduro, espiritualmente falando.
Devemos observar que o homem «natural» não é aqui eqüivalente ao
homem «carnal»; e Paulo também não estava identificando esses homens
não-regenerados com aqueles envolvidos em várias modalidades de pecados
e corrupções. Dizia simplesmente que eles, os «naturais», não têm o Espírito
de Deus, não conheceram ainda a «regeneração», e, portanto, desconhecem
a iluminação espiritual que tem sido salientada nesta passagem, como
propriedade dos remidos. Tais homens pensam que as realidades do
Espírito de Deus são «...loucura...» ou insensatez. E, com essa descrição,
Paulo retorna às descrições que fazia de tais pessoas, conforme se lê em I
Cor. 1:18,19,23 e 2:6. O homem «natural» é descrito como alguém que não é
«capaz» de discernir as realidades do Espírito Santo. Já quanto ao crente
«carnal» precisamos dizer que embora sua visão espiritual talvez esteja
obscurecida, não podemos dizer que ele «não pode» compreender as
realidades espirituais. Portanto, está aqui em foco o homem «natural», e
não o crente «carnal».
As realidades espirituais, o evangelho, a redenção que há em Cristo, a
iluminação espiritual e a glorificação final são as coisas que têm sido
descritas neste capítulo, as quais também só podem ser reconhecidas
mediante a operação do Espírito Santo no íntimo, mediante a sua benéfica e
transform adora influência, segundo é enfaticamente ensinado nos
versículos décimo e décimo primeiro deste capítulo. Paulo meramente
reitera aqui essa idéia. Por conseguinte, os sábios de conformidade com o
mundo, os príncipes, os filósofos, os escribas, os retóricos, os sofistas, etc.,
são destituídos da autêntica sabedoria, porquanto também não têm o
Espírito. Na presente polêmica, assim sendo, o apóstolo dos gentios está
como que indagando: «Como podeis vós, os ‘crentes’ de Corinto, exaltar à
sabedoria terrena, às custas da reputação de Cristo? Dessa sabedoria nâo
pode resultar o que é ‘espiritual’, e nem o ensinamento sobre as realidades
espirituais em torno das quais gira a igreja cristã!»
«No trecho de Rom. 8:7, Paulo declara definidamente a incapacidade da
I CORÍNTIOS 37
mente da carne em receber as realidades do Espírito, se não for tocada pelo
Espírito Santo. Para nós, essas realidades não são mais ‘loucura’, conforme
sucedia antes (I Cor. 1:23). Hoje em dia podemos perceber certos aspectos
da ‘inteligência’ no caso daqueles que zombam de Cristo e do cristianismo,
na sua própria cega ignorância». (Robertson, in loc.).
★ ★ ★
«...discernem...» Essa palavra, no original grego, significa «escrutinar»,
«coar», a fim de obter compreensão. O homem natural, pois, não pode
compreender as realidades espirituais porque elas não estão ao alcance do
intelecto humano. E apesar dessas realidades estarem sujeitas à
compreensão da alma humana, ainda assim somente a instrução dada pelo
Espírito de Deus, mediante sua regeneração, que fica subentendida, e
mediante sua presença iluminadora, é capaz de proporcionar tal
entendimento. Os níveis mais altos do conhecimento, aqueles necessários
para que entendamos algo sobre Deus e seus desígnios quanto à redenção
humana—não são de natureza nem racional e nem mesmo intuitiva, e, sim,
de natureza mística. (Com esse vocábulo, «discernir», deve-se comparar a
15 6 8è
descrição dos bereanos, os quais, de conformidade com o original grego,
«coaram» ou «pesquisaram» as Escrituras, a fim de encontrarem a
confirmação da verdade do evangelho que lhes era pregado por Paulo, em
Atos 17:11, onde esse mesmo vocábulo é usado). Tal atividade é inútil, sem
a ajuda do Espírito Santo.
«...espiritualmente...» Precisamos desdobrar aqui em alguns pontos o
sentido desta palavra, no presente texto:
1. Não se refere a alguma atividade espiritual do homem, a alguma
atividade humana no nível da alma, embora ainda não iluminada pelo
Espírito Santo.
2. Não se refere meramente a algum «método espiritual».
3. Mas está em vista a agência e a influência do próprio Espírito Santo,
conforme já se vira nos versículos décimo e décimo primeiro deste capítulo.
Estamos falando aqui sobre a iluminação espiritual, que é comentada nas
notas expositivas referentes a esses citados versículos. (Comparar ainda com
Efé. 1:19).
Este versículo não tem por intuito abordar o problema da tricotomia
versus dicotomia, não tendo qualquer aplicação ao mesmo. (Quanto a notas
expositivas sobre essa questão, ver I Tes. 5:23).
1881 1962 1984 1985 2492 2495 B yz L ed syrh cop“ m" 7 M acarius (D idym us
Theodoret τίντας) // μίν τά πάντα Ρ 33 81
Chrysostom
630 1739 2127 cop“
πνευματικός ανακρίνει [τά ] πάντα5, αυτός δέ ύπ' ovSevòs άνακρίν€ται.
6 15 (D ) τά πά ντα ρ46 A C D* arm eth Valentinians Irenaeus«rms
Clem ent Origen // πά ντα G Irenaeus*' Clem ent Origen Theodoret // τα
πά ντα or π ά ντα itar,cf<iem-e·f-K-mr1, * . Vg SyrP COpe&m«,bo,fay irenaeus,Bt
Origen1
*' // μ ίν πά ντα B D b Ψ 104 181 326 330 436 451 614 629 1241 1877
14 Jn 8.47; 14.17 1 5 £ ôè...π ά ν τ α 1 Jn 2.20
Dentre os dois problemas textuais envolvidos nesta pessagem, a presença
--------- -------ou ausência (P (46) A C D* G at) de μ&> é o mais fácil de resolver. Embora seja possível que copistas tenham
omitido o termo porque parecia ser impróprio após ôe no começo da sentença, a comissão pensou ser mais provável que o termo
foi adicionado por copistas pedantes, a fim de prover um correlativo para ο <
5é que se segue. É mais difícil resolver o que fazer
com τά. A palavra foi adicionada a fim de impedir o leitor de tomar πάντα como masculino singular? ou foi ela omitida, ou
por acidente (τδττδντα) ou deliberadamente, a fim de que a declaração estaria em acordo com o precedente no vs. 10? Com
base em P (46) A C D * í / a comissão reteve a palavra no texto, mas, em fase de sua ausência em muitos outros manuscritos
(Na B D b Ρ Ψ 33 614 1739 al)
importantes, deixou o termo entre colchetes.
2:15: Mas o que é espiritual discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é
discernido.
O «...homem espiritual...» tem a capacidade de julgar, de discernir, de
compreender todas as verdades espirituais, de distinguir entre o falso e o
verdadeiro. É capaz de fazer a distinção entre os «sofistas» e os verdadeiros
seguidores de Cristo. Pode possuir até mesmo o dom do discernimento de
espíritos.
A palavra «...cousas...», neste caso, poderia talvez indicar algo pessoal;
mas Paulo não falava em julgarmos outras pessoas, em algum sentido
eclesiástico; e certamente não estava se referindo também às ações de
«censura» por parte do homem espiritual, contra outros. O que Paulo quer
dizer é que o crente espiritual perde aquilatar corretamente todas as coisas
no que respeita à igreja de Cristo, envolvendo tanto coisas como pessoas.
Tal crente sabe rejeitar os «intelectuais», que pretendem impingir a
sabedoria humana aos crentes, procurando assim diminuir a importância
da sabedoria divina, detratando do nome de Cristo, pois esse crente percebe
claramente o que esses contenciosos pretendem. O homem «espiritual» tem,
à sua disposição, os meios espirituais que o capacitam a avaliar os
ensinamentos e as pessoas.
«Esse é o homem em quem o espírito exerce a devida predominância, o
que é obtido através da informação dada pelo Espírito Santo e em contacto ‘
com ele, não podendo ser isso obtido de qualquer outro modo. O homem
como homem é um ser espiritual, mas somente alguns homens são
realmente espirituais; tal como o homem é um ser racional, mas somente
alguns homens são verdadeiramente racionais. A capacidade natural e a
realização dessa capacidade não são uma só e a mesma coisa». (Robertson e
Plummer, in loc.). (Quanto a notas expositivas sobre a operação do
«discernimento espiritual», ver I Tes. 5:21 e Fil. 1:10. Com isso contrastar o
trecho de Rom. 2:18).
«...mas ele mesmo não é julgado por ninguém...» Não se deve
compreender essas palavras no sentido de que o crente espiritual está acima
de qualquer crítica, como se não tivesse quaisquer falhas de caráter.
(Quanto a uma confirmação sobre o que dizemos aqui, ver I Cor. 4:3,4 e
14:32). Por semelhante modo, essas palavras não querem dar a entender
que uma pessoa não pode ser condenada ou disciplinada, no seio da igreja
cristã, somente porque ela se julga espiritual, não se sujeitando aos
julgamentos alheios. Todos os crentes estão sujeitos aojuízo da igreja, o que
se pode compreender no trecho de Mat. 18:15 e ss. Pelo contrário, Paulo
falava aqui de forma ideal. Em outras palavras, o verdadeiro homem
espiritual, embora tenha suas próprias falhas, é tão superior aos homens
carnal e natural que estes terão muita dificuldade em ençontrar base real de
acusação contra ele. Quanto a esse particular podemos considerar o
exemplo do próprio Senhor Jesus. Ele foi capaz de desafiar: «Quem dentre
vós me convence de pecado?» (João 8:46). De fato, ninguém era capaz disso,
porque Jesus não tinha falta alguma.
Contra OJulgamento Precipitado
1. A atitude censuradora pode ser sinal de hipocrisia religiosa (ver Rom.
2:1). _
2. É tendência dos fortes criticarem desnecessariamente os fracos, com
detrimento de ambos, na comunidade da igreja (ver Rom. 14:4).
3. O homem espiritual pouco deixa para ser criticado em si mesmo (do
ponto de vista humano; mas não do ponto de vista divino, como é óbvio);
mesmo assim, porém, o homem espiritual não se mòstra precipitado na
crítica ao próximo (ver I Cor. 2:15).
Paulo continuava a apresentar aqui a sua apologia. Esse apóstolo havia
sido severamente criticado, e certos indivíduos haviam até mesmo tentado
destruir a confiança de outros no ofício apostólico de Paulo. Mas ele mèsmo
pensava que essas tentativas haviam sido impulsionadas pela camalidade, e
não por alguma espiritualidade superior. Os membros da classe dos
intelectuais, na igreja de Corinto, oS quais eram muito mais sofistas do que
mesmo cristãos, é que tinham julgado assim a Paulo; mas não tinham,
obtido «sucesso» e nem haviam agido com «justiça». Na realidade, Paulo não
podia ser julgado por homem algum, embora muito o tivessem caluniado.
Paulo saía de todos os ataques dessa natureza inocentado. E as palavras de
Paulo, no presente contexto, parecem ter exatamente esse significado.
Precisamos reiterar aqui que o apóstolo Paulo não quis dar a entender,
com essas palavras, que os ministros do evangelho ou mesmo os crentes
espirituais estejam isentos de juízo e disciplina, por parte da igreja cristã.
Quando esses líderes espirituais erram, é mister discipliná-los; mas 'que
tudo seja feito com a devida comprovação, com a ajuda de testemunhas.
(Ver as instruções a esse respeito, em I Tim. 5:1,19,20).
É preciso observarmos que o apóstolo Paulo emprega aqui a palavra
«...julgar...» de duas maneiras levemente diferentes. Paulo apresentou aqui
um jogo de palavras. Na primeira vez em que ele usou essa palavra,
«...julga...», ele queria dar a entender, essencialmente, o discernimento
acerca dás realidades e valores espirituais, e não a atitude de censura contra
outros (embora isso possa estar subentendido). Na segunda vez em que se
utiliza do termo, «...julgado...», ele diz que o crente espiritual não é
censurado ou condenado por outros.
16 τίς γάρ έγνω νουν κυρίου, δς συμβιβάσει αυτόν ; ημεΐς Sè νοΰν Χριστοΰ έχομεν.
16 τις...συμβιβάσει αύτόν Is 40.13 (Ro 11.34) r 6 Χρίστου] Κυρίου BD*°G Τ Ambst Aug
2:16: Pois, quemjamais conheceu a mente do Senhor, para que possa instrui-lo? Mas
nós temos a mente de Cristo.
A citação aqui apresentada por Paulo foi extraída do trecho de Isa. 40:13,
com báse na versão da Septuaginta, mas com algumas modificações, para
que ele obtivesse os seus propósitos. A passagem de Rom. 11:34 exibe a
primeira parte dessa citação: «Quem, pois, conheceu a mente do Senhor?»
E ali há comentários completos a respeito. Contudo, nessa passagem de
Romanos é omitida a segunda cláusula: .. .que o possa instruir"!
"Paulo deixa entendido, portanto, que a fim de alguémjulgar a um homem
verdadeiramente espiritual, precisa poder discernir a mente do Senhor de
uma maneira simplesmente impossível para a capacidade humana, porque
essa citação subentende que ninguém conhece a mente do Senhor. O
julgamento contra o homem espiritual ideal, por conseguinte, é algo que
está fora das possibilidades do homem carnal; e isso faz parte integrante da
apologia paulina contra aqueles que o criticavam, aqueles que tinham
procurado solapar a confiança de outros em sua chamada apostólica, no
38 I CORÍNTIOS
seio da igreja cristã de Corinto. Paulo dizia, portanto, que nenhum dos seus
detratores era capaz de julgá-lo, pois somente o Senhor podia fazer isso
realmente. Ninguém possui da «mente» do Senhor em dose suficiente para
substituí-lo nesse mister. (Com isso se pode comparar o trecho de I Cor.
4:3-5, que é paralelo a esta passàgem). Paulo afirma que para ele era
questão de pouca monta o ser «julgado» pelos seus detratores de Corinto,
pois nem ele mesmo podia avaliar-se devidamente. Toda a avaliação
semelhante deve proceder da parte do Senhor. Por conseguinte, diz ele,
«...nada julgueis antes de tempo...», pois haverá ocasião em que Deus trará
todas as coisas à luz, estabelecendo o julgamento apropriado acerca de
todos os homens e suas ações.
Possuidores Da Mente De Cristo
Quais são os significados vinculados a essa expressão?
1. A mente espiritual (possuída por Cristo), não julga nem censura.
Indiretamente, pois, Paulo desfecha um golpe contra a atitude censuradora
de seus oponentes.
2. Mais particularmente, o argumento afirma: «Nenhum homem pode
julgar-me com retidão. Isso porque ninguém pode instruir ao Senhor, e eu
possuo a sua mente». Foi uma ousadíssima assertiva da parte de Paulo.
Portanto, o vs. 15 afirma que o homem espiritual julga a todas as coisas,
mas que ele mesmo por ninguém é julgado. Tudo isso é argumento
polêmico, naturalmente. Paulo havia sido severamente censurado pelos seus
críticos gratuitos, especialmente pelos do partido intelectualizado em
Corinto. Estes promoviam um evangelho alicerçado sobre a sabedoria
humana; mas ele pregava o evangelho alicerçado sobre a revelação divina da
salvação, por meio de Cristo e sua cruz. Essa é a demonstração da sabedoria
divina. «Ninguém pode censurar-me», diz Paulo, «porque tenho a mente de
Cristo».
3. Popularmente, essa afirmativa de Paulo é usada para opoiar a idéia de
que o indivíduo espiritual desenvolve em si mesmo a «mentalidade de
Cristo», as suas atitudes, discernimentos e pontos de vista sobre as coisas.
Naturalmente, há nisso uma certa verdade, embora não seja o que está aqui
em vista, especificamente.
«A ‘mente de Cristo’ é correlativa ao seu Espírito, que é o Espírito de
Deus (ver Rom. 8:9 e Gál. 4:6), e essa mente pertence àqueles que estão
com ele, em virtude da união vital que desfrutam com ele (ver Gál. 2:20,21;
3:27; Fil. 1:8 e Rom. 13:14). O pensamento é o mesmo que foi expresso no
décimo segundo versículo, embora vazado de outra maneira». (Robertson e
Plummer, in loc.).
A palavra «...Nós...», neste caso, é enfática. (Ver esse uso por toda a
porção inicial desta epístola, em I Cor. 1:18,23,30 e 2:10,12). Paulo quis
apontar para o homem «espiritual», contrastando-o tanto com o homem
«natural» (ver I Cor. 2:14) como com o homem «carnal» (ver I Cor. 3:1).
Todos os crentes possuem o Espírito Santo, mas nem todos eles são
indivíduos suficientemente espirituais para reivindicarem a posse da mente
ou consciência de Cristo, o que fica claramente demonstrado na experiência
humana diária.
A declaração que o apóstolo dos gentios faz aqui é muito forte. Suas
palavras eqüivalem dizer que aqueles que pretendem julgar ao homem
espiritual e avaliar o seu caráter, na realidade estão procurando «instruir ao
Senhor», o que, como é óbvio, é um grande absurdo; pois é tão presunçoso
esse indivíduo que tenta ocupar uma função que somente o Senhor Jesus
pode ocupar, dando a entender que o Senhor não se desincumbiu
corretamente dessa missão, necessitando assim da ajuda humana.
«Declarado de forma silogística, esse argumento diria mais ou menos
como segue: Ninguém pode instruir ao Senhor. Temos a mente do Senhor.
Portanto, ninguém nos pode instruir ou julgar». (Hodge, in loc.).
A palavra «...Senhor...», neste caso, mui provavelmente é uma referência
a Jesus Cristo, o que é comum nos escritos do N.T., até mesmo quando o
termo «Senhor» se refere obviamente ao Deus dos judeus, isto é, Yahweh.
(Ver as notas expositivas sobre o emprego do termo «Senhor», com
referência a Cristo, em Rom. 1:4, que também expõe o tema do «senhorio
de Jesus Cristo». Quanto a notas expositivas sobre a propriedade do uso
desse termo para com Cristo, ver I Cor. 1:31).
«Tais intercâmbios deixam entrever a sua ‘convicção mais íntima sobre a
deidade de Cristo’». (Findlay, in loc.).
Variante Textual·. Ao invés das palavras «...mente de Cristo...», alguns
manuscritos dizem «mente do Senhor». Assim dizem os mss BD(1)FG; e os
pais da igreja Agostinho e Ambrosiaster assim citam essa passagem em seus
escritos. As palavras «...de Cristo...» aparecem nos mss P (46), Aleph,
ACD(3)ELP, nas versões da Vulgata latina, bem como no Si, no Cóp e no Arm,
sendo assim também citado este texto por Órígenes. Mui provavelmente esse é
o tèxto correto. A modificação para «Senhor» deve ter ocorrido por atração da
mesma palavra, usada neste versículo. (Ver o artigo referente ao estudo dos
manuscritos do N.T., na introdução ao comentário).
Espírito Santo, todo divino,
Habita neste meu coração;
Derruba todo o trono idólatra,
Reina supremo e reina sozinho.
(A.Reed).
Capítulo 3
Este terceiro capítulo dá prosseguimento ao argumento que aparece no
capítulo anterior, iniciado em I Cor. 2:6, a saber, que a verdadeira sabedoria
não é propriedade dos facciosos. (Quantoanotasdeint;roduçâoaessetema,ver I
Cor. 2:6). Somentejá no quinto versículo deste terceiro capítulo é que esse tema
muda, onde se toma no seguinte: Os verdadeiros apóstolos não são rivais entre
si. '
Nos versículos primeiro a quarto deste capítulo, Paulo faz a aplicação direta
de seus argumentos anteriores. Ele demonstrara que buscar e ensinar a
«sabedoria humana» é algo prejudicial para a igreja cristã; e que aqueles que
assim agem na realidade não são homens espirituais, mas antes, carnais. E
agora ele passa a demonstrar que a camalidade daquele grupo de crentes de
Corinto, que permitiam que tais retóricos e sofistas os desviassem da
simplicidade do evangelho, era o fator que causara tantas divisões naquela
congregação cristã. Era necessário, pois, (jue aqueles crentes reconhecessem
ser isso resultado de sua camalidade. E, assim sendo, não somente a classe dos
intelectuais exibira a sua camalidade, por buscarem como seu alvo coisas
meramente terrenas, mas também a igreja de Corinto em geral se tomara
culpada, por permitir a existência de tal condição, chegando ao extremo de
selecionar partidos, contra e a favor de certos líderes, que passaram a ser
considerados os «heróis» ou os campeões dos vários grupos, como Apoio,
Paulo, Pedro e outros.
A nota que passamos a transcrever, de C.T. Craig (in loc.), demonstra
grande percepção, devendo ser considerada seriamente: «Paulo chega neste
ponto à aplicação e à sua defesa própria. Superficialmente considerada, esta
passagem parece envolver Paulo em autocontradição. Ele estava escrevendo
para crentes batizados, que haviam recebido o Espírito através da fé e do
batismo. Contudo, acusa-os de não terem o Espírito. Nem ao menos eram
controlados pela «alma», e, sim, pela «carne». Por conseguinte, eram ‘carnais’.
Não conservando a maneira usual de traduzir, a versão inglesa RSV diz
‘homens da came’. A chave dessa dificuldade pode ser encontrada na principal
contribuição de Paulo ao conceito neotestamentário do Espirito. Todos os
cristãos primitivos atribuíam a profecia, as línguas e os milagres à obra do
Espírito. Mas Paulo nos apresenta uma interpretação essencialmente moral.
Visto que Cristo é o Espírito, os frutos do Espírito são os principais valores
morais. (Ver Gál. 5:22,23). Onde esses frutos se fazem ausentes, segue-se
necessariamente que o Espírito nada é senão uma possibilidade latente neles.
Encontramos idêntico antinômio no oitavo capítulo da epístola aos Romanos.
Lemos, em Rom. 8:9, que os leitores não se encontram na came, posto que o
Espirito de Deus habita neles. Contudo, no trecho de Rom. 8:12, são eles
3 Κάγώ, αδελφοί, ούκ ηδυνηθην λαλήσαι νμϊν
Χριστω. 3 1 Jn 16.12
3:1: Εeu, irmãos, não vos pudefalar como a espirituais, mas como a carnais, como a
criancinhas em Cristo.
O vocábulo «...irmãos...» é um termo que subentende afeição, usado para
suavizar as severas reprimendas que Paulo precisava dirigir contra os
crentes de Corinto. (Ver outros usos desse termo em I Cor. 1:10,26; 2:1; 4:6;
10:1; 12:1 e 14:20).
«...espirituais...» Paulo postulou aqui três classes de homens, a saber,
«espirituais», «carnais» e «naturais». Os homens espirituais e os carnais são
exortados a não viverem segundo a carne. E aqui, em Corinto, os ciúmes e as
contendas que haviam causado suas divisões partidárias eram sinais de uma
vida vivida de conformidade com a carne. E o resultado ético disso comprovava
a ausência daquilo através do que somente se poderia perceber a sabedoria de
Paulo».
Essa observação de C.T. Craig se reveste de importância porque aponta para
aquela verdade tão óbvia, mas, ao mesmo tempo, tão freqüentemente
negligenciada, que ensina que a transformação moral do crente, segundo a
imagem de Cristo, é o resultado inevitável da presença habitadora do Espirito
de Deus. Essa é uma operação distintiva do Espírito Santo, a qual, por sua vez,
provoca a transformação metifísica, através da qual os remidos são revestidos
da verdadeira e essencial natureza de Jesus Cristo.
Porque se pensaria impossível que a igreja cristã não esteja entremeada de
muitos exemplos de imitação, sob a bandeira do cristianismo?
Paulo asseverava, portanto, que a camalidade não se coaduna bem com a
idéia de que o Espirito de Deus habita em um indLivíduo, a ponto de dotá-lo para
o exercício de manifestações espirituais. Aquele que é suficientemente cheio e
controlado pelo Espírito Santo, a ponto de exercer dons miraculosos,
necessariamente deve ser controlado, no nível moral, pelo Espírito de Deus,
participando assim da natureza moral de Jesus Cristo. Aquilo que contradiz a
esse princípio não passa de uma ilusão. Isso não significa, entretanto, que o
homem espiritual e dotado pelo Espírito Santo não possa cair, até mesmo em
falhas sérias; mas significa que «...pelos seus frutos os conhecereis», segundo
ensinou Cristo, em Mat. 7:20.
No entanto, aqueles crentes de Corinto eram «carnais». Todavia, tinham
muitos dons espirituais, supostamente. Paulo não negaria que aqueles crentes
possuíam o Espírito Santo, porquanto ninguém pode ser verdadeiro crente se
não tiver o Espírito de Cristo, ja que ele é o agente da fé, da conversão e da
regeneração. Mas parece que Paulo punha em dúvida a validade daquelas
manifestações espirituais e do poder através do Espírito Santo, a menos que a
natureza moral de Cristo se tomasse evidente para os homens. Paulo estava à
beira de reputar os seus detratores como «falsos apóstolos», indivíduos
fraudulentos, suspeitando que os seguidores dos tais tivessem qualquer
manifestação autêntica dos dons espirituais. Naturalmente, ele não quis dizer
isso de maneira universal, como se pudesse ser feita tal generalização no caso
dos crentes de Corinto, conforme nos mostra o trecho de I Cor. 1:4*6, onde
Paulo demonstra sua confiança na validade de seus dons espirituais,
resultantes da obra verdadeira de Cristo, no meio deles.
ώς ττνζνματίκοΐς άλλ* ώς σαρκίνοις, ώς νηπίοις. èv
3. χ σάρκινους] -ικοις G pi ζ
ambos crentes, mas de inclinações opostas. Os homens naturais sao os
indivíduos ainda sem regeneração. (Ver as notas expositivas a esse respeito
em I Cor. 2:14, onde as palavras gregas são explicadas).
«...carnais...» Em outras palavras, «homens da carne», ou seja, crentes
controlados pela carne. É possível interpretar que esse adjetivo significa que
as pessoas assim qualificadas são inteiramente destituídas do Espírito de
Deus (se considerarmos tão-somente o sentido verbal), mas o contexto geral
não nos permite tirar essa conclusão. Mui facilmente, entretanto, Paulo
I CORÍNTIOS 39
poderia estar querendo dar a entender que toda a sua suposta e apregoada
espiritualidade, no exercício dos dons espirituais, era falsa, fraudulenta;
porque não dispor das qualidades morais de Cristo, e, ao mesmo tempo, ser
supostamente habitado pelo Espírito de Deus, a ponto de realizar feitos
miraculosos, é uma aberrante contradição, uma impossibilidade moral.
(Ver o desenvolvimento desse tema na introdução ao presente capítulo).
Os crentes «...espirituais...», de conformidade com o uso que Paulo fez
desse vocábulo, eram os crentes «experientes», espiritualmente maduros,
segundo se lê em I Cor. 2:6. Já os «carnais», em contraste com isso, eram os ,
que davam excessivo valor à sabedoria «humana», conforme a menção e os
comentários existentes em I Cor. 1:18,19;21 e 2:1,4,5.
A sabedoria humana, em sua exaltação por parte dos retóricos e sofistas
cristãos, que abundavam na igreja de Corinto, é que havia causado as
lamentáveis divisões que Paulo repreende com tanta severidade nesta
epístola. Príncipes se encontravam entre os sábios deste mundo; mas esses
são inteiramente despidos da sabedoria divina, tendo cometido o pior de
todos os crimes da humanidade, a saber, a crucificação do Senhor Jesus.
(Ver I Cor. 2:6-8). E poderiam crentes verdadeiros imitar tal sabedoria,
provocando assim tão desgraçadas divisões no seio do cristianismo? Tal
possibilidade pareceria inconcebível, mas era exatamente o que aquela
gente tinha feito. Dessa maneira, se tinham desqualificado a si mesmos
como crentes «espirituais». Antes, eram imaturos, crianças na fé. Eram
crentes «carnais», o que significa que não eram necessariamente destituídos
da presença do Espírito Santo, e, sim, que não eram controlados por ele,
conforme supunham, e, sim, pela carne. Não tinham ainda atingido a
plenitude da experiência espiritual, apesar de se julgarem supremamente
espirituais. Todas as suas supostas elevadas experiências espirituais,
portanto, eram fraudulentas.
A palavra «carnal», em sua definição básica, significa simplesmente «da
carne e do sangue», não indicando, necessariamente, qualquer qualidade
ética inferior. Mas o homem que é dominado por seus desejos inferiores,
que se originam da mera mortalidade, como as concupiscências, as paixões,
a busca pela fama, pela exaltação pessoal, etc. (tudo o que caracterizava
certo grupo de crentes da igreja de Corinto, conforme se lê na primeira e na
segunda epístolas aos Coríntios), se torna «eticamente carnal, e não apenas
metafisicamente carnal. Isso significa que pouco se conhece sobre o
predomínio do «princípio espiritual», também chamado «princípio
celestial», que faz com que um homem se torne um crente espiritual. Essa
palavra, pois, significa:
1. Pertencente à ordem das coisas terrenas, «materiais», sem ou com
algum conteúdo ético. (Ver o trecho de I Cor. 9:11 quanto ao uso dessa
palavra, sem qualquer conteúdo moral).
2. Pode também significar «composto de carne», que é uma referência ao
corpo humano. (Ver I Pol. 2:2).
3. Finalmente, pode significar pertencente ao reino da carne, isto é, algo
débil, pecaminoso e transitório, em contraste com o reino espiritual. (Ver I
Cor. 3:4 e I Ped. 2:11). Nesse caso entra o elemento ético, o que mostra que
o adjetivo «carnal» significa pecaminoso, controlado por princípios
errôneos.
2 γάλα υμάς έττότισα, ον βρώμα, ούττω γάρ i8vvaade.aάλλ’ ουδέ έτι νΰν δΰνασθ€,α
α ° 2 ο major, a minor: WH Bov Nee BF2 RV ASV RSV NEB TT Zür LuthJer Segjj a minor, a major: A V // a major, a major:TR
2 7 ά λ α ...β ρ ώ μ α He 6.12-13; 1 Pe 2.2 2 e n ] om p46B syP A m b s t
Portanto, por si mesma, essa palavra pode aplicar-se à totalidade dos
homens não-regenerados, a todos os homens, como seres.humanos mortais,
ou aos crentes carnais. Essa é a aplicação que esse vocábulo tem no presente
texto. As pessoas a quem Paulo se referiu não estavam subordinadas à «lei
superior» dos céus, mas permaneciam verdadeiros filhos deste mundo
terreno. Com isso se pode comparar a afirmativa de Paulo, em Rom. 7:14,
em que ele se declara que fora «carnal, vendido ao pecado». Isso é menção à
camalidade que controla o crente infantil, o que abafa as influências
espirituais superiores em sua pessoa.
No N.T. grego existem duas palavras extremamente similares, «sarkinos»
e «sarkikos». Nem mesmo no grego clássico esses dois termós são
distinguidos claramente, e muito menos ainda no grego «koiné». «Sarkinos»
é a palavra que aparece neste texto. «Sarkikos» figura em Rom. 7:14; 15:27
e outros trechos.Os manuscritos confundem os dois vocábulos, usando-os
como sinônimos. (Ver a iiota textual que as segue).
«...crianças em Cristo...»A palavra grega aqui traduzida por «crianças» é
«nepios». Esse vocábulo usualmente indica alguém que ainda não sabe falar
(derivado de «ne», o negativo, e de «epos», palavra), ou seja, uma criança
tão pequena que ainda não aprendeu a falar, isto é, com menos de dois anos
de idade. Notemos, pois, quão severa é a repreensão de Paulo. Eram
virtuais «recém-nascidos», como crentes, totalmente destituídos de outras
experiências cristãs válidas. Eram crentes imaturos, sem espiritualidade,
embora se julgassem altamente espirituais. Paulo os põe em antítese com
«experimentados», isto é, os crentes maduros, em I Cor. 2:6, que é uma de
suas descrições acerca dos crentes «espirituais». Paulo se utilizou da palavra
«crianças», algumas vezes, em sentido depreciativo, conforme vemos em
Rom. 2:20; Gál. 4:3 e Efé. 4:4. Em diversas referências literárias se verifica
que esse termo era empregado para indicar os noviços nas escolas, os
prosélitos recentes de alguma religião. Paulo gostaria de ter-lhes escrito
uma mensagem como aquela que encontramos na epístola aos Efésios, um
tratado profundo sobre as questões espirituais; mas isso lhe era impossível,
porquanto se dirigia a pessoas que eram principiantes na fé cristã, que se
admiravam ante a sabedoria humana, e não por causa da sabedoria divina.
«Eram pessoas convertidas, mas tinham um entendimento infantil, no
conhecimento e na experiência; tinham bem pouco discernimento quanto às
coisas espirituais, e não possuíam ainda habilidade na palavra da justiça».
(John Gill, in loc.).
«É extremamente comum que pessoas de conhecimento e compreensão
muito moderados se mostrarem excessivamente convencidas. O apóstolo
atribuiu sua ínfima eficiência, no conhecimento do cristianismo, como uma
das razões pelas quais ele não lhes podia transm itir mais profundas
verdades». (Matthew Henry, in loc.).
Variante Textual·. A palavra grega «sarkinois» aparece nos mss P(46),
Aleph, ABC(1)D(1) e alguns poucos outros. Isso foi corrigido para «sarkikois»,
nos mss D(3)EFGLP, a fim de melhor harmonizar-se com o uso clássico dessa
palavra, a qual, pelo menos algumas vezes, mostrava a distinção entre essas
duas palavras. «Sarkinois» algumas vezes era palavra exclusivamente usada
para referir-se diretamente à carne animal literal, sem qualquer significado
etico.
3:2: Leite vos dei por alimento, e não contida tólUa, porque não a podfeit «iportor;
nem ainda agora podeis;
A menção que Paulo faz das crianças espirituais, no versículo anterior,
que eram crentes tão recém-convertidos que ainda não tinham experiências
com o Senhor, sugeriu-lhe a menção da dieta que ele aqui alude. Crianças
muito pequenas só se alimentam de leite, porque nem mesmo têm a
capacidade de digerir alimento mais sólido. É impossível alimentar tais
crianças com alimento mais sólido, comò a carne. Outro tanto sucede com
os crentes carnais, os crentes imaturos e recém-convertidos. Esses ainda
pertencem à categoria infantil, demonstrando pequeníssimo progresso
espiritual. (Quanto ao mesmo simbolismo do íeite e da carne, indicando
ensinamentos superficiais ou mais profundos, respectivamente, comparar
com os trechos de Heb. 5:12-14 e I Ped. 2:2).
Filo, o famoso filósofojudeu neoplatônico (30 a.C.- 50 d.C.), empregou o
mesmo simbolismo, como segue: «Sabendo que o alimento dos bebês é o
leite, mas os adultos se alimentam de pão de trigo, também deve haver
nutrientes para a alma que se assemelhem ao leite, próprios para o período
da infância...como também aqueles próprios para os homens adultos».
(Sobre a Economia Doméstica , 9).
Encontramos um uso similar desse simbolismo na literatura judaica:
«Assim como o leite fortalece e nutre ao infante, assim também a lei
fortalece e nutre à alma». (Kimchi sobre Isa. 55:1). E Jarchi, em Cant. 5:12,
refere-se ao «leite da lei».
«...leite...» Essa palavra, no caso presente, dá a entender as doutrinas
cristãs mais fundamentais, ou seja, o evangelho em sua forma mais simples,
a palavra da cruz. O trecho de Heb. 6:1,2 alista o arrependimento de obras
mortas, a fé para com Deus, os batismos, a imposição de mãos, a
ressurreição dentre os mortos e o juízo 'eterno como as doutrinas básicas,
que um crente deve eventualmente ultrapassar, prosseguindo para a
«perfeição» que há em Cristo.
«...alimento sólido...» Essa é uma correta tradução do vocábulo grego
«broma», que não indica apenas «carne», mas todas as variedades de
alimentos sólidos. Podemos aprender, em João 4:34, que o «alimento» de
Jesus consistia em fazer a vontade do Pai.
«Paulo não se gloriava em apresentar sermões superficiais e aguados. A
simplioidade não requer embotamento intelectual e ausência de idéias. É
patético pensar como tantos pregadores precisam aparar as asas do
pensamento e da imaginação, porque seus ouvintes não podem
acompanhá-lo. Mas nada pode impedir tanto a prédica como o
embotamento causado pelo pecado, por parte dos ouvintes, que se mostram
impacientes ante as elevadas exigências do evangelho». (Robertson, in loc.).
Muito mais patético ainda, entretanto, é o caso do pregador que na
realidade não passa de um infantil quanto ao seu conhecimento e
compreensão, e que jamais se _esforça, intelectual ou espiritualmente, para
aprimorar a sua mensagem. È em situações assim que contendas e querelas
não demoram a aparecer no seio da igreja local, pois então os crentes se
sentem «famintos» e tendem por entregar-se aos conflitos, da mesm^
maneira que a falta de alimento físico deixa o indivíduo irritadiço. Èjusto
supormos, portanto, que muitas lutas eclesiásticas poderiam te r,sido
evitadas se os pregadores soubessem «alimentar ao rebanho»; e o restante de
qualquer descontentamento e confusão nas igrejas locais poderia ser
evitado, através do desenvolvimento espiritual de seus membros. Paulo
sabia disso, e teve abundantes oportunidades de perceber as facções que
surgiam em Corinto, principalmente porque os crentes dali ainda eram
imaturos.
Quando Paulc fala aqui em alimento sólido, referia-se à sabedoria divina,
especialmente aquilo que se conhece sobre o «mistério» por ele aludido em I
Cor. 2:6. Ali ele já havia declarado que a sabedoria divina ele ensinava a;os
crentes «experimentados» ou maduros em Cristo. Não há que duvidar que
nesse «mistério» ele incluía a elevadíssima doutrina da transformação dos
remidos segundo a imagem de Cristo, tanto em seu aspecto moral como em
seu aspecto metafísico. Contudo, naquele versículo e aqui, são destacadas
sobretudo as obrigações morais. (Ver a totalidade do oitavo capítulo da
epístola aos Romanos e do primeiro capítulo da epístola aos Efésios, quanto
aos ensinamentos mais profundos desse apóstolo).Essas doutrinas se fazem
singularmente ausentes nesta primeira epístola aós Coríntios, exceto do
texto de cap. 15. Em outras palavras, apesar dessas grandes
verdades serem mencionadas, não são discutidas, explanadas. O quinto
capítulo da segunda epístola aos Coríntios, entretanto, é a passagem onde
Paulo expõe a melhor discussão sobre a imortalidade. Por conseguinte, nas
duas epístolas aos Coríntios há exceções à regra.
40 I CORÍNTIOS
«...porque ainda não podíeis suportá-lo...» Durante o tempo em que
Paulo esteve em companhia dos crentes de Corinto, estes não tinham feito
muito progresso no aprofundamento das doutrinas cristãs. E mesmo depois
que o apóstolo dos gentios os deixou, não avançaram muito; bem pelo
contrário, regrediram, porquanto agora estavam engalfinhados em disputas
e divisões, por causa de questões sem a mínima importância para o
verdadeiro cristianismo.
«O espírito mundano e imaturo deles se evidenciava por suas divisões
facciosas e por suas desavenças, porquanto tudo isso subentende falta de
3 eri yàp σαρκικοί eare. οττον γαρ εν ύμΐν ζηλο?
ττ€ριιτατ€Ϊτ€;
1 3 IC ( épis N (A epeis) B C Ρ Φ 81 181* 630 1739 1877 1881 i t 1™·
m.r1,*,* Vg f> arm pfI, Clem ent Origen (Eusebius epees) Cyri]
Euthaiiup // epts δ ιχοστα σία 623 Chrysostom // epts καί δ ιχοστα σία ι
p46 D (G épeis) 33 88 104 181™ 326 330 436 451 614 629 1241 (1062 ά ρχοστασία)
3 kv ύ μ ΐν ,.Λ ρ ΐϊ 1 Cor 1.10-11; 1 1 .1 §
verdadeira comunhão cristã, de amor e de fé no serviço do Senhor,
qualidades essas que figuram entre as condições essenciais para o
desenvolvimento do discernimento espiritual na sabedoria de Deus». (John
Short, in loc.).
«O apóstolo, por conseguinte, lhes expôs o absurdo de sua conduta, ao
pretender estabelecer distinções entre os diversos pregadores, ao mesmo
tempo que eles tinham tão parcial fam iliaridade até mesmo com os
‘princípios fundamentais’ do cristianismo». (Adam Clarke, in loc.).
καί epis1, ούχΐ σαρκικοί iore και κατά άνθρωπον
I 1984 1985 2127 2492 2495 B yz L ed it"·1
1
···'·· syrr·» M arcion Irenaeus*1
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O rigenlftt C yprian Ephraem Ambrose Pelagius Jerome Augustine Theo-
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3 σαρκικόi Io] -ivoi D*G |
Embora a forma ípis καί διχοστασίαι tenha apoio antigo e diversificado (P (46) D (G) 33 614 Byz it (d,g,6l) sir (p,h)
Márciom al) , a ausência de και διχοστασίαι de manuscritos como pu”*
‘<!< B C P t 81 1739 al levou a comissão a
suspeitar da intrusão de uma glosa ocidental, derivada talvez da lista de vícios em Gál. 5:20. Nâo havendo motivo suficiente para
explicar sua omissão, se as palavras estavam presentes originalmente, a forma mais breve é a preferível.
3:3: porquanto ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contendas, não
sois porventura carnais, e nâo estais andando segundo os homens?
(Quanto a notas expositivas completas sobre o termo «carnal», ver o
primeiro versículo deste capítulo). A prova da camalidade daqueles crentes
de Corinto é que entre eles havia diversas manifestações de ciúmes, de
contendas, de partidarism o, de escolha de heróis humanos, os quais
recebiam honrarias, com detrimento do nome de Cristo, porquanto essa
glória pertence exclusivamente ao Senhor.
O vocábulo grego aqui usado para indicar «...carnais...» é «sarkikoi», e
não «sarkinoi», conforme se lê no primeiro versículo deste capítulo, ainda
que alguns manuscritos apresentem a mesma palavra também nesse
primeiro versículo. (Ver as notas textuais e os comentários a respeito desse
primeiro versículo). Alguns eruditos pensam que «sarkikoi» é termo mais
fraco que «sarkinois»; porém, o leitor que acompanhar as referências dadas
em um bom léxico grego ou concordância grega, ficará convencido de que
ambas essas palavras eram freqüentemente usadas para dar a entender a
mesma coisa, porquanto são sinônimos entre si. É bem provável, pois, que
Paulo tenha usado essas palavras como termos intercambiáveis.
A segunda menção do termo grego sarkikoi neste versículo (onde essa
palavra é empregada por duas vezes), é alterada, em alguns manuscritos
gregos, para «sarkinoi». Assim dizem os mss P(46), D(1)G, o que
certamente mostra que, para muitos escribas antigos, não havia diferença
apreciável entre essas palavras. Portanto, a suposta distinção feita por
alguns estudiosos, os quais dizem que o final «inos» denota uma relação
«material», ao passo que o término «ikos» envolve uma relação «ética», é
uma distinção artificial, tanto quanto ao uso real dessas palavras como
quanto ao sentido dessas palavras. Diversas outras interpretações
estabelecem diferenças quanto a esses vocábulos gregos, mas nenhuma
delas é convincente. Assim é que alguns eruditos pensam que «sarkinoi»
significa «totalmente da carne», ao passo que «sarkikoi» significaria
«dominado pela carne», embora restem ainda alguns elementos espirituais
presentes nos indivíduos assim qualificados. Contudo, não é provável que
Paulo tenha dito uma coisa, no primeiro versículo, para então, logo adiante,
no nosso atual versículo terceiro, ter dito outra, mais suave. Simplesmente
Paulo usou esses termos como sinônimos intercambiáveis.
«....ciúmes...» Essa palavra, no original grego, «zelos», pode significar
«zelo», «ardor», não sendo má por si mesma. (Ver II Cor. 9:2; Fil. 3:6;
Luciano, Adv. Ind. 17: I Macabeus 2:58). Esse é o vocábulo grego do qual
se derivou a nossa «inveja», «ciúme», tal como em Plur. Thess. 6:9; Atos
5:17; 13:45; Rom. 13:13; II Cor. 12:20 e Gál. 5:20. Nesta última referência,
o «ciúme» é alistado como uma das «obras da carne», isto é, um dos
resultados da pervertida camalidade do homem, em contraste com o «fruto
do Espírito», o qual produz a transformação moral do crente segundo a
imagem de Cristo. Por conseguinte, a inveja é aqui pintada através do mau
sentido de «zelo» ou «ardor», provocado pela criação de facções, alicerçadas
na adoração a «heróis» humanos. Porém, Cristo é o único verdadeiro «herói»
da igreja cristã; e, assim sendo, adorar ou venerar a quem quer que seja
eqüivale à idolatria, furtando algo da glória de Cristo.
«...contendas...» Essa palavra tem por sinônimos «discórdia», «querelas»,
«dissensão». (Ver Fil. 1:15; Tito 3:9; I Cl. 35:5; 46:5 e Tito 3:9). Essa
palávra aparece na lista dos muitos vícios que caracterizavam os pagãos,
que haviam abandonado o conhecimento de Deus, segundo se aprende em
Rom. 1:29. Portanto, os crentes de Corinto agiam como homens ainda
sujeitos às obras da carne (ver Gál. 5:20), como pagãos que ainda não
conheciam a Cristo. No entanto, ao mesmo tempo, se exaltavam como
elementos altamente espirituais, ufanando-se no uso extraordinário dos
dons espirituais. A estimativa que deles fazia o apóstolo Paulo, contudo, era
inteiramente diferente disso. Aquele que é verdadeiramente espiritual deve
demonstrar o fruto do Espírito, exercendo predomínio sobre as obras da
carne. Devemos observar que essa palavra, aqui traduzida por «conteijdas»,
também aparece na lista de Gál. 5:20, como obra da carne, aparecendo ali
imediatamente antes de «ciúmes». É possível que esses dois defeitos de
caráter tenham alguma conexão vital. As contendas começam quando surge
a inveja no coração.
«As contendas são o resultado exterior do sentimento invejoso. (Ver Gál.
5:20; Clemente Rom. Cor. 3)». (Robertson e Plummér, in loc.).
«..e andais segundo o hom em ?...» Isto é, de conformidade como o
homem de inclinações «carnais», o homem controlado pelos apetites da
natureza carnal. Paulo estabelecia aqui o contraste com o homem
«espiritual», referido no primeiro versículo deste capítulo, que ele definiu
como «experimentado» ou maduro (ver I Cor. 2:6). Aqueles crentes de
Corinto, embora inchados com pensamentos de uma espiritualidade
superior, na realidade eram homens controlados pelas paixões carnais, tal
como qualquer outra pessoa deste mundo.
Variante Textual·.
Ao invés das palavras: «...segundo o homem...», alguns manuscritos dizem
«segundo a carne» (no grego, «sarkikoi»), fazendo com que este versículo
apresente essa expressão por três vezes. Mas isso é apenas uma tentativa
escribal de esclarecer o que Paulo queria dizer com as palavras «segundo o
homem», que alguns escribas devem ter imaginado que não seriam
compreendidas.Essa modificação aparece nosmssD(l)FG,eem alguns outros
textos posteriores).
A operação autenticado Espírito Santo derrota os impulsos carnais na
experiência do crente. (Ver Rom. 8:3 e ss.). Os crentes de Corinto, pois, não
contavam com uma autêntica operação do Espírito de Deus em suas vidas.
Por causa disso, tinham perdido de vista a glória de Deus, na pessoa de
Cristo, substituindo-a pelo orgulho e pela vangloria humanos. Viviam na
carne, e não no Espírito; e estavam completamente equivocados quanto a
essa questão. Ê admirável como os facciosos, provocadores de divisões entre
os irmãos na fé, alicerçados sob questões imaginárias, podem continuar a
pensar que são os melhores e mais espirituais elementos de sua
comunidade, chegando até a convencer disso a terceiros. Tudo não passa de
um colossal ludibrio, que atinge tanto aos enganadores como aos
enganados.
«‘Andais como homens’, isto é, como homens sem regeneração.
(Comparar com Mat. 16:23). ‘Segundo a carne e não segundo o Espírito’,
conforme sucede aos regenerados pelo Espírito. (Ver Rom. 8:4 e Gál.
5:25,26)». (Faucett, in loc.).
Com essas palavras se pode comparar os trechos de Rom.3:5; 15:5 e Gál.
1:2, onde lemos «segundo Jesus Cristo», quanto ao caráter dessa maneira de
andar, o que também é um contraste com a maneira carnal de viver. Pois
aquele que anda como Cristo andou, segundo Jesus Cristo, só pode fazê-lo
por meio do Espírito de Deus.
4 οταν γαρ λέγτ) τις, Έ γώ μεν €ΐμι Π αύλου, erepoç Sé, ’Ε γώ Ά π ο λλώ , ούκ άνθρωποί io r e ;
4 éyJJ...Ά π ο λ λ ώ 1Cor 1.12 4 οϋκ άνθρωποι Ν*ΑΒpc-, R] ουχι a. D G: ουχι σαρκικοί NC
L P pi sy ς | εστε] add και
K ara άνθρωπον π€ριπατ€ΐτ€ Ρ Vg(3)
3:4: Porque dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apoio; não sois apenas
homens?
A prova em que o apóstolo se estribava era a simples observação sobre a
conduta daqueles crentes coríntios. É como se ele estivesse dizendo, a
exemplo de Jesus Cristo: «...pelos seus frutos os conhecereis» (Mat. 7:20).
Neste ponto Paulo retoma à menção sobre os supostos líderes das facções, o
que ele já havia mencionado em ΓCor. 1:12. Esses supostos líderes,
guindados à posição de «heróis» das diversas facções surgidas na igreja de
Corinto, eram Paulo, Apoio, Cefas e Cristo. Cada um desses nomes
representa um tipo diferente de espírito partidária. (Ver as notas, em I Cor.
1:12, que esclarecem essa questão). Neste ponto, o apóstolo dos gentios
menciona somente ele mesmo e Apoio. Por ser um eloqüente judeu
alexandrino, Apoio fora eleito herói da classe dos «intelectuais» de Corinto.
I CORÍNTIOS 41
Esses eram os que amavam e imitavam o intelectualismo das escolas gregas
existentes em Corinto, sobretudo as escolas de retórica, que sempre foram
sofistas por natureza. Com o termo sofistas queremos dizer «como os
sofistas», que eram contemporâneos de Sócrates, os quais haviam
abandonado qualquer inquirição objetiva pela verdade, mas imaginavam
que «o homem é a medida de todas as coisas», no dizer de Protagoras, com o
que davam a entender que cada indivíduo é o padrão e modelo de sua
própria verdade, não havendo qualquer verdade fixa, qualquer fator
objetivo. A verdade seria aquilo que opera em favor do indivíduo, em
qualquer dada situação.
Os sofistas, portanto, eram antigos pragmáticos, onde a utilidade se
torna o medidor da verdade e do conhecimento, e onde persiste o espírito do
ceticismo, em relação a qualquer verdade que seja apresentada como eterna
ou objetiva. Para eles, por conseguinte, era muito importante vencerem nos
argumentos, obtendo sucesso em qualquer atividade, inteiramente à parte
de quaisquer valores morais fixos. Os sofistas se especializavam sobretudo
na retórica, tornando-se assim os primeiros «advogados» do mundo. E visto
que vendiam os seus conhecimentos, tornaram-se também os primeiros
professores universitários, isto é, mestres que cobravam estipêndios por
suas instruções.
A princípio, Atenas fora a grande cena desse tipo de desenvolvimento
intelectual, mas Corinto, nos dias de Paulo, imitava os costumes filosóficos
daquela cidade. Nos tempos do ministério apostólico muitas escolas
filosóficas estavam representadas em Corinto, e a sabedoria humana,
sobretudo na forma da habilidade retórica, era a grande disciplina que os
habitantes dessa cidade estudavam. Não podemos duvidar que os crentes
coríntios, de inclinações sofistas, não haviam abandonado a verdade
do evangelho, mas ao mesmo tempo, se ufanavam em sua soberba, que
poderia caracterizar os retóricos da época, imitando os seus discursos nos
sermões que faziam. Com base no primeiro capítulo desta epístola, podemos
supor que «a palavra da cruz» não era tema freqüente de seus sermões, e
talvez até mesmo nunca tivesse sido. Talvez falassem de maneira
retumbante sobre os «mistérios divinos», sobre o «conhecimento oculto» ou
sobre a «contemplação mística», a exemplo dos gnósticos daquele período
histórico. Apoio por ser um alexandrino educado, e sem dúvida devido à
sua arrebatadora eloqüência, fora escolhido como o «herói» dos que
pendiam para a erudição humana. O trecho de Atos 18:24 menciona a sua
grande eloqüência, bem como o fato que ele era natural de Alexandria.
Porém, o mais certo é que, em contraste com seus baratos imitadores, ele
também fosse homem «poderoso nas Escrituras», embora talvez segundo o
modelo de Filo, o judeu filosofo neoplatônico, grande erudito das questões
mosaicas, o maior intelecto entre osjudeus em seus dias. (30 a.C.- 50 a.C.).
O apóstolo Paulo, desde I Cor. 1:18 que vinha dirigindo seus ataques
contra o partido dos «intelectuais» em Corinto. Agora ele lhes mostrava que
a despeito de toda a erudição suposta na qual se vangloriavam, e de toda a
sua eloqüência, na realidade eram homens carnais, controlados não ρβΓο
Espírito de Deus, conforme afirmavam ser, mas antes, controlados por
paixões humanas, pelos desejos, pelo orgulho, pela inveja; e tudo isso
resultara em lamentáveis divisões na igreja cristã de Corinto. O prolongado
ataque do apóstolo contra esse grupo indica que, dentre as várias facções ali
existentes, esse era o mais perturbador. Evidentemente eram essas que mais
freneticamente se opunham a Paulo, menosprezando-o em face do fato de
que ele não tinha aquela eloqüência que eles tanto admiravam. (Ver II Cor.
10:10 e 11:6, onde parece que diziam que sua palavra era «desprezível» e
«rude», embora confessassem o vigor de suas epístolas, conforme a primeira
dessas referências nos mostra). O estilo de discurso, usado nas sinagogas, e
que Paulo refletia em seus sermões, não os tinha admirado, porquanto
apreciavam a habilidade retórica dos gregos. Aquele que hoje em dia lê os
discursos dos sofistas percebe facilmente o poder e o encanto de sua
retórica, embora os sofistas não fossem inquiridores sérios da verdade.
«...de Paulo...» Esses eram os que tinham ficado vivamente
impressionados com a sua autoridade apostólica, dos quais, provavelmente,
a maioria se compunha de convertidos seus, dentre os- quais alguns poucos
haviam sido batizados por ele. É possível que essa facção incluísse,
especialmente, judeus helenistas, como era o próprio Paulo. Seja como for,
esse grupo abusava do nome de Paulo, de uma forma que não o agradava.
(Ver o décimo segundo versículo deste capítulo quanto a detalhes sobre a
questão inteira das facções existentes na igreja cristã de Corinto, em notas
expositivas que incluem referências aos trechos onde podem ser
encontradas as descrições sobre vários «heróis», escolhidos pelos membros
daquela igreja).
«...andais segundo os homêns...» A palavra «...andais...» não figura no
original grego, mas foi tomada por empréstimo como palavra interpreta-
tiva, com base no terceiro versículo. Literalmente, o grego diz simplesmente
«...não sois homens...», embora possa ser compreendido como· «...não agis
como meros homens, como meros seres humanos, sem a iluminação do
Espírito...» Essa é apenas outra maneira de salientar a cam alidade
daqueles crentes. Em nada eles se distinguiam dos homens não-regene-
rados, porquanto continuavam manifestando as obras da carne, como o
«ciúme» e as «contendas», ao invés de exibirem o fruto do Espírito, como a
«paz», a «harmonia», a «alegria», o «amor fraternal», etc., que encontramos
no trecho de Gál. 5:22,23.
Aqueles crentes eram «homens» porque não conseguiam elevação de
motivos; e eram «carnais» porque se deixavam arrebatar por motivos
inferiores, motivos esses que deveriam ter deixado para trás, por serem uma
relíquia do paganismo. (Ver I Cor. 6:11 e 12:2).
«Em todos os períodos de grande atividade social, quando a sociedade se
torna observadora de seu próprio progresso, surge sempre a tendência de
exaltar os indivíduos e os meios através dos quais ela progride. Por isso é
que, por sua vez, reis, estadistas, parlamentos, e igualmente a educação, a
ciência, as indústrias e a imprensa, passam a ter sua adoração de heróis.
Ali, em Corinto, surgira uma nova fase, a da ‘adoração dos ministros’. Não
admira que em uma época em que o mero progresso político da raça era
considerado como inferior à salvação espiritual do indivíduo ou à
purificação da sociedade, os ministros, que eram órgãos particulares
mediante o que esse progresso tinha lugar, aos olhos dos homens,
recebessem uma importância peculiar, e que os dotes especiais de Paulo ou
Apoio fossem extravagantemente honrados. Também não nos admira que,
ao redor dos vultos de maior eminência entre eles, tivessem sido organizados
os seus partidários»;,(R.W. Robertson, in loc.).
Paulo se utiliza do seu próprio nome como um dos heróis das diversas
facções, a fim de mostrar que ele não dava seu apoio ao partido que se
cristalizara em volta do seu nome, condenando a esse partido tal e qual
condenava a todos os outros partidos. Além disso, apesar de estar atacando
particularmente o partido dos «intelectuais», Paulo queria mencionar essas
duas facções (a de «Paulo» e a de «Apoio»), como representantes do espírito
faccioso inteiro da igreja de Corinto.
«A verdadeira piedade torna os homens pacíficos. O espírito contencioso
não age com base em qualquer princípio humano, e nem com base em
princípios de piedade autêntica; antes, é guiado por seu próprio orgulho e
por suas próprias paixões, ficando excluídas as regras do cristianismo».
(Matthew Henry, in loc.).
★ * ★
II. Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21)
1. Polêmica contra tais divisões:
g. Os verdadeiros apóstolos não são rivais entre si, mas antes, ministros do mesmo plantio, irrigação e colheita (3:5-23).
Paulo passa agora a demonstrar, em seu ataque contra os crentes carnais e facciosos que haviam provocado divisões na igreja
de Corinto, que haviam errado grandemente ao pensarem que os seus vários heróis realmente competiam entre si. Essas facções
haviam sido criadas sob a ilusão que os ministros do evangelho estavam empenhados em rivalidade. Mas estavam equivocadas.
Pois, em primeiro lugar, os pregadofès cristãos não haviam criado algum novo sistema de «sabedoria grega», como alguns
coríntios imaginavam, mas antes, eram todos ministros do mesmo Senhor Jesus Cristo, ainda que suas funções fossem
diferentes.Nesse serviço comum, embora servissem a Deus de diversos modos, tinham todos uma só causa a defender e o meismo
Senhor a glorificar.
A fim de ilustrar esse fato, Paulo lança mão de diversas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, usa a ilustração das lides
agrícolas. A agricultura bem-sucedida requer certa diversidade de funções, embora todas elas tenham a mesma finalidade, e
aqueles que labutam são cooperadores, e não competidores. (Ver I Cor. 3:1-8). Em segundo lugar, Paulo usa a ilustração da
construção de um edifício. Há o levantamento dos alicerces, como também o erguimento do edifício sobre esses alicerces. Muitas
atividades estão envolvidas numa construção, mas todos quantos ali trabalham tem o mesmo interesse. Não são competidores
entre si. (Ver I Cor. 3:9,10). E esse pensamento leva Paulo a sua ilustração da igreja de Cristo como uma estrutura espiritual, ou
seja, o templo de Deus. Segundo essa ilustração, Cristo é o alicerce dessa estrutura, não podendo dividir essa glória com quem
quer que seja. Aqueles que são construídos acima dele têm seríssimas responsabilidades, e o seu labor e progresso espiritual
fazem parte de uma vida agradável ao Senhor, por ser participação em sua graça. Em Cristo, pois, temos tudo; não precisamos,
portanto, gloriarmo-nos nos homens. Nesse templo espiritual, o Espírito Santo vem habitar nos seus membros componentes, o
que exige a santidade de vida, bem como a correta edificação sobre o alicerce. Ora, edificar sobre os homens, gloriar-se em
qualquer indivíduo, exceto no Senhor, é edificar erroneamente, é demonstrar camalidade; e isso toma os culpados sujeitos a
julgamento. (Ver I Cor. 3:11-23).
Essa construção, pois, ilustra a vida cristã. Daí é que procedem os galardões em Cristo, ou seja, as capacidades metafísicas de
servi-lo melhor. O crente individual, entretanto, pode chegar à ruína, através do que Paulo ilustra a grande solenidade da vida e
profissão cristãs. O décimo capítulo desta epístola, portanto, transforma-se em seríssima advertência para todos os crentes (ver
especialmente I Cor. 10:16-18). Não existem palavras mais severas, em todas as epístolas de Paulo, do que aquelas que temos à
nossa frente.
42 I CORÍNTIOS
5 τ ί ονν εστιν Ά ττολλώ ς; τ ί δε εστιν Π αΰλος ; διάκονοι, δι’ ών εττιστεύσατε, και έκάστω ώς ό κύριος
εδωκεν. 5 τί...Άιτολλώ5Ac 18.24,27 5τι ϊ02oXABpc lat; R] risp48D°Gpl syς
Ao invés de τί («Que?») o Textus Receptus, seguindo P (46) C D F G maioria dos minúsculos, diz τίs («Quem?»), em
ambas as instâncias. O masculino, porém parece ser uma acomodação secundária que se adapta aos nomes pessoais; outrossim, a
implicação do neutro, τι no vs. 7, é decisiva em prol de τί no vs. 5 (já que a resposta é «Nada», a pergunta dificilmente pode
ter sido «Quem?»).
O Textus Receptus, seguindo vários testemunhos posteriores (D (b) L Ψ 6 88 104 326 915 sir (p,h) ara etí aí), reverte a
seqüência, para dizer Παύλο?; τί <
5é ϊστιν Άττολλώς]. Essa transposição foi obviamente feita devido a deferência à maior
proem inência de Paulo e por causa da seqüência no vs. 4. A forma adotada como texto é decisivamente apoiada em
-46” *
S A B C D * c (F G) P 31 33 38 69 181 462 1912 it (d,g,r) vg cop (sa,bo).
3:5: Pois, que í Apoio, e que é Paulo, senão ministros pelos quais crestes, e isso
conforme o que o Senhor concedeu a cada um?
Conforme os facciosos crentes de Corinto proclamavam, Apoio era um
grande homem, e Paulo era um grande homem. Mas o próprio apóstolo
reduz a ele mesmo e a Apoio, com estas palavras, à sua verdadeira estatura.
Foi uma indagação perscrutadora, que despreza a glorificação do homem
pelo homem.
Tanto Apoio como Paulo eram apenas «...servos...» (no grego,
«diakonoi»). Paulo prefere não empregar aqui o vocábulo mais forte,
«douloi», isto é, «escravos», embora isso não fosse contrário ao que ele
queria dizer. A palavra «diakonos» tem muitas e variegadas aplicações.
Pode significar o servo de alguém, em uma casa, ou um auxiliar pessoal. É
palavra usada para indicar os «serviçais das mesas», o que eqüivaleria às
nossas modernas empregadas domésticas. Mas também apontava para os
servos nos palácios reais e alguns tipos de escravos, mas não outros. Podia
significar um «ajudante», tal como alguém que trabalha no evangelho. E
essa mesma palavra veio designar o ofício dos «diáconos»; e, quando
aparece no gênero feminino, as «diaconisas». (Quanto às diaconisas, ver as
notas expositivas sobre Rom. 16:1. Ver Atos 6:2,6 quanto a comentários
acerca dos «diáconos»).
Entretanto, Paulo não emprega aqui o vocábulo «diakonoi» em qualquer
sentido oficial, embora tivesse mostrado que supostos «grandes» homens,
como Apoio e Paulo, eram meramente servos, trabalhadores que atuavam
no campo ou na construção de outrem. O proprietário do campo ou o
alicerce da construção é aquele que merece a glorificação que estavam
dando aos «servos», isto é, Jesus Cristo.
«...por meio de quem crestes...» Tanto Apoio quanto Paulo haviam
conquistado convertidos em Corinto, os quais tinham continuado sendo
admiradores seus, chegando muitos deles a reputá-los seus «heróis».
Contudo, não eram autênticos objetos da fé, conforme erroneamente
tinham sido virtualmente transformados por aqueles crentes imaturos;
antes, tinham sido apenas os instrumentos pelos quais a fé em Cristo surgira
naquelas vidas humanas. A própria fé é um dom do Espírito de Deus; por
essa razão, não pode servir de motivo para a glória humana. Assim, pois, a
fé não fora produzida pelos discursos eloqüentes de Apoio, e nem pelos
raciocínios profundos de Paulo. A fé é uma realidade espiritual, não sendo
produto do engenho e da persuasão humanos. Por conseguinte, ninguém
pode ufanar-se de ter servido de instrumento para o surgimento da fé no
coração de outrem, porque o verdadeiro causador da fé é o Espírito Santo.
(Ver as notas expositivas quanto aos trechos de Heb. 11:1 e João 3:16,
acerca de uma completa discussão sobre a «fé»).
A fé não consiste de um processo intelectual ou emotivo próprio do
homem. Antes, consiste na «auto-entrega» da alma às mãos do Senhor, a
fim de que a transformação segundo a imagem de Cristo tenha lugar
naquele que assim confia. De fato, a fé é o primeiro passo da regeneração,
sendo insuflada ria alma, pelo Espírito Santo, por ocasião da «conversão». E
daí por diante o indivíduo passa a viver pela «fé», pois o Espírito de Deus
jamais cessa de impelir os homens remidos a entregarem sua alma e seu
tudo a Jesus Cristo, de tal modo que venham a depender dele no tocante à
sua vida diária, ao seu destino final, à sua redenção, enfim. Ora, visto que.
até mesmo a fé é um produto divino, e não humano, como poderia alguém
gloriar-se por ter sido usado como instrumento que leva o evangelho ao
conhecimento de outros? Os ministros do evangelho nunca deixam de ser
tão-somente «servos», obreiros na casa espiritual, e não a própria casa ou o
6 εγα) £(f>VT€VGa, Ά π ο λ λ ώ ς εττότισεν, άλλα ό θεός
3:6: Ευ plantei; Apoio regou; mas Deus deu o crescimento.
O plantio é im portante; o ato de regar ou cultivar é igualmente
importante; mas o que realmente tem importância é o crescimento e a
colheita; e somente Deus é responsável por esse aspecto da lavoura
espmtual. Não é errado alguém honrar ao semeador ou ao cultivador; mas é
errôneo transformar qualquer deles em objeto de veneração, o que só
pertence a,Jesus Cristo e a Deus Pai. Paulo e Apoio, como ê evidente, não
podiam ser responsabilizados pelas divisões surgidas na igreja de Corinto.
Paulo sempre se referiu a Apoio com o máximo respeito, jamais tendo-o
atacado por motivo de qualquer erro da parte dele. Ambos esses líderes
cristãos estavam perfeitamente satisfeitos em serem apenas instrumentos
nas.mãòs de Deus, ainda que seus seguidores os tivessem transformado em
heróis a cabeças das facções em que aquela igreja se dividira.
Pode-se contrastar a atitude de Paulo e de Apoio com a atitude de certos
«líderes modernos», os quais, na realidade, com freqüência se mostram
exageradamente soberbos, não fazendo qualquer objeção em serem
transformados em objetos de veneração e exagerado respeito por parte dos
seu alicerce.
«...isto conforme o Senhor concedeu a cada um...» No original grego
encontramos aqui uma frase um tanto condensada e obscura; e a própria
tradução, quando é literal, fica condensada e um tanto obscura.
Provavelmente deve ser considerada como uma declaração paralela dos
trechos de Rom. 12:3 e I Cor. 7:17, quanto ao sèu uso geral. Nessas citadas
passagens está em foco a outorga dos dons espirituais, a cada crente de
acordo com a vontade do Espírito Santo. Nesse caso, pode significar o
seguinte:
1. A medida da fé, à extensão do poder, os dotes espirituais que cada
remido tem recebido. Mediante o recebimento do poder espiritual é que os
ministros obtêm, naturalmente, determinados frutos, o que resulta na
conversão de almas aos pés de Cristo.
2. Alguns estudiosos, entretanto, pensam que está aqui em foco a idéia da
«medida do sucesso» conferido a cada ministro em seus contactos com os
homens. Ambas essas idéias expressam verdades, podendo ser percebidas
na base dessa declaração geral de Paulo.
A tradução inglesa RSV diz «...conforme o Senhor assinalou para cada
um ...» Em outras palavras, cada crente obtém sua medida de êxito,
incluindo até mesmo o número daqueles que vêm a crer por intermédio de
seu ministério. Mas a verdadeira causa de tal fé é que o «Senhor» dá a cada
ministro do evangelho um determinado êxito. O sucesso que cada obreiro
do evangelho obtém, portanto, não é produto humano, mas um dom divino,
contanto que realmente seja um sucesso espiritual. Nesse caso, os «servos»
não têm motivo algum para se ufanarem de si mesmos, como também não
têm nenhum motivo os seus seguidores de os exaltarem à posição de
«heróis», visto que, dessa maneira, estariam se gloriándo de meros
instrumentos do Senhor, e não no próprio Senhor. A idéia aqui apresentada
por Paulo é expandida nos capítulos terceiro e quarto, e ainda com maior
clareza, no capítulo décimo segundo desta epístola.
As palavras «...conforme o Senhor concedeu a cada um ...»,
interpretadas por Alford (in loc.), merecem o seguinte comentário: «...isso
se refere não aos mestres, e, sim, aos ouvintes...» Em outras palavras, os
ouvintes receberam a comunicação do evangelho através do dom de Deus
que consistia de vários ministros que os servissem. Essa é também a idéia do
trecho de Efé. 4:11 e is., embora talvez não seja aquela mensagem quePaulo
tencionava transmitir aqui.
«...Senhor...»Conforme era usual para o apóstolo Paulo, temos aqui uma
alusão ao Senhor Jesus Cristo. (Ver as notas expositivas sobre o «senhorio de
Jesus Cristo», bem como sobre o termo «Senhor», que se aplica a ele, com
ilustrações acerca dessa questão, em Rom. 1:4. O fato que «Deus» é o tema
constante dos versículos que aparecem em seguida não significa que a
palavra «Senhor» não diga respeito a Cristo, no presente versículo. Algumas
vezes, quando são usadas certas citações do A.T., o vocábulo «Senhor»
indica Yahweh; mas esse mesmo vocábulo é aplicado a Jesus Cristo, nas
páginas do N.T., quando são utilizadas essas mesmas passagens bíblicas.
(Quanto a notas expositivas sobre essa questão, ver I Cor. 1:31).
Na qualidade de ministros do evangelho, Paulo e Apoio haviam exaltado
exclusivamejite a Jesus Cristo, tendo degradado a si mesmos, embora não se
tivessem diminuído mutuamente, e nem tivessem ensinado a outros que se
deixassem envolver em atividades carnais como a produção de divisões no
seio da igreja cristã. Paulo pois, queria que os respectivos convertidos dele
mesmo e de Apoio imitassem a conduta pacífica de seus supostos «heróis».
ηϋξ,avev 6 ky(b ε φ ΰ π υ σ α Ac 18.4, 11 ’A ttoW ojs klτοτισβν Ac 18.24-28
homens, no seio mesmo da cristandade. Com imensa freqüência, certos
líderes eclesiásticos, longe de repreenderem as facções surgidas por causa de
«personalidades», de fato são os cabeças dessas facções! Tais líderes, pois,
não menos do que os seus seguidores, são indivíduos carnais. Porquanto,
longe de encorajarem esse espírito faccioso, deveriam repreendê-los, porque
são supostos possuidores de um maior conhecimento espiritual e das
verdades bíblicas.
O presente versículo indica que o trabalho de evangelização em Corinto
«começou» com Paulo, pois ele plantou-, então esse trabalho teve
«prosseguimento» sob a liderança de Apoio, pois ele regou. Isso também
podemos aprender no décimo oitavo capítulo do livro de Atos, que narra a
história. Isso não significa, entretanto, que Apoio não tenha conquistado
novos convertidos, porquanto Paulo fala em termos relativos, e não
absolutos.
Paulo salienta aqui que o verdadeiro fruto espiritual jamais é produto
meramente humano, ainda que instrumentos humanos possam estar
envolvidos nessa obra gloriosa. O Senhor Jesus ensinou essencialmente a
I CORÍNTIOS 43
mesma coisa, em sua parábola sobre o crescimento da semente plantada,
em Marc. 4:26-29. Mas o plantio e o regar, feitos pelo homem, seriam
aspectos igualmente inúteis, não fosse o crescimentoque Deus dá à planta.
Toda a forma de vida procede de Deus; o homem pode, tão-somente, criar
certas condições e circunstâncias favoráveis, sob as quais a vida vegetal
pode medrar. E até mesmo a capacidade de criar essas circunstâncias
favoráveis vem da parte de Deus, dada a certos homens, segundo
aprendemos no versículo anterior.
Os dois primeiros verbos, plantar e regar, no original grego, estão no
tempo aoristo, o que indica algum ato histórico bem definido. Mas o
terceiro verbo, aqui traduzido por «o crescimento veio», está no imperfeito,
o que, melhor traduzido, diria, «estava dando o crescimento», o que indica a
operação contínua de Deus, produzindo vida, uma vez que as condições
favoráveis foram criadas. Aquele que confere a vida é quem deve ser
glorificado, porquanto somente Deus é verdadeiramente digno dessa
glorificação. (Com isso comparar o trecho de Rom. 11:32,36).
Um agricultor pode lançar a semente no terreno preparado por outrem,
ou por ele mesmo. Mas nenhum agricultor pode criar a semente, e nem a
potencialidade vital que a semente traz em si mesma. Também não pode
fazer a semente manifestar essa potencialidade vital na forma de fruição.
Tais mistérios pertencem à mente e às operações divinas. E isso se torna
ainda mais verdadeiro no caso da vida eterna, que nos é dada em Cristo e
através dele, porquanto essa vida eterna é de origem divina. (Ver as notas
expositivas sobre a «vida eterna», nos trechos de João 3:15; 5:25,26; 6:57;
Rom. 8:29 e II Ped. 1:4). A vida eterna consiste em uma modalidade de
vida, e não meramente de existência sem fim, conforme essas referências e
notas expositivas bem destacam. A participação na vida e na natureza
divinas é o ponto culminante da existência, o alvo mesmo de toda a
existência humana, conforme a última dessas referências, dadas acima, o
demonstra.
7 ώστε οντε ό φντενων εστίν τι ούτε ό ττοτίζων, άλλ’ ο ανξάνων θεός.
3:7: De modo que, nem o que planto i alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que
dí o crescimento.
Paulo não falava de modo absoluto, como se a personalidade humana não
tivesse qualquer valor. Essa possibilidade é enfaticamente contradita pelo
estudo que Paulo apresenta em seguida acerca dos «galardões», da
edificação da vida cristã em Cristo, e dos resultados que devem ser
esperados. O oitavo capítulo da epístola aos Romanos nega tal tese. De fato,
a totalidade do N.T. é uma demonstração da vastíssima valia da alma
humana. Porém, no serviço do evangelho, no que concerne à dispensação
da vida eterna a outros, um homem não representa qualquer coisa, não
devendo ser glorificado em qualquer sentido, como se fora alguma coisa
especial, porquanto somente Deus é a fonte originária e o despenseiro e alvo
da vida, devendo ser ele glorificado como tal.
Com esse argumento, pois, o apóstolo dos gentios indica a perversidade
envolvida na outorga de glória aos homens, os quais não passam de
criaturas, e, no que diz respeito ao evangelho, cooperadores. Os ministros
do evangelho, quando autênticos, isto é, quando são «espirituais», e não
«carnais» não se fazem competidores entre si, como igualmente não
encorajarão e nem se alegrarão com facções criadas por questões pessoais.
Contudo, o carnal coração humano é muito mais inclinado a fazer de certos
homens seus «heróis», aos quais pode ver e admirar, do que pende por
louvar verdadeiramente a Deus, o qual, para ele, pode ser apenas um
conceito vago e abstrato.
Sim, o que era Paulo? e o que era Apoio? O próprio Paulo retruca: são
apenas servos (ver o sexto versículo), são nada (ver o sétimo versículo). A
semente pertence a Deus; o potencial da vida também; o campo onde é
plantada a semente igualmente é de Deus; os ministros, que plantam e
regam, são dele; a fruição da vida, por igual modo são dele. Por
conseguinte, ele, e somente ele, pode ser objeto de adoração. Os demais são
meros irmãos, e nenhum deles pode ser elevado acima dos outros.
«Nesta passagem, os ministros do evangelho são postos em contraste com
o Senhor; e a razão dessa comparação e que a humanidade, se por um lado
admite com má vontade a graça de Deus, por outro lado se mostra
riquíssima nos seus elogios aos ministros humanos. Dessa maneira, pois,
furtam de Deus aquilo que lhe pertence com todo o direito, visando
transferir tal elogio para si mesmos». (Calvino in loc.).
«...alguma cousa...» Essas palavras têm o sentido de «alguma coisa digna
de ser mencionada?» (Quanto a essa idéia ver as notas expositivas sobre I
Cor. 10:19; Gál. 1:26 e 6:3). O valor da personalidade humana consiste no
fato de que, uma vez remida pelo sangue de Cristo, mediante as contínuas
operações do Espírito Santo, ela pode entrar no processo de transformação
íntima, até finalmente ser completamente restaurada' em Cristo, vindo
assim a participar de tudo quanto ele é e tem (ver Rom. 8:29). Mas o
homem caído no pecado, por si mesmo, vale pouquíssimo, e dificilmente
pode receber a glória que pertence exclusivamente a Deus.
8 ό φντενων δε και ό ττοτίζων εν είσιν, έκαστος δε τον ίδιον μισθόν λημφεται κατά τον ’
ίδιον κοττον.
3:8: Ora, uma só coisa i o que planta e o que rega; e cada um receberá o seu
galardão segundo o seu trabalho.
As palavras «...são um...» podem ser entendidas de várias maneiras, a
saber:
1. Poderiam significar «um em Cristo», mediante a comunhão mística,
assim compartilhando de sua graça e valor.
2. Também poderiam significar um quanto ao destino, que é a
transformação segundo a imagem de Cristo. (Ver Rom. 8:29).
3. Também poderia estar em vista o sentido de um quanto ao propósito
nesta vida, isto é, compartilhando do, ministério de Cristo, por serem seus
colaboradores.
4. Por igual modo, sabendo que os obreiros estão todos em uma só
«categoria», entenderíamos que não passa de uma perversidade carnal a
elevação de um acima de outro, degradando ou diminuindo este último.
5. Além disso, em comparação com Deus, os obreiros do evangelho estão
todos em um mesmo nível, não passando de meros servos e nada
representando, realmente. Não obstante, comparados entre si não são
iguais; e o restante deste versículo salienta esse fato abundantemente,
porquanto alguns deles trabalham mais intensamente e com mais sincera
dedicação. Todavia, Deus é o juiz de todos, sendo o Senhor quem
recompensará a cada qual, segundo o serviço prestado. Portanto, essas
diferenças entre os homens não são motivo para nos gloriarmos nos homens,
para elevar a um em detrimento de outro, criando facções na igreja cristã, o
que serve tão-somente para destruir nossa unidade em Cristo.
Quanto ao fato que os obreiros ocupam um mesmo nível no serviço, sendo
elementos mutuamente interdependentes, e não rivais entre si, diz
Robertson (in loc.)·. «Mediante essa ousada metáfora, que Paulo expandiu,
ficou demonstrado que tanto aquele que planta como aquele que rega
trabalham juntos. Se ninguém plantasse, regar seria uma atividade inútil.
Se ninguém regasse, a planta daria em nada... Deus conferirá a cada qual o
que seu trabalho merece. Esse é o pagamento que o pregador certamente
receberá. Poderá obter pouco demais ou muito demais neste mundo, por
parte dos homens. Porém, a devida recompensa virá de Deus. Essa
recompensa é infalível, e será adequada». ;
Diz também Wordsworth (in loc.), a respeito da mesma igualdade entre
os obreiros do evangelho: «Deus é um só. Ele é o único ‘agente’. Mas os
homens são instrumentos em suas mãos; e são um devido ao fato que estão
unidos em Cristo. Mas não são aquilo que alguns querem fazer deles com
seus partidos, ‘pessoas’separadas, ‘cabeças’rivais e ‘líderes’de seitas que se
opõem entre si».
«...galardão...» Essa palavra se deriva do termo grego cujo sentido
ordinário é «salário». Figuradamente usada, essa palavra indica qualquer
«recompensa», ou seja, um «galardão» pelo serviço prestado. (Ver II
Clemente 3:3; I Cor. 9:7; Mat. 5:46 e '6:l). Nesta epístola primeira aos
Coríntios essa palavra, no original grego, é empregada por quatro vezes, a
saber, em I Cor. 3:8,14 e em 9:17,18.
A parábola dos trabalhadores da vinha (ver Mat. 20:1-15) deixa claro que
até mesmo os galardões são conferidos por motivo da graça divina, segundo
a vontade do Senhor, o que não envolve somente a salvação da alma,
portanto. (Ver Efé. 2:8,9). Sendo assim as realidades espirituais, não há
qualquer contradição entre as palavras do Senhor Jesus e as de Paulo;
porquanto outras palavras de Cristo, como no caso da parábola das minas,
deixam claro que os galardões serão fixados em proporção às habilidades
outorgadas e fielmente cumpridas. Ambas essas idéias são verdadeiras, por
conseguinte: Deus não está debaixo da obrigação de galardoar, mas ele
mesmo se obrigou a isso. Pode galardoar conforme bem quiser, mas
agradou-lhe fazê-lo de acordo com meios que os homens compreendem, isto
é, segundo a proporção das habilidades conferidas e dos serviços prestados
no espírito de fidelidade. (Comparar o décimo quarto versículo deste mesmo
capítulo, e também ver as notas expositivas sobre II Cor. 5:10, quanto a
comentários sobre os «galardões», além daquilo que é dito neste ponto).
Qual será o ponto de vista materialista sobre os galardões? Algumas
mentalidades não ascendem mais alto, permitindo-lhes pensar nos
galardões em termos que não sejam de meras possessões físicas, que pensam
receber do «outro lâdo» da existência. Esse conceito sempre aparece
vinculado a pensamentos de vivendas luxuosas e grande abundância de bens
materiais. Bem longe disso, os galardões consistem muito mais do que
sucede a uma pessoa, envolvendo seu valor intrínseco, seu nível de
transformação segundo a imagem de Cristo, do que daquilo que essa pessoa
receberá. O alvo mesmo desta existência é de participarmos de tudo quanto
Cristo é e possui; é de assumirmos sua imagem moral e metafísica,
tornando-nos santos como ele é santo, sendo aquilo que ele é, participando
de sua essência, isto é, da divindade, segundo essa divindade se encontra
nele. (Ver II Ped. 1:4; Efé. 3:19).
Assim, pois, o que uma pessoa fizer, durante sua peregrinação terrena,
isso é o que determinará o seu nível de participação em Cristo, com que ela
entrará nos lugares celestiais. Não há razão alguma em pensarmos que, ao
ali chegar, tal pessoa ficará estagnada em seu desenvolvimento, porquanto
a eternidade se estenderá infinitamente à sua frente; e a perfeição absoluta é
o alvo culminante, já que todos os crentes, eventualmente, haverão de
compartilhar daquilo que Jesus Cristo é, porquanto disso consiste a sua
promessa, e o propósito de Deus não será cumprido enquanto isso não se
tornar uma realidade. Não obstante, a questão dos galardões, a retribuição
positiva por aquilo que tivermos feito de bom ou de mau (ver II Cor. 5:10), é
uma questão extremamente séria, tal como todos os demais aspectos da vida
são sérios.
Os galardões também são apresentados nas Escrituras sob a forma de
«coroas». Alguns receberão a «coroa da justiça», o que subentenderá grande
44 I CORÍNTIOS
avanço na direção das perfeições morais de Cristo. Todos os crentes, de
certa maneira, receberão a «coroa da vida» e a «coroa incorruptível», pois
ambas indicam a participação na vida eterna, nos lugares celestiais, embora
alguns em maior grau do que outros, visto terem avançado um pouco mais
pela vereda da participação na vida divina, conforme ela se encontra na
pessoa de Cristo. (Ver II Cor. 3:18). Além dessas, há ainda a «coroa da
glória», a qual envolve uma grande glorificação em Cristo, em sentido geral.
Alguns crentes serão mais prontamente glorificados do que outros,
recebendo também um maior grau de glória, ao darem entrada nos lugares
celestiais. Posto que a glorificação faz parte da salvação, então os galardões
também fazem parte da mesma, porquanto apontam para diversos aspectos
da glorificação dos remidos. Segundo esse ponto de vista lato sobre a
salvação, certos aspectos da mesma são adquiridos por nós, ainda neste
mundo, embora tudo com base na graça de Deus; pois, se o Senhor não está
obrigado a galardoar a ninguém, ele mesmo se impôs essa obrigação, não
sendo forçado a isso por qualquer força externa.
Em certo sentido, dentro da doutrina bíblica dos galardões, falamos
acerca de níves diversos de glória; e essa é uma doutrina neotestamentária
bem definida. Obter uma coroa dessas, portanto, redunda em glória para
Cristo Jesus, pois os remidos são descritos a depositarem suas coroas aos
seus pés, diante do seu trono. (Ver Apo. 4:10). E interesante que as coroas
podem ser perdidas, mesmo depois de ganhas, enquanto estivermos neste
mundo, conforme vemos em Apo. 3:11. O trecho de II João 8 subentende a
mesma verdade com relação aos «galardões». A permanência em Cristo é
uma medida necessária para preservamos aquilo que já conseguimos. (Ver
II João 9).
«...segundo o seu próprio trabalho...» Cada qual será galardoado em face
do trabalho distintamente «seu», feito por ele mesmo, deixando entendido
que o galardão obtido será conquista pessoal. Deus conhece o valor
comparativo dos seus ministros; os homens desconhecem tal valor.
Portanto, ninguém pode elevar um obreiro acima de outro, com isso
causando o aparecimento de uma facção. E ainda que porventura o homem
tivesse a sabedoria para fazer a estimativa correta, isso estaria inteiramente
fora de lugar, porquanto se trata de uma prerrogativa que pertence
exclusivamente a Deus.
«No trabalho ministerial tanto há certa individualidade como há certa
unidade. Entretanto, isso não é algo que deva ser observado pelos homens;
mas será devidamente reconhecido pelo grande Senhor». (Shore, in loc.).
Paulo deixa aqui entendido o que ele declara abertamente no quinto
capítulo de sua segunda epístola aos Coríntios, isto é, que todo o labor dos
crentes deve visar agradar ao Senhor, e não aos homens, e nem mesmo a si
próprios, se, por esse intermédio, os outros homens vierem a elevá-los a
oosições de glória, o que os crentes simplesmente não merecem.
9 θβον γάρ 4σμεν συν€ργοί· θεοΰ γζώργιον,1
1 θεοΰ οΙκοδομή ia r e .b
bi 9 b minor, b paragraph: TK WH Bov Nes BF2 AVed RV ASV RSV TT Jer Seg // b minor, 6 major: AVed Zür (Luth) // b paragraph, b major: NEB
9 deov 7 ecopyiov Mt 13.3-9 deov οικοδομή
3:9: Porque nit somos cooperadoret de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de
Deus.
Pequena troca na posição das palavras daria a tradução literal do grego,
neste caso, a saber: «...somos cooperadores de Deus...», o que indica a idéia
de possessão, «somos... de Deus». Há versões, entretanto, que dizem:
«somos cooperadores em favor de Deus», ficando destacada mais a idéia de
origem. Isso é mais ou menos o que transparece na tradução portuguesa que
serve de base textual deste comentário.
Os Cooperadores De Deus
1. Eles são «de Deus», o que denota o seguinte: a. Ele é a causa e a fonte
da habilidade que têm de se identificarem dessa maneira com ele (ver ΓCor.
15:10). Pela graça de Deus eu sou o que sou, e faço o que faço. b. A idéia de
possessão também se faz presente: «pertencemos a Deus» (somos «de
Deus»), c. Tudo quanto porventura estivermos fazendo, estará sendo feito
em cooperação com o poder divino.
2. Outros estudiosos vêem a Deus como o objeto do labor efetuado: nosso
objetivo seria servir a Deus. (Ver II Cor. 5:20). Aquilo que fazemos,
fazemo-lo para cumprir a missão que nos foi dada por Deus, a fim de
glorificá-lo, cumprindo os seus desígnios.
3. Seja como for, a expressão dá a entender uma íntima associação com o
Espírito Santo, na missão conferida a cada remido.
4. O resultado prático disso é que nenhum indivíduo pode jactar-se em si
mesmo, pois, se lhe foi dada uma missão espiritual qualquer, Deus é a
origem e o alvo da mesma. Ele inspira em nós o bem e o efetua em nós; ele
inspira os nossos esforços e lhes confere bom êxito. A ele seja toda a glória,
portanto!
5. Essa expressão é uma censura contra o espírito de partidarismo que
havia em Corinto. Uma censura contra a adoração a ídolos humanos e
contra o denominacionalismo.
Os estudiosos que pensam aqui, no original grego, temos o genitivo como
possessivo, opinam que Deus aparece nesta passagem como o principal
sócio na aventura da vida de cada crente, participando de suas realizações,
derrotas, alegrias e tristezas. Essa é uma verdade, embora não possamos
estar certos sobre como podemos compreender o genitivo que envolve o
termo «Deus». A interpretação do presente versículo oferece várias
possibilidades, cada uma das quais representa uma verdade, embora não
tenhamos certeza sobre o que Paulo queria dar a entender neste ponto.
(Com isso comparar os trechos de II Cor. 5:20 e 6:1). Assim sendo, alguns
intérpretes sugerem a tradução «...cooperadores uns com os outros no
serviço de Deus...» Mas essa sugestão não goza do apoio do original grego;
pois se Paulo tivesse querido dizer isso, tinha meios claros para expressá-lo
no grego. Contudo, essa sugestão apresenta uma verdade, embora talvez
não seja aquela que o apóstolo queria dar a entender.
Ora, se os homens podem estar tão intimamente associados com Deus, a
ponto de poderem ser chamados de seus «cooperadores», então dificilmente
é próprio que sejam estabelecidas distinções entre eles, com o aparecimento
de «heróis» deste e daquele partido, o que só serve para derrubar por terra a
harmonia que deve haver na igreja cristã e entre os seus ministros. Os
ministros, pois, são um com Deus, nesse serviço do evangelho, e não rivais;
e ninguém tem o direito de lançar uns contra os outros.
«...lavoura de Deus...» Essa é a metáfora empregada nos versículos sexto
a nono deste capítulo; embora agora ela figure com uma pequena variação.
Está aqui em foco a «terra cultivada» pertencente a Deus. Bengel comenta
sobre essa expressão, dizendo que a mesma abarca «o campo, o jardim e o
vinhedo». Deus é quem toma a terra produtiva, enquanto que aos homens
compete criar as condições próprias para a produção agrícola. Nos
versículos sexto a oitavo deste capítulo, esse labor é pintado como algo
efetuado neste mundo, e a produção consiste dos crentes trazidos aos pés de
Cristo. Mas, neste nono versículo, a «terra cultivada» é a própria igreja
cristã, por ser esse o resultado natural do fato de ter o campo (que
representa o mundo) produzido fruto. A obra divina tem andamento na
forma da irrigação e do cultivo, porquanto, nesse terreno cultivado, muito
Eph 2.20
fruto pode ser produzido em todas as vidas individuais dos crentes. O
objetivo dessa produção de fruto é que, mediante as operações do Espírito
Santo, a natureza de Jesus Cristo vá sendo formada no íntimo de cada
remido. (Ver Gál. 5:22,23; Rom. 8:39 e II Cor. 3:18). O fato de que todos os
crentes pertencem desse modo a Deus, e que neles se cumprem o mesmo
propósito e a mesma glória, é algo que tira toda a razão da existência de
facções, em que alguns homens são exaltados às custas de outros. Seja como
for, toda a glória pertence exclusivamente a Deus, porquanto todos os
resultados positivos, na forma de vida eterna e de transformação segundo a
imagem de Cristo, tem por origem a influência divina.
«...edifício de Deus...» Com essa metáfora Paulo passa da metáfora da
agricultura para a metáfora da arquitetura, na qual ele prossegue até o
décimo sétimo versículo deste capítulo. Esse edifício é um templo, uma
morada apropriada para o Espírito de Deus, que não pode ser contaminado
por qualquer forma de pecado, incluindo a inveja, as contendas e as
facções.
Pode-se observar aqui a palavra enfática «...Deus...», por três vezes
repetida, fazendo contraste com aquilo que pode ser dito acerca da glória
humana:
1. Somos colaboradores de Deus.
2. Sois campo de Deus.
3. Sois a casa de Deus, o seu femplo.
Ora, isso deveria servir de grande fator unificador na igreja. Mas os
indivíduos de mente èarnal, inclinada para as contendas e facções, embora
crentes, ignoram esses fatos.
A repentina modificação na metáfora é característica do estilo paulino.
(Ver outras instâncias disso, como segue: Em II Cor. 10:4-8, afmetáfora
sobre a vida militar cede lugar à metáfora sobre arquitetura. Nos três Vss.de I
Cor. 9:7; Efé. 3:17 e Col. 2:6,7 vemos diferentes imagens serem
apresentadas em rápida sucessão).
Com base no vocábulo grego por detrás da palavra portuguesa «lavoura» é
que surgiu o nome próprio «Jorge», o que talvez explique por qual razão esse
apelativo era tão comum na igreja cristã primitiva.
«Paulo se utiliza de duas vividas metáforas a fim de salientar seus
argumentos e a fim de sublinhar uma grave advertência. Esses quadros
como que adquirem vida. Ele compara uma comunidade cristã a um
jardim, que um pregador ou evangelista plantou, e que outro rega, mas do
qual a fonte de beleza e vitalidade é Deus. Pouca diferença existe entre o
que planta e o que cuida do jardim; e cada qual será recompensado de
conformidade com o seu trabalho; mas Deus, que lança mão deles é quem,
em última análise, é o responsável tanto pelo jardim como por sua utilidade
e beleza. ‘Eu plantei, Apoio regou; mas Deus é quem dá o crescimento’.
Incidentalmente, se Paulo houVesse levado um pouco mais adiante a sua
belíssima metáfora, poderia ter acrescentado—
-pois certamente teria
pensado nisso, e tal pensamento é frutífero—que um jardim seria algo
monótono se dispusesse apenas de um tipo de flores. Dentro dos propósitos
de Deus, porém, há espaço suficiente para todo o tipo de personalidade—
dom e instituição, bem como para muitos jardineiros. Mas não nos
olvidemos que tudo é um único jardim, plantado por Deus, e cujo Espírito
sustenta a sua vida». (John Short, in loc.).
A metáfora dojardim subentende o «crescimento orgânico» da igreja dé
Cristo. A metáfora do «edifício» enfatiza a adaptação mútua das partes
componentes, e, talvez, a necessidade de todas essas porções para formação
correta do edifício. Ambas essas metáforas enfatizam tanto os direitos que
Deus tem sobre sua igreja em todas as coisas como o erro daqueles que
fazem de meros homens «grandes autoridades».
Talvez seja melhor compreendermos a palavra «...lavoura...», que aqui
aparece, como o ato de lavrar, que prepara a terra a ser lavrada. E o
vocábulo «...edifício...» talvez seja mais apropriadamente traduzido como
«edificação», isto é, o processo pelo qual um edifício é levantado. Nos
trechos de Jer. 18:9; 24:6 e Eze. 26:9,10 encontramos juntas as metáforas
do plantio e da edificação. Nas epístolas I e II Coríntios e Efésios o ato dé
edificar é uma metáfora comum. (Além desses livros citados, ver os trechos
de Atos 9:31; 20:32; Jud. 20 e I Ped. 2:5, quanto a essa questão).
I CORÍNTIOS 45
10 Κατά την χάριν τον θεοΰ2 την δοθεΐσάν μοι ώς σοφός άρχι,τέκτων θεμέλιον εθηκα, άλλος δέ
εποικοδομεΐ. έκαστος δέ βλεπετω πώς εποικοδομεΐ'
1 10 (CI του θίοΰ « A Β C D Ρ Ψ 33 88 104 181 326 330 436 451 614 629
630 1241 1739 1877 1881 1984®» 1985 2127 2492 Byz Led itar-d.e.t.x.* vg syrp.b
cop·*. b°. arm // omit p*6 81 1962 2495 it°-de®,,*d·* Clem ent Augustine Cyril
Theodoret
10 Κ ατά...δο@ €Ϊσάν μοι I Cor 15.10 σοφός ά ρ χιτβ κ τω ν 2 Pe 3.15
Embora se possa argumentar que as palavras του θεού, que estão ausentes em P (46) 0142 81 1962 2495 vg (mss) ara (mss)
Clemente, são uma glosa exegética adicionada por copistas em data remota da transmissão do texto (N A B C D Ρ φ 33 614
1739 Byz Lect at), a maioria da comissão considerou mais provável que, em face das três instâncias de θεοΰ no versículo anterior,
as palavras foram eliminadas aqui como uma repetição
3:10: Segundo α graça de Deus que me foi dada, lancei eu, como sábio construtor, o
fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele.
A natureza da metáfora não se modifica aqui. Assim como Paulo
«iniciara» o trabalho, mediante o plantio, assim outro lhe dera
«prosseguimento», irrigando a plantação; e, por semelhante modo, Paulo
mostra que dera início à obra evangelizadora em Corinto lançando o
fundamento, que é Cristo (conforme se aprende no décimo primeiro
versículo), ao passo que outros deram continuação à obra, edificando sobre
esse fundamento. Paulo havia lançado o único alicerce possível, a saber,
Jesus Cristo. Ninguém poderia lançar outro fundamento, como, por
exemplo, os resultados da sabedoria humana. A igreja cristã deve ter a
pessoa de Cristo Jesus como uma figura central, não negligenciando a
«palavra da cruz», o que Paulo subentende que havia sido feito pelos
elementos da facção intelectual da igreja de Corinto, nos trechos de I Cor.
1:18 e ss. e 2:1,2.
«...segundo a graça de Deus...» Essas palavras poderão ser melhor
entendidas mediante o seguinte desdobramento de suas idéias:
1. Talvez devam ser compreendidas em sentido geral, conforme se vê em
trechos como Rom. 1:5; 12:3 e I Cor. 1:1; em outras palavras, está em foco
o apostolado de Paulo, a graça especial que ele recebeu para ser o apóstolo
dos gentios.
2. Mas talvez essas palavras se revistam de um sentido mais
espécializado, isto é, que não lhe competia ficar erigindo sobre o alicerce
lançado por outrem, mas ser sempre um trabalhador pioneiro (ver Rom.
15:19,20); e, no caso presente, isso significa que lhe competia ter sido o
fundador da igreja cristã de Corinto (ver I Cor. 1:4,17 e 2:1-12).
«...comoprudente construtor...» A palavra «...prudente...», neste caso, é
tradução da palavra grega «sophos», o termo comum para «sábio». Era
palavra usada de muitas maneiras, indicando sabedoria e prudência de
muitas variedades. Não obstante, essa mesma expressão se encontra no
trecho de Isa. 3:3, de acordo com a versão da Septuaginta, sendo
freqüentemente usada para indicar vários operários «hábeis», que tiveram
participação ativa na ereção do tabernáculo. (Ver também Exo. 35:10,25;
36:1,4,8). Nesse sentido, essa palavra tem o sentido de «habilidade», bem
como ■a capacidade intelectual de aplicar essa habilidade. Aristóteles
revela-nos (ver Eth. Nic. vi, vii, I) que a primeira noção dessa palavra,
quando aplicada às artes, é «habilidade». Mui provavelmente, entretanto, o
sentido geral dessa palavra é «sabedoria», o que pode incorporar também a
idéia de habilidade.
Um arquiteto sábio, um mestre construtor, jamais tentaria erigir um
edifício sem primeiro levantar seus alicerces, ou com base em um alicerce
errado. A igreja cristã também tem seu alicerce correto, que é Jesus Cristo.
Paulo, pois, lançou esse alicerce ou fundamento, quando pregou em
Corinto a Cristo, e esse crucificado (ver I Cor. 2:2), quando ensinou as
revelações dos mistérios e das verdades profundas que se centralizam em
torno de sua pessoa (ver I Cor. 2:6,7). Então vieram outros para darem
continuação ao seu trabalho, incluindo Apoio, entre outros. (Com esta
passagem se pode fazer a comparação de Efé. 2:20).
O apóstolo dos gentios deixa subentendido que parte dessa construção da
sobrestrutura não estava sendo erigida com materiais corretos. Ele havia
lançado o correto fundamento, mas outros vinham corrompendo a
construção, incluindo o material da sabedoria humana, e não demorou que
a unidade do edifício começasse a ser perturbada.
«...Porém, cada um veja como edifica...» O fato que o correto alicerce
fora lançado não era garantia que um edifício correto estava sendo erguido
sobre o mesmo, e nem que os materiais certos estivessem sendo
empregados. Ê erro seríssimo alguém levantar o resto do edifício còm
materiais errados, sobre o alicerce autêntico, que é Cristo. Paulo sabia o
que estava acontecendo nas diversas atividades das várias facções existentes
na congregação cristã de Corinto. O versículo seguinte também parece
deixar entendido até mesmo uma alteração havida ali nos próprios
alicerces, e não meramente na sobrestrutura que vinha sendo levantada
acima desses alicerces. (Ver as notas expositivas sobre o décimo primeiro
versículo deste capítulo, logo abaixo). O ensinamentos que vinham sendo
ministrados aos membros daquela igreja de Corinto, depois que Paulo se
afastou, não somente eram sutis e especulativos, ao passo que sua doutrina
era sólida e simples; mas, por igual modo, continha elementos contra os
quais esse apóstolo fazia objeção. E, dentre esses elementos, talvez o mais
significativo de todos fosse a ausência de ênfase sobre a pregação da cruz,
que talvez fosse um escândalo para o grupo dos intelectuais. (Ver I Cor. 2:2
e as notas expositivas ali existentes).
«Ele (Paulo) não se jacta, mas se apresenta aqui como um exemplo».
Preocupação Espiritual
1. Essa preocupação deve abranger não somente aquilo que fazemos, mas
deve incluir igualmente o que dizemos. Ambas essas ações estão sujeitas ao
escrutínio e à censura de Deus (ver Col. 4:17).
2. O homem espiritual preocupa-se suficientemente com a sua vida e as
suas ações, procurando evitar a ostentação (ver Mat. 6:1).
3. O homem espiritual preocupa-se com os valores e as realidades
espirituais, e governará sua igreja de acordo com os mesmos (ver Mat. 7:20
e ss., mormente vs. 33; Col. 3:1 e ss.).
«Duas coisas Paulo proíbe aqueles crentes de fazerem: Não se deveriam
aventurar a lançar outro fundamento, e não deveriam levantar uma
sobrestrutura que não corresponda a esse fundamento». (Calvino, in loc.).
O ensinamento, tanto na contextura de sua doutrina como em suas
aplicações morais, é que determina a natureza da «construção», conforme
aprendemos em Gál. 4:19.
11 θεμέλιον γάρ άλλον ούδεις δνναται θεΐναι παρά τον κείμενον, δς εστιν 'Ιησούς Χριστός.
li I. Χρ. ΝΑΒΡ pm·, R] I. ο Χρ. pc ς: Χρ. I, CcD pc lat: Χρ. C* Or Hil AugP‘
11 Is 28.16; 1 Pe 2.4-6
3:11: Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o
qual é Jesus Cristo.
«...Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi
posto, o qual é Jesus Cristo...» Comenta neste ponto C.T. Craig (in loc.),
como segue: «A mudança de figura simbólica provoca a mudança de tom. O
outro homem, que agora edificava, não é referido por nome. Nada havia de
errado com o regar de Apoio no campo, mas sem dúvida alguns materiais
defeituosos estavam sendo utilizados na construção. Deus havia
comissionado a Paulo mediante um ato de sua graça, que fizera dele um
apóstolo. Ele era o ‘sábio construtor’ que lançara o tipo certo de alicerce.
Não podia mesmo haver ‘outro alicerce’ para a igreja além de Jesus Cristo.
E por que razão isso precisava ser frisado para a comunidade cristã de
Corinto? Será possível que o líder da facção que tinha por seu herói a figura
de Cefas afirmava que Pedro era a rocha sobre a qual estava edificada a
igreja? (Ver Mat. 16:18). Isso é perfeitamente possível. Esta passagem dá a
impressão que Paulo tinha em mente essa tradição, e que ele resistia com
todas as forças contra essa idéia. O próprio Paulo não edificava sobre
alicerces lançados por outros homens (ver Rom. 15:20). Não obstante, não
seopunha a tal prática por parte de outros, conforme verificamos em suas
cordiais palavras a respeito de Apoio. O que atiçava a sua indignação era o
‘tipo’de trabalho que vinha sendo feito ali. Tal como havia feito oposição a
Cefas, face a face (ver Gál. 2:11), assim também Paulo agora não hesitava
em fazer oposição àqueles que aparentemente reivindicavam possuir a
autoridade de Pedro em Corinto». (Quanto à idéia que Pedro foi o
fundamento básico da igreja de Cristo, ver Mat. 16:18 e notas).
Não há meios para sabermos exatamente à que Paulo se referia com essas
palavras, mas é bem possível que esteja em foco alguma pessoa em
particular, como alicerce da igreja de Corinto; embora também seja possível
que Paulo estivesse imaginando alguma «doutrina» ou sistema doutrinário
desenvolvido em .lugar do sistema cristão, centralizado em Jesus Cristo,
como alicerce básico de todo o cristianismo. É possível que a tentativa, por
parte do partido dos «intelectuais», no sentido de criar uma «nova
sabedoria» com base no cristianismo fosse a doutrina fundamental contra a
qual Paulo fazia objeção aqui. Mas também é possível simplesmente que ele
quisesse enfatizar que somente Cristo pode ser o objeto de nossa adoração e
serviço, o que significa que a elevação de outros homens, até ao lugar que
cabe exclusivamente a Cristo, atribuindo-lhes glória, em um espírito
faccioso, na realidade seja eqüivalente a substituir Cristo por outros
homens, como o alicerce da igreja cristã. Este último pensamento parece
mais provável, embora não saibamos como demonstrá-lo, porquanto a
referência de Paulo na realidade não nos fornece qualquer idéia sobre o que
ele queria dizer exatamente.
A única coisa que fica clara, entretanto, é que somente Jesus Cristo pode
servir de base sobre a qual edifiquemos a nossa fé; somente sobre o Senhor
pode uma vida remida ser construída, e somente tendo por centro a pessoa
de Cristo é que se pode fundar uma comunidade cristã organizada. Por
conseguinte, atribuir glória a qualquer outro é roubar o Senhor Jesus da
posição fundamental que ele ocupa apropriadamente em sua igreja. Através
desse símbolo do alicerce, pois, Paulo quiçá estivesse tão-somente
continuando seu ataque contra o espírito contencioso que havia na igreja de
Corinto, e não lançando um novo ataque contra algum partido diferente,
como aquele que tinha por seu herói, a Cefas.
46 I CORÍNTIOS
Os Alicerces E O Grande Alicerce
1. Os intérpretes têm posto este versículo em oposição ao trecho de Mat.
16:18; mas tal esforço é fútil, inútil e desnecessário. (Ver notas completas
sobre essa questão, naquela referência). Pedro, em certo sentido, era uma
figura fundamental para a igreja. Mas, num sentido mais elevado, somente
. Jesus Cristo é o alicerce da igreja.
2. Como poderia Pedro ser fundamental para a igreja? Da mesma
maneira que Abraão o foi para Israel. A teologia rabínica comum pensava
que Abraão era fundamental para o judaísmo. Por semelhante modo, os
apóstolos e profetas formam o alicerce da igreja (ver as notas a respeito em
Efé. 2:20). Mediante essa metáfora, a igreja é apresentada como um edifício
espiritual, um templo cujo alicerce, por assim dizer, é formado pelos
póstolos è profetas do N.T., pois o crescimento da igreja dependia das
tividades deles. Dentro dessa metáfora, Cristo não é o alicerce inteiro, mas
ites, é a principal pedra, angular. Ora, uma pedra angular não pode servir
; alicerce inteiro. Isso comporia uma metáfora absurda. (Ver Efé. 2:20 e I
ed. 2:6 quanto a Cristo como esse elemento especial do alicerce, e não
como o alicerce inteiro). A igreja, encarada pelo ângulo de seu
desenvolvimento histórico, por estar alicerçada sobre os ensinamentos dos
apóstolos e profetas do N.T., fundamenta-se sobre eles.
3. Mas, no que diz respeito à salvação, só pode haver um alicerce, a
saber, Cristo. Ninguém pode alicerçar sua salvação, ou mesmo o
desenvolvimento de sua missão espiritual, sobre qualquer homem. Somente
Cristo serve como alicerce, estando então em foco um alicerce obviamente
diferente daquele que é considerado no ponto dois. Cristo, encarado como o
principal evangelista, pode ser tido como parte do alicerce da igreja, a
saber, seu mais importante elemento—a pedra angular. Porém, encarado
como o Salvador, ele é o único alicerce em que se baseia um crente.
4. Paulo, ao pregar sobre o Salvador e sobre o Senhor, sobre quem
devemos edificar as nossas vidas, falou a seu respeito como o único alicerce
possível. Estivesse ele falando a respeito do desenvolvimento histórico da
igreja, então poderia ter feito menção de outro tipo de alicerce, o qual inclui
os apóstolos e profetas. Oferecemos notas mais detalhadas acerca desses
conceitos, em Mat. 16:18 e Efé. 2:20.
5. A polêmica envolvia o seguinte: Visto que Cristo é o único alicerce, a
adoração a figuras heróicas, no seio da igreja, e o orgulho denominacional,
são erros totalmente ilegítimos. A sabedoria e os esforços humanos não
podem outorgar para nós qualquer alicerce autêntico na vida. Paulo adverte
a seus críticos de Corinto e deixa entendido que eles edificavam sobre a
jactância humana, e não sobre Cristo.
Com a finalidade de reconciliarmos as várias passagens envolvidas nessa
questão, poderíamos aceitar que, de uma maneira especial, não
compartilhada por qualquer outro, Cristo é o fundamento da igreja cristã.
Então, examinando a passagem que ora comentamos, poderíamos dizer que
Paulo quis dizer que Cristo é o alicerce básico de sua igreja em um sentido
exclusivo. Assim sendo, somente sobre a pessoa de Cristo é que se poderia
edificar uma vida cristã individual ou a vida da comunidade cristã em geral.
Essa idéia certamente está com a razão, pois nenhum mero homem pode
tomar tal posição. Porém, em outro sentido, no sentido histórico, pode-se
dizer que outros fazem parte do alicerce da igreja cristã. Assim é que a
doutrina ensinada por Jesus Cristo foi transm itida através de vários
indivíduos, sobretudo através dos profetas (provavelmente estão em foco os
profetas do N.T., em Efé. 2:20) e dos apóstolos. Sobre esses, pois,
historicamente falando, é que a igreja de Cristo foi edificada, porquanto
foram os esforços evangelizadores desses homens' que ergueram o
cristianismo.
Nesse caso, o próprio Jesus Cristo, por ser o principal evangelista, é
também a pedra de esquina, porquanto ele é o unificador de todo o esforço
envidado, bem como o tema central da própria mensagem. Mais ou menos
dessa maneira é que podemos reconciliar as diversas referências acerca do
fundamento da igreja; apesar de não podermos ter certeza absoluta sobre se
Paulo se sentiria satisfeito perante tal reconciliação. Por isso mesmo é que
existem alguns estudiosos que nem procuram estabelecer reconciliação
entre essas várias passagens neotestamentárias, simplesmente afirmando
que diferentes pontos de vista sobre a questão existem nos escritos dos
ldiversos escritores do Novo Testamento.
Após a destruição da cidade de Jerusalém, a autoridade visível da fé-
religiosa, que era o templo e o sinédrio, desapareceu. Foi necessário,
portanto, estabelecer alguma nova autoridade central, algum novo
fundamento; e devem ter surgido diferentes soluções para esse problema,
em diferentes secções da igreja cristã. Dentro da literatura judaica, Abraão
e os patriarcas são chamados de alicerce da congregação israelita. Portanto,
não deveríamos ficar surpreendidos se, de certo modo, alguns homens
também sejam chamados de fundamentos da igreja cristã, a comunidade
religiosa do novo pacto, pois isso seria tão-somente a reiteração de uma
lógica consagrada pelo uso. Todavia, em seu zelo em favor de Cristo, Paulo
poderia ter feito objeção a qualquer idéia dessa ordem, não sendo
impossível que o nosso versículo encerre exatamente tal objeção, a despeito
do fato que o cânon do N.T. eventualmente tenha incluído alusões a tais
homens, os quais, em um sentido secundário, poderiam ser considerados
como alicerces da igreja cristã. (As notas expositivas sobre o trecho de Mat.
16:18 expandem as descrições e discussões acerca de todo este problema).
Muitos intérpretes protestantes, através de truques de interpretação e de
sofismas filosóficos, procuram tirar da passagem de Mat. 16:18 toda a
alusão a Simão Pedro como o fundamento; mas muitos excelentes
intérpretes, incluindo alguns dos melhores intérpretes protestantes, dizem
que essa passagem fica sem sentido se Pedro não está em foco ali.
Deve-se notar, entretanto, que esse passo bíblico de Mat. 16:18 na
realidade não diz qualquer coisa diferente que a tradição judaica dizia
acerca de Abraão ou que o trecho de Efé. 2:20 declara especificamente, e
com grande clareza, acerca dos profetas e apóstolos, isto é, que esses são
peças fundamentais da igreja de Cristo. Portanto, é inútil querer desvirtuar
a passagem citada do evangelho de Mateus, pois encontraríamos a mesma
dificuldade em Efé. 2:20; porquanto aquilo que é dito sobre Pedro, no
evangelho de Mateus, é subseqüentemente dito sobre todos os outros
apóstolos e sobre os profetas, na epístola aos Efésios. Nossa explicação,
pois, deve seguir alguma linha que procure reconciliar a idéia que diz que
Jesus Cristo é o alicerce exclusivo da igreja, com a idéia que diz que certos
indivíduos também são peças fundamentais da igreja, ainda que em sentido
secundário, conforme foi sugerido mais acima. Essa interpretação é pelo
menos possível, e certamente é superior a algum manuseio desonesto e
sofista que somente torce as Escrituras.
O apóstolo Paulo queria que entendêssemos que só pode haver um
alicerce —Cristo—, porque substituí-lo é pôr em risco a estrutura inteira do
edifício espiritual da igreja. Só existe um sobre o qual podemos construir
nossas vidas, e sobre a qual pode ser edificada a vida da igreja de Cristo,
porquanto é por intermédio dele que nos é conferida a vida espiritual em
todos os seus aspectos. A real pessoa de Cristo deve ser vista como esse
fundamento, o qual não se compõe apenas de alguma doutrina a respeito
dele. Porquanto é através dele que nos vem a vida, e não meramente através
da crença em alguma doutrina em torno de sua figura. Considerando isso,
somos levados a pensar sobre a intimidade ou comunhão mística com ele,
através do seu santo Espírito. Nisso consiste verdadeiramente o caminho,
em que as pedras que são sobrepostas ao fundamento podem ser chamadas
de «pedras vivas», conforme disse Cefas, em I Ped. 2:5-8. Essas «pedras
vivas», portanto, é que chegam a compor a «casa espiritual». Ora, tudo isso
pressupõe alguma transmissão real de vida; e somente o próprio Cristo,
mediante o seu Espírito, pode fazer isso.
Disso tudo se conclui que a fé não é uma confiança baseada em alguma
mera doutrina acerca de Cristo, como também não é a aceitação de algum
credo do qual ele aparece como a figura central. A fé é parte integrante da
comunicação do Espírito, o primeiro passo da regeneração, parte integrante
da conversão; e tudo isso é resultado de uma operação divina sobre a alma.
Quando Paulo lançou o fundamento, pois, esse fundamento não consistia
em sua pregação, mas a sua prédica conduzia Cristo aos corações humanos;
e assim é que o fundamento foi posto por ele. E foi assim que a vida de
Cristo era transmitida aos corações.
★ ★ ★
Quão silentemente, quão silentemente,
O maravilhoso dom é conferido!
Assim Deus confere aos corações humanos
As bênçãos de seus céus.
Nenhum ouvido ouvirá a sua vinda,
Mas neste mundo de pecado,
Onde as almas mansas o recebem, contudo,
O querido Cristo entra ali.
(Phillips Brooks).
«...quefoiposto...» Essas palavras, no dizer de vários intérpretes, aludem
ao plano divino e à ação de Deus Pai. E essa idéia certamente é verdadeira.
O apóstolo Paulo, somente em um sentido bem secundário, através de seu
ofício e ministério apostólico, em situações geográficas, lançava o
fundamento que já havia üido determinado dentro do plano de Deus. (Com
essa passagem se pode comparar o trecho de I Ped. 2:5-8, onde a construção
aparece sob a forma de uma «casa espiritual», composta de pedras vivas, e
da qual Cristo é a principal pedra angular, idéia essa que também aparece
em Efé. 2:20). Por conseguinte, essa deve ter sido uma comum metáfora
entre os cristãos primitivos.
12 ei Se τις έττοικοδομεΐ eVi τον θεμέλιον χρυσόν, άργυρον, λίθους τίμιους, ξυλα, χόρτον, καλάμ-ην,
12 ΰζμίλιον ρ4βΝ*ΑΒ vgfc Ambr; R] add τούτον D ρί lat sy ς | αργυριον praem και
Com base no testemunho de p48 N* A B C* 6 81 cop (sa) etí, a maioria da comissão preferiu a forma θεμέλιον, considerando
a forma θεμέλιοι/ τούτον, apoiada pelo resto dos manuscritos, como modificação secundária, introduzida a fim de aclarar o
sentido.
preciosas entre seu material de construção, ainda que não fossem esses os
elementos básicos do edifício. Alguém poderia levantar um barraco ou
cabana como lugar onde abrigar-se; e aqueles que têm visto as favelas de
algumas grandes cidades sabem que as pessoas muito pobres erguem
barracos feitos quase de qualquer material, por mais frágil que seja. Mas,
em um templo, são empregados materiais de maior valor; porque o templo
3:12: E, se alguém sobre este fundamento levanta um edifício deouro, prata, pedras
preciosas, madeira, feno, palha,
(Quanto às diversas interpretações acerca desta passagem, ver as notas
expositivas existentes no fim do décimo terceiro versículo deste capítulo).
Um templo, por motivos decorativos, pode incluir ouro, prata e pedras
I CORÍNTIOS 47
se toma um lugar de honra, onde se venera um poder superior, um elevado
espírito, um deus, ou mesmo o Deus verdadeiro, como era o caso do templo
de Jerusalém. Quanto mais preciosos e raros forem os materiais
empregados, tanto maior será a honra atribuída ao ente, real ou imaginário,
que é venerado ali. Os vários templos que foram erguidos durante a história
da nação de Israel foram construídos com materiais caríssimos, importados
de vários países estrangeiros, para que tais templos fossem edifícios sem-par
e exaltados. Desnecessário é dizer que muitos templos pagãos eram da
mesma forma suntuosos; pois, nas culturas antigas, grandes riquezas eram
usadas nesses edifícios religiosos.
O apóstolo Paulo, portanto, não pensou meramente em usar uma
metáfora capaz de sugerir o emprego d&materiais duráveis, embora
certamente essa idéia esteja envolvida aqui, mas também capaz de sugerir o
uso de «materiais preciosos», de elevado valor. A vida cristã pode ser
construída com o material próprio da debilidade da carne, do que restar das
energias de uma vida desperdiçada em outras coisas; mas também pode ser
levantada com todas as riquezas do ser, com muito maior durabilidade.
No tocante aos materiais usados na construção desse edifício espiritual,
várias coisas específicas podem ser ditas: o «...feno...», capim seco de
qualquer variedade, poderia ser usado para preencher as fendas, em uma
construção apressada de adobe; a «...palha...», ou canas de vários grãos,
com as folhas cortadas, poderiam ser usadas para fazer telhados de palha.
A «...madeira...» podia ser usada como material de construção de portas e
até mesmo paredes. Reunindo todos esses elementos, uma coisa se toma
perfeitamente óbvia: a construção assim levantada é extremamente
temporal, pobre e com grande risco de incêndio. Em contraste com isso
aparece o templo. Ali, as «...pedras preciosas...» poderiam ser os mármores
e também as gemas. Pedras de qualidade formariam as paredes, ao passo
que as pedras preciosas, o «...ouro...» e a «...prata...», podiam ser usados
como materiais de construção ou toques decorativos. O resultado seria um
edifício de grande duração, um encanto para os olhos, algo não facilmente
sujeito ao fogo e à destruição.
Tais interpretações são legítimas, mas diversos intérpretes têm ido ainda
mais longe, procurando identificar cada material como se houvesse um
sentido específico para cada qual. Assim sendo, o ouro significaria as
doutrinas mais excelentes do evangelho, ao passo que a prata e as pedras
preciosas seriam outros aspectos dessa doutrina, mostrando os valores da
pessoa de Cristo. Outros pensam que o ouro representa a divindade de
Cristo, ao passo que a prata representaria a sua humanidade, e que as
pedras preciosas mostram suas várias «virtudes e graças». Por semelhante
modo, a madeira, a palha e o feno representariam as doutrinas heréticas, as
heresias condenáveis, que são diametralmente opostas e procuram
desvirtuar o fundam ento...«doutrinas de demônios; coisas vazias,
corriqueiras, inúteis. ...fábulas, genealogias intermináveis, tradições huma­
nas, ritós e cerimônias próprias do judaísmo; o que, através dos
preconceitos da educação, e através da ignorância e da inadvertência, sem
qualquer mau desígnio, pode ser introduzido por alguns em seus próprios
ministérios, conforme sucedera nò caso da religião judaica; e estaria
também em vista a sabedoria do mundo, a filosofia dos gentios, as oposições
da chamada ciência, as especulações curiosas, as noções inúteis e vãs, que
ainda eram retidas por alguns elementos educados segundo o sistema grego,
os quais muito apreciavam essas coisas. Através disso, sentiam a coceira da
vangloria, de mistura com suas ministrações evangélicas. Numa palavra,
está em foco tudo quanto agora se pode introduzir no ministério do
evangelho que não é tão honroso para a graça de Deus e nem tão apropriado
à pessoa, ao sangue e à justiça de Cristo, e nem tão coerente com a obra
graciosa do Espírito de Deus». (John Gill, in loc.).
Tais interpretações, embora sem dúvida contenham grandes verdades,
identificam mui precariamente os materiais mencionados aqui por Paulo
com algumas idéias específicas. Mas, mesmo que esse apóstolo tivesse em
mente dar a entender alguma identificação assim, não há meio para
sabermos o que ele poderia querer dizer.
★ ★ ★
A linguagem simbólica aqui usada evidentemente tem por intuito indicar
os ensinamentos que eram propagados por diversos ministros do evangelho
ou por crentes particulares, embora também indique o padrão geral de vida
e o.desenvolvimento espiritual de tais pessoas; e isso certamente envolve
também o «poder dos ensinamentos bíblicos» sobre as suas vidas. Paulo
falava especificamente para os «mestres» e seus respectivos labores,
conforme o contexto certamente nos sugere; o apóstolo igualmente incluía
os padrões de vida possíveis para todos os crentes, os quais constroem suas
vidas sobre o grande fundamento, que é Cristo. Por conseguinte, os
materiais significam aquilo que os crentes, ministros ou não, ensinam, bem
como a influência exercida por esses ensinamentos sobre eles mesmos, o que
modifica, para melhor ou para pior, a conduta deles, amoldando esáa
conduta sobre o alicerce, que é Cristo.
«Paulo tinha dois contrastes em mente. O primeiro diz respeito entre
aquilo que é digno e 'aquilo que é indigno, sem importar se esses materiais
eram ou não realmente empregados nas construções. O outro contraste é
entre o que é inflamável e o que é à prova de fogo, porque, perante os seus
olhos, estava o dia do juízo». (C.T. Craig, in loc.).
«Alguns homens edificam com o ouro da fé, com a prata da santidade e
com as imperecíveis pedras preciosas do amor; mas outros edificam com a
madeira morta de esterilidade nas boas obras, com a palha vazia da falta de
espiritualidade, com a ostentação do conhecimento, e com a cana
quebradiça do espírito continuamente em dúvida». (Schrader, in loc.).
Tais interpretações têm algum valor, ainda que Paulo talvez não
tencionasse especificar sentidos específicos para cada material mencionado.
Alford (in loc.) sumaria o sentido essencial desses materiais como segue:
1. A símile não envolve muitos edifícios...mas um apenas (ver o décimo
sexto versículo), aquele que tem a Cristo por seu fundamento; mas
diferentes porções do mesmo vão sendo construídas pelos ministros que
trabalham sob as suas ordens, alguns trabalhando bem e substancialmente,
mas outros trabalhando mal e sem consistência.
2. ...o ouro, a prata, etc., se referem ao material do ensino apresentado
por esses ministros, primariamente; e, por inferência, se referem àqueles
em quem esses ensinamentos penetram, edificando-os em Cristo, os quais
devem ser as pedras vivas do templo. Não há aqui a alusão aos meros frutos
morais, produzidos pela pregação sobre os membros individuais da igreja,
(conforme pensavam Orígenes, Crisóstomo, Teodoreto, Teofilacto,
Agostinho e Jerônimo).
3. Os construtores que usam materiais inúteis e inconsistentes, ainda
assim, ‘no fim’, são ‘salvos’ e isso nos mostra que sua prédica anunciava a
pessoa de Cristo, e que eles mesmos eram sinceros em seus esforços.
4. Aquilo que é dito aqui não se refere, senão por acomodação, à ‘vida
religiosa do crente’, em geral (como vários comentadores têm dito), mas
antes, alude ao ‘dever e galardão’ dos pregadores. Ao mesmo tempo, tal
acomodação é legítima, porquanto cada indivíduo é o mestre e o edificador
de si mesmo.
5. Os vários materiais mencionados não devem ser imaginosamente
comparados com as ‘doutrinas particulares' ou com as ‘graças’ de Deus.
Ver os versículos dezesseis e dezessete, deste mesmo capítulo, onde esse
ensinamento envolve todos os crentes, e não meramente os mestres».
αποκαλύπτεται, καί
13 έκαστον το εργον φανερόν γενησεται, ύ] γάρ ήμερα δηλώσει-' δτι εν 7τυρί
έκαστον το έργον όποιον εστιν το πυρ [αυτό] δοκιμάσει.. 13 ι C
or4.5;2T
h1.7-10
Ο pronome, ausente de ρ4β”ι<
ί N 13 L Φ 1Ò4 177 255 623 1912 it (d) vg sir (h) cop (sa,bo) ara etí al, é apoiado por
manuscritos como A B G. P 33 88 181 326 424 441 915 917 1891 2127 sir (p) al. Embora a comissão suspeitasse que copistas
omitiram a palavra como um pleonasmo, contudo, porque a evidência externa em favor de sua inclusão é relativamente l i m i t a r i a
em alcance, foi resolvido deixar a palavra entre colchetes.
3:13: α obra de cada umse manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será
A tradução inglesa RSV grava a palavra «Dia», com inicial maiúscula, a
fim de mostrar que está em vista aqui o dia do juízo. E esse dia é sempre
metaforicamente relacionado ao fogo, à consumação, à purificação, à
eliminação da escória, mostrando a qualidade real das coisas e dos
indivíduos. (Ver também os trechos de Mal. 4:1; II Tes. 1:10; Heb. 10:25 e
II Cor. 5:10). A passagem de II Baruque 48:39 mostra-nos como isso era
imaginado, ao dizer: «Portanto, o fogo consumirá seus pensamentos, e, nas
chamas serão testadas todas as meditações de suas mentes».
Certos materiais, com que os homens edificam as suas vidas, não são
inflamáveis em sentido espiritual (ver I Ped. 1:7); mas outros materiais
empregados pelos homens serão consumidos pelo fogo, por não possuírem
natureza resistente e permanente (ver Mat. 7:19). A salvação pela graça não
elimina a necessidade dejulgamento, conforme nos é solenemente ensinado
em trechos como II Cor. 5:10 e Rom. 3:6. (Ver as notas expositivas a
respeito na referência da segunda epístola aos Coríntios).Perante o
«tribunal de Cristo» seremos julgados de conformidade com o que tivermos
feito de bom ou de mau. Assim será determinada a nossa posição nos
lugares celestiais, a nossa medida de transformação segundo a imagem de
Cristo, conforme é descrito nas notas expositivas sobre o oitavo versículo
deste capítulo. Ali seremos o que fomos espiritualmente neste mundo, e isso
é o que significa a expressão receber o que tivermos feito.
Isso não significa, contudo, que se estabelecerá um estado de estagnação
no estado eterno, que impeça todo outro progresso espiritual. Isso é uma
revelada no fogo; e 0 fogo provará qual seja a obra de cada um.
idéia totalm ente contrária à maneira divina de fazer as coisas, pois
certamente Deus nunca poderá estagnar. Não obstante, o julgamento da
vida do creffte, que ele teve neste mundo, é uma questão da maior
gravidade. Os crentes serão então abalados até aos próprios alicerces de
seus seres, embora estejam seguros em Cristo, sendo-lhes então permitido
prosseguirem na direção das perfeições do Senhor, na participação de sua
natureza moral e metafísica, o que é o alvo de toda a existência humana,
porquanto ele é o «padrão» ou modelo tanto da vida presente como daquela
que há de ser.
A reprovação de certos labores, que talvez tenham ocupado a vida inteira
de um crente, não significa a destruição do ser desse crente, o que Paulo
deixa bem claro nesta passagem. Outros trechos bíblicos, entretanto, falam
sobre o perigo real que representa o desvio ou queda. Não obstante, faz
parte das promessas eternas de Cristo que nenhuma de suas ovelhas se
perderá finalmente. Como isso poderá cumprir-se é especulado nas notas
expositivas sobre o trecho de Rom. 8:39.
Purgatório'! Os intérpretes da Igreja Católica Romana vêem, na secção
que ora comentamos, uma confirmação de sua doutrina do «purgatório»,
sendo esta a melhor passagem neotestamentária que supostamente dá apoio
a tal idéia. Essa doutrina medieval geralmente é apresentada de forma a
rr—levar os homens a imaginarem que o purgatório indica algum lugar
distinto, alguma esfera da existência dos espíritos separada dos lugares
celestiais; antes, seria um local de purificação das almas. Não obstante.
48 I CORÍNTIOS
conforme esta passagem bíblica deixa bem claro, nos lugares celestiais é que
o juízo e a purificação terão lugar. Assim é que alguns crentes serão
reduzidos a apenas sua salvação básica; e isso significa que estarão nos
lugares celestiais, libertados desta dimensão terrestre e de qualquer outro
lugar de julgamento severo (como o hades), onde ainda assim serão
potencialmente capazes de serem transformados segundo a imagem de
Cristo. Em outras palavras, Deus ainda assim permitirá tal privilégio para
os que forem salvos como que «através do fogo», prometendo-lhes a total
concretização desse privilégio. Não nos enganemos, entretanto, uma espécie
de «purgatório», ou outro nome qualquer que queiramos aplicar a tal
processo, terá lugar nos lugares celestiais, sendo essa uma solene
necessidade, ensinada na Bíblia. A vida cristã descuidada, pecaminosa,
errônea, em que o crente tenha ensinado doutrinas falsas para detrimento
de outros, não pode deixar de receber sua devida retribuição, não podendo
passar despercebida e sem julgamento, o que fica perfeitamente claro nesta
passagem e no trecho de II Cor. 5:10. O erro doutrinário envolvido na idéia
romanista do «purgatório» consiste em pensar que o mesmo se segue
imediatamente à morte física, ou que as penas sofridas ali pelas almas
possam ser aliviadas ou abreviadas por «missas» e orações que os vivos
façam aqui em favor delas, a troco de dinheiro. Esse juízo terá lugar no
«...dia...» referido neste versículo; envolverá todo o povo de Deus, que então
já terá passado para a outra existência, e não haverá meio de suavizar ou
abreviar qualquer pena ali imposta, porquanto esse «tribunal de Cristo» não
terá por fito aplicar castigos, e, sim, aquilatar o valor da vida cristã de cada
remido e determinar os galardões que cada um receberá ou deixará de
receber, tendo em vista o seu grau de transformação segundo a imagem
moral e metafísica de Cristo, conforme já temos mostrado noutras porções
destas notas expositivas.
A vida terrena do crente, a história da alma neste mundo, aquilo que
cada remido houver feito com as oportunidades que lhe tiverem sido
oferecidas, aquilo que o crente tiver ensinado, a quem ele realmente
glorificou, tudo isso será submetido à luz do julgamento de Cristo. Naquele
dia, pois, muitos crentes verdadeiros serão abalados até aos alicerces da
alma, quando contemplarem a «história terminada de suas vidas», e então
virem a choupana que construíram sobre o glorioso fundamento que é
Cristo.
O tribunal de Cristo será uma ocasião de avaliação, de nova
determinação e dedicação, um período de conflito de alma, e, finalmente,
uma oportunidade de avanço. E assim Cristo, uma vez mais, se tornará o
alvo de toda a existência humana. Mas esse novo progresso não se efetuará
enquanto não houver sido expurgados da alma toda a madeira, palha e feno
deterioradores, isto é, enquanto não for eliminado da personalidade do
crente tudo quanto lhe impede o avanço espiritual. E esse pensamento nos
permite ver que o pensamento paulino inclui um certo «expurgo», embora
tal doutrina, como outras doutrinas neotestamentárias, tenha sido sujeitada
aos exageros e perversões dos homens.
Pensando Sobre OJulgamento Dos Crentes
1. Tal como se dará no caso dos incrédulos, os crentes também serão
julgados de acordo com as suas obras. Há notas completas sobre isso, em
Gál. 6:7,8, trecho que ensina sobre a lei da colheita segundo a semeadura.
2. Esse julgamento será baseado naquilo que tivermos praticado, «de bom
ou de mau», segundo diz II Cor. 5:10. Naquela referência há notas
completas sobre o significado do «julgamento do crente».
3. «O bem e o mal» darão o «meio termo do caráter espiritual», bem como
das «realizações espirituais»; e com base nesse «meio termo» é que cada qual
obterá certo grau de participação na natureza e nos atributos de Cristo.
Dotado dessa participação, pois, o crente entrará no estado eterno, e sua
capacidade de agir e realizar ali, dependerá desse caráter.
4. As «coroas» falam de atributos específicos dos espíritos dos remidos.
(Ver as notas em II Tim. 4:8 sobre esse conceito).
5. Todavia, não pensamos que haverá qualquer «estagnação» envolvida
no estado eterno, pois se algum membro do corpo de Cristo pudesse
permanecer fraco, o próprio Cristo permaneceria fraco, pois o seu corpo
seria fraco. Além disso, a promessa feita para cada crente é que
eventualmente haverá de atingir a perfeição em Cristo, pois o Filho terá de
tornar-se «tudo para todos», segundo se aprende em Efé. 1:23. Obteremos
fatalmente a plena filiação, embora essa plenitude não venha a ser atingida
por todos ao mesmo tempo. O crente terá, finalmente, a plenitude de Deus
(ver Efé. 3:19), e dificilmente isso ocorreria se o crente ficasse em estado de
estagnação, dotado de uma glória comparativamente inferior.
6. Quanto ao «julgamento dos crentes», ver Apo. 14:11 e Efé. 1:10.
Podemos estar perfeitamente seguros de que o Senhor não nos deixará
ficar como estamos; antes, Cristo continuará sendo formado em nós. Esse
processo será, certamente, eterno e infinito, e poderá ser um processo
agonizante aquele ao qual seremos levados, para que isso tenhá lugar.
«...a obra de cada um...» Assim como a salvação da alma é uma questão
individual, assim também será a questão do julgamento perante o «tribunal
de Cristo». A transformação dos remidos segundo a imagem de Cristo é uma
questão individual; o progresso na direção das perfeições de Cristo é uma
tarefa que cabe ao crente individual, conduzido pelo Espírito Santo de
Deus. Até que ponto haverá tal transformação e com que prontidão, tudo
depende do crente individual, embora a influência constante da graça de
Deus garanta a concretização final desse grande alvo.
Maus mestres: comenta John Short (in loc.), como segue: «Uma das
grandes notas dominantes do ensino paulino é a da responsabilidade
pessoal de cada indivíduo, quanto à sua vida e, além disso, o fato de que,
em algum lugar, em algum tempo, o crente terá de prestar contas a Deus.
As grandes linhas escritas por Milton, indignado como estava ele contra os
falsos pastores e contra o trabalho desleixado que os mesmos fariam,
continua soando como um sino, aos ouvidos daqueles que estão dispostos a
ouvir».
As ovelhas famintas olham, mas não são alimentadas,
Mas, batidas pelo vento e pela umidade se arrastam,
Corroídas por dentro, espcãhando um mau contágio:
Além do que o lobo voraz, com patas sedentas,
Devora a cada passo, e nada lhe é dito em contrário.
Mas a máquina de duas mãos, à porta,
Sempre está pronta para ferir uma vez, e não mais-
(Milton, em Licidas).
A Importância Do Exemplo
1. Cristo estabeleceu o exemplo supremo da vida santa e produtiva. Seu
exemplo foi perfeito (ver Heb. 7:26).
a. Exibiu a santidade (ver I Ped. 1:15,16).
b. Foi demonstração de como se deve seguir a lei do amor (ver Efé. 5:2).
c. Caracterizou-se pela obediência (ver João 15:10) e pela abnegação (ver
Mat. 16:24).
2. Paulo deu um claríssimo exemplo de como deve ser a conduta cristã
(ver I Cor. 11:1).
3. Se seguirmos a esses grandes exemplos, seremos «aprovados» por Deus,
0 que não é coisa sem importância.
4. Um pai deve a seu filho, e um mestre deve a seus estudantes três coisas:
exemplo, exemplo, exemplo.
«...o própriofogo o provará...» Devemos notar que, imediatamente antes
destas palavras, Paulo escreveu, «...está sendo revelada pelo fogo...»,
referindo-se ele à obra de cada homem. As metáforas utilizadas por Paulo
parecem severas demais, inesperadas para aquilo que poderíamos imaginar
envolvidos no julgamento dos «crentes», mas envolvido somente no
julgamento dos perdidos. Não nos devemos olvidar que a metáfora do «fogo»
é usada para indicar tanto o julgamento dos crentes como o dos perdidos.
Isso é instrutivo, no sentido de que é algo suficiente para mostrar que temos
à frente uma linguagem simbólica. Deus nâo está se preparando para torrar
seres humanos em um forno, para sempre, conforme as chãs interpretações
humanas têm dado a entender. Deus não é o maior Monstro dos séculos,
segundo alguns intérpretes fazem dele. Não obstante, o julgamento, tanto
aquele que envolverá os crentes como aquele que envolverá os perdidos, não
será algo insignificante, motivo pelo qual o «fogo» é usado como símbolo de
ambos. Esse simbolismo é usado, portanto, por causa dos seguintes
motivos:
1. Por causa da severidade do juízo de Deus. A questão é seríssima.
2. Por causa de seu caráter completo, o que é simbolizado pelo fato que o
fogo consome algo até o fim, extinguindo toda a escória, purificando os
materiais imperecíveis de tudo quanto não convém.
3. Por causa do elemento purificador do julgamento. O julgamento não
visa apenas a retribuição destruidora, nem mesmo no caso dos incrédulos, e
muito menos ainda no caso dos crentes.
Orígenes observou que somente as mentes símplices e sem imaginação
vêem apenas «retribuição» no julgamento divino. Pois o juízo de Deus,
apesar de certamente incluir um aspecto de «retribuição», porquanto cada
indivíduo receberá segundo aquilo que tiver praticado, sendo julgado
conforme as suas obras, também terá um efeito disciplinador e remidor.
(Ver as notas sobre Efé. 1:23).
Esses São Os Meios De Desenvolvimento Espiritual
1. A oração: É um ato criativo, que pode alterar as pessoas e as
circunstâncias. (Ver a nota de sumário sobre esse tema, em Efé. 6:18).
2. O estudo: Entreguemos nosso intelecto a Cristo. A mente é capaz de
muitas maravilhas. A mente dedicada a Deus, pode transformar-nos a vida.
3. A meditação·. A meditação pode ser o portal da iluminação espiritual.
(Ver as notas em Efé. 1:18).
4. A santificação: Pouco progresso espiritual pode ser obtido sem a
santidade de vida (ver as notas em I Tes. 4:3).
5. A prática da lei do amor (as boas obras realizadas em favor do
próximo): O amor é a comprovação da espiritualidade (ver as notas a
respeito, em I João 4:7).
6. O uso dos dons espirituais: Isso ajuda no cumprimento da missão do
crente nesta vida (ver as notas introdutórias ao décimo segundo capítulo de
1 Coríntios).
«Esse simbolismo é extraído daquilo que feriria os olhos de um viajante
que estivesse em Éfeso, onde o apóstolo Paulo agora se encontrava, ou em
Corinto, onde a sua epístola foi lida pela primeira vez. Trata-se do mesmo
tipo de contraste que pode ser percebido (embora não precisamente da
mesma maneira notável) na cidade de Londres, em nossos próprios dias. Os
principescos palácios de mármore e granito, com telhados e colunas a
rebrilharem com decorações de ouro e de prata, lado a lado com cabanas
miseráveis dos pobres e dos destituídos de tudo, cujas paredes são feitas de
lascas de madeira, com os interstícios preenchidos de palha, e um telhado
do mesmo material, encimando tudo. Levantou-se, pois, diante da
imaginação do apóstolo, o pensamento de uma cidade atingida por uma
poderosa conflagração, tal como aquela que deixara desolada a própria
cidade de Corinto, no tempo de Múmio. As débeis estruturas de madeira e
de palha, que são materiais perecíveis, seriam totalmente consumidos, ao
mesmo tempo que os grandes palácios e templos permaneceriam de pé,
após o incêndio ter-se extinguido por si mesmo, conforme na realidade
ocorreu de certa feita em Corinto. Por igual modo, no dizer do apóstolo
Paulo, sucederá ao trabalho realizado pelos mestres cristãos, quando o ‘dia
do Senhor’ for revelado por meio do fogo. O fogo que haverá naquele dia -
I CORÍNTIOS 49
sondará e testará a qualidade do trabalho de cada um deles». (Shore, in ι
loc.).
O símbolo do fogo é coerentemente associado nas Escrituras ao dia do
Senhor, conforme verificamos nesta passagem; e esse dia é igualmente ■
simbolizado por uma súbita explosão de luz e chamas ardentes, que se
despejarão sobre a terra. (Ver os trechos de Mal. 3:1-3; 4:1; II Tes. 1:8 e
2:8). Embora Paulo certamente soubesse de determinada diferença entre o
julgamento dos crentes e o julgamento do mundo incrédulo, usou ele
praticamente os mesmos símbolos. A expressão «dia do Senhor», embora
envolva quase exatamente a idéia do julgamento, pode ser aplicada, de
maneira mais ampla, a diversas ações divinas «decisivas», e não meramente
ao segundo advento de Jesus Cristo, quando ele houver de aparecer como o
grande Juiz que dirigirá o juízo final. Pois o vocábulo «dia» sugere tanto o
aparecimento da luz, que expele as trevas e os seus males, como também
sugere uma «nova dfspensação», um novo período em que Deus tratará com
os homens de certa forma particular, o que, ao mesmo tempo, fará reverter
e renovar o processo histórico. (Quanto à expressão «dia do Senhor», no que
essa doutrina está vinculada ao segundo advento de Cristo, ver as notas
expositivas sobre o trecho de Apo. 19:19. Ver igualmente I Cor. 1:8 quanto
ao termo «dia», naquilo em que o mesmo se aplica ao segundo advento de
Cristo e ao julgamento dos crentes, onde várias referências paralelas são
sugeridas).
«O apóstolo Paulo não tencionava descrever os detalhes do segundo
advento de Cristo; pelo contrário, declarava de maneira figurada aquilo que
afirmaria, sem qualquer linguagem simbólica, em I Cor. 4:5, isto é, que por
ocasião da grande crise do dia do Senhor será perscrutadoramente testado o
valor real do trabalho de cada crente individual. Esse teste, pois, é
simbolizado pelo apóstolo como o fogo do segundo advento, que envolverá o
edifício inteiro, reduzindo a cinzas todo o seu material inútil». (Robertson e
Plummer, in loc.).
Existem outras interpretações acerca do presente versículo, conforme se
vê na lista abaixo:
1. Conforme já tivemos ocasião de observar, vários exageros têm sido
impingidos aos homens sobre essa passagem que descreve um certo
«purgatório», um estado intermediário entre o céu e o inferno e a
preparação para o céu dos eleitos. Essa dogmatização da idéia paulina deve
ser rejeitada. Não obstante, o «fogo» aludido aqui é um «expurgo» bem
definido, tendo uma finalidade claramente «penal» e «disciplinar», e não
meramente testadora. Portanto, se usarmos o vocábulo «purgatório», ou
alguma outra expressão em seu lugar, ainda que tal vocábulo inclua muitas
14 €t τίνος το €ργον p,evet δ €ττοοκο8όμησ€ν,
14 Γ] μίνα D C
L pc ς)
3:14: Se permanecer a obra que alguém sobre ele edificou, esse receberá galardão.
Podemos estar certos de que o julgamento dos crentes será perscrutador.
Ninguém será ali capaz de enganar o Juiz, nas esferas eternas, conforme
tantos agora podem enganar aos homens quanto ao caráterreal e ao valor do
trabalho que fazem. Não é um erro supormos que alguns dos supostos
«maiores» cristãos, que realizaram aparentemente uma tarefa mais
magnificente, serão desvendados como «últimos», naquele dia. Esses serão
aqueles cujas realizações foram efetuadas mediante a força da carne, da
capacidade humana, dos dotes naturais, e não através do Espírito de Deus.
Além disso, alguns daqueles que agora são reputados como últimos, serão
então primeiros. Esses serão aqueles que tiverem sido humildes em sua vida
de oração e de trabalho cristão, embora aparentemente tenham contribuído
bem pouco para os destinos da vida humana. Somente o Senhor Jesus pode
fazer o julgamento preciso e apropriado (ver I Cor. 4:4,5), do que podemos
estar certos que ele o fará.
Além disso, haverá alguns casos que não constituirão surpresa. Aqueles
que tiverem trabalhado com diligência, mediante os meios espirituais, o que
se tornou conhecido pelos homens, receberão sua devida recompensa. E
outros, que obviamente não se importaram grandemente com as realidades
espirituais, mas antes, viveram para a carne, verão que o pouco que
pensaram ser valioso, será consumido pelo fogo, transformando-se em
nada, e os seus seres serão desnudados de toda a pretensão de
desenvolvimento em Cristo.
Devo partir de mãos vazias,
Para encontrar assim meu Redentor?
Sem dar-lhe um dia sequer de serviço,
Sem depositar um só troféu a seus pês?
Oh, se pudesse recuperar os anos de pecado,
Se pudesse tê-los devolvidos agora.
Eu os daria para meu Salvador,
E me inclinaria humilde à siia vontade.
(C.C. Luther)
«Não é um tolo aquele que dá aquilo que não pode reter, a fim de ganhar
aquilo que não pode perder». (James Elliott, missionário evangélico
martirizado por índios do Equador).
Como seremos julgados, nós, os crentes? Mediante a consideração da
maneira como tivermos consumido nossas vidas. Quais foram as nossas
esperanças, os nossos desejos, os nossos motivos, as nossas ambições, ao
trabalharmos no evangelho? Qual foi a nossa atitude espiritual, nossas
intenções mais secretas, ao nos ocuparmos do nosso serviço prestado a Jesus
Cristo? Temos amado aos irmãos e temos procurado servi-los sinceramente,
ou temos amado tão-somente a nós mesmos? Temos amado a Jesus Cristo,
ou ele tem sido para nós apenas alguma forma de princípio religioso ou
idéia abstrata? Uma avaliação verdadeira dessas perguntas, e as respostas
que elas provocam em nós, nos darão uma boa idéia do que poderemos
idéias prejudiciais, ainda assim estaremos descrevendo um conceito
paulino. Na verdade, porém, esse julgamento terá lugar nos lugares
celestiais, e não em algum estado intermediário. Naturalmente que alguém
poderia postular o argumento que isso ocorrerá em níveis inferiores dos
lugares celestiais, como se esses níveis inferiores fossem, de fato, os lugares
«intermediários». Êpossívelque assim seja, mas, mesmo admitindo-se tal
possibilidade, ainda estaremos dentro dos limites da teologia paulina,
embora disponhamos de informações extremamente escassas sobre os
«lugares celestiais», acerca dos quais Paulo fez alusões. (Ver as notas
expositivas sobre os «lugares celestiais» em João 14:6 e Efé. 2:6. Nessas
passagens, o «fogo» aparece ligado ao segundo advento de Cristo, e não à
morte física dos crentes).
2. Completamente errônea é aquela interpretação que vê, nesta
passagem, apenas a destruição de Jerusalém e o ponto final das instituições
judaicas.
3. Por igual modo, a palavrafogo, neste caso, não se refere à «purificação
progressiva» da igreja, por toda a dispensação do N.T. Trata-se de uma
referência definidamente escatológica, tendo conexões com o segundo
advento de Jesus Cristo. Há aqui alusão a ■algum tempo futuro de
julgamento dos crentes, o que Paulo esperava que ocorresse durante seu
próprio período de vida terrena. (Ver I Cor. 15:51).
4. Outros intérpretes (como Calvino), fazem com que este versículo se
prenda à propagação da mensagem pura do evangelho pela terra, como um
dos efeitos da era da igreja. Essa interpretação é inconcebível aqui, por ser
essencialmente não-escatológica.
5. A despeito do uso do símbolo do «fogo», o juízo geral da humanidade
inteira não é focalizado aqui, como o hades, etc. Pois o julgamento aqui
anunciado envolverá exclusivamente aos crentes.
6. Este versículo não noS encoraja a orar em favor dos mortos. Pois tais
orações não fariam a menor diferença quanto ao que sucederá aos crentes,
no seu julgamento. Alguns oram em favor dos mortos incrédulos com base
na opinião que o julgamento final será determinado não quando da morte
do indivíduo, e, sim, quando da segunda vinda de Cristo. Talvez haja algum
valor nessas orações, mas o N.T. faz completo silêncio sobre a questão. (Ver
I Ped. 4:6 quanto à missão de Cristo além-túmulo, e o que a mesma
envolve). Entretanto, seja como for, é verdade que o julgamento é sempre
situado para quando ocorrer a segunda vinda de Cristo, ou após o milênio, e
jamais quando da morte física de cada pessoa.
μισθόν λήμφΐταί'
esperar perante o tribunal de Cristo.
Um grande político do sul dos Estados Unidos da América do Norte estava
moribundo. Um amigo íntimo se aproximou de seu leito e lhe perguntou:
«Devo orar por você?»E ele respondeu: «Não. Aminha vida deve ser a minha
oração. Este momento não é tão significativo como os anos solenes que se
passaram. Que eles permaneçam». E nessa resposta encontramos uma
profunda verdade. Não importa o momento da transição a que
denominamos de morte, mas o que importa é a inteireza da vida antes da
morte. Para o crente a morte é tão inconseqüente como o sono. Mas o
pensamento de irmos ao encontro do Senhor de mãos vazias deveria
fazer-nos franzir o cenho, preocupados.
«...galardão...» Esse conceito é abundantemente comentado no oitavo
versículo deste capítulo (onde a própria palavra «galardão» é explicada); e
também há comentários a respeito no décimo terceiro versículo deste
capítulo, e mais completamente ainda, em II Cor. 5:10. Não sabemos muita
coisa sobre esse tema; mas podemos dizer aquilo que desdobramos nos
seguintes pontos:
1. O galardão não é a mesma coisa que a salvação eterna, no sentido
ordinário da palavra. Em outras palavras, não significa que um indivíduo
galardoado irá para os lugares celestiais, mas que aquele que não será
galardoado irá para o «hades», ou para algum outro lugar qualquer de
julgamento severo e eterno.
2. Porém, visto que a glorificação é uma parte integrante da salvação, e
que os galardões têm muito a ver com a extensão e a natureza da
glorificação, os galardões, na realidade, fazem parte da salvação. A
extensão em que tivermos de ser transformados segundo a imagem de
Cristo, quando assumirmos suas qualidades morais e metafísicas, será
determinada pela extensão em que formos galardoados.
3. Parte dessa glorificação envolve o conceito inteiro das «coroas», as
quais não devem ser encaradas como objetos físicos e literais, mas antes,
como realizações espirituais, como «graus de glória», como a níveis de
participação em tudo quanto Jesus Cristo tem e é.
4. O conceito materialista dos galardões, como se estes fossem «bens» nos
lugares celestiais, como mansões, etc., é uma idéia completamente
antibíblica. Possessões materiais serão realmente nossas, mas não são elas
os galardões que nos cumpre conquistar. O que está envolvido nos galardões
é sermos semelhante a Cristo, é compartilharmos mais plenamente do que
ele é, é realizar mais plenamentç aquilo que ele realiza. Também está
envolvido o recebimento de sua imagem moral e metafísica, o que nos
transformará em seres muito superiores aos próprios anjos, porquanto
seremos participantes da própria natureza divina (ver II Ped. 1:4). Isso é o
que está envolvido nos galardões. (Ver também o trecho de Rom. 8:29 e as
notas expositivas ali existentes, onde se sumaria essa doutrina).
5. Quando formos transformados em seres dotados de grande poder,
então nos serão dadas tarefas de grande magnitude, para cumprirmos nos
lugares celestiais e eternos. Nossa futura capacidade de realizar essas
grandiosas tarefas resultará do nosso galardão em Cristo, o que, por sua
50 I CORÍNTIOS
vez, resultará de nossos esforços conscientes por sermos transformados
segundo a sua imagem.
6. Seja como for, não devemos supor que os galardões, uma vez
recebidos, importarão em um estado fixo, estagnado; porque não há razão
para imaginarmos que o céu seja mais estagnado do que a terra. Portanto, o
grande alvo da total perfeição dos remidos, em Cristo, prometido para
todos os crentes, é um alvo firme, que eventualmente terá o seu
cumprimento no caso de todos eles, embora alguns crentes atrasem
grandemente esse processo, através da perversidade de suas próprias
vontades livres. Isso porque o avanço espiritual, no lugares celestiais,
15 €i τίνος το €ργον κατακαησεται, ζημιω θήσΐται,
3:15: Se α obra de alguém >e queimar, sofrerá ele prejuho; mas o tal será salvo,
todavia como que pelo fogo.
As palavras «...sofrerá ele dano...» significam que o crente cujas obras
forerií consumidas perante o «tribunal de Cristo», não receberá os plenos
benefícios de uma completa transformação segundo a imagem de Cristo, não
sendo beneficiado pelos «galardões» descritos no versículo anterior. Tal
crente sofrerá atraso em sua transformação moral segundo a imagem de
Cristo; e apesar de não mais possuir pecado positivo algum, também não
possuirá o amor verdadeiro, a bondade, a justiça, a nobreza de caráter de
Cristo, tudo o que, supostamente, deveria ser característica sua, por ser um
remido pelo sangue de Cristo.
Sofrendo A Perda
1. O crente pode sofrer detrimento, não obtendo aquilo que poderia ter
obtido, isto é, se a sua vida tivesse produzido obras espirituais.
2. Por certo isso significa que a sua transformação segundo a imagem de
Cristo não será tão completa quanto poderia ter sido—e que assim ele terá
menor porção das virtudes positivas de Cristo, como o amor, a bondade,
etc. (embora o próprio crente não possua mais a natureza pecaminosa, uma
vez que chegue nos lugares celestiais). Outrossim, ele terá menor
participação nos atributos e poderes de Cristo. A salvação consiste da
participação na natureza do Pai e seus atributos (ver Efé. 3:19), conforme
essa natureza e esses atributos são vistos no Filho (ver Col. 2:10). O crente
de pouco êxito espiritual, portanto, não crescerá grande coisa dentro dessa
estatura divina, pelo que a sua perda será imensa.
3. O crente pode perder aquilo que já tiver obtido mediante um viver
pecaminoso e descuidado. (Ver II João 8 e suas notas expositivas sobre esse
conceito).
4. O que está positivamente vedado a pensarmos é que o crente terá
menor acúmulo de bênçãos celestiais, como uma mansão celestial menor,
menores riquezas, etc., conforme a questão é explicada popularmente. O
que está em foco é o que cada crente será em si mesmo, nos lugares
celestiais.
5. Não obstante, essa perda terá vinculações diretas com a missão de cada
cjrente. Andou um crente como devia? Seus motivos foram corretos?
Trabalhou ele para Cristo, ou para si mesmo? As respostas a essas
perguntas é que determinarão quanto ganho ou perda estarão envolvidos.
6. Naturalmente, essa «perda» não pode significar «estagnação»
permanente. A recuperação não somente será possível, mas também será
absolutamente necessária, a fim de que o plano divino sobre cada crente
possa ter, finalmente, o mais cabal cumprimento. (Ver as notas sobre o vs.
13, sob o título de «Meditando sobre o julgamento dos crentes».
Posso meditar sobre o dia em que estarei perante o tribunal de Cristo, nos
lugares celestiais. Então a minha alma será repassada diante do Senhor.
Olharei para as minhas mãos e lamentarei as criancices feitas por mim.
Olharei para os meus pés, e pensarei sobre as veredas desviadas por onde
andei. Pensarei em minha mente, na inteligência que Deus me deu, e me
envergonharei do uso escasso que fiz demeus recursos intelectuais. Também
me entristecerei por causa do pouco uso que fiz do dom da fala, para glória
do Senhor Jesus Cristo. Por igual modo, ficarei coberto de pejo por causa
das palavras que proferi impensadamente, precipitadamente, por muitas
vezes ofendendo até a outros. Minha consciência requeimará em face de
coisas deixadas por fazer e de palavras deixadas de dizer, por causa de
cargas que eu poderia ter aliviado para outros, mas não o fiz, por causa do
sofrimento que eu poderia ter suavizado, mas que .negligenciei em cumprir,
devido a meu egoísmo. Compreenderei então quão justo será o meu
julgamento, e não poderei proferir uma única sílaba em defesa própria.
Talvez então eu pense, «Oxalá pudesse eu recuperar os anos desperdiçados
no pecado!»
«Quando o Senhor vier assim ao seu templo, qual chama consumidora,
todas as porções desse edifício que não puderem resistir ao fogo, serão
consumidas; e os que edificaram com esses elementos consumidos
escaparão apenas com a salvação pessoal, embora percam toda a sua obra,
em meio àquela conflagração». (Alford, in loc.).
Aqueles que sofrerem tal «dano» é que serão os «últimos», muitos dentre
os quais pensaram que eram os «primeiros», de acordo com as palavras do
Senhor Jesus, em Mat. 20:16 e Marc. 10:31. Outrossim, é possível a um
igualmente dependerá da reação positiva da vontade humana, porque assim
determinou Deus. Mediante essa reação positiva da vontade do crente é que
todo o avanço espiritual é obtido. Tal aperfeiçoamento não é conferido a
meros autômatos, que nada mais podem fazer senão obedecer ao seu
comando. Até mesmo quando o pecado é removido de uma vida crente,
pode haver reações mais rápidas ou mais lentas perante o plano e os
impulsos divinos. Seremos sempre responsáveis por aquilo que somos,
recebendo plena ou parcialmente a graça de Deus, aproveitando-nos total
ou parcialmente de nossas oportunidades, ou mesmo desconsiderando
inteiramente a vida espiritual que Deus nos tem proporcionado.
αυτός 8è σωθησεται, οΰτως 8è ώς δια 7τυρός.
crente perder um galardão já conquistado, mediante o descuido e a
negligência em sua vida cristã, segundo o que aprendemos no trecho de II
João 8; e exatamente a mesma verdade fica subentendida na passagem que
ora comentamos.
«...esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo...» Comenta
Fausset (in loc.), acerca dessas palavras: «Quando o Senhor vier
repentinamente ao seu templo, como se fora fogo ardente, todas as partes
desse edifício que não resistirem ao fogo, serão consumidas; os próprios
construtores escaparão, com sua salvação pessoal, mas perderão tudo
quanto tiverem feito. Uma vez mais podemos reputar a sobrestrutura como
representação de questões menos essenciais, sobrepostas sobre as questões
realmente essenciais: um homem pode errar quanto,àquelas questões menos
essenciais, passando pela mortificação de ver a perda de grande parte de
seus labores, e, no entanto, ser salvo; mas outro tanto não poderá ocorrer no
tocante às questões essenciais. (Comparar com Fil. 3:15)».
Trata-se de uma expressão quase proverbial «ser salvo como que através
do fogo». Essa expressão indica o ter alguém escapado por pouco de um
grande perigo, e eqüivale mais ou menos ao dizer de Amós 4:11, «...um
tição arrebatado da fogueira...» (Ver também Zac. 3:2). A idéia que se tem
é que o fogo se mostrará tão rápido na execução de seu serviço que o obreiro
deverá apressar-se, «através» do incêndio, a fim de ficar em segurança.
Mas, fazer desse «fogo», aqui citado, representação do inferno, é usar de
uma exegese monstruosa; por semelhante modo, não está aqui em foco
algum lugar do julgamento dos crentes, como um «purgatório», ainda que
não possamos escapar do ensinamento claro desta passagem que esse
julgamento não será meramente retributivo, mas também será disciplinadòr,
e, em certo sentido, até mesmo remidor, porquanto, através do mesmo, o
crente será capaz de avançar mais celeremente para as riquezas de Cristo,
tendo aprendido uma excelente lição sobre como não lhe compete servir ao
Senhor.
«...salvo...» Diversas interpretações têm sido dadas a esse vocábulo, na
presente passagem:
1. Alguns pensam que essa palavra significa a «preservação» do crente a
fim de que não sofra as penas infernais, o que quer dizer que tal crente não
será aniquilado, mas antes, conservado vivo em tormentos eternos. É óbvio
que essa interpretação peca pela base, sendo uma distorção do que significa
alguém ser «salvo».
2. Outros torcem a frase como se ela dissesse, «poderá ser salvo», como se
o próprio julgamento pudesse levar tal indivíduo à salvação, embora não
necessariamente. Mas essa é uma interpretação claramente desonesta.
3. Além disso, não há qualquer indício que a «obra» aqui referida
signifique os seus «discípulos», os quais, embora venham a perecer, ele
mesmo não perecerá, porquanto se trata de alguém bem firmado em Cristo,
apesar de só poder escapar por um triz.
4. Pelo contrário, está aqui em foco a salvação em sua totalidade, no
sentido que tal crente realmente se achará nos lugares celestiais, tendo
escapado do «hades», isto é, do lugar onde ficarão os incrédulos, embora
certamente não esteja aqui em vista a plena salvação, no sentido do
recebimento até mesmo da glorificação. Não obstante, nem mesmo um
crente nessa situação terá uma existência estagnada, nos lugares celestiais;
antes, poderá obter e realmente obterá sua completa glorificação em Cristo,
porquanto todos os escolhidos deverão ser verdadeiramente redimidos.
Quanto a essa passagem em geral, John Gill (in loc.), comenta como
segue: «‘...será salvo...’ com uma eterna salvação; não por seus lavores
' ministeriais, e muito menos ainda por sua madeira, feno e palha, tudo o que
será queimado; mas devido ao fato que o seu ser, apesar das imperfeições de
seu ministério, está alicerçado sobre o fundamento, que é Cristo. Contudo,
será salvo ‘como que através do fogo’, ou seja, com grande dificuldade, por
margem mínima (ver Zac. 13:9), isto é, com grande perda e vergonha. Está
aqui em foco o homem que perde em um incêndio a sua casa e o seu lar,
consegue escapar com a própria vida, mas perde tudo o mais...Tal homem
será testado pelo fogo da Palavra, ficará convencido pela luz lançada pela
mesma sobre os seus erros, irregularidades e incoerências em seu
ministério;e isso quer durante seu período de vida e saúde, quer já no leito
de morte; e assim verá queimados a sua madeira, o feno e a palha...».
Esse comentário tem pontos recomendáveis, exceto que não está aqui
focalizado o leito de morte, porquanto esta referência é de natureza
escatológica, estando associada ao segundo advento de Cristo.
16 ούκ οιδατε οτι ναός θεοΰ eVre καί το ττνίΰμα του θζοΰ οΙκ€Ϊ iv ν μ ιν ; 16 1 Cor 6.19; 2 Cor 6.16
3:16: Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espirito de Deus habita em
vós?
Todos os crentes autênticos são possuidores do Espírito de Deus, embora
uns e outros possuam-no em graus diversos. (Ver Rom. 8:9). Não pode
haver a menor possibilidade de salvação sem a sua obra, porquanto é ele o
próprio agente da conversão e da regeneração, bem como da fé que é o
instrumento intermediário da conversão, bem como da vida diária em
Cristo, no avanço para com as suas perfeições. Todos os crentes deveriam
possuir dohs espirituais, através do Espírito Santo, mas isso não sucede com
todos, conforme o décimo segundo capítulo da epístola aos Romanos nos
esclarece.Porém, qualquer crente em quem permanece o Espírito de Deus,
torna-se sua habitação. A igreja também é habitação do Espírito de Deus,
coletivamente falando, tal como, nos tempos do antigo pacto, o templo era
I CORÍNTIOS 51
considerado o lugar da habitação de Deus, isto é, o lugar geográfico especial
onde ele manifestava a sua presença. Esse local geográfico específico é, no
presente, a igreja cristã, e é isso que é ensinado neste versículo. Porém, se a
comunidade cristã é habitação do Espírito, é mister que os seus membros
individuais também sejam habitação de Deus, o que é especificamente
declarado no trecho de Rom. 8:9, onde essa mesma questão é declarada em
termos individuais.
A linguagem descritiva de Paulo, que falou no Senhor a vir ao seu templo
como chama ardente, a fim de purificar e julgar aos seus servos, sugeriu a
esse apóstolo o pensamento que, realmente, como uma comunidade
espiritual, os crentes são templo do Espírito, habitação apropriada de Deus
entre os homens. Bastaria esse fato para cumprir neles todos o desígnio de
Deus, impedindo o severo julgamento que ele acabara de descrever.
Infelizmente, porém, a experiência cristã mostra-nos que, a despeito da
influência do Espírito Santo, a pervertida vontade humana pode
transformar a vida cristã em uma ruína. A perversidade da vontade humana
pode ser tão grande que leve o crente a tornar-se inconsciente até mesmo da
presença e da influência do Espírito de Deus. Por causa disso, embora
alguém esteja em Cristo, sua vida pode ser prejudicial a outros e a ele
mesmo; e é uma pessoa assim que será adversamente julgada perante o
«tribunal de Cristo», conforme é descrito nestes parágrafos.
Além da doutrina que Deus fizera conhecer a sua presença no templo de
Jerusalém, no período do antigo pacto, o que era um ensinamento familiar
para os primitivos cristãos, havia igualmente a literatura apocalíptica
judaica, que sem dúvida também era familiar para muitos daqueles crentes,
literatura essa que ensinava que, nos últimos tempos, Deus edificaria um
templo no qual pudesse habitar. (Ver Enoque 91:13). Essa doutrina é
«espiritualizada» a fim de indicar a comunidade dos crentes, tal como se vê
em I Ped. 2:5. Portanto, aqueles mestres que se inclinavam para a
contenda, e que dividiam a igreja de Corinto com suas facções, eram
indivíduos que dependiam da sabedoria do mundo, e não da sabedoria
divina (aos quais também o apóstolo dos gentios ataca nos três primeiros
capítulos desta epístola). Tais pessoas deveriam compreender que, na
realidade, procuravam derrubar a habitação do Espírito de Deus,
cometendo assim um sacrilégio.
Os judeus abominavam qualquer sacrilégio, até mesmo dos templos
pagãos, que dirá do templo de Deus. (Ver Rom. 2:22). Ê seguro dizer que
nenhum daqueles líderes facciosos da igreja teria ousado entrar em um
templo, até mesmo um templo pagão, quanto menos o templo de Jerusalém,
destruindo qualquer coisa ali contida. Contudo, em suas ações, pervertiam
e procuravam destruir o templo genuíno do Espírito Santo, a comunidade
dos crentes, cada um dos quais, individualmente, era templo do Espírito de
Deus. Mediante essa ilustração, pois, é possível que tais líderes
compreendessem a grande depravação de suas ações.
Outrossim, o templo de Deus é santo; e, por essa mesma razão, é
necessário que os crentes também sejam santos. Paulo prepara, dessa
maneira, o caminho para seus esclarecimentos acerca da degradação moral
da igreja de Corinto, que ele aborda no quinto capítulo desta epístola,
através de tais afirmações.
«...O Espírito de Deus habita em vós?...» Essas palavras constituem uma
adição para fortalecer ainda mais o argumento apresentado pelo apóstolo.
Os templos pagãos tinham apenas uma «imagem» de algum deus, o qual, na
realidade, não tinha existência espiritual, exceto como criação material de
algum artista. O templo dos judeus tinha por símbolo a manifestação
ocasional da glória da presença de Deus (o shekinah dos israelitas). Mas a
comunidade cristã é que se tomara, na verdade, a habitação do Espírito, o
que era uma nova maneira de Deus tratar com os homens.
«...santuário...» O vocábulo grego por detrás desta tradução é «naos», o
recinto sagrado, o lugar santíssimo, em contraste com o «hieron», o restante
do templo em seus diversos compartimentos. Entretanto, essas duas
palavras, no original grego, podiam ser usadas como sinônimos. Por
semelhante modo, o crente é o lugar santíssimo onde habita o Espírito de
Deus; logicamente, pois, tudo quanto Jesus Cristo tenciona para os crentes,
deve ter cumprimento. Os crentes devem ser santos, vivendo em paz com os
seus irmãos na fé, e não em estado de agitação, criando, encabeçando ou
participando de facções.
A aplicação dos ensinamentos contidos neste versículo tem uma natureza
geral. O que Paulo diz até este ponto V isa especialmente os mestres cristãos;
mas, daqui por diante, todos os crentes estão na sua mira. Todos são
repreendidos por causa de qualquer ação que pretenda corromper o templo
de Deus, incluindo a desarmonia, a desunião, as facções e o espírito de
rivalidade. (Com isso se pode comparar outras expressões, que indicam que
os crentes são o templo de Deus. Por exemplo, ver I Ped. 2:5 (que fala sobre
uma «casa espiritual»); ver Efé. 2:22 (que alude à habitação de Deus por
meio do Espírito Santo); e ver também os trechos de II Cor. 6:16 e ss.; Rom.
8:9,11; II Tim. 1:14 e Eze. 37:27).
«...habita...», isto é, «fixa residência», com a idéia de permanência e
também de intimidade. A comunidade cristã inteira, embora dividida em
muitas congregações locais, é encarada aqui como o lugar da habitação ou
templo do Espírito Santo. Existe tão-Somente «um templo» do N.T., que é a
igreja universal. Cada congregação local não é um templo entre muitos; mas
cada indivíduo é um templo, no sentido de que ele é um lugar específico
onde Deus manifesta a sua presença.
«.. .não sabeis que sois santuário...» Os crentes de Corinto agiam como se
não soubessem dessa verdade; ignoravam propositadamente tal fato; tinham
obscurecido essa realidade por seu espírito contencioso;haviam retirado o
poder da presença do Espírito nos crentes. Paulo, pois, lembra-lhes aqui da
posição elevada que ocupavam aos olhos de Deus, o que ultrapassava a
todas as demais instituições religiosas conhecidas no mundo. É verdade que
aqueles crentes de Corinto «conheciam» a verdade sobre sua elevada posição
em Cristo, mas tão-somente como uma proposição mental, como uma
doutrina; mas já haviam perdido o poder e a realidade de tal conhecimento,
na vida diária. (Quanto a notas expositivas completas sobre o Espírito
Santo, ver Rom. 8:1).
17 e t τ ο ΰ θ ε ο ΰ φ θ ε ί ρ ε ι , φ θ ε ρ ε ϊ 3 τ ο ΰ τ ο ν ό θ ε ό ς ' ό γ ά ρ ν α ό ς τ ο υ θ ε ο ΰ ά γ ι ό ς έ σ τ ι ν , ο ϊ τ ι ν ε ς
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φθείρει D*r O P (33 φθηρεI) 81 (88 181 614 φθείρει) (330 451 1241
φθειρη) Is09 it* syrp-h Ephraem |
Influenciados pelo termo anterior, vários manuscritos, principalm ente ocidentais, trazem o presente,
φθείρα (Dgr Ggr L P 81 lm vg (mss) sir (p,h) Efraem), ao invés de φθερεϊ. [
3:17: Se alguim destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque sagrado é o
santuário de Deus, que sois vós.
A palavra «...destruir...» é usada corretam ente por duas vezes na
tradução que serve de base textual deste comentário, pois a niesma palavra
grega é usada para expressar o que o homem faz ao templo de Deus, e o que
Deus, por sua vez, faz ao homem. Os intérpretes, entretanto, não estão
acordes sobre o sentido da palavra «destruir», neste caso. Essa palavra
grega, «patheiro», póde ter uma certa variedade de significados, como
«arruinar», «destruir», «corromper», «estragar», «corromper» (em sentido
moral ou físico). A idéia de «fazer desviar» também é possível. Também
pode significar punir por destruição, dando então a entender o «julgamento
eterno». Quando esse vocabulário é usado para indicar os homens, pode
significar também «matar», e, se estiver na voz passiva, tem o sentido de
perecer.
Fica claro, através dessa própria palavra, portanto, que certa variedade
de interpretações pode ser aplicada a esse texto. Essas aplicações, por sua
vez, dependem das tendências ou predileções doutrinárias, e não por
exigência do próprio texto sagrado. Por conseguinte, são sugeridas as
seguintes possíveis interpretações:
1. A interpretação maissevera é aquela que diz que o julgamento eterno e
a destruição eterna estão aqui em foco, o que importa em uma perda
irreparável, para o que não há qualquer remédio. Isso poderia ser
compreendido acerca dos incrédulos; no entanto, o contexto se refere mais
definidamente aos crentes, e devemos aplicar tudo o que aqui é dito aos
remidos. A interpretação arminiana, que diz que a vida eterna pode ser
dada para em seguida ser perdida, mediante a perversão, a negligência ou
algum grave pecado praticado, combina exatamente com esta interpreta­
ção, sendo assim que vários homens bons e santos têm compreendido esta
passagem. Nesse caso, pois, a advertência aqui encontrada é extremamente
severa. Paulo estaria ameaçando os crentes facciosos de Corinto, que
«destruíam» a unidade daquela igreja, com a destruição da posição que eles
tinham na igreja de Cristo, o que importaria em juízo eterno, por fim. Se
contássemos somente com este versículo, bem poderíamos compreender
assim o caso; mas o contexto geral não parece concordar bem com essa
idéia.
É verdade, entretanto, que os violadores do templo, incluindo até mesmo
aqueles que entrassem em algum recinto proibido do mesmo—quanto mais
aquele que entrasse no «Santo dos Santo», que fica aqui subentendido pelo
uso do termo grego «naos», effi contraste com a palavra grega «hieron»(ver o
décimo sexto versículo deste mesmo capitulo)—eram mortos, mediante a
destruição e seu corpo físico. Precisamos supor que o apóstolo dos gentios
tinha isso em mente quando assim escreveu (ver Lev. 16:2). Portanto, a
severidade de suas palavras precisa ser preservada se tivermos de
compreender a advertência que ele faz aqui.
2. Outros estudiosos preferem a interpretação hipotética, isto é, Paulo
teria ameaçado aos crentes com um julgamento eterno; mas isso, na
realidade, não seria possível. Tal advertência, entretanto, poderia agir
como «preventivo», tornando-se parte da própria razão pela qual não caíam
aponto de se perderem, e, portanto, de virem a ser julgados. Se aceitarmos
essa interpretação, todavia, teremos de supor que todas essas advertências
devem ser necessariamente «eficazes», impedindo exatamente aquilo acerca
do que falam tais advertências. Tal interpretação, entretanto, é pouco mais
do que um truque filosófico, porquanto mais esconde do que expõe a
dificuldade. Paulo, contudo, não se prestaria a fazer falsas advertências,
que não representassem qualquer realidade possível, esperando que tais
avisos produzissem resultados psíquicos favoráveis.
3. Ainda outros eruditos gostariam de modificar o sentido severo desse
termo, para uma palavra mais suave, como prejudicar, por exemplo. Assim
sendo, se alguém viesse a «danificar» o templo de Deus, ele mesmo seria
prejudicado. Mas, nesse caso, nada mais se estaria dizendo além daquilo
que já foi dito, concernente ao julgamento dos crentes, perante o «tribunal
de Cristo», nos versículos décimo terceiro a décimo quinto deste capítulo.
Certamente há «dano» suficiente no sentido da palavra aqui usada por
Paulo. E, visto que essa palavra pode ter tal sentido, não temos como negar
52 I CORÍKTIOS
que Paulo poderia ter querido dizer exatamente isso.
4. Má igualmente ò ponto de vista que se trata de um paradoxo o que o
apóstolo declarou aqui. Esse paradoxo consistiria do fato que existem
advertências autênticas concernentes à possibilidade da perda de salvação,
depois da mesma haver sido obtida, com um julgamento subseqüente, ao
mesmo tempo que é conferida uma real certeza de que o crente em Cristo
está livre da punição eterna, havendo de perseverar até ao fim. Ambas essas
verdades seriam verdadeiras, embora não sabendo nós como harmonizá-las.
Tal doutrina, pois, seria aparentemente «autocontraditória», isto é, seria
um «paradoxo». Creríamos em ambas as doutrinas, pregaríamos tanto uma
como outra, mas não saberíamos como reconciliá-las entre si. É verdade
que a doutrina de Cristo, o Deus-homem, é um paradoxo, como também é
um paradoxo o problema da liberdade humana e do determinismo divino,
ou seja, do livre-arbítrio do homem e a predestinação; e não é impossível
que da mesma maneira sejamos forçados a encarar a questão da segurança
do crente e da queda da graça.
5. Também poderíamos encarar a verdade da segurança eterna do crente
como algo absoluto, ao passo que a queda seria algo real, embora relativo.
Isso significaria que, eventualmente, antes ou depois da morte física, neste
mundo ou na eternidade, os crentes desviados serão reconduzidos aos pés de
Cristo, sendo então plenamente restaurados, até que, finalmente, sejam
levados à perfeição, de Jesus Cristo. Ao longo do camiilho, todavia, um
crente poderia cair e até mesmo apostatar, no sentido mais literal da
palavra. Todavia, isso não seria uma atitude «eterna», não caracterizaria tal
crente. Pois o texto que temos à nossa frente não requer a idéia de
«eternidade». Está em foco um severo julgamento, o que não se pode negar;
mas não precisamos pensar que tal julgamento é eterno. Seja como for, tal
advertência é extremamente severa, —e não pode ser considerada com
negligência. (Ver Rom. 8:39, quanto a uma discussão geral sobre o
problema da «segurança eterna do crente» e da queda).
Considerando todos os pontos, favoráveis e contrários, parece que
podemos tirar as seguintes conclusões: A primeira dessas interpretações é
severa por demais. A segunda interpretação é evidentemente falsa. A
terceira interpretação é possível, mas não é suficientemente severa.A quarta
interpretação é possível, mas não resolve o problema de como reconciliar
diversos trechos bíblicos que dizem respeito à questão. Naturalmente que
essa reconciliação não é absolutamente necessária, mas, sempre que
possível, deve-se procurar tal harmonização. A quinta e última dessas
interpretações é a mais provável. Conforme essa quinta interprétação, a
severidade da advertência é retida quanto à sua realidade; mas, ao mesmo
18 M rj8 elç ε α υ τ ό ν έ ζ α τ τ α τ ά τ ω · e t τ ι? δ ο /cet σ ο φ ό ς e iv a t
γ έ ν η τ α ί σ ο φ ό ς . ι8 εξαπατατω] (Eph. 5. 6)
3:18: Ninguém se engane a si mesmo; se alguém dentre vós se tem por sábio neste
mundo, faça-se louco para se tomar sábio.
Este versículo deixa bem claro que Paulo estava atacando nesta
passagem, do princípio ao fim, principalmente os elementos do «partido
intelectual», os prováveis imitadores de Apoio, os «mestres» dessa categoria,
os quais diminuíam ao máximo a «palavra da cruz» mas davam excessiva
importância à habilidade retórica dos sofistas. Paulo acaba de advertir a
tais mestres que eles corriam o perigo de perder seu galardão, porquanto,
apesar de edificarem sobre o único fundamento, não edificavam
corretamente; e assim, a sobrestrutura que levantavam estava prestes a ruir.
Mais do que isso, entretanto, se levassem essa atividade a um ponto extremo
que tal atividade dividia a comunidade cristã local, corriam eles o perigo de
destruírem a habitação do Espírito Santo, o que significa também que, por
sua vez, seriam fatalmente destruídos.
Ora, era a esse ponto que a sabedoria humana haveria de conduzir
aqueles homens, conforme Paulo ensinava. Toda essa questão era motivo de
grande desgosto para ele. Foram os sábios e os príncipes deste mundo que
provocaram a morte de Cristo, não tendo reconhecido nele o Príncipe da
Glória. (Ver I Cor. 2:6-8). A sabedoria deste mundo é passível de
destruição, sendo considerada como nada aos olhos de Deus (ver I Cor.
1:19). Além disso, é a «sabedoria dos homens» que realmente leva os
homens a não perceber a verdadeira sabedoria de Deus, manifestada na
pessoa de Jesus Cristo. (Ver I Cor. 1:21,30). Outrossim, pouquíssimos
daqueles que são os «sábios deste mundo» são indivíduos «eleitos» e
realmente «chamados» pelo Senhor (ver I Cor. 1:26). Bem pelo contrário,
Deus tem feito uso daqueles que são o extremo oposto desses homens
mundanos, formándo a sua igreja com os humildes, com os que nada são, a
fim de manifestar a todos os verdadeiros crentes, a verdadeira sabedoria de
Deus, a saber, Cristo (ver I Cor. 1:27,28).
Uma parte da razão dessa ação divina é que nenhuma carne será jamais
capaz de «gloriar-se» na presença de Deus, porquanto ninguém será jamais
tão digno que possa fazer tal coisa. (Ver I Cor. 1:29). Paulo havia dado um
exemplo oposto a essa atitude, mostrando-se um humilde representante do
Cristo crucificado, entre os crentes de Corinto, tendo abandonado
completamente a retórica dos sofistas, mas antes, tendo pregado a
mensagem simples da cruz. (Ver I Cor. 2:2-4). Como tal, entretanto,
através do poder do Espírito Santo, Paulo também descreveu a real e
autêntica sabedoria de Deus, os mistérios, conforme os mesmos são vistos e
exibidos, dos quais também participamos, na pessoa de Jesus Cristo. (Ver I
Cor. 2:7-11). Tais coisas, entretanto, não são entendidas pelo homem
natural (ver I Cor. 2:14 e ss), parecendo elas também obscuras para o
homem «carnal», apesar deste último ser um crente (ver I Cor. 2:16- 3:4).
Foi nesses termos que Paulo expôs a questão da sabedoria deste mundo e
dos seus representantes. E agora Paulo mostra que suspeitava que certos
elementos que faziam parte da classe dos «intelectuais», na igreja de
Corinto, haviam sido completamente dominados pela sabedoria que
tempo, não precisamos eliminar outros trechos bíblicos que se referem aos
propósitos divinos para com todos os crentes, como propósitos eternos e
imutáveis.
Assim sendo, um crente pode sofrer um julgamento severo, ao mesmo
tempo que, ao longo do caminho, pode vir a perder-se. Mas, em algum
lugar dessajornada Deus haverá de trazê-lo de volta, cumprindo nele todas
as promessas centralizadas na pessoa de Cristo. Temos de postular, desse
modo, uma espécie de mundo espiritual «intermediário», a exemplo do que
faziam os pais alexandrinos da igreja.
Os destruidores não devem ser distinguidos dos construtores «sem
sabedoria», os quais erguem erradamente o edifício espiritual sobre os
alicerces. Antes, os construtores «sem sabedoria» podem tornar-se
«destruidores»; e é exatamente contra isso que o apóstolo dos gentios dirigiu
sua severa advertência. Quantos daqueles que fazem parte das dissensões
eclesiásticas chegam a considerar esse aviso? Certamente que nenhum deles
chega a pensar seriamente sobre o mesmo.
Os construtores sem sabedoria podem perder seu galardão, escapando
como que através do fogo (ver o décimo quinto versículo deste capítulo); e
castigos ainda mais severos podem sobrevir aos tais. Isso é o que Paulo
parece ter dito neste ponto, sem ter entrado na discussão do que será esse
julgamento. É verdade, porém, sem importar o sentido exato, que o presente
versículo fala de alguma forma mais mortífera e destruidora de «erro» do
que aquilo quejá tivera lugar em Corinto; mas ele antecipou definidamente
a possibilidade real que o espírito faccioso que havia na igreja de Corinto
poderia terminar por destruir a igreja, a habitação do Espírito Santo; e
aqueles que fizessem parte dessas atividades dispersivas, até esse pònto
extremo, seriam sujeitos ao juízo aqui mencionado. A destruição se segue à
corrupção de algumas coisas «santas» de Deus; mas isso provoca o
tratamento mais severo da parte do Senhor.
«Os cristãos são santos por profissão, e deveriam ser puros e limpos, tanto
no coração como em seu comportamento exterior. Deveríamos abominar de
todo o coração, evitando cuidadosamente, tudo quanto venha a tentar
contaminar o templo de Deus e prostituir aquilo que deve ser mantido
sagrado para ele». (Matthew Henry, in loc.).
A palavra «destrui!·» ou «contaminar», neste contexto, no que diz respeito
ao dano feito contra á igreja cristã, não deve ser limitada em seu alcance às
atividades facciosas dos crentes de Corinto, embora essa seja, mui
provavelmente, a principal referência, conforme o contexto geral desta
passagem, a começar pelo primeiro versículo deste capítulo, parece indicar­
e i ύμ ,ΐν ev τ ω α ΐώ ν ι τ ο ύ τ ω , μ ω ρ ό ς γ € ν € σ θ ω , ί'να
απατ. kgvois Aoyots D pç
caracteriza esta era, que assinala a cultura humana pagã. E a sobrestrutura
da igreja de Corinto estava sendo levantada por alguns mestres cristãos com
tal material. Mas não demoraria muito que esses destruidores da unidade
cristã viessem a destruir a si mesmos. (Ver I Cor. 3:17).
Paulo declarou tudo isso a fim de mostrar quão gratide é a vantagem
ganha pelo crente que desiste da sabedoria mundana, que se aferra à
sabedoria encontrada somente na pessoa de Cristo, assim se tornando um
«louco», aos olhos dos sábios deste mundo, mas sendo considerados «sábios»
aos olhos de Deus. Paulo, pois, deixa patenteado que não estava
impressionado com a apregoada sabedoria daqueles homens; e assim
conclama os crentes de Corinto a rejeitarem o caminho detrimente que
haviam escolhido, voltando à simplicidade que há em Cristo Jesus.
«...estulto...» Existe uma forma de simplicidade que deve ser desejada
pelos crentes, a saber, a simplicidade que há em Cristo, a qual reconhece o
valor da revelação divina, ainda quando esta não tem qualquer
comprovação empírica. Ver o trecho de I Cor. 1:21, onde a «loucura» da
pregação é mencionada. Para os gregos, a «palavra da cruz» era uma
insensatez; e disso concluímos que o partido dos intelectuais, que havia em
Corinto, de conformidade com a sabedoria mundana, fazia tudo quanto
estava ao seu alcance para evitar a prédica de Cristo crucificado,
provavelmente preferindo vários temas supostamente elevados, que giravam
em torno de «mistérios», mas sem realmente abordarem os verdadeiros
mistérios de Cristo, conforme Paulo menciona em I Cor. 2:7.
A passagem de I Cor. 1:25 mostra-nos que a «loucura de Deus» é mais
sábia do que os homens. E essa sabedoria divina, que os homens reputam
loucura, é a mensagem concernente a Cristo (conforme lemos em I Cor.
1:23), o qual é, na realidade, o poder e a sabedoria de Deus (ver I Cor.
1:24,30). Outrossim, os «loucos», isto é, aqueles que são desprezados pelos
indivíduos mundanos, apesar de serem pessoas humildes, são aqueles que
se tornam eleitos de Deus. (Ver I Cor. 1:27,28). Essas diversas referências
bíblicas mostram claramente o que Paulo entendia com o vocábulo
«estulto». Paradoxalmente, o estulto é o que aceita a sabedoria de Deus, ou
seja, a pessoa de Jesus Cristo, a sua mensagem, a sua cruz, os seus
mistérios, ao invés de dar acolhida à propalada sabedoria que é apenas
«século», isto é, característica dos homens destituídos da iluminação divina.
Quando assim se torna um tolo, um homem realmente se toma sábio, isto é,
assume o conhecimento da sabedoria de Deus, e começa a participar
pessoalmente da natureza de Cristo. E é assim que o crente obtém a
sabedoria celestial, a iluminação divina. (Quanto à questão da iluminação
espiritual, ver as notas expositivas sobre I Cor. 2:10,11. Nesses versículos
Paulo emprega oxímoros. Ver I Cor. 1:21,25 quanto a outros exemplos da
mesma natureza).
«A presunção oca pode levar os homens a manusearem deslealmente o
povo de Cristo. Que há uma tendência ‘sacrílega’ no espírito faccioso é algo
ilustrado nos trechos de Gál. 5:7-12; 6:12,13; II Cor. 11:3,4,13-15,20. E a
situação aludida nessa referência da epístola aos Gálatas talvez seja a que
estava na mente do apóstolo, quando escreveu as palavras que ora
I CORÍNTIOS 53
comentamos, as quais têm uma dupla conexão, a saber, com os versículos
dezesseis e dezessete, e com a secção seguinte». (Robertson e Plummer, in
loc.).
«Os homens não podem pensar em serem sábios em ambas as esferas ‘na
espiritual e na mundana’. Os sábios da igreja são os loucos para o mundo, e
vice-versa. A cruz é uma ‘moria’ (insensatez) para o mundo; e aquele que a
defende é um ‘moros’ (insensato). Para o mundo tal pessoa é um
‘criminoso’, como seu Senhor. E só pode uma pessoa ser um sábio
cristão—um sábio segundo os termos de I Cor. 2:8 e ss.—sob a condição de
suportar esse opróbrio...Paulo era um desvairado aos olhos do mundo (ver I
Cor. 4:10; II Cor. 5:13 e Atos 26:24); mas como ele era sábio entre nós!
Pode-se comparar isso com o paradoxo citado por Cristo, de alguém que
‘perde’ sua vida a fim de ganhá-la». (Findlay, in loc.).
19 ή γάρ σοφία τοΰ κόσμου τούτον μωρία τταρα
σοφούς έν τη πανουργία αυτών·
3:19: Porque α sabedoria deste mundo έ loucura diante de Déus; pois está escrito:
Ele apanha os sábios na sua própria astúcia;
Este versículo reitera essencialmente a mensagem de I Cor. 1:19,21,25,
27. Neste ponto encontramos a explanação do paradoxo que Paulo acabara
de apresentar. Aquilo que parece ser uma demonstração de sabedoria,
transmuta-se em mera insensatez, quando é sujeito à ação perscrutadora de
Deus, a qual transcende grandemente o que é humano; e, vice-versa, o que
é reputado como «insensatez» perante o mundo, a saber, a palavra sobre
Cristo, na realidade constitui poderosíssima mensagem, prenhe da
sabedoria de Deus, porquanto a mesma efetua a salvação da alma, algo que
a sabedoria mundana jamais poderia fazer.Isso é uma repetição, em termos
levemente diferentes, e de forma abreviada, da mensagem central do trecho
de I Cor. 1:18 e ss.,e, sobretudo, dos versículos citados acima.
«...diante de Deus...», por ser o Senhor o Juiz e verdadeiro avaliador de
todas as realidades espirituais. (Comparar com Rom. 2:13; 12:16 e Atos
26:8). Paulo mostra-nos aqui «por qual motivo» a sabedoria do mundo deve
ser renunciada por todos os crentes.O motivo desse repúdio é que tal
sabedoria é considerada uma «loucura» por Deus, e por conseguinte, é uma
insensatez em sua natureza essencial, embora seja reputada como algo bem
diferente pelos homens mundanos. Ora, aquilo que é uma insensatez real,
sobretudo devido ao fato que só produz divisões no seio da igreja cristã, que
deve ser una, precisa ser renunciado por todos os crentes sérios. O
julgamento de Deus deve ser reputado como algo sério e decisivo contra a
classe dos «intelectuais» no seio da igreja cristã. E Paulo cita trechos bíblicos
a fim de comprovar o que diz.
«Trata-se de uma sabedoria governada pelo espírito deste mundo, que
ultrapassa aos seus próprios limites, que procura satisfazer a si mesmo
acerca das realidades divinas e humanas, maculada que é pelo erro; e, desse
modo, coloca-se em oposição direta tanto à razão mais elevada como a
Deus, bem como aos grandes objetivos por causa dos quais o mundo e os
homens foram criados», (Osiander, in loc.).
«...está escrito...» Essa é uma frase freqüentemente usada nos escritos de
Paulo, incluindo esta epístola. Encontra-se neste livro em I Cor. 1:19,31;
2:9; 3:19; 4:6; 9:9,10; 10:7,11; 14:21; 15:45,54. Na epístola aos Romanos é
empregada por nada menos de dezessete vezes. (Ver as notas expositivas
sobre Rom. 3:10 quanto ao uso dessa expressão nessa epístola aos
Romanos). Nas epístolas aos Gálatas e II Coríntios essa frase também é
usada com freqüência, aparecendo ela também por algumas outras vezes
nos demais escritos de Paulo. Com o emprego dessa expressão, Paulo
vincula a sua mensagem a muitos aspectos importantes do A.T., assim
escudando seus ensinamentos apostólicos naqueles documentos do antigo
pacto, ao mesmo tempo que dá prosseguimento à revelação expressa no
novo pacto à mesma coisa, o que é uma idéia comum entre os escritores
neotestamentários. Isso subentende, naturalm ente, que o prometido
Messias do A.T. é o Senhor Jesus do N.T., ainda que Paulo não aborde
diretamente essa questão neste ponto. (Quanto a uma nota de sumário
sobre a «missão messiânica de Jesus», uma tese constantemente defendida
nas páginas do N.T., ver João 7:45).
Nesta referência particular, Paulo queria que os seus leitores tivessem a
consciência do fato de que aquilo que ele ensinava no tocante à sabedoria
mundana não era nenhuma novidade, mas antes, refletia o quejá havia sido
revelado nas Escrituras do A.T.
A citação aqui utilizada pelo apóstolo dos gentios é extraída do trecho de
Jó 5:13, de acordo com a versão da Septuaginta, embora com leve variação
no fraseado, em relação ao original hebraico. Os versículos onze, doze e
catorze deste mesmo capítulo dão apoio ao argumento geral apresentado
por Paulo, não meramente no décimo terceiro versículo; e a leitura desses
vários versículos citados nos dá a interpretação do que Paulo quis dizer
neste ponto. (Quanto ao método paulino de citação de trechos do A.T.,
algumas vezes com consideráveis variações, porque os adaptava a seus
propósitos, ver as notas expositivas sobre Rom. 10:6).
O livro de Jó é citado somente neste ponto e em Tia. 5:11, em todo o
volume do N.T. Portanto, Paulo e Tiago ap.rovam esse livro como
«canônico». O «Canon» das Escrituras hebraicas ainda não havia sido fixo
nos tempos apostólicos. Assim é que os saduceus geralmente aceitavam
somente o pentateuco, ao passo que os fariseus aceitavam o pentateuco, os
«‘Ninguém se engane a si mesmo...’ O partidarismo excitado pode levar
os seus membros a se excitarem até a um ponto de frenesi pio
hipnotizando-se com a sua própria suposta devoção â verdade...A falsa
sabedoria do mundo (ver I Cor. 1:18-20,23 e 2:14), que é uma
autopresunção, tem provocado muitas contendas e querelas». (Robertson,
in loc.).
«Se qualquer de vós se considera sábio, que não tenha o escrúpulo de ser
um insensato, na opinião deste mundo, para que possa ser realmente
sábio». (Grotius, in loc.), que apresenta assim a idéia geral com a qual
concorda a maioria dos intérpretes, no tocante a este versículo).
«Corremos o grande perigo de nos enganarmos a nós mesmos, quando
fazemos opinião exageradamente elevada da sabedoria e das artes
humanas». (Matthew Henry, in loc.).
τψ 0eâ> io T tv γέγρα πτα ι γάρ, Ό δρασσόμενος τούς
19 Ό δρασσόμενος...αντω ν Job 5.13
salmos e os profetas (o mesmo «cânon» protestante do A.T., hoje em dia); e
o judaísmo fora da Palestina aceitava os livros todos que aparecem na
versão da Septuaginta (tradução do original hebraico do N.T. para o grego,
completada em cerca de duzentos anos antes da era cristã», que também
incluía os livros apócrifos do A.T., a maioria dos quais livros tem sido aceita
pela Igreja Católica Romana, a partir da contra-reforma, já em meados do
século XVI.
O sentido geral da citação aqui feita por Paulo, segundo o comentário de
Alfdrd (in loc.), é o seguinte: «Se Deus usa a astúcia dos sábios, como uma
rede para apanhá-los na mesma, tal sabedoria é a mais refinada insensatez
aos seus olhos, porquanto Deus com ela os confunde». E o tema geral do
primeiro capítulo desta epístola mostra-nos que Paulo via a «sabedoria deste
mundo» como uma farsa, como uma entidade jalsa, porquanto jamais se
verificou a salvação de uma única alma por intermédio dela, e nem ela
jamais penetra nos mistérios de Deus. Foi através da sabedoria mundana,
além disso, que o mundo não veio a conhecer a Deus. Essa sabedoria serve
de obstáculo, e não de trampolim, impedindo que os homens venham a
conhecer a realidade das coisas divinas.
Este mundo vil seria amigo da graça,
Ajudando-me a prosseguir para Deus?
(Isaac Watts).
A sabedoria mundana, por conseguinte, torna-se uma espécie de
«armadilha» para os seus mentores e seguidores, e não uma ajuda (ver I Cor.
1:21). E Deus se utiliza dessa armadilha a fim de exibir perante os homens a
própria insensatez deles, embora jamais o faça como quem quer desprezar,
porque a finalidade de Deus, em tudo isso, é atrair os homens a si mesmo, a
fim de que, finalmente, venham a depositar a sua confiança em Jesus
Cristo. Foi a sabedoria mundana que levou os homens a crucificarem o
Senhor da Glória (ver I Cor. 2:8); e isso para detrimento de todos os sábios
deste mundo; e assim a sabedoria de que os homens se jactam se tem
transformado em um empecilho para eles mesmos. Deus permite que isso
aconteça a fim de que possa mostrar claramente aos homens no que consiste
a verdadeira sabedoria, a qual está concentrada no Salvador, o Senhor Jesus
Cristo. (Ver I Cor. 1:30). A «armadilha» que Deus arma para tais homens,
portanto, bem como a «confusão» na qual ele faz com que os homens caíam,
têm uma finalidade não apenas retributiva, como se tudo fossè apenas o
castigo contra as maldades humanas, mas também tem uma natureza
remidora; pois, de certa maneira, Deus faz assim os homens se voltarem
para Cristo, uma vez que reconheçam a insensatez inerente e a confusão
envolvida nos esforços humanos por compreenderem as realidades divinas
através da sabedoria deste mundo.
«...Ele apanha...» Temos no original, neste ponto, um verbo que significa
«agarrar com as mãos», embora no grego se usasse tal palavra para indicar a
função de uma rede de pesca. A própria sabedoria mundana, que os
incrédulos pensam ser o motivo de sua libertação da ignorância, o seu
caminho de liberdade, transforma-se na arm adilha que os apanha e
confunde. Esse é o ponto de vista divino sobre a sabedoria humana.
«...astúcia...», isto é, «habilidade versátil», «prontidão» para fazer
qualquer coisa, a fim de ganhar a razão em um debate, para obter o prêmio
ou alvo colimado. No_original grego, essa palavra podia ser utilizada em
bom ou mau sentido. É evidente que Paulo usa aqui esse vocábulo para dar
a entender um tipo de sabedoria mundana, aplicada para propósitos
perversos. Na referência original do livro de Jó, encontramos Elifaz a falar
contra os sábios políticos deste mundo, os quais com freqüência ficam
desapontados com seus próprios propósitos astuciosos, não podendo
concretizar eles seus planos cuidadosamente traçados; antes, os seus
esquemas bem arquitetados ruem por terra, e eles mesmos sofrem dano, a
despeito de toda a sua astúcia.
Paulo aplica isso a todos os sábios segundo este mundo, mas é bem
provável que estivesse pensando particularmente sobre os heróis eleitos pela
classe dos «intelectuais» da igreja de Corinto, os filósofos sofistas, que
sempre se preocupavam muito mais com a eloqüência retórica do que com a
inquirição séria da verdade. De fato, os sofistas gregos haviam abandonado
inteiramente a verdade, julgando ser esse um alvo impossível de ser obtido.
Em lugar disso, haviam posto os valores utilitários, pragmáticos, pensando
que aquele que pode expressar-se bem e eloqüentemente, sem importar se
defende a verdade ou a mentira, é aquele que leva a vantagem.
20 καί πάλιν, Κύριος γινώσκει τούς διαλογισμούς των σοφών δτι είσίν μάταιοι. 2ο Κύριο·:...μάταιοι Ρβ μ .ι ι
20 σοφών] (Ps. 94· 10 ανθρωπων 33 6X4 al vgP°
3:20: e outro vei: 0 Senhor conhece as cogitações dos sábios, que são vãs. afirmava. Esta segunda citação é tirada do trecho de Sal. 94:11, de
Paulo lança mão de uma segunda citação, a fim de comprovar o que conformidade com a versão da Septuaginta. Tanto no original hebraico
54 I CORÍNTIOS
como na versão da Septuaginta encontramos a palavra «homens», ao invés
de «...sábios...», como aqui. E isso dá o seguinte resultado: «...os
pensamentos dos homens, que são pensamentos vãos...» Paulo adapta o
original, a fim de cumprir os seus propósitos, embora, neste caso, não
modifique o sentido da passagem citada, porquanto aquilo que é dito sobre
os homens em geral, pode ser aplicado também para os sábios. (Ver o
trecho de Rom. 10:6, onde há comentários sobre o método paulino de
citação de passagens do A.T.).
Deus tem seu modo de avaliar a sabedoria humana, declarando vãos os
pensamentos dos homens. A sabedoria de Deus (que é personificada em
Jesus Cristo, em sua missão remidora) pode parecer uma insensatez para as
mentes sofisticadas; no entanto, é por ela que a salvação é conferida à alma
humana. O homem, alienado de seu próprio verdadeiro ‘eu’ mais elevado, e
alienado de Deus, em seu longo desvio para longe do Senhor, tem inventado
suas próprias formas de sabedoria, tem tido os seus próprios pensamentos
inúteis. Os oponentes do apóstolo Paulo exaltavam a filosofia dos sofistas
gregos. Quão distanciados de Deus estavam! Quão vãs eram as suas
doutrinas! Quão humana e mundana, quão privada de sabedoria autêntica
era a doutrina deles! Portanto, quão grande era a insensatez desses homens
e sua sabedoria, aos olhos de Deus! Mediante tais esclarecimentos, pois, o
apóstolo dos gentios desejava alertar os crentes para que não seguissem a
tais líderes. Eles já haviam causado muitas perturbações na igreja de
21 ώστε μη8είς κανχάσθω iv ανθρώπους' πάντα
3:21: Portanto ninguém ι· glorie no* homens; porque tudo é vosso;
Com essas palavras pode-se comparar o trecho de I Cor. 1:29. Nenhum
homem pode gloriar-se na presença de Deus. A ufania em si mesma não é
atitude apropriada para os crentes; pois os crentes, mais do que quaisquer
outros homens, sabem qual é a verdadeira avaliação dos homens, sabendo
também que toda a glória pertence ao Senhor. Tal ufania só é legitima
quando tem por centro o Senhor, quando todo o louvor é dado
exclusivamente a Deus. Isso é o que Paulo já havia dito, na passagem de I
Cor. 1:31. A leitura dessas duas referências fornece-nos o desenvolvimento
de toda a questão da ufania apropriada,e da ufania que não convém aos
crentes. No versículo que ora comentamos encontramos uma forma
imprópria de ufania, porque o sistema da graça divina, em contraste com os
sistemas legalistas, exclui toda a jactância humana, visto que tudo é nosso,
que tudo nos foi «dado». Nada é produto de nosso próprio engenho e
esforço. (Ver o trecho de Rom. 3:27 e as notas expositivas ali existentes
sobre esse tema).
Na epístola aos Romanos, Paulo confronta e contrasta o sistema da graça
divina com o sistema legalista. Neste ponto, entretanto, ele mostra que a
sabedoria mundana produz o péssimo efeito de promover a glória humana.
Os crentes que se estribavam na sabedoria humana exaltavam homens
como Paulo, Pedro, Apoio ou algum outro mortal. Tinham escolhido alguns
heróis, aos quais veneravam até certo ponto, ao invés de adorarem
exclusivamente a Deus. Esse foi um dos maus resultados do espírito faccioso
dos crentes da igreja de Corinto. E isso faziam com prejuízo da glória
verdadeira de Cristo. Paulo, pois, faz aqui objeção a esse furto. Uma ação
dessas só poderia mesmo ser arquitetada por mentes carnais, destituídas de
um verdadeiro conhecimento da sabedoria de Deus, que havia sido
substituída pela sabedoria deste século, que é chã e passageira.
«...porque tudo é vosso...» O versículo seguinte expande essa declaração
simples. De modo geral, Paulo quis dizer que, em Cristo, dispomos de uma
vasta e celestial possessão; cada um de nós, os remidos, se tornou'
fabulosamente rico. Os mestres cristãos, por conseguinte, nos pertencem, e
são dons de Deus para nós. (Acerca desse tema ver o trecho de Efé. 4:7 e
ss.). Todas as «pessoas dotadas» são dadas à igreja de Cristo como
«presentes», para benefício da mesma. Ora, posto que os mestres cristãos
nos pertencem, fazendo parte de nossa herança, ao mesmo tempo que não
somos nós que pertencemos aos mestres, como nos poderíamos gloriar
deles? Gloriemo-nos antes do «doador» de todos os dons perfeitos e bons, a
Corinto, tendo-a dividido em várias facções. Quando muito, eram crentes
carnais, e não crentes verdadeiramente sábios em Cristo Jesus.
A vaidade da sabedoria humana transparece particularmente no fato que
enfatiza apenas o corpo, esquecendo-se inteiramente da alma, do homem
essencial. E quando essa sabedoria humana especula acerca da alma, e
chega a asseverar corretamente a sua existência, ainda assim não dispõe de
uma explanação real sobre o seu destino. E até mesmo nos casos raros em
que compreende que a alma terá um destino, não dispõe de nenhum recurso
que lhe permita saber como esse destino pode ser alcançado. A sabedoria de
Deus, bem ao contrário disso, frisa corretamente o que deve ser ressaltado,
asseverando a existência da alma, descrevendo o seu destino e esclarecendo
como esse destino pode ser alcançado, além de mostrar o que tudo- isso
significa. O trecho de Rom. 8:29 é uma passagem bíblica que esclarece bem
no que consiste esse destino, onde também o leitor deve examinar as notas
expositivas a respeito.
«.. .pensamentos vãos...», isto é, pensamentos aos quais falta a verdade
vital e essencial, pensamentos que importam em uma interpretação
pervertida das realidades da vida, em contraste violento com a sabedoria de
Deus, revelada na pessoa de Cristo, que é uma verdade essencial e pura,
oferecida aos homens. Essa sabedoria divina, se for seguida fielmente,
redunda na salvação da alma humana.
γαρ νμων eoriv,
saber, Deus Pai, o «...Pai das luzes...» (ver Tia. 1:17).
Nessas palavras, «...tudo é vosso...», encontramos a declaração da
dignidade de todo o verdadeiro crente. Quando da criação, Deus deu ao
homem o senhorio sobre o mundo físico. No entanto, perdeu esse privilégio
quando da queda no pecado. Porém, sendo redimido em Cristo, o homem
recupera esse senhorio, embora agora de ordem ainda mais elevada,
porquanto todos os remidos serão finalmente elevados até à própria estatura
de Cristo. (Ver II Cor. 3:18 e Rom. 8:29). E assim o crente se tomará «...a
plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas» (Efé. 1:23). Ora, já
que todo o crente individual virá a ser assim exaltado, então certamente é
um erro terem os crentes «heróis» aos quais admirem indevidamente.
Porquanto todos os líderes cristãos são homens como nós, destinados a
serem transformados segundo a imagem de Cristo. Tais líderes são meros
inquiridores, que ainda não atingiram o alvo colimado. E mesmo que já
tenham avançado mais do que nós, pelo Caminho afora, nem por isso podem
servir de substitutos do Senhor Jesus Cristo, o qual é o único pioneiro e
capitão da nossa salvação.
O jactar-se o crente em outro, em algum líder de qualquer facção, é
«degradar» tanto ao crente comum, que assim aceita a outro homem como
seu «herói», embora esse outro homem não seja basicamente diferente do
que aquele que o exalta, como também é degradar a dignidade de Jesus
Cristo, que é o único que merece e que pode exigir com justiça ser exaltado
pela igreja cristã ou pelo mundo.
A «autoglorificação», que era uma das principais ocupações daqueles
líderes facciosos da igreja de Corinto, não é diretamente mencionada neste
ponto; mas desse erro participavam também os que se entregavam à
censura, motivo pelo qual também devem ser incluídos na reprimenda de
Paulo.
«...Portanto...» Palavra que vincula a mensagem do presente versículo
tanto com o que antecede como com o que se segue. E isso porque a
sabedoria humana nada é, sendo reputada como algo inútil pela avaliação
divina, razão pela qual nenhum crente deve gloriar-se no mero homem. E,
em segundo lugar, porque todas as coisas nos pertencem. Portanto,
possuímos uma elevada dignidade, sendo algo que não nos convém nos
gloriarmos no homem, o qual é apenas um inquiridor de Deus juntamente
conosco. O espírito de partidarismo, por conseguinte, é visto aqui como
uma forma sutil de autodegradação, para nada falarmos sobre a
degradação de Cristo nisso envolvido.
22 eíVe Π αΰλος είτε ’/Ι-πολλώ? είτε Κ-ηφάς είτε κόσμος ctre ζωή
μέλλοντα, πάντα ίιμών,
ε ίτ ε θάνα·τος ειτε ενεστώτα είτε
3:22: sejo Poulo, ου Apoio, ου Cefas; seja ο mundo, ου a vida, ου a morte; sejam as
coisas presentes, ou as vindouras, tudo é vosso,
Com a presente lista dasrcoisas que nos pertencem, podemos comparar a
lista das coisas que não nos podem separar de Cristo, conforme se lê em
Rom. 8:38,39. Existem diversas duplicações. O apóstolo dos gentios não
tenta apresentar-nos uma lista completa das bênçãos que possuímos em
Cristo Jesus, mas antes, emprega alguns termos bem amplos, que têm por
intuito ser todo-inclusivos, visto que ninguém pode fazer uma estimativa
dos tesouros que temos em Cristo, como também ninguém pode fazer uma
descrição exata sobre os mesmos.
