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8Thiago Veloso VitralCorrente Revolucionária de Minas Gerais: uma resistência armada ao regime militarbrasileiro no Estado...
9Dedico este trabalho à vida e à memória do meu avô Zeuxis Veloso.
10AGRADECIMENTOSSou grato a todos os professores que fizeram parte de minha formaçãoacadêmica, principalmente a minha orie...
11LISTA DE ABREVIATURASALN – Ação Libertadora NacionalAP - Ação PopularAPM – Arquivo Público MineiroAPML – Ação Popular Ma...
12PCUS – Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas.PE - PernambucoPOC – Partido Operário Comunist...
13SUMÁRIOINTRODUÇÃO..........................................................................................................
14INTRODUÇÃOApós o golpe 1964, medidas antidemocráticas e uma forte repressão tomaram contado país, ocasionando uma incans...
15No terceiro capítulo também procuro demonstrar características que evidenciam aCorrente Revolucionária de Minas Gerais c...
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17acelerado crescimento industrial4do período, surgem novas categorias e classes sociais,onde podemos destacar a burguesia...
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19membro da III Internacional Comunista criada por Lênin na URSS, pressuposto quecaracteriza a linha leninista do PCB no p...
20Sendo assim, em março de 1958, o comitê central aprova uma nova política quetem como premissa a luta contra o imperialis...
21Até então, a política do PC do B não ultrapassou o debate ideológico através de meios decomunicação, como o refundado jo...
22exemplo de lutas de libertação nacional (Argélia e Vietnã), a influência teóricainternacional, e o exemplo de revoluções...
23O projeto Brasil: Nunca Mais contabilizou aproximadamente 40 organizaçõesclandestinas de esquerda que se dividiam sobre ...
24decorrência de cisões em seu interior: Comando de Libertação Nacional (COLINA),Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) Pa...
25político” inspirado em idéias humanista de Jacques Maritain, Teilhard de Chardin,Mounier, e do padre Lebret. Suas maiore...
26Pico da Bandeira, a Guerrilha do Caparaó (1966/1967), tentativa de foco guerrilheiro quenão passou de um período de trei...
27O Movimento Revolucionário 8 de Outubro consiste na nova denominação da “DIda Guanabara”, a Dissidência da Guanabara do ...
28esses, Carlos Lamarca, que é assassinado no sertão da Bahia no dia 17 de setembro de1972, em missão pelo grupo. No ano d...
29Como evidencia o nome, a Ação Libertadora Nacional tem como primeiro objetivoa libertação nacional, para depois realizar...
30Vale ressaltar que no ano de 1971 surgem duas dissidências da ALN: o Movimentode Libertação Popular (MOLIPO) e a Tendênc...
312 A CORRENTE POR ELA MESMA“A gente usava armas porque invadiu a nossa etomou a nossa vida e falou o que pode e o que não...
32pela resistência pacífica à ditadura, e a vertente que defendia a adoção da luta armadacomo resistência aos governos mil...
33Em Ouro Preto a CORRENTE foi organizada por Hélcio Pereira Fortes20, aluno daEscola Técnica, e ex - integrante do Comitê...
34grupo revolucionário, mesmo com a adoção da luta armada. Num primeiro momento aCORRENTE procurou manter sua atuação no m...
35Vale ressaltar que Lincoln Ramos Viana e Pedro Carlos Garcia Costa, militantes daCORRENTE, foram expulsos da Escola de M...
36Já com movimentação desde março de 1968, a grande greve de Contagem eclodiude fato no dia 16 de abril na Belgo-Mineira. ...
37dirigida pela comissão de fábrica da Belgo-Mineira. E nisso aí o Hélcio PereiraFortes teve um papel estratégico, porque ...
38(...) inverte a clássica teoria foquista, que vem de um conceito chinês maoísta, ede que a guerra começa no campo e o ca...
39citamos algumas referenciadas por seus integrantes: assalto a agências bancária na regiãode Ibirité e Belo Horizonte; te...
40organização mineira. Sendo assim, no próximo capítulo enfoco o tratamento da políciapolítica da época em relação à Corre...
413 A CORRENTE SOB O OLHAR DO DOPS/MG“(...) Organização Clandestina subversiva,denominada Corrente, que tinha como objetiv...
42A partir daí constituiu-se o mito “Intentona Comunista”, onde a imagem docomunismo passou a ser propagandeada de forma m...
43figura dos informantes38, que carregados do imaginário anticomunista, colaboravamespontaneamente com a polícia política ...
44seguintes atribuições: zelar pela existência política e segurança interna da República;garantir, por meios preventivos, ...
45Sendo assim, abordo os aspectos questionados nos depoimentos e resumidos norelatório final, nunca esquecendo da subjetiv...
46folhetim que era redigido entre outros, por Gilney Amorim Viana, e era impresso edistribuído por servidores públicos. Se...
47investigação e do policiamento político foi tentar detectar uma possível união dos gruposclandestinos de esquerda que op...
48CONSIDERAÇÕES FINAISMesmo tendo sido consideravelmente abordado pela historiografia brasileira nosúltimos anos, a luta a...
49políticas e econômicas adotadas pelos governos militares. Sendo assim, a polícia políticamineira tratou logo de abortá-l...
50REFERÊNCIASALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil: (1964–1984). Petrópolis:Vozes, 1984. 424p.AMARAL, R...
Monografia de thiago veloso na puc mg em 2008
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  1. 1. 7Pontifícia Universidade Católica de Minas GeraisInstituto de Ciências HumanasCorrente Revolucionária de Minas Gerais: uma resistência armada ao regime militarbrasileiro no Estado de Minas Gerais (1967-1969).Thiago Veloso VitralBelo Horizonte2008
  2. 2. 8Thiago Veloso VitralCorrente Revolucionária de Minas Gerais: uma resistência armada ao regime militarbrasileiro no Estado de Minas Gerais (1967-1969).Trabalho apresentado à disciplina Monografia II, do Curso de História doInstituto de Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica de MinasGerais.Orientadora: Carla Ferretti Santiago.Belo Horizonte2008
  3. 3. 9Dedico este trabalho à vida e à memória do meu avô Zeuxis Veloso.
  4. 4. 10AGRADECIMENTOSSou grato a todos os professores que fizeram parte de minha formaçãoacadêmica, principalmente a minha orientadora Carla Ferretti Santiago, por sua orientaçãotranqüila e segura. Suas leituras e intervenções, sempre pertinentes, foram fundamentaispara a conclusão deste trabalho. Obrigado também pela compreensão e tolerância nosmomentos em que não consegui cumprir com as datas, devidos a fatores pessoais. Deixoregistrados minha admiração e respeito intelectual e pessoal. À banca examinadora,professor Carlos Evangelista Veriano e professora Andréa Casa Nova Maia, agradeço pelascríticas e observações tão precisas.Agradeço ao historiador Otávio Luiz Machado, por sua preocupação em preservar amemória da esquerda mineira que se opôs ao regime militar, fato fundamental para aconcretização deste trabalho.Com grande intensidade, agradeço aos amigos e companheiros, principais riquezasde um período acadêmico. Que tempo bom, e isso devo a vocês. Em destaque agradeço avocê Joca, amigo que perpassa qualquer época. Ao amigo Marcão agradeço pelo incentivoa começar este curso tão maravilhoso. Obrigado também aos colegas do Arquivo PúblicoMineiro, companheiros de tantas tardes inesquecíveis.Talvez não caiba, mas seria uma injustiça não lembrar de todos os compositores eintérpretes que durante esses quatro anos e meio de curso, suavizaram tantos momentos deestresse. Obrigado.A minha namorada Dani, agradeço pela sua paciência e sabedoria. Obrigado Danisua força foi fundamental.E por fim agradeço a minha família pelo apoio e confiança: minha tia Vale(pessoa extraordinária), minha querida avó Fina, Daniela e Bruno, Robson, e o meusobrinho Lucas. Este último carrega o peso de representar todas as crianças do Brasil,grande incentivo de um estudante de História. Em especial agradeço ao meu avô ZeuxisVeloso, pessoa que me ensinou a viver, respeitando a tudo e a todos. Obrigado vô, faço doseu comportamento minha teoria de vida.
