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KABENGELE MUNANGAOrigem ehistórico doquilombona África                                                                    ...
costuma-se dispensar os prefixos classifica-                para designar a pessoa, o ser humano. Por                     ...
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complexo sudanês, como o sorgo, o milhomiúdo e a palmeira. As culturas de origem                                          ...
Lessa, Mvidie, etc. É uma divindade longín-                 vida, da doença e da morte, do sofrimento, da     qua, que cri...
força. Existe uma causalidade metafísica en-                           guerreiros, um chefe intransigente dentro datre o c...
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Origem e histórico do quilombo na África

  1. 1. NegroOVOP ACIMA, DETALHE DE ESTATUETA DE ANCESTRAL (ZAIRE); AO LADO, TAMBOR COM SUPORTE DE CAVALO DE MADEIRA (GUINÉ); E DE ADEREÇO FEMININO EM ANGOLA — DESENHO DE DELACHAUX56 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
  2. 2. KABENGELE MUNANGAOrigem ehistórico doquilombona África KABENGELE MUNANGA é professor do Departamento de Antropologia da FFLCH-USP.NOTA LINGÜÍSTICA Na ortografia das palavras em línguas bantu, dispensamos a re-presentação da tonalidade, fenômeno característico dessas línguas.Essa tonalidade é marcada pelos tons baixo (por exemplo /à/), alto(/á/), montante (/a/), descendente (/â/). Exemplo: kílómbò. Utilizamos o alfabeto africano para grafar alguns nomes. Porisso as letras como c e w pronunciam-se, respectivamente, tch e u.Exemplo: cokwe pronuncia-se tcho-cu-e. Os nomes de povos ou grupos culturais são precedidos de prefi-xos classificadores: mu, indicando o singular e ba indicando o plu-ral. Exemplos: mukongo (mu-kongo), indivíduo que pertence à etniakongo; plural bakongo (ba-kongo). Mas, na literatura etnográfica,R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6 57
  3. 3. costuma-se dispensar os prefixos classifica- para designar a pessoa, o ser humano. Por dores, anotando apenas os radicais dos no- isso, essas línguas foram batizadas de bantu mes dos povos. Por exemplo: os lunda; os pelos lingüistas ocidentais. A mesma palavra kongo; os mbundu; os jaga, etc. passou a identificar os povos que falam essas Às vezes faz-se confusão entre o nome línguas enquanto um complexo cultural ou dos povos e suas respectivas línguas que sem- civilizatório, devido à contigüidade territorial pre conservam o mesmo radical com prefixo e aos múltiplos contatos, mestiçagens e em- classificador diferente. Por exemplo: povo préstimos facilitados pela proximidade geo- bakongo, língua kikongo; povo mbundu, lín- gráfica entre eles. Os mitos de origem nos gua kimbundu; povo lunda, língua kalunda; ensinam que todos esses povos, hoje com povo ovimbundu, língua umbundu. identidades diferentes, foram no início gru- pos criados por irmãos. NO CAMINHO DAS ORIGENS Segundo os lingüistas comparatistas es- DO QUILOMBO pecialistas da área bantu (Murdock, Greenberg, Guthrie, etc.), há cerca de dois O quilombo é seguramente uma palavra mil anos, houve uma expansão geral dos bantu originária dos povos de línguas bantu (kilombo, partindo do centro da Nigéria para o sul e aportuguesado: quilombo). Sua presença e seu sudeste da África. O conhecimento da fundi- significado no Brasil têm a ver com alguns ção os teria auxiliado em sua deslocação, pois ramos desses povos bantu cujos membros fo- utilizaram ferramentas de ferro para abrir o ram trazidos e escravizados nesta terra. Trata- caminho através da floresta equatorial. se dos grupos lunda, ovimbundu, mbundu, Guthrie, após estudos intensivos das raízes kongo, imbangala, etc., cujos territórios se de línguas bantu, conclui que povos de língua dividem entre Angola e Zaire. proto-bantu habitavam a região da floresta Embora o quilombo (kilombo) seja uma equatorial, a meio caminho entre as costas palavra de língua umbundu, de acordo com leste e oeste da África. Esses povos teriam Joseph C. Miller (1), seu conteúdo enquanto uma cultura do trabalho de