REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA ISSN 1519-5228
Volume 25 - Número 1 - 1º Semestre 2025
AÇÃO EDUCATIVA PARA O COMBATE E PREVENÇÃO DA PEDICULOSE EM UMA
ESCOLA DE SÃO CRISTÓVÃO-SE
Rejane Medeiros de Souza¹, João Victor de Jesus Luz², Ítalo Fernando Lisboa de Melo3
,
Flávio Henrique Ferreira Barbosa4
, Luciene Barbosa5
RESUMO
A pediculose, infestação causada pelo Pediculus capitis, afeta principalmente crianças de 4 a 12 anos,
provocando coceira intensa e perturbações no sono. Transmitida por contato direto ou objetos compartilhados,
é um problema de saúde pública que não discrimina classe social ou higiene. Mitos sobre a doença, como a
associação com falta de higiene, são comuns, e o uso inadequado de tratamentos fortalece os parasitos. A
condição pode gerar vergonha e exclusão social, afetando o rendimento escolar das crianças. O estudo descreve
uma intervenção educativa em uma escola de São Cristóvão, Sergipe, que incluiu questionários diagnósticos,
palestras e um jogo didático para ensinar sobre a transmissão e prevenção dos piolhos. A pesquisa, envolvendo
alunos de 5 a 16 anos, mostrou que a maioria não compreendia corretamente a transmissão dos piolhos,
associando-a a fatores errôneos como falta de higiene e voo dos parasitos. Após a intervenção, houve uma
melhoria significativa no conhecimento dos alunos, que passaram a identificar corretamente o contato direto
como principal forma de contágio e a utilizar métodos adequados de tratamento. Apesar do baixo envolvimento
dos pais, a iniciativa foi eficaz em corrigir concepções equivocadas e promover um ambiente escolar mais
inclusivo e informado. O estudo conclui que é crucial a colaboração entre escola e família para combater a
pediculose, destacando a importância da educação em saúde para melhorar a qualidade de vida da comunidade
escolar.
Palavras-chave: Piolhos; Jogo Didático; Educação em Saúde.
EDUCATIONAL ACTION FOR THE COMBAT AND PREVENTION OF PEDICULOSIS IN
A SCHOOL IN SÃO CRISTÓVÃO-SE
ABSTRACT
Pediculosis, an infestation caused by Pediculus capitis, primarily affects children aged 4 to 12, causing intense
itching and sleep disturbances. Transmitted through direct contact or shared objects, it is a public health issue
that does not discriminate by social class or hygiene. Common myths about the condition include its association
with poor hygiene, and the misuse of treatments can strengthen the parasites. This condition can cause shame
and social exclusion, affecting children's academic performance. The study describes an educational
intervention at a school in São Cristóvão, Sergipe, which included diagnostic questionnaires, lectures, and a
didactic game to teach about lice transmission and prevention. The research, involving students aged 5 to 16,
showed that most did not correctly understand lice transmission, erroneously associating it with factors like
poor hygiene and the ability of lice to fly. After the intervention, there was a significant improvement in the
students' knowledge, who correctly identified direct contact as the main mode of contagion and used
appropriate treatment methods. Despite the low involvement of parents, the initiative effectively corrected
misconceptions and promoted a more inclusive and informed school environment. The study concludes that
collaboration between school and family is crucial to combat pediculosis, highlighting the importance of health
education in improving the quality of life of the school community.
Keywords: Lice; Educational Game; Health Education.
54
INTRODUÇÃO
A pediculose, infestação parasitária causada pela
presença do Pediculus capitis, provoca severas
dermatites acompanhadas de intensa coceira, o
que perturba o sono, afetando principalmente
crianças de 4 a 12 anos, independentemente da
classe social ou condições de higiene. É
considerada um problema de saúde pública em
todas as Américas desde sua descrição até os dias
de hoje (GOGOI, 2011).
A transmissão ocorre de pessoa para pessoa
através do contato direto ou por meio de objetos
compartilhados, como bonés, lenços e escovas,
especialmente em locais com grandes
aglomerações (CARVALHO, 2014). Muitos
mitos cercam o tratamento desses parasitos,
como a associação do piolho com falta de higiene
e pessoas desfavorecidas. Além disso, é comum
o uso de remédios caseiros, como água e sal, ou
o uso excessivo de xampus à base de
organofosforados e piretróides, que acabam
fortalecendo o parasito (BARBOSA e PINTO,
2003).
Sendo uma das parasitoses mais frequentes na
infância, a pediculose atinge principalmente
crianças em idade escolar, devido ao maior
contato físico entre elas. Isso pode gerar um
sentimento de vergonha nos infectados, que
acabam sendo excluídos pelos colegas, afetando
sua concentração e leitura, e consequentemente
levando à diminuição do rendimento escolar
(ANDRADE, 2006).
Por ser um problema comum em ambientes
escolares, é essencial organizar e planejar ações
educativas voltadas para o cuidado com a saúde
(GABANI et. al., 2010). Essas ações ajudam a
esclarecer alguns mitos sobre a transmissão dos
piolhos, além de orientar sobre o tratamento e a
prevenção desses parasitos, contribuindo para um
ambiente saudável que favoreça o melhor
desempenho escolar dos alunos (ANDRADE,
2006; GABANI et. al., 2010).
Para que essas atividades sejam eficazes, é
necessário o envolvimento de pais, professores e
alunos, incentivando a participação da família
nas atividades escolares. É também importante
que a escola integre os conteúdos científicos com
a realidade vivida pelos alunos, desenvolvendo
habilidades e maior interesse pelos conteúdos,
facilitando a compreensão do que está sendo
estudado (SILVA, 2008).
Uma ferramenta importante para o
desenvolvimento dessas atividades no processo
de ensino e aprendizagem são os jogos didáticos,
que proporcionam ao aluno uma forma lúdica e
divertida de aprender ou fixar os conteúdos.