  5. 5. 11LISTA DE ABREVIATURASALN – Ação Libertadora NacionalAP - Ação PopularAPM – Arquivo Público MineiroAPML – Ação Popular Marxista LeninistaBNM – Brasil Nunca MaisBOC – Bloco Operário e CamponêsCOLINA – Comando de Libertação NacionalCORRENTE – Corrente Revolucionária de Minas GeraisDOP – Delegacia de Ordem PúblicaDOPSMG – Departamento de Ordem Política e Social Minas GeraisFNL – Frente de Libertação NacionalIC – Internacional ComunistaIPEG – Instituto de Previdência do Estado da GuanabaraIPM – Inquérito Policial MilitarMAR – Movimento de Ação RevolucionáriaMNR – Movimento Nacionalista RevolucionárioMOLIPO – Movimento de Libertação PopularMR8 – Movimento Revolucionário 08 de outubroMR21 – Movimento Revolucionário 21 de AbrilMR26 – Movimento revolucionário 26 de marçoMRM – Movimento Revolucionário MarxistaMRT – Movimento Revolucionário TiradentesOBAN – Operação BandeirantesOLAS – Organização Latino-americana de SolidariedadeORM-POLOP – Organização Revolucionária Marxista – Política OperáriaJUC – Juventude Universitária CatólicaPCB – Partido Comunista do Brasil / Partido Comunista BrasileiroPCCH – Partido Comunista ChinêsPC do B – Partido Comunista do BrasilPCR – Partido Comunista RevolucionárioPCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
  6. 6. 12PCUS – Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas.PE - PernambucoPOC – Partido Operário ComunistaPRT – Partido Revolucionário dos TrabalhadoresPT – Partido dos TrabalhadoresRN - Rio Grande do NorteTL – Tendência LeninistaUFMG - Universidade Federal de Minas GeraisUFOP – Universidade Federal de Ouro PretoUNE – União Nacional dos EstudantesURSS – União das Repúblicas Socialistas SoviéticasUSAID – United States Aid of Development (Serviço de Informações e Propaganda dosEstados Unidos)VAR PALMARES – Vanguarda Armada Revolucionária PalmaresVPR – Vanguarda Popular Revolucionária
  7. 7. 13SUMÁRIOINTRODUÇÃO................................................................................................................. 071 ESQUERDA BRASILEIRA, O PERCURSSO PARA A LUTA ARMADA............ 091.1 Partido Comunista do Brasil (PCB): origem, representatividade e cisões............ 091.2 A opção pela luta armada e a nova esquerda brasileira.......................................... 141.2.1 ORM – POLOP.......................................................................................................... 161.2.2 AP – Ação Popular.................................................................................................... 171.2.3 Os movimentos nacionalistas................................................................................. 181.2.4 PCB – As dissidências armadas................................................................................ 192 A CORRENTE POR ELA MESMA .......................................................................... 242.1 A formação................................................................................................................... 242.2 O movimento de massas.............................................................................................. 262.3 A luta armada.............................................................................................................. 303 A CORRENTE SOB O OLHAR DO DOPS/MG ....................................................... 343.1 O imaginário anticomunista em ação........................................................................ 343.2 O Monitoramento da CORRENTE pelo DOPS/MG............................................... 37CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................... 41REFERÊNCIAS................................................................................................................ 43ANEXOS............................................................................................................................ 48
  8. 8. 14INTRODUÇÃOApós o golpe 1964, medidas antidemocráticas e uma forte repressão tomaram contado país, ocasionando uma incansável caça àqueles que impunham resistência ao governo.Dentre essas resistências, os grupos clandestinos de esquerda foram os que mais sofreramcom o aparato repressor. No entanto, é preciso ressaltar que neste momento boa parteesquerda brasileira se encontrava em pleno processo de transformação. A forma deresistência pacífica da esquerda, até então predominante, aos poucos ia cedendo espaçopara uma ação mais enérgica e radical.Um exemplo claro é o Partido Comunista do Brasil (PCB), granderepresentatividade da esquerda na época, adepto a forma de resistência pacífica, quegradativamente foi se fragmentando em várias células de esquerda armada por todo o país,inclusive em Minas Gerais. Nesse sentido, esta pesquisa tem como premissa maiorrecuperar historicamente a memória do grupo Corrente Revolucionária de Minas Gerais(CORRENTE), uma dissidência do PCB que se portou como resistência armada ao regimemilitar no Estado de Minas Gerais.O marco temporal da pesquisa será de 1967 a 1969, momento de atuação daCORRENTE no cenário mineiro. Porém, será preciso retornar a marcos anteriores, como osurgimento do PCB em 1922, e fatores, de âmbito nacional e internacional, queinfluenciaram a sua criação.Portanto, esses assuntos serão abordados no primeiro capítulo, quando tentodemonstrar, através da referência bibliográfica citada ao longo do texto, o percurso daesquerda brasileira para a luta armada em oposição ao regime militar pós-1964.No segundo capítulo a Corrente Revolucionária de Minas é analisada a partir damemória de seus principais membros. Para tanto utilizo como fonte de pesquisa,entrevistas e depoimentos oriundos dos Projetos “A Corrente Revolucionária de MinasGerais”, “Reconstrução Histórica das Republicas Estudantis da UFOP”, e, “A Atuação doDiretório Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto: entre o desenvolvimentismo e oradicalismo (1956 e 1969)” ambos realizados pelo Laboratório de Pesquisa Histórica doInstituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto. 11Os projetos “A Corrente Revolucionária de Minas Gerais”, “Reconstrução Histórica das RepublicasEstudantis da UFOP”, e, “A Atuação do Diretório Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto: entre odesenvolvimentismo e o radicalismo (1956 e 1969)” foram organizados e coordenados pelo historiadorOtávio Luiz Machado.
  9. 9. 15No terceiro capítulo também procuro demonstrar características que evidenciam aCorrente Revolucionária de Minas Gerais como uma resistência armada ao regime militarno Estado de Minas Gerais. Porém neste momento trabalho com uma ótica inversa, ou seja,a ótica da repressão. Sendo assim, utilizo como fontes, a documentação produzida peloDepartamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (DOPS/MG) 2, referente àorganização mineira (CORRENTE). Neste mesmo capítulo, analiso ainda a forte presençado imaginário anticomunista como justificativa utilizada pela política investigativa erepressiva dos governos militares.A possibilidade de trabalhar com as fontes orais e escritas, nos direciona para umahistória contraposta. Acredito que o cruzamento das fontes permitirá uma melhorabordagem do tema, já que trabalho com a posição da resistência (fonte oral) e com aposição do governo (fonte escrita), embate que instiga a interpretação histórica, artifício detodo historiador.Por último ressalto que esta pesquisa se insere na linha de interpretação da históriapolítica. Não a história política tida como metódica e tradicional, mas a história políticavista por René Remond como uma “histoire renouvelée”, onde o fenômeno político éentendido como campo de representação do social, considerando a sociedade civil comoobjeto de estudo. Para Remond, a história política ao se ocupar de estudos sobre processoeleitoral, partidos políticos, grupo de pressão, opinião pública, mídia, entre outros, “integratodos os atores, mesmo os mais modestos, no jogo político, perdendo assim seu caráterelitista e individualista e elegendo as massas como objeto central” (FERREIRA, 1992,p.267). Sendo assim, trata-se, portanto, de estabelecer sobre nosso objeto de estudo(Corrente Revolucionária de Minas Gerais), pontos de contatos entre a esfera política esocial.2No ano de 1998, após a instalação de uma comissão parlamentar, o Arquivo Público Mineiro (APM)recebeu os documentos do extinto DOPS/MG, colocando em disponibilidade para consulta em 2005, após aorganização e confecção do arranjo disponível em meio digital. Seu acesso é feito por meio de sistemainformatizado de pesquisa, que permite a busca por assuntos, tipos documentais, datas e nomes.