ferro (2). Por sua instituição sociopolítica e militar é resultado vez, Greenberg situa a origem dos bantu na de uma longa história envolvendo regiões e região fronteiriça entre Camarões e Nigéria povos aos quais já me referi. É uma história (3). Nenhuma prova arqueológica veio em de conflitos pelo poder, de cisão dos grupos, apoio às teses lingüísticas. de migrações em busca de novos territórios e A história do quilombo como a dos povos de alianças políticas entre grupos alheios. bantu é uma história que envolveu povos de Para entender e captar o sentido da forma- regiões diferentes entre Zaire e Angola. A ção dos quilombos no Brasil, precisamos tradição oral - com o que tem de lacunas e de1 Joseph C. Miller, King and Kinsmen. Early Mbundu conhecer o que aconteceu nessas regiões afri- imprecisões - continua sendo até hoje uma States in Angola, Oxford, Crarend Press, 1976, pp. canas de áreas bantu nos séculos XVI e XVII. das grandes fontes de informação da história 151-75. Por isso, a própria palavra bantu mereceria, da África negra. No âmbito do mito, a histó-2 M. Guthrie, The Clas- sification of the Bantu antes, algumas linhas de explicação. Com ria começa no império Luba (centro e sudeste Language, London, 1948. efeito, Bantu, que hoje designa uma área ge- do Zaire), provavelmente no fim do século3 J. Greenberg, “The ográfica contígua e um complexo cultural XVI. Segundo uma das versões do mito, esse Language of Africa”, in International Journal of específico dentro da África negra, é uma pa- império era governado por Kalala Ilunga American Linguistics, XXIX, I.Bloomington(Ind), 1963. lavra herdada dos estudos lingüísticos oci- Mbidi, cuja morte criou conflitos de sucessão dentais. Os estudiosos das línguas faladas no entre filhos herdeiros do trono. Um deles, tido4 Kabengele Munanga, Os Basanga de Shaba. Um continente africano (Guthrie, Greenberg, etc.), como perdedor, o príncipe e caçador Grupo Étnico do Zaire, Col. Antropologia, FFLCH-USP, ao fazer estudos comparativos dessas línguas, Kimbinda Ilunga, partiu com seus seguidores 1986, pp. 54-5. a partir do modelo das línguas indo-européi- em busca de novo território. Estavam com5 J. Vansina, Introduction à l’Ethnographie du Congo , as, chegaram a classificá-las em algumas fa- fome e sem nenhuma provisão quando avis- Editions Universitaires du mílias principais, entre as quais a família das taram ao longe uma aldeia e se aproximaram Congo, 1965, pp.145-48. línguas bantu. O estudo de algumas palavras para pedir bebida e comida. O rei desse grupo6 Idem, Les Anciens Royaumes de la Savane, principais revelou a existência das mesmas acabava de morrer e foi substituído por sua Léopoldville, Institut de raízes com o mesmo conteúdo entre esses Recherches Economiques filha, a rainha Rweej. Encantada pela beleza et Sociales, 1965, pp. 51-3. povos. Todos empregam, entre outras, a pa- e maneiras nobres do príncipe caçador, Rweej7 Idem, ibidem, p. 52. lavra -ntu (muntu, singular, e bantu, plural) pede Kimbinda Ilunga em casamento. Entre58 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
  4. 4. os lunda, como em todos os povos bantu, a ANGOLA NO SÉCULO XVIIItradição proibia a rainha de governar duranteseu ciclo menstrual, pois, simbolicamentemorta como a lua, ela contaminaria negativa-mente o país e seu povo. Um dia, aproveitan-do-se dessa tradição quando entrava em perí-odo de menstruação, a rainha Rweej chamouseus notáveis e chefes de linhagens e apre-sentou-lhes seu marido Luba como novo che-fe dos lunda, colocando-lhe o bracelete(rukan), símbolo do poder. O casamento de Rweej, acompanhado datransferência do poder real ao marido, prínci-pe estrangeiro, causou descontentamentoentre os parentes da rainha e algumas cama-das da população, gerando até movimentomigratório. Kinguli, irmão da rainha, foi-secom seus simpatizantes para oeste, em dire-ção a Angola (4). J. Vansina situa o episódio Fonte: J. Vansina, Les Anciens Royaumes de la Savane.da emigração de Kinguli no século XVII. Dizele que a região para onde se dirigiram Kingulie seus seguidores lunda já havia sido subme-tida, no