Anais
ANAISdaXJornadaMédico-LiteráriaPaulista-SÃOPAULO-SP-2009
APOIO INSTITUCIONAL
REALIZAÇÃO
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - SOBRAMES
Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará
X Jornada Médico-Literária Paulista
V Jornada Nacional da Sobrames
VI Sobramíada - CE
17 a 19 de Setembro de 2009
Green Place Hotel
São Paulo - SP - Brasil
MUSEUPAULISTA-IPIRANGA-SP
Movimento Poético Nacional - Academia Paulista de História -
Academia Paulista de Medicina - Green Place Flat - Associação Médica Brasileira -
Rumo Editorial Produções e Edições - Academia Paulista de Letras -
Academia Ribeirãopretana de Letras
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores- SOBRAMES
Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará
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Anais
X Jornada Médico-Literária Paulista
V Jornada da Sobrames Nacional
VI Sobramíada
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
SOBRAMES
Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará
São Paulo - SP - Brasil
17 a 19 de setembro de 2009
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SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES
Regional do Estado de São Paulo
SOBRAMES - SP
Diretoria Gestão 2009/2010
Cargos Eletivos
Presidente:HelioBegliomini
Vice-presidente: Josyanne Rita deArruda Franco
Primeiro secretário: LigiaTerezinhaPezzuto
Segundo secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã
Primeiro tesoureiro: Marcos Gimenes Salun
Segundo tesoureiro: RobertoAntonioAniche
Conselho Fiscal
Efetivos:
Flerts Nebó
CarlosAugustoFerreiraGalvão
LuizJorgeFerreira
Suplentes:
Geovah Paulo da Cruz
HelmutAdolfMataré
RodolphoCivile
A X Jornada Médico-Literária Paulista é uma realização da SOBRAMES - SP
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo
A V Jornada da Sobrames Nacional é uma realização da
Presidência da SOBRAMES - Nacional - Presidente: Dr. José Maria Chaves (CE)
A VI Sobramíada é uma realização da SOBRAMES - CE
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado do Ceará
Presidente da Regional Cearense: Dr. José Maria Chaves
Endereço para correspondência (SOBRAMES-SP):
Av.Prof. Sylla Mattos, 652 - apto.12 - Jardim Santa Cruz -
São Paulo - SP - CEP 04182-010
sobrames@uol.com.br
Copyright 2009 © dosAutores
Comissão Organizadora da X Jornada Médico-Literária Paulista
Presidente: Manlio Mario Marco Napoli
Membros: Os integrantes da Diretoria da Regional São Paulo
Projeto Gráfico e Diagramação: Rumo Editorial Produções e Edições Ltda.
E-mail: rumoeditorial@uol.com.br
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“O trabalho poupa-nos de três grandes males: tédio, vício e necessidade”.
François-Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire (1694-1778).
Filósofo, escritor, poeta, dramaturgo e historiador francês.
As Jornadas Médico-Literárias Paulistas tiveram origem em setembro de 1991, quando a
entidade contava com apenas três anos de existência. Foram organizadas na segunda gestão de
Flerts Nebó (1990-1992) e objetivaram não somente divulgá-la, mas, e principalmente naquela
ocasião, adquirir experiência nesses eventos, uma vez que a Sociedade Brasileira de Médicos
Escritores do Estado de São Paulo (Sobrames – SP) tinha-se comprometido na cidade de Recife
(PE), em 1992, por ocasião do XIII Congresso Nacional da Sobrames, de realizar sua edição XIV,
em São Paulo, em 1994.
Assim, desde o início, almejávamos que as Jornadas Médico-Literárias Paulistas fossem
realizadas nos anos ímpares, ou seja, alternadamente com os Congressos Nacionais da Sobrames,
uma vez que, desde suas origens, são efetuados tradicionalmente nos anos pares.
Outra curiosidade é que já se tinha em mente, em 1991, escolher uma cidade do interior e
preferencialmente que albergasse uma escola de medicina. Essas ideias não somente almejavam o
lazer, a descontração e a mudança de rotina, uma vez que as Pizzas Literárias – tertúlias mensais
da Sobrames – SP –, sempre foram e têm sido realizadas na capital, mas também, objetivavam
introduzir a entidade no interior e fazê-la conhecida entre os acadêmicos de medicina.
Assim, a Sobrames – SP já realizou as Jornadas Médico-Literárias nas seguintes cidades:
Jundiaí (1991 e 2007), Bragança Paulista (1993), Santos (1995), Campos do Jordão (1997 e 2003),
Águas de São Pedro (1999), Botucatu (2001) e Serra Negra (2005).
A ideia paulista vingou e frutificou, sendo levada em âmbito nacional. Assim, começaram a
ser organizadas em 2001, na Sobrames nacional, na gestão de Luiz Alberto Fernandes Soares
(2000-2002), jornadas nacionais com o objetivo de congregar ainda mais os sobramistas, uma vez
que a grande maioria das regionais não realizava eventos estaduais, e esperar dois anos para
participar dos congressos era, para esses membros, um tempo longo demais.
A fim de não competirem com os Congressos nacionais, as Jornadas Nacionais da Sobrames
também, a exemplo da Sobrames – SP, vieram a lume nos anos ímpares, sendo já realizadas quatro
versões: Salvador (2001), Belém (2003), Fortaleza (2005) e Curitiba (2007).
Esta é uma jornada sui generis não somente na história da Sobrames paulista, mas também
na história da Sobrames nacional e na história da Sobrames cearense, uma vez que é a primeira
vez, entre nós, que a Jornada Médico-Literária Paulista é organizada na capital. Ademais, é
igualmente a primeira vez que se reúnem num só evento a força e a tradição de três: X Jornada
Médico-Literária Paulista, V Jornada Nacional da Sobrames e VI Sobramíada.
É com grande satisfação que aqui se encontram não somente sobramistas paulistanos e
paulistas, mas também cearenses, pernambucanos, alagoanos, baianos, mineiros, fluminenses e
catarinenses, além de hermanos da Argentina e da longínqua Angola (África), o que confere aos
eventos um singular colorido cultural, além de conotação internacional.
Apresentação
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Estão consignados nestes Anais excelentes trabalhos em versos e em diversas modalidades
de prosa. A comissão julgadora que os analisou, recebeu-os sem os nomes dos seus respectivos
autores, avaliando-os nas modalidades de poesias, contos e prosa. Ela foi composta por membros
do Movimento Poético Nacional, a quem a Sobrames paulista muito agradece na pessoa de
seu presidente, Walter Argento. Ao seu lado compuseram a comissão julgadora os ilustres escritores:
Frances de Azevedo, advogada; Rosa Maria Custódio, jornalista; e Carlos Moreira da Silva,
advogado.
Os três primeiros colocados farão jus a um belo troféu na forma de pena de caneta tinteiro
antiga, gentilmente ofertado pela Sobrames Ceará na pessoa do confrade José Maria Chaves, seu
presidente e presidente da Sobrames nacional (2008-2010).
Por fim, faz-se mister assinalar que a Antologia Paulista, ultimamente lançada por ocasião
de nossas tradicionais Jornadas Médico-Literárias, também bienais, vem a lume nesta ocasião
histórica toda especial. A VII Antologia Paulista mostra que a entidade tem cumprido seu
papel na compilação, divulgação e custódia não somente dos trabalhos de seus associados, mas
igualmente na preservação da memória de seus diletos membros.
A estes propósitos também se prestam os Anais destes conjugados eventos. A coordenação,
diagramação e execução da VII Antologia Paulista e destes Anais se deveram ao paciencioso e
esmerado trabalho do confrade Marcos Gimenes Salun. A ele nossos mais sinceros agradecimentos.
Que a força da ideia catalisadora, ora experimentada, sirva para congregar ainda mais os
confrades da Sobrames nacional!
Helio Begliomini
Presidente da Sobrames – SP (2009-2010).
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A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional do Estado de São Paulo,
foi fundada em 16 de setembro de 1988 e congrega mais de cem membros titulares, acadêmicos,
colaboradores, eméritos, honorários e beneméritos.
Basicamente a sociedade é constituída por médicos escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA,
além de escritores de outras formações profissionais
(advogados, engenheiros, jornalistas, dentistas, arquitetos, etc..).
Pizzas Literárias
Em 1989 surgiu a idéia de se reunir os colegas ao redor de uma mesa de pizza, como acontecera por
ocasião da fundação da entidade. A reunião mensal tornou-se uma tradição e foi intitulada “Pizza
Literária”. Desde então é realizada em uma pizzaria de São Paulo, com uma freqüência que costuma
beirar trinta pessoas. Nesta, além de se saborear uma deliciosa pizza, tomar um chope e bater papo com
os amigos, tem-se a oportunidade de ouvir os trabalhos dos colegas e também apresentar os seus. Tem-se,
também, a possibilidade de encontrar colegas de outras especialidades e formados nas mais diversas
faculdades, além de sócios não médicos das mais variadas profissões. Todos com uma paixão em comum:
a literatura. As reuniões de 2007 têm acontecido na terceira quinta-feira de cada mês, na pizzaria
BONDE PAULISTA, na Rua Oscar Freire, 1597 – à partir de 19h30.
Jornadas e Congressos
A cada dois anos a Regional de São Paulo promove uma Jornada Médico-literária.
Estas já se realizaram em diversas cidades do interior paulista:
Jundiaí – de 27 a 29 de setembro de 1991
Bragança Paulista – de 28 a 30 de maio de 1993
Santos – de 24 a 26 de novembro de 1995
Campos do Jordão – de 28 a 30 de agosto de 1997
Águas de São Pedro – de 16 a 19 de setembro de 1999
Botucatu – de 27 a 30 de setembro de 2001
Campos do Jordão – de 25 a 28 de setembro de 2003
Serra Negra - de 22 a 25 de setembro de 2005
Jundiaí – de 27 a 30 de setembro de 2007
Nos anos pares é realizado um Congresso Nacional da SOBRAMES. Em 1994 e 1998, este ocorreu
em São Paulo, organizado por nossa regional. O XXII Congresso Brasileiro
aconteceu em junho de 2008 na cidade de Fortaleza – CE.
O próximo congresso será realizado no Estado de Minas Gerais, em 2010.
Sociedade Brasileira
de Médicos Escritores
Regional do Estado de São Paulo
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Eventos internacionais
Além da existência de regionais da SOBRAMES na maioria dos estados brasileiros, seus membros também
participam em algumas associações em outros países, como é o caso da LISAME - Liga Sul Americana de
Médicos Escritores, com sede em Buenos Aires – Argentina; UMEM – União Mundial de Escritores Médicos,
com sede em Lisboa – Portugal, cujo congresso se realizou em Viana de Castelo - Portugal, de 27 de setembro a
3 de outubro de 2004, contando com representação da SOBRAMES paulista; UMEAL – União de Médicos
Escritores e Artistas de Língua Lusófona, com sede em Lisboa – Portugal, dentre outras.
Publicações
Jornal - Desde 1992 a SOBRAMES-SP publica o informativo mensal “O Bandeirante” que é distribuído aos
membros da regional paulista, diversos confrades de outras regionais, além de entidades culturais no Brasil e no
exterior. Por vários anos publicou o suplemento literário, as “Páginas Sobrâmicas”, trazendo textos literários dos
membros da Regional de São Paulo. À partir de 2001 a publicação ganhou o título de “Suplemento Literário”, e
continua sendo publicado mensalmente, como encarte do jornal “O Bandeirante”.
Desde janeiro de 2007 o jornal “O Bandeirante” passou a ser distribuído pela internet, para mais de 1000
destinatários no Brasil e no Exterior.
Coletâneas - A Sociedade já editou nove coletâneas com trabalhos dos membros:
“Por um Lugar ao Sol” (1990)
“A Pizza Literária” (1993)
“A Pizza Literária - segunda fornada” (1995)
“Criação” (1996)
“A Pizza Literária - quinta fornada” (1998)
“A Pizza Literária - sexta fornada” (2000)
“A Pizza Literária – sétima fornada” (2002)
“A Pizza Literária – oitava fornada” (2004)
“A Pizza Literária – nona fornada” (2006)
“A Pizza Literária - décima fornada” (2008).
Antologias - Em 1999, editou-se a “I Antologia Paulista”, contendo todos os trabalhos das “Páginas Sobrâmicas”
nos seus dois primeiros anos de publicação (abril 1997 a março de 1999). Em 2000 foi publicada a II Antologia
Paulista, desta vez com trabalhos inéditos dos sócios. A série de antologias continuou e já conta com cinco
volumes, tendo os demais sido publicados em 2001, 2003, 2005 e 2007.
Em setembro de 2009 está sendo lançada a VII Antologia Paulista.
Concursos literários
Em 1997, foi instituído o concurso para A Melhor Poesia do Ano, Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins” e, a
partir de 1999, o concurso para A Melhor Prosa do Ano, Prêmio “Flerts Nebó”, dos quais participam todos os
membros da SOBRAMES-SP que apresentam seu textos nas Pizzas Literárias. Estes certames visam dar
estímulo à criatividade dos autores membros da SOBRAMES, tendo em vista a característica meramente
diletante de seus participantes. Trimestralmente acontece um desafio literário intitulado SUPERPIZZA, onde os
escritores são convidados a produzir um texto em prosa ou verso sobre um tema sugerido.
Em janeiro de 2007 foram introduzidos dois novos concursos que têm como objetivo incentivar os integrantes
da sociedade a participar de suas atividades. Trata-se do “Prêmio Rodolpho Civile”, de Assiduidade
e o “Prêmio Aldo Mileto” de Melhor Desempenho.
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Diretoria
A cada dois anos a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do
Estado de São Paulo elege em assembléia uma nova diretoria.
Na atual gestão (biênio 2009/2010) a diretoria está assim composta:
Presidente: Helio Begliomini;
Vice-presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco;
Primeiro-secretário: Lígia Terezinha Pezzuto;
Segundo-secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã;
Primeiro-tesoureiro: Marcos Gimenes Salun;
Segundo-tesoureiro: Roberto Antonio Aniche;
Conselho Fiscal Efetivos: Flerts Nebó, Carlos Augusto Ferreira Galvão e
Luiz Jorge Ferreira; Conselho Fiscal Suplentes: Geováh Paulo da Cruz,
Helmut Adolf Mataré e Rodolpho Civile.
Como participar
Podem tornar-se membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores todos os médicos, de qualquer
especialidade, e todos os acadêmicos de medicina, em qualquer ano do curso, mediante simples solicitação de sua
inscrição, e bastando que sejam também escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, em qualquer gênero literário
(romance, crônica, conto, poesia, ensaios, etc.). Também podem tornar-se membros da SOBRAMES-SP os
ESCRITORES de qualquer outra formação profissional, apresentados por outros membros da sociedade. A
solicitação será aprovada mediante análise da diretoria e existência de quorum na forma de seu estatuto. Os
membros contribuem financeiramente com uma anuidade de pequeno valor. Os custos de algumas atividades da
SOBRAMES-SP são pagos pelos participantes, como por exemplo,
despesas de hospedagem em congressos e jornadas e
despesas de consumo nas reuniões denominadas Pizzas Literárias.
Associe-se
Para obter outras informações sobre a SOBRAMES-SP ou para tornar-se membro, envie correspondência
para e-mail SOBRAMES@UOL.COM.BR.
Pelo correio você poderá obter ficha de inscrição escrevendo para:
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
Av.Prof.Sylla Mattos, 652 - apto. 12
Jardim Santa Cruz - São Paulo - SP
CEP 04182-010
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X Jornada Médico-Literária Paulista
V Jornada da Sobrames Nacional
VI Sobramíada
Obras Literárias
Bem-vindos!
São Paulo abre seus braços
para acolher os ilustres autores da
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores -
SOBRAMES. A partir de agora
estas páginas perpetuam o registro
deste encontro histórico.
Que os contos, crônicas e poesias
aqui apresentados fiquem para sempre
na memória de todos aqueles
que viveram estes dias e,
gravados de forma indelével,
possam servir de recordação
e de momentos de inspiração para
todos que tiverem o privilégio de
folhearem estas páginas.
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Índice
Alcione Alcântara Gonçalves
Carro de Boi / Inferno na Torre / Talentos
15
Alitta Guimarães Costa Reis
O Beijo / Intramuros / Reconhecimento
17
Carlos Augusto Ferreira Galvão
Síndrome de Lázaro / A Verdade Sem Dentes /
Doce Periferia Paulistana
19
Evanil Pires de Campos
Sonho infantil / Lua Enamorada / Memória Pires de Campos
22
Flerts Nebó
A Luz Elétrica em São Paulo / Medicina no Antigo Egito /
Pinheiros ou Espinheiros
24
Geovah Paulo da Cruz
A Água de Piracicaba / O Tatu e a Tanajura /
O Culto da Ancianidade
28
Helio Begliomini
Ser Candidato / Circuncisões / Eu... Militar
32
Hélio José Déstro
O Palhaço - o ABC do Palhaço /
Os Revolucinários / Meus inesquecíveis amigos
37
Ildo Simões Ramos
Meu Pé de Melão / As Marcas do Tempo /
Sob o Signo de Capricórnio
42
João de Deus Pereira da Silva
Mulher e Diva / Flor-mulher / Passa e Repassa
45
José Jucovsky
Infinitos Sonhos Homéricos / Quem sou eu? Quem somos nós?
/ Rumo ao desconhecido
47
José Maria Chaves
As Águas do Velho Chico Descem Chorando pro Mar /
Breve História de Uma Vida Dignificante / Reminiscências
50
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12
Índice
José Medeiros
As Fogueiras Ainda Ardem / Histórias Natalinas /
Lembranças da Juventude
54
José Rodrigues Louzã
Cinquenta Anos de Formatura
56
José Warmuth Teixeira
O Tempo Perdido / Uma Revolta Intestina / A Criação
57
Josef Tock
Essências / Recompoesia / Alegria, Alegria
60
Josemar Octaviano Alvarenga
22 de Abril / Voo Para o Nada / Do Coronel aos Coronéis
62
Josyanne Rita de Arruda Franco
Ele e Ela / Sonharei Contigo / O Baile Perfumado
66
Ligia Terezinha Pezutto
Meu Bem-querer / Saudade /
Minha Lancheira, Saudosa Companheira
69
Luiz Jorge Ferreira
Ele / Modinha Para Ela / O Quadro
71
Manlio Mario Marco Napoli
Reminiscências da Faculdade de Medicina /
Uma angioplastia / Foi o Gato!
74
Márcia Etelli Coelho
Realizações / Inquietude / O Livro que Me Cativou 77
Marco Aurélio Baggio
Discurso Pleno / Inexorável Reconstrução do Capitalismo /
Judas, o Mensageiro de Jesus de Nazaré
80
Marcos Gimenes Salun
Carpe Diem! / Pequenos Apontamentos Sobre a Solidariedade
e a Justiça / Genético e Hereditário
84
Maria de Fátima Barros Calife Batista
Abismo dos Teus Olhos / Afetos na Folia / Medo do Escuro
87
Maria do Céu Coutinho Louzã
Devaneios em Vermelho / Fogos de Artifício
90
Mário de Mello Faro
Direitos e Deveres / O Passaporte / Cronograma de Vida
92
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13
Índice
Paulo Camelo de Andrade Almeida
Ave Celeste / Há Muito Tempo / Portal da Mente
107
Nelson Jacintho
A Noite / Quase / A Estrada da Vida
103
Rodolpho Civile
Calixto, o Colchoeiro do Bexiga / Pedro e Paulo /
O Vendedor de “Machadinho” do Bexiga
111
Ronaldo Vieira de Aguiar
Devaneios / Vou Atrás / O Regresso
115
Victor Jose Fryc
La Máscara / El Caballo de Felipe III / La Violación
121
Wladimir do Carmo Porto
Promessa de Carnaval
130
Zilda Cormack
Aloendre / Arestas / O dia em que vovô me enxergou
131
Mercedes Gomes
Quando / Cantiga Para Ninar Luanda /
Um pouco de ti
95
Miguel Angel Manzi
Tango! / Portenho / El Abandono
99
Sebastião Abrão Salim
Paz / O Contador de Histórias / A Metamorfose de Kafka - Um
Ensaio Literário-Psicanalista
117
Renato Passos
O Sonho do Poeta / Distância - Paixão - Inveja / O Foguete
109
Vilma Clóris de Carvalho
Lembranças - o Funeral
125
Walter Gomes de Miranda Filho
Homem Apaixonado / Intrigas na Caserva / Interior e Capital
127
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14
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15
Alcione de Alcântara Gonçalves
Médico Psiquiatra
Tupã - SP
CARRO DE BOI
Lembro-me do carro de boi,
Que na minha infância foi,
Um veículo muito especial,
No transporte de lenha para a feira
E que para o cidadão era de importância vital.
Lenha e carro de boi
Eram, naquela época,
Elementos de valor substancial,
Para a vida de todos os cidadãos
Que deles necessitavam,
Para as transformações
Dos alimentos nutricionais,
Como também, para a iluminação
E o aquecimento do seu habitat natural.
Naquela época tudo era muito simples,
E os homens eram muito naturais!
O homem da roça, era chamado “lapiau”
Significando: simplicidade, ingenuidade e naturalidade;
Significando também, ignorância das coisas da cidade.
O carro de boi também transportava gente!
Gente que labutava na dura lida da roça
Onde plantava mudas e a semente
Para suprir sua necessidade premente
E também servir como moeda de troca.
O carro de boi também canta
O carro de boi também geme
O som que se transforma em canto ou gemido
No atrito do eixo da roda é produzido
E no ar se propaga, chegando ao nosso ouvido.
Vilas e cidades, todos os sábados
Ficavam cheias de carros de bois
Que vinham trazer os produtos
Para as feiras das cidades do interior
Onde eram vendidos ou trocados.
Nas madrugadas dos sábados
Acordávamos com aquela cantiga:
Hum!...Ham!...Hum!...Ham!...Hum!...Ham!...!
E ao longe se ouvia, a voz do caipira:
“Êêê...boi!...Vamo mimoso! Vamo itabira!”
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16
INFERNO NA TORRE
Tragédia, dor e sofrimento
Nas grandes Torres, naquele momento!
Do céu desceu um instrumento,
Vindo de encontro, frontalmente;
Explodindo e queimando as sementes
Do amor dos seres sobreviventes
Afogando os anseios da vida emergente.
Soluços, gritos e choros
Corpos que saltam do alto das Torres
Novo impacto! O estrondo e o fogo!
De uma segunda Aeronave
A se chocar com a outra Torre
E o mundo assistindo atônito
O verdadeiro inferno na Torre!
Parecia um filme de ficção,
Sendo rodado na terra do Tio Sam,
Nas duas Torres do World Trade Center,
Expressivo cenário para uma grande emoção!
Mas a verdade, era o Terror em ação!
Comandado por vários terroristas
Homens frios, insensíveis e sem coração.
Milhares de vidas humanas
Ceifadas por estes tresloucados atos
Praticados por homens fanáticos,
Treinados para matar ou morrer,
Diante da ansiedade e do mêdo, gerados
Por este louco mundo globalizado,
Causa primária do ódio generalizado.
TALENTOS
A aptidão que adquires, é um Talento
E disposição natural, para realizar certas coisas.
Talento, é a exteriorização de uma inteligência extraordinária
E uma prova de grande capacidade.
Talento, é vontade de acertar o alvo,
É o exercício de sua capacidade mental,
É o remexer em todo o seu aprendizado,
Para a concretização de um ideal.
Talento, é desejo de lutar e lutar!
E não desistir, diante de nenhuma adversidade,
Vislumbrando sempre, a meta desejada,
Com a certeza de que a vitória será alcançada!
Talento, usado antigamente, como moeda e peso,
Nas transações comerciais, entre Gregos e Romanos;
Foi o pagamento feito a Judas, um dos discípulos,
Pela sua traição ao Nazareno: O Mestre Jesus!
Talento, é intuição, ministrada por Deus,
Com o propósito de nos ajudar.
É a oportunidade, é a porta que se abre
Para o “Lugar ao Sol”, onde deveremos chegar!
Talento, é saber administrar a vida com mansidão
E, com o domínio próprio dos nossos atos.
Talento, é a sabedoria que a vida nos dá,
Para seguirmos no bom caminho da evolução.
Alcione de Alcântara Gonçalves
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17
Alitta Guimarães Costa Reis
Médica psiquiatra
São Lourenço - MG
O BEIJO
Formada ainda adolescente como professora no antigo Distrito Federal, no Rio de Janeiro, minha mãe
permaneceu, como outras mulheres da família, muitos anos no magistério, até aposentar-se. Seu diferencial foi ter
permanecidomaisdetrintaecincoanosnafunção,etambémtersidodiretoradeescolaalgumasvezes.Minhamãe
amava sua profissão. Fazia milagres; tanto que a ela eram sempre entregues as piores turmas, os alunos mais
difíceis,parafinsderecuperaçãoindividual.Minhamãe,commeiguiceepersistência,encaminhavaosmeninosna
vida. Lecionou por algum tempo perto das primeiras grandes favelas, destinando quase todo o seu salário para
aquisição de material escolar e de bananas para a merenda da meninada. Muitos iam só por causa desta merenda,
se apaixonando pela minha mãe e permanecendo na escola. Muitos deles se formaram e “deram gente” na vida.
Depoisdaaposentadoria,meuspaismudaram-separaMinasGerais,maselanuncadeixouderecebervisitas
das colegas e diretoras de escola de sua época, amigas para sempre, e uma gorda correspondência de funcionários
e ex-alunos, eternamente cativos, a quem sempre minha mãe respondia.
Um dia cheguei em casa e vi um homem grande, de cabeça branca, de joelhos em frente diante de minha
mãe.Elanoscontariadepoisqueeleeraumdosmeninosmaispobresparaquemelahavialecionado,“massempre
muito limpinho, roupas bem cerzidas” e que se tornara um dos estudantes mais aplicados. Ele viajara de muito
longe, por pura e simples gratidão. Os dois, com os olhos muito brilhantes, permaneciam em um longo silêncio,
testemunhadoporminhafamília,nagrandesalademóveisescuros.Omenino,salvopeloamordesuaprofessorinha,
agora general de divisão, depositava com reverência um beijo na mão de minha mãe.
INTRAMUROS
Sei que espera por mim. Sei da frágil esperança
que emerge dos olhos sofridos e puros,
iluminandoafacepálidaemansa.
Passo por lá, sigo em frente, com passos duros.
Não entro.Apenas rezo, choro por dentro.
Sinto abalados motivos fortes, seguros.
É tola a ilusão de que nada me alcança.
A dor me atinge, cruel, torno-me criança,
sabendo que o que me impede não são os muros.
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Alitta Guimarães Costa Reis
RECONHECIMENTO
Primeiro, reexaminar-te.
Centímetro por centímetro.
Procurar marcas que o tempo deixou.
Depois, bem devagar, de olhos fechados,
respirando fundo,
recuperar imagens, sons, cheiros, sabores.
Mais tarde, sem pressa nenhuma,
entender mais de tua mente.
O que te faz mais alegre?
O que te faz gozar mais?
E então, finalmente,
olhar bem fundo em teus olhos.
Sentir o fascínio
do tempo que se desloca
lentamente.
Ver onde as feras rugem,
guardam sua toca,
olhos em brasas.
Ver onde os anjos sorriem e refulgem,
expandem suas asas.
Esse é um olhar perigoso,
que devassa.
É o melhor que se pode dar,
uma certa eternidade onde tudo passa.
É sobre o amor e o amar.
Reconhecer-te sob esse olhar
é tornar tudo novo,
mas como outrora,
assim como diferente é o sol
a cada aurora.
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Carlos Augusto Ferreira Galvão
Médico Psiquiatra
São Paulo - SP
SÍNDROME DE LÁZARO
(Quando a medicina plagia um romance)
Em minha atuação no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, tenho observado os espetáculos
da tecnologia cardíaca moderna e também o “rastro” psiquiátrico que as acompanha. Notamos, por exemplo, as
modificações de personalidade que acomete muitos que se submetem a transplante cardíaco, a ansiedade que
acompanham os que se recuperam de paradas cardíacas, portadores de marca-passos e por aí. Uma destas
conseqüênciaspsiquiátricaschamou-meaatenção:aqueacometealgunsdosquetiveramimplantadoumdesfibrilador
portátilcardíaco.
A morte súbita de um ser humano é das mais dramáticas manifestações de afecções cardíacas, por não dar
tempo sequer do acometido “desarrumar suas gavetas”. Despede-se da vida deixando uma lacuna de desespero,
seja no âmbito familiar, seja em seus negócios. Os desfibriladores portáteis são próteses maravilhosas que,
implantadas no subcutâneo do paciente e ligadas diretamente ao coração, identificam a fibrilação ventricular e
promovemacardioversão“inloco”salvandoassimavidadoindivíduo.
A maior parte dos pacientes sofre a descarga elétrica da cardioversão quando em estado já comatoso, mas
alguns pacientes que as recebem sem estarem em estado de coma, sentem-na de forma extremamente sofrida. Dá
para imaginar o que significa um choque de 400 joules dentro de seu mediastino. Muitos descrevem-na como um
coice de mula no peito. Quase todos estes pacientes retornam ao cardiologista solicitando a retirada da prótese,
quando então são para mim encaminhados.
Estespacientesapresentam-seextremamenteansiosos,têmmedodasdescargasetransformam-seempessoas
irritadiçaseimpacientes.Muitos“sentem”asdescargasemboranãosejamregistradaspelosaparelhos,numaestranha
formadealucinaçãoquenãopodeserclassificadacomosinestesiapornãotercomoeleiçãoumórgãointernoesim
uma prótese implantada. Nos primeiros casos, sempre tinha a impressão de já ter “passado por este caminho”;
tinha sempre a sensação de “de ja vu”, o que era impossível, por se tratarem de casos absolutamente pioneiros.
MikaWaltari,meuromancistapredileto,noromancedenome“OSegredodoReino”,descreveumpersonagem
que, em busca da verdade, abandona a vida de orgias romanas e parte para Jerusalém, chegando nesta cidade
numatardeemqueseencontravamtrêscruzesnogólgotasendoqueemumaestavacrucificadoJesusCristo.Pelos
acontecimentosposteriores,entendequequemtinhasidocrucificadofoialgomaisqueumserhumanoecomeçaa
pesquisar a vida de Jesus, suas pregações e seus milagres. Em determinado momento passa a entrevistar o Lázaro
e,aocontráriodoqueesperava,defronta-secomumindivíduoamarguradoetaciturno.Aolembrarqueeledeveria
ser grato por ter tido nova oportunidade de viver, Lázaro respondeu que a humanidade, por todo o sempre, iria se
lembrar deste milagre de Cristo mas, esqueceria de refletir que ele seria a única pessoa que morreria duas vezes, já
que não tinha recebido a imortalidade.
Voltando aos meus pacientes, D.Marta (nome fictício) tentava me convencer que o melhor para ela seria a
retirada do cardioversor portátil por não suportar mais os choques - a grande maioria alucinóides - e contava-me
situações estapafúrdias como, por exemplo, sofrer uma descarga durante um casamento, quando a igreja toda se
assustou com seu grito. Lembrada que cada manifestação da prótese poderia ser uma ressurreição respondeu-me:
“Equantasvezestereiquemorrer,doutor?”.Entãomeupensamentodirigiu-seàobradograndeescritornorueguês
enãopoderiadeixardebatizarestasíndromecomo“SíndromedeLázaro”,asíndromedosquenãoqueremmorrer
maisdeumavez.
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Carlos Augusto Ferreira Galvão
A VERDADE SEM DENTES
Semprequeseaproximaumferiado“esticado”,estabrasileiríssimainvenção,observa-senosambulatórios
psiquiátricos, de forma mais gritante, o abandono a que são submetidas as pessoas da terceira idade.
As famílias programam-se para viagens, e o parente ancião geralmente se torna um estorvo; então é muito
comum,nestasocasiões,asfamíliasprocuraremoshospitaispsiquiátricosafimdeinternaremosvelhinhos,liberando-
as assim para viajarem sossegados.
A manhã daquela sexta feira prenunciava um excelente carnaval. O calor forte acompanhava o sol que
estourava nos telhados, e a cidade já sentia o clima da festa: em cada esquina se ouvia batuques e outros sons do
folguedo. Mas o ambulatório do hospital encontrava-se cheio.
Dona Gertrudes entrou acompanhada de duas netas, pessoas na casa dos trinta anos, e acomodaram-se
perante minha mesa. Uma das netas logo iniciou um longo discurso, relatando o quanto estava mal sua avó; dizia
que era agressiva, quebrava coisas em casa, xingava os vizinhos...
Durante o relato, D. Gertrudes, as vezes, demonstrava impulso de contestar as informações, mas a outra
neta a fazia ficar quieta com olhares ameaçadores e glaciais, que não me passaram despercebidos. Então restava à
pobrevelhinhaficarquietinhaeresignadanasuacadeira.
Oqueouviaeraincompatívelcomafrágiledelicadafiguraqueestavaemminhafrente,elogopercebique
asnetas“forçavamabarra”,paraquemedecidissepelainternaçãodavelhasenhora.Entãocontinuavamaladainha
de horrores, sempre a intimidando com olhares.
Emdeterminadomomento,umadasnetasempolgando-secomaprópriaficção,disse,deformaestridente:
-”O senhor precisa ver... Ela morde as pessoas até tirar sangue”. Neste momento, vislumbrei no rosto da paciente
um irônico sorriso, então perguntei por que ela mordia as pessoas.
Denotandoestarperfeitamentesãeproduzindopensamentosdeformaadequada,donaGertrudesampliou
o sorriso irônico, apontou o indicador direito para suas gengivas e sua resposta embasou minha decisão de não
interná-la:-“Doutor,eunemtenhodentes”
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Carlos Augusto Ferreira Galvão
DOCE PERIFERIA PAULISTANA
Uma das coisas que custei a entender em minha cidade adotiva é a discriminação que sofre a sua periferia
e a forma mais cruel é exatamente a que acontece dentro da saúde, no atendimento à população.
Écomumdizer-sequenosbairrosafastadosdeSãoPaulonãoseencontrammédicoseoutrosprofissionais
da saúde, pois estes temem os subúrbios por serem agredidos pelos moradores de lá, por serem ofendidos e não
terem condições de trabalho. Nada mais falso, excetuando as péssimas condições de trabalho que são oferecidas.
Há mais de 13 anos engajei-me num programa da prefeitura de nome “PAS” (Plano de Atendimento à
Saúde), e fui destacado para um posto de saúde num paupérrimo subúrbio paulistano. Rendia-me um bom salário
econdiçõesrazoáveis,entãodeiomelhordemimparaaquelapopulaçãoelogofuireconhecidopelacomunidade.
Não que me ache melhor médico do que quem quer que seja, mas procurei tratar aquele povo “na palma da mão”:
ouvia-oscomrespeito,procuravasempresorrirduranteosatendimentose,enfim,prescreveramedicaçãoadequada;
sabe-se que pessoas assim atendidas respondem melhor ao tratamento e era isso que acontecia.
Inicialmente,enfrenteicertadesconfiança,poissãocidadãosqueseacostumaramaidentificarosprofissionais
da saúde como pessoas estressadas e irritadiças; de fato, muitas vezes recebem estupidez, securas e nenhum
engajamento afetivo por parte destes profissionais, como se fossem os grandes culpados pelo descaso em que é
jogada a saúde pública brasileira. Normal que um indivíduo desses estranhe ao entrar no consultório e encontrar o
médicosorrindo.
Depois,comomalogrodo“PAS”,pressentiqueapopulaçãodaquelebairrogostavademim,entãoresolvi
abrir um consultório lá e conviver com eles e assim conhecê-los melhor.
Na grande maioria, são pessoas honestas e de bons sentimentos, mas de baixa educação, exatamente
como deseja o Estado brasileiro para facilitar as indecências e a incúria que lhes são características. Pessoas
sofridas, mas altivas, que respondem com grosserias e agressões sim, mas apenas de forma reativa, quando são
maltratados.
Já faz 11 anos que todas as tardes atendo neste consultório, vivo dele e nunca fui maltratado por paciente
algum,muitopelocontrário,sinto-meamadopelopovo,quesabequepodecontarcomigonosmomentosdifíceis.
E faço de tudo, desde conversar com um casal prestes a se separar até ajudar o padre do lugar em suas festas e
suasmovimentaçõessociais.Muitosdramasdaquelagenteterminamemmeuconsultório.
O povo da periferia paulistana é belo, sincero e honesto. Soa ofensiva e simplista a explicação, para a falta
de profissionais, que denigre os cidadãos suburbanos. O povo não agride, apenas se defende.
Éláminha“Pasárgada”.AcreditoqueterminareiminhavidanaVilaLiviero.
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Evanil Pires de Campos
Médico Infectologista
Botucatu - SP
LUA ENAMORADA
Reluzente e enamorada a lua acordou
Abriu os olhos e, neles, o amor brotou.
Encantando sua leveza em meiga visão
Muito feliz fremente em linda sensação.
Versos fluíram livres no céu estrelado
Dançaram e valsaram no seio regente
Devota e a sonhada imagem celestial
Adormecida no reflexo d´ilusão silente
Dormiu e saciou no peito eterna paixão
Seduzida na afeição amorosa de cordial
Alma sublime muito terna e tão isolada,
Depositou no clarão lunar, aí emanada.
À vontade, que na ferina pena contida.
Reacendeu o ardor da vida percorrida.
SONHO INFANTIL
Ai que saudades que em mim tenho
Dos sonhos que no coração retenho
Minha alma num recanto flutuava
Sonhando ardoroso sonho infantil
O doce canto dos pássaros adorava
Que nutria alegre e a terna infância
Que deitada na mata tênue recitava
O anseio de minha alma toda pueril
Vivia pra brincar despido da malícia
Pelejava na dócil e na pulcra puerícia
A dádiva de ter e livre correr na selva
Amando a beleza do caminho na relva
Na aventura diária, mero prazer contido.
No peito o vigor desse momento vivido
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Evanil Pires de Campos
MEMÓRIA PIRES DE CAMPOS
No final do século XVII, Pirão, o intrépido Antonio Pires de Campos foi designado,
comandante das Bandeiras graça ao seu caráter pela sua colossal estatura que irradiava cordial
expressão facial.
Desbravou e coordenou as Bandeiras que partiram do interior de São Paulo, a saber: Itu,
Porto Feliz e uma vila próxima de Sorocaba para o Mato Grosso, Goiás, Tocantins e se dirigiram
até as proximidades do Oceano Pacífico.
Suas aventuras, intrépidas tribulações: índios, pedras preciosas, ouro etc. merecem, ao lado
de fiéis companheiros, uma apropriada narrativa dos acertos, descobertas e dos erros cometidos
e assimilados.
No meado do século XVIII, os irmãos João e José Pires de Campos se dirigiram para uma
região fértil, rústica de rica flora e fauna a fim de implantar e iniciar nova vida na nascente
Laranjal Paulista.
A posteriori, em Tatuí, num núcleo desenvolvido por Bento Pires de Campos, nasceu Ovídio
Pires de Campos, Médico Professor Universitário, membro da Academia de Medicina de São
Paulo.
João, pela semelhança pondero estatural, foi cognominado “PIRÃO”, em homenagem a
seu antecedente Antonio Pires de Campos. E seu irmão, José, houve por bem, após algum tempo
mudar-se para a florescente cidade Jaú, onde constituiu um grande núcleo familiar.
O Pirão resolveu construir um nicho de fé católica no centro da Vila em homenagem a São
João que ainda se encontra presente no seio da Igreja homônima, Matriz da cidade.
Seu filho, também João, nos primórdios do século XIX teve vários filhos, dos quais citarei
dois: Matias e Joaquim. Este (Joaquim) se casou com uma prima de Jaú, neta de José. Antonio
Pires de Campos, seu filho, Médico, Membro da Academia Botucatuense de Letras cultuou a leitura
e presidiu, por vários anos, o Centro Cultural de Botucatu.
Matias se casou com Ana Pires de Camargo, formada na Escola Caetano de Campos, foi
responsável pela Escola Luterana do Bairro do Bicame de Laranjal Paulista. Ensinava e educava
os alunos e os filhos nessa Escola Primária. A leitura dos textos e dos Capítulos da Bíblia eram
dissecados e degustados. Os netos se dirigiam à sua casa, nas férias escolares postados à sua frente,
eram avaliados e analisados na forma e no conteúdo da leitura.
Pedro Pires de Campos, filho de Matias se educou e se formou à saia dessa mãe diferenciada
moral e intelectual. Aprimorou-se e tornou-se Farmacêutico, homem de olhar singelo, bondoso e
digno. Inteligente, o rico, nele se enobrecia, enquanto que o pobre, nele se debruçava docilmente.
Ao falecer a cidade emudeceu e a ele devotou amável oração ao conduzi-lo ao eterno repouso.
Pai afável, dádiva legada ao ser humano e à família. Nair, minha mãe, Professora, educou-
me no amor e na leitura. A Medicina depurou minha razão e o senso humano aguçado, revigorou
no seio da natureza o meu ser: Evanil Pires de Campos.
Nil, médico veterinário, muito lutou após a residência e pos graduado, mas a fortuna e a
sorte semearam sua senda: trabalhos com formandos permitiram desenvolver com a Universidade
pesquisa inédita sobre sexagem de esperma masculino ou feminino.
Pedro Pires de Campos Neto, Médico, atualmente, enobrece sua senda ancestral em honrosa
e digna ação humana, ética e profissional. Carolina, advogada e enfermeira luta valorosamente
na conquista seu justo e merecido esforço de diferenciação educacional e profissional. Sua mãe,
Claudia soube nutrir o amor fraterno.
Forjou, também, os preceitos da moral em seus três filhos.
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Flerts Nebó
Médico Reumatologista
São Paulo - SP
A LUZ ELÉTRICA EM SÃO PAULO
Considerações Históricas
Nointeressedefixarconhecimentosdealgunsproblemasquedizemrespeitoávidacitadina,divulgamosjá,
por estas colunas o histórico da Companhia “Viação Paulistana”, que durante longos anos serviu a coletividades
paulistana. No mesmo propósito contamos como a Light and Power que se introduziu nesta capital.
Agora,paramelhorilustraçãodenossosprezadosleitores,vamosrelatarohistóricodafundaçãodaprimeira
usina elétrica, instalada num quarteirão da Vila Buarque entre as ruasAraujo, Bento Freitas e Major Sertório, no
mesmo local onde ainda hoje se encontra uma das muitas secções da Canadense.
As informações que agora fornecemos aos leitores ser-vem de introdução ao trabalho que a seguir
publicaremos sobre a história da expansão do império elétrico de Tio Sam, naAmérica Latina o qual é o ultimo e
por diversas formas o mais palpitante capitulo da conquista econômica americana. Para esse interessante estudo
desde já chamamos a atenção de nossos leitores.
Há mais de meio século
Deve-se ao saudoso jornalista português, Sr.AbílioAurélio da Silva Marques a iniciativa da instalação em
nossaterradailuminaçãoelétrica.
De fato há mais de meio século ou precisamente em 1888, esse prestante cidadão, auxiliado por diversos
capitalistas e negociantes incorporou a Companhia Paulista de Eletricidade, que tinha por fim dotar as ruas do
Triangulo, assim como a rua BoaVista e do Rosário desse útil e importante melhoramento.
Realizada a assembléia geral de constituição da Companhia e, satisfeitas as formalidades legais, deu a
Diretoria da Companhia mãos as obras e como foi efficiente que em 5 de dezembro do ano supra mencionado,
inaugurava-sealuzelétricanestacapital.
Apropósitodesseauspiciosoacontecimentoescreveuumjornaldaepocha:“ÁsruasdeSãoBento,Imperatriz
eBoaVista,affluiuumacompactamultidãodecidadãosesenhoras,attrahidosparacontemplaremodeslumbrante
effeitodailuminação.”
“Os convidados que puderam penetrar nas usinas da Companhia, tiveram o ensejo de verificar, como de
curiososagglomeradosnasvias,queestáanossaCapitaldotadadeummelhoramentoextraordinário.Aluzelétrica
é óptima, fixa e brilhantíssima e muito mais barata do que a do gaz.
“AinstalaçãodaUsinaCentralcomportatrezmotoresavaporaccionandocadaumumamachinadynamo-
eletrica e está calculada que pode fornecer cerca de quinhentas lâmpadas incandescentes.”
“As machinas elétricas e as lâmpadas de arco voltaico são fornecidos pela Casa Ganz de Budapest. e o
systema empregado é de corrente continua.
“As lâmpadas incandescentes são de Edison e é este o systema que a empreza virá explorar de preferência
nas casas particulares.
“Aslâmpadasdearcovoltaicasprópriasparaailuminaçãodegrandesespaços,dãoumaintensidadedemil
áduasmilvelas.
“As incandecentes variam conforme o tamanho de oito a trinta e duas velas (um a quatro bicos de gaz).
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Companhia de Água e Luz de São Paulo
Em substituição da Companhia Paulista de Eletricidade, veio a Companhia de Água e Luz do Estado de
SãoPaulo,tambémsobacompetentedireçãodeAbilioMarquesequedispondodemaiorcapitaleoutrasfacilidades
financeiras poude melhor desenvolver os fins a que se destinava, que eram de prover as cidades do interior dos
melhoramentoshygienicoscomoseusexgottoeluz.
Assim logo depois de iniciadas as suas actividade nesta Capital, adquiriu nas proximidades da Praça da
Republica uma vasta quadra de terreno entre as ruas Major Setorio,Araujo,Ypiranga e Bento Freitas, e ahi sem
perda de tempo montou as novas usinas com capacidade pa-ra mais de 5.000 lâmpadas incandescentes..
Esta Companhia apesar de seu estado de prosperidade sempre crescente e demonstrado em balanços teve
uma curta duração e veio inesperadamente a ser liquidada, indo todo seu activo, constante de propriedades, usinas
e privilégios para a iluminação pública e particular do Primeiro Setor da Capital que abrangerá a zona central do
distrito da Consolação e Santa Ephigenia, vindo a cahir nas mãos da The São Paulo Tramway, Light and Power
Company Limited, como pouco antes tinha acontecido a CiaViação Paulista.
AindahojefuncionanolocalemqueaCompanhiaÁguaeLuztinhasuasusinasemaisdependênciasàRua
Major Sertório uma de suas secções mais importantes da Companhia Canadense.
NOTAS:
1. Procuramos manter a maneira de escrever tal como era usual naqueles annos.
2. Esta pesquisa foi feita por Flerts Nebó em abril de 2009, nos jornais da época. Trabalho publicado
no Diário Popular 25 de abril de 1939.
Flerts Nebó
MEDICINA NO ANTIGO EGITO
A origem da Medicina, segundo conta no Livro de Paul Hermann remonta ao período da pré-história. É
quasetãovelhaquantoaprópriahumanidade;suaevoluçãotemsido,maisoumenosparalelaàdeoutrasatividades
humanas.
Não raro, o curso da civilização tem sido profundamente modificado pela qualidade dos serviços médicos
prestadosaosenfermos.Naalvoradadahistória,amedicinaachava-seintimamenteligadacomáspráticasmágicas
e religiosas dos diversos povos empenhados na busca de conhecimentos e de um modo de vida melhor,
O Egito, no contesto aparece como uma nação organizada, isto cerca de 3.000 a.C. O interesse médico
gira em torno de um período da Terceira Dinastia – 1980-1900 – quando o país era governado por um faraó
ambicioso de nome Zoser.
Este por sua vez, tinha como principal conselheiro um nobre brilhante ministro de nome Imhotep ; o qual
consta ter construído a famosa pirâmide de degraus de Sacará, perto da cidade de Menfis. Ele representava para
o faraó o melhor médico da época tendo-lhe até sido atribuído o papel como o deus da medicina no Egito do
momento.
Existiaumaestreitaassociação,damedicinaegípcia,comareligiãoeamagia;sendoosmédicosdoantigo
Egito, provavelmente, que eram treinados nos templos, da mesma forma como o eram os sacerdotes-magos.
Entretantoelesformavamumaclasseinteiramentedistinta,organizadaemumahierarquiarígida,comoos
médicos da corte faraônica ocupando, certamente, uma posição mais elevada.
Amedicinaencontrava-sesubdivididaemmuitasespecialidades.Todavia,aespecialização,parecetersido
maisumaconseqüênciadascondiçõesprimitivasdoqueumprenúnciodaespecializaçãoemnossaépoca.Entretanto
amedicinaquesepraticavanoEgitonãoeratotalmenteprimitiva.
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Assim como desenvolveram as políticas, a agricultura, a tecnologia e, particularmente a arquitetura, além
das artes, os egípcios também tiveram grandes progresso na medicina.
Alguns papiros médicos que são, predominantemente, de caráter religioso, há outros, entretanto, que são
de caráter empírico-racional,
O médico, normalmente vestia uma roupa branca e limpa e usava uma cabeleira, que era característica, de
suaprofissão.
O paciente, normalmente, ficava repousando em uma cadeira, construída com tijolos especiais.
Otratamentoprogrediasobadireçãosábiaecompreensivadomédico,istoconformeasindicaçõescontidas
em um rolo de papiro, que era seguro por um de seus assistentes.Ao mesmo tempo, os sacerdotes executavam
ritos mágico-religiosos, para o bem do paciente. O enfermo recebia a melhor atenção, que a ciência da época lhe
podia oferecer.
Os médicos egípcios foram altamente respeitados, por todo o mundo antigo, e isto por milhares de anos.
Homero – o poeta grego – os considerava como os melhores de sua época e eles eram convidados á
comparecerem nas cortes dos imperadores persas e de outros potentados orientais; e somente no século VI a.C.
foramsendosubstituídospelosmédicosgregos.
Além do valor psicoterápico da magia e da religião os médicos egípcios fizeram sólidos progressos nas
observações e nos tratamentos racionais das diferentes enfermidades.
Suas contribuições são dignas de permanecer em um lugar, ao lado das outras realizações dessa antiga
grandecivilização.
A posição de relevo, obtida pela medicina egípcia da época faraônica, durante 2500 anos, se justifica
plenamente,peloquefoiencontradonosantigosdocumentosquesedescobriramemdiferentessítios,noterritório
egípcio.
Hoje a medicina no Egito é equivalente a Medicina mundial, nos países desenvolvidos; contando com
hospitais modernos e bem equipados.
NOTA- Se alguém desejar ler o livro de Paul Hermann, ele foi intitulado - A CONQUISTA DO
MUNDO - é uma edição da Melhoramentos e seu código é: 0-03-062
Flerts Nebó
PINHEIROS ou “ESPINHEIROS”
A origem do nome do bairro já chegou a provocar polêmicas entre os historiadores e curiosos, sustentando
alguns que “Espinheiros” seria a denominação mais acertada, dado a grande quantidade de árvores de espinhos
aqui existentes `a época do primeiros povoadores.
Segundoelesnestaregiãonuncahouvepinheiros,pelomenosemquantidadequejustificasseadenominação.
Estudiosos atentos, porém, perceberam que as tais árvores de espinho, como eram chamadas na época,
nadamaiseramqueospinheirosnativos(araucariabrasiliensis)queocupavamgrandesextensõesnestalocalidade.
Sobre as referidas árvores, aliás, há numerosas referências em inventários e testamentos dos possuidores de
terras nesta região, datadas de séculos atrás.
Em artigo publicado já há alguns anos, o historiador pinheirense José Simão Filho, comentou a propósito:
“Pinheirosdeoutrorapossuíaabundantespinheiras,cujosexemplaresmagníficosatraiamaatençãoeaeacuriosidade
dos forasteiros.
E foi, devida à impiedosa derrubada dessas árvores, que surgiu um decreto encontrado nas atas da vereança
do ano de 1584: “...lançaram um pregão que ninguém cortasse pinheiro sem licença da Câmara com pena de
pagar quinhentos réis para o Conselho...”
José Simão Filho conservava ainda uma carta que recebera do escritor e historiador Afonso E. Taunay,
datada de 15 de abril de 1829, na qual este assim se refere sobre o nome do bairro:
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“SeháalgumlugarnoBrasilcujonomenãopossaserpostoemduvidaéPinheiros;ameuversódetalpode
duvidarquemignoraosdocumentos,poisestebairrodeSãoPauloconservaessenomedesdeoséculoXVIeasua
designação ocorre em centenas de documentos.
Para lhe dar uma rápida confirmação do que digo a ata da Câmara de São Paulo de 7 de dezembro de 1580,
trata do conserto das pontes e caminhos.do Ipiranga, Pinheiros etc..
No dia 23 de maio de 1583 há uma referencia ao bairro de Pinheiros, onde estavam afazendadosAfonso
Sardinha,Antonio Bicudo Francisco da Gama etc, etc.
Na“informaçãodaProvínciadoBrasilparaonossoPadre”,pág.45,autoriadovenerávelJosédeAnchieta,
lê-sequeospadresdaCompanhiaadministravamaAldeiadePinheiros,aumaléguadeSãoPaulo.Enfim,seriaum
nunca acabar de referências de todas as épocas.
NOTA:
Quase toda a região do “Bairro de Pinheiros” era de propriedade do bandeirante FERNÃO DIAS que também
possuía terrenos para o lado da região leste da Capital, chamada de ITAIM BIBI, onde tinha guardas para
seus materiais usados nas “Entradas” ou “Bandeiras” da época”
60 Anos de Bonde.
Dosmeiosdetransporteutilizadospelapopulaçãopinheirense,nenhumdeixoumarcastãoindeléveiscomo
os bondes. Integrados à paisagem urbana desde o começo do século XX, esses veículos serviram a região durante
60anos,contribuindoparaoseudesenvolvimentopopulacionalefacilitandooacessodeseusmoradoresaocentro
da cidade.
Além da finalidade a que se destinavam, os bondes (e suas paradas como se dizia então) eram utilizados
como pontos de encontros e serviam como elementos de aproximação dos membros da pacata comunidade
pinheirense de outrora. Seus condutores e cobradores eram figuras populares no bairro e, nos carnavais esses
veículos viajavam abarrotados de foliões que com os pedestres trocavam jatos de lança-perfumes e arremessos de
confetes e serpentinas.
Os bondes começaram a servir aos pinheirenses em 1904, quando a Light & Power inaugurou a linhaAraçá,
que tinha seu ponto inicial no largo de São Bento e o final na Avenida Municipal ( atual avenida Dr.Arnaldo).
Serviamdemodoinsatisfatório,poisparaalcançá-lososmoradoreseramobrigadosapercorrerumagrande
distância a pé. Posteriormente o ponto final foi mudado para a Rua Capote Valente, onde então terminava a rua
Teodoro Sampaio.
Aindaassimeraenormeadistanciaapercorrereosmoradoresdobairroiniciaramummovimentopleiteando
aextensãodalinhaatéoLargodePinheiros.AreivindicaçãoteveoapoiodovereadorCelsoGarciaeobteveêxito,
apesar das dificuldades existentes. Para que os trilhos chegassem ao Largo de Pinheiros procedeu-se ao
prolongamento da Teodoro Sampaio, através de uma área quase toda de brejos, sendo necessária a execução de
três aterros, para os quais foram utilizados os próprios bondes.
Superados os obstáculos, em março de 1909 chegava o primeiro bonde ao Largo de Pinheiros, onde foi
recebido com banda de música e foguetes em meio à grande festa popular.
AovereadorCelsoGarcia,quetantolutouporessemelhoramento,foioferecidoumbanquetenaresidência
do Dr. José Guilherme Eiras, um dos lideres da comunidade na época.
O progresso acabou com os bondes. Com o advento da era dos automóveis e principalmente depois da
instalaçãodaindústriaautomobilísticanacional,aquelesveículoscomeçaramaservistoscomoobstáculosaotrânsito
cada vez mais rápido.
A imprensa e o povo a eles se referiam como “trambolhos”, “mostrengos”, “obsoletos” e outros adjetivos e
apoio dos pejorativos. Por fim, na gestão do prefeito Faria Lima, foram extintos de São Paulo.
OúltimodelesquechegouaPinheirosfoinumanoitede1969,trouxeopróprioprefeitoesuacomitiva,para
umasingelacerimôniadedespedidaqueserealizounolargodePinheiros.Findaasolenidade,melancolicamenteo
bonde subiu a Teodoro Sampaio pela ultima vez, deixando atrás de si o eco de um passado que não mais voltará.
Flerts Nebó
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Geovah Paulo da Cruz
Médico Oftalmologista - Biólogo
São Paulo - SP
AÁGUADEPIRACICABA
Nas bandas do rio Piracicaba
Tem garapa, açúcar e pinga
Que tonteia em Jaboticabal
Escorrega em Itapetininga
Cambaleia em Palmital
Tomba em Taquaritinga
Vomita em Taquaral
Se mija em Ibitinga.
E junto com a camarilha
Caga em Brasília.
Começa por São Bernardo
Descendo o rio Pardo
Navegando os rios paulistas
Com a corja de sindicalistas.
Chegando em Bertioga
Pega uma piroga
Até a beira do Juqueri.
Cuidado com o hospício
Não faça ali comício
Senão eles te jogam
Na barra do Sapucaí.
Rema no Tamanduateí
Cai no Anhembi
No sentido de Igaratá
Até Guaratinguetá
Sobe rio arriba
Pelo Vale do Paraiba
Desce pelo Tietê
Na direção do Perequê
Na altura de Pedregulho
Vai de mergulho
Até a barra do Mogi Guaçu
Passando por Bauru
Entra à direita para Iporanga
Na entrada de Votuporanga,
E vai indo prá Boiçucanga
Sobe para Paranapiacaba
Aí ganha o rio Piracicaba
Então para de “mergulhá”
Já está em Urubupungá.
Muito compricado esse roteiro
Pr´eu e os companheiro
Eu queria apenas
Que a viage fosse menas.
Anhangüera e Itanhaem
Pindamonhangaba e Icém
Araraquara e Avanhandava
Pirassununga e Igarapava
Araçariguama e Cabreuva
Paranapanema e Boituva
Taubaté e Pariqüera-Açu
Itaquaquecetuba e Botucatu
Para com essa dureza!
Nem sei nadar em represa...
E eu tô com a língua presa,
A boca mole e cheia de baba
Com essa água de Piracicaba.
È, mas aprende que o rio Piracicaba
Não passa em Araçatuba
Não nasce em Sorocaba
Nem corre prá Indaiatuba
Não cresce em Itu
Nem lava em Jau
Não serve prá Poá
Não molha em Guará
Chega de geografia
E de tanta água fria
Prefiro uma água quente
Uma gostosa aguardente
Lá em Presidente Prudente.
Vossa Excelência toma birita
Lá em Barra Bonita
Pega uma “boa idéia”
No canal de Cananeia
Uma dose da branca
Num boteco de Franca
Manda brasa num mel
Num quiosque em São Manuel
Pensa que tá no metrô de Jabaquara
Acaba num pau de arara
Vai tomando umas e uns...
Que vassuncê vai parar em Garanhuns!
Manda aí uma água de Piracicaba...
Porra!!! Essa é da braba!!!
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Geovah Paulo da Cruz
O TATU E A TANAJURA
Hoje não existem mais generalistas, aqueles que sabem muitas coisas e suas correlações.Atualmente todos
são especialistasemalgumacoisa,eignoramoresto.Eumesmosouespecialistaemolho.Vejamsóqueseqüência
incrível de conhecimentos são necessários para este artigo.
EunasciemecrieinaroçaelogodepoistiveorestodainfâncianumvilarejodoTriânguloMineiro.Aculturado,
desde cedo aprendi que tatu se come, mas que há restrições. O mais comestível é da espécie chamada tatu
galinha,muitoapreciadopeloexcelentesabor.Entretanto,naminhacidadenãosecomiao tatupeba pelaseguinte
razão: o cemitério ficava fora da cidade, limitando-se por um muro com um pasto de cavalos. Uma pessoa era
enterrada e já no dia seguinte se encontravam pedaços de seu corpo espalhados pelo pasto, passados por túneis
debaixodomuro,trazidospelostatus.Ocampoeracoalhadodeossos.Emoutroslocaisondenãoháesteproblema,
este tatu é também apreciado, assim como o tatu bola.
Na minha região se comia muito a tanajura, também chamada de içá em outros locais. Os índios a comiam
crua,masentrenóseratostadanachapa,comosefosseumapipoca.Gostosíssima.Fazia-sefarofabemtemperadinha.
Como pescador, das que sobravam, usava-as como isca de pesca.
MaistardemegradueiemBiologiaeaprendiqueotatuapresentapoliembrionia,maisparticularmente,tetra-
embrionia,istoé,nascemquatrodecadagestação.Tambémaprendiqueatanajuraéaformigarainha,quefecundada
em pleno vôo pelo macho, pousa no chão, perde as asas, fura o solo e se aprofunda nele, formando aí um novo
formigueiro.Daípordiantesuaúnicafunçãoéporovos,dosquaisnascerãooutrasformigasestéreis,quenãofazem
sexo, nem se reproduzem, operárias, soldados, babás. Pertence à formiga saúva, aquela da cabeça de vidro, voraz
cortadeira,quedizimatudoemvoltadeseuhabitat.Antesdosmodernosvenenosformicidaseraquaseimpossível
controlá-la. Havia até um ditado que dizia: ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Esta
formiga é agricultora, planta e cultiva um fungo do qual se alimenta.As folhas cortadas não são comidas, apenas
servem de adubação, alimento para o fungo.
Depois,comoagropecuaristaaprendiquehojeseusamiscasformicidas,grãospeletizadosmuitocheirosos,
contendo casca de laranja e outros vegetais, que elas levam para o interior do formigueiro e envenenam os fungos,
quecomememorrem,principalmentearainha.
Comomédico,fizcursonoantigoServiçoNacionaldeLepra,hojechamadaeufemisticamentedehanseníase.
Como hansenista aprendi que o tatu é um hospedeiro natural do bacilo de Hansen e que não desenvolve a doença.
Por este motivo é muito usado na pesquisa sobre este mal bíblico.
Como gastrônomo, inferi que o enorme abdome da tanajura nada mais é do que um grande depósito de
ovos. Ora, ovo é comestível, não importa qual. Sempre apreciei ova de galinha, ovos em formação e em vários
estágios de desenvolvimento. Em casa, nós brigávamos por ela. Depois que vim para São Paulo, conheci o mar e
passei a apreciar frutos marinhos, conheci a ova de tainha, coisa apreciadíssima em gastronomia. Melhorando de
vida,comicaviarmuitasvezes.Caviaréconservadeovosdeesturjão,umpeixedaEuropaOriental.Nãofoidifícil
concluir que bunda de tanajura nada mais é do que caviar terrestre, e dos melhores, já que os peixes e os insetos
aindasãoanimaisinferioresemuitopróximosentresinaescalazoológica.
Entendido de embriologia, sei que o ovo, qualquer deles, é um ser em potencial, que deriva de um óvulo
fecundado. O óvulo é sempre grande porque contém um lanche, uma matula chamada vitelo, para alimentar o
embrião a ser desenvolvido. Nos peixes e insetos este bornal cheio de lipídios e albumina é muito nutritivo, o
suficiente para fornecer matéria prima para a formação do embrião, porque a incubação é externa, fora do corpo
da mãe.
Eu estava desmatando o cerrado de uma das minhas fazendas para plantar soja e os peões diariamente
matavam tatus para comer e penduravam os cascos nas árvores residuais. Elas ficavam parecendo árvore de natal.
Não gostei daquilo, mas não tinha como controlar a ação deles. Eu tinha arado e preparado um pedaço de terra de
cor clara, era noite de lua cheia e o chão ficou iluminado, atraindo por fototropismo centenas de tanajuras que lá
aterrizaram. De manhã eu passei por aquela quadra, do tamanho de uns dois campos de futebol e observei muitos
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rastos de tatu e centenas de buracos com terra removida. Eles tinham trabalhado a noite inteira a meu favor,
comendo as içás, evitando que cada uma delas criasse um novo formigueiro. Isto me poupou um enorme trabalho
de combater as formigas com um grande custo financeiro, além de envenenar também a terra e outros predadores
que as comessem envenenadas.
Souumferrenhoambientalista,defensordanatureza.Deixeidecomertatunãosóporconsciênciaecológica,
mas também por um certo nojo pelo fato de ele ser portador-reservatório do micróbio da lepra. Não coma tatu,
deixe ele trabalhar pelo equilíbrio natural. Mas pode comer tanajura, estou certo de que vai gostar.
Tenhotambémomeuladohumorista:achoaquelasdonasdecinturafinae“derrière”avantajado,apelidadas
detanajuras,tambémmuitoapetecíveis...
Como culinarista (tenho um livro para editar), aqui vai uma receita. Ponha manteiga de leite (existem
outras manteigas), azeite, temperos secos (pimenta do reino, cominho, curry), cebola ralada, ervas frescas
(salsinha, cebolinha, hortelã) alho, sal, e refogue as bundas (retire as cabeças) mexendo sempre, em fogo
brando. Quando estiverem refogadas, derrame queijo captupiry ou outro requeijão cremoso, ou creme de leite,
apenas o tempo de misturar e aquecer. Coma com arroz branco. É caviar de caipira, sô!
Não chego a ser um enólogo, mas posso recomendar um vinho branco, tipo riesling alemão, ou nacional,
mais baratinho. -Vai ser chique assim lá no Chapadão doTatu Canastra, onde a égua quebrou a perna num buraco
dele, ôh “seu” passa fome desgraçado!
E como escritor, redigi este pequeno ensaio. Como datilógrafo o digitei e como um modesto usuário de
informática,imprimi-oeocopieiemdisquete.
Geovah Paulo da Cruz
O CULTO DA ANCIANIDADE
Anaturezatemritosqueestãoligadosaumdeterminismogenéticodesenvolvidoaolongodemilhõesdeanos,
segundoaevoluçãoseletivadasespécies.Doisdestesdeterminismossãoclausulaspétreas,imutáveis:aperecibilidade
doorganismoindividualeaimortalidadedesuaprogramaçãobiológica.Osindivíduosmorrem,massuaorganização
não:elaétransmitidaintra-específicamente.Assemelha-seaocultivodofogo:umpedaçodelenhaacesotransmite
fogoaoutropedaço,maschegaummomentoemquecadatoroseextingueou seconsome,eofogoésucessivamente
ateado a novos lenhos.
Háumoutroritotambéminexoravelmenterígido:cadaindivíduoéresponsávelpelamanutençãodeseuciclo
individual de vida, respirando e se alimentando. Respirar é de graça, mas alimentar-se tem um custo. Na natureza
não há solidariedade alimentar. Com exceção da fase infantil do animal, depois de adulto é o cada um por si.
Nenhumanimalrepartecomoutrooseualimento.Elenãotemnenhumcomprometimentomoralcomaalimentação
do outro. Cada qual vive a sua vida. Nestas circunstâncias, o animal velho que perdeu sua agilidade, sua força, sua
destreza, acaba se alimentando mal, e cada vez menos.Amaioria deles morre por inanição, definhamento. Ele
começaporseautoconsumir,gastandosuasgorduras,oemagrecimento,depoisseusmúsculoseossos,aemaciação.
E morre de caquexia, caso não haja morrido por infecções e infestações. Outros organismos oportunistas se
aproveitam de sua fragilidade e o agridem e atacam, incluindo ai os predadores.Anatureza o defenestra da vida.
Prá que ocupar um lugar, se já não tem mais utilidade?Anatureza é uma entidade não-moral.
Os animais velhos em geral passam a viver solitários, são deixados para trás, não tem forças para sobreviver
àsuaprópriacustaeesforço.Osherbívorosgastamseusdentes,suasunhas,seuscascos,nãoconseguemcaminhar
e pastar. O homem, como qualquer outro animal, sempre cumpriu estes ritos de maneira natural. Nos bandos
primitivos os velhos eram escorraçados, deixados para trás na vida nômade. Mais tarde, depois que o homo
sapiens se socializou, no máximo comiam restos, sobras. Cada elemento do grupo era utilizado como forma de
economia ergonômica, fornecendo sua potência para o proveito coletivo: caça, cultivo, defesa, ataque, vigilância,
ajuda, regulação, e os velhos eram um peso morto, incômodo, fraco e frágil. Um passivo na dinâmica social. Um
deficitário, aquele que dava pouco ou nada.
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Com o estacionamento do humano em cavernas, povoações, aldeamentos, juntavam-se as mulheres e as
crianças num só local, com um baixo custo operacional. Isto começou a ocorrer depois que os bandos ficaram
sedentários. Cuidar também dos velhos agora representava apenas um pequeno adicional de ônus. E não seria
totalmentedegraça.Haviaumlucropotencialinteressante;inferiu-sequealimentandoecuidandodoseuascendente,
o descendente ganhava um crédito “moral” para quando também se tornasse velho. E assim de forma egoística,
como soe ser na natureza, quebrou-se o rito da não repartição alimentar. Comprou-se, de forma artificial, uma
quota de sobrevida.Aos poucos se descobriu que nem era tão caro assim entesourar este crédito, porque já havia
outrainstituiçãovantajosa,acooperativafamiliar.Termuitosfilhossignificavamaiorsegurança,proteção,defesa,
divisão do esforço, e também partilha do ônus de amparar os longevos.
Com a evolução da inteligência, da linguagem, das habilidades, os idosos cuidaram de se armar de um
cabedal de troca, a experiência. Se já não tinham força nem potência física, então compraram sua sobrevivência
comumanovamoedaprópria,oseupatrimôniointelectual.Durantemilhõesdeanosaculturaoralfoiaúnicaforma
intelectual de que se valia para guardar as descobertas, o aprendizado, a técnica, a ciência. E os anciões se
especializaram neste mister, deixando para os sôfregos jovens e adultos a atividade física.
Destemodo,nobalançocontábildeinteresses,osvelhospagaramsuacotaatuarialesegarantiramcomuma
fraçãoamaisdevida,asenilidade.Daíavirarcultonãofoimaisdoqueumapolitizaçãodofenômeno,osdoislados
dojogosegabandodeseusfeitos.Osmoçosapregoandosuabeneficênciaparacomosvelhos,eestessecreditando
por um capital que os jovens não tinham, o conhecimento adquirido e experimentado.
Hoje tudo mudou, e se cultua a juventude. O culto da ancianidade está em franca decadência. Os filhos são
poucos, a vida é competitiva e se os mais moços conseguirem cumprir os mandamentos da natureza, cuidar de si
mesmos e zelar pela prole, já estará bom. Com a nova dinâmica do conhecimento são poucas as chances de um
jovemchegaraserumvenerávelanciãodetentordasabedoria,oudafortuna.Omundoéaaldeiaglobalquejátem
os seus consagrados mestres em todas as áreas, laureados detentores do prêmio Nobel, acadêmicos, especialistas.
Assim, é bom pensar em economizar e amealhar para o futuro. O fator de maior sobrevida, a longevidade, está
pesando muito nos orçamentos. No Japão já se vive em média mais que 80 anos. Até mesmo os governos estão se
queixando do excesso de velhos, que já não mais contribuem monetariamente e retiram do caixa por tempo
prolongado.
O que os da nova geração devem fazer é pensar na sua previdência programada, para que quando chegarem
à velhice não se vejam como aqueles velhos da pré-história da humanidade, escorraçados para as migalhas das
sobras e restos dos institutos de aposentadoria oficiais de todos os lugares do mundo, como o nosso INSS. Ou
dependam da caridade, que não consegue assistir a todos e é humilhante para o idoso.Asilo é o terror psicológico
da senectude.Aantecâmara da morte anunciada.
No metrô uma senhora pediu que um garoto desocupasse o lugar reservado aos idosos. De má vontade, ele
resmungou: - Que velha chata.
Sem se perturbar ela retorquiu: - Se você não morrer antes, um dia ficará velho.
Geovah Paulo da Cruz
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Helio Begliomini
Médico Urologista
São Paulo - SP
CIRCUNCISÕES
Confessoquenãogostodetratare,particularmente,operarparentes,poisaafetividadeeaproximidadeno
relacionamentopodeminterferirsentimentalmentenoraciocínioclínico,atrapalharnoordenamentodashipóteses
diagnósticas, quando não, contribuir negativamente na condução e evolução do caso.
Entretanto,emminhaatividadeprofissionalhouvepoucas,masbemespecíficasocasiõesemquefizquestão
de operar três entes mui queridos, cuja experiência inaudita pode ser classificada como trágico-cômico-filosófica.
...
Há muitos anos, quando meus dois primeiros filhos tinham por volta de sete e cinco anos, e com indicação
derealizaracircuncisão,decidiqueeumesmoosoperaria,poisalémdeserumdosmaissimplesprocedimentosem
minha especialidade, gostaria que minha arte cirúrgica os moldasse perenemente, transcendendo neles a minha
própria existência. Dessa forma, pensava que poderiam se lembrar do pai toda vez que se recordassem que tinham
sidopostectomizados.
Mas, apesar da simplicidade do ato, fui questionado pela minha esposa se eu seria o profissional ideal para
oato,vistoqueseriapossívelmeinfluenciarafetivamenteenãoalcançaroresultadoesperado.Ademais,indagou-
me se não poderia passar mal durante o procedimento, uma vez que estaria “cortando” meus próprios filhos.
Nada me demoveu de meu intento, pois estas e outras colocações já tinham sido anteriormente muito
ruminadasemminhamente.
Assim, duas cirurgias idênticas foram marcadas sequencialmente no antigo Hospital e Maternidade
Voluntários,naZonaNortedapauliceia,umdoshospitaisquerotineiramentelevavameuspacientesdoconsultório
para operar. Curiosamente, na internação, apesar da autorização do convênio e de ser conhecido da instituição,
pediram-me um cheque caução cujo valor, elevadíssimo – cerca de vinte vezes o custo dos procedimentos – não
dispunha, e que deveria trabalhar alguns meses para reunir tal soma caso necessitasse pagá-lo.
O anestesista foi o colega Lee e o cirurgião auxiliar meu velho amigo Carlos, igualmente urologista, com
quem havia feito muitas e maiores cirurgias. Estive sempre confiante, mas pensava que, na pior das hipóteses, se
ocorressealgumachaquesúbitocomigo,meusfilhosteriamalguémdeconfiançaparaconcluiroato.
O primeiro a ser operado foi meu filho Bruno, o mais novo e o mais corajoso, outrora carinhosamente
apelidado de “batatinha voadora” pelas suas peraltices, hoje, também médico. O ato transcorreu sem nenhuma
intercorrência, como outros pacientes sem parentesco que houvera operado.Atranquilidade dele deu bravura ao
meufilhomaisvelho,Enrico,outroraigualmentetraquina,hoje,administrador.Diferentementedoquehaviaimaginado,
sem maior temor, comportou-se serenamente no centro cirúrgico.
Entretanto, quando já havia sido cumprido cerca da metade do ato operatório, eis que subitamente meu
auxiliar, o Carlos, disse-me que não estava se sentindo bem. Em poucos segundos tornou-se lívido, levemente
sudorético, e ameaçando desmaiar teve que se sentar no chão do da sala, quando foi socorrido pelo anestesista e
enfermeira. E eu que houvera cogitado que poderia ter experimentado o que ele estava passando, encontrei-me
operandosozinhomeufilhoporváriosminutos.
Felizmente, o infausto acabou bem e dele sobraram boas gargalhadas.
...
Um raciocínio inverso ocorreu recentemente quando meu pai, com quadro de balanopostite crônica,
desenvolveu fimose secundária. Na ocasião ele contava com seus 81 anos; eu com 53 de idade e 29 de formado.
Tendoqueoperá-lodecidiconscienteetranquilamentefazê-locomminhasprópriasmãos,poissendopartedesua
carne, almejaria com meu gesto retribuir a quem muito devia uma singela gratidão, particularmente por ter-me
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proporcionado,juntamentecomminhamãe,realizaromaiorsonhodeminhavida:sermédico.Assim,nadamelhor
do que transformar minha arte num gesto de agradecimento a quem com muito sacrifício a concedeu-me.
Desta vez a cirurgia foi marcada no Hospital São Camilo Santana na sequência de um procedimento
endoscópico.OanestesistaeraoRenato,velhoconhecido,comquemigualmentetenhopartilhadomuitashorasem
centros cirúrgicos. Também havia contatado um auxiliar e uma instrumentadora que me ajudariam. Infeliz e
curiosamente ambos tiveram contratempos e notificaram-me em cima da hora que não poderiam estar presentes.
Considerando serem os procedimentos de pequena monta e inadiáveis em decorrência das patologias,
afastamentodotrabalho,agendamentoprévio,jejumemuitaburocracianostrâmitesparaaobtençãodeautorização
dosconvênios...decidiencará-lossozinho.Rezei,comodepraxe,paraquetudosedesenvolvessedamelhorforma
possível,ecomféfuiavante.
Terminado a contento o primeiro procedimento, iniciei, solitário, à mercê da assistência anestésica, a
circuncisãodemeupai.Felizmente,nadadecômicooutrágicohouveraparacontar,anãoserofatoúnicoemminha
vidaprofissionaldeterquerealizarsozinho,emmeuprópriopai,umprocedimentosimples,masquesemprefizera
e que faço com a ajuda de um auxiliar.
Porestarsó,demorei-mecircunstancialmentemaisdoqueousualnoatooperatório,temposuficientepara
que meu pensamento voasse celeremente às recordações dos felicíssimos momentos que tive com meus pais e
irmãosnaminhainfância...prolongadosnaadolescência...esedetivesse,particularmente,àépocademinhajuventude.
Derepente–semjamaistersequerimaginadoemminhatrajetóriapessoalouprofissionaloperarmeupai(!)
– dentre tantos flashes que a memória aprazível e graciosamente me concedia, refleti que estava inusitadamente
restaurando nele um órgão que, através de inúmeras incursões de amor, possibilitou-me ter acesso a vida.
Eessefoimaisummomentoinolvidávelemminhaexistênciaqueele–meupai–paradoxalmente,através
damedicinamehaviapossibilitado!
Helio Begliomini
EU... MILITAR
O meu relacionamento com os militares daria para fazer uma pequena novela.
Como sói acontecer com todo os varões que estão para completar 18 anos, participei do processo de
alistamento militar no quadro do Exército Brasileiro. Madrugadas na fila, gozações de soldados em exercício,
ameaças de cabos e sargentos e desdém por parte de oficiais eram rotinas esperadas nesse processo.
Felizmente,nessaocasião,fuidispensadoporexcessodecontingente.Participei,felicíssimoecomorgulho,
dacerimôniaejuramentoàBandeiraocorridanoEstádioMunicipaldoPacaembú,otradicionalPauloMachadode
Carvalho.
Entretanto, novamente cruzei com os desígnios do Exército Brasileiro por ocasião do término do curso de
medicina, em 1978, quando a minha faculdade desfortunadamente foi uma das sorteadas e seus varões, como
consequência, obrigados a servir as ForçasArmadas durante um ano.
Tínhamos que servir no Mato Grosso do Sul, pois naquela época, esse estado pertencia à mesma região
militar de São Paulo.Após treinamento em Campo Grande seríamos designados, de acordo com a classificação,
para cidades interioranas e fronteiriças, como por exemplo Porto Murtinho, cujo acesso só era possível por ar ou
rios.
Esse não era o maior problema, mais sim o fato de estar com casamento marcado há meses para o dia 24
de janeiro de 1979. Assim, a cerimônia já estava acertada com o querido padre Bruno Carra da Igreja de São
PedroApostolo,alémdocantor,instrumentistas,floriculturaeClubeMacabi,ondeseriaarecepção.Játinhamsido
entregues quase todos os convites.
Deveria me apresentar em Campo Grande três dias antes do meu casamento. O coronel responsável pelo
processo estava irredutível, não admitindo minha ausência, sob pena de ser preso.
Commuitocustoegraçasaaçãodivina,conseguicasarcomapropostadepartirnodiaseguinteparaMato
Grosso do Sul.
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Nessa ocasião, havia conseguido entrar na Residência Médica em urologia no concorrido Hospital do
Servidor Público do Estado de São Paulo. Tive que pedir adiamento do meu programa por um ano, o que foi
concedido.
Desmontamos o apartamento já organizado e não inaugurado e, estávamos convictos de que teríamos de
trocar, às pressas, nossa lua de mel, anteriormente almejada nalguma praia do nordeste, para o desconhecido oeste
brasileiro.
Ahomiliadacerimôniareligiosaeacomemoraçãosocialforammarcanteseemocionantes,poisestávamos
de mudança para terras desconhecidas e lá permaneceríamos por pelo menos um ano.
Passamos a primeira noite no Hotel Hilton e seguimos rumo a Campo Grande com pernoite emAssis e
Presidente Epitácio. Nesta cidade dormimos, sem querer num hotel de meretrício. Foi uma experiência
inesquecivelmente repugnante no início do casamento e não combinava com nossos ideais. Para mim que tinha
moradoemrepúblicadeestudantesduranteseisanoserafacilmenteabsorvível,masnãoparaminharecém-esposa
que jamais se desgarrara de sua bela casa e unida família.
ChegamosemCampoGrandenosábadoejánosmobilizamosparaalugaralgumaquitinete,poisnãodava
para morar no hotel devido ao elevado custo.
Encontramos, no domingo, meu colega de turma, oAriovaldo, que encontrava-se aflito e desesperançado,
Estava em prantos, junto com seu pai, pois também jamais tinha morado fora de casa.Apesar de sua idade, não se
conformava com essa idéia de serviço militar no Mato Grosso do Sul.
Na segunda-feira seguinte, apresentei-me ao comandante da unidade militar e este, para minha surpresa,
disse-me que o quadro de aspirantes estava completo. Caso quisesse, poderia desistir, com a condição de servir
após o término da residência.
Essa foi outra surpresa. Naquela altura tudo já estava direcionado para morar no Mato Grosso do Sul
durante um ano: apartamento em São Paulo desmontado; prorrogação da Residência Médica; familiares e amigos
conscientes; cancelamento de plantões, adiamento da Faculdade de Engenharia daAida, minha esposa... enfim, já
tínhamosnosacostumadocomaidéiadequemorarumanoforaseriaumaexperiênciamuitoboaparaanossavida
a dois.
Entretanto,apósconfabularmos,prevaleceuàidéiadevoltar.Felizmente,portelefone,conseguiretornarao
meu lugar na Residência Médica e, partimos no dia seguinte, numa terça-feira.
Apesar das retas intermináveis da estrada, pegamos um temporal intenso e deslizamos na pista, batendo
partedocarronalateraldarodovia.Felizmenteomalnãofoipior.EraumcarroBrasília,excessivamentecarregado
pelamudança.
Paramos em Presidente Prudente para reparos.Afortunadamente tínhamos o endereço do irmão da Sra
Terezinha, vizinha amiga dos pais daAida e sem nos conhecer, ele e sua esposa foram excessivamente gentis, pois
além de nos orientar quanto a um mecânico de confiança, nos proporcionaram alimentação e pernoite. Eles foram
bons amigos que carinhosamente nos socorreram e jamais serão esquecidos.
No dia seguinte partimos para São Paulo pernoitando na cidade de Ourinhos.Tanto na ida quanto na volta
fizemosaviagemfracionada,poisalémdopercursosermuitolongo,tínhamosaintençãodeconhecerascidadese
paisagens que se iam apresentando, com belos rios e represas.
Findaaluademelqueduroucercadeoitodias,nossavidavoltouaoesperado.AAidacontinuouseucurso
deengenhariaeeuinicieiaResidênciaMédica.
* * *
Três anos após concluía minha especialização em urologia. Era fevereiro de 1982. Já tínhamos o Enrico,
nosso primeiro filho, com 1 ano e 4 meses e estávamos no início de gravidez do segundo filho, o Bruno.Ambos
nasceram no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, com imensas e gratificantes recordações para
mim.
Masaindaminhaexperiênciamilitarestariaporvir.Devidoaobomsalário,àspoucasopçõesempregatícias
e à minha pendência com as ForçasArmadas, decidi me alistar como médico no Exército.
Naquele ano, a maior parte dos convocados era composta de médicos com três ou quatro anos de
especialização e eu estava entre eles.
Helio Begliomini
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Fizemos um treinamento militar de 45 dias no tradicional CPOR – Centro Preparatório de Oficiais de
Reserva, na rua Dr.Alfredo Pujol em Santana, onde aprendemos as normas e disciplinas militares. Lembro-me,
certa vez, que perdi o horário. Saí em disparada ao quartel. No trajeto bati o carro e nem parei para ver o que tinha
acontecido, tamanho era o medo de ser repreendido ou de ficar preso...
Aprendiamarchar,fazercontinência,conhecernomes,siglas,regraseconceitosmilitares.Asliçõesensinadas
eram permeadas pelo impecável jeito de se vestir e recheadas de rigorosa disciplina.
Uma das recordações que trago dessa época era quando, logo pela manhã, o tenente perguntava quem iria
almoçarnoquartel,poisacomidaseriafeitasobmedidaenãoseadmitiadesperdício.Quemdesseonomedeveria
comerobrigatoriamente,mesmoqueposteriormentedecidisseemcontrário.Equemnãodesseonome,nãocomeria.
Umaexperiênciainesquecívelfoiaotérminodocursoquandofizemosumacampamentomilitar,queseriaa
conclusão prática do aprendizado.
Numfinaldesemanaestivemosnumcampodetreinamentoondehaviamuitomato.Caminhamosfardados
porquilômetros;sentimosaaçãodogáslacrimogêneo;aprendemosliçõesdecamuflagem;demostiroscomfuzile
vimos o poder da explosão de granadas. Um estilhaço de uma delas que se desintegrara a dezenas de metros de
distância,atingiuacidentalmenteoolhodeumcolegadaturma,lesando-oeafastando-odefinitivamentedogrupo.
Ànoite,embaixodefortechuva,colocaram-nosnomeiodomatoetínhamosquesairguiadosapenascom
lanternas e cálculos de azimutes. Não havia banho.Afarda suja e molhada amoldava ao corpo. Lembro-me que
nem havia lugar para dormir dentro das barracas ou caçambas.Asolução que encontrei foi ficar deitado embaixo
docaminhãoemcimadagramamolhada,poisaomenosestavaumpoucomaisprotegidodachuvaquenãoparava.
Cumpri o treinamento militar e como tinha Residência Médica fui convocado para trabalhar no Hospital
Geral do Exército, localizado no bairro de Cambuci. Naquela ocasião, o hospital era ainda formado de velhos
pavilhões da época da II Grande Guerra Mundial e, só no segundo semestre daquele ano (1982) seria inaugurado
o prédio novo dos ambulatórios.
Meu turno de trabalho era das 7 às 13 hs e alguns dias das 13 às 19 hs. Almoçava no hospital e depois
trabalhava noutros lugares.Tinha plantões aos sábados e domingos à cada seis semanas aproximadamente.
Além dos militares e alguns familiares, atendíamos os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira
(FEB). Suas indeléveis experiências e o sentimento de irmandade que nutriam entre si eram emocionantes e
inesquecíveis.
Durante esse ano pude também desenvolver muito a parte escrita da tese de mestrado que estava,
paralelamente realizando na Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A minha experiência militar proporcionou-me maior amadurecimento como cidadão e conhecimento de
realidadesinimagináveis.Elafoitãoamplaericaquedariaparaescreverumlivro!
Helio Begliomini
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SER CANDIDATO
Ser candidato é ter um sonho
é ser idealista
é acreditar no poder da transformação
nodinamismodavida
nummundomelhor.
Ser candidato é ser desprendido
despretensioso no trato
solidárionasdificuldades
afávelnorelacionamento.
É catalisar o poder a outrem
trabalhar sem medo
ser impávido no embate.
Ser candidato é almejar a vitória
poder amargurar uma derrota
é ganhar ou perder.
Ser candidato é surpreender-se com adesões
desencantar-se com deserções
é angariar apoios e traições.
Ser candidato é deixar afazeres
relegarfamiliares
abdicar de si mesmo
conviver com multidões e estar só.
Ser candidato é competir entre verdades e mentiras
consistênciaesuperficialidade
adulaçõesecalúnias
realidade e falsidade.
Ser candidato é ter nobre conteúdo
inesvaecido pela derrota
tampoucopelavitória.
Helio Begliomini
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Hélio José Déstro
Cirurgião Dentista
São Paulo - SP
O PALHAÇO
(Declaração especial de amor a um ser fenomenal)
Adorávelemaravilhosopalhaço...
Com o seu coração de ouro
a cara e o traseiro de aço.
Adorávelefenomenalpalhaço...
Comaquelaingenuidadeinfantil,
O bolso vazio em bagaço.
Adorável e inocente palhaço.
Aalegriaésuaformademensagem.
A vestimenta é toda coragem.
Adorável e querido palhaço.
Que faz vibrar as crianças
Encrostadas em todos os corpos.
Que faz vir à tona nossos sentimentos.
Apureza e a certeza...Avida é linda...
E que a inocência,
tem por base primordial a decência.
Meulindo,
fenomenal,inocenteequerido.
PALHAÇO
O ABC DO PALHAÇO
10 de dezembro – Dia Internacional do Palhaço
QUÁ... QUÁ... QUÁ
Sorrir faz bem ao fígado.
AAAAAAAAAAAA
Rir faz bem ao coração
QUÉ... QUÉ... QUÉ
Gargalharfazbemaalma.
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Hélio José Déstro
Cambalhotas... E dá-lhe cambalhotas
pra frente, para trás... Muitas cambalhotas.
Saltos... Estrelas, quedas e lorotas.
Rir... Sorrir... Gargalhar...Alegres anedotas.
Na cara levar tortas, o choro mentira é chacota.
Estampidos, o bater palmas, levarem bofetões.
Conversas sem nexo, só pra fazer confusão.
Tem cara de idiota, mas é um lindo ser.
Nos circos de lona, nas festas infantis e na TV.
A cara pintada, o nariz tão vermelho.
Vê-se no espelho e que roupas coloridas.
Flores e os jatos d’água quanta palhaçada.
CAREQUINHA–Aiaiai... Carrapato não tem pai.
PIOLIM – fenomenal fez rir a tantas gerações.
ARRELIA – Como vai... Como vai... Como vai?
- Eu vou bem, muito bem, bem bem.
A meninada – Muito bem... Muito bem, bem bem.
ARRELIAEPIMENTINHA
- O bom menino não faz pipi na cama.
- O bom menino não faz malcriação.
O maravilhoso mundo do circo onde o palhaço é rei.
Na maior pureza e encantamento.
Em tempo de infância de nada fazer.
Palhaço – quando rir, sorrir e gargalhar.
Até não agüentar e sempre se lembrar.
Hélio José Déstro – palhaço da vida
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OS REVOLUCIONÁRIOS
No quartel a ordem do Comandante para toda a Corporação.
- É pra matar, todos os revolucionários escondidos na favela.
- Pra matar, isto foi dito a todo o Batalhão que iria fazer parte desta manobra.
- É pra matar, penetrava pelos ouvidos e infiltrava nas cabeças dos soldados.
- É pra matar. É pra matar. Maaaaataaaaar.
Em caminhões chegamos ao pé da favela, do Batalhão éramos famosos conhecidos como o “Pelotão de
Fuzilamento”. O pelotão com cerca de duzentos homens em posição, caminhávamos lado a lado dois, três ou
quatro cada qual com um campo de visão, passo a passo subíamos fazendo a varredura do local metro a metro.
Crianças se escondiam, mulheres gritavam para as crianças, um escarcéu.
Eu com meu fuzilAK-47 arma poderosa e munição de centenas de balas. Casas vasculhadas ficavam para
trás, onde mulheres choravam.Aminha esquerda um pipocar de metralhadora, alguém tinha sido encontrado. Um
revolucionárioamenos.Euemaistrêssoldadospassoapassosubíamosafavela.Umseafastoupeloladoesquerdo
e penetrou em uma casa. Só se ouviam o barulho de nossas botas. O Pelotão da Morte nesta época de Revolução
impunha respeito. Onde passava levava pelo caminho a morte, coletes a prova de balas e pra dar respeito às armas
potentes:fuzis,metralhadoraserevolveres.