«...Paulo... Apoio... Cefas...» Esses eram os mestres cristãos que haviam
sido escolhidos como «heróis» pelas diversas facções existentes na igreja
cristã de Corinto. No entanto, esses mestres eram presentes de Deus para
aquela comunidade cristã (ver Efé. 4:7 e ss.). A igreja de Cristo não
pertencia a eles, mas, pelo contrário, pertencia a Cristo. Gloriar-se um
crente ou um grupo de crentes em um mero homem qualquer é dar a
entender que esse homem é o grande benfeitor, a origem da vida eterna ê do
bem-estar espiritual. No entanto, nenhum daqueles três líderes menciona­
dos apresentara jamais qualquer reivindicação de representar tal coisa para
a igreja cristã. Eles mesmos eram inquiridores, como o são todos os demais
crentes, sendo instrumentos na mão de Deus, que o Senhor utilizava para
que se concretizassem os alvos da vida cristã. Deveriam ser seguidos
somente naquilo em que também estivessem seguindo a Jesus Cristo,
encaminhando os crentes para os pés do Senhor, ao invés de serem
glorificados como se fossem o alvo na direção do qual devem avançar os
remidos.
«Os crentes de Corinto vinham afirmando a sua lealdade aos homens.
Essa atitude deveria ser revertida. Os mestres pertenciam a eles, e não eles
aos mestres. Portanto, não havia necessidade de se limitarem a um só
mestre. A comunidade cristã precisava tirar proveito do que todos tivessem
com que contribuir. Se o apóstolo Paulo tivesse podido olhar para os séculos
vindouros, como não teria ampliado aquela lista, condenando àqueles que
agora dizem: ‘Eu pertenço a Lutero, ou a Calvino, ou a Wesley, ou a
Campbell, ou a algum outro grande servo da igreja de Cristo... ‘...tudo é
vosso...’ Mas Paulo não incluiu qualquer figura fora do grupo apostólico,
como Sócrates, Platão, Aristóteles ou Psidônio. Teria sido um lapso seu, ou
agiu assim propositadamente? Seria isso evidência da ignorância, da
estreiteza de Paulo, ou seria a sua concentração para com os crentes, a todo
o tempo, conforme devem ser as coisas?» (C.T. Craig, in loc.).
A Responsabilidade Dos Líderes
1. O primeiro dever deles é estabelecer um claro exemplo de ação. Que
eles sejam seguidores de Cristo, em quem a sua vida está sendo vivida (ver I
Cor. 10:1).
2. Dediquemos nossas vidas à pessoa de Cristo. Aprendamos qual seja a
missão que Deus determinou para nós, e cumpramos a mesma com todas as
nossas forças (ver Rom. 12:1,2).
3. Os líderes deveriam ser mestres, e não meros evangelistas (ver Mat.
28:19,20 e I Ped. 5:2).
4. Os líderes deveriam ser pastores (ver Jer. 23:4), e não ditadores (ver I
Ped. 5:3).
5. Deveriam ser homens diligentes (ver Heb. 13:17).
a. Cristo nos deixou o grande exemplo de diligência (ver Luc. 2:49).
b. Esforcemo-nos em busca da perfeição (ver Fil. 3:13,14).
«...seja o mundo...»Neste ponto é empregado o vocábulo grego «kosmos».
(Quanto a um sumário das diversas palavras gregas assim traduzidas no
N.T., juntamente com os vários sentidos possíveis de «kosmos», ver as notas
expositivas sobre o trecho de João 1:10).
Sim, o mundo é nosso. O mundo existe a fim de servir-nos, até mesmo
quando, aparentemente, ele só nos dá tristezas. A passagem de Rom. 8:20
mostra-nos que até mesmo a «vaidade» ou inutilidade do mundo, o seu caos
aparente e real, cooperam para a salvação da humanidade, pois, através de
tais condições somos forçados a depender de Cristo Jesus. A esfera terrena
inteira, portanto, de alguma maneira, segundo o plano divino, coopera
juntam ente para o nosso bem. (Ver Rom. 8:28). Pois, dentro das
circunstâncias terrenas, o plano divino a nós relativo encontra concretização
parcial. Os crentes recebem a certeza de que, finalmente, sair-se-ão
vencedores sobre a maldade que há no mundo. (Ver I João 5:4). Aquele que
é nascido de Deus, vence o mundo, e isso mediante a fé.
Alguns intérpretes acreditam que a palavra «mundo», usada neste ponto,
conforme sucede com freqüência, indica_ este perverso sistema mundano,
um poder adversário do cristianismo. É provável que essa idéia esteja
inclusa aqui, mas isso não esgota tudo quanto Paulo quis dizer com essa
palavra. Antes, tal termo, no original grego, é muito amplo. A nós é dado
compreender que a despeito de tudo quanto esta esfera terrena puder nos
dar, não poderá separar-nos de Cristoj mas o efeito dessas tensões do
mundo é justamente o contrário disso. Ê então que podemos encontrar a
Cristo, pois o seu evangelho saiu até aos confins da terra, e encontrou até
mesmo a nós. É bem provável, por conseguinte, que o vocábulo «mundo»
seja usado neste versículo sem qualquer significação ética, dando a entender
o universo físico e todas as coisas ali contidas. Os crentes estão destinados a
ser, finalmente, os herdeiros do mundo (ver Mat. 5:5), havendo eles de ser
também os governantes da terra durante o reino milenar de Cristo (ver
Rom. 4:13 e Apo. 5:10). Está aqui em vista, portanto, o mundo em face da
redenção; porquanto é aqui focalizado até mesmo o nosso bem-estar
espiritual. Assim sendo, o mundo existe para nós e nos serve. (Ver os
trechos de Sal. 8; I Tim. 2:2-4; 4:8 e 6:17).
Existem outras interpretações sobre apalavra «mundo», aqui empregada,
mas que certamente são interpretações incorretas, a saber:
1. Alguns pensam que se trata do mundo dos «eruditos», dos sábios, como
se esse mundo estivesse subjugado aos crentes.
2. Outros pensam que está aqui em foco o conhecimento de todas as
coisas naturais, nas quais os eruditos se ufanam, mas que, na realidade,
não compreendem.
3. Ainda outros pensam tratar-se dos mestres incrédulos, em contraste
com os mestres crentes, que acabam de ser mencionados.
4. Finalmente, ainda outros estudiosos pensam que está aqui em foco o
restante da humanidade, como se todos os demais homens, de um modo ou
de outro, fossem subservientes aos eleitos.
Barnes faz a lista de quatro idéias gerais acerca de como o mundo nos
pertence:
1. O mundo foi criado pelo Pai de todos nós, e compartilhamos de suas
obras e de seus benefícios.
2. O universo é sustentado em sua própria existência por nós. (Comparar
essa idéia com o trecho de Col. 1:17).
3. O curso dos acontecimentos providenciais foi determinado visando ao
nosso benefício. (Quanto a notas expositivas sobre a «providência de Deus»,
onde há poesias ilustrativas, ver os trechos de João 7:6; 11:4; Atos 7:9,10;
10:17; 16:10; 25:4 e 27:25).
4. Temos a promessa de que os crentes terão tanto dos bens materiais
deste mundo e de seus benefícios quantos lhes forem necessários. (Ver os
trechos de Mat. 6:33; Marc. 10:29,30 e I Tim. 4:8).
«...seja a vida...·» Temos aqui outro termo lato, que admite certa
variedade de possíveis interpretações. Mui provavelmente está aqur em
foco, em termos bem gerais, tudo quanto a vida humana, a mortal e a
imortal, a física e temporal, a espiritual e eterna, podem conferir-nos.
A Vida Nos Serve E É Nossa
1. A vida física confere-nos a oportunidade de avançar espiritualmente,
levando-nos a ter contacto com mestres e outros, que nos proporcionam
lições necessárias. Ela também nos outorga a oportunidade de aprendermos
de Cristo, por meio de quem nos foi dada a vida eterna.
2. A vida espiritual, no presente, manifesta-se através da igreja.
Portanto, no meio ambiente da igreja, a vida nos vai servindo. No presente
contexto, o que Paulo queria dizer mui provavelmente é isso.
3. A vida física é tanto a entrada para a morte como para a vida vindoura,
a saber, a vida da alma além do sepulcro. A salvação torna necessário que
esta vida também nos sirva. No reino mortal, a vida de Cristo está sendo
formada em nós, à proporção em que vamos sendo transformados segundo
a sua imagem. Ora, isso será confirmado, e assumirá um impulso imenso,
na vida além-túmulo. (Ver II Cor. 3:18 quanto a notas sobre esse tema).
4. A polêmica: Visto que todas as coisas são nossas, e visto que a própria
vida nos serve—incluindo até a morte—que necessidade temos de'
gloriar-nos em algum homem, tornando-o nosso herói, desenvolvendo
denominações que gravitem em torno de sua influência, de sua memória?
Agir assim será destruir a nossa elevada posição na espiritualidade
mediante absurdos carnais.
Durante o tempo de nossa peregrinação, temos a promessa de que
todas as nossas necessidades físicas nos serão supridas, e isso a fim de que,
particularmente, abundemos em boas obras de toda a variedade. (Ver II
Cor. 9:8).
Barnes comenta como segue: «1. A vida é nossa porque os crentes
desfrutam dela. Trata-se de uma vida ‘real’, e não de mero espetáculo. 2. A
vida é nossa porque seus vários eventos tendem a promover o bem-estar dos
crentes, cooperando juntamente para o bem deles».
A vida de Cristo visa ao nosso benefício, sem importar se levarmos em
conta a sua peregrinação terrena, que nos mostra como devemos andar, ou
se levarmos em conta o seu ministério no «hades», mediante o qual ele
trouxe a esperança até mesmo para os perdidos. (Ver I Ped. 3:18-20 e 4:6).
Também não nos importa se está em vista o aspecto celestial da vida de
Cristo, mediante o qu.e ele garante tudo quanto tem feito por nós,
conferindo-nos os benéficos resultados de sua missão terrena; ou mesmo se
está em vista a sua vida glorificada, da qual o crente deve também
participar. (Ver Rom. 8:29,30).
Como A Morte Nos Serve
1. Esse será um acontecimento solene, em razão do qual dizemos:
«Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio»
(Sal. 90:12).
2. A morte física não nos separará de Cristo; pelo contrário, nos levará à
sua presença, pois estar ausente do corpo é estar presente com o Senhor (ver
II Cor. 5:8).
3. Para o crente, a morte envolve vantagem (ver Fil. 1:21). A morte física
livra-nos daquilo que é mortal e terreno, conferindo-nos grande avanço
espiritual.
4. Quiçá Paulo também estivesse pensando aqui acerca da morte de
Cristo e de como ela nos propiciou a expiação dos pecados e a admissão à
vida eterna (ver Rom. 3:25).
«Morte, aquela hora solene, tão temida pelos ímpios; tão odiosa para
aqueles que vivem sem Deus; ela é vossa. A morte é vossa serva; ela vem
como mensageira especial da parte de Deus; ela vem para desfazer um nó
que agora liga corpo e alma, e que não nos seria legítimo desmanchar. Ela
vem para conduzir as nossas almas à glória; e ela não poderia vir ‘antes’ do
seu devido tempo, para aqueles que estão esperando a salvação de Deus. Os
santos desejam viver somente para a glória de Deus; e aqueles que querem
viver mais tempo do que podem ‘obter’ e ‘fazer’ o bem, não é digno da
vida». (Adam Clarke, in loc., que nos dá assim um comentário deveras
excelente sobre o papel da morte física para nós).
«Amorte de Cristo visava ao benefício deles, por ter sido sofrida em lugar
deles, por causa dos seus pecados, apresentando uma satisfação ante a
justiça divina, em prol deles; e os benefícios dessa morte passam a ser
desfrutados por eles. A morte dos homens bons, dos ministros do
evangelho, dos mártires, dos confessores, pertence a eles, servindo para
fortalecer a sua fé, para animar o seu zelo, encorajando-os a se aferrarem na
profissão de sua fé sem qualquer hesitação. A morte desses é uma bênção
para eles, porquanto o ferrão da morte foi retirado para eles por Cristo; a
maldição da morte foi removida para eles. Para eles a morte não é uma
condenação má; mas antes, é livramento de todas as tristezas e tribulações
desta existência terrena, bem como a passagem dos crentes para a glória e a
felicidade intermináveis». (John Gill, in loc.).
Tememos instintivamente a morte, parcialmente por causa de suas
características raciais inerentes, que ajudam a preservar a humanidade
mortal. Mas também porque, por baixo disso tudo, a despeito de toda a
nossa instrução e erudição, algumas vezes tememos que talvez seja o fim da
existência, conforme alguns erroneamente supõem, ou porque pensamos
que a morte nos traga alguma desvantagem.
Por Que Temer A Morte
O homem teme instintivamente a morte. A despeito da fé, a morte abre
diante de nós um caminho novo e ainda não experimentado; e os novos
começos sempre envolvem algum desconforto e temor. Também tememos o
processo da morte física, com as suas dores, com a separação dos entes
queridos. Na realidade, porém, a morte não existe, pois tal termo é apenas o
nome que empregamos para aludir a uma nova e melhor existência. A vida
além-túmulo é um fato bem atestado, que hoje em dia vai sendo
demonstrado por estudos feitos em laboratório. (Ver os diversos artigos
sobre a «imortalidade», na introdução ao comentário).
Naturalmente a doutrina ensinada pelo apóstolo Paulo vai mais longe do
que a mera sobrevivência. Ele garantia que nada, durante o processo da
própria morte, ou qualquer conseqüência daí decorrente, poderá
prejudicar-nos; pois a morte nos pertence e serve de portal para a vida
eterna.
«...sejam as cousas presentes...» Estão aqui em foco todas as
circunstancias existentes, agora conhecidas por nós, nesta vida física. Paulo
apresenta aqui a solução para o problema do mal. O mal é perfeitamente
real, mas o crente triunfará finalmente sobre o mesmo. (Quanto ao
problema do «mal», explicado em seus aspectos natural e moral, ver as
notas expositivas sobre o trecho de Rom. 3:8). Está aqui em vista a vida
presente, incluindo todas as suas vicissitudes, alegrias, tristezas, vitórias e
derrotas. As perdas podem ser quando muito temporárias, e jam ais
permanentes, para o crente. Porque a providência de Deus controla todas as
coisas.
★ ★ ★
«...sejam as futuras...» O restante de nossa peregrinação terrena está
debaixo da proteção do poder de Deus, sendo igualmente orientado pelo
55
I CORÍNTIOS
56 I CORÍNTIOS
Senhor; e assim as eras infindas da eternidade, que por enquanto nos são
futuras, não poderão trazer-nos nenhum dano, mas tão-somente benefícios.
Não há que duvidar que a eternidade envolverá muitas surpresas para nós.
Também não se pode duvidar que somos meros infantes, quanto ao nosso
entendimento acerca da eternidade. Porém, a eternidade não pode reservar
para nós uma certa surpresa, isto é, qualquer estado de separação entre nós
e o amor de Cristo Jesus, que está em Deus Pai. (Ver Rom. 8:39). A ordem
inteira e a economia do mundo eterno estão dirigidos na direção do
benefício da humanidade; mas, mais especificamente ainda, visam ao
benefício dos filhos de Deus que estão sendo conduzidos à glória. (Ver Heb.
2:10). _______________
23 ύμβΐς 8è Χ ρίστου, Χ ριστός 8è θβοΰ.
3:23: e vós de Cristo, e Cristo de Deus.
«...e vós de Cristo, e Cristo de Deus...» Todas as coisas nos pertencem;
mas nós, por nossa vez, pertencemos a Cristo Jesus. Ele é a fonte originária
de todo esse nosso bem-estar, de toda a nossa esperança. Somos seus
co-herdeiros, no dizer de Rom. 8:17. É por meio de nossa identificação com
ele, de nossa transformação segundo a sua imagem, que nossa salvação
presente e nossa glorificação futura se tornarão realidades. (Ver Rom.
8:28,29). Fomos escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo (ver Efé.
1:4), predestinados para a adoção de filhos de Deus, por causa do Senhor
Jesus (ver Efé. 1:5). Também é em Cristo que fomos aceitos, remidos,
enriquecidos, iluminados, selados pelo seu Espírito, e que, eventualmente,
receberemos da sua plenitude. (Ver Efé. 1:6-23). Visto que todas as coisas
nos foram dadas para nosso aprazimento, para nosso benefício, nós, por
nossa vez, fomos dados a Cristo, o que significa que nos será conferida a sua
altíssima posição dentro do universo, o que quer dizer, por sua vez, que lhe
seremos de benefício. (Ver Efé. 1:10). O nome do Senhor é glorificado em
nós, e nós somos glorificados nele e através dele». (Ver II Tess. 1:12).
«A relação ativa entre as ‘possessões’, mencionadas no vigésimo segundo
versículo (‘tudo é vosso’) e a relação passiva das ‘coisas possuídas’, aqui
destacadas (‘e vós de Cristo’), se opõem ambas às desordens que se originam
da subserviência dos crentes às autoridades meramente humanas».
(Meyer, in loc.).
Pode haver, nesses dois versículos finais do terceiro capítulo desta
epístola, um ataque indireto ao partido daqueles que se diziam seguidores
de «Cristo», na igreja de Corinto, isto é, aquela facção dos que
reivindicavam alguma distinção especial como discípulos melhores ou mais
espirituais de Cristo. (Ver I Cor. 1:12 e as notas expositivas ali existentes).
Paulo, pois, queria que todos os membros desse grupo soubessem que todos
os crentes possuem «tudo», e que eles todos, por igual modo, pertencem ao
Senhor Jesus. Portanto, não podia haver qualquer facção criada por aqueles
que se julgavam discípulos especiais de Cristo, como se estivessem de
alguma maneira a servi-lo melhor, separando-se dos outros devido ao seu
orgulho exclusivista.
Os crentes não pertencem a outro além de Cristo. Não pertencem a
Paulo, a Cefas ou a qualquer outro líder; e certamente também não são
propriedade de algum grupo faccioso porventura existente no cristianismo.
O fato de que todos pertencem ao Senhor e Mestre deveria ser um incentivo
à unidade entre os crentes, remidos pelo mesmo sangue de Cristo e
regenerados pelo mesmo Espírito de Deus, tendo sido escolhidos desde a
eternidade pelo mesmo Deus Pai.
«...e Cristo de Deus...» Poder-se-ia defender a verdade do fato que Jesus
Cristo pertence a Deus Pai, na qualidade de seu Filho eterno,—através da
doutrina bíblica da «geração eterna», porquanto o nome de Deus Pai, na
trindade, aparece em primeiro lugar, e é sempre ele considerado a fonte
originária e primária de toda e qualquer existência. Em relação a Deus
Filho, Deus Pai não ocupa lugar de quem é primeiro quanto à «origem»,
mas tão-somente no que diz respeito à «relação». Pois o Filho de Deus é
«eternamente gerado» pelo Pai. Esse é um colossal mistério, tal como
misteriosa é a doutrina inteira da «trindade». Desse modo, pois, o Filho de
Deus é considerado como divino, e a sua divindade é eterna. (Ver João
1:1-3). Mas, neste caso, mui provavelmente o apóstolo dos gentios pensava
sobre o Cristo quanto ao seu ofício medianeiro, bem como em sua missão,
geral, como o Verbo encarnado de Deus.
«...tudo é vosso...» Repetição do final do vigésimo primeiro versículo,
tendo em vista enfatizar o grande tema que Paulo aqui explora. Paulo
acabara de descrever a vastíssima riqueza dos crentes. Toda essa riqueza
nos vem em Cristo e por intermédio dele, e não através de algum mestre
humano. Nenhum mestre terreno, por conseguinte, pode ser guindado à
posição de «herói». E nenhum espírito faccioso pode existir legitimamente
no seio da igreja cristã. Tudo isso está abaixo da dignidade dos crentes, os
quais não devem prestar respeito exagerado a qualquer outro homem. Toda
a glória pertence exclusivamente a Cristo. A unidade dos crentes, em torno
dele, é que garante a harmonia entre os crentes e suas igrejas locais.
Cristo é de Deus. Como?
1. Do Pai ele deriva seu ofício redentor e sua missão salvadora. Foi Deus
quem mandou Cristo ao mundo. (Ver João 3:16).
2. Do Pai ele deriva seu ofício mediatório. (Ver João 14:28, 17:3).
3. Ele recebe sua exaltação do Pai. (Ver Fil. 2:9,10; Heb. 1:9).
4. Seu senhorio universal será estabelecido pelo poder de Deus. (Ver Efé.
1:19-23).
5. Com o Pai, ele é o alvo de toda a vida e de todo o viver. (Ver Col. 1:16 e
Rom. 11:36).
6. Ele, como homem, recebeu a vida independente e necessária de Deus e
comunica esta vida aos homens que o aceitam em fé, através da
ressurreição. (Ver João 5:25,26, 6:57).
7. A aceitação de Deus de Cristo como o Filho, significa a aceitação de
todos os homens que confiam nele, porque ele conduz seus irmãos à Glória.
(Ver Heb. 2:10).
8. Cristo é o meio através do qual a natureza divina é comunicada aos
outros filhos enquanto eles são transformados à imagem do Filho. (Ver
Rom. 8:29; Efé. 3:19; II Cor. 3:18; Col. 2:9,10; II Ped. 1:4).
9. Como o Filho ele é subordinado ao Pai. (Ver I Cor. 15:28).
«A glória de Cristo, em seu estado ressurrecto e exaltado, foi dada por
Deus (Ver Fil. 2:9; comparar com Rom. 6:10), e no fim haverá de
mergulhar em Deus (ver I Cor. 15:28)». (Robertson e Plummer, in loc.).
«Cristo, em sua natureza humana, é propriedade de Deus tanto quanto
qualquer outro ser humano. E, na qualidade de ‘mediador’ entre Deus e os
homens, ele deve ser considerado, sob certo prisma, como inferior a Deus;
mas, quanto à sua própria natureza, eterna e essencial, não há qualquer
desigualdade, mas antes, ele é Deus sobre todos». (Adam Clarke, in loc.).
Alguns intérpretes têm pensado que essa subordinação não envolve
meramente a natureza humana de Cristo a Deus, mas igualmente o conceito
inteiro de Cristo como o Filho de Deus, conforme tal conceito evoluiu devido
à encarnação.
10. Essa subordinação também se refere ao estado eterno, pois o Logos se
identifica com os homens, compartilhando da sorte deles, sendo ele o
perene Pioneiro no tocante ao desenvolvimento espiritual dos mesmos. Esse
estado também foi escolhido de moto próprio, e não foi resultado de
qualquer inferioridade inerente. Não há que duvidar que isso fica entendido
em I Cor. 15:28.
11. Por ser membro da Trindade, o Filho pertence ao Pai, o que alude ao
relacionamento e ao companheirismo especial de que desfrutam. Portanto,
o Filho é eternamente gerado pelo Pai (o que fala de um relacionamento
especial, e não de um começo dentro do tempo). (Ver as notas sobre a
«Trindade», em I João 5:7).
Em face de tudo isso, pois, temos grandes razões para nos sentirmos
confiantes, para nada temermos, para nos enchermos de radiosa esperança,
para não temermos a morte.
Assim seja a minha passagem!
Minha tarefa cumprida e realizado o longo dia,
Meu salário recebido, e, em meu coração,
Alguma cotovia tardia a cantar.
Que eu seja recolhido para o calmo ocidente.
Opôr-do-sol esplêndido e sereno,
A morte.
(W.E. Henley).
Capitulo 4
II. O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21).
2. Como deve ser julgado um apóstolo verdadeiro: contra os detratores de Paulo, que causavam divisões (4:1-21).
Os três capítulos anteriores consistiram, essencialmente, do ataque desfechado pelo apóstolo dos gentios contra os partidos
facciosos que tinham surgido na igreja cristã de Corinto, e, sobretudo, de uma polêmica severa contra o partido dos
«intelectuais», os quais haviam substituído a «palavra da cruz» pela sabedoria terrena. Nesta secção de sua epístola, que ora
iniciamos, Paulo passa a caracterizar um verdadeiro apóstolo, tendo em vista, sem a menor sombra de dúvida, mostrar que ele
possuía tais habilitações, mas que essas qualidades faltavam àqueles contenciosos líderes de facções, na igreja de Corinto. Os
verdadeiros apóstolos, outrossim, não estão sujeitos aos caprichos daqueles a quem servem, e o seu elevado ofício sob hipótese
alguma é maculado pelas críticas feitas pelos crentes carnais. O julgamento autêntico éprerrogativa exclusiva do «Senhor», o
único que tem a capacidade de trazer o conhecimento puro à luz. Os verdadeiros apóstolos não se fazem de juizes, nem mesmo de
si proprios, servindo de exemplo de humildade para todos os crentes. Ora, isso vinha sendo feito pelo apóstolo Paulo; mas ele
mostra ter sérias dúvidas a esse respeito, no caso de seus detratores.
Os crentes de Corinto podiam ter dez mil instrutores; contudo, não tinham muitos pais na fé. O apóstolo Paulo era um desses
pais, e exigia o devido respeito da parte de seus filhos na fé. Já tinha enviado Timóteo, na tentativa de corrigir os abusos
existentes naquela comunidade cristã, mas ele mesmo não demoraria a dirigir-se para ali, se assim fosse da vontade de Deus, a
fim de que pudesse cuidar pessoalmente dos muitos problemasque ali tinham surgido e evoluído.Esperava Paulo poder chegar ali
com amor e mansidão, e não com julgamento; e isso realmente se verificaria, se porventura eles dessem a devida atenção à sua
epístola, fazendo as modificações necessárias no seu comportamento.
«Tendo assim exibido o título majestático de cristãos em relação a todas as coisas, mostrando os benefícios que são derivados
de todos os ministros cristãos, bem como de todos os objetos e acontecimentos no mundo, ele (Paulo) agora se volta para a tarefa
de apresentar, como corolário disso, o ponto de vista que aqueles crentes deveriam ter no tocante aos ministros do evangelho,
bem como a maneira como deveriam tratá-los; e dessa maneira queria lembrar-lhes certas limitações inerentes às prerrogativas
daqueles aquem estavam indevidamente dispostos a honrar». (Philip Schaff, no Comentário de Lange).
I CORÍNTIOS 57
4 Οντως ημάς λογιζέσθω άνθρωπος ώς νπηρέτας Χρίστου και οίκονόμους μυστηρίων θβοΰ.
4:1: Que os homens nos considerem, pois, como ministros de Cristo, e despenseiros
dos mistérios de Deus.
Tendo apresentado a sua polêmica contra o espírito faccioso, Paulo agora
passa a mostrar qual deve ser a atitude certa dos crentes para com os
verdadeiros ministros do evangelho, e, em particular, para com ele mesmo,
que era um apóstolo autêntico, que tinha apresentado muitas evidências
sobre a validade do seu apostolado. Em Corinto havia detratores de Paulo
que haviam convencido a alguns dos membros daquela igreja que ele não
era verdadeiro apóstolo. O nono capítulo da presente epístola expõe a
defesa de Paulo contra essa calúnia. No capítulo que ora iniciamos a
comentar, porém, esse apóstolo mostra-nos que tais detratores, ao
denegri-lo, tão-somente deixavam de mostrar o devido respeito pela
dignidade de seu oficio, que lhe fora conferido pelo Senhor. Isso era apenas
um outro resultado negativo do fato de se terem deixado encantar pelos
líderes de diversas facções, os quais exaltavam aos homens e se gloriavam
no homem. Os ministros autênticos da Palavra de Deus não podem estar
sujeitos aos caprichos da comunidade religiosa, e contra esse abuso, Paulo
agora fazia objeção firme.
A Fidelidade
1. Essa deveria ser uma das características essenciais de todos os crentes
professos (ver Efé. 1:1 e Apo. 17:14).
2. A fidelidade se exibe no serviço prestado (ver Mat. 24:45), e na
pregação da Palavra (ver II Cor. 2:17).
3. Deveria ser tão geral que incluísse todas as coisas (ver I Tim. 3:11).
4. Não pode haver período de férias no campo da fidelidade (ver Apo.
2:10).
5. Ela redunda em uma espécie notável de bem-aventurança (ver Mat.
24:45,46).
6. Consideremos o exemplo de Paulo (ver Atos 20:20,27).
«...ministros...» Paulo substitui aqui o termo grego mais comum,
«diakonos» pelo vocábulo grego «uperetes». Originalmente, essa palavra
indicava aqueles que mam>seavam a fileira de remos mais inferior de uma
trirreme; em seguida veio a significar qualquer pessoa que serve
subordinada a outra, um «servo», um «assistente», um «ajudante». O trecho
de Luc. 1:2 aplica esse termo grego a qualquer tipo de serviço em que esteja
envolvida a «Palavra de Deus». Em tempos posteriores, esse vocábulo
passou a ser usado em um sentido técnico, no vocabulário eclesiástico, a fim
de denotar os «subdiáconos». Mediante o uso dessa palavra, pois, o apóstolo
dos gentios assume sua correta posição como servo de Jesus Cristo. Ele não
exalta a si mesmo, como se exigisse ser respeitado devido aos seus próprios
méritos; não obstante, não é coisa de pouca monta ser um homem um
verdadeiro ministro do grande Rei, o Senhor Jesus Cristo. Tais ministros
requerem um respeito verdadeiro da parte daqueles para quem ministram.
«...despenseiros...» é tradução do vocábulo grego «oikonomos» (derivado
de «oikos», casa, e «nemo», distribuir, determinar), que indica alguém que
tinha por função controlar uma casa, determinando a cada qual, os seus
deveres específicos. Eram os despenseiros quem controlavam o dispêndio de
dinheiro, a compra dos suprimentos e a distribuição dos bens, dentro da
casa. Essa palavra também indicava alguém que geria os negócios externos
de uma casa; razão também pela qual era aplicada aos oficiais
administradores do governo, que manuseavam os fundos públicos e
conduziam os negócios em geral do império. Na sociedade antiga, o
«gerente» de uma casa, em relação ao seu senhor, era apenas um éscravo.
Por essa razão é que era freqüente que escravos de alguma habilidade
fossem selecionados para essa tarefa. Perante os demais escravos,
entretanto, tal homem possuía elevada posição aos olhos dos quais ele era o
«superintendente» ou «chefe» de todas as operações. (Ver Luc.. 12:42 e Mat.
20:8).
No terreno das realidades espirituais, Deus ou Jesus Cristo é quem
aparece como o grande Senhor (ver I Cor. 3:23), e a casa cristã é a igreja
(ver I Tim. 3:15). Os «despenseiros» ou superintendentes estavam
encarregados da distribuição dos «mistérios de De'is». Em termos gerais,
esses mistérios são.as verdades bíblicas que os pregaoores deveriam ensinar.
Sendo assim comissionados para ensinarem as verdades divinas, exigiam o
respeito de todos os membros da comunidade cristã. Entre o Senhor e os
despenseiros permaneciaainda o Filho (ver I Cor. 15:25 e Heb. 3:6), e todos
os «ajudantes» são seus ministros e despenseiros. E esses despenseiros são
«distribuidores da graça divina», da mensagem da verdade.
«...mistérios...» (Ver as notas expositivas sobre I Cor. 2:7, acerca desse
tema; e então sobre Rom. 11:25, onde se expõe o sumário de todos os
«mistérios do N.T.»). Paulo alude aqui aos cultos misteriosos, ou, pelo
menos, aos primórdios de tal atividade na igreja cristã, introduzida
principalmente através do gnosticismo. Os gnósticos contavam com os seus
mistérios, suas verdades supostamente divinas mas ocultas, e das quais
somente uma elite, os iniciados, podiam saber e entender. (Ver Rom. 11:25
e as notas expositivas ali existentes sobre os «cultos misteriosos». Ver Col.
2:18, acerca do «gnosticismo»). Em contraste com essas supostas «verdades
ocultas», os mistérios do N.T. são «segredos franqueados», coisas reveladas
em Cristo, por intermédio do seu Santo Espirito, e através da
instrumentalidade dos servos de Cristo, principalmente dos apóstolos, cujas
revelações constituem o tema mesmo do novo pacto.
A sabedoria humana, que o apóstolo dos gentios vinha atacando
coerentemente, desde,o princípio desta epístola, conta com seus supostos
mistérios profundos.
«...considerem...» Essa palavra indica uma «estimativa razoável»,
extraída de princípios aprovados de julgamento espiritual. (Comparar com
os trechos de Rom. 6:11 e 12:1).
«Paulo tinha um vivido senso da dignidade de sua posição como
despenseiro de Deus, a qual lhe fora dada pelo Senhor (ver Col. 1:25 e Efé.
1:10). O ministério da Palavra é muito mais do que uma profissão ou
negócio. É a própria chamada de Deus para a gerência». (Robertson, in
loc.).
2 ώ δ ε  o l 7 t o v ζητείται iv τοΐς οίκονόμοις ίνα πιστός τις eítpeOfj. 4 2 Lk 12.42
4. 2 coSe p4eKABD*G^>m; R] 5 δ« DC
L 1739 al ς | ζηταται B al lat sy ç; R] (τί N*) ζητειτΡ. j)4eXADG 77,70 pm
4:2: Ora, além disso, 0 que se requer nos despenseiros é que cada uai seja
encontrado fiel.
Um verdadeiro despenseiro dos mistérios de Deus não tem mensagem
própria, e seu valor depende de quão fielmente ele se desincumbe dè sua
função, que lhe foi confiada. Não pode trabalhar visando ao seus próprios
interesses, mas deve servir fielmente aos interesses do seu Senhor.
«...o que se requer...» Literalmente traduzidas, essas palavras diriam,
«...0 que se busca...», ou seja, aquilo que se deve esperar dos despenseiros,
acima de tudo, por serem eles representantes de outrem, é a fidelidade. Se
aos despenseiros faltar essa qualidade, todas as suas demais virtudes terão
bem pouco valor. Se porventura um despenseiro for hábil, mas preguiçoso
ou desonesto, ele perverterá o uso correto de sua inteligência natural. E,
nesse caso, fará mais mal do que bem. Não importa muito quão grande e
importante sej i um administrador, se porventura se punha a usar o dinheiro
da casa de maneira desonesta ou negligente; pois isso poderia destruir a
casa e todos os seus interesses. Tal administrador pode ser um eloqüente
negociante, nos interesses de seu Senhor, ao tratar com os negócios
externos da igreja; mas, se mostrar-se desonesto com aquilo que tiver
ganho, seu Senhor jamais obterá qualquer lucro, a despeito das brilhantes
atividades de seu administrador. Um despenseiro cristão, pois, deve ter
outras qualidades além da fidelidade; mas não poderá ser considerado
como homem de valor, sem essa qualidade primária da fidelidade. Pois
todas as suas demais virtudes só adquirem sentido se estiverem alicerçadas
sobre aquela qualidade.
Variante Textual: Ao invés de «...o que se requer...», alguns manuscritos
antigos dizem «requeira-se», no modo imperativo. Assim dizem os mss P(46),
Aleph, ACDP. Essa variante dá bom sentido. Em outras palavras, Paulo
ordenava aqui aos crentes de Corinto que exigissem de todos os seus mestres na
Palavra essa qualidade da fidelidade. O texto original correto, entretanto, mui
provavelmente é mesmo 0 indicativo «0 que se requer», «o que se busca»,
conforme se lê nos mss BL e nas versões latinas d, e, f, g, na Vulgata latina, no
cóptico e no siriaco. Não obstante, a variante em que essas palavras aparecem
no imperativo é fortemente apoiada, não podendo ser desconsiderada sem mais
aquela. Ê possível, todavia, que essa variante tenha surgido da similaridade do
som de duas terminações, no grego posterior. Poderia tratar-se até mesmo de
um «itacismo», isto é, a mera substituição de uma letra (ou som) por outra
eqüivalente, sem qualquer intuito de produzir alguma modificação gramatical,
conforme com freqüência se verifica na substituição da letra grega «ômega»
pela letra «ômicron», o «o» longo pelo «o» breve, que geralmente modifica o
modo do subjuntivo para o indicativo, ou do indicativo para o subjuntivo, se o
fenômeno contrário tiver lugar.
«A grande exigência básica para o ofício dos despenseiros é a fidelidade.
Sendo um servo, o despenseiro deve ser fiel para o seu senhor. Na qualidade
de um discípulo, deve ser fiel àqueles que estão sob sua supervisão. Não
deve mostrar-se negligente ao distribuir aos mesmos o alimento, sem
adulterá-lo e sem substituí-lo por qualquer outra coisa na distribuição
diária. Assim também se dá no caso dos ministros da Palavra». (Hodee, in
loc.).
O Senhor é o Senhor de todos. A sua mensagem visa a redenção da
humanidade. Um verdadeiro servo de Cristo, pois, está incumbido de
altíssima responsabilidade oficial. Mostrar-se um ministro da Palavra infiel
a Cristo é eqüivalente à traição; e os resultados dessa atitude errônea são
seríssimos.
«Esta passagem ... milita não meramente contra os mestres maus e
ímpios, mas também contra todos quantos tenham qualquer outro objetivo
-*—
58 I CORÍNTIOS
em vista, além da glória de Cristo e da edificação da igreja cristã. Porquanto
todo quanto ensina a verdade de Deus não é pessoa necessariamente fiel;
mas é fiel somente aquele que deseja, de todo o coração, servir ao Senhor e
fazer progredir o reino de Cristo. Não foi sem muita razão que Agostinho
atribui aos mercenários (ver João 10:12) um lugar intermediário entre os
lobos e os bons mestres». (Calvino, in loc.).
Aqueles que vinham causando divisões no seio da igreja de Corinto,
evidentemente não eram reputados por Paulo como servos fiéis, apesar de
que talvez pregassem a verdade quase sempre. Porém, devido ao fato de que
tanto enfatizavam a sabedoria humana, nem ao menos haviam pregado
fielmente a mensagem ordenada pelo Senhor. Por conseguinte, faltava-lhes
a principal qualidade exigida dos despenseiros—a fidelidade.
Os servos infiéis se empenhavam muito mais por servirem a si mesmos,
tendo-se esquecido das verdadeiras funções de um servo de Deus, que
consistem em anunciar a mensagem do Senhor, dedicando-se totalmente a
ele.
3
>  Ο  Ί )  / / 5
€μοi ce eis ελαχιστον ea
ανακρίνω·
4:3: Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por qualquer
tribunal humano; nem eu tampouco a mim mesmo me julgo.
Este versículo revela-nos que Paulo havia sido severamente criticado em
Corinto, o que talvez incluía até mesmo a declaração que ele não era,
verdadeiramente, um apóstolo autêntico. Em resposta a isso, Paulo diminui
ao minimo a importância de seu próprio julgamento, e intelectualmente ele
considerava a si mesmo como nada. Emocionalmente, entretanto, isso lhe
parecia algo bem difícil de suportar. E isso ele deixa transparecer em sua
ousadíssima defesa de seu apostolado (no nono capítulo desta epístola), em
sua mensagem incisiva contra os seus críticos (em II Cor. 10:10-13), onde
ele escreve especificamente a fim de defender-se. Essa secção mui
provavelmente constituí uma epístola separada, certamente enviada antes
da epístola que agora conhecemos como a segunda epístola aos Coríntios.
As «duas epístolas aos Coríntios», que atualmente aparecem em nossas
Bíblias, provavelmente representam pelo menos quatro missivas paulinas
distintas, que chegaram até nós em forma combinada. (Quanto a um estudo
completo acerca da correspondência de Paulo com Corinto, ver o ponto IV
da introdução à primeira epístola aos Coríntios. Mais ainda é adicionado na
discussão da introdução à segunda epístola aos Coríntios, também sob o
ponto IV).
Considerando o grande espaço empregado por Paulo, para tratar do
problema de ser julgado por outros, só podemos chegar a uma conclusão
óbvia. E essa conclusão é que se intelectualmente ele podia desconsiderar o
julgamento alheio adverso à sua pessoa, por outro lado sentia agudamente
essas críticas, sentindo-se profundamente ferido em seu homem interior, o
que para ele era uma pesada carga emocional. Mui provavelmente Paulo
gostaria de mostrar-se indiferente e pacífico para com toda essa questão,
como se fosse um experiente estadista, cujas emoções estivessem acima do
fragor da batalha; mas as suas palavras mostram-nos que ele não foi capaz
de conduzir-se dessa maneira, ainda que algumas de suas palavras
procurem apresentá-lo sob essa luz. Quão humano era o apóstolo Paulo!
Embora ele se elevasse três metros acima dos seus detratores, não foi capaz
de receber suas críticas com qualquer grau de indiferença e graça.
Não Julguemos
Se baixarmos juízo, poderemos estar demonstrando hipocrisia (ver Rom.
2:1), e poderemos estar pondo obstáculos diante dos mais fracos (ver Rom.
14:4,13). Isso é contrário ao princípio da espiritualidade (ver Mat. 7:1,2).
Segundo usualmente acontece, quando as pessoas se criticam umas às
outras, Paulo havia sido atacado em sua própria pessoa, e não meramente
por causa de sua mensagem ou de seu ministério evangelizador. Afirmavam
seus detratores que a palavra dele era «desprezível», e que sua aparência
física era lamentável. (Ver II Cor. 10:10). Também afirmavam que sua
linguagem era «rude» (ver II Cor. 11:6), e não há que duvidar que com isso
apontavam para a sua própria superioridade, no terreno da habilidade
retórica. Nesta passagem, pois, vemos que Paulo gostaria de ter-se
Iva ν φ ’ υμών άνακριθώ η υπό ανθρώπινης ημέρας· άλλ’ ουδέ έμαυτον
mostrado indiferente para com tais críticas; porém, as sentiu profunda­
mente, tal como sucede a qualquer um de nós, quando é alvejado por
críticas injustas, não merecidas. (Quanto a notas expositivas acerca da
proibição de nos julgarmos uns aos outros, ver Rom. 14:3,4).
Paulo salienta que somente o Senhor tem o direito de «julgar
corretamente» aos seus servos. Os conservos não têm o direito de se
julgarem uns aos outros. Nesta passagem da primeira epístola aos Coríntios
ele salienta a mesma verdade (ver os versículos quarto e quinto). O
verdadeiro Juiz virá, e então a natureza verdadeira das obras humanas será
sondada e manifestada. Porém, Paulo mostra também que nenhum mero
homem é capaz de apresentar um julgamento apropriado, nem mesmo de
sua própria pessoa, quanto mais dos seus semelhantes. Um homem conhece
a si mesmo muito melhor do que conhece a outros; oontudo, essa visão de si
mesmo pode ser obscurecida pelo egoísmo e pelo orgulho, de tal modo que
nem ao menos pode mais avaliar a si próprio. Ora, se o indivíduo não pode
fazer nem mesmo isso, como pode ele ser tão sábio ao ponto de avaliar
apropriadamente os motivos e ações de outrem? Somente o Senhor pode
fazer isso. Portanto, todo o julgamento contra os outros está fora de lujar·.
Pode-se comparar isso com as palavras de Jesus, no trecho de Mat. 7:1, e
com as palavras do próprio Paulo, na passagem de Rom. 2:1,2.
«Tenho com freqüência pensado sobre a razão pela qual todo homem dá
menos valor à sua própria opinião sobre si mesmo do que à opinião dos
outros. Respeitamos muito mais aquilo que nossos semelhantes pensam de
nós, do que aquilo que pensamos sobre nós mesmos». (M. Aurelius,
Meditações, xii.4).
«...tribunal humano...» No original grego, a tradução literal destas
palavras, seria «por dia humano», em contraste com o julgamento divino,
chamado de «o dia do Senhor». (Ver as notas expositivas sobre I Cor. 1:8,
acerca da expressão «dia de Cristo»; e ver também o quinto versículo deste
mesmo capítulo e as notas expositivas ali existentes). Mediante tal
terminologia, Paulo fala sobre juízos específicos; e, no presente caso, está
em foco o «julgamento humano». Algumas vezes a palavra «dia» é usada
para indicar «tribunal», tanto no hebraico como em outros idiomas. (Ver
Esquilo em Ctes. pág. 587). Assim é que um «diarista» podia significar
«árbitro» ou «juiz». (Ver o trecho de Jó 9:33, onde há um exemplo disso).
Essa terminologia paulina, por conseguinte, não precisa ser vista como um
«cilicismo», ou seja, um linguajar próprio da província natal de Paulo, a
Cilicia. A expressão «julgamento humano» é uma interpretação correta, na
tradução da expressão original do grego.
«Paulo falava aqui não das ações dos homens, quer boas, quer más, e,
sim, sobre a eminência de eada indivíduo, que deveria ser calculada de
acordo com os rumores dos homens». (Calvino, in loc.). Concordando com a
opinião aqui expressa por Calvino, ver as notas expositivas relativas ao
quinto versículo deste capítulo, onde se mostra que a igreja tem o direito de
julgar aos séus membros por aquilo que praticam.
ovSev γάρ έμαυτώ σΰνοιδα, αλλ’ ονκ iv τοντω δέδικαίωμαι, ό 8e άνακρίνων μ€ κύριός έστιν.
4 ονκ...δβδίκαίωμσ.ί Fs 143.2
4:4: Porque, embora em nada me sinta culpado, nem por isso sou justificado; pois
quem me julga é o Senhor.
Paulo não declarava aqui que não tinha consciência de qualquer pecado·
ou imperfeição em suapessoa. Isso somente serviria para contradizer o que
ele declara em Fil. 3:12,13. Antes, esse apóstolo falava sobre a sua própria
avaliação acerca de como ele vinha se desincumbindo de sua autoridade e de
seus deveres apostólicos. Quanto a esse particular, portanto, a sua
consciência estava tranqüila. Jamais se poupara a si mesmo, no
cumprimento de sua elevada comissão; e sempre agira com a máxima
fidelidade, até onde dizia respeito à sua consciência. Não obstante, pelo
menos teoricamente, Paulo precisou admitir que poderia incorrer em erro,
visto que somente o Senhor é quem é o verdadeiro Juiz. Ainda que sua
consciência estivesse tranqüila e ele se sentisse confiante, precisou admitir
que era possível que houvesse falhado, ainda que realmente não pensasse
ter isso sucedido. Contudo, sabia que o Senhor podia ver as coisas de outro
modo, porquanto possuía um conhecimento e uma sabedoria infinitos.
A satisfação íntima consigo mesmo não é prova de que uma pessoa é
justa, e nem que um ministro do evangelho tem cumprido satisfatoriamente
o seu encargo. O julgamento e a declaração de inocência, em todo e
qualquer sentido, se encontram totalmente nas mãos do Juiz de toda a terra
(ver II Cor. 10:18). Ora, nesse julgamento, feito pelo Senhor, não são
aquilatadas apenas nossas ações e palavras, mas igualmente os nossos
motivos e desejos secretos são trazidos à tona. E essas considerações podem
modificar todas as avaliações acerca de uma vida, bem como acerca da
missão que uma pessoa tenha realizado. Paulo pensava que ele mesmo seria
declarado inocente, considerado justo, diante dos olhos de Cristo. Com
confiança antecipava a avaliação feita pelo Senhor; porém, mostra que nem
mesmo essa atitude de confiança serve de garantia.
Paulo, portanto, reconhece aqui quão difícil é a um homem fazer um
julgamento objetivo e imparcial sobre si mesmo, porque o homem sempre se
mostra um ser supinamente egoísta, favorecendo a si próprio. Nenhum
julgamento meramente humano, pois, pode ser considerado como final,
visto que pode ser distorcido, negativa ou positivamente. Até mesmo nosso
julgamento para com nossos semelhantes é pervertido pelos nossos próprios
interesses egoístas.
«...justificado...» Conforme dizem algumas traduções «inocentado».
Contudo, essa palavra não é aqui empregada em qualquer sentido
teológico, que envolva a doutrina da «justificação» em Cristo (sobre o qual
tema o leitor pode examinar as notas expositivas sobre o trecho de Rom.
3:24,28). Tal palavra, neste caso, indica puramente a avaliação da vida do
crente, perante o tribunal de Cristo, conforme se lê em II Cor. 5:10.
Evidentemente Paulo não falava sobre a justificação acerca de sua salvação
pessoal. Mas referia-se à avaliação da qualidade de seu desempenho, na
missão apostólica que lhe fora conferida pelo Senhor. (Ver I Cor. 3:15 e as
notas expositivas ali existentes, acerca desse tema).
Cada indivíduo que vem a este mundo tem uma missão peculiar, algo
pode ser feito mais perfeitamente por ele do que por outras
pessoas. Cada um de nós é um ser sem-par. (Quanto a notas expositivas
sobre essa verdade, ver o trecho de Apo. 2:17. Quanto a comentários sobre
os «vasos escolhidos», ver Atos 9:15. Quanto às «missões secundárias, que
mesmo assim são importantes», ver Atos 9:19. Quanto a Jesus Cristo como
«o Juiz de toda a humanidade», ver Atos 17:31).
«Uma boa consciência tem grande valor; mas, apesar de sua experiência
I CORÍNTIOS 59
nesse sentido, Paulo não podia depender de seu próprio veredicto, à parte do
de Cristo». (Findlay, in loc.). A verdade, conforme o comentário de Findlay
deixa claro, é que Cristo pode olhar mais profundamente do que a nossa
consciência, e, naturalmente, com maior profundidade do que qualquer
observador que olha do exterior.
5 ωστε μή προ καιρόν χι κρίνετε, εως αν ελθγ/ ο κύριος, ος και φωτίσει τά κρυπτά τον σκότους
και φανερώσει τας βούλας των καρδι
5 ό 'έπ α ίν ο ς...θ εο ν 1 Cor 3.8
4:5: Portanto nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não si
trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos
corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor.
«...antes de tempo...» Que tempo? Neste mesmo versículo isso é definido
como o tempo da segunda vinda de Cristo. Dessa forma, pois, Paulo vincula
o tribunal de Cristo à «parousia», ou seja, ao segundo advento de Cristo, o
que ele também já havia feito em I Cor. 3:13. (Ver também I Cor. 1:8 e II
Cor. 5:9 e ss.). O julgamento do crente não está ligado ao momento de sua
morte física, mas sempre à manifestação universal de Cristo, quando de seu
segundo advento.
Não sabemos dizer muita coisa sobre esse assunto; como também^ não
sabemos dizer que modalidade de julgam ento—se é que haverá tal
julgamento—sobrevirá ao crente quando ele passa pela experiência da
morte física, ou se todo o juízo está reservado para o período ainda futuro
do aparecimento glorioso de Jesus Cristo. Nem por isso o próprio
julgamento dos crentes deixa de ser uma soleníssima realidade. (Toda essa
questão tem sido comentada com amplidão no trecho de I Cor. 3:13-15; ao
mesmo tempo que as notas expositivas sobre II Cor. 5:10 expandem tais
pensamentos. Nessas notas também é discutida a natureza dos «galardões»,
com abundância de pormenores, onde se procura encará-los sob uma luz
espiritual, e não materialista).
O que se conclui destas palavras de Paulo é que todas as avaliações feitas
pelos homens, antes da vinda de Cristo, quando ele houver de julgar
pessoalmente a cada qual, tendem não somente por serem errôneas, falsas e
parciais, mas também são proibidas peremptoriamente. Portanto, nós, os
crentes, não nos devemos entregar a esse tipo de avaliação. Era exatamente
isso que os crentes facciosos de Corinto vinham fazendo, escolhendo
«heróis» para admirarem, ao mesmo tempo que diminuíam a outros, sem
perceberem que todos os ministros da Palavra pertencem igualmente à
igreja de Cristo, e que tais discriminações não têm lugar entre os crentes
maduros.
Julgamento E Disciplina
1. A igreja tem não somente o direito, mas também a necessidade de
julgar, de condenar e de disciplinar, conforme fica amplamente
demonstrado no quinto capítulo de I Coríntios.
2. Isso, entretanto, é algo bem diferente daquele julgamento malicioso e
íensurador, mediante o que uma pessoa assassina o caráter de outra. Paulo
sofreu esse tipo de julgamento por parte de seus oponentes, em Corinto. Os
anciãos que pecassem deveriam ser chamados a prestar contas, mas por
algum ato da igreja, e não através da maledicência, em campanha de
sussurros maldosos. (Ver I Tim. 5:1,19,20). A igreja conta com seu próprio
método de censura (ver Mat. 18:15 e ss.), e, quando aparecem problemas e
disputas, dever-se-ia seguir alguma ação democrática. Podemos estar
seguros de que os críticos de Paulo, em Corinto, não estavam interessados
pela opinião democrática. Havia um homem que tencionavam prejudicar,
destruir. Ocupavam-se nessa triste ocupação.
3. Cristo é o Juiz (ver Atos 17:31). Permitamos que ele exerça os seus
direitos.
«...trará à plena luz as cousus ocultas das trevas...» Não é difícil alguém
esconder seu verdadeiro caráter das outras pessoas. Além disso, muitos
indivíduos têm conseguido viver com êxito uma dupla vida, o que tem
acontecido até mesmo com muitos líderes cristãos. Não é arriscado
supormos, por conseguinte, que muitos daqueles que assim têm feito,
jamais serão desmascarados. São apenas os mais ousados ou infelizes que
são desmascarados na sua dualidade de personalidade. Outrossim, existem
aqueles outros que, embora não tenham uma vida dupla franca,
simplesmente não são tão sinceros em seu serviço cristão como dão a
impressão e parecem ser aos olhos alheios. Alguns pastores agem desse
modo meramente a fim de ganharem algum dinheiro, porquanto essa é a
maneira mais fácil para tanto. São pregadores profissionais, meros
«mercenários». Outros servem visando a glória pessoal, a posição social, o
prestígio entre os homens, ou a fim de agradarem à suas esposas, mães ou
amigos, e nãó para a honra e a glória de Cristo! Ou então, pelo menos,
alguns ministros prestam serviço movidos por motivos mistos. Tais atitudes
podem ser ocultadas facilmente de outros homens, sendo possível que o
indivíduo engane até mesmo a si próprio. Nesse caso, embora o pregador
to re ο έπαινος γενήσεται έκάστω από τον θεον.
pense que seu serviço é prestado com pureza, tudo não passa de uma ilusão.
Somente o Senhor Jesus pode fazer a correta avaliação sobre os motivos dos
corações. Ele é quem trará à luz todas as coisas ocultas. Quantas imensas
surpresas sofreremos, sobre nós mesmos e sobre os nossos semelhantes,
naquele dia do «tribunal de Cristo»! Certamente que alguns primeiros serão
últimos, e alguns últimos serão primeiros!
«...também manifestará os desígnios dos corações...» Estas palavras
apontam para os motivos íntimos. Quão nobres talvez pareçamos
externamente, quão dedicados ao nosso trabalho, quão zelosos pela causa
de Cristo. No íntimo, entretanto, podemos ser totalmente egoístas,
governados, dominados e obcecados por nós mesmos, e não pela pessoa de
Jesus Cristo. Alguns dentre nós talvez se deixem enganar com alguma
dificuldade; mas há outros que se deixam enganar facilmente. Todavia,
nenhum de nós pode enganar ao Juiz, que é o perscrutador dos corações e
das coisas ocultas da vida de cada um.
«Duas coisas são necessárias para que se faça um julgamento inerrante
acerca das ações humanas, a saber, o completo conhecimento dos fatos e o
discernimento pleno dos motivos. Essas coisas serão aplicadas pelo Senhor
Jesus, quando ele vier; e qualquer tentativa de julgar aos homens, sem essas
qualificações indispensáveis, é apenas uma ignorância fútil... A palavra
‘phaneroo’ (tornar manifesto), aponta para o ‘resultado’ da revelação».
(Robertson e Plummer, in loc.).
«...tempo...» Nesta instância, essa palavra indica o «dia do Senhor», o
qual também é chamado de «dia de Cristo» (ver I Cor. 1:8 e 3:13), o que faz
contraste com o «dia do homem», o dia do julgamento humano, conforme
lemos no terceiro versículo deste mesmo capítulo. O «dia do Senhor»
redundará em revelações autênticas, em julgamento verdadeiro; o
julgamento humano é nebuloso, quando muito.
«O pensamento que transparece aqui é o seguinte: Nesta vida, o nosso
caráter interno só pode ser inferido com base em nossos atos; mas, quando
dojulgamento, tal caráter será diretamente aberto, pelo Senhor». (Neander,
in loc.).
«...cada um receberá...» Isto é, se tiver de haver qualquer louvor
significativo e duradouro, terá de vir da sua verdadeira fonte, que é Deus.
Deus é o Juiz de um tribunal que nenhuma atividade humana pode
antecipar ou suplantar. As decisões ali tomadas são ao mesmo tempo verazes
e finais, não estando sujeitas a qualquer revisão. E embora os crentes que
ali forem negativamente julgados possam, ainda assim, prosseguir na
direção das perfeições de Cristo, visto que eventualmente todos os remidos
atingirão o grande alvo da perfeição absoluta que nele existe, e que envolve
tanto a sua natureza moral como a sua natureza metafísica, sofrerão grande
detrimento, do qual não haverá apelação. (Ver II Ped. 1:4 e Rom. 8:29).
Porém, a avaliação da peregrinação terrena de cada crente, bem como a
determinação das recompensas que cada qual ganhará, está tudo nas mãos
de Deus. Porque é nas mãos de Deus que tudo pode ser devidamente
entregue. (Com a presente passagem se pode comparar os trechos de I Cor.
3:8; II Cor. 5:10; I Sam. 26:23; Mat. 25:21,23,28; II Cor. 10:18 e Rom.
2:29). Clemente de Roma, um dos pais da igreja primitiva, reproduziu essa
idéia em sua epístola aos Coríntios, 30. E a idéia do «salário» ou dos
«galardões» fala sobre a mesma mensagem geral. (Ver I Cor. 3:8,14 e as
notas expositivas ali existentes, acerca dessa mesma questão).
As palavras que aparecem neste versículo, «...de Deus...», referem-se à
sua autoridade e propriedade como Juiz. O homem nem possui a autoridade
e nem lhe convém fazer qualquer julgamento prelim inar. Quão
equivocados, por conseguinte, estavam aqueles líderes de facções da igreja
cristã de Corinto, que chegavam a assumir sobre si mesmos a prerrogativa de
julgarem às realizações e à missão de altas personalidades espirituais, como
os apóstolos Paulo e Pedro, ou como o mensageiro Apoio. Tais atividades
eram totalmente ilógicas, descabidas.
A igreja cristã pode ser somente o campo de Deus (ver I Cor. 3:9 e ss.); e,
sendo assim, está sujeita exclusivamente à sua aprovação, no que concerne
à dignidade intrínseca e ao valor de seu caráter. Os falsos mestres, porém,
procuravam receber louvores dos homens. Já haviam recebido a sua
recompensa. Não poderiam esperar qualquer galardão da parte de Deus.
(Com isso se pode comparar o ensinamento de Jesus, concernente aos
egoístas e ostentosos líderes do judaísmo, em seus dias, em Mat. 6:16).
6 Ταντα 8ε, αδελφοί, μετεσχημάτισα εις εμαντόν και ’Α πόλλω ν δι' νμάς, Ινα εν ήμΐν μάθητε το αΜή
νπερ α γεγρα π τα ι, ΐνα μ·η εις ύπερ τον ενός φνσιονσθε κατά τον ετερου.
α 6 a direct: WH Bov Nes? BF2 NEB T T Zür? Luth Jer jj a indirect: RV ASV RSV Seg // different text: TR AV 6 μ ά θ η τ ε ...ε τ ε ρ ο ν Ro 12.3
6 yc/pamai] add φρονςιν 33 pm sy ς
4:6: Ora, irmãos, estas coisas eu as apliquei figuradamente a mim e a Apoio, por
amor de vás; para que em nis aprendais a não ir além do que está escrito, de modo
que nenhum de vés se ensoberbeça a favor de um contra outro.
Paulo já havia ventilado com abundância de detalhes o fato de que os
verdadeiros apóstolos não são «rivais» entre si (ver I Cor. 3:5-23), mas antes,
são cooperadores no mesmo empreendimento divino (ver I Cor. 3:5-9), visto
que estão empenhados na ereção dó mesmo edifício, no cultivo e irrigação e
colheita do mesmo campo (ver I Cor. 3:9-17).
As palavras com que tem início este versículo, «...Estas cousas...», mui
provavelmente se referem à discussão inteira do terceiro capítulo desta
epístola, mas o trecho de I Cor. 4:1-5 deve estar particularmente em foco.
Xanto Paulo quanto Apoio eram apenas servos em uma grande casa; eram
60 I CORÍNTIOS
despenseiros. E, de conformidade com a estimativa do apóstolo dos gentios,
ambos eram fiéis nesse mister, o que comprovava a validade do ministério
que lhes fora proporcionado por Deus. Ninguém mais, além de Jesus Cristo,
poderia julgar acertada e justamente a qualquer um desses dois ministros;
e nenhum deles estava interessado no mero «louvor» humano. Pelo
contrário, cada obreiro receberia seu próprio louvor e aprovação da parte do
Senhor, de acordo com os padrões divinos de avaliação.
Portanto, era errôneo e impróprio, para qualquer membro da igreja de
Corinto, elevar Paulo, Apoio ou qualquer um outro líder cristão a uma
posição de distinção, ao mesmo tempo que degradava a outros. Tal atitude
só poderia provocar facções no seio daquela igreja, redundando em desonra
para a pessoa de Cristo, visto que nenhum mero homem pode ser rival de
Cristo, na honra que cabe exclusivamente a ele. Esse tanto é deixado
perfeitamente claro neste versículo, embora prevaleça certa incerteza
quanto ao resto do que lemos aqui, especialmente sobre o sentido exato da
expressão «...o que está escrito...»
Variante Textual·. Hã uma variante que exerce influência sobre o significado
deste versículo.Trata-se da variante que aparece nos mss Aleph(3) e na maioria
dos manuscritos gregos minúsculos, seguida por traduções como KJ e PH, a
qual diz: «...para que possais aprender em nós a não ‘pensar sobre os homens’
acima do que está escrito...» Os manuscritos mais antigos, porém, como P(46),
Aleph(l), ABD(1)E(1)FG omitem as palavras ‘pensar sobre os homens’, no que
são seguidos pelas traduções AA AC ASV NE F BR GD M RSV WMe
WY. (Quanto à identificação dessas traduções, usadas para efeito de
comparação neste comentário, catorze ao todo, nove em inglês e cinco em
português, ver a lista de abreviações na introdução geral ao mesmo). A
evidência textual favorece mais a omissão, em grau avassalador. As palavras
omitidas por esses manuscritos mais antigos foram acrescentadas em outros
com o intuito de esclarecer ainda mais o sentido do versículo, numa espécie de
glosa interpretativa.O texto greço melhor diz somente «para que aprendais em
nós a não ultrapassar o que esta escrito».
Ao que Paulo se referia, portanto, quando usou a expressão «...o que está
escrito... ?» Diversas são as possibilidades, conforme se verifica nos pontos
abaixo discriminados.:
1. Talvez tivesse querido dizer aquilo mesmo que já havia escrito acerca
da dignidade e posição dos mestres cristãos, como servos e despenseiros de
Jesus Cristo, em quem cada qual tem sua dignidade pessoal, mas não
exaltado acima dos demais.
2. Porém, visto que a expressão está escrito é uma fórmula usual pela
qual Paulo expressava algum trecho do A.T., e que ele freqüentemente usou
em apoio a seus argumentos (ver as notas expositivas em I Cor. 1:19,
quanto a esse hábito paulino), é possível que ele estivesse citando algum
trecho do antigo pacto. É por essa razão que a tradução RSV diz «...para
que possais aprender, por nosso intermédio, a viver de acordo com as
Escrituras».
Pode-se supor, portanto, que Paulo esperava que os seus leitores tivessem
uma fam iliaridade geral com a posição ocupada pelo homem e pelos
mestres cristãos, nesses documentos do A.T., a fim de julgarem
corretamente qual a atitude que deveriam ter para com eles, com base nesse
conhecimento. Em Corinto havia aqueles que eram gnósticos de
7 tis γάρ ae διακρίνει,; τ ί 8è εχ^ις ô ούκ ίΧαβζζ; eí
7 τ ί 0 € ...’
έ  α β & Ro 12.6
4:7: Pois, quem te diferença? Eque tens tu que não tenhas recebido? E, se o
recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?
No Que És Diferente De Outros?
1. As pessoas se jactam em como são diferentes de outras pessoas. O
ensino que temos aqui é que se alguém é genuinamente diferente de_outros,
não deve isso a seus próprios esforços ou qualidades inerentes. É que o
Espírito fez algo em seu favor.
2. Paulo trabalhou mais abundantemente do que todos os demais, mas
somente porque o Espírito assim fizera em suà vida. Naturalmente, ele
cedeu às influências divinas, e alguns homens ignoram esse fato. Essa
anuência pode ser lançada no crédito de Paulo. No entanto, ele não podia
jactar-se nem mesmo disso. (Ver I Cor. 15:10).
★ ★ ★
Que Foi Que Recebemos?
1. É patente que está em pauta a espiritualidade geral, com seus dons e
habilidades acompanhantes, incluindo os dons espirituais do Pentecoste.
Estão em foco exatamente aquilo que a sua designação nos diz, «dons»,
provisões divinas da graça.
2. São provisões divinas que visam a edificação geral da igreja (ver Efé.
4:12 e ss.), pelo que não são meios para a auto-exaltação. Elas procedem de
Deus, e seu escopo é conduzir homens a Deus, e não a heróis humanos e
cabeças de seitas.
3. Outrossim, a posição especial e a autoridade de que cada indivíduo é
investido no mundo e na igreja são questões dadas por Deus. Portanto, é
uma insensatez o indivíduo exaltar a si mesmo por causa de tais coisas,
subestimando a seus irmãos na fé. Acresça-se a isso que é o clímax da
estupidez alguém utilizar-se dessas vantagens visando o lucro pessoal ou a
fama pessoal diante dos outros.
4. Paulo se volve contra o culto a heróis humanos, porquanto o único
verdadeiro herói do crente é Cristo. O próprio Espírito Santo tem como sua
principal atividade a glorificação de Cristo. A quem estás exaltando?
5. A distribuição dos dons do Espírito é controlada pela vontade divina
(ver I Cor. 12:11). Se o Espírito te houver conferido algo de especial,
exalta-o por causa disso, pois o teu privilégio é grande! Não rebaixes a
outrem por causa de uma exaltação que te foi dada gratuitamente.
temperamento, se não mesmo em suas doutrinas, enquanto que outros
confiavam em suas revelações e ensinamentos particulares, em seus
«mistérios» e em suas supostas experiências místicas, tudo o que, para tais
pessoas, tomava precedência acima das Escrituras Sagradas do A.T., como
guia de suas atitudes religiosas.
O restante deste versículo, que diz «...a fim de que ninguém se
ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro...», parece dar-nos a
entender que os leitores de Paulo pensariam naquelas passagens do A.T.
que foram escritas para combater e corrigir a altivez humana, para ensinar
que a glória só pode ser devidamente atribuída a Deus. E isso concorda com
o que Paulo havia enfatizado nos capítulos anteriores. (Ver especialmente I
Cor. 1:29,31, o último dos quais versículos realmente cita um trecho do
A.T. que fala acerca dessa questão, a saber, Jer. 9:24. Pouco mais adiante
Paulo mostrou que a sabedoria humana se transforma em uma autêntica
armadilha para aqueles que se estribam nela, porquanto toda essa
sabedoria humana não passa de vaidade aos olhos de Deus, não havendo
assim nenhuma razão pela qual os crentes venham a exaltar os indivíduos
possuidores dessa sabedoria terrena. (Ver I Cor. 3:18-20). Por conseguinte,
nenhum homem pode gloriar-se em outros homens. (Ver I Cor. 3:21).
Paulo, pois, asseverava que tanto ele mesmo como Apoio se tinham
mostrado humildes ministros de Jesus Cristo entre aqueles crentes de
Corinto. Era um erro fazer deles rivais entre si, gloriando-se os crentes em
um deles, para detrimento do outro. Uma das características da sabedoria
humana é fazer o homem «ensoberbecer-se», exagerando o conceito que ele
faz de si mesmo ou de seus semelhantes. Ê interessante que até mesmo o
conhecimento das realidades espirituais pode produzir esse efeito (ver I Cor.
8:1), quando um crente se torna orgulhoso em face daquilo que sabe, ao
invés de usar seu conhecimento espiritual exclusivamente para a glória de
Cristo.
«...ensoberbeça...» Deriva-se de um verbo grego que significa «inchar»,
«inflar-se», o que é um quadro vivido da autopresunção, do orgulho humano
que «incha», mas não na realidade, e, sim, apenas na aparência.
«Essa é a definição de uma seita onde indivíduos admiram outros
indivíduos». (Bengel, in loc.).
Ora, Paulo queria que os crentes fossem livres dessa forma errada de
admiração. A admiração aos mestres cristãos, na realidade, era uma
gratificação ao orgulho dos facciosos, o que, nesse caso, não era
compartilhado pelos «heróis» a quem aqueles facciosos tanto exaltavam;
pois Paulo, Cefas e Apoio realmente repeliam tal atitude errada.
«.. .irmãos...» Paulo usou essa palavra com freqüência, a fim de suavizar
suas críticas severas. (Ver outros exemplos desse uso em I Cor. 1:10 e 3:1).
«...figuradamente...» Porque havia usado a si mesmo e a Apoio como dois
dos «heróis» que vinham sendo exaltados na igreja de Corinto. E assim
Paulo lhes fornece uma «lição figurada», a ser aplicada a todas as atividades
facciosas. O apóstolo Paulo se utilizara de si mesmo e de Apoio como
ilustrações, de onde se podiam extrair regras gerais. Neles, pois, Paulo
havia ilustrado o seu princípio acerca da necessidade de humildade, de
correta avaliação sobre os homens.
Sè και eAa/3e?, τ ί κανχάσαι á>s μη λαβών;
6. Mestres humanos não podem conferir dons espirituais. Como, pois,
podem tais homens ser transformados em heróis e líderes de denominações?
7. Há um Senhor acima de todos (ver Rom. 14:8). Ele é Senhor tanto de
teu irmão como de ti mesmo. Diante dele, exclusivamente, cairás ou estarás
de pé. Como, pois, poderias degradar a teu irmão?
-----Ninguém, por conseguinte, pode ser guindado à posição de «herói»;
o verdadeiro herói é o Espírito Santo, que é a fonte de todas as
manifestações espirituais no seio da igreja cristã. Por meio do Espírito de
Deus, Jesus Cristo deve ser exaltado devido às suas muitas manifestações
graciosas, aos seus múltiplos benefícios que ele tem derramado tão
livremente sobre a sua igreja. Portanto, «gloriarem-se» os crentes em algum
poder espiritual ou dom espiritual é um grande absurdo, porquanto isso
deixa subentendido que aquilo que possuímos é de nossa própria feitura, e
não um dom de Deus, para ser usado visando ao benefício de todos, e não
meramente para benefício de nossos próprios discípulos, daqueles que nos
exaltem, daqueles que nos honram de alguma maneira. Pois aquele que vê
algo de especial em nós, na realidade está vendo algo de especial que nos
tem sido dado mediante a graça de Deus. Que o tal se regozije no doador da
graça, portanto.
Por que fingis possuir um dom que não recebestes da parte de Deus?
indagou Cirilo de Alexandria, o qual citou o pensamento geral deste
versículo por nada menos de nove vezes, em seu comentário sobre o
evangelho de João, na forma como o encontramos na epístola aos Romanos:
«Que tens tu que não tenhas recebido?»
Esta passagem desempenha papel importante na história eclesiástica,
tendo participado da luta contra aqueles que exaltavam exageradamente o
livre-arbítrio humano, em contraste com a graça e o determinismo divinos,
tudo baseado na vontade soberana do Senhor. (Ver Agostinho, Retract. II.
1.1).
«A idéia fundamental aqui expressa é que os mestres, acerca de quem os
crentes de Corinto se ‘gloriavam’, eram apenas ministros daquilo que era
dom de Deus. A atitude de jactância subentendia o olvido desse fato.
Considerava os mestres cristãos como exibidores de habilidade retórica,
como se estivessem ministrando para satisfazer os ‘gostos’ de uma audiência
crítica, que tivesse o direito de classificar os pregadores segundo as suas
preferências». (Robertson e Plummer, in loc.).
I CORÍNTIOS 61
A PROVIDÊNCIA DE DEUS
Dirige todas as vidas, e faz todos os homens singulares em seus seres e em É perigoso negar ou negligenciar, Dan. 4:29-30.
suas obras. Ver a nota detalhada sobre este conceito em Apo. 2:17. j^ão pode ser vencida, Pro 21'30
Controla todas as condições da vida, Atos 1:26.
8 ήδη κεκορεσμένοι εστέ-b ήδη εττλουτήσατε· b χωρίς ημών εβασιλενσατε· b και οφελόν γε
εβασίλενσατε, ΐνα και ήμεΐς ύμΐν συμβασιλεύσω μεν. 6* b 8 b major, 6 major, b major: Bov Nes BF2 NEB // b minor, b minor, b major:
T R AV RV ASV // b question, b question, b question: W lf Luth // b exclamation, b exclamation, b exclamation: RSV T T Jer jj b minor, b minor, b exclamation: Zür Seg
8 ή δ η ...€ β α σ ι6 υ σ α τ 6 Re 3.17 6 φ € ο ν ...σ ν μ β α σ ιβ ν σ ω μ ε v Re 3.21 8 (€στ€* . . . ΐ π λ ο ν τ .' . . ^ φ α σ .'] ter ;)
4:8: Jó estais fartos? já estais ricosl sem nós jó chegastes a reinarl e oxalá
reinásseis de fato, para que também nós reinássemos convoscol
O sarcasmo deste versículo é profundo e amargo, refletindo quão
intensamente Paulo sentia repulsa no que diz respeito às facções surgidas
em Corinto e contra aqueles que se tinham ensoberbecido devido ao seu
falso senso de importância, ao mesmo tempo que degradavam a outros,
incluindo ao próprio apóstolo dos gentios. Aqueles homens orgulhosos se
tinham colocado à frente dos apóstolos, e assim tinham assumido uma
posição absurda (ver o versículo seguinte), ao mesmo tempo que os
verdadeiros apóstolos eram um escândalo aos olhos do mundo, uma
desgraça, sendo perseguidos e caçados como animais. Mas aqueles altivos
líderes facciosos de Corinto se tinham exaltado como a elite da sociedade,
copiando a retórica excelente e os métodos dos filósofos e eruditos da época.
Como Foi Que Eles Reinavam ?
1. Eles reinavam através da abundância material, ao passo que Paulo,
perseguido como era em suas viagens missionárias, vivia em pobreza
extrema.
2. Reinavam como reis, transformados que haviam sido em «heróis», que
outros homens para todos os efeitos práticos adoravam, e em cujos nomes
iniciavam facções. Entrementes, Paulo vivia como um escravo, servindo a
outros ao máximo de suas forças.
3. Viviam como reis, recebendo altas honrarias da parte de outros, altos
louvores lhes eram dados por causa do seu uso de dons espirituais e de seus
sermões eloqüentes. Paulo, o humilde rabino, falava de modo
simples—embora seu ministério fosse escudado por obras poderosas,
impulsionadas pelo Espírito Santo.
4. Talvez haja um cortante sarcasmo (escatológico) nas palavras de
Paulo: «Ora, chegastes mesmo a atrair o milênio, tão grandes sois! Eu
desejaria estar convosco, para que agora mesmo pudesse entrar nesse reino
pelo qual todos nós esperamos há tanto tempo!»
Alguns estudiosos expõem que as palavras «...chegastes a reinar...» dão a
entender que o faziam como cristãos, isto é, agiam como se já estivessem
reinando com Cristo, em seu reino milenar. (I Cor. 6:2; Luc. 22:29-30 e
Apo. 20:4). Mas também é possível que esse reinado consistisse de seu
orgulho espiritual, dominando a congregação cristã, imensamente,
orgulhosos com as suas realizações espirituais, segundo imaginavam.
Comenta Matthew Henry (in loc.)·. «Ele frisa o dever da humildade
através de uma habilíssima ironia... Há uma elegante gradação da
suficiência para a abastança, e daí para a realeza; e tudo isso deixa
subentendido que os crentes de Corinto se tinham exaltado devido à
abundância de sua sabedoria e dotes espirituais; tudo o que era uma atitude
que prevalecia entre eles, enquanto o apóstolo estava distante deles».
Faucett (in loc.), considerando esse «reinar» como uma questão espiritual
falsa, comenta: «Estais tão inchados com os vossos mestres favoritos, com as
vossas próprias imaginárias realizações intelectuais através deles, que vos
sentis como aqueles que estão ‘fartos’ em um banquete, ou como quem é
‘ricaço’, a gloriar-se em seu luxo; assim também vós sentis que podeis
continuar ‘sem nós’, contando primariamente com os vossos líderes
espirituais. (I Cor. 4:15). Porém,antes do ‘reino’e da ‘plenitude da alegria’,
o que sucederá quando das bodas do Cordeiro, terá de haver a cruz, no caso
de todo o crente verdadeiro (ver II Tim. 2:5,11,12). (Com isso comparar a
autocomplacência da igreja de Laodicéia, em Apo. 3:17; bem como com
Osé. 12:8). As riquezas ‘temporais’contribuíam para gerar em Corinto esse
clima de auto-suficiência espiritual, o que fazia contraste com ‘a fome e a
sede' literais que o apóstolo sofria (ver o décimo primeiro versículo deste
capítulo)». Esse comentário de Faucett mostra-nos que ambas as idéias, a
das riquezas «físicas» e a das «riquezas espirituais» estejam em foco nesse
conceito do «reinar sem nós».
Notemos as três expressões que dão idéia de abundância. Eles não tinham
fome de coisa alguma, estavam totalm ente satisfeitos, material e
espiritualmente. Banqueteavam-se nas melhores mesas, e, fisicamente,
nada lhes faltava. Também julgavam-se fartos do mais excelente alimento
espiritual, como se fossem já possuidores de todo o conhecimento e poder'
espirituais. Estavam «...ricos...», material e espiritualmente falando, como
se nada lhes faltasse, como se não tivessem mais de depender do progenitor
espiritual ou fundador daquela igreja local.
★
I «...oxalá reinásseis...» A referência de Paulo, nestas palavras, é
escatológica. Ele fazia alusão ao reino de Cristo, o qual será estabelecido
quando de seu segundo advento. O que o apóstolo quis dizer é que se
aqueles altivos líderes cristãos já estivessem reinando, então é que o reino de
Cristo já teria sido inaugurado; e então o próprio Paulo, sendo apóstolo de
Cristo, sem dúvida já estaria participando desse reino, dessa plenitude,
dessa riqueza espiritual, do que eles se sentiam tão fartos e cheios. Na
realidade, porém, só reinavam em seu tolo orgulho, que não tinha natureza
espiritual sob hipótese alguma.
Naturalmente, Paulo pode ter lançado mão dessa idéia de maneira
simbólica. Se aqueles orgulhosos líderes cristãos eram tão grandes que
haviam trazido o reino de Deus à terra, sem a ajuda apostólica e sem a
segunda vinda de Cristo, então tudo quanto Paulo tinha a fazer, a fim de
também participar desse poder, plenitude e glória, era voltar para Corinto,
unindo-se a eles. Se esse é realmente o sentido das palavras de Paulo, então
essa declaração paulina é supinamente sarcástica. Seja como for, dessa
maneira podemos perceber a profundidade e a altura de que era capaz o
espírito do apóstolo Paulo. Assim como ele podia amar profundamente,
assim também o seu espírito podia agitar-se a pontos extremos. As pessoas
que podem ser levadas a grandes alturas do amor, conforme a natureza e a
experiência humanas bem o demonstram, também podem ser excitadas ao
extremo oposto, chegando algumas vezes ao ódio e ao fanatismo. Essas
revelações sobre o caráter de Paulo aparecem em outros trechos
neotestamentários. Isso transparece em suas palavras ásperas, usualmente
suavizadas nas traduções, como em Fil. 3:2: «Cuidado com os cães, cuidado
com os maus obreiros, cuidado com os automutiladores» (tradução inglesa
de Williams, aqui vertida para o português). Com essa palavra
«automutiladores», ele se referia ao partido favorável à circuncisão, dando
a idéia de que se a retirada do prepúcio é de valia espiritual, então a virtual
castração e emasculação deve ter ainda muito maior proveito. (Ver também
Atos 15:1, sobre os partidários da circuncisão),
«Aqueles crentes de Corinto, que aos próprios olhos eram tão
extraordinariamente abençoados, como que já viviam no reino de Deus,
desfrutando de seus banquetes, seus tesouros e seus tronos. Os verbos
representam a satisfação de todos os desejos nobres, no reino messiânico
(ver Luc. 22:29,30; I Tes. 2:12; II Tim. 2:12). Como que tinham criado um
milênio particular, para eles mesmos... ‘Parece que conseguistes chegar ao
alvo muito à frente de nós, pobres mestres. De fato, oxalá fosse assim, para
que pudéssemos ter a esperança de seguir-vos e participar do vosso
triunfo’». (Robertson e Plummer, in loc.). Paulo usava de pura ironia, e não
de pouca amargura.
No dizer de Alford, in loc., era como se Paulo tivesse dito: «Nós (os
apóstolos), embora depostos do ‘lugar que nos convém’, pelo menos
poderíamos ser levados a uma humilde partilha em vosso estado
principesco».
Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada, um pouco alevantando,
Que nós, no mar, ouvimos claramente,
Com um saber só de existências feito
Tais palavras tirou do esperto peito.
O glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Õ fraudulento gosto que se atiça
Com uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldade nele experimentas!
(Luís Vaz de Camões, narrando a história de Portugal, amaldiçoa aqui a
ambição dos descobridores. Condena a vaidade, as ambições e a sede de
engrandecimento pessoal).
■
k★
9 δοκώ γάρ, ο θεός ημάς τους αποστόλους
εγενήθημεν τω κόσμω και ά γγελοις και
Zür Luth Jer jj ■c major, c minor: NEB j! c minor, c minor: WH"'« T T Seg
4:9: Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como
condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo tanto a anjos como a
homens.
Paulo se refere aqui a um costume romano brutal. É possível que estivesse
ώς εττιθανατίους/ δτι θέατρον
c c 9 f none, c minor: T R WH Bov Nes BF2 // c minor, c major: AV RV ASV RSV
9 ò S eòs.. .έττίθ α ν α τίο ν ς R o 8.36; He 10.33
fazendo alusão ao grande número dos circos romanos, quando, para
entretenimento popular, era apresentado um espetáculo final de sofrimento
e derramamento de sangue. Nessas ocasiões, os lutadores eram forçados a
se combaterem uns contra os outros, sucessivamente, até que restasse um
εσχάτους άπέδειζεν0
άνθρώποις.
62 I CORÍNTIOS
único homem vivo. Noutras oportunidades, ainda, os contendores eram
forçados a lutar contra animais ferozes. Seja como for, tornavam-se
espetáculo ignominioso e sangrento, para encher os olhos de um povo
embrutecido. Contudo, é possível que o apóstolo também tenha feito aqui
alusão às procissões ou cortejos típicos entre os romanos, quando
criminosos ou cativos eram apresentados na parada, passando ante a
multidão como aqueles que breve seriam mortos. Com freqüência, os
indivíduos forçados a participar desses espetáculos eram os piores
criminosos, ou então, simplesmente, inimigos derrotados e capturados na
guerra.
Na linguagem usàda por Paulo, o teatro era o mundo, a sociedade dos
homens, pois, por onde quer que ela fosse, era sujeita à um tratamento
brutal e vergonhoso, por amor a Jesus Cristo. Em contraste com isso, os
líderes das facções existentes na igreja de Corinto desfrutavam de prestigio
na nata da sociedade local, aparecendo como pessoas abastadas, como reis
mesmo, freqüentando banquetes e apresentando seus eloqüentes e
pomposos discursos.
A palavra «...mundo...», neste caso, falando estritamente, consiste na
dimensão inteira dos «seres inteligentes», quer anjos, quer homens, embora
os apóstolos servissem de espetáculo sobretudo na sociedade dos homens.
No original grego, á palavra é «kosmos». (Ver João 1:10 e as notas
expositivas ali existentes, quanto aos diversos vocábulos traduzidos por
«mundo», nas páginas do N.T., e onde os vários sentidos possíveis do termo
grego «kosmos» também são apresentados).
«...anjos...» Alguns intérpretes pensam que estão aqui em foco os «anjos
maus», como se eles é quem fossem os inspiradores do tratamento malévolo
contra os discípulos de Cristo, através de seus agentes humanos. Outros
intérpretes vêem aqui apenas anjos bons, como se fossem «espectadores
admirados», perplexos ante a grande perversidade dos homens contra os
discípulos do Senhor, que também é o Senhor deles, dos anjos. Contudo, é
possível que ambas as coisas estejam aqui em vista, os anjos bons e os maus,
os quais observam o mesmo conflito de diferentes ângulos. Orígenes era do
parecer que aqui estão em foco os anjos bons, atraídos a contemplarem
homens de carne a lutarem contra os principados e poderes, manifestados
através de seres humanos decaídos, tudo o que formaria um espetáculo
estranho para os anjos. A referência de Paulo é aqui um tanto ou quanto
vaga, e nada de certo se pode concluir acerca do que ele queria dizer
exatamente, ainda que as idéias anteriores, ou talvez ainda outras
expressem o que o apóstolo tinha em mente. Seja como for, trata-se de uma
idéia paulina de que as vicissitudes da igreja cristã são observadas pelos
poderes angelicais. (Ver Efé. 3:9,10; e também I Ped. 1:12). Alguns
eruditos acreditam que os poderes angelicais observam as reuniões dos
crentes, escudando-se nessa opinião no trecho de I Cor. 11:10.
Eram os indivíduos inúteis, os criminosos, os inimigos do estado, que
eram tangidos em último lugar para o interior das arenas, para terem um
fim cruel. Assim Paulo via a sorte terrena dos verdadeiros ministros de
Cristo; e não há que duvidar que, por essa figura simbólica, seja sugerido,
embora não seja dito diretamente, que aqueles que vivem no luxo e no lazer,
como sucedia àqueles falsos líderes de Corinto, os quais só provocavam
divisões e contendas no seio daquela comunidade cristã, devido à sua
sabedoria humana altiva, dificilmente poderiam ser considerados
verdadeiros ministros de Cristo. Na verdade, tanto o apóstolo dos gentios
como o próprio Senhor Jesus deram a entender que a perseguição contra os
discípulos verdadeiros de Cristo é algo inevitável. (Ver João 15:18 e ss. e II
Tim. 3:12).
«É dito que eles (os apóstolos) são apresentados ‘em último lugar’(como o
último espetáculo do dia, no dizer de Whitby), porque os gladiadores
meridianos, aqueles que se combatiam entre si na porção final do dia, eram
os que mais se arriscavam, por serem forçados a combater despidos. E
assim (conforme declarou Sêneca, Epist. 7), isso constituía um perfeito
morticínio; e os que eram apresentados às feras, pela manhã, eram tratados
com misericórdia, comparativamente falando. O sentido geral dessas
palavras é que os apóstolos estavam· expostos a um perigo constante de
morte, e morte do pior tipo, no desempenho fiel de seu ofício». (Matthew
Henry, in loc.)
1 0 ημείς μωροί δ ιά Χριστόν,
υμείς ένδοξοι, ημεΐζ 8ε άτιμοι.
4:10: Νό> tomos loucos por amor de Cristo, e vós sóbios em Cristo; nós fracos, e vós
fortes; vós ilustres, e nós desprezíveis.
Tudo isso expressa uma ironia cortante. Paulo estava convencido de que
os seus sofrimentos, como espetáculo oferecido ao mundo, as suas agonias,
os seus sofrimentos, etc., tudo servia de autenticação de seu ofício
apostólico. Em contraste com isso, os supostos grandes e eloqüentes mestres
cristãos, os líderes das facções existentes na comunidade cristã de Corinto,
não passavam por qualquer sofrimento, não tinham que suportar nenhuma
dificuldade, não se empenhavam em qualquer luta. Este mundo vil é que os
conduzia mais para perto de Deus, conforme pensavam.
Paulo retorna aqui ao seu tema sobre os sábios e os loucos, que ele já
havia desenvolvido amplamente no primeiro e no segundo capítulos desta
epístola. Ver particularmente os trechos de I Cor. 1:18-21,23,25,27 e 2:5,6.
Neste ponto, entretanto, ele já se tinha aquecido para o combate, não
poupando mais declarações mais diretas, e identificava aqueles crentes
«sábios», aos próprios olhos com os seus pares no mundo incrédulo,
porquanto, com estes últimos, compartilhavam da «sabedoria do mundo»,
ao mesmo tempo que reduziam ao mínimo e negligenciavam totalmente a
«palavra da cruz», conforme fica subentendido em I Cor. 1:23 e 2:2.
Certamente, Paulo trata de tais crentes, falando com eles, como se nem ao
menos fossem crentes, porquanto suas palavras são amargas e incisivas.
Não admira, pois, que os seus oponentes, apesar de falarem sobre a
linguagem desprezível e a aparência pessoal não-impressionante do
apóstolo dos gentios, tinham de admitir que as suas cartas eram «...graves e
fortes...», segundo lemos em II Cor. 10:10. É possível que Paulo tenha
exagerado um pouco o caso que expunha, conforme é típico fazer nos
momentos de controvérsia e paixão. Mas, pelo menos, a sua mensagem é
bem clara, não podendo haver dúvidas que foi perfeitamente compreendida
pelos seus detratores.
A vinculação espiritual do apóstolo Paulo com Cristo fizera dele um
insensato, no conceito dos homens mundanos; porquanto tais homens
desprezavam a cruz, zombando de Jesus Cristo como se fora um criminoso.
De alguma maneira, em contraste completo com isso, aqueles líderes
facciosos de Corinto foram capazes de permanecer em harmonia com o
mundo, chegando ao extremo de participarem da sabedoria mundana,
aprovando-a e sendo aprovados pelos mundanos. Mas Paulo era do parecer
que o mundo só pode aprovar àqueles que pertencem ao mundo. (Quanto à
idéia dos apóstolos serem considerados «loucos», por amor a Cristo, ver as
notas expositivas sobre II Cor. 4:11 e Fil. 3:7; e quanto ao fato que os
pagãos reputavam-nos insensatos, porque pregavam a Cristo e sua cruz, ver
I Cor. 1:23 e Atos 26:24).
Aqueles mundanos líderes da igreja de Corinto figuravam entre os sábios,
tanto no que tange à sabedoria deste mundo, como no que dizrespeito ao seu
prestígio na sociedade mundana, sem falarmos nas supostas elevadas
realizações e exercícios de seus dons espirituais na igreja local. Não se
pareciam em nada com aqueles que pregam «o opróbrio da cruz» o
«escândalo de Cristo», conforme era a experiência dos verdadeiros
apóstolos.
Nas palavras de Paulo há três pontos irônicos·.
1. O primeiro diz respeito ao ensinamento e à sabedoria.
2. O segundo diz respeito à conduta e a aceitação em todos os níveis da
sociedade, incluindo a igreja cristã tão carnal de Corinto.
•ημεΐς άσθενεΐς, ύμεϊς 8è ισχυροί·
10 1 Cor 3.18
3. O último diz respeito à posição mundana.
Em todos esses três níveis os líderes das facções da igreja cristã faziam
notável contraste com os verdadeiros apóstolos de Cristo.
Quando Paulo foi feito como espetáculo aos olhos do mundo, por amor a
Jesus Cristo (ver o versículo anterior), também foi feito um louco ou
insensato. Ele conhecia por experiência própria os apupos, os assovios e a
zombaria de uma vítima. Filo, grande escritor e filósofo judeu da época
apostólica, mostra-nos como isso sucedeu, quando narrou como uma
embaixada de judeus foi enviada por ele à cidade de Roma. Acerca disso ele
escreveu: «Pois, como se exibidos em um teatro, fomos apupados, mui
ultrajantemente zombados e insultados, acima de qualquer limite».
«...nós fracos, e vós fortes...» Paulo usa novamente de uma linguagem
irônica. Os líderes falsos se faziam como leões, na sociedade, de cabeça
erguida, proferindo discursos eloqüentes, a todo o tempo louvados pelos
homens. Mas Paulo, como um homem fraco, antecipa aqri a passagem de I
Cor. 9:22; que diz: «Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar
os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de por todos os modos,
salvar alguns». Paulo também antecipa neste versículo, que ora
comentamos, seus vários grandes sofrimentos mentais, enumerados no
décimo primeiro capítulo da segunda epístola aos Coríntios, bem como nos
versículos dez a treze do presente capítulo. Paulo era apenas um mortal,
empenhado em combate com homens ímpios e desvairados; e sofria
constantemente por esse motivo, sentindo-se feliz se ao menos sobrevivia.
Há estudiosos que também pensam que Paulo se referia aqui ao seu ofício
de fabricante de tendas (ver o décimo segundo versículo deste capítulo), por
causa do qual assumia uma posição humilde na igreja, ganhando o sustento
com seu próprio esforço, em contraste com os seus oponentes, que exigiam e
recebiam apoio através da igreja local. (Ver I Cor. 9:12 e ss.). Seja como for,
e de qualquer modo, em contraste com aqueles falsos líderes cristãos, Paulo
aparecia como uma figura humilde, se alguém quiser julgar somente pelos
padrões materiais e terrenos. O apóstolo falava aqui com ironia,
naturalmente, não pensando em sua insensatez senão como a própria
sabedoria de Deus, e em sua fraqueza, por causa de Cristo, como um poder
e uma força realmente desejável.
«...vós nobres, e nós desprezíveis...» Quer na igreja ou na sociedade
comum, aqueles líderes cristãos tão altivos se misturavam com os ricos e
influentes, prestando-lhes louvor e recebendo louvor, ao mesmo tempo. Não
tinham razão alguma para se envergonharem, e o escândalo da cruz lhes
havia causado grande desconforto. Em contraste com isso, Paulo, embora
vez por outra tivesse de comparecer perante as autoridades e a elite da época
invariavelmente o fazia como se fora um espetáculo, um opróbrio, levando o
opróbrio de Cristo, tal como o próprio Senhor Jesus fora vítima das
zombarias e dos apupos da multidão. (Ver o décimo terceiro versículo deste
mesmo capítulo). Devido à abundância de seus bens materiais, eles se
tinham tornado homens de prestígio. Mas o apóstolo Paulo, por causa de
seu serviço fiel, porquanto trabalhava mais abundantemente do que todos
eles (ver I Cor. 15:10), se tornara uma figura desprezível, conforme a
categoria em que os homens reputavam também ao seu Senhor. (Quanto à
intensidade como os líderes das diversas facções da igreja de Corinto
desprezavam a Paulo, ver o trecho de II Cor. 10:10). Paulo, pois, sugere
aqui que a «honra» em que eram tidos aqueles líderes coríntios não passava
de mera ostentação, sem qualquer valor aos olhos de Deus.
ύμεΐς δε φρόνιμοι εν Χριστώ'
I CORÍNTIOS 63
11 ά 
αχρι της αρτι ωρας και πεινωμεν και
11 2 Cor 11.23-27
4:11: Até ο presente hora padecemos fome, e sede; estamos nus, e recebemos
bofetadas, e não temos pousada certa,
(Pode-se comparar esses sofrimentos de Paulo com a lista bem mais longa
de coisas similares e iguais, que aparece no trecho de II Cor. 11:23 e ss.).
Neste ponto, Paulo se refere a essas coisas como seu motivo de glória,
porquanto isso autenticava o seu ofício apostólico, porque, ao mostrar
assim a magnitude de seus sofrimentos por amor a Cristo, ele assegurou aos
crentes de Corinto a sua dedicação total. No décimo segundo capítulo da
segunda epístola aos Coríntios ele fala sobre suas elevadíssimas experiências
místicas, mediante as quais chegou até a penetrar nos lugares celestiais. E,
na passagem que ora comentamos, o seu propósito é o mesmo, isto é, a
autenticação de seu apostolado, em contraste com a autoridade dúbia de
seus oponentes.
No presente versículo Paulo expande aquilo que foi mencionado no
versículo anterior, a saber, a sua «fraqueza». Mas essa fraqueza, apesar de
ser julgada como tal pelos homens, na realidade era a sua grande força;
porquanto assim pousava sobre ele a graça de Deus, a qual era utilizada em
não pequena proporção para a propagação do evangelho. Se porventura ele
fosse «forte», no mesmo sentido que os seus oponentes compreendiam as
coisas, e que consistia de elevada posição nos círculos sociais, louvando aos
homens e recebendo louvores da parte deles, e buscando a sabedoria
humana, ele teria perdido a sua verdadeira força, que possuía em Cristo.
«.../orne...» A pobreza de Paulo chegava a pontos extremos. Recebia
pouquíssima ajuda financeira das igrejas por ele mesmo fundadas, e nunca
exigia nada. Trabalhava a fim de sustentar a si mesmo (ver o versículo
seguinte), e com freqüência não tinha dinheiro nem mesmo para as suas
necessidades básicas. Como, pois, se poderia afirm ar que a piedade
assegura a provisão adequada para as necessidades físicas? Essa é uma
idéia tipicamente judaica. De fato, a «prosperidade» material era
considerada uma prova de piedade, no A.T., de forma geral, ao passo que a
prova de piedade, no N.T., é a «adversidade».
«...sede...», porque, em suas viagens, ele atravessava desertos e lugares
áridos, e algumas vezes nem mesmo contava com a água para se
dessedentar. Através dos dois primeiros sofrimentos a serem mencionados
nesta lista-, Paulo mostra-nos que nem ao menos contava com as
necessidades mais básicas para manter vivo o corpo, ao passo que os seus
oponentes viviam no luxo e no lazer, em Corinto, sem nada sacrificarem por
amor a Cristo, dando pouquíssimo de si, exaltando somente a si próprios,
sendo transportados às maiores alturas, em leitos de rosas e de uma vida
fácil.
«...nudez...» Isto é, sofrendo de «vestuário insuficiente». No original
grego, trata-se de uma palavra cujo sentido geral é «estar levemente
armado». Ver Plutarco, Dio Cass., sendo encontrada em alguma outra
ι διφώμεν και γυμνιτεΰομεν και κολαφιζόμεθα και άστατοΰμεν
posição do N.T. ou na versão da Septuaginta. Contudo, o sentido óbvio
dessa palavra é a falta de vestuário suficiente, e não de armas. Dio Chrys. 75
(25), 3 exibe essa palavra nesse sentido; sendo provável que esse era o seu
uso.no grego helenista, como um desenvolvimento posterior. Havia ocasiões
em que Paulo viajava como um maltrapilho, no que dizia respeito à sua
aparência pessoal, porque assim lhe exigia a sua maneira de viver e de
ganhar o sustento diário; mas a sua dedicação total a Cristo não lhe
permitia ficar vencido pelo pejo, por causa disso. Podemos estar certos,
todavia, de que os oponentes de Paulo, em Corinto, se vestiam como fazem
os abastados, vistp que viviam misturados com a elite da sociedade local,
não podendo mesmo ser distinguidos dessa elite. Devido à falta de vestuário
suficiente, entretanto, Paulo chegou até a padecer frio. (Ver II Cor. 11:27).
«...somos esbofeteados...» Literalmente traduzidas, essas palavras seriam
«esmurrados com o punho», outra expressão grega posterior, que indicava o
tratamento desumano a que estavam sujeitos os escravos antigos, que não
tinham qualquer direito de defesa própria. (Ver Mat. 26:67 e I Ped. 2:20,
quanto a essa palavra). Parece que Paulo quis incluir, com essa palavra, os
maus-tratos a que os homens o sujeitaram, espancando-o literalmente por
diversas vezes, como as «três vezes» em que foi vergastado com varas, as
«cinco vezes» com que foi chicoteado, ou como a ocasião em que foi
apedrejado, tudo às mãos de judeus radicias. (Ver II Cor. 11:24,25). E
Paulo também foi envolvido em outros perigos que poderiam ser
considerados formas de esbofeteamento, entre assaltantes, nos naufrágios
sofridos, nas cidades e nos desertos. Paulo vivia a vida de um escravo,
embora não fosse escravo, sujeito a um tratamento desumano, ao passo que
os seus adversários, na igreja de Corinto, viviam e reinavam como
monarcas. (Ver o oitavo versículo deste mesmo capítulo).
«...e não temos morada certa...» Essa deelaração pertence à mesma
categoria da afirmativa que Jesus fez de certa feita, dizendo que não tinha
onde reclinar a cabeça (ver Mat. 8:20 e Luc. 9:58). Paulo não tinha uma
vida repousada e tranqüila; antes, mais parecia um andarilho, um perpétuo
peregrino; chegou mesmo a ser estigmatizado como tal. No entanto, tudo
isso fazia parte de sua dedicação a Jesus Cristo. Ora, naqueles tempos, não
ter alguma moradia fixa era sinal especial de dissolução de degradação.
(Ver Mat. 8:20 e 10:23). As constantes viagens missionárias de Paulo, suas
fugas constantes das perseguições, exigiam dele essa forma de vida. No
entanto, em seus labores extraordinários, quase sozinho, estabeleceu a
igreja de Cristo no mundo gentílico. Isso é um fato histórico, ocorrido com o'
apóstolo dos gentios. No entanto, apesar disso tinha muitos detratrores e.
inimigos na igreja, tanto em Jerusalém (ver o décimo quinto capítulo do
livro de Atos) como em Corinto e na província da Galácia, conforme nos
mostra a sua correspondência com as igrejas da Galácia e a igreja de
Corinto.
12 και κοπιώμεν εργαζόμενοι ταΐς ίδίαις χ ε ρ σ ίν λοιδοροΰμενοι εύλογοΰμεν, διωκόμενοι άνεχόμεθα,
12 κ ο π ιω μ ε ν .,.χ ε ρ σ ίν Ac 18.3; 20.34; 1 Th 2.9; 2 Th 3.8;
4:12: e nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos; somos injuriados, e
bendizemos; somos perseguidos, e o suportamos;
Paulo não costumava réceber sustentos materiais das igrejas por ele
fundadas, embora reconhecesse que isso é apropriado. (Ver o nono capítulo
desta primeira epístola aos Coríntios). Paulo não exigia tal sustento porque
fora o grande perseguidor, c, depois de convertido a Cristo, resolveu dar
tudo quanto possuía, sem nada receber em troca. E isso servia de outro dos
sinais sobre a sua total dedicação. E assim ele igualmente mostrou-nos que
não é uma desgraça um ministro da Palavra trabalhar para o seu próprio
sustento, se porventura isso faz progredir a causa de Cristo por intermédio
dele. De fato, em muitos casos, isso é vantajoso, e até mesmo necessário.
Deus abençoa àqueles que estão dispostos a se afadigarem em várias formas
de trabalho secular, se porventura isso é feito visando a glória de Deus, se
isso faz de um pregador do evangelho ainda um melhor ministro de Cristo.
(Quanto a notas expositivas completas sobre a labuta de Paulo, para
sustentar a si mesmo, e sobre o que se sabe acerca dessa questão, ver o
trecho de Atos 18:3. Outras referências bíblicas sobre esse assunto, no que
concerne a Paulo, podem ser vistas nas seguintes passagens: Atos 20:34;
28:30; I Cor. 9:15; I Tes. 2:9; II Tes. 3:8. O trecho de Atos 20:34
mostra-nos o fato maravilhoso que Paulo não somente sustentava a si
mesmo, mas também a outros que viajavam em sua companhia. Paulo se
mostrava extremamente industrioso e generoso. Não queria que as igrejas
sentissem a carga de sustentá-lo obrigatoriamente, e nem queria ter
obrigações monetárias, para com elas. Talvez houvesse nisso um pouco de
orgulho independente; mas a verdade é que, essencialmente, ele agia assim
movido por sua pura dedicação a Cristo. (Ver II Tes. 3:8). Essa sua prática
facilitou a propagação do evangelho por seu intermédio, em um grau que
serià simplesmente impossível, se porventura Paulo se tivesse limitado aos
recursos financeiros que provinham das igrejas e das ofertas voluntárias.
O nono capítulo deste livro mostra-nos que os detratores de Paulo
criticavam-no sobre esse particular, declarando que ele, mui naturalmente,
não recebia dinheiro da igreja de Corinto por não ser verdadeiro apóstolo, e,
portanto, não merecia paga. Eles mesmos, entretanto, não hesitavam em
tirar o máximo proveito possível dos recursos financeiros daquela
comunidade cristã, chegando mesmo a exigir pagamento por seus serviços.
E Barnabé, como é evidente, seguia o exemplo dado por Paulo, nesse
sentido. (Ver I Cor. 9:6). Quando Paulo escreveu aos crentes de Corinto,
estando em Êfeso, naquela ocasião estava ocupado em procurar sustento
para si mesmo. (Ver Atos 20:34).
1 Cor 9.14-15 Κ οιοορούμενοι ίν λ ο '/ο υ μ ίν Ps 109.28; M t 5.44; Lk 6.28; Ac 7.60; Ro 12.14
«...quando... injuriados, bendizemos... perseguidos, suportamos...»
Talvez não haja aqui nenhuma alusão direta às palavras de Jesus Cristo
sobre esse assunto, conforme se lê em Mat. 5:44 e Luc. 6:27; mas é bem
possível que Paulo estivesse sob a influência dessas palavras. Não há que
duvidar que o ensinamento essencial do Senhor Jesus, a esse respeito, era
conhecido pelo apóstolo dos gentios, através da tradição oral, embora não
houvesse ainda nenhum evangelho escrito naquele tejnpo. Seja como for, ele
foi instruído a esse respeito pelo Senhor, tendo compartilhado de seu
espírito de mansidão, pelo menos em parte, ainda que não inteiramente e
sempre.
As perseguições sofridas por Paulo eram internas e externas, porquanto
era vilipendiado verbalmente pelos falsos irmãos, e perseguido por ataques
mentais, se não mesmo físicos, estando sempre sujeito às perseguições, no
mundo pagão. Ver o trecho de II Cor. 11:24-26,28,32,33, que fornecem
detalhes sobre essas diversas questões. Nessa citada passagem Paulo se
gloria de suas fraquezas, porque, a despeito delas, ele trabalhou
abundantemente em Cristo; e tais sofrimentos, por serem autenticações de
que ele participava dos sofrimentos de Cristo, autenticavam também a sua
missão apostólica. Podemos notar que o trecho de II Cor. 1:5 mostra-nos
que Paulo considerava tais sofrimentos como a participação nos sofrimentos
de Cristo, a duplicação daquilo por que passou o Senhor Jesus, uma prova
de comunhão com ele, bem como a autenticação da promoção da causa do
Mestre. Existe realmente certa «comunhão» nos sofrimentos de Cristo. (Ver
Fil. 3:10).
O trecho de Col. 1:24 mostra-nos que os sofrimentos que devem
acompanhar a missão inteira de Cristo, tanto em si mesmo como nos seus
discípulos, são grandes; e Paulo pensava que, em si mesmo, se completava
ou «atingia a plenitude» aquilo que ainda faltava das aflições de Cristo. Diz
a tradução de Williams (agora vertida para o português): «Estou
preenchendo o que falta nos sofrimentos de Cristo em favor de seu corpo».
Com essa declaração, entretanto, Paulo não quis dar a entender que tais
sofrimentos tivessem qualquer valor «expiatório», conforme sucedeu no caso
do Senhor Jesus Cristo; antes, eram necessários para o chamamento da
igreja, para confirmação da mesma, no caminho de retorno a Deus. Jesus
Cristo padeceu de intensas perseguições, a fim de conduzir os homens por
esse caminho, inteiramente à parte da expiação no seu sangue. Não existe
um caminho fácil para reconduzir os homens caídos a Deus. Tal retorno
sofre oposição não só no mundo, mas também nos lugares celestiais, entre os
anjos caídos. Essa conquista das almas para o Salvador não pode ser
64 I CORÍNTIOS
realizada sem o sofrimento. Paulo se achava na vanguarda, nessa luta.
(Quanto a notas expositivas sobre a «alegria no sofrimento», ver Atos 16:25.
Quanto a outros comentários sobre os sofrimentos de Paulo, ver Atos 9:16.
Quando a notas expositivas sobre como as perseguições não fizeram os
cristãos primitivos cessarem em seu testemunho e multiplicação, ver Atos
4:20,22. Quanto às «oposições contra Cristo, e seu triunfo final», ver Atos
4:25. Quanto à verdade bíblica que «as perseguições são um privilégio», ver
Atos 5:41. Quanto à «perseverança a despeito da perseguição», ver Atos
5:42. Quanto a Cristo como «o Servo Sofredor», ver Atos 3:18. Quanto à
tribulação como bênção, ver Rom. 5:3. Finalmente, ver as notas expositivas
em Atos 14:22, que alistam nove resultados benéficos que se originam das
tribulações e perseguições que sofremos. Esses comentários complementam
grandemente o que dizemos aqui, apresentando também uma tentativa de
explanação parcial do problema do mal. Ver também as notas expositivas
sobre Rom. 3:8, quanto a esse problema em geral).
«Longe de reivindicarmos para nós mesmos lugares de honra e distinções
terrenas, devemos submeter-nos mansamente ao opróbrio, às perseguições,
às calúnias; de fato, devemos retrucar com bênçãos e paciência, bem como
com palavras suaves». (Alford, in loc.).
«A mansidão de Cristo ultrapassa em muito a abstenção da retaliação,
sugerida por Platão. (Crit., pág. 49)». (Findlay, in loc.).
Acerca do versículo que ora comentamos, o leitor pode comparar outras
passagens do N.T., como Atos 7:60; Mat. 5:44; Luc. 23:34; Rom. 7:14,17 e
I Ped. 3:9.
13 δυσφημούμενοι παρακαλοΰμεν ώς περικαθάρματα τον κόσμου έγενηθημεν, πάντων περίφημα,
εως αρτι.
ωσπερα καθ. G 6g pc
13 ώς...£*γ€νήθημεν Lm 3.45 13 Βυσφημουμ€νοι |)4βΝΑ pc syP Cl; R] βλασφ- BDG pi lalt syh CO ς | ως περικ.]
4:13: somos difamados, e exortamos; até 0 presente somos considerados como 0
refugo do mundo, e como a escória de tudo.
Comenta C.T. Craig (in loc.): «O espirito cristão de não-retaliação é
descrito em uma belíssima série de antíteses. Trata-se do ideal dos trechos de
Mat. 5:44 e ss.; Rom. 12:14 e ss. e I Ped. 3:9. Não que Paulo sempre tenha
vivido de conformidade com essa perfeição. Ele teve de defrontar-se com
certos caluniadores aos quais não abençoou exatamente nesta sua epístola.
Embora o verbo grego «parakaleo» possa significar ‘rogar’ (tradução KJ),
algumas vezes também é usado no sentido de ‘conciliar’ (tradução RSV),
sentido esse que se coaduna perfeitamente com o contexto aqui. A frase
final do parágrafo pode não ser outra coisa senão a reiteração, em forma
extremada, do trecho de I Cor. 1:28, onde Paulo toma lugar ao lado dos
párias da sociedade. Mas ambos esses substantivos gregos (isto é, aqueles
traduzidos pela tradução RSV como ‘refugo’ e ‘lixo’), são encontrados em
uma conexão bem particular, ilustrada em Pro. 21:18, onde a versão LXX
(Septuaginta) emprega o primeiro para traduzir a forma hebraica que
significa ‘resgate’. Porquanto fora costume remover a contaminação de uma
cidade mediante um sacrifício humano. Visto que essa oferta tinha de ser
voluntária, usualmente se ofereciam somente àqueles para quem a vida se
tornara intolerável. Os eruditos que crêem que Paulo está se referindo a essa
prática, pois, traduzem esse substantivo por ‘bode expiatório’. E visto que
em um outro trecho (Fil. 2:17), ele poderia ter aplicado essa figura
simbólica do sacrifício a si mesmo, tal possibilidade não pode ser excluída
aqui. Não obstante, o apóstolo Paulo jamais daria a mesma importância a
seus sofrimentos como dava à paixão de Cristo».
«...procuramos conciliação...», ou «rogo». Mas, no original grego, tal
palavra também pode significar «exortação», «instrução», «consolo».
Reveste-se da idéia de chamar a alguém para o lado de outrem, a fim de
falar-lhe em particular, com o intuito de obter 0 seu apoio. Por isso mesmo,
provavelmente não tem nenhum destes três significados: 1. Retrucar a uma
linguagem insultante, por meio de exortação; 2. abafar a ira de outrem
mediante uma resposta branda (ver Pro. 15:1); 3. ‘rogar’ a Deus, a fim de
que seja corrigida a situação, sentidos esses todos possíveis, segundo o
significado da palavra envolvida, embora não sejam prováveis dentro do
14 Ονκ εντρεπων υμάς γράφω ταντα, άλλ’ ώς τέκνα μου αγαπητά νουθετών
14 νουθετων ΝΑ 1739 <Λ R1 -θέτω p4eB l)G pm latt ς
4:14: Não escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas para vos admoestar,
como a filhos meus amados.
Agora Paulo já havia encerrado sua calorosa e amarga diatribe. A
severidade de seu tom agora termina tão abruptamente como começou, no
oitavo versículo deste capítulo. Já conseguira acalmar-se; e agora passa a
falar a seus leitores como um pai fala a seus filhos, porque, em determinado
sentido, aqueles para quem escrevia eram seus filhos; e, apesar dos
estranhos acontecimentos na igreja de Corinto, ele ainda tinha um profundo
afeto por eles. Paulo, às vezes, não conseguia deixar de «envergonhar» a
seus leitores, como encontramos em I Cor. 6:5 e 15:34. No entanto, ele nega
esse propósito quanto a este ponto, ou, pelo menos, subordina-o a uma
posição inferior. Talvez tivesse tido esse propósito, mas não era o seu
propósito fundamental. Envergonhá-los foi a finalidade de sua reação
emocional; mas precisavam, muito mais ser avisados acerca dos perigos
envolvidos em sua presente tolerância às facções, à ufania nos líderes
humanos, à degradação de outros crentes. Corriam eles o perigo de serem
desviados por mestres inferiores e até mesmo falsos, deixando assim de
seguir o exemplo de um verdadeiro apóstolo (ver o décimo sexto versículo
deste capítulo). Isso significaria, conforme a concepção de Paulo, que eles
não seriam tão bons discípulos de Cristo, visto que a participação em várias
presente contexto. O mais provável mesmo é que essa palavra signifique
«buscar reconciliação». Quão rara é essa atitude, tanto no mundo como na
igreja cristã dos nossos dias! Quão freqüentemente se vê as facções em luta,
no seio do cristianismo, procurarem reconciliação? Quão freqüentemente
alguém que é criticado ou vilipendiado por outro busca reconciliação com
aquele que o vilipendiou? Esse é um elevadíssimo ideal cristão, que bem
poderia acalmar todas as águas perturbadas que se agitam na igreja cristã.
As mentes carnais, entretanto, similares às daqueles líderes facciosos da
igreja de Corinto, jamais obedecerão a esse princípio cristão.
E note-se que a reconciliação, neste caso, foi buscada com aqueles que
«caluniam», que «difamam», conforme o sentido do vocábulo grego
«dusphemia» indica, o vocábulo usado neste versículo, no original.
«...lixo...» Literalmente, varrição, restos, aquilo que se retira de lugares
imundos, os resíduos, o «refugo». Ê interessante que também era a palavra
usada para indicar a «oferta propiciatória», o «resgate». Certa interpretação
tem sido criada em torno desse possível sentido dessa palavra, conforme se
verifica no primeiro parágrafo das notas expositivas sobre este versículo.
«...escória...» Basicamente, essa palavra significa a «raspa», o «material
refugado» de qualquer coisa. Tal termo pode indicar o sujo que é tirado ou
raspado de um objeto qualquer, ou aquilo que é removido mediante o
processo da limpeza de qualquer coisa. Tal palavra também era empregada
para indicar o «resgate», o «sacrifício», o «bode expiatório». Portanto, os
dois vocábulos usados neste versículo, com a finalidade de mostrar a
degradação a que os verdadeiros apóstolos haviam sido sujeitados no
mundo, podem ser sinônimos, porquanto são muito semelhantes em seu
sentido e emprego básicos. Ambos podem referir-se ao sacrifício de um ser
humano, com 0 intuito de pacificar aos deuses, conforme era o costume em
Atenas e outros lugares do mundo antigo, o que também foi praticado por
Israel, em períodos de grande apostasia. O apóstolo Paulo e os
verdadeiros ministros do evangelho, pois, poderiam ser encarados como
alguém que se sacrificáva a fim de conduzir homens aos pés de Cristo, sendo
eles sacrifícios vivos, na forma de uma dedicação total. O outro sentido, não
obstante, é o mais provável e certo.
facções fazia deles crentes carnais. (Ver I Cor. 3:1).
Uma vez que o espírito de Paulo se abrandou, chamou-os então de
«...filhos meus amados...», uma expressão ainda mais afetuosa que
«irmãos», que ele vinha injetando aqui e acolá, a fim de suavizar a aspereza
de suas palavras. (Ver I Cor. 1:10; 3:1 e 4:6. Quanto a oútras referências
aos crentes de Corinto como convertidos seus, como seus filhos espirituais
em Cristo, ver os trechos de II Cor. 6:13; File. 10 e Gál. 4:19, que encerram
o mesmo tipo de expressão). Essa expressão também se encontra na
literatura judaica, onde um «pai espiritual» ocupava uma posição de maior
importância que a de um pai físico. (Ver, por exemplo, as palavras do
rabino Eleazar ao rabino Eliezer, estando este último enfermo: «Para Israel
és mais do que pai e mãe; eles têm significação para este mundo. Mas os
Mestres (tem significação) tanto neste mundo como no mundo
vindouro»—Talmude). O apóstolo Paulo, por conseguinte, considerava-se
como alguém que ocupava essa elevada posição, com relação aos crentes de
Corinto, fazendo contraste com outros indivíduos que, quando muito,
poderiam ser apenas instrutores deles. (Ver o décimo quinto versículo deste
capítulo).
15 εάν γάρ μυρίους παιδαγωγούς εχητε εν Χριστώ,
διά του ευαγγελίου εγώ υμάς εγέννησα.
15 yap Io] otn ρ 4β I g Hier Aug | Ιησού
4:15: Porque ainda que tenhais dez mil aios em Cristo, não tendes contudo muitos
pais; pois eu pelo evangelho vos gerei em Cristo Jesus.
Ordinariamente, Paulo certamente não diminuía a importância dos
«mestres» ou «instrutores de crianças»; mas as palavras que ele aqui
emprega, «...milhares de preceptores...» (o que certamente expressa um
exagero proposital), na realidade diminui a posição desses mestres em
comparação com a dele mesmo. Paulo ocupava uma posição sem-par em
Corinto, como fundador e pai espiritual daquela igreja; os mestres
άλλ’ ου πολλούς πατέρας, εν γάρ Χριστώ Ίησοϋ
15 hv 'yàf>...kykvvraa Ga 4.19
om B Clpt Ambst
desempenhavam papel importante, mas comparativamente menos impor­
tante do que o dele. Portanto, Paulo merecia e requer aqui o respeito
daqueles crentes, bem como uma maior obediência do que aquela que eles
deviam aos seus instrutores.
O termo aqui traduzido por «...preceptores...», ou «instrutores», é o
mesmo traduzido por «aio», conforme algumas traduções dizem em Gal.
3:24, e onde há uma alusão à lei, como o agente que ajuda alguns homens a
serem levados aos pés de Cristo. Aqui estão em vista os «atendentes» de
I CORÍNTIOS 65
meninos pequenos, que os acompanhavam na ida e na volta da escola.
Usualmente esses «paidagogoi» eram escravos relativamente sem impor­
tância. Podiam ser numerosos e podiam ser trocados com freqüência. Mas
havia um único pai, e ninguém poderia tomar seu lugar ou suplantá-lo em
importância com relação à criança. Além disso, às crianças se admoestava
que tivessem seus progenitores como seus exemplos, e não os seus
treinadores. (Ver I Cor. 11:1; I Tes. 1:6; II Tes. 3:9; Gál. 4:12; Fil. 3:17).
Os «preceptores», além disso, não eram professores comuns, mas antes,
uma espécie de guardiães, de pagens, embora alguns deles recebessem o
encargo de cuidar de certos aspectos da educação das crianças. E
perfeitamente provável que Paulo tenha querido dar a entender também a
idéia de que os crentes de Corinto vinham sendo ensinados por tais homens,
mas não da mesma maneira como ele mesmo fora seu instrutror na fé que
há em Cristo Jesus.
«...pelo evangelho vos gerei...» (Quanto a notas expositivas completas
sobre o «evangelho», especialmente no conceito e nas ações de Paulo, ver
Rom. 1:16. Quanto a comentários sobre «Cristo», ver Mat. 1:16. Quanto a
notas expositivas sobre «Jesus, o Cristo», ver o artigo existente na introdução
ao comentário que versa sobre esse tema, e que se aprofunda em sua vida e
ensinamentos). O evangelho fora o instrumento mediante o qual lhes fora
«dado o nascimento», aquilo mediante o que tinham vindo a conhecer a vida
eterna, existente em Cristo. O próprio Jesus Cristo é a esfera e a origem
dessa nova vida, a sua fonte, bem como o seu alvo. (Ver as notas expositivas
sobre Rom. 8:29, quanto a essa mensagem, explanada em seus completos
detalhes. Ver também os trechos de João 5:25,27 e 6:57, acerca da
participação dos crentes na vida necessária e independente do próprio Deus
Pai, através de Deus Filho, Jesus Cristo).
«Os dois pronomes, no grego ‘ego’ e ‘umas’, estão em proximidade
enfática. ‘Quem quer que tenha sido o progenitor de outras igrejas, fui ‘eu’,
quem, em Cristo, ‘vos’ gerou». (Robertson e Plummer, in loc.).
«Fica aqui subentendido certo contraste, entre a severidade áspera de um
pedagogo e a ternura amorosa de um progenitor». (Shore, in loc.).
Paulo agia de acordo com o ofício e a pessoa do Salvador, porquanto
Cristo é o redentor dá humanidade, o Pai da redenção humana. Os
instrutores ou preceptores tão-somente edíficavam sobre essa realização
inicial e muito mais importante.
«Apesar dos crentes de Corinto serem gigantes no orgulho, eram crianças
na fé, e, portanto, com toda a razão, são deixados ao encargo de
‘pedagogos’». (Calvino, in loc.).
«...pelo evangelho...», e não através da sabedoria humana. Mediante o
emprego da «palavra da cruz», que alguns dos detratores de Paulo punham
em posição muito subordinada, em seus respectivos ministérios, chegando
mesmo a ignorá-la totalmente. (Ver I Cor. 1:17,19,21,23-25 e 2:1,2).
16 πa,ρακαλώ ουν υμάς, μιμητα ί μου γ
Trt ΛΛ/Τ I ΤΤ ΤΙ Ι/ΛΠ/
'ίνεσθε.
6 yiveaffe] aid (ι Ι. ι) καθώς καγω Χρίστου (104) 441 Pc vg!
16 μ ιμ η τα ί μον -γίνεσθε 1 Cor 11.1; Php 3.17; 1 Th 1.6
rS, cl
4:16: Rogo-vos, portanto, que sejais meus imitadores.
★ ★ ★
Os bons pais exortam a seus filhos para que sigam o seu exemplo, algo
que Paulo fazia com freqüência em seus escritos. (Ver I Cor. 11:1; I Tes.
1:6; II Tes. 3:9; Gál. 4:12 e Fil. 3:17). Desejava que os crentes seguissem o
seu exemplo de humildade de amor, de interesse e de dedicação. Desejava
que seguissem os seus «caminhos em Cristo» (ver o versículo seguinte), isto
é, sua maneira geral de conduta, como discípulo de Jesus Cristo. Queria o
apóstolo que aqueles crentes soubessem algo da suprema dedicação que ele
tinha à pessoa de Jesus Cristo, o que o levava a sacrificar-se, a sofrer e a
passar agonias por sua causa, conforme ele descrevera, a começar pelo
décimo primeiro versículo deste mesmo capítulo. Paulo anelava que os
homens ensinassem a doutrina sobre Cristo como ele mesmo a ensinava.
Queria que descessem de seu alto pedestal de posição e auto-exaltação e
ufania nos homens, a fim de que pudessem aprender algo a respeito da
verdadeira glória, na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Desejava que aqueles
crentes aprendessem como os homens devem ter o cuidado de preservar a
unidade, o vínculo da paz, do amor mútuo, como características
apropriadas de todos os membros da igreja de Cristo.
Comenta Robertson (in loc.), acerca do sentido mais exato destas
palavras: «‘Mantende-vos...imitadores meus’. ‘Mimetes’ é uma antiga
palavra, derivada de ‘mimeomai’, isto é, ‘copiar’, ‘imitar’ (mimos). Paulo
defende seus direitos como o seu progenitor espiritual, em contraposição às
pretensões dos judaizantes, que se tinham voltado contra ele, mediante o
uso dos nomes de Apoio e Cefas».
Paulo conclama aqui aos crentes que sejam seus «....imitadores...», o que
envolve mais do que ser simplesmente um «seguidor». Essa palavra
subentende uma conduta mais aproximada ao modelo do que a outra
palavra dá a entender. Paulo era um pregador da «palavra da cruz». Mas
alguns daqueles crentes de Corinto haviam substituído essa palavra pela
sabedoria do mundo, provocando facções através de sua prédica e conduta.
Tais indivíduos haviam perdido de vista a verdadeira mensagem cristã, e
tentavam fazer da igreja cristã um clube filosófico para aprendizado da
retórica. Paulo, pois, procura afastar aqueles crentes desse ideal errôneo,
mostrando-lhes por seu próprio exemplo qual deve ser a conduta de um
ministro do evangelho. A totalidade desta primeira epístola aos Coríntios,
até este ponto, indica-nos que Paulo gostaria de incluir essa questão como
parte da conduta que ele esperava da parte de seus imitadores. Os versículos
décimo a décimo terceiro mostram-nos que ele esperava, particularmente,
que eles reproduzissem o seu espírito de humildade e de auto-sacrifício.
«Toda a vida é uma profissão de fé, e exerce uma propaganda inevitável e
silenciosa... Tende por transformar o universo e a humanidade segundo a
sua própria imagem... Todo o homem é um centro de irradiação perpétua,
como um corpo luminoso... um farol que empurra um navio contra os
recifes, se porventura não o guia na direção do porto. Todo indivíduo é um
sacerdote, mesmo involuntariamente; a sua conduta é um sermão
não-falado, que ele vive permanentemente pregando para os outros; mas
existem sacerdotes de Baal, de Moloque e de todos os deuses falsos! Tal é a
elevadíssima importância do exemplo». (Diário de Amiel, págs. 24 e 25).
«Aimitação é a grande lei da vida infantil. Compare-se isso com o trecho
de Efé. 5:1, e, quanto à melhor ilustração, ver João 5:17-20. Uma coisa é
dizer ‘sou de Paulo’ (ver I Cor. 1:12), e outra bem diferente é palmilhar
pelos passos de Paulo». (Findlay, in loc.).
«Os crentes de Corinto não somente repeliram a humilhação da cruz, mas
igualmente consideram com desprezo a seu próprio ‘pai’ na fé, porquanto
ele, esquecendo-se das glórias terrenas, gloriava-se antes nos opróbrios de
Cristo; mas eles mesmos se reputavam afortunados, juntam ente com
outros, por nada terem de desprezível no que diz respeito à carne. De
conformidade com isso, pois, ele os admoesta aqui a que se devotem,
seguindo o seu exemplo, ao serviço de Cristo, a fim de suportarem com
paciência todas as provações». (Calvino, in loc.).
«Ele (Paulo) vivia para Deus e para a eternidade, não buscando a sua
própria glória, emolumentos ou lazer; mas aqueles semeadores de sedições,
entre os crentes de Corinto, eram impulsionados por motivos diferentes».
(Adam Clarke, in loc.).
«Embora Paulo pudesse ter usado o poder e a autoridade de um pai,
contudo, preferiu arrazoar com eles e exortá-los.» (John Gill, in loc.).
(Quanto a uma expressão da palavra aqui usada, traduzida por
«admoesto-vos», ver o trecho de Rom. 12:1).
17 διά τοΰτο1 επεμφα ύμΐν Τιμόθεον, 6ς εστίν μου τεκνον αγαπητόν καί πιστόν εν κυρίω, ος υμάς
αναμνησει τάς ο8ους μου τάς εν Χριστώ [Ίησοΰ], καθώς πανταγοΰ εν πάση εκκλησία διδάσκω.
. 1 17 (C } τοΟτο {«·“ Β C D G <Ρ 88 1Μ 326 614 629 630 1241 1739
1881 1962 1984 1985 2127 2492 B yz L ed it*r· ”·f- ' vg syr? cop">'b°
arm Origen Chrysostom Theodoret John-Dam aseus. // τούτο αυτό put:,,í
Μ* A P 33 81 181 330 436 451 1877 2495 syrb Euthalius
17 €7Γ€μψα...Χ.ριστώ Ac 19.22; PhD 2.19-22 17 Xp. Ιησ. J)48X 7739 pm vgs>cl syh bo arm] Xp. AB al vgwsyp sa ς ; R : Κυριω Ιησ. D*G
Principalmente com base no peso da evidência externa (p46·48 Nc B ( ' I) G L Ί/ 6 88 6l4 1739 Byz Led Latim Antigo vg
sir (p) cop (sa.bo) ara Origenes al), a maioria da comissão preferiu a forma mais breve, τούτο. A expressão
τοντο αυτό (ρ11’η
<
ί N* A P 33 81 436 451 2595 sir (h) al) pode ter surgido acidentalmente, mediante ditografia.
4:17: Por isso mesmo vos enviei Timóteo, que i meu filho amado, e fiel no Senhor; o
qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo, como por toda parte eu ensino em
cada igreja.
(Quanto a notas expositivas completas sobre «Timóteo», ver Atos 16:1). O
fato que Paulo enviara Timóteo servia de outro sinal sobre o amor e a
preocupação de Paulo. Esse apóstolo fez tudo quanto estava ao seu alcance
para corrigir os males surgidos em Corinto; não ignorava tais males, e nem
permitia que os crentes seguissem por seus próprios caminhos, lavando as
mãos sobre toda a questão, como bem poderia ter sido tentado a fazer.
Aparentemente Timóteo não fora o portador de uma epístola, e
evidentemente chegara antes do próprio apóstolo. Assim sendo, Timóteo
não podia ser considerado substituto de Paulo (ver os versículos dezoito e
dezenove deste capítulo), mas tão-somente um ajudante, para que fizesse o
quanto estivesse ao seu alcance, até à chegada do próprio apóstolo, quando
este se visse livre de seu labor no evangelho em Éfeso, quando este pudesse
cuidar pessoalmente da questão em Corinto.
Timóteo também era «filho» de Paulo, na fé em Cristo, e era um filho
«autêntico», que já imitava a seu pai. Por conseguinte, Timóteo poderia dar
um bom exemplo àqueles crentes, instruindo-os mais perfeitamente acerca
do que se esperava da parte deles, tanto mediante palavra como através do
exemplo diário. Ficamos sabendo^ no trecho de Atos 19:22, que Timóteo
provavelmente já havia deixado Efeso, ou que o fizera pouco depois de
Paulo ter escrito estas palavras. Trabalhava agora na Macedonia, não tendo
partido imediatamente para Corinto, pelo que deve ter chegado depois que
a epístola de Paulo foi recebida ali. A passagem de Atos 19:22 parece
indicar que o coríntio Erasto era seu companheiro, nessa missão. Mas esse
crente deve ser distinguido do Erasto referido em Rom. 16:23.
«...o qual vos lembrará os meus caminhos...»Visto que aqueles crentes se
66 I CORÍNTIOS
tinham olvidado das instruções apostólicas, ou que propositadamente as
ignoravam, agora era mister relembrar-lhes o que se esperava realmente da
parte deles, em favor de Cristo, o que era algo que os seus «preceptores» ou
instrutores não tinham feito; pois, se o tivessem feito corretamente, não
teriam surgido tão grandes dificuldades na igreja de Corinto.
«...caminhos em Cristo Jesus...»A natureza desses «caminhos» é indicada
em trechos bíblicos como I Cor. 1:7; 2:1-5; 4:11-13; 9:15,22,27. Paulo se
referia aos «seus caminhos», tal como se referia ao evangelho como o «seu
evangelho». O que ele queria dar a entender, portanto, é que os seus
jcaminhos são os caminhos do Senhor Jesus, porquanto Deus é o grande Pai;
e o seu evangelho é o evangelho de Cristo.
«...como por toda parte ensino em cada igreja...» Havia uma coerência
geral no ministério e na conduta do apóstolo Paulo, por toda a parte por
onde ele ia. Não procurava ele impor aos crentes de Corinto qualquer
conduta diferente que não ensinasse e requeresse de todas as congregações
cristãs. Não fazia de Corinto algum caso especial. A igreja daquela cidade
era apenas uma entre muitas, parte da expressão universal do corpo de
Cristo. (Ver I Cor. 1:2). Dos crentes de Corinto, por conseguinte, não era
esperado nem mais e nem menos do que de qualquer outra comunidade
cristã; e, através desse fato, nos é dado compreender a universalidade das
instruções contidas nesta epístola. Em outras palavras, o que está ali
escrito—como sucede a todo o restante do N.T.—não foi dirigido somente
aos crentes de Corinto, ou mesmo somente aos crentes primitivos, mas à
igreja de Cristo em todos os séculos e em todos os lugares.
A missão de Timóteo foi bem-sucedida? Basta que se leia o trecho de I
Cor. 16:10,11. Evidentemente Timóteo era um tanto tímido por natureza,
tendo sido necessário que Paulo admoestasse aos membros da igreja de
Corinto para que lhe dessem uma acolhida cordial e respeitosa. Além disso,
„ Timóteo era muito mais jovem do que o apóstolo dos gentios, não sabendo
ainda controlar as situações como ele. O versículo de I Cor. 16:12
mostra-nos que Paulo tentou convencer Apoio a ir a Corinto, provavelmente
pelas mesmas razões pelas quais enviou Timóteo. E quiçá Apoio tivesse sido
pessoa mais apta que Timóteo naquela missão; mas Apoio recusou-se a isso,
talvez porque uma facção ali existente o escolhera como sua grande figura, e
ele não queria provocar ainda maior partidarismo, que viesse a solapar
ainda mais a autoridade já abalada de Paulo no conceito daqueles irmãos.
O fato de que Paulo queria enviar a Apoio mostra-nos que esse último não
era pessoalmente culpado de tentar criar um grupo dè seguidores seus
naquela comunidade cristã. Os partidos ali surgidos não tinham sido
resultado de qualquer coisa feita por Apoio.
A passagem de II Cor. 1:1,19 mostra-nos que Timóteo já fizera essa
viagem, e que então voltara à companhia de Paulo. E os versículos de II
Cor. 7:6-8, 13-16 servem para esclarecer que ocorrera grande modificação
na conduta dos crentes de Corinto. Mas tal modificação ocorrera por
intermédio de Tito, e não por ação de Timóteo; e tudo isso sucedeu antes
que tivessem sido escritos os capítulos primeiro a nono da nossa atual
segunda epístola aos Coríntios, onde Paulo expressa grande alívio mental
em face da melhoria das condições daquela igreja, de tal modo que ele foi
capaz de escrever: Alegro-me porque em tudo posso confiar em vós (II Cor.
7:16). Ora, Paulo não poderia ter feito tal declaração antes de Tito ter
obtido êxito em seu trabalho. É o trecho de II Cor. 8:6,16,17 que nos mostra
que Paulo comissionara Tito para a mesma tarefa por causa da qualjá tinha
18 ώς μη ερχομένου δε μου ττρόζ υμάς εφυσιώθησάν
4:18: Mas alguns andam inchados, como se eu não houvesse de ir ter convosco.
Evidentemente os crentes de Corinto perceberam o intuito da missão de
que Timóteo fora encarregado. E daí tiraram a conclusão de que Paulo
preferia não preocupar-se com uma situação difícil, enviando um
substituto, o que certamente imaginaram tratar-se de uma fraqueza da
parte de Paulo; e agora se vangloriavam nisso, utilizando-se dessa suposição
como arma para prejudicá-lo ainda mais, no conceito dos membros menos
avisados da igreja de Corinto. Provavelmente aqueles eram os mais amargos
oponentes de Paulo, aqueles contra quem ele escreveu a epístola amarga
que consta dos capítulos décimo a décimo terceiro de nossa atual segunda
epístola aos Coríntios.
«...ensoberbeceram...» No original grego, se encontra no tempo aoristo o
verbo assim traduzido aqui, o que indica alguma ação em um ponto
definido no passado. Ê provável que a alusão seja à reação específica
enviado a Timóteo. A passagem de II Cor. 12:18 também esclarece que
Paulo havia enviado algum «irmão» não identificado, em companhia de
Tito. Por sua vez, o trecho de II Cor. 2:1-4 evidencia o fato de que o próprio
Paulo deve ter feito uma visita a Corinto, depois de haver escrito esta sua
primeira epístola aos Coríntios, mas antes de haver escrito as várias
epístolas atualmente combinadas e que formam a nossa segunda epístola
aos Coríntios. (Ver o problema da correspondência paulina com Corinto, na
secção IV da introdução à primeira epístola aos Coríntios, onde se vê que
nossas atuais primeira e segunda epístolas aos Coríntios combinam, pelo
menos, quatro missivas).
Podemos supor que a epístola que Paulo escreveu em aflição e angústia de
coração (ver II Cor. 2:4), foi a «epístola severa» que consiste dos capítulos
décimo a décimo terceiro de nossa atual segunda epístola aos Coríntios, a
qual, na realidade, foi escrita antes dos capítulos primeiro a nono de nossa
segunda epístola aos Coríntios, capítulos esses que mostram grande
sentimento de alívio, e não angústia, em face do fato de que Tito conseguira
levar a bom termo a sua tarefa.
O contexto do segundo capítulo da segunda epístola aos Coríntios
mostra-nos que pelo menos o quinto capítulo desta primeira epístola aos
Coríntios também está em vista, como missivas que Paulo escreveu àqueles
crentes. Alguns estudiosos acreditam que Paulo se refere aqui à
correspondência «existente», nessa referência. É possível que isso seja
verdade, embora não tenhamos meios para averiguar a verdade com
qualquer grau de certeza. O trecho de II Cor. 7:5-7 parece mostrar que a
epístola representada pelos capítulos primeiro a nono de nossa atual
segunda epístola aos Coríntios foi escrita na Macedonia, e que pelo tempo
em que Tito se encontrou com Paulo ali, já tinha podido resolver alguns dos
problemas que tanto tinham preocupado o apóstolo dos gentios. Portanto, é
a Tito que cabe principalmente o crédito por haver encontrado a solução
para tais problemas. Podemos supor, pois, que a natureza naturalmente
tímida de Timóteo, em combinação com sua juventude, não lhe permitira
obter qualquer grande sucesso em sua missão, embora talvez tenha tido
alguma.contribuição no melhoramento das condições.
Era muito apropriado que Paulo chamasse a Timóteo de seu filho. A
passagem de Atos 16:1 e ss. mostra-nos que Timóteo já era um discípulo
quando Paulo o conheceu; ou, pelo mènos, isso fica subentendido. Alguns
eruditos têm suposto, portanto, que Timóteo realmente não se convertera
pela instrumentalidade de Paulo, mas antes, tendo sido instruído por ele,
como seu discípulo especial, com razão pôde ser chamado de seu filho,
conforme era o costume dos rabinos, em relação aos seus discípulos mais
chegados. As referências que Paulo faz a Timóteo, como em I Tim. 1:2,18 e
II Tim. 1:2, entretanto, parecem indicar que não era essa a única razão pela
qual ele foi chamado de «filho». O mais provável é que Timóteo tiveíse
mesmo sido discípulo convertido através de Paulo, embora nos faltem
quaisquer evidências históricas nesse sentido, especialmente sobre o tempo
e o lugar. No trecho de I Tim. 1:2, Timóteo aparece como «verdadeiro filho
na fé». Portanto, é possível que essa declaração do fato de que Timóteo era
um discípulo, em Atos 16:1, deva ser compreendida no sentido mais
autêntico do discipulado cristão. Podemos tão-somente conjecturar que em,
algum lugar, antes das narrativas do décimo sexto capítulo do livro de Atos,
Paulo deve ter conhecido a Timóteo. (Ver o trecho de Atos 16:1 sobre essa
questão, embora não tenhamos qualquer informação certa sobre a mesma).
τινες'
daqueles oponentes de Paulo, quando ouviram falar na planejada visita de
Timóteo. No original, esse verbo significa «inchar», mas também pode
significar tomar-se orgulhoso, ou «arrogante». Descreve admiravelmente
bem a ação e o caráter daqueles que se ufanavam de sua sabedoria humana,
de sua retórica superior, de sua abastança material na sociedade, tudo o que
fazia violento contraste com os sofrimentos de Paulo e com o serviço
humilde por ele prestado.
«Um espírito ‘orgulhoso’ era o pecado fixo dos crentes de Corinto».
(Faucett, in loc.).
Quando aqueles crentes facciosos ouviram falar na visita que Timóteo
faria, pensaram imediatamente que haviam ganho a batalha contra Paulo,
por negligência deste último; e se aproveitaram da ocasião para mostrar a
sua arrogância.
19 έλεύσομαι δε ταχέως ττρος υμάς, iàv ό κύριος θέληση, και γνώσομαι ού τον λόγον των
πεφυσιωμένων αλλά την δυναμιν, ' 19 ϊλίύσομαι...θβλήσνA
c18.21;]μ4.ι5
4:19: Em breve, porém, irei ter convosco, se o Senhor quiser, e então conhecerei,
não as palavras dos que andam inchados, mas o poder.
«...mas em breve irei visitar-vos, se o Senhor quiser, e então conhecerei
não a palavra, mas o poder dos ensoberbecidos...» Um homem de menor
envergadura moral teria desistido da luta; mas não o apóstolo Paulo. Não
que ele quisesse promover os seus próprios interesses, mas porque havia um
câncer naquela comunidade cristã que precisava ser removido. Paulo já
tinha enviado Timóteo e Erasto, em missão preliminar. Tinha desejado que
Apoio fosse também. (Ver Atos 19:22 e I Cor. 16:12). Além disso, já enviara
a Tito. (Ver II Cor. 7:6-8,13-16 e 8:6,16,17). Essas comissões mostram-nos
o profundo interesse que Paulo tinha por aquela igreja, e não que ele
estivesse desinteressado em resolver pessoalmente a dificuldade, conforme
seus oponentes mui erroneamente haviam interpretado. Os adversários de
Paulo em Corinto sabiam usar palavras, eram oradores eloqüentes,
treinados na retórica. Mas Paulo estava ansioso por verificar se eles
possuíam algum «poder» real, ou se tudo não passava de meras palavras.
Naturalmente, deixou entendido que suspeitava que eles não tinham mais
do que palavras.
«Durante a ausência de Paulo, os judaizantes se puseram a falar
constantemente. A segunda epístola aos Coríntios fomece-nos muitas
evidências sobre a sensibilidade de Paulo para com as palavras daqueles
homens, acerca de suas supostas incoerências e de sua covardia (em
particular os capítulos primeiro, segundo e décimo a décimo terceiro). Na
verdade, Paulo alterou os seus planos a fim de poupá-los, e não por timidez.
Ficaria claro, mais tarde, que Timóteo falharia em sua missão, mas que
Tito seria bem-sucedido». (Robertson, in loc.).
Evidentemente Paulo planejava fazer essa viagem após a festa judaica do
Pentecoste (ver I Cor. 16:18). (Seus vários planos e modificações dos
mesmos são discutidos nas notas expositivas sobre II Cor. 1:15,16,23).
«...se o Senhor quiser...» (Com essas palavras se podem comparar os
trechos de I Cor. 16:7 e Tia. 4:15). Podemos supor que essa era uma
fórmula cristã comum, no tocante a planos e ações, tal como se verifica até
hoje, entre muitos crentes evangélicos e outras pessoas. É verdade que essa
fórmula pode ser reduzida a meras palavras; mas Paulo vivia de
I CORÍNTIOS 67
conformidade com a atitude expressa pela mesma. O «...Senhor...» neste
caso, é o Senhor Jesus Cristo, e não Deus Pai, o que expressa um uso
bastante comum nas páginas do N.T. (Ver as notas expositivas acerca desse
título, bem como exemplos do uso do mesmo, no N.T., no trecho de Rom.
1:4).
Paulo assume aqui as maneiras e a linguagem de um juiz. O vocábulo
«...poder...»
1. Não está aqui em vista seu presumível poder, como se fossem
poderosos líderes humanos.
2. Também não está em foco o poder de operar milagres.
3. Mas Paulo se referia ao poder de conquistar outros para a vida cristã,
ou, mais particularmente ainda, o poder do Espírito de Deus na vida do
crente individual.
Paulo, pois, verificaria se realmente eram possuidores desse poder, ou se
tudo quanto tinham para dar eram os seus discursos eloqüentes, suas
amargas críticas verbais, sua sabedoria terrena e prolixa. Paulo haveria de
testar o caráter real daqueles elementos, na presença de todos. Somente
alguém da estatura espiritual do apóstolo dos gentios poderia ter proferido
tais palavras com tanta confiança, para «verificar se eram realmente ou não
poderosos no Espírito». (Alford, in loc.).
O verdadeiro poder espiritual pertence ao reino de Deus, o que se estende
a seus autênticos representantes, conforme aprendemos nos trechos de I
Cor. 1:18,24 e 2:4. E com isso se pode comparar o trecho de I Tes. 1:5, que
diz: «...porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em
palavra, mas sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção,
assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre vós, e por amor de
vós». Não há que duvidar que Paulo poderia ter dito a mesma coisa para os
crentes de Corinto, estabelecendo contraste entre ele mesmo e os seus
detratores, cujo poder consistia essencialmente da eloqüência verbal, mas
não de uma vida cristã controlada pelo Espírito de Deus.
20 ού γάρ iv λόγω η βασιλεία του θεοΰ άλλ’ εν
4:20: Porque ο reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder.
As palavras «...reino de Deus...» são utilizadas em variegados sentidos,
nas páginas do N.T., não devendo nós pensar que elas sempre têm o mesmo
significado. A idéia geral dessa expressão gira em torno daquele estado
onde a influência e o poder de Deus operam e dominam entre os homens,
ainda que tal domínio deva ser considerado como de natureza espiritual,
política e mística. Pode significar o reino teocrático, a restauração do reino
de Davi, o reinado do Messias, ou algum governo político literal. (Ver Mat.
6:33; 12:28 e a totalidade de seu décimo terceiro capítulo).
O Reino E Seus Significados
1. O vocábulo «reino» pode indicar o reino messiânico que os judeus
esperavam, o qual, na doutrina cristã primitiva se tornou no ensino sobre o
milênio. Esse uso foi quase inteiramente abandonado pelos escritores
sagrados, após os evangelhos sinópticos.
2. O conceito geral é que «Deus reina», quer no mundo, quer nos corações
dos homens. Por conseguinte, pode ter um significado puramente espiritual
ou ético. (Ver Luc. 17:20,21 e Rom. 14:17).
3. No evangelho de João, o termo é praticamente equivalente à «salvação»
ou «vida eterna» (ver João 3:3).
4. O trecho de Col. 1:13 quase usa o termo para indicar a «igreja cristã»,
como guardiã das atuais bênçãos divinas. (Ver notas completas sobre o
conceito do «reino», em Mat. 3:2).
★ ★ ★
No trecho de João 3:3; a expressão «reino de Deus» aparece como a
«salvação transcendental», ou seja, a vida eterna, que um homem não pode
nem ao menos ver sem o novo nascimento. Pelo tempo em que o evangelho
de João foi escrito, isto é, depois da destruição de Jerusalém, já havia
inteiramente desaparecido, para muitos crentes, qualquer esperança da
inauguração de algum reino político para algum futuro previsível, ainda
que muitos preservassem tal esperança na forma da doutrina do milênio,
vinculada à «parousia», isto é, a segunda vinda de Cristo Jesus. Por essa
razão é que, no evangelho de João, o reino político não mais ocupa qualquer
posição. Ali, a «salvação» no outro mundo é o reino de Deus. É interessante
que segundo a moderna terminologia evangélica, essa expressão é usada
como virtual eqüivalente da «igreja cristã», pelo menos quanto à sua
expressão à face da terra. O trecho de Col. 1:13 usa essa expressão de uma
maneira não muito diferente disso.
Aqui, em I Cor. 4:20, essa expressão parece indicar a vida cristã em
geral, bem como sua expressão, concretizada pelo Espírito Santo. Então se
contempla o Senhor Deus a governar nos corações dos crentes,
individualmente, e também na comunidade cristã em geral, não estando em
foco algum domínio futuro, quer político, quer espiritual. Com isso se pode
contrastar o uso que o oitavo versículo deste mesmo capítulo faz dessa
expressão, onde dá a entender uma idéia escatológica—o reino futuro de
Cristo, que será inaugurado quando de seu segundo advento. (Quanto a
uma nota de sumário sobre os termos «reino de Deus», ou «reino dos céus»,
ver Mat. 3:2).
Robertson e Plummer (in loc.) atribuem três sentidos distintos a essa
expressão, nos escritos paulinos, a saber:
2 1 τ ί θελετε; iv ράβδω έλθω προς ύμάς, η εν άγάττΎ]
4:21: Que quereis? Irei α vis com vara, ου com amor e espirito de mansidão?
«Após ter empregado argumentos, ironia e apelo afetuoso, o apóstolo
Paulo termina com uma ameaça. Ele iria; que ninguém se iludisse a esse
respeito. Nas mãos da própria igreja jazia a escolha do que sucederia
quando Paulo chegasse. Ele gostaria de mostrar ali o ‘espírito de mansidão’,
embora também pudesse aplicar a ‘vara’, se necessário fosse. E não está
aqui em foco o cajado do pastor, mas a palmatória do mestre-escola—e
Paulo não acreditava em poupar a vara na criação de seus filhos espirituais.
Segundo a maneira como a segunda epístola aos Coríntios considera as
questões dolorosas do passado, precisamos concluir que aquela igreja
terminou por escolher a vara. Aquelas facções, na realidade, foram de mau
para pior». (C.T. Craig, in loc.). (Quanto ao «uso da vara», comparar com
os trechos de I Sam. 17:43 e II Sam. 7:14).
Paulo, por conseguinte, falava sobre a reprimenda espiritual e a
disciplina, bem como sobre o exercício de sua autoridade apostólica, através
de palavras censuradoras, mas também através de ações disciplinares, com
ν ά μ ε ι. 2o ic o r2.4
1. O reino futuro, em que Deus será tudo em todos. (Ver I Cor. 15:28).
2. O reino medianeiro de Cristo, que é o reino de Deus em processo de
desenvolvimento, o que os milenistas identificam com o reino milenar de
Jesus.
3. A realidade íntima que subjaz à vida, às atividades e às instituições
externas da igreja. (Esse é o sentido que aparece neste ponto).
«...poder...»Essa é uma das mais importantes características do reino de
Deus, sem importar o ponto de vista sobre o mesmo que tenhamos em
mente. Esse poder não é político e nem humanístico, e, sim, espiritual. (Ver
I Cor. 2:5). Esse poder nos é conferido por intermédio do Espírito Santo,
manifestando-se no evangelho mediante a pregação da cruz. (Ver I Cor.
1:18). Os detratores de Paulo entretanto, ignoravam essa mensagem,
pensando ser um escândalo para os educados ouvidos helenistas. Ao invés
da mensagem da cruz, pregavam a sabedoria dos homens, que eles
supunham ser poderosa, mas que Paulo aquilatava como refinada fraqueza.
(Ver I Cor. 1:25). O poder de Deus é personificado na pessoa de Jesus Cristo
(ver I Cor. 1:24), porque ele é o grande redentor da humanidade; e essa
redenção requer poder, bem como certo tipo de poder que a sabedoria
humana não pode produzir e nem imitar.
Por toda a parte Paulo dá a entender que a pregação deve ser escudada no
poder, e que essa energia divina deve operar eficazmente nos crentes.
Comparar com II Cor. 10:11; 13:3 e I Cor. 1:29. Cristo realmente de nada
nos valerá se tudo quanto ele significa para nós ê um conjunto de doutrinas;
e se essas doutrinas são expressas de maneira eloqüente, embora não
iluminadora, e tão-somente em forma verbal, sem provas da atuação do
Espírito nas vidas e corações. Cristo precisa significar uma «nova criação»,
pois, de outra maneira, nossas palavras em nada diferirão das palavras
ditas em outras religiões e filosofias; e talvez signifiquem ainda menos,
porquanto fazem reivindicações menos espantosas que nós fazemos. (Ver II
Cor. 5:17).
«No que diz respeito ao nosso evangelho, do que tanto nos orgulhamos,
onde se encontra o mesmo, no caso da maioria’das pessoas, senão na
língua? Onde está a novidade de vida? Onde se encontra a eficácia
espiritual?... quantos existem que, se por um lado se esforçam por
encontrar favor e aplauso da parte do evangelho, como se o mesmo fosse
alguma ciência profana, não têm por alvo nenhuma outra coisa senão falar
com eloqüência e refinamento!» (Calvino, in loc.).
Paulo não tinha por intuito separar as «palavras» do evangelho,
porquanto o evangelho é proclamado através de palavras, proferidas ou
escritas. Aquilo contra o que ele se insurgia é a limitação do evangelho a
somente isso, conforme agiam alguns, na suposição que falar é suficiente.
Muitas igrejas evangélicas de hoje em dia correm o perigo de não contar
com qualquer outra coisa senão com uma expressão verbal do evangelho.
Longe disso, o evangelho precisa transformar os homens em Cristo, moral e
metafisicamente falando, pois, de outro modo, nem será o evangelho
anunciado por Paulo.
«...no poder e energia do Espírito Santo, o qual ilumina, vivifica,
converte e santifica aos crentes; e todos os seus apóstolos genuínos são
capacitados, ém todas as ocasiões necessárias, a demonstrarem a
veracidade de seu chamamento, por meio de milagres; porquanto isso é o
que a palavra original de Deus com freqüência significa». (Adam Clarke, in
loc.).
π νενμ α τί τε πρα ύτητος;
a possível exclusão de membros.
«...espírito de mansidão...» A mansidão é alistada como um dos aspectos
do fruto do Espírito Santo, no trecho de Gál. 5:23. Ò Espírito de Deus é
quem inspira essa mansidão de espírito, essa gentileza, porquanto a
verdadeira gentileza não faz parte normal da natureza humana decaída,
embora possa ser imitada. Mas o apóstolo Paulo, por ser homem espiritual,
ordinariamente manifestava tal atitude, sendo amoroso de espírito, homem
que considerava as necessidades alheias, com gentileza e interesse. Os
crentes errados de Corinto, todavia, não podiam mais ser corrigidos por
meios brandos; antes, mereciam alguma forma de julgamento severo, a fim
de que pudessem perceber a verdadeira natureza de sua carnalidade.
Paulo poderia ter chegado na igreja de Corinto como um pai amoroso ou
como um severo mestre-escola, como um severo disciplinador. Os
mestres-escolas da época costumavam levar consigo uma vara, para
disciplina dos meninos desobedientes. E Paulo assim trataria àqueles
rebeldes crentes de Corinto, se tal medida fosse necessária.
68 I CORÍNTIOS
«Nada senão a consciência da posse de uma força sobre-humana poderia
ter impelido um pobre fabricante de tendas a proferir tão ousadas
palavras». (Faucett, in loc.).
Paulo estava acostumado a ver o poder de Deus acompanhá-lo em seu
trabalho apostólico. Sabia que podia manifestar o poder de Deus entre
aqueles coríntios. Disso tinha plena confiança.
«...espírito...» Visto que o original grego nunca usa letras maiúsculas,
certas palavras, como esta, ficam sujeitas a mais de uma interpretação,
porquanto pode estar em foco o Espírito Santo ou o espírito humano, ou
mesmo uma disposição humana. Com freqüência não se pode chegar a
nenhuma decisão indiscutível. Parece que neste caso está em foco uma
«disposição», embora isso seja determinado pela influência do Espírito de
Deus.
«Ê uma característica feliz a do ministro do evangelho que possui o
espírito de amor e de mansidão como qualidades predominantes, sem que
com isso perca sua justa autoridade». (Matthew Henry, in loc.).
Capitulo 5
III. Imoralidade, Êtica Geral e os Padrões Cristãos (I Cor. 5:1- 7:40).
1. Contra a imoralidade grosseira (5:1-13).
Paulo muda repentinamente de assunto, passando da censura contra a sabedoria humana e o espirito de partidarismo, para a
questão da imoralidade grosseria. E não há que duvidar que neste quinto capítulo encontramos menção de um dos usuais casos
de lassos costumes sexuais em Corinto, que tinham procedido do paganismo para o seio da igreja local dessa cidade. Ou os
escravos da casa de Cloe (ver I Cor. 1:11), ou os portadores da epístola que os crentes de Corinto haviam mandado para Paulo
(ver I Cor. 7:1), haviam contado ao apóstolo esse caso bem conhecido; esse caso deve ter chocado àqueles que narraram o episódio
a Paulo, embora não tivessem a estrita formação judaica sobre essas questões, como era o caso desse apóstolo. A epístola que os
crentes de Corinto tinham enviado para Paulo fizera perguntas sobre várias questões sexuais; e este capítulo inicia uma
discussão acercá de vários aspectos do comportamento sexual que proesegue até o fim do sétimo capítulo desta epístola.
Portanto, nada menos de três capítulos abordam essa questão. Naturalmente que na moderna igreja evangélica não existe
problema mais premente do que esse. Se um homem tiver ao menos uma fraqueza, o mais provável é que gire em tomo de algum
falha sexual; e se tiver mais de uma fraqueza,dificilmente quase todas elas não dirão respeitoa essas questões. O sexo é uma razão
gigantesca, sobre a qual a razão consegue aplicar bem pouca pressão, e sobre a qual a mente tem bem pouco poder. Para alguns,
não passa de um monstro-, e não há que duvidar que o impulso sexual, a menos que seja controlado pelo Espírito Santo, é uma
força insana.
Ora, a cidade de Corinto era conhecida por suas frouxas práticas sexuais. Havia até mesmo um verbo, corintianizar, que
significava ocupar-se de algum excesso e aberração sexual. A religião pagã da localidade contava com inúmeras prostitutas
religiosas, e seu negócio imundo era efetuado nos próprios templos. Isso aumentava grandemente o afluxo de turistas a Corinto,
tal como algumas cidades modernas são populares devido a libertinagem ali reinante. Sêneca queixou-se de que certas vilas
romanas exigiam uma liberdade excessiva, mas que nenhuma delas era tão corrupta como a cidade de Corinto. Nos dias de Paulo,
Corinto contava com uma população de talvez seiscentos mil habitantes; e tem-se calculado que ali havia nada menos de mil
prostitutas religiosas profissionais (conforme nos informa Estrabão), para nada dizermos sobre outras prostitutas. (Ver as notas
expositivas sobre o trecho de Atos 18:1, acerca do que sabemos sobre a antiga cidade de Corinto).
Ante tal atmosfera, portanto, não é para admirar que houvessem surgido tantos problemas de natureza moral naquela igreja
de Corinto.
O caso aqui focalizado por Paulo foi o do caso do casamento de um dos membros daquela igreja com sua ex-madrasta. Não há
nenhum motivo para supormos que o pai desse homem ainda estivesse vivo, embora isso seja possível. Além disso, a citada
mulher pode ter sido uma concubina do pai desse homem, e não sua esposa legítima. No trecho de Lev. 18:8 vemos que o
casamento com a própria madrasta era algo proibido, segundo a lei mosaica, e os culpados dessa forma de incesto sofriam a pena
de execução capital. Entretanto, essa relação incestuosa também era proibida pelas leis romanas. No entanto, os estudos feitos
na tradição judaica (no Talmude e na Midrash), mostra-nos que os rabinos posteriores, em sua maioria, não proibiam essa forma
de casamento no caso dos prosélitos. (Ver o exaustivo estudo de Strack und Billerbeck sobre esse assunto, em sua obra,
Kommentar zurn N.T. aus Talmud und Midrasch, III. 343-358). Alguns judeus liderantes, como o rabino Akiba (135 d.C.),
contudo, tinham uma opinião contrária a isso, seguindo o parecer do apóstolo dos gentios, conforme vemos na passagem que ora
comentamos. A maioria dos rabinos judeus, no entanto, assumia a posição de um prosélito, quando se tomava judeu, se
tomava uma criança recém-nascida. Portanto, qualquer contrato de casamento, efetuado antes dessa ocasião, não tinha efeito
algum sobre ele. Assim sendo, na opinião desses rabinos, podia casar-se com uma mulher que não fosse sua progenitora, que não
tivesse com ele qualquer relação de nascimento, ainda que antes houvesse sido esposa de seu pai, isto é, sua própria madrasta.
Não obstante, Paulo se mostrou sempre firmemente contrário a tal prática, mostrando-se até mesmo veementemente radical,
conforme se depreende do quinto versículo deste capítulo. Se o pai do membro culpado desse pecado ainda estava vivo, talvez
possamos compreender ainda melhor a veemência de Paulo; mas talvez nos seja possível entender as razões dessa veemência
mesmo que o pai desse homem já houvesse falecido.
Alguns se estribam na passagem de II Cor. 7:12 a fim de mostrar que o pai do homem culpado desse nefando pecado ainda
estava vivo, e que ele era o ofendido-, mas outros pensam que o caso pode ser explicado de maneira diferente. Na realidade não
existe nenhuma forma segura de resolver o problema mediante argumentação. Sem importar de que lado está a razão, porém, o
fato é que Paulo ficou grandemente indignado ante tal pecado, tendo sido profundamente ferido o seu senso de propriedade.
Paulo faz objeção aqui não meramenteporquecampeava flagrante imoralidade entre aqueles crentes de Corinto, mas também
porque, em seu orgulho e insensibilidade espirituais, nem davam atenção ao fato, mas antes, continuavam admitindo à sua
comunhão aquele homem, sem qualquer sanção penal.
"OXojs ακούεται, εν νμΐν πορνεία, και τοιαύττ) πορνεία ητις ούδε εν τοΐς εθνεσιν, ώστε γυναίκα τινα του
πατρος εχείν. 5 1 yvvaiKa...exeivLv 18.7-8; Dt 22.30; 27.20
5:1: Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade, e tal imoralidade que nem
mesmo entreos gentios se vê, a ponto de haver quem vive com a mulher de seu pai.
As palavras «...geralmente se ouve...» dão-nos a entender que ele ouvira
tal fato, mui provavelmente, através dos escravos da casa de Cloé (ver I Cor.
1:11), de quem ele recebera a maior parte das informações de que dispunha
sobre as lamentáveis condições existentes na igreja de Corinto. Mas também
é possível que Paulo tivesse recebido tais informações por boca daqueles que
tinham sido os portadores da carta que a igreja de Corinto lhe enviai-a. (Ver
I Cor. 7:1). Visto que essa história se tornara tão conhecida, a fonte
originária pode ter sido qualquer outra. Em face do fato como a questão foi
manuseada em Corinto, tendo o culpado permanecido como membro ativo
daquela congregação cristã, em plena comunhão, é possível que a questão
fosse ali considerada mais como uma questão de conversinha de comadres,
talvez servindo até mesmo de motivo de piadas, não sendo jamais
considerada seriamente.
Não é muito provável que a sociedade local de Corinto tivesse pensado
haver qualquer coisa de especialmente prejudicial no fato de um homem
chegar a ter como sua «esposa» aquela que fora esposa ou mesmo concubina
de seu próprio pai. E é mesmo possível que tais mulheres fossem
transferidas de um para outro, sem qualquer idéia de que assim se cometia
um gravíssimo pecado.
«...imoralidade...» talvez possa ser traduzida por «fornicação», como
usualmente sucede, a fim de dar a entender qualquer contacto sexual ilícito,
não apenas de pessoas «solteiras», conforme,-no original grego, o vocábulo é
algumas vezes usado, em sentido mais restrito. O termo grego aqui usado,
«porneia», significa «prostituição», «falta de castidade», «fornicação», etc. E
essa palavra era constantemente usada na literatura grega a fim de indicar
qualquer contacto sexual proibido. O vocábulo «moicheia» é um termo de
sentido mais restrito, dando a entender o pecado de «adultério», os
contactos sexuais ilícitos dos casados, com outras pessoas casadas ou com
solteiros, mas que envolve pelo menos uma pessoa comprometida em
matrimônio. O vocábulo grego «porneia» algumas vezes serve de sinônimo,
mas pode ser usado para referir-se a todas as formas de «imoralidade». Essa
tradução é boa porque expressa a mesma idéia «geral» que o termo grego. O
I CORÍNTIOS 69
vocábulo «
pome» é a palavra grega que significa «prostituta», a qual, por
sua vez, também dá a entender todas as formas de impureza sexual. A
«pornografia», portanto, é aquela modalidade de literatura apropriada para
as prostitutas.
«...imoralidade tal...»Qual foi a natureza do pecado daquele membro da
igreja de Corinto? Paulo não usa a palavra «adultério», e isso talvez indique
que seu pai já era falecido. Mas já sabemos que, em vista do termo grego
«porneia» ter um sentido tão geral, que é possível que esteja aqui em vista o
adultério. O pai daquele homem, assim sendo, poderia ainda estar vivo; e
diversos intérpretes têm usado o trecho deIICor.7:12 a fim de mostrar que
ele realmente ainda vivia, tendo sido a pessoa ofendida nesse pecado. Mas
outros eruditos são de opinião que está aqui em vista um outro caso. Seja
como for, o trecho de Lev. 18:8 proíbe tais relações incestuosas com a
ameaça da pena de morte. É verdade, no entanto, que a maioria dos rabinos
judeus, da época de Paulo, não proibia tal casamento a um prosélito,
contanto que essa ligação se tivesse efetuado antes de sua conversão ao
judaísmo. Os prosélitos eram reputados recém-nascidos, e toda a sua vida
anterior era considerada como anulada. Portanto, se um prosélito não
tivesse parentesco de sangue com uma mulher, conforme certamente se
dava neste caso, então não cometia pecado por casar-se com ela.
Não obstante, alguns rabinos judeus, que formavam a minoria, não
concordavam com essa posição. E as próprias leis romanas eram contrárias
a esses casamentos incestuosos; mas em Corinto, uma depravada cidade
cosmopolita, tudo isso podia ocorrer facilmente, sem qualquer censura. A
única coisa de que podemos ter certeza é que a mulher não era a mãe
daquele homem, pois, do contrário, Paulo ter-nos-ia informado a respeito; e
a própria igreja de Corinto, por mais carnal que fosse, não teria tolerado tal
matrimônio da parte de um de seus membros.
O apelo de Paulo, no sentido que até mesmo os costumes gentílicos
proibiam tal erro, ao ponto de ser desconhecido tal caso entre eles, serve de
fortíssima indicação de que o pai daquele homem ainda vivia. Mas mesmo
que o pai daquele homem já tivesse falecido, embora tal comportamento
fosse abominável para Paulo, ele não poderia impressionar muito os seus
leitores com a impropriedade de tal ação, porquanto a literatura antiga
mostra-nos que tais coisas eram bastante comuns, sendo mais a regra do
que a exceção. Precisamos supor, portanto, que o pai do homem culpado
ainda estava vivo. A outra alternativa é que, tendo falecido o progenitor
daquele homem, Paulo exagera a gravidade do caso, como se ele não
pudesse esperar tanto apoio da parte de mentes gentílicas contra tal pecado,
conforme ele dá a entender que esperava.
Comparando esta passagem com o trecho de II Cor. 7:12, podemos tirar
tentativamente as seguintes conclusões:
1. A mulher não era a verdadeira mãe daquele homem, e, sim, sua
ex-madrasta, a qual poderia até mesmo ter sido uma concubina do pai do
indivíduo culpado.
2. Mas o pai daquele homem ainda vivia.
3. Deve ter havido alguma espécie de luta abominável, entre o pai e o
filho, por causa da mulher; e, nesse conflito, o filho terminou por ser o
«ofensor», ao passo que o pai foi o «ofendido».
Nesse caso podemos compreender a severidade das palavras de Paulo,
neste capítulo. É interessante que alguns intérpretes pensam que o
«ofendido» foi Paulo, ou mesmo Timóteo; mas essa é uma opinião que a
ninguém convence. (Ver as notas expositivas acerca de II Cor. 7:22, quanto
a detalhes sobre a questão). Devemos observar que Paulo não faz qualquer
censura à mulher; e, com base nisso, alguns estudiosos têm tirado a
conclusão de que não era ela uma crente.
No que diz respeito à questão do «matrimônio» e do «concubinato»,
precisamos admitir que muitos dos antigos, especialmente aqueles
pertencentes às classes mais humildes, não faziam clara distinção entre um
e outro estado; e essa forma de atitude persiste até hoje entre essas classes.
Para tais pessoas, usualmente pouca diferença faz se houve ou não alguma
cerimônia legal, se existe ou não um documento que confirme tal
casamento. Uma simples «companheira», para tais pessoas, também é
considerada esposa.
Essas formas de relação não eram proibidas entre vários povos-antigos,
como os hindus, os mouros, os bactrianos, os etíopes, os medos, os persas,
etc., entre os quais o casamento de irmão com irmã não era incomum. (Ver
Alex. ab. Alex. Genial. Dier. 1.1, cap. 24; Curtius, 1,8, cap. 2; Filo, de
Espeical. leg. p. 77. 8 ; Tertuliano, Apo., cap. 8 ; Clemente, Alex.
Paedagog., pág. 109; Orígenes, contr. Cels. 1.6, pág. 331). Os árabes
costumavam praticar essas relações incestuosas, até que foram proibidas
por Maomé. Ver também Cícero, pro Cluent., 6.15, e Eurípedes,
Hippolytus, onde aprendemos que as leis gregas e romanas, de forma geral,
reputavam essas relações incestuosas como uma infâmia.
Naturalmente, a impureza sexual pode existir nos pensamentos, e não
apenas nos atos. E, quanto a esse aspecto da questão, muitas pessoas
podem ser tão imorais como aquele membro da igreja de Corinto.
Senhores, se o que pensais
Deixasse úestígios claros,
Os divórcios eram mais
E os casamentos bem raros...
Senhores, houvesse espelhos
Para ver o que pensamos,
E beijáveis de joelhos
Toda a lama que pisamos.
(Augusto Gil, Pôrto, Portugal, 1873- 1929).
Variante Textual: As palavras, «...como nem mesmo é nomeada entre os
gentios...», aparecem nos mss Aleph(3), LP, sendo seguidos pela tradução
inglesa KJ. Mas essas palavras, «é nomeada», são omitidas pelos manuscritos
verdadeiramente antigos, como P(46), Alephjl), ABCDEFG, bem como por
todas as demais traduções usadas para efeito de comparação neste comentário
(um total de catorze—nove em inglês e cinco em português, acerca de cuja
identificação o leitor pode ver a lista de abreviações existentes na introdução
geral ao comentário). Essa adição consiste de leve glosa escribal, na tentativa
de esclarecer ainda mais o significado do versículo, embora não faça parte do
texto original.
2 καί υμείς πεφυσιωμένοι εστέ,α και ούγι μάλλον επ€νθτ]σατε,α ϊνα άρθγ) εκ μέσου ύμών ό το εργον τοΰτο
πράξας;α ααα 2 a minor, α minor, a question: TR WH Bov Nes BF2 (Zür) (Luth) jj a question, a minor, a question: RVn|s ASVni& TT jj a exclamation,
a minor, a exclamation: Jer Seg jj a exclamation, a question, a statement: RSV jj a exclamation, a minor, a statement: NEB jj a minor, a minor, a statement: AV RV ASV
5. 2 (eore,] ; Rm) ]ηραξαε (; Rm] · Rl) XA at] ποιησας j)46BDG pm Ç; R
O Textus Receptus,seguindo p4
6 B D F G L P Ψ 049 056 0142 maioria dos m inúsculos, diz ποιήσας, ao passo
que 7τράξαε figura em puV
U
i N ,A C 33 81 88 104 326 436 462 1912 al. O termo mais literário, ττράσσειν, ocorre 18 vezes nas
epístolas de Paulo; noutros trechos do N .T :, ocorre por 20 vezes (18 vezes em Lucas-Atos e 2 vezes em João). Já que o
verbo ποιεΐν ocortc quase seiscentas vezes no N.T., e já que a expressão woieiv epyov era muito familiar aos copistas do N .T .,
mais provavelmente teriam substituído 7rpá£as por ποιήσας e não vice-versa.
tornam culpados de tais pecados, somos ordenados a nem ao menos comer
em companhia deles. Quanto a certos casos extremos, Paulo parece ter tido
a autoridade espiritual de entregar até mesmo a Satanás um irmão ofensor,
visando a destruição da carne, isto é, a morte física. Isso era uma medida
disciplinar de punição; e a remoção de uma pessoa assim culpada, da face
da terra, não mais permitiria que o ofensor continuasse prejudicando a
comunidade dos santos com sua vida pecaminosa, eliminando-a como uma
desgraça para o nome de Cristo. Mas não tinha por intuito retirar de tal
ofensor a salvação de sua alma. (Ver o quinto versículo deste mesmo
capitulo). Essa ação, entretanto, foi efetuada com base na autoridade
apostólica, autoridade essa que não podemos reivindicar para nós mesmos.
E tudo isso, por sua vez, mostra-nos quão seriamente Paulo considerava a
questão da ética cristã, da conduta ideal dos crentes, e quão profünda era a
sua sensibilidade para com certos pecados que, no seio da moderna igreja
evangélica, se tornaram extremamente comuns.
Mas a sensibilidade de Paulo para com certos pecados é plenamente
justificada quando consideramos que o grande alvo da vida cristã é a nossa
«transformação moral», conforme o modelo e exemplo de Jesus Cristo,
transformação essa que, por sua vez, produz a transformação «metafísica».
E isso significa que à medida em que formos sendo moralmente
transformados por ação do Espírito de Deus, também começamos a assumir
a natureza real do Senhor Jesus. O alvo desse grandioso processo é a
perfeição absoluta, a participação na própria natureza divina. (Ver Rom.
8:29; Efé. 3:19). É do mais alto interesse dos crentes, pois, que se mostrem
muito estritos quanto às questões morais, tendo a cautela de evitarem
pessoalmente os pecados de toda a sorte, mas sobretudo aqueles de
natureza degradante, que sempre caracterizaram os povos pagãos, embora
tais povos possam ter pouca ou nenhuma consciência da gravidade de seus
excessos.
5:2: E vós estais inchados? e nem ao menos pranteastes para que fosse tirado do
vosso meio quem praticou esse mal?
O verbo grego original, por detrás da tradução «.. .ensoberbecidos...», é o
mesmo verbo que é usado por várias vezes nos capítulos anteriores desta
mesma epístola. (Ver as notas expositivas a respeito, em I Cor.· 4:18).
Aqueles crentes de Corinto se sentiam «inchados», «arrogantes». Esse verbo
grego aparece por sete vezes nas páginas do N.T., seis vezes somente na
presente epístola: I Cor. 4:6,18,19; 5:2; 8:1 e 13:4. A única ocorrência fora
deste livro fica em Col. 2:18.
Sim, aqueles crentes de Corinto se vangloriavam de sua suposta grandeza
humana e de sua sabedoria terrena. (Ver I Cor. 1:18-21,25). Gloriavam-se
no homem e na carne (ver I Cor. 1:29). Tinham a aparência de sabedoria e
de espiritualidade, talvez até com a sobrecarga de poderes miraculosos;
mas, na realidade, eram crentes «carnais», meras crianças na fé. (Ver I Cor.
3:1,2). Em seu orgulho, tinham provocado divisões e facções, selecionando
heróis humanos, e haviam maculado a alva imagem de Cristo, tanto dentro
como fora da igreja cristã. (Ver I Cor. 3:3,4). De acordo com o caráter
espiritual em geral daqueles crentes, também toleravam, ou talvez pelo
menos ignoravam, sem qualquer arrepio na consciência, tão grosseira
imoralidade entre eles. Fingiam serem discípulos especias de Cristo, mas
diferiam bem pouco dos pagãos ao seu derredor, e haviam introduzido
maus costumes na comunidade cristã.
Em violento contraste com essa lassidão de costumes, própria de Corinto,
o apóstolo Paulo exigiu a imediata exclusão daquele membro culpado,
conforme este capítulo nos mostra. (Ver também II Tes. 3:6). Contudo, o
décimo primeiro versículo deste mesmo capítulo inclui outros pecados sérios
que interrompiam eficazmente a comunhão entre os crentes daquela igreja
local, como a cobiça, a idolatria, o alcoolismo, etc. Com aqueles que se
70 I CORÍNTIOS
Importância Da Moralidade
1. O lado ético do evangelho não é uma questão à parte da salvação, pois,
pelo contrário, faz parte integrante da própria salvação; pois, sendo a
santificação, ninguém jamais verá a Deus (ver Heb. 12:14).
2. A santificação é a continuação e fruição da conversão, bem como o
começo da glorificação, porquanto a transformação metafísica é efetuada
através da transformação moral. (Ver as notas completas sobre a
«santificação», em I Tes. 4:3).
3. A santidade de Deus vai sendo formada em nós, de modo a atingirmos
as suas perfeições (ver Mat. 5:48) e a compartilharmos de suas virtudes
morais positivas (ver Gál. 5:22,23). Isso é algo que a nossa salvação produz
como mero resultado. E a própria concretização da salvação em nós, em
suas operações.
«...lamentar...»Está aqui em foco a lamentação que se faz por um morto,
o que expressa tristeza profunda, que conduz ao arrependimento, conforme
encontramos em II Cor. 7:9,10. Pode haver profunda tristeza quando o
indivíduo vê verdadeiramente a si mesmo, quando percebe como tem
desobedecido aos seus próprios ideais, quando nota que tem ficado muito
aquém do seu dever, envolvendo-se em pecados, em ações errôneas que
talvez até muitos dos próprios ímpios relutassem em praticar. A verdadeira
tristeza só ocorre mediante a operação do Espírito Santo no íntimo, o qual
nos convence de quão pecaminoso é o pecado. Sem essa atuação do Espírito
de Déus, podemos racionalizar facilmente quaisquer situações encon­
trando desculpas para as nossas atitudes e desconsiderando nossos pecados,
como se fossem faltas leves e superficiais. Assim age o homem, sem a
influência do Espírito de Deus.
Ora, aqueles jactanciosos crentes de Corinto compartilhavam da atitude
comum aos pagãos ordinários. Não somente praticavam coisas dignas de
morte; mas igualmente sentiam prazer naquelesique praticavam a
iniqüidade, no dizer do trecho de Rom. 1:32.
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas da virtude satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes.
E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.
(Olavo Bilac
★ ★ ★
απων
,6
τώ σώματι παρών 8è τώ πνεύματι, ηδη κεκρικα ώς παρών τον οϋτως τούτο
6b 3-4 b none, b minor: TR WH (RSV) jj b major, b none: NEB Zür Luth Jer jj b major, b minor: TT Seg // b minor, b minor: AV RV ASV
3 απων] praem cos G pm it Mcion ς
■
i €γω μεν γαρ
κατεργασαμενον
jj b none, b none: Bov Nes BF2 3 ίχ-ττών...πνεύματι Col 2.5
5:3: Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espirito, já
julguei, como se estivesse presente, aquele que cometeu este ultraje.
A sentença baixada por Paulo foi extremamente severa, e só pode ter sido
sugerida e proferida mediante a sua autoridade apostólica. Essa sentença é
virtual condenação à morte, às mãos de Satanás. (Ver o quinto versículo
deste mesmo capítulo). Podemos concluir que a menos que Peus nos
envolva com a sua proteção, as forças do mal certamente nos consumiriam.
(Ver as notas expositivas sobre o quinto versículo deste capítulo). Paulo não
tinha dúvidas acerca do que fazia e do que estava prestes a ser feito. Já havia
proferido a sentença in absentia, e essa sentença importava em severo
julgamento. Notemos que o bem-estar da comunidade dos crentes, como
representante de Cristo no mundo, onde se faz uma busca séria pela pessoa
de Deus, é mais importante do que a vida «física» de um de seus membros.
Observe-se, por semelhante modo, que Paulo não estava falando acerca da
alma. (Ver o quinto versículo deste capítulo). Pois o progresso espiritual é
muito mais importante do que a vida física, verdade essa verbalmente
reconhecida na igreja, mas que, na realidade, dificilmente é levada a sério.
«Acomunidade cristã precisava purificar-se excluindo o membro ofensor.
Neste ponto, a própria linguagem de Paulo enfatiza o seu senso acerca de
sua posição apostólica. Ele dá a entender que a congregação cristã se
reunira, e que ele mesmo estava presente em espírito; e então, com
profundo senso de autoridade e de responsabilidade, ‘no nome do Senhor
Jesus’, Paulo baixa severa sentença de expulsão contra o ofensor. Enquanto
tal elemento tiver permissão de permanecer entre eles, poria em risco a vida
e o testemunho da igreja local. Essa responsabilidade pelos lapsos morais,
não podia ser confinada exclusivamente ao próprio culpado! Eles mesmos
estavam prestes a levar ao opróbrio a igreja inteira... Precisamos notar que
Paulo é o herdeiro de suas próprias tradições judaicas, quanto a esse
particular. Existem precedentes, na história dos hebreus, para essa
exclusão e castigo, contra aqueles que cometessem ofensas contra a nação.
(Ver Esd. 10:8). Aquele indivíduo, pois, havia pecado contra o bom nome e
o testemunho da comunidade cristã; a todo custo ele precisava ser
expulso». (John Short, in loc.).
Naturalmente, estava em jogo muito mais do que meramente a reputação
da igreja local de Corinto. A questão em foco era o próprio alvo da vida
cristã. A santidade moral é algo necessário para que o crente seja
transformado segundo a imagem moral e metafísica de Jesus Cristo.
«...em espírito...» Paulo queria referir-se ao seu próprio espírito, e não ao
Espírito Santo. Comparar essa declaração com o quarto e o quinto
versículos deste mesmo capítulo. (Ver também I Cor. 2:11 e Col. 2:5, onde
encontramos declarações similares). O espírito humano é verdadeiramente
capaz de viajar separado do corpo, até mesmo quando os homens ainda
estão vivos, conforme se verifica no décimo segundo capitulo da segunda
epístola aos Coríntios. Isso também tem sido demonstrado nos tempos
modernos, sendo atualmente assunto de investigação nas universidades.
Aqui, entretanto, embora Paulo certamente estivesse familiarizado com
esse fenômeno, o apóstolo fala de modofigurado. Queria Paulo que aqueles
crentes soubessem que a sus. alma estava com eles, que o seu homem
essencial se interessava profundamente por eles, bem como pela ordem
correta naquela igreja local, embora estivesse distante deles, no que
concerne à presença física.
Paulo falou com uma linguagem poética, a fim de frisar a sua
preocupação espiritual pelo progresso daqueles crentes em Cristo. Não
obstante, essa expressão mui provavelmente é mais do que poética. Diz
Findlay, in loc.·. «O espírito do apóstolo Paulo, iluminado e vivificado,
conforme inquestionavelmente se verificava, deve ter sido dotado pelo
Espirito divino, em determinadas ocasiões, com um discernimento além do
ordinário, acerca do estado de uma congregação cristã, à distância.
(Comparar com os trechos de João 1:48; II Reis 5:26)».
Tal discernimento é similar ao dom do «discernimento de espíritos» (ver I
Cor. 12:10 e as notas expositivas ali existentes). Paulo percebeu claramente
a questão envolvida, bem como o que deveria ser feito. Por isso é que disse
«...Eu...», de maneira enfática, em contraste com «vós», (oculto e
subentendido), isto é, em contraste com os crentes de Corinto, que eram
lassos e embotados em seu entendimento espiritual.
4 iv τώ ονόματα του κυρίου [ημών ] Ί η σ ο ν',b συναχβέντων ΰμών καί του εμοΰ πνεύματος0 συν τη
δυνάμει τοΰ κύριον ημών ’Ιησού,0
14 {D } ήμων Ίησον Β D* 1739 itd // Ίησον Α Ψ 2495 syrh eth'° Lucifer // .
'Ιησού Χρίστου Ν U ήμων Ίησον Χρίστον ρ4β D° G Ρ 33 88 104 181 326
330 436 451 614 629 630 1241 1877 1881 1962 1984 1985 2127 2492 Byz Led
j^ar.e.(,g.χ,ζ Vg syrp.h with · CO
p*ft-bo goth arm ethpp Adamantius Ambrosiaster
Basil Chrysostom Theodoret John-Damascus // Ίησον Χρίστου τον
κυρίου ημών 8 1 .
cc 4 c none, c minor: WH Zür Luth jj c minor, c minor: TR AV RV ÀSV RSV NEB TT Jer Seg jj c none, c none: Bov Nes BF2
4 σ ν ρ ...Ί η σ ο ν Mt 16.19; 18.18; 2 Cor 13.10 4 ·ημω ν om J)48P l 6 l l IJ 3 Ç Or
Segundo o solene caráter do discurso, o Textus Receptus, seguindo Ρ (46) D (c) G P 33 614 Byz Lect it (g,6l) vg sir (p,h com*)
cop (sa,bo) gót ara etí (pp), expande m ediante a adição Χριστοί) após Ίησον, e 81 transpõe para dizer
* T v i Λ - Λ 1 I Y λ I Λ "/ ^ λ Γ ι ι / ι ι η ί η ι ι .Λ . C a Λ ι .
Ίησον Χρίστον τον κνρίον ημών. Se ημών foi adicionada por copistas, ou foi acidentalmente omitida
por vários testemunhos (A Ψ 108 1611 2495 sir (h) etí (ro) Lúcifer) é difícil decidir. Com base no testemunho de B D* 429 918
1175 1739 1836 1898 it (d), a comissão reteve o termo no texto, mas entre colchetes, para indicar a medida de dúvida quanto-a
seu direito de permanecer aqui.
5:4: Em none de nono Senhor Jesus, congregados vís e o meu espirito, pelo poder
de nosso Senhor Jesus,
As palavras «...em nome...» dão a entender, pela autoridade, conforme
tudo quanto está implícito nesse nome, especialmente a santidade e a
propriedade, o que faz contraste com as práticas errôneas e com a desordem
moral.
«...com o poder...» são palavras que reforçam, pela segunda vez, dentro
de uma mesma sentença, a autoridade mediante a qual aquela reunião
deveria ocorrer, e por decisão da qual a exclusão deveria ser proferida.
(Quanto ao tema neotestamentário, «orações em nome de Jesus Cristo», ver
I Cor. 16:23. Essas notas expositivas também abordam o tema daqueles que
são chamados «pelo nome de Cristo», onde a expressão «em nome de», é
esclarecida). Essa expressão pressupõe a realidade do indivíduo cujo nome é
nomeado, a realidade de sua presença e interesse pela igreja, a realidade de
sua atividade em favor de seus discípulos, e a sua autoridade entre eles, o
Senhor Jesus Cristo. Também indica a sua «identificação» com os homens, o
que só pode verificar-se através da comunhão mística com o seu Espírito
Santo, o qual une os homens com ele mesmo, em suas vidas diárias e em seu
destino final. Mas o poder de Jesus também dá a entender o «seu Santo
I CORÍNTIOS
Espírito», visto que o poder de Cristo só é conhecido entre os homens através
do «alter ego» de Cristo, o Espírito Santo. Assim, a reunião que Paulo
convoca para os crentes de Corinto, estando ele também presente em
espírito, era inspirada e orientada pela influência do Espírito de Deus, a fim
de que aquele membro canceroso da comunidade cristã daquela cidade
fosse removido.
Também não se deve perder de vista o fato de que essa disciplina deveria
ser executada pela congregação inteira, o que subentende uma ação
democrática. Outro tanto se aprende no trecho de Mat. 18:15 e ss., onde é
lançada luz sobre a questão da disciplina no seio das congregações cristãs
locais. Nenhuma pessoa isolada, e nem mesmo alguma junta de anciãos ou
diáconos pode arrogar-se o direito de dar solução a um caso deles, por
tratar-se de questão seríssima. A solução deve ser encontrada pela igreja
inteira. Somente se houver um julgamento apropriado, em que o acusado
recebe o direito de defender-se, é que as instruções de Paulo, aqui dadas,
podem ser cumpridas de forma satisfatória, no que tange aos casos de
exclusão de membros. O voto conjunto da congregação local inteira
impressiona ao acusado, e pode levá-lo ao seu arrependimento. E perceberá
o tal que não se tratava de um pequeno grupo de dirigentes, dentro da
congregação, que tomou tal deliberação, sem o apoio da congregação
inteira.
A expressão em nome de tem sido compreendida em conexão com vários
elementos diferentes deste versículo, a saber:
1. Alguns pensam que pode ser compreendida como ir com aqueles
crentes, quando «se reunissem». Isso seria feito em nome de Cristo.
2. Outros são da opinião que pode ser vinculado ao «poder», isto é, o
poder estaria no «nome de Cristo».
3. Ainda outros pensam que pode ser vinculada a «entregar», isto é, à
entrega a Satanás, isto é, uma entrega «no nome de Cristo».
4. Também há aqueles que opinam que «em nome de» significa «no poder
de» ir e de reunirem-se juntamente.
5. Por semelhante modo, há quem pensa que «em nome de» esteja
vinculada a «vos reunis» e «no poder», com «entregar».
6. Finalmente, a expressão em nome de poderia estar vinculada a
«entregar» e a «no poder de», com «vos reunis». Intérpretes diversos
concordam com uma ou outra dessas diversas possibilidades. O mais
provável, entretanto, é que as palavras «em nome de» estejam vinculadas a
«vos reunis», ao passo que «no poder de» esteja ligada a «entregar». Isso é
mais natural para o sentido e para a ordem de palavras do presente
versículo. A quinta dessas possibilidades, portanto, seria a idéia correta.
O «poder» que há no Espírito Santo é real. Esse poder pode, de ‘fato,
«entregar» um homem a Satanás, conforme lemos no versículo seguinte.
Trata-se de um poder espiritual que se mostra ativo e eficaz. E isso envolve
uma soleníssima verdade para nós.
No entanto, Alford [in loc.) expressa ainda uma outra maneira de
entender o arranjo deste versículo, segundo ele pensava ter sido a intenção
de Paulo, e conforme a seguinte tradução parece indicar: «Tenho decretado,
no nome de nosso Senhor Jesus, que quando vos reunirdes, juntamente ao
meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo...» Contudo, isso é
injetar neste versículo um elemento estranho, isto é, o «decreto» de Paulo,
fazendo-o estar ligado «ao nome de», como se o decreto do apóstolo tivesse
sido baixado por intermédio do mesmo, a saber, mediante a autoridade de
Cristo, que teria apoiado a decisão de Paulo. Não há que duvidar que isso
também é verdade, mas a expressão «em nome de» está muito mais
naturalmente vinculada à «reunião» daqueles irmãos, o que, naturalmente,
já era uma idéia bastante comum nas páginas do N.T. (Quanto a notas
expositivas sobre Jesus como «Senhor», e sobre como esse conceito é
apresentado no N.T., ver o trecho de Rom. 1:4. Quanto aos vários tipos de
«exclusão», entre os judeus—visto que havia diversas modalidades de
exclusão—ver João 9:22. Quanto à «exclusão entre os cristãos, ver Mat.
18:15-17). Neste e no versículo seguinte, está envolvida uma exclusão mais
do que comum, porquanto está em foco uma maior severidade, que
certamente só podia ser devidamente exercida mediante a autoridade
apostólica. Nenhum mero grupo de crentes tem o direito de entregar quem
quer que seja a Satanás, para que seja morto, ainda que tenham o direito de
excluir àqueles que errarem.
«...e o meu espírito...» Tal como no versículo anterior, Paulo se refere
novamente ao seu próprio espírito humano. A sua autoridade apostólica, a
sua decisão e decreto, nesse caso, deveriam ser influências orientadoras na
convocação da reunião que fariam, sobre a maneira de proceder e sobre a
decisão a que aqueles crentes chegassem ali. A influência moral e a
autoridade apostólica de Paulo, por conseguinte, haveriam de dar-lhes
apoio em tudo quanto fizessem. Os crentes de Corinto não estavam sozinhos
quanto à questão, mas antes, podiam contar com a elevada autoridade
apostólica de Paulo, para aquilo que estavam prestes a fazer. Assim sendo,
pois, Paulo estaria com eles, controlando as suas ações, ainda que não
estivesse fisicamente presente.
τ ο π ν β ϋ μ α σ ω θ η iv rrj η μ έ ρ α τ ο υ
5 παρα&οΰναι τον τοίοΰτον τψ Σ α τα νά eis oXedpov rfjs oapKÓs
κυρίου2.
2 5 {C[ κυρίου ρ4
δ Β 630 1739 M arcion Tertullian OrigenKr4/5lal M anes
Eusebius H ilary Pacian Epiphanius Jerom e A ugustine // κυρίου Ίη σου
K Ψ 81 181 326 614 1877 1985 2492 .2495 B yz L ed vgww syrh goth O rigeniat
Basil Chrysostom Augustine E uthalius Ps-Oecumenius Theophylact //
κυρίου Ίησου Χ ρίστου D 1984 jtd'dem,”<
i·0 A m brosiaster // κυρίου ημών
5 παρα δουνα ι...σα ρκός 1 Tm 1.20: 1 Pe 4.6
D Ambst: add ημων L Xp, AG 6g al c vg8»cl syp
A forma que melhor explica a origem das outras é κυρίου, bem confirmada por antigos e importantes manuscritos e pais. «O
nome ‘
Jesus’ é usado por duas vezes no versículo anterior: razão suficiente para Paulo não escrevê-lo, e para os escribas
adicionarem-no aqui». (1)
1. G. Zuntz, The Text of the Epistles (Londres, 1953), pág. 184.
Ίη σ ο ν 048’”d? copb°ms eth jj κυρίου ημών Ίη σο υ Χ ρίστον A G Ρ 33 88 104
330 436 451 629 1241 1881 1962 2127 vgcl syr»·1
· 'vith ’ cop»-·»»
arm OrigenKrl/5-iflt Lucifer Ephraem Ambrose Chrysostom Pelagius Theo­
dore Theodoret John-D am ascus
5 Kvpiov pi6B 173) Mcion Tert O r; Rm] add Ιησου íí pm 'rgwç ; R*: add Ιησ. Χρίστου
5:5: seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espirito seja salvo
no dia do Senhor Jesus.
(Quanto a notas expositivas completas sobre a «personagem de Satanás»,
ver Luc. 10:18 e João 8:44. Quanto a Belzebu, um dos títulos de Satanás,
ver Mat. 10:25 e Luc. 10:18. Quanto aos «demônios», ver Marc. 5:2). A
palavra «. ..Satanás...» significa «adversário». Ele é o nosso grande
adversário, a personificação mesma do princípio do mal, o inspirador da
maldade nos homens e nos seres angelicais. Satanás se apresenta como se
fosse «luz», embora os seus desígnios sejam sempre perniciosos. O mais
provável é que ele se julgue justíssimo, sempre justificando-se por aquilo
que ele considera causas justas. E aqueles que servem a Satanás também
usualmente se iludem a si mesmos; e em nome de Satanás, embora isso não
seja sempre reconhecido, muitas «causas» são fomentadas, muitas das
quais, segundo todas as aparências, são direitas ejustas. Porém, o resultado
de todas essas atividades malignas é prejudiciais para os que as praticam.
(As notas expositivas acima aludidas procuram dar idéia sobre a natureza e
as atividades de Satanás).
Satanás, que era chamado Lúcifer, antes de sua queda, exercia grande
domínio e poder, o que fica comprovado pelo fato que nada menos de um
terço dos seres angelicais preferiu segui-lo, ao invés de seguirem ao Senhor
Deus. Isso mostra algo acerca da magnitude de seu ser e influência. A
história da humanidade, através dos séculos, é essencialmente a reversão,
• operada por Deus, dos maus efeitos da queda de Satanás e seus anjos, no
que arrastou também o homem. Em uma escala universal, a tarefa de Deus
consiste em convencer, a todos os seres inteligentes, que seguir a Satanás é
precipitar-se em desastre. Os seres inteligentes precisam ser reaproximados
de Deus, embora espontaneamente. Precisam reconhecer quão justo e
vantajoso é o caminho de Deus. Contudo, é preciso um tempo incrivelmente
longo para convencer os seres inteligentes acerca dessa questão, para o que
se fazem necessárias muitas lições objetivas. Esse período incrivelmente
longo é a própria história do mundo.
Com base no presente versículo aprendemos que Satanás, por permissão
divina, exerce bem definido controle sobre a morte, podendo ele atingir aos
próprios crentes, a menos que vivam sob a proteção do Senhor Jesus Cristo.
O Poder De Satanás
1. Esse poder lhe foi permitido, mas é bem real. Satanás conseguiu
conquistar grande parte da população celestial (ver Apo. 12:4), e
atualmente é o deus deste mundo (ver II Cor. 4:4).
2. Ele encabeça um numeroso exército de forças espirituais malignas (ver
Efé. 3:11 e ss.), e esses seres exercem poder e domínio sobre os homens.· Daí
se deriva a imensa malignidade de muitos seres humanos.
Uma das tendências dos indivíduos materialistas, que supostamente têm
u ’a mente «científica», consiste em negar a existência de poderes
metafísicos, de origem boa ou má. Mas alguns tipos dos chamados
«médiuns» não estão em suposto contacto benéfico com os mortos. Nem ao
menos tentam manipular «bons espíritos», pondo-os a trabalhar em favor
dos homens, no tocante a curas e aconselhamento sobre problemas em geral
(conforme é a atividade de muitos desses «médiuns», que parecem ter um
propósito hum anitário sincero, embora equivocado); pelo contrário,
manipulam, com bastante sucesso, forças malignas e demoníacas.
Tornam-se cooperadores das forças malignas, cujo canal é o poder de
Satanás. E assim, embora esses «médiuns» talvez não entrem em contacto
direto com o próprio Satanás, o qual é uma «pessoa», são capazes de
manipular espíritos decaídos, angelicais ou humanos, ou mesmo ambos.
O mundo dos espíritos: As Sagradas Escrituras por toda parte atestam
sobre a realidade do mundo dos espíritos. Ali é ensinada a existência de
certa hierarquia de seres angelicais, principados, poderes, potestades,
domínios... Existem seres espirituais bons e maus, e hierarquias paralelas
existem em ambos esses campos. Ver notas sobre demônios em Mat. 8:29.
As forças da maldade, de natureza espiritual, imaterial, são bem reais.
Satanás é o deus dessas forças do mal, as quais atuam como seus agentes.
72 I CORÍNTIOS
Já sabemos que esse poder satânico tem a capacidade de atingir
adversamente as vidas dos homens, podendo até mesmo levar os homens à
morte física. Esse poder será certamente exercido pelos espíritos malignos,
exceto quando um homem está sob a proteção do Senhor Jesus Cristo.
Desfrutamos dessa proteção quando aceitamos a Jesus Cristo como nosso
Senhor; e podemos perdê-la quando desconsideramos o senhorio de Cristo.
Por essa razão é que, em Corinto, Paulo disse que determinado membro da
igreja cristã local perderia a proteção de Cristo, e que a sua vida física
ficaria à mercê dos poderes malignos, controlados por Satanás, a fim de que
aquela comunidade cristã fosse purificada e santificada, ao mesmo tempo
que aquele indivíduo culpado seriá poupado da perdição eterna.
«...destruição da carne...» Como Devemos Compreender Tudo Isso?
1. Os casos de Ananias e Safira e do poder que Paulo mostrou por infligir
a cegueira (ver Atos 5:5,10 e 13:11), não são análogos, pois parece não ter
havido a entrega de tais indivíduos aos poderes malignos nesses casos, de
modo que as pessoas sofressem detrimento. Algum poder divino direto
esteve envolvido nesses casos.
2. Paulo tinha um «espinho» na carne, e que ele atribuía ao poder de
Satanás, talvez algum problema ocular (ver Gál. 7:11). Não estamos certos
quanto à natureza desse problema ocular, embora alguma força maligna
sem dúvida estivesse ativa. Por semelhante modo, o livro apócrifo de
Jubileus retrata os poderes demoníacos a infligirem a cegueira aos homens,
além de os perverterem moralmente. Não há que duvidar que os poderes
demoníacos podem fazer tais coisas.
3. Satanás (juntam ente com seus auxiliares) exerce poder sobre os
homens com o intuito de causar-lhes dano. Ele é o tentador, pelo que lhes
inflige dano moral, mas também pode ser a causa de enfermidades físicas
(ver II Cor. 12:7 e I Tes. 2:18. Ver também Jó 2:6). Satanás é quem governa
este mundo (ver João 12:31 e 16:11), e pode fazer quase qualquer coisa, a
menos que Deus lhe barre o caminho ou ordene que algum dos seus
ministros (algum poder angelical) passe a proteger os homens.
4. Por conseguinte, é perfeitamente possível que um homem venha a ser
morto por uma força espiritualmente maligna (Satanás ou algum poder
demoníaco), uma vez retirada a proteção que Deus confere aos homens. No
texto presente, a «entrega a Satanás» parece indicar que a proteção natural
dada àquele indivíduo imoral seria retirada, para que se tomasse vítima
fácil de forças malignas.
5. A destruição da carne é a morte física. Esse juízo, por si mesmo,
juntamente com outrosjulgamentos menores anterior'es, teriam presumivel­
mente o efeito de levar o homem ao arrependimento, o que o libertaria de
sua grande maldade moral.
6. No presente texto não há qualquer indicação de que a igreja, em
qualquer época da sua história, tenha o poder de fazer o que encontramos
aqui, talvez excetuando em casos muito extremos, como a remoção de
grandes perseguidores ou pervertedores da igreja e seus membros. Existem
paralelos contemporâneos, mas o assunto todo deveria ser abordado com
cautela extrema, a fim de que a igreja não viesse a tornar-se um centro de
anátemas mágicos, como aqueles que caracterizam o paganismo.
7. Neste caso estava envolvida a autoridade apostólica, e muitos paralelos
modernos talvez se ressintam da ausência de real autoridade ou direito.
Jxistem pecados que levam à morte (ver I João 5:16); mas Deus é que é o
Juiz dessas coisas, a menos que, mediante algum sinal ou necessidade
absoluta, a igreja perceba que alguma pessoa deva ser assim removida da
face da terra. Sou do parecer que, nesse caso, deveria haver alguma ação
tomada pela igreja inteira. Dificilmente meros indivíduos poderiam tomar
sobre si mesmos tão horrível responsabilidade. Pois eles mesmos podem
tornar-se vítimas de poderes demoníacos.
«...a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus...» O
julgamento focalizado neste versículo, embora muito severo, serviria de
remédio. Antes de tudo, porque assim a comunidade cristã local seria
purificada de um elemento deletério. Em segundo lugar, porque, em certo
sentido, isso livraria a alma do crente ofensor da perdição, garantindo assim
a sua «salvação», o que, neste versículo, certamente dá por entender a
salvação da alma, conferida mediante a confiança em Cristo Jesus. Essa
expressão subentende os pontos seguintes:
1. A alma daquele homem se perderia, a menos que alguma medida
preventiva de drásticas proporções fosse tomada. (Quanto à totalidade do
problema da «segurança dos salvos», ver as notas de sumário sobre Rom.
8;39). A posição tom ada por este comentário é que uma alma pode
perder-se temporareamente, depois de salva, mas que a segurança final é
uma verdade bíblica indiscutível. Em outras palavras, a queda é seiripre
«relativa». Pode ocorrer; mas a promessa de Cristo é que nenhuma de suas
ovelhas pode vir a perder-se finalmente. Portanto, em algum ponto, ao
longo do caminho, nesta vida terrena ou na outra, Cristo trará de volta as
suas ovelhas. Assim sendo, um crente é passível de praticar pecados graves,
chegando mesmo à beira da apostasia; mas finalmente, em algum ponto,
será trazido de volta aos pés do Salvador. (Os diversos outros pontos de vista
sobre a questão aparecem nas notas expositivas sobre Rom. 8:39).
2. Embora a alma possa vir a perder-se, devido a pecados grosseiros, o
Senhor, contudo, preserva aqueles que lhe pertencem. Assim também, no
caso aqui focalizado, o próprio juízo proferido teve por finalidade impedir a
perda de sua salvação.
3. Este versículo, para alguns serve de uma espécie de consolo pervertido.
Isto é, um crente pode cair em pecados grosseiros, e ainda assim será salvo,
não perdendo a sua salvação. Mas somente Deus pode ser um juiz adequado
em toda essa questão. Somente o Senhor sabe quem realmente pertence a
ele.
4. Mas há consolos autênticos aqui. Pois embora Deus ocasionalmente
seja forçado a punir severamente às suas ovelhas, tais punições não são
meramente retributivas, mas também disciplinares e benéficas, porque
Deus busca a quem lhe pertence. As passagens de I Ped. 3:18-20 e 4:6
mostram-nos que o castigo eterno, imposto aos incrédulos, terá o mesmo
caráter. Pensar desse modo, pois, não é nenhuma heresia, a menos,
naturalmente, que estejamos preparados a chamar o apóstolo Pedro de
herege.
Não há a menor base para confrontar esta passagem com várias fórmulas
de encantamentos mágicos, que supostamente podem causar dano ou
mesmo a morte física. A igreja de Corinto não teria de passar por qualquer
processo de bruxaria. Tinham meramente de remover a proteção divina
daquele homem, e as forças malignas fariam o resto. Também não devemos
pensar que algum poder especial, emanado do próprio Paulo, infligiria tal
punição. (Acerca da suposta seqüência deste caso, que resultou em exclusão
e posterior arrependimento, ver o trecho de II Cor. 2:6, que expõe os
argumentos contra e a favor da vinculação entre esses dois casos de
disciplina).
«...carne...», no original grego é «sarks». Essa palavra grega pode
referir-se acr corpo, à natureza física, e.não somente à natureza ética carnal.
Portanto, a morte física pode estar em foco neste versículo, e não
meramente o expurgo de determinadas tendências carnais. Qualquer bom
léxico ou concordância do grego dará as referências onde essa palavra é
usada, com o sentido aqui salientado.
Princípios De Disciplina
1. Os ministros do evangelho estão autorizados a estabelecer a disciplina
nas igrejas (ver Mat. 16:19 e 18:18).
2. Estas são as suas características:
a. É preciso que mantenha a sã doutrina (ver I Tim. 1:13).
b. Deve ser uma linha mestra para a ação (ver I Cor. 11:34 e Tito 1:5).
c. É mister que repreenda aos ofensores (ver I Tim. 5:20).
d. Deve remover os ofensores obstinados (ver I Cor. 5:3 e ss. e I Tim.
1:20).
3. O homem espiritual submete-se à disciplina (ver Heb. 13:17).
4. Seu propósito é edificar os crentes (ver II Cor. 10:8).
5. Deve estabelecer a boa ordem e a decência (ver I Cor. 12:40).
6. O amor cristão deve ser seu guia padrão (ver II Cor. 2:6-8).
Teria sido apropriada a ação de Paulo? O que Paulo sugeriu aqui tem
bases morais? O Senhor Jesus teria agido da mesma maneira? Tais
indagações geralmente são levantadas devido a uma preocupação excessiva
pelo bem-estar do corpo físico, paralelamente ao grande desinteresse pelo
bem-estar da alma. Paulo sabia que seus leitores originais estavam sujeitos
a severojulgamento cósmico (ver o final deste versículo e o terceiro capítulo
desta epístola). Preocupava-se intensamente ante isso. Outrossim, devido
ao seu conhecimento intuitivo e por inspiração, sabia o apóstolo que aquilo
que ele havia proposto era necessário para a salvação dá alma daquele
homem.
«...no dia do Senhor...» Essa expressão eqüivale a «no dia de Cristo»,
porque «Senhor», nessa expressão, significa «Cristo». (Ver Rom. 1:4 e as
notas expositivas ali existentes, sobre esse uso nas páginas do N.T.). Paulo
se refere à segunda vinda de Cristo, à ressurreição, ao julgamento que se
seguirá, conforme aprendemos em I Cor. 3:13. (Ver também I Cor. 1:8,
onde Paulo mostra o seu interesse pelo bem-estar daqueles crentes, no «dia
de nosso Senhor Jesus Cristo». Ali são apresentadas notas sobre essa
expressão). Paulo, pois, via esse julgamento como algo escatológico, e não
como algo que vai ocorrendo à proporção em que cada crente morre. Mas
pode haverjulgamentos em ambas essas ocasiões, a da morte do indivíduo e
a do 2o advento de Cristo. Ver notas sobre este conceito em I Ped. 4:6.
Variante Textual: A expressão «dia do Senhor», aparece também sob certa
variedade de formas, como «dia de Jesus» (conforme dizem os mss Aleph, L e
muitos manuscritos gregos posteriores), «dia de Jesus Cristo» (que e como
dizem os mss DE), «dia de nosso Senhor Jesus Cristo» (segundo se lê nos mss
AFGP, em algumas versões da Vulgata latina, e no Si(p). O verdadeiro texto,
entretanto, o qual também explica a existência das variantes, diz simplesmente
«dia do Senhor», conforme aparece nòs mss P(46), B, 1739 e nos escritos do pai
da igreja Márciom. Esse título simples foi modificado variegadamente a fim de
identificar Cristo de várias maneiras, ou seja, como «Jesus», como «Jesus
Cristo» e como «nosso Senhor Jesus Cristo». Seja como for, a palavra
«Senhor», que aqui aparece, e conforme já dissemos, significa «Cristo».
Somente Jesus Cristo, por ser o Senhor de todos, é quem pode julgar aos
homens. (Quanto a notas expositivas sobre «Cristo como Juiz», ver Atos
17:31).
6 Ου καλόν το καύχημα υμών. ούκ οΐδατε cm μικρά ζύμη δλον το φύραμα ζυμοϊ;
6 ούκ.·Χνμ.οϊ Ga 5.9 6 Ου] om Lcf Ambst, codd apud Aug | ζνμοι] δολοΓ D* lat Mcíon Ir T ert
Vários testemunhos ocidentais (D* it (d) vg Márciom Irineu(lat) Tertuüano Orígenes (lat) Lúcifer AgostinhoAmbrosiastro)
dizem δολοΐ. A mesma correção ocidental também ocorre em Gál. 5:9-
5:6: Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que uni pouco de fermento leveda a massa toda?
Aqueles crentes de Corinto eram profundamente orgulhosos; considera- vam-se os melhores mestres cristãos, e, sem dúvida,os melhores de todos os
I CORiNTIOS 73
cristãos. Não podiam reconhecer a carnalidade de seu próprio caráter.
Além disso, mostravam-se extremamente sensíveis, o que lhes impedia de
reconhecer o efeito daninho de seu orgulho espiritual, ainda que, de um
ponto de vista dogmático, soubessem sem dúvida o que as Escrituras têm a
dizer acerca desse grave deíeito de personalidade. (Ver 1Cor. 1:29; 4:18,19
e 5:2, sobre o «orgulho espiritual dos crentes de Corinto»). O vocábulo
inchados é usado acerca daqueles crentes por nada menos de seis vezes
nesta epístola (Ver I Cor. 4:6,18,19,5:2; 8:1 e 13:4).
«...jactância...» O sentido dessa palavra envolve tanto o «sujeito», o
«objeto» e o «ato» da jactância ou ufania. Não há maneira de precisar
positivamente qual dessas três coisas está em foco aqui. Na realidade,
aqueles crentes de Corinto se jactavam, proferindo palavras tonitroantes,
que glorificavam aos homens e a si mesmos; mas também se jactavam de
determinadas questões, principalmente da sua própria sabedoria e de suas
supostas elevadas realizações espirituais. No entanto, eram crentes de baixo
nível, crentes carnais. Em seu espírito altivo, haviam permitido que pecados·
grosseiros e destruidores penetrassem em seu meio, incluindo os pecados de
facções, de veneração a «heróis» humanos, de degradação de irmãos na fé,
de abuso dos dons espirituais, de desordem nos cultos, e de grosseiros
pecados de imoralidade. Mas, se tivessem tido um espírito humilde, talvez
tivessem podido perceber a gravidade dos erros que se cometiam naquela
comunidade cristã. Os escravos da casa de Cloé, que anunciaram tais coisas
ao apóstolo Paulo, perceberam a extensão e a natureza dos males que ali
eram cometidos. (Ver I Cor. 1:11).
«...não é boa...», isto é, «não é apropriada», «não é nobre», não refletia
um caráter cristão bem formado, mas antes, era «detrimente», «ignóbil»,
«inapropriada».
«...um pouco defermento leveda a massa toda...» Essa mesma ilustração
é empregada no trecho de Gál. 5:9. A função do fermento também forma a
base de uma das bem conhecidas parábolas do Senhor Jesus. (Ver Luc. ■
13:21). Essa parábola foi contada para mostrar a diferença entre um
«pequeno início» e um «fim ou desenvolvimento grandioso». (Ver Tia.