século anterior, às invasões do povochamado jaga ou imbangala. Vindo da mar-gem direita do rio Kwango antes de 1568, osjaga invadiram o reino do Kongo do qualforam rechaçados em 1568. Alguns deles seestabeleceram ao longo do rio Kwango; mis-turaram-se ao grupo suku e organizaram nu-merosas chefias (5). Autores antigos, comoCavazzi e Pigafetta, dizem que os jaga vi-nham do interior da África, provavelmentedo leste do rio Kwango. O marinheiro inglês OS POVOS DE ANGOLA ORIENTAL POR VOLTA DE 1850Battel, que conviveu com eles, disse que vi-nham das montanhas de Lion em direção àcapital do reino do Kongo. Mais tarde se re-tiraram em direção ao sudeste, nas regiõesorientais do Ndongo e dirigiram-se à costa deAngola e Benguele perto do rio Cuvo. Seuverdadeiro nome era imbangala ou imbangola(6). Ninguém sabe onde ficavam exatamenteas montanhas de Lion. Muitos etnólogos se Fonte: J. Vansina, Les Anciens Royaumes de la Savane.preocuparam com o problema da origem dosjaga, propondo diversas respostas. Mas pare-cem, segundo Vansina, ter vínculos culturaiscom os povos lunda e luba (7). Quando os jaga chegaram ao oeste doKwango, eles viviam permanentemente empé de guerra nos campos fortificados. Diz-seque matavam seus recém-nascidos para nãoser atrapalhados em suas campanhas milita-res. Em revanche, eles adotavam os jovens deambos os sexos das regiões por eles vencidase dominadas e os incorporavam a seus cam-R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6 59
  5. 5. pos. Assim, podia o número de suas tropas No moderno umbundu padrão, tem-se a pala- crescer rapidamente. Alguns milhares de pes- vra ocilombo, que se refere ao fluxo de san- soas equipadas para a guerra e organizadas de gue de um pênis recém-circuncidado, e modo a assimilar os vencidos podiam derru- ulombo, que designa um remédio preparado bar todo o oeste da África central. Isso expli- com o sangue e o prepúcio dos iniciados no ca a superioridade militar dos jaga, que im- campo de circuncisão e que é usado em certos primiram sua marca à história da costa ango- ritos não especificados. A raiz -lombo, que lana durante meio século (8). constitui a base de todas essas palavras, iden- O que a história dos jaga tem a ver com o tifica a palavra quilombo como sendo unica- quilombo? O príncipe lunda Kinguli ter-se-ia mente ovimbundu, uma vez que contrasta com feito aliado dos poderosos bandos jaga que a palavra cokwe e mbundu para as cerimôni- dominavam a região antes de sua chegada. as de circuncisão: mukanda (11). Embora a palavra quilombo seja de língua Os imbangala ou jaga tiveram um papel umbundu, de acordo com J. Miller, como já notável na formação do kilombo amadureci- foi dito, a instituição teria pertencido aos jaga. do. Os seguidores de Kinguli, de origem lunda, Kinguli e seu exército formado pelos lunda e rejeitaram a sua liderança, considerada muito aliados jaga adotaram o quilombo e forma- opressiva, e adotaram como novo aliado a ram um exército mais poderoso constituído sociedade guerreira de iniciação quilombo, de bandos de guerreiros nômades conhecidos trazida pelos imbangala. No entanto, o termo como imbangala. Tiveram a capacidade de imbangala deriva da raiz umbundu -vangala, espalhar-se por toda a região mbundu depois que significa “ser bravo” e/ou “vagar exten- de 1610 e finalmente se estabeleceram para samente pelo território” (12) . fundar novos estados mbundu (Kalandula, Kabuku, Matanda, Holo, Kasanje, Mwa POPULAÇÕES E CULTURAS Ndonge, etc.) (9). Sociedade guerreira, o quilombo forneceu ao exército de Kinguli As migrações e mestiçagens tanto bioló- original duas coisas que lhe faltavam: uma gicas como culturais caracterizam todos os estrutura firme capaz de reunir grande núme- povos ao sul da floresta equatorial, de onde se ro de estranhos desvinculados de suas linha- originou o modelo de quilombo. Apesar de gens vencidas e uma disciplina militar capaz uma certa homogeneidade resultante dessa de derrotar os grandes reinos que bloquea- mescla de populações, as culturas dessa imen- vam sua progressão ao norte e ao oeste de sa região são bastante