  10. 10. 161 ESQUERDA BRASILEIRA, O PERCURSSO PARA A LUTA ARMADA“Em 1964, a derrota ou a vitória das esquerdascontra os golpistas não era dada. Mas a ‘inação éque tornou a derrota inevitável. ’”Denise Rollemberg.3O presente capítulo será dividido em duas partes. Na primeira realizo uma brevereconstituição da história do Partido Comunista do Brasil (PCB) desde sua origem nomovimento operário brasileiro até a década de 1960, momento das dissidências armadasque opuseram ao regime militar brasileiro e contribuíram para o fim da hegemoniapecebista como representatividade da esquerda brasileira. O estudo do PCB se dá,principalmente, pelo fato do partido ser o principal tronco dos grupos armados emresistência ao regime militar, tal como é a Corrente Revolucionária de Minas Gerais(CORRENTE), objeto cerne deste trabalho. A análise do PCB também será fundamentalpara a caracterização desta nova esquerda que surge com um comportamento (pensamentoe postura revolucionária) crítico ao do partido. Na segunda parte do capítulo, trato daopção da nova esquerda pela luta armada como postura revolucionária em resistência aosgovernos militares. Analiso o que levou a adoção das armas e os principais grupos armadosque agiram violentamente em oposição ao regime.Para tanto, utilizo da revisão bibliográfica citada ao longo do capítulo e dareferência em anexo.1.1 Partido Comunista do Brasil (PCB): origem, representatividade e cisõesO Partido Comunista do Brasil (PCB) nasce no ano de 1922 como uma forma decentralização do movimento operário, motivo pelo qual seu estudo perpassa a história dapolítica operária brasileira.Na segunda metade do século XIX, o Brasil substitui gradativamente a mão de obraescrava pelo trabalho assalariado. As lavouras de café e as indústrias recém criadasrecebem imigrantes, em sua maioria, italianos, portugueses e espanhóis. Acompanhando o3ROLLEMBERG, Denise. Esquerdas revolucionárias e luta armada. In: DELGADO, Lucília de AlmeidaNeves; FERREIRA, Jorge (Orgs.) O Brasil republicano 4 – O tempo da ditadura. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 2003. P. 41-91.
  11. 11. 17acelerado crescimento industrial4do período, surgem novas categorias e classes sociais,onde podemos destacar a burguesia e a classe operária.Neste mesmo contexto os trabalhadores começaram a se organizar para resistir àsduras condições de vida e de trabalho a que eram subordinados: longa jornada; ausência dedescanso semanal remunerado e de férias anuais; admissão e demissão sem contrato; entreoutras. As primeiras organizações que apoiaram a classe operária contra tais condiçõesforam as Associações de Socorro Mútuo. O mutualismo consiste em oferecer aos seusassociados, proteção e assistência na ausência de políticas públicas de amparo social:pensões, indenizações, remédios, enterros, hospitais, entre outras. Tais associações foramalém do caráter assistencialista quando, ao lado dos sindicatos, atuaram de forma política,como reivindicadoras de melhores condições trabalhistas e na organização da classeoperária5.Logo em seguida o anarcossindicalismo e o socialismo irão tomar a frente eorientar o movimento operário no final do século XIX e começo do século XX. Para ossocialistas, o movimento operário devia ser dirigido por um partido institucional. Já osanarcossindicalistas - tendência libertária - privilegiavam a educação da conscientizaçãopolítica de classe, e valorizavam a organização independente dos trabalhadores através deligas, associações operárias e sindicatos. Suas manifestações foram marcadas por greves econscientização de classe através da imprensa operária, fatos que caracterizaram oanarcossindicalismo como uma das principais tendências do movimento operário daépoca6.Nos anseios das militâncias anarcossindicalistas e socialista formaram osprimeiros grupos comunistas no Brasil. Uma cisão do movimento anarcossindicalista quesimpatizava com a Revolução Russa de 1917, caracterizando-a como um movimentolibertário, viria o lado dos socialistas, criar pequenos partidos comunistas em várias regiões4De acordo com José Antonio Segatto na obra intitulada “Breve História do PCB”, entre 1880 a 1889 foramcriadas aproximadamente 400 indústrias, chegando a um número de 636 estabelecimentos industriais, com54.169 operários; no ano de 1907 este número sobe para 3.410 estabelecimentos com 156.250 operários e,em 1920 para 13. 336 indústrias com 275.512 operários.5Sobre o assunto ver também: JESUS, Ronaldo Pereira de; Viscardi, Claudia Maria Ribeiro. A experiênciamutualista e a formação da classe trabalhadora no Brasil. In: FERREIRA, Jorge; REIS FILHO, Daniel Aarão(Orgs.). A formação das tradições (1889-1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. P. 21- 51.(Coleção as esquerdas no Brasil).6O anarcossindicalismo se diferencia do anarquismo (outra tendência libertária) quanto à proposta de açãopolítica contra o capitalismo. Enquanto o anarcossindicalismo orienta e direciona os trabalhadores a caminhoda revolução, os anarquistas se negam a trabalhar na organização do operariado, acreditando na revoluçãoespontânea e independente do proletariado, após a educação política. Sobre o assunto ver: SFERRA,Giuseppina. Anarquismo e anarcossindicalismo. São Paulo: Ática, 1987. 93 p.
  12. 12. 18do país. Partidos esses, que no ano de 1922 realizaram um congresso e formaram o PartidoComunista do Brasil. Portanto, o PCB nascia do ativismo sindical do movimento operáriobrasileiro e se formava sob influência decisiva da Revolução Socialista de Outubro naURSS. No ano de 1924 o partido se condicionava à III Internacional Comunista no IVCongresso da organização.Ao decorrer de sua trajetória o PCB teve sua história atrelada à história do Brasil. Aperiodização utilizada por Moisés Vinhas, demonstra bem a riqueza da história do partido:(...)1922-1930 correspondem ao período de formação, os anos de 1930-1945assinalam o surgimento da Aliança Nacional Libertadora, a quartelada de 1935 ea sombria época do Estado Novo. 1945-1947 assinala o tempo áureo da vida dopartido, os anos da legalidade, quando se converteu na primeira experiênciabrasileira de partido de massas. Já 1948-1958 são anos negros, em que adedicação e o heroísmo cotidianos dos militantes não conseguiam vencer osectarismo, o golpismo e o mandonismo da linha. Os dois últimos períodos(1958-1964 e 1964-1974) são marcados pela desestalinização e retomada de umapolítica ampla e pelo golpe de estado e repressão, que sangraram e dividiram oPCB, sem conseguirem, contudo, aniquilá-lo nem empurrá-lo para o desvario eos becos sem saída da história. (VINHAS, 1982, p.02).Destaca-se no partido, sua predominância na ilegalidade e suas inúmeras crisesinternas. No entanto, nas primeiras décadas de sua existência o PCB teve sua históriamarcada por importantes acontecimentos: os congressos, onde foi definida e redefinida apolítica do partido, e discutida a situação do país; criação de veículos de comunicaçãoimportantes nas propagações de suas idéias, como os jornais A Classe Operária e A Naçãoe a revista Autocrítica; participação em eleições quando na legalidade e através da legendaBOC (Bloco Operário e Camponês); busca por políticas de alianças (tenentes); entreoutros.Como a proposta deste capítulo não é exclusivamente fazer uma reconstrução dahistória do PCB, mas sim tratar do caminho percorrido pela esquerda brasileira até oregime militar, avanço na história do partido até a crise do stalinismo (década de 1950),acontecimento que irá nortear uma nova política para o partido, acarretando várias cisõesno PCB na década de 60.No congresso de criação do partido realizado nos dias 25, 26 e 27 de março de1922, além da escolha do secretário geral e da comissão geral executiva, e da aprovação doestatuto baseado no Partido Comunista Argentino, são averiguadas as 21 condições deadmissão do partido à Internacional Comunista (IC). Sendo assim, no ano de 1924, apósuma tentativa frustrada no final de 1922, o Partido Comunista do Brasil é legitimado como