3:3-5). Por conseguinte, o apóstolo dos gentios não estava preocupado
apenas com o próprio incidente, com o próprio pecado cometido, mas
também com os efeitos extremamente prejudiciais desse pecado, se
porventura o mesmo ficasse sem punição.
A conexão entre o fermento e o pecado e sua remoção, tudo o que
tipificava a purificação, se alicerçava nos costumes das festas religiosas dos
Pães Asmos e da páscoa. A primeira dessas festividades era de natureza
agrícola, celebrada durante os sete dias que se seguiam imediatamente à
páscoa. Quanto à festa religiosa da páscoa, diz C.T. Craig (in loc.): «Esta
última era uma primitiva festividade nômade, que originalmente não tinha
qualquer vinculação com a festa dos Pães Asmos. No trecho de Êxo. 12:15 e
ss. lemos as instruções acerca da busca pelas casas, visando a remoção de
todo o vestígio de fermento. E essas regras foram grandemente expandidas
nas tradições recolhidas no Pesahim. (Ver Herbert Danby, the Mishnah,
Oxford: Clarendon Press, 1933, págs. 136 e ss.). Nenhum cereal capaz de
fermentar podia ser encontrado nas casas, durante essa festividade
religiosa».
Na festa original dos Pães Asmos, isso servia para lembrar ao povo de
Israel quão precipitadamente tinham partido do Egito, quando, sem
esperarem que o pão fermentado fosse cozido, levaram consigo a massa
ainda sem fermento. E assim, essa festa fazia com que se lembrassem de sua
posição de peregrinos.
O fermento tornou-se, dessa forma, símbolo de desintegração e
corrupção. (Ver Lev. 2:11). E, para as mentes judaicas, qualquer coisa que
estivesse em estado de decomposição lembrava a «imundícia». Por essa
razão também é que os rabinos judeus com freqüência usavam o fermento
como símbolo do mal, e até mesmo da corrupção hereditária do homem».
(Comparar isso com Exo. 12:8 e 15:20).
Outras culturas também preservavam tal idéia. Como exemplo disso,
Plutarco declarou: «O próprio fermento é a fonte originária da corrupção,
corrompendo a massa com a qual foi misturado». E em Persius (Sat. 1:24)
vemos que a fermentação é empregada como símbolo de «corrupção».
Por causa de tais vinculações de idéias, o fermento era inteiramente
excluído das ofertas oferecidas sobre o altar de Yahweh, porquanto somente
bolos feitos de massas asmas, isto é, sem fermento, podiam ser oferecidos
ali. (Ver Lev. 10:12). Não obstante, essa mentalidade tinha exceções,
porquanto pão levedado acompanhava as ofertas pacíficas e as ofertas
movidas (quando da festa de Pentecoste; ver Lev. 7:13 e comparar com
Amós 4:5). Não parece que o Senhor Jesus tinha usado o fermento, em suas
ilustrações em Mat. 13:33 e ss. (paralelos em Luc. 13:20, 21), em qualquer
sentido mau.
A parábola aqui utilizada por Paulo pode ser melhor compreendida se
desdobrarmos seus diversos simbolismos, a saber:
1. O pecado é apresentado pelo fermento.
2. A casa referida é a igreja cristã.
3. A vida cristã é a celebração da festa (ver Marc. 2:1).
4. O pão asmo representa a vida reta, por parte dos crentes.
5. A conversão e a remoção do pecado são representadas pela «massa
nova».
6. O próprio Jesus Cristo é o cordeiro pascal que foi morto por nós, no
que diz respeito à expiação pelo pecado.
Uma alegoria similar, que envolve o fermento, pode ser vista em certo
escrito do filósofo judeu Filo, intitulado «Como Adaptar-se aos Estudos
Preliminares», 161 e ss. A ilustração que Paulo usou, utilizando-se desse
simbolismo, mui provavelmente surgiu por ter-se ele lembrado do fato de
que a festajudaica do Pentecoste estava já bem próxima (ver I Cor. 16:8), o
que fê-lo lembrar-se dos costumes tipicamente judaicos, nos quais sem
dúvida ele nunca deixou de interessar-se, ainda que nem sempre tenha
participado dos mesmos. Mas, estando próxima a festa de Pentecoste, é
possível que Paulo tenha escrito esta primeira epístola aos Coríntios já perto
da festa da páscoa, que antecedia àquela imediatamente.
Com essa parábola de Paulo podemos comparar certa declaração de
Inácio, onde ele diz: «Desfaz-te, portanto, do fermento mau, que se tornou
velho e azedo, e sê transformado segundo o fermento novo, que é Jesus
Cristo». (Epístola aos Magnesianos, x).
O pecado á tão virulento que se considera ser possuidor de um poder
quase infinito para corromper o homem. Essa é a atitude que Paulo mostra
ter, nesta secção. Por conseguinte, a remoção daquele homem «da casa», se
tornara uma necessidade absoluta. O pecado é tão perigoso que pode levar o
corpo à morte, destruindo a salvação da alma. (Ver o versículo anterior).
«...Não sabeis...» Paulo dirige aqui uma pergunta àqueles crentes. É
como se tivesse formulado a seguinte'pergunta: «Sois tão sábios e tão
orgulhosos; e não sabeis esse princípio básico da ética religiosa?»
«Uma vara inteira de porcos é prostrada nos campos por causa da
enfermidade de um de seus membros, e uma uva desçolorida basta para
infeccionar as demais». (Juvenal, «.79-81).
7 έκκαθάραre
€τΰθη Χρίστος'
5:7: Expurgai ο fermento velho, para que sejais massa nova, assim como sois sem
fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, já foi sacrificado.
Ê como se Paulo houvesse dito: «Limpai a casa completamente,
porquanto é chegado o período da páscoa; e a nossa páscoa, que é Cristo, já
foi sacrificado por nós». Ora, se osjudeus se mostravam tão cuidadosos em
limpar todo o fermento que houvesse, quando chegava o período de sua
páscoa (visto que essa festa estava ligada à outra festa* dos Pães Asmos),
quanto mais deve ser o crente do N.T. cuidadoso em limpar-se de todo o
fermento, em sua vida. Pois opão asmo é símbolo da vida cristã em todos os
seus aspectos. E a conversão a Cristo, a remoção do pecado, é uma
experiência representada pela retirada do fermento, pela «nova massa».
Paulo não era homem que demonstrasse indiferença para com as
festividades judaicas, conforme vemos em Atos 20:16. Essas festividades
tinham certo significado para ele, mesmo depois de sua conversão ao
Senhor Jesus. Porém, o sentido verdadeiro dessas festas simbólicas se
encontra na pessoa de Cristo, bem como na vida impoluta que o crente deve
viver para seu Senhor. Paulo aborda aqui, especificamente, a questão da
purificação moral, da necessidade de uma conduta cristã ideal, da ética
cristã; porque, sem isso, nenhuma transformação segundo a imagem moral
e metafísica de Cristo (que é o alvo de toda a existência humana), pode ter
lugar.
A penalidade imposta contra aqueles que ingeriam pão levedado, durante
a festa dos Pães Asmos era o castigo de açoites. E isso mostrava para os
judeus quão séria era a questão. Ora, se podia ser tão importante para um
judeu observar uma mera cerimônia, um ritual, então deve ser
extremamente importante para um crente viver direito a vida cristã, que é
uma espécie de contínua festa de Pães Asmos, na forma de pureza de Vida
diária, em todas as suas ações.
«...velhofermento...»Com essas palavras Paulo quis indicar a vida antiga
e suas manchas pecaminosas, tudo o que ficava particularm ente
καί γάρ το πάσχα ημών
7 ημων] add V
T
T
Ç
pημων L(P) pi sy sa ς
demonstrado pelo exemplo corruptor do fomicador da igreja cristã de
Corinto. Está aqui em foco aquela porção da vida que Cristo ainda não
purificou em um crente. O crente, pois, está na obrigação moral de limpar a
casa de sua vida, como também a casa de Deus, que é a igreja de Cristo, de
todo o fermento, porque o fermento tipifica a vida carnal.
«...nova massa...» Essa nova massa, naturalmente, é isenta de fermento,
de fermentação; e isso, por sua vez, significa que ela é santa, pura,
simbolizando a vida cristã que é vivida sob a influência do Espírito de Deus.
Essa vida começa quando da conversão; tem prosseguimento no processo da
santificação, e atingirá o seu ponto culminante na futura glorificação.
Todavia, envolve muito mais do que a mera remoção dos pecados antigos,
porque também envolve a implantação de todas as virtudes morais positivas
que fazem parte da natureza e caráter do próprio Deus Pai. (Ver Mat. 5:48
e Gál. 5:22,23). Ora, somente o Espírito Santo pode efetuar tal coisa. Em
Cristo, pois, um homem se torna uma nova criação. (Ver II Cor. 5:17. Ver
também os trechos de Efé. 4:24 e Col. 3:10).
Paulo fala aqui acerca do elevadíssimo ideal cristão, mas que estava
muito acima da natureza moral da igreja cristã de Corinto naquele
momento, Com isso se pode comparar a máxima de Emanuel Kant, o qual
afirmava que devemos tratar aos outros homens como se eles fossem aquilo
que podemos desejar que eles sejam.
«...Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado...» Sobre essa
declaração apostólica, comentam Robertson e Plummer (in loc.), como
segue: «É chegado o tempo de vos expurgardes de todo o fermento antigo;
porquanto o Cordeiro já foi morto, e a vossa casa ainda não foi
perfeitamente purificada: estais atrasados! (Ver Deut. 16:6; Marc. 14:12 e
Luc. 22:7)... A força do apelo que faz aqui o apóstolo, seja como for, é
patente; mas ganha certo vigor se supusermos que ele tinha em mente a
tradição que aparece no quarto evangelho, isto é, que Cristo foi crucificado
no décimo quarto dia do mês judaico de Nisã, o dia determinado para o
★ ★ ★
την τταλαιαν ζύμην, Iva ητ€ veov φύραμα, καθώς eare άζυμου.
7 ίκκα,θάρατί...άζυμοι Εχ 13.7 τό π ά σ χ α ...Χριστοί Ex 12.21; Is 53.7; 1 Pe 1.19
74 I CORÍNTIOS
sacrifício do cordeiro pascal. Podemos asseverar que a tradição paulina, tal
como a tradição joanina, faz da morte de Cristo, e não da última ceia, o
antítipo da páscoa; mas dificilmente podemos apresentar o apóstolo Paulo
como testemunha definida em favor da data do décimo quarto dia do mês
de Nisã». (Quanto a notas expositivas sobre esse problema vexatório, que
envolve certa questão de harmonia entre os evangelhos, ver os trechos de
João 13:1 e Mat. 26:17. Quanto ao comentário sobre apáscoa eo Cordeiro de
Deus, ver João 1:29). A despeito do fato que a páscoa original não tinha
vinculação alguma com o perdão dos pecados, com a expiação pelos
pecados, contudo não demorou muito para que se revestisse de tal
significado, ao tornar-se parte do sistema de sacrifícios do judaísmo.
Cristo Jesus morreu durante o período da páscoa. Agora Paulo escrevia
de maneira bem clara, para os crentes que viviam naquela época. Os crentes
judeus que habitavam em Corinto talvez tivessem limpado suas casas do
fermento literal; mas a igreja de Corinto, a «casa de Deus» naquela cidade,
permanecia repleta de fermentação, a despeito do fato de que o Cordeiro
pascal, que é o Senhor Jesus, já tinha sido sacrificado. Assim sendo, os
crentes não mostravam o devido respeito ao Senhor Jesus, mostrando-se
muito mais respeitosos ao Senhor do que os judeus eram respeitosos para
com seu sistema legal.
εν
8 ώ σ τ ε ε ο ρ τ ά ζ ω μ ε ν , μ η εν ζ ΰ μ η π α λ α ιό , μ η δ ε
ε ιλ ικ ρ ίν ε ια ς κ α ι α λ ή θ ε ια ς .
5:8: Pelo que celebremos οfesta, não com ofermento velho, nem com o fermento do
malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.
Neste ponto Paulo expande ainda mais a sua alegoria, apresentando-nos
as suas próprias interpretações acerca dos símbolos por ele utilizados.
«...celebremos a festa...» Não nos diz aqui o apóstolo exatamente o que
pretendia afirmar; mas é óbvio que a vida cristã, em termos bastante gerais,
é simbolizada pela festa durante a qual todo o fermento era removido das
casas judaicas. A vida cristã, em sua inteireza, deveria ser caracterizada por
uma'pureza real, tal como durante a semana da festividade dos Pães Asmos
era mister remover de cada casa judaica todo o vestígio de fermento.
Entretanto, nossa festa e observância não perduram apenas uma semana, e
nem se limitam apenas a certos dias especiais ou santos; antes, devem
prolongar-se por toda a nossa vida terrena, e até mesmo por toda a
eternidade.
«...velho fermento... o fermento da maldade e da malícia...» o Apóstolo
dos gentios já havia deixado claro que a «imoralidade» é um mau fermento
na comunidade cristã. Porém, existem muitas outras modalidades de
pecado que também têm efeitos malignos, corruptores, insidiosos, que se
espalham como câncer. Tais pecados incluem todas as formas de maldade,
malícia e impiedade. E examinando até ao décimo primeiro versículo deste
capítulo, também se poderia incluir, especificamente, o furto, a idolatria, a
cobiça, as críticas iracundas e o vilipêndio contra os outros, além do
alcoolismo. Com os praticantes dessas formas de pecado não devemos ter
companhia, nem ao menos para tomarmos refeições com eles.
Contudo, existem ainda outros pecados que atuam como fermento, no
seio da igreja cristã, a saber, as obras da carne, conforme a lista que
encontramos no trecho de Gál. 5:19,20. Todas as obras da carne, que são
fomentadas segundo o princípio do mal que há no mundo, servem de
fermento para o cristianismo bíblico. Eventualmente, entretanto, todos nós,
os remidos, seremos totalmente purificados. Mas para tanto é necessária a
atuação do Espírito Santo, o qual, ao mesmo tempo, implantará os aspectos
positivos do fruto do Espírito Santo. (Ver Gál. 5:22,23). Então é que
seremos dignos de Cristo, a nossa páscoa que foi sacrificada por nós; porque
, assim a casa rião somente terá sido expurgada de todo o fermento, mas
também será enfeitada e decorada com todas as formas da justiça positiva
do Senhor Jesus.
★★★
O Fermento E Seus Simbolismos
1. Possui propriedades difusivas, pelo que pode ilustrar como o pecado se
propaga e corrompe (ver I Cor. 5:6).
2. Estava associado à páscoa original, pelo que veio a ilustrar o princípio
da separação para longe dos ímpios e do mal (ver Êxo. 12:15-20).
3. Ilustra, de maneira positiva, a rápida propagação do evangelho (ver
Mat. 13:33).
4. Pode ilustrar a doutrina falsa (ver Mat. 16:6), bem como os mestres
ímpios (ver I Cor. 5:6,7), ou mesmo a malícia (ver I Cor. 5:8).
ζ ύ μ η κ α κ ία ς κ α ί π ο ν η ρ ία ς , ά λ λ ’ εν ά ζ ν μ ο ις
8 Εχ 12.3-20; 13.7; Dt 16.3 8 μ.7/δί] μ η Β Ambr: T
j XJ39 I —
υΐΊιρίας] πορνείας G
★ ★ ★
«...maldade...», no original grego, «kakia», que talvez indique o
«princípio» malicioso, ao passo que a «malícia» seria o seu resultado. Mas
também é possível que essa palavra, «kakia», indique a maldade em geral,
com suas muitíssimas manifestações; e assim, a «malícia» (no grego,
«poneiria») seria todas as formas de vileza, de iniqüidade e de malícia. Essas
duas palavras têm um sentido muito geral, e com grande freqüência eram
usadas como sinônimos, indicando muitas formas de pecado e erro.
Portanto, nada de realmente definido se poder dizer acerca de tais
vocábulos.
«...asmos da sinceridade e da verdade...» Compete-nos alimentarmos-nos
de pães sem lêvedo, que é o pão da vida, o qual nos nutre com sinceridade e
verdade. Essas características, pois, devem substituir o velho fermento.
Possuímos um novo pão, que nos transmite a vida de Cristo, o qual também
toma o lugar do princípio do pecado, que até então vivia em nós. (Durante a
festa da páscoa eram comidos bolos ou pães asmos, em lugar de bolos ou
pães fermentados—ver Êxo. 12:15). Assim também, em Cristo, um novo
nutriente nos é conferido pelo Espírito Santo. Trata-se de uma substância
transformadora. (Podemos comparar as idéias de Paulo, existentes nesta
secção, com o trecho de Gál. 5:19 e ss.). As obras da carne, que são
destrutivas para a alma, devem ser substituídas pelo fruto do Espírito
Santo, o agente divino da nossa transformação segundo a imagem de Cristo,
transformação essa que é o alvo mesmo da santificação.
«...sinceridade...» No original grego, essa palavra significa «transparên­
cia», «pureza límpida», podendo também significar «ingenuidade», isto é, a
ausência de malícia, dando a entender um espírito puro e singelo, sem dolo.
(Ver João 1:47). Essa palavra é usada para indicar «pureza» nas ações, nos
motivos, uma «sinceridade piedosa». Etimologicamente, essa palavra
significa «examinado à luz do sol», «testado», e, por conseguinte, «sem
mistura», «incorrupto», «puro». Paulo, pois, queria que aqueles crentes de
Corinto tivessem aquela piedade que é de natureza tão pura que pode ser
submetida à luz da investigação.
«...verdade....», neste caso, é palavra que significa «retidão», «integri­
dade». (Comparar com as passagens de I Cor. 13:6; Efé. 5:9 e João 3:21).
Paulo não se refere aqui, particularmente, à pureza doutrinária, e, sim, à
pureza e à veracidade éticas, em contraste com a maldade e a malícia tão
comuns à expressão pecaminosa. Porém, a primeira porção desta primeira
epístola aos Coríntios deixa bem claro que a pureza de vida não se pode
obter sem a adoração e o serviço a Cristo Jesus, o que deve envolver uma
opinião correta, mas, mais especificamente ainda, uma real comunhão com
o seu Espírito, para que o crente possa conhecer a sua pessoa, conforme ela
é formada no íntimo dos remidos. Etimologicamente, a palavra «verdade»,
que no grego é «aletheia», é a forma negativa de «letho», uma forma de
«lanthano», que significa ocultar-se, escapar à atenção, e, em sentido
moral, «enganar», «dissimular». Em contraste com isso, a verdade é aberta,
franca, positiva, sem qualquer segredo a ocultar. Em sentido geral, por
conseguinte, essa palavra, no original grego, fala sobre integridade, e tem
muitas aplicações.
9 ”Ε γ ρ α φ α ν μ ΐν εν τ η ε π ισ τ ο λ ή μ η σ υ ν α ν α μ ίγ ν υ σ θ α ι
5:9: Já |
k>
rcarta vos escrevi que não vos comunicísseis com os que se prostituém;
Diversos intérpretes têm procurado identificar a «.. .carta...» aqui
mencionada, com alguma porção desta primeira epístola aos Coríntios; mas
nessa tentativa não obtém qualquer sucesso, com o que concordam quase
todos os eruditos modernos. Paulo menciona certa missiva que ele havia
escrito aos coríntios, a qual não possuímos atualmente.
Outros eruditos tentam fazer do tempo aoristo existente nessa frase, em
«...escrevi...», um «aoristo.epistolar», o que significaria que aquilo que
Paulo já escrevera até este ponto, nesta epístola, poderia ser essa «carta».
Porém, este próprio versículo indica que ele ficara desapontado com o
cumprimento tão parcial daquilo que ele já lhes tinha ordenado. Por essa
razão, alguns estudiosos supõem que Paulo se referia ao trecho de II Cor.
6:14 - 7:1. É verdade que as «duas» epístolas aos Coríntios que atualmente
possuímos provavelmente se compõem de fragmentos de «quatro» epístolas
diversas, ou mesmo de quatro missivas completas que Paulo teria escrito aos
coríntios. Portanto, é possível que Paulo tenha feito aqui alusão a alguma
porção da segunda epístola aos Coríntios, que teria sido escrita antes da
nossa atual prim eira epístola aos Coríntios. Essa conjectura é menos
provável do que aquela outra que simplesmente afirma a existência de uma
missiva anterior, que atualmente não mais existe, mas que Paulo escrevera
aos crentes de Corinto.
/
T T O p V O iS , 9 μ ή συναναμί-γνυσθαι irbpvois M t 18.17; 2 Th 3.14
É perfeitamente possível que o apóstolo Paulo tenha escrito um grande
número de outras epístolas, acerca das quais não possuímos qualquer
informação, e nem mesmo qualquer menção em qualquer documento
conhecido por nós. A respeito dessa carta perdida, Robertson (in loc.),
observa esperançoso: «Que tremendo ‘achado’ seria se um rolo de papiro,
encontrado no Egito, no-la devolvesse para nós».
Precisamos observar que, no trecho de II Cor. 10:9, Paulo menciona
«epístolas», no plural, o que indica uma extensa correspondência com a
igreja de Corinto, e não apenas uma epístola (a nossa primeira epístola aos
Coríntios) enviada para ali. (Quanto à questão inteira da correspondência
de Paulo com a igreja cristã de Corinto, ver a secção IV da introdução a I e a
II Coríntios, onde o problema é longamente discutido, e onde diversas
opinões dos eruditos são ventiladas).
«...não vos associásseis...» Essas palavras indicam certa modalidade de
exclusão, provavelmente seguindo o modelo das exclusões judaicas. (Ver as
notas expositivas sobre as exclusões judaicas, em João 9:22; sobre a
«exclusão cristã», em Mat. 18:15-17). No décimo primeiro versículo deste
mesmo capítulo, Paulo diz «...não vos associeis... nem ainda comais...»,
palavras essas que nos mostram até que ponto deve ir essa separação. Era
uma separação ao mesmo tempo particular e pública; ficava excluído
qualquer contacto em nível social, fora da igreja ou dentro dela. Isso servia
I CORÍNTIOS 75
para pressionar um crente a m udar de vida, a fim de que pudesse ser
novamente admitido na comunhão da igreja local.
«...impuros...», isto é, «imorais», «fornicadores». No original grego, a
palavra é «pornois». (Ver as notas expositivas acerca da «fornicação» ou
«imoralidade», no primeiro versículo deste mesmo capítulo). Neste nono
versículo é empregado um derivativo dessa mesma palavra. Todas as formas
de imoralidade estão aqui em foco—todos os pecados de natureza sexual.
Uma outra forma dessa mesma palavra, no original grego, significava
«prostituta». Essa palavra tem sentido geral, sem especificar qualquer
forma particular de impureza sexual. Os capítulos quinto a sétimo desta
epístola abordam esse problema, mostrando quão grande e graveiera
em Corinto e na igreja cristã dali, e não apenas na sociedade
local, onde, naturalmente, os crentes que habitavam naquela cidade não
podiam evitar a associação com os impuros.
10 ού πάντως τοΐς πόρνους τοΰ κόσμου τούτου η τοΐς πλεονεκται,ς καί αρπαξιν η είδωλολάτραις, επεί
ώφείλετε άρα Ík τοΰ κόσμου εξελθεΐ
E ÍV .
Ao invés de καί oTextus Receptus, seguindo p46 Nc D b
>c L ψ muitos minúsculos vg sir (p,h) cop (sa,bo) gót ara al, diz
ή,' assim confirmando mecanicamente o contexto. A forma καί é fortemente apoiada por testemunhos alexandrinos e
ocidentais (H A B C D* F G P 33 88 177 181 326 441 1099 it (d,g) etí).
5:10: comisto não me referia à comunicação emgeral com os devassos deste mundo,
ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos
seria necessário sair do mundo.
O Mal-entendida
1. Na correspondência que Paulo manteve com os crentes de Corinto (o
que evidentemente envolveu algumas outras epístolas que não possuímos
hoje em dia), o apóstolo estabelecera padrões de separação e exclusão. Os
crentes de Corinto haviam pensado que suas palavras se aplicassem a todos
os homens, de dentro e de fora da igreja. Porém, tantos são os pecados
morais do mundo que, se nos separássemos de todos quantos os cometem,
não poderíamos ter amizades ou associações de qualquer maneira com as
pessoas de fora da grei cristã.
2. Portanto, Paulo agora deixa claro o que ele quisera dizer com sua
ordem de nos separarmos de homens maus—que nos separássemos
daqueles maus indivíduos que pertencessem à igreja, e com o propósito de
levá-los à disciplina.
3. Paulo deixa claro, neste ponto, que ele não tinha jurisdição sobre os
incrédulos, e não podia exigir que os incrédulos tivessem vidas isentas do
mal. Nem podia ele aplicar qualquer regra de exclusão no caso dos
incrédulos. Essa jurisdição pertence exclusivamente a Deus (ver Apo.
20:12).
4. Naturalmente, não quis dar ele a entender que não nos devamos
separar do mesmo, no tocante a nossos próprios hábitos, porquanto isso ele
requereu de nós (ver Rom. 12:1,2). Deveríamos agir seguindo o exemplo de
Jesus, isto é, não cortar toda a associação, mas servir de exemplo dentro da
comunidade, a fim de atrairmos os homens ao caminho da retidão.
Não se pode duvidar que na igreja cristã de Corinto houve casamentos
mistos, isto é, crentes se casaram com pagãos ordinários; e os dois padrões
morais assim unidos se mostraram totalmente incompatíveis entre si. Não
obstante, separações ou divórcios não eram recomendados, exceto em casos
extremos. ...
Naturalmente, nos contactos necessários com indivíduos imorais, o
padrão do cristianismo requer de nós que hasteemos nossa bandeira e não
ocultemos as nossas convicções. Precisamos conquistar pecadores vindos do
mundo; e um testemunho positivo precisa ser dado, a fim de que isso se
tome realidade. Páulo, naturalmente, esperava que os crentes não fossem
transformados conforme a imagem do mundo, e, sim, conforme a imagem
espiritual de Jesus Cristo, o que, se for genuíno, tornar-se-á patente aos
olhos de Deus, conquistando outros homens para Cristo. (Ver Rom.
12:1,2). Estamos no mundo, mas não pertencemos ao mundo. Paulo queria
que soubéssemos como tornar realidade essa declaração em nossas vidas
diárias, como seguidores de Cristo que somos.
Paulo deixa esclarecido, nos versículos que se seguem, que ele não exercia
jurisdição sobre os pagãos, sobre os incrédulos. Tal jurisdição pertence
exclusivamente a Deus, sendo o Senhor quem julgará com justiça as obras
de cada homem. (Ver Apo. 20:12). Paulo exercia jurisdição sobre a igreja
cristã, e isso mediante a sua autoridade apostólica, podendo assim exigir
que certas providências disciplinares fossem tomadas dentro da
comunidade religiosa cristã.
«...impuros...»Paulo começa a alistar os tipos de indivíduos com quem os
crentes entram em contacto no mundo, aqueles tipos de coisas erradas que
precisamos tolerar nos homens desligados de Cristo, mas que precisam ser
severamente julgadas no seio da igreja cristã, através da autoridade
apropriada, ainda que não sobre bases individuais. Neste ponto temos os
«impuros». Trata-se da mesma palavra grega usada por todo este capítulo,
com comentários no nono versículo e em outros trechos do mesmo.
«...avarentos...» Esses eram os gananciosos, os cobiçosos, aqueles que
sempre querem mais e mais dinheiro, poder e prestígio. Comenta Robertson
(in loc.), acerca dessa questão: «No N.T., essa palavra figura apenas aqui,
em I Cor. 6:10 e em Efé. 5:5. Os avarentos sempre aparecem em más
companhias (com os licenciosos e os idólatras), tal como os modernos-
bandidos, que se combinam para explorar o alcoolismo, a imoralidade, o
banditismo, em busca de dinheiro ou poder».
As raízes do vocábulo«
pleonektes». «avarento», são «pleon», que significa
«mais», e «echo», que significa «ter». Portanto, estão em foco os que querem
ter sempre mais e mais. Assim sendo, estão em foco a cobiça, o desejo
insaciável de possuir, a avareza. A forma verbal dessa palavra pode
significar «tirar vantagem de», «iludir», «defraudar».
«...roubadores...»Esses são os violadores violentos dos direitos humanos.
Essa palavra está intimamente associada ao vocábulo anterior, de maneira
que alguns intérpretes pensam que elas devem ser compreendidas
conjuntamente, no pensamento que os cobiçosos chegarão ao extremo de
furtarem e assassinarem, a fim de entrarem na posse daquilo que almejam.
Essa palavra também é usada para indicar os lobos vorazes, o que serve
para mostrar algo da natureza do indivíduo que, à força, se apossa daquilo
que não lhe pertence. A forma verbal básica significa «agarrar», «levar
embora», e ordinariamente aparece associada à idéia de violência. No dizer
de Robertson (in loc.): «Esses homens seriam chamados hoje em dia
bandidos, assaltantes, rufiões».
«...idólatras...» Essa palavra aparece somente p*r duas vezes fora dos
escritos de Paulo, a saber, em Apo. 21:8 e 22:15. Os idólatras são os
violadores do direito mais alto, isto é, de Deus. Essa é a instância mais
antiga que se conhece do uso dessa palavra. (Quanto à vinculação entre os
cobiçosos e os idólatras, comparar os trechos de Col. 3:5 e Efé. 5:5. O uso
neotestamentário não confina o termo que ora comentamos apenas à
adoração de imagens, mas também estende o seu significado às devoções da
alma a qualquer objeto que usurpe o lugar que por direito cabe a Deus.
Assim, conforme o versículo seguinte nos mostra, até mesmo um crente
pode tornar-se culpado desse pecado.
Podemos observar que, no trecho de Efé. 5:5, essa palavra, no original
grego sobretudo, é usada para indicar o sentido figurado deVadoração ao
dinheiro. Esse versículo diz-nos que a cobiça ou avareza é idolatria, e que
aquele que é cobiçoso é um idólatra. Algumas pessoas adoram o dinheiro;
outras adoram a posição social; outras ainda, o prestígio; e ainda outras, os
prazeres carnais. Existem inúmeras formas de idolatria, e quase todas as
pessoas, se não sempre, pelo menos ocasionalmente, se tornam culpadas
desse pecado.
«Atríade de vícios que aqui aparece consiste naqueles defeitos de caráter
que caracterizam a civilização não-cristã, isto é, a moralidade lassa, a
ganância e a superstição. Este último desses defeitos, sob uma forma ou
outra, é o substituto inevitável da religião espiritual». (Robertson e
Plummer, in loc.).
Os Vícios Deste Mundo
1. Transgridem contra a lei de Deus (ver I João 3:4).
2. Possuem conexões metafísicas, a saber, a criação e estimulação de
Satanás e suas forças perniciosas (ver I João 3:8). O pecado jam ais é
meramente o ato de um indivíduo isolado.
3. Não fazer o que devemos, constitui um vício (ver Tia. 4:17).
4. A falta de fé inspira os vícios (ver Rom. 14:23).
5. Os vícios se originam no coração dó homem (ver Mat. 15:19).
6. Conduzem à morte espiritual (ver Rom. 6:23).
«...teríeis de sair do mundo...»Isso porque esses vícios são extremamente
comuns, podendo ser entontrados em praticam ente todos os seres
humanos, de maneira branda ou profunda, forte ou fraca. Para que se
evitasse tal defeito, seria iiecessário aos crentes saírem desta atmosfera
poluída da terra, entrando em alguma dimensão espiritual da existência.
Podemos observar, no trecho de I Cor. 10:27, que Paulo nem ao menos
proíbe a presença dos crentes nos entretenimentos particulares oferecidos
pelos pagãos; mas deixa subentendido que não devemos procurar tais
coisas. É interessante que diversos intérpretes protestantes têm encarado
este versículo como uma proibição à «clausura».
«A igreja deve ser a luz do mundo, e não o receptáculo das trevas deste
mundo». (Shore, in loc.).
«Quão necessário era o cristianismo naquela cidade». (Adam Clarke, in
loc.).
A tentativa de sair do mundo é uma violação da vontade de Deus. (Ver
João 7:15).
★ ★ ★
Que Mugidos Insensatos são Esses?
Que mugidos e balidos insensatos são esses?
Quem trouxe esses touros ruidosos
e essas cabras berradoras
Até à porta do santuário?
A esta porta do santuário de minha vida?
Que ruídos estranhos são esses que
Desviam a minha mente dos céus?
Os prazeres mundanos, sua fama, suas vantagens
São apenas touros ruidosos e cabras berradoras;
Ruidosos e fedorentos, exigem admissão,
Saltitando íoquazmente à porta,
A presença fragrante de Deus e do bem
Não tardarão a dissipar.
(Russell Champlin)
76 I CORÍNTIOS
11 νυν δε έγραφα ύμΐν μη συναναμίγνυσθαι εάν τις
ειδωλολάτρης η λοίδορος η μέθυσος η αρπαζ,
11 μή.,.συνεσθίβιν 2 Th 3.6; Tt 3.10; 2 Jn 10
5:11: Mas agora vos escrevo que não vos comuniqueis com aquele que, dizendo-se
irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou
roubador; com esse tal nem sequer comais.
A ordem de separação baixada por Paulo, que ele escrevera antes desta
ocasião aos crentes de Corinto, era uma ordem muito séria, embora a
tivessem entendido mal, não a tendo posto em prática de maneira correta.
Razão Da Disciplina
1. Notemos quão estrita é esta passagem. O leitor conhece algum crente
que pratique qualquer dos males morais que estão alistados neste versículo?
Pois então que o tal seja assinalado como uma das pessoas que deve ser
evitada, e que a igreja local de que é membro tome as providências
necessárias para sua exclusão. Que não se tenha qualquer associação social
com tal pessoa, como tomar uma refeição com ela, em sua residência, e nem
seja tal pessoa convidada para tal coisa na residência de algum crente. Isso
segue os passos da exclusão entre os judeus, a qual não envolvia somente a
sinagoga, mas também cobria as situações sociais.
2. Porém, qualquer ação dessa natureza deve ser tomada democratica­
mente pela igreja, e não pelo pastor ou por alguma junta de ãnciãos (ver
Mat. 18:15-17). A ação da igreja fará a questão assumir natureza
impessoal, além de ser muito mais eficaz.
3. Nenhum dos juízos divinos, entretanto, visam a mera retribuição,
mesmo no caso dos incrédulos. (Ver I Ped. 4:6 e Rom. 11:32 quanto a esse
ensino). E por certo, Deus não julga um crente a não ser com o propósito de
levá-lo à restauração. (Ver Heb. 12:6 e ss.).
4. Portanto, que se faça como Deus faz. Que se deixe claro que a
disciplina visa à restauração, e não à destruição.
O pecado possui um efeito amortecedor e enganador, e jam ais nos
deveríamos olvidar desse fato. O crente que se deixa envolver pelo pecado,
muda as suas atitudes mentais para com o mesmo. Toma-se muito menos
precavido contra o pecado do que anteriormente. Não mais é bom
aquilatador da pecaminosidade do pecado, porquanto a sua visão da pureza
se obscureceu. O que poderia ser demonstrado com maior facilidade, na
experiência humana, do que isso? Sendo esse o caso, tal crente precisa de
ajuda urgente. E Paulo sugere que essa ajuda deve ser prestada pelos
demais membros da comunidade cristã. E isso deve assumir uma expressão
sificientemente firme para impressionar aos outros sobre aquilo que o
crente deixou de impressionar a si mesmo, isto é, a seriedade de seus
pecados, os efeitos detrimentes que esses pecados exercem sobre ele mesmo
e sobre os seus semelhantes. O fato que os demais crentes não têm mais
comunhão com ele, dentro ou fora da igreja, serve para mostrar-lhe que a
igreja está profundamente preocupada com a questão, estando disposta a
agir, e agir com medidas drásticas, se tanto for necessário. O crente que é
separado da comunhão com os irmãos, se ele é espiritual em qualquer grau,
compreenderá que isso visa ao seu próprio bem. Em caso contrário,
somente alguma intervenção divina poderá ajudá-lo nesse sentido.
Na igreja cristã primitiva a ação era democrática, coletiva. Podemos
notar, no quarto versículo deste mesmo capítulo, que a igreja de Corinto
deveria reunir-se com a finalidade de discutir o caso. Isso subentende
alguma forma de açãp democrática, o que também é claramente inferido do
trecho de Mat. 18:15, onde a questão da disciplina cristã é descrita pelo
Senhor Jesus. Nenhum indivíduo isolado, como também nenhum concilio,
como uma junta de pastores ou diáconos, pode assumir a responsabilidade
por tais ações. É mister que tais questões sejam expostas perante todos, a
fim de que cada membro tenha a oportunidade de debater sobre o assunto,
e dando também ao acusado a oportunidade de defender-se. Somente dessa
maneira é que o crente disciplinado sentirá que a igreja agiu com justiça.
(Quanto a notas expositivas sobre as «exclusões que havia no judaísmo», ver
João 9:22. Acerca da «exclusão cristã», ver Mat. 18:15-17 e as notas
expositivas a respeito).
«...impuro... avarento... idólatra...» Temos nessas palavras a repetição
dos pecados mencionados no versículo anterior, onde foram comentados.
Tais pecados, praticados pelos homens do mundo, não podem ser sujeitos à
disciplina da igreja de Cristo. Somente Deus pode julgar os homens que
cometem tais pecados, quando ainda não confessaram a Jesus Cristo como
seu Salvador, e nem estão ainda associados à sua igreja. Dentro da igreja
cristã, entretanto, tais pessoas estão sujeitas às ações disciplinares da igreja.
«...maldizente...» O termo grego por detrás desta tradução, «loidoros»
significa um indivíduo abusivo, sobretudo aquele que emprega palavras
ofensivas contra os seus semelhantes. Paulo declara que quando assim
abusavam dele, com palavras ofensivas, ele não retrucava da mesma
maneira, mas antes, «bendizia» àqueles que dele abusavam. (Ver I Cor.
4:12). Porém, se alguém que se diz crente, habitualmente ofende a outros
com palavras de baixo calão, estando acostumado a usar descontrolada-
mente a sua língua, tornando-se assim uma pessoa «maldizente», o qual,
como é natural, provoca muito mal-estar e muitas dissensões no seio da
igreja, então a congregação a que ele pertence tem o direito e a obrigação de
separar tal indivíduo de seu rol de membros. Mediante a comparação deste
versículo com o trecho de I Cor. 4:12, podemos compreender que Paulo se
mostrava sensível para com esse tipo de pecado, porquanto muitos
abusaram dele verbalmente, da parte de diversos líderes das facções
existentes na igreja cristã de Corinto. E com base nas passagens de II Cor.
αδελφός ονομαζόμενος fj πόρνος η πλεονεκτης η
τώ τοιούτω μηδε συνεσθιειν.
ιι 3] η BC
D° a lf g Aug
10:10 e 11:6, aprendemos que zombavam de Paulo como alguém que era
«desprezível» e «rude de linguagem», divertindo-se igualmente de suá
presença física que não era impressionante.
«...beberrão...» Alguém dado ao uso excessivo e constante de bebidas
alcoólicas, viciado nas mesmas, por haver perdido o controle da vontade
sobre a sua ingestão. Paulo não parece concordar com a opinião moderna,
que diz que o alcoolismo é umà «enfermidade». Parece muito mais provável
que ele atribuiria esse vício à desintegração gradual da vontade, devido ao
excesso de indulgência do indivíduo consigo mesmo. O vocábulo grego aqui
usado era aplicado pelos escritores áticos às mulheres, havendo outros
termos gregos que aplicavam aos homens. Mas evidentemente o grego
«koiné» não estabalecia mais qualquer distinção similar. Tal palavra pode
significar simplesmente embriagado, embora Paulo a empregue para dar a
idéia do «vício», do uso descontrolado das bebidas alcoólicas. Esse vício
anda sempre de mãos dadas com várias outras formas de vício. O
alcoolismo é um multiplicador de vícios, produtor de numerosíssimas
misérias humanas. O problema social do alcoolismo sem dúvida alguma era
tão severo nos dias de Paulo como é em nossos próprios dias.
Devemos notar que Paulo não expõe qualquer programa de recuperação
social para os alcoólatras; e tudo quanto ele recomenda se limita à atitude
que a igreja local deve tomar para com os seus próprios membros que se
deixarem vencer pelo vício do alcoolismo. Dificilmente se poderia afirmar
que Paulo se mostraria contrário aos programas de recuperação social dos
alcoólatras, porquanto tais programas certamente são úteis em qualquer
comunidade humana. Entretanto, Paulo tinha a fé que, na igreja, a
disciplina apropriada, imposta aos membros ofensores, seria medida
suficiente para despertar a consciência e a fibra moral dos crentes assim
envolvidos, recuperando aqueles que se tivessem deixado arrastar para o
alcoolismo. Embora Paulo não diga tal coisa, podemos estar certos de que
ele cria que se a igreja cristã fizer o que lhe compete, então o Espírito Santo
é capaz de libertar tais crentes dos seus vícios.
O fato é que até mesmo muitos programas sociais contra o alcoolismo
procuram incluir a ajuda dos princípios religiosos. A organização intitulada
«Alcoólicos Anônimos» se baseia na fé em Deus, procurando levar os
viciados a apelarem para algo superior a eles mesmos, a fim de serem
libertados. E não há que duvidar que o apelo a Jesus Cristo, através da
influência benéfica do Espírito Santo, pode curar o vício do alcoolismo. A
experiência humana assim o demonstra, embora se faça também
imprescindível o esforço pessoal do próprio alcoólatra. E isso porque todo o
progresso espiritual requer agonia de alma, a determinação da vontade, por
parte do crente. Sim, todo o avanço em Cristo só pode ocorrer em meio a
agonia de alma. E tudo isso serve para ilustrar a que ponto a alma se tinha
desviado para longe de Deus. Não existe caminho fácil de retorno, e, sem o
concurso decisivo de Jesus Cristo, esse retorno é simplesmente impossível.
«... dizendo-se irmão...» Paulo não queria dar a entender que tais
indivíduos eram verdadeiramente crentes. Nas próprias igrejas evangélicas,
entretanto, nem todos os seus membros são verdadeiros crentes. Contudo,
naturalmente existem aqueles membros que são crentes autênticos; e assim
esta secção, em sua inteireza, mostra-nos que os crentes podem cair em
pecados seríssimos, sem por isso deixarem de ser crentes verdadeiros, cujas
almas estão salvas, o que também é deixado bem claro no quinto versículo
deste mesmo capítulo. Os crentes caídos em pecados sérios, pois, foram
tratados por Paulo com seriedade.
«...com esse tal nem ainda comais...» O alcance das palavras de Paulo é o
seguinte: Não comais com eles, nem por ocasião da Ceia do Senhor e nem
particularmente, na própria casa. Isso está de conformidade com as formas
judaicas de exclusão, as quais, de forma geral, foram transferidas para a
igreja cristã. (Ver as referências dadas sobre ambas as formas de exclusão,
nas notas anteriores sobre este versículo).
Uma disciplina severa pode produzir o bom efeito de fazer o crente errado
voltar ao bom senso, e, finalmente, ao arrependimento autêntico. Em caso
contrário, então somente Deus, tratando individualmente do tal crente,
poderá dar a solução para o caso. A passagem de Heb. 12:7,8 mostra-nos
que Deus fará tal intervenção realmente, se a pessoa envolvida é de suas
ovelhas, é um de seus filhos.
Uma Lista Representativa
Os pecados alistados neste versículo, passíveis de disciplina por parte da
igreja, por certo são representativos. É possível pensar-se noutros pecados
tão ruins ou piores, e que requerem a tomada de uma atitude. Porém,
qualquer juízo quanto a essa questão deve ser tomado pela igreja, e não
mediante a avaliação pessoal de pastores ou outros líderes da igreja.
—Podemos mesmo supor que Paulo reconheceria esses fatos. Por
exemplo, que se poderia dizer acerca do espancamento de esposa e filhos,
da «violência física», e não meramente da ofensa verbal? Tal espancamento
certamente é questão mais séria do que o abuso verbal aqui mencionado.
Além disso, podemos meditar sobre a violência suprema do assassinato, que
sem dúvida é crime e pecado mais grave do que aqueles aqui mencionados.
É evidente, por conseguinte, que essa lista pode tornar-se muito mais longa.
Seja como for, se a igreja local tiver de ser o juiz, mediante a ação
democrática ou coletiva, então o ofensor disciplinado deverá ser
corretamente julgado, ainda que seja disciplinado por causa de alguma
falta não especificamente mencionada neste ponto.
12 τι γάρ μοι τούς εξω κρίνειν; ούχί τούς εσω υμείς κρίνετε ;ã di 12 -13 d question, d statement: Bov Nes b p a v á s v r s v t t zur
Luth Jer Seg jj d minor, d question: TR WH RV // d statement, d statement: NEB 12 rovs <
=
£ω Mk 4.11
I CORÍNTIOS 77
12 μαι] add και D° pm ς | ονχι. . . κρίνετε] τ. εσωβεν υμ. "V·να«ρ’β(syP co) 12, 13 (κρίνετε; . . . κρίνει (κρίνα L αΐ ς) .] κρίνετε,. . . κρίνει; R)
Ao invés do texto usual, vários manuscritos antigos apresentam interessantes variantes: (a) P (46) sir (p) e cop (bo) omitem
ο ύ χ ί e trazem o verbo como um imperativoi t o v s έσωθεν ύμεΐς κ ρίνατε («Julgai vós os que estão dentro (da igreja)>); (b)
O Saidico aparentemente tomou ο ύ χ ί junto com a sentença anterior, dizendo t í y á p μου to v s 'έξω κρίνειν καί to v s εσω
ο ύ χ ί ] to v s εσω vpels κρίνετε («Pois que tenho eu a fazer com julgar os que estão de fora, e não os que estão dentro? Julgai vós
os que estão dentro»).
5:12: Pois, que mo importa julgar o< que estão de fora? Não julgais vós os que estão
de dentro?
Paulo não reivindica qualquer direito dejulgar aos incrédulos, os que não
podem ser chamados de irmãos, os que não fazem parte integrante da
comunidade cristã. Não há modo algum de aplicar a disciplina cristã aos
tais. No entanto, enquanto o crente usar de bom senso, poderá ter
associações com os incrédulos, contanto que não venha a tornar-se
participante dos seus vícios. Pois não ter qualquer contacto social com tais
pessoas certamente seria mais prejudicial ainda para a causa do
cristianismo bíblico. As pessoas do mundo julgariam os crentes como uns
santarrões fingidos, altivos e por demais importantes aos seus próprios
olhos. Por essa razão é que até o próprio Senhor Jesus se associou aos
pecadores e aos tipos humanos mais vis, carregados de vícios, a despeito de
por isso ter sido severamente criticado pelos orgulhosos fariseus. (Ver Mat.
11:19). Não obstante, prevaleceu a sabedoria de suas ações. Jesus precisava
manter tais contactos a fim de conquistar aos pecadores; mas podemos estar
absolutamente certos de que ele não se deixou jamais macular por qualquer
dos defeitos de caráter da gente com quem se associou. Todavia, a
não-associação dos crentes com os membros sob disciplina produzirá efeitos
benéficos, tanto para a própria comunidade como para o membro
disciplinado.
«...os defora...» Uma expressão comum, que indica os incrédulos. (Ver
igualmente os trechos de I Tes. 4:12; Col. 4:5; I Tim. 3:7 e Marc. 4:11). No
presente versículo Paulo assevera que aqueles crentes de Corinto não
haviam compreendido corretamente suas instruções anteriores, conferidas
na carta pòr ele mencionada no nono versículo deste mesmo capítulo. Não
tendo compreendido essas instruções, pois, aqueles crentes tinham sido
levados a entender que ele defendia alguma forma de julgamento cristão
contra aqueles que não faziam parte da comunidade cristã. Mas aqui Paulo
assegura a esses crentes que não os autorizara acerca de qualquer ação
nesse sentido, por ser uma medida estúpida e impraticável, além de estar
além de qualquer «direito» que ele pudesse ter, tanto como apóstolo quanto
como um crente qualquer. O próprio Senhor Jesus não julgou assim aos que
não pertenciam ao círculo dos seus discípulos, e nem interrompeu os
benefícios das associações com os mesmos; e os crentes devem seguir o
exemplo dado pelo Mestre. A expressão utilizada aqui, «...os defora...», se
deriva do judaísmo, onde era aplicada aos gentios. Mas o Senhor Jesus a
aplicou aos judeus que não faziam parte do círculo de seus discípulos.
Paulo, contudo, aplica aqui essa expressão aos incrédulos, sem importar se
eram judeus ou gentios. Devemos observar, porém, que Paulo não quis dar
qualquer sentido de censura, quando empregou essa expressão. Ela
simplesmente separa a comunidade religiosa da comunidade mundana.
Epicteto advertiu contra o espírito de censura que alguns demonstram para
com aqueles que não vivem de acordo com os seus padrões, tachando essa
?3 d
atitude de muito prejudicial. (Ver Epicteto, Enchir. 47). E esse parecer de
Epicteto está correto.
Deus £ OJuiz
1. Prover julgamento é algo que concorda com o caráter de Deus, pois ele
é justo (ver Deu. 32:4).
2. A justiça de Deus é imparcial (ver Jer. 32:19).
3. Os juízos divinos são verdadeiros, pois sua justiça é infalível (ver Sof.
3:5).
4. Deus exibe a justiça em seus juízos (ver Apo. 19:2).
5. Deus manipula o julgamento final (ver Atos 17:31).
6. O julgamento divino foi determinado para a segunda vinda de Cristo
(ver I Ped. 4:6), e não por ocasião da morte de cada indivíduo.
7. Deus administra seusjulgamentos por meio de Cristo (ver João 5:22,27
e Atos 10:42).
Isso não forma contradição com o trecho de I Cor. 6:2, onde aprendemos
que os santos julgarão ao mundo. Essa passagem citada faz uma referência
escatológica, ao julgamento futuro, o que, evidentemente será compar­
tilhado por Cristo Jesus e a sua igreja; ou talvez esteja aqui em foco algo a
ver com o reino milenar de Cristo. (Ver as notas expositivas sobreI Cor.
6:2). Tal julgamento escatológico, entretanto, não terá umcaráter
disciplinar, no sentido de exclusão, conforme é o caso do versículo e passa­
gem que ora comentamos.
Esta passagem inteira é um eco da mensagem constante em Deut. 17:1;
19:19; 22:21 e 24:7, porquanto o estilo das exclusões, no seio do
cristianismo primitivo, seguia os conceitos tipicamente judaicos. Antes, o
juízo começa e fica limitado na própria igreja cristã. (Ver I Ped. 4:17). É
nosso dever notar que os julgamentos «mútuos» não devem ser praticados
entre os crentes. (Ver Rom. 14:4-10; M at. 7:1 e ss. e I Cor. 4:3-5).
Entretanto, isso nada tem a ver com a ação coletiva da igreja local, ao tomar
uma medida disciplinadora. As duas questões são assuntos inteiramente
diversos, ou, pelo menos, deveriam ser assim reputados pelos seguidores de
Cristo. O verdadeiro julgamento entre os crentes deveria ser uma ação
democrática tomada pela igreja inteira; porque, se essa norma for
desrespeitada, podem os julgamentos baixados tornarem-se ações pessoais,
de um crente contra o outro, em que um membro mais forte ou mais
influente se volta contra outro, que é mais fraco, por exemplo. A ação
democrática, todavia, evitará tais abusos.
Os próprios crentes de Corinto confinavam suas ações disciplinares aos
que pertenciam à sua igreja local; e não tinham razão para supor que Paulo,
em sua missiva anterior, referida no nono versículo deste mesmo capítulo,
advogara mais do que isso, a saber, que também tinham o direito de iulgar
aos «de fora».
13 τούς δε εξω ό θεός κρίνει3.d έξάρατε τον πονηρόν έξ ύμώ ν αύτών.
» 13 1C! κρινίΐ Β3 Ρ 33 «1 88 104 181 326 436 614 630 1739 1877 1881
1962 1984 1985 2127 2462 Byz it"·*·” ·'·■·*·· vg cop“ -bo arm Ambrosiaster
13 ε ζ ά ρ α τ β . ,. α ύ τ ω ν D t 17.7; 19.19; 22.21, 24; 24.7
5:13: Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai esse iniquo do meio de vés.
«...Deus os julgará...» exatamente porque a igreja cristã não exerce
jurisdição sobre eles, o que não significa que Deus não os julga. Deus é o
criador e a fonte de toda a existência, o governante moral do mundo; e todos
os seres inteligentes estão sujeitos a ele, sendo-lhe responsáveis.
A própria razão humana exige a necessidade do julgamento. Emanuel
Kant alicerçou um argumento, em prol da existência tanto da alma como de
Deus, sobre a necessidade de recompensa e de punição. E óbvio que neste
mundo a justiça raramente tem lugar como deveria sê-lo. A razão nos diz
que em algum lugar, de alguma maneira, essa justiça terá de ter
cumprimento. Se assim não for, então o universo está realmente em um
estado de caos moral, não havendo qualquer vitória real do bem sobre o
mal. Porém, cremos, e com isso a razão concorda, paralelamente à intuição
e à revelação, que o bem deverá eventualmente triunfar. Ora, somente uma
grande inteligência e um poder bom podem ser ojuiz apropriado de todos os
homens; e a essa inteligência chamamos Deus. Deus precisa existir, para
que exista a retidão moral, para que a justiça seja cumprida, e para que,,
eventualmente, o bem vença ao mal. Como já dissemos, se assim não for,
então o universo está em estado de confusão.
Ora, se o homem tiver de ser julgado, então terá de sobreviver à morte
física, porque deve ter uma existência suficientemente longa que o permita
chegar ao juízo, onde receberá recompensa ou ouvirá sua sentença. E
evidente que, nesta vida terrena, raramente o homem encontra justiça.
Portanto, 'deve haver justiça lá «no outro lado» da existência; deve haver
almas, do outro lado da existência, para que sejam julgadas; e isso requer a
sobrevivência pessoal da alma. E assim a imortalidade, pelo menos nesse
sentido limitado de existência posterior, precisa ser uma verdade.
Outrossim, somente através da existência de um Deus bom, todo poderoso e
onisciente, bem como através da sobrevivência da alma, como um ser
inteligente, é que podemos supor a existência de um universo onde impera a
Augustine Jj κρίνει p1
8
629 1241 2495 Lect itd·
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C D®·" G*r goth // κρίνει D ” Ψ 330 451
13 e£apare] εξαίρετε J)áe: και εξαρειτε DC
L al Or ς
moral e o propósito. De outro modo, prevaleceria o caos.
Paulo concorda com essas conclusões, e as confirma através da razão e da
intuição, bem como através da revelação. Todos os métodos pelos quais
adquirimos conhecimento atingem a mesma verdade. No entanto, a
revelação chega a essa verdade muito mais segura e prontamente. (Quanto
ao «julgamento de Deus», ver Apo. 14:11 e 20:11 e ss. Ver também o trecho
de Rom. 11:32 quanto ao fato que «o julgamento será temperado coin a
misericórdia», por ter uma natureza disciplinar, curativa, e não meramente
retributiva). Sendo assim as coisas, podemos estar certos de que os perdidos
jamais se tornarão «eleitos». Em outras palavras, a despeito de que lhes será
outorgada certa forma de existência espiritual, depois de haverem pago sua
dívida até o último ceitil, essa existência não será da mesma categoria da
vida eterna recebida pelos eleitos. Ver as explicações dadas em Efé. 1:10.
A justiça absoluta será cumprida. Deus é o juiz de todos, e todo esse
processo; e podemos estar certos de que ele agirá com toda a eqüidade.
«...Expulsai, pois...» Evidentemente temos aqui a citação do trecho de
Deut. 17:7. «...malfeitor...» é palavra de sentido muito geral, que indica
todas as formas de homens perversos. Essa mesma palavra é usada no
oitavo versículo deste capítulo, onde é comentada, sendo traduzida
variegadamente por «maldade», «iniqüidade» e malícia. (Ver as notas
expositivas ali, sobre o vocábulo grego «pioneria»). Neste ponto
encontramos a reprimenda final de Paulo contra a maneira frouxa com que
os crentes de Corinto manuseavam os problemas morais surgidos em sua
comunidade. Orígenes (in loc.) comenta dizendo que não somente o mal
deve ser expulso, mas igualmente os «malfeitores», por serem eles a origem
de toda a confusão. Não há que duvidar que isso é o que Paulo queria dar a
entender. Se Paulo não cita diretamente as Escrituras, ou melhor, se não
identifica o trecho de onde extraiu essa citação, pelo menos podemos estar
certos de que seus leitores compreenderiam a autoridade das Escrituras,
que lhe davam apoio no que ele aqui ordenava. (Quanto a notas expositivas
78 I CORÍNTIOS
sobre como Paulo costumava usar trechos do A .T., em apoio às suas filósofos morais da antiguidade de prepararem listas de vícios que deveriam
doutrinas, ver o trecho de I Cor. 1:19). ser evitados. Essas listas eram extremamente populares no período
. r, . helenista. Nenhuma prática similar se encontrava na literatura rabínica,
Variante Textual·. O tempo presente, «...Deus os julga...», se encontra nos omVir>ro Filn « __________ , .,
mss L e na maioria dos manuscritos gregos posteriores. Porém, os manuscritos ,·’,,^oplato
realmente antigos, como P(46), Aleph, ABCD, etc., apresentam o futuro, estivesse acostumado a mesma. Tal pratica tambem pode ser vista nas obras
«...Deus os julgará...» Isso está mais de acordo com a idéia escatológica iiteranas judaicas de babedoria de Salomão e IV Macabeus. Os trechos de
encerrada neste versículo, ainda que alguns estudiosos pensem que o tempo Rom. 1:26-32 e Col. 3:5-10, além da presente passagem e de I Cor. 6:9,10,
futuro foi tomado por empréstimo ao trecho de Heb. 13:4. Mas isso não é muito são exemplos paulinos dessa mesma prática. Tais listas eram empregadas
provável. As versões da Vulgata latina, do aramaico, do cóptico e do etíope como parte integrante do ensinamento moral. (Comparar também com
tambem exibem aqui o futuro. Marc. 7:22 e com o Didache 2:1 e 5:2).
Lista de vícios: Encontramos aqui um reflexo da prática consagrada pelos
Capitulo 6
III. Imoralidade, Êtica Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1-7:40).
2. Contra os processos legais entre os crentes (6:1-8).
Gradualmente Paulo foi repreendendo os muitos vícios, as práticas condenáveis, os males de toda a sorte, na igreja cristã de
Corinto. Já havia condenado o problema das divisões partidárias, a ênfase sobre a sabedoria mundana, a diminuição da
importância da palavra da cruz, a veneração aos heróis e a degradação de ministros autênticos de Cristo. (Ver os capítulos
primeiro a terceiro deste mesmo livro). Também havia mostrado como os verdadeiros devem ser avaliados (ver o quarto capitulo
desta epístola). Por igual modo, havia atacado os baixos padrões morais, tendo destacado especialmente um caso de abuso
sexual dos mais abomináveis, dentre tudo o que já se ouvira falar. E exigira ação por parte da igreja cristã de Corinto nesse caso,
bem como a exclusão do indivíduo culpado, sua entrega a Satanás, para que o mesmo perdesse a sua vida física.
Mas, a partir deste ponto, Paulo ataca um diferente tipo de abuso, a saber, o de julgar a outros, em sentido legal, na presença
de incrédulos, em seus tribunais de justiça. Paulo considerava que a igreja cristã tem a capacidade de efetuar os seus próprios
julgamentos, a despeito das questões que porventura fossem encontradas. Essa ação, naturalmente, pressupõe o caso de dois
crentes que discordassem e entrassem em conflito por algum motivo, e não os casos em que um crente fosse envolvido em querela
com um incrédulo. Não é provável, neste caso, seja como for, que o incrédulo concordasse em serjulgado em um tribunal cristão,
eclesiástico. Paulo continuava procurando regulamentar a conduta no seio da igreja, e não entre crentes e incrédulos.
Preocupava-se o apóstolo com a ordem correta no seio da igreja cristã, e em que o espírito de Cristo fosse aplicado a todas as suas
ações.
Paulo raciocina aqui que se os crentes não devem julgar aos de fora, conforme se lê em I Cor. 5:12,13, então não deveriam os de
fora ter qualquer coisa a ver com o julgamento de crentes, naqueles casos em que dois crentes, em conflito um com o outro,
podem ser julgados pela igreja local. Paulo deixava subentendido que a consciência cristã e a influência do Espírito Santo
contribuem para fazer da igreja cristã local um tribunal melhor e mais sábio do que qualquer tribunal secular poderia sê-lo. Mui
provavelmente a idéia geral em que esse pensamento se alicerça vem da cultura judaica, pois dentro da sinagoga e do templo
havia provisão para todas as formas de julgamento, incluindo os julgamentos de natureza inteiramente secular. O próprio
governo romano permitiu aos judeus continuarem essa prática, até que caiu no mais total abuso. Os rabinos costumavam usar o
trecho de Êxo. 21:1 a fim de mostrar que era ilegal apresentar uma queixa perante juizes idólatras. Entre os judeus,
ordinariamente três eram os juizes nomeados para cuidarem de tais casos. (Ver Strack e Billerbeck, Kommentarzum N. T. aus
Talmud und Midrasch, III, págs. 364-365).
O mais provável é que Paulo não estivesse pensando que a igreja cristã devesse assumir qualquerposição legal, a fim de julgar
questões dessa natureza, posição essa que fora atribuída à sinagoga judaica por permissão do governo romano. Não obstante, a
igreja deveria cuidar de si mesma quanto a essas questões, em que dois de seus membros entrassem em conflito um com o outro.
Pois Paulo era da opinião que a sabedoria espiritual deve ser suficiente para cuidar de tais casos, sobretudo em face do fato de que
os crentes estão destinados a serem juizes universais (6:2), em sentido escatológico. O terceiro versículo deste mesmo capitulo
mostra-nos que tal juízo envolverá até mesmo aos «anjos», acerca dq qual assunto dispomos de bem escassa informação, mas que
indica o tema que tem sido constantemente abordado neste comentário.i.e., que mediante a transformação dos remidos segundo a
imagem de Cristo, no qual processo há a formação de sua natureza moral e metafísica, os homens são elevados a uma estatura
espiritual muito superior à dos próprios anjos. De fato, assim deverá ser, pois os remidos participarão da própria «natureza
divina», no dizer de II Ped. 1:4. Sendo essa a realidade, certamente que as pequenas questões que atualmente surgem entre os
irmãos na fé podem ser solucionadas sem a ajuda dos incrédulos, os quais, presumivelmente, possuem muito menor sabedoria, ou
pelo menos, muito inferior sabedoria espiritual.
Paulo nos permite entender que os crentes devem viver acima da lei, já que possuem a lei superior de Cristo para obedecerem .
Isso, entretanto, fará dos remidos excelentes súditos,cidadãos exemplares e cumpridores das leis de seus respectivos países.
(Ensino esse bem esclarecido no décimo terceiro capitulo da epístola aos Romanos). O Crente deve preocupar-se com suas
responsabilidades espirituais, e não meramente com os seus «direitos». Por essa exata razão é que disse Aristófanes (444- 380
a.C.): «Os sábios, ainda que todas as leis fossem abolidas, levariam o mesmo tipo de vida».
6 Τολμά τις νμων πράγμα, €χων προς τον erepov. κρίνεσθαι €πΙ των άδικων, καί ονγι em των άγιω ν;
6:1: Ousa algum de vòt, tendo uma queixa contra outro, ir a juixo perante ot mostra-nos que Paulo não tinha algum caso isolado em mente. O número de
injustos, e não perante ot tantot? casos semelhantes deve ter sido regular, o que explica a severidade da
A palavra o...Aventura-se...» também poderia ser traduzida por «ousa» reprimenda,
ou «tem a audácia». O vocábulo grego «tolmao» significa «ousar», «ter a «...questão...» No grego original a palavra é «pragma», que era usada, de
coragem», «mostrar-se à altura de», dando sempre a entender alguma maneira geral, para indicar «feito», «coisa», «acontecimento», «ocorrência»,
audácia no íntimo. Paulo usa aqui essa palavra em sentido negativo. Alguns «ocupação», «questão», «assunto»; contudo, também havia um sentido
crentes como quê brincavam com os princípios básicos do cristianismo, forense ou judicial de questão legal, de «processo legal», de «disputa legal»
mostrando-se ousados, presunçosos. Notemos que Paulo escrevia para de qualquer espécie. Paulo todavia, não esclarece aqui a natureza exata dos
crentes gentios, sem grande conhecimento dos costumes judaicos, ou, pelo casos acerca dos quais tinha conhecimento, mas não há que duvidar que
menos, não bem-versados nesses costumes. Qualquer judeu teria tais casos eram variegados. Talvez as disputas girassem em torno de
compreendido de imediato a repreensão de Paulo aqui, porquanto teria sido questões de dinheiro, de propriedade, de transações comerciais, de
instruído desde a infância que não se deve apelar para juizes pagãos e testamentos, de contratos, etc.
idólatras quanto a questões de natureza religiosa. Os judeus consideravam «...contra outro...» Essas palavras significam o próximo, em sentido
que taisjuizes eram totalmente inidôneos para julgarem a um israelita. (Ver tipicamente cristão. (Comparar com I Cor. 10:24; 14:17; Rom. 2:1 e Gál.
a introdução ao presente capítulo, que sonda o pano de fundo da atitude 6:4).
que Paulo expressa aqui). «...submetê-la...», isto é, «apelar para a lei» (no grego, «krinesthai», que
Embora os leitores de Paulo talvez não se aferrassem aos mesmos aparece na voz média), palavra com freqüência usada em sentido forense,
princípios aceitos pelos judeus, como formação cultural, contudo esse «Levar ajuízo», entregar queixa a um juiz, desejando que seja baixada uma
apóstolo esperava que aqueles crentes, como convertidos a Cristo que eram, decisão judicial a respeito.
e, portanto, dotados de sabedoria divina e de compreensão espiritual, «...perante os injustos...» Paulo não falava pejorativamente aqui, como se
entenderiam quão impróprio seria levar questões de ordem espiritual a os juizes incrédulos jam ais buscassem chegar a soluções justas,
tribunais seculares. Aqueles crentes deveriam ao menos usar de bom senso, acompanhadas de sabedoria. O termo «injusto» era termo comumente
percebendo a impropriedade dessa ação. O oitavo versículo deste capítulo usado para referir-se aos gentios, em contraste com os judeus; e isso foi
I CORÍNTIOS 79
aproveitado pelo vocabulário cristão para indicar os incrédulos, os quais são
reputados como quem não está «justificado» diante de Deus, sujeitos à
condenação divina. Paulo não quis dizer que os juizes pagãos são sempre
injustos; tão-somente salientava que os incrédulos são pagãos, não tendo
realmente direito para tomar decisões acerca de conflitos entre crentes,
porque, moralmente falando, isso estava fora de sua jurisdição e do alcance
de sua sabedoria. Por semelhante modo, Paulo não quis dizer que havia
pouca ou nenhuma oportunidade de um crente obter um julgamento justo
em tribunal secular, somente porque chama a todos os juizes pagãos de
«injustos».
Os gregos apreciavam muito os litígios, e os membros da igreja de
Corinto que se inclinavam para os pontos de vista dos sofistas sem dúvida
não teriam hesitado em apresentar casos perante a lei, talvez deleitando-se
em apresentar as suas queixas contra outros. (Ver Aristófanes, Rhet. II.
xxiii.23, acerca do gosto que os gregos tinham nessa forma de atividade).
Não havia «tribunais cristãos» (conforme havia tribunais judaicos). Os
cristãos que se inclinavam para o litígio, portanto, apelavam para os
tribunais pagãos, ao invés de aplicarem o bom senso, a sabedoria cristã,
conservando os casos de querelas entre os crentes dentro da própria igreja
cristã. Paulo não estabelece quaisquer regras quanto ao número de juizes,
funções, etc., e nem determina qualquer conjunto de regras, mas antes, dá
a entender que isso poderia ser adequadamente arranjado mediante acordo
mútuo. Os tribunais judaicos para solucionar tais casos geralmente eram
constituídos de três juizes.
«...santos...» é palavra que faz contraste com os juizes «injustos». Ora,
sendo os crentes «santos», possuidores de sabedoria divina, eram capazes de
encontrar solução para os conflitos entre os irmãos na fé, porquanto
também exerciam a devida jurisdição sobre a comunidade religiosa dos
cristãos. O termo «santos» é largamente aplicado, nas páginas do N.T., a
todos os crentes, e não meramente apenas a alguns poucos indivíduos,
conforme esse vocábulo é usado em certos círculos da cristandade. (Quanto
a notas expositivas completas sobre essa questão, ver o trecho de Rom. 1:7).
Findlay (in loc.) comenta a respeito da atitude dos crentes de Corinto,
quanto a esse particular, como segue: «Tratais a igreja, que é a sede do
Espírito Santo (ver I Cor. 3:16 e ss.), como se ela não tivesse autoridade ou
sabedoria; e apresentais os vossos casos ao tribunal comparativamente mais
inferior». Naturalmente, Paulo também apelou para tribunais humanos,
mas jamais em qualquer caso que envolvesse irmãos na fé. (Ver Atos 28:19).
(Quanto às proibições rabínicas, que impediam os judeus de apresentarem
queixa contra outrosjudeus, em tribunal pagão, ver Sulchan aruch, Chosen
hummishpat, 29. Maimonides, Hilch. Sanhedrin, cap. 26, secção 7;
Talmude Babilônico Bittin., foi. 38:2; Rabino Abraham Seba, sobre Tzeror
Hammor, foi. 80.4; Rabino Bechai em Kad Hakkmemach, foi. 21.4;
Maimonides, Talmud Tora, cap. 6, secção 4; Zohar sobre Êxodo, foi.
103.3). Por conseguinte, tudo isso era tema explorado pelo Talmude e pelo
ensino dos rabinos.
Na primeria dessas referências judaicas mencionadas, lê-se o seguinte:
«Aquele que julga uma causa perante os juizes gentílicos, e perante os seus
tribunais, ainda que as decisões sejam idênticas às de um tribunal israelita,
eis que tal homem é ímpio; e é como se tivesse blasfemado e fosse réprobo,
tendo levantado a mão contra a lei de Moisés, o nosso mestre, conforme
aparece em Êxo. 21:1: ‘São estes os estatutos que lhes proporás... perante
eles, e não perante gentios... perante eles... e não perante idiotas, homens
privadps e iletrados’». Na opinião dos judeus, pois, levar um caso de
natureza religiosa a um tribunal secular era medida eqüivalente a
profanação contra o nome de Moisés e contra o Deus por ele representado,
que baixara provisões acerca dessas questões, no teor da lei mosaica.
★ ★ ★
2 rj o v k otBare ότι o i άγιοι τον κόσμον κρινονσιν; και el iv ύμ ΐν κρίνετα ι ό κόσμος, άνάζιοί
κριτη ρίω ν βλα χίστω ν ; 6 2οί άγιοι...κρινοΰσϊν’Ό
η7.22; Wed 3.8; Re 3.21 2 (κρίνοΰσίν] κρίν-)
€στ€
6:2: Ου não sabeis vis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo há de
ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas?
«..-julgar o mundo...»Quando do estabelecimento do reino messiânico (o
que é identificado com o milênio, por alguns estudiosos), os remidos
compartilharão da autoridade de Cristo; e, assim sendo, serão juizes entre
os homens. Isso concorda com antigas tradições judaicas, conforme se
aprende no livro de Sabedoria de Salomão 3:8: «Julgarão às nações, e terão
domínio sobre os povos». (Ver igualmente o trecho de Eclesiástico 4:15).
Enoque 108:12 diz: «Farei aparecer revestidos de luz brilhante aqueles que
tiverem amado ao meu Santo Nome; e a cada um deles farei assentar-se no
trono de sua honra».
. Os crentes haverão de participar da glória de Cristo, segundo
aprendemos em I Cor. 4:8 (o que inclui também a idéia que eles «reinarão»
com Cristo); Rom. 8:17; Dan. 7:22; Apo. 2:26,27; 3:21 e 20:4. A última
dessas diversas referências fala especificamente sobre o fato de que
reinaremos com Cristo por mil anos. A passagem de Mat. 19:28 promete
aos doze apóstolos que exercerão domínio e governo sobre as doze tribos de
Israel, quando for inaugurado o reino messiânico. (Quanto a notas
expositivas completas sobre o «reino de Deus» ou «reino dos céus», ver Mat.
3:2). Não parece haver no trecho que ora comentamos qualquer alusão ao
governo e julgamento dos homens, para além desse reinado milenar de
Cristo, embora isso também seja possível, considerando-se o fato de que os
crentes julgarão até mesmo aos próprios anjos. (Ver o terceiro versículo
deste capítulo). Ora, isso subentende a altíssima exaltação dos remidos em
Cristo, o que lhes perm itirá igualmente desempenharem grandes e
profundos serviços, no estado eterno.
O fato de que os crentes são juizes parece incorporar tanto as idéias do
proferimento da sentença como também um domínio político em geral, tal
como ambos esses aspectos são abordados no que diz respeito à missão de
Jesus Cristo em seu reino, tanto no que concerne aos homens como no que
concerne aos anjos, por ter ele jurisdição universal.
A interpretação desta passagem não pode incluir a idéia,' exposta por
alguns eruditos, os quais supõem que a referência é à evolução gradual do
poder da igreja cristã, de tal maneira que, eventualmente, juizes crentes
ocuparão posições de autoridade neste mundo. Isso não sucederá enquanto
não retornar o nosso grande Rei, como não tem sucedido em grande escala
em tempo algum, nem no passado e nem no presente.
«...sois acaso indignos...» Quanta incongruência era praticada por
aqueles crentes de Corinto! Os crentes estão destinados a compartilhar do
reinado universal de Jesus Cristo, tanto na esfera terrena como na esfera
3 ovk olhare ότι αγγέλους κρίνουμεν,a μη τιγε βιωτικά
a exclamation; RSV NEB Zür (Luth) Jer jj a question, a question: AV RV ASV Seg
6:3: Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas
pertencentes a esta vida?
As palavras «...Não sabeis...» nos permitem entender como se Paulo
estivesse indagando: «Vós que sois tão sábios, tão orgulhosos de vossos dons
espirituais, de vossos discursos eloqüentes, de vossa elevada capacidade
como mestres e líderes: não sabeis qual é o vosso elevado destino, e o que
está implícito nisso? Uma das verdades implícitas em vosso elevado destino
é que está abaixo de vossa dignidade cristã apresentardes queixas, em
algum tribunal secular, contra irmãos na fé». Sim, porque a igreja é o
tribunal dos crentes, no qual nenhum indivíduo que está «de fora» pode
intrometer-se. A igreja éo melhor tribunal onde as questões entre os crentes
devem ser solucionadas, porque ali opera a sabedoria divina, em contraste
celestial. (Ver Efé. 1:23). No entanto, aqueles crentes de Corinto se sentiam
incapazes de julgar até mesmo as suas questões terrenas, «triviais»,
preferindo entregar a solução de seus casos ajuizes injustos. Esse é o âmago
do argumento aqui apresentado pelo apóstolo dos gentios, sendo um
argumento de grande efeito. Quanto ao seu espírito, segue a mentalidade
judaica, conforme se explicou nas notas expositivas mais acima. Dá a
entender que os crentes participarão de tudo quanto Cristo é, incluindo sua
sabedoria e discernimento, através da operação do Espírito, o que conferirá
aos crentes grande e decisiva vantagem sobre aqueles que são «de fora», que
estão sujeitos a pouca ou nenhuma influência da parte do Espírito de Deus.
Alguns estudiosos consideram a última porção deste versículo como se
dissesse: «Sois indignos de vos assentardes nos menores tribunais?» Outros
traduzem: «Sois indignos de julgar questões triviais?» Esta última
possibilidade é preferível, embora se devam incluir ambas essas idéias. Os
crentes estão destinados a participarem de grandes e cósmicos tribunais; no
entanto, na sua própria igreja, são incapazes de formar um tribunal de três
homens, para julgar casos de interesse exclusivo dos crentes, não podendo
julgar nem mesmo trivialidades; no entanto, estão destinados a fazer
julgamentos de muitíssimo maior envergadura, de natureza espiritual,
quando for inaugurado o reino de Cristo. Devido à sua carnalidade,
entretanto, é que demonstravam claramente sua falta de verdadeira
sabedoria espiritual, ao mesmo tempo que tanto exaltavam à sabedoria
mundana. (Ver I Cor. 1:18 e ss.). Portanto, é como se Paulo lhes dissesse:
«Está abaixo de vossa dignidade, como crentes, levardes vossas diferenças
para serem julgadas por tribunais seculares».
Paulo condena neste ponto a prática de um crente apresentar queixa
contra outro, perante tribunal secular; e condena isso com base na
dignidade cristã, devido à unidade ideal do vínculo da fraternidade cristã.
Os crentes de Corinto, pois, tinham violado ambos esses princípios.
«...ou não sabeis...»É como se Paulo tivesse indagado: «Vós, que sois tão
sábios, tão hábeis no sofisma e na retórica, tão excelentes oradores, tão
admiráveis expositores da sabedoria humana, desconheceis esta verdade
simples, subentendida no fato de que os crentes haverão de julgar tanto ao
mundo como até mesmo aos próprios anjos?» (Ver o terceiro versículo deste
capítulo).
«...as cousas mínimas...» Estão aqui em foco diversos negócios, como
contratos, heranças, testamentos, disposição de propriedades e outras
questões mundanas. Ou então, se está em vista a idéia de «tribunais», então
a alusão seria a tribunais que cuidam de questões de natureza trivial.
>
’a . a a 3 a minor, a question: TR WH Bov Nes BF2 TT // a question,
3 (κρινουμεν, ] ; ς R)
com os tribunais seculares, onde a sabedoria pode ser somente aquela de
natureza empírica, intelectual, e, quando muito, intuitiva.
«...havemos de julgar os próprios anjos...» Não possuímos muita
informação sobre essa particularidade. Várias interpretações são possíveis,
nenhuma das quais podemos afirmar que é verdadeiramente informativa.
Os anjos (sem im portar se estão em foco os bons ou os maus) são
mencionados como as criaturas mais elevadas é importantes do universo,
sobre as quais Deus exerce controle absoluto. Origenes e alguns outros
cristãos antigos não postulavam qualquer diferença essencial entre o
espírito humano e os anjos. Também acreditavam eles que o homem fazia
parte da criação original, pertencendo à mesma categoria dos anjos, antes
da queda no pecado. E assim sendo, o homem seria uma das criaturas
espirituais. Mas, à semelhança dos anjos que caíram, quando o homem
80 I CORÍNTIOS
também caiu no pecado, tornou-se um ser espiritual decaído. O livro de
Gênesis inicia o relato do homem como um ser «mortal», decaído. Por
éonseguinte, espiritualm ente falando, por sua própria natureza, é
potencialmente tão elevado quanto os anjos, o que terá concretização
através da sua restauração em Cristo Jesus.
Mas, em Cristo Jesus, o destino dos remidos é se tornarem mais exaltados
do que os próprios anjos, visto que atingirão até mesmo a participação na
natureza divina. (Uma nota de sumário sobre tudo quanto está implicado
nessa idéia, é dada no trecho de Rom. 8:29). Não nos deveria surpreender,
portanto que os homens, redimidos e transformados na imagem de Cristo,
sejam elevados acima dos anjos e realmente se tornem seus juizes e
governantes. E devemos antecipar aqui não meramente o julgamento dos
anjos caídos, mas também uma forma de domínio que tomará os anjos
sujeitos aos remidos, tal como estão sujeitos ao próprio Cristo.
-Naturalmente, esse é um conceito extremamente sublime, cuja própria
magnificência serve para obscurecê-lo parcialm ente para o nosso
entendimento. Outrossim, não precisamos pensar que esteja aqui em foco
somente o reino messiânico, de acordo com as condições que prevalecerão
no milênio, mas também aquelas condições que caracterizarão o estado
eterno.
Certa expéctação dessa natureza já podia ser vista no judaísmo, embora
tal idéia não tivesse sido ali desenvolvida. (Ver o trecho de Dan. 7:22, onde
lemos que ojuízo será entregue aos santos do Altíssimo. E com isso
comparar também o livro apócrifo de Baruque 51:12). Que os homens
remidos serão superiores aos anjos é uma verdade que também aparece em
II Baruque 51:12, que diz: «Haverá então nos justos, uma excelência
superior à dos anjos».
Apesar do fato de que Paulo provavelmente inclui aqui a idéia dos «anjos
caídos» (ver Jud. 6 e II Ped. 2:4), como seres que serão envolvidos no
julgamento presidido pelos santos (um direito que lhes será delegado por
Cristo), incluindo talvez também a idéia de que os anjos estarão sujeitos ao
seu domínio (embora nada saibamos sobre as condições que prevalecerão no
estado eterno), não há motivo algum para limitarmos essa referência
somente a isso. A passagem de I Cor. 15:24 mostra-nos que Cristo virá
governar com todo odomínio, autoridade e poder. Em Efé. 1:21, Cristo é
visto acima «...de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de
todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no
vindouro (no estado eterno)».
Quando da glorificação final é que os crentes virão a participar de tudo
quanto Cristo tem e é, o que certamente envolverá também esse domínio,
citado nessa passagem de Efé. 1:21. Todas essas fases da doutrina cristã são
elevadíssimas.
«...as cousas desta vida...» No original grego encontramos aqui o
vocábulo «biotika», o que indica o que é físico, terreno, mundano. Essa
palavra era largamente usada para indicar as questões ordinárias, as
necessidades comuns da vida diária, as vicissitudes da existência humana,
terrena. Se os remidos tornar-se-ão seres capazes de julgar aos próprios
anjos, e governá-los, afinal, dispensando julgamento na dispensação eterna,
como é que agora mesmo os remidos não seriam capazes de possuir
sabedoria humana suficiente para encontrar solução para as questões
mínimas, triviais, que acompanham normalmente a vida física?
As interpretações que afirmam que esse julgamento dos anjos se refere à
«derrubada» dos poderes malignos, mediante a propagação do evangelho,
durante esta dispensação da graça, ficam muito aquém, tanto da tradição
que envolve a questão, já conhecida no seio do judaísmo, como também
daquele entendimento que nos foi dado através da revelação mais perfeita,
relativa à suprema dignidade da mensagem cristã e aos resultados
antecipados com base na pregação dessa mensagem, no terreno da redenção
humana. Os crentes de Corinto, ao levarem irmãos perante tribunais
pagãos, ignoravam a suprema dignidade do crente.
Também não podem ser aceitas aquelas interpretações que dizem que o
vocábulo «anjo» se refere a qualquer autoridade ou ser humano. Estão aqui
em foco os anjos de Deus, que são seres imortais e muito exaltados.
«....julgar...» Esse verbo precisa ser compreendido em sentido bem lato,
incluindo a idéia de condenação e proferimento da sentença, embora
também inclua a idéia implícita do domínio, ou seja, o exercício do juízo,
que é um dos direitos atribuídos a um governante. No original grego, essa
palavra também significava «administrar justiça», conforme se vê em Apo.
6:10. Diz o trecho de I Clemente 8:4: «Verificar que a justiça é feita». O
ofício de um governador deve incluir esse tipo de atividade, e uma coisa
pode ser compreendida como implícita na outra.
4 βιαστικά μεν ουν κριτήρια εάν εγτγτε, t o v s εξουθενωμένους εν τη εκκλησία t o v t o v s καθίζετε;b
b 4 b question: WH Nes BF2 RV ASV RSV NEB TT jj b command: AV RVme A S V ms Luth // b exclamation: Zür Jer Seg // command or statement: TR Bov
4 (κα&£<=«; R‘] . ς R“ )
6:4: Eirtõo, te tiverdes negócios em juízo, pertencentes α esto vida, constituis como
juizes deles os que são de menos estima na igreja?
Esta tradução,«...daqueles que não têm nenhuma aceitação na igreja!...»
é exagerada. Melhor tradução seria: «...daqueles que são menos estimados
pela igreja!...» E isso talvez signifique «os defora», e, quiçá, os «injustos». É
como se Paulo tivesse asseverado: «Apresentais vossos casos perante aqueles
que, visto serem incrédulos, realmente são considerados em pouca ou
nenhuma estima na igreja». Mas talvez Paulo se referisse aos «menos
estimados», no seio da própria igreja cristã local.
Alguns estudiosos pensam que o verbo «kathidzete» está no modo
imperativo, «...constituí (vós) tais casos perante os menos estimados na
igreja!» É como se Paulo tivesse dito que seria melhor deixar tais casos ao
encargo dos elementos menos estimados na comunidade cristã do que
apresentá-los aos incrédulos. Se tal verbo realmente é um imperativo, então
teria de ser compreendida esta frase como um sarcasmo, e não como o
intuito real do apóstolo. Paulo teria falado assim sarcasticamente, pois,
porque não defendia seriamente a idéia de que os crentes de Corinto
escolhessem os elementos menos qualificados de sua igreja para serem os
juizes de seus casos particulares. Mas até mesmo isso, teria ele deixado
entendido, ainda de conformidade com esse tipo de interpretação, seria
melhor do que a sua prática atual de apelarem para os tribunais seculares.
Outros estudiosos, entretanto, preferem pensar que esse verbo grego está
no modo indicativo, interrogativo, e não no modo imperativo, o que é
possível na gram ática grega. Nesse caso, Paulo simplesmente estaria
indagando por que aqueles crentes de Corinto selecionavam como seus
juizes os indivíduos de menor estima, no conceito da igreja, a saber, os «de
fora», os juizes injustos, referidos no primeiro versículo deste mesmo
capítulo.
Bons eruditos têm defendido um e outro desses dois pontos de vista, não
havendo qualquer maneira de determinar qual é a posição correta. Mas a
mensagem de Paulo é clara em ambos os casos. Ele condenava o emprego de
tribunais seculares nos casos surgidos entre os crentes, porquanto tal ação é
uma desgraça contra a dignidade da comunidade cristã. Por qual razão,
pergunta ele, apresentais vossos casos aos tribunais seculares, considerando
que os crentes julgarão aos próprios anjos? (Essa declaração, vazada na
forma de uma pergunta, faz o verbo aparecer no modo indicativo,
«kathidzete»). Ou então, dizia Paulo sarcasticamente: «Ao invés de
apresentardes vossas queixas perante os tribunais seculares, julgai-os
através dos membros menos qualificados e menos estimados da igreja,
porque isso é muito melhor!» (Neste caso, o verbo grego, «kathidzete»,
estaria no modo imperativo).
«Apelando eles para entidades fora de seu próprio grupo, pedindojustiça,
não estariam confessando que a despeito de serem os juizes apontados para
julgarem aos anjos, eram incapazes de arbitrar sobre questões de pouca
monta?» (Robertson e Plummer, in loc.).
Vários comentadores bíblicos fazem este versículo referir-se às diversas
categorias de juizes, conforme'se via no sistema judaico, a saber:
1 . O grande sinédrio, composto por setenta e dois membros, em
Jerusalém e que era o tribunal superior dos judeus.
2. O pequeno sinédrio, composto de vihte e cinco elementos, das cidades
maiores dos judeus, e que ocupava o segundo lugar, após o tribunal
superior.
3. Os três juizes autorizados, que havia em cada sinagoga.
4. O tribunal «autorizado», oficialmente nomeado para dar solução a
disputas especiais.
5. O tribunal «não-autorizado», isto é, que não recebera qualquer
autorização da parte do Sinédrio, mas que servia 'de árbitro em qualquer
tipo de disputa, selecionado pelos indivíduos em litígio, independentemente
de qualquer autoridade judicial centralizada.
Alguns eruditos pensam que aqueles referidos como os que «não têm
nenhuma aceitação na igreja», que aparecem neste versículo, pertenceriam
a essa quinta e últim a categoria. Porém, a despeito do fato de que o
cristianismo primitivo copiou as instituições judaicas em muitos
particulares, e apesar de ser provável que, de alguma forma, neste caso
também, não é provável que todo esse elaborado sistema judaico houvesse
sido adotado. Por conseguinte, mui provavelmente não há qualquer alusão
aqui a essas várias categorias de tribunais, mas as pessoas referidas
pertencem à última dessas cinco categorias.
5 ττρος εντροττην ν μ ϊν Ácyco. ovtcos ουκ ενι εν υ μ ΐν ovδειs σοφθ5 os δννησεται διακρϊναι ανα μέσον το ν
αδελφοί) α υτόν “ 5-6 c question, c question: TR Bov Nes BF2 NEB TT // c exclamation, c exclamation: Jer Seg // c question, c exclamation: Luth
lj c minor, c question: WH RV ASV RSV Zür jj c question, c statement: AV
6:5: Paro vos envergonhar o digo. Seri que não há entre vós sequer um sábio, que
possa julgar entre seus irmãos?
Que Paulo falava para vergonha daqueles crentes de Corinto seria
verdade, sem im portar se preferimos uma ou outra das possíveis
interpretações sobre o versículo anterior. Se deixavam seus casos serem
julgados pelos «de fora», ou pelos de nenhuma estima, ou pelos «injustos»
(ver I Cor. 5:13; 6:1,4), isto é, por juizes de tribunais seculares, isso
redundava em vergonha para eles, porquanto assim permitiam que a
dignidade da igreja fosse diminuída, embora a igreja seja o futuro tribunal
5 (avrov;], Rj
do mundo e dos próprios anjos. E se Paulo achou por bem sugerir, mediante
uma linguagem sarcástica, que eles deveriam apelar para os membros
menos qualificados e preparados de sua própria comunidade, os menos
estimados elementos da igreja, para serem os seus juizes, então disse tal
coisa a fim dè envergonhá-los, porquanto assim, embora fossem eles
supostamente «sábios», na realidade acabavam de exibir a sua carnalidade e
falta de autêntica sabedoria espiritual, devido a suas atitudes quanto a essas
questões legais.
A mensagem central do presente versículo é que aqueles crentes de
Corinto tinham dado excessiva importância à sua suposta «sabedoria» (ver I
I CORÍNTIOS 81
Cor. 1:18 e ss.), tendo causado dissensões na sua igreja local por causa
disso, além do que ignoravam ou atribuíam mínima importância à palavra
da cruz, substituindo-a por uma sabedoria terrena, expressa em imitação à
retórica dos filósofos sofistas. No entanto, a despeito de toda essa sua
sabedoria terrena, da qual tanto se ufanavam, não possuíam sabedoria
genuína suficiente para fazerem da igreja um tribunal para julgar questões
simples, que devem ser manuseadas exclusivamente entre crentes, por
envolverem questões corriqueiras entre irmãos na fé. Portanto, Paulo falou
para vergonha deles. O apóstolo havia mostrado como eles tinham
degradado a igreja de Cristo e a estatura do crente, entregando a homens
totalmente incrédulos uma função que cabia exclusivamente à igreja.
«Falo com o intuito de vos envergonhar, de vos encher de pejo; isso é o
que Paulo queria dizer».
«.. .sábio...» Aqui é usada a palavra grega comum, «sophos». Os coríntios
tinham muitos sofistas entre eles, mas nenhum verdadeiro possuidor de
sabedoria, dotado de discernimento celestial suficiente, que o capacitasse a
arbitrar sobre casos simples na igreja.
«...julgar...» é palavra aqui usada no sentido de «arbitrar», «agir como
árbitro». Está em vista alguém suficientemente sábio para ouvir ambos os
lados dos diversos casos, possuidor de discernimento espiritual suficiente, a
fim de ver com clareza que curso da justiça deve ser seguido. Certamente,
uma igreja cheia de verdadeiros «sofistas» ou sábios, conforme eles se
consideravam, contaria com ao menos «um» desses homens—sendo isso
tudo quanto Paulo buscava aqui. Naturalmente, o tom de Paulo continua
sendo sarcástico, porquanto em qualquer situação normal, na igreja, Paulo
teria suposto a existência de inúmeros desses árbitros. Mas aqui ele
procura, como que em vão, por ao menos um deles. Pelo menos as ações dos
membros da igreja de Corinto levaram-no a tomar essa atitude. Paulo não
tinha aqui em mente qualquer tribunal formal, como aqueles que são
mencionados no versículo anterior, segundo os métodos judaicos.
6 αλλά αδελφό? μ € τά άδζλφ οΰ κρίνετα ι, καί το ΰ το έπί
6:6: Mas vai um irmão a juízo contra outro irmão, e isto perante incrédulos?
Temos aqui uma repetição essencial do que o apóstolo diz no primeiro
versículo. Era «irmão contra irmão», e isso perante os «incrédulos» ou
«injustos» (ver o primeiro versículo), ou perante os «de fora» (ver I Cor.
5:12,13). O apóstolo reitera esse pensamento com propósitos de ênfase, pois
a colocação daquelas palavras forma um paralelismo, irmão em contraste
com «incrédulos», servindo isso de condenação clara contra o tipo de ação
daqueles crentes de Corinto. A atitude de Paulo acerca dessa questão é
tipicamente judaica. Os judeus encaravam tais ações com horror, algo
inteiramente deslocado em relação à tradição mosaica, uma desgraça para a
lei e para o próprio Moisés; porquanto todo o julgamento, entre o povo de
Israel, havia sido especificamente provido na lei, e apelar alguém para um
tribunal pagão eqüivalia a um voto de desconfiança contra Cristo, contra a
sua igreja e contra o sistema da graça divina. Por essas razões é que essa
questão era tão importante aos olhos de Paulo, porque ele usou de palavras
tão contundentes. (Ver a introdução a este capítulo e as notas expositivas
sobre seu primeiro versículo, acerca do pano de fundo dessa questão, na
cultura judaica).
Este versículo, porquanto reitera o primeiro, atua como uma espécie de
clímax de toda a presente secção. Já era uma desgraça que os crentes
entrassem em conflito por causa de «coisas mundanas», por interesses de
natureza puramente material («biotika», no original grego, no terceiro
versículo deste capítulo). Mas, já que tais desentendimentos eram
inevitáveis, então constituía dupla desgraça o fato de que dois discípulos de
Cristo buscassem encontrar solução ou arbítrio da parte de «incrédulos».
Ainda que nada mais ocorresse, o testemunho cristão seria assim
debilitado, porquanto os vários escândalos surgidos na congregação local
tornar-se-iam do conhecimento público, e isso na presença daqueles que já
ά π ισ τω ν ; 6 (άπιστων;] .)
costumavam zombar de Cristo e de sua cruz, o que certamente acontecia na
cidade de Corinto. O simples arbítrio, por parte de algum crente «sâbio»
teria evitado esse apelo para a «lei secular» dos incrédulos, os «processos
legais» perante juizes injustos.
A censura severa de Paulo sefundamenta sobre três degradações surgidas
na comunidade cristã de Corinto, a saber:
1. Era uma vergonha que tivessem surgido disputas sobre meras questões
mundanas, entre os crentes. Porquanto seria de esperar que os crentes
estivessem acima dessas questões.
2. Era uma vergonha que um crente processasse legalmente a outro. Isso
era algo totalmente incoerente em face do espírito da fé e do amor cristãos,
exemplificado pelo Senhor Jesus. (Ver Mat. 5:24 e ss.). Dificilmente se
poderia dizer que tal atitude cumpre as palavras de Cristo, de que devemos
concordar prontamente com o adversário.
3. Mas, a pior vergonha de todas é que tais disputas fossem levadas para
fora dos limites da igreja. Dessa maneira o cristianismo ficava sujeito ao
ridículo.
«...incrédulos...» São aqueles que não confiam em Cristo e nem lhe são
obedientes. Estão em foco os indivíduos rebeldes, de baixo nível moral, que
não reconhecem qualquer autoridade espiritual no cristianismo, e nem
respeitam a igreja de Cristo e a sua causa. Essa palavra também inclui
certamente aqueles que se mostravam francamente críticos ou blasfemos,
no que tange a Cristo e suas reivindicações. Não há que duvidar que Paulo
também inclui aqui a idéia de que tais homens não eram regenerados e nem
iluminados pelo Espírito Santo. Por causa de todos esses fatores tão
adversos, tais homens dificilmente serviriam para atuar como árbitros nos
casos que envolvessem cristãos.
7 rfòrj μεν ουν ] δλως ηττημα ύμΐν εστιν οτι κρίματα €χ€Τ€ μζθ' έαντών δια τ ί ούχί μάλλον
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7 ουν] am p48X*D* 33 pc latt bo | κρίματα] κρίμα Mpc syP co
6:7: Na verdade jéé uma completa derrota para vóso terdes demandas uns contra os
outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes a fraude?
Paulo condena aqui a noção inteira dos «processos legais», movidos por
irmãos na fé contra outros, sendo esse o segundo ponto dentre os vários
aspectos negativos mencionados por ele (no versículo anterior), entre os
abusos condenados pelo apóstolo dos gentios. Ao invés disso, Paulo preferia
que houvesse o simples «arbítrio» entre crentes, no seio da própria igreja
cristã. Com base nisso ficamos sabendo que a principal preocupação de
Paulo não é que fosse feita a «justiça», porquanto, na realidade, para ele
isso era questão bem secundária. Antes, aqueles que tanto apreciavam o
litígio, não hesitando em participar pessoalmente das contendas, dentro ou
fora da igreja cristã, permitindo que tais questões fossem julgadas por
incrédulos, não haviam ainda aprendido um dos primeiros princípios da
moralidade cristã. Não haviam ainda aprendido a fazer o que Jesus
recomendara, no tocante a voltar também a outra face (ver Mat. 5:39; ver
também I Ped. 2:23 e as notas expositivas a respeito). Também
desconheciam inteiramente o princípio que nos ensina a retomar o mal com
o bem (ver Rom. 12:17-21). Antes, retornavam o mal com o mal,
permitindo que o bem fosse vencido pelo mal. Vingavam-se, cuidando por
que o mal por eles recebido fosse devidamente retribuído com a mesma dose
de mal, se é que não injuriavam muito mais do que haviam sido injuriados.
(Ver Rom. 12:19). Ê que pouco ou nada conheciam sobre a mansidão e
gentileza de Cristo. Ao invés de serem bons, passiva ou ativamente,
mostravam-se ativamente maus, prejudiciais aos próprios irmãos na fé.
«...derrota...» é uma tradução possível. Outras traduções preferem
«falta» ou «defeito». O que Paulo quis dizer é que eles haviam sido
derrotados na luta espiritual. Poderiam ter obtido uma «vitória» nos casos
difíceis que surgissem, deixando todos os casos de divergência serem
resolvidos por árbitros cristãos. Ao invés disso, porém, voluntariamente
permitiam que o mal levasse a vitória; e assim a igreja de Corinto sofria
opróbrio, ao mesmo tempo que abriam oportunidade para o nome de Cristo
ser vilipendiado. Essa era uma «derrota» bem definida para a igreja de
Corinto, em sua luta em favor do bem e contra o mal que há neste mundo.
«...demandas...» ou «processos legais», ainda que, no original grego, a
palavra por detrás dessa tradução possa ter o sentido mais geral de
«decretos» ou «julgamentos», embora sem qualquer sentido judicial.
«...para vós outros...» A comunidade cristã inteira de Corinto sofrerá
perda naquela questão, sem im portar quem recebera o julgamento
favorável. O crente em favor de quem houvera parecer favorável, em
tribunal pagão, talvez imaginasse ter conquistado uma vitória; mas na
realidade, tanto ele mesmo como a congregação inteira recebera um rude
golpe,tendo perdido muito mais do que a vantagem de ter recebido veredicto
favorável, em torno de alguma questão material e mundana. Pois quando a
solidariedade e a irmandade da igreja cristã são perturbadas, então a
comunidade cristã inteira é prejudicada.
«...Por que não sofreis antes a injustiça?...» Em sua camalidade, um
crente pode mostrar-se insistente em exigir que se abra processo legal acerca
de uma questão qualquer. E aquele que reconhece a estupidez de tal
questão, que deveria fazer em face disso? Deveria permitir a injustiça
sofrida. Deveria perder a propriedade em disputa, a porção da herança que
lhe cabia, o pagamento que lhe era devido, em face de algum serviço por ele
prestado. Porquanto é melhor que um crente sofra tal perda pessoal do que,
através da «defesa de seus justos direitos», prejudicar a irmandade inteira.
Que o crente assim involuntariamente envolvido receba a injustiça e deixe
que o Senhor cuide da questão.
«...por quertão sofreis antes o dano?...» A palavra «...dano...» se origina
de um termo grego que significa «defraudar». É um verbo que significa «ser
roubado», «ser privado de algo», sofrer alguma perda pessoal. E, no
presente contexto, quase certamente indica alguma perda financeira. Já o
vocábulo «injustiça» é um vocábulo muito geral, que literalmente significa
algo «não correto», ou seja qualquer forma de mal, injustiça, erro ou injúria.
«Paulo reproduz aqui o ensinamento de Jesus, que aparece em Luc. 6:27 e
ss... e que se aplica mais estritamente às relações mais íntimas da vida. Com
isso se pode comparar o próprio exemplo deixado por Cristo (ver I Ped.
2:23), bem como com o exemplo deixado pelos apóstolos (ver I Cor.
4:12-16)». (Findlay, in loc.).
Com essa atitude em geral podem ser confrontadas várias citações
extraídas do filósofo romano estóico, Marco Aurélio, em suas Meditações.
Disse ele: «Mas eu, que tenho visto a natureza do bem, que é bela, bem
como a natureza do mal, que é vil, e também a natureza daquele que
pratica o erro, e que é pessoa aparentada comigo, não tanto por
comunidade de sangue e de descendência, mas por comunidade de
inteligência e de dote divino, sim, não posso ser prejudicado por qualquer
dessas coisas, porquanto ninguém pode impingir-me o que é vü; como
82 I CORÍNTIOS
também nãoposso irar-me contra alguém que é meu parente, sentindo ódio
contra ele». (2:1),
Declara ainda o mesmo filósofo: «Em todas as oportunidades, um homem
deveria ser capaz de dizer: Isso vem de Deus. Isso vem de alguém que
pertence à mesma tribo, família e sociedade, embora se trate de alguém que
não sabe o que é mais próprio para a sua natureza. Porém, eu sei. Portanto,
8 αλλά ν μ εϊς ά δ ικ εΐτε καί ά ιτο σ τερ εΐτε, καί το ΰ το άδελφονς.
deverei tratá-lo de acordo com a lei natural da comunhão com a bondade e
com a justiça». (3:1). «Com o que estais tão desagradados? com a maldade
dos homens? Considerai a decisão, que os seres racionais existem uns para
os outros, e que mostrar-se alguém paciente faz parte da justiça, e que os
homens praticam o erro contrariamente à sua própria vontade». (4:3).
6:8: Mas vis mesmos é que fazeis injustiça e defmudais; e isto a irmãos.
As palavras «...injustiça...» e «...dano...» foram comentadas no versículo
anterior. Esse versículo mostra-nos que dos crentes se espera que sofram
voluntariamente essas injustiças e danos a fim de preservarem a dignidade
de Cristo e a unidade da igreja cristã, bem cómo o vínculo da paz entre os
irmãos. Ao invés de agirem desse modo, ao invés de seguirem o ensino da
«aceitação passiva da injustiça sofrida», que o Senhor Jesus postulou,
aqueles crentes de Corinto infligiam ativamente injustiças e injúrias uns
contra os outros.
Paulo mostra aqui, por conseguinte, que ele sabia de episódios onde não
estavam envolvidas meras questões de disputas; não era apenas contra isso
que ele levantava objeção, embora isso também estivesse incluído. Mas
Paulo também atacou as injustiças e injúrias que alguns praticavam contra
seus próprios irmãos na fé. Assim é que, por exemplo, um crente «furtava»
outro de sua legítima propriedade, de seu dinheiro, de sua herança, de seu
salário, etc., praticando ainda várias outras «injustiças», tanto fora dos
tribunais como em resultado das decisões tomadas nos tribunais seculares,
que não eram baixadas de conformidade com a justiça estrita. Alguns
crentes carnais estavam infligindo propositadamente a injustiça, através de
processos legais, em Corinto.
Ora, tudo isso mostrava a profundidade da carnalidade daqueles crentes
de Corinto, bem como sua falta de qualquer verdadeira sabedoria espiritual
e discernimento. Porém, até mesmo nós podemos ser culpados de tais
injustiças, posto que através de meios mais sutis, isto é, não através de
processos legais, mas por meio de formas menos ostensivas de injustiças
praticadas contra o próximo. Quão raramente, em alguns conflitos que há
entre os crentes, consideram estes em fazer justiça realmente, quando estão
ativamente envolvidos na prática do dano contra outrem, mesmo que
apenas verbalmente. No entanto, as injúrias de natureza verbal com
freqüência redundam em formas mais «concretas» de injustiças e danos
contra os nossos próprios irmãos na fé.
«...aos próprios irmãos...» Prejudicar a qualquer pessoa certamente é
uma maldade, e Paulo já havia defendido essa tese. Mas prejudicar um
membro do próprio corpo de Cristo, proposital e ativamente, é uma forma
aviltada de carnalidade. Com isso se pode comparar os ensinamentos
proferidos no Sermão do Monte, em Mat. 5:39-41, que versam sobre esse
aspecto de nosso dever para com o próximo.
«‘Por que não sofrer antes a injustiça? Por que não sofrer antes o dano?’
Nessas palavras apreendemos algo da face de Cristo. No que diz respeito às
injúrias pessoais, como também quanto a outras questões, o espírito e o
ensinamento de Jesus Cristo servem de tribunal final de referência e apelo.
É melhor perder o caso do que abafar o resplendor da causa». (John Short,
in loc.).
As incomparáveis palavras de Paulo sobre o «amor» (no décimo terceiro
capítulo desta epístola), se fossem seguidas, dariam solução para todas as
disputas dessa natureza no seio da igreja cristã. O amor é a estrada mais
rápida de volta a Deus; porque o amor é fruto do Espírito no íntimo, a
manifestação de Deus no homem interior, quando um homem vai sendo
transformado segundo a imagem de Jesus. O parentesco espiritual exalta o
dever e a propriedade do amor, bem como o dever da submissão de uns para
com os outros; e, ao mesmo tempo, agrava os erros cometidos, quando um
irmão prejudica a outro.
III. Imoralidade, Ética Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1-7:40).
3. O Padrão do Reino (6:9-11).
Esta Éreve secção mostra-nos quais são os padrões de moralidade geral esperados dapartedos crentes autênticos, o quetambém
lhes permite mostrarem que possuem a verdadeira salvação, a vida eterna. Paulo deixa subentendido que alguns dos crentes de
Corinto, por meio de suas ações, dificilmente haviam provado ser autênticos seguidores de Cristo. Deve haver diferença entre os
súditos do «reino de Deus» e os súditos dos reinos deste mundo. Paulo mostra também, aqui, de que devem consistir essas
diferenças.Os versículos desta secção expõem a conclusão do que Paulo diz nos versículos primeiro a oitavo deste sexto capítulo,
fazendo apelo aos princípio éticos cristãos em geral, ao mesmo tempo que introduzem a censura de Paulo, constante dos
versículos décimo segundo a vigésimo, contra a moral frouxa e contra os costumes sexuais condenáveis, conforme havia em
Corinto, incluindo até mesmo membros da igreja cristã daquela cidade.
9 η ούκ ο ’
ίδα τε δ τι aδικοί θεον β α σιλεία ν ον κληρονομησονσιν ; μ η πλανάσθε- ο ϋτε πόρνοι οντε
είδω λολάτραι ο ντε μο ιχο ί ο ντε μα λα κ ο ί οϋτε ά ρσενοκοΐτα ι 9-ιο Ga 5.19- 21; E®h 5.5 ; Re 22.15
6:9: Não sabeis que os injustos não herdarão 0 reino de Deus? Não vos enganeis: nem
os devassos, nem os idilatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os
sodomitas,
«...reino de Deus...»Neste ponto Paulo usa essa expressão à maneira
joanina, como expressão eqüivalente a «vida eterna». (Ver João 3:3). Está
em foco a era escatológica que se seguirá à ressurreição. Talvez também
haja aqui alusão ao reino milenar de Cristo, ou então à vida eterna que é
necessária para que alguém seja herdeiro do reino de Deus, bem como da
dispensação eterna que se seguirá. O décimo primeiro versículo deste
mesmo capítulo, ao falar sobre a «justificação», certamente parece dar a
entender que Paulo queria expressar mais do que estar o crente fisicamente
presente em alguma nova ordem de coisas, que se possa chamar de reino do
Messias ou era messiânica. Pelo contrário, ele se refere à participação na
vida divina necessária (vida por meio da salvação), que permite ao indivíduo
entrar no reino de Cristo, quando inaugurar-se a era vindoura eterna. A
expressão «reino de Deus» (que em alguns trechos aparece como «reino dos
céus») é um termo extremamente complexo, usado de diversas maneiras,
por diferentes autores sagrados, ou mesmo por um único desses autores.
(Ver a nota expositiva geral de sumário, sobre o assunto, em Mat. 3:2.
Quanto a outros sentidos que Paulo dava a essa expressão, ver os trechos de
I Cor. 4:20 e Rom. 14:17).
«...herdarão...», porque em Cristo os crentes participarão de tudo quanto
ele é e tem. (Ver Rom. 8:17. Uma nota geral é dada nessa referência sobre a
idéia bíblica de «herança»). Ora, a «herança» implica em «adoção» (ver
Rom. 8:15 acerca disso) e em «filiação» (ver Rom. 8:14,16). Existem
indivíduos que são autênticos «filhos de Deus», que estão sendo
transformados segundo a imagem de Cristo, «o Filho de Deus». Esses
haverão de finalmente compartilhar de suas características morais; porque,
do contrário, não são legítimos filhos de Deus. Ê exatamente isso que Paulo
salientava nos versículos nono a décimo primeiro deste capítulo. E também
podemos considerar isso como aquelas características que devem ser
possuídas pelos súditos do reino eterno, em contraste com os súditos
mortais deste inferior nível terreno. Os respectivos cidadãos desses dois
reinos devem ser diferentes entre si. Por meio de seus frutos é que
poderemos reconhecê-los. (Ver Mat. 7:20). Os verdadeiros frutos espirituais
jamais poderão ser imitados para sempre, já que são resultantes da.
operação do Espírito Santo no íntimo dos remidos. (Ver Gál. 5:22,23).'
Somente dessa maneira é que os homens podem vir a ser aquilo que o
Senhor Jesus é, em qualquer proporção significativa. Trata-se, portanto, de
uma obra divina, e não do resultado do esforço humano.
Vários moralistas antigos prepararam listas de vícios que os virtuosos
precisam evitar. Aqui o apóstolo Paulo novamente apresenta uma lista de
certos vícios, seguindo esse costume dos ensinos morais da filosofia
helênica, costume esse incorporado no judaísmo posterior, embora não se
possa vê-lo nem nas páginas do A.T. e nem nas interpretações talmúdicas
dos judeus. (Ver as notas expositivas a esse respeito, em I Cor. 5:13).
«...Não vos enganeis...» Os crentes podem ser enganados. O verbo, no
original grego, se encontra no passivo: «Não vos deixeis enganar...» Isso
subentende algum erro fundamental, na maneira de pensar ou de agir. Na
voz ativa, esse mesmo verbo grego significa «fazer desviar-se», «enganar».
Mas, na voz passiva significa «estar em erro», «ser enganado». Esse ludibrio
pode ser provocado pelo próprio indivíduo ou pode ser induzido por outrem.
E pode envolver doutrina ou ação.
Havia muitas maneiras pelas quais podemos compreender como os
crentes de Corinto estavam enganados:
1. Poderiam ir incorporando em suas crenças e ações as corrupções da
sociedade pagã, acostumando-se gradualmente a tais coisas, não mais se
lembrando do que os elevados padrões cristãos exigem, sem qualquer
transigência, porque sem a presença desses padrões e seu cumprimento nas
vidas dos homens, ninguém poderá jamais contemplar a Deus. A conversão
subentende que o indivíduo está seguindo o «elevado padrão» do
cristianismo, porque, em caso contrário, nem terá havido conversão.
Porque também se poderia indagar, caso não se veja modificação alguma na
vida do indivíduo envolvido: «Do que e para o que houve conversão?»
2. É possível que certos membros da igreja de Corinto tivessem aplicado
erroneamente e houvessem abusado do ensino paulino sobre a graça divina,
imaginando os tais que o sistema da graça nada mais envolve senão alguma
ação de aceitação de Cristo, mas nenhuma substância da mesma na própria
alma. Bem pelo contrário, entretanto, o sistema da graça divina garante a
conversão, a santificação e a transformação do crente segundo a imagem de
Cristo, mediante a influência mística do Espirito Santo. Onde esse aspecto
estiver faltando, nenhuma operação graciosa de Deus pode ser
subentendida.
3. Mas também é possível que aqueles crentes se tivessem deixado iludir
através da influência de determinadas doutrinas gnósticas, as quais
I CORÍNTIOS 83
asseveravam que o corpo é a sede mesma do princípio do mal, e que nada
pode ser feito a esse respeito. (Ver notas completas sobre o Gnosticismo em
Col. 2:18). De conformidade com essas doutrinas gnósticas, o indivíduo só
se veria livre da presença do mal quando a alma fosse libertada, através da
morte física. E então, com base nessa noção, cria-se que não tem muita
importância o que o indivíduo faz com o seu próprio corpo, podendo a
pessoa entregar-se de corpo a qualquer ato imoral.
4. Alguns judeus pensavam que a crença na existência do «Deus único»
era suficiente, mesmo sem o acompanhamento de uma vida santa.
Em qualquer desses sentidos, pois, os crentes de Corinto poderiam estar
equivocados e poderiam estar enganando a outros; e o resultado disso é que
viviam muito aquém dos verdadeiros padrões do cristianismo, praticando
exatamente aqueles pecados que não podem ser praticados por qualquer
dos filhos legítimos do reino de Deus, sendo sempre características próprias
daqueles que são «de fora», que são «injustos», que são «incrédulos».
«...não sabeis...» (Essa expressão pode ser comparada com o que se lê em
I Cor. 6:2,3). Ê como se Paulo estivesse perguntando: «Sois tão sábios (ver I
Cor. 1:18 e ss.), e, no entanto, não tendes nem ao menos essa noção básica
sobre o que o sistema da graça divina exige de vós? Não compreendeis a
seriedade do que estais praticando, e nem entendeis quais sejam os padrões
de vida que vos devem nortear na conduta diária? Pensais que podeis viver
como vindes fazendo, e mesmo assim serdes verdadeiros crentes em Cristo?
Não vos deixeis enganar».
«nem impuros...» Esse adjetivo dá início a uma lista de dez formas de
ofensas morais. Dentre essas cinco formas alistadas neste nono versículo,
quatro dizem respeito a alguma forma de conduta sexual distorcida. E
dentre as cinco outras formas que aparecem no versículo seguinte, três
falam acerca das propriedades ou direitos pessoais, como aqueles sobre os
quais Paulo acabara de discorrer, nos versículos primeiro a oitavo deste
capítulo, porquanto podemos admitir que os «processos legais» ali
condenados, também estão em foco entre os defeitos que devem ser evitados
pelos crentes.
Todos esses vícios devem ser aceitos como esclarecimentos da palavra
geral, «adikoi» (os «injustos», que aparece na primeira porção deste nono
versículo), aplicada àqueles que não podem herdar o reino de Deus, os
quais ocupam a posição oposta dos «justos», dos «crentes», dos «santos
verdadeiros» de Deus, dos «regenerados» em Cristo Jesus, conforme tantos
crentes de Corinto imaginavam ser. Essa palavra grega, «adikoi», pode ser
compreendida como termo sugerido pelo vocábulo «adikeite», «praticar a
injustiça», que aparece no versículo anterior, vocábulo esse que indica
aqueles que praticam males diversos. Essa palavra tem um sentido geral, e
se aplica a todas as formas do mal, que caracterizam os homens
não-regenerados.
«...impuros...» Essa palavra é amplamente comentada nas notas
expositivas sobre I Cor. 5:1. Trata-se de um termo geral que expressa todas
as modalidades de pecados sexuais. Nesse citado versículo, essa palavra
aparece na forma substantivada, indicando todas as formas de
«imoralidade», conforme também essa palavra é traduzida em diversas
versões. Esse vocábulo inclui, portanto, as várias subcategorias que
aparecem em seguida.
«...nem idólatras...» (Quanto a essa palavra, ver as notas expositivas
acerca de I Cor. 5:10). Literalmente traduzida, teríamos «aqueles que
adoram imagens». Essa é uma ofensa contra os direitos de Deus, o mais
elevado dos direitos. Seu sentido primário, como já dissemos, é a adoração a
ídolos, mas, em I Cor. 5:10, visto ser aplicada a lapsos possíveis entre os
crentes, também deve significar a adoração a qualquer coisa, a qualquer
10 οϋτε κλεπται οϋτε π λεονεκτα ι, ού μέθυσοι, ουλοιδοροι, ουχ αρπαγές βασιλείαν θεοΰ
indivíduo, a qualquer item que tenda por substituir a Deus no coração do
homem, sem im portar se se trata de um crente ou de um incrédulo. A
«sabedoria humana», o prestígio, a fama, o próprio bem-estar, se forem
exageradamente considerados, são exemplos dessa forma de idolatria. A
idolatria ignora os direitos de Deus, que é o ente que merece a honra
suprema; e assim o idólatra passa a honrar a objetos de segunda categoria,
furtando de Deus o respeito que lhe é devido. Ora, aquele que rouba a Deus
desse devido respeito, facilmente se volta para outras coisas, que passam a
ocupar a sua atenção, não demorando muito para que a sua vida passe a ser
«governada» por princípios vis e inferiores, ao invés de sê-lo pela «divina
idéia». E dificilmente um indivíduo pode encontrar-se no caminho de
«retorno a Deus» (que é o alvo mesmo de toda a existência humana), se essa
atitude ocorre em sua vida como algo habitual e constante.
«...adúlteros...» Pecado específico praticado por pessoas casadas, ou,
pelo menos, por uma pessoa casada e outra solteira, em ato sexual ilícito.
Tal palavra é empregada para indicar também a infidelidade espiritual para
Deus, como no caso da idolatria, que é um adultério espiritual. Mas,
conforme o contexto nos mostra, Paulo se reportava aqui primariamente a
um pecado físico.
«...nem efeminados...» No original grego, a palavra indica, basicamente
«algo fofo» e, como um adjetivo, tal vocábulo pode referir-se a vestes ou
outros objetos suaves ao tato. Também pode significar «débil», «enfermiço»,
«desencorajado», em sua forma adjetivada. Como substantivo, porém,
significa «suave», «efeminado», tendo sido largamente aplicado à
homossexualidade por vários autores antigos, indicando homens que
aceitam os afagos de outros homens, como se fossem mulheres. Há
estudiosos que pensam que aqui está em foco a masturbação; mas essa idéia
não parece estar em vista aqui. Assim é que a tradução siríaca compreende
a questão. Essa palavra também pode significar simplesmente «suave» ou
«efeminado» quanto às maneiras. Mas a condenação de Paulo parece ter
sido mais profunda do que isso subentenderia.
«...sodomitas...» Esse vocábulo veio a ser usado para indicar a
homossexualidade, em vista do fato que tal pecado era prevalente em
Sodoma, quando Ló ali habitava, segundo a narrativa do antigo pacto. No
grego, essa palavra, literalmente traduzida, indica «ato sexual de homem
com homem». A sodomia, portanto, é apenas um eufemismo, sendo
largamente empregada pelos tradutores, a fim de suavizar o impacto da
expressão. Não sabemos precisar se Paulo quis estabelecer contraste entre
essa palavra e o vocábulo anterior, que também indica a homossexualidade.
Talvez a primeira dessas palavras indique os homens que fazem um papel
feminino, ao passo que esta última indique os pederastas positivos. Paulo
condenou severamente a uns e a outros, em Rom. 1:26,27, onde essa
prática, tanto de mulheres com mulheres como de homens com homens, é
condenada. Ambos os vocábulos, utilizados neste versículo, indicam
homens, de tal modo que a homossexualidade feminina não é aqui
diretamente aludida e condenada, conforme se vê em Rom. 1:26,27. Sendo
homem, Paulo via a homossexualidade masculina com maior horror do que
a homossexualidade feminina. Não obstante, condenou ambas essas
aberrações. Essa prática era tão comum entre os gregos antigos que veio a
ser intitulada pelo nome de «pecado grego». Devido a ser pecado
extremamente comum, não era grandemente ofensivo para as sensibilidades
gregas, diferentemente do que sucedia entre os hebreus; antes, era questão
perfeitamente indiferente.
«A prevalência de tão escandalosos crimes, no mundo do paganismo, é
constantemente aludidanas epístolas de Paulo às igrejas gentílicas. Ver
Rom. 13:13; Gál. 5:19,20; I Tim. 1:9,10 e Tito 1:12». (Shore, in loc.).
cληρονομήσουσιν.
6:10: nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbedos, nem os maldizentes, nem
os roubadores herdarão o reino de Deus.
A palavra «...ladrões...» se explica por si mesma, indicando aquele que
furta, que se apossa daquilo que não lhe pertence. Ê palavra usada
figuradamente para indicar o segundo advento de Cristo, o que ocorrerá
como a vinda repentina e inesperada de um ladrão, à noite, em meio às
trevas e em segredo, à procura de suas vítimas. De acordo com essa figura
simbólica é frisado o aspecto do acontecimento «inesperado». Também é
palavra usada em sentido figurado para indicar os falsos pastores, conforme
se vê em João 10:8, porque se apossam do que pertence às ovelhas e nada
dão em troca.
«..jiem avarentos...» Essa palavra já foi comentada no trecho de I Cor.
5:11, descrevendo o caráter de certos «irmãos» de quem nos convém
separar, ao ponto de nem ao menos comermos em companhia deles. Neste
ponto aprendemos que aqueles que são habitualm ente cobiçosos,
enfatizando os valores terrenos de forma exagerada, mas esquecidiços dos
verdadeiros valores espirituais, na realidade nem são autênticos crentes
regenerados.
«...nem bêbados...» Esse vício também é comentado nas notas expositivas
sobre 1 Cor. 5:11, onde o leitor deveria consultar a exposição. Com os
bêbados, igualmente, não devemos tomar nem refeições, porquanto, de
conformidade com o presente versículo, tais pessoas nem podem ser crentes,
visto que não herdarão o reino de Deus. Paulo ainda adverte: «Não vos
deixeis enganar acerca dessa questão». Orígenes (in loc.), comenta como
segue: «Que ninguém vos iluda com palavras persuasivas, afirmando que
Deus é um ser misericordioso, bondoso e amoroso, pronto para perdoar o
pecado».
Naturalmente, Deus é misericordioso, bondoso e amoroso; mas ninguém
verá jamais a Deus enquanto não for genuinamente perfeito, transformado
segundo a imagem de Cristo, participante de sua natureza divina. Eis a
razão pela qual o processo de transformação dos crentes, processado por
Deus, envolve tão prolongado tempo, visto que cada passo nesse caminho
requer a cooperação da vontade humana, e cada passo precisa ser dado ao
preço de verdadeira agonia da alma. Não obstante, o amor de Deus
assegura a conclusão desse processo no caso de todo o verdadeiro crente. Se
alguém é verdadeiramente convertido, embora ainda esteja longe da
perfeição, quando da morte física será libertado deste nível terreno e será
exaltado aos lugares celestiais. (Ver Efé. 2:6). Mas, quão prontamente o
crente atingirá a perfeição, incluindo a participação em todas as virtudes
morais positivas de Deus, como o seu amor, a sua bondade, a sua justiça, a
sua mansidão, etc.—tudo o que é fruto do Espírito, no dizer de Gál.
5:22,23—depende do grau em que tal crente submete a sua vontade ao
Senhor. O simples estar livre de pecados graves ainda não é estar perfeito
em Deus. É mister possuir também essas virtudes positivas de Cristo. Ora, a
perfeição em Deus é o alvo mesmo da vida cristã, conforme nos ensinou o
Senhor Jesus, em Mat. 5:48.
«...nem maldizentes...» Essa palavra, por semelhante modo, é comentada
no trecho de I Cor. 5:11, onde o leitor deveria examinar a exposição. Com
esses tais também não temos licença nem ao menos de comer; pois aqueles
que são habitualmente abusivos em sua linguagem, como parte integrante
de seu caráter, da expressão de sua personalidade, na realidade não são
crentes. O Espírito Santo, em seu trabalho de transformação dos remidos
segundo a imagem de Cristo, não permitirá que qualquer dos regenerados
permaneça em tal estado. Se alguém está sendo verdadeiramente
santificado e transformado, todas essas qualidades negativas serão retiradas
de seu caráter, ao passo que as virtudes positivas de Cristo as substituirão.
Compete-nos abençoar quando somos amaldiçoados (ver os trechos de
Rom. 12:14 e I Cor. 4:12). Essa atitude será uma realidade, nas vidas
daqueles que realmente têm experiência com o Espírito do Senhor.
«...nem roubadores...» Essa palavra, por semelhante modo, é comentada
em I Cor. 5:11; e aquilo que foi dito sobre os vocábulos anteriores, tanto em
84 I CORÍNTIOS
I Cor. 5:11 como em I Cor. 6:10, nas listas dos vícios que os crentes
precisam evitar, se aplica também a esta palavra. As duas palavras usadas
para indicar o furto, isto é, «ladrões» e «roubadores», podem ser meros
sinônimos. A presente palavra, entretanto, talvez indique violência,
porquanto também é empregada para indicar os «lobos vorazes». Um
espírito violento e desvairado é aqui subentendido. Há ocasiões em que essa
palavra, no original grego, também era usada para indicar os «trapaceiros»,
aqueles que se mostram desonestos nos negócios que fazem, os quais, desse
modo, roubam a seus semelhantes. Todavia, o sentido desta palavra não se
limita a essa forma de desonestidade.
«...não herdarão o reino de Deus...» Temos aqui a repetição da mesma
frase que dá início a esta lista de vícios, para efeito de ênfase. Comenta John
Short, in loc., a respeito disso: «É requerido algo mais do que a moralidade
reconhecida pela sociedade contemporânea, até mesmo quando se mostra
mais excelente; é exigido muito mais do que a conduta que dificilmente se
podia distinguir da moralidade pagã. (Ver Mat. 5:20). É óbvio que o
apóstolo Paulo estava perturbado com a influência que a comunidade pagã,
extremamente imoral, exercia sobre as vidas dos membros da igreja (de
Corinto). Novamente deixa ele perfeitamente claro, em sua lista, quais são
os vícios particulares que excluem os seus perpetradores da participação no
reino de Deus. Há uma alusão especial ao vício desnatural da
homossexualidade, o que, embora ocasionalmente castigado até mesmo nas
sociedades pagãs, de forma geral era um pecado tolerado, mas contra o que
o cristianismo se insurgiu decididamente desde o princípio. Mediante sua
conversão e batismo, os crentes de Corinto tinham dado testemunho de sua
purificação espiritual interna, mediante a graça de Cristo, que os havia
libertado de toda a contaminação da imoralidade. Ora, tendo sido
purificados por tal preço, agora não pertenciam mais a si mesmos, mas
antes, eram povo de Cristo. Uma conduta assim repreensível era algo
totalmente incoerente tanto com a experiência deles como com a sua
profissão de fé. Agindo desse modo punham em risco a sua ‘posição’
perante os olhos de Deus, e ameaçavam suas ‘possibilidades’. Pois como
poderia o Santo Espírito de Deus governar em tais corações?».
N a lo ja d o d ia b o , to d a s a s c o is a s s ã o v e n d id a s ;
C a d a g r a m a d e e s c ó r ia c u s ta u m g r a m a d e o u ro ;
P o r u m a c a p a e c o m p a in h a s p a g a m o s c o m a v id a ;
C o m p r a m o s b o lh a s, c o m a ta r e fa in te ir a d a a lm a ;
S o m e n te o c é u é q u e è d e s p r e z a d o p o r n ó s,
S o m e n te d e D e u s p o d e m o s re c e b e r o q u e p e d im o s .
(James Russell Lowell)
«Encontramos aqui uma solene lista de chamada dos condenados, ainda
que alguns daqueles nomfcs estivessem no rol de membros da igreja de
Corinto, como oficiais ou como membros ordinários». (Robertson, in lo c .) .
Tudo isso serve para mostrar-nos a severidade dos princípios morais do
cristianismo. Podemos observar aqui quão severa é a mensagem cristã.
Cristo é quem deve estabelecer a grande diferença em uma vida; a alma
precisa ter sido convertida; a vida do indivíduo precisa estar em processo de
transformação; Cristo deve estar sendo formado no homem interior do
crente; e o crente precisa ter sido purificado e estar sendo santificado. Em
caso contrário, ensina Paulo enfaticamente, tal indivíduo nem ao menos é
um crente, e não herdará o reino de Deus. A graça divina existe, mas
somente quando estabelece diferença radical em uma vida. Em todos os
casos onde não se verifica essa diferença radical, é que não está presente a
graça de Deus.
11 καί ταΰτά T ives ήτε· ά λ λ α άττελουσασθε, άλλα ήγιάσθητε, α λ λ ά εδικαιώθητβ iv τω ονόματι τοΰ
κυρίου Ίησοΰ Χρίστου1 καί iv τω πνεύματά τοΰ θεοΰ ημών.
111 JC} Ί η σ ο ν Χ ρ ίσ το υ pnvid·^ κ D* (1
6
0
3
1
)1 Χ ρ ίσ το υ Ί η σ ο ν ) itd·*
Irenaeus,at Tertullian Didym us // Ί η σ ο ν A D c Ψ 88 614 1241 1984 2495 B y z
L e d lm pt syrh John-D am ascus // ημώ ν Ί η σ ο ν cop9a // ημώ ν Ί η σ ο ν Χ ρ ίσ το υ
Β O á Ρ 33 81 104 181 326 330 436 451 629 630 1739 1877 1881 1962 2127
11 T t 3.3-7
j£ar,dem.f.m,ri,x,z Vg Syrp.h with * COpt>o arm i renaeuslat Origenlat Cyprian
A dam antius A thanasiuserlel D idym usgri:lat) Epiphanius Chrysostom
Euthalius Theodoret Ps-A thanasius // omit 2492
A forma com ημών (B C (vid) P 33 1739 it (r,61) vg sir (p,h com*) cop (sa,bo) ara etá al) parece ter surgido de assimilação
escribal ao ημών seguinte. Embora o Textus Receptus, seguindo A D (c) Ψ 88 614 Byz Lect sir (h), tenha a forma mais breve
(Ίησον), a maioria da comissão interpretou a ausência de Χρίστου como resultante de acidente na cópia, e preferiu ler
Ίησον Χρίστου juntamente com p11"''·4
6 —D* P it (d) Irineu (lat) Tertuliano, bem como os testemunhos (exceto cop
(sa)) que são citados acima em favor de ημών.
(A omissão acidental de χ γ é menos provável que a expansão de um Ίησον original, por copistas piedosos (cf. 5:4).
B.M.M).
6:11: Etoil fottet algunt de vót; mat fottet lavadot, mat fottet tairtificadot, mat
fottet juttificadoi em nome do Senhor Jetut Crijto e no ItpIHto do notto Deut.
O Grande Dilema:
1. Muitos dos corintianos não mostraram sinais de transformação moral,
embora fossem ansiosos para assumir funções de autoridade na igreja.
2. Eles tinham um orgulho exagerado no exercício dos dons espirituais,
mas este exercício nada-fez para o avanço da espiritualidade deles,
portanto, este exercício foi fraude ou até demoníaco.
3. Eles foram os pais espirituais da igreja da crença-fácil.
4. Paulo não se satisfez com uma pequena diferença que Cristo podia ter
feito neles. Paulo ensinou que a renúncia é a necessidade do discipulado.
Não se tem salvação sem a cruz no coração.
5. A fé cristã é uma força e realidade espiritual. Confissões verbais de
Cristo, embora sinceras, não valem a respiração de ar que levamos para
fazê-las, se a alma não é transformada à imagem de Cristo, pelo poder do
Espírito. (II Cor. 3:18).
6. O grande dilema é aquela crise espiritual que o crente confronta
quando ele não tem nada na vida dele para provar a validade da sua'
conversão.
Ver notas completas sobre santificação em I Tes. 4:3; sobre fé em Heb.
11:1.
«...taisfostes alguns de vós...» Em outras palavras, tinham sido injustos,
impuros, idólatras, homossexuais, adúlteros, ladrões, beberrões e
maldizentes. Mas como poderiam eles explicar o fato de que alguns deles
tinham permanecido como tais, mesmo depois que supostamente se tinham
convertido ao evangelho? No entanto, idealmente falando, eles haviam
sido...
«....lavados...» E embora Paulo se refira aqui ao batismo, não atribuía a
esse rito o poder de purificar. Tal tipo de «sacramentalismo» é estranho para
a teologia paulina. O que ele queria dizer é que tinha havido uma
purificação real, ocorrida quando da conversão e da regeneração, o que, por
sua vez, fora simbolizado pelo rito do batismo em água. A imersão em água
purifica o corpo, e a imersão na influência benéfica do Espírito de Deus
purifica a alma. (Com isso se pode comparar a declaração de João 3:5, onde
a mesma figura simbólica é usada, e com o mesmo intuito. Esse conceito é
longamente comentado nessa referência. Comparar também com o trecho
de Rom. 6:3, quanto ao «batismo espiritual», e quanto ao «significado do
batismo». Quanto à imersão como modo preferencial de batismo, ver Atos
2:41 e 8:36-39. Quanto a notas expositivas sobre a falsa doutrina da
«regeneração batismal», ver Atos 2:38). A purificação consiste na libertação
da alma de seus pecados poluidores. (Quanto ao «perdão dos pecados», ver
Atos 2:38 e Rom. 3:25 e 4:7. Quanto ao perdão dos pecados como o «apagar
das iniqüidades, ver Atos 3:19).
«...santificados...» A santificação consiste dos aspectos iniciais,
progressivo e finais. É inicial no sentido que, quando da conversão, quando
da regeneração inicial, tem lugar a purificação que limpa a alma das
antigas práticas da natureza carnal e terrena. Então cada dia é uma
oportunidade ideal para o crente continuar sendo mais intimamente
transformado segundo a imagem moral de Cristo, e isso tanto no sentido de
ficar livre dos pecados mais evidentes como também no sentido de assumir
as virtudes morais positivas de Cristo, como a sua bondade, a sua
benignidade, a sua justiça, etc. Finalmente, quando ocorrer a glorificação,
terá lugar a santificação final, quando então se completará esse processo.
Então é que o crente sairá completamente do terreno do pecado, e entrará
no reino da luz e da santidade, penetrando nos lugares celestiais que lhe
estão sendo preparados. Ali chegando, o crente experimentará ainda uma
mais rápida transformação segundo a imagem moral de Cristo, porque
então o crente estará liberto da carga do corpo, o qual sempre estará
vinculado à satisfação de impulsos inferiores, que não são uma
característica da espiritualidade. As Escrituras ensinam que Cristo é a
nossa santificação, porque através dele é que a santificação se concretiza, de
acordo com os padrões morais que ele estabeleceu para os homens em sua
própria pessoa e experiência terrena. (Ver I Cor. 1:30. Quanto a uma nota
expositiva geral sobre a «santificação», ver I Tes. 4:3).
«.. .justificados...»Está em foco a justificação, um tema paulino central.
A posição assumida por este comentário é que a justificação consiste em
mais do que de mera declaração forense de que a pessoa justificada está em
corretas relações com Deus. Inclui esse aspecto, mas também deve incluir a
produção da justiça de Deus nessa pessoa; de outra maneira, tal
pronunciamento seria vazio, ainda que feito por Deus. Mas Deus baixa tal
pronunciamento porque faz a justificação tornar-se uma realidade na
experiência íntima do crente. A justificação, pois, é mais do que a
«declaração de que alguém éjusto», ao que essa doutrina, mui infelizmente,
tem sido reduzida na igreja evangélica. Também significa «tornar justo».
(Toda essa questão é estudada longamente em Rom. 3:24,28, onde vários
outros pontos de vista a respeito são ventilados).
Talvez esperássemos uma diferente ordem de apresentação das doutrinas,
a saber, a justificação, a purificação e a santificação. Mas a verdade é que
Paulo não estava procurando apresentar as doutrinas neotestamentárias em
sua ordem de realização, visto que não expunha nenhuma teologia
sistemática, mas simplesmente relembrava os seus leitores do fato da
existência dessas grandes verdades, com propósitos corretivos.
«...em o nome do Senhor Jesus Cristo...» Isto é: 1. De acordo com a sua
autoridade; e 2. em comunhão íntima com ele, em tudo quanto ele é e tem.
(Comparar com I Cor. 1:30). Cristo é a nossa «sabedoria», a nossa «justiça»,
I CORÍNTIOS 85
a nossa «santificação» e a nossa «redenção». Nele é que recebemos todas as
bênçãos espirituais, conforme se aprende em Efé. 1:3-11, o que, de resto, é
enfatizado em todo esse primeiro capítulo da epístola aos Efésios. Não
existe bênção celestial, espiritual, da qual ele não seja o Mediador. Por essa
razão é que ele é o Salvador da humanidade, sendo também o único
caminho para o Pai. (Ver João 14:6). No seu senhorio, o que é enfatizado no
seu título que aqui aparece, ele é capaz de trazer todas essas múltiplas
bênçãos até aos homens. (Ver Rom. 1:4 quanto a uma nota expositiva
expandida acerca da doutrina do «senhorio de Cristo». Quanto à aplicação
moral dessa verdade, ver Rom. 10:9,10).
O vocábulo «...nome...» dá a entender a «autoridade» da pessoa
nomeada, o «seu caráter essencial», o seu «poder»; e, nas páginas do N.T.,
no que diz respeito a Jesus Cristo, dá a entender a «comunhão» com ele, em
tudo quanto ele tem e é. (Quanto a outras notas expositivas sobre esse tema,
incluindo as «orações feitas em nome de Cristo», ver João 16:23. Quanto aos
«milagres feitos em nome de Cristo», ver Atos 3:6).
«...no Espírito do nosso Deus...» (Quanto a uma nota expositiva geral
acerca do «Espírito Santo», incluindo os seus múltiplos títulos, ver Rom.
8:1). Todas as bênçãos que nos são conferidas por intermédio de Cristo, são
medidas pelo seu Santo Espírito, porque o Espírito Santo é o «alter ego» do
próprio Cristo. Ele é o «divino paraclete», isto é, aquele chamado para o
nosso lado, a fim de ajudar-nos. (Quanto a notas expositivas sobre as
declarações de Jesus acerca do «divino paraclete», e que ilustram as
variegadas maneiras como ele ajuda aos crentes, ver João 14:16). Todas as
realidades espirituais mencionadas neste versículo, como a lavagem, a
santificação, a justificação, etc., são obras efetuadas pelo Espírito Santo.
Por conseguinte, no que tange à justificação, não está em foco apenas uma
declaração forense. Antes, o Espírito Santo é o instrumento da transmissão
real de santidade para os homens, a saber, a própria justiça de Deus.
(Quanto a esse tema, ver Rom. 3:21).
Paulo confiava no fato de que a vida moral do grande é um
desenvolvimento gradual. Mas, já que esse desenvolvimento é de natureza
espiritual, precisa do Espírito Santo como sua força impulsionadora, como
seu guia, como seu agente poderoso. Porque nenhuma natureza
verdadeiramente espiritual pode ter desenvolvimento à parte do concurso do
Espírito Santo de Deus.
Semeai um pensamento, e colhereis um ato.
Semeai um ato, e colheres um hábito.
Semeai um hábito, e colhereis um destino.
Seneai um destino, e colhereis...Deus·
(Professor Huston Smith)
Por semelhante modo, a vida cristã realmente só funciona quando está
alicerçada sobre a deidade inteira. Devemos observar os três nomes santos,
Pai, Filho e Espírito Santo, todos envolvidos nessa questão, o que significa
que a fórmula trinitária é encontrada aqui, tal como na fórmula batismal,
em Mat. 28:19. Os crentes de Corinto, entretanto, em seus diversos erros,
corrupções e poluções, tinham demonstrado estar sob pouquíssima ou
nenhuma influência do Espírito de Deus, não tendo comunhão ou
experiência com a deidade. A conversão deles não significara uma mudança
radical em sua vida íntima e externa, e não desfrutavam de qualquer
santificação significativa que assinalasse o progresso de suas vidas
espirituais, na conquista da verdade.
A fórmula trinitária no batismo em água não deve ter sido a fórmula
original, mas, por volta de 85 D.C. evidentemente entrou em uso geral. No
livro de Atos é que encontramos a fórmula mais primitiva, a qual, mui
provavelmente, envolvia apenas o nome de «Jesus», de «Jesus Cristo» ou do
«Senhor Jesus». (Quanto a notas expositivas sobre a «fórmula batismal», ver
Atos 2:38. Comparar também com os trechos de Atos 10:48; 9:16 e 19:5). O
trechode I Cor. 6:9,10 parece citado nos escritos de Inácio (Efésios 16), e
na Epístola de Policarpo, 5.
III. Imoralidade, Ética Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1- 7:40).
4. A moralidade pessoal do crente (6:12-20).
A presente secção aborda diversas expressões éticas dos crentes. Paulo parece iniciar uma discussão sobre várias questões
«indiferentes», como as questões de alimentos proibidos, observância de dias, etc., segundo encontramos nos capítulos
décimo quarto e décimo quinto da epístola aos Romanos, o que é igualmente abordado amplamente no oitavo capítulo da nossa
epístola. Mas a secção anterior, que versa sobre a santidade necessaria no reino de Deus, bem como sua reprimenda severa contra
vários abusos de natureza sexual, não demora a fazê-lo voltar às suas considerações sobre esse tema, e em termos ainda mais
severos e definidos do que antes.
A introdução de Paulo a esta secção, que menciona as regras da «liberdade cristã», em relação a alimentos proibidos e
observância de dias especiais, cjue são questões indiferentes, mui provavelmente nos dá margem a entender que os crentes de
Corinto tinham situado os vícios sexuais na mesma categoria das coisas indiferentes, no que, naturalmente, estavam
redondamente enganados. Talvez a declaração doutrinária deles pudesse ser expressada seguinte maneira: «È questão indiferente
o que alguém faz com seu própriocorpo. O que importa é somente o espírito». E isso expressa uma boa doutrina gnóstica. Aqueles
crentes tinham abusado do ensino paulino da «liberdade cristã», dando-lhe aplicações que não lhe pertenciam por direito. E por
essa razão, pois, que Paulo esclarece: «Porém, o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo», no
décimo terceiro versículo deste mesmo capítulo.
A cidade de Corinto era um centro de vícios sexuais de vários tipos, talvez sem igual em qualquer outro lugar do mundo de
então. E a igreja cristã ali existente quase não podia evitar ser contaminada por esse péssimo ambiente. A prostituição fazia
parte das antigas religiões pagãs, sendo uma prática totalmente aprovada por elas. Estrabão calculava que em Corinto havia
nada menos de mil prostitutas religiosas profissionais, as quais faziam parte ativa da suposta adoração aos deuses, em meio a
ritos caracterizados pela sensualidade. Além disso, havia muitas outras prostitutas seculares, abundando por toda parte os
lupanares. Por essa razão o termo corintinizar veio a ser usado para expressar os abusos sensuais de qualquer sorte. Não
admira, portanto, que Paulo tenha sentido a necessidade de frisar continuamente quão condenável era esse abuso, nesta sua
epístola, o que fez de diversas maneiras. Os povos antigos em geral, e não meramente os habitantes de Corinto, tinham um ponto
de vista extremamente liberal acerca das relações sexuais anteriores ao matrimônio, não sendo muitos os que viam qualquer
malefício nessa libertinagem. Mas de modo geral, a cultura greco-romana era totalmente incompatível com os ideais judaicos
sobre essa questão; e o cristianismo na realidade aumentou ainda mais o abismo de diferença de atitudes* ao invés de suavizá-lo.
Ê interessante que na cultura judaica prevalecia um duplo padrão; porque um homem podia viver com uma mulher, estabele­
cendo com ela alguma forma de contrato, por mais breve que fosse em sua duração, e assim podia ter relações sexuais com ela,
com a sanção total da própria lei mosaica. Para a mulher, contudo, as coisas eram bem diferentes, visto que tal liberalidade não
se aplicava a ela. Diz-se que certos rabinos estavam acostumados a dizer, quando chegavam a alguma nova cidade: «Quem quer
ser minha esposa por um dia?» Sim, um homem podia agir dessa maneira, mas não uma mulher.
Em violento contraste com essas práticas, o cristianismo, apesar de não haver denunciado ou ilegitimado a poligamia, ou
mesmo o concubinato, na forma de contratos legais para efeito de relações sexuais, retomou ao princípio mais primitivo como o
ideal e o princípio que defendiam quanto a esse particular -um homem para uma mulher. Outrossim, no seio da igreja cristã,
todo o líder tinha de ser «esposo de uma mulher·» (ver I Tim. 3:12). No cristianismo, pois, a tendência, até mesmo dentro da
cultura judaico-cristã, onde a poligamia continuava comum nos dias do Senhor Jesus, foi a de reestabelecer a ética mais antiga
sobre essa questão, um princípio mais puro e espiritualmente maie edificante. Podemos estar certos, porém, que em Corinto não
havia leis que regulamentassem a poligamia ou o concubinato, embora o vício fosse extremamente generalizado, sancionado até
mesmo pelas religiões oficiais.
Foi para uma gente assim mal acostumada que Paulo escreveu esta epístola. Para muitos coríntios, o evangelho, embora
tivesse sido ostensivamente recebido, na realidade não modificara os seus hábitos. Por essa razão é que Paulo lhes escreveu, a fim
de repreendê-los e instruí-los. Sabiam quais eram as exigências que Cristo lhes impusera. Não ignoram essas exigências. Pois o
apóstolo dos gentios estivera entre eles pelo espaço de dezoito meses (ver o décimo oitavo capítulo do livro de Atos), tendo
recebido instruções minuciosas da parte dele. Mas simplesmente lhes faltava o caráter cristão necessário para saírem e se
separarem do paganismo e de suas práticas aviltantes.
12 Π άντα μοι εζεστιν, άλλ’ ον πάντα συμφέρει, πάντα μοι εζεστιν, άλλ’ ονκ εγώ εζουσιασθησομαι υπό
T tV O Ç , 12 Π ά ντα ...σ υμ φ έρ ει Sir 37.28; 1 Cor 10.23
6:12: Todos os coisas me são licites, mas nem todos os coisos convêm. Todos os coisas me são licitas; mas eu não mo deixarei dominar por nenhuma delas.
86 I CORÍNTIOS
Alguns daqueles membros da igreja cristã de Corinto haviam defendido a
sua lassidão de costumes abusando da doutrina paulina da «liberdade
cristã», o que contribuiu tão-somente para aumentar a gravidade de seus
pecados. Paulo já havia mostrado um caso flagrante de «imoralidade* (no
grego, «
porneia», em I Cor. 5:1 e ss.); e agora aborda esse mesmo tema, com
termos mais generalizados, aplicando-o aos muitos casos de imoralidade
havidos na igreja cristã de Corinto.
A menção das questões sexuais faz lembrar a Paulo a questão da
liberdade cristã. O apóstolo dos gentios mostra que a sua doutrina da
«liberdade cristã», contrariamente ao que pensavam certos, não dava apoio
ao «partido dos libertinos». Paulo menciona os «slogans» desse partido, para
em seguida refutá-los. Esse partido usava de chavões como «Todas as coisas
me são lícitas». «O alimento é para o estômago, e o estômago para o
alimento». É até mesmo possível que Paulo tivesse escrito declarações dessa
ordem aos crentes de Corinto; mas eles as tinham distorcido em seu sentido
tencionado, dando-lhes uma aplicação muito mais ampla do que qualquer
interpretação cristã poderia suportar.
«...Todas as cousas me são lícitas...» Podemos supor que o partido dos
libertinos, na igreja cristã de Corinto, usava esse «slogan», entre outros,
provavelmente utilizando-se de expressões paulinas, embora distorcidas.
Os Exageros Dos Coríntios
1. Alguns pervertiam os ensinamentos paulinos sobre a graça, de modo a
não haver mais qualquer distinção moral. Tais homens tornavam-se totais
pragmáticos, não percebendo mal algum em qualquer coisa, a menos que
houvesse resultados adversos para o próprio indivíduo, resultantes de certos
atos. Tudo o mais tornava-se matéria indiferente para eles, e não se
deixavam guiar por qualquer lei moral.
2. O ensino de Paulo, neste ponto, fala sobre situações «não-morais».
Com isso, Paulo não estava removendo a lei moral, pois existem atos que
são malignos em si mesmos. Todavia, através das circunstâncias, há outras
coisas que chegam a ser más.
3. Talvez alguma forma primitiva de gnosticismo (ver as notas em Col.
2:18) tivesse lançado raízes em Corinto. Essa doutrina ensinava que
podemos praticar certos males morais que prejudicam ao corpo, porquanto
isso resultaria no bem de destruir o corpo físico, o qual, juntamente com
toda a matéria, é princípio mesmo do mal. Imaginavam tolamente que os
males físicos não podem causar dano à alma imaterial.
Mas Paulo responde como segue: «Todas as cousas me são lícitas, mas
nem todas convém. Todas as cousas me são lícitas, mas eu não me deixarei
dominar por nenhuma delas». Assim sendo, a resposta dada por Paulo é
dupla:
1. Nem todas as coisas me são convenientes, nem pessoal e nem
socialmente, sem dúvida. Em outras palavras, devo ter cuidado com as
minhas ações, para que não venha a prejudicar a outros. (Com isso se
podem comparar os trechos de I Cor. 7:35; 10:23 e 12:7). Ao invés de
«...convêm...» poderíamos traduzir «são expedientes», «são úteis», são
dignas, porquanto, no original grego, temos um verbo que indica algo que
resulta em «bem», em seu funcionamento. O argumento de Paulo é que até
mesmo no caso das questões moralmente indiferentes, as quais poderiam
ser reputadas «legítimas», isto é, não contraditórias com qualquer conceito
moral, até mesmo nesses casos nem todas as coisas podem ser praticadas de
qualquer modo, visto que nem tudo contribui para o bem-estar espiritual
dos crentes, nem para o próprio indivíduo e nem para a comunidade cristã.
Dentro dessa categoria poderíamos situar os capítulos catorze e quinze da
epístola aos Romanos, bem como o oitavo capítulo da presente epístola, que
envolvem questões como alimentos proibidos, observância de dias especiais,
dieta vegetariana, o uso geral da liberdade cristã, a prática ou não das
cerimônias religiosasdo judaísmo, a escolha das diversões, etc. Pois quando
a nossa liberdade exerce mau efeito sobre os nossos semelhantes, é que já
entramos no terreno das coisas que não são moralmente indiferentes, ainda
que aquilo que é praticado não é mau por si mesmo.
2. Todas as coisas são legítimas, isto é, «estão em meu poder» de serem
praticadas, mas «...eu não me deixarei dominar por nenhuma delas».
Pode-se notar ojogo de palavras, porquanto a palavra básica, em cada caso,
é a mesma, no original grego. Assim sendo, todas as coisas podem ser
praticadas dentro dos limites do padrão de autoridade que me serve de
orientação; porém, quando qualquer ação tomeça a «fazer-me exigências
autoritárias», procurando «dominar-me», então tal ação não é mais'
moralmente indiferente. Porque como meu Senhor reconheço unicamente a
13 τα βρώματα Trj κοιλία, και ή κοιλία το
Se σώμα ον Trj πορνεία άλλα
TT Zür Luth Jer Seg // d dash: RSV jj d ellipsis: Bov (NEB)
6:13: Os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos; Deus,
porém, aniquilará, tanto um como os outros. Mas o corpo não é para a prostituição,
mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo.
Paulo admite aqui que existem realmente questões indiferentes, que não
têm ligação alguma com a fé, com a vida eterna e com a esperança do
crente, mas que pertencem inteiramente a esta esfera física e transitória. O
Senhor Jesus declarou algo similar a respeito dos alimentos indiferentes e de
outras coisas da mesma natureza, no trecho de Marc. 7:18,19. Os alimentos
foram criados para serem comidos, e a ingestão de alimentos serve para
sustento do corpo físico. Não há qualquer moralidade envolvida no ato de
comer, nos alimentos, no estômago e nos processos digestivos. Nessa área, o
indivíduo pode fazer o que melhor lhe parecer. (Ver Rom. 14:2,3,14,15).
Mas o apóstolo dos gentios nega aqui que o próprio corpo seja uma questão
indiferente, como se o mesmo pudesse ser usado ao bel-prazer do crente. E
isso porque a contaminação do corpo afeta o espírito e corrompe a pessoa
inteira. A imoralidade não pode ser situada dentro da mesma categoria dos
Jesus Cristo. Nãoposso tornar-me escravode qualquer outro princípio. Não
posso ser escravizado por princípios de dieta vegetariana, pela necessidade
de observar determinados dias especiais, nem insistindo sobre a necessidade
dessas coisas e nem combatendo contra a sua conveniência. Simplesmente
não posso deixar-me dominar pelo que quer que seja, e nem por quem quer
que seja, exceto pelo Senhor Jesus.Poderiatornar-meescravizado até mesmo
pelo uso excessivo da minha liberdade cristã, ou então pelo temor de usar de
qualquer liberdade cristã. Quando eu não mais for liberto de Deus, em
minha expressão ou vida diária, então terei perdido a minha liberdade em
Cristo, e terei sido dominado por algo; e assim sendo, terei cometido um
grave pecado, contra mim mesmo e contra meus semelhantes.
A palavra « . . . e u . . . » é enfática aqui. É como se Paulo tivesse declarado:
«Quanto a mim, tenho limitações em minha liberdade cristã, pelas duas
razões acima declaradas».
«Abusamos da nossa liberdade cristã quando a usamos para debilitar
nosso caráter e diminuir nossa faculdade de autocontrole... Devemos usar
de cautela para que não usemos dessa liberdade de tal modo que a
percamos, como, por exemplo, quando nos tornamos escravos de hábitos
sobre coisas que, por si mesmas, são legítimas». (Robertson e Plummer, in
loc.).
Ora, exatamente isso é que os legalistas tinham feito, em sua insistência
sobre a observância das leis cerimoniais mosaicas. E aqueles que defendiam
o ponto de vista oposto, também se tinham deixado escravizar, devido à sua
insistência sobre uma maneira de viver mais livre. Ambos os grupos tinham
prejudicado um ao outro, não tendo buscado o bem-estar e a vantagem
espirituais uns dos outros; pelo contrário, haviam desobedecido à injunção
paulina de nada fazerem que não seja «benéfico» e «expediente» em suas
tendências e resultados.
A verdadeira liberdade consiste no modo como e na maneira pela qual
escolhemos um determinado senhor ou dominador. No caso dos crentes, o
único Senhor só pode ser Jesus Cristo. Ora, se assim é o caso, até mesmo
quanto às questões moralmente indiferentes, certamente não podemos
aplicar a doutrina paulina da «liberdade cristã» visando abusar do corpo, na
forma de perversões sexuais; e isso porque tal coisa nem ao menos se trata
de uma questão indiferente, mas antes, envolve um princípio moral bem
real e vital, conforme Paulo passa a demonstrar em seguida. (Uma
exposição completa sobre o tema da liberdade cristã se encontra nos
capítulos décimo quarto e décimo quinto da epístola aos Romanos, bem
como no oitavo capítulo da presente epístola). Paulo lança mão aqui desse
conceito a fim de introduzir seu severíssimo estudo sobre as coisas não
indiferentes, e também a fim de negar enfaticamente que aquilo que é
«moralmente indiferente» pode ser um princípio aplicado a uma conduta
sexual frouxa, conforme vários crentes coríntios de. .inclinações libertinas
vinham fazendo.
Se sacrificarmos a capacidade de escolha, implícita no pensamento da
liberdade, deixaremos de ser livres; e passaremos a ficar sujeitos ao poder
que deveria estar debaixo do nosso poder.
Até mesmo de acordo com o princípio da liberdade cristã, e quanto mais
segundo o princípio daquilo que convém ou não, a fornicação, a
imoralidade de todas as variedades, são atitudes errôneas. Porquanto
aquele que comete fornicação é posto sob o poder de uma prostituta, e não
mais é um crente livre. O crente que cai nesse pecado somente debilitou seu
próprio poder, bem como o poder de Cristo sobre ele, tendo, entregue as
rédeas de sua vida às forças tenebrosas da maldade. Tal crente deixou de ser
senhor de si mesmo, tendo rejeitado o domínio de Cristo Jesus. (Ver os
trechos de João 8:34-36; Gál. 5:13; I Ped. 2:16 e II Ped. 2:19).
«Somos senhores de todas as coisas; tão-somente não devemos abusar
desse senhorio de modo a sermos arrastados para a mais miserável servidão,
ficando sujeitos às coisas externas, através da falta de controle e dos desejos
desordenados, que antes deveriam estar sujeitos a nós». (Calvino, in loc.).
«O corpo foi designado para ser o órgão do Espírito Santo, para dominar
a natureza, e não para ser o órgão da natureza para dominar o Espírito».
(Kling, in loc.).
«‘Não me deixarei dominar por nenhuma delas...’ são palavras que se
referem sobretudo à sensualidade no comer e no beber, através do que,
aquele que cede a tais tentações, perde o domínio sobre si mesmo, que ele
entregara às mãos de Deus, tornando-se o mais vil de todos os escravos.
Com isso comparar o final do sétimo capítulo da epístola aos Romanos».
(Bloomfield, in loc.).
13 r ò δ β ., .σ ώ μ α τ ί 1 Th 4.3-5
alimentos para sustento do corpo, porquanto há algo de aviltante e
degradante nas relações sexuais ilícitas, que afeta a própria alma e o seu
bem-estar espiritual.
«O seu argumento é que há uma lei de adaptação que percorre a natureza
inteira, ilustrada pela adaptação mútua dos alimentos e dos órgãos da
digestão. Mas essa lei é violada pela prostituição dó corpo, na fornicação,
para o que, segundo a ordem determinada por Deus, o corpo não foi
adaptado». (Vincent, in loc.).
Os crentes de Corinto, por conseguinte, misturavam a questão dos
alimentos para o corpo, como algo que é indiferente, com o corpo entregue
a práticas sensuais, um assunto inteiramente diferente daquele, embora
aqueles crentes não pudessem ou não quisessem perceber tal distinção. Os
filósofos gnósticos pensavam que o corpo físico já é inevitavelmente a sede
mesma do princípio do mal, visto que o pecado é material, e eles
imaginavam que a matéria é má e que o espírito é bom. E daí concluíam que
aquilo que acontece ao corpo é inteiramente indiferente, visto que o espírito
ίς β ρώ μ α σ ινά ó δε θεός και ταντην και ταΰτα καταργήσει, το
τώ κυρίω, και Ο κύριος τώ σώ μα τί· ά13 d minor: TR WH Nes BF2 AV RV ASV
I CORÍNTIOS 87
humano só seria libertado desse princípio do mal por ocasião da morte
física. Mas Paulo salientou que se o homem abusar de seu corpo, mediante
práticas pecaminosas, também estará prejudicando a sua alma, em sua
espiritualidade e progresso. (Com isso se pode confrontar o trecho de I Ped.
2:11, onde se lê: «Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que
sois, a vos absterdes das paixões carnais que fazem guerra contra a alma»).
Isso expressa com precisão o pensamento de Paulo neste ponto.
O fato de que a filosofia pagã, ao tratar das questões morais, com
freqüência classificava coisas não-essenciais, como os alimentos, paralela­
mente a pecados morais supostamente não-prejudiciais, também pode ser
visto no trecho de Atos 15:23-29, —onde as exigências impostas aos
primitivos gentios convertidos ao cristianismo incluíam ambos esses
aspectos, como se ambos fossem igualmente importantes.
«...Deus destruirá...» isto é, tanto os alimentos como os estômagos ou
órgãos de digestão, tudo o que está sujeito à decadência, começando e
terminando dentro do tempo. Porque essas coisas pertencem, estritamente,
à ordem das coisas temporais. Mas não acontece assim com a alma, que par­
ticipa da eternidade. (Ver décimo sétimo versículo deste mesmo capítulo).
Moralmente falando, essas coisas temporais são indiferentes, a menos,
naturalmente, que certos alimentos sejam prejudiciais para o corpo, motivo
pelo qual devem ser evitados, a fim de não causar dano ao templo do
Espírito Santo. (Ver I Cor. 3:16 e ss.). É possível que aqui haja certa
referência ao tempo, já no estado futuro, especialmente na eternidade,
quando não mais precisaremos de qualquer alimento físico. Então esse tipo
de coisas temporais desaparecerá inteiramente.
«.. .Porém, o corpo não é para a im pureza.. . » Embora o corpo seja
temporal, material, como o é o estômago, tem uma missão mais alta do que
aqueles crentes de Corinto suspeitavam. O corpo do crente é templo do
Espírito Santo, uma casa santa, que deve ser usada como instrumento do
Espírito de Deus para o bem, e não para o mal. (Ver I Cor. 3:16 e ss. e
6:19).
A metafísica de Paulo, aqui abordada, étipicamente hebraica.Paulo não
separava corpo e espírito como duas entidades separadas, conforme ele faz
no quinto capítulo da sua segunda epístola aos Coríntios, que é nosso
melhor capítulo acerca da «imortalidade». Para os hebreus, o corpo físico
era um objeto psiquicamente animado. E segundo esse ponto de vista não é
algo transitório, passageiro, visto estar sujeito à ressurreição e à vida eterna,
quando o crente será transformado para possuir um corpo espiritual.
A Metafísica De Paulo
1. Paulo seguia a linha de pensamento dos hebreus, não distinguindo
claramente entre o corpo e o espírito, mas antes, encarando o princípio
físico como a condição natural e necessária do homem, agora e para
sempre. No estado eterno, o espírito será revestido de um corpo,
presumivelmente o corpo terreno ressurrecto.
2. Portanto, é de extrema im portância aquilo que um homem fizer
através do seu corpo. Além disso, dificilmente se pode imaginar que o
corpo, por si mesmo, seja maligno (conforme os gnósticos pensavam).
Todavia, o corpo físico torna-se uma vítima fácil do mal.
3. A espiritualidade, portanto, dificilmente poderá ser atingida enquanto
o indivíduo abusa de seu corpo por meio da imoralidade.
«...impureza...» O vocábulo grego por detrás dessa tradução é o mesmo
que vem sendo usado desde I Cor. 5:1, isto é, «porneia», palavra essa que
indica toda a forma de «imoralidade». (Ver as notas expositivas sobre essa
palavra, em I Cor. 5:1).
«Paulo mostra aqui ousadamente a falácia existente no paralelo que
alguns faziam entre o apetite do estômago para com os alimentos e a
imoralidade. O corpo humano possui uma missão muito mais elevada do
que a mera satisfação dos apetites sensuais desordenados. O sexo foi criado
por Deus para a propagação da raça, e jamais para a prostituição. E Paulo
já havia asseverado que Deus habita em nós como santuário do Espírito
Santo. (Ver I Cor. 3:16 e ss.).» (Robertson, in loc.):
Paulo ensinava aqui que de alguma maneira, que ele não explana, tanto o
corpo como a alma têm um destino eterno. Sem importar se os átomos deste
corpo físico terão ou não tal futuro, ou se o «corpo» será uma nova criação,
de material distinto da alma, e como veículo de expressão da alma, o fato é
que o corpo também tem um elevado destino, embora Paulo não esclareça
de que modo. Não obstante, o apóstolo dos gentios declara que aquilo que é
feito através deste corpo físico tem reflexos sobre a personalidade inteira do
indivíduo, afetando o seu destino, e degradando ou elevando toda a pessoa.
Por conseguinte, é muitíssimo importante aquilo que fazemos com os nossos
corpos.
«...mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo...» Quando da
ressurreição, o corpo de Cristo foi ressurrecto e espiritualizado. Ele
levantou-se dentre os mortos e posteriormente ascendeu aos céus como o
primeiro homem verdadeiramente imortal de Deus. O espírito de Jesus não
foi deixado despido do corpo, mas foi revestido de um corpo glorificado,
transcendental. Assim também sucederá no caso de todos os crentes. A
ressurreição dos crentes será a recomposição da personalidade inteira dos
remidos. A alma humana é imortal; mas também existe aquele revestimento
da alma por meio do corpojá glorificado, que terá por modelo a semelhança
do corpo glorioso de Jesus Cristo. (Quanto a outros trechos bíblicos acerca
desse tema, ver II Cor. 5:1 e ss.; Rom. 8:23 e I Cor. 15:35, que abordam
esse problema com abundância de pormenores). Não sabemos dizer,
contudo, se o «corpo glorificado» incorporará os átomos do nosso antigo
corpo ou não; mas isso é inteiramente destituído de importância para o
argumento aqui apresentado por Paulo. (Ver o trecho de Fil. 3:21 quanto ao
«corpo glorioso de Cristo», do qual também participaremos). Seja como for,
o corpo é «para o Senhor», tendo seu destino e propósito, seu uso próprio,
visando a glória do Senhor, não se destinando certamente à «imoralidade»,
à satisfação dos desejos sensuais desordenados.
«...Senhor...», neste caso, como na maioria das ocorrências do termo,
indica o Senhor Jesus Cristo, o Salvador dos homens. (Quanto a notas
expositivas sobre o uso da palavra «Senhor», no N.T., ver Rom. 1:4, onde há
comentários amplos sobre o assunto).
Referindo-se à mensagem geral deste versículo, Faucett (in loc.) comenta
como segue: «Temos aqui o gérmen dos três assuntos abordados nas
secções subseqüentes: 1. A relação entre os sexos; 2. A questão dos
alimentos oferecidos aos ídolos; 3. A ressurreição do corpo. Uma essência
real subjaz os fenômenos superficiais da presente organização do corpo;
esse gérmen, quando todas as partículas são espalhadas, envolve a
ressurreição de um corpo incorruptível».
É possível que Paulo tenha usado aqui o termo corpo, a fim de
subentender o próprio «eu». Os pecados do corpo prejudicam ao «eu», à
pessoa inteira. Jesus Cristo veio para redimir a pessoa inteira, incluindo o
corpo, que deve ser considerado como o veículo físico, que será
transformado e espiritualizado quando da ressurreição. Por conseguinte, o
corpo deve ser redimido, e não sujeito à imoralidade. Nesse sentido, a
salvação envolve igualmente o corpo. (Ver Rom. 8:23).
«O Senhor Jesus e a ‘porneia’ lutam pelo domínio dos corpos dos crentes;
se quiserem ser leais a ele, precisam renunciar àquilo-, se cederem àquilo,
terão de renunciar a ele». (Findlay, in loc.).
Visto que o corpo é «para o Senhor» em sentido final, isto é, pertencente a
ele por toda a eternidade, tendo sido redimido por ele, é lógico que agora
mesmo os crentes usem os seus respectivos corpos para serem usados no
serviço de Cristo e para sua glória, e não para fins de degradação moral.
Cristo comprou nosso corpo, e é a ele que o corpo pertence, tal como um
escravo pertence totalmente ao seu senhor. (Ver o vigésimo versículo deste
capítulo).
14 6 δε θεός καί τον κύριον ηγειρεν καί ημάς εζεγερε ΐ διά της δυνάμεως αύτοΰ.
14 Ro8.ll; 1 Cor.15.15, 20; 2 Cor 4.1414 φ γ ( ρ α p46clXDc p m vgs* c1· w saP1 bo Ç; R] ϊ ξ η γ € ψ ( ν p46c2B 17 3g r t vg P 'saP * Or : c i e y a p a
pll,46* AD* 69 pc
Os testemunhos estão divididos bem pelo meio quanto ao tempo do verbo: (a) o aoristo έξηyecpev, p4f,c2 B 424c 1739
Origenes; (b) o presente, èÇeyeípei, p (11,46*) A D* P 69 88; e (c) o futuro, èíjeyepei, p46cl N C D(3) K L
maioria dos minúsculos e a maioria das versões. O contexto torna o futuro necessário como correlativo de καταργήσει no vs.
13 (cf. também o paralelo de II Cor. 4:14). No que toca a è^yeipev e è^eyeipei, o primeiro parece ser uma repetição
mecânica do tempo anterior, e o último um equívoco da pena.
6:14: Ora, Deus não somente ressuscitou ao Senhor, mas tambim nos ressuscitará a
nós pelo seu poder.
Consideremos o exemplo de Cristo Jesus. Durante toda a sua vida terrena
ele viveu com pureza, e ninguém podia convencê-lo de pecado. Não
corrompeu ao seu corpo. Qutrossim, após a morte física, seu corpo foi
ressuscitado pelo poder de Deus, tendo sido espiritualizado. Dessa maneira
ele ascendeu aos céus e está ocupado em um serviço celestial, para glória de
Deus. Assim também sucederá a todos os crentes. O corpo dos crentes é
passível de ressurreição, estando destinado aos lugares celestiais, razão pela
qual não pode ser usado para o serviço da maldade. Portanto, a moralidade
não é uma questão indiferente, como indiferentes são as questões dos tipos
de alimento e dos órgãos digestivos, tudo o que não demorará a perecer,
jamais tendo sido criados para caracterizarem a natureza do estado futuro.
«Já que o corpo está destinado a compartilhar, juntamente com o corpo
de Cristo, da ressurreição, quando será erguido incorruptível, está sujeito a
uma mais elevada adaptação, com o que a fornicação é incompatível».
(Vincent, in loc.).
Dessa maneira, pois, Paulo émpresta maior peso ao seu argumento,
acerca da sua dignidade e elevados propósitos, bem como acerca do alto
destino do corpo do crente.
É frisada aqui a primeira ressurreição. (Ver Apo. 20:5). A esperança
escatológica tem elevado a importância do corpo do crente muito além das
inadequadas filosofias que alguns crentes de Corinto aplicavam.
A ressurreição se verificará mediante o «...poder...» de Deus, o que é
frase comum vinculada à idéia da ressurreição, embora não envolva
qualquer sentido comum, mas antes, um significado elevadíssimo. A
ressurreição é a demonstração mesma do poder de Deus, visto que os
homens não podem realizar tal coisa, e muito menos ainda a grande
espiritualização dos corpos ressuscitados que se seguirá. A ressurreição dos
crentes, pois, inclui a idéia da espiritualização, como também, usualmente
a ascensão aos lugares celestiais, com a glorificação resultante. Ora, isso
pode ser realizado exclusivamente por Deus, através do poder sem igual que
ele possui. (Comparar com os trechos de Atos 2:27,30,31,33; Efé. 1:19 e ss.
Ver Atos 2:24,27 quanto à ressurreição conforme é vista no livro de Atos.
88 I CORÍNTIOS
Ver I Cor. 15:26 quanto a uma nota expositiva geral sobre a «ressurreição».
Ver Luc. 24:6 acerca das várias teorias sobre o «modo da ressurreição de
Jesus Cristo». Quanto aos vários casos de ressurreição relatados nas
Escrituras, ver Atos 20:10. Quanto a notas expositivas sobre como a
ressurreição, nas páginas do N.T. subentende ascensão e exaltação, ver
Atos 2:32,33).
Deus abolirá os alimentos e os estômagos, visto que são coisas que
pertencem à ordem temporal de coisas. Mas Deus ressuscitou a Jesus Cristo
(seu corpo), e assim também fará conosco, utilizando-se do seu mesmo
poder divino. Portanto, o corpo do crente ê para o Senhor, e não para a
imoralidade.
Paulo não se refere aqui à sua esperança de escapar inteiramente da
morte física, o que era uma esperança real para ele, conforme se aprende
em I Cor. 15:51. Esse aspecto de sua esperança é omitido porque ele
abordava um assunto que requer o concurso da ressurreição. Por causa de
seu argumento, ele deixou passar ao largo uma doutrina que faria alguns
crentes negligenciarem a realidade da morte física.
★ ★ ★
V a r ia n te T e x tu a l: Existem várias modificações, nos manuscritos antigos, do
tempo do verbo que expressa a ressurreição dos homens. O futuro,
«ressuscitará» se encontra nos mss P(46) (primeiro corretor), Aleph, D(c),
vg(s cl w), Sa (pt) Bo e os manuscritos gregos mais recentes (minúsculos). O
aoristo, «ressuscitou», aparece também nos mss P(46) (segundo corretor), B,
1739, nas versões latinas r,t, vg(pt), Sa(pt) e nos escritos de Orígenes. O tempo
presente «ressuscita», aparece nos mss p(ll) (século V d.C.) e pela mão original
de P(46) (o documento mais antigo que possuímos, dos escritos paulinos, seculo
III d.C.), como também em A,D (mão original), 69 e alguns pontos outros
manuscritos de menor importância.
O tempo futuro dá a entender a ressurreição escatológica, sendo esse o
prisma preferido pelos escribas. Mas é bem provável que isso seja uma emenda
feita no aoristo, que mui provavelmente representa o original. Se o aoristo foi
realmente usado por Paulo, então está em foco aqui a ressurreição espiritual
dos crentes, em Cristo Jesus, o que é um acontecimento passado, tal como
lemos também no trecho de Rom. 6:4. Porém, mesmo que Paulo realmente
tenha usado o tempo aoristo, ainda assim a ressurreição escatológica pode
estar em vista, visto que, quando da ressurreição de Jesus Cristo, também
fomos realmente «ressuscitados», numa potencialidade certa, que aguarda
tão-somente a ocasião própria para que tal acontecimento se realize. Alguns
estudiosos, entretanto, supõem que o tempo aoristo aparece aqui como
assimilação do verbo que aparece neste mesmo versículo e que alude à
ressurreição de Cristo, verbo esse que também está no tempo aoristo. Nesse
caso, o original poderia estar no tempo presente ou no tempo futuro. Porém, o
mais provável mesmo é que o tempo aoristo represente o original, o qual sofreu
diversas modificações, conforme é esclarecido neste parágrafo. Sendo esse o
texto «mais difícil», também é o mais provável, de acordo com as regras
textuais. A modificação mais óbvia é aquela feita para o futuro. Alguns bons
editores, entretanto, preferem realmente o futuro. Todavia não há maneira
indiscutivelmente certa de dar solução a esse problema.
15 o v k ο ϊδατΐ δτι rà σώματα υμών μέλη Χρίστον έστιν; αρας ούν τα μέλη τοΰ Χριστοΰ ποιήσω πόρνης
μ έ λ η ; μΎ} yeVOlTO. 15 τά σώματα...ίστίν Ro 12.5; 1 Cor 12.27 15 ουκpraem η G pc Aug OrIat | υμων] ημ- Ν*Α | apas] αρα Ρ
al: ij apa G
6:15: Não sabeis vis que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomareipus os
membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? De modo nenhum.
Paulo dá início aqui a um outro argumento, visando mostrar que a
polução do corpo dificilmente pode ser classificada dentro da mesma
categoria dos alimentos para o estômago, conforme alguns crentes coríntios
entendiam. Cada crente, individualmente, faz parte do corpo místico de
Cristo. (Ver Rom. 12:4,5 acerca desse tema. Ver também I Cor. 12:13).
Cada membro é dotado de uma função toda especial, o que significa que
cada crente é um membro sem igual, im portante, ainda que não
independente dos demais membros do corpo, e muito menos ainda, da
Cabeça, que é Cristo Jesus. Ora, tudo isso fala da nossa «intimidade
mística» com Cristo, em que há união de espíritos, conforme também lemos
no décimo sétimo versículo deste mesmo capítulo. Há, portanto, uma união
espiritual íntima, a participação dos crentes na mesma natureza espiritual
de Cristo, mediante o poder transformador do Espírito Santo. E como
poderiam, por conseguinte, aqueles que estão nessa comunhão mística com
Cristo, terem também intimidade, no nível físico, com uma prostituta,
através de atos imorais? Tais ações são mortíferas para o espírito do crente,
detrimentes em extremo para a sua comunhão com Cristo, a sufocação
mesma da espiritualidade. Ora, isso é algo totalmente contrário ao
progresso espiritual, o que só pode ocorrer mediante a comunhão com Jesus
Cristo, através de seu Santo Espírito. Tais concupiscências «guerreiam
contra a alma», no dizer de I Ped. 2:11.
O corpo é «...para o Senhor...», para glória do Senhor, para seu serviço,
para ser glorificado segundo o corpo glorificado de Jesus, para seu serviço
eterno; mas também é «adaptado» para ele, em comunhão mística, do que
também se deriva o nosso poder espiritual. Ora, ter qualquer contacto com
a imoralidade é sufocar essa intimidade e arruinar essa adaptabilidade da
personalidade humana para com Cristo. Por essa razão é que a palavra
«...corpo...», neste versículo, certamente envolve a idéia da «pessoa inteira»,
tema esse que atravessa todo o texto, ainda que o corpo físico literal
também esteja em foco como algo sujeito à ressurreição, quando então a
personalidade inteira será restaurada em Cristo e glorificada nele. Ora, essa
«adaptação» (ver o décimo terceiro versículo deste capítulo) vem através da
comunhão mística com o Senhor. E deveríamos estar interessados no
aprimoramento dessa comunhão, ao invés de estarmos interessados no
pioramento dessa intimidade, que é exatamente o que a prostituição efetua.
O ponto de vista pagão sobre o corpo sempre fazia com que o homem
fosse reduzido ao nível dos animais; e, em um sentido totalmente físico, isso
é uma verdade. Mas o «corpo», sem importar se está em foco apenas a
entidade física, ou se queremos dar a entender a «pessoa inteira», tem algo
em comum com o Cristo glorificado, e não com os animais irracionais,
razão pela qual deve ser tratado com respeito, e não como se fosse apenas
um organismo animal. Outrossim, o corpo do crente, quando da
glorificação, juntamente com o «eu inteiro», toma-se membro de Cristo,
desfrutando de comunhão mística com ele. Essa é outra razão poderosa pela
qual o corpo (a entidade física e o eu inteiro) não pode ser entregue à
prostituição. Agostinho observava: «Não podem eles ser, ao mesmo tempo,
membros de Cristo e membros de uma prostituta». (De Civ. Dei xxi.25).
«...e os faria membros de meretriz?...» Poderia Paulo, do alto de sua
autoridade apostólica na igreja, mediante ensinamentos frouxos, dizer aos
crentes que lhes é facultado participar da imoralidade, assim prejudicando
a sua comunhão com o Senhor Jesus? Nunca, responde Paulo. «Deus o
proíba». «Longe de nós tal pensamento».
«...Absolutamente, não...» Literalmente traduzidas, essas palavras
diriam: «Que não seja assim». Têm sido variegadamente traduzidas como
«Deus proíba» (não literalmente, mas demonstrando o espírito de aversão),
«Longe de nós tal pensamento», ou, mais simplesmente, Jamais! No original
grego, temos «me genoito», uma das poucas ocorrências do modo optativo,
nos escritos de Paulo. Essa expressão é de uso freqüente na epístola aos
Romanos, mas, nesta primeira epístola aos Coríntios figura somente aqui.
(Ver as notas expositivas a respeito em Rom. 3:4. Ver também os trechos de
Rom. 3:6,21; 6:2,15; 7:7,13; 9:14; 11:1,11; Gál. 2:17; 3:21 e 6:14). Sempre
que Paulo usa tal expressão, queria rejeitar vigorosamente a idéia
anteriormente expressa, como que tocado por grande sentimento de
repulsa. E isso mostrava como Paulo encarava a questão dos costumes
sexuais lassos, que eram tão comuns em Corinto e por todo o mundo pagão
daquela época.
«Segundo o ponto de vista helenista, o corpo era o envelope perecível da
alma; segundo o ponto de vista das Escrituras, é o veículo permanente do
seu espírito. Devotar o próprio corpo a uma prostituta é retirá-lo, antes de
tudo, da possessão de Cristo; e fazer ‘isso’, e ‘com tal propósito’, basta a
declaração (sem elaboração), para mostrar a infâmia de tal proposição».
(Findlay, in loc.).
A declaração de repulsa do apóstolo Paulo contra a idéia da entrega do
corpo à prostituição (no grego, «me genoito», conforme foi comentado mais
acima), também foi utilizada por outros autores antigos, como Epicteto (ver
Odisséia, vii.316). Por conseguinte, não era expressão original de Paulo,
mas mui provavelmente podia ser ouvida comumente nos seus dias, mais ou
menos da mesma maneira como ele a usou.
16 [ή ] ούκ οϊδατ€ ότι ό κολλώμένος rfj πόρνη ev σώμά έστιν; Έ σ ο ν τα ι γάρ, φησίν, ol δύο eiç σάρκα
μιαν. 16 'Έ ,σ ο ν τα ι.,.ο Ι;δ ύ ο ...μ ία ν Gn 2.24 (Mt 19.5)
esse motivo que, nas Escrituras, a relação matrimonial é empregada para
ilustrar simbolicamente a união entre Cristo e a sua igreja, porquanto, de
maneira bem real, exemplifica uma real comunhão de energias espirituais
vitais, e não meramente uma união poeticamente expressa.
Paulo cita aqui o trecho de Gên. 2:24, de acordo com a versão da
6:16: Ou não sabeis que o que se une à meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque,
como foi dito, os dois serão uma si carne.
A linguagem utilizada por Paulo é mais do que simbólica e poética. O que
ele afirmava é que o contacto sexual não é um ato físico passageiro, mas
antes, de alguma maneira mística, une duas pessoas no mesmo tipo de laço
íntimo. Mui provavelmente ele defendia a tese que, em tal união, ocorre
alguma espécie de união de energias vitais físicas e psíquicas, uma real
união de seres, de alguma maneira. Nos escritos dos místicos é comum a
declaração que expressa o sentimento de que o sexo está envolvido em
alguma forma qualquer de aura. E é fato bem conhecido que os impulsos
sexuais suprimidos podem, realmente, provocar experiências místicas. No
sexo, embora não saibamos dizer como, há um elemento transcendental
qualquer, o que talvez envolva alguma forma de profunda comunhão entre
as duas pessoas, no nível de suas energias vitais, tanto físicas como
espirituais. Parece ocorrer uma espécie de união de seres. Talvez seja por
Septuaginta (tradução do A.T. hebraico original para o grego, completada
cerca de duzentos anos antes da era cristã), onde, naturalmente, há alusão
às relações matrimoniais. Não obstante, Paulo deixava entendido que quer
dentro do casamento, quer fora dele, as relações sexuais envolvem alguma
espécie de união vital dos seres de duas pessoas. Essa união pode justificar
nossa comum afirmativa que, de certa forma, elas se tornam «uma só
pessoa». Ora, e seria possível que um crente, que professa ter a Jesus Cristo
como seu Senhor, e que assim se encontra supostamente em Cristo, isto é,
que goza de alguma espécie de comunhão mística com ele, possa ao mesmo
tempo unir-se tão vitalmente a uma mulher sensual, carregada de pecados,
impelida por diversas concupiscências fortes, como ocorre se se unir a uma
I CORÍNTIOS 89
prostituta? Paulo não podia admitir que ambas essas coisas podem ser
realidade na vida do crente. Ter tal união com uma mulher dessa natureza é
romper a comunhão mística com Cristo, é sufocar a intimidade com ele. Por
conseguinte, tal imoralidade sob hipótese alguma pode ser reputada como
questão «indiferente», moralmente falando, conforme alguns crentes de
Corinto supunham.
«Ter contacto sexual com uma das sacerdotisas de Afrodite (o que fazia
parte do ritual pagão em Corinto), significava consagração a essa deusa, e,
naturalmente, exclusão do corpo de Cristo». (C.T. Craig, in loc.).
No Talmude encontramos uma declaração similar: «Quem quer que se
una à mulher de outro homem, com isso renuncia ao Deus Santo e Bendito e
se exclui da congregação dos israelitas». (Sohar Genes., foi. 19).
O problema da prostituição'. Paulo não aborda esse e outros problemas
relacionados do ponto de vista da saúde da comunidade, do orgulho
individual ou do respeito próprio ou pelos outros, conforme fazem a
medicina e a sociologia modernas. Para o apóstolo dos gentios tratava-se,
essencialmente, de um problema espiritual, pesadamente sobrecarregado
de proposições espirituais da mais elevada ordem. As relações entre um
homem e o seu Deus são afetadas por sua vida sexual, razão pela qual é algo
que se reveste das mais importantes conseqüências. A comunhão com Deus
pode ser totalmente abafada, e a intimidade com Jesus Cristo pode ser
destruída, através do abuso das funções sexuais.
«Aindulgência nesse particular do sexo embota o fino fio da vida pessoal
e diminui a sensibilidade do indivíduo para com as realidades espirituais...
E grande parte desses abusos, se não mesmo todos eles, tem sido combatida
pela sociologia, particularmente no que diz respeito à prostituição abusos
esses igualmente condenados por Paulo. Apesar de ser possível ao indivíduo
escapar, pelo menos durante algum tempo, de quaisquer conseqüências
físicas e fisiológicas, não é possível escapar das conseqüencias psicológicas.
A prostituição tende por produzir efeitos psicológicos adversos sobre os
indivíduos envolvidos, e, em adição a isso, efeitos adversos inevitáveis sobre
a estrutura moral e espiritual da sociedade. Outrossim, conforme o ponto
de vista do apóstolo, qualquer pessoa que se permite tais práticas une-a sua
‘personalidade’ com a de sua companheira, ou vice-versa, assim
contaminando o próprio templo de Deus, de quem pertence, com
exclusividade, a ‘personalidade’ do crente... Uma das mais antigas heresias
contra a qual o apóstolo teve de combater foi a idéia perniciosa que dizia
que a liberdade cristã subentende licenciosidade... Suas convicções
precisam ser reafirmadas pela igreja, século após século». (John Short, in
loc.).
Paulo cita aqui certos trechos do A.T., a fim de encontrar apoio para o
seu argumento, prática essa comumente vista em suas epístolas, usualmente
com o acompanhamento da fórmula está escrito. (Quanto a notas
expositivas sobre esse hábito de Paulo, e seu sentido, ver I Cor. 1:19.
Quanto à maneira um tanto frouxa como ele algumas vezes fazia suas
citações, ver Rom. 10:6).
«Aquilo que tem sido feito sobrevive, moralmente, em ambos. E daí por
diante um não pode livrar-se do outro». (Findlay, in loc.).
«...serão os dois uma só carne...» Essas palavras nãosignificam/azeruma
só carne, reproduzindo sua própria espécie, ao que tem sido reduzido o
significado deste versículo, mas que ê um sentido realmente alheio ao texto.
* * ★
17 ò δε κολλώμβνos τώ κυρίω êv ττνβΰμά εστιν.
6:17: Mas, o que se une ao Senhor i um si espirito com ele.
A declaração paulina aqui é de grande importância·.
1. Não fala de uma simples disposição que compartilhamos com Cristo.
2. Compartilhamos a mesma essência de natureza com ele. A declaração,
então, é paralela àquela de Rom. 8:29 que fala sobre a nossa transformação
à imagem de Cristo. Notas completas são dadas sobre este tema in loc. Ver
também as notas em Efé. 3:19, Col. 2:10.
3. É o Espírito que transforma a alma humana. Ver II Cor. 3:18. Aqui, a
palavra «espírito» é uma referência ao «espírito humano.» Alguns
intérpretes preferem «Espírito». O grego nunca tem um «p» maiúsculo na
palavra «pneuma», portanto, às vezes, não é claro se «disposição», «espírito
humano», ou «Espírito Santo» é o sentido. No presente versículo uma
referência ao Espírito é remota. A nossa união com Cristo nos dá a essência
espiritual dele, mesmo como a união com uma prostituta obriga-nos a
compartilhar das energias vitais dela.
4. A dignidade de Cristo não é prejudicada pela participação dos outros
filhos na natureza dele. O Filho e o Pai possuem a natureza divina
infinitamente; os filhos, finitamente. Mas toda a eternidade consiste no
aumento contínuo da participação dos filhos, porque na eternidade não
pode existir estagnação. Sendo que existe uma—infinidade—com a qual
devemos ser enchidos, deve existir também um enchimento eterno, infinito.
5. O versículo, embora declarando uma imensa verdade metafísica, é
principalmente ético. A nossa comunhão com Cristo, no nível da alma,
exige de nós uma vida de pureza e grande avanço ético. O nosso privilégio
como filhos exige de nós uma renúncia das coisas mundanas.
A palavra «...Senhor...», que aparece neste versículo, se refere a Jesus
17 Jn 17.21-23; Ro 8.9-11; Ga 2.20
Cristo, o que representa um uso muito comum nas páginas do N.T. (Ver
Rom. 1:4 acerca de uma explanação e ilustrações desse uso. Quanto ao
tema da «intimidade entre a cabeça e o corpo», ver os trechos de Gál. 2:20;
Efé. 2:5 e ss.; 3:16 e ss.; Col. 2:10; 3:1 e ss.; João 15:1 e ss. e 17:23 e ss.).
Assim, pois, o apóstolo Paulo mostra que a nossa união mística com
Cristo é muito mais íntima do que aquela que temos com nossas respectivas
esposas. E a aplicação dessa verdade é aquela expressa por Calvino(m loc.)·.
«Pois se aquele que é casado não deve ter relações sexuais ilícitas com uma
prostituta, muito mais hediondo será o crime dos crentes, se se unirem a
prostitutas, visto que não somente formam ‘uma só carne’ com Cristo, mas
também ‘um só espírito’. E isso nos mostra a comparação entre o maior e o
menor».
«Meyer observou com razão que o casamento místico entre Cristo e a sua
igreja não deve ser pressionado aqui (como fez Olshausen, com base em
Efé. 5:23 e ss.), visto que as relações dos comparados não correspondem
entre si. Não obstante, a veracidade íntima dessa relação mística é a ‘base’
fundamental de ambas essas passagens». (Alford, in loc.).
«Aquele que se une com Deus, mediante a fé em Cristo Jesus, recebe o
Espírito e se torna participante da natureza divina. E quem poderia
modificar tal relação a fim de ter contacto com uma prostituta? ou para
desfrutar de qualquer satisfação sensual? Aquele que pode fazer tal troca
deve estar caído profundamente!» (Adam Clarke, in loc.).
O presente versículo, por conseguinte, ensina-nos que está envolvido
muito mais do que a comunhão com Cristo, na experiência mística, embora
essa experiência também seja uma realidade. Na verdade, ensina a
participação real na sua natureza essencial.
18 <f>eΰ γ€ Τ € την Tropveíav
rropvevow eis το ίδ ιο ν
παν αμάρτημα δ èàv ποίηση άνθρωπο5 €ktos τοΰ σώματο5 ε σ τ ιν ,
σώμα αμαρτάνει.
8è
6:18: Fugi da prostituição. Qualquer outro pecado que o homem comete, é fora do
corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu priprio corpo.
«...Fugi da impureza...»E usada aqui a mesma palavra grega empregada
no décimo terceiro versículo, «porneia», igualmente traduzida por
«impureza», a qual é comentada em I Cor. 5:1. Essa palavra indica
qualquer contacto sexual ilícito, qualquer forma de imoralidade.
Cumpre-nos fugir de toda e qualquer forma de desvio moral que se alaste
dos elevados padrões do cristianismo, pelos motivos seguintes:
1. Os indivíduos imorais na realidade não podem ser pessoas convertidas,
pelo que também não herdarão o reino de Deus, cujo sentido, neste caso, é
«vida eterna» (ver o nono versículo).
2. Porque a conversão e a santificação cristã iormam uma nova criatura,
o que é comprovado pelas experiências da vida diária. (Ver o décimo
primeiro versículo).
3. Porque aquilo que fazemos com nossos corpos não pode ser
classificado entre as «questões indiferentes», do ponto de vista moral, como
indiferentes são as diferenças de dietas, observância de dias especiais, etc.
(Ver os versículos doze e treze).
4. Porque o «corpo» tem um grande destino, não sendo apenas o lar
temporário da alma. Além disso, o corpo não é a sede do mal, mas antes, o
lugar de habitação do Espírito Santo, o santuário de Deus, o qual será
também ressuscitado pelo poder de Deus, tal como o Senhor Jesus foi
ressuscitado. (Ver os versículos catorze e dezenove).
5. Porque quando das relações sexuais há uma união vital de duas
pessoas, de corpo e espírito, numa espécie de comunicação mística; razão
também pela qual nenhum crente pode unir-se legitimamente com uma
mulher sensual. Isso rompe a comunhão do crente com Cristo. (Ver o
décimo sexto versículo).
6. Porque, em Cristo, e devido à nossa transformação íntima segundo sua
imagem, somos unidos a ele em espírito, passando a participar de sua
mesma natureza espiritual. Por esse motivo, é um crime horrível alguém
poluir sua natureza espiritual com a imoralidade. O espírito humano
remido pertence a Cristo, e só pode ser devidamente unido a ele mediante o
processo da santificação.
7. Finalmente, o pecado de imoralidade é um pecado mais grave do que
qualquer outro que o crente possa cometer, visto que polui o seu corpo, o
qual é passível das seguintes coisas: a. Será ressuscitado pelo poder de
Deus; b. Recebeu grande destino em Cristo; c. Tendo sido redimido através
da expiação pelo sangue de Cristo, pertence a ele com exclusividade, não
podendo, por conseguinte, ser sujeitado a abuso por nossa vez (ver a última
porção do presente versículo e o versículo vigésimo); d. O corpo agora é
templo do Espírito Santo, santuário de Deus, lugar da habitação de Deus,
onde o Senhor torna-se conhecido à personalidade humana, não podendo,
por essas razões, ser poluído pela imoralidade.: (Ver o décimo nono
versículo); e. O corpo é possessão de Deus (ver o vigésimo versículo); f.
Tudo deve ser feito visando a glória de Deus (ver o vigésimo versículo).
Como se podem derrotar os pecados sexuais? Paulo aconselha a fuga do
pecado, tanto aqui como no trecho de I Cor. 10:14 (onde a mesma coisa é
dita acerca da idolatria). É somente nesses dois trechos que Paulo fala em
tais termos, em todas as suas epístolas. Existem alguns pecados poderosos
demais para serem enfrentados diretamente, por demais enganadores ou
por demais atrativos. Os pecados do sexo não podem ser derrotados
enfrentando-os e lutando. O encontro com situações que provocam a
tentação inevitavelmente leva à queda. Isso nos mostra quão sábio é evitar
os filmes perversos, a literatura sensual, as produções teatrais, etc.,
porquanto tais coisas e espetáculos aguçam um apetite que inevitavelmente
conduz à queda. E temos aqui, por semelhante modo, um poderoso
argumento contra os contactos e carícias durante o namoro e o noivado,
bem como contactos sociais por demais íntimos com outros, numa
sociedade onde os padrões morais são bem frouxos. Compete-nos, portanto,
evitar todos os contactos dessa natureza, todas essas tentações. Paulo
90 I CORÍNTIOS
recomenda que «fujamos» dessas coisas. Porque, se não fugirmos delas,
mais cédo ou mais tarde ocorrerá inevitavelmente a queda, porquanto nesse
campo da sexualidade enfrentamos um inimigo que nos pode derrotar sem
qualquer grande esforço. Não convém que enfrentemos frontalmente esse
pecado, oferecendo-lhe resistência através da força da vontade. Nosso plano
de batalha, nesse caso, consiste em fugir. E nessa fuga que fujamos para os
braços de Cristo, desenvolvendo nele as virtudes morais positivas (ver Gál.
5:22,23), as quais nos protejerão dessa forma de pecados. A alma remida
que permanece em comunhão com Cristo, através de seu Espirito, mediante
a meditação, o estudo das Escrituras, a oração, e, idealmente, mediante as
experiências místicas reais, perderá seu apetite pelas concupiscências
carnais. Nesse processo de fuga (do mundo), para os braços de Cristo,
podemos derrotar as paixões da carne, não havendo, na realidade, qualquer
outro método através do que isso possa ser feito com sucesso.
Paulo já havia declarado algo similar, com o mesmo sentido básico, na
passagem de Rom. 13:14: «...mas revesti-vos do SenhorJesus Cristo, e nada
disponhaispara a carne, no tocante às suas concupiscências». Assim sendo,
não devemos freqüentar aqueles lugares, ler aquelas coisas, ter contacto
com aquelas pessoas, que formariam provisões para as ações sensuais. Pelo
contrário, «revistamo-nos do Senhor Jesus Cristo». Que seja ele o nosso
revestimento espiritual. Que ele nos cubra e proteja com o seu sangue.
Com esses pensamentos podemos comparar o ensinamento de Jesus
Cristo sobre o adultério visual (ver Mat. 5:28). E também podemos
confrontar a admoestação e censura de Simão Pedro, que diz: «...tendo
olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas
inconstantes,...» (II Ped. 2:14). Existem homens que vivem em estado
permanente de concupiscência, em razão do que vivem procurando sempre
alguém com quem adulterar. Seus olhos percorrem a terça, procurando
quem queira pecar em seguida com eles e a vitalidade de seus seres é
desperdiçada nessa pervertida atividade. Conforme a tradução inglesa de
Williams (aqui vertida para o português), os olhos dessas pessoas são
«insaciáveis pelo pecado». Jamais ficam satisfeitas, sempre precisando de
quem queira compartilhar de sua sensualidade. Tomaram-se escravos
completos do sexo. Tais indivíduos, ao invés de fugirem dessa forma de
pecado, buscam situações favoráveis para o pecado, sempre fazendo coisas
que provocam o seu apetite. Tais homens não passam de escravos, e
somente a ajuda «vinda do alto» poderá salvá-los. A fim de não nos
tomarmos escravos dessa forma de pecado, precisamos fugir do inimigo. Se
quisermos enfrentá-lo diretamente, através da força da vontade, seremos
fatalmente vencidos e escravizados. O pecado da imoralidade é como um
super-homem, insaciável e insano. O sexo descontrolado, na realidade, é
um monstro insano.
Sófocles, no diálogo de autoria de Platão, intitulado República (329), ao
ser interrogado sobre como vinha manuseando as questões do «amor»,
retrucou: «Mui alegremente tenho ‘escapado’ do mesmo, e sinto como se
tivesse escapado de um senhor louco e furioso». Sim, o sexo pervertido pode
ser uma entidade assim, e feliz ê aquele que consegue escapar do mesmo.
«Pecar ‘contra o corpo’ é defraudá-lo da parte que o mesmo tem com
Cristo, é cortá-lo de seu destino eterno. Esse é o efeito da fornicação, em um
grau sem-par... Aquilo que o apóstolo Paulo assevera sobre a fornicação,
nega a respeito de qualquer outro pecado». (Robertson e Plummer, in loc.).
«...pecado... fora do corpo...» Precisamos admitir que temos aqui uma
frase difícil, porquanto não nos é dada qualquer explanação a respeito da
mesma. É bem provável que isso signifique que todos os outros pecados,
que não os de natureza sexual e imoral, ainda que de maneira relativa, mas
não absoluta, sejam pecados que não prejudicam finalmente ao corpò e ao
seu tencionado destino. Somente a perversidade sexual teria tal efeito.
«...fora...», nesse caso, é palavra que significa algo como «sem efeito
sobre o destino do corpo» (novamente falando apenas em sentido relativo).
Por essa razão é que Alford (in loc.) comenta a respeito dessa questão como
segue: «A assertiva do apóstolo é estritamente veraz. O alcoolismo e a
glutonaria são pecados feitos no corpo e através do corpo, sendo praticados
mediante o abuso do corpo, mas são coisas ‘introduzidas de fora’,
pecaminosas em seu ‘efeito’, cujo efeito é dever de cada indivíduo prever e
evitar. Mas a fornicação é a ‘a alienação daquele corpo que pertence ao
Senhor, fazendo do mesmo, corpo de uma prostituta’; não é um ‘efeito’
sobre o corpo deles, com base na participação de coisas vindas de fora, mas
antes, é uma‘contradição da verdade’ do corpo, proveniente ‘de dentro’ de
si mesmo».
É bem provável que Paulo concordaria com essa opinião de Alford. O que
é inegável é que Paulo não subscreveria àquela filosofia que afirma que
todos os pecados são igualmente maus, não havendo qualquer gradação de
pecado.
Gradações De Pecado
1. Alguns crentes, naqueles momentos que fazem experiências com a
teologia popular, supõem que não há gradação no pecado. Noutras
palavras, «pecado é pecado», dizem, «e todos os pecados são igualmente
maus diante de Deus».
2. Essa opinião, entretanto, nega o princípio exarado em Rom. 2:6, que
diz que cada indivíduo será julgado de conformidade com as suas próprias
obras, e que o próprio crente será julgado segundo o que tiver praticado, de
bom ou de mau, através do seu corpo (ver II Cor. 5:10).
3. Essa teologia popular também nega a base mesma da lei da colheita
segundo a semeadura. (Ver as notas em Gál. 6:7,8).
4. A discussão sobre Rom. 1:24 e seu contexto, bem como o texto
presente, parecem impor uma censura especial à imoralidade de natureza
sexual. Essa forma de pecado desfecha um ataque especial contra o corpo,
que é templo do Espírito.
«A palavra ‘corpo’ deve continuar sendo entendida como termo que
indica a ‘natureza humana inteira’, que é referida no décimo nono
versículo, como templo do Espírito Santo. Outros pecados profanam os
átrios exteriores do templo; mas esse pecado penetra até ao próprio Santo
dos Santos, com sua imundícia mortífera—
‘Endurece ao íntimo e petrifica aos sentimentos’.
Há uma profunda significação e uma grande verdade nas solenes palavras
litúrgicas: ‘Da fornicação, e de todos os outros ‘pecados mortais’, ó bom
Senhor livra-nos’». (Shore, in loc.).
Mas também existem outras explicações sobre essas palavras, fora do
corpo, conforme a lista que expomos abaixo:
1. Alguns pensam que as palavras «qualquer outro» devem ser
compreendidas no sentido popular de «quase todo». Assim sendo, outros
pecados podem ter um efeito tão adverso para o corpo como a imoralidade,
podendo também ser «contra o corpo», sendo igualmente pecados feitos «no
corpo» ou «contra o corpo», embora em um sentido secundário.
2. Outros pensam que a imoralidade polui «o corpo inteiro», ao passo que
o efeito de outros pecados é apenas parcial, razão pela qual poderiam ser
reputados (de maneira relativa) como praticados «fora do corpo», isto é, sem
produzirem plenos efeitos perniciosos contra o corpo.
3. Ainda outros estudiosos imaginam que a imoralidade se torna um real
tirano, dominando o corpo, com uma intensidade desconhecida no caso de
outros pecados, o que significaria que sua relação para com o corpo é menos
pronunciada, pelo que também poderiam ser considerados comopraticados
«fora do corpo».
4. Finalmente, conforme Paulo mostrara antes, os contactos sexuais
ilícitos levam o crente culpado a participar das energias vitais de ordem física
e psíquica de uma mulher sensual (ver o décimo sexto versículo deste
capítulo), o que resultaria em um mau efeito sobre o corpo. Nenhum outro
pecado conseguiria atingir desse modo as próprias energias vitais,
porquanto no caso de nenhum outro pecado há tal contacto com uma força
maligna. É bem provável que esta quarta possibilidade expressei)
sentimento que Paulo quis transm itir, embora as outras idéias talvez
tenham alguma aplicação ao que ele tencionava dizer.
«Os outros vícios são Conquistados pela luta; a concupiscência, pela
fuga». (Anselmo).
19 η o v k otSare ό τ ι το σ ώ μ α
κ α ί ο ύ κ eW è εαυτών;®
jj t Question, e question: Jer
6:19: Ou não sabeis φιβ o vosso corpo é santuário do Espirito Santo, que habita em
vis, o qual possuis da parte de Deus, e que não sois de vís mesmos?
Este versículo encerra diversas importantes verdades que podem ser
sumariadas como segue'.
1. Todos os crentes possuem a presença permanente do Espírito Santo
neles. (Quanto a esse pensamento, confirmado e comentado, ver Rom. 8:9).
Não pode haver salvação, sob hipótese alguma, nem fé, nem conversão,
nem santificação, nem regeneração e nem transformação segundo a
imagem de Cristo sem a agência do Espírito Santo e sem o entrelaçamento
de sua natureza santa com a natureza humana.
2. O que fora dito antes, acerca da comunidade cristã, como templo do
Espírito Santo (ver I Cor. 3:16 e ss.), em que a «igreja» aparece como
santuário e lugar de habitação de Deus, no Espírito Santo, é dito aqui a
respeito do crente «individual». A doutrina assim ensinada é que deve haver
algum contacto real e vital entre o espírito humano e o Espírito de Deus;
porquanto disso é que se constitui a salvação. Em outras palavras, a
salvação ocorre mediante essa «experiência mística» com o Espírito do
Senhor. É uma experiência «mística» porquanto através dela entramos em
real contacto e intimidade com a natureza divina, não sendo isso apenas
uma expressão simbólica. Na verdade, a energia divina se une à energia
humana e a transforma. Deus, pois, mostra-se «imanente» em sua criação.
ν μ ΐ ν α γ ίο υ π ν ε ύ μ α τ ό ς ε σ τ ιν , ο ΰ έ χ ε τ ε α π ό θ ε ο ΰ ,6
ASV ESV ΝΕΒ
R)
3. Por causa dessa presença habitadora do Espírito Santo, o crente passa
a pertencer inteiramente a Deus, ficando destinado a compartilhar da
natureza divina. (Ver o décimo sétimo versículo deste capítulo).
4. Essa verdade, considerada em seu conjunto, subentende que o corpo (o
«eu» inteiro), bem como qualquer porção do mesmo, não pode ser entregue
a práticas pecaminosas, imorais. Tal combinação é simplesmente
impossível. O indivíduo precisa escolher entre uma coisa e a outra.
«...daparte de Deus...» Visto que Deus é o manancial último de todas as
bênçãos espirituais, que nos são dadas por mediação de Cristo, através do
Espírito Santo. (Quanto a isso ver os trechos de Efé. 1:3,4; Rom. 11:32). O
Espírito de Deus é um presente dado aos homens, para que se concretize
sua total salvação. Ora, o Espírito Santo não pode habitar em um santuário
poluído, porquanto não pode realizar ali a sua obra. (Comparar com isso a
Epístola de Bamabé iv.ll e vi. 16). Assim sendo, a presença permanente do
Espírito Santo, o dom de Deus aos homens que visa a sua redenção
espiritual, requer que o crente se separe do mal, tal como aprendemos em II
Cor. 6:16. Essas palavras, «...da parte de Deus...», por conseguinte,
mostram nossa total dependência para com o Senhor. Nossa realização
espiritual é um presente divino, e não um produto do esforço humano. Essa
é uma suposição fundam ental do sistema inteiro da graça divina, da
soteriologia paulina.
υ μ ώ ν ν α ό ς τ ο ΰ iv
c' 19 e minor, e question: TR Bov Nes BF2 AV TT Zür Luth Seg H e question, e minor: WH RV
19 tò σ ω μ α ...εσ τιν 1 Cor 3.16; 2 Cor 6.16 1 9 (® €ou, . . * ΐα ν τίιϊν ;] ; .
I CORÍNTIOS 91
«...santuário...» No original grego encontramos o vocábulo «naos», que
era aplicado ao «Santo dos Santos», em contraste com o termo «ieron», que
se aplicava ao templo inteiro. É verdade, entretanto, que tais palavras
gregas podiam ser empregadas como sinônimos, referindo-se ao templo
inteiro e seus recintos. No entanto, parece que Paulo fez aqui alusão ao
lugar mais íntimo do templo, o qual, no templo de Salomão, era o local
onde se verificavam as manifestações da glória divina. Dentro da
dispensação do novo pacto, entretanto, o crente é que é local dessa
manifestação divina, sendo ele mesmo transformado pelo Espírito Santo,
que ali habita. O crente é o santuário do Espírito Santo. É interessante que
em I Cor. 3:16 a mesma palavra é usada para indicar o «templo»,
referindo-se à comunidade inteira da igreja cristã.
«...corpo...», o santuário do Espírito Santo. Estão possivelmente em
vista, nessa palavra, tanto «a personalidade inteira» como o «corpo físico»,
ambos os quais são ocupados pela energia divina. Ora, sendo assim a
realidade dos fatos, o corpo do crente não pode ser entregue à imoralidade,
porque o Espírito de Deus não pode habitar à vontade em um templo
devotado às forças malignas.
«.. .não sais de vós mesmos...» A presença do Espírito Santo no templo do
corpo faz deste último propriedade exclusiva de Deus. Ê sua residência,
lugar onde ele manifesta a sua glória. E assim o crente individual deixou de
ser mera entidade humana. O indivíduo, ao entregar ao controle do Espírito
de Deus o santuário de seu ser físico, na realidade cessou de excercer
controle pessoal sobre o mesmo, deixando de ser seu próprio senhor Daí por
diante, tudo quanto Deus planeja para a humanidade, na redenção que há
no sangue de Cristo, torna-se potencialmente possível, e eventualmente se
tornará uma radiosa realidade. Porém, nenhum indivíduo poderá atingir a
esse elevadíssimo alvo enquanto quiser ser o capitão da sua própria alma. O
crente, pois, em sua personalidade inteira, torna-se propriedade de Deus.
(Ver os trechos de Atos 20:18 e Rom. 14:8, acerca desse pensamento).
Vivendo ou morrendo, vivemos ou morremos para o «Senhor».
Com essas idéias podemos confrontar as palavras de Epicteto, o qual
disse: «Se fosses uma estátua de Fídias, pensarias tanto em ti mesmo como
no artista; e procurarias nada fazer indigno daquele que te fez, ou de ti
mesmo. Mas por que, visto que Zeus foi quem te fez, nem por isso cuidas
em como te comportares? No entanto, o artista, em um caso, é como o
artista no outro caso? ou a obra em um caso, é como a obra no outro caso?»
Declarou ainda esse mesmo antigo autor: «Miserável! Levas Deus
contigo, mas não o sabes. Pensas que me refiro a algum deus de prata ou de
ouro? Carregas a ele contigo, dentro de ti mesmo, e não percebes que o estás
poluindo com os teus pensamentos impuros e com teus feitos maléficos».
(Discursos, ii.8).
Por conseguinte, pertencemos a Deus, em face das seguintes
considerações: 1. Por direito de criação; 2. Por direito de redenção; 3. Por
direito de possessão; 4. Por direito de propriedade moral e espiritual; 5. Por
direito da gratidão que nos convém é que essa possessão deve ser expressa
(ver o vigésimo versículo, mais abaixo); 6. Por direito da obra expiatória de
Cristo (ver também o vigésimo versículo); e 7. Por direito da possessão e
habitação permanente do Espírito Santo (que é o aspecto ensinado neste
décimo nono versículo).
Aos diversos argumentos contrários à prática da imoralidade, por parte
do crente, e que são sumariados no versículo anterior, Paulo acrescenta
aqui essa idéia da possessão absoluta, por parte de Deus, do ser de cada
crente. O corpo do crente pertence realmente a Deus, que é o seu remidor.
Portanto, o crente não pode deixar o seu corpo ser usado para maus
propósitos; o crente não tem «direito» algum de fazer tal coisa. O crente
perdeu a «autoridade» sobre si mesmo. Ora, tal «autoridade» foi transferida
para Deus, e a ele compete usar nossos corpos para o bem, ao passo que,
nas mãos humanas, nossos corpos seriam inevitavelmente usados para o
mal.
20 ηγοράσθητβ γάρ τιμής· δοξάσατε δη τον Oeòv iv τώ σώματι ΰμών2.
2 20 {A ) υμών ρ * Ν Α Β C* D* G 33 81 181 629 1739* 1877 1962 Ι“ ·6»3it*r'd·
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''f;,v eth Irenaeuslat Tertullian Origen Cyprian
A dam antius M ethodius Ambrosiaster Lucifer Basil Didym us Cyril
Euthalius John-D am ascus // υμών καί èv τω ττνβΰματι υμών arm // υμών καί
20 ήΎ οράσθητβ y à p τιμ ή ς 1 Cor 7.23; 1 Pe 1.18-19 δο ξά σα τε...υμ ώ ν Php 1.20
l 6 l l :
kv τώ π νίΰμ α τι ΰμών, άτινά ίσ τιν του θΐοΰ C3 D° Κ Ρ Ψ 88 104 326 330
(436 omit second υμών) 451 614 630 (1241 1881 ημών for first υμών) 1739m
B
1984 1985 2127 2492 2495 Byz L ed syrPih Chrysostom Theodoret
20 δοξασατί δϊ/l om δη K* d I r : δο£. ουν syp sa: apa ye So£.
