A crise dos Estados Unidos
               (subprime) e o
          agronegócio do Brasil.
                             Desde a segunda metade do ano passado, a           houve forte crescimento da agricultura. As ex-
                         mídia tem noticiado sobre uma crise iniciada no        portações elevaram-se de forma rápida, assim
                         mercado imobiliário americano. As conseqüênci-         como a renda dos agricultores. Isso fez com que
                         as dessa crise têm repercutido, em diferentes in-      houvesse valorização dos ativos (terra, máquinas,
                         tensidades, nas diversas partes do mundo. Uma          equipamentos, entre outros) utilizados na produ-
  Roberto Arruda de
                         das questões, ainda em aberto, é referente aos         ção agropecuária. Na época o crédito era farto e
        Souza Lima
Engenheiro agrônomo,     impactos da crise no agronegócio brasileiro. Nes-      barato. Com seus ativos (e patrimônio) valoriza-
            Doutor em    te artigo, será apresentada uma breve discussão        dos, os agricultores apresentavam sólidas garan-
   Economia Aplicada,
  Prof. da ESALQ/USP ,   das origens e estágio atual da crise, e, na seqüên-    tias para obterem financiamentos. As constantes
Pesquisador do CEPEA     cia, os potenciais impactos no agronegócio brasi-      valorizações da terra e demais fatores de produ-
 raslima@esalq.usp.br
                         leiro.                                                 ção, devido ao momento favorável em que a agri-
                             Para melhor compreensão da atual crise, pode-      cultura atravessava, permitiram que os produto-
                         se recordar a crise enfrentada pela agricultura nor-   res rurais levantassem cada vez mais recursos
                         te-americana no final do século passado. Como          junto aos bancos. Entretanto, no ano de 1979
                         será analisado a seguir, em ambos os casos o cres-     ocorreu significativa mudança nesse cenário. Pre-
                         cimento da dívida foi estimulado por ganhos de         ocupado com o controle da inflação, o Federal
                         capital (valorização) dos ativos. A crise surge do     Reserve (banco central dos EUA) elevou drasti-
                         fato dos ganhos de capital não serem sustentados       camente as taxas de juro naquele ano, o que pro-
                         e de um relaxamento de políticas de crédito quan-      vocou valorização cambial. O resultado foi a re-
Figura 1: A crise da     do tudo, ao menos aparentemente, anda bem.             dução nas exportações de produtos agrícolas, fato
agricultura nos EUA          Vejamos a história. Durante a década de 1970       agravado com a crise da dívida que ocorria nos
nos anos 1980.
                                                                                países em desenvolvimento (o que reduziu ainda
                                                                                mais a demanda mundial). Verificou-se, no perío-
                                                                                do de 1981 a 1986, redução em 40% nas expor-
                                                                                tações agrícolas dos EUA, em um momento em
                                                                                que a capacidade de produção havia se elevado,
                                                                                conforme discutido anteriormente. A conseqüên-
                                                                                cia foi formação de grandes excedentes de com-
                                                                                modities agrícolas no início dos anos 1980, pro-
                                                                                vocando queda nos preços e forte desvaloriza-
                                                                                ção dos ativos e patrimônio dos agricultores. Em
                                                                                função desses acontecimentos, a inadimplência
                                                                                elevou-se fortemente (Figura 1).
                                                                                    Vejamos a crise atual. O setor imobiliário nor-
                                                                                te americano, como ocorre em todos os países,
                                                                                sempre mereceu atenção especial, tanto por ge-
                                                                                rar muitos empregos e renda, quanto pela impor-
                                                                                tância social de ofertar moradia para a popula-
                                                                                ção. Nos anos da 1980, em resposta às crises
  Nota: Dados normalizados
                                                                                econômicas da época, o setor imobiliário recebeu
  Fonte: Stein (2008)                                                           grandes incentivos, através de reformas tributá-
                                                                                rias (Tax Reform Act), alterações na forma das
instituições financiarem esse mercado e por ino-
vações financeiras (destacando-se o surgimento
e crescimento de operações securitizadas). Es-
sas alterações implicaram em crescimento da
demanda por imóveis e os preços, nesse merca-
do, passaram a apresentar firme crescimento. No
mesmo momento, havia muita liquidez no merca-
do financeiro, ou seja, disponibilidade de emprés-
timos e financiamentos com baixas taxas de ju-
ros. Iniciou-se, então, um perigoso ciclo virtuoso
(Figura 2).