Esses jogos auxiliam o professor na transmissão
de diversos temas e, além de chamar a atenção do
aluno, promovem a participação nas atividades e
o desenvolvimento de habilidades como trabalho
em grupo, cognição, criatividade, entre outras,
dependendo do objetivo de cada jogo (CAMPOS
et. al., 2003).
Dessa forma, este trabalho tem como objetivo
verificar o nível de conhecimento de crianças em
idade escolar sobre o causador da pediculose e as
medidas corretas para evitar e combater essa
infestação, além de implementar ações
educativas para a prevenção desses parasitos.
MATERIAL E MÉTODOS
A metodologia utilizada neste estudo é a
pesquisa-ação prática, caracterizada por uma
abordagem específica em que o pesquisador
examina um contexto particular e desenvolve
uma intervenção prática com o objetivo de
melhorar a situação problemática identificada
(TRIPP, 2005).
A pesquisa foi conduzida no ano de 2016 com
alunos de 5 a 16 anos de uma escola particular de
pequeno porte localizada no bairro Rosa Elze, no
município de São Cristóvão, Sergipe, Brasil. O
procedimento seguiu a estrutura estabelecida por
Thiollent (2011) com as seguintes etapas:
diagnóstico, planejamento/ação e avaliação.
Na primeira etapa, avaliou-se o conhecimento
dos alunos sobre pediculose através de
questionários (Figura 1). Apenas os alunos cujos
responsáveis assinaram o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)
participaram da coleta de dados.
Figura 1. Questionário utilizado para avaliar o
conhecimento prévio dos estudantes sobre pediculose.
Fonte: Elaboração própria (2016).
Na segunda etapa, foram realizados o
planejamento e a execução da ação educativa,
fundamentada nos dados obtidos na fase inicial.
As atividades educativas ocorreram em dois
momentos:
Primeiramente a realização da palestra intitulada
“Higiene e Saúde” para os alunos, na qual foi
apresentada uma introdução geral sobre piolhos:
sua forma e tamanho, como se alimentam, modos
de transmissão e cuidados necessários para evitar
o contágio, incluindo mitos e verdades sobre a
infecção e tratamento desses parasitos, profilaxia
e o bullying que muitas crianças sofrem, bem
como as consequências dessa agressão.
Em seguida a aplicação do jogo didático “Jogo
do Piolho”, o qual consistia em um tabuleiro
humano feito de tecido TNT com 21 casas
numeradas com emborrachado. Em cada parada,
uma carta com perguntas sobre piolhos era
sorteada. Algumas casas continham desenhos de
piolhos, também feitos de emborrachado, e nas
quais a criança perdia uma rodada. O início se
dava quando um aluno lançava o dado e avançava
pelo tabuleiro conforme a numeração sorteada.
Em cada parada, uma carta com uma pergunta
deveria ser respondida corretamente. Caso o
aluno parasse em um piolho, perdia a vez. Se não
soubesse a resposta, passava para o próximo
jogador, e se este também não soubesse, a
resposta era explicada aos dois. Vencia o jogo
quem chegasse primeiro ao final do tabuleiro.
A técnica de coleta utilizada nesta fase foi a
observação participante, com o uso de diários de
campo para sistematizar as informações.
Na terceira etapa, avaliou-se o conhecimento
adquirido pelos alunos 30 dias após a intervenção
e o período de férias escolares, por meio da
reaplicação do questionário.
Para a análise dos dados referentes ao
diagnóstico do conhecimento sobre pediculose
na primeira fase, utilizou-se uma abordagem
estatística e interpretativa. Na segunda fase, a
análise foi subjetiva e interpretativa, baseada nas
observações registradas no diário de campo.
Nesta fase, os dados foram analisados de forma
comparativa, confrontando os resultados obtidos
antes e depois da intervenção educativa.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
1ª ETAPA - DIAGNÓSTICO DO
CONHECIMENTO DOS ALUNOS
ACERCA DA PEDICULOSE
Nesta etapa, foram reunidas as informações
obtidas por meio de um questionário (Figura 1)
respondido por 57 estudantes da escola campo,
com o objetivo de levantar os conhecimentos
sobre pediculose. Embora 100 termos de
consentimento tenham sido distribuídos, apenas
57 foram assinados.
Dos 57 alunos que responderam ao questionário
inicial, somente 45% afirmaram já ter tido
piolho. Esse resultado pode ser atribuído ao fato
de que alguns alunos, durante a aplicação do
questionário, sentiram-se constrangidos ao
responder se já haviam tido piolho. Isso indica
que ter piolho é motivo de vergonha e associado
à falta de higiene. Por isso, foram abordados
alguns mitos e verdades sobre os piolhos e
ressaltada a importância de não rir ou excluir o
colega que tem piolho, orientando-os sobre como
agir nesses casos.
A Figura 2 revela que 70% (40) dos estudantes
acreditam que uma das formas de se contrair
piolho é pela falta de higiene; 45% (26) pensam
que os piolhos são levados pelo vento de uma
pessoa para outra; 56% (32) acham que os
piolhos pulam de uma pessoa para outra; 35%
(20) acreditam que eles voam; e 85% (49)
entendem que o contágio ocorre através do
contato direto entre pessoas.
Figura 2. Respostas dos estudantes sobre as formas de
contágio de piolhos.
Fonte: Elaboração própria (2016).
A maioria dos alunos, cerca de 85%, indicou que
uma das maneiras de contrair piolho é através do
contato direto entre pessoas. No entanto, aqueles
que escolheram essa resposta também
selecionaram uma ou mais das outras alternativas
oferecidas. Esse resultado sugere uma concepção
equivocada sobre a transmissão de piolhos.
Isso revela que a maior parte dos estudantes não
compreende corretamente como se contrai
piolho, acreditando erroneamente que ele pode
ser levado pelo vento, saltar de uma pessoa para
outra ou ser causado pela falta de higiene.