Eutinhasidorequisitadoparaomesmoporqueondefaziaplantãoprendiváriosbandidosqueassaltavama
região. Eu e todos os outros caminhávamos para matar... Matar. Desta favela por falta de opção sai para ser
soldado. Hoje com meus 25 anos sou parte do famoso Batalhão. Nestes tempos de revolução lutávamos com
aqueles que são a favor e eram os que queriam a democracia.Afinal nem sei o que é Democracia, mas no quartel
aquilo era um mal pro nosso País. E tinham que ser calados. Muitos eram até eram comunistas e comiam crianças.
Comunistascomiam,crianças.Ossoldadosnestestemposdifíceissãovalorizadosporqueimpunhamaordem.Eo
principaltinhaarmamentospesados,equemtemarmassãoobedecidosoucalados.Pradizerminhaverdadeeufui
convocado para fazer parte do pelotão. Nunca fui de matar, mas hoje eu estou com o diabo no corpo, nesta missão
sabíamos o que fazer. Matar... Matar. Matar revolucionários.
Deixei o pensamento de lado o pensar que naquela favela eu fui criado, mas matar a todos que foram
exibidos nos slides no quartel nas projeções e nas fotos espalhadas. Ordem do Comandante é pra ser cumprida
pelos oficiais subalternos. Sargento cumpre porque é sargento. Soldado é soldado, sargento é sargento, oficial é
oficial. Obedecer. Obedecer. Estávamos em quatro, um logo se afastou e num beco ouvimos o pipocar da
metralhadora. O companheiro ao lado penetrou em uma casa juntamente com o quarto homem ouvi um pipocar
forte de metralhadora e gemidos. Estava só e a frente a casa mal construída, mal acabada. O ódio e o terror. O
coraçãopulavaemeurostoesquentouafaceeosolhosqueseinjetaramdevermelho,namenteoódio.Avarredura
caminhavalevandonospeitosumlimparolocal.Foiquandofiqueifrenteafrenteeueaporta. Metiasoladabota,
ela escancarou. Sabia por informação que poderia matar, ou poderia morrer. A casa meia água, casa igual a
centenas, a casa mal acabada feita aos poucos e com valores suados. Eu só comigo mesmo.Asala vazia, ao lado
acozinha...Vazia.
Outra porta a do quarto. O silêncio era de morte. Neste momento o ódio tomava conta de mim. Se atrás
desta porta houvesse alguém eu acabaria com ele.Asola bateu violentamente na porta que rangeu e cedeu. Frente
a frente eu, ele barbudo, um dos que estavam entre os projetados na tela. Havia também crianças. Ele e as crianças
a comerem pipocas.
Amarelo era a cor de seu rosto a comer pipocas brancas.As crianças tremiam. O dedo no gatilho do fuzilAK
47. E as pipocas.Amão cheia de pipocas é estendida.Aí caiu a ficha. Ele, o Zé filho da Maria pipoqueira. Ali
naquela favela quantas vezes com fome comiamos as sobras de pipocas murchas que sobravam no carrinho. Os
caruás eram colocados outra vez na panela com óleo usado e nada de estourarem. Em tempos passados de
Hélio José Déstro
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meninice sentados eu e ele, lado a lado, a comer com “fome de três dias” pipocas e éramos felizes. Eu e o Zé filho
da Maria pipoqueira. Eu, ele a mão estendida com as pipocas. O fuzil, o dedo no gatilho. Ele, o revolucionário?A
mãoestendidaseoferecendo,anossaamizade,osnossosmomentosemsaciarafome. Meumundovoltou,euque
estava a fim de matar, que estava frente a frente com o revolucionário. Eu e o menino amigo de tantas peraltices,
alegrias e sonhos. O dedo no gatilho e a ordem matar... Matar.
Sentei-meaoseuladoecomeçamosacomerpipocasnosilêncioqueerademorte.Amortequeseestendia
e corria nas casas pela favela.Alembrar nossos sonhos de sermos jogadores de futebol. Ele cantor tinha uma bela
voz, bom pra cantar samba e pagode. Hoje na vida um revolucionário e a ordem matar. Matar.
Levantei-me o dedo no gatilho e o ódio no coração. “O sargento que vá pra puta que pariu.”
A amizade de meu amigo Zé das pipocas vale mais do que matar pra acabar com a revolução e sonhos
acalentados.
Hélio José Déstro - 7 deAbril de 2009
Amizade é flor que nasce no coração.
MEUS INESQUECÍVEIS AMIGOS
Estudante que fui, tive muitos amigos e quero biografá-los:
O PINTO - Um rapaz bonitão, vermelho e forte, também tinha seus dias de tristeza, ficava mole... Mole,
encolhido em seu canto.Adorava mulher, o que se podia chamar de tarado; não podia ver um rabo de saia e seus
apetrechos,queoPintoficavaamil.TinhaumgrandedefeitoentreamigosnãogostavadeserchamadoPinto,mas
a turma quando o Pinto estava onde havia muita gente, e distante gritavam aos berros: - Pinto, ô Pinto, aqui Pinto.
VemcáPinto.OpalavreadocausavaummalestarnoPintoenaspessoas,masestudanteéumaclassedegozadores
e adora uma farra. Nesta hora o Pinto não sabia onde enfiar a cabeça ficava louco não havia quem o segurasse.
Conheci-odestepequenonaqueletempochamavam-nopelodiminutivoPintinho:eraPintinhopracá,Pintinhopra
lá. O Pinto era de família pobre, porém ótimo estudante. Contou-me que uma vez ele e o pai comeram uma
perereca rachada ao meio. Naquele tempo perereca era parente de sapo, hoje é rã. Sendo pobre estava sempre
duro...Duríssimo,quandojovem,masostemposmudaramformou-sedoutor,oPintonasuaprofissãoeraprocurado.
O Pinto teve sua fase áurea foi até cogitado pra Prefeito, porém o Pinto queria levar sua vida escondido e não
gostava de aparecer. Mas, quando procurado nunca falhava, isto é quando jovem, soube que falhou, na terceira ou
nasegunda.FicoucomplexadoenocorrerdacarruagemoPintoengordou,foiamolecendo,seufísicoqueerabelo
transformou-se e vocês sabem que Pinto mole não tem serventia. Ouvi dizer que o famoso Pinto de juventude se
perdeu. Ficava a beber em local mal falado. Ser mau elemento era tomar umas e outras, até cheirava mal. Foi visto
e estava deitado encolhido perto de um saco com dois ovos podres, ali num lugar da Região da Barra Funda.
FREDERICO - Era o dodói da mamãe, filho único, filho de doutor e pianista, sua mãe uma mulher fenomenal,
carinhosamente o chamava de ICO era: - ICO meu amor, ICO querido, ICO vem cá, ICO vá estudar. Escolhia
seus amigos a dedo. Eu, além de colega de ginásio era de futebol. Numa quinta feira tempo nublado eu passei na
casa do ICO para treinarmos, porque no domingo tínhamos um grande jogo.Amãe não queria deixá-lo ir, porém,
com o pedido de ICO concordou e lá fomos nós.Aconteceu que uma chuvinha fina nos deixou molhados e treinar
Hélio José Déstro
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com chuva ficamos imundos. Na hora do banho não havia água. Morávamos distante cerca de 15 quarteirões do
campo e naquele tempo íamos a pé e voltamos do mesmo jeito. Um grande goleiro, eu jogava de zagueiro, suas
ponteseramfamosasefazíamospartedomesmoclubeondefomoscampeões;infantisejuvenis.OICOnacidade,
entre os goleiros o que mais pênalti pegava e dava cada vôo. Então no retorno as nossas casas, o ICO tocou a
campainha. Ao abrir a porta sua mãe ao ver ICO naquele estado deplorável, todo sujo, com o espanto na face,
olhos arregalados, gritou: - ICO sujo. (Eu fui pra minha casa rindo as escâncaras de ter ouvido tal cacófato).
O PORTUGUÊS - filho do padeiro, conhecido na cidade pelas guloseimas que produzia. Chamavam seu pai
de português, a mãe de portuguesa e sua irmã de portuguesinha. Porém o segredo contou-me que seu nome era
Manuel Bosta. Saibam, nunca dizia seu nome completo, tinha complexo e para as professoras era só chamado
de Manuel. Eu, muito discreto, jamais falei aos colegas sobre o verdadeiro nome porque iriam rir e não queria que
isto acontecesse, pois era um ótimo amigo.Antes dos dezoito, antes de fazer o tiro de guerra e juntamente com sua
advogada de causa civil...
Dra. Mérida da Costa que preparou a documentação apresentaram-se frente ao juiz com testemunhas para
que fosse mudado seu nome. O juiz togado, na sua pose parecendo o dono do mundo, depois de verificar e
comprovando estar toda selada (naquele tempo tudo levava selos). Deu vários carimbos e passou a secretaria para
que preparasse o documento para ser assinado com a mudança de nome. Perguntou a advogada qual o nome que
seu cliente queria usar daquela data para frente.Aadvogada Mérida da Costa passou a palavra a Manuel Bosta.
O juiz então fez a ele a pergunta:
- Senhor Manuel Bosta, qual o nome que quer usar daqui para frente?
- Meritíssimo desejo ser chamado de: Joaquim Bosta.
FOHDDA - era descendente de poloneses. Seu pai um grande mecânico. Seu nome se escrevia com as letras
F o h d d a, porém pronunciado em português era Foda mesmo. Escrita diferente, pronúncia igual. Lá na Polônia
erarespeitado,tinhaparentesnogoverno.ImigrouparaBrasilporserdeoutropartido.AquinoBrasilosobrenome
causava um risinho amarelo, ou de várias cores, porque aqui o buraco é mais embaixo. No ginásio, na hora da
chamada ou quando arguido sobre a matéria e não sabia, era motivo de risos. Os professores tentavam disfarçar,
porémo Fohdda era Foda e estamos conversados. Estudioso e tímido. Fizemos todo o curso inclusive o superior.
Formados viemos para São Paulo e instalamos consultórios no bairro do Brás. Naquele tempo no Brás
freqüentávamos o Clube, e a gozação era terrível. Sempre defendi o Fohdda e até o chamava carinhosamente de
Fo. Sua clientela adorava o Fohdda e passou a ser respeitado se alguém ria de seu nome era longe porque perto do
Fohdda,ninguémria.Fuiseupadrinhodecasamento.Mudoudebairro,sumiu.Outrodialendoaspáginasamarelas
vi em negrito seu nome. Senti saudades de tão boa amizade.
Hélio José Déstro - Aventuras de estudante 16-2-2004
Verdades verdadeiras, inverdades com fundo de verdade
e o inventado que sonha em ser verdade ( é Lenda)
Hélio José Déstro
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Ildo Simões Ramos
Médico
Salvador - BA
AS MARCAS DO TEMPO
Todomundojáteveumatiavelha.Ranheta,rabugenta,comtodasasdoresdomundoetodasasimprecações.
O curioso é que nos anos verdes da adolescência nós nunca imaginamos que nosso dia vai chegar, até que ele
chega. Como agora. Hoje sou esta tia velha, entrevada, que meia humanidade acha ranheta e rabugenta. Como eu
achavaemminhamocidade.Eis-meaquicomminhascircunstâncias,plagiandoquemchegouprimeironaelaboração
da frase. Nem sei bem se estou copiando o texto ao pé da letra, mas isto já não importa. Uma palavra que sobre ou
falte não vai certamente mudar o sentido de nada. Vale a intenção. Minha rotina é de uma monotonia que dói:
parece um ritual budista.Acordo sempre antes das seis, consulto o relógio, automaticamente olho o tempo e me
façotambémautomaticamenteasmesmasperguntas:
- Será que vai chover? Será que já está na hora de tomar o remédio? Alguém virá visitar-me?
Dou silenciosas respostas e novamente volto aos cobertores por mais uns instantes. De puro tédio. Em
poucos minutos a cama está quente e o corpo formigando, o que me impele a levantar. Um sacrifício que me
imponho diariamente, sob o protesto das inúmeras articulações de poucos movimentos. Sempre me perguntando
para que? Começo a sentir a sensação desagradável de fome. Tomo a primeira refeição apenas como quem
sucumbe ao instinto da sobrevivência. Uma sensação quase física, quase dolorosa. São lentos os passos pela casa
demuitoscômodoseinfinitaslembranças.Algumasdolorosasdepensar.Aprimeiracançãodeninardaqualainda
retenho alguns acordes; o primeiro baile, coração aos sobressaltos, corpo empertigado e ouvido atento ao ritmo da
valsa langorosa. O primeiro amor, tão lindo...mas, tão fugaz como as espirais do cigarro esquecido no cinzeiro. O
primeiro amor que me encheu a cabeça de sonhos e depois um grande vazio na alma quando, sorrateiramente, se
foi. Deixou uma história incolor. Percorro as dependências da casa deserta, executando tarefas tão singulares que
àsvezesnemmedoucontadequeasfiz.Abrooufechoumajanela,ajeitoumaalmofadaourecolocoaimagemda
santa no lugar que eu mesma, no dia anterior, achava que não estava correto.
Ogatoenrosca-seemminhaspernas,soltaummiadoquasegemidodesúplica.Sintoseucorpomacio,sua
cauda de pelos eriçados a fazer-me cócegas, e seu ronronar quase surdo. É um trauteado tão repetitivo que posso
medir-lhe o compasso. Sento, depois de percorrer os labirintos das minhas reminiscências, e ele pula no meu colo.
Ágil, num quase desafio às leis da gravidade, como a debochar das minhas paciências, das minhas debilidades. Já
tenho à mão as agulhas de tricotar e começo, ponto por ponto, a tecer uma malha infinita. Não tenho desejo de dar-
lhe formas. Importa-me fazer o ponto que é uma forma de matar o tempo.Antes que ele se encarregue de mim. Os
outros já se foram, já curtiram suas paixões, seus destinos, já sofreram seus estresses. Já tricotaram também suas
infinitas malhas ou observaram as nuvens nos fins de tarde com seus desenhos fantasmagóricos. “O tempo não
para e, no entanto, ele nunca envelhece.” Ah que bom que fosse assim também com os viventes. Não estaria
agora a curtir meu gato, também envelhecido, olhando estas cortinas desbotadas de tanto filtrar a luz solar e esta
cadeira que um dia também irá abrigar outras solidões tão grandes como a que estou sentindo agora. Sem outra
saídavoutecendoestamalhapontoapontonumainglóriacorridarumoaoinfinito.Complenaconvicçãodequeo
infinitoépreviamenteovencedor.
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MEU PÉ DE MELÃO
Hojefoipramimumdiaparticularmentefeliz.Ganheiumpresentedomeupédemelão.Explico,antesque
algumapressadinhoimaginequeestouficandotereré.Asplantasfalam,aspedrasfalam,tambémfalamosanimais
epoderíamoscompletardizendoqueoshomenstambémfalam.Adiferençaéquepoucagentetemacapacidadede
entender a linguagem dos seres ditos humanos e, muito menos, dos seres ditos inanimados ou irracionais. Mas, se
atentarmos para alguns detalhes, ou melhor, se prestarmos atenção aos nossos ‘semelhantes’de outros reinos,
veremosqueelestêmlinguagemprópria,comunicam-secommensagensinteligentes,sóqueindecifráveisparaos
maus observadores. Despojemo-nos, no entanto, de nossa vã condição de reis do mundo, desempinemos o nariz
e passemos a olhar as coisas em volta de nós próprios, durante nossa viagem pelas vinte e quatro horas do dia.
Apáginadolivroque,poracasooumilagre,seabrejustamentenotextoquegostaríamosdeler,prachamar
o sono que se foi, a posição da cadeira que se oferece quando chegamos de pernas trôpegas, depois de um dia
estafante,nãoimaginemquefoiobradoacasooumilagred’algumsantocompoucotrabalhonaagenda.Aconteceram
por obra e graça de uma determinação consciente. Ah, e o chinelo que, às vezes, se esconde depois d’alguma
malcriação que a gente pratica e, de repente, não mais que de repente, no dizer do poeta, aparece na sala como que
porencantoe,maisainda,aatitudeétãoconscientequesequerpercebemosobarulhoqueidentifiqueoesconderijo,
de onde sorrateiramente saiu.Pois bem. Depois de tantos e tão convincentes exemplos, já posso falar do meu pé de
melão. Estou resistindo pra não chamá-lo de meu meloeiro como gostaria algum taxionomista de plantão. Não sei
seonomeestácorretoenãoseitambémseelegostariadonome,supostamentecientífico.Vai,portanto,meupéde
melão. Plantei, há mais ou menos mês e meio, uma sementinha colhida ao acaso, na fazenda que disponho na
varanda de meuAP. Não é lá grande coisa, mas como diz o ditado, o pouco com Deus é muito. Mede exatamente
metroemeioporquarentacentímetrosquesãoasdimensõesdocanteirodeminhavaranda.Umpoucodeágua,um
poucodeadubo,umarestiazinhadesoleeisquesedeuomilagredareprodução.Asementesefezvida. Diariamente
(e agora já posso falar sem susto das explicações já dadas) mantemos um diálogo.
-Acordou cedo? Tudo bem? Tem trabalho hoje? Posso lhe falar? Calma.
Uma pergunta de cada vez. Senão vou atacar de: - Folha nova? Como vãos as raízes? Está com sede...?
- Desculpe, é que você, ultimamente, me visita pouco e fico louco pra falar tudo de uma só vez.
- Tá bem. Vou lhe dedicar mais tempo, dentro do possível.
-Ah! Quero lhe fazer um pedido.
- Fale. To saindo.
- Tire aquela toalha vermelha da minha frente, que está roubando quase toda a luz de que preciso pra
crescer.
- Já sei.Afolha fica amarela, a rama fica fininha...
- Tem outro pedido.
- Fale logo tudo e eu vou estudar o que posso fazer. – É sua empregada!
- Não vá me dizer que você está dando em cima da minha empregada!
- Nada disto. É que ela, às vezes, castiga na água e desarruma meu metabolismo. Acho que você, e ela
especialmente deviam saber que pé de melão também tem metabolismo.
- Tá bem, falarei com a distinta. -Posso fazer outro pedido?
- Não acha que já está abusando?
- Lembra que falei da toalha? Pois é. É dela que vou falar novamente.Quando você sair à tarde, recoloque
a toalha no mesmo lugar. Explico antes que você se irrite. É que o sol da tarde é fogo e também me desequilibra o
metabolismo e você sabe, minhas pernas - digo minhas raízes- não me permitem locomoção até a sombra.
E assim, diariamente, ou dentro do possível, da folga da agenda, do consultório, mercado, mil pequenas
obrigações, sempre reservei um tempinho pro meu pé de melão. Quase sempre vinha um pedido: tira toalha, põe a
toalha,maiságua,menoságua...Umdiafuisurpreendidocomumpedido,digamos,inusitado:
- Vou lhe fazer um pedido especial.
Ildo Simões Ramos
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- Sou todo ouvidos, mas estou com pouco tempo. Fale rápido.
- Ih, você só anda correndo!
- Tá bem. Fale e depois cale.
- Gostaria que você não me aparecesse nos próximos dois dias. Estou lhe reservando uma surpresa. Como
é surpresa espero que não me faça perguntas.
Passados os dias solicitados, reapareci e, quando me preparava para a cobrança, foi logo se adiantando: -
Não precisa nem me cobrar. Eis aqui o meu presente. Minha primeira flor. Gerada por mim e dedicada a você com
todo o carinho deste mundo.
Deixo aos incrédulos o tamanho de minha emoção.
SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO
Amanhecivendopassarinhoverde.Logoqueodiadesponta,desçoàpiscina,curtoosprimeirosraiosdesol
queaprincípiomepenetramfundonaepidermeemedeixammarcasvermelhasdisseminadasportodoocorpo.Sei
que depois eles começam a refletir na pele já não tão desprotegida e me devolvem a calma de não ter que amargar
a mudança de pele que me tira o charme que ainda me resta. Olho o espelho d’água e Narciso brinca no fundo,
onde .azulejos produzem uma cor azul suave. Molho os pés na água fria e depois o corpo todo. Envolvido pela
massa líquida, dou algumas braçadas e tenho corpo e alma relaxados. Não me passa pela mente a intenção nem o
entusiasmodecontumazesnadadores.Minhadisposiçãonãochegaatanto.Algunsmovimentosmebastam.Ameta
é o prazer que me aguarda e do qual já desfruto. Um caleidoscópio passa em minha mente: passarinhos verdes
entoam afinadas sinfonias e há no ar um tropel de cavalos.Azuis naturalmente. Desembestados no espaço de toda
sua liberdade. Passam velozes e nem se dão conta de minha presença. Estou sob as bênçãos de Capricórnio, meu
signo de fé. Retorno ao sol que aquece minha pele e lanço a vista em suplemento de variedades. Estão lá as
previsões do meu signo: “...define desde agora teus projetos para o milênio. Faz isto, mesmo que no presente
tudo pareça eterno” .
Sempretivemuitaligaçãocomhoróscopos,semnecessariamente,seguí-loscomoosaficionadas fanáticos.
O que me distrai é o prazer de lê-los. Sei que é pura ficção, mas há um misto de prazer interior e curiosidade em
saber que, sobretudo, as boas previsões nos deixam mais leves, fazem o tempo passar sem que nos preocupemos
com os dissabores que a vida nos reserva. Na borda da piscina uma lavandeira me faz companhia.Azoologia a
rotula como ave tiranídea, mas, é só um rótulo que não traduz sua docilidade. Observo seu passinho miúdo, seus
olhos vivos mirando a presa que não escapa de seu golpe certeiro e fico a imaginar que ela também deve ter tido
umaboaprevisãonoseuhoróscopo.Alarvaeoinsetodevoradosnãoeramcapricornianoscomonóseencerraram
alisuapassagemporestemundodetantasarmadilhas.Pelojeitoaminhalavanderinhaétambémumacapricorniana
tal o tamanho da felicidade que irradia. O dia hoje é dos nascidos entre vinte e dois de dezembro e vinte de janeiro
Minha sorte foi, certamente, decidida pelo redator insone que não conseguira uma manchete sensacionalista para
seu periódico e se pôs a fazer previsões... Mesclou bons e maus augúrios para os diversos signos porque alguém
terátidoumdiainfelizesetornaumencaixeperfeitoeumpassoparaacredulidadequaseinfalíveldestesprognósticos.
O dela, de minha lavandeirinha de penas multicores com predomínio do azul, deve ter sido feito pelo instinto de
rapinagem do gavião. Com segundas intenções naturalmente: deixá-la à vista de suas garras neste passeio matinal
em busca da felicidade. Não, enquanto estiver sob a minha proteção. Estamos os dois, homem e pássaro, curtindo
em alfa o dia que mal está começando.
Nesta hora não discuto o sentido, o valor, a credibilidade das previsões, nem me preocupo com quem as fez.
Aceito-as como se fossem verdades absolutas. Começo a traçar com sofreguidão meus projetos sem me importar
comalimitaçãodavida.Valho-medapoesiadeViníciusepeçoqueelasejainfinitaenquantodure.Fechoosolhos
e ouço de volta o tropel dos cavalinhos azuis. E dou graças à vida.
Ildo Simões Ramos
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45
João de Deus Pereira da Silva
Médico
Fortaleza - CE
PASSAOU REPASSA
O titulo acima faz-nos lembrar um antigo Programa deTV.
Na verdade, de quando em vez, estamos repisando páginas, ora lidas, ora produzidas ou vividas no nosso
dia-a-dia.
Muita vez, para contarmos uma estória, usamos um artifício, um simulacro, uma paródia — quando esta
bem se ajusta às situações hilariantes.
No bojo da estória que lhes vou contar, sem demérito para quem quer que seja, aparecerão alguns destes
episódios.Ei-la:
Viajavamdoisamigosaserviçodeumanobrecausaliterária.Dinheirocurto,decidiramcombinaraexiguidade
do tempo com a economia dos dispêndios. Cinqüenta minutos de voo e chegaram à primeira estação.
Aliforambemrecebidosporumintelectual(mastambémagropecuarista,cujobomhumorelhanezajamais
serão esquecidos).
—Agora, dizia o chefe, temos de reduzir as despesas. Vamos viajar de ônibus.
— E se a droga deste ônibus se quebrar, sentenciava o outro, o que faremos?
— Deus é bom. Não vai acontecer nada de ruim!
SeguiramdeônibusaolongodacostanordestinadoPaísdasMaravilhas,quente,abafada,aquallembrava,
de muito, a costa centro-oeste da Espanha, quando se vai rumo a Portugal, no mês de julho.
A estrada em reforma, aqui e ali, fez o ônibus atrasar em meia hora sua chegada ao destino (segunda
estação). Contudo não quebrou. Era novo!
O ponto alto a destacar foi, sem sombra de dúvida, a lembrança do taxista que os levara ao hotel – Sr.
Caetano— que, com ar triunfal, respondia às perguntas do chefe:
— Casado?
— Casado, sim senhor.
—Quantosfilhos?
— Com a Mariquinha, 9; com a Lourdes, 6 .
Cabra bom, pensava o outro, com os seus botões!
Da rodoviária da 3ª para a 4ª estação, o taxista – Sr. Hildebrando – não era de muita conversa, pois o de
que gostava mesmo era de comer pitangas, sem parar: segurava o volante com a mão esquerda e com a direita
levava pitangas à boca de instante a instante.
Já o que os serviu do hotel ao centro e depois deste à Rodoviária – Sr.Walter – era um tipo mais refinado,
pois estivera fazendo um curso de vendas e cobranças, em Fortaleza-CE, de uma construtora na qual trabalhara
poralgumtempo.
Na 5ª estação — e aqui lhes chega à lembrança a estória de D. Quixote de la Mancha e seu fiel escudeiro
Sancho Pança, guerreando contra os moinhos de vento – o inusitado acontecimento: somente cama de casal em
apartamentosduplos.
— O que? Estaria pensando o senhor (o recepcionista) que eles formavam um casal “gay”? Bradou o
auxiliardochefe!
— Não, não, em absoluto, respondeu o recepcionista.
— Lamento, mas os senhores terão de pagar 02 (dois) apartamentos!
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FLOR-MULHER
À procura febril do teu sorriso
vasculhei co’olhar teu corpo inteiro;
não o vendo, tomei por escondido
ovultoquefloriunomeucanteiro!
Um mês depois... até podes pensar:
quealegriafoirever-te,foisentir
teu perfume suave a exalar
da pele macia, que me faz fremir!
Antes eras só flor, hoje és mulher...
Ontem, um botão que se abria ao vento,
hoje, a fina expressão do bem-me-quer!...
...E a fragrância da rosa fez-se tua
em crescente arrepio, embora lento,
no leito d’amor sob a luz da lua!
Fortaleza, 07/04/2009
MULHER E DIVA
“Oh, Céus!... sou mais bonita do que ela...”
Disseste-me de chofre e sem modéstia.
De ti conheço apenas uma réstia
De luz, que me tem posto em sentinela!
Teu visual ardente e sedutor
Chega, por certo, a despertar desejos
Envoltos em cuidados, em segredos...
Arrepios d’emoção...coisas d’amor!
Dela, a foto despida d’ousadia...
Deti“flashes”constantesafixar
Cores, tons, sorrisos, ao pousar
Das mãos por sobre pele tão macia!
Ela posa de diva, com constância;
Tu, de gata hormonada em pleno cio:
Fogo morno a queimar – em desafio–
Acarneinsaciável,vorazânsia!
Suplantá-la bem podes, eu entendo.
A mim não será dado duvidar
Não sei se com apenas meigo olhar
Se apagam chamas em meu peito ardendo!
Fortaleza, agosto de 2002.
O que de melhor aconteceu foi que um dos andares (o 10º) era só para fumantes. O 9º andar, para os não
fumantes. Isto desobrigou o auxiliar do chefe de ser fumante passivo!
À tardinha de um certo domingo deste périplo, o sacerdote adentrou o templo paramentado de róseo-lilás
e não tardou em justificar as cores de sua vestimenta:
“quero que saibam que não sou tão machista como se pensa”!Vesti-me com as cores da “alegria”, por isto
(... longe dos viajores imaginarem que o padre fosse afeminado, não obstante tantos exemplos de desvios de
conduta da sociedade, em geral, no mundo hodierno).
No estádio final (5ª estação) foram recebidos com amabilidade e apreço. A surpresa: apenas uma
recomendação: desfaçam-se dos anéis e alianças, dos relógios, óculos, bolsas e celulares, pois os descuidistas
levam tudo. Levem a identidade no bolso, quando forem ao centro da cidade!
Relembrando os momentos vividos durante alguns breves dias, retornaram ao ninho nas asas da amizade
patrocinada por um jovem esculápio e parlamentar valoroso.
Os pequenos dissabores foram apagados com gostosas gargalhadas!
Fortaleza, 31 de março de 2009
João de Deus Pereira da Silva
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José Jucovsky
Médico ginecologista
São Paulo - SP
INFINITOS SONHOS HOMÉRICOS.
Espíritosdesuperiorimaginação
Vãoconstruindohoméricashistórias:
Agreco-romanamitológicacivilização
De eternas lendas de arte e glória
Entre a terra e o céu silente,
Espaçodeflutuanteleveza,
O poderoso Zeus reinava reluzente
Numpaláciodefantásticabeleza!
Tudo era encanto e fantasia
Nofulgordediáfanastrivialidades
Onde os deuses se regalavam em alegria
Comambrosiadaimortalidade!
Vulcano, o deus coxo, possuía
O dom de trabalhar metais
Comhabilidadeconstruía
Carros de ouro e moradas celestiais!
Minerva ofertou aos mortais a sabedoria
E ao primeiro rei deAtenas a oliveira...
Apolo carrega o arco, a beleza e a poesia
Símbolos do esplendor e da seta certeira!
Prometeu, numa tática ousada
De Zeus o fogo sagrado furtou
Trazendo acesa a tocha dourada
Àhumanidadecarenteofertou!
Vesta e as seis virgens Vestais
Velavampelaslareirasantiquadas,
Chamas acesas pelos mortais,
Para que nunca fossem apagadas!
Aantigacivilizaçãomediterrânea
Política,econômicaecultural
Persiste viva e espontânea
Na moderna sociedade mundial!
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48
José Jucovsky
QUEM SOU EU? – QUEM SOMOS NÓS?
A trajetória dos milhões do H. Sapiens nascidos
Sob o mesmo Sol festivo no vendaval da sorte
Ou do baço olhar do escravo labor sofrido
Alinham os genes do seu “eu” com os DNA consorte.
A linhagem direta de nossos antepassados traz
Em cada um de nós crucial adormecido legado
Estruturahelicoidaldegenearepetirfecundoloquaz
O último gradual degrau final do longínquo passado?
Compostos químicos de base e de ácidos a se catalisar
Moldamunidadesessenciaisnohorizontevital
Fileirasexternasenvolvendoocomplexomolecular
Organizaçãocoreográficadavidahumanaemespiral.
Filhos nos idos tempos vagando neste vasto oceano
Avançamséculosaperpetuargenéticoitinerário
Decisivo alvorecer a repetir em cada parto humano
Oespaçotempocerebralevolutivamentevisionário.
Um homem se torna outro homem redesenhado
No ventre materno em sua descendente primazia
E mesmo antes de nascer recita ditoso recapitulando
Umavezeufuipeixe,agorasouamáximahierarquia.
Um bebê nasce sem saber um só fonema articulado
Nem sequer balbuciar mamãe se não for ensinado
Seu cérebro é como se fosse um CD intocado
Alma apagada se ficasse do grupo social isolado.
Hábeis mãos e cérebro moldam luzes na escuridão
Momento crítico de talentos capaz de controlar
O fogo e fazer a pedra lascada entrar em ação
E na Zona de Broca o milagre da fala se fazer anunciar.
Por acaso, estamos aqui segundo o universo darwiniano?
E só nós podemos refletir sobre tal relativa singularidade...
Jánafuturistafábulaproféticacriadanomundohuxleyano
Os bebês de proveta nascem sob rigorosa seletividade.
Abioengenhariaemfascinantesclonagensenaltecer
Significa tentar criar o Super-homem em evolução?
Contudooscilaçõesdaalmado“eu”emcognitivoconviver
Mantémimensurávelenredocérebro-menteemíntima criação!
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49
José Jucovsky
RUMO AO DESCONHECIDO
(EM BUSCA DA SIMILARIDADE)
Foguete possante raio peregrino
Disparalevandonoventreimerso
Sonda espacial tendo como destino
Flutuar para ouvir e entender o universo!
Na lua, com ausência de gravidade
Entre névoa de nada, silêncio e solidão
Armstrongcaminhouparaaposterioridade
Ao deixar seus rastros com nítida perfeição!
Naves arrojadas, lauréis de tecnologia,
Grãos de areia a rolar no firmamento
Soberbos artefatos de ciência e fantasia
Nichos para viver fora do ar e do tempo!
Colocado em órbita a nave espacial
Hubble telescópio de espetacular visão
Observa galáxias no espaço-tempo sideral
Eimponderáveisestrelasemnebulosacolisão.
Por analogia com a nossa Terra
Histórico berço das leis da Relatividade
Pesquisa-se no solo do planeta Guerra
OpossívelfértiliníciodaHumanidade.
Fotosúnicasdemagistralgrandeza
Imagensantesnuncaimaginadas
O robô de Marte em real presteza
Pasma o mundo nas TVs ligadas.
Tal Dédalo usando asas para fugir da prisão
Engenhosa capacidade em busca da liberdade
AEstaçãoEspacialiniciaemplenaamplidão
Inato desejo humano na busca da similaridade!
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José Maria Chaves
Médico oncologista
Fortaleza - CE
LAMENTO DO VELHO CHICO
Ildo Simões
O barco singrando o rio
O rio cortando a terra
Seguindolentopromar
RioFranciscoTriste;envergonhado.
De tão sofrido perdeu a santidade
As águas do Velho Chico descem chorando pro mar.
Vêm da Serra da Canastra rolando galhos e seixos
Que lhe atiram das margens sem pena nem piedade
Sefalarelaspudessem,iriamfazerromaria
Pra que deixassem seguir o seu curso em liberdade.
As águas do Velho Chico descem chorando pro mar!
Seu choro hoje é mais triste, pois lhes cortaram o caminho.
Com barricadas de ferro, de pedra, cimento e cal!
Inda querem atropelar e desviar o seu curso
Por outras margens e plagas
Diferentes das que hoje
Se costumaram a seguir
Vai que um dia se aborrecem
e viram só lama e pedra!!!
E deixam os ímpios com sede!!!
E deixam calcinada a terra!!!
Por onde outrora passaram
Fagueiras e cheias de garbo.
E haja procissão e missa!!!
E haja Deus nos acuda!!!
E haja reza e ladainha
Que nem estão aí pra isso.!!!
...............................
Umatorrentedelágrimas,
Cairá dos duros olhos
Quenuncaquiseramver
As águas doVelho Chico
Chorando em busca do mar.
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51
Versos em torno do Mote:
AS ÁGUAS DO VELHO CHICO
DESCEM CHORANDO PRO MAR
José Maria Chaves
I
O Ildo canta o clamor
Do São Francisco cansado
Se arrastando, maltratado
Do nascer ao sol se pôr.
Por seu pranto ao caminhar,
Vencendo todo o fuxico,
As águas doVelho Chico
Descem chorando pro mar
II
Mas o pranto, oh Ildo amigo,
Queoriocontinuamente
Faz cair, é exatamente
Por não servir como artigo
De luxo, pro Ceará
Que, sem água, é estorrico.
E águas do Velho Chico
Descem chorando pro mar
III
Em vez de lenço, um desvio
Da água que vai pro mar,
O choro já vai parar
Sem o menor arrepio.
Não pisco, nem pestanejo.
O sofrido sertanejo
Certamentevaivibrar,
Pois muda de pobre a rico
E as águas do velho chico
Agora descem a cantar!
José Maria Chaves
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52
REMINISCÊNCIAS III
MEUS PERSONAGENS INESQUECÍVEIS (cont.)
II) TIO OLÍVIO
Jámereferiemoutrainstância,aotratardeReminiscências(1),acercadepersonagensinesquecíveismeus,
quando criança, época na qual vivi em minha terra – São João do Jaguaribe – bucólico lugarejo, então distrito de
Limoeiro do Norte.
Hoje,estareifocalizando“tioOlívio”e seu“JuvêncioPaula”.
Tio Olívio, na verdade não tinha parentesco nenhum comigo, afora ser casado com “tia Odete”, prima
legitimadomeupai.Mas,comoditoanteriormente,nós,meninos,tratávamosquasetodososmaisligadosanossa
família, e mais idosos, como tios.Tio Olívio era o único barbeiro da vilazinha e, se mais tinha não parecia, beirava
os quarenta anos. Homem forte, pele branca sensivelmente tostada pela inclemência dos raios solares, cabelo
alourado e olhos verdes, hoje me faz caracterizá-lo descendente de holandês (em décima geração). Sempre muito
sorridente, o que demonstrava continuamente em paz com a vida, todas as manhãs, mal o sol despontava, lá ia ele
abrir a barbearia a fim de atender a sua clientela, isto é, todos os moradores sanjoanenses. Paciência tinha pra dar
eemprestar,comodiziamseguidamenteaquelesquecom otioOlívioserelacionavam.Dentreosseusfreguesesse
encontrava o senhor Juvêncio Paula. Ele, já ultrapassando os oitenta anos, se constituía pessoa muito importante
do lugar. Poder-se-ia dizer rico, ou melhor, muito rico. Proprietário de muitas terras, homem de bem, pecuarista e
agricultor, era uma espécie de figura patriarcal, com muitos filhos e muitos netos (até bisnetos) e residia no Sitio
Lima, distante seis quilômetros da sede distrital.Apenas uma vez por mês ia a São João cortar o cabelo. Bem
trajado, montando um belíssimo cavalo branco, com os arreios impecavelmente colocados, bridão reluzente, sela
deabalargaecourofiníssimo,sentava-seconfortavelmente,poisafizera acolchoadacomcaronaecoxim.Espetáculo
realmenteinesquecível!,pareciaumpríncipe,queaoinvésdecoroatinhaàcabeçaumchapéudemassaRamenzoni
o qual muito bem lhe assentava. Com uma certa dificuldade se apeava do imponente animal, porém não faltavam
pessoas educadas e prestimosas que o auxiliavam na descida. Depois de se aprumar e de se bem compor nas peças
da indumentária (calça, paletó, gravata borboleta em camisa imaculadamente branca com colarinho duro),
cumprimentavaospresentes.Faziaquestãodeaguardarsuavez,emboratodososqueseencontravamnabarbearia,
como sinal de evidente respeito, fizesse empenho, por deixá-lo passar a frente. Cerimoniosamente saudava o seu
barbeiro o que, para o tio Olívio, representava algo muito gratificante. Seu Juvêncio era, por assim dizer, um
excelente“papo”.Numatarde,aodesapeardocavalo,comentouhilariamente:emvozaltaaosqueocircundavam:
“Quero saber com quem eu vou cortar o cabelo, quando Olívio morrer”. Ninguém, obviamente, riu de forma
desrespeitosa, diante da conjectura d’aquele homem que tinha, seguramente, o dobro da idade do seu barbeiro.
José Maria Chaves
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BREVE HISTÓRIA DE UMA VIDA DIGNIFICANTE:
Dª. CLEOMAR CHAVES
Dona Cleomar chegou à São João do Jaguaribe mal havia completado 18 anos. Filha de Simonides das
Chagas e Leonor Maia das Chagas, era a 2ª de 06 (seis) filhos do casal. Dona Leonor, com a viagem do seu marido
para os seringais da Amazônia, lutou com muita dificuldade para criar e educar seus filhos, todos menores e,
inclusive,comamaisnovaaindaengatinhando.Mas,DonaLeonor,mulherdemuitafibra,coragemeamoraDeus,
filha do CoronelAntônio Joaquim Ferreira Maia (hoje, nome de uma das principais ruas de Limoeiro), escondeu
dosseuspaisadificuldadequepassava.Assimqueseusfilhosatingiamaidadedeobtençãodosprópriosrecursos,
se viam obrigados a deixar o convívio familiar e partiam em busca de vitórias em outras plagas. Foi, dest’arte que
Cleomar Maia das Chagas, com 18 anos, aportou no Distrito de São João de Jaguaribe, a fim de assumir uma
escolaprimáriadoacanhadovilarejodeentão.Emalichegando,porbeneplácitodaParóquiadeLimoeiro,mesmo
porque Dona Leonor era a zeladora da Matriz do município, ficou residindo, sozinha, na casa paroquial, pois
somente, um domingo por mês, se deslocava um padre da sede paroquial (no caso, o depois elevado a Monsenhor,
Otávio Santiago) ao Distrito, para a celebração da Santa Missa.
Emsendoassim,aprofessorinhaCleomar,umavezporsemana,seobrigavairaoaçougueparaacompra
de carne. Exercendo o oficio de talhador de carne, ali estava o rapaz pelo qual Cleomar logo se afeiçoou e, com
pouco mais de um ano, exatamente em janeiro de 1937, se casou. Milton Chaves, o seu príncipe encantado, ficara
órfão de pai e mãe aos 09 (nove) anos, e, por via de conseqüência, a pouca instrução recebida carecia ser
complementada. Sua esposa, além de fiel companheira, passava a ser também, sua professora. Belo exemplo de
união que permaneceu por mais de sessenta anos.AProfessora Cleomar, agora dona Cleomar Chaves, fez da sala
devisitasdasuacasaasededaEscolaElementarSãoJoãodoJaguaribe.Mesmogestante,trabalhavaoexpediente
da manhã no cuidado do ensino primário de seus alunos, e, a tarde, se transformava em habilidosa confeiteira, se
especializandoembolosLuizFelipeeSouzaLeão,paraatendimentodeumaclientelajápreviamenteacertada.Em
outubro d’aquele mesmo ano (1937) nascia o seu primeiro filho, que depois de 70 anos, aqui e agora se apresenta
para relatar-lhes parte de sua vida dignificante.
José Maria Chaves
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54
José Medeiros
Médico
Maceió - AL
AS FOGUEIRAS AINDA ARDEM
Muitascomemoraçõesemtornodafogueira,alegria,muitacachaçaeoutraságuasmaisoumenosardentes;
de repente, num ímpeto irresistível, ela – uma bela jovem – jogou na fogueira pistolões, busca-pés e bombas que
trazianasmãos.Labaredasgigantescassurgiramdafogueiraeatingiramseurosto,braçosetórax.Doreslancinantes,
gritos agudos. Foi levada às pressas ao Hospital de Pronto Socorro com graves queimaduras; sua vida corria
perigo.
Fuiprocuradopelafamíliadapaciente,poiselahaviasidominhaclienteemtempospassados.Insistiaemver-
me. Impressionei-me com o aspecto das lesões.Afamília desejava saber se era necessária sua transferência para
outrohospital.Desaconselheiaremoção;tudooquesepodiafazerestavasendofeito.Lembrei-medesuavaidade
e beleza. Formara-se em Psicologia, mas não exercia a profissão; tornou-se gerente de uma grande empresa. O
consumoexcessivodebebidasalcoólicasvinhaalterandoseucomportamento.Agora,noleitodohospital,culpava-
se pelo acidente provocado, preocupada com as conseqüências de seu gesto de irresponsável arrebatamento.
HISTÓRIAS NATALINAS
ÀsvésperasdoNatal,minhasnetaspré-adolescentespediram-mequelhescontasseumahistória,dasqueeu
narrava quando eram crianças. Escolhi uma lenda sobre a estrela que iluminou os caminhos dos Reis Magos à
cidade de Belém. Já faz mais de 30 anos, que fui a Israel. Lembro-me, quando eu e os companheiros de viagem
voltávamos de uma visita à Nazaré, onde viveu Jesus. Nossa próxima etapa era Belém, a fim de visitar a igreja da
Natividade, construída por cima da manjedoura, numa gruta-estábulo, em que segundo a tradição, nasceu o
“Salvador”.Comoanoitevinhacaindo,resolvemospernoitaremBelém.
Após o jantar, o guia nos levou a um campo próximo, sem iluminação, para que observássemos o estranho
brilho das estrelas (baixas e luzentes), que mais pareciam cometas. Pediu-nos que tirássemos os sapatos para pisar
o solo sagrado, onde, possivelmente, haviam transitado José, Maria e o próprio Jesus, quando adulto. Estávamos
envolvidos numa aura de estranha emoção.
Lá,ouvimosaseguintelenda:“OsReisMagosvinhamdelongeebuscavamomenino-Deus,quesegundoas
profecias, deveria nascer em Belém. Os Reis, após a partida de suas longínquas terras, foram sempre guiados por
umaestrela”.
Num fim de tarde, enquanto aguardavam o aparecimento da estrela, eles discutiam a origem dela. Será que
viera da nebulosa como as outras? Um dos súditos relatou que até cegos acompanhavam a estrela. Cegos?
Exclamaram os soberanos! Quiseram conhecer um desses cegos.Ao chegar, perguntou-lhe o rei Baltazar o que
sabia a respeito da estrela. Ele riu e respondeu: “é um astro em missão divina; é a estrela-guia de que falam as
escrituras”.
Em seguida, o rei Gaspar tomou a palavra e disse: “não compreendo como segues a estrela se tu não a vês;
diz-me o nome dela e darás uma dura lição aos meus astrônomos”. O cego levantou os olhos embaçados para o
céuerespondeu,transfigurado:“eunãoavejo,Senhor,massinto-a,noíntimodeminhaalma”.–Qualonomedela?
O nome dessa estrela é fé; ela vai guiando todos nós à presença do menino Jesus.
Comoresposta,umaestrelaluminosasurgiunocéuirradiandoumaluzmaisdocequealuzdoluar.Acaravana
reiniciouacaminhada...
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55
José Medeiros
Dúvidas assaltavam seu espírito. Seria esse o seu destino? Estaria escrito que esse acidente faria parte da
história de sua vida? Os conselhos da família tinham sido em vão. Embriagara-se no prazer de viver em toda a
plenitude, sem limites; largara deveres religiosos e familiares. Julgava-se elegante, saudável e bem remunerada; o
resto pouco lhe importava. Naquele momento, estava acometida por um estranho medo, medo e remorso. Quase
destruírasuavidanumatoinconseqüente.Haviaestadocegapeloorgulho,imersanumperíodonoqualpredominara
umafogueiradevaidades.
Procurei acalmá-la. Perguntei onde estavam a coragem que sempre demonstrara, o poder de reação, a
vontade de vencer obstáculos e transtornos da existência. O que lhe acontecera poderia servir de incentivo para
recomeço de uma nova vida.Afirmei que há sempre um momento de verdade na trajetória de cada um de nós. Ela
me respondeu que sentia a alma esvair-se do corpo. Perdera a vontade de viver.
Foibemlongooperíododesuarecuperação.Depoisdaaltadohospitalconseguiu,naempresa,transferência
para Recife. Perdi-a de vista.Vez por outra, seus familiares davam-me notícias dela. Estava bem, fizera plásticas e
tratamentos especializados. Na força espiritual, encontrara meios de vencer os sofrimentos.
Anossepassaram.Reencontro-aequasenãoareconheço.Estavasorridente,autoconfianteevestidanofino
damoda.Cicatrizes,entretanto,eramvisíveis.Explicou-me,quealémdoemprego,dedicava-seaumaobrasocial:
cuidavadepessoasqueapresentavamextensascicatrizesdequeimadurasedejovensqueseperdiamnoalcoolismo
precoce, nas drogas e na violência.
Estavafeliz.Fizeradesuavidaumatodecompromissocompessoassofridas,aquemjáfaltavamesperanças
de futuro. Enfim, tentava apagar fogueiras que ainda ardiam em corpos e almas de seus semelhantes.
LEMBRANÇAS DA JUVENTUDE
“Quando partimos no vigor dos anos, / Da vida pela estrada florescente, / As esperanças vão conosco à
frente, / Vão ficando atrás os desenganos!.../ Eu e o Rui, meu irmão, recitávamos esses versos do PadreAntonio
Thomaz, na nossa adolescência e na juventude. Esperanças e bom astral eram a tônica de nossos entusiasmos
juvenis. Se a juventude não é apenas uma fase de vida, e sim, um estado de espírito tangido pelo sabor da aventura
e da vontade de vencer, nós estávamos certos quando cultivávamos expectativas positivas de futuro.
Na época, estudante de medicina, eu estagiava todos os anos em clínicas do Rio de Janeiro.Apar da ânsia
de obter novos conhecimentos, havia um outro motivo: meu irmão estudava na Faculdade Nacional de Direito da
Universidade do Brasil e, juntos, participávamos de movimentos estudantis. Ele morava na Casa do Estudante de
Direitoehaviasempreumavagaparaoirmãorecém-chegadodaprovíncia.Alimentaçãofarta,gratuidadegarantida
no bandejão da Faculdade.
Dinheiro curto: as despesas eram um corpo grande numa roupa pequena dos ganhos recebidos. Com a
alimentação da semana garantida, o problema era o fim-de-semana, às próprias custas.Aos sábados, macarronada
suculenta e barata, na “Spaguetolândia”; aos domingos, um cozido na quitanda da esquina.
Eulembravasempreaomeuirmãoquevínhamosdeumatradiçãocaseira:comergalinhaaomolho-pardo,ou
galinha guisada, todos os domingos! Por que não procurar uma panelada dessas? Encontramos esse prato num
boteco oriental, na boca do túnel do Leme. Comida baratinha, valia a pena.
Na trajetória do tempo os anos passam rápidos e escorregadios. Passados uns tantos verões, desde essa
fase de vida, recebo de meu irmão um recorte de jornal em que o articulista fala de uma “galinha tite”! “Tite”? O
texto dizia: “O senhor Salun, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira popular do
bairro. O refugo é vendido a preço de banana. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, se machucam na
viagem e alguns chegam à feira morre-não-morre. O senhor Salun, sabendo disso, vai logo perguntando pros
feirantes:Tem galinha ‘tite’? Tem galinha ‘tite’? E assim compra tudo o que é de galinha ‘triste’ que encontra na
feira”. (Triste, era o que ele queria dizer!)
Seria o mesmo restaurante? Pensando nas domingueiras do passado essa história poderia embrulhar-me o
estômago. Todavia, as lembranças da juventude são sagradas e só me trazem alegrias.
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56
José Rodrigues Louzã
Médico ginecologista
São Paulo - SP
CINQUENTA ANOS DE FORMATURA
O carteiro trouxe a correspondência
para comemorar sou convidado.
Releiocomsurpresaeinsistência
já há cinqüenta anos estou formado.
Volto no tempo, relembro a faculdade.
Surpresas e sustos na anatomia.
Ávidos para enfrentar a realidade
jovensdesafiamosacirurgia.
Pronto socorro, que correria, plantões
trazendo-nos enormes emoções
emtantaseinfindasmadrugadas.
Formadosfomosnosrealizando
dedo em riste a vida passou, eis quando
somos chamados às festas douradas.
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José Warmuth Teixeira
Médico
Tubarão - SC
A CRIAÇÃO
...E Deus Criou o Homem
Há muitos milênios atrás, o Criador deparou-se com um homogêneo monte de barro e então resolveu criar o
homem.Começou moldando os pés e resolveu enfeitá-los colocando ali cinco dedos.
Não imaginou, no entanto que a sua criatura viria a usar calçados, com a conseqüente formação do chulé.
Nas pernas, colocou uma falsa barriga, sem vísceras. Os joelhos, por serem uma das “dobradiças” mais
importantes, foram moldados com todo o capricho. Ele não imaginou que, no futuro, o homem iria jogar futebol e
acabarlesandomeniscoseligamentos.
As coxas foram engrossadas para poder sustentar o peso do tronco, mas, como o que já havia sido feito
ameaçava desabar, colocou um toco de barro já meio duro na raiz das coxas, mantendo a estrutura com uma das
mãos enquanto trabalhava com a outra.
Uma vez firme o barro, Ele gostou daquele pino quebrando a monotonia da obra e resolveu deixa-lo ali.
Depois, aquilo entortou um pouco para baixo, pela força da gravidade.
Tomado por um impulso um tanto cubista, acrescentou duas pequenas bolas de cada lado.
Lá atrás, para quebrar a retitude, produziu dois artísticos abaulamentos. Não havia orifício, pois Ele não
pensouqueAdãoiriacomeramaçãequeelateriaquesairporalgumlugar. EcomosegundoLavoisier, nanatureza
nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, Ele teve que fazer o buraco posteriormente
Ao contrário do que muitos pintores, reproduzindo o abdome deAdão, nele colocaram umbigo, é claro
que,pormotivosóbvios,elenãotinhacicatrizumbilical.
No tórax, de cada lado, colocou dois mamilos que deixou sem mamas ao lembrar-se de que o homem
nuncaviriaaaleitar.Nuncaimaginouque,naposteridade,algunshomensiriamcolocarali,mamasartificiais.
No dorso, adicionou duas grandes asas, mas achou que iriam ficar bregas e arrancou-as. Ficaram apenas
asas rudimentares: as nossas espáduas. O pescoço seria cilíndrico e bem mais comprido, mas, ao receber o peso
da cabeça, achatou, ficando trapezoidal.
Então, o Criador se deu conta de que era necessário instalar uma central para comandar a sua criatura e
assim colocou-a dentro de um estojo, tomando o cuidado de criar terminais para seu relacionamento com o meio
exterior.Assim produziu os olhos, o nariz, a boca e os ouvidos.
Para completar a obra, modelou duas outras expansões, os membros superiores onde, num momento de
pouca inspiração, colocou os cotovelos. (Já viram como eles são feios?) Nas duas extremidades moldou as mãos,
também dotadas de terminais e que tinham apenas a função de pegar coisas.
Hoje elas podem acarinhar, empunhar uma arma, entregar um pão, surrupiar uma carteira, trazer crianças
para a luz, criar clones, desafiando o próprio Criador.
Não era de admirar que, após toda esta trabalheira, o Todo Poderoso tivesse tirado o sétimo dia para
descansar...
...E Deus Criou a Mulher
Como já descrevemos anteriormente, há muitos milênios atrás, o Criador criou o homem. Observando a
sua criatura, notou que ele andava meio depressivo, cabisbaixo e meditabundo.
Na sua onisciência, concluiu que aAdão faltava uma companhia e assim decidiu cria-la para alegrar a sua
vida.Mas,nãoquerendoternovamenteatrabalheiraquelhedariamoldaroutracriaturanobarro,optouporretirar,
deAdão, uma costela e dela fazer o outro ser.
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58
José Warmuth Teixeira
Sendoonipotente,transformou-senoprimeiroanestesistadequesetemnotícia,aplicandoumabelaanestesia
na criatura, realizando então uma costectomia (retirada de uma costela).
EraosuficienteparaqueEle,numpassedemágica,atransformasseemoutroser.Noentanto,paraagradar
aAdão, resolveu embelezar a nova criatura.
Os joelhos, tornou-os mais arredondados, as coxas mais bem torneadas. No lugar daquele penduricalho
com acessórios, por pura preguiça, produziu uma fenda muito bem escondida. Lá atrás, repetiu aquelas duas
protuberâncias, agora mais proeminentes, roliças e delicadas. Na silhueta do abdome, o fez mais cinturado. Ficou
maisestético.
Ao tórax, acrescentou mais duas protuberâncias, que viriam a ser um dos deslumbramentos para oAdão.
Projetandoaboca,idealizoulábiosmaisgrossosparadarmaisgraciosidadeasuanovacriação.EassimDeuscriou
a mulher. E deu no que deu!
O TEMPO PERDIDO
“Se Deus me presenteasse com mais
um pedaço de vida, eu dormiria pouco,
sonharia mais porque entendo que
por cada minuto em que fechamos os
olhos, perdemos sessenta segundos
de luz”. G.G.M.
Gabriel Garcia Márquez é um conhecido escritor Colombiano, Premio Nobel de Literatura, autor de Cem
Anos de Solidão, Memória de Minhas Putas Tristes e Amor em Tempo do Cólera, entre muitas outras obras
literárias..Acometido de um câncer, retirou-se da vida pública e deixou à posteridade uma mensagem em que
transparece,entreoutrospensamentos, oseuarrependimentopelomododecomoviveuavidadaqualsedespede.
Em outras palavras, percebe-se a aflição daquele imortal por ter estado dormindo durante um terço de sua
existência, como se tal fato lhe tivesse tirado um tempo valioso para aproveitar a vida, para criar, para escrever,
para viajar, para conhecer pessoas interessantes, para os prazeres da mesa, para o prazer do sexo.
Estamensagemnosremeteaumareflexãosobreonossoprópriocomportamento:Entregar-nosaosbraços
de Morfeu é uma maneira de viver? Ou é um tempo perdido?
Teria o Criador nos feito assim temeroso de que exorbitássemos em nossas ações, de que pudesse Ele
perder o controle sobre o nosso exercício da vida às vezes direcionado para o mal como fazer a guerra, vivenciar
o ódio, a inveja, o desamor?
Seria o tempo em que dormimos um fator moderador para oportunizar as ações de outrem?
Sonhar é uma tentativa de estarmos acordados?
Ter pesadelo poderia ser um alerta para que nos cuidemos dos percalços da vida?
De qualquer maneira, Garcia Marques, que tanta coisa bonita escreveu, apesar do tempo perdido, para
seu consolo, poderá repetir suas próprias palavras: “não chorar porque já terminou. Sorrír porque aconteceu”...
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UMA REVOLTA INTESTINA
Domingo, duas da tarde.
AlguémdonodeumavantajadoabdomeeÍndicedeMassaCorporalquarentaedois,queindicaobesidade
mórbida, recolhe-se a cama para uma torinha, antes do futebol.
Lá dentro do ventre, os diversos órgãos começam a conversar:
“Hoje ele me fez de lata do lixo”, reclamou o estômago, tão recheado que quase não podia se mexer.“Haja
suco gástrico para tudo o que ele comeu!”
Mas vou produzir tanto que ele certamente sentirá azia.
Umpoucomaisabaixo,ofígadoelaboravaamil,maisemaisbileparadigerirtudooqueestavaparadescer
até o duodeno.
Irritadíssima,avesículabiliar,quequandotrabalhamaléchamadavesículapreguiçosa,reclamou:
Puxa vida. Nem temos direito ao descanso semanal garantido pela CLT!Vamos criar um sindicato?
“Espero que não tenha nenhum veneno para ser neutralizado”, retomou a palavra o fígado.
“Com toda a certeza haverá”, disse o pâncreas.
“Ele bebeu três cervejas duas caipirinhas.Te cuida da cirrose, amigo”.
Então foi a vez do baço: “Ô pâncreas, pode preparar bastante insulina porque ele comeu três fatias de torta
de chocolate com creme de chantilly como sobremesa”.
Ele não tem qualquer consideração para conosco”, manifestou-se o intestino delgado. “Mas eu me vingo:
vou fabricar um ‘monte’ de gases para produzir cólicas e desconforto nele.
O intestino grosso, louco da vida, comentou: “As sobras são sempre para mim e perigosíssimas para a
minha diverticulose.Ainda bem que o meu assistente MisterAnus já está de prontidão e mandará tudo embora,
porta a fora”.
O apêndice, preocupado, falou:
“Espero que ele não tenha comido nada contaminado para que eu não sofra uma infecção e precise ser
operado”.
E lá atrás, um tanto meio escondidos, os rins teceram seu comentário:
“Aindabemquetrabalhamosemequipe.Elevaiver:oulevantademeiaemmeiahoraparaurinaroufaznas
calças.
A próstata então gritou lá para cima:
“Vocêsqueremumaajudinha?”
E assim, com muito trabalho para todos, transcorreu aquela tarde dominical.
Felizmente para o apêndice, os micróbios ingeridos estavam alcoolizados e “passaram direto”.
José Warmuth Teixeira
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Josef Tock
Médico oftalmologista
São Paulo - SP
ALEGRIA, ALEGRIA
“Caminhando contra o vento / Sem lenço sem documento / No sol de quase dezembro / Eu vou”, cantava
CaetanoVelosonaquelefestivaldemúsicademinhajuventude.
Alinguagemnova,meiobossanova,meioirreverênciavisualepolítica,traduziu-senomaiode1968euniu
os jovens daquela época. Uma linguagem de revolução comportamental que iria se refletir no mundo globalizado,
universalecontextualváriosanosapós.
Alegria,Alegria fariam os atletas, artistas do Cirque de Soleil, piruetando no espaço artesanal.
Alegria!Alegria! – exclamaria o apresentador do espetáculo, para com sua força mágica, evocar o animus
da sua platéia.
Alegria, alegria – é o que procuramos, ao nos reunirmos social e culturalmente.
Alegria, alegria – dos enamorados correndo em meio ao arvoredo, e das crianças ao brincar de pega-
pega.
Alegria, alegria – o estado da alma, explodindo em flor.
Alegria,alegria–oviveremfelicidade,emqueaalmaeocorposeacalmam,emqualqueridade,enãotem
credo ou cor.
Alegria, alegria- está no amor, na paz, na amizade verdadeira.
Alegria,alegriadesentimosquandojuntosestamos,esseestadomágicoquenosenvolveenostornafelizes.
Alegria, alegria de estarmos compartilhando é na realidade nossa dupla alegria.
Alegria,alegrianosespalhoumaisfelicidadequeasmaioresriquezas.
Alegria,alegria–amaneirafelizdeolharmosomundo.
Alegria,Alegria – quem a semeou colherá a paz, domina, pois as palavras que adoçam – nos a alma.
O poeta ama a alegria e onde chegar e reparar a tristeza verá a triste alegria das pessoas e iniciará a invejar.
O mundo virtual vem eclipsando a alegria e o conceito de felicidade transformou em sobrevivência e os
homens ficaram tristes por não mais saberem da alegria e se ofenderam de serem alegres.
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ESSÊNCIAS
Quando no céu já não houver estrelas.
Quando no coração já não houver paixão.
Quando no mar já não houver peixes.
Quandonaprimaveranãovirmosflores.
Quandonajuventudenossentirmosvelhos.
Quando brotar água no deserto.
Quando o oceano secar.
Quando no verão só fizer frio.
Quando lembrarmos as belas quimeras.
Quando as fantasias se transformarem.
Quando nos sentimos do amor descrentes.
Quando a realidade nos abater.
Quando já não mais ouvirmos.
Quando já não mais virmos.
Quando já não mais sentirmos.
Quando tudo se acabar.
Tuaslágrimasencherãoosrios,
teu sorriso desabrochará as flores,
teus olhos farão brilhar as estrelas,
teu corpo aquecerá a Terra.
Só, só tua presença restará.
RECOMPOESIA
Se eu pudesse recompor
tudo que passei,
trilhariaosmesmoscaminhose
encontrariaasmesmasinterrogações.
A poesia dos vocabulos dispersos
ao caminho das pedras irregulares,
quesurgiramtransitivamente
e me fizeram pensar, pensar.
Aotraduziraqueleenigma,
bombardeio,migração,revolução
emummundomega
sensualidade despojado,nua,crua.
Recompor o amor qual vaso quebrado
em pequenos pedaços.
Quebra cabeça mágico,enovelado
emlinhadefinaseda.
Rede,labirinto,correntes
aonde começar aonde é o fim
doinicioouiniciodofimouo
onde é o começo.
Estounestatrilha,labirintoinvisível
do hoje, do ontem, do amanhã.
Aluzquebrilhanohorizonte
da estreita fenda é o caminho.
Josef Tock
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Josemar Otaviano de Alvarenga
Médico traumato-ortopedista
Belo Horizonte - MG
22 DE ABRIL
Hoje, acordei para comemorar 509 anos da descoberta de 22 de abril de 1500: da colonização, Reino
Unido, Império, Ditaduras, Repúblicas até ao Brasil atual. Contudo, nesse insólito ético moral sociopolítico,
econômico, religioso, intelectual, em que vivemos, concluo; pouco ou nada a se celebrar. Nossa história, por mal
compreendida, mal cultuada ou de rebuscos, a se prestimar o fato ou ao de se querer como um herói, é madrasta
conjuntural.
Acordo.Vejoonoticiárioeaceito,oqueresistiaemnãoaceitar:Somosumbarcomalgovernado,vagando
no proveito de um mar favorável, por três poderes em mãos nefastas:
O Executivo: Comandado por um iletrado que, como Hitler se vangloriava de ter conquistado a Europa e
nuncafrequentaraacademia.Essesenhorfanfarronanumpaísdedesperdícios,corrupçãoemisérias,perdoadívidas
de nações com o Brasil, empresta dinheiro ao FMI, dá calote no aposentado comum, impõe imposto de 40% do
PIB para desencanto da assistência médica, segurança pública, educação, malha viária, enfim, assistência social e
não tem plano alentador a um futuro de glória a esse povo servil.
OJudiciário:Comandadoporumabusado,defenestradordodireitoaacordaraltasmadrugadaseconceder
“habeas corpus” de favor, a bandido notório, banqueiro de varrer todo subsolo nacional, lotear suas riquezas em
mais contundência que a Vale do Rio Doce e a Petrobrás, juntas. Banqueiro de cantar antes, ao delegado do
inquérito:“Ésóosenhormelivrardaprimeirainstância,paraevitartrabalho.NoSTFeumelivro”.Ditoefeito, se
livrou. O banqueiro na esbórnea, com todos do primeiro escalão executivo, legislativo e judiciário sob seu jugo,
como demonstrou, por financiados. Então, passa incólume, pratica sonegação fiscal, lava dinheiro, vende para as
multinacionaisosubsolobrasileiroemcutelopróprioesemqualquersatisfaçãoaopaísouinterferênciadogoverno,
crime de lesa-a-pátria, e nada lhe acontece.
“Anação é a lei”. Em insulto, prende-se o delegado de investigar o banqueiro. Pune-se ao juiz de decretar,
porduasvezesem48horas,aprisãopreventivadofacínoraeseosolta,aopusilânime,emnomedessa“democracia”
que praticam e dos “direitos humanos” aplicáveis em benefício dos bandidos.Apopulação se encontra acuada nas
cidades governadas pelo poder paralelo do narcotráfico, banqueiros, colarinhos brancos, políticos corruptos e
impunes. Obra do presidente do mesmo STF, que, mal se desvencilhou do sinistro ministro, professor emérito de
direito, autor de compêndio à formação de nossos juristas, o trapincola maior em mercador de sentenças.
O Legislativo: O que esperar do legislativo? Senado e Câmara Federal, presididos por ex-presidentes de
conhecidas patranhas e negras recordações? Aguardem. Em pouco tempo!… Novas e antigas feridas estarão
abertas; a má índole trai o ladrão.
Por isso, o governo mais inoperante e corrupto que o país jamais teve, em nome da sagrada liberdade e da
uma farsa na prática da falsa democracia, se deteriora nos princípios básicos de qualquer sociedade: a ética.Vive-
se de mentiras, trapaças, calotes, escândalos. Fome Zero, enquanto se paga 30% de imposto no quilo de arroz, no
de feijão, numa lata de óleo. Poder paralelo de colarinho branco e presos tipo Marcola, dominam a nação. Guerra
Civil não declarada, Toque de Recolher nos grandes centros urbanos, de norte a sul, leste a oeste do país. Nem as
cidades do interior escapam. Polícias defasadas lutam contra marginais apoiados pelo poder.Acada 4 minutos
tomba um assinado, entre 15 e 30 anos, enquanto se deturpam os Direitos Humanos em defesa de bandidos e
pune-se ao abandonado cidadão comum, à própria sorte.
Qual partido político apresenta modelo, projeto ao desenvolvimento sustentável do Brasil? Nossas
universidades são jurássicas. Mal ensinam obsolescências. Não incentivam pesquisas, o censo crítico do aluno/
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cidadão. Forma o quê? Zumbis de intelectuais? Ou intelectuóides? Quando houve um Prêmio Nobel Brasileiro?
Qualoprojetodepesquisasustentávelaopaís?Malemalrepetimosexperimentosdegrandescentrosconfirmando
a exatidão das teses sem, contudo, permitir desenvolver projetos à nação.
AEmbraernascidadoInstitutodeTecnologiadaAeronáutica,oscomponentesdeseusaviõestêmmínimo
da inteligência brasileira.Tudo é importado tecnológico, vendido no grosso como produto brasileiro. Produto que
o presidente Lula desqualificou. Ele recusou a comprar da Embraer o “brinquedinho aéreo” ao seu deleite de
turista, na justificativa de “Política Internacional”. OAerolula é o símbolo do descrédito à competência da nação.
O Brasil Colônia explorado no estrativismo do Pau-Brasil mudou-se para o extrativismo da cana-de-
açúcar, do ouro, de pedras preciosas e do café. Estribava-se na mão escrava do índio ao jugo português, depois,
substituídopelonegro,daÁfrica.
E hoje? O quê mudou? O Brasil atual, república democrática de centro esquerda, decantada de pós-
revolução militar, vive da extração do minério de ferro, do agronegócio da soja, da carne e retomando o ciclo da
cana-de-açúcar. Pior é continuar explorando a mão-de-obra desqualificada, servil, do despreparado denominado
cidadãobrasileiro.OndeestáaInteligênciaBrasileira?
De outra parte, o que nós, o povo, exigimos dos nossos governantes? Obrigamos a eles na postura ética da
constituição?Não!…Somosomissos.Gostamosdeexibi-losousermosexibidosporeles,atiracolo,noretratinho,
na mídia, como amigos e influentes. Esquecemos em quem votamos. Não cobramos do nosso político. O país vira
essepandemônio,descompassoaosgritosdegolsouidolatriadejogadordefutebolouaosomdosambaedesfiles
de carnaval, enquanto a bandalha impera.
Será a colonização portuguesa, o português a nos fazer tanto mal assim? País do futuro!… Como? Se não
há planos nem projetos consistentes, se não há inteligência de sustentação tampouco conduta ética a referendar, a
educar a nossa juventude jogada à revelia nessa imundícia público/privada que virou a nação. Só nos impõem
embustes! Depois, diz-se que o Brasil melhorou; para a corrupção, narcotraficantes, seqüestradores, assassinos
públicos à sombra da impunidade e das autoridades públicas e de políticos descompromissados.
Hoje eu queria comemora. Gostaria de comemorar.Acordei para comemorar. Mas, fica a questão: depois
de509anos,comemoraroquê?Osprincípios,“modusopaerandi”,sãoosmesmosdadescobertaesemalternativas
àsvistas.
Queria algo que mudasse tão sórdidos propósitos mesquinhos.Algo de engrandecer a este país. Fazer
brilhar a esse povo a constituir verdadeira nação. Não esse aglomerado de tangidos por pseudo-heróis
inconseqüentes, a que se sequer denominar de nação sob o nome de Brasil. Só nos resta a fé: Deus que nos
abençoe e nos tire disso.
Josemar Alvarenga 22/04/09 às 5:15 h.
VÔO AO NADA OU ENTRE MORTOS, QUAL VALE MAIS?
Étristeperderentequerido.Pior,emacidente.Muitomais,emtragédia!…Quindimàmídia:viraIBOPEde
azucrinar em acicate horário, diário e mensal à dor. Desgraça maior; se o corpo desaparece. Caso apareça; está
mutilado?Aí a cabeça pira e, haja coração! Senti essa experiência; bebi desse fel, traguei essa angústia, ruminei o
desespero, vivi essa tragédia. Mas, ante ao status quod, convém salientar; morrer solidário em acidente de avião é
maisimportante.Omortovalemais! Melhor,seanaveeosdemaismortossãointernacionais.Favascontadas,vale
mais,mesmo!…CompareGolXLearJet,naAmazônia,TAMxCongonhas,sumiçodeUlyssesGuimarães.Todos
se arrastam ao “Habemus Pizza”. Com aAir France é diferente; nem se compara!… Jocoso com assunto sério?
Jamais.Vejamos:
Air France, vôo 447, Rio/Paris. Lastimáveis 228 mortes noAtlântico. Brasil, França, Espanha Estados
Unidos se mobilizaram. Logística aeronáutica, marinha: aviões, helicópteros, navios, barcaças, submarino
Josemar Otaviano Alvarenga
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Josemar Otaviano Alvarenga
convencionalemini-nucleardeprospecçãoabissal,ecossonares,GPSemaparatosdeguerra,tripulaçõesespeciais:
milhõesdedólaresaosinsepultos,aoesclarecertécnicoeàsindenizações.Muitatarefa,muitotempogastoemuito
mais,dinheiroenvolvidononegócio.
Ministro das ForçasArmadas dá palpite. É desmentido.Ao presidente só faltou seu costumeiro: “Eu não
sabia”. No resto, foi brilhante entrevista e não defendeu nem acusou a ninguém. Religiosos se desdobraram em
cultos.Civis,emminutosdesilêncio,desdearodadeporrinha,filadeloteria,deônibusatéaosestádiosdefutebol.
Amídia torra a paciência do mais paciente e interessado. Tudo é válido; resgate, homenagens, cultos, minutos de
silêncio,apurarepesquisarascausas,acharacaixa-preta,responsabilizar,corrigir,indenizar.Atoséticos,ciênciae
lei à cidadania. Civilizados solidários na dor e no desespero. Mas... e o outro lado da moeda?
Estatística da segurança pública ao obituário nacional por assassinatos. No Brasil, no dia do acidente do
Vôo 447, a perfazer cota de 50 mil óbitos/ano, foram assassinados 137 jovens entre 15 a 30 anos. Hoje, décimo
dia pós-acidente aéreo, 1370 óbitos ocorridos. Produto do desmando, do poder paralelo, da Guerra Civil não
declaradaemqueseencontraopaísenadasefazacoibir.Governoomissooupactuado?Nãoháoutrainterpretação.
Índices ao absurdo são facilmente alcançados no país e se mantêm, não incomodam às autoridades a ao povo
anestesiado; banalizou-se a vida.Amorte não é nada.
Não desrespeitando ao Senhor Presidente “Eu não sabia”. Longe disso! Mas, eu sei e todos nós sabemos
asprovidênciastomadascontraessaprevisível chacinaanualdanossamocidade.Tambémsabemos quantosminutos
de silêncio, quantos cultos, quantas homenagens e atitudes do povo e dos três poderes
Infelizmente, nadaéfeito.O Aerolulanavega sobreomardesangue,calmodasinsensibilidadese aosopro
dasmentiraseafagosdacorrupção, vagueiaaoremodocongressoenoequilíbrio,assólidasdecisõesdojudiciário e
aprovada popularidade.
Não que aquela essência tenha sido ou seja a ideal, mas, reações esquizóides, de paranóia calculada, os
comandos de governo pós-queda da revolução de 64 banalizaram a ética e daí, o civismo. É como se fora indigno
ao cidadão o país ou ambos não se merecessem.Avida, o indivíduo, a sociedade são meros acasos, eventuais no
contexto político social; fundamental no voto e a pagar impostos.
A constituinte de Ulysses Guimarães, de 1988, queda em defesa do preso político, hoje no papel, a
bandidagem institucionalizada. Pior que tudo é o povo e intelectuais aceitarem plácidos, perderam a dignidade, a
revolta.Vive-seoba,obaetudoénormal,compreensível,justificável,aceitosemcontrapartidanemexplicaçõesàs
necessidades de apurar, responsabilizar, cobrar, apresentar e trabalhar às soluções.Atudo se resolve, com futebol
e samba. Copa do mundo e carnaval.
Restam os sinais das tragédias.As provas mostram, quando se morre em acidente internacional, as mortes
valemmais.
Assassina a nossa juventude a tragédia do descompromisso da educação oficial, a falta de cidadania, o
desemprego,impostosdequase40%doPIB,jurosestratosféricos,corrupçãoefaltadereferênciaéticanoprimeiro
escalão do poder. Quando nossas crianças escapam desse morticínio premeditado, intelectual e de oportunidades,
não escapam dos impunes assassinatos frios a mãos armadas, crianças indefesas num país de políticos apátridas.
Chega de anomia. O Brasil precisa de seriedade, de homens conscientes, responsáveis, comprometidos e deve
estar em cada um de nós, nos nossos gestos e posturas do cotidiano.
Josemar Alvarenga 10/06/09
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DO CORONEL AOS CORONÉIS
OcoronelismopolíticoacabounoBrasil? Falodo CoroneldeBarranco,do ValedoSãoFrancisco.O chefe
de bando de jagunços. Bandidos de familiar tradição na foz,Arraial do Cabeço, hoje Sergipe. Então, Sertão da
Bahia, de ir da margem direita do Chico até a nascente e foz do Rio Doce, colonizado com mãos de ferro desde o
Segundo Império. Reforçado na república e agonizado em meados do séc. XX, o Coronel de Barranco, chefe de
aventureiros em covardes, constituía-se nos três poderes locais. De início, em apoio ao Império. Depois, chefe
políticodecurraleleitoralevotosdecabrestodarepública.Ocoroneldebatinaeraomaistemido.Sãopersonagens
dahistóriacolonial.
EssafiguradoBrasilColônia,pelasmãosdoatualgovernovoltaaocenáriopolítico, empleno séculoXXI.
Estrutura mesmos currais eleitorais aos votos de cabrestos, só que, em todo território nacional; extrapolou oVale
do Chico. Manipula medroso e cevado povo miserável, com Bolsa Família, bolsa isso e aquilo e a cidadania vale
nada, enquanto no país, nos poderes de regê-lo, a desfaçatez, corrupção e conluio de marginais, constituídos na
legalidade e com apoio do primeiro escalão do poder.
O Brasil é um novo México e vai em mesma ação por décadas, e enquanto lá predominou o PRI, aqui a
esquerda festiva do PT e base do governo, fazem do povo manipulado lacaio, de valer pelo voto e impostos que
paga, sem retorno nem cidadania.
O modelo gessa progressivo, sem arroubos e tácito, o povo inerme. Visa mantê-lo em mesmas mãos, na
tramóia pseudo-democrática em instância de ditadura branca, com o aprovo de pesquisas e votos dos de comer na
cuia. Costume dos Coronéis de Barranco, em país que não se moderniza.
Nisso, grassam comida e trocadinhos em disfarce legal sobre o manto da caridade, com apoio religioso.
Incutemignorânciaatravésdeprofessoreseescolasdespreparadas,moldamespíritossubmissosemmãosescravas
ao trabalho nos latifúndios; agro negócio, funcionalismo público corrupto, bancos e narcotráfico e se garante o
poder sob falsa idéia democrática, com votos de cabresto dos currais eleitorais, de manter alta popularidade do
presidente.
Fecha aobservaçãoafaladomaiordefensordo“CoronelSarney”,donodomiserávellatifúndioMaranhão,
palcodosmenoresíndicesdedesenvolvimentosocialehumano,comparáveisaNamíbia.Lá,atéoarédoCoronel
Sarney, de levar seu domínio às terras doAmapá. Coronel de enxertar nove familiares pelos fundilhos do senado,
como se fosse casa própria e repetir o clássico do Lula: “Eu não sabia”.
Nasferidasexpostasdacorrupçãoeladroagemnosenado,sangrandodesdeaprimeiraatéaatualpresidência
Sarney, Lula em bafo de “Sapo Barbudo”, como diria Brizzola, defende o Coronel do Maranhão: “Chega de
denuncismo.Aimprensa precisa se conter. Não se pode tripudiar sobre um nome como o de José Sarney, pois, ele
nãoéumhomemcomum“.
Sarney fora achacado pelo seu atual defensor, tachado de ladrão, corrupto, quadrilheiro, antes do Lula
presidente. Mas, está certo o chefe em ”Coronel Sapo Barbudo”. Nós, o povo, estamos errados.
Somosiguaisperantealei.Iguaisa ladrão,salafrário,quadrilheiro,traficante,corrupto;políticodomensalão,
sanguessuga, ministro do STF de vender sentença, a base do governo? Embusteiros quaisquer, independente da
natureza, sexo, estado civil, crença, partido ou passado político, esses são iguais a nós escorchados pela
vagabundagemeimpunidadepública?
Na democracia do Lula existem os mais iguais; os Coronéis de Barranco de vingar por este Brasil afora,
obra desse magnífico governo ao retrocesso na história. São semeados a partit do canteiro de impunidades desta
baderna moral chamada Brasília, a capital, e do comando da nação, o antro da corrupção nacional.
A Derrama, motivo da Inconfidência Mineira, foi de 20% de impostos, o quinto da produção. Hoje o
povopaga quase40%doPIB, estáabandonadoquantoaassistênciabásicaprevistanaconstituinte; Saúde, Escola,
Segurança Pública. Grassa a corrupção e a rapinagem do erário e “Eu não sabia, fui traído”.
Para o atual governo, tirando a retórica populista, a nação e o povo que se dane... Tudo sempre acaba
em pizza e depois, tem carnaval e futebol.
Falando nisso, a Copa do Mundo vem aí!...
Josemar Otaviano Alvarenga
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Josyanne Rita de Arruda Franco
Médica pediatra
Jundiaí - SP
ELE E ELA
Elesseconheciammuitonospoemasquetrocavamregularmente.
Nos poemas.
Conheciam a voz um do outro, falavam-se ao telefone,
tornaram-se vorazes e insones.
Era tudo o que tinham, nem sabiam se haveria mais do que conseguiram.
Ele passara a vida cuidando de adultos desesperadamente transtornados.
Ela cuidava dos infantes desamparadamente adoentados.
A escuta dele atentava aos sinais da mente e da emoção.
A escuta dela se emocionava com o pequeno coração.
Ele, mais passional e domável...a vida o ensinara.
Ela, mais pragmática e selvagem...a morte a despertara.
Ela tecia sonhos com brocados de fantasia.
Eleseinquietavaemsuavirilidadeeenergia.
Centenasdequilômetrososmantinhamdistantes,
mas não atenuavam o desejo de se encontrarem.
Ele disse a ela que sabia esperar.
Ela perguntava o que fariam ao despertar.
Enquantoisso,escreviampoesias,
deleitavam-seemdevaneios
e alucinações à luz do dia...
Tudo aconteceu porque ela deixou com ele
aquele olhar que ele entendeu.
Ela, sentada numa banqueta alta, balançava as pernas
displicentemente,numavontadequenãoconcluiu.
Sagaz,felina,estremeceuquandooviu.
Ele passou, não sorriu, o olhar até desviou, mudou
em disfarçada trajetória, porém a viu bem mais
do que se a tivesse encarado durante horas.
No entanto, ele seguiu noite afora.
O olhar dela transpôs a barreira invisível,
perdeu-se no abismo do sentir, quase inverossímel,
precipitou-se em queda livre e nunca mais chegou ao fim.
Aindacaie,incrivelmente,elasorri.
Ele deixou com ela aquele olhar que pede e nega,
tão parecida com o dela.
Olhar de leão e gazela...
Foi isso que os uniu.
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SONHAREI CONTIGO
Sonhareicontigoestanoite.
Sonharei com o que não existe,
com as tantas horas que te esperei.
Sonharei teu sonho e teu canto na aurora.
Deixareiqueabrisainventeumagora,
esquecida das trevas deixadas lá fora.
Sonharei,sonhareioutravez,
para não perder o hábito de sonhar contigo.
Sonhareiqueaindaésmeuamigo,
sonharei que vives e vivo é o teu riso,
que nunca partiste para aquele abismo
que somente um dia eu alcançarei.
Sonharei que domes o teu sono eterno
na paz desse meu amor coberto de inverno,
imerso nas nuvens de outono sem lei.
Sonharei contigo em toda estação.
Depois da primavera, colhendo emoção,
será verão no sonho que um dia eu sonhei...
O BAILE PERFUMADO
Ela sorriu, satisfeita com a imagem que via através do espelho um tanto desbotado.Finalmente sairia outra
vez e...para dançar!, o que adorava e há tempos não fazia.
Exultava de alegria e excitação com a oportunidade que aguardava há três semanas e pouco dormira sem
sonhar com o tão esperado baile.
Deixouqueaslembrançasaconduzissemaopassadoenquantocoloriaoslábioscomumvermelhovibrante
que invariavelmente está na moda para quem sai à noite.
Sempre se sentira feliz rodopiando pelo salão de festa, inebriada pelo som da música e pelo perfume da
madrugada.Acreditava, durante aquelas horas, que o mundo era um palco só para ela e as luzes da grande sala
holofotes que iluminavam os graciosos e feminis movimentos da dança nos braços de seu exímio
acompanhante...adorava o burburinho e os galanteios.
Estava alegre...voltaria a dançar depois de muito tempo. Ensaiou alguns passos, feliz.
Anoiteprometiamomentosdeenvolventedistraçãoedivertimento.Apoesiaestavadevoltaàsuavida!No
som, na arte, na dança, na expectativa.
Borrifou,suavemente,umpoucodoseumelhorperfume-todasasmulherestem-noscabeloscuidadosamente
presos e enfeitados com um pente cravejado de pedrinhas brilhantes. Arrumava, com os dedos, uma teimosa
mechaqueinsistianãosossegar.
Josyanne Rita de Arruda Franco
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No pescoço exibia pérolas que davam duas voltas como um afago no colo suave.
Olhava-se,satisfeitacomoresultado,detodososângulospossíveisnoespelho,parasaberaimpressãoque
causaria com a aparência que em si mesma apreciava.
O barulho de vozes tagarelando na sala resgatou-a dos pensamentos.
Sabia que estavam aguardando que ela aparecesse.Comentariam, decerto, sua elegãncia e bom
gosto.Receberia os elogios com suavidade e ensaiada modéstia, mas profunda euforia.Agradeceria.
Um pensamento lhe ocorreu.E ele...o que pensará ao vê-la? Gostará da cor do discreto vestido? Ficará
satisfeitocomsuacompanhia?Seriaeleumbomdançarino?
Saberia tudo isso depois.
Teveumaideia:usariaoanelqueganhouaosquinzeanos.Semprelhedeusorteeassimcontinuariasendo.Não
poderia deixar de lado o antigo amigo.
E então, com o anel no dedo e cheia de confiança, estava pronta.
Ajeitou a saia do vestido e se dirigiu à sala com o coração aos pulos; as pernas trôpegas se equilibravam
nos altos saltos. Emoções banhavam sua alma e aqueciam seu corpo.
Ao adentrar o outro ambiente, todos se levantaram, mudos e admirados.
Ela estava linda, iluminada pela radiante alegria que só se vê num olhar juvenil. Mas tinha, na distinção, o
porte confiante e seguro de quem contabiliza algumas dezenas de anos.
Ele se aproximou dela e beijou a mão que ostentava o anel de menina. Olhando-a nos olhos, presenteou-a
com um botão de rosa, vermelho como a paixão que já desabrochava.
Ela olhou meio tímida para os demais, que continuavam calados ante aquela cena.
Eleshaviamconcedidoapermissãoparaqueelasaíssecomaquelecavalheiro;satisfeitoscomsuafelicidade,
admiravam a mulher que para eles surgira radiante de emoção e graciosidade.
Elaestavarealmentemuitofeliz.
Apóstantasnoitesjávividas,aqueleera,outravez,oseuprimeirobaile.Umbaileiniciadocomaternurado
sonho e a beleza da rosa, embriagado pelo perfume dos anelados cabelos e acalentado pela serenidade da fresca
brisadaqueleiníciodeprimavera.
Seriaumanoiteinesquecível.
Após longo tempo de viuvez, saiu de casa como uma rainha, incentivada pelos filhos e tendo, como
companhia,umgentileatenciosocavalheiro.
Comoela,eletambémtinhaoscabelosprateadospelavida,mastrazia,dentrodoaquecidopeito,aesperança
que não cala e não desiste, no vigor de um coração que não envelhece.
Josyanne Rita de Arruda Franco
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Ligia Terezinha Pezutto
Jornalista
São Paulo - SP
MINHA LANCHEIRA, SAUDOSA COMPANHEIRA
Quem não se lembra de sua lancheira, na época dos primeiros anos escolares?
Símbolo de alegria, com misto de responsabilidade, a minha era cor-de- rosa, de plástico, na época em que
esse material foi inventado.Tinha a garrafinha branca, também com tampa cor-de-rosa para combinar.
Lembro-me de que minha mãe, ora colocava suco de laranja, ora guaraná, ou leite achocolatado e havia
festa,deminhaparte,quandoelapreparavagroselha.Atampaserviadecopoque,àsvezeseracompartilhadocom
meusamigos.
Tambémoslanchesficaramemminhamemória:sanduíchedequeijo,depresunto,daperfumadamortadela
oudosalaminho.Ouainda,bolachadeMaizenacomgoiabada.Umadelícia!Oamordeminhamãeerasentidopor
mim, em cada recreio, em cada bombom colocado junto ao lanche, em cada Bis. E eles eram embrulhados,
lembro-me, às vezes, no guardanapo de pano xadrez, azul e branco, que guardo até hoje, ou também no do mesmo
tecido, só que vermelho e branco. E tinha, ainda, o verde e branco, xadrez também.
A hora da merenda era sempre mágica, pois um dia sentávamos todos ao redor da mesa retangular, de
cimento, que havia na escola, mesa única, com bancos dos dois lados.Abríamos os lanches e partilhávamos uns
comosoutros.Quandoointervaloeranoparquinho,quemaravilha!Haviabrinquedosdeváriostiposeaslancheiras
ficavam penduradas em uma árvore, ao centro. Entre o corre-corre e o pega-pega, uma pausa para lanchar. E o
amordeminhamãe,misturadocomapoesiadeumainfânciabemvivida,regadapelocarinhodeamigoseparentes
eraobservadopelaprofessoraquenosacompanhava,perguntandooquehavíamostrazidoparaolancheeensinando-
nos a repartir com aqueles que demonstravam vontade de experimentá-lo.
Hoje, percebo que o material das lancheiras mudou.As garrafas são térmicas, o zíper tornou-se frequente.
Estão mais encorpadas, muitas feitas com isopor, mas penso que, desde as mais simples como era a minha, até as
maissofisticadas,asdehoje,todaselasguardamsonhos,significadosesaudades.Alémdoslanches,levamdentro
delaslembrançasquesãoúnicasparacadaumdenós.Sinônimodealegresbrincadeiras,inocentessentimentos,da
primeira professora, das nascentes amizades.Algumas delas, orgulho-me em dizer, conservo até hoje. E por que
nãopensarqueaquelalancheirafoiaferramentaquepossibilitouoencontro?Hoje,nãopartilhomaismeubiscoito
comgoiabada,masmeussonhos,meusmomentosfelizese,algumasvezes,difíceis.E,domesmomodoemquenão
recebo um gole de suco de morango, mas carinho e afeição, vejo o quanto um simples e útil objeto foi parte
importanteecontinuasendosignificante emminhavida.
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MEU BEM-QUERER
(Homenagem ao meu irmão,
José Carlos Pezzuto - in memoriam)
No ocaso tristonho
de tua prece contida,
vejo planos e sonhos
na estreita corrida.
Passo lento de amores,
na estrada florida
doslongosanosvividos
comalegriasentida.
Vejo-tenainfância
e em nossa adolescência,
juntosnajuventude,
quando trocávamos risos.
Em regalo de festa,
fazíamostodos:
união e afeto,
emconstanteeuforia.
Mas quis a estranha criatura,
para sempre, algoz,
terrívelesorrateira,
capturar-te, feroz.
TodaviaJesus,
com Seu amor sacrossanto,
transformounossopranto,
nacruz,emmaisvida.
E o jardim que ora miras
não se faz de pena inaudita,
masqualjovemanimas
desejo pleno que fica.
Teus amores e sonhos,
projetosmelhores,
bem-quereres e cantos
nesta vida acolhes.
Pois, qual mãe bendita,
transforma em seu ser
toda possível desdita
nessaúnicaviainfinita.
SAUDADE
Quem dera
olharohorizonte,
perceber a chuva
e sentir a brisa
rolar suave nas
ondas do teu doce
respirar.
Sorver em goles
sem conta o
encanto do teu
sorrir, a mostrar
teu coração de
milestrelasrefletidas
em brilhos de paz.
Numeternoviver,
sonhos se apagam
emcertezaspossíveis
de conquistar e crer.
É o grito da vida
que pulsa no ser,
destruindobarreiras,
querendo nascer.