    O crescimento no apetite dos bancos em rea-
lizar financiamento com base em garantias, que
estavam continuamente se valorizando, provocou,
entre outros, dois eventos que elevaram o risco
das operações. Primeiro, na busca de mais clien-                                                                    Figura 2:
                                                        tágio entre os participantes do mercado, institui-   Crescimento do
tes, os bancos relaxaram os critérios de seleção
                                                        ções financeiras e fundos de investimento.            financiamento
(afinal, o que contava era a garantia, o imóvel fi-                                                               imobiliário
                                                            Assustados e abalados com as perdas, os in-
nanciado...). Cresceu, assim, o número dos cha-
                                                        vestidores trocaram suas aplicações em bancos e
mados empréstimos NINJA, para pessoas sem
                                                        fundos por aplicações em commodities. Isto con-
renda, sem trabalho fixo e sem bens (do inglês,
                                                        tribui para elevação dos preços do petróleo, me-
No Income, No Job or Asssets). O segundo fato
                                                        tais e alimentos (que já estavam pressionados
foi que muitos devedores enxergaram a oportuni-
                                                        pelas políticas de biocombustíveis). Note que o
dade de se endividarem ainda mais. Como o imó-
                                                        aumento dos preços das commodities pressionam
vel (garantia) se valorizava, o mesmo bem pode-         a inflação em todos países. A ameaça de eleva-
ria garantir montantes crescentes de empréstimos.       ção de inflação, no Brasil ou em qualquer lugar
Muitos refinanciaram suas hipotecas, liquidando         do mundo, resulta em políticas econômicas con-
a dívida anterior e levantando recursos adicio-         tracionistas (para redução da demanda, como
nais (para consumo) com a mesma garantia da             aumento das taxas de juros e redução de gastos).
hipoteca original. Cresceu, assim, a quantidade             E o agronegócio brasileiro, onde entra nessa
de empréstimos denominados subprime, ou seja,           história? Em várias partes. Primeiro, o ponto po-
avaliados como de risco maior de entrar em              sitivo: como somos exportadores de commodities,
inadimplência. Muitos destes financiamentos pre-        a alta dos preços é favorável ao setor. Mas os
viam uma carência longa e, em diversos casos,           pontos negativos são mais sérios. A preocupação
com juros repactuados. A elevação das taxas de          com a inflação e as políticas para combatê-la im-
juros, já neste século, implicou em dificuldades para   plicam em menor procura pelos produtos expor-
os devedores e reduziu a demanda por imóveis.           tados pelo Brasil. A redução de crédito (os inves-
O ciclo (visto na Figura 2) se inverteu. Os preços      tidores estão cobrindo as perdas devido à crise
dos imóveis começaram a baixar, os bancos ao            americana e estão mais sensíveis aos riscos) im-
verificarem o aumento da inadimplência e a per-         plica em maior dificuldade de financiamento para
da de valor da garantia, reduziram o crédito, o         o agronegócio (menor quantidade de crédito e mais
que reduzia ainda mais a demanda por imóveis,           caro). No médio e longo prazo, há necessidade
retomando o ciclo, agora, vicioso. Este processo        de rever como será financiado o agronegócio.
avançou ao ponto que muitos imóveis, desvalori-         Ressalte-se que os novos instrumentos de finan-
zados, passaram a valer menos que a dívida que          ciamento, recentemente introduzidos na agrope-
garantiam. O resultado: desincentivo para os de-        cuária, como o Certificado de Recebíveis, estão
vedores quitarem suas dívidas, pois ficou mais          fundamentados no mercado de operações finan-
barato entregar o imóvel do que continuar pagan-        ceiras estruturadas, como a securitização, alvos
do o empréstimo. Rapidamente, os credores dos           de questionamentos, análises e reformulação em
empréstimos imobiliários começaram a apurar             nível mundial. O momento é de cautela, sem mui-
prejuízos significativos. As operações de engenha-      to otimismo quanto aos desdobramentos da crise
ria financeira e a globalização aceleraram o con-       do subprime norte americano.