  13. 13. 19membro da III Internacional Comunista criada por Lênin na URSS, pressuposto quecaracteriza a linha leninista do PCB no período.Com a morte de Lênin em março de 1924 e a partir do VI Congresso da IC, ostalinismo começa a se consolidar no movimento comunista internacional. Como uma das21 condições de admissão na IC era seguir sua linha política, o PCB também se redefiniude acordo com a situação em questão, o que significou uma interferência direta na estruturacriada pelo partido até aquele momento. Um exemplo de reestruturação, em decorrência danova orientação política stalinista, foi a reformulação no órgão maior do partido, o ComitêCentral. Astrogildo Pereira (ex-anarquista e um dos fundadores do PCB), Secretário Geraldo partido no momento, é exonerado do cargo ao adotar a política de “proletarização” soborientação da IC. Na Conferência dos partidos comunistas da América Latina, realizado emmaio de 1930, na cidade de Buenos Aires, Astrogildo Pereira foi duramente criticado pelasua postura, sendo forçado pelo PCB a escrever uma autocrítica, ato que o garantiu nopartido no momento, mas não o poupou da destituição do cargo. A proletarização consistiaem substituir os intelectuais dos partidos comunistas associados à IC por operários.A orientação stalinista do PCB durou até o ano de 1956, quando no XX Congressodo Partido Comunista da URSS (PCUS) Nikita Kruschev lê o relatório denunciando o“culto à personalidade” e realizando severas acusações a Stalin. Tais denúnciasocasionaram fortes crises no movimento comunista mundial, e conseqüentemente no PCB.Durante os primeiros meses o PCB se omitiu em relação às acusações de Kruschev,achando que poderia ser um complô estadunidense sobre o líder soviético. Só com averacidade legitimada com o retorno da delegação do partido do XX Congresso na URSSque o PCB se manifestou. Junto a uma autocrítica que reconhecia os erros das deformaçõesprovocadas pelo stalinismo, o PCB reviu uma série de fatores degradantes: falta dedemocracia interna; excesso de centralismo e mandonismo por parte da direção do partido;e principalmente, o dogmatismo exacerbado. O dogmatismo consistia em tentar enquadrara realidade brasileira às formas e teorias elaboradas nos PUCS, ou seja, a utilização e acópia, sem nenhum espírito crítico, das idéias de comunistas e partidos comunistas deoutros países.Em meio à crise do stalinismo surgem no PCB duas posições diferentes: os quevêem o partido deformado pelo stalinismo, e os que se mantinham comprometidos com opassado e fiéis às orientações stalinistas. Entre essas duas posições extremas, prevaleceramaqueles que realizaram uma releitura do partido a favor de uma nova política.
  14. 14. 20Sendo assim, em março de 1958, o comitê central aprova uma nova política quetem como premissa a luta contra o imperialismo estadunidense e o monopólio da terra,através da política da frente ampla, única, nacionalista e pacífica. Todos (operários,camponeses e burguesia) unidos contra o imperialismo, dentro da legalidade constitucionale da organização de massas. Como meta para essa nova política foram traçadas: políticaexterior independente; progresso e independência da economia nacional; reforma agráriaem favor dos camponeses; elevação de vida do nível do povo; e, consolidação e ampliaçãoda legalidade democrática7.No ano de 1960 é realizado o V Congresso do PCB, onde são confirmadas emantidas as teses da declaração de março de 1958. Como o partido já vivia uma enormecrise interna, o V Congresso intensifica as divergências, o que acarretaria em 1962 namaior cisão do PCB. Os oposicionistas a esta nova linha – Diógenes Arruda, Pedro Pomar,João Amazonas, Ângelo Arroio, Maurício Grabois, entre outros – que no ano de 1954, noIV Congresso tinham adquirido notoriedade e força dentro da direção do partido, reforçamsuas críticas à direção do PCB, e são expulsos por serem responsabilizados pelodogmatismo e sectarismo que acompanhou o partido principalmente nas duas décadasanteriores. Logo, a oposição expulsa realiza uma “conferencia extraordinária” e cria umanova legenda. Como no ano de 1961, o PCB em uma conferência nacional troca o nomede Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro objetivando alegalidade, a dissidência mantém o nome de Partido Comunista do Brasil com a sigla dePC do B.O PC do B nasceu em 1962 como uma manutenção do ideário stalinista que foiabandonado pelo PCB após o XX Congresso da PUCS, e com forte influência teórica eideológica do Partido Comunista Chinês (PCCH) liderado pela figura de Mao Tse Tung.Tal grupo liderado por Diógenes Arruda, Pedro Pomar João Amazonas, Maurício Grabois,entre outros, considera ineficaz a revolução pacífica pretendida pelo PCB, e privilegia aluta revolucionária na área rural brasileira por meio de uma guerra sustentável, e com forteapoio das massas, principalmente camponesas. Porém, é preciso salientar que a experiênciada política da “Guerrilha popular prolongada” só será planejada no final da década de 60,após o lançamento do documento Guerra Popular: caminho da luta armada no Brasil8.7SEGATTO, José Antonio. Breve história do PCB. 2ª. ed. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1989. 136p.8O maior exemplo dessa luta revolucionaria foi à Guerrilha do Araguaia (1972/1974). Tal guerrilha foiplanejada no sul do Pará, na região do Rio Araguaia. Uma área estratégica para a implantação do exércitopopular que faria a revolução objetivada pelo partido. O foco guerrilheiro foi descoberto e aniquilado pelaforça governamental em 1974.
  15. 15. 21Até então, a política do PC do B não ultrapassou o debate ideológico através de meios decomunicação, como o refundado jornal A Classe Operária, um dos principais veículos decomunicação do PCB, criado em 1º de maio de 1925.Quanto a sua estratégia política, o partido (PC do B) não alterou o caráter“etapista” de revolução adotado pelo PCB. Primeiramente se faria a revolução burguesa,para em seguida, realizar a revolução socialista.Com a formação do PC do B em 1962, iniciou-se uma disputa em torno de quemseria a continuidade do Partido Comunista do Brasil criado em 1922. Ambos (PCB e PC doB) se autodenominam herança do I Congresso do movimento comunista que formou oPartido Comunista do Brasil na década de 20. No site oficial do PC do B, o partido écaracterizado como o verdadeiro partido comunista fundado em 1922, segundo JeanRodrigues Sales, “os partidos políticos dão uma atenção especial à escrita de sua história eao uso de seu passado para justificar a atuação política no presente” (SALES, 2007, p.170).Assim como o PCB, o PC do B também enfrentou crises internas e cisões. Uma dasprincipais crises ocorreu em torno do debate da guerrilha urbana. Tal debate dividiu opartido entre os favoráveis e os desfavoráveis à ação no perímetro urbano, contribuindopara os dois maiores rachas no partido entre os anos de 1966 e 1967: a Ala Vermelha, emSão Paulo e no Centro-Sul, e o Partido Comunista Revolucionário (PCR) no nordeste.Ambos os grupos aderiram à guerrilha na cidade. A Ala Vermelha deu origem ainda a doisgrupos clandestinos ligados a guerrilha urbana em São Paulo: o MovimentoRevolucionário Tiradentes (MRT), e o Movimento Revolucionário Marxista (MRM).O PC do B, ao lado de organizações como a ORM-POLOP, AP, os movimentosnacionalistas, e as dissidências armadas do PCB pós 649, contribuiu no processo que punhafim à hegemonia pecebista como representatividade da esquerda brasileira, trazendo a tonauma nova esquerda em resistência ao regime militar.1.2 A opção pela luta armada e a nova esquerda brasileiraA falta de eficácia do caminho pacífico – principalmente em resistir ao Golpe de1964 - juntamente com a forte repressão da ditadura, a pressão de países socialistas, o9A Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-POLOP), a Ação Popular (AP), osmovimentos nacionalistas, e as dissidências armadas do PCB, serão tratadas no decorrer do capítulo.