ξ. δη, apare Chr: glorificate et porlate lat Mcion (Tert) {i.e. apare ex apa ye ?) |
Entre as diversas variantes que envolvem δή temos (a) a interessante expansão, preservada em testemunhos latinos (it (g) vg
Márciom (Tertuliano) Cipriano Lúcifer Ambrosiastro Especulo at), Glorificate etportate Deum in corpore vestro («Glorifkai e
portai a Deus em vosso corpo»). Aparentemente essa forma surgiu (no grego) quando apa ye foi tomada erroneamente por
apare (ΔρΛ[-€ : ΛρΛτε). Outras variantes incluem (b) ovv, sir (p) cop (sa) Pseudo-Atanásio; (c) apa ye antes de
δοξάσατί, 1611; (d) δή apare, Crisóstomo; (e) omissão de qualquer partícula, X* it (d) sir (h com*) cop (bo). Embora a
comissão reconhecesse que à cláusula pode ter faltado originalmente um conectivo, e que, subseqüentemente, o anacoluto
abrupto foi remediado pela adição de uma ou outra partícula, a evidência esmagadora em apoio de δή (p46 Na A B C D F G K
L P e quase todos os minúsculos) exige que seja considerada como o texto mais remoto a que se pode chegar definidamente
(embora Paulo em parte alguma tenha usado essa partícula).
O Textus Receptus, seguindo vários dos unciais posteriores e a maioria dos minúsculos (C (3) D (c) K L P f 1 31 88 915 sir
(p,h)) adiciona, após ΰμών --------- as palavras και ev τω ττν6νματι υμών άτινά άστι τον Oeov.Que essas palavras
sejam uma glosa, sem nenhuma reivindicação à originalidade, fica claro através de (a) o decisivo testemunho dos mais antigos e
melhores manuscritos em apoio à forma mais breve (p46 X A B C* D* F G 3 3 81 1739* itvg cop (sa,bo,fay) etí Irineu (lat)
Tertuliano Origenes Cipriano at), e (b) a natureza da própria adição (não é necessária para o argumento, que diz respeito à
santidade do corpo, sem fazer menção ao espírito). As palavras foram inseridas aparentemente com o desejo de suavizar o caráter
abrupto da declaração do apóstolo, e estender o alcance de sua exortação.
6:20: Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo.
As palavras «...comprados por preço...» expressam um tema extrema­
mente comum nas páginas do N.T., referindo-se sempre à «expiação»
operada pelo sangue de Cristo, em que Cristo nos «comprou novamente» do
mercado de escravos do pecado. (Quanto a essa verdade, ver especialmente
os trechos de I Ped. 1:18,19 e Atos 20:28). O preço pago foi o sangue de
Cristo, que simboliza tudo quanto Cristo Jesus fez por nós, em sua morte
expiatória pelos pecadores. E dessa maneira Cristo nos libertou dos nossos
pecados, liberando-nos de nossa lealdade ao pecado, de nossa escravidão ao
pecado. Cristo também rompeu o domínio das forças malignas sobre nós, às
quais estávamos sujeitos, exatamente porque éramos homens decaídos,
vivendo em uma esfera de decadência espiritual, à qual chamamos de terra.
(Ver Col. 2:15). Por essa razão é que lemos a respeito de Jesus Cristo:
«...foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de
toda tribo, língua, povo e nação» (Apo. 5:9). (Quanto a notas expositivas
completas sobre a natureza da «expiação», ver Rom. 5:11. Quanto à
verdade bíblica da «propiciação», ver Rom. 3:25. Quanto ao ensinamento
bíblico da «expiação pelo sangue», ver também Rom. 3:25. E quanto à
«redenção», ver Rom. 3:24 e I Cor. 1:30).
A expiação dos nossos pecados também é verdade expressa na Bíblia nos
termos de resgate. (Ver os trechos de Marc. 10:45; I Ped. 1:18,19). A
passagem de I Cor. 7:23 subentende a mesma verdade, mas emprega a
figura simbólica da servidão. Segundo essa ilustração, o escravo (o pecador)
é remido e libertado; mas passa a pertencer a um novo senhor. Antes,
pertencíamos ao nosso pai, Satanás; mas fomos libertados de seu domínio,
que se estende aos corpos dos homens e ao sistema do mundo inteiro, o
ambiente no qual vivemos.
Em lugar algum, entretanto, as Escrituras ampliam a figura simbólica
aqui referida a fim de dar a entender que «Satanás» recebeu o preço da
redenção ou resgate. Essa tão absurda idéia, entretanto, tem sido ensinada
aqui e acolá durante quase todo o decurso da história eclesiástica,
especialmente na chamada Idade Média. A satisfação foi antes dada a
Deus, e a nenhum outro, e tudo foi aceito na pessoa do Amado, o Filho de
Deus. (Ver Efé. 1:6).
Portanto,preço, «resgate», e «mercado de escravos» são diferentes
metáforas empregadas pelo apóstolo dos gentios, das quais não podemos
extrair todos os seus pensamentos espirituais paralelos. O sentido de
«preço» é claro, como também são claros os sentidos de «resgate», de
livramento da servidão, da satisfação dada a Deus. Porém, não nos cabe
indagar aqui para quem foi pago esse resgate, isto é, se a Deus ou a
Satanás, como se fôssemos forçados a satisfazer a alguma exigência que
requeira o sofrimento às mãos de Cristo, a fim de satisfazer a alguma
magnificente sede de vindita. Levar a doutrina da redenção, em seus
aspectos simbólicos, a extremos como esses, é prejudicar tal doutrina.
(Quanto a notas expositivas sobre o conceito de «resgate», ver os trechos de
Mat. 20:28 e I Tim. 2:6). O ato de comprar, de pagar um resgate,
subentende com grande clareza o direito de possessão e de controle daquilo
que foi assim adquirido; e esse era justamente o ponto que Paulo procurava
frisar aqui. O corpo do crente, comprado pelo Senhor, ao preço do seu
sangue, pertence a ele, como a ele pertence a personalidade inteira do
crente. Portanto, nosso corpo deve ser dedicado ao serviço e à glória do
Senhor Jesus.
Assim, pois, aos diversos argumentos contrários às práticas imorais, que
envolvem os corpos dos crentes (sumariados no décimo oitavo versículo
deste mesmo capítulo), ainda um outro argumento é aqui adicionado. O
92 I CORÍNTIOS
direito de possessão absoluta é um direito exclusivo de Deus. O corpo do
crente, por conseguinte, não pode ser utilizado como instrum ento de
práticas imorais, como se esse corpo pertencesse a alguma força maligna e
degradante.
«O resgate foi da servidão ao pecado, da maldição imposta pela lei, bem
como do poder de Satanás (comparar com os trechos de Rom. 6:17 e ss.;
Gál. 3:13; Col.-1:13 e Atos 26:18). Ora, esse resgate foi feito por certo
‘preço’, a saber, o seu ‘sangue’. (Ver Mat. 20:28; I Ped. 1:18). Deixando de
lado a mera significação da palavra, mas observando o que nela está
envolvido, chegamos ao mui im portante pensamento que o preço foi
altíssimo e que o resgate foi caro... Essa expressão ocorre em I Cor. 8:23,
mas onde, tal como em Atos 20:28, Cristo é apresentado como o possuidor».
(Kling, in loc.).
«...glorificai a Deus no vosso corpo...» Essa é a inferência prática tanto
deste versículo como desta secção inteira. Essa glorificação deve ser dada
em forma de palavras, mas também deve incluir feitos de ação de graças.
(Ver I Cor. 10:31, que diz: «...fazei tudo para a glória de Deus»). Esse
conceito inteiro de dar glória a Deus é comentado em Rom. 16:27. «O
aspecto da adoração a Deus se manifesta através de uma vida
completamente dedicada ao seu serviço». Tal dedicação eliminará a
servidão ao pecado, incluindo o pecado da imoralidade. Por conseguinte,
Paulo ajunta ainda uma outra razão pela qual o crente não pode ocupar-se
de tais práticas. O presente capítulo expõe muitas dessas razões, e uma nota
de sumário aparece no começo dos comentários sobre o décimo oitavo
versículo deste capítulo.
A glória conferida a Deus é temporal. Ê agora a principal preocupação da
vida. «E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome
do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai» (Col. 3:17). Mas essa
atitude se estende também pela eternidade afora, visto que as ações morais
da vida do crente servem para transformar-lhe a alma para ocupar-se de um
serviço mais elevado e muito mais glorioso. Não obstante, o alvo permanece
o mesmo, a saber, a glória de Deus. Isso expressa uma grande verdade,
pois, quando damos glória a Deus, nós mesmos somos glorificados em
Cristo, já que somente nesse estado podemos ser feitos o meio exaltado de
glorificar o seu nome, conforme se espera de nós que façamos. (O trecho de
Rom. 8:29,30, bem como as notas expositivas ali existentes, descrevem a
natureza dessa glorificação).
É visando a glória de Deus que experimentamos a glorificação, o que
redunda em seu louvor; e isso significa que tanto o Senhor, como nós
mesmos, somos beneficiados. Assim sendo, a finalidade da vida, o seu
propósito mesmo, é a glória de Deus, é o desfrutamento de Deus, por parte
do crente, para sempre. Somente quando glorificamos verdadeiramente a
Deus é que podemos encontrar nosso bem e destino mais elevados. Ser
alguém transformado segundo a imagem de Cristo redunda em glória para
Deus, sendo essa a maior glória que um homem pode fazer redundar para
Deus, já que isso é realmente agradável para o Senhor. É para glória de
Deus que seremos finalmente glorificados. Assim sendo, a glória conferida
a Deuí é"sempre benéfica para os homens. Porquanto os decretos de Deus
são todos benéficos e benignos, e jamais de natureza destrutiva, como
também são sempre altruístas, e nunca egoístas. Por essa razão é que as
Escrituras dizem com toda a verdade: «Porque Deus amou ao mundo de tal
maneira que deu o seu Filho unigênito...» (João 3:16).
«...no vosso corpo...» Porque o corpo físico é agora o instrumento de que
dispomos para a glorificação de Deus, sendo esse o grande tema da presente
passagem. O corpo é que deve ser usado no serviço de Deus, e não utilizado
para finalidades imorais. O corpo do crente pertence a Deus, e não a forças
malignas. O corpo do crente será redimido, tornando-se um veículo eterno
da glória de Deus, sem importar se pensamos nele como uma entidade física
ou cómo representante do ser inteiro do crente. Contudo, a entidade física é
enfatizada neste versículo.
Com este versículo se pode comparar o trecho de Rom. 12:1,2, onde o
corpo também aparece como o instrumento da dedicação dos crentes a
Deus, e onde o corpo é usado como o «símbolo» da dedicação da pessoa
inteira do crente ao seu Senhor.
Variante Textual: «...no vosso corpo e no vosso espírito...» é como o texto
aparece em alguns manuscritos antigos, como C(3), D(2), as versões latinas k,
1 e p, e nas traduções AC e KJ. Porém, todos os manuscritos realmente
antigos, como P(46), Aleph, ABC(1)D(1)EFG, omitem essas palavras, no que
são seguidos pelas outras doze traduções não mencionadas aqui, mas que foram
usadas para efeito de comparação por este comentário. (Quanto à identificação
dessas traduções, ver a lista de abreviações na introdução geral ao comentário).
As palavras, «e no vosso espírito» representam uma glosa escribal, cujo intuito
é o de enfatizar a personalidade humana inteira, como a esfera e o agente da
glória de Deus. Porém, embora isso represente uma verdade, não é o que Paulo
salienta aqui. Não obstante, a verdade que ele destaca é similar, embora ele
tenha empregado somente o termo «corpo» para expressar a agência do homem
para a gloria de Deus.
Paulo aponta aqui para os crentes de Corinto (e para nós também) o
caminho real da autêntica dedicação das faculdades totais do crente, para a
glória de Deus, o que também redunda na própria glorificação dos crentes,
em Cristo Jesus. Mas aqueles crentes de Corinto, em seu egoísmo, vinham
fazendo do próprio «eu» o centro de todas as suas atividades, algo fatal para
todo aquele que se diz crente.
Epicteto se insurgiu contra as concupiscências e contra os excessos
praticados pelanatureza mortal. Vale a pena acompanhar a bela passagem
desse autor, que ilustra bem a idéia expressa neste sexto capítulo da primeira
epístola aos Coríntios, extraída de seu Manual (3,11): «Uma vez que um
indivíduo possua o objeto desejado por alguém, passa a exercer controle sobre o
espirito desse alguém e este último passa a ficar escravizado ao primeiro. Em
conseqüência disso, a fim de ser evitada essa vulnerabilidade, é mister que o
indivíduo impeça que essa situação se transforme em realidade, tomando-se
independente, não somente com respeito às coisas impessoais, mas,
igualmente, no tocante às pessoas. Exercita-te, pois, naquilo que está ao teu
alcance.O senhor de cada indivíduo é o homem que tem autoridade sobre aquilo
que deseja ou não, evitando uma coisa ou tirando outra. Por conseguinte, que
aquele que almeja ser livre, não deseje qualquer coisa e nem evite coisa alguma
que dependa de outrem, porque, de outra maneira, estará destinado a ser um
escravo.
Algumas pessoas se deixam escravizar às emoções imperiosas, como o sexo,
conforme observou Menandro: ‘Uma jovem sem qualquer dignidade fez de mim
um escravo, embora nenhum adversário me tivesse podido subjugar’. As
práticas sexuais podem atingir tais extremos de tirania que, quando assim
sucede, poucos, ou mesmo ninguém, podem escapar sem ficar com cicatrizes.
Epicteto indaga: ‘Quando uma jovem bonita te exauriu as forças, porventura
conseguiste escapar ao justo castigo?’
Ê necessário que todos exerçam uma vigilância eterna, para escaparem das
seduções do sexo: e essa vigilância só pode ser cultivada mediante práticas
hígidas, que se desenvolvem em hábitos firmes e protetores. Epicteto
demonstrou a sua técnica como segue: ‘Portanto, se não desejas tomar-te
colérico, não alimentes o hábito do aborrecimento, para não alimentares ainda
mais a fogueira. Para começar, conserva-te tranqüilo, e conta os dias em que
não cederes à ira. Eu costumava irar-me todos os dias; então, um dia sim, e
outro não; então, de três em três dias; e, finalmente, de quatro em quatro dias.
Mas, se conseguires passar calmo durante trinta dias, então oferece um
sacrifício a Deus; portanto, primeiramente o hábito é enfraquecido, e em
seguida é totalmente destruído. Quanto a mim, consegui sentir-me liberto da
ira pelo espaço de um dia, e também no dia seguinte; e, depois, por dois ou três
meses a fio. E, se porventura surgiam motivos para eu irar-me, cuidava
zelosamente por abafá-los. Devo reconhecer que é mister fazer isso com grande
domínio próprio. Hoje, quando vi uma bela mulher, não disse para mim
mesmo: Oxalá que ela fosse minha!' ou: ‘Feliz é o seu marido!’ Porquanto
aquele que assim afirma, também está inclinado a dizer: ‘Feliz é o adúltero!’
Por semelhante modo, não me ponho a imaginar a cena que se poderia seguir: a
mulher se despiria e se reclinaria ao meu lado. Nesse caso, eu daria
palmadinhas em minha própria cabeça e diria: ‘Bravo, Epicteto, acabas de
rejeitar uma bela falácia, muito mais bela que o chamado Mestre. E ainda que a
pobre mulher, coitada dela! se sentisse desejosa, fizesse acenos e me solicitasse
a estar com ela, chegando mesmo a tocar em mim e achegar-se mais para perto
de mim, ainda assim eu me conservaria indiferente, e seria vencedor...Isso é
★ ★ ★
algo de que alguém poderia sentir-se realmente orgulhoso...Ora, como é que
esse feito pode tomar-se realidade?
Pelo menos toma tu a resolução de agradar ao teu verdadeiro ‘eu’; toma a
resolução de pareceres nobre aos olhos de Deus; fixa os teus desejos na
disposição de te tomares puros em presença de teu puro ‘eu’, e na presença de
Deus.
A Resignação
«Ê necessário que o indivíduo estabeleça a paz consigo mesmo, entrando em
harmonia com o mundo. Jamais deve perder de vista o fato de que ele é um
mero mortal humano, animal, vegetal, etc. Se alguém conservar-se
permanentemente no reconhecimento dessa verdade básica e simples, então a
sua alma será capaz de controlar-se quando outros estiverem perdendo a
compostura e o controle próprio.
Entre as muitas coisas capazes de tomar um homem vulnerável, destaca-se o
amor. Como exemplo disso, consideremos o homem que ama profundamente à
sua própria esposa. Esse homem estará sujeito a sentir-se extremamente
angustiado no caso do falecimento dela. A vida pode tomar-se insuportável
quando ficamos separados de seres amados; em conseqüência, a fim de
fortificar-se como o aço, em face de tais circunstâncias, o indivíduo precisa
lembrar-se incessantemente da natureza perecível da vida e das atividades
humanas. ‘Quando qualquer coisa, desde as mais vis até às mais excelentes, se
fizer atrativa e útil para ti, ou tomar-se objeto de tuas afeições, nunca te
olvides de perguntar a ti mesmo: Qual é a sua natureza?! Se por acaso gostas
muito de uma jarra, diz para ti mesmo que aprecias muito aquela jarra, e então
não ficarás perturbado se a mesma vier a quebrar-se. Se osculares a um filho
teu ou à tua esposa, diz para ti mesmo que estás beijando um ser humano; pois
então, se porventura a morte desfechar o seu golpe, não ficarás aflito’. Em
outras palavras, se alguém conservar-se na completa consciência do fato que,
nesta vida, nada é permanente ou imutável, então mais facilmente poderá
resignar-se ante qualquer ocorrência desagradável que o envolva. Não
obstante, essa atitude só deve ser tomada quando os objetos e as circunstâncias
estiverem além da capacidade do indivíduo em altera-los. Por outro lado, o
homem pode assumir uma outra atitude, diferente da que é aconselhada acima,
a qual é igualmente eficaz no manuseio das tragédias: ‘Jamais digas a respeito
de qualquer coisa: Eu a perdi. Pelo contrário, diz: Eu a devolvi. Teu filho
morreu? Foi devolvido. Tua esposa faleceu? Foi devolvida. Tuas propriedades
te foram arrebatadas? Porventura não foram também elas devolvidas? Mas,
talvez objetes: Aquele que as arrebatou de mim é um homem iníquo. Porém,
que te importa a pessoa através de quem o grande Doador pediu-te algo em
devolução? Enquanto o grande Doador permitir-te ficar na posse de alguma
coisa, cuida dela, mas não como tua própria; antes, trata-a como os viajantes
tratam de uma hospedaria’». (Seleções extraídas de Epicteto, com comentários,
do livro intitulado Realms of Philosophy, William S. Sahakian, Schenkman
Pub. Co., Cambridge, Mass., Estados Unidos da América do Norte, 1965).
Capftulo 7
III. Imoralidade, Êtica Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1-7:40).
5. O Matrimônio e o Celibato (7:1-40).
Há três capítulos desta epístola (quinto, sexto e sétimo) que abordam sobretudo os problemas do sexo. Primeiramente, Paulo
aborda alguns profundos problemas morais, uma imoralidade desenfreada, na igreja de Corinto (quinto capítulo). Ê ordenada a
I CORÍNTIOS 93
exclusão do indivíduo culpado, do rol de membros daquela igreja. Porém, isso não subentende que os crentes devam retirar-se do
mundo, onde uma grande porcentagem dos seres humanos está envolvida em alguma modalidade de perversão sexual. (Ver I
Cor. 5:9-12). Já o sexto capítulo desta epístola ataca os tipos ordinários de imoralidade, incluindo os contactos sexuais com as
prostitutas, de natureza religiosa ou secular. E daí podemos tirar a conclusão que uma regular porcentagem dos membros da
igreja cristã de Corinto ainda não conseguira libertar-se dos costumes sexuais abusivos, tão comuns nas culturas pagãs, e que
prevaleciam especialmente na cidade de Corinto. A imoralidade é uma prática impossível para o crente sério e convicto,
porquanto o seu corpo é o templo do Espírito Santo nesta vida. (Ver o décimo nono versículo do sexto capítulo desta epístola).
Além disso, o corpo do crente é passível de glorificação, quando da ressurreição (ver o décimo quarto versículo desse mesmo
capítulo), o que significa que não pode ser empregado para satisfação de prazeres sensuais mundanos e pervertidos. (O
décimo oitavo versículo do capítulo anterior nos fornece um sumário dos argumentos expostos por Paulo contra a prática da
imoralidade, por parte dos crentes).
Houve abundante correspondência epistolar entre os crentes de Corinto e o apóstolo dos gentios, e vice-versa. Em Corinto se
havia disputado acerca das questões sexuais, acerca do matrimônio e acerca do celibato. E aqueles crentes tinham escrito para
Paulo, indagando a respeito desses itens. (Ver o primeiro versículo deste capítulo). E isso nos permite ver que houve farta
correspondência entre esse apóstolo e os crentes de Corinto, numa e noutra direção; e que as nossas atuais primeira e segunda
epístolas aos Coríntios representam apenas uma porção dessa correspondência. Em I Cor. 5:9 há menção de uma epístola enviada
por Paulo aos coríntios, que precedeu ao material apresentado nesta primeria epístola aos Coríntios. O trecho de II Cor. 10:9-11
indica que Paulo já tinha enviado diversas missivas para aqueles crentes. E essa própria segunda epístola aos Coríntios não se
compõe de uma única carta, mas antes, mui provavelmente consiste da combinação de pelo menos três missivas, as quais não
foram preservadas para nós em sua ordem cronológica. Como exemplo disso, os capítulos décimo a décimo segundo representam
uma «carta severa» c[ue certamente fora enviada antes dos atuais capítulos primeiro a nono, visto que o tema daquela carta
severa retoma ao penodo em que os graves problemas surgidos na congregação de Corinto ainda eram críticos, quando ainda não
haviam encontrado solução. No entanto, os capítulos primeiro a nono dessa nossa atual segunda epístola aos Coríntios
mostram-nos que tais problemas haviam encontrado solução parcial, e que a atuação de Tito entre aqueles crentes, como
representante de Paulo, fora eficaz; e essas condições certamente se seguiram àquilo que é descrito nos capítulos décimo a
decimc segundo. (Quanto a um estudo completo acerca desse problema em geral, onde várias idéias são ventiladas, ver as
introduçõesàprimeiraeàsegundaespístolas aos Coríntios, no ponto IV de cada uma dessas introduções).
Existem dois pontos extremos e radicais acerca do problema do sexo. Pode haver abusos de duas maneiras radicais, a saber: 1.
Pelo uso excessivo epromíscuo. (Ver os capítulos quinto e sexto desta epístola). 2. Pela prática do ascetismo ou celibato forçado.
(Ver este sétimo capitulo). E até mesmo entre pessoas casadas pode surgir tal abuso, môiiante a abstinência por parte de um dos
cônjuges, ou por parte de ambos, por supostas razões espirituais, o que pode conduzir a resultados desastrosos, se for
experimentado por mui prolongado período de tempo. (Ver I Cor. 7:3-5). Portanto, esses dois abusos extremos são o libertinismo
e o ascetismo. Ambos esses abusos podem ser vistos na religião organizada, porque, na realidade, com freqüência são aberrações
religiosas. Os versículos trinta e seis a trinta e oito deste capítulo falam sobre esta última tendência.
Ligação da moralidade cristã com a «parousia», ou segundo advento de Jesus Cristo. Este sétimo capítulo, em sua inteireza, é
^ominado pelo senso de expectação da vinda iminente de Cristo. Portanto, podemos afirmar com certa margem de segurança que
a responsabilidade para com as crianças e para com as gerações vindouras não entravam claramente nos cálculos do apóstolo
Paulo; porquanto ele realmente não esperava que a era da igreja se estendesse por tantos séculos como tem sucedido. Assim
sendo, o matrimônio podia ser visto como uma ação de sabedoria duvidosa, porquanto tenderia por obscurecer a visão espiritual
de um crente, visão essa cjue, bem pelo contrário, deveria ser resplendente, especialmente se levarmos em conta que não se
passaria muito tempo até a volta de Cristo.
Assim sendo, este sétimo capítulo se mostra um tanto unilateral, ou mesmo de pernas para o ar. Talvez tivesse sido útil incluir
aqui algumas das supostas vantagens espirituais do matrimônio. Mas Paulo mesmo era celibatário, possuidor de natureza e
inclinações para o celibato. E isso contribuiu para ele fazer aplicações que simplesmente não podem ser aplicadas à igreja cristã
em geral, e nem mesmo aos ministros da Palavra, simplesmente porque é ínfima a minoria que pode seguir com êxito essa forma
de ascetismo, por mais nobres que sejam os seus alvos e ideais.
No entanto, o presente texto tem sido aplicado de maneira geral à igreja cristã, sendo usado como texto de prova da prática do
celibato para os ministros da Palavra. E o triste resultado dessa aplicação geral tem sido que muitos desses ministros ou
supostos ministros não se casam, numa proporção que talvez inclua a maioria deles, embora isso não signifique, sob hipótese
alguma, que nunca experimentem relações sexuais ilícitas. Tais ministros, pois, tomam-se alvos diretos da censura constante no
sexto capitulo desta epístola, a despeito de estarem supostamente pondo em prática os elevados ideais deste sétimo capítulo.
A história da crístandade, desde que o celibato foi decretado como obrigatório para o clero (imposto no tempo do papa Gregório
o Grande, no ano de 604 d.C., sobre os sacerdotes da Igreja Católica Romana), tem demonstrado abundantemente a falácia de tal
imposição. Pois os chamados ««padres» celibatários na realidade não vivem como tais; e a minúscula minoria que se mostra fiel a
seus votos não pode comprovar o valor dessa prática, em face dos maus exemplos em contrário dados por uma maioria
esmagadora. E isso é tanto verdade que desde algum tempo vem aumentando cada vez mais a grita dos proprios sacerdotes
católicos-romanos em favor da suspensão dos votos de celibato para sua ordem, o que se tem manifestado não apenas em uma ou
outra região do mundo, mas por toda a parte por onde se têm espalhado os padres católicos-romanos.
Ê verdade que o celibato tem um valor indiscutível para aqueles chamados por Deus para tanto, como foi o caso do apóstolo
Paulo. Mas essés chamados formam uma minoria ínfima e quase invisível, porque o chamamento para o celibato não depende da
ordenação de um homem ou de uma mulher para seguir algum cargo ou ordem religiosa. Por essa razão, o celibato jamais deveria
ter sido imposto como uma condição para os ministros. Antes, deve permanecer como questão de escolha pessoal e voluntária,
que é obviamente a maneira como Paulo enfrenta a questão, neste sétimo capitulo. E, assim sendo, este capítulo acaba se
transformando em uma reprimenda contra o celibato obrigatório, longe de sancioná-lo. E aquilo que supostamente é um ««texto
de prova» em prol da obrigatoriedade do celibato, é um «texto de prova» contra a sua obrigatoriedade.
7 Ile p l δε ών άγράφατε, καλόν άνθρώττω γνναικος μη ατττζσθαι·
7. ι ΐγραφατϊ] adi μοι ADG pi vg3· 01 sy co Or
7:1: Ora, quanto às coisas de que me escrevestes, bom teria que o homem não percebendo a força destruidora representada pela promiscuidade sexual,
tocasse em mulher; tanto no mundo como até mesmo no seio da igreja cristã, vinham
advogando o celibato. (Com isso se pode comparar o trecho de Mat. 19:10,
, palavras «...Quanto ao que me escrevestes...» mostram-nos que onde os apóstolos chegaram à mesma posição, tendo ouvido, dos lábios de
houvera alguma especie de correspondência anterior entre Paulo e aqueles Jesus, como as leis estritas sobre o matrimônio e o divórcio precisavam ser
crentes de Corinto. (Ver a exposição sobre essa questão, na introdução ao cumpridas mediante uma ética verdadeiramente piedosa. No entanto, de
presente capitulo, e, com mais minúcias ainda, na introdução a este livro, forma muito semelhante àquilo que Paulo diz aqui, Jesus retrucou: «Nem
na secção IV, intitulada, «Correspondência de Paulo com Cor
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    O NOVO TESTAMENTOINTERPRETADO VERSÍCULO POR VERSÍCULO Russell Norman Champlin, Ph. D. VOLUME IV I CORÍNTIOS II CORÍNTIOS GÁLATAS EFÉSIOS ★ ★ ★ Impressão e Acabamento na Gráfica da Associação Religiosa Imprensa da Fé São Paulo - SP - Brasil 9aReimpressão Setembro de 1995 Direitos reservados Θ Associação Religiosa EDITORA E DISTRIBUIDORA CANDEIA RuaBelarmino Cardoso de Almeida, 108 Cidade dutra — Interlagos — Cep: 04809-270 São Paulo - SP 1995
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    PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS INTRODUÇÃO Conteúdo I.Autor II. Data e Proveniência III. A Igreja em Corinto IV. A Correspondência com Corinto V. Razão Desta Epístola VI. Temas Principais VII. Conteúdo VIII. Bibliografia Ver algum as observações gerais sobre o corpus das Epístolas Paulinas na introdução a Romanos, primeiros parágrafos e na secção II. A primeira epístola aos Coríntios é um dos escritos clássicos de Paulo; acima de tudo ela preserva para nós não tanto a doutrina cristã, e, sim, o padrão da ética cristã. Neste livro encontramos os problemas enfrentados pelos primeiros cristãos gentios, e como Paulo deu solução a esses problemas. As epístolas aos Romanos e outras revelam com maior aptidão a elevada mente de Paulo; mas nenhuma delas revela mais claramente do que I Coríntios aquilo que os psicólogos modernos gostam de chamar de «situações de vida real». Diferentemente daqueles problemas que Paulo tentou solu­ cionar para os crentes da Galácia, que eram sobretudo questões de opinião religiosa, este livro aborda antes questões relativas à conduta cristã, questões morais da mais séria natureza. Paulo, homem de formação essencialmente judaica, tendo recebido idéias ainda mais elevadas por causa das revelações que recebeu acerca do cristianismo, ficava perplexo ante os costumes tolerados na igreja em Corinto, e que eram praticados por membros firmes da mesma. Caráter da Primeira Epístola aos Coríntios - A fim de poder discernir o tipo de situação que o apóstolo Paulo enfrentou, o leitor faria bem em examinar as notas expositivas sobre Corinto e sobre o ministério de Paulo nessa cidade (Atos 18:1), bem como as notas introdutórias gerais sobre esse citado capítulo. Estrabão revela-nos que havia mil prostitutas religiosas oficiais associadas aos cultos religiosos daquela cidade, que tinham por principais divindades a Mãe Suprema, Melcarte, Serápis, ísis e Afrodite. Naturalmente, isso atraía a Corinto um avantajado número de turistas. Todavia, isso não expressava toda a situação moral da cidade, porquanto muitos de seus habitantes ocupavam-se de seus empreendimentos particulares. Viver como um coríntio se tomou uma expressão proverbial para indicar uma vida de dissipação moral. Alcifrom escreveu em suas memórias: «Jamais estive em Corinto, porquanto sei bem qual o tipo animalesco de conduta os ricos desfrutam ali, e qual a miséria dos pobres». A população da cidade de Corinto era a mais cosmopolita dos centros gregos, e, de fato, era menos distintamente helênica do que todas as outras cidades, tendo incorporado em sua estrutura todos os vícios do paganism o, e isso de forma exagerada. O incisivo primeiro capítulo da epístola aos Romanos foi escrito sob a influência da cultura coríntia, visto que essa epístola foi escrita em Corinto; e a simples leitura desse citado capítulo mostra-nos a atitude mental provocada no apóstolo pela observação dos espantosos vícios do paganismo que ali havia. Embora existisse na mesma localização, a cidade que Paulo conheceu não descendia diretamente daquela que encabeçara a liga aqueana, durate o período helenístico. Aquela primeira cidade fora destruída em cerca de 146 A.C., por Lúcio Múmio, tendo ficado em ruínas por cem anos. A cidade foi então reconstruída, provavelmente por ordem de Júlio César, tendo-se tomado colônia romana. Os romanos, por conse­ guinte, é quem tinham reedificado a cidade de Corinto; e bastaria isso para explicar por que, dentre todas as cidades gregas, Corinto era a única que dispunha de um anfiteatro, uma das construções favoritas dos romanos. Por essa mesma ★ razão é que muitos dos nomes pessoais, associados a Corinto, que se podem encontrar nas epístolas de Paulo aos crentes dessa cidade são de origem latina, e não grega, como Crispo, Tito Justo e Fortunato. Por semelhante modo, a maioria das inscrições atualmente achadas nessa cidade são latinas, e não gregas. A própria cidade, entretanto, não demorou a caracterizar-se como cidade cosm opolita, incluindo uma numerosa colônia judaica. (Quanto a muitos outros detalhes acerca de Corinto e sua história, ver as notas expositivas sobre Atos 18:1). I. AUTOR Conforme lemos nas observações introdutórias, acima, existem quatro epístolas paulinas clássicas, —entre aquelas que chegaram até nosso conhecimento, havendo acerca das mesmas pouquíssima desarmonia entre os estudiosos. E esta primeira epístola aos Coríntios ocupa lugar entre essas quatro. Questões como estilo literário, vocabulário e conteúdo confirmam a comum autoria de Romanos, Gálatas, I e II Coríntios. (Quanto às datas relativas da coletânea paulina, ver a introdução à epístola aos Romanos, secção II, que também contém diversas comparações e observações que são úteis ao estudante). Mas, posto que a autoria desta primeira epístola aos Coríntios não é posta em dúvida, talvez seja mais util observarmos nesta altura as relações que havia entre Paulo e os crentes de Corinto. Paulo considerava a igreja cristã de Corinto uma das provas palpáveis do seu ministério apostólico. Por causa da penetração de certos problemas ali, como práticas más e vis, contendas e divisões, que chegaram a ameaçar a sua aceitação como um apóstolo de Cristo por aquela igreja, que Paulo lhes escreveu com consternação mesclada com repreensão e demonstrações de seu afeto. (Consultar I Cor. 3:10; 4:15; 9:2; II Cor. 7:3-5; 12:15; 7:8 e s.; 3:1, quando a esses diversos elementos, que demonstram a relação existente entre a igreja de Corinto e o apóstolo dos gentios). Quantas teriam sido as visitas feitas por Paulo a Corinto? Alguns eruditos pensam que o trecho de II Cor. 12:14 - 13:10 subentende três visitas separadas do apóstolo, em que duas já teriam sido feitas, e uma terceira estava prestes a ter lugar. E essa suposição é mais natural do que a daqueles outros, que opinam que o apóstolo tencionara por três vezes fazer essas visitas, mas que, por algum motivo, principalmente porque sabia que o encontro seria doloroso para ele e para eles, ele ainda não os tinham realmente visitado nenhuma vez. O livro de Atos menciona apenas uma visita de Paulo a Corinto. Porém, devemos notar que o livro de Atos é notoriamente abreviado sobre tais questões, e a sua exposição sobre os ministérios de Paulo sempre é parcial, faltando-lhe muitos pormenores sobre diversas visitas que podemos depreender terem sido feitas no teor das próprias epístolas paulinas. O trecho de II Cor. 2:1 menciona que Paulo queria poupar os crentes coríntios de outra visita «dolorosa»; mas a visita descrita no livro, de Atos não pode ser reputada dolorosa, razão pela qual precisamos postular um maior número de visitas do que aquela sobre a qual lemos no livro de Atos. (Quanto a notas expositivas sobre como o livro de Atos e as epístolas aos Coríntios se suplementam entre si, em que se destaca o fato que mais detalhes históricos se depreendem das epístolas do
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    I CORÍNTIOS que dolivro de Atos, ver as notas introdutórias sobre o décimo oitavo capítulo do livro de Atos). Paulo, portanto, já havia visitado os crentes de Corinto e permanecera algum tempo com eles, o que significa que tinha mais íntimas relações com eles do que com qualquer outra ijjreja cristã, com a única exceção possível da igreja em Efeso. A autenticidade da autoria paulina é confirmada por diversos dos pais da igreja dos primeiros anos, a saber: Clemente de Roma (Ep., cap. 47), Policarpo (Ep. aos Filipenses, cap. 11), Inácio (aos E fésios, cap. 2) e Irineu (Contra os Hereticos, iv. 27,3). Por semelhante modo fizeram Hermas (100 D.C.; Sim. 5,7) e Barnabé (que fez alusões a I Cor. 3:16, em sua epístola, 6:16). O lugar de I Coríntios no cânon dos livros sagrados é tão antigo como o de qualquer das demais epístolas paulinas, fazendo parte integrante das primeiras coletâneas de escritos paulinos, segundo eram conhecidas pelos pais da igreja desde o ano de 150 D.C. Seu lugar no «cânon», por conseguinte, é tão antigo como qualquer dos livros do N.T., visto que algumas das epístolas de Paulo foram escritas antes de qualquer dos quatro evangelhos, e quase todas elas foram escritas antes de qualquer desses evangelhos, com a única exceção do evangelho de Marcos. Quando foi preparado o primeiro «cânon» dos livros do N.T., a primeira epístola aos Coríntios já se encontrava entre os livros selecionados. (Quanto a maiores detalhes sobre as questões do «cânon» do N .T ., consultar o artigo introdutório ao comentário que versa sobre essa questão. Quanto a notas expositivas completas sobre o «apóstolo Paulo», consultar o artigo introdutório ao comentário intitulado «A Importância de Paulo». Essa exposição transmite-nos o que se sabe acerca do passado, da vida e das viagens m issionárias de Paulo, descritas no livro de A tos, e também de seus ensinos, conforme se tem conhecimento hoje em dia sobre ele). II. DATA E PROVENIÊNCIA O período da permanência de Paulo em Corinto, em contraste com suas visitas a outras localidades, pode ser determinado com grande precisão. No trecho de Atos 18:2 há a menção do fato que Priscila e Ãquila chegaram a Corinto devido à expulsão dos judeus da cidade de Roma, por decreto do imperador Cláudio. (Isso é igualmente mencionado por Suetônio, em Vida do Divinizado Cláudio, 25:4). Ora, a data mais provável desse acontecimento é 49 D.C. Outrossim, a passagem de A tos 18:12 informa-nos como Gálio foi feito procônsul da Acaia. Sabé-se que esse personagem se chamava Lúcio Júnio Anaeu Gálio, irmão do famoso filósofo estóico romano Sêneca, que foi o tutor do terrível imperador Nero. Além disso, certa inscrição encontrada em Delfos tornou possível dar data a esse proconsulado dentro de bem estreitos lim ites, de tal modo çjue se tem podido calcular que ele começou a agir nesse oficio a Io de julho de 51 D.C. Alguns estudiosos têm sugerido a inaguração do ofício de Gálio um ano mais tarde; porém, seja como for, podemos inferir com segurança que Gálio estava em Corinto em 50 D.C., pelo que também Paulo se encontrava ali. Mui provavelmente o apóstolo chegou àquela cidade na primavera de 50 D .C ., tendo partido dali no outono de 51 D.C. Essa citada inscrição contém as palavras de uma carta de saudações enviada pelo imperador Cláudio à cidade de Delfos, na qual ele menciona a pessoa de Gálio. Com base nessa inscrição, portanto, podemos datar, com qualquer grau de certezà, a única dentre as viagens do apóstolo Paulo. (Quanto a outras notas expositivas sobre essa inscrição, ver as notas introdutórias sobre o décimo oitavo capítulo do livro de Atos). Por conseguinte, pelo menos sabemos que a primeira epístola aos Coríntios foi escrita algum tempo depois disso. A epístola aos Gálatas já havia sido escrita, sendo muito provável que a primeira e a segunda epístola aos Tessaloni- censes foram escritas pouco mais tarde, após a permanência de Paulo em Corinto, ou mesmo enquanto ele ainda se encontrava ali, ou seja, antes da primeira epístola aos Coríntios ter sido escrita. Porém, a primeira epístola aos Coríntios é reputada como a quarta das epístolas de Paulo, na ordem da escrita, tendo sido composta em Efeso, durante sua permanência ali, que provavelmente se deu desde o verão de 52 até ao outono de 54 D.C. Mui provavelmente Paulo escreveu essa primeira epístola aos Coríntios poucos meses antes de deixar Éfeso, a fim de visitar novamente as igrejas que havia fundado na Macedonia e em Corinto. Podemos considerar as suas palavras em I Cor. 16:19, que dizem: «^4s igrejas deu Asia vos saúdam...» Ora, Éfeso era o centro de operações do apóstolo Paulo enquanto ele esteve na Asia, pelo que é lógico supormos que ele escreveu essa epístola dessa cidade. Sua longa permanência em Éfeso, e as perturbações que estouraram quase imediatamente na igreja de Corinto servem para indicar que é natural a conclusão que essa epístola foi escrita nessa cidade, quando Paulo ali permaneceu por cerca de três anos. Devemos notar, por semelhante modo, que esse versículo também faz alusão a Aquila e Priscila, mencionando a congregação que se reunia na casa deles; e isso subentende que ele residia onde havia um grupo de cristãos, o que, por sua vez, subentende Éfeso. (Quanto a isso pode-se consultar também o trecho de Atos 18:18,19,26). O trecho de I Cor. 16:5, todavia, não dá a entender que a epístola provinha da Macedonia, mas meramente que o apóstolo passaria por ali, a caminho de Corinto, com o propósito de fazer a esta cidade uma outra visita. Em contraste com isso, pode-se depreender, de II Cor. 7:5,6, que a segunda epístola aos Coríntios foi escrita da Macedonia. Porém, a referência que não mais permite lugar para disputas é a de I Cor. 16:8, que diz: «Ficarei, porém, em Efeso até ao Pentecoste». Assim, pois, Paulo ficou em Éfeso até à festa do Pentecoste, esperando poder partir dali pouco depois; não obstante, foi inesperadamente impedido de fazê-lo, tendo de adiar sua partida, conforme nos informa o trecho de I Cor. 16:8 e s. É bem provável, pois, que Paulo tenha escrito a epístola de I Coríntios durante a primavera, pouco antes da festa de Pentecoste, em 54 D.C. III. A IGREJA EM CORINTO Paulo foi o primeiro missionário cristão a chegar à Grécia, de conformidade com os registros históricos de que dispomos. Chegou ele em Corinto proveniente de Atenas, sentindo-se muito desencorajado, porquanto seus esforços ali haviam dado bem pouco fruto. Parece-nos que ele não estava nada confiante. (Ver I Cor. 2:3). Ficou em companhia de um casal de judeus, Aquila e Priscila, que eram cristãos e tinham vindo de Roma, em face da expulsão dos judeus da capital do império, por decreto do imperador Cláudio. A igreja de Corinto, por conseguinte, teve início na casa deles; e Silas fe Timóteo não se demoraram a vir reunir-se a Paulo em Corinto, trazendo boas notícias sobre o ministério do evangelho na Macedonia. Assim, pois, renovado em suas forças e em seu ânimo, Paulo iniciou seu trabalho com grande intensidade em Corinto. (Ver I Tes. 3:6). Contudo, a oposição, especialmente da parte dos líderes eclesiásticos dos judeus, se tornou intensa. É possível que a esse tempo é que Priscila e Aquila arriscaram suas vidas em favor de Paulo (ver Rom. 16:3). Entretanto, Deus se pôs ao lado de seu apóstolo, primeiramente na forma de uma visitação m ística, que assegurou a Paulo tanto o êxito em sua missão em Corinto como a sua segurança física pessoal. (Ver Atos 18:9 e ss.). E foi assim que Paulo foi protegido por Gálio, que não se deixara influenciar pelos judeus radicais, que haviam apresentado queixa falsa contra o apóstolo. A permanência de Paulo em Corinto se prolongou por dezoito m eses, o que, para ele, representou uma longa permanência em qualquer lugar. Aparte de Éfeso,onde Paulo ficou por três anos, Corinto foi o lugar onde mais o apóstolo permaneceu, durante todo o seu período de atividades missionárias. Ora, isso lhe deu a oportunidade de desenvolver um ministério mais profundo do que já pudera efetuar em outros lugares, o que também fica implícito em I Cor. 3:6. E, fazendo contraste com Atenas, parece que em Corinto o cristianismo prosperou grandemente, pelo menos numerica­ mente falando, razão pela qual a cidade de Corinto se tomou um dos mais importantes centros da primitiva igreja cristã. Com os crentes de Corinto o apóstolo manteve a sua mais extensa correspondência; e da cidade de Corinto pelo menos três das epístolas de Paulo foram escritas, a saber; Romanos e I e II Tessalonicenses. Depois da partida do apóstolo Paulo, chegaram em Corinto outros mestres do evangelho, entre os quais se destacava um outro rabino judeu, de nome Apoio, homem dotado de eloqüência singular, que deu prosseguimento à obra iniciada por_ Paulo, não se tendo deixado envolver pessoalmente no espírito de partidarismo que afetou aquela igreja. Priscila e Aquilo ajudaram a Apoio com seus dons naturais, instruin- do-o com maior precisão acerca da doutrina de Cristo. (Ver Atos 18:24 e ss.).
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    I CORÍNTIOS 3 Todavia,depois do afastamento do apóstolo, a igreja de Corinto desceu de forma alarmante quanto ao seu nível moral e espiritual. Estouraram divisões amargas (ver o terceiro capítulo); permitiram os vícios mais baixos entre eles (ver o capítulo quinto e 6:9 e ss); abusaram da liberdade cristã (ver os capítulos oitavo e décimo); deixaram-se influenciar por mestres legalistas, que ensinavam de modo contrário a Paulo (ver o nono capítulo); corromperam as formas cristãs de adoração, agindo de forma ultrajante, até mesmo quando da participação na Ceia do Senhor, comendo em excesso, deixando-se embriagar e negligenciando os pobres da igreja, que ficavam famintos e esquecidos. A celebração da Ceia do Senhor, naquela época, incluía o «agape» ou «festa de amor», imitação da refeição da páscoa, o que nos explica a oportunidade de alguns terem um opíparo banquete, ao passo que outros ficavam famintos (ver o décimo primeiro capítulo). Além disso, os crentes de Corintose mostravam extremamente ativos no uso dos dons miraculosos; no entanto, abusavam desses dons, criando a desordem nos cultos da igreja (ver os capítulos doze e catorze). Também surgiram falsas doutrinas entre eles, sendo tolerados os falsos m estres, sobretudo aqueles que pervertiam o ensino acerca da ressurreição (ver o decimo quinto capítulo). Esses se tornaram os graves vícios da igreja de Corinto, condições essas que impeliram o apóstolo a escrever esta primeira epístola aos Coríntios. IV. A CORRESPONDÊNCIA COM CORINTO Trata-se este de um assunto complexo, e as investigações feitas sobre o mesmo não têm produzido qualquer coisa como resultados certos. Pode-se dizer com confiança, entretanto, que houve mais do que duas epístolas de Paulo aos crentes de Corinto, e que as próprias epístolas I e II Coríntios representam mais do que duas epístolas. Diversas reconstitui­ ções têm sido sugeridas, conforme os exemplos que damos abaixo: É provável que Paulo escreveu ao menos quatro epístolas aos Coríntios, partes das quais estão contidas em nossas duas epístolas tradicionais. Devemos observar cjue em I Cor. 5:9 há menção de alguma outra epístola que o apostolo escreveu para eles, e que evidentemente antecedeu o material apresentado na primeira epístola aos Coríntios. Na reconstituição da correspondência com a igreja de Corinto, as sugestões têm 'sido como a que mostramos abaixo: 1. II Cor. 6:14-7:1 seria fragmento de uma carta que fora escrita acerca da questão do jugo desigual, mas que, mais tarde, veio a ser incorporada com outros materiais da correspondência paulina com a igreja de Corinto, tendo, finalmente, sido formulada em uma única epístola, conforme conhecemos hoje. 2. A primeira epístola aos Coríntios representa essencial­ mente uma única carta, embora o sétimo capítulo da mesma possa ser umà secção separada; e o trecho de I Cor. 7:1 parece indicar uma correspondência entre os coríntios e Paulo que provavelmente consistiu da troca de várias cartas. 3. O trecho de II Cor. 10 -13 parece ser uma carta separada, que alguns eruditos têm chamado de «carta amarga», por causa de seu conteúdo severo. Essa epístola parece estar um tanto deslocada, na presente posição em que se encontra, pois os primeiros capítulos da segunda epístola aos Coríntios expõe uma atmosfera de alívio e ações de graças, para éntão, subitam ente, Paulo apelar para o sarcasmo e para as denúncias violentas. Parece-nos melhor pensar que tais denúncias na realidade pertençam ao tempo anterior à composição da primeira porção da segunda epístola aos Coríntios, e que elas faziam parte de outra missiva, que foi enviada antes de II Coríntios. Alguns estudiosos também têm procurado situar os capítulos décimo a décimo terceiro antes da secção dos capítulos primeiro a nono, porquanto aqueles capítulos parecem referir-se a questões futuras (ver II Cor. 10:6 e 13:2, 10), ao passo que os capítulos primeiro a nono fazem alusões ao passado (ver II Cor. 1:23 e 2:3,9), tudo o que sugere que houve deslocação de material, ou mesmo que se tratavam de duas cartas paulinas separadas, que mais tarde foram unidas, ainda que na ordem contrária da que foram escritas. 4. A passagem de II Cor. 1 - 9, menos a secção de II Cor. 6:14 - 7:1, parece formar uma unidade, escrita após a grande crise que houve entre Paulo e a igreja de Corinto. Essa passagem, pois, tem sido denominada pelos estudiosos de «carta pacifica». Mas -a secção dos capítulos décimo a décimo terceiro, embora pesada e amarga, preserva para nós um bom material biográfico, que se reveste de valor porque nos permite conhecer um pouco mais da vida de Paulo. E aquela «carga amarga», a que já nos referimos (II Cor. 10 - 13), provavelmente foi enviada entre I Coríntios e as outras porções de II Coríntios. Porém, outras reconstituições da correspondência paulina com os crentes de Corinto têm sido propostas, como as idéias de Johannes Weiss, The History of Primitive Christianity, I, págs. 356-357. 1. A carta pré-canônica, referida em I Cor. 5:9, conteria II Cor. 6:14 - 7:1; I Cor. 10:1-23; 6:12-20; 11:2-34, e talvez 16:7,8,20. 2. A resposta de Paulo à carta trazida de Corinto continha talvez I Cor. 7 - 9; 10:24 - 11:1; 12:1 - 16:6 e, talvez, 16:16-19. 3. Uma terceira carta, que versava sobre as facções existentes em Corinto, talvez tenha incluído os trechos de I Cor. 1:1 - 6:11 e 16:10-14,22-24. Maurice Goguel, em süa obra Introduction au Nouveau Testament, ‘Les épistre pauliniennes’, Paris, Ernest Leroux, 1926, IV, págs. 72-86, 1926), diz essencialmente a mesma coisa, embora com alguma redistribuição de material, a saber: 1. II Cor. 6:14 - 7:1; 6:12-20; 10:1-22. 2. I Cor. 5:1 - 6:11; 7:1 - 8:13; 10:23 - 14:40; 15:1-58; 16:1-9,12. 3. I Cor. 1:10 - 4:21; 9:1-27; 16:10,11. Na realidade, não existe meios para a defesa dessas teorias, com qualquer grau de certeza, não sendo provável que qualquer dessas opiniões represente a verdade da questão. Parece perfeitamente certo, todavia, que as duas epístolas que possuím os, escritas pelo apóstolo Paulo aos Coríntios, representam mais do que duas cartas, embora a primeira epístola aos Coríntios parece ser uma unidade, apesar do que pequenas porções da mesma talvez tenham feito parte de alguma carta ou cartas separadas, que mais tarde foram incorporadas à mesma. Já a segunda epístola aos Coríntios pode ser mais facilmente dividida, com muito maior grau de exatidão potencial. Pouca dúvida pode haver que a complexa situação que houve em Corinto não poderia ter sido solucionada por apenas uma epístola ou duas, o que nos explica a complexidade das duas epístolas propostas, as quais na realidade não seriam apenas duas, mas antes, representariam três ou talvez até mesmo quatro cartas diversas. E então, quando a coletânea de escritos paulinos foi recolhida, o que ele escrevera a Corinto veio a ser incorporado em apenas duas unidades, conforme as conhecemos atualmente. E também é provável que tivessem sido escritas ainda outras epístolas de Paulo a Corinto, mais curtas ou mais longas, das quais não possuímos um fragmento sequer. As indagações que têm sido levantadas, no que tange à correspondência de Paulo com a igreja de Corinto não incluem qualquer idéia de dúvida acerca da autenticidade dessas cartas—isto é, não se põe em dúvida que o apóstolo Paulo foi o autor das mesmas—porquanto esse ponto é concordado pela maioria esmagadora dos intérpretes de todas as escolas. (Ver as notas expositivas sob o título «Autor», na secção I desta introdução). (Quanto a fontes informativas acerca da natureza da correspondência paulina com Corinto, ver as seguintes obras: J.H. Kennedy, The Second and Third Epistles to the Corinthians·, Kirsop Lake , The Earlier Epistles of Paul, 1927, págs. 144 e ss.; R.V.G. Tasker, Expository Times, XLVII, 1935-1936, págs. 55-58; e ainda outras discussões acerca da correspondência de Paulo com Corinto, podem ser encontradas na introdução à segunda epístola aos Coríntios). V. RAZAO DESTA EPÍSTOLA A primeira epístola aos Coríntios é complexa por si mesma, e aborda muitos problemas, motivo pelo qual é extremamente difícil atribuirmos uma razão que teria levado o apóstolo Paulo a compor a mesma. E isso se toma especialmente veraz se aceitarmos a idéia de que temos na mesma, trechos reunidos de mais de uma carta. Todavia, uma declaração de âmbito geral pode ser feita, e que incorpora a maioria das muitas razões. A conduta ética comum em Corinto, evidenciada pelos próprios costumes da cidade, encontrara algum apoio na igreja cristã dali. Isso produziu uma espécie de ética que era uma mescla de princípios pagãos e cristãos. Esta primeira epístola, por conseguinte, trataria de situações de conduta ética, na vida diária. Além desses fatores, podemos pensar nos ataques dos legalistas, dos falsos mestres e dos detratores do apóstolo
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    4 I CORÍNTIOS Paulo,que ameaçavam destruir não somente a obra realizada ali por Paulo, mas também a sua reputarão e autoridade como apostolo de Cristo. Essa situação, pois, e que provoca algumas das amargas refutações existentes nesse livro. Poderíamos dizer, portanto, que I e II Coríntios registram a «história de uma querela», conforme diz Kirsop Lake (ibid., pás. 117 e ss.). Isso, entretanto, não tem por intuito indicar· que essa querela não tivesse importância, ou que os contendores tenham entrado nela negligentemente, conforme a palavra moderna «querela» geralmente nos dá a entender. Não muito depois de ter chegado a Éfeso, Paulo recebeu recado, da parte de elementos da família de Cloé (I Cor. 1:11 e ss.), acerca das contenções que tinham surgido entre os crentes de Corinto, o que havia produzido facções entre eles, cada uma das quais com o seu suposto líder ou herói, como Paulo, Pedro, Apoio e Jesus Cristo. E os que trouxeram essas notícias a Paulo evidentemente foram Estefanas, Fortunato e Acaico (ver I Cor. 16:17). E é igualm ente patente que trouxeram com eles, uma carta, enviada pelos crentes de Corinto, pedindo os conselhos do apóstolo acerca de várias questões que, evidentemente, vinham sendo debatidas entre os cristãos daquela cidade. O resultado dessas indagações é a primeira epístola aos Coríntios, ou, pelo menos, partes da mesma. A primeira porção da mesma trata das questões dos perturbadores, em que o apóstolo repreende aqueles que eram os causadores das divisões. A segunda porção responde, pela ordem, as perguntas feitas pelos crentes de Corinto, questões sobre princípios morais, matrimônio, ordem do culto na igreja, a liberdade cristã e a questão sobre a ressurreição. Na esperança de dar melhor solução ao caso em geral, o apóstolo tencionava' fazer uma outra visita àquela igreja de Corinto; mas, nesse ínterim, enviou-lhes Timóteo (ver I Cor. 4:18-21), esperando que ele fosse capaz de dar cobro à situação. A ntes de escrever sua primeira epístola aos Coríntios, parece que Paulo já lhes havia escrito uma outra cárta, que versava sobre questões de moral, sem dúvida por ter ouvido falar nas condições deficientes e mesmo escandalosas daquela igreja. A regra determinada por Paulo era a separação daqueles que assim se conduzissem, ficando tais elemeptos isolados da igreja até que se arrependessem verdadeiramente, com a modificação de suas condutas diárias. (Ver I Cor. 5:9-14). Contudo, a própria primeira epístola aos Coríntios mostra-nos que essa suposta primeira carta ainda não produzira seus esperados resultados, tendo sido necessário dar prosseguimento, nesta chamada primeira epístola aos Corín­ tios, às reprimendas e advertências sobre o assunto. Muitos pensam que ao menos uma parte dessa epístola não-canônica é aquela representada pelo trecho de II Cor. 6:14 - 7:1, que contém advertências de ordem moral, parecendo bastante fora de lugar, na posição que ocupa dentro do corpo da segunda epístola aos Coríntios. É possível, portanto, que essa citada secção seja o mais antigo fragmento que possuím os da correspondência de Paulo com a igreja de Corinto. Retomando agora à questão dos perturbadores da ordem, que pelo menos em parte provocaram a escrita da primeira epístola aos Coríntios, parece-nos que eles se tinham dividido em quatro grupos distintos (ver I Cor. 3:1), a saber: 1. Os que se diziam seguidores de A poio, o rabino de Alexandria, o intelectual entre os líderes, e que tiveram algum desempenho no desenvolvimento da igreja cristã de Corinto. Provavelmente esse partido se compunha dos «entendidos» dentre os crentes de Corinto. Pode-se imaginar que seu pecado consistia do orgulho intelectual, juntamente com a mistura de várias filosofias com a fé cristã simples, como os bons gregos geralmente se sentiam tentados a fazer. No primeiro capitulo dessa epístola, onde Paulo diz que a sabedoria deste mundo é «loucura», provavelmente há nisso uma repreensão indireta a esse partido, embora a igreja em geral talvez estivesse envolvida em problemas dessa categoria. 2. Aqueles que eram os seguidores de Cefas, ou Pedro, e que provavelmente eram os judaizantes ou legalistas da igreja, muitos dos quais sem dúvida se haviam convertido do judaísmo, naturalmente aderiam a antigas práticas ritualistas e legalistas. O próprio apóstolo Pedro não teria encorajado tal atitude, como Apoio também não teria encorajado o partido dos «entendidos» para que o considerassem como uma espécie de herói. 3. Além desses, havia os seguidores de Paulo, cujo herói era o grande apóstolo dos gentios. Ê possível que esse grupo envolvesse aqueles que faziam forte oposição ao legalismo e ao intelectualism o,. preferindo o evangelho da graça, sem as complicações da cultura judaica ou da cultura grega. 4. Além desses, havia os partidários de Cristo. E sses certamente faziam objeção ao culto aos «heróis» e seus partidários, e, acima de todos, faziam -se os grandes seguidores de Cristo. O pecado destes últim os era ò do exclusivismo, tão prevalente na moderna igreja evangélica, que, nas mentes de alguns, cria a ilusão que eles, acima de quaisquer outros, são os melhores discípulos que Cristo tem. Isso e a antítese mesma do denominacionalismo, que inevitavelmente cria outras e ainda mais estritas denomina­ ções. Em outras palavras, aqueles que se unem em combate contra as denominações, nesse processo, geralmente criam formas ainda mais estritas de denominacionalismo, embora talvez não tenham qualquer nome específico, como fazem outras denominações. Um problema similar a esse era o dos perturbadores da ordem, exaltados aos seus próprios olhos devido ao orgulho espiritual, por exercerem dons espirituais miraculosos autênticos ou aparentes. Esses se ufanavam de tal modo de suas realizações espirituais que criavam o caos nos cultos da igreja de Corinto. Sem dúvida era difícil para outrem ter oportunidade de falar nas reuniões, porquanto estavam sempre preparados com alguma profecia, com alguma língua, com alguma exortação, com alguma mensagem, de forma alguma se envergonhando por interromper tão desabrida- mente aos outros, por estarem usando ininterruptamente da palavra, em qualquer das reuniões da igreja. É por esse motivo, pois, que nos capítulos décimo primeiro a décimo quarto o apóstolo dá instruções que regulamentam os dons espirituais e o seu uso. É bem provável que alguns elementos desse mesmo grupo fossem aqueles que abusavam da liberdade cristã, comprando e comendo came de lugares onde tal came fora apresentada às divindades, em templos pagãos; e talvez até se dispusessem a freqüentar certos ritos que eram efetuados nesses tem plos, em companhia de seus amigos pagãos, que os convidavam para as suas reuniões profanas. Esses crentes, pois, consolavam-se dizendo que um idolo nada é, e daí concluíam que comer carne que fora apresentada aos ídolos também nada significa. Isso expressa uma verdade, até certo ponto; mas a facção legalista da igreja de Corinto, que exaltava a Pedro como seu grande herói, sem dúvida se sentia ofendida com essa forma de conduta, e o resultado disso eram sentimentos pesados, disputas e divisões, que ameaçavam cindir a igreja de Corinto. (Ver os capítulos sexto e oitavo dessa primeira epístola aos Coríntios). No sétimo capítulo dessa primeira epístola aos Coríntios, Paulo se volta para as perguntas que os próprios crentes de Corinto lhe tinham feito por carta. (Ver I Cor. 7:1). A expressão reiterada, «Quanto ao que me escrevestes...» (7:1), «Com respeito às virgens...» (7:15), «A respeito dos dons espirituais...» (12:1), «No que se refere às cousas sacrificadas a ídolos...» (8:1). «Quanto a coleta para os santos...» (16:1) e «Acerca do irmão Apoio...» (16:12), ela provavelmente dá início às respostas às perguntas especificamente feitas pelos crentes de Corinto a Paulo. Por conseguinte, a carta que eles enviaram ao apóstolo dizia respeito aos seguintes temas·. 1. O valor do celibato e do matrimônio, bem como seus valores relativos. Essa questão discute paralelamente o que o Senhor Jesus disse acerca dos mesmos assuntos, segundo vemos em Mat. 19:12. (Ver I Cor. 7). 2. A questão dos limites da liberdade cristã (ver I Cor. 6 e 8). 3. A questão inteira da busca, da posse e do uso dos dons espirituais. (Ver I Cor. 11 - 14). 4. A questão do desejo que Paulo tinha de levantar uma oferta para os crentes pobres da igreja de Jerusalém (16:1), que foi, por assim dizer, uma das obcessões do apóstolo Paulo durante sua terceira viagem m issionária, cuja entrega provocou a sua última viagem a Jerusalém, onde também foi aprisionado, tendo permanecido prisioneiro por muitos anos. 5. É evidente que a carta enviada a Paulo pelos crentes de Corinto continha um pedido que Paulo lhes enviasse Apoio, a fim de que novamente lhes ministrasse ali. Paulo procurara convencer Apoio sobre essa necessidade, mas o próprio Apoio não estava disposto a fazer tal visita, provavelmente não querendo provocar mais ainda a situação que ali já prevalecia-, sobretudo no que diz respeito às várias facções ali existentes, uma das quais o escolhera como seu herói. Podemos facilmente imaginar que a epístola enviada pelos crentes de Corinto ao apóstolo Paulo lhe fizera indagações
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    I CORÍNTIOS 5 sobrea natureza da ressurreição, porquanto, em Corinto, havia alguns que pareciam negar que se deveria esperar a ressurreição, dizendo que a mesma já havia ocorrido, provavelmente querendo dar a entender com isso que a ressurreição de Cristo e outros eventos paralelos já tinham tido lugar. É que esses falsos mestres não faziam a menor idéia de como a ressurreição do Senhor Jesus garante a ressurreição de todos os remidos. Parece que haviam abandonado a idéia judaica comum de que os justos finalmente seriam ressuscitados, sem falarmos na ressurreição geral dos perdidos. Mui provavelmente esse problema doutrinário surgiu em Corinto porque, entre os gentios, a doutrina da ressurreição era um ensino estranho, embora não totalmente desconhecido em seus mitos·, ou então porque, em Corinto havia alguns que demonstravam tendências gnósticas, as quais, de mistura com conceitos do judaísmo e da filosofia e mitologia gregas, além dos conceitos cristãos, aquela gente terminara por criar uma doutrina que reputava desnecessária qualquer ressurreição do corpo físico. Isso provocou a escrita do décimo quinto capítulo desta primeira epístola aos Coríntios, a mais completa e profunda declaração que existe sobre a questão, em toda a literatura mundial. De modo geral, pois, procurando nós a razão pela qual esta epístola foi escrita, bem como suas circunstâncias históricas, que provocaram a sua escrita, podemos declarar o seguinte: 1. Paulo já havia escrito uma epístola anterior, mencionada em I Cor. 5:9, que tinha o proposito definido de combater a grosseira imoralidade que se abatera sobre a igreja de Corinto, que ele ouvira de alguma fonte informativa acerca da qual nada somos informados. Parte dessa epístola bem poderia ser o trecho de II Cor. 6:14 - 7:1. 2. N esse ínterim, antes disso ou talvez após tais acontecimentos terem começado, Apoio levara a efeito um ministério ali; entretanto, retomara a Éfeso (I Cor. 16:12), e então começara a criar-se um partido que exaltava o seu nome. 3. Pedro também fizera uma visita à igreja de Corinto, ou pelo menos havia alguns judeus crentes cjue se tinham tomado membros da mesma, cujo herói era o apostolo Pedro, os quais levaram a igreja a praticar certas normas legalistas, criando uma facção que se dizia seguidora de Cefas. 4. Uma réplica àquela primeira carta de Paulo fora enviada pela igreja, através de Estéfanas, Fortunato e Acaico (I Cor. 16:15-18), carta essa que continha aquelas várias perguntas, antes mencionadas. Grande parte da primeira epístola aos Coríntios, pois, constitui-se de respostas feitas às perguntas feitas na missiva dos coríntios a Paulo. 5. Lemos em I Cor. 1:11 que pessoas enviadas da parte de Cloé, talvez escravos daquela casa, informaram a Paulo acerca das divisões existentes na igreja de Corinto, sendo perfeitamente possível que os indivíduos, mencionados no quarto ponto (acima), tivessem sido os informantes do apóstolo, os quais não somente entregaram a epístola enviada pelos crentes de Corinto, mas que também puderam transmitir verbalmente a Paulo várias informações. Provavelmente relataram ao apóstolo até que ponto a sua reputação e autoridade apostólica foram denegridas em Corinto. E foi exatamente essa visita, acima de qualquer outro fator, que tornou necessária a continuação da correspondência entre os crentes de Corinto e o apóstolo Paulo, a começar pela maior parte da primeira epístola aos Coríntios. Evidentemente, entretanto, houve um fim feliz no tocante aos problemas surgidos em Corinto. Pelo tempo em que foi escrita a segunda epístola aos Coríntios (ou então as cartas que foram incorporadas naquilo que hoje é chamado de II Coríntios) o pior já tinha passado. (Ver II Cor. 1 e 2). A projetada terceira visita de Paulo a Corinto, embora potencialmente dolorosa para bolsões de resistência que ainda persistiam na igreja de Corinto (ver II Cor. 10-6-11 e 13:1 e ss.), pôde ser aludida em tons jubilosos; e a coleta para os santos pobres de Jerusalém, para o que Paulo fizera arranjos, ao projetar a sua visita mencionada em I Cor. 16:3,4, poderia ser facilmente concluída quando dessa visita adicional. A epístola aos Romanos, que foi escrita durante a terceira visita de Paulo a Corinto, parece indicar um término feliz para a tão prolongada perturbação. Agora o apóstolo aguardava poder fazer uma visita a Roma, após muitos adiamentos e frustrações, quando estivesse de viagem para o ocidente, para a Espanha, onde tencionava desenvolver um ministério. Até onde os seus labores em Corinto estavam envolvidos, ele estava satisfeito com o progresso e o caráter dos mesmos, e agora podia partir, deixando a continuação dos trabalhos ministeriais ali a outros. (Ver II Cor. 1:10,13,15 e 15:28). VI. TEMAS PRINCIPAIS Quando abordamos a razão por detrás da escrita dessa primeira epístola aos Coríntios, já tocamos de forma suficiente sobre os temas principais. Contudo, olhando para esses temas, de forma mais particular, podemos alistar o que dizemos mais abaixo: De maneira geral, pode-se asseverar que a primeira epístola aosCoríntios não é essencialmente uma epístola doutrinária, à semelhança de Romanos e Gálatas, ainda que sejam discutidas certas questões doutrinárias importantes, sobretudo aquilo que diz respeito à prática do governo da igreja. Seus temas, entretanto, são essencialmente éticos e práticos; e por causa dos muitos problemas acerca dos quais o apóstolo escreveu, no intuito de corrigi-los, encontramos a mais completa declaração ética da fé cristã, em todo o N.T. Em contraste com a epístola aos Romanos, por exemplo, nessa primeira epístola aos Coríntios não abordamos as relações entre o cristianismo e o judaísmo, sobre como esses dois sistemas religiosos podem ser harmonizados entre si, mas antes, lemos como a igreja cristã pode entrar em um ambiente pagão, prosperando e permanecendo pura. Ora, isso é particularmente importante para a nossa época, porquanto não existe nenhum problema mais agudo no cristianismo atual do que esse. A maioria dos problemas que os crentes de Corinto tiveram de enfrentar são os mesmos comuns à experiência cristã hoje em dia, não havendo razão alguma para supormos que as soluções propostas pelo apóstolo Paulo não sejam igualmente válidas para os nossos próprios dias, tais como o foram para os endereçados originais dessa epístola canônica. Apresentamos, pois, os pontos prometidos acima: 1. O evangelho no teor da primeira epístola aos Coríntios: Nessa epístola não há qualquer tentativa para apresentar qualquer exposição sistemática do evangelho cristão, em sua natureza e conteúdo, a menos que a primeira porção do décimo quinto capítulo seja considerada como tal; antes, por toda a parte há elem entos do evangelho cristão, os quais, considerados em seu conjunto, nos fornecem uma informação suficiente sobre o assunto. Podem-se alinhar as seguintes razões para isso: a. Cristo é o centro da mensagem da epístola, do princípio ao fim (ver I Cor. 1:3). b. Cristo é o alvo final da criação (I Cor. 8:6). c. Cristo é o alvo supremo da vida (I Cor. 15:28). d. Cristo é o verdadeiro Deus (I Cor. 8:4-6). e. Cristo é o poder que sustenta a natureza (I Cor. 3:6). f. Cristo é quem ordena providencialmente os aconteci­ mentos entre os homens. (I Cor. 4:9; 7:7 e 12:6). g. Os homens jamais conheceram a Deus por sua própria sabedoria, mas podem vir a conhecê-lo por meio de Cristo, a própria Sabedoria de Deus (I Cor. 1:21). h. É Deus que se achega aos homens, em buscà deles, e não ao contrário (I Cor. 1:27). i. Aqueles que se achegam a Deus, recebem a revelação de seus mistérios, por intermédio do Espírito Santo. (I Cor. 2:10 e 4:1). j. A vida eterna, por meio da. ressurreição, nos é dada por meio de Cristo (ver I Cor. 15). 1. Cristo é o Juiz supremo, e espera a observância dos seus mandamentos. (I Cor. 4:5; 5:13 e 7:19). m. Vários aspectos da redenção nos são oferecidos: Cristo é a rocha, o sustentador, o supridor das necessidades espirituais (I Cor. 8:6 e 10:4); os poderes das trevas têm sido derrotados por meio de sua morte e ressurreição (I Cor. 2:6); a morte de Cristo significa a nossa redenção da servidão (I Cor. 6:20 e 7:23); os crentes fazem parte do corpo místico de Cristo (I Cor. 6:15 e 12:12). A ressurreição (o que provavelmente inclui as idéias da ascensão e da glorificação de Cristo, o que é comum nas páginas do N.T.) garante a verdadeira vida eterna para os crentes, e o décimo quinto capítulo desta epístola é a mais completa declaração que possuímos sobre esse tema. 2. Os dons do Espirito Santo no teor da primeira epístola aos Coríntios—A conduta ideal na igreja cristã, no que diz respeito a essas m anifestações espirituais, também é abordada. Dentre todos os temas que há neste livro de Paulo, esse é aquele cujo tratamento recebe maior espaço. (Ver I Cor. 11 - 14). Vemos que os dons espirituais: a. Podem ser abusados; b. podem ser usados erroneamente; c. podem ser
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    6 I CORÍNTIOS falsificados;e d. podem ser exercidos até mesmo por crentes carnais. Geralmente se supõe que os dons espirituais assinalam uma elevada espiritualidade; no entanto, os maiores perturbadores de todos, na igreja de Corinto, foram aqueles que se deixaram arrebatar pelo orgulho de sua suposta autoridade e desenvolvimento espirituais, pois esses, devido ao seu orgulho, produziram confusão naquela igreja. 3. A reprimenda contra o abuso dos dons espirituais inspirou o apóstolo a compor o magnificente décimo terceiro capítulo desta epístola, cujo grande tema é o amor cristão, o qual deve governar todas as atividades dos crentes, dentro e fora da igreja local. Nenhum outro documento sagrado sobreo amor cristão tem sido tão univèrsalmente considerado e nem tem sido reputado tão majestático como o décimo terceiro capítulo desta epístola. E ainda que se porventura Paulo houvesse escrito uma epístola deficiente e plena de erros, a preservação de tal epístola já estaria assegurada somente por esse décimo terceiro capítulo. Ê interessante que embora a expressão «fruto do Espírito» não seja empregada nesta primeira epístola aos Coríntios, contudo, quase cada capítulo da mesma tem algo a ver com o poder dominante do amor cristão, em conexão com diversos aspectos da vida do crente, a qual, na realidade, é a «vida no Espírito». A igreja de Corinto sofreu com facções porque lhe faltava o amor cristão. (Ver I Cor. 3:3). Som ente o amor é capaz de edificar, e não de derrubar, conforme estava sucedendo naquela igreja local. (Ver I Cor. 8:1). O amor é. superior a todos os dons espirituais de que os homens se possam ufanar, sem o que o próprio uso dos dons é vazio e até mesmo perigoso. Outrossim, o amor é mais duradouro do que todos esses dons. (Ver I Cor. 13:2,8). Portanto, tudo deveria ser efetuado com o condimento preciso do amor. (Ver I Cor. 16:14). 4. A conduta sexual no teor da primeira epístola aos Coríntios - Os habitantes da cidade de Corinto se notabilizavam por suas práticas^ sexuais exageradas e pervertidas. Era inevitável que esses vícios fossem levados ao seio da igreja cristã de Corinto, por parte de alguns que se desviaram de sua profissão cristã inicial, ou que jamais haviam sido verdadeiramente regenerados, posto que tivessem o nome de cristãos. A exposição do quinto capítulo dessa primeira epístola aos Coríntios (quanto aos versículos primeiro a quinto), mostra-nos que Paulo ainda era mais estrito sobre essas questões que os rabinos judeus ordinários. Foi em relação à conduta sexual que a questão do matrimônio foi apresentada ao apóstolo, na carta que lhe enviaram. Paulo, à semelhança do Senhor Jesus, mas contrariamente às idéias judaicas comuns (ver Mat. 19:12), reconhecia o grande valor do celibato, dando preferência ao mesmo, acima do casamento, contanto que o indivíduo envolvido houvesse sido chamado por Deus para esse estado. Portanto, podemos dizer que Paulo não procurou criar nenhum ministério eclesiástico caracterizado pelo celibato; tal exigên­ cia é antes um desenvolvimento histórico, o qual envolveu vários séculos, não sendo nenhuma injunção neotestamen- tária. Todavia, é verdade que as expectativas sobre a «parousia» ou segunda vinda de Cristo talvez tivessem algo a ver com o pensam ento de Paulo expresso nessa secção; contudo, não podemos deixar de observar que Paulo expressava os seus próprios sentimentos sobre a questão, e, ao fazê-lo situou o estado do celibato acima do estado do matrimônio, como um meio de servir a Deus com uma mente mais desimpedida, livre das obrigações domésticas. Entretanto, não peca quem se casa, mesmo que o cônjuge seja incrédulo, ficando destacado tão-somente o fato de que isso é um jugo desigual que deve ser evitado pelos crentes. Não obstante, aqueles que estiverem casados com incrédulos são legitimamente casados, e não estão vivendo em pecado. (Ver I Cor. 7:14 e II Cor. 6). Pois o cônjuge incrédulo, sem importar se o mesmo é o marido ou a mulher, é «santificado» pelo cônjuge crente. Tal matrimônio de crentes e incrédulos não é ilegítim o, pois, conforme ensinavam os rabinos, ordinariamente. Isso é tudo quanto o apóstolo Paulo quer dar a entender pela palavra «.. .san tifica... », nesse caso —tal casamento é legal, aos olhos de Deus e da igreja. 5. A conduta social e eclesiástica: as vestes e a conduta femininas. Essa é outra das questões abordadas nesta primeira epístola aos Coríntios. (Ver I Cor. 14:34 e ss.). Paulo recomenda que as mulheres usem seUs cabelos compridos. Entretanto, alguns estudiosos pensam que essa instrução paulina deve ser posta dentro da categoria das «situações culturalmente orientadas». Επί outras palavras, Paulo teria recomendado que as mulheres crentes usassem os cabelos compridos porque, naquela época, usar cabelos curtos era sinal de prostituição, sendo um uso contrário aos costumes sociais mais nobres da época. Por semelhante modo, o véu que as mulheres devem usar, quando «oram ou profetizam», na opinião de m uitos eruditos, cabe dentro dessa mesma categoria. Porquanto a grande verdade é que Paulo ordenou ambas as coisas: os cabelos compridos e o uso do véu, para as mulheres crentes. No entanto, não são muitas as igrejas evangélicas que estão obedecendo a essas injunções da Palavra de Deus. Nessa mesma passagem Paúlo proíbe claramente que as mulheres crentes falem na igreja. E a maioria dos rabinos judeus teria emitido a mesma opinião, no tocante às mulheres ensinarem ou falarem nas sinagogas judaicas; e, além disso, nas culturas helenísticas distantes da Palestina, ensinarem ou falarem as mulheres nas sinagogas seria demonstração da conduta mais extremamente ímpia. E o apóstolo Paulo deixa transparecer a mesma aversão; e ele falava por inspiração divina, o que nos mostra que esse é também o parecer da mente de Deus. No entanto, muitos intérpretes dizem que essa instrução de Paulo também é «culturalmente orientada». O máximo que podemos dizer aqui é recomendar que cada membro da igreja de Cristo examine os textos sagrados e os problemas que circundam essas questões da conduta social e eclesiástica, sobretudo no que diz respeito às mulheres crentes, a fim de chegar às suas próprias decisões honestas. Na atualidade, é difícil encontrar qualquer divisão da igreja cristã que observe essas questões, em obediência à Palavra de Deus. Há algumas denominações que insistem sobre a necessidade do uso do véu, mas que negligenciam a questão dos cabelos compridos das mulheres crentes, além de permitirem que elas usem livremente da palavra em suas reuniões, havendo casos extremos de «pastoras». Mas tudo isso é uma incoerência, em confronto com o texto sagrado. Finalmente, a grande maioria das igrejas evangélicas, não sabendo como dar solução ao caso, ignora o problema em suas inteirezas, como se o mesmo não existisse. A ordem do culto nas igrejas locais, o uso dos dons espirituais, a necessidade de haver oportunidade para todos, e a ordem necessária quando da celebração da Ceia do Senhor são os temas do décimo primeiro capítulo desta epístola. A necessidade de não abusar da liberdade cristã é o assunto dos capítulos sexto a oitavo da mesma. 6. A segunda vinda de Cristo, ou «parousia» é o último grande tema doutrinário desta epístola. (Ver I Cor. 15:51-58). Sobre esse tema, pois, não há explanação mais magnificente do que a que se encontra nessa secção, que tem servido de texto para inúmeros sermões e discursos escritos através da história. Ela nos ensina as verdades sublimes da imortalidade e da transformação do crente, acrescentando que certos remidos passarão para esse estado sem experimentarem a morte física, ao passo que outros chegarão ao mesmo, a despeito da morte física. Apesar de que Paulo se demorou sobre a sim ples imortalidade da alma (conforme fica amplamente demonstrado no quinto capítulo da segunda epístola aos Coríntios), a glorificação completa ocorrerá por meio da ressurreição, quando houver novamente a reunião da personalidade humana, em seus elementos constitutivos, bem como através da ascensão e da glorificação juntamente com Cristo, que fica implícita na doutrina da ressurreição. VII. CONTEÜDO I. Introdução, saudações e ação de graças (1:1-9). II. Problema das divisões partidárias (1:10-4:21). 1. Polêmica contratais divisões: a. Exaltam ao homem, em detrimento de Cristo (1:10-17). b. Derivam-se do orgulho e da sabedoria humanos (1:18-2:5). Essa sabedoria é uma «loucura» para Deus. c. A cruz é a sabedoria de Deus apresentada aos homens (1:18-25). d. A comunidade cristã dos coríntios não fora chamada dentre os sábios (1:26-31). e. Paulo lhes dera exemplo de conduta humilde (2:1-5). f. A verdadeira sabedoria não é propriedade dos facciosos (2:6-3:4), cuja atitude mostra antes a ausência das influências do Espírito Santo. g. Os apóstolos verdadeiros não são rivais, mas labutam na mesma lavoura, regando e colhendo (3:5-23). 2. Como o verdadeiro apóstolo deve ser julgado—secção contrária aos detratores de Paulo, que haviam causado divisões (4:1-21). III. Imoralidade e os Padrões Éticos Gerais e Cristãos (5:1*7:40). 1. Contra a imoralidade grosseira (5:1-13). 2. Contra os processos legais entre crentes (6:1-8). 3. O padrão do reino de Deus (6:9-11). 4. A moralidade pessoal do crente (6:12-20).
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    ! CORÍNTIOS 7 2. 3. 4. 5. O casamento e o celibato (7:1-40). IV. Liberdade Cristã (8:1-11:1). 1. Alimentos oferecidos a ídolos e a utilização dos mesmos pelo crente (8:1-13). Paulo deu o exemplo, renunciando a seus direitos (9:1-23). Os perigos da obstinação (9:24*10:22): a. A necessidade de autodisciplina, ante as advertências dadas no deserto (10:1-13). b. O caráter destruidor da idolatria (10:14-22). Declarações finais: (10:23-11:1). V. Regulamentos sobre a Adoração Cristã (11:22-14:40). 1. O véu das mulheres (11:2-16). 2. A Ceia do Senhor (11:17-34). 3. O uso dos dons espirituais (12:1-14:40). 4. O amor governa o uso dos dons e toda a conduta cristã (13:1-13). VI. A Ressurreição dos Mortos (15:1-58). 1. A tradição e o fato (o evangelho) (15:1-11). O significado da ressurreição (15:12-19). O acontecimento e a sua ordem (15:20-34). A natureza da ressurreição (15:35-50). 2 . 3. 4. 5. A parousia: imortalidade final (15:51-58). VII. Questões Pessoais (16:1-24). 1. Coleta para os santos pobres de Jerusalém (16:1-4). 2. Os planos de Paulo sobre o futuro (16:5-12). 3. Exortações finais, saudações e bênção (16:13-24). VIII. BIBLIOGRAFIA Além daqueles comentários que são usados por toda a exposição do N.T., neste comentário, como fontes informativas, uma lista dos quais pode ser encontrada na primeira parte da secção introdutória, recomendamos os livros abaixo discriminados, para estudo especial: Alio, E.B., Saint Paulpremiere épitreaux Corinthiens, Paris, J. Gagalda, 1934. Enslin, Morton Scott, The Literature of the Christian Movement, New York, Harper and Brothers, 1956. Moffatt, James, The First Epistle of Paul to the Corinthians (Moffatt New Testament Commentary), Nova Iorque: Harper and Bros., 1938. Titus, Eric Lane, Essentials of New Testament Study, New York, The Ronald Press, 1958. Ver também: C. Hodge, 1857; T.C. Edwards, 1885; G. Godet, 1886; F.W. Grosheide, 1954; L. Morris (Tyndale N.T. Commentary), 1958. OInterpreter’s Bible está utilizado neste comentário pela gentil permissão da Abingdon-Cokesbury Press, Nashville. Desta obra, são citados, em I Coríntios, os autores Clarence Tucker Craig e John Short. Capitulo 1 I. Introdução, saudações e ação de graças (I Cor. 1:1-9) Na introdução geral a esta epístola são discutidos problemas como o da autoria, data e procedência, como o da natureza geral da igreja cristã de Corinto, como o volume da correspondência de Paulo com a igreja de Corinto, e as razões e propósitos da epístola, envolvendo também os seus temas principais. (Quanto a uma compreensão geral sobre esta epístola, em seu fundo histórico, essa introdução pode também ser examinada). Muitos dos temas paulinos têm sido comentados em outros trechos; por essa razão, nos comentários sobre esta primeira epístola aos Coríntios aparecerão referências cruzadas e tais temas, as quais devem ser lidas para que o leitor obtenha omáximo benefício e compreensão da mensagem que Paulo aqui apresenta. 1 Π αΰλος κλητός απόστολος Χ ρίστον Ί η σ ον διά θελήματος θζον, καί Σ ω σθίνης 6 άΒελφός, ι κλητό?] om AD e 1:1: Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, • ...Paulo...» (Quanto a notas expositivas completas sobre esse apóstolo, ver o artigo especial na introdução geral que diz respeito a ele, intitulado A Importância de Paulo. Essas notas fornecem detalhes completos sobre o que se sabe a respeito de sua vida, bem como acerca dos temas gerais que faziam parte de sua doutrina). «...chamado...» Paulo deixa esclarecido, desde o começo, que o seu apostolado não era obra sua, como também não era idealização humana, e, sim, uma chamada divina. Essa declaração tem um sentido parcialmente apologético, porquanto, na igreja local de Corinto tinham surgido dúvidas quanto a esse apostolado de Paulo. Os falsos mestres, que tinham causado divisões, ali, haviam igualmente atacado o seu apostolado, dizendo, entre outras coisas, que Paulo não recolhia salário daquela igreja porque não o merecia, embora fosse tradição prática da igreja cristã, tomada por empréstimo do judaísmo, que aqueles que vivem inteiramente dedicados à vida religiosa (como ministros do evangelho), devem viver do evangelho, ou seja, devem receber sustento financeiro da comunidade religiosa à qual servem. (Ver a totalidade do nono capítulo desta epístola, onde Paulo reivindica, incisivamente, o seu apostolado). É notório que Paulo defende ainda mais vigorosamente o seu apostolado na segunda epístola aos Coríntios, conforme vemos na prolongada secção dos capítulos dez a doze da mesma, onde ele apresenta uma defesa espalhada em várias frentes: seus labores espirituais abundantes e obviamente produtivos (II Cor. 10:14-18); seu interesse apostólico especial por aqueles crentes (II Cor. 11:1 e ss); seu ataque direto contra a falsidade das reivindicações apostólicas de seus oponentes (II Cor. 11:13 e ss.); uma completa descrição de seu ministério, que ultrapassava a tudo quanto outros estivessem fazendo então (II Cor. 11:16 e ss.); e suas muitas e grandiosas experiências místicas e espirituais (II Cor. 1 e ss.). Ora, essa vigorosa defesa de seu apostolado se tornara necessária devido aos golpes aplicados por seus adversários, em Corinto, os quais tinham provocado o aparecimento do espírito de partidarismo, levando muitos a duvidarem da autenticidade do apostolado de Paulo. E foi essa nota de discórdia e dissensão que provocou o motivo da escrita da primeira e da segunda epístolas aos Coríntios, por serem livros que têm por intuito abordar os muitos «problemas» surgidos naquela igreja cristã, entre os quais se destacava a dúvida em torno do apostolado de Paulo. (Com isso se pode comparar a sua defesa ante os crentes da Galácia—Gál. 1:11 - 2:14). Talvez nos surpreenda que tenha sido necessária essa defesa, tão firmemente estabejecida é a autoridade apostólica de Paulo na igreja universal de nossos dias. Ê óbvio, entretanto, que essa autoridade não era tão universalmente aceita nos seus próprios dias, nem mesmo entre os crentes gentios, para nada dizermos acerca das dificuldades de Paulo perante a igreja local de Jerusalém. (Quanto a esse particular, ver o décimo quinto capítulo do livro de Atos, bem como as próprias alusões do apóstolo dos gentios sobre o assunto, em Rom. 15:31). Paulo tivera até mesmo razões para duvidar que a oferta recolhida entre as igrejas gentílicas, para alívio dos santos pobres de Jerusalém (ver as notas expositivas em Rom. 15:25 a esse respeito), não seria bem aceita pelos orgulhosos elementos legalistas da capital religiosa da Judéia. Por todas essas razões é que Paulo afirma aqui que o seu apostolado era segundo a «vontade de Deus». E esse apóstolo faz as mesmas reivindicações nas introduções de suas seguintes epístolas: II Coríntios, Efésios, Colossenses e II Timóteo. E é neste ponto que ele expande essa idéia, mencionando a «chamada divina». Outro tanto é declarado em Rom. 1:1, sendo o único outro trecho de suas epístolas onde ele afirma exatamente a mesma coisa, ainda que o primeiro capítulo da epístola aos Gálatas certamente diga a mesma coisa. Nessa epístola aos Gálatas é onde o apóstolo Paulo desenvolve mais amplamente esse tema, aprofundando-se mais em suas considerações, tendo chegado a afirmar que sua chamada vinha do berço. Em outras palavras, Paulo teria vindo ao mundo com o propósito específico de cumprir o elevado ofício de um apóstolo do Senhor Jesus Cristo. (Ver Gál. 1:15). Esse chamamento, para dizer a verdade, constituiu uma eleição original, mas Gál. 1:16 e ss. é uma passagem que mostra que o propósito do apostolado foi o resultado necessário dessa eleição original, contida na mesma. (Ver Rom. 1:1 e as notas expositivas ali existentes, quanto ao desenvolvimento da idéia desse «chamamento de Paulo», onde o conceito é desdobrado em seus vários aspectos). «...apóstolo...» (Quanto a notas expositivas sobre esse ministério, ver Mat. 10:1. Quanto a uma lista dos apóstolos, onde há uma breve descrição acerca de cada um deles, ver Luc. 6:12. Quanto ao uso mais lato desse termo, que inclui mais do que os doze apóstolos originais, ver Atos 14:4). Paulo foi comissionado pelo Senhor para esse elevado ofício, a fim de que fosse testemunha da ressurreição do Senhor Jesus. As visões que recebeu da parte de Cristo qualificaram-no para tal ministério. Ora, aqui Paulo se apresenta aos crentes de Corinto nessa capacidade, porquanto seu apostolado não estava limitado geograficamente em qualquer sentido. Na qualidade de apóstolo dos gentios, outrossim, ele exercia autoridade especial sobre a igreja cristã de Corinto, sobretudo por haver sido o fundador da mesma. Contudo, Paulo salienta apologeticamente essa sua autoridade, porque estava prestes a fazer a tentativa de corrigir muitos problemas difíceis que haviam surgido naquela congregação cristã. Estando na cidade de Éfeso, na casa de amigos, a verificar os relatórios acerca das condições existentes em Corinto, com o coração entristecido, Paulo começou a escrever esta epístola. E sentiu ser lamentável que tivesse de começar a mesma autenticando seu próprio ofício, afirmando que o mesmo se devia à vontade de Deus, expressa por chamada divina. Sua autoridade não provinha dos homens; e por essa mesma razão, tinha o direito e a responsabilidade, que o próprio Senhor lhe dera, de tentar corrigir os muitos erros que não demoraram a tornar-se as características dominantes da igreja cristã de Corinto. Paulo era possuidor de tremendo senso de sua missão, conforme transparece claramente em todos os seus escritos. Para ele, seu trabalho no evangelho se revestia de uma seriedade mortal, que consumia a sua existência diária e os seus pensamentos. Era um vaso especialmente escolhido pelo Senhor. Na verdade, entretanto, todos os seres humanos têm alguma missão a cumprir, não menos que Paulo, embora talvez sejam missões de menor injportância. O destino humano é o mesmo, todavia. E esse destino é a completa transformação dos remidos à imagem de Cristo,
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    8 I CORÍNTIOS emque venham a participar de tudo quanto ele é, moral e metafisicamente falando, de modo que os homens venham a compartilhar da própria natureza divina. (Ver as notas expositivas sobre esses temas, nos trechos de Rom. 8:29 e II Ped. 1:4. Ver também os comentários sobre os «vasos escolhidos» e sobre as «missões secundárias», em Atos 9:15 e 9:19, respectivamente). Nossa missão consiste em chegarmos o mais perto possível dessa transformação segundo a imagem de Cristo, pelo que ela se reveste de capital importância, tal como Paulo valorizava a sua missão. A vida terrena inteira nos serve de escola, de campo de treinamento, fazendo parte integrante desse processo de transformação. Faríamos bem em levar a vida tão a sério como o fazia o apóstolo Paulo, desenvolvendo um tão elevado senso de missão como ele. · Não fomos nós que nos selecionamos a nós mesmos; mas Deus é quem nos escolheu, a fim de formar Cristo em nós, tornando-nos instrumentos sem-par de sua vontade. E isso não somente neste mundo,· mas igualmente por toda a eternidade. (No que tange ao chamamento dos homens, da parte de Deus, ver João 15:16. Ver Apo. 2:17 quanto às características todas próprias e sem-par de cada discípulo de Cristo, o que redunda em glória para a pessoa do Senhor Jesus, a começar nesta existência terrena, mas atingindo uma fruição mais perfeita e maior nos lugares celestiais). Os fariseus se tinham mostrado amargamente contrários a Jesus de Nazaré mas este conquistara o vulto mais importante entre eles, a saber, Saulo de Tarso. E este fora feito um instrumento sem igual para a propagação do evangelho de Cristo. (Ver Fil. 3:5 e Fál. 2:20). Ninguém deve ser feito ministro, na igreja cristã, como repre­ sentante do ministério de uma igreja local, se não for dotadodesse mesmo compelidor senso de missão. O ministério precisa ser muito mais do que uma mera profissão. O apóstolo Paulo tinha como seu exemplo e modelo a pessoa de Cristo (ver I Cor. 4:14-16 e 11:1), e nós, por nossa vez, podemos ter a ambos como nosso modelo. Se assim fizermos, teremos convicção quanto ao nosso chamamento para o ministério, bem como teremos autoridade para agir. «...Sóstenes...» Talvez se trate do indivíduo do mesmo nome, que figura em Atos 18:17, e que havia sido líder de uma sinagoga judaica, e que fora espancado perante o tribunal presidido por Gálio. Ê possível que quanto a esta primeira epístola aos Coríntios, Sóstenes tenha servido de amanuense para Paulo. (Quanto ao costume que esse apóstolo tinha de utilizar-se do trabalho de amanuenses, para ditar-lhes suas epístolas, ver as notas expositivas sobre Rom. 16:22. Quanto aos diversos «Sóstenes» que aparecem nas páginas do N.T., ver Atos 18:17). Alguns estudiosos pensam ter havido um único Sóstenes; mas outros opinam que o cooperador de Paulo em Éfeso não foi o mesmo «Sóstenes» de Corinto, o qual é mencionado no décimo oitavo capítulo do livro de Atos. O mais provável, todavia, é que se trate de um único indivíduo. Paulo menciona Sóstenes como alguém a ele associado, porquanto, sem dúvida, seu nome tinha autoridade e importância em Corinto, onde fora um dos principais rabinos judeus, e onde, subseqüentemente, se convertera a Jesus Cristo. (Clem. Alex. Hyv., conforme ficou preservado para nós na narrativa histórica de Eusébio 1:12.1-2, afirmava ter sido Sóstenes um dos setenta discípulos especiais referidos no décimo capítulo do evangelho de Lucas, mas essa é uma informação extremamente incerta e improvável). Parece que Sóstenes se opusera a Paulo, quando este apóstolo deu início ao seu trabalho de evangelização em Corinto; posteriormente, entretanto, se converteu ao cristianismo. «Sóstenes» significa «dotado de força segura». Se antes fizera oposição a Paulo e a Cristo, agoríg porém, é chamado de «...irmão...» E o fato de que o seu nome é anexado a esta primeira epístola aos Coríntios mostra-nos que ele se tornara crente de alguma fama e autoridade. Paulo encontrou apoio para sua própria autoridade apostólica, em Corinto, mostrando que contava com a aprovação e com a amizade de Sóstenes, sem dúvida um homem respeitado em Corinto. 2 Tjj εκκλησία τον θεόν rfj ovar) iv Κορίνθω , τ)γιασμ4νοις iv Χ ριστώ Ίη σ ο ν, κλητοΐς ά γίο ις ,α συν ττάσιν τοΐς€τηκαλουμ€νοις το δνομα τον κνρίου ημώ ν Ί η σ ο ν Χ ρίστον iv τταντϊ τόπω , αντώ ν και η μ ώ ν α 2 a minor: TR WH Bov Nes BF2 AV RV ASV NEB TT Zür Seg // a none: RSV Luth Jer 2 rfj €κκη σ ί(/....Ίη σ ο ν 1 Cor 6.11 π α σ ιν ...Χ ρ ίσ το ν Ac 9.14 Z τη ονστη . . Ιησον] trsp ηγ. ev Χρ. I. τ. ο. eu Κ. p 46BD*G it Por um lado, uma minoria da comissão argumentou que a forma adotada para o texto, apoiada por peiV,' iN A D 1 P Ψ 049 (056 0142 omitem Ίησον) e aparentemente todos os manuscritos, é secundária, já que é a mais fácil das duas variantes. Por outro lado, porém, a forma rjyiaapeiOis èv Χριστώ Ίησον τν ούσγι kv Κορίνθω, embora apoiada pela notável combinação de (p46 B D*·2 F G), para a maioria da comissão pareceu ser intrinsecamente difícil demais, bem como basante nâo-paulina, em confronto com o estilo das saudações de outras epístolas paulinas. A forma aparentemente surgiu, da omissão acidental de uma ou mais frases e sua subseqüente reintrodução na posição errada. 1:2: ò igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: «...igreja de Deus...» Comentou Crisóstomo (in loc.), a respeito dessas palavras: «...não deste ou daquele homem». Isso Paulo escreveu em preparação para a exposição do tema que se seguiria. (Quanto a notas expositivas sobre a cidade de Corinto, ver a secção III da introdução a este livro. Quanto a notas expositivas completas sobre o tema da «santificação», ver I Tes. 4:3. Quanto ao fato que os crentes são freqüentemente chamados de «santos», nas páginas do N.T., ver Rom. 1:7. Quanto ao tema de «Jesus, o Senhor», ver Rom. 1:4). A cidade de «...Corinto...» fora destruída por Múmio, em 146 A.C., mas cerca de cem anos mais tarde fora restaurada pelo imperador Júlio César, mais ou menos em 44 A.C. Ao tempo de Paulo se transformara em uma sociedade abastante, famosa por sua profunda corrupção, sobretudo quanto ao vícios sensuais. O vocábulo «corintianizar» significava praticar imoralidades, como parte da adoração à deusa Afrodite (a Vênus dos romanos), bem como a prática de vícios particulares dessa mesma natureza. Essa adoração pagã empregava um grande número de religiosas que eram prostitutas profissionais. Além disso, na cidade campeavam outros vícios, de natureza não-religiosa. Não obstante, Corinto era um dos centros da erudição grega, tendo sido a mais cosmopolita de todas as cidades gregas. Contava com escolas de retórica e de filosofia, em imitação ao que ocorria em Atenas. (As notas expositivas referentes ao trecho de Atos 18:1 descrevem, com maior abundância de pormenores, o tipo de lugar onde Paulo estabelecera a igreja cristã de Corinto; e a leitura desses comentários mostra-nos por que, dentro de tão pouco tempo, haviam surgido tão graves problemas naquela igreja). Em contraste com os vícios que dominavam a cidade de Corinto, os crentes deveriam ser um povo «...santificado...», separado, dedicado às coisas santas do Senhor. A santificação tem início por ocasião da conversão; pois é nesse instante que uma pessoa é separada para o Deus santo, para um elevadíssimo destino. No entanto, essa santificação é progressiva, pois, neste mundo, ninguém fica inteiramente livre da mancha do pecado, mas sempre poderá ser purificado ainda mais. Todavia, é um processo que terá conclusão, porquanto todos os remidos chegarão a certo grau de santidade absoluta, ou seja, serão totalmente libertos da presença do pecado. Por outro lado, a santificação consiste também na formação da natureza moral de Cristo no crente individual, do que o alvo é a perfeição absoluta. Por semelhante modo, poderíamos compreender a santificação como a implantação da natureza positiva de Deus nos homens, de tal modo que o indivíduo salvo venha a tomar-se tão santo quanto Deus é santo, possuidor de suas mesmas características morais positivas, como o amor, a paciência, a misericórdia, etc. (Quanto a notas expositivas acerca do tema da «santificação», ver I Tes. 4:3). «...com todos...» A pessoa de Cristo é objeto de nossa adoração, para quem também dirigimos nossas orações legitimamente. A igreja cristã se caracteriza pelo fato de ser uma comunidade composta de indivíduos que têm a Jesus Cristo como seu Senhor, que invocam o seu nome, que exaltam a sua pessoa, que imploram a sua ajuda para suas vidas diárias e para o seu devido desenvolvimento espiritual, assim mostrando que dependem inteiramente dele. (Ver também essa expressão, tomada por empréstimo da Septuaginta, tradução do original hebraico do A.T. para o grego, completada em cerca de duzentos anos antes da era cristã, em Rom. 10:12 e Atos 2:21. Ver Zac. 13:9; Gên. 12:8; 13:4 e Sal. 115:17). Essa expressão tem por fito indicar algo a respeito da «adoração» que imperava na comunidade cristã; e o objetivo dessa adoração, naturalmente, subentende dependência a Cristo, em Atos 7:59,60. Quanto a notas gerais sobre a oração, ver João 14:13 eEfé. 6:18. Quanto a provas do fato de que, na igreja cristã primitiva, os crentes dirigiam suas orações a Cristo, ver as notas expositivas acerca de Atos 1:24 e 9:14. Várias referências são dadas nesses comentários que comprovam o fato. Ver também Atos 2:21; 7:59,60; 22:16 e Apo. 22:20, Plínio, historiador romano, ao narrar o que soubera sobre a adoração entre os cristãos, escreveu que eles costumavam orar a Cristo «como se fosse Deus». (Ver Epist. x,97). Podemos notar no presente versículo, por conseguinte, que Cristo Jesus era adorado como Deus. A invocação do nome de nosso Senhor, nas páginas do A.T., se refere à invocação do nome de Yahweh. Nas páginas do N.T., entretanto, se refere ao nome de Jesus Cristo. (Ver Atos 2:21 quanto a esse fato, o qual é reiterado em Rom. 10:13). A verdade é que nenhuma oração pode ser corretamente dirigida a uma mera criatura, já que a oração subentende alguma forma de adoração. No contexto da passagem que ora comentamos torna-se óbvio que a oração fazia parte da adoração. O próprio conceito de Cristo como Senhor (o que é devidamente comentado no trecho de Rom. 1:4), subentende sua adoração legítima. De fato, os crentes são justamente aqueles que adoram a Cristo, embora, supostamente, existam cristãos nominais, que não o adoram. (Ver Atos 7:59; II Cor. 12:8,9; Heb. 1:6 e Apo. 5:12 acerca do fato que Jesus Cristo é digno objeto de nossa adoração à deidade). O presente versículo tem natureza universalista. Alguns eruditos têm procurado fazer desta primeira epístola aos Coríntios uma espécie de epístola geral, e não endereçada especificamente à comunidade cristã daquela cidade, devido ao fato que vários trechos seus indicam um caráter universal. (Além do presente versículo, isso pode ser visto em I Cor. 4:17; 7:17; 11:16 e 14:33). Outros estudiosos têm imaginado que esses versículos de natureza «geral» teriam sido acrescentados por escribas de séculos posteriores. Mas, na realidade, não há razão alguma para supormos que Paulo, ao escrever para uma comunidade cristã local, não pudesse ter feito
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    I CORÍNTIOS 9 declaraçõesque tenham aplicação aos crentes de todos os lugares e de todas as épocas. (Com esta declaração, comparar o que é dito em outros livros, nesse mesmo sentido, como em Rom. 10:13; Fil. 2:11 e Atos 9:14). «...Senhor deles e nosso...»A característica distintiva de um crente é que ele tem a Jesus de Nazaré como seu Senhor. Não existe crente, no sentido autêntico da palavra, que não aceite a Cristo como Senhor. Pois Jesus não é Salvador daquele que não o tem também como Senhor. O estar «salvo» subentende que o crente está sendo amoldado conforme a imagem de Cristo, e isso, necessariamente, inclui estar sujeito ao seu senhorio. (Ver Rom. 1:4 e as notas expositivas ali existentes, acerca de uma expansão dessa idéia em geral). A declaração que aqui encontramos, além de enfatizar o senhorio geral de Cristo, também salienta a autoridade apostólica de Paulo, sobre Corinto e sobre toda a Acaia, porquanto Paulo foi também o fundador daquelas igrejas cristãs locais, tendo sido ele o primeiro a anunciar-lhes a pessoa de Cristo. (Quanto a notas expositivas sobre a «igreja cristã», ver Efé. 3:10). A igreja consiste dos «chamados», daqueles que vão sendo separados por Deus do meio da sociedade humana, sendo retirados das corrupções próprias dessa sociedade, e que se dedicam à causa de sua pátria celestial. A igreja cristã é uma comunidade que compartilha dos interesses comuns da fé e da transformação moral e metafísica na imagem de Cristo; e essa comunidade se compõe daqueles que estão unidos em seu amor em fé como um grupo, um grupo leal a Jesus Cristo. A forte saliência que Paulo dava à unidade da igreja «católica» (termo usado pela primeira vez por Inácio, (Ad Smyraeos, cap. 8)), pavimenta o caminho para a sua repreensão contra aqueles que perturbavam essa unidade, criando facções diversas dentro da igreja cristã, destruindo assim, em parte, o senhorio universal de Jesus Cristo. (Ver I Cor. 1:10 e ss. Quanto a notas expositivas completas sobre a expressão «em Cristo», ver o quarto versículo deste mesmo capítulo). 3 χάρις ύμ ΐν καί ειρήνη από θεοΰ πατρός ήμώ ν και 1:3: Graça seja convosco, e paz, da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Essas palavras constituíam uma saudação muito costumeira para o apóstolo dos gentios, a qual também pode ser vista no trecho de Rom. 1:7b, na qual passagem é amplamente comentada. Essa mesma saudação se encontra nos trechos de II Cor. 1:2; Gál. 1:3; Efé. 1:2; Fil. 1:2; Col. 1:2; I Tes. 1:1; II Tes. 1:2). Na primeira e na segunda epístolas a Timóteo temos a adição do vocábulo «misericórdia», nessa forma de saudação, perfazendo, «graça, misericórdia e paz», o que também é duplicado em Tito 1:4. A passagem de Fil. 1:3, entretanto, diz o que era mais costumeiro, «graça e paz». «Em sua saudação costumeira, Paulo une dois termos para indicar o dom divino e as duas fontes originárias desse dom. A ‘graça’ é a bondade desmerecida pelos homens. A ‘paz’é o termo semita para indicar a salvação divina. Paulo, todavia, não queria dizer que Deus seja a origem da graça, e que Cristo seja a origem da paz. Ambas essas qualidades procedem tanto de Deus Pai como de Deus Filho, o Senhor. Paulo nunca emprega a palavra ‘Filho’, para Cristo, em uma salvação, ainda que, em outras porções de suas κυρίου Ί-ησοΰ Χ ρίστου. 3 Ro 1.7 epístolas, essa expressão seja de ocorrência freqüente. As relações exatas, entre Deus Pai e Deus Filho, não são aqui focalizadas; mas haverá indicações sobre a posição de Paulo quanto a essa particularidade, mais adiante nesta mesma epístola». (C.T. Craig, in loc.). (Quanto a notas expositivas completas sobre a «graça divina», ver Efé. 2:8; quanto à «paz», ver as notas expositivas em João 14:27; 16:33 e Rom. 5:1). Diz Vincent (m/oc.): «A ‘graça’ é a saudação grega; a ‘paz’ é a saudação judaica. Ambas têm um sentido espiritual. (Comparar com Núm. 6:25,26). Essa forma de saudação é comum em todas as epístolas de Paulo às igrejas... Somente Tiago exibe a saudação ordinária e convencional, «charein» (regozijai-vos, salve, saudações)». «A ‘paz’ mostra qual a necessidade peculiar que havia na igreja de Corinto». (Faucett, in loc.). «A graça é a origem, é a consumação». (Edwards). «O favor divino, naturalmente, contribui para a tranqüilidade mental. A inimizade com Deus cessou, e a reconciliação se seguiu». (Robertson e Plummer, in loc.). (Quanto a notas expositivas sobre a «paternidade de Deus», ver os trechos de João 8:42 e Mat. 6:9). 4 Ε υχαριστώ τώ θεώ μου1 πάντοτε περί υμώ ν επί ττ/ χά ριτι του θεοΰ τύ δοθείση ύμϊν εν Χ ριστώ Ί η σ ο υ, 1 4 {Β } 0€ω μου Η» A C D G Ρ Φ 33 81 104 181 326 330 436 451 614 629 I vg syrP-h copsa-bo a rm O rigen C h ry so sto m C y ril T h e o d o ret // θ*ω ήμώ ν 630 1241 1739 1877 1881 1962 2127 2492 2495 B y z L e d Η<*Γ >·«ΐ·<»«η·*·ί·*·<'1>.ι·*.« | 491 // θίω N* B e th E p h ra em // om it τω θ^ω μου 1984 Embora seja possível que μου tenha penetrado no texto por assimilação a Rom. 1:8 ou Fil. 1:3, a comissão julgou mais provável que a palavra foi omitida como imprópria por vários copistas (N* B etí Efraem). A forma θβω μου é fortemente apoiada por grande variedade de testemunhos gregos e de versões (Na A C D G P f 33614 1739 Byz Lecí it vg sir (p,h) cop (sa,bo) ara). A omissão de τω θβω μου (1984) e a forma θεώ ημών (491) são erros escribais feitos por acidente. Ί :4: Sempre dou graças a Deus por vis, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus,- A palavra «... g r a ç a . neste versículo, dá a entender o «estado de graça», ou seja, as bênçãos espirituais em geral que os crentes coríntios haviam recebido por meio de Cristo—sua salvação estava alicerçada sobre a graça divina, conforme se vê em Efé. 2:8. Os «dons da graça» são resultados naturais dessa graça geral, e, entre os crentes de Corinto, esses dons eram abundantes. Considerado de maneira geral, o termo «graça» indica o estado em que o crente vive sob a influência da redenção e da reconciliação que há em Cristo, tornando-se capaz de servir ao Senhor mediante vários ofícios e dons espirituais inspirados e conferidos pelo Espírito Santo. Com isso se pode confrontar a declaração paulina sobre como ele mesmo recebera «graça» e «apostolado», em Rom. 1:5, onde tais pensamentos são mais amplamente desenvolvidos. Através da graça geral de Deus, na eleição, ele recebera um ofício ou serviço específico, isto é, o apostolado. (Ver também Rom. 12:3 e as notas expositivas ali existentes a respeito da «graça divina», por meio da qual ele era capaz de exortar à igreja). Essa graça se encontra «.. .em Cristo...» A pessoa de Cristo é mencionada por nada menos de dez vezes, nos primeiros dez versículos desta epístola. Todas as bênçãos espirituais nos são propiciadas por meio de Cristo, como também todos os ministérios. Ele é o alvo mesmo de toda a existência humana, porquanto é em sua imagem, moral e metafisicamente falando, que estamos sendo transformados, participando assim da própria natureza divina, numa filiação autêntica para com Deus Pai. (Ver Rom. 8:29 e II Ped. 1:4). Embora muito perturbado ante a situação que imperava na igreja de Corinto, conforme o restante desta epístola no-lo demonstra claramente, Paulo ainda achava entre aqueles crentes muitos motivos pelos quais poderia agradecer a Deus, posto que muito fora feito em favor de Cristo, entre os coríntios, durante os dezoito meses que Paulo estivera entre eles, e muito fruto resultara de seus esforços, a despeito das corrupções morais e práticas que haviam penetrado ali. Quanto ao conceito da «graça divina», poderemos compreendê-lo melhor desdobrando-o nos seguintes pontos: 1. Pode estar em vista a sua natureza em geral, como é o caso da salvação que nos é dada em Cristo, segundo se vê no oitavo capítulo da epístola aos Romanos. 2. Pode estar em foco a sua eterna concessão, nos decretos de Deus, segundo se vê no primeiro capítulo da epístola aos Efésios. 3. Mas geralmente se frisa, particularmente, a sua concessão dentro do tempo, como quando o evangelho chegou aos habitantes de Corinto, através da pregação de Paulo. Cristo-Misticismo: 1. A expressão, em Cristo, se encontra por 164 vezes nas epístolas de Paulo. Conforme a maioria dos intérpretes, ela indica comunhão mística. Os crentes, por meio do Espírito, desfrutam de um genuíno contacto com Cristo, por causa do que estão sendo transformados segundo a sua imagem, e, portanto, estão adquirindo suas qualidades morais e também metafísicas (ver as notas em Col. 2:10). 2. Por conseguinte, a expressão subentende a participação no tipo de vida eterna que ele prometeu. (Ver notas completas sobre a «vida eterna», em João 3:15). 3. Estar em Cristo significa que o Espírito está conduzindo o crente de um estágio de glória para outro, ad infinitum. (Quanto a notas completas sobre esse conceito, ver II Cor. 3:18). Fica obviamente implícita a presença habitadora do Espírito (no crente, como seu templo—ver as notas em Efé. 2:20). 4. Em Cristo, os homens têm salvação, ou seja, a participação na própria forma de vida que Deus tem, a sua vida necessária e independente (ver as notas em João 5:25,26, e sobre a «salvação», em Heb. 2:3). A salvação é mediada através da filiação (ver Rom. 8:14-17), e nenhum indivíduo fora de Cristo (e, portanto, que não esteja «nele»), poderá aspirar a ser salvo. 5. Portanto, estar em Cristo significa participar da inteira plenitude de Deus (ver Efé. 3:19), isto é, possuir os seus atributos divinos, com base na participação em sua natureza. 6. Em segundo lugar, a expressão quer dizer «estar identificado com a comunidade cristã». Isso confere ao crente um novo endereço. Portanto, todo o crente tem dois endereços, um deles puram ente humano, a localidade onde ele vive; o outro é de ordem espiritual, a identificação com Cristo e a sua comunidade remida. 7. Essa expressão também fala de nossa união com Cristo, em seüs aspectos presente e eterno. Esse é o tema mais freqüente dos escritos de Paulo. No trecho de Rom. 6:3 aprendemos que fomos todos «batizados em Cristo». Uma vez mais, a comunhão ou participação em uma nova vida é o tema central. Em Rom. 8:10 lemos que Cristo está em nós. Podemos notar, em I Cor. 1:2, que esse estar em Cristo atua como elemento santificador. O trecho de I Cor. 1:30, por sua vez, mostra-nos que isso significa a obtenção da sabedoria, da retidão, da santificação e da
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    10 I CORÍNTIOS redençãoque há em Cristo. E a passagem de II Cor. 5:17 ensina-nos que aqueles que estão em Cristo devem ser, necessariamente, novas criaturas, seres que perenemente estão sendo transformados, até que Cristo seja perfeitamente formado neles. (Ver II Cor. 3:18 e as notas expositivas a respeito, quanto a esse tema). Ora, o alvo final de tudo isso é a perfeição absoluta. (Ver Rom. 8:28). E Efé. 2:13 é passagem que mostra que o estado de alienação de Deus é eliminado por essa nova participação na vida de Cristo. Essa, pois, é a comunhão mística do corpo com a cabeça, da Noiva com o Noivo celeste. Estar em Cristo, outrossim, significa estar em uma nova posição escatológica, isto é, sob o favor divino, no que tange ao segundo advento de Cristo e ao julgamento final, bem como no que concerne às realizações potenciais, da eternidade. Mas está envolvido ainda mais do que isso, conforme as notas expositivas acima o demonstram. Ver as referências seguintes, que usam essa expressão: Rom. 3:24; 6:3; 8:1,10; 12:5; 13:14; 16:7; I Cor. 1:2,4,30; 3:11; 15:22; 16:24; II Cor. 5:17; 13:5; Gál. 2:20,21; 3:27,28; 5:6; Efé. 1:1,3; 2:13; 3:17; Fil. 1:21; 3:3; Col. :1:27; 3:3,11 e II Tim. 2:1,10. Variante Textual·. As palavras «...meu Deus...» aparecem na .maioria dos manuscritos gregos posteriores, como ACDEFGLP, as versões latinas, siríacas, cópticas e armênias, incluindo os manuscritos que serviram de base para a formulação do Textus Receptus. Mas algumas cópias antigas dizem «...nosso Deus...», a saber, o ms 491 e alguns outros manuscritos sem importância especial. Contudo, alguns dos manuscritos mais antigos, como Aleph, B e algumas versões, como a etíope, e os escritos de Efraem, pai da igreja, não exibem nem «meu» e nem «nosso», mas dizem meramente «...graças a Deus...» E não há que duvidar que assim dizia o original. As variantes são glosas escribais de pequena monta. ★★★ 5 otl iv ττα ν τί ε π λ ο ν τ ίσ θ η τ ε €v α ν τ ίο , εν π α ν τ ι λ ο γ ω κ α ι ττα σ η γ ν ω σ β ί, 1:5: porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo o conhecimento, Paulo se sentia capaz de fazer uma avaliação verdadeira. Era verdade que aqueles crentes de Corinto passavam por um período difícil, e isso por culpa deles mesmos. Toleravam falsos mestres entre eles, estavam divididos em facções diversas, alguns dentre eles negavam até mesmo a validade do apostolado de Paulo, enquanto que outros abusavam dos dons miraculosos e seus cultos eram extremamente desordenados. Além de todos esses males, permitiam a permanência de pecados morais profundos. Aquela era verdadeiramente uma igreja cristã gentílica, que viera do paganismo, mas que continuava permeada pelo mesmo. A despeito disso, eram superiores moralmente ao mundo, pois tinham evidências do fato que a graça de Cristo operava entre eles. Estavam «...enriquecidos...» em Cristo, na comunhão mística descrita no versículo anterior. Tinham grande conhecimento das realidades espirituais, e, pelo menos em parte, haviam aplicado essas realidades à sua vida diária. Assim sendo, Paulo pôde dar graças a Deus (ver o versículo anterior). E agora se preparava para corrigir algumas deficiências que restavam naquela igreja local, conforme havia sido informado por vários elementos que tinham vindo de Corinto para Éfeso. Pouco mais adiante, Paulo haveria de criticar o «conhecimento» daqueles crentes, porque, de diversas maneiras, eles tinham abusado do mesmo. Tinham ficado orgulhosos por causa desse conhecimento. Paulo teve de mostrar-lhes que precisavam muito mais do amor cristão do que de conhecimento. (Ver I Cor. 1:18 - 2:5; 8:1-13 e a totalidade do seu décimo terceiro capítulo). «...palavra...» Está aqui em pauta a capacidade de expressar-se bem, segundo se procurava desenvolver essa habilidade nas escolas de retórica, o que os sofistas procuravam aplicar a seus sermões e discursos. Porém, talvez também haja aqui alusão ao «falar em línguas». Os crentes coríntios, todavia, haviam abusado até mesmo desse dom espiritual, o que provocou as longas explanações a respeito, encontradas no décimo quarto capítulo desta epístola. Vemos, por conseguinte, que até mesmo entre aquilo acerca do que Paulo podia agradecer a Deus, como manifestações do Espírito Santo entre os crentes de Corinto, havia de misturar alguma corrupção e abuso. Com esta passagem podemos comparar o trecho de II Cor. 8:7, onde Paulo tece elogios acerca da «fé», da «palavra» e dc «conhecimento» dos crentes coríntios. Ora, todas essas qualidades são dons do Espírito Santo, quando se manifestam em forma autêntica na igreja cristã. Mas cada um desses dons pode ser imitado e abusado. (Ver I Cor. 1:17 - 4:20 e 8:1 e ss.). 6 καθώς το μαρτνριον τον Χρίστον εβεβαιώθη 1:6: assim como ο testemunho de Cristo foi confirmado entre vós; (Quanto a um estudo completo sobre a pessoa do Senhor Jesus Cristo, ver o artigo introdutório, no começo deste comentário. Quanto a notas expositivas acerca de «Cristo», ver Mat. 1:16). «...o testemunho de Cristo...» Temos aqui o testemunho concernente à ■ pessoa de Cristo, a mensagem do evangelho com tudo quanto nele está implícito. Ora, os crentes de Corinto tinham ouvido e crido nesse testemunho, e assim se tinham convertido. Eram testemunhas vivas da realidade e do poder dessa mensagem que gira em torno de Cristo. (Ver João 1:7; Atos 1:8 e II Tim. 1:8). Paulo se refere aqui à sua própria pregação, que produzira tão abundante fruto em Corinto. (Ver Atos 18:10 onde Paulo, em um momento de descoroçoamento, e talvez de temor, recebeu a certeza de que ali haveria grande colheita de almas). Paulo ganhou coragem, e deu prosseguimento a seus labores naquela cidade, e a promessa divina se cumpriu. Sim, houve a «confirmação» da eficácia e do poder da mensagem que ele pregava. É exatamente a isso que Paulo se reporta aqui, ao dar início à menção das coisas «boas» que podia dizer sobre os crentes de Corinto, antes de começar as críticas a que se sentia forçado. Orígenes interpretava este versículo pensando tratar-se do testemunho que as Escrituras dão a respeito de Jesus Cristo, bem como do testemunho que Cristo deu acerca de si mesmo, por ter sido ele as «primídas» da humanidade, mediante a sua morte e ressurreição. O que Orígenes dizia é verdade; mas o que Paulo tinha em mente aqui era a sua própria exposição sobre a pessoa de Cristo na presença dos coríntios. «...confirmado...» Essa palavra pode ser compreendida de diversas 7 ώ στε υμάς μη ύστερεΐσθαί iv μηόβνί χαρίσματι, ’Ιησον Χρίστον- É possível que ο termo «...palavra...» inclua tanto o dom do ensino como o falar em línguas. Parece tratar-se de um vocábulo geral relacionado ao exercício de qualquer dom que envolva a capacidade de expressão. Apoio possuía esse dom de maneira suprema. (Ver Atos 18:24). Podemos estar certos de que em Corinto, onde havia famosas escolas de retórica, a capacidade de falar com brilhantismo em público era reputada como de grande valor; e podemos imaginar que, naquela igreja, os pregadores eram julgados de acordo com essa capacidade. De conformidade com os seus oponentes, Paulo se mostrava inadequado quanto a esse dom. (Ver II Cor. 10:10). Ele não era tão grande orador como eles pensavam que eram, e, por causa disso, desprezavam-no. É que a sabedoria humana, naquela comunidade cristã, havia tomado o lugar do ministério de ensino inspirado, e o orgulho pessoal havia destruído a humildade espiritual inerente, o que deveria caracterizar aqueles que realmente possuem dons espirituais. O poder oratório de Paulo dependia antes de sua profunda convicção, que ele expressava incisivamente. (Ver I Cor. 1:18; 2:4 e 4:20). O «...conhecimento...» aqui aludido é abordado pelo apóstolo Paulo como um dom espiritual, conforme vemos nas passagens de I Cor. 1:28; 13:2 e 14:6. O conhecimento verdadeiro é aquele que nos é conferido através do Espírito Santo, na forma de compreensão espiritual, algo de natureza intuitiva e até mesmo mística, e não meramente informações aprendidas em escolas seculares. A erudição acadêmica é boa e até mesmo necessária para muitas atividades, não sendo inerentemente má na igreja cristã. O padrão de todos os ministros deveria ser possuírem uma erudição básica. Não obstante, deveriam destacar-se sobretudo na erudição bíblica. E essa erudição pode ser obtida nas escolas e seminários teológicos. No entanto, os ministros do evangelho precisam de muito mais do que dessa erudição. Deve haver aquele ensino do Espírito, aquele conhecimento pessoal de Cristo e sobre as realidades espirituais que transcende a qualquer erudição aprendida em compêndios e escolas. «...todo conhecimento...» (Ver II Cor. 11:6 e as notas expositivas a respeito, onde Paulo, reivindica tal conhecimento de forma extraordinária para si mesmo. Ver Também I Cor. 8:1 e ss.). «...enriquecidos...» Essa palavra expressa a abundância e a variedade de seus dons espirituais, dando a entender que tudo isso lhes fora outorgado através de Cristo, em quem residem todas as riquezas espirituais. Diz Robertson (in loc.) acerca desse aspecto: «O crente encontra suas verdadeiras riquezas em Cristo, sendo esta uma das frases expressivas de Paulo, prenhe do mais autêntico misticismo». (Com isso comparar os trechos de Col. 3:16 e Rom. 2:4). €V ν μ ΐν , 6 Χρίστου] θεού B*G al sapt maneiras, a saber: 1. Poderia ser o testemunho cristão, estabelecido sobre bases duráveis, capazes de perdurar para sempre. 2. Poderia estar em vista a mensagem cristã, estabelecida como verídica e ■ válida, devido à influência que exercera sobre os crentes de Corinto. 3. Poderia estar em foco o testemunho do Espírito, em confirmação dessa mensagem, numa atuação que levou aqueles coríntios a acolherem 3 mensagem cristã com profunda convicção, lançando neles raízes pro^iru’nr- e seguras. É provável, entretanto, que todas essas verdades estejam inclusas aqui, ainda que seja indiscutível que a segunda e a terceira dessas possibilidades são diretamente referidas aqui. É notório que os sinais miraculosos tiveram papel decisivo nessa confirmação. (Ver I Cor. 12:4 e ss. e Heb. 2:4. Ver também I Cor. 2:4, onde Paulo diz especificamente que a sua prédica foi confirmada, não mediante palavras persuasivas, e, sim, mediante demonstração do Espírito e de poder. Com isso se deve comparar o trecho de Rom. 1:16, onde Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus). Variante Textual·. Ao invés de «...o testemunho de Cristo...», conforme lemos aqui, alguns manuscritos antigos dizem «o testemunho de Deus». Assim dizem os mss B (1) e G, além de algumas cópias da versão saídica. O texto que aparece nesta tradução portuguesa, entretanto, sem dúvida alguma representa o original, porque também é aquele que melhor se coaduna com o contexto. Pois se realmente o apóstolo tivesse escrito «o testemunho de Deus», teríamos de supor que isso envolve o testemunho do evangelho acerca da pessoa de Cristo, porque essa era a palavra de Deus que Paulo pregava. ά π ε κ δ ε χ ο μ έ ν ο ν ς τ η ν ά π o ká Á vip iv τ ο ν 7 την άττοκάλυψίν...Χρίστου Lk 17.30; 2 Th 1.7; Tt 2.13 κ ύ ρ ιο ν ή μ ω ν
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    I CORÍNTIOS 11 1:7:de maneira que nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, Os capítulos doze e catorze, desta mesma epístola, permitem-nos ver quão profuso era o exercício dos dons espirituais na igreja de Corinto. Paulo havia destacado o «conhecimento» e a palavra, no quinto versículo deste mesmo capítulo, como aqueles que mais caracterizavam os crentes dali. Todavia, as manifestações da «sabedoria», da «fé», dos «milagres», da «profecia», do «discernimento de espíritos», do «falar em línguas» e da «interpretação de línguas» também eram exercidas entre eles. Naturalmente que ao lermos como essas manifestações eram abusadas, não é impossível supormos que muitos daqueles que pensavam exercer tais dons, na realidade não o faziam por impulso do Espírito Santo, e, sim, através do impulso de outros «espíritos», de natureza humana ou demoníaca, ou proveniente de alguma outra dimensão espiritual que ainda não distinguimos. Além disso, esses dons podem ser imitados, até mesmo de forma intencionalmente fraudulenta, através do exercício da vasta mente subconsciente do homem; porque o homem é um ser espiritual, capaz de notáveis realizações espirituais, conforme os estudos modernos da parapsicologia têm demonstrado amplamente. É digno de atenção que em muitos centros espíritos, onde não se faz qualquer afirmativa de que o Espírito de Deus esteja em operação, muitos dos supostos dons espirituais, incluindo as manifestações miraculosas, são reproduzidos. Tem havido casos confirmados de blasfêmias e vulgaridades proferidas durante o «falar em línguas», nas próprias igrejas evangélicas, embora tudo seja feito em nome de Jesus Cristo. E claro que nada disso provém do Espírito de Cristo. Ver as notas expositivas adicionais a respeito da questão dos charismata, palavra grega que significa «manifestações espirituais», em Rom. 12:6, comentários esses que se aprofundam mais no problema aqui encontrado. Ver também o trecho de Atos 2:4 acerca do «dom do Espírito», que é idêntico ao «batismo do Espírito Santo». Ver também notas expositivas sobre o «falar em línguas», em Atos 2:4). Com base nas próprias palavras de Paulo, neste versículo, podemos supor que esse apóstolo considerava o uso dos dons espirituais, por parte dos crentes de Corinto, como manifestações legítimas do Espírito de Deus. Naturalmente, isso não quer dizer que ele considerasse como tais todas as manifestações ali havidas; pois certamente ele dá a entender, em I Cor. 12:39,30 e 14:26, que ele considerava espúria grande parte do uso desses dons, porquanto ele via a necessidade de regulamentar a utilização desses dons. E embora realmente seja admirável a profusão dessas manifestações, é possível que ali houvesse muito abuso, ainda que com boas intenções, sem a tentativa de fraude intencional, mas tão-somente de forma contrária à intenção e impulso do Espírito Santo. Outrossim, vemos que aqueles coríntios haviam se deixado arrastar por tremendo orgulho de seus talentos espirituais. Na realidade, Corinto contava com uma das igrejas cristãs mais carnais de todo ο N.T., pois ali se permitiam pecados graves, os quais se multiplicavam entre eles. Ora, esses abusos não nos dão a entender a existência de uma igreja local altamente espiritual, perfeitamente controlada pelo Espírito Santo. Assim sendo, muitos dos impulsos espirituais ali recebidos poderiam proceder de origens estranhas. Acerca disso, não obstante, nada podemos afirmar com certeza, embora seja óbvio que, no mundo moderno, encontramos tais manifestações espúrias, podendo nós ter a certeza de que não são verdadeiras manifestações do Espírito de Deus. «...aguardando vós a revelação...» Paulo faz aqui alusão à parousia ou segundo advento de Cristo, o que, evidentemente, ele esperava que ocorresse em seu próprio período de vida terrena. (Ver I Cor. 15:51 e ss., onde se pode notar a palavra nós, subentendida em nossa versão portuguesa, como se Paulo esperasse figurar entre os arrebatados, isto é, aqueles que não experimentarão a morte física. Com isso se pode confrontar o trecho de I Tes. 4:15, onde a referência ainda é mais clara). Paulo tinha essa expectação porque não antecipou o grande «hiato» de tempo que é a nossa «era da igreja». (Quanto a notas expositivas sobre o «arrebatamento», ver I Tes. 4:15. Quanto ao «segundo advento de Cristo», ver Apo. 19:11 e as notas expositivas ali existentes). A «...revelação...» ou segunda vinda de Cristo será uma espécie de cumprimento de todas as expectações dos crentes, do que todos os vários dons espirituais são apenas sinais preliminares. Compete-nos nosocuparmos numa vida cristã diária digna, incluindo nisso o exercício das manifestações espirituais, procurando assim revelar a Cristo na igreja e no mundo; mas o segundo advento de Cristo será uma revelação muito maior do que aquilo que atualmente podemos refletir. Não obstante, os crentes devem ser pessoas que se caracterizam por esse espírito de serviço e de expectação de sua vinda. (Ver Gál. 5:5; Fil. 3:20 e Heb. 9:28, quanto à nossa expectação pelo segundo advento de Cristo). «Os crentes de Corinto estavam ricamente abençoados com bens presentes, ao mesmo tempo que esperavam um bem que excedia a tudo: uma advertência tácita acerca da satisfação imaginária com o presente». (Findlay, in loc.). Paulo, pois, exalta essa atitude de expectação pela vinda de Cristo, tanto como uma elevada esperança, que aprimora a dedicação e as realizações cristãs, como também como um fator contra a altivez de .espírito, que impede os crentes de abusarem dos dons espirituais ou da vida cristã em geral, porquanto todos haveremos de prestar contas ao Senhor acerca de tudo isso. (Ver II Cor. 5:10). 8 os καί βεβαιώσει, ύμάς εω ς τέλους ανέγκλητους εν τη ήμερα του κυρίου ήμώ ν Ίη σ ο ΰ [Χ ρ ίσ το υ ]2. 8 Phpl.6; 1 Th 3.13; 5.23 ’ 8 ICI Xp^roi K A C D G P Í3 ! 81"‘ 88 104 181 326 330 436 451 614 ^ , p ç . ^ 4β I 629 630 1241 1739 1877 1881 1962 1984 2127 2492 2495 Byz Led itar’d'dem · J r 1 e.f.g.ri.t.x,* V g S yrp,h,pai C O p3 a.boarm origen // omit pi6B 1τ}μ€ρα παρουσία D G: die adventus e t vg | A ausência de Χρίστου tanto de P (46) quanto de B é notável. A presença de Ίησον Χρίστου nos versículos anteriores e seguintes pode ser tida como razão suficiente para Paulo não ter usado a palavra aqui, e para escribas ordinários terem-na inserido! Por outro lado, porém, a palavra pode ter sido omitida acidentalmente, na cópia (Χρίστου era usualmente escrita em forma contraída χγ) ou talvez deliberadamente, por razões estéticas (a fim de diferenciar a seqüência de três instâncias de Ίησου Χρίστον). Em face do apoio forte e variegado em apoio a Χρίστου (S A C D G P Ψ 33 81”* '*614 1739 e todas as versões), a comissão sentiu-se forçada a incluir o termo no texto, mas resolveu deixá-lo entre colchetes, para indicar certa dose de dúvida quanto à sua originalidade. 1:8: o qual também vos confirmara até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. (Quanto a outras referências ao «dia de Cristo», ver I Cor. 5:5; II Cor. 1:14; Fil. 1:6,10 e 2:16). O vocábulo «...dia...» é aplicado a várias ações divinas decisivas, usualmente na forma de julgamentos. (Quanto a essa questão, ver os trechos de I Cor. 3:13 e Apo. 19:19, bem como as notas expositivas acerca dos mesmos). O dia de Cristo revelará, isto é, lançará luz sobre os atos e motivos dos homens. E isso será através do juízo, da purificação, do exame perscrutador. Todavia, essa revelação também será a reversão da história antiga, bem como a inauguração de uma nova era ou dispensação. No que concerne aos crentes, essa revelação sujeitará a julgamento os motivos e ações dos crentes, conforme aprendemos em I Cor. 13:13 e II Cor. 5:10, onde essa questão é amplamente comentada. Mas essejuízo dos crentes não· visará a determinação da salvação ou da perdição, mas tão-somente o recebimento ou perda dos «galardões», isto é, dos prêmios espirituais em face da fidelidade e da obediência, o que assumirá a forma de uma maior transformação segundo a imagem de Cristo. Com essas idéias podemos confrontar algo que Paulo escreveu aos crentes de Filipos: «Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus». (Fil. 1:6). Os crentes de Corinto haviam sido «confirmados», segundo lemos no sexto versículo deste capítulo. E essa mesma palavra é aqui novamente usada. Paulo esperava que essa confirmação ou fortalecimento tivesse prosseguimento na experiência dos crentes de Corinto até à vinda de Cristo, o que haveria de libertá-los do fardo da luta e da tensão espiritual. Paulo esperava que essa libertação ocorreria quando do segundo advento do Senhor, pensando que continuaria pessoalmente vivo quando isso tivesse lugar. Também desejava que os crentes continuassem no âmbito da graça de Cristo, embora sempre melhorando e avançando no progresso espiritual, até àquele dia. Ora, essa continuação haveria de fazer dos crentes «...irrepreensíveis...», isto é,sem defeito, irreprováveis. Ele embalava a esperança de que essa condição haveria de caracterizar os crentes cada vez mais, culminando no dia de Cristo, quando tivessem eles de comparecer perante o «tribunal de Cristo». (Ver II Cor. 5:10 e as notas expositivas ali existentes, acerca dessa solene doutrina neotestamentária). Perante o «tribunal de Cristo» é que nós, os crentes, seremos julgados por aquilo que tivermos feito enquanto levamos conosco nossa casa de barro, o que envolverá tanto o «bem» como o «mal» que tivermos praticado. É óbvio, pois, que muitos crentes não serão declarados então «irrepreensíveis», no sentido absoluto do termo. É verdade que os remidos não serão lançados nas trevas exteriores, pois o Salvador nos garante isso; mas tais crentes sofrerão perda, ou, de acordo com o fraseado de I Cor. 3:15, «serão salvos como que através do fogo». Podemos supor que esse resultado dependerá em muito das capacidades que cada crente houver desenvolvido para servir ao Senhor. Aqueles que não forem «aprovados», por conseguinte, como que se mutilarão, espiritualmente falando, pois experimentarão uma menor transformação segundo a imagem de Cristo; e isso, por sua vez, os tornará menos capazes para o serviço. Na realidade, tornar-se-ão seres um tanto inferiores aos demais crentes. Não obstante, dificilmente podemos considerar que essa condição será permanente, visto que o alvo perene dos remidos será a transformação constante segundo o modelo que é Cristo; e esse processo prosseguirá pela eternidade afora, já que ele será sempre o grande alvo de toda a existência humana, tanto nesta esfera terrena como nos lugares celestiais. (Ver as notas expositivas acerca dos «que vivem e morrem no Senhor», em Rom. 14:7,8. Ver também os comentários sobre as «coroas» ou «galardões», em Rom. 14:10, onde o tema ventilado neste versículo é mais amplamente desenvolvido). Não obstante, Paulo tinha a fé que os crentes podem ser apresentados «irrepreensíveis» a Cristo, isto é, irreprováveis; e isso devido ao poder e à fidelidade de Deus, o que ele menciona no versículo seguinte. Não obstante, a advertência que aqui encontramos não é artificial. Existem outros passos bíblicos que nos mostram os perigos reais da «perda» espiritual, após a conversão, apesar de haver outros trechos das Escrituras que nos mostrem
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    12 I CORÍNTIOS queCristo, finalmente, salvará todas as suas ovelhas, sem faltar uma sequer. Essa perdição, portanto, talvez diga respeito meramente ao «tempo», isto é, ao longo da história da alma, ela pode desviar-se do rebanho. Mas isso diz respeito somente à longajornada da alma, ou seja, só pode ocorrer enquanto estiver em algum ponto de sua experiência. Por outro lado, a segurança dos crentes é «absoluta», o que significa que, finalmente, ou neste mundo ou do outro lado da barreira a que chamamos de «morte física», Cristo trará de volta a si toda a ovelha que porventura se tiver desviado, porque isso nos foi garantido por suas promessas. (Quanto a notas expositivas completas acerca desse conceito, onde também apresentamos várias outras interpretações dos eruditos, ver Rom. 8:39). Paulo apresenta aqui uma mui severa advertência. É possível, portanto, a um crente ser «reprovado» ante o tribunal de Cristo. E isso pode dar a entender uma «queda», embora isso não tenha sido diretamente afirmado. Seja como for, trata-se de um soleníssimo aviso. E isso faz com que aquilo que praticamos e somos, através do Espírito Santo, na presente existência, seja algo revestido de suprema importância. Paulo queria que, quando do tribunal de Cristo, estejamos «livres de 9 πιστός ο θεός δι’ ου εκλήθητε είς κοινωνίαν τοΰ 9 7Γ1aros ò 0eós Dt 7.9; 1 Cor 10.13; 1 Th 5.24 1:9: Fiel i Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. A confiança que Paulo tinha no poder e na fidelidade de Deus levou-o a crer que poderiam ser vencidos os erros em que estavam envolvidos os crentes coríntios, a fim de que fossem declarados inculpáveis quando tivessem de comparecer ante o «tribunal de Cristo». De fato, a salvação, em todos os seus variegados aspectos, depende inteiramente da fidelidade de Deus, ainda que, por outro lado, dependa igualmente da resposta afirmativa do homem, que é dotado de livre-arbítrio; pois, de outro modo, a responsabilidade humana será uma falsa noção ética, e a justiça, a recompensa e a retribuição seriam simplesmente impossíveis. Nenhum ser humano pode vir a Cristo, ou permanecer-lhe fiel, sem a ajuda decisiva do Espírito Santo, o qual ò conquista e sustém, transformando-o gradativamente segundo a imagem de Cristo. Isso é uma obra da alçada exclusiva de Deus, embora ao homem caiba corresponder afirmativamente a cada passo do caminho. Se não houver essa cooperação por parte do crente, a obra divina pode ser paralisada em sua experiência, passando ele a agir de modo contrário à carreira cristã. Tudo isso é salientado nas notas expositivas a respeito do «julgamento dos crentes», no terceiro capítulo desta epístola e no quinto capítulo da segunda epístola aos Coríntios, onde Paulo adverte severamente aos crentes acerca dessas questões. No entanto, o apóstolo confiava e se mostrava otimista. Aquele que é fiel—Deus—é também aquele que nos chamou para a intimidade ou comunhão com Cristo. Deus deu início à obra que se seguiu ao seu decreto, e agora garante que, finalmente, as ovelhas chamadas atingirão o alvo colimado. O fato que tanto essa chamada como o seu resultado final dependem da fidelidade de Deus é uma verdade que também aparece em outros trechos bíblicos, como, por exemplo, em I Cor. 10:13; I Tes. 5:24; Rom. 8:30 e Fil. 1:6. Deus é o agente, é a causa eficiente e final dos altos propósitos que envolvem a redenção do homem. O Senhor é «...fiel...», isto é, mostra-se «constante», jam ais hesitando em seus propósitos, porquanto se mostra leal para com os seus remidos, de tal modo que aquilo que foi por ele iniciado, também será levado à perfeição. Ê lamentávelque os judeus incrédulos, posto que religiosos, imaginassem que a fidelidade de Deus pode ser ilustrada pela fidelidade humana. Por essa razão, costumavam narrar a seguinte história: «O rabino Simeão, filho de Setaque, comprou um asno de alguns edomitas. No pescoço do animal seus discípulos viram um diamante, dependurado; e lhe disseram: Rabi, a bênção do Senhor enriquece {Prov. 10:22). Mas ele lhes respondeu: Comprei o asno, mas não o diamante. E, assim dizendo, devolveu o diamante dos edomitas. E assim, com base na fidelidade humana, podemos conhecer a fidelidade de Deus». Uma vez mais, neste versículo, o nome do Senhor Jesus Cristo é repetido. Por nada menos de dez vezes é reiterado o nome do Senhor, nos primeiros dez versículos do capítulo que ora comentamos. Crisóstomo supunha que a razão disso é que o apóstolo queria desviar seus leitores originais do espírito de partidarismo, fazendo seus olhos se voltarem para a única cabeça da qualquer acusação». Pois nem todos os crentes estarão isentos dessa acusação merecida, pois os crentes serão ali julgados com justiça. A advertência paulina, assim sendo, é séria. Variante Textual·. Os mais antigos manuscritos, como P (46), Aleph, ABCLP, bem como as versões siríaca, cóptica e armênia dizem «...no dia...», ao passo que os outros manuscritos e versões dizem «no aparecimento», isto é, quando do «aparecimento de Cristo», conforme se verifica nos mss DEFG e nos escritos de Ambrosiastro, pai da igreja. Mas a primeira variante é que conta com o apoio mais digno de confiança. A outra variante consiste de uma modificação para um termo sinônimo. Ê interessante que o ms B omite a palavra «Cristo», o que também se verifica no mais antigo manuscrito de I Coríntios—P (46). E isso é uma prova conclusiva em favor da omissão dessa palavra, ainda que, no que tange aos títulos divinos, era algo perfeitamente natural os escribas omitirem ou expandirem os mesmos. E isso dificulta a averiguação do que dizia exatamente o original a esse respeito. Pois a verdade é que ambos os títulos eram freqüentemente usados pelo apóstolo Paulo. (No que concerne a comentários sobre o título completo, «Senhor Jesus Cristo», ver o trecho de Rom. 1:4, onde também há notas expositivas sobre o «senhorio de Cristo». υΐοΰ αύτοΰ Ίησοΰ Χρίστου τοΰ κυρίου ήμών. κοινω νίαν...ήμώ ν 1 Jn 1.3 igreja, isto é, a pessoa de Cristo. «Õ gloriosa expectação, sobretudo quando a fidelidade de Deus sai em apoio às nossas esperanças! Aquele que nos chamou para a intimidade com seu Filho, é fiel, e ele o fará. (Ver I Tes. 5:24)». (Matthew Henry, in loc.). «...à comunhão do seu Filho...» (Ver as notas expositivas sobre o «misticismo de Cristo», no quarto versículo deste mesmo capítulo. Comparar com os trechos de Rom. 8:17; Fil. 3:10 e ss.). Essa comunhão ou intimidade existe desde agora. Trata-se da comunhão de que desfruta a família divina, a comunhão comum à mesma, produzida pela filiação a Deus, conforme fica indicado no título aqui usado para destacar a pessoa de Jesus, o «Filho». Ora, essa intimidade se estende por toda a eternidade, conforme o oitavo capítulo da epístola aos Romanos tão claramente nos mostra. Nisso consiste a condução de muitos filhos à glória, todos os quais seguem o grande modelo, que é o Filho de Deus. (Ver Heb. 2:10). A comunhão de que desfrutamos em Cristo é uma intimidade mística, efetuada pelo Espírito Santo, conforme lemos nos trechos de Rom. 8:9 e ss.; II Cor. 13:13 e Fil. 2:1. O apóstolo dos gentios frisa essa questão da comunhão, e essa com o Filho de Deus, que é o Senhor e o Cristo, imediatamente antes de prosseguir e mostrar como os crentes de Corinto vinham ignorando e abusando dessa comunhão, através da tolerância a um espírito de partidarismo, fazendo de líderes humanos os seus «senhores», com o que, por outro lado, negligenciavam o senhorio de Cristo. Com essa atitude, pois, haviam quebrado a unidade da igreja cristã. Em contraste com isso, aquele que se mostra atento para com a sua responsabilidade diante de Cristo e que aceita o senhorio de Cristo e a comunhão com ele, mostrar-se-á lento em reconhecer no homem, em qualquer homem, essa forma de autoridade e de reivindicação de sua lealdade. Pelo contrário, será um pacificador e um promotor da unidade da causa de Cristo, a igreja cristã. O vocábulo«...comunhão...» dá a entender a participação em uma causa ou sociedade comum. (Ver II Cor. 13:13 e ss.; Fil. 2:1 e 3:10). Essa palavra significa «intimidade», sobretudo no que tange ao amor e à paz. (Ver Atos 2:42; Gál. 2:9; II Cor. 6:14 e I João 1:3,7). Nas questões práticas, essa comunhão se manifesta na forma de contribuições e de partilha das necessidades básica com os irmãos. (Ver II Cor. 8:4; 9:13 e Fil. 1:5). O sentido fundamental dessa palavra é «tornar-se sócio», «participar de», «ter contacto mútuo com». Proíbe, Senhor, que porventura Eu me contente em viver longe de Ti, Que eu tome o caminho que planejei, E desconsidere Tua mão orientadora. Oh, Salvador, não tenho ninguém por quem pleitear, na terra cá embaixo, ou nos céus acima, A não ser a minha profunda necessidade, e teu grandiosissimo amor. (Jane Crewdson). ★★★ II. O Problema das Divisões'Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21) 1. Polêmica contra tais divisões (1:10- 4:21) a. Exaltar o homem é substituir a Cristo (1:10-17). 10 Παρακαλώ δε υμάς, αδελφοί, διά τοΰ ονόματος τοΰ κυρίου ήμών Ίησοΰ Χρίστου, ϊνα το αυτό λεγητε παντες, και μη η εν ύμϊν σχίσματα, ήτε δε κατηρτισμενοι εν τώ αύτώ νοϊ και iv τη αύτη γνώμη. 10 ή τ€ ...ν ο ΐ Php 2.2 1:10: Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que sejais concordes no falar, e que não haja dissensões entre vís; antes sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer. Com a palavra «...Rogo-vos...» podemos comparar o trecho de Rom. 12:1. Visto que Paulo sentia intensamente essa questão, «pleiteou» com os crentes coríntios no tocante à sua altivez e divisões partidárias. O significado dessa palavra é «encorajar», «exortar», «implorar com intensidade», fazendo um apelo sério e apaixonado. Quando se torna um substantivo, «rogo», significa «exortação», «encorajamento», «apelo», e, ΙΟ σχίσματα] -μα J)4833 sa algumas vezes, por semelhante modo, «consolo». No presente contexto, entretanto, está em foco o seu sentido de apelo intenso. Era motivo de interesse supremo para o apóstolo dos gentios o que sucedia na igreja cristã de Corinto. Podemos perceber a grande dedicação dePauloà causa do Senhor nesse mesmo apelo. No momento ele se encontrava em Éfeso e tinha muito trabalho a realizar ali; todavia, nunca se sentiu livre, mental e espiritualmente, da responsabilidade por outras «tarefas» que havia completado e deixado. No décimo primeiro capítulo da segunda epístola aos Coríntios, Paulo repassa as suas muitas «credenciais» que tinha como apóstolo, e, nessa descrição, fala sobre toda a exaustão, a
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    I CORÍNTIOS 13 fidelidade,as provações, os jejuns, os perigos e as ameaças que experimentou, a fim de cumprir devidamente a sua missão. Entre as coisas que recebiam seus cuidados especiais, que constituíam sua grande preocupação, destacava-se o «cuidado por todas as igrejas». Sim, Paulo não foi um ministro ordinário mas foi o grande apóstolo dos gentios, tendo sentido profundamente o peso da responsabilidade que recaíra sobre os seus ombros. (Ver o tema dos «apelos de Paulo a seus seguidores», com maior amplitude, nas notas expositivas atinentes ao trecho de Rom. 12:1). «...pelo «orne...» Pela décima vez o apóstolo usa o nome de Cristo, desde o começo desta epístola. O nome de Cristo é utilizado por mais vezes, nesta primeira epístola aos Coríntios, do que em qualquer dos demais livros de Paulo. O senhorio de Cristo é fortemente enfatizado do princípio ao fim da mesma. Esse apóstolo conclamava aos crentes para que abandonassem o espírito de partidarismo, para que deixassem de seguir a meros líderes humanos, entrando em harmonia uns com os outros, na unidade que deve haver na comunidade da igreja cristã, quando, somente então, Cristo poderia tornar-se, verdadeiramente, o Senhor de todos. «O nome de Cristo era o vínculo de união e a realidade mais santa à qual poderiam prestar lealdade». (Stanley). «...irmãos...» Um tratamento afetuoso, afim de mostrar que nada dizia Paulo motivado pela malícia ou pelo despeito, mas tão-somente porque aqueles crentes também pertenciam ao mesmo Senhor, e formavam uma única família com todo o povo de Deus. Comentam Robertson e Plummer (in loc.), a respeito desse vocábulo: «Usado com grande afeto, especialmente quando algo de doloroso precisa ser dito (ver I Cor. 7:29; 10:1 e 14:20). Provavelmente subentende que Paulo conhecia pessoalmente a muitos daqueles aos quais se dirigia; e isso explica a ausência desse tratamento nas epístolas aos Efésios e aos Colossenses». «...que faleis...» Temos aqui, no original grego uma expressão idiomática, extraída da vida política, cujo sentido é «estar em paz», ou «resolver as diferenças», isto é, viver em harmonia, mediante a reconciliação. (Ver Aristides, pol. III.iii). O apóstolo Paulo, pois, demonstrou familiaridade com uma expressão idiomática grega comum, o que talvez sirva para mostrar-nos que ele aprendeu a falar esse idioma desde a infância. (Quanto à sua familiaridade com os autores gregos, o que sem dúvida fazia parte de sua educação, desde seus tenros anos, ver os trechos de I Cor. 15:34; Rom. 2:14 e Atos 17:28). Paulo desejava que os crentes de Corinto estivessem acordes em suas palavras; mas também era mister que houvesse entre eles harmonia e concórdia de espírito, que é a fonte originária de onde as palavras harmoniosas provêm. Portanto, ele diz aqui, indiretamente, que tinha consciência das dissensões e argumentações, fomentadas por uma atitude condenável, que havia entre eles, o que provocava calorosas polêmicas entre irmãos na fé. (Ver o décimo segundo versículo deste mesmo capítulo onde se percebe ao menos parte de suas dissensões verbais). Cada grupo, em que aquela comunidade cristã se dividira, defendia os seus próprios líderes escolhidos, os heróis de cada facção, e isso com profusão de palavras. Mas isso simplesmente demonstrava o espírito contencioso que permitiram que surgisse entre eles. «...entre vós divisões...» A palavra «...divisões...» significa «dissensões». (Comparar com João 7:43 e 19:16). Também significa «cismas», «partidos». Entre aqueles crentes havia «cismas» heréticos, e é bem possível que essa palavra queira dar a entender exatamente isso. Paulo se referia principalmente àquelas facções que haviam sido criadas em torno das supostas lideranças de Paulo, de Apoio e de Cefas (ver o décimo segundo versículo deste mesmo capítulo); mas também não devemos esquecer que Paulo foi lorçado a defender igualmente o seu apostolado. Havia elementos judaizantes e outros falsos mestres, que haviam conquistado o coração dos discípulos, dividindo ainda mais aquela igreja cristã. Por conseguinte, nessas divisões, estavam envolvidas não apenas questões pessoais, e, sim, por igual modo, questões doutrinárias. A igreja cristã de Corinto fora uma túnica inconsútil de unidade, quando Paulo se encontrava entre eles; mas agora aquela comunidade estava desfacelada pelas dissensões, as facções haviam produzido muitos rasgões.' É que essa palavra, «dissensões», aqui usada, no original grego também significava «roturas» em peças de pano. (Pode-se ver esse uso do termo em Marc. 2:21). Aqueles que não haviam respeitado a unidade dos irmãos, na igreja, haviam rasgado impensadamente o pano da unidade cristã, destruindo o tecido da harmonia que havia antes caracterizado aquela congregação local. Vincent (in loc.) alista algumas das razões havidas por detrás dessas divisões, dizendo: «Aqui, ‘facção’...divisão dentro da comunidade cristã. As divisões da igreja cristã surgiram em torno de questões como o casamento e os alimentos (I Cor. 7:3,5,12); como a ingestão de alimentos oferecidos a ídolos (I Cor.8:7 e 10:20); como o valor comparativo dos dons espirituais, como o falar em ‘línguas’ (décimo quarto capítulo); como os privilégios e a conduta das mulheres nas assembléias (I Cor. 11:5-15); como as relações entre os crentes ricos e os crentes pobres, no agape ou festa de amor (I Cor. 11:7-22); como as prerrogativas dos diferentes mestres cristãos (I Cor. 1:12,13 e 3:3-22)». A essa lista poderíamos acrescentar a questão dos falsos apóstolos e das divisões por eles causadas, conforme a descrição do nono capítulo desta epístola. Em sentido geral, aquilo que Hodge diz (in loc.), mui provavelmente é correto: «...em seu sentido eclesiástico (essas divisões) eram separações não autorizadas que as dividiam da igreja. Contudo, o que havia em Corinto não pertencia à categoria de sèitas hostis, cada qual se recusando a ter contacto com as demais, e, sim, divisões que tendem por surgir no seio de uma mesma comunidade, constante da alienação de sentimentos e do partidarismo contencioso». «...antes sejais inteiramente unidos...» Essas palavras, «....inteiramente unidos...», dão a entender o reajustamento de peças quebradas ou rasgadas por alguém, formando novamente uma peça inteira e unida. Isso exigia a concórdia mental, a unidade de propósitos, um sentimento singelo, o qual tem por seu objetivo agradar a Cristo, contribuindo para a unidade, para a harmonia e para a paz no seio da comunidade. (Ver Mat. 4:21, sobretudo a expressão «consertando as redes»). No original grego, era um termo dos cirurgiões, para dar a entender o reajustamento de uma junta; e, na linguagem dos políticos gregos, indicava a «composição de facções». (Ver Herod. 5:28). «...na mesma disposição mental...», isto é, com concórdia mental e nos sentimentos, em seus desígnios e em seus alvos. Se fosse atingida essa mesma disposição mental, não seria difícil produzir a unidade prática. O que está aqui em foco é a idéia de «atitude mental», «atitude sentimental». «...no mesmo parecer...» A palavra grega que há por detrás dessa tradução, «gnome», significa «propósito», «intenção», «mente», «opinião», «parecer». Também pode significar «conhecimento prévio», «decisão», «declaração». É bem provável que, no presente texto, isso signifique as decisões feitas, osjuízos proferidos, em resultado do temporamento geral ou disposição mental harmoniosa de todos, o que é mencionado imediatamente antes. Em quaisquer decisões a que tivessem de chegar, em quaisquer declarações ou opiniões expressas, deveriam andar unidos, em uma unidade originada pela concórdia mental. Em outras palavras, Paulo exortava-os a que desistissem de suas crenças e preferências errôneas e egoístas, de seus partidos e facções, a fim de buscarem estabelecer a unidade de propósitos desde o íntimo. Essas duas palavras gregas, que podem ser sinônimos quando usadas'juntas, de conformidade com Alford (in loc.), significam «disposição e opinião». Hodge, por sua vez, sugere (in loc.), «sentimentos e opinião». 11 εδηλώθη γάρ μοι περί υμών, αδελφοί μου, υπό τών Χλόης δτι εριδες iv ύμ 1:11: Pois α respeito de vis, irmãos meus, fui informado pelos da família de Cloé que há contendas entre vis. «...Cloé...» é um nome próprio feminino que, no original grego, significa «verde», no sentido de «inexperiente», «jovem», «inocente». Não se sabe' dizer se ela mesma era crente ou não, como também não sabemos precisar se ela residia em Corinto ou em Éfeso, onde Paulo compôs esta primeira epístola aos Coríntios. O mais provável é que ela residisse em Éfeso, e que as pessoas de sua casa, aqui mencionadas, fossem escravas que tinham entrado em contacto com os crentes de Corinto, tendo podido observar seu espírito contencioso. É provável que grande parte do material constante nos capítulos primeiro a sétimo desta epístola, onde o apóstolo descreve os vários problemas surgidos em Corinto, fossem baseados em informes recebidos por Paulo através do relatório feito por aqueles crentes simples. Eles sabiam reconhecer uma desgraça, onde quer que a encontrassem, ao passo que aqueles cristãos de Corinto, altivos em seu orgulho pessoal, julgavam-se crentes altamente espirituais, especialmente porque manifestavam abundância de manifestações espirituais. A verdade, entretanto, é que eram crentes carnais. O terem sido chamados de «carnais», mui provavelmente, deve tê-los surpreendido e ofendido. É extremamente fácil sermos enganados pelo nosso próprio egoísmo, quando está em pauta o verdadeiro estado de nossa alma e de nossa expressão religiosa. Paulo precisou informar aos crentes de Corinto quais haviam sido os seus informantes, a fim de remover qualquer suspeita contra iv εισιν. Estéfanas (ver I Cor. 16:15) ou contra Sóstenes —não fossem os coríntios pensar que esses líderes se tinham mostrado delatores. Queria que aqueles crentes soubessem que ninguém, dentre sua própria comunidade, os tinha acusado. Pois não desejava criar ainda maior dose de sentimentos amargurados e motivos de dissensões. E assim informou-os sobre quem lhe dera notícias tão desagradáveis. O apelativo Cloe era usado como epíteto de Demétria, deusa da terra e da agricultura. Por esse motivo é que alguns eruditos têm pensado que a alusão' que Paulo faz aqui é a alguma pessoa aderente, atual ou anterior, da adoração a essa deusa pagã, a qual teria sido sua informante. Mas é evidente que isso não está incluso nas idéias do texto. Antes, Cloé foi uma pessoa verdadeira, a qual, embora talvez residente em Éfeso, evidentemente conhecia os crentes de Corinto. E isso subentende que ela mesma era uma irmã na fé. Outros estudiosos têm pensado que os informantes de Paulo são apontados por nome em I Cor. 16:17; mas isso não passa de mera conjectura, porque não há qualquer evidência textual ou histórica a respeito. «...contendas...» Palavra que significa «disputas», «debates verbais». Platão, em sua obra, «República», distinguiu entre «disputas» (no grego, «erides», o vocábulo aqui utilizado) e «discussões» (no grego, «dialegesthai»), (Ver v. 454). Tais «disputas» ou contendas são alistadas entre as «obras da carne», no trecho de Gál. 5:19 e ss., bem como nos catálogos dos vícios de personalidade, em II Cor. 12:20; Rom. 1:19 e ss. e I Tim. 6:4. 12 λέγω 8è τοΰτο, δτι έκαστος υμών λέγει, ’Εγώ μεν είμι Παύλον, ’Εγώ δε Άπολλώ, ’Εγώ δε Κηφά, Εγω Se Χρίστου. 1 2 I Cor 3.4 Ά π ο λ λ ώ Αο 18.24-28 Κ η φ ά Jn 1.42
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    14 I CORÍNTIOS 1:12:Quero dizer com isto, que cada umde vós diz: Eusou de Paulo; ou Eu de Apoio; ou, Eu de Cefas; ou Eu de Cristo. (Quanto a notas expositivas completas sobre Paulo, ver o artigo que versa sobre ele, na introdução ao comentário, intitulado A Importância de Paulo. Ver sobre «Apoio», nas notas expositivas sobre Atos 18:24. Quanto a «Cefas» ou Simão Pedro, ver os comentários acerca de Luc. 6:12, onde há uma lista dos doze apóstolos, com breve descrição sobre cada um deles. Quanto ao «apostolado», ver Mat. 10:1. Quanto ao uso mais amplo do termo «apóstolo», ver Atos 14:4. Quanto a «Cristo», ver as notas expositivas sobre Mat. 1:16. E quanto a um estudo mais completo acerca da vida e dos . ensinamentos de Jesus Cristo, ver o artigo que versa sobre esse tema, na introdução ao comentário). As «...contendas...» aludidas no versículo anterior, são agora identificadas, ou, pelo menos, são apontadas as questões principais. Sem dúvida havia vários outros pontos de atrito, conforme se percebe no teor dos capítulos primeiro a sétimo desta epístola. Mas Paulo dá início às suas críticas atacando as facções existentes naquela igreja, em que a «adoração a heróis» substituía a adoração que deve ser conferida exclusivamente ao nosso grande Herói, o Senhor Jesus. Quão comum essa atitude é até hoje, entre os crentes. As próprias denominações evangélicas são resultados e propagação desse mesmo espírito, pois, para a esmagadora maioria dos crentes, não é suficiente serem eles chamados «cristãos». Precisam ser identificados com os títulos de batistas, metodistas, presbiterianos, pentecostais, luteranos, etc. Mas isso é gloriar-se em outros nomes, que não o nome de Cristo. Os amigos ou escravos de Cloé, portanto, anunciaram ao apóstolo Paulo o que ocorria na igreja de Corinto, pois percebiam claramente como essas dissensões desonravam o nome de Cristo. E aqueles que defendem denominações e facções, exaltando assim outros nomes que não o de Cristo, por semelhante modo, ordinariamente não percebem oopróbrioque essa atitude faz redundar contra Cristo e a sua causa. Por isso mesmo será necessário que Cristo restaure a unidade orgânica de sua igreja, o que sem dúvida terá lugar antes de sua vinda. (Ver João 17:21-23 e Efé. 5:27). Paulo é quem fora o fundador da igreja cristã em Corinto. Portanto, seu nome era ali reverenciado. Alguns membros daquela congregação se mantiveram leais a ele, quando surgiram disputas em torno da autenticidade de seu apostolado. Mas alguns de seus seguidores, em seu zelo em favor de Paulo, obscureceram assim o nome de Cristo. Também não há que duvidar que Simão Pedro havia visitado Corinto. E alguns dos crentes de tendências mais legalistas, ou, pelo menos, alguns membros judeus daquela igreja, sentiram uma afinidade natural por Cefas. Todavia, os crentes que eram gentios puros sentiam maior afinidade por Paulo. Além disso, Apoio era um eloqüentíssimo judeu alexandrino, sendo o líder cristão mais filosófico que se conhecia, e os irmãos com tendências para a eloqüência e a filosofia passaram a apoiá-lo, o que não podiam fazer no caso cdo apóstolo mais tipicamente judaico, Pedro. E assim, de conformidade com os sentimentos e com as preferências pessoais, foram coroados pela multidão dos discípulos de Corinto vários «heróis». E, nessa confusão, o nome de Cristo foi esquecido. Além disso, cada um desses três famosos líderes cristãos havia obtido conversões; e os seus convertidos, naturalmente, tendiam por alinhar-se junto a eles, tudo o que contribuía para aumentar as facções, o número daqueles que se deixavam levar pelas dissensões. É interessante que havia também o partido de Cristo. Mui provavelmente esse partido era formado por crentes coríntios que negavam a autoridade daqueles três citados líderes, e então, talvez com um ar de superioridade espiritual, se declararam seguidores verdadeiros de «Cristo», em contraste com os demais membros da igreja, cujos «heróis» eram apenas grandes vultos do cristianismo. E possível que esse quarto grupo reivindicasse receber revelações diretamente da parte de Cristo, julgando-se assim elevados acima do nível comum dos crentes.Quiçá se mostrassem hostis para com toda a autoridade «humana», sendo os mais orgulhosos de todos os grupos facciosos aqui mencionados. Na verdade, não.possuímos qualquer informação sobre eles, e, assim, podemos tão-somente conjecturar sobre a natureza deles. Os ataques mais fortes de Paulo foram dirigidos contra os que se diziam partidários de «Cefas» e os que se diziam seguidores de «Apoio». Podemos imaginar, pois, que esses dois partidos eram formados, por membros judeus altivos da igreja de Corinto e pelos elementos de inclinações intelectuais, respectivamente. «Paulo discutiu o problema dessas facções pí)r todo o restante dos capítulos primeiro a quarto. Ele apresentou quatro acusações contra o espírito de partidarismo: a. As facções davam a líderes particulares uma posição que somente Cristo pode ocupar (I Cor. 1:13-17). b. Muitos dali estavam considerando os apóstolos como mestres de filosofia, e não como pregadores da Palavra da cruz (I Cor. 1:18- 2:5). c. A verdadeira sabedoria, concedida pelo Espírito de Deus não era aquela que aquele espírito faccioso pensava (I Cor. 2:6- 3:4). d. Aquelas divisões faziam dos apóstolos rivais, e não cooperadores sob as ordens de Cristo (I Cor. 3:5-23). O quarto capítulo conclui essa discussão com várias formas de apelo pessoal, porquanto Paulo era grande estudioso da natureza humana, não caindo na ilusão de pensar que bastava a lógica para determinar a conduta dôs homens». (C. T. Craig, in loc.). Devemos observar como Apoio se recusara a participar desse espírito faccioso, e como, com base nisso, se recusara a retornar a Corinto, a fim de que sua fama e influência não viessem a contribuir para exacerbar ainda mais as controvérsias que rugiam naquela comunidade cristã. (Ver I Cor. 16:12). Pedro, por sua vez, tomara posição ao lado de Paulo, devido ao problema do legalismo. (Ver o décimo quinto capítulo do livro de Atos). Não há qualquer evidência em favor da idéia, defendida por alguns eruditos, de que não havia qualquer dissensão duradoura entre eles, embora o trecho de Gál. 2:7-10 nos mostre que as águas, ali, nem sempre se mostravam tranqüilas. Entretanto, Pedro pode ser classificado com os líderes cristãos «liberais», no tocante à questão do legalismo, e não com o grupo radical de Jerusalém, que pretendia obrigar os gentios a se tornarem judeus, mediante a circuncisão e a observância dos preceitos mosaicos, antes de se tornarem cristãos. (No que respeita a um estudo sobre o problema legalista, surgido na igreja primitiva, ver as notas expositivas sobre Atos 10:9). O apelativo Cefas é o aramaico para o nome próprio «Petros», traduzido em português por Pedro. (Ver João 1:42). «Petros» significa «seixo»; um vocábulo grego cognato, «petra», significa «rocha». Essa distinção tem algo a ver com a exegese de Mat. 16:16-18. Todavia, o termo aramaico «cefas», significa tanto «seixo» como «rocha». Ê interessante que Paulo ordinariamente usava «Cefas», e não Pedro, quando se referia ao apóstolo da circuncisão. Somente em Gál. 2:7,8 é que temos uma exceção a essa regra. Alguns intérpretes têm identificado o «partido de Cristo» com os amargos oponentes do apostolado de Paulo, conforme se vê nos trechos de II Cor. 10:7,10,11 e 11:4,23. Os membros desse partido julgavam-se cristãos especiais, rejeitando toda a autoridade humana fora da deles mesmos. Essa facção estaria em rebeldia aberta e declarada contra Paulo. Porém, apesar dessa facção existir, não sabemos como identificá-la com o «partido de Cristo», que aparece no presente versículo. Mas, pelo menos vemos o tipo de situação contra a qual Paulo se insurgiu. Os Primórdios Das Denominações 1. Havia os legalistas: o herói deles era Pedro. 2. Havia os intelectuais e filósofos: o herói deles era Apoio. 3. Havia os liberais: o herói deles era Paulo. 4. Havia os cristãos; o herói deles era Jesus. Provavelmente esse grupo se compunha de místicos, e por certo eram exclusivistas, reivindicando para si mesmos um conhecimento e uma experiência superiores que os membros das demais facções de Corinto. Parece que esse grupo negava ter conexão com qualquer herói humano, jactando-se de uma pureza maior. Não formavam uma denominação—compreenda-se bem! Estavam acima desse tipo de coisa. Na verdade, talvez tivessem sido a denominação mais estrita, dentre aquelas em formação, por serem o grupo mais exclusivista. Quão moderna é essa situação toda? Ainda não se passara tempo suficiente para aqueles grupos se separarem de vez em igrejas distintas, mas isso não deve ter demorado muito tempo. Pelos fins do segundo século da era cristã, havia mais de vinte grupos cristãos diferentes, organizações completamente separadas umas das outras, todas elas reivindicando alguma proximidade especial a Cristo, e algumas até mesmo reivindicando singularidade: segundo sua opinião, eles eram os únicos verdadeiros cristãos! Parece que coisa alguma é capaz de curar o coração humano desse tipo de mentalidade e dessa forma de atividade. Shore (in loc.) classifica os diversos grupos mencionados neste versículo, como segue: 1. O partido da liberdade (seguidores de Paulo). 2. O partido intelectual (seguidores de Apoio). 3. O partido judaizante (seguidores de Cefas). 4. O partido exclusivista (aqueles que diziam, ‘sou de Cristo’). Ê bem provável que a natureza geral de cada facção possa ser indicada por meio dessas descrições simples. 13 μεμέρισrat3 ο Χριστός;h μή Παΰλος eW aυρώθη virèp υμών,0 η €ΐς το δνομα Παύλον εβατττίσθητε;' 3 13 {Cj μβμβρισταί H A B C D G Ρ Ψ 3,3 81 88 104 181 330 · 614 629 C30 1241 1739 1877 1881 1984 2127 2492 2495' B yz Led it«.d.dem,e. vg syrh eOpbc' goth A dam antius H μή μβμίρισταί ρ46 326 1962 lm sjt*3 ·^ 1 cop88 arm O ptatus b 13 b question: TR WH">e Bov Nes BF2 AV RV ASV RSV TT Zür Luth Jer Beg.// 6 exclamation: ASV™s NEB // b statement: WH RV™s c c 13 c minor, c question: TR WH Bov Nes BF2 Zür Seg // c question, c question: AV RV ASV RSV NEB TT Luth Jer < ·| (Xp/OTO? /] . Ambst Theod ; R m) | vnep] 7repi p46BD* Já que μεμέρισται ό Χριστός pode ser tida como uma declaração ou como uma pergunta, vários manuscritos, incluindo P (46) 326 1962 Lect (599) sir (p,pal) cop (sa) ara, prefixam o interrogativo μή, assim aliviando a ambigüidade e conformando a cláusula às perguntas que vêm a seguir. 1:13: Será que Cristo está dividido? foi Paulo crucificado por amor de vós? ou fostes vós batizados em nome de Paulo? O apóstolo dos gentios nos mostra aqui a verdade que nenhum mero nome humano pode ser guindado à posição de herói. Cristo é quem realizou a expíação capaz de levar os homens de volta a Deus. Em seu nome e comunhão é que o crente é batizado, e esse próprio batismo é um sinal de identificação com ele, em sua morte e ressurreição. (Ver Rom. 6:1 e ss.). Ora, nenhum homem pode ser símbolo dessa identificação, quanto menos
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    I CORÍNTIOS 15 dessarealidade. As facções deixam subentendido que algum outro nome merece honra, emNalgum sentido, tal como Cnsto é merecedor de. honra. Mas Paulo mostra-nos que há certa exclusividade no nome de Cristo, porquanto somente ele é de estatura suficiente para encabeçar os crentes, somente ele é suficiente para que uma fé religiosa receba o seu nome. Seguir heróis humanos, pois, é um absurdo tão grande como substituir o Salvador, enviado pelo Pai, que é Cristo Jesus, por um mero salvador humano. (Quanto à «crucificação», ver Mat. 27;35 e João 19:18. Quanto à «expiação», que está em foco aqui, em resultado da crucificação, e quanto à obra especial que Cristo realizou, o que não pode ser atribuído a qualquer homem, ver Rom. 3:25; quanto à «propiciação», ver essa mesma referência. Ver a «redenção», nas notas expositivas sobre Rom. 3:24. Quanto a notas expositivas sobre o «batismo», ver o seguinte: sua «significação», ver Rom. 6:3; seu «modo de aplicação», ver Atos 2:41; contra a doutrina errônea da «regeneração batismal», ver Atos 2:38; a «imersão» como modo preferível de batismo, ver Atos 2:41 e 8:36-39. Acerca da fórmula batismal, «em nome de», ver Atos 2:38). Nos primeiros anos do cristianismo não era utilizada a fórmula trinitária, mas o batismo em água era dado «em nome de Cristo» ou «em nome de Jesus», o que também fica demonstrado pela referência deste versículo, onde não fica subentendida nenhuma idéia trinitária. O apóstolo Paulo era o progenitor espiritual daqueles crentes de Corinto; e isso talvez lhe conferisse autoridade entre eles, uma autoridade que não podia ser reivindicada por qualquer outro homem. Contudo, Paulo não exaltava essa autoridade de tal modo que ultrapassasse da autoridade exclusiva de Cristo, e, de fato, de tal modo que infringisse essa autoridade do Sumo Pastor. Paulo é quem lhes anunciara pela primeira vez a expiação que há em Cristo, bem como o batismo cristão; todavia, Paulo não era a fonte originária de qualquer dessas realidades espirituais. *...Cristo está dividido?...»Todas as declarações de Paulo assumem aqui a forma de indagações, esperando, logicamente, respostas negativas. Alguns intérpretes, todavia, pensam que Paulo esperava uma resposta «afirmativa» para essa primeira indagação. É como se Paulo houvesse dito que Cristo não deveria estar dividido, mas que, na realidade, fora dividido pela insensibilidade egoísta dos crentes de Corinto, com grande detrimento para a causa do cristianismo. Por isso é que Lightfoot comenta: «Cristo havia sido dividido, mui infelizmente». Contudo, apesar disso refletir exatamente as condições em que se encontrava a igreja de Corinto, não é o que está de conformidade com o original grego desta passagem. Antes, o apóstolo quis dar a entender que Cristo jamais poderia ficaf dividido, e que, onde quer què os cristãos se dividam, não estarão vivendo o verdadeiro cristianismo. «A culpa daqueles facciosos não consistia de terem pontos de vista diversos uns dos outros. Consistia não tanto de dizerem ‘Isto é a verdade', e, sim, de dizerem, ‘Isto não é a verdade’. A culpa do cisma se salienta quando cada grupo ou partido, ao invés de expressar plenamente a sua própria verdade, se lança contra os outros, negando que os outros estejam na verdade, em qualquer sentido». (F.W.Robertson, in loc.). Teria Cristo se tornadopropriedade dè qualquer facção, como se somente esta pudesse representá-lp, mas não ninguém mais? Essa é a idéia que certamente fica subentendida no presente versículo. Uma das característi­ cas dominantes das denominações evangélicas consiste de suporem elas que, de alguma forma toda especial, representam a Cristo como nenhum outro grupo cristão é capaz da fazê-lo, até mesmo quando admitem que outros grupos também podem ser «crentes verdadeiros». Antes, raciocinam, que não podem ser tão bons crentes como os membros de seu próprio grupo. Pensam que possuem a Cristo de forma toda especial e exclusiva, como ninguém mais pode possuí-lo. «...nome de P aulo...» A palavra «.. .nome...» significa o poder, a autoridade e a identidade ou natureza de algo ou de alguém. Diz Robertson (in loc.), acerca dessa palavra: «Esse uso do vocábulo ‘onoma’(termo grego para ‘nome’) para indagar a pessoa em foco, não aparece somente na LXX (Septuaginta), mas também nos papiros, nas ostracas e nas inscrições, que fornecem numerosos exemplos do nome de algum rei ou deus a fim de indicar o poder e autoridade desse rei ou deus. (Ver Deissmann, Bible Studies, págs. 146 e ss.; 196 e ss.; Lightfrom the Ancient East, pág. 121)». Com isso se pode comparar o décimo versículo deste mesmo capítulo, onde Paulo faz um apelo em nome do Senhor Jesus Cristo, isto é, pela «autoridade» e «poder» de Cristo. No presente versículo, pois, Paulo lança mão do seu próprio nome como homem, a respeito de quem as coisas declaradas, apesar de serem verdadeiras quanto a Cristo, não poderiam ser ditas acerca dele mesmo. E Paulo poderia ter negado essa possibilidade, por igual modo, com relação a Cefas e a Apoio. Diz Neander (in loc.), comentando sobre essa questão: «O Fato de que Paulo apresentou o seu próprio nome, em lugar de todos os demais, mostra-nos o quão genuinamente ele se opunha àquele espírito faccioso, e quão humildemente ele ansiava por que o nome de Cristo não viesse a ser prejudicado por causa do seu próprio nome». 14 ευχαριστώ [τώ θεώ ]4 ότι ovSeva ύμών εβάπτισα ei μη Κρίσττον και Γάίον, |D | ώ χα ρ ισ τω τω θίΣ> μου A 33 81 326 330 436 451 ιΓίλ Γ ···'ί";-,,"'··ί1;'> ; gyrp,h with cQpsa.ix,"1 ^ €v%cψ ισ τώ yap) arm Origenut Pelagius Theodoret 4 14 JB! ίυχα ριστώ N* B 1739 (•opsa"“,!‘'b‘’Clem ent Origen Chrysostom 1''2 John-Dam asens jj ((‘χα ριστώ τω θ£ψ Xo C D G P ^ 88 104 181 (>14 (> 2U 030 1241 1877 18S1 19(52 1984 2127 2492 2495 Byz Led vg syr1 ' eop1 '“m' goth eth Tertulliiin Origenlal Am brosiaster Kphraein Chrysostom 1'2 // 14 Υίρίσττον Ac 18.8 Γ άιον Ac 19.29; Ro 16.23 É óbvio que a adição de μου após θβφ resultou de assimilação escribal ao vs. 4. É mais difícil, porém, decidir se τώ θβω caiu acidentalmente na cópia (εγχΑ ριοτω τω θω ), ou se copistas suplementaram a expressão abreviada de Paulo com a adição de τω θβω, segundo o modelo de Rom. 1:8; 7:25; I Cor. 1:4; 14:18; etc. Foi reputado mais seguro seguir o uso de Paulo e incluii τώθβω no texto; por deferência, porém, ao peso de — IS* E 1739 al, que omitem essas palavras, foram deixadas entre colchetes. 1:14: Dou graças a Deus que a nenhum de vis batizei, senão a Crispo e a Gaio; E evidente que o apóstolo Paulo, a exemplo do Senhor Jesus, não tinha por costume batizar pessoalmente os crentes, deixando essa tarefa ao encargo de outros. Sua atitude inteira para com esse batismo em água, conforme se vê nos versículos catorze a dezessete deste mesmo capítulo, mostra-nos que ele jam ais poderia ter ensinado a falsa doutrina da «regeneração batismal»; porquanto não teria subordinado sua prática, no que diz respeito às suas ações pessoais, se porvéntura acreditasse que o batismo constitui parte integrante da salvação. (Ver as notas expositivas sobre essa questão, em Atos 2:38). O décimo sétimo versículo deste capítulo é especialmente convincente a esse respeito, porquanto ali ele separa especificamente o batismo em água do evangelho. Lemos ali que ele fora enviado para pregar o evangelho, e não «para batizar». Por conseguinte, ninguém pode dizer que o apóstolo dos gentios cria que o batismo em água é necessário para a salvação; pois isso faria do batismo em água, automaticamente, parte da mensagem do evangelho, como porção muito im portante do mesmo, paralelamente ao arrependimento, à fé, à regeneração e à glorificação. No entanto, Paulo separa o batismo da salvação, por ter sido enviado a pregar o evangelho, e não a batizar. «...Crispo...» é um nome próprio latino que significa «crespo», fazenáo alusão aos cabelos. Provavelmente Crispo fora o chefe da sinagoga cuja conversão é narrada no trecho de Atos 18:8. (Quanto ao que se sabe sobre «Crispo», ver as notas expositivas referentes a esse citado versículo). «...Gaio...», mui provavelmente, foi o hospedeiro de Paulo, estando esse apóstolo em Corinto. (Ver Rom. 16:23). Ou então, se porventura o décimo sexto capítulo não faz parte integrante da epístola aos Romanos, é possível que se trate de um outro Gaio, visto que esse nome próprio era muito comum nos tempos apostólicos. E, se esses dois não são uma só e a mesma pessoa, então os fatos que se sabem sobre eles se constitui apenas na menção de seus nomes, exceto aquela breve informação que é dada acerca de Gaio, em Atos 19:19 e 20:4. Esse Gaio, associado à igreja cristã de Éfeso, mui provavelmente, portanto, não é o mesmo indivíduo mencionado aqui na primeira epístola aos Coríntios. (Ver as notas expositivas, em Atos 19:29, acerca dos possíveis «vários» indivíduos de nome Gaio. Quanto ao sentido do nome «Gaio», ver Rom. 16:23. «Gaio» era um prenome). Paulo percebia um ato da providência divina no fato de que ele não costumava batizar os convertidos, porquanto as.mentes facciosas poderiam imaginar que as pessoas por ele batizadas deveriam formar um partido favorável a esse apóstolo. Ninguém, portanto, poderia pensar que Paulo desejava que a autoridade envolvida no nome de Cristo fosse compartilhada com ele. Na realidade, Paulo havia batizado a alguns poucos crentes (ver também o décimo sexto versículo deste capítulo), mas o número desses indivíduos era pequeno por demais, de tal maneira que ninguém podia acusá-lo de estar tentando criar um grupo de discípulos especiais seus. E assim, nenhum grupo maior de crentes poderia intitular-se de discípulos especiais do apóstolo dos gentios, por ter ele batizado pessoalmente a eles. E agora Paulo se regozijava desse fato, embora não houvesse predito esse perigo. Ver notas completas sobre batismo em Rom. 6:3. ★★★ Variante Textual: As palavras «...Dou graças a Deus...» aparecem nos mss Aleph (3), ACDEFGLP e na vulgata latina. Alguns manuscritos ainda têm uma outra adição, dizendo, «Agradeço a meu Deus», segundo se lê nos mss A, 17, e nas versões siríaca, cóptica e armênia. Porém, o texto mais simples, que sem dúvida representa o original, o qual também explica a existência das variantes, diz meramente «Dou graças...» Assim dizem os mss P (46), Aleph, B, 67 e os escritos de Crisóstomo, onde ele se refere a esta passagem. As outras variantes são leves glosas escribais. 15 'ίνa μη τις εΐττη δτι els το εμόν δνομα εβαπτίσθητε.'1 d d 15-16 d major, d major: TE Bov Nes BF2 AV RV ASV TT Zür Luth Jer Seg // i minor, d major: WH // d major and dash, d major: NEB // d parens, d parens: ESV 15 ίβαπτισθητ* J)16NAB al lat syhms ; R] -ισθη 104 ·. ~íaa DG pm it syp· h Tert ς
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    16 I CORÍNTIOS 1:15:para que ninguém diga que fortes batizados em meu nome. Ao assim declarar, isto é, que haviam sido batizados por Paulo, alguns poderiam tê-lo escolhido como seu grande herói, elevando-o de um modo que injuriava ao nome de Cristo. Paulo, todavia, não lhes havia permitido nenhum precedente, através do que se pudesse criar uma facção que recebesse o seu nome. Pouquíssimos crentes daquela época poderiam, forçando a memória, lembrar-se que haviam sido batizados pelo grande «apóstolo dos gentios». Sem qualquer desígnio ou malícia, Paulo havia impedido que os crentes de Corinto, facciosos como eram, se escudassem nesse pequeno combustível para suas idéias, o que, não fora aquela atitude do apóstolo, sem dúvida teriam usado, para aumentar a combustão das dissensões, formando-se um partido dàquelès que fossem batizados por ele. É bem provável que, na igreja coríntia, o batismo em água estivesse sendo frisado como um fator importante, pelas diversas facções em que aquela comunidade estava dividida. Ê possível que Pedro e Apoio tivessem batizado a vários irmãos, o que servira tão-somente para aum entar o orgulho de certos indivíduos facciosos. Mas Paulo se sentia grato porque o seu nome não podia ser envolvido nessa controvérsia. Variante Textual: As palavras «...que eu batizei...» aparecem nos mss C (3) DEFGLP e na maioria dos manuscritos gregos minúsculos. Porém, o texto de maior antiguidade, o qual também sem dúvida representa o original, é aquele que põe essa frase na voz passiva, tal como se vê na tradução portuguesa que serve de base textual a este comentário—«...que fostes batizados...» Assim dizem os mss P (46), Aleph, ABD (1), na vulgata latina, e nas versões cóptica e armênia. 16 εβάπτισα 8è και τον Στεφανά οίκον λοητόν ούκ οΐδα ε’ ί τινα άλλον άβαπτισα.0 16 τον Χτβφανα οίκον 1 Cor 16.15 1:16: É verdade, batizei tambim a familia de Estéfanas; além destes, não sei se batizei algum outro. Repentinamente Paulo se lembra de um outro pequeno grupo de crentes a quem havia batizado. Mas talvez tivesse sido lembrado disso por seu amanuense, que estava em sua companhia, ou então pelo próprio Estéfanas, que estava com o apóstolo quando ele compunha esta epístola. (Ver I Cor. 16:17). Estéfanas é chamado de primícias da Acaia, em I Cor. 16:15. As referências que há acerca dele, nas páginas do N.T., são I Cor. 1:16 e 16:15,17. Em muitas cópias antigas, no «post-scriptum», Estéfanas é identificado como o amanuense que "Pauloempregou para que escrevesse esta primeira epístola aos Coríntios; mas, no que diz respeito a isso, não podemos ter qualquer certeza. Alguns eruditos têm pensado que em face de Estéfanas haver sido identificado como «primícias», isto é, como primeiro convertido a Cristo na Acaia, que ele deveria ser ateniense; pois esse apóstolo obteve algumas poucas conversões em Atenas, antes de dirigir-se à Corinto. O mais provável, entretanto, é que esse apóstolo estivesse pensando na primeira «família» ganha para a causa de Cristo, e não no primeiro indivíduo; ou talvez simplesmente Paulo houvesse deixado de mencionar o ministério que teve em Atenas, por ter sido quase totalmente improdutivo, sobretudo em face do fato que estava, naquele exato momento, escrevendo para os crentes de Corinto. Éstéfanas, juntam ente com Fortunato e Acaico (ver I Cor. 16:17), deleitaram ao apóstolo dos gentios com uma visita que lhe fizeram em Éfeso. Mui provavelmente foram eles os portadores desta primeira epístola aos Coríntios, quando voltaram para Corinto, depois de terem trazido para esse apóstolo a missiva que lhe havia sido enviada por aqueles crentes (ver I Cor. 7:1). Alguns estudiosos, por isso mesmo, têm identificado esses homens com a casade Cloé (ver I Cor. 1:11), cujos membros haviam sido os informantes de Paulo, acerca das péssimas condições em que se achava aquela congregação cristã. Contudo, não temos qualquer prova histórica nesse sentido. «Estéfanas» é uma forma contraída de «Stephanotos», que significa «coroado». Uma forma moderna desse nome é «Estêvão». «...algum outro...» Paulo não queria negar a possibilidade de outros indivíduos terem sido batizados por ele; mas, se porventura isso sucedera, ele não tinha memória do fato. Mas pelo menos pode-se concluir que, sem importar o número exato dos batizados por Paulo, tal número deve ter sido tão pequeno que não permitia a formação de nenhum partido religioso que quisesse tomar ò seu nome, como cabeça de uma facção da igreja de Corinto. Evidentemente havia essa tentação, porque, aparentemente, ele mostrara um favor especial para com certos, batizando-os pessoalmente. Deixando a questão assim indefinida, Paulo evitou o surgimento de objeções contra a sua atuação em Corinto. A posição a que Paulo relega aqui o batismo em água não significa que ele julgasse não ter o mesmo importância. Entretanto, quis mostrar, nestes versículos catorze a dezessete deste capítulo, que distinguia tal batismo do «evangelho». E isso, por sua vez, significa que o batismo em água não pode ser encarado como parte integrante da salvação ou regeneração. Não há que duvidar que Paulo não era sacramentalista e nem legalista. Era um místico. Mediante uma referência cruzada com o trecho de Rom. 16:5, alguns estudiosos têm suposto que Epêneto pertencia à casa de Estéfanas; mas, nesse citado trecho, o texto original diz «Ãsia», e não «Acaia», conforme dizem alguns manuscritos. Por conseguinte, não havia qualquer conexão de família entre Epêneto e Estéfanas. (Ver as notas expositivas sobre a «Acaia», em Atos 18:12). Paulo, à semelhança de Pedro (ver Atos 10:48) e do Senhor Jesus (ver João 4:2), deixava o ato do batismo ao encargo de outros. E a menção do fato que uma caía foi batizada nada prova em favor do «batismo infantil». (Quanto a comentários sobre esse particular, ver Atos 16:15). 17 ου γάρ άπέστειλέν με Χριστός βαπτίζΐΐν άλλα εύαγγελίζεσθαι, ούκ iv σοφία λόγον, ΐνα μη κενωθη ό σταυρός τον Χρίστου. 1:17: Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tomar vã a cruz de Cristo. Nenhum pregador que creia na falsa doutrina da «regeneração batismal» poderia jamais fazer uma declaração como a que Paulo faz neste versículo. De fato, tal declaração degrada a importância do batismo em água, se porventura este tivesse parte ativa no processo da regeneração. Entretanto, Paulo não hesitou, um instante sequer, em estabelecer a devida distinção entre o evangelho e o batismo em água. Ora, se o batismo em água realmente faz parte da salvação, como algo necessário à mesma, é evidente que também faria parte do evangelho. E de nada vale alguém dizer que Paulo foi encarregado da comissão específica de «pregar o evangelho», ao passo que o ato do batismo, como aspecto sacramental do evangelho, foi deixado ao encargo de outros crentes. Pois isso é encontrar neste versículo. uma distinção que não existe, distorcendo, especificamente por razões polêmicas e tradicionais, aquilo que Paulo diz aqui com tanta clareza. ★★★ Consideremos Estes Fatos 1. Paulo não pode ter crido na idéia da regeneração batismal (ver notas a respeito em Atos 2:3), pois, de outro modo, nunca teria falado como o faz aqui. Neste ponto, Paulo separa o evangelho do batismo. 2. Em todas as suas discussões dogmáticas sobre a salvação (ver Rom. 1-5), ele nem ao menos faz menção do batismo em água. 3. Paulo ensinava que as cerimônias, os ritos e a observância da lei mosaica não fazem parte integrante da salvação, embora possam essas coisas servir-nos de mestres quanto a certos aspectos daquilo que se espera de nós, em nosso andar espiritual. De que maneira o batismo cristão difere da circuncisão praticada entre os judeus? Esta última não salva (embora os judeus pensassem ao contrário), e nem a outra cerimônia—o batismo— pode salvar, ainda que alguns cristãos pensem que é impossível adquirir-se a salvação sem o batismo. (Ver as notas sobre esses conceitos em Col. 2 : 11, 12). 4. Ver notas completas sobre o «batismo» e seus significados, em Rom. 6:3. Sem qualquer intuito especial, mas apenas como uma questão colateral, Paulo nos mostra também que o batismo em águâ, como sacramento ou 17 ov yàp... eòayyfXÍÇeaOaL Mt 28.19; Jd 4.2 ordenança, não deve ser reservado para ser administrado somente por elementos do ministério ou do clero, conforme se verifica com tanta freqüência nas modernas igrejas evangélicas. Assim ensinando, Paulo nunca quis depreciar o batismo em água, mas tão-somente pô-lo dentro de sua categoria apropriada. Diz Adam Clarke (in loc.), a esse respeito: «Parece suficientemente evidente que o ato de ‘batizar’ era considerado um ofício ‘inferior’; e embora todo o ministro de Cristo deva administrá-lo, os apóstolos, entretanto, tinham um trabalho ‘mais importante’a realizar. A preparação de pagãos adultos, para o batismo em água, mediante a pregação contínua da Palavra, era de muito maior conseqüência do que batizá-los, uma vez que estivessem preparados para receber o batismo com proveito». «A apostasia da igreja cristã consistiu em fazer com que os ritos se tornassem mais importantes do que a verdade». (Hodge, in loc.). Paulo talvez tenha querido dar a entender, segundo também Calvino pensa {in loc.), que os seus oponentes (mencionados no nono capítulo desta primeira epístola aos Coríntios), aquilatavam seu sucesso pelo número de pessoas que batizavam pessoalmente. Paulo, entretanto, reduziu ao máximo a importância do número de batismos efetuados. Paulo fora «enviado», o que é vocábulo que faz alusão específica ao seu ofício apostólico. (Ver as notas expositivas acerca de I Cor. 1:1 e Rom. 1:1,5). Esse ministério apostólico não visava especificamente que ele batizasse, embora isso também pudesse ser incluído, e, sim, que ele pregasse o evangelho de Cristo. «...evangelho...» (Ver as notas expositivas completas sobre esse assunto, em Rom. 1:16). Paulo fora eminentemente qualificado para ser pregador do evangelho de Cristo, tendo labutado mais abundantemente que todos os seus opositores, e, na realidade, mais abundantemente que qualquer dos outros apóstolos; e isso era uma das provas de seu autêntico apostolado. «...não com sabedoria de palavra...» Na cidade de Corinto havia escolas de retórica, as quais ensinavam a arte de falar em público. Mas essas escolas seguiam os métodos dos sofistas, para os quais dizer a verdade era muito menos importante do que vencer um argumento através de várias técnicas de debate. Não há que duvidar que, no seio da igreja cristã primitiva, havia pregadores que eram muito mais filósofos do que ministros de Cristo. Apoio, crente de grande eloqüência, homem educado em Alexandria, no Egito, que era um dos grandes centros da erudição daquela época, era homem que sabia falar em público e pregar, estabelecendo
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    I CORÍNTIOS 17 distinçõesclaras e expressando pensamentos profundos de maneira nova. O indiscutível, entretanto, é que Paulo não condenava aqui a Apoio. Não há que duvidar que o apóstolo dos gentios não faria objeção contra o estilo de pregação de Apoio; porém, havia muitos crentes em Corinto para quem Apoio era seu grande «herói», os quais também procurando imitá-lo, e usando de sofismas de sua própria criação, procuravam transformar a fé de Cristo em uma escola filosófica. E essa tentação era muito forte em Corinto, cidade que procurava imitar Atenas, no que tange ao desenvolvimento de diversas escolas filosóficas. No trecho de Atos 17:18, as notas expositivas ali existentes fornecem breves rascunhos sobre a natureza dessas várias escolas filosóficas, como os epicureus, os estóicos, os cínicos e os hedonistas. Todas essas escolas filosóficas, à sua maneira e de acordo com seus respectivos estilos, estavam interessadas tão-somente pela exibição da «sabedoria» humana. O apóstolo Paulo não tivera formaçãofilosófica, ainda que, sendo natural de Tarso da Cilícia, um dos grandes centros de estoicismo romano, ele estava familiarizado com a filosofia grega. O estoicismo romano era a escola filosófica mais predominante nos dias de Paulo, pois, naquela época, a metafísica especulativa, que surgira com Platão, ainda não recebera novos rumos, e as várias escolas «éticas» ocupavam ainda o estágio filosófico. Paulo, entretanto, apesar dejudeu da dispersão, por haver sido treinado em Jerusalém, aos pés de Gamaliel, rabino de pontos de vista tradicionais, aceitava a «revelação divina» como a grande fonte da verdadeira sabedoria, especialmente no que se refere às questões religiosas e à busca pela verdade e por Deus. Portanto, tinha pouca paciência com a filosofia e pouco tempo para dedicar à mesma. ★★★ Uso E Abuso Da Filosofia 1. O próprio Paulo tomou por empréstimo certo número de ilustrações e lições morais derivadas do estoicismo romano, e em razão disso há paralelos entre seus escritos e aqueles de Sêneca, o famoso filósofo estóico romano, contemporâneo do apóstolo dos gentios. Com base nessa circunstância é que surgiram as epístolas apócrifas de Paulo a Sêneca, e deste para aquele. Apesar de serem obras apócrifas, sua própria existência implica na similaridade de expressão (e pensamento moral) entre os dois homens. 2. A filosofia, entretanto, não conta com qualquer doutrina de redenção que possa ser substituta da salvação em Jesus Cristo, embora Platão tivesse antecipado certo número de doutrinas de elevado cunho espiritual que fazem parte do sistema cristão. 3. As objeções de Paulo às idéias dos filósofos, tão evidentes no primeiro capítulo de I Coríntios, estavam alicerçadas sobre o fato de que a porção intelectual da igreja de Corinto (provavelmente seguidores de Apoio) havia virtualmente abandonado a fé cristã (com sua mensagem central da cruz), substituindo-a por um mero sistema de sabedoria humana. Conjecturó que eles contavam com uma série de mistérios, em imitação às religiões misteriosas da época, e que contavam com uma mensagem filosófica (com uma mescla de estoicismo e platonismo). Acima de tudo, orgulhavam-se de seus admiráveis poderes de oratória, no que imitavam aos sofistas. Muitos deles, sem dúvida, tinham recebido treinamento formal na arte de falar em público e de debater, as especialidades dos sofistas. 4. O relacionamento que porventura exista entre o cristianismo e a filosofia, e aquilo que os comentários bíblicos declaram a respeito, aparecem nos comentários sobre Col. 2:8. Paulo também queria que compreendêssemos que não pode haver substituto para a mensagem simples da cruz; porquanto é através da mesma que o homem é levado de volta a Deus, através da reconciliação que há em Cristo. Mui provavelmente ele levantava objeção contra as especulações filosóficas, que tendem por detratar da im portância de Cristo, e não meramente contra as «apresentações de tipo filosófico» da mensagem cristã. «A eloqüência humana e a erudição humana com freqüência têm sido usadas com êxito na defesa dos pontos secundários do cristianismo; mas a simplicidade e a verdade é que lhe têm preservado a cidadela». (Adam Clarke, in loc.). Visto que o poder procede de Deus, e não do homem, isso pode ser percebido mais claramente quando o instrumento usado por Deus não é produto polido da sabedoria humana. Porém, para que isso realmente se verifique, é mister que se faça presente o poder real de Deus. A mera substituição de uma pregação erudita pela prédica inculta e ignorante não manifesta, por si só, o poder de Deus; mas isso é tão-somente substituir a sabedoria humana pela «ignorância humana». E tal medida faria das igrejas evangélicas ainda mais enfadonhas, e não mais poderosas. Por outro lado, quando o poder de Deus realmente se faz presente, não há necessidade alguma de revestir a pregação com a habilidade retórica. Mas, quando esse poder se ausenta, nem o discurso simples e ignorante (o que, para muitos, parece ser um ponto de orgulho e ufania) e nem o discurso brilhante e retórico pode ter grande valia. Assim sendo, se o poder de Deus estiver presente, a maneira erudita de apresentar o evangelho não lhe servirá de empecilho; antes, tal como se vê nas próprias epístolas de Paulo, onde há passagens supremamente eloqüentes, esse brilhantismo pode ser usado para atingir certos níveis de pessoas, onde uma apresentação ignorante e inculta os repulsaria. O fato é que Paulo era homem de considerável eloqüência, o que transparece em suas epístolas; mas ele ignorava as técnicas dos retóricos ao expor a mensagem de Cristo. Evidentemente Apoio aplicava tais habilidades, posto que não era falso para com a mensagem do Senhor. Por isso mesmo, Apoio não é atingido aqui pelas críticas do apóstolo dos gentios, embora alguns daqueles que faziam de Apoio o seu modelo merecessem tais críticas. Com a passagem geral que encontramos aqui no primeiro capítulo desta epístola, podemos confrontar a atitude declarada por Justino Mártir (150 D.C.), um dos primeiros dos chamados «pais da igreja», e que foi o principal apologista cristão de sua época. Ele fora um filósofo neoplatônico, bem como um mestre ambulante de algum prestígio. Justino M ártir afirmava que a filosofia o levara aos pés de Cristo, como se ele tivesse sido um aio, mais ou menos como a lei mosaica o fora para alguns judeus. (Ver Gál. 3:24,25). Aqueles que conhecem a filosofia platônica sabem que existem pontos de grande similaridade entre seus conceitos básicos e as idéias básicas do cristianismo, e que uma coisa pode realmente conduzir à outra. E interessante que Justino Mártir nunca se despiu inteiramente de sua capa de filósofo, tendo andado ao redor, procurando convencer as classes intelectuais a virem a Cristo, utilizando-se de seu método filosófico. No entanto, ao mesmo tempo, foi um dos maiores defensores do cristianismo. O valor de seu exemplo não deveria ser completamente olvidado por nós. Pode haver algum valor no mesmo. Essa atitude de Justino Mártir foi compartilhada pelos pais alexandrinos da igreja, como Clemente e Orígenes, os quais pensavam—que —a filosofia grega os tinha preparado para o evangelho, sobretudo a filosofia platônica e estóica, tal como a lei mosaica preparara o caminho para tantos judeus. Justino Mártir foi um cristão supremamente dedicado a Cristo, que usou as habilidades inerentes à sua personalidade, bem como as capacidades que lhe foram conferidas por obra e graça do Espírito de Deus, a fim de fomentar a causa do reino de Deus. Não é provável que Paulo tivesse encontrado motivos para condená-lo por isso. II. O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10-4:21). 1.Polêmica contra tais divisões b. Elas se originam do orgulho e da sabedoria humanos (1:18-2:5). Essa sabedoria é uma insensatez aos olhos de Deus. c. A cruz é a exibição da sabedoria de Deus aos olhos dos homens (1:18-25). 18 Ό Χόγος γάρ ο τον σταυρόν τοΐς μεν απολλνμενοις 0eoíi έστίν. 18 2 Cor 4.3; Ro 1.16 l8 Ο 2o] 07» 1:18: Porque α palavra do cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nis, que somos salvos, é o poder de Deus. Facilmente notamos, nas epístolas de Paulo, quanto a importância da cruz de Cristo era enfatizada por ele. (Ver II Cor. 13:4; Gál. 3:1; 5:11; 6:12,14; Fil. 2:8; 3:18; Col. 1:20 e 2:14). Naturalmente que o apóstolo dos gentios não estava pensando na cruz de madeira em que Jesus fora crucificado, e nem a mensagem da cruz, para ele, consistia dos detalhes cruentos dos sofrimentos de Cristo, encravado na cruz. Antes, ao falar assim, ele pensava sobre as boas novas que anunciam que, em Cristo, Deus estava reconciliando o mundo consigo mesmo. (Ver II Cor. 5:19). Na cruz é que se concretizou a reconciliação. Cristo fez por nós aquilo que não podemos fazer por nós mesmos. Na hora crucial da agonia, Deus Pai, aparentemente, abandonou seu Filho. Mas isso, na realidade, era impossível. E assim, em Cristo, Deus aceita o mundo inteiro, sob a condição única de arrependimento e fé. Cristo foi aquele que levou sobre si os nossos pecados, encravando-os na sua cruz, tendo sido esse o ato culminante de sua missão terrena. Quando falamos em «cruz», portanto, pensamos na expiação realizada pelo sangue de Cristo. (Ver Rom. 3:35 e as notas expositivas ali existentes quanto a isso, onde a palavra «propiciação» é igualmente comentada). Assim também, quando falamos em «cruz», pensamos em «redenção» (comentado em Rom. 3:24); pensamos em μωρία εστίν, τοΐς 8ε σωζομένοις ημΐν όύναμις ρ46Β fc Iμ*ν om J)46i* e r Ir | ·ημιν om G 6 d e f r Mcion Ir Ambst Aug «expiação pelo sangue» (comentado em Rom. 3:25 e 5:11); e pensamos em «justificação», porque Cristo foi entregue pelas nossas ofensas e ressuscitou visando nossa justificação (comentado em Rom. 3:24,28 e 4:25). (Quanto a notas expositivas sobre o fato que «ajustificação inclui o arrependimento e o perdão dos pecados», ver Rom. 4:7). No entanto, o fato de que todas essas doutrinas verdadeiras estão centralizadas em torno de um Salvador moribundo constitui uma «...loucura...»para os incrédulos, sobretudo para os «eruditos», aqueles que possuem treinamento filosófico e uma sabedoria humana geral. Ora, conforme lemosno vigésimosegundo vs. deste capítulo,os gregos buscavam «sabedoria». E essa «sabedoria» tinha o efeito de afastá-los para longe de uma elevada mensagem espiritual, porquanto, para eles, esta parece revestir-se de elementos de insensatez. «...loucura...» No original grego, a palavra usada neste ponto não é tão violenta. Antes, o termo grego tem o sentido de «tolice», «insensatez», sem dar qualquer idéia de desarranjo mental ou insanidade, conforme a tradução «loucura» nos dá a entender. Nossa palavra «moroso» se deriva dela. Para os detratores do cristianismo, portanto, a mensagem da cruz parecia «morosa», no sentido de faltar-lhe a percepção pronta da verdade, o que caracteriza as superstições e as idéias ultrapassadas, derivadas dé conceitos religiosos tolos, mas agora totalmente inaceitáveis para a mente «moderna». O sentido básico dessa palavra, no original grego, é algo
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    18 I CORÍNTIOS «embotado»,«tolo», «pesado», «insípido». Da maneira como Paulo a emprega aqui, dá a entender «embotamento mental». A sabedoria humana, portanto, sente-se superior a essas antigas superstições, a essas crenças «primitivas». Porém, o que parece ser embotamento mental, por parte dos crentes, na realidade é apenas um discernimento suficiente que lhe permite descobrir a «sabedoria» de Deus, em meio às trevas da sabedoria humana, as quais, na realidade, são aquilo que oculta a verdade, longe de revelá-la. Ora, tudo isso nos fazlembrar da famosa declaração de Tertuliano: Creio porque é absurdo. Isso significa que aquilo que parece absurdo para os homens, pode ter tal aparência porque a mente deles está tão entenebrecida que não pode apreender a verdade de Dèus. Soren Kierkegaard é lembrado devido à sua atualmente famosa declaração: «Deus é o mais ridículo de todos os seres». Com isso ele queria dizer que não precisamos de provas racionais ou empíricas acerca da existência de Deus e acerca de sua verdade, porquanto todas elas parecerão ridículas para os homens, de qualquer modo, ainda que tais provas pudessem ser apresentadas. O fato é que Deus simplesmente não precisa amòldár-se à sabedoria humana, nem precisa ser atingido por ela, descrito por ela, para que seja real. A verdade final, por conseguinte, nos é outorgada por meio da revelação divina; e essa revelação pode ser aprendida intuitivamente, e é intuitivamente que podemos concordar com ela; tudo, porém, será sempre e essencialmente, um «dom de Deus», dado aos homens do alto, proveniente de uma fonte externa a eles. Não depende, em qualquer grau, da aceitação por parte do conhecimento ou da erudição dos homens. «...para os que se perdem...» Esses são os que estão alienados de Dèus, que fatalmente cairão na perdição eterna, se persistirem em seu caminho de rebeldia. Paulo pensava aqui acerca do destino humano e do julgamento final, bem como acerca daqueles que se encaminhavam nessa direção na condição de perdidos. (Ver as notas expositivas sobre o «estado dos perdidos», em I Ped. 3:18-20; 4:6 e Apo. 14:11). Tais indivíduos estão alienados de Dèus em seus corações, em suas mentes e de conformidade com suas ações, e dificilmente poderiam perceber mais do que insensatez na cruz de Cristo. Habitam nas trevas porque seu ceticismo cegou o seu entendimento. Suas mentes estão acostumadas a pensar segundo canais negativos e infrutíferos, no que concerne à verdade espiritual; e somente a iluminação divina pode modificar os seus hábitos mentais, de modo a virem reconhecer a sabedoria (ver o vigésimo primeiro versículo deste mesmo capítulo), onde antes viam apenas tolice. «...nós, que somos salvos...» Uma mais perfeita tradução diria: «...nós, que estamos sendo salvos...», porquanto aqui é expressa a salvação como um processo, porquanto, naturalmente, ela também tem esse aspecto. A regeneração ocorre através da conversão e do arrependimento, mediante o veículo da fé. Segue-se então a santificação; e, no-futuro, a glorificação coroará todo esse processo. Ora, esse processo pode ocupar um tempo prolongado, e cada passo desse processo faz parte integrante da salvação. Pode-se chamar de «salvação» à salvação inicial ou conversão, com toda a legitimidade; mas a salvação também tem um aspecto presente e outro futuro, não se tratando apenas de uma transação passada. No trecho de Rom. 8:24, somos informados por Paulo que «...na esperança fomos salvos». Contudo, ainda não contemplamos e nem temos compreendido perfeitamente o objetivo maior dessa esperança. A salvação .presente é apenas a garantia, a primeira prestação, por assim dizer, da salvação futura. Mas estamos nos dirigindo verdadeiramente nesse sentido—estamos «sendo salvos». (Ver as notas expositivas sobre Rom. 8:29, onde se comenta a «natureza da salvação». A salvação consiste na transformação por que passam os remidos no processo que os transmuta em Cristo, em que passam a compartilhar de sua natureza moral e metafísica, até que, finalmente, chegarão a participar da própria divindade, no dizer de II Ped. 1:4. (Ver o trecho de Heb. 2:3, quanto a notas expositivas detalhadas sobre a «salvação»). «...poder de Deus...» Tal é o evangelho, mas somente para aqueles que estão sendo salvos. A pregação da cruz tem resultados muito maiores do que é possível para a sabedoria humana; pois o evangelho pode salvar uma alma eterna, o que certamente é a obra mais elevada que a mente humana pode conceber, quando se compreende, realmente, quão vasta obra é a salvação. Pois não é coisa de pouca monta vir um pecador remido a compartilhar de tudo quanto Cristo é e possui, tomando-se seu co-herdeime participante de sua natureza divina, de modo a tornar-se um ser superior aos próprios afljos. Somente o poder de Deus, atuando por intermédio do Espírito Santo, é que pode transformar os homens dessa maneira. Não é diminuto o poder que nos salva da condenação devido ao pecado e da ilusão humana; mas isso é apenas o começo do poder que opera através do evangelho de Cristo. Daí é que procede a completa transformação dos remidos segundo a imagem de Cristo, em que os homens mortais vão sendo transformados em seres divinos e imortais, participantes da vida necessária e independente do próprio Deus, em meio a uma santidade perfeita. (Ver os trechos de Mat. 5:48; João 5:25,26 e 6:57, onde esses conceitos são devidamente comentados). Ora, a sabedoria humana não pode nem aprender e nem concretizar qualquer dessas realidades espirituais. Mas Deus pode torná-las experiências nossas, através do evangelho de Cristo. (Ver o trecho de Rom. 1:16 quanto ao conceito do evangelho como o «poder de Deus»). «O evangelho não é produto da sabedoria humana. Em sua inquirição pelo sentido da vida e por Deus, a mente humana jam ais poderia ter concebido a verdade. Se, por um lado, a filosofia humana, em seu nível mais elevado, é um impulso na direção de Deus, então, a filosofia de Deus, é um impulso na direção do homem. Através de Jesus Cristo, e este crucificado, um novo conceito do poder e da sabedoria de Deus invadiu o mundo qual dilúvio». (John Short, in loc.). «Existe uma palavra, uma eloqüência, que é a mais poderosa de todas, a eloqüência da cruz». (Stanley, in loc.). «Aquilo que, para o mundo, parece uma ‘debilidade’ nos planos de Deus (ver o vigésimo quinto versículo deste capítulo), e em sua maneira de exposição, por parte de seu apóstolo (ver I Cor. 2:3), na realidade é seu ‘poder’, o poder que nos confere a salvação. E aquilo que parece ‘insensatez’, por causa da insuficiência da ‘sabedoria das palavras’ humanas (ver o décimo sétimo versículo deste capítulo), na realidade é a mais alta ‘sabedoria de Deus’ (ver o vigésimo quarto versículo deste capítulo)». (Faucett, in loc.). Um Pouco de Aprendizado Aprender só um pouco é algo muito perigoso; Sorve fundo, ou não proves da fonte da sabedoria; Ali, goles pequenos intoxicam o cérebro, E beber profundamente nos toma de novo sérios. Não é aos olhos, ou aos lábios que achamos belos, Mas ê ao conjunto, o resultado total de tudo. Assim, ao contemplarmos alguma cúpula bem feita (O mundo se admira, e até mesmo tu, ó Roma!), Nenhuma porção isolada igualmente surpreende, Tudo chega unido ante os olhos admirados; Nenhuma altura desmedida, largura ou comprimento; Mas o todo é, ao mesmo tempo, ousado e regular. (Alexander Pope). 19 γέγραπται, γάρ, Ά π ολώ τήν σοφίαν των σοφών, καί τήν σύνεσιν των συνετών αθετήσω. 19 Ά 7τολώ ...ά06τήσω Is 29.14 1:19: Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei o entendimento dos entendidos. As palavras «...está escrito...» formam uma frase* constantemente usáda nesta epístola, conforme se vê em I Cor. 1:19, 31; 2:9; 3:19; 4:6; 9:9,10; 10:7,11; 14:21 e 15:45,54. Também é de ocorrência muitíssimo freqüente na epístola aos Romanos, onde aparece por dezessete vezes. (Ver as notas expositivas sobre Rom. 3:10, onde há um comentário a respeito e a lista de referências). Nas epístolas de Gálatas e segunda aos Coríntios, essa expressão também aparece por diversas vezes. E também aparece por algumas poucas outras vezes, no restante das epístolas de Paulo. Utilizando-se dessa expressão, pois, Paulo vincula a sua mensagem a muitos aspectos importantes do A.T. Assim sendo, vemos que esse apóstolo defendia a continuação da mensagem do antigo pacto na revelação do N.T., o que, de resto, é uma idéia comum entre os escritores neotestamentários. Isso subentende, naturalmente, que o Messias, prometido nas páginas do A.T., é o Senhor Jesus do N.T. (Ver João 7:45 e as notas expositivas ali existentes, onde há um sumário da primitiva apologia cristã acerca do caráter messiânico de Jesus). Paulo, na presente referência, queria mostrar-nos que ele não criara nenhum conceito novo ao degradar a «sabedoria humana», porquanto isso já havia sido tema das Escrituras proféticas do A.T. Essa citação foi extraída do trecho de Isa. 29:14, segundo a versão da Septuaginta (tradução do original hebraico do A.T. para o grego, completada em cerca de 200 A.C.). Contudo, Paulo substitui aqui a palavra «esconderá», que aparece no A.T., por «...aniquilarei...» Isso se coaduna com a sua maneira livre de citar ο A.T., de acordo com os’seus propósitos do momento. (Ver as notas expositivas em Rom. 10:6, quanto ao método paulino de fazer citações, onde há várias ilustrações). É possívél que essa citação seja uma combinação de Isa. 29:14 e de Sal. 33:10. No A.T., es£a declaração profética se refere ao fracasso da sabedoria e da política mundanas em Judá, em face do iminente juízo divino constituído pela invasão assíria. A futilidade da sabedoria humana é um princípio que pode ter diversas aplicações, e Paulo se utiliza dessa citação de uma das mais importantes maneiras como ela pode ser aplicada. A aplicação feita por Paulo, quanto à presente citação, salienta uma verdade mais importante do que aquela contida na passagem original do A.T. A sabedoria humana está sujeita à «destruição» e ao «aniquilamento». Não possui ela qualquer poder inerente, que a capacite a salvar uma alma ou a elevar um homem até Deus, o que, afinal de contas, é o propósito real e o grande alvo da existência humana. A sabedoria humana, pois, não pode desfazer o mal provocado pela queda no pecado, e nem pode ajudar o homem a aproximar-se novamente de Deus. Será este mundo vil um amigo da graça, Que me ajude a prosseguir para Deus? (Isaac Watts). «...sabedoria... inteligência...», ou então, conforme dizem outran traduções, «sabedoria...prudência», ou «sabedoria...entendimento». No dizer de Vincent (in loc.), «Essas duas palavras com freqüência podem ser encontradas juntas, conforme se vê em Exo. 31:3; Deut. 4:6; Col. 1:9. Com isso comparar Mat. 11:25, que diz ‘sábios e entendidos’. Quanto à distinção entre elas, ver ‘sophia’, ‘sabedoria’, em Rom. 11:33; quanto à ‘sunesis’, compreensão, ver Marc. 12:33 e Luc. 2:47. A ‘sabedoria’ é o vocábulo mais geral; trata-se da excelência mental, em seu sentido mais prenhe e elevado. A ‘prudência’ é a aplicação especial da sabedoria; e se trata (áe seu ajustamento crítico a casos particulares». Ver também as notas expositivas em Rom. 11:33, onde esses mesmos conceitos são apresentados, embora a palavra que ali se poderia traduzir por «conhecimento» seja, no grego, um
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    I CORÍNTIOS 19 vocábulodiferente. Não obstante, o termo grego «gnosis» pode ser usado como sinônimo de «sunesis», a qual aparece neste texto, de tal modo que a explicação de seus respectivos sentidos pode ser a mesma. «...todos os céticos e deístas, com seus esquemas de religião e moralidade naturais, não têm sido capazes de salvar uma única alma! Nenhum pecador foi jamais convertido, do erro de seus caminhos, pelos seus discursos e escritos». (Adam Clarke, in loc.). «A aplicação disso ao tema que temos entre as mãos, é a seguinte: O Senhor achou por bem punir a arrogância daqueles que, dependendo de seu próprio juízo, pensam ser líderes de si mesmos e de outros; e se isso (a destruição de sua sabedoria e o aniquilamento de sua prudência) porventura ocorresse entre um povo cuja sabedoria as outras nações tivessem oportunidade de admirar, o que se tornaria dos demais?» (Calvino, in loc.). ★ ★ 2 0 τ τ ο ν , σ ο φ ό ς ; π ο ΰ γ ρ α μ μ α τ ε ύ ς ; π ο ΰ σ υ ζ η τ η τ η ς τ ο ΰ α ΐ ώ ν ο ς τ ο ύ τ ο υ ; ο ύ χ ϊ ε μ ώ ρ α ν ε ν ο θ ε ό ς τ η ν σ ο φ ί α ν Τ ο υ κ ο σ μ ο ν / 20 ττου σοφός Ι3 19.12 ττου Ύ ρ α μ μ α τ ΐ^ Is 33.18 ο ύχί...κ ό σ μ ο υ Is 44.25 Ο Textus Receptus, seguindo testemunhos posteriores (Kc C (3) D (c) F G L Ψ 104 326 1739 (c) al), com o que algumas versões antigas concordam (it (d,g,r) vg sir (p,h,pal) cop (sa,bo) gót ara (mss)), adiciona τούτου. A influência exercida pela expressão anterior του aioivos τούτου, teriá feito a adição do demonstrativo uma conclusão quase líquida; o notável é que tantos copistas tenham resistido ao impulso de assimilar expressões (somente κόσμου aparece em p4 6 K* A B C* D gr* 33 181 206 314 429 917 1610 1758 1827 1836 1898 al). 1:20: Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Paulo faz aqui alusão à passagem de Isa. 33:18; ou talvez, inconscientemente, sem qualquer intuito especial, usou o fraseado do profeta Isaías. Quanto ao pano de fundo original dessas palavras, Robertson e Plummer (in loc.), brindaram-nos com a seguinte excelente nota: «O apóstolo Paulo adaptou as palavras ao seu propósito imediato. A passagem original se refere ao tempo que se seguiu ao desaparecimento do conquistador assírio, com sua equipe de secretários, contabilistas e registradores de inventário, os quais registraram os pormenores dos despojos da cidade capturada. Na esteia de Salmaneser, na Galeria Assíria do Museu Britânico, existe um quadro supreendentemente exato da cena aqui descrita por Isaías. O maravilhoso desaparecimento do exército assírio invasor foi, para Isaías, sinal que vindicava o poder e o cuidado de Yahweh, servindo de refutação, não tanto dos ‘escribas’ do conquistador, e, sim, dos mundanos conselheiros que havia em Jerusalém, os quais, primeiramente, haviam pensado em enfrentar o invasor através de uma aliança firmada com o Egito, apelando para outros métodos políticos cheios de artimanha, para, em seguida, caírem no desespero mais desmoralizador. O apóstolo Paulo se utilizou dessa passagem, por conseguinte, ainda que de maneira bastante livre, não de forma desconexa para com seu pano de fundo histórico... A pergunta é feita em um tom de triunfo». «...sábio...» Temos aqui uma alusão definida aos gregos, com sua filosofia e com sua busca pela sabedoria mundana, o que, no conceito de Paulo, não era e nem é suficiente para descobrir os tesouros das realidades espirituais. (Ver o vigésimo segundo versículo deste capítulo, que requer essa identificação com os gregos, embora todas as nações da terra tenham seus próprios «sábios»). Onde está o sábio? Isto é, que foi feito de sua sabedoria? Foi reduzido a nada, quando submetido a teste, pela sabedoria divina. A sabedoria divina salva a alma; a sabedoria humana, quando muito, torna a mente curiosa. A sabedoria divina é poderosa; a sabedoria humana, finalmente, é reduzida a nada. A sabedoria humana tão-somente enche de orgulho o seu possuidor; a sabedoria divina leva o remido a compartilhar da imagem de Cristo. Tal como os oficiais do rei assírio, Salmeneser, haviam desaparecido da cena, tendo sido extintos pelo Senhor Deus, em que seus esforços deram em nada, assim também sucede com aqueles que buscam a sabedoria humana à parte de Deus, ou que tentam substituir a sabedoria divina pela sabedoria humana. «...escriba...» Temos aqui uma alusão aos «eruditos» do povo de Israel, isto é, aqueles que estudavam a lei, que eram técnicos em suas minúcias, e que ensinavam os preceitos mosaicos ao povo judeu. Esse é o sentido que essa palavra sempre tem no N.T., com a única exceção de Atos 19:35, onde está em foco o «escrivão da cidade» de Êfeso. (Ver notas expositivas completas sobre os «escribas», em Atos 3:22). Assim como, para os gregos, o filósofo preparado era o pináculo da sabedoria terrena, assim também, para os judeus, era o escriba. Os escribas eram os eruditos profissionais entre os judeus, guardiães de todo o conhecimento que o povo israelita julgava importante. No entanto, em que resultava tal sabedoria, separada de Cristo, que é a Sabedoria de Deus? Resultava na mesma negação e inutilidade que ocorria no caso dos sábios gregos: nada. Porquanto nem a lei e nem o conhecimento da mesma podem salvar a alma perdida, levando o pecador de volta a Deus, ainda que isso possa mostrar até que ponto o homem se distanciou de Deus. «...inquiridor deste século?...» Essas palavras se referem, particular­ mente, às escolas gregas dos sofistas, ainda que não se limitem aos sofistas. Os filósofos, preparados na retórica, na lógica e na metafísica, facilmente podiam fazer com que «o pior argumento se tornasse o melhor», segundo Sócrates foi acusado de fazer. Sócrates possuía grande capacidade de debater, sabia como apresentar e defender delicadas distinções em seus argumentos. Por semelhante modo, entre os judeus também havia indivíduos dotados dessa habilidade, ainda que esse termo pareça aplicar-se com mais propriedade aos filósofos gregos. Ê possível que Paulo não estivesse fazendo aqui distinções pormenorizadas, mas antes, falasse em termos gerais. Seja como for, a sua mensagem é clara. A sabedoria humana, sem importar a sua variedade,-e sem importar se proveniente dos gregos ou dos judeus, desvinculada de Cristo, se reduz a nada. Por igual modo, ela não é necessária para dar apoio e validar a sabedoria de Deus, a sabedoria que é o Senhor Jesus Cristo, e que se manifesta através do plano de redenção, que ele veio realizar. «...deste século?...» Os sábios aqui aludidos são aqueles desta esfera terrena, da era presente. Esses sábios não tardarão a desaparecer, em contraste com a sabedoria que é lá de cima, a qual é eterna. Esse termo, «século», denota o período anterior à era messiânica, ou seja, a «era vindoura». (Ver Luc. 18:30 e 20:35). Trata-se daquele período de tempo que caracteriza a sabedoria e as atividades humanas sobre a terra; mas é um período de condições fugidias, saturado do egoísmo humano, de motivos éticos vis, de cegueria para com as realidades espirituais, prenhe de irreligião e de blasfêmia. E o tempo em que o homem tateia buscando luz; é o tempo do embotamento, do ceticismo e do desespero. (Ver I Cor. 2:6; II Cor. 4:4 e Efé. 2:2). É o nosso próprio tempo, antes da inauguração do período futuro, de grande iluminação divina. «...tornou Deus louca a sabedoria do mundo...» Deus tornou morosa esta chamada era da sabedoria humana, ou seja, «embotada», «estúpida», «insensata», desde que permitiu que brilhasse a luz de Cristo. (Com essa declaração paulina confrontar os trechos de Rom. 1:22,23; Isa. 19:11 e 44:25,33). A passagem citada da epístola aos Romanos é o melhor comentário acerca desse pensamento, e as notas expositivas a respeito são amplas. Deus provou, portanto, que a chamada sabedoria dos homens é uma insensatez. Demonstrou sua fraqueza e sua irrelevância para com o verdadeiro destino dos homens, para com a elevada chamada de Deus, em Cristo Jesus, porquanto é em Cristo que existimos, nos movemos e temos o nosso ser. A sabedoria humana tem errado porque se tem esquecido da fonte originária de toda a sabedoria, que é Deus, e esta manifestada na pessoa do Senhor Jesus Cristo, (Ver o trigésimo versículo deste mesmo capítulo). E, dessa maneira, Deus demonstrou que a suposta sabedoria humana não passa de pura ignorância, estando destituída de qualquer valor espiritual, não tendo podido aproximar em coisa alguma as almas de Deus, o qual é o verdadeiro alvo de toda a existência humana. (Ver I Cor. 8:6). A palavra «...mundo...», neste caso, não é a mesma palavra traduzida neste versículo como «século», embora seja sinônimo virtual da mesma; pois a alusão, neste caso, é à comunidade dos homens, que populam esta terra física, e não ao globo terrestre propriamente dito. Os homens é quem fazem a sabedoria deste mundo tornar-se o que ela é. O mundo, lugar da matéria crassa e grosseira, sob hipótese alguma poderia produzir a sabedoria celestial, não podendo nem mesmo compreendê-la, sem o auxílio da iluminação divina. (Quanto aos diversos significados do vocábulo grego «kosmos», «mundo», ver as notas expositivas sobre João 1:10. Essa nota também dá a lista das várias palavras gregas que são traduzidas por «mundo», nas páginas do N.T.). A sabedoria não encontrou lugar onde pudesse habitar; Então lhe foi determinado um lugar de habitação nos céus. A sabedoria foi ver se habitava entre os filhos dos homens, Mas não encontrou morada ali. (Livro de Enoque 42:1,2). ο κόσμος δια της σοφίας τον θεόν, εύδόκησεν ο θεός διά πιστεύοντας. 2ΐ M t 11.25 21 επειδή γάρ εν τη σοφία τοΰ θεοΰ ούκ εγνω της μωρίας τοΰ κηρύγματος σώσαι τούς 1:21: Visto como ηα sabedoria de Deus 0 mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que crêem. Comenta Calvino (in loc.), a respeito destas palavras de Paulo: «Precisamos dar cuidadosa atenção a estas duas coisas: Que o conhecimento de todas as ciências não passa de fumaça, onde a ciência celeste não se faz presente; e que os homens, apesar de toda a sua perspicácia, são tão estúpidos, na obtenção do conhecimento dos mistérios de Deus, por si mesmos, como um asno é incapaz de compreender as harmonias, musicais. Paulo, entretanto, não condenou expressamente nem a perspicácia natural do homem, nem a sabedoria adquirida com a prática e com a experiência, e nem o cultivo das faculdades mentais, através do aprendizado; tão-somente declara que nada disso tem valor para quem quer adquirir a sabedoria espiritual». A sabedoria mundana dos homens serve de obstáculo para eles mesmos, razão pela qual não puderam conhecer a Deus, mediante essa sabedoria
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    20 I CORÍNTIOS mundana,mas antes, permaneceram na ignorância quanto ao verdadeiro sentido da existência. (E com isso se pode comparar o trecho de Rom. 1:22, onde se lê que os homens professam possuir sabedoria, mas que, ao fazê-lo, fazem-se de insensatos. E o versículo anterior desse mesmo capítulo mostra-nos que aquilo que os homens consideram como sabedoria não passa de raciocínios «nulos», em vista do que também os seus corações atoleimados se obscurecem. Agostinho declarou: «Creio, a fim de poder compreender». Mas ele deixou bem claro que esse «entendimento» nos é dado através da «fé», isto é, da confiança em Deus e em seu Cristo; e que o ceticismo, na realidade, eqüivale às trevas. Nem um único raio da luz de entendimento verdadeiro pode ser adquirido, enquanto os homens não abandonam o terreno tenebroso das dúvidas e da incredulidade em que se encontram. Foi por decreto da sabedoria de Deus que os homens estão impossibilitados de encontrar a Deus, através de sua sabedoria mundana. Nisso parece transparecer a idéia de um pronunciamento judicial. Em outras palavras, Deus julgou este mundo como insensato, por terem os seus habitantes rejeitado à verdadeira sabedoria, e porque os homens se tinham voltado para a sabedoria puramente humana, a qual não serve de veículo de iluminação espiritual. Essa é, em sua essência, a idéia que também encontramos em Rom. 1:19-22. Nessa passagem descobrimos que o próprio mundo, na natureza, contém a sabedoria de Deus de tal' maneira que, homens honestos, que não queiram perverter suas próprias faculdades intelectuais e seus sentimentos, podem chegar a descobrir a existência e o poder de Deus. No entanto, os homens se mostram desonestos e pervertidos. Por causa disso é que Deus pune judicialmente aos homens, deixando-os a braços com um ludibrio, reduzidos à sua própria sabedoria mundana, mas perenemente condenados à futilidade de que se reveste essa sabedoria carnal. Este versículo, não obstante, suporta uma outra interpretação ainda, a saber, que essafutilidade se reflete nas insensatas ciências dos homens, mas que isso, finalmente, leva os homens a se voltarem para Deus, buscando a sabedoria divina autêntica. E então que a acham na pessoa de Jesus Cristo, bem como na «loucura» da pregação, que tem por grande tema a pessoa e a obra de Cristo. Portanto, de acordo com essa oiitra interpretação, até mesmo a punição judicial de Deus pode redundar em bem, uma vez que os homens se deixem convencer de seu fatal equívoco. Ora, quanto à mensagem, isso se assemelha à passagem de Rom. 11:32, onde aprendemos que o fato de Deus ter «encerrado a todos debaixo da incredulidade» tinha por finalidade, realmente, usar de «misericórdia» perfeita para com todos. E mister um prolongadíssimo processo histórico, entretanto,· para que os homens se deixem convencer do seu gravíssimo erro, para então se voltarem de todo o coração para Cristo, o Salvador. Isso porque Deus não força os homens a isso. Mas tão-somente os vai convencendo, gradualmente, através de todas as lições administradas pela história, de que eles precisam de Jesus Cristo. E assim, espontaneamente, movidos por seu livre-arbítrio, os homens eventualmente viriam a compreender e a aceitar a sabedoria divina. Deus é sábio em suas relações para com a humanidade, na história das necessidades humanas e de suas tentativas baldadas de retorno a Deus. Deus é quem permite a ignorância deles, como lição objetivã, para que Jn 4.48 "EXXrçves σοφ ίαν ζ η το νσ ιν Ac 17.18, 32 1:22: Pois,.enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria. Os judeus, por causa de sua formação religiosa mística, onde os milagres e os prodígios eram comuns, tomaram-se tão presunçosos que pensavam que Deus lhes daria algum sinal ou prodígio a qualquer instante que o desejassem. Na sua incredulidade e rèbeldia, ignoraram convenientemente a abundância de sinais e milagres efetuados por Jesus de Nazaré; e então, perversamente, subitamente exigiam sinais ainda maiores e mais numerosos. Os judeus não tinham uma mentalidade cética, conforme sucedia a tantos filósofos gregos, mas antes, criam no sobrenatural. Mas tentavam escravizar o sobrenatural aos seus próprios caprichos. E o povo de Israel, em sua cegueira espiritual, veio assim a rejeitar ao próprio Messias, devido à dureza de coração produzida pelo pecado voluntarioso. Tornaram-se os judeus moralmente incapazes de dar acolhida ao seu próprio Messias, e assim exigiram dele, incredulamente, mais e mais provas, quando, na realidade, ele já havia exibido provas mais do que suficientes para conv.encer qualquer homem honesto de que ele era realmente o Filho de Deus. Nos evangelhos (como em Marc. 8:11,12; 12:38; João 4:48 e 6:30), vemos quão veraz é esta declaração de Paulo, no tocante à busca dos judeus por sinais prodigiosos. Porém, a grande verdade é que um coração rebelde, sem a ajuda divina e não estando sintonizado com Deus, pode contemplar muitíssimos sinais, para então, embora perplexo ante os mesmos, continuar em sua rebeldia, não se arrependendo de seu pecado. (Quanto a isso, ver a totalidade do nono capítulo do evangelho de João). Os judeus reconheciam a grandeza dos milagres operados por Jesus, porém, moral e religiosamente, não se deixavam convencer pelos mesmos. Alguns dentre eles procuravam encontrar explicações «naturais» para os prodígios de Jesus (a exemplo do que tantas pessoas continuam fazendo, até hoje); e outros julgavam que a verdadeira origem daqueles milagres era o diabo (ver Mat. 12:24 e ss.). Naturalmente, sempre haverá o magno problema de determinar a fonte originária das «maravilhas», pois nem todas são de Deus* Alguns desses prodígios podem ter uma origem puramente humana, já que o homem é um ser espiritual, capaz de realizar aquilo a que chamamos de «milagres», tal como curas e várias manifestações psíquicas. Além disso, há uma dimensão de seres espirituais, de espíritos bons e maus, que não chegam até Deus. E esses seres também são fontes originárias possíveis de sinais e maravilhas. finalmente possam vir a conhecer a Deus, voltando-se para ele. Mas a iniciativa deve partir da parte do Senhor, e jamais dos homens. (Com isso comparar os trechos de Atos 17:30; Rom. 11:32; Atos 14:16 e Rom. 1:24). Algumas traduções, como a versão portuguesa que serve de base textual para este comentário, dizem «...a loucura da pregação...», enfatizando o ato da prédica, e não aquilo que é pregado. Mas outras traduções dizem «...a loucura do que pregamos...», ou seja, o conteúdo do que se prega, o que seria eqüivalente à pregação de Cristo e sua cruz. (Ver os versículos dezoito e vinte e três). Não dispomos de meios seguros para determinar o que se deve entender aqui exatamente. Ambas essas traduções são gramaticalmente verdadeiras, e talvez a referência de Paulo seja suficientemente lata para incluir ambas as idéias. A palavra grega traduzida aqui por «pregar», «kyrusseim, ainda que aqui seja usada a forma substantivada, significa «proclamar», tendo passado para o vocabulário neotestamentário com o sentido de proclamar as boas novas, isto é, o evangelho. A expressão «loucura da pregação» é uma ousada declaração (com parar com o vigésimo quinto versículo deste mesmo capítulo), pressupondo e interpretando, ao mesmo tempo, a mensagem do décimo oitavo versículo. Sim, a pregação do evangelho é uma insensatez para os homens, e assim Paulo retém esse termo, embora, na realidade, seja a sabedoria e o poder de Deus, quando corretamente compreendida essa pregação, porquanto é capaz de «salvar» a alma, o que a sabedoria puramente humana jamais poderia fazer. «A loucura da pregação não é a pregação da loucura... As religiões misteriosas ofereciam todas, a salvação por iniciação e ritual, tal como os fariseus a ofereciam por cerimonialismo. A religião cristã atinge o coração diretamente, mediante a confiança em Cristo, como Salvador. Essa é a sabedoria de Deus». (Robertson, in loc.). Uma outra interpretação possível deste versículo é como segue: «O mundo não veio a conhecer a Deus, em sua sabedoria». Em outras palavras, não obteve visão clara de Deus como ser Supremo e todo-sábio, ainda que, na criação mesma, existam evidências suficientes para levar os homens a essa conclusão. Essa interpretação expressa um aspecto da verdade, mas a mensagem ensinada neste versículo é que, «mediante os decretos de Deus, alicerçados em sua sabedoria, a sabedoria do mundo foi reputada inadequada como meio de adquirir a iluminação de Deus». Portanto, Deus decretara que o divino não pode vir a ser conhecido através do que é puramente humano. Deve haver a iluminação e a revelação celestiais. Ora, tanto uma como a outra coisa vieram por intermédio de Cristo; e assim ditava o sábio plano de Deus. Que o mundo não pode conhecer a Deus mediante a sabedoria puramente humana é um fato que força aos verdadeiros inquiridores a se achegarem pelo caminho determinado por Deus, e isso faz parte do seu plano e dos seus decretos sábios. A sabedoria de Deus, nesta passagem, mui provavelmente inclui a revelação que nos é dada por meio da natureza (conforme se lê em Rom. 1:20 e ss. e Atos 17:27); mas certamente também inclui a revelação e a iluminação especiais que nos são conferidas através de Cristo e através do evangelho. Assim sendo, primeiramente é salientado o «fracasso» do mundo, e, em seguida, o «sucesso» do método divino, por outro lado. 22 ’Ιο υ δ α ίο ι σημαία α ίτουσ ιν Mt 12.38; Um sinal, por si mesmo, assim sendo, não pude comprovar uma doutrina, embora possa levar os homens a reconhecerem a existência do mundo dos espíritos, o que é proveitoso para os homens. No entanto, um sinal verdadeiramente conferido por Deus é reconhecido por homens honestos e crentes, aqueles que verdadeiramente buscam a Deus. Pelo menos essa é a confiança refletida nas páginas do N.T., onde vemos que homens honestos e bons se congregaram em torno de Cristo. Mas aqueles que preferiam prosseguir em seus assaltos às casas das viúvas e em seus assassínios, embora tivessem contemplado os mesmos sinais que outros viram, foram repelidos pelos mesmos, visto que de Cristo brilhava a santa luz de Deus, que ofendia seus corações entenebrecidos. «...pedem ...» Essa palavra, no original grego, pode significar, simplesmente, «requerem», mas também pode ter o sentido de «exigir». (Ver Luc. 12:48 e I Ped. 3:15). A tradução «exigem» seria a que mais de perto concordaria com a atitude altiva daqueles judeus incrédulos, sendo provavelmente isso que o apóstolo queria dar a entender aqui. Não obstante, os judeus asseveravam ser possuidores da verdade, apesar de se deixarem dominar por dúvidas, com relação a toda a verdade que porventura parecesse contradizer suas noções preconcebidas. Poderiam ter feito a seguinte oração, com toda a propriedade: Da covardia que teme novas verdades, Da preguiça que aceita meias-verdades, Da arrogância que pensa conhecer toda a verdade, Õ Senhor, livra-nos. (Arthur Ford). «...os gregos buscam sabedoria...»Essas palavras não têm a intenção de dar a entender que não havia abundância de religiosidade e de misticismo na cultura greco-romana. Paulo sabia que havia esses elementos ali. Porém, ao escrever para Corinto, que era um dos centros da erudição filosófica dos gregos, esse apóstolo frisou os vícios helênicos. Os gregos exigiam provas lógicas e filosóficas das idéias expostas. Não eram altivos de espírito como os judeus, pensando que já conheciam toda a verdade; antes, eram inquiridores da verdade. Contudo, deixavam-se limitar a certos meios, todos alicerçados sobre a sabedoria humana, perdendo assim de vista o conhecimento místico, ridicularizando de todas as coisas espirituais que, naturalmente, estão fora da capacidade de alcance dos métodos filosóficos. 22 επειδή και 'Ιουδαίοι σημεία αίτοΰσιν και "Ελληνες σοφίαν ζητοΰσιν,
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    I CORÍNTIOS 21 Tolamenteos gregos imaginavam que a verdade poderia ser reduzida a meras proposições filosóficas. Ignoravam o alcance da intuição e da revelação divina. Aquilatavam como bárbara a palavra da cruz, como se se tratasse de uma superstição, tal e qual consideravam a muitos particulares de sua própria mitologia, onde abundavam as lendas de deuses de ações vergonhosas, que procuravam envolver aos homens. Muitos filósofos eram agnósticos no que diz respeito aos deuses antropomórficos da mitologia grega, e teriam encarado a mensagem de Cristo, em sua encarnação, em sua morte expiatória, etc., como mera variação de suas próprias lendas. Haviam abandonado a mitologia pela especulação filosófica, e agora, a mensagem da cruz haveria de parecer-lhes «insensata». Contudo, as mentes inquisitivas dos gregos não haviam subido o bastante, porquanto se tinham olvidado de investigar a religião celestial, revelada pelo criador. Se porventura se tivessem assemelhado um pouco mais a Platão, talvez pudessem ter reconhecido as reivindicações de Jesus Cristo. Porém, nos dias de Paulo, prevaleciam os filósofos da categoria mais cética, excetuando aqueles que se inclinavam mais estritamente para os princípios éticos, como os estóicos. Até mesmo a famosa Academia de Platão, nos dias do apóstolo dos gentios, desde há muito que cessara em sua propagação da doutrina platônica, mas se transformara em uma escola propaladora do ceticismo, crendo que somente o conhecimento que nos chega através da percepção dos sentidos é que constitui verdadeiro conhecimento, mas que, em vista da percepção dos sentidos não ser digna de confiança, por ser ilusória, então os homens não dispõem de meios para chegar à certeza do conhecimento. E a escola peripatética, composta por discípulos dp Aristóteles, havia abraçado idêntico ponto de vista. Acima de tudo, o fato que Jesus Cristo fora crucificado, era um ponto adverso para a propagação da fé cristã. Pois a morte na cruz, reservada para os mais vis e piores criminosos, era olhada com horror pela polida sociedade greco-romana. (Ver o horror expresso por Cícero ante a execução por crucificação, em Pro Rabir 5, bem como a referência de Luciano a Cristo como o «sábio pregado em um poste», em De mort. Peregr. 13), que talvez expresse um ponto de vista derrisório da pessoa de Cristo. Além disso, na Palestina, foi encontrada a caricatura da crucificação de Cristo, constante de um escravo que se inclinava ante uma figura crucificada, dotada de cabeça de burro, e por baixo a seguinte inscrição: «Em recompensa, ele adora a um deus». Essa forma de atitude desprezível para com Cristo mui provavelmente era comum entre os «intelectuais» da cultura pagã dos primeiros dias do cristianismo, certamente uma atitude não muito diferente da dos intelectuais dos nossos próprios dias, os quais, através de sua sabedoria vã, não chegam jamais a conhecer a Deus. 23 ημείς δε κηρνσσομεν Χριστόν εστανρωμένον, ’Ιουδαίοις μεν σκανδαλον εθνεσιν δε μωρίαν, 23 Ί ο ν δ α ίο ιϊ μεν σκανδαλον Ro 9.32 'ίθνεσιν ôe μω ρίαν 1 Cor 2.14 Ο Textus Receptus, seguindo vários manuscritos posteriores (C (3)D (c) 6 177 206 326 489 919 920 1739 1835at),substitui Wveaiv por "Ελλησι. A mudança foi impelida pelo desejo defazer a terminologia paulina coerente nos vss.22,23 e 24. 1:23: nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, (Cristo como pedra de escândalo no conceito judaico, é uma particularidade comentada com abundância, em Rom. 9:32,33). A palavra «...escândalo...» significa «armadilha», algo que leva um homem a tropeçar e cair, o que, por sua vez, causa «repulsão», sendo uma «tentação ao pecado». Os judeus, pois, que supostamente se encontravam no caminho que conduz de volta a Deus, tropeçaram no «obstáculo» que é Cristo; pois julgavam-no um motivo de escândalo, visto que, de outro modo, jamais o teriam crucificado. Isso fizeram, contudo, devido à sua rebeldia voluntária. Por essa razão é que Cristo se tornou para eles uma «armadilha», um empecilho, que fez com que se desviassem inteiramente na sua busca por Deus. O apóstolo Paulo mostra-nos, em Rom. 11:11, contudo, que os judeus não tropeçaram a fim de caírem de forma final e «irrevogável», e, sim, a fim de que, mediante uma queda parcial quanto ao tempo, a salvação pudesse ser estendida aos povos gentíiicos; e a fim de que, por sua vez, através da realização desse propósito, todo o Israel pudesse vir a ser finalmente salvo. (VerRom. 11:26). Quanto ao presente contudo, os judeus se encontram completamente excluídos dessa corrida, porquanto foram marginalizados em face de se terem escandalizado de Cristo, do seu próprio Messias. Nenhum progresso espiritual pode ser feito pelos judeus, enquanto não for corrigido esse equívoco fatal, essa maldade proveniente do próprio coração. Para os gregos, entretanto, Cristo e sua mensagem não passam de uma «insensatez». Isso é reiteração das idéias que aparecem nos versículos décimo oitavo até vigésimo primeiro. A palavra «loucura», que esta versão portuguesa prefere, ao invés de «insensatez», é comentada nas notas expositivas sobre o décimo oitavo versículo deste capítulo. «...nóspregamos a Cristo crucificado...», isto é, um «Messias crucificado» '(Ver I Cor. 2:2 e Gál. 3:1). Era justamente em torno deste ponto que tanto os gregos como os judeus encontravam a sua grande dificuldade, embora encarassem essa questão de diferentes ângulos. (Ver as notas expositivas sobre o vigésimo segundo versículo deste capítulo, que ilustram esse particular). Os judeus aguardavam um Messias militarmente vitorioso, uma poderosa figura política, que livrasse o povo israelita do jugo romano. Pensavam ver isso claramente ensinado nas profecias do A.T. No entanto, compreen­ deram de forma totalmente errada o ensino bíblico do Messias como «Servo Sofredor» de Yahweh. (No que tange a esse tema, ver as notas expositivas acerca de Atos 3:18, que salientam as diversas profecias do A.T., quanto a esse aspecto da missão do Messias). Os judeus, portanto, deixaram de levar em conta «todas» as profecias bíblicas sobre o Messias; antes, selecionaram para sua meditação apenas aquelas que lhes agradavam. (Ver Atos 3:22 quanto ao testemunho geral do A.T. em favor de Cristo, onde também muitas das profecias do A.T. são alistadas, mostrando como elas tiveram cumprimento no decorrer da narrativa histórica do N.T. Acerca de como as profecias sobre o «reino» dizem respeito a Cristo, ver Atos 3:21, no terceiro ponto, sob o título Restauração). Ora, dotados de uma compreensão tão parcial sobre a natureza do Messias, os judeus tropeçaram e caíram por causa de Jesus Cristo, o qual, em sua vida e em sua missão, cumpriu aspectos daquelas profecias que eles nem antecipavam. Os gregos, por sua vez, teriam esperado um Platão ou um Aristóteles glorificado, como seu Messias, se porventura houvessem considerado a vinda de um Messias, numa espécie de clímax de toda a sua sabedoria filosófica. Ficavam ofendidos, portanto, ante a figura de um humilde nazareno, um homem supremamente religioso e dedicado, e que, embora fosse sábio, como poderiam admitir, não possuía a sabedoria filosófica. Mas isso porque se tinham esquecido da lição de Sócrates, o qual fora reconhecidamente o melhor e mais sábio dos homens, a despeito do que viera a ser desprezado e, finalmente, fora oficialmente executado pelo estado, tal como sucedera com Jesus de Nazaré. «...Cristo crucificado...» Sim, porque foi na cruz de Cristo que a expiação petos nossos pecados teve lugar. (Ver Rom. 5:11). É ainda em Cristo que temos a «propiciação» (ver Rom. 3:25), a «justificação» (ver Rom. 3:24,28) e a «glorificação» (ver Rom. 8:29,30). Também em Cristo se firma a nossa «esperança» (ver Rom. 8:24,25), e nele é que somos «adotados» como filhos, na família de Deus (ver Rom. 8:15). «Não um Messias guerreiro, a dardejar sinais do céu, a quebrar o jugo imposto pelos pagãos; e, sim, um Messias que morria em impotência e vergonha. Ver II Cor. 4:10; 13:4 e Deut. 21:23, o ‘pendurado’, conforme é chamado no Talmude». (Findlay, in loc.). 24 αύτοϊς δε τοις κλητοΐς, Ίονδαίοις τε και 'Έλλησιν, Χριστόν θεοΰ δνναμιν και θεον σοφίαν 24 Χ ρ ισ τό ν ...σ ο φ ία ν Col 2.3 24 Χρίστον . . . σοφίαν] Χρίστος θ · -fus €στ( κ. -ια CO C l Ephr. 1:24: mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos. Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. O quadro não era totalmente negro, entretando. Havia tanto judeus como gentios que haviam aceito a Jesus Cristo. Esses eram os indivíduos iluminados, aqueles que haviam transcendido tanto as perversões do judaísmo, que recebera sinais do Senhor, mas não reconhecera a nenhum dos mesmos e ainda exigia mais e maiores sinais, como o embotamento filosófico dos gregos, a mera sabedoria humana. Naturalmente, essa iluminação é outorgada aos homens espiritualmente e não apenas sobre o intelecto. E se torna real quando da chamada ou eleição dos crentes, os quais, dessa maneira, se tornam capazes de receber os impulsos e as revelações divinas. (Ver as notas expositivas completas sobre a «eleição», em Efé. 1:4,5. Ver também João 15:16). Esse «chamamento» vem da parte de Deus, através do seu Santo Espírito. Não opera mediante a sabedoria humana, e, de fato, pode ser entravada por ela. Por isso mesmo, precisa transcender à sabedoria humana, atingindo aos homens no nível da alma, e não apenas nos níveis emocional ou intelectual. No terceiro capítulo de Romanos, o apóstolo Paulo apresenta 0 ensino sobre a impossibilidade dos homens caídos virem a Deus por seus próprios esforços e pela inteligência humana. É mister que haja a intervenção e a iluminação divinas para tanto. Essas são conferidas quando da «chamada» através do evangelho, chamada essa baseada nos eternos decretos de Deus. Não obstante, o impulso do Espírito Santo deve ser sempre correspondido por parte da vontade humana. Pois se o livre-arbítrio humano não pode obter a salvação por si mesmo, pode acolhê-la. Por outro lado, se a vontade humana perverter os impulsos do Espírito Santo, estes não produzirão o efeito desejado. Assim, pois, a salvação é dada ao pecador tanto através da agência divina como através da agência humana; e todos os homens são assim conduzidos aos pés de Cristo. A atitude acolhedora é criada na alma humana através da preparação do caráter. O certo é que a «fé» é a reação favorável da alma para com os impulsos do Espírito Santo, não sendo uma mera propriedade intelectual. (Quanto a esse tema, ver os trechos de João 3:15 e Heb. 11:1). A alma, por ser uma entidade espiritual, possui determinado caráter, bem como certa visão de Cristo e das realidades espirituais. Quando essa visão é clara, o homem mortal, em sua própria alma, acolhe a mensagem do evangelho. Mas, nos casos em que essa visão é obscura, ou completamente confusa, o homem mortal rejeita a Cristo. Muitas dessas pessoas nem ao menos compreendem que são seres essencialmente espirituais, e tolamente imaginam que o corpo material é a explanação de toda a sua existência (materialismo). Tais pessoas dificilmente se deixam atrair pela mensagem altamente espiritual de Cristo, não reagindo favoravelmente a ela. «...poder de Deus...» No caso daqueles que são chamados, que se achegam a Cristo, o evangelho é o poder de Deus, porquanto gira em torno de Cristo, que é o tema central do evangelho. Isso Pauló já havia salientado,
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    22 I CORÍNTIOS nodécimo oitavo versículo deste capítulo. (Ver também Rom. 1:16 e os comentários ali existentes, sobre «opoder de Deus»), O poder de Deus faz o que a sabedoria humana não é capaz de fazer: salva a alma e a eleva para Deus, que é o grande alvo e o propósito de toda a existência humana. (Ver os trechos de 1'Cor. 8:6 e Rom. 11:36, quanto a esse tema). Na cruz, Jesus Cristo se tornou tanto o «poder» como a «sabedoria» de Deus, conforme lemos nos versículos vigésimo primeiro e vigésimo terceiro deste capítulo. Os judeus desejavam «sinais prodigiosos», demonstração de poder espiritual. Os gregos desejavam elevadas manifestações de «sabedoria». Ora, Cristo é ambas as coisas. (Ver o trigésimo versículo deste capítulo, que reitera a idéia essencial desta passagem). Cristo, crucificado, é a solução que Deus apresentou tanto para os judeus —que buscavam poder— como para os gregos, que buscavam sabedoria. Isso porque os elevadíssimos propósitos de Deus se cumprem na cruz de Cristo, à maneira de Deus, e não conforme pensavam os gregos ou os judeus. «Aqui ‘nos termos <poder> e <sabedoria> de Deus* encontramos a antítese do ‘escândalo’ e da ‘loucura’. Enquanto os judeus indagavam como é que uma pessoa crucificada e maldita poderia ser o Salvador de Israel, como alguém tão destituído de força podeHa ser capaz de derrubar todos os poderes hostis, e enquanto os gregos julgavam absurdo a salvação da parte de alguém que tivera um fim tão miserável, por outro lado, os escolhidos de Deus, experimentam e confessam que é do Redentor crucificado que se origina o poder divino, o poder da vida e da paz celestiais, bem como um poder renovador, santificador, beatífico, como não poderia ser encontrado em coisa alguma pertencente à criatura. Esses escolhidos reconhecem que em Cristo é que existe a sabedoria divina, capaz de solucionar os problemas mais difíceis, os problemas de iluminar as trevas que impediam os homens de perceberem os caminhos de Deus, de cumprir os mais nobres propósitos de Deus, trazendo de volta para as veredas da vida aqueles que se tinham desviado, conduzindo-os, afinal, para seu destino final». (Kling, in loc.). «Porque dessa maneira foi satisfeita a justiça, naquela natureza que pecara e que Satanás desgraçara, naquela natureza que fora a sua própria ruína; dessa maneira o pecado foi condenado, ao mesmo tempo que o pecador foi salvo. O perdão e ajustificação nos são oferecidos pelo caminho da graça, apesar de tudo ser efetuado com justiça estrita. As perfeições divinas são assim harmonizadas e glorificadas, e dessa maneira Deus executou seus sábios desígnios e seus conselhos eternos. Sim, até mesmo a sabedoria de Deus é vista na morte de Cristo sobre a cruz, na qual ele foi encravado a fim de tornar-se maldição por nós, a fim de que nos pudesse redimir da maldição imposta pela lei, para que a bênção de Abraão pudesse ser derramada sobre nós». (John Gill, in loc.). 25 o t í το μω ρόν το ΰ θεοΰ σοφώ τερον τω ν ανθρώ πω ν εσ τίν, καί το άσθβνες το ΰ θεοΰ ΙσγυρότερΟ ν τώ ν ανθρώ πω ν. 25 τό àaO evh.. .ανθρώ πω ν 2 Cor 13.4 1:25: Porque α loucura de Deus é mais sàbia que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Paulo dá prosseguimento aos seus paradoxos e ousadas declarações. Em sentido literal, não podemos atribuir qualquer «loucura» a Deus. Mas Paulo usou esse vocábulo, porque é isso que os homens com freqüência pensam sobre o plano divino da redenção em Cristo. E assim, se por um lado usamos esse termo, na realidade está em foco a elevadíssima e infinita sabedoria de Deus, porquanto a «...loucura de Deus...» consegue realizar aquilo que a sabedoria humana não é capaz de concretizar. Também sabemos que não podemos atribuir fraqueza a Deus. Mas Paulo usou esse vocábulo porque era isso que alguns judeus e gregos pensavam ser a grande característica da vida e do final trágico da vida de Jesus de Nazaré. Essa aparente fraqueza, entretanto, esconde uma força todo-poderosa (ver os versículos dezoito e vinte e quatro deste mesmo capítulo). Esse poder se manifesta na salvação das almas, o feito mais extraordinário que pode ser concebido pelos homens; pois não é pequeno o prodígio mediante o qual um ser humano mortal vem a participar da própria imagem moral e metafísica de Cristo, vindo a compartilhar da divindade (ver Rom. 8:29 e II Ped. 1:4). E é exatamente isso que essa suposta «...fraqueza de Deus...» realiza. E assim, quando lemos aqui «loucura», devemos realmente compreender «elevadíssima e celestial sabedoria»; e quando lemos «fraqueza», devemos entender «elevadíssima e celestial fortaleza». Em ambos os casos, quer o da sabedoria, quer o do poder, falamos de realidades totalm ente acima das capacidades e do alcance de meros homens. Indiretamente, pois, Paulo como que estava dizendo: «Portanto, digamos que o evangelho de Cristo seja uma espécie de insensatez, na mente divina; e suponhamos que o poder inerente em Cristo, na realidade, seja uma espécie de fraqueza divina. Até mesmo nesse caso, essa insensatez é suficientemente sábia para destacar-se acima, muito acima, de qualquer sabedoria humana, ao mesmo tempo que a fraqueza de Deus é suficientemente poderosa para ' fazer o que toda a força humana não pode fazer». Por conseguinte, a sabedoria de Deus, mesmo quando considerada «em sua mais chã manifestação», é mais sábia que os homens. E o poder de Deus, até mesmo visto em seu nível mais débil, é mais forte que o poder humano. Mediante tais argumentos, pois, o apóstolo Paulo salienta o caráter «divino» e «celestial» do evangelho e do Cristo por este anunciado. Tal evangelho simplesmente transcende a tudo quanto é humano. Tertuliano, um dos pais da igreja, declarou: «Creio, porque é ridículo». E isso se coaduna com o que Paulo afirma nesta passagem. O evangelho pode parecer ridículo para a mente humana; mas exatamente essa falsa impressão pode ser uma indicação do fato que sua mensagem transcende à capacidade humana de raciocínio .mental, isto é, pode ser uma indicação que o evangelho é de origem e natureza sobrenatural. «A cruz parecia a grande derrota de Deus. Mas tem conquistado ao mundo, e é a força mais poderosa à face da terra». (Robertson, in loc.). II. O Pròblema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21). 1. A polêmica contras tais divisões: d. Os coríntios, como comunidade cristã, não haviam sido chamados dentre os sábios (1:26-31). Paulo ilustra aqui a tese detque a sabedoria e o poder humanos não podem atingir finalidades e alvos espirituais, salientando o fato de que a igreja cristã de Corinto não se compunha de homens poderosos, de nobre nascimento e sábios, conforme o mundo costuma considerar essas coisas. Os humildes e os pobres, tradicionalmente, são aqueles que acolhem favoravelmente o chamamento de Cristo, provavelmente porque têm menos «bagagem» de que precisam desfazer-se, antes de porem os pés no caminho, tomando da cruz e seguindo a Cristo. Por toda esta passagem, pois, o apóstolo frisa, ante os seus leitores originais, o seu tema anterior, ou seja, a sua polêmica contra aqueles que haviam criado divisões na igreja, exaltando a si mesmos como «sábios», «eruditos», e «nobres». Evidentemente ele atacava aqui o partido que elegera por seu «herói» a Apoio, o eloqüente judeu alexandrino que estivera em Corinto. Paulo havia mostrado que a sabedoria humana não tem valor espiritual, e que certamente não pode produzir a redenção humana. £ ele mesmo, aopregar a mensagem de Cristo, nunca se preocupava em agradar aos homens, em imitar o estilo dos retóricos, dos sábios conforme as escolas gregas de filosofia. Pelo contrário, mostrou que tal atitude só teria servido para «Nenhuma outra vida sobre a face do planeta tem sido tão poderosa entre os homens. A mais largamente propagada das religiões da humanidade, o cristianismo, tem Jesus como sua personagem central... De Jesus, através do cristianismo, têm partido impulsos que têm ajudado a amoldar cada fase da civilização». (Kenneth Scott Latourette, The Unquenchable Light, Nova Iorque, Harper & Brothers, 1941, págs. ii- xii). «Aquele poder e aquela sabedoria de Deus, aninhados na ‘palavra da cruz’, continuam no nosso encalço, porquanto o seu reino ainda não foi conquistado. Mas o ‘cão de caça dos céus’ está na trilha. Não podemos escapar dele. Podemos levantar barricadas em todas as portas de nossa vida, à nossa vontade; mas Cristo esperará, batendo e pleiteando. No fim, as barreiras necessariamente ruirão, em amor ou em julgamento; porque há um limite para a solidão que o homem é capaz de suportar, e a solidão máxima é a da alma destituída de Deus. Contudo, que ele se ponha a descansar, Mas que os guarde com desassossego amadurecido; Que seja ele rico e cansado, a fim de que, por fim, Se a bondade não puder conduzi-lo, o cansaço, contudo, Possa lançá-lo em meu peito. / (George Herbert) «Apalavra da cruz é o tema dominante desta epístola, e, de fato, de todas as epístolas de Paulo. Nelas, esse tema aparece explícita ou implicitamente, até mesmo na epístola a Filemom. Esse tema determina o tom e o padrão para tudo quanto se se^ue. Como o eco de uma detonação, reboa através desta primeira epístola aos Coríntios, e, quando lhe damos ouvidos, suas reverberações retêm ainda o seu poder antigo». (John Short, in loc.). «A natureza humana se deleita em realizar grandes feitos. Deus, pelo contrário, em suas dispensações terrenas, sempre aparece como alguém fraco e pequeno, a princípio, e é somente mais tarde que revela o poder avassalador que está oculto nos instrumentos de que se utiliza». (Neander, in loc.). «...nenhum homem pode deixar de perceber que, propriamente falando, nem insensatez e nem fraqueza podem ser atribuídas a Deus; mas era necessário, através de tão irônicas expressões, abater as loucas presunções da carne, que não têm o escrúpulo de tentar furtar de Deus toda a sua glória». (Calvino, in loc.). «Considerando em retrospecto este parágrafo, vemos que não é difícil, se as evidências forem consideradas por si mesmas, interpretarmos Paulo como um pregador que dava pouco valor a toda a erudição. Todavia, isso seria uma conclusão distorcida e distante da verdade. Porquanto ele mesmo era homem de erudição autêntica, embora se restringisse. Nunca atacou o conhecimento como tal. Mas estava absolutamente convicto que esta não pode conduzir os homens a Deus. Isso depende do próprio ato divino da redenção, na cruz de Cristo. O acesso a Deus não se efetua mediante a filosofia humana, mas através da revelação histórica, em Cristo», (C. T. Craig, in loc.).