Artigo equina 17 mai jun-2008

  • 1.
    A crise dosEstados Unidos (subprime) e o agronegócio do Brasil. Desde a segunda metade do ano passado, a houve forte crescimento da agricultura. As ex- mídia tem noticiado sobre uma crise iniciada no portações elevaram-se de forma rápida, assim mercado imobiliário americano. As conseqüênci- como a renda dos agricultores. Isso fez com que as dessa crise têm repercutido, em diferentes in- houvesse valorização dos ativos (terra, máquinas, tensidades, nas diversas partes do mundo. Uma equipamentos, entre outros) utilizados na produ- Roberto Arruda de das questões, ainda em aberto, é referente aos ção agropecuária. Na época o crédito era farto e Souza Lima Engenheiro agrônomo, impactos da crise no agronegócio brasileiro. Nes- barato. Com seus ativos (e patrimônio) valoriza- Doutor em te artigo, será apresentada uma breve discussão dos, os agricultores apresentavam sólidas garan- Economia Aplicada, Prof. da ESALQ/USP , das origens e estágio atual da crise, e, na seqüên- tias para obterem financiamentos. As constantes Pesquisador do CEPEA cia, os potenciais impactos no agronegócio brasi- valorizações da terra e demais fatores de produ- raslima@esalq.usp.br leiro. ção, devido ao momento favorável em que a agri- Para melhor compreensão da atual crise, pode- cultura atravessava, permitiram que os produto- se recordar a crise enfrentada pela agricultura nor- res rurais levantassem cada vez mais recursos te-americana no final do século passado. Como junto aos bancos. Entretanto, no ano de 1979 será analisado a seguir, em ambos os casos o cres- ocorreu significativa mudança nesse cenário. Pre- cimento da dívida foi estimulado por ganhos de ocupado com o controle da inflação, o Federal capital (valorização) dos ativos. A crise surge do Reserve (banco central dos EUA) elevou drasti- fato dos ganhos de capital não serem sustentados camente as taxas de juro naquele ano, o que pro- e de um relaxamento de políticas de crédito quan- vocou valorização cambial. O resultado foi a re- Figura 1: A crise da do tudo, ao menos aparentemente, anda bem. dução nas exportações de produtos agrícolas, fato agricultura nos EUA Vejamos a história. Durante a década de 1970 agravado com a crise da dívida que ocorria nos nos anos 1980. países em desenvolvimento (o que reduziu ainda mais a demanda mundial). Verificou-se, no perío- do de 1981 a 1986, redução em 40% nas expor- tações agrícolas dos EUA, em um momento em que a capacidade de produção havia se elevado, conforme discutido anteriormente. A conseqüên- cia foi formação de grandes excedentes de com- modities agrícolas no início dos anos 1980, pro- vocando queda nos preços e forte desvaloriza- ção dos ativos e patrimônio dos agricultores. Em função desses acontecimentos, a inadimplência elevou-se fortemente (Figura 1). Vejamos a crise atual. O setor imobiliário nor- te americano, como ocorre em todos os países, sempre mereceu atenção especial, tanto por ge- rar muitos empregos e renda, quanto pela impor- tância social de ofertar moradia para a popula- ção. Nos anos da 1980, em resposta às crises Nota: Dados normalizados econômicas da época, o setor imobiliário recebeu Fonte: Stein (2008) grandes incentivos, através de reformas tributá- rias (Tax Reform Act), alterações na forma das
  • 2.