Nesse caminhar perene,
onde caem as folhas e
brotam canções,
bate mais forte e
intensa a saudade
que me faz adormecer
no sonho de te fazer contente.
Pensar que este é,
agora, o meu
inteiropresente.
Ligia Terezinha Pezzuto
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Luiz Jorge Ferreira
Médico
Osasco - SP
ELE
Anselmo sentiu os olhos pequenos e uma visão embaraçada.
Por amor ao lugar, em que estava agora deitado, na aula de Geografia, posicionara, as montanhas do
Himalaia, que adorava por terem neve. No lago do Pacoval.
Recebeu zero.Mas nem ligou. Adorava pescar ali onde agora estava deitado no escuro, tremendo de
frio.Nestaultimapescaria,sentiufebrealta,eumfrioquepareciavirdogelo,dasmontanhas.Sentiuqueperdiaum
liquido multicolorido, que de súbito, escorreu para o meio de um pano puído que tinha trazido para se enxugar.
Uma desinteria, cheia de restos de restos.
Como se a vida fosse liquida.Assim adormeceu próximo ao lago.
De um jeito estranho que pareceu ser para sempre.
Não conseguia retornar para sua casa. Tudo isso o maltratando, e ainda demorando muito a
amanhecer.Restava torcer para ser encontrado por alguém.
Debaixo de si, um cheiro de coisa podre parecia sair do chão.
Percebeu que derretia em disenteria.Percebeu que talvez nem pudesse aguardar a chegada do dia.Que por
sinal ele acreditava vinha lá de longe, meio sentado de lado, na garupa da bicicleta do Ipojucam.E esse demorava
sódebirra.Eseelefosseenumerarpelafrentedequantascasasiampassar,antesdechegar,alinofimdoLaguinho.
Era um monte só.
Ficou quieto lembrando feliz, o dia em que comprara sua bicicleta usada, e de como passava horas felizes
pedalandoprincipalmentenoDomingoanoite,diadefolga.
À noite de Domingo era para dedicar-se a Mundica, Generosa, Bibiana, Bia.
Dediatinhamuitomolequeatrevidosaindodamissa.
E berrando nos seus ouvidos. Deixa-me dar uma volta. Quero dar uma volta. Quero ir à garupa.Vão pedir
para o Padre.Gritava!Depois pensava.
-Não o Padre não.
Missa e padre são sagrados para quem tem medo de não ir para o céu.
O padre era amigo de Deus e tinha suas rezas para rezar, para polir as botinas, suas simpatias para
embranquecer a batina e sua “manha” para viver sem trabalhar duro.
Não era como ele que para se sustentar empurrava carrinho-de-mão, cheio de Mandioca, e pimenta de
cheiro para vender, pelas ruas do bairro.E morava só, consigo.
O padre rezava como trabalho.Rezava para todo mundo ir para o céu.
Ele torceu para que nem estivesse muito doente.Depois chorou.
Sabia que ia demorar a amanhecer.Só estava zangado com sacanagem do Ipojucam que se atrasava em
trazer o dia, para que ficasse claro e alguém o encontrasse doente, deitado ali.
Lembrou que nos últimos dias o carrinho de mão parecia pesar cada vez mais andando a mesma distancia,
e carregando o mesmo peso.
Doze anos de vida.Há dois vendendo pimenta de cheiro e mandioca.
Mas sobrava o Domingo.Para andar de bicicleta com as meninas.
Bicicletaqueelenemalcançavaoselimdireito.
Neste dia prestava muita atenção no pecado.Bebia e fumava escondido sempre de olho no Ipojucam,
Coroinha do Padre, que contava as coisas que via, e inventava as que não via.Ah! Se ele lhe visse a bolinar as
meninas, quando dobravam por trás do Mercado Municipal, fechado aos Domingos.
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72
Luiz Jorge Ferreira
O padre era amigo de Deus, adivinhava os pecados.Ipojucam nem amigo era.
Era Coroinha.Então, era só colega.
Dele mesmo, não, não era nem meio amigo!Tinham cisma um com o outro.
No jogo da bola de meia, e no de bolinha de gude.
Ele por sua vez também não tinha muitos amigos.Contava só dois, o Silvio Leopoldo que pescava tralhoto
no ouvido.Na maior astúcia.
EAssunção, que era quem namorava a Irmã de Ipojucam.
EseeleAnselmomorresseiatermissa.Iamaparecerumaouduasmeninas,chorandoeficariaparasempre
ao relento um carrinho cheio de mandioca e pimenta de cheiro abandonado como ele.Apodrecendo.Na frente do
barraco.
Ficou puto com a idéia.Talvez o padre nem rezasse toda a missa, não chegasse na parte que ele mais gosta
quando ergueria o Cálice, e diria.
-Deus pode receber oAnselmo, este moleque é jóia.Não tem pecado, deixa as freguesas comprar fiado, e
não vende pimenta podre e nem mandioca fermentada, não atira pedras nos cachorros da rua, e deixa as meninas
passearem sua bicicleta.E nem passa a mão na bundinha delas.
Ah! Sim.E tem mais ainda. Não é ele quem come a irmã do Ipojucam!
Mas tem vontade.
Antes de desmaiar.Ele esboçou um leve sorriso de felicidade para si mesmo.
Tinha certeza! - Ipojucam “O Coroinha” não ia ficar nada contente.
O QUADRO
De Lisboa a Londres fui andando.
Anado fui de Belém a Macapá.Voando fui de João Pessoa a
Quixadá.Hoje neste apartamento pequeno em que as paredes, pintadas de roxo, têm muitas manchas
amarelas provocadas pela umidadeAmazônica.E que sei que o tempo passado, enquanto eu calçava e descalçava
os sapatos surrados.Manchou-me também.
Hoje corro descalço, olhando de suas janelas que dão para a Av Ernestino Borges, as da frente. A da
cozinha, abrem-se para a Rua Iolanda Marcucy.Ado banheiro, dela se vê a Rua 14 de Março, e a da cozinha tem
a paisagem da rua Cel Lisboa, com o telhado descorado da casa do Braz.
Estou em meus oitenta anos.A cabeça já funciona aos solavancos e os cabelos, estão úmidos, produto
desta fina garoa, que teimosamente chove sobre mim. Ela me abriga a usar permanentemente um guarda chuva
aberto, mesmo dentro do apartamento.
Caminhodevagar,entreosdiaseasnoites,sãoseisaparelhosdetelevisãoligadoscadaumemumcanal.Oito
rádios sintonizados nas oito maiores capitais do mundo que enchem a casa de um barulho estéril de Mandarim,
Russo, Árabe, Japonês, Hebreu, Grego, Inglês e Italiano.Tenho dois sois um amarelo e outro castanho que se
reflete em um jogo de espelhos que dependurei entre a cômoda e a estante cheia de bíblias sempre movimentadas
em suas paginas por um amontoado de ventiladores que mantem a temperatura da sala quase meio grau abaixo de
zero.Caminho devagar entre as esculturas Maias
E Incas que coabitam comigo na sala, entre cabeças empalhadas de orangotangos e chimpanzés.Por isso
perco com facilidade meus chinelos.E quando vou pe ante pe para o local em que guardo meus discos e os ponho
na vitrola em trinta e oito rotações por minutos rangem as tabuas do assoalho.Fazem dueto com os estalos de
minhas articulações, quase enferrujadas.Ouço Mario Lanza em um dueto estranho com minhas próprias
barulheiras.Abro as janelas muitas vezes e o ar de fora bate na minha própria umidade e volta criando um pequeno
ciclonequeapelideide“Equadorzinho”
Um dia lendo uma das dezenove Enclicopedias e fazendo cálculos com uma régua fisiogeografica percebi
queostrópicosdeCâncereCapricórniocruzam-seaqui,talvezporisso,estepruridoquemecastigadeterminados
dias do mês, e que me fez ficar amigo de uns pelicanos, que também se coçam.
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Eles pousam na janela, aquela que abre para aAv Ernestino Borges, em alguns dias do mês.Comecei a
moraraquiquandofiqueiviúvo.ElamorreuedeixouumenormevazioquepreenchicomgarrafasdeRumedesenhei
sua silhueta, para formar o par de peitos foram necessárias mais de cinqüenta garrafas.Era uma mulher abastada
quedeu-medezoitofilhosepretendiadar-memaissenãosehouvesse tocadofogolixandotantoasunhas.Quando
fiquei só pretendia mudar-me o mais cedo possível, mas a amizade com as águas vivas do lago do Ibirapuera e a
admiração pelas borboletas do Pacoval foram prolongando minha estadia.Hoje sou parte deste Quadro.E olhando
a pintura do Quadro feito por Salvador Dali, dependurado no vão entre a porta do nosso quarto e o inicio da
escada que nunca subi, nem sei aonde vai dar. É que percebo que envelheci.
Não tenho mais vontade para trocar de roupa e agora me cubro,
com pelos espessos e longos cabelos que pouco molho, mas estão sempre úmidos.
Como muito pouco e durmo quase nada.Quando a saudade aperta abraço-me a imagem dela feita de
garrafas e assim fico por um tempo
O que tem me cortado demais o peito e o púbis.
Mas eu não ligo. O que me incomoda são os filhos.Estes que estão empalhados pelo corredor entre as
cabeças empalhadas de Orangotangos e chimpanzés.
Amanha irei para Osasco aonde enterrarei o Quadro.
MODINHA PRA ELA
Ela morde os lábios.
Defronte ao seu mundo.
Contido e calado.
O silencio é pertubado.
Pelo barulho dos copos.
E escorre sob o sussurro espantado.
Quando ela engole cerveja e saliva.
Elatalvezaguardealua.
Desenhada atrás do mundo.
No contorno da parede.
Ela talvez roa as unhas.
Sonhando com sambas de Caymmi.
Ela nem sabe que quem sabe, longe dorme.
E se encolhe quando sopra um vento frio.
Só menos gelado que esta garrafa solitária.
Em que suas digitais claras, estamparam-se.
Luiz Jorge Ferreira
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Manlio Mário Marco Napoli
Médico ortopedista
São Paulo - SP
REMINISCÊNCIAS DA FACAULDADE DE MEDICINA
Era início de 1941. Nossa turma comemorava a aprovação no concurso para ingresso no primeiro ano da
faculdade.Adisputa fora acirrada - setecentos candidatos para setenta vagas. Porém, nem tudo era esplendoroso
e mal sabíamos o que nos esperava. O então interventor do Estado, Adhemar de Barros, decretara com uma
simples penada, o aumento das vagas de 80 para 200!ACongregação da Faculdade insurgiu-se contra o decreto
e fez ver ao governo que o aumento de vagas, entre outros, contrariava o acordo estabelecido com a Fundação
Rockfeller, que construíra o prédio e em troca exigia que as vagas obedecessem ao número clausus de 80, além do
compromisso do governo do Estado construir o futuro Hospital das Clínicas.
Ocursodemedicinacontinuavaseurumo,porém,haviaturbulênciasnoarenós,primeiro-anistas,sofreríamos
asconseqüências.Aprimeiraauladocursomédicoeratradicionalmenteadeanatomia.OcatedráticoeraoProfessor
Renato Locchi, sabidamente severo e extremamente exigente; assistíamos inicialmente à aula sobre o respeito ao
cadáver – um corpo humano formolizado, nu e rígido, estendido sobre uma mesa de mármore. Grande impacto
para nós. Pior o que viria em seguida. O Professor fez três anúncios, preliminarmente: éramos ainda mentalmente
ginasianos e, portanto, não sabíamos estudar; a matéria era extensa e o primeiro exame trimestral ocorreria logo
após, em fins de abril e já estávamos em março; finalmente, como que em represália ao ato governamental, o
laboratório funcionaria no horário de aulas, ou seja, somente pela manhã e três vezes por semana, contrariamente,
ao tradicional que era de segunda a sexta-feira, das 08 às 18 horas!
Ficamos realmente atordoados. Nas semanas seguintes, o quadro ainda piorou. O primeiro exame prático
e o escrito constavam de todo o estudo de ossos, músculos, veias, artérias e parte do aparelho digestivo, para
alunos que ainda não sabiam estudar.
Umdoscolegas,desavisadamente,levouparacasaumcoração.OProfessorLocchi,emaula,noscomunica
que o laboratório ficaria fechado até que a peça fosse devolvida.Asituação piorara muito. No decorrer dos dias,
o Governo do Estado e a Congregação entraram em acordo – as 120 vagas, então criadas, seriam preenchidas em
seis anos, 20 delas agregadas a nossa turma. Mas para isso, era necessário que os candidatos fossem aprovados no
exame vestibular daquele ano, obrigatoriamente. Nossa turma passou a contar com 102 alunos, incluindo os
reprovados do ano anterior.
Finalmente, em abril, chegaram as provas. O medo que já sentíamos por informação de colegas de anos
anteriores, passou a verdadeiro terror. O exame prático consistia em respostas sobre várias peças expostas em
mesas de dissecação. Diante de uma resposta incompleta, insegura ou errada, o mestre passava adiante. O exame
em média durava uma hora e meia. Lembro-me bem daquela prova. Dias antes revi todas as matérias previstas no
livro de Chiarugi, adotado pelo Professor Locchi. O estudo entrou pela madrugada de sexta, sábado e domingo. Já
no final da madrugada, véspera da prova, iniciei a parte final do programa, que era exatamente sobre o aparelho
digestivo. Encasquetei com detalhe do retrofaringe; Chiarugi descrevia um famoso recesso – o de Rosenmüller.
Adenominação me pareceu bonita e senti verdadeiro desejo de reconhecê-lo no cadáver.Asala de exame
era aberta às sete horas, permitindo aos alunos examinarem as peças. Naquele dia, o assistente disponível para
tanto era o Professor João Batista Parolari. Logo que entrei na sala, perguntei a ele onde se situava o famoso
recesso no retrofaringe. Com sua longa e clássica pinça anatômica, Parolari afastou as amídalas palatinas e me
mostrou o recesso. O Professor Locchi começou o exame pela região do ombro, seus componentes ósseos,
ligamentos,músculosemovimentosefez-meumaúltimaperguntasobreafunçãodomúsculodeltóide;emrápida
resposta, levantei o braço em adução e com o ângulo máximo de 90 graus. - Muito bem! exclamou o mestre. Se
errasse, pararíamos o exame aqui!
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Confessoqueminharespostafoiautomática,poisnpcursodetirodeguerra,essemovimentocorrespondia
àcoberturaanterioreprincipalmentealateralnoiniciodeexercíciodemarcha.Bem,euhaviapassadonaprimeira
fasedoexame,masaindarestavamalgumasquestões.Asabatinacontinuoupeloaparelhocirculatórioetudocorreu
perfeitamente. O Professor já parecia satisfeito, porém para finalizar, disse-me – vamos ao aparelho digestivo.
Treminasbases.Vejamos,parafinalizar,mostre-meorecessodeRosenmüller;momentodegloriaparamim,repeti
magistralmenteogestodoProfessorParolarieusandotambémumalongapinçarespondi–aquiestá!-Muitobem,
dizomestre,oexameterminou.Asnotasdoscolegas,emgera,tinhamsidobaixíssimas,parecendoqueosProfessores
integrantes da Congregação, estavam se vingando do interventor sobre nós, pobres inocentes. Saí da sala, embora
satisfeito, ainda preocupado; a nota máxima até então tinha sido cinco. O bedel foi à sala, viu minha nota e a
transmitiu ao pobre aluno de primeiro ano e calouro em provas práticas – Parabéns! Você tirou nota nove.
Vejam vocês! Para tudo na vida é preciso esforço e persistência, porém também grande dose de sorte.
UMA ANGIOPLASTIA
Lembram-sedaquelemeuvelhoamigosobreoqualjálhesfaleihácercadequinzeanos?Aquelequepossui
característicasfísicas,tematitudesedesejosmuitosemelhantesaosmeus,tantoque,comodissenaquelaépoca,se
fossemosgêmeos,certamenteseríamosunivitelinos.
Em princípios do ano passado, este caro colega passou a sentir coisas estranhas no comportamento do seu
coração – taquicardia, sudorese, dificuldade respiratória aos esforços na marcha, subir rampas, fazer corridas
leves. Procurou um cardiologista que solicitou vários exames laboratoriais, eletrocardiogramas, radiografias,
tomografias,etc.Porfim,resolveutratá-loclinicamente–onzecomprimidos,setepelamanhãequatroànoite,além
de cuidados gerais. Permaneceu sob controle quinzenal e toda vez que voltava à consulta, a pergunta repetida e
constante de seu médico era – SENTIU DOR NO PEITO? Durante meses a resposta foi sempre – NÃO!
Porém,namanhãdodiatrintadeabrildoanopassado,meuamigo,apósnoiteindormida,surtosdesudorese
egrandedesconfortopelainsônia,noiníciodasatividadespelamanhã,sentiuaqueleincomodoeprocuroucomunicar-
se com seu médico. Como não conseguiu localizá-lo e muitas eram as tarefas a cumprir, deixou para mais tarde o
chamado, mesmo porque, inclusive a dor, quem sabe, poderia desaparecer. Porém, no início da noite, a dor
continuava e, às onze horas da noite, agudizou; o cardiologista foi novamente contatado – DOUTOR,AQUELA
DOR NO PEITO AUMENTOU MUITO, O QUE DEVO FAZER?
Procure o pronto atendimento do hospital, foi a resposta.
No serviço de urgência, por indicação clínica, vários exames foram realizados e quando o médico chegou,
além dos exames já feitos, decidiu por fazer cateterismo cardíaco, ou seja, o exame de visão direta das artérias
coronarianas, através a introdução de um cateter na artéria femoral, desde a região inguinal.
Oexamerevelouoclusãoemgrausignificativodessasartérias.Oresultadoindicavaanecessidadeurgente
de desobstruí-las e mantê-las permeáveis. Nestes casos, conhecidos como enfarte do miocárdio, é indicada a
colocação precisa, sob visão direta, de “molas”, denominadas “stents”. No caso, foram colocados três. Este
procedimentoconstituiumaangioplastia.
A recuperação do paciente foi rápida e satisfatória; permaneceu hospitalizado, sob rigoroso controle, na
unidade de urgência do hospital. O ato cirúrgico levou 20 minutos e a hospitalização apenas sessenta horas – da
madrugada de sexta-feira ao meio dia de domingo.
Acho que meu amigo realmente se curou do enfarte, pois seu coração resistiu bravamente ao receber a conta
hospitalar-SESSENTAECINCOMILREAIS!Nessemomento,saltouàmentedocolegaaseguintecomparação
–jáouvirafalarevirapelosnoticiáriosdosjornaisetelevisãoquealgunsEmiradosÁrabesapresentam-seatualmente
como verdadeiros paraísos, com visões e contos das mil e uma noites. Pelo cálculo que rapidamente fez, ou seja,
gastos de mais de mil reais por hora, talvez pudesse ter passado uma semana ou mais em Dubai, com passagem
aéreaincluída!
Manlio Mário Marco Napoli
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76
FOI O GATO!
Lembro-me como se fora hoje. Talvez essa lembrança seja apenas fruto de fato que, embora ocorrido em
1924,tenhasidonestessessentaanos,freqüentementerelembradojocosamentepelosmeusfamiliares.Naocasião,
tinha cerca de três anos. Naquele tempo nossas mães não dispunham de geladeiras; em seu lugar havia os guarda-
louças que eram armários de madeira com portas vazadas para ventilação e fechadas por telas, não sei por que,
sistematicamente na cor verde; as portas eram leves e removíveis com facilidade.
Nãohaviageladeiraseoutrosutensíliosdecozinhaquemuitofacilitamotrabalhodenossasmãesatualmente.
Em compensação as casas em sua maioria eram térreas, construídas em terrenos amplos, a poluição do ar era
desconhecida e as condições de vida mais favoráveis que as atuais.
Numa certa tarde, minha mãe me surpreendeu dormindo na ampla copa, deitado ao lado do guarda-louças
com suas portas abertas e caídas ao meu lado; estava dormindo e chupando o dedo, como era meu habito. Minha
mãe pegou-me no colo e perguntou o que havia acontecido. É preciso que se diga que desde a infância eu era um
extremo apaixonado por qualquer tipo de queijo. Pensava em encontrá-lo no guarda-louças, que abri e pendurei-
me nas portas que vieram abaixo comigo. Não encontrando o que procurava, adormeci. Indagado sobre o que
havia ocorrido, respondi – Foi o gato, mamãe!
Vejamsó,naquelaépoca,apesardeaindanãoexistiremcomputadores,televisoreseoutrosmeioseletrônicos
atualmentedisponíveis, ospimpolhosjáeramimaginativosemuitoespertos!
Coincidentemente,emcasa,nãotínhamosgato!
Manlio Mário Marco Napoli
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Márcia Etelli Coelho
Médica
São Paulo - SP
O LIVRO QUE ME CATIVOU
Fecheiolivrocomvontadedechorar.Mesmotendoconsultadoodicionárioinúmerasvezes,eumeencantei
com a história daquele visitante de outro planeta. Levei dois meses para terminar o trabalho escolar. Naquele
tempo, francês fazia parte do currículo ginasial. Uma época em que eu ainda sonhava.
Vinte anos se passaram e eu me preparo para mudar desta casa.Vou trabalhar no exterior enquanto minha
mãeirámorarnolitoral.
As roupas e os objetos pessoais para a viagem já foram reservados. Basta a difícil tarefa de selecionar as
coisas que serão doadas. De início, pensei em jogar tudo fora, eram “tranqueiras”. Mas, se eu guardara, deveria ter
algumvalorparamim.
Na parte superior de um armário, encontro uma pasta com algumas fotos, boletins escolares, medalhas de
honra ao mérito, um caderno com tolas poesias, e ... ele: o livro que tanto me emocionou, encapado com papel
impermeáveltransparente.
Ao abri-lo, a poeira mescla-se com nostalgia. Suas folhas estão amareladas.Algumas frases, destacadas a
lápis.As palavras continuam em francês. Eu é quem mudei e não consigo mais entendê-las.
Não me lembro dos detalhes da história. Algo a ver com rosas, carneiro, raposas... Só sei que ela me
empolgou.
Separo o livro para doação e rasgo o resto. Olho para as medalhas. Fiz tanto sacrifício para conquistá-las
e elas não significam mais nada para mim. Entristeço-me. Há poucos registros da minha adolescência. Por um
segundo, fico na dúvida, como se não a tivesse vivido.
Agora, estou eu, pronta para começar uma nova vida em LosAngeles. Talvez nunca mais volte. Mesmo
porquenadameprendeaqui.Nenhumamor,nenhumagrandeamizade,nemsequerumbichinhodeestimação.Eu
me dediquei tanto aos estudos e ao trabalho, que esqueci de cuidar dos relacionamentos. Tenho colegas, mas não
amigos.Acumuleidinheiro,masnãosaudades.
Atéminhamãeficoucontentequandolhecomuniqueiqueiaembora:
-Agorasiméquevocêvaiganharumaboa“grana”,minhafilha.
Dinheiro, sempre o dinheiro a mover minhas decisões. Um desejo insaciável de conforto e de projeção
social.
O embarque se aproxima. Estou insegura. O desconhecido me assusta. Não aprendi a viver de improviso.
Minha mãe me incentiva.Acompanha-me até o aeroporto. Despede-se de mim com um simples abraço.
Ando pelo saguão e procuro uma das revistas semanais para me distrair durante o vôo. Na prateleira, encontro
também aquele livro: capa branca com um menino loiro rodeado de estrelas. E o melhor, escrito em português.
Numimpulso,comproolivro.
Acomodo-me no avião, próximo à janela e aperto o cinto de segurança. No assento do meio, um menino
de cabelos cacheados não para de me olhar. Pego o livro e leio a introdução.Ao ver a capa, o garoto se alegra:
-Cê sabe desenhar um carneiro?
Movimento a cabeça, numa resposta negativa, com ar sério de quem não quer conversa.
Pra que perder tempo com um menino que provavelmente eu nunca mais verei?
Prefiro iniciar a leitura e deixo-me conduzir pela imaginação.Acompanho o pequeno príncipe que viajava
por estranhos mundos, até descobrir o quanto era importante cultivar a flor que deixara em seu planeta.
“Setuqueresumamigo,cativa-me”.
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78
Márcia Etelli Coelho
A frase de Saint Exupéry me puxa para a realidade. Olho para o lado. O garoto parece cansado de
desenhar em seu caderno. Fala com sua mãe, mas ela está interessada na revista de bordo e pouco responde. Ele
se mexe, balança as pernas, chuta o encosto da frente. Precisa de atenção.Amãe simplesmente diz:
-Ficaquieto,menino.
Ele sossega seu corpo, mas não o coração. Seu olhar encontra o meu. Um carinho transcende os sentidos.
Oessencial,invisívelaosolhos...
Coloco o livro no colo. Poderei continuar a lê-lo outra hora. Inicio uma conversa e... não é que ele tem
coisas interessantes para me contar?
O garoto começa a rir. Um riso aberto, prolongado, contagiante.
Um breve lanche e ele adormece. Eu retomo a leitura e a termino antes da aterrissagem.
O texto de despedida do pequeno príncipe me emociona. Sinto que resgato uma ternura perdida. E,
lentamente,fechoolivrocomintensavontadedeviver.
INQUIETUDE
E eu, assim, tão inquieto,
mergulhomeussentimentos
nas águas frias do rio.
Transbordo o medo secreto,
tentoviveromomento
e encarar esse desafio.
Quem vê os meus olhos travessos
imagina que é desse jeito
que eu troco o sim pelo não.
Posso até me virar do avesso
se assim descobrir o direito
deserfeliznamultidão
Umenganoéoquemaismeinquieta:
Pela paz, eu fiz tantas guerras
que nem sei qual é minha dor.
E a vida que agora desperta
impõesomenteumaregra:
Abra as portas para o amor!
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REALIZAÇÕES
E eu queria o amor em minha vida,
mas não entreguei meu coração.
Queria a paz em cada investida,
mas me escondi com a solidão.
Se o “querer” se traduz em “poder”
por que eu insisto em me lastimar?
Se o sucesso provém do “fazer”
por que o medo de recomeçar?
A medalha de ouro do esportista
não se ganha num mero segundo,
mascomotreinoperfeccionista
que supera os entraves do mundo.
O salto perfeito da bailarina
não se consegue assim, de repente.
Muitosensaios,desdemenina,
domínio do corpo e da mente.
Enquantoeusómeenvolviemsonhos,
vivireclusonafantasia.
Desculpas e pretextos tristonhos
dos“se”...“talvez”...”umdia”...
Quando,enfim,decidicomempenho
abraçar cada um dos meus planos,
descobri em você um alento,
dissipeiosmeusmuitosenganos.
Para a vida eu abri um sorriso,
meu corpo venceu o cansaço.
Eminhaalmadizquandopreciso:
“Eu quero, eu posso, eu faço...”
Márcia Etelli Coelho
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80
Marco Aurélio Baggio
Médico psiquiatra
Belo Horizonte - MG
DISCURSO PLENO
Aproveitando a sua fala,
eu queria deixar colocado que,
assim,aníveldereflexão,
fazendoumcorteepistemológico,
desenvolvemos um projeto de pesquisa
versando sobre o tema proposto.
Quero deixar bem claro
que falo a partir de um lugar
ondeépossívelvisualizar
aquiloquevocêafirma
como tendo muita coisa a ver.
Mas desejamos ressaltar um ponto:
a coisa não passa por aí...
É que, sabe?,
estamosnumdeterminadomomento
em que a gente estamos empenhados
num trabalho sério de cogitação
que redundou na concepção
deumnovomodeloassistencial
baseado num novo paradigma
quenospermitiureformularmostoda
umaestruturaviciadadeatendimento.
Afinal, achamos que era preciso repensar
toda nossa relação anterior.
Daí, essa nova proposta
colocada dentro de um novo marco teórico
que pretende dar conta de nossas perplexidades atuais.
É com esse espírito
que trazemos nossa proposta de trabalho
para pensarmos juntos.
Sabemos que vocês têm cometido equívocos
massãosujeitosperfeitamenterecuperáveis.
Eu, por exemplo, sei que o coração de vocês não é esse...
Mesmo porque estamos convictos,
e vocês hão de concordar comigo,
que temos de desenvolver um esforço
para superarmos nossas diferenças heurísticas,
pois o que está em jogo
é um valor mais alto que se alevanta:
- Tudo pelo paciente!
E tome pipipi, bobobo...
Patati patata...
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INEXORÁVEL RECONSTRUÇÃO DO CAPITALISMO
Há 7 milhões de anos surgiu um símio antropóide ereto, dotado de bipedalismo. Dezenas
de antropóides humanóides conviveram por milhões de anos. Foram se extinguindo. O homem
moderno surgiu há 190.000 anos na África. Quase foi exterminado com a glaciação ocorrida há
70.000 anos. Há 10.000 anos, o homo sapiens criou os primeiros aldeamentos, tornou-se pastor-
agricultor e passou a gerar cultura. Desenvolveu a linguagem, aprendeu a proteger a prole, a
confeccionar roupas, construir abrigos, criar ferramentas, armas, armazéns. Aprendeu a usar a
escrita e a estabelecer trocas de excedentes de produtos e de mercadorias. Foi quando constituiu
laços afetivos e familiares. Cerca de 26 grandes civilizações foram erguidas, tiveram seu apogeu e
a maioria desapareceu em seu declínio nesses dez mil anos de História.
A par da capacidade construtiva e edificante dos seres humanos, modificando a natureza
natural, tornando-a natureza naturada, civilizada, trabalhada para seu conforto e para sua
conveniência, o psiquismo dos homens possui uma estranha propriedade de vivenciar primeiro
uma guerra civil interna, tal a quantidade de desejos e de intenções contraditórios chacoalhando
no seu mundo interno.
Seres de conflitiva, os humanos são dotados geneticamente de um sabotador interno, de um
agente que se compraz em infelicitá-lo. Masoquistas, a ponto de apreciar ver a própria caveira.
O homem, se não se acautelar, é, com freqüência, seu maior inimigo. Só a bildung, a educação
compassa sua malevosidade. Só a bondade imposta e só o amor intrugido anulam o veneno da
maldade humana. Como uma derivação estocástica, aleatória, dos Eukaria, postados na ponta de
um ramo da árvore evolutiva, o Homem é um animal precário. Contém em si sua própria
incongruência. Como espécie superpopulosa e hiperpoluidora, os humanos passam da hora de
parar de se assassinar uns aos outros. Passam da vez de despender trilhões de dinheiros em armas
e em guerras. E em assoprar as bolhas dos “derivativos.” Mais que tudo, já passa da hora de
creditar em deuses inexistentes.
Temos condições de, rapidamente, reduzir a fome de comida e de conhecimentos,
espaventando a ignorância, a estupidez, a superstição. É hora de combater as doenças curáveis e
sanáveis. Tudo fazer para restringir o sofrimento desnecessário. Os homens bons devem se impor
para fazer a humanidade funcionar pelo que é ético, pelo que é conveniente, com decência e
dignidade.
Nosso tempo está demarcado a.C – antes de Cristo e d.C – depois de Cristo. Agora temos
outro marcador: antes de 15 de setembro de 2008 e depois de 15 de setembro de 2008. Nesse dia,
com a falência do banco Lehman Brothers, evaporaram sessenta trilhões de dólares que existiam,
virtuais, nas telas dos computadores das bolsas de valores do mundo capitalista. Desmantelou-se a
grandiosidade arrogante dos norte-americanos dos EUA, cujos mega-capitalistas cometeram
indecentes trampolinagens com derivativos desonestos. O que somado à patologia do poder que
vigorava perversa na era bushiana, gerou esse estado de terremoto em que está mergulhado o
capitalismo globalizado. É banal dizer que crise é sinônimo de perda e de oportunidade. Perdem
os pobres, os assalariados, os desempregados que já alcançam mais 250 milhões de pessoas, em
precipitação social.
Ganhos? Obama, revalorização do Estado como agente disciplinador e a pálida expectativa
de que uma nova era de racionalidade irá promover os valores éticos, iluminados pelas evidências
acumuladas pela ciência. O mundo mudou de forma radical e inapelável, tornando relações,
conceitos e verdades propaladas, subitamente disfuncionais e anacrônicas. Temos que reconstruir
nossa civilização capitalista a partir dos escombros do sistema falido anterior.
Mas acima de tudo, precisamos de Mãe: instância básica e última da bondade humana. Chega de crimes,
de desastres, de armamentos maravilhosos e de guerras?Talvez sim...
Marco Aurélio Baggio
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Marco Aurélio Baggio
Charles Darwin, hoje considerado o cânone da ciência, já havia descrito que são as mulheres, as mães do
primata humano, as depositárias da forma matricial do instinto social. Nelas esplande o amor e a dadivosidade
materna como fundamento da empatia e da solidariedade que é a base da civilização, onde, apesar de tudo, vigora
a proteção aos seres humanos inocentes, aos fracos e aos destituídos. Para Darwin, é a dotação feminina que
reverte a seleção natural, na qual tende a prevalecer o mais apto, o mais forte e o mais estúpido, criando, numa
reversão,umanovaformadeseleçãonaturalqueprivilegiaaculturadoaconchegonafamíliahumana,queéoesteio
dacivilização.
Senhores, como psiquiatra posso ser delirante. E nesse momento proponho a utopia de que, após 15 de
setembro de 2008, a humanidade venha ter a supina oportunidade de fazer prevalecer os instintos sociais nobres
como forma de escolha, selecionando a cultura, a civilização e a bondade como avanço específico da seleção
natural a vigorar por sobre a primataria humana.
Mulheresdaestirpehumanapossuemsuperioridadeemexperimentaremanifestar,maisdiretamentedoque
os homens, os sentimentos de ternura, de suporte, de compaixão e de solidariedade. É assim que a genealogia da
moral em Darwin, desde 1860, surge, esplêndida, no bojo da evolução do primata Homo sapiens sapiens sem
qualquerevidênciaaentidadesobrenaturalouextranatural.
Uma nova era se descortina, na qual há de prevalecer a racionalidade, a responsabilidade para com a coisa
pública, omelhorexercíciodojuízonaapreciaçãodaquiloqueémelhorparaomaiornúmerodepessoasedaquilo
quemaisconvémaoPlanetaTerra.Esteéumnovotempoquesepropõeequeseoferececomoumfuturopossível,
por ser desejável e conveniente.
JUDAS, O MENSAGEIRO DE JESUS DE NAZARÉ
Os estudo bíblicos se enriqueceram com a tradução do chamado Evangelho segundo Judas. Manuscrito
perdido há 1.700 anos, em papiro, na língua copta, foi descoberto no Egito em 1978.
Sabia-se de sua existência, relatada por Irineu de Lyon, em seu livro Contra a heresia, publicado no ano
180 da era comum. Foram recuperados 85% do texto.
Publicado com a chancela da National Geographic Society, o manuscrito esclarece o papel de Judas
Iscariotes como sendo o mais arguto e o mais confiável discípulo de Jesus de Nazaré. No documento recém-
traduzido, Judas Iscariotes surge como mensageiro, o emissário de Jesus de Nazaré, e não mais como quiseram os
evangelistas canônicos, Mateus e João, como o traidor de Jesus.
Ao escrever Jesus de Nazaré: esplendor no Ocidente (Belo Horizonte: Editora Compos, 2002), já havia
interrogado: Jesus de Nazaré deixou-se prender pelo sumo sacerdote do templo, ou entregou-se a ele, utilizando,
conscientemente, os serviços de seu amado discípulo – Judas Iscariotes? Hoje há dúvidas quanto ao valor
da participação de Judas e da sua intenção: teria ele traído Jesus? Teria vendido informação sobre o local
onde estava o Mestre, por trinta dinheiros? No entanto, Jesus era uma figura pública, sobejamente conhecido
de todos, que freqüentava as ruas e os pátios do Templo. Judas entregou Jesus à revelia deste ou, como cada
vez parece mais provável, foi o seu mensageiro junto aos sacerdotes, marcando a hora e o lugar de sua
apresentação diante do sumo sacerdote, tal qual o Mestre queria?
O Evangelho segundo Judas vem corroborar a suspeita de que Judas foi o dileto emissário de Jesus.
Durantetrêsanos,JesusdeNazarérealizou31milagresedezenasdeportentosnaSamaria.Judeuconhecedor
das escrituras, Jesus – um homem bom, excelso – julgou chegada a hora de fazê-las cumprir. Internalizou em si a
missão do tão profetizado Mashiah – o Ungido, o Esperado, o Messias do povo judeu.
Por quatro vezes, Jesus de Nazaré profetizou seu destino aos seus apóstolos. Está em Mateus 12:40; em
Mateus 16:21; também em Mateus 17:22:23. Em Mateus 20:17:19, encontra-se: Eis que estamos subindo a
Jerusalém, e o filho do homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos escribas: eles o condenarão à
morte e o entregarão aos gentios para ser injuriado, flagelado, crucificado. Mas, ao terceiro dia ressuscitará.
O Evangelho segundo Judas vem fazer uma documental desleitura daquilo que os evangelistas canônicos
deturparam, denegrindo assim Judas. Essa visão sombria se estendeu para todo o povo judeu: Judas=judeu.
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Os evangelhos canônicos foram escritos 40 a 60 anos após o desaparecimento de Jesus, por homens que
não o conheceram pessoalmente: Marcos, Mateus, Lucas, João, o evangelista (não confundir com João Batista
nem com o apóstolo João).
Saulo, judeu nascido em Tarso, tornou-se São Paulo. Criou a primeira cristologia. Nada do que o homem
Jesus foi e viveu interessou a Paulo. Provavelmente, toda a construção teológica – a cristologia erigida nas 13
epístolas de São Paulo – não teria a aprovação de Jesus de Nazaré.
George Bernard Shaw é definitivo sobre o gênio de São Paulo: Nada que ele fez Jesus teria feito, e nada
que ele diz Jesus teria dito. (Bloom, Harold. Gênio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 167).
A espantosa necessidade que 90% da humanidade têm de acreditar em deuses sempre gera ferozes disputas
de primazia e de preponderância. No seu nascedouro – séculos I, II, III e IV da era comum –, os cristianismos
disputavam corações, dotações e mentes. Apartir do ano 312, com Constantino, prevaleceu o cristianismo de
Paulo e dos Pais da Igreja. Hoje, no mundo, há cerca de 1,5 bilhão de cristãos, disseminados em mais de mil seitas
e sob diversas denominações. O tronco principal do cristianismo é a Igreja CatólicaApostólica Romana.
O Evangelho de Judas deverá melhorar a história e a imagem desse colaborador de Jesus de Nazaré,
deixando Judas e os judeus de serem escarmentados, respectivamente, como traidor e algozes. Dentre os doze
apóstolos, Judas Iscariotes foi o mais corajoso e o mais lúcido ajudante de Jesus, em seu intento de fazer cumprir
as professias hebraicas.
Éprovávelqueessedocumentovenhacorrigirealimparinconsistênciasedúvidasarespeitodosacontecimentos
no Horto das Oliveiras.
Ganhamos todos, cristãos ou seculares, com o aparecimento dessa nova versão da verdade histórica. Chega
de malhar Judas!
Marco Aurélio Baggio
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Marcos Gimenes Salun
Jornalista
São Paulo - SP
PEQUENOS APONTAMENTOS SOBRE
A SOLIDARIEDADE E A JUSTIÇA
Para se entender o verdadeiro sentido da solidariedade deve-se perceber e analisar todos os seus possíveis
ângulos, desde os mais evidentes até os que, dissimulados ou de forma sub-reptícia, estejam implícitos no seu
significado. Cito aqui o significado que me parece mais evidente: solidariedade é quando um grupo de pessoas se
obrigaumascomasoutrasetodasentresi,sejaatravésdeumjuramentosolene,sejapormeiodesimplesempenho
da palavra, e daí se estabelece um pacto ou acordo. Este, por sua vez, deve ser mantido a todo custo, sob pena de
se romper o elo que motivou a união pactual dessas pessoas.
Há que se levar em conta também quais foram os motivos que levaram essas pessoas ou esse grupo a unir-
se e a estabelecer tal pacto. Não paira qualquer dúvida que, sem uma causa comum, não existe qualquer ajuste ou
convenção entre quem quer que seja. Por si, o próprio ato de se estabelecer tal acordo pressupõe a existência de
umacomunhãodeideais,deprincípios,deobjetivos,dealvos,deafinidadesousejaláquaisforemasconvergências.
Ao fim, pressupõem-se a existência mútua de interesses e deveres. Ser solidário pode (e normalmente deve)
significar ter que honrar o pacto firmado, sejam quais forem as circunstâncias: boas ou más.
Cabe ainda destacar que a solidariedade pressupõe o estado que resulta da comunhão de atitudes e
sentimentos do grupo, de forma que este venha a se constituir numa unidade sólida, capaz de oferecer resistências
às forças externas, e até mesmo, de se tornar mais firme ainda em face da oposição que vem de fora.Aexistência
deumacordo,destaforma,significatambémofortalecimentodealgumaconvicção,sejaelaqualfor,poisfazsupor
aexistênciadeuniãodeforçasouideaisconvergentes,queeventualmenteseriamdebilitadossefossemdefendidos
de forma isolada.
Ora,atéaqui,meudiscursofoimeramenteumacoletâneadesignificadosqueseencontramestampadosna
maioriadosbonsdicionários.Nadamais.Daquiparafrente,noentanto,começoadivagarcomigomesmoeatecer
algumas conjecturas sobre a solidariedade.Apenas abstrações revestidas da maior subjetividade possível, sem
quaisquer pretensões de que sejam aceitas como verdades ou premissas de conduta. São apenas as “minhas”
verdades,asquetêmmeinduzidoà“minha”conduta,ambas,passíveisdeummelhordiscernimentoedeummelhor
aconselhamentoparaquesejamaperfeiçoadasepossammepropiciarummelhorresultado.Aceito,debomgrado,
o que de positivo puderem me aconselhar e acrescentar.
Parece-me,desdealgumtempo,quesolidariedadeejustiçadeveriamcaminharladoalado.Talvezpudessem
ser subentendidas até como sinônimos. No entanto, a se pensar mais profundamente sobre essa relação, pode-se
ver que não é tão simples assim. Como alguém pode ser solidário com algo que não seja justo? Depende do
objetivo com que se realizou o “pacto de solidariedade” com o grupo ao qual se é fiel!Assim, só para citar um
exemplo, um traficante de drogas que celebra um pacto entre seus comparsas para atingir seu objetivo comum, o
que pode abranger desde pequenas contravenções penais até crimes de grandes repercussões, não está agindo
com justiça. Pelo menos aos olhos de quem tem algum senso de justiça e dos malefícios que essa atividade nefasta
representa para a sociedade em geral e para todas as demais associações que lhe sejam opostas.
E quantos outros exemplos não poderiam ser citados... Praticamente em todas as atividades da existência
humana hodierna existe algum tipo de associação que pressupõem a conjugação de interesses, que por sua vez
significa algum tipo de acordo em defesa de objetivos mútuos propostos, e que em última análise traz implícito o
conceito de solidariedade que deve ser o sustentáculo dessa união. E que, por óbvio, pode estar em desarmonia
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com os interesses de outros grupos ou associações. Com isso, é evidente, não há senso comum de justiça ou de
harmonia ou de solidariedade ou do que quer que seja, devido ao evidente conflito de interesses existente na
própria relação social do ser humano.
Então, nesta altura de meu raciocínio, eu deveria pensar que solidariedade e justiça não têm nada em
comum, já que existem associações (e pactos) que em nada lembram os princípios básicos do que possa ser
entendido como algo justo. Segundo Valdemar Sansão “A melhor definição de justiça, que comporta muitos
conceitos, é ter cada um o que é seu. Assim, agir com justiça é dar a cada qual o que lhe pertence. É a
absoluta imparcialidade na concessão, distribuição e manutenção de qualquer vantagem, bem ou interesse
detodaespécie,aoserhumano.” Emboraeuconcordeatécertopontocomoconceitobásicodadivisãoigualitária
proposto pelo autor, acho-a utópica. Os conceitos socialistas ou comunistas não são o fulcro deste pequeno ensaio
e, portanto não quero me ater a discuti-los.Acitação foi feita apenas como um ponto a mais de reflexão.
Paramim,noentanto,oconceitodejustiçaémuitomaisamplo,poisenvolvealémdedistribuiçãoigualitária
de haveres, também uma série de deveres e obrigações que todo cidadão deve ter para com o seu compromisso
principal,queameuverécomahumanidadecomoumtodo.Esteéomaiorpactoquepodemosrealizar.Écomele
quedevemosnoscomprometeresersolidários.Emminhaopinião,muitasvezesapassividadecomqueencaramos
as nossas relações cotidianas para com o mundo em que vivemos é nosso maior vício, este sim passível de que lhe
cavemos profunda e inexpugnável masmorra. Se assim não o fizermos, seremos cúmplices da hipocrisia íntima, a
meu ver a maior das agressões que o ser humano pode cometer contra si mesmo e contra o seu semelhante. Em
resumo, eu diria que é sempre fácil ser solidário com o que nos é conveniente. O desafio está em encontrar um
equilíbrio ideal entre solidariedade e justiça, que sob meu modesto ponto de vista deveriam sempre andar par-e-
passo,esempreemsintoniacomocompromissoíntimoquecadaumdenósfezcomseugrupodeconvivência,que
ao final, é o seu ponto de convergências de afinidades e de ideais a serem atingidos.
São Paulo, 21 de março de 2007
GENÈTICO E HEREDITÀRIO
Será que é por isso que te conheço tão bem e ainda nem sei nada de você? Como acho que te entendo, se
nem mesmo sei entender a mim mesmo? Será que é por isso que mal te conheço e acho que já sei tanto de você?
Como achas que me entendes, se nem sabes me perceber direito?
Teus anseios são e hão de ser iguaiszinhos aos meus. Teus passos tão imprecisos, quanto aos que já trilhei
um dia.Tuas vontades tão grandes, quanto às que já tive e ainda terei.Tua ansiedade tão imensa, quanto às de toda
ahumanidade.
É cíclico. Hereditário e altamente genético. O ciclo é o mesmo de anos, de décadas, de milênios... Quanto
mais quero decifrar-te, mais me devoro. E te devoro. Ressuscito-me para cada dia adivinhar-te.
É genético. Incrivelmente herético e contraditório. O germe é o mesmo de agora, de antes e de sempre...
Quanto mais te adivinho, mais há que decifrar-me. E me devoro, te ressuscito, para cada instante escavar-te.
Como pode ser, se ainda mal te devoro e já te sinto tanto? Teus desejos são e hão de ser iguaiszinhos aos
meus.Teus gestos tão imprecisos, quanto aos que já tateei um dia.Tuas vontades tão insuspeitas, quanto as que já
tive e ainda terei.Tua ansiedade tão intensa, quanto a de toda uma existência. Da que já tenho, e da que ainda terei.
Marcos Gimenes Salun
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Marcos Gimenes Salun
CARPE DIEM
(Para Janaina Rodrigues Freitas, que dia a dia está descobrindo como
percorrer as trilhas da conquista e vem se empenhando cada vez mais em busca da felicidade.)
Faça deste novo dia um reflexo de ti mesmo. Comece agradecendo ao GrandeArquiteto do Universo pela
graça de poder vivê-lo. Perceba em cada detalhe do novo dia a mão do Criador agindo com sabedoria.
Respirefundoedeixetuamentesensibilizar-secomosmatizesdacriação.Agradeça…Inspiresuavemente
os perfumes do novo dia.
Com gratidão e alegria desperte teus objetivos para a jornada que se inicia.Aproveite este momento para
conscientizar-te do imenso poder que tens dentro de ti para conduzir os destinos do teu dia.
Depoisdessainfalívelcerteza,peçanovamenteaoCriadorparailuminareconduzirastuasvontades.Comece
entãoaviver,comcoragemedesprendimento,tuanovaoportunidadedelibertarafelicidadequemoradentrodeti.
Saboreie com intensidade todo e qualquer momento que terás em teu dia. Permita-se pequenos desfrutes e
alimenteteusmelhoresemaislegítimosdesejosíntimos,semarrependimentosouhesitações.
Deixe tua vida transcorrer com naturalidade e paciência. Controle a tua ansiedade e procure superar as
adversidades que possam surgir. Caminhe com mansidão pelas trilhas que terá que percorrer e seja prudente,
tolerante e fraterno, pois necessitarás destas virtudes em teu percurso.
Conceda-se breves momentos de pureza e mansidão, mesmo que isto te pareça desimportante e ainda que
te sintas apreensivo ou inseguro. Tua alma sempre anseia e se alegra com a franqueza e com a sinceridade de tuas
ações e de teus pensamentos.
Mergulheprofundamenteemtimesmoetesentirásreconfortadoaoperceberqueafelicidadequeprocuras
estábemmaispertodoqueimaginas. Permita-sesonharcomoshorizontesmaisdistantesqueteusolhospuderem
vislumbrareoteuíntimoquiser.
Acredite! Mesmo que você desconfie do destino seja perseverante e procure empenhar todos os esforços
para realizar teus sonhos. E mesmo quando tua nau pareça querer naufragar nos mares que terás que singrar neste
dia preserve a coragem. Consulte o GrandeTimoneiro e confie na Sua decisão. Ele te fará transpor os mares mais
revoltos e te conduzirá ao porto mais seguro.
E por fim, se dessa forma o teu dia puder transcorrer, tenha certeza que ele arrefecerá doce e suavemente.
Terás então, ao fim de mais uma jornada, a alegria de ter cumprido teu dever, de ter sido grato ao Criador e de ter
aproveitado teu dia.
Setiveresrealizadocomserenidadetodasastuasousadias,terásporfimlibertadoafelicidadequeamanheceu
dentro de ti, e que dentro de ti permanecerá até repousares para descansar de tua missão.
Carpe Diem !!!!
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Maria de Fátima Barros Calife Batista
Médica psiquiatra
Recife - PE
AFETOS NA FOLIA
Afachadadacasaestavadecoradacomfitascoloridasquependiamdoportaldeentrada,aoladodemáscaras
sorridentes. O som, ligado nas alturas, parecia anunciar: é proibido pensar, entregue-se à orgia ou procure outro
lugar.Elaentroutemerosa.Háalgumtempoperderaohábitodecompartilhardormitório.Mas,estavadeterminada
a reconhecer o novo.Afinal a vida a tinha conduzido ao patamar do esvaziamento. Tornou-se urgente localizar o
bem estar. O preço era o de menos.
Antigos modelos de referência haviam desmoronado, não deixando margem para reconstrução.Tinha de
procurar alternativas. Começou por ingerir uma bebida alcoólica para encorajar-se. O corpo respondeu
acompanhando o ritmo marcado de modo competente pelos percussionistas da orquestra que animava um bloco a
passar na rua. Sentiu-se observada. Fixou o olhar no sujeito que a fitava. Comunicaram-se sem palavras. Ele
apanhou sua mão e seguiram o bloco.
Amultidãocresciaarrastandoumnúmerocadavezmaiordefoliões,aolongodoitineráriopré-estabelecido
pelos organizadores do caos carnavalesco. Encostaram-se numa parede e deixaram a turba amainar. Os olhares se
cruzaram, os corpos se uniram, os lábios se tocaram. Sentiu a cabeça rodar e repousou-a no ombro que se oferecia
como suporte. Uma onda de calor transitou entre os dois corpos, unindo-os como se fora um.
Ana parecia estar sonhando. Uma voz distante entoava uma cantiga que a transportava aos tempos de
infância...
Cuidado menina, quem é esse forasteiro ao qual estás a entregar-se? Desconheces de onde vem, com
quem anda e o que faz em tempos de lucidez.
Uma onda de preocupação turva seu raciocínio. Pergunta-se: quais os riscos? – interromper esse idílio e
arrepender-se, ou ceder e arrepender-se! - Difícil escolha.
Os clarins ensurdecedores de outro bloco se aproxima induzindo o par a voltar para a casa de onde havia
partido.
Amigos haviam notado sua temporária ausência. Por onde andou,Ana?
Estremeceu. Os lábios não articularam um verbo. Olhou sem ver. Espectro errante retornando ao corpo.
Piscou os olhos e focou num rosto. O raio do olhar girou na vertical chegando aos pés descalços. Rapidez de um
corisco, percebeu o couro de mamute no homem das cavernas. Cabia-lhe como uma luva. Era tão rústico quanto
estavabêbado.Ocantoqueentoavapareceuridículo.Anateveumvislumbredecompreensãoelamentou.Sonhar
é bem melhor.Aquele abraço fora um ingresso para entrar no Éden. Mas os clarins de Momo lhe acordaram. Só
por inveja. Baco e Morfeu serão sempre os maiores. E viva a embriaguês do sonho, do vinho e do carnaval.
Recife 06 de março de 2009.
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Maria de Fátima Barros Calife Batista
MEDO DO ESCURO
É muita coragem...,comentou Antônio dirigindo o olhar para uma mulher de aparência esquálida e
postura encurvada.
Mas, Zefa reagiu à provocação. Encarou-o com firmeza e disse: Tenho essa cara assim, de boba, mas
coragem é o que não me falta.
No final do dia, recolheu-se solitária ao quarto úmido, sem estilo definido de ambientação. Apenas os
móveis necessários para repousar. Uma cômoda antiga era reservada às poucas mudas de roupa e objetos de uso
pessoal.Coisas indispensáveisàhigienediáriaeaomínimodeindumentária,digna deumapessoaprodutiva. Recostou
o dorso no colchão, de consistência duvidosa, e soltou o pensamento.
Semrédeas,comdestinoliberado,asideiasforampararnoterritórioda maistenrainfância.Lembrouque
muitas vezes, por desafio, enfrentou a escuridão de um quarto, povoada de fantasmas referidos pelos irmãos, pois
precisava provar para si mesma que venceria o medo. Medo das sombras que a noite permanente do cômodo
escondia. Do contrário não conseguiria mais dormir e, se o fizesse, teria pesadelos tenebrosos. Essa estratégia
funcionava como se domasse um animal selvagem e o banisse dos territórios insondáveis onde estão plantadas as
raízes do temor. Sentia-se então fortalecida e poderia estender essa condição por alguns dias. O segredo era não
deixar quebrar-se o encanto.
Foiassimqueaconteceunanoiteemquedespertoudeumsonhoepercebeuumvultoseencaminhandona
direção do seu leito. Pelos contornos mal definidos, parecia ser masculino, a julgar pela ausência de pernas à
mostra e cabelos longos, como era costume as mulheres usarem na época. Balbuciou em voz alta: Papai...? Não
ouvindoresposta,fechounovamenteosolhoscomdeterminaçãoesóveio areabri-losnamanhãseguinte,quando
foi sacudida pela mãe. Estava na hora de ir para a escola. Estudava num colégio público e qualquer deslize seria
fatal para a manutenção da vaga, conquistada por mérito. Era inteligente e mantinha uma caderneta sem notas
vermelhas.
Essafórmulamágicadefecharosolhosquandoomedoaassaltava,acompanhariaseusatosatéamaturidade,
sendo contabilizada como item de sabedoria que se conquistou.
Os progressos vinham sempre em troca de esforços, embalados pelo sonho de um dia alcançar a
liberdade de ser uma mulher independente. Transportou-se para territórios desconhecidos, enfrentou os desafios
da cidade grande e venceu. Certa vez, chegaram de mansinho as sombras do passado.Ao atravessar a avenida,
corretamente posicionada na faixa de pedestres, ouviu o som de uma buzina atordoante. Os faróis de milha a
encandearam. Sentiu tonturas. Fechou os olhos com determinação na esperança de acordar em paz. Ouviu apenas
umavozmasculinabalbuciandoaoseuouvido:Dormefilha.
O ABISMO DOS TEUS OLHOS
Paulaarregalouosolhos,comdificuldadeparaentenderoquePedrofalava,nummomento,aseuver,tão
inapropriado. Estavam curtindo as preliminares do embate que os levaria ao gozo em pouco tempo. Desde que ele
iniciara as aulas do curso de psicologia, ficara assim, querendo a qualquer preço pôr à prova a última lição ouvida
emsala.
Dessavez,surpreendeu-acomaexplosivarevelação:ninguémseapaixonapelooutro.Oobjetoaparente
do desejo que está a nossa frente, na verdade não é o que se vê, que se toca e muito menos se deseja. É mero
representante da imagem ideal que construímos e não paramos de buscar no mundo, vida afora.
Naquelanoitedeinverno,obarulhodachuvasomava-seaossibilosprovocadospeloventoqueesgueirava-
seporentreasfrestasdavidraçascausando-lhesarrepios.MasPedrodisfarçavafingindo-seincólumeàsvariações
climáticaseinsistia:
Aqueleolharquenosdesarmaésimplesmenteumpálidoreflexodenósmesmos.Nossosprópriosimpulsos,
às vezes tão intensos que nos expõem ao constrangimento, se apoiam no espelho do olhar do outro. Por isso,
quando digo que te amo, estou amando alguém que não és tu nem ninguém do mundo objetivo.
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Osdesentendimentosentrecasaisqueaprincípiopareciamapaixonadosestãorelacionadosàincapacidade
de reconhecer que o verdadeiro outro é inacessível.
Paula, tremendo de frio, caminhava na contramão dos seus desejos e revidava, provocante:Ah, entendi,
entãoquandosintovontadedeteengolirinteiro,pensaquetudoissoéatraçãoporti?Claroquenão,seupresunçoso!
Tenho mais é que comemorar esse novo saber por adesão!
Enquanto dizia, as ações de Paula desfaziam o sentido das palavras ditas. Fingindo acomodar melhor o
corpo largado sem cuidado na diagonal da alcova, se encostava no calor que emanava do corpanzil de Pedro
sinalizadordaânsiapelaconjunção.
Porém, persiste em mim a dúvida. Por que me olhas desse jeito, se não sou mais que uma tela em branco,
ondeprojetasteusdesejos?Atéentão,nãopermitistecontemplartuanudez,tocar-teetesentirpulsar.Dasmisteriosas
artimanhas funcionais e dos detalhes anatômicos escondidos de teu corpo, ainda não conheço.
Falava e as mãos agiam com sutileza de gazela. Os dedos percorriam saliências e reentrâncias parecendo
apropriar-se sem saber se eram suas, ou do Pedro, curvas macias de um ardor crescente.
Porquemeolhasdessejeito,seaindanãousufruímosdosgozossensuaisanunciados?Nãosabesqueum
olhar tão insistente pode despertar fantasmas de amores clandestinos nunca experimentados? Se não crês que
exista um deus que julgue e que condene a lascívia, por que temer castigo?
O peito arfava enquanto persistia:
O aprisionamento afetivo seria uma pena tão difícil de cumprir?Anobreza de um amor compartilhado te
apavora? Para aqueles que fogem do amor antes de desfrutá-lo existe um nome que aliás te cai como uma luva:
covarde.Aquele que foge de um campo de batalha pelo medo de morrer ainda que essa morte seja de um suposto
amor.
Contudo, há um lugar só acessível a quem viveu determinada experiência, o acervo da nossa própria
memória. No nosso caso, por exemplo, esse território me pertence e jamais será visitado por ti. Não importa o que
acontecequandonosencontramos,nopresente.Hásempreumaduplicidadeemjogo.Omomentoreal,compartilhado
e a fantasia pessoal que pode ser bem diferente para cada um dos pares.
Pedro, num lampejo de bom senso e gestos bruscos, dispensou lençóis e demais acessórios. Percebeu
quenessetomdeconversanãochegariamaosreaisobjetivos.Denotandopercebernasentrelinhasasutilcobrança
daexplosãodeumavirilidadeatéentãoretraída,enlaçouaamantecomfirmezaeretomouospassosinterrompidos
peladiscussãoinócua.Ateoriaerasupérflua,sendoadiadaparaumdiaemqueapaixãoestivessemaisesmorecida.
Fez-se silêncio e gozo no recinto.
Maria de Fátima Barros Calife Batista
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Maria do Céu Coutinho Louzã
Relações Públicas
São Paulo - SP
DEVANEIOS EM VERMELHO
Ela olhou para o relógio pela centésima vez. Saíra do banho e enrolada no seu roupão, olhou mais uma vez
para a sala para ver se tudo estava arrumado.
Na mesa da sala um arranjo com flores e duas velas vermelhas que logo seriam acesas. Enquanto escolhia
dois cálices de cristal lapidados, pensava que licor deveria servir. De chocolate ou o Cherry. Pensou e decidiu pelo
últimoEraligeiramenteácido,deumtomvermelhomuitolindocombinariacomasvelas.Porém,talvezfossemais
modernoumvinhotintoqueestavaguardadoparaumaocasiãoespecial.Não...Estavatãoindecisa!Deixariapara
mais tarde a escolha.
Indecisa também olhou para o guarda roupa. Não sabia qual vestido colocar.Vestiria o pretinho básico, ou
talvez o verde .... “Não... Pensando melhor o vermelho era mais bonito e contrastava com sua pele clara. O
vermelho é uma cor quente, dizem que representaapaixãoeelapensouquepoderiaapaixonar-senovamente.
Mas não deveria criar expectativas.Talvez ele não viesse. Como seria sua vida? E que compromissos teria?”
Enquanto se arrumava, recordou a sua juventude quando, por volta dos catorze anos, conheceu um rapaz
queestavahápoucotemponoBrasilevieraestudarnomesmocolégio.Eledespertavamuitacuriosidadeemtodos
osalunos.Eraitaliano mas falavainglêsmuitobem.Opaivieratrabalharemuma multinacionaleafamíliaestava
morando no Brasil há pouco tempo.
Alto, cabelos muito pretos e dentes, que por serem muito brancos destacavam –se no rosto moreno. As
garotas pareciam extasiadas diante do que parecia ser uma raridade. Por alguns anos foram colegas num convívio
demuitaamizadeequeatépareciaterminaremromance.Elaoajudaramuitasvezesnasdificuldadescomalíngua.
Mas o destino separou-os quando cada um foi estudar em diferentes faculdades.Assim o convívio que tinha sido
muito constante foi aos poucos se distanciando. Perderam todo o contato.
Enquanto retocava os lábios com batom vermelho, pensou como a sua vida tivera um desenrolar muito
diferente do que imaginara. Casara-se com um colega da faculdade, que trabalhando num banco foi transferido e
foram morar num país daAmérica Central. O casamento durou pouco. Certo dia, ao chegar em casa, pasmada
encontrou um envelope com dinheiro para sua passagem de volta e um bilhete lacônico onde ele pedia desculpas,
masquenãopoderiamcontinuarjuntos.Eletransferidoparaoutropaís,decidiraqueaseparaçãoseriamelhorpara
ambosApós a surpresa e o desgosto viu que tinha que organizar sua vida novamente. Se tudo fora tão efêmero o
melhorerarecomeçar.Assimsonhosdesfeitose malasfeitas,voltouparapertodesuafamília.Eraprecisoencontrar
umnovocaminhoeserfeliznovamente.
Começoutentandoencontrarumemprego, quando certodialeunumarevistadenegóciosumareportagem
daquele que, no passado, ainda muito jovem, parecia vê-la com olhar diferente de todos. Será que ela não quisera
entender ou ele fora tímido para se declarar? Seria possível revê-lo? Pensou e não resistindo procurou de todas as
maneiras descobrir como contatá-lo.Ao telefonar sentiu bater seu coração mais forte. Ele simpático, foi logo
dizendo que queria vê-la, saber o que fazia, onde morava.
- Sim podemos nos encontrar. E o convite foi feito e data marcada para encontrá-la.
O dia chegou e agora pronta, maquiada, sentindo-se qual adolescente sonhadora, olhou mais uma vez para
a sala. Estava emocionada e ao mesmo tempo tinha medo de que ele já não tivesse aquele mesmo interesse
demonstradoquandocolegas.Afinalelajánãoeraaquelaadolescentequeeletantoolharaebuscaraasuacompanhia
com o interesse maior de um jovem, mas que não conseguira ou não quisera demonstrar.
Tudo estava lindo e preparado para um futuro de surpresas ou talvez um novo romance. Havia avisado o
porteiro da chegada de sua visita.Assim ao ouvir a campainha correu para abrir a porta.
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Eraelemesmo.Aquelequeumdiademonstraratantointeresseporelaequeelatalveznãotivessepercebido.
Sentiu o rubor de suas faces e o coração bater desordenadamente. Parecia mais alto, elegante num terno escuro.
Os cabelos um pouco grisalhos nas têmporas.Aqueles mesmos olhos negros e profundos, aquele mesmo sorriso
tão simpático! E nas mãos... um buquê de rosas vermelhas.
FOGOS DE ARTIFÍCIO
A noite chegava mansinha após um lindo dia quente de verão, e ainda deixava no céu os rastros vermelhos
deumsolqueseescondiapreguiçoso,atrásdomorro.Noaltojápiscavamalgumasestrelinhasmarotas einsistentes.
Num banco do jardim da praia, onde uma brisa calma balançava as folhas dos coqueiros, dormia
profundamente um garoto, de uns oito ou nove anos, com short e camiseta um tanto grandes para o seu tamanho e
nos pés sandálias de borracha muito gastas. Mesmo dormindo segurava um saco cheio de latas vazias. Era o fruto
do seu trabalho realizado por toda a tarde, daquele que era o último dia do ano.
Adamastor ouTosinho, o seu apelido, saíra do seu barraco lá pelo meio dia, com inúmeras recomendações
desuamãe,quepareciamentrarporumouvidoesairpelooutro:nãoficarparado,nãoconversarcomdesconhecidos,
nãojogarbola,nãoentrarnomarevoltarantesdoescurecer.EassimTosinhodesceuomorro,atravessouumtúnel
para encurtar caminho e andou tranqüilo até a praia. “O dia está bonito vai ter muita gente e muita latinha para
recolher”, pensou consigo mesmo. Tinha nove para dez anos, mas era pequeno para sua idade. O mais velho de
quatro irmãos, tinha vindo do interior de um estado do norte, com a família, que ambicionava melhorar a vida no
Guarujá.Passadopouco tempoopaiviajouparasuacidadeenuncamaisvoltou.Coubeàmãetodoosacrifíciode
criar e sustentar a família, com o seu trabalho de lavar roupa para fora e limpar apartamentos.
DuranteatardeTosinhocaminhoupelomeiodasbarracas,mesinhas,recolhendolatasdecervejaerefrigerante.
Ganhou uma espiga de milho da dona de um carrinho estacionado no meio dos guarda-sóis. Comeu um pedaço de
sanduíche de lingüiça que alguém lhe havia dado e bebera um bocado de sobras das latas recolhidas. Parou para
olhar um grupo jogando bola, foi até a beirada da praia para brincar nas ondas, que irrequietas despejavam uma
espuma branca nos seus pés e pensou em como seria bom poder passear naqueles barcos parados ali tão perto...
Cansado foi sentar-se num banco da calçada e com os pés foi amassando as latas recolhidas. A tarde
passara depressa e ele ouvia falar que por ser o último dia do ano, era dia dos fogos, e que ia ser uma linda festa.
Imaginava se os fogos seriam como os rojões das festas do santo padroeiro da sua cidade. Sentia sono.Atarde
passara depressa e cansado adormeceu sobre o banco do jardim.
Pela praia iam chegando pessoas de todas as idades. Expressavam alegria e se preparavam para festejar,
com esperanças de melhores tempos, a passagem de mais um ano em suas vidas. Traziam bancos, cadeiras,
garrafas de champanhe e copos para brindar e principalmente muita animação. E assim a praia, as calçadas foram
ficando lotadas.Ao longe no mar várias barcaças indicavam o grande espetáculo prometido para a passagem de
maisumano.
De repente Tosinho, acordou com um estouro ensurdecedor. Era meia noite. Das barcaças ao largo no mar
subiam osmaislindosfogosqueelenuncapodiaimaginar.Pensou quetudoaquiloeraumsonho:bolasdefogoque
subindo até o céu se desmanchavam em estrelas, enfeitando o escuro do céu ou então como rastros de luz que
faziamcairlágrimascoloridasquedesapareciamnomar,nofimdohorizonte.Luzescoloridasesonsensurdecedores
subiam rapidamente e estouravam, colorindo a noite ao longe. As pessoas se abraçavam, se cumprimentavam
efusivamente. Ouviam-se gritos de admiração e todos aplaudiam com palmas e exclamações de alegria. Fora um
momentomágicoemuitolindo.Mas,tãoderepentecomohaviacomeçado,oencantamentoacabou.Eomantoda
noite escureceu novamente o céu.Aos poucos a multidão se dispersava.
Tosinho, ainda meio tonto e assustado, rapidamente apanhou o saco de latinhas, e pensando na surra que o
esperava, iniciou a volta para o seu barraco.
Maria do Céu Coutinho Louzã
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Mário de Mello Faro
Médico pneumologista
São Paulo - SP
DIREITOS E DEVERES
Qualquerquesejaoagrupamentohumanotrabalhador,direitosedeveresestãoimplícitosásuaatividadee
á sua forma de conduta.
Assim,umempregado,umoperário,umprofissionalliberal,enfim,umtrabalhador“latusensu”,recebeuma
remuneração de acordo com o seu trabalho, produção e resultados.
Se o trabalhador não corresponder ás expectativas e não cumprir as horas previstas, não produzindo
satisfatoriamente,sóháumcaminhoaseguir...primeiroumaadvertênciaparamaiorprodução,chegandoaosníveis
exigidos e acordados... caso contrario, a exoneração imediata, por não atender ás necessidades da empresa,
entidadeouinstituição.
Essas são as regras básicas que regem a relação e a “status” empregado / empregador.
Entretanto,essesprincípioselementares,nãoafetamos”trabalhadores”docongressoedosórgãoslegislativos
em geral, quer contratados ou eleitos.
Ora, dentro dessa linha de raciocínio, os componentes não são empregados, mas eleitos... e como eleitos,
devem responsabilidades á um determinado agrupamento que o elegeu.
Todavia,opolíticoeleito,comrarasexceções,nãoproduzosuficiente,tendoentretanto,saláriospolpudos,
fériasprolongadas,assistênciamédica,secretariasauxiliares,restauranteetransportesubvencionados,cabeleireiro
e manicure próprios, tem moradia e aposentadoria precoce... até um Incor dentro do congresso. É muita regalia...
a soma de todas utilidades representa um onus muito grande para o povo em geral.
As leis não são feitas, , as CPIS se arrastam pelos corredores do plenário e o povo... não tem moradia
digna, não tem emprego, não tem assistência medica adequada e passa fome.
Não há estabelecimentos de ensino suficientes, e as Febens da vida... repleta de adolescentes, candidatos
á bandidos. Mata-se com muita facilidade. Os favelados continuam amontoados em caixas de papelão ou de
madeira, prontas a ruir no primeiro temporal. E os sem terra querem a terra, mas não querem o trabalho.
Pergunto então... onde estão os nossos poderes, para reduzir ou solucionar tanta injustiça social e tantas
irregularidades.
A classe assalariada, que não é das maiores, tem forte tributação, representando aproximadamente, 40%
da sua receita, em impostos variados, enquanto que o legislativo, pouco produz, apesar das horas extras, e no fim
do mês, recebe polpuda quantia, mesmo sem trabalhar. Há exceções, todavia... repito.
Éumainjustiçaasercorrigida,pelousodovoto,quandopossível,ouaceita...comoummalnecessário,até
nova ordem.
Digamos que, a sobrevivência dos políticos, depende mais dos arranjos destinados a manter o seu “curral
eleitoral”, do que, o trabalho em beneficio dos menos favorecidos. Lamentavelmente, o povo ainda desconhece o
poder do voto, que o permitiria realizar modificações nesse “modus vivendi”.
Onossopovoaindaésub-nutrido,portadordeinúmerasmoléstiascrônicas,analfabetoousemi-alfabetizado,
vivendo das “esmolas” que o governo concede como beneficio, pelo fato de ser miserável... bolsa família e outras
dádivassemelhanteseeleitoreiras.
Quando há harmonia entre direitos e deveres, surge a “Justiça Social”, equilibrando seus valores e
transformando indivíduos, em peças agressivas de um jogo de xadrez produtivo.
Fato esse que ocorre, quando há empregos á disposição e largamente.
Contudo, grande parte da população depende da economia informal, que por falta de empregos dignos,
vive á margem da sociedade, procurando produzir recursos, participando desse comercio, sem estabilidade, não
gerando tributos para o bem da coletividade.
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Hávariasmanifestaçõesescritas,dedistintosjornalistasouarticulistas,formadoresdeopinião,emtornodo
comportamento do governo, do congresso e de membros da administração publica, que passamos a divulgar.
- “A crise continúa, porque os políticos são os de sempre, manipuladores da conciência do eleitor”.
- “O povo sofre... e o que pode fazer... não votar; entretanto, através de benesses individuais, os currais
eleitorais são mantidos... compra-se o voto, através de favores concedidos”.
-“Umareuniãodocongresso,assemelha-se,áumcirco,ondetodososparticipantessãoartistasderenome,
ficando o povo... com o papel de palhaço”.
- “Alguns lideres do governo, custam a cair... mas, caem tal é o volume das irregularidades. Onde estão os
vários programas, tipo Bolsa Escola, Saúde e outros... estão no fundo do copo, como promessas a não serem
cumpridas”.
- “Vivemos uma verdadeira truculência, onde o desrespeito ás leis é a regra”.
- “Não há ética... palavra inexistente, e, quando presente, foge muito da Ética de Platão”.
- “É pena, este pais tem tudo para ser... mas, não é... choremos um pouco”.
Estavaabsolutamentecerto,oantigoancoradaGlobo,jornalistaBorisKasoy,queterminavaseusprogramas
com a frase seguinte... “isso é uma vergonha... devemos passar a limpo”.
CRONOGRAMA DE VIDA
Nascer é um acontecimento inédito... resultado da fusão de um ovulo com um espermatozóide...
somente um, via de regra e nada mais... para começar uma vida... e são tantos.
Vida essa repleta de incógnitas e gratificações, com geração de aparelhos e sistemas... saturados de
progesterona ou testosterona, que vão condicionando os componentes do ser em evolução.
É,aomesmotempo,umatocomum,poisacontececomtodasasfêmeasemachos.Entretanto,somente
os humanos tem certa categoria de dores e desconforto, que vão se formando e acumulando, para no final da
gestação, explodirem como se fossem uma bomba com hora marcada para detonar, com rompimento da bolsa
aminiótica,desprendimentodaplacenta,ligaduradocordãoumbilical,chorocomentradadearnopulmão–enfim,
éumnovoserquepassaamamar,dormir,chorar,defecar,vomitar,tercólicas,acordarlevandoospaisinexperientes,
háumgrandeterroreexpectativa,atéqueosacontecimentostornem-seatosderotina.Orecémnascidotransforma-
se em criança, esta em adolescente e em seguida adulto, participando de nova cadeia produtiva.
E, assim, a vida continua...
O PASSAPORTE
O passaporte representa um mecanismo criado para estabelecer barreiras físicas e por vezes, culturais e
ideológicas, restringindo e dificultando o livre acesso de pessoas indesejáveis ou nocivas á determinados paises.
Dessa maneira, garantindo a soberania e segurança dos nativos dessa suposta nação, respeitando todavia,
atributosespecíficos,taiscomo:-hábitos,costumes,eficiência,organização,padronização,produtividadeeidiomas
– condições altamente prevalentes e diferenciadas.
Aolongodotempo,ovocábulopassouatermaioreamplautilização,agoraunindo-seádiferentessegmentos
de grupos representativos da sociedade vigente, criando novas imagens simbólicas, aplicadas á setores grupais da
mesmaouseja–dáAlegria,doAmor,daJuventude,daGastronomia,doMeioAmbiente,doMercosul,daPaz,do
Turismo,daSaúde,doSucessoedoVerde,entreáreasdoconhecimentohumano,aproximandoobjetivos,transpondo
barreiras e eliminando posições adversas.
Essa plêiade de passaportes, tem sido um verdadeiro “abre-te sesamo”, entre varias destinações e por
derradeiro,facilitador...contrariamenteaoinicialdescrito,decunhoimpeditivoefundamentalmenterestritivo.
Mário de Mello Faro
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Para completar o conjunto das finalidades arroladas, estariam faltando ainda, dois importantes rótulos... a
criação do Passaporte da Mente e o Passaporte do DNA.
O primeiro , seria então, aquele que viria promover vínculos estreitos entre os vários segmentos da mente
humana, permitindoentão,queascondiçõesespecificasexistentes,pudessemporcaminhostortuososediversificados
da memória, serem levados a distintos recantos da massa cinzenta, assegurando a comunicação de informações
entreascélulasneurais.
Assim, criando condições intimas entre cérebro e cerebelo, através do encontro de sinapses ligadoras e
transportadoras de impulsos e sentimentos, ou sejam... audição, gustação, olfato, tato e visão, carregando no seu
bojo... alegria, satisfação, desespero, dor, duvida, critica, pesar e outros mecanismos de caráter sensorial.
O conteúdo e o comportamento da mente, sempre foi uma incógnita severa e muito intrigante.
Não são muitas, as pessoas que conseguem subjugar corretamente esse mistério... que é a mente humana.
A cada momento, o cérebro transforma-se numa caixa de surprêsas, revelando dados inesperados, que
levamaumseumaiorconhecimento.
Desde os tempos de Sigmund Freud ( 1856-1939), um dos pioneiros no seu conhecimento, derrubando
uma serie de conceitos errôneos, visualizando sinais e sintomas da mente comprometida e enferma.
Recentemente,aimplantaçãodeelétrodosnocérebro,permitiualteraroseucomportamento,revitalizando
regiõesafetadas.Noentanto,autilizaçãorotineiradatomografiacerebraledaressonânciamagnética,permitiriam
identificarproblemasorgânicos,queestejamafetandoamassacerebral,comconseqüentesdistúrbiospróximoseá
distância.
Por outro lado, o Passaporte do DNA, seria aquele representativo da bagagem genética hereditária do ser
humano, espelhando as suas origens, desde épocas remotas até os nossos dias, mediante o estudo do seu estado
genético.
O DNA humano sofreu grandes e numerosas mudanças, nesses últimos milhares de anos, em inúmeros
atributos,entreosquais,atitulodeexemplificação,estãoometabolismo,acoloraçãodapeleeodesenvolvimento
da massa cerebral, em tamanho, como conseqüência da vida em sociedade e da evolução da agricultura. O ser
humano deixou de ser nômade caçador, passando a viver da agricultura, desenvolvendo uma vida relativamente
sedentária.
Modernamente,comaajudadecomputadores,foiprocuradonoantrogenômicodoserhumano,variações
produtivas eficientes, que o levariam a viver mais e gerar descendentes mais perfeitos.
É a denominada seleção natural, proposta por Darwin e Russel, já em 1858, alavancando a evolução das
espécies.
O estudo do DNAhumano, prevendo através do seu passado, um futuro promissor, moldado de forma que
mediante, ao rearranjo dos mitocôndrios, possa o seu código genético, ser modificado com a introdução de novos
fatores e a eliminação dos fatores danosos.
Ofuturoéumaincógnita,masaprevisãodemodificaçõesearranjosnos“gens”,poderámelhoraraqualidade
de vida do ser humano. O tempo será o parceiro primordial dessas descobertas revolucionarias.
A seleção natural foi à forma encontrada pelo homem, para enfrentar a competição, doenças e outros
problemasvariados,taiscomo,asmoléstiastransmissíveisegenéticas.
Os mais fortes sobreviveram, gerando caracteres positivos / produtivos para as gerações futuras.
Quando uma variação competitiva do DNA é selecionada em favor de outras, ela prevalece e se torna
comum nos descendentes posteriores, passando a ser fator definitivo.
Entretanto, há novas tecnologias, em distintas áreas, que estão a ampliar o campo cientifico, entre as quais
podemos citar, o estudo das células tronco embrionárias, objetivando regenerar tecidos e órgãos lesados.
Casa vez mais, os estudiosos, delimitam as áreas conhecidas, que gerenciam funções especificas.
Por outro lado, os portadores de deficiências mentais, conseqüentes de distúrbios endocrinologicos e
genéticos,podemserdetectados,aonascer,atravésdo“testedospesinhos”,recursoquepermiteidentificardoenças
como,síndromedeDown,fenilcetonuria,hipotireoidismocongênitoedoençadeAlzheimer.
É a ciência ha disposição do homem.
Mário de Mello Faro
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Mercedes Gomes
Empresária
Luanda - Angola
QUANDO…
(10-02-2006)
Quando nossas estradas se alinharem
haja nos céus
aplausos
de todos os anjos bons!
Que não haja rogos nem lágrimas,
nemlamentações,
nemescombros,
que nossos carinhos
sejam somente nossos
edelesninguémpartilhe.
Que não haja perguntas, sem respostas,
que sejamos um para o outro
o tesouro a ser escondido
em nossos corações.
Quando nossas estradas se encontrarem
não haja abandonos
nemmalentendidos.
Que haja tão-somente
sonhos, satisfações, alegrias e doces afagos.
Sempre que necessário,
haja tolerância e perdão…
Quando nossas estradas se cruzarem,
sejas para mim o meu oásis
e eu para ti o teu refúgio.
Que nossas mãos estejam sempre unidas
e nossas almas sempre alinhadas,
correndo ou andando
pela mesma estrada!
Assim deverá ser
quando nossas estradas de vida se unirem,
transformando-senumúnicocaminho
a nos levar à plenitude do amor!...
Não seja esta página
a primeira, segunda ou terceira,
masaúltimadoLivrodeSentimentos
que escrevermos nesta vida!
Por nossa comum e soberana vontade,
seja o epílogo desta história de amor
Aunião de “tu mais eu”.
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Mercedes Gomes
CANTIGA DE NINAR LUANDA
(2004)
Luanda, para ti, canto nesta madrugada!
Transporto-me ao Cosmo,
junto aos céus e às estrelas,
em espírito, pelas mãos de Deus!
Poeto para ti, Luanda,
levada pelo teu vento,
acariciada pela tua aragem,
alimentadapeloteuar.
Danço o bailado de tuas aves
envolvendo-menofarfalhardetuaflora.
Poeto para ti, Luanda,
no esplendor de tuas areias,
imaginandominhapresençaemtuavida…
Contemplo-te entre dois gigantes oceanos
e viajo pelos teus lindos e caudalosos rios
a banhar tuas terras grandemente férteis,
adentrando por tuas entranhas
e caindo, lindamente, em cascatas
deinigualávelbeleza,
comoasimbolizar
ofinaldeumalinhadevida
cheia de tristes holocaustos,
e o reinício em outro sinuoso e lindo patamar de vida.
Luanda amada e querida,
poeto para a lembrança de tuas memórias
e para tua soberana humildade.
Canto poetando e poeto cantando
para tua presença em África.
Poeto para tua realidade, teus sonhos,
tuas esperanças,
ouvindoasmúsicasquemetrazemàlembrança
o teu passado afectuoso,
quando do holocausto de teu povo escravizado!
Poeto para os teus “bens” maiores:
tua grandeza e soberania;
teu poder de renascimento e reconstrução;
para o brio idealista de teu povo;
para a valentia de tuas ForçasArmadas;
para a simplicidade de teus mestres, artistas,
políticosidealistas
e empresários desbravadores de oportunidades;
para a força e coragem de tuas mulheres;
para o sorriso alegre de tuas crianças.
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Mercedes Gomes
Poeto para ti, Luanda,
em cada acorde musical
quemetrazavisualização
de teu glorioso porvir.
No futuro, outros poemas para ti farei,
preciosos, sinceros e eloqüentes,
porqueestarásinteirinha
inseridaemseuscontextos.
Serás a encarnação viva
do meu carinho e de minha poesia.
E após esta entrega singela e inteira,
do meu cântico de amor e respeito a ti, Luanda,
somente o SILÊNCIO que é a cinza da poesia
e a ESPERANÇA que é o último suspiro do amor,
poderão dar continuidade a este poema,
sem a tristeza de teus escombros
e com a alegria de teu renascimento e reconstrução,
PORQUE ESTA É A VONTADE DE DEUS
UM POUCO DE TI…
(20-05-2006)
Um pouco de ti,
umpoucodemim,
e muito de nós…
Não posso abraçar as águas oceânicas,
nem tu podes correr atrás do vento,
mas, podemos construir sonhos…
Não posso dar forma às flores,
nem tu podes dar-lhes o perfume,
mas podemos vê-las e sentir seu aroma…
Não posso caminhar no desconhecido,
nem tu o podes, mas,
como já o disse o poeta “Juan de Monte Serrat”,
“Caminando, se hace el camino”!
Ninguém chega a alguém por acaso.
Em tudo há um propósito,
as vezes por nós desconhecido.
A coragem, põe o mundo
nas mãos daqueles que ousam sonhar
e correr o risco de viver seus sonhos,
cada qual de nós com seus próprios talentos.
Quero viver o meu,
quero também, que vivas o teu…
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Sabes por que?
Porque quando tenho frio,
tu tens o calor que me aquece.
Se tenho alegria, dou-ta porque tens o sorriso;
se te procuro com lágrimas, tens o lenço;
se te faço versos, tu tens a música;
se tenho dor, tens o curativo;
se tenho palavras para dizer,
tens ouvidos para me ouvir;
se tenho fome, tu tens o alimento;
se tenho beijos para ti, tens o mel para mim;
se as dúvidas me cercam,
teudiscernimentomeilumina;
se me transformo em uma orquestra,
tutetransformasnumafesta;
se tenho desanimo, tu me dás o estímulo;
se as fantasias me tomam,
tu me mostras a realidade;
se o desespero me invade a alma,
tumetransmitesserenidade;
se tenho entusiasmo, tu tens o brilho;
quando te faço conhecer meus segredos,
tu me mostras a nossa cumplicidade;
se o tumulto me rodeia,
tuacalmameenvolve;
se te procuro com confiança,
tu me retornas com FORÇA!;
se em algum instante da vida, o medo se faz presente,
o teu amor me faz destemida guerreira…
Só nos resta, a saber:
Por que viemos?
Onde estamos?
Para onde vamos?
Não tenho tais respostas
E tu, as tem?
Mercedes Gomes
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Miguel Ángel Manzi
Médico
Buenos Aires - Argentina
EL ABANDONO
Sintiópenaporél,muchapena.Lovioahísolo,abandonado…esperándola.Cuántasvecesélhabíaestado
asolasconella.Aunquehubierahabidomuchagenteporallí,cercaolejos,rodeándolos;igualhabíaestadoasolas
conella.
El resto del mundo, de las personas –conocidas o no – no les importaban; ellos estaban solos siempre.
Absolutamente unidos, en una simbiosis intermitente, inigualable, insuperable. En todo caso eran ellos, en cierto
modo los que inundaban e invadían a los demás con su presencia.
Ellaapretabafuertementesuslabioscontraél,cadavezqueseleacercaba,sinexcepción.Nohabíadesmayos,
no había claudicaciones, no había acostumbramiento ni aburrimiento. No existía la rutina por más que se repitiera
indefinidamente la escena, el acto.Ambos lo vivían con inalterable intensidad; como había sido la primera vez, o
quizáscomosifueraaserlaúltima.
¿Los demás los envidiaban? Muchas veces se habían formulado ambos mutuamente esa pregunta. No
sabíanlarespuesta.Tampocosehabíanatrevidonuncaamanifestarlaenvozalta.Enrealidadcarecíadeimportancia.
Sí,loúnicoimportante,vitalytrascendenteeraquedesdesiempre,omejordichodesdesumástempranaadolescencia;
habíanestadounidos,íntimamenteentrelazados,enunaconjunciónenfermizaimposibledeseparar.
Pero… ¿y ahora qué? ¿Qué había pasado? ¿Porqué ella intentaba dejarlo, abandonarlo? ¿Era cierto? Ella
nolehabíadichonada,peroéllointuía.Aunque…noqueríapreguntárselo.¿Sehabíainvertidolaclásicaytradicional
intuiciónfemenina?¿Eraélestavezelqueintuía?Podíaser.Lociertoesqueellahabíaempezadoanocomportarse
como antes, como siempre.
Ya no se dejaba llevar por esos irrefrenables arrebatos, cuando corría a tomarlo entre sus manos, a besarlo
frenéticamente y a confundir su aliento con el de él; para luego exhalar un profundo suspiro de satisfacción, y
después ese contacto amoroso que continuaba, que se repetía con sus interminables suspiros; hasta el final, hasta
acabarconeseritoreiterado,quedejabaaambossatisfechos,trashaberlodisfrutadoplenamente,consusensación
delasitudyrelajaciónindescriptibles.
Pero ¿y ahora qué? Ella lo miraba ansiosamente, -al menos eso creía él- estaba “casi” seguro; pero por
alguna razón no se le acercaba, no corría hacia donde estaba él como siempre para tomarlo entre sus manos y…
Eraevidentequealgohabíaacontecido.Ellaintentabadejarlo;¿peroporqué?Élnolehabíahechonada.Se
comportaba como de costumbre.
¿Teníaellaotroamante?¿Deseabacambiarloporalguien?Podíaser,pero…¿porquién?¿poralgún“negro”
fuerte, o por otro rubio? Pero ¿cómo? ¿cuándo? ¿Cómo y cuándo podía siquiera haber conocido a su hipotético
rival?Siellosestabansiemprejuntos,fundidos;todoeldíaylanoche…bueno;exceptocuandodormían.Peroeso
era lógico.Tenían que descansar como todo el mundo.
Aún así, ya era claro.Aunque no quisiera aceptarlo ni en sus peores sueños, ella se estaba alejando, cada
vez acudía menos a buscarlo, cada vez necesitaba menos de su compañía. No veía que estuviera con otro, pero lo
que sí veía era que se distanciaba de él.
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100
Miguel Ángel Manzi
Finalmente,deapoco,dolorosamente,soportandounainterminableagonía;comprobóimpotente,indefenso,
inerme,comoellalentamenteloabandonaba.
Ese amor que los había unido, etéreo, con su perfume único, con su aroma insuperable, se esfumaba en los
vahosdeldestino,enelhumoimperceptibledelanada,enlasvolutasembriagadorasdesuhechizo;esehechizoque
los había cautivado durante años, durante muchos años; durante casi toda su vida; casi desde que abandonaran su
niñez para ingresar en ese sueño vertiginoso pletórico de mareos de la adolescencia.
Pensó como se sentiría ella. ¿Sufriría? ¿Sufriría el mismo dolor que estaba padeciendo él?
Paraayudarseaaveriguarlointentóvolvereltiempoatrás;rememorarsusprimerasveces.Preguntarlesiella
como él… recordaba con nostalgia los viejos tiempos de sus primeros encuentros plagados de temor, furtivos,
escondiéndoseparaquenoseenteraransuspadres.Laemociónquelosembargaba durantesusrelacionesiniciales;
cómo latía su corazón golpeándole en el pecho; y cómo después de ello quedaba relajada, distendida, disfrutando
su aventura. Y cómo luego, cuando sus padres finalmente se enteraron debió afrontar estoicamente las duras
reprimendas, las –para ella- incomprensivas críticas y aún así resistir e ir consolidando en el tiempo su unión
indisoluble.
Preguntarle si ella recordaba cómo él la había acompañado a todas partes, adonde fuera. Cómo a veces iba
informalycomúnmentevestido;yotrasderigurosaetiqueta,lujosamenteenfrascadoensustrajesdegalay…cómo
ella tambiénlohabíaseguido,incansable,fiel,incondicional.
Recordarlecómoseregodeabapaseando portodaspartesconélasuladosumiso,entregadoyagradecido,
sinquejas,enobedientesilencio.
Recordarle… cuántas veces había encendido esa pasión, ese fuego en él; que ardía como brasas en su
corazón y en su piel, consumiéndolo con voracidad una y otra vez… mil veces.
Tal vez eso le hubiera ayudado a comprender lo incomprensible. Pero no lo hizo. No le preguntó nada. Se
rindió. Intuía -¿sabía?- que no había retorno, que el desenlace inexorable lo acechaba.