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    I CORÍNTIOS 23 prejudicara mensagem simples da cruz; e isso era algo que ele não desejava fazer. Agora, porem, Paulo continua comprovando o ponto por ele salientado, isto é, que a sabedoria de Deus é superior à dos homens, mostrando que, através dessa sabedoria, os 'ignorantes, os pobres e os desprezados eram justamente os que tinham vindo a participar do poder de Deus, com todos os seus benefícios. Sendo assim as coisas, por qual motivo um ministro de Cristo se faria sofista? Não seria isso um detrimento para a causa cristã? Sem dúvida que seria. Paulo mostrava, por conseguinte, que a igreja cristã de Corinto em nada se assemelhava com as escolas gregas, e que tal semelhança seria errada. Aqueles crentes, portanto, deveriam ter o cuidado de não aplaudir os pregadores que tentassem influir a igreja de Cristo com seus métodos filosóficos. Isso só serviria para criar uma facção, um grupo de discípulos que seguisse seus «eruditos mestres», desprezando aos simples e ignorantes do resto da congregação. A igreja de Cristo não possui nenhuma nova filosofia a ser exposta. Se porventura algum pregador se inclina pelas questões filosóficas, deve dirigir-se às academias de filosofia, onde, mui provavelmente, ouvirão sua mensagem, aplaudindo-o ou criticando-o, conforme acharem por bem. A exibição da simples sabedoria humana, e, sobretudo, o uso dessa sabedoria por parte de uma facção intelectual, entricheirada na igreja cristã, e uma atividade evidentemente fora de lugar. ■26 -DΛ6776T6 γαρ την κλησιν υμώ ν, αδελφοί, οτι ον π ολλοί εύγενεΐς· 26 Mt 1 1 .25; jn 7.48; Jas 2.1-5 1:26: Ora, vede, irmãos, o vosso vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. «...na vossa vocação...»Está aqui em foco a eleição em Cristo, a chamada íntima por parte do Espírito Santo, a chamada externa mediante a pregação do evangelho. Essa chamada se concretiza quando se ouve e se aceita o evangelho. E de que maneira ocorreu essa vocação? através da sabedoria humana, com suas ciências e sua filosofia? Não, mas antes, através do poder e da sabedoria de Deus, conforme podem ser vistos na pessoa e na obra de Jesus Cristo. E para quem foi dirigida essa chamada? aos ricos, aos nobres e aos que tinham notáveis realizações acadêmicas e intelectuais? Que os crentes de Corinto considerassem suas próprias pessoas, e assim obteriam a resposta. Essa chamada fora dirigida às classes humildes, a homens de origem popular, dotados de talento e realizações ordinários. Ora, tudo isso serve de comprovação da «sabedoria» de Deus, pois se a sabedoria humana é que produzisse a redenção humana, praticamente nenhum dos membros da igreja de Corinto teria recebido a salvação. «...irmãos...» Um termo afetuoso que suaviza um tanto a severidade das palavras de reprimenda de Paulo. (Ver o décimo versículo deste capítulo, quanto a comentários sobre isso). «...nãoforam chamados muitos sábios...» Não foram muitos os sofistas e retóricos que se voltaram para Jesus Cristo. Não são muitos os intelectuais que sentem atração pela sua doutrina. Não são muitos os filósofos a quem Deus permite verem em Jesus, através da lógica e da metafísica, o Salvador e o Senhor de todas as coisas! Porquanto os intelectuais já possuem um sistema que aparentemente os satisfaz. Todavia, mediante essa sabedoria, perdem inteiramente de vista a demonstração da sabedoria de Deus. (Ver o vigésimo primeiro versículo deste capítulo). Os crentes de Corinto mesmo poderiam fazer uma averiguação entre eles, confirmando assim o argumento que Paulo apresenta aqui, que não são muitos os homens, que tanto eles admiravam, e por causa de quem haviam criado facções na sua igreja, que figuram entre os chamados e os redimidos. Sendo as coisas assim, por qual razão exaltavam à sabedoria terrena? Porque, ao invés disso, não exaltavam à pessoa do Senhor Jesus Cristo? «...nem muitos poderosos...» Não são muitas as pessoas procedentes de famílias reinantes, de políticos, de governadores, de oficiais do governo, de 27 άλλα τα μω ρά τον κόσμον εζελεζατο ό θεός κόσμον εξελεξατο ό θεός ϊνα καταισχύνη τα 1:27: Pelo contrário. Deus escolheu ai coisas loucas do mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes; Por três vezes (incluindo o próximo versículo) vemos Deus a escolher; e isso enfatiza o lado divino da eleição, o manancial mesmo da redenção humana. A sabedoria divina operou de forma inesperada para a natureza humana, e, de fato, de maneira contrária à natureza dos homens; no entanto, realizou o elevadíssimo alvo da redenção, o que os homens não podiam fazer em seu próprio benefício. É aqui enfatizada, portanto, «a intervenção divina» da eleição. Paulo atribui ao Senhor Deus a iniciativa da redenção, e exclusivamente a ele. Portanto, toda e qualquer jactância e altivez humanas estão inteiramente fora de lugar, no seio da igreja cristã. Antes, seja Deus, exclusivamente, louvado. «...para envergonhar...» Essa idéia ê usada com relação aos «fracos» e aos insensatos. No vers. seguinte, porém, a expressão reduzir a nada, é usada a fim de indicar as coisas desprezadas pelos homens, bem como seus efeitos sobre as coisas «elevadas» é «nobres». A palavra «...envergonhar...» é aqui usada para dar a entender uma certa forma de lançamento de confusão, para que se evidencie a inferioridade daquilo que fica confundido. Pois aqueles que eram reputadamente «insensatos» tomam-se capazes, uma vez que recebam o poder de Cristo, de realizar notáveis «prodígios». Além disso, seus seres são moralmente transformados, tornando-se muito superiores aos «nobres» quanto à conduta moral. E nisso se mostram mais excelentes que os filósofos morais, como os estóicos, os epicureus, os cínicos e os hedonistas. Na realidade, os crentes, apesar de reputados como «fracos», são melhores que os mais nobres dentre os seres humanos sem Cristo; mas isso, não por si mesmos, e, sim, por causa daquilo que Cristo tem operado neles. Ora, isso é que sujeita à vergonha aos sábios e poderosos deste mundo; porquanto a sabedoria destes últimos nunca foi capaz de realizar o que se vê ocorrendo entre os seguidores de Cristo. As riquezas materiais dos πολλοί σοφοί κατά σάρκα, ού πολλοί δννατοί, ού militares e de outras camadas da alta sociedade que são atraídas para Cristo. Também não são chamados muitos homens provenientes das classes abastadas, as quais, inevitavelmente, ocupam os poderes e a liderança em qualquer sociedade humana. E evidente, portanto, que o poder humano não é a verdadeira origem dobem-estar espiritual, não servindo isso de base para as seleções feitas por Deus. Ora, se o poder humano não é o alicerce de qualquer valor espiritual autêntico, por qual motivo o poder humano seria tão exaltado na igreja dos coríntios, a ponto de criarem eles partidos entre si, à moda de facções aristocráticas? «...nem muitos de nobre nascimento...» O termo grego por detrás dessas palavras dá a entender «nascimento bom» ou «nascimento elevado». Ora, a igreja de Corinto não se compunha de aristocratas, de descendentes de reis e de príncipes, e nem mesmo de filhos de governadores, prefeitos e oficiais subalternos do governo. Em face do fato da Grécia ser uma sociedade democrática, os indivíduos da «nobreza», ali, eram aqueles que pertenciam às classes abastadas, e não os que provinham de linhagens reais. Por conseguinte, por qual motivo, no seio daquela igreja cristã, alguém se estribaria em alguma suposta vantagem de nascimento ou de linhagem, exaltando a certos membros da mesma, com detrimento dos menos afortunados e mais simples? Não havia razão alguma para essa atitude; contudo, nesse erro tinham caído os crentes coríntios facciosos. «...segundo a carne...» Em outras palavras, de conformidade com «os padrões terrenos». Esta frase, que aparece contígua a «sábios», provavelmente tem por intuito modificar todas as três classes. Assim, pois, havia sábios segundo os padrões terrenos, havia poderosos segundo os padrões terrenos e havia nobres de nascimento segundo os padrões terrenos. No entanto, havia pouquíssimos desses elementos na comunidade cristã de Corinto. (Ver as notas expositivas acerca do versículo seguinte, quanto ao baixo prestígio e à procedência popular dos crentes dos primeiros séculos do cristianismo, o que fica demonstrado em várias referências literárias antigas). «A história inteira da igreja de Cristo é uma vitória progressiva dos ignorantes sobre os eruditos, dos humildes sobre os exaltados, até que o próprio imperador (Constantino), depositou a sua coroa perante a cruz de Cristo». (Olshausen, in loc.). tva καταισχύνη τούς σοφούς, καί τα άσθενη τοΰ ισχυρά, poderosos nunca foram capazes de efetuar em um homem o que Cristo faz nos seus remidos. De nada vale, nesse sentido, a sabedoria e o prestígio político dos nobres de nascimento. Vemos, portanto, que Paulo apela aqui para aquilo que Cristo é capaz de fazer em um homem, transformando-o radicalmente em outra criatura. A presença do Espírito Santo, operando entre os humildes cristãos, e a manifestação de seus diversos dons espirituais, eram comuns entre os crentes. Além disso, os seguidores de Cristo possuíam uma forma de conhecimento, um poder espiritual e uma bondade que eram inteiramente desconhecidos para todos os demais homens. Outrossim, embora não pudessem comprová-lo então, os crentes tinham um destino muito superior a tudo quanto os homens mundanos poderiam jamais aspirar. Os crentes se dirigem para um futuro no qual haverão de com partilhar do próprio conhecimento, do poder, da sabedoria e até mesmo da natureza do próprio Deus, segundo aprendemos no trecho de II Ped. 1:4. Ver também Col. 2:10 e Efé. 3:19. Ora, tudo isso se realiza por causa da escolha divina, como também em face do fato de que Jesus Cristo cumpriu com êxito a sua missão terrena e celestial, já que os remidos estão sendo transformados naquilo que Cristo é, compartilhando igualmente daquilo que ele tem. (Quanto a isso, ver Rom. 8:29). E evidente que nenhuma sabedoria ou poder de origem humana poderiam jamais efetuar tais feitos. E tudo isso contribui para demonstrar a superioridade da sabedoria de Deus, a superioridade daqueles sobre quem desce esse poder divino e essa sabedoria do Senhor. Os crentes primitivos eram de nascimento humilde e destituídos de posição na sociedade. Isso fica claramente evidenciado em seus nomes pessoais, a maioria dos quais eram apelativos próprios de escravos ou de libertos, e não dos orgulhosos e originais cidadãos romanos. Grande número desses nomes próprios, encontrados nas catacumbas de Roma, sobrs lápides, inscrições, etc., também comprova o fato. Sabe-se que o fato
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    24 I CORÍNTIOS doscristãos geralmente virem de classes humildes se tornou motivo de motejo entre os literatos da época, conforme se vê nos Anais de Tácito (xv.44), nos escritos de Justino Mártir (Apol. 2:9), nas obras de Orígenes (Contra Celsum, ii.79; Minuc. Felix, vii. 12). Os cristãos eram apodados de «rudes», «incultos», «aldeões» ou «lavradores». (Ver também a Epístola de Plínio a Trajano (x.97). Plínio referiu-se aos cristãos como indivíduos provenientes de todas as classes ordinárias da sociedade. «Quem é aquele...que mede a sabedoria pela simplicidade, a força pelo sofrimento, e a dignidade pela baixeza? Quem é aquele que pensa que o primeiro é o último, que alguma coisa não é nada, e que se julga muito importante, somente porque é um servo? Contudo, quando Deus teve por bem subjugar o mundo e o inferno ao mesmo tempo, parte daquele para a salvação e totalidade deste último para a perdição, não fez escolha de quaisquer outras armas ou auxíliares além desses, sem importar se os destinava para a salvação ou para a destruição. Teria sido prodígio pequeno para ele colocar suas legiões em ordem de batalha, flanqueando-as com os seus trovões; portanto, enviou a Insensatez para confutar a Sabedoria, a Fraqueza para amarrar a Força, e o Desprezo para conquistar o Orgulho. Nisso consiste o grande mistério do evangelho, que pode ser verificado na experiência do próprio Cristo, o qual não veio para ser servido, mas para servir, o que também se deve cumprir em todos os seus ministros, até ao seu segundo advento». (Milton). Naturalmente, havia exceções à regra geral exposta no presente versículo. Assim é que Dionísio, de Atenas, fora um dos principais líderes políticos daquela cidade. (Ver Atos 17:34). Erasto fora o tesoureiro de Corinto (ver Rom. 16:23). Havia mulheres «nobres» de Tessalônica e de Beréia, que se tinham associado de todo o coração à causa cristã. (Ver Atos 17:4,12). Entretanto, aqueles que são declarados pertencentes à casa de César não devem ser reputados como tais, porque, de acordo com o vocabulário antigo, essa expressão significa, meramente, os escravos que trabalhavam ali, ou, quando muito, oficiais inferiores sob o seu comando. Além disso, esse termo era usado acerca de todos os crentes populacionais do mundo greco-romano, não sendo indicados apenas os auxiliares de César que viviam na capital do império. Não obstante, não havia muitos crentes provenientes das classes sociais superiores. Paulo, assim sendo, mostrou que era exatamente aquele rebotalho de gente, na concepção do mundo, que era importante para Deus. Por conseguinte, por qual razão os humildes haveriam de ser desprezados no seio da igreja cristã, sendo exaltados os ricos e poderosos? 28 καί τα αγενή τοΰ κόσμου καί τα εξουθενημενα εξελέζατο 6 θεός, τα μη καταργηση, οντα ινα τα οντα s 28 {C } τά μη όντα ρ“ Ν* A C* D* ti 0129 33 1739 it·*"·'·» cop»” ' e th ro M areion T ertullian ()rigen*rl/7 Ambrosiaster Tyconius Pelagius E uthulius II και τά μη οντα. W Β C3 D 1 ’ P Ί ' 81 88 104 326 330 436 451 614 629 630 1241 1877 1881 1902 1984 2127 2495 Bijz Led r.ri.*., vg nrm eth m > (>rigen«r6/7·1 '1 ' Pam philus Eusebius A phraates Ί omit 2492 syr1 ’’ cop! Chrysostom Theodoret John-Dam ascus Apresençade καί antesde τά μη οντα (Nc B CJ D b P Ψ 81614 Byz at) parece ser uma interpolação provocada pela série anterior de objetos, cada qual unido ao próximo por καί (ver Blass-Debrunner-Funk, § 490). Ao adicionar o termo, porém, escribas olvidaram a força da expressão τά μη οντα, que (como Zahn frisa, in loc.) não é outro item da série, mas é uma caracterização compreensível e climática de todos os itens anteriores. A forma mais breve é fortemente apoiada por j>4tK*AC* D* G 0129 33 1739 al. 1:28: e Deus escolheu as coisas ignóbeis do mundo, e as desprezadas, e as que não são, para reduzir a nada as que são; (Quanto à significação das palavras «...Deus escolheu...», que se repete por nada menos de três vezes nesta secção, ver o começo das notas expositivas sobre o versículo anterior). «.. .cousas humildes...» Essas palavras se referem ao nível social em geral, dos membros da igreja de Corinto, conforme um ponto de vista tipicamente humano. Esses membros eram geralmente escravos, libertos, trabalhadores braçais, servos e negociantes. As «cousas humildes», expressão que também poderia ser traduzida por «coisas vis», formam a antítese das coisas de «nobre nascimento» (conforme diz o vigésimo sexto versículo). Não provinham de linhagem nobre, ou, pelo menos, não podiam traçar tal linhagem. Por outro lado, é evidente que todos nós somos filhos de reis e de escravos, dos indivíduos mais nobres, dos mais humanitários, como / também dos piores criminosos, assassinos, ladrões e homens violentos. Cada ser humano descende da mesma raça humana; e basta-nos um ligeiro exame na história do homem para que não nos orgulhemos de nossa ascendência. As coisas «...desprezadas...», as quais literalmente estão sendo «reduzidas a nada», não meramente são olhadas com ar de superioridade por parte dos altivos, mas também são literalmente vilipendiadas. Essa era a atitude que os estranhos ao cristianismo tinham para com os cristãos. Mas tudo isso é apenas uma descrição genuína da humanidade não-redimida, refletindo o estado de rebeldia em que se encontram contra Deus, a qual, longe de mortificar-se por causa disso, enche-se de tolo orgulho. Deus é quem infunde a verdàdeira nobreza e a verdadeira riqueza em uma pessoa, pois, através da atuação íntima do Espírito Santo, os remidos estão sendo transformados na nobilíssima imagem de Cristo, sendo levados a compartilhar de suas riquezas, de sua natureza e de suas expressões morais e metafísicas. Essa maravilhosa operação divina tem lugar através do poder do evangelho, e não mediante a sabedoria humana. «...aquelas que não são...» Aqui é usada uma hipérbole. Os cristãos eram tão desprezados pelos demais que eram considerados como se nem ao menos existissem. Eram contados como nada, na escala de valores concebida pelos homens, não cabendo nem mesmo dentro das categorias mais desprezíveis. Eram reputados como aquelas pessoas que podem morrer à míngua nas ruas, à noite, que no dia seguinte ninguém sentiria a sua ausência. «As classes para as quais o cristianismo era atrativo, para os filósofos e estadistas eram ‘não-entidades’, eram ‘zeros’em sua avaliação». (Findlay, in loc.). Trata-se das mesmas classes de pessoas que, nas sociedades modernas, são meros números, buscadas apenas com a finalidade de pagamento de impostos e para figurarem nos recenseamentos. «...são...» é o oposto de «não são». Os que «são» seriam os nobres, os ricos, os poderosos, os famosos, os governantes, os sábios —a aristocracia em geral, numa palavra. ^ «...reduzira nada...» A proposição de Paulo é que aqueles que «não são» reduzirão a nada aos que «são». E essa é uma expressão mais forte do que a idéia de «envergonhar», que aparece no vigésimo sétimo versículo. Significa «reduzir uma pessoa ou uma coisa à total ineficácia», «tornar inútil e inoperante». O que Paulo quis transmitir a seus leitores é que a sabedoria e ,o poder de Deus se evidenciarão de tal maneira naqueles que são ^«chamados», qualidades essas tão ausentes nos sábios e nos de nobre nascimento, que, finalmente, tornar-se-á patente ondejaz o valor autêntico. Aqueles que estão sem Cristo é que aparecerão, aos olhos de todos, como miseravelmente paupérrimos, como nulidades, como destituídos de qualquer sabedoria ou riqueza duradouras. Em contraste com isso, os que confiam em Cristo aparecerão como possuidores de toda a riqueza, de todo o poder e de toda a nobreza de Deus, visto que estão sendo transformados segundo sua imagem moral e metafísica. Isso significa que o prestígio humano será aniquilado, porque isso é o que foi decretado por Deus. Paulo não queria que entendêssemos que os próprios cristãos reduzirão a nada o poder e o orgulho deste mundo. Antes, isso será realizado pelo próprio Deus, quando as suas relações para com os que «são» e para com os que «não são», forem levadas a termo. (Quanto a uma declaração, saída dos lábios de Jesus, que expressa idêntica idéia, ainda que expressa mediante palavras diferentes, ver os trechos de Mat. 11:25 e Luc. 14:21, onde o leitor pode examinar as notas expositivas. Com isso se pode comparar também a passagem de Jer. 9:23,24, a qual provavelmente influiu sobre os pensamentos de Paulo, ao escrever estes versículos). «Todas as vantagens naturais se tornarão perfeitamente inúteis; porquanto dependemos totalmente do dom de Deus». (C.T. Craig, in loc.). Paulo quis ilustrar aqui a insensatez dos membros da igreja cristã de Corinto, que desprezavam a alguns irmãos na fé e exaltavam a outros. Somente Deus pode fazer isso. Quando o homem tenta fazer outro tanto, torna-se um ladrão das prerrogativas de Deus. «O evangelho foi adaptado por Deus para eliminar a altivez de espírito tanto dosjudeus como dos gregos, envergonhando as jactanciosas ciências e erudições dos gregos, e desvalorizando aquela constituição sobre a qual os judeus tanto se ufanavam, o que os levava a desprezarem o resto do mundo ao seu derredor. E tudo isso para que nenhuma carne se gloriasse na presença do Senhor». (Matthew Henry, in loc.). 29 οττως μη καυχησηται πάσα σαρξ ενώπιον τοΰ θεοΰ. 29 Ro 3.27; Eph 2.9 1:29: para que nenhum mortal se glorie no presença de Deus. Deus é o padrão final de valores, e os valores espirituais são todos aquilatados por ele. Portanto, os valores humanos, estritamente terrenos, que são utilizados pelos homens como bases de orgulho pessoal e de facções, não podem permanecer de pé diante do Senhor, como também não podem permanecer de pé diante de Deus os jactanciosos. A conclamação à humildade, e o fato que o orgulho e a ufania não podem caracterizar as pessoas verdadeiramente piedosas e espirituais, são princípios freqüente­ mente ensinados por todas as Sagradas Escrituras. Com isso se pode comparar a passagem de Rom. 3:27, onde se mostra que a jactância dos judeus, na lei mosaica, foi totalmente eliminada em Cristo. Por semelhante modo, no que diz respeito aos dons espirituais e seu uso, o apóstolo dos gentios mostrou que ó orgulho não pode fazer parte dessa atividade, em I Cor. 4:7, porquanto nada possuímos, em absoluto, que não tenhamos recebido através da dispensação divina e dç sua graça. Por conseguinte, se for necessário que nos gloriemos, só nos podemos gloriar no doador de todas as coisas, que é o Senhor. Jesus, pois, elogiou aos pobres e humildes, pois deles, eventualmente, será o reino dos céus. (Ver Mat. 5:3).
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    I CORÍNTIOS 25 Oorgulho é um dos pecados mais comuns mas também é uma das mais mortais das transgressões. Separa os homens entre si, e separa os homens de Deus. Trata-se de uma estimativa exagerada que o indivíduo faz de si mesmo, e isso o leva, inevitavelmente, a subestimar e desprezar ao próximo.O orgulho ê que tinha causado as divisões na igreja cristã de Corinto sobre o que lemos nesta epístola; e o orgulho é que levara tantos judeus e gentios, igualmente, a se manterem distantes e frios para com Jesus Cristo. Foi igualmente o orgulho que causou a queda de Lúcifer, bem como dos anjos que se precipitaram juntamente com ele. E essa é a barreira que se levanta, diante de todos os povos, impedindo-os que recebam as bênçãos espirituais decorrentes do evangelho. «O orgulho é o começo do pecado». (Ben Siraque, Livro da Sabedoria). «O orgulho, a inveja e a avareza—essas são as fagulhas que têm incendiado os corações de todos os homens». (Dante, Inferno). «A guerra é filha do orgulho, e o orgulho é rebento das riquezas». (Jonathan Swift, Battle o f the Books). «A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda». (Pro. 16:18). «Não é nem o orgulho intelectual e nem a posição e o prestígio civis que realmente contam aos olhos de Deus. As pessoas que se inclinam para essas coisas tendem por mostrar-se arrogantes e soberbas, e geralmente^cometem o pecado dos fariseus, a saber, o pecado de u‘a mente fechada. É para os dotados de humildade mental, sem sofisticação, que é dirigida essa chamada divina, tal como o próprio Senhor chamou os pescadores que puxavam suas redes à beira-mar. O espírito auto-suficiente não tem lugar reservado para Deus...Naquela ocasião não'parecia assim, mas a história desde então tem demonstrado a verdade dessas proféticas palavras de Paulo. Aqueles crentes de Corinto, à semelhança dos primeiros discípulos, eram indivíduos insignificantes e sem importância na sociedade. Ninguém que os conhecia haveria de dizer que eles representavam alguma coisa promissora, para os séculos futuros. No entanto, os homens de maior significação no império romano, há quase dois mil anos atrás, foram 30 αντον 8è υμείς eare iv Χ ριστώ Ίη σ οΰ, δς eyev αγιασμός και άττολυτρωσis, 1:30: Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nó» foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; (Quanto ao fato que o próprio Cristo Jesus é a «sabedoria» e o «poder» de Deus, ver as notas expositivas referentes ao vigésimo quarto versículo deste capítulo). A essa lista de atribuições, o apóstolo dos gentios agora acrescenta a «justiça», a «santificação» e a «redenção», e, neste versículo, não repete a idéia de «poder». Paulo se utilizou desses vários termos a fim de descrever uma só e a mesma salvação, embora contemplada de diferentes ângulos. A Sabedoria De Deus 1. Essa sabedoria é um dos atributos divinos (ver I Sam. 2:3); é insondável (ver Rom. 11:33); e é a base de toda a bondade humana, sobretudo do bem-estar espiritual, particularizando-se a salvação (ver Efé. 1:8). 2. O evangelho contém os tesouros da sabedoria divina (ver I Cor. 2:7). 3. Paulo faz contraste entre a sabedoria humana (ensinada na filosofia) e a sabedoria de Deus (que se manifesta na mensagem do evangelho). A sabedoria humana gera o orgulho; a sabedoria divina conduz à salvação da alma. 4. A sabedoria divina se manifesta em Cristo (ver notas completas sobre essa expressão em I Cor. 1:4). 5. O próprio Cristo é a personificação da sabedoria divina, conforme é ensinado por este versículo. É Cristo quem proporciona aos homens os benefícios prometidos pela sabedoria divina. Tudo quanto os homens podem conhecer acerca da verdadeira sabedoria, precisam conhecê-la em Cristo; põis, para os homens, Cristo é a sabedoria de Deus. (Ver o desenvolvimento desse tema, em Col. 2:2 e ss.). A sabedoria de Deus é demonstrada do seu plano, relativo à redenção da humanidade, plano esse que concretiza algo que a sabedoria humana sob hipótese nenhuma poderia concretizar. E a palavra ou mensagem da cruz é o tema central dessa sabedoria. (Ver o décimo oitavo versículo deste capítulo). Por igual modo, essa sabedoria é a única que permanecerá de pé sob oteste do juízo divino. (Ver o décimo nono versículo). Através da sabedoria de Deus é que o mundo inteiro pode ser potencialmente salvo. (Ver o vigésimo primeiro versículo). Tudo isso pode parecer um escândalo, uma insensatez e uma pedra de tropeço para os homens (ver os versículos vinte e dois e vinte e três), mas Jesus Cristo é a própria personificação da sabedoria de Deus. (Ver os versículos vinte e quatro e aquele que ora comentamos). A grande verdade é que a sabedoria de Deus, que tantos homens reputam como insensatez, é mais sábia que a sabedoria humana, porquanto cumpre aquilo . que o engenho humano está impossibilitado de fazer. (Ver o vigésimo quinto versículo). Mas esse cumprimento só se verifica no caso de homens humildes, que reconheçam sua ignorância espiritual; pois Deus dá iluminação espiritual a esses, mas resiste aos soberbos. (Ver os versículos vinte e seis e vinte e oito). Sim, Cristo é a verdadeira sabedoria de Deus, fazendo violento contraste com a falsa sabedoria humana. «...se nos tornou...» Deus fez de Jesus Cristo essa «sabedoria» e essas outras quálidades, aqui mencionadas. Fê-lo das seguintes maneiras: 1. Mediante os seus decretos, baixados desde a eternidade. 2. Mediante a encarnação do Filho de Deus. 3. Mediante o ministério terreno de Jesus Cristo. 4. Mediante a sua exaltação à mão direita de Deus Pai, onde foi feito aqueles pecadores da Galiléia, e as pessoas-chaves do vastíssimo desdobramento, no gigantesco panorama da história subseqüente, foram os membros da comunidade cristã. A despeito de. suas fraquezas, de seus fracassos e de suas estúpidas dissensões, foram os instrumentos de um Espírito que haveria de passar varrendo pelo império romano, bem como através dos séculos, muito depois que o próprio império romano já se extinguira». (John Short, in loc.). «...ninguém...» No original grego encontramos o reflexo de um hebraísmo—«toda a carne»—(ver Atos 2:17 e as notas expositivas referentes a esse trecho), que indica a totalidade da humanidade. Temos um tesouro em nossos vasos de barro. Mas esse tesouro não é propriamente nosso, embora nos transforme à semelhança de Cristo. Porém, não podemos nós ufanar disso. (Ver II Çor. 4:7 e as notas expositivas a respeito). , «O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra». (Heb. 2:20). Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que no coração alimentavam pensamentos soberbos. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes. (Luc. 1:51,52). «Entendemos com isso que Deus, ao confundir os poderosos, os sábios e os grandes, não tinha por propósito inchar de orgulho os fracos, os iletrados e os abjetos, mas antes, reduzir todos eles a um único nível». (Calvino, in loc.). Variante Textual: Alguns manuscritos dizem, neste versículo, «...em sua presença...», conforme lemos no ms C (1) e em algumas versões latinas e siriacas, o que é seguido pelas traduções AC, GD, KJ e F. Todas as outras traduções, usadas para efeito de comparação, por este comentário (catorze ao todo, nove em inglês e cinco em português), dizem como diz esta versão portuguesa, «...na presença de Deus». (Quanto à lista de abreviações que indicam essas traduções, ver a introdução ao comentário). Essa variante concorda com os mss P(46), Aleph ABC(3)DEFGLP, os quais, certamente, representam o texto original, porquanto esses são os manuscritos mais antigos. ήθη σοφία ή μ ΐν άττο θεοΰ, δικαιοσύνη τ€ και 30 δς.,.άττολύτρω σι? Jr 23.5-6; Jn 17.19; 2 Cor 5.21 Senhor e Cristo, e de onde brande toda a autoridade, nos céus e na terra, segundo também lemos em Mat. 28:18. Ora, todos esses aspectos estavam designados de antemão com o propósito de produzir a redenção humana. «...em Cristo Jesus...» Todos os benefícios do plano remidor nos são outorgados mediante a nossa identificação e comunhão com o Filho do homem, Jesus Cristo. Aqui temos a reiteração da idéia do «misticismo de Cristo», conceito tão comum nos escritos do apóstolo Paulo. (Quanto a notas expositivas completas sobre essa questão, ver a exposição referente ao quarto versículo deste mesmo capítulo). Essa expressão subentende a intimidade mística com Cristo, criada através da agência do Espírito Santo. Deus é a fonte originária de todos os benefícios de natureza espiritual; mas todos esses benefícios nos são derramados por intermédio de Jesus Cristo, e isso através de meios místicos. Muito mais está em vista aqui do que alguma nova posição escatológica. Em outras palavras, Paulo não via esses benefícios serem derramados sobre nós somente quando o reino de Cristo for finalmente estabelecido, quando então seriamos favorecidos por sermos verdadeiros discípulos do Senhor. Não, mas esses benefícios são nossos desde agora, embora venham a ser mais plenamente possuídos na vida futura, em continuação da comunhão com o Senhor, através da transformação segundo sua imagem moral e metafísica, nos termos de Rom. 8:29, onde o leitor deve examinar as notas expositivas , para melhor entendimento acerca desse magno tema do evangelho de Cristo. «...justiça...» Cristo é a nossa retidão. E isso significa muito mais do que o fato que fomos forensicamente declarados perfeitos em Cristo, embora isso também expresse uma verdade. O que aprendemos aqui é que seremos feitos perfeitos como é perfeito o próprio Deus Pai. Novamente se destaca a idéia da transformação moral, que faz parte da transformação íntima operada pelo Espírito Santo. Por conseguinte, isso faz parte do «misticismo de Cristo», acerca do qual Paulo falava aqui. Dessa maneira, tornamo-nos, mediante o sistema da graça divina, naquilo em que a lei mosaica não nos podia transformar. Tudo quanto os preceitos da lei podiam fazer era mostrar-nos quão distanciados tínhamos ficado de Deus, devido à corrupção do pecado. Qra, a transformação moral provoca a transformação metafísica. Em outras palavras, aqueles que se tiverem tornado moralmente perfeitos, em termos correspondentes também virão a compartilhar da natureza metafísica de Jesus Cristo. Assim sendo, a justiça de Deus precisa tornar-se nossa, não apenas posicionalmente, por estarmos em Cristo, mas como experiência real em nossas vidas diárias. (Quanto a notas expositivas detalhadas sobre essa questão, ver Rom. 3:21). A justificação éum tema paralelo. E isso apesar de alguns estudiosos não concordarem que a justificação seja mais que uma simples declaração forense da parte de Deus, a nosso respeito. Na verdade, a justificação envolve mais que uma mera declaração divina. (Ver as notas expositivas sobre Rom. 3:24 e 28, onde essa questão é devidamente esclarecida). O tornar-se alguém perfeito ou santo como Deus (ver Mat. 5:48), em que o crente virá a com partilhar de sua perfeita natureza moral, envolve muitíssimo mais do que apenas a ausência de pecado, ou do que o perdão dos pecados. É igualmente a participação na natureza moral positiva de Deus, conforme descobrimos em Gál. 5:22,23. O Espírito Santo é quem forma em nós a natureza moral positiva de Deus, proporcionando-nos as qualidades de Jesus Cristo, como, por exemplo, a sua bondade, a sua alegria, a sua longanimidade, etc. E precisamos admitir que isso envolve muito mais do que a mera ausência de pecado. A «justiça» que temos aqui, por conseguinte, fala sobre a natureza moral transformada dos remidos, o
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    26 I CORÍNTIOS quese alicerça e se origina em nossa fé e em nossa intimidade mística com Jesus Cristo. Ver também os trechos de Rom. 10:4,10; 6:13; Gál. 4:5 e Fil. 3:9. E ver igualmente a passagem de Rom. 1:17. Natureza Da Santificação 1. A santificação é a continuação da conversão, e, na realidade, é apenas um outro nome dado à total transformação que Cristo opera em nós: primeiramente no aspecto moral (para participarmos da própria santidade de Deus, ver Mat. 5:48), e então no aspecto metafísico (para compartilharmos das virtudes positivas de Deus, e, finalmente, de sua própria natureza divina, segundo se vê nas notas sobre Gál. 5:22 e Efé. 3:19). 2. A santificação, portanto, é um termo que usamos a fim de dizermos como a «salvação» vai se concretizando em nós, especialmente do ponto de vista ético. (Ver as notas sobre a «salvação», em Heb. 2:3). 3. A santificação não é uma opção, que podemos aceitar se nos for conveniente, ou rejeitar se suas exigências nos parecerem difíceis demais. A santificação é um aspecto real da salvação, porquanto estamos sendo salvos do pecado e seu poder. Sem a santificação, ninguém jamais verá Deus (ver Heb. 12:14). 4. A santificação é fruição da justificação, servindo de elo necessário com a glorificação. Assim, a cadeia dourada da salvação que Deus dá conta, como um de seus elos, com a santificação. 5. Apesar de haver um aspecto inicial da santificação (quando Deus nos separa do mundo, por ocasião da conversão), e de haver um aspecto contínuo da santificação (quando Deus vai formando em nós a natureza moral de Cristo), também existe um aspecto futuro na santificação(quanáo seremos completamente libertados do princípio do pecado, quando tivermos plenamente formadas em nós as virtudes morais positivas de Deus, como o amor, a bondade, etc.). E esse aspecto futuro será um processo eterno, porquanto a natureza moral positiva de Deus é infinita. 6. A santificação é realização do Espírito (ver I Cor. 6:11). Pode ser imitada pelo esforço humano, pelas resoluções nobres, mas o homem não pode produzir a santificação autêntica. 7. Sem a santificação, é impossível alguém herdar o reino de Deus (ver I Cor. 6:9-11). 8. Ver notas completas sobre esse tema, em I Tes. 4:3. «.. .redenção...»De todos os vocábulos que Paulo usa neste versículo, este 31 Iva καθώ ς γ έ γ ρ α π τα ι, 'Ο καυχώμενος έν κυρίω καυχάσθω. 31 Κύριοί] Θεω ρ4βΤ ert 1:31: poro que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. Temos, neste versículo, uma citação livre de Jer. 9:23,24 de mistura com I é o mais prenhe de sentido. Inclui o «resgate» que nos livra do pecado, conforme o termo grego por detrás dessa tradução pode significar; mas também fala da totalidade de nossa salvação em Cristo, incluindo todos os seus aspectos. Esse é o grande tema do evangelho. Envolve os seguintes aspectos: 1. A conversão e a regeneração inicial. 2. A justificação. 3. A participação na retidão de Cristo, mediante a santificação. 4. E inclui igualmente a glorificação final. Essa palavra envolve o drama sagrado da alma em sua inteireza, mostrando como ela regressa à presença de Deus e vem a participar da natureza de Cristo Jesus. Indica o resgate da alma, a redenção da alma humana, antes vagabunda e distanciada de Deus. Acompanha a orientação dada à alma, ao longo da vereda de volta a Deus, até que, finalmente, a alma chega ao seu lar e fonte originária, Deus. Envolve até mesmo o térmico da jornada da alma, não visando apenas algum estágio ao longo do caminho. O vocábulo redenção, considerado em seu contexto profano, sugere a redenção de um escravo, que era oferecido à venda em algum antigo mercado de escravos. Por semelhante modo, a alma crente é reconduzida ao seu lar e destino apropriados, em Cristo Jesus, tendo sido restaurada de todo o seu desvio, tal como um escravo é redimido ou restaurado de sua vida de humilhação na servidão. A alma humana se acha em estado de servidão ao pecado, até que é restaurada a Deus. No tocante a essa «redenção· final» em Cristo, ver os trechos de Luc. 21:28; Efé. 1:14 e 4:30. O termo grego apolutrosis («redenção») é usado por dez vezes nas páginas do N.T. Sua forma verbal, todavia, é usada por nada menos de sessenta e nove vezes, com sentidos como «libertar», «soltar», etc. Posto que essa palavra é μsada com significados tão diversos, o conceito é muito amplo, podendo indicar a salvação inicial, a conversão, a libertação do próprio eu e do mundo, e o retorno para Deus. Além disso, pode servir de termo lato e todo-inclusivo, designando a totalidade da salvação, a obtenção do grande alvo espiritual. É neste último sentido que essa palavra é empregada aqui, pois é colocada em último lugar na grande lista exposta por Paulo, com o intuito de incorporar todas as idéias anteriores. (Ver o trecho de Rom. 3:24, quanto a outras notas expositivas acerca desse conceito. Esse comentário explica os vários usos e os sentidos básicos desse vocábulo, juntamente com referências bíblicas ilustrativas). 31 Ό καυχώ μβνος...καυχάσθω Jr 9.24 (2 Cor 10.17) Sam 2:10, que é muito similar ao primeiro trecho, extraída da versão da Septuaginta (tradução do original hebraico dó A.T. para o grego, completada cerca de duzentos anos antes do início da era cristã). (Quanto a vim esclarecimento completo acerca da expressão «está escrito», e como essas palavras foram usadas pelo apóstolo Paulo para vincular idéias neotestamentárias com ο A.T., ver o décimo nono versículo deste mesmo capítulo. Essa expressão ocorre por doze vezes nesta epístola, por dezessete vezes na epístola aos Romanos, além de um bom número de vezes dispersas pelas epístolas aos Gálatas e segunda aos Coríntios, além de algumas outras poucas vezes, pelas demais epístolas do apóstolo Paulo. O apóstolo dos gentios encontrava, nas Escrituras do A.T., a autoridade para os seus ensinamentos, vinculando o antigo pacto ao novo, como uma revelação divina contínua. Cristo significa todas as coisas para nós, nossa redenção do princípio ao fim, sendo ele a sabedoria e o poder de Deus. Dessa maneira, nenhum homem pode vangloriar-se de si mesmo. O crente deve gloriar-se; mas tão-somente no Senhor, que é Cristo Jesus. Na referência original desta citação, a palavra «Senhor» é uma alusão a Yahweh, o Deus do A.T. Todavia, nas páginas do N.T., esse termo se refere mais freqüentemente ao Senhor Jesus Cristo. (Ver as notas expositivas referentes a Rom. 1:4, onde isso fica demonstrado e onde se comprova também a natureza do senhorio de Jesus Cristo. Quanto ao fato de que Cristo toma o lugar de Yahweh, eni várias citações dessa natureza, mediante a transferência do termo «Senhor» para Jesus Cristo, ver outros trechos bíblicos, como segue: I Cor. 2:16;, 10:22; II Cor. 10:17; Fil. 2:11 e Rom. 10:13. Ver também I Ped. 2:3). Supor alguém que Paulo e os demais escritores sagrados do N.T. lançaram mão apenas de versículos convenientes para se referirem à pessoa de Jesus Cristo, sem atribuir a ele a glória e a autoridade que acompanham tais passagens do A.T. que citaram, é supor uma profunda ignorância da parte dos apóstolos, como se estes pensassem poder usar tais trechos bíblicos, totalmente fora de seu contexto, aplicando-os erroneamente a Cristo. Não nos olvidemos que os apóstolos eram judeus acostumados a manusear com as Escrituras do A.T. Não há que duvidar que sabiam aplicar devidamente as passagens de que se utilizaram. Propositadamente usaram-nas para indicar Jesus Cristo, porquanto ele é o Senhor, o criador de todas as coisas, a fonte e o alvo de toda a criação, conforme esse conceito é desenvolvido em passagens como o primeiro capítulo da epístola aos Efésios e o segundo capítulo da epístola aos Colossenses. Ora, visto que toda a glória pertence exclusivamente ao Senhor, então os crentes muito erram quando selecionam heróis, criando facções em torno deles. O apóstolo Paulo recomenda a humildade, como remédio para esse estado de coisas, contradizendo a atitude de orgulho, conforme já fizera no vigésimo nono versículo. Aqui, contudo, Paulo adiciona a única base legítima para a ufania, mostrando também em quem o crente pode e deve gloriar-se, o que ele não incluíra naquele versículo. Aquele que está caído, não precisa temer a queda; Aquele que é humilde, não precisa temer ao orgulho; E aquele que é pequeno aos próprios olhos, Sempre terá a Deus como seu guia. (Wendell Phillips). Com o presente versículo podemos comparar a declaração que Paulo faz em Gál. 6:14, onde a cruz de Cristo figura como o único fundamento no qual o crente pode gloriar-se com razão. Deissmann (New Light on the N .T ., pág.7) observa acerca da importância dessa passagem em geral, do ponto de vfsta histórico, dizendo: «...no que concerne à origem de suas congregações, entre as classes humildes das grandes cidades, isso serve de um dos mais importantes testemunhos históricos acerca do cristianismo primitivo». (Ver também, desse mesmo autor, «Light from the Ancient East», págs. 7,14,60 e 142). Capitulo 2 II: O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21). 1.Polêmica contra tais divisões: e. Paulo lhes mostrara um exemplo de conduta humilde (2:1-5). A refutação de Paulo contra a sabedoria humana, e sua exaltação da sabedoria divina, levou-o a expor três argumentos, a S&D6T! 1. A cruz, em sua mensagem, não representa uma nova espécie de sabedoria, a ser anunciada por sofistas cristãos, o que, erroneamente, estava sucedendo em Corinto. (Ver I Cor. 1:18-25). 2;.J.SS0, fic£|va comprovado pela natureza muito humilde dos próprios crentes de Corinto, que dificilmente poderiam ser qualificados de sábios e nobres.(Ver I Cor. 1:26-31). 3 A própria conduta de Paulo mostrava que a fé cristã não representava alguma nova sabedoria, a ser propalada mediante a habilidade retórica. Paulo apareceu em cena como humilde ministro de Cristo, não se exaltando a si mesmo, diferentemente do
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    qué os sofistascristãos faziam. Antes, Paulo exaltava exclusivamente a Cristo, reconhecendo apenas a sua autoridade. Sua apresentação não era do tipo sofista, mas uma simples declaração da verdade de Deus em Cristo. Ele mesmo esteve em Corinto em debilidade física, de mistura com temor. Todavia, pregou a eles no poder do Espirito, e isso foi a confirmação de seu ministério, o qual ficou assim estabelecido no poder de Deus, e não na base da sabedoria dos homens. (Ver I Cor. 2:1-5). Paulo havia tentado pregar com algum método filosófico em Atenas (ver o décimo sétimo capítulo do livro de Atos). Talvez por esse motivo é que ele resolveu não experimentar o método intelectual em Corinto, embora tal método sem dúvida fosse popular ali. Naturalmente supomos que Lucas narrou fielmente a «apologia» de Paulo a Atenas. Não há razão alguma para supormos que Paulo não teria usado esse método entre os atenienses. Paulo não quis dizer que usar esse método é algo errôneo por si mesmo; mas descobrira, nesse caso, tratar-se de um método ineficaz. Seja como for, não era Paulo competidor para os filosofos gregos, em seu próprio território. Não que lhes fosse intelectualmente inferior; isso não é provável. Não obstante, ele não era um retórico e um sofista treinado. Sentia-se muito mais à vontade na sinagoga do que na escola filosófica; e resolveu que, sendo todos os hnmpns pecadores, e sendo Cristo o Salvador universal, não precisava ele apresentar a Cristo de maneira diferente para homens de culturas diversas. Além disso, Paulo tinha a vantagem de contar com o poder de Deus; o seu ministério era autenticado convincentemente pela inspiração do Espírito Santo, o que lhe permitiarealizarmuitos milagres, sinais e maravilhas. Não precisava, portanto, além de tudo isso, da habilidade retórica dos gregos. Deus honrou ao seu ministério de dezoito meses em Corinto, e lhe deu muitos convertidos; e assim teve começo a igreja cristã daquela cidade. Por conseguinte, ele não tinha do que se envergonhar, porquanto fizera bem o seu trabalho, com óbvios resultados positivos. Ficou subentendido, por conseguinte, que esse apóstolo usara o método correto, pelo menos quanto a ele, a despeito do que sem dúvida ele não negaria que um ministro verdadeiro de Cristo, como Apoio, por exemplo, poderia usar um método diferente, recebendo as bênçãos e a aprovação_ do Espírito Santo. Não •obstante, Paulo fazia forte objeção aos meros imitadores de Apoio, aqueles que haviam criado uma facção em torno do seu nome, supostamente sob o seu patrocínio, os quais também desprezavam a Paulo e à sua apresentação no estilo da «sinagoga», visto que ele não falàva com os floreios que eles tanto admiravam. (Ver II Cor. 10:10, onde se lê que afirmavam que sua palavra era «desprezível»). O próprio Paulo assevera, em II Cor. 11:6, que ele era «falto no falar», ou seja, cru, simples, sem polidez, em comparação com os padrões dos sofistas e retóricos, embora não lhe faltasse «conhecimento». De fato, nada havia de cru ou elementar em seu conhecimento. Paulo vinha pregando o evangelho por nada menos de quinze anos, quando chegou a Corinto. E durante todo esse tempo fizera-o sob o poder do Espirito Santo. Não precisava ficar por demais preocupado com as críticas feitas à sua pregação, em Corinto. Paulo não fazia objeção a outras maneiras de discursar; sua única objeção era contra ós «intelectuais», que haviam provocado facções na igreja de Corinto, visto que enfatizavam exageradamente a sabedoria humana, no conteúdo e na apresentação da mensagem cristã. Pois, em contraste com essa atitude, Deus havia tencionado que a fé cristã e sua expressão religiosa se estribasse exclusivamente em Cristo, e não sobre alguma suposta sabedoria humana, sem importar a forma assumida poresta. * * * 2 Κ άγώ ελθών προς νμάς, αδελφοί, ηλθον ον καθ’ νπερο-χήν λόγον η σοφίας καταγγελλω ν ύμΐν το μνστήριον1τον θεοΰ. 2ιιC o r1.17 I CORÍNTIOS 27 1 1 ίC } μυστήριον Ν* A C 88 436 itar-rl syr* copbo H ippolytus Ambrosiaster Ephraem Ambrose Pelagius Augustine Antiochus // μαρ- τΰρίον « ' B D G P t 33 81 104 181 326 330 451 614 629 630 1241 1739 1877 1881 1962 1984 2127 2492 2495 B yz L ed i588pt itd-den>.e.f,K,x,2 Vg syr1 ' eopH arm eth Origen Chrysostom Pelagius Cyril John-Dam aseus // ebayykXiov Theodoret // σωτήριον 489 ^98pt·59 9 Do pontode vista exegético, a forma μαρτύρων του θβον, embora bèm apoiada (Kc B D G P SP 33 81 6l4 1739 Byz it (d,g) vg sir (h) cop (sa) ara etí Orígenes al), é inferior a μυστήρων, que tem apoio mais limitado, embora antigo, em p4»vtd> A C 88 436 it (r,6l) sir (p) cop (bo) Hipólito Ambrosiastro Efraem Ambrósio Pelágio Agostinho Antíoco. A forma μαρτύριόν parece ser memória de 1:6, ao passo que μυστήριον aqui prepara o caminho para seu uso no vs. 7. 2:1: Eeu, irmãos, quando fui ter eonvosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui cam sublimidade de palavras ou de sabedoria. O Poder De Paulo 1. Paulo não imitava aquela eloqüência exaltada do partido dos filósofos. Sua maneira de falar era crua (ver II Cor. 10:10). No entanto, era ele um homem dotado de poder, tendo realizado prodigiosos empreendimentos no ministério do evangelho, com o acompanhamento de milagres notáveis. 2. Sua mensagem, embora não fosse demonstração de eloqüência rebuscada, anunciava aos homens um evangelho capaz de salvar-lhes a alma (ver I Cor. 1:30). 3. O poder demonstrado por Paulo autenticava a sua mensagem. Ele não precisava da erudição própria dos sofistas. «...o testemunho de Deus...» Alguns manuscritos dizem aqui, ao invés de «...testemunho...», «mistério». (Ver a nota textual que se segue). Paulo se referia à «mensagem da cruz», tal como já fizera em I Cor. 1:18. Essa é também a «sabedoria de Deus», conforme se lê em I Cor. 1:21,25. Essa sabedoria divina servia de «escândalo» para osjudeus e de «loucura» para os gregos (ver I Cor. 1:23). O «testemunho de Deus», por conseguinte, é a mensagem acerca de «Cristo crucificado», conforme se lê em I Cor. 1:23. No entanto, a despeito dessa mensagem ser encarada como uma insensatez e como uma fraqueza (ver I Cor. 1:25), na realidade é a sabedoria e o poder de Deus. (Ver I Cor. 1:18,25). Paulo queria salientar aqui o evangelho que é o anúncio a respeito de Cristo. Esse evangelho é chamado aqui «... de Deus...» porque Cristo foi enviado por Deus Pai, o que perfaz um dos principais temas do N.T., sobretudo no quarto evangelho. Há notas expositivas sobre essa idéia, no trecho de João 3:17. Assim sendo, o testemunho concernente a Cristo, concernente à sua missão remidora, é, ao mesmo tempo, o «testemunho de Deus» para os homens; porquanto, no que diz respeito a essas questões, não se pode estabelecer qualquer distinção entre os propósitos de Deus Pai e os propósitos de Deus Filho, Jesus Cristo. Com essa declaração de Paulo podem ser comparadas as seguintes referências paulinas: I Cor. 15:15; II Tes. 1:10; I Tim. 2:6 e II Tim. 1:8. A primeira delas é bastante similar à declaração que encontramos neste versículo, fazendo alusão ao fato da ressurreição, o que, naturalmente, ê um dos temas centrais e básicos do evangelho. (Ver o trecho de I Cor. 1:6, onde a mensagem cristã é chamada de «o testemunho de Cristo». Essa expressão, «o testemunho de Deus», são expressões sinônimas). «...não...com ostentação de linguagem...» Algumas traduções preferem dizer aqui «excelência de linguagem». Uma tradução mais literal, entretanto, diria, «...segundo elevação de linguagem...» No trecho de I Tim. 2:2, essa mesma palavra é traduzida por «autoridade», o que representa a única outra menção desse termo, em todo o N.T. Tal vocábulo, no grego, significa «projeção» ou «proeminência». Portanto, «ostentação» é uma interpretação, ainda que provavelmente correta. Paulo, pois, não se preocupava èm que sua linguagem fosse de categoria superior ou notável, conforme foi sempre a preocupação dos sofistas e dos ostentosos filósofos gregos, sendo o objetivo central das escolas de retórica. Paulo se interessava antes pelo «testemunho de Deus», a fim de que esse testemunho fosse claramente exposto e compreendido. Alguns dos seus detratores, entretanto, cuidavam mais em como poderiam impressionar favoravelmente aos homens, com a erudição que tinham, do que mesmo com a clara transmissão da mensagem cristã. «...ou de sabedoria...» Está aqui em foco a sabedoria, a erudição, o raciocínio humano, tudo o que tem sido comentado plenamente em I Cor. 1:19,21,22. Essa é a forma de sabedoria que serve de empecilho aos homens, impedindo que achem a Deus. Tal sabedoria em nada nos ajuda na inquirição por Deus, pelo que também cumpre que seja evitada; ou, pelo menos, não se deve ensiná-la nas igrejas cristãs. Na igreja se deve ensinar aquela sabedoria mais elevada de Deus. (Ver I Cor. 1:24). E a real sabedoria de Deus foi personificada na pessoa de Jesus Cristo, segundo se aprende em I Cor. 1:30. A palavra «...eu...», com que este versículo tem início, é enfática, fazendo forte contraste com os ostentosos opositores de Paulo, «...irmãos...», por sua vez, é um termoque indica afeto, suavizando suas severas reprimendas. (Ver as notas expositivas sobre essa suavização, em I Cor. 1:10), Variante Textual: A palavra *...testemunho...» aparece nos mss Aleph, (3), BDEFGLP, bem como nas versões da vulgata latina, saidica, etiope e aramaica, sendo seguida pelas traduções AA, AC, ASV, NE, BR, F, M e RSV. Em lugar disso, os mss P (46), Aleph (1), AC, a versão latina r, o Si (p) e
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    28 I CORÍNTIOS oboh, além dos escritos dos pais da igreja Ambrósio, Anibrosiaster e Agostinho, dizem «mistério», no que são seguidos pelas traduções GD, PH e WM. A evidência textual, portanto, está dividida meio a meio, em favor de uma ou outra dessas variantes, de tal modo que nos é impossível determinar qual é o texto original neste caso. O fato, porém, é que o «testemunho» de Cristo é também o «mistério» (um termo paulino comum; ver Rom. 11:25 acerca de um sumário de todos os «mistérios doN.T.»). Por conseguinte, Paulo facilmente poderia ter usado um ou outro desses vocábulos. Uma minoria dos editores textuais, entretanto, dá preferência ao termo «testemunho», que talvez seja a palavra que se deveria esperar com maiores probabilidades nesta passagem. Note-se, entretanto, que o vocábulo «mistério» é usado no sétimo versículo deste segundo capítulo. È possível, portanto, que sua presença aqui tenha sido tomada por empréstimo do sétimo versículo. Seja como for, a mesma mensagem é transmitida, com o emprego de um ou de outro desses dois vocábulos. 2 ο ύ γ α ρ έ κ ρ ιν α τ ι e lS é v a i iv ύ μ ΐν εΐ μ η Ί η σ ο ϋ ν Χ ρ ισ τ ό ν κ α ι τ ο ύ τ ο ν β σ τα υ ρ ω μ ε ν ο ν . 2 Ga 6.14 2:2: Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. A palavra «...decidi...» dá a entender um ato definitivo da vontade, alguma decisão proposital. É possível que depois de Paulo haver tentado usar o método filosófico, em Atenas (ver o décimo sétimo capítulo do livro de Atos), Paulo tenha decidido voltar ao seu método mais simples, em face dos escassos resultados obtidos com aquele método. O método mais simples era aquele geralmente utilizado nas sinagogas, em que havia uma exposição singela da mensagem espiritual, sem qualquer preocupação com as minúcias retóricas. Paulo não procurava apresentar uma mensagem artística e impressionan­ te aos ouvidos, para então, ao longo da mesma, deixar escapar algumas das reivindicações de Cristo. Pelo contrário, seguia diretam ente para a apresentação da pessoa de Jesus Cristo e para otema central de sua expiação na cruz do Calvário. (Comparar com I Cor. 1:23, acerca de idêntica declaração, onde esse conceito é comentado). Naturalmente, isso não quer dizer que Paulo pregasse exclusivamente sobre a crucificação de Jesus, sobre a expiação, sobre a reconciliação e sobre o perdão dos pecados, pois suas epístolas mostram-nos que ele pregava sobre uma gama extremamente variada de temas, ainda que fizesse tudo subordinar-se a Cristo. Assim sendo, ele não pretende oferecer-nos aqui uma lista exaustiva dos temas que expunha; antes, indicou aqui o centro (e não a circunferência) da sua mensagem. A cruz não pode ser separada da mensagem inteira da redenção por intermédio de Cristo, a qual também inclui a ressurreição e a glorificação finais, além de vários outros temas. Pois, se começarmos com Cristo, na cruz, terminaremos com Cristo, na glória. Também entenderemos que o crente está identificado com ambos esses aspectos, com a morte de Cristo e com a sua vida ressurrecta. Aquilo que causava ofensa para os judeus, levando-os a tropeçarem, e que parecia uma insensatez para os gregos, era exatamente o que Paulo frisava em sua mensagem. Podemos supor, com base na maneira enfática como Paulo declara essa questão, que alguns de seus detratores, fazendo-se imitadores de Apoio, em suas eruditas mensagens propositadamente excluíam qualquer menção à cruz, o que Paulo reputava como o epicentro mesmo da mensagem cristã. Se essa suposição está com a razão, então podemos compreender por qual razão ele já havia salientado tão fortemente essa mensagem. Talvez a mensagem da cruz fosse ofensiva para alguns, ou mesmo uma pedra de tropeço para outros, na própria igreja cristã de Corinto, e não somente para judeus e gregos incrédulos, estranhos àquela comunidade. Os oradores cristãos que tendiam para a ostentação, pois, procuravam reduzir ao mínimo o tema central que Paulo salientava ao máximo. «Ele ‘Paulo’ resolveu aferrar-se a esse método até mesmo depois de ter pregado em Atenas, onde fora praticamente expulso dentre seus ouvintes com gargalhadas. A cruz só aumentava ainda mais o ‘scandalon’ da encarnação; mas Paulo se mantinha fiel à vereda principal, tendo chegado a Corinto». (Robertson, in loc.). «O propósito de Paulo, ao assim dizer, era o de evitar as teorias de todas as modalidades, aderindo rigidamente ao cristianismo, em sua forma mais concreta, conforme se vê na pessoa e na obra de seu fundador». (Kling, in loc.). Por essas razões, aqueles, em nossos tempos modernos, que pregam mais contra o modernismo e contra o comunismo do que anunciam a Cristo, como também aqueles cujas mensagens não se centralizam em Cristo, deveriam dar nova atenção aos métodos e à mensagem do apóstolo dos gentios. A preocupação de Paulo, em manter-se dentro dos limites dessa forma de mensagem se derivava do fato que ele estava convencido de que somente através dessa mensagem os homens podem ser reconduzidos a Deus. A sabedoria humana de forma alguma pode concretizar isso. (Ver I Cor. 1:21. Quanto à resolução de Paulo, de que nada lhe interessava saber, senão a cruz, ver as notas expositivas sobre Gál. 3:1; I Tes. 4:14; 5:9 e ss.; e Atos 13:38 e ss.). Para nós, a cruz tem sido como que glorificada, devido a muitos séculos de tradição eclesiástica. Até mesmo no mundo profano essa palavra tem adquirido certos sentidos simbólicos positivos, sendo empregada como símbolo de empreendimentos de valor, tendo sido incluída nos nomes de cidades e organizações diversas. Para os homens dos tempos apostólicos, entretanto, a palavra «cruz» dava a impressão de opróbrio e derrisão. Por conseguinte, fazer da cruz o centro da mensagem cristã pareceria, para alguns, ser uma medida detrimente para o progresso do cristianismo. ★★★ 3 κ ά ,γώ iv ά σ θ ε ν ε ία κ α ι iv φ ό β ω κ α ι iv τ ρ ό μ ω π ο λ λ ώ ε γ ε ν ό μ η ν π ρ ο ς υ μ ά ς , 3 Ac 18.9; 2 Cor 10.1 2:3: Ε eu estive convosco em fraqueza, e em temor, o em grande tremor. Paulo sabia que, em si mesmo, nada possuía do poder de Deus (ver I Cor. 1:18), e nem da sabedoria de Deus (ver I Cor. 24:30), que eram necessários para levar homens aos pés de Cristo, apegando-se à sua mensagem e ao seu trabalho até que este se cumprisse. Bem pelo contrário, a mensagem do evangelho era efetuada através de um vaso débil e temente; não obstante, o poder de Deus prevaleceu na vida e no ministério de Paulo. «...fraqueza...», palavra que talvez indique debilidade ou enfermidade física, conforme se vê em II Cor. 12:7, o «espinho na carne». Contudo, mesmo que se inclua essa idéia, certamente Paulo igualmente se referia ao seu estado mental, visto ser o apóstolo dos gentios homem caçado por temores e perseguições. Paulo deixa subentendido que sua condição de «desamparo» ou desânimo se originou das circunstâncias de sua visita a Corinto. Ele tentara realizar grandes coisas para Deus, contra condições adversas tremendas, e em face de severas perseguições. Apesar de sua coragem, Paulo geralmente vivia em temor, e algumas vezes sentia bem perto a derrota. Algumas vezes chegou a titubear, tal como o próprio Senhor Jesus agonizou quando de sua grande provação, no jardim do Oetsêmani. Paulo chegou perto de tropeçar e cair, desviando-se do grande propósito de sua vida. Todavia, a exemplo de Jesus, e também devido aos seus muitos anos de treinamento, de autodisciplina e de suprema dedicação à causa de Cristo, embora tenha hesitado em determinados momentos, jamais abandonou a luta, mostrou-se triunfante até ao fim. Um triunfo significa muito mais quando é obtido através de dificuldades e provações, quando vencemos nossas fraquezas naturais, triunfando a despeito de tudo, do que quando as coisas nos correm favoravelmente. Contudo, o que Paulo fez, fê-lo por meio do poder de Deus, tendo sido o primeiro a admitir essa verdade. Pode-se observar o trecho de Atos 18:5. Paulo se sentia alipressionado ou agitado em seu espírito. Atos 18:6 mostra que ele sofreu oposições e perseguições. O versículo nono, desse mesmo capítulo, mostra-nos que ele precisou do encorajamento de uma visão especial, porquanto temeu que talvez fosse até mesmo assassinado, ou que tivesse de enfrentar algum outro problema severo. Sob tais circunstâncias, portanto é que ele chegara em Corinto. Paulo sofria de certa debilidade física·. No que tange à natureza de seus supostos sofrimentos físicos, parece perfeitamente claro, com base em II Cor. 12:7, que ele padecia de alguma debilidade física. E em Gál. 6:11 ficamos sabendo que pelo menos parte dessa dificuldade envolvia os seus olhos. A maioria dos comentadores bíblicos concorda com isso. Mas existem eruditos que especulam que ele também sofria ataques de malária, epilepsia, ou ambas as coisas; mas tudo isso é apenas pura especulação, sem qualquer fundamento histórico. Paulo recebera o dom de curas, tendo até mesmo ressuscitado a mortos; mas, conforme geralmente sucede com os que recebem esse dom, evidentemente não podia curar a si mesmo. Além disso, a passagem de II Tim. 4:20 mostra-nos que nem sempre ele teve a capacidade de curar seus cooperadores nas lides do evangelho, porquanto Trófimo fora deixado enfermo em Mileto. É comum aos crentes dotados da manifestação de curas terem alguma enfermidade pessoal. Muito se equivocam aqueles que pensam que a enfermidade resulta, sempre e necessariamente, do pecado. Uma enfermidade pode ser uma medida disciplinar ou uma lição que o Senhor nos queira dar. Outrossim, a enfermidade corporal pode resultar de algo, na história da alma (para incluir a sua preexistência, segundo pensam muitos bons intérpretes bíblicos), e, portanto, não fazer parte da história mortal do indivíduo. Acrescente-se a isso o fato de que Paulo fora um cruel perseguidor da igreja de Cristo, tendo perpetrado até mesmo assassínios autorizados pelas autoridades eclesiásticas dos judeus. Ora, tudo quanto um homem semear, isso também ceifará. Isso foi dito acerca dos crentes (ver Gál. 6:7,8), aplicando-se a eles, apesar de terem sido perdoados de seus pecados. Pois o perdão dos pecados não elimina a necessidade de colher o mal anteriormente praticado, tal como se vê no caso de Davi, o qual, a despeito de haver sido perdoado de seu pecado de adultério e homicídio, nunca cessou de sofrer por causa disso, conforme a sua vida subseqüente nos mostra. Precisamos aprender a seriedade do pecado, e o sofrimento físico é uma das lições objetivas. Não deveríamos ficar surpreendidos, portanto, por ver o notável apóstolo dos gentios sofrer, porquanto fora o grande perseguidor dos crentes primitivos. Um certo sentimento vão pode supor que os pecados perdoados eliminam, automaticamente, qualquer razão para o sofrimento físico; mjis isso é um ponto de vista demasiadamente estreito da natureza do sofrimento físico. Todos os seres mortais estão devidamente sujeitos à enfermidade e à morte física; e a maioria dos casos de falecimento, pelo que todos nós precisamos passar, resulta de alguma enfermidade física. Os próprios crentes dotados do dom de curas morrem; e outro tanto sucede a todos os seguidores de Jesus Cristo. Ordinariamente o pecado é a causafinal da morte, mas não precisa ser a causa imediata da enfermidade, e nem mesmo é a sua única causa. «...temor...tremor...»Ansiedades mentais que se originam de debilidades mentais e espirituais. (Essas duas palavras também aparecem juntas nos
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    I CORÍNTIOS 29 trechosde II Cor. 7:15 e Fil. 2:12). Paulo foi um herói da fé, dotado de coragem heróica; mas também havia momentos de temor, de ansiedade, de tropeços, de dúvidas, de descoroçoamento. Afinal de contas, ele foi apenas um ser humano. E confessa aqui essas debilidades aos crentes de Corinto a fim de enfatizar que aquilo que fazia em prol do reino de Deus, fazia-o não com suas próprias forças, e, sim, por impulso do poder de Deus; e, dessa maneira, todo o louvor pertencia a Deus, e não aos homens. Já os seus oponentes, em contraste com isso, davam a glória ao homem, gloriando-se em sua própria sabedoria e poder. Paulo apresentou aos crentes de Corinto a idéia de um personagem humilde, modesto, a fim de que toda a glória pudesse pertencer somente a Cristo. Notemos, em II Cor. 10:10, como os seus detratores mencionavam que sua presença corpórea era «fraca». Não, Paulo não era nenhum super-homem, nem fisicamente e nem em uma linguagem ousada e poderosa; mas o poder de Deus operava por intermédio dele. É um toque muito humano vermos Paulo, o homem que julgávamos ser um super-homem, diminuindo-se perante as dificílimas condições que prevaleciam na igreja de Corinto. é και ό λόγος μου και το κήρυγμά μου ούκ εν π ειθ ο ΐ[ς] σοφίας [Aóyoiç]2 αλλ εν αποδείξει πνεύματος και δννάμεως, 4 1 Th 1.5 2 4 jl ) | 7 reiflots σοφίας Xóyocs (Ν* λόγο$) Η (1>Γ * 33 7rií?ots) ])c 181 1739 1877 1881 itrl vgw w eth Origen*r-Ut Eusebius Cyril-Jerusalem Chrysos­ tom Severian Jerome Cyril Theodoret John-Dam ascus // 7rei0ots σοφίας καί XÓJols 131 H T€l6ols ανθρώπινης σοφίας λό-γοις ü e C Ψ (A P 326 330 ΙΓίθοΐς) 81 88 104 436 451 614 629 (630 omit λόγοι?) 1241 1984 2127 2492 BifZ ftíao.c.gig.x.z1 ”4 Vgci Sy rh Copbo Origen Eusebius Ambrosiaster A thanasius Basil Cyril-Jerusalem // παθοϊ σοφίας ανθρώπινης λόγοι? (1962 vtdois) 2495 // 7reiθόΐ σοφίας λόγου ανθρώπου c()pb"'"s?’' et.h>’p // πζιθοΐ σοφίas 'όyoLς 1 18 42 205 209 216* 234 605'' 3518 // παθοΐ σοφίας λό^ω ν 440 (itd·*) syrp cop3 1 * Origen? // πειθοΊς σοφίας ρ46 Ο // παθοι σοφίας 35* itf-« // πειθοΐ λόγου ethro // παθός λόγοΐ5 σοφίας and omit kv arm Dentre as onze variantes desta passagem, aquelas que dizem ανθρώπινης antes ou depois de σοφίας (Nc A CP Ψ 81 6l4 1962 2495 Byz (it 61) sir (h) cop (bo) al), são obviamente secundárias. Se o termo fosse original, não haveria boa razão por que o mesmo foi apagado; pelo contrário, parece ser uma glosa explicativa, inserida por copistas (em diferentes lugares) a fim de identificar mais exatamente a nuance que há em σοφίας. É bem mais difícil decidir o que fazer com τειθοΐς, adjetivo achado em nenhuma outra passagem de toda a literatura grega. A raridade do termo produziu confusão na transmissão do texto? Ou é realmente uma vox nulla, tendo surgido de um equívoco escribal ao copiar σοφίας (πειθοΐ, πειθοΐ caso dat. do ■substantivo πειθώ, que significa «persuasão»)? A fim de representar a diversidade da evidência, a maioria da comissão resolveu imprimir 7retθο1[ς], e com base em P (46) G 35*, aos quais falta λό^οις, resolveu-se deixar essa última palavra entre colchetes. 2:4: A minha linguagem ea minha pregação não consistiram em palavras persuasivas feita pelo Espirito, era «...do Espirito...», isto é, provinha do Espírito de sabedoria, mas em demonstração do Espirito e de poder; Santo. (Ver as passagens de II Cor. 10:10 e 11:6, onde há indicações sobre a«A fé não repousa sobre argumentos persuasivos, e, sim, sobre a obra de debilidade da oratória de Paulo, quando confrontada com as habilidades filosóficas e retóricas dos gregos. Aqueles filósofos, especialmente os sofistas, eram eficientes oradores e mestres da oratória dinâmina em público. Tinham muitos truques e técnicas que empregavam em seus discursos, tudo calculado para impressionar os ouvintes. Mas ao apóstolo dos gentios simplesmente faltava esse treinamento e a disposição natural para esse tipo de espetáculo teatral. Os discursos preservados até nós, feitos por diversos sofistas, são deveras impressionantes, e até mesmo comoventes. Apoio possuía tal habilidade, mas usava-a para exaltar a pessoa de Cristo, e Paulo não o teria criticado. Mas os detratores deste último, imitadores baratos de Apoio, não exaltavam a pessoa de Cristo com seus belos discursos, e, sim, a si mesmos, provocando o surgimento de facções que eram uma desgraça para a igreja de Corinto e para a causa de Cristo em geral. «...as pessoas crédulas são alvos fáceis para esses oradores plausíveis do púlpito». (Robertson, in loc.). Alguns pregadores não passam de atores de palco, que erraram de profissão. Paulo procurava evitar esses espetáculos teatrais na igreja. Por outro lado, homens ignorantes, com seus discursos e pregações de baixo nível, não podem melhorar essas condições, pois os tais nem possuem eloqüência e nem o poder de Deus; e as igrejas que caem sob a liderança de tais homens têm reuniões maçantes, ao passo que os sofistas pelo menos dirigem reuniões interessantes e divertidas. Paulo, entretanto, não aprovava nem um e nem outro desses dois extremos, como também não aprovava qualquer tendência para o espetáculo. No entanto, como esses defeitos se tornaram comuns hoje em dia! «...minhapalavra...»Mui provavelmente temos aqui uma menção de sua «doutrina», o tema de suas pregações; e a sua forma de apresentação ele indica pelas palavras «...minha pregação...» Nem seus temas e nem seu modo de apresentação seguiam o modelo dos sofistas e retóricos. Alguns estudiosos pensam que-«palavra» significa aqui «discursos privados», e que «pregação» significa «discursos em público», mas essa explicação não é satisfatória. Ainda outros eruditos opinam que «palavra» é eqüivalente ao que se lê em I Cor. 1:18, «o evangelho», ao passo que «pregação» seria a proclamação real desse evangelho. Uma distinção parecida com isso deve ter sido utilizada por Paulo. «...persuasiva...», isto é, «convincente». Deriva-se de um vocábulo grego escrito de forma estranha, «pithos», sem dúvida uma variação de «peithos», que era uma palavra rara, e que em todo o N.T. é encontrada exclusivamente aqui. Nos manuscritos, pois, essa palavra tem sido sujeita a diversas modificações. Sem importar qual a forma original em que foi gravada, mui provavelmente se deriva de «peithos», que significa «convencer», «persuadir», «conquistar para os pontos de vista de». Paulo não declara que não tentava convencer ou persuadir aos homens, e, sim, que não procurava usar de métodos dúbios para isso, como também não lançava mão de uma linguagem floreada e lisonjeadora, para conquistar os homens com esses golpes baixos. Não tinha mesmo necessidade de apelar para tais métodos, porquanto o Espírito de Deus estava sobre ele, operando por seu intermédio; e o Espírito Santo é o melhor agente persuasor dos homens, utilizando-se tanto de prodígios como de palavras. «...demonstração...» Literalmente traduzida, a palavra grega por detrás desse termo daria «exibição». Os argumentos de Paulo não eram meramente «plausíveis», mas também eram exibições reais, em sua vida, em suas palavras, e no poder e sabedoria do Espírito Santo. E essa demonstração era Deus nos corações dos homens. Éo Espírito que torna possível a fé. Conforme veremos em I Cor. 12:9, a fé mesma é um dom do Espírito». (C.T. Craig, in loc.). A palavra grega aqui traduzida por «demonstração», pode significar tanto uma «exibição» como também uma «prova inequívoca». É bem provável que Paulo a tenha empregado com este último sentido, embora ele não estivesse falando sobre alguma prova empírica ou científica. As provas por ele expostas eram espirituais, místicas, e só podiam ser aceitas e reconhecidas intuitivamente. A mera sabedoria humana pode ofuscar e entreter, mas a sabedoria divina convence a alma; e isso é o que importa, afinal de contas. -...do Espírito...», e não «do espírito (humano)», conforme essa expressão grega poderia ser gramaticalmente traduzida. O Espírito de Deus é que é o grande agente divino da sabedoria e do poder de Deus na vida dos homens, o transformador dos remidos segundo a imagem de Cristo, o agente santificador. E, nesta passagem, ele aparece como confirmador da pregação que tem por centro a pessoa de Jesus Cristo. «...depoder...» Temos aqui novamente o confronto entre opoder de Deus e o poder do homem, conformejá víramos em I Cor. 1:18,24,25. O poder de Deus se acha personificado em Cristo, conforme mostram esses citados versículos; e opera por meio do evangelho, o que inclui a «palavra da cruz» (ver I Cor. 1:23,24). (E com isso se pode comparar os trechos de I Tes. 1:5 e 2:13). O evangelho surgiu no mundo não apenas na forma de palavras, mas também revestido do poder do Espírito Santo. Mui provavelmente Paulo quer dar a entender aqui, embora não o diga diretamente, que esse poder inclui as provas, sinais e prodígios operados por intermédio dele. Ora, seum ministro do evangelho dispõe dessas provas, da demonstração do Espírito e de poder, jam ais precisará das habilidades retóricas para confirmar a validade de sua mensagem. Sem essas qualidades, porém, todas as qualidades retóricas de nada aproveitarão, nem ao pregador e nem aos seus ouvintes. Variantes Textuais·. Em face do fato da palavra grega «pithos» ser um vocábulo raro, ordinariamente empregado como substantivo, e não como adjetivo, diversos manuscritos o manuseiam diferentemente. No texto que ora comentamos, parece ter sido usado còmo adjetivo; e a maioria dos manuscritos assim retêm essa palavra, embora com variações quanto à maneira de gravá-la e quanto à ordem das palavras. Assim lemos nos mss P (46), Aleph, ABCD, que são os principais representantes textuais desta passagem. Contudo, o ms 440, as versões latinas em geral e o Si (P), o saídico e os escritos de Orígenes, entre os pais da igreja, transmutam essa palavra para um substantivo, na forma de «peithoi sophias», o que poderia ser traduzido em algo como «na persuasão da sabedoria». Contudo, ainda que isso faça bom sentido, mui provavelmente consiste na simplificação de um texto duro e difícil. Todavia, é possível que o problema seja mais um problema de tradução do que realmente uma questão textual, pois quem pode dizer que esse substantivo também não era usado como adjetivo, nos tempos de Paulo? O apelo à literatura da época, a fim de demonstrar que essa palavra era, pelo menos, rara, nada prova. Paulo poderia estar refletindo aqui um uso raro, raro para nós, bem entendido—mas que facilmente fazia parte comum do grego «koihé». «...dos homens...» são palavras ligadas com o termo «sabedoria», de conformidade com algumas traduções, as quais acompanham os mss Aleph(3), ACLP e as versões cópticas. Mas os mss P(46), Aleph(l), BD e muitas outras autoridades, omitem essas palavras. Trata-se de uma glosa escribal, procurando identificar o tipo de sabedoria a que Paulo fazia menção aqui, procurando fazer harmonia com os trechos dei Cor. 1:19,21 e 2:5. ★★★ ? > iva ή πίστις ύμών μή fj εν σοφία ανθρώπων άλλ’ εν δυνάμει θεοΰ.
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    30 I CORÍNTIOS 2:5:para que a vossa fé não se apoiassena sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Paulo já havia demonstrado longa e cabalmente que a «sabedoria» humana não pode salvar a alma. É mister o «poder de Deus» para tanto. E esse poder opera por meio de Cristo e sua cruz, de acordo com a proclamação do evangelho. Essa é a mensagem básica do trecho inteiro de I Cor. 1:18-30. Para que seja válida, portanto, a ié precisa ser estabelecida, firmada e arraigada no poder de Deus. E a própria fé é um dos aspectos do fruto do Espírito de Deus, uma qualidade da alma, e não apenas uma qualidade emocional ou intelectual. A sabedoria humana pode persuadir os homens acerca de certas idéias ou doutrinas, levando-os assim a darem assentimento mental às mesmas, como se elas fossem verdadeiras. Mas a verdadeira fé não é apenas uma qualidade intelectual. É antes a reação favorável da alma, com base naquilo que ela sabe acerca da mensagem de Cristo. È à «entrega» da alma ao destino que Deus reservou para os homens em Cristo. Por conseguinte, a fé é uma qualidade espiritual, uma motivação e uma característica espirituais do indivíduo, e não da natureza meramente intelectual. Somente através dessa modalidade bíblica de fé é que'uma alma pode novamente ser posta no caminho de retorno a Deus. (Há notas expositivas completas sobre a «fé», nos trechos de João 3:16 e Heb. 11:1). Na igreja às vezes a fé tem sido reduzida a mera persuasão mental e a «assentimento verbal» diante de certas proposições doutrinárias. Ora, jsso jamais poderá salvar uma alma, porquanto a fé é o começo da «conversão», sinônimo da. mesma. É uma espécie de transformação inicial, operada pelo Espírito Santo; e, como princípio, continua a transformar aos homens, porquanto o justo viverá por fé, e avançará de fé em fé. (Quanto a notas expositivas sobre a fé, consultar também os trechos de João 3:20; 20:29,31 e Atos 16:31). «Aquilo que depende de um argumento engenhoso fica à mercê de um argumento ainda mais engenhoso. Mas a fé, que em sua raiz consiste de confiança pessoal, se origina do contacto vital da personalidade humana com a personalidade divina. Suas afirmações não são meras declarações abstratas, mas envolvem a experiência do livramento pessoal». (Robertson e Plummer, in loc.). Paulo demonstrava, pois, mediante todo o seu argumento, que a «sabedoria humana» é algo fora de lugar na igreja cristã. Contudo, os crentes de Corinto, por estarem erroneamente persuadidos a respeito dessa sabedoria, tinham por isso mesmo criado facções entre eles, o que era detrimente para o louvor e a glória de Cristo. (Ver I Cor. 1:31). Somente o «poder de Deus» deveria ser permitido pelos crentes como a motivação e a força controladora na apresentação da mensagem cristã. Esse é o poder que nos compete buscar. A pregação deve repousar sobre o poder de Deus, e jamais sobre a eloqüência humana. Não obstante, se um pregador conta com ambas essas vantagens, então sua pregação é duplamente abençoada. Tal pregador deve mostrar-se humilde, a exemplo de Apoio, que tanto era eloqüente como falava com o poder do Espírito Santo. Mas aquilo que porventura repousar sobre a «sabedoria deste mundo», perecerá juntamente com essa sabedoria mundana. 2:6: Na verdade, entre os perfeitos falamos sabedoria, não porém a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que estão sendo reduzidos a nada; ★★★ «...sabedoria...» II. II. O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21). 1. Polêmica contra tais divisões: x f. A sabedoria verdadeira não é propriedade dos facciosos, cujo espirito demonstra antes a ausência da influência d Espirito Santo (2:6- 3:4). E m seus argumentos contra os partidos facciosos, Paulo já havia mostrado que esses partidos: 1. Elevavam o homem ao lugar que só Cristo pode ocupar (I Cor. 1:13-17). 2. Àos olhos de Deus, são uma loucura, pois a sabedoria humana é insensatez para Deus; e a própria cruz não é algum novo tipo de sabedoria; razão pela qual nenhuma facção se deveria basear sobre a suposição de que o evangelho tem essa natureza (I Cor. 1:18-2:1). 3. Não estão de conformidade com o exemplo deixado por ele, pois, apesar de Paulo ser um humilde ministro de Cristo, contudo, mostrava-se poderoso e eficaz em seu ministério, através do Espirito Santo, o que jamais pôde provocar divisões entre os crentes. 4. E agora Paulo expunha um quarto argumento: A verdadeira sabedoria de Deus é transmitida aos remidos exclusivamente pelo Espírito Santo, e não através do engenho humano. Mas os promotores de facções mostravam não possuir qualquer manifestação real dessa sabedoria divina, em suas vidas., De fato, naquilo em que se ufanavam da sabedoria humana deixavam entrever que o Espirito de Deus não os controlava. E issò ficava tanto mais comprovado pelo seu espirito faccioso, que só servia para detratar da glória de Deus, na pessoa de Cristo, a quem cabe toda a glória, em todas as atividades da igreja cristã. (I Cor. 1:31). 6 Σοφίαν 8è λαλοΰμεν èv τοΐς τελείους, σοφίαν δε ου του αίώνος τούτου ovSè των αρχόντων τον αίώνος τούτον των καταργονμενών - 6 2o0íai/...T eX cíoisEph4.13;Php3.15 informais, privadas e públicas, todas as vezes em que anunciava a Cristo, ele ensinava a mesma mensagem. «...entre os experimentados...» Paulo estava usando, novamente, o vocabulário das religiões misteriosas, referindo-se aqui aos «perfeitos», aos «iniciados». Mas, com isso, dava a entender tão-somente os crentes maduros, aqueles que verdadeiramente estavam sendo transformados segundo a imagem moral de Cristo, destinados a participarem também de sua imagem metafísica. Não reduzia Paulo o cristianismo ao nível de outra religião misteriosa, e nem aceitava seus preceitos como tais. Mas fez alusão aqui aos crentes maduros, experimentados, em contraste com os que eram «crianças» na fé, com os infantis na experiência cristã, segundo se lê em I Cor. 3:1. Por conseguinte, estão aqui em foco os «espirituais»: (Quanto a essa palavra, «espirituais», comparar com os trechos de I Cor. 14:20; Fil. 3:15 e Efé. 4:13). Os «experimentados», que algumas traduções dizem perfeitos, são os crentes já dotados de altas experiências cristãs; também são chamados de «espirituais», porquanto Paulo usa esses termos de forma intercambiável. Os gnósticos erigiam fortes barreiras entre os «perfeitos» e os simples aderentes de sua fé; e isso causou o aparecimento de distinções radicais, em alguns documentos cristãos de natureza mística, conforme aqueles provenientes de Alexandria, que se referem a cristãos «esotéricos» e «exotéricos». (Ver Eusébio, História Eclesiástica v.xi.). É verdade que Paulo reconhecia a existência de certa gradação entre os cristãos, de conformidade com a perfeição e a maturidade a que haviam chegado em Cristo; porém, não estava fazendo o tipo de distinções «místicas» que havia entre os gnósticos e entre certos cristãos de séculos posteriores. Não queria dar a entender Paulo, com as palavras por ele utilizadas aqui, que alguns cristãos pertenciam a alguma categoria especial por causa de experiências místicas quanto aos mistérios reyelados, ao passo que outros ficavam do «lado de fora» desse grupo seleto, por serem crentes de qualidade mais prosaica. Não obstante, em um sentido bem real, isso pode refletir certa verdade. Todavia, se Paulo se utilizava da linguagem dos místicos, não dava a tais vocábulos os mesmos sentidos que eles lhes davam. Neste ponto ele simplesmente estabelecia certa distinção entre crentes maduros e crentes imaturos. Os crentes maduros, pois, podiam compreender como Paulo pregava escudado no poder e na sabedoria de Deus, porque tinham entendimento sobre esse aspecto da verdade. Já os imaturos preferiam sair em busca da mera sabedoria humana, aquela sabedoria típica deste mundo ímpio, causando ainda divisões no seio das igrejas cristãs, por causa dessa questão. A Sabedoria De Deus 1. Sob esse título, são expostas notas completas acerca desse téma, em I Cor. 1:30. 2. Paulo, em sua prédica, falava através da sabedoria de Deus, a saber, Cristo, no que fazia contraste com o partido intelectualizado, que haviam criado um evangelho filosófico. (Quanto a notas sobre esse tema, ver I Cor. 1:17 sob o título «Uso e abuso da filosofia»). É possível que os filósofos da igreja de Corinto se inclinassem um tanto para o gnosticismo. (Ver as notas sobre o «gnosticismo» em Col. 2:18). 3. Paulo estabelece o contraste entre a sabedoria divina, que é a fonte de todo o bem-estar humano—incluindo a salvação—e a sabedoria humana, a qual gera o orgulho e não consegue salvar uma alma sequer, embora possa servir de entretenimento para a mente. Paulo mostrava-se mui amargo contra aqueles que tinham substituído o evangelho por qualquer filosofia humana, pois os desmascarou como orgulhosos sofistas. O versículo seguinte dá início a uma expansão dessa idéia, falando acerca da sabedoria de Deus, que antes estivera oculta em mistério. Porém, em Cristo e mediante as revelações conferidas a Paulo, os segredos de Deus agora foram «abertos» ou «revelados» (ver o nono versículo deste mesmo capítulo), não estando mais ocultos para os crentes, e nem sendo mais matéria de conhecimento somente dos iniciados, conforme era a situação entre as religiões misteriosas que eram tão numerosas nos dias de Paulo, como, por exemplo, ocorria entre muitos gnósticos. Assim sendo, se Paulo se deixou influenciar pelos vocábulos nessas religiões misteriosas, por outro lado não se deixou macular pelos seus conceitos, porque, em caso contrário, ter-se-ia deixado influenciar pela própria sabedoria humana que ele deprecia neste texto. (Quanto a notas expositivas sobre o «gnosticismo», ver o trecho de Col. 2:18). «...expomos...»Embora tenha usado aqui uma palavra diferente, «laleo», o apóstolo dos gentios não queria estabelecer qualquer distinção para com a «pregação» que já havia mencionado. Naturalmente que nas discussões
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    I CORÍNTIOS 31 Oque Paulo dizia acerca daqueles que causam facções, portanto, bem como acerca daqueles que seguem tais líderes, é que eram crentes imaturos; eram crentes carnais, e não espirituais. Apesar de talvez serem verdadeiros crentes, não eram perfeitamente iluminados ainda, a despeito de toda a sua exibição de sabedoria humana, porquanto a verdadeira sabedoria jamais concorrerá para quebrar aünidade cristã, e nem atribuirá glória aos homens, e não a Cristo. «...a sabedoria deste século...» Com essas palavras podem ser comparadas aquelas outras, de I Cor. 1:20, «o inquiridor deste século», onde também aparece o termo grego aqui traduzido por «século», e onde se explica o sentido do mesmo. O apóstolo dos gentios esperava por um outro «século» ou «era», a saber, a era do Messias, que haverá de caracterizar-se pela sabedoria de Deus, pelos padrões celestiais do conhecimento, em contraste com a «insensatez» ou «loucura» dos homens da presente «dispensação», a qual, erroneamente, tem recebido o título de «sabedoria». (Quanto a referências diretas e à exposição do conceito dessa sabedoria terrena, ver o trecho de I Cor. 1:19,20). «...nem a dos poderosos desta época...» Estão aqui em foco os sábios deste mundo, os quais, acima de todos, possuem a sabedoria que caracteriza os homens e ainda se ufanam da mesma, ao invés de se gloriarem daquela sabedoria que caracteriza as realidades espirituais. Os filósofos gregos, bem como outros homens importantes, estavam em foco, dentro dessa classificação, não tendo o apóstolo feito menção específica aos governantes políticos, conforme esse termo ordinariamente dá a entender, ainda que tais políticos devem ter sido incluídos na declaração tão geral de Paulo. É possível que esse apóstolo se tivesse referido aqui a indivíduos como os membros do sinédrio, como os fariseus, os saduceus, os escribas, Herodes, Pilatos, etc. Em outras palavras, os supostos sábios e poderosos deste mundo, na realidade não são tais, porquanto todos tiveram participação na crucificação do Messias, assim demonstrando sua imensa estupidez, no que concerne à sabedoria e às obras de Deus. Pois a verdade é que a hierarquia dos poderes humanos, de maneira geral, faz oposição à sabedoria de Deus. Alguns intérpretes cristãos, como Orígenes, um dos pais da igreja, além de muitos outros, nos séculos que se seguiram, ensinaram que os «poderosos», que figuram neste versículo, são os seres angelicais, que influenciariam aos homens e explicariam muito de suas ações, sendo os 7 άλλα λαλοΰμβν θΐον σοφυ els 8όζαν -ημών 2:7: mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, que esteve oculta, a qual Deus preordenou antes dos séculos para nossa glória; Essa é uma das excelentes afirmativas do apóstolo Páulo, a qual certamente representa uma verdade eterna. Nossa mensagem cristã é a exposição da sabedoria de Deus. (Ver as referências a esse respeito, no versículo anterior, onde também há alusões a vários lugares, no primeiro capítulo desta epístola, onde são expostas porções dessa doutrina tão importante). A sabedoria de Deus está contida no mistério. Esse mistério é o «segredo revelado» da completa redenção em Cristo, o que sem dúvida é uma amplíssima aplicação desse termo, «redenção», em contraste com outros lugares, onde a palavra «mistério» envolve apenas porções do grande mistério cristão, como, por exemplo, o mistério da igreja, o mistério da piedade trazida por Cristo, o mistério da permanência habitadora de Cristo, etc. (Quanto a uma nota expositiva que sumaria todos esses «mistérios», ver Rom. 11:25). Assim sendo, em contraste com os mistérios do gnosticismo e das religiões gregas misteriosas, temos aqui um «segredo revelado». Trata:se de algo anteriormente escondido, mas que agora foi desvendado. E essa revelação é feita por meio do Espírito de Deus, e não mediante a inteligência e a perspicácia humanas. Outrossim, visto que ela é de origem divina, não podemos aspirar a compreendê-la em sua inteireza. Não obstante, não se trata de alguma doutrina secreta e oculta, conforme esse termo queria dizer, no vocabulário das religiões misteriosas. Paulo talvez tenha tomado por empréstimo esse termo, mas não a doutrina aqui ensinada. «...outrora oculta...» (Com essas palavras podemos comparar os trechos de Efé. 3:5; Col. 1:26 e Rom. 16:25). Essa sabedoria divina estivera òculta de homens de outras eras ou dispensações, incluindo até mesmo os profetas antigos, que dirá os homens comuns. No dizer dessa última referência, «...a revelação do mistério, guardado em silêncio nos tempos eternos».'No entanto, tal sabedoria foi finalmente revelada para aqueles que se inclinam por dar-lhe acolhimento, isto é, os que confiam em Jesus Cristo, depois que o ministério messiânico de Jesus, entre os homens, se completou. Foi então que, de conformidade com a tabela divina, tal mistério foi revelado aos homens. «...a qual Deus preordenou...» O plano remidor, em todas as suas dimensões, estivera oculto dos homens, antes da vinda de Jesus Cristo. Os homens não tinham então meios de perceber a magnitude da transformação dos remidos segundo a imagem de Cristo. Nem mesmo compreendiam a grandiosidade da estatura de Cristo, quanto menos como os homens haveriam de compartilhar de sua exaltada natureza. Porém, na mente divina e de acordo com os decretos divinos,-a glória a ser revelada, mediante a concretização dos sábios planos de Deus, não teve começo. A raiz grega aqui traduzida por «...preordenou...» é «prooridzo», que indica «declarar com antecedência», «predestinar». Trata-se do mesmo vocábulo empregado em Efé. 1:5, que gira em torno da idéia da eleição eterna, porquanto ali lemos que fomos «predestinados» para a adoção de filhos. O versículo anterior a esse fala da eleição como algo que vem desde «antes da fundação do mundo». A doutrina que Paulo aqui apresenta, portanto, é essencialmente a mesma que ele expõe no primeiro capítulo da epístola aos mesmos «principados» e «poderes» aludidos em passagens tais como Rom. 8:38 e Efé. 1:21. Porém, apesar dessa ser uma maneira legítima de compreender o uso desse vocábulo, não é muito provável que esse seja o significado que Paulo tencionava dar ao mesmo. (Quanto a uma definição desse termo, poderosos, ver o oitavo versículo deste mesmo capítulo e as notas expositivas relativas ao mesmo). É verdade, contudo, que essas autoridades conspiraram contra Jesus Cristo; mas ele as venceu na cruz, conforme aprendemos em Col. 2:15. Além disso, também é verdade que os governantes desta dispensação ímpia podem ser identificados, de certa maneira, com os espíritos malignos que sobre eles exercem influência, conforme vemos em Gál. 4:3,9 e Col. 2:8. Todos esses poderes, entretanto, de natureza humana, demoníaca ou angelical, estão destinados a desaparecerem, juntam ente com sua pseudo-sabedoria. Podemos confiar, entretanto, que a sabedoria de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, é de caráter permanente. Ora, se esses poderes e sua sabedoria terão fatalmente de desaparecer, que vantagem se ganharia por exaltá-los no seio da igreja cristã? O oitavo versículo deste capítulo parece limitar os «poderes» aqui mencionados a esta esfera terrena; mas isso não elimina a outra idéia, que também transparece nos ensinamentos de Paulo. Tão-somente significa que ele não a estava ensinando nesta passagem. De conformidade com a escatologia paulina, a redução a nada dos poderosos deste mundo se verificará quando da parousia ou segundo advento de Jesus Cristo. Agora mesmo, no que diz respeito ao reino de Cristo e até onde tem avançado esse reino, tais poderes humanos estão derrotados. Mas o seu desaparecimento será então completo. Tais poderes «desaparecerão no nada»! Por conseguinte, aqueles que exaltam a sabedoria humana, ainda que talvez inconscientemente, pretendem adiar para mais tarde a manifestação da glória de Cristo. Mas tais indivíduos, a despeito de todas as suas exaltadas declarações de conhecimento humano, não sabem muito acerca da verdadeira sabedoria, aquela que nos vem por intermédio de Cristo. A sabedoria humana é transitória; e assim deve ser estimada por nós. Somente a saberdoria de Deus é eterna. Com isso se pode comparar o trecho de Apo. 19:11 e ss. Cristo, pois, haverá de ferir às nações da terra, passando a governá-las com vara de ferro, pois ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores. No dizer de Apo. 11:15: «O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos». iv μυστήριοι, τήν (πτοκΐκρυμμίνην, ήν ττροώρισζν ό θεός προ των αιώνων 7 Θί0ν...α.ττ0κ€κρνμμΐν7)ν Ro 16.25; Col 1.26 Efésios, e chega ao mesmo resultado, isto é, à glorificação. «...para a nossa glória...» Isso indica nossa participação pessoal na glória de Jesus Cristo. Notemos que o mistério de Deus culmina na glorificação humana, que será o ponto mais alto da redenção e da salvação dos remidos. Essa é exatamente a verdade que temos destacado com grande saliência nas notas expositivas acerca do oitavo capítulo da epístola aos Romanos; e essa passagem é o melhor comentário sobre o conceito que encontramos aqui. Nesse capítulo a salvação é descrita em termos da presença habitadora do Espírito Santo (ver o nono versículo), da adoção (ver o décimo quinto versículo), da herança (ver o décimo sétimo versículo), da esperança (ver os versículos vinte e quatro e vinte e cinco), da redenção do corpo e da personalidade inteira (ver o vigésimo terceiro versículo), da justificação, e, finalmente, da glorificação (ver os versículos vigésimo oitavo a trigésimo). Em cada uma dessas referências oferecemos notas de sumário sobre seus respectivos temas. A glorificação é o resultado e o alvo de todos os demais aspectos da salvação. Consiste na perfeita participação em tudo quanto Cristo tem e é. Consiste na obtenção de sua imagem moral e metafísica, em que o crente virá a participar da própria divindade (Efé. 3:19; Col. 2:9,10). Ora, é a isso que nos conduz a «sabedoria de Deus», antes oculta em «mistério», sendo esse, por igual modo, o mais elevado conceito do evangelho. No «mistério» revelado, por conseguinte, não contemplamos o sentido que as religiões gregas misteriosas davam a essa palavra, ou seja, um conjunto de doutrinas esotéricas; mas antes, devemos compreender uma realidade da existência humana, que é a completa glorificação dos homens que estão em Cristo. Essa doutrina cristã, como é óbvio, é extremamente diferente dos mistérios daqueles cultos antigos. E não nos devemos olvidar, neste ponto de que o «amor cristão» é a vereda mais rápida que nos leva a essa glorificação, conforme aprendemos no nono versículo deste mesmo capítulo. Isso é que produz aquela transformação moral que, por sua vez, provoca a transformação metafísica. É fruto do Espírito Santo, resultado das suas operações no íntimo. Toda essa questão se reveste de um sentido místico, divino, e não legalista ou cerimonial, porquanto nela é que se fala sobre o contacto entre a alma humana e o Espírito de Deus. Eis a razão pela qual devemos buscar ao Espírito Santo, bem como a concretização de sua obra no íntimo. E nisso passamos a compartilhar da natureza de Cristo, pois ele é o alvo mesmo de toda a existência. Ora, sendo essa verdade, quão grande era a insensatez daqueles crentes coríntios quando davam tão exagerada importância à sabedoria humana, a qual é incapaz de salvar a alma, visto que essa sabedoria humana está condenada a ser reduzida a nada. (Ver I Cor. 1:18,19,25,31 e 2:6). Alguns comentadores bíblicos de tendências legalistas têm pensado que este versículo dá apoio à sua noção de disciplina arcani, ou seja, «ensinamentos ocultos», isto é, doutrinas conhecidas somente por determinadas autoridades eclesiásticas. Mas era justamente desse modo que os gnósticos se utilizavam de tal idéia, sendo o oposto daquilo que Paulo queria ensinar aqui. Para nós, os remidos, tudo será finalmente um «segredo desvendado», e não escondido; e isso certamente se aplica a todos os crentes, e não meramente a alguns poucos indivíduos seletos.
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    32 I CORÍNTIOS «Etodos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, comt> pelo Senhor, o Espírito» (II Cor. 3:18). fjv ούδείς τω ν αρχόντω ν εστανρω σαν. δόξη αίωνος τούτον 8 Lk 23.34 εγνώσαν, ουκ αν τον κύριον της 2:8: α qual nenhum das príncipes deste mundo compreendeu; porque se o tivessem compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glíria. Alguma sabedoria divina, se existente nesses «...poderosos...», tê-los-ia feito reconhecer a presença do Senhor da glória entre eles, personificada no Senhor Jesus Cristo. Contudo, faltava-lhes inteiramente essa sabedoria; e, por esse motivo, praticaram o pior crime da presente dispensação, a crucificação do próprio Messias. Foram os sábios da terra, sobretudo as autoridades religiosas da Palestina, que provocaram as agonias e a paixão de Cristo. E porventura os cristãos, para detrimento do nome de Cristo e da unidade da igreja cristã, haveriam novamente de buscar tal sabedoria, ao invés de se contentarem com a superior mensagem da cruz? É incrível, mas assim é que estava acontecendo na igreja cristã de Corinto. A sabedoria mundana não havia impedido, mas antes, havia provocado o maior de todos os crimes, e a ausência de sabedoria divina fez com que não houvesse qualquer proteção para aqueles que caíram nesse hediondo pecado. Poderia, pois, a igreja cristã inquirir por essa sabedoria mundana, ao mesmo tempo que negligenciaria e até mesmo desprezaria a verdadeira e celestial sabedoria? Nenhum crente «experimentado» ou maduro, embora fraco, poderia fazer isso. Mas os cristãos infantis e carnais se inclinavam por tão grande equívoco, chegando mesmo a ufanar-se de sua suposta sabedoria superior. John Masefield, em sua imaginária conversação entre Prócula, esposa de Pilatos, e Longinus, o centurião que foi o chefe da guarda que esteve ao pé da cruz, diz o seguinte: —Pensas que ele está morto? —Não, senhora, penso que não. —Então onde ele estará? —Solto no mundo, senhora, onde nem romanos e nem judeus podem abafar-lhe a verdade. (Ver «The Trial of Jesus», Nova Iorque, The Macmillan Co., 1925, pág. 111). Acerca dessa verdade, que sobreviveu à crucificação de Cristo, e que os apóstolos conheceram com tanta riqueza, especialmente nas revelações do apóstolo Paulo, e, mais particularmente ainda, nos seus mistérios (ver Rom. 11:25), o mundo dos sábios desta terra nada soube; portanto, desses homens só poderiam vir atos violentos e ilógicos. Ora, o apóstolo dos gentios não queria que a igreja, e nem qualquer de seus membros imitassem tais indivíduos. (Pode-se comparar a «ignorância» aqui mencionada com a menção que Pedro fez, acerca da ignorância dos judeus, que cometeram esse mesmo crime, em Atos 3:17,19). O trecho de João 7:28 mostra-nos que, em certo sentido, as autoridades religiosas dos judeus, que exigiram a crucificação de Jesus Cristo, não ignoravam o que faziam. Portanto, para solucionar essa dificuldade, Calvino (in loc.) supôs a existência de dois tipos de ignorância. Disse ele: «O primeiro tipo se origina de um zelo sem consideração, que não rejeita ' expressamente o que é bom, mas que tem uma impressão que é má... juízo e toda a inteligência, na mente dos homens, algumas vezes são abafados tão eficazmente, que nada mais, senão a mais pura ignorância, é vista pelos outros, ou mesmo pelo próprio indivíduo. Assim se encontrava Paulo, antes de haver sido iluminado... contudo, ele não estava isento de hipocrisia e de orgulho... A outra variedade de ignorância tem mais a aparência de insanidade, de desarranjo mental, do que mesmo de mera ignorância. Pois εγνω κεν, et γα ρ τον κύριον τή ς δόξης ,Jas 2.1 àqueles que espontaneamente se levantam contra Deus, são indivíduos tomados por um frenesi, os quais, apesar de olharem, não vêem, no dizer de Mat. 13:13». Foi este último tipo de ignorância, pois, que Paulo atribuiu aos «poderes» ou autoridades que crucificaram a Jesus Cristo. Tais autoridades, arrebatadas em seu ódio louco, não conheceratn ao «Senhor da glória». Contudo, conheceram-no em certo sentido limitado; mas, devido ao seu zelo cego, pensaram que a sua bondade infinita não passava de maldade. E isso os enganou completamente, até que, gradualmente, sua mente se descontrolou. Todavia, isso não os desculpa, conforme também as Sagradas Escrituras deixam bem claro. Não obstante, se tivessem reconhecido a sabedoria de Deus, bem como ao Senhor da glória como tal, jam ais tê-lo-iam crucificado. (Quanto à «crucificação», ver as notas expositivas sobre o trecho de Mat. 27:35). «...Senhor da glória...» (Com isso podemos comparar os trechos de Sal. 29:1; Atos 7:2; Efé. 1:17 e Tia. 2:1). Cristb recebeu esse título pelos seguintes motivos: 1. Por ser ele o Filho de Deus, o que significa que a glória de Deus lhe é inerente. (Ver João 1:14). 2. Porque ele retornou à «glória», isto é, à presença de Deus Pai, após ter completado com sucesso a sua missão terrena. 3. Porque como homem, sendo ele agora o Senhor dos homens, ele foi glorificado, tendo recebido um nome que está acima de todo e qualquer outro nome, no dizer de Fil. 2:10,11. 4. Porque ele é o modelo de todos os seres remidos e glorificados, bem como o Senhor de todos quantos atingirão a glorificação. (Ver II Cor. 3:18 e Rom. 8:29). Apesar da deidade de Cristo ser uma idéia inerente a essa declaração paulina, contudo, a ênfase recai sobre a grandeza do Filho de Deus encarnado, o qual triunfou e assumiu sua legítima posição de autoridade, nos lugares celestiais, como cabeça da criação inteira. (Ver Efé. 1:10 e ss.). Em face de sua obediência e do cumprimento cabal de sua missão, como homem, é que Jesus Cristo é agora, legitimamente, o alvo de toda a existência humana, bem como o Senhor absoluto dessa existência. «O genitivo é aqui qualificativo; mas a força atributiva é aqui fortemente enfática, fazendo o contraste entre as indignidades da cruz (ver Heb. 12:2) e a majestade da Vítima (ver Luc. 22:69 e 23:43)». (Robertson e Plummer, in ° ' X expressão, «Senhor da glória» não é sinônimo da expressão «glorioso Senhor»; pelo contrário, é análoga à expressão «Pai da glória» (ver Efé. 1:17), ou aquela outra, «Deus da glória» (ver Atos 7:2). Por conseguinte, Cristo aqui aparece como «Senhor e possuidor de toda a glória divina e celestial». O vocábulo glória é um termo que se aplica aos seguintes aspectos da verdade: 1. A presença de Deus. 2. A natureza e atributos de Deus. 3. A glória que Deus confere a outros. Ora, Cristo Jesus participa plenamente de todos esses aspectos da «glória». Mas, para nós, ele participa dos mesmos por causa de seu triunfo, em sua missão terrena, como também devido ao cumprimento presente de sua missão celestial. A nós foi prometida a mesma glorificação. 9 άλλα καθώ ς γ έ γ ρ α π τα ι, "A οφθαλμός ούκ είδεν καί οΰς ούκ ήκουσεν καί εττι καρόίαν άνθρω πον ουκ άνεβη, a, T jT o if-L a U eV 6 Oeòs το ΐς άγαττώ σιν α ν τά ν .α αα 9-10 a major, a minor: T KAV RV ASV Zür Luth // a minor, a major: RSV NEB // a major, o major: Seg H a major with different text, a minor: WÊ Bov Nes BF2 RVme ASVme (TT) Jer 9 ' Α ...ήκονσ€Ρ...αυτόν Is 64.4; 52.15 ro ts ά γ α π ώ σ ιv αυτόν Sir 1.10 2:9: As coisas quê olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam. (Quanto ao significado e ao uso da expressão «está escrito», ver as notas expositivas em I Cor. 1:19). Não se sabe ao certo de que porção das Escrituras foi extraída essa citação. Origenes pensava que Paulo fez uma citação do livro apócrifo Apocalipse de Elias; e Jerônimo a atribuía ao livro apócrifo Ascensão delsaías. Porém, parece que essas obras vieram a existir muito depois de Paulo, o que significa que ele não pode tê-las usado nessa citação. Mas Clemente de Alexandria declarou que pensava que Paulo fizera tal citação do trecho de Isa. 64:4, de acordo com a Septuaginta. O mais provável é que Paulo tenha combinado e citado livremente trechos bíblicos como Isa. 64:4; 65:17 e 52:15, de conformidade com seus propósitos, algo que ele já fizera no tocante ao trecho de Rom. 3:10-18. (Quanto à maneira como Paulo citava trechos bíblicos, adaptando-os segundo os seus propósitos do momento, ver o trecho de Rom. 10:6, onde a questão é exposta e ilustrada). O original hebraico de Isa. 64:4, agora vertido para o português, declara: «Desde antigamente os homens não têm ouvido, nem têm percebido com os ouvidos, nem o olho tem visto um Deus além de Ti, que opera gloriosamente em favor daquele que espera em Ti». E a tradução da Septuaginta (tradução do original hebraico do A.T. para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã) diz: «Desde os dias antigos não temos ouvido, nem nossos olhos têm visto Deus além de Ti, nem as tuas obras, que farás por aqueles que esperam pela tua misericórdia». Isso deixa claro que a glória que será proporcionada aos remidos, e o apóstolo Paulo ainda se demorava sobre esse tema, tendo acabado de mencionar a glória do Senhor, virá da parte de Deus, que é a fonte originária da mesma, embora por intermédio de Cristo. Combinando essa declaração com o que diz o versículo anterior, podemos compreender que essa glória deve ser dispensada por meio de Jesus Cristo; e isso, por sua vez, e confirmado no trecho de II Cor. 3:18, bem como na longa passagem que versa sobre o mesmo assunto, que é o oitavo capítulo da epístola aos Romanos. O olho e o ouvido são mencionados por serem esses os veículos de comunicação para a consciência do ser humano. Assim, pois, nenhuma percepção física tem podido jamais revelar a grandiosidade da glorificação dos remidos em Cristo. Nenhuma percepção física ou busca intuitiva tem conseguido tal prodígio. Somente a revelação pode fazer isso (ver o décimo versículo deste capítulo), porquanto os mistérios de Deus nos são dados mediante revelação, e não através do esforço humano de qualquer categoria. A riqueza da nossa herança em Cristo excede a todos os sentidos e pensamentos humanos; a intuição pode apreendê-la mui nebulosamente; e só pode vir a ser compreendida, na extensão possível para o entendimento humano, através do Espírito de Deus. «...coração.. ,»Essa palavra indicaohomem interior, queé mais do que o intelecto e as emoções, porquanto envolve a alma, o homem essencial. Nenhum ser humano tem podido compreender, em sua própria alma, qual é o seu destino, porquanto ninguém pode pôr cinqüenta litros de líquido em um vaso de um litro somente, e todas as tentativas de cálculo serão perfeitamente vãs. Deus, porém, nos revela os seus mistérios por meio do
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    I CORÍNTIOS 33 seuSanto Espírito, e o homem é fortalecido no íntimo a fim de poder entender, áinda que parcialmente, essa revelação divina. Podemos notar, no trecho de Efé. 1:15 e ss., que Paulo orava para que os crentes fossem «iluminados», através dos «olhos da alma», a fim de poderem reconhecer as riquezas da glória da herança que possuímos em Cristo. As Coisas Que Nos Foram Dadas 1. Quais são aquelas coisas que Deus «tem preparado» para nós (ver o vs. 9), e que nos são reveladas pelo Espírito (ver o vs. 10)? Tudo aquilo que está envolvido na salvação, o que é o bem-estar final do homem. 2. Realidades tão elevadas só podem ser conhecidas por meio da revelação divina (ver o vs. 10), ou sejà, por meio da iluminação espiritual (ver Efé. 1:15 e ss.). A sabedoria humana nãò pode produzir qualquer coisa parecida com essa revelação. 3. Visto que nossa salvação é uma realidade revelada, permanecem ainda muitos mistérios que ainda teremos de aprender algum dia. Aquilo de que já conhecemos, entretanto, é imenso. Na salvação (ver notas a respeito em -Heb. 2:3), os homens chegam a participar da imagem e natureza de Cristo (ver Rom. 8:29), de sua plenitude (ver Col. 2:10), da plenitude do Pai (o que envolve sua natureza e seus atributos, ver Efé. 3:19), e o progresso na redenção, que nos vai levando de um estágio de glória a outro, através do poder do Espírito Santo (ver II Cor. 3:18). «...aqueles que o amam...» A Natureza Do Amor 1. O N.T. apresenta o amor como uma propriedade comum da família divina (ver notas em João 14:21 e 15:10). Portanto, o amor é a fonte originária de todo o bem-estar no seio daquela família. A própria salvação consiste de filiação, pelo que está alicerçada sobre um relacionamento de amor. A providência de Deus, que conduz os homens a Cristo e guia às suas vidas, também está baseada sobre o amor (ver as notas sobre a «providência ' divina» em João 7:6; 11:4 e Atos 7:9,10). 2. O amor é um dos aspectos do fruto do Espírito, cultivo seu (ver Gál. 5:22). Todo o amor genuíno existente neste mundo, entre os crentes ou entre os incrédulos, se origina daquela fonte divina. 3. O amor serve de prova da espiritualidade, e tem sua origem no novo nascimento (ver I João 4:7,8). 4. A princípio, amamos a Deus quando amamos ao próximo (ver Mat. 25:35ess.), sendo essa a forma mais básica de nosso amor a Deus, aquela forma a que podemos chegar antes mesmo de atingirmos um imenso desenvolvimento espiritual. O trecho de Tia. 2:15 e ss. enfatiza isso. 5. Também amamos ao Filho de Deus, o qual tomou sobre si mesmo a nossa natureza humana. Quando nossas almas chegarem àquele nível, então nosso amor será mais místico, mais profundo, mais puro. Isso também se dará por cultivo do Espírito, o que se vê em II Cor. 5:14. 6. Mediante o assentimento da alma, um crente pode chegar a amar a Deus (à pessoa de Deus) diretamente. Essa é uma elevada forma de espiritualidade, sendo produto de grande desenvolvimento espiritual. Para a maioria dos homens, Deus é apenas um conceito abstrato, impossível de ser amado em qualquer sentido mais verdadeiro. Existem dois fatores importantes no amor a Deus. O primeiro é o amor a Jesus Cristo. É muito mais fácil amarmos a Cristo, por ser ele o nosso Salvador, e porque ele é um homem, tendo assumido a natureza humana; e assim, embora nunca o tenhamos visto com òs olhos físicos, ainda podemos amá-lo devido ao seu gracioso serviço em nosso favor. Más amar a Cristo é amar a Deus Pai. Em segundo lugar, o vigésimo quinto capítulo do evangelho de Mateus deixa claro que amar a Cristo e a Deus Pai é amar também aos nossos -semelhantes; por conseguinte, se verdadeiramente amamos aos outros seres humanos, na economia divina isso eqüivale áo amor a Deus, sendo divinamente reconhecido como tal. Ora, todos nós podemos atingir essa forma de amor, o que significa que o amor dirigido diretamente a Deus pode ser obtido mediante a operação do Espirito Santo, em nosso íntimo, porquanto o Espírito de Deus, em última anàüse, é a fonte originária de todo o amor de cunho espiritual. Aquele que se encontra em estado de bem-estar, espiritualmente falando, percebe que lhe é possível amar, tanto a Deus como ao próximo, da mesma maneira que percebe ser possível manifestar os demais aspectos do fruto do Espírito Santo. (Com o presente versículo pode-se comparar o trecho de Rom. 8:28, onde somos informados que todas as coisas contribuem juntamente para o nosso bem, contanto que amemos a Deus; e o resultado final dessa concorrência ,de todas,as coisas para o nosso bem é a glorificação final. Por essa razão é que o texto do oitavo capítulo da epístola aos Romanos é diretamente paralelo deste segundo capítulo da primeira epístola aos Coríntios). (Ver também as seguintes notas expositivas sobre o «amor», onde também oferecemos poesias ilustrativas: Quanto ao «amor como princípio orientador na família de Deus, ver João 14:21 e 15:10; quanto ao «auto-sacrifício», como elevado princípio moral, ver João 12:24,25; quanto à «providência de Deus», que põe em ordem nosso presente e nosso futuro, fazendo todas as coisas cooperarem juntamente para nosso bem, ver João 7:6; 11:4; Atos 7:9,10; 10:19; 16:10; 25:4; 27:25 e a totalidade do décimo terceiro capítulo desta primeira epístola aos Coríntios). O amor é a estrada mais rápida de retomo a Deus. Em outras palavras, o amor é aquela qualidade moral e espiritual que nos leva de volta a Deus mais prontamente que qualquer outra coisa. O amor cristão é superior a todos os dons e poderes espirituais, conforme Paulo deixa bem claro no trecho de I Cor. 12:31 -13. Bastaria esse fato para demonstrar a vastíssima importância daquela virtude espiritual à qual denominamos de «amor». Também é esse o principal atributo de Deus, porque «Deus é amor», no dizer de I João 4:16. Além disso, aquele que ama habita em Deus, e Deus nele habita (ver I João 4:16). Outrossim, o amor consiste no fato de que Deus nos amou e deu o seu próprio Filho como «propiciação» pelos nossos pecados. (Ver I João 4:10). Aquele que verdadeiramente ama é «nascido de Deus, e conhece a Deus» (I João 4:7). Também não nos devemos olvidar que o amor é aperfeiçoado por intermédio da comunhão ou intimidade mística com Deus, conforme aprendemos em I João 4:17. «Nós amamos porque ele nos amou primeiro» (I João 4:19). Nenhum homem pode amar a Deus, ao mesmo tempo que odeia a seu semelhante, segundo lemos em I João 4:20. Este versículo, portanto, pode e deve ter aplicações presentes. Agora é que somos abençoados com os dons do Espírito Santo, bem como com a regeneração e a fé. Essas bênçãos visam ao nosso presente benefício espiritual, mas a bênção maior da glorificação está mais especificamente em foco neste versículo, sendo também a sua interpretação primária. Este versículo era erroneamente usado pelos antigos gnósticos como prova de seu conhecimento esotérico, oculto e místico, o qual, supostamente, era conhecido apenas por alguns poucos iniciados. Infelizmente, nos tempos modernos, este versículo continua sendo usado sem qualquer conexão com o versículo seguinte, o qual ensina que o mistério concernente à nossa glorificação é um «segredo revelado», e não mais fechado. Naturalmente, o próprio fato de que se trata de um mistério, de uma doutrina «divina», mostra-nos que nosso conhecimento, até mesmo dos fatos revelados, é parcial, porquanto nenhum pensamento divino pode ser totalmente apreendido pelo homem. 10 ημΐν 8è3 άπεκάλυφεν 6 θεός διά τον πνεύματος'α το γαρ πνεύμα πάντα εραυνά, και τα βάθη τον θεοΰ. 1 10 {C{ Sé Ν A C D G Ρ Ψ 33 81 104 330 436 451 614 629 630 1241 1881 1962 1984 1985 2495 B yz i f · vg syrP.n COpbo-·· arm et], Origenerlat A m brosiaster H ilary A thanasius Apollinaris D idym user-lat M acarius Epiphanius Chrysostom Pelagius Theodoret John-D am ascus H y a p p16 B 88 181 326 1739 1877 2127 2492 it” cop” ·1 »™ C lem ent Origen Basil E uthalius A ntiochus // omit Lect copb°m‘ 10 ή μ 7 ν...π νεύμ α το ς M t 13.11 Πνεύμαt o s ]add αυτου D G 6ç iço8 pi latt 8γ ς Ο uso frouxo do conectivo δέ (N A C D G P 33 81.614 Byz al) concorda bem como a maneira de Paulo, ao passo que y áp, embora fortemente apoiada por P (46) B 1739 Clemente al, parece seruma melhoria introduzida por copistas. O Textus Receptus, seguindo KCD P G L quase todos os minúsculos Latim Antigo vg sir (p,h) cop (sa) ara eá al, adiciona a palavra explicativa αύτου. A comissão preferiu a forma mais antiga e mais breve, apoiada por P (46,vid) — - N* A B C 33 (vid) 1611 cop (bo) Clemente Cirilo Basílio al. 2:10: Porque Deus no-la» revelou pelo «eu Espírito; pois o Espirito esquadrinha todas as coisas, mesmo as profundezas de Deus. Ilumnação espiritual. A palavra «...no-lo...» se refere «àquilo que Deus preparou para nós», ou seja, as «coisas» que Deus preparou para nós. Não aparece no original grego, embora fique subentendido, com base no versículo anterior. Nesse versículo aparece como palavra plural, um pronome neutro, que poderia ser traduzida como «coisas». Contudo, pode também ser traduzida como um indefinido singular, como «aquilo que», sem desvio nenhum de sentido. E as «coisas» assim subentendidas são todas aquelas «bênçãos» espirituais relacionadas com a nossa glorificação, a salvação geral que nos é propiciada em Jesus Cristo. Todas essas coisas, ou então essa coisa, encarada coletivamente, nos tem sido revelada. Antes tudo isso estava oculto, como segredo de Deus, como mistério de sua vontade. (Ver Efé. 1:10 e o sétimo versículo deste capítulo). Porém, desde o advento de Cristo e das revelações feitas por meio de seus apóstolos, e especialmente de Paulo, o segredo agora nos tem sido revelado. Natureza Da Iluminação Espiritual 1. Essa iluminação não nos é dada pela percepção dos sentidos, que os homens possuem em comum com os animais. 2. Ela pode residir em parte na «intuição» natural (a qual o homem possui por ser um espírito) e na intuição sobrenatural (o discernimento conferido pelo Espírito). 3. Mais particularmente, é obra do Espírito. (Ver Efé. 1:15 e ss.). Os mistérios de Deus não podem ser conhecidos através dos sentidos, da razão ou da intuição humanos. Chegam a nós por meio da revelação diviná. 4. A iluminação espiritual pode mesmo ser embaçada pela sabedoria humana. Eis por que Paulo fazia objeção ao evangelho deturpado pelos crentes filosóficos de Corinto. 5 .0 homem possui um espírito, o qual pode ser iluminado, pois o espírito humano é o homem essencial, sujeito às revelações do Espírito (ver os vss. l i e ss.). A iluminação se verifica do Espírito Santo para o espírito humano. Existe certa afinidade entre o Espírito Santo e o espírito humano, que a queda no pecado não conseguiu anular, e que a regeneração renova. Nós, os crentes, temos a mente de Cristo (ver I Cor. 2:16).
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    34 I CORÍNTIOS Nãoobstante, esse entendimento místico pode determinar o curso inteiro da?vida de uma pessoa, pois o crente reconhece intuitivamente que isso ccinsfitui o significado verdadeiro da existência, como alvo e destino do homem. Então entende o crente que ainda que porventura tivesse de viver por mil vezes, não daria nenhuma dessas vidas ao mundo, mas antes, todas pertenceriam ao Senhor. Com base nessa compreensão intuitiva é que aparece a dedicação do crente a Jesus Cristo, bem como seu amor a Cristo e a Deus Pai, bem como aos seus semelhantes humanos. E isso porque o crente é um tipo diferente de criatura, uma criatura que está sendo transformada segundo a imagem de Cristo Jesus. Que essa revelação divina é mística é comprovado pelo fato que envolve até mesmo as coisas profundas de Deus; e isso seria impossível para o mero processo intelectual. Mediante a simples erudição intelectual é impossível a alguém chegar a conhecer essas profundezas. Ninguém pode chegar a conhecê-las somente porque «estuda a Bíblia», ainda que esse exercício tenha sua utilidade indiscutível. Pois basta que retiremos o Espírito Santo de toda essa questão, e até mesmo os crentes estariam sem iluminação. Talvez esse seja um dos motivos por que, na moderna igreja evangélica, o verdadeiro evangelho, que inclui a transformação do crente segundo a imagem de Cristo, é tão superficialmente conhecido que chega a ser quase ignorado. Podemos compreender intelectualmente no que consiste o «perdão» dos pecados. Também podemos entender intelectualmente o que significa «mudar-se para outro mundo», a saber, para os lugares celestiais. Porém, assumir alguém a natureza de Cristo se tomam palavras vazias, até que o Espírito Santo as torna reais para nós. O Espírito Santo, no momento, está formando Cristo em nós, e a nossa natureza está atualmente sendo transformada; mas aquele alcance infinito para o qual o processo presente aponta só pode ser compreendido e tomado real pára a alma, no nível da alma, mediante a comunhão com o Espírito de Deus. «...no-lo...» O «nós» é aqui enfático, em contraste com os «governantes deste século», os quais nada sabem acerca dessas coisas. Paulo dava prosseguimento à sua polêmica contra as divisões surgidas na igreja de Corinto, por causa da «sabedoria humana». Ele já havia mostrado que somente os «experimentados» (os crentes maduros) são verdadeiramente iluminados acerca da «sabedoria» de Deus (ver o sexto versículo deste mesmo capítulo); como também já havia mostrado que os crentes carnais, que imitam os homens do mundo, em sua busca pela mera sabedoria humana, dificilmente são donos de uma profunda compreensão acerca da sabedoria divina. O remédio para essa carnalidade, pois, consiste em esquecer a sabedorià humana, e buscar a sabedoria celeste, como alvo primário. E isso se concretiza através da iluminação dada pelo Espírito Santo, e certamente não através de qualquer modalidade da sabedoria humana. «...revelou...» No original grego, o tempo aoristo em que foi vazado este vocábulo aponta para algum momento definido em que nos foi feita essa 11 τις γάρ oiSev ανθρώπων τα. τον άνθρωπον el μ,ή το πνβνμα τον άνθρωπον το iv αντω ; οντu>s και τα τοΰ θξον ούδίΐς έ'γνωκ€ν et μη το π νΐΰμ α τον θΐοΰ. ιι τκ.,.αύτώ ρΓ20 .2 7 11 του άνθρωπον 2o] om Gm bo Eus Ambr revelação. Naturalmente, esse momento foi quando Cristo entrou no palco da existênciaTiumana. Contudo, essa revelação tem e terá prosseguimento em Cristo, conforme também somos informados em Efé. 1:18, onde encontramos as palavras «iluminados os olhos do vosso coração», que dizem respeito ao presente processo de iluminação, sobretudo se considerarmos essa declaração no original grego, cuja tradução mais correta seria «estando sendo iluminados», etc. Que esse processo é presente fica demonstrado também pela palavra «...perscruta...», que figura no versículo que ora comentamos. Em outras palavras, o Espírito de Deus «está perscrutando» as coisas profundas de Deus, e essas coisas são aquelas que ele revela aos crentes gradativamente. Portanto, no dizer de Findlay (in loc.): «O Espírito Santo é o órgão do entendimento entre o homem e Deus». «O ponto frisado por Paulo é simplesmente que o Espírito Santo compreende perfeitamente a profundidade da natureza de Deus, e assim também seus planos graciosos, tornando-se assim totalmente competente para fazer aquela revelação aqui referida». (Robertson, in loc.). «...perscruta...» Não perscruta a fim de descobrir; mas está em foco a sondagem das profundezas de Deus, pelo Espírito Santo, em uma atividade contínua, exata e cuidadosa». (Vincent, in loc.). «Isso indica nâo ignorância, e, sim, um conhecimento exato, bem como o deleite na contemplação (ver Apo. 2:23). Com isso se pode confrontar a idéia das profundezas de Satanás (ver Apo. 2:24)». (Faucett, in loc.). «...aqui é declarado um discernimento profundo, em virtude de sua possessão do Espírito Santo, por parte do escritor do livro Sabedoria de Salomão, sétimo capítulo...»(Findlay, in loc.). E a idéia aqui expressa pelo apóstolo Paulo nâo está longe do que diz Findlay nesta citação. «...asprofundezas...» O «espírito do homem» conhece as «profundezas do homem», porquanto é capaz disso. Mas o Espírito de Deus é quem conhece e revela as «profundezas» de Deus, pois somente ele pode fazer tal coisa. (Ver o versículo seguinte). Somente o Espírito Santo é capaz de conferir o conhecimento sobre as profundas verdades de Deus; e isso ele fará para a alma honesta, que espera no Senhor. Sem o Espírito Santo, porém, essas profundezas não podem ser exploradas. Essa linguagem simbólica evidentemente é tomada por empréstimo das coisas do mar, cujas profundezas são supostamente insondáveis, desconhecidas para o homem-, (Ver Sal. 36:7; 92:6 e Jó 11:8). Acerca dessas «profundezas», diz Meyer (in loc.): «Está aqui em foco toda a abundante plenitude que Deus possui em si mesmo, tudo quanto contribui para formar o seu ser, os seus atributos, os seus pensamentos, os seus planos e os seus decretos». Naturalmente, esses planos e decretos incluem o esquema inteiro da redenção humana, conforme se vê no nono versículo deste capítulo. (Quanto às «profundezas de Deus», ver as notas expositivas acerca de Rom. 11:33). 2:11: Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão 0espirito do homem que nele está? assim também as coisas do Deus, ninguém as compreendeu, senão 0 Espirito de Deus. A primeira menção da palavra «...espirito...» deve ser gravada em letra inicial minúscula, embora no original grego não houvesse diferenciação entre letras maiúsculas e minúsculas, porquanto está aqui em vista o espírito humano. A palavra «...Espírito...», que aparece em seguida, é um artifício modemo de impressão, para indicar o Espírito Santo de Deus. Algumas vezes é simplesmente impossível saber-se com certeza se está em foco, em uma dada passagem neotestanientária, o espírito humano ou o Espírito de Deus. Nem mesmo a presença ou a ausência do artigo definido, no original grego, serve de grande valia nesse caso. No presente versículo, entretanto, não aparece esse problema, porquanto o espírito do homem é aqui contrastado com o Espírito Santo, pois o qualificativo, «...de Deus...», deixa isso claro, já que isso não pode dar a entender o espírito humano. . O «espírito» é a porção imaterial do homem, a alma, que representa o homem essencial, a verdadeira personalidade do indivíduo. O que Paulo provavelmente desejava dizer é que, mediante o processo intuitivo, através da comunicação com a alma, um homem pode vir a conhecer as profundezas do seu próprio ser. O pleno conhecimento dessa realidade é uma espécie de processo místico, e não um mero funcionamento intelectual. Não obstante, Paulo declara que esse processo é possível, embora não seja usual na experiência da grande maioria dos homens. Seja como for, se um indivíduo tiver de conhecer as profundezas de seu próprio ser, a verdadeira natureza de sua pessoa, isso só poderá ocorrer dentro do nível do «espírito» de ser ser, e não meramente dentro dos níveis intelectual ou emocional. O argumento, pois, é perfeitamente claro, as « profundezas» de Deus só podem ser conhecidas através do Espírito de Deus, porque somente ele é capaz de penetrar no ser de Deus e compreendê-lo. Por conseguinte, o Espírito Santo é o agente da revelação de qualquer coisa que sabemos concernente a Deus, sem importar se pensarmos em sua pessoa, em seus decretos ou em suas obras, pois isso necessariamente inclui tudo quanto é inerente ao plano universal da redenção humana. Se tivermos de compreender a glorificação dos remidos, na pessoa de Cristo, segundo a sua imagem, á participação em tudo quanto ele tem e é, somente o Espírito Santo pode transm itir a nós tal conhecimento. Esse tema ten} sido abundantemente comentado nas notas expositivas sobre o versículo anterior. Neste ponto Paulo tão-somente confirma o que ele disse ali, mediante a adição dos pensamentos que encontramos neste versículo. Além disso, Paulo havia de mostrar logo em seguida, no décimo segundo versículo deste capítulo, que essas palavras se aplicavam igualmente à sua polêmica contra as divisões provocadas pela busca da sabedoria humana na igreja dos coríntios.” Ficamos sabendo o que devemos saber acerca das realidades espirituais mediante essa revelação divina do Espírito Santo, e não mediante 0 estudo acadêmico, porquanto esse estudo pode ser destrutivo, e não benéfico. Infelizmente, porém, muitos dos crentes de Corinto eram «carnais» (ver I Cor. 3:1), não buscando a verdadeira sabedoria e não estando primariamente interessados pela iluminação do Espírito; antes, buscavam a sabedoria do mundo, que glorifica ao homem. Do Espírito Para O Espirito 1. Posto que a iluminação procede do Espírito Santo para o espírito humano, é impossível obtê-la através da sabedoria humana. Paulo prossegue em seu ataque contra o partido intelectualizado de Corinto, que substituíra o evangelho por uma mensagem alicerçada sobre a sabedoria humana, e não sobre a revelação divina. 2. Os filósofos emprestavam excessiva importância à capacidade de raciocinar que o ser humano possui, e pensavam que elevadas verdades podiam ser atingidas por esse meio. Paulo, porém, insistia sobre a necessidade da iluminação através do Espírito Santo, se qualquer sabedoria autêntica tiver de ser alcançada. 3. Paulo dava apoio às reivindicações dos místicos: Deus existe e pode revelar-se ao homem, em sua sabedoria divina. A definição básica do misticismo é que se trata de um contacto genuíno com o sobrenatural, contacto esse que transcende à percepção dos sentidos, à razão e à intuição, apesar de poder operar através da intuição. 4. Mui naturalmente, o homem é autoconsciente. Através da influência exercida pelo Espírito, pode tomar consciência de Deus. Por meio da iluminação é que chegamos a saber algo a respeito de Deus, de suas obras e de seus desígnios para conosco e o gênero humano. «Ele(Paulo)... faz uma tremenda reivindicação nesta passagem. Quando da outorga do Espírito Santo, os homens recebem nada menos que a autoconsciência de Deus. Portanto, tornam-se capazes de compreender sua sabedoria secreta». (C.T. Craig, in loc.). (Quanto a notas expositivas completas sobre o «Espírito Santo», ver o trecho de Rom. 8:1; quanto à «trindade», ver I João 5:7. Quanto a outras notas expositivas sobre a «iluminação conferida por Deus», ver Efé. 1:18. Quanto áo vocábulo grego «pneuma», que designa/í) espírito humano, ver os trechos de I Cor. 5:5; 7:34; II Cor. 7:1; I Tes. 5:23 e I Ped. 3:19).
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    I CORÍNTIOS 35 Pauloseparou aqui, naturalmente, o espírito do corpo. E assim sendo, apegava-se à doutrina da existência de uma parte imaterial no homem. O «espírito» se encontra «no» homem. (Quanto a maiores esclarecimentos sobre «a alma e a sua imortalidade», ver o artigo que há na introdução ao comentário e que versa sobre esse assunto, onde vários artigos são apresentados, alguns deles de autoria de pessoas famosas. Consultar também o trecho de i Cor. 15:1-10, a passagem paulina central acerca da «imortalidade». Há versículos desse citado capítulo que sumariam as «provas da existência da. alma e de sua sobrevivência»). 12 ημεΐς δε ου το πνεύμα τοΰ κόσμον ελάβομεν αλλά το πνεύμα το εκ τον θεοΰ, ϊνα είδώμεν τα νπό T O V θ ε ο ν ^ α ρ ί ο θ ε ν τ α η μ ΐ ν 12 το πνβυμα το ν ...ή μ ϊν Jn 16.13— 14 12 etScu/iev] ίδα>μ€ΐ>p46D °G °p m Influenciados por expressão similar no vs. 6 (του αίωι>os τούτου) çopistas adicionaram o demonstrativo, produzindo roD κόσμου τούτου (D E F G it (d,g,r) cop (sa,mss)). O texto mais breve é decisivamente apoiado por p4 6 K A B C L P todos os minúsculos (vid) vg sir (p) al. 2:12: Ora, nós não temos recebido o espirito do mundo, mas sim o Espirito que provém de Deus, a fim de compreendermos as coisas que nos foram dadas gratuitamente por Deus; A palavra «...espírito...» (no grego, «pneuma»), indica aqui as disposições, a sabedoria do mundo. Paulo fez a vinculação entre esse «espírito» e a sua discussão inteira acerca da sabedoria humana e mundana. (Ver I Cor. 1:19,21 e 2:1,4-6). Mas essa expressão tem recebido certa variedade de interpretações, conforme a lista abaixo: 1. Alguns pensam que as palavras o espírito do mundo significam o sistema organizado da maldade, que possui seus próprios princípios e leis. (Comparar com Efé. 2:2; 6:11; João 12:31; I João 4:3; 5:19 e II Cor. 4:4). A palavra grega «kosmos» é usada aqui a fim de indicar o sistema do mundo, que se compõe da comunidade dos homens. (Quanto aos diversos vocábulos gregos traduzidos por «mundo», nas páginas do N.T., incluindo informações sobre os vários sentidos da palavra grega «kosmos», ver as notas expositivas referentes a João 1:10). O «mundo» (no grego, «kosmos»), nãp é mau por si mesmo; mas, com freqüência, nas páginas do N.T., essa palavra tem um mau sentido. Então aparece como algo humano e até mesmo satânico, porquanto pode ser controlado pelas forças das trevas. Por isso mesmo, o «mundo» jamais é considerado como «divino», em qualquer sentido. Nem sempre é reputado na Bíblia como algo inerentemente perverso, ainda que com freqüência seja concebido como algo «controlado» pelo mal. 2. Outros estudiosos pensam que a palavra «espírito», nessa expressão, pode significar temperamento ou «disposição». Assim sendo, estaria aqui em foco a «disposição do mundo», ordinariamente alienada de Deus, e sempre alienada do Senhor, à parte da regeneração. Essa interpretação faz com que essa expressão se torne virtual sinônimo da expressão «sabedoria do mundo», que Paulo usara um pouco antes. 3. Não obstante, essa expressão, «espírito do mundo», não pode ser compreendida em qualquer sentido pessoal, como se estivesse em vista algum «espírito maligno», algum «demônio», ou o espírito do próprio Satanás. Esse termo é impessoal, referindo-se a um sistema, a uma disposição do mundo, e não a alguma entidade viva. A primeira e a segunda dessas três interpretações, pois, incluem elementos recomendáveis, e talvez ambas estejam inclusas na declaração geral que Paulo faz neste ponto. Dentro do argumento de Paulo, tudo isso significa que, por intermédio do. Espírito Santo, temos o que temos e sabemos o que sabemos. E disso é que deve consistir a nossa «espiritualidade» e a nossa «ufania». Na igreja cristã de Corinto, entretanto, vários indivíduos exaltavam a sabedoria mundana, estando realmente possuídos pelo espírito dessa sabedoria mundana; e por essa causa exata é que provocaram divisões e dissensões em sua igreja. Isso serviu para mostrar que eles eram crentes carnais, e não eram, verdadeiramente, a elite espiritual daquela comunidade cristã, embora assim se julgassem. Portanto, tais indivíduos não deveriam ser seguidos como líderes pelos outros crentes. Espera-se de nós, Os crentes, que reconheçamos a «graça» de Deus, e que reconheçamos como essa graça nos deu tanto e tão gratuitamente. Contudo, a graça divina só pode vir a ser reconhecida através da revelação dada pelo Espírito Santo, e não através da sabedoria carnal e humana, aquela sabedoria que era enfatizada por alguns crentes carnais de Corinto. «O espírito do homem respira nos homens que fazem parte do mundo; o Espírito de Deus procede de Deus, e nos visita proveniente de outra esfera, trazendo o conhecimento de coisas distantes de nossa apreensão natural». (Findlay, in loc.). As Coisas Dadas E Reveladas Aquilo que temos, foi recebido por meio da graça divina 1. No vs. 9, sob o título «As coisas que nos foram dadas», temos indicado o que Paulo pretendia dizer aqui. 2. Neste ponto é ressaltado o dom da graça divina, isto é, sabemos dessas coisas atinentes à nossa salvação, e participamos delas, por meio da graça divina. São realidades elevadas demais para serem obtidas através da sabedoria ou das obras humanas. 3. Cristo é a sabedoria de Deus personificada (ver I Cor. 1:30), e através dele recebemos essas dádivas. (Ver notas completas sobre a.graça, em Efé. 2:8). «...'coisas... dadas gratuitamente...’ Essas coisas são aquelas mesmas aludidas no nono versículo, como algo que foi ‘preparado’ para nós. (Comparar com I Cor. 1:30; Rom. 8:24; 6:23; Efé. 2:8-9)... dons da graça gratuita». (Kling, in loc.). 13 ά και λαλοΰμεν ούκ εν διδακτοί? ανθρώπινης σοφίας λόγοις άλλ’ εν διδακτοί? πνεύματος, πνενματικοΐς πνενματίκα σνγκρινοντες. i3 iCor2.4 13Ίτν^νματικοις']-k(o s Β 33 concretizaram em forma escrita, em nosso Novo Testamento. 2:13: as quais tambémfalamos, não compalavras ensinadas pela sabedoria Humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito Santo, comparando coisas espirituais com espirituais. A palavra «...falam os...» se refere àquilo que dizemos no tocante a diversas questões espirituais, como o evangelho, a glorificação dos remidos em Cristo e a iluminação espiritual necessária, que nos é conferida pelo Espírito Santo, e não pelo mundo. Também falamos do fato que aquilo que possuímos procede do Espírito de Deus e não do murçdo. E disso consiste o argumento inteiro deste texto, porquanto, para Paulo, todas essas realidades nos são outorgadas pelo Espírito, com base em princípios totalmente espirituais, e jamais através da sabedoria humana, como se pudéssemos comparar coisas espirituais com terrenas. Paulo, por conseguinte, reivindicava possuir 0 discernimento divino para compreender todo esse vasto problema. Todavia, não falava com base apenas em sua própria sabedoria, com o intuito de expor uma apologia contra a facção intelectual da igreja de Corinto. Aquilo que ele dizia é a verdade, e essa verdade nos é desvendada por intermédio do Espírito Santo de Deus. «...sabedoria humana...» (Quanto a notas expositivas completas sobre esse assunto, que é um dos temas centrais de toda esta secção da primeira epístola aos Coríntios, ver os trechos de I Cor. 1:18,19,21 e 2:1,4-6). Tudo quanto Paulo havia dito com referência ao destino dos crentes e seu privilégio em Cristo, bem como com referência à facção intelectual da igreja cristã de Corinto, foi dito inteiramente à parte de qualquer erudição intelectual que lhe fosse própria, à parte de qualquer habilidade retórica, lógica ou filosófica, mas antes, através do conhecimento que ele recebera da parte do Espírito Santo. Bastaria isso para servir de reprimenda ao partido dos intelectuais que havia em Corinto. Em contraste com Paulo, eles diziam o que diziam, escudados na sabedoria humana, sabedoria essa que Paulo degrada nesta passagem, contrastando-a com seus próprios ensinamentos espirituais. Paulo reivindica aqui uma inspiração. Suas «informações» procediam do Espírito Santo, embora tudo passasse pela agência humana desse apóstolo, e embora tudo fosse formulado com palavras humanas. Naturalmente, este vers. não ê uma afirmação sobre a inspiração das Santas Escrituras, por parte do Espírito de Deus, porquanto essa verdade não está em foco neste ponto. Algumas revelações e idéias paulinas, entretanto, posteriormente se «...conferindo cousas espirituais com espirituais...» Essas palavras têm ocasionado certa variedade de interpretações. Existem essencialmente dois problemas que envolvem essa declaração, a saber: 1. Qual é o sentido exato do verbo grego «sugkrino»? Pode significar comparar (conforme se vê em II Cor. 10:12), mas também pode significar «interpretar» ou «combinar». O sentido mais clássico é «compor» ou «combinar». A versão da Septuaginta usa essa palavra grega com o sentido de «interpretar», como, por exemplo, no caso da interpretação de sonhos. (Ver Gên. 40:8,16,22; 41:12,15; Juí. 7:15; Dan. 5:12 e 7:15,16). Todavia, o uso dessa palavra grega com o sentido de «comparar» se tomou comum entre os escritores gregos, de Aristóteles em diante. É possível que Paulo se tivesse utilizado desse verbo com qualquer desses significados, que são três, não havendo qualquer modo absoluto de determinarmos qual foi o sentido exato que ele quis dar aqui a -esse termo. As traduções e os intérpretes diferem entre si quanto a esse particular. (Ver as várias possibilidades, nas notas que aparecem mais abaixo). 2. O segundo problema consiste em como devemos entender a segunda palavra aqui traduzida por «espírito», porque, no original grego, estando no caso dativo, pode ser compreendida tanto como pertencente ao gênero masculino como ao gênero neutro. E, com base nessas circunstâncias, certar variedade de sentidos poderia ser derivada dessa expressão. Abaixo damos um exemplo dessa variedade: Se considerarmos a palavra grega pneumatikois como pertencente ao gênero neutro juntamente com as várias traduções possíveis do verbo, o que mencionamos em 1. acima; poderíamos entender: 1. A combinação de coisas espirituais (as palavras) com coisas espirituais (ou assunto). 2. A interpretação (esclarecimento) de coisas espirituais mediante coisas espirituais. Mas até mesmo isso pode ser compreendido de diversas maneiras, a saber: a. A interpretação de tipos do A.T. mediante doutrinas neotestamen- tárias. b. A interpretação de verdades espirituais mediante uma linguagem espiritual.
