comunicação

                                   C
Artigos
    Canais locais de informação na TV paga:
    TVCOM, um modelo de funcionamento
    Eliane Corti Basso
    A influência das chuvas na circulação dos
    jornais de Manaus
    Gilson Monteiro
    Outdoor baiano: uma mídia que funciona
    Maria Amélia Chagas Gaiarsa
    Rock e música pop: espetáculo,
    performance, corpo.
    Herom Vargas
    O cenário virtual televisivo: uma forma        ano lll - n.o 5 - julho/dezembro 2002
    específica de representação cenográfica        ISSN 1518-5958
    João Batista Cardoso
    A crítica genética na propaganda
    João Vicente Cegato Bertomeu
    Estratégias retóricas para a restauração da
    imagem quando sob ataque
    Vilma Lemos

Sugestão Bibliográfica
    Música caipira ou música sertaneja?
    Fernando Pereira

Resenha
    Ética e responsabilidade social nos negócios
    Ana Claudia Marques Govatto
An d ii g o
Í rt ce

Artigos
     Canais locais de informação na TV paga: TVCOM,
     um modelo de funcionamento
     Eliane Corti Basso ............................................................................................................... 04
     A influência das chuvas na circulação dos jornais de Manaus
     Gilson Monteiro .................................................................................................................. 12
     Outdoor baiano: uma mídia que funciona
     Maria Amélia Chagas Gaiarsa ............................................................................................ 19
     Rock e música pop: espetáculo, performance, corpo.
     Herom Vargas .................................................................................................................... 25
     O cenário virtual televisivo: uma forma
     específica de representação cenográfica
     João Batista Cardoso .......................................................................................................... 33
     A crítica genética na propaganda
     João Vicente Cegato Bertomeu ........................................................................................... 41
     Estratégias retóricas para a restauração da imagem quando sob ataque
     Vilma Lemos ....................................................................................................................... 47

Sugestão Bibliográfica
     Música caipira ou música sertaneja?
     .ernando Pereira ................................................................................................................ 54

Resenha
     Ética e responsabilidade social nos negócios
     Ana Claudia Marques Govatto ............................................................................................ 57



   C omunicação                                                                                                    Expediente
     Revista IMES Comunicação - Uma publicação do Centro Universitário Municipal de São Caetano do Sul


                    Ano lll - no 5                         Coordenadores Editoriais                               Revisão Técnica
               julho/dezembro-2002                            Gino Giacomini .ilho                                 Lídia Demboski
                                                             Sérgio Sanches Marin                                Nádia D. A. .uentes
              Diretor da Mantenedora                                                                        Lígia Demboski - CRB 8/4939
                                                            Jornalista Responsável
              Marco Antonio Santos Silva
                                                            Roberto Elísio dos Santos
           Vice-Diretor da Mantenedora                           - MTb 15637                              Produção e Impressão Gráfica
                Marcos Sidnei Bassi                       Coordenador do Curso de                        HM Indústria Gráfica e Editora Ltda.
                                                       Comunicação Social - Publicidade                     Tiragem: 1.500 exemplares
                        Reitor                              Sérgio Sanches Marin
               Laércio Baptista da Silva
                                                         Coordenador do Curso de                            Revista IMES Comunicação
              Pró-Reitor de Graduação                 Comunicação Social - Jornalismo e                           Av. Goiás, 3.400
               Carlos Alberto Macedo                            Radialismo                                 São Caetano do Sul - SP - Brasil
                                                            Gino Giacomini .ilho                                Tel.: (11) 4239-3212
          Pró-Reitor de Pós-Graduação e                                                                         .ax: (11) 4239-3245
                                                               Conselho Editorial
                     Pesquisa                                                                               E-mail: revimes@imes.edu.br
                                                                  Dilma de Melo
                René Henrique Licht                            Gino Giacomini .Ilho
                                                                   Liana Gottlilb                  O IMES, em suas revistas, respeita a
      Pró-Reitor Comunitário e de Extensão
                                                                  Sandra Reimão                    liberdade intelectual dos autores,
             Joaquim Celso .reire Silva
                                                                  Sílvio Minciotti                 publica integralmente os originais que
                      Execução                                  Conselho Técnico                   lhe são entregues, sem com isso
       Pró-Reitoria Comunitária e de Extensão                Professores do Curso de               concordar necessariamente com as
          Coordenadoria de Comunicação                         Comunicação Social                  opiniões expressas.




                                                                                                                                                3
 julho/dezembro-2002
C omunicação                                                                               Artigo




           CANAIS LOCAIS
    DE INFORMAÇÃO NA TV PAGA:
TVCOM, UM MODELO DE FUNCIONAMENTO



                                   Eliane Corti Basso
   Jornalista. Mestre e doutoranda em Comunicação Social pela UMESP. Docente nos cursos de
Comunicação Social do IMES, Anhembi Morumbi e FATEA (Faculdades Integradas Coração de Jesus).




                R E S U M O                                        ABSTRACT
Este trabalho procura mostrar um marco da           This work tries to show a historical television
televisão dos anos 90: a introdução de canais       mark of the nineties: the introduction of local
locais de informação na TV paga. O estudo tem       information channels on paid TV. The study aims
como parâmetro mostrar o modelo de                  to show the local communication model adopted
comunicação local adotado pela TVCOM (TV            by TVCOM (Community TV). An information
Comunidade). Um canal de informação 100%            channel totally local (100%) implemented
local, implementado através da integração de        through the integration of media and the other
mídias com os demais canais (meios de               channels (means of communication) owned by
comunicação), pertencentes ao grupo RBS (Rede       RBS group - Rede Brasil Sul de Comunicações
Brasil Sul de Comunicações), localizado em Porto    (Net South Brazil of Communications), localized
Alegre, Rio Grande do Sul. O canal foi implantado   in Porto Alegre, Rio Grande do Sul. The channel
em 1995 e sistematizou um modelo de comuni-         was implemented in 1995 and it systematized a
cação local na televisão brasileira. A análise      model of local communication on Brazilian
busca mostrar não só os fatores de sustentabi-      television. The analysis aims to show the bearing
lidade, mas também a importância para a             factors as well as its importance to the local
comunidade local onde atua.                         community where is performs.

PALAVRAS-CHAVE: TV paga, comunicação local,         KEYWORDS: paid TV, local communication,
canais de informação.                               information channels.




4
                                                                             julho/dezembro-2002
Artigo

             INTRODUÇÃO                                 para a divulgação das culturas                        tentativa de regular o serviço
                                                        locais. Na contramão, enfrentam                       denominado de cabodifusão. Um
   A televisão é o serviço de                           dificuldades para manter uma                          decreto de 1975 enquadrava o
comunicação de massa mais                               produção de qualidade por causa                       serviço como especial, mas com
importante que se tem no Brasil.                        dos altos custos.                                     os protestos da sociedade civil,
O país possui cerca de 45                                  O objetivo deste texto é                           através de manifestações de
milhões de domicílios, onde                             contribuir com os estudos sobre                       entidades não governamentais e
aproximadamente 85% contam                              os canais locais de informação na                     movimentos de discussões
pelo menos com um televisor.                            TV paga, mostrando um modelo                          alavancados nas Universidades, o
Mais de 92% recebem o sinal da                          de funcionamento. O estudo é                          decreto acabou sendo vetado
TV aberta.1                                             norteado pelo exemplo da TVCOM                        (Boffetti, 1999 p. 39-40).
   A TV aberta garante uma                              – TV Comunidade, localizada em                           Em fevereiro de 1988, o
hegemonia sem parâmetros em                             Porto Alegre, Rio Grande do Sul e                     ministro das comunicações do
outros países. Em meio a esse                           integrante do sistema RBS – Rede                      governo Sarney, Antônio Carlos
mercado, surge a TV paga,                               Brasil Sul de Comunicações.4                          Magalhães, baixou o Decreto n°
implantada há pouco mais de                                A TVCOM surgiu em maio de                          95.744/88 regulamentando o
dez anos no país e que nasceu                           1995 e sistematizou um modelo                         Serviço Especial de Televisão por
no início da década de 90 com                           novo de comunicação de infor-                         Assinatura, denominado TVA,
pouca expressão. De 1994 a                              mação 100% local através do                           destinado a distribuir sons e
1997, teve uma explosão pas-                            aproveitamento de mídias. É um                        imagens a assinantes, por meio
sando de 400 mil para 2 milhões                         modelo nos moldes da expe-                            de um único canal UH., através
de assinantes, mas desde 1998                           riência dos Estados Unidos, que                       de sinais codificados que são
experimenta um mercado retraí-                          passou, a partir da década de 90,                     transportados por espectro
do e bem abaixo da expectativa                          a introduzir canais locais de                         radioelétrico, o mesmo utilizado
gerada para a virada da primeira                        notícias na TV paga. O modelo                         pelos canais comuns de televisão,
década. Enfrenta ainda um                               norte-americano é o tipo mais                         sendo permitida, a critério do
mercado arredio, atingindo cerca                        integral na perspectiva da                            poder concedente, a utilização
de 10% dos domicílios2. Não se                          economia de mercado e se                              parcial sem codificação.
tornou um hábito generalizado                           encaixou na proposta do grupo                            Com o decreto, abriu-se a
por razões culturais e econô-                           gaúcho.                                               possibilidade, por meio da
micas. É, acima de tudo, elitizada                                                                            operação em UH., da transmissão
para uma sociedade de quase 50                                     1 A HISTÓRIA                               de conteúdos locais, da qual faz
milhões de miseráveis (29,3%)3.                                                                               parte o canal TVCOM de Porto
Por outro lado, existe uma parte                            Uma das mais significativas                       Alegre. A legislação de TV paga,
da população com poder aquisi-                          mudanças ocorridas na televisão                       no Brasil, começou a ser configu-
tivo que ainda não assina                               brasileira dos anos 90 foi à                          rada a partir desse painel, onde
nenhum sistema. Por isso, os                            introdução do jornalismo 24 horas                     foram entregues concessões para
canais pagos terão que oferecer                         através da TV paga. Em rede                           o funcionamento de canais em
atrativos para, então, criar o                          nacional, o marco é do canal Globo                    UH..
hábito de pagar para se ver TV.                         News, da Rede Globo, em 1996.                            Até o surgimento da Lei da TV
Chamar a atenção do assinante                           Em diversas cidades brasileiras,                      a Cabo, isto é, de 1989 a 1995,
para as informações da sua rua,                         com operação local, surgem os                         as operações que existiam eram
seu bairro, sua cidade ou região                        canais de informação. Em 1995,                        amparadas numa portaria de
é uma das fórmulas que as                               no Rio Grande do Sul, o Grupo RBS                     DisTV, Sistema de Distribuição
operadoras têm encontrado.                              implanta o canal TVCOM (TV                            de Sinais de TV por meio físico.
   Os canais locais têm não só                          Comunidade) que nasce com a                              O Brasil foi um dos últimos
mostrado, em muitos lugares,                            proposta de divulgar as realiza-                      países da América Latina a im-
um diferencial competitivo e                            ções da comunidade local.                             plantar a TV paga e a institucio-
importante para atrair os                                   A Legislação sobre TV a Cabo                      nalizar a TV por cabos. Depois de
assinantes como também se                               no Brasil começou a ser im-                           um longo processo de discussão
constituem em novos espaços                             plantada na década de 70, com a                       (que contou com a participação

1
    ABERT - Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Disponível em:<<http://www.abert.com.br>>. Acesso em: 26/07/2001.
2
    GUIA de canais. Revista Pay TV. São Paulo, p.11, ago.2001.
3
    O ESTADO DE S. PAULO. Reportagem citando a .undação Getúlio Vargas. São Paulo, 10 jul. 2001, p.8. Geral.
4
    A RBS é um dos principais grupos de comunicação do Brasil que atua no Rio Grande do Sul e Santa Catarina com emissoras de rádio e televisão e jornais entre
    outros serviços.

                                                                                                                                                           5
    julho/dezembro-2002
C omunicação                                                                                                                               Artigo

inédita da sociedade civil, repre-                      com alcance de uma cidade ou                          mente, as formas de produção
sentada pelo .órum Nacional pela                        região formada por um grupo                           dos canais locais no Brasil variam
Democratização das Comunica-                            pequeno de cidades.                                   entre as enxutas estruturas, pro-
ções e sob a liderança da .edera-                          Desde o início da década de 90,                    duções terceirizadas e soluções
ção Nacional dos Jornalistas), foi                      inúmeras emissoras de tevê a cabo                     híbridas, vendendo a maior parte
elaborada a Lei nº 8.977, de 6 de                       começaram a se instalar nas                           do tempo do canal para produ-
janeiro de 1995, mas, somente                           grandes cidades dos Estados                           toras independentes e exibindo
em 1997, a lei e a norma foram                          Unidos. Nesse sentido, dois                           alguns programas próprios, bus-
definitivamente publicadas.                             exemplos foram tomados por base                       cando nestes casos aproveitar o
   A lei obrigou as operadoras, a                       para a implantação da TVCOM de                        canal como ferramenta de marke-
exemplo da lei norte-americana,                         Porto Alegre: a New York One (NY1)                    ting. Poucos são os modelos que
a disponibilizar seis canais de                         e a Chigaco Land TV.                                  conseguem sobreviver com
acesso público e gratuito: sendo                           A New York One5 no ar desde                        qualidade estética e de conteúdo
três canais legislativos (Senado,                       1992 e apontada como a pioneira                       na programação mantida local-
Câmara .ederal e um terceiro                            no telejornalismo regional, foi                       mente por causa dos altos custos.
compartilhado pela Assembléia                           criada pelo grupo Time-Warner.                            A TVCOM, inaugurada em
Legislativa - Câmara Municipal),                        É um canal de informações e                           1995, no Rio Grande do Sul, se
um canal educativo-cultural,                            serviços que transmite 24 horas                       mostrou um dos modelos mais
reservado para utilização pelos                         diárias de programação voltada                        bem acabados por isso a impor-
órgãos dos governos federal,                            totalmente para a comunidade                          tância em descrevê-lo. É uma
estadual ou municipal que tratam                        nova-iorquina. Uma equipe de 25                       emissora local de transmissão
de educação e cultura, um canal                         repórteres procura cobrir tudo o                      mista por UH. e pelo sistema pago
universitário, para uso comparti-                       que acontece na cidade, com a                         (cabo e MMDS), com abrangência
lhado das universidades localiza-                       agilidade próxima ao modelo de                        inicial de 10 municípios da
das na área de prestação do                             rádio. A NY1 implantou a figura                       grande Porto Alegre7, a quem o
serviço, um canal comunitário,                          polêmica do videojornalista, um                       grupo RBS classificou de primeira
aberto para utilização livre por                        profissional que dirige o carro,                      experiência comunitária do Brasil
entidades não governamentais e                          carrega a câmera e faz as                             denominado de Canal da Comuni-
sem fins lucrativos. A lei também                       entrevistas.                                          dade8, e primeiro canal de infor-
determina que as operadoras                                A Chigaco Land TV 6 , no ar                        mação local.
devem manter dois canais para                           desde 1993, é uma emissora que                            A TVCOM foi projetada para ser
uso eventual, mediante aluguel.                         trabalha com conteúdo local,                          a emissora com programação
   Atualmente, os canais locais                         mas que apresenta o diferencial                       segmentada e jornalística, voltada
podem ser de acesso público,                            de compartilhar informações                           para os acontecimentos da grande
como os comunitários e universi-                        com o rádio e o jornal do mesmo                       Porto Alegre, mas sem se fechar
tários, previstos em Lei, e                             grupo.                                                num microcosmo local. Abriu com
                                                           No Brasil, a exemplo da                            a proposta de ser uma conexão da
comerciais, como é o caso da
                                                        experiência norte-americana, a                        tendência do mundo globalizado
TVCOM de Porto Alegre.
                                                        TV paga descobriu o potencial                         que se traduz na expressão
        1.1 A Proliferação dos                          dos canais locais. Espalhados por                     ‘glocal’, oportunizando o debate
            Canais Locais                               diversas operadoras, eles têm se                      de assuntos globais voltados à
                                                        tornando instrumento importante                       realidade local.
   A década de 90 marca a                               na hora de oferecer o pacote de                           A idéia de colocar no ar algo
proliferação dos canais locais de                       programação para os assinantes.                       inédito no país, fez com que
informação na tevê paga, nos                            A televisão local vem despontando                     diversos profissionais da RBS TV
Estados Unidos e na Europa. O                           como uma alternativa ao modelo                        viajassem para os principais países
Brasil inicia as primeiras expe-                        nacional de redes implantado no                       com desenvolvimento avançado
riências com o advento da im-                           Brasil.                                               em televisões comunitárias, locais
plantação do UH. e, posterior-                             Num levantamento realizado                         e com programação voltada para
mente, com as operações de                              nas principais operadoras de TV                       notícias, a fim de saber o que
MMDS e Cabo. São emissoras                              a Cabo, percebeu-se que, atual-                       estava sendo feito no mundo

5
    NY1. Disponível em:<www.ny1.com <http://www.ny1.com>>. Acesso em 12/09/2001.
6
    CHICAGO Land TV. Disponível em: <www.cltv/com/about/station <http://www.cltv/com/about/station>>. Acesso em 12/09/2001.
7
    Além de Porto Alegre, o sinal chegava a Canoas, Gravataí, Viamão, São Leopoldo, Alvorada, Sapucaia do Sul, Cachoeirinha, Guaíba e Esteio.
8
    Esse é um conceito de comunitário comercial empregado pela emissora. Não faz parte do conceito de canal comunitário previsto na Lei de TV a Cabo do Brasil.

    6
                                                                                                                          julho/dezembro-2002
Artigo

nessa área. .oram analisadas as                       problemas que envolvem as                                 Ao longo dos seus já quase
programações dos canais NY1, dos                      cidades da grande Porto Alegre, a                      oito anos de existência, a progra-
Estados Unidos; TN - Todo Notícias,                   TVCOM chegou a ser chamada de                          mação foi sendo experimentada
da Argentina; City TV, do Canadá;                     CNN gaúcha11. Mas a pretensão de                       e moldada pelo retorno da
LCI, da .rança; Channel One, da                       acabar sendo “o primeiro canal de                      comunidade e do mercado
Inglaterra; e a Land TV de Chicago                    notícias a funcionar 24 horas por                      publicitário.
para consolidar a idéia do canal.                     dia” não se concretizou. A emis-                          A TVCOM passou por três
    A concepção foi de ser, a                         sora caracterizou-se por ser um                        grandes fases, denominadas pela
exemplo da NY1, um canal voltado                      canal de informação em diferentes                      pesquisa: implantação, renovação
à comunidade local, no caso da                        formatos.                                              e consolidação. A programação
TVCOM voltada à comunidade                               O canal TVCOM foi autorizado                        inicial procurava o foco nas
porto-alegrense. Raul Costa Jr                        pelo Decreto n°. 95744 de 23 de                        problemáticas locais, com uma
                                                      fevereiro de 1988. A legislação                        formatação “popular” tentando
(2001) 9, diretor de telejornalismo
                                                      permite a utilização com sinal                         mostrar, com bastante ênfase, os
da RBS, salienta que, em relação
                                                      aberto com apenas 35% do                               problemas dos bairros (linhas de
à emissora norte-americana, “foi
                                                      tempo. O restante é codificado.                        ônibus, saneamento básico,
feita uma adaptação do conceito
                                                      Desta forma, das 24 horas de                           poluição, buracos nas ruas,
de news local para o conceito de
                                                      operação, apenas 8h podem ser                          escola, creche, lixo, iluminação
informação local”.                                    disponibilizadas no sistema
    Para colocar no ar a nova                                                                                etc.), mas foi aos poucos sendo
                                                      aberto de televisão.                                   deixada de lado, pela proposta de
emissora, foram montados dois                            A grade da programação
estúdios, o principal no Morro                                                                               público alvo a que o canal
                                                      apresenta três tipos de for-                           começou a se destinar, focado nas
Santa Tereza, prédio onde                             matação: 1) programas inéditos
funciona a RBS TV e outro na                                                                                 classes A/B, com condições de
                                                      (17h às 01h - período em que o                         pagar uma assinatura de TV.
redação do Jornal Zero Hora e                         sinal está aberto); 2) jornal
                                                                                                                Depois de dois anos e meio,
Rádio Gaúcha AM. Um terminal                          eletrônico 12 (01h às 8h) e 3)
                                                                                                             chega ao fim à primeira fase da
ligado aos dois foi instalado para                    programas de reprise (8h às
                                                                                                             TVCOM. .oi um período de
possibilitar o contato direto entre                   17h) 13. A programação inclui
                                                                                                             implantação, experimentação e
os apresentadores, viabilizando                       notícias e programas de jorna-
                                                                                                             adaptação da nova forma de
assim a formatação da proposta                        lismo especializado para todo o
                                                                                                             fazer televisão. Nesse período,
de integração de mídias. A                            tipo de público, explorando temas
                                                                                                             o público viu desfilar pela tela
concepção do canal foi de                             como política, economia, mercado
                                                                                                             programas que entravam e
aproveitamento de todas as                            imobiliário, consumidor, esportes,
                                                                                                             saíam da grade conforme a
mídias do grupo RBS, formatando                       turismo, veículos etc., alguns com
                                                      público bem segmentado, procu-                         aceitação. Mudou o enfoque e o
assim uma integração da                                                                                      canal passou a ser visto como
produção de notícias e do parque                      rando atender ao perfil do
                                                      telespectador de tevê paga.                            negócio que precisava ser auto-
técnico do rádio, jornal e tevê,                                                                             sustentável, algo que ainda não
otimizando custos e produção,                            Embora sendo um canal com
                                                      proposta de ser segmentado na                          tinha conseguido. A mudança de
como o modelo apresentado pela                                                                               fase marcava uma renovação
                                                      informação, os formatos dos
Land TV de Chicago.                                                                                          estética e de programação.
                                                      programas da TVCOM procuram
    A idéia de fazer tudo ao vivo,                                                                              A TVCOM do início da segunda
                                                      atender a um público hetero-
em um estúdio só10, transformou                                                                              etapa começa muito parecida
                                                      gêneo. Os programas de maior
a rotina de trabalho numa mara-                       destaque e apelo de audiência                          com o modelo de tevê tradicional,
tona e obrigou os profissionais                       estão distribuídos na grade                            mas muda rapidamente para
a adotarem a agilidade do rádio                       diária, ao vivo, com duração                           tornar-se um diferencial na
na condução dos programas.                            variável. Os demais se tornaram                        comunidade e ser mais rentável.
    Pela forte abordagem jorna-                       semanais, com exibição aos                                A emissora levou quase quatro
lística, feita ao vivo e capaz de ser                 sábados ou domingos, sendo a                           anos para conseguir o equilíbrio
interrompida a qualquer momen-                        maior parte gravada com ante-                          financeiro. A consolidação culmi-
to para entradas externas, com                        cedência.                                              nou com dois fatores importantes.

9
   Entrevista concedida à pesquisa em agosto de 2001, Porto Alegre.
10
   Os programas eram apresentados todos do estúdio localizado no prédio da RBS TV. O estúdio, montado no Jornal Zero Hora, servia apenas para o aproveitamento
   de conteúdos dos profissionais do jornal e do rádio. Não era utilizado para a geração de um programa todo.
11
   Essa denominação CNN Gaúcha foi encontrada em reportagem que saiu na Rede Globo, em 1995, no programa Vídeo Show.
12
   Sem apresentadores e sem locução, o telejornal é um programa gráfico onde as informações são apresentadas através de textos e imagens.
13
   Geralmente são reprisados os talk-show e todos os programas que passam no canal aberto da RBS.

                                                                                                                                                          7
     julho/dezembro-2002
C omunicação                                                                                                           Artigo

O primeiro foi à mudança de                           Herz, controla cerca de 80%15 das          com o sistema de TV paga. O
enfoque com a forte abordagem                         verbas publicitárias através do            canal trabalha com dois tipos de
dada à cobertura de eventos e                         seu complexo de mídia. Sua                 anunciantes: o pequeno que
coberturas ao vivo; o segundo                         inserção na cultura regional vem           busca uma mídia mais acessível
com a distribuição do sinal no                        ano a ano se consolidando. A               e empresas de grande porte que
interior do Rio Grande do Sul,                        estratégia é trabalhar com a               buscam regionalizar sua marca.
aumentando com isso o número                          filosofia do localismo, chegando              Diversos são os aspectos que
de telespectadores e melhorando                       cada vez mais próximo da                   fazem do canal local uma forma
a comercialização dos programas.                      comunidade e a TVCOM foi feita             de comunicação diferenciada. No
   A TVCOM de Porto Alegre é                          sob medida para atender a essa             caso da TVCOM, a agenda é fle-
distribuída pelo sistema NET (cabo                    demanda.                                   xível. Seus horários e programa-
e MMDS), para 300 mil assinantes                           No campo estrutural, o canal          ções podem ser modificados em
no Rio Grande do Sul (150 mil na                      TVCOM, compartilha o parque                função de necessidades emer-
grande Porto Alegre e 150 mil                         técnico da RBS TV, o que permite           gentes de modo mais fácil e sim-
em 17 municípios do interior                          apresentar uma finalização de              ples do que as redes de televisão.
gaúcho)14 e ainda para a cidade                       programas e exibição com                   Os programas são realizados
de Chapecó, Santa Catarina. A                         qualidade, uma vez que o grupo             pelos departamentos de jorna-
distribuição também acontece                          busca uma constante atualização            lismo e produção que trabalham
pelo sistema UH., na grande Porto                     dos lançamentos de equipamen-              no mesmo espaço dentro da
Alegre. O público estimado é de                       tos do mercado.                            redação da RBS TV.
dois milhões e 100 mil telespecta-                         A concorrência da TVCOM no               Com a RBS TV, a TVCOM divide
dores conforme mapa de distri-                        mercado de televisão de Porto              ilhas de edição, links para
buição da emissora.                                   Alegre já é indiscutivelmente              entradas ao vivo e um helicóptero.
                                                      muito concreta. César .reitas16,           A TVCOM possui um estúdio
       2 .ATORES DE
                                                      gerente de Jornalismo, resume:             principal para apresentação da
     SUSTENTABILIDADE
                                                           A TVCOM é uma empresa do              maioria dos programas e um
         DA TVCOM
                                                      grupo RBS e, como empresa, busca           estúdio para os programas de
   O principal fator de sustenta-                     lucro. Mas ela vê o lucro advindo          notícias. Esse funciona no último
bilidade da TVCOM é, sem                              da comunicação na prestação de             andar do prédio da RBS TV, com
dúvida, a integração de mídias                        serviços no seu nicho de atuação           fundo de vidro mostrando ao
onde se divide o parque técnico                       (...) Nós temos claro que, se nossos       fundo uma panorâmica da cidade
e profissional com os demais                          serviços forem bem feitos, as              de Porto Alegre. Além desses,
veículos do grupo RBS, maximi-                        pessoas vão pagar por eles. (...) A        funciona ainda um terceiro na
zando os custos de operação e                         fórmula de sustentação passa pela          redação do Jornal Zero Hora, nos
trabalhando com economia de                           maximização e otimização da                mesmos moldes de quando o
escala, mas seu modelo de                             produção, passa pela possibilidade         canal foi inaugurado em 1995.
funcionamento também se deve                          de utilizar o know-how de fazer               O departamento de jornalismo
a um conjunto de circunstâncias,                      televisão adquirido pela RBS, as           é o mais dependente da produção
algumas históricas-culturais e                        pessoas que fazem a TVCOM são              de material do complexo de mídia
outras de mercado que foram                           pessoas com experiências nos               da RBS. Os programas de notícias
sendo criadas.                                        mais diferentes veículos da RBS é          utilizam dois níveis diretos de
   A TVCOM está no terceiro                           claro que a TVCOM assumiu o                aproveitamento da infra-estrutura
melhor mercado publicitário do                        respeito publicitário do grupo,            da empresa. O primeiro é a
país, perde apenas para São Paulo                     então ficou mais simples.(...) A           produção de matérias da RBS TV,
e Rio de Janeiro. O jornalista                        TVCOM não saiu do zero, por trás           do Jornal Zero Hora, da Rádio
Daniel Herz estima que o Estado                       já tinha um caminho andado pela            Gaúcha e do portal de notícias Clic
abocanha 8% 15 do mercado                             RBS.                                       RBS. O segundo nível se dá na
nacional, sendo potencialmente                             A receita da TVCOM tem                utilização de equipes de repor-
bastante expressivo. O poder de                       origem em duas vertentes no                tagem da RBS TV Porto Alegre e
fogo está com a RBS que, segundo                      contrato de comercialização e              interior para a realização de

14
   Dados fornecidos pela emissora em 2001.
15
   Dado estimado com base em pesquisas realizadas por Daniel Herz e repassado a esta pesquisa.
   Entrevista concedida em julho de 2001. Daniel Herz é diretor de relações Institucionais da
   .ederação dos Jornalistas.
16
   Entrevista concedida à pesquisa, julho de 2001.

 8
                                                                                                         julho/dezembro-2002
Artigo

entradas ao vivo. A emissora apre-                      arborização urbana, índice de          o Canal 20, o Canal 14 - TV
senta um jornal diário de uma                           leitura de jornais em regiões          Comunitária, e o Canal 15 - Uni-
hora de duração e boletins de um                        metropolitanas (76%, segundo a         versitário, que transmitem con-
a três minutos, durante os inter-                       Marplan), compra de livros (em         teúdo local. Na TV aberta, além
valos comerciais. Basicamente são                       nível estadual), assistência ao        da RBS - TV, a TV Educativa, a
informativos de prestação de ser-                       cinema, consumo de produtos            Bandeirantes, a Guaíba e a Rede
viços e de notícias do momento                          ligth/diet e uso de celulares. O PIB   Pampa têm programação local.
denominados de hard news.                               do Estado está acima de todos os           O vínculo da TVCOM com a
   O departamento de produção                           países do Cone Sul, à exceção da       comunidade se estabelece em
é responsável pela maior parte da                       Argentina.                             vários níveis: participação na
programação, incluindo progra-                              A posição, histórico-cultural e    programação, exibição de pro-
mas diários, semanais, cobertu-                         política, mostra a formação de         gramas de interesse para a comu-
ras e programas especiais. Cada                         um povo intelectualizado que           nidade, cobertura dos eventos e
programa costuma ser formado                            gosta de debater e opinar, por         realização de eventos e campa-
por uma dupla de um produtor e                          isso encontra campo fértil em          nhas comunitárias. Através dessas
um editor/apresentador.                                 muitos programas do canal              ações, ocupa espaços, define
   Além dos aspectos estruturais                        TVCOM que se caracterizam como         hábitos, divulga fatos, envolve-
e de mercado, é preciso com-                            jornalismo opinativo e produções       se com as problemáticas locais,
preender os aspectos culturais                          de especiais de cunho histórico.       forma a opinião pública e serve
que também são bases de susten-                         Há uma preocupação muito forte         como um instrumento mediador
tação do modelo de comunicação                          direcionada à valorização da           importante na referência dos
local. Entre as particularidades da                     cultura local e à cobertura dos        assuntos de interesse local.
população estão a forte abor-                           principais eventos que acontecem           A TVCOM também procura,
dagem política, a valorização da                                                               através dos especiais, retratar na
                                                        no Estado.
cultura e a presença constante                                                                 tela o resgate da trajetória histórico-
                                                            A análise do fator da identi-
dos contrários: uma dicotomia                                                                  cultural do povo rio-grandense. Em
                                                        dade cultural permite a com-
que permanece até os dias atuais.                                                              julho de 2001, período em que esta
                                                        preensão da relação de valoriza-
   Tais fatores têm explicação na                                                              pesquisa foi realizada, além de
                                                        ção que o público gaúcho mantém
história: o Rio Grande do Sul foi                                                              passar as séries Mundo Grande do
                                                        com seus canais locais de comuni-
formado por muitas guerras,                                                                    Sul, Contos de Inverno e Curtas
                                                        cação como a TVCOM, que, por
desenvolvendo no povo gaúcho                                                                   Gaúchos, abria espaço, aos sábados
uma forte identidade política e de                      apresentar uma programação             à noite, para especiais de música
valorização cultural. Os reflexos                       voltada às características regio-      voltada à bandas e músicos
da identidade cultural do Rio                           nais, assume um papel integrador       gaúchos, com programas de duas
Grande do Sul desempenham um                            com a comunidade. É por isso que       horas de duração.
papel relevante nos valores que                         os resultados da pesquisa enco-            A TVCOM uma emissora local,
conservam, e apontam índices,                           mendada pela emissora em maio          mas que procura se comunicar com
frutos da trajetória histórica, que                     de 2001, realizada pela .ocus          os fatos de interesse da comuni-
fazem os gaúchos adotar uma                             Consultoria, apresentam os             dade gaúcha onde quer que eles
postura de defesa e orgulho de                          seguintes dados: “Caráter local:       estejam acontecendo. A emissora
seus valores regionais. Hoje, o Rio                     .ala de Porto Alegre e o que           passou a enviar equipes comple-
Grande do Sul é o quarto maior                          acontece na cidade. Até a fala é       tas para cobrir eventos fora da sua
Estado do País e lidera alguns dos                      mais do gaúcho. A TV do nosso          cidade, do seu estado e mesmo
mais importantes índices sociais,                       estado, feita por pessoas do           fora do país, para captar os fatos
conforme dados divulgados no                            nosso estado. Conteúdo: É uma          com a visão local. Nesse sentido,
Jornal Meio & Mensagem (2000),                          TV culta. Sempre tem algo              a emissora já foi à .rança fazer
em edição especial sobre os                             diferente para ver. Relação com        reportagens sobre a vinicultura
gaúchos, entre eles estão:                              o cotidiano: Aborda assuntos da        e ao Canadá e Nova Iorque para
alfabetização (72, 81%); mortali-                       comunidade, do dia-a-dia. Os fatos     acompanhar missões empresariais.
dade infantil, expectativa de vida                      ocorrem hoje e hoje mesmo estão        Realiza coberturas esportivas em
e ingresso de jovens no terceiro                        sendo debatidos.”                      todo o Brasil e está presente em
grau, por exemplo. Além disso, a                            Mas a TVCOM não está sozi-         eventos de moda do país em que
capital, Porto Alegre, tem as                           nha no mercado de comunicação          há representatividade da indús-
maiores taxas nacionais de                              local. Na TV paga existem ainda:       tria gaúcha.
17
     Entrevista concedida à pesquisa em agosto de 2001, Porto Alegre.

                                                                                                                                   9
     julho/dezembro-2002
C omunicação                                                                                                                             Artigo

     Alexandre Oliveira (2001) 17                          É através das operações de TV                   emissora com custos mais
gerente de Marketing da RBS TV                         paga que se abre a perspectiva                      baixos. Este apresenta uma
e TVCOM, enfatiza o enfoque da                         para incrementar a comunicação                      evolução planejada, guiada por
TVCOM com essas coberturas:                            das comunidades, tanto através                      diagnósticos do mercado, diretriz
     “São curiosidades de interesse                    dos canais de acesso público                        básica que norteia a trajetória do
para todas as regiões do Estado                        quanto dos canais locais co-                        grupo RBS que firmou um
(...). Se tiver um evento mundial de                   merciais.                                           conceito de comunicação local no
cerveja, provavelmente a TVCOM                             Do sul para o nordeste, mudam                   Rio Grande do Sul e em Santa
não vá porque nós não temos                            os costumes e o jeito de falar, mas                 Catarina. A empresa multimídia
grandes cervejarias no Rio Grande                      alguns canais de TV local estão                     é a base de viabilização ao mo-
do Sul, nós temos unidades fabris,                     conseguindo alçar vôos maiores,                     delo desenvolvido pela TVCOM.
não temos tradição, mas se tiver                       apostando na cultura regional. A                    A RBS aproveitou os anos 80 para
um de churrasco no Japão, nós                          existência desses canais é recente                  montar uma estrutura de rede
vamos”. Essa é a diferença entre                       e não se tem praticamente nada                      regional de informação eficiente
um conceito de localismo e o                           escrito. Não se sabe nem ao certo                   e com alto padrão de qualidade.
conceito comunitário. Um sim-                          quantos existem. Eles estão                            A TVCOM nasceu de uma
plesmente aborda assuntos da                           espalhados nas mais diversas                        vontade legítima da população de
comunidade, o outro busca o                            operadoras em todo o país.                          Porto Alegre, que se sentia ca-
conceito de atuação e envolvi-                             Um levantamento preliminar19                    rente de informações locais nos
mento em todos os segmentos,                           apontou que existem várias                          telejornais da própria RBS TV e se
relacionando-se com todos os                           formas de funcionamento. A                          encaixou no projeto do grupo de
                                                                                                           investir em emissoras pelo siste-
fatos de interesse.                                    maioria dos canais locais comer-
                                                                                                           ma UH. e por assinatura. Intera-
     Por fim, o sucesso da TVCOM                       ciais é destinada à utilidade
                                                                                                           ção e participação ativa da comu-
pode ser traduzido numa frase                          ‘caseira’, onde as operadoras
                                                                                                           nidade fazem o canal prosperar.
citada pela coordenadora de                            aproveitam para comercializar
                                                                                                           O foco é estar presente no dia-a-
produção do canal, Marlise                             os horários e aceitam materiais
                                                                                                           dia das cidades que fazem parte
Salgado Aúde (2001) 18, aliás bem                      terceirizados. Poucas são as que
                                                                                                           da atuação. É a TV participando
bairrista, característica da                           estão realmente estruturadas e                      da vida dos cidadãos. As ações
identidade cultural do Estado: “É                      conseguiram avançar na comer-                       comunitárias ajudam a criar um
o Rio Grande do Sul se olhando                         cialização além dos prejuízos.                      contato direto com o público e,
na tevê e é por isso que dá certo”.                        O grande desafio reside na                      nesse sentido, a emissora gaúcha
                                                       capacidade de conquistar a                          sabe muito bem como fazer.
               CONCLUSÃO                               comunidade, refletindo e melho-                        A TVCOM nasceu com a
                                                       rando seu cotidiano, aspectos                       característica de ser uma emissora
   A sociedade planetária tem                          que transcendem a telinha. Mas,                     de jornalismo comunitário, nem
levado as pessoas cada vez mais                        acima de tudo, precisam atrair                      tanto mostrando, mas debatendo
à fragmentação, à solidão e à                          empresas locais e verbas regio-                     os problemas estruturais. Com o
separação, mas, contraditoria-                         nais de grandes anunciantes                         tempo, mudou o enfoque para um
mente, essa revolução científico-                      para sobreviverem. O principal                      conceito local, mais adequado ao
tecnológica gera os meios para                         obstáculo é a operação em rede,                     seu tipo de funcionamento,
criar um tipo de individualidade                       formatação da televisão brasi-                      visando atingir o público da TV
mais rica e, ao mesmo tempo, mais                      leira, que drena os recursos pu-                    paga, classificado prioritaria-
coletiva. Ela tanto pode separar                       blicitários para a comercializa-                    mente nas classes A/B.
como unificar, integrar. Uma TV                        ção e produção no eixo Rio - São                       Apesar da forte abordagem
local pode fazer o movimento                           Paulo.                                              dos programas informativos,
contrário a essa solidão do mundo                          O canal TVCOM de Porto                          jornalismo opinativo e serviços,
moderno, porque integra com a                          Alegre, objeto deste estudo, tem                    a emissora não se considera
comunidade, gera uma dinâmica                          um modelo considerado de                            apenas classificada no gênero de
da cidadania, gera disputas                            excelência dentro das condições                     informação, mas também no de
democráticas, colocando no palco                       existentes no país e consegue,                      entretenimento, isso porque apre-
pontos de vista diferentes a                           através do aparato de mídias do                     senta programas que misturam
respeito de tudo.                                      grupo RBS, fazer funcionar a                        informação com descontração.

18
     Entrevista concedida à pesquisa, julho de 2001.
19
     Levantamento feito em algumas operadoras de TV a Cabo e junto ao material publicado no artigo: POSSEBON, S.; RAMOS, R. Tornar canal local atraente é
     deságio para novos players. Revista Pay-TV. São Paulo, v. 7, n. 74, set. 2000.

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Artigo

   É uma emissora que não cobre         rentes setores sociais, consti-        estabelecer laços de afeição com
somente os fatos que acontecem          tuindo-se uma arma de valoriza-        a comunidade. De outro lado, é
no Estado, mas também procura           ção da identidade cultural local.      mais um negócio que já tem o
informar os gaúchos dos aconte-         Através da sua programação,            tamanho de um mercado, já
cimentos relativos à sua econo-         consegue respeitar as caracterís-      competindo em faturamento com
mia e sua cultura, provenientes         ticas culturais locais, proporcio-     algumas das emissoras de sinal
de onde estiver a notícia.              nando mais espaço para o               aberto de Porto Alegre.
   Pela observação direta na            aprofundamento das questões. O            A comunicação local, seja ela
programação, foi possível detectar      grande diferencial está na             disponibilizada pelo acesso aos
que a identidade cultural local, seja   liberdade de ter à disposição 24       canais públicos ou pelos comer-
ela expressa através da música, da      horas de programação, podendo          ciais, em geral, tem representado
arte, da política, da economia, do      realizar programas e coberturas        um ganho nas comunidades
esporte, é retratada na TVCOM.          em que as outras redes ficam           locais. Mas é como Daniel Herz,
Muitos são os programas que             limitadas pelo tipo de funciona-       em entrevista, colocou: não é a
buscam dar espaço e abordagem           mento. A programação difere na         alternativa, é uma das alterna-
a esses aspectos.                       abordagem, mas não na apuração,        tivas para o planejamento equili-
   A emissora não é comunitária         isso porque é realizada por            brado da comunicação no Brasil:
na acepção da lei e nem no que          profissionais multimídias e segue         A comunicação local não é uma
se refere aos fatores sociológicos      as orientações básicas para todos      panacéia que vai resolver o pro-
porque limita o acesso e a partici-     os veículos do complexo RBS.           blema da comunicação no país ou
pação, mas cumpre com sua pro-             Verificou-se, ainda que empiri-     que vai democratizar a comuni-
posta de ser comunitária no que         camente, que o canal é um forte        cação. O ideal é formatar um
pode se referir a uma emissora          instrumento de reforço institu-        equilíbrio entre as emissoras com
comercial. Ela atende a uma             cional da imagem da empresa            programações nacional, regional
comunidade geográfica, abrindo          perante o mercado. A filosofia de      e local (...). É preciso ter janelas
espaço para a expressão dos dife-       valorização do local colabora para     para a rua e para o mundo.



                                        RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS
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                                                                               U.ES, Vitória, v. 1, n. 1, p. 59-64.
                                        HOINE.., N. A nova televisão:          mar. 1996.
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 democracia na TV a cabo.1999.                                                 Hora, Porto Alegre, 15 mai. 1995,
                                        Comunicação Alternativa : Dumará,
 Dissertação (Mestrado em                                                      p. 1. Segundo Caderno.
                                        1996.
 Comunicação Social) -                                                         ESPECTADOR quer ver a
 Universidade Metodista de São          LOPES, V. TV comunitária vai ao ar     comunidade na tevê. Zero Hora,
 Paulo, São Paulo, 1999.                em maio. Zero Hora, Porto Alegre,      Porto Alegre, 21 jun. 1995, p. 59.
                                        18 abr. 1995, p. 4.                    Geral.
 ENCONTRO discute o futuro da           MEIO & MENSAGEM. Gaúchos               ENCONTRO discute o futuro da
 televisão. Zero Hora, Porto Alegre,    projetam 2001. São Paulo, 11 dez.      televisão. Zero Hora, Porto Alegre,
 31 mai. 2000. p. 40.                   2000. Edição especial.                 31 mai. 2000, p. 40.




                                                                                                                 11
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     A INFLUÊNCIA DAS CHUVAS NA
 CIRCULAÇÃO DOS JORNAIS DE MANAUS




                                   Gilson Monteiro
 Professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre (FEA-USP) e doutor (ECA-USP).
             Autor do livro “(Des)vantagem competitiva e (In)diferenciação estratégica”
                              (São Paulo: Edicon, 1999), dentre outros.




               R E S U M O                                       ABSTRACT
Este artigo é a síntese de um dos capítulos da   This article is the synthesis of the one of the
tese “Por um clique: o desafio das empresas      chapters of the thesis “.or a click: the challenge
jornalísticas tradicionais no mercado da         of the traditional journalistic companies in the
informação – Um estudo sobre o posicionamento    information market – A study about journalistic
das empresas jornalísticas e a prática do        companies position and jornalism practice the
                                                 practice of the journalism in nets, in Manaus”, it
jornalismo em redes, em Manaus”, defendida em
                                                 was defended in March of 2003, in the Escola de
março de 2003, na Escola de Comunicações e
                                                 Comunicações e Artes da Universidade de São
Artes da Universidade de São Paulo. O capítulo
                                                 Paulo. The chapter was increased to the thesis
foi acrescentado à tese por se tratar de uma     because it deals about the most interesting
descoberta de pesquisa das mais interessantes:   research discovery: the rains get to tempt the
as chuvas chegam a provocar a diminuição de      decrease up to 40% in the circulation of the
até 40% na circulação dos jornais.               newspapers.

PALAVRAS-CHAVE: jornalismo, marketing em         KEYWORDS: journalism, marketing in journalism,
jornalismo, logística.                           logistics.




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Artigo

       1 INTRODUÇÃO                        Benchimol (1977) chama a                 Com esse tipo de vivência, o
                                       atenção para o regime de en-             caboclo que mora no Amazonas
   A logística, estrutura básica que   chente e vazantes, conhecido na          torna-se capaz até de conhecer o
garante a circulação de jornais, no    região como “regime das águas”,          comportamento do clima na
Amazonas, é mais complicada que        que determina, basicamente, a            região. Assim, sabe que de julho
em qualquer outra região do País.      ocupação das áreas e o trabalho          a dezembro é a época de vazante
O ciclo das águas é determinante       desenvolvido pelo homem ama-             do rio. E em época de vazante do
para garantir uma estrutura de         zônico. O que o autor não vislum-        rio, é, também, a época do verão
transporte mais eficiente ao           brou à época, e nem poderia, era         amazônico. Logicamente, na
homem da Amazônia. A água é de         que o regime das águas, que tem          época do verão, as chuvas são
suma importância, não apenas           relação com as épocas de chuvas          mínimas. Ora, quando o tempo
como elemento essencial à vida.        e secas na região, também teria          muda, na época do verão, na noite
No Amazonas, a água é parte da         influência na atividade empresa-         anterior, é possível que se acerte
vida não apenas como alimento. A       rial jornalística na região. Para ele,   se vai chover ou não no dia
função do rio, por exemplo, não é      o homem da região “aproveita e           seguinte. No entanto, essa não é
apenas garantir a sobrevivência do     se acomoda à falta de um                 uma verdade absoluta. Pode-se
Amazônia, através da pesca, mas,       equipamento cultural civilizador,
                                                                                afirmar, porém, que o homem
                                       ou de uma técnica adiantada de
sobretudo, interligar-se numa                                                   amazônico tem consciência da
                                       exploração ou de economia para
malha de transporte, se não rápida,                                             importância de se conhecer o ciclo
                                       reagir às sugestões e imposições
mas eficiente, pois interliga todos                                             das águas para a economia do
                                       do meio”.
os 62 municípios do Estado. Mas,                                                Amazonas. Benchimol (1995,
                                           No caso das empresas jornalís-
qual a relação dos rios, das águas,                                             p.71) diz que o ciclo das águas
                                       ticas, ainda que haja técnicas
com a circulação de jornais em         avançadas de análise e observações       determina até questões ligadas ao
Manaus e no Amazonas?                  climáticas, o regime das águas é         vocabulário: “O ciclo geográfico
   Por se tratar de um produto         fator determinante na circulação         que o rio atravessa, marcado pelo
perecível, cuja durabilidade           de jornais: enquanto uma das             nível das águas, repiquetes,
máxima é de 24h, o jornal não se       empresas jornalísticas de Manaus         enchentes, alagações, vazantes:
beneficia muito da malha fluvial       usa um software interconectado           água-nova, meia água, água-
do Amazonas. A distribuição de         ao Instituto Nacional de Meteoro-        curta, água-seca influencia e
jornais, basicamente, é feita aos      logia (INMET) para determinar a          transforma o comportamento de
municípios que possuem acesso          diminuição ou não do número de           todas as atividades da hinter-
através de transporte terrestre        jornais que vai para as ruas, em         lândia. Não só do homem do
ou aéreo. Dessa forma, as              outra empresa, o responsável pela        interior, a cidade também a ela
empresas jornalísticas pouco           circulação “olha para cima”, na          está sujeita quando sente a falta
podem se beneficiar do navio,          noite anterior, e sabe se vai            da água na torneira, porque o rio
por exemplo, considerado por           chover ou não no dia seguinte.           ficou abaixo da tomada da água
Samuel Benchimol (1995), de                                                     do bombeamento, ou porque a
importância tão ímpar que o                 2 A CULTURA DA                      chuva e a cheia alargaram o
homem do Norte, talvez, seja              PREVISÃO DO TEMPO                     igarapé e encharcaram as suas
incapaz de viver sem ele: “Navio                                                casas, desabaram o barranco e as
                                          Aos olhos de quem vive fora
é como gente. Tem nome,                                                         enxurradas afundaram o leito das
                                       da região, prever o tempo apenas
número e domicílio. Sendo como                                                  suas ruas e becos”.
                                       ao olhar para as nuvens pode
gente, navio tem também vida,                                                       Ele continua: “A própria terra
                                       parecer absurdo. No entanto, há
com direito a batismo, padrinho,       uma explicação sociológico-              arranjou uma nomenclatura que se
enredo, romance e drama. E             cultural para esse tipo de               acomoda a esse regime: várzea e
mais: como ´persona nauta´ é           comportamento na Amazônia.               igapós, terra inundada, tesa e terra
valente nas tormentas e procelas,      Benchimol (1977, p.88) reitera           firme. O próprio rio, também,
prudente nas águas fundas e            que para conhecer o caboclo “é           participa dessa toponímia: altos,
mansas para ter direito a ventos       preciso ter uma íntima associação        médios e baixos-rios a denunciar o
favoráveis, bom destino e porto        com sua cultura, morar na sua            nível da terra em função da altura
seguro. Dependendo do tamanho          casa, dormir em sua rede, dançar         e do alcance das grandes cheias e
e das acomodações, qualifica-se        nas suas festas, ver o seu               das praias das longas secas de
segundo a sua classe, uso e            trabalho, respirar o mesmo ar,           verão. ‘Águas de março’, ‘abril-
destino, longo curso, cabotagem,       comer da sua cozinha e até amar          chuvas mil’, agosto, mês de
navegação lacustre e fluvial”.         as suas garotas”.                        calorão e desgosto”.
                                                                                                                13
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      3 A CHUVA COMO                  Manaus, até como fonte de             em torno de 7 a 8%. Mas o ideal,
     PROTAGONISTA DA                  “abastecimento” de uma coluna         para qualquer circulação do Brasil,
           NOTÍCIA                    diária. Curiosamente, porém,          é que você trabalhe com 9%”. O
    No Amazonas, o ciclo das águas    nunca se estudou ou se ensinou,       gerente de circulação diz que
determina o que se vai plantar, o     nos cursos de Comunicação             alcança esse objetivo, nem que
que se vai comer e os trabalhos       Social, em Manaus, que o ciclo das    para isso tenha que trabalhar o
que podem ser feitos. A chuva, em     águas também determina a              encalhe nos outros dias. “Lógico
Manaus, tem tanta importância e       quantidade de jornais que vai         que tem aquele dia, por exemplo,
influencia sobremaneira o compor-     circular no dia seguinte. Esse fato   que choveu. Aí o encalhe vai dar
tamento dos habitantes da cidade      revelou-se uma importante desco-      15%, 16%. Aí, nos outros dias, eu
que se transformar em notícia,        berta de pesquisa.                    vou ter que trabalhar o encalhe,
ainda que seja amena. No dia 21           O gerente de circulação do        que a gente chama de trabalhar o
de outubro de 2002, por exemplo,      jornal A Crítica, Herval Tapajós      encalhe para reduzir. Reduzir para
na coluna Sim e Não, o jornal A       .olhadela (2002), revela que a        a média geral do mês”.
Crítica publicou a nota “Chuva e      empresa não possui nenhum tipo            Em outro momento, .olhadela
paz” que dizia: “O fim de semana      de software para gerenciar a          reduziu para 10% o encalhe nos
em Manaus foi marcado pela            previsão do tempo, mas diz que        dias de chuva. “Por exemplo, a
chuva intermitente e clima            todo dia verifica qual é a previsão   nossa tiragem é 27 mil, eu vou
ameno. Poucas pessoas se              do tempo para o dia seguinte:         tirar uma base de 3 mil jornais.
aventuraram a sair de casa,           “Por exemplo, nessa época, nem        Lógico que a assinatura é fixa. A
temendo os humores do clima. A        tanto, porque essa época é verão,     assinatura são 7 mil fixos. Mas
solidão das ruas trouxe paz para      então, praticamente, até agora        eu fico trabalhando nesse percen-
a cidade. A não ser por um ou         não teve nenhum dia de chuva.         tual, 10%, pela pouca experiência
outro caso fortuito, reinou a         Então, eu não me preocupo muito       que eu tenho, é o ideal”. O jornal
tranqüilidade. Em dez delega-         com isso nessa época. Agora           A Crítica não possui um software
cias de polícia ouvidas pela repor-   naquela época ali, de Abril,          de gerenciamento das chuvas,
tagem de A Crítica, a resposta        Junho, que é o período de chuva,      mas tem um software próprio de
era a mesma: “Tá tudo tranqüilo.      aí sim, você trabalha a tiragem.      acompanhamento da circulação,
É por causa da chuva. Parodiando      Não adianta você colocar o jornal     que auxilia nas tomadas de deci-
o célebre poema de Thiago de          na rua em dia de chuva que você       sões relacionadas à diminuição
Melo, podemos dizer: ´.az chuva,      sabe que esse jornal vai voltar de    do número de jornais que irá cir-
mas eu canto´”.                       encalhe”.                             cular, em função das chuvas.
    Como se percebe pela nota, a          Para .olhadela, o jornal, em      .olhadela não faz um acompa-
chuva interfere até nas ações dos     dias de chuvas, aumenta o             nhamento detalhado do clima.
marginais quanto mais na              encalhe independentemente da          Ele explica: “O que eu estou
circulação de jornais. No dia 25
                                      manchete. Ele explica o procedi-      fazendo é justamente assim. O
de outubro de 2002, nova nota
                                      mento nos dias de chuva: “Você        sistema GEAC proporcionou, aqui
sobre a chuva. Dessa vez, porém,
                                      vai e diminui um pouco. Agora,        para a Gerência de Circulação,
com um título diferente: “Chuva
                                      lógico que é muito difícil você ter   buscar como foi o mês de março
e frio”. No dia 16 de novembro de
                                      um acompanhamento correto, às         de 2001. Aí eu vou pegar aquele
2002, outra vez a chuva é a
                                      vezes a previsão é de chuva           mapa e vou verificar quantos dias
principal fonte da notícia. Dessa
vez, em uma matéria publicada na      amanhã, mas isso não quer dizer       no mês de março choveu. É mais
página de “Cidades”, cujo título      que vai chover de manhã. E a          ou menos esse acompanhamento
era “.eriado com chuva desanima       força da venda do jornal é            que nós temos hoje. Agora, um
manauenses”. O curioso é que a        justamente de 6h às 10h da            acompanhamento assim mais
matéria registra “A forte chuva       manhã. É nesse período que você       detalhado fica mesmo só em
que atingiu Manaus...” e “O céu       vende jornal. É lógico que tem        torno da previsão do tempo, se vai
nublado e a chuva deixou...” mas      banca que fica até 10h , meia-        chover, se não vai”.
a fotografia é de mulheres            noite e você vai deixar o teu             .olhadela diz que o ideal seria
tomando banho de sol.                 jornal lá também”.                    a empresa possuir um software
                                          Em A Crítica, nos dias normais,   de gerenciamento do clima:
     4 A CHUVA E A                    o encalhe é de 7 a 8%. “O ideal é         “É o ideal. Isso aí seria o ideal.
CIRCULAÇÃO DOS JORNAIS                que dê sempre menos de 9%. Eu         Porque você evita estragar papel,
  Como se vê, a chuva é de suma       trabalho com um encalhe, eu           ainda mais que o papel é em
importância para o jornalismo em      como Gerente, Herval, trabalho        dólar, então, quanto mais encalhe
14
                                                                                     julho/dezembro-2002
Artigo