Apenas 8,7% (5) dos alunos assinalaram
exclusivamente o contato direto entre pessoas
como forma de contágio.
Em relação ao combate aos piolhos, muitos
alunos mostraram desconhecimento sobre os
métodos corretos de tratamento, mencionando o
uso de sabão de coco, aguardente, entre outros.
O estudo revela que, dos 26 alunos que já tiveram
piolho, 18 eram meninas e apenas 8 eram
meninos. Esses dados são consistentes com os
estudos de Catalá et. al. (2004) e Pinheiro et. al.
(2015), que apontam uma maior incidência de
piolho em crianças pré-escolares do sexo
feminino, devido ao comportamento mais
próximo entre as meninas em comparação com
os meninos.
2ª ETAPA - PLANEJAMENTO/AÇÃO
EDUCATIVA PARA O COMBATE E
PREVENÇÃO DE PIOLHOS
A ação da segunda etapa consistiu em uma série
de atividades educativas com os estudantes. Em
resumo, as atividades que promovam a aquisição
dos conhecimentos propostos foram
desenvolvidas com base no diagnóstico prévio
sobre a pediculose (fase I), que permitiu
descrever o nível de conhecimento dos alunos.
Isso possibilitou uma intervenção eficaz tanto no
aspecto específico quanto nas questões
socioemocionais envolvidas. Assim, a ação foi
realizada duas semanas após a fase inicial,
período durante o qual as respostas dos
questionários foram analisadas, os
conhecimentos dos participantes foram
diagnosticados e as atividades foram planejadas.
Já na realização da ação, primeiramente foi
realizada a palestra “Higiene e Saúde” (Figura 3),
onde os alunos foram incentivados a
compartilhar essas informações com pais, amigos
e familiares, para que esses conhecimentos se
disseminassem além do ambiente escolar.
Figura 3. Palestra “Higiene e Saúde” durante ação
educativa realizada em escola do bairro Roza Elze
Fonte: Elaboração própria (2016).
Foi solicitado aos alunos que convidassem seus
pais ou responsáveis para participar da palestra,
com reforço desse pedido por parte dos
professores e do diretor da escola. Durante a
palestra, os alunos foram questionados sobre as
formas de transmissão dos piolhos e se
conheciam o tratamento adequado. Foram
explicados os procedimentos para evitar o
contágio e, em caso de infecção, como proceder
corretamente.
Após a palestra, houve aplicação do “Jogo do
Piolho” (Figura 4), que abordou o conteúdo da
palestra para melhor fixação. Neste momento
surgiram questionamentos que associavam a
pediculose à falta de higiene, como não lavar a
cabeça, não tomar banho ou viver em locais
menos favorecidos.
Figura 4. Aplicação do “Jogo do Piolho” durante ação
educativa realizada em escola do bairro Roza Elze.
Fonte: Elaboração própria (2016).
Foi ressaltado pelo diretor que alguns alunos com
piolhos sofriam preconceito, e foi destacado na
aula a importância de não rir ou excluir colegas
com piolhos, explicando como deveriam agir
nesses casos. A desconstrução dos mitos sobre o
contágio e as causas dos piolhos permitiu aos
alunos compreenderem a importância do respeito
aos colegas.
Neste momento foi evidente a empolgação dos
alunos. Eles utilizaram bem as informações da
palestra para responder às perguntas do jogo,
mostrando um envolvimento e aprendizado
satisfatórios, pois o jogo proporcionou uma
aprendizagem mais prazerosa ao relacionar teoria
e prática.
Devido ao grande número de alunos, foram
formados dois grandes grupos, e a cada rodada,
duas pessoas eram escolhidas para jogar como
representantes de cada grupo. Todos os membros
do grupo podiam interagir com o representante e
ajudar a responder as perguntas do tabuleiro
humano. Essa atividade propôs aos alunos um
meio lúdico de fixar e revisar o conteúdo, além
de interagir com os colegas, exercitando o
respeito e o trabalho em equipe.
O jogo didático é uma ferramenta ideal de
aprendizagem, pois estimula o interesse do aluno
e propicia um desenvolvimento integral e
dinâmico nas áreas cognitiva, afetiva, linguística,
social, moral e motora (MORATORI, 2003).
Essa forma de atividade facilita a compreensão
dos conteúdos, tornando o aprendizado mais
agradável (GRÜBEL; BEZ, 2006).
Apesar dos convites, apenas um dos responsáveis
compareceu. A participação dos pais na educação
dos filhos contribui significativamente para o
bom aprendizado, pois a forma como a família
reage a problemas de aprendizagem pode agravar
ou ajudar na recuperação da criança. É essencial
a colaboração entre família e escola para ampliar
as ações e interações socioeducativas do espaço
escolar (SILVA et. al., 2013).
A educação é fundamental para capacitar as
pessoas a melhorar as condições de vida e saúde
da população, sendo necessário o
comprometimento de alunos, pais e professores.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais destacam
que, no contexto atual, o cuidado com o próprio
corpo e com a saúde são temas que recebem uma
nova abordagem, sendo responsabilidade da
escola promover essas discussões.
3º ETAPA - AVALIAÇÃO DOS
CONHECIMENTOS ADQUIRIDOS
Após 30 dias, coincidindo com a retomada das
aulas, foi aplicado o segundo questionário com o
objetivo de avaliar o aprendizado dos estudantes.
Devido ao baixo número de alunos matriculados,
foram distribuídos 31 questionários, sendo que
esses participantes foram os mesmos que
participaram da avaliação diagnóstica e das
atividades educativas.
Em relação às formas de transmissão e combate
ao piolho, os resultados foram positivos. 87%
(27) dos estudantes responderam corretamente
que a transmissão ocorre por contato direto, seja
por objetos ou de pessoa para pessoa, enquanto
apenas 6,45% dos alunos indicaram outras
formas, conforme ilustrado no gráfico da Figura
3.
