Tilley, Chris. 2014. Do corpo ao lugar
à paisagem: uma perspectiva
fenomenológica
Christopher Y. Tilley [1955-2024] was a British archaeologist known for his contributions to
postprocessualist archaeological theory. He retired as Emeritus Professor of Anthropology
and Archaeology at University College London in 2022.
Tilley is credited with introducing phenomenology into archaeology with his 1994 work A
Phenomenology of Landscape. Phenomenology in archaeology entails the 'intuitive' study of
material things, especially landscapes, in terms of their meanings to people in the past, and
has been influential in both Britain and the United States
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• Introdução
• Ponto de partida para qualquer análise fenomenológica é por em questão as
crenças, os dogmas do senso comum ou “atitude natural”
• Fenomenologia: se propõe revelar o mundo como ele é de fato, experenciado
pelo sujeito, de modo direto, e não como poderíamos, pela via teórica, supor
que ele é.
• O objetivo da fenomenologia não é explicar o mundo, mas descrevê-lo, o
mais precisamente possível, nos conformes em que os seres humanos o
experienciam. Tal descrição pode levar a novos insights e novos
conhecimentos sobre o que há no mundo e como ele afeta a consciência
humana, e vice-versa.
Introdução
• Fenomenologia não é homogênea
• Recorte em Merleau-Ponty e alguns intérpretes inspirados em sua obra
• ênfase na experiência como experiência de algo a partir de um ponto de vista
do corpo
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• A carnalidade da experiência
•Merleau-Ponty: se baseia na fisicalidade e na existência material do corpo
humano no mundo
• Desse lugar primordial fluem toda nossa experiência, compreensão e
conhecimento do mundo
•Defende uma posição materialista contrária a qualquer forma de idealismo ou
intelectualismo que tente situar ou compreender o mundo a partir de um
espírito descorporificado
•Porque as pessoas são objetos físicos, são capazes de perceber o mundo
• O significado ou a racionalidade depende da percepção do corpo-sujeito. A
percepção constitui o vínculo, ou contato entre a consciência e o mundo no qual
os significados surgem
•Merleau-Ponty propõe que se transceda o dualismo espírito/corpo e o
objetivismo que reduz o corpo a um objeto mecânico. Para Meleau-Ponty, o
corpo é ao mesmo tempo sujeito e objeto
• Assim é possível dizer que a subjetividade é fruto da objetividade, e vice-versa.
Nossa experiência do mundo é uma combinação das duas esferas
A carnalidade da experiência
• Apesar dessa existência inevitavelmente material, o corpo é diferente de outras
coisas físicas que existem. Nós não somos capazes de experienciar nosso corpo como
simplesmente uma outra coisa, ainda que a fisicalidade de nossos corpos sejam os
agentes estruturadores de como experienciamos as coisas, os lugares e as paisagens.
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• As díades corporais: estruturas elementares da experiência corporificada
•As experiências do mundo se dão a partir do meu corpo (direita/esquerda;
cima/baixo) e é através dessa experiência corporificada que interpreto outros
aspectos do mundo (felicidade/pra cima; tristeza/ pra baixo) e experiencio e retrato as
paisagens (frente e trás de uma vila)
• Apesar de variações do modelo, entre as diferentes formas de experenciação se vê
que as mesmas estão associadas com a posição relativa do corpo no lugar (diferentes
modos de experienciação corporal)
• Lugares e paisagens concebidos a partir da relação com o corpo
• Nós ordenamos lugares e seus significados a partir de nossos corpos
• A experenciação do mundo em termos duais está enraizada em nossos corpos
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• A Percepção
• O mundo é experienciado e percebido por meio do corpo. Logo essa é uma
experiência antes encarnada que abstrata
• O mundo que existe é o mundo que existe para o sujeito, sendo aquele
continuamente definido e redefinido em relação a este
• Assim essa percepção e experiência do mundo ocorre primeiro através do corpo,
anteriormente a qualquer pensamento abstrato ou intelectual
• Esse modo de perceber não é inato, mas adquirido ao longo da vida
• Como as percepções variam com contexto e tempo, “As coisas e os lugares, como as
pessoas, são seres temporais”.
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• Sinestesia: a fusão dos sentidos
• A percepção envolve o uso simultâneo dos sentidos. Contribuem para a nossa
experiência como um todo
• Cada sentido tem um alcance (distância diferente), mas nenhum é mais abstrato ou
físico que o outro. E o engajamento com o mundo não depende da proximidade.
• Não estamos simplesmente expostos a dados sensoriais, é uma interação
corporificada com m mundo. Nós vemos com todo o corpo a partir do momento que
pensamos com o nosso corpo, ao invés de somente com uma parte dele
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• Defrontando-se com o mundo: a tese da reversibilidade
• Não existe dualidade entre sujeito e objeto, do que toca e do que é tocado, pois
ambos formam uma unidade.