voltar para dentro da empresa é       trabalha, basicamente, com assina-    que é o Instituto Nacional de
porque você está estragando           turas, de acordo com o Secretário     Meteorologia. Nós trabalhamos
papel. Esse é o papel principal do    de Redação do jornal, Eustáquio       muito com ele para trabalhar com
gerente de circulação: é controlar    Libório Gomes (2002). O jornal        a circulação no dia posterior.
o encalhe. Tentar vender a maior      Diário do Amazonas, que não tem       Então, dependendo do que vem a
quantidade possível de jornais, na    site na Internet, levou em conta      ser a previsão do tempo, nós
rua, mas não perder de foco o         até a questão do inverno amazô-       aumentamos ou diminuímos a
encalhe”.                             nico para adiar o retorno do site à   circulação”.
    O jornal Amazonas em Tempo        Internet, como explica seu vice-          De acordo com seu vice-
também não possui um software         presidente, .rancisco Cirilo Anun-    presidente, o jornal Diário do
para gerenciar a questão climá-       ciação Neto (2002):                   Amazonas circula, em média,
tica, ou seja, da previsão do             “Quando foi a época, nós          entre 18 e 22 mil jornais, nos dias
tempo. O Supervisor de Circulação     estamos agora em maio, quando         de semana. Nos dias de chuva, a
do jornal, Aderaldo Vasconcelos       foi a época de novembro, dezem-       tiragem do jornal cai 30%, indo de
.erreira (2002), revela que o         bro, nós decidimos colocar o site e   15 a 17 mil jornais. Mas esse não
gerenciamento foi todo progra-        tal, fizemos contrato com o Portal    é o único problema provocado
mado por ele. “É porque a minha       Amazônia para colocarmos o site,      pela chuva, segundo Anunciação
área é processamento de dados.        entretanto tivemos um receio. Nós     Neto: “É o seguinte, a chuva não
Então, eu tenho o meu sistema.        estávamos no inverno amazônico.       atrapalha só a venda, ela atrapa-
Então, eu controlo tudo. É meu. Eu    Você sabe que os jornais em           lha também a distribuição. Nós
criei o software: tem planilha,       janeiro, fevereiro e março têm        temos uma circulação hoje, no jor-
tudo, gráfico. Antes isso aqui não    uma retração nas suas vendas.         nal, voltada muito para a diminui-
era informatizado. Eu informatizei    Natural, em decorrência das           ção de custos e trabalhada muito
tudinho”.                             chuvas. Da época de chuvas. Então,    em cima de geoprocessamento.
    O controle da chuva não é feito   nós ficamos com uma outra             Então, nós trabalhamos hoje com
                                      questão também que não tínha-         34 rotas de distribuição do jornal
através de nenhum software nem
                                      mos como avaliar: se a entrada        em motos. Nós não temos distri-
com base em nenhum convênio
                                      do site na Internet diminuiria o      buição em Kombis, em carros, em
com instituto. É feito somente
                                      nosso público-alvo, ou seja, vendas   nenhum tipo de veículo de quatro
com base nos conhecimentos do
                                      em bancas”.                           rodas. Nós trabalhamos apenas
próprio Supervisor de Circulação
                                          Anunciação Neto explica que       com motos, por causa do custo. O
do jornal. É “na minha tese mesmo.
                                      nos meses de janeiro, fevereiro       nosso jornal é R$ 0,50 e, então,
Porque eu já conheço o tempo. Por
                                      e março há uma retração natural       isso dificulta para o distribuidor,
exemplo, aqui, Gilson, só para te
                                      nas vendas dos jornais, em            que ganha apenas 10% em cima
dizer, à noite, a gente olha para o
                                      bancas, em função das chuvas.         do jornal”.
céu e já sabe quando vai chover,
                                      Essa retração nas vendas varia de         Ele acrescenta: “Há de se
quando não vai. Você, já acostu-      10 a 25%. “Você conhece o nosso       salientar que a gente faz o jornal
mado aqui, trabalho, aquela rotina    aspecto climático, aqui. Sabe que,    mais barato do país em termos de
de trabalho, já conhece”. Ele re-     às vezes, quando cai uma tempes-      qualidade e tiragem. Vou te dar só
velou que quando sabe que em          tade muito forte, é impossível até    um exemplo: o Liberal, de Belém,
um bairro está chovendo, trans-       você sair de casa. Quanto mais        está trabalhando com o preço de
fere a circulação de jornais para     comprar o jornal. E você tem um       capa de R$ 1,70. E o nosso projeto
outros bairros.                       problema muito grave: a maioria       é um projeto popular, um projeto
    Nos dias normais, o encalhe do    das chuvas dessa época está           em todo mundo, e isso eu vou falar
jornal Amazonas em Tempo varia        localizada no período de 2h até às    também para ti, no âmbito
de 28 a 30%. Nos dias de chuva, a     10h da manhã”.                        Internet, para colocar uma outra
circulação diminui entre 12 e 15%.        O executivo acrescenta que o      pulga atrás da tua orelha, pra tu
.erreira comenta: “Eu diminuo         acompanhamento do clima e dos         também fazeres um outro tipo de
entre 12 e 15%. Porque são aqueles    impactos desse na circulação do       pesquisa, mas no jornal popular,
pontos em que as pessoas ficam        jornal é feito diariamente e com      uma das características principais
nos cruzamentos. Aí, puxa, eu não     base em pesquisa:                     dele e está 50% do preço de capa
vou colocar gente pegando chuva           “Nós temos pesquisas para         mais barato do que o jornal dito
direto, vendendo jornal”.             isso. A pesquisa que a gente faz      tradicional. No caso aqui, nós temos
    O Jornal do Commercio não         disso daí é o acompanhamento          hoje um concorrente nosso que é A
gerencia a questão da chuva, pois     diário da circulação e do INMET,      Crítica. A Crítica hoje está R$ 1,00
                                                                                                            15
 julho/dezembro-2002
C omunicação                                                                                          Artigo

e os jornais do resto do país estão    inverno amazônico, aí já vamos         “Principalmente em Brasília, que
trabalhando, no mínimo, com a          entrando, mês de maio é o último       nós temos uma sucursal, com
faixa de R$ 1,50. Tu tens aí o         mês de chuvas. Na metade de            repórter, com diretor. Então, lá tem
Liberal, já do lado, a R$ 1,70. Dado   junho para lá você já vai ter nosso    que ter A Crítica para distribuir
aí a última taxa de aumento do         insuportável verão amazônico que       para os gabinetes dos políticos. É
dólar, o dólar nos últimos semes-      aí as chuvas já são extremamente       justamente para isso. O impor-
tres influi diretamente no papel, na   escassas”.                             tante não é nem a venda. O
chapa e no filme. Tinta, químicos          Percebe-se que o ciclo das         importante é A Crítica estar lá”.
são os insumos básicos para a          águas não influencia apenas a             Só nas bancas de Manaus, de
produção gráfica do jornal. Então,     produção, a cultura e a economia       acordo com .olhadela, o jornal A
eles têm uma incidência desigual”.     do homem que habita o beiradão         Crítica venderia entre 18 e 20 mil
    O desafio do jornal Diário do      dos rios. Com a escassez das           exemplares por dia. Ao falar sobre
Amazonas, então, é manter o            chuvas, a partir de maio, o mer-       as máquinas do jornal, o Diretor
preço. Mas, como manter o preço?       cado de jornais começa a viver o       Industrial de A Crítica, Aroldo
A resposta é dada pelo próprio         momento de reaquecimento das           Caminha (2002), contribuiu para
Anunciação Neto: “Como manter          vendas. Esse reaquecimento das         ressaltar a contração entre os
o preço? Aí é uma das nossas           vendas em bancas, porém, não
                                                                              número da circulação do jornal:
técnicas. Nós temos hoje uma faixa     significa muito no faturamento
                                                                              “A Crítica chegou a vender 87 mil
de encalhe de 6% apenas de jornal.     das empresas.
                                                                              jornais aos domingos e vendia 36
Nós trabalhamos com um software,                                              mil na semana. Quando essa
o mesmo software do jornal O
                                               5 SEGREDOS E
                                              CONTRADIÇÕES                    máquina entrou aqui (a nova
Globo e da maioria dos grandes                                                máquina), ainda vendia 32 mil
jornais do País, que é o software         O reaquecimento do mercado          jornais na semana. Agora está
Circulação 2000, fabricado por         de jornais, em Manaus, não             vendendo 22 mil”.
uma empresa chamada CWA, que           significa transparência em relação        O diálogo a seguir, travado
é de programadores do próprio O        à circulação. Os números reais         entre o pesquisador, o Superinten-
Globo, e esse software faz uma         sobre a circulação de jornais          dente da Rede Calderaro de
tiragem extremamente técnica,          parecem ser um segredo de              Comunicação, João Bosco Bezerra
calculada com base nas vendas do       estado, ou o são, no mínimo,           de Araujo (2002) e a vice-
jornal e no encalhe de jornais.        contraditórios. Em primeiro lugar,     presidente da Rede Calderaro de
Então, ele faz um trabalho todo de     nenhum jornal é associado ao           Comunicação, Tereza Cristina
estatística em cima desse software,    Instituto Verificador de Circulação    Calderado Corrêa (2002), ilustra
aliado com outros fatores como         (IVC) ou a qualquer outro instituto    bem a dissonância entre os
matérias de maior impacto que vão      que fiscalize a circulação com a       números da circulação dentro da
ser lançadas na edição, bem como       isenção necessária. Com isso, fica-
                                                                              própria empresa.
o aspecto climático”.                  se sem saber em quem acreditar.
    A questão climática, no Diário        O gerente de Circulação do          – Quanto A Crítica circula? São
do Amazonas, determina até a           jornal A Crítica, Herval Tapajós         números que podem ser
entrada em vigor das promoções:        .olhadela, por exemplo, revela:          divulgados?
“Nós acompanhamos todo dia aí o        “A nossa tiragem hoje, dia de          – (João Bosco) Divulga, Cristina?
INMET para saber a questão             semana, de segunda a sábado, fica,     – (Cristina) Terça-feira, 25 mil,
climática. Há de se salientar que      em média, 25 a 27 mil. Sendo que         é o dia mais fraco, depois, nos
o INMET acerta aí em torno de 90%      70 a 80%, dependendo muito da            três dias da semana ficam
dos seus prognósticos. É uma           manchete, fica todo aqui na capital,     entre 28 e 29 mil, depen-
ferramenta importantíssima. E          em Manaus. Nós temos, dentro             dendo.
também um fator que nós usamos         desses 27 mil, 7 mil assinantes e o    – (João Bosco) Trinta.
mais em um jornal popular que é        que sobra e distribuído para o
a questão das promoções. Nós           interior e para os outros estados. É   – (Cristina) Hoje, por exemplo,
estamos hoje vivendo a promoção        pouquinho. Nos outros estados fica       nós aumentamos 60% na
“Na Copa com o Diário”, que é levar    em torno de 1 mil jornais, divididos     tiragem. No domingo, 50, 55
                                                                                mil.
um leitor nosso à Copa. Então,         entre São Paulo, Rio, Brasília,
naturalmente, nós fizemos essa         .ortaleza e Boa Vista”.                – Esse aumento é em função do
promoção já em cima do nosso              Os 1.000 jornais enviados a           fato jornalístico?
cronograma que já é do reaque-         outros estados, segundo o              – (Cristina) Até o tempo.
cimento. Nós estamos no final do       gerente, são para marcar presença.       Climático.
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                                                                                      julho/dezembro-2002
Artigo

– (João Bosco) Se não chove, a                     iluminar a escuridão relativa à                     Gazeta Mercantil, de um total
  manchete.                                        circulação de jornais em Manaus.                    geral de 6.224 exemplares. .oram
– (Cristina) Agora, Semana da                      As pesquisas foram realizadas                       vendidos 2.400 exemplares do
  Pátria, edições um pouco                         pela empresa Perspectiva no dia                     jornal A Crítica, 2.187 do jornal
  mais reduzidas. Por quê?                         19 de junho, uma terça-feira, e no                  Diário do Amazonas, 225 do jornal
  Porque tem .ecani (.estival                      dia 16 de julho, uma segunda-                       Amazonas em Tempo, 40 do Jornal
  da Canção de Itacoatiara),                       feira. Há que se esclarecer ainda                   do Commercio e 12 do jornal
  .estival de Verão em                             que, na segunda-feira, o jornal A                   Gazeta Mercantil.
  Manacapuru.                                      Crítica não circulava há anos e o                      Esses números revelam que
   Já o diálogo com o Supervisor                   jornal Amazonas em Tempo                            o jornal A Crítica vendeu 80,7%
de Circulação do jornal Amazonas                   mantém a tradição de não circular.                  dos exemplares deixados nos
em Tempo, Aderaldo Vasconcelos                     De terça-feira a domingo todos os                   pontos de vendas; o jornal Diário
.erreira (2002) revela que                         jornais que fazem parte desta                       do Amazonas vendeu 78,1%; o
naquela empresa os números da                      pesquisa circulam normalmente.                      Amazonas em Tempo vendeu
circulação são tratados como                       Os dados aqui apresentados não                      70,8%; o Jornal do Commercio
segredos de estado.                                desvendam os segredos nem são                       vendeu 59,7% e o jornal Gazeta
                                                   capazes de dirimir as dúvidas e                     Mercantil, 52,2%. Isso significa
– E quanto circula: venda                          contradições a respeito da                          que, no dia 19 de junho de 2001,
  avulsa, assinatura? Tu podes
                                                   circulação de jornais em Manaus.                    o encalhe de cada um dos jornais
  me dar esses dados?
                                                   No entanto, apontam indicadores                     que fazem parte desta tese, foi
– (Aderaldo) Não. Esses dados,                     do comportamento das vendas                         muito maior do que o que
  não. Em termos assim de                          dos jornais em pontos de vendas                     revelaram seus executivos.
  tiragem não. Aí tens que falar                   fixos.                                                 Naquela data, por exemplo, o
  com a diretoria. Eu não estou                        Na pesquisa referente ao dia                    encalhe de A Crítica foi de 19,3%,
  autorizado a passar isso.                        19 de junho de 2001,* seis                          o do Diário do Amazonas foi de
– Não dá para passar esse                          pesquisadores da empresa Pers-                      21,9%; o do Jornal do Commercio
  número da circulação.                            pectiva estiveram em 167 pontos                     de 40,3% e da Gazeta Mercantil de
– (Aderaldo) Não. Esse, não.                       fixos de vendas de jornais em                       47,8%. Dos 6.224 exemplares
                                                   seis zonas da cidade de Manaus.                     recebidos nos pontos de vendas,
– Tem que falar                   com       a
                                                   Os pesquisadores tinham uma                         foram vendidos 4.894 exemplares.
  Hermengarda?
                                                   planilha preparada especifica-                      Em números percentuais, foram
– (Aderaldo) Isso.                                 mente para anotar quantos                           vendidos 78,6% dos exemplares
   Segundo Anunciação Neto                         exemplares dos jornais A Crítica,                   recebidos de todos os jornais. Isso
(2002) o jornal Diário do                          Diário do Amazonas, Amazonas                        significa que o encalhe médio de
Amazonas circula de 18 a 22 mil                    em Tempo, Jornal do Commercio                       todos os jornais de Manaus nos
jornais durante a semana. Quem                     e Gazeta Mercantil eram                             pontos de vendas, naquele dia
garante, porém, que todos os                       recebidos nesses pontos de ven-                     pesquisado, foi de 21,4%, número
números relativos à circulação de                  das. Depois, anotavam quantos                       quase três vezes maior do que o
jornais, em Manaus, não estejam                    exemplares dos respectivos                          encalhe médio de 6 a 9% revelados
inflados? Durango Duarte,                          jornais foram vendidos. Para                        pelos executivos das empresas
diretor-presidente da empresa de                   efeito de pesquisa, a empresa                       jornalísticas de Manaus.
pesquisa Perspectiva diz que,                      tomou como pontos fixos de                             Para efeito de projeção, a
juntos, os quatro jornais de                       vendas as lojas de conveniência,                    empresa Perspectiva calcula que
Manaus não chegam a circular                       os pontos de vendas avulsas e as                    todos os jornais de Manaus,
com 50 mil exemplares durante                      bancas de jornais. Não fizeram                      juntos, nos pontos fixos de
a semana. Aliás, para efeito de                    parte da amostra os jornais                         vendas na cidade, vendem, diaria-
pesquisas relativas ao market                      vendidos pelos jornaleiros, no                      mente, 25 mil exemplares. Com
share, a Perspectiva trabalha                      trânsito, nem as assinaturas.                       base nesse número, pode dizer
sempre com a projeção de que                           Os pontos de vendas rece-                       que, de terça-feira a sábado, o
todos jornais de Manaus, em                        beram 2.975 exemplares do jornal                    jornal A Crítica venderia, nos
conjunto, nos dias de semana,                      A Crítica, 2.799 do jornal Diário                   pontos fixos, 12.250 exemplares,
vendem 25 mil exemplares.                          do Amazonas, 360 do jornal                          o Diário do Amazonas, 11.175; o
   Duas pesquisas realizadas pela                  Amazonas em Tempo, 67 do                            Amazonas em Tempo, 1.300; o
empresa Perspectiva podem                          Jornal do Commercio e 23 da                         Jornal do Commercio, 200 e o
* Os dados aqui apresentados foram gentilmente cedidos pela empresa de pesquisa de Mercado Perspectiva e fazem parte do seu banco de dados.

                                                                                                                                              17
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Gazeta Mercantil, 75 exemplares.        vendeu 82,1%, o Jornal do              ao falar do encalhe, os números
São números, também, muito              Commercio 43,2% e a Gazeta             foram muito abaixo dos números
mais modestos do que os                 Mercantil vendeu 43,5% dos             levantados pela empresa Pers-
revelados pelos executivos das          exemplares deixados nos pontos         pectiva, nos dias em que as
empresas jornalísticas tradicio-        de vendas fixos. Novamente, às         pesquisas foram realizadas.
nais de Manaus.                         segundas-feiras, o encalhe de              Isso indica uma total falta de
   A segunda-feira é um dia             jornais é maior do que os números      transparência das empresas
considerado atípico no jornalismo       revelados pelos executivos das         jornalísticas tradicionais de
de Manaus. Por isso, a empresa          empresas.                              Manaus. .ica no ar, a suposição
Perspectiva utilizou a mesma               O encalhe de A Crítica foi de       de que os administradores escon-
metodologia em 147 pontos fixos         17,5%, do Diário do Amazonas de        dem os números relativos à
de vendas, no dia 16 de julho de        17,9%, do Jornal do Commercio          circulação de jornais para enganar
2001, uma segunda-feira. Nesse          de 56,8% e da Gazeta Mercantil         ou os anunciantes ou os leitores.
dia, os pontos de vendas                de 56,5%. Como foram vendidos          Ou, quem sabe, enganar anun-
receberam 3.532 exemplares do           6.096 exemplares dos 7.440             ciantes, leitores e a si próprios.
jornal A Crítica, 3.841 do jornal       exemplares deixados nos pontos         Os números da pesquisa também
Diário do Amazonas, 44 do Jornal        fixos de vendas, isso significa        podem ser comparados aos
                                        que o encalhe médio dos jornais        números relativos à diminuição da
do Commercio de 23 da Gazeta
                                        de Manaus às segundas-feiras é         circulação dos jornais, nos dias de
Mercantil. O jornal Amazonas em
                                        de 18,1%, pois foram vendidos          chuva. Talvez não se chegue aos
Tempo não circula às segundas-
                                        81,9% dos jornais deixados nos         40% divulgados por um dos
feiras. Os pontos de vendas                                                    entrevistados nem aos 10% de
receberam um total de 7.440             pontos de vendas.
                                                                               outro. É certo, porém, que a chuva
exemplares de jornais.                                                         diminui, e muito, a circulação de
   .oram vendidos 2.914 exem-
                                                CONCLUSÕES
                                                                               jornais. Com isso, a administração
plares de A Crítica, 3.153                 Ainda que os números levan-         profissional desse encalhe pode
exemplares do jornal Diário do          tados pela empresa Perspectiva         diminuir os custos de circulação
Amazonas, 19 do Jornal do               sejam relativos a apenas um dia        dos jornais nos dias de inverno. E
Commercio e 10 da Gazeta                de vendas nos pontos fixos,            um dos jornais comprova que
Mercantil. Isso significa que A         pode-se concluir que, em relação       esse controle pode ser feito
Crítica vendeu 82,5% dos                às vendas, os números divulga-         através de um software que o
exemplares deixados nos pontos          dos pelos executivos dos jornais       mantém ligado ao INMET 24 horas
de vendas, o Diário do Amazonas         foram inflados. Por outro lado,        por dia.


                                        RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS
 ANUNCIAÇÃO NETO, .. C. B.              . __________. Amazônia: um             Entrevistador: Gilson Vieira
 .rancisco Cirilo Batará                poucoantes e além-depois. Manaus:      Monteiro. Manaus: USP, 2002. Meia
 Anunciação Neto: depoimento.           Umberto calderano, 1977.               fita cassete (30 min), 3 ¾ pps
 [maio.2002]. Entrevistador: Gilson                                            estéreo. Entrevista concedida ao
 Vieira Monteiro. Manaus: USP, 2002.    CAMINHA, A. Aroldo Caminha:            projeto “Por um clique...”.
 Meia fita cassete (30 min), 3 ¾ pps,   depoimento. [mai. 2002].
 estéreo. Entrevista concedida ao
                                        Entrevistador: Gilson Vieira           .OLHADELA, H. T. Herval Tapajós
 projeto “Por um clique...”.
                                        Monteiro. Manaus: USP, 2002. Meia      .olhadela: depoimento.
 ARAÚJO, J. B. B. João Bosco            fita cassete (30 min), 3 ¾ pps,        [ago.2002]. Entrevistador: Gilson
 Bezerra de Araújo: depoimento.         estéreo. Entrevista concedida ao       Vieira Monteiro. Manaus: USP,
 [set. 2002]. Entrevistador: Gilson     projeto “Por um clique...”.            2002. Meia fita cassete (30 min),
 Vieira Monteiro. Manaus: USP,                                                 3 ¾ pps, estéreo. Entrevista
 2002. Meia fita cassete (30 min),      CORRÊA, T. C. C. C. Tereza Cristina    concedida ao projeto “Por um
 3 ¾ pps, estéreo. Entrevista           Calderaro Corrêa: depoimento:          clique...”.
 concedida ao projeto “Por um           [set.2000]. entrevistador: Gilson
 clique...”.                            Vieira Monteiro. Manaus: USP, 2002.    GOMES, E. L. Eustáquio Libório
 BENCHIMOL, S. Navegação e              Meia fita cassete (30 min), 3 ¾ pps,   Gomes: depoimento. [fev.2002].
 transporte na Amazônia. Manaus:        estéreo. Entrevista concedida ao       Entrevistador: Gilson Vieira
 Governo do Estado: Universidade        projeto “Por um clique...”.            Monteiro. Manaus: USP, 2002. Meia
 do Amazonas: Associação                                                       fita cassete (30min), 3 ¾ pps,
 Comercial do Amazonas. 1995.           .ERREIRA, A. Aderaldo Vasconcelos      estéreo. Entrevista concedida ao
 p. 10 . [Edição Reprográfica].         .erreira: depoimento.[ago. 2002].      projeto “Por um clique...”.


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Artigo




                     OUTDOOR BAIANO:
                   UMA MÍDIA QUE FUNCIONA




                           Maria Amélia Chagas Gaiarsa
              Professora da Universidade de Salvador (Bahia) e Doutora em Letras pela
                                  Universidade Federal da Bahia.




                R E S U M O                                          ABSTRACT
Este artigo trata do outdoor no Brasil, especifica-   This essay deals with billboard in Brazil,
mente na Bahia, com o objetivo de mostrar como e      especially in Bahia, and it aims at showing how
por que essa mídia deu certo em Salvador.             and why these media have been successful in
Destacam-se aqui o contexto e a criatividade das      Salvador. Context and criativity of these
peças, aspectos responsáveis pelo seu sucesso.        billboards are responsible for their success.


PALAVRAS-CHAVE: outdoor, cartaz de rua,               KEYWORDS: outdoor, billboard, media.
mídia.




                                                                                                   19
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      OUTDOOR:                       Deixa-me gritar! Xarope São João,     crise econômica da época favo-
 HISTÓRIA E CONTEXTO                 contra tosse e bronquite produz       receu a expansão dessa técnica
                                     alívio imediato” (apud Sabadin,       que, em 1983, já confeccionava
    O outdoor é uma mídia que,       1997, p.10) foram algumas das         80% dos cartazes impressos no
em muitas cidades, causa um          que começaram a atrair o público.     Estado. Assim, essa forma de
grande transtorno pela poluição          O tamanho dos cartazes            produção gráfica tornou a mídia
visual e ambiental. Mas há muitas    também variava, havendo os de         acessível aos anunciantes de
exceções e o que pretendemos,        16, 32 e até de 64 folhas. No         pequeno porte.
aqui, é delinear o seu perfil e      padrão estrangeiro, os cartazes           No que diz respeito à infor-
mostrar como, em Salvador, ela       eram impressos no formato de 24       mática, seus recursos possibilitam
se tornou um mobiliário urbano       folhas, tendo sido introduzido no     que, hoje, os anúncios tragam
decorativo.                          Brasil pela McCann, que foi           fotos e imagens digitalizadas, as
    A palavra outdoor, que tradu-    obrigada a montar as tabuletas e,     quais podem ser manipuladas no
zido literalmente significa “do      posteriormente, fundar uma            computador. Segundo Gonçalves
lado de fora da porta”, de um        empresa exibidora. Hoje, há no        (1999, p.212), esses anúncios
modo geral, remete-se a qualquer     Brasil a padronização do cartaz de    vêm “(...) muitas vezes dizendo o
tipo de propaganda ao ar livre. No   32 folhas, nascido da necessidade     que a palavra não precisa dizer,
Brasil, entretanto, ao se falar em   de se ampliar o formato quadrado      outras vezes mostrando reali-
outdoor, pensa-se logo naqueles      das 16 folhas, que dificultava a      dades inexistentes”.
cartazes de 32 folhas de papel,      criação e o layout. Assim, ao invés       Na década de 70, o outdoor era
que são afixados em tabuletas de     de se adotar o cartaz de 24 folhas,   um meio desordenado, apresen-
9 metros de comprimento por três     padrão em outros países, foi          tando-se em diferentes formatos
de altura.                           colocada, ao lado da já existente,    e em número excessivo, principal-
    Mas, ao situar historicamente    uma outra tabuleta de 16.             mente nas cidades do Rio de
essa mídia, vê-se que nem sempre         Quanto à impressão do             Janeiro e de São Paulo, poluindo-
foi assim. Aqui, o primeiro cartaz   outdoor, esta teve início com o       as e impedindo o que almeja a
de que se tem notícia foi exibido    processo de litografia, essencial-    publicidade, que é veicular uma
em 1860, anunciando o lança-         mente artesanal, no qual os dese-     mensagem eficiente. Além disso,
mento da revista Semana Ilustra-     nhistas ampliavam cada quadro         a desorganização das empresas,
da. Nesse século, o cartaz tinha     em blocos de pedra do tamanho         que levou o meio ao descrédito,
1,80x1,00, era de flandres, em       da folha do outdoor. No final dos     e a postura profissional da
moldura de ferro afixado em          anos 50, foi introduzida a fotogra-   televisão, valorizando-se como
prédios. Apesar dessas ocorrên-      fia em substituição ao desenho.       mídia (fatos que provocaram
cias, a verdadeira história do       Só em 1963 surge a gigantografia,     críticas ao outdoor), levaram os
outdoor, no Brasil, tem início em    processo de ampliação do fotolito     empresários a se reunirem,
1929, quando surgiu, em São Paulo,   na impressão off-set. Assim, cada     fundando, assim, em 31 de agosto
a primeira empresa exibidora, a      uma das 32 folhas tem o seu           de 1977, a Central de Outdoor,
Publix. Além dos cartazes peque-     próprio fotolito e sua própria        que procurou regulamentar a
nos, que tinham uma forma oval       impressão. Ao desejar uma             atividade. Além disso, segundo
e eram afixados em postes, havia     tiragem pequena, recorre-se ao        Marcondes (1995), os empresá-
os painéis de metro, afixados nos    processo de serigrafia, que tem       rios de empresas exibidoras
muros e os cartazes de bonde.        um custo mais vantajoso (Sabadin,     reclamavam da incompatibilidade
    Dos mais simples ao atual        1997). Na década de 90, gráficas      das verbas recebidas com a sua
outdoor, as mudanças foram           de silk-screen produzem cartazes      eficácia e importância, do
ocorrendo tanto do ponto de vista    em gigantografia. Com a impres-       preconceito dos profissionais da
estrutural como do estético. No      são eletrônica, atualmente se         mídia contra o outdoor, além do
início, eles eram pintados à mão,    imprime diretamente no papel.         desconhecimento dos anunciantes
o que levou à criação de uma             Na Bahia, no início da década     em relação ao seu potencial.
escola de letristas e ilustradores   de 80, o empresário José                  Em virtude desses fatos, em
de cartazes. Mensagens como:         Linhares cria uma nova técnica        1980, a Central encomendou
“Procópio .erreira, o maior ator     de impressão, denominada Big-         uma pesquisa a LPM-Burke, cujos
brasileiro, em espetáculos da mais   Hand, em que se pintavam os           resultados mostraram que o
rigorosa moralidade” e “Larga-me!    cartazes, de um a um, à mão. A        outdoor também podia ser
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Artigo

programado por critérios técni-                          comunicação através de uma            publicidade é muito freqüente,
cos de cobertura eficaz e que o                          linguagem específica.                 atualmente, em peças de griffes
seu preço poderia ser estabele-                              Assim, ter os textos reduzidos,   de moda, com fotografias de alta
cido a partir do conceito de custo                       ter uma imagem que retenha a          qualidade.
por mil (CPM).1 Ademais, procu-                          atenção do público, ser de fácil         Para que obtenha o sucesso
rou-se mapear os locais onde                             memorização e ter uma preocu-         esperado, a mensagem deve con-
seriam exibidos os cartazes e                            pação com a simplicidade e a          templar, portanto, as perguntas
limitar o seu uso, com critérios                         clareza são fatores responsáveis      que, segundo Lasswell (apud
fixos de cartaz por área geográ-                         por uma característica fundamen-      Moles, 1974, p.199), regem
fica. O resultado da pesquisa,                           tal, que é o valor perceptível do     também a publicidade: “O que
segundo Marcondes (1995),                                outdoor. Um outdoor poluído,          dizer, a quem dizer, por que
mostrou que 47% dos informantes                          contendo muitas informações,          meio?”, através de processos
se lembravam de terem passado                            instruções e uma proliferação de      argumentativos e de estímulos.
pelos cartazes apresentados, de                          imagens visuais, compromete           Daí, a importância, para o
onde eles se localizavam e do que                        definitivamente o impacto que         publicitário, do conhecimento de
comunicavam. Portanto, preocu-                           deve causar; a extensão da            mundo do seu público-alvo, pois
pada com a valorização dos                               mensagem é, pois, um dos              são as representações desse
pontos e com a organização visual                        aspectos que diferencia este de       conhecimento que o levam à
da cidade, a Central de Outdoor                          outros meios.                         interpretação do sentido do
procurou reduzir o número de                                 Outras características dessa      enunciado. Se o interlocutor não
tabuletas e padronizá-las. Por ser                       mídia, segundo Sant’Anna (1989),      estivesse ciente, por exemplo,
uma mídia ambientalista, se bem                          são: a maleabilidade, pois pode ser   do que ocorrera com o Presi-
planejada, o outdoor passaria a                          usada em qualquer local (estrada,     dente dos E.U.A, Bill Clinton, não
ser, também, um elemento deco-                           bairro, rua); a oportunidade, pois    captaria o sentido do discurso da
rativo para a cidade. Tavares                            pode aproveitar determinados          peça para o Motel Maxim’s,
(1999, p.44) afirma que “(...) o                         momentos e ser logo substituída;      veiculada em Salvador: Esse
mercado de outdoor está entre os                         ação rápida e constante, pois         negócio de usar a Casa Branca
segmentos publicitários que mais                         na rua há sempre pessoas              não dá certo. Sem esse conheci-
crescem no Brasil”, sendo a mídia                        transitando.                          mento, que deve ser uma preo-
que mais se destacou em 1998,                                Todas essas colocações ratifi-    cupação central do locutor, não
com 36,12% de crescimento.                               cam o que afirma Maingueneau          haveria eficácia na mensagem.
   O outdoor é um meio causador                          (2001, p.66): “(...) todo gênero de      Como todo gênero discursivo,
de impacto por exibir o produto/                         discurso implica um certo lugar e     o outdoor tem as suas normas,
serviço anunciado de uma forma                           um certo momento”. Isto quer          que são do conhecimento do
ostensiva e ampliada. Além disso,                        dizer que o lugar e o momento         auditório particular ao qual se
ele está no dia-a-dia das pessoas                        do outdoor justificam a estrutura     destina, que já prevê um
que transitam nas ruas, durante                          do cartaz: é fixado numa rua,         determinado tipo de mensagem.
24 horas, num período de duas                            avenida, estrada, sendo visto         Em função disso, é possível se
semanas, o sistema Bi-Semana,                            rapidamente e não fica disponível     fazer transgressões portadoras
possibilitando uma assimilação                           ao leitor por tempo indeter-          de sentido. No exemplo acima,
da mensagem de maneira                                   minado, como uma revista ou um        por saber que se trata de um
instantânea. Por isso, em função                         jornal.                               outdoor, cujo objetivo é anunciar
da velocidade do deslocamento                                Quando a peça é constituída       um produto/serviço, o destina-
dessas pessoas em relação à                              apenas da imagem, ancorando           tário vai buscar, no enunciado
percepção do cartaz, tem-se que                          uma marca já sedimentada, a           escolhido, o sentido que está por
considerar a legibilidade em                             captação da mensagem é mais           trás dele. Segundo Maingueneau
relação ao tempo, ou seja, a                             fácil, pois o elemento lingüístico    (2001, p.64), a transgressão de
rapidez da visão. Embora não                             existente é apenas a referência       uma regra implícita, em deter-
haja espaço para explicações                             dessa marca. Neste caso, o            minado gênero, “(...) permite
detalhadas do produto (é o meio                          argumento discursivo está na          indicar ao destinatário que ele
que mais o exibe e menos o                               própria imagem, que retrata o         deve procurar um subentendido,
explica), ele consegue fazer essa                        conteúdo do produto. Esse tipo de     variável conforme a situação”.

1
    Valor que se obtém da divisão de preço a partir do total de audiência.

                                                                                                                             21
    julho/dezembro-2002
C omunicação                                                                                                   Artigo

Neste caso, essa transgressão                          população. Para tal, é preciso       e corpo de texto, como foi o caso
está na ausência de informação                         que se escolha o devido espaço       do cartaz para a loja de calçados
e/ou qualificação do serviço                           onde ele será veiculado, pois não    Ao Leão de Ouro, veiculado em
anunciado e na presença de um                          se pode expor, por exemplo,          Salvador, na década de 80:
tema que não lhe diz respeito                          uma peça falando de produtos            Sorte é comprar barato no
diretamente.                                           sofisticados num bairro de           Leão. 200 mil pares de calçados
    Há também uma preocupação                          população de baixa renda.            de todas as marcas a partir de
com a mensagem veiculada em                            Tratando-se de segmentação por       199,00. Ao Leão de Ouro. Sem
outdoor, devido à sua exposição                        regiões, não se vai veicular, por    favor, o menor preço da cidade.
aos diversos segmentos de pú-                          exemplo, em Curitiba, uma peça
blico, indefesos em relação a esse                     na qual a imagem da escultura         SALVADOR: UMA PRAÇA
tipo de meio. Havendo algum tipo                       de Castro Alves ancora o                 QUE DEU CERTO
de agressão, pode-se estar                             seguinte texto: Sem poder se
criando uma antipropaganda.                            mexer no Carnaval, basta um.             Em 1973, as empresas filiadas
    De acordo com Tarsitano                            Trata-se de um discurso cujo         à Central de Outdoor, em
(1998, p.16), o homem é dotado                         sentido está no fato de ser a        Salvador, reuniram-se e foram à
de vários mecanismos psicoló-                          Praça Castro Alves (em Salvador),    Prefeitura solicitar uma rígida
gicos de defesa que preservam                          onde fica a estátua, o espaço        regulamentação para o meio.
o seu equilíbrio psíquico, escu-                       simbólico do carnaval baiano, no     Segundo José Linhares, diretor
dos estes que “(...) reduzem o                         qual acontece a apoteose da          desta Central, na Bahia, a partir
impacto e possibilitam ao sujeito                      festa, com o encontro de trios.      dessa iniciativa, o outdoor baiano
filtrar suas ações diante dos                             Outra característica funda-       passou a ser uma exceção no
estímulos provenientes das                             mental do outdoor é que ele é        Brasil, “(...) em termos de
mensagens publicitárias”. Mas,                         mídia por natureza, pois é a         posicionamento na rua e
apesar desses mecanismos, tem-                         própria propaganda em si. A          profissionalismo no meio”2
se que considerar a grande                             televisão, o rádio, o jornal, a          Também passou a ser
responsabilidade desse tipo de                         revista, meios que veiculam          considerado mídia-base e não,
mídia, que abrange todos os                            programas musicais, programas        apenas, uma mídia de apoio,
segmentos de público, indepen-                         esportivos, notícias, têm a propa-   como ocorre na maioria dos
dente de idade, sexo, classe                           ganda apenas como suporte            estados. O que favorece esta
social, etc.                                           financeiro, não dependendo           situação, dentre outros motivos,
    Um outro aspecto a ressaltar                       exclusivamente dela para existir.    é a legislação municipal para o
é a quantidade de anúncios                             Já o meio outdoor não sobrevi-       meio, cuja Lei nº2455, de 04 de
espalhados pela cidade, que,                           veria sem a publicidade, pois a      janeiro de 1973, Seção V, art. 24,
para reterem a atenção do                              sua única função é veiculá-la.       inciso IV, Da publicidade em
público, lançam mão de recursos                        Em relação ao texto lingüístico,     tabuletas e painéis, estabelece:
que sejam apelativos e surpreen-                       o que se observa no outdoor atual    “(...) para a instalação de grupo
dentes. Como exemplo, o apelo                          é que não há uma estrutura de        de, no máximo, 3 (três)
usado no outdoor para a clínica                        seu desenvolvimento semelhante       engenhos observar-se-ão a
COT (Clínica Ortopédica e                              ao de outras mídias. Assim,          distância mínima de 2.00 m (dois
Traumatológica), veiculado em                          aplica-se a ele o corpo em que se    metros) entre cada engenho,
Salvador, em 1998, no qual a                           expõem os argumentos persua-         vedada a instalação de outro
imagem do personagem “mala”                            sivos, os quais devem estar          grupo num raio de 100,00 (cem
(com uma grande mala nas                               presentes numa frase, que pode       metros) no mínimo”. Ainda
costas) ocupa quase todo o                             ser um título ou um slogan. A        conforme José Linhares, essa
espaço da placa, ancorada pelo                         linguagem precisa ser concisa,       resolução fez com que o veículo
texto: Não dê trabalho nesse                           excluindo-se dela uma sintaxe        se adaptasse ao meio ambiente,
carnaval.                                              complexa. Ele se encerra com a       acabando a poluição visual que
    O outdoor pode direcionar-se                       marca do produto ou serviço, que     até então vigorava, devido à
a apenas um determinado                                tem função identificadora. Não é     colocação aleatória de cartazes.
público-alvo, atendendo, dessa                         muito freqüente, hoje em dia,        Esse fato possibilitou que
forma, a um segmento da                                encontrar-se outdoor com título      Salvador tivesse hoje “(...) o
2
    Em entrevista concedida, em 19/03/2001, para a tese da autora deste artigo.

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                                                                                                    julho/dezembro-2002
Artigo

outdoor mais eficiente e criativo                          Em Salvador, o outdoor busca    fatores, propiciando, inclusive,
do país” (Cadena, 1998, p.107).                        retratar, no seu discurso, o que    um discurso com mais qualidade.
O próprio presidente da Central                        se passa na cidade, o que              Por isso, o publicitário baiano
de Outdoor, Carlos Alberto                             interessa ao público, tornando-     está atento a tudo o que ocorre ao
Nanô, respondendo à pergunta                           se um espelho das constantes        seu redor, não só na Bahia, como
Existe alguma praça que possa                          novidades que aí ocorrem. Como      no Brasil e no mundo, pois as
servir de exemplo hoje em dia                          exemplo, a atual expansão dos       oportunidades fazem o diferencial
no Brasil?, em entrevista                              camarotes para o carnaval           no discurso dessa mídia. Assim, ele
concedida à revista Meio &                             tornou-se o diferencial da festa    pode levar um cliente como a
Mensagem Especial, de 19 de                            em 2003, inclusive com              Clínica COT, na sua campanha de
março de 2001 (p.22), afirma                           camarote “andante”. Assim,          prevenção durante o carnaval, a
que: “O caso de Salvador é típico                      vários blocos e entidades estão     veicular um outdoor com o título:
e até o mercado publicitário                           invertendo a forma de “brincar      Você não é big brother para ficar
conhece bem isso, porque a                             o carnaval”, levando os foliões     trancado em casa, ancorado pela
configuração da cidade com                             para esses “palanques”. Em          imagem de um rosto enfaixado, só
áreas montanhosas e verdes                             virtude deste fato, em fevereiro,   aparecendo um olho, aprovei-
possibilitou esse trabalho. As                         em uma das peças da campanha        tando-se do sucesso do programa
empresas conseguiram se reunir                         da Clínica COT (Clínica ortopé-     Big Brother Brasil.
e fazer a ocupação de forma                            dica e traumatológica), veiculada      O que se percebe, é que, para
muito valorizada, com peças                            em outdoor, tem-se o título: Até    alcançar essa viabilidade, o
isoladas que se destacam”.                             camarote está andando. Não é        discurso de outdoor baiano parte
    A mesma revista, em 27 de                          você que vai ficar parado,          de uma enunciação que se
março de 2000, no artigo                               ancorado pela imagem de um          constitui na melhor via de acesso
“Topografia ajuda visualização”,                       jovem deitado com a perna           ao produto, o que implica uma
afirma que “Salvador é a melhor                        suspensa, engessada.                afinidade entre aquela e este. O
                                                                                           pano de fundo são, justamente,
cidade do País para se colocar um                          Nos meses de janeiro e
                                                                                           ocorrências que se tornam
outdoor”. Neste mesmo artigo,                          fevereiro, os acontecimentos
                                                                                           oportunidades para que se encene
Rodrigues (TOPOGRA.IA..., 2000,                        importantes relacionados ao
                                                                                           o discurso pretendido, atentando-
p.22) publicitária da agência                          carnaval, como os blocos, os
                                                                                           se sempre para o interlocutor que
Propeg, diz que o outdoor na                           eventos que antecedem à festa,
                                                                                           se quer atingir. Partindo de
Bahia “(...) é mídia forte,                            os próprios camarotes, são
                                                                                           colocações de Maingueneau
consolidada, produto certo”. No                        anunciados em outdoor, pois
                                                                                           (2001), o discurso publicitário
ano 2000, esse meio baiano                             sabe-se que a visibilidade da
                                                                                           mobiliza cenografias diversas que
recebeu o título de Veículo do                         mídia e a sua credibilidade e
                                                                                           devem captar o imaginário do
Ano no Prêmio Colunista.                               aceitação pelo povo baiano são
                                                                                           público-alvo e atribuir-lhe uma
    De acordo com a última                             muito fortes. Ele lê, comenta e     identidade.
pesquisa da LPM-Burke, em 1995,                        se diverte com as peças.               .inalizando, transcrevemos
o item sobre a aprovação do meio                           Para o anunciante, veicular o   algumas afirmações de publici-
em Salvador teve um resultado                          seu produto/serviço com uma         tários baianos4 que justificam o
de 95% de aceitação da mídia, o                        boa peça para outdoor, e m          fato de uma mídia como o
que surpreendeu a todos. Este                          Salvador, é retorno e recall para   outdoor funcionar e ser conside-
percentual foi tema de palestra                        a sua marca.                        rada de excelência.
no Congresso Internacional de                              Constatamos, diante do
Mídia, realizado, na época, em                         exposto, que a obediência à         1. A Bahia tem uma cultura
São Paulo. Segundo o empresário                        referida Lei Municipal pelas           regional muito original e já
José Linhares, 3 o povo baiano                         empresas exibidoras de cartazes        cristalizada que facilita
está sempre atento às placas de                        e a topografia de Salvador, com        extraordinariamente        a
outdoor e o seu amor por essa                          suas avenidas de vale, possibi-        fixação de marca. (Carlos
mídia é comprovado pelo número                         litam a transformação do outdoor       Sarno)
de telefonemas que recebe                              em elemento decorativo para a       2. A Bahia é fonte de inspiração
quando algo diferente ocorre                           Cidade. Portanto, a eficiência do      para o outdoor o ano inteiro.
com alguma tabuleta.                                   meio decorre também desses             (Paulo Vianna)
3
    Em entrevista já referida.
4
    Trechos de entrevistas concedidas para a tese de doutorado da autora deste artigo.

                                                                                                                          23
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3. (...) o baiano, na verdade,            apoio, afirmando-se como              6. O outdoor tem atributos
   gosta de informação que seja           mídia básica na Bahia.                   ímpares no mercado de
   bem-humorada. (...) o baiano,          (.ernando César Dias)                    Salvador, o que acaba sendo
   na verdade, se convence muito                                                   utilizado como meio principal,
   com a comunicação; ele vive         5. (...) a grande vantagem da               principalmente quando a
   a propaganda. (João Silva)             regulamentação na Bahia,                 estratégia é gerar impacto à
                                          isso nenhum estado até hoje              campanha. (Nelson Cadena)
4. (...) essa independência e a           percebeu, foi a valorização do        7. (...) em nenhuma outra cidade
   liberdade discursivas fizeram          veículo, ou seja, o outdoor, na           do Brasil existe essa eficiência
   com que o outdoor deixasse             Bahia, é uma mídia que                    do meio como existe aqui em
   de ter a condição de mídia de          funciona. (Ana Maria Almeida)             Salvador. (Nelson Cadena)




                                       RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS
 CADENA, N. V. 450 anos de             de Cecília P. de Souza-e-Silva e Décio   SANT’ANNA, A. Propaganda:
 publicidade na Bahia. Salvador:       Rocha. São Paulo: Cortez, 2001.          teoria técnica e prática. 4. ed. São
 Gráfica Santa Helena, 1998.                                                    Paulo: Pioneira, 1989.
                                       MANÔ, C. A. Por decreto não.
 GAIARSA, M. A. C. Estratégias         Meio & Mensagem Especial,                TARSITANO, P. R. Empatia, projeção
 argumentativas no outdoor             São Paulo, p. 21-23, 19 mar. 2001.       e identificação no processo da
 baiano. 2002. 185f. Tese                                                       criação publicitária. In:
 (Doutorado em Letras) -               MARCONDES, P. A década da                ____________. (Org.). Publicidade:
 Universidade .ederal da Bahia,        maturidade. In: RAMOS, R.;               análise de produção publicitária e
                                       MARCONDES, P. 200 anos da                da formação profissional. São
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                                       ao cyber-anúncio. São Paulo, Meio &
 A mensagem publicitária na era        Mensagem, p. 98-135, 1995.               TAVARES, M. .atias desiguais.
 tecnológica: nova forma de                                                     Propaganda: a alma e o negócio,
 reproduzir o universo. 1999. 213f.    MOLES, A. O cartaz. Tradução de          São Paulo, v. 44, n. 574, p. 44-45,
 Tese (Doutorado em Comunicação        Miriam Garcia Mendes. São Paulo:         abr. 1999.
 Social) - Universidade Metodista de   Perspectiva, 1974.
 São Paulo, São Paulo, 1999.                                                    TOPOGRA.IA ajuda valorização.
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Artigo




         ROCK E MÚSICA POP:
   ESPETÁCULO, PERFORMANCE, CORPO




                                        Herom Vargas
  Graduado em História (PUC-SP), Mestre e doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC-SP).
           Professor nos cursos de Comunicação Social do IMES-São Caetano do Sul
                      e da UMESP-Universidade Metodista de São Paulo.




                R E S U M O                                          ABSTRACT
O artigo procura analisar o rock e a música pop a   This article searches to analyse the rock and pop
partir do espetáculo, visto sob o ponto de vista    music as a show examined from the viewpoint view
da performance, do happening e da body art, e da    of performance, happening and body art, and also
adaptação dessas formas híbridas desenvolvidas      from the adaptation of these hybrid forms which
nas artes plásticas nos anos 50 e 60 à música       were developed in the plastic arts of the 50ths
popular produzida neste período: do rock’n’roll     and 60ths to the popular music produced in this
nos anos 50, passando por Jimi Hendrix, o           period: from rock’n’roll in the 50ths, going through
progressive rock e o punk dos anos 70 até algumas   Jimi Hendrix, the progressive rock and the punk
tendências contemporâneas. O espetáculo, no         rock in the 70ths up till some contemporaneous
rock e na música pop, são vistos como campos        tendencies. The rock and pop music shows are
férteis de criatividade para músicos que            seen as fertile fields of creativity for musicians that
transformam seus shows em experimentação            transform their shows into a performatic
performática onde o corpo é utilizado em seus       experimentation where the body is used in all
limites.                                            limits.

PALAVRAS-CHAVE: música, comunicação                 KEYWORDS: music, physical communication,
corporal, expressão corporal.                       physical expression.




                                                                                                        25
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     Muitos já disseram que, depois   música do rock usando a estética     numa expressão conjuntural e
do rock, a música popular nunca       da música tradicional está           idiossincrática do artista (vide as
mais foi a mesma. Uma das razões      condenada a resultar num mal-        performances de Jimi Hendrix
dessa guinada encontra-se nas         entendido”.                          onde a música era produzida e
novas formas de mobilização do           Assumindo assim como base         sentida por todo seu corpo, a
corpo durante a execução das          e fundamento esta ligação            expressividade de sua face no
canções desenvolvidas a partir        música-corpo, é possível, generi-    momento de soar uma nota, os
dos anos 50 e 60. O uso intensivo     camente, distinguir dois tipos de    movimentos da boca, dos olhos,
e ritualizado do corpo, durante o     trabalho com o corpo na música       etc.). A música, por sua vez, passa
espetáculo musical, tornou-se         popular neste século. No primeiro,   a ser muito mais visual, pois o ato
uma marca muito particular do         o músico ou cantor procura           de assistir ao show também
rock e pouco percebida na música      produzir os sons utilizando          contém um mecanismo visual de
ocidental até seu surgimento com      basicamente o corpo como estru-      decodificação, aumentando a
cantores como Elvis Presley e         tura de sustentação de sua ação,     importância do espetáculo na
Little Richard. Uma definição bem     não trabalhando-o de modo            música popular contemporânea.
rápida, mas bastante represen-        significante dentro do universo         É claro que estamos excetu-
tativa do rock mostra sua forte       semiótico da canção. O cantor usa    ando as músicas feitas especial-
relação com o corpo em dança:         apenas o aparelho fonador, seu       mente para rituais sociais fes-
     “Ao contrário da música          gestual é contido, sua movimen-      tivos – o carnaval, as danças de
erudita, que exige o silêncio e o     tação à frente da platéia é          salão, por exemplo –, em que a
bom comportamento da platéia          limitada. A canção é entendida       canção funciona mais como um
(...), o rock pressupõe a troca, ou   apenas pelo hibridismo entre letra   programa da festa e não possui
melhor, a integração do conjunto      e música e a interpretação recai     muita autonomia, moldando o
ou do vocalista com o público,        sobre a dicção e o grau de emoção    corpo em dança à regra de movi-
procurando estimulá-lo a sair de      que o rosto do artista transmite.    mentação típica dessas festas,
sua convencional passividade          O músico também limita seus          diferente do rock que ampliou
perante os fatos. Por isso dançar     movimentos ao necessário para a      tanto para os espectadores
é fundamental. Se não houver          exploração das potencialidades       quanto para os músicos os
reação corpórea ‘quente’, não há      sonoras de seu instrumento           campos de ação corporal no
rock. (...) não pode haver regras,    usando basicamente dedos, mãos       espetáculo.
cenas determinadas, linhas do         e pés. A intenção física encontra-      Num estudo prospectivo,
salão a cobrir, músculos tensos a     se puramente no manuseio do          Carlos Calado (1990) aponta essa
esperar o próximo movimento. O        instrumento, na fricção das          transformação no âmbito do jazz.
rock precisa de liberdade física      cordas, no tapa na percussão, na     .azendo uma comparação entre o
(...)”. (Chacon, 1982, p.12)          pressão dos dedos nas teclas.        músico de jazz e o ator, Calado
     Essa transformação foi tão          Um outro tipo de mobilização      (1990, p.42 e seg.) mostra três
profunda que impôs uma                corporal na música popular se        momentos do desenvolvimento do
dificuldade para os estudos sobre     caracteriza pela radicalização das   jazz: o do músico executando uma
a estética musical do rock. Ao        funções significantes do corpo e     partitura, como nas big bands dos
privilegiar a relação com o corpo,    sua cinética dentro do espectro      anos 30; o músico interpretando
as respostas viscerais ao novo        semiótico da canção. O músico/       uma partitura e já incluindo
som, o rock altera os critérios de    cantor intensifica o uso do seu      elementos de subjetividade,
avaliação musical empregados na       corpo fazendo-o adensar ou           alterando a noção tradicional do
análise tradicional da música         reverberar sentidos restritos aos    respeito ao texto da partitura; e,
ocidental baseados na estrutura       textos sonoro e poético da           por fim, quando o jazzman solta-
da composição e na forma.             canção, ou ainda demonstrar          se da estrutura escrita da canção
Segundo Baugh (1994, p.15): “A        outra semântica não expressa         e parte para o improviso, recriando
música do rock compreende um          diretamente pela canção. Seu         melodias e harmonias na obra de
conjunto de práticas e uma            corpo entra em sintonia,             origem. Esta última fase, o autor
história muito diferente daquelas     paralelismo ou atritos com a         divide em três: o improviso
da tradição européia da sala de       música, podendo se mostrar tanto     tradicional no meio da canção em
concerto na qual a estética           numa estrutura previamente           um solo; a radical recriação de
musical tradicional está baseada.     coreografada (vide os shows de       antigas canções feitas pelos
Assim sendo, qualquer tentativa       Madonna e Daniela Mercury ou         músicos do bebop, desenvol-
de avaliar ou compreender a           clipes de Michael Jackson) ou        vendo músicas até um ponto em
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Artigo

que pouco ou nada se reconheça                             A busca dessa conexão supre-                     vinculação muito forte com a
das originais; e, a partir dos anos                    ma formulada entre arte e vida                       música popular produzida neste
60, com o free jazz, em que o mú-                      forneceu combustível a muitas                        período: o bebop dos anos 40, o
sico adquire a total liberdade para                    experimentações nas artes plás-                      rock’n’roll dos anos 50, o free jazz
sua espontaneidade, destruindo                         ticas que tangenciaram sobretudo                     e as vertentes do rock desde
as estruturas do tonalismo da                          as formas teatrais, ou seja, a                       Beatles e Rolling Stones até o
música ocidental, incorporando o                       colocação do artista em um espaço                    .estival de Woodstock nos 60, o
ruído e, no campo do espetáculo,                       determinado produzindo um tipo                       jazz fusion, o progressive rock e o
lançando mão de efeitos visuais,                       de ação, que não era exatamente                      punk dos 70.1 E o rock, com todos
figurinos, máscaras e desem-                           a “teatral” (ou seja, ações dentro                   os seus matizes até a atual música
penhos corporais inusitados, eli-                      dos padrões tradicionais do teatro:                  pop, tornou-se um campo fértil
minando o respeito ao padrão                           personagem, texto escrito, cenário                   para uma série de experimen-
visual do músico. Sua ação se                          naturalista, interpretação stanis-                   tações: tanto artistas plásticos se
aproxima muito mais da máscara,                        lavskiana, mímese, etc.) em frente                   dirigiam a essa música, como
do personagem construído, nível                        a uma platéia. A radicalidade                        também músicos e compositores
que supera o músico quando recria                      dessas ações aproximavam a arte                      transformavam seus shows em
canções ou quando simplesmente                         e os artistas de seus próprios                       espaços de experimentação per-
reproduz a partitura.                                  limites: não havia a separação pura                  formática, como, por exemplo,
    O autor liga essa alteração do                     e simples entre obra e artista, pois                 David Bowie, Laurie Anderson,
jazz através da cena do espetáculo                     estes eram um só e não poderia                       Peter Gabriel, etc.
ao desenvolvimento do happening                        haver assim a contemplação esté-
nos anos 60 e da performance nos                       tica do espectador porque simples-
                                                                                                                     MÚSICA, RITUAL,
                                                                                                                     PER.ORMANCE
anos 70, formas surgidas nas artes                     mente não havia uma obra aca-
plásticas tentando questionar o                        bada e perene – estatuto da arte                         Quando falamos no experimen-
uso de suportes e materiais usuais                     conquistado e mantido desde o                        talismo que o rock e o pop apre-
e de espaços tradicionais como                         Renascimento – mas eventos, cuja                     sentam, não estamos tratando das
museus e galerias. Uma das saídas                      duração poderia ser ora muito                        questões ligadas à música ou à
foi a busca de uma verdade maior                       curta, ora extremamente longa e                      letra. Em linhas gerais, esses dois
na relação artista-público estrei-                     que muitas vezes não se repetiam.                    aspectos da canção não apresen-
tando os laços existentes entre a                      Essas ações, happenings e perfor-                    tam, nesses gêneros, uma grande
arte e a vida, projeto proveniente                     mances também se aproximaram                         gama de inovações. Excetuando o
das vanguardas do início do                            das formas rituais mais primitivas                   trabalho com o ruído e com instru-
século. O happening e a perfor-                        visando também a essa ligação                        mentos elétricos e eletrônicos,
mance surgiram assim como                              mais forte à vida, dessacralizando                   dados inovadores na música
formas novas de utilização de um                       mitos estabelecidos, recriando                       ocidental ligados ao rock, o texto
suporte intocável até então: o                         alguns outros e até trabalhando                      sonoro mantém-se ainda muito
corpo do próprio artista. Surgiram                     sobre os novos mitos da mídia e                      preso ao tonalismo. Pouco se fez
a body art, os experimentos do                         da tecnologia que estavam se                         também, salvo algumas exceções,
Grupo .luxus e uma série de                            desenvolvendo na década. Outro                       no campo poético. Assim, quando
outras alternativas de ruptura até                     sentido tomado foi o da vinculação                   pensamos em experimentalismo,
então nunca vistas. Alguns autores                     a outras linguagens tentando uma                     estamos querendo tratar das
chamam essas tendências de live                        totalidade ainda não alcançada até                   conexões entre essas linguagens
art: “... um movimento de ruptura                      então. Daí o surgimento de                           – som e letra da canção – e sobre-
que visa dessacralizar a arte,                         eventos envolvendo teatro, dança,                    tudo de um campo em que o rock
tirando-a de sua função mera-                          música, poesia, cinema, vídeo, etc.                  se individualiza e se distancia
mente estética, elitista. A idéia é                        O que queremos mostrar neste                     tanto de outras linguagens como
de resgatar a característica ritual                    artigo é que essas formas híbridas                   de outros gêneros musicais: o
da arte, tirando-a de ‘espaços                         desenvolvidas nas artes plásticas                    espetáculo, a presença cênica ao
mortos’, como museus, galerias,                        a partir dos anos 50 e 60 (action                    vivo do artista em frente a uma
teatros, e colocando-a numa                            painting, a pop art e seus desdo-                    platéia, seu aspecto ritualizado, as
posição ‘viva’, modificadora”.                         bramentos, as artes corporais e                      formas adotadas pelos músicos
(Cohen, 1989, p.38)                                    ambientais, etc.), tiveram uma                       nesse espaço formado pelo palco,
1
    No Brasil, a grande referência encontra-se no movimento Tropicalista de 1967/68. Porém, não devemos esquecer os fortes vínculos entre música popular e
    corpo nas variações do samba, na figura do malandro carioca dos anos 30 e até no gestual engajado dos cantores de protesto nos festivais dos anos 60. No
    entanto, apesar desses vínculos existirem, o rock proporciona um outro tipo de abertura, como veremos mais adiante.