Figura 3. Respostas dos alunos sobre as formas de contrair
piolhos após a realização da ação educativa.
Fonte: Elaboração própria (2016).
As respostas dos estudantes sobre o combate aos
piolhos foram satisfatórias, demonstrando que
eles compreenderam e reproduziram claramente
as formas eficazes de enfrentar o problema.
Foram mencionados o uso de pente fino, a
catação e o xampu como métodos de combate aos
piolhos. Os alunos entenderam a importância do
tratamento adequado e as medidas mais eficazes
para a prevenção e eliminação do parasito.
A Tabela 1 apresenta os resultados comparativos
das respostas dos estudantes sobre a transmissão
dos piolhos. Houve um avanço significativo no
entendimento sobre o contágio e tratamento dos
piolhos, com 87% dos alunos respondendo
corretamente que a contaminação ocorre apenas
por contato direto.
Tabela 1. Resultado comparativo das respostas dos alunos
quanto à forma de transmissão do piolho.
Formas de Contrair
Piolho
Respostas dos alunos
Antes da
palestra
Depois da
palestra
São levados através do
vento de uma cabeça
para outra
45% 6,45%
Pulam de uma cabeça
para outra
56% 0%
Voam de uma cabeça
para outra
35% 0%
Através do contato direto
de objeto e de uma
pessoa para outra
85% 87,10%
Através da falta de
higiene na cabeça
70% 6,45%
O progresso no aprendizado dos alunos é crucial
para o combate e a prevenção da pediculose,
devido aos tratamentos inadequados
frequentemente realizados e ao pouco
conhecimento de pais, estudantes e educadores
sobre como lidar com essa condição. Além disso,
os mitos sobre as formas de contágio prejudicam
a vida social das crianças.
Este estudo está alinhado com as descobertas de
Souza et. al. (2014), Paula (2013) e Andrade
(2006), que indicam que a percepção dos alunos
sobre o contágio de piolhos é equivocada e a
associação do piolho com a falta de higiene
pessoal é recorrente. Isso causa constrangimento
aos pais, vistos como negligentes, e às crianças,
que temem ser apontadas na escola e se tornar
alvo de bullying.
Os estudos também destacam a falta de preparo
dos professores para abordar o tema. Há uma
deficiência nos conhecimentos teóricos e práticos
no ensino de Educação em Saúde. Andrade
(2006) menciona que uma das dificuldades do
corpo docente em desenvolver projetos nessa
área é a falta de tempo, devido à necessidade de
cumprir os conteúdos curriculares, além da
dificuldade de integrar temas transversais de
educação em saúde no cotidiano dos alunos.
É importante ressaltar que este trabalho está
inserido na Educação em Saúde, e segundo
Maciel (2009), essa área promove a interação
entre as pessoas envolvidas no contexto
educativo e o mundo ao seu redor, visando à
modificação de ambas as partes, contrastando
com a realidade observada durante a execução
deste estudo.
De acordo com pesquisas realizadas em escolas
por Carvalho (2014), Godoi (2011), Gabani et.
al. (2010), Souza (2008) e Andrade (2006), não
há correlação entre características
sociodemográficas dos pais e a pediculose
infantil, visto que os piolhos podem parasitar
qualquer pessoa. O estudo de Pinheiro (2015),
realizado em domicílios e escolas do município
de Aracaju, leva em conta indicadores
socioeconômicos, a alta densidade de pessoas em
uma residência e a realização da higiene corporal
sem supervisão adulta, dificultando o controle
dos parasitos.
A promoção da educação em saúde nas escolas
deve ser estendida ao ambiente doméstico pelos
pais, e é essencial que haja comunicação entre a
escola e as famílias para obter melhores
resultados na prevenção da pediculose, que é um
problema de saúde pública.
CONCLUSÃO
No decorrer do estudo, foram identificados
numerosos mitos, preconceitos e um despreparo
generalizado em relação à pediculose, tanto nas
instituições de ensino quanto entre os
responsáveis. A ineficácia dos procedimentos
educativos na escola e o envolvimento
insuficiente dos pais constituem barreiras para o
desenvolvimento de atividades interdisciplinares
que englobam toda a comunidade escolar.
O objetivo do projeto foi satisfatoriamente
atingido, com os estudantes agora bem
informados sobre o contágio e a prevenção dos
piolhos. Por meio das atividades realizadas, foi
possível desconstruir percepções equivocadas e
sensibilizar os alunos sobre o bullying sofrido
por alguns colegas devido à pediculose.
A iniciativa demonstrou-se eficaz em modificar
concepções erradas e promover uma maior
compreensão e empatia entre os estudantes.
Portanto, é essencial a implementação de ações
que mobilizem a participação ativa dos pais e
alunos, visando atender às necessidades de saúde
da comunidade e melhorar sua qualidade de vida.
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1. Graduada em Ciências Biológicas pela
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2. Graduado em Ciências Biológicas pela
Universidade Federal de Sergipe – UFS.
3. Graduado em Ciências Biológicas,
Especialista em Educação Ambiental com
Ênfase em Espaços Educadores Sustentáveis e
Mestre em Biologia Parasitária pela
Universidade Federal de Sergipe – UFS.
4. Doutor em Microbiologia pela
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.
Professor de Microbiologia da Universidade
Federal de Sergipe – UFS.
5. Doutora em Parasitologia pela
Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG.
Professora de Parasitologia da Universidade
Federal de Sergipe - UFS.