Finalmente ese instante supremo, ese momento no deseado, muy a pesar suyo se acercó peligrosamente:
ella lo miraba desde lejos, indiferente; no se aproximaba.Ymás tarde… en un acto de lacerante dolor, como si
firmara y sellara su divorcio, su separación, su muerte, sus exequias; todo junto y sumado; tras tomarlo entre sus
manos,ledijo:
-Ésta es la última vez que vamos a estar juntos.
Él no pudo pronunciar palabra alguna. Dejó que lo tomara entre sus manos. Esos dedos estilizados de una
de sus manos que tantas veces lo habían capturado y apretado amorosamente, hasta llevarlo al contacto con sus
labios,volvíanahacerlo;mientrasqueconlosdedosdesuotramanoencendíapóstumamentesupasión,suhoguera.
Con ella prendió ese fuego que lo quemaba, que lo hacía arder en su boca. Ella aspiró varias veces su sabor, su
aroma, como siempre.Ycada vez que ella lo hacía, él se consumía un poco más en su desesperación, al sentir, al
saber que estaba siendo abandonado; que “ésta” estaba siendo su última vez…
Porúltimo,ellatomósusdesechos,loqueerasindudasumínimaexpresión–alaqueellalohabíareducido-
yloterminódeapagar,hundiéndolodesaprensivamenteenelcenicero.
Sólo atinó a quejarse suavemente, a chisporrotear levemente en su breve agonía pre-mortem, antes de
convertirseencenizas…
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¡TANGO!
Sos la luz y sos la noche, el champán y la ilusión,
Sos el canto que de broche amuró en el corazón;
Vos naciste hace tiempo; pura fibra el bandoneón,
No hay arrugues en tus fueyes; sólo espinas de dolor.
Sos clamor de los porteños, sangre, chamuyo y farol,
Resplandor de los cuchillos, patio, baldosa y charol;
Te floreaste en yotivencos, barnizado con alcohol,
Sos el tamiz de los tiempos, sos el lamento hecho voz.
Las percantas y las paicas, las mecheras y las grelas,
Fueron fieles compañeras al compás de tu canción;
Hamacándose sus piernas o quebrando su cintura
Dieron a tu alma figura, y a tus notas su razón.
El compadre y el malevo, el guapo y el gavión
Son estandartes tangueros de tu historia y tu blasón,
Todos con chapas de reos y con cartel de varón,
Amasando esos sueños de galán y de cantor.
Sos el café, sos los tungos, sos la timba y el pernó,
Soselgaucho,elcriollo,elinmigrante,elgigoló,
Soslaprostitutarantequeelpiringundínacunó,
Tantas razas que yirantes te forjaron tu crisol.
Sos el bulín, los amargos, sos el faso y el percal,
Sos el sueño hecho empedrado en tus yecas de arrabal,
Sos la guitarra, el chambergo, sos la gola, el bandoneón,
Sos el tango arrabalero… ¡qué por algo te hizo Dios!
Miguel Ángel Manzi
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PORTEÑO
Por algo te marcan como el prócer reo
Que parió mil veces la magna ciudad;
Vos sos el compadre sabio del potrero,
Del pernó, la esquina y de la amistad.
El café, los tungos, la parada rante,
Te fueron tallando en la yeca y el bar;
Sueñosdelbailongo,minasylevante,
Los gomías te aplauden por tu performance.
Vos tenés tu chapa grabada en el pecho,
Se te fue clavando en el corazón,
Con el beso amargo de un cruel despecho;
Años de empedrado, barro y mostrador.
Te salva el estaño y el alma del barrio,
Son los que te bancan siempre en la ocasión;
Saben que sos capo frente a los otarios,
Con tu labia, clase y percha de varón.
No sigo tu huella porque sé que surca,
Lalocabohemiadelfielbandoneón;
Que no te traicione nunca flojo el de la zurda,
Y te alumbre por siempre tu amigo el farol.
Miguel Ángel Manzi
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Nelson Jacintho
Médico ortopedista
Ribeirão Preto - SP
A NOITE
Caminha, a noite pela estrada do escuro...
Solitária,aminhaalmadesolada
Segue o fio de luz de uma esperança
Que se esconde por detrás do negro muro...
Fico sentado sozinho na janela...
Pensamentos são cartas espalhadas,
Cujos jogos, ora perco, ora ganho
Nos avanços naturais das madrugadas...
Eu viajo num barco a muitos nós
Rasgando sem piedade a branca espuma
Que o brilho, lava, da lua sobre o mar,
Como o das estrelas, uma a uma...
Já vai longe o meu barco de papel...
Já some no horizonte a luz em cone,
Perseguindo a espuma que se eleva
A cada respirar do mar insone...
O vento, à minha frente, abre meus olhos...
As janelas batendo, abre os ouvidos...
Um tiro na escuridão, acorda o medo,
Um choro de criança, abre os sentidos...
A ambulância passa de repente...
Esganiça a sirene do bombeiro...
Umincêndiopõefogonaminhaalma,
Vai queimá-la, se a não salvar primeiro...
Mas a noite é a mãe terna do poeta...
A escuridão lhe fornece a claridade,
Éfonteinesgotáveldeternura
Tudo lhe dá, do consolo à saudade...
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104
Nelson Jacintho
A ESTRADA DA VIDA
Venha, sentemo-nos à beira desta estrada. A árvore é frondosa, a brisa é mansa. A vida passa por
todos os lados e lugares. Os pássaros entoam velhas canções herdadas, como os trovadores do período provençal
que repetiam suas velhas canções, às multidões. O sol é o mesmo, a poeira da estrada é a mesma, assim como a
brisa e o canto dos pássaros que conhecemos na nossa infância. Lembra-se?Abrisa bulia com nossos cabelos e o
sol franzia as nossas frontes de crianças que começavam a acordar para a vida! Lembra-se da cerca à beira da
estrada, das pedras que atirávamos nas corruíras e dos bem-te-vis que gritavam à nossa frente, quando íamos
juntos para a escola que ficava à beira desta estrada?As pedras atiradas não iam além de alguns passos porque
nossos braços e as nossas intenções não queriam fazer mal algum aos alegres passarinhos e, sim, ver os seus voos
rasantes de mourão em mourão.As corruíras e os bem-te-vis continuam cantando em cima de outros mourões,
porque aqueles já se foram. Lembra-se da cruzinha na beira da estrada? Ela, sempre, tinha por perto uma rosa
despetalada e coberta, em parte, pela poeira. Lembra-se de que um dia havia uma rosa nova com porte e perfume
de juventude? Eu quis dá-la a você e você recusou, “rosa de defunto, não se dá pra gente viva!”, disse você com
jeito de professora brava. Eu corei com a rosa nas mãos. Você pegou-a e colocou-a junto à cruz! “Ela é do
defunto”, disse você, sem pestanejar. Eu vi, naquele gesto nobre, duas rosas se completando e amei as duas. Eu,
meninovivo,que raramentepenseinamorte,muitomenosnodefunto,fizumgestoautomáticodereverênciaàcruz,
sem saber por que. Talvez porque ela houvesse me dado a oportunidade de conhecer você, melhor. Lembra-se?
No dia seguinte a rosa estava murcha, despetalada e a poeira da estrada cobria quase todas as suas pétalas. Eu
pegueiumadaspétalas,limpei-anabordademinhacamisae entreguei-aparavocê.Dessavezvocênãoarecusou,
pegou-a, colocou-a no bolsinho de sua blusa junto ao peito e disse-me: “vou guardá-la de lembrança!”
Nesse momento cresceu uma dúvida no meu peito:
Lembrança de que? Lembrança de quem? Lembrança da rosa? Lembrança da cruz? Lembrança da
morte? Lembrança do morto? Lembrança de uma nova vida que poderia estar brotando para nós dois?
Alguns dias depois, folheando um dos seus livros na escola, vi que a pétala estava numa página onde
havia um poema de amor.Adúvida cresceu no meu peito e a visão daquela pétala junto ao poema, aumentou-a.
Seria uma homenagem à cruz, à pétala da rosa? Teria alguma ligação antiga com o defunto? Teria algum amor
escondido que tentava desabrochar, ou estaria aguardando o início de algo que nasceria dentro do seu peito em
relação a nós dois? Não tive coragem de perguntar-lhe porque tive medo da resposta.
Muitas vezes passamos pela estrada empoeirada. Muitas vezes vimos rosas despetaladas cobertas
pela poeira, mas não vimos, mais, nenhuma rosa nova. Terminamos o nosso tempo de escola e o tempo passou...
O destino encarregou-se de nos separar e caminhamos, cada um, em novas direções.
Um dia, anos mais tarde, esse mesmo destino, a força da cruz, ou da rosa, juntou-nos no mesmo lugar.
Eu havia perdido a maneira e a voz da criança inocente.Abarba medrara na minha face. Uma goma fixava meu
cabelo liso. A brisa não conseguia, mais, bulir com ele. Você estava uma moça linda, seu olhar e seu sorriso
continham a meiguice e a suavidade da criança com o toque da malícia dos adultos.Acruz estava caída. O pé dela
apodrecera, havia apenas uma parte dela porque lhe faltava a parte de cima que havia apodrecido e
desaparecido.Você usava uma fita amarrada aos cabelos longos e sedosos e um broche de pétalas de rosas no
peito prendendo as duas partes da blusa pouco decotada, meio entreaberta. Vi, naquele momento, o jardim mais
belo de minha vida. Nos entreolhamos.Aantiga inocência desaparecera, mas o amor acabara de nascer. Havia
uma rosa nova aos pés da cruz velha. Peguei a rosa, agora sem medo, para entregá-la para você.Avelha frase
bateu dentro do meu peito: “rosa de defunto não se dá para gente viva!”. Mas, como estávamos vivos! E como
estávamos prestes a viver uma nova vida! Fiquei com a rosa presa nas mãos, enquanto nossos olhares penetravam
no fundo de nossos corações e de nossas almas. Eu, estático sem palavras!Você muda e queda como uma estátua!
Somente nossos olhos e nossas almas falavam por nós dois.
De repente, um passo à frente. Nossos braços se entrelaçaram, a rosa caiu ao pé da cruz e os nossos
lábios se encontraram. Nunca mais nos separamos.Acruz e as rosas da estrada acabaram por desaparecer com o
tempo.O mato cresceu, árvores frondosas cresceram no local. Uma cresceu mais, onde havia a cruz, talvez para
marcar a ressurreição da vida e do nascimento do amor!
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105
Hoje eu trouxe esta rosa para você, rosa bonita cheia de vida, rosa de gente viva, que muito ama, que
dá sinal de vida... Com o tempo, certamente, vai desaparecer e passar a viver apenas na lembrança das pessoas,
quando ela e depois a nossa vida, tomarem o caminho do desconhecido...
QUASE...
Foi pequeno, foi pobre, quase órfão...
Quase porque tinha pai e quase mãe...
Quase mãe, porque nasceu de outra barriga,
Fato este que ainda hoje o intriga...
Sua mãe verdadeira não o quis,
Deixou-o.Oseupaiquaseinfeliz,
Quase porque a força do destino,
Empurrouopaicomseumenino,
À procura de pessoa mais feliz.
Bateu de porta em porta das pessoas
Mas viu que muitas delas, quase boas,
Ouviram-no com atenção, mas sem amor...
Apenas uma, entre todas as que o ouviram,
Conseguiuentender oseulamento...
Tinhaigualodestinoeosofrimento
Que rondava as duas casas infelizes...
Dores alheias quando juntas quase somem,
Alegriasjuntasquaseaumentam,
Confundindodossentimentosasmatizes
Elesmisturaramsuasvidas.Amor,tristeza, fome e dor,
Tudo misturado na guarida, quase sem telhado.
Na esperança de uma nova vida.
Não se acovardaram... Trabalharam...
Os risos e as lágrimas se juntaram...
Foiummistodealegriaesofrimento.
Novas bocas vieram e choraram,
E eles, quase desanimaram,
Mas riso e alegria, outros trouxeram
E o misto de sorriso, alegria, tristeza e dor
Transformaram-senumagrandefontedeamor...
O tempo correu, a molecada cresceu,
O choro sumiu tal como conto de fada
Onde a bruxa, quase sufocada,
Deixoudeagir,sumiunaestrada.
Nelson Jacintho
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Hoje, olhando para trás vejo o quanto foi sagaz
Aquele pai quase aparvalhado,
Quenummomentodeafliçãoesofrimento
Quase atirou a vida ao vento,
Ou num cesto de lixo abandonado.
Mas acho que no momento
Quase não havia vento e o lixo era escasso
E a vida quase presa ao embaraço,
Pedia sem temor pra caminhar.
Avida era vazia, sem T.V. sem celular
Somente o rádio existia... Mas existia a esperança
Que era a fonte de bonança que mantinha a vida em dia...
No mundo tudo mudou, a maconha e a cocaína
Corromperam nossos jovens, deram-lhes nova rotina:
São idiotas ambulantes, quase vivos, quase mortos,
Robôs a droga tocados que matam por uns trocados
Para o vício sustentarem!
Suas vidas, pesadelo, calor do amor virou gelo,
Só vivem pra se drogarem!
Passa dia, passa noite, passa sol e passa lua,
A estrela envergonhada não quer mais, nem ver a rua.
Não quer ver a mortandade na cidade esparramada,
Por pessoas quase loucas, matando a si e ao inocente
Que como laranja podre caiu do galho pendente.
E vendo tantas loucuras, eu quase não acredito
Que um Deus haja nas alturas, nos olhando do infinito...
Será que estou quase certo? Será que a vida é assim?
Será que este mundo incerto estará quase no seu fim?
Nelson Jacintho
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Paulo Camelo de Andrade Almeida
Médico
Recife - PE
PORTAL DA MENTE
Alágrimanosolhosfazpresente
a cada vez que fito a tua face,
o teu sorriso, o teu olhar, e nasce
ochoroemmim,umavezmais,silente.
Alágrima,portaldaminhamente,
espelhaosentimentosemdisfarce
e não consigo te esconder que faz-se
em meu futuro um escuro, tão somente.
Alágrima,queteimaemmeaflorar
os olhos, que marejam se te vejo,
é uma perene fonte, que não cessa,
e, quando está distante o teu olhar,
ainda assim é enorme esse desejo,
essaloucuraemminhafaceimpressa.
HÁ MUITO TEMPO
Há muito tempo eu tento te esquecer,
mas meu amor por ti transcende a tudo,
eu não sei me calar, tornar-me um mudo,
e falo o que não devo. O que fazer?
Há muito tempo eu sei que se acabou
aqueleencantamentoemteuolhar
e eu, frente a ti, sentindo o palpitar
do coração, me vejo como estou.
Há muito tempo, eu sei, não sou mais eu,
poisomeueuficoun’algummomento
eaquelesentimentomemarcou.
Há muito tempo eu descobri, sofrido,
o que por muito tempo eu, iludido,
ousei não ver, pois meu olhar turvou.
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AVE CELESTE
Suave brisa, entraste em meu viver
voando leve, no teu modo brando,
embelapluma,fosteteaninhando
e o corpo todo encheu-se de prazer.
Suave musa, eu vou seguir te amando,
eu quase ocaso e tu, amanhecer,
pois o teu sopro me faz reviver
sustendo o tempo e, firme, te esperando.
O teu olhar sorriso me fascina
e eu me enterneço ao som da doce voz
que me cativa, que me prende tanto.
Ave celeste, aura de luz, divina,
eu viro jovem quando estamos sós
e me apresentas o teu corpo santo.
Paulo Camelo de Andrade Almeida
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Renato Passos
Médico
Belo Horizonte - MG
O FOGUETE
Oquerelatoaqui,seguiuodestinonaturaldascoisas,começandopelamagiadosencontros.Elesocorreram
em abundancia, em número de quatro e todos numa só noite. Tudo aconteceu, por causa de um comício, de uma
banda de música, uma prata sumida e a desilusão de um menino pobre de sete anos.
Foi lá pelos anos 1945, na minha cidade natal, de ruas de terra batida, onde dominava a ordem beata dos
franciscanos maiores, habitantes severos do convento do Santuário. Mas... o fato ocorreu na esquina da padaria
Rosicler,doinfluentepadeiroGuaraci.
Lá estava instalado um palanque de madeira, pronto para um comício do partido PSD, contrario aos ideais
políticos do meu saudoso pai, o Rafael português, mecânico e compadre do candidato à prefeito. Coisas do
capricho do destino, fugindo às explicações ditas racionais dos simples mortais.
O clima na cidade era de euforia do pós-guerra, marcado pela esperança do mundo melhorar.
À tarde, fui procurado por um vizinho nosso, que me ofereceu uma prata de 400 réis, para que eu soltasse
uns foguetes no comício da noite. Lógico que perguntei a razão dele não os soltar. Explicou-me que não poderia
fazê-lo, porque iria aplicar injeções de penicilina, em uma cliente da farmácia (cumpre-se notar que aquele era o
remédio miraculoso da moda, no mundo inteiro).Acobiça mexeu alto na vaidade e topei soltar os foguetes, desde
que ele não contasse nada para os meus irmãos, porque éramos proibidos pelo meu pai, de lidar com fogos de
artifício.
Aochegardanoite,fuiaolocaldocomício,masaindaeracedoeelenãohaviacomeçado.Fiqueimaravilhado
com a banda que já animava a festa e para o meu deleite, tocava a músicaAsa Branca. Quem cantava era o famoso
Luiz Gonzaga, sanfoneiro, acompanhado pelo seu compadre Chico Paca tocando o zabumba e outro músico, que
tocava o triângulo, do qual nunca soube o nome. Suas roupas, suas músicas e suas danças me eletrizavam.
Eu estava ali embevecido, quando o boticário puxou-me pelo braço e me levou para um lugar um pouco
afastado do povo, que já se aglomerava para evento. Na escuridão da noite, ele me deu um saco de estopa e
depois sumiu. Dentro dele havia os rojões, que eram foguetões de vara comprida e que subiam espocando lá no
céu,produzindoumestrondobonito.Eujátinhavistoessesfogosdeartifícioseremsoltosequemofazia,espetava
o pé da vara no chão e chegava um tição no pavio. Peguei o primeiro foguete e notei que a sua vara era bem curta,
nãomaisquetrêspalmos,masjustifiqueiparamimmesmo,quedeveriasercoisadamodernidade.Eunãotinhaum
tição, mas no saco de estopa havia uma caixa de fósforos. Cumpri então o mandado, porque a cobiçada e sonhada
prata, já pesava no bolso da minha calça reles, de morim barato e suspensório de tiras de pano.
Agachei, espetei a vara curta no chão, pisei na caixa de fósforos, risquei um palito e ateei o estopim. O
bicho chiou, alumiou o chão e saiu feito louco me dando uma cambota. Logo em seguida, o danado, ao em vez de
subir, correu para cima do povo, como se fosse um busca-pé infernal, chamuscando e perseguindo o pessoal da
platéia.Anteaoinusitado,todosfizeramumalvoroçohorrível,quenemoestourodeumaboiada,gritando,atropelando
unsaosoutros,caindoeselevantandoligeiro.Aspessoasvieramemminhadireçãoeassustado,largueiosacocom
os foguetes e dei no pé.
Quando tudo sossegou, e até os músicos tinham fugido, meti a mão no bolso e cadê a prata? Nada, nem
sinal da bendita. Voltei ao lugar do acontecido, despistei, corri os olhos pelo chão e lá não estava nem o saco dos
foguetes e nem a minha moeda. No palanque só havia o candidato, xingando e gritando que iria por a polícia no
encalço do malandro que acabara com o seu comício.Tremi nas pernas e de tanto medo, tive na hora, uma crise de
asma.TireiabombinhadeIsupreldobolso,usei-aelogoapósfiqueialiviado.Volteiaprocuraravaliosaprata,meu
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tesouro, mas muito preocupado, pois se descobrissem que a autoria do delito fosse minha, eu levaria uma surra de
deixar saudades. Sentei-me no meio fio da rua sem passeio, descansei e tentei recompor as idéias. Fui novamente
aonde soltara os fogos, mas para infortúnio meu e como a infelicidade tem ajudantes, uma nuvem negra tampou o
luar. Assentei-me de novo e esperei a luz voltar. Logo que ela apareceu, vi uma coisa redonda, do tamanho da
minha prata, brilhando no chão.Ansioso, corri e levei o dedo para apanhá-la, só que para meu desespero, o objeto
era mole, onde conclui desiludido, ser uma plasta de catarro.Triste, subi a rua e fui para casa.Aminha mãe já me
esperavanoportão.Pegou-mepelobraçoepacientemente,olhandonosmeusolhos,medisse:—Vocêvaiapanhar,
pois estava no comício! Eu quis negar, mas estava com a roupa imunda e na minha cara, de branco, existiam só os
meus olhos. Levei uma surra e tive que tomar um banho frio de bacia, mas fui dormir quente, pelas varadas nas
pernas.
No outro dia encontrei com o boticário e quando ia reclamar do sumiço da prata, levei duas boas cocadas
na cabeça e ainda tive que escutar um falatório danado, por ter executado tudo errado.
Como não houve lesões graves nos comiciandos, o caso não foi investigado e virou pandega na cidade.
Perdiaprata,achancedeserumherói,tudoficouesquecido,masomeninoquemoradentrodemimcontinuoupor
muitotempodesiludido.
07-05-09
O SONHO DO POETA
É a fantasia... de que ninguém morresse.
Que uma criança em harmonia crescesse
e de fome nunca perecesse.
Dafilosofiasóreflexão...discorresse
e proibido fosse discutir uma crença.
Que a vaidade não criasse a diferença.
e o orgulho fosse banido da presença.
Dinheiro, poder de troca e nunca corrupção.
Leis justas, o trabalho arte e o amor devoção.
O prazer do sexo, coisa bela e normal,
jamaisvendidanatelevisãoenojornal!
O sonho do poeta é de paz e de bondade,
mas sem a vaidade e as diferenças...
marasmo,calamidade!...
05-05-09
DISTÂNCIA
Ódio...mantémvivaalembrança:
—Apaixão rói de saudade!
Poisinventordadistância
nunca amou de verdade!...
21-10-08
INVEJA
AinvejafezmorrerCaím
e ela nem feriu seu dono.
Bondade é do Querubim,
e o mal, nunca perde o sono!...
PAIXÃO
O amor louco sempre escolhe,
vivervolúpiadapaixão.
Igual, quem a rosa colhe,
que é bela, mas sangra a mão!...
10-04-09
Renato Passos
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Rodolpho Civile
Médico
São José dos Campos - SP
O VENDEDOR DE “MACHADINHO” DO BEXIGA
Lá estou eu, de novo, numa crise nostálgica, recordando momentos e pessoas de outros tempos, tempos
idos e vividos que não voltarão mais... É próprio de velho que não tem nada a fazer e fica aborrecendo os outros
comassuasreminiscências.Lembrei-me,vagamente,daminhainfância,noBexiga,semprenoBexiga,obairrodos
calabreses, das cabrochas da Escola de Samba “Vai-Vai” e do homem do “machadinho”. É bom esclarecer que
“machadinho”, naquele tempo, era um puxa-puxa, tipo e consistência de rapadura mole. Guloseima cobiçada
avidamente pela criançada. Mas, por que este nome? O vendedor usava um machadinho para separar o doce
espalhado num tabuleiro de madeira, dividindo-o em pedaços e o colocando em papel branco para a distribuição.
Aparecia nas ruas do bairro, gritando:
-“Omachadinho!”. “Omachadinho!”.
A molecada deixava o futebol na rua e saía atrás do anunciante, pedindo um pedaço.
-Trouxe o dinheiro? – perguntavaAmílcar, o comerciante.
Searespostaeranegativa,nãotinha“machadinho”.Asoluçãoerapediraospais.Dependiadaboavontade
e do dinheiro deles para a obtenção de tão valioso quitute. Às vezes, uma boa choradeira resolvia... Outras vezes,
uma boa chinelada no bumbum, acalmava o pedinte... Só a Psiquiatria pode explicar a disparidade na conduta do
serhumano,quandoentramemjogointeressesdecriançaseadultos...Duascoisasmexiammuitocomosmoradores
do bairro: a cabrada, conduzida pelo cajado do pastor Rodrigo e o “machadinho” deAmílcar. O leite de cabra e o
puxa-puxa,doiselementosimportantes,diretamenteligadosaobem-estardacoletividade,semcontar,naturalmente,
com o queijeiro e o “pizzaiolo”...Afinal: vivia-se para comer ou comia-se para viver?Acredito que adotavam as
duas opções...
Mas, voltando ao puxa-puxa, ou melhor, ao “machadinho”, a ausência deAmílcar durante uma semana,
provocou uma grande preocupação a todos no Bexiga. O que teria acontecido com ele? Estaria doente? As
notícias correm céleres quando de boca-a-boca. Afonte: a vizinha do casal Amílcar e Maria dos Prazeres. Do
cortiço, na Saracura, próximo àAvenida Nove de Julho, irradiou-se para todo o bairro.Amílcar hospitalizado na
Santa Casa de Misericórdia e Maria dos Prazeres presa por agressão. A notícia explodiu como uma bomba,
repercutindo de uma maneira avassaladora em todos os lares, principalmente, aos usuários do famoso, querido e
cobiçado doce... Como ficaria o bairro sem o “machadinho”? Foi a dúvida de todos... Longe de nós a idéia que
fossem adeptos de um dos sete pecados capitais, a gula... O puxa-puxa não passava de um simples desejo de
crianças e adultos... Provavelmente, ele é usado no Paraíso como delícia aos privilegiados freqüentadores do
local... Mas, deixemos de lado os comentários e conjunturas e voltemos aos acontecimentos...
Na delegacia, o interrogatório feito pelo delegado de plantão, doutor Magro do Ouvidor, tornou-se difícil,
misterioso e comprometedor para Maria dos Prazeres. É bom esclarecer: o representante da lei, apesar do nome,
ocupava a cadeira bem cheia com os seus 130 kg. Bufava quando falava. Mas, isto não teria importância, se não
fosse outro problema: era surdo, usava aparelhinho no ouvido que, neste dia, estava desregulado. Para completar,
Maria dos Prazeres, falava fanhosa, pelo nariz, pois sofrera uma cirurgia mal-feita quando criança: lábio leporino
com deformidade na abóbada palatina e no véu do paladar.
- Então, a senhora quis matar o seu marido? – perguntou o delegado.
Maria dos Prazeres, sorridente, querendo explicar o acontecido...
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Rodolpho Civile
-Eupegueio“machadinho”...
- Com “machadinho”? – revoltado o delegado.Asenhora é uma terrível criminosa!Vai ficar o resto de sua
vida na cadeia!
- Não! Não! Não é isso! O “machadinho” estava bem quente, quando...
- Mas, que crueldade!Ainda fica rindo! Esquentou primeiro o machadinho e depois partiu a cabeça do
marido! Eu sou delegado há muito tempo, mas nunca vi tanto cinismo e maldade...
O fanho aumentou e Maria dos Prazeres, nervosa...
- Não! Não!Amílcar escorregou e caiu aos meus pés...
-Ah! Compreendi!Além de usar o “machadinho”, pisou-o até perder a consciência.
- Não! Não!Aí ele gritou: Dos Prazeres! Dos Prazeres!
-Querdizerqueasenhorafeztudoissocommuitoprazer!MeuDeus!Éofimdomundo!Umamulherfazer
issocomomarido!Éinacreditável!
- Não! Não! - Maria dos Prazeres nervosa querendo explicar. Ela cada vez mais fanhosa e o delegado
cada vez mais irritado e surdo-.
- Não quero ouvir mais nada! Estou enojado! Coloquem esta mulher no xilindró!
...
Dois dias depois...
...
Amílcarapareceunadelegaciacomumcurativonacabeça.Explicoutudoaodelegado.Inocentouamulher
e a libertou do cativeiro.Amorosamente voltaram ao lar...
NoBexiga,gritosdealegriaquandoAmílcarsurgiunaruagritando:
-“Omachadinho!”.“Omachadinho!”.
CALIXTO, O COLCHOEIRO DO BEXIGA
De novo, aquele estalo seco que vibra, racha ou parte os meus neurônios, já há muito debilitados pelo uso e
pelo tempo. Coisa de velho, que tem a cabeça “fresca” e vive apoquentando a vida dos outros com suas
reminiscências.
Lembrei-me do Calixto, um homem baixo, magro, testa alta, olhar mortiço e mãos calosas. Falava manso e
coxeavaaoandar.ExímioprofissionaldeumacolchoarianaRuaConselheiroRamalho,próximaaoTeatroBrasileiro
deComédias,noBexiga.Caprichavanaescolhadotecido,noestradodacamae,principalmente,nomolejo.Dizia
queparaalguémserfeliz,temdedormirbem!Adquiriurenomecomumcolchãodesuaautoria,aoqualdenominou
“Êxtase doAmor”, afrodisíaco, apropriado aos recém-casados e indivíduos estéreis que desejassem ter filhos. Era
tiro-e-queda:dormirnaquelecolchãoepronto...Todososseussonhosrealizados...Ah!Santaingenuidadehumana!
Com isso, Calixto faturava horrores... Entretanto, cônscio de seus deveres, o colchoeiro testava o colchão antes de
serentregueàvenda,comacompanheiraSilvinha,umabonitamulata,passistadaEscoladeSamba“Vai-Vai”.Daí,
à aprovação e o “selo de confiança”... “Tenha fama e deite-se na cama”, diz o velho ditado, desde que seja no
colchão “Êxtase doAmor”.
Calixtoerafanáticoporduascoisas:amulataSilvinhaeasóperas.TrabalhavaouvindoVerdi,Puccini,Donizetti,
Bellini,Mascagni,Leoncavallo,Giordanoeoutros.Tinhaumavelhavitrola,discosdevinilegravaçõesdecantores
antigosfamosos:Caruso,Martinelli,Zenatello,TittaRuffo,Stracciari,Gigli,Schipa,Galli-Curcci,Lauri-Volpi,Totti
Dal Monti, entre outros. Vangloriava-se de possuir tal coleção, de gente tão famosa...
Calixto considerava-se um homem feliz. Tinha a mulata Silvinha para testar os colchões e as óperas para
alimentarasuasensibilidade.E,alémdisso,ganhavamuitodinheiro...Oquepodedesejarmaisumsimplesmortal?
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Mas, nem tudo são rosas nas vidas das pessoas. Calixto e Silvinha amavam-se muito, apesar das diferenças:
ele da ópera e ela do samba. Às vezes, o ciúme aparecia entre eles e se desaviavam, o que é muito natural no
relacionamento humano. Briga entre amantes e, depois, a doce reconciliação...
Os dias foram passando, passando, assim como os rios correm preguiçosamente para o mar...
Numa bela tarde de verão, na volta do mercado, Silvinha encontrou Calixto com uma loira oxigenada,
experimentando o colchão do amor. Foi um bafafá terrível: xingatório, objetos atirados a esmo, puxações de
cabelos, pontapés e choradeiras... Os ânimos só se acalmaram com a presença dos vizinhos. Envergonhada,
espezinhada,Silvinhasaiudecasa.
Foi um baque terrível para o colchoeiro. Pegado em flagrante num momento de fraqueza.Acarne é fraca,
pensouváriasvezes...Arrependido,procurouSilvinhanaEscoladeSamba.Conversavai,conversavem,acabaram
se entendendo e voltaram às pazes...
Mas, as coisas não iriam ficar assim, não...
PorocasiãodavindadofamosotenoritalianoMarioDelMônaco,Calixtofoiassisti-lonoTeatroMunicipal
de São Paulo, cantando a ópera Rigoletto de Verdi, no papel de Duque de Mântua. O enredo do Rigoletto gira
em torno das escapadas amorosas do Duque com a cumplicidade de Rigoletto, seu bufão. Ficou famoso e cantado
nomundointeirootrecho:
As palavras finais da ópera “Maledizione, Maledizione”, ressoam na orquestra, enquanto o bufão tomba
sobre o corpo da filha. A emoção foi tão grande que Calixto saiu do Teatro chorando. Era um emotivo, um
apaixonado...
Retornou para casa, a pé, altas horas da noite. Passou pelo chafariz do Largo do Piques (hoje Praça das
Bandeiras), subiu a Rua SantoAntonio em direção à Rua Major Diogo e Rua 14 de Julho. Quase defronte, divisou
uma labareda enorme. Incêndio, o corpo de bombeiros e gente aglomerada. A colchoaria estava em chamas.
Acabara-se o colchão “Êxtase doAmor”. Dele, só restaram as molas incandescentes. Calixto, em prantos, caiu no
chão, arrasado.Ajoelhado, as suas lágrimas molharam o prospecto, aberto, da ópera. Nele, as palavras: La donna
è mobile... Em seguida, “Maledizione, Maledizione”, as palavras finais do bufão.
Silvinhaestavavingada...
PEDRO E PAULO
“Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra
ela. E Eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também nos céus”.
E Paulo... Perseguindo os cristãos ao aproximar-se de Damasco, subitamente o cercou uma luz vinda do
céu. E caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Paulo, Paulo, por que me persegues?”.
Mas... Não cabe aqui, a um simples e modesto escrevinhador de poucas palavras, descrever e comentar o
apostolado destes dois queridos discípulos de Jesus Cristo...
Limita-se, na saudosa reminiscência de outros tempos... Tempos idos e vividos que não voltarão mais...
Lembranças de um bairro, de gente que ali viveu, trabalhou, lutou e sofreu, semelhante a todo mortal em qualquer
tempo e em qualquer lugar... Conheceu bem de perto as agruras do seu semelhante.Tentou dar-lhe como médico,
um pouco de paz, saúde e amor. Se conseguiu, ainda não sabe...
De novo, o estalo e as imagens dos irmãos Pedro e Paulo.Vindos do norte para tentarem melhorar de vida
em São Paulo. Doce ilusão... Escolheram o bairro dos imigrantes calabreses; o Bexiga, que os recebeu de braços
La donna è mobile
Qual piuma al vento;
Muta d’accento,
E di pensiero.
(Amulherévolúvel,
como pluma ao vento;
Muda de voz
e de pensamento.)
Rodolpho Civile
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abertos. Modestamente, se arrumaram num cortiço da Rua Conselheiro Carrão. Pedro, mais capacitado, arranjou
emprego como pedreiro numa construtora. Não perdeu tempo e, logo, amasiou-se com uma cabrocha da “Vai-
Vai”.Amor à primeira vista e, de samba em samba, ia tocando a vida da melhor maneira possível. Pouco dinheiro,
masmuitoentusiasmo,alegriaevontadedevencer.
Paulo, ao contrário, apesar de forte, alto, musculoso, carregava nas suas costas e na sua cabeça o retardo
que o atingiu desde criança. Raciocínio lento, arrastado, falava pouco, entrecortado, reflexos diminuídos. Olhos
parados, sem brilho, lábios caídos, sem vida. Para comer, trabalhava como carregador de pacotes, encomendas do
açougueiro, do padeiro, do vendeiro. Ajudava nas feiras, as mulheres nas compras, lavava quintais e carros e
recebia em troca, algumas miseráveis moedas. Mal e mal conhecia os números e algumas palavras. E, assim, ia
arrastando a sua sina, sem outras pretensões. Não se queixava e nem se revoltava quando a criançada o chamava
de bobo e, os adultos, de idiota. Já se acostumara com os impropérios. Às vezes, procurava o padre Carmelo, da
Igreja de Nossa SenhoraAchiropita, para saber por que Deus o tinha esquecido e recebia do sacerdote palavras
deconforto,compreensãoeamor:“Meufilho!Deusnãoseesqueceudevocê!Asprivaçõesquevocêestápassando
agora serão recompensadas na eternidade, no Paraíso, onde estão os justos, os bons! Deus, na Sua misericórdia,
estará sempre ao seu lado!”.
Paulo baixava a cabeça, beijava a mão do sacerdote e, lentamente, se retirava, com as lágrimas descendo
pelo rosto. E continuava na sua vidinha... Na sua labuta, com muito trabalho e perseverança, dentro dos limites da
suacapacidadeintelectual.
Paulo,freqüentemente,lavavaopisodacasalotérica“Felicidade”,situadanaesquinadaRuaConselheiro
Ramalho e Manuel Dutra. Recebia algumas moedas e frações de bilhetes da loteria federal. De tanto ser chamado
de “burro” e “bosta de vaca” pelo irmão Pedro, Paulo pediu e ganhou do dono da lotérica, pedaços de “burro”
(números 09, 10, 11, 12) e da “vaca” (97, 98, 99, 00).
O destino e a sorte são caprichosos... Não deu outra: 1º prêmio, o “burro” com o número 10, 2º prêmio, a
“vaca”como99eosmilharesacompanhandoosbilhetespremiados.Foimuitaemoçãoparaumpobreretardado...
Custou-lhe a acreditar que fosse o abonado pela sorte. Recebeu a “bolada” de dinheiro meio aparvalhado e,
aconselhado pelo dono da lotérica, abriu uma caderneta de poupança na Caixa Econômica Federal. Que mudança
nasuavida!Comproualgumasroupasesapatos.Cortouocabeloà“americana”.Comoutrovisual,aparentavaser
outrohomem...Eagora?Eotrabalho?Continuarcomobiscateiro?Nãotinhamaisnecessidade...Abrirumafirma?
Não tinha capacidade e nem tirocínio. Procurou o irmão, que lhe deu vários palpites, inclusive o de administrar os
seus bens. Desconfiado, não cedeu aos conselhos fraternais, mas aceitou de imediato, convencido da voz melíflua
deMarcolina,aamantedePedro:“Vocêprecisagozaravida!Queadiantaterdinheirosevocênãosabeaproveitá-
lo?Avida é curta... Você agora é outro homem. Eu sei como deixá-lo feliz!”.
Oresultadofoiextraordinário!
Paulo e Marcolina sumiram do Bexiga com a deliciosa finalidade de gozar a vida. Pedro ficou a “ver
navios”.
Tempos depois, Paulo retornou ao Bexiga, tão pobre quanto antes, espoliado pela cabrocha. O dinheiro?
“Oventolevou”...
“Mondo cane”... Roubar de um pobre diabo! Destino cruel de certas criaturas...Vieram ao mundo só para
sofrer...
O tempo passou e com ele os nossos sonhos... Hoje, ao recordar a figura dolente de Paulo, não consigo
segurarasminhaslágrimas...
Rodolpho Civile
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Ronaldo Vieira de Aguiar
Médico alergologista
Belo Horizonte - MG
DEVANEIOS
Das vindas e idas fluem tais ações.
A cor do mel, a cor azul do céu
navegam, bailam no ar, aos sons ao léu.
Nas mãos, os ramos gris, reféns de opções,
afagammitos,tramamtaislições.
Atingem o alvo, tomba o ser, troféu.
Assume a marcha, cai, e passa a réu.
Desonra marcas, tolos ais, pulsões.
De novo, os ramos gris de tons antigos
fustigamoimo,sinaquasefinda,
que quer domar, tombar algoz, perigos.
As ondas vagam, ferem o ar, e ainda
os sonhos vivem, são até castigos;
além do mar, do céu, da luz infinda.
Vou atrás do meu sossego,
do cantinho aqui de Minas.
Fico a pensar, no aconchego,
nolar,longedasvitrinas.
Vou atrás do meu sossego,
balançarnaminharede,
ver a criança, o chamego
de dois pombinhos com sede.
Terei lá eu tudo a gosto:
livro,revista,jornal.
Lerei o que for, disposto
a mudar a sina e o mal.
Do calor livre estarei,
só pela brisa que bate.
Asnotíciaseulerei
do correto ao disparate.
Caminhadasnaalameda,
eu as darei aprumado,
a pisar a erva, qual seda,
Caminhando,desligado.
Verei os lírios, as rosas,
as orquídeas, as bromélias,
em meio a risos e prosas,
na presença das camélias.
Do canto dos passarinhos
estareiembriagado,
dos sabiás, dos canarinhos,
do bem-te-vi ao meu lado.
Vou atrás do meu sossego,
no compasso da bonança,
e sem hora, sem apego,
no balanço da esperança.
VOU ATRÁS
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O REGRESSO
Ascendino vivia em seu mundo de fatos, de conhecimentos, de ética e moral. Como todo cidadão comum,
equilibrava-se nesses pilares. Meticuloso, fazia comparações entre os conhecimentos, às vezes antagônicos, às
vezes coincidentes. No entanto, tudo isso se harmonizava com seu mundo, com suas coisas, com a sociedade em
quevivia.
Num dia em que fazia caminhada, quando mal rompiam no horizonte os primeiros clarões da aurora, tem a
visão exata da realidade.Aqueles pilares, sobre os quais vinha se equilibrando na vida, ruíram. Perde o seu apoio,
suaestabilidade.Percebeomundoemquevivia,demeiasverdades,demeiasmentiras,dehipocrisia,defalsidade.
Fora, sem dúvida, vítima de lavagens cerebrais sucessivas, desde a mais tenra idade. Como bolhas de sabão, suas
ilusões e conhecimentos se arrebentaram e se confundiam com o éter. Caiu no vazio, no nada. Enfim, nada mais
sabia,nadamaisconhecia.Conhecia,sim,lendas,contosdefadas,transformadosemverdades,verdadesimpostas
pelaviolência,peloterror,pelamentira,pelafalsidade,perpetradaspormentespossessivaseditatoriais.Precisava
romper com as tradições e leis estabelecidas pelos seus ancestrais. Precisava viver agora conforme aquilo que
acreditava. Mas ainda não havia crença, ainda não havia conhecimento.Tinha que partir do zero e reestruturar-se.
Mergulhado neste mundo, neste vazio incomensurável,Ascendino sai em carreira desabalada, sem destino,
sem meta.Até que chega ao mais belo bosque de sua cidade, e, extenuado, cai ao solo atapetado de folhas. Perde
os sentidos, e lá fica estirado por longo tempo.
Começa a voltar a si pelo alegre cantar de um passarinho. Aqueles sons harmoniosos penetram em seus
ouvidos, e ativam seu cérebro. Seus olhos se abrem, e então pôde ver aquela criatura colorida e saltitante à sua
frente,quealémdecantar,tambémfalava.Diz-lheaavezinha
-Amigo, que tens? Há horas vejo-te caído como morto!
Ascendino, diante daquela formosura em miniatura, pôde então revelar-lhe aquilo que não pretendia fazer a
qualquer ser comum. Conta-lhe sua frustrações, sua visão da realidade, do desmoronamento do mundo de valores
emquevivera.
Aavezinhaouvetudocalada.Ascendinolamenta-seeporfimdiz:
Estouaquinestemagníficobosque,eminhavontadeédeficaraquiparasempreevivercomumpassarinho.
- Se achas que podes viver como um passarinho, tal como eu sou, não percas tempo. Far-te-ei companhia
nesse mundo de alegria e liberdade. Contudo, de uma coisa deves ter certeza. Deverás ter o nosso tipo de vida,
sem saber o dia de amanhã, se vamos ser atacados por algum predador, acompanhando a maravilha da natureza,
desde o amanhecer até o crepúsculo, com se tudo fosse o compasso de uma música. Não terás roupa além de tua
pele, e a água que beberás poderá estar muito perto ou muito distante.Tua casa será ampla como esse bosque, que
recebe todos os impactos das intempéries: dos ventos, das tempestades e outras fúrias da natureza.
Ascendinocaiemoutrovazio.Comoviverdessamaneiradescritapelopassarinho?Aamplaetotalliberdade
tinha uma dimensão maior que imaginava. Sente-se sem forças para assumir o novo tipo der vida.Agora, de pé,
cabisbaixo, percebe não ter estrutura para viver como um passarinho. Conformado, com passos lentos, retorna a
seumundo,àsuarealidadecambaleanteefalsaemquevivera,porém,agoraconscientedetudoeconformadocom
oinconformável.
Ronaldo Vieira de Aguiar
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Sebastião Abrão Salim
Médico
Belo Horizonte - MG
A METAMORFOSE DE KAFKA:
UM ENSAIO LITERÁRIO-PSICANALÍTICO
“Ao despertar pela manhã após ter tido sonhos agitados, Gregor Samsa encontrou-se em sua própria cama
metamorfoseadonuminsetogigantesco”.
Franz Kafka
Este ensaio sobreAmetamorfose de Kafka tem um cunho literário-psicanalítico. O autor considera esse
conto uma ficção onírica pelo inusitado do seu conteúdo e narrativa que acredita estarem relacionados com a
existência sofrida do escritor. Este usou a escrita para sobreviver psiquicamente.
Kafka nasceu em Praga, em 1883, e morreu em 1924, acometido de tuberculose. Sua obra literária, escrita
em alemão, inicia-se oficialmente em 1909 com a publicação de Descrição de um combate, e prolonga-se até
quase o final de sua vida em 1923, quando escreve O artista da fome. De temperamento introvertido, seus escritos
retratam angústias do homem de seu tempo além de suas próprias. Demonstram a desconfiança do ser humano
diante do poder. Portam dor e possuem o intuito de ressaltar o desvalimento humano.
A metamorfose foi publicada em 1915. Narra a história de Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante que
vive com sua família (pai, mãe e uma irmã) e a mantém. Certa manhã, desperta metamorfoseado em uma grande
barata. Vê-se em dificuldades para aprontar-se e pegar o trem que o levaria ao local de trabalho. Percebe a fala
modificada, os movimentos motores mais lentos e a mente entorpecida. Como Gregor não aparece no serviço, o
chefevaiàsuacasa.Gregoréobrigadoamostrar-seaochefeeaosfamiliares.Suaapresentaçãocausarepugnância
geral.Éenxotadodevoltaaseuquartopelopai.Posteriormente,esteoatingenascostascomumamaçã,causando-
lhe uma infecção grave que, associada a outros maus tratos, levam-no a optar pela morte.
OestiloliteráriodeKafka,nesseconto,adentraamodernidade,apresentando,paraalémdolirismoromântico,
umaabordagemsurrealistaimpregnadadehorror.Anarrativaarrastada,monótona,asquerosa,nauseanteeaflitiva,
reflete uma essência impregnada de muda agonia, a fala rouca que permeia toda a temática, beirando o cansaço.
Ele acorda e não se reconhece mais. “O que me aconteceu? – pensou ele”. É significativo no início da
narrativa o destaque para a presença de um quadro com uma fotografia de mulher envolta por peles no pescoço,
caindo sobre os braços, que ele pendura no seu quarto, dias antes da metamorfose. Tal ação indica a procura de
Gregor por uma segunda pele, com a finalidade de aliviar a angústia do desfazer-se. É um arranjo de natureza
psíquica que funciona como um remendo para feridas por onde pode esvair a lucidez psíquica.
Comoumbomclínico,KafkanosdáumaidéiamelhordasituaçãotraumáticadeGregoraoescrever:“Seeu
não tivesse que sustentar esta situação - o emprego - por causa de meus pais, há muito tempo que teria
pedido demissão, e dirigindo-me ao meu chefe, ter-lhe-ia dito o que penso dele”.
O pai estava desapontado com ele. Escreveu Kafka: “Seus pais não podiam entender aquilo; tinham-se
convencido durante o transcorrer dos anos que o futuro de Gregor estava garantido na firma para toda a
vida”.
Kafka menciona em seguida os sintomas decorrentes do Transtorno de estresse pós-traumático de Gregor.
Torna-se lento, entorpecido, com problemas de cognição, alimentação, sem vida e interesse pelo mundo que o
rodeia.Aproxima-se da imobilidade e do retraimento em busca da economia de energias que pode possibilitar a
continuidade da vida até que haja uma melhora do meio ambiente, como fazem plantas e animais ao hibernarem.
Em situação desesperadora, Gregor agarra-se ao quadro da dama com a finalidade subjetiva de proteger-se
da crescente ameaça de aniquilamento ou de loucura.
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Sebastião Abrão Salim
Fica claro que a incompreensão preside a união dessa família com Gregor. Já o colocam como um perverso
interessado em trazer-lhes a desgraça, quando seus inquilinos resolvem partir. Escreve Kafka:
“Papai, ele tem que ir embora - gritou ela - é a única solução! O senhor simplesmente tem de abdicar da
idéia de que aquilo é Gregor. O fato de termos acreditado nisso tanto tempo, é que originou todo este
transtorno. Como pode aquilo ser ele? Se fosse, há muito que teria compreendido que os seres humanos não
podem viver com um animal desta espécie, e teria partido de livre e espontânea vontade. Então não teríamos
nenhum irmão, mas seriamos capazes de continuar a viver respeitando sua lembrança. Mas assim como é,
este animal persegue-nos, enxota nossos inquilinos, e é evidente que deseja todo o apartamento para ele e
permitiria até mesmo que fôssemos dormir na sarjeta”.
A parte final da narrativa ganha intensidade dramática: “Logo depois descobriu que era incapaz de mover
um só membro... Verdade é que seu corpo todo doía, mas teve a impressão que a dor ia diminuindo
gradativamente e acabaria passando”.
Gregor caminha para o fim. Conta-nos Kafka: “E, então de livre e espontânea vontade, afundou a cabeça
no chão e de suas narinas exalou-se um último suspiro débil e trêmulo”.
Provavelmente,Kafkamanteve-sevivoaomataropersonagememsuacatarseliterária.Épossíveldizerque
Gregor-Kafka com suas descontinuidades de vida, precisou se fazer como um homem de muitas pernas e uma
couraça dura, para fazer frente aos golpes rudes da existência.
Talvez o homem atual, ao enfrentar toda sorte de violência, tenha de desdobrar-se para não definhar como
Gregor Samsa.
Kafkainsere-senaplêiadedeautoresclássicoscomooescritordoinverossímil,doinacreditáveledoabsurdo.
Aocontráriodoquemuitospensam,escreveuedescreveu,pormeiodeumagigantescametáfora,aalmaeocorpo
humano desertificados pelo estresse pós-traumático crônico.
O CONTADOR DE HISTÓRIAS
A noite cai trazendo no colo
as estrelas com olhos de prata.
Anunciamariquezadomomentovindouro.
O dia foi intenso,
vastodebrincadeirasdainfâncialasciva.
Teve a pipa, a finca, a pelada,
o pião e o nego fugido.
Foi como a Passárgada de Bandeira
sem as prostitutas e a mesa do rei.
Mas teve a alegria, a amizade e
a roda dos sonhos impossíveis.
Depois à casa para o banho,
os deveres da escola,
ouvir pelo rádio a novela de Jerônimo.
Aseguir, a mesa posta para o lanche.
À sua cabeceira senta-se meu pai que,
naquele momento, queria contar-nos uma estória.
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Estória que não passava de uma só.
Aúnica que sabia contar.
Aúnicaquevaliapormil.
Aquelaouvidanainfância,
agora com emoção renovada,
como se fosse outra.
Nós outros na cadeira disputada
paraficar-lhemaispróximos.
O encanto remoçava o recontar.
E lá ia ele medindo palavras e pausas.
Afinado nas falas, trazia para o presente
as personagens da estória.
Tudo parecia verdadeiro.
Zir conseguia matar os leões
e retirar-lhes as cabeças
para a construção do castelo.
(Sim, sua moradia era feita de cabeça de leões). Cavalgava o muro de pedras.
Esporava-o para fortalecer-se,
tanto os braços quanto as pernas.
Depois, o cavalo aprontado
no campear do deserto insólito.
Preparava-se para a luta contra os opressores.
Lávinhaele,lançaemriste,
golpes certeiros e força hercúlea.
Vingavaparentesferidosoumortos
naignominiosaperseguição.
No encanto de ouvi-lo,
ia-se um par de horas.
Ahistória,infelizmente,findava-
tão absorvidos estávamos!
E a noite estava apenas começando...
Muitossonhosviriam
e nas décadas vindouras.
Sua História traria no âmago
a aspiração maior do Homem:
O anseio por liberdade.
Sebastião Abrão Salim
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PAZ
A noite foi gelada devido à brisa do inverno.
Aoamanhecerlágrimascorriamdasfolhas
deminhaárvorefavorita:umajovemquaresmeira.
No firmamento, a lua, ainda alta,
empalidecia,intimidadapelosprimeirosraiosdosol,
com seus dedos róseos de fogo.
Como senhores da natureza, sol e lua,
disputavam as cotas do dia.
Ah... a lua dos poetas,
o sol dos industriosos.
Será sempre assim.
O passarinho, agora acordado,
antes do primeiro canto,
bicaumvermeinerte.
Poderia ser diferente?
Poderia oferecer o canto
antes de mostrar o bico afiado?
Nesse ambiente de vida e de morte,
nasce o homem.
Torna-se adulto.
Torna-se Estado.
Quer ser imortal.
Carrega o imperativo do poder.
Os meios já não importam.
É preciso vencer e vencer.
Cortar árvores desconhecendo a importância das sombras.
Poluir rios sem considerar a importância das águas.
Cedo ou tarde viverá dos restos.
Um passarinho acordado,
antes do primeiro canto,
bicaráumventreinerte.
Forjaremos uma espécie diferente?
Asfolhasdaminhaquaresmeira
não vão chorar mais?
Bem que há espaços para todos.
Sebastião Abrão Salim
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Victor José Fryc
Médico
Buenos Aires - Argentina
EL CABALLO DE FELIPE III
Fermín,oriundodeOviedo,viajóaMadridcomoerasucostumbre.Suhábitomásimportanteera“potear”,
para lo cual recorría todas las tabernas desde su domicilio hasta la Gran Vía y desde allí llegaba a Las Cibeles y
proseguíahastalaPlazaMayorysusaledaños.AllíenlaPlazaMayorvisitabaalmonumentodeFelipeIIIyantela
imponencia de esa estatua ecuestre solía platicar con otros visitantes, locales o turistas, sobre el personaje que era
su otro hobby. En un atardecer, ya cargado de bastante alcohol, se acercó a su ídolo y cuando pronunció su
acostumbrada introducción al tema: “Observad este semejante equino, con su gallarda prosapia, su estampa y su
prestanciahistórica”...escuchóquedesdesusenormesdientes,esdecir,subocaza,salíanpalabrasincomprensibles.
“Pero ¿que estaré borracho?” pensó Fermín – “¿O loco? Pero si me está hablando. No le entiendo ni jota
pero me está platicando y se dirige a mí mismo en persona” “Hay mi Dios, que no me dé otra vez por ese “delirio
tremendo” como dicen los médicos.
Así, pleno de excitación y asombro, regresó a su casa lo más rápido posible enfilando en línea recta por lo
soladosquelepermitiesendisimularsussinuosidadesalcohólicas.
—Puesmecreanono..yaseloquemevanadecir—dijoasucuñadoysuesposa.—Quesonalucinaciones
a causa del alcohol. Pero el caballo de Felipe III platicó conmigo en plena Plaza Mayor.
— Eso si que es bueno; cada vez resistes menos a esa bebida maldita y de continuar irás a parar de nuevo
a la Clínica San Carlos con el “tremens” ese y todo el zoológico – espetó la mujer.
Grande fue la movilización de Fermín que no salía de su asombro; a tal punto llegó que, ansioso, al día
siguiente repitió la experiencia. Se encaminó decidido hacia el centro de la Plaza Mayor donde unos pintores
despertabanlacuriosidaddelosturistas.Ydijoparadofrentealmonumentoconunaactitudentreteatralysolemne:
—Ved ahí su figura dominante oteando en las lontananzas las presas de la caza mayor, atalajado con sus
arneses.
Enformainmediatabrotódesdeladentaduradelrocínunmurmulloindescriptiblequenoparecíarelincho,
nisalutaciónniningunacosacomprensible.AsustadoyconpalpitacionesFermínretrocedióysealejódelaPlazasin
rumbohastaquedesembocóenun“quitapenas”delaesquinanorte.Pidióunamanzanillaquebebiódeungolpede
nuca y repitió una segunda buscando un interlocutor en el tabernero que lo eludió acostumbrado a estas pláticas.
Necesitaba desahogarse y resolver el enigma que lo atormentaba.Aún más, pensó que algún periodista podría
entrevistarlo y ser visto en la pantalla de la televisión; así iban a convencerse ¡qué carajo! su cuñado y su esposa.
Después del cuarto “chato” volvió al monumento al que semblanteó de reojo hasta que se le atrevió.Ya
frenteaélinicióundiálogo:
— Pues bien; si quieres platicar...hip... platicaremos...hip... que más. Pero al fin, di una palabra que se te
entienda. Desde el monumento se escucharon palabras incomprensibles, murmullo, quejas e interjecciones que
Fermín, totalmente beodo, trató de descifrar y articuló con esfuerzo:
—Noble equino. Se que tu estirpe puede ser árabe y que los árabes habláis con jeroglíficos como las
pirámides, pero puedo asegurarte que Felipe no fue “marica” y si bien salía contigo de caza y le llevaba a su mujer
más de treinta años; la que lo extrañaba muy mucho, tuvo como siete hijos...
Volvió a su casa y se repitió la reyerta. Su cuñado optó por lo sano y lo llevó a dormir mientras Fermín
murmuraba: — Necios, necios...no hay peor sordo que...que... que el que nace sordo.
Ylahistoriavolvióarepetirse.FrenteaFelipeIIIysucaballoqueseguíaahíincólume,Fermín,totalmente
borracho, volvió a dialogar con la estatua y en un raptode necesidad de una prueba de credibilidad, manoteó con
furiaaunturistaporelantebrazoylepreguntóautoritario:
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Victor José Fryc
—¿Oye como habla? ¿Qué jerga es esa?
Con tamaño susto el turista respondió:
—Ijfaschteinet.
Retornó al bar donde confundido bebió varias copas de jerez . Cruzó la plaza y se sentó al pié de la estatua
ymasculló:
— Mañana vengo con un traductor, un “poliglóta” y un grabador para que me crean. - Yse echó a dormir
agotado en el pedestal.
Al no regresar a su casa, su mujer y cuñado, alarmados, salieron a buscarlo por las borracherías sin éxito.
Su cuñado entonces, decidió trasladarse a la Plaza Mayor para mejor informarse.Ahí yacía Fermín durmiendo la
“mona” y cubierto totalmente de estiércol de palomas que entraban y salían de la panza del equino
Los obreros del ayuntamiento sentenciaron: “Habrá que cerrar ese boquete de la panza del caballo pues
hacen demasiado alboroto”.
LA VIOLACIÓN
(de Relatos de la Guardia II)
Restituta era psicóloga del Hospital Psiquiátrico donde se desempeñaba en los servicios de guardia e
internación.Suformaciónprofesionaleraintachableysecaracterizabaporsurecatoeintroversión.Pocoseconocía
de su vida personal y evitaba hablar de su familia.Tampoco opinaba de cuestiones sexuales.Algo la distinguía: su
amorporlosanimales.
Todos los días de la semana, incluyendo sábados y domingos, solía dedicarse a alimentar a la jauría que se
aquerenciaba en el hospital. Recogía las sobras de las comidas y paseando por los jardines, la repartía a diestra y
siniestra a perros y gatos que se le agolpaban en derredor. Ella conocía a todos por su nombre a pesar de la
cantidad; unos cincuenta gatos y perros constituían las miserables criaturas víctima de la crisis que la amaban y
perseguíanportodoelhospital.Deporsí,constituíanunecosistemacuriosonoprevistoentrelosgruposvivientes.
Eran una simbiosis moderna con interacciones entre la psicóloga, perros y gatos.
Tenía predilección por una perrita de raza indefinida, de padres desconocidos, de pelaje largo, sedoso y
color café que era su mascota y la llamaba con el nombre de “Camila” y que nunca había tenido cachorros, por lo
que se suponía aún virgen. Cierta mañana, Restituta procedió a cumplir con la rutina de alimentar a la jauría que
acostumbrada a la puntualidad adaptó su ciclo circadiano y la esperaban en el lugar de encuentro del parque del
hospital. Sorprendentemente no apareció Camila. Restituta primero buscó en derredor, luego la llamó en forma
reiterada.
–Camila,Camila...Camila!!–repitiódesfalleciente.
Preocupada procedió a recorrer el parque en su búsqueda; pero fue en vano. Camila no aparecía. Indagó
entre el personal de maestranza y vigilancia pero no halló respuesta. Restituta se angustió y en su desesperación
recorrióconpasosaceleradostodoelparquebuscandoenlosrecovecosy entrelosmatorralesaCamilasospechando
algún accidente o enfermedad. Fue inútil, Camila no aparecía por ningún lado...no respondía a su llamado.
Tal vez fue robada – pensó – y abandonó la búsqueda hasta la siguiente jornada.
Al día siguiente reinició la búsqueda y grande fue la sorpresa y alegría cuando entre la jauría apareció
Camila con sus orejas gachas caminando con dificultad. Restituta, al examinarla, corroboró que Camila sangraba
por sus genitales y dejaba un reguero que manchaba el camino. La indignación fue mayúscula al ver a su mascota
queaúnvirgen,habíasidoviolada¿Quiénhabríasidoelmalhadadoperroquecometióelbestialacto?Febrilmente
trató de descubrirlo sospechando una conducta instintiva que lo delatara. No tuvo mayor éxito.
Tratódeaveriguardetenidamenteyofrecióunarecompensaaceptableparaquealgúnmiembrodelpersonal
le diera alguna pista, hasta que una enfermera de la sala de internación encontró el culpable. La sorpresa fue que el
violador no había sido un can sino el paciente de la cama 8.
EstallóelescándalocuandoRestitutainformóalasautoridades,JefedeServicio, DepartamentoyDirectivos
yexigiólaexpulsióndeldegeneradoanimalista.
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–Pero doctora, no pretenderá que expulsemos a un inimputable... comprenda, es un enfermo psiquiátrico.
–Argumentóeldirector.
– No me importa, ese degenerado no tuvo piedad de una pobre perrita. Hay que aplicarle un castigo
ejemplarysinoproceden,losdenunciaréysiesnecesarioiniciaréunacausapenal—Y seretiródandounportazo
para reforzar su decisión.
Losdirectivosnoledieronimportanciainterpretandoun“acting”circunstancial.
Mas las cosas no pararon ahí.Además de difundir el hecho por todo el hospital, realizó una denuncia en la
comisaría de la zona.
–¿Cómosucedieronloshechosdoctora¿–preguntóelcomisariofingiendodarledramatismoaladenuncia.
–La perrita hasta hace unos días era virgen; usted sabe bien la importancia de que un ser vivo sea virgen,
sobre todo del sexo femenino.
– O sea, era hembrita – dijo el comisario tomándose la barbilla.
–Obviamente.
– Era menor... o sea, era cachorra?
– Efectivamente, aunque no puedo precisar la edad – afirmó la psicóloga.
–Tendremosquerecurriraunveterinarioparacertificarla.Siesmayordedocemesesyanoesconsiderada
cachorra.
– ¡Pero comisario!Así tenga dos años, tomando en cuenta que la relación es siete años por cada uno del
humano, estamos hablando de una víctima de catorce, es estupro.
– Desconozco si se puede extrapolar desde el punto de vista antropológico. Tendrá que consultar con un
abogado.
– Comisario, la sangre existió y la vagina desgarrada también ¿Cuál es la duda?
– No hay duda, en verdad el daño existió. Labraremos el acta de denuncia y llamaremos a un veterinario
forenseparalacertificación.
Restituta presentó el acta acompañada de su abogado el doctorAlbarreal en la dirección del hospital con
actitudtriunfante.Eldirectornoteníaargumentoadministrativonicientífico.Esdecir,estaba “inpúribus”.
– Conviene para su tranquilidad acceder al pedido de la doctora de expulsar al paciente – argumentó
Albarreal.
–Consultaré con las autoridades superiores.
Y dada la trascendencia que había adquirido el hecho, convertido ahora en un gran escándalo hospitalario,
apareció el periodismo que apoyó a la psiquiatra en sus declaraciones y acusó al director de defender al violador.
SereunióelConsejoSuperiordelHospitalapedidodeldirectorparatratarcomoúnicotemalaviolacióndeCamila
ylapermanenciadelviolador.Sorprendentementelosacontecimientossedescarrilaronalserpresentadounescrito
por el doctorAlbarreal planteando una demanda al profesional médico psiquiatra que asistía al paciente violador
por mala praxis e inobservancia de los deberes de cuidado del paciente.
El Consejo Asesor discutió seis horas y al no poder llegar a ninguna definición (como es de estilo) se
propusorealizarunateneoyoasambleaparatratarelcaso.Aldíasiguientesecitóconcarácterdeurgenciaatodos
losprofesionalesdelasaludmentalalaasamblea,incluyendoalabogadoyalapsiquiatradenunciante.Unodelos
profesionales concurrentes afirmó que Camila no pertenecía al hospital como paciente, personal, habitante ni
supernumerario, a lo sumo era una visitante y que el hospital no era responsable del hecho. La lisenciada Restituta
reaccionóindignadaydijo:
– Nadie puede lavarse las manos frente a un hecho aberrante que ofende la moral, sobre todo cuando la
profesión médica se basa sobre todo en el respeto de la vida humana y por ende de la ética. No hay profesión
médicasinética.
–Deacuerdo,peroelsistemanoestáparacontrolarlasrelacionessexualesdelospacientes–agregóeljefe
del sector adolescencia.
El doctorAlbarreal solicitó la palabra y dijo:
– El daño producido a la perrita a manos de un enfermo del nosocomio es responsabilidad del sistema con
el agravante de ser una violación a una menor. Además, dado la patología del enfermo, no puede ser éste el
responsablelegal.Porlotanto,laresponsabilidadesdelprofesionaltratantequedebíahaberprevistolasposibilidad
Victor José Fryc
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de tal acto.Aesto se llama negligencia e imprudencia. Además, la presencia dentro de las instalaciones hace al
sistemaresponsable.
–¿Por qué la lisenciada Restituta, a la postre la tutora o encargada o dueña de la perra no la cuidó
convenientemente?–Gritóunaenfermera.
ContestóRestitutaconfuria:
– Lo único que faltaba era que la culpable de la violación fuera yo —
–Usted la descuidó porque podía haber sido violada por la jauría de perros vagabundos que alimenta.
Así, la discusión entró en la maraña estéril de lo bizantino hasta que desde el fondo del recinto se escuchó
una cascada y débil voz de un anciano: el jardinero del hospital que preguntó:
– ¿Alguno de todos ustedes pensó si Camila tuvo relaciones por su propia voluntad?
La asamblea enmudeció ante la evidencia del razonamiento y cerró con las siguientes conclusiones: El
paciente seguirá internado; la perra será expulsada del hospital y Restituta deberá tomarse una larga licencia...
LA MÁSCARA
Laluzdelsoldiafanizósupelo
Caído sobre el rostro demacrado
Conunperfilantiguodesteñido.
Traté de transpolarlo hacia el pasdado
Al creer que podía rescatarte.
Más profundas arrugas me acompañan
De una máscara absurda cincelada.
Inútilfueunirambasvivencias
Erascomounfantasmainalcanzable.
Yahípermanecistecomounsueño
Antiguoconlaspestañaspostizas
En tus ojos azules de contacto
Yenunvasoconaguacristalina
Buceaba entre los dientes tu sonrisa.
Tu plateada peluca olor a pucho
y mi amor desteñido entre mis canas
Se suicidan desde el maniquí absurdo.
Fueinútildisimularunadisculpa
Pues el juez implacable del espejo
La imagen del pasado no rescata
Y es un dedo acusador que no perdona.
Victor José Fryc
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LEMBRANÇAS – O FUNERAL
-Tide, venha chupar uns roletes.Acaiana está cheia de caldo.
Lembrança da infância. Nada tem a ver com o corpo estendido na mesa do necrotério, enquanto aguarda
a roupa para ser colocado no caixão.Apalidez é a de um boneco de cera. Um morto. Não é meu pai. Não o
conheço.
- Mana, nosso pai não existia mais. Confuso, esquecido, em nada lembrava o chefe da casa, provedor,
guardião da moral da família.Adoença deAlzheimer não perdoa. Tenho visto alguns pacientes que me levam a
desejar o desenlace. Mas temos que esperar.Atualmente, vem sendo discutido o poder do homem sobre a vida e
amorte.Emalgumascircunstânciasjápenseinaeutanásia,masnãosouforteosuficienteparaassumirumadecisão
desta amplitude. Prefiro encarar o fim natural do pai que discutir as condições de vida que ele poderia continuar
tendo.Éangustiante.
- Benicio, a morte sempre me perturbou. O nascimento também.Aexperiência de ver alguém chegar à vida
a partir de um estado de não existência ou, de ir a um estado de não existência após ter vivido, mexe comigo.
Sobretudo quando o desfecho diz respeito a alguém de quem eu conheço a grandeza e a luta envolvida em sua
construção.
Foiumanoitedechuvaeventoforteenquantoafamíliaaguardavaodesfecho.Semestertores,mansamente
sefoi.Mathildenãoderramanenhumalágrima.Sentadaaoladodocorpo,decabeçabaixa,orostopareceausente.
O irmão insiste em continuar a conversa.
- Enquanto teve saúde resolveu tudo por você e agora, como será?
- Tenho sensação de vazio, de fim de estrada. Parada no tempo, sinto-me no limbo.
- Fala alguma coisa, Tide. Faz bem.
-Morreu vovó, nasceuAugusto seu primeiro bisneto; faleceu papai, Noêmia está grávida, em breve nasce
seu filho. Pensava nessa alternância tão pouco inteligível que é a existência.Avida não se esclarece.
São cinco horas de um despertar que mal começou. Já amanhece, mas ainda não é claro. Na linha do
horizonte a tênue claridade de encontro às nuvens cria desenhos que lembram uma cidade fantasma. Pela janela
Mathildeolhaojardim.
-Aristeu, telefone para Eduarda.
-Aquela do bufê?
-Sim, filho. Devemos providenciar café, chá, biscoitos, água e um garçom. Muitos virão demonstrar sua
solidariedade e teremos que recebê-los à altura.
-Aqui fala donaAurélia de Castro Machado.Arlindo, é urgente.
-Meu marido acaba de falecer.Tome as providências necessárias. Quero tudo de primeira qualidade.Aqui
no Hospital Samaritano.Aguardo sua presença.
-Mãe, estamos em condições de enfrentar esta despesa?
-Benício, não é hora de pensar em detalhes.
-Mathilde, vamos em casa tomar banho, café e nos prepararmos para a cerimônia. Vista o vestido azul
marinho. Está bem de acordo. Vou ver seAdelaide pode ir até lá ajeitar nossos cabelos. Precisamos lembrar que
estaremos em evidencia. É importante voltarmos o mais rápido possível. O enterro será às dezesseis horas.
Vilma Clóris de Carvalho
Médica
Jaboatão - PE
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Horárioseetiquetasmedoutrinaramtodaavida.Aceiteisempremodelosprontosparausaremcadasituação.
Habituei-me com o sistema. Não levo em conta minhas preferências. Nem as conheço. Parece que em cada
circunstância me desconecto de mim e ajo de acordo com as normas estabelecidas. Sou um paradoxo. Um mundo
interior vasto e complexo com um comportamento simples, cumprindo de acordo com o esperado. Dificilmente
surpreendo. Fragmentos da convivência com meu pai afloram em estilhaços. São retalhos que nem sempre se
harmonizam – o cheiro da moagem da cana, a procissão de Nossa Senhora do Carmo, o doce japonês no retorno
damissa.
O ritual se processa segundo as determinações de minha mãe.As lembranças tem o poder de fragmentar a
alma. São instantes retirados de um todo, ao sabor do momento, quase sempre sem lógica aparente. Não sei como
sou. Nas poucas vezes em que tentei ser diferente do que se esperava, senti-me inadequada.
-Benício,anoteosnomesdasempresasefamíliasqueenviaramcoroaseassinaleasmaioresemaisbonitas.
- Não vou fazer isso, mãe. Tenho coisas mais importantes para sentir e me ocupar.
- Pode deixar. Eu faço.
- Não poderia viver sem sua presença,Aristeu.
De repente me dou conta de que um sentimento de prazer, burlando a minha guarda para manter a postura
esperada, se insinua no meu peito. Sempre a ler, ouvir, observar e falando pouco, desenvolvi a arte de especular o
que vai na alma. O prazer que se instala vem de pensar que, ao longo deste dia, não serei obrigada a sentir, nem
reagir, nem providenciar, nem me torturar. É condizente com as circunstâncias que eu esteja chocada. O que se
passa para além das aparências, ninguém vê. Na minha mente, algo sem cor, som, nem forma, mas atribulativa.
Ouço a voz de minha mãe:
- Mathilde, fique atenta aos acontecimentos. Preste atenção. Amanhã você se entrega a seus devaneios
inúteis.
Nãomeiludocomdisfarcesexteriores.Frasesegestosseenquadramemcomportamentospredeterminados,
adequados à situação. Dia informe. Não parece fazer parte do calendário. É como uma nota fora da partitura.
- O descanso eterno dai-lhe, Senhor, e que a luz perpétua o ilumine.
-Amém.
PadreAntonio encerra a cerimônia.Afamília, em alinhamento, caminha atrás do carrinho que conduz o
caixão:donaAurélia,aviúvaeseusfilhos-AristeuesuamulherFelicia,MathildeeBenicio.Noêmianãocompareceu
pelo adiantado estado da gravidez.Os demais presentes, os seguem. O rumor dos passos se assemelha a um
batalhãoemmarcha.
Aprimeiravezqueentreinumcemitério,aindaadolescente,fuitomadadeemoçãoàexpectativadepisarum
terreno que guardava corpos que eu não sabia a quem pertenceram, mas que viveram vidas. Estavam enterrando
meu avô.Agora é meu pai, um dia serei eu. Me ocorre a substituição das pessoas ao encerrarem seu tempo.Avida
se processando continuamente enquanto cada indivíduo é um instante. Meus irmãos terão continuidade através de
seus filhos. Eu sou semente que não vingou. Os ciprestes não se movem, o dia está abafado. Começa a escurecer.
Uma folha cai, um passarinho voa, outro pousa no galho para aguardar o amanhã.
-Aurélia, meus parabéns. O sepultamento de Eurico de Castro Machado foi impecável.
Vilma Clóris de Carvalho
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Walter Gomes de Miranda Filho
Médico
Fortaleza - CE
INTRIGAS NA CASERNA
Desde que chegara ao Batalhão, o Capitão Carioca se tornara uma pedra no sapato do Tenente Cearense,
ou no coturno, para ser mais fiel ao tipo de calçado adotado naquela organização militar, sediada nos rincões da
fronteirabrasileiracomaBolívia.
Carioca era o típico militar de carreira, ingresso nas escolas preparatórias ainda adolescente e saído havia
poucosanosdaAcademia.Seusonhoeraatingirogeneralato,façanhareservadaaospoucoseafortunadosoficiais
sem manchas no currículo e que contassem ainda com uma boa dose de apadrinhamento nas esferas superiores –
leia-seBrasília.
Já Cearense era apenas um R2, como são designados os oficiais temporários, em grande parte recém-
formados da área de saúde, que se engajam às ForçasArmadas para quitação do serviço militar obrigatório.
Ao contrário de Carioca, que pretendia permanecer por toda a vida naquele tipo de ambiente, Cearense ali
estavaapenasdepassagem,emboradeformavoluntária,poishaviasidodispensadodefinitivamentedaobrigação
aos 18 anos de idade por deficiência física.Ao concluir o curso de medicina, vislumbrara a oportunidade de dar o
troco no “colega” que o chamara de quase cego no teste de acuidade visual e o considerara incapaz para o serviço
militar.
Carioca respirava regulamentos e os citava de memória, seguido e salteado, sempre que queria exercer sua
autoridade, a qual impunha aos subordinados com arrogância e pela força das estrelas que carregava literalmente
nos ombros. Cearense era o doutor, como a ele se dirigiam superiores e subalternos, e aos poucos fora granjeando
a simpatia de todos, pois a todos tratava com respeito além de curar-lhes as pequenas mazelas como bolhas, calos
e unhas encravadas. Raramente aparecia um resfriado ou uma diarréia; todos gozavam de excelente saúde, afinal
supunha-se serem verdadeiros guerreiros, a primeira linha de defesa da pátria amada...
Paulatinamente, Carioca foi desenvolvendo uma espécie de despeito em relação a Cearense, e não há coisa
pior do que ciúme em homem, ainda mais capitão, ainda mais do Exército, a mais “militar” dasArmas, ainda mais
subcomandante, função a que Carioca fora guindado após a transferência do Capitão Pernambucano, o melhor
amigo do Cearense até então.
AinvejanasciadaadmiraçãoqueCearensedespertavaemtodos,atépeloseujeitocearensedeser:expansivo,
brincalhão embora respeitoso e cumpridor rigoroso de suas obrigações. Como se não bastasse, ainda animava as
rodasdesambacomseuviolãoafinadoeeraoartilheirodotimedefuteboldoquartel,quedisputavaocampeonato
local.
Tantos atributos faziam Carioca exercer marcação cerrada sobre Cearense, sempre à procura de algum
senão em sua conduta, algo que pudesse enquadrar nos regulamentos para chamar-lhe a atenção ou mesmo puni-
lo. Mas Cearense não dava “sopa na crista”, para usar o jargão corrente e como já se dera conta da perseguição,
esmerava-se ainda mais, tanto no cumprimento das missões e seus prazos cada vez mais exíguos, como no corte
rente do cabelo e do bigode ou no polimento dos coturnos e da fivela de latão do cinto, que refletia, como um
verdadeiro espelho, não só as imagens diante de si, mas, metaforicamente, sua resposta eloqüente à rixa do
Carioca.
Após alguns meses de silenciosa resistência, Cearense começou a perder a paciência com Carioca e
passou a estudar uma maneira de desmoralizá-lo, sem evidentemente fornecer-lhe munição para uma punição.
Observou que Carioca gostava de corrigir pequenos erros de português dos comandados, chegando mesmo a
mandá-los“pagar”dezapoiosdefrentequandoescutavaqualquerpequenodeslizevernacular,emboraelepróprio,
o Carioca, vez ou outra escorregasse na sintaxe ou na prosódia.
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Walter Gomes de Miranda Filho
Assim,decidido,Cearenseficoudeprontidãoparaaprimeiraoportunidadeeestanãotardouaseapresentar.
Estavamtodosreunidosnocassino,comosedenominaorefeitórioparaoficiais,enocasopeculiardaquelebatalhão
deselva,tambémparasubtenentesesargentos.Numdadomomento,Cearensesedirigeao Sargento
Gaúcho e pede educadamente que lhe passe a manteiga, pronunciando o termo com o característico sotaque
nordestino, sincopando o “i” e fechando o ditongo decrescente: “mantêga”. Carioca que há muito ansiava por um
vacilo,nãodeixoupormenos.Irrompeuemestrepitosagargalhada,comoquevibrandopelachancederepreender
o Cearense em público: todo cearense é morta-fome, agora está comendo até os “is”; vai pagar dez... Cearense
não se faz de rogado e com a presença de espírito do cabeça-chata rebate de pronto: para o Senhor ver o que é a
convivência;detantolheouvirvomitar“is”em“naiscimento”,acheiquenãoiafazerfalta...
Seguiu-seumsilênciotorturante,emquetodos,surpresoscomarespostacategóricadoCearense,aguardavam
o pior, talvez até uma voz de prisão por parte do Carioca. Este, boquiaberto, não conseguia se recuperar do
inesperado revide e enquanto começava a gaguejar uma tentativa de retaliação foi interrompido pelo Coronel
Mineiro, comandante do batalhão e admirador do Cearense, com quem costumava bater longos papos em inglês,
para não perder a fluência: esquece, Carioca; deixa o Doutor em paz...
E, como no Exército manda quem pode e obedece quem tem juízo, Carioca teve que engolir a desfeita e a
rotina voltou a dar as ordens na caserna.
HOMENS APAIXONADOS
Mulher não entende de paixão. Calma, caríssimo leitor.Antes de reler a oração anterior, tópico frasal do
assunto que se vai aqui comentar, para conferir se leu corretamente ou mesmo para pôr em dúvida a sanidade
mentaldocomentarista,deixe-meesclarecer:comoéquemulhernãoentendedepaixãosesãoelassempreasmais
apaixonadasemaisardorosasdefensorasdoamorincondicionale,apesardofeminismoedaliberaçãosexual,não
abremmãodeumromancenovelesco,seéquenãoestareimisturandogênerosliterários.Mas,meucaroepaciente
leitor, que continua a dar-me o crédito de sua atenção até este ponto, não é a essa paixão que teço loas. Acho
mesmo que nesse caso elas, as mulheres, não as loas, são deveras imbatíveis. Refiro-me à paixão futebolística,
àquela que marca como ferro em brasa, não a pele, mas o coração do torcedor apaixonado. Refiro-me à paixão
que arrasta o torcedor aos estádios e o arrebata pela emoção, seja na vitória, seja na derrota, às vezes mais nesta
que naquela, por incrível que possa parecer.
A paixão clubística pode unir ou afastar casais, mais ou menos apaixonados um pelo outro, na dependência
das “camisas” a que cada um destina sua devoção. Isso quando ambos apreciam o esporte bretão, como se dizia
antigamente. E quando um deles simplesmente não curte, ou ainda pior, abomina a paixão do outro, então o jogo
podeficarduro,umaverdadeiraretranca.Nadaadiantainventartáticasvariantes,esquemasalternativos,amarcação
é cerrada, para não dizer homem a homem, que pegaria mal.
Na hora da saída para o estádio é a preleção de sempre: Beinhê, já vai, tão cedo? Jura que vai mesmo pro
estádio? Não vá beber demais, olha a lei seca, hein.Volte assim que acabar e mil e uma outras recomendações de
última hora, já gritadas da porta de casa.Ao abnegado só restam a desculpa, figurinha carimbada: se me atrasar é
porcausadoengarrafamentoeaveteranamascampeoníssima:nãosepreocupe,amelhorcachaçaéomeutricolor.
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INTERIOR E CAPITAL
SoumeioignorantequandooassuntosãoosmunicípiosdointeriordoCeará.Chegueiaestatristeconclusão
recentementequandoviajavacomdestinoaLimoeirodoNorteemcompanhiadeumgrupodemédicosescritores.
Nosso objetivo era participar de uma jornada literária que irmanasse os colegas da capital aos daquela ilustre
cidade do Baixo Jaguaribe.
Vencidososprimeirosquilômetros,osgrupinhosdeconversasedividiramdentrodoônibusdeacordocom
asafinidades.Osdiretoreseosmaispacatosláadiante,umououtrocasalmaisisoladonaspoltronasintermediárias
e a turma do aperitivo na traseira, sempre com tiradas espirituosas, quando não uma anedota mais ou menos
apimentada.
A conversa corria animada quando veio à tona a indagação da origem de cada um de nós e foi então que
tomei conhecimento de que um nascera em Baturité, outro em Sobral, outros ali e alhures e, para surpresa geral,
um derradeiro afirmou ser natural da própria Limoeiro, aonde não retornava havia mais de quarenta anos!
Chegadaminhavezdeinformaracidadeondenasci,respondi“soudeFortaleza,mesmo”,denunciandoum
misto de inferioridade e inveja. Isto porque todos eles não se limitaram a citar seu torrão natal; toda citação era
seguida de uma breve, mas apaixonada descrição dos atributos geográficos, políticos e econômicos de suas
respectivas cidades, como se ali participassem de uma competição para escolha do lugar perfeito para se nascer,
viver ou morrer, sei lá...
Eu apenas engoli em seco e nada acrescentei de ilustrativo como que admitindo que a capital é auto-
explicativa e fala por si mesma, torcendo para que todos concordassem comigo.
A essa altura já nos aproximávamos do nosso destino final e enquanto o sol se punha por detrás de um
carnaubal, descortinando um cenário alaranjado digno de uma obra impressionista, o colega limoeirense, não
contendo o sentimento, ajoelhou-se, e em pranto, declamou um poema escrito propositada e especialmente para
a ocasião. Sensação de tirar o fôlego, poucos foram os que conseguiram segurar as lágrimas e nestes, não me
incluo.
Mas à medida que conseguia controlar a emoção do momento, quedei-me a imaginar o quanto tenho
vivido nesta selva de pedra. Nascido e criado à beira do asfalto, habituado a respirar o ar poluído da metrópole,
são poucos os municípios do Ceará que posso afirmar realmente conhecer. Tirando os que apenas atravesso
quandomedirijoaalgumadaspraiasparadisíacasdolitoral,nãochegamaduasdezenasdeles,dosquaseduzentos
quepossuímos.Éumavergonha,paradizeromínimo,semmencionarquemeuscompanheirosinterioranoscultivam
seu folclore, suas tradições. Eles têm raízes, eu apenas alicerces...
Walter Gomes de Miranda Filho
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Wlademir do Carmo Porto
Economista
São Paulo - SP
PROMESSA DE CARNAVAL
É Carnaval! Estrugem os tambores. O batuque profundo e ensurdecedor reverbera nos corpos suados dos
foliões.Acadência é comandada pelos gestos nervosos e o apito do mestre do Maracatu.As variações do batuque
magnetizam a multidão aglomerada nos passeios e mesinhas da Rua dos Judeus, próxima ao Marco Zero de
Recife, onde estou em companhia de dois irmãos.
Numa mesa, à nossa frente, uma família. Ele, homem troncudo e barbudo, parece um viking. Duas filhas
adolescentes, magrinhas, serelepes. A mulher, figura desgastada e aborrecida, sentada na cadeira oposta a do
marido. O homem olha, fixamente, uma loura escultural, um pouco gorda, que rebola languidamente, ao som dos
tamborins, sob os olhares atentos de dois rapazes que lhe fazem companhia.Amulher, de olhar severo, policia o
marido que aparenta uma indiferença que não existe.
Duas mesas adiante, à minha esquerda, vejo uma morena alta, bem proporcionada, voluptuosa, com short curto
vermelho, pondo à mostra suas coxas torneadas. Seu companheiro, um velho com bengala, chapéu de palha com
a aba frontal dobrada, tendo estampada, entre lantejoulas e purpurina, a bandeira de Pernambuco. Veste calção e
camisaregata.Olharabsorto,figuraumtantoridícula,mostra-seindiferenteàalegriaquecontagiaatodos.Umade
suas mãos repousa tranquilamente, entre as coxas da mulher, enquanto degusta uma dose de whisky.
Abatucadaatingeoápice,comtodososinstrumentosdepercussãotocandosimultaneamente.Écontagiante.
Acadência eletriza a multidão, que se põe a gingar. Amorena, como que atingida por um raio, sobe numa cadeira
iniciando um rebolado frenético, sensual, libidinoso. Os seios parecem saltar da blusa semi-aberta.As sandálias
douradas faíscam com os movimentos nervosos dos pés.
É uma mulher plena de desejo, exposta. Exibe-se. Sabe o fascínio que exerce. Nossos olhares se cruzam. Vejo
seus olhos brilhando de desejo.Adança torna-se inebriante. Seu corpo se contorce de forma estranha. Observo
extasiado.Até que enfim, exausta, senta-se sorridente. Recompõe os cabelos revoltos, com os dedos. Sutilmente,
esboça um sorriso. Correspondo com o olhar, rindo da desfaçatez. Fita-me dissimulada, enquanto o velho paga a
conta,levanta-secomdificuldadeeretira-se.Trocamosumúltimoolhareavejodesaparecer,sedutora,nomeioda
multidão.
Em seguida, saímos do local e, ao passar pela mesa onde ela se encontrava, vejo, sobre o tampo de
mármore, entre confetes e serpentinas, um boné carnavalesco de papelão, com um nome e número de telefone.
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Zilda Cormack
Médica psiquiatra
Rio de Janeiro - RJ
0 DIA EM QUE VOVÔ ME ENXERGOU.
Foi definitivo aquele olhar azul de meu avô, fixado em cima de mim, quando entrei correndo na sala de
visitasdocasarãoonderesidiamosmeusavóspaternos.Estavabrincandodepique noquintal,commeuirmão.Na
fugairrompí intempestivamenteno aposentotentandoesconder-me peloladodedentrodameiaportaqueestava
aberta.Sómedeicontadequetinhainfringidoumaordemdacasadequenãopoderíamos entrarnaqueladependência
quando, assustada pela corrida, coração aos pulos, dei com os olhos no vulto do meu avô sentado na poltrona.
Abaixou o livro que estava lendo pousando-o no colo. Elevou os óculos para a testa e continuou a olhar-me
fixamente com os seus lindos olhos azuis. Minhas pernas começaram a tremer e o medo me alcançou. Devo ter
ficado pálida porque após alguns instantes a me observar, convidou-me para sentar na poltrona à sua frente.
Obedeci, concluindo ser o “castigo” pela desobediência. O olhar de meu avô não se desviava de mim e eu, como
hipnotizada também não podia desviar os meus.Ao cabo de alguns segundos perguntou-me: - Quer ler ?Assenti
comacabeçaeeleestendeu-meumarevista mandandoqueeu lesseotítuloemvozalta.Timidamentetenteijuntar
as sílabas soletrando-as vagarosamente, “Eu... sei... tudo...”, disse ainda engasgada pelo susto. Percebi naquele
momento, algo no olhar de meu avô que até hoje não sei bem explicar.Parecia um misto de admiração pelo meu
esforço de ler (tinha apenas cinco para seis anos) e ainda não ingressara na escola. Muito curiosa, gostava de
folhearjornais,reconhecendo asletrasmaioresqueaminhamãeensinavanacartilhaaomeuirmão.Com facilidade
ia memorizando-as, descobrindo palavras com a sua ajuda. Daí ter lido com certa facilidade o título da revista
“Eu... sei... tudo”. Enfiei a cara nas páginas, escondendo todo o rosto para fugir do olhar observador do meu avô.
Tentavaler,mas achavamuitodifícilligartantaspalavrascomletrastãomiúdas. Detinha-me nostítulosmaiorese
vez por outra, baixando lentamente a revista, espiava de soslaio o avô para ver se ainda me observava. No fim de
algum tempo me perguntava se estava cansada, eu dizia que não. Na verdade queria permanecer ali, naquele
recolhimento com ele, tentando descobrir o mistério que o fazia permanecer, por longas horas do dia, entregue à
leitura. Por vezes, de onde estava, podia ouvir a algazarra das crianças em seus folguedos no quintal. Mas não me
movia desejo algum de me juntar a elas. Só saía da sala quando o meu avô, levantando os olhos da sua leitura me
interrogava: - Então já leu bastante ? Eu afirmava que sim e então me mandava brincar com os outros.
Tornou-se um hábito para mim essas idas à sala de visitas do casarão para ler em companhia de meu avô,
quando ia por lá uma ou duas vezes por semana. Após os cumprimentos de praxe a minha avó e tia que ali
residiam,esgueirava-me para serlogovista peloavô.Vezporoutra,elevinhaàsalacontíguareceberosvisitantes,
falava com papai, estendia a mão para mim e logo me perguntava : - Queres ler ? E, ato contínuo, se dirigia para
asaladevisitas.Ianoseuencalço,felizporsuaatençãoeelejámeestendendoa revista“Euseitudo”. Informava-
me ser a mais nova, que estava muito boa pois já a lera quase toda. Sentava-me na mesma poltrona e ficava ali
tanto tempo quanto durasse a visita ou então para o lanche da tarde em companhia de todos da casa.
O tempo escorrendo, eu já estava com dez anos, terminando o curso primário, mas sempre visitando o meu
avô. Ele,nessa altura já conversava comigo alguns assuntos ventilados na própria revista . Passou a fornecer-me
valiosasinformaçõesarespeito dealgunsartigosdifíceisaindaparaomeuaprendizado.Procuravaacompanharo
seuraciocínio.Muitasvezesempregavatermos técnicosnoseuidioma,eminglês,procurandonodicionáriooseu
significadoparamelhormeexplicaroque significava.Achoquesuperestimavaaminhainteligência.Eufingiaestar
entendendotudo,mas namaioriaficavaboiando.Aindamelembrodealgumasfrasesditasporelequemecalaram
profundamente. -” Estuda sempre, o mais que puder. Faze dos livros os teus maiores amigos. Não deixes que o
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Zilda Cormack
desânimo se aproxime de ti. Deixa que os bons livros vão ensinar-te como uma fonte de água cristalina brotando
de uma pedra. Ela nos mata a sede do saber apontando novos rumos à nossa vida. Lê, estuda, medita muito.”
