A Melodia
do Silêncio



  Um romance de Joel Flor
A Melodia do Silêncio
“Até mesmo das cinzas, renasce a esperança.”

                                    Joel Flor
Capítulo I
Certos momentos da nossa vida, recordamos
com mais lucidez do que os dias comuns que se
desfazem pela memória como pétalas de uma flor
morta no fim da sua estação. Sendo lentamente
carregadas pelo vento do tempo.
         Lembro-me da primeira vez que a morte me
visitou, estava no meio da segunda guerra mundial, era
piloto da força aérea americana quando fui atingido na
costa do espaço aéreo da França pelos Nazis. O meu
avião despenhou-se nas águas frias do mar
mediterrâneo como um meteorito sobre a terra. Nunca
tinha lutado com tanta persistência para sobreviver
como naqueles infindáveis segundos em que o mar me
gelava os ossos e me interrompia o fôlego, apenas
cinco quilómetros de água me separavam da costa
francesa ocupada pelos alemães, por mais que
soubesse que iria ser capturado, afundar-me
juntamente com o meu avião não me pareceu grande
opção no momento de desespero. Lembro-me quando
alcancei aquela praia exausto, completamente
derrotado e sem rumo. Naquele momento prevaleceu
um instinto que desconhecia em mim, a minha
capacidade de manter-me vivo acima das leis da minha
própria natureza. Nos dias que se seguiram eu
esperava que cada um deles fosse o último, mas aquele
último dia não chegou, sobrevivi a todos os entraves do
destino.
Passaram-se cinquenta anos, perdi a conta das
vezes que contei a minha história à minha esposa
Megan minha companheira dos longos anos que se
procederam na tranquilidade do meu lar, aos meus
filhos, aos meus netos e aos poucos amigos, sempre a
recordei com orgulho e patriotismo, até ao dia em que
a Megan partiu da minha vida e me deixou só no
mundo. Pela primeira vez na minha vida senti-me fraco,
desnorteado, sem o escudo da invencibilidade que me
tinha sido concedido durante décadas. Comecei a
recordar aqueles dias de um modo diferente, via-me a
atravessar aqueles pântanos debaixo da fria neblina,
amedrontado com a ausência do som que não existia,
que não denunciava o meu fim, mantendo-me num
inconstante compasso de espera de um incerto
destino.
         O tempo levou as minhas forças, definhou os
meus músculos, invalidou a minha confiança e
incapacitou-me de caminhar só no mundo. Depois de
cinco anos de sofrimento e solidão a minha filha
Maggie me acolheu e cuidou de mim enquanto pode,
todavia em poucos meses a minha presença tornou-se
um incómodo e começou a abalar o seu casamento.
Cinco anos depois no ano de 2007 o problema da
Maggie foi resolvido, fui colocado num lar longe da sua
casa. Entrei num autocarro com uma mala e deixei a
minha casa pela segunda vez na minha vida desde que
havia retornado da guerra.
No fim do mundo ali estava eu, deixei o
autocarro observando os altos muros que rodeavam
aquele enorme espaço, duvidava que algum idoso
conseguisse trepar aquela altura absurda que mais
parecia a vedação de uma prisão. O lugar era tão
silencioso que nem os pássaros cantavam, a própria
natureza parecia acompanhar os nossos passos
cansados e gastos. Foi nesse primeiro dia que conheci a
minha amiga Catherine, olhos claros e vividos, cabelos
loiros esbranquiçados, pele enrugada e salpicada sobre
o efeito do sol que se apresentava forte naquela
região, parecia a única pessoa viva num cemitério
ambulante, estava rodeado de velhos. Nunca
esquecerei aquelas primeiras palavras que ouvi serem
proferidas pelos seus lábios…

        - Seja bem-vindo John!
        - Capitão John Stevens, o prazer é todo meu! –
Respondi eu na minha ainda persistente arrogância. As
demais carcaças humanas que moravam naquele lugar
riram-se de mim comentando ironicamente um deles
de seguida:
        - Capitão do quê? Das fraldas molhadas? –
Comentou Francis, possivelmente o rei daqueles
dementes sem vida que morriam lentamente
abandonados num deserto humano.
        Num passado não muito distante certamente
consideraria aquilo um insulto digno que me
envolvesse em confusões, mas naquele dia a ferida foi
demasiado profunda, o meu escudo da insensibilidade
há muito que havia caído também, senti-me triste,
ridículo e derrotado com um só golpe. Virei-lhes as
costas, sentindo-me humilhado e procurei o meu canto
por entre as sombras da solidão.
        Aquele primeiro dia não foi muito positivo para
criar amizades, nos dias que se seguiram fui me
mantendo sempre á distância sem falar com ninguém.
Passava horas no pátio observando as nuvens,
recordando os velhos tempos em que comandava os
céus, procurava me alimentar do passado como
antigamente, mas as memórias não me traziam mais
ânimo, apenas me ocupavam os pensamentos
permitindo-me evadir daquela prisão em que a única
liberdade seria a morte.