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Artigo_Rev_Bioterra_Volume_25_Número_01_06

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    REVISTA DE BIOLOGIAE CIÊNCIAS DA TERRA ISSN 1519-5228 Volume 25 - Número 1 - 1º Semestre 2025 AÇÃO EDUCATIVA PARA O COMBATE E PREVENÇÃO DA PEDICULOSE EM UMA ESCOLA DE SÃO CRISTÓVÃO-SE Rejane Medeiros de Souza¹, João Victor de Jesus Luz², Ítalo Fernando Lisboa de Melo3 , Flávio Henrique Ferreira Barbosa4 , Luciene Barbosa5 RESUMO A pediculose, infestação causada pelo Pediculus capitis, afeta principalmente crianças de 4 a 12 anos, provocando coceira intensa e perturbações no sono. Transmitida por contato direto ou objetos compartilhados, é um problema de saúde pública que não discrimina classe social ou higiene. Mitos sobre a doença, como a associação com falta de higiene, são comuns, e o uso inadequado de tratamentos fortalece os parasitos. A condição pode gerar vergonha e exclusão social, afetando o rendimento escolar das crianças. O estudo descreve uma intervenção educativa em uma escola de São Cristóvão, Sergipe, que incluiu questionários diagnósticos, palestras e um jogo didático para ensinar sobre a transmissão e prevenção dos piolhos. A pesquisa, envolvendo alunos de 5 a 16 anos, mostrou que a maioria não compreendia corretamente a transmissão dos piolhos, associando-a a fatores errôneos como falta de higiene e voo dos parasitos. Após a intervenção, houve uma melhoria significativa no conhecimento dos alunos, que passaram a identificar corretamente o contato direto como principal forma de contágio e a utilizar métodos adequados de tratamento. Apesar do baixo envolvimento dos pais, a iniciativa foi eficaz em corrigir concepções equivocadas e promover um ambiente escolar mais inclusivo e informado. O estudo conclui que é crucial a colaboração entre escola e família para combater a pediculose, destacando a importância da educação em saúde para melhorar a qualidade de vida da comunidade escolar. Palavras-chave: Piolhos; Jogo Didático; Educação em Saúde. EDUCATIONAL ACTION FOR THE COMBAT AND PREVENTION OF PEDICULOSIS IN A SCHOOL IN SÃO CRISTÓVÃO-SE ABSTRACT Pediculosis, an infestation caused by Pediculus capitis, primarily affects children aged 4 to 12, causing intense itching and sleep disturbances. Transmitted through direct contact or shared objects, it is a public health issue that does not discriminate by social class or hygiene. Common myths about the condition include its association with poor hygiene, and the misuse of treatments can strengthen the parasites. This condition can cause shame and social exclusion, affecting children's academic performance. The study describes an educational intervention at a school in São Cristóvão, Sergipe, which included diagnostic questionnaires, lectures, and a didactic game to teach about lice transmission and prevention. The research, involving students aged 5 to 16, showed that most did not correctly understand lice transmission, erroneously associating it with factors like poor hygiene and the ability of lice to fly. After the intervention, there was a significant improvement in the students' knowledge, who correctly identified direct contact as the main mode of contagion and used appropriate treatment methods. Despite the low involvement of parents, the initiative effectively corrected misconceptions and promoted a more inclusive and informed school environment. The study concludes that collaboration between school and family is crucial to combat pediculosis, highlighting the importance of health education in improving the quality of life of the school community. Keywords: Lice; Educational Game; Health Education. 54
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    INTRODUÇÃO A pediculose, infestaçãoparasitária causada pela presença do Pediculus capitis, provoca severas dermatites acompanhadas de intensa coceira, o que perturba o sono, afetando principalmente crianças de 4 a 12 anos, independentemente da classe social ou condições de higiene. É considerada um problema de saúde pública em todas as Américas desde sua descrição até os dias de hoje (GOGOI, 2011). A transmissão ocorre de pessoa para pessoa através do contato direto ou por meio de objetos compartilhados, como bonés, lenços e escovas, especialmente em locais com grandes aglomerações (CARVALHO, 2014). Muitos mitos cercam o tratamento desses parasitos, como a associação do piolho com falta de higiene e pessoas desfavorecidas. Além disso, é comum o uso de remédios caseiros, como água e sal, ou o uso excessivo de xampus à base de organofosforados e piretróides, que acabam fortalecendo o parasito (BARBOSA e PINTO, 2003). Sendo uma das parasitoses mais frequentes na infância, a pediculose atinge principalmente crianças em idade escolar, devido ao maior contato físico entre elas. Isso pode gerar um sentimento de vergonha nos infectados, que acabam sendo excluídos pelos colegas, afetando sua concentração e leitura, e consequentemente levando à diminuição do rendimento escolar (ANDRADE, 2006). Por ser um problema comum em ambientes escolares, é essencial organizar e planejar ações educativas voltadas para o cuidado com a saúde (GABANI et. al., 2010). Essas ações ajudam a esclarecer alguns mitos sobre a transmissão dos piolhos, além de orientar sobre o tratamento e a prevenção desses parasitos, contribuindo para um ambiente saudável que favoreça o melhor desempenho escolar dos alunos (ANDRADE, 2006; GABANI et. al., 2010). Para que essas atividades sejam eficazes, é necessário o envolvimento de pais, professores e alunos, incentivando a participação da família nas atividades escolares. É também importante que a escola integre os conteúdos científicos com a realidade vivida pelos alunos, desenvolvendo habilidades e maior interesse pelos conteúdos, facilitando a compreensão do que está sendo estudado (SILVA, 2008). Uma ferramenta importante para o desenvolvimento dessas atividades no processo de ensino e aprendizagem são os jogos didáticos, que proporcionam ao aluno uma forma lúdica e divertida de aprender ou fixar os conteúdos. Esses jogos auxiliam o professor na transmissão de diversos temas e, além de chamar a atenção do aluno, promovem a participação nas atividades e o desenvolvimento de habilidades como trabalho em grupo, cognição, criatividade, entre outras, dependendo do objetivo de cada jogo (CAMPOS et. al., 2003). Dessa forma, este trabalho tem como objetivo verificar o nível de conhecimento de crianças em idade escolar sobre o causador da pediculose e as medidas corretas para evitar e combater essa infestação, além de implementar ações educativas para a prevenção desses parasitos. MATERIAL E MÉTODOS A metodologia utilizada neste estudo é a pesquisa-ação prática, caracterizada por uma abordagem específica em que o pesquisador examina um contexto particular e desenvolve uma intervenção prática com o objetivo de melhorar a situação problemática identificada (TRIPP, 2005). A pesquisa foi conduzida no ano de 2016 com alunos de 5 a 16 anos de uma escola particular de pequeno porte localizada no bairro Rosa Elze, no município de São Cristóvão, Sergipe, Brasil. O procedimento seguiu a estrutura estabelecida por Thiollent (2011) com as seguintes etapas: diagnóstico, planejamento/ação e avaliação. Na primeira etapa, avaliou-se o conhecimento dos alunos sobre pediculose através de questionários (Figura 1). Apenas os alunos cujos responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) participaram da coleta de dados. Figura 1. Questionário utilizado para avaliar o conhecimento prévio dos estudantes sobre pediculose.
