Com o advento da República (1889), as resistências locais ao novo governo provocaram um distanciamento do governo central e a diminuição dos seus investimentos. A vitória das forças comandadas pelo Marechal Floriano Peixoto determinaram em 1894 a mudança do nome da cidade para Florianópolis, em homenagem a este oficial. A cidade, ao entrar no século XX, passou por profundas transformações, sendo que a construção civil foi um dos seus principais suportes econômicos. A implantação das redes básicas de energia elétrica e do sistema de fornecimento de água e captação de esgotos somaram-se à construção da Ponte Governador Hercílio Luz, como marcos do processo de desenvolvimento urbano.
“ A percepção da estética ganhou, então, mais força, quando uma corrente médica fez discursos sobre a higienização, a partir de 1920, inaugurada pela “Belle Époque”, associando beleza física à saúde e jovialidade. Tais discursos favoreceram o desenvolvimento do imaginário que identificava a beleza à aparência saudável. De fato, ser saudável significava conservar o máximo possível o aspecto jovem. Tal ideia foi aproveitada por nós quando mostramos como no Brasil, mais especificamente, no século XIX (Santos Filho, 1991) deu-se como ponto de partida para a mudança das relações entre a medicina e o Estado, tendo o corpo como forma de comunicação culturalmente adquirida, inserida num universo simbólico. Diversos mecanismos disciplinares se multiplicaram na transição do Império para a República marcando, no Brasil, a instauração da medicina social, que veio apossar-se de mais um filão de poder por meio das intervenções nas cidades e nas condições de saúde de seus habitantes (Santos Filho, 1991). Era preciso ser “civilizado” como os europeus, copiá-los, se possível reproduzir seus hábitos, para que, pela higiene, os indivíduos aprendessem a manter o gosto pela saúde, exorcizando o ranço colonial. A higienização social não pretendeu apenas garantir a vida, mas formou um determinado tipo de população, com a promoção do corpo social dos indivíduos, que foram adestrados e disciplinados. Del Priore (2006) retrata que, pela educação higiênica, os corpos foram redesenhados sob o paradigma de que devem ter saúde, agora significando status social, ao mesmo tempo em que são manipulados política e economicamente. O corpo saudável foi criado e designado como um “corpo robusto e harmonioso, organicamente oposto ao corpo relapso, flácido e doentio do indivíduo colonial” (Costa, 1979, p. 13). Costa aponta, ainda, que o corpo construído pela higiene foi um corpo burguês - higienicamente urbanizado e disciplinado – representante de uma classe e uma determinada raça, que serviu para incentivar o racismo e os preconceitos sociais. O Brasil entrou no século XX (Soihet, 1997) com a modernização por meio da higienização da nação, com a imitação dos hábitos civilizados, similares aos parisienses durante a “Belle Époque” (1890-1920). Evidentemente, não falamos desse processo de esterilização das impurezas sem nos reportarmos à eugenia, legitimadora de práticas sociais que enquadravam sujeitos segundo padrões estéticos de corpo saudável. Foi evocada ainda a figura de Kehl (Maciel 2001), o maior representante da eugenia no Brasil, defensor do corpo plasticamente perfeito, de proporções cientificamente sancionadas - considerado ideal para o desenvolvimento do povo brasileiro - O corpo foi voltado para o aprimoramento das raças e para as questões estéticas. Surgiu o corpo ideal, referenciado pelas descobertas biomédicas, que promoveram intervenções estéticas, cirurgias modeladoras reconfigurantes do corpo, como um reflexo da sociedade narcisista, para a qual o corpo tornou-se estandarte, ou mostruário do desempenho do sujeito. Tal ideia foi também objeto de crítica de Novaes (2006):

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    Com o adventoda República (1889), as resistências locais ao novo governo provocaram um distanciamento do governo central e a diminuição dos seus investimentos. A vitória das forças comandadas pelo Marechal Floriano Peixoto determinaram em 1894 a mudança do nome da cidade para Florianópolis, em homenagem a este oficial. A cidade, ao entrar no século XX, passou por profundas transformações, sendo que a construção civil foi um dos seus principais suportes econômicos. A implantação das redes básicas de energia elétrica e do sistema de fornecimento de água e captação de esgotos somaram-se à construção da Ponte Governador Hercílio Luz, como marcos do processo de desenvolvimento urbano.
  • 2.
    “ A percepçãoda estética ganhou, então, mais força, quando uma corrente médica fez discursos sobre a higienização, a partir de 1920, inaugurada pela “Belle Époque”, associando beleza física à saúde e jovialidade. Tais discursos favoreceram o desenvolvimento do imaginário que identificava a beleza à aparência saudável. De fato, ser saudável significava conservar o máximo possível o aspecto jovem. Tal ideia foi aproveitada por nós quando mostramos como no Brasil, mais especificamente, no século XIX (Santos Filho, 1991) deu-se como ponto de partida para a mudança das relações entre a medicina e o Estado, tendo o corpo como forma de comunicação culturalmente adquirida, inserida num universo simbólico. Diversos mecanismos disciplinares se multiplicaram na transição do Império para a República marcando, no Brasil, a instauração da medicina social, que veio apossar-se de mais um filão de poder por meio das intervenções nas cidades e nas condições de saúde de seus habitantes (Santos Filho, 1991). Era preciso ser “civilizado” como os europeus, copiá-los, se possível reproduzir seus hábitos, para que, pela higiene, os indivíduos aprendessem a manter o gosto pela saúde, exorcizando o ranço colonial. A higienização social não pretendeu apenas garantir a vida, mas formou um determinado tipo de população, com a promoção do corpo social dos indivíduos, que foram adestrados e disciplinados. Del Priore (2006) retrata que, pela educação higiênica, os corpos foram redesenhados sob o paradigma de que devem ter saúde, agora significando status social, ao mesmo tempo em que são manipulados política e economicamente. O corpo saudável foi criado e designado como um “corpo robusto e harmonioso, organicamente oposto ao corpo relapso, flácido e doentio do indivíduo colonial” (Costa, 1979, p. 13). Costa aponta, ainda, que o corpo construído pela higiene foi um corpo burguês - higienicamente urbanizado e disciplinado – representante de uma classe e uma determinada raça, que serviu para incentivar o racismo e os preconceitos sociais. O Brasil entrou no século XX (Soihet, 1997) com a modernização por meio da higienização da nação, com a imitação dos hábitos civilizados, similares aos parisienses durante a “Belle Époque” (1890-1920). Evidentemente, não falamos desse processo de esterilização das impurezas sem nos reportarmos à eugenia, legitimadora de práticas sociais que enquadravam sujeitos segundo padrões estéticos de corpo saudável. Foi evocada ainda a figura de Kehl (Maciel 2001), o maior representante da eugenia no Brasil, defensor do corpo plasticamente perfeito, de proporções cientificamente sancionadas - considerado ideal para o desenvolvimento do povo brasileiro - O corpo foi voltado para o aprimoramento das raças e para as questões estéticas. Surgiu o corpo ideal, referenciado pelas descobertas biomédicas, que promoveram intervenções estéticas, cirurgias modeladoras reconfigurantes do corpo, como um reflexo da sociedade narcisista, para a qual o corpo tornou-se estandarte, ou mostruário do desempenho do sujeito. Tal ideia foi também objeto de crítica de Novaes (2006):