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DOMINGO

DOMINGO

Recife, 12 de janeiro de 2014

Recife, 12 de janeiro de 2014

Na América Latina, Evaristo só
ganha menos que o argentino
Menotti”, disse o então presidente do Santa Cruz, Rodolfo
Aguiar, à revista “Placar” do dia
17 de setembro de 1979. O cartola coral não estava delirando ao usar
o técnico César Luis Menotti, campeão
da Copa do ano anterior pela Argentina,
como parâmetro.
Nos dourados anos de 1970, o Santa
chegou a bancar o maior salário do País
pago a um treinador. Evaristo de Macedo não era o único “cobra”, para utilizar
um termo da época, a ser muito bem remunerado pelas bandas do Arruda. Diversos jogadores como Givanildo, Nunes
e Joãozinho, craques daquela época, estavam entre os que mais ganhavam no
Brasil.
Naquela época, a principal fonte de receita dos clubes era, disparada, a negociação de atletas. E ao longo da década, o Santa não só produziu muitos jogadores de altíssimo nível dentro de casa
como soube garimpar alguns outros na
região para transformá-los em minas de
ouro. Ou seja, gastava pouco ou nada
para adquirir um peça e as vendia
muito caro.
O caso de Nunes é ilustrativo. O Confiança recebeu Cr$ 320.000,00 por um
jovem atacante apenas promissor, em
1975. Quatro anos depois, o Santa Cruz
negociava o “Cabelo de fogo”, já como
um dos melhores centroavantes do

“

O SANTA
CRUZ
da década de
1970 era pauta
certa nas
edições da
revista “Placar”

Brasil, por Cr$ 9 milhões para o Fluminense. Aliás, com a entrada do fantástico ponta-direita Fumanchu no pacote,
o valor subiu para 11,2 milhões, a maior
transação do futebol nacional até então.
O “TERROR DO NORDESTE”
Mas o grande momento financeiro do
clube era uma das consequências do
que os tricolores faziam dentro de
campo naqueles anos 1970. Pernambuco havia ficado pequeno: do período
de 1969-79, o Santa conquistou oito títulos estaduais. Em 1975, o Brasil conhecia o “Terror do Nordeste”, cantado
nos versos do profético e genial Capiba,
quase 20 anos antes.
Em 29 jogos, o Tricolor perdeu apenas
seis vezes, empatou dez e venceu 13. A
última delas garantiu a vaga na semifinal da competição. No Maracanã, o

Santa de Ramon, autor de dois gols, atropelou o Flamengo de Zico (3x1).
O time do técnico Paulo Frossad terminou a fase de classificação em primeiro do seu grupo, na frente do Inter,
que seria campeão, e pegou o Cruzeiro, em partida única. Por ter a melhor
campanha, levou a vantagem do empate e de jogar no Recife.
O sonho de chegar à final do Brasileiro
parou num erro de arbitragem. Até
hoje é possível ouvir no Arruda ecos dos
xingamentos dos torcedores corais em
homenagem ao bandeirinha que deixou
de marcar o impedimento de Zé Carlos
no primeiro gol dos mineiros, o do empate em 1x1.
Mesmo assim, o Santa ainda chegou
aos 44 minutos do segundo tempo com
a vaga na mão. Até hoje se ouve no Arruda sussurros de lamentação pelo za-

gueiro Lula ter deixado Palhinha receber a bola na sua frente e marcar o 3x2
para o Cruzeiro.
O SANTA DE EVARISTO
Mas 1975 não foi uma mera exceção
na década. Os tricolores fizeram outras
grandes campanhas nos campeonatos brasileiros. E é aí que entra aquele
tal Evaristo, citado na linha inicial deste
texto.
Com a bola nos pés, Evaristo de Macedo foi um craque do Flamengo e da
Seleção Brasileira, que conseguiu o
feito de se tornar ídolo reverenciado por
duas das maiores torcidas rivais do planeta: Real Madrid e Barcelona.
Como treinador, ele começou a escrever o seu nome na história do Santa
Cruz com o tetracampeonato estadual.
Mas seria a partir do finalzinho de 1977,

1975

1976

1978

1978

No Campeonato Brasileiro, os tricolores
ficaram com o quarto lugar. O timaço
coral disputou a semifinal, no Arruda,
diante do Cruzeiro, no dia 7 de dezembro. Em um jogo marcado por polêmicas
da arbitragem, o Santa Cruz acabou
sendo derrotado por 3x2.

Mais uma vez o Santa Cruz era supercampeão. O Estadual foi decidido em um
triangular formado pelos três grandes da
capital. O time tricolor venceu o Sport, no
dia 25 de julho, por 2x0. Já o Náutico foi
vítima coral no dia 1 de agosto, perdendo
também por 2x0.