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    Fonte: Elaboração própria(2016). Na segunda etapa, foram realizados o planejamento e a execução da ação educativa, fundamentada nos dados obtidos na fase inicial. As atividades educativas ocorreram em dois momentos: Primeiramente a realização da palestra intitulada “Higiene e Saúde” para os alunos, na qual foi apresentada uma introdução geral sobre piolhos: sua forma e tamanho, como se alimentam, modos de transmissão e cuidados necessários para evitar o contágio, incluindo mitos e verdades sobre a infecção e tratamento desses parasitos, profilaxia e o bullying que muitas crianças sofrem, bem como as consequências dessa agressão. Em seguida a aplicação do jogo didático “Jogo do Piolho”, o qual consistia em um tabuleiro humano feito de tecido TNT com 21 casas numeradas com emborrachado. Em cada parada, uma carta com perguntas sobre piolhos era sorteada. Algumas casas continham desenhos de piolhos, também feitos de emborrachado, e nas quais a criança perdia uma rodada. O início se dava quando um aluno lançava o dado e avançava pelo tabuleiro conforme a numeração sorteada. Em cada parada, uma carta com uma pergunta deveria ser respondida corretamente. Caso o aluno parasse em um piolho, perdia a vez. Se não soubesse a resposta, passava para o próximo jogador, e se este também não soubesse, a resposta era explicada aos dois. Vencia o jogo quem chegasse primeiro ao final do tabuleiro. A técnica de coleta utilizada nesta fase foi a observação participante, com o uso de diários de campo para sistematizar as informações. Na terceira etapa, avaliou-se o conhecimento adquirido pelos alunos 30 dias após a intervenção e o período de férias escolares, por meio da reaplicação do questionário. Para a análise dos dados referentes ao diagnóstico do conhecimento sobre pediculose na primeira fase, utilizou-se uma abordagem estatística e interpretativa. Na segunda fase, a análise foi subjetiva e interpretativa, baseada nas observações registradas no diário de campo. Nesta fase, os dados foram analisados de forma comparativa, confrontando os resultados obtidos antes e depois da intervenção educativa. RESULTADOS E DISCUSSÃO 1ª ETAPA - DIAGNÓSTICO DO CONHECIMENTO DOS ALUNOS ACERCA DA PEDICULOSE Nesta etapa, foram reunidas as informações obtidas por meio de um questionário (Figura 1) respondido por 57 estudantes da escola campo, com o objetivo de levantar os conhecimentos sobre pediculose. Embora 100 termos de consentimento tenham sido distribuídos, apenas 57 foram assinados. Dos 57 alunos que responderam ao questionário inicial, somente 45% afirmaram já ter tido piolho. Esse resultado pode ser atribuído ao fato de que alguns alunos, durante a aplicação do questionário, sentiram-se constrangidos ao responder se já haviam tido piolho. Isso indica que ter piolho é motivo de vergonha e associado à falta de higiene. Por isso, foram abordados alguns mitos e verdades sobre os piolhos e ressaltada a importância de não rir ou excluir o colega que tem piolho, orientando-os sobre como agir nesses casos. A Figura 2 revela que 70% (40) dos estudantes acreditam que uma das formas de se contrair piolho é pela falta de higiene; 45% (26) pensam que os piolhos são levados pelo vento de uma pessoa para outra; 56% (32) acham que os
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    piolhos pulam deuma pessoa para outra; 35% (20) acreditam que eles voam; e 85% (49) entendem que o contágio ocorre através do contato direto entre pessoas. Figura 2. Respostas dos estudantes sobre as formas de contágio de piolhos. Fonte: Elaboração própria (2016). A maioria dos alunos, cerca de 85%, indicou que uma das maneiras de contrair piolho é através do contato direto entre pessoas. No entanto, aqueles que escolheram essa resposta também selecionaram uma ou mais das outras alternativas oferecidas. Esse resultado sugere uma concepção equivocada sobre a transmissão de piolhos. Isso revela que a maior parte dos estudantes não compreende corretamente como se contrai piolho, acreditando erroneamente que ele pode ser levado pelo vento, saltar de uma pessoa para outra ou ser causado pela falta de higiene. Apenas 8,7% (5) dos alunos assinalaram exclusivamente o contato direto entre pessoas como forma de contágio. Em relação ao combate aos piolhos, muitos alunos mostraram desconhecimento sobre os métodos corretos de tratamento, mencionando o uso de sabão de coco, aguardente, entre outros. O estudo revela que, dos 26 alunos que já tiveram piolho, 18 eram meninas e apenas 8 eram meninos. Esses dados são consistentes com os estudos de Catalá et. al. (2004) e Pinheiro et. al. (2015), que apontam uma maior incidência de piolho em crianças pré-escolares do sexo feminino, devido ao comportamento mais próximo entre as meninas em comparação com os meninos. 2ª ETAPA - PLANEJAMENTO/AÇÃO EDUCATIVA PARA O COMBATE E PREVENÇÃO DE PIOLHOS A ação da segunda etapa consistiu em uma série de atividades educativas com os estudantes. Em resumo, as atividades que promovam a aquisição dos conhecimentos propostos foram desenvolvidas com base no diagnóstico prévio sobre a pediculose (fase I), que permitiu descrever o nível de conhecimento dos alunos. Isso possibilitou uma intervenção eficaz tanto no aspecto específico quanto nas questões socioemocionais envolvidas. Assim, a ação foi realizada duas semanas após a fase inicial, período durante o qual as respostas dos questionários foram analisadas, os conhecimentos dos participantes foram diagnosticados e as atividades foram planejadas. Já na realização da ação, primeiramente foi realizada a palestra “Higiene e Saúde” (Figura 3), onde os alunos foram incentivados a compartilhar essas informações com pais, amigos e familiares, para que esses conhecimentos se disseminassem além do ambiente escolar. Figura 3. Palestra “Higiene e Saúde” durante ação educativa realizada em escola do bairro Roza Elze Fonte: Elaboração própria (2016). Foi solicitado aos alunos que convidassem seus pais ou responsáveis para participar da palestra, com reforço desse pedido por parte dos professores e do diretor da escola. Durante a palestra, os alunos foram questionados sobre as formas de transmissão dos piolhos e se conheciam o tratamento adequado. Foram explicados os procedimentos para evitar o contágio e, em caso de infecção, como proceder corretamente.