• O ato de perceber o mundo vincula o sujeito ao todo do qual ele ou ela já faz parte
• Há uma relação de identidade e continuidade entre o que toca e o que é tocado,
mas também de assimetria e diferença
• Percepção, portanto, envolve reciprocidade entre o corpo e o mundo em um
contínuo intercâmbio entre os dois
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• Participação: animismo e antropomorfismo
• Totemismo, antropomorfismo e animismo são partes da relação corporificada com
as coisas e com o mundo
• Uma lógica concreta e sensorial, ao invés de abstrata
• Não é algo pertencente a determinado grupo ou sociedade, que estaria em estado
pré-lógico. Na sociedade moderna, relações semelhantes apenas mudaram os objetos
que entram na lógica animista. Nesse sentido, todos somos animistas primitivos
• “Coisas, lugares e paisagens nos influenciam, alteram nossa consciência, Constituem-
nos, além de nós mesmos. Nesse sentido, eles não estão radicalmente divorciados de
nós”
• A participação é um definidor de atributos em todas as percepções
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• Metáfora e Metonímia
• Metáfora e metonímia é uma forma corpórea e sensorial de relacionar o ser (self) e a
cultura ao mundo
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• Natureza e Cultura
• Concepções filosóficas sobre natureza e cultura
• Linha empirista: a natureza é vista como a soma dos elementos inalterados do
ambiente.
•Linha idealista: percebida como o que está “lá fora”, novamente em oposição à
humanidade, é a matéria transformada no fluxo da história e das atividades práticas.
O natural é definido pela cultura e pela tradição, um produto que decorre do espírito
reflexivo
• Assim, a natureza ora é vista como um objeto inteiramente externo, ora uma
representação internalizada.
• Fenomenologia: natureza é a relação corporificada que se estabelece entre um
mundo externo e pré-existente – e, nesse sentido “natural” – e o corpo.
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• Da paisagem ao lugar e de volta outra vez
• Paisagem: algo vivido, mediado, trabalhado e alterado, repleto de significado e
simbolismo, não apenas algo para se olhar ou se pensar, objetos voltados apenas à
contemplação, representação e estetização.
• Conjunto percebido e incorporado de relações entre lugares, a estrutura do
sentimento humano, emoção, permanência, movimento e prática em uma região
geográfica que pode ou não ter suas fronteiras ou limites precisamente estabelecidos.
•Lugares, constituem corpos, assim como o inverso, e ambos compõem as paisagens.
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
• A escritura da experiência: o texto e o mundo
• A linguagem flui de um espírito corporificado e inseparável do mundo sensorial. Não
é um domínio arbitrário e apartado do mundo da experiência corporal.
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
Texto
Do corpo ao lugar à paisagem: uma
perspectiva fenomenológica
Texto

Christopher Tilley_Do corpo ao lugar.pptx

  • 1.
    Tilley, Chris. 2014.Do corpo ao lugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica
  • 2.
    Christopher Y. Tilley[1955-2024] was a British archaeologist known for his contributions to postprocessualist archaeological theory. He retired as Emeritus Professor of Anthropology and Archaeology at University College London in 2022. Tilley is credited with introducing phenomenology into archaeology with his 1994 work A Phenomenology of Landscape. Phenomenology in archaeology entails the 'intuitive' study of material things, especially landscapes, in terms of their meanings to people in the past, and has been influential in both Britain and the United States
  • 3.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • Introdução • Ponto de partida para qualquer análise fenomenológica é por em questão as crenças, os dogmas do senso comum ou “atitude natural” • Fenomenologia: se propõe revelar o mundo como ele é de fato, experenciado pelo sujeito, de modo direto, e não como poderíamos, pela via teórica, supor que ele é. • O objetivo da fenomenologia não é explicar o mundo, mas descrevê-lo, o mais precisamente possível, nos conformes em que os seres humanos o experienciam. Tal descrição pode levar a novos insights e novos conhecimentos sobre o que há no mundo e como ele afeta a consciência humana, e vice-versa.
  • 4.
    Introdução • Fenomenologia nãoé homogênea • Recorte em Merleau-Ponty e alguns intérpretes inspirados em sua obra • ênfase na experiência como experiência de algo a partir de um ponto de vista do corpo
  • 5.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • A carnalidade da experiência •Merleau-Ponty: se baseia na fisicalidade e na existência material do corpo humano no mundo • Desse lugar primordial fluem toda nossa experiência, compreensão e conhecimento do mundo •Defende uma posição materialista contrária a qualquer forma de idealismo ou intelectualismo que tente situar ou compreender o mundo a partir de um espírito descorporificado •Porque as pessoas são objetos físicos, são capazes de perceber o mundo • O significado ou a racionalidade depende da percepção do corpo-sujeito. A percepção constitui o vínculo, ou contato entre a consciência e o mundo no qual os significados surgem •Merleau-Ponty propõe que se transceda o dualismo espírito/corpo e o objetivismo que reduz o corpo a um objeto mecânico. Para Meleau-Ponty, o corpo é ao mesmo tempo sujeito e objeto • Assim é possível dizer que a subjetividade é fruto da objetividade, e vice-versa. Nossa experiência do mundo é uma combinação das duas esferas
  • 6.