variadas. Descrevê-las Kwanza. A palavra quilombo tem a conotação aqui seria uma tarefa difícil, senão impossí- de uma associação de homens, aberta a todos vel. No entanto, podemos, com base nas se- sem distinção de filiação a qualquer linha- melhanças, esboçar alguns elementos gerais. gem, na qual os membros eram submetidos a Todos praticam uma agricultura itinerante dramáticos rituais de iniciação que os retira- sobre queimada a fogo corrente, sem vam do âmbito protetor de suas linhagens e rotatividade bem definida, e utilizam as cin- os integravam como co-guerreiros num regi- zas como adubo. O terreno é deixado em al- mento de super-homens invulneráveis às ar- queive durante muito tempo, às vezes até vin- mas de inimigos (10). O quilombo amadure- te anos. As espécies mais cultivadas perten- cido é uma instituição transcultural que rece- cem ao complexo americano: o milho e a beu contribuições de diversas culturas: lunda, mandioca. Acrescentem-se a batata-doce e o imbangala, mbundu, kongo, wovimbundu, amendoim, que também têm um papel muito etc. Os ovimbundu contribuíram com a estru- importante na alimentação. Todas essas es-8 Idem, ibidem. tura centralizada de seus campos de inicia- pécies são provenientes da América do Sul,9 Joseph Miller, op.cit., p.151. ção, campos esses que ainda se encontram provavelmente do Brasil. O milho teria sido hoje entre os mbundu e cokwe de Angola introduzido na África central entre 1548 e10 Idem, ibidem, p. 162. central e ocidental. 1583, provavelmente a partir do reino do11 Idem, ibidem, p. 167. Algumas evidências lingüísticas vêm em Kongo. A mandioca foi introduzida mais tar-12 Idem, ibidem, p. 168. apoio para esclarecer a origem dos quilombos. de, por volta de 1600 (13). Ao lado dessas13 J. Vansina, Les Anciens Royaumes de la Savane, Entre o povo mundombe de língua umbundu, plantas de origem americana, encontram-se op. cit., p.20. perto de Benguele, a palavra quilombo signi- em quase todos os lugares as velhas culturas14 Idem, ibidem, p. 21. ficava campo de iniciação, no século XIX. africanas que, segundo Murdock, vêm do60 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
  6. 6. complexo sudanês, como o sorgo, o milhomiúdo e a palmeira. As culturas de origem ESTADOS ONDE OS JAGA TIVERAM INFLUÊNCIAasiática (Malásia), como a banana, o inhamee o taro, ocupam uma posição secundária. Abebida alcoolizada mais difundida vem dapalmeira, a ráfia (o vinho de palmeira), alémda cerveja de milho e de sorgo. Os animais domésticos em toda a regiãosão galinhas, cabras, carneiros e cachorros.Os porcos e os patos foram introduzidos nosséculos XVIII e XIX (14). O gado é uma ra-ridade, pois o complexo do gado, salvo entreos ovimbundu e os lozi, não pertence a essepovo. Na margem dos grandes lagos e dosrios vivem comunidades de pescadoresespecializados. A caça é também muito apre-ciada, embora seja uma atividade secundáriaà agricultura.ORGANIZAÇÃO SOCIAL Fonte: J. Vansina, Les Anciens Royaumes de la Savane. A maioria dos povos da África centralpratica o sistema de parentesco matrilinear,em relação à descendência, estrato social, I: YAA OU YAKA DO MYARIsucessão e herança. O casamento com paren- II: YAKA DO KWANGO III: IMBANGALAtes consangüíneos é proibido, salvo entre IV: YAKA D’AMBAKAparceiros obrigatórios ou preferenciais, ge- V: YAKA DOS OVIMBUNDU VI: YAKA DE HUMBEralmente primos cruzados. O casamento im-plica sempre transferência de bens matrimo-niais (dote) e prestações de serviços em bene-fício da família da noiva. A residência do casalé geralmente virilocal, até nas sociedadesmatrilineares. Embora a descendência e aslinhagens constituídas fossem matrilineares,a autoridade ficava sempre nas mãos dos ho- REGIÕES CULTURAIS NA ÁFRICA CENTRALmens e não das mulheres. A aldeia constitui a menor unidadeterritorial e, portanto, é a pedra angular daestrutura política. Ela pode ser composta deuma linhagem ou de mais linhagens. O con-junto de aldeias forma a chefia, encabeçadapor um rei pertencendo à linhagen chefal, Fonte: J. Vansina, Les Anciens Royaumes de la Savane.geralmente a mais velha de todas. O rei sim-boliza a chefia e tem obrigações religiosas.Seu poder não é absoluto, pois contrabalan-çado pelo conselho composto dos chefes dealdeias, chefes de linhagens e outros notáveisda corte.A RELIGIÃO As religiões de todos os povos bantu sãosemelhantes. Todos acreditam num criadorúnico ou divindade suprema: Zambi, Kalunga,R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6 61