O Santa Cruz voltou a firmar seu nome
entre os melhores times do País. A equipe
coral vinha atropelando os adversários. Até
a fase de mata-mata, os tricolores não
tinham perdido um jogo. Nas quartas de
final, o clube coral foi eliminado pelo
Internacional e ficou em quinto.

O Santa voltou a levantar uma taça do
Campeonato Pernambucano e sem
maiores dificuldades. Um exemplo foi o
placar da partida final, diante do Náutico,
nos Aflitos: 4x0. O meia Betinho marcou
três vezes e Joãozinho completou a
goleada dos tricolores.

na sua segunda passagem pelo Arruda,
que Evaristo se tornaria o treinador
mais vitorioso e que mais jogos esteve
à frente do time coral, com três títulos
(1972, 1978 e 1979) e 235 partidas disputadas no total.
Ele assumiu o time na segunda fase
do Brasileirão, na vitória por 1x0 sobre
o Guarani (gol de Nunes), no Arruda. Foi
a primeira das 35 partidas consecutivas
sem perder em jogos do campeonato
nacional (oito partidas da edição de 1977
e 27 do campeonato de 1978). Até hoje
nenhum técnico no Brasil chegou perto
de ameaçar o recorde de Evaristo de Macedo no comando do Santa. Nem Menotti.
A incrível sequência construída por ele
levou o Santa a fazer as outras duas melhores campanhas no Brasileirão. Por
duas vezes, o time coral bateu na trave
e por pouco não foi novamente para
uma semifinal.
Em 1977, o Tricolor perdeu a vaga no
cruzamento dos primeiros colocados
dos quatro grupos por causa do saldo de
gols.
No ano seguinte, o Santa foi passando por cima dos adversários até chegar
às quartas de final. Para seu azar, pegou
o poderoso Internacional, que pôs fim
à invencibilidade de 27 jogos em uma
única edição do campeonato, outro
recorde intocável de Evaristo. Os tricolores encerravam o Brasileiro de 1978 na
quinta colocação.

1979
O Santa Cruz confirmou sua superioridade com o bicampeonato. A partida final
teve como adversário o Náutico. No dia
16 de setembro, o Tricolor venceu os
alvirrubros pelo placar de 3x1 e garantiu
o 17º troféu estadual. O jogo foi disputado no Arruda.

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Invencibilidade maior não há

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09/01/2014

A farsa que tirou Nunes da Copa-78
O uso político do futebol
pela ditadura já não era mais
novidade em 1978. Os militares não dominavam apenas
os órgãos da administração
pública. No futebol, a Confederação Brasileira de Desporto (CBD, embrião da CBF)
tinha em seu comando o almirante Heleno Nunes. Um
desejo pessoal do presidente
da entidade impediu que
Nunes fosse o único jogador
de um clube pernambucano
a jogar a Copa do Mundo.
O camisa 9 do Santa foi
convocado pela primeira vez
para a Seleção Brasileira, do
também militar Cláudio Coutinho, na reta final para o
Mundial da Argentina. Nunes
repetiu com a 20 Canarinho o
que fazia no Arruda: foram
sete gols em 11 jogos preparatórios, um deles deu a vitória sobre a Alemanha, resultado mais expressivo de todos
os amistosos pré-Copa.
O atacante tricolor seria um
nome certo na lista de Coutinho. Só ficaria de fora por
forças não tão ocultas da ditadura. Em meados de maio,
Nunes sofreu uma torção no

tornozelo direito. Foi a deixa
para que o médico Lídio Toledo metesse uma bota de
gesso no seu pé e cortasse o
centroavante da Copa. O caminho ficou aberto para que
Roberto Dinamite, do Vasco,
ídolo do almirante Heleno
Nunes, fosse para o Mundial.

1980
O Santa conquistou a Fita Azul, honraria
da CBF dada a clubes que voltassem
invictos de excursões no exterior. Em 12
partidas disputadas no Oriente Médio e
Europa, o Tricolor venceu dez e empatou
duas. O último jogo foi um 2x2 com o
Paris Saint-Germain, em Paris.

Segundo o médico da Seleção, Nunes só estaria recuperado após a Copa. A farsa
foi desfeita quando o camisa
9 coral entrou em campo para
enfrentar o Fluminense, no Arruda, uma semana depois da
estreia do Brasil, em Mar del
Plata.

1983
Surgia o primeiro e único tri-supercampeão. O Tricolor empatou as duas
partidas do triangular e precisou fazer
um jogo extra com o Timbu. O 1x1 no
final levou a decisão para as cobranças
de pênaltis. Luís Neto defendeu a
última cobrança do Náutico e Gomes
deu o título ao Santa.