    A carnalidade daexperiência • Apesar dessa existência inevitavelmente material, o corpo é diferente de outras coisas físicas que existem. Nós não somos capazes de experienciar nosso corpo como simplesmente uma outra coisa, ainda que a fisicalidade de nossos corpos sejam os agentes estruturadores de como experienciamos as coisas, os lugares e as paisagens.
  • 7.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • As díades corporais: estruturas elementares da experiência corporificada •As experiências do mundo se dão a partir do meu corpo (direita/esquerda; cima/baixo) e é através dessa experiência corporificada que interpreto outros aspectos do mundo (felicidade/pra cima; tristeza/ pra baixo) e experiencio e retrato as paisagens (frente e trás de uma vila) • Apesar de variações do modelo, entre as diferentes formas de experenciação se vê que as mesmas estão associadas com a posição relativa do corpo no lugar (diferentes modos de experienciação corporal) • Lugares e paisagens concebidos a partir da relação com o corpo • Nós ordenamos lugares e seus significados a partir de nossos corpos • A experenciação do mundo em termos duais está enraizada em nossos corpos
  • 8.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • A Percepção • O mundo é experienciado e percebido por meio do corpo. Logo essa é uma experiência antes encarnada que abstrata • O mundo que existe é o mundo que existe para o sujeito, sendo aquele continuamente definido e redefinido em relação a este • Assim essa percepção e experiência do mundo ocorre primeiro através do corpo, anteriormente a qualquer pensamento abstrato ou intelectual • Esse modo de perceber não é inato, mas adquirido ao longo da vida • Como as percepções variam com contexto e tempo, “As coisas e os lugares, como as pessoas, são seres temporais”.
  • 9.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • Sinestesia: a fusão dos sentidos • A percepção envolve o uso simultâneo dos sentidos. Contribuem para a nossa experiência como um todo • Cada sentido tem um alcance (distância diferente), mas nenhum é mais abstrato ou físico que o outro. E o engajamento com o mundo não depende da proximidade. • Não estamos simplesmente expostos a dados sensoriais, é uma interação corporificada com m mundo. Nós vemos com todo o corpo a partir do momento que pensamos com o nosso corpo, ao invés de somente com uma parte dele
  • 10.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • Defrontando-se com o mundo: a tese da reversibilidade • Não existe dualidade entre sujeito e objeto, do que toca e do que é tocado, pois ambos formam uma unidade. • O ato de perceber o mundo vincula o sujeito ao todo do qual ele ou ela já faz parte • Há uma relação de identidade e continuidade entre o que toca e o que é tocado, mas também de assimetria e diferença • Percepção, portanto, envolve reciprocidade entre o corpo e o mundo em um contínuo intercâmbio entre os dois
  • 11.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • Participação: animismo e antropomorfismo • Totemismo, antropomorfismo e animismo são partes da relação corporificada com as coisas e com o mundo • Uma lógica concreta e sensorial, ao invés de abstrata • Não é algo pertencente a determinado grupo ou sociedade, que estaria em estado pré-lógico. Na sociedade moderna, relações semelhantes apenas mudaram os objetos que entram na lógica animista. Nesse sentido, todos somos animistas primitivos • “Coisas, lugares e paisagens nos influenciam, alteram nossa consciência, Constituem- nos, além de nós mesmos. Nesse sentido, eles não estão radicalmente divorciados de nós” • A participação é um definidor de atributos em todas as percepções
  • 12.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • Metáfora e Metonímia • Metáfora e metonímia é uma forma corpórea e sensorial de relacionar o ser (self) e a cultura ao mundo
  • 13.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • Natureza e Cultura • Concepções filosóficas sobre natureza e cultura • Linha empirista: a natureza é vista como a soma dos elementos inalterados do ambiente. •Linha idealista: percebida como o que está “lá fora”, novamente em oposição à humanidade, é a matéria transformada no fluxo da história e das atividades práticas. O natural é definido pela cultura e pela tradição, um produto que decorre do espírito reflexivo • Assim, a natureza ora é vista como um objeto inteiramente externo, ora uma representação internalizada. • Fenomenologia: natureza é a relação corporificada que se estabelece entre um mundo externo e pré-existente – e, nesse sentido “natural” – e o corpo.
  • 14.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • Da paisagem ao lugar e de volta outra vez • Paisagem: algo vivido, mediado, trabalhado e alterado, repleto de significado e simbolismo, não apenas algo para se olhar ou se pensar, objetos voltados apenas à contemplação, representação e estetização. • Conjunto percebido e incorporado de relações entre lugares, a estrutura do sentimento humano, emoção, permanência, movimento e prática em uma região geográfica que pode ou não ter suas fronteiras ou limites precisamente estabelecidos. •Lugares, constituem corpos, assim como o inverso, e ambos compõem as paisagens.
  • 15.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica • A escritura da experiência: o texto e o mundo • A linguagem flui de um espírito corporificado e inseparável do mundo sensorial. Não é um domínio arbitrário e apartado do mundo da experiência corporal.
  • 16.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica Texto
  • 17.
    Do corpo aolugar à paisagem: uma perspectiva fenomenológica Texto