    instituições financiarem essemercado e por ino- vações financeiras (destacando-se o surgimento e crescimento de operações securitizadas). Es- sas alterações implicaram em crescimento da demanda por imóveis e os preços, nesse merca- do, passaram a apresentar firme crescimento. No mesmo momento, havia muita liquidez no merca- do financeiro, ou seja, disponibilidade de emprés- timos e financiamentos com baixas taxas de ju- ros. Iniciou-se, então, um perigoso ciclo virtuoso (Figura 2). O crescimento no apetite dos bancos em rea- lizar financiamento com base em garantias, que estavam continuamente se valorizando, provocou, entre outros, dois eventos que elevaram o risco das operações. Primeiro, na busca de mais clien- Figura 2: tágio entre os participantes do mercado, institui- Crescimento do tes, os bancos relaxaram os critérios de seleção ções financeiras e fundos de investimento. financiamento (afinal, o que contava era a garantia, o imóvel fi- imobiliário Assustados e abalados com as perdas, os in- nanciado...). Cresceu, assim, o número dos cha- vestidores trocaram suas aplicações em bancos e mados empréstimos NINJA, para pessoas sem fundos por aplicações em commodities. Isto con- renda, sem trabalho fixo e sem bens (do inglês, tribui para elevação dos preços do petróleo, me- No Income, No Job or Asssets). O segundo fato tais e alimentos (que já estavam pressionados foi que muitos devedores enxergaram a oportuni- pelas políticas de biocombustíveis). Note que o dade de se endividarem ainda mais. Como o imó- aumento dos preços das commodities pressionam vel (garantia) se valorizava, o mesmo bem pode- a inflação em todos países. A ameaça de eleva- ria garantir montantes crescentes de empréstimos. ção de inflação, no Brasil ou em qualquer lugar Muitos refinanciaram suas hipotecas, liquidando do mundo, resulta em políticas econômicas con- a dívida anterior e levantando recursos adicio- tracionistas (para redução da demanda, como nais (para consumo) com a mesma garantia da aumento das taxas de juros e redução de gastos). hipoteca original. Cresceu, assim, a quantidade E o agronegócio brasileiro, onde entra nessa de empréstimos denominados subprime, ou seja, história? Em várias partes. Primeiro, o ponto po- avaliados como de risco maior de entrar em sitivo: como somos exportadores de commodities, inadimplência. Muitos destes financiamentos pre- a alta dos preços é favorável ao setor. Mas os viam uma carência longa e, em diversos casos, pontos negativos são mais sérios. A preocupação com juros repactuados. A elevação das taxas de com a inflação e as políticas para combatê-la im- juros, já neste século, implicou em dificuldades para plicam em menor procura pelos produtos expor- os devedores e reduziu a demanda por imóveis. tados pelo Brasil. A redução de crédito (os inves- O ciclo (visto na Figura 2) se inverteu. Os preços tidores estão cobrindo as perdas devido à crise dos imóveis começaram a baixar, os bancos ao americana e estão mais sensíveis aos riscos) im- verificarem o aumento da inadimplência e a per- plica em maior dificuldade de financiamento para da de valor da garantia, reduziram o crédito, o o agronegócio (menor quantidade de crédito e mais que reduzia ainda mais a demanda por imóveis, caro). No médio e longo prazo, há necessidade retomando o ciclo, agora, vicioso. Este processo de rever como será financiado o agronegócio. avançou ao ponto que muitos imóveis, desvalori- Ressalte-se que os novos instrumentos de finan- zados, passaram a valer menos que a dívida que ciamento, recentemente introduzidos na agrope- garantiam. O resultado: desincentivo para os de- cuária, como o Certificado de Recebíveis, estão vedores quitarem suas dívidas, pois ficou mais fundamentados no mercado de operações finan- barato entregar o imóvel do que continuar pagan- ceiras estruturadas, como a securitização, alvos do o empréstimo. Rapidamente, os credores dos de questionamentos, análises e reformulação em empréstimos imobiliários começaram a apurar nível mundial. O momento é de cautela, sem mui- prejuízos significativos. As operações de engenha- to otimismo quanto aos desdobramentos da crise ria financeira e a globalização aceleraram o con- do subprime norte americano.