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    36 I CORÍNTIOS c.A interpretação de verdades espirituais mediante as faculdades espirituais. Dessas três possibilidades somente a primeira, (a), é totalm ente impossível, porquanto, quando Paulo assim escreveu, ainda não existia o «cânon» do N.T. E as duas outras possibilidades são defendidas por seus respectivos advogados. Se considerarmos a palavra grega pneumatikois como pertencente ao gênero masculino, então existem as seguintes possibilidades: 1. Poderia estar em foco a adaptação (combinação) de assuntos espirituais para ouvintes espirituais (que talvez fossem os crentes «experientes» ou maduros, que são mencionados no sexto versículo deste capítulo, ou talvez fossem todos os crentes, os quais são aceitos como possuidores do Espírito Santo; embora a primeira dessas possibilidades seja a que mais se coaduna com o presente contexto). 2. Também pode estar em foco a interpretação de verdades espirituais por parte de ouvintes espirituais (com as mesmas variações possíveis que na primeira posição, acima). Em favor do gênero neutro da palavra grega «pneumatikois» poder-se-ia argumentar que isso preservaria o mesmo gênero para ambas as palavras aqui usadas para indicar «espírito». Porém, por qual motivo Paulo seria forçado a observar alguma minúcia gram atical dessa ordem? Se porventura ele desejava dizer alguma oútra coisa (conforme se imagina, nas duas últimas interpretações), ser-lhe-ia impossível ter preservado o mesmo gênero. Em favor do gênero masculino dessa palavra grega tem sido dito que isso concordaria melhor com aquilo que aparece em seguida, neste mesmo capítulo, isto é, que Paulo estava tratando com pessoas «espirituais» (o que seria expresso através do gênero masculino, e não do gênero neutro). (Ver os versículos décimo quarto a décimo sexto deste mesmo capítulo). Talvez essa seja uma boa observação. Na realidade, entretanto, não dispomos de meios que nos capacitem a decidir, de modo absoluto, de que lado está a razão. As traduções abaixo citadas ilustram os sentidos possíveis envolvidos nesse vocábulo grego, usado por Paulo·. 1. A tradução portuguesa IB, que serve de base textual deste comentário, conforme vimos acima, dá preferência ao gênero neutro, dando ao verbo o sentido de «conferir», evidentemente com a significação de «comparar». Ver também a tradução inglesa KJ. 2. As traduções inglesas RSV e NE, aqui traduzidas para o português, dizem: «...interpretando a verdade espiritual para aqueles que possuem o Espírito». Essas traduções pensam que «interpretar» é o sentido do verbo grego, e que o vocábulo grego pertence ao gênero masculino, daí a tradução «Espírito», dando a entender a presença habitadora do Espírito de Deus, e não meramente aqueles que possuem qualidades cristãs sazonadas. 3. A tradução inglesa WM, aqui vertida para o português, prefere traduzir: «Adaptando palavras espirituais a verdades espirituais». O verbo aparece então com o sentido de «combinar», ao passo que o gênero neutro é escolhido para a palavra «espírito». Assim também diz a tradução portuguesa BR, em sua substância. Na verdade, não dispomos de qualquer maneira de determinar qual é a tradução correta. Todas essas traduções envolvem alguma verdade, e toda a questão gira em torno da verdade exata que Paulo queria frisar aqui. Mas pelo menos podemos dizer com certeza que Paulo desligou toda a nossa pregação e ministério do terreno carnal e inclinado para as coisas do mundo, com o que o partido dos «intelectuais», na igreja cristã de Corinto, havia vinculado o ensinamento cristão, porquanto enfatizavam a sabedoria humana, provocando o surgimento de facções naquela comunidade cristã. 14 φνχίκός Sè άνθρωπος ού δεχεται τα τον πνεύματος τον θεοΰ1 1 , μωρία γά ρ αύτώ εστιν, καί ον δύναται γνώ ναι, οτι πνενματικώ ς άνακρίνεται· * 14 jC j του θίοΰ p'·'"''··» Ν A Β C D G Ρ Ϋ 33 81 88 104 181 326 436 614 629 630 1241 1739 1877 1881 1962 1984 1985 2127 2492 2495 Byz Lect itar’d·dem.e, f.K.m.r*,*,* Vg syrh cop®8·bo·fay arm Naassenes Valentinians C lem ent Origenf!r'lllt Eusebius Ambrosiaster H ilary Ambrose Didym us A ugustine // àyíov eth // omit 330 451 syrP M arcion V alentinians1 1 0 ® · 10 Irenaeue Irenaeus*r'!ftt C lem ent Tertullian Origen H ilary A thanasius Epiphanius Chrysostom Jerom e Theodotus-Ancyra 14 μ ω ρ ία ...k a n v 1 Cor 1.23 A omissão de του θεοΰ (uma omissão que aguça a precisão do argumento do apóstolo) é apoiada por vários manuscritos minúsculos gregos (2 216* 255 330 440 451 823 1827), o Siríaco Peshitta,. e certa variedade de escritores patrísticos (Valentiniano (sg. Irineu (gr,lat) Clemente (2/3) Tertuliano (vid) Orígenes (2/6) Hilário (1/2) Atanásio (1/2) Epifânio Crisóstomo Teodoreto (1 / 2)Jerômio (2 / 3) Teodoto-Ancira). Por outro lado, o consenso esmagador dos testemunhos gregos e das versões antigas diz του θεοΰ (a forma singular αγίου no etíope, é uma substituição compreensível), bem como por certa variedade de escritores patrísticos, alguns dos quais também citam a forma mais breve. Embora a comissão tivesse considerado seriamente a possibilidade gue a forma mais breve fosse a original, em face do peso, da antigüidade e diversidade da evidência externa em apoio a του θεοΰ, sentiu-se compelida a incluir essas palavras no texto, apesar da possibilidade que sejam uma adição natural introduzida por copistas. 2:14: Ora, o homem natural não acolta as coisas do Espirito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendS-las, porque elas se discernem espiritualmente. A palavra aqui traduzida por «...natural...», se fosse mais literalmente traduzida seria «psíquico», isto é, controlado pela «alma». Paulo se utiliza aqui da forma adjetivada da palavra grega «psuche», que usualmente é usada nas páginas do N.T. para indicar a porção «imaterial» do ser humano, e que foi o vocábulo usualmente empregado por Platão. Essa palavra grega, todavia, não precisa significar necessariamente isso; pois também pode ter certa variedade de significados, conforme se vê abaixo: 1. Pode significar o princípio vital da existência, sem qualquer alusão à porção imaterial do homem. 2. Pode significar a «vida terrena», sem qualquer tentativa de descrever a natureza metafísica do homem. (Ver Mat. 6:25; Luc. 12:22 e ss.; Atos 20:24,27). 3. Pode significar a alma imortal do homem. (Ver Luciano, Dial. Mort., 17,2; Josefo, Antiq. 6:332; Atos 2:27; Sal. 16:10), Dessa maneira é que Platão usualmente empregava esse termo grego. (Ver Platão, Edon, 28p, 80a). 4. Pode significar a sede ou centro da vida interior do homem, incluindo os seus deSejos, as suas emoções, etc., mas sem qualquer tentativa de descrever metafisicamente ao homem. (Ver Bar. 2:18b; Apo. 18:14; Heb. 12:3 e Isa. 58:3,5). Em sua forma adjetivada, sobretudo quando esse termo é contrastado com o vocábulo «espiritual», que é o caso aqui encontrado, pode significar simplesmente aquilo que é «físico», que é «não-espiritual», que é natural. Em I Cor. 15:44a há uma referência ao «corpo físico», em contraste com o corpo espiritual. Também se pode examinar I Cor. 15:46. E, no trecho de Jud. 19 essa palavra é usada como sinônimo de «mundano». Por igual modo, poder-se-ia conceber que essa palavra indique os crentes «carnais», aqueles a quem Paulo aqui repreendia, os membros do «partido intelectual», que dava excessiva importância à sabedoria humana. Esse sentido pode ser percebido se levarmos em conta apenas o mundo, e não o contraste com os crentes «espirituais». Porém, isso não é muito provável quando consideramos que no primeiro versículo do terceiro capítulo desta epístola encontramos outro vocábulo para indicar esses irmãos na fé, a saber, a palavra «carnais», que é tradução do termo grego «sarkikoi». Também precisamos notar que esse mesmo versículo exige que falemos de um homem natural, e não meramente de um homem carnal. Portanto, encontramos aqui a menção de três classes de indivíduos: 1. O homem «natural» (no grego, psuchixos), que é o indivíduo em estado natural, sem o Espírito de Deus, o homem ainda não regenerado. 2. O homem «espiritual» (no grego, pneum atikos), que é o homem regenerado. Paulo não fazia distinção, no décimo quarto versículo, entre esses e os «experimentados» ou espiritualmente maduros. 3. Então, em I Cor. 3:1, aparece o homem «carnal» (no grego, sarkinos), que é o crente que ainda não é maduro, espiritualmente falando. Devemos observar que o homem «natural» não é aqui eqüivalente ao homem «carnal»; e Paulo também não estava identificando esses homens não-regenerados com aqueles envolvidos em várias modalidades de pecados e corrupções. Dizia simplesmente que eles, os «naturais», não têm o Espírito de Deus, não conheceram ainda a «regeneração», e, portanto, desconhecem a iluminação espiritual que tem sido salientada nesta passagem, como propriedade dos remidos. Tais homens pensam que as realidades do Espírito de Deus são «...loucura...» ou insensatez. E, com essa descrição, Paulo retorna às descrições que fazia de tais pessoas, conforme se lê em I Cor. 1:18,19,23 e 2:6. O homem «natural» é descrito como alguém que não é «capaz» de discernir as realidades do Espírito Santo. Já quanto ao crente «carnal» precisamos dizer que embora sua visão espiritual talvez esteja obscurecida, não podemos dizer que ele «não pode» compreender as realidades espirituais. Portanto, está aqui em foco o homem «natural», e não o crente «carnal». As realidades espirituais, o evangelho, a redenção que há em Cristo, a iluminação espiritual e a glorificação final são as coisas que têm sido descritas neste capítulo, as quais também só podem ser reconhecidas mediante a operação do Espírito Santo no íntimo, mediante a sua benéfica e transform adora influência, segundo é enfaticamente ensinado nos versículos décimo e décimo primeiro deste capítulo. Paulo meramente reitera aqui essa idéia. Por conseguinte, os sábios de conformidade com o mundo, os príncipes, os filósofos, os escribas, os retóricos, os sofistas, etc., são destituídos da autêntica sabedoria, porquanto também não têm o Espírito. Na presente polêmica, assim sendo, o apóstolo dos gentios está como que indagando: «Como podeis vós, os ‘crentes’ de Corinto, exaltar à sabedoria terrena, às custas da reputação de Cristo? Dessa sabedoria nâo pode resultar o que é ‘espiritual’, e nem o ensinamento sobre as realidades espirituais em torno das quais gira a igreja cristã!» «No trecho de Rom. 8:7, Paulo declara definidamente a incapacidade da
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    I CORÍNTIOS 37 menteda carne em receber as realidades do Espírito, se não for tocada pelo Espírito Santo. Para nós, essas realidades não são mais ‘loucura’, conforme sucedia antes (I Cor. 1:23). Hoje em dia podemos perceber certos aspectos da ‘inteligência’ no caso daqueles que zombam de Cristo e do cristianismo, na sua própria cega ignorância». (Robertson, in loc.). ★ ★ ★ «...discernem...» Essa palavra, no original grego, significa «escrutinar», «coar», a fim de obter compreensão. O homem natural, pois, não pode compreender as realidades espirituais porque elas não estão ao alcance do intelecto humano. E apesar dessas realidades estarem sujeitas à compreensão da alma humana, ainda assim somente a instrução dada pelo Espírito de Deus, mediante sua regeneração, que fica subentendida, e mediante sua presença iluminadora, é capaz de proporcionar tal entendimento. Os níveis mais altos do conhecimento, aqueles necessários para que entendamos algo sobre Deus e seus desígnios quanto à redenção humana—não são de natureza nem racional e nem mesmo intuitiva, e, sim, de natureza mística. (Com esse vocábulo, «discernir», deve-se comparar a 15 6 8è descrição dos bereanos, os quais, de conformidade com o original grego, «coaram» ou «pesquisaram» as Escrituras, a fim de encontrarem a confirmação da verdade do evangelho que lhes era pregado por Paulo, em Atos 17:11, onde esse mesmo vocábulo é usado). Tal atividade é inútil, sem a ajuda do Espírito Santo. «...espiritualmente...» Precisamos desdobrar aqui em alguns pontos o sentido desta palavra, no presente texto: 1. Não se refere a alguma atividade espiritual do homem, a alguma atividade humana no nível da alma, embora ainda não iluminada pelo Espírito Santo. 2. Não se refere meramente a algum «método espiritual». 3. Mas está em vista a agência e a influência do próprio Espírito Santo, conforme já se vira nos versículos décimo e décimo primeiro deste capítulo. Estamos falando aqui sobre a iluminação espiritual, que é comentada nas notas expositivas referentes a esses citados versículos. (Comparar ainda com Efé. 1:19). Este versículo não tem por intuito abordar o problema da tricotomia versus dicotomia, não tendo qualquer aplicação ao mesmo. (Quanto a notas expositivas sobre essa questão, ver I Tes. 5:23). 1881 1962 1984 1985 2492 2495 B yz L ed syrh cop“ m" 7 M acarius (D idym us Theodoret τίντας) // μίν τά πάντα Ρ 33 81 Chrysostom 630 1739 2127 cop“ πνευματικός ανακρίνει [τά ] πάντα5, αυτός δέ ύπ' ovSevòs άνακρίν€ται. 6 15 (D ) τά πά ντα ρ46 A C D* arm eth Valentinians Irenaeus«rms Clem ent Origen // πά ντα G Irenaeus*' Clem ent Origen Theodoret // τα πά ντα or π ά ντα itar,cf<iem-e·f-K-mr1, * . Vg SyrP COpe&m«,bo,fay irenaeus,Bt Origen1 *' // μ ίν πά ντα B D b Ψ 104 181 326 330 436 451 614 629 1241 1877 14 Jn 8.47; 14.17 1 5 £ ôè...π ά ν τ α 1 Jn 2.20 Dentre os dois problemas textuais envolvidos nesta pessagem, a presença --------- -------ou ausência (P (46) A C D* G at) de μ&> é o mais fácil de resolver. Embora seja possível que copistas tenham omitido o termo porque parecia ser impróprio após ôe no começo da sentença, a comissão pensou ser mais provável que o termo foi adicionado por copistas pedantes, a fim de prover um correlativo para ο < 5é que se segue. É mais difícil resolver o que fazer com τά. A palavra foi adicionada a fim de impedir o leitor de tomar πάντα como masculino singular? ou foi ela omitida, ou por acidente (τδττδντα) ou deliberadamente, a fim de que a declaração estaria em acordo com o precedente no vs. 10? Com base em P (46) A C D * í / a comissão reteve a palavra no texto, mas, em fase de sua ausência em muitos outros manuscritos (Na B D b Ρ Ψ 33 614 1739 al) importantes, deixou o termo entre colchetes. 2:15: Mas o que é espiritual discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é discernido. O «...homem espiritual...» tem a capacidade de julgar, de discernir, de compreender todas as verdades espirituais, de distinguir entre o falso e o verdadeiro. É capaz de fazer a distinção entre os «sofistas» e os verdadeiros seguidores de Cristo. Pode possuir até mesmo o dom do discernimento de espíritos. A palavra «...cousas...», neste caso, poderia talvez indicar algo pessoal; mas Paulo não falava em julgarmos outras pessoas, em algum sentido eclesiástico; e certamente não estava se referindo também às ações de «censura» por parte do homem espiritual, contra outros. O que Paulo quer dizer é que o crente espiritual perde aquilatar corretamente todas as coisas no que respeita à igreja de Cristo, envolvendo tanto coisas como pessoas. Tal crente sabe rejeitar os «intelectuais», que pretendem impingir a sabedoria humana aos crentes, procurando assim diminuir a importância da sabedoria divina, detratando do nome de Cristo, pois esse crente percebe claramente o que esses contenciosos pretendem. O homem «espiritual» tem, à sua disposição, os meios espirituais que o capacitam a avaliar os ensinamentos e as pessoas. «Esse é o homem em quem o espírito exerce a devida predominância, o que é obtido através da informação dada pelo Espírito Santo e em contacto ‘ com ele, não podendo ser isso obtido de qualquer outro modo. O homem como homem é um ser espiritual, mas somente alguns homens são realmente espirituais; tal como o homem é um ser racional, mas somente alguns homens são verdadeiramente racionais. A capacidade natural e a realização dessa capacidade não são uma só e a mesma coisa». (Robertson e Plummer, in loc.). (Quanto a notas expositivas sobre a operação do «discernimento espiritual», ver I Tes. 5:21 e Fil. 1:10. Com isso contrastar o trecho de Rom. 2:18). «...mas ele mesmo não é julgado por ninguém...» Não se deve compreender essas palavras no sentido de que o crente espiritual está acima de qualquer crítica, como se não tivesse quaisquer falhas de caráter. (Quanto a uma confirmação sobre o que dizemos aqui, ver I Cor. 4:3,4 e 14:32). Por semelhante modo, essas palavras não querem dar a entender que uma pessoa não pode ser condenada ou disciplinada, no seio da igreja cristã, somente porque ela se julga espiritual, não se sujeitando aos julgamentos alheios. Todos os crentes estão sujeitos aojuízo da igreja, o que se pode compreender no trecho de Mat. 18:15 e ss. Pelo contrário, Paulo falava aqui de forma ideal. Em outras palavras, o verdadeiro homem espiritual, embora tenha suas próprias falhas, é tão superior aos homens carnal e natural que estes terão muita dificuldade em ençontrar base real de acusação contra ele. Quanto a esse particular podemos considerar o exemplo do próprio Senhor Jesus. Ele foi capaz de desafiar: «Quem dentre vós me convence de pecado?» (João 8:46). De fato, ninguém era capaz disso, porque Jesus não tinha falta alguma. Contra OJulgamento Precipitado 1. A atitude censuradora pode ser sinal de hipocrisia religiosa (ver Rom. 2:1). _ 2. É tendência dos fortes criticarem desnecessariamente os fracos, com detrimento de ambos, na comunidade da igreja (ver Rom. 14:4). 3. O homem espiritual pouco deixa para ser criticado em si mesmo (do ponto de vista humano; mas não do ponto de vista divino, como é óbvio); mesmo assim, porém, o homem espiritual não se mòstra precipitado na crítica ao próximo (ver I Cor. 2:15). Paulo continuava a apresentar aqui a sua apologia. Esse apóstolo havia sido severamente criticado, e certos indivíduos haviam até mesmo tentado destruir a confiança de outros no ofício apostólico de Paulo. Mas ele mèsmo pensava que essas tentativas haviam sido impulsionadas pela camalidade, e não por alguma espiritualidade superior. Os membros da classe dos intelectuais, na igreja de Corinto, oS quais eram muito mais sofistas do que mesmo cristãos, é que tinham julgado assim a Paulo; mas não tinham, obtido «sucesso» e nem haviam agido com «justiça». Na realidade, Paulo não podia ser julgado por homem algum, embora muito o tivessem caluniado. Paulo saía de todos os ataques dessa natureza inocentado. E as palavras de Paulo, no presente contexto, parecem ter exatamente esse significado. Precisamos reiterar aqui que o apóstolo Paulo não quis dar a entender, com essas palavras, que os ministros do evangelho ou mesmo os crentes espirituais estejam isentos de juízo e disciplina, por parte da igreja cristã. Quando esses líderes espirituais erram, é mister discipliná-los; mas 'que tudo seja feito com a devida comprovação, com a ajuda de testemunhas. (Ver as instruções a esse respeito, em I Tim. 5:1,19,20). É preciso observarmos que o apóstolo Paulo emprega aqui a palavra «...julgar...» de duas maneiras levemente diferentes. Paulo apresentou aqui um jogo de palavras. Na primeira vez em que ele usou essa palavra, «...julga...», ele queria dar a entender, essencialmente, o discernimento acerca dás realidades e valores espirituais, e não a atitude de censura contra outros (embora isso possa estar subentendido). Na segunda vez em que se utiliza do termo, «...julgado...», ele diz que o crente espiritual não é censurado ou condenado por outros. 16 τίς γάρ έγνω νουν κυρίου, δς συμβιβάσει αυτόν ; ημεΐς Sè νοΰν Χριστοΰ έχομεν. 16 τις...συμβιβάσει αύτόν Is 40.13 (Ro 11.34) r 6 Χρίστου] Κυρίου BD*°G Τ Ambst Aug 2:16: Pois, quemjamais conheceu a mente do Senhor, para que possa instrui-lo? Mas nós temos a mente de Cristo. A citação aqui apresentada por Paulo foi extraída do trecho de Isa. 40:13, com báse na versão da Septuaginta, mas com algumas modificações, para que ele obtivesse os seus propósitos. A passagem de Rom. 11:34 exibe a primeira parte dessa citação: «Quem, pois, conheceu a mente do Senhor?» E ali há comentários completos a respeito. Contudo, nessa passagem de Romanos é omitida a segunda cláusula: .. .que o possa instruir"! "Paulo deixa entendido, portanto, que a fim de alguémjulgar a um homem verdadeiramente espiritual, precisa poder discernir a mente do Senhor de uma maneira simplesmente impossível para a capacidade humana, porque essa citação subentende que ninguém conhece a mente do Senhor. O julgamento contra o homem espiritual ideal, por conseguinte, é algo que está fora das possibilidades do homem carnal; e isso faz parte integrante da apologia paulina contra aqueles que o criticavam, aqueles que tinham procurado solapar a confiança de outros em sua chamada apostólica, no
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    38 I CORÍNTIOS seioda igreja cristã de Corinto. Paulo dizia, portanto, que nenhum dos seus detratores era capaz de julgá-lo, pois somente o Senhor podia fazer isso realmente. Ninguém possui da «mente» do Senhor em dose suficiente para substituí-lo nesse mister. (Com isso se pode comparar o trecho de I Cor. 4:3-5, que é paralelo a esta passàgem). Paulo afirma que para ele era questão de pouca monta o ser «julgado» pelos seus detratores de Corinto, pois nem ele mesmo podia avaliar-se devidamente. Toda a avaliação semelhante deve proceder da parte do Senhor. Por conseguinte, diz ele, «...nada julgueis antes de tempo...», pois haverá ocasião em que Deus trará todas as coisas à luz, estabelecendo o julgamento apropriado acerca de todos os homens e suas ações. Possuidores Da Mente De Cristo Quais são os significados vinculados a essa expressão? 1. A mente espiritual (possuída por Cristo), não julga nem censura. Indiretamente, pois, Paulo desfecha um golpe contra a atitude censuradora de seus oponentes. 2. Mais particularmente, o argumento afirma: «Nenhum homem pode julgar-me com retidão. Isso porque ninguém pode instruir ao Senhor, e eu possuo a sua mente». Foi uma ousadíssima assertiva da parte de Paulo. Portanto, o vs. 15 afirma que o homem espiritual julga a todas as coisas, mas que ele mesmo por ninguém é julgado. Tudo isso é argumento polêmico, naturalmente. Paulo havia sido severamente censurado pelos seus críticos gratuitos, especialmente pelos do partido intelectualizado em Corinto. Estes promoviam um evangelho alicerçado sobre a sabedoria humana; mas ele pregava o evangelho alicerçado sobre a revelação divina da salvação, por meio de Cristo e sua cruz. Essa é a demonstração da sabedoria divina. «Ninguém pode censurar-me», diz Paulo, «porque tenho a mente de Cristo». 3. Popularmente, essa afirmativa de Paulo é usada para opoiar a idéia de que o indivíduo espiritual desenvolve em si mesmo a «mentalidade de Cristo», as suas atitudes, discernimentos e pontos de vista sobre as coisas. Naturalmente, há nisso uma certa verdade, embora não seja o que está aqui em vista, especificamente. «A ‘mente de Cristo’ é correlativa ao seu Espírito, que é o Espírito de Deus (ver Rom. 8:9 e Gál. 4:6), e essa mente pertence àqueles que estão com ele, em virtude da união vital que desfrutam com ele (ver Gál. 2:20,21; 3:27; Fil. 1:8 e Rom. 13:14). O pensamento é o mesmo que foi expresso no décimo segundo versículo, embora vazado de outra maneira». (Robertson e Plummer, in loc.). A palavra «...Nós...», neste caso, é enfática. (Ver esse uso por toda a porção inicial desta epístola, em I Cor. 1:18,23,30 e 2:10,12). Paulo quis apontar para o homem «espiritual», contrastando-o tanto com o homem «natural» (ver I Cor. 2:14) como com o homem «carnal» (ver I Cor. 3:1). Todos os crentes possuem o Espírito Santo, mas nem todos eles são indivíduos suficientemente espirituais para reivindicarem a posse da mente ou consciência de Cristo, o que fica claramente demonstrado na experiência humana diária. A declaração que o apóstolo dos gentios faz aqui é muito forte. Suas palavras eqüivalem dizer que aqueles que pretendem julgar ao homem espiritual e avaliar o seu caráter, na realidade estão procurando «instruir ao Senhor», o que, como é óbvio, é um grande absurdo; pois é tão presunçoso esse indivíduo que tenta ocupar uma função que somente o Senhor Jesus pode ocupar, dando a entender que o Senhor não se desincumbiu corretamente dessa missão, necessitando assim da ajuda humana. «Declarado de forma silogística, esse argumento diria mais ou menos como segue: Ninguém pode instruir ao Senhor. Temos a mente do Senhor. Portanto, ninguém nos pode instruir ou julgar». (Hodge, in loc.). A palavra «...Senhor...», neste caso, mui provavelmente é uma referência a Jesus Cristo, o que é comum nos escritos do N.T., até mesmo quando o termo «Senhor» se refere obviamente ao Deus dos judeus, isto é, Yahweh. (Ver as notas expositivas sobre o emprego do termo «Senhor», com referência a Cristo, em Rom. 1:4, que também expõe o tema do «senhorio de Jesus Cristo». Quanto a notas expositivas sobre a propriedade do uso desse termo para com Cristo, ver I Cor. 1:31). «Tais intercâmbios deixam entrever a sua ‘convicção mais íntima sobre a deidade de Cristo’». (Findlay, in loc.). Variante Textual·. Ao invés das palavras «...mente de Cristo...», alguns manuscritos dizem «mente do Senhor». Assim dizem os mss BD(1)FG; e os pais da igreja Agostinho e Ambrosiaster assim citam essa passagem em seus escritos. As palavras «...de Cristo...» aparecem nos mss P (46), Aleph, ACD(3)ELP, nas versões da Vulgata latina, bem como no Si, no Cóp e no Arm, sendo assim também citado este texto por Órígenes. Mui provavelmente esse é o tèxto correto. A modificação para «Senhor» deve ter ocorrido por atração da mesma palavra, usada neste versículo. (Ver o artigo referente ao estudo dos manuscritos do N.T., na introdução ao comentário). Espírito Santo, todo divino, Habita neste meu coração; Derruba todo o trono idólatra, Reina supremo e reina sozinho. (A.Reed). Capítulo 3 Este terceiro capítulo dá prosseguimento ao argumento que aparece no capítulo anterior, iniciado em I Cor. 2:6, a saber, que a verdadeira sabedoria não é propriedade dos facciosos. (Quantoanotasdeint;roduçâoaessetema,ver I Cor. 2:6). Somentejá no quinto versículo deste terceiro capítulo é que esse tema muda, onde se toma no seguinte: Os verdadeiros apóstolos não são rivais entre si. ' Nos versículos primeiro a quarto deste capítulo, Paulo faz a aplicação direta de seus argumentos anteriores. Ele demonstrara que buscar e ensinar a «sabedoria humana» é algo prejudicial para a igreja cristã; e que aqueles que assim agem na realidade não são homens espirituais, mas antes, carnais. E agora ele passa a demonstrar que a camalidade daquele grupo de crentes de Corinto, que permitiam que tais retóricos e sofistas os desviassem da simplicidade do evangelho, era o fator que causara tantas divisões naquela congregação cristã. Era necessário, pois, (jue aqueles crentes reconhecessem ser isso resultado de sua camalidade. E, assim sendo, não somente a classe dos intelectuais exibira a sua camalidade, por buscarem como seu alvo coisas meramente terrenas, mas também a igreja de Corinto em geral se tomara culpada, por permitir a existência de tal condição, chegando ao extremo de selecionar partidos, contra e a favor de certos líderes, que passaram a ser considerados os «heróis» ou os campeões dos vários grupos, como Apoio, Paulo, Pedro e outros. A nota que passamos a transcrever, de C.T. Craig (in loc.), demonstra grande percepção, devendo ser considerada seriamente: «Paulo chega neste ponto à aplicação e à sua defesa própria. Superficialmente considerada, esta passagem parece envolver Paulo em autocontradição. Ele estava escrevendo para crentes batizados, que haviam recebido o Espírito através da fé e do batismo. Contudo, acusa-os de não terem o Espírito. Nem ao menos eram controlados pela «alma», e, sim, pela «carne». Por conseguinte, eram ‘carnais’. Não conservando a maneira usual de traduzir, a versão inglesa RSV diz ‘homens da came’. A chave dessa dificuldade pode ser encontrada na principal contribuição de Paulo ao conceito neotestamentário do Espirito. Todos os cristãos primitivos atribuíam a profecia, as línguas e os milagres à obra do Espírito. Mas Paulo nos apresenta uma interpretação essencialmente moral. Visto que Cristo é o Espírito, os frutos do Espírito são os principais valores morais. (Ver Gál. 5:22,23). Onde esses frutos se fazem ausentes, segue-se necessariamente que o Espírito nada é senão uma possibilidade latente neles. Encontramos idêntico antinômio no oitavo capítulo da epístola aos Romanos. Lemos, em Rom. 8:9, que os leitores não se encontram na came, posto que o Espirito de Deus habita neles. Contudo, no trecho de Rom. 8:12, são eles 3 Κάγώ, αδελφοί, ούκ ηδυνηθην λαλήσαι νμϊν Χριστω. 3 1 Jn 16.12 3:1: Εeu, irmãos, não vos pudefalar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. O vocábulo «...irmãos...» é um termo que subentende afeição, usado para suavizar as severas reprimendas que Paulo precisava dirigir contra os crentes de Corinto. (Ver outros usos desse termo em I Cor. 1:10,26; 2:1; 4:6; 10:1; 12:1 e 14:20). «...espirituais...» Paulo postulou aqui três classes de homens, a saber, «espirituais», «carnais» e «naturais». Os homens espirituais e os carnais são exortados a não viverem segundo a carne. E aqui, em Corinto, os ciúmes e as contendas que haviam causado suas divisões partidárias eram sinais de uma vida vivida de conformidade com a carne. E o resultado ético disso comprovava a ausência daquilo através do que somente se poderia perceber a sabedoria de Paulo». Essa observação de C.T. Craig se reveste de importância porque aponta para aquela verdade tão óbvia, mas, ao mesmo tempo, tão freqüentemente negligenciada, que ensina que a transformação moral do crente, segundo a imagem de Cristo, é o resultado inevitável da presença habitadora do Espirito de Deus. Essa é uma operação distintiva do Espírito Santo, a qual, por sua vez, provoca a transformação metifísica, através da qual os remidos são revestidos da verdadeira e essencial natureza de Jesus Cristo. Porque se pensaria impossível que a igreja cristã não esteja entremeada de muitos exemplos de imitação, sob a bandeira do cristianismo? Paulo asseverava, portanto, que a camalidade não se coaduna bem com a idéia de que o Espirito de Deus habita em um indLivíduo, a ponto de dotá-lo para o exercício de manifestações espirituais. Aquele que é suficientemente cheio e controlado pelo Espírito Santo, a ponto de exercer dons miraculosos, necessariamente deve ser controlado, no nível moral, pelo Espírito de Deus, participando assim da natureza moral de Jesus Cristo. Aquilo que contradiz a esse princípio não passa de uma ilusão. Isso não significa, entretanto, que o homem espiritual e dotado pelo Espírito Santo não possa cair, até mesmo em falhas sérias; mas significa que «...pelos seus frutos os conhecereis», segundo ensinou Cristo, em Mat. 7:20. No entanto, aqueles crentes de Corinto eram «carnais». Todavia, tinham muitos dons espirituais, supostamente. Paulo não negaria que aqueles crentes possuíam o Espírito Santo, porquanto ninguém pode ser verdadeiro crente se não tiver o Espírito de Cristo, ja que ele é o agente da fé, da conversão e da regeneração. Mas parece que Paulo punha em dúvida a validade daquelas manifestações espirituais e do poder através do Espírito Santo, a menos que a natureza moral de Cristo se tomasse evidente para os homens. Paulo estava à beira de reputar os seus detratores como «falsos apóstolos», indivíduos fraudulentos, suspeitando que os seguidores dos tais tivessem qualquer manifestação autêntica dos dons espirituais. Naturalmente, ele não quis dizer isso de maneira universal, como se pudesse ser feita tal generalização no caso dos crentes de Corinto, conforme nos mostra o trecho de I Cor. 1:4*6, onde Paulo demonstra sua confiança na validade de seus dons espirituais, resultantes da obra verdadeira de Cristo, no meio deles. ώς ττνζνματίκοΐς άλλ* ώς σαρκίνοις, ώς νηπίοις. èv 3. χ σάρκινους] -ικοις G pi ζ ambos crentes, mas de inclinações opostas. Os homens naturais sao os indivíduos ainda sem regeneração. (Ver as notas expositivas a esse respeito em I Cor. 2:14, onde as palavras gregas são explicadas). «...carnais...» Em outras palavras, «homens da carne», ou seja, crentes controlados pela carne. É possível interpretar que esse adjetivo significa que as pessoas assim qualificadas são inteiramente destituídas do Espírito de Deus (se considerarmos tão-somente o sentido verbal), mas o contexto geral não nos permite tirar essa conclusão. Mui facilmente, entretanto, Paulo
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    I CORÍNTIOS 39 poderiaestar querendo dar a entender que toda a sua suposta e apregoada espiritualidade, no exercício dos dons espirituais, era falsa, fraudulenta; porque não dispor das qualidades morais de Cristo, e, ao mesmo tempo, ser supostamente habitado pelo Espírito de Deus, a ponto de realizar feitos miraculosos, é uma aberrante contradição, uma impossibilidade moral. (Ver o desenvolvimento desse tema na introdução ao presente capítulo). Os crentes «...espirituais...», de conformidade com o uso que Paulo fez desse vocábulo, eram os crentes «experientes», espiritualmente maduros, segundo se lê em I Cor. 2:6. Já os «carnais», em contraste com isso, eram os , que davam excessivo valor à sabedoria «humana», conforme a menção e os comentários existentes em I Cor. 1:18,19;21 e 2:1,4,5. A sabedoria humana, em sua exaltação por parte dos retóricos e sofistas cristãos, que abundavam na igreja de Corinto, é que havia causado as lamentáveis divisões que Paulo repreende com tanta severidade nesta epístola. Príncipes se encontravam entre os sábios deste mundo; mas esses são inteiramente despidos da sabedoria divina, tendo cometido o pior de todos os crimes da humanidade, a saber, a crucificação do Senhor Jesus. (Ver I Cor. 2:6-8). E poderiam crentes verdadeiros imitar tal sabedoria, provocando assim tão desgraçadas divisões no seio do cristianismo? Tal possibilidade pareceria inconcebível, mas era exatamente o que aquela gente tinha feito. Dessa maneira, se tinham desqualificado a si mesmos como crentes «espirituais». Antes, eram imaturos, crianças na fé. Eram crentes «carnais», o que significa que não eram necessariamente destituídos da presença do Espírito Santo, e, sim, que não eram controlados por ele, conforme supunham, e, sim, pela carne. Não tinham ainda atingido a plenitude da experiência espiritual, apesar de se julgarem supremamente espirituais. Todas as suas supostas elevadas experiências espirituais, portanto, eram fraudulentas. A palavra «carnal», em sua definição básica, significa simplesmente «da carne e do sangue», não indicando, necessariamente, qualquer qualidade ética inferior. Mas o homem que é dominado por seus desejos inferiores, que se originam da mera mortalidade, como as concupiscências, as paixões, a busca pela fama, pela exaltação pessoal, etc. (tudo o que caracterizava certo grupo de crentes da igreja de Corinto, conforme se lê na primeira e na segunda epístolas aos Coríntios), se torna «eticamente carnal, e não apenas metafisicamente carnal. Isso significa que pouco se conhece sobre o predomínio do «princípio espiritual», também chamado «princípio celestial», que faz com que um homem se torne um crente espiritual. Essa palavra, pois, significa: 1. Pertencente à ordem das coisas terrenas, «materiais», sem ou com algum conteúdo ético. (Ver o trecho de I Cor. 9:11 quanto ao uso dessa palavra, sem qualquer conteúdo moral). 2. Pode também significar «composto de carne», que é uma referência ao corpo humano. (Ver I Pol. 2:2). 3. Finalmente, pode significar pertencente ao reino da carne, isto é, algo débil, pecaminoso e transitório, em contraste com o reino espiritual. (Ver I Cor. 3:4 e I Ped. 2:11). Nesse caso entra o elemento ético, o que mostra que o adjetivo «carnal» significa pecaminoso, controlado por princípios errôneos. 2 γάλα υμάς έττότισα, ον βρώμα, ούττω γάρ i8vvaade.aάλλ’ ουδέ έτι νΰν δΰνασθ€,α α ° 2 ο major, a minor: WH Bov Nee BF2 RV ASV RSV NEB TT Zür LuthJer Segjj a minor, a major: A V // a major, a major:TR 2 7 ά λ α ...β ρ ώ μ α He 6.12-13; 1 Pe 2.2 2 e n ] om p46B syP A m b s t Portanto, por si mesma, essa palavra pode aplicar-se à totalidade dos homens não-regenerados, a todos os homens, como seres.humanos mortais, ou aos crentes carnais. Essa é a aplicação que esse vocábulo tem no presente texto. As pessoas a quem Paulo se referiu não estavam subordinadas à «lei superior» dos céus, mas permaneciam verdadeiros filhos deste mundo terreno. Com isso se pode comparar a afirmativa de Paulo, em Rom. 7:14, em que ele se declara que fora «carnal, vendido ao pecado». Isso é menção à camalidade que controla o crente infantil, o que abafa as influências espirituais superiores em sua pessoa. No N.T. grego existem duas palavras extremamente similares, «sarkinos» e «sarkikos». Nem mesmo no grego clássico esses dois termós são distinguidos claramente, e muito menos ainda no grego «koiné». «Sarkinos» é a palavra que aparece neste texto. «Sarkikos» figura em Rom. 7:14; 15:27 e outros trechos.Os manuscritos confundem os dois vocábulos, usando-os como sinônimos. (Ver a iiota textual que as segue). «...crianças em Cristo...»A palavra grega aqui traduzida por «crianças» é «nepios». Esse vocábulo usualmente indica alguém que ainda não sabe falar (derivado de «ne», o negativo, e de «epos», palavra), ou seja, uma criança tão pequena que ainda não aprendeu a falar, isto é, com menos de dois anos de idade. Notemos, pois, quão severa é a repreensão de Paulo. Eram virtuais «recém-nascidos», como crentes, totalmente destituídos de outras experiências cristãs válidas. Eram crentes imaturos, sem espiritualidade, embora se julgassem altamente espirituais. Paulo os põe em antítese com «experimentados», isto é, os crentes maduros, em I Cor. 2:6, que é uma de suas descrições acerca dos crentes «espirituais». Paulo se utilizou da palavra «crianças», algumas vezes, em sentido depreciativo, conforme vemos em Rom. 2:20; Gál. 4:3 e Efé. 4:4. Em diversas referências literárias se verifica que esse termo era empregado para indicar os noviços nas escolas, os prosélitos recentes de alguma religião. Paulo gostaria de ter-lhes escrito uma mensagem como aquela que encontramos na epístola aos Efésios, um tratado profundo sobre as questões espirituais; mas isso lhe era impossível, porquanto se dirigia a pessoas que eram principiantes na fé cristã, que se admiravam ante a sabedoria humana, e não por causa da sabedoria divina. «Eram pessoas convertidas, mas tinham um entendimento infantil, no conhecimento e na experiência; tinham bem pouco discernimento quanto às coisas espirituais, e não possuíam ainda habilidade na palavra da justiça». (John Gill, in loc.). «É extremamente comum que pessoas de conhecimento e compreensão muito moderados se mostrarem excessivamente convencidas. O apóstolo atribuiu sua ínfima eficiência, no conhecimento do cristianismo, como uma das razões pelas quais ele não lhes podia transm itir mais profundas verdades». (Matthew Henry, in loc.). Variante Textual·. A palavra grega «sarkinois» aparece nos mss P(46), Aleph, ABC(1)D(1) e alguns poucos outros. Isso foi corrigido para «sarkikois», nos mss D(3)EFGLP, a fim de melhor harmonizar-se com o uso clássico dessa palavra, a qual, pelo menos algumas vezes, mostrava a distinção entre essas duas palavras. «Sarkinois» algumas vezes era palavra exclusivamente usada para referir-se diretamente à carne animal literal, sem qualquer significado etico. 3:2: Leite vos dei por alimento, e não contida tólUa, porque não a podfeit «iportor; nem ainda agora podeis; A menção que Paulo faz das crianças espirituais, no versículo anterior, que eram crentes tão recém-convertidos que ainda não tinham experiências com o Senhor, sugeriu-lhe a menção da dieta que ele aqui alude. Crianças muito pequenas só se alimentam de leite, porque nem mesmo têm a capacidade de digerir alimento mais sólido. É impossível alimentar tais crianças com alimento mais sólido, comò a carne. Outro tanto sucede com os crentes carnais, os crentes imaturos e recém-convertidos. Esses ainda pertencem à categoria infantil, demonstrando pequeníssimo progresso espiritual. (Quanto ao mesmo simbolismo do íeite e da carne, indicando ensinamentos superficiais ou mais profundos, respectivamente, comparar com os trechos de Heb. 5:12-14 e I Ped. 2:2). Filo, o famoso filósofojudeu neoplatônico (30 a.C.- 50 d.C.), empregou o mesmo simbolismo, como segue: «Sabendo que o alimento dos bebês é o leite, mas os adultos se alimentam de pão de trigo, também deve haver nutrientes para a alma que se assemelhem ao leite, próprios para o período da infância...como também aqueles próprios para os homens adultos». (Sobre a Economia Doméstica , 9). Encontramos um uso similar desse simbolismo na literatura judaica: «Assim como o leite fortalece e nutre ao infante, assim também a lei fortalece e nutre à alma». (Kimchi sobre Isa. 55:1). E Jarchi, em Cant. 5:12, refere-se ao «leite da lei». «...leite...» Essa palavra, no caso presente, dá a entender as doutrinas cristãs mais fundamentais, ou seja, o evangelho em sua forma mais simples, a palavra da cruz. O trecho de Heb. 6:1,2 alista o arrependimento de obras mortas, a fé para com Deus, os batismos, a imposição de mãos, a ressurreição dentre os mortos e o juízo 'eterno como as doutrinas básicas, que um crente deve eventualmente ultrapassar, prosseguindo para a «perfeição» que há em Cristo. «...alimento sólido...» Essa é uma correta tradução do vocábulo grego «broma», que não indica apenas «carne», mas todas as variedades de alimentos sólidos. Podemos aprender, em João 4:34, que o «alimento» de Jesus consistia em fazer a vontade do Pai. «Paulo não se gloriava em apresentar sermões superficiais e aguados. A simplioidade não requer embotamento intelectual e ausência de idéias. É patético pensar como tantos pregadores precisam aparar as asas do pensamento e da imaginação, porque seus ouvintes não podem acompanhá-lo. Mas nada pode impedir tanto a prédica como o embotamento causado pelo pecado, por parte dos ouvintes, que se mostram impacientes ante as elevadas exigências do evangelho». (Robertson, in loc.). Muito mais patético ainda, entretanto, é o caso do pregador que na realidade não passa de um infantil quanto ao seu conhecimento e compreensão, e que jamais se _esforça, intelectual ou espiritualmente, para aprimorar a sua mensagem. È em situações assim que contendas e querelas não demoram a aparecer no seio da igreja local, pois então os crentes se sentem «famintos» e tendem por entregar-se aos conflitos, da mesm^ maneira que a falta de alimento físico deixa o indivíduo irritadiço. Èjusto supormos, portanto, que muitas lutas eclesiásticas poderiam te r,sido evitadas se os pregadores soubessem «alimentar ao rebanho»; e o restante de qualquer descontentamento e confusão nas igrejas locais poderia ser evitado, através do desenvolvimento espiritual de seus membros. Paulo sabia disso, e teve abundantes oportunidades de perceber as facções que surgiam em Corinto, principalmente porque os crentes dali ainda eram imaturos. Quando Paulc fala aqui em alimento sólido, referia-se à sabedoria divina, especialmente aquilo que se conhece sobre o «mistério» por ele aludido em I Cor. 2:6. Ali ele já havia declarado que a sabedoria divina ele ensinava a;os crentes «experimentados» ou maduros em Cristo. Não há que duvidar que nesse «mistério» ele incluía a elevadíssima doutrina da transformação dos remidos segundo a imagem de Cristo, tanto em seu aspecto moral como em seu aspecto metafísico. Contudo, naquele versículo e aqui, são destacadas sobretudo as obrigações morais. (Ver a totalidade do oitavo capítulo da epístola aos Romanos e do primeiro capítulo da epístola aos Efésios, quanto aos ensinamentos mais profundos desse apóstolo).Essas doutrinas se fazem singularmente ausentes nesta primeira epístola aós Coríntios, exceto do texto de cap. 15. Em outras palavras, apesar dessas grandes verdades serem mencionadas, não são discutidas, explanadas. O quinto capítulo da segunda epístola aos Coríntios, entretanto, é a passagem onde Paulo expõe a melhor discussão sobre a imortalidade. Por conseguinte, nas duas epístolas aos Coríntios há exceções à regra.
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    40 I CORÍNTIOS «...porqueainda não podíeis suportá-lo...» Durante o tempo em que Paulo esteve em companhia dos crentes de Corinto, estes não tinham feito muito progresso no aprofundamento das doutrinas cristãs. E mesmo depois que o apóstolo dos gentios os deixou, não avançaram muito; bem pelo contrário, regrediram, porquanto agora estavam engalfinhados em disputas e divisões, por causa de questões sem a mínima importância para o verdadeiro cristianismo. «O espírito mundano e imaturo deles se evidenciava por suas divisões facciosas e por suas desavenças, porquanto tudo isso subentende falta de 3 eri yàp σαρκικοί eare. οττον γαρ εν ύμΐν ζηλο? ττ€ριιτατ€Ϊτ€; 1 3 IC ( épis N (A epeis) B C Ρ Φ 81 181* 630 1739 1877 1881 i t 1™· m.r1,*,* Vg f> arm pfI, Clem ent Origen (Eusebius epees) Cyri] Euthaiiup // epts δ ιχοστα σία 623 Chrysostom // epts καί δ ιχοστα σία ι p46 D (G épeis) 33 88 104 181™ 326 330 436 451 614 629 1241 (1062 ά ρχοστασία) 3 kv ύ μ ΐν ,.Λ ρ ΐϊ 1 Cor 1.10-11; 1 1 .1 § verdadeira comunhão cristã, de amor e de fé no serviço do Senhor, qualidades essas que figuram entre as condições essenciais para o desenvolvimento do discernimento espiritual na sabedoria de Deus». (John Short, in loc.). «O apóstolo, por conseguinte, lhes expôs o absurdo de sua conduta, ao pretender estabelecer distinções entre os diversos pregadores, ao mesmo tempo que eles tinham tão parcial fam iliaridade até mesmo com os ‘princípios fundamentais’ do cristianismo». (Adam Clarke, in loc.). καί epis1, ούχΐ σαρκικοί iore και κατά άνθρωπον I 1984 1985 2127 2492 2495 B yz L ed it"·1 1 ···'·· syrr·» M arcion Irenaeus*1 ··1 ·· O rigenlftt C yprian Ephraem Ambrose Pelagius Jerome Augustine Theo- doret [ 3 σαρκικόi Io] -ivoi D*G | Embora a forma ípis καί διχοστασίαι tenha apoio antigo e diversificado (P (46) D (G) 33 614 Byz it (d,g,6l) sir (p,h) Márciom al) , a ausência de και διχοστασίαι de manuscritos como pu”* ‘<!< B C P t 81 1739 al levou a comissão a suspeitar da intrusão de uma glosa ocidental, derivada talvez da lista de vícios em Gál. 5:20. Nâo havendo motivo suficiente para explicar sua omissão, se as palavras estavam presentes originalmente, a forma mais breve é a preferível. 3:3: porquanto ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contendas, não sois porventura carnais, e nâo estais andando segundo os homens? (Quanto a notas expositivas completas sobre o termo «carnal», ver o primeiro versículo deste capítulo). A prova da camalidade daqueles crentes de Corinto é que entre eles havia diversas manifestações de ciúmes, de contendas, de partidarism o, de escolha de heróis humanos, os quais recebiam honrarias, com detrimento do nome de Cristo, porquanto essa glória pertence exclusivamente ao Senhor. O vocábulo grego aqui usado para indicar «...carnais...» é «sarkikoi», e não «sarkinoi», conforme se lê no primeiro versículo deste capítulo, ainda que alguns manuscritos apresentem a mesma palavra também nesse primeiro versículo. (Ver as notas textuais e os comentários a respeito desse primeiro versículo). Alguns eruditos pensam que «sarkikoi» é termo mais fraco que «sarkinois»; porém, o leitor que acompanhar as referências dadas em um bom léxico grego ou concordância grega, ficará convencido de que ambas essas palavras eram freqüentemente usadas para dar a entender a mesma coisa, porquanto são sinônimos entre si. É bem provável, pois, que Paulo tenha usado essas palavras como termos intercambiáveis. A segunda menção do termo grego sarkikoi neste versículo (onde essa palavra é empregada por duas vezes), é alterada, em alguns manuscritos gregos, para «sarkinoi». Assim dizem os mss P(46), D(1)G, o que certamente mostra que, para muitos escribas antigos, não havia diferença apreciável entre essas palavras. Portanto, a suposta distinção feita por alguns estudiosos, os quais dizem que o final «inos» denota uma relação «material», ao passo que o término «ikos» envolve uma relação «ética», é uma distinção artificial, tanto quanto ao uso real dessas palavras como quanto ao sentido dessas palavras. Diversas outras interpretações estabelecem diferenças quanto a esses vocábulos gregos, mas nenhuma delas é convincente. Assim é que alguns eruditos pensam que «sarkinoi» significa «totalmente da carne», ao passo que «sarkikoi» significaria «dominado pela carne», embora restem ainda alguns elementos espirituais presentes nos indivíduos assim qualificados. Contudo, não é provável que Paulo tenha dito uma coisa, no primeiro versículo, para então, logo adiante, no nosso atual versículo terceiro, ter dito outra, mais suave. Simplesmente Paulo usou esses termos como sinônimos intercambiáveis. «....ciúmes...» Essa palavra, no original grego, «zelos», pode significar «zelo», «ardor», não sendo má por si mesma. (Ver II Cor. 9:2; Fil. 3:6; Luciano, Adv. Ind. 17: I Macabeus 2:58). Esse é o vocábulo grego do qual se derivou a nossa «inveja», «ciúme», tal como em Plur. Thess. 6:9; Atos 5:17; 13:45; Rom. 13:13; II Cor. 12:20 e Gál. 5:20. Nesta última referência, o «ciúme» é alistado como uma das «obras da carne», isto é, um dos resultados da pervertida camalidade do homem, em contraste com o «fruto do Espírito», o qual produz a transformação moral do crente segundo a imagem de Cristo. Por conseguinte, a inveja é aqui pintada através do mau sentido de «zelo» ou «ardor», provocado pela criação de facções, alicerçadas na adoração a «heróis» humanos. Porém, Cristo é o único verdadeiro «herói» da igreja cristã; e, assim sendo, adorar ou venerar a quem quer que seja eqüivale à idolatria, furtando algo da glória de Cristo. «...contendas...» Essa palavra tem por sinônimos «discórdia», «querelas», «dissensão». (Ver Fil. 1:15; Tito 3:9; I Cl. 35:5; 46:5 e Tito 3:9). Essa palávra aparece na lista dos muitos vícios que caracterizavam os pagãos, que haviam abandonado o conhecimento de Deus, segundo se aprende em Rom. 1:29. Portanto, os crentes de Corinto agiam como homens ainda sujeitos às obras da carne (ver Gál. 5:20), como pagãos que ainda não conheciam a Cristo. No entanto, ao mesmo tempo, se exaltavam como elementos altamente espirituais, ufanando-se no uso extraordinário dos dons espirituais. A estimativa que deles fazia o apóstolo Paulo, contudo, era inteiramente diferente disso. Aquele que é verdadeiramente espiritual deve demonstrar o fruto do Espírito, exercendo predomínio sobre as obras da carne. Devemos observar que essa palavra, aqui traduzida por «conteijdas», também aparece na lista de Gál. 5:20, como obra da carne, aparecendo ali imediatamente antes de «ciúmes». É possível que esses dois defeitos de caráter tenham alguma conexão vital. As contendas começam quando surge a inveja no coração. «As contendas são o resultado exterior do sentimento invejoso. (Ver Gál. 5:20; Clemente Rom. Cor. 3)». (Robertson e Plummér, in loc.). «..e andais segundo o hom em ?...» Isto é, de conformidade como o homem de inclinações «carnais», o homem controlado pelos apetites da natureza carnal. Paulo estabelecia aqui o contraste com o homem «espiritual», referido no primeiro versículo deste capítulo, que ele definiu como «experimentado» ou maduro (ver I Cor. 2:6). Aqueles crentes de Corinto, embora inchados com pensamentos de uma espiritualidade superior, na realidade eram homens controlados pelas paixões carnais, tal como qualquer outra pessoa deste mundo. Variante Textual·. Ao invés das palavras: «...segundo o homem...», alguns manuscritos dizem «segundo a carne» (no grego, «sarkikoi»), fazendo com que este versículo apresente essa expressão por três vezes. Mas isso é apenas uma tentativa escribal de esclarecer o que Paulo queria dizer com as palavras «segundo o homem», que alguns escribas devem ter imaginado que não seriam compreendidas.Essa modificação aparece nosmssD(l)FG,eem alguns outros textos posteriores). A operação autenticado Espírito Santo derrota os impulsos carnais na experiência do crente. (Ver Rom. 8:3 e ss.). Os crentes de Corinto, pois, não contavam com uma autêntica operação do Espírito de Deus em suas vidas. Por causa disso, tinham perdido de vista a glória de Deus, na pessoa de Cristo, substituindo-a pelo orgulho e pela vangloria humanos. Viviam na carne, e não no Espírito; e estavam completamente equivocados quanto a essa questão. Ê admirável como os facciosos, provocadores de divisões entre os irmãos na fé, alicerçados sob questões imaginárias, podem continuar a pensar que são os melhores e mais espirituais elementos de sua comunidade, chegando até a convencer disso a terceiros. Tudo não passa de um colossal ludibrio, que atinge tanto aos enganadores como aos enganados. «‘Andais como homens’, isto é, como homens sem regeneração. (Comparar com Mat. 16:23). ‘Segundo a carne e não segundo o Espírito’, conforme sucede aos regenerados pelo Espírito. (Ver Rom. 8:4 e Gál. 5:25,26)». (Faucett, in loc.). Com essas palavras se pode comparar os trechos de Rom.3:5; 15:5 e Gál. 1:2, onde lemos «segundo Jesus Cristo», quanto ao caráter dessa maneira de andar, o que também é um contraste com a maneira carnal de viver. Pois aquele que anda como Cristo andou, segundo Jesus Cristo, só pode fazê-lo por meio do Espírito de Deus. 4 οταν γαρ λέγτ) τις, Έ γώ μεν €ΐμι Π αύλου, erepoç Sé, ’Ε γώ Ά π ο λλώ , ούκ άνθρωποί io r e ; 4 éyJJ...Ά π ο λ λ ώ 1Cor 1.12 4 οϋκ άνθρωποι Ν*ΑΒpc-, R] ουχι a. D G: ουχι σαρκικοί NC L P pi sy ς | εστε] add και K ara άνθρωπον π€ριπατ€ΐτ€ Ρ Vg(3) 3:4: Porque dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apoio; não sois apenas homens? A prova em que o apóstolo se estribava era a simples observação sobre a conduta daqueles crentes coríntios. É como se ele estivesse dizendo, a exemplo de Jesus Cristo: «...pelos seus frutos os conhecereis» (Mat. 7:20). Neste ponto Paulo retoma à menção sobre os supostos líderes das facções, o que ele já havia mencionado em ΓCor. 1:12. Esses supostos líderes, guindados à posição de «heróis» das diversas facções surgidas na igreja de Corinto, eram Paulo, Apoio, Cefas e Cristo. Cada um desses nomes representa um tipo diferente de espírito partidária. (Ver as notas, em I Cor. 1:12, que esclarecem essa questão). Neste ponto, o apóstolo dos gentios menciona somente ele mesmo e Apoio. Por ser um eloqüente judeu alexandrino, Apoio fora eleito herói da classe dos «intelectuais» de Corinto.
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    I CORÍNTIOS 41 Esseseram os que amavam e imitavam o intelectualismo das escolas gregas existentes em Corinto, sobretudo as escolas de retórica, que sempre foram sofistas por natureza. Com o termo sofistas queremos dizer «como os sofistas», que eram contemporâneos de Sócrates, os quais haviam abandonado qualquer inquirição objetiva pela verdade, mas imaginavam que «o homem é a medida de todas as coisas», no dizer de Protagoras, com o que davam a entender que cada indivíduo é o padrão e modelo de sua própria verdade, não havendo qualquer verdade fixa, qualquer fator objetivo. A verdade seria aquilo que opera em favor do indivíduo, em qualquer dada situação. Os sofistas, portanto, eram antigos pragmáticos, onde a utilidade se torna o medidor da verdade e do conhecimento, e onde persiste o espírito do ceticismo, em relação a qualquer verdade que seja apresentada como eterna ou objetiva. Para eles, por conseguinte, era muito importante vencerem nos argumentos, obtendo sucesso em qualquer atividade, inteiramente à parte de quaisquer valores morais fixos. Os sofistas se especializavam sobretudo na retórica, tornando-se assim os primeiros «advogados» do mundo. E visto que vendiam os seus conhecimentos, tornaram-se também os primeiros professores universitários, isto é, mestres que cobravam estipêndios por suas instruções. A princípio, Atenas fora a grande cena desse tipo de desenvolvimento intelectual, mas Corinto, nos dias de Paulo, imitava os costumes filosóficos daquela cidade. Nos tempos do ministério apostólico muitas escolas filosóficas estavam representadas em Corinto, e a sabedoria humana, sobretudo na forma da habilidade retórica, era a grande disciplina que os habitantes dessa cidade estudavam. Não podemos duvidar que os crentes coríntios, de inclinações sofistas, não haviam abandonado a verdade do evangelho, mas ao mesmo tempo, se ufanavam em sua soberba, que poderia caracterizar os retóricos da época, imitando os seus discursos nos sermões que faziam. Com base no primeiro capítulo desta epístola, podemos supor que «a palavra da cruz» não era tema freqüente de seus sermões, e talvez até mesmo nunca tivesse sido. Talvez falassem de maneira retumbante sobre os «mistérios divinos», sobre o «conhecimento oculto» ou sobre a «contemplação mística», a exemplo dos gnósticos daquele período histórico. Apoio por ser um alexandrino educado, e sem dúvida devido à sua arrebatadora eloqüência, fora escolhido como o «herói» dos que pendiam para a erudição humana. O trecho de Atos 18:24 menciona a sua grande eloqüência, bem como o fato que ele era natural de Alexandria. Porém, o mais certo é que, em contraste com seus baratos imitadores, ele também fosse homem «poderoso nas Escrituras», embora talvez segundo o modelo de Filo, o judeu filosofo neoplatônico, grande erudito das questões mosaicas, o maior intelecto entre osjudeus em seus dias. (30 a.C.- 50 a.C.). O apóstolo Paulo, desde I Cor. 1:18 que vinha dirigindo seus ataques contra o partido dos «intelectuais» em Corinto. Agora ele lhes mostrava que a despeito de toda a erudição suposta na qual se vangloriavam, e de toda a sua eloqüência, na realidade eram homens carnais, controlados não ρβΓο Espírito de Deus, conforme afirmavam ser, mas antes, controlados por paixões humanas, pelos desejos, pelo orgulho, pela inveja; e tudo isso resultara em lamentáveis divisões na igreja cristã de Corinto. O prolongado ataque do apóstolo contra esse grupo indica que, dentre as várias facções ali existentes, esse era o mais perturbador. Evidentemente eram essas que mais freneticamente se opunham a Paulo, menosprezando-o em face do fato de que ele não tinha aquela eloqüência que eles tanto admiravam. (Ver II Cor. 10:10 e 11:6, onde parece que diziam que sua palavra era «desprezível» e «rude», embora confessassem o vigor de suas epístolas, conforme a primeira dessas referências nos mostra). O estilo de discurso, usado nas sinagogas, e que Paulo refletia em seus sermões, não os tinha admirado, porquanto apreciavam a habilidade retórica dos gregos. Aquele que hoje em dia lê os discursos dos sofistas percebe facilmente o poder e o encanto de sua retórica, embora os sofistas não fossem inquiridores sérios da verdade. «...de Paulo...» Esses eram os que tinham ficado vivamente impressionados com a sua autoridade apostólica, dos quais, provavelmente, a maioria se compunha de convertidos seus, dentre os- quais alguns poucos haviam sido batizados por ele. É possível que essa facção incluísse, especialmente, judeus helenistas, como era o próprio Paulo. Seja como for, esse grupo abusava do nome de Paulo, de uma forma que não o agradava. (Ver o décimo segundo versículo deste capítulo quanto a detalhes sobre a questão inteira das facções existentes na igreja cristã de Corinto, em notas expositivas que incluem referências aos trechos onde podem ser encontradas as descrições sobre vários «heróis», escolhidos pelos membros daquela igreja). «...andais segundo os homêns...» A palavra «...andais...» não figura no original grego, mas foi tomada por empréstimo como palavra interpreta- tiva, com base no terceiro versículo. Literalmente, o grego diz simplesmente «...não sois homens...», embora possa ser compreendido como· «...não agis como meros homens, como meros seres humanos, sem a iluminação do Espírito...» Essa é apenas outra maneira de salientar a cam alidade daqueles crentes. Em nada eles se distinguiam dos homens não-regene- rados, porquanto continuavam manifestando as obras da carne, como o «ciúme» e as «contendas», ao invés de exibirem o fruto do Espírito, como a «paz», a «harmonia», a «alegria», o «amor fraternal», etc., que encontramos no trecho de Gál. 5:22,23. Aqueles crentes eram «homens» porque não conseguiam elevação de motivos; e eram «carnais» porque se deixavam arrebatar por motivos inferiores, motivos esses que deveriam ter deixado para trás, por serem uma relíquia do paganismo. (Ver I Cor. 6:11 e 12:2). «Em todos os períodos de grande atividade social, quando a sociedade se torna observadora de seu próprio progresso, surge sempre a tendência de exaltar os indivíduos e os meios através dos quais ela progride. Por isso é que, por sua vez, reis, estadistas, parlamentos, e igualmente a educação, a ciência, as indústrias e a imprensa, passam a ter sua adoração de heróis. Ali, em Corinto, surgira uma nova fase, a da ‘adoração dos ministros’. Não admira que em uma época em que o mero progresso político da raça era considerado como inferior à salvação espiritual do indivíduo ou à purificação da sociedade, os ministros, que eram órgãos particulares mediante o que esse progresso tinha lugar, aos olhos dos homens, recebessem uma importância peculiar, e que os dotes especiais de Paulo ou Apoio fossem extravagantemente honrados. Também não nos admira que, ao redor dos vultos de maior eminência entre eles, tivessem sido organizados os seus partidários»;,(R.W. Robertson, in loc.). Paulo se utiliza do seu próprio nome como um dos heróis das diversas facções, a fim de mostrar que ele não dava seu apoio ao partido que se cristalizara em volta do seu nome, condenando a esse partido tal e qual condenava a todos os outros partidos. Além disso, apesar de estar atacando particularmente o partido dos «intelectuais», Paulo queria mencionar essas duas facções (a de «Paulo» e a de «Apoio»), como representantes do espírito faccioso inteiro da igreja de Corinto. «A verdadeira piedade torna os homens pacíficos. O espírito contencioso não age com base em qualquer princípio humano, e nem com base em princípios de piedade autêntica; antes, é guiado por seu próprio orgulho e por suas próprias paixões, ficando excluídas as regras do cristianismo». (Matthew Henry, in loc.). ★ * ★ II. Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21) 1. Polêmica contra tais divisões: g. Os verdadeiros apóstolos não são rivais entre si, mas antes, ministros do mesmo plantio, irrigação e colheita (3:5-23). Paulo passa agora a demonstrar, em seu ataque contra os crentes carnais e facciosos que haviam provocado divisões na igreja de Corinto, que haviam errado grandemente ao pensarem que os seus vários heróis realmente competiam entre si. Essas facções haviam sido criadas sob a ilusão que os ministros do evangelho estavam empenhados em rivalidade. Mas estavam equivocadas. Pois, em primeiro lugar, os pregadofès cristãos não haviam criado algum novo sistema de «sabedoria grega», como alguns coríntios imaginavam, mas antes, eram todos ministros do mesmo Senhor Jesus Cristo, ainda que suas funções fossem diferentes.Nesse serviço comum, embora servissem a Deus de diversos modos, tinham todos uma só causa a defender e o meismo Senhor a glorificar. A fim de ilustrar esse fato, Paulo lança mão de diversas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, usa a ilustração das lides agrícolas. A agricultura bem-sucedida requer certa diversidade de funções, embora todas elas tenham a mesma finalidade, e aqueles que labutam são cooperadores, e não competidores. (Ver I Cor. 3:1-8). Em segundo lugar, Paulo usa a ilustração da construção de um edifício. Há o levantamento dos alicerces, como também o erguimento do edifício sobre esses alicerces. Muitas atividades estão envolvidas numa construção, mas todos quantos ali trabalham tem o mesmo interesse. Não são competidores entre si. (Ver I Cor. 3:9,10). E esse pensamento leva Paulo a sua ilustração da igreja de Cristo como uma estrutura espiritual, ou seja, o templo de Deus. Segundo essa ilustração, Cristo é o alicerce dessa estrutura, não podendo dividir essa glória com quem quer que seja. Aqueles que são construídos acima dele têm seríssimas responsabilidades, e o seu labor e progresso espiritual fazem parte de uma vida agradável ao Senhor, por ser participação em sua graça. Em Cristo, pois, temos tudo; não precisamos, portanto, gloriarmo-nos nos homens. Nesse templo espiritual, o Espírito Santo vem habitar nos seus membros componentes, o que exige a santidade de vida, bem como a correta edificação sobre o alicerce. Ora, edificar sobre os homens, gloriar-se em qualquer indivíduo, exceto no Senhor, é edificar erroneamente, é demonstrar camalidade; e isso toma os culpados sujeitos a julgamento. (Ver I Cor. 3:11-23). Essa construção, pois, ilustra a vida cristã. Daí é que procedem os galardões em Cristo, ou seja, as capacidades metafísicas de servi-lo melhor. O crente individual, entretanto, pode chegar à ruína, através do que Paulo ilustra a grande solenidade da vida e profissão cristãs. O décimo capítulo desta epístola, portanto, transforma-se em seríssima advertência para todos os crentes (ver especialmente I Cor. 10:16-18). Não existem palavras mais severas, em todas as epístolas de Paulo, do que aquelas que temos à nossa frente.
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    42 I CORÍNTIOS 5τ ί ονν εστιν Ά ττολλώ ς; τ ί δε εστιν Π αΰλος ; διάκονοι, δι’ ών εττιστεύσατε, και έκάστω ώς ό κύριος εδωκεν. 5 τί...Άιτολλώ5Ac 18.24,27 5τι ϊ02oXABpc lat; R] risp48D°Gpl syς Ao invés de τί («Que?») o Textus Receptus, seguindo P (46) C D F G maioria dos minúsculos, diz τίs («Quem?»), em ambas as instâncias. O masculino, porém parece ser uma acomodação secundária que se adapta aos nomes pessoais; outrossim, a implicação do neutro, τι no vs. 7, é decisiva em prol de τί no vs. 5 (já que a resposta é «Nada», a pergunta dificilmente pode ter sido «Quem?»). O Textus Receptus, seguindo vários testemunhos posteriores (D (b) L Ψ 6 88 104 326 915 sir (p,h) ara etí aí), reverte a seqüência, para dizer Παύλο?; τί < 5é ϊστιν Άττολλώς]. Essa transposição foi obviamente feita devido a deferência à maior proem inência de Paulo e por causa da seqüência no vs. 4. A forma adotada como texto é decisivamente apoiada em -46” * S A B C D * c (F G) P 31 33 38 69 181 462 1912 it (d,g,r) vg cop (sa,bo). 3:5: Pois, que í Apoio, e que é Paulo, senão ministros pelos quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um? Conforme os facciosos crentes de Corinto proclamavam, Apoio era um grande homem, e Paulo era um grande homem. Mas o próprio apóstolo reduz a ele mesmo e a Apoio, com estas palavras, à sua verdadeira estatura. Foi uma indagação perscrutadora, que despreza a glorificação do homem pelo homem. Tanto Apoio como Paulo eram apenas «...servos...» (no grego, «diakonoi»). Paulo prefere não empregar aqui o vocábulo mais forte, «douloi», isto é, «escravos», embora isso não fosse contrário ao que ele queria dizer. A palavra «diakonos» tem muitas e variegadas aplicações. Pode significar o servo de alguém, em uma casa, ou um auxiliar pessoal. É palavra usada para indicar os «serviçais das mesas», o que eqüivaleria às nossas modernas empregadas domésticas. Mas também apontava para os servos nos palácios reais e alguns tipos de escravos, mas não outros. Podia significar um «ajudante», tal como alguém que trabalha no evangelho. E essa mesma palavra veio designar o ofício dos «diáconos»; e, quando aparece no gênero feminino, as «diaconisas». (Quanto às diaconisas, ver as notas expositivas sobre Rom. 16:1. Ver Atos 6:2,6 quanto a comentários acerca dos «diáconos»). Entretanto, Paulo não emprega aqui o vocábulo «diakonoi» em qualquer sentido oficial, embora tivesse mostrado que supostos «grandes» homens, como Apoio e Paulo, eram meramente servos, trabalhadores que atuavam no campo ou na construção de outrem. O proprietário do campo ou o alicerce da construção é aquele que merece a glorificação que estavam dando aos «servos», isto é, Jesus Cristo. «...por meio de quem crestes...» Tanto Apoio quanto Paulo haviam conquistado convertidos em Corinto, os quais tinham continuado sendo admiradores seus, chegando muitos deles a reputá-los seus «heróis». Contudo, não eram autênticos objetos da fé, conforme erroneamente tinham sido virtualmente transformados por aqueles crentes imaturos; antes, tinham sido apenas os instrumentos pelos quais a fé em Cristo surgira naquelas vidas humanas. A própria fé é um dom do Espírito de Deus; por essa razão, não pode servir de motivo para a glória humana. Assim, pois, a fé não fora produzida pelos discursos eloqüentes de Apoio, e nem pelos raciocínios profundos de Paulo. A fé é uma realidade espiritual, não sendo produto do engenho e da persuasão humanos. Por conseguinte, ninguém pode ufanar-se de ter servido de instrumento para o surgimento da fé no coração de outrem, porque o verdadeiro causador da fé é o Espírito Santo. (Ver as notas expositivas quanto aos trechos de Heb. 11:1 e João 3:16, acerca de uma completa discussão sobre a «fé»). A fé não consiste de um processo intelectual ou emotivo próprio do homem. Antes, consiste na «auto-entrega» da alma às mãos do Senhor, a fim de que a transformação segundo a imagem de Cristo tenha lugar naquele que assim confia. De fato, a fé é o primeiro passo da regeneração, sendo insuflada ria alma, pelo Espírito Santo, por ocasião da «conversão». E daí por diante o indivíduo passa a viver pela «fé», pois o Espírito de Deus jamais cessa de impelir os homens remidos a entregarem sua alma e seu tudo a Jesus Cristo, de tal modo que venham a depender dele no tocante à sua vida diária, ao seu destino final, à sua redenção, enfim. Ora, visto que. até mesmo a fé é um produto divino, e não humano, como poderia alguém gloriar-se por ter sido usado como instrumento que leva o evangelho ao conhecimento de outros? Os ministros do evangelho nunca deixam de ser tão-somente «servos», obreiros na casa espiritual, e não a própria casa ou o 6 εγα) £(f>VT€VGa, Ά π ο λ λ ώ ς εττότισεν, άλλα ό θεός 3:6: Ευ plantei; Apoio regou; mas Deus deu o crescimento. O plantio é im portante; o ato de regar ou cultivar é igualmente importante; mas o que realmente tem importância é o crescimento e a colheita; e somente Deus é responsável por esse aspecto da lavoura espmtual. Não é errado alguém honrar ao semeador ou ao cultivador; mas é errôneo transformar qualquer deles em objeto de veneração, o que só pertence a,Jesus Cristo e a Deus Pai. Paulo e Apoio, como ê evidente, não podiam ser responsabilizados pelas divisões surgidas na igreja de Corinto. Paulo sempre se referiu a Apoio com o máximo respeito, jamais tendo-o atacado por motivo de qualquer erro da parte dele. Ambos esses líderes cristãos estavam perfeitamente satisfeitos em serem apenas instrumentos nas.mãòs de Deus, ainda que seus seguidores os tivessem transformado em heróis a cabeças das facções em que aquela igreja se dividira. Pode-se contrastar a atitude de Paulo e de Apoio com a atitude de certos «líderes modernos», os quais, na realidade, com freqüência se mostram exageradamente soberbos, não fazendo qualquer objeção em serem transformados em objetos de veneração e exagerado respeito por parte dos seu alicerce. «...isto conforme o Senhor concedeu a cada um...» No original grego encontramos aqui uma frase um tanto condensada e obscura; e a própria tradução, quando é literal, fica condensada e um tanto obscura. Provavelmente deve ser considerada como uma declaração paralela dos trechos de Rom. 12:3 e I Cor. 7:17, quanto ao sèu uso geral. Nessas citadas passagens está em foco a outorga dos dons espirituais, a cada crente de acordo com a vontade do Espírito Santo. Nesse caso, pode significar o seguinte: 1. A medida da fé, à extensão do poder, os dotes espirituais que cada remido tem recebido. Mediante o recebimento do poder espiritual é que os ministros obtêm, naturalmente, determinados frutos, o que resulta na conversão de almas aos pés de Cristo. 2. Alguns estudiosos, entretanto, pensam que está aqui em foco a idéia da «medida do sucesso» conferido a cada ministro em seus contactos com os homens. Ambas essas idéias expressam verdades, podendo ser percebidas na base dessa declaração geral de Paulo. A tradução inglesa RSV diz «...conforme o Senhor assinalou para cada um ...» Em outras palavras, cada crente obtém sua medida de êxito, incluindo até mesmo o número daqueles que vêm a crer por intermédio de seu ministério. Mas a verdadeira causa de tal fé é que o «Senhor» dá a cada ministro do evangelho um determinado êxito. O sucesso que cada obreiro do evangelho obtém, portanto, não é produto humano, mas um dom divino, contanto que realmente seja um sucesso espiritual. Nesse caso, os «servos» não têm motivo algum para se ufanarem de si mesmos, como também não têm nenhum motivo os seus seguidores de os exaltarem à posição de «heróis», visto que, dessa maneira, estariam se gloriándo de meros instrumentos do Senhor, e não no próprio Senhor. A idéia aqui apresentada por Paulo é expandida nos capítulos terceiro e quarto, e ainda com maior clareza, no capítulo décimo segundo desta epístola. As palavras «...conforme o Senhor concedeu a cada um ...», interpretadas por Alford (in loc.), merecem o seguinte comentário: «...isso se refere não aos mestres, e, sim, aos ouvintes...» Em outras palavras, os ouvintes receberam a comunicação do evangelho através do dom de Deus que consistia de vários ministros que os servissem. Essa é também a idéia do trecho de Efé. 4:11 e is., embora talvez não seja aquela mensagem quePaulo tencionava transmitir aqui. «...Senhor...»Conforme era usual para o apóstolo Paulo, temos aqui uma alusão ao Senhor Jesus Cristo. (Ver as notas expositivas sobre o «senhorio de Jesus Cristo», bem como sobre o termo «Senhor», que se aplica a ele, com ilustrações acerca dessa questão, em Rom. 1:4. O fato que «Deus» é o tema constante dos versículos que aparecem em seguida não significa que a palavra «Senhor» não diga respeito a Cristo, no presente versículo. Algumas vezes, quando são usadas certas citações do A.T., o vocábulo «Senhor» indica Yahweh; mas esse mesmo vocábulo é aplicado a Jesus Cristo, nas páginas do N.T., quando são utilizadas essas mesmas passagens bíblicas. (Quanto a notas expositivas sobre essa questão, ver I Cor. 1:31). Na qualidade de ministros do evangelho, Paulo e Apoio haviam exaltado exclusivamejite a Jesus Cristo, tendo degradado a si mesmos, embora não se tivessem diminuído mutuamente, e nem tivessem ensinado a outros que se deixassem envolver em atividades carnais como a produção de divisões no seio da igreja cristã. Paulo pois, queria que os respectivos convertidos dele mesmo e de Apoio imitassem a conduta pacífica de seus supostos «heróis». ηϋξ,avev 6 ky(b ε φ ΰ π υ σ α Ac 18.4, 11 ’A ttoW ojs klτοτισβν Ac 18.24-28 homens, no seio mesmo da cristandade. Com imensa freqüência, certos líderes eclesiásticos, longe de repreenderem as facções surgidas por causa de «personalidades», de fato são os cabeças dessas facções! Tais líderes, pois, não menos do que os seus seguidores, são indivíduos carnais. Porquanto, longe de encorajarem esse espírito faccioso, deveriam repreendê-los, porque são supostos possuidores de um maior conhecimento espiritual e das verdades bíblicas. O presente versículo indica que o trabalho de evangelização em Corinto «começou» com Paulo, pois ele plantou-, então esse trabalho teve «prosseguimento» sob a liderança de Apoio, pois ele regou. Isso também podemos aprender no décimo oitavo capítulo do livro de Atos, que narra a história. Isso não significa, entretanto, que Apoio não tenha conquistado novos convertidos, porquanto Paulo fala em termos relativos, e não absolutos. Paulo salienta aqui que o verdadeiro fruto espiritual jamais é produto meramente humano, ainda que instrumentos humanos possam estar envolvidos nessa obra gloriosa. O Senhor Jesus ensinou essencialmente a
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    I CORÍNTIOS 43 mesmacoisa, em sua parábola sobre o crescimento da semente plantada, em Marc. 4:26-29. Mas o plantio e o regar, feitos pelo homem, seriam aspectos igualmente inúteis, não fosse o crescimentoque Deus dá à planta. Toda a forma de vida procede de Deus; o homem pode, tão-somente, criar certas condições e circunstâncias favoráveis, sob as quais a vida vegetal pode medrar. E até mesmo a capacidade de criar essas circunstâncias favoráveis vem da parte de Deus, dada a certos homens, segundo aprendemos no versículo anterior. Os dois primeiros verbos, plantar e regar, no original grego, estão no tempo aoristo, o que indica algum ato histórico bem definido. Mas o terceiro verbo, aqui traduzido por «o crescimento veio», está no imperfeito, o que, melhor traduzido, diria, «estava dando o crescimento», o que indica a operação contínua de Deus, produzindo vida, uma vez que as condições favoráveis foram criadas. Aquele que confere a vida é quem deve ser glorificado, porquanto somente Deus é verdadeiramente digno dessa glorificação. (Com isso comparar o trecho de Rom. 11:32,36). Um agricultor pode lançar a semente no terreno preparado por outrem, ou por ele mesmo. Mas nenhum agricultor pode criar a semente, e nem a potencialidade vital que a semente traz em si mesma. Também não pode fazer a semente manifestar essa potencialidade vital na forma de fruição. Tais mistérios pertencem à mente e às operações divinas. E isso se torna ainda mais verdadeiro no caso da vida eterna, que nos é dada em Cristo e através dele, porquanto essa vida eterna é de origem divina. (Ver as notas expositivas sobre a «vida eterna», nos trechos de João 3:15; 5:25,26; 6:57; Rom. 8:29 e II Ped. 1:4). A vida eterna consiste em uma modalidade de vida, e não meramente de existência sem fim, conforme essas referências e notas expositivas bem destacam. A participação na vida e na natureza divinas é o ponto culminante da existência, o alvo mesmo de toda a existência humana, conforme a última dessas referências, dadas acima, o demonstra. 7 ώστε οντε ό φντενων εστίν τι ούτε ό ττοτίζων, άλλ’ ο ανξάνων θεός. 3:7: De modo que, nem o que planto i alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dí o crescimento. Paulo não falava de modo absoluto, como se a personalidade humana não tivesse qualquer valor. Essa possibilidade é enfaticamente contradita pelo estudo que Paulo apresenta em seguida acerca dos «galardões», da edificação da vida cristã em Cristo, e dos resultados que devem ser esperados. O oitavo capítulo da epístola aos Romanos nega tal tese. De fato, a totalidade do N.T. é uma demonstração da vastíssima valia da alma humana. Porém, no serviço do evangelho, no que concerne à dispensação da vida eterna a outros, um homem não representa qualquer coisa, não devendo ser glorificado em qualquer sentido, como se fora alguma coisa especial, porquanto somente Deus é a fonte originária e o despenseiro e alvo da vida, devendo ser ele glorificado como tal. Com esse argumento, pois, o apóstolo dos gentios indica a perversidade envolvida na outorga de glória aos homens, os quais não passam de criaturas, e, no que diz respeito ao evangelho, cooperadores. Os ministros do evangelho, quando autênticos, isto é, quando são «espirituais», e não «carnais» não se fazem competidores entre si, como igualmente não encorajarão e nem se alegrarão com facções criadas por questões pessoais. Contudo, o carnal coração humano é muito mais inclinado a fazer de certos homens seus «heróis», aos quais pode ver e admirar, do que pende por louvar verdadeiramente a Deus, o qual, para ele, pode ser apenas um conceito vago e abstrato. Sim, o que era Paulo? e o que era Apoio? O próprio Paulo retruca: são apenas servos (ver o sexto versículo), são nada (ver o sétimo versículo). A semente pertence a Deus; o potencial da vida também; o campo onde é plantada a semente igualmente é de Deus; os ministros, que plantam e regam, são dele; a fruição da vida, por igual modo são dele. Por conseguinte, ele, e somente ele, pode ser objeto de adoração. Os demais são meros irmãos, e nenhum deles pode ser elevado acima dos outros. «Nesta passagem, os ministros do evangelho são postos em contraste com o Senhor; e a razão dessa comparação e que a humanidade, se por um lado admite com má vontade a graça de Deus, por outro lado se mostra riquíssima nos seus elogios aos ministros humanos. Dessa maneira, pois, furtam de Deus aquilo que lhe pertence com todo o direito, visando transferir tal elogio para si mesmos». (Calvino in loc.). «...alguma cousa...» Essas palavras têm o sentido de «alguma coisa digna de ser mencionada?» (Quanto a essa idéia ver as notas expositivas sobre I Cor. 10:19; Gál. 1:26 e 6:3). O valor da personalidade humana consiste no fato de que, uma vez remida pelo sangue de Cristo, mediante as contínuas operações do Espírito Santo, ela pode entrar no processo de transformação íntima, até finalmente ser completamente restaurada' em Cristo, vindo assim a participar de tudo quanto ele é e tem (ver Rom. 8:29). Mas o homem caído no pecado, por si mesmo, vale pouquíssimo, e dificilmente pode receber a glória que pertence exclusivamente a Deus. 8 ό φντενων δε και ό ττοτίζων εν είσιν, έκαστος δε τον ίδιον μισθόν λημφεται κατά τον ’ ίδιον κοττον. 3:8: Ora, uma só coisa i o que planta e o que rega; e cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. As palavras «...são um...» podem ser entendidas de várias maneiras, a saber: 1. Poderiam significar «um em Cristo», mediante a comunhão mística, assim compartilhando de sua graça e valor. 2. Também poderiam significar um quanto ao destino, que é a transformação segundo a imagem de Cristo. (Ver Rom. 8:29). 3. Também poderia estar em vista o sentido de um quanto ao propósito nesta vida, isto é, compartilhando do, ministério de Cristo, por serem seus colaboradores. 4. Por igual modo, sabendo que os obreiros estão todos em uma só «categoria», entenderíamos que não passa de uma perversidade carnal a elevação de um acima de outro, degradando ou diminuindo este último. 5. Além disso, em comparação com Deus, os obreiros do evangelho estão todos em um mesmo nível, não passando de meros servos e nada representando, realmente. Não obstante, comparados entre si não são iguais; e o restante deste versículo salienta esse fato abundantemente, porquanto alguns deles trabalham mais intensamente e com mais sincera dedicação. Todavia, Deus é o juiz de todos, sendo o Senhor quem recompensará a cada qual, segundo o serviço prestado. Portanto, essas diferenças entre os homens não são motivo para nos gloriarmos nos homens, para elevar a um em detrimento de outro, criando facções na igreja cristã, o que serve tão-somente para destruir nossa unidade em Cristo. Quanto ao fato que os obreiros ocupam um mesmo nível no serviço, sendo elementos mutuamente interdependentes, e não rivais entre si, diz Robertson (in loc.)·. «Mediante essa ousada metáfora, que Paulo expandiu, ficou demonstrado que tanto aquele que planta como aquele que rega trabalham juntos. Se ninguém plantasse, regar seria uma atividade inútil. Se ninguém regasse, a planta daria em nada... Deus conferirá a cada qual o que seu trabalho merece. Esse é o pagamento que o pregador certamente receberá. Poderá obter pouco demais ou muito demais neste mundo, por parte dos homens. Porém, a devida recompensa virá de Deus. Essa recompensa é infalível, e será adequada». ; Diz também Wordsworth (in loc.), a respeito da mesma igualdade entre os obreiros do evangelho: «Deus é um só. Ele é o único ‘agente’. Mas os homens são instrumentos em suas mãos; e são um devido ao fato que estão unidos em Cristo. Mas não são aquilo que alguns querem fazer deles com seus partidos, ‘pessoas’separadas, ‘cabeças’rivais e ‘líderes’de seitas que se opõem entre si». «...galardão...» Essa palavra se deriva do termo grego cujo sentido ordinário é «salário». Figuradamente usada, essa palavra indica qualquer «recompensa», ou seja, um «galardão» pelo serviço prestado. (Ver II Clemente 3:3; I Cor. 9:7; Mat. 5:46 e '6:l). Nesta epístola primeira aos Coríntios essa palavra, no original grego, é empregada por quatro vezes, a saber, em I Cor. 3:8,14 e em 9:17,18. A parábola dos trabalhadores da vinha (ver Mat. 20:1-15) deixa claro que até mesmo os galardões são conferidos por motivo da graça divina, segundo a vontade do Senhor, o que não envolve somente a salvação da alma, portanto. (Ver Efé. 2:8,9). Sendo assim as realidades espirituais, não há qualquer contradição entre as palavras do Senhor Jesus e as de Paulo; porquanto outras palavras de Cristo, como no caso da parábola das minas, deixam claro que os galardões serão fixados em proporção às habilidades outorgadas e fielmente cumpridas. Ambas essas idéias são verdadeiras, por conseguinte: Deus não está debaixo da obrigação de galardoar, mas ele mesmo se obrigou a isso. Pode galardoar conforme bem quiser, mas agradou-lhe fazê-lo de acordo com meios que os homens compreendem, isto é, segundo a proporção das habilidades conferidas e dos serviços prestados no espírito de fidelidade. (Comparar o décimo quarto versículo deste mesmo capítulo, e também ver as notas expositivas sobre II Cor. 5:10, quanto a comentários sobre os «galardões», além daquilo que é dito neste ponto). Qual será o ponto de vista materialista sobre os galardões? Algumas mentalidades não ascendem mais alto, permitindo-lhes pensar nos galardões em termos que não sejam de meras possessões físicas, que pensam receber do «outro lâdo» da existência. Esse conceito sempre aparece vinculado a pensamentos de vivendas luxuosas e grande abundância de bens materiais. Bem longe disso, os galardões consistem muito mais do que sucede a uma pessoa, envolvendo seu valor intrínseco, seu nível de transformação segundo a imagem de Cristo, do que daquilo que essa pessoa receberá. O alvo mesmo desta existência é de participarmos de tudo quanto Cristo é e possui; é de assumirmos sua imagem moral e metafísica, tornando-nos santos como ele é santo, sendo aquilo que ele é, participando de sua essência, isto é, da divindade, segundo essa divindade se encontra nele. (Ver II Ped. 1:4; Efé. 3:19). Assim, pois, o que uma pessoa fizer, durante sua peregrinação terrena, isso é o que determinará o seu nível de participação em Cristo, com que ela entrará nos lugares celestiais. Não há razão alguma em pensarmos que, ao ali chegar, tal pessoa ficará estagnada em seu desenvolvimento, porquanto a eternidade se estenderá infinitamente à sua frente; e a perfeição absoluta é o alvo culminante, já que todos os crentes, eventualmente, haverão de compartilhar daquilo que Jesus Cristo é, porquanto disso consiste a sua promessa, e o propósito de Deus não será cumprido enquanto isso não se tornar uma realidade. Não obstante, a questão dos galardões, a retribuição positiva por aquilo que tivermos feito de bom ou de mau (ver II Cor. 5:10), é uma questão extremamente séria, tal como todos os demais aspectos da vida são sérios. Os galardões também são apresentados nas Escrituras sob a forma de «coroas». Alguns receberão a «coroa da justiça», o que subentenderá grande
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    44 I CORÍNTIOS avançona direção das perfeições morais de Cristo. Todos os crentes, de certa maneira, receberão a «coroa da vida» e a «coroa incorruptível», pois ambas indicam a participação na vida eterna, nos lugares celestiais, embora alguns em maior grau do que outros, visto terem avançado um pouco mais pela vereda da participação na vida divina, conforme ela se encontra na pessoa de Cristo. (Ver II Cor. 3:18). Além dessas, há ainda a «coroa da glória», a qual envolve uma grande glorificação em Cristo, em sentido geral. Alguns crentes serão mais prontamente glorificados do que outros, recebendo também um maior grau de glória, ao darem entrada nos lugares celestiais. Posto que a glorificação faz parte da salvação, então os galardões também fazem parte da mesma, porquanto apontam para diversos aspectos da glorificação dos remidos. Segundo esse ponto de vista lato sobre a salvação, certos aspectos da mesma são adquiridos por nós, ainda neste mundo, embora tudo com base na graça de Deus; pois, se o Senhor não está obrigado a galardoar a ninguém, ele mesmo se impôs essa obrigação, não sendo forçado a isso por qualquer força externa. Em certo sentido, dentro da doutrina bíblica dos galardões, falamos acerca de níves diversos de glória; e essa é uma doutrina neotestamentária bem definida. Obter uma coroa dessas, portanto, redunda em glória para Cristo Jesus, pois os remidos são descritos a depositarem suas coroas aos seus pés, diante do seu trono. (Ver Apo. 4:10). E interesante que as coroas podem ser perdidas, mesmo depois de ganhas, enquanto estivermos neste mundo, conforme vemos em Apo. 3:11. O trecho de II João 8 subentende a mesma verdade com relação aos «galardões». A permanência em Cristo é uma medida necessária para preservamos aquilo que já conseguimos. (Ver II João 9). «...segundo o seu próprio trabalho...» Cada qual será galardoado em face do trabalho distintamente «seu», feito por ele mesmo, deixando entendido que o galardão obtido será conquista pessoal. Deus conhece o valor comparativo dos seus ministros; os homens desconhecem tal valor. Portanto, ninguém pode elevar um obreiro acima de outro, com isso causando o aparecimento de uma facção. E ainda que porventura o homem tivesse a sabedoria para fazer a estimativa correta, isso estaria inteiramente fora de lugar, porquanto se trata de uma prerrogativa que pertence exclusivamente a Deus. «No trabalho ministerial tanto há certa individualidade como há certa unidade. Entretanto, isso não é algo que deva ser observado pelos homens; mas será devidamente reconhecido pelo grande Senhor». (Shore, in loc.). Paulo deixa aqui entendido o que ele declara abertamente no quinto capítulo de sua segunda epístola aos Coríntios, isto é, que todo o labor dos crentes deve visar agradar ao Senhor, e não aos homens, e nem mesmo a si próprios, se, por esse intermédio, os outros homens vierem a elevá-los a oosições de glória, o que os crentes simplesmente não merecem. 9 θβον γάρ 4σμεν συν€ργοί· θεοΰ γζώργιον,1 1 θεοΰ οΙκοδομή ia r e .b bi 9 b minor, b paragraph: TK WH Bov Nes BF2 AVed RV ASV RSV TT Jer Seg // b minor, 6 major: AVed Zür (Luth) // b paragraph, b major: NEB 9 deov 7 ecopyiov Mt 13.3-9 deov οικοδομή 3:9: Porque nit somos cooperadoret de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. Pequena troca na posição das palavras daria a tradução literal do grego, neste caso, a saber: «...somos cooperadores de Deus...», o que indica a idéia de possessão, «somos... de Deus». Há versões, entretanto, que dizem: «somos cooperadores em favor de Deus», ficando destacada mais a idéia de origem. Isso é mais ou menos o que transparece na tradução portuguesa que serve de base textual deste comentário. Os Cooperadores De Deus 1. Eles são «de Deus», o que denota o seguinte: a. Ele é a causa e a fonte da habilidade que têm de se identificarem dessa maneira com ele (ver ΓCor. 15:10). Pela graça de Deus eu sou o que sou, e faço o que faço. b. A idéia de possessão também se faz presente: «pertencemos a Deus» (somos «de Deus»), c. Tudo quanto porventura estivermos fazendo, estará sendo feito em cooperação com o poder divino. 2. Outros estudiosos vêem a Deus como o objeto do labor efetuado: nosso objetivo seria servir a Deus. (Ver II Cor. 5:20). Aquilo que fazemos, fazemo-lo para cumprir a missão que nos foi dada por Deus, a fim de glorificá-lo, cumprindo os seus desígnios. 3. Seja como for, a expressão dá a entender uma íntima associação com o Espírito Santo, na missão conferida a cada remido. 4. O resultado prático disso é que nenhum indivíduo pode jactar-se em si mesmo, pois, se lhe foi dada uma missão espiritual qualquer, Deus é a origem e o alvo da mesma. Ele inspira em nós o bem e o efetua em nós; ele inspira os nossos esforços e lhes confere bom êxito. A ele seja toda a glória, portanto! 5. Essa expressão é uma censura contra o espírito de partidarismo que havia em Corinto. Uma censura contra a adoração a ídolos humanos e contra o denominacionalismo. Os estudiosos que pensam aqui, no original grego, temos o genitivo como possessivo, opinam que Deus aparece nesta passagem como o principal sócio na aventura da vida de cada crente, participando de suas realizações, derrotas, alegrias e tristezas. Essa é uma verdade, embora não possamos estar certos sobre como podemos compreender o genitivo que envolve o termo «Deus». A interpretação do presente versículo oferece várias possibilidades, cada uma das quais representa uma verdade, embora não tenhamos certeza sobre o que Paulo queria dar a entender neste ponto. (Com isso comparar os trechos de II Cor. 5:20 e 6:1). Assim sendo, alguns intérpretes sugerem a tradução «...cooperadores uns com os outros no serviço de Deus...» Mas essa sugestão não goza do apoio do original grego; pois se Paulo tivesse querido dizer isso, tinha meios claros para expressá-lo no grego. Contudo, essa sugestão apresenta uma verdade, embora talvez não seja aquela que o apóstolo queria dar a entender. Ora, se os homens podem estar tão intimamente associados com Deus, a ponto de poderem ser chamados de seus «cooperadores», então dificilmente é próprio que sejam estabelecidas distinções entre eles, com o aparecimento de «heróis» deste e daquele partido, o que só serve para derrubar por terra a harmonia que deve haver na igreja cristã e entre os seus ministros. Os ministros, pois, são um com Deus, nesse serviço do evangelho, e não rivais; e ninguém tem o direito de lançar uns contra os outros. «...lavoura de Deus...» Essa é a metáfora empregada nos versículos sexto a nono deste capítulo; embora agora ela figure com uma pequena variação. Está aqui em foco a «terra cultivada» pertencente a Deus. Bengel comenta sobre essa expressão, dizendo que a mesma abarca «o campo, o jardim e o vinhedo». Deus é quem toma a terra produtiva, enquanto que aos homens compete criar as condições próprias para a produção agrícola. Nos versículos sexto a oitavo deste capítulo, esse labor é pintado como algo efetuado neste mundo, e a produção consiste dos crentes trazidos aos pés de Cristo. Mas, neste nono versículo, a «terra cultivada» é a própria igreja cristã, por ser esse o resultado natural do fato de ter o campo (que representa o mundo) produzido fruto. A obra divina tem andamento na forma da irrigação e do cultivo, porquanto, nesse terreno cultivado, muito Eph 2.20 fruto pode ser produzido em todas as vidas individuais dos crentes. O objetivo dessa produção de fruto é que, mediante as operações do Espírito Santo, a natureza de Jesus Cristo vá sendo formada no íntimo de cada remido. (Ver Gál. 5:22,23; Rom. 8:39 e II Cor. 3:18). O fato de que todos os crentes pertencem desse modo a Deus, e que neles se cumprem o mesmo propósito e a mesma glória, é algo que tira toda a razão da existência de facções, em que alguns homens são exaltados às custas de outros. Seja como for, toda a glória pertence exclusivamente a Deus, porquanto todos os resultados positivos, na forma de vida eterna e de transformação segundo a imagem de Cristo, tem por origem a influência divina. «...edifício de Deus...» Com essa metáfora Paulo passa da metáfora da agricultura para a metáfora da arquitetura, na qual ele prossegue até o décimo sétimo versículo deste capítulo. Esse edifício é um templo, uma morada apropriada para o Espírito de Deus, que não pode ser contaminado por qualquer forma de pecado, incluindo a inveja, as contendas e as facções. Pode-se observar aqui a palavra enfática «...Deus...», por três vezes repetida, fazendo contraste com aquilo que pode ser dito acerca da glória humana: 1. Somos colaboradores de Deus. 2. Sois campo de Deus. 3. Sois a casa de Deus, o seu femplo. Ora, isso deveria servir de grande fator unificador na igreja. Mas os indivíduos de mente èarnal, inclinada para as contendas e facções, embora crentes, ignoram esses fatos. A repentina modificação na metáfora é característica do estilo paulino. (Ver outras instâncias disso, como segue: Em II Cor. 10:4-8, afmetáfora sobre a vida militar cede lugar à metáfora sobre arquitetura. Nos três Vss.de I Cor. 9:7; Efé. 3:17 e Col. 2:6,7 vemos diferentes imagens serem apresentadas em rápida sucessão). Com base no vocábulo grego por detrás da palavra portuguesa «lavoura» é que surgiu o nome próprio «Jorge», o que talvez explique por qual razão esse apelativo era tão comum na igreja cristã primitiva. «Paulo se utiliza de duas vividas metáforas a fim de salientar seus argumentos e a fim de sublinhar uma grave advertência. Esses quadros como que adquirem vida. Ele compara uma comunidade cristã a um jardim, que um pregador ou evangelista plantou, e que outro rega, mas do qual a fonte de beleza e vitalidade é Deus. Pouca diferença existe entre o que planta e o que cuida do jardim; e cada qual será recompensado de conformidade com o seu trabalho; mas Deus, que lança mão deles é quem, em última análise, é o responsável tanto pelo jardim como por sua utilidade e beleza. ‘Eu plantei, Apoio regou; mas Deus é quem dá o crescimento’. Incidentalmente, se Paulo houVesse levado um pouco mais adiante a sua belíssima metáfora, poderia ter acrescentado— -pois certamente teria pensado nisso, e tal pensamento é frutífero—que um jardim seria algo monótono se dispusesse apenas de um tipo de flores. Dentro dos propósitos de Deus, porém, há espaço suficiente para todo o tipo de personalidade— dom e instituição, bem como para muitos jardineiros. Mas não nos olvidemos que tudo é um único jardim, plantado por Deus, e cujo Espírito sustenta a sua vida». (John Short, in loc.). A metáfora dojardim subentende o «crescimento orgânico» da igreja dé Cristo. A metáfora do «edifício» enfatiza a adaptação mútua das partes componentes, e, talvez, a necessidade de todas essas porções para formação correta do edifício. Ambas essas metáforas enfatizam tanto os direitos que Deus tem sobre sua igreja em todas as coisas como o erro daqueles que fazem de meros homens «grandes autoridades». Talvez seja melhor compreendermos a palavra «...lavoura...», que aqui aparece, como o ato de lavrar, que prepara a terra a ser lavrada. E o vocábulo «...edifício...» talvez seja mais apropriadamente traduzido como «edificação», isto é, o processo pelo qual um edifício é levantado. Nos trechos de Jer. 18:9; 24:6 e Eze. 26:9,10 encontramos juntas as metáforas do plantio e da edificação. Nas epístolas I e II Coríntios e Efésios o ato dé edificar é uma metáfora comum. (Além desses livros citados, ver os trechos
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    de Atos 9:31;20:32; Jud. 20 e I Ped. 2:5, quanto a essa questão). I CORÍNTIOS 45 10 Κατά την χάριν τον θεοΰ2 την δοθεΐσάν μοι ώς σοφός άρχι,τέκτων θεμέλιον εθηκα, άλλος δέ εποικοδομεΐ. έκαστος δέ βλεπετω πώς εποικοδομεΐ' 1 10 (CI του θίοΰ « A Β C D Ρ Ψ 33 88 104 181 326 330 436 451 614 629 630 1241 1739 1877 1881 1984®» 1985 2127 2492 Byz Led itar-d.e.t.x.* vg syrp.b cop·*. b°. arm // omit p*6 81 1962 2495 it°-de®,,*d·* Clem ent Augustine Cyril Theodoret 10 Κ ατά...δο@ €Ϊσάν μοι I Cor 15.10 σοφός ά ρ χιτβ κ τω ν 2 Pe 3.15 Embora se possa argumentar que as palavras του θεού, que estão ausentes em P (46) 0142 81 1962 2495 vg (mss) ara (mss) Clemente, são uma glosa exegética adicionada por copistas em data remota da transmissão do texto (N A B C D Ρ φ 33 614 1739 Byz Lect at), a maioria da comissão considerou mais provável que, em face das três instâncias de θεοΰ no versículo anterior, as palavras foram eliminadas aqui como uma repetição 3:10: Segundo α graça de Deus que me foi dada, lancei eu, como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. A natureza da metáfora não se modifica aqui. Assim como Paulo «iniciara» o trabalho, mediante o plantio, assim outro lhe dera «prosseguimento», irrigando a plantação; e, por semelhante modo, Paulo mostra que dera início à obra evangelizadora em Corinto lançando o fundamento, que é Cristo (conforme se aprende no décimo primeiro versículo), ao passo que outros deram continuação à obra, edificando sobre esse fundamento. Paulo havia lançado o único alicerce possível, a saber, Jesus Cristo. Ninguém poderia lançar outro fundamento, como, por exemplo, os resultados da sabedoria humana. A igreja cristã deve ter a pessoa de Cristo Jesus como uma figura central, não negligenciando a «palavra da cruz», o que Paulo subentende que havia sido feito pelos elementos da facção intelectual da igreja de Corinto, nos trechos de I Cor. 1:18 e ss. e 2:1,2. «...segundo a graça de Deus...» Essas palavras poderão ser melhor entendidas mediante o seguinte desdobramento de suas idéias: 1. Talvez devam ser compreendidas em sentido geral, conforme se vê em trechos como Rom. 1:5; 12:3 e I Cor. 1:1; em outras palavras, está em foco o apostolado de Paulo, a graça especial que ele recebeu para ser o apóstolo dos gentios. 2. Mas talvez essas palavras se revistam de um sentido mais espécializado, isto é, que não lhe competia ficar erigindo sobre o alicerce lançado por outrem, mas ser sempre um trabalhador pioneiro (ver Rom. 15:19,20); e, no caso presente, isso significa que lhe competia ter sido o fundador da igreja cristã de Corinto (ver I Cor. 1:4,17 e 2:1-12). «...comoprudente construtor...» A palavra «...prudente...», neste caso, é tradução da palavra grega «sophos», o termo comum para «sábio». Era palavra usada de muitas maneiras, indicando sabedoria e prudência de muitas variedades. Não obstante, essa mesma expressão se encontra no trecho de Isa. 3:3, de acordo com a versão da Septuaginta, sendo freqüentemente usada para indicar vários operários «hábeis», que tiveram participação ativa na ereção do tabernáculo. (Ver também Exo. 35:10,25; 36:1,4,8). Nesse sentido, essa palavra tem o sentido de «habilidade», bem como ■a capacidade intelectual de aplicar essa habilidade. Aristóteles revela-nos (ver Eth. Nic. vi, vii, I) que a primeira noção dessa palavra, quando aplicada às artes, é «habilidade». Mui provavelmente, entretanto, o sentido geral dessa palavra é «sabedoria», o que pode incorporar também a idéia de habilidade. Um arquiteto sábio, um mestre construtor, jamais tentaria erigir um edifício sem primeiro levantar seus alicerces, ou com base em um alicerce errado. A igreja cristã também tem seu alicerce correto, que é Jesus Cristo. Paulo, pois, lançou esse alicerce ou fundamento, quando pregou em Corinto a Cristo, e esse crucificado (ver I Cor. 2:2), quando ensinou as revelações dos mistérios e das verdades profundas que se centralizam em torno de sua pessoa (ver I Cor. 2:6,7). Então vieram outros para darem continuação ao seu trabalho, incluindo Apoio, entre outros. (Com esta passagem se pode fazer a comparação de Efé. 2:20). O apóstolo dos gentios deixa subentendido que parte dessa construção da sobrestrutura não estava sendo erigida com materiais corretos. Ele havia lançado o correto fundamento, mas outros vinham corrompendo a construção, incluindo o material da sabedoria humana, e não demorou que a unidade do edifício começasse a ser perturbada. «...Porém, cada um veja como edifica...» O fato que o correto alicerce fora lançado não era garantia que um edifício correto estava sendo erguido sobre o mesmo, e nem que os materiais certos estivessem sendo empregados. Ê erro seríssimo alguém levantar o resto do edifício còm materiais errados, sobre o alicerce autêntico, que é Cristo. Paulo sabia o que estava acontecendo nas diversas atividades das várias facções existentes na congregação cristã de Corinto. O versículo seguinte também parece deixar entendido até mesmo uma alteração havida ali nos próprios alicerces, e não meramente na sobrestrutura que vinha sendo levantada acima desses alicerces. (Ver as notas expositivas sobre o décimo primeiro versículo deste capítulo, logo abaixo). O ensinamentos que vinham sendo ministrados aos membros daquela igreja de Corinto, depois que Paulo se afastou, não somente eram sutis e especulativos, ao passo que sua doutrina era sólida e simples; mas, por igual modo, continha elementos contra os quais esse apóstolo fazia objeção. E, dentre esses elementos, talvez o mais significativo de todos fosse a ausência de ênfase sobre a pregação da cruz, que talvez fosse um escândalo para o grupo dos intelectuais. (Ver I Cor. 2:2 e as notas expositivas ali existentes). «Ele (Paulo) não se jacta, mas se apresenta aqui como um exemplo». Preocupação Espiritual 1. Essa preocupação deve abranger não somente aquilo que fazemos, mas deve incluir igualmente o que dizemos. Ambas essas ações estão sujeitas ao escrutínio e à censura de Deus (ver Col. 4:17). 2. O homem espiritual preocupa-se suficientemente com a sua vida e as suas ações, procurando evitar a ostentação (ver Mat. 6:1). 3. O homem espiritual preocupa-se com os valores e as realidades espirituais, e governará sua igreja de acordo com os mesmos (ver Mat. 7:20 e ss., mormente vs. 33; Col. 3:1 e ss.). «Duas coisas Paulo proíbe aqueles crentes de fazerem: Não se deveriam aventurar a lançar outro fundamento, e não deveriam levantar uma sobrestrutura que não corresponda a esse fundamento». (Calvino, in loc.). O ensinamento, tanto na contextura de sua doutrina como em suas aplicações morais, é que determina a natureza da «construção», conforme aprendemos em Gál. 4:19. 11 θεμέλιον γάρ άλλον ούδεις δνναται θεΐναι παρά τον κείμενον, δς εστιν 'Ιησούς Χριστός. li I. Χρ. ΝΑΒΡ pm·, R] I. ο Χρ. pc ς: Χρ. I, CcD pc lat: Χρ. C* Or Hil AugP‘ 11 Is 28.16; 1 Pe 2.4-6 3:11: Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. «...Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo...» Comenta neste ponto C.T. Craig (in loc.), como segue: «A mudança de figura simbólica provoca a mudança de tom. O outro homem, que agora edificava, não é referido por nome. Nada havia de errado com o regar de Apoio no campo, mas sem dúvida alguns materiais defeituosos estavam sendo utilizados na construção. Deus havia comissionado a Paulo mediante um ato de sua graça, que fizera dele um apóstolo. Ele era o ‘sábio construtor’ que lançara o tipo certo de alicerce. Não podia mesmo haver ‘outro alicerce’ para a igreja além de Jesus Cristo. E por que razão isso precisava ser frisado para a comunidade cristã de Corinto? Será possível que o líder da facção que tinha por seu herói a figura de Cefas afirmava que Pedro era a rocha sobre a qual estava edificada a igreja? (Ver Mat. 16:18). Isso é perfeitamente possível. Esta passagem dá a impressão que Paulo tinha em mente essa tradição, e que ele resistia com todas as forças contra essa idéia. O próprio Paulo não edificava sobre alicerces lançados por outros homens (ver Rom. 15:20). Não obstante, não seopunha a tal prática por parte de outros, conforme verificamos em suas cordiais palavras a respeito de Apoio. O que atiçava a sua indignação era o ‘tipo’de trabalho que vinha sendo feito ali. Tal como havia feito oposição a Cefas, face a face (ver Gál. 2:11), assim também Paulo agora não hesitava em fazer oposição àqueles que aparentemente reivindicavam possuir a autoridade de Pedro em Corinto». (Quanto à idéia que Pedro foi o fundamento básico da igreja de Cristo, ver Mat. 16:18 e notas). Não há meios para sabermos exatamente à que Paulo se referia com essas palavras, mas é bem possível que esteja em foco alguma pessoa em particular, como alicerce da igreja de Corinto; embora também seja possível que Paulo estivesse imaginando alguma «doutrina» ou sistema doutrinário desenvolvido em .lugar do sistema cristão, centralizado em Jesus Cristo, como alicerce básico de todo o cristianismo. É possível que a tentativa, por parte do partido dos «intelectuais», no sentido de criar uma «nova sabedoria» com base no cristianismo fosse a doutrina fundamental contra a qual Paulo fazia objeção aqui. Mas também é possível simplesmente que ele quisesse enfatizar que somente Cristo pode ser o objeto de nossa adoração e serviço, o que significa que a elevação de outros homens, até ao lugar que cabe exclusivamente a Cristo, atribuindo-lhes glória, em um espírito faccioso, na realidade seja eqüivalente a substituir Cristo por outros homens, como o alicerce da igreja cristã. Este último pensamento parece mais provável, embora não saibamos como demonstrá-lo, porquanto a referência de Paulo na realidade não nos fornece qualquer idéia sobre o que ele queria dizer exatamente. A única coisa que fica clara, entretanto, é que somente Jesus Cristo pode servir de base sobre a qual edifiquemos a nossa fé; somente sobre o Senhor pode uma vida remida ser construída, e somente tendo por centro a pessoa de Cristo é que se pode fundar uma comunidade cristã organizada. Por conseguinte, atribuir glória a qualquer outro é roubar o Senhor Jesus da posição fundamental que ele ocupa apropriadamente em sua igreja. Através desse símbolo do alicerce, pois, Paulo quiçá estivesse tão-somente continuando seu ataque contra o espírito contencioso que havia na igreja de Corinto, e não lançando um novo ataque contra algum partido diferente, como aquele que tinha por seu herói, a Cefas.
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    46 I CORÍNTIOS OsAlicerces E O Grande Alicerce 1. Os intérpretes têm posto este versículo em oposição ao trecho de Mat. 16:18; mas tal esforço é fútil, inútil e desnecessário. (Ver notas completas sobre essa questão, naquela referência). Pedro, em certo sentido, era uma figura fundamental para a igreja. Mas, num sentido mais elevado, somente . Jesus Cristo é o alicerce da igreja. 2. Como poderia Pedro ser fundamental para a igreja? Da mesma maneira que Abraão o foi para Israel. A teologia rabínica comum pensava que Abraão era fundamental para o judaísmo. Por semelhante modo, os apóstolos e profetas formam o alicerce da igreja (ver as notas a respeito em Efé. 2:20). Mediante essa metáfora, a igreja é apresentada como um edifício espiritual, um templo cujo alicerce, por assim dizer, é formado pelos póstolos è profetas do N.T., pois o crescimento da igreja dependia das tividades deles. Dentro dessa metáfora, Cristo não é o alicerce inteiro, mas ites, é a principal pedra, angular. Ora, uma pedra angular não pode servir ; alicerce inteiro. Isso comporia uma metáfora absurda. (Ver Efé. 2:20 e I ed. 2:6 quanto a Cristo como esse elemento especial do alicerce, e não como o alicerce inteiro). A igreja, encarada pelo ângulo de seu desenvolvimento histórico, por estar alicerçada sobre os ensinamentos dos apóstolos e profetas do N.T., fundamenta-se sobre eles. 3. Mas, no que diz respeito à salvação, só pode haver um alicerce, a saber, Cristo. Ninguém pode alicerçar sua salvação, ou mesmo o desenvolvimento de sua missão espiritual, sobre qualquer homem. Somente Cristo serve como alicerce, estando então em foco um alicerce obviamente diferente daquele que é considerado no ponto dois. Cristo, encarado como o principal evangelista, pode ser tido como parte do alicerce da igreja, a saber, seu mais importante elemento—a pedra angular. Porém, encarado como o Salvador, ele é o único alicerce em que se baseia um crente. 4. Paulo, ao pregar sobre o Salvador e sobre o Senhor, sobre quem devemos edificar as nossas vidas, falou a seu respeito como o único alicerce possível. Estivesse ele falando a respeito do desenvolvimento histórico da igreja, então poderia ter feito menção de outro tipo de alicerce, o qual inclui os apóstolos e profetas. Oferecemos notas mais detalhadas acerca desses conceitos, em Mat. 16:18 e Efé. 2:20. 5. A polêmica envolvia o seguinte: Visto que Cristo é o único alicerce, a adoração a figuras heróicas, no seio da igreja, e o orgulho denominacional, são erros totalmente ilegítimos. A sabedoria e os esforços humanos não podem outorgar para nós qualquer alicerce autêntico na vida. Paulo adverte a seus críticos de Corinto e deixa entendido que eles edificavam sobre a jactância humana, e não sobre Cristo. Com a finalidade de reconciliarmos as várias passagens envolvidas nessa questão, poderíamos aceitar que, de uma maneira especial, não compartilhada por qualquer outro, Cristo é o fundamento da igreja cristã. Então, examinando a passagem que ora comentamos, poderíamos dizer que Paulo quis dizer que Cristo é o alicerce básico de sua igreja em um sentido exclusivo. Assim sendo, somente sobre a pessoa de Cristo é que se poderia edificar uma vida cristã individual ou a vida da comunidade cristã em geral. Essa idéia certamente está com a razão, pois nenhum mero homem pode tomar tal posição. Porém, em outro sentido, no sentido histórico, pode-se dizer que outros fazem parte do alicerce da igreja cristã. Assim é que a doutrina ensinada por Jesus Cristo foi transm itida através de vários indivíduos, sobretudo através dos profetas (provavelmente estão em foco os profetas do N.T., em Efé. 2:20) e dos apóstolos. Sobre esses, pois, historicamente falando, é que a igreja de Cristo foi edificada, porquanto foram os esforços evangelizadores desses homens' que ergueram o cristianismo. Nesse caso, o próprio Jesus Cristo, por ser o principal evangelista, é também a pedra de esquina, porquanto ele é o unificador de todo o esforço envidado, bem como o tema central da própria mensagem. Mais ou menos dessa maneira é que podemos reconciliar as diversas referências acerca do fundamento da igreja; apesar de não podermos ter certeza absoluta sobre se Paulo se sentiria satisfeito perante tal reconciliação. Por isso mesmo é que existem alguns estudiosos que nem procuram estabelecer reconciliação entre essas várias passagens neotestamentárias, simplesmente afirmando que diferentes pontos de vista sobre a questão existem nos escritos dos ldiversos escritores do Novo Testamento. Após a destruição da cidade de Jerusalém, a autoridade visível da fé- religiosa, que era o templo e o sinédrio, desapareceu. Foi necessário, portanto, estabelecer alguma nova autoridade central, algum novo fundamento; e devem ter surgido diferentes soluções para esse problema, em diferentes secções da igreja cristã. Dentro da literatura judaica, Abraão e os patriarcas são chamados de alicerce da congregação israelita. Portanto, não deveríamos ficar surpreendidos se, de certo modo, alguns homens também sejam chamados de fundamentos da igreja cristã, a comunidade religiosa do novo pacto, pois isso seria tão-somente a reiteração de uma lógica consagrada pelo uso. Todavia, em seu zelo em favor de Cristo, Paulo poderia ter feito objeção a qualquer idéia dessa ordem, não sendo impossível que o nosso versículo encerre exatamente tal objeção, a despeito do fato que o cânon do N.T. eventualmente tenha incluído alusões a tais homens, os quais, em um sentido secundário, poderiam ser considerados como alicerces da igreja cristã. (As notas expositivas sobre o trecho de Mat. 16:18 expandem as descrições e discussões acerca de todo este problema). Muitos intérpretes protestantes, através de truques de interpretação e de sofismas filosóficos, procuram tirar da passagem de Mat. 16:18 toda a alusão a Simão Pedro como o fundamento; mas muitos excelentes intérpretes, incluindo alguns dos melhores intérpretes protestantes, dizem que essa passagem fica sem sentido se Pedro não está em foco ali. Deve-se notar, entretanto, que esse passo bíblico de Mat. 16:18 na realidade não diz qualquer coisa diferente que a tradição judaica dizia acerca de Abraão ou que o trecho de Efé. 2:20 declara especificamente, e com grande clareza, acerca dos profetas e apóstolos, isto é, que esses são peças fundamentais da igreja de Cristo. Portanto, é inútil querer desvirtuar a passagem citada do evangelho de Mateus, pois encontraríamos a mesma dificuldade em Efé. 2:20; porquanto aquilo que é dito sobre Pedro, no evangelho de Mateus, é subseqüentemente dito sobre todos os outros apóstolos e sobre os profetas, na epístola aos Efésios. Nossa explicação, pois, deve seguir alguma linha que procure reconciliar a idéia que diz que Jesus Cristo é o alicerce exclusivo da igreja, com a idéia que diz que certos indivíduos também são peças fundamentais da igreja, ainda que em sentido secundário, conforme foi sugerido mais acima. Essa interpretação é pelo menos possível, e certamente é superior a algum manuseio desonesto e sofista que somente torce as Escrituras. O apóstolo Paulo queria que entendêssemos que só pode haver um alicerce —Cristo—, porque substituí-lo é pôr em risco a estrutura inteira do edifício espiritual da igreja. Só existe um sobre o qual podemos construir nossas vidas, e sobre a qual pode ser edificada a vida da igreja de Cristo, porquanto é por intermédio dele que nos é conferida a vida espiritual em todos os seus aspectos. A real pessoa de Cristo deve ser vista como esse fundamento, o qual não se compõe apenas de alguma doutrina a respeito dele. Porquanto é através dele que nos vem a vida, e não meramente através da crença em alguma doutrina em torno de sua figura. Considerando isso, somos levados a pensar sobre a intimidade ou comunhão mística com ele, através do seu santo Espírito. Nisso consiste verdadeiramente o caminho, em que as pedras que são sobrepostas ao fundamento podem ser chamadas de «pedras vivas», conforme disse Cefas, em I Ped. 2:5-8. Essas «pedras vivas», portanto, é que chegam a compor a «casa espiritual». Ora, tudo isso pressupõe alguma transmissão real de vida; e somente o próprio Cristo, mediante o seu Espírito, pode fazer isso. Disso tudo se conclui que a fé não é uma confiança baseada em alguma mera doutrina acerca de Cristo, como também não é a aceitação de algum credo do qual ele aparece como a figura central. A fé é parte integrante da comunicação do Espírito, o primeiro passo da regeneração, parte integrante da conversão; e tudo isso é resultado de uma operação divina sobre a alma. Quando Paulo lançou o fundamento, pois, esse fundamento não consistia em sua pregação, mas a sua prédica conduzia Cristo aos corações humanos; e assim é que o fundamento foi posto por ele. E foi assim que a vida de Cristo era transmitida aos corações. ★ ★ ★ Quão silentemente, quão silentemente, O maravilhoso dom é conferido! Assim Deus confere aos corações humanos As bênçãos de seus céus. Nenhum ouvido ouvirá a sua vinda, Mas neste mundo de pecado, Onde as almas mansas o recebem, contudo, O querido Cristo entra ali. (Phillips Brooks). «...quefoiposto...» Essas palavras, no dizer de vários intérpretes, aludem ao plano divino e à ação de Deus Pai. E essa idéia certamente é verdadeira. O apóstolo Paulo, somente em um sentido bem secundário, através de seu ofício e ministério apostólico, em situações geográficas, lançava o fundamento que já havia üido determinado dentro do plano de Deus. (Com essa passagem se pode comparar o trecho de I Ped. 2:5-8, onde a construção aparece sob a forma de uma «casa espiritual», composta de pedras vivas, e da qual Cristo é a principal pedra angular, idéia essa que também aparece em Efé. 2:20). Por conseguinte, essa deve ter sido uma comum metáfora entre os cristãos primitivos. 12 ei Se τις έττοικοδομεΐ eVi τον θεμέλιον χρυσόν, άργυρον, λίθους τίμιους, ξυλα, χόρτον, καλάμ-ην, 12 ΰζμίλιον ρ4βΝ*ΑΒ vgfc Ambr; R] add τούτον D ρί lat sy ς | αργυριον praem και Com base no testemunho de p48 N* A B C* 6 81 cop (sa) etí, a maioria da comissão preferiu a forma θεμέλιον, considerando a forma θεμέλιοι/ τούτον, apoiada pelo resto dos manuscritos, como modificação secundária, introduzida a fim de aclarar o sentido. preciosas entre seu material de construção, ainda que não fossem esses os elementos básicos do edifício. Alguém poderia levantar um barraco ou cabana como lugar onde abrigar-se; e aqueles que têm visto as favelas de algumas grandes cidades sabem que as pessoas muito pobres erguem barracos feitos quase de qualquer material, por mais frágil que seja. Mas, em um templo, são empregados materiais de maior valor; porque o templo 3:12: E, se alguém sobre este fundamento levanta um edifício deouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, (Quanto às diversas interpretações acerca desta passagem, ver as notas expositivas existentes no fim do décimo terceiro versículo deste capítulo). Um templo, por motivos decorativos, pode incluir ouro, prata e pedras
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    I CORÍNTIOS 47 setoma um lugar de honra, onde se venera um poder superior, um elevado espírito, um deus, ou mesmo o Deus verdadeiro, como era o caso do templo de Jerusalém. Quanto mais preciosos e raros forem os materiais empregados, tanto maior será a honra atribuída ao ente, real ou imaginário, que é venerado ali. Os vários templos que foram erguidos durante a história da nação de Israel foram construídos com materiais caríssimos, importados de vários países estrangeiros, para que tais templos fossem edifícios sem-par e exaltados. Desnecessário é dizer que muitos templos pagãos eram da mesma forma suntuosos; pois, nas culturas antigas, grandes riquezas eram usadas nesses edifícios religiosos. O apóstolo Paulo, portanto, não pensou meramente em usar uma metáfora capaz de sugerir o emprego d&materiais duráveis, embora certamente essa idéia esteja envolvida aqui, mas também capaz de sugerir o uso de «materiais preciosos», de elevado valor. A vida cristã pode ser construída com o material próprio da debilidade da carne, do que restar das energias de uma vida desperdiçada em outras coisas; mas também pode ser levantada com todas as riquezas do ser, com muito maior durabilidade. No tocante aos materiais usados na construção desse edifício espiritual, várias coisas específicas podem ser ditas: o «...feno...», capim seco de qualquer variedade, poderia ser usado para preencher as fendas, em uma construção apressada de adobe; a «...palha...», ou canas de vários grãos, com as folhas cortadas, poderiam ser usadas para fazer telhados de palha. A «...madeira...» podia ser usada como material de construção de portas e até mesmo paredes. Reunindo todos esses elementos, uma coisa se toma perfeitamente óbvia: a construção assim levantada é extremamente temporal, pobre e com grande risco de incêndio. Em contraste com isso aparece o templo. Ali, as «...pedras preciosas...» poderiam ser os mármores e também as gemas. Pedras de qualidade formariam as paredes, ao passo que as pedras preciosas, o «...ouro...» e a «...prata...», podiam ser usados como materiais de construção ou toques decorativos. O resultado seria um edifício de grande duração, um encanto para os olhos, algo não facilmente sujeito ao fogo e à destruição. Tais interpretações são legítimas, mas diversos intérpretes têm ido ainda mais longe, procurando identificar cada material como se houvesse um sentido específico para cada qual. Assim sendo, o ouro significaria as doutrinas mais excelentes do evangelho, ao passo que a prata e as pedras preciosas seriam outros aspectos dessa doutrina, mostrando os valores da pessoa de Cristo. Outros pensam que o ouro representa a divindade de Cristo, ao passo que a prata representaria a sua humanidade, e que as pedras preciosas mostram suas várias «virtudes e graças». Por semelhante modo, a madeira, a palha e o feno representariam as doutrinas heréticas, as heresias condenáveis, que são diametralmente opostas e procuram desvirtuar o fundam ento...«doutrinas de demônios; coisas vazias, corriqueiras, inúteis. ...fábulas, genealogias intermináveis, tradições huma­ nas, ritós e cerimônias próprias do judaísmo; o que, através dos preconceitos da educação, e através da ignorância e da inadvertência, sem qualquer mau desígnio, pode ser introduzido por alguns em seus próprios ministérios, conforme sucedera nò caso da religião judaica; e estaria também em vista a sabedoria do mundo, a filosofia dos gentios, as oposições da chamada ciência, as especulações curiosas, as noções inúteis e vãs, que ainda eram retidas por alguns elementos educados segundo o sistema grego, os quais muito apreciavam essas coisas. Através disso, sentiam a coceira da vangloria, de mistura com suas ministrações evangélicas. Numa palavra, está em foco tudo quanto agora se pode introduzir no ministério do evangelho que não é tão honroso para a graça de Deus e nem tão apropriado à pessoa, ao sangue e à justiça de Cristo, e nem tão coerente com a obra graciosa do Espírito de Deus». (John Gill, in loc.). Tais interpretações, embora sem dúvida contenham grandes verdades, identificam mui precariamente os materiais mencionados aqui por Paulo com algumas idéias específicas. Mas, mesmo que esse apóstolo tivesse em mente dar a entender alguma identificação assim, não há meio para sabermos o que ele poderia querer dizer. ★ ★ ★ A linguagem simbólica aqui usada evidentemente tem por intuito indicar os ensinamentos que eram propagados por diversos ministros do evangelho ou por crentes particulares, embora também indique o padrão geral de vida e o.desenvolvimento espiritual de tais pessoas; e isso certamente envolve também o «poder dos ensinamentos bíblicos» sobre as suas vidas. Paulo falava especificamente para os «mestres» e seus respectivos labores, conforme o contexto certamente nos sugere; o apóstolo igualmente incluía os padrões de vida possíveis para todos os crentes, os quais constroem suas vidas sobre o grande fundamento, que é Cristo. Por conseguinte, os materiais significam aquilo que os crentes, ministros ou não, ensinam, bem como a influência exercida por esses ensinamentos sobre eles mesmos, o que modifica, para melhor ou para pior, a conduta deles, amoldando esáa conduta sobre o alicerce, que é Cristo. «Paulo tinha dois contrastes em mente. O primeiro diz respeito entre aquilo que é digno e 'aquilo que é indigno, sem importar se esses materiais eram ou não realmente empregados nas construções. O outro contraste é entre o que é inflamável e o que é à prova de fogo, porque, perante os seus olhos, estava o dia do juízo». (C.T. Craig, in loc.). «Alguns homens edificam com o ouro da fé, com a prata da santidade e com as imperecíveis pedras preciosas do amor; mas outros edificam com a madeira morta de esterilidade nas boas obras, com a palha vazia da falta de espiritualidade, com a ostentação do conhecimento, e com a cana quebradiça do espírito continuamente em dúvida». (Schrader, in loc.). Tais interpretações têm algum valor, ainda que Paulo talvez não tencionasse especificar sentidos específicos para cada material mencionado. Alford (in loc.) sumaria o sentido essencial desses materiais como segue: 1. A símile não envolve muitos edifícios...mas um apenas (ver o décimo sexto versículo), aquele que tem a Cristo por seu fundamento; mas diferentes porções do mesmo vão sendo construídas pelos ministros que trabalham sob as suas ordens, alguns trabalhando bem e substancialmente, mas outros trabalhando mal e sem consistência. 2. ...o ouro, a prata, etc., se referem ao material do ensino apresentado por esses ministros, primariamente; e, por inferência, se referem àqueles em quem esses ensinamentos penetram, edificando-os em Cristo, os quais devem ser as pedras vivas do templo. Não há aqui a alusão aos meros frutos morais, produzidos pela pregação sobre os membros individuais da igreja, (conforme pensavam Orígenes, Crisóstomo, Teodoreto, Teofilacto, Agostinho e Jerônimo). 3. Os construtores que usam materiais inúteis e inconsistentes, ainda assim, ‘no fim’, são ‘salvos’ e isso nos mostra que sua prédica anunciava a pessoa de Cristo, e que eles mesmos eram sinceros em seus esforços. 4. Aquilo que é dito aqui não se refere, senão por acomodação, à ‘vida religiosa do crente’, em geral (como vários comentadores têm dito), mas antes, alude ao ‘dever e galardão’ dos pregadores. Ao mesmo tempo, tal acomodação é legítima, porquanto cada indivíduo é o mestre e o edificador de si mesmo. 5. Os vários materiais mencionados não devem ser imaginosamente comparados com as ‘doutrinas particulares' ou com as ‘graças’ de Deus. Ver os versículos dezesseis e dezessete, deste mesmo capítulo, onde esse ensinamento envolve todos os crentes, e não meramente os mestres». αποκαλύπτεται, καί 13 έκαστον το εργον φανερόν γενησεται, ύ] γάρ ήμερα δηλώσει-' δτι εν 7τυρί έκαστον το έργον όποιον εστιν το πυρ [αυτό] δοκιμάσει.. 13 ι C or4.5;2T h1.7-10 Ο pronome, ausente de ρ4β”ι< ί N 13 L Φ 1Ò4 177 255 623 1912 it (d) vg sir (h) cop (sa,bo) ara etí al, é apoiado por manuscritos como A B G. P 33 88 181 326 424 441 915 917 1891 2127 sir (p) al. Embora a comissão suspeitasse que copistas omitiram a palavra como um pleonasmo, contudo, porque a evidência externa em favor de sua inclusão é relativamente l i m i t a r i a em alcance, foi resolvido deixar a palavra entre colchetes. 3:13: α obra de cada umse manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será A tradução inglesa RSV grava a palavra «Dia», com inicial maiúscula, a fim de mostrar que está em vista aqui o dia do juízo. E esse dia é sempre metaforicamente relacionado ao fogo, à consumação, à purificação, à eliminação da escória, mostrando a qualidade real das coisas e dos indivíduos. (Ver também os trechos de Mal. 4:1; II Tes. 1:10; Heb. 10:25 e II Cor. 5:10). A passagem de II Baruque 48:39 mostra-nos como isso era imaginado, ao dizer: «Portanto, o fogo consumirá seus pensamentos, e, nas chamas serão testadas todas as meditações de suas mentes». Certos materiais, com que os homens edificam as suas vidas, não são inflamáveis em sentido espiritual (ver I Ped. 1:7); mas outros materiais empregados pelos homens serão consumidos pelo fogo, por não possuírem natureza resistente e permanente (ver Mat. 7:19). A salvação pela graça não elimina a necessidade dejulgamento, conforme nos é solenemente ensinado em trechos como II Cor. 5:10 e Rom. 3:6. (Ver as notas expositivas a respeito na referência da segunda epístola aos Coríntios).Perante o «tribunal de Cristo» seremos julgados de conformidade com o que tivermos feito de bom ou de mau. Assim será determinada a nossa posição nos lugares celestiais, a nossa medida de transformação segundo a imagem de Cristo, conforme é descrito nas notas expositivas sobre o oitavo versículo deste capítulo. Ali seremos o que fomos espiritualmente neste mundo, e isso é o que significa a expressão receber o que tivermos feito. Isso não significa, contudo, que se estabelecerá um estado de estagnação no estado eterno, que impeça todo outro progresso espiritual. Isso é uma revelada no fogo; e 0 fogo provará qual seja a obra de cada um. idéia totalm ente contrária à maneira divina de fazer as coisas, pois certamente Deus nunca poderá estagnar. Não obstante, o julgamento da vida do creffte, que ele teve neste mundo, é uma questão da maior gravidade. Os crentes serão então abalados até aos próprios alicerces de seus seres, embora estejam seguros em Cristo, sendo-lhes então permitido prosseguirem na direção das perfeições do Senhor, na participação de sua natureza moral e metafísica, o que é o alvo de toda a existência humana, porquanto ele é o «padrão» ou modelo tanto da vida presente como daquela que há de ser. A reprovação de certos labores, que talvez tenham ocupado a vida inteira de um crente, não significa a destruição do ser desse crente, o que Paulo deixa bem claro nesta passagem. Outros trechos bíblicos, entretanto, falam sobre o perigo real que representa o desvio ou queda. Não obstante, faz parte das promessas eternas de Cristo que nenhuma de suas ovelhas se perderá finalmente. Como isso poderá cumprir-se é especulado nas notas expositivas sobre o trecho de Rom. 8:39. Purgatório'! Os intérpretes da Igreja Católica Romana vêem, na secção que ora comentamos, uma confirmação de sua doutrina do «purgatório», sendo esta a melhor passagem neotestamentária que supostamente dá apoio a tal idéia. Essa doutrina medieval geralmente é apresentada de forma a rr—levar os homens a imaginarem que o purgatório indica algum lugar distinto, alguma esfera da existência dos espíritos separada dos lugares celestiais; antes, seria um local de purificação das almas. Não obstante.
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    48 I CORÍNTIOS conformeesta passagem bíblica deixa bem claro, nos lugares celestiais é que o juízo e a purificação terão lugar. Assim é que alguns crentes serão reduzidos a apenas sua salvação básica; e isso significa que estarão nos lugares celestiais, libertados desta dimensão terrestre e de qualquer outro lugar de julgamento severo (como o hades), onde ainda assim serão potencialmente capazes de serem transformados segundo a imagem de Cristo. Em outras palavras, Deus ainda assim permitirá tal privilégio para os que forem salvos como que «através do fogo», prometendo-lhes a total concretização desse privilégio. Não nos enganemos, entretanto, uma espécie de «purgatório», ou outro nome qualquer que queiramos aplicar a tal processo, terá lugar nos lugares celestiais, sendo essa uma solene necessidade, ensinada na Bíblia. A vida cristã descuidada, pecaminosa, errônea, em que o crente tenha ensinado doutrinas falsas para detrimento de outros, não pode deixar de receber sua devida retribuição, não podendo passar despercebida e sem julgamento, o que fica perfeitamente claro nesta passagem e no trecho de II Cor. 5:10. O erro doutrinário envolvido na idéia romanista do «purgatório» consiste em pensar que o mesmo se segue imediatamente à morte física, ou que as penas sofridas ali pelas almas possam ser aliviadas ou abreviadas por «missas» e orações que os vivos façam aqui em favor delas, a troco de dinheiro. Esse juízo terá lugar no «...dia...» referido neste versículo; envolverá todo o povo de Deus, que então já terá passado para a outra existência, e não haverá meio de suavizar ou abreviar qualquer pena ali imposta, porquanto esse «tribunal de Cristo» não terá por fito aplicar castigos, e, sim, aquilatar o valor da vida cristã de cada remido e determinar os galardões que cada um receberá ou deixará de receber, tendo em vista o seu grau de transformação segundo a imagem moral e metafísica de Cristo, conforme já temos mostrado noutras porções destas notas expositivas. A vida terrena do crente, a história da alma neste mundo, aquilo que cada remido houver feito com as oportunidades que lhe tiverem sido oferecidas, aquilo que o crente tiver ensinado, a quem ele realmente glorificou, tudo isso será submetido à luz do julgamento de Cristo. Naquele dia, pois, muitos crentes verdadeiros serão abalados até aos alicerces da alma, quando contemplarem a «história terminada de suas vidas», e então virem a choupana que construíram sobre o glorioso fundamento que é Cristo. O tribunal de Cristo será uma ocasião de avaliação, de nova determinação e dedicação, um período de conflito de alma, e, finalmente, uma oportunidade de avanço. E assim Cristo, uma vez mais, se tornará o alvo de toda a existência humana. Mas esse novo progresso não se efetuará enquanto não houver sido expurgados da alma toda a madeira, palha e feno deterioradores, isto é, enquanto não for eliminado da personalidade do crente tudo quanto lhe impede o avanço espiritual. E esse pensamento nos permite ver que o pensamento paulino inclui um certo «expurgo», embora tal doutrina, como outras doutrinas neotestamentárias, tenha sido sujeitada aos exageros e perversões dos homens. Pensando Sobre OJulgamento Dos Crentes 1. Tal como se dará no caso dos incrédulos, os crentes também serão julgados de acordo com as suas obras. Há notas completas sobre isso, em Gál. 6:7,8, trecho que ensina sobre a lei da colheita segundo a semeadura. 2. Esse julgamento será baseado naquilo que tivermos praticado, «de bom ou de mau», segundo diz II Cor. 5:10. Naquela referência há notas completas sobre o significado do «julgamento do crente». 3. «O bem e o mal» darão o «meio termo do caráter espiritual», bem como das «realizações espirituais»; e com base nesse «meio termo» é que cada qual obterá certo grau de participação na natureza e nos atributos de Cristo. Dotado dessa participação, pois, o crente entrará no estado eterno, e sua capacidade de agir e realizar ali, dependerá desse caráter. 4. As «coroas» falam de atributos específicos dos espíritos dos remidos. (Ver as notas em II Tim. 4:8 sobre esse conceito). 5. Todavia, não pensamos que haverá qualquer «estagnação» envolvida no estado eterno, pois se algum membro do corpo de Cristo pudesse permanecer fraco, o próprio Cristo permaneceria fraco, pois o seu corpo seria fraco. Além disso, a promessa feita para cada crente é que eventualmente haverá de atingir a perfeição em Cristo, pois o Filho terá de tornar-se «tudo para todos», segundo se aprende em Efé. 1:23. Obteremos fatalmente a plena filiação, embora essa plenitude não venha a ser atingida por todos ao mesmo tempo. O crente terá, finalmente, a plenitude de Deus (ver Efé. 3:19), e dificilmente isso ocorreria se o crente ficasse em estado de estagnação, dotado de uma glória comparativamente inferior. 6. Quanto ao «julgamento dos crentes», ver Apo. 14:11 e Efé. 1:10. Podemos estar perfeitamente seguros de que o Senhor não nos deixará ficar como estamos; antes, Cristo continuará sendo formado em nós. Esse processo será, certamente, eterno e infinito, e poderá ser um processo agonizante aquele ao qual seremos levados, para que isso tenhá lugar. «...a obra de cada um...» Assim como a salvação da alma é uma questão individual, assim também será a questão do julgamento perante o «tribunal de Cristo». A transformação dos remidos segundo a imagem de Cristo é uma questão individual; o progresso na direção das perfeições de Cristo é uma tarefa que cabe ao crente individual, conduzido pelo Espírito Santo de Deus. Até que ponto haverá tal transformação e com que prontidão, tudo depende do crente individual, embora a influência constante da graça de Deus garanta a concretização final desse grande alvo. Maus mestres: comenta John Short (in loc.), como segue: «Uma das grandes notas dominantes do ensino paulino é a da responsabilidade pessoal de cada indivíduo, quanto à sua vida e, além disso, o fato de que, em algum lugar, em algum tempo, o crente terá de prestar contas a Deus. As grandes linhas escritas por Milton, indignado como estava ele contra os falsos pastores e contra o trabalho desleixado que os mesmos fariam, continua soando como um sino, aos ouvidos daqueles que estão dispostos a ouvir». As ovelhas famintas olham, mas não são alimentadas, Mas, batidas pelo vento e pela umidade se arrastam, Corroídas por dentro, espcãhando um mau contágio: Além do que o lobo voraz, com patas sedentas, Devora a cada passo, e nada lhe é dito em contrário. Mas a máquina de duas mãos, à porta, Sempre está pronta para ferir uma vez, e não mais- (Milton, em Licidas). A Importância Do Exemplo 1. Cristo estabeleceu o exemplo supremo da vida santa e produtiva. Seu exemplo foi perfeito (ver Heb. 7:26). a. Exibiu a santidade (ver I Ped. 1:15,16). b. Foi demonstração de como se deve seguir a lei do amor (ver Efé. 5:2). c. Caracterizou-se pela obediência (ver João 15:10) e pela abnegação (ver Mat. 16:24). 2. Paulo deu um claríssimo exemplo de como deve ser a conduta cristã (ver I Cor. 11:1). 3. Se seguirmos a esses grandes exemplos, seremos «aprovados» por Deus, 0 que não é coisa sem importância. 4. Um pai deve a seu filho, e um mestre deve a seus estudantes três coisas: exemplo, exemplo, exemplo. «...o própriofogo o provará...» Devemos notar que, imediatamente antes destas palavras, Paulo escreveu, «...está sendo revelada pelo fogo...», referindo-se ele à obra de cada homem. As metáforas utilizadas por Paulo parecem severas demais, inesperadas para aquilo que poderíamos imaginar envolvidos no julgamento dos «crentes», mas envolvido somente no julgamento dos perdidos. Não nos devemos olvidar que a metáfora do «fogo» é usada para indicar tanto o julgamento dos crentes como o dos perdidos. Isso é instrutivo, no sentido de que é algo suficiente para mostrar que temos à frente uma linguagem simbólica. Deus nâo está se preparando para torrar seres humanos em um forno, para sempre, conforme as chãs interpretações humanas têm dado a entender. Deus não é o maior Monstro dos séculos, segundo alguns intérpretes fazem dele. Não obstante, o julgamento, tanto aquele que envolverá os crentes como aquele que envolverá os perdidos, não será algo insignificante, motivo pelo qual o «fogo» é usado como símbolo de ambos. Esse simbolismo é usado, portanto, por causa dos seguintes motivos: 1. Por causa da severidade do juízo de Deus. A questão é seríssima. 2. Por causa de seu caráter completo, o que é simbolizado pelo fato que o fogo consome algo até o fim, extinguindo toda a escória, purificando os materiais imperecíveis de tudo quanto não convém. 3. Por causa do elemento purificador do julgamento. O julgamento não visa apenas a retribuição destruidora, nem mesmo no caso dos incrédulos, e muito menos ainda no caso dos crentes. Orígenes observou que somente as mentes símplices e sem imaginação vêem apenas «retribuição» no julgamento divino. Pois o juízo de Deus, apesar de certamente incluir um aspecto de «retribuição», porquanto cada indivíduo receberá segundo aquilo que tiver praticado, sendo julgado conforme as suas obras, também terá um efeito disciplinador e remidor. (Ver as notas sobre Efé. 1:23). Esses São Os Meios De Desenvolvimento Espiritual 1. A oração: É um ato criativo, que pode alterar as pessoas e as circunstâncias. (Ver a nota de sumário sobre esse tema, em Efé. 6:18). 2. O estudo: Entreguemos nosso intelecto a Cristo. A mente é capaz de muitas maravilhas. A mente dedicada a Deus, pode transformar-nos a vida. 3. A meditação·. A meditação pode ser o portal da iluminação espiritual. (Ver as notas em Efé. 1:18). 4. A santificação: Pouco progresso espiritual pode ser obtido sem a santidade de vida (ver as notas em I Tes. 4:3). 5. A prática da lei do amor (as boas obras realizadas em favor do próximo): O amor é a comprovação da espiritualidade (ver as notas a respeito, em I João 4:7). 6. O uso dos dons espirituais: Isso ajuda no cumprimento da missão do crente nesta vida (ver as notas introdutórias ao décimo segundo capítulo de 1 Coríntios). «Esse simbolismo é extraído daquilo que feriria os olhos de um viajante que estivesse em Éfeso, onde o apóstolo Paulo agora se encontrava, ou em Corinto, onde a sua epístola foi lida pela primeira vez. Trata-se do mesmo tipo de contraste que pode ser percebido (embora não precisamente da mesma maneira notável) na cidade de Londres, em nossos próprios dias. Os principescos palácios de mármore e granito, com telhados e colunas a rebrilharem com decorações de ouro e de prata, lado a lado com cabanas miseráveis dos pobres e dos destituídos de tudo, cujas paredes são feitas de lascas de madeira, com os interstícios preenchidos de palha, e um telhado do mesmo material, encimando tudo. Levantou-se, pois, diante da imaginação do apóstolo, o pensamento de uma cidade atingida por uma poderosa conflagração, tal como aquela que deixara desolada a própria cidade de Corinto, no tempo de Múmio. As débeis estruturas de madeira e de palha, que são materiais perecíveis, seriam totalmente consumidos, ao mesmo tempo que os grandes palácios e templos permaneceriam de pé, após o incêndio ter-se extinguido por si mesmo, conforme na realidade ocorreu de certa feita em Corinto. Por igual modo, no dizer do apóstolo Paulo, sucederá ao trabalho realizado pelos mestres cristãos, quando o ‘dia do Senhor’ for revelado por meio do fogo. O fogo que haverá naquele dia -
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    I CORÍNTIOS 49 sondaráe testará a qualidade do trabalho de cada um deles». (Shore, in ι loc.). O símbolo do fogo é coerentemente associado nas Escrituras ao dia do Senhor, conforme verificamos nesta passagem; e esse dia é igualmente ■ simbolizado por uma súbita explosão de luz e chamas ardentes, que se despejarão sobre a terra. (Ver os trechos de Mal. 3:1-3; 4:1; II Tes. 1:8 e 2:8). Embora Paulo certamente soubesse de determinada diferença entre o julgamento dos crentes e o julgamento do mundo incrédulo, usou ele praticamente os mesmos símbolos. A expressão «dia do Senhor», embora envolva quase exatamente a idéia do julgamento, pode ser aplicada, de maneira mais ampla, a diversas ações divinas «decisivas», e não meramente ao segundo advento de Jesus Cristo, quando ele houver de aparecer como o grande Juiz que dirigirá o juízo final. Pois o vocábulo «dia» sugere tanto o aparecimento da luz, que expele as trevas e os seus males, como também sugere uma «nova dfspensação», um novo período em que Deus tratará com os homens de certa forma particular, o que, ao mesmo tempo, fará reverter e renovar o processo histórico. (Quanto à expressão «dia do Senhor», no que essa doutrina está vinculada ao segundo advento de Cristo, ver as notas expositivas sobre o trecho de Apo. 19:19. Ver igualmente I Cor. 1:8 quanto ao termo «dia», naquilo em que o mesmo se aplica ao segundo advento de Cristo e ao julgamento dos crentes, onde várias referências paralelas são sugeridas). «O apóstolo Paulo não tencionava descrever os detalhes do segundo advento de Cristo; pelo contrário, declarava de maneira figurada aquilo que afirmaria, sem qualquer linguagem simbólica, em I Cor. 4:5, isto é, que por ocasião da grande crise do dia do Senhor será perscrutadoramente testado o valor real do trabalho de cada crente individual. Esse teste, pois, é simbolizado pelo apóstolo como o fogo do segundo advento, que envolverá o edifício inteiro, reduzindo a cinzas todo o seu material inútil». (Robertson e Plummer, in loc.). Existem outras interpretações acerca do presente versículo, conforme se vê na lista abaixo: 1. Conforme já tivemos ocasião de observar, vários exageros têm sido impingidos aos homens sobre essa passagem que descreve um certo «purgatório», um estado intermediário entre o céu e o inferno e a preparação para o céu dos eleitos. Essa dogmatização da idéia paulina deve ser rejeitada. Não obstante, o «fogo» aludido aqui é um «expurgo» bem definido, tendo uma finalidade claramente «penal» e «disciplinar», e não meramente testadora. Portanto, se usarmos o vocábulo «purgatório», ou alguma outra expressão em seu lugar, ainda que tal vocábulo inclua muitas 14 €t τίνος το €ργον p,evet δ €ττοοκο8όμησ€ν, 14 Γ] μίνα D C L pc ς) 3:14: Se permanecer a obra que alguém sobre ele edificou, esse receberá galardão. Podemos estar certos de que o julgamento dos crentes será perscrutador. Ninguém será ali capaz de enganar o Juiz, nas esferas eternas, conforme tantos agora podem enganar aos homens quanto ao caráterreal e ao valor do trabalho que fazem. Não é um erro supormos que alguns dos supostos «maiores» cristãos, que realizaram aparentemente uma tarefa mais magnificente, serão desvendados como «últimos», naquele dia. Esses serão aqueles cujas realizações foram efetuadas mediante a força da carne, da capacidade humana, dos dotes naturais, e não através do Espírito de Deus. Além disso, alguns daqueles que agora são reputados como últimos, serão então primeiros. Esses serão aqueles que tiverem sido humildes em sua vida de oração e de trabalho cristão, embora aparentemente tenham contribuído bem pouco para os destinos da vida humana. Somente o Senhor Jesus pode fazer o julgamento preciso e apropriado (ver I Cor. 4:4,5), do que podemos estar certos que ele o fará. Além disso, haverá alguns casos que não constituirão surpresa. Aqueles que tiverem trabalhado com diligência, mediante os meios espirituais, o que se tornou conhecido pelos homens, receberão sua devida recompensa. E outros, que obviamente não se importaram grandemente com as realidades espirituais, mas antes, viveram para a carne, verão que o pouco que pensaram ser valioso, será consumido pelo fogo, transformando-se em nada, e os seus seres serão desnudados de toda a pretensão de desenvolvimento em Cristo. Devo partir de mãos vazias, Para encontrar assim meu Redentor? Sem dar-lhe um dia sequer de serviço, Sem depositar um só troféu a seus pês? Oh, se pudesse recuperar os anos de pecado, Se pudesse tê-los devolvidos agora. Eu os daria para meu Salvador, E me inclinaria humilde à siia vontade. (C.C. Luther) «Não é um tolo aquele que dá aquilo que não pode reter, a fim de ganhar aquilo que não pode perder». (James Elliott, missionário evangélico martirizado por índios do Equador). Como seremos julgados, nós, os crentes? Mediante a consideração da maneira como tivermos consumido nossas vidas. Quais foram as nossas esperanças, os nossos desejos, os nossos motivos, as nossas ambições, ao trabalharmos no evangelho? Qual foi a nossa atitude espiritual, nossas intenções mais secretas, ao nos ocuparmos do nosso serviço prestado a Jesus Cristo? Temos amado aos irmãos e temos procurado servi-los sinceramente, ou temos amado tão-somente a nós mesmos? Temos amado a Jesus Cristo, ou ele tem sido para nós apenas alguma forma de princípio religioso ou idéia abstrata? Uma avaliação verdadeira dessas perguntas, e as respostas que elas provocam em nós, nos darão uma boa idéia do que poderemos idéias prejudiciais, ainda assim estaremos descrevendo um conceito paulino. Na verdade, porém, esse julgamento terá lugar nos lugares celestiais, e não em algum estado intermediário. Naturalmente que alguém poderia postular o argumento que isso ocorrerá em níveis inferiores dos lugares celestiais, como se esses níveis inferiores fossem, de fato, os lugares «intermediários». Êpossívelque assim seja, mas, mesmo admitindo-se tal possibilidade, ainda estaremos dentro dos limites da teologia paulina, embora disponhamos de informações extremamente escassas sobre os «lugares celestiais», acerca dos quais Paulo fez alusões. (Ver as notas expositivas sobre os «lugares celestiais» em João 14:6 e Efé. 2:6. Nessas passagens, o «fogo» aparece ligado ao segundo advento de Cristo, e não à morte física dos crentes). 2. Completamente errônea é aquela interpretação que vê, nesta passagem, apenas a destruição de Jerusalém e o ponto final das instituições judaicas. 3. Por igual modo, a palavrafogo, neste caso, não se refere à «purificação progressiva» da igreja, por toda a dispensação do N.T. Trata-se de uma referência definidamente escatológica, tendo conexões com o segundo advento de Jesus Cristo. Há aqui alusão a ■algum tempo futuro de julgamento dos crentes, o que Paulo esperava que ocorresse durante seu próprio período de vida terrena. (Ver I Cor. 15:51). 4. Outros intérpretes (como Calvino), fazem com que este versículo se prenda à propagação da mensagem pura do evangelho pela terra, como um dos efeitos da era da igreja. Essa interpretação é inconcebível aqui, por ser essencialmente não-escatológica. 5. A despeito do uso do símbolo do «fogo», o juízo geral da humanidade inteira não é focalizado aqui, como o hades, etc. Pois o julgamento aqui anunciado envolverá exclusivamente aos crentes. 6. Este versículo não noS encoraja a orar em favor dos mortos. Pois tais orações não fariam a menor diferença quanto ao que sucederá aos crentes, no seu julgamento. Alguns oram em favor dos mortos incrédulos com base na opinião que o julgamento final será determinado não quando da morte do indivíduo, e, sim, quando da segunda vinda de Cristo. Talvez haja algum valor nessas orações, mas o N.T. faz completo silêncio sobre a questão. (Ver I Ped. 4:6 quanto à missão de Cristo além-túmulo, e o que a mesma envolve). Entretanto, seja como for, é verdade que o julgamento é sempre situado para quando ocorrer a segunda vinda de Cristo, ou após o milênio, e jamais quando da morte física de cada pessoa. μισθόν λήμφΐταί' esperar perante o tribunal de Cristo. Um grande político do sul dos Estados Unidos da América do Norte estava moribundo. Um amigo íntimo se aproximou de seu leito e lhe perguntou: «Devo orar por você?»E ele respondeu: «Não. Aminha vida deve ser a minha oração. Este momento não é tão significativo como os anos solenes que se passaram. Que eles permaneçam». E nessa resposta encontramos uma profunda verdade. Não importa o momento da transição a que denominamos de morte, mas o que importa é a inteireza da vida antes da morte. Para o crente a morte é tão inconseqüente como o sono. Mas o pensamento de irmos ao encontro do Senhor de mãos vazias deveria fazer-nos franzir o cenho, preocupados. «...galardão...» Esse conceito é abundantemente comentado no oitavo versículo deste capítulo (onde a própria palavra «galardão» é explicada); e também há comentários a respeito no décimo terceiro versículo deste capítulo, e mais completamente ainda, em II Cor. 5:10. Não sabemos muita coisa sobre esse tema; mas podemos dizer aquilo que desdobramos nos seguintes pontos: 1. O galardão não é a mesma coisa que a salvação eterna, no sentido ordinário da palavra. Em outras palavras, não significa que um indivíduo galardoado irá para os lugares celestiais, mas que aquele que não será galardoado irá para o «hades», ou para algum outro lugar qualquer de julgamento severo e eterno. 2. Porém, visto que a glorificação é uma parte integrante da salvação, e que os galardões têm muito a ver com a extensão e a natureza da glorificação, os galardões, na realidade, fazem parte da salvação. A extensão em que tivermos de ser transformados segundo a imagem de Cristo, quando assumirmos suas qualidades morais e metafísicas, será determinada pela extensão em que formos galardoados. 3. Parte dessa glorificação envolve o conceito inteiro das «coroas», as quais não devem ser encaradas como objetos físicos e literais, mas antes, como realizações espirituais, como «graus de glória», como a níveis de participação em tudo quanto Jesus Cristo tem e é. 4. O conceito materialista dos galardões, como se estes fossem «bens» nos lugares celestiais, como mansões, etc., é uma idéia completamente antibíblica. Possessões materiais serão realmente nossas, mas não são elas os galardões que nos cumpre conquistar. O que está envolvido nos galardões é sermos semelhante a Cristo, é compartilharmos mais plenamente do que ele é, é realizar mais plenamentç aquilo que ele realiza. Também está envolvido o recebimento de sua imagem moral e metafísica, o que nos transformará em seres muito superiores aos próprios anjos, porquanto seremos participantes da própria natureza divina (ver II Ped. 1:4). Isso é o que está envolvido nos galardões. (Ver também o trecho de Rom. 8:29 e as notas expositivas ali existentes, onde se sumaria essa doutrina). 5. Quando formos transformados em seres dotados de grande poder, então nos serão dadas tarefas de grande magnitude, para cumprirmos nos lugares celestiais e eternos. Nossa futura capacidade de realizar essas grandiosas tarefas resultará do nosso galardão em Cristo, o que, por sua
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    50 I CORÍNTIOS vez,resultará de nossos esforços conscientes por sermos transformados segundo a sua imagem. 6. Seja como for, não devemos supor que os galardões, uma vez recebidos, importarão em um estado fixo, estagnado; porque não há razão para imaginarmos que o céu seja mais estagnado do que a terra. Portanto, o grande alvo da total perfeição dos remidos, em Cristo, prometido para todos os crentes, é um alvo firme, que eventualmente terá o seu cumprimento no caso de todos eles, embora alguns crentes atrasem grandemente esse processo, através da perversidade de suas próprias vontades livres. Isso porque o avanço espiritual, no lugares celestiais, 15 €i τίνος το €ργον κατακαησεται, ζημιω θήσΐται, 3:15: Se α obra de alguém >e queimar, sofrerá ele prejuho; mas o tal será salvo, todavia como que pelo fogo. As palavras «...sofrerá ele dano...» significam que o crente cujas obras forerií consumidas perante o «tribunal de Cristo», não receberá os plenos benefícios de uma completa transformação segundo a imagem de Cristo, não sendo beneficiado pelos «galardões» descritos no versículo anterior. Tal crente sofrerá atraso em sua transformação moral segundo a imagem de Cristo; e apesar de não mais possuir pecado positivo algum, também não possuirá o amor verdadeiro, a bondade, a justiça, a nobreza de caráter de Cristo, tudo o que, supostamente, deveria ser característica sua, por ser um remido pelo sangue de Cristo. Sofrendo A Perda 1. O crente pode sofrer detrimento, não obtendo aquilo que poderia ter obtido, isto é, se a sua vida tivesse produzido obras espirituais. 2. Por certo isso significa que a sua transformação segundo a imagem de Cristo não será tão completa quanto poderia ter sido—e que assim ele terá menor porção das virtudes positivas de Cristo, como o amor, a bondade, etc. (embora o próprio crente não possua mais a natureza pecaminosa, uma vez que chegue nos lugares celestiais). Outrossim, ele terá menor participação nos atributos e poderes de Cristo. A salvação consiste da participação na natureza do Pai e seus atributos (ver Efé. 3:19), conforme essa natureza e esses atributos são vistos no Filho (ver Col. 2:10). O crente de pouco êxito espiritual, portanto, não crescerá grande coisa dentro dessa estatura divina, pelo que a sua perda será imensa. 3. O crente pode perder aquilo que já tiver obtido mediante um viver pecaminoso e descuidado. (Ver II João 8 e suas notas expositivas sobre esse conceito). 4. O que está positivamente vedado a pensarmos é que o crente terá menor acúmulo de bênçãos celestiais, como uma mansão celestial menor, menores riquezas, etc., conforme a questão é explicada popularmente. O que está em foco é o que cada crente será em si mesmo, nos lugares celestiais. 5. Não obstante, essa perda terá vinculações diretas com a missão de cada cjrente. Andou um crente como devia? Seus motivos foram corretos? Trabalhou ele para Cristo, ou para si mesmo? As respostas a essas perguntas é que determinarão quanto ganho ou perda estarão envolvidos. 6. Naturalmente, essa «perda» não pode significar «estagnação» permanente. A recuperação não somente será possível, mas também será absolutamente necessária, a fim de que o plano divino sobre cada crente possa ter, finalmente, o mais cabal cumprimento. (Ver as notas sobre o vs. 13, sob o título de «Meditando sobre o julgamento dos crentes». Posso meditar sobre o dia em que estarei perante o tribunal de Cristo, nos lugares celestiais. Então a minha alma será repassada diante do Senhor. Olharei para as minhas mãos e lamentarei as criancices feitas por mim. Olharei para os meus pés, e pensarei sobre as veredas desviadas por onde andei. Pensarei em minha mente, na inteligência que Deus me deu, e me envergonharei do uso escasso que fiz demeus recursos intelectuais. Também me entristecerei por causa do pouco uso que fiz do dom da fala, para glória do Senhor Jesus Cristo. Por igual modo, ficarei coberto de pejo por causa das palavras que proferi impensadamente, precipitadamente, por muitas vezes ofendendo até a outros. Minha consciência requeimará em face de coisas deixadas por fazer e de palavras deixadas de dizer, por causa de cargas que eu poderia ter aliviado para outros, mas não o fiz, por causa do sofrimento que eu poderia ter suavizado, mas que .negligenciei em cumprir, devido a meu egoísmo. Compreenderei então quão justo será o meu julgamento, e não poderei proferir uma única sílaba em defesa própria. Talvez então eu pense, «Oxalá pudesse eu recuperar os anos desperdiçados no pecado!» «Quando o Senhor vier assim ao seu templo, qual chama consumidora, todas as porções desse edifício que não puderem resistir ao fogo, serão consumidas; e os que edificaram com esses elementos consumidos escaparão apenas com a salvação pessoal, embora percam toda a sua obra, em meio àquela conflagração». (Alford, in loc.). Aqueles que sofrerem tal «dano» é que serão os «últimos», muitos dentre os quais pensaram que eram os «primeiros», de acordo com as palavras do Senhor Jesus, em Mat. 20:16 e Marc. 10:31. Outrossim, é possível a um igualmente dependerá da reação positiva da vontade humana, porque assim determinou Deus. Mediante essa reação positiva da vontade do crente é que todo o avanço espiritual é obtido. Tal aperfeiçoamento não é conferido a meros autômatos, que nada mais podem fazer senão obedecer ao seu comando. Até mesmo quando o pecado é removido de uma vida crente, pode haver reações mais rápidas ou mais lentas perante o plano e os impulsos divinos. Seremos sempre responsáveis por aquilo que somos, recebendo plena ou parcialmente a graça de Deus, aproveitando-nos total ou parcialmente de nossas oportunidades, ou mesmo desconsiderando inteiramente a vida espiritual que Deus nos tem proporcionado. αυτός 8è σωθησεται, οΰτως 8è ώς δια 7τυρός. crente perder um galardão já conquistado, mediante o descuido e a negligência em sua vida cristã, segundo o que aprendemos no trecho de II João 8; e exatamente a mesma verdade fica subentendida na passagem que ora comentamos. «...esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo...» Comenta Fausset (in loc.), acerca dessas palavras: «Quando o Senhor vier repentinamente ao seu templo, como se fora fogo ardente, todas as partes desse edifício que não resistirem ao fogo, serão consumidas; os próprios construtores escaparão, com sua salvação pessoal, mas perderão tudo quanto tiverem feito. Uma vez mais podemos reputar a sobrestrutura como representação de questões menos essenciais, sobrepostas sobre as questões realmente essenciais: um homem pode errar quanto,àquelas questões menos essenciais, passando pela mortificação de ver a perda de grande parte de seus labores, e, no entanto, ser salvo; mas outro tanto não poderá ocorrer no tocante às questões essenciais. (Comparar com Fil. 3:15)». Trata-se de uma expressão quase proverbial «ser salvo como que através do fogo». Essa expressão indica o ter alguém escapado por pouco de um grande perigo, e eqüivale mais ou menos ao dizer de Amós 4:11, «...um tição arrebatado da fogueira...» (Ver também Zac. 3:2). A idéia que se tem é que o fogo se mostrará tão rápido na execução de seu serviço que o obreiro deverá apressar-se, «através» do incêndio, a fim de ficar em segurança. Mas, fazer desse «fogo», aqui citado, representação do inferno, é usar de uma exegese monstruosa; por semelhante modo, não está aqui em foco algum lugar do julgamento dos crentes, como um «purgatório», ainda que não possamos escapar do ensinamento claro desta passagem que esse julgamento não será meramente retributivo, mas também será disciplinadòr, e, em certo sentido, até mesmo remidor, porquanto, através do mesmo, o crente será capaz de avançar mais celeremente para as riquezas de Cristo, tendo aprendido uma excelente lição sobre como não lhe compete servir ao Senhor. «...salvo...» Diversas interpretações têm sido dadas a esse vocábulo, na presente passagem: 1. Alguns pensam que essa palavra significa a «preservação» do crente a fim de que não sofra as penas infernais, o que quer dizer que tal crente não será aniquilado, mas antes, conservado vivo em tormentos eternos. É óbvio que essa interpretação peca pela base, sendo uma distorção do que significa alguém ser «salvo». 2. Outros torcem a frase como se ela dissesse, «poderá ser salvo», como se o próprio julgamento pudesse levar tal indivíduo à salvação, embora não necessariamente. Mas essa é uma interpretação claramente desonesta. 3. Além disso, não há qualquer indício que a «obra» aqui referida signifique os seus «discípulos», os quais, embora venham a perecer, ele mesmo não perecerá, porquanto se trata de alguém bem firmado em Cristo, apesar de só poder escapar por um triz. 4. Pelo contrário, está aqui em foco a salvação em sua totalidade, no sentido que tal crente realmente se achará nos lugares celestiais, tendo escapado do «hades», isto é, do lugar onde ficarão os incrédulos, embora certamente não esteja aqui em vista a plena salvação, no sentido do recebimento até mesmo da glorificação. Não obstante, nem mesmo um crente nessa situação terá uma existência estagnada, nos lugares celestiais; antes, poderá obter e realmente obterá sua completa glorificação em Cristo, porquanto todos os escolhidos deverão ser verdadeiramente redimidos. Quanto a essa passagem em geral, John Gill (in loc.), comenta como segue: «‘...será salvo...’ com uma eterna salvação; não por seus lavores ' ministeriais, e muito menos ainda por sua madeira, feno e palha, tudo o que será queimado; mas devido ao fato que o seu ser, apesar das imperfeições de seu ministério, está alicerçado sobre o fundamento, que é Cristo. Contudo, será salvo ‘como que através do fogo’, ou seja, com grande dificuldade, por margem mínima (ver Zac. 13:9), isto é, com grande perda e vergonha. Está aqui em foco o homem que perde em um incêndio a sua casa e o seu lar, consegue escapar com a própria vida, mas perde tudo o mais...Tal homem será testado pelo fogo da Palavra, ficará convencido pela luz lançada pela mesma sobre os seus erros, irregularidades e incoerências em seu ministério;e isso quer durante seu período de vida e saúde, quer já no leito de morte; e assim verá queimados a sua madeira, o feno e a palha...». Esse comentário tem pontos recomendáveis, exceto que não está aqui focalizado o leito de morte, porquanto esta referência é de natureza escatológica, estando associada ao segundo advento de Cristo. 16 ούκ οιδατε οτι ναός θεοΰ eVre καί το ττνίΰμα του θζοΰ οΙκ€Ϊ iv ν μ ιν ; 16 1 Cor 6.19; 2 Cor 6.16 3:16: Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espirito de Deus habita em vós? Todos os crentes autênticos são possuidores do Espírito de Deus, embora uns e outros possuam-no em graus diversos. (Ver Rom. 8:9). Não pode haver a menor possibilidade de salvação sem a sua obra, porquanto é ele o próprio agente da conversão e da regeneração, bem como da fé que é o instrumento intermediário da conversão, bem como da vida diária em Cristo, no avanço para com as suas perfeições. Todos os crentes deveriam possuir dohs espirituais, através do Espírito Santo, mas isso não sucede com todos, conforme o décimo segundo capítulo da epístola aos Romanos nos esclarece.Porém, qualquer crente em quem permanece o Espírito de Deus, torna-se sua habitação. A igreja também é habitação do Espírito de Deus, coletivamente falando, tal como, nos tempos do antigo pacto, o templo era
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    I CORÍNTIOS 51 consideradoo lugar da habitação de Deus, isto é, o lugar geográfico especial onde ele manifestava a sua presença. Esse local geográfico específico é, no presente, a igreja cristã, e é isso que é ensinado neste versículo. Porém, se a comunidade cristã é habitação do Espírito, é mister que os seus membros individuais também sejam habitação de Deus, o que é especificamente declarado no trecho de Rom. 8:9, onde essa mesma questão é declarada em termos individuais. A linguagem descritiva de Paulo, que falou no Senhor a vir ao seu templo como chama ardente, a fim de purificar e julgar aos seus servos, sugeriu a esse apóstolo o pensamento que, realmente, como uma comunidade espiritual, os crentes são templo do Espírito, habitação apropriada de Deus entre os homens. Bastaria esse fato para cumprir neles todos o desígnio de Deus, impedindo o severo julgamento que ele acabara de descrever. Infelizmente, porém, a experiência cristã mostra-nos que, a despeito da influência do Espírito Santo, a pervertida vontade humana pode transformar a vida cristã em uma ruína. A perversidade da vontade humana pode ser tão grande que leve o crente a tornar-se inconsciente até mesmo da presença e da influência do Espírito de Deus. Por causa disso, embora alguém esteja em Cristo, sua vida pode ser prejudicial a outros e a ele mesmo; e é uma pessoa assim que será adversamente julgada perante o «tribunal de Cristo», conforme é descrito nestes parágrafos. Além da doutrina que Deus fizera conhecer a sua presença no templo de Jerusalém, no período do antigo pacto, o que era um ensinamento familiar para os primitivos cristãos, havia igualmente a literatura apocalíptica judaica, que sem dúvida também era familiar para muitos daqueles crentes, literatura essa que ensinava que, nos últimos tempos, Deus edificaria um templo no qual pudesse habitar. (Ver Enoque 91:13). Essa doutrina é «espiritualizada» a fim de indicar a comunidade dos crentes, tal como se vê em I Ped. 2:5. Portanto, aqueles mestres que se inclinavam para a contenda, e que dividiam a igreja de Corinto com suas facções, eram indivíduos que dependiam da sabedoria do mundo, e não da sabedoria divina (aos quais também o apóstolo dos gentios ataca nos três primeiros capítulos desta epístola). Tais pessoas deveriam compreender que, na realidade, procuravam derrubar a habitação do Espírito de Deus, cometendo assim um sacrilégio. Os judeus abominavam qualquer sacrilégio, até mesmo dos templos pagãos, que dirá do templo de Deus. (Ver Rom. 2:22). Ê seguro dizer que nenhum daqueles líderes facciosos da igreja teria ousado entrar em um templo, até mesmo um templo pagão, quanto menos o templo de Jerusalém, destruindo qualquer coisa ali contida. Contudo, em suas ações, pervertiam e procuravam destruir o templo genuíno do Espírito Santo, a comunidade dos crentes, cada um dos quais, individualmente, era templo do Espírito de Deus. Mediante essa ilustração, pois, é possível que tais líderes compreendessem a grande depravação de suas ações. Outrossim, o templo de Deus é santo; e, por essa mesma razão, é necessário que os crentes também sejam santos. Paulo prepara, dessa maneira, o caminho para seus esclarecimentos acerca da degradação moral da igreja de Corinto, que ele aborda no quinto capítulo desta epístola, através de tais afirmações. «...O Espírito de Deus habita em vós?...» Essas palavras constituem uma adição para fortalecer ainda mais o argumento apresentado pelo apóstolo. Os templos pagãos tinham apenas uma «imagem» de algum deus, o qual, na realidade, não tinha existência espiritual, exceto como criação material de algum artista. O templo dos judeus tinha por símbolo a manifestação ocasional da glória da presença de Deus (o shekinah dos israelitas). Mas a comunidade cristã é que se tomara, na verdade, a habitação do Espírito, o que era uma nova maneira de Deus tratar com os homens. «...santuário...» O vocábulo grego por detrás desta tradução é «naos», o recinto sagrado, o lugar santíssimo, em contraste com o «hieron», o restante do templo em seus diversos compartimentos. Entretanto, essas duas palavras, no original grego, podiam ser usadas como sinônimos. Por semelhante modo, o crente é o lugar santíssimo onde habita o Espírito de Deus; logicamente, pois, tudo quanto Jesus Cristo tenciona para os crentes, deve ter cumprimento. Os crentes devem ser santos, vivendo em paz com os seus irmãos na fé, e não em estado de agitação, criando, encabeçando ou participando de facções. A aplicação dos ensinamentos contidos neste versículo tem uma natureza geral. O que Paulo diz até este ponto V isa especialmente os mestres cristãos; mas, daqui por diante, todos os crentes estão na sua mira. Todos são repreendidos por causa de qualquer ação que pretenda corromper o templo de Deus, incluindo a desarmonia, a desunião, as facções e o espírito de rivalidade. (Com isso se pode comparar outras expressões, que indicam que os crentes são o templo de Deus. Por exemplo, ver I Ped. 2:5 (que fala sobre uma «casa espiritual»); ver Efé. 2:22 (que alude à habitação de Deus por meio do Espírito Santo); e ver também os trechos de II Cor. 6:16 e ss.; Rom. 8:9,11; II Tim. 1:14 e Eze. 37:27). «...habita...», isto é, «fixa residência», com a idéia de permanência e também de intimidade. A comunidade cristã inteira, embora dividida em muitas congregações locais, é encarada aqui como o lugar da habitação ou templo do Espírito Santo. Existe tão-Somente «um templo» do N.T., que é a igreja universal. Cada congregação local não é um templo entre muitos; mas cada indivíduo é um templo, no sentido de que ele é um lugar específico onde Deus manifesta a sua presença. «.. .não sabeis que sois santuário...» Os crentes de Corinto agiam como se não soubessem dessa verdade; ignoravam propositadamente tal fato; tinham obscurecido essa realidade por seu espírito contencioso;haviam retirado o poder da presença do Espírito nos crentes. Paulo, pois, lembra-lhes aqui da posição elevada que ocupavam aos olhos de Deus, o que ultrapassava a todas as demais instituições religiosas conhecidas no mundo. É verdade que aqueles crentes de Corinto «conheciam» a verdade sobre sua elevada posição em Cristo, mas tão-somente como uma proposição mental, como uma doutrina; mas já haviam perdido o poder e a realidade de tal conhecimento, na vida diária. (Quanto a notas expositivas completas sobre o Espírito Santo, ver Rom. 8:1). 17 e t τ ο ΰ θ ε ο ΰ φ θ ε ί ρ ε ι , φ θ ε ρ ε ϊ 3 τ ο ΰ τ ο ν ό θ ε ό ς ' ό γ ά ρ ν α ό ς τ ο υ θ ε ο ΰ ά γ ι ό ς έ σ τ ι ν , ο ϊ τ ι ν ε ς τ ι ς τ ο ν ν α ο ν ε σ τ ε υ μ ε ί ς . >17 |C | φθερεΐ ρ“ S A Β C Ψ 104 436 629 630 1739, 1877 1881 1962 1984 1985 2127 2492 2495 B yz L ed vg c o p " 1 ” arm Irenaeus1 *1 Origen*''1 *1 Cyprian Eusebius A m brosiaster H ilary D idym us Cyril // φθείρει D*r O P (33 φθηρεI) 81 (88 181 614 φθείρει) (330 451 1241 φθειρη) Is09 it* syrp-h Ephraem | Influenciados pelo termo anterior, vários manuscritos, principalm ente ocidentais, trazem o presente, φθείρα (Dgr Ggr L P 81 lm vg (mss) sir (p,h) Efraem), ao invés de φθερεϊ. [ 3:17: Se alguim destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque sagrado é o santuário de Deus, que sois vós. A palavra «...destruir...» é usada corretam ente por duas vezes na tradução que serve de base textual deste comentário, pois a niesma palavra grega é usada para expressar o que o homem faz ao templo de Deus, e o que Deus, por sua vez, faz ao homem. Os intérpretes, entretanto, não estão acordes sobre o sentido da palavra «destruir», neste caso. Essa palavra grega, «patheiro», póde ter uma certa variedade de significados, como «arruinar», «destruir», «corromper», «estragar», «corromper» (em sentido moral ou físico). A idéia de «fazer desviar» também é possível. Também pode significar punir por destruição, dando então a entender o «julgamento eterno». Quando esse vocabulário é usado para indicar os homens, pode significar também «matar», e, se estiver na voz passiva, tem o sentido de perecer. Fica claro, através dessa própria palavra, portanto, que certa variedade de interpretações pode ser aplicada a esse texto. Essas aplicações, por sua vez, dependem das tendências ou predileções doutrinárias, e não por exigência do próprio texto sagrado. Por conseguinte, são sugeridas as seguintes possíveis interpretações: 1. A interpretação maissevera é aquela que diz que o julgamento eterno e a destruição eterna estão aqui em foco, o que importa em uma perda irreparável, para o que não há qualquer remédio. Isso poderia ser compreendido acerca dos incrédulos; no entanto, o contexto se refere mais definidamente aos crentes, e devemos aplicar tudo o que aqui é dito aos remidos. A interpretação arminiana, que diz que a vida eterna pode ser dada para em seguida ser perdida, mediante a perversão, a negligência ou algum grave pecado praticado, combina exatamente com esta interpreta­ ção, sendo assim que vários homens bons e santos têm compreendido esta passagem. Nesse caso, pois, a advertência aqui encontrada é extremamente severa. Paulo estaria ameaçando os crentes facciosos de Corinto, que «destruíam» a unidade daquela igreja, com a destruição da posição que eles tinham na igreja de Cristo, o que importaria em juízo eterno, por fim. Se contássemos somente com este versículo, bem poderíamos compreender assim o caso; mas o contexto geral não parece concordar bem com essa idéia. É verdade, entretanto, que os violadores do templo, incluindo até mesmo aqueles que entrassem em algum recinto proibido do mesmo—quanto mais aquele que entrasse no «Santo dos Santo», que fica aqui subentendido pelo uso do termo grego «naos», effi contraste com a palavra grega «hieron»(ver o décimo sexto versículo deste mesmo capitulo)—eram mortos, mediante a destruição e seu corpo físico. Precisamos supor que o apóstolo dos gentios tinha isso em mente quando assim escreveu (ver Lev. 16:2). Portanto, a severidade de suas palavras precisa ser preservada se tivermos de compreender a advertência que ele faz aqui. 2. Outros estudiosos preferem a interpretação hipotética, isto é, Paulo teria ameaçado aos crentes com um julgamento eterno; mas isso, na realidade, não seria possível. Tal advertência, entretanto, poderia agir como «preventivo», tornando-se parte da própria razão pela qual não caíam aponto de se perderem, e, portanto, de virem a ser julgados. Se aceitarmos essa interpretação, todavia, teremos de supor que todas essas advertências devem ser necessariamente «eficazes», impedindo exatamente aquilo acerca do que falam tais advertências. Tal interpretação, entretanto, é pouco mais do que um truque filosófico, porquanto mais esconde do que expõe a dificuldade. Paulo, contudo, não se prestaria a fazer falsas advertências, que não representassem qualquer realidade possível, esperando que tais avisos produzissem resultados psíquicos favoráveis. 3. Ainda outros eruditos gostariam de modificar o sentido severo desse termo, para uma palavra mais suave, como prejudicar, por exemplo. Assim sendo, se alguém viesse a «danificar» o templo de Deus, ele mesmo seria prejudicado. Mas, nesse caso, nada mais se estaria dizendo além daquilo que já foi dito, concernente ao julgamento dos crentes, perante o «tribunal de Cristo», nos versículos décimo terceiro a décimo quinto deste capítulo. Certamente há «dano» suficiente no sentido da palavra aqui usada por Paulo. E, visto que essa palavra pode ter tal sentido, não temos como negar
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    52 I CORÍKTIOS quePaulo poderia ter querido dizer exatamente isso. 4. Má igualmente ò ponto de vista que se trata de um paradoxo o que o apóstolo declarou aqui. Esse paradoxo consistiria do fato que existem advertências autênticas concernentes à possibilidade da perda de salvação, depois da mesma haver sido obtida, com um julgamento subseqüente, ao mesmo tempo que é conferida uma real certeza de que o crente em Cristo está livre da punição eterna, havendo de perseverar até ao fim. Ambas essas verdades seriam verdadeiras, embora não sabendo nós como harmonizá-las. Tal doutrina, pois, seria aparentemente «autocontraditória», isto é, seria um «paradoxo». Creríamos em ambas as doutrinas, pregaríamos tanto uma como outra, mas não saberíamos como reconciliá-las entre si. É verdade que a doutrina de Cristo, o Deus-homem, é um paradoxo, como também é um paradoxo o problema da liberdade humana e do determinismo divino, ou seja, do livre-arbítrio do homem e a predestinação; e não é impossível que da mesma maneira sejamos forçados a encarar a questão da segurança do crente e da queda da graça. 5. Também poderíamos encarar a verdade da segurança eterna do crente como algo absoluto, ao passo que a queda seria algo real, embora relativo. Isso significaria que, eventualmente, antes ou depois da morte física, neste mundo ou na eternidade, os crentes desviados serão reconduzidos aos pés de Cristo, sendo então plenamente restaurados, até que, finalmente, sejam levados à perfeição, de Jesus Cristo. Ao longo do camiilho, todavia, um crente poderia cair e até mesmo apostatar, no sentido mais literal da palavra. Todavia, isso não seria uma atitude «eterna», não caracterizaria tal crente. Pois o texto que temos à nossa frente não requer a idéia de «eternidade». Está em foco um severo julgamento, o que não se pode negar; mas não precisamos pensar que tal julgamento é eterno. Seja como for, tal advertência é extremamente severa, —e não pode ser considerada com negligência. (Ver Rom. 8:39, quanto a uma discussão geral sobre o problema da «segurança eterna do crente» e da queda). Considerando todos os pontos, favoráveis e contrários, parece que podemos tirar as seguintes conclusões: A primeira dessas interpretações é severa por demais. A segunda interpretação é evidentemente falsa. A terceira interpretação é possível, mas não é suficientemente severa.A quarta interpretação é possível, mas não resolve o problema de como reconciliar diversos trechos bíblicos que dizem respeito à questão. Naturalmente que essa reconciliação não é absolutamente necessária, mas, sempre que possível, deve-se procurar tal harmonização. A quinta e última dessas interpretações é a mais provável. Conforme essa quinta interprétação, a severidade da advertência é retida quanto à sua realidade; mas, ao mesmo 18 M rj8 elç ε α υ τ ό ν έ ζ α τ τ α τ ά τ ω · e t τ ι? δ ο /cet σ ο φ ό ς e iv a t γ έ ν η τ α ί σ ο φ ό ς . ι8 εξαπατατω] (Eph. 5. 6) 3:18: Ninguém se engane a si mesmo; se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para se tomar sábio. Este versículo deixa bem claro que Paulo estava atacando nesta passagem, do princípio ao fim, principalmente os elementos do «partido intelectual», os prováveis imitadores de Apoio, os «mestres» dessa categoria, os quais diminuíam ao máximo a «palavra da cruz» mas davam excessiva importância à habilidade retórica dos sofistas. Paulo acaba de advertir a tais mestres que eles corriam o perigo de perder seu galardão, porquanto, apesar de edificarem sobre o único fundamento, não edificavam corretamente; e assim, a sobrestrutura que levantavam estava prestes a ruir. Mais do que isso, entretanto, se levassem essa atividade a um ponto extremo que tal atividade dividia a comunidade cristã local, corriam eles o perigo de destruírem a habitação do Espírito Santo, o que significa também que, por sua vez, seriam fatalmente destruídos. Ora, era a esse ponto que a sabedoria humana haveria de conduzir aqueles homens, conforme Paulo ensinava. Toda essa questão era motivo de grande desgosto para ele. Foram os sábios e os príncipes deste mundo que provocaram a morte de Cristo, não tendo reconhecido nele o Príncipe da Glória. (Ver I Cor. 2:6-8). A sabedoria deste mundo é passível de destruição, sendo considerada como nada aos olhos de Deus (ver I Cor. 1:19). Além disso, é a «sabedoria dos homens» que realmente leva os homens a não perceber a verdadeira sabedoria de Deus, manifestada na pessoa de Jesus Cristo. (Ver I Cor. 1:21,30). Outrossim, pouquíssimos daqueles que são os «sábios deste mundo» são indivíduos «eleitos» e realmente «chamados» pelo Senhor (ver I Cor. 1:26). Bem pelo contrário, Deus tem feito uso daqueles que são o extremo oposto desses homens mundanos, formándo a sua igreja com os humildes, com os que nada são, a fim de manifestar a todos os verdadeiros crentes, a verdadeira sabedoria de Deus, a saber, Cristo (ver I Cor. 1:27,28). Uma parte da razão dessa ação divina é que nenhuma carne será jamais capaz de «gloriar-se» na presença de Deus, porquanto ninguém será jamais tão digno que possa fazer tal coisa. (Ver I Cor. 1:29). Paulo havia dado um exemplo oposto a essa atitude, mostrando-se um humilde representante do Cristo crucificado, entre os crentes de Corinto, tendo abandonado completamente a retórica dos sofistas, mas antes, tendo pregado a mensagem simples da cruz. (Ver I Cor. 2:2-4). Como tal, entretanto, através do poder do Espírito Santo, Paulo também descreveu a real e autêntica sabedoria de Deus, os mistérios, conforme os mesmos são vistos e exibidos, dos quais também participamos, na pessoa de Jesus Cristo. (Ver I Cor. 2:7-11). Tais coisas, entretanto, não são entendidas pelo homem natural (ver I Cor. 2:14 e ss), parecendo elas também obscuras para o homem «carnal», apesar deste último ser um crente (ver I Cor. 2:16- 3:4). Foi nesses termos que Paulo expôs a questão da sabedoria deste mundo e dos seus representantes. E agora Paulo mostra que suspeitava que certos elementos que faziam parte da classe dos «intelectuais», na igreja de Corinto, haviam sido completamente dominados pela sabedoria que tempo, não precisamos eliminar outros trechos bíblicos que se referem aos propósitos divinos para com todos os crentes, como propósitos eternos e imutáveis. Assim sendo, um crente pode sofrer um julgamento severo, ao mesmo tempo que, ao longo do caminho, pode vir a perder-se. Mas, em algum lugar dessajornada Deus haverá de trazê-lo de volta, cumprindo nele todas as promessas centralizadas na pessoa de Cristo. Temos de postular, desse modo, uma espécie de mundo espiritual «intermediário», a exemplo do que faziam os pais alexandrinos da igreja. Os destruidores não devem ser distinguidos dos construtores «sem sabedoria», os quais erguem erradamente o edifício espiritual sobre os alicerces. Antes, os construtores «sem sabedoria» podem tornar-se «destruidores»; e é exatamente contra isso que o apóstolo dos gentios dirigiu sua severa advertência. Quantos daqueles que fazem parte das dissensões eclesiásticas chegam a considerar esse aviso? Certamente que nenhum deles chega a pensar seriamente sobre o mesmo. Os construtores sem sabedoria podem perder seu galardão, escapando como que através do fogo (ver o décimo quinto versículo deste capítulo); e castigos ainda mais severos podem sobrevir aos tais. Isso é o que Paulo parece ter dito neste ponto, sem ter entrado na discussão do que será esse julgamento. É verdade, porém, sem importar o sentido exato, que o presente versículo fala de alguma forma mais mortífera e destruidora de «erro» do que aquilo quejá tivera lugar em Corinto; mas ele antecipou definidamente a possibilidade real que o espírito faccioso que havia na igreja de Corinto poderia terminar por destruir a igreja, a habitação do Espírito Santo; e aqueles que fizessem parte dessas atividades dispersivas, até esse pònto extremo, seriam sujeitos ao juízo aqui mencionado. A destruição se segue à corrupção de algumas coisas «santas» de Deus; mas isso provoca o tratamento mais severo da parte do Senhor. «Os cristãos são santos por profissão, e deveriam ser puros e limpos, tanto no coração como em seu comportamento exterior. Deveríamos abominar de todo o coração, evitando cuidadosamente, tudo quanto venha a tentar contaminar o templo de Deus e prostituir aquilo que deve ser mantido sagrado para ele». (Matthew Henry, in loc.). A palavra «destrui!·» ou «contaminar», neste contexto, no que diz respeito ao dano feito contra á igreja cristã, não deve ser limitada em seu alcance às atividades facciosas dos crentes de Corinto, embora essa seja, mui provavelmente, a principal referência, conforme o contexto geral desta passagem, a começar pelo primeiro versículo deste capítulo, parece indicar­ e i ύμ ,ΐν ev τ ω α ΐώ ν ι τ ο ύ τ ω , μ ω ρ ό ς γ € ν € σ θ ω , ί'να απατ. kgvois Aoyots D pç caracteriza esta era, que assinala a cultura humana pagã. E a sobrestrutura da igreja de Corinto estava sendo levantada por alguns mestres cristãos com tal material. Mas não demoraria muito que esses destruidores da unidade cristã viessem a destruir a si mesmos. (Ver I Cor. 3:17). Paulo declarou tudo isso a fim de mostrar quão gratide é a vantagem ganha pelo crente que desiste da sabedoria mundana, que se aferra à sabedoria encontrada somente na pessoa de Cristo, assim se tornando um «louco», aos olhos dos sábios deste mundo, mas sendo considerados «sábios» aos olhos de Deus. Paulo, pois, deixa patenteado que não estava impressionado com a apregoada sabedoria daqueles homens; e assim conclama os crentes de Corinto a rejeitarem o caminho detrimente que haviam escolhido, voltando à simplicidade que há em Cristo Jesus. «...estulto...» Existe uma forma de simplicidade que deve ser desejada pelos crentes, a saber, a simplicidade que há em Cristo, a qual reconhece o valor da revelação divina, ainda quando esta não tem qualquer comprovação empírica. Ver o trecho de I Cor. 1:21, onde a «loucura» da pregação é mencionada. Para os gregos, a «palavra da cruz» era uma insensatez; e disso concluímos que o partido dos intelectuais, que havia em Corinto, de conformidade com a sabedoria mundana, fazia tudo quanto estava ao seu alcance para evitar a prédica de Cristo crucificado, provavelmente preferindo vários temas supostamente elevados, que giravam em torno de «mistérios», mas sem realmente abordarem os verdadeiros mistérios de Cristo, conforme Paulo menciona em I Cor. 2:7. A passagem de I Cor. 1:25 mostra-nos que a «loucura de Deus» é mais sábia do que os homens. E essa sabedoria divina, que os homens reputam loucura, é a mensagem concernente a Cristo (conforme lemos em I Cor. 1:23), o qual é, na realidade, o poder e a sabedoria de Deus (ver I Cor. 1:24,30). Outrossim, os «loucos», isto é, aqueles que são desprezados pelos indivíduos mundanos, apesar de serem pessoas humildes, são aqueles que se tornam eleitos de Deus. (Ver I Cor. 1:27,28). Essas diversas referências bíblicas mostram claramente o que Paulo entendia com o vocábulo «estulto». Paradoxalmente, o estulto é o que aceita a sabedoria de Deus, ou seja, a pessoa de Jesus Cristo, a sua mensagem, a sua cruz, os seus mistérios, ao invés de dar acolhida à propalada sabedoria que é apenas «século», isto é, característica dos homens destituídos da iluminação divina. Quando assim se torna um tolo, um homem realmente se toma sábio, isto é, assume o conhecimento da sabedoria de Deus, e começa a participar pessoalmente da natureza de Cristo. E é assim que o crente obtém a sabedoria celestial, a iluminação divina. (Quanto à questão da iluminação espiritual, ver as notas expositivas sobre I Cor. 2:10,11. Nesses versículos Paulo emprega oxímoros. Ver I Cor. 1:21,25 quanto a outros exemplos da mesma natureza). «A presunção oca pode levar os homens a manusearem deslealmente o povo de Cristo. Que há uma tendência ‘sacrílega’ no espírito faccioso é algo ilustrado nos trechos de Gál. 5:7-12; 6:12,13; II Cor. 11:3,4,13-15,20. E a situação aludida nessa referência da epístola aos Gálatas talvez seja a que estava na mente do apóstolo, quando escreveu as palavras que ora
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    I CORÍNTIOS 53 comentamos,as quais têm uma dupla conexão, a saber, com os versículos dezesseis e dezessete, e com a secção seguinte». (Robertson e Plummer, in loc.). «Os homens não podem pensar em serem sábios em ambas as esferas ‘na espiritual e na mundana’. Os sábios da igreja são os loucos para o mundo, e vice-versa. A cruz é uma ‘moria’ (insensatez) para o mundo; e aquele que a defende é um ‘moros’ (insensato). Para o mundo tal pessoa é um ‘criminoso’, como seu Senhor. E só pode uma pessoa ser um sábio cristão—um sábio segundo os termos de I Cor. 2:8 e ss.—sob a condição de suportar esse opróbrio...Paulo era um desvairado aos olhos do mundo (ver I Cor. 4:10; II Cor. 5:13 e Atos 26:24); mas como ele era sábio entre nós! Pode-se comparar isso com o paradoxo citado por Cristo, de alguém que ‘perde’ sua vida a fim de ganhá-la». (Findlay, in loc.). 19 ή γάρ σοφία τοΰ κόσμου τούτον μωρία τταρα σοφούς έν τη πανουργία αυτών· 3:19: Porque α sabedoria deste mundo έ loucura diante de Déus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; Este versículo reitera essencialmente a mensagem de I Cor. 1:19,21,25, 27. Neste ponto encontramos a explanação do paradoxo que Paulo acabara de apresentar. Aquilo que parece ser uma demonstração de sabedoria, transmuta-se em mera insensatez, quando é sujeito à ação perscrutadora de Deus, a qual transcende grandemente o que é humano; e, vice-versa, o que é reputado como «insensatez» perante o mundo, a saber, a palavra sobre Cristo, na realidade constitui poderosíssima mensagem, prenhe da sabedoria de Deus, porquanto a mesma efetua a salvação da alma, algo que a sabedoria mundana jamais poderia fazer.Isso é uma repetição, em termos levemente diferentes, e de forma abreviada, da mensagem central do trecho de I Cor. 1:18 e ss.,e, sobretudo, dos versículos citados acima. «...diante de Deus...», por ser o Senhor o Juiz e verdadeiro avaliador de todas as realidades espirituais. (Comparar com Rom. 2:13; 12:16 e Atos 26:8). Paulo mostra-nos aqui «por qual motivo» a sabedoria do mundo deve ser renunciada por todos os crentes.O motivo desse repúdio é que tal sabedoria é considerada uma «loucura» por Deus, e por conseguinte, é uma insensatez em sua natureza essencial, embora seja reputada como algo bem diferente pelos homens mundanos. Ora, aquilo que é uma insensatez real, sobretudo devido ao fato que só produz divisões no seio da igreja cristã, que deve ser una, precisa ser renunciado por todos os crentes sérios. O julgamento de Deus deve ser reputado como algo sério e decisivo contra a classe dos «intelectuais» no seio da igreja cristã. E Paulo cita trechos bíblicos a fim de comprovar o que diz. «Trata-se de uma sabedoria governada pelo espírito deste mundo, que ultrapassa aos seus próprios limites, que procura satisfazer a si mesmo acerca das realidades divinas e humanas, maculada que é pelo erro; e, desse modo, coloca-se em oposição direta tanto à razão mais elevada como a Deus, bem como aos grandes objetivos por causa dos quais o mundo e os homens foram criados», (Osiander, in loc.). «...está escrito...» Essa é uma frase freqüentemente usada nos escritos de Paulo, incluindo esta epístola. Encontra-se neste livro em I Cor. 1:19,31; 2:9; 3:19; 4:6; 9:9,10; 10:7,11; 14:21; 15:45,54. Na epístola aos Romanos é empregada por nada menos de dezessete vezes. (Ver as notas expositivas sobre Rom. 3:10 quanto ao uso dessa expressão nessa epístola aos Romanos). Nas epístolas aos Gálatas e II Coríntios essa frase também é usada com freqüência, aparecendo ela também por algumas outras vezes nos demais escritos de Paulo. Com o emprego dessa expressão, Paulo vincula a sua mensagem a muitos aspectos importantes do A.T., assim escudando seus ensinamentos apostólicos naqueles documentos do antigo pacto, ao mesmo tempo que dá prosseguimento à revelação expressa no novo pacto à mesma coisa, o que é uma idéia comum entre os escritores neotestamentários. Isso subentende, naturalm ente, que o prometido Messias do A.T. é o Senhor Jesus do N.T., ainda que Paulo não aborde diretamente essa questão neste ponto. (Quanto a uma nota de sumário sobre a «missão messiânica de Jesus», uma tese constantemente defendida nas páginas do N.T., ver João 7:45). Nesta referência particular, Paulo queria que os seus leitores tivessem a consciência do fato de que aquilo que ele ensinava no tocante à sabedoria mundana não era nenhuma novidade, mas antes, refletia o quejá havia sido revelado nas Escrituras do A.T. A citação aqui utilizada pelo apóstolo dos gentios é extraída do trecho de Jó 5:13, de acordo com a versão da Septuaginta, embora com leve variação no fraseado, em relação ao original hebraico. Os versículos onze, doze e catorze deste mesmo capítulo dão apoio ao argumento geral apresentado por Paulo, não meramente no décimo terceiro versículo; e a leitura desses vários versículos citados nos dá a interpretação do que Paulo quis dizer neste ponto. (Quanto ao método paulino de citação de trechos do A.T., algumas vezes com consideráveis variações, porque os adaptava a seus propósitos, ver as notas expositivas sobre Rom. 10:6). O livro de Jó é citado somente neste ponto e em Tia. 5:11, em todo o volume do N.T. Portanto, Paulo e Tiago ap.rovam esse livro como «canônico». O «Canon» das Escrituras hebraicas ainda não havia sido fixo nos tempos apostólicos. Assim é que os saduceus geralmente aceitavam somente o pentateuco, ao passo que os fariseus aceitavam o pentateuco, os «‘Ninguém se engane a si mesmo...’ O partidarismo excitado pode levar os seus membros a se excitarem até a um ponto de frenesi pio hipnotizando-se com a sua própria suposta devoção â verdade...A falsa sabedoria do mundo (ver I Cor. 1:18-20,23 e 2:14), que é uma autopresunção, tem provocado muitas contendas e querelas». (Robertson, in loc.). «Se qualquer de vós se considera sábio, que não tenha o escrúpulo de ser um insensato, na opinião deste mundo, para que possa ser realmente sábio». (Grotius, in loc.), que apresenta assim a idéia geral com a qual concorda a maioria dos intérpretes, no tocante a este versículo). «Corremos o grande perigo de nos enganarmos a nós mesmos, quando fazemos opinião exageradamente elevada da sabedoria e das artes humanas». (Matthew Henry, in loc.). τψ 0eâ> io T tv γέγρα πτα ι γάρ, Ό δρασσόμενος τούς 19 Ό δρασσόμενος...αντω ν Job 5.13 salmos e os profetas (o mesmo «cânon» protestante do A.T., hoje em dia); e o judaísmo fora da Palestina aceitava os livros todos que aparecem na versão da Septuaginta (tradução do original hebraico do N.T. para o grego, completada em cerca de duzentos anos antes da era cristã», que também incluía os livros apócrifos do A.T., a maioria dos quais livros tem sido aceita pela Igreja Católica Romana, a partir da contra-reforma, já em meados do século XVI. O sentido geral da citação aqui feita por Paulo, segundo o comentário de Alfdrd (in loc.), é o seguinte: «Se Deus usa a astúcia dos sábios, como uma rede para apanhá-los na mesma, tal sabedoria é a mais refinada insensatez aos seus olhos, porquanto Deus com ela os confunde». E o tema geral do primeiro capítulo desta epístola mostra-nos que Paulo via a «sabedoria deste mundo» como uma farsa, como uma entidade jalsa, porquanto jamais se verificou a salvação de uma única alma por intermédio dela, e nem ela jamais penetra nos mistérios de Deus. Foi através da sabedoria mundana, além disso, que o mundo não veio a conhecer a Deus. Essa sabedoria serve de obstáculo, e não de trampolim, impedindo que os homens venham a conhecer a realidade das coisas divinas. Este mundo vil seria amigo da graça, Ajudando-me a prosseguir para Deus? (Isaac Watts). A sabedoria mundana, por conseguinte, torna-se uma espécie de «armadilha» para os seus mentores e seguidores, e não uma ajuda (ver I Cor. 1:21). E Deus se utiliza dessa armadilha a fim de exibir perante os homens a própria insensatez deles, embora jamais o faça como quem quer desprezar, porque a finalidade de Deus, em tudo isso, é atrair os homens a si mesmo, a fim de que, finalmente, venham a depositar a sua confiança em Jesus Cristo. Foi a sabedoria mundana que levou os homens a crucificarem o Senhor da Glória (ver I Cor. 2:8); e isso para detrimento de todos os sábios deste mundo; e assim a sabedoria de que os homens se jactam se tem transformado em um empecilho para eles mesmos. Deus permite que isso aconteça a fim de que possa mostrar claramente aos homens no que consiste a verdadeira sabedoria, a qual está concentrada no Salvador, o Senhor Jesus Cristo. (Ver I Cor. 1:30). A «armadilha» que Deus arma para tais homens, portanto, bem como a «confusão» na qual ele faz com que os homens caíam, têm uma finalidade não apenas retributiva, como se tudo fossè apenas o castigo contra as maldades humanas, mas também tem uma natureza remidora; pois, de certa maneira, Deus faz assim os homens se voltarem para Cristo, uma vez que reconheçam a insensatez inerente e a confusão envolvida nos esforços humanos por compreenderem as realidades divinas através da sabedoria deste mundo. «...Ele apanha...» Temos no original, neste ponto, um verbo que significa «agarrar com as mãos», embora no grego se usasse tal palavra para indicar a função de uma rede de pesca. A própria sabedoria mundana, que os incrédulos pensam ser o motivo de sua libertação da ignorância, o seu caminho de liberdade, transforma-se na arm adilha que os apanha e confunde. Esse é o ponto de vista divino sobre a sabedoria humana. «...astúcia...», isto é, «habilidade versátil», «prontidão» para fazer qualquer coisa, a fim de ganhar a razão em um debate, para obter o prêmio ou alvo colimado. No_original grego, essa palavra podia ser utilizada em bom ou mau sentido. É evidente que Paulo usa aqui esse vocábulo para dar a entender um tipo de sabedoria mundana, aplicada para propósitos perversos. Na referência original do livro de Jó, encontramos Elifaz a falar contra os sábios políticos deste mundo, os quais com freqüência ficam desapontados com seus próprios propósitos astuciosos, não podendo concretizar eles seus planos cuidadosamente traçados; antes, os seus esquemas bem arquitetados ruem por terra, e eles mesmos sofrem dano, a despeito de toda a sua astúcia. Paulo aplica isso a todos os sábios segundo este mundo, mas é bem provável que estivesse pensando particularmente sobre os heróis eleitos pela classe dos «intelectuais» da igreja de Corinto, os filósofos sofistas, que sempre se preocupavam muito mais com a eloqüência retórica do que com a inquirição séria da verdade. De fato, os sofistas gregos haviam abandonado inteiramente a verdade, julgando ser esse um alvo impossível de ser obtido. Em lugar disso, haviam posto os valores utilitários, pragmáticos, pensando que aquele que pode expressar-se bem e eloqüentemente, sem importar se defende a verdade ou a mentira, é aquele que leva a vantagem. 20 καί πάλιν, Κύριος γινώσκει τούς διαλογισμούς των σοφών δτι είσίν μάταιοι. 2ο Κύριο·:...μάταιοι Ρβ μ .ι ι 20 σοφών] (Ps. 94· 10 ανθρωπων 33 6X4 al vgP° 3:20: e outro vei: 0 Senhor conhece as cogitações dos sábios, que são vãs. afirmava. Esta segunda citação é tirada do trecho de Sal. 94:11, de Paulo lança mão de uma segunda citação, a fim de comprovar o que conformidade com a versão da Septuaginta. Tanto no original hebraico
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    54 I CORÍNTIOS comona versão da Septuaginta encontramos a palavra «homens», ao invés de «...sábios...», como aqui. E isso dá o seguinte resultado: «...os pensamentos dos homens, que são pensamentos vãos...» Paulo adapta o original, a fim de cumprir os seus propósitos, embora, neste caso, não modifique o sentido da passagem citada, porquanto aquilo que é dito sobre os homens em geral, pode ser aplicado também para os sábios. (Ver o trecho de Rom. 10:6, onde há comentários sobre o método paulino de citação de passagens do A.T.). Deus tem seu modo de avaliar a sabedoria humana, declarando vãos os pensamentos dos homens. A sabedoria de Deus (que é personificada em Jesus Cristo, em sua missão remidora) pode parecer uma insensatez para as mentes sofisticadas; no entanto, é por ela que a salvação é conferida à alma humana. O homem, alienado de seu próprio verdadeiro ‘eu’ mais elevado, e alienado de Deus, em seu longo desvio para longe do Senhor, tem inventado suas próprias formas de sabedoria, tem tido os seus próprios pensamentos inúteis. Os oponentes do apóstolo Paulo exaltavam a filosofia dos sofistas gregos. Quão distanciados de Deus estavam! Quão vãs eram as suas doutrinas! Quão humana e mundana, quão privada de sabedoria autêntica era a doutrina deles! Portanto, quão grande era a insensatez desses homens e sua sabedoria, aos olhos de Deus! Mediante tais esclarecimentos, pois, o apóstolo dos gentios desejava alertar os crentes para que não seguissem a tais líderes. Eles já haviam causado muitas perturbações na igreja de 21 ώστε μη8είς κανχάσθω iv ανθρώπους' πάντα 3:21: Portanto ninguém ι· glorie no* homens; porque tudo é vosso; Com essas palavras pode-se comparar o trecho de I Cor. 1:29. Nenhum homem pode gloriar-se na presença de Deus. A ufania em si mesma não é atitude apropriada para os crentes; pois os crentes, mais do que quaisquer outros homens, sabem qual é a verdadeira avaliação dos homens, sabendo também que toda a glória pertence ao Senhor. Tal ufania só é legitima quando tem por centro o Senhor, quando todo o louvor é dado exclusivamente a Deus. Isso é o que Paulo já havia dito, na passagem de I Cor. 1:31. A leitura dessas duas referências fornece-nos o desenvolvimento de toda a questão da ufania apropriada,e da ufania que não convém aos crentes. No versículo que ora comentamos encontramos uma forma imprópria de ufania, porque o sistema da graça divina, em contraste com os sistemas legalistas, exclui toda a jactância humana, visto que tudo é nosso, que tudo nos foi «dado». Nada é produto de nosso próprio engenho e esforço. (Ver o trecho de Rom. 3:27 e as notas expositivas ali existentes sobre esse tema). Na epístola aos Romanos, Paulo confronta e contrasta o sistema da graça divina com o sistema legalista. Neste ponto, entretanto, ele mostra que a sabedoria mundana produz o péssimo efeito de promover a glória humana. Os crentes que se estribavam na sabedoria humana exaltavam homens como Paulo, Pedro, Apoio ou algum outro mortal. Tinham escolhido alguns heróis, aos quais veneravam até certo ponto, ao invés de adorarem exclusivamente a Deus. Esse foi um dos maus resultados do espírito faccioso dos crentes da igreja de Corinto. E isso faziam com prejuízo da glória verdadeira de Cristo. Paulo, pois, faz aqui objeção a esse furto. Uma ação dessas só poderia mesmo ser arquitetada por mentes carnais, destituídas de um verdadeiro conhecimento da sabedoria de Deus, que havia sido substituída pela sabedoria deste século, que é chã e passageira. «...porque tudo é vosso...» O versículo seguinte expande essa declaração simples. De modo geral, Paulo quis dizer que, em Cristo, dispomos de uma vasta e celestial possessão; cada um de nós, os remidos, se tornou' fabulosamente rico. Os mestres cristãos, por conseguinte, nos pertencem, e são dons de Deus para nós. (Acerca desse tema ver o trecho de Efé. 4:7 e ss.). Todas as «pessoas dotadas» são dadas à igreja de Cristo como «presentes», para benefício da mesma. Ora, posto que os mestres cristãos nos pertencem, fazendo parte de nossa herança, ao mesmo tempo que não somos nós que pertencemos aos mestres, como nos poderíamos gloriar deles? Gloriemo-nos antes do «doador» de todos os dons perfeitos e bons, a Corinto, tendo-a dividido em várias facções. Quando muito, eram crentes carnais, e não crentes verdadeiramente sábios em Cristo Jesus. A vaidade da sabedoria humana transparece particularmente no fato que enfatiza apenas o corpo, esquecendo-se inteiramente da alma, do homem essencial. E quando essa sabedoria humana especula acerca da alma, e chega a asseverar corretamente a sua existência, ainda assim não dispõe de uma explanação real sobre o seu destino. E até mesmo nos casos raros em que compreende que a alma terá um destino, não dispõe de nenhum recurso que lhe permita saber como esse destino pode ser alcançado. A sabedoria de Deus, bem ao contrário disso, frisa corretamente o que deve ser ressaltado, asseverando a existência da alma, descrevendo o seu destino e esclarecendo como esse destino pode ser alcançado, além de mostrar o que tudo- isso significa. O trecho de Rom. 8:29 é uma passagem bíblica que esclarece bem no que consiste esse destino, onde também o leitor deve examinar as notas expositivas a respeito. «.. .pensamentos vãos...», isto é, pensamentos aos quais falta a verdade vital e essencial, pensamentos que importam em uma interpretação pervertida das realidades da vida, em contraste violento com a sabedoria de Deus, revelada na pessoa de Cristo, que é uma verdade essencial e pura, oferecida aos homens. Essa sabedoria divina, se for seguida fielmente, redunda na salvação da alma humana. γαρ νμων eoriv, saber, Deus Pai, o «...Pai das luzes...» (ver Tia. 1:17). Nessas palavras, «...tudo é vosso...», encontramos a declaração da dignidade de todo o verdadeiro crente. Quando da criação, Deus deu ao homem o senhorio sobre o mundo físico. No entanto, perdeu esse privilégio quando da queda no pecado. Porém, sendo redimido em Cristo, o homem recupera esse senhorio, embora agora de ordem ainda mais elevada, porquanto todos os remidos serão finalmente elevados até à própria estatura de Cristo. (Ver II Cor. 3:18 e Rom. 8:29). E assim o crente se tomará «...a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas» (Efé. 1:23). Ora, já que todo o crente individual virá a ser assim exaltado, então certamente é um erro terem os crentes «heróis» aos quais admirem indevidamente. Porquanto todos os líderes cristãos são homens como nós, destinados a serem transformados segundo a imagem de Cristo. Tais líderes são meros inquiridores, que ainda não atingiram o alvo colimado. E mesmo que já tenham avançado mais do que nós, pelo Caminho afora, nem por isso podem servir de substitutos do Senhor Jesus Cristo, o qual é o único pioneiro e capitão da nossa salvação. O jactar-se o crente em outro, em algum líder de qualquer facção, é «degradar» tanto ao crente comum, que assim aceita a outro homem como seu «herói», embora esse outro homem não seja basicamente diferente do que aquele que o exalta, como também é degradar a dignidade de Jesus Cristo, que é o único que merece e que pode exigir com justiça ser exaltado pela igreja cristã ou pelo mundo. A «autoglorificação», que era uma das principais ocupações daqueles líderes facciosos da igreja de Corinto, não é diretamente mencionada neste ponto; mas desse erro participavam também os que se entregavam à censura, motivo pelo qual também devem ser incluídos na reprimenda de Paulo. «...Portanto...» Palavra que vincula a mensagem do presente versículo tanto com o que antecede como com o que se segue. E isso porque a sabedoria humana nada é, sendo reputada como algo inútil pela avaliação divina, razão pela qual nenhum crente deve gloriar-se no mero homem. E, em segundo lugar, porque todas as coisas nos pertencem. Portanto, possuímos uma elevada dignidade, sendo algo que não nos convém nos gloriarmos no homem, o qual é apenas um inquiridor de Deus juntamente conosco. O espírito de partidarismo, por conseguinte, é visto aqui como uma forma sutil de autodegradação, para nada falarmos sobre a degradação de Cristo nisso envolvido. 22 eíVe Π αΰλος είτε ’/Ι-πολλώ? είτε Κ-ηφάς είτε κόσμος ctre ζωή μέλλοντα, πάντα ίιμών, ε ίτ ε θάνα·τος ειτε ενεστώτα είτε 3:22: sejo Poulo, ου Apoio, ου Cefas; seja ο mundo, ου a vida, ου a morte; sejam as coisas presentes, ou as vindouras, tudo é vosso, Com a presente lista dasrcoisas que nos pertencem, podemos comparar a lista das coisas que não nos podem separar de Cristo, conforme se lê em Rom. 8:38,39. Existem diversas duplicações. O apóstolo dos gentios não tenta apresentar-nos uma lista completa das bênçãos que possuímos em Cristo Jesus, mas antes, emprega alguns termos bem amplos, que têm por intuito ser todo-inclusivos, visto que ninguém pode fazer uma estimativa dos tesouros que temos em Cristo, como também ninguém pode fazer uma descrição exata sobre os mesmos. «...Paulo... Apoio... Cefas...» Esses eram os mestres cristãos que haviam sido escolhidos como «heróis» pelas diversas facções existentes na igreja cristã de Corinto. No entanto, esses mestres eram presentes de Deus para aquela comunidade cristã (ver Efé. 4:7 e ss.). A igreja de Cristo não pertencia a eles, mas, pelo contrário, pertencia a Cristo. Gloriar-se um crente ou um grupo de crentes em um mero homem qualquer é dar a entender que esse homem é o grande benfeitor, a origem da vida eterna ê do bem-estar espiritual. No entanto, nenhum daqueles três líderes menciona­ dos apresentara jamais qualquer reivindicação de representar tal coisa para a igreja cristã. Eles mesmos eram inquiridores, como o são todos os demais crentes, sendo instrumentos na mão de Deus, que o Senhor utilizava para que se concretizassem os alvos da vida cristã. Deveriam ser seguidos somente naquilo em que também estivessem seguindo a Jesus Cristo, encaminhando os crentes para os pés do Senhor, ao invés de serem glorificados como se fossem o alvo na direção do qual devem avançar os remidos. «Os crentes de Corinto vinham afirmando a sua lealdade aos homens. Essa atitude deveria ser revertida. Os mestres pertenciam a eles, e não eles aos mestres. Portanto, não havia necessidade de se limitarem a um só mestre. A comunidade cristã precisava tirar proveito do que todos tivessem com que contribuir. Se o apóstolo Paulo tivesse podido olhar para os séculos vindouros, como não teria ampliado aquela lista, condenando àqueles que agora dizem: ‘Eu pertenço a Lutero, ou a Calvino, ou a Wesley, ou a Campbell, ou a algum outro grande servo da igreja de Cristo... ‘...tudo é vosso...’ Mas Paulo não incluiu qualquer figura fora do grupo apostólico, como Sócrates, Platão, Aristóteles ou Psidônio. Teria sido um lapso seu, ou agiu assim propositadamente? Seria isso evidência da ignorância, da estreiteza de Paulo, ou seria a sua concentração para com os crentes, a todo o tempo, conforme devem ser as coisas?» (C.T. Craig, in loc.). A Responsabilidade Dos Líderes 1. O primeiro dever deles é estabelecer um claro exemplo de ação. Que eles sejam seguidores de Cristo, em quem a sua vida está sendo vivida (ver I Cor. 10:1). 2. Dediquemos nossas vidas à pessoa de Cristo. Aprendamos qual seja a missão que Deus determinou para nós, e cumpramos a mesma com todas as nossas forças (ver Rom. 12:1,2).