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C omunicação                                                                                                                                    Artigo

pelo cenário e adjacências – espa-                        entradas e saídas, o sistema                            mente esse centro de atenção é
ços laterais ou superiores ao palco                       neuronal e os sistemas musculares                       obstruído por outros movimentos,
que ampliam o território de ação                          do corpo em dança ou um possível                        outras vozes simultâneas. São
dos músicos.                                              mapa dos gestos de um autista.                          luzes e personagens temporários
    O dado espetacular tem sido                           Tal qual esses exemplos, o                              que se movimentam frente ao
pouco considerado nas avaliações                          espetáculo do rock é um tipo de                         público. Os atores-dançarinos
de determinados grupos e/ou                               evento em que não é possível                            trocam de roupa, sobem e descem
cantores pop, provavelmente                               estabelecer um centro gerador                           do palco, fazem coreografias
devido à tendência dominante de                           único, mas que se desmembra                             previamente organizadas ou
entender a canção popular apenas                          como a grama em vários segmen-                          totalmente pessoais e subjetivas.
como letra e música. Ao contrário                         tos cujas conexões internas ou                          Se há um enredo que proporcione
de outras linguagens (o teatro                            desdobramentos externos formam                          uma narrativa ao show – e, em
tradicional, inclusive), o rock é um                      um todo modulante, algo não                             parte, ele existe, tendo em vista
evento performático e ritualístico                        definido nem pelas partes e nem                         os personagens que são represen-
desde suas origens, o que nos                             pela totalidade. Um espetáculo não                      tados em várias canções pelos
força a considerar os aspectos                            é apenas o cantor ou músico                             músicos e pelos atores –, ele é
ligados ao espetáculo como                                principal; é uma conjunção nem                          sempre quebrado pela multipli-
fundamentais na análise deste tipo                        sempre uniforme de tendências                           cidade, estranhamento e rapidez
de música.                                                cinéticas (as movimentações                             com que as várias informações
    Ao mesmo tempo, a importân-                           constantes), cromáticas (luzes,                         verbais, visuais, sonoras e senso-
cia do show nos coloca problemas                          roupas e cenários) e acústicas                          riais são trabalhadas.2
teóricos muito específicos, pois ao                       (sons e ruídos) percebidas de                               Essa mobilização sensorial
se levar em conta tal aspecto são                         forma múltipla pelo espectador.                         atinge o público, tornando-o não
necessários critérios específicos                            Um exemplo bastante interes-                         mais um observador contempla-
derivados da própria dinâmica do                          sante é um show de David Bowie                          tivo e racional, mas, sobretudo,
objeto em questão. A principal                            chamado Spider Glass, de 1987,                          um espectador ativo, com
dificuldade é a característica visual                     em que o cantor divide o palco com                      uma participação mais físico-
plural e múltipla do espetáculo:                          dois guitarristas, um baixista (o                       sensorial e menos intelectual,
seu centro de sentido muitas vezes                        tecladista e o baterista ficam do                       tanto por causa do envolvimento
não se estabelece de maneira                              meio do palco para trás um pouco                        emocional causado pelo som e
imediata, sua visualidade não                             escondidos) e quatro ou cinco                           pela música3, como também pela
encontra ordenações como a                                atores-dançarinos-performers num                        configuração ritual do espetá-
lógica da montagem no cinema, a                           cenário envolto por uma aranha                          culo, o que podemos chamar de
perspectiva linear na pintura e na                        gigante e colorida (o corpo acima                       “relação mítica”. 4
fotografia ou o foco, a narrativa e                       e as pernas nas laterais do palco).                         Tal estrutura heterogêna e
a cenografia naturalista no teatro.                       Há também plataformas laterais                          reticulada e, sobretudo, as ações
O espetáculo aproxima-se do que                           com nichos onde esses atores                            praticadas pelos artistas no
Deleuze e Guattari (1995, p.11)                           atuam e dançam de forma                                 palco aproximam-se muito do
chamam de rizoma, um evento                               simultânea. O palco não é um                            que se convencionou chamar de
caracterizado por multiplicidades                         espaço centrado, por mais que                           performance por demonstrar
e conectividades, por rupturas e                          Bowie seja o cantor principal; ao                       uma convergência forte entre os
descentramentos, um corpus                                contrário, a visualidade se rompe                       aspectos formais e de lingua-
móvel, algo que contém “... linhas                        em um mosaico cinético de                               gem. Em primeiro lugar, se a
de articulação ou segmentaridade,                         movimentos e gestos estranhos                           performance se diferencia do
estratos, territorialidades, mas                          entre si tanto dos músicos como                         teatro por poder prescindir
também linhas de fuga, movi-                              dos dançarinos. Não se estabelece                       radicalmente da estrutura
mentos de desterritorialização e                          um único e constante foco de cena,                      aristotélica da narrativa linear e
desestratificação”, estrutura pare-                       ele é múltiplo e movente, pois se                       ancorar-se numa estrutura em
cida com a grama, a toca de                               ele aparece no momento do canto                         que a collage é estabelecida
animais cheia de ramificações,                            ou do solo principal, imediata-                         como regra de sua dinamização
2
    Um outro exemplo bastante interessante no âmbito nacional é o show dos Titãs. Ainda com Arnaldo Antunes, eram oito músicos no palco tocando e dançando
    cada um de sua maneira, vários cantores se revezando ao microfone, enfim, uma multiplicidade cujo centro dificilmente se definia por muito tempo.
3
    Ver a respeito às análises sobre a influência da música e dos sons sobre a percepção e sobre o cérebro humano em Jourdain (1998), especialmente o capítulo
    Do som ao êxtase.
4
    “Na relação mítica, este distanciamento [entre espectador e obra] não é claro; – eu entro na obra, eu faço parte dela – isto sendo válido tanto para o espectador
    que fica na situação de participante do rito e não mero assistente (não sendo bom, portanto, o termo ‘espectador’) quanto para o atuante que ‘vive’ o papel e
    não ‘representa’.” (Cohen 1989, p.122) Ver também páginas 97 e 98.

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Artigo

(Cohen, 1989, p.57), temos então                         performer.                                            por impactos sensoriais e emocio-
o espetáculo e a ação física dos                            Daí também a semelhança                            nais: som alto, melodia cativante,
músicos como fundamento da                               entre o espetáculo e a perfor-                        impulso corpóreo rítmico, ilumi-
performance musical (e na música                         mance, pois esta não limita o                         nação, cinestesias, etc.
pop esta disposição ao desem-                            performer a um personagem
penho físico é fundamental). No                          como ocorre com o ator no teatro                         OS LIMITES DO CORPO
show descrito acima, sua múltipla                        tradicional. Se há personagem na
plasticidade ilustra muito bem a                         performance, ou ele se mistura à                          Se, tanto no espetáculo de
noção de collage, algo que se                            própria figura do ator - numa                         rock como na performance, o
estrutura em significado pela                            performance, como no show mu-                         corpo do músico-ator é colocado
contaminação de elementos apa-                           sical, geralmente o ator é o seu                      em sua própria presença, se a
rentemente distantes e desconec-                         próprio personagem numa rela-                         relação com o público é sempre
tados. O sentido se dá por geração                       ção de grande ambigüidade -, ou                       mais sensório-emocional do que
em mosaico, muitas vezes de ma-                          se multiplica em vários perso-                        racional, se ambos são eventos
neira aleatória porque depende da                        nagens assumidos conforme a                           onde se celebra o prazer e a liber-
ação subjetiva de cada atuante no                        dinâmica da apresentação.                             dade e, em princípio, não há a
espetáculo. Mesmo que o show                                Outra aproximação interes-                         norma da representação como no
seja repetido, nenhuma configura-                        sante entre o espetáculo e a                          teatro tradicional ou em outras
ção poderá se repetir em plena                           performance diz respeito aos                          linguagens de forte acento natu-
equivalência, havendo apenas                             elementos de cena que cada um                         ralista, seria plenamente possível
aproximações devidas exata-                              contém. Diferente do teatro                           pensarmos a utilização do corpo
mente a essa qualidade de evento                         tradicional, na performance os ele-                   também de maneira totalmente
movente e conectivo. Na verdade,                         mentos de cena como cenografia,                       livre e desimpedida. Na perfor-
cada músico, ator ou cantor                              objetos, trilha sonora ou sono-                       mance e na body art é comum
desempenha papéis temporários                            plastia, figurinos e o próprio                        termos situações onde o corpo
e que se estranham entre si.                             performer não se estabelecem de                       do artista e suas convenções
Muitas das ações e movimentos                            maneira hierarquizada, nem                            sócio-culturais são colocados em
não foram previamente organi-                            privilegiam a representação pura                      xeque, em que se tentam ultra-
zados, cabendo a cada corpo no                           e simples. Eles podem se mani-                        passar os limites musculares e os
palco (podemos falar de verda-                           festar em valores diferentes privi-                   da dor e questionar os condicio-
deiros performers) a construção                          legiando muito mais a ligação                         namentos éticos e morais colo-
episódica da persona5 que consi-                         emocional e sensorial com o                           cados pelo caldo cultural que en-
derar necessária, formando um                            público do que a mais racional,                       volve as práticas cotidianas.
cenário rico em idiossincrasias.                         típica do teatro naturalista.                             Proveniente das experiências
Não há a noção normativa e rígida                        (Cohen, 1989, p.65 e 66) Quanto                       da contracultura nos anos 60 e 70,
de roteiro ou script como na                             ao espetáculo pop, a configuração                     inspirados em boa parte nas
narrativa tradicional, pois a todo                       é muito semelhante, pois nem                          manifestações dadaístas e
momento ele pode ser rompido                             sempre, como já exemplificamos,                       surrealistas6, nos anos 1910/20,
pela morfologia sinuosa do evento                        é o cantor o foco da ação espeta-                     desde as ações de Joseph Beuys
espetacular. O caráter que mais                          cular; mesmo quando o é, seu                          (p. ex.: Coyote: I Like America and
se destaca, portanto, é uma forte                        foco é constantemente quebrado                        America Likes Me, de 1974) até as
sensação de presença, um aqui-                           pela atuação de outros músicos                        práticas sado-masoquistas da
agora que se mostra em toda sua                          ou até de outros elementos como                       body art, tais eventos propor-
amplitude, muito próximo tam-                            a iluminação, projeções, explo-                       cionam um exercício radical nos
bém da performance que, pelo                             sões, etc. Se, no teatro naturalista,                 limites da suportabilidade do
vínculo com a live art, rompe com                        os elementos cênicos represen-                        corpo. A todo momento são
o distanciamento imposto pela                            tam os aspectos dados na                              questionadas suas convenções e
representação do teatro tradicio-                        narrativa, na performance e no                        capacidades biológicas, emocio-
nal e potencializa o momento                             espetáculo musical, eles se                           nais e culturais. O corpo é colo-
presente da ação cênica do ator-                         revelam ao espectador muito mais                      cado dentro de um território onde
5
    “A persona diz respeito a algo mais universal, arquetípico (exemplo: o velho, o jovem, o urso, o diabo, a morte, etc). A personagem é mais referencial. Uma
    persona é uma galeria de personagens.” (Cohen, 1989, p.107)
6
    Segundo Dawn Ades (1991, p.83), o Dadaísmo “... declarou como seus heróis Vaché, que certa vez interrompeu uma representação de Os Seios de Tirésias, de
    Apollinaire, ameaçando descarregar sua pistola contra a platéia e cujo suicídio foi um gesto final, e Arthur Cravan, um poeta irremediavelmente incompetente
    que se converteu em uma duradoura lenda em conseqüência de façanhas tais como desafiar para uma luta o campeão mundial de pesos-pesados, Jack Johnson,
    ou chegar bêbado para proferir uma conferência sobre arte moderna, diante de uma requintada platéia de Nova York, e despindo-se no estrado. Em 1918,
    partiu dos Estados Unidos para o México em um barco a remo e nunca mais foi visto.”

                                                                                                                                                           29
    julho/dezembro-2002
C omunicação                                                                                         Artigo

as intensidades de desejo, de           rizoma onde várias possibilidades     imprevisível, seu canto áspero, o
sensação e a expressividade são         de configuração, movimento,           suor, a movimentação defor-
máximas, e se concretizam em            tendências e significados se          mada, trêmula, grotesca e não
uma série praticamente ilimitada        instalam enquanto intensidades        “coreografada” que intensifica a
de ações críticas que tentam            em potência. Ele é diferente, por     dor de amor de que fala a canção.
ultrapassar os limites sociais do       isso, do organismo, a “... organi-    O mesmo é possível dizer da
suportável. São fluxos e contra-        zação orgânica dos órgãos (...), um   relação umbilical entre Jimi
fluxos constantes em várias             fenômeno de acumulação, de            Hendrix e sua guitarra: ações de
direções e sentidos que desmem-         coagulação, de sedimentação que       cumplicidade e de interpenetra-
bram a suposta organicidade             lhe impõe formas, funções,            ção de forças, o aspecto visceral
interna do corpo, tratando-o mais       ligações, organizações dominan-       dos timbres e da interpretação –
como uma rede de intensidades.          tes e hierarquizadas, transcen-       aspecto que, aliás, parece típico
O espetáculo na música pop e no         dências organizadas para extrair      da linguagem cênico-sonora do
rock, sobretudo aqueles em que          um trabalho útil”. (1996, p.21) O     rock –, o cabelo e as roupas, a
a expressividade do artista             CsO é um campo de forças vivo e       carga emocional carregada pelo
supera o controle imposto pela          aberto que desfaz a organi-           corpo superando as sutilezas da
mera coreografia, transforma-se         zação significante cotidiana, as      técnica musical.
num território eminentemente            hierarquias sociais e os condicio-        Outro momento fundamental
experimental e o corpo em dança         namentos externos de funções          temos nos criativos e profusos
livre e com suas linhas múltiplas       preestabelecidas e que em nada        anos 70, quando alguns artistas
de subjetivação, torna-se o objeto      se parecem com suas várias inten-     lançam mão de personagens por
dessa experimentação. Ele é             sidades em latência. O CsO tratado    eles criados e que desenham
transformado no que Deleuze e           por Deleuze e Guattari é um           várias possibilidades de interpre-
Guattari (1996, p.13) chamam de         sintagma solto de terminais           tação. É o caso de David Bowie,
“Corpo sem Órgãos”:                     conectivos múltiplos que não pode     um dos principais expoentes do
                                        ser reduzido aos extratos básicos     então denominado glitter ou
    “... feito de tal maneira que ele
                                        da organização, do sentido (ou        glamour (ou simplesmente glam)
só pode ser ocupado, povoado
                                        significância: intérprete ou inter-   rock. Sua capacidade transfor-
por intensidades. Somente as
                                        pretado) e da subjetivação (sujeito   mista e sua criatividade em
intensidades passam e circulam.
                                        de enunciação ou de enunciado).       compor personagens, com o
Mas o CsO não é uma cena, um
                                        Ao contrário, deve ser a desarticu-   Ziggy Stardust (de 1972),
lugar, nem mesmo um suporte
                                        lação, potencializada em suas         reforçam um elemento impor-
onde aconteceria algo. Nada a ver
                                        pluralidades de articulações,         tante para a performance: sua
com um fantasma, nada a
                                        instaurando a experimentação no       relação rica e modular entre ator
interpretar. O CsO faz passar
                                        lugar do significado e intensifi-     e personagens criados. No campo
intensidades, ele as produz e as
                                        cando a postura nômade para des-      do chamado progressive rock,
distribui num spatium ele mesmo         truir as tendências de fechamento     temos Peter Gabriel, na época
intensivo, não extenso. Ele não é       interpretativo. (1996, p.22)          cantor do grupo Genesis, e seus
espaço e nem está no espaço, é             Tanto a performance – em sua       personagens cósmicos produtos
matéria que ocupará o espaço em         postura radical de exercício des-     de maquiagem e figurinos e que
tal ou qual grau - grau que             construtor do corpo organizado        eram introduzidos nos shows
corresponde às intensidades             e de sua configuração em live art –   conforme as possibilidades da
produzidas. Ele é a matéria intensa     como os espetáculos de rock e         narrativa das canções e da temá-
e não formada, não estratificada,       da música pop – em especial           tica do disco em questão.
a matriz intensiva, a intensidade       aqueles que se concretizam em             Quanto à questão dos per-
= 0, mas nada há de negativo neste      manifestações de experimen-           sonagens, há casos em que os
zero, não existem intensidades          tação e rebeldia – são como           próprios cantores se transformam
negativas nem contrárias. Matéria       expressões desse CsO. Talvez          em personagens de si próprios,
igual a energia. Produção do real       uma das aparições seminais            uma espécie talvez de alter ego
como grandeza intensiva a partir        desse conceito seja a já clássica     com o qual se confundem. Os
do zero. Por isto tratamos o CsO        interpretação de With Little Help     psicanalistas poderiam defini-lo
como o ovo pleno anterior à             from my .riends (de J. Lennon e       como produto de algum desejo
extensão do organismo e à               P. McCartney) por Joe Cocker no       reprimido; os críticos “apocalíp-
organização dos orgãos ...”             .estival de Woodstock, de 1969,       ticos” diriam que é mera rotulação
    Segundo os autores, o CsO é o       com sua postura descentrada e         para um produto ser mais
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Artigo

“vendável” no mercado de bens                         violência. Veja-se, por exemplo, a      postura aceita pela moral (ele
simbólicos da indústria fonográ-                      dança pogo, inventada por Sid           cantava nu, defecava e urinava no
fica. De qualquer forma, roqueiros                    Vicious, baixista dos Sex Pistols:      palco; comia ou arremessava seus
como Alice Cooper – surgido nos                       “... arrancar as correntes e dançar     excrementos na platéia; chamava
anos 70 e até hoje cultuando o                        segurando-as fortemente na mão          mulheres ao palco para que
estilo “rock horror show” – e o atual                 e dando correntadas diretas em          urinassem na sua boca; jogava-se
Marilyn Manson com seu visual                         volta de seu espaço”. (Bivar, 1982,     no chão ou contra a platéia com o
andrógino e escatológico, trans-                      p.60)                                   corpo todo besuntado de óleo –
formaram-se para sempre em                                 Nos anos 80, parte das             ou coisa parecida – esfregando-
seus respectivos personagens,                         gerações glitter e punk adere à         se nas pessoas e esmurrando-as;
radicalizando o processo do tra-                      chamada new wave, cuja estética,        perseguia pessoas até as ruas
vestimento. Não existe nenhum                         mais palatável ao gosto da mídia,       durante as apresentações), ou a
tipo de dubiedade ou confusão                         traduz a sensação de revolta, por       performance pirotécnica do grupo
entre os cantores e os persona-                       um lado, em um modismo super-           alemão Rammstein, cujos mem-
gens, pois, do jeito que se tratam                    ficial e, por outro, na introspecção    bros ateiam fogo em seus corpos.
e são tratados, fazem com que                         niilista e neo-romântica dos darks
suas figuras sejam constante-                         e góticos. O corpo demonstra essas              JAZZ E ROCK
mente seus personagens, dife-                         condições pelas roupas pretas,
rentemente do ator tradicional                        piercing, cabelos desgrenhados e           Como se vê, em muitos casos
que cria, mimetiza e vive tempo-                      maquiagem (pele pálida e forte          não existem obstáculos quanto ao
rariamente sua criação, ou dos                        contraste com lábios, olhos e           uso revolucionário do corpo como
performers que são muito mais                         cabelos escuros). O punk também         elemento significante na canção
eles próprios em suas ações.                          gerou filhos como os head bangers       e, como já frisamos, o rock e a
Também não se deve confundir                          do hardcore e do trash-metal, e os      música pop tornaram-se um
Alice Cooper e Marilyn Manson                         skinheads, estes em contraste com       campo altamente fértil por suas
(combinação dos nomes da atriz                                                                próprias características juvenis de
                                                      o anarquismo punk.
Marilyn Monroe e de Charles                                                                   revolta, de experimentação, de
                                                           Nos anos 90, apesar da coexis-
Manson, culpado pelo assassi-                                                                 abertura para a novidade e pela
                                                      tência dessas várias tendências,
nato da atriz Sharon Tate) com                                                                relação com a tecnologia. Não é à
                                                      a tônica parece ser o ceticismo
os chamados “personagens da                                                                   toa que, ao falar sobre o jazz das
                                                      quanto às saídas positivas frente
mídia”, como são os casos de                                                                  suas origens ao estágio atual
                                                      ao sistema de vida do mundo
Michael Jackson e Madonna, que                                                                como uma forma musical visual e
                                                      ocidental e, como resposta, uma
se tornaram seus próprios perso-                                                              espetacular, Carlos Calado (1990)
nagens na relação que travam                          postura de não comprometimento          tenha demarcado como um
com o mercado e a indústria da                        com ideologias muito fechadas.          momento densamente frutífero,
música pop, de cuja manipulação                       Se, de um lado, temos o experi-         no que se refere à cena, o jazz
são muito mais alvos do que                           mentalismo multimídia de Laurie         fusion, especificamente na
sujeitos.                                             Anderson, que trabalha a música         vertente que funde o jazz ao rock.
    O punk rock também radicaliza                     e as expressões do corpo dentro            “Também quanto à apresen-
o uso do corpo dentro das fron-                       de um contexto tecnológico (sons        tação em cena pode-se encontrar
teiras de sua proposta estético-                      e instrumentos eletrônicos, pro-        elementos originários dos concer-
ideológica de colocar-se contra                       gramas de alteração dos timbres         tos e shows de rock nos espetá-
todo tipo de exploração, domina-                      de voz, máscaras, projeções como        culos da fusion. Desde a ilumina-
ção e pobreza que a sociedade                         cenário), continuamos a presen-         ção colorida sobre os músicos até
capitalista impõe aos desprivile-                     ciar o dilaceramento do corpo com       a utilização por estes de roupas
giados. Nessa luta, devolvem à                        Iggy Pop se chicoteando com o           espalhafatosas, cabelo mais
sociedade seus símbolos de                            microfone e tirando as calças para      comprido ao estilo rockeiro, ou
dominação (suástica, crucifixo de                     a platéia, o travestimento esqui-       mesmo uma movimentação maior
ponta-cabeça, a cor preta, cor-                       sito do citado Marilyn Manson, a        pelo palco, todos esses são aspec-
rentes, cabelos do tipo moicano),                     radicalidade neo-punk e escato-         tos claramente vinculados à
uma música caracterizada pelo                         lógica do falecido G. G. Allin, voca-   música pop e ao rock que vieram
ruído – espécie de anti-música ou                     lista do grupo norte-americano          participar dos desempenhos de
não-música – e um corpo que                           The Murder Junkies e cuja perfor-       músicos e grupos de jazz-rock”.
expressa a dor, a escatologia e a                     mance ultrapassava qualquer             (1990, p.197)
7
    Ver também o capítulo 5 de Renato Cohen (1989).

                                                                                                                             31
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   Só faltou frisar – o que obvia-     elemento característico desde a       musical – ou fazendo a técnica
mente fugia dos objetivos de seu       revolução modernizante do be          funcionar em função do corpo –,
trabalho – que os limites cênicos      bop nos anos 40. O rock, por-         transformou-se nesse vasto ter-
e de expressão corporal do jazz        tanto, ao se caracterizar muito       ritório experimental onde várias
se encontram na maior atenção          mais pelo desempenho corporal         vertentes das artes corporais se
que reserva à técnica musical,         dos músicos do que pelo apuro         encontram com a música.




                                       RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS

 ADES, D. Dadá e surrealismo. In:      CALADO, C. O jazz como                DELEUZE, G; GUATTARI, .. Mil
 STANGOS, N. (Org.). Conceito da       espetáculo. São Paulo: Perspectiva,   platôs: capitalismo e
 arte moderna. Rio de Janeiro:         1990.                                 esquizofrenia. v.1. Rio de Janeiro:
 Jorge Zahar, 1991. p. 81-99.                                                Editora 34, 1995.

 BAUGH, B. Prolegômenos a uma          CHACON, P. O que é rock?. São         ________. Mil platôs: capitalismo e
 estética do rock. Novos estudos,      Paulo: Brasiliense, 1982.             esquizofrenia. v.3. Rio de Janeiro:
 São Paulo, CEBRAP, n. 38, p. 15-23,                                         Editora 34, 1996.
 mar. 1994.
                                       COHEN, R. Performance como            JOURDAIN, R. Música, cérebro e
 BIVAR, A O que é punk?. São           linguagem. São Paulo: Perspectiva:    êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva,
 Paulo: Brasiliense, 1982.             EDUSP, 1989.                          1998.




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Artigo




          O CENÁRIO VIRTUAL TELEVISIVO:
            UMA FORMA ESPECÍFICA DE
          REPRESENTAÇÃO CENOGRÁFICA




                                 João Batista Cardoso
   Diretor de Arte; Cenógrafo; professor nos cursos de Publicidade e Artes no IMES e UNISANTA;
               mestre (PUC/SP); doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC/SP).




                R E S U M O                                          ABSTRACT
O presente texto aborda uma forma específica         The present text approaches a specific form of
de representação encontrada hoje no espaço           representation which was found on television
televisivo: o cenário virtual. Esta nova transfor-   space nowadays: the virtual set. This new
mação vem afetando a forma de desenvolvimento        transformation is affecting the shape of
do projeto cenográfico, e conseqüentemente, o        development of the scenographical project and,
próprio conceito de cenografia. O ponto a ser        as a result, the concept of the scenography itself.
discutido no momento é: a cenografia utiliza os      The main issues to be discussed right now are:
recursos da informática para adaptar-se à            the scenography uses the Information Technology
evolução deste meio, ou a televisão, com os          resources to adapt itself to the evolution, or the
recursos da informática, está inventando uma         Television is creating a new way to represent the
nova forma de representação do espaço.               space, using the same resources.

PALAVRAS-CHAVE: cenografia, televisão, cenário       KEYWORDS: scenography, television, virtual set.
virtual.




                                                                                                     33
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    Ligamos a televisão na noite de   pede a passagem da Câmera 1                 1. A TECNOLOGIA
sexta-feira para ver o programa       para a Câmera 2, por exemplo, o
Globo Repórter. O apresentador        cenário virtual corta entre um            Hoje, nós temos disponíveis no
está caminhando pelo cenário,         plano geral e um close-up com         mercado, dois métodos utilizados
onde há ao fundo duas paredes         todo realismo” (Murray, 1998,         nos sistemas de cenários virtuais.
que dão profundidade ao espaço.       p.47). Esta forma de cenário pode     Em um deles, o cenário onde está
Na primeira delas vemos o logo        ser encontrada no Brasil, na Rede     o apresentador é pintado de azul
do programa, na outra, fotos          Globo, Globo News, Rede Record        ou verde. A câmera é fixa em uma
referentes ao assunto do dia que      e CNT.                                traquitana chamada de disposi-
se misturam com legendas em              Os sistemas de cenários virtuais   tivo tracking, que transmite ao
movimento; no teto uma abertura       combinam múltiplas tecnologias,       computador todos os movimen-
para o céu, que em determinados       entre elas o chroma-key, uma          tos dela, inclusive da objetiva. Este
momentos mostra a noite e em          técnica aplicada há muito tempo       é o sistema utilizado pelo Departa-
outros, o dia; figuras em recortes    na produção de vídeos. Todas as       mento de Computação Gráfica da
se espalham pelo espaço cênico,       cores vistas no vídeo são formadas    Rede Record, que faz uso do Larus
                                                                            Virtual Studio System, da Vi[z]rt,
algumas em movimento; no piso         pela combinação de apenas três:
                                                                            para processar os movimentos
vemos reflexos e sombras das          o vermelho, o verde e o azul,
                                                                            das câmeras e controlar os efeitos
figuras e do apresentador; pontos     conhecido como sistema RGB.
                                                                            de movimentos dos elementos
de luzes passeiam pelo cenário        Todas as cores das imagens
                                                                            cênicos que compõem o cenário.
valorizando suas formas, os seus      captadas pela câmera são
                                                                            O papel do Larus é integrar todo
contornos. Este cenário é perce-      decompostas, em três feixes, em
                                                                            o sistema, para operar com o
bido na tela da televisão como        informações de RGB, que depois
                                                                            mundo virtual e a sala de controle
sendo corpóreo, tridimensional.       são combinadas para reconstituir
                                                                            simultaneamente, com isso, um
No entanto, não é construído em       as cores originais. Com o recurso
                                                                            operador sozinho pode controlar
madeira, ferro, tecido ou qualquer    do chroma-key, é possível
                                                                            o sistema inteiro. Segundo
outro material de nosso “mundo        substituir uma determinada cor
                                                                            Calvente (ibid.), em matéria
físico”.                              por um sinal de vídeo qualquer,
                                                                            publicada na revista Tela Viva, o
    Na televisão vemos este           ou seja, um fundo monocromático
                                                                            Larus “permite a simulação de
cenário ocupar um espaço. Este        (background), geralmente azul ou
                                                                            uma panorâmica de 360º em um
espaço é capaz de receber um          verde, pode ser substituído por
                                                                            ambiente virtual”; já no segundo
corpo humano e objetos, que           imagens geradas no computador
                                                                            método, afirma Calvente, isso não
interagem entre si. Contudo, este     ou até mesmo por imagens
                                                                            é possível.
cenário não se encontra instalado     captadas. No entanto, no chroma-
                                                                                No segundo método, no
em nenhum palco ou estúdio,           key, existe a limitação do fundo
                                                                            background são pintadas faixas
ocupa tão somente o espaço na         não acompanhar o movimento da
                                                                            horizontais e verticais de espes-
tela da televisão; existe apenas      câmera.                               suras e tonalidades diferentes. O
na memória do computador, e ao           A tecnologia aplicada ao           sistema reconhece esses padrões
mesmo tempo inexiste, já que na       cenário virtual resolve esse pro-     e movimenta o cenário usando-
memória não se encontra nas           blema, “as câmeras podem se           os como referência. “A vantagem
formas que fazem com que seja         deslocar livremente, pois o           desse sistema é que dispensa o
reconhecido como um cenário.          background modifica-se de             dispositivo tracking, de forma
    Este tipo de representação        maneira coerente aos movimen-         que a câmera pode ser usada até
cenográfica, que encontramos em       tos das câmeras. Para tanto é         na mão. O problema é que
diversos programas nas principais     necessário ‘informar’ o sistema       quando o plano é muito fechado,
emissoras do mundo, como a BBC        quando e como as câmeras se           como num close-up, o sistema
de Londres, a americana CBS ou a      movimentam. Isso é possível           não ‘enxerga’ a parede e perde o
RAI na Itália, entre tantas outras,   graças à tecnologia da câmera         referencial” (Calvente, ibid.,
é chamado pelos profissionais da      tracking que através de algum         p.38). Segundo Sérgio Esteves
área de “cenário virtual”. “O         tipo de referência detecta a          Pereira, designer de cenário
cenário virtual contém todas as       movimentação da câmera. Os            virtual da Rede Record, hoje em
paredes, texturas, cores, luzes,      métodos de câmera tracking            dia, ao se fazer uso da câmera
animações e objetos tridimensio-      variam de fabricante para             livre, na mão ou na grua, apesar
nais necessários para uma             fabricante e de produto para          de possibilitar o travelling
produção (...). Quando o diretor      produto” (Calvente, 2001, p.37).      (movimento da câmera sobre

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Artigo

trilhos), a imagem é renderizada     apresentador, o computador            luz real, nas pinturas dos telões
vinte e sete vezes a cada            recorta seu contorno, projetando-     da Ópera ou ainda no surgimento
segundo, levando a uma perda         o no cenário, no ângulo exato         do cinema, com os cenários
de três frames por segundo; já no    onde deveria estar uma sombra         dirigidos por Robert Wiene para
dispositivo tracking, apesar da      real. O reflexo do cenário virtual    O Gabinete do Dr. Caligari.
limitação de movimento, a perda      é, por sua vez, o rebatimento do          Um outro fator que influencia
é de apenas um frame (contato        modelo original. O cenário no         a estética atual do cenário virtual
pessoal, 2001).                      computador apresenta-se em            é a limitação tecnológica. “As
    Este último método é utilizado   dois volumes, sendo um deles o        limitações da tecnologia determi-
pela Rede Globo e CNT, que           “original” e o outro o “reflexo”. A   nam as estruturas e formas que
operam com estações da Orad,         iluminação, mesmo quando a            podem ser construídas no espaço
empresa de desenvolvimento de        vemos em movimento, é fixa. O         virtual” (Holtzman, 1997, p.153).
tecnologia para a produção de        que existe, na tela do compu-         Podemos observar que os progra-
ambientes gráficos utilizados na     tador, é uma série de desenhos        mas que se encontram hoje no
transmissão de vídeo em tempo        de luzes estáticas, que ao serem      ar trazem cenários futuristas com
real. A família de produtos          apresentadas em uma determi-          superfícies lisas, metalizadas,
CyberSet da Orad oferece uma         nada seqüência dão a sensação         extremamente “limpas”. Determi-
gama de opções para o desenvol-      de movimento.                         nadas texturas de alguns mate-
vimento de cenário virtual. “A           Essa simulação de uma             riais ainda são impossíveis de
tecnologia consiste em software      iluminação é curiosa, se levarmos     serem reproduzidas. “A estética
e hardware que processam as          em conta que o apresentador           do mundo virtual de hoje é
imagens tridimensionais e os         está recebendo uma luz “real”.        constituída pelos limites da
elementos vivos da cena em           Então temos no programa duas          tecnologia (...). Os limites dos
camadas separadas recortadas         iluminações: uma fonte de luz         equipamentos de computação
através do chroma-key (...). O       sobre o apresentador e uma            gráfica de uma dada época, na
recorte do chroma-key é realizado    outra virtual, “impressa” no          evolução tecnológica, ficam
com tecnologia proprietária que      cenário. Isto parece não ser muito    evidentes no acompanhamento
utiliza camadas. Numa delas é        diferente de uma situação             estético (...). Esta distinção é uma
separado todo o ambiente virtual     convencional onde existe uma          parte fundamental da estética
e em outras os elementos reais       iluminação feita para o cenário e     digital de hoje” (Holtzman, ibid.,
do cenário, através da tecnologia    outra para as pessoas que estão       p. 158-163).
Pattern Recognition, que utiliza     em cena. A diferença é que, nesta         A artificialidade das texturas da
uma grade em tons de azul em         última, o mesmo iluminador            matéria virtual ainda é um
um blue box, que permite             cuidará das duas, o que acabará       problema apontado pelos profis-
também todos os movimentos de        fazendo com que pense na              sionais da área, o cenário virtual
câmera (...) neste cenário”          unidade do todo. No caso do uso       não é “sujo” o suficiente. “O fundo
(Calvente, ibid., p.37).             de cenário virtual, parece ainda      tem muito mais definição que o
    Independente do sistema          não existir essa preocupação,         ator, e ainda tem foco infinito – o
utilizado, a questão é que as        pois podemos observar clara-          que não ocorre nos cenários
tecnologias disponibilizadas hoje,   mente que a iluminação “real” e       normais – com aquela cara de
para o desenvolvimento de            a “virtual” atuam nos programas       computação gráfica” (Possebon
cenários virtuais, possibilitam a    de forma independente, parte          apud Burini, 1996, p.234). Mas
liberdade total da quantidade e      pensada pelo designer do cenário      para Sergio Pereira, esta limitação
dos movimentos de câmeras; o         virtual e parte pensada pelo          diminui a cada dia. Segundo
uso de elementos tridimensionais     iluminador. Esta situação, de         Pereira, as texturas da matéria
em cena; a evolução destes           certa forma, acaba gerando            virtual já se encontram em um
elementos e sua “interação” com      conflito no espaço cênico, já que     nível de semelhança com as reais,
o apresentador; a incidência de      a iluminação é um forte elemento      que em alguns casos, os objetos
luz em movimento sobre estes         de comunicação e composição do        nem chegam a ser percebidos
mesmos elementos; e finalmente,      cenário. Em todo caso, esta           como sintéticos (contato pessoal,
a projeção de sombras e reflexos     situação não deve ser vista como      out. 2001). Esta determinação da
do apresentador e dos elementos      tendo sido gerada a partir do uso     estética vinculada à limitação
virtuais. Estes recursos, no         de cenários virtuais pela tele-       tecnológica se deve principal-
entanto, são meras simulações.       visão. Podemos encontrar a            mente ao fato do cenário virtual
    Com relação à sombra do          iluminação estática, indiferente à    se encontrar ainda preso à forma
                                                                                                            35
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de representação realista.             evolução do chroma-key”. Devido       espaço de informação em que
     Em Digital Mosaics, Steven        a isso, parece ser importante dis-    dados são configurados de tal
Holtzman propõe a aceitação e          cutir aqui a questão termino-         modo que dão ao operador a
a exposição do limite da imagem        lógica, já que, no momento, é         ilusão de controle, movimento e
digital, as qualidades desta forma     possível identificar outras formas    acesso para informação, podendo
de representação, o aspecto            de representações cenográficas,       haver troca de informações entre
“digital” do material digital, o não   com características distintas,        os usuários. “Ciberespaço é
tentar representar a realidade.        onde poderíamos empregar a            considerado melhor como um
Esta idéia parece já estar dando       mesma nomenclatura.                   termo genérico que refere-se a (...)
frutos. Para Rick Nasch (1998), o          Para que possamos definir         tudo que tem em comum com a
progresso do cenário virtual se        melhor esta forma específica de       habilidade para simular ambientes
dará dentro da “arena criativa”,       representação, não podemos            em que humanos possam interagir
por causa da ilimitada aplicação       esquecer que, assim como não          por dentro” (.eatherstone e
destas ferramentas que oferecem        existe um conceito único que          Burrows, ibid., p.05).
possibilidades a produtores e          defina “cenografia” ou “cenário”          A interação do usuário e sua
diretores de descobrir novos           (Cardoso, 2002, p.40-41), existem     imersão no espaço também
estilos visuais.                       também diferentes conceitos para      caracterizam a realidade virtual.
     Após ter sido modelado e          “virtual”. O que nos interessa        Para Jaron Lanier, na realidade
texturizado o cenário, por meio        neste momento, mais que as            virtual percebemos experiências
de softwares como o Softimage,         questões filosóficas (a respeito      de telepresença: “este é um
3Dstudio MAX, AutoCAD DX.              dos conceitos de realidade,           sistema que proporciona uma
format, entre outros, e progra-        possibilidade, atualidade, e          sensação realista do indivíduo
mados seus movimentos de luzes         virtualidade) discutidas por Pierre   imerso em um ambiente” (apud
e elementos cênicos, ele não pode      Lévy (1999, p.15-24) em seu livro     .eatherstone e Burrows, 1996,
ser modificado, pois a mudança         O que é o Virtual? (que partem dos    p.05-06).
de um simples efeito implica em        conceitos de Gilles Deleuze (1985)        Podemos perceber que o
refazer toda a estrutura do cená-      em Différence et Répétition), são     conceito de virtual vindo da
rio ou o programa de movimen-          aqueles conceitos que surgiram        simulação e da realidade virtual
tos. A partir daí existirão três       com a cultura digital, já que o       trata sempre da interação, da
controles em tempo real: o dos         termo “cenário virtual” surgiu da     troca, da imersão do homem no
câmeras (cameraman) que movi-          simulação e da realidade virtual.     espaço virtual como um elemento
mentam o cenário (pan, tilt, zoom,                                           dele. A relação do cenário virtual
etc.); o do operador que aciona os              2 O VIRTUAL                  com a simulação ou com a
efeitos (grafismos, luzes e movi-                                            realidade virtual não pode ser
mento de elementos cênicos); e o          A relação do virtual com a         facilmente explicada dentro
da direção que, além do comando        simulação vem do ciberespaço.         destes conceitos. No cenário
sobre os dois anteriores, encar-       No ciberespaço, o objeto está em      virtual não existe este contato tão
rega-se da pós-produção (escolha       todos os lugares e em nenhum          próximo entre o homem e o
dos quadros).                          lugar ao mesmo tempo, ele se          espaço virtual, não existe imersão
     Esta forma de representação       atualiza no tempo presente. Da        ou interação da forma como foi
cenográfica, com as caracterís-        mesma forma que, quando se            exposta no ciberespaço ou na
ticas específicas que acabamos de      navega no ciberespaço, atualiza-      realidade virtual.
descrever, é definida por Ana          se uma margem de possibili-               Neste sistema podemos reco-
Maria Roites (1995), no Dicionário     dades, a simulação, como um           nhecer claramente três dimen-
Técnico de TV, como: “cenário          programa que é, antecipa as           sões: a primeira delas é o próprio
gerado por computadores usando         condições atuais. Segundo Marcos      espaço cênico, existente apenas
softwares específicos. Às vezes        Novak, não há objetos no              na memória do computador; a
(...) combinados (com) imagens de      ciberespaço, apenas no tempo e        segunda é a do apresentador ou
câmeras”. Esta definição, contudo,     espaço. “Há o mundo de objetos-       ator, que se encontra em outro
por ser muito abrangente, acaba        atributo, objetos como conjunto       espaço que não é aquele existen-
dando margem a algumas colo-           de atributos” (1993, p.217).          te na memória do computador;
cações que parecem não refletir           Em Cyberspace/Cyberbodies/         a terceira é aquela em que
a natureza desta forma singular        Cyberpunk, de .eatherstone e          alguém, o telespectador, obser-
de representação. Como a de            Burrows (1996, p.02-03), o termo      va um homem, o apresentador,
Calvente, onde “o processo é uma       “ciberespaço” refere-se a um          ocupando um determinado
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espaço, aquele existente apenas      fabricantes de equipamentos para       qual tratamos aqui, é apenas uma
na memória do computador, e          produção de cenário virtual. A         evolução tecnológica do chroma-
interagindo com os objetos           incorporação de conhecimentos e        key: “O chroma-key mudou de
deste espaço.                        técnicas dos campos de pesquisas       nome, ganhou três dimensões,
    Ao observar um homem em          da simulação e realidade virtual,      interatividade com o ator e
um espaço virtual, o telespec-       pela televisão, acabam levando a       movimento, tudo isso feito em
tador, neste momento, está sendo     uma nova concepção de cenário.         real time. É o cenário virtual”
induzido a uma espécie de ilusão.        O cenário virtual difere daquele   (Possebon apud Burini, ibid.).
A imersão do apresentador, neste     construído em madeira, ferro,          Pensando assim, mesmo sem
caso, deve-se ao recurso do          tecido ou outra matéria do “mundo      profundidade, não simulando a
chroma-key somado à tridimen-        físico”, por este se apresentar na     tridimensionalidade, nem sendo
sionalidade dos elementos cêni-      televisão como uma realidade           capaz de receber o homem dentro
cos, à liberdade de movimento,       secundária, uma realidade que          de si, o chroma-key é “cenário
proporcionada pela câmera e à        consiste de elementos de uma           virtual”.
sobreposição de camadas que,         realidade primária, a matéria física       Apesar do princípio ser o
com a nova tecnologia empre-         (Leopoldseder, 1999, p.69). Esta       mesmo: uma pessoa à frente de
gada, permitem que o apresen-        nova forma de representação é          um fundo azul ou verde que, após
tador possa andar em volta dos       autônoma. “O mundo das imagens         ser recortada, é inserida em fundo
objetos virtuais. A interação do     da cultura digital é em si uma         com uma imagem sintética. Em
apresentador com os elementos        realidade primária. Nós não            nossa forma de representação: “o
cênicos, por sua vez, percebida      tratamos com elementos de uma          ator anda tridimensionalmente
pelo telespectador, não passa de     realidade atual, mas com uma nova      sobre essa imagem, escondendo-
um “truque”, onde uma simulação      realidade sinteticamente gerada”       se atrás dos planos de compu-
de comando do apresentador,          (Leopoldseder, ibid.). Com isso,       tação gráfica e fazendo sombra. E
sincronizada com o comando real      podemos afirmar que, se por um         mais, o fundo de animação
do operador do sistema, faz com      lado o cenário virtual não é uma       acompanha o movimento da
que se tenha a impressão de que      evolução natural do cenário            câmera virtual para a câmera do
as ações sobre os objetos em cena    televisivo, por outro, não podemos     estúdio, sem cortes” (Possebon
estejam sendo exercidas pelo         dizer que seja uma ruptura com         apud Burini, ibid.).
apresentador. Desta forma, pode-     este sistema, já que faz uso de sua        Observando a história da
mos perceber neste quadro, que       linguagem. De qualquer modo,           cenografia (Cardoso, ibid., p.08-39),
não existe imersão do apresen-       esta nova forma de representação       podemos ver que mesmo antes da
tador ou do telespectador no         é corporificada em algo que            cultura digital, outras formas de
espaço virtual, assim como não       reconhecemos como sendo                representações cenográficas pode-
existe nenhuma forma de inte-        cenário, e este cenário, em sua        riam também serem chamadas de
ração entre essas três dimensões     natureza, é virtual. Contudo, o        “cenário virtual”. A partir do final
neste sistema como o vemos hoje.     cuidado que devemos tomar é que        do século XIX, já podemos
    Contudo, a relação do cenário    podemos facilmente perceber que        encontrar no teatro o “cenário
virtual com a simulação ou com a     outros modelos de cenários, que        virtual” no momento em que se
realidade virtual é muito mais       não possuem estas características      utiliza a luz elétrica como ele-
estreita do que possa parecer. A     específicas, também são virtuais.      mento cênico, já que a luz, como
tecnologia empregada na con-                                                a imagem digital, só existe no
fecção de cenários virtuais vem         3 AS VIRTUALIDADES                  tempo e no espaço; também pode
das indústrias que desenvolvem                                              ser encontrado no cinema do
sistemas de treinamento e simu-          No período da televisão em         início do século XX projeções que
ladores militares, “os estúdios      preto e branco, o matte já possi-      simulavam locações, ambientes
virtuais são as primeiras aplica-    bilitava a inserção de imagens         reais. “O sistema de projeções
ções da tecnologia de realidade      sintéticas como fundo para os          frontais de diapositivos utilizado
virtual com fins profissionais”      apresentadores de televisão. Com       por Syberberg (Hans-Jürgen
(Possebon apud Burini, ibid.). Uma   o início da transmissão em cores,      Syberberg), através do qual ele
dessas empresas, a BVR Techno-       o recurso que passou a ser             simula seus cenários artificiais,
logies Ltd, em 1993 reposicionou     utilizado foi o chroma-key.            surpreendeu até mesmo Coppola,
seus produtos em nova direção,           Uma observação menos cuida-        um dos mais inquietos realiza-
nascendo daí a RT-SET, hoje          dosa pode levar a crer que esta        dores americanos (...). A projeção
Vi[z]rt/RT-SET, um dos maiores       nova forma de representação, da        frontal é um aperfeiçoamento
                                                                                                             37
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invertido do velho sistema deno-      oscilou, desde os primeiros              pois o conceito de “arquitetura
minado back projection, com que       tempos, entre a arquitetura e a          líquida”, para Novak (ibid., p.230-
se forjou a maior parte dos           pintura” (Magaldi, 1965, p.38),          231), vem da liberdade que
‘truques’ cinematográficos nos        para Gordon Craig “(...) o corpo do      oferecemos ao corpo de mudar a
anos trinta e quarenta” (Machado,     ator, abaulado como o é, não fica        realidade a sua volta: “a forma é
1996, p.276). Nos dias de hoje,       bem ao lado da tela pintada, chata       contingente dos interesses do
os experimentos com a virtua-         e sem relevo: o palco exige a            observador (...). Se descrevemos a
lidade cenográfica na indústria       escultura, a arquitetura, o volume”.     arquitetura líquida como uma
cinematográfica não só são            No final do século XIX, a luz elétrica   sinfonia no espaço, esta descrição
múltiplos como também um dos          rejeita a planura dos telões e o         se resumiria a uma parte da
mais poderosos recursos para          cenário se assume definitivamente        promessa. Uma sinfonia, ainda que
atrair o público.                     como corpóreo. Para Patrice Pavis        varie em sua duração, segue sendo
   Os conceitos de cenário e          (1999, p.42), o cenário como um          um objeto fixo que pode repetir-
virtual, discutidos aqui, buscam      telão de fundo é uma opção               se. Em sua expressão mais plena,
somente levantar os fatos que         artística muito ingênua e estreita.      a arquitetura líquida é mais que
levaram esta forma de repre-          “A cenografia (cenário) marca bem        isso. É uma sinfonia no espaço,
sentação a ser conhecida como         seu desejo de ser uma escritura          porém uma sinfonia que nunca se
cenário virtual. Não existe, neste    no espaço tridimensional (...), e não    repete e segue criando-se”. Ima-
caso, a intenção de se discutir a     é mais a arte pictórica da tela          ginando que essa concepção
adequação ou não do emprego           pintada (...). É como se passás-         cenográfica possa vir a ser rea-
do termo, contudo, a partir do        semos da pintura à escultura ou à        lizada, uma nova questão seria
momento em que passamos a             arquitetura.” (Pavis, ibid., p.45).      levantada: a interação com o
considerar o chroma-key como              O cenário virtual se distancia do    cenário, levando à interferência do
uma forma de cenário virtual, é       chroma-key, neste momento, por           telespectador em seus volumes,
importante que se faça uma clara      entrar no domínio da arquitetura.        cores ou ângulos, não levaria à
distinção entre estas duas formas     “Um espaço modulado de maneira           perda da autenticidade da repre-
de representações, já que, como       que permite ao sujeito entrar nele       sentação? Com isso, de quem seria
característica mais marcante, o       e habitá-lo se chama arquitetura”        a autoria? Sem um cenógrafo
“cenário virtual” é uma forma de      (Novak, ibid., p.223-224). Para          criador esta representação ainda
representação que percebemos          Novak, mesmo um espaço comple-           seria um cenário? De qualquer
em um espaço tridimensional, já       tamente artificial, quando modula-       forma não cabe, neste momento,
no chroma-key, não é possível se      do, é um espaço arquitetônico.           discutir essas questões, mesmo
conseguir esta tridimensiona-             O cenário, de uma forma geral,       porque, com os recursos disponi-
lidade.                               existe em função do espaço e da          bilizados hoje, ainda não temos
                                      significação. “O espaço cênico           condição de corporificar um
4 A TRIDIMENSIONALIDADE               distingue-se por um alto grau de         cenário plenamente líquido.
                                      saturação sígnica: tudo o que                 Mesmo assim, as possibi-
    Para Novak, existem três          entra em cena adquire a ten-             lidades geradas pelo cenário
requisitos fundamentais para a        dência de saturar-se de sentidos         virtual se comparado ao simples
percepção do espaço: “a referência,   complementares” (Lotman, 2000,           recurso do chroma-key, ou ainda
a delimitação e a modulação. Se       p.66). Assim como, no final do           ao construído com matéria do
falta um, o espaço não pode se        século XIX, a planura dos telões         mundo físico, o “cenário corpóreo”,
distinguir do não espaço” (ibid.,     foi rejeitada pela luz elétrica por      parece ter a mesma leveza e
p.223). O cenário virtual é uma       não se expressar de forma                encantamento que tanto fascinou
simulação de um cenário físico,       cenográfica, o chroma-key, da            o pesquisador e cenógrafo suíço
que recebe corpos humanos em          mesma forma, atua apenas como            Adolph Appia quando se viu
espaços modulados e delimitados,      pano de fundo da cena.                   diante da luz como elemento
é um “cenário corpóreo”. No               A arquitetura do cenário virtual     cenográfico. “Na estética de Appia
chroma-key existe apenas uma          difere também daquela construída         (...) a respiração de um espaço e
superposição do corpo ao cenário,     em madeira por ser “líquida”. Tem        de seu valor rítmico estão no
o cenário vira um pano de fundo.      maiores possibilidades de evo-           centro da cenografia, a qual não
    Esta questão da oposição entre    lução rítmica, tanto no espaço           é um objeto bidimensional fixo,
cenário corpóreo e cenário como       como no tempo. Contudo, não              mas um corpo vivo submetido ao
pano de fundo não é uma               convém chamar esta forma de              tempo, ao tempo musical e as
discussão nova. “A cenografia         representação de “cenário líquido”,      variações de luz” (Pavis, 1999,
38
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Artigo

p.46). E, neste caso, o cenário        o nível de realismo tem aumen-        anomalias espaciais do artista
virtual vem ao encontro do             tado a tal ponto que o ambiente       gráfico holandês Mauritz Cornelis
primeiro pré-requisito de Appia        virtual é virtualmente indistin-      Escher (1898-1972), com suas
que “era manter o palco livre de       guível do físico” (Murray, ibid.,     figuras andando em uma mesma
qualquer coisa que prejudicasse        p.48). Rick Nash (1998), vice-        escada, uma descendo enquanto
a presença física do ator”             presidente da Production Group        a outra sobe, e, ao mesmo tempo,
(Berthold, 2001, p.470).               Studios da RT-SET, em artigo          mantendo-se num mesmo nível.
    Se retornarmos a este mo-          publicado, conta que, quando          Um espaço tridimensional onde
mento da cenografia, em que a luz      discute a produção com seus           cada uma das três dimensões se
apresenta-se como elemento             clientes, a ênfase se localiza na     confunde com as outras. “Através
fundamental na concepção ceno-         maioria das vezes em como o           da história encontramos exem-
gráfica, poderemos observar            cenário parecerá real.                plos de projetos arquitetônicos
outras semelhanças com o mo-               Contudo, assim como Appia         de tão grande ambição que
mento presente, no que diz             percebeu nos recursos da luz          simplesmente não puderam ser
respeito à estética do cenário. Se     elétrica uma nova forma de            construídos utilizando os recur-
por um lado temos Appia (1862-         pensar a cenografia, Hannes           sos de sua época” (Novak, ibid.,
1928) “que fazia restrições ao         Leopoldseder (ibid., p.67) lembra     p.225), no entanto, com as
telão pintado principalmente por       que o computador é uma ferra-         possibilidades oferecidas pelo
tratar-se de representação de          menta que influencia o processo       cenário virtual, fazendo uso das
imagem plana, bidimensional, que       cultural e artístico, criando, com    palavras de Walter Gropius (apud
bem poderia ser substituído pela       isso, um novo tipo de artista. Para   Novak, ibid., p.227), poderemos
ilusão do espaço criado pela luz”      Leopoldseder (ibid., p.69), os        “construir na imaginação, sem
(Camargo, 2000, p.27-28), por          artistas não somente recebem          preocupar-se com as dificuldades
outro lado temos André Antoine         uma nova ferramenta, o compu-         técnicas”.
(1859-1943) que, apesar de             tador pede um novo tipo de               Diante do que foi apresentado,
também rejeitar os telões, busca       pensamento, a lógica matemática       é importante se discutir a questão
na luz o aspecto atmosférico           entra na concepção artística, e a     da terminologia empregada hoje,
“numa visão imitativa e naturalista    partir do momento em que              não para questionar sua etimo-
da realidade” (Camargo, ibid.,         utilizam os novos recursos, a         logia mas, principalmente, para
p.33). A luz, nos dois casos, levava   artista tem parte de seus limites     diferenciar esta forma de represen-
a cenografia para o campo da           abolidos. “No espaço físico, dois     tação, o cenário virtual, de outras
arquitetura, mas para Appia como       objetos não podem ocupar o            formas de “cenários virtuais”. Tal-
forma de propiciar a luz condições     mesmo espaço no mesmo                 vez, futuramente, deva ser pen-
de realizar evoluções e para           momento” (Novak, ibid., p.220),       sado o uso de uma nova nomen-
Antoine pelas possibilidades de        no espaço virtual isto é possível.    clatura para referir-se a esse
representar o real. Conseqüente-           O cenário virtual pode se         objeto, mas enquanto isso não
mente, estas posições levam a          libertar dos limites arquitetônicos   acontece, vamos continuar
estéticas cenográficas distintas.      impostos pelas leis da física,        chamando-o de cenário virtual,
    Da mesma forma se comporta         rejeitar a gravidade, quebrar a       evitando usar este termo, como
a estética do cenário virtual. “A      ilusão da perspectiva. Sua            alguns profissionais ainda o fazem,
ênfase hoje está no realismo (...)     arquitetura pode chegar às            para referir-se ao chroma-key.




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                                                                                    Assinatura Anual
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                                                                                    Direito: R$ 40,00
                                                                                     Saúde: R$ 20,00
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Artigo




   A CRÍTICA GENÉTICA NA PROPAGANDA




                        João Vicente Cegato Bertomeu
Publicitário, Ilustrador e Professor Universitário (IMES, São Judas, ESPM, Belas Artes e Oswaldo Cruz)




               R E S U M O                                           ABSTRACT
Este artigo buscou contribuir para reforçar a         This research offers relevant information for the
importância das pesquisas e estudos no processo       communication and for the genetic criticism. The
de criação de propaganda através da crítica
genética. Apresentar os documentos, o detalha-        documents will notice that some characteristics
mento de algumas etapas do processo e a               in creation and production advertisings will be
complexidade do percurso de criação de algumas        discussed with genetic criticism and contributes
campanhas, auxiliará no desenvolvimento didático      to undergratuate teaching.
desta disciplina nos cursos de graduação.

PALAVRAS-CHAVE: criação publicitária,                 KEYWORDS: advertising creation, creativity,
criatividade, ensino da publicidade.                  advertising teaching.