  16. 16. 22exemplo de lutas de libertação nacional (Argélia e Vietnã), a influência teóricainternacional, e o exemplo de revoluções anteriores (Russa, Chinesa, e principalmente,Cubana), explicam a adesão de boa parte da esquerda brasileira à luta armada no Brasil emresistência ao regime militar.Sob forte influência da Revolução Cubana, referência de toda esquerda latino-americana, a esquerda brasileira também pensou a revolução socialista pelo viés da lutaarmada de guerrilha. A experiência de Che Guevara e Fidel Castro em Sierra Maestra,teorizada por Regis Debray na obra “Revolução na Revolução”, caracteriza o modelorevolucionário de Cuba como “foquismo”. Essa teoria consiste num “foco militar rural”que através de sua posição estratégica pudesse iniciar a vanguarda da luta revolucionária ea tomada do poder pelas massas. Porém, como veremos mais à frente, poucos foram osgrupos brasileiros que seguiram tal método a risca. Sendo assim, o exemplo a ser seguidofoi a possibilidade de vencer uma revolução antiimperialista, que visava a derrubada doregime através da luta armada, não necessariamente na via dos focos guerrilheiros.Há fortes indícios que os primeiros esboços da guerra de guerrilha no Brasilocorreram no início da década de 60, com forte respaldo das Ligas Camponesas e já sobforte influência da Revolução Cubana. O movimento logo foi abortado pelo governo deJoão Goulart na região de Goiás.A verdade é que só após o Golpe de 64 ocorreu a criação de inúmeras siglas degrupos de esquerda armada, já que parte expressiva da esquerda brasileira só aderiu à lutaarmada de fato, em decorrência da crise na esquerda brasileira pós-64, e pela forterepressão do governo ditatorial.Daniel Aarão Reis Filho utiliza a expressão “nova esquerda” para caracterizar eabranger as organizações e partidos políticos clandestinos que surgiram no país emoposição e/ou alternativa ao Partido Comunista do Brasil. Segundo o historiador, amultiplicidade das organizações de esquerda põe fim ao monopólio representativopretendido pelo PCB desde o ano de 1922, e traz uma nova postura e comportamento daesquerda brasileira. A teoria sendo substituída pela prática que traria efeitos imediatos: aluta armada no campo; o fator militar e o exército revolucionário; a guerra prolongada emlugares estratégicos; a política independente em relação à burguesia; entre outras10.10SÁ, Jair Ferreira de (Orgs.). Imagens da Revolução: documentos políticos das organizações clandestinasde esquerda dos anos 1961 a 1971. 2 ed. Rio de Janeiro: Expressão Popular, 2006. 464p. (Coleção assimlutam os povos).
  17. 17. 23O projeto Brasil: Nunca Mais contabilizou aproximadamente 40 organizaçõesclandestinas de esquerda que se dividiam sobre três fatores:(...) o caráter da revolução brasileira (nacional-democrática ou socialista), asformas de luta revolucionária (maior ou menor pesos das massas – urbanas oururais – na luta armada, desenvolvida em moldes que se aproximava mais domodelo soviético, chinês ou cubano), e o tipo de organização necessária aoprocesso revolucionário (no modelo partidário marxista-leninista clássico oucom flexibilidade organizacional inspirada no exemplo da guerrilha cubana).(RIDENTI, 2007, p.29).Levando em consideração o grande número de organizações clandestinas deesquerdas do período, exponho a seguir esses grupos divididos a partir de suas matrizesoriginárias: Organização Revolucionária Marxista-Política Operária (ORM-POLOP), AçãoPopular (AP), Movimentos Nacionalistas, e principalmente o PCB. 111.2.1 ORM – POLOPA Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (ORM – POLOP) foicriada no ano de 1961, como resultado da fusão da juventude do Partido Socialista dasseções da Guanabara e São Paulo - estes últimos adeptos ao pensamento de RosaLuxemburgo -, de estudantes da “Mocidade Trabalhista de Minas Gerais” e de dissidentesdo PCB. A POLOP foi o primeiro agrupamento a se organizar como opção partidária aoPCB e também ao PTB, considerando suas atitudes conciliadoras e reformistas. Sendoassim, a POLOP elaborou um “‘Programa Socialista para o Brasil’, onde afirmava que ograu de evoluções do capitalismo no país comportava e exigia transformações socialistasimediatas, sem qualquer etapa nacional-democrática” (BNM, 1985, p.103).Só após a deposição de João Goulart que a POLOP ensaiou a estratégia guerrilheiracontra o novo regime; até então, a organização se manteve nos debates teóricos edoutrinários dentro da esquerda marxista.No ano de 1967, na onda da luta guerrilheira que se espalhava pela América Latinasob influência da Revolução Cubana, a POLOP deu origem a importantes grupos em11Uma outra tendência existente no Brasil desde o ano de 1929 foi a Trotskista, um agrupamento políticoadepto as idéias de Leon Trotsky, um dos líderes da revolução Russa de 1917, que acabou sendo expulso daURSS pelo governo de Stalin. Porém, por sua forte crítica a luta armada - a meu ver, a característicafundamental da nova esquerda brasileira - não insiro o grupo à nova esquerda atuante no regime militar.
  18. 18. 24decorrência de cisões em seu interior: Comando de Libertação Nacional (COLINA),Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) Partido Operário Comunista (POC), etc.O COLINA teve seu raio da ação principalmente no Estado de Minas Gerais, comalgumas ramificações no Rio de Janeiro. De acordo com as idéias defendidas pelaOrganização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), o grupo passou a executar em1968, ações armadas que viabilizariam a guerrilha no campo. Após forte repressão doregime o grupo se desmantelou e se aliou a VPR, dando origem em seguida ao VAR –Palmares. Como veremos no segundo capítulo, o COLINA realizou ações conjunta com aCorrente Revolucionaria de Minas Gerais (CORRENTE).A VPR foi fundada a partir da fusão de dissidentes da POLOP, como já foi dito, edo “Movimento Nacional Revolucionário” (MNR) 12. Suas ações consideradasespetaculares a caracterizaram como um dos principais grupos que através das armasenfrentaram a ditadura no Brasil: ataque a bomba ao serviço de informações e propagandasdos Estados Unidos (USIS) e ao Quartel-General do II exército em São Paulo;justiçamento do Major norte-americano Charles Chandler (em parceria com a ALN);captura de fuzis e armas no Hospital de Cambuci e no quartel do exército em São Caetanodo Sul; seqüestro dos embaixadores japonês, alemão e suíço como moeda de troca (açõesconjuntas com outros grupos); etc. Vale ressaltar que o Grupo teve como figura lendária oex-capitão do exército Carlos Lamarca. Depois de forte repressão do regime, a VPR foidesmantelada no ano de 1972.O POC também se constituiria das cisões da POLOP com a dissidência leninista doPCB no Rio Grande do Sul. Tal grupo foi bastante expressivo no meio estudantil,estabelecendo também presença no meio operário. A organização seguiu a linha política daPOLOP, tendo adeptos e críticos à luta armada, motivo de racha e cisões posteriormente.1.2.2 AP – Ação PopularA Ação Popular foi fundada em julho de 1962 em um congresso realizado em BeloHorizonte. Composta de cristãos progressistas ligados à Ação Católica, em particular aJuventude Universitária Católica (JUC), o grupo se autodenominou um “movimento12Trato do MNR mais adiante, ao abordar os movimentos nacionalistas.