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    3. Os líderesdeveriam ser mestres, e não meros evangelistas (ver Mat. 28:19,20 e I Ped. 5:2). 4. Os líderes deveriam ser pastores (ver Jer. 23:4), e não ditadores (ver I Ped. 5:3). 5. Deveriam ser homens diligentes (ver Heb. 13:17). a. Cristo nos deixou o grande exemplo de diligência (ver Luc. 2:49). b. Esforcemo-nos em busca da perfeição (ver Fil. 3:13,14). «...seja o mundo...»Neste ponto é empregado o vocábulo grego «kosmos». (Quanto a um sumário das diversas palavras gregas assim traduzidas no N.T., juntamente com os vários sentidos possíveis de «kosmos», ver as notas expositivas sobre o trecho de João 1:10). Sim, o mundo é nosso. O mundo existe a fim de servir-nos, até mesmo quando, aparentemente, ele só nos dá tristezas. A passagem de Rom. 8:20 mostra-nos que até mesmo a «vaidade» ou inutilidade do mundo, o seu caos aparente e real, cooperam para a salvação da humanidade, pois, através de tais condições somos forçados a depender de Cristo Jesus. A esfera terrena inteira, portanto, de alguma maneira, segundo o plano divino, coopera juntam ente para o nosso bem. (Ver Rom. 8:28). Pois, dentro das circunstâncias terrenas, o plano divino a nós relativo encontra concretização parcial. Os crentes recebem a certeza de que, finalmente, sair-se-ão vencedores sobre a maldade que há no mundo. (Ver I João 5:4). Aquele que é nascido de Deus, vence o mundo, e isso mediante a fé. Alguns intérpretes acreditam que a palavra «mundo», usada neste ponto, conforme sucede com freqüência, indica_ este perverso sistema mundano, um poder adversário do cristianismo. É provável que essa idéia esteja inclusa aqui, mas isso não esgota tudo quanto Paulo quis dizer com essa palavra. Antes, tal termo, no original grego, é muito amplo. A nós é dado compreender que a despeito de tudo quanto esta esfera terrena puder nos dar, não poderá separar-nos de Cristoj mas o efeito dessas tensões do mundo é justamente o contrário disso. Ê então que podemos encontrar a Cristo, pois o seu evangelho saiu até aos confins da terra, e encontrou até mesmo a nós. É bem provável, por conseguinte, que o vocábulo «mundo» seja usado neste versículo sem qualquer significação ética, dando a entender o universo físico e todas as coisas ali contidas. Os crentes estão destinados a ser, finalmente, os herdeiros do mundo (ver Mat. 5:5), havendo eles de ser também os governantes da terra durante o reino milenar de Cristo (ver Rom. 4:13 e Apo. 5:10). Está aqui em vista, portanto, o mundo em face da redenção; porquanto é aqui focalizado até mesmo o nosso bem-estar espiritual. Assim sendo, o mundo existe para nós e nos serve. (Ver os trechos de Sal. 8; I Tim. 2:2-4; 4:8 e 6:17). Existem outras interpretações sobre apalavra «mundo», aqui empregada, mas que certamente são interpretações incorretas, a saber: 1. Alguns pensam que se trata do mundo dos «eruditos», dos sábios, como se esse mundo estivesse subjugado aos crentes. 2. Outros pensam que está aqui em foco o conhecimento de todas as coisas naturais, nas quais os eruditos se ufanam, mas que, na realidade, não compreendem. 3. Ainda outros pensam tratar-se dos mestres incrédulos, em contraste com os mestres crentes, que acabam de ser mencionados. 4. Finalmente, ainda outros estudiosos pensam que está aqui em foco o restante da humanidade, como se todos os demais homens, de um modo ou de outro, fossem subservientes aos eleitos. Barnes faz a lista de quatro idéias gerais acerca de como o mundo nos pertence: 1. O mundo foi criado pelo Pai de todos nós, e compartilhamos de suas obras e de seus benefícios. 2. O universo é sustentado em sua própria existência por nós. (Comparar essa idéia com o trecho de Col. 1:17). 3. O curso dos acontecimentos providenciais foi determinado visando ao nosso benefício. (Quanto a notas expositivas sobre a «providência de Deus», onde há poesias ilustrativas, ver os trechos de João 7:6; 11:4; Atos 7:9,10; 10:17; 16:10; 25:4 e 27:25). 4. Temos a promessa de que os crentes terão tanto dos bens materiais deste mundo e de seus benefícios quantos lhes forem necessários. (Ver os trechos de Mat. 6:33; Marc. 10:29,30 e I Tim. 4:8). «...seja a vida...·» Temos aqui outro termo lato, que admite certa variedade de possíveis interpretações. Mui provavelmente está aqur em foco, em termos bem gerais, tudo quanto a vida humana, a mortal e a imortal, a física e temporal, a espiritual e eterna, podem conferir-nos. A Vida Nos Serve E É Nossa 1. A vida física confere-nos a oportunidade de avançar espiritualmente, levando-nos a ter contacto com mestres e outros, que nos proporcionam lições necessárias. Ela também nos outorga a oportunidade de aprendermos de Cristo, por meio de quem nos foi dada a vida eterna. 2. A vida espiritual, no presente, manifesta-se através da igreja. Portanto, no meio ambiente da igreja, a vida nos vai servindo. No presente contexto, o que Paulo queria dizer mui provavelmente é isso. 3. A vida física é tanto a entrada para a morte como para a vida vindoura, a saber, a vida da alma além do sepulcro. A salvação torna necessário que esta vida também nos sirva. No reino mortal, a vida de Cristo está sendo formada em nós, à proporção em que vamos sendo transformados segundo a sua imagem. Ora, isso será confirmado, e assumirá um impulso imenso, na vida além-túmulo. (Ver II Cor. 3:18 quanto a notas sobre esse tema). 4. A polêmica: Visto que todas as coisas são nossas, e visto que a própria vida nos serve—incluindo até a morte—que necessidade temos de' gloriar-nos em algum homem, tornando-o nosso herói, desenvolvendo denominações que gravitem em torno de sua influência, de sua memória? Agir assim será destruir a nossa elevada posição na espiritualidade mediante absurdos carnais. Durante o tempo de nossa peregrinação, temos a promessa de que todas as nossas necessidades físicas nos serão supridas, e isso a fim de que, particularmente, abundemos em boas obras de toda a variedade. (Ver II Cor. 9:8). Barnes comenta como segue: «1. A vida é nossa porque os crentes desfrutam dela. Trata-se de uma vida ‘real’, e não de mero espetáculo. 2. A vida é nossa porque seus vários eventos tendem a promover o bem-estar dos crentes, cooperando juntamente para o bem deles». A vida de Cristo visa ao nosso benefício, sem importar se levarmos em conta a sua peregrinação terrena, que nos mostra como devemos andar, ou se levarmos em conta o seu ministério no «hades», mediante o qual ele trouxe a esperança até mesmo para os perdidos. (Ver I Ped. 3:18-20 e 4:6). Também não nos importa se está em vista o aspecto celestial da vida de Cristo, mediante o qu.e ele garante tudo quanto tem feito por nós, conferindo-nos os benéficos resultados de sua missão terrena; ou mesmo se está em vista a sua vida glorificada, da qual o crente deve também participar. (Ver Rom. 8:29,30). Como A Morte Nos Serve 1. Esse será um acontecimento solene, em razão do qual dizemos: «Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio» (Sal. 90:12). 2. A morte física não nos separará de Cristo; pelo contrário, nos levará à sua presença, pois estar ausente do corpo é estar presente com o Senhor (ver II Cor. 5:8). 3. Para o crente, a morte envolve vantagem (ver Fil. 1:21). A morte física livra-nos daquilo que é mortal e terreno, conferindo-nos grande avanço espiritual. 4. Quiçá Paulo também estivesse pensando aqui acerca da morte de Cristo e de como ela nos propiciou a expiação dos pecados e a admissão à vida eterna (ver Rom. 3:25). «Morte, aquela hora solene, tão temida pelos ímpios; tão odiosa para aqueles que vivem sem Deus; ela é vossa. A morte é vossa serva; ela vem como mensageira especial da parte de Deus; ela vem para desfazer um nó que agora liga corpo e alma, e que não nos seria legítimo desmanchar. Ela vem para conduzir as nossas almas à glória; e ela não poderia vir ‘antes’ do seu devido tempo, para aqueles que estão esperando a salvação de Deus. Os santos desejam viver somente para a glória de Deus; e aqueles que querem viver mais tempo do que podem ‘obter’ e ‘fazer’ o bem, não é digno da vida». (Adam Clarke, in loc., que nos dá assim um comentário deveras excelente sobre o papel da morte física para nós). «Amorte de Cristo visava ao benefício deles, por ter sido sofrida em lugar deles, por causa dos seus pecados, apresentando uma satisfação ante a justiça divina, em prol deles; e os benefícios dessa morte passam a ser desfrutados por eles. A morte dos homens bons, dos ministros do evangelho, dos mártires, dos confessores, pertence a eles, servindo para fortalecer a sua fé, para animar o seu zelo, encorajando-os a se aferrarem na profissão de sua fé sem qualquer hesitação. A morte desses é uma bênção para eles, porquanto o ferrão da morte foi retirado para eles por Cristo; a maldição da morte foi removida para eles. Para eles a morte não é uma condenação má; mas antes, é livramento de todas as tristezas e tribulações desta existência terrena, bem como a passagem dos crentes para a glória e a felicidade intermináveis». (John Gill, in loc.). Tememos instintivamente a morte, parcialmente por causa de suas características raciais inerentes, que ajudam a preservar a humanidade mortal. Mas também porque, por baixo disso tudo, a despeito de toda a nossa instrução e erudição, algumas vezes tememos que talvez seja o fim da existência, conforme alguns erroneamente supõem, ou porque pensamos que a morte nos traga alguma desvantagem. Por Que Temer A Morte O homem teme instintivamente a morte. A despeito da fé, a morte abre diante de nós um caminho novo e ainda não experimentado; e os novos começos sempre envolvem algum desconforto e temor. Também tememos o processo da morte física, com as suas dores, com a separação dos entes queridos. Na realidade, porém, a morte não existe, pois tal termo é apenas o nome que empregamos para aludir a uma nova e melhor existência. A vida além-túmulo é um fato bem atestado, que hoje em dia vai sendo demonstrado por estudos feitos em laboratório. (Ver os diversos artigos sobre a «imortalidade», na introdução ao comentário). Naturalmente a doutrina ensinada pelo apóstolo Paulo vai mais longe do que a mera sobrevivência. Ele garantia que nada, durante o processo da própria morte, ou qualquer conseqüência daí decorrente, poderá prejudicar-nos; pois a morte nos pertence e serve de portal para a vida eterna. «...sejam as cousas presentes...» Estão aqui em foco todas as circunstancias existentes, agora conhecidas por nós, nesta vida física. Paulo apresenta aqui a solução para o problema do mal. O mal é perfeitamente real, mas o crente triunfará finalmente sobre o mesmo. (Quanto ao problema do «mal», explicado em seus aspectos natural e moral, ver as notas expositivas sobre o trecho de Rom. 3:8). Está aqui em vista a vida presente, incluindo todas as suas vicissitudes, alegrias, tristezas, vitórias e derrotas. As perdas podem ser quando muito temporárias, e jam ais permanentes, para o crente. Porque a providência de Deus controla todas as coisas. ★ ★ ★ «...sejam as futuras...» O restante de nossa peregrinação terrena está debaixo da proteção do poder de Deus, sendo igualmente orientado pelo 55 I CORÍNTIOS
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    56 I CORÍNTIOS Senhor;e assim as eras infindas da eternidade, que por enquanto nos são futuras, não poderão trazer-nos nenhum dano, mas tão-somente benefícios. Não há que duvidar que a eternidade envolverá muitas surpresas para nós. Também não se pode duvidar que somos meros infantes, quanto ao nosso entendimento acerca da eternidade. Porém, a eternidade não pode reservar para nós uma certa surpresa, isto é, qualquer estado de separação entre nós e o amor de Cristo Jesus, que está em Deus Pai. (Ver Rom. 8:39). A ordem inteira e a economia do mundo eterno estão dirigidos na direção do benefício da humanidade; mas, mais especificamente ainda, visam ao benefício dos filhos de Deus que estão sendo conduzidos à glória. (Ver Heb. 2:10). _______________ 23 ύμβΐς 8è Χ ρίστου, Χ ριστός 8è θβοΰ. 3:23: e vós de Cristo, e Cristo de Deus. «...e vós de Cristo, e Cristo de Deus...» Todas as coisas nos pertencem; mas nós, por nossa vez, pertencemos a Cristo Jesus. Ele é a fonte originária de todo esse nosso bem-estar, de toda a nossa esperança. Somos seus co-herdeiros, no dizer de Rom. 8:17. É por meio de nossa identificação com ele, de nossa transformação segundo a sua imagem, que nossa salvação presente e nossa glorificação futura se tornarão realidades. (Ver Rom. 8:28,29). Fomos escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo (ver Efé. 1:4), predestinados para a adoção de filhos de Deus, por causa do Senhor Jesus (ver Efé. 1:5). Também é em Cristo que fomos aceitos, remidos, enriquecidos, iluminados, selados pelo seu Espírito, e que, eventualmente, receberemos da sua plenitude. (Ver Efé. 1:6-23). Visto que todas as coisas nos foram dadas para nosso aprazimento, para nosso benefício, nós, por nossa vez, fomos dados a Cristo, o que significa que nos será conferida a sua altíssima posição dentro do universo, o que quer dizer, por sua vez, que lhe seremos de benefício. (Ver Efé. 1:10). O nome do Senhor é glorificado em nós, e nós somos glorificados nele e através dele». (Ver II Tess. 1:12). «A relação ativa entre as ‘possessões’, mencionadas no vigésimo segundo versículo (‘tudo é vosso’) e a relação passiva das ‘coisas possuídas’, aqui destacadas (‘e vós de Cristo’), se opõem ambas às desordens que se originam da subserviência dos crentes às autoridades meramente humanas». (Meyer, in loc.). Pode haver, nesses dois versículos finais do terceiro capítulo desta epístola, um ataque indireto ao partido daqueles que se diziam seguidores de «Cristo», na igreja de Corinto, isto é, aquela facção dos que reivindicavam alguma distinção especial como discípulos melhores ou mais espirituais de Cristo. (Ver I Cor. 1:12 e as notas expositivas ali existentes). Paulo, pois, queria que todos os membros desse grupo soubessem que todos os crentes possuem «tudo», e que eles todos, por igual modo, pertencem ao Senhor Jesus. Portanto, não podia haver qualquer facção criada por aqueles que se julgavam discípulos especiais de Cristo, como se estivessem de alguma maneira a servi-lo melhor, separando-se dos outros devido ao seu orgulho exclusivista. Os crentes não pertencem a outro além de Cristo. Não pertencem a Paulo, a Cefas ou a qualquer outro líder; e certamente também não são propriedade de algum grupo faccioso porventura existente no cristianismo. O fato de que todos pertencem ao Senhor e Mestre deveria ser um incentivo à unidade entre os crentes, remidos pelo mesmo sangue de Cristo e regenerados pelo mesmo Espírito de Deus, tendo sido escolhidos desde a eternidade pelo mesmo Deus Pai. «...e Cristo de Deus...» Poder-se-ia defender a verdade do fato que Jesus Cristo pertence a Deus Pai, na qualidade de seu Filho eterno,—através da doutrina bíblica da «geração eterna», porquanto o nome de Deus Pai, na trindade, aparece em primeiro lugar, e é sempre ele considerado a fonte originária e primária de toda e qualquer existência. Em relação a Deus Filho, Deus Pai não ocupa lugar de quem é primeiro quanto à «origem», mas tão-somente no que diz respeito à «relação». Pois o Filho de Deus é «eternamente gerado» pelo Pai. Esse é um colossal mistério, tal como misteriosa é a doutrina inteira da «trindade». Desse modo, pois, o Filho de Deus é considerado como divino, e a sua divindade é eterna. (Ver João 1:1-3). Mas, neste caso, mui provavelmente o apóstolo dos gentios pensava sobre o Cristo quanto ao seu ofício medianeiro, bem como em sua missão, geral, como o Verbo encarnado de Deus. «...tudo é vosso...» Repetição do final do vigésimo primeiro versículo, tendo em vista enfatizar o grande tema que Paulo aqui explora. Paulo acabara de descrever a vastíssima riqueza dos crentes. Toda essa riqueza nos vem em Cristo e por intermédio dele, e não através de algum mestre humano. Nenhum mestre terreno, por conseguinte, pode ser guindado à posição de «herói». E nenhum espírito faccioso pode existir legitimamente no seio da igreja cristã. Tudo isso está abaixo da dignidade dos crentes, os quais não devem prestar respeito exagerado a qualquer outro homem. Toda a glória pertence exclusivamente a Cristo. A unidade dos crentes, em torno dele, é que garante a harmonia entre os crentes e suas igrejas locais. Cristo é de Deus. Como? 1. Do Pai ele deriva seu ofício redentor e sua missão salvadora. Foi Deus quem mandou Cristo ao mundo. (Ver João 3:16). 2. Do Pai ele deriva seu ofício mediatório. (Ver João 14:28, 17:3). 3. Ele recebe sua exaltação do Pai. (Ver Fil. 2:9,10; Heb. 1:9). 4. Seu senhorio universal será estabelecido pelo poder de Deus. (Ver Efé. 1:19-23). 5. Com o Pai, ele é o alvo de toda a vida e de todo o viver. (Ver Col. 1:16 e Rom. 11:36). 6. Ele, como homem, recebeu a vida independente e necessária de Deus e comunica esta vida aos homens que o aceitam em fé, através da ressurreição. (Ver João 5:25,26, 6:57). 7. A aceitação de Deus de Cristo como o Filho, significa a aceitação de todos os homens que confiam nele, porque ele conduz seus irmãos à Glória. (Ver Heb. 2:10). 8. Cristo é o meio através do qual a natureza divina é comunicada aos outros filhos enquanto eles são transformados à imagem do Filho. (Ver Rom. 8:29; Efé. 3:19; II Cor. 3:18; Col. 2:9,10; II Ped. 1:4). 9. Como o Filho ele é subordinado ao Pai. (Ver I Cor. 15:28). «A glória de Cristo, em seu estado ressurrecto e exaltado, foi dada por Deus (Ver Fil. 2:9; comparar com Rom. 6:10), e no fim haverá de mergulhar em Deus (ver I Cor. 15:28)». (Robertson e Plummer, in loc.). «Cristo, em sua natureza humana, é propriedade de Deus tanto quanto qualquer outro ser humano. E, na qualidade de ‘mediador’ entre Deus e os homens, ele deve ser considerado, sob certo prisma, como inferior a Deus; mas, quanto à sua própria natureza, eterna e essencial, não há qualquer desigualdade, mas antes, ele é Deus sobre todos». (Adam Clarke, in loc.). Alguns intérpretes têm pensado que essa subordinação não envolve meramente a natureza humana de Cristo a Deus, mas igualmente o conceito inteiro de Cristo como o Filho de Deus, conforme tal conceito evoluiu devido à encarnação. 10. Essa subordinação também se refere ao estado eterno, pois o Logos se identifica com os homens, compartilhando da sorte deles, sendo ele o perene Pioneiro no tocante ao desenvolvimento espiritual dos mesmos. Esse estado também foi escolhido de moto próprio, e não foi resultado de qualquer inferioridade inerente. Não há que duvidar que isso fica entendido em I Cor. 15:28. 11. Por ser membro da Trindade, o Filho pertence ao Pai, o que alude ao relacionamento e ao companheirismo especial de que desfrutam. Portanto, o Filho é eternamente gerado pelo Pai (o que fala de um relacionamento especial, e não de um começo dentro do tempo). (Ver as notas sobre a «Trindade», em I João 5:7). Em face de tudo isso, pois, temos grandes razões para nos sentirmos confiantes, para nada temermos, para nos enchermos de radiosa esperança, para não temermos a morte. Assim seja a minha passagem! Minha tarefa cumprida e realizado o longo dia, Meu salário recebido, e, em meu coração, Alguma cotovia tardia a cantar. Que eu seja recolhido para o calmo ocidente. Opôr-do-sol esplêndido e sereno, A morte. (W.E. Henley). Capitulo 4 II. O Problema das Divisões Partidárias (I Cor. 1:10- 4:21). 2. Como deve ser julgado um apóstolo verdadeiro: contra os detratores de Paulo, que causavam divisões (4:1-21). Os três capítulos anteriores consistiram, essencialmente, do ataque desfechado pelo apóstolo dos gentios contra os partidos facciosos que tinham surgido na igreja cristã de Corinto, e, sobretudo, de uma polêmica severa contra o partido dos «intelectuais», os quais haviam substituído a «palavra da cruz» pela sabedoria terrena. Nesta secção de sua epístola, que ora iniciamos, Paulo passa a caracterizar um verdadeiro apóstolo, tendo em vista, sem a menor sombra de dúvida, mostrar que ele possuía tais habilitações, mas que essas qualidades faltavam àqueles contenciosos líderes de facções, na igreja de Corinto. Os verdadeiros apóstolos, outrossim, não estão sujeitos aos caprichos daqueles a quem servem, e o seu elevado ofício sob hipótese alguma é maculado pelas críticas feitas pelos crentes carnais. O julgamento autêntico éprerrogativa exclusiva do «Senhor», o único que tem a capacidade de trazer o conhecimento puro à luz. Os verdadeiros apóstolos não se fazem de juizes, nem mesmo de si proprios, servindo de exemplo de humildade para todos os crentes. Ora, isso vinha sendo feito pelo apóstolo Paulo; mas ele mostra ter sérias dúvidas a esse respeito, no caso de seus detratores. Os crentes de Corinto podiam ter dez mil instrutores; contudo, não tinham muitos pais na fé. O apóstolo Paulo era um desses pais, e exigia o devido respeito da parte de seus filhos na fé. Já tinha enviado Timóteo, na tentativa de corrigir os abusos existentes naquela comunidade cristã, mas ele mesmo não demoraria a dirigir-se para ali, se assim fosse da vontade de Deus, a fim de que pudesse cuidar pessoalmente dos muitos problemasque ali tinham surgido e evoluído.Esperava Paulo poder chegar ali
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    com amor emansidão, e não com julgamento; e isso realmente se verificaria, se porventura eles dessem a devida atenção à sua epístola, fazendo as modificações necessárias no seu comportamento. «Tendo assim exibido o título majestático de cristãos em relação a todas as coisas, mostrando os benefícios que são derivados de todos os ministros cristãos, bem como de todos os objetos e acontecimentos no mundo, ele (Paulo) agora se volta para a tarefa de apresentar, como corolário disso, o ponto de vista que aqueles crentes deveriam ter no tocante aos ministros do evangelho, bem como a maneira como deveriam tratá-los; e dessa maneira queria lembrar-lhes certas limitações inerentes às prerrogativas daqueles aquem estavam indevidamente dispostos a honrar». (Philip Schaff, no Comentário de Lange). I CORÍNTIOS 57 4 Οντως ημάς λογιζέσθω άνθρωπος ώς νπηρέτας Χρίστου και οίκονόμους μυστηρίων θβοΰ. 4:1: Que os homens nos considerem, pois, como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus. Tendo apresentado a sua polêmica contra o espírito faccioso, Paulo agora passa a mostrar qual deve ser a atitude certa dos crentes para com os verdadeiros ministros do evangelho, e, em particular, para com ele mesmo, que era um apóstolo autêntico, que tinha apresentado muitas evidências sobre a validade do seu apostolado. Em Corinto havia detratores de Paulo que haviam convencido a alguns dos membros daquela igreja que ele não era verdadeiro apóstolo. O nono capítulo da presente epístola expõe a defesa de Paulo contra essa calúnia. No capítulo que ora iniciamos a comentar, porém, esse apóstolo mostra-nos que tais detratores, ao denegri-lo, tão-somente deixavam de mostrar o devido respeito pela dignidade de seu oficio, que lhe fora conferido pelo Senhor. Isso era apenas um outro resultado negativo do fato de se terem deixado encantar pelos líderes de diversas facções, os quais exaltavam aos homens e se gloriavam no homem. Os ministros autênticos da Palavra de Deus não podem estar sujeitos aos caprichos da comunidade religiosa, e contra esse abuso, Paulo agora fazia objeção firme. A Fidelidade 1. Essa deveria ser uma das características essenciais de todos os crentes professos (ver Efé. 1:1 e Apo. 17:14). 2. A fidelidade se exibe no serviço prestado (ver Mat. 24:45), e na pregação da Palavra (ver II Cor. 2:17). 3. Deveria ser tão geral que incluísse todas as coisas (ver I Tim. 3:11). 4. Não pode haver período de férias no campo da fidelidade (ver Apo. 2:10). 5. Ela redunda em uma espécie notável de bem-aventurança (ver Mat. 24:45,46). 6. Consideremos o exemplo de Paulo (ver Atos 20:20,27). «...ministros...» Paulo substitui aqui o termo grego mais comum, «diakonos» pelo vocábulo grego «uperetes». Originalmente, essa palavra indicava aqueles que mam>seavam a fileira de remos mais inferior de uma trirreme; em seguida veio a significar qualquer pessoa que serve subordinada a outra, um «servo», um «assistente», um «ajudante». O trecho de Luc. 1:2 aplica esse termo grego a qualquer tipo de serviço em que esteja envolvida a «Palavra de Deus». Em tempos posteriores, esse vocábulo passou a ser usado em um sentido técnico, no vocabulário eclesiástico, a fim de denotar os «subdiáconos». Mediante o uso dessa palavra, pois, o apóstolo dos gentios assume sua correta posição como servo de Jesus Cristo. Ele não exalta a si mesmo, como se exigisse ser respeitado devido aos seus próprios méritos; não obstante, não é coisa de pouca monta ser um homem um verdadeiro ministro do grande Rei, o Senhor Jesus Cristo. Tais ministros requerem um respeito verdadeiro da parte daqueles para quem ministram. «...despenseiros...» é tradução do vocábulo grego «oikonomos» (derivado de «oikos», casa, e «nemo», distribuir, determinar), que indica alguém que tinha por função controlar uma casa, determinando a cada qual, os seus deveres específicos. Eram os despenseiros quem controlavam o dispêndio de dinheiro, a compra dos suprimentos e a distribuição dos bens, dentro da casa. Essa palavra também indicava alguém que geria os negócios externos de uma casa; razão também pela qual era aplicada aos oficiais administradores do governo, que manuseavam os fundos públicos e conduziam os negócios em geral do império. Na sociedade antiga, o «gerente» de uma casa, em relação ao seu senhor, era apenas um éscravo. Por essa razão é que era freqüente que escravos de alguma habilidade fossem selecionados para essa tarefa. Perante os demais escravos, entretanto, tal homem possuía elevada posição aos olhos dos quais ele era o «superintendente» ou «chefe» de todas as operações. (Ver Luc.. 12:42 e Mat. 20:8). No terreno das realidades espirituais, Deus ou Jesus Cristo é quem aparece como o grande Senhor (ver I Cor. 3:23), e a casa cristã é a igreja (ver I Tim. 3:15). Os «despenseiros» ou superintendentes estavam encarregados da distribuição dos «mistérios de De'is». Em termos gerais, esses mistérios são.as verdades bíblicas que os pregaoores deveriam ensinar. Sendo assim comissionados para ensinarem as verdades divinas, exigiam o respeito de todos os membros da comunidade cristã. Entre o Senhor e os despenseiros permaneciaainda o Filho (ver I Cor. 15:25 e Heb. 3:6), e todos os «ajudantes» são seus ministros e despenseiros. E esses despenseiros são «distribuidores da graça divina», da mensagem da verdade. «...mistérios...» (Ver as notas expositivas sobre I Cor. 2:7, acerca desse tema; e então sobre Rom. 11:25, onde se expõe o sumário de todos os «mistérios do N.T.»). Paulo alude aqui aos cultos misteriosos, ou, pelo menos, aos primórdios de tal atividade na igreja cristã, introduzida principalmente através do gnosticismo. Os gnósticos contavam com os seus mistérios, suas verdades supostamente divinas mas ocultas, e das quais somente uma elite, os iniciados, podiam saber e entender. (Ver Rom. 11:25 e as notas expositivas ali existentes sobre os «cultos misteriosos». Ver Col. 2:18, acerca do «gnosticismo»). Em contraste com essas supostas «verdades ocultas», os mistérios do N.T. são «segredos franqueados», coisas reveladas em Cristo, por intermédio do seu Santo Espirito, e através da instrumentalidade dos servos de Cristo, principalmente dos apóstolos, cujas revelações constituem o tema mesmo do novo pacto. A sabedoria humana, que o apóstolo dos gentios vinha atacando coerentemente, desde,o princípio desta epístola, conta com seus supostos mistérios profundos. «...considerem...» Essa palavra indica uma «estimativa razoável», extraída de princípios aprovados de julgamento espiritual. (Comparar com os trechos de Rom. 6:11 e 12:1). «Paulo tinha um vivido senso da dignidade de sua posição como despenseiro de Deus, a qual lhe fora dada pelo Senhor (ver Col. 1:25 e Efé. 1:10). O ministério da Palavra é muito mais do que uma profissão ou negócio. É a própria chamada de Deus para a gerência». (Robertson, in loc.). 2 ώ δ ε o l 7 t o v ζητείται iv τοΐς οίκονόμοις ίνα πιστός τις eítpeOfj. 4 2 Lk 12.42 4. 2 coSe p4eKABD*G^>m; R] 5 δ« DC L 1739 al ς | ζηταται B al lat sy ç; R] (τί N*) ζητειτΡ. j)4eXADG 77,70 pm 4:2: Ora, além disso, 0 que se requer nos despenseiros é que cada uai seja encontrado fiel. Um verdadeiro despenseiro dos mistérios de Deus não tem mensagem própria, e seu valor depende de quão fielmente ele se desincumbe dè sua função, que lhe foi confiada. Não pode trabalhar visando ao seus próprios interesses, mas deve servir fielmente aos interesses do seu Senhor. «...o que se requer...» Literalmente traduzidas, essas palavras diriam, «...0 que se busca...», ou seja, aquilo que se deve esperar dos despenseiros, acima de tudo, por serem eles representantes de outrem, é a fidelidade. Se aos despenseiros faltar essa qualidade, todas as suas demais virtudes terão bem pouco valor. Se porventura um despenseiro for hábil, mas preguiçoso ou desonesto, ele perverterá o uso correto de sua inteligência natural. E, nesse caso, fará mais mal do que bem. Não importa muito quão grande e importante sej i um administrador, se porventura se punha a usar o dinheiro da casa de maneira desonesta ou negligente; pois isso poderia destruir a casa e todos os seus interesses. Tal administrador pode ser um eloqüente negociante, nos interesses de seu Senhor, ao tratar com os negócios externos da igreja; mas, se mostrar-se desonesto com aquilo que tiver ganho, seu Senhor jamais obterá qualquer lucro, a despeito das brilhantes atividades de seu administrador. Um despenseiro cristão, pois, deve ter outras qualidades além da fidelidade; mas não poderá ser considerado como homem de valor, sem essa qualidade primária da fidelidade. Pois todas as suas demais virtudes só adquirem sentido se estiverem alicerçadas sobre aquela qualidade. Variante Textual: Ao invés de «...o que se requer...», alguns manuscritos antigos dizem «requeira-se», no modo imperativo. Assim dizem os mss P(46), Aleph, ACDP. Essa variante dá bom sentido. Em outras palavras, Paulo ordenava aqui aos crentes de Corinto que exigissem de todos os seus mestres na Palavra essa qualidade da fidelidade. O texto original correto, entretanto, mui provavelmente é mesmo 0 indicativo «0 que se requer», «o que se busca», conforme se lê nos mss BL e nas versões latinas d, e, f, g, na Vulgata latina, no cóptico e no siriaco. Não obstante, a variante em que essas palavras aparecem no imperativo é fortemente apoiada, não podendo ser desconsiderada sem mais aquela. Ê possível, todavia, que essa variante tenha surgido da similaridade do som de duas terminações, no grego posterior. Poderia tratar-se até mesmo de um «itacismo», isto é, a mera substituição de uma letra (ou som) por outra eqüivalente, sem qualquer intuito de produzir alguma modificação gramatical, conforme com freqüência se verifica na substituição da letra grega «ômega» pela letra «ômicron», o «o» longo pelo «o» breve, que geralmente modifica o modo do subjuntivo para o indicativo, ou do indicativo para o subjuntivo, se o fenômeno contrário tiver lugar. «A grande exigência básica para o ofício dos despenseiros é a fidelidade. Sendo um servo, o despenseiro deve ser fiel para o seu senhor. Na qualidade de um discípulo, deve ser fiel àqueles que estão sob sua supervisão. Não deve mostrar-se negligente ao distribuir aos mesmos o alimento, sem adulterá-lo e sem substituí-lo por qualquer outra coisa na distribuição diária. Assim também se dá no caso dos ministros da Palavra». (Hodee, in loc.). O Senhor é o Senhor de todos. A sua mensagem visa a redenção da humanidade. Um verdadeiro servo de Cristo, pois, está incumbido de altíssima responsabilidade oficial. Mostrar-se um ministro da Palavra infiel a Cristo é eqüivalente à traição; e os resultados dessa atitude errônea são seríssimos. «Esta passagem ... milita não meramente contra os mestres maus e ímpios, mas também contra todos quantos tenham qualquer outro objetivo
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    -*— 58 I CORÍNTIOS emvista, além da glória de Cristo e da edificação da igreja cristã. Porquanto todo quanto ensina a verdade de Deus não é pessoa necessariamente fiel; mas é fiel somente aquele que deseja, de todo o coração, servir ao Senhor e fazer progredir o reino de Cristo. Não foi sem muita razão que Agostinho atribui aos mercenários (ver João 10:12) um lugar intermediário entre os lobos e os bons mestres». (Calvino, in loc.). Aqueles que vinham causando divisões no seio da igreja de Corinto, evidentemente não eram reputados por Paulo como servos fiéis, apesar de que talvez pregassem a verdade quase sempre. Porém, devido ao fato de que tanto enfatizavam a sabedoria humana, nem ao menos haviam pregado fielmente a mensagem ordenada pelo Senhor. Por conseguinte, faltava-lhes a principal qualidade exigida dos despenseiros—a fidelidade. Os servos infiéis se empenhavam muito mais por servirem a si mesmos, tendo-se esquecido das verdadeiras funções de um servo de Deus, que consistem em anunciar a mensagem do Senhor, dedicando-se totalmente a ele. 3 > Ο Ί ) / / 5 €μοi ce eis ελαχιστον ea ανακρίνω· 4:3: Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por qualquer tribunal humano; nem eu tampouco a mim mesmo me julgo. Este versículo revela-nos que Paulo havia sido severamente criticado em Corinto, o que talvez incluía até mesmo a declaração que ele não era, verdadeiramente, um apóstolo autêntico. Em resposta a isso, Paulo diminui ao minimo a importância de seu próprio julgamento, e intelectualmente ele considerava a si mesmo como nada. Emocionalmente, entretanto, isso lhe parecia algo bem difícil de suportar. E isso ele deixa transparecer em sua ousadíssima defesa de seu apostolado (no nono capítulo desta epístola), em sua mensagem incisiva contra os seus críticos (em II Cor. 10:10-13), onde ele escreve especificamente a fim de defender-se. Essa secção mui provavelmente constituí uma epístola separada, certamente enviada antes da epístola que agora conhecemos como a segunda epístola aos Coríntios. As «duas epístolas aos Coríntios», que atualmente aparecem em nossas Bíblias, provavelmente representam pelo menos quatro missivas paulinas distintas, que chegaram até nós em forma combinada. (Quanto a um estudo completo acerca da correspondência de Paulo com Corinto, ver o ponto IV da introdução à primeira epístola aos Coríntios. Mais ainda é adicionado na discussão da introdução à segunda epístola aos Coríntios, também sob o ponto IV). Considerando o grande espaço empregado por Paulo, para tratar do problema de ser julgado por outros, só podemos chegar a uma conclusão óbvia. E essa conclusão é que se intelectualmente ele podia desconsiderar o julgamento alheio adverso à sua pessoa, por outro lado sentia agudamente essas críticas, sentindo-se profundamente ferido em seu homem interior, o que para ele era uma pesada carga emocional. Mui provavelmente Paulo gostaria de mostrar-se indiferente e pacífico para com toda essa questão, como se fosse um experiente estadista, cujas emoções estivessem acima do fragor da batalha; mas as suas palavras mostram-nos que ele não foi capaz de conduzir-se dessa maneira, ainda que algumas de suas palavras procurem apresentá-lo sob essa luz. Quão humano era o apóstolo Paulo! Embora ele se elevasse três metros acima dos seus detratores, não foi capaz de receber suas críticas com qualquer grau de indiferença e graça. Não Julguemos Se baixarmos juízo, poderemos estar demonstrando hipocrisia (ver Rom. 2:1), e poderemos estar pondo obstáculos diante dos mais fracos (ver Rom. 14:4,13). Isso é contrário ao princípio da espiritualidade (ver Mat. 7:1,2). Segundo usualmente acontece, quando as pessoas se criticam umas às outras, Paulo havia sido atacado em sua própria pessoa, e não meramente por causa de sua mensagem ou de seu ministério evangelizador. Afirmavam seus detratores que a palavra dele era «desprezível», e que sua aparência física era lamentável. (Ver II Cor. 10:10). Também afirmavam que sua linguagem era «rude» (ver II Cor. 11:6), e não há que duvidar que com isso apontavam para a sua própria superioridade, no terreno da habilidade retórica. Nesta passagem, pois, vemos que Paulo gostaria de ter-se Iva ν φ ’ υμών άνακριθώ η υπό ανθρώπινης ημέρας· άλλ’ ουδέ έμαυτον mostrado indiferente para com tais críticas; porém, as sentiu profunda­ mente, tal como sucede a qualquer um de nós, quando é alvejado por críticas injustas, não merecidas. (Quanto a notas expositivas acerca da proibição de nos julgarmos uns aos outros, ver Rom. 14:3,4). Paulo salienta que somente o Senhor tem o direito de «julgar corretamente» aos seus servos. Os conservos não têm o direito de se julgarem uns aos outros. Nesta passagem da primeira epístola aos Coríntios ele salienta a mesma verdade (ver os versículos quarto e quinto). O verdadeiro Juiz virá, e então a natureza verdadeira das obras humanas será sondada e manifestada. Porém, Paulo mostra também que nenhum mero homem é capaz de apresentar um julgamento apropriado, nem mesmo de sua própria pessoa, quanto mais dos seus semelhantes. Um homem conhece a si mesmo muito melhor do que conhece a outros; oontudo, essa visão de si mesmo pode ser obscurecida pelo egoísmo e pelo orgulho, de tal modo que nem ao menos pode mais avaliar a si próprio. Ora, se o indivíduo não pode fazer nem mesmo isso, como pode ele ser tão sábio ao ponto de avaliar apropriadamente os motivos e ações de outrem? Somente o Senhor pode fazer isso. Portanto, todo o julgamento contra os outros está fora de lujar·. Pode-se comparar isso com as palavras de Jesus, no trecho de Mat. 7:1, e com as palavras do próprio Paulo, na passagem de Rom. 2:1,2. «Tenho com freqüência pensado sobre a razão pela qual todo homem dá menos valor à sua própria opinião sobre si mesmo do que à opinião dos outros. Respeitamos muito mais aquilo que nossos semelhantes pensam de nós, do que aquilo que pensamos sobre nós mesmos». (M. Aurelius, Meditações, xii.4). «...tribunal humano...» No original grego, a tradução literal destas palavras, seria «por dia humano», em contraste com o julgamento divino, chamado de «o dia do Senhor». (Ver as notas expositivas sobre I Cor. 1:8, acerca da expressão «dia de Cristo»; e ver também o quinto versículo deste mesmo capítulo e as notas expositivas ali existentes). Mediante tal terminologia, Paulo fala sobre juízos específicos; e, no presente caso, está em foco o «julgamento humano». Algumas vezes a palavra «dia» é usada para indicar «tribunal», tanto no hebraico como em outros idiomas. (Ver Esquilo em Ctes. pág. 587). Assim é que um «diarista» podia significar «árbitro» ou «juiz». (Ver o trecho de Jó 9:33, onde há um exemplo disso). Essa terminologia paulina, por conseguinte, não precisa ser vista como um «cilicismo», ou seja, um linguajar próprio da província natal de Paulo, a Cilicia. A expressão «julgamento humano» é uma interpretação correta, na tradução da expressão original do grego. «Paulo falava aqui não das ações dos homens, quer boas, quer más, e, sim, sobre a eminência de eada indivíduo, que deveria ser calculada de acordo com os rumores dos homens». (Calvino, in loc.). Concordando com a opinião aqui expressa por Calvino, ver as notas expositivas relativas ao quinto versículo deste capítulo, onde se mostra que a igreja tem o direito de julgar aos séus membros por aquilo que praticam. ovSev γάρ έμαυτώ σΰνοιδα, αλλ’ ονκ iv τοντω δέδικαίωμαι, ό 8e άνακρίνων μ€ κύριός έστιν. 4 ονκ...δβδίκαίωμσ.ί Fs 143.2 4:4: Porque, embora em nada me sinta culpado, nem por isso sou justificado; pois quem me julga é o Senhor. Paulo não declarava aqui que não tinha consciência de qualquer pecado· ou imperfeição em suapessoa. Isso somente serviria para contradizer o que ele declara em Fil. 3:12,13. Antes, esse apóstolo falava sobre a sua própria avaliação acerca de como ele vinha se desincumbindo de sua autoridade e de seus deveres apostólicos. Quanto a esse particular, portanto, a sua consciência estava tranqüila. Jamais se poupara a si mesmo, no cumprimento de sua elevada comissão; e sempre agira com a máxima fidelidade, até onde dizia respeito à sua consciência. Não obstante, pelo menos teoricamente, Paulo precisou admitir que poderia incorrer em erro, visto que somente o Senhor é quem é o verdadeiro Juiz. Ainda que sua consciência estivesse tranqüila e ele se sentisse confiante, precisou admitir que era possível que houvesse falhado, ainda que realmente não pensasse ter isso sucedido. Contudo, sabia que o Senhor podia ver as coisas de outro modo, porquanto possuía um conhecimento e uma sabedoria infinitos. A satisfação íntima consigo mesmo não é prova de que uma pessoa é justa, e nem que um ministro do evangelho tem cumprido satisfatoriamente o seu encargo. O julgamento e a declaração de inocência, em todo e qualquer sentido, se encontram totalmente nas mãos do Juiz de toda a terra (ver II Cor. 10:18). Ora, nesse julgamento, feito pelo Senhor, não são aquilatadas apenas nossas ações e palavras, mas igualmente os nossos motivos e desejos secretos são trazidos à tona. E essas considerações podem modificar todas as avaliações acerca de uma vida, bem como acerca da missão que uma pessoa tenha realizado. Paulo pensava que ele mesmo seria declarado inocente, considerado justo, diante dos olhos de Cristo. Com confiança antecipava a avaliação feita pelo Senhor; porém, mostra que nem mesmo essa atitude de confiança serve de garantia. Paulo, portanto, reconhece aqui quão difícil é a um homem fazer um julgamento objetivo e imparcial sobre si mesmo, porque o homem sempre se mostra um ser supinamente egoísta, favorecendo a si próprio. Nenhum julgamento meramente humano, pois, pode ser considerado como final, visto que pode ser distorcido, negativa ou positivamente. Até mesmo nosso julgamento para com nossos semelhantes é pervertido pelos nossos próprios interesses egoístas. «...justificado...» Conforme dizem algumas traduções «inocentado». Contudo, essa palavra não é aqui empregada em qualquer sentido teológico, que envolva a doutrina da «justificação» em Cristo (sobre o qual tema o leitor pode examinar as notas expositivas sobre o trecho de Rom. 3:24,28). Tal palavra, neste caso, indica puramente a avaliação da vida do crente, perante o tribunal de Cristo, conforme se lê em II Cor. 5:10. Evidentemente Paulo não falava sobre a justificação acerca de sua salvação pessoal. Mas referia-se à avaliação da qualidade de seu desempenho, na missão apostólica que lhe fora conferida pelo Senhor. (Ver I Cor. 3:15 e as notas expositivas ali existentes, acerca desse tema). Cada indivíduo que vem a este mundo tem uma missão peculiar, algo pode ser feito mais perfeitamente por ele do que por outras pessoas. Cada um de nós é um ser sem-par. (Quanto a notas expositivas sobre essa verdade, ver o trecho de Apo. 2:17. Quanto a comentários sobre os «vasos escolhidos», ver Atos 9:15. Quanto às «missões secundárias, que mesmo assim são importantes», ver Atos 9:19. Quanto a Jesus Cristo como «o Juiz de toda a humanidade», ver Atos 17:31). «Uma boa consciência tem grande valor; mas, apesar de sua experiência
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    I CORÍNTIOS 59 nessesentido, Paulo não podia depender de seu próprio veredicto, à parte do de Cristo». (Findlay, in loc.). A verdade, conforme o comentário de Findlay deixa claro, é que Cristo pode olhar mais profundamente do que a nossa consciência, e, naturalmente, com maior profundidade do que qualquer observador que olha do exterior. 5 ωστε μή προ καιρόν χι κρίνετε, εως αν ελθγ/ ο κύριος, ος και φωτίσει τά κρυπτά τον σκότους και φανερώσει τας βούλας των καρδι 5 ό 'έπ α ίν ο ς...θ εο ν 1 Cor 3.8 4:5: Portanto nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não si trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor. «...antes de tempo...» Que tempo? Neste mesmo versículo isso é definido como o tempo da segunda vinda de Cristo. Dessa forma, pois, Paulo vincula o tribunal de Cristo à «parousia», ou seja, ao segundo advento de Cristo, o que ele também já havia feito em I Cor. 3:13. (Ver também I Cor. 1:8 e II Cor. 5:9 e ss.). O julgamento do crente não está ligado ao momento de sua morte física, mas sempre à manifestação universal de Cristo, quando de seu segundo advento. Não sabemos dizer muita coisa sobre esse assunto; como também^ não sabemos dizer que modalidade de julgam ento—se é que haverá tal julgamento—sobrevirá ao crente quando ele passa pela experiência da morte física, ou se todo o juízo está reservado para o período ainda futuro do aparecimento glorioso de Jesus Cristo. Nem por isso o próprio julgamento dos crentes deixa de ser uma soleníssima realidade. (Toda essa questão tem sido comentada com amplidão no trecho de I Cor. 3:13-15; ao mesmo tempo que as notas expositivas sobre II Cor. 5:10 expandem tais pensamentos. Nessas notas também é discutida a natureza dos «galardões», com abundância de pormenores, onde se procura encará-los sob uma luz espiritual, e não materialista). O que se conclui destas palavras de Paulo é que todas as avaliações feitas pelos homens, antes da vinda de Cristo, quando ele houver de julgar pessoalmente a cada qual, tendem não somente por serem errôneas, falsas e parciais, mas também são proibidas peremptoriamente. Portanto, nós, os crentes, não nos devemos entregar a esse tipo de avaliação. Era exatamente isso que os crentes facciosos de Corinto vinham fazendo, escolhendo «heróis» para admirarem, ao mesmo tempo que diminuíam a outros, sem perceberem que todos os ministros da Palavra pertencem igualmente à igreja de Cristo, e que tais discriminações não têm lugar entre os crentes maduros. Julgamento E Disciplina 1. A igreja tem não somente o direito, mas também a necessidade de julgar, de condenar e de disciplinar, conforme fica amplamente demonstrado no quinto capítulo de I Coríntios. 2. Isso, entretanto, é algo bem diferente daquele julgamento malicioso e íensurador, mediante o que uma pessoa assassina o caráter de outra. Paulo sofreu esse tipo de julgamento por parte de seus oponentes, em Corinto. Os anciãos que pecassem deveriam ser chamados a prestar contas, mas por algum ato da igreja, e não através da maledicência, em campanha de sussurros maldosos. (Ver I Tim. 5:1,19,20). A igreja conta com seu próprio método de censura (ver Mat. 18:15 e ss.), e, quando aparecem problemas e disputas, dever-se-ia seguir alguma ação democrática. Podemos estar seguros de que os críticos de Paulo, em Corinto, não estavam interessados pela opinião democrática. Havia um homem que tencionavam prejudicar, destruir. Ocupavam-se nessa triste ocupação. 3. Cristo é o Juiz (ver Atos 17:31). Permitamos que ele exerça os seus direitos. «...trará à plena luz as cousus ocultas das trevas...» Não é difícil alguém esconder seu verdadeiro caráter das outras pessoas. Além disso, muitos indivíduos têm conseguido viver com êxito uma dupla vida, o que tem acontecido até mesmo com muitos líderes cristãos. Não é arriscado supormos, por conseguinte, que muitos daqueles que assim têm feito, jamais serão desmascarados. São apenas os mais ousados ou infelizes que são desmascarados na sua dualidade de personalidade. Outrossim, existem aqueles outros que, embora não tenham uma vida dupla franca, simplesmente não são tão sinceros em seu serviço cristão como dão a impressão e parecem ser aos olhos alheios. Alguns pastores agem desse modo meramente a fim de ganharem algum dinheiro, porquanto essa é a maneira mais fácil para tanto. São pregadores profissionais, meros «mercenários». Outros servem visando a glória pessoal, a posição social, o prestígio entre os homens, ou a fim de agradarem à suas esposas, mães ou amigos, e nãó para a honra e a glória de Cristo! Ou então, pelo menos, alguns ministros prestam serviço movidos por motivos mistos. Tais atitudes podem ser ocultadas facilmente de outros homens, sendo possível que o indivíduo engane até mesmo a si próprio. Nesse caso, embora o pregador to re ο έπαινος γενήσεται έκάστω από τον θεον. pense que seu serviço é prestado com pureza, tudo não passa de uma ilusão. Somente o Senhor Jesus pode fazer a correta avaliação sobre os motivos dos corações. Ele é quem trará à luz todas as coisas ocultas. Quantas imensas surpresas sofreremos, sobre nós mesmos e sobre os nossos semelhantes, naquele dia do «tribunal de Cristo»! Certamente que alguns primeiros serão últimos, e alguns últimos serão primeiros! «...também manifestará os desígnios dos corações...» Estas palavras apontam para os motivos íntimos. Quão nobres talvez pareçamos externamente, quão dedicados ao nosso trabalho, quão zelosos pela causa de Cristo. No íntimo, entretanto, podemos ser totalmente egoístas, governados, dominados e obcecados por nós mesmos, e não pela pessoa de Jesus Cristo. Alguns dentre nós talvez se deixem enganar com alguma dificuldade; mas há outros que se deixam enganar facilmente. Todavia, nenhum de nós pode enganar ao Juiz, que é o perscrutador dos corações e das coisas ocultas da vida de cada um. «Duas coisas são necessárias para que se faça um julgamento inerrante acerca das ações humanas, a saber, o completo conhecimento dos fatos e o discernimento pleno dos motivos. Essas coisas serão aplicadas pelo Senhor Jesus, quando ele vier; e qualquer tentativa de julgar aos homens, sem essas qualificações indispensáveis, é apenas uma ignorância fútil... A palavra ‘phaneroo’ (tornar manifesto), aponta para o ‘resultado’ da revelação». (Robertson e Plummer, in loc.). «...tempo...» Nesta instância, essa palavra indica o «dia do Senhor», o qual também é chamado de «dia de Cristo» (ver I Cor. 1:8 e 3:13), o que faz contraste com o «dia do homem», o dia do julgamento humano, conforme lemos no terceiro versículo deste mesmo capítulo. O «dia do Senhor» redundará em revelações autênticas, em julgamento verdadeiro; o julgamento humano é nebuloso, quando muito. «O pensamento que transparece aqui é o seguinte: Nesta vida, o nosso caráter interno só pode ser inferido com base em nossos atos; mas, quando dojulgamento, tal caráter será diretamente aberto, pelo Senhor». (Neander, in loc.). «...cada um receberá...» Isto é, se tiver de haver qualquer louvor significativo e duradouro, terá de vir da sua verdadeira fonte, que é Deus. Deus é o Juiz de um tribunal que nenhuma atividade humana pode antecipar ou suplantar. As decisões ali tomadas são ao mesmo tempo verazes e finais, não estando sujeitas a qualquer revisão. E embora os crentes que ali forem negativamente julgados possam, ainda assim, prosseguir na direção das perfeições de Cristo, visto que eventualmente todos os remidos atingirão o grande alvo da perfeição absoluta que nele existe, e que envolve tanto a sua natureza moral como a sua natureza metafísica, sofrerão grande detrimento, do qual não haverá apelação. (Ver II Ped. 1:4 e Rom. 8:29). Porém, a avaliação da peregrinação terrena de cada crente, bem como a determinação das recompensas que cada qual ganhará, está tudo nas mãos de Deus. Porque é nas mãos de Deus que tudo pode ser devidamente entregue. (Com a presente passagem se pode comparar os trechos de I Cor. 3:8; II Cor. 5:10; I Sam. 26:23; Mat. 25:21,23,28; II Cor. 10:18 e Rom. 2:29). Clemente de Roma, um dos pais da igreja primitiva, reproduziu essa idéia em sua epístola aos Coríntios, 30. E a idéia do «salário» ou dos «galardões» fala sobre a mesma mensagem geral. (Ver I Cor. 3:8,14 e as notas expositivas ali existentes, acerca dessa mesma questão). As palavras que aparecem neste versículo, «...de Deus...», referem-se à sua autoridade e propriedade como Juiz. O homem nem possui a autoridade e nem lhe convém fazer qualquer julgamento prelim inar. Quão equivocados, por conseguinte, estavam aqueles líderes de facções da igreja cristã de Corinto, que chegavam a assumir sobre si mesmos a prerrogativa de julgarem às realizações e à missão de altas personalidades espirituais, como os apóstolos Paulo e Pedro, ou como o mensageiro Apoio. Tais atividades eram totalmente ilógicas, descabidas. A igreja cristã pode ser somente o campo de Deus (ver I Cor. 3:9 e ss.); e, sendo assim, está sujeita exclusivamente à sua aprovação, no que concerne à dignidade intrínseca e ao valor de seu caráter. Os falsos mestres, porém, procuravam receber louvores dos homens. Já haviam recebido a sua recompensa. Não poderiam esperar qualquer galardão da parte de Deus. (Com isso se pode comparar o ensinamento de Jesus, concernente aos egoístas e ostentosos líderes do judaísmo, em seus dias, em Mat. 6:16). 6 Ταντα 8ε, αδελφοί, μετεσχημάτισα εις εμαντόν και ’Α πόλλω ν δι' νμάς, Ινα εν ήμΐν μάθητε το αΜή νπερ α γεγρα π τα ι, ΐνα μ·η εις ύπερ τον ενός φνσιονσθε κατά τον ετερου. α 6 a direct: WH Bov Nes? BF2 NEB T T Zür? Luth Jer jj a indirect: RV ASV RSV Seg // different text: TR AV 6 μ ά θ η τ ε ...ε τ ε ρ ο ν Ro 12.3 6 yc/pamai] add φρονςιν 33 pm sy ς 4:6: Ora, irmãos, estas coisas eu as apliquei figuradamente a mim e a Apoio, por amor de vás; para que em nis aprendais a não ir além do que está escrito, de modo que nenhum de vés se ensoberbeça a favor de um contra outro. Paulo já havia ventilado com abundância de detalhes o fato de que os verdadeiros apóstolos não são «rivais» entre si (ver I Cor. 3:5-23), mas antes, são cooperadores no mesmo empreendimento divino (ver I Cor. 3:5-9), visto que estão empenhados na ereção dó mesmo edifício, no cultivo e irrigação e colheita do mesmo campo (ver I Cor. 3:9-17). As palavras com que tem início este versículo, «...Estas cousas...», mui provavelmente se referem à discussão inteira do terceiro capítulo desta epístola, mas o trecho de I Cor. 4:1-5 deve estar particularmente em foco. Xanto Paulo quanto Apoio eram apenas servos em uma grande casa; eram
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    60 I CORÍNTIOS despenseiros.E, de conformidade com a estimativa do apóstolo dos gentios, ambos eram fiéis nesse mister, o que comprovava a validade do ministério que lhes fora proporcionado por Deus. Ninguém mais, além de Jesus Cristo, poderia julgar acertada e justamente a qualquer um desses dois ministros; e nenhum deles estava interessado no mero «louvor» humano. Pelo contrário, cada obreiro receberia seu próprio louvor e aprovação da parte do Senhor, de acordo com os padrões divinos de avaliação. Portanto, era errôneo e impróprio, para qualquer membro da igreja de Corinto, elevar Paulo, Apoio ou qualquer um outro líder cristão a uma posição de distinção, ao mesmo tempo que degradava a outros. Tal atitude só poderia provocar facções no seio daquela igreja, redundando em desonra para a pessoa de Cristo, visto que nenhum mero homem pode ser rival de Cristo, na honra que cabe exclusivamente a ele. Esse tanto é deixado perfeitamente claro neste versículo, embora prevaleça certa incerteza quanto ao resto do que lemos aqui, especialmente sobre o sentido exato da expressão «...o que está escrito...» Variante Textual·. Hã uma variante que exerce influência sobre o significado deste versículo.Trata-se da variante que aparece nos mss Aleph(3) e na maioria dos manuscritos gregos minúsculos, seguida por traduções como KJ e PH, a qual diz: «...para que possais aprender em nós a não ‘pensar sobre os homens’ acima do que está escrito...» Os manuscritos mais antigos, porém, como P(46), Aleph(l), ABD(1)E(1)FG omitem as palavras ‘pensar sobre os homens’, no que são seguidos pelas traduções AA AC ASV NE F BR GD M RSV WMe WY. (Quanto à identificação dessas traduções, usadas para efeito de comparação neste comentário, catorze ao todo, nove em inglês e cinco em português, ver a lista de abreviações na introdução geral ao mesmo). A evidência textual favorece mais a omissão, em grau avassalador. As palavras omitidas por esses manuscritos mais antigos foram acrescentadas em outros com o intuito de esclarecer ainda mais o sentido do versículo, numa espécie de glosa interpretativa.O texto greço melhor diz somente «para que aprendais em nós a não ultrapassar o que esta escrito». Ao que Paulo se referia, portanto, quando usou a expressão «...o que está escrito... ?» Diversas são as possibilidades, conforme se verifica nos pontos abaixo discriminados.: 1. Talvez tivesse querido dizer aquilo mesmo que já havia escrito acerca da dignidade e posição dos mestres cristãos, como servos e despenseiros de Jesus Cristo, em quem cada qual tem sua dignidade pessoal, mas não exaltado acima dos demais. 2. Porém, visto que a expressão está escrito é uma fórmula usual pela qual Paulo expressava algum trecho do A.T., e que ele freqüentemente usou em apoio a seus argumentos (ver as notas expositivas em I Cor. 1:19, quanto a esse hábito paulino), é possível que ele estivesse citando algum trecho do antigo pacto. É por essa razão que a tradução RSV diz «...para que possais aprender, por nosso intermédio, a viver de acordo com as Escrituras». Pode-se supor, portanto, que Paulo esperava que os seus leitores tivessem uma fam iliaridade geral com a posição ocupada pelo homem e pelos mestres cristãos, nesses documentos do A.T., a fim de julgarem corretamente qual a atitude que deveriam ter para com eles, com base nesse conhecimento. Em Corinto havia aqueles que eram gnósticos de 7 tis γάρ ae διακρίνει,; τ ί 8è εχ^ις ô ούκ ίΧαβζζ; eí 7 τ ί 0 € ...’ έ α β & Ro 12.6 4:7: Pois, quem te diferença? Eque tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? No Que És Diferente De Outros? 1. As pessoas se jactam em como são diferentes de outras pessoas. O ensino que temos aqui é que se alguém é genuinamente diferente de_outros, não deve isso a seus próprios esforços ou qualidades inerentes. É que o Espírito fez algo em seu favor. 2. Paulo trabalhou mais abundantemente do que todos os demais, mas somente porque o Espírito assim fizera em suà vida. Naturalmente, ele cedeu às influências divinas, e alguns homens ignoram esse fato. Essa anuência pode ser lançada no crédito de Paulo. No entanto, ele não podia jactar-se nem mesmo disso. (Ver I Cor. 15:10). ★ ★ ★ Que Foi Que Recebemos? 1. É patente que está em pauta a espiritualidade geral, com seus dons e habilidades acompanhantes, incluindo os dons espirituais do Pentecoste. Estão em foco exatamente aquilo que a sua designação nos diz, «dons», provisões divinas da graça. 2. São provisões divinas que visam a edificação geral da igreja (ver Efé. 4:12 e ss.), pelo que não são meios para a auto-exaltação. Elas procedem de Deus, e seu escopo é conduzir homens a Deus, e não a heróis humanos e cabeças de seitas. 3. Outrossim, a posição especial e a autoridade de que cada indivíduo é investido no mundo e na igreja são questões dadas por Deus. Portanto, é uma insensatez o indivíduo exaltar a si mesmo por causa de tais coisas, subestimando a seus irmãos na fé. Acresça-se a isso que é o clímax da estupidez alguém utilizar-se dessas vantagens visando o lucro pessoal ou a fama pessoal diante dos outros. 4. Paulo se volve contra o culto a heróis humanos, porquanto o único verdadeiro herói do crente é Cristo. O próprio Espírito Santo tem como sua principal atividade a glorificação de Cristo. A quem estás exaltando? 5. A distribuição dos dons do Espírito é controlada pela vontade divina (ver I Cor. 12:11). Se o Espírito te houver conferido algo de especial, exalta-o por causa disso, pois o teu privilégio é grande! Não rebaixes a outrem por causa de uma exaltação que te foi dada gratuitamente. temperamento, se não mesmo em suas doutrinas, enquanto que outros confiavam em suas revelações e ensinamentos particulares, em seus «mistérios» e em suas supostas experiências místicas, tudo o que, para tais pessoas, tomava precedência acima das Escrituras Sagradas do A.T., como guia de suas atitudes religiosas. O restante deste versículo, que diz «...a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro...», parece dar-nos a entender que os leitores de Paulo pensariam naquelas passagens do A.T. que foram escritas para combater e corrigir a altivez humana, para ensinar que a glória só pode ser devidamente atribuída a Deus. E isso concorda com o que Paulo havia enfatizado nos capítulos anteriores. (Ver especialmente I Cor. 1:29,31, o último dos quais versículos realmente cita um trecho do A.T. que fala acerca dessa questão, a saber, Jer. 9:24. Pouco mais adiante Paulo mostrou que a sabedoria humana se transforma em uma autêntica armadilha para aqueles que se estribam nela, porquanto toda essa sabedoria humana não passa de vaidade aos olhos de Deus, não havendo assim nenhuma razão pela qual os crentes venham a exaltar os indivíduos possuidores dessa sabedoria terrena. (Ver I Cor. 3:18-20). Por conseguinte, nenhum homem pode gloriar-se em outros homens. (Ver I Cor. 3:21). Paulo, pois, asseverava que tanto ele mesmo como Apoio se tinham mostrado humildes ministros de Jesus Cristo entre aqueles crentes de Corinto. Era um erro fazer deles rivais entre si, gloriando-se os crentes em um deles, para detrimento do outro. Uma das características da sabedoria humana é fazer o homem «ensoberbecer-se», exagerando o conceito que ele faz de si mesmo ou de seus semelhantes. Ê interessante que até mesmo o conhecimento das realidades espirituais pode produzir esse efeito (ver I Cor. 8:1), quando um crente se torna orgulhoso em face daquilo que sabe, ao invés de usar seu conhecimento espiritual exclusivamente para a glória de Cristo. «...ensoberbeça...» Deriva-se de um verbo grego que significa «inchar», «inflar-se», o que é um quadro vivido da autopresunção, do orgulho humano que «incha», mas não na realidade, e, sim, apenas na aparência. «Essa é a definição de uma seita onde indivíduos admiram outros indivíduos». (Bengel, in loc.). Ora, Paulo queria que os crentes fossem livres dessa forma errada de admiração. A admiração aos mestres cristãos, na realidade, era uma gratificação ao orgulho dos facciosos, o que, nesse caso, não era compartilhado pelos «heróis» a quem aqueles facciosos tanto exaltavam; pois Paulo, Cefas e Apoio realmente repeliam tal atitude errada. «.. .irmãos...» Paulo usou essa palavra com freqüência, a fim de suavizar suas críticas severas. (Ver outros exemplos desse uso em I Cor. 1:10 e 3:1). «...figuradamente...» Porque havia usado a si mesmo e a Apoio como dois dos «heróis» que vinham sendo exaltados na igreja de Corinto. E assim Paulo lhes fornece uma «lição figurada», a ser aplicada a todas as atividades facciosas. O apóstolo Paulo se utilizara de si mesmo e de Apoio como ilustrações, de onde se podiam extrair regras gerais. Neles, pois, Paulo havia ilustrado o seu princípio acerca da necessidade de humildade, de correta avaliação sobre os homens. Sè και eAa/3e?, τ ί κανχάσαι á>s μη λαβών; 6. Mestres humanos não podem conferir dons espirituais. Como, pois, podem tais homens ser transformados em heróis e líderes de denominações? 7. Há um Senhor acima de todos (ver Rom. 14:8). Ele é Senhor tanto de teu irmão como de ti mesmo. Diante dele, exclusivamente, cairás ou estarás de pé. Como, pois, poderias degradar a teu irmão? -----Ninguém, por conseguinte, pode ser guindado à posição de «herói»; o verdadeiro herói é o Espírito Santo, que é a fonte de todas as manifestações espirituais no seio da igreja cristã. Por meio do Espírito de Deus, Jesus Cristo deve ser exaltado devido às suas muitas manifestações graciosas, aos seus múltiplos benefícios que ele tem derramado tão livremente sobre a sua igreja. Portanto, «gloriarem-se» os crentes em algum poder espiritual ou dom espiritual é um grande absurdo, porquanto isso deixa subentendido que aquilo que possuímos é de nossa própria feitura, e não um dom de Deus, para ser usado visando ao benefício de todos, e não meramente para benefício de nossos próprios discípulos, daqueles que nos exaltem, daqueles que nos honram de alguma maneira. Pois aquele que vê algo de especial em nós, na realidade está vendo algo de especial que nos tem sido dado mediante a graça de Deus. Que o tal se regozije no doador da graça, portanto. Por que fingis possuir um dom que não recebestes da parte de Deus? indagou Cirilo de Alexandria, o qual citou o pensamento geral deste versículo por nada menos de nove vezes, em seu comentário sobre o evangelho de João, na forma como o encontramos na epístola aos Romanos: «Que tens tu que não tenhas recebido?» Esta passagem desempenha papel importante na história eclesiástica, tendo participado da luta contra aqueles que exaltavam exageradamente o livre-arbítrio humano, em contraste com a graça e o determinismo divinos, tudo baseado na vontade soberana do Senhor. (Ver Agostinho, Retract. II. 1.1). «A idéia fundamental aqui expressa é que os mestres, acerca de quem os crentes de Corinto se ‘gloriavam’, eram apenas ministros daquilo que era dom de Deus. A atitude de jactância subentendia o olvido desse fato. Considerava os mestres cristãos como exibidores de habilidade retórica, como se estivessem ministrando para satisfazer os ‘gostos’ de uma audiência crítica, que tivesse o direito de classificar os pregadores segundo as suas preferências». (Robertson e Plummer, in loc.).
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    I CORÍNTIOS 61 APROVIDÊNCIA DE DEUS Dirige todas as vidas, e faz todos os homens singulares em seus seres e em É perigoso negar ou negligenciar, Dan. 4:29-30. suas obras. Ver a nota detalhada sobre este conceito em Apo. 2:17. j^ão pode ser vencida, Pro 21'30 Controla todas as condições da vida, Atos 1:26. 8 ήδη κεκορεσμένοι εστέ-b ήδη εττλουτήσατε· b χωρίς ημών εβασιλενσατε· b και οφελόν γε εβασίλενσατε, ΐνα και ήμεΐς ύμΐν συμβασιλεύσω μεν. 6* b 8 b major, 6 major, b major: Bov Nes BF2 NEB // b minor, b minor, b major: T R AV RV ASV // b question, b question, b question: W lf Luth // b exclamation, b exclamation, b exclamation: RSV T T Jer jj b minor, b minor, b exclamation: Zür Seg 8 ή δ η ...€ β α σ ι6 υ σ α τ 6 Re 3.17 6 φ € ο ν ...σ ν μ β α σ ιβ ν σ ω μ ε v Re 3.21 8 (€στ€* . . . ΐ π λ ο ν τ .' . . ^ φ α σ .'] ter ;) 4:8: Jó estais fartos? já estais ricosl sem nós jó chegastes a reinarl e oxalá reinásseis de fato, para que também nós reinássemos convoscol O sarcasmo deste versículo é profundo e amargo, refletindo quão intensamente Paulo sentia repulsa no que diz respeito às facções surgidas em Corinto e contra aqueles que se tinham ensoberbecido devido ao seu falso senso de importância, ao mesmo tempo que degradavam a outros, incluindo ao próprio apóstolo dos gentios. Aqueles homens orgulhosos se tinham colocado à frente dos apóstolos, e assim tinham assumido uma posição absurda (ver o versículo seguinte), ao mesmo tempo que os verdadeiros apóstolos eram um escândalo aos olhos do mundo, uma desgraça, sendo perseguidos e caçados como animais. Mas aqueles altivos líderes facciosos de Corinto se tinham exaltado como a elite da sociedade, copiando a retórica excelente e os métodos dos filósofos e eruditos da época. Como Foi Que Eles Reinavam ? 1. Eles reinavam através da abundância material, ao passo que Paulo, perseguido como era em suas viagens missionárias, vivia em pobreza extrema. 2. Reinavam como reis, transformados que haviam sido em «heróis», que outros homens para todos os efeitos práticos adoravam, e em cujos nomes iniciavam facções. Entrementes, Paulo vivia como um escravo, servindo a outros ao máximo de suas forças. 3. Viviam como reis, recebendo altas honrarias da parte de outros, altos louvores lhes eram dados por causa do seu uso de dons espirituais e de seus sermões eloqüentes. Paulo, o humilde rabino, falava de modo simples—embora seu ministério fosse escudado por obras poderosas, impulsionadas pelo Espírito Santo. 4. Talvez haja um cortante sarcasmo (escatológico) nas palavras de Paulo: «Ora, chegastes mesmo a atrair o milênio, tão grandes sois! Eu desejaria estar convosco, para que agora mesmo pudesse entrar nesse reino pelo qual todos nós esperamos há tanto tempo!» Alguns estudiosos expõem que as palavras «...chegastes a reinar...» dão a entender que o faziam como cristãos, isto é, agiam como se já estivessem reinando com Cristo, em seu reino milenar. (I Cor. 6:2; Luc. 22:29-30 e Apo. 20:4). Mas também é possível que esse reinado consistisse de seu orgulho espiritual, dominando a congregação cristã, imensamente, orgulhosos com as suas realizações espirituais, segundo imaginavam. Comenta Matthew Henry (in loc.)·. «Ele frisa o dever da humildade através de uma habilíssima ironia... Há uma elegante gradação da suficiência para a abastança, e daí para a realeza; e tudo isso deixa subentendido que os crentes de Corinto se tinham exaltado devido à abundância de sua sabedoria e dotes espirituais; tudo o que era uma atitude que prevalecia entre eles, enquanto o apóstolo estava distante deles». Faucett (in loc.), considerando esse «reinar» como uma questão espiritual falsa, comenta: «Estais tão inchados com os vossos mestres favoritos, com as vossas próprias imaginárias realizações intelectuais através deles, que vos sentis como aqueles que estão ‘fartos’ em um banquete, ou como quem é ‘ricaço’, a gloriar-se em seu luxo; assim também vós sentis que podeis continuar ‘sem nós’, contando primariamente com os vossos líderes espirituais. (I Cor. 4:15). Porém,antes do ‘reino’e da ‘plenitude da alegria’, o que sucederá quando das bodas do Cordeiro, terá de haver a cruz, no caso de todo o crente verdadeiro (ver II Tim. 2:5,11,12). (Com isso comparar a autocomplacência da igreja de Laodicéia, em Apo. 3:17; bem como com Osé. 12:8). As riquezas ‘temporais’contribuíam para gerar em Corinto esse clima de auto-suficiência espiritual, o que fazia contraste com ‘a fome e a sede' literais que o apóstolo sofria (ver o décimo primeiro versículo deste capítulo)». Esse comentário de Faucett mostra-nos que ambas as idéias, a das riquezas «físicas» e a das «riquezas espirituais» estejam em foco nesse conceito do «reinar sem nós». Notemos as três expressões que dão idéia de abundância. Eles não tinham fome de coisa alguma, estavam totalm ente satisfeitos, material e espiritualmente. Banqueteavam-se nas melhores mesas, e, fisicamente, nada lhes faltava. Também julgavam-se fartos do mais excelente alimento espiritual, como se fossem já possuidores de todo o conhecimento e poder' espirituais. Estavam «...ricos...», material e espiritualmente falando, como se nada lhes faltasse, como se não tivessem mais de depender do progenitor espiritual ou fundador daquela igreja local. ★ I «...oxalá reinásseis...» A referência de Paulo, nestas palavras, é escatológica. Ele fazia alusão ao reino de Cristo, o qual será estabelecido quando de seu segundo advento. O que o apóstolo quis dizer é que se aqueles altivos líderes cristãos já estivessem reinando, então é que o reino de Cristo já teria sido inaugurado; e então o próprio Paulo, sendo apóstolo de Cristo, sem dúvida já estaria participando desse reino, dessa plenitude, dessa riqueza espiritual, do que eles se sentiam tão fartos e cheios. Na realidade, porém, só reinavam em seu tolo orgulho, que não tinha natureza espiritual sob hipótese alguma. Naturalmente, Paulo pode ter lançado mão dessa idéia de maneira simbólica. Se aqueles orgulhosos líderes cristãos eram tão grandes que haviam trazido o reino de Deus à terra, sem a ajuda apostólica e sem a segunda vinda de Cristo, então tudo quanto Paulo tinha a fazer, a fim de também participar desse poder, plenitude e glória, era voltar para Corinto, unindo-se a eles. Se esse é realmente o sentido das palavras de Paulo, então essa declaração paulina é supinamente sarcástica. Seja como for, dessa maneira podemos perceber a profundidade e a altura de que era capaz o espírito do apóstolo Paulo. Assim como ele podia amar profundamente, assim também o seu espírito podia agitar-se a pontos extremos. As pessoas que podem ser levadas a grandes alturas do amor, conforme a natureza e a experiência humanas bem o demonstram, também podem ser excitadas ao extremo oposto, chegando algumas vezes ao ódio e ao fanatismo. Essas revelações sobre o caráter de Paulo aparecem em outros trechos neotestamentários. Isso transparece em suas palavras ásperas, usualmente suavizadas nas traduções, como em Fil. 3:2: «Cuidado com os cães, cuidado com os maus obreiros, cuidado com os automutiladores» (tradução inglesa de Williams, aqui vertida para o português). Com essa palavra «automutiladores», ele se referia ao partido favorável à circuncisão, dando a idéia de que se a retirada do prepúcio é de valia espiritual, então a virtual castração e emasculação deve ter ainda muito maior proveito. (Ver também Atos 15:1, sobre os partidários da circuncisão), «Aqueles crentes de Corinto, que aos próprios olhos eram tão extraordinariamente abençoados, como que já viviam no reino de Deus, desfrutando de seus banquetes, seus tesouros e seus tronos. Os verbos representam a satisfação de todos os desejos nobres, no reino messiânico (ver Luc. 22:29,30; I Tes. 2:12; II Tim. 2:12). Como que tinham criado um milênio particular, para eles mesmos... ‘Parece que conseguistes chegar ao alvo muito à frente de nós, pobres mestres. De fato, oxalá fosse assim, para que pudéssemos ter a esperança de seguir-vos e participar do vosso triunfo’». (Robertson e Plummer, in loc.). Paulo usava de pura ironia, e não de pouca amargura. No dizer de Alford, in loc., era como se Paulo tivesse dito: «Nós (os apóstolos), embora depostos do ‘lugar que nos convém’, pelo menos poderíamos ser levados a uma humilde partilha em vosso estado principesco». Mas um velho, de aspecto venerando, Que ficava nas praias, entre a gente, Postos em nós os olhos, meneando Três vezes a cabeça, descontente, A voz pesada, um pouco alevantando, Que nós, no mar, ouvimos claramente, Com um saber só de existências feito Tais palavras tirou do esperto peito. O glória de mandar, ó vã cobiça Desta vaidade a quem chamamos Fama! Õ fraudulento gosto que se atiça Com uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldade nele experimentas! (Luís Vaz de Camões, narrando a história de Portugal, amaldiçoa aqui a ambição dos descobridores. Condena a vaidade, as ambições e a sede de engrandecimento pessoal). ■ k★ 9 δοκώ γάρ, ο θεός ημάς τους αποστόλους εγενήθημεν τω κόσμω και ά γγελοις και Zür Luth Jer jj ■c major, c minor: NEB j! c minor, c minor: WH"'« T T Seg 4:9: Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo tanto a anjos como a homens. Paulo se refere aqui a um costume romano brutal. É possível que estivesse ώς εττιθανατίους/ δτι θέατρον c c 9 f none, c minor: T R WH Bov Nes BF2 // c minor, c major: AV RV ASV RSV 9 ò S eòs.. .έττίθ α ν α τίο ν ς R o 8.36; He 10.33 fazendo alusão ao grande número dos circos romanos, quando, para entretenimento popular, era apresentado um espetáculo final de sofrimento e derramamento de sangue. Nessas ocasiões, os lutadores eram forçados a se combaterem uns contra os outros, sucessivamente, até que restasse um εσχάτους άπέδειζεν0 άνθρώποις.
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    62 I CORÍNTIOS únicohomem vivo. Noutras oportunidades, ainda, os contendores eram forçados a lutar contra animais ferozes. Seja como for, tornavam-se espetáculo ignominioso e sangrento, para encher os olhos de um povo embrutecido. Contudo, é possível que o apóstolo também tenha feito aqui alusão às procissões ou cortejos típicos entre os romanos, quando criminosos ou cativos eram apresentados na parada, passando ante a multidão como aqueles que breve seriam mortos. Com freqüência, os indivíduos forçados a participar desses espetáculos eram os piores criminosos, ou então, simplesmente, inimigos derrotados e capturados na guerra. Na linguagem usàda por Paulo, o teatro era o mundo, a sociedade dos homens, pois, por onde quer que ela fosse, era sujeita à um tratamento brutal e vergonhoso, por amor a Jesus Cristo. Em contraste com isso, os líderes das facções existentes na igreja de Corinto desfrutavam de prestigio na nata da sociedade local, aparecendo como pessoas abastadas, como reis mesmo, freqüentando banquetes e apresentando seus eloqüentes e pomposos discursos. A palavra «...mundo...», neste caso, falando estritamente, consiste na dimensão inteira dos «seres inteligentes», quer anjos, quer homens, embora os apóstolos servissem de espetáculo sobretudo na sociedade dos homens. No original grego, á palavra é «kosmos». (Ver João 1:10 e as notas expositivas ali existentes, quanto aos diversos vocábulos traduzidos por «mundo», nas páginas do N.T., e onde os vários sentidos possíveis do termo grego «kosmos» também são apresentados). «...anjos...» Alguns intérpretes pensam que estão aqui em foco os «anjos maus», como se eles é quem fossem os inspiradores do tratamento malévolo contra os discípulos de Cristo, através de seus agentes humanos. Outros intérpretes vêem aqui apenas anjos bons, como se fossem «espectadores admirados», perplexos ante a grande perversidade dos homens contra os discípulos do Senhor, que também é o Senhor deles, dos anjos. Contudo, é possível que ambas as coisas estejam aqui em vista, os anjos bons e os maus, os quais observam o mesmo conflito de diferentes ângulos. Orígenes era do parecer que aqui estão em foco os anjos bons, atraídos a contemplarem homens de carne a lutarem contra os principados e poderes, manifestados através de seres humanos decaídos, tudo o que formaria um espetáculo estranho para os anjos. A referência de Paulo é aqui um tanto ou quanto vaga, e nada de certo se pode concluir acerca do que ele queria dizer exatamente, ainda que as idéias anteriores, ou talvez ainda outras expressem o que o apóstolo tinha em mente. Seja como for, trata-se de uma idéia paulina de que as vicissitudes da igreja cristã são observadas pelos poderes angelicais. (Ver Efé. 3:9,10; e também I Ped. 1:12). Alguns eruditos acreditam que os poderes angelicais observam as reuniões dos crentes, escudando-se nessa opinião no trecho de I Cor. 11:10. Eram os indivíduos inúteis, os criminosos, os inimigos do estado, que eram tangidos em último lugar para o interior das arenas, para terem um fim cruel. Assim Paulo via a sorte terrena dos verdadeiros ministros de Cristo; e não há que duvidar que, por essa figura simbólica, seja sugerido, embora não seja dito diretamente, que aqueles que vivem no luxo e no lazer, como sucedia àqueles falsos líderes de Corinto, os quais só provocavam divisões e contendas no seio daquela comunidade cristã, devido à sua sabedoria humana altiva, dificilmente poderiam ser considerados verdadeiros ministros de Cristo. Na verdade, tanto o apóstolo dos gentios como o próprio Senhor Jesus deram a entender que a perseguição contra os discípulos verdadeiros de Cristo é algo inevitável. (Ver João 15:18 e ss. e II Tim. 3:12). «É dito que eles (os apóstolos) são apresentados ‘em último lugar’(como o último espetáculo do dia, no dizer de Whitby), porque os gladiadores meridianos, aqueles que se combatiam entre si na porção final do dia, eram os que mais se arriscavam, por serem forçados a combater despidos. E assim (conforme declarou Sêneca, Epist. 7), isso constituía um perfeito morticínio; e os que eram apresentados às feras, pela manhã, eram tratados com misericórdia, comparativamente falando. O sentido geral dessas palavras é que os apóstolos estavam· expostos a um perigo constante de morte, e morte do pior tipo, no desempenho fiel de seu ofício». (Matthew Henry, in loc.) 1 0 ημείς μωροί δ ιά Χριστόν, υμείς ένδοξοι, ημεΐζ 8ε άτιμοι. 4:10: Νό> tomos loucos por amor de Cristo, e vós sóbios em Cristo; nós fracos, e vós fortes; vós ilustres, e nós desprezíveis. Tudo isso expressa uma ironia cortante. Paulo estava convencido de que os seus sofrimentos, como espetáculo oferecido ao mundo, as suas agonias, os seus sofrimentos, etc., tudo servia de autenticação de seu ofício apostólico. Em contraste com isso, os supostos grandes e eloqüentes mestres cristãos, os líderes das facções existentes na comunidade cristã de Corinto, não passavam por qualquer sofrimento, não tinham que suportar nenhuma dificuldade, não se empenhavam em qualquer luta. Este mundo vil é que os conduzia mais para perto de Deus, conforme pensavam. Paulo retorna aqui ao seu tema sobre os sábios e os loucos, que ele já havia desenvolvido amplamente no primeiro e no segundo capítulos desta epístola. Ver particularmente os trechos de I Cor. 1:18-21,23,25,27 e 2:5,6. Neste ponto, entretanto, ele já se tinha aquecido para o combate, não poupando mais declarações mais diretas, e identificava aqueles crentes «sábios», aos próprios olhos com os seus pares no mundo incrédulo, porquanto, com estes últimos, compartilhavam da «sabedoria do mundo», ao mesmo tempo que reduziam ao mínimo e negligenciavam totalmente a «palavra da cruz», conforme fica subentendido em I Cor. 1:23 e 2:2. Certamente, Paulo trata de tais crentes, falando com eles, como se nem ao menos fossem crentes, porquanto suas palavras são amargas e incisivas. Não admira, pois, que os seus oponentes, apesar de falarem sobre a linguagem desprezível e a aparência pessoal não-impressionante do apóstolo dos gentios, tinham de admitir que as suas cartas eram «...graves e fortes...», segundo lemos em II Cor. 10:10. É possível que Paulo tenha exagerado um pouco o caso que expunha, conforme é típico fazer nos momentos de controvérsia e paixão. Mas, pelo menos, a sua mensagem é bem clara, não podendo haver dúvidas que foi perfeitamente compreendida pelos seus detratores. A vinculação espiritual do apóstolo Paulo com Cristo fizera dele um insensato, no conceito dos homens mundanos; porquanto tais homens desprezavam a cruz, zombando de Jesus Cristo como se fora um criminoso. De alguma maneira, em contraste completo com isso, aqueles líderes facciosos de Corinto foram capazes de permanecer em harmonia com o mundo, chegando ao extremo de participarem da sabedoria mundana, aprovando-a e sendo aprovados pelos mundanos. Mas Paulo era do parecer que o mundo só pode aprovar àqueles que pertencem ao mundo. (Quanto à idéia dos apóstolos serem considerados «loucos», por amor a Cristo, ver as notas expositivas sobre II Cor. 4:11 e Fil. 3:7; e quanto ao fato que os pagãos reputavam-nos insensatos, porque pregavam a Cristo e sua cruz, ver I Cor. 1:23 e Atos 26:24). Aqueles mundanos líderes da igreja de Corinto figuravam entre os sábios, tanto no que tange à sabedoria deste mundo, como no que dizrespeito ao seu prestígio na sociedade mundana, sem falarmos nas supostas elevadas realizações e exercícios de seus dons espirituais na igreja local. Não se pareciam em nada com aqueles que pregam «o opróbrio da cruz» o «escândalo de Cristo», conforme era a experiência dos verdadeiros apóstolos. Nas palavras de Paulo há três pontos irônicos·. 1. O primeiro diz respeito ao ensinamento e à sabedoria. 2. O segundo diz respeito à conduta e a aceitação em todos os níveis da sociedade, incluindo a igreja cristã tão carnal de Corinto. •ημεΐς άσθενεΐς, ύμεϊς 8è ισχυροί· 10 1 Cor 3.18 3. O último diz respeito à posição mundana. Em todos esses três níveis os líderes das facções da igreja cristã faziam notável contraste com os verdadeiros apóstolos de Cristo. Quando Paulo foi feito como espetáculo aos olhos do mundo, por amor a Jesus Cristo (ver o versículo anterior), também foi feito um louco ou insensato. Ele conhecia por experiência própria os apupos, os assovios e a zombaria de uma vítima. Filo, grande escritor e filósofo judeu da época apostólica, mostra-nos como isso sucedeu, quando narrou como uma embaixada de judeus foi enviada por ele à cidade de Roma. Acerca disso ele escreveu: «Pois, como se exibidos em um teatro, fomos apupados, mui ultrajantemente zombados e insultados, acima de qualquer limite». «...nós fracos, e vós fortes...» Paulo usa novamente de uma linguagem irônica. Os líderes falsos se faziam como leões, na sociedade, de cabeça erguida, proferindo discursos eloqüentes, a todo o tempo louvados pelos homens. Mas Paulo, como um homem fraco, antecipa aqri a passagem de I Cor. 9:22; que diz: «Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de por todos os modos, salvar alguns». Paulo também antecipa neste versículo, que ora comentamos, seus vários grandes sofrimentos mentais, enumerados no décimo primeiro capítulo da segunda epístola aos Coríntios, bem como nos versículos dez a treze do presente capítulo. Paulo era apenas um mortal, empenhado em combate com homens ímpios e desvairados; e sofria constantemente por esse motivo, sentindo-se feliz se ao menos sobrevivia. Há estudiosos que também pensam que Paulo se referia aqui ao seu ofício de fabricante de tendas (ver o décimo segundo versículo deste capítulo), por causa do qual assumia uma posição humilde na igreja, ganhando o sustento com seu próprio esforço, em contraste com os seus oponentes, que exigiam e recebiam apoio através da igreja local. (Ver I Cor. 9:12 e ss.). Seja como for, e de qualquer modo, em contraste com aqueles falsos líderes cristãos, Paulo aparecia como uma figura humilde, se alguém quiser julgar somente pelos padrões materiais e terrenos. O apóstolo falava aqui com ironia, naturalmente, não pensando em sua insensatez senão como a própria sabedoria de Deus, e em sua fraqueza, por causa de Cristo, como um poder e uma força realmente desejável. «...vós nobres, e nós desprezíveis...» Quer na igreja ou na sociedade comum, aqueles líderes cristãos tão altivos se misturavam com os ricos e influentes, prestando-lhes louvor e recebendo louvor, ao mesmo tempo. Não tinham razão alguma para se envergonharem, e o escândalo da cruz lhes havia causado grande desconforto. Em contraste com isso, Paulo, embora vez por outra tivesse de comparecer perante as autoridades e a elite da época invariavelmente o fazia como se fora um espetáculo, um opróbrio, levando o opróbrio de Cristo, tal como o próprio Senhor Jesus fora vítima das zombarias e dos apupos da multidão. (Ver o décimo terceiro versículo deste mesmo capítulo). Devido à abundância de seus bens materiais, eles se tinham tornado homens de prestígio. Mas o apóstolo Paulo, por causa de seu serviço fiel, porquanto trabalhava mais abundantemente do que todos eles (ver I Cor. 15:10), se tornara uma figura desprezível, conforme a categoria em que os homens reputavam também ao seu Senhor. (Quanto à intensidade como os líderes das diversas facções da igreja de Corinto desprezavam a Paulo, ver o trecho de II Cor. 10:10). Paulo, pois, sugere aqui que a «honra» em que eram tidos aqueles líderes coríntios não passava de mera ostentação, sem qualquer valor aos olhos de Deus. ύμεΐς δε φρόνιμοι εν Χριστώ'
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    I CORÍNTIOS 63 11ά αχρι της αρτι ωρας και πεινωμεν και 11 2 Cor 11.23-27 4:11: Até ο presente hora padecemos fome, e sede; estamos nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa, (Pode-se comparar esses sofrimentos de Paulo com a lista bem mais longa de coisas similares e iguais, que aparece no trecho de II Cor. 11:23 e ss.). Neste ponto, Paulo se refere a essas coisas como seu motivo de glória, porquanto isso autenticava o seu ofício apostólico, porque, ao mostrar assim a magnitude de seus sofrimentos por amor a Cristo, ele assegurou aos crentes de Corinto a sua dedicação total. No décimo segundo capítulo da segunda epístola aos Coríntios ele fala sobre suas elevadíssimas experiências místicas, mediante as quais chegou até a penetrar nos lugares celestiais. E, na passagem que ora comentamos, o seu propósito é o mesmo, isto é, a autenticação de seu apostolado, em contraste com a autoridade dúbia de seus oponentes. No presente versículo Paulo expande aquilo que foi mencionado no versículo anterior, a saber, a sua «fraqueza». Mas essa fraqueza, apesar de ser julgada como tal pelos homens, na realidade era a sua grande força; porquanto assim pousava sobre ele a graça de Deus, a qual era utilizada em não pequena proporção para a propagação do evangelho. Se porventura ele fosse «forte», no mesmo sentido que os seus oponentes compreendiam as coisas, e que consistia de elevada posição nos círculos sociais, louvando aos homens e recebendo louvores da parte deles, e buscando a sabedoria humana, ele teria perdido a sua verdadeira força, que possuía em Cristo. «.../orne...» A pobreza de Paulo chegava a pontos extremos. Recebia pouquíssima ajuda financeira das igrejas por ele mesmo fundadas, e nunca exigia nada. Trabalhava a fim de sustentar a si mesmo (ver o versículo seguinte), e com freqüência não tinha dinheiro nem mesmo para as suas necessidades básicas. Como, pois, se poderia afirm ar que a piedade assegura a provisão adequada para as necessidades físicas? Essa é uma idéia tipicamente judaica. De fato, a «prosperidade» material era considerada uma prova de piedade, no A.T., de forma geral, ao passo que a prova de piedade, no N.T., é a «adversidade». «...sede...», porque, em suas viagens, ele atravessava desertos e lugares áridos, e algumas vezes nem mesmo contava com a água para se dessedentar. Através dos dois primeiros sofrimentos a serem mencionados nesta lista-, Paulo mostra-nos que nem ao menos contava com as necessidades mais básicas para manter vivo o corpo, ao passo que os seus oponentes viviam no luxo e no lazer, em Corinto, sem nada sacrificarem por amor a Cristo, dando pouquíssimo de si, exaltando somente a si próprios, sendo transportados às maiores alturas, em leitos de rosas e de uma vida fácil. «...nudez...» Isto é, sofrendo de «vestuário insuficiente». No original grego, trata-se de uma palavra cujo sentido geral é «estar levemente armado». Ver Plutarco, Dio Cass., sendo encontrada em alguma outra ι διφώμεν και γυμνιτεΰομεν και κολαφιζόμεθα και άστατοΰμεν posição do N.T. ou na versão da Septuaginta. Contudo, o sentido óbvio dessa palavra é a falta de vestuário suficiente, e não de armas. Dio Chrys. 75 (25), 3 exibe essa palavra nesse sentido; sendo provável que esse era o seu uso.no grego helenista, como um desenvolvimento posterior. Havia ocasiões em que Paulo viajava como um maltrapilho, no que dizia respeito à sua aparência pessoal, porque assim lhe exigia a sua maneira de viver e de ganhar o sustento diário; mas a sua dedicação total a Cristo não lhe permitia ficar vencido pelo pejo, por causa disso. Podemos estar certos, todavia, de que os oponentes de Paulo, em Corinto, se vestiam como fazem os abastados, vistp que viviam misturados com a elite da sociedade local, não podendo mesmo ser distinguidos dessa elite. Devido à falta de vestuário suficiente, entretanto, Paulo chegou até a padecer frio. (Ver II Cor. 11:27). «...somos esbofeteados...» Literalmente traduzidas, essas palavras seriam «esmurrados com o punho», outra expressão grega posterior, que indicava o tratamento desumano a que estavam sujeitos os escravos antigos, que não tinham qualquer direito de defesa própria. (Ver Mat. 26:67 e I Ped. 2:20, quanto a essa palavra). Parece que Paulo quis incluir, com essa palavra, os maus-tratos a que os homens o sujeitaram, espancando-o literalmente por diversas vezes, como as «três vezes» em que foi vergastado com varas, as «cinco vezes» com que foi chicoteado, ou como a ocasião em que foi apedrejado, tudo às mãos de judeus radicias. (Ver II Cor. 11:24,25). E Paulo também foi envolvido em outros perigos que poderiam ser considerados formas de esbofeteamento, entre assaltantes, nos naufrágios sofridos, nas cidades e nos desertos. Paulo vivia a vida de um escravo, embora não fosse escravo, sujeito a um tratamento desumano, ao passo que os seus adversários, na igreja de Corinto, viviam e reinavam como monarcas. (Ver o oitavo versículo deste mesmo capítulo). «...e não temos morada certa...» Essa deelaração pertence à mesma categoria da afirmativa que Jesus fez de certa feita, dizendo que não tinha onde reclinar a cabeça (ver Mat. 8:20 e Luc. 9:58). Paulo não tinha uma vida repousada e tranqüila; antes, mais parecia um andarilho, um perpétuo peregrino; chegou mesmo a ser estigmatizado como tal. No entanto, tudo isso fazia parte de sua dedicação a Jesus Cristo. Ora, naqueles tempos, não ter alguma moradia fixa era sinal especial de dissolução de degradação. (Ver Mat. 8:20 e 10:23). As constantes viagens missionárias de Paulo, suas fugas constantes das perseguições, exigiam dele essa forma de vida. No entanto, em seus labores extraordinários, quase sozinho, estabeleceu a igreja de Cristo no mundo gentílico. Isso é um fato histórico, ocorrido com o' apóstolo dos gentios. No entanto, apesar disso tinha muitos detratrores e. inimigos na igreja, tanto em Jerusalém (ver o décimo quinto capítulo do livro de Atos) como em Corinto e na província da Galácia, conforme nos mostra a sua correspondência com as igrejas da Galácia e a igreja de Corinto. 12 και κοπιώμεν εργαζόμενοι ταΐς ίδίαις χ ε ρ σ ίν λοιδοροΰμενοι εύλογοΰμεν, διωκόμενοι άνεχόμεθα, 12 κ ο π ιω μ ε ν .,.χ ε ρ σ ίν Ac 18.3; 20.34; 1 Th 2.9; 2 Th 3.8; 4:12: e nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos; somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e o suportamos; Paulo não costumava réceber sustentos materiais das igrejas por ele fundadas, embora reconhecesse que isso é apropriado. (Ver o nono capítulo desta primeira epístola aos Coríntios). Paulo não exigia tal sustento porque fora o grande perseguidor, c, depois de convertido a Cristo, resolveu dar tudo quanto possuía, sem nada receber em troca. E isso servia de outro dos sinais sobre a sua total dedicação. E assim ele igualmente mostrou-nos que não é uma desgraça um ministro da Palavra trabalhar para o seu próprio sustento, se porventura isso faz progredir a causa de Cristo por intermédio dele. De fato, em muitos casos, isso é vantajoso, e até mesmo necessário. Deus abençoa àqueles que estão dispostos a se afadigarem em várias formas de trabalho secular, se porventura isso é feito visando a glória de Deus, se isso faz de um pregador do evangelho ainda um melhor ministro de Cristo. (Quanto a notas expositivas completas sobre a labuta de Paulo, para sustentar a si mesmo, e sobre o que se sabe acerca dessa questão, ver o trecho de Atos 18:3. Outras referências bíblicas sobre esse assunto, no que concerne a Paulo, podem ser vistas nas seguintes passagens: Atos 20:34; 28:30; I Cor. 9:15; I Tes. 2:9; II Tes. 3:8. O trecho de Atos 20:34 mostra-nos o fato maravilhoso que Paulo não somente sustentava a si mesmo, mas também a outros que viajavam em sua companhia. Paulo se mostrava extremamente industrioso e generoso. Não queria que as igrejas sentissem a carga de sustentá-lo obrigatoriamente, e nem queria ter obrigações monetárias, para com elas. Talvez houvesse nisso um pouco de orgulho independente; mas a verdade é que, essencialmente, ele agia assim movido por sua pura dedicação a Cristo. (Ver II Tes. 3:8). Essa sua prática facilitou a propagação do evangelho por seu intermédio, em um grau que serià simplesmente impossível, se porventura Paulo se tivesse limitado aos recursos financeiros que provinham das igrejas e das ofertas voluntárias. O nono capítulo deste livro mostra-nos que os detratores de Paulo criticavam-no sobre esse particular, declarando que ele, mui naturalmente, não recebia dinheiro da igreja de Corinto por não ser verdadeiro apóstolo, e, portanto, não merecia paga. Eles mesmos, entretanto, não hesitavam em tirar o máximo proveito possível dos recursos financeiros daquela comunidade cristã, chegando mesmo a exigir pagamento por seus serviços. E Barnabé, como é evidente, seguia o exemplo dado por Paulo, nesse sentido. (Ver I Cor. 9:6). Quando Paulo escreveu aos crentes de Corinto, estando em Êfeso, naquela ocasião estava ocupado em procurar sustento para si mesmo. (Ver Atos 20:34). 1 Cor 9.14-15 Κ οιοορούμενοι ίν λ ο '/ο υ μ ίν Ps 109.28; M t 5.44; Lk 6.28; Ac 7.60; Ro 12.14 «...quando... injuriados, bendizemos... perseguidos, suportamos...» Talvez não haja aqui nenhuma alusão direta às palavras de Jesus Cristo sobre esse assunto, conforme se lê em Mat. 5:44 e Luc. 6:27; mas é bem possível que Paulo estivesse sob a influência dessas palavras. Não há que duvidar que o ensinamento essencial do Senhor Jesus, a esse respeito, era conhecido pelo apóstolo dos gentios, através da tradição oral, embora não houvesse ainda nenhum evangelho escrito naquele tejnpo. Seja como for, ele foi instruído a esse respeito pelo Senhor, tendo compartilhado de seu espírito de mansidão, pelo menos em parte, ainda que não inteiramente e sempre. As perseguições sofridas por Paulo eram internas e externas, porquanto era vilipendiado verbalmente pelos falsos irmãos, e perseguido por ataques mentais, se não mesmo físicos, estando sempre sujeito às perseguições, no mundo pagão. Ver o trecho de II Cor. 11:24-26,28,32,33, que fornecem detalhes sobre essas diversas questões. Nessa citada passagem Paulo se gloria de suas fraquezas, porque, a despeito delas, ele trabalhou abundantemente em Cristo; e tais sofrimentos, por serem autenticações de que ele participava dos sofrimentos de Cristo, autenticavam também a sua missão apostólica. Podemos notar que o trecho de II Cor. 1:5 mostra-nos que Paulo considerava tais sofrimentos como a participação nos sofrimentos de Cristo, a duplicação daquilo por que passou o Senhor Jesus, uma prova de comunhão com ele, bem como a autenticação da promoção da causa do Mestre. Existe realmente certa «comunhão» nos sofrimentos de Cristo. (Ver Fil. 3:10). O trecho de Col. 1:24 mostra-nos que os sofrimentos que devem acompanhar a missão inteira de Cristo, tanto em si mesmo como nos seus discípulos, são grandes; e Paulo pensava que, em si mesmo, se completava ou «atingia a plenitude» aquilo que ainda faltava das aflições de Cristo. Diz a tradução de Williams (agora vertida para o português): «Estou preenchendo o que falta nos sofrimentos de Cristo em favor de seu corpo». Com essa declaração, entretanto, Paulo não quis dar a entender que tais sofrimentos tivessem qualquer valor «expiatório», conforme sucedeu no caso do Senhor Jesus Cristo; antes, eram necessários para o chamamento da igreja, para confirmação da mesma, no caminho de retorno a Deus. Jesus Cristo padeceu de intensas perseguições, a fim de conduzir os homens por esse caminho, inteiramente à parte da expiação no seu sangue. Não existe um caminho fácil para reconduzir os homens caídos a Deus. Tal retorno sofre oposição não só no mundo, mas também nos lugares celestiais, entre os anjos caídos. Essa conquista das almas para o Salvador não pode ser
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    64 I CORÍNTIOS realizadasem o sofrimento. Paulo se achava na vanguarda, nessa luta. (Quanto a notas expositivas sobre a «alegria no sofrimento», ver Atos 16:25. Quanto a outros comentários sobre os sofrimentos de Paulo, ver Atos 9:16. Quando a notas expositivas sobre como as perseguições não fizeram os cristãos primitivos cessarem em seu testemunho e multiplicação, ver Atos 4:20,22. Quanto às «oposições contra Cristo, e seu triunfo final», ver Atos 4:25. Quanto à verdade bíblica que «as perseguições são um privilégio», ver Atos 5:41. Quanto à «perseverança a despeito da perseguição», ver Atos 5:42. Quanto a Cristo como «o Servo Sofredor», ver Atos 3:18. Quanto à tribulação como bênção, ver Rom. 5:3. Finalmente, ver as notas expositivas em Atos 14:22, que alistam nove resultados benéficos que se originam das tribulações e perseguições que sofremos. Esses comentários complementam grandemente o que dizemos aqui, apresentando também uma tentativa de explanação parcial do problema do mal. Ver também as notas expositivas sobre Rom. 3:8, quanto a esse problema em geral). «Longe de reivindicarmos para nós mesmos lugares de honra e distinções terrenas, devemos submeter-nos mansamente ao opróbrio, às perseguições, às calúnias; de fato, devemos retrucar com bênçãos e paciência, bem como com palavras suaves». (Alford, in loc.). «A mansidão de Cristo ultrapassa em muito a abstenção da retaliação, sugerida por Platão. (Crit., pág. 49)». (Findlay, in loc.). Acerca do versículo que ora comentamos, o leitor pode comparar outras passagens do N.T., como Atos 7:60; Mat. 5:44; Luc. 23:34; Rom. 7:14,17 e I Ped. 3:9. 13 δυσφημούμενοι παρακαλοΰμεν ώς περικαθάρματα τον κόσμου έγενηθημεν, πάντων περίφημα, εως αρτι. ωσπερα καθ. G 6g pc 13 ώς...£*γ€νήθημεν Lm 3.45 13 Βυσφημουμ€νοι |)4βΝΑ pc syP Cl; R] βλασφ- BDG pi lalt syh CO ς | ως περικ.] 4:13: somos difamados, e exortamos; até 0 presente somos considerados como 0 refugo do mundo, e como a escória de tudo. Comenta C.T. Craig (in loc.): «O espirito cristão de não-retaliação é descrito em uma belíssima série de antíteses. Trata-se do ideal dos trechos de Mat. 5:44 e ss.; Rom. 12:14 e ss. e I Ped. 3:9. Não que Paulo sempre tenha vivido de conformidade com essa perfeição. Ele teve de defrontar-se com certos caluniadores aos quais não abençoou exatamente nesta sua epístola. Embora o verbo grego «parakaleo» possa significar ‘rogar’ (tradução KJ), algumas vezes também é usado no sentido de ‘conciliar’ (tradução RSV), sentido esse que se coaduna perfeitamente com o contexto aqui. A frase final do parágrafo pode não ser outra coisa senão a reiteração, em forma extremada, do trecho de I Cor. 1:28, onde Paulo toma lugar ao lado dos párias da sociedade. Mas ambos esses substantivos gregos (isto é, aqueles traduzidos pela tradução RSV como ‘refugo’ e ‘lixo’), são encontrados em uma conexão bem particular, ilustrada em Pro. 21:18, onde a versão LXX (Septuaginta) emprega o primeiro para traduzir a forma hebraica que significa ‘resgate’. Porquanto fora costume remover a contaminação de uma cidade mediante um sacrifício humano. Visto que essa oferta tinha de ser voluntária, usualmente se ofereciam somente àqueles para quem a vida se tornara intolerável. Os eruditos que crêem que Paulo está se referindo a essa prática, pois, traduzem esse substantivo por ‘bode expiatório’. E visto que em um outro trecho (Fil. 2:17), ele poderia ter aplicado essa figura simbólica do sacrifício a si mesmo, tal possibilidade não pode ser excluída aqui. Não obstante, o apóstolo Paulo jamais daria a mesma importância a seus sofrimentos como dava à paixão de Cristo». «...procuramos conciliação...», ou «rogo». Mas, no original grego, tal palavra também pode significar «exortação», «instrução», «consolo». Reveste-se da idéia de chamar a alguém para o lado de outrem, a fim de falar-lhe em particular, com o intuito de obter 0 seu apoio. Por isso mesmo, provavelmente não tem nenhum destes três significados: 1. Retrucar a uma linguagem insultante, por meio de exortação; 2. abafar a ira de outrem mediante uma resposta branda (ver Pro. 15:1); 3. ‘rogar’ a Deus, a fim de que seja corrigida a situação, sentidos esses todos possíveis, segundo o significado da palavra envolvida, embora não sejam prováveis dentro do 14 Ονκ εντρεπων υμάς γράφω ταντα, άλλ’ ώς τέκνα μου αγαπητά νουθετών 14 νουθετων ΝΑ 1739 <Λ R1 -θέτω p4eB l)G pm latt ς 4:14: Não escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas para vos admoestar, como a filhos meus amados. Agora Paulo já havia encerrado sua calorosa e amarga diatribe. A severidade de seu tom agora termina tão abruptamente como começou, no oitavo versículo deste capítulo. Já conseguira acalmar-se; e agora passa a falar a seus leitores como um pai fala a seus filhos, porque, em determinado sentido, aqueles para quem escrevia eram seus filhos; e, apesar dos estranhos acontecimentos na igreja de Corinto, ele ainda tinha um profundo afeto por eles. Paulo, às vezes, não conseguia deixar de «envergonhar» a seus leitores, como encontramos em I Cor. 6:5 e 15:34. No entanto, ele nega esse propósito quanto a este ponto, ou, pelo menos, subordina-o a uma posição inferior. Talvez tivesse tido esse propósito, mas não era o seu propósito fundamental. Envergonhá-los foi a finalidade de sua reação emocional; mas precisavam, muito mais ser avisados acerca dos perigos envolvidos em sua presente tolerância às facções, à ufania nos líderes humanos, à degradação de outros crentes. Corriam eles o perigo de serem desviados por mestres inferiores e até mesmo falsos, deixando assim de seguir o exemplo de um verdadeiro apóstolo (ver o décimo sexto versículo deste capítulo). Isso significaria, conforme a concepção de Paulo, que eles não seriam tão bons discípulos de Cristo, visto que a participação em várias presente contexto. O mais provável mesmo é que essa palavra signifique «buscar reconciliação». Quão rara é essa atitude, tanto no mundo como na igreja cristã dos nossos dias! Quão freqüentemente se vê as facções em luta, no seio do cristianismo, procurarem reconciliação? Quão freqüentemente alguém que é criticado ou vilipendiado por outro busca reconciliação com aquele que o vilipendiou? Esse é um elevadíssimo ideal cristão, que bem poderia acalmar todas as águas perturbadas que se agitam na igreja cristã. As mentes carnais, entretanto, similares às daqueles líderes facciosos da igreja de Corinto, jamais obedecerão a esse princípio cristão. E note-se que a reconciliação, neste caso, foi buscada com aqueles que «caluniam», que «difamam», conforme o sentido do vocábulo grego «dusphemia» indica, o vocábulo usado neste versículo, no original. «...lixo...» Literalmente, varrição, restos, aquilo que se retira de lugares imundos, os resíduos, o «refugo». Ê interessante que também era a palavra usada para indicar a «oferta propiciatória», o «resgate». Certa interpretação tem sido criada em torno desse possível sentido dessa palavra, conforme se verifica no primeiro parágrafo das notas expositivas sobre este versículo. «...escória...» Basicamente, essa palavra significa a «raspa», o «material refugado» de qualquer coisa. Tal termo pode indicar o sujo que é tirado ou raspado de um objeto qualquer, ou aquilo que é removido mediante o processo da limpeza de qualquer coisa. Tal palavra também era empregada para indicar o «resgate», o «sacrifício», o «bode expiatório». Portanto, os dois vocábulos usados neste versículo, com a finalidade de mostrar a degradação a que os verdadeiros apóstolos haviam sido sujeitados no mundo, podem ser sinônimos, porquanto são muito semelhantes em seu sentido e emprego básicos. Ambos podem referir-se ao sacrifício de um ser humano, com 0 intuito de pacificar aos deuses, conforme era o costume em Atenas e outros lugares do mundo antigo, o que também foi praticado por Israel, em períodos de grande apostasia. O apóstolo Paulo e os verdadeiros ministros do evangelho, pois, poderiam ser encarados como alguém que se sacrificáva a fim de conduzir homens aos pés de Cristo, sendo eles sacrifícios vivos, na forma de uma dedicação total. O outro sentido, não obstante, é o mais provável e certo. facções fazia deles crentes carnais. (Ver I Cor. 3:1). Uma vez que o espírito de Paulo se abrandou, chamou-os então de «...filhos meus amados...», uma expressão ainda mais afetuosa que «irmãos», que ele vinha injetando aqui e acolá, a fim de suavizar a aspereza de suas palavras. (Ver I Cor. 1:10; 3:1 e 4:6. Quanto a oútras referências aos crentes de Corinto como convertidos seus, como seus filhos espirituais em Cristo, ver os trechos de II Cor. 6:13; File. 10 e Gál. 4:19, que encerram o mesmo tipo de expressão). Essa expressão também se encontra na literatura judaica, onde um «pai espiritual» ocupava uma posição de maior importância que a de um pai físico. (Ver, por exemplo, as palavras do rabino Eleazar ao rabino Eliezer, estando este último enfermo: «Para Israel és mais do que pai e mãe; eles têm significação para este mundo. Mas os Mestres (tem significação) tanto neste mundo como no mundo vindouro»—Talmude). O apóstolo Paulo, por conseguinte, considerava-se como alguém que ocupava essa elevada posição, com relação aos crentes de Corinto, fazendo contraste com outros indivíduos que, quando muito, poderiam ser apenas instrutores deles. (Ver o décimo quinto versículo deste capítulo). 15 εάν γάρ μυρίους παιδαγωγούς εχητε εν Χριστώ, διά του ευαγγελίου εγώ υμάς εγέννησα. 15 yap Io] otn ρ 4β I g Hier Aug | Ιησού 4:15: Porque ainda que tenhais dez mil aios em Cristo, não tendes contudo muitos pais; pois eu pelo evangelho vos gerei em Cristo Jesus. Ordinariamente, Paulo certamente não diminuía a importância dos «mestres» ou «instrutores de crianças»; mas as palavras que ele aqui emprega, «...milhares de preceptores...» (o que certamente expressa um exagero proposital), na realidade diminui a posição desses mestres em comparação com a dele mesmo. Paulo ocupava uma posição sem-par em Corinto, como fundador e pai espiritual daquela igreja; os mestres άλλ’ ου πολλούς πατέρας, εν γάρ Χριστώ Ίησοϋ 15 hv 'yàf>...kykvvraa Ga 4.19 om B Clpt Ambst desempenhavam papel importante, mas comparativamente menos impor­ tante do que o dele. Portanto, Paulo merecia e requer aqui o respeito daqueles crentes, bem como uma maior obediência do que aquela que eles deviam aos seus instrutores. O termo aqui traduzido por «...preceptores...», ou «instrutores», é o mesmo traduzido por «aio», conforme algumas traduções dizem em Gal. 3:24, e onde há uma alusão à lei, como o agente que ajuda alguns homens a serem levados aos pés de Cristo. Aqui estão em vista os «atendentes» de
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    I CORÍNTIOS 65 meninospequenos, que os acompanhavam na ida e na volta da escola. Usualmente esses «paidagogoi» eram escravos relativamente sem impor­ tância. Podiam ser numerosos e podiam ser trocados com freqüência. Mas havia um único pai, e ninguém poderia tomar seu lugar ou suplantá-lo em importância com relação à criança. Além disso, às crianças se admoestava que tivessem seus progenitores como seus exemplos, e não os seus treinadores. (Ver I Cor. 11:1; I Tes. 1:6; II Tes. 3:9; Gál. 4:12; Fil. 3:17). Os «preceptores», além disso, não eram professores comuns, mas antes, uma espécie de guardiães, de pagens, embora alguns deles recebessem o encargo de cuidar de certos aspectos da educação das crianças. E perfeitamente provável que Paulo tenha querido dar a entender também a idéia de que os crentes de Corinto vinham sendo ensinados por tais homens, mas não da mesma maneira como ele mesmo fora seu instrutror na fé que há em Cristo Jesus. «...pelo evangelho vos gerei...» (Quanto a notas expositivas completas sobre o «evangelho», especialmente no conceito e nas ações de Paulo, ver Rom. 1:16. Quanto a comentários sobre «Cristo», ver Mat. 1:16. Quanto a notas expositivas sobre «Jesus, o Cristo», ver o artigo existente na introdução ao comentário que versa sobre esse tema, e que se aprofunda em sua vida e ensinamentos). O evangelho fora o instrumento mediante o qual lhes fora «dado o nascimento», aquilo mediante o que tinham vindo a conhecer a vida eterna, existente em Cristo. O próprio Jesus Cristo é a esfera e a origem dessa nova vida, a sua fonte, bem como o seu alvo. (Ver as notas expositivas sobre Rom. 8:29, quanto a essa mensagem, explanada em seus completos detalhes. Ver também os trechos de João 5:25,27 e 6:57, acerca da participação dos crentes na vida necessária e independente do próprio Deus Pai, através de Deus Filho, Jesus Cristo). «Os dois pronomes, no grego ‘ego’ e ‘umas’, estão em proximidade enfática. ‘Quem quer que tenha sido o progenitor de outras igrejas, fui ‘eu’, quem, em Cristo, ‘vos’ gerou». (Robertson e Plummer, in loc.). «Fica aqui subentendido certo contraste, entre a severidade áspera de um pedagogo e a ternura amorosa de um progenitor». (Shore, in loc.). Paulo agia de acordo com o ofício e a pessoa do Salvador, porquanto Cristo é o redentor dá humanidade, o Pai da redenção humana. Os instrutores ou preceptores tão-somente edíficavam sobre essa realização inicial e muito mais importante. «Apesar dos crentes de Corinto serem gigantes no orgulho, eram crianças na fé, e, portanto, com toda a razão, são deixados ao encargo de ‘pedagogos’». (Calvino, in loc.). «...pelo evangelho...», e não através da sabedoria humana. Mediante o emprego da «palavra da cruz», que alguns dos detratores de Paulo punham em posição muito subordinada, em seus respectivos ministérios, chegando mesmo a ignorá-la totalmente. (Ver I Cor. 1:17,19,21,23-25 e 2:1,2). 16 πa,ρακαλώ ουν υμάς, μιμητα ί μου γ Trt ΛΛ/Τ I ΤΤ ΤΙ Ι/ΛΠ/ 'ίνεσθε. 6 yiveaffe] aid (ι Ι. ι) καθώς καγω Χρίστου (104) 441 Pc vg! 16 μ ιμ η τα ί μον -γίνεσθε 1 Cor 11.1; Php 3.17; 1 Th 1.6 rS, cl 4:16: Rogo-vos, portanto, que sejais meus imitadores. ★ ★ ★ Os bons pais exortam a seus filhos para que sigam o seu exemplo, algo que Paulo fazia com freqüência em seus escritos. (Ver I Cor. 11:1; I Tes. 1:6; II Tes. 3:9; Gál. 4:12 e Fil. 3:17). Desejava que os crentes seguissem o seu exemplo de humildade de amor, de interesse e de dedicação. Desejava que seguissem os seus «caminhos em Cristo» (ver o versículo seguinte), isto é, sua maneira geral de conduta, como discípulo de Jesus Cristo. Queria o apóstolo que aqueles crentes soubessem algo da suprema dedicação que ele tinha à pessoa de Jesus Cristo, o que o levava a sacrificar-se, a sofrer e a passar agonias por sua causa, conforme ele descrevera, a começar pelo décimo primeiro versículo deste mesmo capítulo. Paulo anelava que os homens ensinassem a doutrina sobre Cristo como ele mesmo a ensinava. Queria que descessem de seu alto pedestal de posição e auto-exaltação e ufania nos homens, a fim de que pudessem aprender algo a respeito da verdadeira glória, na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Desejava que aqueles crentes aprendessem como os homens devem ter o cuidado de preservar a unidade, o vínculo da paz, do amor mútuo, como características apropriadas de todos os membros da igreja de Cristo. Comenta Robertson (in loc.), acerca do sentido mais exato destas palavras: «‘Mantende-vos...imitadores meus’. ‘Mimetes’ é uma antiga palavra, derivada de ‘mimeomai’, isto é, ‘copiar’, ‘imitar’ (mimos). Paulo defende seus direitos como o seu progenitor espiritual, em contraposição às pretensões dos judaizantes, que se tinham voltado contra ele, mediante o uso dos nomes de Apoio e Cefas». Paulo conclama aqui aos crentes que sejam seus «....imitadores...», o que envolve mais do que ser simplesmente um «seguidor». Essa palavra subentende uma conduta mais aproximada ao modelo do que a outra palavra dá a entender. Paulo era um pregador da «palavra da cruz». Mas alguns daqueles crentes de Corinto haviam substituído essa palavra pela sabedoria do mundo, provocando facções através de sua prédica e conduta. Tais indivíduos haviam perdido de vista a verdadeira mensagem cristã, e tentavam fazer da igreja cristã um clube filosófico para aprendizado da retórica. Paulo, pois, procura afastar aqueles crentes desse ideal errôneo, mostrando-lhes por seu próprio exemplo qual deve ser a conduta de um ministro do evangelho. A totalidade desta primeira epístola aos Coríntios, até este ponto, indica-nos que Paulo gostaria de incluir essa questão como parte da conduta que ele esperava da parte de seus imitadores. Os versículos décimo a décimo terceiro mostram-nos que ele esperava, particularmente, que eles reproduzissem o seu espírito de humildade e de auto-sacrifício. «Toda a vida é uma profissão de fé, e exerce uma propaganda inevitável e silenciosa... Tende por transformar o universo e a humanidade segundo a sua própria imagem... Todo o homem é um centro de irradiação perpétua, como um corpo luminoso... um farol que empurra um navio contra os recifes, se porventura não o guia na direção do porto. Todo indivíduo é um sacerdote, mesmo involuntariamente; a sua conduta é um sermão não-falado, que ele vive permanentemente pregando para os outros; mas existem sacerdotes de Baal, de Moloque e de todos os deuses falsos! Tal é a elevadíssima importância do exemplo». (Diário de Amiel, págs. 24 e 25). «Aimitação é a grande lei da vida infantil. Compare-se isso com o trecho de Efé. 5:1, e, quanto à melhor ilustração, ver João 5:17-20. Uma coisa é dizer ‘sou de Paulo’ (ver I Cor. 1:12), e outra bem diferente é palmilhar pelos passos de Paulo». (Findlay, in loc.). «Os crentes de Corinto não somente repeliram a humilhação da cruz, mas igualmente consideram com desprezo a seu próprio ‘pai’ na fé, porquanto ele, esquecendo-se das glórias terrenas, gloriava-se antes nos opróbrios de Cristo; mas eles mesmos se reputavam afortunados, juntam ente com outros, por nada terem de desprezível no que diz respeito à carne. De conformidade com isso, pois, ele os admoesta aqui a que se devotem, seguindo o seu exemplo, ao serviço de Cristo, a fim de suportarem com paciência todas as provações». (Calvino, in loc.). «Ele (Paulo) vivia para Deus e para a eternidade, não buscando a sua própria glória, emolumentos ou lazer; mas aqueles semeadores de sedições, entre os crentes de Corinto, eram impulsionados por motivos diferentes». (Adam Clarke, in loc.). «Embora Paulo pudesse ter usado o poder e a autoridade de um pai, contudo, preferiu arrazoar com eles e exortá-los.» (John Gill, in loc.). (Quanto a uma expressão da palavra aqui usada, traduzida por «admoesto-vos», ver o trecho de Rom. 12:1). 17 διά τοΰτο1 επεμφα ύμΐν Τιμόθεον, 6ς εστίν μου τεκνον αγαπητόν καί πιστόν εν κυρίω, ος υμάς αναμνησει τάς ο8ους μου τάς εν Χριστώ [Ίησοΰ], καθώς πανταγοΰ εν πάση εκκλησία διδάσκω. . 1 17 (C } τοΟτο {«·“ Β C D G <Ρ 88 1Μ 326 614 629 630 1241 1739 1881 1962 1984 1985 2127 2492 B yz L ed it*r· ”·f- ' vg syr? cop">'b° arm Origen Chrysostom Theodoret John-Dam aseus. // τούτο αυτό put:,,í Μ* A P 33 81 181 330 436 451 1877 2495 syrb Euthalius 17 €7Γ€μψα...Χ.ριστώ Ac 19.22; PhD 2.19-22 17 Xp. Ιησ. J)48X 7739 pm vgs>cl syh bo arm] Xp. AB al vgwsyp sa ς ; R : Κυριω Ιησ. D*G Principalmente com base no peso da evidência externa (p46·48 Nc B ( ' I) G L Ί/ 6 88 6l4 1739 Byz Led Latim Antigo vg sir (p) cop (sa.bo) ara Origenes al), a maioria da comissão preferiu a forma mais breve, τούτο. A expressão τοντο αυτό (ρ11’η < ί N* A P 33 81 436 451 2595 sir (h) al) pode ter surgido acidentalmente, mediante ditografia. 4:17: Por isso mesmo vos enviei Timóteo, que i meu filho amado, e fiel no Senhor; o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo, como por toda parte eu ensino em cada igreja. (Quanto a notas expositivas completas sobre «Timóteo», ver Atos 16:1). O fato que Paulo enviara Timóteo servia de outro sinal sobre o amor e a preocupação de Paulo. Esse apóstolo fez tudo quanto estava ao seu alcance para corrigir os males surgidos em Corinto; não ignorava tais males, e nem permitia que os crentes seguissem por seus próprios caminhos, lavando as mãos sobre toda a questão, como bem poderia ter sido tentado a fazer. Aparentemente Timóteo não fora o portador de uma epístola, e evidentemente chegara antes do próprio apóstolo. Assim sendo, Timóteo não podia ser considerado substituto de Paulo (ver os versículos dezoito e dezenove deste capítulo), mas tão-somente um ajudante, para que fizesse o quanto estivesse ao seu alcance, até à chegada do próprio apóstolo, quando este se visse livre de seu labor no evangelho em Éfeso, quando este pudesse cuidar pessoalmente da questão em Corinto. Timóteo também era «filho» de Paulo, na fé em Cristo, e era um filho «autêntico», que já imitava a seu pai. Por conseguinte, Timóteo poderia dar um bom exemplo àqueles crentes, instruindo-os mais perfeitamente acerca do que se esperava da parte deles, tanto mediante palavra como através do exemplo diário. Ficamos sabendo^ no trecho de Atos 19:22, que Timóteo provavelmente já havia deixado Efeso, ou que o fizera pouco depois de Paulo ter escrito estas palavras. Trabalhava agora na Macedonia, não tendo partido imediatamente para Corinto, pelo que deve ter chegado depois que a epístola de Paulo foi recebida ali. A passagem de Atos 19:22 parece indicar que o coríntio Erasto era seu companheiro, nessa missão. Mas esse crente deve ser distinguido do Erasto referido em Rom. 16:23. «...o qual vos lembrará os meus caminhos...»Visto que aqueles crentes se
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    66 I CORÍNTIOS tinhamolvidado das instruções apostólicas, ou que propositadamente as ignoravam, agora era mister relembrar-lhes o que se esperava realmente da parte deles, em favor de Cristo, o que era algo que os seus «preceptores» ou instrutores não tinham feito; pois, se o tivessem feito corretamente, não teriam surgido tão grandes dificuldades na igreja de Corinto. «...caminhos em Cristo Jesus...»A natureza desses «caminhos» é indicada em trechos bíblicos como I Cor. 1:7; 2:1-5; 4:11-13; 9:15,22,27. Paulo se referia aos «seus caminhos», tal como se referia ao evangelho como o «seu evangelho». O que ele queria dar a entender, portanto, é que os seus jcaminhos são os caminhos do Senhor Jesus, porquanto Deus é o grande Pai; e o seu evangelho é o evangelho de Cristo. «...como por toda parte ensino em cada igreja...» Havia uma coerência geral no ministério e na conduta do apóstolo Paulo, por toda a parte por onde ele ia. Não procurava ele impor aos crentes de Corinto qualquer conduta diferente que não ensinasse e requeresse de todas as congregações cristãs. Não fazia de Corinto algum caso especial. A igreja daquela cidade era apenas uma entre muitas, parte da expressão universal do corpo de Cristo. (Ver I Cor. 1:2). Dos crentes de Corinto, por conseguinte, não era esperado nem mais e nem menos do que de qualquer outra comunidade cristã; e, através desse fato, nos é dado compreender a universalidade das instruções contidas nesta epístola. Em outras palavras, o que está ali escrito—como sucede a todo o restante do N.T.—não foi dirigido somente aos crentes de Corinto, ou mesmo somente aos crentes primitivos, mas à igreja de Cristo em todos os séculos e em todos os lugares. A missão de Timóteo foi bem-sucedida? Basta que se leia o trecho de I Cor. 16:10,11. Evidentemente Timóteo era um tanto tímido por natureza, tendo sido necessário que Paulo admoestasse aos membros da igreja de Corinto para que lhe dessem uma acolhida cordial e respeitosa. Além disso, „ Timóteo era muito mais jovem do que o apóstolo dos gentios, não sabendo ainda controlar as situações como ele. O versículo de I Cor. 16:12 mostra-nos que Paulo tentou convencer Apoio a ir a Corinto, provavelmente pelas mesmas razões pelas quais enviou Timóteo. E quiçá Apoio tivesse sido pessoa mais apta que Timóteo naquela missão; mas Apoio recusou-se a isso, talvez porque uma facção ali existente o escolhera como sua grande figura, e ele não queria provocar ainda maior partidarismo, que viesse a solapar ainda mais a autoridade já abalada de Paulo no conceito daqueles irmãos. O fato de que Paulo queria enviar a Apoio mostra-nos que esse último não era pessoalmente culpado de tentar criar um grupo dè seguidores seus naquela comunidade cristã. Os partidos ali surgidos não tinham sido resultado de qualquer coisa feita por Apoio. A passagem de II Cor. 1:1,19 mostra-nos que Timóteo já fizera essa viagem, e que então voltara à companhia de Paulo. E os versículos de II Cor. 7:6-8, 13-16 servem para esclarecer que ocorrera grande modificação na conduta dos crentes de Corinto. Mas tal modificação ocorrera por intermédio de Tito, e não por ação de Timóteo; e tudo isso sucedeu antes que tivessem sido escritos os capítulos primeiro a nono da nossa atual segunda epístola aos Coríntios, onde Paulo expressa grande alívio mental em face da melhoria das condições daquela igreja, de tal modo que ele foi capaz de escrever: Alegro-me porque em tudo posso confiar em vós (II Cor. 7:16). Ora, Paulo não poderia ter feito tal declaração antes de Tito ter obtido êxito em seu trabalho. É o trecho de II Cor. 8:6,16,17 que nos mostra que Paulo comissionara Tito para a mesma tarefa por causa da qualjá tinha 18 ώς μη ερχομένου δε μου ττρόζ υμάς εφυσιώθησάν 4:18: Mas alguns andam inchados, como se eu não houvesse de ir ter convosco. Evidentemente os crentes de Corinto perceberam o intuito da missão de que Timóteo fora encarregado. E daí tiraram a conclusão de que Paulo preferia não preocupar-se com uma situação difícil, enviando um substituto, o que certamente imaginaram tratar-se de uma fraqueza da parte de Paulo; e agora se vangloriavam nisso, utilizando-se dessa suposição como arma para prejudicá-lo ainda mais, no conceito dos membros menos avisados da igreja de Corinto. Provavelmente aqueles eram os mais amargos oponentes de Paulo, aqueles contra quem ele escreveu a epístola amarga que consta dos capítulos décimo a décimo terceiro de nossa atual segunda epístola aos Coríntios. «...ensoberbeceram...» No original grego, se encontra no tempo aoristo o verbo assim traduzido aqui, o que indica alguma ação em um ponto definido no passado. Ê provável que a alusão seja à reação específica enviado a Timóteo. A passagem de II Cor. 12:18 também esclarece que Paulo havia enviado algum «irmão» não identificado, em companhia de Tito. Por sua vez, o trecho de II Cor. 2:1-4 evidencia o fato de que o próprio Paulo deve ter feito uma visita a Corinto, depois de haver escrito esta sua primeira epístola aos Coríntios, mas antes de haver escrito as várias epístolas atualmente combinadas e que formam a nossa segunda epístola aos Coríntios. (Ver o problema da correspondência paulina com Corinto, na secção IV da introdução à primeira epístola aos Coríntios, onde se vê que nossas atuais primeira e segunda epístolas aos Coríntios combinam, pelo menos, quatro missivas). Podemos supor que a epístola que Paulo escreveu em aflição e angústia de coração (ver II Cor. 2:4), foi a «epístola severa» que consiste dos capítulos décimo a décimo terceiro de nossa atual segunda epístola aos Coríntios, a qual, na realidade, foi escrita antes dos capítulos primeiro a nono de nossa segunda epístola aos Coríntios, capítulos esses que mostram grande sentimento de alívio, e não angústia, em face do fato de que Tito conseguira levar a bom termo a sua tarefa. O contexto do segundo capítulo da segunda epístola aos Coríntios mostra-nos que pelo menos o quinto capítulo desta primeira epístola aos Coríntios também está em vista, como missivas que Paulo escreveu àqueles crentes. Alguns estudiosos acreditam que Paulo se refere aqui à correspondência «existente», nessa referência. É possível que isso seja verdade, embora não tenhamos meios para averiguar a verdade com qualquer grau de certeza. O trecho de II Cor. 7:5-7 parece mostrar que a epístola representada pelos capítulos primeiro a nono de nossa atual segunda epístola aos Coríntios foi escrita na Macedonia, e que pelo tempo em que Tito se encontrou com Paulo ali, já tinha podido resolver alguns dos problemas que tanto tinham preocupado o apóstolo dos gentios. Portanto, é a Tito que cabe principalmente o crédito por haver encontrado a solução para tais problemas. Podemos supor, pois, que a natureza naturalmente tímida de Timóteo, em combinação com sua juventude, não lhe permitira obter qualquer grande sucesso em sua missão, embora talvez tenha tido alguma.contribuição no melhoramento das condições. Era muito apropriado que Paulo chamasse a Timóteo de seu filho. A passagem de Atos 16:1 e ss. mostra-nos que Timóteo já era um discípulo quando Paulo o conheceu; ou, pelo mènos, isso fica subentendido. Alguns eruditos têm suposto, portanto, que Timóteo realmente não se convertera pela instrumentalidade de Paulo, mas antes, tendo sido instruído por ele, como seu discípulo especial, com razão pôde ser chamado de seu filho, conforme era o costume dos rabinos, em relação aos seus discípulos mais chegados. As referências que Paulo faz a Timóteo, como em I Tim. 1:2,18 e II Tim. 1:2, entretanto, parecem indicar que não era essa a única razão pela qual ele foi chamado de «filho». O mais provável é que Timóteo tiveíse mesmo sido discípulo convertido através de Paulo, embora nos faltem quaisquer evidências históricas nesse sentido, especialmente sobre o tempo e o lugar. No trecho de I Tim. 1:2, Timóteo aparece como «verdadeiro filho na fé». Portanto, é possível que essa declaração do fato de que Timóteo era um discípulo, em Atos 16:1, deva ser compreendida no sentido mais autêntico do discipulado cristão. Podemos tão-somente conjecturar que em, algum lugar, antes das narrativas do décimo sexto capítulo do livro de Atos, Paulo deve ter conhecido a Timóteo. (Ver o trecho de Atos 16:1 sobre essa questão, embora não tenhamos qualquer informação certa sobre a mesma). τινες' daqueles oponentes de Paulo, quando ouviram falar na planejada visita de Timóteo. No original, esse verbo significa «inchar», mas também pode significar tomar-se orgulhoso, ou «arrogante». Descreve admiravelmente bem a ação e o caráter daqueles que se ufanavam de sua sabedoria humana, de sua retórica superior, de sua abastança material na sociedade, tudo o que fazia violento contraste com os sofrimentos de Paulo e com o serviço humilde por ele prestado. «Um espírito ‘orgulhoso’ era o pecado fixo dos crentes de Corinto». (Faucett, in loc.). Quando aqueles crentes facciosos ouviram falar na visita que Timóteo faria, pensaram imediatamente que haviam ganho a batalha contra Paulo, por negligência deste último; e se aproveitaram da ocasião para mostrar a sua arrogância. 19 έλεύσομαι δε ταχέως ττρος υμάς, iàv ό κύριος θέληση, και γνώσομαι ού τον λόγον των πεφυσιωμένων αλλά την δυναμιν, ' 19 ϊλίύσομαι...θβλήσνA c18.21;]μ4.ι5 4:19: Em breve, porém, irei ter convosco, se o Senhor quiser, e então conhecerei, não as palavras dos que andam inchados, mas o poder. «...mas em breve irei visitar-vos, se o Senhor quiser, e então conhecerei não a palavra, mas o poder dos ensoberbecidos...» Um homem de menor envergadura moral teria desistido da luta; mas não o apóstolo Paulo. Não que ele quisesse promover os seus próprios interesses, mas porque havia um câncer naquela comunidade cristã que precisava ser removido. Paulo já tinha enviado Timóteo e Erasto, em missão preliminar. Tinha desejado que Apoio fosse também. (Ver Atos 19:22 e I Cor. 16:12). Além disso, já enviara a Tito. (Ver II Cor. 7:6-8,13-16 e 8:6,16,17). Essas comissões mostram-nos o profundo interesse que Paulo tinha por aquela igreja, e não que ele estivesse desinteressado em resolver pessoalmente a dificuldade, conforme seus oponentes mui erroneamente haviam interpretado. Os adversários de Paulo em Corinto sabiam usar palavras, eram oradores eloqüentes, treinados na retórica. Mas Paulo estava ansioso por verificar se eles possuíam algum «poder» real, ou se tudo não passava de meras palavras. Naturalmente, deixou entendido que suspeitava que eles não tinham mais do que palavras. «Durante a ausência de Paulo, os judaizantes se puseram a falar constantemente. A segunda epístola aos Coríntios fomece-nos muitas evidências sobre a sensibilidade de Paulo para com as palavras daqueles homens, acerca de suas supostas incoerências e de sua covardia (em particular os capítulos primeiro, segundo e décimo a décimo terceiro). Na verdade, Paulo alterou os seus planos a fim de poupá-los, e não por timidez. Ficaria claro, mais tarde, que Timóteo falharia em sua missão, mas que Tito seria bem-sucedido». (Robertson, in loc.). Evidentemente Paulo planejava fazer essa viagem após a festa judaica do Pentecoste (ver I Cor. 16:18). (Seus vários planos e modificações dos mesmos são discutidos nas notas expositivas sobre II Cor. 1:15,16,23). «...se o Senhor quiser...» (Com essas palavras se podem comparar os trechos de I Cor. 16:7 e Tia. 4:15). Podemos supor que essa era uma fórmula cristã comum, no tocante a planos e ações, tal como se verifica até hoje, entre muitos crentes evangélicos e outras pessoas. É verdade que essa fórmula pode ser reduzida a meras palavras; mas Paulo vivia de
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    I CORÍNTIOS 67 conformidadecom a atitude expressa pela mesma. O «...Senhor...» neste caso, é o Senhor Jesus Cristo, e não Deus Pai, o que expressa um uso bastante comum nas páginas do N.T. (Ver as notas expositivas acerca desse título, bem como exemplos do uso do mesmo, no N.T., no trecho de Rom. 1:4). Paulo assume aqui as maneiras e a linguagem de um juiz. O vocábulo «...poder...» 1. Não está aqui em vista seu presumível poder, como se fossem poderosos líderes humanos. 2. Também não está em foco o poder de operar milagres. 3. Mas Paulo se referia ao poder de conquistar outros para a vida cristã, ou, mais particularmente ainda, o poder do Espírito de Deus na vida do crente individual. Paulo, pois, verificaria se realmente eram possuidores desse poder, ou se tudo quanto tinham para dar eram os seus discursos eloqüentes, suas amargas críticas verbais, sua sabedoria terrena e prolixa. Paulo haveria de testar o caráter real daqueles elementos, na presença de todos. Somente alguém da estatura espiritual do apóstolo dos gentios poderia ter proferido tais palavras com tanta confiança, para «verificar se eram realmente ou não poderosos no Espírito». (Alford, in loc.). O verdadeiro poder espiritual pertence ao reino de Deus, o que se estende a seus autênticos representantes, conforme aprendemos nos trechos de I Cor. 1:18,24 e 2:4. E com isso se pode comparar o trecho de I Tes. 1:5, que diz: «...porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre vós, e por amor de vós». Não há que duvidar que Paulo poderia ter dito a mesma coisa para os crentes de Corinto, estabelecendo contraste entre ele mesmo e os seus detratores, cujo poder consistia essencialmente da eloqüência verbal, mas não de uma vida cristã controlada pelo Espírito de Deus. 20 ού γάρ iv λόγω η βασιλεία του θεοΰ άλλ’ εν 4:20: Porque ο reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder. As palavras «...reino de Deus...» são utilizadas em variegados sentidos, nas páginas do N.T., não devendo nós pensar que elas sempre têm o mesmo significado. A idéia geral dessa expressão gira em torno daquele estado onde a influência e o poder de Deus operam e dominam entre os homens, ainda que tal domínio deva ser considerado como de natureza espiritual, política e mística. Pode significar o reino teocrático, a restauração do reino de Davi, o reinado do Messias, ou algum governo político literal. (Ver Mat. 6:33; 12:28 e a totalidade de seu décimo terceiro capítulo). O Reino E Seus Significados 1. O vocábulo «reino» pode indicar o reino messiânico que os judeus esperavam, o qual, na doutrina cristã primitiva se tornou no ensino sobre o milênio. Esse uso foi quase inteiramente abandonado pelos escritores sagrados, após os evangelhos sinópticos. 2. O conceito geral é que «Deus reina», quer no mundo, quer nos corações dos homens. Por conseguinte, pode ter um significado puramente espiritual ou ético. (Ver Luc. 17:20,21 e Rom. 14:17). 3. No evangelho de João, o termo é praticamente equivalente à «salvação» ou «vida eterna» (ver João 3:3). 4. O trecho de Col. 1:13 quase usa o termo para indicar a «igreja cristã», como guardiã das atuais bênçãos divinas. (Ver notas completas sobre o conceito do «reino», em Mat. 3:2). ★ ★ ★ No trecho de João 3:3; a expressão «reino de Deus» aparece como a «salvação transcendental», ou seja, a vida eterna, que um homem não pode nem ao menos ver sem o novo nascimento. Pelo tempo em que o evangelho de João foi escrito, isto é, depois da destruição de Jerusalém, já havia inteiramente desaparecido, para muitos crentes, qualquer esperança da inauguração de algum reino político para algum futuro previsível, ainda que muitos preservassem tal esperança na forma da doutrina do milênio, vinculada à «parousia», isto é, a segunda vinda de Cristo Jesus. Por essa razão é que, no evangelho de João, o reino político não mais ocupa qualquer posição. Ali, a «salvação» no outro mundo é o reino de Deus. É interessante que segundo a moderna terminologia evangélica, essa expressão é usada como virtual eqüivalente da «igreja cristã», pelo menos quanto à sua expressão à face da terra. O trecho de Col. 1:13 usa essa expressão de uma maneira não muito diferente disso. Aqui, em I Cor. 4:20, essa expressão parece indicar a vida cristã em geral, bem como sua expressão, concretizada pelo Espírito Santo. Então se contempla o Senhor Deus a governar nos corações dos crentes, individualmente, e também na comunidade cristã em geral, não estando em foco algum domínio futuro, quer político, quer espiritual. Com isso se pode contrastar o uso que o oitavo versículo deste mesmo capítulo faz dessa expressão, onde dá a entender uma idéia escatológica—o reino futuro de Cristo, que será inaugurado quando de seu segundo advento. (Quanto a uma nota de sumário sobre os termos «reino de Deus», ou «reino dos céus», ver Mat. 3:2). Robertson e Plummer (in loc.) atribuem três sentidos distintos a essa expressão, nos escritos paulinos, a saber: 2 1 τ ί θελετε; iv ράβδω έλθω προς ύμάς, η εν άγάττΎ] 4:21: Que quereis? Irei α vis com vara, ου com amor e espirito de mansidão? «Após ter empregado argumentos, ironia e apelo afetuoso, o apóstolo Paulo termina com uma ameaça. Ele iria; que ninguém se iludisse a esse respeito. Nas mãos da própria igreja jazia a escolha do que sucederia quando Paulo chegasse. Ele gostaria de mostrar ali o ‘espírito de mansidão’, embora também pudesse aplicar a ‘vara’, se necessário fosse. E não está aqui em foco o cajado do pastor, mas a palmatória do mestre-escola—e Paulo não acreditava em poupar a vara na criação de seus filhos espirituais. Segundo a maneira como a segunda epístola aos Coríntios considera as questões dolorosas do passado, precisamos concluir que aquela igreja terminou por escolher a vara. Aquelas facções, na realidade, foram de mau para pior». (C.T. Craig, in loc.). (Quanto ao «uso da vara», comparar com os trechos de I Sam. 17:43 e II Sam. 7:14). Paulo, por conseguinte, falava sobre a reprimenda espiritual e a disciplina, bem como sobre o exercício de sua autoridade apostólica, através de palavras censuradoras, mas também através de ações disciplinares, com ν ά μ ε ι. 2o ic o r2.4 1. O reino futuro, em que Deus será tudo em todos. (Ver I Cor. 15:28). 2. O reino medianeiro de Cristo, que é o reino de Deus em processo de desenvolvimento, o que os milenistas identificam com o reino milenar de Jesus. 3. A realidade íntima que subjaz à vida, às atividades e às instituições externas da igreja. (Esse é o sentido que aparece neste ponto). «...poder...»Essa é uma das mais importantes características do reino de Deus, sem importar o ponto de vista sobre o mesmo que tenhamos em mente. Esse poder não é político e nem humanístico, e, sim, espiritual. (Ver I Cor. 2:5). Esse poder nos é conferido por intermédio do Espírito Santo, manifestando-se no evangelho mediante a pregação da cruz. (Ver I Cor. 1:18). Os detratores de Paulo entretanto, ignoravam essa mensagem, pensando ser um escândalo para os educados ouvidos helenistas. Ao invés da mensagem da cruz, pregavam a sabedoria dos homens, que eles supunham ser poderosa, mas que Paulo aquilatava como refinada fraqueza. (Ver I Cor. 1:25). O poder de Deus é personificado na pessoa de Jesus Cristo (ver I Cor. 1:24), porque ele é o grande redentor da humanidade; e essa redenção requer poder, bem como certo tipo de poder que a sabedoria humana não pode produzir e nem imitar. Por toda a parte Paulo dá a entender que a pregação deve ser escudada no poder, e que essa energia divina deve operar eficazmente nos crentes. Comparar com II Cor. 10:11; 13:3 e I Cor. 1:29. Cristo realmente de nada nos valerá se tudo quanto ele significa para nós ê um conjunto de doutrinas; e se essas doutrinas são expressas de maneira eloqüente, embora não iluminadora, e tão-somente em forma verbal, sem provas da atuação do Espírito nas vidas e corações. Cristo precisa significar uma «nova criação», pois, de outra maneira, nossas palavras em nada diferirão das palavras ditas em outras religiões e filosofias; e talvez signifiquem ainda menos, porquanto fazem reivindicações menos espantosas que nós fazemos. (Ver II Cor. 5:17). «No que diz respeito ao nosso evangelho, do que tanto nos orgulhamos, onde se encontra o mesmo, no caso da maioria’das pessoas, senão na língua? Onde está a novidade de vida? Onde se encontra a eficácia espiritual?... quantos existem que, se por um lado se esforçam por encontrar favor e aplauso da parte do evangelho, como se o mesmo fosse alguma ciência profana, não têm por alvo nenhuma outra coisa senão falar com eloqüência e refinamento!» (Calvino, in loc.). Paulo não tinha por intuito separar as «palavras» do evangelho, porquanto o evangelho é proclamado através de palavras, proferidas ou escritas. Aquilo contra o que ele se insurgia é a limitação do evangelho a somente isso, conforme agiam alguns, na suposição que falar é suficiente. Muitas igrejas evangélicas de hoje em dia correm o perigo de não contar com qualquer outra coisa senão com uma expressão verbal do evangelho. Longe disso, o evangelho precisa transformar os homens em Cristo, moral e metafisicamente falando, pois, de outro modo, nem será o evangelho anunciado por Paulo. «...no poder e energia do Espírito Santo, o qual ilumina, vivifica, converte e santifica aos crentes; e todos os seus apóstolos genuínos são capacitados, ém todas as ocasiões necessárias, a demonstrarem a veracidade de seu chamamento, por meio de milagres; porquanto isso é o que a palavra original de Deus com freqüência significa». (Adam Clarke, in loc.). π νενμ α τί τε πρα ύτητος; a possível exclusão de membros. «...espírito de mansidão...» A mansidão é alistada como um dos aspectos do fruto do Espírito Santo, no trecho de Gál. 5:23. Ò Espírito de Deus é quem inspira essa mansidão de espírito, essa gentileza, porquanto a verdadeira gentileza não faz parte normal da natureza humana decaída, embora possa ser imitada. Mas o apóstolo Paulo, por ser homem espiritual, ordinariamente manifestava tal atitude, sendo amoroso de espírito, homem que considerava as necessidades alheias, com gentileza e interesse. Os crentes errados de Corinto, todavia, não podiam mais ser corrigidos por meios brandos; antes, mereciam alguma forma de julgamento severo, a fim de que pudessem perceber a verdadeira natureza de sua carnalidade. Paulo poderia ter chegado na igreja de Corinto como um pai amoroso ou como um severo mestre-escola, como um severo disciplinador. Os mestres-escolas da época costumavam levar consigo uma vara, para disciplina dos meninos desobedientes. E Paulo assim trataria àqueles rebeldes crentes de Corinto, se tal medida fosse necessária.
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    68 I CORÍNTIOS «Nadasenão a consciência da posse de uma força sobre-humana poderia ter impelido um pobre fabricante de tendas a proferir tão ousadas palavras». (Faucett, in loc.). Paulo estava acostumado a ver o poder de Deus acompanhá-lo em seu trabalho apostólico. Sabia que podia manifestar o poder de Deus entre aqueles coríntios. Disso tinha plena confiança. «...espírito...» Visto que o original grego nunca usa letras maiúsculas, certas palavras, como esta, ficam sujeitas a mais de uma interpretação, porquanto pode estar em foco o Espírito Santo ou o espírito humano, ou mesmo uma disposição humana. Com freqüência não se pode chegar a nenhuma decisão indiscutível. Parece que neste caso está em foco uma «disposição», embora isso seja determinado pela influência do Espírito de Deus. «Ê uma característica feliz a do ministro do evangelho que possui o espírito de amor e de mansidão como qualidades predominantes, sem que com isso perca sua justa autoridade». (Matthew Henry, in loc.). Capitulo 5 III. Imoralidade, Êtica Geral e os Padrões Cristãos (I Cor. 5:1- 7:40). 1. Contra a imoralidade grosseira (5:1-13). Paulo muda repentinamente de assunto, passando da censura contra a sabedoria humana e o espirito de partidarismo, para a questão da imoralidade grosseria. E não há que duvidar que neste quinto capítulo encontramos menção de um dos usuais casos de lassos costumes sexuais em Corinto, que tinham procedido do paganismo para o seio da igreja local dessa cidade. Ou os escravos da casa de Cloe (ver I Cor. 1:11), ou os portadores da epístola que os crentes de Corinto haviam mandado para Paulo (ver I Cor. 7:1), haviam contado ao apóstolo esse caso bem conhecido; esse caso deve ter chocado àqueles que narraram o episódio a Paulo, embora não tivessem a estrita formação judaica sobre essas questões, como era o caso desse apóstolo. A epístola que os crentes de Corinto tinham enviado para Paulo fizera perguntas sobre várias questões sexuais; e este capítulo inicia uma discussão acercá de vários aspectos do comportamento sexual que proesegue até o fim do sétimo capítulo desta epístola. Portanto, nada menos de três capítulos abordam essa questão. Naturalmente que na moderna igreja evangélica não existe problema mais premente do que esse. Se um homem tiver ao menos uma fraqueza, o mais provável é que gire em tomo de algum falha sexual; e se tiver mais de uma fraqueza,dificilmente quase todas elas não dirão respeitoa essas questões. O sexo é uma razão gigantesca, sobre a qual a razão consegue aplicar bem pouca pressão, e sobre a qual a mente tem bem pouco poder. Para alguns, não passa de um monstro-, e não há que duvidar que o impulso sexual, a menos que seja controlado pelo Espírito Santo, é uma força insana. Ora, a cidade de Corinto era conhecida por suas frouxas práticas sexuais. Havia até mesmo um verbo, corintianizar, que significava ocupar-se de algum excesso e aberração sexual. A religião pagã da localidade contava com inúmeras prostitutas religiosas, e seu negócio imundo era efetuado nos próprios templos. Isso aumentava grandemente o afluxo de turistas a Corinto, tal como algumas cidades modernas são populares devido a libertinagem ali reinante. Sêneca queixou-se de que certas vilas romanas exigiam uma liberdade excessiva, mas que nenhuma delas era tão corrupta como a cidade de Corinto. Nos dias de Paulo, Corinto contava com uma população de talvez seiscentos mil habitantes; e tem-se calculado que ali havia nada menos de mil prostitutas religiosas profissionais (conforme nos informa Estrabão), para nada dizermos sobre outras prostitutas. (Ver as notas expositivas sobre o trecho de Atos 18:1, acerca do que sabemos sobre a antiga cidade de Corinto). Ante tal atmosfera, portanto, não é para admirar que houvessem surgido tantos problemas de natureza moral naquela igreja de Corinto. O caso aqui focalizado por Paulo foi o do caso do casamento de um dos membros daquela igreja com sua ex-madrasta. Não há nenhum motivo para supormos que o pai desse homem ainda estivesse vivo, embora isso seja possível. Além disso, a citada mulher pode ter sido uma concubina do pai desse homem, e não sua esposa legítima. No trecho de Lev. 18:8 vemos que o casamento com a própria madrasta era algo proibido, segundo a lei mosaica, e os culpados dessa forma de incesto sofriam a pena de execução capital. Entretanto, essa relação incestuosa também era proibida pelas leis romanas. No entanto, os estudos feitos na tradição judaica (no Talmude e na Midrash), mostra-nos que os rabinos posteriores, em sua maioria, não proibiam essa forma de casamento no caso dos prosélitos. (Ver o exaustivo estudo de Strack und Billerbeck sobre esse assunto, em sua obra, Kommentar zurn N.T. aus Talmud und Midrasch, III. 343-358). Alguns judeus liderantes, como o rabino Akiba (135 d.C.), contudo, tinham uma opinião contrária a isso, seguindo o parecer do apóstolo dos gentios, conforme vemos na passagem que ora comentamos. A maioria dos rabinos judeus, no entanto, assumia a posição de um prosélito, quando se tomava judeu, se tomava uma criança recém-nascida. Portanto, qualquer contrato de casamento, efetuado antes dessa ocasião, não tinha efeito algum sobre ele. Assim sendo, na opinião desses rabinos, podia casar-se com uma mulher que não fosse sua progenitora, que não tivesse com ele qualquer relação de nascimento, ainda que antes houvesse sido esposa de seu pai, isto é, sua própria madrasta. Não obstante, Paulo se mostrou sempre firmemente contrário a tal prática, mostrando-se até mesmo veementemente radical, conforme se depreende do quinto versículo deste capítulo. Se o pai do membro culpado desse pecado ainda estava vivo, talvez possamos compreender ainda melhor a veemência de Paulo; mas talvez nos seja possível entender as razões dessa veemência mesmo que o pai desse homem já houvesse falecido. Alguns se estribam na passagem de II Cor. 7:12 a fim de mostrar que o pai do homem culpado desse nefando pecado ainda estava vivo, e que ele era o ofendido-, mas outros pensam que o caso pode ser explicado de maneira diferente. Na realidade não existe nenhuma forma segura de resolver o problema mediante argumentação. Sem importar de que lado está a razão, porém, o fato é que Paulo ficou grandemente indignado ante tal pecado, tendo sido profundamente ferido o seu senso de propriedade. Paulo faz objeção aqui não meramenteporquecampeava flagrante imoralidade entre aqueles crentes de Corinto, mas também porque, em seu orgulho e insensibilidade espirituais, nem davam atenção ao fato, mas antes, continuavam admitindo à sua comunhão aquele homem, sem qualquer sanção penal. "OXojs ακούεται, εν νμΐν πορνεία, και τοιαύττ) πορνεία ητις ούδε εν τοΐς εθνεσιν, ώστε γυναίκα τινα του πατρος εχείν. 5 1 yvvaiKa...exeivLv 18.7-8; Dt 22.30; 27.20 5:1: Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade, e tal imoralidade que nem mesmo entreos gentios se vê, a ponto de haver quem vive com a mulher de seu pai. As palavras «...geralmente se ouve...» dão-nos a entender que ele ouvira tal fato, mui provavelmente, através dos escravos da casa de Cloé (ver I Cor. 1:11), de quem ele recebera a maior parte das informações de que dispunha sobre as lamentáveis condições existentes na igreja de Corinto. Mas também é possível que Paulo tivesse recebido tais informações por boca daqueles que tinham sido os portadores da carta que a igreja de Corinto lhe enviai-a. (Ver I Cor. 7:1). Visto que essa história se tornara tão conhecida, a fonte originária pode ter sido qualquer outra. Em face do fato como a questão foi manuseada em Corinto, tendo o culpado permanecido como membro ativo daquela congregação cristã, em plena comunhão, é possível que a questão fosse ali considerada mais como uma questão de conversinha de comadres, talvez servindo até mesmo de motivo de piadas, não sendo jamais considerada seriamente. Não é muito provável que a sociedade local de Corinto tivesse pensado haver qualquer coisa de especialmente prejudicial no fato de um homem chegar a ter como sua «esposa» aquela que fora esposa ou mesmo concubina de seu próprio pai. E é mesmo possível que tais mulheres fossem transferidas de um para outro, sem qualquer idéia de que assim se cometia um gravíssimo pecado. «...imoralidade...» talvez possa ser traduzida por «fornicação», como usualmente sucede, a fim de dar a entender qualquer contacto sexual ilícito, não apenas de pessoas «solteiras», conforme,-no original grego, o vocábulo é algumas vezes usado, em sentido mais restrito. O termo grego aqui usado, «porneia», significa «prostituição», «falta de castidade», «fornicação», etc. E essa palavra era constantemente usada na literatura grega a fim de indicar qualquer contacto sexual proibido. O vocábulo «moicheia» é um termo de sentido mais restrito, dando a entender o pecado de «adultério», os contactos sexuais ilícitos dos casados, com outras pessoas casadas ou com solteiros, mas que envolve pelo menos uma pessoa comprometida em matrimônio. O vocábulo grego «porneia» algumas vezes serve de sinônimo, mas pode ser usado para referir-se a todas as formas de «imoralidade». Essa tradução é boa porque expressa a mesma idéia «geral» que o termo grego. O
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    I CORÍNTIOS 69 vocábulo« pome» é a palavra grega que significa «prostituta», a qual, por sua vez, também dá a entender todas as formas de impureza sexual. A «pornografia», portanto, é aquela modalidade de literatura apropriada para as prostitutas. «...imoralidade tal...»Qual foi a natureza do pecado daquele membro da igreja de Corinto? Paulo não usa a palavra «adultério», e isso talvez indique que seu pai já era falecido. Mas já sabemos que, em vista do termo grego «porneia» ter um sentido tão geral, que é possível que esteja aqui em vista o adultério. O pai daquele homem, assim sendo, poderia ainda estar vivo; e diversos intérpretes têm usado o trecho deIICor.7:12 a fim de mostrar que ele realmente ainda vivia, tendo sido a pessoa ofendida nesse pecado. Mas outros eruditos são de opinião que está aqui em vista um outro caso. Seja como for, o trecho de Lev. 18:8 proíbe tais relações incestuosas com a ameaça da pena de morte. É verdade, no entanto, que a maioria dos rabinos judeus, da época de Paulo, não proibia tal casamento a um prosélito, contanto que essa ligação se tivesse efetuado antes de sua conversão ao judaísmo. Os prosélitos eram reputados recém-nascidos, e toda a sua vida anterior era considerada como anulada. Portanto, se um prosélito não tivesse parentesco de sangue com uma mulher, conforme certamente se dava neste caso, então não cometia pecado por casar-se com ela. Não obstante, alguns rabinos judeus, que formavam a minoria, não concordavam com essa posição. E as próprias leis romanas eram contrárias a esses casamentos incestuosos; mas em Corinto, uma depravada cidade cosmopolita, tudo isso podia ocorrer facilmente, sem qualquer censura. A única coisa de que podemos ter certeza é que a mulher não era a mãe daquele homem, pois, do contrário, Paulo ter-nos-ia informado a respeito; e a própria igreja de Corinto, por mais carnal que fosse, não teria tolerado tal matrimônio da parte de um de seus membros. O apelo de Paulo, no sentido que até mesmo os costumes gentílicos proibiam tal erro, ao ponto de ser desconhecido tal caso entre eles, serve de fortíssima indicação de que o pai daquele homem ainda vivia. Mas mesmo que o pai daquele homem já tivesse falecido, embora tal comportamento fosse abominável para Paulo, ele não poderia impressionar muito os seus leitores com a impropriedade de tal ação, porquanto a literatura antiga mostra-nos que tais coisas eram bastante comuns, sendo mais a regra do que a exceção. Precisamos supor, portanto, que o pai do homem culpado ainda estava vivo. A outra alternativa é que, tendo falecido o progenitor daquele homem, Paulo exagera a gravidade do caso, como se ele não pudesse esperar tanto apoio da parte de mentes gentílicas contra tal pecado, conforme ele dá a entender que esperava. Comparando esta passagem com o trecho de II Cor. 7:12, podemos tirar tentativamente as seguintes conclusões: 1. A mulher não era a verdadeira mãe daquele homem, e, sim, sua ex-madrasta, a qual poderia até mesmo ter sido uma concubina do pai do indivíduo culpado. 2. Mas o pai daquele homem ainda vivia. 3. Deve ter havido alguma espécie de luta abominável, entre o pai e o filho, por causa da mulher; e, nesse conflito, o filho terminou por ser o «ofensor», ao passo que o pai foi o «ofendido». Nesse caso podemos compreender a severidade das palavras de Paulo, neste capítulo. É interessante que alguns intérpretes pensam que o «ofendido» foi Paulo, ou mesmo Timóteo; mas essa é uma opinião que a ninguém convence. (Ver as notas expositivas acerca de II Cor. 7:22, quanto a detalhes sobre a questão). Devemos observar que Paulo não faz qualquer censura à mulher; e, com base nisso, alguns estudiosos têm tirado a conclusão de que não era ela uma crente. No que diz respeito à questão do «matrimônio» e do «concubinato», precisamos admitir que muitos dos antigos, especialmente aqueles pertencentes às classes mais humildes, não faziam clara distinção entre um e outro estado; e essa forma de atitude persiste até hoje entre essas classes. Para tais pessoas, usualmente pouca diferença faz se houve ou não alguma cerimônia legal, se existe ou não um documento que confirme tal casamento. Uma simples «companheira», para tais pessoas, também é considerada esposa. Essas formas de relação não eram proibidas entre vários povos-antigos, como os hindus, os mouros, os bactrianos, os etíopes, os medos, os persas, etc., entre os quais o casamento de irmão com irmã não era incomum. (Ver Alex. ab. Alex. Genial. Dier. 1.1, cap. 24; Curtius, 1,8, cap. 2; Filo, de Espeical. leg. p. 77. 8 ; Tertuliano, Apo., cap. 8 ; Clemente, Alex. Paedagog., pág. 109; Orígenes, contr. Cels. 1.6, pág. 331). Os árabes costumavam praticar essas relações incestuosas, até que foram proibidas por Maomé. Ver também Cícero, pro Cluent., 6.15, e Eurípedes, Hippolytus, onde aprendemos que as leis gregas e romanas, de forma geral, reputavam essas relações incestuosas como uma infâmia. Naturalmente, a impureza sexual pode existir nos pensamentos, e não apenas nos atos. E, quanto a esse aspecto da questão, muitas pessoas podem ser tão imorais como aquele membro da igreja de Corinto. Senhores, se o que pensais Deixasse úestígios claros, Os divórcios eram mais E os casamentos bem raros... Senhores, houvesse espelhos Para ver o que pensamos, E beijáveis de joelhos Toda a lama que pisamos. (Augusto Gil, Pôrto, Portugal, 1873- 1929). Variante Textual: As palavras, «...como nem mesmo é nomeada entre os gentios...», aparecem nos mss Aleph(3), LP, sendo seguidos pela tradução inglesa KJ. Mas essas palavras, «é nomeada», são omitidas pelos manuscritos verdadeiramente antigos, como P(46), Alephjl), ABCDEFG, bem como por todas as demais traduções usadas para efeito de comparação neste comentário (um total de catorze—nove em inglês e cinco em português, acerca de cuja identificação o leitor pode ver a lista de abreviações existentes na introdução geral ao comentário). Essa adição consiste de leve glosa escribal, na tentativa de esclarecer ainda mais o significado do versículo, embora não faça parte do texto original. 2 καί υμείς πεφυσιωμένοι εστέ,α και ούγι μάλλον επ€νθτ]σατε,α ϊνα άρθγ) εκ μέσου ύμών ό το εργον τοΰτο πράξας;α ααα 2 a minor, α minor, a question: TR WH Bov Nes BF2 (Zür) (Luth) jj a question, a minor, a question: RVn|s ASVni& TT jj a exclamation, a minor, a exclamation: Jer Seg jj a exclamation, a question, a statement: RSV jj a exclamation, a minor, a statement: NEB jj a minor, a minor, a statement: AV RV ASV 5. 2 (eore,] ; Rm) ]ηραξαε (; Rm] · Rl) XA at] ποιησας j)46BDG pm Ç; R O Textus Receptus,seguindo p4 6 B D F G L P Ψ 049 056 0142 maioria dos m inúsculos, diz ποιήσας, ao passo que 7τράξαε figura em puV U i N ,A C 33 81 88 104 326 436 462 1912 al. O termo mais literário, ττράσσειν, ocorre 18 vezes nas epístolas de Paulo; noutros trechos do N .T :, ocorre por 20 vezes (18 vezes em Lucas-Atos e 2 vezes em João). Já que o verbo ποιεΐν ocortc quase seiscentas vezes no N.T., e já que a expressão woieiv epyov era muito familiar aos copistas do N .T ., mais provavelmente teriam substituído 7rpá£as por ποιήσας e não vice-versa. tornam culpados de tais pecados, somos ordenados a nem ao menos comer em companhia deles. Quanto a certos casos extremos, Paulo parece ter tido a autoridade espiritual de entregar até mesmo a Satanás um irmão ofensor, visando a destruição da carne, isto é, a morte física. Isso era uma medida disciplinar de punição; e a remoção de uma pessoa assim culpada, da face da terra, não mais permitiria que o ofensor continuasse prejudicando a comunidade dos santos com sua vida pecaminosa, eliminando-a como uma desgraça para o nome de Cristo. Mas não tinha por intuito retirar de tal ofensor a salvação de sua alma. (Ver o quinto versículo deste mesmo capitulo). Essa ação, entretanto, foi efetuada com base na autoridade apostólica, autoridade essa que não podemos reivindicar para nós mesmos. E tudo isso, por sua vez, mostra-nos quão seriamente Paulo considerava a questão da ética cristã, da conduta ideal dos crentes, e quão profünda era a sua sensibilidade para com certos pecados que, no seio da moderna igreja evangélica, se tornaram extremamente comuns. Mas a sensibilidade de Paulo para com certos pecados é plenamente justificada quando consideramos que o grande alvo da vida cristã é a nossa «transformação moral», conforme o modelo e exemplo de Jesus Cristo, transformação essa que, por sua vez, produz a transformação «metafísica». E isso significa que à medida em que formos sendo moralmente transformados por ação do Espírito de Deus, também começamos a assumir a natureza real do Senhor Jesus. O alvo desse grandioso processo é a perfeição absoluta, a participação na própria natureza divina. (Ver Rom. 8:29; Efé. 3:19). É do mais alto interesse dos crentes, pois, que se mostrem muito estritos quanto às questões morais, tendo a cautela de evitarem pessoalmente os pecados de toda a sorte, mas sobretudo aqueles de natureza degradante, que sempre caracterizaram os povos pagãos, embora tais povos possam ter pouca ou nenhuma consciência da gravidade de seus excessos. 5:2: E vós estais inchados? e nem ao menos pranteastes para que fosse tirado do vosso meio quem praticou esse mal? O verbo grego original, por detrás da tradução «.. .ensoberbecidos...», é o mesmo verbo que é usado por várias vezes nos capítulos anteriores desta mesma epístola. (Ver as notas expositivas a respeito, em I Cor.· 4:18). Aqueles crentes de Corinto se sentiam «inchados», «arrogantes». Esse verbo grego aparece por sete vezes nas páginas do N.T., seis vezes somente na presente epístola: I Cor. 4:6,18,19; 5:2; 8:1 e 13:4. A única ocorrência fora deste livro fica em Col. 2:18. Sim, aqueles crentes de Corinto se vangloriavam de sua suposta grandeza humana e de sua sabedoria terrena. (Ver I Cor. 1:18-21,25). Gloriavam-se no homem e na carne (ver I Cor. 1:29). Tinham a aparência de sabedoria e de espiritualidade, talvez até com a sobrecarga de poderes miraculosos; mas, na realidade, eram crentes «carnais», meras crianças na fé. (Ver I Cor. 3:1,2). Em seu orgulho, tinham provocado divisões e facções, selecionando heróis humanos, e haviam maculado a alva imagem de Cristo, tanto dentro como fora da igreja cristã. (Ver I Cor. 3:3,4). De acordo com o caráter espiritual em geral daqueles crentes, também toleravam, ou talvez pelo menos ignoravam, sem qualquer arrepio na consciência, tão grosseira imoralidade entre eles. Fingiam serem discípulos especias de Cristo, mas diferiam bem pouco dos pagãos ao seu derredor, e haviam introduzido maus costumes na comunidade cristã. Em violento contraste com essa lassidão de costumes, própria de Corinto, o apóstolo Paulo exigiu a imediata exclusão daquele membro culpado, conforme este capítulo nos mostra. (Ver também II Tes. 3:6). Contudo, o décimo primeiro versículo deste mesmo capítulo inclui outros pecados sérios que interrompiam eficazmente a comunhão entre os crentes daquela igreja local, como a cobiça, a idolatria, o alcoolismo, etc. Com aqueles que se
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    70 I CORÍNTIOS ImportânciaDa Moralidade 1. O lado ético do evangelho não é uma questão à parte da salvação, pois, pelo contrário, faz parte integrante da própria salvação; pois, sendo a santificação, ninguém jamais verá a Deus (ver Heb. 12:14). 2. A santificação é a continuação e fruição da conversão, bem como o começo da glorificação, porquanto a transformação metafísica é efetuada através da transformação moral. (Ver as notas completas sobre a «santificação», em I Tes. 4:3). 3. A santidade de Deus vai sendo formada em nós, de modo a atingirmos as suas perfeições (ver Mat. 5:48) e a compartilharmos de suas virtudes morais positivas (ver Gál. 5:22,23). Isso é algo que a nossa salvação produz como mero resultado. E a própria concretização da salvação em nós, em suas operações. «...lamentar...»Está aqui em foco a lamentação que se faz por um morto, o que expressa tristeza profunda, que conduz ao arrependimento, conforme encontramos em II Cor. 7:9,10. Pode haver profunda tristeza quando o indivíduo vê verdadeiramente a si mesmo, quando percebe como tem desobedecido aos seus próprios ideais, quando nota que tem ficado muito aquém do seu dever, envolvendo-se em pecados, em ações errôneas que talvez até muitos dos próprios ímpios relutassem em praticar. A verdadeira tristeza só ocorre mediante a operação do Espírito Santo no íntimo, o qual nos convence de quão pecaminoso é o pecado. Sem essa atuação do Espírito de Déus, podemos racionalizar facilmente quaisquer situações encon­ trando desculpas para as nossas atitudes e desconsiderando nossos pecados, como se fossem faltas leves e superficiais. Assim age o homem, sem a influência do Espírito de Deus. Ora, aqueles jactanciosos crentes de Corinto compartilhavam da atitude comum aos pagãos ordinários. Não somente praticavam coisas dignas de morte; mas igualmente sentiam prazer naquelesique praticavam a iniqüidade, no dizer do trecho de Rom. 1:32. Não és bom, nem és mau: és triste e humano... Vives ansiando, em maldições e preces, Como se, a arder, no coração tivesses O tumulto e o clamor de um largo oceano. Pobre, no bem como no mal padeces; E, rolando num vórtice vesano, Oscilas entre a crença e o desengano, Entre esperanças e desinteresses. Capaz de horrores e de ações sublimes, Não ficas da virtude satisfeito, Nem te arrependes, infeliz, dos crimes. E, no perpétuo ideal que te devora, Residem juntamente no teu peito Um demônio que ruge e um deus que chora. (Olavo Bilac ★ ★ ★ απων ,6 τώ σώματι παρών 8è τώ πνεύματι, ηδη κεκρικα ώς παρών τον οϋτως τούτο 6b 3-4 b none, b minor: TR WH (RSV) jj b major, b none: NEB Zür Luth Jer jj b major, b minor: TT Seg // b minor, b minor: AV RV ASV 3 απων] praem cos G pm it Mcion ς ■ i €γω μεν γαρ κατεργασαμενον jj b none, b none: Bov Nes BF2 3 ίχ-ττών...πνεύματι Col 2.5 5:3: Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espirito, já julguei, como se estivesse presente, aquele que cometeu este ultraje. A sentença baixada por Paulo foi extremamente severa, e só pode ter sido sugerida e proferida mediante a sua autoridade apostólica. Essa sentença é virtual condenação à morte, às mãos de Satanás. (Ver o quinto versículo deste mesmo capítulo). Podemos concluir que a menos que Peus nos envolva com a sua proteção, as forças do mal certamente nos consumiriam. (Ver as notas expositivas sobre o quinto versículo deste capítulo). Paulo não tinha dúvidas acerca do que fazia e do que estava prestes a ser feito. Já havia proferido a sentença in absentia, e essa sentença importava em severo julgamento. Notemos que o bem-estar da comunidade dos crentes, como representante de Cristo no mundo, onde se faz uma busca séria pela pessoa de Deus, é mais importante do que a vida «física» de um de seus membros. Observe-se, por semelhante modo, que Paulo não estava falando acerca da alma. (Ver o quinto versículo deste capítulo). Pois o progresso espiritual é muito mais importante do que a vida física, verdade essa verbalmente reconhecida na igreja, mas que, na realidade, dificilmente é levada a sério. «Acomunidade cristã precisava purificar-se excluindo o membro ofensor. Neste ponto, a própria linguagem de Paulo enfatiza o seu senso acerca de sua posição apostólica. Ele dá a entender que a congregação cristã se reunira, e que ele mesmo estava presente em espírito; e então, com profundo senso de autoridade e de responsabilidade, ‘no nome do Senhor Jesus’, Paulo baixa severa sentença de expulsão contra o ofensor. Enquanto tal elemento tiver permissão de permanecer entre eles, poria em risco a vida e o testemunho da igreja local. Essa responsabilidade pelos lapsos morais, não podia ser confinada exclusivamente ao próprio culpado! Eles mesmos estavam prestes a levar ao opróbrio a igreja inteira... Precisamos notar que Paulo é o herdeiro de suas próprias tradições judaicas, quanto a esse particular. Existem precedentes, na história dos hebreus, para essa exclusão e castigo, contra aqueles que cometessem ofensas contra a nação. (Ver Esd. 10:8). Aquele indivíduo, pois, havia pecado contra o bom nome e o testemunho da comunidade cristã; a todo custo ele precisava ser expulso». (John Short, in loc.). Naturalmente, estava em jogo muito mais do que meramente a reputação da igreja local de Corinto. A questão em foco era o próprio alvo da vida cristã. A santidade moral é algo necessário para que o crente seja transformado segundo a imagem moral e metafísica de Jesus Cristo. «...em espírito...» Paulo queria referir-se ao seu próprio espírito, e não ao Espírito Santo. Comparar essa declaração com o quarto e o quinto versículos deste mesmo capítulo. (Ver também I Cor. 2:11 e Col. 2:5, onde encontramos declarações similares). O espírito humano é verdadeiramente capaz de viajar separado do corpo, até mesmo quando os homens ainda estão vivos, conforme se verifica no décimo segundo capitulo da segunda epístola aos Coríntios. Isso também tem sido demonstrado nos tempos modernos, sendo atualmente assunto de investigação nas universidades. Aqui, entretanto, embora Paulo certamente estivesse familiarizado com esse fenômeno, o apóstolo fala de modofigurado. Queria Paulo que aqueles crentes soubessem que a sus. alma estava com eles, que o seu homem essencial se interessava profundamente por eles, bem como pela ordem correta naquela igreja local, embora estivesse distante deles, no que concerne à presença física. Paulo falou com uma linguagem poética, a fim de frisar a sua preocupação espiritual pelo progresso daqueles crentes em Cristo. Não obstante, essa expressão mui provavelmente é mais do que poética. Diz Findlay, in loc.·. «O espírito do apóstolo Paulo, iluminado e vivificado, conforme inquestionavelmente se verificava, deve ter sido dotado pelo Espirito divino, em determinadas ocasiões, com um discernimento além do ordinário, acerca do estado de uma congregação cristã, à distância. (Comparar com os trechos de João 1:48; II Reis 5:26)». Tal discernimento é similar ao dom do «discernimento de espíritos» (ver I Cor. 12:10 e as notas expositivas ali existentes). Paulo percebeu claramente a questão envolvida, bem como o que deveria ser feito. Por isso é que disse «...Eu...», de maneira enfática, em contraste com «vós», (oculto e subentendido), isto é, em contraste com os crentes de Corinto, que eram lassos e embotados em seu entendimento espiritual. 4 iv τώ ονόματα του κυρίου [ημών ] Ί η σ ο ν',b συναχβέντων ΰμών καί του εμοΰ πνεύματος0 συν τη δυνάμει τοΰ κύριον ημών ’Ιησού,0 14 {D } ήμων Ίησον Β D* 1739 itd // Ίησον Α Ψ 2495 syrh eth'° Lucifer // . 'Ιησού Χρίστου Ν U ήμων Ίησον Χρίστον ρ4β D° G Ρ 33 88 104 181 326 330 436 451 614 629 630 1241 1877 1881 1962 1984 1985 2127 2492 Byz Led j^ar.e.(,g.χ,ζ Vg syrp.h with · CO p*ft-bo goth arm ethpp Adamantius Ambrosiaster Basil Chrysostom Theodoret John-Damascus // Ίησον Χρίστου τον κυρίου ημών 8 1 . cc 4 c none, c minor: WH Zür Luth jj c minor, c minor: TR AV RV ÀSV RSV NEB TT Jer Seg jj c none, c none: Bov Nes BF2 4 σ ν ρ ...Ί η σ ο ν Mt 16.19; 18.18; 2 Cor 13.10 4 ·ημω ν om J)48P l 6 l l IJ 3 Ç Or Segundo o solene caráter do discurso, o Textus Receptus, seguindo Ρ (46) D (c) G P 33 614 Byz Lect it (g,6l) vg sir (p,h com*) cop (sa,bo) gót ara etí (pp), expande m ediante a adição Χριστοί) após Ίησον, e 81 transpõe para dizer * T v i Λ - Λ 1 I Y λ I Λ "/ ^ λ Γ ι ι / ι ι η ί η ι ι .Λ . C a Λ ι . Ίησον Χρίστον τον κνρίον ημών. Se ημών foi adicionada por copistas, ou foi acidentalmente omitida por vários testemunhos (A Ψ 108 1611 2495 sir (h) etí (ro) Lúcifer) é difícil decidir. Com base no testemunho de B D* 429 918 1175 1739 1836 1898 it (d), a comissão reteve o termo no texto, mas entre colchetes, para indicar a medida de dúvida quanto-a seu direito de permanecer aqui. 5:4: Em none de nono Senhor Jesus, congregados vís e o meu espirito, pelo poder de nosso Senhor Jesus, As palavras «...em nome...» dão a entender, pela autoridade, conforme tudo quanto está implícito nesse nome, especialmente a santidade e a propriedade, o que faz contraste com as práticas errôneas e com a desordem moral. «...com o poder...» são palavras que reforçam, pela segunda vez, dentro de uma mesma sentença, a autoridade mediante a qual aquela reunião deveria ocorrer, e por decisão da qual a exclusão deveria ser proferida. (Quanto ao tema neotestamentário, «orações em nome de Jesus Cristo», ver I Cor. 16:23. Essas notas expositivas também abordam o tema daqueles que são chamados «pelo nome de Cristo», onde a expressão «em nome de», é esclarecida). Essa expressão pressupõe a realidade do indivíduo cujo nome é nomeado, a realidade de sua presença e interesse pela igreja, a realidade de sua atividade em favor de seus discípulos, e a sua autoridade entre eles, o Senhor Jesus Cristo. Também indica a sua «identificação» com os homens, o que só pode verificar-se através da comunhão mística com o seu Espírito Santo, o qual une os homens com ele mesmo, em suas vidas diárias e em seu destino final. Mas o poder de Jesus também dá a entender o «seu Santo
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    I CORÍNTIOS Espírito», vistoque o poder de Cristo só é conhecido entre os homens através do «alter ego» de Cristo, o Espírito Santo. Assim, a reunião que Paulo convoca para os crentes de Corinto, estando ele também presente em espírito, era inspirada e orientada pela influência do Espírito de Deus, a fim de que aquele membro canceroso da comunidade cristã daquela cidade fosse removido. Também não se deve perder de vista o fato de que essa disciplina deveria ser executada pela congregação inteira, o que subentende uma ação democrática. Outro tanto se aprende no trecho de Mat. 18:15 e ss., onde é lançada luz sobre a questão da disciplina no seio das congregações cristãs locais. Nenhuma pessoa isolada, e nem mesmo alguma junta de anciãos ou diáconos pode arrogar-se o direito de dar solução a um caso deles, por tratar-se de questão seríssima. A solução deve ser encontrada pela igreja inteira. Somente se houver um julgamento apropriado, em que o acusado recebe o direito de defender-se, é que as instruções de Paulo, aqui dadas, podem ser cumpridas de forma satisfatória, no que tange aos casos de exclusão de membros. O voto conjunto da congregação local inteira impressiona ao acusado, e pode levá-lo ao seu arrependimento. E perceberá o tal que não se tratava de um pequeno grupo de dirigentes, dentro da congregação, que tomou tal deliberação, sem o apoio da congregação inteira. A expressão em nome de tem sido compreendida em conexão com vários elementos diferentes deste versículo, a saber: 1. Alguns pensam que pode ser compreendida como ir com aqueles crentes, quando «se reunissem». Isso seria feito em nome de Cristo. 2. Outros são da opinião que pode ser vinculado ao «poder», isto é, o poder estaria no «nome de Cristo». 3. Ainda outros pensam que pode ser vinculada a «entregar», isto é, à entrega a Satanás, isto é, uma entrega «no nome de Cristo». 4. Também há aqueles que opinam que «em nome de» significa «no poder de» ir e de reunirem-se juntamente. 5. Por semelhante modo, há quem pensa que «em nome de» esteja vinculada a «vos reunis» e «no poder», com «entregar». 6. Finalmente, a expressão em nome de poderia estar vinculada a «entregar» e a «no poder de», com «vos reunis». Intérpretes diversos concordam com uma ou outra dessas diversas possibilidades. O mais provável, entretanto, é que as palavras «em nome de» estejam vinculadas a «vos reunis», ao passo que «no poder de» esteja ligada a «entregar». Isso é mais natural para o sentido e para a ordem de palavras do presente versículo. A quinta dessas possibilidades, portanto, seria a idéia correta. O «poder» que há no Espírito Santo é real. Esse poder pode, de ‘fato, «entregar» um homem a Satanás, conforme lemos no versículo seguinte. Trata-se de um poder espiritual que se mostra ativo e eficaz. E isso envolve uma soleníssima verdade para nós. No entanto, Alford [in loc.) expressa ainda uma outra maneira de entender o arranjo deste versículo, segundo ele pensava ter sido a intenção de Paulo, e conforme a seguinte tradução parece indicar: «Tenho decretado, no nome de nosso Senhor Jesus, que quando vos reunirdes, juntamente ao meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo...» Contudo, isso é injetar neste versículo um elemento estranho, isto é, o «decreto» de Paulo, fazendo-o estar ligado «ao nome de», como se o decreto do apóstolo tivesse sido baixado por intermédio do mesmo, a saber, mediante a autoridade de Cristo, que teria apoiado a decisão de Paulo. Não há que duvidar que isso também é verdade, mas a expressão «em nome de» está muito mais naturalmente vinculada à «reunião» daqueles irmãos, o que, naturalmente, já era uma idéia bastante comum nas páginas do N.T. (Quanto a notas expositivas sobre Jesus como «Senhor», e sobre como esse conceito é apresentado no N.T., ver o trecho de Rom. 1:4. Quanto aos vários tipos de «exclusão», entre os judeus—visto que havia diversas modalidades de exclusão—ver João 9:22. Quanto à «exclusão entre os cristãos, ver Mat. 18:15-17). Neste e no versículo seguinte, está envolvida uma exclusão mais do que comum, porquanto está em foco uma maior severidade, que certamente só podia ser devidamente exercida mediante a autoridade apostólica. Nenhum mero grupo de crentes tem o direito de entregar quem quer que seja a Satanás, para que seja morto, ainda que tenham o direito de excluir àqueles que errarem. «...e o meu espírito...» Tal como no versículo anterior, Paulo se refere novamente ao seu próprio espírito humano. A sua autoridade apostólica, a sua decisão e decreto, nesse caso, deveriam ser influências orientadoras na convocação da reunião que fariam, sobre a maneira de proceder e sobre a decisão a que aqueles crentes chegassem ali. A influência moral e a autoridade apostólica de Paulo, por conseguinte, haveriam de dar-lhes apoio em tudo quanto fizessem. Os crentes de Corinto não estavam sozinhos quanto à questão, mas antes, podiam contar com a elevada autoridade apostólica de Paulo, para aquilo que estavam prestes a fazer. Assim sendo, pois, Paulo estaria com eles, controlando as suas ações, ainda que não estivesse fisicamente presente. τ ο π ν β ϋ μ α σ ω θ η iv rrj η μ έ ρ α τ ο υ 5 παρα&οΰναι τον τοίοΰτον τψ Σ α τα νά eis oXedpov rfjs oapKÓs κυρίου2. 2 5 {C[ κυρίου ρ4 δ Β 630 1739 M arcion Tertullian OrigenKr4/5lal M anes Eusebius H ilary Pacian Epiphanius Jerom e A ugustine // κυρίου Ίη σου K Ψ 81 181 326 614 1877 1985 2492 .2495 B yz L ed vgww syrh goth O rigeniat Basil Chrysostom Augustine E uthalius Ps-Oecumenius Theophylact // κυρίου Ίησου Χ ρίστου D 1984 jtd'dem,”< i·0 A m brosiaster // κυρίου ημών 5 παρα δουνα ι...σα ρκός 1 Tm 1.20: 1 Pe 4.6 D Ambst: add ημων L Xp, AG 6g al c vg8»cl syp A forma que melhor explica a origem das outras é κυρίου, bem confirmada por antigos e importantes manuscritos e pais. «O nome ‘ Jesus’ é usado por duas vezes no versículo anterior: razão suficiente para Paulo não escrevê-lo, e para os escribas adicionarem-no aqui». (1) 1. G. Zuntz, The Text of the Epistles (Londres, 1953), pág. 184. Ίη σ ο ν 048’”d? copb°ms eth jj κυρίου ημών Ίη σο υ Χ ρίστον A G Ρ 33 88 104 330 436 451 629 1241 1881 1962 2127 vgcl syr»·1 · 'vith ’ cop»-·»» arm OrigenKrl/5-iflt Lucifer Ephraem Ambrose Chrysostom Pelagius Theo­ dore Theodoret John-D am ascus 5 Kvpiov pi6B 173) Mcion Tert O r; Rm] add Ιησου íí pm 'rgwç ; R*: add Ιησ. Χρίστου 5:5: seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espirito seja salvo no dia do Senhor Jesus. (Quanto a notas expositivas completas sobre a «personagem de Satanás», ver Luc. 10:18 e João 8:44. Quanto a Belzebu, um dos títulos de Satanás, ver Mat. 10:25 e Luc. 10:18. Quanto aos «demônios», ver Marc. 5:2). A palavra «. ..Satanás...» significa «adversário». Ele é o nosso grande adversário, a personificação mesma do princípio do mal, o inspirador da maldade nos homens e nos seres angelicais. Satanás se apresenta como se fosse «luz», embora os seus desígnios sejam sempre perniciosos. O mais provável é que ele se julgue justíssimo, sempre justificando-se por aquilo que ele considera causas justas. E aqueles que servem a Satanás também usualmente se iludem a si mesmos; e em nome de Satanás, embora isso não seja sempre reconhecido, muitas «causas» são fomentadas, muitas das quais, segundo todas as aparências, são direitas ejustas. Porém, o resultado de todas essas atividades malignas é prejudiciais para os que as praticam. (As notas expositivas acima aludidas procuram dar idéia sobre a natureza e as atividades de Satanás). Satanás, que era chamado Lúcifer, antes de sua queda, exercia grande domínio e poder, o que fica comprovado pelo fato que nada menos de um terço dos seres angelicais preferiu segui-lo, ao invés de seguirem ao Senhor Deus. Isso mostra algo acerca da magnitude de seu ser e influência. A história da humanidade, através dos séculos, é essencialmente a reversão, • operada por Deus, dos maus efeitos da queda de Satanás e seus anjos, no que arrastou também o homem. Em uma escala universal, a tarefa de Deus consiste em convencer, a todos os seres inteligentes, que seguir a Satanás é precipitar-se em desastre. Os seres inteligentes precisam ser reaproximados de Deus, embora espontaneamente. Precisam reconhecer quão justo e vantajoso é o caminho de Deus. Contudo, é preciso um tempo incrivelmente longo para convencer os seres inteligentes acerca dessa questão, para o que se fazem necessárias muitas lições objetivas. Esse período incrivelmente longo é a própria história do mundo. Com base no presente versículo aprendemos que Satanás, por permissão divina, exerce bem definido controle sobre a morte, podendo ele atingir aos próprios crentes, a menos que vivam sob a proteção do Senhor Jesus Cristo. O Poder De Satanás 1. Esse poder lhe foi permitido, mas é bem real. Satanás conseguiu conquistar grande parte da população celestial (ver Apo. 12:4), e atualmente é o deus deste mundo (ver II Cor. 4:4). 2. Ele encabeça um numeroso exército de forças espirituais malignas (ver Efé. 3:11 e ss.), e esses seres exercem poder e domínio sobre os homens.· Daí se deriva a imensa malignidade de muitos seres humanos. Uma das tendências dos indivíduos materialistas, que supostamente têm u ’a mente «científica», consiste em negar a existência de poderes metafísicos, de origem boa ou má. Mas alguns tipos dos chamados «médiuns» não estão em suposto contacto benéfico com os mortos. Nem ao menos tentam manipular «bons espíritos», pondo-os a trabalhar em favor dos homens, no tocante a curas e aconselhamento sobre problemas em geral (conforme é a atividade de muitos desses «médiuns», que parecem ter um propósito hum anitário sincero, embora equivocado); pelo contrário, manipulam, com bastante sucesso, forças malignas e demoníacas. Tornam-se cooperadores das forças malignas, cujo canal é o poder de Satanás. E assim, embora esses «médiuns» talvez não entrem em contacto direto com o próprio Satanás, o qual é uma «pessoa», são capazes de manipular espíritos decaídos, angelicais ou humanos, ou mesmo ambos. O mundo dos espíritos: As Sagradas Escrituras por toda parte atestam sobre a realidade do mundo dos espíritos. Ali é ensinada a existência de certa hierarquia de seres angelicais, principados, poderes, potestades, domínios... Existem seres espirituais bons e maus, e hierarquias paralelas existem em ambos esses campos. Ver notas sobre demônios em Mat. 8:29. As forças da maldade, de natureza espiritual, imaterial, são bem reais. Satanás é o deus dessas forças do mal, as quais atuam como seus agentes.