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    Após a palestra,houve aplicação do “Jogo do Piolho” (Figura 4), que abordou o conteúdo da palestra para melhor fixação. Neste momento surgiram questionamentos que associavam a pediculose à falta de higiene, como não lavar a cabeça, não tomar banho ou viver em locais menos favorecidos. Figura 4. Aplicação do “Jogo do Piolho” durante ação educativa realizada em escola do bairro Roza Elze. Fonte: Elaboração própria (2016). Foi ressaltado pelo diretor que alguns alunos com piolhos sofriam preconceito, e foi destacado na aula a importância de não rir ou excluir colegas com piolhos, explicando como deveriam agir nesses casos. A desconstrução dos mitos sobre o contágio e as causas dos piolhos permitiu aos alunos compreenderem a importância do respeito aos colegas. Neste momento foi evidente a empolgação dos alunos. Eles utilizaram bem as informações da palestra para responder às perguntas do jogo, mostrando um envolvimento e aprendizado satisfatórios, pois o jogo proporcionou uma aprendizagem mais prazerosa ao relacionar teoria e prática. Devido ao grande número de alunos, foram formados dois grandes grupos, e a cada rodada, duas pessoas eram escolhidas para jogar como representantes de cada grupo. Todos os membros do grupo podiam interagir com o representante e ajudar a responder as perguntas do tabuleiro humano. Essa atividade propôs aos alunos um meio lúdico de fixar e revisar o conteúdo, além de interagir com os colegas, exercitando o respeito e o trabalho em equipe. O jogo didático é uma ferramenta ideal de aprendizagem, pois estimula o interesse do aluno e propicia um desenvolvimento integral e dinâmico nas áreas cognitiva, afetiva, linguística, social, moral e motora (MORATORI, 2003). Essa forma de atividade facilita a compreensão dos conteúdos, tornando o aprendizado mais agradável (GRÜBEL; BEZ, 2006). Apesar dos convites, apenas um dos responsáveis compareceu. A participação dos pais na educação dos filhos contribui significativamente para o bom aprendizado, pois a forma como a família reage a problemas de aprendizagem pode agravar ou ajudar na recuperação da criança. É essencial a colaboração entre família e escola para ampliar as ações e interações socioeducativas do espaço escolar (SILVA et. al., 2013). A educação é fundamental para capacitar as pessoas a melhorar as condições de vida e saúde da população, sendo necessário o comprometimento de alunos, pais e professores. Os Parâmetros Curriculares Nacionais destacam que, no contexto atual, o cuidado com o próprio corpo e com a saúde são temas que recebem uma nova abordagem, sendo responsabilidade da escola promover essas discussões. 3º ETAPA - AVALIAÇÃO DOS CONHECIMENTOS ADQUIRIDOS Após 30 dias, coincidindo com a retomada das aulas, foi aplicado o segundo questionário com o objetivo de avaliar o aprendizado dos estudantes. Devido ao baixo número de alunos matriculados, foram distribuídos 31 questionários, sendo que esses participantes foram os mesmos que participaram da avaliação diagnóstica e das atividades educativas. Em relação às formas de transmissão e combate ao piolho, os resultados foram positivos. 87% (27) dos estudantes responderam corretamente que a transmissão ocorre por contato direto, seja por objetos ou de pessoa para pessoa, enquanto apenas 6,45% dos alunos indicaram outras formas, conforme ilustrado no gráfico da Figura 3.