  19. 19. 25político” inspirado em idéias humanista de Jacques Maritain, Teilhard de Chardin,Mounier, e do padre Lebret. Suas maiores atuações ocorreram no meio estudantil, ondecontrolava as sucessivas diretorias da União Nacional do Estudante (UNE). Já compropostas de acordo com o pensamento marxista desde sua fundação, foi entre 1965 e 1967que a organização adotou de fato o marxismo como guia teórico em suas atividades. Apartir de 1968 a AP assume variantes tipicamente maoístas. No ano de 1971, defende aunião de todas as correntes marxista-leninistas o que propiciaria mais tarde a integração departes de seus militantes ao PC do B.Após cisão interna ocorrida em 1968, a AP originaria uma nova sigla, PRT, oPartido Revolucionário dos Trabalhadores. Seus fundadores discordavam do maoísmoortodoxo seguido pela direção da AP. Diferente da AP, o PRT se envolveu em açõesarmadas, sendo dissolvido no ano de 1971 após ser atingido pela repressão.Vale ressaltar que na década de 1980, já com a sigla APML – Ação PopularMarxista Leninista – a organização (AP) se fundiu ao recém criado Partido dosTrabalhadores (PT).1.2.4 Os movimentos nacionalistasHouve no Brasil varias organizações armadas ligadas ao nacionalismorevolucionário: MNR, MR-26, MR-21, MAR, FNL, RAN, etc. Os movimentosnacionalistas giravam em torno do ex-governador do Estado do Rio Grande do Sul LeonelBrizola (Brizolismo), e tinha como objetivo, as conquistas democráticas, as reformas debase, e a libertação nacional.O principal grupo surgido do nacionalismo revolucionário foi o MovimentoNacionalista Revolucionário (MNR), originado após o golpe de 1964, da união demilitantes políticos exilados no Uruguai e militares cassados pelo exército (em especiaismarinheiros, cabos e sargentos). O MNR foi uma das primeiras articulações guerrilheirasno Brasil, e comandadas do exílio no Uruguai. Brizola a princípio resistia à teoria do focoguerrilheiro. Este achava que levantes populares eram mais eficazes do que uma luta deguerrilha prolongada. Entretanto à medida que seus planos foram se esvaindo, o ex-governador não teve outra saída senão “apostar todas as suas fichas” na implantação deguerrilhas. Sendo assim, foi implantado no Estado de Minas Gerais, na proximidade do
  20. 20. 26Pico da Bandeira, a Guerrilha do Caparaó (1966/1967), tentativa de foco guerrilheiro quenão passou de um período de treinamento sem a realização de nenhuma ação. Tanto aGuerrilha do Caparaó como a Guerrilha do Araguaia, mostraram a inviabilidade de adoçãodo modelo foquista de revolução no Brasil. Esta inviabilidade se dá por alguns fatores:extensão do território; falta de apoio da população, e isto foi claro nas duas guerrilhascitadas acima; inexistência de uma campanha nacional precisa contra o governo, entreoutros. Através da política de exportação da Revolução Cubana, o MNR teve um apoioconsiderável de Cuba.1.2.4 PCB – As dissidências armadasPelos motivos já esclarecidos em páginas anteriores, o PCB foi o tronco principaldos grupos clandestinos de esquerda atuantes no regime militar. No ano de 1967, após o VICongresso13do PCB, aumentaram as divergências internas no partido, o que determinouuma série de dissidências. Dentre essas dissidências destacamos: MR-8, PCBR, ALN,Corrente Revolucionária de Minas Gerais, entre outras. Como mostra o organograma quecriei.13No VI congresso do PCB (1967), foram reiteradas, a forma de resistência pacífica adotada no VCongresso, e a confiança no apoio da burguesia, principais fatores que originou a corrente oposicionistadentro do partido.
  21. 21. 27O Movimento Revolucionário 8 de Outubro consiste na nova denominação da “DIda Guanabara”, a Dissidência da Guanabara do PCB. Seu nome faz alusão à morte de CheGuevara, que ocorreu na Bolívia no dia 8 de Outubro de 1967, e foi adotado após o famososeqüestro do embaixador estadunidense, Charles Burke Elbrick, ação realizada emconjunto com a ALN. 14Além de suas estratégias de ações serem semelhantes as da ALN,o MR-8, difere desta, defendendo a idéia de um novo partido marxista, crítico ao programado PCB. Mais tarde, o MR-8 contará com um núcleo de militantes vindos da VPR, dentre14Vale ressaltar que a Dissidência do Rio de Janeiro (DI/RJ) também adotou o nome de MR-8, porém estadissidência logo foi abortada pela força governamental.PCBCriadoem1922DI/GBem1966DI/RJem1966DI/SPem1967CorrenteRevolucionáriade MinasGeraisCriada em1967DI-RSem1967MR-8Criada em1969DI-DFem1967PCBRCriado em1968PC do BCriado em1962Dissidências armadas do PCB pós 1964, em resistência ao regime militar brasileiro.AgrupamentoComunista deSão PauloIncorporadaa ALN em1969ALNCriada em1967
  22. 22. 28esses, Carlos Lamarca, que é assassinado no sertão da Bahia no dia 17 de setembro de1972, em missão pelo grupo. No ano de 1972 o MR-8 é desestruturado, ressurgindo no anoseguinte com uma orientação política bastante diferente da anterior, inclusive com crítica aluta armada.O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), também defendia a idéiade um partido marxista que reformulasse a linha tradicional do PCB em relação sua aliançacom a burguesia e seu caminho para se chegar ao socialismo. O grupo surgiu da correnteoposicionista do PCB depois de 1964. Articulado pela figura de Mário Alves, jornalista eintelectual de forte prestígio, que foi expulso do PCB após divergências com o ComitêCentral e com seu principal líder no momento, Luiz Carlos Prestes, o PCBR se consolidouformalmente no ano de 1968. O grupo também adotou a guerrilha rural e urbana comoestratégia. No início da década de 70, a forte repressão atingiu a organização, prendendoparte de sua direção (Apolônio de Carvalho, Miguel Batista, Jacob Gorender, etc.) ematando outros, entre esses, Mário Alves. No segundo capítulo, também veremos a ligaçãoe contatos do PCBR – através de seus principais dirigentes – com a CorrenteRevolucionária de Minas Gerais.Sem dúvida, o grupo guerrilheiro mais expressivo do Brasil durante o períodomilitar foi a Ação Libertadora Nacional (ALN), formado com base na dissidência de SãoPaulo e comandado por Carlos Marighella, e, mais tarde, Joaquim Câmara Ferreira.Devido a sua forte ligação e contribuição à Corrente Revolucionária de Minas Gerais, talgrupo merece uma atenção especial.Antes de se tornar o famoso guerrilheiro da ALN, Carlos Marighella já dotava deuma incrível condição teórica. Seus textos e livros não foram só referência para a esquerdabrasileira, mas também para toda esquerda latino-americana. Também inconformado com apredominância do discurso e com a aliança com a burguesia, Carlos Marighella participada conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) realizada em1967 em Cuba. A OLAS atendia o chamado da Revolução Cubana para um plano de açãorevolucionaria continental. Ao regressar de Cuba, Carlos Marighella é expulso do PCB porter participado da conferência sem a autorização do Comitê Central. É neste momento quesurge a ALN com as seguintes propostas:(...) luta de libertação nacional, a montagem de uma organização revolucionárianacional, patriótica, de caráter amplo e ampla autonomia tática, e,principalmente, o desencadeamento de ações revolucionárias como base paraafirmação da organização, e para a formação do exército popular de libertaçãonacional. (REIS, 1985, p. 206).