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 A CRÍTICA GENÉTICA E A              50 em diante, consolida-se o          a) no campo da propaganda
      PROPAGANDA                     crescimento industrial no eixo          Os documentos do processo
                                     Rio - São Paulo e, com ele, a maior     de criação em propaganda são
   1.1 Breve Histórico da
                                     necessidade de utilização da            identificados e analisados,
  Atividade de Propaganda
                                     propaganda (Ramos, 1985).               buscando distinguir e estudar,
   No Brasil, em 1808, no Rio de        Nos aspectos do processo de          nestes mesmos documentos,
Janeiro, o jornal a Gazeta do Rio    criação em propaganda, entre os         o planejamento, a execução e
de Janeiro é fundado, dando início   anos 60 e 80, as agências de            o desenvolvimento do anún-
à imprensa brasileira. Assim, é      propaganda utilizam duplas de           cio publicitário.
encontrado o primeiro anúncio        criação, constituídas por um            As características que influen-
impresso, os anúncios classifi-      redator e um diretor de arte.           ciam no processo são identifi-
cados que chegam e, em pouco            Entre tantas outras formas de        cadas, para que a criação possa
tempo, tornam-se numerosos e         se tratar o assunto, atualmente         atingir resultados mais satisfa-
variados.                            algumas empresas acreditam e            tórios no que se refere à criati-
   Já em 1875, os primeiros anún-    discutem o trabalho criativo            vidade, visto que na propa-
cios ilustrados são publicados em    desenvolvido por equipes, chama-        ganda a busca por campanhas
Mequetrefe e O Mosquito, jornais     das de Team Works, que procuram         de alto teor criativo é uma
editados também no Rio de            abrigar o mais amplo leque de           constante entre os profis-
Janeiro, que dedicam sua última      profissionais de diversos setores       sionais.
página aos anúncios ilustrados       da propaganda, entre eles: plane-       No ensino da graduação em
pelo próprio caricaturista da        jadores, artistas gráficos, profis-     Comunicação Social, especifi-
publicação (Ramos, 1985).            sionais de marketing, profissio-        camente no curso de Propa-
   Desse modo, nota-se que a         nais de mídia e atendimento,            ganda, apresentam-se ainda
criação na propaganda brasileira     pesquisadores, redatores, etc.          poucos estudos relacionados à
começa com textos de jornalistas        Nos periódicos de propaganda,        disciplina Criação em Propa-
e poetas, e, posteriormente,         apresentam-se sempre discus-            ganda. Sendo assim, a crítica
integram-se a estes artistas para    sões e buscas sobre as melhores         genética é aplicada para que
desenvolvimento dos aspectos         formas de se criar em propa-            se possa estudar os documen-
visuais dos anúncios.                ganda. Nota-se que a criatividade       tos, o detalhamento de alguns
   A partir desse período, os        é o resultado fundamental dentro        processos e a complexidade do
anúncios acompanham a evolução                                               percurso de criação de algu-
                                     de todo o processo de produzir
gráfica e, em 1900, com o apare-                                             mas campanhas, com o obje-
                                     propaganda, assim, o tema está
cimento das revistas, entram em                                              tivo de auxiliar no desenvolvi-
                                     sempre em evidência dentro do
grande expansão. Em 1913,                                                    mento didático da disciplina.
                                     setor.
encontram-se a produção de
                                        Desde o início, a atividade de     b) no campo da crítica genética
cartazes, avulsos e variadas
                                     criar em propaganda não é               A crítica genética pode ser
formas de propaganda ao ar livre
                                     destacada de modo claro quanto          definida como a investigação
(Ramos, 1985).
                                     a seu processo. Assim, este artigo      que vê a obra de arte, partindo
   Assim, com a chegada ao Brasil
                                     busca identificar algumas formas        de sua construção. Acompa-
das empresas multinacionais, tais
                                     de se estudar os documentos             nhando seu planejamento,
como: Bayer, General Motors,
Mercedes-Benz, .ord, entre           envolvidos e caminhos criativos         execução e desenvolvimento,
outras, agências de propaganda       encontrados dentro do processo          o crítico genético preocupa-se
instalam-se para atender a esse      de criação de algumas campanhas         com a melhor compreensão do
                                     de propaganda.                          processo criativo. Sendo assim,
novo mercado. O desenvolvi-
                                                                             o anúncio impresso é estudado
mento da atividade passa a              1.2 A Propaganda e a                 por meio dos documentos do
receber influência direta da               Crítica Genética                  processo que o acompanham.
propaganda que era feita em
                                                                             A história da produção de
outros países.                           O presente artigo objetiva          obras, no caso a produção dos
   Após a Segunda Guerra Mun-        contribuir para compreender a           anúncios impressos, é pesqui-
dial, os horizontes da propagan-     crítica genética e sua aplicação no     sada e comentada, seguindo as
da ampliam-se, especialmente         processo de criação em propa-           pegadas deixadas pelos cria-
nos Estados Unidos e Inglaterra,     ganda, resultando em informa-           dores. Ao narrar a gênese do
refletindo no desenvolvimento        ções relevantes à comunicação e         anúncio, pretende-se tornar o
da atividade no Brasil. Nos anos     também à crítica genética, a saber:     movimento legível e revelar
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Artigo

  alguns dos sistemas respon-        em 1968, quando por iniciativa de      rotas movimentadas. Uma pintura
  sáveis pela criação. A crítica     Louis Hay, o Centre National de        em uma parede de Pompéia
  refaz, com o material que          Recherche Scientifique (CNRS)          louvava um político e pedia votos
  possui, a gênese do anúncio        reuniu uma equipe de pesqui-           ao povo. Outra Antiga forma de
  e descreve os mecanismos           sadores encarregados de organi-        propaganda era a marca que os
  que sustentam essa produção.       zar os manuscritos do poeta            comerciantes colocavam em seus
  O foco de atenção da crítica       alemão Heinrich Heine, que             produtos, tais como potes. À
  genética é o processo por meio     tinham sido recebidos pela             medida que sua reputação se
  do qual algo que não existia,      Bibliothèque Nationale de .rance.      espalhava de boca em boca, os
  passe a existir, com base em       No Brasil, a Crítica Genética          compradores começavam a
  algumas características que        chegou, de modo oficial, pelas         procurar por uma marca em
  alguém vai lhe oferecendo,         mãos do Professor Philippe             particular, da mesma forma como
  como a definição de fato           Willemart no I Colóquio de Crítica     marcas registradas e nomes de
  fictício de Peirce (1977). Um      Textual: O manuscrito moderno e        produtos são procurados atual-
  anúncio impresso surge ao          as edições, em 1985, na Universi-      mente (Kotler e Armstrong, 1991,
  longo de um processo comple-       dade de São Paulo (Salles, 1992).      p.304)”.
  xo de apropriações, transfor-          Neste estudo, o manuscrito            O momento de transição na
  mações e ajustes. A crítica        literário é o objeto de pesquisa,      história da propaganda ocorre em
  genética entra na complexi-        como faz parte do processo cria-       meados do séc. XV, quando Johan
  dade do processo e a principal     tivo de um escritor, a possibilidade   Gutemberg inventou a imprensa.
  questão que impulsiona este
                                     de se estudar outros documentos        Os anunciantes não precisavam
  estudo é a organização desse
                                     do processo de toda e qualquer         mais produzir cópias extras de um
  movimento.
                                     manifestação pode ser uma              anúncio à mão. A primeira
  A interpretação do anúncio         realidade. Desse modo, coube ao        propaganda impressa em língua
  não seria considerada final        Centro de Estudos de Crítica           inglesa apareceu em 1478.
  pelo publicitário, mas, sim, o     Genética da Pontifícia Universidade       Em 1622, a propaganda
  processo responsável pela          Católica de São Paulo expandir os      recebeu um grande incentivo com
  sua produção. De acordo com        limites do estudo de crítica           o lançamento do primeiro jornal
  Salles (1998), ressaltamos
                                     genética, e, em pouco tempo, já        inglês, The Weekly News. Mais
  que só nos interessa estudar
                                     havia pesquisadores estudando          tarde, Joseph Addison e Richard
  o processo de criação porque
                                     manuscritos de arquitetura, artes      Steele publicaram o Tatler e
  a obra existe.
                                     plásticas, teatro, dança, jornalismo   passaram a apoiar a propaganda
  A crítica genética utiliza-se do   e cinema.                              que teve seu maior crescimento
  percurso da criação para               Assim, a crítica genética é        nos Estados Unidos. Benjamin
  desmontá-lo e, em seguida,         utilizada não só para identificar      .ranklin tem sido conhecido como
  para colocá-lo em ação             as etapas e os documentos deste        o pai da propaganda americana
  novamente. Quando se refere        tipo de processo, mas também           porque sua Gazette, publicada
  a percurso, fala-se sobre os
                                     demonstrar como se apresentam          pela primeira vez em 1729, teve
  rastros deixados pelo criador.
                                     as principais características deste    a maior circulação e volume de
  O interesse dos estudos
                                     percurso.                              propaganda do que qualquer
  genéticos é o movimento
  criativo: o ir e vir da mão do                                            jornal na América colonial. Vários
                                        1.3 PROPAGANDA.                     fatores fizeram da América do
  criador. Ultrapassando o que       CONCEITOS E DE.INIÇÕES
  é entregue ao público, a obra                                             Norte o berço da propaganda. A
  é observada sob os prismas            Conforme Kotler e Armstrong:        indústria norte-americana era
  do gesto e do trabalho. Assim,        “Os mais antigos registros          líder de produção em massa, o
  o crítico passa a conviver com     históricos nos dão notícia da          que criava excesso de produção
  o ambiente do fazer cuja           propaganda. Arqueólogos traba-         e necessidade de convencer os
  natureza o criador sempre          lhando em países ao redor do Mar       consumidores a comprarem mais.
  conheceu.                          Mediterrâneo descobriram escritos      O desenvolvimento de uma
    Estes estudos sempre se          anunciando vários eventos e            extensa rede de transporte fluvial,
limitaram à análise dos rascunhos    ofertas. Os romanos pintavam as        estradas e caminhos permitiu o
de escritores. Assim nasceu a        paredes para anunciar lutas de         transporte de bens e dos meios
crítica genética na .rança no fim    gladiadores e os fenícios pintavam     de propaganda para o interior.
dos anos 60, mais precisamente       figuras promovendo seus artigos        O estabelecimento, em 1813, do
                                     em grandes rochas ao longo de          ensino público obrigatório au-
                                                                                                           43
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C omunicação                                                                                         Artigo

mentou o número de pessoas               unicamente aquela que concorre           Essas observações deixam
alfabetizadas e a proliferação de        para desenvolvê-la.                  supor que, para representar seu
jornais e revistas. A invenção do            Esse primeiro aspecto da         papel, a propaganda deve pôr em
rádio e, mais tarde, da televisão        natureza da propaganda deve ser      jogo as disciplinas mais diversas.
criaram mais dois meios notáveis         logo corrigido pela observação de    É uma força complexa que faz
para difusão da propaganda.              que a informação é comunicada        apelo a profundos conhecimentos
   As agências de propaganda             com uma intenção bem deter-          econômicos, quer se tratem de
foram criadas da metade para o           minada e clara: vender. Pôr em       mecanismos cambiais, estudos de
final do século XIX, por fabricantes     relevo essa intenção não é           mercado, observação ou previ-
e corretores que trabalhavam para        indiferente, pois traz consigo       sões econômicas.
a mídia e recebiam comissão pela         diversas conseqüências.                  Define-se como propaganda ao
venda de espaço e propaganda                 A primeira tem por finalidade    conjunto dos meios destinados a
para várias empresas. Pouco a            manter uma proposição comer-         informar o público e convencê-lo
                                         cial. A informação só existirá,      a comprar um produto ou serviço
pouco, formaram agências e
                                         posto que seja necessária para       (Leduc, 1980).
aproximaram-se mais dos anun-
                                         esse fim: o aspecto informativo          Muitos objetivos de comuni-
ciantes do que da mídia. As agên-
                                         será desenvolvido se for o caso      cação e de vendas podem ser
cias passaram a oferecer mais
                                         de um produto técnico ou             atribuídos à propaganda. Colley
propaganda e serviços de marke-          novidade; será, ao contrário,
ting para seus clientes.                                                      lista 52 possíveis objetivos de
                                         mínimo ou até mesmo inexis-          propaganda em seu conhecido
   “A propaganda só conheceu uma         tente, se o produto for conhecido
verdadeira expansão, contudo, no                                              Defining Advertising Goals for
                                         e se não houver nada de novo que     Measured Advertising Results; ele
final do século XIX. A tecnologia e as   se refira a ele.
técnicas de produção em massa já                                              delineia um método chamado
                                             Em segundo lugar, acontece       Dagmar (as iniciais do título do
tinham atingido um nível de              com freqüência que a informação
desenvolvimento em que um maior                                               livro) para transformar os
                                         cede lugar à persuasão, isto é, a
                                                                              objetivos de propaganda em
número de empresas produzia              todos os meios pelos quais se
                                                                              metas específicas mensuráveis
mercadorias de qualidade e preços        procurará tentar, seduzir, fazer
                                                                              (Colley, 1979).
mais ou menos iguais. Com isso, veio     desejar e convencer.
                                                                                  Um objetivo da propaganda é
a superprodução e a subdemanda,              Torna-se importante ressaltar
                                                                              a tarefa específica da comunica-
tornando-se necessário estimular o       que a função essencial da propa-
                                                                              ção a ser realizada com um
mercado de modo que a técnica            ganda é se fazer conhecer um
                                                                              público-alvo específico, durante
publicitária mudou da proclamação        produto para que ele seja pro-
                                                                              um determinado período de
para a persuasão. O contexto social      curado. Mas os que ela procura
                                                                              tempo, cujos objetivos podem ser
e institucional em que se situa a        influenciar são distraídos, ocu-
                                         pados, esquecem-se facilmente e      classificados pelo propósito a que
propaganda nos dias de hoje definiu-
                                         sua mentalidade não pára de          destina: informar, persuadir ou
se, portanto, no início do século                                             lembrar. A propaganda informa-
atual: mercadorias produzidas em         mudar. Novas camadas de consu-
                                         midores aparecem a cada ano.         tiva é utilizada maciçamente na
massa, mercado de massa atingido                                              introdução de uma nova categoria
através de produção de massa”.           Outras desaparecem. O próprio
                                         produto transforma-se e aper-        de produto, quando o objetivo é
(Vestergaard e Schroder, 2000,                                                criar uma demanda primária e a
p.4)                                     feiçoa-se. Também a propaganda
                                         deve ser um processo perma-          persuasiva torna-se mais impor-
   A propaganda é uma infor-                                                  tante à medida que a concorrência
                                         nente: nessa área, as situações
mação com objetivo específico.                                                aumenta e o objetivo da empresa
                                         nunca são definitivamente con-
Ela tem por princípio criar um elo                                            é criar uma demanda seletiva.
                                         quistadas. É preciso conservar a
entre o produtor e o consumidor                                                   Uma parte da propaganda
                                         reputação de um produto cons-
que, sem ela, ignorar-se-iam                                                  persuasiva é conhecida por
                                         tantemente e tensão e o desejo
mutuamente; é, com efeito, a                                                  comparativa, pois procura esta-
                                         devem ser mantidos para suscitar
comunicação de uma mensagem.             o consumidor.                        belecer a superioridade de uma
É preciso insistir sobre este                Esta tensão, este desejo,        marca por intermédio da
aspecto, pois o erro mais freqüente      devem ser provocados pela criati-    comparação específica com uma
é acreditar que a propaganda é           vidade publicitária. Trata-se aqui   ou mais marcas de uma classe de
venda. Este conceito não é               do próprio cerne da propaganda       produto. A propaganda compara-
correto, uma vez que ela só              que é a pedra angular sobre a qual   tiva também tem sido utilizada
representa uma parte da venda,           repousa sua eficácia.                para produtos tais como refrige-
 44
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Artigo

rantes, computadores, desodoran-          Como propõe Sampaio, em            existir” (Serpa, 1999, p.28).
tes, cremes dentais, automóveis,      Propaganda de A a Z: “É neces-             Marcondes e Galvão referem-
vinhos e analgésicos.                 sário analisar se a idéia ousada é     se à fundamental importância
   A propaganda de lembrança é        consistente e pertinente ao objetivo   dos aspectos para a criação
importante para o estágio de          definido e público visado. É preciso   publicitária: “A criação se arrisca
maturidade do produto, faz com        avaliar se a proposta coerente e       à padronização sempre que
que os consumidores mantenham         objetiva, que parece perfeita para     abandona a surpresa, a inteli-
o produto em mente.                   o anunciante, é suficientemente        gência, a persuasão, a objetivi-
                                      destacável e emocionante para ser      dade numa palavra, a criativi-
 1.4 A Propaganda Criativa,           percebida e apreendida pelo            dade” (Marcondes e Galvão, 1999,
Considerações Profissionais           consumidor” (Sampaio, 1996,            p.28).
 E O Ensino De Graduação.             p.16).                                     Outra característica da criati-
                                          E ainda sobre o mesmo as-          vidade é a importância do criador
    Para se abordar os aspectos que   sunto, declara Marcello Serpa na       conhecer e dominar seu setor de
caracterizam a propaganda criativa    Revista da Criação: “Acredito ser      atuação, conforme Alencar:
e, assim, definir o que o publici-    totalmente possível uma associa-       “Através de uma análise de
tário busca neste processo de         ção perfeita entre criação e           comportamento de pessoas que
criação, pode-se citá-la por dois     eficiência. Elas não são duas          deram contribuições criativas,
aspectos: a propaganda eficiente      coisas antagônicas” (Serpa, 1999,      constatou-se que as grandes idéias
e a criativa.                         p.27).                                 ou produtos originais ocorrem
    Existem grandes profissionais         Em razão do caráter subjetivo      especialmente em pessoas que
no mercado que separam campa-         e particularista da propaganda, na     estejam adequadamente prepara-
nhas eficientes e criativas. E        qual cada situação é considerada       das, com amplo domínio dos
combinar as duas coisas constitui-    diferente uma da outra, prever a       conhecimentos relativos a uma
se na grande resposta.                eficiência na sua criação somente      determinada área ou das técnicas
    Quando se define criatividade     é possível quando ocorre sua           já existentes” (Alencar, 1995,
ou produto criativo, além dos         veiculação, recepção pelo público
                                                                             p.17).
aspectos originais e ousados, é       e avaliação de resultado no
                                                                                 Para Ostrower: “é evidente que,
também necessário que ela seja        mercado.
                                                                             além de saber o que faz, o artista
apropriada a uma dada situação,           A respeito desse aspecto,
o que se pode considerar como                                                tem que “saber fazer”. Ele tem que
                                      Olivetto declara: “Para um
fator relevância:                                                            conhecer sua linguagem...”
                                      produto, uma solução emocional
    “...criatividade implica emer-                                           (Ostrower, 1990, p.28).
                                      pode ser brilhante e para outro
gência de um produto novo, seja                                                  Desse modo, Leech, citado por
                                      uma solução purística. Cada caso
uma idéia ou uma invenção                                                    Vestergaard e Schroder (2000,
                                      é um caso. O grande criador de
original, seja a reelaboração e                                              p.15), define como linguagem da
                                      propaganda é aquele que consegue
aperfeiçoamento de produtos ou                                               propaganda o código do pro-
                                      detectar o que cada produto
idéias já existentes. Também          precisa e o que cada consumidor        cesso de comunicação. Na propa-
presente em muitas das defini-        daquele produto quer ouvir. No         ganda, o emissor é considerado
ções propostas é o fator relevân-     fundo, fazer propaganda é tentar       o anunciante e o receptor, o
cia, ou seja, não basta que a res-    inventar algo novo ou transformar      leitor; o significado transmitido
posta seja nova; é também neces-      o velho” (Olivetto, 1991, p. 84).      refere-se à tentativa de induzir o
sário que ela seja apropriada a           Para reforçar a questão do         leitor a adquirir o produto; o
uma dada situação” (Alencar,          ousado e criativo numa propa-          código é a linguagem, o canal
1995, p.16).                          ganda, podemos citar o que             consiste no veículo de comunica-
    Assim, percebe-se que a           afirma Serpa sobre o trabalho de       ção adotado e o contexto inclui
comunicação publicitária deve ser     criação: “o melhor trabalho signi-     aspectos sociais e culturais onde
um instrumento afiadíssimo de         fica comunicação que chame             a comunicação/propaganda
interpretação das necessidades        atenção das pessoas, abra a            estão inseridas.
do cliente para auxiliá-lo de forma   retina delas” (Serpa, 1999, p.28).         Na linguagem, ocorre a
certeira a atingir seus objetivos         O autor ainda complementa:         expressão da mensagem que se
mercadológicos. Em razão disso,       “A surpresa não é previsível. E,       configura mediante códigos
surge seu aspecto adequação no        no dia em que a propaganda             visuais, verbais e sonoros e a
contexto dos objetivos específicos    perder o papel de surpreender as       característica criativa da propa-
da propaganda.                        pessoas, perdeu sua razão de           ganda tem mais presença nela.

                                                                                                            45
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   Para Serpa: “criação na                caminho da criatividade, lingua-        lho desses jovens é a empresa,
propaganda é a busca por                  gem e eficiência.                       em departamentos de marketing
invenção e linguagens novas. É               Outro aspecto evidente deste         e propaganda (Gracioso, 1990,
preciso buscar idéias originais           trabalho é a carência de infor-         p.37).
para dizer as coisas” (Serpa,             mações, estudos e pesquisas no             Quando se compara o enfoque
1999, p.27).                              campo da criação publicitária.          do ensino de criação e de produ-
   Conforme declara Olivetto:                Na área de propaganda, a             ção da propaganda com, por
“nós, criadores de propaganda,            maioria das pesquisas e desen-          exemplo, a área de marketing,
somos na verdade adequadores              volvimento do ensino na gradua-         percebe-se uma diferença signifi-
de linguagem. E exatamente por            ção foi direcionada para os             cativa de publicações e foco das
isto não temos o direito de ter um        estudos de marketing, isto              faculdades de comunicação social,
estilo, um jeito de fazer”                porque o empresariado brasileiro        habilitação publicidade e propa-
(Olivetto, 1991, p.84).                   buscava profissionais que pos-          ganda e Gracioso continua: “de um
   Portanto, é possível definir           suíssem conhecimento mercado-           modo geral, as nossas escolas de
que a busca mais importante para          lógico para ser o elo ideal entre a     comunicação social (habilitação/
o publicitário dentro do processo         empresa e suas agências de              propaganda) preparam forman-
de criação são os aspectos                propaganda.                             dos mais aptos a exercer funções
criativos unificados à eficiência,           Conforme declara Gracioso:           de atendimento, nas agências, ou
atingidos por meio de um                  75% dos jovens que iniciam              de assistentes nos setores de
domínio da linguagem usada na             carreira em agências têm hoje           propaganda das empresas
comunicação publicitária. Sendo           diplomas de comunicação social.         anunciantes” (Gracioso, 1990,
assim, essa busca é constante no          Mas o grande mercado de traba-          p.37).




                                          RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS
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Artigo




        ESTRATÉGIAS RETÓRICAS PARA A
           RESTAURAÇÃO DA IMAGEM
             QUANDO SOB ATAQUE




                                        Vilma Lemos
                 Professora do Centro Universitário de São Caetano do Sul - IMES,
              do Ensino Médio da Fundação Santo André e da Rede Pública de Ensino.
               Doutoranda em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem - PUC-SP.




               R E S U M O                                         ABSTRACT
Como a imagem pública que apresentamos             Since the public image we show in society is
socialmente é algo com que nos preocupamos         something about which we are constantly
constantemente, procuraremos, neste artigo,        concerned, we have tried to monitor the
observar que estratégias retóricas são ativadas    rhetorical strategies activated when this image
quando essa imagem é afetada e de que recursos     is affected and the devices people resort to
as pessoas se utilizam para restaurar a face       restore their faces to the verbal injuries they are
diante das agressões verbais a que são sujeitas.   subject. The extracts chosen for analysis were
As análises feitas em textos de mídia apóiam-se    taken from printed media and are based on the
nos estudos de Benoit (1995) para Restauração      works by Benoit (1995) about Image Restoration,
da Imagem, Goffman (1967) com a Teoria da .ace     Goffman (1967) and his .ace Theory and Brown
e Brown & Levinson (1987) com a Teoria da          & Levinson (1987) and their Politeness Theory.
Polidez. Apontam para alguns resultados mais       All of which point to the most frequent results
freqüentes dentre as várias estratégias de         among the several strategies for repute
restauração da reputação como: negação do fato,    restoration, such as denial of fact, attack on
ataque aos acusadores, pedido de desculpas         accusers, apology for misconduct and guilt
pela má conduta, transferência de culpa.           transfer.

PALAVRAS-CHAVE: imagem pública, estratégias        KEYWORDS: public image, rhetorical strategies,
retóricas, restauração da reputação.               repute restoration.




                                                                                                    47
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1 ALGUMAS EXPLICAÇÕES                humano, um impulso para reduzir,     aqui a fábula de Caio Júlio .edro
 E OS INSTRUMENTOS DE                reparar ou evitar prejuízos que      (séc. I d.C.), “O lobo e o cordeiro”,
         ANÁLISE                     danifiquem nossa imagem porque       que transcrevemos de forma
                                     desejamos que os outros pensem       adaptada:
   Um aspecto que é motivo de        favoravelmente a nosso respeito.     – Por que, diz ele, turvaste a
preocupação para os indivíduos é     Suas observações indicaram             água que eu estava bebendo?
sua imagem social, sua reputação,    modelos constantes no discurso
ou, como querem Brown &                                                   – Como posso, pergunto eu,
                                     das pessoas atingidas nestas
Levinson (1987), “The public self-                                          fazer o que lamentas, ó lobo?
                                     situações. São as estratégias
image”. Quando ameaçada, busca-                                             A água corre de ti para os
                                     retóricas para minimizar os danos
se repará-la para evitar prejuízos                                          meus goles.
                                     à face e repará-la. Aponta pelo
a esta face social.                  menos quatro causas de restau-       – Seis meses atrás, falaste mal
   Há muitas formas verbais          ração da reputação manifestadas        de mim.
observadas pelos analistas do        pelo indivíduo cuja imagem está      – Sem dúvida eu ainda não
discurso que marcam a defesa         ameaçada.                              tinha nascido.
de si diante da sociedade, se a          A primeira delas está ligada à   – Por Hércules, diz o lobo, teu
pessoa é atacada por um ato          posse de bens limitados. Como os       pai falou mal de mim.
ameaçador à sua face.                indivíduos competem ferozmente
   Estamos interessados aqui em                                              E assim agarrou o cordeiro e
                                     por esses bens – tangíveis ou
observar, em jornais e revistas de                                        o dilacerou, dando-lhe uma
                                     intangíveis –, ao obtê-los, sempre
circulação nacional, como os                                              morte não merecida.
                                     se provoca a ira alheia e se fica
mecanismos retóricos verbais se                                              Esta fábula foi escrita para
                                     sujeito a ataques.
manifestam nos indivíduos que se                                          aqueles homens que, com falsos
                                         Outra razão apontada reside
viram ameaçados publicamente e,                                           motivos, oprimem os inocentes.
                                     nas circunstâncias de que somos
por isso, buscaram reparar sua                                            (.ábulas, I, 1)
                                     vítimas e sobre as quais não
reputação. Para tanto, recorremos                                            Em todas essas circunstâncias,
                                     temos controle, como, por
aos estudos de Benoit (1995),                                             é evidente que somos levados a
                                     exemplo, chegar atrasados a
denominados Teoria Geral da                                               dar explicações, desculpas,
                                     uma reunião devido ao trânsito
Restauração da Imagem, embora                                             apresentar defesa e racionali-
                                     intenso.
o autor tenha consciência de não                                          zações em relação ao nosso com-
                                         Como terceira razão, o autor
ter feito uma discussão exaustiva                                         portamento, porque a reputação
                                     destaca a imperfeição dos seres
dos mecanismos de desculpas,                                              é importante e o discurso tem o
                                     humanos, que, por isso, erram
porque o comportamento huma-                                              poder de restaurar nossa face ou
                                     inocentemente ou em decorrência
no é muito complexo.                                                      minimizar os efeitos advindos das
                                     de seus próprios interesses.
   Remetemos ainda, nesta                                                 situações ameaçadoras.
                                     Ilustra o primeiro caso a situação
análise, à Teoria da .ace do         de nos esquecermos de levar um
sociólogo Goffman (1967),                                                         3 OS ATOS
                                     relatório à reunião; o segundo, a          COMUNICATIVOS
posteriormente recuperada por        situação das empreiteiras que
Brown & Levinson (1987) ao                                                        DE DE.ESA
                                     usam de má qualidade em suas
tratar da Teoria da Polidez.         obras ou daqueles que sonegam           Há uma variedade de posturas
   Os trabalhos desses estudiosos    imposto de renda.                    observadas para a defesa de si. A
serão adaptados aqui segundo             A quarta razão que nos motiva    primeira estratégia para evitar a
nossos propósitos.                   a reparar nossa reputação prende-    culpa é a negação. Se alguém
                                     se ao fato de que os homens têm      acusa, por exemplo, determinado
  2 PERCORRENDO OS
                                     diferentes prioridades. Os que       anúncio de enganoso, a reação do
 CONCEITOS DE IMAGEM,
                                     têm objetivos comuns podem           acusado é dizer “Não, não é”.
    .ACE E POLIDEZ
                                     chegar ao conflito, culminando          Benoit cita o caso Woody Allen,
   Partiremos dos estudos de         em acusação, ataque, desprezo,       que negou ter molestado dois de
Benoit em um primeiro momento,       condenação, censura, reprovação.     seus filhos adotivos. O acusado
sem pretender com isso fazer         Pessoas que agem dessa forma         pode, além de negar, explicar e
supor que os demais sejam            tanto se queixam do que              devolver a culpa à parte real-
secundários.                         dissemos quanto do que fizemos,      mente culpada.
   Segundo o autor, há, no           do que não foi dito como do que         A segunda estratégia é
comportamento comunicativo           não foi feito. Podemos lembrar       responder na mesma moeda,

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Artigo

atacando os acusados. Este            presidente americano envolvido           Como se pedisse que não o
contra-ataque pode minar a            numa situação constrangedora             julgassem pelo que aconte-
credibilidade e o impacto das         com uma estagiária da Casa               cera em Chappaquiddick, uma
acusações. Também ajuda a             Branca.                                  vez que ele realmente não era
mudar o foco de atenção para             Rosenfeld (1968) é lembrado           aquilo que a opinião pública
uma nova pessoa. Se, às vezes,        como a primeira abordagem                dizia;
torna-se difícil negar, sempre há     sistemática à crítica retórica dos    4) “transcendence” – busca-se
uma esperança: admitir a culpa        discursos de defesa de si mesmo,         um contexto mais amplo e
na tentativa de restaurar a           embora a teoria da apologia              mais favorável para a pessoa
imagem.                               (defesa) de Ware & Linkugel (1973)       envolvida.
   A terceira e última estratégia     seja muito mais usada na crítica
referem-se às situações em que a      retórica, constituindo-se no mais         Além dessas quatro estratégias
                                      importante avanço nesses estudos.     retóricas, Ware e Linkugel identi-
má conduta não pode ser negada.
                                         Esses autores, segundo informa     ficam quatro posturas de defesa
Então, pede-se desculpa por ela.
                                      Benoit, têm como ponto de partida     pessoal: absolutive (denial and
Como a dizer “.oi sem querer”,
                                      a Psicologia Social de Abelson        differentiation), vindicative (denial
“Desculpem pela ignorância”. Na
                                      (1950). Identificaram quatro          and transcendence), explanative
história da Igreja Católica, lembra
                                      fatores ou estratégias retóricas,     (bolstering and differentiation) e
o autor que esta instituição,
                                      conforme segue:                       justificative (bolstering and
recentemente, pediu desculpas ao
                                                                            transcendence).
astrônomo e físico italiano Galileu   1) “denial” – simples negação/            Outra obra que trata do assunto
Galilei (1564 - 1642) por tê-lo          desmentido, como “Eu não fiz       é a de Scott & Lyman (1968). Trata-
acusado de perjúrio na polêmica          isso!”. Nega-se a má intenção;     se de uma obra clássica sobre
sobre o centro do sistema solar.
                                      2) “bolstering” – projeta-se a        desculpas (accounts). Os pesqui-
Outro exemplo citado é o da MTV.
                                         própria imagem para contraba-      sadores oferecem uma classifica-
Acusada de que seu programa
                                         lançá-la, desviando-se do ato      ção do estoque de desculpas para
Beavis and Butthead tivesse
                                         central e associando o falante     o comportamento sujeito à crítica
incentivado uma criança de 5 anos
                                         a algo para o qual as pessoas      de terceiros. Seguindo Austin
a pôr fogo e matar sua irmã, a
                                         têm sentimento positivo.           (1961), apresentam dois tipos
emissora negou o fato. No
                                         Ilustra esta estratégia o caso     gerais de desculpas:
entanto, nos episódios seguintes,
os personagens pararam de fazer       Ted Kennedy que, inúmeras vezes       1) excuses, em que o acusado
isso. Houve aí uma ação corretiva     em seus discursos, deixava claro          admite o ato errado, mas não
para reparar a imagem.                suas relações positivas com o             aceita total responsabilidade
   O autor informa-nos ainda de       povo de Massachusetts porque lá           por ele;
que há escritos fundamentais no       (em Chappaquiddick) se envol-         2) justifications, em que ele
assunto e retoma cada um deles.       vera em acidente automobilístico          aceita as responsabilidades,
   Mencionaremos alguns deles,        no qual morrera sua secretária. .oi       mas rejeita a alegação de que
conforme segue. Burke, por            acusado, então, de não fazer a            foi um ato errado.
exemplo, tem uma análise mais         ocorrência à polícia imediata-            Ilustrando a teoria do ataque
teórica do assunto. Usa o termo       mente. Tentou transferir a culpa      (kategoria) e defesa (apologia) de
culpa para representar um             para as condições da estrada e        Ryan (1982), para o qual deve
estado de coisas indesejáveis         para o trauma que sofrera. Esta       cuidadosamente considerar-se a
que pode ser remediado pelo           estratégia serviu para mantê-lo       defesa à luz do ataque específico,
discurso defensivo. Segundo ele,      como senador, mas provavel-           retiramos, dentre os inúmeros exem-
há dois processos para remover        mente não foi suficiente para alçá-   plos citados, o do senador John
a culpa ou restaurar a boa            lo à condição de presidenciável;      Kennedy. Durante sua campanha
reputação.                            3) “differentiation” – mecanismo      presidencial, acusaram-no de que
   A vitimização, em que a pessoa        no qual se tenta separar o         faria um governo católico, ao que
se faz de bode expiatório,               objeto de um contexto indese-      o futuro presidente americano repli-
transfere a culpa, diz-se vítima de      jável. Ainda em relação ao         cou: “...na constituição não há teste
perseguição, e a mortificação, em        acidente no qual se envolveu       de religiosidade para presidente”.
que o envolvido admite o erro, a         Edward Kennedy, o senador          Mudou então o foco da separação
má ação e pede perdão. Podemos           buscou deixar claro que o          Igreja/ Estado para o da tolerância
lembrar aqui o caso de um ex-            contexto é que era negativo.       religiosa.
                                                                                                             49
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C omunicação                                                                                       Artigo

   Resumindo o assunto, há             Nixon, ainda que tenha transfe-      teóricos da sociedade, já que sua
quatro hipóteses tácitas partilha-     rido a culpa para seus subordina-    coleta de dados tem diferentes
das pelos discursos da legítima        dos, foi ele, em última instância,   procedências e seu estilo é pouco
defesa (self-defense):                 o motor da ação. Para esta           inclinado à austeridade. Discus-
1) A reputação é importante;           estratégia funcionar, é preciso      sões à parte, observemos as
                                       afastar a culpa para mais longe,     contribuições do estudioso para a
2) Existem meios verbais de            mais do que, por exemplo, para       atividade a que nos propusemos.
   reparação da imagem;
                                       os subordinados, e achar um bode         Como vivemos em um mundo
3) Os ataques devem ser tomados        expiatório.                          de encontros sociais, estamos
   como suficientemente difun-            Resenhamos, até aqui, parte       sempre envolvidos em contatos
   didos para requerer uma teoria      do livro do autor que será útil      com outros participantes e
   da legítima defesa verbal;          na aplicação prática que faremos     tendemos a atuar numa linha (“a
4) A literatura da defesa (apologia)   mais à frente.                       line”). A face, termo usado pelo
   parece dar a entender que há           É bom explicar que nem            autor, pode ser definida como um
   um número relativamente             sempre todas estas estratégias       valor social positivo que assu-
   limitado de opções defensivas       de defesa atuam sozinhas.            mimos com base na linha que
   disponíveis aos apologistas.        Podem estar associadas entre si.     projetamos para o outro. Pode-
   Embora a reputação seja algo        Também queremos deixar claro         mos dizer que mantemos a face
que todos querem preservar, resta      que nos limitaremos, neste           quando a linha que projetamos
lembrar, conforme diz Benoit, que      trabalho, a observar como os         acarreta uma imagem (de nós
não se deve esperar milagres das       mecanismos detectados pelo           mesmos) internamente consis-
estratégias de restauração da          autor se manifestam no nosso         tente, ratificada por aqueles com
imagem. Em situação de culpa, o        cotidiano. Não vamos entrar          quem convivemos socialmente,
melhor é admiti-la prontamente,        tampouco na questão ética da         com base em julgamentos e
uma vez que uma negação nesta          argumentação.                        evidências. Mas podemos “estar
circunstância poderá acarretar            Trataremos agora de alguns        em face errada” quando aquilo
prejuízos substanciais à credibili-    aspectos dos estudos de Goffman      que programam a nosso respeito
dade do envolvido quando a ver-        e a Teoria da .ace e Brown &         não se integra à linha que susten-
dade vem à tona.                       Levinson e a Teoria da Polidez. A    tamos na situação. Também
   Para ilustrar esta situação, o      confluência de alguns aspectos       podemos “estar fora da face” se,
autor retoma o caso Watergate,         destes estudos com as pesquisas      em dada situação, não temos uma
em que os principais assessores        de Benoit é que nos interessará      linha estabelecida e precisamos
do presidente Nixon foram fla-         na análise dos textos selecio-       nos adaptar aos participantes e ao
grados durante o arrombamento          nados.                               tipo de evento comunicativo. Nas
do quartel-general do Partido                                               últimas duas circunstâncias,
                                        4 GO..MAN E A TEORIA
Democrata (de oposição), durante              DA .ACE                       sentimo-nos envergonhados e
sua campanha eleitoral para a                                               inferiorizados porque estas
renovação de mandato (1972).              Conhecer alguns aspectos da       situações podem prejudicar nossa
Mesmo acusado de envolvimento,         Teoria da .ace / Imagem –            reputação.
Nixon continuou negando qual-          considerada a entrada para a             Há situações em que preci-
quer conhecimento sobre o              questão de nossa identidade          samos sustentar, perante os
assunto. Conseguiu se reeleger         social - do sociólogo Goffman,       outros, que não perdemos a face,
com ampla maioria, mas foi alvo        poderá complementar a análise        ou seja, temos de salvar a própria
de processos, sendo incriminado        prática que faremos mais à           face.
por ter obstruído a Justiça, fato      frente. Embora o autor não tenha         Cumpre-nos lembrar aqui que
que o levou à renúncia em 1974.        fundado escola, trouxe grandes       nossa face social é um emprés-
   O fato narrado não significa        contribuições ao campo da            timo ratificado pela própria
que não se pode negar a culpa.         Lingüística.                         sociedade. Nós construímos
Se a negação pode ser sustentada,         As opiniões acerca dele são       nossa identidade social nas
poderá ajudar na recuperação da        contraditórias: alguns o consi-      relações com os outros. Se não
reputação do envolvido. Outras         deram o maior sociólogo da           procedemos de acordo com o que
situações há em que é possível         segunda metade do século XX;         essa sociedade espera de nós, ela
transferir a culpa, embora nem         outros afirmam que não pode ser      se encarregará de retirar nossa
sempre com sucesso. No caso            considerado entre os grandes         face social. Podemos notar que
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Artigo

tanto Benoit quanto Goffman               Retomando os autores, todo         com “savoir-faire”, mostrar apoio
estão considerando o indivíduo        ato de fala é uma ameaça à face        e concordância às ações e idéias
nas suas relações sociais.            do ouvinte, constitui-se num ato       do outro, cultivar a generosidade
   Vejamos então como Brown &         ameaçador à face (“face                (oferecer e dar seus serviços), ser
Levinson operam com a teoria da       threateningt act” - .TA). O            modesto (para elevar o outro), ser
polidez.                              desprezo, a crítica, uma consta-       simpático.
                                      tação negativa em relação à               É com base no princípio da
5 BROWN & LEVINSON E A                pessoa, más notícias são exem-         polidez que dizemos coisas falsas
   TEORIA DA POLIDEZ                  plos de atos ameaçadores à face        apropriadamente ou coisas
                                      positiva (pública). Ordens,            menos informativas do que o
   O ponto de contato destes          pedidos, sugestões, conselhos          necessário.
autores com Benoit e Goffman,         são ameaças à face pessoal (face          Não nos aprofundaremos aqui
inegavelmente, é a questão da         negativa), posto que sugerem           na teoria da face porque os con-
face, da imagem, o que nos            mudanças ao ouvinte.                   ceitos que nos interessam, num
autoriza a buscar as semelhanças          .airclough, embora faça algu-      primeiro momento, são aqueles
na Teoria da Polidez, de Brown &      mas restrições a esses autores,        ligados aos atos ameaçadores à
Levinson (1978; 1987).                afirmando que “O que está faltan-      face pública e à face privada,
   Esses autores afirmam que          do é um sentido de variabilidade       quando as regras de polidez não
todos os membros de uma               das práticas de polidez nos dife-      são observadas.
sociedade têm - e sabem que os        rentes tipos de discurso dentro de        Em resumo, o que projetamos,
outros também têm - a face, a         uma cultura, das ligações entre as     a face positiva, está ligado à
imagem pública (“face, the public     práticas de polidez variáveis e as     imagem pública que queremos
self”) e uma capacidade racional      relações sociais variáveis ou das      passar; a face negativa prende-se
de inferir as intenções do falante.   restrições aos produtores pelas        aos territórios do eu, às coisas
   O que os autores denominam         práticas de polidez.” (p. 203),        pessoais, à face privada, o que não
a imagem pública deve ser             acredita que o trabalho dos            queremos expor publicamente.
compreendido como a imagem            autores traz “...uma excelente
que cada membro da sociedade          explicação dos fenômenos de            6 O ENCONTRO POSSÍVEL
reivindica para si. Abrange dois      polidez, e pode ser apropriado            Como podemos notar, uma
aspectos: a face negativa e a face    dentro de um quadro teórico            preocupação dos indivíduos em
positiva.                             diferente” (p.204).                    sociedade é salvaguardar sua face
   Conforme afirma .airclough             Assim como Benoit, esses           para manter uma reputação, uma
(1992; 2001), a respeito da           autores assumem que a face,            imagem pública saudável. No
teoria da polidez desses autores:     imagem ou reputação é algo             entanto, como a competição é
“Eles pressupõem um conjunto          importante para as pessoas, razão      feroz, os valores éticos flutuantes
universal de ‘desejos de face’        pela qual elas, diante de ameaças,     e a palavra fonte de mal-entendi-
humanos: as pessoas têm ‘face         recorrerão às estratégias de           dos, constantemente vemos
positiva’ – querem ser amadas,        polidez para minimizar os efeitos      nossa imagem pública ameaçada.
compreendidas, admiradas, etc.        negativos, os confrontos.              Os princípios de polidez pela
– e ‘face negativa’ – não querem          Berger (1978), ao comentar as      linguagem deixam, então, de ser
ser controladas ou impedidas          relações sociais humanas e os          observados. Instaura-se assim a
pelos outros. Geralmente é do         mecanismos de controle exer-           “guerra” por meio da palavra.
interesse de todos que a face         cidos por grupos em situação de           Algumas vezes, as estratégias
seja protegida. Eles vêem a           trabalho, de convivência próxima,      usadas para minimizar os ataques
polidez em termos de conjuntos        já afirmava que “...há um profundo     à reputação funcionam adequada-
de estratégias da parte dos           desejo humano de ser aceito...” (p.    mente, outras resultam inoperan-
participantes do discursos para       85). Por isso, cair no ridículo, ser   tes, uma vez que o passar do
mitigar os atos de fala que são       difamado ou ser alvo de mexerico       tempo mostra tal inoperância nas
potencialmente ameaçadores            por parte desses grupos gera nas       ações subseqüentes dos alvos
para sua própria ‘face’ ou para a     pessoas profundo mal-estar.            desses ataques.
dos interlocutores. Essa explica-         Acreditamos que estas forças          Observar na arena pública
ção é típica da pragmática ao         coercitivas levariam as pessoas        como se concretizam tais estraté-
considerar o uso da linguagem         a proteger sua face e viver em         gias é um excelente exercício de
moldado pelas intenções de            paz no grupo, observando alguns        percepção do poder da linguagem
indivíduos” (p. 203).                 princípios de polidez como: agir       e pela linguagem.
                                                                                                            51
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         7 A PRÁTICA                       A técnica retórica da negação      mente recorremos a mecanismos
                                       (“denial”) e da projeção da própria    de restauração da imagem pública
    Conforme estabelecemos no          imagem (“bolstering”) pode ser         porque a reputação é um bem
início deste artigo, os textos que     observada na fala de Pelé, em          importante e o discurso tem o
exemplificarão as estratégias de       entrevista à .olha de S. Paulo de      poder de restaurar a face, quer
reparo à imagem, à face, à repu-       21/11/01, quando acusado de            pela simples negação, pelo pedido
tação foram retirados de jornais       desvio de US$ 700 mil de eventos       de desculpas, pela técnica de
e revistas de circulação nacional.     do Unicef: “Não é verdade que eu       responder na mesma moeda,
    Observemos alguns exemplos         sabia de desvio de dinheiro”. Mais     atacando os acusadores, pela
retirados da revista Veja. Em          à frente, nesta entrevista: “Nós       vitimização ou outras. A mídia traz
outdoor, a revista propunha            vamos verificar se algo aconteceu.     farto material que exemplifica isso.
Osama bin Laden para dirigir a         Porque eu tenho meu nome, minha            A guerra da colas (Coca x Pepsi)
seleção brasileira. Evidentemente      reputação, e as pessoas que traba-     é um exemplo marcante. Outro
que muitos leitores protestaram        lham comigo têm de trabalhar           exemplo significativo de como os
pelo mau gosto e pela improprie-       direito, serem honestas e estarem      ataques à imagem/reputação são
dade do ato. A revista, perce-         limpas. Vamos apurar se houve          freqüentes e rebatidos com
bendo que sua imagem ficara em         realmente alguma ilegalidade, se       firmeza para recuperá-la ocorreu
posição vulnerável perante seus        alguém ficou com algum dinheiro”.      com a Johnsonn & Johnsonn.
                                           A restauração da face pelo         Algumas pessoas nos EUA foram
leitores, cuidou de repará-la. São
                                       mecanismo de separar o objeto de       supostamente envenenadas pelo
palavras da revista de 24/10/2001:
                                       um contexto indesejável (“diffe-       uso de Tylenol, fabricado pela
“VEJA reconhece o mau gosto dos
                                       rentiation”) ainda pode ser notada     empresa. Sua imagem foi dene-
dizeres e se desculpa com seus
                                       na reportagem quando Pelé              grida, seu faturamento caiu de
leitores pela publicação da frase
                                       afirma: “Já desconfiava de irregu-     US$ 33 milhões para US$ 4
pretensamente bem-humorada no
                                       laridades havia cinco anos. Por        milhões/mês. A empresa gastou
outdoor”.
                                       isso eu tinha mandado fazer uma        milhões para recuperar sua repu-
    Como a revista não podia negar
                                       auditoria, porque tinha algumas        tação, visto obedecer a um código
seu discurso, precisava restaurar
                                       respostas e coisas que eu queria       de conduta. Com o tempo e várias
a boa reputação para seus leitores.
                                       saber que não me davam. Mas não        ações positivas, reafirmou sua
Então usou da mortificação para
                                       tenho suspeitos. Há 32 anos eu         imagem de empresa confiável e
tanto, admitindo a “má ação” e
                                       ajudo o Unicef. Quem me conhece        responsável.
pedindo desculpas pelo ato.                                                       No exemplo citado de Pelé, a
    A estratégia retórica da simples   sabe que eu não faria isso”.
                                           A defesa de si, da face positiva   linha projetada por ele para
negação (“denial”) encontramos                                                manter a face foi arranhada por
na fala do deputado federal Badu       ou imagem pública também pode
                                       usar da transcendência (“transcen-     um ato ameaçador (a acusação de
Picanço, em carta à revista, res-                                             desvio de dinheiro). Como sua
                                       dence”) nas acusações. Neste
pondendo à acusação da matéria                                                face social positiva, sua imagem
                                       caso, coloca-se o objeto num con-
Partido? Que partido? (10/10/                                                 pública tem grande projeção
                                       texto mais amplo e mais favorável.
2001), em que os políticos são                                                social, houve por bem manifestar-
                                       Ilustra essa técnica a seguinte fala
acusados de, nos últimos 15 anos,                                             se publicamente para salvar a
                                       de Pelé: “Desde o milésimo gol
trocar de legenda “como se tudo                                               própria face, caso contrário,
                                       vocês sabem que eu trabalho com
fosse brincadeira de roda”.(p. 114).                                          poderia deixar de ser admirado e
                                       crianças e que eu nunca cobrei
Diz ele na carta: “Em referência à                                            perder a credibilidade.
                                       nada. Não iria ser agora”. (.olha
reportagem ‘Partido? Que par-                                                     Consciente ou inconsciente-
                                       Esporte, p. D1)
tido?’ afirmo que em nenhum                                                   mente, os mecanismos de restau-
momento recebi quantia alguma                                                 ração da imagem são acionados
                                               CONCLUSÕES
para a mudança partidária. O                                                  sempre que nossa reputação está
trecho que envolve meu nome é,            Manter a imagem, reputação          em jogo, porque todos queremos
no mínimo, infeliz, já que se baseia   ou face saudável é uma preocu-         parecer bem para o outro com
em ‘alguém disse’, ‘comentava-se’,     pação daqueles que vivem em            quem convivemos. Manter a face,
que são expressões muito vagas         sociedade. Na nossa vida coti-         a reputação, a imagem pública é,
para a seriedade da questão”.          diana, nas relações de trabalho,       portanto, uma busca do ser social
(21/10/01)                             nas relações pessoais, freqüente-      que somos.
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Artigo


                                              RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS
BENOIT, W. L. Accounts, excuses,                BROWN, P.; LEVINSON, S.                         GO..MAN, E. Interaction rural:
and apologies: a theory of image                Politeness: some universals in                  essays in face-to-face behavior.
restoration discourse. New York:                language usage. 2nd. ed.                        New York: Pantheon Books,
State University of New York Press,             Cambridge, CUP, 1978 : 1987.                    1967 : 1974.
1995.
                                                .AIRCLOUGH, N. Discurso e
BERGER, P. Perspectivas socio-                  mudança social. Tradução (Coord.)
lógicas: uma visão humanística.                 de Izabel Magalhães. Brasília:
Petrópolis: Vozes, 1978.                        Universidade de Brasília, 1992 : 2001.




                                                 Núcleo de Recursos Humanos
                                                  Com o trabalho sério e reconhecido,
                                                  o Núcleo de Recursos Humanos do IMES
                                                  busca a integração entre o conhecimento
                                                  teórico e a prática no campo da Administração
                                                  de Recursos Humanos.

     Entre os serviços oferecidos, destacam-se:


     l   Realização de pesquisas em Recursos Humanos (cargos, salários, benefícios, acordos/convenções coletivas, remuneração
         variável, indicadores de gestão de pessoas e clima organizacional);


     l   Encontros de reciclagem para profissionais da área de RH e qualidade;



     l   Publicação do boletim Notícias de Recursos Humanos, que traz uma sinopse da imprensa paulista com informações sobre RH;



     l   Desenvolvimento de projetos personalizados para empresas (consultoria, auditoria e treinamento);


     l   Publicação de artigos que abordam o comportamento organizacional e suas tendências.




     Informações e consultas podem ser feitas na Av. Goiás, 3.400, em São Caetano do Sul,
     pelo telefone (011) 4239-3201, ou pelo e-mail: nucleorh@imes.edu.br


                                                                                                                                   53
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                                                                                                      or        i a




                           MÚSICA CAIPIRA OU
                           MÚSICA SERTANEJA?

                                      Fernando Pereira
                      Professor do IMES. Jornalista, Fotógrafo profissional e Músico.


    Música caipira, música serta-    cões, longe das grandes cidades.       a) o canto executado em terceiras;
neja e música de raiz. Três gêne-    Isso até um certo Cornélio Pires,      b) os instrumentos acústicos e
ros musicais distintos ou dife-      jornalista, cronista e escritor apa-      tradicionais, ou seja, violão e
rentes nomes para uma modali-        recer na Capital com um grupo de          viola. A viola caipira tem dez
dade musical que volta a cair no     lavradores para se apresentar à           cordas sem o tradicional
gosto do público? O fato é que a     gente da cidade. Já com a denomi-         bordão da música popular
discussão é antiga e cada estu-      nação de “sertanejo”, o grupo,            urbana;
dioso e/ou especialista usa          com instrumentos simples como          c) letras descritivas de um am-
métodos distintos para tratar o      a viola caipira, executava músicas        biente ou de um sentimento.
assunto.                             e ritmos do seu dia-a-dia como o          Com temas relacionados ao
    De um gênero que remonta à       catira, a moda de viola, o lundu, o       amor e à vida na cidade. Elas
chegada dos jesuítas ao Brasil e     cururu, etc... Em 1929, Cornélio          contam uma história que pode
que se fixou nos ciclos dos          Pires resolve gravar essa produ-          ser vivida pelo autor ou por
festejos populares do interior do    ção musical “folclórica” em discos        um segundo personagem;
país, a chamada música caipira foi   e, desacreditado pela gravadora
se adaptando aos tempos,                                                    d) quando não é lírica, a letra
                                     Columbia, resolveu bancar do seu          revela a experiência cotidiana
sofrendo influências – naturais e
                                     próprio bolso a gravação e edição         da vida na roça;
impostas pela indústria cultural –
                                     do primeiro álbum, que em pou-
e transformou-se num fenômeno                                               e) jamais usam o vibrato;
                                     cos dias de lançamento esgotou-
de consumo que sustenta emis-                                               f) a maioria dos cantores é tenor;
                                     se nas lojas. Começava o interesse
soras de rádio, gravadoras e                                                   os barítonos e os baixos são
                                     pelo estilo por parte das grava-
fabrica duplas milionárias.                                                    raros e as canções são inter-
    Na verdade, antigamente,         doras. Duplas começaram a surgir
                                                                               pretadas em 1ª e 2ª voz.
música sertaneja queria dizer que    aos montes, com destaque para
tinha vindo do sertão. O caipira     Mariano e Caçula, Zico Dias e             Caindo definitivamente no
do Interior de São Paulo fazia       .errinho e, Olegário e Lourenço.       gosto popular, a música sertaneja
música sertaneja, pois era o            Em 1944, a música caipira, já       chega ao rádio e as gravadoras.
homem da roça. O caiçara do          batizada oficialmente de música        Não demoram a inventar maneiras
litoral fazia música sertaneja. No   sertaneja pela indústria fono-         de aumentarem as vendas. Para
Nordeste brasileiro, o homem do      gráfica, já contava com 40% do         isso se valem da mistura de
agreste com seus martelos            mercado de consumo. Surgem             ritmos. Colaborou para essa mis-
agalopados e baiões fazia música     novas duplas de enorme sucesso         tura um dos maiores composi-
sertaneja. O mesmo se dava no        junto ao público como Alvarenga        tores do gênero sertanejo, Raul
Mato Grosso, com o seu cururu e      e Ranchinho, Tonico e Tinoco,          Torres, (autor de Cabocla Tereza,
no Rio Grande do Sul, com sua        Jararaca e Ratinho, Mineiro e          Saudades de Matão, Pingo d’Água,
chimarrita. Isso tudo até surgir o   Mineirinho e Tião Carreiro e           entre muitas outras). Com
disco.                               Pardinho.                              apuradíssimo faro para o sucesso,
    A música caipira, pura arte do      Até então, todas as duplas          Raul Torres mudava de gênero
homem interiorano de São Paulo,      mantinham características da           dependendo da ocasião. Além das
sempre ficou escondida nos rin-      autêntica música caipira:              músicas caipiras, compôs marchi-
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S urgteisgã o
A        t o    Bibliográfica

nhas de Carnaval, emboladas e             resultado da mistura de hábitos            procuram preservar as caracte-
canções juninas. Em suas viagens,         e costumes do homem que deixou             rísticas originais da música do
procurava novos ritmos e gêneros          o interior e tenta se enquadrar na         homem do campo e suas tradi-
para depois utilizar em suas              modernidade da vida urbana dos             ções artísticas. Hoje, mais do que
composições. Ele foi o primeiro a         grandes centros. A nova música             nunca, estão se fortalecendo pelo
misturar musica caipira e gua-            sertaneja assume a globalização            país movimentos de preservação
rânia, ritmo popular no Paraguai.         e os seus expoentes são Léo                dessa identidade cultural. Uma
Raul não tinha preocupação em             Canhoto e Robertinho, dupla que            preservação que nos chega atra-
fazer algo puro. Ele foi um dos           assimila o bang-bang ítalo-ameri-          vés das .olias de Reis e do Divino,
responsáveis pela misturada que           cano, com sofisticada aparelha-            Congadas, Moçambiques, Catiras.
virou o sertanejo. Porém, quando          gem eletrônica e músicas cada              Preservação feita por artistas
já estava rico, desfrutando do            vez mais distantes do universo             como Rolando Boldrin, Renato
sucesso, fazia questão absoluta           sertanejo.
                                                                                     Teixeira, Almir Sater, a dupla Pena
de dizer: “Me chamo Raul Torres,             A indústria fonográfica, por seu
                                                                                     Branca e Xavantinho, Roberto
sou caipira, sim, senhor!”                lado, para manter o rico filão,
                                                                                     Corrêa, Passoca, Pereira da Viola,
   A comercialização cada vez             continua a chamar esse tipo de
                                                                                     entre outros, que resgatam não
maior da música sertaneja acabou          produção de música sertaneja, por
                                                                                     só a verdadeira música caipira,
por modificar suas características,       sinal como fazem até hoje com a
pois produziam aquilo que os              geração dos “cowboys do asfalto”.          mas a verdadeira música serta-
elementos especializados em               A country music norte-americana            neja, em discos e shows. Outros
mercado de consumo lhes deter-            é a influência dessa vez, que se           ainda preferem usar o termo
minavam. As duplas passaram a             estende ao vestuário, aos instru-          “música de raiz” para designar
gravar canções com influências de         mentos com a utilização do banjo           esse resgate. Resgate esse que só
boleros e corridos mexicanos.             e até no comportamento dos                 é verdadeiro quando feito com
   A partir das décadas de 70 e           artistas.                                  uma autêntica “violinha caipira de
80 vale tudo, sobretudo o lucro.             Mas nem tudo está perdido.              10 cordas”, instrumento musical
As chamadas “duplas caipiras”             Paralelamente a toda essa dege-            símbolo de um Brasil brasileiro,
buscam um novo visual, uma nova           neração da autêntica música                sem mistura do estrangeiro, um
imagem que, na realidade, é o             caipira, surgem os puristas que            Brasil nacional. Um Brasil caipira.



                                          RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS
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Aesenha
Rrtigo



                 ÉTICA E RESPONSABILIDADE
                   SOCIAL NOS NEGÓCIOS
                                                Autora
              Patrícia Ashley de Almeida (Coordenadora)
                                       São Paulo, Saraiva, 2002.


                                              Resenhista
                          Ana Claudia Marques Govatto
           Professora do Centro Universitário Imes e consultora em responsabilidade social.