NUNES fez
sete gols em
11 amistosos
preparatórios
da Seleção

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  • 1.
    1201santa23:Layout 1 Página 1 DOMINGO DOMINGO Recife,12 de janeiro de 2014 Recife, 12 de janeiro de 2014 Na América Latina, Evaristo só ganha menos que o argentino Menotti”, disse o então presidente do Santa Cruz, Rodolfo Aguiar, à revista “Placar” do dia 17 de setembro de 1979. O cartola coral não estava delirando ao usar o técnico César Luis Menotti, campeão da Copa do ano anterior pela Argentina, como parâmetro. Nos dourados anos de 1970, o Santa chegou a bancar o maior salário do País pago a um treinador. Evaristo de Macedo não era o único “cobra”, para utilizar um termo da época, a ser muito bem remunerado pelas bandas do Arruda. Diversos jogadores como Givanildo, Nunes e Joãozinho, craques daquela época, estavam entre os que mais ganhavam no Brasil. Naquela época, a principal fonte de receita dos clubes era, disparada, a negociação de atletas. E ao longo da década, o Santa não só produziu muitos jogadores de altíssimo nível dentro de casa como soube garimpar alguns outros na região para transformá-los em minas de ouro. Ou seja, gastava pouco ou nada para adquirir um peça e as vendia muito caro. O caso de Nunes é ilustrativo. O Confiança recebeu Cr$ 320.000,00 por um jovem atacante apenas promissor, em 1975. Quatro anos depois, o Santa Cruz negociava o “Cabelo de fogo”, já como um dos melhores centroavantes do “ O SANTA CRUZ da década de 1970 era pauta certa nas edições da revista “Placar” Brasil, por Cr$ 9 milhões para o Fluminense. Aliás, com a entrada do fantástico ponta-direita Fumanchu no pacote, o valor subiu para 11,2 milhões, a maior transação do futebol nacional até então. O “TERROR DO NORDESTE” Mas o grande momento financeiro do clube era uma das consequências do que os tricolores faziam dentro de campo naqueles anos 1970. Pernambuco havia ficado pequeno: do período de 1969-79, o Santa conquistou oito títulos estaduais. Em 1975, o Brasil conhecia o “Terror do Nordeste”, cantado nos versos do profético e genial Capiba, quase 20 anos antes. Em 29 jogos, o Tricolor perdeu apenas seis vezes, empatou dez e venceu 13. A última delas garantiu a vaga na semifinal da competição. No Maracanã, o Santa de Ramon, autor de dois gols, atropelou o Flamengo de Zico (3x1). O time do técnico Paulo Frossad terminou a fase de classificação em primeiro do seu grupo, na frente do Inter, que seria campeão, e pegou o Cruzeiro, em partida única. Por ter a melhor campanha, levou a vantagem do empate e de jogar no Recife. O sonho de chegar à final do Brasileiro parou num erro de arbitragem. Até hoje é possível ouvir no Arruda ecos dos xingamentos dos torcedores corais em homenagem ao bandeirinha que deixou de marcar o impedimento de Zé Carlos no primeiro gol dos mineiros, o do empate em 1x1. Mesmo assim, o Santa ainda chegou aos 44 minutos do segundo tempo com a vaga na mão. Até hoje se ouve no Arruda sussurros de lamentação pelo za- gueiro Lula ter deixado Palhinha receber a bola na sua frente e marcar o 3x2 para o Cruzeiro. O SANTA DE EVARISTO Mas 1975 não foi uma mera exceção na década. Os tricolores fizeram outras grandes campanhas nos campeonatos brasileiros. E é aí que entra aquele tal Evaristo, citado na linha inicial deste texto. Com a bola nos pés, Evaristo de Macedo foi um craque do Flamengo e da Seleção Brasileira, que conseguiu o feito de se tornar ídolo reverenciado por duas das maiores torcidas rivais do planeta: Real Madrid e Barcelona. Como treinador, ele começou a escrever o seu nome na história do Santa Cruz com o tetracampeonato estadual. Mas seria a partir do finalzinho de 1977, 1975 1976 1978 1978 No Campeonato Brasileiro, os tricolores ficaram com o quarto lugar. O timaço coral disputou a semifinal, no Arruda, diante do Cruzeiro, no dia 7 de dezembro. Em um jogo marcado por polêmicas da arbitragem, o Santa Cruz acabou sendo derrotado por 3x2. Mais uma vez o Santa Cruz era supercampeão. O Estadual foi decidido em um triangular formado pelos três grandes da capital. O time tricolor venceu o Sport, no dia 25 de julho, por 2x0. Já o Náutico foi vítima coral no dia 1 de