  23. 23. 29Como evidencia o nome, a Ação Libertadora Nacional tem como primeiro objetivoa libertação nacional, para depois realizar a revolução socialista, condizendo com a teoriade duas etapas para a revolução. Porém, enquanto o PCB admitia uma aliança com aburguesia, a ALN condicionava a primeira fase da revolução a operários e camponeses.Logo em sua formação a ALN se distancia das outras dissidências do PCB, aorejeitar a idéia de partido. Marighella negava a estrutura centralizada de partido,considerando prejudicial à ação revolucionária. Apesar de sua forte autonomia dentro dogrupo, Marighella dava total liberdade tática aos militantes da organização. Um exemplodisso seria a ação que deu no seqüestro do embaixador dos Estados Unidos. Junto do MR-8, alguns militantes da ALN realizaram a operação sem consultar Carlos Marighella.A ALN foi uma das organizações mais próxima de Cuba. A partir da OLAS,Marighella tem a Revolução Cubana como uma vanguarda para a revolução latino-americana. Um dos ensinamentos que mais empolga Marighella foi à possibilidade devencer uma revolução a partir do zero e com um grupo mínimo de combatentes. Apesar detoda influência da Revolução Cubana, a ALN substitui a teoria do foco guerrilheiro pelas“colunas guerrilheiras móveis, que se deslocariam contando com pontos de apoio deantemão assentado” (GORENDER, 1998, p.107), devido principalmente à dimensão físicado país.A ALN teve seu raio de ação principalmente na cidade, com o intuito de obterrecursos e poder organizar a guerrilha rural e o exército de libertação nacional.O Guerrilheiro urbano não teme em desmantelar ou destruir o presente sistemaeconômico, político e social brasileiro, já que sua meta é ajudar ao guerrilheirorural e colaborar para a criação de um sistema totalmente novo e uma estruturarevolucionária, social e política, com as massas armadas no poder. (Marighella,1969, p.2) 15.Suas principais ações foram: expropriação do trem pagador em São Paulo, e docarro pagador do IPEG, no Rio de Janeiro; a tomada da Radio Nacional, em São Paulo; ojustiçamento do major natural do Estados Unidos Charles Chandler (em parceria da VPR)e do empresário Bulissem da Supergasbrás, que coordenava o financiamento da OBAN;tomada de sindicatos têxteis, etc.15MARIGHELLA, Carlos. Minimanual do guerrilheiro urbano. 1969. Disponível em:<http://www.consultapopular.org.br/formacao/textosclassicos/MANUAL%20DO%20GUERRILHEIRO%20URBANO.doc/view>. Acesso em: 24 Ago. 2008.
  24. 24. 30Vale ressaltar que no ano de 1971 surgem duas dissidências da ALN: o Movimentode Libertação Popular (MOLIPO) e a Tendência Leninista (TL).No ano de 1969, mais precisamente no dia 4 de novembro, Carlos Marighella éassassinado em uma Rua de São Paulo, no conturbado caso da Alameda Casa Branca. Apartir daí, sucessivas prisões e mortes – dentre essas a do substituto de Marighella, CâmaraFerreira – tomam conta do dia-a-dia da organização, até culminar em sua desestruturaçãono ano de 1974.A “ação faz a vanguarda” lema da Ação Libertadora Nacional (ALN), reflete bem oanseio revolucionário da – nova – esquerda armada esboçada neste capítulo. Agora queapresentada, de forma ampla e geral, caio nas particularidades do grupo mineiro CorrenteRevolucionária de Minas Gerais (CORRENTE), objeto de estudo dos capítulos seguintes.
  25. 25. 312 A CORRENTE POR ELA MESMA“A gente usava armas porque invadiu a nossa etomou a nossa vida e falou o que pode e o que nãopode. Estabeleceu regras e cortou a nossaliberdade. É um direito. Eu acho que o direito arevolta a tirania é um direito do cidadão”.Marco Antônio Victoria Barros16Neste capítulo apresento a Corrente Revolucionária de Minas Gerais a partir damemória de alguns de seus integrantes. Para tanto, utilizo como fontes de pesquisas,entrevistas e depoimentos de ex - militantes do grupo mineiro, oriundos dos projetos “ACorrente Revolucionária de Minas Gerais”, “Reconstrução Histórica das RepúblicasEstudantis da UFOP”, e, “A Atuação do Diretório Acadêmico da Escola de Minas de OuroPreto: entre o desenvolvimentismo e o radicalismo (1956 e 1969)” ambos realizados peloLaboratório de Pesquisa Histórica do Instituto de Ciências Humanas e Sociais daUniversidade Federal de Ouro Preto. Sendo assim o presente capítulo será dividido emtrês partes. Na primeira parte abordo a Formação da Corrente Revolucionária de MinasGerais (CORRENTE) a partir de sua dissidência com o PCB. Logo em seguida, na segundaparte do Capítulo, analiso a 1ª fase do grupo, no qual o movimento de massa ainda seencontrava consistente. E finalmente no 3º subtítulo trago a investida da CORRENTE naluta armada, até sua fusão na Ação Libertadora Nacional (ALN).2.1 A formaçãoComo analisado no capítulo anterior a Corrente Revolucionária de Minas Gerais éfruto das discussões que precederam o VI Congresso do PCB ocorrido no ano de 1967.Nas discussões do Congresso, polarizaram-se duas vertentes. A vertente oficial, que optava16Depoimento de Marco Antônio Victoria Barros (militante da CORRENTE) a Otávio Luiz Machado. OuroPreto, Projeto Reconstrução Histórica das Repúblicas Estudantis da UFOP, 2003. Disponível em:<http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com/2008/03/depoimento-de-marco-antnio-victoria.html>Acesso em: 20 de maio de 2008.
  26. 26. 32pela resistência pacífica à ditadura, e a vertente que defendia a adoção da luta armadacomo resistência aos governos militares.A corrente oposicionista era liderada, entre outros, por Mário Alves, Apolônio deCarvalho, Jacob Gorender, Miguel Batista do Santos, Câmara Ferreira, Carlos Marighella,e aos poucos, foi recebendo apoio de integrantes de comitês estaduais do PCB, dentreesses, do Comitê Estadual de Minas Gerais. Vale ressaltar que os comitês estaduaispreenchiam boa parte de seu quadro com militantes representantes do movimentoestudantil. Logo em seguida, em 1967, com o desfecho do VI Congresso, a correnteoposicionista do partido foi expulsa, o que acarretou em varias cisões armada por todo opaís.Foi neste processo que a cisão mineira do PCB originou o Grupo CorrenteRevolucionária de Minas Gerais (CORRENTE). Segundo Ricardo Apgaua, um dosmembros do grupo na época, antes mesmo da efetiva cisão com o partido, a extensãomineira do PCB já se definia de forma particular em relação ao Comitê Central,principalmente no que diz respeito ao método revolucionário:Nesta época começamos a nos antecipar ao rompimento com o PCB e montamoso que chamamos de Comitê Estadual Paralelo. Dele fazíamos parte o MárioAlves, Mário Roberto Galhardo Zanconato (Xuxu), que pertencia à sessãoestudantil estadual e era o líder do partido no movimento estudantil universitário,o Gilney Amorim Vianna, que nesse momento assume o contato com o pessoaldo movimento operário, o José Júlio (Araújo) e eu, que dirigia o partido nomovimento estudantil secundarista e detinha, pelo trabalho que tinha feito, ocontato com os grupos do interior do estado. A partir daí, a gente começa amontar, no movimento estudantil, uma estrutura voltada para a luta armada e aplanejá-la. Quando os membros da Corrente Revolucionária do PCB, em Minas,fomos expulsos do partido, já contávamos com uma estrutura partidáriafuncionando. Passamos a atuar como a Corrente Revolucionária de MinasGerais17.Com núcleos originários nas Cidades de Ouro Preto e Belo Horizonte, aCORRENTE se constituiu basicamente por estudantes secundaristas e universitários18,servidores públicos19, e operários. Fato que evidencia sua atuação no movimento estudantile operário, como veremos a seguir.17Depoimento de Ricardo Apgaua a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Laboratório de Pesquisa Histórica daUFOP/Projeto A Corrente Revolucionária de Minas Gerais, 2004. Disponível em:<http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com/2007/07/depoimento-de-ricardo-apgaua.html> Acesso em:21 de maio de 2008.18Ver no anexo E a relação nominal de estudantes indiciados nos inquéritos policiais militares referentes àCorrente Revolucionária de Minas Gerais.19Ver no anexo F a relação nominal dos funcionários públicos indiciados nos inquéritos policiais militaresreferentes à Corrente Revolucionária de Minas Gerais.