   As empresas, como pontos de      que foram agrupados em duas          se acabar com o trabalho infantil,
impacto na sociedade, têm se        partes, sendo a primeira dedi-       o que os autores consideram com-
deparado com a equação lucro        cada à fundamentação teórica         ponentes da gestão dos negócios
versus função social, algo não      sobre o conceito de responsabi-      balizados pela responsabilidade
imaginado até a metade do século    lidade social nos negócios e a       social.
XX. É certo que ética empresarial   segunda uma coletânea de textos         Em relação aos tempos de
e responsabilidade social corpo-    que demonstram a incorporação        pioneirismo da cidadania empre-
rativa não são assuntos novos,      do tema nas empresas instaladas      sarial, alguns avanços foram
porém ambas vêm ganhando            em território nacional.              registrados e poderão marcar um
importância nos últimos anos.          A obra faz incursões na           período de novas conquistas
Com o crescente aumento da          economia brasileira que passou da    ainda mais incisivas. Cases que
complexidade dos negócios, com-     era agrícola para a era industrial   retratam a iniciativa de empresas
plexidade esta que exige uma        e, hoje, procura assimilar e         em atividades econômicas rentá-
nova maneira de pensar e agir do    desenvolver novas técnicas numa      veis de preservação, o desenvolvi-
empresariado, as disparidades       tentativa de adequar-se à era do     mento do terceiro setor, a assimi-
sociais levam a repensar o desen-   conhecimento. Neste campo muito      lação política dos verdes, a institu-
volvimento sustentável, conceito    ainda deverá ser feito, principal-   cionalização do movimento de
que envolve aspectos econômicos,    mente no que se refere à cidada-     defesa dos direitos dos consu-
sociais e ambientais. A equação     nia, onde indivíduos, grupos da      midores, do consumo consciente
empresarial da atualidade está      sociedade, nações e organizações     e do comércio justo são alguns
relacionada ao como potencializar   exercem direitos e cumprem           exemplos desses avanços.
o desenvolvimento dos negócios      deveres cada vez mais pautados          Considerado por muitos como
considerando a intervenção da       pelo valor atribuído ao seu com-     sendo um dos pioneiros da res-
organização no meio.                portamento e às suas atitudes.       ponsabilidade social corporativa,
   Esta é a abordagem do título        Ashley e os demais pesquisa-      Henry .ord, em 1916, contra-
Ética e Responsabilidade Social     dores procuraram resgatar aspec-     riando a maioria dos acionistas,
nos Negócios, que reúne doze        tos da responsabilidade social       dividiu parte dos dividendos da
autores sob a coordenação de        empresarial e de campanhas de        empresa para seus funcionários
Patrícia Almeida Ashley da PUC      mudança social históricas. Na        através de aumento de salários.
do Rio de Janeiro, que desenvol-    Grécia e na Roma antiga, por         Muito provavelmente a atitude de
veram estudos acadêmicos de         exemplo, foram lançadas campa-       Henry .ord, considerado um ícone
pós-graduação sobre cidadania       nhas de libertação de escravos e     da administração de empresas,
corporativa e seus desdobra-        na Inglaterra, durante a Revolu-     tenha impulsionado a mudança
mentos, passando pelas áreas de     ção Industrial, houve campanhas      do comportamento empresarial
administração de empresas,          para a abolição das prisões por      quanto ao seu papel social. À
consumo e comunicação social.       dívidas, para a extensão de di-      medida que o tempo foi passando,
O livro apresenta vários estudos    reito ao voto às mulheres e para     uma nova cultura empresarial foi
                                                                                                          57
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                                                                                                    A senha

se instalando até que em 1953 a       de seus diversos públicos de           liação da responsabilidade social
Justiça americana determinou que      relacionamento, os chamados            corporativa.
as corporações poderiam promo-        tecnicamente de stakeholders.              Definir responsabilidade social
ver o desenvolvimento social, o           Outra citação do livro diz         sem considerar as diferenças
que ficou estabelecido pela Lei da    respeito às Ciências Sociais que       sociais dos países é acreditar que
.ilantropia Corporativa. .oi pre-     definem responsabilidade social        seria possível estabelecer um
ciso a intervenção da justiça         como sendo uma “responsabi-            pensamento corporativo mundial.
americana nesta questão devido        lidade daquele que é chamado a         Ao contrário do que se vê nos pro-
aos protestos de muitos acio-         responder pelos seus atos face à       cessos produtivos e parcialmente
nistas que temiam diminuir seus       sociedade ou à opinião pública (...)   nos processos comunicacionais
ganhos às custas da boa ação de       na medida em que tais atos assu-       num mundo em plena globaliza-
alguns executivos que comanda-        mam dimensões ou conseqüências         ção, a responsabilidade social tem
vam grandes empresas.                 sociais.”                              sido estudada e aplicada aos
    Somente no final da década de         Responsabilidade social, então,    negócios considerando as particu-
1960, os países europeus aderiram     pode ser assumida como o com-          laridades de cada sociedade.
ao novo modelo empresarial e no       promisso empresarial para o desen-         Também a responsabilidade
Brasil há registros mais completos    volvimento da sociedade expresso       social é aceita para alguns como
sobre responsabilidade social         por suas atitudes e valores. De        uma obrigação legal. Para outros,
corporativa a partir da década de     maneira ampla, as organizações         ela é vista como uma superação
1970.                                 devem contribuir para o desenvo-       das obrigações legais e assume
    Portanto, a importância da        lvimento sustentável com obriga-       um papel que extrapola a atuação
Responsabilidade Social Empre-        ções de caráter moral, além das        passiva de empresas e cidadãos,
sarial não começou a ser discuti-     estabelecidas pelas diversas leis às   ganhando características mais
da, e muito menos está sendo          quais está submetida, mesmo que        relevantes como o engajamento
praticada, à beira do novo milênio.   não diretamente vinculadas a suas      social e o desenvolvimento sus-
                                                                             tentável. O que se vê nos dias de
Atualmente, a atuação social das      atividades. Numa visão ampla do
                                                                             hoje é que o assunto vem ga-
empresas tem se concentrado nas       papel das empresas, responsabili-
                                                                             nhando cada vez mais espaço no
áreas de saúde, educação, meio        dade social é toda e qualquer ação
                                                                             território nacional e que muito
ambiente e economia – as que          que possa contribuir para a
                                                                             dessa discussão é fruto de ques-
mais requerem atenção em nosso        melhoria da qualidade de vida da
                                                                             tionamentos e críticas que as
País – e vem se firmando como         sociedade e que seja conduzida de
                                                                             organizações privadas vêm rece-
um grande empenho empresarial         maneira sustentável.
                                                                             bendo nos últimos anos.
representado por instituições e           Neste contexto de papel social
                                                                                 À medida que os cidadãos vão
fundações mantidas pela iniciativa    com objetivo de proporcionar           adquirindo maior consciência de
privada.                              bem-estar, se responsabilidade         suas responsabilidades, também
    De resto, os desafios cresce-     social é a visão expandida do          vão exigindo uma postura mais
ram tanto que conquistas mais         papel de uma empresa na socie-         engajada das empresas que vêm
marcantes tornaram-se questão         dade, a propaganda como up             procurando evoluir em sua
de sobrevivência. Diante do agra-     grade da relação com o mercado         gestão responsável.
vamento das disparidades sociais      deve conter elementos que ex-              Em suma, Ética e Responsa-
e da dramaticidade que o risco        pressem seus valores morais e          bilidade Social nos Negócios é um
ambiental atingiu – casos do          exercer papel de agente de cons-       importante instrumento de pes-
esgotamento de recursos naturais      cientização para o desenvol-           quisa e entendimento acerca dos
como a água, do aquecimento glo-      vimento econômico e social.            fundamentos e aplicações das
bal, dos danos à biodiversidade e         Na segunda parte, Ética e          responsabilidades empresariais no
à camada de ozônio – menos do         Responsabilidade Social nos            âmbito dos impactos econômicos
que já foi feito é inaceitável.       Negócios, traz estudos de casos        e sociais exercidos pelas organiza-
    Peter Drucker, citado na obra     que procuram ilustrar a aplicação      ções brasileiras. A maior contri-
de Ashley, ressalta que sucesso       dos conceitos abordados na             buição da coletânea é, no entanto,
e responsabilidade social cami-       primeira parte do livro dentro do      reunir conhecimento relevante para
nham juntos. As chances de a          contexto brasileiro, fruto de          o momento empresarial brasileiro
empresa ser bem-sucedida no           dissertações de mestrado. Banco        e suprir, pelo menos momentanea-
mercado aumentam à medida que         Central, empresas de diversos          mente, a necessidade cada vez
ela prioriza a atuação socialmente    ramos de atividade e localizadas       mais crescente de informação na
responsável e geram seus negó-        nas regiões Sul e Sudeste serviram     área da gestão da responsabili-
cios considerando os interesses       de fonte de pesquisa para a ava-       dade social e ética nos negócios.
58
                                                                                     julho/dezembro-2002