  7. 7. Lessa, Mvidie, etc. É uma divindade longín- vida, da doença e da morte, do sofrimento, da qua, que criou o mundo e distanciou-se dele, depressão ou fadiga, de qualquer injustiça ou deixando a administração a seus filhos fracasso, da felicidade, da riqueza, da pobre- divinizados que são ancestrais fundadores de za, da miséria, etc. Tudo que é positivo à vida linhagens. Por isso, essa divindade ou deus e à felicidade humana é interpretado como único é raramente objeto de culto coletivo, aumento e crescimento da força vital; tudo geralmente reservado às divindades secun- que é considerado como privação, sofrimen- dárias (espíritos ancestrais). São estes que to e até a perda da própria vida é interpretado fazem o elo entre os homens e o deus único, como diminuição da força vital. Os outros criador de tudo que existe no mundo bantu. seres da natureza criados por deus e coloca- Por isso, costuma-se reduzir e simplificar as dos ao serviço do homem possuem também, religiões bantu pelo culto dos ancestrais, em um grau menor, essa energia ou força vital. embora exista um panteão religioso Entre os baluba, um dos ramos importantes estruturado como mostra o conteúdo do livro das civilizações bantu, a palavra “morrer”, La Philosophie Bantoue, de Placide Tempels que é uma privação ao extremo da força vital, (15). Segundo essa filosofia, o mundo é um é aplicada a tudo que existe na natureza. Se conjunto de forças hierarquizadas por uma quebrar um copo, um vidro, um carro, uma relação de energia ou força vital. Essa ener- pedra, se cair uma árvore, etc., eles dizem que gia ou força vital, cuja fonte é o próprio deus “morreu”, mesma palavra utilizada para os criador, é distribuída em ordem decrescente homens e os animais. aos ancestrais e defuntos que fazem parte do Nessa visão de mundo, as noções de “Ser” mundo divino; em seguida ao mundo dos e de “Força” são inseparáveis e interligadas. vivos, numa relação hierárquica, começando Um ser é por definição uma força, daí o cará- pelos reis, chefes de aldeias, de linhagens, ter dinâmico do ser e da pessoa humana. Toda pais e filhos; e finalmente ao mundo animal, força pode crescer ou decrescer, tornar-se mais vegetal e mineral. Trata-se de uma visão forte ou mais fraca. O crescimento e a dimi- antropocêntrica, na qual o homem constitui o nuição da força vital explicam-se pela lei da centro e o interesse maior de toda a obra de interação das forças. Um ser influencia outro, deus. A força vital explica a existência da ou seja, uma força reforça ou enfraquece outra62 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
  8. 8. força. Existe uma causalidade metafísica en- guerreiros, um chefe intransigente dentro datre o criador e a criatura. Em outras palavras, rigidez da disciplina militar.a relação entre o criador e a criatura é uma Pelo conteúdo, o quilombo brasileiro é,constante, porque o primeiro é por sua natu- sem dúvida, uma cópia do quilombo africanoreza dependente do segundo quanto a sua reconstruído pelos escravizados para se oporexistência e sua substância. Uma criança, a uma estrutura escravocrata, pela implanta-mesmo tornada adulta, permanece sempre em ção de uma outra estrutura política na qual seuma dependência causal, em uma subordina- encontraram todos os oprimidos. Escraviza-ção ontológica às forças do pai e da mãe. A dos, revoltados, organizaram-se para fugir dasforça primogênita domina sempre a força senzalas e das plantações e ocuparam partesultimogênita e continua a exercer sua influ- de territórios brasileiros não-povoados, ge-ência vital sobre ela. O mundo das forças ralmente de acesso difícil. Imitando o mode-mantém-se como uma teia de aranha, da qual lo africano, eles