agosto, perdendo também por 2x0. O Santa Cruz voltou a firmar seu nome entre os melhores times do País. A equipe coral vinha atropelando os adversários. Até a fase de mata-mata, os tricolores não tinham perdido um jogo. Nas quartas de final, o clube coral foi eliminado pelo Internacional e ficou em quinto. O Santa voltou a levantar uma taça do Campeonato Pernambucano e sem maiores dificuldades. Um exemplo foi o placar da partida final, diante do Náutico, nos Aflitos: 4x0. O meia Betinho marcou três vezes e Joãozinho completou a goleada dos tricolores. na sua segunda passagem pelo Arruda, que Evaristo se tornaria o treinador mais vitorioso e que mais jogos esteve à frente do time coral, com três títulos (1972, 1978 e 1979) e 235 partidas disputadas no total. Ele assumiu o time na segunda fase do Brasileirão, na vitória por 1x0 sobre o Guarani (gol de Nunes), no Arruda. Foi a primeira das 35 partidas consecutivas sem perder em jogos do campeonato nacional (oito partidas da edição de 1977 e 27 do campeonato de 1978). Até hoje nenhum técnico no Brasil chegou perto de ameaçar o recorde de Evaristo de Macedo no comando do Santa. Nem Menotti. A incrível sequência construída por ele levou o Santa a fazer as outras duas melhores campanhas no Brasileirão. Por duas vezes, o time coral bateu na trave e por pouco não foi novamente para uma semifinal. Em 1977, o Tricolor perdeu a vaga no cruzamento dos primeiros colocados dos quatro grupos por causa do saldo de gols. No ano seguinte, o Santa foi passando por cima dos adversários até chegar às quartas de final. Para seu azar, pegou o poderoso Internacional, que pôs fim à invencibilidade de 27 jogos em uma única edição do campeonato, outro recorde intocável de Evaristo. Os tricolores encerravam o Brasileiro de 1978 na quinta colocação. 1979 O Santa Cruz confirmou sua superioridade com o bicampeonato. A partida final teve como adversário o Náutico. No dia 16 de setembro, o Tricolor venceu os alvirrubros pelo placar de 3x1 e garantiu o 17º troféu estadual. O jogo foi disputado no Arruda. ite Invencibilidade maior não há 3 0lim Pa ixã o10 0lim ite 20:33 o10 ixã Pa 2 09/01/2014 A farsa que tirou Nunes da Copa-78 O uso político do futebol pela ditadura já não era mais novidade em 1978. Os militares não dominavam apenas os órgãos da administração pública. No futebol, a Confederação Brasileira de Desporto (CBD, embrião da CBF) tinha em seu comando o almirante Heleno Nunes. Um desejo pessoal do presidente da entidade impediu que Nunes fosse o único jogador de um clube pernambucano a jogar a Copa do Mundo. O camisa 9 do Santa foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira, do também militar Cláudio Coutinho, na reta final para o Mundial da Argentina. Nunes repetiu com a 20 Canarinho o que fazia no Arruda: foram sete gols em 11 jogos preparatórios, um deles deu a vitória sobre a Alemanha, resultado mais expressivo de todos os amistosos pré-Copa. O atacante tricolor seria um nome certo na lista de Coutinho. Só ficaria de fora por forças não tão ocultas da ditadura. Em meados de maio, Nunes sofreu uma torção no tornozelo direito. Foi a deixa para que o médico Lídio Toledo metesse uma bota de gesso no seu pé e cortasse o centroavante da Copa. O caminho ficou aberto para que Roberto Dinamite, do Vasco, ídolo do almirante Heleno Nunes, fosse para o Mundial. 1980 O Santa conquistou a Fita Azul, honraria da CBF dada a clubes que voltassem invictos de excursões no exterior. Em 12 partidas disputadas no Oriente Médio e Europa, o Tricolor venceu dez e empatou duas. O último jogo foi um 2x2 com o Paris Saint-Germain, em Paris. Segundo o médico da Seleção, Nunes só estaria recuperado após a Copa. A farsa foi desfeita quando o camisa 9 coral entrou em campo para enfrentar o Fluminense, no Arruda, uma semana depois da estreia do Brasil, em Mar del Plata. 1983 Surgia o primeiro e único tri-supercampeão. O Tricolor empatou as duas partidas do triangular e precisou fazer um jogo extra com o Timbu. O 1x1 no final levou a decisão para as cobranças de pênaltis. Luís Neto defendeu a última cobrança do Náutico e Gomes deu o título ao Santa. NUNES fez sete gols em 11 amistosos preparatórios da Seleção