Ficavafilosofando,àsvezesseguiaumcursodepensamentonumlinguajaraindaestranhoparamim,masficavatão
poético e lindo quando falava.
Mais de sessenta anos já são passados, e a figura de meu avô, entrado em anos, cabeça branca, cabelos ralos,
fisionomiasempreséria,olharazul,lembrandoacordocéunaprimavera,perduranaminhamemória.Creioquefoi
definitivoparaaminhavidaaquelediademinhainfânciaemquesentioseuolharpresoemmim,comoainterrogar-
me e ao mesmo tempo sem nada dizer.
Parece que, naquela tarde, profetizou a minha jornada aqui na terra se eu me dedicasse aos estudos. Ele se
foi quando eu já cursava o terceiro ano da Faculdade de Medicina .Muito sofri à época, pois ainda não adquirira
conhecimentos médicos suficientes para poder ajudá-lo. Mas isso já faz parte de um outro capítulo de minhas
recordações que futuramente narrarei. Hoje, passado tantos anos, ainda trago na memória a figura simples,
tranquila, puro olhar azul, do meu avô, a me fitar surpreso na invasão de sua paz, na sala de visitas do velho
casarão, naquela manhã da minha infância, da qual, na lembrança, jamais consegui apagar.
ARESTAS
Das arestas do pensamento
escorremdivagações
carregando sombras de lembranças
pintadas de saudade !...
Sutis saudades, marcadas
talgrafitesemartesanal,
esboçando no conjunto
o diálogo puro de sua arte,
transmudando a cor da palavra
empolicromiatranscendental!
Escorrem das arestas
indescritíveiscantoseencantos
misteriosamentecoloridos,
pingando estrelas de harmonia ...!
Sonhos e lembranças
translúcidos...transparentes...
Das arestas,
saudades e festas escorrem ligadas
emlágrimasmulticores!...
È talumconjunto
de vagas, de fluxos,
de pensamentos ousados...distantes
dos antes....indevassáveis...da mente !..
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ALOENDRE
Espirradeira
(Merium oleander L)
da família das apolináceas
também chamada aloendre,
aloendro,oleandro, adelfa.
Étãosingela,simples,tãohumilde
dessa humildade que cala na gente,
ao ver um povo que acredita em tudo
até na sombra de uma espirradeira
quando se abriga do calor do sol !
É tão antiga essa aloendre, embora
muitos a ignorem, pois simples arbusto
não tem robusto o tronco, tal o ipê,
e muito menos das lindas acácias
que nas encostas, enfeitando as matas
no ornamental cantante à primavera !
Simples, discreta, a nossa espirradeira
valorlheatinge,poisoseufloreio
não faz rodeio, dura todo o ano,
florindosemprenosjardinstãosimples
e nos quintais de terra ressequida !
Diversas cores..Tem o seu mistério
e o encantamento do próprio verão !
Nas tardes quente, ao sabor da brisa,
reprisa em tons, ao longo das aléias
mostrando encantos aos olhos de tantos !
Tem amarelas, rosas, tantas brancas,
não sei qual é de todas, a mais linda !
Se o vento é forte, inclina bem seus galhos
tocando o chão, em forma de agazalho
a proteger as flores que se fecham !
Pela manhã, passada a tempestade,
vai retornando, com o raiar do sol
toda a postura dos seus galhos verdes,
antegozando pelainclinação,
a proteção, desse destino atroz
ao ver as flores, mortas pelo chão !
Um passarinho solto, chega ao galho :
entoa um canto ... e a linda espirradeira,
retorna a vida, abre os seus botões ...
Na singeleza, dá bom dia ao sol !
Belo aloendre derramando cores,
multiplicandoencantosnoarrebol,
mostrando os galhos pendentes de flores !
Zilda Cormack
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X Jornada Médico-Literária Paulista
V Jornada da Sobrames Nacional
VI Sobramíada
Apoio Institucional:
Realização:
Movimento Poético Nacional - Academia Paulista de História -
Academia Paulista de Medicina - Green Place Flat - Associação Médica Brasileira -
Rumo Editorial Produções e Edições - Academia Paulista de Letras -
Academia Ribeirãopretana de Letras
Sociedade Brasileira de Medicos Escritores- SOBRAMES
Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará
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Anais
ANAISdaXJornadaMédico-LiteráriaPaulista-SÃOPAULO-SP-2009
APOIO INSTITUCIONAL
REALIZAÇÃO
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - SOBRAMES
Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará
X Jornada Médico-Literária Paulista
V Jornada Nacional da Sobrames
VI Sobramíada - CE
17 a 19 de Setembro de 2009
Green Place Hotel
São Paulo - SP - Brasil
MUSEUPAULISTA-IPIRANGA-SP
Movimento Poético Nacional - Academia Paulista de História -
Academia Paulista de Medicina - Green Place Flat - Associação Médica Brasileira -
Rumo Editorial Produções e Edições - Academia Paulista de Letras -
Academia Ribeirãopretana de Letras
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores- SOBRAMES
Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará
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Anais X Jornada 2009

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    Anais ANAISdaXJornadaMédico-LiteráriaPaulista-SÃOPAULO-SP-2009 APOIO INSTITUCIONAL REALIZAÇÃO Sociedade Brasileirade Médicos Escritores - SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará X Jornada Médico-Literária Paulista V Jornada Nacional da Sobrames VI Sobramíada - CE 17 a 19 de Setembro de 2009 Green Place Hotel São Paulo - SP - Brasil MUSEUPAULISTA-IPIRANGA-SP Movimento Poético Nacional - Academia Paulista de História - Academia Paulista de Medicina - Green Place Flat - Associação Médica Brasileira - Rumo Editorial Produções e Edições - Academia Paulista de Letras - Academia Ribeirãopretana de Letras Sociedade Brasileira de Médicos Escritores- SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará capa_x jornada - anais - FINAL.indd 1capa_x jornada - anais - FINAL.indd 1 10/9/2009 16:23:5010/9/2009 16:23:50
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    Anais X Jornada Médico-LiteráriaPaulista V Jornada da Sobrames Nacional VI Sobramíada Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará São Paulo - SP - Brasil 17 a 19 de setembro de 2009 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:081
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    SOCIEDADE BRASILEIRA DEMÉDICOS ESCRITORES Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP Diretoria Gestão 2009/2010 Cargos Eletivos Presidente:HelioBegliomini Vice-presidente: Josyanne Rita deArruda Franco Primeiro secretário: LigiaTerezinhaPezzuto Segundo secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã Primeiro tesoureiro: Marcos Gimenes Salun Segundo tesoureiro: RobertoAntonioAniche Conselho Fiscal Efetivos: Flerts Nebó CarlosAugustoFerreiraGalvão LuizJorgeFerreira Suplentes: Geovah Paulo da Cruz HelmutAdolfMataré RodolphoCivile A X Jornada Médico-Literária Paulista é uma realização da SOBRAMES - SP Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo A V Jornada da Sobrames Nacional é uma realização da Presidência da SOBRAMES - Nacional - Presidente: Dr. José Maria Chaves (CE) A VI Sobramíada é uma realização da SOBRAMES - CE Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado do Ceará Presidente da Regional Cearense: Dr. José Maria Chaves Endereço para correspondência (SOBRAMES-SP): Av.Prof. Sylla Mattos, 652 - apto.12 - Jardim Santa Cruz - São Paulo - SP - CEP 04182-010 sobrames@uol.com.br Copyright 2009 © dosAutores Comissão Organizadora da X Jornada Médico-Literária Paulista Presidente: Manlio Mario Marco Napoli Membros: Os integrantes da Diretoria da Regional São Paulo Projeto Gráfico e Diagramação: Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:082
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    “O trabalho poupa-nosde três grandes males: tédio, vício e necessidade”. François-Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire (1694-1778). Filósofo, escritor, poeta, dramaturgo e historiador francês. As Jornadas Médico-Literárias Paulistas tiveram origem em setembro de 1991, quando a entidade contava com apenas três anos de existência. Foram organizadas na segunda gestão de Flerts Nebó (1990-1992) e objetivaram não somente divulgá-la, mas, e principalmente naquela ocasião, adquirir experiência nesses eventos, uma vez que a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores do Estado de São Paulo (Sobrames – SP) tinha-se comprometido na cidade de Recife (PE), em 1992, por ocasião do XIII Congresso Nacional da Sobrames, de realizar sua edição XIV, em São Paulo, em 1994. Assim, desde o início, almejávamos que as Jornadas Médico-Literárias Paulistas fossem realizadas nos anos ímpares, ou seja, alternadamente com os Congressos Nacionais da Sobrames, uma vez que, desde suas origens, são efetuados tradicionalmente nos anos pares. Outra curiosidade é que já se tinha em mente, em 1991, escolher uma cidade do interior e preferencialmente que albergasse uma escola de medicina. Essas ideias não somente almejavam o lazer, a descontração e a mudança de rotina, uma vez que as Pizzas Literárias – tertúlias mensais da Sobrames – SP –, sempre foram e têm sido realizadas na capital, mas também, objetivavam introduzir a entidade no interior e fazê-la conhecida entre os acadêmicos de medicina. Assim, a Sobrames – SP já realizou as Jornadas Médico-Literárias nas seguintes cidades: Jundiaí (1991 e 2007), Bragança Paulista (1993), Santos (1995), Campos do Jordão (1997 e 2003), Águas de São Pedro (1999), Botucatu (2001) e Serra Negra (2005). A ideia paulista vingou e frutificou, sendo levada em âmbito nacional. Assim, começaram a ser organizadas em 2001, na Sobrames nacional, na gestão de Luiz Alberto Fernandes Soares (2000-2002), jornadas nacionais com o objetivo de congregar ainda mais os sobramistas, uma vez que a grande maioria das regionais não realizava eventos estaduais, e esperar dois anos para participar dos congressos era, para esses membros, um tempo longo demais. A fim de não competirem com os Congressos nacionais, as Jornadas Nacionais da Sobrames também, a exemplo da Sobrames – SP, vieram a lume nos anos ímpares, sendo já realizadas quatro versões: Salvador (2001), Belém (2003), Fortaleza (2005) e Curitiba (2007). Esta é uma jornada sui generis não somente na história da Sobrames paulista, mas também na história da Sobrames nacional e na história da Sobrames cearense, uma vez que é a primeira vez, entre nós, que a Jornada Médico-Literária Paulista é organizada na capital. Ademais, é igualmente a primeira vez que se reúnem num só evento a força e a tradição de três: X Jornada Médico-Literária Paulista, V Jornada Nacional da Sobrames e VI Sobramíada. É com grande satisfação que aqui se encontram não somente sobramistas paulistanos e paulistas, mas também cearenses, pernambucanos, alagoanos, baianos, mineiros, fluminenses e catarinenses, além de hermanos da Argentina e da longínqua Angola (África), o que confere aos eventos um singular colorido cultural, além de conotação internacional. Apresentação x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:083
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    Estão consignados nestesAnais excelentes trabalhos em versos e em diversas modalidades de prosa. A comissão julgadora que os analisou, recebeu-os sem os nomes dos seus respectivos autores, avaliando-os nas modalidades de poesias, contos e prosa. Ela foi composta por membros do Movimento Poético Nacional, a quem a Sobrames paulista muito agradece na pessoa de seu presidente, Walter Argento. Ao seu lado compuseram a comissão julgadora os ilustres escritores: Frances de Azevedo, advogada; Rosa Maria Custódio, jornalista; e Carlos Moreira da Silva, advogado. Os três primeiros colocados farão jus a um belo troféu na forma de pena de caneta tinteiro antiga, gentilmente ofertado pela Sobrames Ceará na pessoa do confrade José Maria Chaves, seu presidente e presidente da Sobrames nacional (2008-2010). Por fim, faz-se mister assinalar que a Antologia Paulista, ultimamente lançada por ocasião de nossas tradicionais Jornadas Médico-Literárias, também bienais, vem a lume nesta ocasião histórica toda especial. A VII Antologia Paulista mostra que a entidade tem cumprido seu papel na compilação, divulgação e custódia não somente dos trabalhos de seus associados, mas igualmente na preservação da memória de seus diletos membros. A estes propósitos também se prestam os Anais destes conjugados eventos. A coordenação, diagramação e execução da VII Antologia Paulista e destes Anais se deveram ao paciencioso e esmerado trabalho do confrade Marcos Gimenes Salun. A ele nossos mais sinceros agradecimentos. Que a força da ideia catalisadora, ora experimentada, sirva para congregar ainda mais os confrades da Sobrames nacional! Helio Begliomini Presidente da Sobrames – SP (2009-2010). x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:084
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    5 A Sociedade Brasileirade Médicos Escritores, Regional do Estado de São Paulo, foi fundada em 16 de setembro de 1988 e congrega mais de cem membros titulares, acadêmicos, colaboradores, eméritos, honorários e beneméritos. Basicamente a sociedade é constituída por médicos escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, além de escritores de outras formações profissionais (advogados, engenheiros, jornalistas, dentistas, arquitetos, etc..). Pizzas Literárias Em 1989 surgiu a idéia de se reunir os colegas ao redor de uma mesa de pizza, como acontecera por ocasião da fundação da entidade. A reunião mensal tornou-se uma tradição e foi intitulada “Pizza Literária”. Desde então é realizada em uma pizzaria de São Paulo, com uma freqüência que costuma beirar trinta pessoas. Nesta, além de se saborear uma deliciosa pizza, tomar um chope e bater papo com os amigos, tem-se a oportunidade de ouvir os trabalhos dos colegas e também apresentar os seus. Tem-se, também, a possibilidade de encontrar colegas de outras especialidades e formados nas mais diversas faculdades, além de sócios não médicos das mais variadas profissões. Todos com uma paixão em comum: a literatura. As reuniões de 2007 têm acontecido na terceira quinta-feira de cada mês, na pizzaria BONDE PAULISTA, na Rua Oscar Freire, 1597 – à partir de 19h30. Jornadas e Congressos A cada dois anos a Regional de São Paulo promove uma Jornada Médico-literária. Estas já se realizaram em diversas cidades do interior paulista: Jundiaí – de 27 a 29 de setembro de 1991 Bragança Paulista – de 28 a 30 de maio de 1993 Santos – de 24 a 26 de novembro de 1995 Campos do Jordão – de 28 a 30 de agosto de 1997 Águas de São Pedro – de 16 a 19 de setembro de 1999 Botucatu – de 27 a 30 de setembro de 2001 Campos do Jordão – de 25 a 28 de setembro de 2003 Serra Negra - de 22 a 25 de setembro de 2005 Jundiaí – de 27 a 30 de setembro de 2007 Nos anos pares é realizado um Congresso Nacional da SOBRAMES. Em 1994 e 1998, este ocorreu em São Paulo, organizado por nossa regional. O XXII Congresso Brasileiro aconteceu em junho de 2008 na cidade de Fortaleza – CE. O próximo congresso será realizado no Estado de Minas Gerais, em 2010. Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:085
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    6 Eventos internacionais Além daexistência de regionais da SOBRAMES na maioria dos estados brasileiros, seus membros também participam em algumas associações em outros países, como é o caso da LISAME - Liga Sul Americana de Médicos Escritores, com sede em Buenos Aires – Argentina; UMEM – União Mundial de Escritores Médicos, com sede em Lisboa – Portugal, cujo congresso se realizou em Viana de Castelo - Portugal, de 27 de setembro a 3 de outubro de 2004, contando com representação da SOBRAMES paulista; UMEAL – União de Médicos Escritores e Artistas de Língua Lusófona, com sede em Lisboa – Portugal, dentre outras. Publicações Jornal - Desde 1992 a SOBRAMES-SP publica o informativo mensal “O Bandeirante” que é distribuído aos membros da regional paulista, diversos confrades de outras regionais, além de entidades culturais no Brasil e no exterior. Por vários anos publicou o suplemento literário, as “Páginas Sobrâmicas”, trazendo textos literários dos membros da Regional de São Paulo. À partir de 2001 a publicação ganhou o título de “Suplemento Literário”, e continua sendo publicado mensalmente, como encarte do jornal “O Bandeirante”. Desde janeiro de 2007 o jornal “O Bandeirante” passou a ser distribuído pela internet, para mais de 1000 destinatários no Brasil e no Exterior. Coletâneas - A Sociedade já editou nove coletâneas com trabalhos dos membros: “Por um Lugar ao Sol” (1990) “A Pizza Literária” (1993) “A Pizza Literária - segunda fornada” (1995) “Criação” (1996) “A Pizza Literária - quinta fornada” (1998) “A Pizza Literária - sexta fornada” (2000) “A Pizza Literária – sétima fornada” (2002) “A Pizza Literária – oitava fornada” (2004) “A Pizza Literária – nona fornada” (2006) “A Pizza Literária - décima fornada” (2008). Antologias - Em 1999, editou-se a “I Antologia Paulista”, contendo todos os trabalhos das “Páginas Sobrâmicas” nos seus dois primeiros anos de publicação (abril 1997 a março de 1999). Em 2000 foi publicada a II Antologia Paulista, desta vez com trabalhos inéditos dos sócios. A série de antologias continuou e já conta com cinco volumes, tendo os demais sido publicados em 2001, 2003, 2005 e 2007. Em setembro de 2009 está sendo lançada a VII Antologia Paulista. Concursos literários Em 1997, foi instituído o concurso para A Melhor Poesia do Ano, Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins” e, a partir de 1999, o concurso para A Melhor Prosa do Ano, Prêmio “Flerts Nebó”, dos quais participam todos os membros da SOBRAMES-SP que apresentam seu textos nas Pizzas Literárias. Estes certames visam dar estímulo à criatividade dos autores membros da SOBRAMES, tendo em vista a característica meramente diletante de seus participantes. Trimestralmente acontece um desafio literário intitulado SUPERPIZZA, onde os escritores são convidados a produzir um texto em prosa ou verso sobre um tema sugerido. Em janeiro de 2007 foram introduzidos dois novos concursos que têm como objetivo incentivar os integrantes da sociedade a participar de suas atividades. Trata-se do “Prêmio Rodolpho Civile”, de Assiduidade e o “Prêmio Aldo Mileto” de Melhor Desempenho. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:086
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    7 Diretoria A cada doisanos a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do Estado de São Paulo elege em assembléia uma nova diretoria. Na atual gestão (biênio 2009/2010) a diretoria está assim composta: Presidente: Helio Begliomini; Vice-presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco; Primeiro-secretário: Lígia Terezinha Pezzuto; Segundo-secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã; Primeiro-tesoureiro: Marcos Gimenes Salun; Segundo-tesoureiro: Roberto Antonio Aniche; Conselho Fiscal Efetivos: Flerts Nebó, Carlos Augusto Ferreira Galvão e Luiz Jorge Ferreira; Conselho Fiscal Suplentes: Geováh Paulo da Cruz, Helmut Adolf Mataré e Rodolpho Civile. Como participar Podem tornar-se membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores todos os médicos, de qualquer especialidade, e todos os acadêmicos de medicina, em qualquer ano do curso, mediante simples solicitação de sua inscrição, e bastando que sejam também escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, em qualquer gênero literário (romance, crônica, conto, poesia, ensaios, etc.). Também podem tornar-se membros da SOBRAMES-SP os ESCRITORES de qualquer outra formação profissional, apresentados por outros membros da sociedade. A solicitação será aprovada mediante análise da diretoria e existência de quorum na forma de seu estatuto. Os membros contribuem financeiramente com uma anuidade de pequeno valor. Os custos de algumas atividades da SOBRAMES-SP são pagos pelos participantes, como por exemplo, despesas de hospedagem em congressos e jornadas e despesas de consumo nas reuniões denominadas Pizzas Literárias. Associe-se Para obter outras informações sobre a SOBRAMES-SP ou para tornar-se membro, envie correspondência para e-mail SOBRAMES@UOL.COM.BR. Pelo correio você poderá obter ficha de inscrição escrevendo para: Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Av.Prof.Sylla Mattos, 652 - apto. 12 Jardim Santa Cruz - São Paulo - SP CEP 04182-010 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:087
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    9 X Jornada Médico-LiteráriaPaulista V Jornada da Sobrames Nacional VI Sobramíada Obras Literárias Bem-vindos! São Paulo abre seus braços para acolher os ilustres autores da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - SOBRAMES. A partir de agora estas páginas perpetuam o registro deste encontro histórico. Que os contos, crônicas e poesias aqui apresentados fiquem para sempre na memória de todos aqueles que viveram estes dias e, gravados de forma indelével, possam servir de recordação e de momentos de inspiração para todos que tiverem o privilégio de folhearem estas páginas. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:089
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    11 Índice Alcione Alcântara Gonçalves Carrode Boi / Inferno na Torre / Talentos 15 Alitta Guimarães Costa Reis O Beijo / Intramuros / Reconhecimento 17 Carlos Augusto Ferreira Galvão Síndrome de Lázaro / A Verdade Sem Dentes / Doce Periferia Paulistana 19 Evanil Pires de Campos Sonho infantil / Lua Enamorada / Memória Pires de Campos 22 Flerts Nebó A Luz Elétrica em São Paulo / Medicina no Antigo Egito / Pinheiros ou Espinheiros 24 Geovah Paulo da Cruz A Água de Piracicaba / O Tatu e a Tanajura / O Culto da Ancianidade 28 Helio Begliomini Ser Candidato / Circuncisões / Eu... Militar 32 Hélio José Déstro O Palhaço - o ABC do Palhaço / Os Revolucinários / Meus inesquecíveis amigos 37 Ildo Simões Ramos Meu Pé de Melão / As Marcas do Tempo / Sob o Signo de Capricórnio 42 João de Deus Pereira da Silva Mulher e Diva / Flor-mulher / Passa e Repassa 45 José Jucovsky Infinitos Sonhos Homéricos / Quem sou eu? Quem somos nós? / Rumo ao desconhecido 47 José Maria Chaves As Águas do Velho Chico Descem Chorando pro Mar / Breve História de Uma Vida Dignificante / Reminiscências 50 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0811
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    12 Índice José Medeiros As FogueirasAinda Ardem / Histórias Natalinas / Lembranças da Juventude 54 José Rodrigues Louzã Cinquenta Anos de Formatura 56 José Warmuth Teixeira O Tempo Perdido / Uma Revolta Intestina / A Criação 57 Josef Tock Essências / Recompoesia / Alegria, Alegria 60 Josemar Octaviano Alvarenga 22 de Abril / Voo Para o Nada / Do Coronel aos Coronéis 62 Josyanne Rita de Arruda Franco Ele e Ela / Sonharei Contigo / O Baile Perfumado 66 Ligia Terezinha Pezutto Meu Bem-querer / Saudade / Minha Lancheira, Saudosa Companheira 69 Luiz Jorge Ferreira Ele / Modinha Para Ela / O Quadro 71 Manlio Mario Marco Napoli Reminiscências da Faculdade de Medicina / Uma angioplastia / Foi o Gato! 74 Márcia Etelli Coelho Realizações / Inquietude / O Livro que Me Cativou 77 Marco Aurélio Baggio Discurso Pleno / Inexorável Reconstrução do Capitalismo / Judas, o Mensageiro de Jesus de Nazaré 80 Marcos Gimenes Salun Carpe Diem! / Pequenos Apontamentos Sobre a Solidariedade e a Justiça / Genético e Hereditário 84 Maria de Fátima Barros Calife Batista Abismo dos Teus Olhos / Afetos na Folia / Medo do Escuro 87 Maria do Céu Coutinho Louzã Devaneios em Vermelho / Fogos de Artifício 90 Mário de Mello Faro Direitos e Deveres / O Passaporte / Cronograma de Vida 92 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0812
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    13 Índice Paulo Camelo deAndrade Almeida Ave Celeste / Há Muito Tempo / Portal da Mente 107 Nelson Jacintho A Noite / Quase / A Estrada da Vida 103 Rodolpho Civile Calixto, o Colchoeiro do Bexiga / Pedro e Paulo / O Vendedor de “Machadinho” do Bexiga 111 Ronaldo Vieira de Aguiar Devaneios / Vou Atrás / O Regresso 115 Victor Jose Fryc La Máscara / El Caballo de Felipe III / La Violación 121 Wladimir do Carmo Porto Promessa de Carnaval 130 Zilda Cormack Aloendre / Arestas / O dia em que vovô me enxergou 131 Mercedes Gomes Quando / Cantiga Para Ninar Luanda / Um pouco de ti 95 Miguel Angel Manzi Tango! / Portenho / El Abandono 99 Sebastião Abrão Salim Paz / O Contador de Histórias / A Metamorfose de Kafka - Um Ensaio Literário-Psicanalista 117 Renato Passos O Sonho do Poeta / Distância - Paixão - Inveja / O Foguete 109 Vilma Clóris de Carvalho Lembranças - o Funeral 125 Walter Gomes de Miranda Filho Homem Apaixonado / Intrigas na Caserva / Interior e Capital 127 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0813
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    15 Alcione de AlcântaraGonçalves Médico Psiquiatra Tupã - SP CARRO DE BOI Lembro-me do carro de boi, Que na minha infância foi, Um veículo muito especial, No transporte de lenha para a feira E que para o cidadão era de importância vital. Lenha e carro de boi Eram, naquela época, Elementos de valor substancial, Para a vida de todos os cidadãos Que deles necessitavam, Para as transformações Dos alimentos nutricionais, Como também, para a iluminação E o aquecimento do seu habitat natural. Naquela época tudo era muito simples, E os homens eram muito naturais! O homem da roça, era chamado “lapiau” Significando: simplicidade, ingenuidade e naturalidade; Significando também, ignorância das coisas da cidade. O carro de boi também transportava gente! Gente que labutava na dura lida da roça Onde plantava mudas e a semente Para suprir sua necessidade premente E também servir como moeda de troca. O carro de boi também canta O carro de boi também geme O som que se transforma em canto ou gemido No atrito do eixo da roda é produzido E no ar se propaga, chegando ao nosso ouvido. Vilas e cidades, todos os sábados Ficavam cheias de carros de bois Que vinham trazer os produtos Para as feiras das cidades do interior Onde eram vendidos ou trocados. Nas madrugadas dos sábados Acordávamos com aquela cantiga: Hum!...Ham!...Hum!...Ham!...Hum!...Ham!...! E ao longe se ouvia, a voz do caipira: “Êêê...boi!...Vamo mimoso! Vamo itabira!” x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0815
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    16 INFERNO NA TORRE Tragédia,dor e sofrimento Nas grandes Torres, naquele momento! Do céu desceu um instrumento, Vindo de encontro, frontalmente; Explodindo e queimando as sementes Do amor dos seres sobreviventes Afogando os anseios da vida emergente. Soluços, gritos e choros Corpos que saltam do alto das Torres Novo impacto! O estrondo e o fogo! De uma segunda Aeronave A se chocar com a outra Torre E o mundo assistindo atônito O verdadeiro inferno na Torre! Parecia um filme de ficção, Sendo rodado na terra do Tio Sam, Nas duas Torres do World Trade Center, Expressivo cenário para uma grande emoção! Mas a verdade, era o Terror em ação! Comandado por vários terroristas Homens frios, insensíveis e sem coração. Milhares de vidas humanas Ceifadas por estes tresloucados atos Praticados por homens fanáticos, Treinados para matar ou morrer, Diante da ansiedade e do mêdo, gerados Por este louco mundo globalizado, Causa primária do ódio generalizado. TALENTOS A aptidão que adquires, é um Talento E disposição natural, para realizar certas coisas. Talento, é a exteriorização de uma inteligência extraordinária E uma prova de grande capacidade. Talento, é vontade de acertar o alvo, É o exercício de sua capacidade mental, É o remexer em todo o seu aprendizado, Para a concretização de um ideal. Talento, é desejo de lutar e lutar! E não desistir, diante de nenhuma adversidade, Vislumbrando sempre, a meta desejada, Com a certeza de que a vitória será alcançada! Talento, usado antigamente, como moeda e peso, Nas transações comerciais, entre Gregos e Romanos; Foi o pagamento feito a Judas, um dos discípulos, Pela sua traição ao Nazareno: O Mestre Jesus! Talento, é intuição, ministrada por Deus, Com o propósito de nos ajudar. É a oportunidade, é a porta que se abre Para o “Lugar ao Sol”, onde deveremos chegar! Talento, é saber administrar a vida com mansidão E, com o domínio próprio dos nossos atos. Talento, é a sabedoria que a vida nos dá, Para seguirmos no bom caminho da evolução. Alcione de Alcântara Gonçalves x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0816
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    17 Alitta Guimarães CostaReis Médica psiquiatra São Lourenço - MG O BEIJO Formada ainda adolescente como professora no antigo Distrito Federal, no Rio de Janeiro, minha mãe permaneceu, como outras mulheres da família, muitos anos no magistério, até aposentar-se. Seu diferencial foi ter permanecidomaisdetrintaecincoanosnafunção,etambémtersidodiretoradeescolaalgumasvezes.Minhamãe amava sua profissão. Fazia milagres; tanto que a ela eram sempre entregues as piores turmas, os alunos mais difíceis,parafinsderecuperaçãoindividual.Minhamãe,commeiguiceepersistência,encaminhavaosmeninosna vida. Lecionou por algum tempo perto das primeiras grandes favelas, destinando quase todo o seu salário para aquisição de material escolar e de bananas para a merenda da meninada. Muitos iam só por causa desta merenda, se apaixonando pela minha mãe e permanecendo na escola. Muitos deles se formaram e “deram gente” na vida. Depoisdaaposentadoria,meuspaismudaram-separaMinasGerais,maselanuncadeixouderecebervisitas das colegas e diretoras de escola de sua época, amigas para sempre, e uma gorda correspondência de funcionários e ex-alunos, eternamente cativos, a quem sempre minha mãe respondia. Um dia cheguei em casa e vi um homem grande, de cabeça branca, de joelhos em frente diante de minha mãe.Elanoscontariadepoisqueeleeraumdosmeninosmaispobresparaquemelahavialecionado,“massempre muito limpinho, roupas bem cerzidas” e que se tornara um dos estudantes mais aplicados. Ele viajara de muito longe, por pura e simples gratidão. Os dois, com os olhos muito brilhantes, permaneciam em um longo silêncio, testemunhadoporminhafamília,nagrandesalademóveisescuros.Omenino,salvopeloamordesuaprofessorinha, agora general de divisão, depositava com reverência um beijo na mão de minha mãe. INTRAMUROS Sei que espera por mim. Sei da frágil esperança que emerge dos olhos sofridos e puros, iluminandoafacepálidaemansa. Passo por lá, sigo em frente, com passos duros. Não entro.Apenas rezo, choro por dentro. Sinto abalados motivos fortes, seguros. É tola a ilusão de que nada me alcança. A dor me atinge, cruel, torno-me criança, sabendo que o que me impede não são os muros. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0817
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    18 Alitta Guimarães CostaReis RECONHECIMENTO Primeiro, reexaminar-te. Centímetro por centímetro. Procurar marcas que o tempo deixou. Depois, bem devagar, de olhos fechados, respirando fundo, recuperar imagens, sons, cheiros, sabores. Mais tarde, sem pressa nenhuma, entender mais de tua mente. O que te faz mais alegre? O que te faz gozar mais? E então, finalmente, olhar bem fundo em teus olhos. Sentir o fascínio do tempo que se desloca lentamente. Ver onde as feras rugem, guardam sua toca, olhos em brasas. Ver onde os anjos sorriem e refulgem, expandem suas asas. Esse é um olhar perigoso, que devassa. É o melhor que se pode dar, uma certa eternidade onde tudo passa. É sobre o amor e o amar. Reconhecer-te sob esse olhar é tornar tudo novo, mas como outrora, assim como diferente é o sol a cada aurora. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0818
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    19 Carlos Augusto FerreiraGalvão Médico Psiquiatra São Paulo - SP SÍNDROME DE LÁZARO (Quando a medicina plagia um romance) Em minha atuação no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, tenho observado os espetáculos da tecnologia cardíaca moderna e também o “rastro” psiquiátrico que as acompanha. Notamos, por exemplo, as modificações de personalidade que acomete muitos que se submetem a transplante cardíaco, a ansiedade que acompanham os que se recuperam de paradas cardíacas, portadores de marca-passos e por aí. Uma destas conseqüênciaspsiquiátricaschamou-meaatenção:aqueacometealgunsdosquetiveramimplantadoumdesfibrilador portátilcardíaco. A morte súbita de um ser humano é das mais dramáticas manifestações de afecções cardíacas, por não dar tempo sequer do acometido “desarrumar suas gavetas”. Despede-se da vida deixando uma lacuna de desespero, seja no âmbito familiar, seja em seus negócios. Os desfibriladores portáteis são próteses maravilhosas que, implantadas no subcutâneo do paciente e ligadas diretamente ao coração, identificam a fibrilação ventricular e promovemacardioversão“inloco”salvandoassimavidadoindivíduo. A maior parte dos pacientes sofre a descarga elétrica da cardioversão quando em estado já comatoso, mas alguns pacientes que as recebem sem estarem em estado de coma, sentem-na de forma extremamente sofrida. Dá para imaginar o que significa um choque de 400 joules dentro de seu mediastino. Muitos descrevem-na como um coice de mula no peito. Quase todos estes pacientes retornam ao cardiologista solicitando a retirada da prótese, quando então são para mim encaminhados. Estespacientesapresentam-seextremamenteansiosos,têmmedodasdescargasetransformam-seempessoas irritadiçaseimpacientes.Muitos“sentem”asdescargasemboranãosejamregistradaspelosaparelhos,numaestranha formadealucinaçãoquenãopodeserclassificadacomosinestesiapornãotercomoeleiçãoumórgãointernoesim uma prótese implantada. Nos primeiros casos, sempre tinha a impressão de já ter “passado por este caminho”; tinha sempre a sensação de “de ja vu”, o que era impossível, por se tratarem de casos absolutamente pioneiros. MikaWaltari,meuromancistapredileto,noromancedenome“OSegredodoReino”,descreveumpersonagem que, em busca da verdade, abandona a vida de orgias romanas e parte para Jerusalém, chegando nesta cidade numatardeemqueseencontravamtrêscruzesnogólgotasendoqueemumaestavacrucificadoJesusCristo.Pelos acontecimentosposteriores,entendequequemtinhasidocrucificadofoialgomaisqueumserhumanoecomeçaa pesquisar a vida de Jesus, suas pregações e seus milagres. Em determinado momento passa a entrevistar o Lázaro e,aocontráriodoqueesperava,defronta-secomumindivíduoamarguradoetaciturno.Aolembrarqueeledeveria ser grato por ter tido nova oportunidade de viver, Lázaro respondeu que a humanidade, por todo o sempre, iria se lembrar deste milagre de Cristo mas, esqueceria de refletir que ele seria a única pessoa que morreria duas vezes, já que não tinha recebido a imortalidade. Voltando aos meus pacientes, D.Marta (nome fictício) tentava me convencer que o melhor para ela seria a retirada do cardioversor portátil por não suportar mais os choques - a grande maioria alucinóides - e contava-me situações estapafúrdias como, por exemplo, sofrer uma descarga durante um casamento, quando a igreja toda se assustou com seu grito. Lembrada que cada manifestação da prótese poderia ser uma ressurreição respondeu-me: “Equantasvezestereiquemorrer,doutor?”.Entãomeupensamentodirigiu-seàobradograndeescritornorueguês enãopoderiadeixardebatizarestasíndromecomo“SíndromedeLázaro”,asíndromedosquenãoqueremmorrer maisdeumavez. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0819
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    20 Carlos Augusto FerreiraGalvão A VERDADE SEM DENTES Semprequeseaproximaumferiado“esticado”,estabrasileiríssimainvenção,observa-senosambulatórios psiquiátricos, de forma mais gritante, o abandono a que são submetidas as pessoas da terceira idade. As famílias programam-se para viagens, e o parente ancião geralmente se torna um estorvo; então é muito comum,nestasocasiões,asfamíliasprocuraremoshospitaispsiquiátricosafimdeinternaremosvelhinhos,liberando- as assim para viajarem sossegados. A manhã daquela sexta feira prenunciava um excelente carnaval. O calor forte acompanhava o sol que estourava nos telhados, e a cidade já sentia o clima da festa: em cada esquina se ouvia batuques e outros sons do folguedo. Mas o ambulatório do hospital encontrava-se cheio. Dona Gertrudes entrou acompanhada de duas netas, pessoas na casa dos trinta anos, e acomodaram-se perante minha mesa. Uma das netas logo iniciou um longo discurso, relatando o quanto estava mal sua avó; dizia que era agressiva, quebrava coisas em casa, xingava os vizinhos... Durante o relato, D. Gertrudes, as vezes, demonstrava impulso de contestar as informações, mas a outra neta a fazia ficar quieta com olhares ameaçadores e glaciais, que não me passaram despercebidos. Então restava à pobrevelhinhaficarquietinhaeresignadanasuacadeira. Oqueouviaeraincompatívelcomafrágiledelicadafiguraqueestavaemminhafrente,elogopercebique asnetas“forçavamabarra”,paraquemedecidissepelainternaçãodavelhasenhora.Entãocontinuavamaladainha de horrores, sempre a intimidando com olhares. Emdeterminadomomento,umadasnetasempolgando-secomaprópriaficção,disse,deformaestridente: -”O senhor precisa ver... Ela morde as pessoas até tirar sangue”. Neste momento, vislumbrei no rosto da paciente um irônico sorriso, então perguntei por que ela mordia as pessoas. Denotandoestarperfeitamentesãeproduzindopensamentosdeformaadequada,donaGertrudesampliou o sorriso irônico, apontou o indicador direito para suas gengivas e sua resposta embasou minha decisão de não interná-la:-“Doutor,eunemtenhodentes” x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0820
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    21 Carlos Augusto FerreiraGalvão DOCE PERIFERIA PAULISTANA Uma das coisas que custei a entender em minha cidade adotiva é a discriminação que sofre a sua periferia e a forma mais cruel é exatamente a que acontece dentro da saúde, no atendimento à população. Écomumdizer-sequenosbairrosafastadosdeSãoPaulonãoseencontrammédicoseoutrosprofissionais da saúde, pois estes temem os subúrbios por serem agredidos pelos moradores de lá, por serem ofendidos e não terem condições de trabalho. Nada mais falso, excetuando as péssimas condições de trabalho que são oferecidas. Há mais de 13 anos engajei-me num programa da prefeitura de nome “PAS” (Plano de Atendimento à Saúde), e fui destacado para um posto de saúde num paupérrimo subúrbio paulistano. Rendia-me um bom salário econdiçõesrazoáveis,entãodeiomelhordemimparaaquelapopulaçãoelogofuireconhecidopelacomunidade. Não que me ache melhor médico do que quem quer que seja, mas procurei tratar aquele povo “na palma da mão”: ouvia-oscomrespeito,procuravasempresorrirduranteosatendimentose,enfim,prescreveramedicaçãoadequada; sabe-se que pessoas assim atendidas respondem melhor ao tratamento e era isso que acontecia. Inicialmente,enfrenteicertadesconfiança,poissãocidadãosqueseacostumaramaidentificarosprofissionais da saúde como pessoas estressadas e irritadiças; de fato, muitas vezes recebem estupidez, securas e nenhum engajamento afetivo por parte destes profissionais, como se fossem os grandes culpados pelo descaso em que é jogada a saúde pública brasileira. Normal que um indivíduo desses estranhe ao entrar no consultório e encontrar o médicosorrindo. Depois,comomalogrodo“PAS”,pressentiqueapopulaçãodaquelebairrogostavademim,entãoresolvi abrir um consultório lá e conviver com eles e assim conhecê-los melhor. Na grande maioria, são pessoas honestas e de bons sentimentos, mas de baixa educação, exatamente como deseja o Estado brasileiro para facilitar as indecências e a incúria que lhes são características. Pessoas sofridas, mas altivas, que respondem com grosserias e agressões sim, mas apenas de forma reativa, quando são maltratados. Já faz 11 anos que todas as tardes atendo neste consultório, vivo dele e nunca fui maltratado por paciente algum,muitopelocontrário,sinto-meamadopelopovo,quesabequepodecontarcomigonosmomentosdifíceis. E faço de tudo, desde conversar com um casal prestes a se separar até ajudar o padre do lugar em suas festas e suasmovimentaçõessociais.Muitosdramasdaquelagenteterminamemmeuconsultório. O povo da periferia paulistana é belo, sincero e honesto. Soa ofensiva e simplista a explicação, para a falta de profissionais, que denigre os cidadãos suburbanos. O povo não agride, apenas se defende. Éláminha“Pasárgada”.AcreditoqueterminareiminhavidanaVilaLiviero. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0821
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    22 Evanil Pires deCampos Médico Infectologista Botucatu - SP LUA ENAMORADA Reluzente e enamorada a lua acordou Abriu os olhos e, neles, o amor brotou. Encantando sua leveza em meiga visão Muito feliz fremente em linda sensação. Versos fluíram livres no céu estrelado Dançaram e valsaram no seio regente Devota e a sonhada imagem celestial Adormecida no reflexo d´ilusão silente Dormiu e saciou no peito eterna paixão Seduzida na afeição amorosa de cordial Alma sublime muito terna e tão isolada, Depositou no clarão lunar, aí emanada. À vontade, que na ferina pena contida. Reacendeu o ardor da vida percorrida. SONHO INFANTIL Ai que saudades que em mim tenho Dos sonhos que no coração retenho Minha alma num recanto flutuava Sonhando ardoroso sonho infantil O doce canto dos pássaros adorava Que nutria alegre e a terna infância Que deitada na mata tênue recitava O anseio de minha alma toda pueril Vivia pra brincar despido da malícia Pelejava na dócil e na pulcra puerícia A dádiva de ter e livre correr na selva Amando a beleza do caminho na relva Na aventura diária, mero prazer contido. No peito o vigor desse momento vivido x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0822
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    23 Evanil Pires deCampos MEMÓRIA PIRES DE CAMPOS No final do século XVII, Pirão, o intrépido Antonio Pires de Campos foi designado, comandante das Bandeiras graça ao seu caráter pela sua colossal estatura que irradiava cordial expressão facial. Desbravou e coordenou as Bandeiras que partiram do interior de São Paulo, a saber: Itu, Porto Feliz e uma vila próxima de Sorocaba para o Mato Grosso, Goiás, Tocantins e se dirigiram até as proximidades do Oceano Pacífico. Suas aventuras, intrépidas tribulações: índios, pedras preciosas, ouro etc. merecem, ao lado de fiéis companheiros, uma apropriada narrativa dos acertos, descobertas e dos erros cometidos e assimilados. No meado do século XVIII, os irmãos João e José Pires de Campos se dirigiram para uma região fértil, rústica de rica flora e fauna a fim de implantar e iniciar nova vida na nascente Laranjal Paulista. A posteriori, em Tatuí, num núcleo desenvolvido por Bento Pires de Campos, nasceu Ovídio Pires de Campos, Médico Professor Universitário, membro da Academia de Medicina de São Paulo. João, pela semelhança pondero estatural, foi cognominado “PIRÃO”, em homenagem a seu antecedente Antonio Pires de Campos. E seu irmão, José, houve por bem, após algum tempo mudar-se para a florescente cidade Jaú, onde constituiu um grande núcleo familiar. O Pirão resolveu construir um nicho de fé católica no centro da Vila em homenagem a São João que ainda se encontra presente no seio da Igreja homônima, Matriz da cidade. Seu filho, também João, nos primórdios do século XIX teve vários filhos, dos quais citarei dois: Matias e Joaquim. Este (Joaquim) se casou com uma prima de Jaú, neta de José. Antonio Pires de Campos, seu filho, Médico, Membro da Academia Botucatuense de Letras cultuou a leitura e presidiu, por vários anos, o Centro Cultural de Botucatu. Matias se casou com Ana Pires de Camargo, formada na Escola Caetano de Campos, foi responsável pela Escola Luterana do Bairro do Bicame de Laranjal Paulista. Ensinava e educava os alunos e os filhos nessa Escola Primária. A leitura dos textos e dos Capítulos da Bíblia eram dissecados e degustados. Os netos se dirigiam à sua casa, nas férias escolares postados à sua frente, eram avaliados e analisados na forma e no conteúdo da leitura. Pedro Pires de Campos, filho de Matias se educou e se formou à saia dessa mãe diferenciada moral e intelectual. Aprimorou-se e tornou-se Farmacêutico, homem de olhar singelo, bondoso e digno. Inteligente, o rico, nele se enobrecia, enquanto que o pobre, nele se debruçava docilmente. Ao falecer a cidade emudeceu e a ele devotou amável oração ao conduzi-lo ao eterno repouso. Pai afável, dádiva legada ao ser humano e à família. Nair, minha mãe, Professora, educou- me no amor e na leitura. A Medicina depurou minha razão e o senso humano aguçado, revigorou no seio da natureza o meu ser: Evanil Pires de Campos. Nil, médico veterinário, muito lutou após a residência e pos graduado, mas a fortuna e a sorte semearam sua senda: trabalhos com formandos permitiram desenvolver com a Universidade pesquisa inédita sobre sexagem de esperma masculino ou feminino. Pedro Pires de Campos Neto, Médico, atualmente, enobrece sua senda ancestral em honrosa e digna ação humana, ética e profissional. Carolina, advogada e enfermeira luta valorosamente na conquista seu justo e merecido esforço de diferenciação educacional e profissional. Sua mãe, Claudia soube nutrir o amor fraterno. Forjou, também, os preceitos da moral em seus três filhos. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0823
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    24 Flerts Nebó Médico Reumatologista SãoPaulo - SP A LUZ ELÉTRICA EM SÃO PAULO Considerações Históricas Nointeressedefixarconhecimentosdealgunsproblemasquedizemrespeitoávidacitadina,divulgamosjá, por estas colunas o histórico da Companhia “Viação Paulistana”, que durante longos anos serviu a coletividades paulistana. No mesmo propósito contamos como a Light and Power que se introduziu nesta capital. Agora,paramelhorilustraçãodenossosprezadosleitores,vamosrelatarohistóricodafundaçãodaprimeira usina elétrica, instalada num quarteirão da Vila Buarque entre as ruasAraujo, Bento Freitas e Major Sertório, no mesmo local onde ainda hoje se encontra uma das muitas secções da Canadense. As informações que agora fornecemos aos leitores ser-vem de introdução ao trabalho que a seguir publicaremos sobre a história da expansão do império elétrico de Tio Sam, naAmérica Latina o qual é o ultimo e por diversas formas o mais palpitante capitulo da conquista econômica americana. Para esse interessante estudo desde já chamamos a atenção de nossos leitores. Há mais de meio século Deve-se ao saudoso jornalista português, Sr.AbílioAurélio da Silva Marques a iniciativa da instalação em nossaterradailuminaçãoelétrica. De fato há mais de meio século ou precisamente em 1888, esse prestante cidadão, auxiliado por diversos capitalistas e negociantes incorporou a Companhia Paulista de Eletricidade, que tinha por fim dotar as ruas do Triangulo, assim como a rua BoaVista e do Rosário desse útil e importante melhoramento. Realizada a assembléia geral de constituição da Companhia e, satisfeitas as formalidades legais, deu a Diretoria da Companhia mãos as obras e como foi efficiente que em 5 de dezembro do ano supra mencionado, inaugurava-sealuzelétricanestacapital. Apropósitodesseauspiciosoacontecimentoescreveuumjornaldaepocha:“ÁsruasdeSãoBento,Imperatriz eBoaVista,affluiuumacompactamultidãodecidadãosesenhoras,attrahidosparacontemplaremodeslumbrante effeitodailuminação.” “Os convidados que puderam penetrar nas usinas da Companhia, tiveram o ensejo de verificar, como de curiososagglomeradosnasvias,queestáanossaCapitaldotadadeummelhoramentoextraordinário.Aluzelétrica é óptima, fixa e brilhantíssima e muito mais barata do que a do gaz. “AinstalaçãodaUsinaCentralcomportatrezmotoresavaporaccionandocadaumumamachinadynamo- eletrica e está calculada que pode fornecer cerca de quinhentas lâmpadas incandescentes.” “As machinas elétricas e as lâmpadas de arco voltaico são fornecidos pela Casa Ganz de Budapest. e o systema empregado é de corrente continua. “As lâmpadas incandescentes são de Edison e é este o systema que a empreza virá explorar de preferência nas casas particulares. “Aslâmpadasdearcovoltaicasprópriasparaailuminaçãodegrandesespaços,dãoumaintensidadedemil áduasmilvelas. “As incandecentes variam conforme o tamanho de oito a trinta e duas velas (um a quatro bicos de gaz). x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0824
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    25 Companhia de Águae Luz de São Paulo Em substituição da Companhia Paulista de Eletricidade, veio a Companhia de Água e Luz do Estado de SãoPaulo,tambémsobacompetentedireçãodeAbilioMarquesequedispondodemaiorcapitaleoutrasfacilidades financeiras poude melhor desenvolver os fins a que se destinava, que eram de prover as cidades do interior dos melhoramentoshygienicoscomoseusexgottoeluz. Assim logo depois de iniciadas as suas actividade nesta Capital, adquiriu nas proximidades da Praça da Republica uma vasta quadra de terreno entre as ruas Major Setorio,Araujo,Ypiranga e Bento Freitas, e ahi sem perda de tempo montou as novas usinas com capacidade pa-ra mais de 5.000 lâmpadas incandescentes.. Esta Companhia apesar de seu estado de prosperidade sempre crescente e demonstrado em balanços teve uma curta duração e veio inesperadamente a ser liquidada, indo todo seu activo, constante de propriedades, usinas e privilégios para a iluminação pública e particular do Primeiro Setor da Capital que abrangerá a zona central do distrito da Consolação e Santa Ephigenia, vindo a cahir nas mãos da The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, como pouco antes tinha acontecido a CiaViação Paulista. AindahojefuncionanolocalemqueaCompanhiaÁguaeLuztinhasuasusinasemaisdependênciasàRua Major Sertório uma de suas secções mais importantes da Companhia Canadense. NOTAS: 1. Procuramos manter a maneira de escrever tal como era usual naqueles annos. 2. Esta pesquisa foi feita por Flerts Nebó em abril de 2009, nos jornais da época. Trabalho publicado no Diário Popular 25 de abril de 1939. Flerts Nebó MEDICINA NO ANTIGO EGITO A origem da Medicina, segundo conta no Livro de Paul Hermann remonta ao período da pré-história. É quasetãovelhaquantoaprópriahumanidade;suaevoluçãotemsido,maisoumenosparalelaàdeoutrasatividades humanas. Não raro, o curso da civilização tem sido profundamente modificado pela qualidade dos serviços médicos prestadosaosenfermos.Naalvoradadahistória,amedicinaachava-seintimamenteligadacomáspráticasmágicas e religiosas dos diversos povos empenhados na busca de conhecimentos e de um modo de vida melhor, O Egito, no contesto aparece como uma nação organizada, isto cerca de 3.000 a.C. O interesse médico gira em torno de um período da Terceira Dinastia – 1980-1900 – quando o país era governado por um faraó ambicioso de nome Zoser. Este por sua vez, tinha como principal conselheiro um nobre brilhante ministro de nome Imhotep ; o qual consta ter construído a famosa pirâmide de degraus de Sacará, perto da cidade de Menfis. Ele representava para o faraó o melhor médico da época tendo-lhe até sido atribuído o papel como o deus da medicina no Egito do momento. Existiaumaestreitaassociação,damedicinaegípcia,comareligiãoeamagia;sendoosmédicosdoantigo Egito, provavelmente, que eram treinados nos templos, da mesma forma como o eram os sacerdotes-magos. Entretantoelesformavamumaclasseinteiramentedistinta,organizadaemumahierarquiarígida,comoos médicos da corte faraônica ocupando, certamente, uma posição mais elevada. Amedicinaencontrava-sesubdivididaemmuitasespecialidades.Todavia,aespecialização,parecetersido maisumaconseqüênciadascondiçõesprimitivasdoqueumprenúnciodaespecializaçãoemnossaépoca.Entretanto amedicinaquesepraticavanoEgitonãoeratotalmenteprimitiva. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0825
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    26 Assim como desenvolveramas políticas, a agricultura, a tecnologia e, particularmente a arquitetura, além das artes, os egípcios também tiveram grandes progresso na medicina. Alguns papiros médicos que são, predominantemente, de caráter religioso, há outros, entretanto, que são de caráter empírico-racional, O médico, normalmente vestia uma roupa branca e limpa e usava uma cabeleira, que era característica, de suaprofissão. O paciente, normalmente, ficava repousando em uma cadeira, construída com tijolos especiais. Otratamentoprogrediasobadireçãosábiaecompreensivadomédico,istoconformeasindicaçõescontidas em um rolo de papiro, que era seguro por um de seus assistentes.Ao mesmo tempo, os sacerdotes executavam ritos mágico-religiosos, para o bem do paciente. O enfermo recebia a melhor atenção, que a ciência da época lhe podia oferecer. Os médicos egípcios foram altamente respeitados, por todo o mundo antigo, e isto por milhares de anos. Homero – o poeta grego – os considerava como os melhores de sua época e eles eram convidados á comparecerem nas cortes dos imperadores persas e de outros potentados orientais; e somente no século VI a.C. foramsendosubstituídospelosmédicosgregos. Além do valor psicoterápico da magia e da religião os médicos egípcios fizeram sólidos progressos nas observações e nos tratamentos racionais das diferentes enfermidades. Suas contribuições são dignas de permanecer em um lugar, ao lado das outras realizações dessa antiga grandecivilização. A posição de relevo, obtida pela medicina egípcia da época faraônica, durante 2500 anos, se justifica plenamente,peloquefoiencontradonosantigosdocumentosquesedescobriramemdiferentessítios,noterritório egípcio. Hoje a medicina no Egito é equivalente a Medicina mundial, nos países desenvolvidos; contando com hospitais modernos e bem equipados. NOTA- Se alguém desejar ler o livro de Paul Hermann, ele foi intitulado - A CONQUISTA DO MUNDO - é uma edição da Melhoramentos e seu código é: 0-03-062 Flerts Nebó PINHEIROS ou “ESPINHEIROS” A origem do nome do bairro já chegou a provocar polêmicas entre os historiadores e curiosos, sustentando alguns que “Espinheiros” seria a denominação mais acertada, dado a grande quantidade de árvores de espinhos aqui existentes `a época do primeiros povoadores. Segundoelesnestaregiãonuncahouvepinheiros,pelomenosemquantidadequejustificasseadenominação. Estudiosos atentos, porém, perceberam que as tais árvores de espinho, como eram chamadas na época, nadamaiseramqueospinheirosnativos(araucariabrasiliensis)queocupavamgrandesextensõesnestalocalidade. Sobre as referidas árvores, aliás, há numerosas referências em inventários e testamentos dos possuidores de terras nesta região, datadas de séculos atrás. Em artigo publicado já há alguns anos, o historiador pinheirense José Simão Filho, comentou a propósito: “Pinheirosdeoutrorapossuíaabundantespinheiras,cujosexemplaresmagníficosatraiamaatençãoeaeacuriosidade dos forasteiros. E foi, devida à impiedosa derrubada dessas árvores, que surgiu um decreto encontrado nas atas da vereança do ano de 1584: “...lançaram um pregão que ninguém cortasse pinheiro sem licença da Câmara com pena de pagar quinhentos réis para o Conselho...” José Simão Filho conservava ainda uma carta que recebera do escritor e historiador Afonso E. Taunay, datada de 15 de abril de 1829, na qual este assim se refere sobre o nome do bairro: x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0826
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    27 “SeháalgumlugarnoBrasilcujonomenãopossaserpostoemduvidaéPinheiros;ameuversódetalpode duvidarquemignoraosdocumentos,poisestebairrodeSãoPauloconservaessenomedesdeoséculoXVIeasua designação ocorre emcentenas de documentos. Para lhe dar uma rápida confirmação do que digo a ata da Câmara de São Paulo de 7 de dezembro de 1580, trata do conserto das pontes e caminhos.do Ipiranga, Pinheiros etc.. No dia 23 de maio de 1583 há uma referencia ao bairro de Pinheiros, onde estavam afazendadosAfonso Sardinha,Antonio Bicudo Francisco da Gama etc, etc. Na“informaçãodaProvínciadoBrasilparaonossoPadre”,pág.45,autoriadovenerávelJosédeAnchieta, lê-sequeospadresdaCompanhiaadministravamaAldeiadePinheiros,aumaléguadeSãoPaulo.Enfim,seriaum nunca acabar de referências de todas as épocas. NOTA: Quase toda a região do “Bairro de Pinheiros” era de propriedade do bandeirante FERNÃO DIAS que também possuía terrenos para o lado da região leste da Capital, chamada de ITAIM BIBI, onde tinha guardas para seus materiais usados nas “Entradas” ou “Bandeiras” da época” 60 Anos de Bonde. Dosmeiosdetransporteutilizadospelapopulaçãopinheirense,nenhumdeixoumarcastãoindeléveiscomo os bondes. Integrados à paisagem urbana desde o começo do século XX, esses veículos serviram a região durante 60anos,contribuindoparaoseudesenvolvimentopopulacionalefacilitandooacessodeseusmoradoresaocentro da cidade. Além da finalidade a que se destinavam, os bondes (e suas paradas como se dizia então) eram utilizados como pontos de encontros e serviam como elementos de aproximação dos membros da pacata comunidade pinheirense de outrora. Seus condutores e cobradores eram figuras populares no bairro e, nos carnavais esses veículos viajavam abarrotados de foliões que com os pedestres trocavam jatos de lança-perfumes e arremessos de confetes e serpentinas. Os bondes começaram a servir aos pinheirenses em 1904, quando a Light & Power inaugurou a linhaAraçá, que tinha seu ponto inicial no largo de São Bento e o final na Avenida Municipal ( atual avenida Dr.Arnaldo). Serviamdemodoinsatisfatório,poisparaalcançá-lososmoradoreseramobrigadosapercorrerumagrande distância a pé. Posteriormente o ponto final foi mudado para a Rua Capote Valente, onde então terminava a rua Teodoro Sampaio. Aindaassimeraenormeadistanciaapercorrereosmoradoresdobairroiniciaramummovimentopleiteando aextensãodalinhaatéoLargodePinheiros.AreivindicaçãoteveoapoiodovereadorCelsoGarciaeobteveêxito, apesar das dificuldades existentes. Para que os trilhos chegassem ao Largo de Pinheiros procedeu-se ao prolongamento da Teodoro Sampaio, através de uma área quase toda de brejos, sendo necessária a execução de três aterros, para os quais foram utilizados os próprios bondes. Superados os obstáculos, em março de 1909 chegava o primeiro bonde ao Largo de Pinheiros, onde foi recebido com banda de música e foguetes em meio à grande festa popular. AovereadorCelsoGarcia,quetantolutouporessemelhoramento,foioferecidoumbanquetenaresidência do Dr. José Guilherme Eiras, um dos lideres da comunidade na época. O progresso acabou com os bondes. Com o advento da era dos automóveis e principalmente depois da instalaçãodaindústriaautomobilísticanacional,aquelesveículoscomeçaramaservistoscomoobstáculosaotrânsito cada vez mais rápido. A imprensa e o povo a eles se referiam como “trambolhos”, “mostrengos”, “obsoletos” e outros adjetivos e apoio dos pejorativos. Por fim, na gestão do prefeito Faria Lima, foram extintos de São Paulo. OúltimodelesquechegouaPinheirosfoinumanoitede1969,trouxeopróprioprefeitoesuacomitiva,para umasingelacerimôniadedespedidaqueserealizounolargodePinheiros.Findaasolenidade,melancolicamenteo bonde subiu a Teodoro Sampaio pela ultima vez, deixando atrás de si o eco de um passado que não mais voltará. Flerts Nebó x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0827
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    28 Geovah Paulo daCruz Médico Oftalmologista - Biólogo São Paulo - SP AÁGUADEPIRACICABA Nas bandas do rio Piracicaba Tem garapa, açúcar e pinga Que tonteia em Jaboticabal Escorrega em Itapetininga Cambaleia em Palmital Tomba em Taquaritinga Vomita em Taquaral Se mija em Ibitinga. E junto com a camarilha Caga em Brasília. Começa por São Bernardo Descendo o rio Pardo Navegando os rios paulistas Com a corja de sindicalistas. Chegando em Bertioga Pega uma piroga Até a beira do Juqueri. Cuidado com o hospício Não faça ali comício Senão eles te jogam Na barra do Sapucaí. Rema no Tamanduateí Cai no Anhembi No sentido de Igaratá Até Guaratinguetá Sobe rio arriba Pelo Vale do Paraiba Desce pelo Tietê Na direção do Perequê Na altura de Pedregulho Vai de mergulho Até a barra do Mogi Guaçu Passando por Bauru Entra à direita para Iporanga Na entrada de Votuporanga, E vai indo prá Boiçucanga Sobe para Paranapiacaba Aí ganha o rio Piracicaba Então para de “mergulhá” Já está em Urubupungá. Muito compricado esse roteiro Pr´eu e os companheiro Eu queria apenas Que a viage fosse menas. Anhangüera e Itanhaem Pindamonhangaba e Icém Araraquara e Avanhandava Pirassununga e Igarapava Araçariguama e Cabreuva Paranapanema e Boituva Taubaté e Pariqüera-Açu Itaquaquecetuba e Botucatu Para com essa dureza! Nem sei nadar em represa... E eu tô com a língua presa, A boca mole e cheia de baba Com essa água de Piracicaba. È, mas aprende que o rio Piracicaba Não passa em Araçatuba Não nasce em Sorocaba Nem corre prá Indaiatuba Não cresce em Itu Nem lava em Jau Não serve prá Poá Não molha em Guará Chega de geografia E de tanta água fria Prefiro uma água quente Uma gostosa aguardente Lá em Presidente Prudente. Vossa Excelência toma birita Lá em Barra Bonita Pega uma “boa idéia” No canal de Cananeia Uma dose da branca Num boteco de Franca Manda brasa num mel Num quiosque em São Manuel Pensa que tá no metrô de Jabaquara Acaba num pau de arara Vai tomando umas e uns... Que vassuncê vai parar em Garanhuns! Manda aí uma água de Piracicaba... Porra!!! Essa é da braba!!! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0828
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    29 Geovah Paulo daCruz O TATU E A TANAJURA Hoje não existem mais generalistas, aqueles que sabem muitas coisas e suas correlações.Atualmente todos são especialistasemalgumacoisa,eignoramoresto.Eumesmosouespecialistaemolho.Vejamsóqueseqüência incrível de conhecimentos são necessários para este artigo. EunasciemecrieinaroçaelogodepoistiveorestodainfâncianumvilarejodoTriânguloMineiro.Aculturado, desde cedo aprendi que tatu se come, mas que há restrições. O mais comestível é da espécie chamada tatu galinha,muitoapreciadopeloexcelentesabor.Entretanto,naminhacidadenãosecomiao tatupeba pelaseguinte razão: o cemitério ficava fora da cidade, limitando-se por um muro com um pasto de cavalos. Uma pessoa era enterrada e já no dia seguinte se encontravam pedaços de seu corpo espalhados pelo pasto, passados por túneis debaixodomuro,trazidospelostatus.Ocampoeracoalhadodeossos.Emoutroslocaisondenãoháesteproblema, este tatu é também apreciado, assim como o tatu bola. Na minha região se comia muito a tanajura, também chamada de içá em outros locais. Os índios a comiam crua,masentrenóseratostadanachapa,comosefosseumapipoca.Gostosíssima.Fazia-sefarofabemtemperadinha. Como pescador, das que sobravam, usava-as como isca de pesca. MaistardemegradueiemBiologiaeaprendiqueotatuapresentapoliembrionia,maisparticularmente,tetra- embrionia,istoé,nascemquatrodecadagestação.Tambémaprendiqueatanajuraéaformigarainha,quefecundada em pleno vôo pelo macho, pousa no chão, perde as asas, fura o solo e se aprofunda nele, formando aí um novo formigueiro.Daípordiantesuaúnicafunçãoéporovos,dosquaisnascerãooutrasformigasestéreis,quenãofazem sexo, nem se reproduzem, operárias, soldados, babás. Pertence à formiga saúva, aquela da cabeça de vidro, voraz cortadeira,quedizimatudoemvoltadeseuhabitat.Antesdosmodernosvenenosformicidaseraquaseimpossível controlá-la. Havia até um ditado que dizia: ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Esta formiga é agricultora, planta e cultiva um fungo do qual se alimenta.As folhas cortadas não são comidas, apenas servem de adubação, alimento para o fungo. Depois,comoagropecuaristaaprendiquehojeseusamiscasformicidas,grãospeletizadosmuitocheirosos, contendo casca de laranja e outros vegetais, que elas levam para o interior do formigueiro e envenenam os fungos, quecomememorrem,principalmentearainha. Comomédico,fizcursonoantigoServiçoNacionaldeLepra,hojechamadaeufemisticamentedehanseníase. Como hansenista aprendi que o tatu é um hospedeiro natural do bacilo de Hansen e que não desenvolve a doença. Por este motivo é muito usado na pesquisa sobre este mal bíblico. Como gastrônomo, inferi que o enorme abdome da tanajura nada mais é do que um grande depósito de ovos. Ora, ovo é comestível, não importa qual. Sempre apreciei ova de galinha, ovos em formação e em vários estágios de desenvolvimento. Em casa, nós brigávamos por ela. Depois que vim para São Paulo, conheci o mar e passei a apreciar frutos marinhos, conheci a ova de tainha, coisa apreciadíssima em gastronomia. Melhorando de vida,comicaviarmuitasvezes.Caviaréconservadeovosdeesturjão,umpeixedaEuropaOriental.Nãofoidifícil concluir que bunda de tanajura nada mais é do que caviar terrestre, e dos melhores, já que os peixes e os insetos aindasãoanimaisinferioresemuitopróximosentresinaescalazoológica. Entendido de embriologia, sei que o ovo, qualquer deles, é um ser em potencial, que deriva de um óvulo fecundado. O óvulo é sempre grande porque contém um lanche, uma matula chamada vitelo, para alimentar o embrião a ser desenvolvido. Nos peixes e insetos este bornal cheio de lipídios e albumina é muito nutritivo, o suficiente para fornecer matéria prima para a formação do embrião, porque a incubação é externa, fora do corpo da mãe. Eu estava desmatando o cerrado de uma das minhas fazendas para plantar soja e os peões diariamente matavam tatus para comer e penduravam os cascos nas árvores residuais. Elas ficavam parecendo árvore de natal. Não gostei daquilo, mas não tinha como controlar a ação deles. Eu tinha arado e preparado um pedaço de terra de cor clara, era noite de lua cheia e o chão ficou iluminado, atraindo por fototropismo centenas de tanajuras que lá aterrizaram. De manhã eu passei por aquela quadra, do tamanho de uns dois campos de futebol e observei muitos x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0829
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    30 rastos de tatue centenas de buracos com terra removida. Eles tinham trabalhado a noite inteira a meu favor, comendo as içás, evitando que cada uma delas criasse um novo formigueiro. Isto me poupou um enorme trabalho de combater as formigas com um grande custo financeiro, além de envenenar também a terra e outros predadores que as comessem envenenadas. Souumferrenhoambientalista,defensordanatureza.Deixeidecomertatunãosóporconsciênciaecológica, mas também por um certo nojo pelo fato de ele ser portador-reservatório do micróbio da lepra. Não coma tatu, deixe ele trabalhar pelo equilíbrio natural. Mas pode comer tanajura, estou certo de que vai gostar. Tenhotambémomeuladohumorista:achoaquelasdonasdecinturafinae“derrière”avantajado,apelidadas detanajuras,tambémmuitoapetecíveis... Como culinarista (tenho um livro para editar), aqui vai uma receita. Ponha manteiga de leite (existem outras manteigas), azeite, temperos secos (pimenta do reino, cominho, curry), cebola ralada, ervas frescas (salsinha, cebolinha, hortelã) alho, sal, e refogue as bundas (retire as cabeças) mexendo sempre, em fogo brando. Quando estiverem refogadas, derrame queijo captupiry ou outro requeijão cremoso, ou creme de leite, apenas o tempo de misturar e aquecer. Coma com arroz branco. É caviar de caipira, sô! Não chego a ser um enólogo, mas posso recomendar um vinho branco, tipo riesling alemão, ou nacional, mais baratinho. -Vai ser chique assim lá no Chapadão doTatu Canastra, onde a égua quebrou a perna num buraco dele, ôh “seu” passa fome desgraçado! E como escritor, redigi este pequeno ensaio. Como datilógrafo o digitei e como um modesto usuário de informática,imprimi-oeocopieiemdisquete. Geovah Paulo da Cruz O CULTO DA ANCIANIDADE Anaturezatemritosqueestãoligadosaumdeterminismogenéticodesenvolvidoaolongodemilhõesdeanos, segundoaevoluçãoseletivadasespécies.Doisdestesdeterminismossãoclausulaspétreas,imutáveis:aperecibilidade doorganismoindividualeaimortalidadedesuaprogramaçãobiológica.Osindivíduosmorrem,massuaorganização não:elaétransmitidaintra-específicamente.Assemelha-seaocultivodofogo:umpedaçodelenhaacesotransmite fogoaoutropedaço,maschegaummomentoemquecadatoroseextingueou seconsome,eofogoésucessivamente ateado a novos lenhos. Háumoutroritotambéminexoravelmenterígido:cadaindivíduoéresponsávelpelamanutençãodeseuciclo individual de vida, respirando e se alimentando. Respirar é de graça, mas alimentar-se tem um custo. Na natureza não há solidariedade alimentar. Com exceção da fase infantil do animal, depois de adulto é o cada um por si. Nenhumanimalrepartecomoutrooseualimento.Elenãotemnenhumcomprometimentomoralcomaalimentação do outro. Cada qual vive a sua vida. Nestas circunstâncias, o animal velho que perdeu sua agilidade, sua força, sua destreza, acaba se alimentando mal, e cada vez menos.Amaioria deles morre por inanição, definhamento. Ele começaporseautoconsumir,gastandosuasgorduras,oemagrecimento,depoisseusmúsculoseossos,aemaciação. E morre de caquexia, caso não haja morrido por infecções e infestações. Outros organismos oportunistas se aproveitam de sua fragilidade e o agridem e atacam, incluindo ai os predadores.Anatureza o defenestra da vida. Prá que ocupar um lugar, se já não tem mais utilidade?Anatureza é uma entidade não-moral. Os animais velhos em geral passam a viver solitários, são deixados para trás, não tem forças para sobreviver àsuaprópriacustaeesforço.Osherbívorosgastamseusdentes,suasunhas,seuscascos,nãoconseguemcaminhar e pastar. O homem, como qualquer outro animal, sempre cumpriu estes ritos de maneira natural. Nos bandos primitivos os velhos eram escorraçados, deixados para trás na vida nômade. Mais tarde, depois que o homo sapiens se socializou, no máximo comiam restos, sobras. Cada elemento do grupo era utilizado como forma de economia ergonômica, fornecendo sua potência para o proveito coletivo: caça, cultivo, defesa, ataque, vigilância, ajuda, regulação, e os velhos eram um peso morto, incômodo, fraco e frágil. Um passivo na dinâmica social. Um deficitário, aquele que dava pouco ou nada. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0830
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    31 Com o estacionamentodo humano em cavernas, povoações, aldeamentos, juntavam-se as mulheres e as crianças num só local, com um baixo custo operacional. Isto começou a ocorrer depois que os bandos ficaram sedentários. Cuidar também dos velhos agora representava apenas um pequeno adicional de ônus. E não seria totalmentedegraça.Haviaumlucropotencialinteressante;inferiu-sequealimentandoecuidandodoseuascendente, o descendente ganhava um crédito “moral” para quando também se tornasse velho. E assim de forma egoística, como soe ser na natureza, quebrou-se o rito da não repartição alimentar. Comprou-se, de forma artificial, uma quota de sobrevida.Aos poucos se descobriu que nem era tão caro assim entesourar este crédito, porque já havia outrainstituiçãovantajosa,acooperativafamiliar.Termuitosfilhossignificavamaiorsegurança,proteção,defesa, divisão do esforço, e também partilha do ônus de amparar os longevos. Com a evolução da inteligência, da linguagem, das habilidades, os idosos cuidaram de se armar de um cabedal de troca, a experiência. Se já não tinham força nem potência física, então compraram sua sobrevivência comumanovamoedaprópria,oseupatrimôniointelectual.Durantemilhõesdeanosaculturaoralfoiaúnicaforma intelectual de que se valia para guardar as descobertas, o aprendizado, a técnica, a ciência. E os anciões se especializaram neste mister, deixando para os sôfregos jovens e adultos a atividade física. Destemodo,nobalançocontábildeinteresses,osvelhospagaramsuacotaatuarialesegarantiramcomuma fraçãoamaisdevida,asenilidade.Daíavirarcultonãofoimaisdoqueumapolitizaçãodofenômeno,osdoislados dojogosegabandodeseusfeitos.Osmoçosapregoandosuabeneficênciaparacomosvelhos,eestessecreditando por um capital que os jovens não tinham, o conhecimento adquirido e experimentado. Hoje tudo mudou, e se cultua a juventude. O culto da ancianidade está em franca decadência. Os filhos são poucos, a vida é competitiva e se os mais moços conseguirem cumprir os mandamentos da natureza, cuidar de si mesmos e zelar pela prole, já estará bom. Com a nova dinâmica do conhecimento são poucas as chances de um jovemchegaraserumvenerávelanciãodetentordasabedoria,oudafortuna.Omundoéaaldeiaglobalquejátem os seus consagrados mestres em todas as áreas, laureados detentores do prêmio Nobel, acadêmicos, especialistas. Assim, é bom pensar em economizar e amealhar para o futuro. O fator de maior sobrevida, a longevidade, está pesando muito nos orçamentos. No Japão já se vive em média mais que 80 anos. Até mesmo os governos estão se queixando do excesso de velhos, que já não mais contribuem monetariamente e retiram do caixa por tempo prolongado. O que os da nova geração devem fazer é pensar na sua previdência programada, para que quando chegarem à velhice não se vejam como aqueles velhos da pré-história da humanidade, escorraçados para as migalhas das sobras e restos dos institutos de aposentadoria oficiais de todos os lugares do mundo, como o nosso INSS. Ou dependam da caridade, que não consegue assistir a todos e é humilhante para o idoso.Asilo é o terror psicológico da senectude.Aantecâmara da morte anunciada. No metrô uma senhora pediu que um garoto desocupasse o lugar reservado aos idosos. De má vontade, ele resmungou: - Que velha chata. Sem se perturbar ela retorquiu: - Se você não morrer antes, um dia ficará velho. Geovah Paulo da Cruz x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0831
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    32 Helio Begliomini Médico Urologista SãoPaulo - SP CIRCUNCISÕES Confessoquenãogostodetratare,particularmente,operarparentes,poisaafetividadeeaproximidadeno relacionamentopodeminterferirsentimentalmentenoraciocínioclínico,atrapalharnoordenamentodashipóteses diagnósticas, quando não, contribuir negativamente na condução e evolução do caso. Entretanto,emminhaatividadeprofissionalhouvepoucas,masbemespecíficasocasiõesemquefizquestão de operar três entes mui queridos, cuja experiência inaudita pode ser classificada como trágico-cômico-filosófica. ... Há muitos anos, quando meus dois primeiros filhos tinham por volta de sete e cinco anos, e com indicação derealizaracircuncisão,decidiqueeumesmoosoperaria,poisalémdeserumdosmaissimplesprocedimentosem minha especialidade, gostaria que minha arte cirúrgica os moldasse perenemente, transcendendo neles a minha própria existência. Dessa forma, pensava que poderiam se lembrar do pai toda vez que se recordassem que tinham sidopostectomizados. Mas, apesar da simplicidade do ato, fui questionado pela minha esposa se eu seria o profissional ideal para oato,vistoqueseriapossívelmeinfluenciarafetivamenteenãoalcançaroresultadoesperado.Ademais,indagou- me se não poderia passar mal durante o procedimento, uma vez que estaria “cortando” meus próprios filhos. Nada me demoveu de meu intento, pois estas e outras colocações já tinham sido anteriormente muito ruminadasemminhamente. Assim, duas cirurgias idênticas foram marcadas sequencialmente no antigo Hospital e Maternidade Voluntários,naZonaNortedapauliceia,umdoshospitaisquerotineiramentelevavameuspacientesdoconsultório para operar. Curiosamente, na internação, apesar da autorização do convênio e de ser conhecido da instituição, pediram-me um cheque caução cujo valor, elevadíssimo – cerca de vinte vezes o custo dos procedimentos – não dispunha, e que deveria trabalhar alguns meses para reunir tal soma caso necessitasse pagá-lo. O anestesista foi o colega Lee e o cirurgião auxiliar meu velho amigo Carlos, igualmente urologista, com quem havia feito muitas e maiores cirurgias. Estive sempre confiante, mas pensava que, na pior das hipóteses, se ocorressealgumachaquesúbitocomigo,meusfilhosteriamalguémdeconfiançaparaconcluiroato. O primeiro a ser operado foi meu filho Bruno, o mais novo e o mais corajoso, outrora carinhosamente apelidado de “batatinha voadora” pelas suas peraltices, hoje, também médico. O ato transcorreu sem nenhuma intercorrência, como outros pacientes sem parentesco que houvera operado.Atranquilidade dele deu bravura ao meufilhomaisvelho,Enrico,outroraigualmentetraquina,hoje,administrador.Diferentementedoquehaviaimaginado, sem maior temor, comportou-se serenamente no centro cirúrgico. Entretanto, quando já havia sido cumprido cerca da metade do ato operatório, eis que subitamente meu auxiliar, o Carlos, disse-me que não estava se sentindo bem. Em poucos segundos tornou-se lívido, levemente sudorético, e ameaçando desmaiar teve que se sentar no chão do da sala, quando foi socorrido pelo anestesista e enfermeira. E eu que houvera cogitado que poderia ter experimentado o que ele estava passando, encontrei-me operandosozinhomeufilhoporváriosminutos. Felizmente, o infausto acabou bem e dele sobraram boas gargalhadas. ... Um raciocínio inverso ocorreu recentemente quando meu pai, com quadro de balanopostite crônica, desenvolveu fimose secundária. Na ocasião ele contava com seus 81 anos; eu com 53 de idade e 29 de formado. Tendoqueoperá-lodecidiconscienteetranquilamentefazê-locomminhasprópriasmãos,poissendopartedesua carne, almejaria com meu gesto retribuir a quem muito devia uma singela gratidão, particularmente por ter-me x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0832
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    33 proporcionado,juntamentecomminhamãe,realizaromaiorsonhodeminhavida:sermédico.Assim,nadamelhor do que transformarminha arte num gesto de agradecimento a quem com muito sacrifício a concedeu-me. Desta vez a cirurgia foi marcada no Hospital São Camilo Santana na sequência de um procedimento endoscópico.OanestesistaeraoRenato,velhoconhecido,comquemigualmentetenhopartilhadomuitashorasem centros cirúrgicos. Também havia contatado um auxiliar e uma instrumentadora que me ajudariam. Infeliz e curiosamente ambos tiveram contratempos e notificaram-me em cima da hora que não poderiam estar presentes. Considerando serem os procedimentos de pequena monta e inadiáveis em decorrência das patologias, afastamentodotrabalho,agendamentoprévio,jejumemuitaburocracianostrâmitesparaaobtençãodeautorização dosconvênios...decidiencará-lossozinho.Rezei,comodepraxe,paraquetudosedesenvolvessedamelhorforma possível,ecomféfuiavante. Terminado a contento o primeiro procedimento, iniciei, solitário, à mercê da assistência anestésica, a circuncisãodemeupai.Felizmente,nadadecômicooutrágicohouveraparacontar,anãoserofatoúnicoemminha vidaprofissionaldeterquerealizarsozinho,emmeuprópriopai,umprocedimentosimples,masquesemprefizera e que faço com a ajuda de um auxiliar. Porestarsó,demorei-mecircunstancialmentemaisdoqueousualnoatooperatório,temposuficientepara que meu pensamento voasse celeremente às recordações dos felicíssimos momentos que tive com meus pais e irmãosnaminhainfância...prolongadosnaadolescência...esedetivesse,particularmente,àépocademinhajuventude. Derepente–semjamaistersequerimaginadoemminhatrajetóriapessoalouprofissionaloperarmeupai(!) – dentre tantos flashes que a memória aprazível e graciosamente me concedia, refleti que estava inusitadamente restaurando nele um órgão que, através de inúmeras incursões de amor, possibilitou-me ter acesso a vida. Eessefoimaisummomentoinolvidávelemminhaexistênciaqueele–meupai–paradoxalmente,através damedicinamehaviapossibilitado! Helio Begliomini EU... MILITAR O meu relacionamento com os militares daria para fazer uma pequena novela. Como sói acontecer com todo os varões que estão para completar 18 anos, participei do processo de alistamento militar no quadro do Exército Brasileiro. Madrugadas na fila, gozações de soldados em exercício, ameaças de cabos e sargentos e desdém por parte de oficiais eram rotinas esperadas nesse processo. Felizmente,nessaocasião,fuidispensadoporexcessodecontingente.Participei,felicíssimoecomorgulho, dacerimôniaejuramentoàBandeiraocorridanoEstádioMunicipaldoPacaembú,otradicionalPauloMachadode Carvalho. Entretanto, novamente cruzei com os desígnios do Exército Brasileiro por ocasião do término do curso de medicina, em 1978, quando a minha faculdade desfortunadamente foi uma das sorteadas e seus varões, como consequência, obrigados a servir as ForçasArmadas durante um ano. Tínhamos que servir no Mato Grosso do Sul, pois naquela época, esse estado pertencia à mesma região militar de São Paulo.Após treinamento em Campo Grande seríamos designados, de acordo com a classificação, para cidades interioranas e fronteiriças, como por exemplo Porto Murtinho, cujo acesso só era possível por ar ou rios. Esse não era o maior problema, mais sim o fato de estar com casamento marcado há meses para o dia 24 de janeiro de 1979. Assim, a cerimônia já estava acertada com o querido padre Bruno Carra da Igreja de São PedroApostolo,alémdocantor,instrumentistas,floriculturaeClubeMacabi,ondeseriaarecepção.Játinhamsido entregues quase todos os convites. Deveria me apresentar em Campo Grande três dias antes do meu casamento. O coronel responsável pelo processo estava irredutível, não admitindo minha ausência, sob pena de ser preso. Commuitocustoegraçasaaçãodivina,conseguicasarcomapropostadepartirnodiaseguinteparaMato Grosso do Sul. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0833
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    34 Nessa ocasião, haviaconseguido entrar na Residência Médica em urologia no concorrido Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo. Tive que pedir adiamento do meu programa por um ano, o que foi concedido. Desmontamos o apartamento já organizado e não inaugurado e, estávamos convictos de que teríamos de trocar, às pressas, nossa lua de mel, anteriormente almejada nalguma praia do nordeste, para o desconhecido oeste brasileiro. Ahomiliadacerimôniareligiosaeacomemoraçãosocialforammarcanteseemocionantes,poisestávamos de mudança para terras desconhecidas e lá permaneceríamos por pelo menos um ano. Passamos a primeira noite no Hotel Hilton e seguimos rumo a Campo Grande com pernoite emAssis e Presidente Epitácio. Nesta cidade dormimos, sem querer num hotel de meretrício. Foi uma experiência inesquecivelmente repugnante no início do casamento e não combinava com nossos ideais. Para mim que tinha moradoemrepúblicadeestudantesduranteseisanoserafacilmenteabsorvível,masnãoparaminharecém-esposa que jamais se desgarrara de sua bela casa e unida família. ChegamosemCampoGrandenosábadoejánosmobilizamosparaalugaralgumaquitinete,poisnãodava para morar no hotel devido ao elevado custo. Encontramos, no domingo, meu colega de turma, oAriovaldo, que encontrava-se aflito e desesperançado, Estava em prantos, junto com seu pai, pois também jamais tinha morado fora de casa.Apesar de sua idade, não se conformava com essa idéia de serviço militar no Mato Grosso do Sul. Na segunda-feira seguinte, apresentei-me ao comandante da unidade militar e este, para minha surpresa, disse-me que o quadro de aspirantes estava completo. Caso quisesse, poderia desistir, com a condição de servir após o término da residência. Essa foi outra surpresa. Naquela altura tudo já estava direcionado para morar no Mato Grosso do Sul durante um ano: apartamento em São Paulo desmontado; prorrogação da Residência Médica; familiares e amigos conscientes; cancelamento de plantões, adiamento da Faculdade de Engenharia daAida, minha esposa... enfim, já tínhamosnosacostumadocomaidéiadequemorarumanoforaseriaumaexperiênciamuitoboaparaanossavida a dois. Entretanto,apósconfabularmos,prevaleceuàidéiadevoltar.Felizmente,portelefone,conseguiretornarao meu lugar na Residência Médica e, partimos no dia seguinte, numa terça-feira. Apesar das retas intermináveis da estrada, pegamos um temporal intenso e deslizamos na pista, batendo partedocarronalateraldarodovia.Felizmenteomalnãofoipior.EraumcarroBrasília,excessivamentecarregado pelamudança. Paramos em Presidente Prudente para reparos.Afortunadamente tínhamos o endereço do irmão da Sra Terezinha, vizinha amiga dos pais daAida e sem nos conhecer, ele e sua esposa foram excessivamente gentis, pois além de nos orientar quanto a um mecânico de confiança, nos proporcionaram alimentação e pernoite. Eles foram bons amigos que carinhosamente nos socorreram e jamais serão esquecidos. No dia seguinte partimos para São Paulo pernoitando na cidade de Ourinhos.Tanto na ida quanto na volta fizemosaviagemfracionada,poisalémdopercursosermuitolongo,tínhamosaintençãodeconhecerascidadese paisagens que se iam apresentando, com belos rios e represas. Findaaluademelqueduroucercadeoitodias,nossavidavoltouaoesperado.AAidacontinuouseucurso deengenhariaeeuinicieiaResidênciaMédica. * * * Três anos após concluía minha especialização em urologia. Era fevereiro de 1982. Já tínhamos o Enrico, nosso primeiro filho, com 1 ano e 4 meses e estávamos no início de gravidez do segundo filho, o Bruno.Ambos nasceram no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, com imensas e gratificantes recordações para mim. Masaindaminhaexperiênciamilitarestariaporvir.Devidoaobomsalário,àspoucasopçõesempregatícias e à minha pendência com as ForçasArmadas, decidi me alistar como médico no Exército. Naquele ano, a maior parte dos convocados era composta de médicos com três ou quatro anos de especialização e eu estava entre eles. Helio Begliomini x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0834
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    35 Fizemos um treinamentomilitar de 45 dias no tradicional CPOR – Centro Preparatório de Oficiais de Reserva, na rua Dr.Alfredo Pujol em Santana, onde aprendemos as normas e disciplinas militares. Lembro-me, certa vez, que perdi o horário. Saí em disparada ao quartel. No trajeto bati o carro e nem parei para ver o que tinha acontecido, tamanho era o medo de ser repreendido ou de ficar preso... Aprendiamarchar,fazercontinência,conhecernomes,siglas,regraseconceitosmilitares.Asliçõesensinadas eram permeadas pelo impecável jeito de se vestir e recheadas de rigorosa disciplina. Uma das recordações que trago dessa época era quando, logo pela manhã, o tenente perguntava quem iria almoçarnoquartel,poisacomidaseriafeitasobmedidaenãoseadmitiadesperdício.Quemdesseonomedeveria comerobrigatoriamente,mesmoqueposteriormentedecidisseemcontrário.Equemnãodesseonome,nãocomeria. Umaexperiênciainesquecívelfoiaotérminodocursoquandofizemosumacampamentomilitar,queseriaa conclusão prática do aprendizado. Numfinaldesemanaestivemosnumcampodetreinamentoondehaviamuitomato.Caminhamosfardados porquilômetros;sentimosaaçãodogáslacrimogêneo;aprendemosliçõesdecamuflagem;demostiroscomfuzile vimos o poder da explosão de granadas. Um estilhaço de uma delas que se desintegrara a dezenas de metros de distância,atingiuacidentalmenteoolhodeumcolegadaturma,lesando-oeafastando-odefinitivamentedogrupo. Ànoite,embaixodefortechuva,colocaram-nosnomeiodomatoetínhamosquesairguiadosapenascom lanternas e cálculos de azimutes. Não havia banho.Afarda suja e molhada amoldava ao corpo. Lembro-me que nem havia lugar para dormir dentro das barracas ou caçambas.Asolução que encontrei foi ficar deitado embaixo docaminhãoemcimadagramamolhada,poisaomenosestavaumpoucomaisprotegidodachuvaquenãoparava. Cumpri o treinamento militar e como tinha Residência Médica fui convocado para trabalhar no Hospital Geral do Exército, localizado no bairro de Cambuci. Naquela ocasião, o hospital era ainda formado de velhos pavilhões da época da II Grande Guerra Mundial e, só no segundo semestre daquele ano (1982) seria inaugurado o prédio novo dos ambulatórios. Meu turno de trabalho era das 7 às 13 hs e alguns dias das 13 às 19 hs. Almoçava no hospital e depois trabalhava noutros lugares.Tinha plantões aos sábados e domingos à cada seis semanas aproximadamente. Além dos militares e alguns familiares, atendíamos os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Suas indeléveis experiências e o sentimento de irmandade que nutriam entre si eram emocionantes e inesquecíveis. Durante esse ano pude também desenvolver muito a parte escrita da tese de mestrado que estava, paralelamente realizando na Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A minha experiência militar proporcionou-me maior amadurecimento como cidadão e conhecimento de realidadesinimagináveis.Elafoitãoamplaericaquedariaparaescreverumlivro! Helio Begliomini x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0835
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    36 SER CANDIDATO Ser candidatoé ter um sonho é ser idealista é acreditar no poder da transformação nodinamismodavida nummundomelhor. Ser candidato é ser desprendido despretensioso no trato solidárionasdificuldades afávelnorelacionamento. É catalisar o poder a outrem trabalhar sem medo ser impávido no embate. Ser candidato é almejar a vitória poder amargurar uma derrota é ganhar ou perder. Ser candidato é surpreender-se com adesões desencantar-se com deserções é angariar apoios e traições. Ser candidato é deixar afazeres relegarfamiliares abdicar de si mesmo conviver com multidões e estar só. Ser candidato é competir entre verdades e mentiras consistênciaesuperficialidade adulaçõesecalúnias realidade e falsidade. Ser candidato é ter nobre conteúdo inesvaecido pela derrota tampoucopelavitória. Helio Begliomini x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0836