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    72 I CORÍNTIOS Jásabemos que esse poder satânico tem a capacidade de atingir adversamente as vidas dos homens, podendo até mesmo levar os homens à morte física. Esse poder será certamente exercido pelos espíritos malignos, exceto quando um homem está sob a proteção do Senhor Jesus Cristo. Desfrutamos dessa proteção quando aceitamos a Jesus Cristo como nosso Senhor; e podemos perdê-la quando desconsideramos o senhorio de Cristo. Por essa razão é que, em Corinto, Paulo disse que determinado membro da igreja cristã local perderia a proteção de Cristo, e que a sua vida física ficaria à mercê dos poderes malignos, controlados por Satanás, a fim de que aquela comunidade cristã fosse purificada e santificada, ao mesmo tempo que aquele indivíduo culpado seriá poupado da perdição eterna. «...destruição da carne...» Como Devemos Compreender Tudo Isso? 1. Os casos de Ananias e Safira e do poder que Paulo mostrou por infligir a cegueira (ver Atos 5:5,10 e 13:11), não são análogos, pois parece não ter havido a entrega de tais indivíduos aos poderes malignos nesses casos, de modo que as pessoas sofressem detrimento. Algum poder divino direto esteve envolvido nesses casos. 2. Paulo tinha um «espinho» na carne, e que ele atribuía ao poder de Satanás, talvez algum problema ocular (ver Gál. 7:11). Não estamos certos quanto à natureza desse problema ocular, embora alguma força maligna sem dúvida estivesse ativa. Por semelhante modo, o livro apócrifo de Jubileus retrata os poderes demoníacos a infligirem a cegueira aos homens, além de os perverterem moralmente. Não há que duvidar que os poderes demoníacos podem fazer tais coisas. 3. Satanás (juntam ente com seus auxiliares) exerce poder sobre os homens com o intuito de causar-lhes dano. Ele é o tentador, pelo que lhes inflige dano moral, mas também pode ser a causa de enfermidades físicas (ver II Cor. 12:7 e I Tes. 2:18. Ver também Jó 2:6). Satanás é quem governa este mundo (ver João 12:31 e 16:11), e pode fazer quase qualquer coisa, a menos que Deus lhe barre o caminho ou ordene que algum dos seus ministros (algum poder angelical) passe a proteger os homens. 4. Por conseguinte, é perfeitamente possível que um homem venha a ser morto por uma força espiritualmente maligna (Satanás ou algum poder demoníaco), uma vez retirada a proteção que Deus confere aos homens. No texto presente, a «entrega a Satanás» parece indicar que a proteção natural dada àquele indivíduo imoral seria retirada, para que se tomasse vítima fácil de forças malignas. 5. A destruição da carne é a morte física. Esse juízo, por si mesmo, juntamente com outrosjulgamentos menores anterior'es, teriam presumivel­ mente o efeito de levar o homem ao arrependimento, o que o libertaria de sua grande maldade moral. 6. No presente texto não há qualquer indicação de que a igreja, em qualquer época da sua história, tenha o poder de fazer o que encontramos aqui, talvez excetuando em casos muito extremos, como a remoção de grandes perseguidores ou pervertedores da igreja e seus membros. Existem paralelos contemporâneos, mas o assunto todo deveria ser abordado com cautela extrema, a fim de que a igreja não viesse a tornar-se um centro de anátemas mágicos, como aqueles que caracterizam o paganismo. 7. Neste caso estava envolvida a autoridade apostólica, e muitos paralelos modernos talvez se ressintam da ausência de real autoridade ou direito. Jxistem pecados que levam à morte (ver I João 5:16); mas Deus é que é o Juiz dessas coisas, a menos que, mediante algum sinal ou necessidade absoluta, a igreja perceba que alguma pessoa deva ser assim removida da face da terra. Sou do parecer que, nesse caso, deveria haver alguma ação tomada pela igreja inteira. Dificilmente meros indivíduos poderiam tomar sobre si mesmos tão horrível responsabilidade. Pois eles mesmos podem tornar-se vítimas de poderes demoníacos. «...a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus...» O julgamento focalizado neste versículo, embora muito severo, serviria de remédio. Antes de tudo, porque assim a comunidade cristã local seria purificada de um elemento deletério. Em segundo lugar, porque, em certo sentido, isso livraria a alma do crente ofensor da perdição, garantindo assim a sua «salvação», o que, neste versículo, certamente dá por entender a salvação da alma, conferida mediante a confiança em Cristo Jesus. Essa expressão subentende os pontos seguintes: 1. A alma daquele homem se perderia, a menos que alguma medida preventiva de drásticas proporções fosse tomada. (Quanto à totalidade do problema da «segurança dos salvos», ver as notas de sumário sobre Rom. 8;39). A posição tom ada por este comentário é que uma alma pode perder-se temporareamente, depois de salva, mas que a segurança final é uma verdade bíblica indiscutível. Em outras palavras, a queda é seiripre «relativa». Pode ocorrer; mas a promessa de Cristo é que nenhuma de suas ovelhas pode vir a perder-se finalmente. Portanto, em algum ponto, ao longo do caminho, nesta vida terrena ou na outra, Cristo trará de volta as suas ovelhas. Assim sendo, um crente é passível de praticar pecados graves, chegando mesmo à beira da apostasia; mas finalmente, em algum ponto, será trazido de volta aos pés do Salvador. (Os diversos outros pontos de vista sobre a questão aparecem nas notas expositivas sobre Rom. 8:39). 2. Embora a alma possa vir a perder-se, devido a pecados grosseiros, o Senhor, contudo, preserva aqueles que lhe pertencem. Assim também, no caso aqui focalizado, o próprio juízo proferido teve por finalidade impedir a perda de sua salvação. 3. Este versículo, para alguns serve de uma espécie de consolo pervertido. Isto é, um crente pode cair em pecados grosseiros, e ainda assim será salvo, não perdendo a sua salvação. Mas somente Deus pode ser um juiz adequado em toda essa questão. Somente o Senhor sabe quem realmente pertence a ele. 4. Mas há consolos autênticos aqui. Pois embora Deus ocasionalmente seja forçado a punir severamente às suas ovelhas, tais punições não são meramente retributivas, mas também disciplinares e benéficas, porque Deus busca a quem lhe pertence. As passagens de I Ped. 3:18-20 e 4:6 mostram-nos que o castigo eterno, imposto aos incrédulos, terá o mesmo caráter. Pensar desse modo, pois, não é nenhuma heresia, a menos, naturalmente, que estejamos preparados a chamar o apóstolo Pedro de herege. Não há a menor base para confrontar esta passagem com várias fórmulas de encantamentos mágicos, que supostamente podem causar dano ou mesmo a morte física. A igreja de Corinto não teria de passar por qualquer processo de bruxaria. Tinham meramente de remover a proteção divina daquele homem, e as forças malignas fariam o resto. Também não devemos pensar que algum poder especial, emanado do próprio Paulo, infligiria tal punição. (Acerca da suposta seqüência deste caso, que resultou em exclusão e posterior arrependimento, ver o trecho de II Cor. 2:6, que expõe os argumentos contra e a favor da vinculação entre esses dois casos de disciplina). «...carne...», no original grego é «sarks». Essa palavra grega pode referir-se acr corpo, à natureza física, e.não somente à natureza ética carnal. Portanto, a morte física pode estar em foco neste versículo, e não meramente o expurgo de determinadas tendências carnais. Qualquer bom léxico ou concordância do grego dará as referências onde essa palavra é usada, com o sentido aqui salientado. Princípios De Disciplina 1. Os ministros do evangelho estão autorizados a estabelecer a disciplina nas igrejas (ver Mat. 16:19 e 18:18). 2. Estas são as suas características: a. É preciso que mantenha a sã doutrina (ver I Tim. 1:13). b. Deve ser uma linha mestra para a ação (ver I Cor. 11:34 e Tito 1:5). c. É mister que repreenda aos ofensores (ver I Tim. 5:20). d. Deve remover os ofensores obstinados (ver I Cor. 5:3 e ss. e I Tim. 1:20). 3. O homem espiritual submete-se à disciplina (ver Heb. 13:17). 4. Seu propósito é edificar os crentes (ver II Cor. 10:8). 5. Deve estabelecer a boa ordem e a decência (ver I Cor. 12:40). 6. O amor cristão deve ser seu guia padrão (ver II Cor. 2:6-8). Teria sido apropriada a ação de Paulo? O que Paulo sugeriu aqui tem bases morais? O Senhor Jesus teria agido da mesma maneira? Tais indagações geralmente são levantadas devido a uma preocupação excessiva pelo bem-estar do corpo físico, paralelamente ao grande desinteresse pelo bem-estar da alma. Paulo sabia que seus leitores originais estavam sujeitos a severojulgamento cósmico (ver o final deste versículo e o terceiro capítulo desta epístola). Preocupava-se intensamente ante isso. Outrossim, devido ao seu conhecimento intuitivo e por inspiração, sabia o apóstolo que aquilo que ele havia proposto era necessário para a salvação dá alma daquele homem. «...no dia do Senhor...» Essa expressão eqüivale a «no dia de Cristo», porque «Senhor», nessa expressão, significa «Cristo». (Ver Rom. 1:4 e as notas expositivas ali existentes, sobre esse uso nas páginas do N.T.). Paulo se refere à segunda vinda de Cristo, à ressurreição, ao julgamento que se seguirá, conforme aprendemos em I Cor. 3:13. (Ver também I Cor. 1:8, onde Paulo mostra o seu interesse pelo bem-estar daqueles crentes, no «dia de nosso Senhor Jesus Cristo». Ali são apresentadas notas sobre essa expressão). Paulo, pois, via esse julgamento como algo escatológico, e não como algo que vai ocorrendo à proporção em que cada crente morre. Mas pode haverjulgamentos em ambas essas ocasiões, a da morte do indivíduo e a do 2o advento de Cristo. Ver notas sobre este conceito em I Ped. 4:6. Variante Textual: A expressão «dia do Senhor», aparece também sob certa variedade de formas, como «dia de Jesus» (conforme dizem os mss Aleph, L e muitos manuscritos gregos posteriores), «dia de Jesus Cristo» (que e como dizem os mss DE), «dia de nosso Senhor Jesus Cristo» (segundo se lê nos mss AFGP, em algumas versões da Vulgata latina, e no Si(p). O verdadeiro texto, entretanto, o qual também explica a existência das variantes, diz simplesmente «dia do Senhor», conforme aparece nòs mss P(46), B, 1739 e nos escritos do pai da igreja Márciom. Esse título simples foi modificado variegadamente a fim de identificar Cristo de várias maneiras, ou seja, como «Jesus», como «Jesus Cristo» e como «nosso Senhor Jesus Cristo». Seja como for, a palavra «Senhor», que aqui aparece, e conforme já dissemos, significa «Cristo». Somente Jesus Cristo, por ser o Senhor de todos, é quem pode julgar aos homens. (Quanto a notas expositivas sobre «Cristo como Juiz», ver Atos 17:31). 6 Ου καλόν το καύχημα υμών. ούκ οΐδατε cm μικρά ζύμη δλον το φύραμα ζυμοϊ; 6 ούκ.·Χνμ.οϊ Ga 5.9 6 Ου] om Lcf Ambst, codd apud Aug | ζνμοι] δολοΓ D* lat Mcíon Ir T ert Vários testemunhos ocidentais (D* it (d) vg Márciom Irineu(lat) Tertuüano Orígenes (lat) Lúcifer AgostinhoAmbrosiastro) dizem δολοΐ. A mesma correção ocidental também ocorre em Gál. 5:9- 5:6: Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que uni pouco de fermento leveda a massa toda? Aqueles crentes de Corinto eram profundamente orgulhosos; considera- vam-se os melhores mestres cristãos, e, sem dúvida,os melhores de todos os
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    I CORiNTIOS 73 cristãos.Não podiam reconhecer a carnalidade de seu próprio caráter. Além disso, mostravam-se extremamente sensíveis, o que lhes impedia de reconhecer o efeito daninho de seu orgulho espiritual, ainda que, de um ponto de vista dogmático, soubessem sem dúvida o que as Escrituras têm a dizer acerca desse grave deíeito de personalidade. (Ver 1Cor. 1:29; 4:18,19 e 5:2, sobre o «orgulho espiritual dos crentes de Corinto»). O vocábulo inchados é usado acerca daqueles crentes por nada menos de seis vezes nesta epístola (Ver I Cor. 4:6,18,19,5:2; 8:1 e 13:4). «...jactância...» O sentido dessa palavra envolve tanto o «sujeito», o «objeto» e o «ato» da jactância ou ufania. Não há maneira de precisar positivamente qual dessas três coisas está em foco aqui. Na realidade, aqueles crentes de Corinto se jactavam, proferindo palavras tonitroantes, que glorificavam aos homens e a si mesmos; mas também se jactavam de determinadas questões, principalmente da sua própria sabedoria e de suas supostas elevadas realizações espirituais. No entanto, eram crentes de baixo nível, crentes carnais. Em seu espírito altivo, haviam permitido que pecados· grosseiros e destruidores penetrassem em seu meio, incluindo os pecados de facções, de veneração a «heróis» humanos, de degradação de irmãos na fé, de abuso dos dons espirituais, de desordem nos cultos, e de grosseiros pecados de imoralidade. Mas, se tivessem tido um espírito humilde, talvez tivessem podido perceber a gravidade dos erros que se cometiam naquela comunidade cristã. Os escravos da casa de Cloé, que anunciaram tais coisas ao apóstolo Paulo, perceberam a extensão e a natureza dos males que ali eram cometidos. (Ver I Cor. 1:11). «...não é boa...», isto é, «não é apropriada», «não é nobre», não refletia um caráter cristão bem formado, mas antes, era «detrimente», «ignóbil», «inapropriada». «...um pouco defermento leveda a massa toda...» Essa mesma ilustração é empregada no trecho de Gál. 5:9. A função do fermento também forma a base de uma das bem conhecidas parábolas do Senhor Jesus. (Ver Luc. ■ 13:21). Essa parábola foi contada para mostrar a diferença entre um «pequeno início» e um «fim ou desenvolvimento grandioso». (Ver Tia. 3:3-5). Por conseguinte, o apóstolo dos gentios não estava preocupado apenas com o próprio incidente, com o próprio pecado cometido, mas também com os efeitos extremamente prejudiciais desse pecado, se porventura o mesmo ficasse sem punição. A conexão entre o fermento e o pecado e sua remoção, tudo o que tipificava a purificação, se alicerçava nos costumes das festas religiosas dos Pães Asmos e da páscoa. A primeira dessas festividades era de natureza agrícola, celebrada durante os sete dias que se seguiam imediatamente à páscoa. Quanto à festa religiosa da páscoa, diz C.T. Craig (in loc.): «Esta última era uma primitiva festividade nômade, que originalmente não tinha qualquer vinculação com a festa dos Pães Asmos. No trecho de Êxo. 12:15 e ss. lemos as instruções acerca da busca pelas casas, visando a remoção de todo o vestígio de fermento. E essas regras foram grandemente expandidas nas tradições recolhidas no Pesahim. (Ver Herbert Danby, the Mishnah, Oxford: Clarendon Press, 1933, págs. 136 e ss.). Nenhum cereal capaz de fermentar podia ser encontrado nas casas, durante essa festividade religiosa». Na festa original dos Pães Asmos, isso servia para lembrar ao povo de Israel quão precipitadamente tinham partido do Egito, quando, sem esperarem que o pão fermentado fosse cozido, levaram consigo a massa ainda sem fermento. E assim, essa festa fazia com que se lembrassem de sua posição de peregrinos. O fermento tornou-se, dessa forma, símbolo de desintegração e corrupção. (Ver Lev. 2:11). E, para as mentes judaicas, qualquer coisa que estivesse em estado de decomposição lembrava a «imundícia». Por essa razão também é que os rabinos judeus com freqüência usavam o fermento como símbolo do mal, e até mesmo da corrupção hereditária do homem». (Comparar isso com Exo. 12:8 e 15:20). Outras culturas também preservavam tal idéia. Como exemplo disso, Plutarco declarou: «O próprio fermento é a fonte originária da corrupção, corrompendo a massa com a qual foi misturado». E em Persius (Sat. 1:24) vemos que a fermentação é empregada como símbolo de «corrupção». Por causa de tais vinculações de idéias, o fermento era inteiramente excluído das ofertas oferecidas sobre o altar de Yahweh, porquanto somente bolos feitos de massas asmas, isto é, sem fermento, podiam ser oferecidos ali. (Ver Lev. 10:12). Não obstante, essa mentalidade tinha exceções, porquanto pão levedado acompanhava as ofertas pacíficas e as ofertas movidas (quando da festa de Pentecoste; ver Lev. 7:13 e comparar com Amós 4:5). Não parece que o Senhor Jesus tinha usado o fermento, em suas ilustrações em Mat. 13:33 e ss. (paralelos em Luc. 13:20, 21), em qualquer sentido mau. A parábola aqui utilizada por Paulo pode ser melhor compreendida se desdobrarmos seus diversos simbolismos, a saber: 1. O pecado é apresentado pelo fermento. 2. A casa referida é a igreja cristã. 3. A vida cristã é a celebração da festa (ver Marc. 2:1). 4. O pão asmo representa a vida reta, por parte dos crentes. 5. A conversão e a remoção do pecado são representadas pela «massa nova». 6. O próprio Jesus Cristo é o cordeiro pascal que foi morto por nós, no que diz respeito à expiação pelo pecado. Uma alegoria similar, que envolve o fermento, pode ser vista em certo escrito do filósofo judeu Filo, intitulado «Como Adaptar-se aos Estudos Preliminares», 161 e ss. A ilustração que Paulo usou, utilizando-se desse simbolismo, mui provavelmente surgiu por ter-se ele lembrado do fato de que a festajudaica do Pentecoste estava já bem próxima (ver I Cor. 16:8), o que fê-lo lembrar-se dos costumes tipicamente judaicos, nos quais sem dúvida ele nunca deixou de interessar-se, ainda que nem sempre tenha participado dos mesmos. Mas, estando próxima a festa de Pentecoste, é possível que Paulo tenha escrito esta primeira epístola aos Coríntios já perto da festa da páscoa, que antecedia àquela imediatamente. Com essa parábola de Paulo podemos comparar certa declaração de Inácio, onde ele diz: «Desfaz-te, portanto, do fermento mau, que se tornou velho e azedo, e sê transformado segundo o fermento novo, que é Jesus Cristo». (Epístola aos Magnesianos, x). O pecado á tão virulento que se considera ser possuidor de um poder quase infinito para corromper o homem. Essa é a atitude que Paulo mostra ter, nesta secção. Por conseguinte, a remoção daquele homem «da casa», se tornara uma necessidade absoluta. O pecado é tão perigoso que pode levar o corpo à morte, destruindo a salvação da alma. (Ver o versículo anterior). «...Não sabeis...» Paulo dirige aqui uma pergunta àqueles crentes. É como se tivesse formulado a seguinte'pergunta: «Sois tão sábios e tão orgulhosos; e não sabeis esse princípio básico da ética religiosa?» «Uma vara inteira de porcos é prostrada nos campos por causa da enfermidade de um de seus membros, e uma uva desçolorida basta para infeccionar as demais». (Juvenal, «.79-81). 7 έκκαθάραre €τΰθη Χρίστος' 5:7: Expurgai ο fermento velho, para que sejais massa nova, assim como sois sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, já foi sacrificado. Ê como se Paulo houvesse dito: «Limpai a casa completamente, porquanto é chegado o período da páscoa; e a nossa páscoa, que é Cristo, já foi sacrificado por nós». Ora, se osjudeus se mostravam tão cuidadosos em limpar todo o fermento que houvesse, quando chegava o período de sua páscoa (visto que essa festa estava ligada à outra festa* dos Pães Asmos), quanto mais deve ser o crente do N.T. cuidadoso em limpar-se de todo o fermento, em sua vida. Pois opão asmo é símbolo da vida cristã em todos os seus aspectos. E a conversão a Cristo, a remoção do pecado, é uma experiência representada pela retirada do fermento, pela «nova massa». Paulo não era homem que demonstrasse indiferença para com as festividades judaicas, conforme vemos em Atos 20:16. Essas festividades tinham certo significado para ele, mesmo depois de sua conversão ao Senhor Jesus. Porém, o sentido verdadeiro dessas festas simbólicas se encontra na pessoa de Cristo, bem como na vida impoluta que o crente deve viver para seu Senhor. Paulo aborda aqui, especificamente, a questão da purificação moral, da necessidade de uma conduta cristã ideal, da ética cristã; porque, sem isso, nenhuma transformação segundo a imagem moral e metafísica de Cristo (que é o alvo de toda a existência humana), pode ter lugar. A penalidade imposta contra aqueles que ingeriam pão levedado, durante a festa dos Pães Asmos era o castigo de açoites. E isso mostrava para os judeus quão séria era a questão. Ora, se podia ser tão importante para um judeu observar uma mera cerimônia, um ritual, então deve ser extremamente importante para um crente viver direito a vida cristã, que é uma espécie de contínua festa de Pães Asmos, na forma de pureza de Vida diária, em todas as suas ações. «...velhofermento...»Com essas palavras Paulo quis indicar a vida antiga e suas manchas pecaminosas, tudo o que ficava particularm ente καί γάρ το πάσχα ημών 7 ημων] add V T T Ç pημων L(P) pi sy sa ς demonstrado pelo exemplo corruptor do fomicador da igreja cristã de Corinto. Está aqui em foco aquela porção da vida que Cristo ainda não purificou em um crente. O crente, pois, está na obrigação moral de limpar a casa de sua vida, como também a casa de Deus, que é a igreja de Cristo, de todo o fermento, porque o fermento tipifica a vida carnal. «...nova massa...» Essa nova massa, naturalmente, é isenta de fermento, de fermentação; e isso, por sua vez, significa que ela é santa, pura, simbolizando a vida cristã que é vivida sob a influência do Espírito de Deus. Essa vida começa quando da conversão; tem prosseguimento no processo da santificação, e atingirá o seu ponto culminante na futura glorificação. Todavia, envolve muito mais do que a mera remoção dos pecados antigos, porque também envolve a implantação de todas as virtudes morais positivas que fazem parte da natureza e caráter do próprio Deus Pai. (Ver Mat. 5:48 e Gál. 5:22,23). Ora, somente o Espírito Santo pode efetuar tal coisa. Em Cristo, pois, um homem se torna uma nova criação. (Ver II Cor. 5:17. Ver também os trechos de Efé. 4:24 e Col. 3:10). Paulo fala aqui acerca do elevadíssimo ideal cristão, mas que estava muito acima da natureza moral da igreja cristã de Corinto naquele momento, Com isso se pode comparar a máxima de Emanuel Kant, o qual afirmava que devemos tratar aos outros homens como se eles fossem aquilo que podemos desejar que eles sejam. «...Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado...» Sobre essa declaração apostólica, comentam Robertson e Plummer (in loc.), como segue: «É chegado o tempo de vos expurgardes de todo o fermento antigo; porquanto o Cordeiro já foi morto, e a vossa casa ainda não foi perfeitamente purificada: estais atrasados! (Ver Deut. 16:6; Marc. 14:12 e Luc. 22:7)... A força do apelo que faz aqui o apóstolo, seja como for, é patente; mas ganha certo vigor se supusermos que ele tinha em mente a tradição que aparece no quarto evangelho, isto é, que Cristo foi crucificado no décimo quarto dia do mês judaico de Nisã, o dia determinado para o ★ ★ ★ την τταλαιαν ζύμην, Iva ητ€ veov φύραμα, καθώς eare άζυμου. 7 ίκκα,θάρατί...άζυμοι Εχ 13.7 τό π ά σ χ α ...Χριστοί Ex 12.21; Is 53.7; 1 Pe 1.19
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    74 I CORÍNTIOS sacrifíciodo cordeiro pascal. Podemos asseverar que a tradição paulina, tal como a tradição joanina, faz da morte de Cristo, e não da última ceia, o antítipo da páscoa; mas dificilmente podemos apresentar o apóstolo Paulo como testemunha definida em favor da data do décimo quarto dia do mês de Nisã». (Quanto a notas expositivas sobre esse problema vexatório, que envolve certa questão de harmonia entre os evangelhos, ver os trechos de João 13:1 e Mat. 26:17. Quanto ao comentário sobre apáscoa eo Cordeiro de Deus, ver João 1:29). A despeito do fato que a páscoa original não tinha vinculação alguma com o perdão dos pecados, com a expiação pelos pecados, contudo não demorou muito para que se revestisse de tal significado, ao tornar-se parte do sistema de sacrifícios do judaísmo. Cristo Jesus morreu durante o período da páscoa. Agora Paulo escrevia de maneira bem clara, para os crentes que viviam naquela época. Os crentes judeus que habitavam em Corinto talvez tivessem limpado suas casas do fermento literal; mas a igreja de Corinto, a «casa de Deus» naquela cidade, permanecia repleta de fermentação, a despeito do fato de que o Cordeiro pascal, que é o Senhor Jesus, já tinha sido sacrificado. Assim sendo, os crentes não mostravam o devido respeito ao Senhor Jesus, mostrando-se muito mais respeitosos ao Senhor do que os judeus eram respeitosos para com seu sistema legal. εν 8 ώ σ τ ε ε ο ρ τ ά ζ ω μ ε ν , μ η εν ζ ΰ μ η π α λ α ιό , μ η δ ε ε ιλ ικ ρ ίν ε ια ς κ α ι α λ ή θ ε ια ς . 5:8: Pelo que celebremos οfesta, não com ofermento velho, nem com o fermento do malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. Neste ponto Paulo expande ainda mais a sua alegoria, apresentando-nos as suas próprias interpretações acerca dos símbolos por ele utilizados. «...celebremos a festa...» Não nos diz aqui o apóstolo exatamente o que pretendia afirmar; mas é óbvio que a vida cristã, em termos bastante gerais, é simbolizada pela festa durante a qual todo o fermento era removido das casas judaicas. A vida cristã, em sua inteireza, deveria ser caracterizada por uma'pureza real, tal como durante a semana da festividade dos Pães Asmos era mister remover de cada casa judaica todo o vestígio de fermento. Entretanto, nossa festa e observância não perduram apenas uma semana, e nem se limitam apenas a certos dias especiais ou santos; antes, devem prolongar-se por toda a nossa vida terrena, e até mesmo por toda a eternidade. «...velho fermento... o fermento da maldade e da malícia...» o Apóstolo dos gentios já havia deixado claro que a «imoralidade» é um mau fermento na comunidade cristã. Porém, existem muitas outras modalidades de pecado que também têm efeitos malignos, corruptores, insidiosos, que se espalham como câncer. Tais pecados incluem todas as formas de maldade, malícia e impiedade. E examinando até ao décimo primeiro versículo deste capítulo, também se poderia incluir, especificamente, o furto, a idolatria, a cobiça, as críticas iracundas e o vilipêndio contra os outros, além do alcoolismo. Com os praticantes dessas formas de pecado não devemos ter companhia, nem ao menos para tomarmos refeições com eles. Contudo, existem ainda outros pecados que atuam como fermento, no seio da igreja cristã, a saber, as obras da carne, conforme a lista que encontramos no trecho de Gál. 5:19,20. Todas as obras da carne, que são fomentadas segundo o princípio do mal que há no mundo, servem de fermento para o cristianismo bíblico. Eventualmente, entretanto, todos nós, os remidos, seremos totalmente purificados. Mas para tanto é necessária a atuação do Espírito Santo, o qual, ao mesmo tempo, implantará os aspectos positivos do fruto do Espírito Santo. (Ver Gál. 5:22,23). Então é que seremos dignos de Cristo, a nossa páscoa que foi sacrificada por nós; porque , assim a casa rião somente terá sido expurgada de todo o fermento, mas também será enfeitada e decorada com todas as formas da justiça positiva do Senhor Jesus. ★★★ O Fermento E Seus Simbolismos 1. Possui propriedades difusivas, pelo que pode ilustrar como o pecado se propaga e corrompe (ver I Cor. 5:6). 2. Estava associado à páscoa original, pelo que veio a ilustrar o princípio da separação para longe dos ímpios e do mal (ver Êxo. 12:15-20). 3. Ilustra, de maneira positiva, a rápida propagação do evangelho (ver Mat. 13:33). 4. Pode ilustrar a doutrina falsa (ver Mat. 16:6), bem como os mestres ímpios (ver I Cor. 5:6,7), ou mesmo a malícia (ver I Cor. 5:8). ζ ύ μ η κ α κ ία ς κ α ί π ο ν η ρ ία ς , ά λ λ ’ εν ά ζ ν μ ο ις 8 Εχ 12.3-20; 13.7; Dt 16.3 8 μ.7/δί] μ η Β Ambr: T j XJ39 I — υΐΊιρίας] πορνείας G ★ ★ ★ «...maldade...», no original grego, «kakia», que talvez indique o «princípio» malicioso, ao passo que a «malícia» seria o seu resultado. Mas também é possível que essa palavra, «kakia», indique a maldade em geral, com suas muitíssimas manifestações; e assim, a «malícia» (no grego, «poneiria») seria todas as formas de vileza, de iniqüidade e de malícia. Essas duas palavras têm um sentido muito geral, e com grande freqüência eram usadas como sinônimos, indicando muitas formas de pecado e erro. Portanto, nada de realmente definido se poder dizer acerca de tais vocábulos. «...asmos da sinceridade e da verdade...» Compete-nos alimentarmos-nos de pães sem lêvedo, que é o pão da vida, o qual nos nutre com sinceridade e verdade. Essas características, pois, devem substituir o velho fermento. Possuímos um novo pão, que nos transmite a vida de Cristo, o qual também toma o lugar do princípio do pecado, que até então vivia em nós. (Durante a festa da páscoa eram comidos bolos ou pães asmos, em lugar de bolos ou pães fermentados—ver Êxo. 12:15). Assim também, em Cristo, um novo nutriente nos é conferido pelo Espírito Santo. Trata-se de uma substância transformadora. (Podemos comparar as idéias de Paulo, existentes nesta secção, com o trecho de Gál. 5:19 e ss.). As obras da carne, que são destrutivas para a alma, devem ser substituídas pelo fruto do Espírito Santo, o agente divino da nossa transformação segundo a imagem de Cristo, transformação essa que é o alvo mesmo da santificação. «...sinceridade...» No original grego, essa palavra significa «transparên­ cia», «pureza límpida», podendo também significar «ingenuidade», isto é, a ausência de malícia, dando a entender um espírito puro e singelo, sem dolo. (Ver João 1:47). Essa palavra é usada para indicar «pureza» nas ações, nos motivos, uma «sinceridade piedosa». Etimologicamente, essa palavra significa «examinado à luz do sol», «testado», e, por conseguinte, «sem mistura», «incorrupto», «puro». Paulo, pois, queria que aqueles crentes de Corinto tivessem aquela piedade que é de natureza tão pura que pode ser submetida à luz da investigação. «...verdade....», neste caso, é palavra que significa «retidão», «integri­ dade». (Comparar com as passagens de I Cor. 13:6; Efé. 5:9 e João 3:21). Paulo não se refere aqui, particularmente, à pureza doutrinária, e, sim, à pureza e à veracidade éticas, em contraste com a maldade e a malícia tão comuns à expressão pecaminosa. Porém, a primeira porção desta primeira epístola aos Coríntios deixa bem claro que a pureza de vida não se pode obter sem a adoração e o serviço a Cristo Jesus, o que deve envolver uma opinião correta, mas, mais especificamente ainda, uma real comunhão com o seu Espírito, para que o crente possa conhecer a sua pessoa, conforme ela é formada no íntimo dos remidos. Etimologicamente, a palavra «verdade», que no grego é «aletheia», é a forma negativa de «letho», uma forma de «lanthano», que significa ocultar-se, escapar à atenção, e, em sentido moral, «enganar», «dissimular». Em contraste com isso, a verdade é aberta, franca, positiva, sem qualquer segredo a ocultar. Em sentido geral, por conseguinte, essa palavra, no original grego, fala sobre integridade, e tem muitas aplicações. 9 ”Ε γ ρ α φ α ν μ ΐν εν τ η ε π ισ τ ο λ ή μ η σ υ ν α ν α μ ίγ ν υ σ θ α ι 5:9: Já | k> rcarta vos escrevi que não vos comunicísseis com os que se prostituém; Diversos intérpretes têm procurado identificar a «.. .carta...» aqui mencionada, com alguma porção desta primeira epístola aos Coríntios; mas nessa tentativa não obtém qualquer sucesso, com o que concordam quase todos os eruditos modernos. Paulo menciona certa missiva que ele havia escrito aos coríntios, a qual não possuímos atualmente. Outros eruditos tentam fazer do tempo aoristo existente nessa frase, em «...escrevi...», um «aoristo.epistolar», o que significaria que aquilo que Paulo já escrevera até este ponto, nesta epístola, poderia ser essa «carta». Porém, este próprio versículo indica que ele ficara desapontado com o cumprimento tão parcial daquilo que ele já lhes tinha ordenado. Por essa razão, alguns estudiosos supõem que Paulo se referia ao trecho de II Cor. 6:14 - 7:1. É verdade que as «duas» epístolas aos Coríntios que atualmente possuímos provavelmente se compõem de fragmentos de «quatro» epístolas diversas, ou mesmo de quatro missivas completas que Paulo teria escrito aos coríntios. Portanto, é possível que Paulo tenha feito aqui alusão a alguma porção da segunda epístola aos Coríntios, que teria sido escrita antes da nossa atual prim eira epístola aos Coríntios. Essa conjectura é menos provável do que aquela outra que simplesmente afirma a existência de uma missiva anterior, que atualmente não mais existe, mas que Paulo escrevera aos crentes de Corinto. / T T O p V O iS , 9 μ ή συναναμί-γνυσθαι irbpvois M t 18.17; 2 Th 3.14 É perfeitamente possível que o apóstolo Paulo tenha escrito um grande número de outras epístolas, acerca das quais não possuímos qualquer informação, e nem mesmo qualquer menção em qualquer documento conhecido por nós. A respeito dessa carta perdida, Robertson (in loc.), observa esperançoso: «Que tremendo ‘achado’ seria se um rolo de papiro, encontrado no Egito, no-la devolvesse para nós». Precisamos observar que, no trecho de II Cor. 10:9, Paulo menciona «epístolas», no plural, o que indica uma extensa correspondência com a igreja de Corinto, e não apenas uma epístola (a nossa primeira epístola aos Coríntios) enviada para ali. (Quanto à questão inteira da correspondência de Paulo com a igreja cristã de Corinto, ver a secção IV da introdução a I e a II Coríntios, onde o problema é longamente discutido, e onde diversas opinões dos eruditos são ventiladas). «...não vos associásseis...» Essas palavras indicam certa modalidade de exclusão, provavelmente seguindo o modelo das exclusões judaicas. (Ver as notas expositivas sobre as exclusões judaicas, em João 9:22; sobre a «exclusão cristã», em Mat. 18:15-17). No décimo primeiro versículo deste mesmo capítulo, Paulo diz «...não vos associeis... nem ainda comais...», palavras essas que nos mostram até que ponto deve ir essa separação. Era uma separação ao mesmo tempo particular e pública; ficava excluído qualquer contacto em nível social, fora da igreja ou dentro dela. Isso servia
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    I CORÍNTIOS 75 parapressionar um crente a m udar de vida, a fim de que pudesse ser novamente admitido na comunhão da igreja local. «...impuros...», isto é, «imorais», «fornicadores». No original grego, a palavra é «pornois». (Ver as notas expositivas acerca da «fornicação» ou «imoralidade», no primeiro versículo deste mesmo capítulo). Neste nono versículo é empregado um derivativo dessa mesma palavra. Todas as formas de imoralidade estão aqui em foco—todos os pecados de natureza sexual. Uma outra forma dessa mesma palavra, no original grego, significava «prostituta». Essa palavra tem sentido geral, sem especificar qualquer forma particular de impureza sexual. Os capítulos quinto a sétimo desta epístola abordam esse problema, mostrando quão grande e graveiera em Corinto e na igreja cristã dali, e não apenas na sociedade local, onde, naturalmente, os crentes que habitavam naquela cidade não podiam evitar a associação com os impuros. 10 ού πάντως τοΐς πόρνους τοΰ κόσμου τούτου η τοΐς πλεονεκται,ς καί αρπαξιν η είδωλολάτραις, επεί ώφείλετε άρα Ík τοΰ κόσμου εξελθεΐ E ÍV . Ao invés de καί oTextus Receptus, seguindo p46 Nc D b >c L ψ muitos minúsculos vg sir (p,h) cop (sa,bo) gót ara al, diz ή,' assim confirmando mecanicamente o contexto. A forma καί é fortemente apoiada por testemunhos alexandrinos e ocidentais (H A B C D* F G P 33 88 177 181 326 441 1099 it (d,g) etí). 5:10: comisto não me referia à comunicação emgeral com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. O Mal-entendida 1. Na correspondência que Paulo manteve com os crentes de Corinto (o que evidentemente envolveu algumas outras epístolas que não possuímos hoje em dia), o apóstolo estabelecera padrões de separação e exclusão. Os crentes de Corinto haviam pensado que suas palavras se aplicassem a todos os homens, de dentro e de fora da igreja. Porém, tantos são os pecados morais do mundo que, se nos separássemos de todos quantos os cometem, não poderíamos ter amizades ou associações de qualquer maneira com as pessoas de fora da grei cristã. 2. Portanto, Paulo agora deixa claro o que ele quisera dizer com sua ordem de nos separarmos de homens maus—que nos separássemos daqueles maus indivíduos que pertencessem à igreja, e com o propósito de levá-los à disciplina. 3. Paulo deixa claro, neste ponto, que ele não tinha jurisdição sobre os incrédulos, e não podia exigir que os incrédulos tivessem vidas isentas do mal. Nem podia ele aplicar qualquer regra de exclusão no caso dos incrédulos. Essa jurisdição pertence exclusivamente a Deus (ver Apo. 20:12). 4. Naturalmente, não quis dar ele a entender que não nos devamos separar do mesmo, no tocante a nossos próprios hábitos, porquanto isso ele requereu de nós (ver Rom. 12:1,2). Deveríamos agir seguindo o exemplo de Jesus, isto é, não cortar toda a associação, mas servir de exemplo dentro da comunidade, a fim de atrairmos os homens ao caminho da retidão. Não se pode duvidar que na igreja cristã de Corinto houve casamentos mistos, isto é, crentes se casaram com pagãos ordinários; e os dois padrões morais assim unidos se mostraram totalmente incompatíveis entre si. Não obstante, separações ou divórcios não eram recomendados, exceto em casos extremos. ... Naturalmente, nos contactos necessários com indivíduos imorais, o padrão do cristianismo requer de nós que hasteemos nossa bandeira e não ocultemos as nossas convicções. Precisamos conquistar pecadores vindos do mundo; e um testemunho positivo precisa ser dado, a fim de que isso se tome realidade. Páulo, naturalmente, esperava que os crentes não fossem transformados conforme a imagem do mundo, e, sim, conforme a imagem espiritual de Jesus Cristo, o que, se for genuíno, tornar-se-á patente aos olhos de Deus, conquistando outros homens para Cristo. (Ver Rom. 12:1,2). Estamos no mundo, mas não pertencemos ao mundo. Paulo queria que soubéssemos como tornar realidade essa declaração em nossas vidas diárias, como seguidores de Cristo que somos. Paulo deixa esclarecido, nos versículos que se seguem, que ele não exercia jurisdição sobre os pagãos, sobre os incrédulos. Tal jurisdição pertence exclusivamente a Deus, sendo o Senhor quem julgará com justiça as obras de cada homem. (Ver Apo. 20:12). Paulo exercia jurisdição sobre a igreja cristã, e isso mediante a sua autoridade apostólica, podendo assim exigir que certas providências disciplinares fossem tomadas dentro da comunidade religiosa cristã. «...impuros...»Paulo começa a alistar os tipos de indivíduos com quem os crentes entram em contacto no mundo, aqueles tipos de coisas erradas que precisamos tolerar nos homens desligados de Cristo, mas que precisam ser severamente julgadas no seio da igreja cristã, através da autoridade apropriada, ainda que não sobre bases individuais. Neste ponto temos os «impuros». Trata-se da mesma palavra grega usada por todo este capítulo, com comentários no nono versículo e em outros trechos do mesmo. «...avarentos...» Esses eram os gananciosos, os cobiçosos, aqueles que sempre querem mais e mais dinheiro, poder e prestígio. Comenta Robertson (in loc.), acerca dessa questão: «No N.T., essa palavra figura apenas aqui, em I Cor. 6:10 e em Efé. 5:5. Os avarentos sempre aparecem em más companhias (com os licenciosos e os idólatras), tal como os modernos- bandidos, que se combinam para explorar o alcoolismo, a imoralidade, o banditismo, em busca de dinheiro ou poder». As raízes do vocábulo« pleonektes». «avarento», são «pleon», que significa «mais», e «echo», que significa «ter». Portanto, estão em foco os que querem ter sempre mais e mais. Assim sendo, estão em foco a cobiça, o desejo insaciável de possuir, a avareza. A forma verbal dessa palavra pode significar «tirar vantagem de», «iludir», «defraudar». «...roubadores...»Esses são os violadores violentos dos direitos humanos. Essa palavra está intimamente associada ao vocábulo anterior, de maneira que alguns intérpretes pensam que elas devem ser compreendidas conjuntamente, no pensamento que os cobiçosos chegarão ao extremo de furtarem e assassinarem, a fim de entrarem na posse daquilo que almejam. Essa palavra também é usada para indicar os lobos vorazes, o que serve para mostrar algo da natureza do indivíduo que, à força, se apossa daquilo que não lhe pertence. A forma verbal básica significa «agarrar», «levar embora», e ordinariamente aparece associada à idéia de violência. No dizer de Robertson (in loc.): «Esses homens seriam chamados hoje em dia bandidos, assaltantes, rufiões». «...idólatras...» Essa palavra aparece somente p*r duas vezes fora dos escritos de Paulo, a saber, em Apo. 21:8 e 22:15. Os idólatras são os violadores do direito mais alto, isto é, de Deus. Essa é a instância mais antiga que se conhece do uso dessa palavra. (Quanto à vinculação entre os cobiçosos e os idólatras, comparar os trechos de Col. 3:5 e Efé. 5:5. O uso neotestamentário não confina o termo que ora comentamos apenas à adoração de imagens, mas também estende o seu significado às devoções da alma a qualquer objeto que usurpe o lugar que por direito cabe a Deus. Assim, conforme o versículo seguinte nos mostra, até mesmo um crente pode tornar-se culpado desse pecado. Podemos observar que, no trecho de Efé. 5:5, essa palavra, no original grego sobretudo, é usada para indicar o sentido figurado deVadoração ao dinheiro. Esse versículo diz-nos que a cobiça ou avareza é idolatria, e que aquele que é cobiçoso é um idólatra. Algumas pessoas adoram o dinheiro; outras adoram a posição social; outras ainda, o prestígio; e ainda outras, os prazeres carnais. Existem inúmeras formas de idolatria, e quase todas as pessoas, se não sempre, pelo menos ocasionalmente, se tornam culpadas desse pecado. «Atríade de vícios que aqui aparece consiste naqueles defeitos de caráter que caracterizam a civilização não-cristã, isto é, a moralidade lassa, a ganância e a superstição. Este último desses defeitos, sob uma forma ou outra, é o substituto inevitável da religião espiritual». (Robertson e Plummer, in loc.). Os Vícios Deste Mundo 1. Transgridem contra a lei de Deus (ver I João 3:4). 2. Possuem conexões metafísicas, a saber, a criação e estimulação de Satanás e suas forças perniciosas (ver I João 3:8). O pecado jam ais é meramente o ato de um indivíduo isolado. 3. Não fazer o que devemos, constitui um vício (ver Tia. 4:17). 4. A falta de fé inspira os vícios (ver Rom. 14:23). 5. Os vícios se originam no coração dó homem (ver Mat. 15:19). 6. Conduzem à morte espiritual (ver Rom. 6:23). «...teríeis de sair do mundo...»Isso porque esses vícios são extremamente comuns, podendo ser entontrados em praticam ente todos os seres humanos, de maneira branda ou profunda, forte ou fraca. Para que se evitasse tal defeito, seria iiecessário aos crentes saírem desta atmosfera poluída da terra, entrando em alguma dimensão espiritual da existência. Podemos observar, no trecho de I Cor. 10:27, que Paulo nem ao menos proíbe a presença dos crentes nos entretenimentos particulares oferecidos pelos pagãos; mas deixa subentendido que não devemos procurar tais coisas. É interessante que diversos intérpretes protestantes têm encarado este versículo como uma proibição à «clausura». «A igreja deve ser a luz do mundo, e não o receptáculo das trevas deste mundo». (Shore, in loc.). «Quão necessário era o cristianismo naquela cidade». (Adam Clarke, in loc.). A tentativa de sair do mundo é uma violação da vontade de Deus. (Ver João 7:15). ★ ★ ★ Que Mugidos Insensatos são Esses? Que mugidos e balidos insensatos são esses? Quem trouxe esses touros ruidosos e essas cabras berradoras Até à porta do santuário? A esta porta do santuário de minha vida? Que ruídos estranhos são esses que Desviam a minha mente dos céus? Os prazeres mundanos, sua fama, suas vantagens São apenas touros ruidosos e cabras berradoras; Ruidosos e fedorentos, exigem admissão, Saltitando íoquazmente à porta, A presença fragrante de Deus e do bem Não tardarão a dissipar. (Russell Champlin)
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    76 I CORÍNTIOS 11νυν δε έγραφα ύμΐν μη συναναμίγνυσθαι εάν τις ειδωλολάτρης η λοίδορος η μέθυσος η αρπαζ, 11 μή.,.συνεσθίβιν 2 Th 3.6; Tt 3.10; 2 Jn 10 5:11: Mas agora vos escrevo que não vos comuniqueis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal nem sequer comais. A ordem de separação baixada por Paulo, que ele escrevera antes desta ocasião aos crentes de Corinto, era uma ordem muito séria, embora a tivessem entendido mal, não a tendo posto em prática de maneira correta. Razão Da Disciplina 1. Notemos quão estrita é esta passagem. O leitor conhece algum crente que pratique qualquer dos males morais que estão alistados neste versículo? Pois então que o tal seja assinalado como uma das pessoas que deve ser evitada, e que a igreja local de que é membro tome as providências necessárias para sua exclusão. Que não se tenha qualquer associação social com tal pessoa, como tomar uma refeição com ela, em sua residência, e nem seja tal pessoa convidada para tal coisa na residência de algum crente. Isso segue os passos da exclusão entre os judeus, a qual não envolvia somente a sinagoga, mas também cobria as situações sociais. 2. Porém, qualquer ação dessa natureza deve ser tomada democratica­ mente pela igreja, e não pelo pastor ou por alguma junta de ãnciãos (ver Mat. 18:15-17). A ação da igreja fará a questão assumir natureza impessoal, além de ser muito mais eficaz. 3. Nenhum dos juízos divinos, entretanto, visam a mera retribuição, mesmo no caso dos incrédulos. (Ver I Ped. 4:6 e Rom. 11:32 quanto a esse ensino). E por certo, Deus não julga um crente a não ser com o propósito de levá-lo à restauração. (Ver Heb. 12:6 e ss.). 4. Portanto, que se faça como Deus faz. Que se deixe claro que a disciplina visa à restauração, e não à destruição. O pecado possui um efeito amortecedor e enganador, e jam ais nos deveríamos olvidar desse fato. O crente que se deixa envolver pelo pecado, muda as suas atitudes mentais para com o mesmo. Toma-se muito menos precavido contra o pecado do que anteriormente. Não mais é bom aquilatador da pecaminosidade do pecado, porquanto a sua visão da pureza se obscureceu. O que poderia ser demonstrado com maior facilidade, na experiência humana, do que isso? Sendo esse o caso, tal crente precisa de ajuda urgente. E Paulo sugere que essa ajuda deve ser prestada pelos demais membros da comunidade cristã. E isso deve assumir uma expressão sificientemente firme para impressionar aos outros sobre aquilo que o crente deixou de impressionar a si mesmo, isto é, a seriedade de seus pecados, os efeitos detrimentes que esses pecados exercem sobre ele mesmo e sobre os seus semelhantes. O fato que os demais crentes não têm mais comunhão com ele, dentro ou fora da igreja, serve para mostrar-lhe que a igreja está profundamente preocupada com a questão, estando disposta a agir, e agir com medidas drásticas, se tanto for necessário. O crente que é separado da comunhão com os irmãos, se ele é espiritual em qualquer grau, compreenderá que isso visa ao seu próprio bem. Em caso contrário, somente alguma intervenção divina poderá ajudá-lo nesse sentido. Na igreja cristã primitiva a ação era democrática, coletiva. Podemos notar, no quarto versículo deste mesmo capítulo, que a igreja de Corinto deveria reunir-se com a finalidade de discutir o caso. Isso subentende alguma forma de açãp democrática, o que também é claramente inferido do trecho de Mat. 18:15, onde a questão da disciplina cristã é descrita pelo Senhor Jesus. Nenhum indivíduo isolado, como também nenhum concilio, como uma junta de pastores ou diáconos, pode assumir a responsabilidade por tais ações. É mister que tais questões sejam expostas perante todos, a fim de que cada membro tenha a oportunidade de debater sobre o assunto, e dando também ao acusado a oportunidade de defender-se. Somente dessa maneira é que o crente disciplinado sentirá que a igreja agiu com justiça. (Quanto a notas expositivas sobre as «exclusões que havia no judaísmo», ver João 9:22. Acerca da «exclusão cristã», ver Mat. 18:15-17 e as notas expositivas a respeito). «...impuro... avarento... idólatra...» Temos nessas palavras a repetição dos pecados mencionados no versículo anterior, onde foram comentados. Tais pecados, praticados pelos homens do mundo, não podem ser sujeitos à disciplina da igreja de Cristo. Somente Deus pode julgar os homens que cometem tais pecados, quando ainda não confessaram a Jesus Cristo como seu Salvador, e nem estão ainda associados à sua igreja. Dentro da igreja cristã, entretanto, tais pessoas estão sujeitas às ações disciplinares da igreja. «...maldizente...» O termo grego por detrás desta tradução, «loidoros» significa um indivíduo abusivo, sobretudo aquele que emprega palavras ofensivas contra os seus semelhantes. Paulo declara que quando assim abusavam dele, com palavras ofensivas, ele não retrucava da mesma maneira, mas antes, «bendizia» àqueles que dele abusavam. (Ver I Cor. 4:12). Porém, se alguém que se diz crente, habitualmente ofende a outros com palavras de baixo calão, estando acostumado a usar descontrolada- mente a sua língua, tornando-se assim uma pessoa «maldizente», o qual, como é natural, provoca muito mal-estar e muitas dissensões no seio da igreja, então a congregação a que ele pertence tem o direito e a obrigação de separar tal indivíduo de seu rol de membros. Mediante a comparação deste versículo com o trecho de I Cor. 4:12, podemos compreender que Paulo se mostrava sensível para com esse tipo de pecado, porquanto muitos abusaram dele verbalmente, da parte de diversos líderes das facções existentes na igreja cristã de Corinto. E com base nas passagens de II Cor. αδελφός ονομαζόμενος fj πόρνος η πλεονεκτης η τώ τοιούτω μηδε συνεσθιειν. ιι 3] η BC D° a lf g Aug 10:10 e 11:6, aprendemos que zombavam de Paulo como alguém que era «desprezível» e «rude de linguagem», divertindo-se igualmente de suá presença física que não era impressionante. «...beberrão...» Alguém dado ao uso excessivo e constante de bebidas alcoólicas, viciado nas mesmas, por haver perdido o controle da vontade sobre a sua ingestão. Paulo não parece concordar com a opinião moderna, que diz que o alcoolismo é umà «enfermidade». Parece muito mais provável que ele atribuiria esse vício à desintegração gradual da vontade, devido ao excesso de indulgência do indivíduo consigo mesmo. O vocábulo grego aqui usado era aplicado pelos escritores áticos às mulheres, havendo outros termos gregos que aplicavam aos homens. Mas evidentemente o grego «koiné» não estabalecia mais qualquer distinção similar. Tal palavra pode significar simplesmente embriagado, embora Paulo a empregue para dar a idéia do «vício», do uso descontrolado das bebidas alcoólicas. Esse vício anda sempre de mãos dadas com várias outras formas de vício. O alcoolismo é um multiplicador de vícios, produtor de numerosíssimas misérias humanas. O problema social do alcoolismo sem dúvida alguma era tão severo nos dias de Paulo como é em nossos próprios dias. Devemos notar que Paulo não expõe qualquer programa de recuperação social para os alcoólatras; e tudo quanto ele recomenda se limita à atitude que a igreja local deve tomar para com os seus próprios membros que se deixarem vencer pelo vício do alcoolismo. Dificilmente se poderia afirmar que Paulo se mostraria contrário aos programas de recuperação social dos alcoólatras, porquanto tais programas certamente são úteis em qualquer comunidade humana. Entretanto, Paulo tinha a fé que, na igreja, a disciplina apropriada, imposta aos membros ofensores, seria medida suficiente para despertar a consciência e a fibra moral dos crentes assim envolvidos, recuperando aqueles que se tivessem deixado arrastar para o alcoolismo. Embora Paulo não diga tal coisa, podemos estar certos de que ele cria que se a igreja cristã fizer o que lhe compete, então o Espírito Santo é capaz de libertar tais crentes dos seus vícios. O fato é que até mesmo muitos programas sociais contra o alcoolismo procuram incluir a ajuda dos princípios religiosos. A organização intitulada «Alcoólicos Anônimos» se baseia na fé em Deus, procurando levar os viciados a apelarem para algo superior a eles mesmos, a fim de serem libertados. E não há que duvidar que o apelo a Jesus Cristo, através da influência benéfica do Espírito Santo, pode curar o vício do alcoolismo. A experiência humana assim o demonstra, embora se faça também imprescindível o esforço pessoal do próprio alcoólatra. E isso porque todo o progresso espiritual requer agonia de alma, a determinação da vontade, por parte do crente. Sim, todo o avanço em Cristo só pode ocorrer em meio a agonia de alma. E tudo isso serve para ilustrar a que ponto a alma se tinha desviado para longe de Deus. Não existe caminho fácil de retorno, e, sem o concurso decisivo de Jesus Cristo, esse retorno é simplesmente impossível. «... dizendo-se irmão...» Paulo não queria dar a entender que tais indivíduos eram verdadeiramente crentes. Nas próprias igrejas evangélicas, entretanto, nem todos os seus membros são verdadeiros crentes. Contudo, naturalmente existem aqueles membros que são crentes autênticos; e assim esta secção, em sua inteireza, mostra-nos que os crentes podem cair em pecados seríssimos, sem por isso deixarem de ser crentes verdadeiros, cujas almas estão salvas, o que também é deixado bem claro no quinto versículo deste mesmo capítulo. Os crentes caídos em pecados sérios, pois, foram tratados por Paulo com seriedade. «...com esse tal nem ainda comais...» O alcance das palavras de Paulo é o seguinte: Não comais com eles, nem por ocasião da Ceia do Senhor e nem particularmente, na própria casa. Isso está de conformidade com as formas judaicas de exclusão, as quais, de forma geral, foram transferidas para a igreja cristã. (Ver as referências dadas sobre ambas as formas de exclusão, nas notas anteriores sobre este versículo). Uma disciplina severa pode produzir o bom efeito de fazer o crente errado voltar ao bom senso, e, finalmente, ao arrependimento autêntico. Em caso contrário, então somente Deus, tratando individualmente do tal crente, poderá dar a solução para o caso. A passagem de Heb. 12:7,8 mostra-nos que Deus fará tal intervenção realmente, se a pessoa envolvida é de suas ovelhas, é um de seus filhos. Uma Lista Representativa Os pecados alistados neste versículo, passíveis de disciplina por parte da igreja, por certo são representativos. É possível pensar-se noutros pecados tão ruins ou piores, e que requerem a tomada de uma atitude. Porém, qualquer juízo quanto a essa questão deve ser tomado pela igreja, e não mediante a avaliação pessoal de pastores ou outros líderes da igreja. —Podemos mesmo supor que Paulo reconheceria esses fatos. Por exemplo, que se poderia dizer acerca do espancamento de esposa e filhos, da «violência física», e não meramente da ofensa verbal? Tal espancamento certamente é questão mais séria do que o abuso verbal aqui mencionado. Além disso, podemos meditar sobre a violência suprema do assassinato, que sem dúvida é crime e pecado mais grave do que aqueles aqui mencionados. É evidente, por conseguinte, que essa lista pode tornar-se muito mais longa. Seja como for, se a igreja local tiver de ser o juiz, mediante a ação democrática ou coletiva, então o ofensor disciplinado deverá ser corretamente julgado, ainda que seja disciplinado por causa de alguma falta não especificamente mencionada neste ponto. 12 τι γάρ μοι τούς εξω κρίνειν; ούχί τούς εσω υμείς κρίνετε ;ã di 12 -13 d question, d statement: Bov Nes b p a v á s v r s v t t zur Luth Jer Seg jj d minor, d question: TR WH RV // d statement, d statement: NEB 12 rovs < = £ω Mk 4.11
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    I CORÍNTIOS 77 12μαι] add και D° pm ς | ονχι. . . κρίνετε] τ. εσωβεν υμ. "V·να«ρ’β(syP co) 12, 13 (κρίνετε; . . . κρίνει (κρίνα L αΐ ς) .] κρίνετε,. . . κρίνει; R) Ao invés do texto usual, vários manuscritos antigos apresentam interessantes variantes: (a) P (46) sir (p) e cop (bo) omitem ο ύ χ ί e trazem o verbo como um imperativoi t o v s έσωθεν ύμεΐς κ ρίνατε («Julgai vós os que estão dentro (da igreja)>); (b) O Saidico aparentemente tomou ο ύ χ ί junto com a sentença anterior, dizendo t í y á p μου to v s 'έξω κρίνειν καί to v s εσω ο ύ χ ί ] to v s εσω vpels κρίνετε («Pois que tenho eu a fazer com julgar os que estão de fora, e não os que estão dentro? Julgai vós os que estão dentro»). 5:12: Pois, que mo importa julgar o< que estão de fora? Não julgais vós os que estão de dentro? Paulo não reivindica qualquer direito dejulgar aos incrédulos, os que não podem ser chamados de irmãos, os que não fazem parte integrante da comunidade cristã. Não há modo algum de aplicar a disciplina cristã aos tais. No entanto, enquanto o crente usar de bom senso, poderá ter associações com os incrédulos, contanto que não venha a tornar-se participante dos seus vícios. Pois não ter qualquer contacto social com tais pessoas certamente seria mais prejudicial ainda para a causa do cristianismo bíblico. As pessoas do mundo julgariam os crentes como uns santarrões fingidos, altivos e por demais importantes aos seus próprios olhos. Por essa razão é que até o próprio Senhor Jesus se associou aos pecadores e aos tipos humanos mais vis, carregados de vícios, a despeito de por isso ter sido severamente criticado pelos orgulhosos fariseus. (Ver Mat. 11:19). Não obstante, prevaleceu a sabedoria de suas ações. Jesus precisava manter tais contactos a fim de conquistar aos pecadores; mas podemos estar absolutamente certos de que ele não se deixou jamais macular por qualquer dos defeitos de caráter da gente com quem se associou. Todavia, a não-associação dos crentes com os membros sob disciplina produzirá efeitos benéficos, tanto para a própria comunidade como para o membro disciplinado. «...os defora...» Uma expressão comum, que indica os incrédulos. (Ver igualmente os trechos de I Tes. 4:12; Col. 4:5; I Tim. 3:7 e Marc. 4:11). No presente versículo Paulo assevera que aqueles crentes de Corinto não haviam compreendido corretamente suas instruções anteriores, conferidas na carta pòr ele mencionada no nono versículo deste mesmo capítulo. Não tendo compreendido essas instruções, pois, aqueles crentes tinham sido levados a entender que ele defendia alguma forma de julgamento cristão contra aqueles que não faziam parte da comunidade cristã. Mas aqui Paulo assegura a esses crentes que não os autorizara acerca de qualquer ação nesse sentido, por ser uma medida estúpida e impraticável, além de estar além de qualquer «direito» que ele pudesse ter, tanto como apóstolo quanto como um crente qualquer. O próprio Senhor Jesus não julgou assim aos que não pertenciam ao círculo dos seus discípulos, e nem interrompeu os benefícios das associações com os mesmos; e os crentes devem seguir o exemplo dado pelo Mestre. A expressão utilizada aqui, «...os defora...», se deriva do judaísmo, onde era aplicada aos gentios. Mas o Senhor Jesus a aplicou aos judeus que não faziam parte do círculo de seus discípulos. Paulo, contudo, aplica aqui essa expressão aos incrédulos, sem importar se eram judeus ou gentios. Devemos observar, porém, que Paulo não quis dar qualquer sentido de censura, quando empregou essa expressão. Ela simplesmente separa a comunidade religiosa da comunidade mundana. Epicteto advertiu contra o espírito de censura que alguns demonstram para com aqueles que não vivem de acordo com os seus padrões, tachando essa ?3 d atitude de muito prejudicial. (Ver Epicteto, Enchir. 47). E esse parecer de Epicteto está correto. Deus £ OJuiz 1. Prover julgamento é algo que concorda com o caráter de Deus, pois ele é justo (ver Deu. 32:4). 2. A justiça de Deus é imparcial (ver Jer. 32:19). 3. Os juízos divinos são verdadeiros, pois sua justiça é infalível (ver Sof. 3:5). 4. Deus exibe a justiça em seus juízos (ver Apo. 19:2). 5. Deus manipula o julgamento final (ver Atos 17:31). 6. O julgamento divino foi determinado para a segunda vinda de Cristo (ver I Ped. 4:6), e não por ocasião da morte de cada indivíduo. 7. Deus administra seusjulgamentos por meio de Cristo (ver João 5:22,27 e Atos 10:42). Isso não forma contradição com o trecho de I Cor. 6:2, onde aprendemos que os santos julgarão ao mundo. Essa passagem citada faz uma referência escatológica, ao julgamento futuro, o que, evidentemente será compar­ tilhado por Cristo Jesus e a sua igreja; ou talvez esteja aqui em foco algo a ver com o reino milenar de Cristo. (Ver as notas expositivas sobreI Cor. 6:2). Tal julgamento escatológico, entretanto, não terá umcaráter disciplinar, no sentido de exclusão, conforme é o caso do versículo e passa­ gem que ora comentamos. Esta passagem inteira é um eco da mensagem constante em Deut. 17:1; 19:19; 22:21 e 24:7, porquanto o estilo das exclusões, no seio do cristianismo primitivo, seguia os conceitos tipicamente judaicos. Antes, o juízo começa e fica limitado na própria igreja cristã. (Ver I Ped. 4:17). É nosso dever notar que os julgamentos «mútuos» não devem ser praticados entre os crentes. (Ver Rom. 14:4-10; M at. 7:1 e ss. e I Cor. 4:3-5). Entretanto, isso nada tem a ver com a ação coletiva da igreja local, ao tomar uma medida disciplinadora. As duas questões são assuntos inteiramente diversos, ou, pelo menos, deveriam ser assim reputados pelos seguidores de Cristo. O verdadeiro julgamento entre os crentes deveria ser uma ação democrática tomada pela igreja inteira; porque, se essa norma for desrespeitada, podem os julgamentos baixados tornarem-se ações pessoais, de um crente contra o outro, em que um membro mais forte ou mais influente se volta contra outro, que é mais fraco, por exemplo. A ação democrática, todavia, evitará tais abusos. Os próprios crentes de Corinto confinavam suas ações disciplinares aos que pertenciam à sua igreja local; e não tinham razão para supor que Paulo, em sua missiva anterior, referida no nono versículo deste mesmo capítulo, advogara mais do que isso, a saber, que também tinham o direito de iulgar aos «de fora». 13 τούς δε εξω ό θεός κρίνει3.d έξάρατε τον πονηρόν έξ ύμώ ν αύτών. » 13 1C! κρινίΐ Β3 Ρ 33 «1 88 104 181 326 436 614 630 1739 1877 1881 1962 1984 1985 2127 2462 Byz it"·*·” ·'·■·*·· vg cop“ -bo arm Ambrosiaster 13 ε ζ ά ρ α τ β . ,. α ύ τ ω ν D t 17.7; 19.19; 22.21, 24; 24.7 5:13: Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai esse iniquo do meio de vés. «...Deus os julgará...» exatamente porque a igreja cristã não exerce jurisdição sobre eles, o que não significa que Deus não os julga. Deus é o criador e a fonte de toda a existência, o governante moral do mundo; e todos os seres inteligentes estão sujeitos a ele, sendo-lhe responsáveis. A própria razão humana exige a necessidade do julgamento. Emanuel Kant alicerçou um argumento, em prol da existência tanto da alma como de Deus, sobre a necessidade de recompensa e de punição. E óbvio que neste mundo a justiça raramente tem lugar como deveria sê-lo. A razão nos diz que em algum lugar, de alguma maneira, essa justiça terá de ter cumprimento. Se assim não for, então o universo está realmente em um estado de caos moral, não havendo qualquer vitória real do bem sobre o mal. Porém, cremos, e com isso a razão concorda, paralelamente à intuição e à revelação, que o bem deverá eventualmente triunfar. Ora, somente uma grande inteligência e um poder bom podem ser ojuiz apropriado de todos os homens; e a essa inteligência chamamos Deus. Deus precisa existir, para que exista a retidão moral, para que a justiça seja cumprida, e para que,, eventualmente, o bem vença ao mal. Como já dissemos, se assim não for, então o universo está em estado de confusão. Ora, se o homem tiver de ser julgado, então terá de sobreviver à morte física, porque deve ter uma existência suficientemente longa que o permita chegar ao juízo, onde receberá recompensa ou ouvirá sua sentença. E evidente que, nesta vida terrena, raramente o homem encontra justiça. Portanto, 'deve haver justiça lá «no outro lado» da existência; deve haver almas, do outro lado da existência, para que sejam julgadas; e isso requer a sobrevivência pessoal da alma. E assim a imortalidade, pelo menos nesse sentido limitado de existência posterior, precisa ser uma verdade. Outrossim, somente através da existência de um Deus bom, todo poderoso e onisciente, bem como através da sobrevivência da alma, como um ser inteligente, é que podemos supor a existência de um universo onde impera a Augustine Jj κρίνει p1 8 629 1241 2495 Lect itd· « A B* syr»-h C D®·" G*r goth // κρίνει D ” Ψ 330 451 13 e£apare] εξαίρετε J)áe: και εξαρειτε DC L al Or ς moral e o propósito. De outro modo, prevaleceria o caos. Paulo concorda com essas conclusões, e as confirma através da razão e da intuição, bem como através da revelação. Todos os métodos pelos quais adquirimos conhecimento atingem a mesma verdade. No entanto, a revelação chega a essa verdade muito mais segura e prontamente. (Quanto ao «julgamento de Deus», ver Apo. 14:11 e 20:11 e ss. Ver também o trecho de Rom. 11:32 quanto ao fato que «o julgamento será temperado coin a misericórdia», por ter uma natureza disciplinar, curativa, e não meramente retributiva). Sendo assim as coisas, podemos estar certos de que os perdidos jamais se tornarão «eleitos». Em outras palavras, a despeito de que lhes será outorgada certa forma de existência espiritual, depois de haverem pago sua dívida até o último ceitil, essa existência não será da mesma categoria da vida eterna recebida pelos eleitos. Ver as explicações dadas em Efé. 1:10. A justiça absoluta será cumprida. Deus é o juiz de todos, e todo esse processo; e podemos estar certos de que ele agirá com toda a eqüidade. «...Expulsai, pois...» Evidentemente temos aqui a citação do trecho de Deut. 17:7. «...malfeitor...» é palavra de sentido muito geral, que indica todas as formas de homens perversos. Essa mesma palavra é usada no oitavo versículo deste capítulo, onde é comentada, sendo traduzida variegadamente por «maldade», «iniqüidade» e malícia. (Ver as notas expositivas ali, sobre o vocábulo grego «pioneria»). Neste ponto encontramos a reprimenda final de Paulo contra a maneira frouxa com que os crentes de Corinto manuseavam os problemas morais surgidos em sua comunidade. Orígenes (in loc.) comenta dizendo que não somente o mal deve ser expulso, mas igualmente os «malfeitores», por serem eles a origem de toda a confusão. Não há que duvidar que isso é o que Paulo queria dar a entender. Se Paulo não cita diretamente as Escrituras, ou melhor, se não identifica o trecho de onde extraiu essa citação, pelo menos podemos estar certos de que seus leitores compreenderiam a autoridade das Escrituras, que lhe davam apoio no que ele aqui ordenava. (Quanto a notas expositivas
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    78 I CORÍNTIOS sobrecomo Paulo costumava usar trechos do A .T., em apoio às suas filósofos morais da antiguidade de prepararem listas de vícios que deveriam doutrinas, ver o trecho de I Cor. 1:19). ser evitados. Essas listas eram extremamente populares no período . r, . helenista. Nenhuma prática similar se encontrava na literatura rabínica, Variante Textual·. O tempo presente, «...Deus os julga...», se encontra nos omVir>ro Filn « __________ , ., mss L e na maioria dos manuscritos gregos posteriores. Porém, os manuscritos ,·’,,^oplato realmente antigos, como P(46), Aleph, ABCD, etc., apresentam o futuro, estivesse acostumado a mesma. Tal pratica tambem pode ser vista nas obras «...Deus os julgará...» Isso está mais de acordo com a idéia escatológica iiteranas judaicas de babedoria de Salomão e IV Macabeus. Os trechos de encerrada neste versículo, ainda que alguns estudiosos pensem que o tempo Rom. 1:26-32 e Col. 3:5-10, além da presente passagem e de I Cor. 6:9,10, futuro foi tomado por empréstimo ao trecho de Heb. 13:4. Mas isso não é muito são exemplos paulinos dessa mesma prática. Tais listas eram empregadas provável. As versões da Vulgata latina, do aramaico, do cóptico e do etíope como parte integrante do ensinamento moral. (Comparar também com tambem exibem aqui o futuro. Marc. 7:22 e com o Didache 2:1 e 5:2). Lista de vícios: Encontramos aqui um reflexo da prática consagrada pelos Capitulo 6 III. Imoralidade, Êtica Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1-7:40). 2. Contra os processos legais entre os crentes (6:1-8). Gradualmente Paulo foi repreendendo os muitos vícios, as práticas condenáveis, os males de toda a sorte, na igreja cristã de Corinto. Já havia condenado o problema das divisões partidárias, a ênfase sobre a sabedoria mundana, a diminuição da importância da palavra da cruz, a veneração aos heróis e a degradação de ministros autênticos de Cristo. (Ver os capítulos primeiro a terceiro deste mesmo livro). Também havia mostrado como os verdadeiros devem ser avaliados (ver o quarto capitulo desta epístola). Por igual modo, havia atacado os baixos padrões morais, tendo destacado especialmente um caso de abuso sexual dos mais abomináveis, dentre tudo o que já se ouvira falar. E exigira ação por parte da igreja cristã de Corinto nesse caso, bem como a exclusão do indivíduo culpado, sua entrega a Satanás, para que o mesmo perdesse a sua vida física. Mas, a partir deste ponto, Paulo ataca um diferente tipo de abuso, a saber, o de julgar a outros, em sentido legal, na presença de incrédulos, em seus tribunais de justiça. Paulo considerava que a igreja cristã tem a capacidade de efetuar os seus próprios julgamentos, a despeito das questões que porventura fossem encontradas. Essa ação, naturalmente, pressupõe o caso de dois crentes que discordassem e entrassem em conflito por algum motivo, e não os casos em que um crente fosse envolvido em querela com um incrédulo. Não é provável, neste caso, seja como for, que o incrédulo concordasse em serjulgado em um tribunal cristão, eclesiástico. Paulo continuava procurando regulamentar a conduta no seio da igreja, e não entre crentes e incrédulos. Preocupava-se o apóstolo com a ordem correta no seio da igreja cristã, e em que o espírito de Cristo fosse aplicado a todas as suas ações. Paulo raciocina aqui que se os crentes não devem julgar aos de fora, conforme se lê em I Cor. 5:12,13, então não deveriam os de fora ter qualquer coisa a ver com o julgamento de crentes, naqueles casos em que dois crentes, em conflito um com o outro, podem ser julgados pela igreja local. Paulo deixava subentendido que a consciência cristã e a influência do Espírito Santo contribuem para fazer da igreja cristã local um tribunal melhor e mais sábio do que qualquer tribunal secular poderia sê-lo. Mui provavelmente a idéia geral em que esse pensamento se alicerça vem da cultura judaica, pois dentro da sinagoga e do templo havia provisão para todas as formas de julgamento, incluindo os julgamentos de natureza inteiramente secular. O próprio governo romano permitiu aos judeus continuarem essa prática, até que caiu no mais total abuso. Os rabinos costumavam usar o trecho de Êxo. 21:1 a fim de mostrar que era ilegal apresentar uma queixa perante juizes idólatras. Entre os judeus, ordinariamente três eram os juizes nomeados para cuidarem de tais casos. (Ver Strack e Billerbeck, Kommentarzum N. T. aus Talmud und Midrasch, III, págs. 364-365). O mais provável é que Paulo não estivesse pensando que a igreja cristã devesse assumir qualquerposição legal, a fim de julgar questões dessa natureza, posição essa que fora atribuída à sinagoga judaica por permissão do governo romano. Não obstante, a igreja deveria cuidar de si mesma quanto a essas questões, em que dois de seus membros entrassem em conflito um com o outro. Pois Paulo era da opinião que a sabedoria espiritual deve ser suficiente para cuidar de tais casos, sobretudo em face do fato de que os crentes estão destinados a serem juizes universais (6:2), em sentido escatológico. O terceiro versículo deste mesmo capitulo mostra-nos que tal juízo envolverá até mesmo aos «anjos», acerca dq qual assunto dispomos de bem escassa informação, mas que indica o tema que tem sido constantemente abordado neste comentário.i.e., que mediante a transformação dos remidos segundo a imagem de Cristo, no qual processo há a formação de sua natureza moral e metafísica, os homens são elevados a uma estatura espiritual muito superior à dos próprios anjos. De fato, assim deverá ser, pois os remidos participarão da própria «natureza divina», no dizer de II Ped. 1:4. Sendo essa a realidade, certamente que as pequenas questões que atualmente surgem entre os irmãos na fé podem ser solucionadas sem a ajuda dos incrédulos, os quais, presumivelmente, possuem muito menor sabedoria, ou pelo menos, muito inferior sabedoria espiritual. Paulo nos permite entender que os crentes devem viver acima da lei, já que possuem a lei superior de Cristo para obedecerem . Isso, entretanto, fará dos remidos excelentes súditos,cidadãos exemplares e cumpridores das leis de seus respectivos países. (Ensino esse bem esclarecido no décimo terceiro capitulo da epístola aos Romanos). O Crente deve preocupar-se com suas responsabilidades espirituais, e não meramente com os seus «direitos». Por essa exata razão é que disse Aristófanes (444- 380 a.C.): «Os sábios, ainda que todas as leis fossem abolidas, levariam o mesmo tipo de vida». 6 Τολμά τις νμων πράγμα, €χων προς τον erepov. κρίνεσθαι €πΙ των άδικων, καί ονγι em των άγιω ν; 6:1: Ousa algum de vòt, tendo uma queixa contra outro, ir a juixo perante ot mostra-nos que Paulo não tinha algum caso isolado em mente. O número de injustos, e não perante ot tantot? casos semelhantes deve ter sido regular, o que explica a severidade da A palavra o...Aventura-se...» também poderia ser traduzida por «ousa» reprimenda, ou «tem a audácia». O vocábulo grego «tolmao» significa «ousar», «ter a «...questão...» No grego original a palavra é «pragma», que era usada, de coragem», «mostrar-se à altura de», dando sempre a entender alguma maneira geral, para indicar «feito», «coisa», «acontecimento», «ocorrência», audácia no íntimo. Paulo usa aqui essa palavra em sentido negativo. Alguns «ocupação», «questão», «assunto»; contudo, também havia um sentido crentes como quê brincavam com os princípios básicos do cristianismo, forense ou judicial de questão legal, de «processo legal», de «disputa legal» mostrando-se ousados, presunçosos. Notemos que Paulo escrevia para de qualquer espécie. Paulo todavia, não esclarece aqui a natureza exata dos crentes gentios, sem grande conhecimento dos costumes judaicos, ou, pelo casos acerca dos quais tinha conhecimento, mas não há que duvidar que menos, não bem-versados nesses costumes. Qualquer judeu teria tais casos eram variegados. Talvez as disputas girassem em torno de compreendido de imediato a repreensão de Paulo aqui, porquanto teria sido questões de dinheiro, de propriedade, de transações comerciais, de instruído desde a infância que não se deve apelar para juizes pagãos e testamentos, de contratos, etc. idólatras quanto a questões de natureza religiosa. Os judeus consideravam «...contra outro...» Essas palavras significam o próximo, em sentido que taisjuizes eram totalmente inidôneos para julgarem a um israelita. (Ver tipicamente cristão. (Comparar com I Cor. 10:24; 14:17; Rom. 2:1 e Gál. a introdução ao presente capítulo, que sonda o pano de fundo da atitude 6:4). que Paulo expressa aqui). «...submetê-la...», isto é, «apelar para a lei» (no grego, «krinesthai», que Embora os leitores de Paulo talvez não se aferrassem aos mesmos aparece na voz média), palavra com freqüência usada em sentido forense, princípios aceitos pelos judeus, como formação cultural, contudo esse «Levar ajuízo», entregar queixa a um juiz, desejando que seja baixada uma apóstolo esperava que aqueles crentes, como convertidos a Cristo que eram, decisão judicial a respeito. e, portanto, dotados de sabedoria divina e de compreensão espiritual, «...perante os injustos...» Paulo não falava pejorativamente aqui, como se entenderiam quão impróprio seria levar questões de ordem espiritual a os juizes incrédulos jam ais buscassem chegar a soluções justas, tribunais seculares. Aqueles crentes deveriam ao menos usar de bom senso, acompanhadas de sabedoria. O termo «injusto» era termo comumente percebendo a impropriedade dessa ação. O oitavo versículo deste capítulo usado para referir-se aos gentios, em contraste com os judeus; e isso foi
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    I CORÍNTIOS 79 aproveitadopelo vocabulário cristão para indicar os incrédulos, os quais são reputados como quem não está «justificado» diante de Deus, sujeitos à condenação divina. Paulo não quis dizer que os juizes pagãos são sempre injustos; tão-somente salientava que os incrédulos são pagãos, não tendo realmente direito para tomar decisões acerca de conflitos entre crentes, porque, moralmente falando, isso estava fora de sua jurisdição e do alcance de sua sabedoria. Por semelhante modo, Paulo não quis dizer que havia pouca ou nenhuma oportunidade de um crente obter um julgamento justo em tribunal secular, somente porque chama a todos os juizes pagãos de «injustos». Os gregos apreciavam muito os litígios, e os membros da igreja de Corinto que se inclinavam para os pontos de vista dos sofistas sem dúvida não teriam hesitado em apresentar casos perante a lei, talvez deleitando-se em apresentar as suas queixas contra outros. (Ver Aristófanes, Rhet. II. xxiii.23, acerca do gosto que os gregos tinham nessa forma de atividade). Não havia «tribunais cristãos» (conforme havia tribunais judaicos). Os cristãos que se inclinavam para o litígio, portanto, apelavam para os tribunais pagãos, ao invés de aplicarem o bom senso, a sabedoria cristã, conservando os casos de querelas entre os crentes dentro da própria igreja cristã. Paulo não estabelece quaisquer regras quanto ao número de juizes, funções, etc., e nem determina qualquer conjunto de regras, mas antes, dá a entender que isso poderia ser adequadamente arranjado mediante acordo mútuo. Os tribunais judaicos para solucionar tais casos geralmente eram constituídos de três juizes. «...santos...» é palavra que faz contraste com os juizes «injustos». Ora, sendo os crentes «santos», possuidores de sabedoria divina, eram capazes de encontrar solução para os conflitos entre os irmãos na fé, porquanto também exerciam a devida jurisdição sobre a comunidade religiosa dos cristãos. O termo «santos» é largamente aplicado, nas páginas do N.T., a todos os crentes, e não meramente apenas a alguns poucos indivíduos, conforme esse vocábulo é usado em certos círculos da cristandade. (Quanto a notas expositivas completas sobre essa questão, ver o trecho de Rom. 1:7). Findlay (in loc.) comenta a respeito da atitude dos crentes de Corinto, quanto a esse particular, como segue: «Tratais a igreja, que é a sede do Espírito Santo (ver I Cor. 3:16 e ss.), como se ela não tivesse autoridade ou sabedoria; e apresentais os vossos casos ao tribunal comparativamente mais inferior». Naturalmente, Paulo também apelou para tribunais humanos, mas jamais em qualquer caso que envolvesse irmãos na fé. (Ver Atos 28:19). (Quanto às proibições rabínicas, que impediam os judeus de apresentarem queixa contra outrosjudeus, em tribunal pagão, ver Sulchan aruch, Chosen hummishpat, 29. Maimonides, Hilch. Sanhedrin, cap. 26, secção 7; Talmude Babilônico Bittin., foi. 38:2; Rabino Abraham Seba, sobre Tzeror Hammor, foi. 80.4; Rabino Bechai em Kad Hakkmemach, foi. 21.4; Maimonides, Talmud Tora, cap. 6, secção 4; Zohar sobre Êxodo, foi. 103.3). Por conseguinte, tudo isso era tema explorado pelo Talmude e pelo ensino dos rabinos. Na primeria dessas referências judaicas mencionadas, lê-se o seguinte: «Aquele que julga uma causa perante os juizes gentílicos, e perante os seus tribunais, ainda que as decisões sejam idênticas às de um tribunal israelita, eis que tal homem é ímpio; e é como se tivesse blasfemado e fosse réprobo, tendo levantado a mão contra a lei de Moisés, o nosso mestre, conforme aparece em Êxo. 21:1: ‘São estes os estatutos que lhes proporás... perante eles, e não perante gentios... perante eles... e não perante idiotas, homens privadps e iletrados’». Na opinião dos judeus, pois, levar um caso de natureza religiosa a um tribunal secular era medida eqüivalente a profanação contra o nome de Moisés e contra o Deus por ele representado, que baixara provisões acerca dessas questões, no teor da lei mosaica. ★ ★ ★ 2 rj o v k otBare ότι o i άγιοι τον κόσμον κρινονσιν; και el iv ύμ ΐν κρίνετα ι ό κόσμος, άνάζιοί κριτη ρίω ν βλα χίστω ν ; 6 2οί άγιοι...κρινοΰσϊν’Ό η7.22; Wed 3.8; Re 3.21 2 (κρίνοΰσίν] κρίν-) €στ€ 6:2: Ου não sabeis vis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo há de ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? «..-julgar o mundo...»Quando do estabelecimento do reino messiânico (o que é identificado com o milênio, por alguns estudiosos), os remidos compartilharão da autoridade de Cristo; e, assim sendo, serão juizes entre os homens. Isso concorda com antigas tradições judaicas, conforme se aprende no livro de Sabedoria de Salomão 3:8: «Julgarão às nações, e terão domínio sobre os povos». (Ver igualmente o trecho de Eclesiástico 4:15). Enoque 108:12 diz: «Farei aparecer revestidos de luz brilhante aqueles que tiverem amado ao meu Santo Nome; e a cada um deles farei assentar-se no trono de sua honra». . Os crentes haverão de participar da glória de Cristo, segundo aprendemos em I Cor. 4:8 (o que inclui também a idéia que eles «reinarão» com Cristo); Rom. 8:17; Dan. 7:22; Apo. 2:26,27; 3:21 e 20:4. A última dessas diversas referências fala especificamente sobre o fato de que reinaremos com Cristo por mil anos. A passagem de Mat. 19:28 promete aos doze apóstolos que exercerão domínio e governo sobre as doze tribos de Israel, quando for inaugurado o reino messiânico. (Quanto a notas expositivas completas sobre o «reino de Deus» ou «reino dos céus», ver Mat. 3:2). Não parece haver no trecho que ora comentamos qualquer alusão ao governo e julgamento dos homens, para além desse reinado milenar de Cristo, embora isso também seja possível, considerando-se o fato de que os crentes julgarão até mesmo aos próprios anjos. (Ver o terceiro versículo deste capítulo). Ora, isso subentende a altíssima exaltação dos remidos em Cristo, o que lhes perm itirá igualmente desempenharem grandes e profundos serviços, no estado eterno. O fato de que os crentes são juizes parece incorporar tanto as idéias do proferimento da sentença como também um domínio político em geral, tal como ambos esses aspectos são abordados no que diz respeito à missão de Jesus Cristo em seu reino, tanto no que concerne aos homens como no que concerne aos anjos, por ter ele jurisdição universal. A interpretação desta passagem não pode incluir a idéia,' exposta por alguns eruditos, os quais supõem que a referência é à evolução gradual do poder da igreja cristã, de tal maneira que, eventualmente, juizes crentes ocuparão posições de autoridade neste mundo. Isso não sucederá enquanto não retornar o nosso grande Rei, como não tem sucedido em grande escala em tempo algum, nem no passado e nem no presente. «...sois acaso indignos...» Quanta incongruência era praticada por aqueles crentes de Corinto! Os crentes estão destinados a compartilhar do reinado universal de Jesus Cristo, tanto na esfera terrena como na esfera 3 ovk olhare ότι αγγέλους κρίνουμεν,a μη τιγε βιωτικά a exclamation; RSV NEB Zür (Luth) Jer jj a question, a question: AV RV ASV Seg 6:3: Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida? As palavras «...Não sabeis...» nos permitem entender como se Paulo estivesse indagando: «Vós que sois tão sábios, tão orgulhosos de vossos dons espirituais, de vossos discursos eloqüentes, de vossa elevada capacidade como mestres e líderes: não sabeis qual é o vosso elevado destino, e o que está implícito nisso? Uma das verdades implícitas em vosso elevado destino é que está abaixo de vossa dignidade cristã apresentardes queixas, em algum tribunal secular, contra irmãos na fé». Sim, porque a igreja é o tribunal dos crentes, no qual nenhum indivíduo que está «de fora» pode intrometer-se. A igreja éo melhor tribunal onde as questões entre os crentes devem ser solucionadas, porque ali opera a sabedoria divina, em contraste celestial. (Ver Efé. 1:23). No entanto, aqueles crentes de Corinto se sentiam incapazes de julgar até mesmo as suas questões terrenas, «triviais», preferindo entregar a solução de seus casos ajuizes injustos. Esse é o âmago do argumento aqui apresentado pelo apóstolo dos gentios, sendo um argumento de grande efeito. Quanto ao seu espírito, segue a mentalidade judaica, conforme se explicou nas notas expositivas mais acima. Dá a entender que os crentes participarão de tudo quanto Cristo é, incluindo sua sabedoria e discernimento, através da operação do Espírito, o que conferirá aos crentes grande e decisiva vantagem sobre aqueles que são «de fora», que estão sujeitos a pouca ou nenhuma influência da parte do Espírito de Deus. Alguns estudiosos consideram a última porção deste versículo como se dissesse: «Sois indignos de vos assentardes nos menores tribunais?» Outros traduzem: «Sois indignos de julgar questões triviais?» Esta última possibilidade é preferível, embora se devam incluir ambas essas idéias. Os crentes estão destinados a participarem de grandes e cósmicos tribunais; no entanto, na sua própria igreja, são incapazes de formar um tribunal de três homens, para julgar casos de interesse exclusivo dos crentes, não podendo julgar nem mesmo trivialidades; no entanto, estão destinados a fazer julgamentos de muitíssimo maior envergadura, de natureza espiritual, quando for inaugurado o reino de Cristo. Devido à sua carnalidade, entretanto, é que demonstravam claramente sua falta de verdadeira sabedoria espiritual, ao mesmo tempo que tanto exaltavam à sabedoria mundana. (Ver I Cor. 1:18 e ss.). Portanto, é como se Paulo lhes dissesse: «Está abaixo de vossa dignidade, como crentes, levardes vossas diferenças para serem julgadas por tribunais seculares». Paulo condena neste ponto a prática de um crente apresentar queixa contra outro, perante tribunal secular; e condena isso com base na dignidade cristã, devido à unidade ideal do vínculo da fraternidade cristã. Os crentes de Corinto, pois, tinham violado ambos esses princípios. «...ou não sabeis...»É como se Paulo tivesse indagado: «Vós, que sois tão sábios, tão hábeis no sofisma e na retórica, tão excelentes oradores, tão admiráveis expositores da sabedoria humana, desconheceis esta verdade simples, subentendida no fato de que os crentes haverão de julgar tanto ao mundo como até mesmo aos próprios anjos?» (Ver o terceiro versículo deste capítulo). «...as cousas mínimas...» Estão aqui em foco diversos negócios, como contratos, heranças, testamentos, disposição de propriedades e outras questões mundanas. Ou então, se está em vista a idéia de «tribunais», então a alusão seria a tribunais que cuidam de questões de natureza trivial. > ’a . a a 3 a minor, a question: TR WH Bov Nes BF2 TT // a question, 3 (κρινουμεν, ] ; ς R) com os tribunais seculares, onde a sabedoria pode ser somente aquela de natureza empírica, intelectual, e, quando muito, intuitiva. «...havemos de julgar os próprios anjos...» Não possuímos muita informação sobre essa particularidade. Várias interpretações são possíveis, nenhuma das quais podemos afirmar que é verdadeiramente informativa. Os anjos (sem im portar se estão em foco os bons ou os maus) são mencionados como as criaturas mais elevadas é importantes do universo, sobre as quais Deus exerce controle absoluto. Origenes e alguns outros cristãos antigos não postulavam qualquer diferença essencial entre o espírito humano e os anjos. Também acreditavam eles que o homem fazia parte da criação original, pertencendo à mesma categoria dos anjos, antes da queda no pecado. E assim sendo, o homem seria uma das criaturas espirituais. Mas, à semelhança dos anjos que caíram, quando o homem
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    80 I CORÍNTIOS tambémcaiu no pecado, tornou-se um ser espiritual decaído. O livro de Gênesis inicia o relato do homem como um ser «mortal», decaído. Por éonseguinte, espiritualm ente falando, por sua própria natureza, é potencialmente tão elevado quanto os anjos, o que terá concretização através da sua restauração em Cristo Jesus. Mas, em Cristo Jesus, o destino dos remidos é se tornarem mais exaltados do que os próprios anjos, visto que atingirão até mesmo a participação na natureza divina. (Uma nota de sumário sobre tudo quanto está implicado nessa idéia, é dada no trecho de Rom. 8:29). Não nos deveria surpreender, portanto que os homens, redimidos e transformados na imagem de Cristo, sejam elevados acima dos anjos e realmente se tornem seus juizes e governantes. E devemos antecipar aqui não meramente o julgamento dos anjos caídos, mas também uma forma de domínio que tomará os anjos sujeitos aos remidos, tal como estão sujeitos ao próprio Cristo. -Naturalmente, esse é um conceito extremamente sublime, cuja própria magnificência serve para obscurecê-lo parcialm ente para o nosso entendimento. Outrossim, não precisamos pensar que esteja aqui em foco somente o reino messiânico, de acordo com as condições que prevalecerão no milênio, mas também aquelas condições que caracterizarão o estado eterno. Certa expéctação dessa natureza já podia ser vista no judaísmo, embora tal idéia não tivesse sido ali desenvolvida. (Ver o trecho de Dan. 7:22, onde lemos que ojuízo será entregue aos santos do Altíssimo. E com isso comparar também o livro apócrifo de Baruque 51:12). Que os homens remidos serão superiores aos anjos é uma verdade que também aparece em II Baruque 51:12, que diz: «Haverá então nos justos, uma excelência superior à dos anjos». Apesar do fato de que Paulo provavelmente inclui aqui a idéia dos «anjos caídos» (ver Jud. 6 e II Ped. 2:4), como seres que serão envolvidos no julgamento presidido pelos santos (um direito que lhes será delegado por Cristo), incluindo talvez também a idéia de que os anjos estarão sujeitos ao seu domínio (embora nada saibamos sobre as condições que prevalecerão no estado eterno), não há motivo algum para limitarmos essa referência somente a isso. A passagem de I Cor. 15:24 mostra-nos que Cristo virá governar com todo odomínio, autoridade e poder. Em Efé. 1:21, Cristo é visto acima «...de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro (no estado eterno)». Quando da glorificação final é que os crentes virão a participar de tudo quanto Cristo tem e é, o que certamente envolverá também esse domínio, citado nessa passagem de Efé. 1:21. Todas essas fases da doutrina cristã são elevadíssimas. «...as cousas desta vida...» No original grego encontramos aqui o vocábulo «biotika», o que indica o que é físico, terreno, mundano. Essa palavra era largamente usada para indicar as questões ordinárias, as necessidades comuns da vida diária, as vicissitudes da existência humana, terrena. Se os remidos tornar-se-ão seres capazes de julgar aos próprios anjos, e governá-los, afinal, dispensando julgamento na dispensação eterna, como é que agora mesmo os remidos não seriam capazes de possuir sabedoria humana suficiente para encontrar solução para as questões mínimas, triviais, que acompanham normalmente a vida física? As interpretações que afirmam que esse julgamento dos anjos se refere à «derrubada» dos poderes malignos, mediante a propagação do evangelho, durante esta dispensação da graça, ficam muito aquém, tanto da tradição que envolve a questão, já conhecida no seio do judaísmo, como também daquele entendimento que nos foi dado através da revelação mais perfeita, relativa à suprema dignidade da mensagem cristã e aos resultados antecipados com base na pregação dessa mensagem, no terreno da redenção humana. Os crentes de Corinto, ao levarem irmãos perante tribunais pagãos, ignoravam a suprema dignidade do crente. Também não podem ser aceitas aquelas interpretações que dizem que o vocábulo «anjo» se refere a qualquer autoridade ou ser humano. Estão aqui em foco os anjos de Deus, que são seres imortais e muito exaltados. «....julgar...» Esse verbo precisa ser compreendido em sentido bem lato, incluindo a idéia de condenação e proferimento da sentença, embora também inclua a idéia implícita do domínio, ou seja, o exercício do juízo, que é um dos direitos atribuídos a um governante. No original grego, essa palavra também significava «administrar justiça», conforme se vê em Apo. 6:10. Diz o trecho de I Clemente 8:4: «Verificar que a justiça é feita». O ofício de um governador deve incluir esse tipo de atividade, e uma coisa pode ser compreendida como implícita na outra. 4 βιαστικά μεν ουν κριτήρια εάν εγτγτε, t o v s εξουθενωμένους εν τη εκκλησία t o v t o v s καθίζετε;b b 4 b question: WH Nes BF2 RV ASV RSV NEB TT jj b command: AV RVme A S V ms Luth // b exclamation: Zür Jer Seg // command or statement: TR Bov 4 (κα&£<=«; R‘] . ς R“ ) 6:4: Eirtõo, te tiverdes negócios em juízo, pertencentes α esto vida, constituis como juizes deles os que são de menos estima na igreja? Esta tradução,«...daqueles que não têm nenhuma aceitação na igreja!...» é exagerada. Melhor tradução seria: «...daqueles que são menos estimados pela igreja!...» E isso talvez signifique «os defora», e, quiçá, os «injustos». É como se Paulo tivesse asseverado: «Apresentais vossos casos perante aqueles que, visto serem incrédulos, realmente são considerados em pouca ou nenhuma estima na igreja». Mas talvez Paulo se referisse aos «menos estimados», no seio da própria igreja cristã local. Alguns estudiosos pensam que o verbo «kathidzete» está no modo imperativo, «...constituí (vós) tais casos perante os menos estimados na igreja!» É como se Paulo tivesse dito que seria melhor deixar tais casos ao encargo dos elementos menos estimados na comunidade cristã do que apresentá-los aos incrédulos. Se tal verbo realmente é um imperativo, então teria de ser compreendida esta frase como um sarcasmo, e não como o intuito real do apóstolo. Paulo teria falado assim sarcasticamente, pois, porque não defendia seriamente a idéia de que os crentes de Corinto escolhessem os elementos menos qualificados de sua igreja para serem os juizes de seus casos particulares. Mas até mesmo isso, teria ele deixado entendido, ainda de conformidade com esse tipo de interpretação, seria melhor do que a sua prática atual de apelarem para os tribunais seculares. Outros estudiosos, entretanto, preferem pensar que esse verbo grego está no modo indicativo, interrogativo, e não no modo imperativo, o que é possível na gram ática grega. Nesse caso, Paulo simplesmente estaria indagando por que aqueles crentes de Corinto selecionavam como seus juizes os indivíduos de menor estima, no conceito da igreja, a saber, os «de fora», os juizes injustos, referidos no primeiro versículo deste mesmo capítulo. Bons eruditos têm defendido um e outro desses dois pontos de vista, não havendo qualquer maneira de determinar qual é a posição correta. Mas a mensagem de Paulo é clara em ambos os casos. Ele condenava o emprego de tribunais seculares nos casos surgidos entre os crentes, porquanto tal ação é uma desgraça contra a dignidade da comunidade cristã. Por qual razão, pergunta ele, apresentais vossos casos aos tribunais seculares, considerando que os crentes julgarão aos próprios anjos? (Essa declaração, vazada na forma de uma pergunta, faz o verbo aparecer no modo indicativo, «kathidzete»). Ou então, dizia Paulo sarcasticamente: «Ao invés de apresentardes vossas queixas perante os tribunais seculares, julgai-os através dos membros menos qualificados e menos estimados da igreja, porque isso é muito melhor!» (Neste caso, o verbo grego, «kathidzete», estaria no modo imperativo). «Apelando eles para entidades fora de seu próprio grupo, pedindojustiça, não estariam confessando que a despeito de serem os juizes apontados para julgarem aos anjos, eram incapazes de arbitrar sobre questões de pouca monta?» (Robertson e Plummer, in loc.). Vários comentadores bíblicos fazem este versículo referir-se às diversas categorias de juizes, conforme'se via no sistema judaico, a saber: 1 . O grande sinédrio, composto por setenta e dois membros, em Jerusalém e que era o tribunal superior dos judeus. 2. O pequeno sinédrio, composto de vihte e cinco elementos, das cidades maiores dos judeus, e que ocupava o segundo lugar, após o tribunal superior. 3. Os três juizes autorizados, que havia em cada sinagoga. 4. O tribunal «autorizado», oficialmente nomeado para dar solução a disputas especiais. 5. O tribunal «não-autorizado», isto é, que não recebera qualquer autorização da parte do Sinédrio, mas que servia 'de árbitro em qualquer tipo de disputa, selecionado pelos indivíduos em litígio, independentemente de qualquer autoridade judicial centralizada. Alguns eruditos pensam que aqueles referidos como os que «não têm nenhuma aceitação na igreja», que aparecem neste versículo, pertenceriam a essa quinta e últim a categoria. Porém, a despeito do fato de que o cristianismo primitivo copiou as instituições judaicas em muitos particulares, e apesar de ser provável que, de alguma forma, neste caso também, não é provável que todo esse elaborado sistema judaico houvesse sido adotado. Por conseguinte, mui provavelmente não há qualquer alusão aqui a essas várias categorias de tribunais, mas as pessoas referidas pertencem à última dessas cinco categorias. 5 ττρος εντροττην ν μ ϊν Ácyco. ovtcos ουκ ενι εν υ μ ΐν ovδειs σοφθ5 os δννησεται διακρϊναι ανα μέσον το ν αδελφοί) α υτόν “ 5-6 c question, c question: TR Bov Nes BF2 NEB TT // c exclamation, c exclamation: Jer Seg // c question, c exclamation: Luth lj c minor, c question: WH RV ASV RSV Zür jj c question, c statement: AV 6:5: Paro vos envergonhar o digo. Seri que não há entre vós sequer um sábio, que possa julgar entre seus irmãos? Que Paulo falava para vergonha daqueles crentes de Corinto seria verdade, sem im portar se preferimos uma ou outra das possíveis interpretações sobre o versículo anterior. Se deixavam seus casos serem julgados pelos «de fora», ou pelos de nenhuma estima, ou pelos «injustos» (ver I Cor. 5:13; 6:1,4), isto é, por juizes de tribunais seculares, isso redundava em vergonha para eles, porquanto assim permitiam que a dignidade da igreja fosse diminuída, embora a igreja seja o futuro tribunal 5 (avrov;], Rj do mundo e dos próprios anjos. E se Paulo achou por bem sugerir, mediante uma linguagem sarcástica, que eles deveriam apelar para os membros menos qualificados e preparados de sua própria comunidade, os menos estimados elementos da igreja, para serem os seus juizes, então disse tal coisa a fim dè envergonhá-los, porquanto assim, embora fossem eles supostamente «sábios», na realidade acabavam de exibir a sua carnalidade e falta de autêntica sabedoria espiritual, devido a suas atitudes quanto a essas questões legais. A mensagem central do presente versículo é que aqueles crentes de Corinto tinham dado excessiva importância à sua suposta «sabedoria» (ver I
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    I CORÍNTIOS 81 Cor.1:18 e ss.), tendo causado dissensões na sua igreja local por causa disso, além do que ignoravam ou atribuíam mínima importância à palavra da cruz, substituindo-a por uma sabedoria terrena, expressa em imitação à retórica dos filósofos sofistas. No entanto, a despeito de toda essa sua sabedoria terrena, da qual tanto se ufanavam, não possuíam sabedoria genuína suficiente para fazerem da igreja um tribunal para julgar questões simples, que devem ser manuseadas exclusivamente entre crentes, por envolverem questões corriqueiras entre irmãos na fé. Portanto, Paulo falou para vergonha deles. O apóstolo havia mostrado como eles tinham degradado a igreja de Cristo e a estatura do crente, entregando a homens totalmente incrédulos uma função que cabia exclusivamente à igreja. «Falo com o intuito de vos envergonhar, de vos encher de pejo; isso é o que Paulo queria dizer». «.. .sábio...» Aqui é usada a palavra grega comum, «sophos». Os coríntios tinham muitos sofistas entre eles, mas nenhum verdadeiro possuidor de sabedoria, dotado de discernimento celestial suficiente, que o capacitasse a arbitrar sobre casos simples na igreja. «...julgar...» é palavra aqui usada no sentido de «arbitrar», «agir como árbitro». Está em vista alguém suficientemente sábio para ouvir ambos os lados dos diversos casos, possuidor de discernimento espiritual suficiente, a fim de ver com clareza que curso da justiça deve ser seguido. Certamente, uma igreja cheia de verdadeiros «sofistas» ou sábios, conforme eles se consideravam, contaria com ao menos «um» desses homens—sendo isso tudo quanto Paulo buscava aqui. Naturalmente, o tom de Paulo continua sendo sarcástico, porquanto em qualquer situação normal, na igreja, Paulo teria suposto a existência de inúmeros desses árbitros. Mas aqui ele procura, como que em vão, por ao menos um deles. Pelo menos as ações dos membros da igreja de Corinto levaram-no a tomar essa atitude. Paulo não tinha aqui em mente qualquer tribunal formal, como aqueles que são mencionados no versículo anterior, segundo os métodos judaicos. 6 αλλά αδελφό? μ € τά άδζλφ οΰ κρίνετα ι, καί το ΰ το έπί 6:6: Mas vai um irmão a juízo contra outro irmão, e isto perante incrédulos? Temos aqui uma repetição essencial do que o apóstolo diz no primeiro versículo. Era «irmão contra irmão», e isso perante os «incrédulos» ou «injustos» (ver o primeiro versículo), ou perante os «de fora» (ver I Cor. 5:12,13). O apóstolo reitera esse pensamento com propósitos de ênfase, pois a colocação daquelas palavras forma um paralelismo, irmão em contraste com «incrédulos», servindo isso de condenação clara contra o tipo de ação daqueles crentes de Corinto. A atitude de Paulo acerca dessa questão é tipicamente judaica. Os judeus encaravam tais ações com horror, algo inteiramente deslocado em relação à tradição mosaica, uma desgraça para a lei e para o próprio Moisés; porquanto todo o julgamento, entre o povo de Israel, havia sido especificamente provido na lei, e apelar alguém para um tribunal pagão eqüivalia a um voto de desconfiança contra Cristo, contra a sua igreja e contra o sistema da graça divina. Por essas razões é que essa questão era tão importante aos olhos de Paulo, porque ele usou de palavras tão contundentes. (Ver a introdução a este capítulo e as notas expositivas sobre seu primeiro versículo, acerca do pano de fundo dessa questão, na cultura judaica). Este versículo, porquanto reitera o primeiro, atua como uma espécie de clímax de toda a presente secção. Já era uma desgraça que os crentes entrassem em conflito por causa de «coisas mundanas», por interesses de natureza puramente material («biotika», no original grego, no terceiro versículo deste capítulo). Mas, já que tais desentendimentos eram inevitáveis, então constituía dupla desgraça o fato de que dois discípulos de Cristo buscassem encontrar solução ou arbítrio da parte de «incrédulos». Ainda que nada mais ocorresse, o testemunho cristão seria assim debilitado, porquanto os vários escândalos surgidos na congregação local tornar-se-iam do conhecimento público, e isso na presença daqueles que já ά π ισ τω ν ; 6 (άπιστων;] .) costumavam zombar de Cristo e de sua cruz, o que certamente acontecia na cidade de Corinto. O simples arbítrio, por parte de algum crente «sâbio» teria evitado esse apelo para a «lei secular» dos incrédulos, os «processos legais» perante juizes injustos. A censura severa de Paulo sefundamenta sobre três degradações surgidas na comunidade cristã de Corinto, a saber: 1. Era uma vergonha que tivessem surgido disputas sobre meras questões mundanas, entre os crentes. Porquanto seria de esperar que os crentes estivessem acima dessas questões. 2. Era uma vergonha que um crente processasse legalmente a outro. Isso era algo totalmente incoerente em face do espírito da fé e do amor cristãos, exemplificado pelo Senhor Jesus. (Ver Mat. 5:24 e ss.). Dificilmente se poderia dizer que tal atitude cumpre as palavras de Cristo, de que devemos concordar prontamente com o adversário. 3. Mas, a pior vergonha de todas é que tais disputas fossem levadas para fora dos limites da igreja. Dessa maneira o cristianismo ficava sujeito ao ridículo. «...incrédulos...» São aqueles que não confiam em Cristo e nem lhe são obedientes. Estão em foco os indivíduos rebeldes, de baixo nível moral, que não reconhecem qualquer autoridade espiritual no cristianismo, e nem respeitam a igreja de Cristo e a sua causa. Essa palavra também inclui certamente aqueles que se mostravam francamente críticos ou blasfemos, no que tange a Cristo e suas reivindicações. Não há que duvidar que Paulo também inclui aqui a idéia de que tais homens não eram regenerados e nem iluminados pelo Espírito Santo. Por causa de todos esses fatores tão adversos, tais homens dificilmente serviriam para atuar como árbitros nos casos que envolvessem cristãos. 7 rfòrj μεν ουν ] δλως ηττημα ύμΐν εστιν οτι κρίματα €χ€Τ€ μζθ' έαντών δια τ ί ούχί μάλλον αδίΚ£Ϊσ0€; διά τ ί ούχί μάλλον άπθσΤ€ρ€Ϊσ0€; 7 ήδτ)...ίαυτώ νΜ ίδ.3β;1Τ }ιδ.15; 1 Ρ β 3 .9 7 ουν] am p48X*D* 33 pc latt bo | κρίματα] κρίμα Mpc syP co 6:7: Na verdade jéé uma completa derrota para vóso terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes a fraude? Paulo condena aqui a noção inteira dos «processos legais», movidos por irmãos na fé contra outros, sendo esse o segundo ponto dentre os vários aspectos negativos mencionados por ele (no versículo anterior), entre os abusos condenados pelo apóstolo dos gentios. Ao invés disso, Paulo preferia que houvesse o simples «arbítrio» entre crentes, no seio da própria igreja cristã. Com base nisso ficamos sabendo que a principal preocupação de Paulo não é que fosse feita a «justiça», porquanto, na realidade, para ele isso era questão bem secundária. Antes, aqueles que tanto apreciavam o litígio, não hesitando em participar pessoalmente das contendas, dentro ou fora da igreja cristã, permitindo que tais questões fossem julgadas por incrédulos, não haviam ainda aprendido um dos primeiros princípios da moralidade cristã. Não haviam ainda aprendido a fazer o que Jesus recomendara, no tocante a voltar também a outra face (ver Mat. 5:39; ver também I Ped. 2:23 e as notas expositivas a respeito). Também desconheciam inteiramente o princípio que nos ensina a retomar o mal com o bem (ver Rom. 12:17-21). Antes, retornavam o mal com o mal, permitindo que o bem fosse vencido pelo mal. Vingavam-se, cuidando por que o mal por eles recebido fosse devidamente retribuído com a mesma dose de mal, se é que não injuriavam muito mais do que haviam sido injuriados. (Ver Rom. 12:19). Ê que pouco ou nada conheciam sobre a mansidão e gentileza de Cristo. Ao invés de serem bons, passiva ou ativamente, mostravam-se ativamente maus, prejudiciais aos próprios irmãos na fé. «...derrota...» é uma tradução possível. Outras traduções preferem «falta» ou «defeito». O que Paulo quis dizer é que eles haviam sido derrotados na luta espiritual. Poderiam ter obtido uma «vitória» nos casos difíceis que surgissem, deixando todos os casos de divergência serem resolvidos por árbitros cristãos. Ao invés disso, porém, voluntariamente permitiam que o mal levasse a vitória; e assim a igreja de Corinto sofria opróbrio, ao mesmo tempo que abriam oportunidade para o nome de Cristo ser vilipendiado. Essa era uma «derrota» bem definida para a igreja de Corinto, em sua luta em favor do bem e contra o mal que há neste mundo. «...demandas...» ou «processos legais», ainda que, no original grego, a palavra por detrás dessa tradução possa ter o sentido mais geral de «decretos» ou «julgamentos», embora sem qualquer sentido judicial. «...para vós outros...» A comunidade cristã inteira de Corinto sofrerá perda naquela questão, sem im portar quem recebera o julgamento favorável. O crente em favor de quem houvera parecer favorável, em tribunal pagão, talvez imaginasse ter conquistado uma vitória; mas na realidade, tanto ele mesmo como a congregação inteira recebera um rude golpe,tendo perdido muito mais do que a vantagem de ter recebido veredicto favorável, em torno de alguma questão material e mundana. Pois quando a solidariedade e a irmandade da igreja cristã são perturbadas, então a comunidade cristã inteira é prejudicada. «...Por que não sofreis antes a injustiça?...» Em sua camalidade, um crente pode mostrar-se insistente em exigir que se abra processo legal acerca de uma questão qualquer. E aquele que reconhece a estupidez de tal questão, que deveria fazer em face disso? Deveria permitir a injustiça sofrida. Deveria perder a propriedade em disputa, a porção da herança que lhe cabia, o pagamento que lhe era devido, em face de algum serviço por ele prestado. Porquanto é melhor que um crente sofra tal perda pessoal do que, através da «defesa de seus justos direitos», prejudicar a irmandade inteira. Que o crente assim involuntariamente envolvido receba a injustiça e deixe que o Senhor cuide da questão. «...por quertão sofreis antes o dano?...» A palavra «...dano...» se origina de um termo grego que significa «defraudar». É um verbo que significa «ser roubado», «ser privado de algo», sofrer alguma perda pessoal. E, no presente contexto, quase certamente indica alguma perda financeira. Já o vocábulo «injustiça» é um vocábulo muito geral, que literalmente significa algo «não correto», ou seja qualquer forma de mal, injustiça, erro ou injúria. «Paulo reproduz aqui o ensinamento de Jesus, que aparece em Luc. 6:27 e ss... e que se aplica mais estritamente às relações mais íntimas da vida. Com isso se pode comparar o próprio exemplo deixado por Cristo (ver I Ped. 2:23), bem como com o exemplo deixado pelos apóstolos (ver I Cor. 4:12-16)». (Findlay, in loc.). Com essa atitude em geral podem ser confrontadas várias citações extraídas do filósofo romano estóico, Marco Aurélio, em suas Meditações. Disse ele: «Mas eu, que tenho visto a natureza do bem, que é bela, bem como a natureza do mal, que é vil, e também a natureza daquele que pratica o erro, e que é pessoa aparentada comigo, não tanto por comunidade de sangue e de descendência, mas por comunidade de inteligência e de dote divino, sim, não posso ser prejudicado por qualquer dessas coisas, porquanto ninguém pode impingir-me o que é vü; como
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    82 I CORÍNTIOS tambémnãoposso irar-me contra alguém que é meu parente, sentindo ódio contra ele». (2:1), Declara ainda o mesmo filósofo: «Em todas as oportunidades, um homem deveria ser capaz de dizer: Isso vem de Deus. Isso vem de alguém que pertence à mesma tribo, família e sociedade, embora se trate de alguém que não sabe o que é mais próprio para a sua natureza. Porém, eu sei. Portanto, 8 αλλά ν μ εϊς ά δ ικ εΐτε καί ά ιτο σ τερ εΐτε, καί το ΰ το άδελφονς. deverei tratá-lo de acordo com a lei natural da comunhão com a bondade e com a justiça». (3:1). «Com o que estais tão desagradados? com a maldade dos homens? Considerai a decisão, que os seres racionais existem uns para os outros, e que mostrar-se alguém paciente faz parte da justiça, e que os homens praticam o erro contrariamente à sua própria vontade». (4:3). 6:8: Mas vis mesmos é que fazeis injustiça e defmudais; e isto a irmãos. As palavras «...injustiça...» e «...dano...» foram comentadas no versículo anterior. Esse versículo mostra-nos que dos crentes se espera que sofram voluntariamente essas injustiças e danos a fim de preservarem a dignidade de Cristo e a unidade da igreja cristã, bem cómo o vínculo da paz entre os irmãos. Ao invés de agirem desse modo, ao invés de seguirem o ensino da «aceitação passiva da injustiça sofrida», que o Senhor Jesus postulou, aqueles crentes de Corinto infligiam ativamente injustiças e injúrias uns contra os outros. Paulo mostra aqui, por conseguinte, que ele sabia de episódios onde não estavam envolvidas meras questões de disputas; não era apenas contra isso que ele levantava objeção, embora isso também estivesse incluído. Mas Paulo também atacou as injustiças e injúrias que alguns praticavam contra seus próprios irmãos na fé. Assim é que, por exemplo, um crente «furtava» outro de sua legítima propriedade, de seu dinheiro, de sua herança, de seu salário, etc., praticando ainda várias outras «injustiças», tanto fora dos tribunais como em resultado das decisões tomadas nos tribunais seculares, que não eram baixadas de conformidade com a justiça estrita. Alguns crentes carnais estavam infligindo propositadamente a injustiça, através de processos legais, em Corinto. Ora, tudo isso mostrava a profundidade da carnalidade daqueles crentes de Corinto, bem como sua falta de qualquer verdadeira sabedoria espiritual e discernimento. Porém, até mesmo nós podemos ser culpados de tais injustiças, posto que através de meios mais sutis, isto é, não através de processos legais, mas por meio de formas menos ostensivas de injustiças praticadas contra o próximo. Quão raramente, em alguns conflitos que há entre os crentes, consideram estes em fazer justiça realmente, quando estão ativamente envolvidos na prática do dano contra outrem, mesmo que apenas verbalmente. No entanto, as injúrias de natureza verbal com freqüência redundam em formas mais «concretas» de injustiças e danos contra os nossos próprios irmãos na fé. «...aos próprios irmãos...» Prejudicar a qualquer pessoa certamente é uma maldade, e Paulo já havia defendido essa tese. Mas prejudicar um membro do próprio corpo de Cristo, proposital e ativamente, é uma forma aviltada de carnalidade. Com isso se pode comparar os ensinamentos proferidos no Sermão do Monte, em Mat. 5:39-41, que versam sobre esse aspecto de nosso dever para com o próximo. «‘Por que não sofrer antes a injustiça? Por que não sofrer antes o dano?’ Nessas palavras apreendemos algo da face de Cristo. No que diz respeito às injúrias pessoais, como também quanto a outras questões, o espírito e o ensinamento de Jesus Cristo servem de tribunal final de referência e apelo. É melhor perder o caso do que abafar o resplendor da causa». (John Short, in loc.). As incomparáveis palavras de Paulo sobre o «amor» (no décimo terceiro capítulo desta epístola), se fossem seguidas, dariam solução para todas as disputas dessa natureza no seio da igreja cristã. O amor é a estrada mais rápida de volta a Deus; porque o amor é fruto do Espírito no íntimo, a manifestação de Deus no homem interior, quando um homem vai sendo transformado segundo a imagem de Jesus. O parentesco espiritual exalta o dever e a propriedade do amor, bem como o dever da submissão de uns para com os outros; e, ao mesmo tempo, agrava os erros cometidos, quando um irmão prejudica a outro. III. Imoralidade, Ética Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1-7:40). 3. O Padrão do Reino (6:9-11). Esta Éreve secção mostra-nos quais são os padrões de moralidade geral esperados dapartedos crentes autênticos, o quetambém lhes permite mostrarem que possuem a verdadeira salvação, a vida eterna. Paulo deixa subentendido que alguns dos crentes de Corinto, por meio de suas ações, dificilmente haviam provado ser autênticos seguidores de Cristo. Deve haver diferença entre os súditos do «reino de Deus» e os súditos dos reinos deste mundo. Paulo mostra também, aqui, de que devem consistir essas diferenças.Os versículos desta secção expõem a conclusão do que Paulo diz nos versículos primeiro a oitavo deste sexto capítulo, fazendo apelo aos princípio éticos cristãos em geral, ao mesmo tempo que introduzem a censura de Paulo, constante dos versículos décimo segundo a vigésimo, contra a moral frouxa e contra os costumes sexuais condenáveis, conforme havia em Corinto, incluindo até mesmo membros da igreja cristã daquela cidade. 9 η ούκ ο ’ ίδα τε δ τι aδικοί θεον β α σιλεία ν ον κληρονομησονσιν ; μ η πλανάσθε- ο ϋτε πόρνοι οντε είδω λολάτραι ο ντε μο ιχο ί ο ντε μα λα κ ο ί οϋτε ά ρσενοκοΐτα ι 9-ιο Ga 5.19- 21; E®h 5.5 ; Re 22.15 6:9: Não sabeis que os injustos não herdarão 0 reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idilatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, «...reino de Deus...»Neste ponto Paulo usa essa expressão à maneira joanina, como expressão eqüivalente a «vida eterna». (Ver João 3:3). Está em foco a era escatológica que se seguirá à ressurreição. Talvez também haja aqui alusão ao reino milenar de Cristo, ou então à vida eterna que é necessária para que alguém seja herdeiro do reino de Deus, bem como da dispensação eterna que se seguirá. O décimo primeiro versículo deste mesmo capítulo, ao falar sobre a «justificação», certamente parece dar a entender que Paulo queria expressar mais do que estar o crente fisicamente presente em alguma nova ordem de coisas, que se possa chamar de reino do Messias ou era messiânica. Pelo contrário, ele se refere à participação na vida divina necessária (vida por meio da salvação), que permite ao indivíduo entrar no reino de Cristo, quando inaugurar-se a era vindoura eterna. A expressão «reino de Deus» (que em alguns trechos aparece como «reino dos céus») é um termo extremamente complexo, usado de diversas maneiras, por diferentes autores sagrados, ou mesmo por um único desses autores. (Ver a nota expositiva geral de sumário, sobre o assunto, em Mat. 3:2. Quanto a outros sentidos que Paulo dava a essa expressão, ver os trechos de I Cor. 4:20 e Rom. 14:17). «...herdarão...», porque em Cristo os crentes participarão de tudo quanto ele é e tem. (Ver Rom. 8:17. Uma nota geral é dada nessa referência sobre a idéia bíblica de «herança»). Ora, a «herança» implica em «adoção» (ver Rom. 8:15 acerca disso) e em «filiação» (ver Rom. 8:14,16). Existem indivíduos que são autênticos «filhos de Deus», que estão sendo transformados segundo a imagem de Cristo, «o Filho de Deus». Esses haverão de finalmente compartilhar de suas características morais; porque, do contrário, não são legítimos filhos de Deus. Ê exatamente isso que Paulo salientava nos versículos nono a décimo primeiro deste capítulo. E também podemos considerar isso como aquelas características que devem ser possuídas pelos súditos do reino eterno, em contraste com os súditos mortais deste inferior nível terreno. Os respectivos cidadãos desses dois reinos devem ser diferentes entre si. Por meio de seus frutos é que poderemos reconhecê-los. (Ver Mat. 7:20). Os verdadeiros frutos espirituais jamais poderão ser imitados para sempre, já que são resultantes da. operação do Espírito Santo no íntimo dos remidos. (Ver Gál. 5:22,23).' Somente dessa maneira é que os homens podem vir a ser aquilo que o Senhor Jesus é, em qualquer proporção significativa. Trata-se, portanto, de uma obra divina, e não do resultado do esforço humano. Vários moralistas antigos prepararam listas de vícios que os virtuosos precisam evitar. Aqui o apóstolo Paulo novamente apresenta uma lista de certos vícios, seguindo esse costume dos ensinos morais da filosofia helênica, costume esse incorporado no judaísmo posterior, embora não se possa vê-lo nem nas páginas do A.T. e nem nas interpretações talmúdicas dos judeus. (Ver as notas expositivas a esse respeito, em I Cor. 5:13). «...Não vos enganeis...» Os crentes podem ser enganados. O verbo, no original grego, se encontra no passivo: «Não vos deixeis enganar...» Isso subentende algum erro fundamental, na maneira de pensar ou de agir. Na voz ativa, esse mesmo verbo grego significa «fazer desviar-se», «enganar». Mas, na voz passiva significa «estar em erro», «ser enganado». Esse ludibrio pode ser provocado pelo próprio indivíduo ou pode ser induzido por outrem. E pode envolver doutrina ou ação. Havia muitas maneiras pelas quais podemos compreender como os crentes de Corinto estavam enganados: 1. Poderiam ir incorporando em suas crenças e ações as corrupções da sociedade pagã, acostumando-se gradualmente a tais coisas, não mais se lembrando do que os elevados padrões cristãos exigem, sem qualquer transigência, porque sem a presença desses padrões e seu cumprimento nas vidas dos homens, ninguém poderá jamais contemplar a Deus. A conversão subentende que o indivíduo está seguindo o «elevado padrão» do cristianismo, porque, em caso contrário, nem terá havido conversão. Porque também se poderia indagar, caso não se veja modificação alguma na vida do indivíduo envolvido: «Do que e para o que houve conversão?» 2. É possível que certos membros da igreja de Corinto tivessem aplicado erroneamente e houvessem abusado do ensino paulino sobre a graça divina, imaginando os tais que o sistema da graça nada mais envolve senão alguma ação de aceitação de Cristo, mas nenhuma substância da mesma na própria alma. Bem pelo contrário, entretanto, o sistema da graça divina garante a conversão, a santificação e a transformação do crente segundo a imagem de Cristo, mediante a influência mística do Espirito Santo. Onde esse aspecto estiver faltando, nenhuma operação graciosa de Deus pode ser subentendida. 3. Mas também é possível que aqueles crentes se tivessem deixado iludir através da influência de determinadas doutrinas gnósticas, as quais
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    I CORÍNTIOS 83 asseveravamque o corpo é a sede mesma do princípio do mal, e que nada pode ser feito a esse respeito. (Ver notas completas sobre o Gnosticismo em Col. 2:18). De conformidade com essas doutrinas gnósticas, o indivíduo só se veria livre da presença do mal quando a alma fosse libertada, através da morte física. E então, com base nessa noção, cria-se que não tem muita importância o que o indivíduo faz com o seu próprio corpo, podendo a pessoa entregar-se de corpo a qualquer ato imoral. 4. Alguns judeus pensavam que a crença na existência do «Deus único» era suficiente, mesmo sem o acompanhamento de uma vida santa. Em qualquer desses sentidos, pois, os crentes de Corinto poderiam estar equivocados e poderiam estar enganando a outros; e o resultado disso é que viviam muito aquém dos verdadeiros padrões do cristianismo, praticando exatamente aqueles pecados que não podem ser praticados por qualquer dos filhos legítimos do reino de Deus, sendo sempre características próprias daqueles que são «de fora», que são «injustos», que são «incrédulos». «...não sabeis...» (Essa expressão pode ser comparada com o que se lê em I Cor. 6:2,3). Ê como se Paulo estivesse perguntando: «Sois tão sábios (ver I Cor. 1:18 e ss.), e, no entanto, não tendes nem ao menos essa noção básica sobre o que o sistema da graça divina exige de vós? Não compreendeis a seriedade do que estais praticando, e nem entendeis quais sejam os padrões de vida que vos devem nortear na conduta diária? Pensais que podeis viver como vindes fazendo, e mesmo assim serdes verdadeiros crentes em Cristo? Não vos deixeis enganar». «nem impuros...» Esse adjetivo dá início a uma lista de dez formas de ofensas morais. Dentre essas cinco formas alistadas neste nono versículo, quatro dizem respeito a alguma forma de conduta sexual distorcida. E dentre as cinco outras formas que aparecem no versículo seguinte, três falam acerca das propriedades ou direitos pessoais, como aqueles sobre os quais Paulo acabara de discorrer, nos versículos primeiro a oitavo deste capítulo, porquanto podemos admitir que os «processos legais» ali condenados, também estão em foco entre os defeitos que devem ser evitados pelos crentes. Todos esses vícios devem ser aceitos como esclarecimentos da palavra geral, «adikoi» (os «injustos», que aparece na primeira porção deste nono versículo), aplicada àqueles que não podem herdar o reino de Deus, os quais ocupam a posição oposta dos «justos», dos «crentes», dos «santos verdadeiros» de Deus, dos «regenerados» em Cristo Jesus, conforme tantos crentes de Corinto imaginavam ser. Essa palavra grega, «adikoi», pode ser compreendida como termo sugerido pelo vocábulo «adikeite», «praticar a injustiça», que aparece no versículo anterior, vocábulo esse que indica aqueles que praticam males diversos. Essa palavra tem um sentido geral, e se aplica a todas as formas do mal, que caracterizam os homens não-regenerados. «...impuros...» Essa palavra é amplamente comentada nas notas expositivas sobre I Cor. 5:1. Trata-se de um termo geral que expressa todas as modalidades de pecados sexuais. Nesse citado versículo, essa palavra aparece na forma substantivada, indicando todas as formas de «imoralidade», conforme também essa palavra é traduzida em diversas versões. Esse vocábulo inclui, portanto, as várias subcategorias que aparecem em seguida. «...nem idólatras...» (Quanto a essa palavra, ver as notas expositivas acerca de I Cor. 5:10). Literalmente traduzida, teríamos «aqueles que adoram imagens». Essa é uma ofensa contra os direitos de Deus, o mais elevado dos direitos. Seu sentido primário, como já dissemos, é a adoração a ídolos, mas, em I Cor. 5:10, visto ser aplicada a lapsos possíveis entre os crentes, também deve significar a adoração a qualquer coisa, a qualquer 10 οϋτε κλεπται οϋτε π λεονεκτα ι, ού μέθυσοι, ουλοιδοροι, ουχ αρπαγές βασιλείαν θεοΰ indivíduo, a qualquer item que tenda por substituir a Deus no coração do homem, sem im portar se se trata de um crente ou de um incrédulo. A «sabedoria humana», o prestígio, a fama, o próprio bem-estar, se forem exageradamente considerados, são exemplos dessa forma de idolatria. A idolatria ignora os direitos de Deus, que é o ente que merece a honra suprema; e assim o idólatra passa a honrar a objetos de segunda categoria, furtando de Deus o respeito que lhe é devido. Ora, aquele que rouba a Deus desse devido respeito, facilmente se volta para outras coisas, que passam a ocupar a sua atenção, não demorando muito para que a sua vida passe a ser «governada» por princípios vis e inferiores, ao invés de sê-lo pela «divina idéia». E dificilmente um indivíduo pode encontrar-se no caminho de «retorno a Deus» (que é o alvo mesmo de toda a existência humana), se essa atitude ocorre em sua vida como algo habitual e constante. «...adúlteros...» Pecado específico praticado por pessoas casadas, ou, pelo menos, por uma pessoa casada e outra solteira, em ato sexual ilícito. Tal palavra é empregada para indicar também a infidelidade espiritual para Deus, como no caso da idolatria, que é um adultério espiritual. Mas, conforme o contexto nos mostra, Paulo se reportava aqui primariamente a um pecado físico. «...nem efeminados...» No original grego, a palavra indica, basicamente «algo fofo» e, como um adjetivo, tal vocábulo pode referir-se a vestes ou outros objetos suaves ao tato. Também pode significar «débil», «enfermiço», «desencorajado», em sua forma adjetivada. Como substantivo, porém, significa «suave», «efeminado», tendo sido largamente aplicado à homossexualidade por vários autores antigos, indicando homens que aceitam os afagos de outros homens, como se fossem mulheres. Há estudiosos que pensam que aqui está em foco a masturbação; mas essa idéia não parece estar em vista aqui. Assim é que a tradução siríaca compreende a questão. Essa palavra também pode significar simplesmente «suave» ou «efeminado» quanto às maneiras. Mas a condenação de Paulo parece ter sido mais profunda do que isso subentenderia. «...sodomitas...» Esse vocábulo veio a ser usado para indicar a homossexualidade, em vista do fato que tal pecado era prevalente em Sodoma, quando Ló ali habitava, segundo a narrativa do antigo pacto. No grego, essa palavra, literalmente traduzida, indica «ato sexual de homem com homem». A sodomia, portanto, é apenas um eufemismo, sendo largamente empregada pelos tradutores, a fim de suavizar o impacto da expressão. Não sabemos precisar se Paulo quis estabelecer contraste entre essa palavra e o vocábulo anterior, que também indica a homossexualidade. Talvez a primeira dessas palavras indique os homens que fazem um papel feminino, ao passo que esta última indique os pederastas positivos. Paulo condenou severamente a uns e a outros, em Rom. 1:26,27, onde essa prática, tanto de mulheres com mulheres como de homens com homens, é condenada. Ambos os vocábulos, utilizados neste versículo, indicam homens, de tal modo que a homossexualidade feminina não é aqui diretamente aludida e condenada, conforme se vê em Rom. 1:26,27. Sendo homem, Paulo via a homossexualidade masculina com maior horror do que a homossexualidade feminina. Não obstante, condenou ambas essas aberrações. Essa prática era tão comum entre os gregos antigos que veio a ser intitulada pelo nome de «pecado grego». Devido a ser pecado extremamente comum, não era grandemente ofensivo para as sensibilidades gregas, diferentemente do que sucedia entre os hebreus; antes, era questão perfeitamente indiferente. «A prevalência de tão escandalosos crimes, no mundo do paganismo, é constantemente aludidanas epístolas de Paulo às igrejas gentílicas. Ver Rom. 13:13; Gál. 5:19,20; I Tim. 1:9,10 e Tito 1:12». (Shore, in loc.). cληρονομήσουσιν. 6:10: nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbedos, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. A palavra «...ladrões...» se explica por si mesma, indicando aquele que furta, que se apossa daquilo que não lhe pertence. Ê palavra usada figuradamente para indicar o segundo advento de Cristo, o que ocorrerá como a vinda repentina e inesperada de um ladrão, à noite, em meio às trevas e em segredo, à procura de suas vítimas. De acordo com essa figura simbólica é frisado o aspecto do acontecimento «inesperado». Também é palavra usada em sentido figurado para indicar os falsos pastores, conforme se vê em João 10:8, porque se apossam do que pertence às ovelhas e nada dão em troca. «..jiem avarentos...» Essa palavra já foi comentada no trecho de I Cor. 5:11, descrevendo o caráter de certos «irmãos» de quem nos convém separar, ao ponto de nem ao menos comermos em companhia deles. Neste ponto aprendemos que aqueles que são habitualm ente cobiçosos, enfatizando os valores terrenos de forma exagerada, mas esquecidiços dos verdadeiros valores espirituais, na realidade nem são autênticos crentes regenerados. «...nem bêbados...» Esse vício também é comentado nas notas expositivas sobre 1 Cor. 5:11, onde o leitor deveria consultar a exposição. Com os bêbados, igualmente, não devemos tomar nem refeições, porquanto, de conformidade com o presente versículo, tais pessoas nem podem ser crentes, visto que não herdarão o reino de Deus. Paulo ainda adverte: «Não vos deixeis enganar acerca dessa questão». Orígenes (in loc.), comenta como segue: «Que ninguém vos iluda com palavras persuasivas, afirmando que Deus é um ser misericordioso, bondoso e amoroso, pronto para perdoar o pecado». Naturalmente, Deus é misericordioso, bondoso e amoroso; mas ninguém verá jamais a Deus enquanto não for genuinamente perfeito, transformado segundo a imagem de Cristo, participante de sua natureza divina. Eis a razão pela qual o processo de transformação dos crentes, processado por Deus, envolve tão prolongado tempo, visto que cada passo nesse caminho requer a cooperação da vontade humana, e cada passo precisa ser dado ao preço de verdadeira agonia da alma. Não obstante, o amor de Deus assegura a conclusão desse processo no caso de todo o verdadeiro crente. Se alguém é verdadeiramente convertido, embora ainda esteja longe da perfeição, quando da morte física será libertado deste nível terreno e será exaltado aos lugares celestiais. (Ver Efé. 2:6). Mas, quão prontamente o crente atingirá a perfeição, incluindo a participação em todas as virtudes morais positivas de Deus, como o seu amor, a sua bondade, a sua justiça, a sua mansidão, etc.—tudo o que é fruto do Espírito, no dizer de Gál. 5:22,23—depende do grau em que tal crente submete a sua vontade ao Senhor. O simples estar livre de pecados graves ainda não é estar perfeito em Deus. É mister possuir também essas virtudes positivas de Cristo. Ora, a perfeição em Deus é o alvo mesmo da vida cristã, conforme nos ensinou o Senhor Jesus, em Mat. 5:48. «...nem maldizentes...» Essa palavra, por semelhante modo, é comentada no trecho de I Cor. 5:11, onde o leitor deveria examinar a exposição. Com esses tais também não temos licença nem ao menos de comer; pois aqueles que são habitualmente abusivos em sua linguagem, como parte integrante de seu caráter, da expressão de sua personalidade, na realidade não são crentes. O Espírito Santo, em seu trabalho de transformação dos remidos segundo a imagem de Cristo, não permitirá que qualquer dos regenerados permaneça em tal estado. Se alguém está sendo verdadeiramente santificado e transformado, todas essas qualidades negativas serão retiradas de seu caráter, ao passo que as virtudes positivas de Cristo as substituirão. Compete-nos abençoar quando somos amaldiçoados (ver os trechos de Rom. 12:14 e I Cor. 4:12). Essa atitude será uma realidade, nas vidas daqueles que realmente têm experiência com o Espírito do Senhor. «...nem roubadores...» Essa palavra, por semelhante modo, é comentada em I Cor. 5:11; e aquilo que foi dito sobre os vocábulos anteriores, tanto em
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    84 I CORÍNTIOS ICor. 5:11 como em I Cor. 6:10, nas listas dos vícios que os crentes precisam evitar, se aplica também a esta palavra. As duas palavras usadas para indicar o furto, isto é, «ladrões» e «roubadores», podem ser meros sinônimos. A presente palavra, entretanto, talvez indique violência, porquanto também é empregada para indicar os «lobos vorazes». Um espírito violento e desvairado é aqui subentendido. Há ocasiões em que essa palavra, no original grego, também era usada para indicar os «trapaceiros», aqueles que se mostram desonestos nos negócios que fazem, os quais, desse modo, roubam a seus semelhantes. Todavia, o sentido desta palavra não se limita a essa forma de desonestidade. «...não herdarão o reino de Deus...» Temos aqui a repetição da mesma frase que dá início a esta lista de vícios, para efeito de ênfase. Comenta John Short, in loc., a respeito disso: «É requerido algo mais do que a moralidade reconhecida pela sociedade contemporânea, até mesmo quando se mostra mais excelente; é exigido muito mais do que a conduta que dificilmente se podia distinguir da moralidade pagã. (Ver Mat. 5:20). É óbvio que o apóstolo Paulo estava perturbado com a influência que a comunidade pagã, extremamente imoral, exercia sobre as vidas dos membros da igreja (de Corinto). Novamente deixa ele perfeitamente claro, em sua lista, quais são os vícios particulares que excluem os seus perpetradores da participação no reino de Deus. Há uma alusão especial ao vício desnatural da homossexualidade, o que, embora ocasionalmente castigado até mesmo nas sociedades pagãs, de forma geral era um pecado tolerado, mas contra o que o cristianismo se insurgiu decididamente desde o princípio. Mediante sua conversão e batismo, os crentes de Corinto tinham dado testemunho de sua purificação espiritual interna, mediante a graça de Cristo, que os havia libertado de toda a contaminação da imoralidade. Ora, tendo sido purificados por tal preço, agora não pertenciam mais a si mesmos, mas antes, eram povo de Cristo. Uma conduta assim repreensível era algo totalmente incoerente tanto com a experiência deles como com a sua profissão de fé. Agindo desse modo punham em risco a sua ‘posição’ perante os olhos de Deus, e ameaçavam suas ‘possibilidades’. Pois como poderia o Santo Espírito de Deus governar em tais corações?». N a lo ja d o d ia b o , to d a s a s c o is a s s ã o v e n d id a s ; C a d a g r a m a d e e s c ó r ia c u s ta u m g r a m a d e o u ro ; P o r u m a c a p a e c o m p a in h a s p a g a m o s c o m a v id a ; C o m p r a m o s b o lh a s, c o m a ta r e fa in te ir a d a a lm a ; S o m e n te o c é u é q u e è d e s p r e z a d o p o r n ó s, S o m e n te d e D e u s p o d e m o s re c e b e r o q u e p e d im o s . (James Russell Lowell) «Encontramos aqui uma solene lista de chamada dos condenados, ainda que alguns daqueles nomfcs estivessem no rol de membros da igreja de Corinto, como oficiais ou como membros ordinários». (Robertson, in lo c .) . Tudo isso serve para mostrar-nos a severidade dos princípios morais do cristianismo. Podemos observar aqui quão severa é a mensagem cristã. Cristo é quem deve estabelecer a grande diferença em uma vida; a alma precisa ter sido convertida; a vida do indivíduo precisa estar em processo de transformação; Cristo deve estar sendo formado no homem interior do crente; e o crente precisa ter sido purificado e estar sendo santificado. Em caso contrário, ensina Paulo enfaticamente, tal indivíduo nem ao menos é um crente, e não herdará o reino de Deus. A graça divina existe, mas somente quando estabelece diferença radical em uma vida. Em todos os casos onde não se verifica essa diferença radical, é que não está presente a graça de Deus. 11 καί ταΰτά T ives ήτε· ά λ λ α άττελουσασθε, άλλα ήγιάσθητε, α λ λ ά εδικαιώθητβ iv τω ονόματι τοΰ κυρίου Ίησοΰ Χρίστου1 καί iv τω πνεύματά τοΰ θεοΰ ημών. 111 JC} Ί η σ ο ν Χ ρ ίσ το υ pnvid·^ κ D* (1 6 0 3 1 )1 Χ ρ ίσ το υ Ί η σ ο ν ) itd·* Irenaeus,at Tertullian Didym us // Ί η σ ο ν A D c Ψ 88 614 1241 1984 2495 B y z L e d lm pt syrh John-D am ascus // ημώ ν Ί η σ ο ν cop9a // ημώ ν Ί η σ ο ν Χ ρ ίσ το υ Β O á Ρ 33 81 104 181 326 330 436 451 629 630 1739 1877 1881 1962 2127 11 T t 3.3-7 j£ar,dem.f.m,ri,x,z Vg Syrp.h with * COpt>o arm i renaeuslat Origenlat Cyprian A dam antius A thanasiuserlel D idym usgri:lat) Epiphanius Chrysostom Euthalius Theodoret Ps-A thanasius // omit 2492 A forma com ημών (B C (vid) P 33 1739 it (r,61) vg sir (p,h com*) cop (sa,bo) ara etá al) parece ter surgido de assimilação escribal ao ημών seguinte. Embora o Textus Receptus, seguindo A D (c) Ψ 88 614 Byz Lect sir (h), tenha a forma mais breve (Ίησον), a maioria da comissão interpretou a ausência de Χρίστου como resultante de acidente na cópia, e preferiu ler Ίησον Χρίστου juntamente com p11"''·4 6 —D* P it (d) Irineu (lat) Tertuliano, bem como os testemunhos (exceto cop (sa)) que são citados acima em favor de ημών. (A omissão acidental de χ γ é menos provável que a expansão de um Ίησον original, por copistas piedosos (cf. 5:4). B.M.M). 6:11: Etoil fottet algunt de vót; mat fottet lavadot, mat fottet tairtificadot, mat fottet juttificadoi em nome do Senhor Jetut Crijto e no ItpIHto do notto Deut. O Grande Dilema: 1. Muitos dos corintianos não mostraram sinais de transformação moral, embora fossem ansiosos para assumir funções de autoridade na igreja. 2. Eles tinham um orgulho exagerado no exercício dos dons espirituais, mas este exercício nada-fez para o avanço da espiritualidade deles, portanto, este exercício foi fraude ou até demoníaco. 3. Eles foram os pais espirituais da igreja da crença-fácil. 4. Paulo não se satisfez com uma pequena diferença que Cristo podia ter feito neles. Paulo ensinou que a renúncia é a necessidade do discipulado. Não se tem salvação sem a cruz no coração. 5. A fé cristã é uma força e realidade espiritual. Confissões verbais de Cristo, embora sinceras, não valem a respiração de ar que levamos para fazê-las, se a alma não é transformada à imagem de Cristo, pelo poder do Espírito. (II Cor. 3:18). 6. O grande dilema é aquela crise espiritual que o crente confronta quando ele não tem nada na vida dele para provar a validade da sua' conversão. Ver notas completas sobre santificação em I Tes. 4:3; sobre fé em Heb. 11:1. «...taisfostes alguns de vós...» Em outras palavras, tinham sido injustos, impuros, idólatras, homossexuais, adúlteros, ladrões, beberrões e maldizentes. Mas como poderiam eles explicar o fato de que alguns deles tinham permanecido como tais, mesmo depois que supostamente se tinham convertido ao evangelho? No entanto, idealmente falando, eles haviam sido... «....lavados...» E embora Paulo se refira aqui ao batismo, não atribuía a esse rito o poder de purificar. Tal tipo de «sacramentalismo» é estranho para a teologia paulina. O que ele queria dizer é que tinha havido uma purificação real, ocorrida quando da conversão e da regeneração, o que, por sua vez, fora simbolizado pelo rito do batismo em água. A imersão em água purifica o corpo, e a imersão na influência benéfica do Espírito de Deus purifica a alma. (Com isso se pode comparar a declaração de João 3:5, onde a mesma figura simbólica é usada, e com o mesmo intuito. Esse conceito é longamente comentado nessa referência. Comparar também com o trecho de Rom. 6:3, quanto ao «batismo espiritual», e quanto ao «significado do batismo». Quanto à imersão como modo preferencial de batismo, ver Atos 2:41 e 8:36-39. Quanto a notas expositivas sobre a falsa doutrina da «regeneração batismal», ver Atos 2:38). A purificação consiste na libertação da alma de seus pecados poluidores. (Quanto ao «perdão dos pecados», ver Atos 2:38 e Rom. 3:25 e 4:7. Quanto ao perdão dos pecados como o «apagar das iniqüidades, ver Atos 3:19). «...santificados...» A santificação consiste dos aspectos iniciais, progressivo e finais. É inicial no sentido que, quando da conversão, quando da regeneração inicial, tem lugar a purificação que limpa a alma das antigas práticas da natureza carnal e terrena. Então cada dia é uma oportunidade ideal para o crente continuar sendo mais intimamente transformado segundo a imagem moral de Cristo, e isso tanto no sentido de ficar livre dos pecados mais evidentes como também no sentido de assumir as virtudes morais positivas de Cristo, como a sua bondade, a sua benignidade, a sua justiça, etc. Finalmente, quando ocorrer a glorificação, terá lugar a santificação final, quando então se completará esse processo. Então é que o crente sairá completamente do terreno do pecado, e entrará no reino da luz e da santidade, penetrando nos lugares celestiais que lhe estão sendo preparados. Ali chegando, o crente experimentará ainda uma mais rápida transformação segundo a imagem moral de Cristo, porque então o crente estará liberto da carga do corpo, o qual sempre estará vinculado à satisfação de impulsos inferiores, que não são uma característica da espiritualidade. As Escrituras ensinam que Cristo é a nossa santificação, porque através dele é que a santificação se concretiza, de acordo com os padrões morais que ele estabeleceu para os homens em sua própria pessoa e experiência terrena. (Ver I Cor. 1:30. Quanto a uma nota expositiva geral sobre a «santificação», ver I Tes. 4:3). «.. .justificados...»Está em foco a justificação, um tema paulino central. A posição assumida por este comentário é que a justificação consiste em mais do que de mera declaração forense de que a pessoa justificada está em corretas relações com Deus. Inclui esse aspecto, mas também deve incluir a produção da justiça de Deus nessa pessoa; de outra maneira, tal pronunciamento seria vazio, ainda que feito por Deus. Mas Deus baixa tal pronunciamento porque faz a justificação tornar-se uma realidade na experiência íntima do crente. A justificação, pois, é mais do que a «declaração de que alguém éjusto», ao que essa doutrina, mui infelizmente, tem sido reduzida na igreja evangélica. Também significa «tornar justo». (Toda essa questão é estudada longamente em Rom. 3:24,28, onde vários outros pontos de vista a respeito são ventilados). Talvez esperássemos uma diferente ordem de apresentação das doutrinas, a saber, a justificação, a purificação e a santificação. Mas a verdade é que Paulo não estava procurando apresentar as doutrinas neotestamentárias em sua ordem de realização, visto que não expunha nenhuma teologia sistemática, mas simplesmente relembrava os seus leitores do fato da existência dessas grandes verdades, com propósitos corretivos. «...em o nome do Senhor Jesus Cristo...» Isto é: 1. De acordo com a sua autoridade; e 2. em comunhão íntima com ele, em tudo quanto ele é e tem. (Comparar com I Cor. 1:30). Cristo é a nossa «sabedoria», a nossa «justiça»,
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    I CORÍNTIOS 85 anossa «santificação» e a nossa «redenção». Nele é que recebemos todas as bênçãos espirituais, conforme se aprende em Efé. 1:3-11, o que, de resto, é enfatizado em todo esse primeiro capítulo da epístola aos Efésios. Não existe bênção celestial, espiritual, da qual ele não seja o Mediador. Por essa razão é que ele é o Salvador da humanidade, sendo também o único caminho para o Pai. (Ver João 14:6). No seu senhorio, o que é enfatizado no seu título que aqui aparece, ele é capaz de trazer todas essas múltiplas bênçãos até aos homens. (Ver Rom. 1:4 quanto a uma nota expositiva expandida acerca da doutrina do «senhorio de Cristo». Quanto à aplicação moral dessa verdade, ver Rom. 10:9,10). O vocábulo «...nome...» dá a entender a «autoridade» da pessoa nomeada, o «seu caráter essencial», o seu «poder»; e, nas páginas do N.T., no que diz respeito a Jesus Cristo, dá a entender a «comunhão» com ele, em tudo quanto ele tem e é. (Quanto a outras notas expositivas sobre esse tema, incluindo as «orações feitas em nome de Cristo», ver João 16:23. Quanto aos «milagres feitos em nome de Cristo», ver Atos 3:6). «...no Espírito do nosso Deus...» (Quanto a uma nota expositiva geral acerca do «Espírito Santo», incluindo os seus múltiplos títulos, ver Rom. 8:1). Todas as bênçãos que nos são conferidas por intermédio de Cristo, são medidas pelo seu Santo Espírito, porque o Espírito Santo é o «alter ego» do próprio Cristo. Ele é o «divino paraclete», isto é, aquele chamado para o nosso lado, a fim de ajudar-nos. (Quanto a notas expositivas sobre as declarações de Jesus acerca do «divino paraclete», e que ilustram as variegadas maneiras como ele ajuda aos crentes, ver João 14:16). Todas as realidades espirituais mencionadas neste versículo, como a lavagem, a santificação, a justificação, etc., são obras efetuadas pelo Espírito Santo. Por conseguinte, no que tange à justificação, não está em foco apenas uma declaração forense. Antes, o Espírito Santo é o instrumento da transmissão real de santidade para os homens, a saber, a própria justiça de Deus. (Quanto a esse tema, ver Rom. 3:21). Paulo confiava no fato de que a vida moral do grande é um desenvolvimento gradual. Mas, já que esse desenvolvimento é de natureza espiritual, precisa do Espírito Santo como sua força impulsionadora, como seu guia, como seu agente poderoso. Porque nenhuma natureza verdadeiramente espiritual pode ter desenvolvimento à parte do concurso do Espírito Santo de Deus. Semeai um pensamento, e colhereis um ato. Semeai um ato, e colheres um hábito. Semeai um hábito, e colhereis um destino. Seneai um destino, e colhereis...Deus· (Professor Huston Smith) Por semelhante modo, a vida cristã realmente só funciona quando está alicerçada sobre a deidade inteira. Devemos observar os três nomes santos, Pai, Filho e Espírito Santo, todos envolvidos nessa questão, o que significa que a fórmula trinitária é encontrada aqui, tal como na fórmula batismal, em Mat. 28:19. Os crentes de Corinto, entretanto, em seus diversos erros, corrupções e poluções, tinham demonstrado estar sob pouquíssima ou nenhuma influência do Espírito de Deus, não tendo comunhão ou experiência com a deidade. A conversão deles não significara uma mudança radical em sua vida íntima e externa, e não desfrutavam de qualquer santificação significativa que assinalasse o progresso de suas vidas espirituais, na conquista da verdade. A fórmula trinitária no batismo em água não deve ter sido a fórmula original, mas, por volta de 85 D.C. evidentemente entrou em uso geral. No livro de Atos é que encontramos a fórmula mais primitiva, a qual, mui provavelmente, envolvia apenas o nome de «Jesus», de «Jesus Cristo» ou do «Senhor Jesus». (Quanto a notas expositivas sobre a «fórmula batismal», ver Atos 2:38. Comparar também com os trechos de Atos 10:48; 9:16 e 19:5). O trechode I Cor. 6:9,10 parece citado nos escritos de Inácio (Efésios 16), e na Epístola de Policarpo, 5. III. Imoralidade, Ética Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1- 7:40). 4. A moralidade pessoal do crente (6:12-20). A presente secção aborda diversas expressões éticas dos crentes. Paulo parece iniciar uma discussão sobre várias questões «indiferentes», como as questões de alimentos proibidos, observância de dias, etc., segundo encontramos nos capítulos décimo quarto e décimo quinto da epístola aos Romanos, o que é igualmente abordado amplamente no oitavo capítulo da nossa epístola. Mas a secção anterior, que versa sobre a santidade necessaria no reino de Deus, bem como sua reprimenda severa contra vários abusos de natureza sexual, não demora a fazê-lo voltar às suas considerações sobre esse tema, e em termos ainda mais severos e definidos do que antes. A introdução de Paulo a esta secção, que menciona as regras da «liberdade cristã», em relação a alimentos proibidos e observância de dias especiais, cjue são questões indiferentes, mui provavelmente nos dá margem a entender que os crentes de Corinto tinham situado os vícios sexuais na mesma categoria das coisas indiferentes, no que, naturalmente, estavam redondamente enganados. Talvez a declaração doutrinária deles pudesse ser expressada seguinte maneira: «È questão indiferente o que alguém faz com seu própriocorpo. O que importa é somente o espírito». E isso expressa uma boa doutrina gnóstica. Aqueles crentes tinham abusado do ensino paulino da «liberdade cristã», dando-lhe aplicações que não lhe pertenciam por direito. E por essa razão, pois, que Paulo esclarece: «Porém, o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo», no décimo terceiro versículo deste mesmo capítulo. A cidade de Corinto era um centro de vícios sexuais de vários tipos, talvez sem igual em qualquer outro lugar do mundo de então. E a igreja cristã ali existente quase não podia evitar ser contaminada por esse péssimo ambiente. A prostituição fazia parte das antigas religiões pagãs, sendo uma prática totalmente aprovada por elas. Estrabão calculava que em Corinto havia nada menos de mil prostitutas religiosas profissionais, as quais faziam parte ativa da suposta adoração aos deuses, em meio a ritos caracterizados pela sensualidade. Além disso, havia muitas outras prostitutas seculares, abundando por toda parte os lupanares. Por essa razão o termo corintinizar veio a ser usado para expressar os abusos sensuais de qualquer sorte. Não admira, portanto, que Paulo tenha sentido a necessidade de frisar continuamente quão condenável era esse abuso, nesta sua epístola, o que fez de diversas maneiras. Os povos antigos em geral, e não meramente os habitantes de Corinto, tinham um ponto de vista extremamente liberal acerca das relações sexuais anteriores ao matrimônio, não sendo muitos os que viam qualquer malefício nessa libertinagem. Mas de modo geral, a cultura greco-romana era totalmente incompatível com os ideais judaicos sobre essa questão; e o cristianismo na realidade aumentou ainda mais o abismo de diferença de atitudes* ao invés de suavizá-lo. Ê interessante que na cultura judaica prevalecia um duplo padrão; porque um homem podia viver com uma mulher, estabele­ cendo com ela alguma forma de contrato, por mais breve que fosse em sua duração, e assim podia ter relações sexuais com ela, com a sanção total da própria lei mosaica. Para a mulher, contudo, as coisas eram bem diferentes, visto que tal liberalidade não se aplicava a ela. Diz-se que certos rabinos estavam acostumados a dizer, quando chegavam a alguma nova cidade: «Quem quer ser minha esposa por um dia?» Sim, um homem podia agir dessa maneira, mas não uma mulher. Em violento contraste com essas práticas, o cristianismo, apesar de não haver denunciado ou ilegitimado a poligamia, ou mesmo o concubinato, na forma de contratos legais para efeito de relações sexuais, retomou ao princípio mais primitivo como o ideal e o princípio que defendiam quanto a esse particular -um homem para uma mulher. Outrossim, no seio da igreja cristã, todo o líder tinha de ser «esposo de uma mulher·» (ver I Tim. 3:12). No cristianismo, pois, a tendência, até mesmo dentro da cultura judaico-cristã, onde a poligamia continuava comum nos dias do Senhor Jesus, foi a de reestabelecer a ética mais antiga sobre essa questão, um princípio mais puro e espiritualmente maie edificante. Podemos estar certos, porém, que em Corinto não havia leis que regulamentassem a poligamia ou o concubinato, embora o vício fosse extremamente generalizado, sancionado até mesmo pelas religiões oficiais. Foi para uma gente assim mal acostumada que Paulo escreveu esta epístola. Para muitos coríntios, o evangelho, embora tivesse sido ostensivamente recebido, na realidade não modificara os seus hábitos. Por essa razão é que Paulo lhes escreveu, a fim de repreendê-los e instruí-los. Sabiam quais eram as exigências que Cristo lhes impusera. Não ignoram essas exigências. Pois o apóstolo dos gentios estivera entre eles pelo espaço de dezoito meses (ver o décimo oitavo capítulo do livro de Atos), tendo recebido instruções minuciosas da parte dele. Mas simplesmente lhes faltava o caráter cristão necessário para saírem e se separarem do paganismo e de suas práticas aviltantes. 12 Π άντα μοι εζεστιν, άλλ’ ον πάντα συμφέρει, πάντα μοι εζεστιν, άλλ’ ονκ εγώ εζουσιασθησομαι υπό T tV O Ç , 12 Π ά ντα ...σ υμ φ έρ ει Sir 37.28; 1 Cor 10.23 6:12: Todos os coisas me são licites, mas nem todos os coisos convêm. Todos os coisas me são licitas; mas eu não mo deixarei dominar por nenhuma delas.
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    86 I CORÍNTIOS Algunsdaqueles membros da igreja cristã de Corinto haviam defendido a sua lassidão de costumes abusando da doutrina paulina da «liberdade cristã», o que contribuiu tão-somente para aumentar a gravidade de seus pecados. Paulo já havia mostrado um caso flagrante de «imoralidade* (no grego, « porneia», em I Cor. 5:1 e ss.); e agora aborda esse mesmo tema, com termos mais generalizados, aplicando-o aos muitos casos de imoralidade havidos na igreja cristã de Corinto. A menção das questões sexuais faz lembrar a Paulo a questão da liberdade cristã. O apóstolo dos gentios mostra que a sua doutrina da «liberdade cristã», contrariamente ao que pensavam certos, não dava apoio ao «partido dos libertinos». Paulo menciona os «slogans» desse partido, para em seguida refutá-los. Esse partido usava de chavões como «Todas as coisas me são lícitas». «O alimento é para o estômago, e o estômago para o alimento». É até mesmo possível que Paulo tivesse escrito declarações dessa ordem aos crentes de Corinto; mas eles as tinham distorcido em seu sentido tencionado, dando-lhes uma aplicação muito mais ampla do que qualquer interpretação cristã poderia suportar. «...Todas as cousas me são lícitas...» Podemos supor que o partido dos libertinos, na igreja cristã de Corinto, usava esse «slogan», entre outros, provavelmente utilizando-se de expressões paulinas, embora distorcidas. Os Exageros Dos Coríntios 1. Alguns pervertiam os ensinamentos paulinos sobre a graça, de modo a não haver mais qualquer distinção moral. Tais homens tornavam-se totais pragmáticos, não percebendo mal algum em qualquer coisa, a menos que houvesse resultados adversos para o próprio indivíduo, resultantes de certos atos. Tudo o mais tornava-se matéria indiferente para eles, e não se deixavam guiar por qualquer lei moral. 2. O ensino de Paulo, neste ponto, fala sobre situações «não-morais». Com isso, Paulo não estava removendo a lei moral, pois existem atos que são malignos em si mesmos. Todavia, através das circunstâncias, há outras coisas que chegam a ser más. 3. Talvez alguma forma primitiva de gnosticismo (ver as notas em Col. 2:18) tivesse lançado raízes em Corinto. Essa doutrina ensinava que podemos praticar certos males morais que prejudicam ao corpo, porquanto isso resultaria no bem de destruir o corpo físico, o qual, juntamente com toda a matéria, é princípio mesmo do mal. Imaginavam tolamente que os males físicos não podem causar dano à alma imaterial. Mas Paulo responde como segue: «Todas as cousas me são lícitas, mas nem todas convém. Todas as cousas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas». Assim sendo, a resposta dada por Paulo é dupla: 1. Nem todas as coisas me são convenientes, nem pessoal e nem socialmente, sem dúvida. Em outras palavras, devo ter cuidado com as minhas ações, para que não venha a prejudicar a outros. (Com isso se podem comparar os trechos de I Cor. 7:35; 10:23 e 12:7). Ao invés de «...convêm...» poderíamos traduzir «são expedientes», «são úteis», são dignas, porquanto, no original grego, temos um verbo que indica algo que resulta em «bem», em seu funcionamento. O argumento de Paulo é que até mesmo no caso das questões moralmente indiferentes, as quais poderiam ser reputadas «legítimas», isto é, não contraditórias com qualquer conceito moral, até mesmo nesses casos nem todas as coisas podem ser praticadas de qualquer modo, visto que nem tudo contribui para o bem-estar espiritual dos crentes, nem para o próprio indivíduo e nem para a comunidade cristã. Dentro dessa categoria poderíamos situar os capítulos catorze e quinze da epístola aos Romanos, bem como o oitavo capítulo da presente epístola, que envolvem questões como alimentos proibidos, observância de dias especiais, dieta vegetariana, o uso geral da liberdade cristã, a prática ou não das cerimônias religiosasdo judaísmo, a escolha das diversões, etc. Pois quando a nossa liberdade exerce mau efeito sobre os nossos semelhantes, é que já entramos no terreno das coisas que não são moralmente indiferentes, ainda que aquilo que é praticado não é mau por si mesmo. 2. Todas as coisas são legítimas, isto é, «estão em meu poder» de serem praticadas, mas «...eu não me deixarei dominar por nenhuma delas». Pode-se notar ojogo de palavras, porquanto a palavra básica, em cada caso, é a mesma, no original grego. Assim sendo, todas as coisas podem ser praticadas dentro dos limites do padrão de autoridade que me serve de orientação; porém, quando qualquer ação tomeça a «fazer-me exigências autoritárias», procurando «dominar-me», então tal ação não é mais' moralmente indiferente. Porque como meu Senhor reconheço unicamente a 13 τα βρώματα Trj κοιλία, και ή κοιλία το Se σώμα ον Trj πορνεία άλλα TT Zür Luth Jer Seg // d dash: RSV jj d ellipsis: Bov (NEB) 6:13: Os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos; Deus, porém, aniquilará, tanto um como os outros. Mas o corpo não é para a prostituição, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Paulo admite aqui que existem realmente questões indiferentes, que não têm ligação alguma com a fé, com a vida eterna e com a esperança do crente, mas que pertencem inteiramente a esta esfera física e transitória. O Senhor Jesus declarou algo similar a respeito dos alimentos indiferentes e de outras coisas da mesma natureza, no trecho de Marc. 7:18,19. Os alimentos foram criados para serem comidos, e a ingestão de alimentos serve para sustento do corpo físico. Não há qualquer moralidade envolvida no ato de comer, nos alimentos, no estômago e nos processos digestivos. Nessa área, o indivíduo pode fazer o que melhor lhe parecer. (Ver Rom. 14:2,3,14,15). Mas o apóstolo dos gentios nega aqui que o próprio corpo seja uma questão indiferente, como se o mesmo pudesse ser usado ao bel-prazer do crente. E isso porque a contaminação do corpo afeta o espírito e corrompe a pessoa inteira. A imoralidade não pode ser situada dentro da mesma categoria dos Jesus Cristo. Nãoposso tornar-me escravode qualquer outro princípio. Não posso ser escravizado por princípios de dieta vegetariana, pela necessidade de observar determinados dias especiais, nem insistindo sobre a necessidade dessas coisas e nem combatendo contra a sua conveniência. Simplesmente não posso deixar-me dominar pelo que quer que seja, e nem por quem quer que seja, exceto pelo Senhor Jesus.Poderiatornar-meescravizado até mesmo pelo uso excessivo da minha liberdade cristã, ou então pelo temor de usar de qualquer liberdade cristã. Quando eu não mais for liberto de Deus, em minha expressão ou vida diária, então terei perdido a minha liberdade em Cristo, e terei sido dominado por algo; e assim sendo, terei cometido um grave pecado, contra mim mesmo e contra meus semelhantes. A palavra « . . . e u . . . » é enfática aqui. É como se Paulo tivesse declarado: «Quanto a mim, tenho limitações em minha liberdade cristã, pelas duas razões acima declaradas». «Abusamos da nossa liberdade cristã quando a usamos para debilitar nosso caráter e diminuir nossa faculdade de autocontrole... Devemos usar de cautela para que não usemos dessa liberdade de tal modo que a percamos, como, por exemplo, quando nos tornamos escravos de hábitos sobre coisas que, por si mesmas, são legítimas». (Robertson e Plummer, in loc.). Ora, exatamente isso é que os legalistas tinham feito, em sua insistência sobre a observância das leis cerimoniais mosaicas. E aqueles que defendiam o ponto de vista oposto, também se tinham deixado escravizar, devido à sua insistência sobre uma maneira de viver mais livre. Ambos os grupos tinham prejudicado um ao outro, não tendo buscado o bem-estar e a vantagem espirituais uns dos outros; pelo contrário, haviam desobedecido à injunção paulina de nada fazerem que não seja «benéfico» e «expediente» em suas tendências e resultados. A verdadeira liberdade consiste no modo como e na maneira pela qual escolhemos um determinado senhor ou dominador. No caso dos crentes, o único Senhor só pode ser Jesus Cristo. Ora, se assim é o caso, até mesmo quanto às questões moralmente indiferentes, certamente não podemos aplicar a doutrina paulina da «liberdade cristã» visando abusar do corpo, na forma de perversões sexuais; e isso porque tal coisa nem ao menos se trata de uma questão indiferente, mas antes, envolve um princípio moral bem real e vital, conforme Paulo passa a demonstrar em seguida. (Uma exposição completa sobre o tema da liberdade cristã se encontra nos capítulos décimo quarto e décimo quinto da epístola aos Romanos, bem como no oitavo capítulo da presente epístola). Paulo lança mão aqui desse conceito a fim de introduzir seu severíssimo estudo sobre as coisas não indiferentes, e também a fim de negar enfaticamente que aquilo que é «moralmente indiferente» pode ser um princípio aplicado a uma conduta sexual frouxa, conforme vários crentes coríntios de. .inclinações libertinas vinham fazendo. Se sacrificarmos a capacidade de escolha, implícita no pensamento da liberdade, deixaremos de ser livres; e passaremos a ficar sujeitos ao poder que deveria estar debaixo do nosso poder. Até mesmo de acordo com o princípio da liberdade cristã, e quanto mais segundo o princípio daquilo que convém ou não, a fornicação, a imoralidade de todas as variedades, são atitudes errôneas. Porquanto aquele que comete fornicação é posto sob o poder de uma prostituta, e não mais é um crente livre. O crente que cai nesse pecado somente debilitou seu próprio poder, bem como o poder de Cristo sobre ele, tendo, entregue as rédeas de sua vida às forças tenebrosas da maldade. Tal crente deixou de ser senhor de si mesmo, tendo rejeitado o domínio de Cristo Jesus. (Ver os trechos de João 8:34-36; Gál. 5:13; I Ped. 2:16 e II Ped. 2:19). «Somos senhores de todas as coisas; tão-somente não devemos abusar desse senhorio de modo a sermos arrastados para a mais miserável servidão, ficando sujeitos às coisas externas, através da falta de controle e dos desejos desordenados, que antes deveriam estar sujeitos a nós». (Calvino, in loc.). «O corpo foi designado para ser o órgão do Espírito Santo, para dominar a natureza, e não para ser o órgão da natureza para dominar o Espírito». (Kling, in loc.). «‘Não me deixarei dominar por nenhuma delas...’ são palavras que se referem sobretudo à sensualidade no comer e no beber, através do que, aquele que cede a tais tentações, perde o domínio sobre si mesmo, que ele entregara às mãos de Deus, tornando-se o mais vil de todos os escravos. Com isso comparar o final do sétimo capítulo da epístola aos Romanos». (Bloomfield, in loc.). 13 r ò δ β ., .σ ώ μ α τ ί 1 Th 4.3-5 alimentos para sustento do corpo, porquanto há algo de aviltante e degradante nas relações sexuais ilícitas, que afeta a própria alma e o seu bem-estar espiritual. «O seu argumento é que há uma lei de adaptação que percorre a natureza inteira, ilustrada pela adaptação mútua dos alimentos e dos órgãos da digestão. Mas essa lei é violada pela prostituição dó corpo, na fornicação, para o que, segundo a ordem determinada por Deus, o corpo não foi adaptado». (Vincent, in loc.). Os crentes de Corinto, por conseguinte, misturavam a questão dos alimentos para o corpo, como algo que é indiferente, com o corpo entregue a práticas sensuais, um assunto inteiramente diferente daquele, embora aqueles crentes não pudessem ou não quisessem perceber tal distinção. Os filósofos gnósticos pensavam que o corpo físico já é inevitavelmente a sede mesma do princípio do mal, visto que o pecado é material, e eles imaginavam que a matéria é má e que o espírito é bom. E daí concluíam que aquilo que acontece ao corpo é inteiramente indiferente, visto que o espírito ίς β ρώ μ α σ ινά ó δε θεός και ταντην και ταΰτα καταργήσει, το τώ κυρίω, και Ο κύριος τώ σώ μα τί· ά13 d minor: TR WH Nes BF2 AV RV ASV
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    I CORÍNTIOS 87 humanosó seria libertado desse princípio do mal por ocasião da morte física. Mas Paulo salientou que se o homem abusar de seu corpo, mediante práticas pecaminosas, também estará prejudicando a sua alma, em sua espiritualidade e progresso. (Com isso se pode confrontar o trecho de I Ped. 2:11, onde se lê: «Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais que fazem guerra contra a alma»). Isso expressa com precisão o pensamento de Paulo neste ponto. O fato de que a filosofia pagã, ao tratar das questões morais, com freqüência classificava coisas não-essenciais, como os alimentos, paralela­ mente a pecados morais supostamente não-prejudiciais, também pode ser visto no trecho de Atos 15:23-29, —onde as exigências impostas aos primitivos gentios convertidos ao cristianismo incluíam ambos esses aspectos, como se ambos fossem igualmente importantes. «...Deus destruirá...» isto é, tanto os alimentos como os estômagos ou órgãos de digestão, tudo o que está sujeito à decadência, começando e terminando dentro do tempo. Porque essas coisas pertencem, estritamente, à ordem das coisas temporais. Mas não acontece assim com a alma, que par­ ticipa da eternidade. (Ver décimo sétimo versículo deste mesmo capítulo). Moralmente falando, essas coisas temporais são indiferentes, a menos, naturalmente, que certos alimentos sejam prejudiciais para o corpo, motivo pelo qual devem ser evitados, a fim de não causar dano ao templo do Espírito Santo. (Ver I Cor. 3:16 e ss.). É possível que aqui haja certa referência ao tempo, já no estado futuro, especialmente na eternidade, quando não mais precisaremos de qualquer alimento físico. Então esse tipo de coisas temporais desaparecerá inteiramente. «.. .Porém, o corpo não é para a im pureza.. . » Embora o corpo seja temporal, material, como o é o estômago, tem uma missão mais alta do que aqueles crentes de Corinto suspeitavam. O corpo do crente é templo do Espírito Santo, uma casa santa, que deve ser usada como instrumento do Espírito de Deus para o bem, e não para o mal. (Ver I Cor. 3:16 e ss. e 6:19). A metafísica de Paulo, aqui abordada, étipicamente hebraica.Paulo não separava corpo e espírito como duas entidades separadas, conforme ele faz no quinto capítulo da sua segunda epístola aos Coríntios, que é nosso melhor capítulo acerca da «imortalidade». Para os hebreus, o corpo físico era um objeto psiquicamente animado. E segundo esse ponto de vista não é algo transitório, passageiro, visto estar sujeito à ressurreição e à vida eterna, quando o crente será transformado para possuir um corpo espiritual. A Metafísica De Paulo 1. Paulo seguia a linha de pensamento dos hebreus, não distinguindo claramente entre o corpo e o espírito, mas antes, encarando o princípio físico como a condição natural e necessária do homem, agora e para sempre. No estado eterno, o espírito será revestido de um corpo, presumivelmente o corpo terreno ressurrecto. 2. Portanto, é de extrema im portância aquilo que um homem fizer através do seu corpo. Além disso, dificilmente se pode imaginar que o corpo, por si mesmo, seja maligno (conforme os gnósticos pensavam). Todavia, o corpo físico torna-se uma vítima fácil do mal. 3. A espiritualidade, portanto, dificilmente poderá ser atingida enquanto o indivíduo abusa de seu corpo por meio da imoralidade. «...impureza...» O vocábulo grego por detrás dessa tradução é o mesmo que vem sendo usado desde I Cor. 5:1, isto é, «porneia», palavra essa que indica toda a forma de «imoralidade». (Ver as notas expositivas sobre essa palavra, em I Cor. 5:1). «Paulo mostra aqui ousadamente a falácia existente no paralelo que alguns faziam entre o apetite do estômago para com os alimentos e a imoralidade. O corpo humano possui uma missão muito mais elevada do que a mera satisfação dos apetites sensuais desordenados. O sexo foi criado por Deus para a propagação da raça, e jamais para a prostituição. E Paulo já havia asseverado que Deus habita em nós como santuário do Espírito Santo. (Ver I Cor. 3:16 e ss.).» (Robertson, in loc.): Paulo ensinava aqui que de alguma maneira, que ele não explana, tanto o corpo como a alma têm um destino eterno. Sem importar se os átomos deste corpo físico terão ou não tal futuro, ou se o «corpo» será uma nova criação, de material distinto da alma, e como veículo de expressão da alma, o fato é que o corpo também tem um elevado destino, embora Paulo não esclareça de que modo. Não obstante, o apóstolo dos gentios declara que aquilo que é feito através deste corpo físico tem reflexos sobre a personalidade inteira do indivíduo, afetando o seu destino, e degradando ou elevando toda a pessoa. Por conseguinte, é muitíssimo importante aquilo que fazemos com os nossos corpos. «...mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo...» Quando da ressurreição, o corpo de Cristo foi ressurrecto e espiritualizado. Ele levantou-se dentre os mortos e posteriormente ascendeu aos céus como o primeiro homem verdadeiramente imortal de Deus. O espírito de Jesus não foi deixado despido do corpo, mas foi revestido de um corpo glorificado, transcendental. Assim também sucederá no caso de todos os crentes. A ressurreição dos crentes será a recomposição da personalidade inteira dos remidos. A alma humana é imortal; mas também existe aquele revestimento da alma por meio do corpojá glorificado, que terá por modelo a semelhança do corpo glorioso de Jesus Cristo. (Quanto a outros trechos bíblicos acerca desse tema, ver II Cor. 5:1 e ss.; Rom. 8:23 e I Cor. 15:35, que abordam esse problema com abundância de pormenores). Não sabemos dizer, contudo, se o «corpo glorificado» incorporará os átomos do nosso antigo corpo ou não; mas isso é inteiramente destituído de importância para o argumento aqui apresentado por Paulo. (Ver o trecho de Fil. 3:21 quanto ao «corpo glorioso de Cristo», do qual também participaremos). Seja como for, o corpo é «para o Senhor», tendo seu destino e propósito, seu uso próprio, visando a glória do Senhor, não se destinando certamente à «imoralidade», à satisfação dos desejos sensuais desordenados. «...Senhor...», neste caso, como na maioria das ocorrências do termo, indica o Senhor Jesus Cristo, o Salvador dos homens. (Quanto a notas expositivas sobre o uso da palavra «Senhor», no N.T., ver Rom. 1:4, onde há comentários amplos sobre o assunto). Referindo-se à mensagem geral deste versículo, Faucett (in loc.) comenta como segue: «Temos aqui o gérmen dos três assuntos abordados nas secções subseqüentes: 1. A relação entre os sexos; 2. A questão dos alimentos oferecidos aos ídolos; 3. A ressurreição do corpo. Uma essência real subjaz os fenômenos superficiais da presente organização do corpo; esse gérmen, quando todas as partículas são espalhadas, envolve a ressurreição de um corpo incorruptível». É possível que Paulo tenha usado aqui o termo corpo, a fim de subentender o próprio «eu». Os pecados do corpo prejudicam ao «eu», à pessoa inteira. Jesus Cristo veio para redimir a pessoa inteira, incluindo o corpo, que deve ser considerado como o veículo físico, que será transformado e espiritualizado quando da ressurreição. Por conseguinte, o corpo deve ser redimido, e não sujeito à imoralidade. Nesse sentido, a salvação envolve igualmente o corpo. (Ver Rom. 8:23). «O Senhor Jesus e a ‘porneia’ lutam pelo domínio dos corpos dos crentes; se quiserem ser leais a ele, precisam renunciar àquilo-, se cederem àquilo, terão de renunciar a ele». (Findlay, in loc.). Visto que o corpo é «para o Senhor» em sentido final, isto é, pertencente a ele por toda a eternidade, tendo sido redimido por ele, é lógico que agora mesmo os crentes usem os seus respectivos corpos para serem usados no serviço de Cristo e para sua glória, e não para fins de degradação moral. Cristo comprou nosso corpo, e é a ele que o corpo pertence, tal como um escravo pertence totalmente ao seu senhor. (Ver o vigésimo versículo deste capítulo). 14 6 δε θεός καί τον κύριον ηγειρεν καί ημάς εζεγερε ΐ διά της δυνάμεως αύτοΰ. 14 Ro8.ll; 1 Cor.15.15, 20; 2 Cor 4.1414 φ γ ( ρ α p46clXDc p m vgs* c1· w saP1 bo Ç; R] ϊ ξ η γ € ψ ( ν p46c2B 17 3g r t vg P 'saP * Or : c i e y a p a pll,46* AD* 69 pc Os testemunhos estão divididos bem pelo meio quanto ao tempo do verbo: (a) o aoristo έξηyecpev, p4f,c2 B 424c 1739 Origenes; (b) o presente, èÇeyeípei, p (11,46*) A D* P 69 88; e (c) o futuro, èíjeyepei, p46cl N C D(3) K L maioria dos minúsculos e a maioria das versões. O contexto torna o futuro necessário como correlativo de καταργήσει no vs. 13 (cf. também o paralelo de II Cor. 4:14). No que toca a è^yeipev e è^eyeipei, o primeiro parece ser uma repetição mecânica do tempo anterior, e o último um equívoco da pena. 6:14: Ora, Deus não somente ressuscitou ao Senhor, mas tambim nos ressuscitará a nós pelo seu poder. Consideremos o exemplo de Cristo Jesus. Durante toda a sua vida terrena ele viveu com pureza, e ninguém podia convencê-lo de pecado. Não corrompeu ao seu corpo. Qutrossim, após a morte física, seu corpo foi ressuscitado pelo poder de Deus, tendo sido espiritualizado. Dessa maneira ele ascendeu aos céus e está ocupado em um serviço celestial, para glória de Deus. Assim também sucederá a todos os crentes. O corpo dos crentes é passível de ressurreição, estando destinado aos lugares celestiais, razão pela qual não pode ser usado para o serviço da maldade. Portanto, a moralidade não é uma questão indiferente, como indiferentes são as questões dos tipos de alimento e dos órgãos digestivos, tudo o que não demorará a perecer, jamais tendo sido criados para caracterizarem a natureza do estado futuro. «Já que o corpo está destinado a compartilhar, juntamente com o corpo de Cristo, da ressurreição, quando será erguido incorruptível, está sujeito a uma mais elevada adaptação, com o que a fornicação é incompatível». (Vincent, in loc.). Dessa maneira, pois, Paulo émpresta maior peso ao seu argumento, acerca da sua dignidade e elevados propósitos, bem como acerca do alto destino do corpo do crente. É frisada aqui a primeira ressurreição. (Ver Apo. 20:5). A esperança escatológica tem elevado a importância do corpo do crente muito além das inadequadas filosofias que alguns crentes de Corinto aplicavam. A ressurreição se verificará mediante o «...poder...» de Deus, o que é frase comum vinculada à idéia da ressurreição, embora não envolva qualquer sentido comum, mas antes, um significado elevadíssimo. A ressurreição é a demonstração mesma do poder de Deus, visto que os homens não podem realizar tal coisa, e muito menos ainda a grande espiritualização dos corpos ressuscitados que se seguirá. A ressurreição dos crentes, pois, inclui a idéia da espiritualização, como também, usualmente a ascensão aos lugares celestiais, com a glorificação resultante. Ora, isso pode ser realizado exclusivamente por Deus, através do poder sem igual que ele possui. (Comparar com os trechos de Atos 2:27,30,31,33; Efé. 1:19 e ss. Ver Atos 2:24,27 quanto à ressurreição conforme é vista no livro de Atos.
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    88 I CORÍNTIOS VerI Cor. 15:26 quanto a uma nota expositiva geral sobre a «ressurreição». Ver Luc. 24:6 acerca das várias teorias sobre o «modo da ressurreição de Jesus Cristo». Quanto aos vários casos de ressurreição relatados nas Escrituras, ver Atos 20:10. Quanto a notas expositivas sobre como a ressurreição, nas páginas do N.T. subentende ascensão e exaltação, ver Atos 2:32,33). Deus abolirá os alimentos e os estômagos, visto que são coisas que pertencem à ordem temporal de coisas. Mas Deus ressuscitou a Jesus Cristo (seu corpo), e assim também fará conosco, utilizando-se do seu mesmo poder divino. Portanto, o corpo do crente ê para o Senhor, e não para a imoralidade. Paulo não se refere aqui à sua esperança de escapar inteiramente da morte física, o que era uma esperança real para ele, conforme se aprende em I Cor. 15:51. Esse aspecto de sua esperança é omitido porque ele abordava um assunto que requer o concurso da ressurreição. Por causa de seu argumento, ele deixou passar ao largo uma doutrina que faria alguns crentes negligenciarem a realidade da morte física. ★ ★ ★ V a r ia n te T e x tu a l: Existem várias modificações, nos manuscritos antigos, do tempo do verbo que expressa a ressurreição dos homens. O futuro, «ressuscitará» se encontra nos mss P(46) (primeiro corretor), Aleph, D(c), vg(s cl w), Sa (pt) Bo e os manuscritos gregos mais recentes (minúsculos). O aoristo, «ressuscitou», aparece também nos mss P(46) (segundo corretor), B, 1739, nas versões latinas r,t, vg(pt), Sa(pt) e nos escritos de Orígenes. O tempo presente «ressuscita», aparece nos mss p(ll) (século V d.C.) e pela mão original de P(46) (o documento mais antigo que possuímos, dos escritos paulinos, seculo III d.C.), como também em A,D (mão original), 69 e alguns pontos outros manuscritos de menor importância. O tempo futuro dá a entender a ressurreição escatológica, sendo esse o prisma preferido pelos escribas. Mas é bem provável que isso seja uma emenda feita no aoristo, que mui provavelmente representa o original. Se o aoristo foi realmente usado por Paulo, então está em foco aqui a ressurreição espiritual dos crentes, em Cristo Jesus, o que é um acontecimento passado, tal como lemos também no trecho de Rom. 6:4. Porém, mesmo que Paulo realmente tenha usado o tempo aoristo, ainda assim a ressurreição escatológica pode estar em vista, visto que, quando da ressurreição de Jesus Cristo, também fomos realmente «ressuscitados», numa potencialidade certa, que aguarda tão-somente a ocasião própria para que tal acontecimento se realize. Alguns estudiosos, entretanto, supõem que o tempo aoristo aparece aqui como assimilação do verbo que aparece neste mesmo versículo e que alude à ressurreição de Cristo, verbo esse que também está no tempo aoristo. Nesse caso, o original poderia estar no tempo presente ou no tempo futuro. Porém, o mais provável mesmo é que o tempo aoristo represente o original, o qual sofreu diversas modificações, conforme é esclarecido neste parágrafo. Sendo esse o texto «mais difícil», também é o mais provável, de acordo com as regras textuais. A modificação mais óbvia é aquela feita para o futuro. Alguns bons editores, entretanto, preferem realmente o futuro. Todavia não há maneira indiscutivelmente certa de dar solução a esse problema. 15 o v k ο ϊδατΐ δτι rà σώματα υμών μέλη Χρίστον έστιν; αρας ούν τα μέλη τοΰ Χριστοΰ ποιήσω πόρνης μ έ λ η ; μΎ} yeVOlTO. 15 τά σώματα...ίστίν Ro 12.5; 1 Cor 12.27 15 ουκpraem η G pc Aug OrIat | υμων] ημ- Ν*Α | apas] αρα Ρ al: ij apa G 6:15: Não sabeis vis que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomareipus os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? De modo nenhum. Paulo dá início aqui a um outro argumento, visando mostrar que a polução do corpo dificilmente pode ser classificada dentro da mesma categoria dos alimentos para o estômago, conforme alguns crentes coríntios entendiam. Cada crente, individualmente, faz parte do corpo místico de Cristo. (Ver Rom. 12:4,5 acerca desse tema. Ver também I Cor. 12:13). Cada membro é dotado de uma função toda especial, o que significa que cada crente é um membro sem igual, im portante, ainda que não independente dos demais membros do corpo, e muito menos ainda, da Cabeça, que é Cristo Jesus. Ora, tudo isso fala da nossa «intimidade mística» com Cristo, em que há união de espíritos, conforme também lemos no décimo sétimo versículo deste mesmo capítulo. Há, portanto, uma união espiritual íntima, a participação dos crentes na mesma natureza espiritual de Cristo, mediante o poder transformador do Espírito Santo. E como poderiam, por conseguinte, aqueles que estão nessa comunhão mística com Cristo, terem também intimidade, no nível físico, com uma prostituta, através de atos imorais? Tais ações são mortíferas para o espírito do crente, detrimentes em extremo para a sua comunhão com Cristo, a sufocação mesma da espiritualidade. Ora, isso é algo totalmente contrário ao progresso espiritual, o que só pode ocorrer mediante a comunhão com Jesus Cristo, através de seu Santo Espírito. Tais concupiscências «guerreiam contra a alma», no dizer de I Ped. 2:11. O corpo é «...para o Senhor...», para glória do Senhor, para seu serviço, para ser glorificado segundo o corpo glorificado de Jesus, para seu serviço eterno; mas também é «adaptado» para ele, em comunhão mística, do que também se deriva o nosso poder espiritual. Ora, ter qualquer contacto com a imoralidade é sufocar essa intimidade e arruinar essa adaptabilidade da personalidade humana para com Cristo. Por essa razão é que a palavra «...corpo...», neste versículo, certamente envolve a idéia da «pessoa inteira», tema esse que atravessa todo o texto, ainda que o corpo físico literal também esteja em foco como algo sujeito à ressurreição, quando então a personalidade inteira será restaurada em Cristo e glorificada nele. Ora, essa «adaptação» (ver o décimo terceiro versículo deste capítulo) vem através da comunhão mística com o Senhor. E deveríamos estar interessados no aprimoramento dessa comunhão, ao invés de estarmos interessados no pioramento dessa intimidade, que é exatamente o que a prostituição efetua. O ponto de vista pagão sobre o corpo sempre fazia com que o homem fosse reduzido ao nível dos animais; e, em um sentido totalmente físico, isso é uma verdade. Mas o «corpo», sem importar se está em foco apenas a entidade física, ou se queremos dar a entender a «pessoa inteira», tem algo em comum com o Cristo glorificado, e não com os animais irracionais, razão pela qual deve ser tratado com respeito, e não como se fosse apenas um organismo animal. Outrossim, o corpo do crente, quando da glorificação, juntamente com o «eu inteiro», toma-se membro de Cristo, desfrutando de comunhão mística com ele. Essa é outra razão poderosa pela qual o corpo (a entidade física e o eu inteiro) não pode ser entregue à prostituição. Agostinho observava: «Não podem eles ser, ao mesmo tempo, membros de Cristo e membros de uma prostituta». (De Civ. Dei xxi.25). «...e os faria membros de meretriz?...» Poderia Paulo, do alto de sua autoridade apostólica na igreja, mediante ensinamentos frouxos, dizer aos crentes que lhes é facultado participar da imoralidade, assim prejudicando a sua comunhão com o Senhor Jesus? Nunca, responde Paulo. «Deus o proíba». «Longe de nós tal pensamento». «...Absolutamente, não...» Literalmente traduzidas, essas palavras diriam: «Que não seja assim». Têm sido variegadamente traduzidas como «Deus proíba» (não literalmente, mas demonstrando o espírito de aversão), «Longe de nós tal pensamento», ou, mais simplesmente, Jamais! No original grego, temos «me genoito», uma das poucas ocorrências do modo optativo, nos escritos de Paulo. Essa expressão é de uso freqüente na epístola aos Romanos, mas, nesta primeira epístola aos Coríntios figura somente aqui. (Ver as notas expositivas a respeito em Rom. 3:4. Ver também os trechos de Rom. 3:6,21; 6:2,15; 7:7,13; 9:14; 11:1,11; Gál. 2:17; 3:21 e 6:14). Sempre que Paulo usa tal expressão, queria rejeitar vigorosamente a idéia anteriormente expressa, como que tocado por grande sentimento de repulsa. E isso mostrava como Paulo encarava a questão dos costumes sexuais lassos, que eram tão comuns em Corinto e por todo o mundo pagão daquela época. «Segundo o ponto de vista helenista, o corpo era o envelope perecível da alma; segundo o ponto de vista das Escrituras, é o veículo permanente do seu espírito. Devotar o próprio corpo a uma prostituta é retirá-lo, antes de tudo, da possessão de Cristo; e fazer ‘isso’, e ‘com tal propósito’, basta a declaração (sem elaboração), para mostrar a infâmia de tal proposição». (Findlay, in loc.). A declaração de repulsa do apóstolo Paulo contra a idéia da entrega do corpo à prostituição (no grego, «me genoito», conforme foi comentado mais acima), também foi utilizada por outros autores antigos, como Epicteto (ver Odisséia, vii.316). Por conseguinte, não era expressão original de Paulo, mas mui provavelmente podia ser ouvida comumente nos seus dias, mais ou menos da mesma maneira como ele a usou. 16 [ή ] ούκ οϊδατ€ ότι ό κολλώμένος rfj πόρνη ev σώμά έστιν; Έ σ ο ν τα ι γάρ, φησίν, ol δύο eiç σάρκα μιαν. 16 'Έ ,σ ο ν τα ι.,.ο Ι;δ ύ ο ...μ ία ν Gn 2.24 (Mt 19.5) esse motivo que, nas Escrituras, a relação matrimonial é empregada para ilustrar simbolicamente a união entre Cristo e a sua igreja, porquanto, de maneira bem real, exemplifica uma real comunhão de energias espirituais vitais, e não meramente uma união poeticamente expressa. Paulo cita aqui o trecho de Gên. 2:24, de acordo com a versão da 6:16: Ou não sabeis que o que se une à meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque, como foi dito, os dois serão uma si carne. A linguagem utilizada por Paulo é mais do que simbólica e poética. O que ele afirmava é que o contacto sexual não é um ato físico passageiro, mas antes, de alguma maneira mística, une duas pessoas no mesmo tipo de laço íntimo. Mui provavelmente ele defendia a tese que, em tal união, ocorre alguma espécie de união de energias vitais físicas e psíquicas, uma real união de seres, de alguma maneira. Nos escritos dos místicos é comum a declaração que expressa o sentimento de que o sexo está envolvido em alguma forma qualquer de aura. E é fato bem conhecido que os impulsos sexuais suprimidos podem, realmente, provocar experiências místicas. No sexo, embora não saibamos dizer como, há um elemento transcendental qualquer, o que talvez envolva alguma forma de profunda comunhão entre as duas pessoas, no nível de suas energias vitais, tanto físicas como espirituais. Parece ocorrer uma espécie de união de seres. Talvez seja por Septuaginta (tradução do A.T. hebraico original para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã), onde, naturalmente, há alusão às relações matrimoniais. Não obstante, Paulo deixava entendido que quer dentro do casamento, quer fora dele, as relações sexuais envolvem alguma espécie de união vital dos seres de duas pessoas. Essa união pode justificar nossa comum afirmativa que, de certa forma, elas se tornam «uma só pessoa». Ora, e seria possível que um crente, que professa ter a Jesus Cristo como seu Senhor, e que assim se encontra supostamente em Cristo, isto é, que goza de alguma espécie de comunhão mística com ele, possa ao mesmo tempo unir-se tão vitalmente a uma mulher sensual, carregada de pecados, impelida por diversas concupiscências fortes, como ocorre se se unir a uma
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    I CORÍNTIOS 89 prostituta?Paulo não podia admitir que ambas essas coisas podem ser realidade na vida do crente. Ter tal união com uma mulher dessa natureza é romper a comunhão mística com Cristo, é sufocar a intimidade com ele. Por conseguinte, tal imoralidade sob hipótese alguma pode ser reputada como questão «indiferente», moralmente falando, conforme alguns crentes de Corinto supunham. «Ter contacto sexual com uma das sacerdotisas de Afrodite (o que fazia parte do ritual pagão em Corinto), significava consagração a essa deusa, e, naturalmente, exclusão do corpo de Cristo». (C.T. Craig, in loc.). No Talmude encontramos uma declaração similar: «Quem quer que se una à mulher de outro homem, com isso renuncia ao Deus Santo e Bendito e se exclui da congregação dos israelitas». (Sohar Genes., foi. 19). O problema da prostituição'. Paulo não aborda esse e outros problemas relacionados do ponto de vista da saúde da comunidade, do orgulho individual ou do respeito próprio ou pelos outros, conforme fazem a medicina e a sociologia modernas. Para o apóstolo dos gentios tratava-se, essencialmente, de um problema espiritual, pesadamente sobrecarregado de proposições espirituais da mais elevada ordem. As relações entre um homem e o seu Deus são afetadas por sua vida sexual, razão pela qual é algo que se reveste das mais importantes conseqüências. A comunhão com Deus pode ser totalmente abafada, e a intimidade com Jesus Cristo pode ser destruída, através do abuso das funções sexuais. «Aindulgência nesse particular do sexo embota o fino fio da vida pessoal e diminui a sensibilidade do indivíduo para com as realidades espirituais... E grande parte desses abusos, se não mesmo todos eles, tem sido combatida pela sociologia, particularmente no que diz respeito à prostituição abusos esses igualmente condenados por Paulo. Apesar de ser possível ao indivíduo escapar, pelo menos durante algum tempo, de quaisquer conseqüências físicas e fisiológicas, não é possível escapar das conseqüencias psicológicas. A prostituição tende por produzir efeitos psicológicos adversos sobre os indivíduos envolvidos, e, em adição a isso, efeitos adversos inevitáveis sobre a estrutura moral e espiritual da sociedade. Outrossim, conforme o ponto de vista do apóstolo, qualquer pessoa que se permite tais práticas une-a sua ‘personalidade’ com a de sua companheira, ou vice-versa, assim contaminando o próprio templo de Deus, de quem pertence, com exclusividade, a ‘personalidade’ do crente... Uma das mais antigas heresias contra a qual o apóstolo teve de combater foi a idéia perniciosa que dizia que a liberdade cristã subentende licenciosidade... Suas convicções precisam ser reafirmadas pela igreja, século após século». (John Short, in loc.). Paulo cita aqui certos trechos do A.T., a fim de encontrar apoio para o seu argumento, prática essa comumente vista em suas epístolas, usualmente com o acompanhamento da fórmula está escrito. (Quanto a notas expositivas sobre esse hábito de Paulo, e seu sentido, ver I Cor. 1:19. Quanto à maneira um tanto frouxa como ele algumas vezes fazia suas citações, ver Rom. 10:6). «Aquilo que tem sido feito sobrevive, moralmente, em ambos. E daí por diante um não pode livrar-se do outro». (Findlay, in loc.). «...serão os dois uma só carne...» Essas palavras nãosignificam/azeruma só carne, reproduzindo sua própria espécie, ao que tem sido reduzido o significado deste versículo, mas que ê um sentido realmente alheio ao texto. * * ★ 17 ò δε κολλώμβνos τώ κυρίω êv ττνβΰμά εστιν. 6:17: Mas, o que se une ao Senhor i um si espirito com ele. A declaração paulina aqui é de grande importância·. 1. Não fala de uma simples disposição que compartilhamos com Cristo. 2. Compartilhamos a mesma essência de natureza com ele. A declaração, então, é paralela àquela de Rom. 8:29 que fala sobre a nossa transformação à imagem de Cristo. Notas completas são dadas sobre este tema in loc. Ver também as notas em Efé. 3:19, Col. 2:10. 3. É o Espírito que transforma a alma humana. Ver II Cor. 3:18. Aqui, a palavra «espírito» é uma referência ao «espírito humano.» Alguns intérpretes preferem «Espírito». O grego nunca tem um «p» maiúsculo na palavra «pneuma», portanto, às vezes, não é claro se «disposição», «espírito humano», ou «Espírito Santo» é o sentido. No presente versículo uma referência ao Espírito é remota. A nossa união com Cristo nos dá a essência espiritual dele, mesmo como a união com uma prostituta obriga-nos a compartilhar das energias vitais dela. 4. A dignidade de Cristo não é prejudicada pela participação dos outros filhos na natureza dele. O Filho e o Pai possuem a natureza divina infinitamente; os filhos, finitamente. Mas toda a eternidade consiste no aumento contínuo da participação dos filhos, porque na eternidade não pode existir estagnação. Sendo que existe uma—infinidade—com a qual devemos ser enchidos, deve existir também um enchimento eterno, infinito. 5. O versículo, embora declarando uma imensa verdade metafísica, é principalmente ético. A nossa comunhão com Cristo, no nível da alma, exige de nós uma vida de pureza e grande avanço ético. O nosso privilégio como filhos exige de nós uma renúncia das coisas mundanas. A palavra «...Senhor...», que aparece neste versículo, se refere a Jesus 17 Jn 17.21-23; Ro 8.9-11; Ga 2.20 Cristo, o que representa um uso muito comum nas páginas do N.T. (Ver Rom. 1:4 acerca de uma explanação e ilustrações desse uso. Quanto ao tema da «intimidade entre a cabeça e o corpo», ver os trechos de Gál. 2:20; Efé. 2:5 e ss.; 3:16 e ss.; Col. 2:10; 3:1 e ss.; João 15:1 e ss. e 17:23 e ss.). Assim, pois, o apóstolo Paulo mostra que a nossa união mística com Cristo é muito mais íntima do que aquela que temos com nossas respectivas esposas. E a aplicação dessa verdade é aquela expressa por Calvino(m loc.)·. «Pois se aquele que é casado não deve ter relações sexuais ilícitas com uma prostituta, muito mais hediondo será o crime dos crentes, se se unirem a prostitutas, visto que não somente formam ‘uma só carne’ com Cristo, mas também ‘um só espírito’. E isso nos mostra a comparação entre o maior e o menor». «Meyer observou com razão que o casamento místico entre Cristo e a sua igreja não deve ser pressionado aqui (como fez Olshausen, com base em Efé. 5:23 e ss.), visto que as relações dos comparados não correspondem entre si. Não obstante, a veracidade íntima dessa relação mística é a ‘base’ fundamental de ambas essas passagens». (Alford, in loc.). «Aquele que se une com Deus, mediante a fé em Cristo Jesus, recebe o Espírito e se torna participante da natureza divina. E quem poderia modificar tal relação a fim de ter contacto com uma prostituta? ou para desfrutar de qualquer satisfação sensual? Aquele que pode fazer tal troca deve estar caído profundamente!» (Adam Clarke, in loc.). O presente versículo, por conseguinte, ensina-nos que está envolvido muito mais do que a comunhão com Cristo, na experiência mística, embora essa experiência também seja uma realidade. Na verdade, ensina a participação real na sua natureza essencial. 18 <f>eΰ γ€ Τ € την Tropveíav rropvevow eis το ίδ ιο ν παν αμάρτημα δ èàv ποίηση άνθρωπο5 €ktos τοΰ σώματο5 ε σ τ ιν , σώμα αμαρτάνει. 8è 6:18: Fugi da prostituição. Qualquer outro pecado que o homem comete, é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu priprio corpo. «...Fugi da impureza...»E usada aqui a mesma palavra grega empregada no décimo terceiro versículo, «porneia», igualmente traduzida por «impureza», a qual é comentada em I Cor. 5:1. Essa palavra indica qualquer contacto sexual ilícito, qualquer forma de imoralidade. Cumpre-nos fugir de toda e qualquer forma de desvio moral que se alaste dos elevados padrões do cristianismo, pelos motivos seguintes: 1. Os indivíduos imorais na realidade não podem ser pessoas convertidas, pelo que também não herdarão o reino de Deus, cujo sentido, neste caso, é «vida eterna» (ver o nono versículo). 2. Porque a conversão e a santificação cristã iormam uma nova criatura, o que é comprovado pelas experiências da vida diária. (Ver o décimo primeiro versículo). 3. Porque aquilo que fazemos com nossos corpos não pode ser classificado entre as «questões indiferentes», do ponto de vista moral, como indiferentes são as diferenças de dietas, observância de dias especiais, etc. (Ver os versículos doze e treze). 4. Porque o «corpo» tem um grande destino, não sendo apenas o lar temporário da alma. Além disso, o corpo não é a sede do mal, mas antes, o lugar de habitação do Espírito Santo, o santuário de Deus, o qual será também ressuscitado pelo poder de Deus, tal como o Senhor Jesus foi ressuscitado. (Ver os versículos catorze e dezenove). 5. Porque quando das relações sexuais há uma união vital de duas pessoas, de corpo e espírito, numa espécie de comunicação mística; razão também pela qual nenhum crente pode unir-se legitimamente com uma mulher sensual. Isso rompe a comunhão do crente com Cristo. (Ver o décimo sexto versículo). 6. Porque, em Cristo, e devido à nossa transformação íntima segundo sua imagem, somos unidos a ele em espírito, passando a participar de sua mesma natureza espiritual. Por esse motivo, é um crime horrível alguém poluir sua natureza espiritual com a imoralidade. O espírito humano remido pertence a Cristo, e só pode ser devidamente unido a ele mediante o processo da santificação. 7. Finalmente, o pecado de imoralidade é um pecado mais grave do que qualquer outro que o crente possa cometer, visto que polui o seu corpo, o qual é passível das seguintes coisas: a. Será ressuscitado pelo poder de Deus; b. Recebeu grande destino em Cristo; c. Tendo sido redimido através da expiação pelo sangue de Cristo, pertence a ele com exclusividade, não podendo, por conseguinte, ser sujeitado a abuso por nossa vez (ver a última porção do presente versículo e o versículo vigésimo); d. O corpo agora é templo do Espírito Santo, santuário de Deus, lugar da habitação de Deus, onde o Senhor torna-se conhecido à personalidade humana, não podendo, por essas razões, ser poluído pela imoralidade.: (Ver o décimo nono versículo); e. O corpo é possessão de Deus (ver o vigésimo versículo); f. Tudo deve ser feito visando a glória de Deus (ver o vigésimo versículo). Como se podem derrotar os pecados sexuais? Paulo aconselha a fuga do pecado, tanto aqui como no trecho de I Cor. 10:14 (onde a mesma coisa é dita acerca da idolatria). É somente nesses dois trechos que Paulo fala em tais termos, em todas as suas epístolas. Existem alguns pecados poderosos demais para serem enfrentados diretamente, por demais enganadores ou por demais atrativos. Os pecados do sexo não podem ser derrotados enfrentando-os e lutando. O encontro com situações que provocam a tentação inevitavelmente leva à queda. Isso nos mostra quão sábio é evitar os filmes perversos, a literatura sensual, as produções teatrais, etc., porquanto tais coisas e espetáculos aguçam um apetite que inevitavelmente conduz à queda. E temos aqui, por semelhante modo, um poderoso argumento contra os contactos e carícias durante o namoro e o noivado, bem como contactos sociais por demais íntimos com outros, numa sociedade onde os padrões morais são bem frouxos. Compete-nos, portanto, evitar todos os contactos dessa natureza, todas essas tentações. Paulo
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    90 I CORÍNTIOS recomendaque «fujamos» dessas coisas. Porque, se não fugirmos delas, mais cédo ou mais tarde ocorrerá inevitavelmente a queda, porquanto nesse campo da sexualidade enfrentamos um inimigo que nos pode derrotar sem qualquer grande esforço. Não convém que enfrentemos frontalmente esse pecado, oferecendo-lhe resistência através da força da vontade. Nosso plano de batalha, nesse caso, consiste em fugir. E nessa fuga que fujamos para os braços de Cristo, desenvolvendo nele as virtudes morais positivas (ver Gál. 5:22,23), as quais nos protejerão dessa forma de pecados. A alma remida que permanece em comunhão com Cristo, através de seu Espirito, mediante a meditação, o estudo das Escrituras, a oração, e, idealmente, mediante as experiências místicas reais, perderá seu apetite pelas concupiscências carnais. Nesse processo de fuga (do mundo), para os braços de Cristo, podemos derrotar as paixões da carne, não havendo, na realidade, qualquer outro método através do que isso possa ser feito com sucesso. Paulo já havia declarado algo similar, com o mesmo sentido básico, na passagem de Rom. 13:14: «...mas revesti-vos do SenhorJesus Cristo, e nada disponhaispara a carne, no tocante às suas concupiscências». Assim sendo, não devemos freqüentar aqueles lugares, ler aquelas coisas, ter contacto com aquelas pessoas, que formariam provisões para as ações sensuais. Pelo contrário, «revistamo-nos do Senhor Jesus Cristo». Que seja ele o nosso revestimento espiritual. Que ele nos cubra e proteja com o seu sangue. Com esses pensamentos podemos comparar o ensinamento de Jesus Cristo sobre o adultério visual (ver Mat. 5:28). E também podemos confrontar a admoestação e censura de Simão Pedro, que diz: «...tendo olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes,...» (II Ped. 2:14). Existem homens que vivem em estado permanente de concupiscência, em razão do que vivem procurando sempre alguém com quem adulterar. Seus olhos percorrem a terça, procurando quem queira pecar em seguida com eles e a vitalidade de seus seres é desperdiçada nessa pervertida atividade. Conforme a tradução inglesa de Williams (aqui vertida para o português), os olhos dessas pessoas são «insaciáveis pelo pecado». Jamais ficam satisfeitas, sempre precisando de quem queira compartilhar de sua sensualidade. Tomaram-se escravos completos do sexo. Tais indivíduos, ao invés de fugirem dessa forma de pecado, buscam situações favoráveis para o pecado, sempre fazendo coisas que provocam o seu apetite. Tais homens não passam de escravos, e somente a ajuda «vinda do alto» poderá salvá-los. A fim de não nos tomarmos escravos dessa forma de pecado, precisamos fugir do inimigo. Se quisermos enfrentá-lo diretamente, através da força da vontade, seremos fatalmente vencidos e escravizados. O pecado da imoralidade é como um super-homem, insaciável e insano. O sexo descontrolado, na realidade, é um monstro insano. Sófocles, no diálogo de autoria de Platão, intitulado República (329), ao ser interrogado sobre como vinha manuseando as questões do «amor», retrucou: «Mui alegremente tenho ‘escapado’ do mesmo, e sinto como se tivesse escapado de um senhor louco e furioso». Sim, o sexo pervertido pode ser uma entidade assim, e feliz ê aquele que consegue escapar do mesmo. «Pecar ‘contra o corpo’ é defraudá-lo da parte que o mesmo tem com Cristo, é cortá-lo de seu destino eterno. Esse é o efeito da fornicação, em um grau sem-par... Aquilo que o apóstolo Paulo assevera sobre a fornicação, nega a respeito de qualquer outro pecado». (Robertson e Plummer, in loc.). «...pecado... fora do corpo...» Precisamos admitir que temos aqui uma frase difícil, porquanto não nos é dada qualquer explanação a respeito da mesma. É bem provável que isso signifique que todos os outros pecados, que não os de natureza sexual e imoral, ainda que de maneira relativa, mas não absoluta, sejam pecados que não prejudicam finalmente ao corpò e ao seu tencionado destino. Somente a perversidade sexual teria tal efeito. «...fora...», nesse caso, é palavra que significa algo como «sem efeito sobre o destino do corpo» (novamente falando apenas em sentido relativo). Por essa razão é que Alford (in loc.) comenta a respeito dessa questão como segue: «A assertiva do apóstolo é estritamente veraz. O alcoolismo e a glutonaria são pecados feitos no corpo e através do corpo, sendo praticados mediante o abuso do corpo, mas são coisas ‘introduzidas de fora’, pecaminosas em seu ‘efeito’, cujo efeito é dever de cada indivíduo prever e evitar. Mas a fornicação é a ‘a alienação daquele corpo que pertence ao Senhor, fazendo do mesmo, corpo de uma prostituta’; não é um ‘efeito’ sobre o corpo deles, com base na participação de coisas vindas de fora, mas antes, é uma‘contradição da verdade’ do corpo, proveniente ‘de dentro’ de si mesmo». É bem provável que Paulo concordaria com essa opinião de Alford. O que é inegável é que Paulo não subscreveria àquela filosofia que afirma que todos os pecados são igualmente maus, não havendo qualquer gradação de pecado. Gradações De Pecado 1. Alguns crentes, naqueles momentos que fazem experiências com a teologia popular, supõem que não há gradação no pecado. Noutras palavras, «pecado é pecado», dizem, «e todos os pecados são igualmente maus diante de Deus». 2. Essa opinião, entretanto, nega o princípio exarado em Rom. 2:6, que diz que cada indivíduo será julgado de conformidade com as suas próprias obras, e que o próprio crente será julgado segundo o que tiver praticado, de bom ou de mau, através do seu corpo (ver II Cor. 5:10). 3. Essa teologia popular também nega a base mesma da lei da colheita segundo a semeadura. (Ver as notas em Gál. 6:7,8). 4. A discussão sobre Rom. 1:24 e seu contexto, bem como o texto presente, parecem impor uma censura especial à imoralidade de natureza sexual. Essa forma de pecado desfecha um ataque especial contra o corpo, que é templo do Espírito. «A palavra ‘corpo’ deve continuar sendo entendida como termo que indica a ‘natureza humana inteira’, que é referida no décimo nono versículo, como templo do Espírito Santo. Outros pecados profanam os átrios exteriores do templo; mas esse pecado penetra até ao próprio Santo dos Santos, com sua imundícia mortífera— ‘Endurece ao íntimo e petrifica aos sentimentos’. Há uma profunda significação e uma grande verdade nas solenes palavras litúrgicas: ‘Da fornicação, e de todos os outros ‘pecados mortais’, ó bom Senhor livra-nos’». (Shore, in loc.). Mas também existem outras explicações sobre essas palavras, fora do corpo, conforme a lista que expomos abaixo: 1. Alguns pensam que as palavras «qualquer outro» devem ser compreendidas no sentido popular de «quase todo». Assim sendo, outros pecados podem ter um efeito tão adverso para o corpo como a imoralidade, podendo também ser «contra o corpo», sendo igualmente pecados feitos «no corpo» ou «contra o corpo», embora em um sentido secundário. 2. Outros pensam que a imoralidade polui «o corpo inteiro», ao passo que o efeito de outros pecados é apenas parcial, razão pela qual poderiam ser reputados (de maneira relativa) como praticados «fora do corpo», isto é, sem produzirem plenos efeitos perniciosos contra o corpo. 3. Ainda outros estudiosos imaginam que a imoralidade se torna um real tirano, dominando o corpo, com uma intensidade desconhecida no caso de outros pecados, o que significaria que sua relação para com o corpo é menos pronunciada, pelo que também poderiam ser considerados comopraticados «fora do corpo». 4. Finalmente, conforme Paulo mostrara antes, os contactos sexuais ilícitos levam o crente culpado a participar das energias vitais de ordem física e psíquica de uma mulher sensual (ver o décimo sexto versículo deste capítulo), o que resultaria em um mau efeito sobre o corpo. Nenhum outro pecado conseguiria atingir desse modo as próprias energias vitais, porquanto no caso de nenhum outro pecado há tal contacto com uma força maligna. É bem provável que esta quarta possibilidade expressei) sentimento que Paulo quis transm itir, embora as outras idéias talvez tenham alguma aplicação ao que ele tencionava dizer. «Os outros vícios são Conquistados pela luta; a concupiscência, pela fuga». (Anselmo). 19 η o v k otSare ό τ ι το σ ώ μ α κ α ί ο ύ κ eW è εαυτών;® jj t Question, e question: Jer 6:19: Ou não sabeis φιβ o vosso corpo é santuário do Espirito Santo, que habita em vis, o qual possuis da parte de Deus, e que não sois de vís mesmos? Este versículo encerra diversas importantes verdades que podem ser sumariadas como segue'. 1. Todos os crentes possuem a presença permanente do Espírito Santo neles. (Quanto a esse pensamento, confirmado e comentado, ver Rom. 8:9). Não pode haver salvação, sob hipótese alguma, nem fé, nem conversão, nem santificação, nem regeneração e nem transformação segundo a imagem de Cristo sem a agência do Espírito Santo e sem o entrelaçamento de sua natureza santa com a natureza humana. 2. O que fora dito antes, acerca da comunidade cristã, como templo do Espírito Santo (ver I Cor. 3:16 e ss.), em que a «igreja» aparece como santuário e lugar de habitação de Deus, no Espírito Santo, é dito aqui a respeito do crente «individual». A doutrina assim ensinada é que deve haver algum contacto real e vital entre o espírito humano e o Espírito de Deus; porquanto disso é que se constitui a salvação. Em outras palavras, a salvação ocorre mediante essa «experiência mística» com o Espírito do Senhor. É uma experiência «mística» porquanto através dela entramos em real contacto e intimidade com a natureza divina, não sendo isso apenas uma expressão simbólica. Na verdade, a energia divina se une à energia humana e a transforma. Deus, pois, mostra-se «imanente» em sua criação. ν μ ΐ ν α γ ίο υ π ν ε ύ μ α τ ό ς ε σ τ ιν , ο ΰ έ χ ε τ ε α π ό θ ε ο ΰ ,6 ASV ESV ΝΕΒ R) 3. Por causa dessa presença habitadora do Espírito Santo, o crente passa a pertencer inteiramente a Deus, ficando destinado a compartilhar da natureza divina. (Ver o décimo sétimo versículo deste capítulo). 4. Essa verdade, considerada em seu conjunto, subentende que o corpo (o «eu» inteiro), bem como qualquer porção do mesmo, não pode ser entregue a práticas pecaminosas, imorais. Tal combinação é simplesmente impossível. O indivíduo precisa escolher entre uma coisa e a outra. «...daparte de Deus...» Visto que Deus é o manancial último de todas as bênçãos espirituais, que nos são dadas por mediação de Cristo, através do Espírito Santo. (Quanto a isso ver os trechos de Efé. 1:3,4; Rom. 11:32). O Espírito de Deus é um presente dado aos homens, para que se concretize sua total salvação. Ora, o Espírito Santo não pode habitar em um santuário poluído, porquanto não pode realizar ali a sua obra. (Comparar com isso a Epístola de Bamabé iv.ll e vi. 16). Assim sendo, a presença permanente do Espírito Santo, o dom de Deus aos homens que visa a sua redenção espiritual, requer que o crente se separe do mal, tal como aprendemos em II Cor. 6:16. Essas palavras, «...da parte de Deus...», por conseguinte, mostram nossa total dependência para com o Senhor. Nossa realização espiritual é um presente divino, e não um produto do esforço humano. Essa é uma suposição fundam ental do sistema inteiro da graça divina, da soteriologia paulina. υ μ ώ ν ν α ό ς τ ο ΰ iv c' 19 e minor, e question: TR Bov Nes BF2 AV TT Zür Luth Seg H e question, e minor: WH RV 19 tò σ ω μ α ...εσ τιν 1 Cor 3.16; 2 Cor 6.16 1 9 (® €ou, . . * ΐα ν τίιϊν ;] ; .
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    I CORÍNTIOS 91 «...santuário...»No original grego encontramos o vocábulo «naos», que era aplicado ao «Santo dos Santos», em contraste com o termo «ieron», que se aplicava ao templo inteiro. É verdade, entretanto, que tais palavras gregas podiam ser empregadas como sinônimos, referindo-se ao templo inteiro e seus recintos. No entanto, parece que Paulo fez aqui alusão ao lugar mais íntimo do templo, o qual, no templo de Salomão, era o local onde se verificavam as manifestações da glória divina. Dentro da dispensação do novo pacto, entretanto, o crente é que é local dessa manifestação divina, sendo ele mesmo transformado pelo Espírito Santo, que ali habita. O crente é o santuário do Espírito Santo. É interessante que em I Cor. 3:16 a mesma palavra é usada para indicar o «templo», referindo-se à comunidade inteira da igreja cristã. «...corpo...», o santuário do Espírito Santo. Estão possivelmente em vista, nessa palavra, tanto «a personalidade inteira» como o «corpo físico», ambos os quais são ocupados pela energia divina. Ora, sendo assim a realidade dos fatos, o corpo do crente não pode ser entregue à imoralidade, porque o Espírito de Deus não pode habitar à vontade em um templo devotado às forças malignas. «.. .não sais de vós mesmos...» A presença do Espírito Santo no templo do corpo faz deste último propriedade exclusiva de Deus. Ê sua residência, lugar onde ele manifesta a sua glória. E assim o crente individual deixou de ser mera entidade humana. O indivíduo, ao entregar ao controle do Espírito de Deus o santuário de seu ser físico, na realidade cessou de excercer controle pessoal sobre o mesmo, deixando de ser seu próprio senhor Daí por diante, tudo quanto Deus planeja para a humanidade, na redenção que há no sangue de Cristo, torna-se potencialmente possível, e eventualmente se tornará uma radiosa realidade. Porém, nenhum indivíduo poderá atingir a esse elevadíssimo alvo enquanto quiser ser o capitão da sua própria alma. O crente, pois, em sua personalidade inteira, torna-se propriedade de Deus. (Ver os trechos de Atos 20:18 e Rom. 14:8, acerca desse pensamento). Vivendo ou morrendo, vivemos ou morremos para o «Senhor». Com essas idéias podemos confrontar as palavras de Epicteto, o qual disse: «Se fosses uma estátua de Fídias, pensarias tanto em ti mesmo como no artista; e procurarias nada fazer indigno daquele que te fez, ou de ti mesmo. Mas por que, visto que Zeus foi quem te fez, nem por isso cuidas em como te comportares? No entanto, o artista, em um caso, é como o artista no outro caso? ou a obra em um caso, é como a obra no outro caso?» Declarou ainda esse mesmo antigo autor: «Miserável! Levas Deus contigo, mas não o sabes. Pensas que me refiro a algum deus de prata ou de ouro? Carregas a ele contigo, dentro de ti mesmo, e não percebes que o estás poluindo com os teus pensamentos impuros e com teus feitos maléficos». (Discursos, ii.8). Por conseguinte, pertencemos a Deus, em face das seguintes considerações: 1. Por direito de criação; 2. Por direito de redenção; 3. Por direito de possessão; 4. Por direito de propriedade moral e espiritual; 5. Por direito da gratidão que nos convém é que essa possessão deve ser expressa (ver o vigésimo versículo, mais abaixo); 6. Por direito da obra expiatória de Cristo (ver também o vigésimo versículo); e 7. Por direito da possessão e habitação permanente do Espírito Santo (que é o aspecto ensinado neste décimo nono versículo). Aos diversos argumentos contrários à prática da imoralidade, por parte do crente, e que são sumariados no versículo anterior, Paulo acrescenta aqui essa idéia da possessão absoluta, por parte de Deus, do ser de cada crente. O corpo do crente pertence realmente a Deus, que é o seu remidor. Portanto, o crente não pode deixar o seu corpo ser usado para maus propósitos; o crente não tem «direito» algum de fazer tal coisa. O crente perdeu a «autoridade» sobre si mesmo. Ora, tal «autoridade» foi transferida para Deus, e a ele compete usar nossos corpos para o bem, ao passo que, nas mãos humanas, nossos corpos seriam inevitavelmente usados para o mal. 20 ηγοράσθητβ γάρ τιμής· δοξάσατε δη τον Oeòv iv τώ σώματι ΰμών2. 2 20 {A ) υμών ρ * Ν Α Β C* D* G 33 81 181 629 1739* 1877 1962 Ι“ ·6»3it*r'd· Vg (·0ρ-'1!ι1 ''f;,v eth Irenaeuslat Tertullian Origen Cyprian A dam antius M ethodius Ambrosiaster Lucifer Basil Didym us Cyril Euthalius John-D am ascus // υμών καί èv τω ττνβΰματι υμών arm // υμών καί 20 ήΎ οράσθητβ y à p τιμ ή ς 1 Cor 7.23; 1 Pe 1.18-19 δο ξά σα τε...υμ ώ ν Php 1.20 l 6 l l : kv τώ π νίΰμ α τι ΰμών, άτινά ίσ τιν του θΐοΰ C3 D° Κ Ρ Ψ 88 104 326 330 (436 omit second υμών) 451 614 630 (1241 1881 ημών for first υμών) 1739m B 1984 1985 2127 2492 2495 Byz L ed syrPih Chrysostom Theodoret 20 δοξασατί δϊ/l om δη K* d I r : δο£. ουν syp sa: apa ye So£. ξ. δη, apare Chr: glorificate et porlate lat Mcion (Tert) {i.e. apare ex apa ye ?) | Entre as diversas variantes que envolvem δή temos (a) a interessante expansão, preservada em testemunhos latinos (it (g) vg Márciom (Tertuliano) Cipriano Lúcifer Ambrosiastro Especulo at), Glorificate etportate Deum in corpore vestro («Glorifkai e portai a Deus em vosso corpo»). Aparentemente essa forma surgiu (no grego) quando apa ye foi tomada erroneamente por apare (ΔρΛ[-€ : ΛρΛτε). Outras variantes incluem (b) ovv, sir (p) cop (sa) Pseudo-Atanásio; (c) apa ye antes de δοξάσατί, 1611; (d) δή apare, Crisóstomo; (e) omissão de qualquer partícula, X* it (d) sir (h com*) cop (bo). Embora a comissão reconhecesse que à cláusula pode ter faltado originalmente um conectivo, e que, subseqüentemente, o anacoluto abrupto foi remediado pela adição de uma ou outra partícula, a evidência esmagadora em apoio de δή (p46 Na A B C D F G K L P e quase todos os minúsculos) exige que seja considerada como o texto mais remoto a que se pode chegar definidamente (embora Paulo em parte alguma tenha usado essa partícula). O Textus Receptus, seguindo vários dos unciais posteriores e a maioria dos minúsculos (C (3) D (c) K L P f 1 31 88 915 sir (p,h)) adiciona, após ΰμών --------- as palavras και ev τω ττν6νματι υμών άτινά άστι τον Oeov.Que essas palavras sejam uma glosa, sem nenhuma reivindicação à originalidade, fica claro através de (a) o decisivo testemunho dos mais antigos e melhores manuscritos em apoio à forma mais breve (p46 X A B C* D* F G 3 3 81 1739* itvg cop (sa,bo,fay) etí Irineu (lat) Tertuliano Origenes Cipriano at), e (b) a natureza da própria adição (não é necessária para o argumento, que diz respeito à santidade do corpo, sem fazer menção ao espírito). As palavras foram inseridas aparentemente com o desejo de suavizar o caráter abrupto da declaração do apóstolo, e estender o alcance de sua exortação. 6:20: Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo. As palavras «...comprados por preço...» expressam um tema extrema­ mente comum nas páginas do N.T., referindo-se sempre à «expiação» operada pelo sangue de Cristo, em que Cristo nos «comprou novamente» do mercado de escravos do pecado. (Quanto a essa verdade, ver especialmente os trechos de I Ped. 1:18,19 e Atos 20:28). O preço pago foi o sangue de Cristo, que simboliza tudo quanto Cristo Jesus fez por nós, em sua morte expiatória pelos pecadores. E dessa maneira Cristo nos libertou dos nossos pecados, liberando-nos de nossa lealdade ao pecado, de nossa escravidão ao pecado. Cristo também rompeu o domínio das forças malignas sobre nós, às quais estávamos sujeitos, exatamente porque éramos homens decaídos, vivendo em uma esfera de decadência espiritual, à qual chamamos de terra. (Ver Col. 2:15). Por essa razão é que lemos a respeito de Jesus Cristo: «...foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação» (Apo. 5:9). (Quanto a notas expositivas completas sobre a natureza da «expiação», ver Rom. 5:11. Quanto à verdade bíblica da «propiciação», ver Rom. 3:25. Quanto ao ensinamento bíblico da «expiação pelo sangue», ver também Rom. 3:25. E quanto à «redenção», ver Rom. 3:24 e I Cor. 1:30). A expiação dos nossos pecados também é verdade expressa na Bíblia nos termos de resgate. (Ver os trechos de Marc. 10:45; I Ped. 1:18,19). A passagem de I Cor. 7:23 subentende a mesma verdade, mas emprega a figura simbólica da servidão. Segundo essa ilustração, o escravo (o pecador) é remido e libertado; mas passa a pertencer a um novo senhor. Antes, pertencíamos ao nosso pai, Satanás; mas fomos libertados de seu domínio, que se estende aos corpos dos homens e ao sistema do mundo inteiro, o ambiente no qual vivemos. Em lugar algum, entretanto, as Escrituras ampliam a figura simbólica aqui referida a fim de dar a entender que «Satanás» recebeu o preço da redenção ou resgate. Essa tão absurda idéia, entretanto, tem sido ensinada aqui e acolá durante quase todo o decurso da história eclesiástica, especialmente na chamada Idade Média. A satisfação foi antes dada a Deus, e a nenhum outro, e tudo foi aceito na pessoa do Amado, o Filho de Deus. (Ver Efé. 1:6). Portanto,preço, «resgate», e «mercado de escravos» são diferentes metáforas empregadas pelo apóstolo dos gentios, das quais não podemos extrair todos os seus pensamentos espirituais paralelos. O sentido de «preço» é claro, como também são claros os sentidos de «resgate», de livramento da servidão, da satisfação dada a Deus. Porém, não nos cabe indagar aqui para quem foi pago esse resgate, isto é, se a Deus ou a Satanás, como se fôssemos forçados a satisfazer a alguma exigência que requeira o sofrimento às mãos de Cristo, a fim de satisfazer a alguma magnificente sede de vindita. Levar a doutrina da redenção, em seus aspectos simbólicos, a extremos como esses, é prejudicar tal doutrina. (Quanto a notas expositivas sobre o conceito de «resgate», ver os trechos de Mat. 20:28 e I Tim. 2:6). O ato de comprar, de pagar um resgate, subentende com grande clareza o direito de possessão e de controle daquilo que foi assim adquirido; e esse era justamente o ponto que Paulo procurava frisar aqui. O corpo do crente, comprado pelo Senhor, ao preço do seu sangue, pertence a ele, como a ele pertence a personalidade inteira do crente. Portanto, nosso corpo deve ser dedicado ao serviço e à glória do Senhor Jesus. Assim, pois, aos diversos argumentos contrários às práticas imorais, que envolvem os corpos dos crentes (sumariados no décimo oitavo versículo deste mesmo capítulo), ainda um outro argumento é aqui adicionado. O
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    92 I CORÍNTIOS direitode possessão absoluta é um direito exclusivo de Deus. O corpo do crente, por conseguinte, não pode ser utilizado como instrum ento de práticas imorais, como se esse corpo pertencesse a alguma força maligna e degradante. «O resgate foi da servidão ao pecado, da maldição imposta pela lei, bem como do poder de Satanás (comparar com os trechos de Rom. 6:17 e ss.; Gál. 3:13; Col.-1:13 e Atos 26:18). Ora, esse resgate foi feito por certo ‘preço’, a saber, o seu ‘sangue’. (Ver Mat. 20:28; I Ped. 1:18). Deixando de lado a mera significação da palavra, mas observando o que nela está envolvido, chegamos ao mui im portante pensamento que o preço foi altíssimo e que o resgate foi caro... Essa expressão ocorre em I Cor. 8:23, mas onde, tal como em Atos 20:28, Cristo é apresentado como o possuidor». (Kling, in loc.). «...glorificai a Deus no vosso corpo...» Essa é a inferência prática tanto deste versículo como desta secção inteira. Essa glorificação deve ser dada em forma de palavras, mas também deve incluir feitos de ação de graças. (Ver I Cor. 10:31, que diz: «...fazei tudo para a glória de Deus»). Esse conceito inteiro de dar glória a Deus é comentado em Rom. 16:27. «O aspecto da adoração a Deus se manifesta através de uma vida completamente dedicada ao seu serviço». Tal dedicação eliminará a servidão ao pecado, incluindo o pecado da imoralidade. Por conseguinte, Paulo ajunta ainda uma outra razão pela qual o crente não pode ocupar-se de tais práticas. O presente capítulo expõe muitas dessas razões, e uma nota de sumário aparece no começo dos comentários sobre o décimo oitavo versículo deste capítulo. A glória conferida a Deus é temporal. Ê agora a principal preocupação da vida. «E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai» (Col. 3:17). Mas essa atitude se estende também pela eternidade afora, visto que as ações morais da vida do crente servem para transformar-lhe a alma para ocupar-se de um serviço mais elevado e muito mais glorioso. Não obstante, o alvo permanece o mesmo, a saber, a glória de Deus. Isso expressa uma grande verdade, pois, quando damos glória a Deus, nós mesmos somos glorificados em Cristo, já que somente nesse estado podemos ser feitos o meio exaltado de glorificar o seu nome, conforme se espera de nós que façamos. (O trecho de Rom. 8:29,30, bem como as notas expositivas ali existentes, descrevem a natureza dessa glorificação). É visando a glória de Deus que experimentamos a glorificação, o que redunda em seu louvor; e isso significa que tanto o Senhor, como nós mesmos, somos beneficiados. Assim sendo, a finalidade da vida, o seu propósito mesmo, é a glória de Deus, é o desfrutamento de Deus, por parte do crente, para sempre. Somente quando glorificamos verdadeiramente a Deus é que podemos encontrar nosso bem e destino mais elevados. Ser alguém transformado segundo a imagem de Cristo redunda em glória para Deus, sendo essa a maior glória que um homem pode fazer redundar para Deus, já que isso é realmente agradável para o Senhor. É para glória de Deus que seremos finalmente glorificados. Assim sendo, a glória conferida a Deuí é"sempre benéfica para os homens. Porquanto os decretos de Deus são todos benéficos e benignos, e jamais de natureza destrutiva, como também são sempre altruístas, e nunca egoístas. Por essa razão é que as Escrituras dizem com toda a verdade: «Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito...» (João 3:16). «...no vosso corpo...» Porque o corpo físico é agora o instrumento de que dispomos para a glorificação de Deus, sendo esse o grande tema da presente passagem. O corpo é que deve ser usado no serviço de Deus, e não utilizado para finalidades imorais. O corpo do crente pertence a Deus, e não a forças malignas. O corpo do crente será redimido, tornando-se um veículo eterno da glória de Deus, sem importar se pensamos nele como uma entidade física ou cómo representante do ser inteiro do crente. Contudo, a entidade física é enfatizada neste versículo. Com este versículo se pode comparar o trecho de Rom. 12:1,2, onde o corpo também aparece como o instrumento da dedicação dos crentes a Deus, e onde o corpo é usado como o «símbolo» da dedicação da pessoa inteira do crente ao seu Senhor. Variante Textual: «...no vosso corpo e no vosso espírito...» é como o texto aparece em alguns manuscritos antigos, como C(3), D(2), as versões latinas k, 1 e p, e nas traduções AC e KJ. Porém, todos os manuscritos realmente antigos, como P(46), Aleph, ABC(1)D(1)EFG, omitem essas palavras, no que são seguidos pelas outras doze traduções não mencionadas aqui, mas que foram usadas para efeito de comparação por este comentário. (Quanto à identificação dessas traduções, ver a lista de abreviações na introdução geral ao comentário). As palavras, «e no vosso espírito» representam uma glosa escribal, cujo intuito é o de enfatizar a personalidade humana inteira, como a esfera e o agente da glória de Deus. Porém, embora isso represente uma verdade, não é o que Paulo salienta aqui. Não obstante, a verdade que ele destaca é similar, embora ele tenha empregado somente o termo «corpo» para expressar a agência do homem para a gloria de Deus. Paulo aponta aqui para os crentes de Corinto (e para nós também) o caminho real da autêntica dedicação das faculdades totais do crente, para a glória de Deus, o que também redunda na própria glorificação dos crentes, em Cristo Jesus. Mas aqueles crentes de Corinto, em seu egoísmo, vinham fazendo do próprio «eu» o centro de todas as suas atividades, algo fatal para todo aquele que se diz crente. Epicteto se insurgiu contra as concupiscências e contra os excessos praticados pelanatureza mortal. Vale a pena acompanhar a bela passagem desse autor, que ilustra bem a idéia expressa neste sexto capítulo da primeira epístola aos Coríntios, extraída de seu Manual (3,11): «Uma vez que um indivíduo possua o objeto desejado por alguém, passa a exercer controle sobre o espirito desse alguém e este último passa a ficar escravizado ao primeiro. Em conseqüência disso, a fim de ser evitada essa vulnerabilidade, é mister que o indivíduo impeça que essa situação se transforme em realidade, tomando-se independente, não somente com respeito às coisas impessoais, mas, igualmente, no tocante às pessoas. Exercita-te, pois, naquilo que está ao teu alcance.O senhor de cada indivíduo é o homem que tem autoridade sobre aquilo que deseja ou não, evitando uma coisa ou tirando outra. Por conseguinte, que aquele que almeja ser livre, não deseje qualquer coisa e nem evite coisa alguma que dependa de outrem, porque, de outra maneira, estará destinado a ser um escravo. Algumas pessoas se deixam escravizar às emoções imperiosas, como o sexo, conforme observou Menandro: ‘Uma jovem sem qualquer dignidade fez de mim um escravo, embora nenhum adversário me tivesse podido subjugar’. As práticas sexuais podem atingir tais extremos de tirania que, quando assim sucede, poucos, ou mesmo ninguém, podem escapar sem ficar com cicatrizes. Epicteto indaga: ‘Quando uma jovem bonita te exauriu as forças, porventura conseguiste escapar ao justo castigo?’ Ê necessário que todos exerçam uma vigilância eterna, para escaparem das seduções do sexo: e essa vigilância só pode ser cultivada mediante práticas hígidas, que se desenvolvem em hábitos firmes e protetores. Epicteto demonstrou a sua técnica como segue: ‘Portanto, se não desejas tomar-te colérico, não alimentes o hábito do aborrecimento, para não alimentares ainda mais a fogueira. Para começar, conserva-te tranqüilo, e conta os dias em que não cederes à ira. Eu costumava irar-me todos os dias; então, um dia sim, e outro não; então, de três em três dias; e, finalmente, de quatro em quatro dias. Mas, se conseguires passar calmo durante trinta dias, então oferece um sacrifício a Deus; portanto, primeiramente o hábito é enfraquecido, e em seguida é totalmente destruído. Quanto a mim, consegui sentir-me liberto da ira pelo espaço de um dia, e também no dia seguinte; e, depois, por dois ou três meses a fio. E, se porventura surgiam motivos para eu irar-me, cuidava zelosamente por abafá-los. Devo reconhecer que é mister fazer isso com grande domínio próprio. Hoje, quando vi uma bela mulher, não disse para mim mesmo: Oxalá que ela fosse minha!' ou: ‘Feliz é o seu marido!’ Porquanto aquele que assim afirma, também está inclinado a dizer: ‘Feliz é o adúltero!’ Por semelhante modo, não me ponho a imaginar a cena que se poderia seguir: a mulher se despiria e se reclinaria ao meu lado. Nesse caso, eu daria palmadinhas em minha própria cabeça e diria: ‘Bravo, Epicteto, acabas de rejeitar uma bela falácia, muito mais bela que o chamado Mestre. E ainda que a pobre mulher, coitada dela! se sentisse desejosa, fizesse acenos e me solicitasse a estar com ela, chegando mesmo a tocar em mim e achegar-se mais para perto de mim, ainda assim eu me conservaria indiferente, e seria vencedor...Isso é ★ ★ ★ algo de que alguém poderia sentir-se realmente orgulhoso...Ora, como é que esse feito pode tomar-se realidade? Pelo menos toma tu a resolução de agradar ao teu verdadeiro ‘eu’; toma a resolução de pareceres nobre aos olhos de Deus; fixa os teus desejos na disposição de te tomares puros em presença de teu puro ‘eu’, e na presença de Deus. A Resignação «Ê necessário que o indivíduo estabeleça a paz consigo mesmo, entrando em harmonia com o mundo. Jamais deve perder de vista o fato de que ele é um mero mortal humano, animal, vegetal, etc. Se alguém conservar-se permanentemente no reconhecimento dessa verdade básica e simples, então a sua alma será capaz de controlar-se quando outros estiverem perdendo a compostura e o controle próprio. Entre as muitas coisas capazes de tomar um homem vulnerável, destaca-se o amor. Como exemplo disso, consideremos o homem que ama profundamente à sua própria esposa. Esse homem estará sujeito a sentir-se extremamente angustiado no caso do falecimento dela. A vida pode tomar-se insuportável quando ficamos separados de seres amados; em conseqüência, a fim de fortificar-se como o aço, em face de tais circunstâncias, o indivíduo precisa lembrar-se incessantemente da natureza perecível da vida e das atividades humanas. ‘Quando qualquer coisa, desde as mais vis até às mais excelentes, se fizer atrativa e útil para ti, ou tomar-se objeto de tuas afeições, nunca te olvides de perguntar a ti mesmo: Qual é a sua natureza?! Se por acaso gostas muito de uma jarra, diz para ti mesmo que aprecias muito aquela jarra, e então não ficarás perturbado se a mesma vier a quebrar-se. Se osculares a um filho teu ou à tua esposa, diz para ti mesmo que estás beijando um ser humano; pois então, se porventura a morte desfechar o seu golpe, não ficarás aflito’. Em outras palavras, se alguém conservar-se na completa consciência do fato que, nesta vida, nada é permanente ou imutável, então mais facilmente poderá resignar-se ante qualquer ocorrência desagradável que o envolva. Não obstante, essa atitude só deve ser tomada quando os objetos e as circunstâncias estiverem além da capacidade do indivíduo em altera-los. Por outro lado, o homem pode assumir uma outra atitude, diferente da que é aconselhada acima, a qual é igualmente eficaz no manuseio das tragédias: ‘Jamais digas a respeito de qualquer coisa: Eu a perdi. Pelo contrário, diz: Eu a devolvi. Teu filho morreu? Foi devolvido. Tua esposa faleceu? Foi devolvida. Tuas propriedades te foram arrebatadas? Porventura não foram também elas devolvidas? Mas, talvez objetes: Aquele que as arrebatou de mim é um homem iníquo. Porém, que te importa a pessoa através de quem o grande Doador pediu-te algo em devolução? Enquanto o grande Doador permitir-te ficar na posse de alguma coisa, cuida dela, mas não como tua própria; antes, trata-a como os viajantes tratam de uma hospedaria’». (Seleções extraídas de Epicteto, com comentários, do livro intitulado Realms of Philosophy, William S. Sahakian, Schenkman Pub. Co., Cambridge, Mass., Estados Unidos da América do Norte, 1965). Capftulo 7 III. Imoralidade, Êtica Geral e os Padrões do Cristianismo (I Cor. 5:1-7:40). 5. O Matrimônio e o Celibato (7:1-40). Há três capítulos desta epístola (quinto, sexto e sétimo) que abordam sobretudo os problemas do sexo. Primeiramente, Paulo aborda alguns profundos problemas morais, uma imoralidade desenfreada, na igreja de Corinto (quinto capítulo). Ê ordenada a
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    I CORÍNTIOS 93 exclusãodo indivíduo culpado, do rol de membros daquela igreja. Porém, isso não subentende que os crentes devam retirar-se do mundo, onde uma grande porcentagem dos seres humanos está envolvida em alguma modalidade de perversão sexual. (Ver I Cor. 5:9-12). Já o sexto capítulo desta epístola ataca os tipos ordinários de imoralidade, incluindo os contactos sexuais com as prostitutas, de natureza religiosa ou secular. E daí podemos tirar a conclusão que uma regular porcentagem dos membros da igreja cristã de Corinto ainda não conseguira libertar-se dos costumes sexuais abusivos, tão comuns nas culturas pagãs, e que prevaleciam especialmente na cidade de Corinto. A imoralidade é uma prática impossível para o crente sério e convicto, porquanto o seu corpo é o templo do Espírito Santo nesta vida. (Ver o décimo nono versículo do sexto capítulo desta epístola). Além disso, o corpo do crente é passível de glorificação, quando da ressurreição (ver o décimo quarto versículo desse mesmo capítulo), o que significa que não pode ser empregado para satisfação de prazeres sensuais mundanos e pervertidos. (O décimo oitavo versículo do capítulo anterior nos fornece um sumário dos argumentos expostos por Paulo contra a prática da imoralidade, por parte dos crentes). Houve abundante correspondência epistolar entre os crentes de Corinto e o apóstolo dos gentios, e vice-versa. Em Corinto se havia disputado acerca das questões sexuais, acerca do matrimônio e acerca do celibato. E aqueles crentes tinham escrito para Paulo, indagando a respeito desses itens. (Ver o primeiro versículo deste capítulo). E isso nos permite ver que houve farta correspondência entre esse apóstolo e os crentes de Corinto, numa e noutra direção; e que as nossas atuais primeira e segunda epístolas aos Coríntios representam apenas uma porção dessa correspondência. Em I Cor. 5:9 há menção de uma epístola enviada por Paulo aos coríntios, que precedeu ao material apresentado nesta primeria epístola aos Coríntios. O trecho de II Cor. 10:9-11 indica que Paulo já tinha enviado diversas missivas para aqueles crentes. E essa própria segunda epístola aos Coríntios não se compõe de uma única carta, mas antes, mui provavelmente consiste da combinação de pelo menos três missivas, as quais não foram preservadas para nós em sua ordem cronológica. Como exemplo disso, os capítulos décimo a décimo segundo representam uma «carta severa» c[ue certamente fora enviada antes dos atuais capítulos primeiro a nono, visto que o tema daquela carta severa retoma ao penodo em que os graves problemas surgidos na congregação de Corinto ainda eram críticos, quando ainda não haviam encontrado solução. No entanto, os capítulos primeiro a nono dessa nossa atual segunda epístola aos Coríntios mostram-nos que tais problemas haviam encontrado solução parcial, e que a atuação de Tito entre aqueles crentes, como representante de Paulo, fora eficaz; e essas condições certamente se seguiram àquilo que é descrito nos capítulos décimo a decimc segundo. (Quanto a um estudo completo acerca desse problema em geral, onde várias idéias são ventiladas, ver as introduçõesàprimeiraeàsegundaespístolas aos Coríntios, no ponto IV de cada uma dessas introduções). Existem dois pontos extremos e radicais acerca do problema do sexo. Pode haver abusos de duas maneiras radicais, a saber: 1. Pelo uso excessivo epromíscuo. (Ver os capítulos quinto e sexto desta epístola). 2. Pela prática do ascetismo ou celibato forçado. (Ver este sétimo capitulo). E até mesmo entre pessoas casadas pode surgir tal abuso, môiiante a abstinência por parte de um dos cônjuges, ou por parte de ambos, por supostas razões espirituais, o que pode conduzir a resultados desastrosos, se for experimentado por mui prolongado período de tempo. (Ver I Cor. 7:3-5). Portanto, esses dois abusos extremos são o libertinismo e o ascetismo. Ambos esses abusos podem ser vistos na religião organizada, porque, na realidade, com freqüência são aberrações religiosas. Os versículos trinta e seis a trinta e oito deste capítulo falam sobre esta última tendência. Ligação da moralidade cristã com a «parousia», ou segundo advento de Jesus Cristo. Este sétimo capítulo, em sua inteireza, é ^ominado pelo senso de expectação da vinda iminente de Cristo. Portanto, podemos afirmar com certa margem de segurança que a responsabilidade para com as crianças e para com as gerações vindouras não entravam claramente nos cálculos do apóstolo Paulo; porquanto ele realmente não esperava que a era da igreja se estendesse por tantos séculos como tem sucedido. Assim sendo, o matrimônio podia ser visto como uma ação de sabedoria duvidosa, porquanto tenderia por obscurecer a visão espiritual de um crente, visão essa cjue, bem pelo contrário, deveria ser resplendente, especialmente se levarmos em conta que não se passaria muito tempo até a volta de Cristo. Assim sendo, este sétimo capítulo se mostra um tanto unilateral, ou mesmo de pernas para o ar. Talvez tivesse sido útil incluir aqui algumas das supostas vantagens espirituais do matrimônio. Mas Paulo mesmo era celibatário, possuidor de natureza e inclinações para o celibato. E isso contribuiu para ele fazer aplicações que simplesmente não podem ser aplicadas à igreja cristã em geral, e nem mesmo aos ministros da Palavra, simplesmente porque é ínfima a minoria que pode seguir com êxito essa forma de ascetismo, por mais nobres que sejam os seus alvos e ideais. No entanto, o presente texto tem sido aplicado de maneira geral à igreja cristã, sendo usado como texto de prova da prática do celibato para os ministros da Palavra. E o triste resultado dessa aplicação geral tem sido que muitos desses ministros ou supostos ministros não se casam, numa proporção que talvez inclua a maioria deles, embora isso não signifique, sob hipótese alguma, que nunca experimentem relações sexuais ilícitas. Tais ministros, pois, tomam-se alvos diretos da censura constante no sexto capitulo desta epístola, a despeito de estarem supostamente pondo em prática os elevados ideais deste sétimo capítulo. A história da crístandade, desde que o celibato foi decretado como obrigatório para o clero (imposto no tempo do papa Gregório o Grande, no ano de 604 d.C., sobre os sacerdotes da Igreja Católica Romana), tem demonstrado abundantemente a falácia de tal imposição. Pois os chamados ««padres» celibatários na realidade não vivem como tais; e a minúscula minoria que se mostra fiel a seus votos não pode comprovar o valor dessa prática, em face dos maus exemplos em contrário dados por uma maioria esmagadora. E isso é tanto verdade que desde algum tempo vem aumentando cada vez mais a grita dos proprios sacerdotes católicos-romanos em favor da suspensão dos votos de celibato para sua ordem, o que se tem manifestado não apenas em uma ou outra região do mundo, mas por toda a parte por onde se têm espalhado os padres católicos-romanos. Ê verdade que o celibato tem um valor indiscutível para aqueles chamados por Deus para tanto, como foi o caso do apóstolo Paulo. Mas essés chamados formam uma minoria ínfima e quase invisível, porque o chamamento para o celibato não depende da ordenação de um homem ou de uma mulher para seguir algum cargo ou ordem religiosa. Por essa razão, o celibato jamais deveria ter sido imposto como uma condição para os ministros. Antes, deve permanecer como questão de escolha pessoal e voluntária, que é obviamente a maneira como Paulo enfrenta a questão, neste sétimo capitulo. E, assim sendo, este capítulo acaba se transformando em uma reprimenda contra o celibato obrigatório, longe de sancioná-lo. E aquilo que supostamente é um ««texto de prova» em prol da obrigatoriedade do celibato, é um «texto de prova» contra a sua obrigatoriedade. 7 Ile p l δε ών άγράφατε, καλόν άνθρώττω γνναικος μη ατττζσθαι· 7. ι ΐγραφατϊ] adi μοι ADG pi vg3· 01 sy co Or 7:1: Ora, quanto às coisas de que me escrevestes, bom teria que o homem não percebendo a força destruidora representada pela promiscuidade sexual, tocasse em mulher; tanto no mundo como até mesmo no seio da igreja cristã, vinham advogando o celibato. (Com isso se pode comparar o trecho de Mat. 19:10, , palavras «...Quanto ao que me escrevestes...» mostram-nos que onde os apóstolos chegaram à mesma posição, tendo ouvido, dos lábios de houvera alguma especie de correspondência anterior entre Paulo e aqueles Jesus, como as leis estritas sobre o matrimônio e o divórcio precisavam ser crentes de Corinto. (Ver a exposição sobre essa questão, na introdução ao cumpridas mediante uma ética verdadeiramente piedosa. No entanto, de presente capitulo, e, com mais minúcias ainda, na introdução a este livro, forma muito semelhante àquilo que Paulo diz aqui, Jesus retrucou: «Nem na secção IV, intitulada, «Correspondência de Paulo com Cor