Artigo Jornalisitico Revista Imes D

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    comunicação C Artigos Canais locais de informação na TV paga: TVCOM, um modelo de funcionamento Eliane Corti Basso A influência das chuvas na circulação dos jornais de Manaus Gilson Monteiro Outdoor baiano: uma mídia que funciona Maria Amélia Chagas Gaiarsa Rock e música pop: espetáculo, performance, corpo. Herom Vargas O cenário virtual televisivo: uma forma ano lll - n.o 5 - julho/dezembro 2002 específica de representação cenográfica ISSN 1518-5958 João Batista Cardoso A crítica genética na propaganda João Vicente Cegato Bertomeu Estratégias retóricas para a restauração da imagem quando sob ataque Vilma Lemos Sugestão Bibliográfica Música caipira ou música sertaneja? Fernando Pereira Resenha Ética e responsabilidade social nos negócios Ana Claudia Marques Govatto
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    An d iig o Í rt ce Artigos Canais locais de informação na TV paga: TVCOM, um modelo de funcionamento Eliane Corti Basso ............................................................................................................... 04 A influência das chuvas na circulação dos jornais de Manaus Gilson Monteiro .................................................................................................................. 12 Outdoor baiano: uma mídia que funciona Maria Amélia Chagas Gaiarsa ............................................................................................ 19 Rock e música pop: espetáculo, performance, corpo. Herom Vargas .................................................................................................................... 25 O cenário virtual televisivo: uma forma específica de representação cenográfica João Batista Cardoso .......................................................................................................... 33 A crítica genética na propaganda João Vicente Cegato Bertomeu ........................................................................................... 41 Estratégias retóricas para a restauração da imagem quando sob ataque Vilma Lemos ....................................................................................................................... 47 Sugestão Bibliográfica Música caipira ou música sertaneja? .ernando Pereira ................................................................................................................ 54 Resenha Ética e responsabilidade social nos negócios Ana Claudia Marques Govatto ............................................................................................ 57 C omunicação Expediente Revista IMES Comunicação - Uma publicação do Centro Universitário Municipal de São Caetano do Sul Ano lll - no 5 Coordenadores Editoriais Revisão Técnica julho/dezembro-2002 Gino Giacomini .ilho Lídia Demboski Sérgio Sanches Marin Nádia D. A. .uentes Diretor da Mantenedora Lígia Demboski - CRB 8/4939 Jornalista Responsável Marco Antonio Santos Silva Roberto Elísio dos Santos Vice-Diretor da Mantenedora - MTb 15637 Produção e Impressão Gráfica Marcos Sidnei Bassi Coordenador do Curso de HM Indústria Gráfica e Editora Ltda. Comunicação Social - Publicidade Tiragem: 1.500 exemplares Reitor Sérgio Sanches Marin Laércio Baptista da Silva Coordenador do Curso de Revista IMES Comunicação Pró-Reitor de Graduação Comunicação Social - Jornalismo e Av. Goiás, 3.400 Carlos Alberto Macedo Radialismo São Caetano do Sul - SP - Brasil Gino Giacomini .ilho Tel.: (11) 4239-3212 Pró-Reitor de Pós-Graduação e .ax: (11) 4239-3245 Conselho Editorial Pesquisa E-mail: revimes@imes.edu.br Dilma de Melo René Henrique Licht Gino Giacomini .Ilho Liana Gottlilb O IMES, em suas revistas, respeita a Pró-Reitor Comunitário e de Extensão Sandra Reimão liberdade intelectual dos autores, Joaquim Celso .reire Silva Sílvio Minciotti publica integralmente os originais que Execução Conselho Técnico lhe são entregues, sem com isso Pró-Reitoria Comunitária e de Extensão Professores do Curso de concordar necessariamente com as Coordenadoria de Comunicação Comunicação Social opiniões expressas. 3 julho/dezembro-2002
  • 3.
    C omunicação Artigo CANAIS LOCAIS DE INFORMAÇÃO NA TV PAGA: TVCOM, UM MODELO DE FUNCIONAMENTO Eliane Corti Basso Jornalista. Mestre e doutoranda em Comunicação Social pela UMESP. Docente nos cursos de Comunicação Social do IMES, Anhembi Morumbi e FATEA (Faculdades Integradas Coração de Jesus). R E S U M O ABSTRACT Este trabalho procura mostrar um marco da This work tries to show a historical television televisão dos anos 90: a introdução de canais mark of the nineties: the introduction of local locais de informação na TV paga. O estudo tem information channels on paid TV. The study aims como parâmetro mostrar o modelo de to show the local communication model adopted comunicação local adotado pela TVCOM (TV by TVCOM (Community TV). An information Comunidade). Um canal de informação 100% channel totally local (100%) implemented local, implementado através da integração de through the integration of media and the other mídias com os demais canais (meios de channels (means of communication) owned by comunicação), pertencentes ao grupo RBS (Rede RBS group - Rede Brasil Sul de Comunicações Brasil Sul de Comunicações), localizado em Porto (Net South Brazil of Communications), localized Alegre, Rio Grande do Sul. O canal foi implantado in Porto Alegre, Rio Grande do Sul. The channel em 1995 e sistematizou um modelo de comuni- was implemented in 1995 and it systematized a cação local na televisão brasileira. A análise model of local communication on Brazilian busca mostrar não só os fatores de sustentabi- television. The analysis aims to show the bearing lidade, mas também a importância para a factors as well as its importance to the local comunidade local onde atua. community where is performs. PALAVRAS-CHAVE: TV paga, comunicação local, KEYWORDS: paid TV, local communication, canais de informação. information channels. 4 julho/dezembro-2002
  • 4.
    Artigo INTRODUÇÃO para a divulgação das culturas tentativa de regular o serviço locais. Na contramão, enfrentam denominado de cabodifusão. Um A televisão é o serviço de dificuldades para manter uma decreto de 1975 enquadrava o comunicação de massa mais produção de qualidade por causa serviço como especial, mas com importante que se tem no Brasil. dos altos custos. os protestos da sociedade civil, O país possui cerca de 45 O objetivo deste texto é através de manifestações de milhões de domicílios, onde contribuir com os estudos sobre entidades não governamentais e aproximadamente 85% contam os canais locais de informação na movimentos de discussões pelo menos com um televisor. TV paga, mostrando um modelo alavancados nas Universidades, o Mais de 92% recebem o sinal da de funcionamento. O estudo é decreto acabou sendo vetado TV aberta.1 norteado pelo exemplo da TVCOM (Boffetti, 1999 p. 39-40). A TV aberta garante uma – TV Comunidade, localizada em Em fevereiro de 1988, o hegemonia sem parâmetros em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e ministro das comunicações do outros países. Em meio a esse integrante do sistema RBS – Rede governo Sarney, Antônio Carlos mercado, surge a TV paga, Brasil Sul de Comunicações.4 Magalhães, baixou o Decreto n° implantada há pouco mais de A TVCOM surgiu em maio de 95.744/88 regulamentando o dez anos no país e que nasceu 1995 e sistematizou um modelo Serviço Especial de Televisão por no início da década de 90 com novo de comunicação de infor- Assinatura, denominado TVA, pouca expressão. De 1994 a mação 100% local através do destinado a distribuir sons e 1997, teve uma explosão pas- aproveitamento de mídias. É um imagens a assinantes, por meio sando de 400 mil para 2 milhões modelo nos moldes da expe- de um único canal UH., através de assinantes, mas desde 1998 riência dos Estados Unidos, que de sinais codificados que são experimenta um mercado retraí- passou, a partir da década de 90, transportados por espectro do e bem abaixo da expectativa a introduzir canais locais de radioelétrico, o mesmo utilizado gerada para a virada da primeira notícias na TV paga. O modelo pelos canais comuns de televisão, década. Enfrenta ainda um norte-americano é o tipo mais sendo permitida, a critério do mercado arredio, atingindo cerca integral na perspectiva da poder concedente, a utilização de 10% dos domicílios2. Não se economia de mercado e se parcial sem codificação. tornou um hábito generalizado encaixou na proposta do grupo Com o decreto, abriu-se a por razões culturais e econô- gaúcho. possibilidade, por meio da micas. É, acima de tudo, elitizada operação em UH., da transmissão para uma sociedade de quase 50 1 A HISTÓRIA de conteúdos locais, da qual faz milhões de miseráveis (29,3%)3. parte o canal TVCOM de Porto Por outro lado, existe uma parte Uma das mais significativas Alegre. A legislação de TV paga, da população com poder aquisi- mudanças ocorridas na televisão no Brasil, começou a ser configu- tivo que ainda não assina brasileira dos anos 90 foi à rada a partir desse painel, onde nenhum sistema. Por isso, os introdução do jornalismo 24 horas foram entregues concessões para canais pagos terão que oferecer através da TV paga. Em rede o funcionamento de canais em atrativos para, então, criar o nacional, o marco é do canal Globo UH.. hábito de pagar para se ver TV. News, da Rede Globo, em 1996. Até o surgimento da Lei da TV Chamar a atenção do assinante Em diversas cidades brasileiras, a Cabo, isto é, de 1989 a 1995, para as informações da sua rua, com operação local, surgem os as operações que existiam eram seu bairro, sua cidade ou região canais de informação. Em 1995, amparadas numa portaria de é uma das fórmulas que as no Rio Grande do Sul, o Grupo RBS DisTV, Sistema de Distribuição operadoras têm encontrado. implanta o canal TVCOM (TV de Sinais de TV por meio físico. Os canais locais têm não só Comunidade) que nasce com a O Brasil foi um dos últimos mostrado, em muitos lugares, proposta de divulgar as realiza- países da América Latina a im- um diferencial competitivo e ções da comunidade local. plantar a TV paga e a institucio- importante para atrair os A Legislação sobre TV a Cabo nalizar a TV por cabos. Depois de assinantes como também se no Brasil começou a ser im- um longo processo de discussão constituem em novos espaços plantada na década de 70, com a (que contou com a participação 1 ABERT - Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Disponível em:<<http://www.abert.com.br>>. Acesso em: 26/07/2001. 2 GUIA de canais. Revista Pay TV. São Paulo, p.11, ago.2001. 3 O ESTADO DE S. PAULO. Reportagem citando a .undação Getúlio Vargas. São Paulo, 10 jul. 2001, p.8. Geral. 4 A RBS é um dos principais grupos de comunicação do Brasil que atua no Rio Grande do Sul e Santa Catarina com emissoras de rádio e televisão e jornais entre outros serviços. 5 julho/dezembro-2002
  • 5.
    C omunicação Artigo inédita da sociedade civil, repre- com alcance de uma cidade ou mente, as formas de produção sentada pelo .órum Nacional pela região formada por um grupo dos canais locais no Brasil variam Democratização das Comunica- pequeno de cidades. entre as enxutas estruturas, pro- ções e sob a liderança da .edera- Desde o início da década de 90, duções terceirizadas e soluções ção Nacional dos Jornalistas), foi inúmeras emissoras de tevê a cabo híbridas, vendendo a maior parte elaborada a Lei nº 8.977, de 6 de começaram a se instalar nas do tempo do canal para produ- janeiro de 1995, mas, somente grandes cidades dos Estados toras independentes e exibindo em 1997, a lei e a norma foram Unidos. Nesse sentido, dois alguns programas próprios, bus- definitivamente publicadas. exemplos foram tomados por base cando nestes casos aproveitar o A lei obrigou as operadoras, a para a implantação da TVCOM de canal como ferramenta de marke- exemplo da lei norte-americana, Porto Alegre: a New York One (NY1) ting. Poucos são os modelos que a disponibilizar seis canais de e a Chigaco Land TV. conseguem sobreviver com acesso público e gratuito: sendo A New York One5 no ar desde qualidade estética e de conteúdo três canais legislativos (Senado, 1992 e apontada como a pioneira na programação mantida local- Câmara .ederal e um terceiro no telejornalismo regional, foi mente por causa dos altos custos. compartilhado pela Assembléia criada pelo grupo Time-Warner. A TVCOM, inaugurada em Legislativa - Câmara Municipal), É um canal de informações e 1995, no Rio Grande do Sul, se um canal educativo-cultural, serviços que transmite 24 horas mostrou um dos modelos mais reservado para utilização pelos diárias de programação voltada bem acabados por isso a impor- órgãos dos governos federal, totalmente para a comunidade tância em descrevê-lo. É uma estadual ou municipal que tratam nova-iorquina. Uma equipe de 25 emissora local de transmissão de educação e cultura, um canal repórteres procura cobrir tudo o mista por UH. e pelo sistema pago universitário, para uso comparti- que acontece na cidade, com a (cabo e MMDS), com abrangência lhado das universidades localiza- agilidade próxima ao modelo de inicial de 10 municípios da das na área de prestação do rádio. A NY1 implantou a figura grande Porto Alegre7, a quem o serviço, um canal comunitário, polêmica do videojornalista, um grupo RBS classificou de primeira aberto para utilização livre por profissional que dirige o carro, experiência comunitária do Brasil entidades não governamentais e carrega a câmera e faz as denominado de Canal da Comuni- sem fins lucrativos. A lei também entrevistas. dade8, e primeiro canal de infor- determina que as operadoras A Chigaco Land TV 6 , no ar mação local. devem manter dois canais para desde 1993, é uma emissora que A TVCOM foi projetada para ser uso eventual, mediante aluguel. trabalha com conteúdo local, a emissora com programação Atualmente, os canais locais mas que apresenta o diferencial segmentada e jornalística, voltada podem ser de acesso público, de compartilhar informações para os acontecimentos da grande como os comunitários e universi- com o rádio e o jornal do mesmo Porto Alegre, mas sem se fechar tários, previstos em Lei, e grupo. num microcosmo local. Abriu com No Brasil, a exemplo da a proposta de ser uma conexão da comerciais, como é o caso da experiência norte-americana, a tendência do mundo globalizado TVCOM de Porto Alegre. TV paga descobriu o potencial que se traduz na expressão 1.1 A Proliferação dos dos canais locais. Espalhados por ‘glocal’, oportunizando o debate Canais Locais diversas operadoras, eles têm se de assuntos globais voltados à tornando instrumento importante realidade local. A década de 90 marca a na hora de oferecer o pacote de A idéia de colocar no ar algo proliferação dos canais locais de programação para os assinantes. inédito no país, fez com que informação na tevê paga, nos A televisão local vem despontando diversos profissionais da RBS TV Estados Unidos e na Europa. O como uma alternativa ao modelo viajassem para os principais países Brasil inicia as primeiras expe- nacional de redes implantado no com desenvolvimento avançado riências com o advento da im- Brasil. em televisões comunitárias, locais plantação do UH. e, posterior- Num levantamento realizado e com programação voltada para mente, com as operações de nas principais operadoras de TV notícias, a fim de saber o que MMDS e Cabo. São emissoras a Cabo, percebeu-se que, atual- estava sendo feito no mundo 5 NY1. Disponível em:<www.ny1.com <http://www.ny1.com>>. Acesso em 12/09/2001. 6 CHICAGO Land TV. Disponível em: <www.cltv/com/about/station <http://www.cltv/com/about/station>>. Acesso em 12/09/2001. 7 Além de Porto Alegre, o sinal chegava a Canoas, Gravataí, Viamão, São Leopoldo, Alvorada, Sapucaia do Sul, Cachoeirinha, Guaíba e Esteio. 8 Esse é um conceito de comunitário comercial empregado pela emissora. Não faz parte do conceito de canal comunitário previsto na Lei de TV a Cabo do Brasil. 6 julho/dezembro-2002
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    Artigo nessa área. .oramanalisadas as problemas que envolvem as Ao longo dos seus já quase programações dos canais NY1, dos cidades da grande Porto Alegre, a oito anos de existência, a progra- Estados Unidos; TN - Todo Notícias, TVCOM chegou a ser chamada de mação foi sendo experimentada da Argentina; City TV, do Canadá; CNN gaúcha11. Mas a pretensão de e moldada pelo retorno da LCI, da .rança; Channel One, da acabar sendo “o primeiro canal de comunidade e do mercado Inglaterra; e a Land TV de Chicago notícias a funcionar 24 horas por publicitário. para consolidar a idéia do canal. dia” não se concretizou. A emis- A TVCOM passou por três A concepção foi de ser, a sora caracterizou-se por ser um grandes fases, denominadas pela exemplo da NY1, um canal voltado canal de informação em diferentes pesquisa: implantação, renovação à comunidade local, no caso da formatos. e consolidação. A programação TVCOM voltada à comunidade O canal TVCOM foi autorizado inicial procurava o foco nas porto-alegrense. Raul Costa Jr pelo Decreto n°. 95744 de 23 de problemáticas locais, com uma fevereiro de 1988. A legislação formatação “popular” tentando (2001) 9, diretor de telejornalismo permite a utilização com sinal mostrar, com bastante ênfase, os da RBS, salienta que, em relação aberto com apenas 35% do problemas dos bairros (linhas de à emissora norte-americana, “foi tempo. O restante é codificado. ônibus, saneamento básico, feita uma adaptação do conceito Desta forma, das 24 horas de poluição, buracos nas ruas, de news local para o conceito de operação, apenas 8h podem ser escola, creche, lixo, iluminação informação local”. disponibilizadas no sistema Para colocar no ar a nova etc.), mas foi aos poucos sendo aberto de televisão. deixada de lado, pela proposta de emissora, foram montados dois A grade da programação estúdios, o principal no Morro público alvo a que o canal apresenta três tipos de for- começou a se destinar, focado nas Santa Tereza, prédio onde matação: 1) programas inéditos funciona a RBS TV e outro na classes A/B, com condições de (17h às 01h - período em que o pagar uma assinatura de TV. redação do Jornal Zero Hora e sinal está aberto); 2) jornal Depois de dois anos e meio, Rádio Gaúcha AM. Um terminal eletrônico 12 (01h às 8h) e 3) chega ao fim à primeira fase da ligado aos dois foi instalado para programas de reprise (8h às TVCOM. .oi um período de possibilitar o contato direto entre 17h) 13. A programação inclui implantação, experimentação e os apresentadores, viabilizando notícias e programas de jorna- adaptação da nova forma de assim a formatação da proposta lismo especializado para todo o fazer televisão. Nesse período, de integração de mídias. A tipo de público, explorando temas o público viu desfilar pela tela concepção do canal foi de como política, economia, mercado programas que entravam e aproveitamento de todas as imobiliário, consumidor, esportes, saíam da grade conforme a mídias do grupo RBS, formatando turismo, veículos etc., alguns com público bem segmentado, procu- aceitação. Mudou o enfoque e o assim uma integração da canal passou a ser visto como produção de notícias e do parque rando atender ao perfil do telespectador de tevê paga. negócio que precisava ser auto- técnico do rádio, jornal e tevê, sustentável, algo que ainda não otimizando custos e produção, Embora sendo um canal com proposta de ser segmentado na tinha conseguido. A mudança de como o modelo apresentado pela fase marcava uma renovação informação, os formatos dos Land TV de Chicago. estética e de programação. programas da TVCOM procuram A idéia de fazer tudo ao vivo, A TVCOM do início da segunda atender a um público hetero- em um estúdio só10, transformou etapa começa muito parecida gêneo. Os programas de maior a rotina de trabalho numa mara- destaque e apelo de audiência com o modelo de tevê tradicional, tona e obrigou os profissionais estão distribuídos na grade mas muda rapidamente para a adotarem a agilidade do rádio diária, ao vivo, com duração tornar-se um diferencial na na condução dos programas. variável. Os demais se tornaram comunidade e ser mais rentável. Pela forte abordagem jorna- semanais, com exibição aos A emissora levou quase quatro lística, feita ao vivo e capaz de ser sábados ou domingos, sendo a anos para conseguir o equilíbrio interrompida a qualquer momen- maior parte gravada com ante- financeiro. A consolidação culmi- to para entradas externas, com cedência. nou com dois fatores importantes. 9 Entrevista concedida à pesquisa em agosto de 2001, Porto Alegre. 10 Os programas eram apresentados todos do estúdio localizado no prédio da RBS TV. O estúdio, montado no Jornal Zero Hora, servia apenas para o aproveitamento de conteúdos dos profissionais do jornal e do rádio. Não era utilizado para a geração de um programa todo. 11 Essa denominação CNN Gaúcha foi encontrada em reportagem que saiu na Rede Globo, em 1995, no programa Vídeo Show. 12 Sem apresentadores e sem locução, o telejornal é um programa gráfico onde as informações são apresentadas através de textos e imagens. 13 Geralmente são reprisados os talk-show e todos os programas que passam no canal aberto da RBS. 7 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo O primeiro foi à mudança de Herz, controla cerca de 80%15 das com o sistema de TV paga. O enfoque com a forte abordagem verbas publicitárias através do canal trabalha com dois tipos de dada à cobertura de eventos e seu complexo de mídia. Sua anunciantes: o pequeno que coberturas ao vivo; o segundo inserção na cultura regional vem busca uma mídia mais acessível com a distribuição do sinal no ano a ano se consolidando. A e empresas de grande porte que interior do Rio Grande do Sul, estratégia é trabalhar com a buscam regionalizar sua marca. aumentando com isso o número filosofia do localismo, chegando Diversos são os aspectos que de telespectadores e melhorando cada vez mais próximo da fazem do canal local uma forma a comercialização dos programas. comunidade e a TVCOM foi feita de comunicação diferenciada. No A TVCOM de Porto Alegre é sob medida para atender a essa caso da TVCOM, a agenda é fle- distribuída pelo sistema NET (cabo demanda. xível. Seus horários e programa- e MMDS), para 300 mil assinantes No campo estrutural, o canal ções podem ser modificados em no Rio Grande do Sul (150 mil na TVCOM, compartilha o parque função de necessidades emer- grande Porto Alegre e 150 mil técnico da RBS TV, o que permite gentes de modo mais fácil e sim- em 17 municípios do interior apresentar uma finalização de ples do que as redes de televisão. gaúcho)14 e ainda para a cidade programas e exibição com Os programas são realizados de Chapecó, Santa Catarina. A qualidade, uma vez que o grupo pelos departamentos de jorna- distribuição também acontece busca uma constante atualização lismo e produção que trabalham pelo sistema UH., na grande Porto dos lançamentos de equipamen- no mesmo espaço dentro da Alegre. O público estimado é de tos do mercado. redação da RBS TV. dois milhões e 100 mil telespecta- A concorrência da TVCOM no Com a RBS TV, a TVCOM divide dores conforme mapa de distri- mercado de televisão de Porto ilhas de edição, links para buição da emissora. Alegre já é indiscutivelmente entradas ao vivo e um helicóptero. muito concreta. César .reitas16, A TVCOM possui um estúdio 2 .ATORES DE gerente de Jornalismo, resume: principal para apresentação da SUSTENTABILIDADE A TVCOM é uma empresa do maioria dos programas e um DA TVCOM grupo RBS e, como empresa, busca estúdio para os programas de O principal fator de sustenta- lucro. Mas ela vê o lucro advindo notícias. Esse funciona no último bilidade da TVCOM é, sem da comunicação na prestação de andar do prédio da RBS TV, com dúvida, a integração de mídias serviços no seu nicho de atuação fundo de vidro mostrando ao onde se divide o parque técnico (...) Nós temos claro que, se nossos fundo uma panorâmica da cidade e profissional com os demais serviços forem bem feitos, as de Porto Alegre. Além desses, veículos do grupo RBS, maximi- pessoas vão pagar por eles. (...) A funciona ainda um terceiro na zando os custos de operação e fórmula de sustentação passa pela redação do Jornal Zero Hora, nos trabalhando com economia de maximização e otimização da mesmos moldes de quando o escala, mas seu modelo de produção, passa pela possibilidade canal foi inaugurado em 1995. funcionamento também se deve de utilizar o know-how de fazer O departamento de jornalismo a um conjunto de circunstâncias, televisão adquirido pela RBS, as é o mais dependente da produção algumas históricas-culturais e pessoas que fazem a TVCOM são de material do complexo de mídia outras de mercado que foram pessoas com experiências nos da RBS. Os programas de notícias sendo criadas. mais diferentes veículos da RBS é utilizam dois níveis diretos de A TVCOM está no terceiro claro que a TVCOM assumiu o aproveitamento da infra-estrutura melhor mercado publicitário do respeito publicitário do grupo, da empresa. O primeiro é a país, perde apenas para São Paulo então ficou mais simples.(...) A produção de matérias da RBS TV, e Rio de Janeiro. O jornalista TVCOM não saiu do zero, por trás do Jornal Zero Hora, da Rádio Daniel Herz estima que o Estado já tinha um caminho andado pela Gaúcha e do portal de notícias Clic abocanha 8% 15 do mercado RBS. RBS. O segundo nível se dá na nacional, sendo potencialmente A receita da TVCOM tem utilização de equipes de repor- bastante expressivo. O poder de origem em duas vertentes no tagem da RBS TV Porto Alegre e fogo está com a RBS que, segundo contrato de comercialização e interior para a realização de 14 Dados fornecidos pela emissora em 2001. 15 Dado estimado com base em pesquisas realizadas por Daniel Herz e repassado a esta pesquisa. Entrevista concedida em julho de 2001. Daniel Herz é diretor de relações Institucionais da .ederação dos Jornalistas. 16 Entrevista concedida à pesquisa, julho de 2001. 8 julho/dezembro-2002
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    Artigo entradas ao vivo.A emissora apre- arborização urbana, índice de o Canal 20, o Canal 14 - TV senta um jornal diário de uma leitura de jornais em regiões Comunitária, e o Canal 15 - Uni- hora de duração e boletins de um metropolitanas (76%, segundo a versitário, que transmitem con- a três minutos, durante os inter- Marplan), compra de livros (em teúdo local. Na TV aberta, além valos comerciais. Basicamente são nível estadual), assistência ao da RBS - TV, a TV Educativa, a informativos de prestação de ser- cinema, consumo de produtos Bandeirantes, a Guaíba e a Rede viços e de notícias do momento ligth/diet e uso de celulares. O PIB Pampa têm programação local. denominados de hard news. do Estado está acima de todos os O vínculo da TVCOM com a O departamento de produção países do Cone Sul, à exceção da comunidade se estabelece em é responsável pela maior parte da Argentina. vários níveis: participação na programação, incluindo progra- A posição, histórico-cultural e programação, exibição de pro- mas diários, semanais, cobertu- política, mostra a formação de gramas de interesse para a comu- ras e programas especiais. Cada um povo intelectualizado que nidade, cobertura dos eventos e programa costuma ser formado gosta de debater e opinar, por realização de eventos e campa- por uma dupla de um produtor e isso encontra campo fértil em nhas comunitárias. Através dessas um editor/apresentador. muitos programas do canal ações, ocupa espaços, define Além dos aspectos estruturais TVCOM que se caracterizam como hábitos, divulga fatos, envolve- e de mercado, é preciso com- jornalismo opinativo e produções se com as problemáticas locais, preender os aspectos culturais de especiais de cunho histórico. forma a opinião pública e serve que também são bases de susten- Há uma preocupação muito forte como um instrumento mediador tação do modelo de comunicação direcionada à valorização da importante na referência dos local. Entre as particularidades da cultura local e à cobertura dos assuntos de interesse local. população estão a forte abor- principais eventos que acontecem A TVCOM também procura, dagem política, a valorização da através dos especiais, retratar na no Estado. cultura e a presença constante tela o resgate da trajetória histórico- A análise do fator da identi- dos contrários: uma dicotomia cultural do povo rio-grandense. Em dade cultural permite a com- que permanece até os dias atuais. julho de 2001, período em que esta preensão da relação de valoriza- Tais fatores têm explicação na pesquisa foi realizada, além de ção que o público gaúcho mantém história: o Rio Grande do Sul foi passar as séries Mundo Grande do com seus canais locais de comuni- formado por muitas guerras, Sul, Contos de Inverno e Curtas cação como a TVCOM, que, por desenvolvendo no povo gaúcho Gaúchos, abria espaço, aos sábados uma forte identidade política e de apresentar uma programação à noite, para especiais de música valorização cultural. Os reflexos voltada às características regio- voltada à bandas e músicos da identidade cultural do Rio nais, assume um papel integrador gaúchos, com programas de duas Grande do Sul desempenham um com a comunidade. É por isso que horas de duração. papel relevante nos valores que os resultados da pesquisa enco- A TVCOM uma emissora local, conservam, e apontam índices, mendada pela emissora em maio mas que procura se comunicar com frutos da trajetória histórica, que de 2001, realizada pela .ocus os fatos de interesse da comuni- fazem os gaúchos adotar uma Consultoria, apresentam os dade gaúcha onde quer que eles postura de defesa e orgulho de seguintes dados: “Caráter local: estejam acontecendo. A emissora seus valores regionais. Hoje, o Rio .ala de Porto Alegre e o que passou a enviar equipes comple- Grande do Sul é o quarto maior acontece na cidade. Até a fala é tas para cobrir eventos fora da sua Estado do País e lidera alguns dos mais do gaúcho. A TV do nosso cidade, do seu estado e mesmo mais importantes índices sociais, estado, feita por pessoas do fora do país, para captar os fatos conforme dados divulgados no nosso estado. Conteúdo: É uma com a visão local. Nesse sentido, Jornal Meio & Mensagem (2000), TV culta. Sempre tem algo a emissora já foi à .rança fazer em edição especial sobre os diferente para ver. Relação com reportagens sobre a vinicultura gaúchos, entre eles estão: o cotidiano: Aborda assuntos da e ao Canadá e Nova Iorque para alfabetização (72, 81%); mortali- comunidade, do dia-a-dia. Os fatos acompanhar missões empresariais. dade infantil, expectativa de vida ocorrem hoje e hoje mesmo estão Realiza coberturas esportivas em e ingresso de jovens no terceiro sendo debatidos.” todo o Brasil e está presente em grau, por exemplo. Além disso, a Mas a TVCOM não está sozi- eventos de moda do país em que capital, Porto Alegre, tem as nha no mercado de comunicação há representatividade da indús- maiores taxas nacionais de local. Na TV paga existem ainda: tria gaúcha. 17 Entrevista concedida à pesquisa em agosto de 2001, Porto Alegre. 9 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Alexandre Oliveira (2001) 17 É através das operações de TV emissora com custos mais gerente de Marketing da RBS TV paga que se abre a perspectiva baixos. Este apresenta uma e TVCOM, enfatiza o enfoque da para incrementar a comunicação evolução planejada, guiada por TVCOM com essas coberturas: das comunidades, tanto através diagnósticos do mercado, diretriz “São curiosidades de interesse dos canais de acesso público básica que norteia a trajetória do para todas as regiões do Estado quanto dos canais locais co- grupo RBS que firmou um (...). Se tiver um evento mundial de merciais. conceito de comunicação local no cerveja, provavelmente a TVCOM Do sul para o nordeste, mudam Rio Grande do Sul e em Santa não vá porque nós não temos os costumes e o jeito de falar, mas Catarina. A empresa multimídia grandes cervejarias no Rio Grande alguns canais de TV local estão é a base de viabilização ao mo- do Sul, nós temos unidades fabris, conseguindo alçar vôos maiores, delo desenvolvido pela TVCOM. não temos tradição, mas se tiver apostando na cultura regional. A A RBS aproveitou os anos 80 para um de churrasco no Japão, nós existência desses canais é recente montar uma estrutura de rede vamos”. Essa é a diferença entre e não se tem praticamente nada regional de informação eficiente um conceito de localismo e o escrito. Não se sabe nem ao certo e com alto padrão de qualidade. conceito comunitário. Um sim- quantos existem. Eles estão A TVCOM nasceu de uma plesmente aborda assuntos da espalhados nas mais diversas vontade legítima da população de comunidade, o outro busca o operadoras em todo o país. Porto Alegre, que se sentia ca- conceito de atuação e envolvi- Um levantamento preliminar19 rente de informações locais nos mento em todos os segmentos, apontou que existem várias telejornais da própria RBS TV e se relacionando-se com todos os formas de funcionamento. A encaixou no projeto do grupo de investir em emissoras pelo siste- fatos de interesse. maioria dos canais locais comer- ma UH. e por assinatura. Intera- Por fim, o sucesso da TVCOM ciais é destinada à utilidade ção e participação ativa da comu- pode ser traduzido numa frase ‘caseira’, onde as operadoras nidade fazem o canal prosperar. citada pela coordenadora de aproveitam para comercializar O foco é estar presente no dia-a- produção do canal, Marlise os horários e aceitam materiais dia das cidades que fazem parte Salgado Aúde (2001) 18, aliás bem terceirizados. Poucas são as que da atuação. É a TV participando bairrista, característica da estão realmente estruturadas e da vida dos cidadãos. As ações identidade cultural do Estado: “É conseguiram avançar na comer- comunitárias ajudam a criar um o Rio Grande do Sul se olhando cialização além dos prejuízos. contato direto com o público e, na tevê e é por isso que dá certo”. O grande desafio reside na nesse sentido, a emissora gaúcha capacidade de conquistar a sabe muito bem como fazer. CONCLUSÃO comunidade, refletindo e melho- A TVCOM nasceu com a rando seu cotidiano, aspectos característica de ser uma emissora A sociedade planetária tem que transcendem a telinha. Mas, de jornalismo comunitário, nem levado as pessoas cada vez mais acima de tudo, precisam atrair tanto mostrando, mas debatendo à fragmentação, à solidão e à empresas locais e verbas regio- os problemas estruturais. Com o separação, mas, contraditoria- nais de grandes anunciantes tempo, mudou o enfoque para um mente, essa revolução científico- para sobreviverem. O principal conceito local, mais adequado ao tecnológica gera os meios para obstáculo é a operação em rede, seu tipo de funcionamento, criar um tipo de individualidade formatação da televisão brasi- visando atingir o público da TV mais rica e, ao mesmo tempo, mais leira, que drena os recursos pu- paga, classificado prioritaria- coletiva. Ela tanto pode separar blicitários para a comercializa- mente nas classes A/B. como unificar, integrar. Uma TV ção e produção no eixo Rio - São Apesar da forte abordagem local pode fazer o movimento Paulo. dos programas informativos, contrário a essa solidão do mundo O canal TVCOM de Porto jornalismo opinativo e serviços, moderno, porque integra com a Alegre, objeto deste estudo, tem a emissora não se considera comunidade, gera uma dinâmica um modelo considerado de apenas classificada no gênero de da cidadania, gera disputas excelência dentro das condições informação, mas também no de democráticas, colocando no palco existentes no país e consegue, entretenimento, isso porque apre- pontos de vista diferentes a através do aparato de mídias do senta programas que misturam respeito de tudo. grupo RBS, fazer funcionar a informação com descontração. 18 Entrevista concedida à pesquisa, julho de 2001. 19 Levantamento feito em algumas operadoras de TV a Cabo e junto ao material publicado no artigo: POSSEBON, S.; RAMOS, R. Tornar canal local atraente é deságio para novos players. Revista Pay-TV. São Paulo, v. 7, n. 74, set. 2000. 10 julho/dezembro-2002
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    Artigo É uma emissora que não cobre rentes setores sociais, consti- estabelecer laços de afeição com somente os fatos que acontecem tuindo-se uma arma de valoriza- a comunidade. De outro lado, é no Estado, mas também procura ção da identidade cultural local. mais um negócio que já tem o informar os gaúchos dos aconte- Através da sua programação, tamanho de um mercado, já cimentos relativos à sua econo- consegue respeitar as caracterís- competindo em faturamento com mia e sua cultura, provenientes ticas culturais locais, proporcio- algumas das emissoras de sinal de onde estiver a notícia. nando mais espaço para o aberto de Porto Alegre. Pela observação direta na aprofundamento das questões. O A comunicação local, seja ela programação, foi possível detectar grande diferencial está na disponibilizada pelo acesso aos que a identidade cultural local, seja liberdade de ter à disposição 24 canais públicos ou pelos comer- ela expressa através da música, da horas de programação, podendo ciais, em geral, tem representado arte, da política, da economia, do realizar programas e coberturas um ganho nas comunidades esporte, é retratada na TVCOM. em que as outras redes ficam locais. Mas é como Daniel Herz, Muitos são os programas que limitadas pelo tipo de funciona- em entrevista, colocou: não é a buscam dar espaço e abordagem mento. A programação difere na alternativa, é uma das alterna- a esses aspectos. abordagem, mas não na apuração, tivas para o planejamento equili- A emissora não é comunitária isso porque é realizada por brado da comunicação no Brasil: na acepção da lei e nem no que profissionais multimídias e segue A comunicação local não é uma se refere aos fatores sociológicos as orientações básicas para todos panacéia que vai resolver o pro- porque limita o acesso e a partici- os veículos do complexo RBS. blema da comunicação no país ou pação, mas cumpre com sua pro- Verificou-se, ainda que empiri- que vai democratizar a comuni- posta de ser comunitária no que camente, que o canal é um forte cação. O ideal é formatar um pode se referir a uma emissora instrumento de reforço institu- equilíbrio entre as emissoras com comercial. Ela atende a uma cional da imagem da empresa programações nacional, regional comunidade geográfica, abrindo perante o mercado. A filosofia de e local (...). É preciso ter janelas espaço para a expressão dos dife- valorização do local colabora para para a rua e para o mundo. RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS AZEVEDO, T. Gaúchos: a fisionomia ESPECTADOR quer ver a comunidade PERUZZO, C. M. K. Globalização da social do Rio Grande do Sul. 2. ed. na tevê. Zero Hora, Porto Alegre, 21 mídia e a comunicação Salvador: Progresso, 1958. jun. 1995. p. 59. Geral. comunitária. Revista Interface, U.ES, Vitória, v. 1, n. 1, p. 59-64. HOINE.., N. A nova televisão: mar. 1996. BO..ETTI, V. A. Canais desmassificação e o impasse das comunitários: construindo a grandes redes. Rio de Janeiro: TVCOM entra hoje no ar. Zero democracia na TV a cabo.1999. Hora, Porto Alegre, 15 mai. 1995, Comunicação Alternativa : Dumará, Dissertação (Mestrado em p. 1. Segundo Caderno. 1996. Comunicação Social) - ESPECTADOR quer ver a Universidade Metodista de São LOPES, V. TV comunitária vai ao ar comunidade na tevê. Zero Hora, Paulo, São Paulo, 1999. em maio. Zero Hora, Porto Alegre, Porto Alegre, 21 jun. 1995, p. 59. 18 abr. 1995, p. 4. Geral. ENCONTRO discute o futuro da MEIO & MENSAGEM. Gaúchos ENCONTRO discute o futuro da televisão. Zero Hora, Porto Alegre, projetam 2001. São Paulo, 11 dez. televisão. Zero Hora, Porto Alegre, 31 mai. 2000. p. 40. 2000. Edição especial. 31 mai. 2000, p. 40. 11 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo A INFLUÊNCIA DAS CHUVAS NA CIRCULAÇÃO DOS JORNAIS DE MANAUS Gilson Monteiro Professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre (FEA-USP) e doutor (ECA-USP). Autor do livro “(Des)vantagem competitiva e (In)diferenciação estratégica” (São Paulo: Edicon, 1999), dentre outros. R E S U M O ABSTRACT Este artigo é a síntese de um dos capítulos da This article is the synthesis of the one of the tese “Por um clique: o desafio das empresas chapters of the thesis “.or a click: the challenge jornalísticas tradicionais no mercado da of the traditional journalistic companies in the informação – Um estudo sobre o posicionamento information market – A study about journalistic das empresas jornalísticas e a prática do companies position and jornalism practice the practice of the journalism in nets, in Manaus”, it jornalismo em redes, em Manaus”, defendida em was defended in March of 2003, in the Escola de março de 2003, na Escola de Comunicações e Comunicações e Artes da Universidade de São Artes da Universidade de São Paulo. O capítulo Paulo. The chapter was increased to the thesis foi acrescentado à tese por se tratar de uma because it deals about the most interesting descoberta de pesquisa das mais interessantes: research discovery: the rains get to tempt the as chuvas chegam a provocar a diminuição de decrease up to 40% in the circulation of the até 40% na circulação dos jornais. newspapers. PALAVRAS-CHAVE: jornalismo, marketing em KEYWORDS: journalism, marketing in journalism, jornalismo, logística. logistics. 12 julho/dezembro-2002
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    Artigo 1 INTRODUÇÃO Benchimol (1977) chama a Com esse tipo de vivência, o atenção para o regime de en- caboclo que mora no Amazonas A logística, estrutura básica que chente e vazantes, conhecido na torna-se capaz até de conhecer o garante a circulação de jornais, no região como “regime das águas”, comportamento do clima na Amazonas, é mais complicada que que determina, basicamente, a região. Assim, sabe que de julho em qualquer outra região do País. ocupação das áreas e o trabalho a dezembro é a época de vazante O ciclo das águas é determinante desenvolvido pelo homem ama- do rio. E em época de vazante do para garantir uma estrutura de zônico. O que o autor não vislum- rio, é, também, a época do verão transporte mais eficiente ao brou à época, e nem poderia, era amazônico. Logicamente, na homem da Amazônia. A água é de que o regime das águas, que tem época do verão, as chuvas são suma importância, não apenas relação com as épocas de chuvas mínimas. Ora, quando o tempo como elemento essencial à vida. e secas na região, também teria muda, na época do verão, na noite No Amazonas, a água é parte da influência na atividade empresa- anterior, é possível que se acerte vida não apenas como alimento. A rial jornalística na região. Para ele, se vai chover ou não no dia função do rio, por exemplo, não é o homem da região “aproveita e seguinte. No entanto, essa não é apenas garantir a sobrevivência do se acomoda à falta de um uma verdade absoluta. Pode-se Amazônia, através da pesca, mas, equipamento cultural civilizador, afirmar, porém, que o homem ou de uma técnica adiantada de sobretudo, interligar-se numa amazônico tem consciência da exploração ou de economia para malha de transporte, se não rápida, importância de se conhecer o ciclo reagir às sugestões e imposições mas eficiente, pois interliga todos das águas para a economia do do meio”. os 62 municípios do Estado. Mas, Amazonas. Benchimol (1995, No caso das empresas jornalís- qual a relação dos rios, das águas, p.71) diz que o ciclo das águas ticas, ainda que haja técnicas com a circulação de jornais em avançadas de análise e observações determina até questões ligadas ao Manaus e no Amazonas? climáticas, o regime das águas é vocabulário: “O ciclo geográfico Por se tratar de um produto fator determinante na circulação que o rio atravessa, marcado pelo perecível, cuja durabilidade de jornais: enquanto uma das nível das águas, repiquetes, máxima é de 24h, o jornal não se empresas jornalísticas de Manaus enchentes, alagações, vazantes: beneficia muito da malha fluvial usa um software interconectado água-nova, meia água, água- do Amazonas. A distribuição de ao Instituto Nacional de Meteoro- curta, água-seca influencia e jornais, basicamente, é feita aos logia (INMET) para determinar a transforma o comportamento de municípios que possuem acesso diminuição ou não do número de todas as atividades da hinter- através de transporte terrestre jornais que vai para as ruas, em lândia. Não só do homem do ou aéreo. Dessa forma, as outra empresa, o responsável pela interior, a cidade também a ela empresas jornalísticas pouco circulação “olha para cima”, na está sujeita quando sente a falta podem se beneficiar do navio, noite anterior, e sabe se vai da água na torneira, porque o rio por exemplo, considerado por chover ou não no dia seguinte. ficou abaixo da tomada da água Samuel Benchimol (1995), de do bombeamento, ou porque a importância tão ímpar que o 2 A CULTURA DA chuva e a cheia alargaram o homem do Norte, talvez, seja PREVISÃO DO TEMPO igarapé e encharcaram as suas incapaz de viver sem ele: “Navio casas, desabaram o barranco e as Aos olhos de quem vive fora é como gente. Tem nome, enxurradas afundaram o leito das da região, prever o tempo apenas número e domicílio. Sendo como suas ruas e becos”. ao olhar para as nuvens pode gente, navio tem também vida, Ele continua: “A própria terra parecer absurdo. No entanto, há com direito a batismo, padrinho, uma explicação sociológico- arranjou uma nomenclatura que se enredo, romance e drama. E cultural para esse tipo de acomoda a esse regime: várzea e mais: como ´persona nauta´ é comportamento na Amazônia. igapós, terra inundada, tesa e terra valente nas tormentas e procelas, Benchimol (1977, p.88) reitera firme. O próprio rio, também, prudente nas águas fundas e que para conhecer o caboclo “é participa dessa toponímia: altos, mansas para ter direito a ventos preciso ter uma íntima associação médios e baixos-rios a denunciar o favoráveis, bom destino e porto com sua cultura, morar na sua nível da terra em função da altura seguro. Dependendo do tamanho casa, dormir em sua rede, dançar e do alcance das grandes cheias e e das acomodações, qualifica-se nas suas festas, ver o seu das praias das longas secas de segundo a sua classe, uso e trabalho, respirar o mesmo ar, verão. ‘Águas de março’, ‘abril- destino, longo curso, cabotagem, comer da sua cozinha e até amar chuvas mil’, agosto, mês de navegação lacustre e fluvial”. as suas garotas”. calorão e desgosto”. 13 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo 3 A CHUVA COMO Manaus, até como fonte de em torno de 7 a 8%. Mas o ideal, PROTAGONISTA DA “abastecimento” de uma coluna para qualquer circulação do Brasil, NOTÍCIA diária. Curiosamente, porém, é que você trabalhe com 9%”. O No Amazonas, o ciclo das águas nunca se estudou ou se ensinou, gerente de circulação diz que determina o que se vai plantar, o nos cursos de Comunicação alcança esse objetivo, nem que que se vai comer e os trabalhos Social, em Manaus, que o ciclo das para isso tenha que trabalhar o que podem ser feitos. A chuva, em águas também determina a encalhe nos outros dias. “Lógico Manaus, tem tanta importância e quantidade de jornais que vai que tem aquele dia, por exemplo, influencia sobremaneira o compor- circular no dia seguinte. Esse fato que choveu. Aí o encalhe vai dar tamento dos habitantes da cidade revelou-se uma importante desco- 15%, 16%. Aí, nos outros dias, eu que se transformar em notícia, berta de pesquisa. vou ter que trabalhar o encalhe, ainda que seja amena. No dia 21 O gerente de circulação do que a gente chama de trabalhar o de outubro de 2002, por exemplo, jornal A Crítica, Herval Tapajós encalhe para reduzir. Reduzir para na coluna Sim e Não, o jornal A .olhadela (2002), revela que a a média geral do mês”. Crítica publicou a nota “Chuva e empresa não possui nenhum tipo Em outro momento, .olhadela paz” que dizia: “O fim de semana de software para gerenciar a reduziu para 10% o encalhe nos em Manaus foi marcado pela previsão do tempo, mas diz que dias de chuva. “Por exemplo, a chuva intermitente e clima todo dia verifica qual é a previsão nossa tiragem é 27 mil, eu vou ameno. Poucas pessoas se do tempo para o dia seguinte: tirar uma base de 3 mil jornais. aventuraram a sair de casa, “Por exemplo, nessa época, nem Lógico que a assinatura é fixa. A temendo os humores do clima. A tanto, porque essa época é verão, assinatura são 7 mil fixos. Mas solidão das ruas trouxe paz para então, praticamente, até agora eu fico trabalhando nesse percen- a cidade. A não ser por um ou não teve nenhum dia de chuva. tual, 10%, pela pouca experiência outro caso fortuito, reinou a Então, eu não me preocupo muito que eu tenho, é o ideal”. O jornal tranqüilidade. Em dez delega- com isso nessa época. Agora A Crítica não possui um software cias de polícia ouvidas pela repor- naquela época ali, de Abril, de gerenciamento das chuvas, tagem de A Crítica, a resposta Junho, que é o período de chuva, mas tem um software próprio de era a mesma: “Tá tudo tranqüilo. aí sim, você trabalha a tiragem. acompanhamento da circulação, É por causa da chuva. Parodiando Não adianta você colocar o jornal que auxilia nas tomadas de deci- o célebre poema de Thiago de na rua em dia de chuva que você sões relacionadas à diminuição Melo, podemos dizer: ´.az chuva, sabe que esse jornal vai voltar de do número de jornais que irá cir- mas eu canto´”. encalhe”. cular, em função das chuvas. Como se percebe pela nota, a Para .olhadela, o jornal, em .olhadela não faz um acompa- chuva interfere até nas ações dos dias de chuvas, aumenta o nhamento detalhado do clima. marginais quanto mais na encalhe independentemente da Ele explica: “O que eu estou circulação de jornais. No dia 25 manchete. Ele explica o procedi- fazendo é justamente assim. O de outubro de 2002, nova nota mento nos dias de chuva: “Você sistema GEAC proporcionou, aqui sobre a chuva. Dessa vez, porém, vai e diminui um pouco. Agora, para a Gerência de Circulação, com um título diferente: “Chuva lógico que é muito difícil você ter buscar como foi o mês de março e frio”. No dia 16 de novembro de um acompanhamento correto, às de 2001. Aí eu vou pegar aquele 2002, outra vez a chuva é a vezes a previsão é de chuva mapa e vou verificar quantos dias principal fonte da notícia. Dessa vez, em uma matéria publicada na amanhã, mas isso não quer dizer no mês de março choveu. É mais página de “Cidades”, cujo título que vai chover de manhã. E a ou menos esse acompanhamento era “.eriado com chuva desanima força da venda do jornal é que nós temos hoje. Agora, um manauenses”. O curioso é que a justamente de 6h às 10h da acompanhamento assim mais matéria registra “A forte chuva manhã. É nesse período que você detalhado fica mesmo só em que atingiu Manaus...” e “O céu vende jornal. É lógico que tem torno da previsão do tempo, se vai nublado e a chuva deixou...” mas banca que fica até 10h , meia- chover, se não vai”. a fotografia é de mulheres noite e você vai deixar o teu .olhadela diz que o ideal seria tomando banho de sol. jornal lá também”. a empresa possuir um software Em A Crítica, nos dias normais, de gerenciamento do clima: 4 A CHUVA E A o encalhe é de 7 a 8%. “O ideal é “É o ideal. Isso aí seria o ideal. CIRCULAÇÃO DOS JORNAIS que dê sempre menos de 9%. Eu Porque você evita estragar papel, Como se vê, a chuva é de suma trabalho com um encalhe, eu ainda mais que o papel é em importância para o jornalismo em como Gerente, Herval, trabalho dólar, então, quanto mais encalhe 14 julho/dezembro-2002
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    Artigo voltar para dentroda empresa é trabalha, basicamente, com assina- que é o Instituto Nacional de porque você está estragando turas, de acordo com o Secretário Meteorologia. Nós trabalhamos papel. Esse é o papel principal do de Redação do jornal, Eustáquio muito com ele para trabalhar com gerente de circulação: é controlar Libório Gomes (2002). O jornal a circulação no dia posterior. o encalhe. Tentar vender a maior Diário do Amazonas, que não tem Então, dependendo do que vem a quantidade possível de jornais, na site na Internet, levou em conta ser a previsão do tempo, nós rua, mas não perder de foco o até a questão do inverno amazô- aumentamos ou diminuímos a encalhe”. nico para adiar o retorno do site à circulação”. O jornal Amazonas em Tempo Internet, como explica seu vice- De acordo com seu vice- também não possui um software presidente, .rancisco Cirilo Anun- presidente, o jornal Diário do para gerenciar a questão climá- ciação Neto (2002): Amazonas circula, em média, tica, ou seja, da previsão do “Quando foi a época, nós entre 18 e 22 mil jornais, nos dias tempo. O Supervisor de Circulação estamos agora em maio, quando de semana. Nos dias de chuva, a do jornal, Aderaldo Vasconcelos foi a época de novembro, dezem- tiragem do jornal cai 30%, indo de .erreira (2002), revela que o bro, nós decidimos colocar o site e 15 a 17 mil jornais. Mas esse não gerenciamento foi todo progra- tal, fizemos contrato com o Portal é o único problema provocado mado por ele. “É porque a minha Amazônia para colocarmos o site, pela chuva, segundo Anunciação área é processamento de dados. entretanto tivemos um receio. Nós Neto: “É o seguinte, a chuva não Então, eu tenho o meu sistema. estávamos no inverno amazônico. atrapalha só a venda, ela atrapa- Então, eu controlo tudo. É meu. Eu Você sabe que os jornais em lha também a distribuição. Nós criei o software: tem planilha, janeiro, fevereiro e março têm temos uma circulação hoje, no jor- tudo, gráfico. Antes isso aqui não uma retração nas suas vendas. nal, voltada muito para a diminui- era informatizado. Eu informatizei Natural, em decorrência das ção de custos e trabalhada muito tudinho”. chuvas. Da época de chuvas. Então, em cima de geoprocessamento. O controle da chuva não é feito nós ficamos com uma outra Então, nós trabalhamos hoje com questão também que não tínha- 34 rotas de distribuição do jornal através de nenhum software nem mos como avaliar: se a entrada em motos. Nós não temos distri- com base em nenhum convênio do site na Internet diminuiria o buição em Kombis, em carros, em com instituto. É feito somente nosso público-alvo, ou seja, vendas nenhum tipo de veículo de quatro com base nos conhecimentos do em bancas”. rodas. Nós trabalhamos apenas próprio Supervisor de Circulação Anunciação Neto explica que com motos, por causa do custo. O do jornal. É “na minha tese mesmo. nos meses de janeiro, fevereiro nosso jornal é R$ 0,50 e, então, Porque eu já conheço o tempo. Por e março há uma retração natural isso dificulta para o distribuidor, exemplo, aqui, Gilson, só para te nas vendas dos jornais, em que ganha apenas 10% em cima dizer, à noite, a gente olha para o bancas, em função das chuvas. do jornal”. céu e já sabe quando vai chover, Essa retração nas vendas varia de Ele acrescenta: “Há de se quando não vai. Você, já acostu- 10 a 25%. “Você conhece o nosso salientar que a gente faz o jornal mado aqui, trabalho, aquela rotina aspecto climático, aqui. Sabe que, mais barato do país em termos de de trabalho, já conhece”. Ele re- às vezes, quando cai uma tempes- qualidade e tiragem. Vou te dar só velou que quando sabe que em tade muito forte, é impossível até um exemplo: o Liberal, de Belém, um bairro está chovendo, trans- você sair de casa. Quanto mais está trabalhando com o preço de fere a circulação de jornais para comprar o jornal. E você tem um capa de R$ 1,70. E o nosso projeto outros bairros. problema muito grave: a maioria é um projeto popular, um projeto Nos dias normais, o encalhe do das chuvas dessa época está em todo mundo, e isso eu vou falar jornal Amazonas em Tempo varia localizada no período de 2h até às também para ti, no âmbito de 28 a 30%. Nos dias de chuva, a 10h da manhã”. Internet, para colocar uma outra circulação diminui entre 12 e 15%. O executivo acrescenta que o pulga atrás da tua orelha, pra tu .erreira comenta: “Eu diminuo acompanhamento do clima e dos também fazeres um outro tipo de entre 12 e 15%. Porque são aqueles impactos desse na circulação do pesquisa, mas no jornal popular, pontos em que as pessoas ficam jornal é feito diariamente e com uma das características principais nos cruzamentos. Aí, puxa, eu não base em pesquisa: dele e está 50% do preço de capa vou colocar gente pegando chuva “Nós temos pesquisas para mais barato do que o jornal dito direto, vendendo jornal”. isso. A pesquisa que a gente faz tradicional. No caso aqui, nós temos O Jornal do Commercio não disso daí é o acompanhamento hoje um concorrente nosso que é A gerencia a questão da chuva, pois diário da circulação e do INMET, Crítica. A Crítica hoje está R$ 1,00 15 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo e os jornais do resto do país estão inverno amazônico, aí já vamos “Principalmente em Brasília, que trabalhando, no mínimo, com a entrando, mês de maio é o último nós temos uma sucursal, com faixa de R$ 1,50. Tu tens aí o mês de chuvas. Na metade de repórter, com diretor. Então, lá tem Liberal, já do lado, a R$ 1,70. Dado junho para lá você já vai ter nosso que ter A Crítica para distribuir aí a última taxa de aumento do insuportável verão amazônico que para os gabinetes dos políticos. É dólar, o dólar nos últimos semes- aí as chuvas já são extremamente justamente para isso. O impor- tres influi diretamente no papel, na escassas”. tante não é nem a venda. O chapa e no filme. Tinta, químicos Percebe-se que o ciclo das importante é A Crítica estar lá”. são os insumos básicos para a águas não influencia apenas a Só nas bancas de Manaus, de produção gráfica do jornal. Então, produção, a cultura e a economia acordo com .olhadela, o jornal A eles têm uma incidência desigual”. do homem que habita o beiradão Crítica venderia entre 18 e 20 mil O desafio do jornal Diário do dos rios. Com a escassez das exemplares por dia. Ao falar sobre Amazonas, então, é manter o chuvas, a partir de maio, o mer- as máquinas do jornal, o Diretor preço. Mas, como manter o preço? cado de jornais começa a viver o Industrial de A Crítica, Aroldo A resposta é dada pelo próprio momento de reaquecimento das Caminha (2002), contribuiu para Anunciação Neto: “Como manter vendas. Esse reaquecimento das ressaltar a contração entre os o preço? Aí é uma das nossas vendas em bancas, porém, não número da circulação do jornal: técnicas. Nós temos hoje uma faixa significa muito no faturamento “A Crítica chegou a vender 87 mil de encalhe de 6% apenas de jornal. das empresas. jornais aos domingos e vendia 36 Nós trabalhamos com um software, mil na semana. Quando essa o mesmo software do jornal O 5 SEGREDOS E CONTRADIÇÕES máquina entrou aqui (a nova Globo e da maioria dos grandes máquina), ainda vendia 32 mil jornais do País, que é o software O reaquecimento do mercado jornais na semana. Agora está Circulação 2000, fabricado por de jornais, em Manaus, não vendendo 22 mil”. uma empresa chamada CWA, que significa transparência em relação O diálogo a seguir, travado é de programadores do próprio O à circulação. Os números reais entre o pesquisador, o Superinten- Globo, e esse software faz uma sobre a circulação de jornais dente da Rede Calderaro de tiragem extremamente técnica, parecem ser um segredo de Comunicação, João Bosco Bezerra calculada com base nas vendas do estado, ou o são, no mínimo, de Araujo (2002) e a vice- jornal e no encalhe de jornais. contraditórios. Em primeiro lugar, presidente da Rede Calderaro de Então, ele faz um trabalho todo de nenhum jornal é associado ao Comunicação, Tereza Cristina estatística em cima desse software, Instituto Verificador de Circulação Calderado Corrêa (2002), ilustra aliado com outros fatores como (IVC) ou a qualquer outro instituto bem a dissonância entre os matérias de maior impacto que vão que fiscalize a circulação com a números da circulação dentro da ser lançadas na edição, bem como isenção necessária. Com isso, fica- própria empresa. o aspecto climático”. se sem saber em quem acreditar. A questão climática, no Diário O gerente de Circulação do – Quanto A Crítica circula? São do Amazonas, determina até a jornal A Crítica, Herval Tapajós números que podem ser entrada em vigor das promoções: .olhadela, por exemplo, revela: divulgados? “Nós acompanhamos todo dia aí o “A nossa tiragem hoje, dia de – (João Bosco) Divulga, Cristina? INMET para saber a questão semana, de segunda a sábado, fica, – (Cristina) Terça-feira, 25 mil, climática. Há de se salientar que em média, 25 a 27 mil. Sendo que é o dia mais fraco, depois, nos o INMET acerta aí em torno de 90% 70 a 80%, dependendo muito da três dias da semana ficam dos seus prognósticos. É uma manchete, fica todo aqui na capital, entre 28 e 29 mil, depen- ferramenta importantíssima. E em Manaus. Nós temos, dentro dendo. também um fator que nós usamos desses 27 mil, 7 mil assinantes e o – (João Bosco) Trinta. mais em um jornal popular que é que sobra e distribuído para o a questão das promoções. Nós interior e para os outros estados. É – (Cristina) Hoje, por exemplo, estamos hoje vivendo a promoção pouquinho. Nos outros estados fica nós aumentamos 60% na “Na Copa com o Diário”, que é levar em torno de 1 mil jornais, divididos tiragem. No domingo, 50, 55 mil. um leitor nosso à Copa. Então, entre São Paulo, Rio, Brasília, naturalmente, nós fizemos essa .ortaleza e Boa Vista”. – Esse aumento é em função do promoção já em cima do nosso Os 1.000 jornais enviados a fato jornalístico? cronograma que já é do reaque- outros estados, segundo o – (Cristina) Até o tempo. cimento. Nós estamos no final do gerente, são para marcar presença. Climático. 16 julho/dezembro-2002
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    Artigo – (João Bosco)Se não chove, a iluminar a escuridão relativa à Gazeta Mercantil, de um total manchete. circulação de jornais em Manaus. geral de 6.224 exemplares. .oram – (Cristina) Agora, Semana da As pesquisas foram realizadas vendidos 2.400 exemplares do Pátria, edições um pouco pela empresa Perspectiva no dia jornal A Crítica, 2.187 do jornal mais reduzidas. Por quê? 19 de junho, uma terça-feira, e no Diário do Amazonas, 225 do jornal Porque tem .ecani (.estival dia 16 de julho, uma segunda- Amazonas em Tempo, 40 do Jornal da Canção de Itacoatiara), feira. Há que se esclarecer ainda do Commercio e 12 do jornal .estival de Verão em que, na segunda-feira, o jornal A Gazeta Mercantil. Manacapuru. Crítica não circulava há anos e o Esses números revelam que Já o diálogo com o Supervisor jornal Amazonas em Tempo o jornal A Crítica vendeu 80,7% de Circulação do jornal Amazonas mantém a tradição de não circular. dos exemplares deixados nos em Tempo, Aderaldo Vasconcelos De terça-feira a domingo todos os pontos de vendas; o jornal Diário .erreira (2002) revela que jornais que fazem parte desta do Amazonas vendeu 78,1%; o naquela empresa os números da pesquisa circulam normalmente. Amazonas em Tempo vendeu circulação são tratados como Os dados aqui apresentados não 70,8%; o Jornal do Commercio segredos de estado. desvendam os segredos nem são vendeu 59,7% e o jornal Gazeta capazes de dirimir as dúvidas e Mercantil, 52,2%. Isso significa – E quanto circula: venda contradições a respeito da que, no dia 19 de junho de 2001, avulsa, assinatura? Tu podes circulação de jornais em Manaus. o encalhe de cada um dos jornais me dar esses dados? No entanto, apontam indicadores que fazem parte desta tese, foi – (Aderaldo) Não. Esses dados, do comportamento das vendas muito maior do que o que não. Em termos assim de dos jornais em pontos de vendas revelaram seus executivos. tiragem não. Aí tens que falar fixos. Naquela data, por exemplo, o com a diretoria. Eu não estou Na pesquisa referente ao dia encalhe de A Crítica foi de 19,3%, autorizado a passar isso. 19 de junho de 2001,* seis o do Diário do Amazonas foi de – Não dá para passar esse pesquisadores da empresa Pers- 21,9%; o do Jornal do Commercio número da circulação. pectiva estiveram em 167 pontos de 40,3% e da Gazeta Mercantil de – (Aderaldo) Não. Esse, não. fixos de vendas de jornais em 47,8%. Dos 6.224 exemplares seis zonas da cidade de Manaus. recebidos nos pontos de vendas, – Tem que falar com a Os pesquisadores tinham uma foram vendidos 4.894 exemplares. Hermengarda? planilha preparada especifica- Em números percentuais, foram – (Aderaldo) Isso. mente para anotar quantos vendidos 78,6% dos exemplares Segundo Anunciação Neto exemplares dos jornais A Crítica, recebidos de todos os jornais. Isso (2002) o jornal Diário do Diário do Amazonas, Amazonas significa que o encalhe médio de Amazonas circula de 18 a 22 mil em Tempo, Jornal do Commercio todos os jornais de Manaus nos jornais durante a semana. Quem e Gazeta Mercantil eram pontos de vendas, naquele dia garante, porém, que todos os recebidos nesses pontos de ven- pesquisado, foi de 21,4%, número números relativos à circulação de das. Depois, anotavam quantos quase três vezes maior do que o jornais, em Manaus, não estejam exemplares dos respectivos encalhe médio de 6 a 9% revelados inflados? Durango Duarte, jornais foram vendidos. Para pelos executivos das empresas diretor-presidente da empresa de efeito de pesquisa, a empresa jornalísticas de Manaus. pesquisa Perspectiva diz que, tomou como pontos fixos de Para efeito de projeção, a juntos, os quatro jornais de vendas as lojas de conveniência, empresa Perspectiva calcula que Manaus não chegam a circular os pontos de vendas avulsas e as todos os jornais de Manaus, com 50 mil exemplares durante bancas de jornais. Não fizeram juntos, nos pontos fixos de a semana. Aliás, para efeito de parte da amostra os jornais vendas na cidade, vendem, diaria- pesquisas relativas ao market vendidos pelos jornaleiros, no mente, 25 mil exemplares. Com share, a Perspectiva trabalha trânsito, nem as assinaturas. base nesse número, pode dizer sempre com a projeção de que Os pontos de vendas rece- que, de terça-feira a sábado, o todos jornais de Manaus, em beram 2.975 exemplares do jornal jornal A Crítica venderia, nos conjunto, nos dias de semana, A Crítica, 2.799 do jornal Diário pontos fixos, 12.250 exemplares, vendem 25 mil exemplares. do Amazonas, 360 do jornal o Diário do Amazonas, 11.175; o Duas pesquisas realizadas pela Amazonas em Tempo, 67 do Amazonas em Tempo, 1.300; o empresa Perspectiva podem Jornal do Commercio e 23 da Jornal do Commercio, 200 e o * Os dados aqui apresentados foram gentilmente cedidos pela empresa de pesquisa de Mercado Perspectiva e fazem parte do seu banco de dados. 17 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Gazeta Mercantil, 75 exemplares. vendeu 82,1%, o Jornal do ao falar do encalhe, os números São números, também, muito Commercio 43,2% e a Gazeta foram muito abaixo dos números mais modestos do que os Mercantil vendeu 43,5% dos levantados pela empresa Pers- revelados pelos executivos das exemplares deixados nos pontos pectiva, nos dias em que as empresas jornalísticas tradicio- de vendas fixos. Novamente, às pesquisas foram realizadas. nais de Manaus. segundas-feiras, o encalhe de Isso indica uma total falta de A segunda-feira é um dia jornais é maior do que os números transparência das empresas considerado atípico no jornalismo revelados pelos executivos das jornalísticas tradicionais de de Manaus. Por isso, a empresa empresas. Manaus. .ica no ar, a suposição Perspectiva utilizou a mesma O encalhe de A Crítica foi de de que os administradores escon- metodologia em 147 pontos fixos 17,5%, do Diário do Amazonas de dem os números relativos à de vendas, no dia 16 de julho de 17,9%, do Jornal do Commercio circulação de jornais para enganar 2001, uma segunda-feira. Nesse de 56,8% e da Gazeta Mercantil ou os anunciantes ou os leitores. dia, os pontos de vendas de 56,5%. Como foram vendidos Ou, quem sabe, enganar anun- receberam 3.532 exemplares do 6.096 exemplares dos 7.440 ciantes, leitores e a si próprios. jornal A Crítica, 3.841 do jornal exemplares deixados nos pontos Os números da pesquisa também Diário do Amazonas, 44 do Jornal fixos de vendas, isso significa podem ser comparados aos que o encalhe médio dos jornais números relativos à diminuição da do Commercio de 23 da Gazeta de Manaus às segundas-feiras é circulação dos jornais, nos dias de Mercantil. O jornal Amazonas em de 18,1%, pois foram vendidos chuva. Talvez não se chegue aos Tempo não circula às segundas- 81,9% dos jornais deixados nos 40% divulgados por um dos feiras. Os pontos de vendas entrevistados nem aos 10% de receberam um total de 7.440 pontos de vendas. outro. É certo, porém, que a chuva exemplares de jornais. diminui, e muito, a circulação de .oram vendidos 2.914 exem- CONCLUSÕES jornais. Com isso, a administração plares de A Crítica, 3.153 Ainda que os números levan- profissional desse encalhe pode exemplares do jornal Diário do tados pela empresa Perspectiva diminuir os custos de circulação Amazonas, 19 do Jornal do sejam relativos a apenas um dia dos jornais nos dias de inverno. E Commercio e 10 da Gazeta de vendas nos pontos fixos, um dos jornais comprova que Mercantil. Isso significa que A pode-se concluir que, em relação esse controle pode ser feito Crítica vendeu 82,5% dos às vendas, os números divulga- através de um software que o exemplares deixados nos pontos dos pelos executivos dos jornais mantém ligado ao INMET 24 horas de vendas, o Diário do Amazonas foram inflados. Por outro lado, por dia. RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS ANUNCIAÇÃO NETO, .. C. B. . __________. Amazônia: um Entrevistador: Gilson Vieira .rancisco Cirilo Batará poucoantes e além-depois. Manaus: Monteiro. Manaus: USP, 2002. Meia Anunciação Neto: depoimento. Umberto calderano, 1977. fita cassete (30 min), 3 ¾ pps [maio.2002]. Entrevistador: Gilson estéreo. Entrevista concedida ao Vieira Monteiro. Manaus: USP, 2002. CAMINHA, A. Aroldo Caminha: projeto “Por um clique...”. Meia fita cassete (30 min), 3 ¾ pps, depoimento. [mai. 2002]. estéreo. Entrevista concedida ao Entrevistador: Gilson Vieira .OLHADELA, H. T. Herval Tapajós projeto “Por um clique...”. Monteiro. Manaus: USP, 2002. Meia .olhadela: depoimento. ARAÚJO, J. B. B. João Bosco fita cassete (30 min), 3 ¾ pps, [ago.2002]. Entrevistador: Gilson Bezerra de Araújo: depoimento. estéreo. Entrevista concedida ao Vieira Monteiro. Manaus: USP, [set. 2002]. Entrevistador: Gilson projeto “Por um clique...”. 2002. Meia fita cassete (30 min), Vieira Monteiro. Manaus: USP, 3 ¾ pps, estéreo. Entrevista 2002. Meia fita cassete (30 min), CORRÊA, T. C. C. C. Tereza Cristina concedida ao projeto “Por um 3 ¾ pps, estéreo. Entrevista Calderaro Corrêa: depoimento: clique...”. concedida ao projeto “Por um [set.2000]. entrevistador: Gilson clique...”. Vieira Monteiro. Manaus: USP, 2002. GOMES, E. L. Eustáquio Libório BENCHIMOL, S. Navegação e Meia fita cassete (30 min), 3 ¾ pps, Gomes: depoimento. [fev.2002]. transporte na Amazônia. Manaus: estéreo. Entrevista concedida ao Entrevistador: Gilson Vieira Governo do Estado: Universidade projeto “Por um clique...”. Monteiro. Manaus: USP, 2002. Meia do Amazonas: Associação fita cassete (30min), 3 ¾ pps, Comercial do Amazonas. 1995. .ERREIRA, A. Aderaldo Vasconcelos estéreo. Entrevista concedida ao p. 10 . [Edição Reprográfica]. .erreira: depoimento.[ago. 2002]. projeto “Por um clique...”. 18 julho/dezembro-2002
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    Artigo OUTDOOR BAIANO: UMA MÍDIA QUE FUNCIONA Maria Amélia Chagas Gaiarsa Professora da Universidade de Salvador (Bahia) e Doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia. R E S U M O ABSTRACT Este artigo trata do outdoor no Brasil, especifica- This essay deals with billboard in Brazil, mente na Bahia, com o objetivo de mostrar como e especially in Bahia, and it aims at showing how por que essa mídia deu certo em Salvador. and why these media have been successful in Destacam-se aqui o contexto e a criatividade das Salvador. Context and criativity of these peças, aspectos responsáveis pelo seu sucesso. billboards are responsible for their success. PALAVRAS-CHAVE: outdoor, cartaz de rua, KEYWORDS: outdoor, billboard, media. mídia. 19 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo OUTDOOR: Deixa-me gritar! Xarope São João, crise econômica da época favo- HISTÓRIA E CONTEXTO contra tosse e bronquite produz receu a expansão dessa técnica alívio imediato” (apud Sabadin, que, em 1983, já confeccionava O outdoor é uma mídia que, 1997, p.10) foram algumas das 80% dos cartazes impressos no em muitas cidades, causa um que começaram a atrair o público. Estado. Assim, essa forma de grande transtorno pela poluição O tamanho dos cartazes produção gráfica tornou a mídia visual e ambiental. Mas há muitas também variava, havendo os de acessível aos anunciantes de exceções e o que pretendemos, 16, 32 e até de 64 folhas. No pequeno porte. aqui, é delinear o seu perfil e padrão estrangeiro, os cartazes No que diz respeito à infor- mostrar como, em Salvador, ela eram impressos no formato de 24 mática, seus recursos possibilitam se tornou um mobiliário urbano folhas, tendo sido introduzido no que, hoje, os anúncios tragam decorativo. Brasil pela McCann, que foi fotos e imagens digitalizadas, as A palavra outdoor, que tradu- obrigada a montar as tabuletas e, quais podem ser manipuladas no zido literalmente significa “do posteriormente, fundar uma computador. Segundo Gonçalves lado de fora da porta”, de um empresa exibidora. Hoje, há no (1999, p.212), esses anúncios modo geral, remete-se a qualquer Brasil a padronização do cartaz de vêm “(...) muitas vezes dizendo o tipo de propaganda ao ar livre. No 32 folhas, nascido da necessidade que a palavra não precisa dizer, Brasil, entretanto, ao se falar em de se ampliar o formato quadrado outras vezes mostrando reali- outdoor, pensa-se logo naqueles das 16 folhas, que dificultava a dades inexistentes”. cartazes de 32 folhas de papel, criação e o layout. Assim, ao invés Na década de 70, o outdoor era que são afixados em tabuletas de de se adotar o cartaz de 24 folhas, um meio desordenado, apresen- 9 metros de comprimento por três padrão em outros países, foi tando-se em diferentes formatos de altura. colocada, ao lado da já existente, e em número excessivo, principal- Mas, ao situar historicamente uma outra tabuleta de 16. mente nas cidades do Rio de essa mídia, vê-se que nem sempre Quanto à impressão do Janeiro e de São Paulo, poluindo- foi assim. Aqui, o primeiro cartaz outdoor, esta teve início com o as e impedindo o que almeja a de que se tem notícia foi exibido processo de litografia, essencial- publicidade, que é veicular uma em 1860, anunciando o lança- mente artesanal, no qual os dese- mensagem eficiente. Além disso, mento da revista Semana Ilustra- nhistas ampliavam cada quadro a desorganização das empresas, da. Nesse século, o cartaz tinha em blocos de pedra do tamanho que levou o meio ao descrédito, 1,80x1,00, era de flandres, em da folha do outdoor. No final dos e a postura profissional da moldura de ferro afixado em anos 50, foi introduzida a fotogra- televisão, valorizando-se como prédios. Apesar dessas ocorrên- fia em substituição ao desenho. mídia (fatos que provocaram cias, a verdadeira história do Só em 1963 surge a gigantografia, críticas ao outdoor), levaram os outdoor, no Brasil, tem início em processo de ampliação do fotolito empresários a se reunirem, 1929, quando surgiu, em São Paulo, na impressão off-set. Assim, cada fundando, assim, em 31 de agosto a primeira empresa exibidora, a uma das 32 folhas tem o seu de 1977, a Central de Outdoor, Publix. Além dos cartazes peque- próprio fotolito e sua própria que procurou regulamentar a nos, que tinham uma forma oval impressão. Ao desejar uma atividade. Além disso, segundo e eram afixados em postes, havia tiragem pequena, recorre-se ao Marcondes (1995), os empresá- os painéis de metro, afixados nos processo de serigrafia, que tem rios de empresas exibidoras muros e os cartazes de bonde. um custo mais vantajoso (Sabadin, reclamavam da incompatibilidade Dos mais simples ao atual 1997). Na década de 90, gráficas das verbas recebidas com a sua outdoor, as mudanças foram de silk-screen produzem cartazes eficácia e importância, do ocorrendo tanto do ponto de vista em gigantografia. Com a impres- preconceito dos profissionais da estrutural como do estético. No são eletrônica, atualmente se mídia contra o outdoor, além do início, eles eram pintados à mão, imprime diretamente no papel. desconhecimento dos anunciantes o que levou à criação de uma Na Bahia, no início da década em relação ao seu potencial. escola de letristas e ilustradores de 80, o empresário José Em virtude desses fatos, em de cartazes. Mensagens como: Linhares cria uma nova técnica 1980, a Central encomendou “Procópio .erreira, o maior ator de impressão, denominada Big- uma pesquisa a LPM-Burke, cujos brasileiro, em espetáculos da mais Hand, em que se pintavam os resultados mostraram que o rigorosa moralidade” e “Larga-me! cartazes, de um a um, à mão. A outdoor também podia ser 20 julho/dezembro-2002