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    37 Hélio José Déstro CirurgiãoDentista São Paulo - SP O PALHAÇO (Declaração especial de amor a um ser fenomenal) Adorávelemaravilhosopalhaço... Com o seu coração de ouro a cara e o traseiro de aço. Adorávelefenomenalpalhaço... Comaquelaingenuidadeinfantil, O bolso vazio em bagaço. Adorável e inocente palhaço. Aalegriaésuaformademensagem. A vestimenta é toda coragem. Adorável e querido palhaço. Que faz vibrar as crianças Encrostadas em todos os corpos. Que faz vir à tona nossos sentimentos. Apureza e a certeza...Avida é linda... E que a inocência, tem por base primordial a decência. Meulindo, fenomenal,inocenteequerido. PALHAÇO O ABC DO PALHAÇO 10 de dezembro – Dia Internacional do Palhaço QUÁ... QUÁ... QUÁ Sorrir faz bem ao fígado. AAAAAAAAAAAA Rir faz bem ao coração QUÉ... QUÉ... QUÉ Gargalharfazbemaalma. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0837
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    38 Hélio José Déstro Cambalhotas...E dá-lhe cambalhotas pra frente, para trás... Muitas cambalhotas. Saltos... Estrelas, quedas e lorotas. Rir... Sorrir... Gargalhar...Alegres anedotas. Na cara levar tortas, o choro mentira é chacota. Estampidos, o bater palmas, levarem bofetões. Conversas sem nexo, só pra fazer confusão. Tem cara de idiota, mas é um lindo ser. Nos circos de lona, nas festas infantis e na TV. A cara pintada, o nariz tão vermelho. Vê-se no espelho e que roupas coloridas. Flores e os jatos d’água quanta palhaçada. CAREQUINHA–Aiaiai... Carrapato não tem pai. PIOLIM – fenomenal fez rir a tantas gerações. ARRELIA – Como vai... Como vai... Como vai? - Eu vou bem, muito bem, bem bem. A meninada – Muito bem... Muito bem, bem bem. ARRELIAEPIMENTINHA - O bom menino não faz pipi na cama. - O bom menino não faz malcriação. O maravilhoso mundo do circo onde o palhaço é rei. Na maior pureza e encantamento. Em tempo de infância de nada fazer. Palhaço – quando rir, sorrir e gargalhar. Até não agüentar e sempre se lembrar. Hélio José Déstro – palhaço da vida x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0838
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    39 OS REVOLUCIONÁRIOS No quartela ordem do Comandante para toda a Corporação. - É pra matar, todos os revolucionários escondidos na favela. - Pra matar, isto foi dito a todo o Batalhão que iria fazer parte desta manobra. - É pra matar, penetrava pelos ouvidos e infiltrava nas cabeças dos soldados. - É pra matar. É pra matar. Maaaaataaaaar. Em caminhões chegamos ao pé da favela, do Batalhão éramos famosos conhecidos como o “Pelotão de Fuzilamento”. O pelotão com cerca de duzentos homens em posição, caminhávamos lado a lado dois, três ou quatro cada qual com um campo de visão, passo a passo subíamos fazendo a varredura do local metro a metro. Crianças se escondiam, mulheres gritavam para as crianças, um escarcéu. Eu com meu fuzilAK-47 arma poderosa e munição de centenas de balas. Casas vasculhadas ficavam para trás, onde mulheres choravam.Aminha esquerda um pipocar de metralhadora, alguém tinha sido encontrado. Um revolucionárioamenos.Euemaistrêssoldadospassoapassosubíamosafavela.Umseafastoupeloladoesquerdo e penetrou em uma casa. Só se ouviam o barulho de nossas botas. O Pelotão da Morte nesta época de Revolução impunha respeito. Onde passava levava pelo caminho a morte, coletes a prova de balas e pra dar respeito às armas potentes:fuzis,metralhadoraserevolveres. Eutinhasidorequisitadoparaomesmoporqueondefaziaplantãoprendiváriosbandidosqueassaltavama região. Eu e todos os outros caminhávamos para matar... Matar. Desta favela por falta de opção sai para ser soldado. Hoje com meus 25 anos sou parte do famoso Batalhão. Nestes tempos de revolução lutávamos com aqueles que são a favor e eram os que queriam a democracia.Afinal nem sei o que é Democracia, mas no quartel aquilo era um mal pro nosso País. E tinham que ser calados. Muitos eram até eram comunistas e comiam crianças. Comunistascomiam,crianças.Ossoldadosnestestemposdifíceissãovalorizadosporqueimpunhamaordem.Eo principaltinhaarmamentospesados,equemtemarmassãoobedecidosoucalados.Pradizerminhaverdadeeufui convocado para fazer parte do pelotão. Nunca fui de matar, mas hoje eu estou com o diabo no corpo, nesta missão sabíamos o que fazer. Matar... Matar. Matar revolucionários. Deixei o pensamento de lado o pensar que naquela favela eu fui criado, mas matar a todos que foram exibidos nos slides no quartel nas projeções e nas fotos espalhadas. Ordem do Comandante é pra ser cumprida pelos oficiais subalternos. Sargento cumpre porque é sargento. Soldado é soldado, sargento é sargento, oficial é oficial. Obedecer. Obedecer. Estávamos em quatro, um logo se afastou e num beco ouvimos o pipocar da metralhadora. O companheiro ao lado penetrou em uma casa juntamente com o quarto homem ouvi um pipocar forte de metralhadora e gemidos. Estava só e a frente a casa mal construída, mal acabada. O ódio e o terror. O coraçãopulavaemeurostoesquentouafaceeosolhosqueseinjetaramdevermelho,namenteoódio.Avarredura caminhavalevandonospeitosumlimparolocal.Foiquandofiqueifrenteafrenteeueaporta. Metiasoladabota, ela escancarou. Sabia por informação que poderia matar, ou poderia morrer. A casa meia água, casa igual a centenas, a casa mal acabada feita aos poucos e com valores suados. Eu só comigo mesmo.Asala vazia, ao lado acozinha...Vazia. Outra porta a do quarto. O silêncio era de morte. Neste momento o ódio tomava conta de mim. Se atrás desta porta houvesse alguém eu acabaria com ele.Asola bateu violentamente na porta que rangeu e cedeu. Frente a frente eu, ele barbudo, um dos que estavam entre os projetados na tela. Havia também crianças. Ele e as crianças a comerem pipocas. Amarelo era a cor de seu rosto a comer pipocas brancas.As crianças tremiam. O dedo no gatilho do fuzilAK 47. E as pipocas.Amão cheia de pipocas é estendida.Aí caiu a ficha. Ele, o Zé filho da Maria pipoqueira. Ali naquela favela quantas vezes com fome comiamos as sobras de pipocas murchas que sobravam no carrinho. Os caruás eram colocados outra vez na panela com óleo usado e nada de estourarem. Em tempos passados de Hélio José Déstro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0839
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    40 meninice sentados eue ele, lado a lado, a comer com “fome de três dias” pipocas e éramos felizes. Eu e o Zé filho da Maria pipoqueira. Eu, ele a mão estendida com as pipocas. O fuzil, o dedo no gatilho. Ele, o revolucionário?A mãoestendidaseoferecendo,anossaamizade,osnossosmomentosemsaciarafome. Meumundovoltou,euque estava a fim de matar, que estava frente a frente com o revolucionário. Eu e o menino amigo de tantas peraltices, alegrias e sonhos. O dedo no gatilho e a ordem matar... Matar. Sentei-meaoseuladoecomeçamosacomerpipocasnosilêncioqueerademorte.Amortequeseestendia e corria nas casas pela favela.Alembrar nossos sonhos de sermos jogadores de futebol. Ele cantor tinha uma bela voz, bom pra cantar samba e pagode. Hoje na vida um revolucionário e a ordem matar. Matar. Levantei-me o dedo no gatilho e o ódio no coração. “O sargento que vá pra puta que pariu.” A amizade de meu amigo Zé das pipocas vale mais do que matar pra acabar com a revolução e sonhos acalentados. Hélio José Déstro - 7 deAbril de 2009 Amizade é flor que nasce no coração. MEUS INESQUECÍVEIS AMIGOS Estudante que fui, tive muitos amigos e quero biografá-los: O PINTO - Um rapaz bonitão, vermelho e forte, também tinha seus dias de tristeza, ficava mole... Mole, encolhido em seu canto.Adorava mulher, o que se podia chamar de tarado; não podia ver um rabo de saia e seus apetrechos,queoPintoficavaamil.TinhaumgrandedefeitoentreamigosnãogostavadeserchamadoPinto,mas a turma quando o Pinto estava onde havia muita gente, e distante gritavam aos berros: - Pinto, ô Pinto, aqui Pinto. VemcáPinto.OpalavreadocausavaummalestarnoPintoenaspessoas,masestudanteéumaclassedegozadores e adora uma farra. Nesta hora o Pinto não sabia onde enfiar a cabeça ficava louco não havia quem o segurasse. Conheci-odestepequenonaqueletempochamavam-nopelodiminutivoPintinho:eraPintinhopracá,Pintinhopra lá. O Pinto era de família pobre, porém ótimo estudante. Contou-me que uma vez ele e o pai comeram uma perereca rachada ao meio. Naquele tempo perereca era parente de sapo, hoje é rã. Sendo pobre estava sempre duro...Duríssimo,quandojovem,masostemposmudaramformou-sedoutor,oPintonasuaprofissãoeraprocurado. O Pinto teve sua fase áurea foi até cogitado pra Prefeito, porém o Pinto queria levar sua vida escondido e não gostava de aparecer. Mas, quando procurado nunca falhava, isto é quando jovem, soube que falhou, na terceira ou nasegunda.FicoucomplexadoenocorrerdacarruagemoPintoengordou,foiamolecendo,seufísicoqueerabelo transformou-se e vocês sabem que Pinto mole não tem serventia. Ouvi dizer que o famoso Pinto de juventude se perdeu. Ficava a beber em local mal falado. Ser mau elemento era tomar umas e outras, até cheirava mal. Foi visto e estava deitado encolhido perto de um saco com dois ovos podres, ali num lugar da Região da Barra Funda. FREDERICO - Era o dodói da mamãe, filho único, filho de doutor e pianista, sua mãe uma mulher fenomenal, carinhosamente o chamava de ICO era: - ICO meu amor, ICO querido, ICO vem cá, ICO vá estudar. Escolhia seus amigos a dedo. Eu, além de colega de ginásio era de futebol. Numa quinta feira tempo nublado eu passei na casa do ICO para treinarmos, porque no domingo tínhamos um grande jogo.Amãe não queria deixá-lo ir, porém, com o pedido de ICO concordou e lá fomos nós.Aconteceu que uma chuvinha fina nos deixou molhados e treinar Hélio José Déstro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0840
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    41 com chuva ficamosimundos. Na hora do banho não havia água. Morávamos distante cerca de 15 quarteirões do campo e naquele tempo íamos a pé e voltamos do mesmo jeito. Um grande goleiro, eu jogava de zagueiro, suas ponteseramfamosasefazíamospartedomesmoclubeondefomoscampeões;infantisejuvenis.OICOnacidade, entre os goleiros o que mais pênalti pegava e dava cada vôo. Então no retorno as nossas casas, o ICO tocou a campainha. Ao abrir a porta sua mãe ao ver ICO naquele estado deplorável, todo sujo, com o espanto na face, olhos arregalados, gritou: - ICO sujo. (Eu fui pra minha casa rindo as escâncaras de ter ouvido tal cacófato). O PORTUGUÊS - filho do padeiro, conhecido na cidade pelas guloseimas que produzia. Chamavam seu pai de português, a mãe de portuguesa e sua irmã de portuguesinha. Porém o segredo contou-me que seu nome era Manuel Bosta. Saibam, nunca dizia seu nome completo, tinha complexo e para as professoras era só chamado de Manuel. Eu, muito discreto, jamais falei aos colegas sobre o verdadeiro nome porque iriam rir e não queria que isto acontecesse, pois era um ótimo amigo.Antes dos dezoito, antes de fazer o tiro de guerra e juntamente com sua advogada de causa civil... Dra. Mérida da Costa que preparou a documentação apresentaram-se frente ao juiz com testemunhas para que fosse mudado seu nome. O juiz togado, na sua pose parecendo o dono do mundo, depois de verificar e comprovando estar toda selada (naquele tempo tudo levava selos). Deu vários carimbos e passou a secretaria para que preparasse o documento para ser assinado com a mudança de nome. Perguntou a advogada qual o nome que seu cliente queria usar daquela data para frente.Aadvogada Mérida da Costa passou a palavra a Manuel Bosta. O juiz então fez a ele a pergunta: - Senhor Manuel Bosta, qual o nome que quer usar daqui para frente? - Meritíssimo desejo ser chamado de: Joaquim Bosta. FOHDDA - era descendente de poloneses. Seu pai um grande mecânico. Seu nome se escrevia com as letras F o h d d a, porém pronunciado em português era Foda mesmo. Escrita diferente, pronúncia igual. Lá na Polônia erarespeitado,tinhaparentesnogoverno.ImigrouparaBrasilporserdeoutropartido.AquinoBrasilosobrenome causava um risinho amarelo, ou de várias cores, porque aqui o buraco é mais embaixo. No ginásio, na hora da chamada ou quando arguido sobre a matéria e não sabia, era motivo de risos. Os professores tentavam disfarçar, porémo Fohdda era Foda e estamos conversados. Estudioso e tímido. Fizemos todo o curso inclusive o superior. Formados viemos para São Paulo e instalamos consultórios no bairro do Brás. Naquele tempo no Brás freqüentávamos o Clube, e a gozação era terrível. Sempre defendi o Fohdda e até o chamava carinhosamente de Fo. Sua clientela adorava o Fohdda e passou a ser respeitado se alguém ria de seu nome era longe porque perto do Fohdda,ninguémria.Fuiseupadrinhodecasamento.Mudoudebairro,sumiu.Outrodialendoaspáginasamarelas vi em negrito seu nome. Senti saudades de tão boa amizade. Hélio José Déstro - Aventuras de estudante 16-2-2004 Verdades verdadeiras, inverdades com fundo de verdade e o inventado que sonha em ser verdade ( é Lenda) Hélio José Déstro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0841
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    42 Ildo Simões Ramos Médico Salvador- BA AS MARCAS DO TEMPO Todomundojáteveumatiavelha.Ranheta,rabugenta,comtodasasdoresdomundoetodasasimprecações. O curioso é que nos anos verdes da adolescência nós nunca imaginamos que nosso dia vai chegar, até que ele chega. Como agora. Hoje sou esta tia velha, entrevada, que meia humanidade acha ranheta e rabugenta. Como eu achavaemminhamocidade.Eis-meaquicomminhascircunstâncias,plagiandoquemchegouprimeironaelaboração da frase. Nem sei bem se estou copiando o texto ao pé da letra, mas isto já não importa. Uma palavra que sobre ou falte não vai certamente mudar o sentido de nada. Vale a intenção. Minha rotina é de uma monotonia que dói: parece um ritual budista.Acordo sempre antes das seis, consulto o relógio, automaticamente olho o tempo e me façotambémautomaticamenteasmesmasperguntas: - Será que vai chover? Será que já está na hora de tomar o remédio? Alguém virá visitar-me? Dou silenciosas respostas e novamente volto aos cobertores por mais uns instantes. De puro tédio. Em poucos minutos a cama está quente e o corpo formigando, o que me impele a levantar. Um sacrifício que me imponho diariamente, sob o protesto das inúmeras articulações de poucos movimentos. Sempre me perguntando para que? Começo a sentir a sensação desagradável de fome. Tomo a primeira refeição apenas como quem sucumbe ao instinto da sobrevivência. Uma sensação quase física, quase dolorosa. São lentos os passos pela casa demuitoscômodoseinfinitaslembranças.Algumasdolorosasdepensar.Aprimeiracançãodeninardaqualainda retenho alguns acordes; o primeiro baile, coração aos sobressaltos, corpo empertigado e ouvido atento ao ritmo da valsa langorosa. O primeiro amor, tão lindo...mas, tão fugaz como as espirais do cigarro esquecido no cinzeiro. O primeiro amor que me encheu a cabeça de sonhos e depois um grande vazio na alma quando, sorrateiramente, se foi. Deixou uma história incolor. Percorro as dependências da casa deserta, executando tarefas tão singulares que àsvezesnemmedoucontadequeasfiz.Abrooufechoumajanela,ajeitoumaalmofadaourecolocoaimagemda santa no lugar que eu mesma, no dia anterior, achava que não estava correto. Ogatoenrosca-seemminhaspernas,soltaummiadoquasegemidodesúplica.Sintoseucorpomacio,sua cauda de pelos eriçados a fazer-me cócegas, e seu ronronar quase surdo. É um trauteado tão repetitivo que posso medir-lhe o compasso. Sento, depois de percorrer os labirintos das minhas reminiscências, e ele pula no meu colo. Ágil, num quase desafio às leis da gravidade, como a debochar das minhas paciências, das minhas debilidades. Já tenho à mão as agulhas de tricotar e começo, ponto por ponto, a tecer uma malha infinita. Não tenho desejo de dar- lhe formas. Importa-me fazer o ponto que é uma forma de matar o tempo.Antes que ele se encarregue de mim. Os outros já se foram, já curtiram suas paixões, seus destinos, já sofreram seus estresses. Já tricotaram também suas infinitas malhas ou observaram as nuvens nos fins de tarde com seus desenhos fantasmagóricos. “O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece.” Ah que bom que fosse assim também com os viventes. Não estaria agora a curtir meu gato, também envelhecido, olhando estas cortinas desbotadas de tanto filtrar a luz solar e esta cadeira que um dia também irá abrigar outras solidões tão grandes como a que estou sentindo agora. Sem outra saídavoutecendoestamalhapontoapontonumainglóriacorridarumoaoinfinito.Complenaconvicçãodequeo infinitoépreviamenteovencedor. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0842
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    43 MEU PÉ DEMELÃO Hojefoipramimumdiaparticularmentefeliz.Ganheiumpresentedomeupédemelão.Explico,antesque algumapressadinhoimaginequeestouficandotereré.Asplantasfalam,aspedrasfalam,tambémfalamosanimais epoderíamoscompletardizendoqueoshomenstambémfalam.Adiferençaéquepoucagentetemacapacidadede entender a linguagem dos seres ditos humanos e, muito menos, dos seres ditos inanimados ou irracionais. Mas, se atentarmos para alguns detalhes, ou melhor, se prestarmos atenção aos nossos ‘semelhantes’de outros reinos, veremosqueelestêmlinguagemprópria,comunicam-secommensagensinteligentes,sóqueindecifráveisparaos maus observadores. Despojemo-nos, no entanto, de nossa vã condição de reis do mundo, desempinemos o nariz e passemos a olhar as coisas em volta de nós próprios, durante nossa viagem pelas vinte e quatro horas do dia. Apáginadolivroque,poracasooumilagre,seabrejustamentenotextoquegostaríamosdeler,prachamar o sono que se foi, a posição da cadeira que se oferece quando chegamos de pernas trôpegas, depois de um dia estafante,nãoimaginemquefoiobradoacasooumilagred’algumsantocompoucotrabalhonaagenda.Aconteceram por obra e graça de uma determinação consciente. Ah, e o chinelo que, às vezes, se esconde depois d’alguma malcriação que a gente pratica e, de repente, não mais que de repente, no dizer do poeta, aparece na sala como que porencantoe,maisainda,aatitudeétãoconscientequesequerpercebemosobarulhoqueidentifiqueoesconderijo, de onde sorrateiramente saiu.Pois bem. Depois de tantos e tão convincentes exemplos, já posso falar do meu pé de melão. Estou resistindo pra não chamá-lo de meu meloeiro como gostaria algum taxionomista de plantão. Não sei seonomeestácorretoenãoseitambémseelegostariadonome,supostamentecientífico.Vai,portanto,meupéde melão. Plantei, há mais ou menos mês e meio, uma sementinha colhida ao acaso, na fazenda que disponho na varanda de meuAP. Não é lá grande coisa, mas como diz o ditado, o pouco com Deus é muito. Mede exatamente metroemeioporquarentacentímetrosquesãoasdimensõesdocanteirodeminhavaranda.Umpoucodeágua,um poucodeadubo,umarestiazinhadesoleeisquesedeuomilagredareprodução.Asementesefezvida. Diariamente (e agora já posso falar sem susto das explicações já dadas) mantemos um diálogo. -Acordou cedo? Tudo bem? Tem trabalho hoje? Posso lhe falar? Calma. Uma pergunta de cada vez. Senão vou atacar de: - Folha nova? Como vãos as raízes? Está com sede...? - Desculpe, é que você, ultimamente, me visita pouco e fico louco pra falar tudo de uma só vez. - Tá bem. Vou lhe dedicar mais tempo, dentro do possível. -Ah! Quero lhe fazer um pedido. - Fale. To saindo. - Tire aquela toalha vermelha da minha frente, que está roubando quase toda a luz de que preciso pra crescer. - Já sei.Afolha fica amarela, a rama fica fininha... - Tem outro pedido. - Fale logo tudo e eu vou estudar o que posso fazer. – É sua empregada! - Não vá me dizer que você está dando em cima da minha empregada! - Nada disto. É que ela, às vezes, castiga na água e desarruma meu metabolismo. Acho que você, e ela especialmente deviam saber que pé de melão também tem metabolismo. - Tá bem, falarei com a distinta. -Posso fazer outro pedido? - Não acha que já está abusando? - Lembra que falei da toalha? Pois é. É dela que vou falar novamente.Quando você sair à tarde, recoloque a toalha no mesmo lugar. Explico antes que você se irrite. É que o sol da tarde é fogo e também me desequilibra o metabolismo e você sabe, minhas pernas - digo minhas raízes- não me permitem locomoção até a sombra. E assim, diariamente, ou dentro do possível, da folga da agenda, do consultório, mercado, mil pequenas obrigações, sempre reservei um tempinho pro meu pé de melão. Quase sempre vinha um pedido: tira toalha, põe a toalha,maiságua,menoságua...Umdiafuisurpreendidocomumpedido,digamos,inusitado: - Vou lhe fazer um pedido especial. Ildo Simões Ramos x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0843
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    44 - Sou todoouvidos, mas estou com pouco tempo. Fale rápido. - Ih, você só anda correndo! - Tá bem. Fale e depois cale. - Gostaria que você não me aparecesse nos próximos dois dias. Estou lhe reservando uma surpresa. Como é surpresa espero que não me faça perguntas. Passados os dias solicitados, reapareci e, quando me preparava para a cobrança, foi logo se adiantando: - Não precisa nem me cobrar. Eis aqui o meu presente. Minha primeira flor. Gerada por mim e dedicada a você com todo o carinho deste mundo. Deixo aos incrédulos o tamanho de minha emoção. SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO Amanhecivendopassarinhoverde.Logoqueodiadesponta,desçoàpiscina,curtoosprimeirosraiosdesol queaprincípiomepenetramfundonaepidermeemedeixammarcasvermelhasdisseminadasportodoocorpo.Sei que depois eles começam a refletir na pele já não tão desprotegida e me devolvem a calma de não ter que amargar a mudança de pele que me tira o charme que ainda me resta. Olho o espelho d’água e Narciso brinca no fundo, onde .azulejos produzem uma cor azul suave. Molho os pés na água fria e depois o corpo todo. Envolvido pela massa líquida, dou algumas braçadas e tenho corpo e alma relaxados. Não me passa pela mente a intenção nem o entusiasmodecontumazesnadadores.Minhadisposiçãonãochegaatanto.Algunsmovimentosmebastam.Ameta é o prazer que me aguarda e do qual já desfruto. Um caleidoscópio passa em minha mente: passarinhos verdes entoam afinadas sinfonias e há no ar um tropel de cavalos.Azuis naturalmente. Desembestados no espaço de toda sua liberdade. Passam velozes e nem se dão conta de minha presença. Estou sob as bênçãos de Capricórnio, meu signo de fé. Retorno ao sol que aquece minha pele e lanço a vista em suplemento de variedades. Estão lá as previsões do meu signo: “...define desde agora teus projetos para o milênio. Faz isto, mesmo que no presente tudo pareça eterno” . Sempretivemuitaligaçãocomhoróscopos,semnecessariamente,seguí-loscomoosaficionadas fanáticos. O que me distrai é o prazer de lê-los. Sei que é pura ficção, mas há um misto de prazer interior e curiosidade em saber que, sobretudo, as boas previsões nos deixam mais leves, fazem o tempo passar sem que nos preocupemos com os dissabores que a vida nos reserva. Na borda da piscina uma lavandeira me faz companhia.Azoologia a rotula como ave tiranídea, mas, é só um rótulo que não traduz sua docilidade. Observo seu passinho miúdo, seus olhos vivos mirando a presa que não escapa de seu golpe certeiro e fico a imaginar que ela também deve ter tido umaboaprevisãonoseuhoróscopo.Alarvaeoinsetodevoradosnãoeramcapricornianoscomonóseencerraram alisuapassagemporestemundodetantasarmadilhas.Pelojeitoaminhalavanderinhaétambémumacapricorniana tal o tamanho da felicidade que irradia. O dia hoje é dos nascidos entre vinte e dois de dezembro e vinte de janeiro Minha sorte foi, certamente, decidida pelo redator insone que não conseguira uma manchete sensacionalista para seu periódico e se pôs a fazer previsões... Mesclou bons e maus augúrios para os diversos signos porque alguém terátidoumdiainfelizesetornaumencaixeperfeitoeumpassoparaacredulidadequaseinfalíveldestesprognósticos. O dela, de minha lavandeirinha de penas multicores com predomínio do azul, deve ter sido feito pelo instinto de rapinagem do gavião. Com segundas intenções naturalmente: deixá-la à vista de suas garras neste passeio matinal em busca da felicidade. Não, enquanto estiver sob a minha proteção. Estamos os dois, homem e pássaro, curtindo em alfa o dia que mal está começando. Nesta hora não discuto o sentido, o valor, a credibilidade das previsões, nem me preocupo com quem as fez. Aceito-as como se fossem verdades absolutas. Começo a traçar com sofreguidão meus projetos sem me importar comalimitaçãodavida.Valho-medapoesiadeViníciusepeçoqueelasejainfinitaenquantodure.Fechoosolhos e ouço de volta o tropel dos cavalinhos azuis. E dou graças à vida. Ildo Simões Ramos x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0844
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    45 João de DeusPereira da Silva Médico Fortaleza - CE PASSAOU REPASSA O titulo acima faz-nos lembrar um antigo Programa deTV. Na verdade, de quando em vez, estamos repisando páginas, ora lidas, ora produzidas ou vividas no nosso dia-a-dia. Muita vez, para contarmos uma estória, usamos um artifício, um simulacro, uma paródia — quando esta bem se ajusta às situações hilariantes. No bojo da estória que lhes vou contar, sem demérito para quem quer que seja, aparecerão alguns destes episódios.Ei-la: Viajavamdoisamigosaserviçodeumanobrecausaliterária.Dinheirocurto,decidiramcombinaraexiguidade do tempo com a economia dos dispêndios. Cinqüenta minutos de voo e chegaram à primeira estação. Aliforambemrecebidosporumintelectual(mastambémagropecuarista,cujobomhumorelhanezajamais serão esquecidos). —Agora, dizia o chefe, temos de reduzir as despesas. Vamos viajar de ônibus. — E se a droga deste ônibus se quebrar, sentenciava o outro, o que faremos? — Deus é bom. Não vai acontecer nada de ruim! SeguiramdeônibusaolongodacostanordestinadoPaísdasMaravilhas,quente,abafada,aquallembrava, de muito, a costa centro-oeste da Espanha, quando se vai rumo a Portugal, no mês de julho. A estrada em reforma, aqui e ali, fez o ônibus atrasar em meia hora sua chegada ao destino (segunda estação). Contudo não quebrou. Era novo! O ponto alto a destacar foi, sem sombra de dúvida, a lembrança do taxista que os levara ao hotel – Sr. Caetano— que, com ar triunfal, respondia às perguntas do chefe: — Casado? — Casado, sim senhor. —Quantosfilhos? — Com a Mariquinha, 9; com a Lourdes, 6 . Cabra bom, pensava o outro, com os seus botões! Da rodoviária da 3ª para a 4ª estação, o taxista – Sr. Hildebrando – não era de muita conversa, pois o de que gostava mesmo era de comer pitangas, sem parar: segurava o volante com a mão esquerda e com a direita levava pitangas à boca de instante a instante. Já o que os serviu do hotel ao centro e depois deste à Rodoviária – Sr.Walter – era um tipo mais refinado, pois estivera fazendo um curso de vendas e cobranças, em Fortaleza-CE, de uma construtora na qual trabalhara poralgumtempo. Na 5ª estação — e aqui lhes chega à lembrança a estória de D. Quixote de la Mancha e seu fiel escudeiro Sancho Pança, guerreando contra os moinhos de vento – o inusitado acontecimento: somente cama de casal em apartamentosduplos. — O que? Estaria pensando o senhor (o recepcionista) que eles formavam um casal “gay”? Bradou o auxiliardochefe! — Não, não, em absoluto, respondeu o recepcionista. — Lamento, mas os senhores terão de pagar 02 (dois) apartamentos! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0845
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    46 FLOR-MULHER À procura febrildo teu sorriso vasculhei co’olhar teu corpo inteiro; não o vendo, tomei por escondido ovultoquefloriunomeucanteiro! Um mês depois... até podes pensar: quealegriafoirever-te,foisentir teu perfume suave a exalar da pele macia, que me faz fremir! Antes eras só flor, hoje és mulher... Ontem, um botão que se abria ao vento, hoje, a fina expressão do bem-me-quer!... ...E a fragrância da rosa fez-se tua em crescente arrepio, embora lento, no leito d’amor sob a luz da lua! Fortaleza, 07/04/2009 MULHER E DIVA “Oh, Céus!... sou mais bonita do que ela...” Disseste-me de chofre e sem modéstia. De ti conheço apenas uma réstia De luz, que me tem posto em sentinela! Teu visual ardente e sedutor Chega, por certo, a despertar desejos Envoltos em cuidados, em segredos... Arrepios d’emoção...coisas d’amor! Dela, a foto despida d’ousadia... Deti“flashes”constantesafixar Cores, tons, sorrisos, ao pousar Das mãos por sobre pele tão macia! Ela posa de diva, com constância; Tu, de gata hormonada em pleno cio: Fogo morno a queimar – em desafio– Acarneinsaciável,vorazânsia! Suplantá-la bem podes, eu entendo. A mim não será dado duvidar Não sei se com apenas meigo olhar Se apagam chamas em meu peito ardendo! Fortaleza, agosto de 2002. O que de melhor aconteceu foi que um dos andares (o 10º) era só para fumantes. O 9º andar, para os não fumantes. Isto desobrigou o auxiliar do chefe de ser fumante passivo! À tardinha de um certo domingo deste périplo, o sacerdote adentrou o templo paramentado de róseo-lilás e não tardou em justificar as cores de sua vestimenta: “quero que saibam que não sou tão machista como se pensa”!Vesti-me com as cores da “alegria”, por isto (... longe dos viajores imaginarem que o padre fosse afeminado, não obstante tantos exemplos de desvios de conduta da sociedade, em geral, no mundo hodierno). No estádio final (5ª estação) foram recebidos com amabilidade e apreço. A surpresa: apenas uma recomendação: desfaçam-se dos anéis e alianças, dos relógios, óculos, bolsas e celulares, pois os descuidistas levam tudo. Levem a identidade no bolso, quando forem ao centro da cidade! Relembrando os momentos vividos durante alguns breves dias, retornaram ao ninho nas asas da amizade patrocinada por um jovem esculápio e parlamentar valoroso. Os pequenos dissabores foram apagados com gostosas gargalhadas! Fortaleza, 31 de março de 2009 João de Deus Pereira da Silva x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0846
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    47 José Jucovsky Médico ginecologista SãoPaulo - SP INFINITOS SONHOS HOMÉRICOS. Espíritosdesuperiorimaginação Vãoconstruindohoméricashistórias: Agreco-romanamitológicacivilização De eternas lendas de arte e glória Entre a terra e o céu silente, Espaçodeflutuanteleveza, O poderoso Zeus reinava reluzente Numpaláciodefantásticabeleza! Tudo era encanto e fantasia Nofulgordediáfanastrivialidades Onde os deuses se regalavam em alegria Comambrosiadaimortalidade! Vulcano, o deus coxo, possuía O dom de trabalhar metais Comhabilidadeconstruía Carros de ouro e moradas celestiais! Minerva ofertou aos mortais a sabedoria E ao primeiro rei deAtenas a oliveira... Apolo carrega o arco, a beleza e a poesia Símbolos do esplendor e da seta certeira! Prometeu, numa tática ousada De Zeus o fogo sagrado furtou Trazendo acesa a tocha dourada Àhumanidadecarenteofertou! Vesta e as seis virgens Vestais Velavampelaslareirasantiquadas, Chamas acesas pelos mortais, Para que nunca fossem apagadas! Aantigacivilizaçãomediterrânea Política,econômicaecultural Persiste viva e espontânea Na moderna sociedade mundial! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0847
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    48 José Jucovsky QUEM SOUEU? – QUEM SOMOS NÓS? A trajetória dos milhões do H. Sapiens nascidos Sob o mesmo Sol festivo no vendaval da sorte Ou do baço olhar do escravo labor sofrido Alinham os genes do seu “eu” com os DNA consorte. A linhagem direta de nossos antepassados traz Em cada um de nós crucial adormecido legado Estruturahelicoidaldegenearepetirfecundoloquaz O último gradual degrau final do longínquo passado? Compostos químicos de base e de ácidos a se catalisar Moldamunidadesessenciaisnohorizontevital Fileirasexternasenvolvendoocomplexomolecular Organizaçãocoreográficadavidahumanaemespiral. Filhos nos idos tempos vagando neste vasto oceano Avançamséculosaperpetuargenéticoitinerário Decisivo alvorecer a repetir em cada parto humano Oespaçotempocerebralevolutivamentevisionário. Um homem se torna outro homem redesenhado No ventre materno em sua descendente primazia E mesmo antes de nascer recita ditoso recapitulando Umavezeufuipeixe,agorasouamáximahierarquia. Um bebê nasce sem saber um só fonema articulado Nem sequer balbuciar mamãe se não for ensinado Seu cérebro é como se fosse um CD intocado Alma apagada se ficasse do grupo social isolado. Hábeis mãos e cérebro moldam luzes na escuridão Momento crítico de talentos capaz de controlar O fogo e fazer a pedra lascada entrar em ação E na Zona de Broca o milagre da fala se fazer anunciar. Por acaso, estamos aqui segundo o universo darwiniano? E só nós podemos refletir sobre tal relativa singularidade... Jánafuturistafábulaproféticacriadanomundohuxleyano Os bebês de proveta nascem sob rigorosa seletividade. Abioengenhariaemfascinantesclonagensenaltecer Significa tentar criar o Super-homem em evolução? Contudooscilaçõesdaalmado“eu”emcognitivoconviver Mantémimensurávelenredocérebro-menteemíntima criação! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0848
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    49 José Jucovsky RUMO AODESCONHECIDO (EM BUSCA DA SIMILARIDADE) Foguete possante raio peregrino Disparalevandonoventreimerso Sonda espacial tendo como destino Flutuar para ouvir e entender o universo! Na lua, com ausência de gravidade Entre névoa de nada, silêncio e solidão Armstrongcaminhouparaaposterioridade Ao deixar seus rastros com nítida perfeição! Naves arrojadas, lauréis de tecnologia, Grãos de areia a rolar no firmamento Soberbos artefatos de ciência e fantasia Nichos para viver fora do ar e do tempo! Colocado em órbita a nave espacial Hubble telescópio de espetacular visão Observa galáxias no espaço-tempo sideral Eimponderáveisestrelasemnebulosacolisão. Por analogia com a nossa Terra Histórico berço das leis da Relatividade Pesquisa-se no solo do planeta Guerra OpossívelfértiliníciodaHumanidade. Fotosúnicasdemagistralgrandeza Imagensantesnuncaimaginadas O robô de Marte em real presteza Pasma o mundo nas TVs ligadas. Tal Dédalo usando asas para fugir da prisão Engenhosa capacidade em busca da liberdade AEstaçãoEspacialiniciaemplenaamplidão Inato desejo humano na busca da similaridade! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0849
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    50 José Maria Chaves Médicooncologista Fortaleza - CE LAMENTO DO VELHO CHICO Ildo Simões O barco singrando o rio O rio cortando a terra Seguindolentopromar RioFranciscoTriste;envergonhado. De tão sofrido perdeu a santidade As águas do Velho Chico descem chorando pro mar. Vêm da Serra da Canastra rolando galhos e seixos Que lhe atiram das margens sem pena nem piedade Sefalarelaspudessem,iriamfazerromaria Pra que deixassem seguir o seu curso em liberdade. As águas do Velho Chico descem chorando pro mar! Seu choro hoje é mais triste, pois lhes cortaram o caminho. Com barricadas de ferro, de pedra, cimento e cal! Inda querem atropelar e desviar o seu curso Por outras margens e plagas Diferentes das que hoje Se costumaram a seguir Vai que um dia se aborrecem e viram só lama e pedra!!! E deixam os ímpios com sede!!! E deixam calcinada a terra!!! Por onde outrora passaram Fagueiras e cheias de garbo. E haja procissão e missa!!! E haja Deus nos acuda!!! E haja reza e ladainha Que nem estão aí pra isso.!!! ............................... Umatorrentedelágrimas, Cairá dos duros olhos Quenuncaquiseramver As águas doVelho Chico Chorando em busca do mar. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0850
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    51 Versos em tornodo Mote: AS ÁGUAS DO VELHO CHICO DESCEM CHORANDO PRO MAR José Maria Chaves I O Ildo canta o clamor Do São Francisco cansado Se arrastando, maltratado Do nascer ao sol se pôr. Por seu pranto ao caminhar, Vencendo todo o fuxico, As águas doVelho Chico Descem chorando pro mar II Mas o pranto, oh Ildo amigo, Queoriocontinuamente Faz cair, é exatamente Por não servir como artigo De luxo, pro Ceará Que, sem água, é estorrico. E águas do Velho Chico Descem chorando pro mar III Em vez de lenço, um desvio Da água que vai pro mar, O choro já vai parar Sem o menor arrepio. Não pisco, nem pestanejo. O sofrido sertanejo Certamentevaivibrar, Pois muda de pobre a rico E as águas do velho chico Agora descem a cantar! José Maria Chaves x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0851
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    52 REMINISCÊNCIAS III MEUS PERSONAGENSINESQUECÍVEIS (cont.) II) TIO OLÍVIO Jámereferiemoutrainstância,aotratardeReminiscências(1),acercadepersonagensinesquecíveismeus, quando criança, época na qual vivi em minha terra – São João do Jaguaribe – bucólico lugarejo, então distrito de Limoeiro do Norte. Hoje,estareifocalizando“tioOlívio”e seu“JuvêncioPaula”. Tio Olívio, na verdade não tinha parentesco nenhum comigo, afora ser casado com “tia Odete”, prima legitimadomeupai.Mas,comoditoanteriormente,nós,meninos,tratávamosquasetodososmaisligadosanossa família, e mais idosos, como tios.Tio Olívio era o único barbeiro da vilazinha e, se mais tinha não parecia, beirava os quarenta anos. Homem forte, pele branca sensivelmente tostada pela inclemência dos raios solares, cabelo alourado e olhos verdes, hoje me faz caracterizá-lo descendente de holandês (em décima geração). Sempre muito sorridente, o que demonstrava continuamente em paz com a vida, todas as manhãs, mal o sol despontava, lá ia ele abrir a barbearia a fim de atender a sua clientela, isto é, todos os moradores sanjoanenses. Paciência tinha pra dar eemprestar,comodiziamseguidamenteaquelesquecom otioOlívioserelacionavam.Dentreosseusfreguesesse encontrava o senhor Juvêncio Paula. Ele, já ultrapassando os oitenta anos, se constituía pessoa muito importante do lugar. Poder-se-ia dizer rico, ou melhor, muito rico. Proprietário de muitas terras, homem de bem, pecuarista e agricultor, era uma espécie de figura patriarcal, com muitos filhos e muitos netos (até bisnetos) e residia no Sitio Lima, distante seis quilômetros da sede distrital.Apenas uma vez por mês ia a São João cortar o cabelo. Bem trajado, montando um belíssimo cavalo branco, com os arreios impecavelmente colocados, bridão reluzente, sela deabalargaecourofiníssimo,sentava-seconfortavelmente,poisafizera acolchoadacomcaronaecoxim.Espetáculo realmenteinesquecível!,pareciaumpríncipe,queaoinvésdecoroatinhaàcabeçaumchapéudemassaRamenzoni o qual muito bem lhe assentava. Com uma certa dificuldade se apeava do imponente animal, porém não faltavam pessoas educadas e prestimosas que o auxiliavam na descida. Depois de se aprumar e de se bem compor nas peças da indumentária (calça, paletó, gravata borboleta em camisa imaculadamente branca com colarinho duro), cumprimentavaospresentes.Faziaquestãodeaguardarsuavez,emboratodososqueseencontravamnabarbearia, como sinal de evidente respeito, fizesse empenho, por deixá-lo passar a frente. Cerimoniosamente saudava o seu barbeiro o que, para o tio Olívio, representava algo muito gratificante. Seu Juvêncio era, por assim dizer, um excelente“papo”.Numatarde,aodesapeardocavalo,comentouhilariamente:emvozaltaaosqueocircundavam: “Quero saber com quem eu vou cortar o cabelo, quando Olívio morrer”. Ninguém, obviamente, riu de forma desrespeitosa, diante da conjectura d’aquele homem que tinha, seguramente, o dobro da idade do seu barbeiro. José Maria Chaves x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0852
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    53 BREVE HISTÓRIA DEUMA VIDA DIGNIFICANTE: Dª. CLEOMAR CHAVES Dona Cleomar chegou à São João do Jaguaribe mal havia completado 18 anos. Filha de Simonides das Chagas e Leonor Maia das Chagas, era a 2ª de 06 (seis) filhos do casal. Dona Leonor, com a viagem do seu marido para os seringais da Amazônia, lutou com muita dificuldade para criar e educar seus filhos, todos menores e, inclusive,comamaisnovaaindaengatinhando.Mas,DonaLeonor,mulherdemuitafibra,coragemeamoraDeus, filha do CoronelAntônio Joaquim Ferreira Maia (hoje, nome de uma das principais ruas de Limoeiro), escondeu dosseuspaisadificuldadequepassava.Assimqueseusfilhosatingiamaidadedeobtençãodosprópriosrecursos, se viam obrigados a deixar o convívio familiar e partiam em busca de vitórias em outras plagas. Foi, dest’arte que Cleomar Maia das Chagas, com 18 anos, aportou no Distrito de São João de Jaguaribe, a fim de assumir uma escolaprimáriadoacanhadovilarejodeentão.Emalichegando,porbeneplácitodaParóquiadeLimoeiro,mesmo porque Dona Leonor era a zeladora da Matriz do município, ficou residindo, sozinha, na casa paroquial, pois somente, um domingo por mês, se deslocava um padre da sede paroquial (no caso, o depois elevado a Monsenhor, Otávio Santiago) ao Distrito, para a celebração da Santa Missa. Emsendoassim,aprofessorinhaCleomar,umavezporsemana,seobrigavairaoaçougueparaacompra de carne. Exercendo o oficio de talhador de carne, ali estava o rapaz pelo qual Cleomar logo se afeiçoou e, com pouco mais de um ano, exatamente em janeiro de 1937, se casou. Milton Chaves, o seu príncipe encantado, ficara órfão de pai e mãe aos 09 (nove) anos, e, por via de conseqüência, a pouca instrução recebida carecia ser complementada. Sua esposa, além de fiel companheira, passava a ser também, sua professora. Belo exemplo de união que permaneceu por mais de sessenta anos.AProfessora Cleomar, agora dona Cleomar Chaves, fez da sala devisitasdasuacasaasededaEscolaElementarSãoJoãodoJaguaribe.Mesmogestante,trabalhavaoexpediente da manhã no cuidado do ensino primário de seus alunos, e, a tarde, se transformava em habilidosa confeiteira, se especializandoembolosLuizFelipeeSouzaLeão,paraatendimentodeumaclientelajápreviamenteacertada.Em outubro d’aquele mesmo ano (1937) nascia o seu primeiro filho, que depois de 70 anos, aqui e agora se apresenta para relatar-lhes parte de sua vida dignificante. José Maria Chaves x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0853
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    54 José Medeiros Médico Maceió -AL AS FOGUEIRAS AINDA ARDEM Muitascomemoraçõesemtornodafogueira,alegria,muitacachaçaeoutraságuasmaisoumenosardentes; de repente, num ímpeto irresistível, ela – uma bela jovem – jogou na fogueira pistolões, busca-pés e bombas que trazianasmãos.Labaredasgigantescassurgiramdafogueiraeatingiramseurosto,braçosetórax.Doreslancinantes, gritos agudos. Foi levada às pressas ao Hospital de Pronto Socorro com graves queimaduras; sua vida corria perigo. Fuiprocuradopelafamíliadapaciente,poiselahaviasidominhaclienteemtempospassados.Insistiaemver- me. Impressionei-me com o aspecto das lesões.Afamília desejava saber se era necessária sua transferência para outrohospital.Desaconselheiaremoção;tudooquesepodiafazerestavasendofeito.Lembrei-medesuavaidade e beleza. Formara-se em Psicologia, mas não exercia a profissão; tornou-se gerente de uma grande empresa. O consumoexcessivodebebidasalcoólicasvinhaalterandoseucomportamento.Agora,noleitodohospital,culpava- se pelo acidente provocado, preocupada com as conseqüências de seu gesto de irresponsável arrebatamento. HISTÓRIAS NATALINAS ÀsvésperasdoNatal,minhasnetaspré-adolescentespediram-mequelhescontasseumahistória,dasqueeu narrava quando eram crianças. Escolhi uma lenda sobre a estrela que iluminou os caminhos dos Reis Magos à cidade de Belém. Já faz mais de 30 anos, que fui a Israel. Lembro-me, quando eu e os companheiros de viagem voltávamos de uma visita à Nazaré, onde viveu Jesus. Nossa próxima etapa era Belém, a fim de visitar a igreja da Natividade, construída por cima da manjedoura, numa gruta-estábulo, em que segundo a tradição, nasceu o “Salvador”.Comoanoitevinhacaindo,resolvemospernoitaremBelém. Após o jantar, o guia nos levou a um campo próximo, sem iluminação, para que observássemos o estranho brilho das estrelas (baixas e luzentes), que mais pareciam cometas. Pediu-nos que tirássemos os sapatos para pisar o solo sagrado, onde, possivelmente, haviam transitado José, Maria e o próprio Jesus, quando adulto. Estávamos envolvidos numa aura de estranha emoção. Lá,ouvimosaseguintelenda:“OsReisMagosvinhamdelongeebuscavamomenino-Deus,quesegundoas profecias, deveria nascer em Belém. Os Reis, após a partida de suas longínquas terras, foram sempre guiados por umaestrela”. Num fim de tarde, enquanto aguardavam o aparecimento da estrela, eles discutiam a origem dela. Será que viera da nebulosa como as outras? Um dos súditos relatou que até cegos acompanhavam a estrela. Cegos? Exclamaram os soberanos! Quiseram conhecer um desses cegos.Ao chegar, perguntou-lhe o rei Baltazar o que sabia a respeito da estrela. Ele riu e respondeu: “é um astro em missão divina; é a estrela-guia de que falam as escrituras”. Em seguida, o rei Gaspar tomou a palavra e disse: “não compreendo como segues a estrela se tu não a vês; diz-me o nome dela e darás uma dura lição aos meus astrônomos”. O cego levantou os olhos embaçados para o céuerespondeu,transfigurado:“eunãoavejo,Senhor,massinto-a,noíntimodeminhaalma”.–Qualonomedela? O nome dessa estrela é fé; ela vai guiando todos nós à presença do menino Jesus. Comoresposta,umaestrelaluminosasurgiunocéuirradiandoumaluzmaisdocequealuzdoluar.Acaravana reiniciouacaminhada... x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0854
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    55 José Medeiros Dúvidas assaltavamseu espírito. Seria esse o seu destino? Estaria escrito que esse acidente faria parte da história de sua vida? Os conselhos da família tinham sido em vão. Embriagara-se no prazer de viver em toda a plenitude, sem limites; largara deveres religiosos e familiares. Julgava-se elegante, saudável e bem remunerada; o resto pouco lhe importava. Naquele momento, estava acometida por um estranho medo, medo e remorso. Quase destruírasuavidanumatoinconseqüente.Haviaestadocegapeloorgulho,imersanumperíodonoqualpredominara umafogueiradevaidades. Procurei acalmá-la. Perguntei onde estavam a coragem que sempre demonstrara, o poder de reação, a vontade de vencer obstáculos e transtornos da existência. O que lhe acontecera poderia servir de incentivo para recomeço de uma nova vida.Afirmei que há sempre um momento de verdade na trajetória de cada um de nós. Ela me respondeu que sentia a alma esvair-se do corpo. Perdera a vontade de viver. Foibemlongooperíododesuarecuperação.Depoisdaaltadohospitalconseguiu,naempresa,transferência para Recife. Perdi-a de vista.Vez por outra, seus familiares davam-me notícias dela. Estava bem, fizera plásticas e tratamentos especializados. Na força espiritual, encontrara meios de vencer os sofrimentos. Anossepassaram.Reencontro-aequasenãoareconheço.Estavasorridente,autoconfianteevestidanofino damoda.Cicatrizes,entretanto,eramvisíveis.Explicou-me,quealémdoemprego,dedicava-seaumaobrasocial: cuidavadepessoasqueapresentavamextensascicatrizesdequeimadurasedejovensqueseperdiamnoalcoolismo precoce, nas drogas e na violência. Estavafeliz.Fizeradesuavidaumatodecompromissocompessoassofridas,aquemjáfaltavamesperanças de futuro. Enfim, tentava apagar fogueiras que ainda ardiam em corpos e almas de seus semelhantes. LEMBRANÇAS DA JUVENTUDE “Quando partimos no vigor dos anos, / Da vida pela estrada florescente, / As esperanças vão conosco à frente, / Vão ficando atrás os desenganos!.../ Eu e o Rui, meu irmão, recitávamos esses versos do PadreAntonio Thomaz, na nossa adolescência e na juventude. Esperanças e bom astral eram a tônica de nossos entusiasmos juvenis. Se a juventude não é apenas uma fase de vida, e sim, um estado de espírito tangido pelo sabor da aventura e da vontade de vencer, nós estávamos certos quando cultivávamos expectativas positivas de futuro. Na época, estudante de medicina, eu estagiava todos os anos em clínicas do Rio de Janeiro.Apar da ânsia de obter novos conhecimentos, havia um outro motivo: meu irmão estudava na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil e, juntos, participávamos de movimentos estudantis. Ele morava na Casa do Estudante de Direitoehaviasempreumavagaparaoirmãorecém-chegadodaprovíncia.Alimentaçãofarta,gratuidadegarantida no bandejão da Faculdade. Dinheiro curto: as despesas eram um corpo grande numa roupa pequena dos ganhos recebidos. Com a alimentação da semana garantida, o problema era o fim-de-semana, às próprias custas.Aos sábados, macarronada suculenta e barata, na “Spaguetolândia”; aos domingos, um cozido na quitanda da esquina. Eulembravasempreaomeuirmãoquevínhamosdeumatradiçãocaseira:comergalinhaaomolho-pardo,ou galinha guisada, todos os domingos! Por que não procurar uma panelada dessas? Encontramos esse prato num boteco oriental, na boca do túnel do Leme. Comida baratinha, valia a pena. Na trajetória do tempo os anos passam rápidos e escorregadios. Passados uns tantos verões, desde essa fase de vida, recebo de meu irmão um recorte de jornal em que o articulista fala de uma “galinha tite”! “Tite”? O texto dizia: “O senhor Salun, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira popular do bairro. O refugo é vendido a preço de banana. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, se machucam na viagem e alguns chegam à feira morre-não-morre. O senhor Salun, sabendo disso, vai logo perguntando pros feirantes:Tem galinha ‘tite’? Tem galinha ‘tite’? E assim compra tudo o que é de galinha ‘triste’ que encontra na feira”. (Triste, era o que ele queria dizer!) Seria o mesmo restaurante? Pensando nas domingueiras do passado essa história poderia embrulhar-me o estômago. Todavia, as lembranças da juventude são sagradas e só me trazem alegrias. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0855
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    56 José Rodrigues Louzã Médicoginecologista São Paulo - SP CINQUENTA ANOS DE FORMATURA O carteiro trouxe a correspondência para comemorar sou convidado. Releiocomsurpresaeinsistência já há cinqüenta anos estou formado. Volto no tempo, relembro a faculdade. Surpresas e sustos na anatomia. Ávidos para enfrentar a realidade jovensdesafiamosacirurgia. Pronto socorro, que correria, plantões trazendo-nos enormes emoções emtantaseinfindasmadrugadas. Formadosfomosnosrealizando dedo em riste a vida passou, eis quando somos chamados às festas douradas. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0856
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    57 José Warmuth Teixeira Médico Tubarão- SC A CRIAÇÃO ...E Deus Criou o Homem Há muitos milênios atrás, o Criador deparou-se com um homogêneo monte de barro e então resolveu criar o homem.Começou moldando os pés e resolveu enfeitá-los colocando ali cinco dedos. Não imaginou, no entanto que a sua criatura viria a usar calçados, com a conseqüente formação do chulé. Nas pernas, colocou uma falsa barriga, sem vísceras. Os joelhos, por serem uma das “dobradiças” mais importantes, foram moldados com todo o capricho. Ele não imaginou que, no futuro, o homem iria jogar futebol e acabarlesandomeniscoseligamentos. As coxas foram engrossadas para poder sustentar o peso do tronco, mas, como o que já havia sido feito ameaçava desabar, colocou um toco de barro já meio duro na raiz das coxas, mantendo a estrutura com uma das mãos enquanto trabalhava com a outra. Uma vez firme o barro, Ele gostou daquele pino quebrando a monotonia da obra e resolveu deixa-lo ali. Depois, aquilo entortou um pouco para baixo, pela força da gravidade. Tomado por um impulso um tanto cubista, acrescentou duas pequenas bolas de cada lado. Lá atrás, para quebrar a retitude, produziu dois artísticos abaulamentos. Não havia orifício, pois Ele não pensouqueAdãoiriacomeramaçãequeelateriaquesairporalgumlugar. EcomosegundoLavoisier, nanatureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, Ele teve que fazer o buraco posteriormente Ao contrário do que muitos pintores, reproduzindo o abdome deAdão, nele colocaram umbigo, é claro que,pormotivosóbvios,elenãotinhacicatrizumbilical. No tórax, de cada lado, colocou dois mamilos que deixou sem mamas ao lembrar-se de que o homem nuncaviriaaaleitar.Nuncaimaginouque,naposteridade,algunshomensiriamcolocarali,mamasartificiais. No dorso, adicionou duas grandes asas, mas achou que iriam ficar bregas e arrancou-as. Ficaram apenas asas rudimentares: as nossas espáduas. O pescoço seria cilíndrico e bem mais comprido, mas, ao receber o peso da cabeça, achatou, ficando trapezoidal. Então, o Criador se deu conta de que era necessário instalar uma central para comandar a sua criatura e assim colocou-a dentro de um estojo, tomando o cuidado de criar terminais para seu relacionamento com o meio exterior.Assim produziu os olhos, o nariz, a boca e os ouvidos. Para completar a obra, modelou duas outras expansões, os membros superiores onde, num momento de pouca inspiração, colocou os cotovelos. (Já viram como eles são feios?) Nas duas extremidades moldou as mãos, também dotadas de terminais e que tinham apenas a função de pegar coisas. Hoje elas podem acarinhar, empunhar uma arma, entregar um pão, surrupiar uma carteira, trazer crianças para a luz, criar clones, desafiando o próprio Criador. Não era de admirar que, após toda esta trabalheira, o Todo Poderoso tivesse tirado o sétimo dia para descansar... ...E Deus Criou a Mulher Como já descrevemos anteriormente, há muitos milênios atrás, o Criador criou o homem. Observando a sua criatura, notou que ele andava meio depressivo, cabisbaixo e meditabundo. Na sua onisciência, concluiu que aAdão faltava uma companhia e assim decidiu cria-la para alegrar a sua vida.Mas,nãoquerendoternovamenteatrabalheiraquelhedariamoldaroutracriaturanobarro,optouporretirar, deAdão, uma costela e dela fazer o outro ser. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0857
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    58 José Warmuth Teixeira Sendoonipotente,transformou-senoprimeiroanestesistadequesetemnotícia,aplicandoumabelaanestesia nacriatura, realizando então uma costectomia (retirada de uma costela). EraosuficienteparaqueEle,numpassedemágica,atransformasseemoutroser.Noentanto,paraagradar aAdão, resolveu embelezar a nova criatura. Os joelhos, tornou-os mais arredondados, as coxas mais bem torneadas. No lugar daquele penduricalho com acessórios, por pura preguiça, produziu uma fenda muito bem escondida. Lá atrás, repetiu aquelas duas protuberâncias, agora mais proeminentes, roliças e delicadas. Na silhueta do abdome, o fez mais cinturado. Ficou maisestético. Ao tórax, acrescentou mais duas protuberâncias, que viriam a ser um dos deslumbramentos para oAdão. Projetandoaboca,idealizoulábiosmaisgrossosparadarmaisgraciosidadeasuanovacriação.EassimDeuscriou a mulher. E deu no que deu! O TEMPO PERDIDO “Se Deus me presenteasse com mais um pedaço de vida, eu dormiria pouco, sonharia mais porque entendo que por cada minuto em que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz”. G.G.M. Gabriel Garcia Márquez é um conhecido escritor Colombiano, Premio Nobel de Literatura, autor de Cem Anos de Solidão, Memória de Minhas Putas Tristes e Amor em Tempo do Cólera, entre muitas outras obras literárias..Acometido de um câncer, retirou-se da vida pública e deixou à posteridade uma mensagem em que transparece,entreoutrospensamentos, oseuarrependimentopelomododecomoviveuavidadaqualsedespede. Em outras palavras, percebe-se a aflição daquele imortal por ter estado dormindo durante um terço de sua existência, como se tal fato lhe tivesse tirado um tempo valioso para aproveitar a vida, para criar, para escrever, para viajar, para conhecer pessoas interessantes, para os prazeres da mesa, para o prazer do sexo. Estamensagemnosremeteaumareflexãosobreonossoprópriocomportamento:Entregar-nosaosbraços de Morfeu é uma maneira de viver? Ou é um tempo perdido? Teria o Criador nos feito assim temeroso de que exorbitássemos em nossas ações, de que pudesse Ele perder o controle sobre o nosso exercício da vida às vezes direcionado para o mal como fazer a guerra, vivenciar o ódio, a inveja, o desamor? Seria o tempo em que dormimos um fator moderador para oportunizar as ações de outrem? Sonhar é uma tentativa de estarmos acordados? Ter pesadelo poderia ser um alerta para que nos cuidemos dos percalços da vida? De qualquer maneira, Garcia Marques, que tanta coisa bonita escreveu, apesar do tempo perdido, para seu consolo, poderá repetir suas próprias palavras: “não chorar porque já terminou. Sorrír porque aconteceu”... x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0858
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    59 UMA REVOLTA INTESTINA Domingo,duas da tarde. AlguémdonodeumavantajadoabdomeeÍndicedeMassaCorporalquarentaedois,queindicaobesidade mórbida, recolhe-se a cama para uma torinha, antes do futebol. Lá dentro do ventre, os diversos órgãos começam a conversar: “Hoje ele me fez de lata do lixo”, reclamou o estômago, tão recheado que quase não podia se mexer.“Haja suco gástrico para tudo o que ele comeu!” Mas vou produzir tanto que ele certamente sentirá azia. Umpoucomaisabaixo,ofígadoelaboravaamil,maisemaisbileparadigerirtudooqueestavaparadescer até o duodeno. Irritadíssima,avesículabiliar,quequandotrabalhamaléchamadavesículapreguiçosa,reclamou: Puxa vida. Nem temos direito ao descanso semanal garantido pela CLT!Vamos criar um sindicato? “Espero que não tenha nenhum veneno para ser neutralizado”, retomou a palavra o fígado. “Com toda a certeza haverá”, disse o pâncreas. “Ele bebeu três cervejas duas caipirinhas.Te cuida da cirrose, amigo”. Então foi a vez do baço: “Ô pâncreas, pode preparar bastante insulina porque ele comeu três fatias de torta de chocolate com creme de chantilly como sobremesa”. Ele não tem qualquer consideração para conosco”, manifestou-se o intestino delgado. “Mas eu me vingo: vou fabricar um ‘monte’ de gases para produzir cólicas e desconforto nele. O intestino grosso, louco da vida, comentou: “As sobras são sempre para mim e perigosíssimas para a minha diverticulose.Ainda bem que o meu assistente MisterAnus já está de prontidão e mandará tudo embora, porta a fora”. O apêndice, preocupado, falou: “Espero que ele não tenha comido nada contaminado para que eu não sofra uma infecção e precise ser operado”. E lá atrás, um tanto meio escondidos, os rins teceram seu comentário: “Aindabemquetrabalhamosemequipe.Elevaiver:oulevantademeiaemmeiahoraparaurinaroufaznas calças. A próstata então gritou lá para cima: “Vocêsqueremumaajudinha?” E assim, com muito trabalho para todos, transcorreu aquela tarde dominical. Felizmente para o apêndice, os micróbios ingeridos estavam alcoolizados e “passaram direto”. José Warmuth Teixeira x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0859
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    60 Josef Tock Médico oftalmologista SãoPaulo - SP ALEGRIA, ALEGRIA “Caminhando contra o vento / Sem lenço sem documento / No sol de quase dezembro / Eu vou”, cantava CaetanoVelosonaquelefestivaldemúsicademinhajuventude. Alinguagemnova,meiobossanova,meioirreverênciavisualepolítica,traduziu-senomaiode1968euniu os jovens daquela época. Uma linguagem de revolução comportamental que iria se refletir no mundo globalizado, universalecontextualváriosanosapós. Alegria,Alegria fariam os atletas, artistas do Cirque de Soleil, piruetando no espaço artesanal. Alegria!Alegria! – exclamaria o apresentador do espetáculo, para com sua força mágica, evocar o animus da sua platéia. Alegria, alegria – é o que procuramos, ao nos reunirmos social e culturalmente. Alegria, alegria – dos enamorados correndo em meio ao arvoredo, e das crianças ao brincar de pega- pega. Alegria, alegria – o estado da alma, explodindo em flor. Alegria,alegria–oviveremfelicidade,emqueaalmaeocorposeacalmam,emqualqueridade,enãotem credo ou cor. Alegria, alegria- está no amor, na paz, na amizade verdadeira. Alegria,alegriadesentimosquandojuntosestamos,esseestadomágicoquenosenvolveenostornafelizes. Alegria, alegria de estarmos compartilhando é na realidade nossa dupla alegria. Alegria,alegrianosespalhoumaisfelicidadequeasmaioresriquezas. Alegria,alegria–amaneirafelizdeolharmosomundo. Alegria,Alegria – quem a semeou colherá a paz, domina, pois as palavras que adoçam – nos a alma. O poeta ama a alegria e onde chegar e reparar a tristeza verá a triste alegria das pessoas e iniciará a invejar. O mundo virtual vem eclipsando a alegria e o conceito de felicidade transformou em sobrevivência e os homens ficaram tristes por não mais saberem da alegria e se ofenderam de serem alegres. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0860
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    61 ESSÊNCIAS Quando no céujá não houver estrelas. Quando no coração já não houver paixão. Quando no mar já não houver peixes. Quandonaprimaveranãovirmosflores. Quandonajuventudenossentirmosvelhos. Quando brotar água no deserto. Quando o oceano secar. Quando no verão só fizer frio. Quando lembrarmos as belas quimeras. Quando as fantasias se transformarem. Quando nos sentimos do amor descrentes. Quando a realidade nos abater. Quando já não mais ouvirmos. Quando já não mais virmos. Quando já não mais sentirmos. Quando tudo se acabar. Tuaslágrimasencherãoosrios, teu sorriso desabrochará as flores, teus olhos farão brilhar as estrelas, teu corpo aquecerá a Terra. Só, só tua presença restará. RECOMPOESIA Se eu pudesse recompor tudo que passei, trilhariaosmesmoscaminhose encontrariaasmesmasinterrogações. A poesia dos vocabulos dispersos ao caminho das pedras irregulares, quesurgiramtransitivamente e me fizeram pensar, pensar. Aotraduziraqueleenigma, bombardeio,migração,revolução emummundomega sensualidade despojado,nua,crua. Recompor o amor qual vaso quebrado em pequenos pedaços. Quebra cabeça mágico,enovelado emlinhadefinaseda. Rede,labirinto,correntes aonde começar aonde é o fim doinicioouiniciodofimouo onde é o começo. Estounestatrilha,labirintoinvisível do hoje, do ontem, do amanhã. Aluzquebrilhanohorizonte da estreita fenda é o caminho. Josef Tock x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0861
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    62 Josemar Otaviano deAlvarenga Médico traumato-ortopedista Belo Horizonte - MG 22 DE ABRIL Hoje, acordei para comemorar 509 anos da descoberta de 22 de abril de 1500: da colonização, Reino Unido, Império, Ditaduras, Repúblicas até ao Brasil atual. Contudo, nesse insólito ético moral sociopolítico, econômico, religioso, intelectual, em que vivemos, concluo; pouco ou nada a se celebrar. Nossa história, por mal compreendida, mal cultuada ou de rebuscos, a se prestimar o fato ou ao de se querer como um herói, é madrasta conjuntural. Acordo.Vejoonoticiárioeaceito,oqueresistiaemnãoaceitar:Somosumbarcomalgovernado,vagando no proveito de um mar favorável, por três poderes em mãos nefastas: O Executivo: Comandado por um iletrado que, como Hitler se vangloriava de ter conquistado a Europa e nuncafrequentaraacademia.Essesenhorfanfarronanumpaísdedesperdícios,corrupçãoemisérias,perdoadívidas de nações com o Brasil, empresta dinheiro ao FMI, dá calote no aposentado comum, impõe imposto de 40% do PIB para desencanto da assistência médica, segurança pública, educação, malha viária, enfim, assistência social e não tem plano alentador a um futuro de glória a esse povo servil. OJudiciário:Comandadoporumabusado,defenestradordodireitoaacordaraltasmadrugadaseconceder “habeas corpus” de favor, a bandido notório, banqueiro de varrer todo subsolo nacional, lotear suas riquezas em mais contundência que a Vale do Rio Doce e a Petrobrás, juntas. Banqueiro de cantar antes, ao delegado do inquérito:“Ésóosenhormelivrardaprimeirainstância,paraevitartrabalho.NoSTFeumelivro”.Ditoefeito, se livrou. O banqueiro na esbórnea, com todos do primeiro escalão executivo, legislativo e judiciário sob seu jugo, como demonstrou, por financiados. Então, passa incólume, pratica sonegação fiscal, lava dinheiro, vende para as multinacionaisosubsolobrasileiroemcutelopróprioesemqualquersatisfaçãoaopaísouinterferênciadogoverno, crime de lesa-a-pátria, e nada lhe acontece. “Anação é a lei”. Em insulto, prende-se o delegado de investigar o banqueiro. Pune-se ao juiz de decretar, porduasvezesem48horas,aprisãopreventivadofacínoraeseosolta,aopusilânime,emnomedessa“democracia” que praticam e dos “direitos humanos” aplicáveis em benefício dos bandidos.Apopulação se encontra acuada nas cidades governadas pelo poder paralelo do narcotráfico, banqueiros, colarinhos brancos, políticos corruptos e impunes. Obra do presidente do mesmo STF, que, mal se desvencilhou do sinistro ministro, professor emérito de direito, autor de compêndio à formação de nossos juristas, o trapincola maior em mercador de sentenças. O Legislativo: O que esperar do legislativo? Senado e Câmara Federal, presididos por ex-presidentes de conhecidas patranhas e negras recordações? Aguardem. Em pouco tempo!… Novas e antigas feridas estarão abertas; a má índole trai o ladrão. Por isso, o governo mais inoperante e corrupto que o país jamais teve, em nome da sagrada liberdade e da uma farsa na prática da falsa democracia, se deteriora nos princípios básicos de qualquer sociedade: a ética.Vive- se de mentiras, trapaças, calotes, escândalos. Fome Zero, enquanto se paga 30% de imposto no quilo de arroz, no de feijão, numa lata de óleo. Poder paralelo de colarinho branco e presos tipo Marcola, dominam a nação. Guerra Civil não declarada, Toque de Recolher nos grandes centros urbanos, de norte a sul, leste a oeste do país. Nem as cidades do interior escapam. Polícias defasadas lutam contra marginais apoiados pelo poder.Acada 4 minutos tomba um assinado, entre 15 e 30 anos, enquanto se deturpam os Direitos Humanos em defesa de bandidos e pune-se ao abandonado cidadão comum, à própria sorte. Qual partido político apresenta modelo, projeto ao desenvolvimento sustentável do Brasil? Nossas universidades são jurássicas. Mal ensinam obsolescências. Não incentivam pesquisas, o censo crítico do aluno/ x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0862
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    63 cidadão. Forma oquê? Zumbis de intelectuais? Ou intelectuóides? Quando houve um Prêmio Nobel Brasileiro? Qualoprojetodepesquisasustentávelaopaís?Malemalrepetimosexperimentosdegrandescentrosconfirmando a exatidão das teses sem, contudo, permitir desenvolver projetos à nação. AEmbraernascidadoInstitutodeTecnologiadaAeronáutica,oscomponentesdeseusaviõestêmmínimo da inteligência brasileira.Tudo é importado tecnológico, vendido no grosso como produto brasileiro. Produto que o presidente Lula desqualificou. Ele recusou a comprar da Embraer o “brinquedinho aéreo” ao seu deleite de turista, na justificativa de “Política Internacional”. OAerolula é o símbolo do descrédito à competência da nação. O Brasil Colônia explorado no estrativismo do Pau-Brasil mudou-se para o extrativismo da cana-de- açúcar, do ouro, de pedras preciosas e do café. Estribava-se na mão escrava do índio ao jugo português, depois, substituídopelonegro,daÁfrica. E hoje? O quê mudou? O Brasil atual, república democrática de centro esquerda, decantada de pós- revolução militar, vive da extração do minério de ferro, do agronegócio da soja, da carne e retomando o ciclo da cana-de-açúcar. Pior é continuar explorando a mão-de-obra desqualificada, servil, do despreparado denominado cidadãobrasileiro.OndeestáaInteligênciaBrasileira? De outra parte, o que nós, o povo, exigimos dos nossos governantes? Obrigamos a eles na postura ética da constituição?Não!…Somosomissos.Gostamosdeexibi-losousermosexibidosporeles,atiracolo,noretratinho, na mídia, como amigos e influentes. Esquecemos em quem votamos. Não cobramos do nosso político. O país vira essepandemônio,descompassoaosgritosdegolsouidolatriadejogadordefutebolouaosomdosambaedesfiles de carnaval, enquanto a bandalha impera. Será a colonização portuguesa, o português a nos fazer tanto mal assim? País do futuro!… Como? Se não há planos nem projetos consistentes, se não há inteligência de sustentação tampouco conduta ética a referendar, a educar a nossa juventude jogada à revelia nessa imundícia público/privada que virou a nação. Só nos impõem embustes! Depois, diz-se que o Brasil melhorou; para a corrupção, narcotraficantes, seqüestradores, assassinos públicos à sombra da impunidade e das autoridades públicas e de políticos descompromissados. Hoje eu queria comemora. Gostaria de comemorar.Acordei para comemorar. Mas, fica a questão: depois de509anos,comemoraroquê?Osprincípios,“modusopaerandi”,sãoosmesmosdadescobertaesemalternativas àsvistas. Queria algo que mudasse tão sórdidos propósitos mesquinhos.Algo de engrandecer a este país. Fazer brilhar a esse povo a constituir verdadeira nação. Não esse aglomerado de tangidos por pseudo-heróis inconseqüentes, a que se sequer denominar de nação sob o nome de Brasil. Só nos resta a fé: Deus que nos abençoe e nos tire disso. Josemar Alvarenga 22/04/09 às 5:15 h. VÔO AO NADA OU ENTRE MORTOS, QUAL VALE MAIS? Étristeperderentequerido.Pior,emacidente.Muitomais,emtragédia!…Quindimàmídia:viraIBOPEde azucrinar em acicate horário, diário e mensal à dor. Desgraça maior; se o corpo desaparece. Caso apareça; está mutilado?Aí a cabeça pira e, haja coração! Senti essa experiência; bebi desse fel, traguei essa angústia, ruminei o desespero, vivi essa tragédia. Mas, ante ao status quod, convém salientar; morrer solidário em acidente de avião é maisimportante.Omortovalemais! Melhor,seanaveeosdemaismortossãointernacionais.Favascontadas,vale mais,mesmo!…CompareGolXLearJet,naAmazônia,TAMxCongonhas,sumiçodeUlyssesGuimarães.Todos se arrastam ao “Habemus Pizza”. Com aAir France é diferente; nem se compara!… Jocoso com assunto sério? Jamais.Vejamos: Air France, vôo 447, Rio/Paris. Lastimáveis 228 mortes noAtlântico. Brasil, França, Espanha Estados Unidos se mobilizaram. Logística aeronáutica, marinha: aviões, helicópteros, navios, barcaças, submarino Josemar Otaviano Alvarenga x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0863
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    64 Josemar Otaviano Alvarenga convencionalemini-nucleardeprospecçãoabissal,ecossonares,GPSemaparatosdeguerra,tripulaçõesespeciais: milhõesdedólaresaosinsepultos,aoesclarecertécnicoeàsindenizações.Muitatarefa,muitotempogastoemuito mais,dinheiroenvolvidononegócio. Ministrodas ForçasArmadas dá palpite. É desmentido.Ao presidente só faltou seu costumeiro: “Eu não sabia”. No resto, foi brilhante entrevista e não defendeu nem acusou a ninguém. Religiosos se desdobraram em cultos.Civis,emminutosdesilêncio,desdearodadeporrinha,filadeloteria,deônibusatéaosestádiosdefutebol. Amídia torra a paciência do mais paciente e interessado. Tudo é válido; resgate, homenagens, cultos, minutos de silêncio,apurarepesquisarascausas,acharacaixa-preta,responsabilizar,corrigir,indenizar.Atoséticos,ciênciae lei à cidadania. Civilizados solidários na dor e no desespero. Mas... e o outro lado da moeda? Estatística da segurança pública ao obituário nacional por assassinatos. No Brasil, no dia do acidente do Vôo 447, a perfazer cota de 50 mil óbitos/ano, foram assassinados 137 jovens entre 15 a 30 anos. Hoje, décimo dia pós-acidente aéreo, 1370 óbitos ocorridos. Produto do desmando, do poder paralelo, da Guerra Civil não declaradaemqueseencontraopaísenadasefazacoibir.Governoomissooupactuado?Nãoháoutrainterpretação. Índices ao absurdo são facilmente alcançados no país e se mantêm, não incomodam às autoridades a ao povo anestesiado; banalizou-se a vida.Amorte não é nada. Não desrespeitando ao Senhor Presidente “Eu não sabia”. Longe disso! Mas, eu sei e todos nós sabemos asprovidênciastomadascontraessaprevisível chacinaanualdanossamocidade.Tambémsabemos quantosminutos de silêncio, quantos cultos, quantas homenagens e atitudes do povo e dos três poderes Infelizmente, nadaéfeito.O Aerolulanavega sobreomardesangue,calmodasinsensibilidadese aosopro dasmentiraseafagosdacorrupção, vagueiaaoremodocongressoenoequilíbrio,assólidasdecisõesdojudiciário e aprovada popularidade. Não que aquela essência tenha sido ou seja a ideal, mas, reações esquizóides, de paranóia calculada, os comandos de governo pós-queda da revolução de 64 banalizaram a ética e daí, o civismo. É como se fora indigno ao cidadão o país ou ambos não se merecessem.Avida, o indivíduo, a sociedade são meros acasos, eventuais no contexto político social; fundamental no voto e a pagar impostos. A constituinte de Ulysses Guimarães, de 1988, queda em defesa do preso político, hoje no papel, a bandidagem institucionalizada. Pior que tudo é o povo e intelectuais aceitarem plácidos, perderam a dignidade, a revolta.Vive-seoba,obaetudoénormal,compreensível,justificável,aceitosemcontrapartidanemexplicaçõesàs necessidades de apurar, responsabilizar, cobrar, apresentar e trabalhar às soluções.Atudo se resolve, com futebol e samba. Copa do mundo e carnaval. Restam os sinais das tragédias.As provas mostram, quando se morre em acidente internacional, as mortes valemmais. Assassina a nossa juventude a tragédia do descompromisso da educação oficial, a falta de cidadania, o desemprego,impostosdequase40%doPIB,jurosestratosféricos,corrupçãoefaltadereferênciaéticanoprimeiro escalão do poder. Quando nossas crianças escapam desse morticínio premeditado, intelectual e de oportunidades, não escapam dos impunes assassinatos frios a mãos armadas, crianças indefesas num país de políticos apátridas. Chega de anomia. O Brasil precisa de seriedade, de homens conscientes, responsáveis, comprometidos e deve estar em cada um de nós, nos nossos gestos e posturas do cotidiano. Josemar Alvarenga 10/06/09 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0864
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    65 DO CORONEL AOSCORONÉIS OcoronelismopolíticoacabounoBrasil? Falodo CoroneldeBarranco,do ValedoSãoFrancisco.O chefe de bando de jagunços. Bandidos de familiar tradição na foz,Arraial do Cabeço, hoje Sergipe. Então, Sertão da Bahia, de ir da margem direita do Chico até a nascente e foz do Rio Doce, colonizado com mãos de ferro desde o Segundo Império. Reforçado na república e agonizado em meados do séc. XX, o Coronel de Barranco, chefe de aventureiros em covardes, constituía-se nos três poderes locais. De início, em apoio ao Império. Depois, chefe políticodecurraleleitoralevotosdecabrestodarepública.Ocoroneldebatinaeraomaistemido.Sãopersonagens dahistóriacolonial. EssafiguradoBrasilColônia,pelasmãosdoatualgovernovoltaaocenáriopolítico, empleno séculoXXI. Estrutura mesmos currais eleitorais aos votos de cabrestos, só que, em todo território nacional; extrapolou oVale do Chico. Manipula medroso e cevado povo miserável, com Bolsa Família, bolsa isso e aquilo e a cidadania vale nada, enquanto no país, nos poderes de regê-lo, a desfaçatez, corrupção e conluio de marginais, constituídos na legalidade e com apoio do primeiro escalão do poder. O Brasil é um novo México e vai em mesma ação por décadas, e enquanto lá predominou o PRI, aqui a esquerda festiva do PT e base do governo, fazem do povo manipulado lacaio, de valer pelo voto e impostos que paga, sem retorno nem cidadania. O modelo gessa progressivo, sem arroubos e tácito, o povo inerme. Visa mantê-lo em mesmas mãos, na tramóia pseudo-democrática em instância de ditadura branca, com o aprovo de pesquisas e votos dos de comer na cuia. Costume dos Coronéis de Barranco, em país que não se moderniza. Nisso, grassam comida e trocadinhos em disfarce legal sobre o manto da caridade, com apoio religioso. Incutemignorânciaatravésdeprofessoreseescolasdespreparadas,moldamespíritossubmissosemmãosescravas ao trabalho nos latifúndios; agro negócio, funcionalismo público corrupto, bancos e narcotráfico e se garante o poder sob falsa idéia democrática, com votos de cabresto dos currais eleitorais, de manter alta popularidade do presidente. Fecha aobservaçãoafaladomaiordefensordo“CoronelSarney”,donodomiserávellatifúndioMaranhão, palcodosmenoresíndicesdedesenvolvimentosocialehumano,comparáveisaNamíbia.Lá,atéoarédoCoronel Sarney, de levar seu domínio às terras doAmapá. Coronel de enxertar nove familiares pelos fundilhos do senado, como se fosse casa própria e repetir o clássico do Lula: “Eu não sabia”. Nasferidasexpostasdacorrupçãoeladroagemnosenado,sangrandodesdeaprimeiraatéaatualpresidência Sarney, Lula em bafo de “Sapo Barbudo”, como diria Brizzola, defende o Coronel do Maranhão: “Chega de denuncismo.Aimprensa precisa se conter. Não se pode tripudiar sobre um nome como o de José Sarney, pois, ele nãoéumhomemcomum“. Sarney fora achacado pelo seu atual defensor, tachado de ladrão, corrupto, quadrilheiro, antes do Lula presidente. Mas, está certo o chefe em ”Coronel Sapo Barbudo”. Nós, o povo, estamos errados. Somosiguaisperantealei.Iguaisa ladrão,salafrário,quadrilheiro,traficante,corrupto;políticodomensalão, sanguessuga, ministro do STF de vender sentença, a base do governo? Embusteiros quaisquer, independente da natureza, sexo, estado civil, crença, partido ou passado político, esses são iguais a nós escorchados pela vagabundagemeimpunidadepública? Na democracia do Lula existem os mais iguais; os Coronéis de Barranco de vingar por este Brasil afora, obra desse magnífico governo ao retrocesso na história. São semeados a partit do canteiro de impunidades desta baderna moral chamada Brasília, a capital, e do comando da nação, o antro da corrupção nacional. A Derrama, motivo da Inconfidência Mineira, foi de 20% de impostos, o quinto da produção. Hoje o povopaga quase40%doPIB, estáabandonadoquantoaassistênciabásicaprevistanaconstituinte; Saúde, Escola, Segurança Pública. Grassa a corrupção e a rapinagem do erário e “Eu não sabia, fui traído”. Para o atual governo, tirando a retórica populista, a nação e o povo que se dane... Tudo sempre acaba em pizza e depois, tem carnaval e futebol. Falando nisso, a Copa do Mundo vem aí!... Josemar Otaviano Alvarenga x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0865
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    66 Josyanne Rita deArruda Franco Médica pediatra Jundiaí - SP ELE E ELA Elesseconheciammuitonospoemasquetrocavamregularmente. Nos poemas. Conheciam a voz um do outro, falavam-se ao telefone, tornaram-se vorazes e insones. Era tudo o que tinham, nem sabiam se haveria mais do que conseguiram. Ele passara a vida cuidando de adultos desesperadamente transtornados. Ela cuidava dos infantes desamparadamente adoentados. A escuta dele atentava aos sinais da mente e da emoção. A escuta dela se emocionava com o pequeno coração. Ele, mais passional e domável...a vida o ensinara. Ela, mais pragmática e selvagem...a morte a despertara. Ela tecia sonhos com brocados de fantasia. Eleseinquietavaemsuavirilidadeeenergia. Centenasdequilômetrososmantinhamdistantes, mas não atenuavam o desejo de se encontrarem. Ele disse a ela que sabia esperar. Ela perguntava o que fariam ao despertar. Enquantoisso,escreviampoesias, deleitavam-seemdevaneios e alucinações à luz do dia... Tudo aconteceu porque ela deixou com ele aquele olhar que ele entendeu. Ela, sentada numa banqueta alta, balançava as pernas displicentemente,numavontadequenãoconcluiu. Sagaz,felina,estremeceuquandooviu. Ele passou, não sorriu, o olhar até desviou, mudou em disfarçada trajetória, porém a viu bem mais do que se a tivesse encarado durante horas. No entanto, ele seguiu noite afora. O olhar dela transpôs a barreira invisível, perdeu-se no abismo do sentir, quase inverossímel, precipitou-se em queda livre e nunca mais chegou ao fim. Aindacaie,incrivelmente,elasorri. Ele deixou com ela aquele olhar que pede e nega, tão parecida com o dela. Olhar de leão e gazela... Foi isso que os uniu. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0866
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    67 SONHAREI CONTIGO Sonhareicontigoestanoite. Sonharei como que não existe, com as tantas horas que te esperei. Sonharei teu sonho e teu canto na aurora. Deixareiqueabrisainventeumagora, esquecida das trevas deixadas lá fora. Sonharei,sonhareioutravez, para não perder o hábito de sonhar contigo. Sonhareiqueaindaésmeuamigo, sonharei que vives e vivo é o teu riso, que nunca partiste para aquele abismo que somente um dia eu alcançarei. Sonharei que domes o teu sono eterno na paz desse meu amor coberto de inverno, imerso nas nuvens de outono sem lei. Sonharei contigo em toda estação. Depois da primavera, colhendo emoção, será verão no sonho que um dia eu sonhei... O BAILE PERFUMADO Ela sorriu, satisfeita com a imagem que via através do espelho um tanto desbotado.Finalmente sairia outra vez e...para dançar!, o que adorava e há tempos não fazia. Exultava de alegria e excitação com a oportunidade que aguardava há três semanas e pouco dormira sem sonhar com o tão esperado baile. Deixouqueaslembrançasaconduzissemaopassadoenquantocoloriaoslábioscomumvermelhovibrante que invariavelmente está na moda para quem sai à noite. Sempre se sentira feliz rodopiando pelo salão de festa, inebriada pelo som da música e pelo perfume da madrugada.Acreditava, durante aquelas horas, que o mundo era um palco só para ela e as luzes da grande sala holofotes que iluminavam os graciosos e feminis movimentos da dança nos braços de seu exímio acompanhante...adorava o burburinho e os galanteios. Estava alegre...voltaria a dançar depois de muito tempo. Ensaiou alguns passos, feliz. Anoiteprometiamomentosdeenvolventedistraçãoedivertimento.Apoesiaestavadevoltaàsuavida!No som, na arte, na dança, na expectativa. Borrifou,suavemente,umpoucodoseumelhorperfume-todasasmulherestem-noscabeloscuidadosamente presos e enfeitados com um pente cravejado de pedrinhas brilhantes. Arrumava, com os dedos, uma teimosa mechaqueinsistianãosossegar. Josyanne Rita de Arruda Franco x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0867
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    68 No pescoço exibiapérolas que davam duas voltas como um afago no colo suave. Olhava-se,satisfeitacomoresultado,detodososângulospossíveisnoespelho,parasaberaimpressãoque causaria com a aparência que em si mesma apreciava. O barulho de vozes tagarelando na sala resgatou-a dos pensamentos. Sabia que estavam aguardando que ela aparecesse.Comentariam, decerto, sua elegãncia e bom gosto.Receberia os elogios com suavidade e ensaiada modéstia, mas profunda euforia.Agradeceria. Um pensamento lhe ocorreu.E ele...o que pensará ao vê-la? Gostará da cor do discreto vestido? Ficará satisfeitocomsuacompanhia?Seriaeleumbomdançarino? Saberia tudo isso depois. Teveumaideia:usariaoanelqueganhouaosquinzeanos.Semprelhedeusorteeassimcontinuariasendo.Não poderia deixar de lado o antigo amigo. E então, com o anel no dedo e cheia de confiança, estava pronta. Ajeitou a saia do vestido e se dirigiu à sala com o coração aos pulos; as pernas trôpegas se equilibravam nos altos saltos. Emoções banhavam sua alma e aqueciam seu corpo. Ao adentrar o outro ambiente, todos se levantaram, mudos e admirados. Ela estava linda, iluminada pela radiante alegria que só se vê num olhar juvenil. Mas tinha, na distinção, o porte confiante e seguro de quem contabiliza algumas dezenas de anos. Ele se aproximou dela e beijou a mão que ostentava o anel de menina. Olhando-a nos olhos, presenteou-a com um botão de rosa, vermelho como a paixão que já desabrochava. Ela olhou meio tímida para os demais, que continuavam calados ante aquela cena. Eleshaviamconcedidoapermissãoparaqueelasaíssecomaquelecavalheiro;satisfeitoscomsuafelicidade, admiravam a mulher que para eles surgira radiante de emoção e graciosidade. Elaestavarealmentemuitofeliz. Apóstantasnoitesjávividas,aqueleera,outravez,oseuprimeirobaile.Umbaileiniciadocomaternurado sonho e a beleza da rosa, embriagado pelo perfume dos anelados cabelos e acalentado pela serenidade da fresca brisadaqueleiníciodeprimavera. Seriaumanoiteinesquecível. Após longo tempo de viuvez, saiu de casa como uma rainha, incentivada pelos filhos e tendo, como companhia,umgentileatenciosocavalheiro. Comoela,eletambémtinhaoscabelosprateadospelavida,mastrazia,dentrodoaquecidopeito,aesperança que não cala e não desiste, no vigor de um coração que não envelhece. Josyanne Rita de Arruda Franco x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0868
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    69 Ligia Terezinha Pezutto Jornalista SãoPaulo - SP MINHA LANCHEIRA, SAUDOSA COMPANHEIRA Quem não se lembra de sua lancheira, na época dos primeiros anos escolares? Símbolo de alegria, com misto de responsabilidade, a minha era cor-de- rosa, de plástico, na época em que esse material foi inventado.Tinha a garrafinha branca, também com tampa cor-de-rosa para combinar. Lembro-me de que minha mãe, ora colocava suco de laranja, ora guaraná, ou leite achocolatado e havia festa,deminhaparte,quandoelapreparavagroselha.Atampaserviadecopoque,àsvezeseracompartilhadocom meusamigos. Tambémoslanchesficaramemminhamemória:sanduíchedequeijo,depresunto,daperfumadamortadela oudosalaminho.Ouainda,bolachadeMaizenacomgoiabada.Umadelícia!Oamordeminhamãeerasentidopor mim, em cada recreio, em cada bombom colocado junto ao lanche, em cada Bis. E eles eram embrulhados, lembro-me, às vezes, no guardanapo de pano xadrez, azul e branco, que guardo até hoje, ou também no do mesmo tecido, só que vermelho e branco. E tinha, ainda, o verde e branco, xadrez também. A hora da merenda era sempre mágica, pois um dia sentávamos todos ao redor da mesa retangular, de cimento, que havia na escola, mesa única, com bancos dos dois lados.Abríamos os lanches e partilhávamos uns comosoutros.Quandoointervaloeranoparquinho,quemaravilha!Haviabrinquedosdeváriostiposeaslancheiras ficavam penduradas em uma árvore, ao centro. Entre o corre-corre e o pega-pega, uma pausa para lanchar. E o amordeminhamãe,misturadocomapoesiadeumainfânciabemvivida,regadapelocarinhodeamigoseparentes eraobservadopelaprofessoraquenosacompanhava,perguntandooquehavíamostrazidoparaolancheeensinando- nos a repartir com aqueles que demonstravam vontade de experimentá-lo. Hoje, percebo que o material das lancheiras mudou.As garrafas são térmicas, o zíper tornou-se frequente. Estão mais encorpadas, muitas feitas com isopor, mas penso que, desde as mais simples como era a minha, até as maissofisticadas,asdehoje,todaselasguardamsonhos,significadosesaudades.Alémdoslanches,levamdentro delaslembrançasquesãoúnicasparacadaumdenós.Sinônimodealegresbrincadeiras,inocentessentimentos,da primeira professora, das nascentes amizades.Algumas delas, orgulho-me em dizer, conservo até hoje. E por que nãopensarqueaquelalancheirafoiaferramentaquepossibilitouoencontro?Hoje,nãopartilhomaismeubiscoito comgoiabada,masmeussonhos,meusmomentosfelizese,algumasvezes,difíceis.E,domesmomodoemquenão recebo um gole de suco de morango, mas carinho e afeição, vejo o quanto um simples e útil objeto foi parte importanteecontinuasendosignificante emminhavida. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0869
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    70 MEU BEM-QUERER (Homenagem aomeu irmão, José Carlos Pezzuto - in memoriam) No ocaso tristonho de tua prece contida, vejo planos e sonhos na estreita corrida. Passo lento de amores, na estrada florida doslongosanosvividos comalegriasentida. Vejo-tenainfância e em nossa adolescência, juntosnajuventude, quando trocávamos risos. Em regalo de festa, fazíamostodos: união e afeto, emconstanteeuforia. Mas quis a estranha criatura, para sempre, algoz, terrívelesorrateira, capturar-te, feroz. TodaviaJesus, com Seu amor sacrossanto, transformounossopranto, nacruz,emmaisvida. E o jardim que ora miras não se faz de pena inaudita, masqualjovemanimas desejo pleno que fica. Teus amores e sonhos, projetosmelhores, bem-quereres e cantos nesta vida acolhes. Pois, qual mãe bendita, transforma em seu ser toda possível desdita nessaúnicaviainfinita. SAUDADE Quem dera olharohorizonte, perceber a chuva e sentir a brisa rolar suave nas ondas do teu doce respirar. Sorver em goles sem conta o encanto do teu sorrir, a mostrar teu coração de milestrelasrefletidas em brilhos de paz. Numeternoviver, sonhos se apagam emcertezaspossíveis de conquistar e crer. É o grito da vida que pulsa no ser, destruindobarreiras, querendo nascer. Nesse caminhar perene, onde caem as folhas e brotam canções, bate mais forte e intensa a saudade que me faz adormecer no sonho de te fazer contente. Pensar que este é, agora, o meu inteiropresente. Ligia Terezinha Pezzuto x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0870