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    Figura 3. Respostasdos alunos sobre as formas de contrair piolhos após a realização da ação educativa. Fonte: Elaboração própria (2016). As respostas dos estudantes sobre o combate aos piolhos foram satisfatórias, demonstrando que eles compreenderam e reproduziram claramente as formas eficazes de enfrentar o problema. Foram mencionados o uso de pente fino, a catação e o xampu como métodos de combate aos piolhos. Os alunos entenderam a importância do tratamento adequado e as medidas mais eficazes para a prevenção e eliminação do parasito. A Tabela 1 apresenta os resultados comparativos das respostas dos estudantes sobre a transmissão dos piolhos. Houve um avanço significativo no entendimento sobre o contágio e tratamento dos piolhos, com 87% dos alunos respondendo corretamente que a contaminação ocorre apenas por contato direto. Tabela 1. Resultado comparativo das respostas dos alunos quanto à forma de transmissão do piolho. Formas de Contrair Piolho Respostas dos alunos Antes da palestra Depois da palestra São levados através do vento de uma cabeça para outra 45% 6,45% Pulam de uma cabeça para outra 56% 0% Voam de uma cabeça para outra 35% 0% Através do contato direto de objeto e de uma pessoa para outra 85% 87,10% Através da falta de higiene na cabeça 70% 6,45% O progresso no aprendizado dos alunos é crucial para o combate e a prevenção da pediculose, devido aos tratamentos inadequados frequentemente realizados e ao pouco conhecimento de pais, estudantes e educadores sobre como lidar com essa condição. Além disso, os mitos sobre as formas de contágio prejudicam a vida social das crianças. Este estudo está alinhado com as descobertas de Souza et. al. (2014), Paula (2013) e Andrade (2006), que indicam que a percepção dos alunos sobre o contágio de piolhos é equivocada e a associação do piolho com a falta de higiene pessoal é recorrente. Isso causa constrangimento aos pais, vistos como negligentes, e às crianças, que temem ser apontadas na escola e se tornar alvo de bullying. Os estudos também destacam a falta de preparo dos professores para abordar o tema. Há uma deficiência nos conhecimentos teóricos e práticos no ensino de Educação em Saúde. Andrade (2006) menciona que uma das dificuldades do corpo docente em desenvolver projetos nessa área é a falta de tempo, devido à necessidade de cumprir os conteúdos curriculares, além da dificuldade de integrar temas transversais de educação em saúde no cotidiano dos alunos. É importante ressaltar que este trabalho está inserido na Educação em Saúde, e segundo Maciel (2009), essa área promove a interação entre as pessoas envolvidas no contexto educativo e o mundo ao seu redor, visando à modificação de ambas as partes, contrastando com a realidade observada durante a execução deste estudo. De acordo com pesquisas realizadas em escolas por Carvalho (2014), Godoi (2011), Gabani et. al. (2010), Souza (2008) e Andrade (2006), não há correlação entre características sociodemográficas dos pais e a pediculose infantil, visto que os piolhos podem parasitar qualquer pessoa. O estudo de Pinheiro (2015), realizado em domicílios e escolas do município de Aracaju, leva em conta indicadores socioeconômicos, a alta densidade de pessoas em uma residência e a realização da higiene corporal sem supervisão adulta, dificultando o controle dos parasitos. A promoção da educação em saúde nas escolas
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    deve ser estendidaao ambiente doméstico pelos pais, e é essencial que haja comunicação entre a escola e as famílias para obter melhores resultados na prevenção da pediculose, que é um problema de saúde pública. CONCLUSÃO No decorrer do estudo, foram identificados numerosos mitos, preconceitos e um despreparo generalizado em relação à pediculose, tanto nas instituições de ensino quanto entre os responsáveis. A ineficácia dos procedimentos educativos na escola e o envolvimento insuficiente dos pais constituem barreiras para o desenvolvimento de atividades interdisciplinares que englobam toda a comunidade escolar. O objetivo do projeto foi satisfatoriamente atingido, com os estudantes agora bem informados sobre o contágio e a prevenção dos piolhos. Por meio das atividades realizadas, foi possível desconstruir percepções equivocadas e sensibilizar os alunos sobre o bullying sofrido por alguns colegas devido à pediculose. A iniciativa demonstrou-se eficaz em modificar concepções erradas e promover uma maior compreensão e empatia entre os estudantes. Portanto, é essencial a implementação de ações que mobilizem a participação ativa dos pais e alunos, visando atender às necessidades de saúde da comunidade e melhorar sua qualidade de vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Vânia Sampaio. Um modelo de educação em saúde para o Programa Saúde da Família: pela integralidade da atenção e reorientação do modelo assistencial. Interface- Comunicação, saúde, educação, v. 9, p. 39-52, 2005. ANDRADE, E. J. S. S. Formação continuada em pediculose: quando o piolho invade a aula e o professor afasta o aluno. 2006. 125 f. Dissertação (Mestrado em Ensino em Biociências e Saúde) - Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2006. BARBOSA, Júlio Vianna; PINTO, Zeneida Teixeira. Pediculose no Brasil. Entomol. Vect, v. 10, n. 4, p. 579-86, 2003. CAMPOS, Luciana Maria Lunardi; BORTOLOTO, T. M.; FELÍCIO, A. K. C.. A produção de jogos didáticos para o ensino de ciências e biologia: uma proposta para favorecer a aprendizagem. Caderno dos núcleos de Ensino, v. 47, p. 47-60, 2003. CATALÁ, Silvia; CARRIZO, Lorena; CÓRDOBA, Mariana; KHAIRALLAH, Roxana; MOSCHELA, Fabrizio; BOCCA, Julio Nacif; CALVO, Ana Nieto; TORRES, Judiht; TUTINO, Rodrigo. Prevalência e intensidade da infestação por Pediculus humanus capitis em escolares de seis a onze anos. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 37, p. 499-501, 2004. CARVALHO, Fabiana Takahashi. Ações de combate à pediculose em um Centro de Educação Infantil em Coronel Fabriciano, Minas Gerais. 2014. 27 f. Trabalho de conclusão de curso (Especialização em Atenção Básica em Saúde da Família) - Universidade Federal de Minas Gerais, 2014. GABANI, Flávia Lopes; MAEBARA, Clarice Martins Lima; FERRARI, Rosângela Aparecida Pimenta. Pediculose nos centros de educação infantil: conhecimentos e práticas dos trabalhadores. Escola Anna Nery, v. 14, p. 309- 317, 2010. GODOI, A. A. Prevenção da Pediculose na Escola. 2011. 33 p. Monografia (Ciências da Saúde) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2011. GRÜBEL, J. M.; BEZ, M. R. Jogos educativos: novas tecnologias na educação: CINTED. 2006. MACIEL, Marjorie Ester Dias. Educação em saúde: conceitos e propósitos. Cogitare Enfermagem, v. 14, n. 4, p. 773-776, 2009.
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