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    Artigo programado por critériostécni- comunicação através de uma publicidade é muito freqüente, cos de cobertura eficaz e que o linguagem específica. atualmente, em peças de griffes seu preço poderia ser estabele- Assim, ter os textos reduzidos, de moda, com fotografias de alta cido a partir do conceito de custo ter uma imagem que retenha a qualidade. por mil (CPM).1 Ademais, procu- atenção do público, ser de fácil Para que obtenha o sucesso rou-se mapear os locais onde memorização e ter uma preocu- esperado, a mensagem deve con- seriam exibidos os cartazes e pação com a simplicidade e a templar, portanto, as perguntas limitar o seu uso, com critérios clareza são fatores responsáveis que, segundo Lasswell (apud fixos de cartaz por área geográ- por uma característica fundamen- Moles, 1974, p.199), regem fica. O resultado da pesquisa, tal, que é o valor perceptível do também a publicidade: “O que segundo Marcondes (1995), outdoor. Um outdoor poluído, dizer, a quem dizer, por que mostrou que 47% dos informantes contendo muitas informações, meio?”, através de processos se lembravam de terem passado instruções e uma proliferação de argumentativos e de estímulos. pelos cartazes apresentados, de imagens visuais, compromete Daí, a importância, para o onde eles se localizavam e do que definitivamente o impacto que publicitário, do conhecimento de comunicavam. Portanto, preocu- deve causar; a extensão da mundo do seu público-alvo, pois pada com a valorização dos mensagem é, pois, um dos são as representações desse pontos e com a organização visual aspectos que diferencia este de conhecimento que o levam à da cidade, a Central de Outdoor outros meios. interpretação do sentido do procurou reduzir o número de Outras características dessa enunciado. Se o interlocutor não tabuletas e padronizá-las. Por ser mídia, segundo Sant’Anna (1989), estivesse ciente, por exemplo, uma mídia ambientalista, se bem são: a maleabilidade, pois pode ser do que ocorrera com o Presi- planejada, o outdoor passaria a usada em qualquer local (estrada, dente dos E.U.A, Bill Clinton, não ser, também, um elemento deco- bairro, rua); a oportunidade, pois captaria o sentido do discurso da rativo para a cidade. Tavares pode aproveitar determinados peça para o Motel Maxim’s, (1999, p.44) afirma que “(...) o momentos e ser logo substituída; veiculada em Salvador: Esse mercado de outdoor está entre os ação rápida e constante, pois negócio de usar a Casa Branca segmentos publicitários que mais na rua há sempre pessoas não dá certo. Sem esse conheci- crescem no Brasil”, sendo a mídia transitando. mento, que deve ser uma preo- que mais se destacou em 1998, Todas essas colocações ratifi- cupação central do locutor, não com 36,12% de crescimento. cam o que afirma Maingueneau haveria eficácia na mensagem. O outdoor é um meio causador (2001, p.66): “(...) todo gênero de Como todo gênero discursivo, de impacto por exibir o produto/ discurso implica um certo lugar e o outdoor tem as suas normas, serviço anunciado de uma forma um certo momento”. Isto quer que são do conhecimento do ostensiva e ampliada. Além disso, dizer que o lugar e o momento auditório particular ao qual se ele está no dia-a-dia das pessoas do outdoor justificam a estrutura destina, que já prevê um que transitam nas ruas, durante do cartaz: é fixado numa rua, determinado tipo de mensagem. 24 horas, num período de duas avenida, estrada, sendo visto Em função disso, é possível se semanas, o sistema Bi-Semana, rapidamente e não fica disponível fazer transgressões portadoras possibilitando uma assimilação ao leitor por tempo indeter- de sentido. No exemplo acima, da mensagem de maneira minado, como uma revista ou um por saber que se trata de um instantânea. Por isso, em função jornal. outdoor, cujo objetivo é anunciar da velocidade do deslocamento Quando a peça é constituída um produto/serviço, o destina- dessas pessoas em relação à apenas da imagem, ancorando tário vai buscar, no enunciado percepção do cartaz, tem-se que uma marca já sedimentada, a escolhido, o sentido que está por considerar a legibilidade em captação da mensagem é mais trás dele. Segundo Maingueneau relação ao tempo, ou seja, a fácil, pois o elemento lingüístico (2001, p.64), a transgressão de rapidez da visão. Embora não existente é apenas a referência uma regra implícita, em deter- haja espaço para explicações dessa marca. Neste caso, o minado gênero, “(...) permite detalhadas do produto (é o meio argumento discursivo está na indicar ao destinatário que ele que mais o exibe e menos o própria imagem, que retrata o deve procurar um subentendido, explica), ele consegue fazer essa conteúdo do produto. Esse tipo de variável conforme a situação”. 1 Valor que se obtém da divisão de preço a partir do total de audiência. 21 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Neste caso, essa transgressão população. Para tal, é preciso e corpo de texto, como foi o caso está na ausência de informação que se escolha o devido espaço do cartaz para a loja de calçados e/ou qualificação do serviço onde ele será veiculado, pois não Ao Leão de Ouro, veiculado em anunciado e na presença de um se pode expor, por exemplo, Salvador, na década de 80: tema que não lhe diz respeito uma peça falando de produtos Sorte é comprar barato no diretamente. sofisticados num bairro de Leão. 200 mil pares de calçados Há também uma preocupação população de baixa renda. de todas as marcas a partir de com a mensagem veiculada em Tratando-se de segmentação por 199,00. Ao Leão de Ouro. Sem outdoor, devido à sua exposição regiões, não se vai veicular, por favor, o menor preço da cidade. aos diversos segmentos de pú- exemplo, em Curitiba, uma peça blico, indefesos em relação a esse na qual a imagem da escultura SALVADOR: UMA PRAÇA tipo de meio. Havendo algum tipo de Castro Alves ancora o QUE DEU CERTO de agressão, pode-se estar seguinte texto: Sem poder se criando uma antipropaganda. mexer no Carnaval, basta um. Em 1973, as empresas filiadas De acordo com Tarsitano Trata-se de um discurso cujo à Central de Outdoor, em (1998, p.16), o homem é dotado sentido está no fato de ser a Salvador, reuniram-se e foram à de vários mecanismos psicoló- Praça Castro Alves (em Salvador), Prefeitura solicitar uma rígida gicos de defesa que preservam onde fica a estátua, o espaço regulamentação para o meio. o seu equilíbrio psíquico, escu- simbólico do carnaval baiano, no Segundo José Linhares, diretor dos estes que “(...) reduzem o qual acontece a apoteose da desta Central, na Bahia, a partir impacto e possibilitam ao sujeito festa, com o encontro de trios. dessa iniciativa, o outdoor baiano filtrar suas ações diante dos Outra característica funda- passou a ser uma exceção no estímulos provenientes das mental do outdoor é que ele é Brasil, “(...) em termos de mensagens publicitárias”. Mas, mídia por natureza, pois é a posicionamento na rua e apesar desses mecanismos, tem- própria propaganda em si. A profissionalismo no meio”2 se que considerar a grande televisão, o rádio, o jornal, a Também passou a ser responsabilidade desse tipo de revista, meios que veiculam considerado mídia-base e não, mídia, que abrange todos os programas musicais, programas apenas, uma mídia de apoio, segmentos de público, indepen- esportivos, notícias, têm a propa- como ocorre na maioria dos dente de idade, sexo, classe ganda apenas como suporte estados. O que favorece esta social, etc. financeiro, não dependendo situação, dentre outros motivos, Um outro aspecto a ressaltar exclusivamente dela para existir. é a legislação municipal para o é a quantidade de anúncios Já o meio outdoor não sobrevi- meio, cuja Lei nº2455, de 04 de espalhados pela cidade, que, veria sem a publicidade, pois a janeiro de 1973, Seção V, art. 24, para reterem a atenção do sua única função é veiculá-la. inciso IV, Da publicidade em público, lançam mão de recursos Em relação ao texto lingüístico, tabuletas e painéis, estabelece: que sejam apelativos e surpreen- o que se observa no outdoor atual “(...) para a instalação de grupo dentes. Como exemplo, o apelo é que não há uma estrutura de de, no máximo, 3 (três) usado no outdoor para a clínica seu desenvolvimento semelhante engenhos observar-se-ão a COT (Clínica Ortopédica e ao de outras mídias. Assim, distância mínima de 2.00 m (dois Traumatológica), veiculado em aplica-se a ele o corpo em que se metros) entre cada engenho, Salvador, em 1998, no qual a expõem os argumentos persua- vedada a instalação de outro imagem do personagem “mala” sivos, os quais devem estar grupo num raio de 100,00 (cem (com uma grande mala nas presentes numa frase, que pode metros) no mínimo”. Ainda costas) ocupa quase todo o ser um título ou um slogan. A conforme José Linhares, essa espaço da placa, ancorada pelo linguagem precisa ser concisa, resolução fez com que o veículo texto: Não dê trabalho nesse excluindo-se dela uma sintaxe se adaptasse ao meio ambiente, carnaval. complexa. Ele se encerra com a acabando a poluição visual que O outdoor pode direcionar-se marca do produto ou serviço, que até então vigorava, devido à a apenas um determinado tem função identificadora. Não é colocação aleatória de cartazes. público-alvo, atendendo, dessa muito freqüente, hoje em dia, Esse fato possibilitou que forma, a um segmento da encontrar-se outdoor com título Salvador tivesse hoje “(...) o 2 Em entrevista concedida, em 19/03/2001, para a tese da autora deste artigo. 22 julho/dezembro-2002
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    Artigo outdoor mais eficientee criativo Em Salvador, o outdoor busca fatores, propiciando, inclusive, do país” (Cadena, 1998, p.107). retratar, no seu discurso, o que um discurso com mais qualidade. O próprio presidente da Central se passa na cidade, o que Por isso, o publicitário baiano de Outdoor, Carlos Alberto interessa ao público, tornando- está atento a tudo o que ocorre ao Nanô, respondendo à pergunta se um espelho das constantes seu redor, não só na Bahia, como Existe alguma praça que possa novidades que aí ocorrem. Como no Brasil e no mundo, pois as servir de exemplo hoje em dia exemplo, a atual expansão dos oportunidades fazem o diferencial no Brasil?, em entrevista camarotes para o carnaval no discurso dessa mídia. Assim, ele concedida à revista Meio & tornou-se o diferencial da festa pode levar um cliente como a Mensagem Especial, de 19 de em 2003, inclusive com Clínica COT, na sua campanha de março de 2001 (p.22), afirma camarote “andante”. Assim, prevenção durante o carnaval, a que: “O caso de Salvador é típico vários blocos e entidades estão veicular um outdoor com o título: e até o mercado publicitário invertendo a forma de “brincar Você não é big brother para ficar conhece bem isso, porque a o carnaval”, levando os foliões trancado em casa, ancorado pela configuração da cidade com para esses “palanques”. Em imagem de um rosto enfaixado, só áreas montanhosas e verdes virtude deste fato, em fevereiro, aparecendo um olho, aprovei- possibilitou esse trabalho. As em uma das peças da campanha tando-se do sucesso do programa empresas conseguiram se reunir da Clínica COT (Clínica ortopé- Big Brother Brasil. e fazer a ocupação de forma dica e traumatológica), veiculada O que se percebe, é que, para muito valorizada, com peças em outdoor, tem-se o título: Até alcançar essa viabilidade, o isoladas que se destacam”. camarote está andando. Não é discurso de outdoor baiano parte A mesma revista, em 27 de você que vai ficar parado, de uma enunciação que se março de 2000, no artigo ancorado pela imagem de um constitui na melhor via de acesso “Topografia ajuda visualização”, jovem deitado com a perna ao produto, o que implica uma afirma que “Salvador é a melhor suspensa, engessada. afinidade entre aquela e este. O pano de fundo são, justamente, cidade do País para se colocar um Nos meses de janeiro e ocorrências que se tornam outdoor”. Neste mesmo artigo, fevereiro, os acontecimentos oportunidades para que se encene Rodrigues (TOPOGRA.IA..., 2000, importantes relacionados ao o discurso pretendido, atentando- p.22) publicitária da agência carnaval, como os blocos, os se sempre para o interlocutor que Propeg, diz que o outdoor na eventos que antecedem à festa, se quer atingir. Partindo de Bahia “(...) é mídia forte, os próprios camarotes, são colocações de Maingueneau consolidada, produto certo”. No anunciados em outdoor, pois (2001), o discurso publicitário ano 2000, esse meio baiano sabe-se que a visibilidade da mobiliza cenografias diversas que recebeu o título de Veículo do mídia e a sua credibilidade e devem captar o imaginário do Ano no Prêmio Colunista. aceitação pelo povo baiano são público-alvo e atribuir-lhe uma De acordo com a última muito fortes. Ele lê, comenta e identidade. pesquisa da LPM-Burke, em 1995, se diverte com as peças. .inalizando, transcrevemos o item sobre a aprovação do meio Para o anunciante, veicular o algumas afirmações de publici- em Salvador teve um resultado seu produto/serviço com uma tários baianos4 que justificam o de 95% de aceitação da mídia, o boa peça para outdoor, e m fato de uma mídia como o que surpreendeu a todos. Este Salvador, é retorno e recall para outdoor funcionar e ser conside- percentual foi tema de palestra a sua marca. rada de excelência. no Congresso Internacional de Constatamos, diante do Mídia, realizado, na época, em exposto, que a obediência à 1. A Bahia tem uma cultura São Paulo. Segundo o empresário referida Lei Municipal pelas regional muito original e já José Linhares, 3 o povo baiano empresas exibidoras de cartazes cristalizada que facilita está sempre atento às placas de e a topografia de Salvador, com extraordinariamente a outdoor e o seu amor por essa suas avenidas de vale, possibi- fixação de marca. (Carlos mídia é comprovado pelo número litam a transformação do outdoor Sarno) de telefonemas que recebe em elemento decorativo para a 2. A Bahia é fonte de inspiração quando algo diferente ocorre Cidade. Portanto, a eficiência do para o outdoor o ano inteiro. com alguma tabuleta. meio decorre também desses (Paulo Vianna) 3 Em entrevista já referida. 4 Trechos de entrevistas concedidas para a tese de doutorado da autora deste artigo. 23 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo 3. (...) o baiano, na verdade, apoio, afirmando-se como 6. O outdoor tem atributos gosta de informação que seja mídia básica na Bahia. ímpares no mercado de bem-humorada. (...) o baiano, (.ernando César Dias) Salvador, o que acaba sendo na verdade, se convence muito utilizado como meio principal, com a comunicação; ele vive 5. (...) a grande vantagem da principalmente quando a a propaganda. (João Silva) regulamentação na Bahia, estratégia é gerar impacto à isso nenhum estado até hoje campanha. (Nelson Cadena) 4. (...) essa independência e a percebeu, foi a valorização do 7. (...) em nenhuma outra cidade liberdade discursivas fizeram veículo, ou seja, o outdoor, na do Brasil existe essa eficiência com que o outdoor deixasse Bahia, é uma mídia que do meio como existe aqui em de ter a condição de mídia de funciona. (Ana Maria Almeida) Salvador. (Nelson Cadena) RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS CADENA, N. V. 450 anos de de Cecília P. de Souza-e-Silva e Décio SANT’ANNA, A. Propaganda: publicidade na Bahia. Salvador: Rocha. São Paulo: Cortez, 2001. teoria técnica e prática. 4. ed. São Gráfica Santa Helena, 1998. Paulo: Pioneira, 1989. MANÔ, C. A. Por decreto não. GAIARSA, M. A. C. Estratégias Meio & Mensagem Especial, TARSITANO, P. R. Empatia, projeção argumentativas no outdoor São Paulo, p. 21-23, 19 mar. 2001. e identificação no processo da baiano. 2002. 185f. Tese criação publicitária. In: (Doutorado em Letras) - MARCONDES, P. A década da ____________. (Org.). Publicidade: Universidade .ederal da Bahia, maturidade. In: RAMOS, R.; análise de produção publicitária e MARCONDES, P. 200 anos da da formação profissional. São Salvador, 2002. propaganda no Brasil: do reclame Paulo: IMES : ALAIC, 1998. p.11-26 GONÇALVES, E. M. A. (GT’ ALAIC, 1). ao cyber-anúncio. São Paulo, Meio & A mensagem publicitária na era Mensagem, p. 98-135, 1995. TAVARES, M. .atias desiguais. tecnológica: nova forma de Propaganda: a alma e o negócio, reproduzir o universo. 1999. 213f. MOLES, A. O cartaz. Tradução de São Paulo, v. 44, n. 574, p. 44-45, Tese (Doutorado em Comunicação Miriam Garcia Mendes. São Paulo: abr. 1999. Social) - Universidade Metodista de Perspectiva, 1974. São Paulo, São Paulo, 1999. TOPOGRA.IA ajuda valorização. SABADIN, C. Outdoor uma visão do Meio & Mensagem Especial, MAINGUENEAU, D. Análise de meio por inteiro. 2. ed. São Paulo: mídia exterior, São Paulo, p. 22, 27 textos da comunicação. Tradução Central de Outdoor, 1997. mar. 2000. 24 julho/dezembro-2002
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    Artigo ROCK E MÚSICA POP: ESPETÁCULO, PERFORMANCE, CORPO Herom Vargas Graduado em História (PUC-SP), Mestre e doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Professor nos cursos de Comunicação Social do IMES-São Caetano do Sul e da UMESP-Universidade Metodista de São Paulo. R E S U M O ABSTRACT O artigo procura analisar o rock e a música pop a This article searches to analyse the rock and pop partir do espetáculo, visto sob o ponto de vista music as a show examined from the viewpoint view da performance, do happening e da body art, e da of performance, happening and body art, and also adaptação dessas formas híbridas desenvolvidas from the adaptation of these hybrid forms which nas artes plásticas nos anos 50 e 60 à música were developed in the plastic arts of the 50ths popular produzida neste período: do rock’n’roll and 60ths to the popular music produced in this nos anos 50, passando por Jimi Hendrix, o period: from rock’n’roll in the 50ths, going through progressive rock e o punk dos anos 70 até algumas Jimi Hendrix, the progressive rock and the punk tendências contemporâneas. O espetáculo, no rock in the 70ths up till some contemporaneous rock e na música pop, são vistos como campos tendencies. The rock and pop music shows are férteis de criatividade para músicos que seen as fertile fields of creativity for musicians that transformam seus shows em experimentação transform their shows into a performatic performática onde o corpo é utilizado em seus experimentation where the body is used in all limites. limits. PALAVRAS-CHAVE: música, comunicação KEYWORDS: music, physical communication, corporal, expressão corporal. physical expression. 25 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Muitos já disseram que, depois música do rock usando a estética numa expressão conjuntural e do rock, a música popular nunca da música tradicional está idiossincrática do artista (vide as mais foi a mesma. Uma das razões condenada a resultar num mal- performances de Jimi Hendrix dessa guinada encontra-se nas entendido”. onde a música era produzida e novas formas de mobilização do Assumindo assim como base sentida por todo seu corpo, a corpo durante a execução das e fundamento esta ligação expressividade de sua face no canções desenvolvidas a partir música-corpo, é possível, generi- momento de soar uma nota, os dos anos 50 e 60. O uso intensivo camente, distinguir dois tipos de movimentos da boca, dos olhos, e ritualizado do corpo, durante o trabalho com o corpo na música etc.). A música, por sua vez, passa espetáculo musical, tornou-se popular neste século. No primeiro, a ser muito mais visual, pois o ato uma marca muito particular do o músico ou cantor procura de assistir ao show também rock e pouco percebida na música produzir os sons utilizando contém um mecanismo visual de ocidental até seu surgimento com basicamente o corpo como estru- decodificação, aumentando a cantores como Elvis Presley e tura de sustentação de sua ação, importância do espetáculo na Little Richard. Uma definição bem não trabalhando-o de modo música popular contemporânea. rápida, mas bastante represen- significante dentro do universo É claro que estamos excetu- tativa do rock mostra sua forte semiótico da canção. O cantor usa ando as músicas feitas especial- relação com o corpo em dança: apenas o aparelho fonador, seu mente para rituais sociais fes- “Ao contrário da música gestual é contido, sua movimen- tivos – o carnaval, as danças de erudita, que exige o silêncio e o tação à frente da platéia é salão, por exemplo –, em que a bom comportamento da platéia limitada. A canção é entendida canção funciona mais como um (...), o rock pressupõe a troca, ou apenas pelo hibridismo entre letra programa da festa e não possui melhor, a integração do conjunto e música e a interpretação recai muita autonomia, moldando o ou do vocalista com o público, sobre a dicção e o grau de emoção corpo em dança à regra de movi- procurando estimulá-lo a sair de que o rosto do artista transmite. mentação típica dessas festas, sua convencional passividade O músico também limita seus diferente do rock que ampliou perante os fatos. Por isso dançar movimentos ao necessário para a tanto para os espectadores é fundamental. Se não houver exploração das potencialidades quanto para os músicos os reação corpórea ‘quente’, não há sonoras de seu instrumento campos de ação corporal no rock. (...) não pode haver regras, usando basicamente dedos, mãos espetáculo. cenas determinadas, linhas do e pés. A intenção física encontra- Num estudo prospectivo, salão a cobrir, músculos tensos a se puramente no manuseio do Carlos Calado (1990) aponta essa esperar o próximo movimento. O instrumento, na fricção das transformação no âmbito do jazz. rock precisa de liberdade física cordas, no tapa na percussão, na .azendo uma comparação entre o (...)”. (Chacon, 1982, p.12) pressão dos dedos nas teclas. músico de jazz e o ator, Calado Essa transformação foi tão Um outro tipo de mobilização (1990, p.42 e seg.) mostra três profunda que impôs uma corporal na música popular se momentos do desenvolvimento do dificuldade para os estudos sobre caracteriza pela radicalização das jazz: o do músico executando uma a estética musical do rock. Ao funções significantes do corpo e partitura, como nas big bands dos privilegiar a relação com o corpo, sua cinética dentro do espectro anos 30; o músico interpretando as respostas viscerais ao novo semiótico da canção. O músico/ uma partitura e já incluindo som, o rock altera os critérios de cantor intensifica o uso do seu elementos de subjetividade, avaliação musical empregados na corpo fazendo-o adensar ou alterando a noção tradicional do análise tradicional da música reverberar sentidos restritos aos respeito ao texto da partitura; e, ocidental baseados na estrutura textos sonoro e poético da por fim, quando o jazzman solta- da composição e na forma. canção, ou ainda demonstrar se da estrutura escrita da canção Segundo Baugh (1994, p.15): “A outra semântica não expressa e parte para o improviso, recriando música do rock compreende um diretamente pela canção. Seu melodias e harmonias na obra de conjunto de práticas e uma corpo entra em sintonia, origem. Esta última fase, o autor história muito diferente daquelas paralelismo ou atritos com a divide em três: o improviso da tradição européia da sala de música, podendo se mostrar tanto tradicional no meio da canção em concerto na qual a estética numa estrutura previamente um solo; a radical recriação de musical tradicional está baseada. coreografada (vide os shows de antigas canções feitas pelos Assim sendo, qualquer tentativa Madonna e Daniela Mercury ou músicos do bebop, desenvol- de avaliar ou compreender a clipes de Michael Jackson) ou vendo músicas até um ponto em 26 julho/dezembro-2002
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    Artigo que pouco ounada se reconheça A busca dessa conexão supre- vinculação muito forte com a das originais; e, a partir dos anos ma formulada entre arte e vida música popular produzida neste 60, com o free jazz, em que o mú- forneceu combustível a muitas período: o bebop dos anos 40, o sico adquire a total liberdade para experimentações nas artes plás- rock’n’roll dos anos 50, o free jazz sua espontaneidade, destruindo ticas que tangenciaram sobretudo e as vertentes do rock desde as estruturas do tonalismo da as formas teatrais, ou seja, a Beatles e Rolling Stones até o música ocidental, incorporando o colocação do artista em um espaço .estival de Woodstock nos 60, o ruído e, no campo do espetáculo, determinado produzindo um tipo jazz fusion, o progressive rock e o lançando mão de efeitos visuais, de ação, que não era exatamente punk dos 70.1 E o rock, com todos figurinos, máscaras e desem- a “teatral” (ou seja, ações dentro os seus matizes até a atual música penhos corporais inusitados, eli- dos padrões tradicionais do teatro: pop, tornou-se um campo fértil minando o respeito ao padrão personagem, texto escrito, cenário para uma série de experimen- visual do músico. Sua ação se naturalista, interpretação stanis- tações: tanto artistas plásticos se aproxima muito mais da máscara, lavskiana, mímese, etc.) em frente dirigiam a essa música, como do personagem construído, nível a uma platéia. A radicalidade também músicos e compositores que supera o músico quando recria dessas ações aproximavam a arte transformavam seus shows em canções ou quando simplesmente e os artistas de seus próprios espaços de experimentação per- reproduz a partitura. limites: não havia a separação pura formática, como, por exemplo, O autor liga essa alteração do e simples entre obra e artista, pois David Bowie, Laurie Anderson, jazz através da cena do espetáculo estes eram um só e não poderia Peter Gabriel, etc. ao desenvolvimento do happening haver assim a contemplação esté- nos anos 60 e da performance nos tica do espectador porque simples- MÚSICA, RITUAL, PER.ORMANCE anos 70, formas surgidas nas artes mente não havia uma obra aca- plásticas tentando questionar o bada e perene – estatuto da arte Quando falamos no experimen- uso de suportes e materiais usuais conquistado e mantido desde o talismo que o rock e o pop apre- e de espaços tradicionais como Renascimento – mas eventos, cuja sentam, não estamos tratando das museus e galerias. Uma das saídas duração poderia ser ora muito questões ligadas à música ou à foi a busca de uma verdade maior curta, ora extremamente longa e letra. Em linhas gerais, esses dois na relação artista-público estrei- que muitas vezes não se repetiam. aspectos da canção não apresen- tando os laços existentes entre a Essas ações, happenings e perfor- tam, nesses gêneros, uma grande arte e a vida, projeto proveniente mances também se aproximaram gama de inovações. Excetuando o das vanguardas do início do das formas rituais mais primitivas trabalho com o ruído e com instru- século. O happening e a perfor- visando também a essa ligação mentos elétricos e eletrônicos, mance surgiram assim como mais forte à vida, dessacralizando dados inovadores na música formas novas de utilização de um mitos estabelecidos, recriando ocidental ligados ao rock, o texto suporte intocável até então: o alguns outros e até trabalhando sonoro mantém-se ainda muito corpo do próprio artista. Surgiram sobre os novos mitos da mídia e preso ao tonalismo. Pouco se fez a body art, os experimentos do da tecnologia que estavam se também, salvo algumas exceções, Grupo .luxus e uma série de desenvolvendo na década. Outro no campo poético. Assim, quando outras alternativas de ruptura até sentido tomado foi o da vinculação pensamos em experimentalismo, então nunca vistas. Alguns autores a outras linguagens tentando uma estamos querendo tratar das chamam essas tendências de live totalidade ainda não alcançada até conexões entre essas linguagens art: “... um movimento de ruptura então. Daí o surgimento de – som e letra da canção – e sobre- que visa dessacralizar a arte, eventos envolvendo teatro, dança, tudo de um campo em que o rock tirando-a de sua função mera- música, poesia, cinema, vídeo, etc. se individualiza e se distancia mente estética, elitista. A idéia é O que queremos mostrar neste tanto de outras linguagens como de resgatar a característica ritual artigo é que essas formas híbridas de outros gêneros musicais: o da arte, tirando-a de ‘espaços desenvolvidas nas artes plásticas espetáculo, a presença cênica ao mortos’, como museus, galerias, a partir dos anos 50 e 60 (action vivo do artista em frente a uma teatros, e colocando-a numa painting, a pop art e seus desdo- platéia, seu aspecto ritualizado, as posição ‘viva’, modificadora”. bramentos, as artes corporais e formas adotadas pelos músicos (Cohen, 1989, p.38) ambientais, etc.), tiveram uma nesse espaço formado pelo palco, 1 No Brasil, a grande referência encontra-se no movimento Tropicalista de 1967/68. Porém, não devemos esquecer os fortes vínculos entre música popular e corpo nas variações do samba, na figura do malandro carioca dos anos 30 e até no gestual engajado dos cantores de protesto nos festivais dos anos 60. No entanto, apesar desses vínculos existirem, o rock proporciona um outro tipo de abertura, como veremos mais adiante. 27 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo pelo cenário e adjacências – espa- entradas e saídas, o sistema mente esse centro de atenção é ços laterais ou superiores ao palco neuronal e os sistemas musculares obstruído por outros movimentos, que ampliam o território de ação do corpo em dança ou um possível outras vozes simultâneas. São dos músicos. mapa dos gestos de um autista. luzes e personagens temporários O dado espetacular tem sido Tal qual esses exemplos, o que se movimentam frente ao pouco considerado nas avaliações espetáculo do rock é um tipo de público. Os atores-dançarinos de determinados grupos e/ou evento em que não é possível trocam de roupa, sobem e descem cantores pop, provavelmente estabelecer um centro gerador do palco, fazem coreografias devido à tendência dominante de único, mas que se desmembra previamente organizadas ou entender a canção popular apenas como a grama em vários segmen- totalmente pessoais e subjetivas. como letra e música. Ao contrário tos cujas conexões internas ou Se há um enredo que proporcione de outras linguagens (o teatro desdobramentos externos formam uma narrativa ao show – e, em tradicional, inclusive), o rock é um um todo modulante, algo não parte, ele existe, tendo em vista evento performático e ritualístico definido nem pelas partes e nem os personagens que são represen- desde suas origens, o que nos pela totalidade. Um espetáculo não tados em várias canções pelos força a considerar os aspectos é apenas o cantor ou músico músicos e pelos atores –, ele é ligados ao espetáculo como principal; é uma conjunção nem sempre quebrado pela multipli- fundamentais na análise deste tipo sempre uniforme de tendências cidade, estranhamento e rapidez de música. cinéticas (as movimentações com que as várias informações Ao mesmo tempo, a importân- constantes), cromáticas (luzes, verbais, visuais, sonoras e senso- cia do show nos coloca problemas roupas e cenários) e acústicas riais são trabalhadas.2 teóricos muito específicos, pois ao (sons e ruídos) percebidas de Essa mobilização sensorial se levar em conta tal aspecto são forma múltipla pelo espectador. atinge o público, tornando-o não necessários critérios específicos Um exemplo bastante interes- mais um observador contempla- derivados da própria dinâmica do sante é um show de David Bowie tivo e racional, mas, sobretudo, objeto em questão. A principal chamado Spider Glass, de 1987, um espectador ativo, com dificuldade é a característica visual em que o cantor divide o palco com uma participação mais físico- plural e múltipla do espetáculo: dois guitarristas, um baixista (o sensorial e menos intelectual, seu centro de sentido muitas vezes tecladista e o baterista ficam do tanto por causa do envolvimento não se estabelece de maneira meio do palco para trás um pouco emocional causado pelo som e imediata, sua visualidade não escondidos) e quatro ou cinco pela música3, como também pela encontra ordenações como a atores-dançarinos-performers num configuração ritual do espetá- lógica da montagem no cinema, a cenário envolto por uma aranha culo, o que podemos chamar de perspectiva linear na pintura e na gigante e colorida (o corpo acima “relação mítica”. 4 fotografia ou o foco, a narrativa e e as pernas nas laterais do palco). Tal estrutura heterogêna e a cenografia naturalista no teatro. Há também plataformas laterais reticulada e, sobretudo, as ações O espetáculo aproxima-se do que com nichos onde esses atores praticadas pelos artistas no Deleuze e Guattari (1995, p.11) atuam e dançam de forma palco aproximam-se muito do chamam de rizoma, um evento simultânea. O palco não é um que se convencionou chamar de caracterizado por multiplicidades espaço centrado, por mais que performance por demonstrar e conectividades, por rupturas e Bowie seja o cantor principal; ao uma convergência forte entre os descentramentos, um corpus contrário, a visualidade se rompe aspectos formais e de lingua- móvel, algo que contém “... linhas em um mosaico cinético de gem. Em primeiro lugar, se a de articulação ou segmentaridade, movimentos e gestos estranhos performance se diferencia do estratos, territorialidades, mas entre si tanto dos músicos como teatro por poder prescindir também linhas de fuga, movi- dos dançarinos. Não se estabelece radicalmente da estrutura mentos de desterritorialização e um único e constante foco de cena, aristotélica da narrativa linear e desestratificação”, estrutura pare- ele é múltiplo e movente, pois se ancorar-se numa estrutura em cida com a grama, a toca de ele aparece no momento do canto que a collage é estabelecida animais cheia de ramificações, ou do solo principal, imediata- como regra de sua dinamização 2 Um outro exemplo bastante interessante no âmbito nacional é o show dos Titãs. Ainda com Arnaldo Antunes, eram oito músicos no palco tocando e dançando cada um de sua maneira, vários cantores se revezando ao microfone, enfim, uma multiplicidade cujo centro dificilmente se definia por muito tempo. 3 Ver a respeito às análises sobre a influência da música e dos sons sobre a percepção e sobre o cérebro humano em Jourdain (1998), especialmente o capítulo Do som ao êxtase. 4 “Na relação mítica, este distanciamento [entre espectador e obra] não é claro; – eu entro na obra, eu faço parte dela – isto sendo válido tanto para o espectador que fica na situação de participante do rito e não mero assistente (não sendo bom, portanto, o termo ‘espectador’) quanto para o atuante que ‘vive’ o papel e não ‘representa’.” (Cohen 1989, p.122) Ver também páginas 97 e 98. 28 julho/dezembro-2002
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    Artigo (Cohen, 1989, p.57),temos então performer. por impactos sensoriais e emocio- o espetáculo e a ação física dos Daí também a semelhança nais: som alto, melodia cativante, músicos como fundamento da entre o espetáculo e a perfor- impulso corpóreo rítmico, ilumi- performance musical (e na música mance, pois esta não limita o nação, cinestesias, etc. pop esta disposição ao desem- performer a um personagem penho físico é fundamental). No como ocorre com o ator no teatro OS LIMITES DO CORPO show descrito acima, sua múltipla tradicional. Se há personagem na plasticidade ilustra muito bem a performance, ou ele se mistura à Se, tanto no espetáculo de noção de collage, algo que se própria figura do ator - numa rock como na performance, o estrutura em significado pela performance, como no show mu- corpo do músico-ator é colocado contaminação de elementos apa- sical, geralmente o ator é o seu em sua própria presença, se a rentemente distantes e desconec- próprio personagem numa rela- relação com o público é sempre tados. O sentido se dá por geração ção de grande ambigüidade -, ou mais sensório-emocional do que em mosaico, muitas vezes de ma- se multiplica em vários perso- racional, se ambos são eventos neira aleatória porque depende da nagens assumidos conforme a onde se celebra o prazer e a liber- ação subjetiva de cada atuante no dinâmica da apresentação. dade e, em princípio, não há a espetáculo. Mesmo que o show Outra aproximação interes- norma da representação como no seja repetido, nenhuma configura- sante entre o espetáculo e a teatro tradicional ou em outras ção poderá se repetir em plena performance diz respeito aos linguagens de forte acento natu- equivalência, havendo apenas elementos de cena que cada um ralista, seria plenamente possível aproximações devidas exata- contém. Diferente do teatro pensarmos a utilização do corpo mente a essa qualidade de evento tradicional, na performance os ele- também de maneira totalmente movente e conectivo. Na verdade, mentos de cena como cenografia, livre e desimpedida. Na perfor- cada músico, ator ou cantor objetos, trilha sonora ou sono- mance e na body art é comum desempenha papéis temporários plastia, figurinos e o próprio termos situações onde o corpo e que se estranham entre si. performer não se estabelecem de do artista e suas convenções Muitas das ações e movimentos maneira hierarquizada, nem sócio-culturais são colocados em não foram previamente organi- privilegiam a representação pura xeque, em que se tentam ultra- zados, cabendo a cada corpo no e simples. Eles podem se mani- passar os limites musculares e os palco (podemos falar de verda- festar em valores diferentes privi- da dor e questionar os condicio- deiros performers) a construção legiando muito mais a ligação namentos éticos e morais colo- episódica da persona5 que consi- emocional e sensorial com o cados pelo caldo cultural que en- derar necessária, formando um público do que a mais racional, volve as práticas cotidianas. cenário rico em idiossincrasias. típica do teatro naturalista. Proveniente das experiências Não há a noção normativa e rígida (Cohen, 1989, p.65 e 66) Quanto da contracultura nos anos 60 e 70, de roteiro ou script como na ao espetáculo pop, a configuração inspirados em boa parte nas narrativa tradicional, pois a todo é muito semelhante, pois nem manifestações dadaístas e momento ele pode ser rompido sempre, como já exemplificamos, surrealistas6, nos anos 1910/20, pela morfologia sinuosa do evento é o cantor o foco da ação espeta- desde as ações de Joseph Beuys espetacular. O caráter que mais cular; mesmo quando o é, seu (p. ex.: Coyote: I Like America and se destaca, portanto, é uma forte foco é constantemente quebrado America Likes Me, de 1974) até as sensação de presença, um aqui- pela atuação de outros músicos práticas sado-masoquistas da agora que se mostra em toda sua ou até de outros elementos como body art, tais eventos propor- amplitude, muito próximo tam- a iluminação, projeções, explo- cionam um exercício radical nos bém da performance que, pelo sões, etc. Se, no teatro naturalista, limites da suportabilidade do vínculo com a live art, rompe com os elementos cênicos represen- corpo. A todo momento são o distanciamento imposto pela tam os aspectos dados na questionadas suas convenções e representação do teatro tradicio- narrativa, na performance e no capacidades biológicas, emocio- nal e potencializa o momento espetáculo musical, eles se nais e culturais. O corpo é colo- presente da ação cênica do ator- revelam ao espectador muito mais cado dentro de um território onde 5 “A persona diz respeito a algo mais universal, arquetípico (exemplo: o velho, o jovem, o urso, o diabo, a morte, etc). A personagem é mais referencial. Uma persona é uma galeria de personagens.” (Cohen, 1989, p.107) 6 Segundo Dawn Ades (1991, p.83), o Dadaísmo “... declarou como seus heróis Vaché, que certa vez interrompeu uma representação de Os Seios de Tirésias, de Apollinaire, ameaçando descarregar sua pistola contra a platéia e cujo suicídio foi um gesto final, e Arthur Cravan, um poeta irremediavelmente incompetente que se converteu em uma duradoura lenda em conseqüência de façanhas tais como desafiar para uma luta o campeão mundial de pesos-pesados, Jack Johnson, ou chegar bêbado para proferir uma conferência sobre arte moderna, diante de uma requintada platéia de Nova York, e despindo-se no estrado. Em 1918, partiu dos Estados Unidos para o México em um barco a remo e nunca mais foi visto.” 29 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo as intensidades de desejo, de rizoma onde várias possibilidades imprevisível, seu canto áspero, o sensação e a expressividade são de configuração, movimento, suor, a movimentação defor- máximas, e se concretizam em tendências e significados se mada, trêmula, grotesca e não uma série praticamente ilimitada instalam enquanto intensidades “coreografada” que intensifica a de ações críticas que tentam em potência. Ele é diferente, por dor de amor de que fala a canção. ultrapassar os limites sociais do isso, do organismo, a “... organi- O mesmo é possível dizer da suportável. São fluxos e contra- zação orgânica dos órgãos (...), um relação umbilical entre Jimi fluxos constantes em várias fenômeno de acumulação, de Hendrix e sua guitarra: ações de direções e sentidos que desmem- coagulação, de sedimentação que cumplicidade e de interpenetra- bram a suposta organicidade lhe impõe formas, funções, ção de forças, o aspecto visceral interna do corpo, tratando-o mais ligações, organizações dominan- dos timbres e da interpretação – como uma rede de intensidades. tes e hierarquizadas, transcen- aspecto que, aliás, parece típico O espetáculo na música pop e no dências organizadas para extrair da linguagem cênico-sonora do rock, sobretudo aqueles em que um trabalho útil”. (1996, p.21) O rock –, o cabelo e as roupas, a a expressividade do artista CsO é um campo de forças vivo e carga emocional carregada pelo supera o controle imposto pela aberto que desfaz a organi- corpo superando as sutilezas da mera coreografia, transforma-se zação significante cotidiana, as técnica musical. num território eminentemente hierarquias sociais e os condicio- Outro momento fundamental experimental e o corpo em dança namentos externos de funções temos nos criativos e profusos livre e com suas linhas múltiplas preestabelecidas e que em nada anos 70, quando alguns artistas de subjetivação, torna-se o objeto se parecem com suas várias inten- lançam mão de personagens por dessa experimentação. Ele é sidades em latência. O CsO tratado eles criados e que desenham transformado no que Deleuze e por Deleuze e Guattari é um várias possibilidades de interpre- Guattari (1996, p.13) chamam de sintagma solto de terminais tação. É o caso de David Bowie, “Corpo sem Órgãos”: conectivos múltiplos que não pode um dos principais expoentes do ser reduzido aos extratos básicos então denominado glitter ou “... feito de tal maneira que ele da organização, do sentido (ou glamour (ou simplesmente glam) só pode ser ocupado, povoado significância: intérprete ou inter- rock. Sua capacidade transfor- por intensidades. Somente as pretado) e da subjetivação (sujeito mista e sua criatividade em intensidades passam e circulam. de enunciação ou de enunciado). compor personagens, com o Mas o CsO não é uma cena, um Ao contrário, deve ser a desarticu- Ziggy Stardust (de 1972), lugar, nem mesmo um suporte lação, potencializada em suas reforçam um elemento impor- onde aconteceria algo. Nada a ver pluralidades de articulações, tante para a performance: sua com um fantasma, nada a instaurando a experimentação no relação rica e modular entre ator interpretar. O CsO faz passar lugar do significado e intensifi- e personagens criados. No campo intensidades, ele as produz e as cando a postura nômade para des- do chamado progressive rock, distribui num spatium ele mesmo truir as tendências de fechamento temos Peter Gabriel, na época intensivo, não extenso. Ele não é interpretativo. (1996, p.22) cantor do grupo Genesis, e seus espaço e nem está no espaço, é Tanto a performance – em sua personagens cósmicos produtos matéria que ocupará o espaço em postura radical de exercício des- de maquiagem e figurinos e que tal ou qual grau - grau que construtor do corpo organizado eram introduzidos nos shows corresponde às intensidades e de sua configuração em live art – conforme as possibilidades da produzidas. Ele é a matéria intensa como os espetáculos de rock e narrativa das canções e da temá- e não formada, não estratificada, da música pop – em especial tica do disco em questão. a matriz intensiva, a intensidade aqueles que se concretizam em Quanto à questão dos per- = 0, mas nada há de negativo neste manifestações de experimen- sonagens, há casos em que os zero, não existem intensidades tação e rebeldia – são como próprios cantores se transformam negativas nem contrárias. Matéria expressões desse CsO. Talvez em personagens de si próprios, igual a energia. Produção do real uma das aparições seminais uma espécie talvez de alter ego como grandeza intensiva a partir desse conceito seja a já clássica com o qual se confundem. Os do zero. Por isto tratamos o CsO interpretação de With Little Help psicanalistas poderiam defini-lo como o ovo pleno anterior à from my .riends (de J. Lennon e como produto de algum desejo extensão do organismo e à P. McCartney) por Joe Cocker no reprimido; os críticos “apocalíp- organização dos orgãos ...” .estival de Woodstock, de 1969, ticos” diriam que é mera rotulação Segundo os autores, o CsO é o com sua postura descentrada e para um produto ser mais 30 julho/dezembro-2002
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    Artigo “vendável” no mercadode bens violência. Veja-se, por exemplo, a postura aceita pela moral (ele simbólicos da indústria fonográ- dança pogo, inventada por Sid cantava nu, defecava e urinava no fica. De qualquer forma, roqueiros Vicious, baixista dos Sex Pistols: palco; comia ou arremessava seus como Alice Cooper – surgido nos “... arrancar as correntes e dançar excrementos na platéia; chamava anos 70 e até hoje cultuando o segurando-as fortemente na mão mulheres ao palco para que estilo “rock horror show” – e o atual e dando correntadas diretas em urinassem na sua boca; jogava-se Marilyn Manson com seu visual volta de seu espaço”. (Bivar, 1982, no chão ou contra a platéia com o andrógino e escatológico, trans- p.60) corpo todo besuntado de óleo – formaram-se para sempre em Nos anos 80, parte das ou coisa parecida – esfregando- seus respectivos personagens, gerações glitter e punk adere à se nas pessoas e esmurrando-as; radicalizando o processo do tra- chamada new wave, cuja estética, perseguia pessoas até as ruas vestimento. Não existe nenhum mais palatável ao gosto da mídia, durante as apresentações), ou a tipo de dubiedade ou confusão traduz a sensação de revolta, por performance pirotécnica do grupo entre os cantores e os persona- um lado, em um modismo super- alemão Rammstein, cujos mem- gens, pois, do jeito que se tratam ficial e, por outro, na introspecção bros ateiam fogo em seus corpos. e são tratados, fazem com que niilista e neo-romântica dos darks suas figuras sejam constante- e góticos. O corpo demonstra essas JAZZ E ROCK mente seus personagens, dife- condições pelas roupas pretas, rentemente do ator tradicional piercing, cabelos desgrenhados e Como se vê, em muitos casos que cria, mimetiza e vive tempo- maquiagem (pele pálida e forte não existem obstáculos quanto ao rariamente sua criação, ou dos contraste com lábios, olhos e uso revolucionário do corpo como performers que são muito mais cabelos escuros). O punk também elemento significante na canção eles próprios em suas ações. gerou filhos como os head bangers e, como já frisamos, o rock e a Também não se deve confundir do hardcore e do trash-metal, e os música pop tornaram-se um Alice Cooper e Marilyn Manson skinheads, estes em contraste com campo altamente fértil por suas (combinação dos nomes da atriz próprias características juvenis de o anarquismo punk. Marilyn Monroe e de Charles revolta, de experimentação, de Nos anos 90, apesar da coexis- Manson, culpado pelo assassi- abertura para a novidade e pela tência dessas várias tendências, nato da atriz Sharon Tate) com relação com a tecnologia. Não é à a tônica parece ser o ceticismo os chamados “personagens da toa que, ao falar sobre o jazz das quanto às saídas positivas frente mídia”, como são os casos de suas origens ao estágio atual ao sistema de vida do mundo Michael Jackson e Madonna, que como uma forma musical visual e ocidental e, como resposta, uma se tornaram seus próprios perso- espetacular, Carlos Calado (1990) nagens na relação que travam postura de não comprometimento tenha demarcado como um com o mercado e a indústria da com ideologias muito fechadas. momento densamente frutífero, música pop, de cuja manipulação Se, de um lado, temos o experi- no que se refere à cena, o jazz são muito mais alvos do que mentalismo multimídia de Laurie fusion, especificamente na sujeitos. Anderson, que trabalha a música vertente que funde o jazz ao rock. O punk rock também radicaliza e as expressões do corpo dentro “Também quanto à apresen- o uso do corpo dentro das fron- de um contexto tecnológico (sons tação em cena pode-se encontrar teiras de sua proposta estético- e instrumentos eletrônicos, pro- elementos originários dos concer- ideológica de colocar-se contra gramas de alteração dos timbres tos e shows de rock nos espetá- todo tipo de exploração, domina- de voz, máscaras, projeções como culos da fusion. Desde a ilumina- ção e pobreza que a sociedade cenário), continuamos a presen- ção colorida sobre os músicos até capitalista impõe aos desprivile- ciar o dilaceramento do corpo com a utilização por estes de roupas giados. Nessa luta, devolvem à Iggy Pop se chicoteando com o espalhafatosas, cabelo mais sociedade seus símbolos de microfone e tirando as calças para comprido ao estilo rockeiro, ou dominação (suástica, crucifixo de a platéia, o travestimento esqui- mesmo uma movimentação maior ponta-cabeça, a cor preta, cor- sito do citado Marilyn Manson, a pelo palco, todos esses são aspec- rentes, cabelos do tipo moicano), radicalidade neo-punk e escato- tos claramente vinculados à uma música caracterizada pelo lógica do falecido G. G. Allin, voca- música pop e ao rock que vieram ruído – espécie de anti-música ou lista do grupo norte-americano participar dos desempenhos de não-música – e um corpo que The Murder Junkies e cuja perfor- músicos e grupos de jazz-rock”. expressa a dor, a escatologia e a mance ultrapassava qualquer (1990, p.197) 7 Ver também o capítulo 5 de Renato Cohen (1989). 31 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Só faltou frisar – o que obvia- elemento característico desde a musical – ou fazendo a técnica mente fugia dos objetivos de seu revolução modernizante do be funcionar em função do corpo –, trabalho – que os limites cênicos bop nos anos 40. O rock, por- transformou-se nesse vasto ter- e de expressão corporal do jazz tanto, ao se caracterizar muito ritório experimental onde várias se encontram na maior atenção mais pelo desempenho corporal vertentes das artes corporais se que reserva à técnica musical, dos músicos do que pelo apuro encontram com a música. RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS ADES, D. Dadá e surrealismo. In: CALADO, C. O jazz como DELEUZE, G; GUATTARI, .. Mil STANGOS, N. (Org.). Conceito da espetáculo. São Paulo: Perspectiva, platôs: capitalismo e arte moderna. Rio de Janeiro: 1990. esquizofrenia. v.1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. p. 81-99. Editora 34, 1995. BAUGH, B. Prolegômenos a uma CHACON, P. O que é rock?. São ________. Mil platôs: capitalismo e estética do rock. Novos estudos, Paulo: Brasiliense, 1982. esquizofrenia. v.3. Rio de Janeiro: São Paulo, CEBRAP, n. 38, p. 15-23, Editora 34, 1996. mar. 1994. COHEN, R. Performance como JOURDAIN, R. Música, cérebro e BIVAR, A O que é punk?. São linguagem. São Paulo: Perspectiva: êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva, Paulo: Brasiliense, 1982. EDUSP, 1989. 1998. 32 julho/dezembro-2002
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    Artigo O CENÁRIO VIRTUAL TELEVISIVO: UMA FORMA ESPECÍFICA DE REPRESENTAÇÃO CENOGRÁFICA João Batista Cardoso Diretor de Arte; Cenógrafo; professor nos cursos de Publicidade e Artes no IMES e UNISANTA; mestre (PUC/SP); doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). R E S U M O ABSTRACT O presente texto aborda uma forma específica The present text approaches a specific form of de representação encontrada hoje no espaço representation which was found on television televisivo: o cenário virtual. Esta nova transfor- space nowadays: the virtual set. This new mação vem afetando a forma de desenvolvimento transformation is affecting the shape of do projeto cenográfico, e conseqüentemente, o development of the scenographical project and, próprio conceito de cenografia. O ponto a ser as a result, the concept of the scenography itself. discutido no momento é: a cenografia utiliza os The main issues to be discussed right now are: recursos da informática para adaptar-se à the scenography uses the Information Technology evolução deste meio, ou a televisão, com os resources to adapt itself to the evolution, or the recursos da informática, está inventando uma Television is creating a new way to represent the nova forma de representação do espaço. space, using the same resources. PALAVRAS-CHAVE: cenografia, televisão, cenário KEYWORDS: scenography, television, virtual set. virtual. 33 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Ligamos a televisão na noite de pede a passagem da Câmera 1 1. A TECNOLOGIA sexta-feira para ver o programa para a Câmera 2, por exemplo, o Globo Repórter. O apresentador cenário virtual corta entre um Hoje, nós temos disponíveis no está caminhando pelo cenário, plano geral e um close-up com mercado, dois métodos utilizados onde há ao fundo duas paredes todo realismo” (Murray, 1998, nos sistemas de cenários virtuais. que dão profundidade ao espaço. p.47). Esta forma de cenário pode Em um deles, o cenário onde está Na primeira delas vemos o logo ser encontrada no Brasil, na Rede o apresentador é pintado de azul do programa, na outra, fotos Globo, Globo News, Rede Record ou verde. A câmera é fixa em uma referentes ao assunto do dia que e CNT. traquitana chamada de disposi- se misturam com legendas em Os sistemas de cenários virtuais tivo tracking, que transmite ao movimento; no teto uma abertura combinam múltiplas tecnologias, computador todos os movimen- para o céu, que em determinados entre elas o chroma-key, uma tos dela, inclusive da objetiva. Este momentos mostra a noite e em técnica aplicada há muito tempo é o sistema utilizado pelo Departa- outros, o dia; figuras em recortes na produção de vídeos. Todas as mento de Computação Gráfica da se espalham pelo espaço cênico, cores vistas no vídeo são formadas Rede Record, que faz uso do Larus Virtual Studio System, da Vi[z]rt, algumas em movimento; no piso pela combinação de apenas três: para processar os movimentos vemos reflexos e sombras das o vermelho, o verde e o azul, das câmeras e controlar os efeitos figuras e do apresentador; pontos conhecido como sistema RGB. de movimentos dos elementos de luzes passeiam pelo cenário Todas as cores das imagens cênicos que compõem o cenário. valorizando suas formas, os seus captadas pela câmera são O papel do Larus é integrar todo contornos. Este cenário é perce- decompostas, em três feixes, em o sistema, para operar com o bido na tela da televisão como informações de RGB, que depois mundo virtual e a sala de controle sendo corpóreo, tridimensional. são combinadas para reconstituir simultaneamente, com isso, um No entanto, não é construído em as cores originais. Com o recurso operador sozinho pode controlar madeira, ferro, tecido ou qualquer do chroma-key, é possível o sistema inteiro. Segundo outro material de nosso “mundo substituir uma determinada cor Calvente (ibid.), em matéria físico”. por um sinal de vídeo qualquer, publicada na revista Tela Viva, o Na televisão vemos este ou seja, um fundo monocromático Larus “permite a simulação de cenário ocupar um espaço. Este (background), geralmente azul ou uma panorâmica de 360º em um espaço é capaz de receber um verde, pode ser substituído por ambiente virtual”; já no segundo corpo humano e objetos, que imagens geradas no computador método, afirma Calvente, isso não interagem entre si. Contudo, este ou até mesmo por imagens é possível. cenário não se encontra instalado captadas. No entanto, no chroma- No segundo método, no em nenhum palco ou estúdio, key, existe a limitação do fundo background são pintadas faixas ocupa tão somente o espaço na não acompanhar o movimento da horizontais e verticais de espes- tela da televisão; existe apenas câmera. suras e tonalidades diferentes. O na memória do computador, e ao A tecnologia aplicada ao sistema reconhece esses padrões mesmo tempo inexiste, já que na cenário virtual resolve esse pro- e movimenta o cenário usando- memória não se encontra nas blema, “as câmeras podem se os como referência. “A vantagem formas que fazem com que seja deslocar livremente, pois o desse sistema é que dispensa o reconhecido como um cenário. background modifica-se de dispositivo tracking, de forma Este tipo de representação maneira coerente aos movimen- que a câmera pode ser usada até cenográfica, que encontramos em tos das câmeras. Para tanto é na mão. O problema é que diversos programas nas principais necessário ‘informar’ o sistema quando o plano é muito fechado, emissoras do mundo, como a BBC quando e como as câmeras se como num close-up, o sistema de Londres, a americana CBS ou a movimentam. Isso é possível não ‘enxerga’ a parede e perde o RAI na Itália, entre tantas outras, graças à tecnologia da câmera referencial” (Calvente, ibid., é chamado pelos profissionais da tracking que através de algum p.38). Segundo Sérgio Esteves área de “cenário virtual”. “O tipo de referência detecta a Pereira, designer de cenário cenário virtual contém todas as movimentação da câmera. Os virtual da Rede Record, hoje em paredes, texturas, cores, luzes, métodos de câmera tracking dia, ao se fazer uso da câmera animações e objetos tridimensio- variam de fabricante para livre, na mão ou na grua, apesar nais necessários para uma fabricante e de produto para de possibilitar o travelling produção (...). Quando o diretor produto” (Calvente, 2001, p.37). (movimento da câmera sobre 34 julho/dezembro-2002
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    Artigo trilhos), a imagemé renderizada apresentador, o computador luz real, nas pinturas dos telões vinte e sete vezes a cada recorta seu contorno, projetando- da Ópera ou ainda no surgimento segundo, levando a uma perda o no cenário, no ângulo exato do cinema, com os cenários de três frames por segundo; já no onde deveria estar uma sombra dirigidos por Robert Wiene para dispositivo tracking, apesar da real. O reflexo do cenário virtual O Gabinete do Dr. Caligari. limitação de movimento, a perda é, por sua vez, o rebatimento do Um outro fator que influencia é de apenas um frame (contato modelo original. O cenário no a estética atual do cenário virtual pessoal, 2001). computador apresenta-se em é a limitação tecnológica. “As Este último método é utilizado dois volumes, sendo um deles o limitações da tecnologia determi- pela Rede Globo e CNT, que “original” e o outro o “reflexo”. A nam as estruturas e formas que operam com estações da Orad, iluminação, mesmo quando a podem ser construídas no espaço empresa de desenvolvimento de vemos em movimento, é fixa. O virtual” (Holtzman, 1997, p.153). tecnologia para a produção de que existe, na tela do compu- Podemos observar que os progra- ambientes gráficos utilizados na tador, é uma série de desenhos mas que se encontram hoje no transmissão de vídeo em tempo de luzes estáticas, que ao serem ar trazem cenários futuristas com real. A família de produtos apresentadas em uma determi- superfícies lisas, metalizadas, CyberSet da Orad oferece uma nada seqüência dão a sensação extremamente “limpas”. Determi- gama de opções para o desenvol- de movimento. nadas texturas de alguns mate- vimento de cenário virtual. “A Essa simulação de uma riais ainda são impossíveis de tecnologia consiste em software iluminação é curiosa, se levarmos serem reproduzidas. “A estética e hardware que processam as em conta que o apresentador do mundo virtual de hoje é imagens tridimensionais e os está recebendo uma luz “real”. constituída pelos limites da elementos vivos da cena em Então temos no programa duas tecnologia (...). Os limites dos camadas separadas recortadas iluminações: uma fonte de luz equipamentos de computação através do chroma-key (...). O sobre o apresentador e uma gráfica de uma dada época, na recorte do chroma-key é realizado outra virtual, “impressa” no evolução tecnológica, ficam com tecnologia proprietária que cenário. Isto parece não ser muito evidentes no acompanhamento utiliza camadas. Numa delas é diferente de uma situação estético (...). Esta distinção é uma separado todo o ambiente virtual convencional onde existe uma parte fundamental da estética e em outras os elementos reais iluminação feita para o cenário e digital de hoje” (Holtzman, ibid., do cenário, através da tecnologia outra para as pessoas que estão p. 158-163). Pattern Recognition, que utiliza em cena. A diferença é que, nesta A artificialidade das texturas da uma grade em tons de azul em última, o mesmo iluminador matéria virtual ainda é um um blue box, que permite cuidará das duas, o que acabará problema apontado pelos profis- também todos os movimentos de fazendo com que pense na sionais da área, o cenário virtual câmera (...) neste cenário” unidade do todo. No caso do uso não é “sujo” o suficiente. “O fundo (Calvente, ibid., p.37). de cenário virtual, parece ainda tem muito mais definição que o Independente do sistema não existir essa preocupação, ator, e ainda tem foco infinito – o utilizado, a questão é que as pois podemos observar clara- que não ocorre nos cenários tecnologias disponibilizadas hoje, mente que a iluminação “real” e normais – com aquela cara de para o desenvolvimento de a “virtual” atuam nos programas computação gráfica” (Possebon cenários virtuais, possibilitam a de forma independente, parte apud Burini, 1996, p.234). Mas liberdade total da quantidade e pensada pelo designer do cenário para Sergio Pereira, esta limitação dos movimentos de câmeras; o virtual e parte pensada pelo diminui a cada dia. Segundo uso de elementos tridimensionais iluminador. Esta situação, de Pereira, as texturas da matéria em cena; a evolução destes certa forma, acaba gerando virtual já se encontram em um elementos e sua “interação” com conflito no espaço cênico, já que nível de semelhança com as reais, o apresentador; a incidência de a iluminação é um forte elemento que em alguns casos, os objetos luz em movimento sobre estes de comunicação e composição do nem chegam a ser percebidos mesmos elementos; e finalmente, cenário. Em todo caso, esta como sintéticos (contato pessoal, a projeção de sombras e reflexos situação não deve ser vista como out. 2001). Esta determinação da do apresentador e dos elementos tendo sido gerada a partir do uso estética vinculada à limitação virtuais. Estes recursos, no de cenários virtuais pela tele- tecnológica se deve principal- entanto, são meras simulações. visão. Podemos encontrar a mente ao fato do cenário virtual Com relação à sombra do iluminação estática, indiferente à se encontrar ainda preso à forma 35 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo de representação realista. evolução do chroma-key”. Devido espaço de informação em que Em Digital Mosaics, Steven a isso, parece ser importante dis- dados são configurados de tal Holtzman propõe a aceitação e cutir aqui a questão termino- modo que dão ao operador a a exposição do limite da imagem lógica, já que, no momento, é ilusão de controle, movimento e digital, as qualidades desta forma possível identificar outras formas acesso para informação, podendo de representação, o aspecto de representações cenográficas, haver troca de informações entre “digital” do material digital, o não com características distintas, os usuários. “Ciberespaço é tentar representar a realidade. onde poderíamos empregar a considerado melhor como um Esta idéia parece já estar dando mesma nomenclatura. termo genérico que refere-se a (...) frutos. Para Rick Nasch (1998), o Para que possamos definir tudo que tem em comum com a progresso do cenário virtual se melhor esta forma específica de habilidade para simular ambientes dará dentro da “arena criativa”, representação, não podemos em que humanos possam interagir por causa da ilimitada aplicação esquecer que, assim como não por dentro” (.eatherstone e destas ferramentas que oferecem existe um conceito único que Burrows, ibid., p.05). possibilidades a produtores e defina “cenografia” ou “cenário” A interação do usuário e sua diretores de descobrir novos (Cardoso, 2002, p.40-41), existem imersão no espaço também estilos visuais. também diferentes conceitos para caracterizam a realidade virtual. Após ter sido modelado e “virtual”. O que nos interessa Para Jaron Lanier, na realidade texturizado o cenário, por meio neste momento, mais que as virtual percebemos experiências de softwares como o Softimage, questões filosóficas (a respeito de telepresença: “este é um 3Dstudio MAX, AutoCAD DX. dos conceitos de realidade, sistema que proporciona uma format, entre outros, e progra- possibilidade, atualidade, e sensação realista do indivíduo mados seus movimentos de luzes virtualidade) discutidas por Pierre imerso em um ambiente” (apud e elementos cênicos, ele não pode Lévy (1999, p.15-24) em seu livro .eatherstone e Burrows, 1996, ser modificado, pois a mudança O que é o Virtual? (que partem dos p.05-06). de um simples efeito implica em conceitos de Gilles Deleuze (1985) Podemos perceber que o refazer toda a estrutura do cená- em Différence et Répétition), são conceito de virtual vindo da rio ou o programa de movimen- aqueles conceitos que surgiram simulação e da realidade virtual tos. A partir daí existirão três com a cultura digital, já que o trata sempre da interação, da controles em tempo real: o dos termo “cenário virtual” surgiu da troca, da imersão do homem no câmeras (cameraman) que movi- simulação e da realidade virtual. espaço virtual como um elemento mentam o cenário (pan, tilt, zoom, dele. A relação do cenário virtual etc.); o do operador que aciona os 2 O VIRTUAL com a simulação ou com a efeitos (grafismos, luzes e movi- realidade virtual não pode ser mento de elementos cênicos); e o A relação do virtual com a facilmente explicada dentro da direção que, além do comando simulação vem do ciberespaço. destes conceitos. No cenário sobre os dois anteriores, encar- No ciberespaço, o objeto está em virtual não existe este contato tão rega-se da pós-produção (escolha todos os lugares e em nenhum próximo entre o homem e o dos quadros). lugar ao mesmo tempo, ele se espaço virtual, não existe imersão Esta forma de representação atualiza no tempo presente. Da ou interação da forma como foi cenográfica, com as caracterís- mesma forma que, quando se exposta no ciberespaço ou na ticas específicas que acabamos de navega no ciberespaço, atualiza- realidade virtual. descrever, é definida por Ana se uma margem de possibili- Neste sistema podemos reco- Maria Roites (1995), no Dicionário dades, a simulação, como um nhecer claramente três dimen- Técnico de TV, como: “cenário programa que é, antecipa as sões: a primeira delas é o próprio gerado por computadores usando condições atuais. Segundo Marcos espaço cênico, existente apenas softwares específicos. Às vezes Novak, não há objetos no na memória do computador; a (...) combinados (com) imagens de ciberespaço, apenas no tempo e segunda é a do apresentador ou câmeras”. Esta definição, contudo, espaço. “Há o mundo de objetos- ator, que se encontra em outro por ser muito abrangente, acaba atributo, objetos como conjunto espaço que não é aquele existen- dando margem a algumas colo- de atributos” (1993, p.217). te na memória do computador; cações que parecem não refletir Em Cyberspace/Cyberbodies/ a terceira é aquela em que a natureza desta forma singular Cyberpunk, de .eatherstone e alguém, o telespectador, obser- de representação. Como a de Burrows (1996, p.02-03), o termo va um homem, o apresentador, Calvente, onde “o processo é uma “ciberespaço” refere-se a um ocupando um determinado 36 julho/dezembro-2002
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    Artigo espaço, aquele existenteapenas fabricantes de equipamentos para qual tratamos aqui, é apenas uma na memória do computador, e produção de cenário virtual. A evolução tecnológica do chroma- interagindo com os objetos incorporação de conhecimentos e key: “O chroma-key mudou de deste espaço. técnicas dos campos de pesquisas nome, ganhou três dimensões, Ao observar um homem em da simulação e realidade virtual, interatividade com o ator e um espaço virtual, o telespec- pela televisão, acabam levando a movimento, tudo isso feito em tador, neste momento, está sendo uma nova concepção de cenário. real time. É o cenário virtual” induzido a uma espécie de ilusão. O cenário virtual difere daquele (Possebon apud Burini, ibid.). A imersão do apresentador, neste construído em madeira, ferro, Pensando assim, mesmo sem caso, deve-se ao recurso do tecido ou outra matéria do “mundo profundidade, não simulando a chroma-key somado à tridimen- físico”, por este se apresentar na tridimensionalidade, nem sendo sionalidade dos elementos cêni- televisão como uma realidade capaz de receber o homem dentro cos, à liberdade de movimento, secundária, uma realidade que de si, o chroma-key é “cenário proporcionada pela câmera e à consiste de elementos de uma virtual”. sobreposição de camadas que, realidade primária, a matéria física Apesar do princípio ser o com a nova tecnologia empre- (Leopoldseder, 1999, p.69). Esta mesmo: uma pessoa à frente de gada, permitem que o apresen- nova forma de representação é um fundo azul ou verde que, após tador possa andar em volta dos autônoma. “O mundo das imagens ser recortada, é inserida em fundo objetos virtuais. A interação do da cultura digital é em si uma com uma imagem sintética. Em apresentador com os elementos realidade primária. Nós não nossa forma de representação: “o cênicos, por sua vez, percebida tratamos com elementos de uma ator anda tridimensionalmente pelo telespectador, não passa de realidade atual, mas com uma nova sobre essa imagem, escondendo- um “truque”, onde uma simulação realidade sinteticamente gerada” se atrás dos planos de compu- de comando do apresentador, (Leopoldseder, ibid.). Com isso, tação gráfica e fazendo sombra. E sincronizada com o comando real podemos afirmar que, se por um mais, o fundo de animação do operador do sistema, faz com lado o cenário virtual não é uma acompanha o movimento da que se tenha a impressão de que evolução natural do cenário câmera virtual para a câmera do as ações sobre os objetos em cena televisivo, por outro, não podemos estúdio, sem cortes” (Possebon estejam sendo exercidas pelo dizer que seja uma ruptura com apud Burini, ibid.). apresentador. Desta forma, pode- este sistema, já que faz uso de sua Observando a história da mos perceber neste quadro, que linguagem. De qualquer modo, cenografia (Cardoso, ibid., p.08-39), não existe imersão do apresen- esta nova forma de representação podemos ver que mesmo antes da tador ou do telespectador no é corporificada em algo que cultura digital, outras formas de espaço virtual, assim como não reconhecemos como sendo representações cenográficas pode- existe nenhuma forma de inte- cenário, e este cenário, em sua riam também serem chamadas de ração entre essas três dimensões natureza, é virtual. Contudo, o “cenário virtual”. A partir do final neste sistema como o vemos hoje. cuidado que devemos tomar é que do século XIX, já podemos Contudo, a relação do cenário podemos facilmente perceber que encontrar no teatro o “cenário virtual com a simulação ou com a outros modelos de cenários, que virtual” no momento em que se realidade virtual é muito mais não possuem estas características utiliza a luz elétrica como ele- estreita do que possa parecer. A específicas, também são virtuais. mento cênico, já que a luz, como tecnologia empregada na con- a imagem digital, só existe no fecção de cenários virtuais vem 3 AS VIRTUALIDADES tempo e no espaço; também pode das indústrias que desenvolvem ser encontrado no cinema do sistemas de treinamento e simu- No período da televisão em início do século XX projeções que ladores militares, “os estúdios preto e branco, o matte já possi- simulavam locações, ambientes virtuais são as primeiras aplica- bilitava a inserção de imagens reais. “O sistema de projeções ções da tecnologia de realidade sintéticas como fundo para os frontais de diapositivos utilizado virtual com fins profissionais” apresentadores de televisão. Com por Syberberg (Hans-Jürgen (Possebon apud Burini, ibid.). Uma o início da transmissão em cores, Syberberg), através do qual ele dessas empresas, a BVR Techno- o recurso que passou a ser simula seus cenários artificiais, logies Ltd, em 1993 reposicionou utilizado foi o chroma-key. surpreendeu até mesmo Coppola, seus produtos em nova direção, Uma observação menos cuida- um dos mais inquietos realiza- nascendo daí a RT-SET, hoje dosa pode levar a crer que esta dores americanos (...). A projeção Vi[z]rt/RT-SET, um dos maiores nova forma de representação, da frontal é um aperfeiçoamento 37 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo invertido do velho sistema deno- oscilou, desde os primeiros pois o conceito de “arquitetura minado back projection, com que tempos, entre a arquitetura e a líquida”, para Novak (ibid., p.230- se forjou a maior parte dos pintura” (Magaldi, 1965, p.38), 231), vem da liberdade que ‘truques’ cinematográficos nos para Gordon Craig “(...) o corpo do oferecemos ao corpo de mudar a anos trinta e quarenta” (Machado, ator, abaulado como o é, não fica realidade a sua volta: “a forma é 1996, p.276). Nos dias de hoje, bem ao lado da tela pintada, chata contingente dos interesses do os experimentos com a virtua- e sem relevo: o palco exige a observador (...). Se descrevemos a lidade cenográfica na indústria escultura, a arquitetura, o volume”. arquitetura líquida como uma cinematográfica não só são No final do século XIX, a luz elétrica sinfonia no espaço, esta descrição múltiplos como também um dos rejeita a planura dos telões e o se resumiria a uma parte da mais poderosos recursos para cenário se assume definitivamente promessa. Uma sinfonia, ainda que atrair o público. como corpóreo. Para Patrice Pavis varie em sua duração, segue sendo Os conceitos de cenário e (1999, p.42), o cenário como um um objeto fixo que pode repetir- virtual, discutidos aqui, buscam telão de fundo é uma opção se. Em sua expressão mais plena, somente levantar os fatos que artística muito ingênua e estreita. a arquitetura líquida é mais que levaram esta forma de repre- “A cenografia (cenário) marca bem isso. É uma sinfonia no espaço, sentação a ser conhecida como seu desejo de ser uma escritura porém uma sinfonia que nunca se cenário virtual. Não existe, neste no espaço tridimensional (...), e não repete e segue criando-se”. Ima- caso, a intenção de se discutir a é mais a arte pictórica da tela ginando que essa concepção adequação ou não do emprego pintada (...). É como se passás- cenográfica possa vir a ser rea- do termo, contudo, a partir do semos da pintura à escultura ou à lizada, uma nova questão seria momento em que passamos a arquitetura.” (Pavis, ibid., p.45). levantada: a interação com o considerar o chroma-key como O cenário virtual se distancia do cenário, levando à interferência do uma forma de cenário virtual, é chroma-key, neste momento, por telespectador em seus volumes, importante que se faça uma clara entrar no domínio da arquitetura. cores ou ângulos, não levaria à distinção entre estas duas formas “Um espaço modulado de maneira perda da autenticidade da repre- de representações, já que, como que permite ao sujeito entrar nele sentação? Com isso, de quem seria característica mais marcante, o e habitá-lo se chama arquitetura” a autoria? Sem um cenógrafo “cenário virtual” é uma forma de (Novak, ibid., p.223-224). Para criador esta representação ainda representação que percebemos Novak, mesmo um espaço comple- seria um cenário? De qualquer em um espaço tridimensional, já tamente artificial, quando modula- forma não cabe, neste momento, no chroma-key, não é possível se do, é um espaço arquitetônico. discutir essas questões, mesmo conseguir esta tridimensiona- O cenário, de uma forma geral, porque, com os recursos disponi- lidade. existe em função do espaço e da bilizados hoje, ainda não temos significação. “O espaço cênico condição de corporificar um 4 A TRIDIMENSIONALIDADE distingue-se por um alto grau de cenário plenamente líquido. saturação sígnica: tudo o que Mesmo assim, as possibi- Para Novak, existem três entra em cena adquire a ten- lidades geradas pelo cenário requisitos fundamentais para a dência de saturar-se de sentidos virtual se comparado ao simples percepção do espaço: “a referência, complementares” (Lotman, 2000, recurso do chroma-key, ou ainda a delimitação e a modulação. Se p.66). Assim como, no final do ao construído com matéria do falta um, o espaço não pode se século XIX, a planura dos telões mundo físico, o “cenário corpóreo”, distinguir do não espaço” (ibid., foi rejeitada pela luz elétrica por parece ter a mesma leveza e p.223). O cenário virtual é uma não se expressar de forma encantamento que tanto fascinou simulação de um cenário físico, cenográfica, o chroma-key, da o pesquisador e cenógrafo suíço que recebe corpos humanos em mesma forma, atua apenas como Adolph Appia quando se viu espaços modulados e delimitados, pano de fundo da cena. diante da luz como elemento é um “cenário corpóreo”. No A arquitetura do cenário virtual cenográfico. “Na estética de Appia chroma-key existe apenas uma difere também daquela construída (...) a respiração de um espaço e superposição do corpo ao cenário, em madeira por ser “líquida”. Tem de seu valor rítmico estão no o cenário vira um pano de fundo. maiores possibilidades de evo- centro da cenografia, a qual não Esta questão da oposição entre lução rítmica, tanto no espaço é um objeto bidimensional fixo, cenário corpóreo e cenário como como no tempo. Contudo, não mas um corpo vivo submetido ao pano de fundo não é uma convém chamar esta forma de tempo, ao tempo musical e as discussão nova. “A cenografia representação de “cenário líquido”, variações de luz” (Pavis, 1999, 38 julho/dezembro-2002