A melodia do silêncio (cap.i)

  • 1.
    A Melodia do Silêncio Um romance de Joel Flor
  • 2.
    A Melodia doSilêncio
  • 3.
    “Até mesmo dascinzas, renasce a esperança.” Joel Flor
  • 4.
  • 5.
    Certos momentos danossa vida, recordamos com mais lucidez do que os dias comuns que se desfazem pela memória como pétalas de uma flor morta no fim da sua estação. Sendo lentamente carregadas pelo vento do tempo. Lembro-me da primeira vez que a morte me visitou, estava no meio da segunda guerra mundial, era piloto da força aérea americana quando fui atingido na costa do espaço aéreo da França pelos Nazis. O meu avião despenhou-se nas águas frias do mar mediterrâneo como um meteorito sobre a terra. Nunca tinha lutado com tanta persistência para sobreviver como naqueles infindáveis segundos em que o mar me gelava os ossos e me interrompia o fôlego, apenas cinco quilómetros de água me separavam da costa francesa ocupada pelos alemães, por mais que soubesse que iria ser capturado, afundar-me juntamente com o meu avião não me pareceu grande opção no momento de desespero. Lembro-me quando alcancei aquela praia exausto, completamente derrotado e sem rumo. Naquele momento prevaleceu um instinto que desconhecia em mim, a minha capacidade de manter-me vivo acima das leis da minha própria natureza. Nos dias que se seguiram eu esperava que cada um deles fosse o último, mas aquele último dia não chegou, sobrevivi a todos os entraves do destino.
  • 6.
    Passaram-se cinquenta anos,perdi a conta das vezes que contei a minha história à minha esposa Megan minha companheira dos longos anos que se procederam na tranquilidade do meu lar, aos meus filhos, aos meus netos e aos poucos amigos, sempre a recordei com orgulho e patriotismo, até ao dia em que a Megan partiu da minha vida e me deixou só no mundo. Pela primeira vez na minha vida senti-me fraco, desnorteado, sem o escudo da invencibilidade que me tinha sido concedido durante décadas. Comecei a recordar aqueles dias de um modo diferente, via-me a atravessar aqueles pântanos debaixo da fria neblina, amedrontado com a ausência do som que não existia, que não denunciava o meu fim, mantendo-me num inconstante compasso de espera de um incerto destino. O tempo levou as minhas forças, definhou os meus músculos, invalidou a minha confiança e incapacitou-me de caminhar só no mundo. Depois de cinco anos de sofrimento e solidão a minha filha Maggie me acolheu e cuidou de mim enquanto pode, todavia em poucos meses a minha presença tornou-se um incómodo e começou a abalar o seu casamento. Cinco anos depois no ano de 2007 o problema da Maggie foi resolvido, fui colocado num lar longe da sua casa. Entrei num autocarro com uma mala e deixei a minha casa pela segunda vez na minha vida desde que havia retornado da guerra.
  • 7.
    No fim domundo ali estava eu, deixei o autocarro observando os altos muros que rodeavam aquele enorme espaço, duvidava que algum idoso conseguisse trepar aquela altura absurda que mais parecia a vedação de uma prisão. O lugar era tão silencioso que nem os pássaros cantavam, a própria natureza parecia acompanhar os nossos passos cansados e gastos. Foi nesse primeiro dia que conheci a minha amiga Catherine, olhos claros e vividos, cabelos loiros esbranquiçados, pele enrugada e salpicada sobre o efeito do sol que se apresentava forte naquela região, parecia a única pessoa viva num cemitério ambulante, estava rodeado de velhos. Nunca esquecerei aquelas primeiras palavras que ouvi serem proferidas pelos seus lábios… - Seja bem-vindo John! - Capitão John Stevens, o prazer é todo meu! – Respondi eu na minha ainda persistente arrogância. As demais carcaças humanas que moravam naquele lugar riram-se de mim comentando ironicamente um deles de seguida: - Capitão do quê? Das fraldas molhadas? – Comentou Francis, possivelmente o rei daqueles dementes sem vida que morriam lentamente abandonados num deserto humano. Num passado não muito distante certamente consideraria aquilo um insulto digno que me envolvesse em confusões, mas naquele dia a ferida foi
  • 8.
    demasiado profunda, omeu escudo da insensibilidade há muito que havia caído também, senti-me triste, ridículo e derrotado com um só golpe. Virei-lhes as costas, sentindo-me humilhado e procurei o meu canto por entre as sombras da solidão. Aquele primeiro dia não foi muito positivo para criar amizades, nos dias que se seguiram fui me mantendo sempre á distância sem falar com ninguém. Passava horas no pátio observando as nuvens, recordando os velhos tempos em que comandava os céus, procurava me alimentar do passado como antigamente, mas as memórias não me traziam mais ânimo, apenas me ocupavam os pensamentos permitindo-me evadir daquela prisão em que a única liberdade seria a morte.