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    71 Luiz Jorge Ferreira Médico Osasco- SP ELE Anselmo sentiu os olhos pequenos e uma visão embaraçada. Por amor ao lugar, em que estava agora deitado, na aula de Geografia, posicionara, as montanhas do Himalaia, que adorava por terem neve. No lago do Pacoval. Recebeu zero.Mas nem ligou. Adorava pescar ali onde agora estava deitado no escuro, tremendo de frio.Nestaultimapescaria,sentiufebrealta,eumfrioquepareciavirdogelo,dasmontanhas.Sentiuqueperdiaum liquido multicolorido, que de súbito, escorreu para o meio de um pano puído que tinha trazido para se enxugar. Uma desinteria, cheia de restos de restos. Como se a vida fosse liquida.Assim adormeceu próximo ao lago. De um jeito estranho que pareceu ser para sempre. Não conseguia retornar para sua casa. Tudo isso o maltratando, e ainda demorando muito a amanhecer.Restava torcer para ser encontrado por alguém. Debaixo de si, um cheiro de coisa podre parecia sair do chão. Percebeu que derretia em disenteria.Percebeu que talvez nem pudesse aguardar a chegada do dia.Que por sinal ele acreditava vinha lá de longe, meio sentado de lado, na garupa da bicicleta do Ipojucam.E esse demorava sódebirra.Eseelefosseenumerarpelafrentedequantascasasiampassar,antesdechegar,alinofimdoLaguinho. Era um monte só. Ficou quieto lembrando feliz, o dia em que comprara sua bicicleta usada, e de como passava horas felizes pedalandoprincipalmentenoDomingoanoite,diadefolga. À noite de Domingo era para dedicar-se a Mundica, Generosa, Bibiana, Bia. Dediatinhamuitomolequeatrevidosaindodamissa. E berrando nos seus ouvidos. Deixa-me dar uma volta. Quero dar uma volta. Quero ir à garupa.Vão pedir para o Padre.Gritava!Depois pensava. -Não o Padre não. Missa e padre são sagrados para quem tem medo de não ir para o céu. O padre era amigo de Deus e tinha suas rezas para rezar, para polir as botinas, suas simpatias para embranquecer a batina e sua “manha” para viver sem trabalhar duro. Não era como ele que para se sustentar empurrava carrinho-de-mão, cheio de Mandioca, e pimenta de cheiro para vender, pelas ruas do bairro.E morava só, consigo. O padre rezava como trabalho.Rezava para todo mundo ir para o céu. Ele torceu para que nem estivesse muito doente.Depois chorou. Sabia que ia demorar a amanhecer.Só estava zangado com sacanagem do Ipojucam que se atrasava em trazer o dia, para que ficasse claro e alguém o encontrasse doente, deitado ali. Lembrou que nos últimos dias o carrinho de mão parecia pesar cada vez mais andando a mesma distancia, e carregando o mesmo peso. Doze anos de vida.Há dois vendendo pimenta de cheiro e mandioca. Mas sobrava o Domingo.Para andar de bicicleta com as meninas. Bicicletaqueelenemalcançavaoselimdireito. Neste dia prestava muita atenção no pecado.Bebia e fumava escondido sempre de olho no Ipojucam, Coroinha do Padre, que contava as coisas que via, e inventava as que não via.Ah! Se ele lhe visse a bolinar as meninas, quando dobravam por trás do Mercado Municipal, fechado aos Domingos. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0871
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    72 Luiz Jorge Ferreira Opadre era amigo de Deus, adivinhava os pecados.Ipojucam nem amigo era. Era Coroinha.Então, era só colega. Dele mesmo, não, não era nem meio amigo!Tinham cisma um com o outro. No jogo da bola de meia, e no de bolinha de gude. Ele por sua vez também não tinha muitos amigos.Contava só dois, o Silvio Leopoldo que pescava tralhoto no ouvido.Na maior astúcia. EAssunção, que era quem namorava a Irmã de Ipojucam. EseeleAnselmomorresseiatermissa.Iamaparecerumaouduasmeninas,chorandoeficariaparasempre ao relento um carrinho cheio de mandioca e pimenta de cheiro abandonado como ele.Apodrecendo.Na frente do barraco. Ficou puto com a idéia.Talvez o padre nem rezasse toda a missa, não chegasse na parte que ele mais gosta quando ergueria o Cálice, e diria. -Deus pode receber oAnselmo, este moleque é jóia.Não tem pecado, deixa as freguesas comprar fiado, e não vende pimenta podre e nem mandioca fermentada, não atira pedras nos cachorros da rua, e deixa as meninas passearem sua bicicleta.E nem passa a mão na bundinha delas. Ah! Sim.E tem mais ainda. Não é ele quem come a irmã do Ipojucam! Mas tem vontade. Antes de desmaiar.Ele esboçou um leve sorriso de felicidade para si mesmo. Tinha certeza! - Ipojucam “O Coroinha” não ia ficar nada contente. O QUADRO De Lisboa a Londres fui andando. Anado fui de Belém a Macapá.Voando fui de João Pessoa a Quixadá.Hoje neste apartamento pequeno em que as paredes, pintadas de roxo, têm muitas manchas amarelas provocadas pela umidadeAmazônica.E que sei que o tempo passado, enquanto eu calçava e descalçava os sapatos surrados.Manchou-me também. Hoje corro descalço, olhando de suas janelas que dão para a Av Ernestino Borges, as da frente. A da cozinha, abrem-se para a Rua Iolanda Marcucy.Ado banheiro, dela se vê a Rua 14 de Março, e a da cozinha tem a paisagem da rua Cel Lisboa, com o telhado descorado da casa do Braz. Estou em meus oitenta anos.A cabeça já funciona aos solavancos e os cabelos, estão úmidos, produto desta fina garoa, que teimosamente chove sobre mim. Ela me abriga a usar permanentemente um guarda chuva aberto, mesmo dentro do apartamento. Caminhodevagar,entreosdiaseasnoites,sãoseisaparelhosdetelevisãoligadoscadaumemumcanal.Oito rádios sintonizados nas oito maiores capitais do mundo que enchem a casa de um barulho estéril de Mandarim, Russo, Árabe, Japonês, Hebreu, Grego, Inglês e Italiano.Tenho dois sois um amarelo e outro castanho que se reflete em um jogo de espelhos que dependurei entre a cômoda e a estante cheia de bíblias sempre movimentadas em suas paginas por um amontoado de ventiladores que mantem a temperatura da sala quase meio grau abaixo de zero.Caminho devagar entre as esculturas Maias E Incas que coabitam comigo na sala, entre cabeças empalhadas de orangotangos e chimpanzés.Por isso perco com facilidade meus chinelos.E quando vou pe ante pe para o local em que guardo meus discos e os ponho na vitrola em trinta e oito rotações por minutos rangem as tabuas do assoalho.Fazem dueto com os estalos de minhas articulações, quase enferrujadas.Ouço Mario Lanza em um dueto estranho com minhas próprias barulheiras.Abro as janelas muitas vezes e o ar de fora bate na minha própria umidade e volta criando um pequeno ciclonequeapelideide“Equadorzinho” Um dia lendo uma das dezenove Enclicopedias e fazendo cálculos com uma régua fisiogeografica percebi queostrópicosdeCâncereCapricórniocruzam-seaqui,talvezporisso,estepruridoquemecastigadeterminados dias do mês, e que me fez ficar amigo de uns pelicanos, que também se coçam. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0872
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    73 Eles pousam najanela, aquela que abre para aAv Ernestino Borges, em alguns dias do mês.Comecei a moraraquiquandofiqueiviúvo.ElamorreuedeixouumenormevazioquepreenchicomgarrafasdeRumedesenhei sua silhueta, para formar o par de peitos foram necessárias mais de cinqüenta garrafas.Era uma mulher abastada quedeu-medezoitofilhosepretendiadar-memaissenãosehouvesse tocadofogolixandotantoasunhas.Quando fiquei só pretendia mudar-me o mais cedo possível, mas a amizade com as águas vivas do lago do Ibirapuera e a admiração pelas borboletas do Pacoval foram prolongando minha estadia.Hoje sou parte deste Quadro.E olhando a pintura do Quadro feito por Salvador Dali, dependurado no vão entre a porta do nosso quarto e o inicio da escada que nunca subi, nem sei aonde vai dar. É que percebo que envelheci. Não tenho mais vontade para trocar de roupa e agora me cubro, com pelos espessos e longos cabelos que pouco molho, mas estão sempre úmidos. Como muito pouco e durmo quase nada.Quando a saudade aperta abraço-me a imagem dela feita de garrafas e assim fico por um tempo O que tem me cortado demais o peito e o púbis. Mas eu não ligo. O que me incomoda são os filhos.Estes que estão empalhados pelo corredor entre as cabeças empalhadas de Orangotangos e chimpanzés. Amanha irei para Osasco aonde enterrarei o Quadro. MODINHA PRA ELA Ela morde os lábios. Defronte ao seu mundo. Contido e calado. O silencio é pertubado. Pelo barulho dos copos. E escorre sob o sussurro espantado. Quando ela engole cerveja e saliva. Elatalvezaguardealua. Desenhada atrás do mundo. No contorno da parede. Ela talvez roa as unhas. Sonhando com sambas de Caymmi. Ela nem sabe que quem sabe, longe dorme. E se encolhe quando sopra um vento frio. Só menos gelado que esta garrafa solitária. Em que suas digitais claras, estamparam-se. Luiz Jorge Ferreira x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0873
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    74 Manlio Mário MarcoNapoli Médico ortopedista São Paulo - SP REMINISCÊNCIAS DA FACAULDADE DE MEDICINA Era início de 1941. Nossa turma comemorava a aprovação no concurso para ingresso no primeiro ano da faculdade.Adisputa fora acirrada - setecentos candidatos para setenta vagas. Porém, nem tudo era esplendoroso e mal sabíamos o que nos esperava. O então interventor do Estado, Adhemar de Barros, decretara com uma simples penada, o aumento das vagas de 80 para 200!ACongregação da Faculdade insurgiu-se contra o decreto e fez ver ao governo que o aumento de vagas, entre outros, contrariava o acordo estabelecido com a Fundação Rockfeller, que construíra o prédio e em troca exigia que as vagas obedecessem ao número clausus de 80, além do compromisso do governo do Estado construir o futuro Hospital das Clínicas. Ocursodemedicinacontinuavaseurumo,porém,haviaturbulênciasnoarenós,primeiro-anistas,sofreríamos asconseqüências.Aprimeiraauladocursomédicoeratradicionalmenteadeanatomia.OcatedráticoeraoProfessor Renato Locchi, sabidamente severo e extremamente exigente; assistíamos inicialmente à aula sobre o respeito ao cadáver – um corpo humano formolizado, nu e rígido, estendido sobre uma mesa de mármore. Grande impacto para nós. Pior o que viria em seguida. O Professor fez três anúncios, preliminarmente: éramos ainda mentalmente ginasianos e, portanto, não sabíamos estudar; a matéria era extensa e o primeiro exame trimestral ocorreria logo após, em fins de abril e já estávamos em março; finalmente, como que em represália ao ato governamental, o laboratório funcionaria no horário de aulas, ou seja, somente pela manhã e três vezes por semana, contrariamente, ao tradicional que era de segunda a sexta-feira, das 08 às 18 horas! Ficamos realmente atordoados. Nas semanas seguintes, o quadro ainda piorou. O primeiro exame prático e o escrito constavam de todo o estudo de ossos, músculos, veias, artérias e parte do aparelho digestivo, para alunos que ainda não sabiam estudar. Umdoscolegas,desavisadamente,levouparacasaumcoração.OProfessorLocchi,emaula,noscomunica que o laboratório ficaria fechado até que a peça fosse devolvida.Asituação piorara muito. No decorrer dos dias, o Governo do Estado e a Congregação entraram em acordo – as 120 vagas, então criadas, seriam preenchidas em seis anos, 20 delas agregadas a nossa turma. Mas para isso, era necessário que os candidatos fossem aprovados no exame vestibular daquele ano, obrigatoriamente. Nossa turma passou a contar com 102 alunos, incluindo os reprovados do ano anterior. Finalmente, em abril, chegaram as provas. O medo que já sentíamos por informação de colegas de anos anteriores, passou a verdadeiro terror. O exame prático consistia em respostas sobre várias peças expostas em mesas de dissecação. Diante de uma resposta incompleta, insegura ou errada, o mestre passava adiante. O exame em média durava uma hora e meia. Lembro-me bem daquela prova. Dias antes revi todas as matérias previstas no livro de Chiarugi, adotado pelo Professor Locchi. O estudo entrou pela madrugada de sexta, sábado e domingo. Já no final da madrugada, véspera da prova, iniciei a parte final do programa, que era exatamente sobre o aparelho digestivo. Encasquetei com detalhe do retrofaringe; Chiarugi descrevia um famoso recesso – o de Rosenmüller. Adenominação me pareceu bonita e senti verdadeiro desejo de reconhecê-lo no cadáver.Asala de exame era aberta às sete horas, permitindo aos alunos examinarem as peças. Naquele dia, o assistente disponível para tanto era o Professor João Batista Parolari. Logo que entrei na sala, perguntei a ele onde se situava o famoso recesso no retrofaringe. Com sua longa e clássica pinça anatômica, Parolari afastou as amídalas palatinas e me mostrou o recesso. O Professor Locchi começou o exame pela região do ombro, seus componentes ósseos, ligamentos,músculosemovimentosefez-meumaúltimaperguntasobreafunçãodomúsculodeltóide;emrápida resposta, levantei o braço em adução e com o ângulo máximo de 90 graus. - Muito bem! exclamou o mestre. Se errasse, pararíamos o exame aqui! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0874
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    75 Confessoqueminharespostafoiautomática,poisnpcursodetirodeguerra,essemovimentocorrespondia àcoberturaanterioreprincipalmentealateralnoiniciodeexercíciodemarcha.Bem,euhaviapassadonaprimeira fasedoexame,masaindarestavamalgumasquestões.Asabatinacontinuoupeloaparelhocirculatórioetudocorreu perfeitamente. O Professorjá parecia satisfeito, porém para finalizar, disse-me – vamos ao aparelho digestivo. Treminasbases.Vejamos,parafinalizar,mostre-meorecessodeRosenmüller;momentodegloriaparamim,repeti magistralmenteogestodoProfessorParolarieusandotambémumalongapinçarespondi–aquiestá!-Muitobem, dizomestre,oexameterminou.Asnotasdoscolegas,emgera,tinhamsidobaixíssimas,parecendoqueosProfessores integrantes da Congregação, estavam se vingando do interventor sobre nós, pobres inocentes. Saí da sala, embora satisfeito, ainda preocupado; a nota máxima até então tinha sido cinco. O bedel foi à sala, viu minha nota e a transmitiu ao pobre aluno de primeiro ano e calouro em provas práticas – Parabéns! Você tirou nota nove. Vejam vocês! Para tudo na vida é preciso esforço e persistência, porém também grande dose de sorte. UMA ANGIOPLASTIA Lembram-sedaquelemeuvelhoamigosobreoqualjálhesfaleihácercadequinzeanos?Aquelequepossui característicasfísicas,tematitudesedesejosmuitosemelhantesaosmeus,tantoque,comodissenaquelaépoca,se fossemosgêmeos,certamenteseríamosunivitelinos. Em princípios do ano passado, este caro colega passou a sentir coisas estranhas no comportamento do seu coração – taquicardia, sudorese, dificuldade respiratória aos esforços na marcha, subir rampas, fazer corridas leves. Procurou um cardiologista que solicitou vários exames laboratoriais, eletrocardiogramas, radiografias, tomografias,etc.Porfim,resolveutratá-loclinicamente–onzecomprimidos,setepelamanhãequatroànoite,além de cuidados gerais. Permaneceu sob controle quinzenal e toda vez que voltava à consulta, a pergunta repetida e constante de seu médico era – SENTIU DOR NO PEITO? Durante meses a resposta foi sempre – NÃO! Porém,namanhãdodiatrintadeabrildoanopassado,meuamigo,apósnoiteindormida,surtosdesudorese egrandedesconfortopelainsônia,noiníciodasatividadespelamanhã,sentiuaqueleincomodoeprocuroucomunicar- se com seu médico. Como não conseguiu localizá-lo e muitas eram as tarefas a cumprir, deixou para mais tarde o chamado, mesmo porque, inclusive a dor, quem sabe, poderia desaparecer. Porém, no início da noite, a dor continuava e, às onze horas da noite, agudizou; o cardiologista foi novamente contatado – DOUTOR,AQUELA DOR NO PEITO AUMENTOU MUITO, O QUE DEVO FAZER? Procure o pronto atendimento do hospital, foi a resposta. No serviço de urgência, por indicação clínica, vários exames foram realizados e quando o médico chegou, além dos exames já feitos, decidiu por fazer cateterismo cardíaco, ou seja, o exame de visão direta das artérias coronarianas, através a introdução de um cateter na artéria femoral, desde a região inguinal. Oexamerevelouoclusãoemgrausignificativodessasartérias.Oresultadoindicavaanecessidadeurgente de desobstruí-las e mantê-las permeáveis. Nestes casos, conhecidos como enfarte do miocárdio, é indicada a colocação precisa, sob visão direta, de “molas”, denominadas “stents”. No caso, foram colocados três. Este procedimentoconstituiumaangioplastia. A recuperação do paciente foi rápida e satisfatória; permaneceu hospitalizado, sob rigoroso controle, na unidade de urgência do hospital. O ato cirúrgico levou 20 minutos e a hospitalização apenas sessenta horas – da madrugada de sexta-feira ao meio dia de domingo. Acho que meu amigo realmente se curou do enfarte, pois seu coração resistiu bravamente ao receber a conta hospitalar-SESSENTAECINCOMILREAIS!Nessemomento,saltouàmentedocolegaaseguintecomparação –jáouvirafalarevirapelosnoticiáriosdosjornaisetelevisãoquealgunsEmiradosÁrabesapresentam-seatualmente como verdadeiros paraísos, com visões e contos das mil e uma noites. Pelo cálculo que rapidamente fez, ou seja, gastos de mais de mil reais por hora, talvez pudesse ter passado uma semana ou mais em Dubai, com passagem aéreaincluída! Manlio Mário Marco Napoli x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0875
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    76 FOI O GATO! Lembro-mecomo se fora hoje. Talvez essa lembrança seja apenas fruto de fato que, embora ocorrido em 1924,tenhasidonestessessentaanos,freqüentementerelembradojocosamentepelosmeusfamiliares.Naocasião, tinha cerca de três anos. Naquele tempo nossas mães não dispunham de geladeiras; em seu lugar havia os guarda- louças que eram armários de madeira com portas vazadas para ventilação e fechadas por telas, não sei por que, sistematicamente na cor verde; as portas eram leves e removíveis com facilidade. Nãohaviageladeiraseoutrosutensíliosdecozinhaquemuitofacilitamotrabalhodenossasmãesatualmente. Em compensação as casas em sua maioria eram térreas, construídas em terrenos amplos, a poluição do ar era desconhecida e as condições de vida mais favoráveis que as atuais. Numa certa tarde, minha mãe me surpreendeu dormindo na ampla copa, deitado ao lado do guarda-louças com suas portas abertas e caídas ao meu lado; estava dormindo e chupando o dedo, como era meu habito. Minha mãe pegou-me no colo e perguntou o que havia acontecido. É preciso que se diga que desde a infância eu era um extremo apaixonado por qualquer tipo de queijo. Pensava em encontrá-lo no guarda-louças, que abri e pendurei- me nas portas que vieram abaixo comigo. Não encontrando o que procurava, adormeci. Indagado sobre o que havia ocorrido, respondi – Foi o gato, mamãe! Vejamsó,naquelaépoca,apesardeaindanãoexistiremcomputadores,televisoreseoutrosmeioseletrônicos atualmentedisponíveis, ospimpolhosjáeramimaginativosemuitoespertos! Coincidentemente,emcasa,nãotínhamosgato! Manlio Mário Marco Napoli x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0876
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    77 Márcia Etelli Coelho Médica SãoPaulo - SP O LIVRO QUE ME CATIVOU Fecheiolivrocomvontadedechorar.Mesmotendoconsultadoodicionárioinúmerasvezes,eumeencantei com a história daquele visitante de outro planeta. Levei dois meses para terminar o trabalho escolar. Naquele tempo, francês fazia parte do currículo ginasial. Uma época em que eu ainda sonhava. Vinte anos se passaram e eu me preparo para mudar desta casa.Vou trabalhar no exterior enquanto minha mãeirámorarnolitoral. As roupas e os objetos pessoais para a viagem já foram reservados. Basta a difícil tarefa de selecionar as coisas que serão doadas. De início, pensei em jogar tudo fora, eram “tranqueiras”. Mas, se eu guardara, deveria ter algumvalorparamim. Na parte superior de um armário, encontro uma pasta com algumas fotos, boletins escolares, medalhas de honra ao mérito, um caderno com tolas poesias, e ... ele: o livro que tanto me emocionou, encapado com papel impermeáveltransparente. Ao abri-lo, a poeira mescla-se com nostalgia. Suas folhas estão amareladas.Algumas frases, destacadas a lápis.As palavras continuam em francês. Eu é quem mudei e não consigo mais entendê-las. Não me lembro dos detalhes da história. Algo a ver com rosas, carneiro, raposas... Só sei que ela me empolgou. Separo o livro para doação e rasgo o resto. Olho para as medalhas. Fiz tanto sacrifício para conquistá-las e elas não significam mais nada para mim. Entristeço-me. Há poucos registros da minha adolescência. Por um segundo, fico na dúvida, como se não a tivesse vivido. Agora, estou eu, pronta para começar uma nova vida em LosAngeles. Talvez nunca mais volte. Mesmo porquenadameprendeaqui.Nenhumamor,nenhumagrandeamizade,nemsequerumbichinhodeestimação.Eu me dediquei tanto aos estudos e ao trabalho, que esqueci de cuidar dos relacionamentos. Tenho colegas, mas não amigos.Acumuleidinheiro,masnãosaudades. Atéminhamãeficoucontentequandolhecomuniqueiqueiaembora: -Agorasiméquevocêvaiganharumaboa“grana”,minhafilha. Dinheiro, sempre o dinheiro a mover minhas decisões. Um desejo insaciável de conforto e de projeção social. O embarque se aproxima. Estou insegura. O desconhecido me assusta. Não aprendi a viver de improviso. Minha mãe me incentiva.Acompanha-me até o aeroporto. Despede-se de mim com um simples abraço. Ando pelo saguão e procuro uma das revistas semanais para me distrair durante o vôo. Na prateleira, encontro também aquele livro: capa branca com um menino loiro rodeado de estrelas. E o melhor, escrito em português. Numimpulso,comproolivro. Acomodo-me no avião, próximo à janela e aperto o cinto de segurança. No assento do meio, um menino de cabelos cacheados não para de me olhar. Pego o livro e leio a introdução.Ao ver a capa, o garoto se alegra: -Cê sabe desenhar um carneiro? Movimento a cabeça, numa resposta negativa, com ar sério de quem não quer conversa. Pra que perder tempo com um menino que provavelmente eu nunca mais verei? Prefiro iniciar a leitura e deixo-me conduzir pela imaginação.Acompanho o pequeno príncipe que viajava por estranhos mundos, até descobrir o quanto era importante cultivar a flor que deixara em seu planeta. “Setuqueresumamigo,cativa-me”. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0877
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    78 Márcia Etelli Coelho Afrase de Saint Exupéry me puxa para a realidade. Olho para o lado. O garoto parece cansado de desenhar em seu caderno. Fala com sua mãe, mas ela está interessada na revista de bordo e pouco responde. Ele se mexe, balança as pernas, chuta o encosto da frente. Precisa de atenção.Amãe simplesmente diz: -Ficaquieto,menino. Ele sossega seu corpo, mas não o coração. Seu olhar encontra o meu. Um carinho transcende os sentidos. Oessencial,invisívelaosolhos... Coloco o livro no colo. Poderei continuar a lê-lo outra hora. Inicio uma conversa e... não é que ele tem coisas interessantes para me contar? O garoto começa a rir. Um riso aberto, prolongado, contagiante. Um breve lanche e ele adormece. Eu retomo a leitura e a termino antes da aterrissagem. O texto de despedida do pequeno príncipe me emociona. Sinto que resgato uma ternura perdida. E, lentamente,fechoolivrocomintensavontadedeviver. INQUIETUDE E eu, assim, tão inquieto, mergulhomeussentimentos nas águas frias do rio. Transbordo o medo secreto, tentoviveromomento e encarar esse desafio. Quem vê os meus olhos travessos imagina que é desse jeito que eu troco o sim pelo não. Posso até me virar do avesso se assim descobrir o direito deserfeliznamultidão Umenganoéoquemaismeinquieta: Pela paz, eu fiz tantas guerras que nem sei qual é minha dor. E a vida que agora desperta impõesomenteumaregra: Abra as portas para o amor! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0878
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    79 REALIZAÇÕES E eu queriao amor em minha vida, mas não entreguei meu coração. Queria a paz em cada investida, mas me escondi com a solidão. Se o “querer” se traduz em “poder” por que eu insisto em me lastimar? Se o sucesso provém do “fazer” por que o medo de recomeçar? A medalha de ouro do esportista não se ganha num mero segundo, mascomotreinoperfeccionista que supera os entraves do mundo. O salto perfeito da bailarina não se consegue assim, de repente. Muitosensaios,desdemenina, domínio do corpo e da mente. Enquantoeusómeenvolviemsonhos, vivireclusonafantasia. Desculpas e pretextos tristonhos dos“se”...“talvez”...”umdia”... Quando,enfim,decidicomempenho abraçar cada um dos meus planos, descobri em você um alento, dissipeiosmeusmuitosenganos. Para a vida eu abri um sorriso, meu corpo venceu o cansaço. Eminhaalmadizquandopreciso: “Eu quero, eu posso, eu faço...” Márcia Etelli Coelho x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0879
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    80 Marco Aurélio Baggio Médicopsiquiatra Belo Horizonte - MG DISCURSO PLENO Aproveitando a sua fala, eu queria deixar colocado que, assim,aníveldereflexão, fazendoumcorteepistemológico, desenvolvemos um projeto de pesquisa versando sobre o tema proposto. Quero deixar bem claro que falo a partir de um lugar ondeépossívelvisualizar aquiloquevocêafirma como tendo muita coisa a ver. Mas desejamos ressaltar um ponto: a coisa não passa por aí... É que, sabe?, estamosnumdeterminadomomento em que a gente estamos empenhados num trabalho sério de cogitação que redundou na concepção deumnovomodeloassistencial baseado num novo paradigma quenospermitiureformularmostoda umaestruturaviciadadeatendimento. Afinal, achamos que era preciso repensar toda nossa relação anterior. Daí, essa nova proposta colocada dentro de um novo marco teórico que pretende dar conta de nossas perplexidades atuais. É com esse espírito que trazemos nossa proposta de trabalho para pensarmos juntos. Sabemos que vocês têm cometido equívocos massãosujeitosperfeitamenterecuperáveis. Eu, por exemplo, sei que o coração de vocês não é esse... Mesmo porque estamos convictos, e vocês hão de concordar comigo, que temos de desenvolver um esforço para superarmos nossas diferenças heurísticas, pois o que está em jogo é um valor mais alto que se alevanta: - Tudo pelo paciente! E tome pipipi, bobobo... Patati patata... x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0880
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    81 INEXORÁVEL RECONSTRUÇÃO DOCAPITALISMO Há 7 milhões de anos surgiu um símio antropóide ereto, dotado de bipedalismo. Dezenas de antropóides humanóides conviveram por milhões de anos. Foram se extinguindo. O homem moderno surgiu há 190.000 anos na África. Quase foi exterminado com a glaciação ocorrida há 70.000 anos. Há 10.000 anos, o homo sapiens criou os primeiros aldeamentos, tornou-se pastor- agricultor e passou a gerar cultura. Desenvolveu a linguagem, aprendeu a proteger a prole, a confeccionar roupas, construir abrigos, criar ferramentas, armas, armazéns. Aprendeu a usar a escrita e a estabelecer trocas de excedentes de produtos e de mercadorias. Foi quando constituiu laços afetivos e familiares. Cerca de 26 grandes civilizações foram erguidas, tiveram seu apogeu e a maioria desapareceu em seu declínio nesses dez mil anos de História. A par da capacidade construtiva e edificante dos seres humanos, modificando a natureza natural, tornando-a natureza naturada, civilizada, trabalhada para seu conforto e para sua conveniência, o psiquismo dos homens possui uma estranha propriedade de vivenciar primeiro uma guerra civil interna, tal a quantidade de desejos e de intenções contraditórios chacoalhando no seu mundo interno. Seres de conflitiva, os humanos são dotados geneticamente de um sabotador interno, de um agente que se compraz em infelicitá-lo. Masoquistas, a ponto de apreciar ver a própria caveira. O homem, se não se acautelar, é, com freqüência, seu maior inimigo. Só a bildung, a educação compassa sua malevosidade. Só a bondade imposta e só o amor intrugido anulam o veneno da maldade humana. Como uma derivação estocástica, aleatória, dos Eukaria, postados na ponta de um ramo da árvore evolutiva, o Homem é um animal precário. Contém em si sua própria incongruência. Como espécie superpopulosa e hiperpoluidora, os humanos passam da hora de parar de se assassinar uns aos outros. Passam da vez de despender trilhões de dinheiros em armas e em guerras. E em assoprar as bolhas dos “derivativos.” Mais que tudo, já passa da hora de creditar em deuses inexistentes. Temos condições de, rapidamente, reduzir a fome de comida e de conhecimentos, espaventando a ignorância, a estupidez, a superstição. É hora de combater as doenças curáveis e sanáveis. Tudo fazer para restringir o sofrimento desnecessário. Os homens bons devem se impor para fazer a humanidade funcionar pelo que é ético, pelo que é conveniente, com decência e dignidade. Nosso tempo está demarcado a.C – antes de Cristo e d.C – depois de Cristo. Agora temos outro marcador: antes de 15 de setembro de 2008 e depois de 15 de setembro de 2008. Nesse dia, com a falência do banco Lehman Brothers, evaporaram sessenta trilhões de dólares que existiam, virtuais, nas telas dos computadores das bolsas de valores do mundo capitalista. Desmantelou-se a grandiosidade arrogante dos norte-americanos dos EUA, cujos mega-capitalistas cometeram indecentes trampolinagens com derivativos desonestos. O que somado à patologia do poder que vigorava perversa na era bushiana, gerou esse estado de terremoto em que está mergulhado o capitalismo globalizado. É banal dizer que crise é sinônimo de perda e de oportunidade. Perdem os pobres, os assalariados, os desempregados que já alcançam mais 250 milhões de pessoas, em precipitação social. Ganhos? Obama, revalorização do Estado como agente disciplinador e a pálida expectativa de que uma nova era de racionalidade irá promover os valores éticos, iluminados pelas evidências acumuladas pela ciência. O mundo mudou de forma radical e inapelável, tornando relações, conceitos e verdades propaladas, subitamente disfuncionais e anacrônicas. Temos que reconstruir nossa civilização capitalista a partir dos escombros do sistema falido anterior. Mas acima de tudo, precisamos de Mãe: instância básica e última da bondade humana. Chega de crimes, de desastres, de armamentos maravilhosos e de guerras?Talvez sim... Marco Aurélio Baggio x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0881
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    82 Marco Aurélio Baggio CharlesDarwin, hoje considerado o cânone da ciência, já havia descrito que são as mulheres, as mães do primata humano, as depositárias da forma matricial do instinto social. Nelas esplande o amor e a dadivosidade materna como fundamento da empatia e da solidariedade que é a base da civilização, onde, apesar de tudo, vigora a proteção aos seres humanos inocentes, aos fracos e aos destituídos. Para Darwin, é a dotação feminina que reverte a seleção natural, na qual tende a prevalecer o mais apto, o mais forte e o mais estúpido, criando, numa reversão,umanovaformadeseleçãonaturalqueprivilegiaaculturadoaconchegonafamíliahumana,queéoesteio dacivilização. Senhores, como psiquiatra posso ser delirante. E nesse momento proponho a utopia de que, após 15 de setembro de 2008, a humanidade venha ter a supina oportunidade de fazer prevalecer os instintos sociais nobres como forma de escolha, selecionando a cultura, a civilização e a bondade como avanço específico da seleção natural a vigorar por sobre a primataria humana. Mulheresdaestirpehumanapossuemsuperioridadeemexperimentaremanifestar,maisdiretamentedoque os homens, os sentimentos de ternura, de suporte, de compaixão e de solidariedade. É assim que a genealogia da moral em Darwin, desde 1860, surge, esplêndida, no bojo da evolução do primata Homo sapiens sapiens sem qualquerevidênciaaentidadesobrenaturalouextranatural. Uma nova era se descortina, na qual há de prevalecer a racionalidade, a responsabilidade para com a coisa pública, omelhorexercíciodojuízonaapreciaçãodaquiloqueémelhorparaomaiornúmerodepessoasedaquilo quemaisconvémaoPlanetaTerra.Esteéumnovotempoquesepropõeequeseoferececomoumfuturopossível, por ser desejável e conveniente. JUDAS, O MENSAGEIRO DE JESUS DE NAZARÉ Os estudo bíblicos se enriqueceram com a tradução do chamado Evangelho segundo Judas. Manuscrito perdido há 1.700 anos, em papiro, na língua copta, foi descoberto no Egito em 1978. Sabia-se de sua existência, relatada por Irineu de Lyon, em seu livro Contra a heresia, publicado no ano 180 da era comum. Foram recuperados 85% do texto. Publicado com a chancela da National Geographic Society, o manuscrito esclarece o papel de Judas Iscariotes como sendo o mais arguto e o mais confiável discípulo de Jesus de Nazaré. No documento recém- traduzido, Judas Iscariotes surge como mensageiro, o emissário de Jesus de Nazaré, e não mais como quiseram os evangelistas canônicos, Mateus e João, como o traidor de Jesus. Ao escrever Jesus de Nazaré: esplendor no Ocidente (Belo Horizonte: Editora Compos, 2002), já havia interrogado: Jesus de Nazaré deixou-se prender pelo sumo sacerdote do templo, ou entregou-se a ele, utilizando, conscientemente, os serviços de seu amado discípulo – Judas Iscariotes? Hoje há dúvidas quanto ao valor da participação de Judas e da sua intenção: teria ele traído Jesus? Teria vendido informação sobre o local onde estava o Mestre, por trinta dinheiros? No entanto, Jesus era uma figura pública, sobejamente conhecido de todos, que freqüentava as ruas e os pátios do Templo. Judas entregou Jesus à revelia deste ou, como cada vez parece mais provável, foi o seu mensageiro junto aos sacerdotes, marcando a hora e o lugar de sua apresentação diante do sumo sacerdote, tal qual o Mestre queria? O Evangelho segundo Judas vem corroborar a suspeita de que Judas foi o dileto emissário de Jesus. Durantetrêsanos,JesusdeNazarérealizou31milagresedezenasdeportentosnaSamaria.Judeuconhecedor das escrituras, Jesus – um homem bom, excelso – julgou chegada a hora de fazê-las cumprir. Internalizou em si a missão do tão profetizado Mashiah – o Ungido, o Esperado, o Messias do povo judeu. Por quatro vezes, Jesus de Nazaré profetizou seu destino aos seus apóstolos. Está em Mateus 12:40; em Mateus 16:21; também em Mateus 17:22:23. Em Mateus 20:17:19, encontra-se: Eis que estamos subindo a Jerusalém, e o filho do homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos escribas: eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios para ser injuriado, flagelado, crucificado. Mas, ao terceiro dia ressuscitará. O Evangelho segundo Judas vem fazer uma documental desleitura daquilo que os evangelistas canônicos deturparam, denegrindo assim Judas. Essa visão sombria se estendeu para todo o povo judeu: Judas=judeu. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0882
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    83 Os evangelhos canônicosforam escritos 40 a 60 anos após o desaparecimento de Jesus, por homens que não o conheceram pessoalmente: Marcos, Mateus, Lucas, João, o evangelista (não confundir com João Batista nem com o apóstolo João). Saulo, judeu nascido em Tarso, tornou-se São Paulo. Criou a primeira cristologia. Nada do que o homem Jesus foi e viveu interessou a Paulo. Provavelmente, toda a construção teológica – a cristologia erigida nas 13 epístolas de São Paulo – não teria a aprovação de Jesus de Nazaré. George Bernard Shaw é definitivo sobre o gênio de São Paulo: Nada que ele fez Jesus teria feito, e nada que ele diz Jesus teria dito. (Bloom, Harold. Gênio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 167). A espantosa necessidade que 90% da humanidade têm de acreditar em deuses sempre gera ferozes disputas de primazia e de preponderância. No seu nascedouro – séculos I, II, III e IV da era comum –, os cristianismos disputavam corações, dotações e mentes. Apartir do ano 312, com Constantino, prevaleceu o cristianismo de Paulo e dos Pais da Igreja. Hoje, no mundo, há cerca de 1,5 bilhão de cristãos, disseminados em mais de mil seitas e sob diversas denominações. O tronco principal do cristianismo é a Igreja CatólicaApostólica Romana. O Evangelho de Judas deverá melhorar a história e a imagem desse colaborador de Jesus de Nazaré, deixando Judas e os judeus de serem escarmentados, respectivamente, como traidor e algozes. Dentre os doze apóstolos, Judas Iscariotes foi o mais corajoso e o mais lúcido ajudante de Jesus, em seu intento de fazer cumprir as professias hebraicas. Éprovávelqueessedocumentovenhacorrigirealimparinconsistênciasedúvidasarespeitodosacontecimentos no Horto das Oliveiras. Ganhamos todos, cristãos ou seculares, com o aparecimento dessa nova versão da verdade histórica. Chega de malhar Judas! Marco Aurélio Baggio x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0883
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    84 Marcos Gimenes Salun Jornalista SãoPaulo - SP PEQUENOS APONTAMENTOS SOBRE A SOLIDARIEDADE E A JUSTIÇA Para se entender o verdadeiro sentido da solidariedade deve-se perceber e analisar todos os seus possíveis ângulos, desde os mais evidentes até os que, dissimulados ou de forma sub-reptícia, estejam implícitos no seu significado. Cito aqui o significado que me parece mais evidente: solidariedade é quando um grupo de pessoas se obrigaumascomasoutrasetodasentresi,sejaatravésdeumjuramentosolene,sejapormeiodesimplesempenho da palavra, e daí se estabelece um pacto ou acordo. Este, por sua vez, deve ser mantido a todo custo, sob pena de se romper o elo que motivou a união pactual dessas pessoas. Há que se levar em conta também quais foram os motivos que levaram essas pessoas ou esse grupo a unir- se e a estabelecer tal pacto. Não paira qualquer dúvida que, sem uma causa comum, não existe qualquer ajuste ou convenção entre quem quer que seja. Por si, o próprio ato de se estabelecer tal acordo pressupõe a existência de umacomunhãodeideais,deprincípios,deobjetivos,dealvos,deafinidadesousejaláquaisforemasconvergências. Ao fim, pressupõem-se a existência mútua de interesses e deveres. Ser solidário pode (e normalmente deve) significar ter que honrar o pacto firmado, sejam quais forem as circunstâncias: boas ou más. Cabe ainda destacar que a solidariedade pressupõe o estado que resulta da comunhão de atitudes e sentimentos do grupo, de forma que este venha a se constituir numa unidade sólida, capaz de oferecer resistências às forças externas, e até mesmo, de se tornar mais firme ainda em face da oposição que vem de fora.Aexistência deumacordo,destaforma,significatambémofortalecimentodealgumaconvicção,sejaelaqualfor,poisfazsupor aexistênciadeuniãodeforçasouideaisconvergentes,queeventualmenteseriamdebilitadossefossemdefendidos de forma isolada. Ora,atéaqui,meudiscursofoimeramenteumacoletâneadesignificadosqueseencontramestampadosna maioriadosbonsdicionários.Nadamais.Daquiparafrente,noentanto,começoadivagarcomigomesmoeatecer algumas conjecturas sobre a solidariedade.Apenas abstrações revestidas da maior subjetividade possível, sem quaisquer pretensões de que sejam aceitas como verdades ou premissas de conduta. São apenas as “minhas” verdades,asquetêmmeinduzidoà“minha”conduta,ambas,passíveisdeummelhordiscernimentoedeummelhor aconselhamentoparaquesejamaperfeiçoadasepossammepropiciarummelhorresultado.Aceito,debomgrado, o que de positivo puderem me aconselhar e acrescentar. Parece-me,desdealgumtempo,quesolidariedadeejustiçadeveriamcaminharladoalado.Talvezpudessem ser subentendidas até como sinônimos. No entanto, a se pensar mais profundamente sobre essa relação, pode-se ver que não é tão simples assim. Como alguém pode ser solidário com algo que não seja justo? Depende do objetivo com que se realizou o “pacto de solidariedade” com o grupo ao qual se é fiel!Assim, só para citar um exemplo, um traficante de drogas que celebra um pacto entre seus comparsas para atingir seu objetivo comum, o que pode abranger desde pequenas contravenções penais até crimes de grandes repercussões, não está agindo com justiça. Pelo menos aos olhos de quem tem algum senso de justiça e dos malefícios que essa atividade nefasta representa para a sociedade em geral e para todas as demais associações que lhe sejam opostas. E quantos outros exemplos não poderiam ser citados... Praticamente em todas as atividades da existência humana hodierna existe algum tipo de associação que pressupõem a conjugação de interesses, que por sua vez significa algum tipo de acordo em defesa de objetivos mútuos propostos, e que em última análise traz implícito o conceito de solidariedade que deve ser o sustentáculo dessa união. E que, por óbvio, pode estar em desarmonia x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0884
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    85 com os interessesde outros grupos ou associações. Com isso, é evidente, não há senso comum de justiça ou de harmonia ou de solidariedade ou do que quer que seja, devido ao evidente conflito de interesses existente na própria relação social do ser humano. Então, nesta altura de meu raciocínio, eu deveria pensar que solidariedade e justiça não têm nada em comum, já que existem associações (e pactos) que em nada lembram os princípios básicos do que possa ser entendido como algo justo. Segundo Valdemar Sansão “A melhor definição de justiça, que comporta muitos conceitos, é ter cada um o que é seu. Assim, agir com justiça é dar a cada qual o que lhe pertence. É a absoluta imparcialidade na concessão, distribuição e manutenção de qualquer vantagem, bem ou interesse detodaespécie,aoserhumano.” Emboraeuconcordeatécertopontocomoconceitobásicodadivisãoigualitária proposto pelo autor, acho-a utópica. Os conceitos socialistas ou comunistas não são o fulcro deste pequeno ensaio e, portanto não quero me ater a discuti-los.Acitação foi feita apenas como um ponto a mais de reflexão. Paramim,noentanto,oconceitodejustiçaémuitomaisamplo,poisenvolvealémdedistribuiçãoigualitária de haveres, também uma série de deveres e obrigações que todo cidadão deve ter para com o seu compromisso principal,queameuverécomahumanidadecomoumtodo.Esteéomaiorpactoquepodemosrealizar.Écomele quedevemosnoscomprometeresersolidários.Emminhaopinião,muitasvezesapassividadecomqueencaramos as nossas relações cotidianas para com o mundo em que vivemos é nosso maior vício, este sim passível de que lhe cavemos profunda e inexpugnável masmorra. Se assim não o fizermos, seremos cúmplices da hipocrisia íntima, a meu ver a maior das agressões que o ser humano pode cometer contra si mesmo e contra o seu semelhante. Em resumo, eu diria que é sempre fácil ser solidário com o que nos é conveniente. O desafio está em encontrar um equilíbrio ideal entre solidariedade e justiça, que sob meu modesto ponto de vista deveriam sempre andar par-e- passo,esempreemsintoniacomocompromissoíntimoquecadaumdenósfezcomseugrupodeconvivência,que ao final, é o seu ponto de convergências de afinidades e de ideais a serem atingidos. São Paulo, 21 de março de 2007 GENÈTICO E HEREDITÀRIO Será que é por isso que te conheço tão bem e ainda nem sei nada de você? Como acho que te entendo, se nem mesmo sei entender a mim mesmo? Será que é por isso que mal te conheço e acho que já sei tanto de você? Como achas que me entendes, se nem sabes me perceber direito? Teus anseios são e hão de ser iguaiszinhos aos meus. Teus passos tão imprecisos, quanto aos que já trilhei um dia.Tuas vontades tão grandes, quanto às que já tive e ainda terei.Tua ansiedade tão imensa, quanto às de toda ahumanidade. É cíclico. Hereditário e altamente genético. O ciclo é o mesmo de anos, de décadas, de milênios... Quanto mais quero decifrar-te, mais me devoro. E te devoro. Ressuscito-me para cada dia adivinhar-te. É genético. Incrivelmente herético e contraditório. O germe é o mesmo de agora, de antes e de sempre... Quanto mais te adivinho, mais há que decifrar-me. E me devoro, te ressuscito, para cada instante escavar-te. Como pode ser, se ainda mal te devoro e já te sinto tanto? Teus desejos são e hão de ser iguaiszinhos aos meus.Teus gestos tão imprecisos, quanto aos que já tateei um dia.Tuas vontades tão insuspeitas, quanto as que já tive e ainda terei.Tua ansiedade tão intensa, quanto a de toda uma existência. Da que já tenho, e da que ainda terei. Marcos Gimenes Salun x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0885
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    86 Marcos Gimenes Salun CARPEDIEM (Para Janaina Rodrigues Freitas, que dia a dia está descobrindo como percorrer as trilhas da conquista e vem se empenhando cada vez mais em busca da felicidade.) Faça deste novo dia um reflexo de ti mesmo. Comece agradecendo ao GrandeArquiteto do Universo pela graça de poder vivê-lo. Perceba em cada detalhe do novo dia a mão do Criador agindo com sabedoria. Respirefundoedeixetuamentesensibilizar-secomosmatizesdacriação.Agradeça…Inspiresuavemente os perfumes do novo dia. Com gratidão e alegria desperte teus objetivos para a jornada que se inicia.Aproveite este momento para conscientizar-te do imenso poder que tens dentro de ti para conduzir os destinos do teu dia. Depoisdessainfalívelcerteza,peçanovamenteaoCriadorparailuminareconduzirastuasvontades.Comece entãoaviver,comcoragemedesprendimento,tuanovaoportunidadedelibertarafelicidadequemoradentrodeti. Saboreie com intensidade todo e qualquer momento que terás em teu dia. Permita-se pequenos desfrutes e alimenteteusmelhoresemaislegítimosdesejosíntimos,semarrependimentosouhesitações. Deixe tua vida transcorrer com naturalidade e paciência. Controle a tua ansiedade e procure superar as adversidades que possam surgir. Caminhe com mansidão pelas trilhas que terá que percorrer e seja prudente, tolerante e fraterno, pois necessitarás destas virtudes em teu percurso. Conceda-se breves momentos de pureza e mansidão, mesmo que isto te pareça desimportante e ainda que te sintas apreensivo ou inseguro. Tua alma sempre anseia e se alegra com a franqueza e com a sinceridade de tuas ações e de teus pensamentos. Mergulheprofundamenteemtimesmoetesentirásreconfortadoaoperceberqueafelicidadequeprocuras estábemmaispertodoqueimaginas. Permita-sesonharcomoshorizontesmaisdistantesqueteusolhospuderem vislumbrareoteuíntimoquiser. Acredite! Mesmo que você desconfie do destino seja perseverante e procure empenhar todos os esforços para realizar teus sonhos. E mesmo quando tua nau pareça querer naufragar nos mares que terás que singrar neste dia preserve a coragem. Consulte o GrandeTimoneiro e confie na Sua decisão. Ele te fará transpor os mares mais revoltos e te conduzirá ao porto mais seguro. E por fim, se dessa forma o teu dia puder transcorrer, tenha certeza que ele arrefecerá doce e suavemente. Terás então, ao fim de mais uma jornada, a alegria de ter cumprido teu dever, de ter sido grato ao Criador e de ter aproveitado teu dia. Setiveresrealizadocomserenidadetodasastuasousadias,terásporfimlibertadoafelicidadequeamanheceu dentro de ti, e que dentro de ti permanecerá até repousares para descansar de tua missão. Carpe Diem !!!! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0986
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    87 Maria de FátimaBarros Calife Batista Médica psiquiatra Recife - PE AFETOS NA FOLIA Afachadadacasaestavadecoradacomfitascoloridasquependiamdoportaldeentrada,aoladodemáscaras sorridentes. O som, ligado nas alturas, parecia anunciar: é proibido pensar, entregue-se à orgia ou procure outro lugar.Elaentroutemerosa.Háalgumtempoperderaohábitodecompartilhardormitório.Mas,estavadeterminada a reconhecer o novo.Afinal a vida a tinha conduzido ao patamar do esvaziamento. Tornou-se urgente localizar o bem estar. O preço era o de menos. Antigos modelos de referência haviam desmoronado, não deixando margem para reconstrução.Tinha de procurar alternativas. Começou por ingerir uma bebida alcoólica para encorajar-se. O corpo respondeu acompanhando o ritmo marcado de modo competente pelos percussionistas da orquestra que animava um bloco a passar na rua. Sentiu-se observada. Fixou o olhar no sujeito que a fitava. Comunicaram-se sem palavras. Ele apanhou sua mão e seguiram o bloco. Amultidãocresciaarrastandoumnúmerocadavezmaiordefoliões,aolongodoitineráriopré-estabelecido pelos organizadores do caos carnavalesco. Encostaram-se numa parede e deixaram a turba amainar. Os olhares se cruzaram, os corpos se uniram, os lábios se tocaram. Sentiu a cabeça rodar e repousou-a no ombro que se oferecia como suporte. Uma onda de calor transitou entre os dois corpos, unindo-os como se fora um. Ana parecia estar sonhando. Uma voz distante entoava uma cantiga que a transportava aos tempos de infância... Cuidado menina, quem é esse forasteiro ao qual estás a entregar-se? Desconheces de onde vem, com quem anda e o que faz em tempos de lucidez. Uma onda de preocupação turva seu raciocínio. Pergunta-se: quais os riscos? – interromper esse idílio e arrepender-se, ou ceder e arrepender-se! - Difícil escolha. Os clarins ensurdecedores de outro bloco se aproxima induzindo o par a voltar para a casa de onde havia partido. Amigos haviam notado sua temporária ausência. Por onde andou,Ana? Estremeceu. Os lábios não articularam um verbo. Olhou sem ver. Espectro errante retornando ao corpo. Piscou os olhos e focou num rosto. O raio do olhar girou na vertical chegando aos pés descalços. Rapidez de um corisco, percebeu o couro de mamute no homem das cavernas. Cabia-lhe como uma luva. Era tão rústico quanto estavabêbado.Ocantoqueentoavapareceuridículo.Anateveumvislumbredecompreensãoelamentou.Sonhar é bem melhor.Aquele abraço fora um ingresso para entrar no Éden. Mas os clarins de Momo lhe acordaram. Só por inveja. Baco e Morfeu serão sempre os maiores. E viva a embriaguês do sonho, do vinho e do carnaval. Recife 06 de março de 2009. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0987
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    88 Maria de FátimaBarros Calife Batista MEDO DO ESCURO É muita coragem...,comentou Antônio dirigindo o olhar para uma mulher de aparência esquálida e postura encurvada. Mas, Zefa reagiu à provocação. Encarou-o com firmeza e disse: Tenho essa cara assim, de boba, mas coragem é o que não me falta. No final do dia, recolheu-se solitária ao quarto úmido, sem estilo definido de ambientação. Apenas os móveis necessários para repousar. Uma cômoda antiga era reservada às poucas mudas de roupa e objetos de uso pessoal.Coisas indispensáveisàhigienediáriaeaomínimodeindumentária,digna deumapessoaprodutiva. Recostou o dorso no colchão, de consistência duvidosa, e soltou o pensamento. Semrédeas,comdestinoliberado,asideiasforampararnoterritórioda maistenrainfância.Lembrouque muitas vezes, por desafio, enfrentou a escuridão de um quarto, povoada de fantasmas referidos pelos irmãos, pois precisava provar para si mesma que venceria o medo. Medo das sombras que a noite permanente do cômodo escondia. Do contrário não conseguiria mais dormir e, se o fizesse, teria pesadelos tenebrosos. Essa estratégia funcionava como se domasse um animal selvagem e o banisse dos territórios insondáveis onde estão plantadas as raízes do temor. Sentia-se então fortalecida e poderia estender essa condição por alguns dias. O segredo era não deixar quebrar-se o encanto. Foiassimqueaconteceunanoiteemquedespertoudeumsonhoepercebeuumvultoseencaminhandona direção do seu leito. Pelos contornos mal definidos, parecia ser masculino, a julgar pela ausência de pernas à mostra e cabelos longos, como era costume as mulheres usarem na época. Balbuciou em voz alta: Papai...? Não ouvindoresposta,fechounovamenteosolhoscomdeterminaçãoesóveio areabri-losnamanhãseguinte,quando foi sacudida pela mãe. Estava na hora de ir para a escola. Estudava num colégio público e qualquer deslize seria fatal para a manutenção da vaga, conquistada por mérito. Era inteligente e mantinha uma caderneta sem notas vermelhas. Essafórmulamágicadefecharosolhosquandoomedoaassaltava,acompanhariaseusatosatéamaturidade, sendo contabilizada como item de sabedoria que se conquistou. Os progressos vinham sempre em troca de esforços, embalados pelo sonho de um dia alcançar a liberdade de ser uma mulher independente. Transportou-se para territórios desconhecidos, enfrentou os desafios da cidade grande e venceu. Certa vez, chegaram de mansinho as sombras do passado.Ao atravessar a avenida, corretamente posicionada na faixa de pedestres, ouviu o som de uma buzina atordoante. Os faróis de milha a encandearam. Sentiu tonturas. Fechou os olhos com determinação na esperança de acordar em paz. Ouviu apenas umavozmasculinabalbuciandoaoseuouvido:Dormefilha. O ABISMO DOS TEUS OLHOS Paulaarregalouosolhos,comdificuldadeparaentenderoquePedrofalava,nummomento,aseuver,tão inapropriado. Estavam curtindo as preliminares do embate que os levaria ao gozo em pouco tempo. Desde que ele iniciara as aulas do curso de psicologia, ficara assim, querendo a qualquer preço pôr à prova a última lição ouvida emsala. Dessavez,surpreendeu-acomaexplosivarevelação:ninguémseapaixonapelooutro.Oobjetoaparente do desejo que está a nossa frente, na verdade não é o que se vê, que se toca e muito menos se deseja. É mero representante da imagem ideal que construímos e não paramos de buscar no mundo, vida afora. Naquelanoitedeinverno,obarulhodachuvasomava-seaossibilosprovocadospeloventoqueesgueirava- seporentreasfrestasdavidraçascausando-lhesarrepios.MasPedrodisfarçavafingindo-seincólumeàsvariações climáticaseinsistia: Aqueleolharquenosdesarmaésimplesmenteumpálidoreflexodenósmesmos.Nossosprópriosimpulsos, às vezes tão intensos que nos expõem ao constrangimento, se apoiam no espelho do olhar do outro. Por isso, quando digo que te amo, estou amando alguém que não és tu nem ninguém do mundo objetivo. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0988
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    89 Osdesentendimentosentrecasaisqueaprincípiopareciamapaixonadosestãorelacionadosàincapacidade de reconhecer queo verdadeiro outro é inacessível. Paula, tremendo de frio, caminhava na contramão dos seus desejos e revidava, provocante:Ah, entendi, entãoquandosintovontadedeteengolirinteiro,pensaquetudoissoéatraçãoporti?Claroquenão,seupresunçoso! Tenho mais é que comemorar esse novo saber por adesão! Enquanto dizia, as ações de Paula desfaziam o sentido das palavras ditas. Fingindo acomodar melhor o corpo largado sem cuidado na diagonal da alcova, se encostava no calor que emanava do corpanzil de Pedro sinalizadordaânsiapelaconjunção. Porém, persiste em mim a dúvida. Por que me olhas desse jeito, se não sou mais que uma tela em branco, ondeprojetasteusdesejos?Atéentão,nãopermitistecontemplartuanudez,tocar-teetesentirpulsar.Dasmisteriosas artimanhas funcionais e dos detalhes anatômicos escondidos de teu corpo, ainda não conheço. Falava e as mãos agiam com sutileza de gazela. Os dedos percorriam saliências e reentrâncias parecendo apropriar-se sem saber se eram suas, ou do Pedro, curvas macias de um ardor crescente. Porquemeolhasdessejeito,seaindanãousufruímosdosgozossensuaisanunciados?Nãosabesqueum olhar tão insistente pode despertar fantasmas de amores clandestinos nunca experimentados? Se não crês que exista um deus que julgue e que condene a lascívia, por que temer castigo? O peito arfava enquanto persistia: O aprisionamento afetivo seria uma pena tão difícil de cumprir?Anobreza de um amor compartilhado te apavora? Para aqueles que fogem do amor antes de desfrutá-lo existe um nome que aliás te cai como uma luva: covarde.Aquele que foge de um campo de batalha pelo medo de morrer ainda que essa morte seja de um suposto amor. Contudo, há um lugar só acessível a quem viveu determinada experiência, o acervo da nossa própria memória. No nosso caso, por exemplo, esse território me pertence e jamais será visitado por ti. Não importa o que acontecequandonosencontramos,nopresente.Hásempreumaduplicidadeemjogo.Omomentoreal,compartilhado e a fantasia pessoal que pode ser bem diferente para cada um dos pares. Pedro, num lampejo de bom senso e gestos bruscos, dispensou lençóis e demais acessórios. Percebeu quenessetomdeconversanãochegariamaosreaisobjetivos.Denotandopercebernasentrelinhasasutilcobrança daexplosãodeumavirilidadeatéentãoretraída,enlaçouaamantecomfirmezaeretomouospassosinterrompidos peladiscussãoinócua.Ateoriaerasupérflua,sendoadiadaparaumdiaemqueapaixãoestivessemaisesmorecida. Fez-se silêncio e gozo no recinto. Maria de Fátima Barros Calife Batista x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0989
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    90 Maria do CéuCoutinho Louzã Relações Públicas São Paulo - SP DEVANEIOS EM VERMELHO Ela olhou para o relógio pela centésima vez. Saíra do banho e enrolada no seu roupão, olhou mais uma vez para a sala para ver se tudo estava arrumado. Na mesa da sala um arranjo com flores e duas velas vermelhas que logo seriam acesas. Enquanto escolhia dois cálices de cristal lapidados, pensava que licor deveria servir. De chocolate ou o Cherry. Pensou e decidiu pelo últimoEraligeiramenteácido,deumtomvermelhomuitolindocombinariacomasvelas.Porém,talvezfossemais modernoumvinhotintoqueestavaguardadoparaumaocasiãoespecial.Não...Estavatãoindecisa!Deixariapara mais tarde a escolha. Indecisa também olhou para o guarda roupa. Não sabia qual vestido colocar.Vestiria o pretinho básico, ou talvez o verde .... “Não... Pensando melhor o vermelho era mais bonito e contrastava com sua pele clara. O vermelho é uma cor quente, dizem que representaapaixãoeelapensouquepoderiaapaixonar-senovamente. Mas não deveria criar expectativas.Talvez ele não viesse. Como seria sua vida? E que compromissos teria?” Enquanto se arrumava, recordou a sua juventude quando, por volta dos catorze anos, conheceu um rapaz queestavahápoucotemponoBrasilevieraestudarnomesmocolégio.Eledespertavamuitacuriosidadeemtodos osalunos.Eraitaliano mas falavainglêsmuitobem.Opaivieratrabalharemuma multinacionaleafamíliaestava morando no Brasil há pouco tempo. Alto, cabelos muito pretos e dentes, que por serem muito brancos destacavam –se no rosto moreno. As garotas pareciam extasiadas diante do que parecia ser uma raridade. Por alguns anos foram colegas num convívio demuitaamizadeequeatépareciaterminaremromance.Elaoajudaramuitasvezesnasdificuldadescomalíngua. Mas o destino separou-os quando cada um foi estudar em diferentes faculdades.Assim o convívio que tinha sido muito constante foi aos poucos se distanciando. Perderam todo o contato. Enquanto retocava os lábios com batom vermelho, pensou como a sua vida tivera um desenrolar muito diferente do que imaginara. Casara-se com um colega da faculdade, que trabalhando num banco foi transferido e foram morar num país daAmérica Central. O casamento durou pouco. Certo dia, ao chegar em casa, pasmada encontrou um envelope com dinheiro para sua passagem de volta e um bilhete lacônico onde ele pedia desculpas, masquenãopoderiamcontinuarjuntos.Eletransferidoparaoutropaís,decidiraqueaseparaçãoseriamelhorpara ambosApós a surpresa e o desgosto viu que tinha que organizar sua vida novamente. Se tudo fora tão efêmero o melhorerarecomeçar.Assimsonhosdesfeitose malasfeitas,voltouparapertodesuafamília.Eraprecisoencontrar umnovocaminhoeserfeliznovamente. Começoutentandoencontrarumemprego, quando certodialeunumarevistadenegóciosumareportagem daquele que, no passado, ainda muito jovem, parecia vê-la com olhar diferente de todos. Será que ela não quisera entender ou ele fora tímido para se declarar? Seria possível revê-lo? Pensou e não resistindo procurou de todas as maneiras descobrir como contatá-lo.Ao telefonar sentiu bater seu coração mais forte. Ele simpático, foi logo dizendo que queria vê-la, saber o que fazia, onde morava. - Sim podemos nos encontrar. E o convite foi feito e data marcada para encontrá-la. O dia chegou e agora pronta, maquiada, sentindo-se qual adolescente sonhadora, olhou mais uma vez para a sala. Estava emocionada e ao mesmo tempo tinha medo de que ele já não tivesse aquele mesmo interesse demonstradoquandocolegas.Afinalelajánãoeraaquelaadolescentequeeletantoolharaebuscaraasuacompanhia com o interesse maior de um jovem, mas que não conseguira ou não quisera demonstrar. Tudo estava lindo e preparado para um futuro de surpresas ou talvez um novo romance. Havia avisado o porteiro da chegada de sua visita.Assim ao ouvir a campainha correu para abrir a porta. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0990
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    91 Eraelemesmo.Aquelequeumdiademonstraratantointeresseporelaequeelatalveznãotivessepercebido. Sentiu o ruborde suas faces e o coração bater desordenadamente. Parecia mais alto, elegante num terno escuro. Os cabelos um pouco grisalhos nas têmporas.Aqueles mesmos olhos negros e profundos, aquele mesmo sorriso tão simpático! E nas mãos... um buquê de rosas vermelhas. FOGOS DE ARTIFÍCIO A noite chegava mansinha após um lindo dia quente de verão, e ainda deixava no céu os rastros vermelhos deumsolqueseescondiapreguiçoso,atrásdomorro.Noaltojápiscavamalgumasestrelinhasmarotas einsistentes. Num banco do jardim da praia, onde uma brisa calma balançava as folhas dos coqueiros, dormia profundamente um garoto, de uns oito ou nove anos, com short e camiseta um tanto grandes para o seu tamanho e nos pés sandálias de borracha muito gastas. Mesmo dormindo segurava um saco cheio de latas vazias. Era o fruto do seu trabalho realizado por toda a tarde, daquele que era o último dia do ano. Adamastor ouTosinho, o seu apelido, saíra do seu barraco lá pelo meio dia, com inúmeras recomendações desuamãe,quepareciamentrarporumouvidoesairpelooutro:nãoficarparado,nãoconversarcomdesconhecidos, nãojogarbola,nãoentrarnomarevoltarantesdoescurecer.EassimTosinhodesceuomorro,atravessouumtúnel para encurtar caminho e andou tranqüilo até a praia. “O dia está bonito vai ter muita gente e muita latinha para recolher”, pensou consigo mesmo. Tinha nove para dez anos, mas era pequeno para sua idade. O mais velho de quatro irmãos, tinha vindo do interior de um estado do norte, com a família, que ambicionava melhorar a vida no Guarujá.Passadopouco tempoopaiviajouparasuacidadeenuncamaisvoltou.Coubeàmãetodoosacrifíciode criar e sustentar a família, com o seu trabalho de lavar roupa para fora e limpar apartamentos. DuranteatardeTosinhocaminhoupelomeiodasbarracas,mesinhas,recolhendolatasdecervejaerefrigerante. Ganhou uma espiga de milho da dona de um carrinho estacionado no meio dos guarda-sóis. Comeu um pedaço de sanduíche de lingüiça que alguém lhe havia dado e bebera um bocado de sobras das latas recolhidas. Parou para olhar um grupo jogando bola, foi até a beirada da praia para brincar nas ondas, que irrequietas despejavam uma espuma branca nos seus pés e pensou em como seria bom poder passear naqueles barcos parados ali tão perto... Cansado foi sentar-se num banco da calçada e com os pés foi amassando as latas recolhidas. A tarde passara depressa e ele ouvia falar que por ser o último dia do ano, era dia dos fogos, e que ia ser uma linda festa. Imaginava se os fogos seriam como os rojões das festas do santo padroeiro da sua cidade. Sentia sono.Atarde passara depressa e cansado adormeceu sobre o banco do jardim. Pela praia iam chegando pessoas de todas as idades. Expressavam alegria e se preparavam para festejar, com esperanças de melhores tempos, a passagem de mais um ano em suas vidas. Traziam bancos, cadeiras, garrafas de champanhe e copos para brindar e principalmente muita animação. E assim a praia, as calçadas foram ficando lotadas.Ao longe no mar várias barcaças indicavam o grande espetáculo prometido para a passagem de maisumano. De repente Tosinho, acordou com um estouro ensurdecedor. Era meia noite. Das barcaças ao largo no mar subiam osmaislindosfogosqueelenuncapodiaimaginar.Pensou quetudoaquiloeraumsonho:bolasdefogoque subindo até o céu se desmanchavam em estrelas, enfeitando o escuro do céu ou então como rastros de luz que faziamcairlágrimascoloridasquedesapareciamnomar,nofimdohorizonte.Luzescoloridasesonsensurdecedores subiam rapidamente e estouravam, colorindo a noite ao longe. As pessoas se abraçavam, se cumprimentavam efusivamente. Ouviam-se gritos de admiração e todos aplaudiam com palmas e exclamações de alegria. Fora um momentomágicoemuitolindo.Mas,tãoderepentecomohaviacomeçado,oencantamentoacabou.Eomantoda noite escureceu novamente o céu.Aos poucos a multidão se dispersava. Tosinho, ainda meio tonto e assustado, rapidamente apanhou o saco de latinhas, e pensando na surra que o esperava, iniciou a volta para o seu barraco. Maria do Céu Coutinho Louzã x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0991
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    92 Mário de MelloFaro Médico pneumologista São Paulo - SP DIREITOS E DEVERES Qualquerquesejaoagrupamentohumanotrabalhador,direitosedeveresestãoimplícitosásuaatividadee á sua forma de conduta. Assim,umempregado,umoperário,umprofissionalliberal,enfim,umtrabalhador“latusensu”,recebeuma remuneração de acordo com o seu trabalho, produção e resultados. Se o trabalhador não corresponder ás expectativas e não cumprir as horas previstas, não produzindo satisfatoriamente,sóháumcaminhoaseguir...primeiroumaadvertênciaparamaiorprodução,chegandoaosníveis exigidos e acordados... caso contrario, a exoneração imediata, por não atender ás necessidades da empresa, entidadeouinstituição. Essas são as regras básicas que regem a relação e a “status” empregado / empregador. Entretanto,essesprincípioselementares,nãoafetamos”trabalhadores”docongressoedosórgãoslegislativos em geral, quer contratados ou eleitos. Ora, dentro dessa linha de raciocínio, os componentes não são empregados, mas eleitos... e como eleitos, devem responsabilidades á um determinado agrupamento que o elegeu. Todavia,opolíticoeleito,comrarasexceções,nãoproduzosuficiente,tendoentretanto,saláriospolpudos, fériasprolongadas,assistênciamédica,secretariasauxiliares,restauranteetransportesubvencionados,cabeleireiro e manicure próprios, tem moradia e aposentadoria precoce... até um Incor dentro do congresso. É muita regalia... a soma de todas utilidades representa um onus muito grande para o povo em geral. As leis não são feitas, , as CPIS se arrastam pelos corredores do plenário e o povo... não tem moradia digna, não tem emprego, não tem assistência medica adequada e passa fome. Não há estabelecimentos de ensino suficientes, e as Febens da vida... repleta de adolescentes, candidatos á bandidos. Mata-se com muita facilidade. Os favelados continuam amontoados em caixas de papelão ou de madeira, prontas a ruir no primeiro temporal. E os sem terra querem a terra, mas não querem o trabalho. Pergunto então... onde estão os nossos poderes, para reduzir ou solucionar tanta injustiça social e tantas irregularidades. A classe assalariada, que não é das maiores, tem forte tributação, representando aproximadamente, 40% da sua receita, em impostos variados, enquanto que o legislativo, pouco produz, apesar das horas extras, e no fim do mês, recebe polpuda quantia, mesmo sem trabalhar. Há exceções, todavia... repito. Éumainjustiçaasercorrigida,pelousodovoto,quandopossível,ouaceita...comoummalnecessário,até nova ordem. Digamos que, a sobrevivência dos políticos, depende mais dos arranjos destinados a manter o seu “curral eleitoral”, do que, o trabalho em beneficio dos menos favorecidos. Lamentavelmente, o povo ainda desconhece o poder do voto, que o permitiria realizar modificações nesse “modus vivendi”. Onossopovoaindaésub-nutrido,portadordeinúmerasmoléstiascrônicas,analfabetoousemi-alfabetizado, vivendo das “esmolas” que o governo concede como beneficio, pelo fato de ser miserável... bolsa família e outras dádivassemelhanteseeleitoreiras. Quando há harmonia entre direitos e deveres, surge a “Justiça Social”, equilibrando seus valores e transformando indivíduos, em peças agressivas de um jogo de xadrez produtivo. Fato esse que ocorre, quando há empregos á disposição e largamente. Contudo, grande parte da população depende da economia informal, que por falta de empregos dignos, vive á margem da sociedade, procurando produzir recursos, participando desse comercio, sem estabilidade, não gerando tributos para o bem da coletividade. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0992
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    93 Hávariasmanifestaçõesescritas,dedistintosjornalistasouarticulistas,formadoresdeopinião,emtornodo comportamento do governo,do congresso e de membros da administração publica, que passamos a divulgar. - “A crise continúa, porque os políticos são os de sempre, manipuladores da conciência do eleitor”. - “O povo sofre... e o que pode fazer... não votar; entretanto, através de benesses individuais, os currais eleitorais são mantidos... compra-se o voto, através de favores concedidos”. -“Umareuniãodocongresso,assemelha-se,áumcirco,ondetodososparticipantessãoartistasderenome, ficando o povo... com o papel de palhaço”. - “Alguns lideres do governo, custam a cair... mas, caem tal é o volume das irregularidades. Onde estão os vários programas, tipo Bolsa Escola, Saúde e outros... estão no fundo do copo, como promessas a não serem cumpridas”. - “Vivemos uma verdadeira truculência, onde o desrespeito ás leis é a regra”. - “Não há ética... palavra inexistente, e, quando presente, foge muito da Ética de Platão”. - “É pena, este pais tem tudo para ser... mas, não é... choremos um pouco”. Estavaabsolutamentecerto,oantigoancoradaGlobo,jornalistaBorisKasoy,queterminavaseusprogramas com a frase seguinte... “isso é uma vergonha... devemos passar a limpo”. CRONOGRAMA DE VIDA Nascer é um acontecimento inédito... resultado da fusão de um ovulo com um espermatozóide... somente um, via de regra e nada mais... para começar uma vida... e são tantos. Vida essa repleta de incógnitas e gratificações, com geração de aparelhos e sistemas... saturados de progesterona ou testosterona, que vão condicionando os componentes do ser em evolução. É,aomesmotempo,umatocomum,poisacontececomtodasasfêmeasemachos.Entretanto,somente os humanos tem certa categoria de dores e desconforto, que vão se formando e acumulando, para no final da gestação, explodirem como se fossem uma bomba com hora marcada para detonar, com rompimento da bolsa aminiótica,desprendimentodaplacenta,ligaduradocordãoumbilical,chorocomentradadearnopulmão–enfim, éumnovoserquepassaamamar,dormir,chorar,defecar,vomitar,tercólicas,acordarlevandoospaisinexperientes, háumgrandeterroreexpectativa,atéqueosacontecimentostornem-seatosderotina.Orecémnascidotransforma- se em criança, esta em adolescente e em seguida adulto, participando de nova cadeia produtiva. E, assim, a vida continua... O PASSAPORTE O passaporte representa um mecanismo criado para estabelecer barreiras físicas e por vezes, culturais e ideológicas, restringindo e dificultando o livre acesso de pessoas indesejáveis ou nocivas á determinados paises. Dessa maneira, garantindo a soberania e segurança dos nativos dessa suposta nação, respeitando todavia, atributosespecíficos,taiscomo:-hábitos,costumes,eficiência,organização,padronização,produtividadeeidiomas – condições altamente prevalentes e diferenciadas. Aolongodotempo,ovocábulopassouatermaioreamplautilização,agoraunindo-seádiferentessegmentos de grupos representativos da sociedade vigente, criando novas imagens simbólicas, aplicadas á setores grupais da mesmaouseja–dáAlegria,doAmor,daJuventude,daGastronomia,doMeioAmbiente,doMercosul,daPaz,do Turismo,daSaúde,doSucessoedoVerde,entreáreasdoconhecimentohumano,aproximandoobjetivos,transpondo barreiras e eliminando posições adversas. Essa plêiade de passaportes, tem sido um verdadeiro “abre-te sesamo”, entre varias destinações e por derradeiro,facilitador...contrariamenteaoinicialdescrito,decunhoimpeditivoefundamentalmenterestritivo. Mário de Mello Faro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0993
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    94 Para completar oconjunto das finalidades arroladas, estariam faltando ainda, dois importantes rótulos... a criação do Passaporte da Mente e o Passaporte do DNA. O primeiro , seria então, aquele que viria promover vínculos estreitos entre os vários segmentos da mente humana, permitindoentão,queascondiçõesespecificasexistentes,pudessemporcaminhostortuososediversificados da memória, serem levados a distintos recantos da massa cinzenta, assegurando a comunicação de informações entreascélulasneurais. Assim, criando condições intimas entre cérebro e cerebelo, através do encontro de sinapses ligadoras e transportadoras de impulsos e sentimentos, ou sejam... audição, gustação, olfato, tato e visão, carregando no seu bojo... alegria, satisfação, desespero, dor, duvida, critica, pesar e outros mecanismos de caráter sensorial. O conteúdo e o comportamento da mente, sempre foi uma incógnita severa e muito intrigante. Não são muitas, as pessoas que conseguem subjugar corretamente esse mistério... que é a mente humana. A cada momento, o cérebro transforma-se numa caixa de surprêsas, revelando dados inesperados, que levamaumseumaiorconhecimento. Desde os tempos de Sigmund Freud ( 1856-1939), um dos pioneiros no seu conhecimento, derrubando uma serie de conceitos errôneos, visualizando sinais e sintomas da mente comprometida e enferma. Recentemente,aimplantaçãodeelétrodosnocérebro,permitiualteraroseucomportamento,revitalizando regiõesafetadas.Noentanto,autilizaçãorotineiradatomografiacerebraledaressonânciamagnética,permitiriam identificarproblemasorgânicos,queestejamafetandoamassacerebral,comconseqüentesdistúrbiospróximoseá distância. Por outro lado, o Passaporte do DNA, seria aquele representativo da bagagem genética hereditária do ser humano, espelhando as suas origens, desde épocas remotas até os nossos dias, mediante o estudo do seu estado genético. O DNA humano sofreu grandes e numerosas mudanças, nesses últimos milhares de anos, em inúmeros atributos,entreosquais,atitulodeexemplificação,estãoometabolismo,acoloraçãodapeleeodesenvolvimento da massa cerebral, em tamanho, como conseqüência da vida em sociedade e da evolução da agricultura. O ser humano deixou de ser nômade caçador, passando a viver da agricultura, desenvolvendo uma vida relativamente sedentária. Modernamente,comaajudadecomputadores,foiprocuradonoantrogenômicodoserhumano,variações produtivas eficientes, que o levariam a viver mais e gerar descendentes mais perfeitos. É a denominada seleção natural, proposta por Darwin e Russel, já em 1858, alavancando a evolução das espécies. O estudo do DNAhumano, prevendo através do seu passado, um futuro promissor, moldado de forma que mediante, ao rearranjo dos mitocôndrios, possa o seu código genético, ser modificado com a introdução de novos fatores e a eliminação dos fatores danosos. Ofuturoéumaincógnita,masaprevisãodemodificaçõesearranjosnos“gens”,poderámelhoraraqualidade de vida do ser humano. O tempo será o parceiro primordial dessas descobertas revolucionarias. A seleção natural foi à forma encontrada pelo homem, para enfrentar a competição, doenças e outros problemasvariados,taiscomo,asmoléstiastransmissíveisegenéticas. Os mais fortes sobreviveram, gerando caracteres positivos / produtivos para as gerações futuras. Quando uma variação competitiva do DNA é selecionada em favor de outras, ela prevalece e se torna comum nos descendentes posteriores, passando a ser fator definitivo. Entretanto, há novas tecnologias, em distintas áreas, que estão a ampliar o campo cientifico, entre as quais podemos citar, o estudo das células tronco embrionárias, objetivando regenerar tecidos e órgãos lesados. Casa vez mais, os estudiosos, delimitam as áreas conhecidas, que gerenciam funções especificas. Por outro lado, os portadores de deficiências mentais, conseqüentes de distúrbios endocrinologicos e genéticos,podemserdetectados,aonascer,atravésdo“testedospesinhos”,recursoquepermiteidentificardoenças como,síndromedeDown,fenilcetonuria,hipotireoidismocongênitoedoençadeAlzheimer. É a ciência ha disposição do homem. Mário de Mello Faro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0994
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    95 Mercedes Gomes Empresária Luanda -Angola QUANDO… (10-02-2006) Quando nossas estradas se alinharem haja nos céus aplausos de todos os anjos bons! Que não haja rogos nem lágrimas, nemlamentações, nemescombros, que nossos carinhos sejam somente nossos edelesninguémpartilhe. Que não haja perguntas, sem respostas, que sejamos um para o outro o tesouro a ser escondido em nossos corações. Quando nossas estradas se encontrarem não haja abandonos nemmalentendidos. Que haja tão-somente sonhos, satisfações, alegrias e doces afagos. Sempre que necessário, haja tolerância e perdão… Quando nossas estradas se cruzarem, sejas para mim o meu oásis e eu para ti o teu refúgio. Que nossas mãos estejam sempre unidas e nossas almas sempre alinhadas, correndo ou andando pela mesma estrada! Assim deverá ser quando nossas estradas de vida se unirem, transformando-senumúnicocaminho a nos levar à plenitude do amor!... Não seja esta página a primeira, segunda ou terceira, masaúltimadoLivrodeSentimentos que escrevermos nesta vida! Por nossa comum e soberana vontade, seja o epílogo desta história de amor Aunião de “tu mais eu”. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0995
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    96 Mercedes Gomes CANTIGA DENINAR LUANDA (2004) Luanda, para ti, canto nesta madrugada! Transporto-me ao Cosmo, junto aos céus e às estrelas, em espírito, pelas mãos de Deus! Poeto para ti, Luanda, levada pelo teu vento, acariciada pela tua aragem, alimentadapeloteuar. Danço o bailado de tuas aves envolvendo-menofarfalhardetuaflora. Poeto para ti, Luanda, no esplendor de tuas areias, imaginandominhapresençaemtuavida… Contemplo-te entre dois gigantes oceanos e viajo pelos teus lindos e caudalosos rios a banhar tuas terras grandemente férteis, adentrando por tuas entranhas e caindo, lindamente, em cascatas deinigualávelbeleza, comoasimbolizar ofinaldeumalinhadevida cheia de tristes holocaustos, e o reinício em outro sinuoso e lindo patamar de vida. Luanda amada e querida, poeto para a lembrança de tuas memórias e para tua soberana humildade. Canto poetando e poeto cantando para tua presença em África. Poeto para tua realidade, teus sonhos, tuas esperanças, ouvindoasmúsicasquemetrazemàlembrança o teu passado afectuoso, quando do holocausto de teu povo escravizado! Poeto para os teus “bens” maiores: tua grandeza e soberania; teu poder de renascimento e reconstrução; para o brio idealista de teu povo; para a valentia de tuas ForçasArmadas; para a simplicidade de teus mestres, artistas, políticosidealistas e empresários desbravadores de oportunidades; para a força e coragem de tuas mulheres; para o sorriso alegre de tuas crianças. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0996
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    97 Mercedes Gomes Poeto parati, Luanda, em cada acorde musical quemetrazavisualização de teu glorioso porvir. No futuro, outros poemas para ti farei, preciosos, sinceros e eloqüentes, porqueestarásinteirinha inseridaemseuscontextos. Serás a encarnação viva do meu carinho e de minha poesia. E após esta entrega singela e inteira, do meu cântico de amor e respeito a ti, Luanda, somente o SILÊNCIO que é a cinza da poesia e a ESPERANÇA que é o último suspiro do amor, poderão dar continuidade a este poema, sem a tristeza de teus escombros e com a alegria de teu renascimento e reconstrução, PORQUE ESTA É A VONTADE DE DEUS UM POUCO DE TI… (20-05-2006) Um pouco de ti, umpoucodemim, e muito de nós… Não posso abraçar as águas oceânicas, nem tu podes correr atrás do vento, mas, podemos construir sonhos… Não posso dar forma às flores, nem tu podes dar-lhes o perfume, mas podemos vê-las e sentir seu aroma… Não posso caminhar no desconhecido, nem tu o podes, mas, como já o disse o poeta “Juan de Monte Serrat”, “Caminando, se hace el camino”! Ninguém chega a alguém por acaso. Em tudo há um propósito, as vezes por nós desconhecido. A coragem, põe o mundo nas mãos daqueles que ousam sonhar e correr o risco de viver seus sonhos, cada qual de nós com seus próprios talentos. Quero viver o meu, quero também, que vivas o teu… x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0997
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    98 Sabes por que? Porquequando tenho frio, tu tens o calor que me aquece. Se tenho alegria, dou-ta porque tens o sorriso; se te procuro com lágrimas, tens o lenço; se te faço versos, tu tens a música; se tenho dor, tens o curativo; se tenho palavras para dizer, tens ouvidos para me ouvir; se tenho fome, tu tens o alimento; se tenho beijos para ti, tens o mel para mim; se as dúvidas me cercam, teudiscernimentomeilumina; se me transformo em uma orquestra, tutetransformasnumafesta; se tenho desanimo, tu me dás o estímulo; se as fantasias me tomam, tu me mostras a realidade; se o desespero me invade a alma, tumetransmitesserenidade; se tenho entusiasmo, tu tens o brilho; quando te faço conhecer meus segredos, tu me mostras a nossa cumplicidade; se o tumulto me rodeia, tuacalmameenvolve; se te procuro com confiança, tu me retornas com FORÇA!; se em algum instante da vida, o medo se faz presente, o teu amor me faz destemida guerreira… Só nos resta, a saber: Por que viemos? Onde estamos? Para onde vamos? Não tenho tais respostas E tu, as tem? Mercedes Gomes x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0998
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    99 Miguel Ángel Manzi Médico BuenosAires - Argentina EL ABANDONO Sintiópenaporél,muchapena.Lovioahísolo,abandonado…esperándola.Cuántasvecesélhabíaestado asolasconella.Aunquehubierahabidomuchagenteporallí,cercaolejos,rodeándolos;igualhabíaestadoasolas conella. El resto del mundo, de las personas –conocidas o no – no les importaban; ellos estaban solos siempre. Absolutamente unidos, en una simbiosis intermitente, inigualable, insuperable. En todo caso eran ellos, en cierto modo los que inundaban e invadían a los demás con su presencia. Ellaapretabafuertementesuslabioscontraél,cadavezqueseleacercaba,sinexcepción.Nohabíadesmayos, no había claudicaciones, no había acostumbramiento ni aburrimiento. No existía la rutina por más que se repitiera indefinidamente la escena, el acto.Ambos lo vivían con inalterable intensidad; como había sido la primera vez, o quizáscomosifueraaserlaúltima. ¿Los demás los envidiaban? Muchas veces se habían formulado ambos mutuamente esa pregunta. No sabíanlarespuesta.Tampocosehabíanatrevidonuncaamanifestarlaenvozalta.Enrealidadcarecíadeimportancia. Sí,loúnicoimportante,vitalytrascendenteeraquedesdesiempre,omejordichodesdesumástempranaadolescencia; habíanestadounidos,íntimamenteentrelazados,enunaconjunciónenfermizaimposibledeseparar. Pero… ¿y ahora qué? ¿Qué había pasado? ¿Porqué ella intentaba dejarlo, abandonarlo? ¿Era cierto? Ella nolehabíadichonada,peroéllointuía.Aunque…noqueríapreguntárselo.¿Sehabíainvertidolaclásicaytradicional intuiciónfemenina?¿Eraélestavezelqueintuía?Podíaser.Lociertoesqueellahabíaempezadoanocomportarse como antes, como siempre. Ya no se dejaba llevar por esos irrefrenables arrebatos, cuando corría a tomarlo entre sus manos, a besarlo frenéticamente y a confundir su aliento con el de él; para luego exhalar un profundo suspiro de satisfacción, y después ese contacto amoroso que continuaba, que se repetía con sus interminables suspiros; hasta el final, hasta acabarconeseritoreiterado,quedejabaaambossatisfechos,trashaberlodisfrutadoplenamente,consusensación delasitudyrelajaciónindescriptibles. Pero ¿y ahora qué? Ella lo miraba ansiosamente, -al menos eso creía él- estaba “casi” seguro; pero por alguna razón no se le acercaba, no corría hacia donde estaba él como siempre para tomarlo entre sus manos y… Eraevidentequealgohabíaacontecido.Ellaintentabadejarlo;¿peroporqué?Élnolehabíahechonada.Se comportaba como de costumbre. ¿Teníaellaotroamante?¿Deseabacambiarloporalguien?Podíaser,pero…¿porquién?¿poralgún“negro” fuerte, o por otro rubio? Pero ¿cómo? ¿cuándo? ¿Cómo y cuándo podía siquiera haber conocido a su hipotético rival?Siellosestabansiemprejuntos,fundidos;todoeldíaylanoche…bueno;exceptocuandodormían.Peroeso era lógico.Tenían que descansar como todo el mundo. Aún así, ya era claro.Aunque no quisiera aceptarlo ni en sus peores sueños, ella se estaba alejando, cada vez acudía menos a buscarlo, cada vez necesitaba menos de su compañía. No veía que estuviera con otro, pero lo que sí veía era que se distanciaba de él. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0999
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    100 Miguel Ángel Manzi Finalmente,deapoco,dolorosamente,soportandounainterminableagonía;comprobóimpotente,indefenso, inerme,comoellalentamenteloabandonaba. Eseamor que los había unido, etéreo, con su perfume único, con su aroma insuperable, se esfumaba en los vahosdeldestino,enelhumoimperceptibledelanada,enlasvolutasembriagadorasdesuhechizo;esehechizoque los había cautivado durante años, durante muchos años; durante casi toda su vida; casi desde que abandonaran su niñez para ingresar en ese sueño vertiginoso pletórico de mareos de la adolescencia. Pensó como se sentiría ella. ¿Sufriría? ¿Sufriría el mismo dolor que estaba padeciendo él? Paraayudarseaaveriguarlointentóvolvereltiempoatrás;rememorarsusprimerasveces.Preguntarlesiella como él… recordaba con nostalgia los viejos tiempos de sus primeros encuentros plagados de temor, furtivos, escondiéndoseparaquenoseenteraransuspadres.Laemociónquelosembargaba durantesusrelacionesiniciales; cómo latía su corazón golpeándole en el pecho; y cómo después de ello quedaba relajada, distendida, disfrutando su aventura. Y cómo luego, cuando sus padres finalmente se enteraron debió afrontar estoicamente las duras reprimendas, las –para ella- incomprensivas críticas y aún así resistir e ir consolidando en el tiempo su unión indisoluble. Preguntarle si ella recordaba cómo él la había acompañado a todas partes, adonde fuera. Cómo a veces iba informalycomúnmentevestido;yotrasderigurosaetiqueta,lujosamenteenfrascadoensustrajesdegalay…cómo ella tambiénlohabíaseguido,incansable,fiel,incondicional. Recordarlecómoseregodeabapaseando portodaspartesconélasuladosumiso,entregadoyagradecido, sinquejas,enobedientesilencio. Recordarle… cuántas veces había encendido esa pasión, ese fuego en él; que ardía como brasas en su corazón y en su piel, consumiéndolo con voracidad una y otra vez… mil veces. Tal vez eso le hubiera ayudado a comprender lo incomprensible. Pero no lo hizo. No le preguntó nada. Se rindió. Intuía -¿sabía?- que no había retorno, que el desenlace inexorable lo acechaba. Finalmente ese instante supremo, ese momento no deseado, muy a pesar suyo se acercó peligrosamente: ella lo miraba desde lejos, indiferente; no se aproximaba.Ymás tarde… en un acto de lacerante dolor, como si firmara y sellara su divorcio, su separación, su muerte, sus exequias; todo junto y sumado; tras tomarlo entre sus manos,ledijo: -Ésta es la última vez que vamos a estar juntos. Él no pudo pronunciar palabra alguna. Dejó que lo tomara entre sus manos. Esos dedos estilizados de una de sus manos que tantas veces lo habían capturado y apretado amorosamente, hasta llevarlo al contacto con sus labios,volvíanahacerlo;mientrasqueconlosdedosdesuotramanoencendíapóstumamentesupasión,suhoguera. Con ella prendió ese fuego que lo quemaba, que lo hacía arder en su boca. Ella aspiró varias veces su sabor, su aroma, como siempre.Ycada vez que ella lo hacía, él se consumía un poco más en su desesperación, al sentir, al saber que estaba siendo abandonado; que “ésta” estaba siendo su última vez… Porúltimo,ellatomósusdesechos,loqueerasindudasumínimaexpresión–alaqueellalohabíareducido- yloterminódeapagar,hundiéndolodesaprensivamenteenelcenicero. Sólo atinó a quejarse suavemente, a chisporrotear levemente en su breve agonía pre-mortem, antes de convertirseencenizas… x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09100
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    101 ¡TANGO! Sos la luzy sos la noche, el champán y la ilusión, Sos el canto que de broche amuró en el corazón; Vos naciste hace tiempo; pura fibra el bandoneón, No hay arrugues en tus fueyes; sólo espinas de dolor. Sos clamor de los porteños, sangre, chamuyo y farol, Resplandor de los cuchillos, patio, baldosa y charol; Te floreaste en yotivencos, barnizado con alcohol, Sos el tamiz de los tiempos, sos el lamento hecho voz. Las percantas y las paicas, las mecheras y las grelas, Fueron fieles compañeras al compás de tu canción; Hamacándose sus piernas o quebrando su cintura Dieron a tu alma figura, y a tus notas su razón. El compadre y el malevo, el guapo y el gavión Son estandartes tangueros de tu historia y tu blasón, Todos con chapas de reos y con cartel de varón, Amasando esos sueños de galán y de cantor. Sos el café, sos los tungos, sos la timba y el pernó, Soselgaucho,elcriollo,elinmigrante,elgigoló, Soslaprostitutarantequeelpiringundínacunó, Tantas razas que yirantes te forjaron tu crisol. Sos el bulín, los amargos, sos el faso y el percal, Sos el sueño hecho empedrado en tus yecas de arrabal, Sos la guitarra, el chambergo, sos la gola, el bandoneón, Sos el tango arrabalero… ¡qué por algo te hizo Dios! Miguel Ángel Manzi x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09101