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    Artigo p.46). E, nestecaso, o cenário o nível de realismo tem aumen- anomalias espaciais do artista virtual vem ao encontro do tado a tal ponto que o ambiente gráfico holandês Mauritz Cornelis primeiro pré-requisito de Appia virtual é virtualmente indistin- Escher (1898-1972), com suas que “era manter o palco livre de guível do físico” (Murray, ibid., figuras andando em uma mesma qualquer coisa que prejudicasse p.48). Rick Nash (1998), vice- escada, uma descendo enquanto a presença física do ator” presidente da Production Group a outra sobe, e, ao mesmo tempo, (Berthold, 2001, p.470). Studios da RT-SET, em artigo mantendo-se num mesmo nível. Se retornarmos a este mo- publicado, conta que, quando Um espaço tridimensional onde mento da cenografia, em que a luz discute a produção com seus cada uma das três dimensões se apresenta-se como elemento clientes, a ênfase se localiza na confunde com as outras. “Através fundamental na concepção ceno- maioria das vezes em como o da história encontramos exem- gráfica, poderemos observar cenário parecerá real. plos de projetos arquitetônicos outras semelhanças com o mo- Contudo, assim como Appia de tão grande ambição que mento presente, no que diz percebeu nos recursos da luz simplesmente não puderam ser respeito à estética do cenário. Se elétrica uma nova forma de construídos utilizando os recur- por um lado temos Appia (1862- pensar a cenografia, Hannes sos de sua época” (Novak, ibid., 1928) “que fazia restrições ao Leopoldseder (ibid., p.67) lembra p.225), no entanto, com as telão pintado principalmente por que o computador é uma ferra- possibilidades oferecidas pelo tratar-se de representação de menta que influencia o processo cenário virtual, fazendo uso das imagem plana, bidimensional, que cultural e artístico, criando, com palavras de Walter Gropius (apud bem poderia ser substituído pela isso, um novo tipo de artista. Para Novak, ibid., p.227), poderemos ilusão do espaço criado pela luz” Leopoldseder (ibid., p.69), os “construir na imaginação, sem (Camargo, 2000, p.27-28), por artistas não somente recebem preocupar-se com as dificuldades outro lado temos André Antoine uma nova ferramenta, o compu- técnicas”. (1859-1943) que, apesar de tador pede um novo tipo de Diante do que foi apresentado, também rejeitar os telões, busca pensamento, a lógica matemática é importante se discutir a questão na luz o aspecto atmosférico entra na concepção artística, e a da terminologia empregada hoje, “numa visão imitativa e naturalista partir do momento em que não para questionar sua etimo- da realidade” (Camargo, ibid., utilizam os novos recursos, a logia mas, principalmente, para p.33). A luz, nos dois casos, levava artista tem parte de seus limites diferenciar esta forma de represen- a cenografia para o campo da abolidos. “No espaço físico, dois tação, o cenário virtual, de outras arquitetura, mas para Appia como objetos não podem ocupar o formas de “cenários virtuais”. Tal- forma de propiciar a luz condições mesmo espaço no mesmo vez, futuramente, deva ser pen- de realizar evoluções e para momento” (Novak, ibid., p.220), sado o uso de uma nova nomen- Antoine pelas possibilidades de no espaço virtual isto é possível. clatura para referir-se a esse representar o real. Conseqüente- O cenário virtual pode se objeto, mas enquanto isso não mente, estas posições levam a libertar dos limites arquitetônicos acontece, vamos continuar estéticas cenográficas distintas. impostos pelas leis da física, chamando-o de cenário virtual, Da mesma forma se comporta rejeitar a gravidade, quebrar a evitando usar este termo, como a estética do cenário virtual. “A ilusão da perspectiva. Sua alguns profissionais ainda o fazem, ênfase hoje está no realismo (...) arquitetura pode chegar às para referir-se ao chroma-key. 39 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS BERTHOLD, M. História mundial .EATHERSTONE, M.; BURROWS, R. MAGALDI, S. Iniciação ao teatro. do teatro. São Paulo: Perspectiva, Cyberspace, cyberbodies, São Paulo: Ed. São Paulo, 1965. 2001. cyberpunk: cultures of technological embodiment. London: MANTOVANI, A. Cenografia. São BURINI, D. Cenografia em telenovela, leitura de uma Sage Publications, 1996. Paulo: Ática, 1989. (Série produção. 1996. Dissertação Princípios). (Mestrado em Comunicação Social) HOLTZMAN, S. Digital mosaics: the - Pontifícia Universidade Católica aesthetics of cyberspace. Nova MURRAY, .. RT-SET Ground zero in de São Paulo, São Paulo, 1996. York: Simon & Schuster, 1997. the virtual studio revolution. In: Broadcast Hardwar, USA: Jun. CALVENTE, E. Cenografia virtual. LEOPOLDSEDER, H. Ten indications of 1998. Revista Tela Viva, São Paulo, p. an emerging computer culture. In: 36-38, jun. 2001. DRUCKEREY, T. (Ed.). Ars electronica: NASCH, R. RT-SET produces virtual CAMARGO, R. G. .unção estética facing the future. Cambridge, Mass: reality. In: Tv technology, USA: da luz. Sorocaba: TCM The Mit Press, 1999. IMAS Publishing, 1998. Comunicação, 2000. LÉVY, P. O que é virtual?. São NOVAK, M. Arquitecturas líquidas CARDOSO, J. B. .. O cenário Paulo: Editora 34, 1999. (Coleção em el ciberespacio. In: BENEDIKT, virtual: uma representação Trans). M. Ciberespacio: los primeros tridimensional no espaço passos. México: CNCT: Serius televisivo. 2002. Dissertação LOTMAN, I. La semiosfera III: Mexicana, 1993. (Mestrado em Comunicação Social) semiótica de las artes y de la - Pontifícia Universidade Católica cultura. Madrid: Cátedra, 2000. PAVIS, P. Dicionário de teatro. de São Paulo, São Paulo, 2002. São Paulo: Perspectiva, 1999. DELEUZE, G. Différence et MACHADO, A. Máquina e imaginário: repetition. Paris: Press o desafio das poéticas tecnologias. ROITES, A. M. Dicionário técnico Universitaires de .rance, 1985. 2.ed. São Paulo: EDUSP, 1996. de TV. São Paulo: Globo, 1995. Assinatura Anual ASSINE JÁ BRASIL Administração: R$ 30,00 Comunicação: R$ 20,00 Direito: R$ 40,00 Saúde: R$ 20,00 PUBLICIDADE E CORRESPONDÊNCIA Centro Universitário Municipal de São Caetano do Sul Exterior (aérea) a/c Revista IMES Av. Goiás, 3400 São Caetano do Sul - SP Administração: R$ 45,00 Brasil - CEP 09550-051 Comunicação: R$ 35,00 .one: (11) 4239-3259 - .ax (11) 4239-3216 Direito: R$ 55,00 e-mail: comunic@imes.edu.br Saúde: R$ 35,00 40 julho/dezembro-2002
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    Artigo A CRÍTICA GENÉTICA NA PROPAGANDA João Vicente Cegato Bertomeu Publicitário, Ilustrador e Professor Universitário (IMES, São Judas, ESPM, Belas Artes e Oswaldo Cruz) R E S U M O ABSTRACT Este artigo buscou contribuir para reforçar a This research offers relevant information for the importância das pesquisas e estudos no processo communication and for the genetic criticism. The de criação de propaganda através da crítica genética. Apresentar os documentos, o detalha- documents will notice that some characteristics mento de algumas etapas do processo e a in creation and production advertisings will be complexidade do percurso de criação de algumas discussed with genetic criticism and contributes campanhas, auxiliará no desenvolvimento didático to undergratuate teaching. desta disciplina nos cursos de graduação. PALAVRAS-CHAVE: criação publicitária, KEYWORDS: advertising creation, creativity, criatividade, ensino da publicidade. advertising teaching. 41 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo A CRÍTICA GENÉTICA E A 50 em diante, consolida-se o a) no campo da propaganda PROPAGANDA crescimento industrial no eixo Os documentos do processo Rio - São Paulo e, com ele, a maior de criação em propaganda são 1.1 Breve Histórico da necessidade de utilização da identificados e analisados, Atividade de Propaganda propaganda (Ramos, 1985). buscando distinguir e estudar, No Brasil, em 1808, no Rio de Nos aspectos do processo de nestes mesmos documentos, Janeiro, o jornal a Gazeta do Rio criação em propaganda, entre os o planejamento, a execução e de Janeiro é fundado, dando início anos 60 e 80, as agências de o desenvolvimento do anún- à imprensa brasileira. Assim, é propaganda utilizam duplas de cio publicitário. encontrado o primeiro anúncio criação, constituídas por um As características que influen- impresso, os anúncios classifi- redator e um diretor de arte. ciam no processo são identifi- cados que chegam e, em pouco Entre tantas outras formas de cadas, para que a criação possa tempo, tornam-se numerosos e se tratar o assunto, atualmente atingir resultados mais satisfa- variados. algumas empresas acreditam e tórios no que se refere à criati- Já em 1875, os primeiros anún- discutem o trabalho criativo vidade, visto que na propa- cios ilustrados são publicados em desenvolvido por equipes, chama- ganda a busca por campanhas Mequetrefe e O Mosquito, jornais das de Team Works, que procuram de alto teor criativo é uma editados também no Rio de abrigar o mais amplo leque de constante entre os profis- Janeiro, que dedicam sua última profissionais de diversos setores sionais. página aos anúncios ilustrados da propaganda, entre eles: plane- No ensino da graduação em pelo próprio caricaturista da jadores, artistas gráficos, profis- Comunicação Social, especifi- publicação (Ramos, 1985). sionais de marketing, profissio- camente no curso de Propa- Desse modo, nota-se que a nais de mídia e atendimento, ganda, apresentam-se ainda criação na propaganda brasileira pesquisadores, redatores, etc. poucos estudos relacionados à começa com textos de jornalistas Nos periódicos de propaganda, disciplina Criação em Propa- e poetas, e, posteriormente, apresentam-se sempre discus- ganda. Sendo assim, a crítica integram-se a estes artistas para sões e buscas sobre as melhores genética é aplicada para que desenvolvimento dos aspectos formas de se criar em propa- se possa estudar os documen- visuais dos anúncios. ganda. Nota-se que a criatividade tos, o detalhamento de alguns A partir desse período, os é o resultado fundamental dentro processos e a complexidade do anúncios acompanham a evolução percurso de criação de algu- de todo o processo de produzir gráfica e, em 1900, com o apare- mas campanhas, com o obje- propaganda, assim, o tema está cimento das revistas, entram em tivo de auxiliar no desenvolvi- sempre em evidência dentro do grande expansão. Em 1913, mento didático da disciplina. setor. encontram-se a produção de Desde o início, a atividade de b) no campo da crítica genética cartazes, avulsos e variadas criar em propaganda não é A crítica genética pode ser formas de propaganda ao ar livre destacada de modo claro quanto definida como a investigação (Ramos, 1985). a seu processo. Assim, este artigo que vê a obra de arte, partindo Assim, com a chegada ao Brasil busca identificar algumas formas de sua construção. Acompa- das empresas multinacionais, tais de se estudar os documentos nhando seu planejamento, como: Bayer, General Motors, Mercedes-Benz, .ord, entre envolvidos e caminhos criativos execução e desenvolvimento, outras, agências de propaganda encontrados dentro do processo o crítico genético preocupa-se instalam-se para atender a esse de criação de algumas campanhas com a melhor compreensão do de propaganda. processo criativo. Sendo assim, novo mercado. O desenvolvi- o anúncio impresso é estudado mento da atividade passa a 1.2 A Propaganda e a por meio dos documentos do receber influência direta da Crítica Genética processo que o acompanham. propaganda que era feita em A história da produção de outros países. O presente artigo objetiva obras, no caso a produção dos Após a Segunda Guerra Mun- contribuir para compreender a anúncios impressos, é pesqui- dial, os horizontes da propagan- crítica genética e sua aplicação no sada e comentada, seguindo as da ampliam-se, especialmente processo de criação em propa- pegadas deixadas pelos cria- nos Estados Unidos e Inglaterra, ganda, resultando em informa- dores. Ao narrar a gênese do refletindo no desenvolvimento ções relevantes à comunicação e anúncio, pretende-se tornar o da atividade no Brasil. Nos anos também à crítica genética, a saber: movimento legível e revelar 42 julho/dezembro-2002
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    Artigo algunsdos sistemas respon- em 1968, quando por iniciativa de rotas movimentadas. Uma pintura sáveis pela criação. A crítica Louis Hay, o Centre National de em uma parede de Pompéia refaz, com o material que Recherche Scientifique (CNRS) louvava um político e pedia votos possui, a gênese do anúncio reuniu uma equipe de pesqui- ao povo. Outra Antiga forma de e descreve os mecanismos sadores encarregados de organi- propaganda era a marca que os que sustentam essa produção. zar os manuscritos do poeta comerciantes colocavam em seus O foco de atenção da crítica alemão Heinrich Heine, que produtos, tais como potes. À genética é o processo por meio tinham sido recebidos pela medida que sua reputação se do qual algo que não existia, Bibliothèque Nationale de .rance. espalhava de boca em boca, os passe a existir, com base em No Brasil, a Crítica Genética compradores começavam a algumas características que chegou, de modo oficial, pelas procurar por uma marca em alguém vai lhe oferecendo, mãos do Professor Philippe particular, da mesma forma como como a definição de fato Willemart no I Colóquio de Crítica marcas registradas e nomes de fictício de Peirce (1977). Um Textual: O manuscrito moderno e produtos são procurados atual- anúncio impresso surge ao as edições, em 1985, na Universi- mente (Kotler e Armstrong, 1991, longo de um processo comple- dade de São Paulo (Salles, 1992). p.304)”. xo de apropriações, transfor- Neste estudo, o manuscrito O momento de transição na mações e ajustes. A crítica literário é o objeto de pesquisa, história da propaganda ocorre em genética entra na complexi- como faz parte do processo cria- meados do séc. XV, quando Johan dade do processo e a principal tivo de um escritor, a possibilidade Gutemberg inventou a imprensa. questão que impulsiona este de se estudar outros documentos Os anunciantes não precisavam estudo é a organização desse do processo de toda e qualquer mais produzir cópias extras de um movimento. manifestação pode ser uma anúncio à mão. A primeira A interpretação do anúncio realidade. Desse modo, coube ao propaganda impressa em língua não seria considerada final Centro de Estudos de Crítica inglesa apareceu em 1478. pelo publicitário, mas, sim, o Genética da Pontifícia Universidade Em 1622, a propaganda processo responsável pela Católica de São Paulo expandir os recebeu um grande incentivo com sua produção. De acordo com limites do estudo de crítica o lançamento do primeiro jornal Salles (1998), ressaltamos genética, e, em pouco tempo, já inglês, The Weekly News. Mais que só nos interessa estudar havia pesquisadores estudando tarde, Joseph Addison e Richard o processo de criação porque manuscritos de arquitetura, artes Steele publicaram o Tatler e a obra existe. plásticas, teatro, dança, jornalismo passaram a apoiar a propaganda A crítica genética utiliza-se do e cinema. que teve seu maior crescimento percurso da criação para Assim, a crítica genética é nos Estados Unidos. Benjamin desmontá-lo e, em seguida, utilizada não só para identificar .ranklin tem sido conhecido como para colocá-lo em ação as etapas e os documentos deste o pai da propaganda americana novamente. Quando se refere tipo de processo, mas também porque sua Gazette, publicada a percurso, fala-se sobre os demonstrar como se apresentam pela primeira vez em 1729, teve rastros deixados pelo criador. as principais características deste a maior circulação e volume de O interesse dos estudos percurso. propaganda do que qualquer genéticos é o movimento criativo: o ir e vir da mão do jornal na América colonial. Vários 1.3 PROPAGANDA. fatores fizeram da América do criador. Ultrapassando o que CONCEITOS E DE.INIÇÕES é entregue ao público, a obra Norte o berço da propaganda. A é observada sob os prismas Conforme Kotler e Armstrong: indústria norte-americana era do gesto e do trabalho. Assim, “Os mais antigos registros líder de produção em massa, o o crítico passa a conviver com históricos nos dão notícia da que criava excesso de produção o ambiente do fazer cuja propaganda. Arqueólogos traba- e necessidade de convencer os natureza o criador sempre lhando em países ao redor do Mar consumidores a comprarem mais. conheceu. Mediterrâneo descobriram escritos O desenvolvimento de uma Estes estudos sempre se anunciando vários eventos e extensa rede de transporte fluvial, limitaram à análise dos rascunhos ofertas. Os romanos pintavam as estradas e caminhos permitiu o de escritores. Assim nasceu a paredes para anunciar lutas de transporte de bens e dos meios crítica genética na .rança no fim gladiadores e os fenícios pintavam de propaganda para o interior. dos anos 60, mais precisamente figuras promovendo seus artigos O estabelecimento, em 1813, do em grandes rochas ao longo de ensino público obrigatório au- 43 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo mentou o número de pessoas unicamente aquela que concorre Essas observações deixam alfabetizadas e a proliferação de para desenvolvê-la. supor que, para representar seu jornais e revistas. A invenção do Esse primeiro aspecto da papel, a propaganda deve pôr em rádio e, mais tarde, da televisão natureza da propaganda deve ser jogo as disciplinas mais diversas. criaram mais dois meios notáveis logo corrigido pela observação de É uma força complexa que faz para difusão da propaganda. que a informação é comunicada apelo a profundos conhecimentos As agências de propaganda com uma intenção bem deter- econômicos, quer se tratem de foram criadas da metade para o minada e clara: vender. Pôr em mecanismos cambiais, estudos de final do século XIX, por fabricantes relevo essa intenção não é mercado, observação ou previ- e corretores que trabalhavam para indiferente, pois traz consigo sões econômicas. a mídia e recebiam comissão pela diversas conseqüências. Define-se como propaganda ao venda de espaço e propaganda A primeira tem por finalidade conjunto dos meios destinados a para várias empresas. Pouco a manter uma proposição comer- informar o público e convencê-lo cial. A informação só existirá, a comprar um produto ou serviço pouco, formaram agências e posto que seja necessária para (Leduc, 1980). aproximaram-se mais dos anun- esse fim: o aspecto informativo Muitos objetivos de comuni- ciantes do que da mídia. As agên- será desenvolvido se for o caso cação e de vendas podem ser cias passaram a oferecer mais de um produto técnico ou atribuídos à propaganda. Colley propaganda e serviços de marke- novidade; será, ao contrário, ting para seus clientes. lista 52 possíveis objetivos de mínimo ou até mesmo inexis- propaganda em seu conhecido “A propaganda só conheceu uma tente, se o produto for conhecido verdadeira expansão, contudo, no Defining Advertising Goals for e se não houver nada de novo que Measured Advertising Results; ele final do século XIX. A tecnologia e as se refira a ele. técnicas de produção em massa já delineia um método chamado Em segundo lugar, acontece Dagmar (as iniciais do título do tinham atingido um nível de com freqüência que a informação desenvolvimento em que um maior livro) para transformar os cede lugar à persuasão, isto é, a objetivos de propaganda em número de empresas produzia todos os meios pelos quais se metas específicas mensuráveis mercadorias de qualidade e preços procurará tentar, seduzir, fazer (Colley, 1979). mais ou menos iguais. Com isso, veio desejar e convencer. Um objetivo da propaganda é a superprodução e a subdemanda, Torna-se importante ressaltar a tarefa específica da comunica- tornando-se necessário estimular o que a função essencial da propa- ção a ser realizada com um mercado de modo que a técnica ganda é se fazer conhecer um público-alvo específico, durante publicitária mudou da proclamação produto para que ele seja pro- um determinado período de para a persuasão. O contexto social curado. Mas os que ela procura tempo, cujos objetivos podem ser e institucional em que se situa a influenciar são distraídos, ocu- pados, esquecem-se facilmente e classificados pelo propósito a que propaganda nos dias de hoje definiu- sua mentalidade não pára de destina: informar, persuadir ou se, portanto, no início do século lembrar. A propaganda informa- atual: mercadorias produzidas em mudar. Novas camadas de consu- midores aparecem a cada ano. tiva é utilizada maciçamente na massa, mercado de massa atingido introdução de uma nova categoria através de produção de massa”. Outras desaparecem. O próprio produto transforma-se e aper- de produto, quando o objetivo é (Vestergaard e Schroder, 2000, criar uma demanda primária e a p.4) feiçoa-se. Também a propaganda deve ser um processo perma- persuasiva torna-se mais impor- A propaganda é uma infor- tante à medida que a concorrência nente: nessa área, as situações mação com objetivo específico. aumenta e o objetivo da empresa nunca são definitivamente con- Ela tem por princípio criar um elo é criar uma demanda seletiva. quistadas. É preciso conservar a entre o produtor e o consumidor Uma parte da propaganda reputação de um produto cons- que, sem ela, ignorar-se-iam persuasiva é conhecida por tantemente e tensão e o desejo mutuamente; é, com efeito, a comparativa, pois procura esta- devem ser mantidos para suscitar comunicação de uma mensagem. o consumidor. belecer a superioridade de uma É preciso insistir sobre este Esta tensão, este desejo, marca por intermédio da aspecto, pois o erro mais freqüente devem ser provocados pela criati- comparação específica com uma é acreditar que a propaganda é vidade publicitária. Trata-se aqui ou mais marcas de uma classe de venda. Este conceito não é do próprio cerne da propaganda produto. A propaganda compara- correto, uma vez que ela só que é a pedra angular sobre a qual tiva também tem sido utilizada representa uma parte da venda, repousa sua eficácia. para produtos tais como refrige- 44 julho/dezembro-2002
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    Artigo rantes, computadores, desodoran- Como propõe Sampaio, em existir” (Serpa, 1999, p.28). tes, cremes dentais, automóveis, Propaganda de A a Z: “É neces- Marcondes e Galvão referem- vinhos e analgésicos. sário analisar se a idéia ousada é se à fundamental importância A propaganda de lembrança é consistente e pertinente ao objetivo dos aspectos para a criação importante para o estágio de definido e público visado. É preciso publicitária: “A criação se arrisca maturidade do produto, faz com avaliar se a proposta coerente e à padronização sempre que que os consumidores mantenham objetiva, que parece perfeita para abandona a surpresa, a inteli- o produto em mente. o anunciante, é suficientemente gência, a persuasão, a objetivi- destacável e emocionante para ser dade numa palavra, a criativi- 1.4 A Propaganda Criativa, percebida e apreendida pelo dade” (Marcondes e Galvão, 1999, Considerações Profissionais consumidor” (Sampaio, 1996, p.28). E O Ensino De Graduação. p.16). Outra característica da criati- E ainda sobre o mesmo as- vidade é a importância do criador Para se abordar os aspectos que sunto, declara Marcello Serpa na conhecer e dominar seu setor de caracterizam a propaganda criativa Revista da Criação: “Acredito ser atuação, conforme Alencar: e, assim, definir o que o publici- totalmente possível uma associa- “Através de uma análise de tário busca neste processo de ção perfeita entre criação e comportamento de pessoas que criação, pode-se citá-la por dois eficiência. Elas não são duas deram contribuições criativas, aspectos: a propaganda eficiente coisas antagônicas” (Serpa, 1999, constatou-se que as grandes idéias e a criativa. p.27). ou produtos originais ocorrem Existem grandes profissionais Em razão do caráter subjetivo especialmente em pessoas que no mercado que separam campa- e particularista da propaganda, na estejam adequadamente prepara- nhas eficientes e criativas. E qual cada situação é considerada das, com amplo domínio dos combinar as duas coisas constitui- diferente uma da outra, prever a conhecimentos relativos a uma se na grande resposta. eficiência na sua criação somente determinada área ou das técnicas Quando se define criatividade é possível quando ocorre sua já existentes” (Alencar, 1995, ou produto criativo, além dos veiculação, recepção pelo público p.17). aspectos originais e ousados, é e avaliação de resultado no Para Ostrower: “é evidente que, também necessário que ela seja mercado. além de saber o que faz, o artista apropriada a uma dada situação, A respeito desse aspecto, o que se pode considerar como tem que “saber fazer”. Ele tem que Olivetto declara: “Para um fator relevância: conhecer sua linguagem...” produto, uma solução emocional “...criatividade implica emer- (Ostrower, 1990, p.28). pode ser brilhante e para outro gência de um produto novo, seja Desse modo, Leech, citado por uma solução purística. Cada caso uma idéia ou uma invenção Vestergaard e Schroder (2000, é um caso. O grande criador de original, seja a reelaboração e p.15), define como linguagem da propaganda é aquele que consegue aperfeiçoamento de produtos ou propaganda o código do pro- detectar o que cada produto idéias já existentes. Também precisa e o que cada consumidor cesso de comunicação. Na propa- presente em muitas das defini- daquele produto quer ouvir. No ganda, o emissor é considerado ções propostas é o fator relevân- fundo, fazer propaganda é tentar o anunciante e o receptor, o cia, ou seja, não basta que a res- inventar algo novo ou transformar leitor; o significado transmitido posta seja nova; é também neces- o velho” (Olivetto, 1991, p. 84). refere-se à tentativa de induzir o sário que ela seja apropriada a Para reforçar a questão do leitor a adquirir o produto; o uma dada situação” (Alencar, ousado e criativo numa propa- código é a linguagem, o canal 1995, p.16). ganda, podemos citar o que consiste no veículo de comunica- Assim, percebe-se que a afirma Serpa sobre o trabalho de ção adotado e o contexto inclui comunicação publicitária deve ser criação: “o melhor trabalho signi- aspectos sociais e culturais onde um instrumento afiadíssimo de fica comunicação que chame a comunicação/propaganda interpretação das necessidades atenção das pessoas, abra a estão inseridas. do cliente para auxiliá-lo de forma retina delas” (Serpa, 1999, p.28). Na linguagem, ocorre a certeira a atingir seus objetivos O autor ainda complementa: expressão da mensagem que se mercadológicos. Em razão disso, “A surpresa não é previsível. E, configura mediante códigos surge seu aspecto adequação no no dia em que a propaganda visuais, verbais e sonoros e a contexto dos objetivos específicos perder o papel de surpreender as característica criativa da propa- da propaganda. pessoas, perdeu sua razão de ganda tem mais presença nela. 45 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Para Serpa: “criação na caminho da criatividade, lingua- lho desses jovens é a empresa, propaganda é a busca por gem e eficiência. em departamentos de marketing invenção e linguagens novas. É Outro aspecto evidente deste e propaganda (Gracioso, 1990, preciso buscar idéias originais trabalho é a carência de infor- p.37). para dizer as coisas” (Serpa, mações, estudos e pesquisas no Quando se compara o enfoque 1999, p.27). campo da criação publicitária. do ensino de criação e de produ- Conforme declara Olivetto: Na área de propaganda, a ção da propaganda com, por “nós, criadores de propaganda, maioria das pesquisas e desen- exemplo, a área de marketing, somos na verdade adequadores volvimento do ensino na gradua- percebe-se uma diferença signifi- de linguagem. E exatamente por ção foi direcionada para os cativa de publicações e foco das isto não temos o direito de ter um estudos de marketing, isto faculdades de comunicação social, estilo, um jeito de fazer” porque o empresariado brasileiro habilitação publicidade e propa- (Olivetto, 1991, p.84). buscava profissionais que pos- ganda e Gracioso continua: “de um Portanto, é possível definir suíssem conhecimento mercado- modo geral, as nossas escolas de que a busca mais importante para lógico para ser o elo ideal entre a comunicação social (habilitação/ o publicitário dentro do processo empresa e suas agências de propaganda) preparam forman- de criação são os aspectos propaganda. dos mais aptos a exercer funções criativos unificados à eficiência, Conforme declara Gracioso: de atendimento, nas agências, ou atingidos por meio de um 75% dos jovens que iniciam de assistentes nos setores de domínio da linguagem usada na carreira em agências têm hoje propaganda das empresas comunicação publicitária. Sendo diplomas de comunicação social. anunciantes” (Gracioso, 1990, assim, essa busca é constante no Mas o grande mercado de traba- p.37). RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS ALENCAR, E. M. L. S. A gerência da _________.; ARMSTRONG, G. PEIRCE, C. Collected papers. USA: criatividade. São Paulo: Makron Princípios de marketing. Rio de Harvard Press, [19—].8v. Books, 1996. Janeiro: Prentice-Hall, 1993. __________. Semiótica. São Paulo: ____________. Criatividade. Brasília: LEDUC, R. Propaganda no Perspectiva, 1977. Universidade de Brasília, 1995. lançamento de novos produtos. São Paulo: Atlas, 1980. RAMOS, R. Do reclame à comunicação. São Paulo: Atual, ___________. Psicologia da __________ . Propaganda uma força 1985. criatividade. Porto Alegre: Artes a serviço da empresa. São Paulo: Médicas, 1986. RANDOZZO, S. Criação de mitos na Atlas, 1980. publicidade: como os publicitários BRANCO, R. C.; MARTENSEN, R. L.; OLIVETTO, W. Somos tão bons quanto usam o poder do mito e do REIS, .. História da propaganda no nosso último trabalho. In: .ALCÃO, A. simbolismo para criar marcas de Brasil. São Paulo: T.A. Queiroz, 1990. (Org.). Publicidade ao vivo. Rio de sucesso. Rio de Janeiro: Rocco, [19--]. Janeiro: .rancisco Alves, 1991. COLLEY, R. H. A propaganda se SALLES, C. A. Crítica genética: uma define e se avalia. EUA: PU., 1979. OSTROWER, .. A sensibilidade do introdução. São Paulo: EDUC, 1992. intelecto. Rio de Janeiro: Campus, _________. Gesto inacabado: DUAILIBI, R. Criatividade e 1998. marketing. São Paulo: McGraw processo de criação artística. São __________. Acasos e criação Paulo: Annablume, 1998. Hill, 1993. artística. 3.ed. Rio de Janeiro: SERPA, M. Entrevista. Revista da GRACIOSO, .. Planejamento Campus, 1995. Criação, jul. 1999. estratégico. São Paulo: Atlas, 1990. ___________. Criatividade e processo VESTERGAARD, T.; SCHRODER, K. A KOTLER, P. Marketing. São Paulo: de criação. 7.ed. Petrópolis: Vozes, linguagem da propaganda. São Atlas, 1980. 1989. Paulo: Martins .ontes, 1996. 46 julho/dezembro-2002
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    Artigo ESTRATÉGIAS RETÓRICAS PARA A RESTAURAÇÃO DA IMAGEM QUANDO SOB ATAQUE Vilma Lemos Professora do Centro Universitário de São Caetano do Sul - IMES, do Ensino Médio da Fundação Santo André e da Rede Pública de Ensino. Doutoranda em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem - PUC-SP. R E S U M O ABSTRACT Como a imagem pública que apresentamos Since the public image we show in society is socialmente é algo com que nos preocupamos something about which we are constantly constantemente, procuraremos, neste artigo, concerned, we have tried to monitor the observar que estratégias retóricas são ativadas rhetorical strategies activated when this image quando essa imagem é afetada e de que recursos is affected and the devices people resort to as pessoas se utilizam para restaurar a face restore their faces to the verbal injuries they are diante das agressões verbais a que são sujeitas. subject. The extracts chosen for analysis were As análises feitas em textos de mídia apóiam-se taken from printed media and are based on the nos estudos de Benoit (1995) para Restauração works by Benoit (1995) about Image Restoration, da Imagem, Goffman (1967) com a Teoria da .ace Goffman (1967) and his .ace Theory and Brown e Brown & Levinson (1987) com a Teoria da & Levinson (1987) and their Politeness Theory. Polidez. Apontam para alguns resultados mais All of which point to the most frequent results freqüentes dentre as várias estratégias de among the several strategies for repute restauração da reputação como: negação do fato, restoration, such as denial of fact, attack on ataque aos acusadores, pedido de desculpas accusers, apology for misconduct and guilt pela má conduta, transferência de culpa. transfer. PALAVRAS-CHAVE: imagem pública, estratégias KEYWORDS: public image, rhetorical strategies, retóricas, restauração da reputação. repute restoration. 47 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo 1 ALGUMAS EXPLICAÇÕES humano, um impulso para reduzir, aqui a fábula de Caio Júlio .edro E OS INSTRUMENTOS DE reparar ou evitar prejuízos que (séc. I d.C.), “O lobo e o cordeiro”, ANÁLISE danifiquem nossa imagem porque que transcrevemos de forma desejamos que os outros pensem adaptada: Um aspecto que é motivo de favoravelmente a nosso respeito. – Por que, diz ele, turvaste a preocupação para os indivíduos é Suas observações indicaram água que eu estava bebendo? sua imagem social, sua reputação, modelos constantes no discurso ou, como querem Brown & – Como posso, pergunto eu, das pessoas atingidas nestas Levinson (1987), “The public self- fazer o que lamentas, ó lobo? situações. São as estratégias image”. Quando ameaçada, busca- A água corre de ti para os retóricas para minimizar os danos se repará-la para evitar prejuízos meus goles. à face e repará-la. Aponta pelo a esta face social. menos quatro causas de restau- – Seis meses atrás, falaste mal Há muitas formas verbais ração da reputação manifestadas de mim. observadas pelos analistas do pelo indivíduo cuja imagem está – Sem dúvida eu ainda não discurso que marcam a defesa ameaçada. tinha nascido. de si diante da sociedade, se a A primeira delas está ligada à – Por Hércules, diz o lobo, teu pessoa é atacada por um ato posse de bens limitados. Como os pai falou mal de mim. ameaçador à sua face. indivíduos competem ferozmente Estamos interessados aqui em E assim agarrou o cordeiro e por esses bens – tangíveis ou observar, em jornais e revistas de o dilacerou, dando-lhe uma intangíveis –, ao obtê-los, sempre circulação nacional, como os morte não merecida. se provoca a ira alheia e se fica mecanismos retóricos verbais se Esta fábula foi escrita para sujeito a ataques. manifestam nos indivíduos que se aqueles homens que, com falsos Outra razão apontada reside viram ameaçados publicamente e, motivos, oprimem os inocentes. nas circunstâncias de que somos por isso, buscaram reparar sua (.ábulas, I, 1) vítimas e sobre as quais não reputação. Para tanto, recorremos Em todas essas circunstâncias, temos controle, como, por aos estudos de Benoit (1995), é evidente que somos levados a exemplo, chegar atrasados a denominados Teoria Geral da dar explicações, desculpas, uma reunião devido ao trânsito Restauração da Imagem, embora apresentar defesa e racionali- intenso. o autor tenha consciência de não zações em relação ao nosso com- Como terceira razão, o autor ter feito uma discussão exaustiva portamento, porque a reputação destaca a imperfeição dos seres dos mecanismos de desculpas, é importante e o discurso tem o humanos, que, por isso, erram porque o comportamento huma- poder de restaurar nossa face ou inocentemente ou em decorrência no é muito complexo. minimizar os efeitos advindos das de seus próprios interesses. Remetemos ainda, nesta situações ameaçadoras. Ilustra o primeiro caso a situação análise, à Teoria da .ace do de nos esquecermos de levar um sociólogo Goffman (1967), 3 OS ATOS relatório à reunião; o segundo, a COMUNICATIVOS posteriormente recuperada por situação das empreiteiras que Brown & Levinson (1987) ao DE DE.ESA usam de má qualidade em suas tratar da Teoria da Polidez. obras ou daqueles que sonegam Há uma variedade de posturas Os trabalhos desses estudiosos imposto de renda. observadas para a defesa de si. A serão adaptados aqui segundo A quarta razão que nos motiva primeira estratégia para evitar a nossos propósitos. a reparar nossa reputação prende- culpa é a negação. Se alguém se ao fato de que os homens têm acusa, por exemplo, determinado 2 PERCORRENDO OS diferentes prioridades. Os que anúncio de enganoso, a reação do CONCEITOS DE IMAGEM, têm objetivos comuns podem acusado é dizer “Não, não é”. .ACE E POLIDEZ chegar ao conflito, culminando Benoit cita o caso Woody Allen, Partiremos dos estudos de em acusação, ataque, desprezo, que negou ter molestado dois de Benoit em um primeiro momento, condenação, censura, reprovação. seus filhos adotivos. O acusado sem pretender com isso fazer Pessoas que agem dessa forma pode, além de negar, explicar e supor que os demais sejam tanto se queixam do que devolver a culpa à parte real- secundários. dissemos quanto do que fizemos, mente culpada. Segundo o autor, há, no do que não foi dito como do que A segunda estratégia é comportamento comunicativo não foi feito. Podemos lembrar responder na mesma moeda, 48 julho/dezembro-2002
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    Artigo atacando os acusados.Este presidente americano envolvido Como se pedisse que não o contra-ataque pode minar a numa situação constrangedora julgassem pelo que aconte- credibilidade e o impacto das com uma estagiária da Casa cera em Chappaquiddick, uma acusações. Também ajuda a Branca. vez que ele realmente não era mudar o foco de atenção para Rosenfeld (1968) é lembrado aquilo que a opinião pública uma nova pessoa. Se, às vezes, como a primeira abordagem dizia; torna-se difícil negar, sempre há sistemática à crítica retórica dos 4) “transcendence” – busca-se uma esperança: admitir a culpa discursos de defesa de si mesmo, um contexto mais amplo e na tentativa de restaurar a embora a teoria da apologia mais favorável para a pessoa imagem. (defesa) de Ware & Linkugel (1973) envolvida. A terceira e última estratégia seja muito mais usada na crítica referem-se às situações em que a retórica, constituindo-se no mais Além dessas quatro estratégias importante avanço nesses estudos. retóricas, Ware e Linkugel identi- má conduta não pode ser negada. Esses autores, segundo informa ficam quatro posturas de defesa Então, pede-se desculpa por ela. Benoit, têm como ponto de partida pessoal: absolutive (denial and Como a dizer “.oi sem querer”, a Psicologia Social de Abelson differentiation), vindicative (denial “Desculpem pela ignorância”. Na (1950). Identificaram quatro and transcendence), explanative história da Igreja Católica, lembra fatores ou estratégias retóricas, (bolstering and differentiation) e o autor que esta instituição, conforme segue: justificative (bolstering and recentemente, pediu desculpas ao transcendence). astrônomo e físico italiano Galileu 1) “denial” – simples negação/ Outra obra que trata do assunto Galilei (1564 - 1642) por tê-lo desmentido, como “Eu não fiz é a de Scott & Lyman (1968). Trata- acusado de perjúrio na polêmica isso!”. Nega-se a má intenção; se de uma obra clássica sobre sobre o centro do sistema solar. 2) “bolstering” – projeta-se a desculpas (accounts). Os pesqui- Outro exemplo citado é o da MTV. própria imagem para contraba- sadores oferecem uma classifica- Acusada de que seu programa lançá-la, desviando-se do ato ção do estoque de desculpas para Beavis and Butthead tivesse central e associando o falante o comportamento sujeito à crítica incentivado uma criança de 5 anos a algo para o qual as pessoas de terceiros. Seguindo Austin a pôr fogo e matar sua irmã, a têm sentimento positivo. (1961), apresentam dois tipos emissora negou o fato. No Ilustra esta estratégia o caso gerais de desculpas: entanto, nos episódios seguintes, os personagens pararam de fazer Ted Kennedy que, inúmeras vezes 1) excuses, em que o acusado isso. Houve aí uma ação corretiva em seus discursos, deixava claro admite o ato errado, mas não para reparar a imagem. suas relações positivas com o aceita total responsabilidade O autor informa-nos ainda de povo de Massachusetts porque lá por ele; que há escritos fundamentais no (em Chappaquiddick) se envol- 2) justifications, em que ele assunto e retoma cada um deles. vera em acidente automobilístico aceita as responsabilidades, Mencionaremos alguns deles, no qual morrera sua secretária. .oi mas rejeita a alegação de que conforme segue. Burke, por acusado, então, de não fazer a foi um ato errado. exemplo, tem uma análise mais ocorrência à polícia imediata- Ilustrando a teoria do ataque teórica do assunto. Usa o termo mente. Tentou transferir a culpa (kategoria) e defesa (apologia) de culpa para representar um para as condições da estrada e Ryan (1982), para o qual deve estado de coisas indesejáveis para o trauma que sofrera. Esta cuidadosamente considerar-se a que pode ser remediado pelo estratégia serviu para mantê-lo defesa à luz do ataque específico, discurso defensivo. Segundo ele, como senador, mas provavel- retiramos, dentre os inúmeros exem- há dois processos para remover mente não foi suficiente para alçá- plos citados, o do senador John a culpa ou restaurar a boa lo à condição de presidenciável; Kennedy. Durante sua campanha reputação. 3) “differentiation” – mecanismo presidencial, acusaram-no de que A vitimização, em que a pessoa no qual se tenta separar o faria um governo católico, ao que se faz de bode expiatório, objeto de um contexto indese- o futuro presidente americano repli- transfere a culpa, diz-se vítima de jável. Ainda em relação ao cou: “...na constituição não há teste perseguição, e a mortificação, em acidente no qual se envolveu de religiosidade para presidente”. que o envolvido admite o erro, a Edward Kennedy, o senador Mudou então o foco da separação má ação e pede perdão. Podemos buscou deixar claro que o Igreja/ Estado para o da tolerância lembrar aqui o caso de um ex- contexto é que era negativo. religiosa. 49 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo Resumindo o assunto, há Nixon, ainda que tenha transfe- teóricos da sociedade, já que sua quatro hipóteses tácitas partilha- rido a culpa para seus subordina- coleta de dados tem diferentes das pelos discursos da legítima dos, foi ele, em última instância, procedências e seu estilo é pouco defesa (self-defense): o motor da ação. Para esta inclinado à austeridade. Discus- 1) A reputação é importante; estratégia funcionar, é preciso sões à parte, observemos as afastar a culpa para mais longe, contribuições do estudioso para a 2) Existem meios verbais de mais do que, por exemplo, para atividade a que nos propusemos. reparação da imagem; os subordinados, e achar um bode Como vivemos em um mundo 3) Os ataques devem ser tomados expiatório. de encontros sociais, estamos como suficientemente difun- Resenhamos, até aqui, parte sempre envolvidos em contatos didos para requerer uma teoria do livro do autor que será útil com outros participantes e da legítima defesa verbal; na aplicação prática que faremos tendemos a atuar numa linha (“a 4) A literatura da defesa (apologia) mais à frente. line”). A face, termo usado pelo parece dar a entender que há É bom explicar que nem autor, pode ser definida como um um número relativamente sempre todas estas estratégias valor social positivo que assu- limitado de opções defensivas de defesa atuam sozinhas. mimos com base na linha que disponíveis aos apologistas. Podem estar associadas entre si. projetamos para o outro. Pode- Embora a reputação seja algo Também queremos deixar claro mos dizer que mantemos a face que todos querem preservar, resta que nos limitaremos, neste quando a linha que projetamos lembrar, conforme diz Benoit, que trabalho, a observar como os acarreta uma imagem (de nós não se deve esperar milagres das mecanismos detectados pelo mesmos) internamente consis- estratégias de restauração da autor se manifestam no nosso tente, ratificada por aqueles com imagem. Em situação de culpa, o cotidiano. Não vamos entrar quem convivemos socialmente, melhor é admiti-la prontamente, tampouco na questão ética da com base em julgamentos e uma vez que uma negação nesta argumentação. evidências. Mas podemos “estar circunstância poderá acarretar Trataremos agora de alguns em face errada” quando aquilo prejuízos substanciais à credibili- aspectos dos estudos de Goffman que programam a nosso respeito dade do envolvido quando a ver- e a Teoria da .ace e Brown & não se integra à linha que susten- dade vem à tona. Levinson e a Teoria da Polidez. A tamos na situação. Também Para ilustrar esta situação, o confluência de alguns aspectos podemos “estar fora da face” se, autor retoma o caso Watergate, destes estudos com as pesquisas em dada situação, não temos uma em que os principais assessores de Benoit é que nos interessará linha estabelecida e precisamos do presidente Nixon foram fla- na análise dos textos selecio- nos adaptar aos participantes e ao grados durante o arrombamento nados. tipo de evento comunicativo. Nas do quartel-general do Partido últimas duas circunstâncias, 4 GO..MAN E A TEORIA Democrata (de oposição), durante DA .ACE sentimo-nos envergonhados e sua campanha eleitoral para a inferiorizados porque estas renovação de mandato (1972). Conhecer alguns aspectos da situações podem prejudicar nossa Mesmo acusado de envolvimento, Teoria da .ace / Imagem – reputação. Nixon continuou negando qual- considerada a entrada para a Há situações em que preci- quer conhecimento sobre o questão de nossa identidade samos sustentar, perante os assunto. Conseguiu se reeleger social - do sociólogo Goffman, outros, que não perdemos a face, com ampla maioria, mas foi alvo poderá complementar a análise ou seja, temos de salvar a própria de processos, sendo incriminado prática que faremos mais à face. por ter obstruído a Justiça, fato frente. Embora o autor não tenha Cumpre-nos lembrar aqui que que o levou à renúncia em 1974. fundado escola, trouxe grandes nossa face social é um emprés- O fato narrado não significa contribuições ao campo da timo ratificado pela própria que não se pode negar a culpa. Lingüística. sociedade. Nós construímos Se a negação pode ser sustentada, As opiniões acerca dele são nossa identidade social nas poderá ajudar na recuperação da contraditórias: alguns o consi- relações com os outros. Se não reputação do envolvido. Outras deram o maior sociólogo da procedemos de acordo com o que situações há em que é possível segunda metade do século XX; essa sociedade espera de nós, ela transferir a culpa, embora nem outros afirmam que não pode ser se encarregará de retirar nossa sempre com sucesso. No caso considerado entre os grandes face social. Podemos notar que 50 julho/dezembro-2002
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    Artigo tanto Benoit quantoGoffman Retomando os autores, todo com “savoir-faire”, mostrar apoio estão considerando o indivíduo ato de fala é uma ameaça à face e concordância às ações e idéias nas suas relações sociais. do ouvinte, constitui-se num ato do outro, cultivar a generosidade Vejamos então como Brown & ameaçador à face (“face (oferecer e dar seus serviços), ser Levinson operam com a teoria da threateningt act” - .TA). O modesto (para elevar o outro), ser polidez. desprezo, a crítica, uma consta- simpático. tação negativa em relação à É com base no princípio da 5 BROWN & LEVINSON E A pessoa, más notícias são exem- polidez que dizemos coisas falsas TEORIA DA POLIDEZ plos de atos ameaçadores à face apropriadamente ou coisas positiva (pública). Ordens, menos informativas do que o O ponto de contato destes pedidos, sugestões, conselhos necessário. autores com Benoit e Goffman, são ameaças à face pessoal (face Não nos aprofundaremos aqui inegavelmente, é a questão da negativa), posto que sugerem na teoria da face porque os con- face, da imagem, o que nos mudanças ao ouvinte. ceitos que nos interessam, num autoriza a buscar as semelhanças .airclough, embora faça algu- primeiro momento, são aqueles na Teoria da Polidez, de Brown & mas restrições a esses autores, ligados aos atos ameaçadores à Levinson (1978; 1987). afirmando que “O que está faltan- face pública e à face privada, Esses autores afirmam que do é um sentido de variabilidade quando as regras de polidez não todos os membros de uma das práticas de polidez nos dife- são observadas. sociedade têm - e sabem que os rentes tipos de discurso dentro de Em resumo, o que projetamos, outros também têm - a face, a uma cultura, das ligações entre as a face positiva, está ligado à imagem pública (“face, the public práticas de polidez variáveis e as imagem pública que queremos self”) e uma capacidade racional relações sociais variáveis ou das passar; a face negativa prende-se de inferir as intenções do falante. restrições aos produtores pelas aos territórios do eu, às coisas O que os autores denominam práticas de polidez.” (p. 203), pessoais, à face privada, o que não a imagem pública deve ser acredita que o trabalho dos queremos expor publicamente. compreendido como a imagem autores traz “...uma excelente que cada membro da sociedade explicação dos fenômenos de 6 O ENCONTRO POSSÍVEL reivindica para si. Abrange dois polidez, e pode ser apropriado Como podemos notar, uma aspectos: a face negativa e a face dentro de um quadro teórico preocupação dos indivíduos em positiva. diferente” (p.204). sociedade é salvaguardar sua face Conforme afirma .airclough Assim como Benoit, esses para manter uma reputação, uma (1992; 2001), a respeito da autores assumem que a face, imagem pública saudável. No teoria da polidez desses autores: imagem ou reputação é algo entanto, como a competição é “Eles pressupõem um conjunto importante para as pessoas, razão feroz, os valores éticos flutuantes universal de ‘desejos de face’ pela qual elas, diante de ameaças, e a palavra fonte de mal-entendi- humanos: as pessoas têm ‘face recorrerão às estratégias de dos, constantemente vemos positiva’ – querem ser amadas, polidez para minimizar os efeitos nossa imagem pública ameaçada. compreendidas, admiradas, etc. negativos, os confrontos. Os princípios de polidez pela – e ‘face negativa’ – não querem Berger (1978), ao comentar as linguagem deixam, então, de ser ser controladas ou impedidas relações sociais humanas e os observados. Instaura-se assim a pelos outros. Geralmente é do mecanismos de controle exer- “guerra” por meio da palavra. interesse de todos que a face cidos por grupos em situação de Algumas vezes, as estratégias seja protegida. Eles vêem a trabalho, de convivência próxima, usadas para minimizar os ataques polidez em termos de conjuntos já afirmava que “...há um profundo à reputação funcionam adequada- de estratégias da parte dos desejo humano de ser aceito...” (p. mente, outras resultam inoperan- participantes do discursos para 85). Por isso, cair no ridículo, ser tes, uma vez que o passar do mitigar os atos de fala que são difamado ou ser alvo de mexerico tempo mostra tal inoperância nas potencialmente ameaçadores por parte desses grupos gera nas ações subseqüentes dos alvos para sua própria ‘face’ ou para a pessoas profundo mal-estar. desses ataques. dos interlocutores. Essa explica- Acreditamos que estas forças Observar na arena pública ção é típica da pragmática ao coercitivas levariam as pessoas como se concretizam tais estraté- considerar o uso da linguagem a proteger sua face e viver em gias é um excelente exercício de moldado pelas intenções de paz no grupo, observando alguns percepção do poder da linguagem indivíduos” (p. 203). princípios de polidez como: agir e pela linguagem. 51 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Artigo 7 A PRÁTICA A técnica retórica da negação mente recorremos a mecanismos (“denial”) e da projeção da própria de restauração da imagem pública Conforme estabelecemos no imagem (“bolstering”) pode ser porque a reputação é um bem início deste artigo, os textos que observada na fala de Pelé, em importante e o discurso tem o exemplificarão as estratégias de entrevista à .olha de S. Paulo de poder de restaurar a face, quer reparo à imagem, à face, à repu- 21/11/01, quando acusado de pela simples negação, pelo pedido tação foram retirados de jornais desvio de US$ 700 mil de eventos de desculpas, pela técnica de e revistas de circulação nacional. do Unicef: “Não é verdade que eu responder na mesma moeda, Observemos alguns exemplos sabia de desvio de dinheiro”. Mais atacando os acusadores, pela retirados da revista Veja. Em à frente, nesta entrevista: “Nós vitimização ou outras. A mídia traz outdoor, a revista propunha vamos verificar se algo aconteceu. farto material que exemplifica isso. Osama bin Laden para dirigir a Porque eu tenho meu nome, minha A guerra da colas (Coca x Pepsi) seleção brasileira. Evidentemente reputação, e as pessoas que traba- é um exemplo marcante. Outro que muitos leitores protestaram lham comigo têm de trabalhar exemplo significativo de como os pelo mau gosto e pela improprie- direito, serem honestas e estarem ataques à imagem/reputação são dade do ato. A revista, perce- limpas. Vamos apurar se houve freqüentes e rebatidos com bendo que sua imagem ficara em realmente alguma ilegalidade, se firmeza para recuperá-la ocorreu posição vulnerável perante seus alguém ficou com algum dinheiro”. com a Johnsonn & Johnsonn. A restauração da face pelo Algumas pessoas nos EUA foram leitores, cuidou de repará-la. São mecanismo de separar o objeto de supostamente envenenadas pelo palavras da revista de 24/10/2001: um contexto indesejável (“diffe- uso de Tylenol, fabricado pela “VEJA reconhece o mau gosto dos rentiation”) ainda pode ser notada empresa. Sua imagem foi dene- dizeres e se desculpa com seus na reportagem quando Pelé grida, seu faturamento caiu de leitores pela publicação da frase afirma: “Já desconfiava de irregu- US$ 33 milhões para US$ 4 pretensamente bem-humorada no laridades havia cinco anos. Por milhões/mês. A empresa gastou outdoor”. isso eu tinha mandado fazer uma milhões para recuperar sua repu- Como a revista não podia negar auditoria, porque tinha algumas tação, visto obedecer a um código seu discurso, precisava restaurar respostas e coisas que eu queria de conduta. Com o tempo e várias a boa reputação para seus leitores. saber que não me davam. Mas não ações positivas, reafirmou sua Então usou da mortificação para tenho suspeitos. Há 32 anos eu imagem de empresa confiável e tanto, admitindo a “má ação” e ajudo o Unicef. Quem me conhece responsável. pedindo desculpas pelo ato. No exemplo citado de Pelé, a A estratégia retórica da simples sabe que eu não faria isso”. A defesa de si, da face positiva linha projetada por ele para negação (“denial”) encontramos manter a face foi arranhada por na fala do deputado federal Badu ou imagem pública também pode usar da transcendência (“transcen- um ato ameaçador (a acusação de Picanço, em carta à revista, res- desvio de dinheiro). Como sua dence”) nas acusações. Neste pondendo à acusação da matéria face social positiva, sua imagem caso, coloca-se o objeto num con- Partido? Que partido? (10/10/ pública tem grande projeção texto mais amplo e mais favorável. 2001), em que os políticos são social, houve por bem manifestar- Ilustra essa técnica a seguinte fala acusados de, nos últimos 15 anos, se publicamente para salvar a de Pelé: “Desde o milésimo gol trocar de legenda “como se tudo própria face, caso contrário, vocês sabem que eu trabalho com fosse brincadeira de roda”.(p. 114). poderia deixar de ser admirado e crianças e que eu nunca cobrei Diz ele na carta: “Em referência à perder a credibilidade. nada. Não iria ser agora”. (.olha reportagem ‘Partido? Que par- Consciente ou inconsciente- Esporte, p. D1) tido?’ afirmo que em nenhum mente, os mecanismos de restau- momento recebi quantia alguma ração da imagem são acionados CONCLUSÕES para a mudança partidária. O sempre que nossa reputação está trecho que envolve meu nome é, Manter a imagem, reputação em jogo, porque todos queremos no mínimo, infeliz, já que se baseia ou face saudável é uma preocu- parecer bem para o outro com em ‘alguém disse’, ‘comentava-se’, pação daqueles que vivem em quem convivemos. Manter a face, que são expressões muito vagas sociedade. Na nossa vida coti- a reputação, a imagem pública é, para a seriedade da questão”. diana, nas relações de trabalho, portanto, uma busca do ser social (21/10/01) nas relações pessoais, freqüente- que somos. 52 julho/dezembro-2002
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    Artigo RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS BENOIT, W. L. Accounts, excuses, BROWN, P.; LEVINSON, S. GO..MAN, E. Interaction rural: and apologies: a theory of image Politeness: some universals in essays in face-to-face behavior. restoration discourse. New York: language usage. 2nd. ed. New York: Pantheon Books, State University of New York Press, Cambridge, CUP, 1978 : 1987. 1967 : 1974. 1995. .AIRCLOUGH, N. Discurso e BERGER, P. Perspectivas socio- mudança social. Tradução (Coord.) lógicas: uma visão humanística. de Izabel Magalhães. Brasília: Petrópolis: Vozes, 1978. Universidade de Brasília, 1992 : 2001. Núcleo de Recursos Humanos Com o trabalho sério e reconhecido, o Núcleo de Recursos Humanos do IMES busca a integração entre o conhecimento teórico e a prática no campo da Administração de Recursos Humanos. Entre os serviços oferecidos, destacam-se: l Realização de pesquisas em Recursos Humanos (cargos, salários, benefícios, acordos/convenções coletivas, remuneração variável, indicadores de gestão de pessoas e clima organizacional); l Encontros de reciclagem para profissionais da área de RH e qualidade; l Publicação do boletim Notícias de Recursos Humanos, que traz uma sinopse da imprensa paulista com informações sobre RH; l Desenvolvimento de projetos personalizados para empresas (consultoria, auditoria e treinamento); l Publicação de artigos que abordam o comportamento organizacional e suas tendências. Informações e consultas podem ser feitas na Av. Goiás, 3.400, em São Caetano do Sul, pelo telefone (011) 4239-3201, ou pelo e-mail: nucleorh@imes.edu.br 53 julho/dezembro-2002
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    C omunicação Sugestão B i b l iA g rtáif gc o or i a MÚSICA CAIPIRA OU MÚSICA SERTANEJA? Fernando Pereira Professor do IMES. Jornalista, Fotógrafo profissional e Músico. Música caipira, música serta- cões, longe das grandes cidades. a) o canto executado em terceiras; neja e música de raiz. Três gêne- Isso até um certo Cornélio Pires, b) os instrumentos acústicos e ros musicais distintos ou dife- jornalista, cronista e escritor apa- tradicionais, ou seja, violão e rentes nomes para uma modali- recer na Capital com um grupo de viola. A viola caipira tem dez dade musical que volta a cair no lavradores para se apresentar à cordas sem o tradicional gosto do público? O fato é que a gente da cidade. Já com a denomi- bordão da música popular discussão é antiga e cada estu- nação de “sertanejo”, o grupo, urbana; dioso e/ou especialista usa com instrumentos simples como c) letras descritivas de um am- métodos distintos para tratar o a viola caipira, executava músicas biente ou de um sentimento. assunto. e ritmos do seu dia-a-dia como o Com temas relacionados ao De um gênero que remonta à catira, a moda de viola, o lundu, o amor e à vida na cidade. Elas chegada dos jesuítas ao Brasil e cururu, etc... Em 1929, Cornélio contam uma história que pode que se fixou nos ciclos dos Pires resolve gravar essa produ- ser vivida pelo autor ou por festejos populares do interior do ção musical “folclórica” em discos um segundo personagem; país, a chamada música caipira foi e, desacreditado pela gravadora se adaptando aos tempos, d) quando não é lírica, a letra Columbia, resolveu bancar do seu revela a experiência cotidiana sofrendo influências – naturais e próprio bolso a gravação e edição da vida na roça; impostas pela indústria cultural – do primeiro álbum, que em pou- e transformou-se num fenômeno e) jamais usam o vibrato; cos dias de lançamento esgotou- de consumo que sustenta emis- f) a maioria dos cantores é tenor; se nas lojas. Começava o interesse soras de rádio, gravadoras e os barítonos e os baixos são pelo estilo por parte das grava- fabrica duplas milionárias. raros e as canções são inter- Na verdade, antigamente, doras. Duplas começaram a surgir pretadas em 1ª e 2ª voz. música sertaneja queria dizer que aos montes, com destaque para tinha vindo do sertão. O caipira Mariano e Caçula, Zico Dias e Caindo definitivamente no do Interior de São Paulo fazia .errinho e, Olegário e Lourenço. gosto popular, a música sertaneja música sertaneja, pois era o Em 1944, a música caipira, já chega ao rádio e as gravadoras. homem da roça. O caiçara do batizada oficialmente de música Não demoram a inventar maneiras litoral fazia música sertaneja. No sertaneja pela indústria fono- de aumentarem as vendas. Para Nordeste brasileiro, o homem do gráfica, já contava com 40% do isso se valem da mistura de agreste com seus martelos mercado de consumo. Surgem ritmos. Colaborou para essa mis- agalopados e baiões fazia música novas duplas de enorme sucesso tura um dos maiores composi- sertaneja. O mesmo se dava no junto ao público como Alvarenga tores do gênero sertanejo, Raul Mato Grosso, com o seu cururu e e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Torres, (autor de Cabocla Tereza, no Rio Grande do Sul, com sua Jararaca e Ratinho, Mineiro e Saudades de Matão, Pingo d’Água, chimarrita. Isso tudo até surgir o Mineirinho e Tião Carreiro e entre muitas outras). Com disco. Pardinho. apuradíssimo faro para o sucesso, A música caipira, pura arte do Até então, todas as duplas Raul Torres mudava de gênero homem interiorano de São Paulo, mantinham características da dependendo da ocasião. Além das sempre ficou escondida nos rin- autêntica música caipira: músicas caipiras, compôs marchi- 54 julho/dezembro-2002
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    S urgteisgã o A t o Bibliográfica nhas de Carnaval, emboladas e resultado da mistura de hábitos procuram preservar as caracte- canções juninas. Em suas viagens, e costumes do homem que deixou rísticas originais da música do procurava novos ritmos e gêneros o interior e tenta se enquadrar na homem do campo e suas tradi- para depois utilizar em suas modernidade da vida urbana dos ções artísticas. Hoje, mais do que composições. Ele foi o primeiro a grandes centros. A nova música nunca, estão se fortalecendo pelo misturar musica caipira e gua- sertaneja assume a globalização país movimentos de preservação rânia, ritmo popular no Paraguai. e os seus expoentes são Léo dessa identidade cultural. Uma Raul não tinha preocupação em Canhoto e Robertinho, dupla que preservação que nos chega atra- fazer algo puro. Ele foi um dos assimila o bang-bang ítalo-ameri- vés das .olias de Reis e do Divino, responsáveis pela misturada que cano, com sofisticada aparelha- Congadas, Moçambiques, Catiras. virou o sertanejo. Porém, quando gem eletrônica e músicas cada Preservação feita por artistas já estava rico, desfrutando do vez mais distantes do universo como Rolando Boldrin, Renato sucesso, fazia questão absoluta sertanejo. Teixeira, Almir Sater, a dupla Pena de dizer: “Me chamo Raul Torres, A indústria fonográfica, por seu Branca e Xavantinho, Roberto sou caipira, sim, senhor!” lado, para manter o rico filão, Corrêa, Passoca, Pereira da Viola, A comercialização cada vez continua a chamar esse tipo de entre outros, que resgatam não maior da música sertaneja acabou produção de música sertaneja, por só a verdadeira música caipira, por modificar suas características, sinal como fazem até hoje com a pois produziam aquilo que os geração dos “cowboys do asfalto”. mas a verdadeira música serta- elementos especializados em A country music norte-americana neja, em discos e shows. Outros mercado de consumo lhes deter- é a influência dessa vez, que se ainda preferem usar o termo minavam. As duplas passaram a estende ao vestuário, aos instru- “música de raiz” para designar gravar canções com influências de mentos com a utilização do banjo esse resgate. Resgate esse que só boleros e corridos mexicanos. e até no comportamento dos é verdadeiro quando feito com A partir das décadas de 70 e artistas. uma autêntica “violinha caipira de 80 vale tudo, sobretudo o lucro. Mas nem tudo está perdido. 10 cordas”, instrumento musical As chamadas “duplas caipiras” Paralelamente a toda essa dege- símbolo de um Brasil brasileiro, buscam um novo visual, uma nova neração da autêntica música sem mistura do estrangeiro, um imagem que, na realidade, é o caipira, surgem os puristas que Brasil nacional. Um Brasil caipira. RE.ERÊNCIAS BIBLIOGRÁ.ICAS ALVARENGA, O. Música popular JAMBEIRO, O. Canção de massa. SIQUEIRA, B. Origens do termo brasileira. [S.l]: Duas Cidades, 1999. [Sl.]: Biblioteca Pioneira de Arte e samba. [S.l.]: IBRASA : MEC, 1989. ANDRADE, M. Aspectos da Comunicação, 1986. TINHORÃO, J. R. Pequena história música brasileira. São Paulo: MELLO, Z. H. Nos sons do Brasil rural, da música popular: música Martins Editora, 1965. chapéu de palha, pito e viola. [S.l.]: popular de índios, negros e BARRIGUELLI, J. C. O teatro popular Abril, 1983. Suplemento Música mestiços. [S.l.]: Vozes, 1974. rural: o circo-teatro. Revista Debate Sertaneja. _________. Música popular: um & Crítica, São Paulo, n.3, 1974. tema em debate. Rio de Janeiro: MUGNAINI JUNIOR, A. Enciclopédia BRANDÃO, C. R. O que é folclore?. das músicas sertanejas. [S.l.]: Saga, 1966. São Paulo: Brasiliense, [19--]. Letras & Letras, 2001. _________. Música brasileira: um (Primeiros Passos). tema em debate. São Paulo: Ed. NEPOMUCENO, R. Música caipira: da CALDAS, W. Acordes na aurora: 34, 1997. roça ao rodeio. São Paulo: Ed. 34, 2000. música sertaneja e indústria _________. Pequena história das cultural. São Paulo: Nacional, 1979. PIMENTEL, S. V. O chão é o limite: a música popular: da modinha à CAMPOS, A. Balanço da bossa e festa do peão de boiadeiro, e a canção de protesto. Petrópolis: outras bossas. [S.l.]: Perspectiva, domesticação do sertão. [S.l.]: U.G, Vozes, 1974, São Paulo: Círculo do 1999. 2001. VER Livro, abril 1978. CÂNDIDO, A. Parceiro do Rio Bonito. SANT’ANA, A. R. Música popular e _________. Música popular: os CÔRREA, R. A arte de pontear moderna poesia brasileira. [S.l.]: sons que vêm da rua. São Paulo: viola. [S.l.]: Edição do Autor, 1999. Vozes, 1985. Vozes, 1976. .ERRETE, J. L. Capitão .urtado: SANT’ANA, R. Moda é viola: ensaio _________. Música popular: do viola caipira sertaneja?. [S.l.]: do cantar caipira. [S.l.]: Arte e gramofone ao rádio e TV. São .UNARTE, 1985. Ciência, 2000. Paulo: Ática, 1981. 55 julho/dezembro-2002
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    Aesenha Rrtigo ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL NOS NEGÓCIOS Autora Patrícia Ashley de Almeida (Coordenadora) São Paulo, Saraiva, 2002. Resenhista Ana Claudia Marques Govatto Professora do Centro Universitário Imes e consultora em responsabilidade social. As empresas, como pontos de que foram agrupados em duas se acabar com o trabalho infantil, impacto na sociedade, têm se partes, sendo a primeira dedi- o que os autores consideram com- deparado com a equação lucro cada à fundamentação teórica ponentes da gestão dos negócios versus função social, algo não sobre o conceito de responsabi- balizados pela responsabilidade imaginado até a metade do século lidade social nos negócios e a social. XX. É certo que ética empresarial segunda uma coletânea de textos Em relação aos tempos de e responsabilidade social corpo- que demonstram a incorporação pioneirismo da cidadania empre- rativa não são assuntos novos, do tema nas empresas instaladas sarial, alguns avanços foram porém ambas vêm ganhando em território nacional. registrados e poderão marcar um importância nos últimos anos. A obra faz incursões na período de novas conquistas Com o crescente aumento da economia brasileira que passou da ainda mais incisivas. Cases que complexidade dos negócios, com- era agrícola para a era industrial retratam a iniciativa de empresas plexidade esta que exige uma e, hoje, procura assimilar e em atividades econômicas rentá- nova maneira de pensar e agir do desenvolver novas técnicas numa veis de preservação, o desenvolvi- empresariado, as disparidades tentativa de adequar-se à era do mento do terceiro setor, a assimi- sociais levam a repensar o desen- conhecimento. Neste campo muito lação política dos verdes, a institu- volvimento sustentável, conceito ainda deverá ser feito, principal- cionalização do movimento de que envolve aspectos econômicos, mente no que se refere à cidada- defesa dos direitos dos consu- sociais e ambientais. A equação nia, onde indivíduos, grupos da midores, do consumo consciente empresarial da atualidade está sociedade, nações e organizações e do comércio justo são alguns relacionada ao como potencializar exercem direitos e cumprem exemplos desses avanços. o desenvolvimento dos negócios deveres cada vez mais pautados Considerado por muitos como considerando a intervenção da pelo valor atribuído ao seu com- sendo um dos pioneiros da res- organização no meio. portamento e às suas atitudes. ponsabilidade social corporativa, Esta é a abordagem do título Ashley e os demais pesquisa- Henry .ord, em 1916, contra- Ética e Responsabilidade Social dores procuraram resgatar aspec- riando a maioria dos acionistas, nos Negócios, que reúne doze tos da responsabilidade social dividiu parte dos dividendos da autores sob a coordenação de empresarial e de campanhas de empresa para seus funcionários Patrícia Almeida Ashley da PUC mudança social históricas. Na através de aumento de salários. do Rio de Janeiro, que desenvol- Grécia e na Roma antiga, por Muito provavelmente a atitude de veram estudos acadêmicos de exemplo, foram lançadas campa- Henry .ord, considerado um ícone pós-graduação sobre cidadania nhas de libertação de escravos e da administração de empresas, corporativa e seus desdobra- na Inglaterra, durante a Revolu- tenha impulsionado a mudança mentos, passando pelas áreas de ção Industrial, houve campanhas do comportamento empresarial administração de empresas, para a abolição das prisões por quanto ao seu papel social. À consumo e comunicação social. dívidas, para a extensão de di- medida que o tempo foi passando, O livro apresenta vários estudos reito ao voto às mulheres e para uma nova cultura empresarial foi 57 julho/dezembro-2002
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    C omunicação R er t i g o A senha se instalando até que em 1953 a de seus diversos públicos de liação da responsabilidade social Justiça americana determinou que relacionamento, os chamados corporativa. as corporações poderiam promo- tecnicamente de stakeholders. Definir responsabilidade social ver o desenvolvimento social, o Outra citação do livro diz sem considerar as diferenças que ficou estabelecido pela Lei da respeito às Ciências Sociais que sociais dos países é acreditar que .ilantropia Corporativa. .oi pre- definem responsabilidade social seria possível estabelecer um ciso a intervenção da justiça como sendo uma “responsabi- pensamento corporativo mundial. americana nesta questão devido lidade daquele que é chamado a Ao contrário do que se vê nos pro- aos protestos de muitos acio- responder pelos seus atos face à cessos produtivos e parcialmente nistas que temiam diminuir seus sociedade ou à opinião pública (...) nos processos comunicacionais ganhos às custas da boa ação de na medida em que tais atos assu- num mundo em plena globaliza- alguns executivos que comanda- mam dimensões ou conseqüências ção, a responsabilidade social tem vam grandes empresas. sociais.” sido estudada e aplicada aos Somente no final da década de Responsabilidade social, então, negócios considerando as particu- 1960, os países europeus aderiram pode ser assumida como o com- laridades de cada sociedade. ao novo modelo empresarial e no promisso empresarial para o desen- Também a responsabilidade Brasil há registros mais completos volvimento da sociedade expresso social é aceita para alguns como sobre responsabilidade social por suas atitudes e valores. De uma obrigação legal. Para outros, corporativa a partir da década de maneira ampla, as organizações ela é vista como uma superação 1970. devem contribuir para o desenvo- das obrigações legais e assume Portanto, a importância da lvimento sustentável com obriga- um papel que extrapola a atuação Responsabilidade Social Empre- ções de caráter moral, além das passiva de empresas e cidadãos, sarial não começou a ser discuti- estabelecidas pelas diversas leis às ganhando características mais da, e muito menos está sendo quais está submetida, mesmo que relevantes como o engajamento praticada, à beira do novo milênio. não diretamente vinculadas a suas social e o desenvolvimento sus- tentável. O que se vê nos dias de Atualmente, a atuação social das atividades. Numa visão ampla do hoje é que o assunto vem ga- empresas tem se concentrado nas papel das empresas, responsabili- nhando cada vez mais espaço no áreas de saúde, educação, meio dade social é toda e qualquer ação território nacional e que muito ambiente e economia – as que que possa contribuir para a dessa discussão é fruto de ques- mais requerem atenção em nosso melhoria da qualidade de vida da tionamentos e críticas que as País – e vem se firmando como sociedade e que seja conduzida de organizações privadas vêm rece- um grande empenho empresarial maneira sustentável. bendo nos últimos anos. representado por instituições e Neste contexto de papel social À medida que os cidadãos vão fundações mantidas pela iniciativa com objetivo de proporcionar adquirindo maior consciência de privada. bem-estar, se responsabilidade suas responsabilidades, também De resto, os desafios cresce- social é a visão expandida do vão exigindo uma postura mais ram tanto que conquistas mais papel de uma empresa na socie- engajada das empresas que vêm marcantes tornaram-se questão dade, a propaganda como up procurando evoluir em sua de sobrevivência. Diante do agra- grade da relação com o mercado gestão responsável. vamento das disparidades sociais deve conter elementos que ex- Em suma, Ética e Responsa- e da dramaticidade que o risco pressem seus valores morais e bilidade Social nos Negócios é um ambiental atingiu – casos do exercer papel de agente de cons- importante instrumento de pes- esgotamento de recursos naturais cientização para o desenvol- quisa e entendimento acerca dos como a água, do aquecimento glo- vimento econômico e social. fundamentos e aplicações das bal, dos danos à biodiversidade e Na segunda parte, Ética e responsabilidades empresariais no à camada de ozônio – menos do Responsabilidade Social nos âmbito dos impactos econômicos que já foi feito é inaceitável. Negócios, traz estudos de casos e sociais exercidos pelas organiza- Peter Drucker, citado na obra que procuram ilustrar a aplicação ções brasileiras. A maior contri- de Ashley, ressalta que sucesso dos conceitos abordados na buição da coletânea é, no entanto, e responsabilidade social cami- primeira parte do livro dentro do reunir conhecimento relevante para nham juntos. As chances de a contexto brasileiro, fruto de o momento empresarial brasileiro empresa ser bem-sucedida no dissertações de mestrado. Banco e suprir, pelo menos momentanea- mercado aumentam à medida que Central, empresas de diversos mente, a necessidade cada vez ela prioriza a atuação socialmente ramos de atividade e localizadas mais crescente de informação na responsável e geram seus negó- nas regiões Sul e Sudeste serviram área da gestão da responsabili- cios considerando os interesses de fonte de pesquisa para a ava- dade social e ética nos negócios. 58 julho/dezembro-2002