transformaram esses territó-não se pode fazer vibrar um único fio sem rios em espécie de campos de iniciação à re-sacudir todas as malhas. sistência, campos esses abertos a todos os Qualquer ser humano é colocado numa oprimidos da sociedade (negros, índios e bran-relação de forças vitais, algumas mais desen- cos), prefigurando um modelo de democra-volvidas do que a sua própria força. Essas cia plurirracial que o Brasil ainda está a bus-forças mais desenvolvidas são o próprio deus, car. Não há como negar a presença, na lide-os antepassados, os defuntos da linhagem, da rança desses movimentos de fuga organiza-família; são os pais, feiticeiros, bruxos, etc. dos, de indivíduos escravizados oriundos daElas podem influenciar a sua vida no bom região bantu, em especial de Angola, onde foisentido (saúde, riqueza, poder, promoção na desenvolvido o quilombo. Apesar de oprofissão, etc.), aumentando a sua força vital, quilombo ser um modelo bantu, creio eu que,ou no mau sentido (doença, morte, pobreza, ao unir africanos de outras áreas culturais einsucesso na profissão, etc.), diminuindo a outros descontentes não-africanos, ele teriasua força vital. Por isso, o culto aos ances- recebido influências diversas, daí seu carátertrais, num mundo criado por um deus que transcultural. Com efeito, a transculturaçãodele se distanciou, constitui o aspecto mais parece-me um dado fundamental da culturaobservável da cosmovisão bantu sem se re- afro-brasileira. A “pureza” das culturas nagôduzir a ele. O que está por trás do culto aos e bantu é uma preocupação de alguns pesqui-ancestrais, senão a busca da conservação e do sadores e nada tem a ver com as práticas ecrescimento constantes da força vital, fonte estratégias dos que nos legaram a chamadainesgotável da vida e de todas as felicidades? cultura negra no Brasil. Com efeito, os escra- vizados africanos e seus descendentes nuncaCONCLUINDO ficaram presos aos modelos ideológicos excludentes. Suas práticas e estratégias de- Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, senvolveram-se dentro do modelofoi morto em 1695, quase no fim do século transcultural, com o objetivo de formar iden-XVII. Coincidentemente, a formação da insti- tidades pessoais ricas e estáveis que não po-tuição kilombo no continente africano, especi- diam estruturar-se unicamente dentro dos li-ficamente na área cultural bantu, aconteceu mites de sua cultura. Tiveram uma aberturatambém nos séculos XVI e XVII. O quilombo externa em duplo sentido para dar e receber 15. Placide Tempels, Laafricano, no seu processo de amadurecimento, influências culturais de outras comunidades, Philosophie Bantoue , 2ª ed., Paris, Présencetornou-se uma instituição política e militar sem abrir mão de sua existência enquanto Africaine, 1961.transétnica, centralizada, formada por sujeitos cultura distinta e sem desrespeitar o que ha- 16. Kabengele Munanga, “As Facetas de uma Identida-masculinos submetidos a um ritual de inicia- via de comum entre seres humanos. Visavam de Endeusada”. (manuscri- to inédito), São Paulo,ção. A iniciação, além de conferir-lhes forças a formação de identidades abertas, produzi- 1955, pp. 10-1.Ver tam-específicas e qualidades de grandes guerrei- das pela comunicação incessante com o ou- bém: Sergio Paulo R o u a n e t ,ros, tinha a função de unificá-los e integrá-los tro, e não de identidades fechadas, geradas “Transculturalismo ou Re- torno à Etnicidade”, comu-ritualmente, tendo em vista que foram recruta- por barricadas culturais que excluem o outro nicação apresentada no seminário “Mestiçagem edos das linhagens estrangeiras ao grupo de (16). Precisamos desse exemplo de união le- Experiências Interculturaisorigem. Como instituição centralizada, o no Brasil”, Berlin, Haus Der gado pela República de Palmares para supe- Kulturen Der Welt, 27 dequilombo era liderado por um guerreiro entre rar e radicar o racismo e seus duplos. outubro de 1994, p. 4.R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 5 6 - 6 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6 63

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