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    102 PORTEÑO Por algo temarcan como el prócer reo Que parió mil veces la magna ciudad; Vos sos el compadre sabio del potrero, Del pernó, la esquina y de la amistad. El café, los tungos, la parada rante, Te fueron tallando en la yeca y el bar; Sueñosdelbailongo,minasylevante, Los gomías te aplauden por tu performance. Vos tenés tu chapa grabada en el pecho, Se te fue clavando en el corazón, Con el beso amargo de un cruel despecho; Años de empedrado, barro y mostrador. Te salva el estaño y el alma del barrio, Son los que te bancan siempre en la ocasión; Saben que sos capo frente a los otarios, Con tu labia, clase y percha de varón. No sigo tu huella porque sé que surca, Lalocabohemiadelfielbandoneón; Que no te traicione nunca flojo el de la zurda, Y te alumbre por siempre tu amigo el farol. Miguel Ángel Manzi x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09102
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    103 Nelson Jacintho Médico ortopedista RibeirãoPreto - SP A NOITE Caminha, a noite pela estrada do escuro... Solitária,aminhaalmadesolada Segue o fio de luz de uma esperança Que se esconde por detrás do negro muro... Fico sentado sozinho na janela... Pensamentos são cartas espalhadas, Cujos jogos, ora perco, ora ganho Nos avanços naturais das madrugadas... Eu viajo num barco a muitos nós Rasgando sem piedade a branca espuma Que o brilho, lava, da lua sobre o mar, Como o das estrelas, uma a uma... Já vai longe o meu barco de papel... Já some no horizonte a luz em cone, Perseguindo a espuma que se eleva A cada respirar do mar insone... O vento, à minha frente, abre meus olhos... As janelas batendo, abre os ouvidos... Um tiro na escuridão, acorda o medo, Um choro de criança, abre os sentidos... A ambulância passa de repente... Esganiça a sirene do bombeiro... Umincêndiopõefogonaminhaalma, Vai queimá-la, se a não salvar primeiro... Mas a noite é a mãe terna do poeta... A escuridão lhe fornece a claridade, Éfonteinesgotáveldeternura Tudo lhe dá, do consolo à saudade... x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09103
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    104 Nelson Jacintho A ESTRADADA VIDA Venha, sentemo-nos à beira desta estrada. A árvore é frondosa, a brisa é mansa. A vida passa por todos os lados e lugares. Os pássaros entoam velhas canções herdadas, como os trovadores do período provençal que repetiam suas velhas canções, às multidões. O sol é o mesmo, a poeira da estrada é a mesma, assim como a brisa e o canto dos pássaros que conhecemos na nossa infância. Lembra-se?Abrisa bulia com nossos cabelos e o sol franzia as nossas frontes de crianças que começavam a acordar para a vida! Lembra-se da cerca à beira da estrada, das pedras que atirávamos nas corruíras e dos bem-te-vis que gritavam à nossa frente, quando íamos juntos para a escola que ficava à beira desta estrada?As pedras atiradas não iam além de alguns passos porque nossos braços e as nossas intenções não queriam fazer mal algum aos alegres passarinhos e, sim, ver os seus voos rasantes de mourão em mourão.As corruíras e os bem-te-vis continuam cantando em cima de outros mourões, porque aqueles já se foram. Lembra-se da cruzinha na beira da estrada? Ela, sempre, tinha por perto uma rosa despetalada e coberta, em parte, pela poeira. Lembra-se de que um dia havia uma rosa nova com porte e perfume de juventude? Eu quis dá-la a você e você recusou, “rosa de defunto, não se dá pra gente viva!”, disse você com jeito de professora brava. Eu corei com a rosa nas mãos. Você pegou-a e colocou-a junto à cruz! “Ela é do defunto”, disse você, sem pestanejar. Eu vi, naquele gesto nobre, duas rosas se completando e amei as duas. Eu, meninovivo,que raramentepenseinamorte,muitomenosnodefunto,fizumgestoautomáticodereverênciaàcruz, sem saber por que. Talvez porque ela houvesse me dado a oportunidade de conhecer você, melhor. Lembra-se? No dia seguinte a rosa estava murcha, despetalada e a poeira da estrada cobria quase todas as suas pétalas. Eu pegueiumadaspétalas,limpei-anabordademinhacamisae entreguei-aparavocê.Dessavezvocênãoarecusou, pegou-a, colocou-a no bolsinho de sua blusa junto ao peito e disse-me: “vou guardá-la de lembrança!” Nesse momento cresceu uma dúvida no meu peito: Lembrança de que? Lembrança de quem? Lembrança da rosa? Lembrança da cruz? Lembrança da morte? Lembrança do morto? Lembrança de uma nova vida que poderia estar brotando para nós dois? Alguns dias depois, folheando um dos seus livros na escola, vi que a pétala estava numa página onde havia um poema de amor.Adúvida cresceu no meu peito e a visão daquela pétala junto ao poema, aumentou-a. Seria uma homenagem à cruz, à pétala da rosa? Teria alguma ligação antiga com o defunto? Teria algum amor escondido que tentava desabrochar, ou estaria aguardando o início de algo que nasceria dentro do seu peito em relação a nós dois? Não tive coragem de perguntar-lhe porque tive medo da resposta. Muitas vezes passamos pela estrada empoeirada. Muitas vezes vimos rosas despetaladas cobertas pela poeira, mas não vimos, mais, nenhuma rosa nova. Terminamos o nosso tempo de escola e o tempo passou... O destino encarregou-se de nos separar e caminhamos, cada um, em novas direções. Um dia, anos mais tarde, esse mesmo destino, a força da cruz, ou da rosa, juntou-nos no mesmo lugar. Eu havia perdido a maneira e a voz da criança inocente.Abarba medrara na minha face. Uma goma fixava meu cabelo liso. A brisa não conseguia, mais, bulir com ele. Você estava uma moça linda, seu olhar e seu sorriso continham a meiguice e a suavidade da criança com o toque da malícia dos adultos.Acruz estava caída. O pé dela apodrecera, havia apenas uma parte dela porque lhe faltava a parte de cima que havia apodrecido e desaparecido.Você usava uma fita amarrada aos cabelos longos e sedosos e um broche de pétalas de rosas no peito prendendo as duas partes da blusa pouco decotada, meio entreaberta. Vi, naquele momento, o jardim mais belo de minha vida. Nos entreolhamos.Aantiga inocência desaparecera, mas o amor acabara de nascer. Havia uma rosa nova aos pés da cruz velha. Peguei a rosa, agora sem medo, para entregá-la para você.Avelha frase bateu dentro do meu peito: “rosa de defunto não se dá para gente viva!”. Mas, como estávamos vivos! E como estávamos prestes a viver uma nova vida! Fiquei com a rosa presa nas mãos, enquanto nossos olhares penetravam no fundo de nossos corações e de nossas almas. Eu, estático sem palavras!Você muda e queda como uma estátua! Somente nossos olhos e nossas almas falavam por nós dois. De repente, um passo à frente. Nossos braços se entrelaçaram, a rosa caiu ao pé da cruz e os nossos lábios se encontraram. Nunca mais nos separamos.Acruz e as rosas da estrada acabaram por desaparecer com o tempo.O mato cresceu, árvores frondosas cresceram no local. Uma cresceu mais, onde havia a cruz, talvez para marcar a ressurreição da vida e do nascimento do amor! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09104
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    105 Hoje eu trouxeesta rosa para você, rosa bonita cheia de vida, rosa de gente viva, que muito ama, que dá sinal de vida... Com o tempo, certamente, vai desaparecer e passar a viver apenas na lembrança das pessoas, quando ela e depois a nossa vida, tomarem o caminho do desconhecido... QUASE... Foi pequeno, foi pobre, quase órfão... Quase porque tinha pai e quase mãe... Quase mãe, porque nasceu de outra barriga, Fato este que ainda hoje o intriga... Sua mãe verdadeira não o quis, Deixou-o.Oseupaiquaseinfeliz, Quase porque a força do destino, Empurrouopaicomseumenino, À procura de pessoa mais feliz. Bateu de porta em porta das pessoas Mas viu que muitas delas, quase boas, Ouviram-no com atenção, mas sem amor... Apenas uma, entre todas as que o ouviram, Conseguiuentender oseulamento... Tinhaigualodestinoeosofrimento Que rondava as duas casas infelizes... Dores alheias quando juntas quase somem, Alegriasjuntasquaseaumentam, Confundindodossentimentosasmatizes Elesmisturaramsuasvidas.Amor,tristeza, fome e dor, Tudo misturado na guarida, quase sem telhado. Na esperança de uma nova vida. Não se acovardaram... Trabalharam... Os risos e as lágrimas se juntaram... Foiummistodealegriaesofrimento. Novas bocas vieram e choraram, E eles, quase desanimaram, Mas riso e alegria, outros trouxeram E o misto de sorriso, alegria, tristeza e dor Transformaram-senumagrandefontedeamor... O tempo correu, a molecada cresceu, O choro sumiu tal como conto de fada Onde a bruxa, quase sufocada, Deixoudeagir,sumiunaestrada. Nelson Jacintho x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09105
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    106 Hoje, olhando paratrás vejo o quanto foi sagaz Aquele pai quase aparvalhado, Quenummomentodeafliçãoesofrimento Quase atirou a vida ao vento, Ou num cesto de lixo abandonado. Mas acho que no momento Quase não havia vento e o lixo era escasso E a vida quase presa ao embaraço, Pedia sem temor pra caminhar. Avida era vazia, sem T.V. sem celular Somente o rádio existia... Mas existia a esperança Que era a fonte de bonança que mantinha a vida em dia... No mundo tudo mudou, a maconha e a cocaína Corromperam nossos jovens, deram-lhes nova rotina: São idiotas ambulantes, quase vivos, quase mortos, Robôs a droga tocados que matam por uns trocados Para o vício sustentarem! Suas vidas, pesadelo, calor do amor virou gelo, Só vivem pra se drogarem! Passa dia, passa noite, passa sol e passa lua, A estrela envergonhada não quer mais, nem ver a rua. Não quer ver a mortandade na cidade esparramada, Por pessoas quase loucas, matando a si e ao inocente Que como laranja podre caiu do galho pendente. E vendo tantas loucuras, eu quase não acredito Que um Deus haja nas alturas, nos olhando do infinito... Será que estou quase certo? Será que a vida é assim? Será que este mundo incerto estará quase no seu fim? Nelson Jacintho x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09106
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    107 Paulo Camelo deAndrade Almeida Médico Recife - PE PORTAL DA MENTE Alágrimanosolhosfazpresente a cada vez que fito a tua face, o teu sorriso, o teu olhar, e nasce ochoroemmim,umavezmais,silente. Alágrima,portaldaminhamente, espelhaosentimentosemdisfarce e não consigo te esconder que faz-se em meu futuro um escuro, tão somente. Alágrima,queteimaemmeaflorar os olhos, que marejam se te vejo, é uma perene fonte, que não cessa, e, quando está distante o teu olhar, ainda assim é enorme esse desejo, essaloucuraemminhafaceimpressa. HÁ MUITO TEMPO Há muito tempo eu tento te esquecer, mas meu amor por ti transcende a tudo, eu não sei me calar, tornar-me um mudo, e falo o que não devo. O que fazer? Há muito tempo eu sei que se acabou aqueleencantamentoemteuolhar e eu, frente a ti, sentindo o palpitar do coração, me vejo como estou. Há muito tempo, eu sei, não sou mais eu, poisomeueuficoun’algummomento eaquelesentimentomemarcou. Há muito tempo eu descobri, sofrido, o que por muito tempo eu, iludido, ousei não ver, pois meu olhar turvou. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09107
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    108 AVE CELESTE Suave brisa,entraste em meu viver voando leve, no teu modo brando, embelapluma,fosteteaninhando e o corpo todo encheu-se de prazer. Suave musa, eu vou seguir te amando, eu quase ocaso e tu, amanhecer, pois o teu sopro me faz reviver sustendo o tempo e, firme, te esperando. O teu olhar sorriso me fascina e eu me enterneço ao som da doce voz que me cativa, que me prende tanto. Ave celeste, aura de luz, divina, eu viro jovem quando estamos sós e me apresentas o teu corpo santo. Paulo Camelo de Andrade Almeida x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09108
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    109 Renato Passos Médico Belo Horizonte- MG O FOGUETE Oquerelatoaqui,seguiuodestinonaturaldascoisas,começandopelamagiadosencontros.Elesocorreram em abundancia, em número de quatro e todos numa só noite. Tudo aconteceu, por causa de um comício, de uma banda de música, uma prata sumida e a desilusão de um menino pobre de sete anos. Foi lá pelos anos 1945, na minha cidade natal, de ruas de terra batida, onde dominava a ordem beata dos franciscanos maiores, habitantes severos do convento do Santuário. Mas... o fato ocorreu na esquina da padaria Rosicler,doinfluentepadeiroGuaraci. Lá estava instalado um palanque de madeira, pronto para um comício do partido PSD, contrario aos ideais políticos do meu saudoso pai, o Rafael português, mecânico e compadre do candidato à prefeito. Coisas do capricho do destino, fugindo às explicações ditas racionais dos simples mortais. O clima na cidade era de euforia do pós-guerra, marcado pela esperança do mundo melhorar. À tarde, fui procurado por um vizinho nosso, que me ofereceu uma prata de 400 réis, para que eu soltasse uns foguetes no comício da noite. Lógico que perguntei a razão dele não os soltar. Explicou-me que não poderia fazê-lo, porque iria aplicar injeções de penicilina, em uma cliente da farmácia (cumpre-se notar que aquele era o remédio miraculoso da moda, no mundo inteiro).Acobiça mexeu alto na vaidade e topei soltar os foguetes, desde que ele não contasse nada para os meus irmãos, porque éramos proibidos pelo meu pai, de lidar com fogos de artifício. Aochegardanoite,fuiaolocaldocomício,masaindaeracedoeelenãohaviacomeçado.Fiqueimaravilhado com a banda que já animava a festa e para o meu deleite, tocava a músicaAsa Branca. Quem cantava era o famoso Luiz Gonzaga, sanfoneiro, acompanhado pelo seu compadre Chico Paca tocando o zabumba e outro músico, que tocava o triângulo, do qual nunca soube o nome. Suas roupas, suas músicas e suas danças me eletrizavam. Eu estava ali embevecido, quando o boticário puxou-me pelo braço e me levou para um lugar um pouco afastado do povo, que já se aglomerava para evento. Na escuridão da noite, ele me deu um saco de estopa e depois sumiu. Dentro dele havia os rojões, que eram foguetões de vara comprida e que subiam espocando lá no céu,produzindoumestrondobonito.Eujátinhavistoessesfogosdeartifícioseremsoltosequemofazia,espetava o pé da vara no chão e chegava um tição no pavio. Peguei o primeiro foguete e notei que a sua vara era bem curta, nãomaisquetrêspalmos,masjustifiqueiparamimmesmo,quedeveriasercoisadamodernidade.Eunãotinhaum tição, mas no saco de estopa havia uma caixa de fósforos. Cumpri então o mandado, porque a cobiçada e sonhada prata, já pesava no bolso da minha calça reles, de morim barato e suspensório de tiras de pano. Agachei, espetei a vara curta no chão, pisei na caixa de fósforos, risquei um palito e ateei o estopim. O bicho chiou, alumiou o chão e saiu feito louco me dando uma cambota. Logo em seguida, o danado, ao em vez de subir, correu para cima do povo, como se fosse um busca-pé infernal, chamuscando e perseguindo o pessoal da platéia.Anteaoinusitado,todosfizeramumalvoroçohorrível,quenemoestourodeumaboiada,gritando,atropelando unsaosoutros,caindoeselevantandoligeiro.Aspessoasvieramemminhadireçãoeassustado,largueiosacocom os foguetes e dei no pé. Quando tudo sossegou, e até os músicos tinham fugido, meti a mão no bolso e cadê a prata? Nada, nem sinal da bendita. Voltei ao lugar do acontecido, despistei, corri os olhos pelo chão e lá não estava nem o saco dos foguetes e nem a minha moeda. No palanque só havia o candidato, xingando e gritando que iria por a polícia no encalço do malandro que acabara com o seu comício.Tremi nas pernas e de tanto medo, tive na hora, uma crise de asma.TireiabombinhadeIsupreldobolso,usei-aelogoapósfiqueialiviado.Volteiaprocuraravaliosaprata,meu x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09109
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    110 tesouro, mas muitopreocupado, pois se descobrissem que a autoria do delito fosse minha, eu levaria uma surra de deixar saudades. Sentei-me no meio fio da rua sem passeio, descansei e tentei recompor as idéias. Fui novamente aonde soltara os fogos, mas para infortúnio meu e como a infelicidade tem ajudantes, uma nuvem negra tampou o luar. Assentei-me de novo e esperei a luz voltar. Logo que ela apareceu, vi uma coisa redonda, do tamanho da minha prata, brilhando no chão.Ansioso, corri e levei o dedo para apanhá-la, só que para meu desespero, o objeto era mole, onde conclui desiludido, ser uma plasta de catarro.Triste, subi a rua e fui para casa.Aminha mãe já me esperavanoportão.Pegou-mepelobraçoepacientemente,olhandonosmeusolhos,medisse:—Vocêvaiapanhar, pois estava no comício! Eu quis negar, mas estava com a roupa imunda e na minha cara, de branco, existiam só os meus olhos. Levei uma surra e tive que tomar um banho frio de bacia, mas fui dormir quente, pelas varadas nas pernas. No outro dia encontrei com o boticário e quando ia reclamar do sumiço da prata, levei duas boas cocadas na cabeça e ainda tive que escutar um falatório danado, por ter executado tudo errado. Como não houve lesões graves nos comiciandos, o caso não foi investigado e virou pandega na cidade. Perdiaprata,achancedeserumherói,tudoficouesquecido,masomeninoquemoradentrodemimcontinuoupor muitotempodesiludido. 07-05-09 O SONHO DO POETA É a fantasia... de que ninguém morresse. Que uma criança em harmonia crescesse e de fome nunca perecesse. Dafilosofiasóreflexão...discorresse e proibido fosse discutir uma crença. Que a vaidade não criasse a diferença. e o orgulho fosse banido da presença. Dinheiro, poder de troca e nunca corrupção. Leis justas, o trabalho arte e o amor devoção. O prazer do sexo, coisa bela e normal, jamaisvendidanatelevisãoenojornal! O sonho do poeta é de paz e de bondade, mas sem a vaidade e as diferenças... marasmo,calamidade!... 05-05-09 DISTÂNCIA Ódio...mantémvivaalembrança: —Apaixão rói de saudade! Poisinventordadistância nunca amou de verdade!... 21-10-08 INVEJA AinvejafezmorrerCaím e ela nem feriu seu dono. Bondade é do Querubim, e o mal, nunca perde o sono!... PAIXÃO O amor louco sempre escolhe, vivervolúpiadapaixão. Igual, quem a rosa colhe, que é bela, mas sangra a mão!... 10-04-09 Renato Passos x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09110
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    111 Rodolpho Civile Médico São Josédos Campos - SP O VENDEDOR DE “MACHADINHO” DO BEXIGA Lá estou eu, de novo, numa crise nostálgica, recordando momentos e pessoas de outros tempos, tempos idos e vividos que não voltarão mais... É próprio de velho que não tem nada a fazer e fica aborrecendo os outros comassuasreminiscências.Lembrei-me,vagamente,daminhainfância,noBexiga,semprenoBexiga,obairrodos calabreses, das cabrochas da Escola de Samba “Vai-Vai” e do homem do “machadinho”. É bom esclarecer que “machadinho”, naquele tempo, era um puxa-puxa, tipo e consistência de rapadura mole. Guloseima cobiçada avidamente pela criançada. Mas, por que este nome? O vendedor usava um machadinho para separar o doce espalhado num tabuleiro de madeira, dividindo-o em pedaços e o colocando em papel branco para a distribuição. Aparecia nas ruas do bairro, gritando: -“Omachadinho!”. “Omachadinho!”. A molecada deixava o futebol na rua e saía atrás do anunciante, pedindo um pedaço. -Trouxe o dinheiro? – perguntavaAmílcar, o comerciante. Searespostaeranegativa,nãotinha“machadinho”.Asoluçãoerapediraospais.Dependiadaboavontade e do dinheiro deles para a obtenção de tão valioso quitute. Às vezes, uma boa choradeira resolvia... Outras vezes, uma boa chinelada no bumbum, acalmava o pedinte... Só a Psiquiatria pode explicar a disparidade na conduta do serhumano,quandoentramemjogointeressesdecriançaseadultos...Duascoisasmexiammuitocomosmoradores do bairro: a cabrada, conduzida pelo cajado do pastor Rodrigo e o “machadinho” deAmílcar. O leite de cabra e o puxa-puxa,doiselementosimportantes,diretamenteligadosaobem-estardacoletividade,semcontar,naturalmente, com o queijeiro e o “pizzaiolo”...Afinal: vivia-se para comer ou comia-se para viver?Acredito que adotavam as duas opções... Mas, voltando ao puxa-puxa, ou melhor, ao “machadinho”, a ausência deAmílcar durante uma semana, provocou uma grande preocupação a todos no Bexiga. O que teria acontecido com ele? Estaria doente? As notícias correm céleres quando de boca-a-boca. Afonte: a vizinha do casal Amílcar e Maria dos Prazeres. Do cortiço, na Saracura, próximo àAvenida Nove de Julho, irradiou-se para todo o bairro.Amílcar hospitalizado na Santa Casa de Misericórdia e Maria dos Prazeres presa por agressão. A notícia explodiu como uma bomba, repercutindo de uma maneira avassaladora em todos os lares, principalmente, aos usuários do famoso, querido e cobiçado doce... Como ficaria o bairro sem o “machadinho”? Foi a dúvida de todos... Longe de nós a idéia que fossem adeptos de um dos sete pecados capitais, a gula... O puxa-puxa não passava de um simples desejo de crianças e adultos... Provavelmente, ele é usado no Paraíso como delícia aos privilegiados freqüentadores do local... Mas, deixemos de lado os comentários e conjunturas e voltemos aos acontecimentos... Na delegacia, o interrogatório feito pelo delegado de plantão, doutor Magro do Ouvidor, tornou-se difícil, misterioso e comprometedor para Maria dos Prazeres. É bom esclarecer: o representante da lei, apesar do nome, ocupava a cadeira bem cheia com os seus 130 kg. Bufava quando falava. Mas, isto não teria importância, se não fosse outro problema: era surdo, usava aparelhinho no ouvido que, neste dia, estava desregulado. Para completar, Maria dos Prazeres, falava fanhosa, pelo nariz, pois sofrera uma cirurgia mal-feita quando criança: lábio leporino com deformidade na abóbada palatina e no véu do paladar. - Então, a senhora quis matar o seu marido? – perguntou o delegado. Maria dos Prazeres, sorridente, querendo explicar o acontecido... x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09111
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    112 Rodolpho Civile -Eupegueio“machadinho”... - Com“machadinho”? – revoltado o delegado.Asenhora é uma terrível criminosa!Vai ficar o resto de sua vida na cadeia! - Não! Não! Não é isso! O “machadinho” estava bem quente, quando... - Mas, que crueldade!Ainda fica rindo! Esquentou primeiro o machadinho e depois partiu a cabeça do marido! Eu sou delegado há muito tempo, mas nunca vi tanto cinismo e maldade... O fanho aumentou e Maria dos Prazeres, nervosa... - Não! Não!Amílcar escorregou e caiu aos meus pés... -Ah! Compreendi!Além de usar o “machadinho”, pisou-o até perder a consciência. - Não! Não!Aí ele gritou: Dos Prazeres! Dos Prazeres! -Querdizerqueasenhorafeztudoissocommuitoprazer!MeuDeus!Éofimdomundo!Umamulherfazer issocomomarido!Éinacreditável! - Não! Não! - Maria dos Prazeres nervosa querendo explicar. Ela cada vez mais fanhosa e o delegado cada vez mais irritado e surdo-. - Não quero ouvir mais nada! Estou enojado! Coloquem esta mulher no xilindró! ... Dois dias depois... ... Amílcarapareceunadelegaciacomumcurativonacabeça.Explicoutudoaodelegado.Inocentouamulher e a libertou do cativeiro.Amorosamente voltaram ao lar... NoBexiga,gritosdealegriaquandoAmílcarsurgiunaruagritando: -“Omachadinho!”.“Omachadinho!”. CALIXTO, O COLCHOEIRO DO BEXIGA De novo, aquele estalo seco que vibra, racha ou parte os meus neurônios, já há muito debilitados pelo uso e pelo tempo. Coisa de velho, que tem a cabeça “fresca” e vive apoquentando a vida dos outros com suas reminiscências. Lembrei-me do Calixto, um homem baixo, magro, testa alta, olhar mortiço e mãos calosas. Falava manso e coxeavaaoandar.ExímioprofissionaldeumacolchoarianaRuaConselheiroRamalho,próximaaoTeatroBrasileiro deComédias,noBexiga.Caprichavanaescolhadotecido,noestradodacamae,principalmente,nomolejo.Dizia queparaalguémserfeliz,temdedormirbem!Adquiriurenomecomumcolchãodesuaautoria,aoqualdenominou “Êxtase doAmor”, afrodisíaco, apropriado aos recém-casados e indivíduos estéreis que desejassem ter filhos. Era tiro-e-queda:dormirnaquelecolchãoepronto...Todososseussonhosrealizados...Ah!Santaingenuidadehumana! Com isso, Calixto faturava horrores... Entretanto, cônscio de seus deveres, o colchoeiro testava o colchão antes de serentregueàvenda,comacompanheiraSilvinha,umabonitamulata,passistadaEscoladeSamba“Vai-Vai”.Daí, à aprovação e o “selo de confiança”... “Tenha fama e deite-se na cama”, diz o velho ditado, desde que seja no colchão “Êxtase doAmor”. Calixtoerafanáticoporduascoisas:amulataSilvinhaeasóperas.TrabalhavaouvindoVerdi,Puccini,Donizetti, Bellini,Mascagni,Leoncavallo,Giordanoeoutros.Tinhaumavelhavitrola,discosdevinilegravaçõesdecantores antigosfamosos:Caruso,Martinelli,Zenatello,TittaRuffo,Stracciari,Gigli,Schipa,Galli-Curcci,Lauri-Volpi,Totti Dal Monti, entre outros. Vangloriava-se de possuir tal coleção, de gente tão famosa... Calixto considerava-se um homem feliz. Tinha a mulata Silvinha para testar os colchões e as óperas para alimentarasuasensibilidade.E,alémdisso,ganhavamuitodinheiro...Oquepodedesejarmaisumsimplesmortal? x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09112
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    113 Mas, nem tudosão rosas nas vidas das pessoas. Calixto e Silvinha amavam-se muito, apesar das diferenças: ele da ópera e ela do samba. Às vezes, o ciúme aparecia entre eles e se desaviavam, o que é muito natural no relacionamento humano. Briga entre amantes e, depois, a doce reconciliação... Os dias foram passando, passando, assim como os rios correm preguiçosamente para o mar... Numa bela tarde de verão, na volta do mercado, Silvinha encontrou Calixto com uma loira oxigenada, experimentando o colchão do amor. Foi um bafafá terrível: xingatório, objetos atirados a esmo, puxações de cabelos, pontapés e choradeiras... Os ânimos só se acalmaram com a presença dos vizinhos. Envergonhada, espezinhada,Silvinhasaiudecasa. Foi um baque terrível para o colchoeiro. Pegado em flagrante num momento de fraqueza.Acarne é fraca, pensouváriasvezes...Arrependido,procurouSilvinhanaEscoladeSamba.Conversavai,conversavem,acabaram se entendendo e voltaram às pazes... Mas, as coisas não iriam ficar assim, não... PorocasiãodavindadofamosotenoritalianoMarioDelMônaco,Calixtofoiassisti-lonoTeatroMunicipal de São Paulo, cantando a ópera Rigoletto de Verdi, no papel de Duque de Mântua. O enredo do Rigoletto gira em torno das escapadas amorosas do Duque com a cumplicidade de Rigoletto, seu bufão. Ficou famoso e cantado nomundointeirootrecho: As palavras finais da ópera “Maledizione, Maledizione”, ressoam na orquestra, enquanto o bufão tomba sobre o corpo da filha. A emoção foi tão grande que Calixto saiu do Teatro chorando. Era um emotivo, um apaixonado... Retornou para casa, a pé, altas horas da noite. Passou pelo chafariz do Largo do Piques (hoje Praça das Bandeiras), subiu a Rua SantoAntonio em direção à Rua Major Diogo e Rua 14 de Julho. Quase defronte, divisou uma labareda enorme. Incêndio, o corpo de bombeiros e gente aglomerada. A colchoaria estava em chamas. Acabara-se o colchão “Êxtase doAmor”. Dele, só restaram as molas incandescentes. Calixto, em prantos, caiu no chão, arrasado.Ajoelhado, as suas lágrimas molharam o prospecto, aberto, da ópera. Nele, as palavras: La donna è mobile... Em seguida, “Maledizione, Maledizione”, as palavras finais do bufão. Silvinhaestavavingada... PEDRO E PAULO “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E Eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também nos céus”. E Paulo... Perseguindo os cristãos ao aproximar-se de Damasco, subitamente o cercou uma luz vinda do céu. E caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Paulo, Paulo, por que me persegues?”. Mas... Não cabe aqui, a um simples e modesto escrevinhador de poucas palavras, descrever e comentar o apostolado destes dois queridos discípulos de Jesus Cristo... Limita-se, na saudosa reminiscência de outros tempos... Tempos idos e vividos que não voltarão mais... Lembranças de um bairro, de gente que ali viveu, trabalhou, lutou e sofreu, semelhante a todo mortal em qualquer tempo e em qualquer lugar... Conheceu bem de perto as agruras do seu semelhante.Tentou dar-lhe como médico, um pouco de paz, saúde e amor. Se conseguiu, ainda não sabe... De novo, o estalo e as imagens dos irmãos Pedro e Paulo.Vindos do norte para tentarem melhorar de vida em São Paulo. Doce ilusão... Escolheram o bairro dos imigrantes calabreses; o Bexiga, que os recebeu de braços La donna è mobile Qual piuma al vento; Muta d’accento, E di pensiero. (Amulherévolúvel, como pluma ao vento; Muda de voz e de pensamento.) Rodolpho Civile x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09113
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    114 abertos. Modestamente, searrumaram num cortiço da Rua Conselheiro Carrão. Pedro, mais capacitado, arranjou emprego como pedreiro numa construtora. Não perdeu tempo e, logo, amasiou-se com uma cabrocha da “Vai- Vai”.Amor à primeira vista e, de samba em samba, ia tocando a vida da melhor maneira possível. Pouco dinheiro, masmuitoentusiasmo,alegriaevontadedevencer. Paulo, ao contrário, apesar de forte, alto, musculoso, carregava nas suas costas e na sua cabeça o retardo que o atingiu desde criança. Raciocínio lento, arrastado, falava pouco, entrecortado, reflexos diminuídos. Olhos parados, sem brilho, lábios caídos, sem vida. Para comer, trabalhava como carregador de pacotes, encomendas do açougueiro, do padeiro, do vendeiro. Ajudava nas feiras, as mulheres nas compras, lavava quintais e carros e recebia em troca, algumas miseráveis moedas. Mal e mal conhecia os números e algumas palavras. E, assim, ia arrastando a sua sina, sem outras pretensões. Não se queixava e nem se revoltava quando a criançada o chamava de bobo e, os adultos, de idiota. Já se acostumara com os impropérios. Às vezes, procurava o padre Carmelo, da Igreja de Nossa SenhoraAchiropita, para saber por que Deus o tinha esquecido e recebia do sacerdote palavras deconforto,compreensãoeamor:“Meufilho!Deusnãoseesqueceudevocê!Asprivaçõesquevocêestápassando agora serão recompensadas na eternidade, no Paraíso, onde estão os justos, os bons! Deus, na Sua misericórdia, estará sempre ao seu lado!”. Paulo baixava a cabeça, beijava a mão do sacerdote e, lentamente, se retirava, com as lágrimas descendo pelo rosto. E continuava na sua vidinha... Na sua labuta, com muito trabalho e perseverança, dentro dos limites da suacapacidadeintelectual. Paulo,freqüentemente,lavavaopisodacasalotérica“Felicidade”,situadanaesquinadaRuaConselheiro Ramalho e Manuel Dutra. Recebia algumas moedas e frações de bilhetes da loteria federal. De tanto ser chamado de “burro” e “bosta de vaca” pelo irmão Pedro, Paulo pediu e ganhou do dono da lotérica, pedaços de “burro” (números 09, 10, 11, 12) e da “vaca” (97, 98, 99, 00). O destino e a sorte são caprichosos... Não deu outra: 1º prêmio, o “burro” com o número 10, 2º prêmio, a “vaca”como99eosmilharesacompanhandoosbilhetespremiados.Foimuitaemoçãoparaumpobreretardado... Custou-lhe a acreditar que fosse o abonado pela sorte. Recebeu a “bolada” de dinheiro meio aparvalhado e, aconselhado pelo dono da lotérica, abriu uma caderneta de poupança na Caixa Econômica Federal. Que mudança nasuavida!Comproualgumasroupasesapatos.Cortouocabeloà“americana”.Comoutrovisual,aparentavaser outrohomem...Eagora?Eotrabalho?Continuarcomobiscateiro?Nãotinhamaisnecessidade...Abrirumafirma? Não tinha capacidade e nem tirocínio. Procurou o irmão, que lhe deu vários palpites, inclusive o de administrar os seus bens. Desconfiado, não cedeu aos conselhos fraternais, mas aceitou de imediato, convencido da voz melíflua deMarcolina,aamantedePedro:“Vocêprecisagozaravida!Queadiantaterdinheirosevocênãosabeaproveitá- lo?Avida é curta... Você agora é outro homem. Eu sei como deixá-lo feliz!”. Oresultadofoiextraordinário! Paulo e Marcolina sumiram do Bexiga com a deliciosa finalidade de gozar a vida. Pedro ficou a “ver navios”. Tempos depois, Paulo retornou ao Bexiga, tão pobre quanto antes, espoliado pela cabrocha. O dinheiro? “Oventolevou”... “Mondo cane”... Roubar de um pobre diabo! Destino cruel de certas criaturas...Vieram ao mundo só para sofrer... O tempo passou e com ele os nossos sonhos... Hoje, ao recordar a figura dolente de Paulo, não consigo segurarasminhaslágrimas... Rodolpho Civile x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09114
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    115 Ronaldo Vieira deAguiar Médico alergologista Belo Horizonte - MG DEVANEIOS Das vindas e idas fluem tais ações. A cor do mel, a cor azul do céu navegam, bailam no ar, aos sons ao léu. Nas mãos, os ramos gris, reféns de opções, afagammitos,tramamtaislições. Atingem o alvo, tomba o ser, troféu. Assume a marcha, cai, e passa a réu. Desonra marcas, tolos ais, pulsões. De novo, os ramos gris de tons antigos fustigamoimo,sinaquasefinda, que quer domar, tombar algoz, perigos. As ondas vagam, ferem o ar, e ainda os sonhos vivem, são até castigos; além do mar, do céu, da luz infinda. Vou atrás do meu sossego, do cantinho aqui de Minas. Fico a pensar, no aconchego, nolar,longedasvitrinas. Vou atrás do meu sossego, balançarnaminharede, ver a criança, o chamego de dois pombinhos com sede. Terei lá eu tudo a gosto: livro,revista,jornal. Lerei o que for, disposto a mudar a sina e o mal. Do calor livre estarei, só pela brisa que bate. Asnotíciaseulerei do correto ao disparate. Caminhadasnaalameda, eu as darei aprumado, a pisar a erva, qual seda, Caminhando,desligado. Verei os lírios, as rosas, as orquídeas, as bromélias, em meio a risos e prosas, na presença das camélias. Do canto dos passarinhos estareiembriagado, dos sabiás, dos canarinhos, do bem-te-vi ao meu lado. Vou atrás do meu sossego, no compasso da bonança, e sem hora, sem apego, no balanço da esperança. VOU ATRÁS x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09115
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    116 O REGRESSO Ascendino viviaem seu mundo de fatos, de conhecimentos, de ética e moral. Como todo cidadão comum, equilibrava-se nesses pilares. Meticuloso, fazia comparações entre os conhecimentos, às vezes antagônicos, às vezes coincidentes. No entanto, tudo isso se harmonizava com seu mundo, com suas coisas, com a sociedade em quevivia. Num dia em que fazia caminhada, quando mal rompiam no horizonte os primeiros clarões da aurora, tem a visão exata da realidade.Aqueles pilares, sobre os quais vinha se equilibrando na vida, ruíram. Perde o seu apoio, suaestabilidade.Percebeomundoemquevivia,demeiasverdades,demeiasmentiras,dehipocrisia,defalsidade. Fora, sem dúvida, vítima de lavagens cerebrais sucessivas, desde a mais tenra idade. Como bolhas de sabão, suas ilusões e conhecimentos se arrebentaram e se confundiam com o éter. Caiu no vazio, no nada. Enfim, nada mais sabia,nadamaisconhecia.Conhecia,sim,lendas,contosdefadas,transformadosemverdades,verdadesimpostas pelaviolência,peloterror,pelamentira,pelafalsidade,perpetradaspormentespossessivaseditatoriais.Precisava romper com as tradições e leis estabelecidas pelos seus ancestrais. Precisava viver agora conforme aquilo que acreditava. Mas ainda não havia crença, ainda não havia conhecimento.Tinha que partir do zero e reestruturar-se. Mergulhado neste mundo, neste vazio incomensurável,Ascendino sai em carreira desabalada, sem destino, sem meta.Até que chega ao mais belo bosque de sua cidade, e, extenuado, cai ao solo atapetado de folhas. Perde os sentidos, e lá fica estirado por longo tempo. Começa a voltar a si pelo alegre cantar de um passarinho. Aqueles sons harmoniosos penetram em seus ouvidos, e ativam seu cérebro. Seus olhos se abrem, e então pôde ver aquela criatura colorida e saltitante à sua frente,quealémdecantar,tambémfalava.Diz-lheaavezinha -Amigo, que tens? Há horas vejo-te caído como morto! Ascendino, diante daquela formosura em miniatura, pôde então revelar-lhe aquilo que não pretendia fazer a qualquer ser comum. Conta-lhe sua frustrações, sua visão da realidade, do desmoronamento do mundo de valores emquevivera. Aavezinhaouvetudocalada.Ascendinolamenta-seeporfimdiz: Estouaquinestemagníficobosque,eminhavontadeédeficaraquiparasempreevivercomumpassarinho. - Se achas que podes viver como um passarinho, tal como eu sou, não percas tempo. Far-te-ei companhia nesse mundo de alegria e liberdade. Contudo, de uma coisa deves ter certeza. Deverás ter o nosso tipo de vida, sem saber o dia de amanhã, se vamos ser atacados por algum predador, acompanhando a maravilha da natureza, desde o amanhecer até o crepúsculo, com se tudo fosse o compasso de uma música. Não terás roupa além de tua pele, e a água que beberás poderá estar muito perto ou muito distante.Tua casa será ampla como esse bosque, que recebe todos os impactos das intempéries: dos ventos, das tempestades e outras fúrias da natureza. Ascendinocaiemoutrovazio.Comoviverdessamaneiradescritapelopassarinho?Aamplaetotalliberdade tinha uma dimensão maior que imaginava. Sente-se sem forças para assumir o novo tipo der vida.Agora, de pé, cabisbaixo, percebe não ter estrutura para viver como um passarinho. Conformado, com passos lentos, retorna a seumundo,àsuarealidadecambaleanteefalsaemquevivera,porém,agoraconscientedetudoeconformadocom oinconformável. Ronaldo Vieira de Aguiar x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09116
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    117 Sebastião Abrão Salim Médico BeloHorizonte - MG A METAMORFOSE DE KAFKA: UM ENSAIO LITERÁRIO-PSICANALÍTICO “Ao despertar pela manhã após ter tido sonhos agitados, Gregor Samsa encontrou-se em sua própria cama metamorfoseadonuminsetogigantesco”. Franz Kafka Este ensaio sobreAmetamorfose de Kafka tem um cunho literário-psicanalítico. O autor considera esse conto uma ficção onírica pelo inusitado do seu conteúdo e narrativa que acredita estarem relacionados com a existência sofrida do escritor. Este usou a escrita para sobreviver psiquicamente. Kafka nasceu em Praga, em 1883, e morreu em 1924, acometido de tuberculose. Sua obra literária, escrita em alemão, inicia-se oficialmente em 1909 com a publicação de Descrição de um combate, e prolonga-se até quase o final de sua vida em 1923, quando escreve O artista da fome. De temperamento introvertido, seus escritos retratam angústias do homem de seu tempo além de suas próprias. Demonstram a desconfiança do ser humano diante do poder. Portam dor e possuem o intuito de ressaltar o desvalimento humano. A metamorfose foi publicada em 1915. Narra a história de Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante que vive com sua família (pai, mãe e uma irmã) e a mantém. Certa manhã, desperta metamorfoseado em uma grande barata. Vê-se em dificuldades para aprontar-se e pegar o trem que o levaria ao local de trabalho. Percebe a fala modificada, os movimentos motores mais lentos e a mente entorpecida. Como Gregor não aparece no serviço, o chefevaiàsuacasa.Gregoréobrigadoamostrar-seaochefeeaosfamiliares.Suaapresentaçãocausarepugnância geral.Éenxotadodevoltaaseuquartopelopai.Posteriormente,esteoatingenascostascomumamaçã,causando- lhe uma infecção grave que, associada a outros maus tratos, levam-no a optar pela morte. OestiloliteráriodeKafka,nesseconto,adentraamodernidade,apresentando,paraalémdolirismoromântico, umaabordagemsurrealistaimpregnadadehorror.Anarrativaarrastada,monótona,asquerosa,nauseanteeaflitiva, reflete uma essência impregnada de muda agonia, a fala rouca que permeia toda a temática, beirando o cansaço. Ele acorda e não se reconhece mais. “O que me aconteceu? – pensou ele”. É significativo no início da narrativa o destaque para a presença de um quadro com uma fotografia de mulher envolta por peles no pescoço, caindo sobre os braços, que ele pendura no seu quarto, dias antes da metamorfose. Tal ação indica a procura de Gregor por uma segunda pele, com a finalidade de aliviar a angústia do desfazer-se. É um arranjo de natureza psíquica que funciona como um remendo para feridas por onde pode esvair a lucidez psíquica. Comoumbomclínico,KafkanosdáumaidéiamelhordasituaçãotraumáticadeGregoraoescrever:“Seeu não tivesse que sustentar esta situação - o emprego - por causa de meus pais, há muito tempo que teria pedido demissão, e dirigindo-me ao meu chefe, ter-lhe-ia dito o que penso dele”. O pai estava desapontado com ele. Escreveu Kafka: “Seus pais não podiam entender aquilo; tinham-se convencido durante o transcorrer dos anos que o futuro de Gregor estava garantido na firma para toda a vida”. Kafka menciona em seguida os sintomas decorrentes do Transtorno de estresse pós-traumático de Gregor. Torna-se lento, entorpecido, com problemas de cognição, alimentação, sem vida e interesse pelo mundo que o rodeia.Aproxima-se da imobilidade e do retraimento em busca da economia de energias que pode possibilitar a continuidade da vida até que haja uma melhora do meio ambiente, como fazem plantas e animais ao hibernarem. Em situação desesperadora, Gregor agarra-se ao quadro da dama com a finalidade subjetiva de proteger-se da crescente ameaça de aniquilamento ou de loucura. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09117
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    118 Sebastião Abrão Salim Ficaclaro que a incompreensão preside a união dessa família com Gregor. Já o colocam como um perverso interessado em trazer-lhes a desgraça, quando seus inquilinos resolvem partir. Escreve Kafka: “Papai, ele tem que ir embora - gritou ela - é a única solução! O senhor simplesmente tem de abdicar da idéia de que aquilo é Gregor. O fato de termos acreditado nisso tanto tempo, é que originou todo este transtorno. Como pode aquilo ser ele? Se fosse, há muito que teria compreendido que os seres humanos não podem viver com um animal desta espécie, e teria partido de livre e espontânea vontade. Então não teríamos nenhum irmão, mas seriamos capazes de continuar a viver respeitando sua lembrança. Mas assim como é, este animal persegue-nos, enxota nossos inquilinos, e é evidente que deseja todo o apartamento para ele e permitiria até mesmo que fôssemos dormir na sarjeta”. A parte final da narrativa ganha intensidade dramática: “Logo depois descobriu que era incapaz de mover um só membro... Verdade é que seu corpo todo doía, mas teve a impressão que a dor ia diminuindo gradativamente e acabaria passando”. Gregor caminha para o fim. Conta-nos Kafka: “E, então de livre e espontânea vontade, afundou a cabeça no chão e de suas narinas exalou-se um último suspiro débil e trêmulo”. Provavelmente,Kafkamanteve-sevivoaomataropersonagememsuacatarseliterária.Épossíveldizerque Gregor-Kafka com suas descontinuidades de vida, precisou se fazer como um homem de muitas pernas e uma couraça dura, para fazer frente aos golpes rudes da existência. Talvez o homem atual, ao enfrentar toda sorte de violência, tenha de desdobrar-se para não definhar como Gregor Samsa. Kafkainsere-senaplêiadedeautoresclássicoscomooescritordoinverossímil,doinacreditáveledoabsurdo. Aocontráriodoquemuitospensam,escreveuedescreveu,pormeiodeumagigantescametáfora,aalmaeocorpo humano desertificados pelo estresse pós-traumático crônico. O CONTADOR DE HISTÓRIAS A noite cai trazendo no colo as estrelas com olhos de prata. Anunciamariquezadomomentovindouro. O dia foi intenso, vastodebrincadeirasdainfâncialasciva. Teve a pipa, a finca, a pelada, o pião e o nego fugido. Foi como a Passárgada de Bandeira sem as prostitutas e a mesa do rei. Mas teve a alegria, a amizade e a roda dos sonhos impossíveis. Depois à casa para o banho, os deveres da escola, ouvir pelo rádio a novela de Jerônimo. Aseguir, a mesa posta para o lanche. À sua cabeceira senta-se meu pai que, naquele momento, queria contar-nos uma estória. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09118
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    119 Estória que nãopassava de uma só. Aúnica que sabia contar. Aúnicaquevaliapormil. Aquelaouvidanainfância, agora com emoção renovada, como se fosse outra. Nós outros na cadeira disputada paraficar-lhemaispróximos. O encanto remoçava o recontar. E lá ia ele medindo palavras e pausas. Afinado nas falas, trazia para o presente as personagens da estória. Tudo parecia verdadeiro. Zir conseguia matar os leões e retirar-lhes as cabeças para a construção do castelo. (Sim, sua moradia era feita de cabeça de leões). Cavalgava o muro de pedras. Esporava-o para fortalecer-se, tanto os braços quanto as pernas. Depois, o cavalo aprontado no campear do deserto insólito. Preparava-se para a luta contra os opressores. Lávinhaele,lançaemriste, golpes certeiros e força hercúlea. Vingavaparentesferidosoumortos naignominiosaperseguição. No encanto de ouvi-lo, ia-se um par de horas. Ahistória,infelizmente,findava- tão absorvidos estávamos! E a noite estava apenas começando... Muitossonhosviriam e nas décadas vindouras. Sua História traria no âmago a aspiração maior do Homem: O anseio por liberdade. Sebastião Abrão Salim x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09119
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    120 PAZ A noite foigelada devido à brisa do inverno. Aoamanhecerlágrimascorriamdasfolhas deminhaárvorefavorita:umajovemquaresmeira. No firmamento, a lua, ainda alta, empalidecia,intimidadapelosprimeirosraiosdosol, com seus dedos róseos de fogo. Como senhores da natureza, sol e lua, disputavam as cotas do dia. Ah... a lua dos poetas, o sol dos industriosos. Será sempre assim. O passarinho, agora acordado, antes do primeiro canto, bicaumvermeinerte. Poderia ser diferente? Poderia oferecer o canto antes de mostrar o bico afiado? Nesse ambiente de vida e de morte, nasce o homem. Torna-se adulto. Torna-se Estado. Quer ser imortal. Carrega o imperativo do poder. Os meios já não importam. É preciso vencer e vencer. Cortar árvores desconhecendo a importância das sombras. Poluir rios sem considerar a importância das águas. Cedo ou tarde viverá dos restos. Um passarinho acordado, antes do primeiro canto, bicaráumventreinerte. Forjaremos uma espécie diferente? Asfolhasdaminhaquaresmeira não vão chorar mais? Bem que há espaços para todos. Sebastião Abrão Salim x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09120
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    121 Victor José Fryc Médico BuenosAires - Argentina EL CABALLO DE FELIPE III Fermín,oriundodeOviedo,viajóaMadridcomoerasucostumbre.Suhábitomásimportanteera“potear”, para lo cual recorría todas las tabernas desde su domicilio hasta la Gran Vía y desde allí llegaba a Las Cibeles y proseguíahastalaPlazaMayorysusaledaños.AllíenlaPlazaMayorvisitabaalmonumentodeFelipeIIIyantela imponencia de esa estatua ecuestre solía platicar con otros visitantes, locales o turistas, sobre el personaje que era su otro hobby. En un atardecer, ya cargado de bastante alcohol, se acercó a su ídolo y cuando pronunció su acostumbrada introducción al tema: “Observad este semejante equino, con su gallarda prosapia, su estampa y su prestanciahistórica”...escuchóquedesdesusenormesdientes,esdecir,subocaza,salíanpalabrasincomprensibles. “Pero ¿que estaré borracho?” pensó Fermín – “¿O loco? Pero si me está hablando. No le entiendo ni jota pero me está platicando y se dirige a mí mismo en persona” “Hay mi Dios, que no me dé otra vez por ese “delirio tremendo” como dicen los médicos. Así, pleno de excitación y asombro, regresó a su casa lo más rápido posible enfilando en línea recta por lo soladosquelepermitiesendisimularsussinuosidadesalcohólicas. —Puesmecreanono..yaseloquemevanadecir—dijoasucuñadoysuesposa.—Quesonalucinaciones a causa del alcohol. Pero el caballo de Felipe III platicó conmigo en plena Plaza Mayor. — Eso si que es bueno; cada vez resistes menos a esa bebida maldita y de continuar irás a parar de nuevo a la Clínica San Carlos con el “tremens” ese y todo el zoológico – espetó la mujer. Grande fue la movilización de Fermín que no salía de su asombro; a tal punto llegó que, ansioso, al día siguiente repitió la experiencia. Se encaminó decidido hacia el centro de la Plaza Mayor donde unos pintores despertabanlacuriosidaddelosturistas.Ydijoparadofrentealmonumentoconunaactitudentreteatralysolemne: —Ved ahí su figura dominante oteando en las lontananzas las presas de la caza mayor, atalajado con sus arneses. Enformainmediatabrotódesdeladentaduradelrocínunmurmulloindescriptiblequenoparecíarelincho, nisalutaciónniningunacosacomprensible.AsustadoyconpalpitacionesFermínretrocedióysealejódelaPlazasin rumbohastaquedesembocóenun“quitapenas”delaesquinanorte.Pidióunamanzanillaquebebiódeungolpede nuca y repitió una segunda buscando un interlocutor en el tabernero que lo eludió acostumbrado a estas pláticas. Necesitaba desahogarse y resolver el enigma que lo atormentaba.Aún más, pensó que algún periodista podría entrevistarlo y ser visto en la pantalla de la televisión; así iban a convencerse ¡qué carajo! su cuñado y su esposa. Después del cuarto “chato” volvió al monumento al que semblanteó de reojo hasta que se le atrevió.Ya frenteaélinicióundiálogo: — Pues bien; si quieres platicar...hip... platicaremos...hip... que más. Pero al fin, di una palabra que se te entienda. Desde el monumento se escucharon palabras incomprensibles, murmullo, quejas e interjecciones que Fermín, totalmente beodo, trató de descifrar y articuló con esfuerzo: —Noble equino. Se que tu estirpe puede ser árabe y que los árabes habláis con jeroglíficos como las pirámides, pero puedo asegurarte que Felipe no fue “marica” y si bien salía contigo de caza y le llevaba a su mujer más de treinta años; la que lo extrañaba muy mucho, tuvo como siete hijos... Volvió a su casa y se repitió la reyerta. Su cuñado optó por lo sano y lo llevó a dormir mientras Fermín murmuraba: — Necios, necios...no hay peor sordo que...que... que el que nace sordo. Ylahistoriavolvióarepetirse.FrenteaFelipeIIIysucaballoqueseguíaahíincólume,Fermín,totalmente borracho, volvió a dialogar con la estatua y en un raptode necesidad de una prueba de credibilidad, manoteó con furiaaunturistaporelantebrazoylepreguntóautoritario: x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09121
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    122 Victor José Fryc —¿Oyecomo habla? ¿Qué jerga es esa? Con tamaño susto el turista respondió: —Ijfaschteinet. Retornó al bar donde confundido bebió varias copas de jerez . Cruzó la plaza y se sentó al pié de la estatua ymasculló: — Mañana vengo con un traductor, un “poliglóta” y un grabador para que me crean. - Yse echó a dormir agotado en el pedestal. Al no regresar a su casa, su mujer y cuñado, alarmados, salieron a buscarlo por las borracherías sin éxito. Su cuñado entonces, decidió trasladarse a la Plaza Mayor para mejor informarse.Ahí yacía Fermín durmiendo la “mona” y cubierto totalmente de estiércol de palomas que entraban y salían de la panza del equino Los obreros del ayuntamiento sentenciaron: “Habrá que cerrar ese boquete de la panza del caballo pues hacen demasiado alboroto”. LA VIOLACIÓN (de Relatos de la Guardia II) Restituta era psicóloga del Hospital Psiquiátrico donde se desempeñaba en los servicios de guardia e internación.Suformaciónprofesionaleraintachableysecaracterizabaporsurecatoeintroversión.Pocoseconocía de su vida personal y evitaba hablar de su familia.Tampoco opinaba de cuestiones sexuales.Algo la distinguía: su amorporlosanimales. Todos los días de la semana, incluyendo sábados y domingos, solía dedicarse a alimentar a la jauría que se aquerenciaba en el hospital. Recogía las sobras de las comidas y paseando por los jardines, la repartía a diestra y siniestra a perros y gatos que se le agolpaban en derredor. Ella conocía a todos por su nombre a pesar de la cantidad; unos cincuenta gatos y perros constituían las miserables criaturas víctima de la crisis que la amaban y perseguíanportodoelhospital.Deporsí,constituíanunecosistemacuriosonoprevistoentrelosgruposvivientes. Eran una simbiosis moderna con interacciones entre la psicóloga, perros y gatos. Tenía predilección por una perrita de raza indefinida, de padres desconocidos, de pelaje largo, sedoso y color café que era su mascota y la llamaba con el nombre de “Camila” y que nunca había tenido cachorros, por lo que se suponía aún virgen. Cierta mañana, Restituta procedió a cumplir con la rutina de alimentar a la jauría que acostumbrada a la puntualidad adaptó su ciclo circadiano y la esperaban en el lugar de encuentro del parque del hospital. Sorprendentemente no apareció Camila. Restituta primero buscó en derredor, luego la llamó en forma reiterada. –Camila,Camila...Camila!!–repitiódesfalleciente. Preocupada procedió a recorrer el parque en su búsqueda; pero fue en vano. Camila no aparecía. Indagó entre el personal de maestranza y vigilancia pero no halló respuesta. Restituta se angustió y en su desesperación recorrióconpasosaceleradostodoelparquebuscandoenlosrecovecosy entrelosmatorralesaCamilasospechando algún accidente o enfermedad. Fue inútil, Camila no aparecía por ningún lado...no respondía a su llamado. Tal vez fue robada – pensó – y abandonó la búsqueda hasta la siguiente jornada. Al día siguiente reinició la búsqueda y grande fue la sorpresa y alegría cuando entre la jauría apareció Camila con sus orejas gachas caminando con dificultad. Restituta, al examinarla, corroboró que Camila sangraba por sus genitales y dejaba un reguero que manchaba el camino. La indignación fue mayúscula al ver a su mascota queaúnvirgen,habíasidoviolada¿Quiénhabríasidoelmalhadadoperroquecometióelbestialacto?Febrilmente trató de descubrirlo sospechando una conducta instintiva que lo delatara. No tuvo mayor éxito. Tratódeaveriguardetenidamenteyofrecióunarecompensaaceptableparaquealgúnmiembrodelpersonal le diera alguna pista, hasta que una enfermera de la sala de internación encontró el culpable. La sorpresa fue que el violador no había sido un can sino el paciente de la cama 8. EstallóelescándalocuandoRestitutainformóalasautoridades,JefedeServicio, DepartamentoyDirectivos yexigiólaexpulsióndeldegeneradoanimalista. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09122
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    123 –Pero doctora, nopretenderá que expulsemos a un inimputable... comprenda, es un enfermo psiquiátrico. –Argumentóeldirector. – No me importa, ese degenerado no tuvo piedad de una pobre perrita. Hay que aplicarle un castigo ejemplarysinoproceden,losdenunciaréysiesnecesarioiniciaréunacausapenal—Y seretiródandounportazo para reforzar su decisión. Losdirectivosnoledieronimportanciainterpretandoun“acting”circunstancial. Mas las cosas no pararon ahí.Además de difundir el hecho por todo el hospital, realizó una denuncia en la comisaría de la zona. –¿Cómosucedieronloshechosdoctora¿–preguntóelcomisariofingiendodarledramatismoaladenuncia. –La perrita hasta hace unos días era virgen; usted sabe bien la importancia de que un ser vivo sea virgen, sobre todo del sexo femenino. – O sea, era hembrita – dijo el comisario tomándose la barbilla. –Obviamente. – Era menor... o sea, era cachorra? – Efectivamente, aunque no puedo precisar la edad – afirmó la psicóloga. –Tendremosquerecurriraunveterinarioparacertificarla.Siesmayordedocemesesyanoesconsiderada cachorra. – ¡Pero comisario!Así tenga dos años, tomando en cuenta que la relación es siete años por cada uno del humano, estamos hablando de una víctima de catorce, es estupro. – Desconozco si se puede extrapolar desde el punto de vista antropológico. Tendrá que consultar con un abogado. – Comisario, la sangre existió y la vagina desgarrada también ¿Cuál es la duda? – No hay duda, en verdad el daño existió. Labraremos el acta de denuncia y llamaremos a un veterinario forenseparalacertificación. Restituta presentó el acta acompañada de su abogado el doctorAlbarreal en la dirección del hospital con actitudtriunfante.Eldirectornoteníaargumentoadministrativonicientífico.Esdecir,estaba “inpúribus”. – Conviene para su tranquilidad acceder al pedido de la doctora de expulsar al paciente – argumentó Albarreal. –Consultaré con las autoridades superiores. Y dada la trascendencia que había adquirido el hecho, convertido ahora en un gran escándalo hospitalario, apareció el periodismo que apoyó a la psiquiatra en sus declaraciones y acusó al director de defender al violador. SereunióelConsejoSuperiordelHospitalapedidodeldirectorparatratarcomoúnicotemalaviolacióndeCamila ylapermanenciadelviolador.Sorprendentementelosacontecimientossedescarrilaronalserpresentadounescrito por el doctorAlbarreal planteando una demanda al profesional médico psiquiatra que asistía al paciente violador por mala praxis e inobservancia de los deberes de cuidado del paciente. El Consejo Asesor discutió seis horas y al no poder llegar a ninguna definición (como es de estilo) se propusorealizarunateneoyoasambleaparatratarelcaso.Aldíasiguientesecitóconcarácterdeurgenciaatodos losprofesionalesdelasaludmentalalaasamblea,incluyendoalabogadoyalapsiquiatradenunciante.Unodelos profesionales concurrentes afirmó que Camila no pertenecía al hospital como paciente, personal, habitante ni supernumerario, a lo sumo era una visitante y que el hospital no era responsable del hecho. La lisenciada Restituta reaccionóindignadaydijo: – Nadie puede lavarse las manos frente a un hecho aberrante que ofende la moral, sobre todo cuando la profesión médica se basa sobre todo en el respeto de la vida humana y por ende de la ética. No hay profesión médicasinética. –Deacuerdo,peroelsistemanoestáparacontrolarlasrelacionessexualesdelospacientes–agregóeljefe del sector adolescencia. El doctorAlbarreal solicitó la palabra y dijo: – El daño producido a la perrita a manos de un enfermo del nosocomio es responsabilidad del sistema con el agravante de ser una violación a una menor. Además, dado la patología del enfermo, no puede ser éste el responsablelegal.Porlotanto,laresponsabilidadesdelprofesionaltratantequedebíahaberprevistolasposibilidad Victor José Fryc x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09123
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    124 de tal acto.Aestose llama negligencia e imprudencia. Además, la presencia dentro de las instalaciones hace al sistemaresponsable. –¿Por qué la lisenciada Restituta, a la postre la tutora o encargada o dueña de la perra no la cuidó convenientemente?–Gritóunaenfermera. ContestóRestitutaconfuria: – Lo único que faltaba era que la culpable de la violación fuera yo — –Usted la descuidó porque podía haber sido violada por la jauría de perros vagabundos que alimenta. Así, la discusión entró en la maraña estéril de lo bizantino hasta que desde el fondo del recinto se escuchó una cascada y débil voz de un anciano: el jardinero del hospital que preguntó: – ¿Alguno de todos ustedes pensó si Camila tuvo relaciones por su propia voluntad? La asamblea enmudeció ante la evidencia del razonamiento y cerró con las siguientes conclusiones: El paciente seguirá internado; la perra será expulsada del hospital y Restituta deberá tomarse una larga licencia... LA MÁSCARA Laluzdelsoldiafanizósupelo Caído sobre el rostro demacrado Conunperfilantiguodesteñido. Traté de transpolarlo hacia el pasdado Al creer que podía rescatarte. Más profundas arrugas me acompañan De una máscara absurda cincelada. Inútilfueunirambasvivencias Erascomounfantasmainalcanzable. Yahípermanecistecomounsueño Antiguoconlaspestañaspostizas En tus ojos azules de contacto Yenunvasoconaguacristalina Buceaba entre los dientes tu sonrisa. Tu plateada peluca olor a pucho y mi amor desteñido entre mis canas Se suicidan desde el maniquí absurdo. Fueinútildisimularunadisculpa Pues el juez implacable del espejo La imagen del pasado no rescata Y es un dedo acusador que no perdona. Victor José Fryc x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09124
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    125 LEMBRANÇAS – OFUNERAL -Tide, venha chupar uns roletes.Acaiana está cheia de caldo. Lembrança da infância. Nada tem a ver com o corpo estendido na mesa do necrotério, enquanto aguarda a roupa para ser colocado no caixão.Apalidez é a de um boneco de cera. Um morto. Não é meu pai. Não o conheço. - Mana, nosso pai não existia mais. Confuso, esquecido, em nada lembrava o chefe da casa, provedor, guardião da moral da família.Adoença deAlzheimer não perdoa. Tenho visto alguns pacientes que me levam a desejar o desenlace. Mas temos que esperar.Atualmente, vem sendo discutido o poder do homem sobre a vida e amorte.Emalgumascircunstânciasjápenseinaeutanásia,masnãosouforteosuficienteparaassumirumadecisão desta amplitude. Prefiro encarar o fim natural do pai que discutir as condições de vida que ele poderia continuar tendo.Éangustiante. - Benicio, a morte sempre me perturbou. O nascimento também.Aexperiência de ver alguém chegar à vida a partir de um estado de não existência ou, de ir a um estado de não existência após ter vivido, mexe comigo. Sobretudo quando o desfecho diz respeito a alguém de quem eu conheço a grandeza e a luta envolvida em sua construção. Foiumanoitedechuvaeventoforteenquantoafamíliaaguardavaodesfecho.Semestertores,mansamente sefoi.Mathildenãoderramanenhumalágrima.Sentadaaoladodocorpo,decabeçabaixa,orostopareceausente. O irmão insiste em continuar a conversa. - Enquanto teve saúde resolveu tudo por você e agora, como será? - Tenho sensação de vazio, de fim de estrada. Parada no tempo, sinto-me no limbo. - Fala alguma coisa, Tide. Faz bem. -Morreu vovó, nasceuAugusto seu primeiro bisneto; faleceu papai, Noêmia está grávida, em breve nasce seu filho. Pensava nessa alternância tão pouco inteligível que é a existência.Avida não se esclarece. São cinco horas de um despertar que mal começou. Já amanhece, mas ainda não é claro. Na linha do horizonte a tênue claridade de encontro às nuvens cria desenhos que lembram uma cidade fantasma. Pela janela Mathildeolhaojardim. -Aristeu, telefone para Eduarda. -Aquela do bufê? -Sim, filho. Devemos providenciar café, chá, biscoitos, água e um garçom. Muitos virão demonstrar sua solidariedade e teremos que recebê-los à altura. -Aqui fala donaAurélia de Castro Machado.Arlindo, é urgente. -Meu marido acaba de falecer.Tome as providências necessárias. Quero tudo de primeira qualidade.Aqui no Hospital Samaritano.Aguardo sua presença. -Mãe, estamos em condições de enfrentar esta despesa? -Benício, não é hora de pensar em detalhes. -Mathilde, vamos em casa tomar banho, café e nos prepararmos para a cerimônia. Vista o vestido azul marinho. Está bem de acordo. Vou ver seAdelaide pode ir até lá ajeitar nossos cabelos. Precisamos lembrar que estaremos em evidencia. É importante voltarmos o mais rápido possível. O enterro será às dezesseis horas. Vilma Clóris de Carvalho Médica Jaboatão - PE x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09125
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    126 Horárioseetiquetasmedoutrinaramtodaavida.Aceiteisempremodelosprontosparausaremcadasituação. Habituei-me com osistema. Não levo em conta minhas preferências. Nem as conheço. Parece que em cada circunstância me desconecto de mim e ajo de acordo com as normas estabelecidas. Sou um paradoxo. Um mundo interior vasto e complexo com um comportamento simples, cumprindo de acordo com o esperado. Dificilmente surpreendo. Fragmentos da convivência com meu pai afloram em estilhaços. São retalhos que nem sempre se harmonizam – o cheiro da moagem da cana, a procissão de Nossa Senhora do Carmo, o doce japonês no retorno damissa. O ritual se processa segundo as determinações de minha mãe.As lembranças tem o poder de fragmentar a alma. São instantes retirados de um todo, ao sabor do momento, quase sempre sem lógica aparente. Não sei como sou. Nas poucas vezes em que tentei ser diferente do que se esperava, senti-me inadequada. -Benício,anoteosnomesdasempresasefamíliasqueenviaramcoroaseassinaleasmaioresemaisbonitas. - Não vou fazer isso, mãe. Tenho coisas mais importantes para sentir e me ocupar. - Pode deixar. Eu faço. - Não poderia viver sem sua presença,Aristeu. De repente me dou conta de que um sentimento de prazer, burlando a minha guarda para manter a postura esperada, se insinua no meu peito. Sempre a ler, ouvir, observar e falando pouco, desenvolvi a arte de especular o que vai na alma. O prazer que se instala vem de pensar que, ao longo deste dia, não serei obrigada a sentir, nem reagir, nem providenciar, nem me torturar. É condizente com as circunstâncias que eu esteja chocada. O que se passa para além das aparências, ninguém vê. Na minha mente, algo sem cor, som, nem forma, mas atribulativa. Ouço a voz de minha mãe: - Mathilde, fique atenta aos acontecimentos. Preste atenção. Amanhã você se entrega a seus devaneios inúteis. Nãomeiludocomdisfarcesexteriores.Frasesegestosseenquadramemcomportamentospredeterminados, adequados à situação. Dia informe. Não parece fazer parte do calendário. É como uma nota fora da partitura. - O descanso eterno dai-lhe, Senhor, e que a luz perpétua o ilumine. -Amém. PadreAntonio encerra a cerimônia.Afamília, em alinhamento, caminha atrás do carrinho que conduz o caixão:donaAurélia,aviúvaeseusfilhos-AristeuesuamulherFelicia,MathildeeBenicio.Noêmianãocompareceu pelo adiantado estado da gravidez.Os demais presentes, os seguem. O rumor dos passos se assemelha a um batalhãoemmarcha. Aprimeiravezqueentreinumcemitério,aindaadolescente,fuitomadadeemoçãoàexpectativadepisarum terreno que guardava corpos que eu não sabia a quem pertenceram, mas que viveram vidas. Estavam enterrando meu avô.Agora é meu pai, um dia serei eu. Me ocorre a substituição das pessoas ao encerrarem seu tempo.Avida se processando continuamente enquanto cada indivíduo é um instante. Meus irmãos terão continuidade através de seus filhos. Eu sou semente que não vingou. Os ciprestes não se movem, o dia está abafado. Começa a escurecer. Uma folha cai, um passarinho voa, outro pousa no galho para aguardar o amanhã. -Aurélia, meus parabéns. O sepultamento de Eurico de Castro Machado foi impecável. Vilma Clóris de Carvalho x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09126
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    127 Walter Gomes deMiranda Filho Médico Fortaleza - CE INTRIGAS NA CASERNA Desde que chegara ao Batalhão, o Capitão Carioca se tornara uma pedra no sapato do Tenente Cearense, ou no coturno, para ser mais fiel ao tipo de calçado adotado naquela organização militar, sediada nos rincões da fronteirabrasileiracomaBolívia. Carioca era o típico militar de carreira, ingresso nas escolas preparatórias ainda adolescente e saído havia poucosanosdaAcademia.Seusonhoeraatingirogeneralato,façanhareservadaaospoucoseafortunadosoficiais sem manchas no currículo e que contassem ainda com uma boa dose de apadrinhamento nas esferas superiores – leia-seBrasília. Já Cearense era apenas um R2, como são designados os oficiais temporários, em grande parte recém- formados da área de saúde, que se engajam às ForçasArmadas para quitação do serviço militar obrigatório. Ao contrário de Carioca, que pretendia permanecer por toda a vida naquele tipo de ambiente, Cearense ali estavaapenasdepassagem,emboradeformavoluntária,poishaviasidodispensadodefinitivamentedaobrigação aos 18 anos de idade por deficiência física.Ao concluir o curso de medicina, vislumbrara a oportunidade de dar o troco no “colega” que o chamara de quase cego no teste de acuidade visual e o considerara incapaz para o serviço militar. Carioca respirava regulamentos e os citava de memória, seguido e salteado, sempre que queria exercer sua autoridade, a qual impunha aos subordinados com arrogância e pela força das estrelas que carregava literalmente nos ombros. Cearense era o doutor, como a ele se dirigiam superiores e subalternos, e aos poucos fora granjeando a simpatia de todos, pois a todos tratava com respeito além de curar-lhes as pequenas mazelas como bolhas, calos e unhas encravadas. Raramente aparecia um resfriado ou uma diarréia; todos gozavam de excelente saúde, afinal supunha-se serem verdadeiros guerreiros, a primeira linha de defesa da pátria amada... Paulatinamente, Carioca foi desenvolvendo uma espécie de despeito em relação a Cearense, e não há coisa pior do que ciúme em homem, ainda mais capitão, ainda mais do Exército, a mais “militar” dasArmas, ainda mais subcomandante, função a que Carioca fora guindado após a transferência do Capitão Pernambucano, o melhor amigo do Cearense até então. AinvejanasciadaadmiraçãoqueCearensedespertavaemtodos,atépeloseujeitocearensedeser:expansivo, brincalhão embora respeitoso e cumpridor rigoroso de suas obrigações. Como se não bastasse, ainda animava as rodasdesambacomseuviolãoafinadoeeraoartilheirodotimedefuteboldoquartel,quedisputavaocampeonato local. Tantos atributos faziam Carioca exercer marcação cerrada sobre Cearense, sempre à procura de algum senão em sua conduta, algo que pudesse enquadrar nos regulamentos para chamar-lhe a atenção ou mesmo puni- lo. Mas Cearense não dava “sopa na crista”, para usar o jargão corrente e como já se dera conta da perseguição, esmerava-se ainda mais, tanto no cumprimento das missões e seus prazos cada vez mais exíguos, como no corte rente do cabelo e do bigode ou no polimento dos coturnos e da fivela de latão do cinto, que refletia, como um verdadeiro espelho, não só as imagens diante de si, mas, metaforicamente, sua resposta eloqüente à rixa do Carioca. Após alguns meses de silenciosa resistência, Cearense começou a perder a paciência com Carioca e passou a estudar uma maneira de desmoralizá-lo, sem evidentemente fornecer-lhe munição para uma punição. Observou que Carioca gostava de corrigir pequenos erros de português dos comandados, chegando mesmo a mandá-los“pagar”dezapoiosdefrentequandoescutavaqualquerpequenodeslizevernacular,emboraelepróprio, o Carioca, vez ou outra escorregasse na sintaxe ou na prosódia. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09127
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    128 Walter Gomes deMiranda Filho Assim,decidido,Cearenseficoudeprontidãoparaaprimeiraoportunidadeeestanãotardouaseapresentar. Estavamtodosreunidosnocassino,comosedenominaorefeitórioparaoficiais,enocasopeculiardaquelebatalhão deselva,tambémparasubtenentesesargentos.Numdadomomento,Cearensesedirigeao Sargento Gaúcho e pede educadamente que lhe passe a manteiga, pronunciando o termo com o característico sotaque nordestino, sincopando o “i” e fechando o ditongo decrescente: “mantêga”. Carioca que há muito ansiava por um vacilo,nãodeixoupormenos.Irrompeuemestrepitosagargalhada,comoquevibrandopelachancederepreender o Cearense em público: todo cearense é morta-fome, agora está comendo até os “is”; vai pagar dez... Cearense não se faz de rogado e com a presença de espírito do cabeça-chata rebate de pronto: para o Senhor ver o que é a convivência;detantolheouvirvomitar“is”em“naiscimento”,acheiquenãoiafazerfalta... Seguiu-seumsilênciotorturante,emquetodos,surpresoscomarespostacategóricadoCearense,aguardavam o pior, talvez até uma voz de prisão por parte do Carioca. Este, boquiaberto, não conseguia se recuperar do inesperado revide e enquanto começava a gaguejar uma tentativa de retaliação foi interrompido pelo Coronel Mineiro, comandante do batalhão e admirador do Cearense, com quem costumava bater longos papos em inglês, para não perder a fluência: esquece, Carioca; deixa o Doutor em paz... E, como no Exército manda quem pode e obedece quem tem juízo, Carioca teve que engolir a desfeita e a rotina voltou a dar as ordens na caserna. HOMENS APAIXONADOS Mulher não entende de paixão. Calma, caríssimo leitor.Antes de reler a oração anterior, tópico frasal do assunto que se vai aqui comentar, para conferir se leu corretamente ou mesmo para pôr em dúvida a sanidade mentaldocomentarista,deixe-meesclarecer:comoéquemulhernãoentendedepaixãosesãoelassempreasmais apaixonadasemaisardorosasdefensorasdoamorincondicionale,apesardofeminismoedaliberaçãosexual,não abremmãodeumromancenovelesco,seéquenãoestareimisturandogênerosliterários.Mas,meucaroepaciente leitor, que continua a dar-me o crédito de sua atenção até este ponto, não é a essa paixão que teço loas. Acho mesmo que nesse caso elas, as mulheres, não as loas, são deveras imbatíveis. Refiro-me à paixão futebolística, àquela que marca como ferro em brasa, não a pele, mas o coração do torcedor apaixonado. Refiro-me à paixão que arrasta o torcedor aos estádios e o arrebata pela emoção, seja na vitória, seja na derrota, às vezes mais nesta que naquela, por incrível que possa parecer. A paixão clubística pode unir ou afastar casais, mais ou menos apaixonados um pelo outro, na dependência das “camisas” a que cada um destina sua devoção. Isso quando ambos apreciam o esporte bretão, como se dizia antigamente. E quando um deles simplesmente não curte, ou ainda pior, abomina a paixão do outro, então o jogo podeficarduro,umaverdadeiraretranca.Nadaadiantainventartáticasvariantes,esquemasalternativos,amarcação é cerrada, para não dizer homem a homem, que pegaria mal. Na hora da saída para o estádio é a preleção de sempre: Beinhê, já vai, tão cedo? Jura que vai mesmo pro estádio? Não vá beber demais, olha a lei seca, hein.Volte assim que acabar e mil e uma outras recomendações de última hora, já gritadas da porta de casa.Ao abnegado só restam a desculpa, figurinha carimbada: se me atrasar é porcausadoengarrafamentoeaveteranamascampeoníssima:nãosepreocupe,amelhorcachaçaéomeutricolor. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09128
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    129 INTERIOR E CAPITAL SoumeioignorantequandooassuntosãoosmunicípiosdointeriordoCeará.Chegueiaestatristeconclusão recentementequandoviajavacomdestinoaLimoeirodoNorteemcompanhiadeumgrupodemédicosescritores. Nossoobjetivo era participar de uma jornada literária que irmanasse os colegas da capital aos daquela ilustre cidade do Baixo Jaguaribe. Vencidososprimeirosquilômetros,osgrupinhosdeconversasedividiramdentrodoônibusdeacordocom asafinidades.Osdiretoreseosmaispacatosláadiante,umououtrocasalmaisisoladonaspoltronasintermediárias e a turma do aperitivo na traseira, sempre com tiradas espirituosas, quando não uma anedota mais ou menos apimentada. A conversa corria animada quando veio à tona a indagação da origem de cada um de nós e foi então que tomei conhecimento de que um nascera em Baturité, outro em Sobral, outros ali e alhures e, para surpresa geral, um derradeiro afirmou ser natural da própria Limoeiro, aonde não retornava havia mais de quarenta anos! Chegadaminhavezdeinformaracidadeondenasci,respondi“soudeFortaleza,mesmo”,denunciandoum misto de inferioridade e inveja. Isto porque todos eles não se limitaram a citar seu torrão natal; toda citação era seguida de uma breve, mas apaixonada descrição dos atributos geográficos, políticos e econômicos de suas respectivas cidades, como se ali participassem de uma competição para escolha do lugar perfeito para se nascer, viver ou morrer, sei lá... Eu apenas engoli em seco e nada acrescentei de ilustrativo como que admitindo que a capital é auto- explicativa e fala por si mesma, torcendo para que todos concordassem comigo. A essa altura já nos aproximávamos do nosso destino final e enquanto o sol se punha por detrás de um carnaubal, descortinando um cenário alaranjado digno de uma obra impressionista, o colega limoeirense, não contendo o sentimento, ajoelhou-se, e em pranto, declamou um poema escrito propositada e especialmente para a ocasião. Sensação de tirar o fôlego, poucos foram os que conseguiram segurar as lágrimas e nestes, não me incluo. Mas à medida que conseguia controlar a emoção do momento, quedei-me a imaginar o quanto tenho vivido nesta selva de pedra. Nascido e criado à beira do asfalto, habituado a respirar o ar poluído da metrópole, são poucos os municípios do Ceará que posso afirmar realmente conhecer. Tirando os que apenas atravesso quandomedirijoaalgumadaspraiasparadisíacasdolitoral,nãochegamaduasdezenasdeles,dosquaseduzentos quepossuímos.Éumavergonha,paradizeromínimo,semmencionarquemeuscompanheirosinterioranoscultivam seu folclore, suas tradições. Eles têm raízes, eu apenas alicerces... Walter Gomes de Miranda Filho x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09129
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    130 Wlademir do CarmoPorto Economista São Paulo - SP PROMESSA DE CARNAVAL É Carnaval! Estrugem os tambores. O batuque profundo e ensurdecedor reverbera nos corpos suados dos foliões.Acadência é comandada pelos gestos nervosos e o apito do mestre do Maracatu.As variações do batuque magnetizam a multidão aglomerada nos passeios e mesinhas da Rua dos Judeus, próxima ao Marco Zero de Recife, onde estou em companhia de dois irmãos. Numa mesa, à nossa frente, uma família. Ele, homem troncudo e barbudo, parece um viking. Duas filhas adolescentes, magrinhas, serelepes. A mulher, figura desgastada e aborrecida, sentada na cadeira oposta a do marido. O homem olha, fixamente, uma loura escultural, um pouco gorda, que rebola languidamente, ao som dos tamborins, sob os olhares atentos de dois rapazes que lhe fazem companhia.Amulher, de olhar severo, policia o marido que aparenta uma indiferença que não existe. Duas mesas adiante, à minha esquerda, vejo uma morena alta, bem proporcionada, voluptuosa, com short curto vermelho, pondo à mostra suas coxas torneadas. Seu companheiro, um velho com bengala, chapéu de palha com a aba frontal dobrada, tendo estampada, entre lantejoulas e purpurina, a bandeira de Pernambuco. Veste calção e camisaregata.Olharabsorto,figuraumtantoridícula,mostra-seindiferenteàalegriaquecontagiaatodos.Umade suas mãos repousa tranquilamente, entre as coxas da mulher, enquanto degusta uma dose de whisky. Abatucadaatingeoápice,comtodososinstrumentosdepercussãotocandosimultaneamente.Écontagiante. Acadência eletriza a multidão, que se põe a gingar. Amorena, como que atingida por um raio, sobe numa cadeira iniciando um rebolado frenético, sensual, libidinoso. Os seios parecem saltar da blusa semi-aberta.As sandálias douradas faíscam com os movimentos nervosos dos pés. É uma mulher plena de desejo, exposta. Exibe-se. Sabe o fascínio que exerce. Nossos olhares se cruzam. Vejo seus olhos brilhando de desejo.Adança torna-se inebriante. Seu corpo se contorce de forma estranha. Observo extasiado.Até que enfim, exausta, senta-se sorridente. Recompõe os cabelos revoltos, com os dedos. Sutilmente, esboça um sorriso. Correspondo com o olhar, rindo da desfaçatez. Fita-me dissimulada, enquanto o velho paga a conta,levanta-secomdificuldadeeretira-se.Trocamosumúltimoolhareavejodesaparecer,sedutora,nomeioda multidão. Em seguida, saímos do local e, ao passar pela mesa onde ela se encontrava, vejo, sobre o tampo de mármore, entre confetes e serpentinas, um boné carnavalesco de papelão, com um nome e número de telefone. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09130
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    131 Zilda Cormack Médica psiquiatra Riode Janeiro - RJ 0 DIA EM QUE VOVÔ ME ENXERGOU. Foi definitivo aquele olhar azul de meu avô, fixado em cima de mim, quando entrei correndo na sala de visitasdocasarãoonderesidiamosmeusavóspaternos.Estavabrincandodepique noquintal,commeuirmão.Na fugairrompí intempestivamenteno aposentotentandoesconder-me peloladodedentrodameiaportaqueestava aberta.Sómedeicontadequetinhainfringidoumaordemdacasadequenãopoderíamos entrarnaqueladependência quando, assustada pela corrida, coração aos pulos, dei com os olhos no vulto do meu avô sentado na poltrona. Abaixou o livro que estava lendo pousando-o no colo. Elevou os óculos para a testa e continuou a olhar-me fixamente com os seus lindos olhos azuis. Minhas pernas começaram a tremer e o medo me alcançou. Devo ter ficado pálida porque após alguns instantes a me observar, convidou-me para sentar na poltrona à sua frente. Obedeci, concluindo ser o “castigo” pela desobediência. O olhar de meu avô não se desviava de mim e eu, como hipnotizada também não podia desviar os meus.Ao cabo de alguns segundos perguntou-me: - Quer ler ?Assenti comacabeçaeeleestendeu-meumarevista mandandoqueeu lesseotítuloemvozalta.Timidamentetenteijuntar as sílabas soletrando-as vagarosamente, “Eu... sei... tudo...”, disse ainda engasgada pelo susto. Percebi naquele momento, algo no olhar de meu avô que até hoje não sei bem explicar.Parecia um misto de admiração pelo meu esforço de ler (tinha apenas cinco para seis anos) e ainda não ingressara na escola. Muito curiosa, gostava de folhearjornais,reconhecendo asletrasmaioresqueaminhamãeensinavanacartilhaaomeuirmão.Com facilidade ia memorizando-as, descobrindo palavras com a sua ajuda. Daí ter lido com certa facilidade o título da revista “Eu... sei... tudo”. Enfiei a cara nas páginas, escondendo todo o rosto para fugir do olhar observador do meu avô. Tentavaler,mas achavamuitodifícilligartantaspalavrascomletrastãomiúdas. Detinha-me nostítulosmaiorese vez por outra, baixando lentamente a revista, espiava de soslaio o avô para ver se ainda me observava. No fim de algum tempo me perguntava se estava cansada, eu dizia que não. Na verdade queria permanecer ali, naquele recolhimento com ele, tentando descobrir o mistério que o fazia permanecer, por longas horas do dia, entregue à leitura. Por vezes, de onde estava, podia ouvir a algazarra das crianças em seus folguedos no quintal. Mas não me movia desejo algum de me juntar a elas. Só saía da sala quando o meu avô, levantando os olhos da sua leitura me interrogava: - Então já leu bastante ? Eu afirmava que sim e então me mandava brincar com os outros. Tornou-se um hábito para mim essas idas à sala de visitas do casarão para ler em companhia de meu avô, quando ia por lá uma ou duas vezes por semana. Após os cumprimentos de praxe a minha avó e tia que ali residiam,esgueirava-me para serlogovista peloavô.Vezporoutra,elevinhaàsalacontíguareceberosvisitantes, falava com papai, estendia a mão para mim e logo me perguntava : - Queres ler ? E, ato contínuo, se dirigia para asaladevisitas.Ianoseuencalço,felizporsuaatençãoeelejámeestendendoa revista“Euseitudo”. Informava- me ser a mais nova, que estava muito boa pois já a lera quase toda. Sentava-me na mesma poltrona e ficava ali tanto tempo quanto durasse a visita ou então para o lanche da tarde em companhia de todos da casa. O tempo escorrendo, eu já estava com dez anos, terminando o curso primário, mas sempre visitando o meu avô. Ele,nessa altura já conversava comigo alguns assuntos ventilados na própria revista . Passou a fornecer-me valiosasinformaçõesarespeito dealgunsartigosdifíceisaindaparaomeuaprendizado.Procuravaacompanharo seuraciocínio.Muitasvezesempregavatermos técnicosnoseuidioma,eminglês,procurandonodicionáriooseu significadoparamelhormeexplicaroque significava.Achoquesuperestimavaaminhainteligência.Eufingiaestar entendendotudo,mas namaioriaficavaboiando.Aindamelembrodealgumasfrasesditasporelequemecalaram profundamente. -” Estuda sempre, o mais que puder. Faze dos livros os teus maiores amigos. Não deixes que o x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09131
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    132 Zilda Cormack desânimo seaproxime de ti. Deixa que os bons livros vão ensinar-te como uma fonte de água cristalina brotando de uma pedra. Ela nos mata a sede do saber apontando novos rumos à nossa vida. Lê, estuda, medita muito.” Ficavafilosofando,àsvezesseguiaumcursodepensamentonumlinguajaraindaestranhoparamim,masficavatão poético e lindo quando falava. Mais de sessenta anos já são passados, e a figura de meu avô, entrado em anos, cabeça branca, cabelos ralos, fisionomiasempreséria,olharazul,lembrandoacordocéunaprimavera,perduranaminhamemória.Creioquefoi definitivoparaaminhavidaaquelediademinhainfânciaemquesentioseuolharpresoemmim,comoainterrogar- me e ao mesmo tempo sem nada dizer. Parece que, naquela tarde, profetizou a minha jornada aqui na terra se eu me dedicasse aos estudos. Ele se foi quando eu já cursava o terceiro ano da Faculdade de Medicina .Muito sofri à época, pois ainda não adquirira conhecimentos médicos suficientes para poder ajudá-lo. Mas isso já faz parte de um outro capítulo de minhas recordações que futuramente narrarei. Hoje, passado tantos anos, ainda trago na memória a figura simples, tranquila, puro olhar azul, do meu avô, a me fitar surpreso na invasão de sua paz, na sala de visitas do velho casarão, naquela manhã da minha infância, da qual, na lembrança, jamais consegui apagar. ARESTAS Das arestas do pensamento escorremdivagações carregando sombras de lembranças pintadas de saudade !... Sutis saudades, marcadas talgrafitesemartesanal, esboçando no conjunto o diálogo puro de sua arte, transmudando a cor da palavra empolicromiatranscendental! Escorrem das arestas indescritíveiscantoseencantos misteriosamentecoloridos, pingando estrelas de harmonia ...! Sonhos e lembranças translúcidos...transparentes... Das arestas, saudades e festas escorrem ligadas emlágrimasmulticores!... È talumconjunto de vagas, de fluxos, de pensamentos ousados...distantes dos antes....indevassáveis...da mente !.. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09132
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    133 ALOENDRE Espirradeira (Merium oleander L) dafamília das apolináceas também chamada aloendre, aloendro,oleandro, adelfa. Étãosingela,simples,tãohumilde dessa humildade que cala na gente, ao ver um povo que acredita em tudo até na sombra de uma espirradeira quando se abriga do calor do sol ! É tão antiga essa aloendre, embora muitos a ignorem, pois simples arbusto não tem robusto o tronco, tal o ipê, e muito menos das lindas acácias que nas encostas, enfeitando as matas no ornamental cantante à primavera ! Simples, discreta, a nossa espirradeira valorlheatinge,poisoseufloreio não faz rodeio, dura todo o ano, florindosemprenosjardinstãosimples e nos quintais de terra ressequida ! Diversas cores..Tem o seu mistério e o encantamento do próprio verão ! Nas tardes quente, ao sabor da brisa, reprisa em tons, ao longo das aléias mostrando encantos aos olhos de tantos ! Tem amarelas, rosas, tantas brancas, não sei qual é de todas, a mais linda ! Se o vento é forte, inclina bem seus galhos tocando o chão, em forma de agazalho a proteger as flores que se fecham ! Pela manhã, passada a tempestade, vai retornando, com o raiar do sol toda a postura dos seus galhos verdes, antegozando pelainclinação, a proteção, desse destino atroz ao ver as flores, mortas pelo chão ! Um passarinho solto, chega ao galho : entoa um canto ... e a linda espirradeira, retorna a vida, abre os seus botões ... Na singeleza, dá bom dia ao sol ! Belo aloendre derramando cores, multiplicandoencantosnoarrebol, mostrando os galhos pendentes de flores ! Zilda Cormack x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09133
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    135 X Jornada Médico-LiteráriaPaulista V Jornada da Sobrames Nacional VI Sobramíada Apoio Institucional: Realização: Movimento Poético Nacional - Academia Paulista de História - Academia Paulista de Medicina - Green Place Flat - Associação Médica Brasileira - Rumo Editorial Produções e Edições - Academia Paulista de Letras - Academia Ribeirãopretana de Letras Sociedade Brasileira de Medicos Escritores- SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:09135
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    Anais ANAISdaXJornadaMédico-LiteráriaPaulista-SÃOPAULO-SP-2009 APOIO INSTITUCIONAL REALIZAÇÃO Sociedade Brasileirade Médicos Escritores - SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará X Jornada Médico-Literária Paulista V Jornada Nacional da Sobrames VI Sobramíada - CE 17 a 19 de Setembro de 2009 Green Place Hotel São Paulo - SP - Brasil MUSEUPAULISTA-IPIRANGA-SP Movimento Poético Nacional - Academia Paulista de História - Academia Paulista de Medicina - Green Place Flat - Associação Médica Brasileira - Rumo Editorial Produções e Edições - Academia Paulista de Letras - Academia Ribeirãopretana de Letras Sociedade Brasileira de Médicos Escritores- SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará capa_x jornada - anais - FINAL.indd 1capa_x jornada - anais - FINAL.indd 1 10/9/2009 16:23:5010/9/2009 16:23:50