  27. 27. 33Em Ouro Preto a CORRENTE foi organizada por Hélcio Pereira Fortes20, aluno daEscola Técnica, e ex - integrante do Comitê Estadual do PCB em Minas Gerais. Já em BeloHorizonte a organização mineira foi orientada pela figura de Mário Alves21, até osurgimento de posições contrárias. Enquanto Mário Alves defendia a reorganizaçãopartidária, a CORRENTE se colocava na posição de uma organização livre dacentralização de um partido. Logo, Mário Alves, junto com Apolônio de Carvalho e JacobGorender, fundaria o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e o grupomineiro se aproximaria de Carlos Marighella e sua Organização, ALN. Marighelladefendia que as cisões do PCB não deviam se organizar em torno de uma únicarepresentação, mas sim, em grupos menores que pudessem se dividir em distintas frentesde resistência. No decorrer do capítulo veremos a forte ligação da organização mineira coma ALN, até o seu desmembramento no ano de 1969. No entanto, apesar de sua estreitarelação com o grupo de Marighella, a CORRENTE mantinha-se como uma organizaçãoautônoma e independente, com direção e estrutura própria. Segundo Gilney AmorimViana, um dos lideres do grupo, Marighella “tinha uma opinião de que os grupos tinhamliberdade tática, e só seguiriam uma orientação estratégica” (VIANA, 2004).222.2 O movimento de massasJá antes da cisão com o PCB, o grupo que formaria a Corrente Revolucionaria deMinas Gerais dividia sua atuação em setores de massas. Essa estrutura se estendeu ao20Hélcio Pereira Fortes, ativista político desde cedo, atuou na União Colegial Ouropretense, e na EscolaTécnica Federal. Ingressou na Escola de Metalurgia, mas não chegou a concluir o curso. Em 1963, passou afazer parte do PCB, vindo atuar na ilegalidade logo após o golpe de 64. No grupo Corrente Revolucionaria deMinas Gerais, como um dos principais membros, teve importante participação tanto no meio estudantil eoperário, quanto na luta armada. Em 1969, com o desmantelamento do grupo mineiro, Hélcio se ingressou naALN, vindo a ser um dos principais militantes da organização. No ano de 1972, Hélcio foi morto com apenas24 anos de idade, sob forte tortura no DOI-CODI/SP.21Em 1945, o jornalista Mário Alves passou a integrar o Comitê Estadual do PCB na Bahia, e em 1957, foieleito para o Comitê Central. Após o golpe de 64, Mário Alves tornou-se um dos principais líderesoposicionista dentro do partido. Por sua oposição a orientação predominante na direção do PCB, Mário Alvesfoi afastado da comissão executiva do partido, e foi atuar em Belo Horizonte, onde permaneceu até 1967. EmBelo Horizonte Mário Alves contactou e orientou o grupo mineiro do PCB que formaria a CorrenteRevolucionária de Minas Gerais.22Depoimento de Gilney Amorin Viana a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Projeto “A CorrenteRevolucionária de Minas Gerais”, 2004. Disponível em:<http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=1074> Acesso em: 14 de abril de 2008.
  28. 28. 34grupo revolucionário, mesmo com a adoção da luta armada. Num primeiro momento aCORRENTE procurou manter sua atuação no meio operário e no meio estudantiljuntamente com a luta armada. Porém, com o aumento das atividades armadas, os setoressociais, que continham os melhores quadros da organização, tiveram que ceder seusprincipais militantes para a guerrilha urbana; fato que era comum nas organizaçõesclandestinas de esquerda.O movimento estudantil, base da CORRENTE em sua formação, era composto, emsua maioria, de militantes oriundos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dasEscolas de Minas e Farmácia de Ouro Preto, e da Escola Técnica também em Ouro Preto.O líder do setor universitário era o Mário Roberto Galhardo Zanconato, da Escola deMedicina, mais conhecido como “Xuxu”. Da Escola de Minas de Ouro Preto listamoscomo militantes, o Lincoln Ramos Viana, Pedro Carlos Garcia Costa, AbelardoMagalhães, Athauaupa Valença Padilha, e o César Epitácio Maia. Este último foi preso no30º Congresso da UNE em Ibiúna, representando a organização mineira. Da Escola deFarmácia é referenciada a Yone Lima (“Marcinha”). No Movimento EstudantilSecundarista temos o Antonio Carlos Bicalho Lana (“Cauzinho”), o Marco AntônioVictoria Barros (“Play”), o Antônio Mendes Barros (‘Toninho’) a Marília Angélica doAmaral, o Antônio de Pádua Rodrigues, e o Ricardo Apgaua23. O núcleo estudantilcompunha suas atividades com discussão e orientação política entre os estudantes,reivindicações estudantis, pichações com expressões de protesto contra a ditadura, epanfletagem em torno das universidades e nas portas das fábricas, com o destaque parafábrica da Alcan, no bairro de Saramenha, em Ouro Preto.O movimento estudantil constitui-se após o golpe de 64, em um dos maisimportantes setores de combate ao regime, motivo de atração dos grupos clandestinos deesquerda. Seu enfraquecimento se deu pela migração de boa parte de sua militância para a“profissionalização revolucionaria”, com a luta armada, e por medidas governamentais afavor de seu desmantelamento, como o Decreto – Lei nº. 477, de 26 de fevereiro de 1969.Tal decreto demonstra claramente a preocupação do governo com o movimento estudantile com as instituições de ensino. 2423Depoimento de Ricardo Apgaua a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Laboratório de Pesquisa Históricada UFOP/ Projeto: A Corrente Revolucionária de Minas Gerais, 2004. Disponível em:<http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com/2007/07/depoimento-de-ricardo-apgaua.html> Acesso em:21 de maio de 2008.24Brasil. Decreto-Lei 477, de 26 de fevereiro de 1969. Define infrações disciplinares praticadas porprofessores, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou particulares, e dá
  29. 29. 35Vale ressaltar que Lincoln Ramos Viana e Pedro Carlos Garcia Costa, militantes daCORRENTE, foram expulsos da Escola de Minas de Ouro Preto, com respaldo no Decreto477, como comenta o próprio Lincoln:Quando o movimento estudantil a nível nacional adquiriu uma força muitogrande com as passeatas do Rio de Janeiro, o governo militar para tentardiminuir esta força baixou um decreto-lei dizendo que todo aluno de umauniversidade que fosse tido como “subversivo”, ou seja, que tivesse participaçãoem atividades políticas poderiam ser enquadrados neste decreto e ser impedidode estudar em qualquer universidade durante três anos. Então, lá em Ouro Pretoeu e o Pedro fomos enquadrados neste decreto. Foi simplesmente uma conversade uma meia-hora com algumas perguntas com o secretário da Escola. Fechou-seo processo e o Ministro da Educação da época (Tarso Dutra) assinou umaportaria nos enquadrando. E fomos expulsos da Escola de Minas de Ouro Preto.Eu estava passando do 4o para o 5o ano de Geologia, faltava apenas fazer asprovas finais. Nem isto foi permitido e perdi todo o 4º ano. Era 17 de Novembrode 1969. 25Como já foi ressaltado, a Corrente Revolucionária de Minas Gerais teve ativaparticipação no meio operário, que se encontrava mobilizado contra o arrocho salarialimplementado pelo regime, e contra as medidas para o enfraquecimento do movimento,adotadas pelo governo, como demonstra Jacob Gorender:De 1964 a 1970, o Ministério do Trabalho destituiu as diretorias de 563sindicatos, a metade de trabalhadores da indústria. Das seis confederações deempregados, quatro sofreram intervenção. Nos anos 64-65, concentraram-se 70%das intervenções ministerialistas. Ao mesmo tempo, o Governo Castello Brancopôs em vigência legislação quase proibitiva do direito de greve (somente asgreves contra atrasos de pagamento terão alguma tolerância) e revogouconquistas importantes de categorias profissionais como os ferroviários,portuários e estivadores, marítimos e petroleiros. 26A CORRENTE possuía também, uma ativa base operária, operada primeiramentepor Gilney Amorim Viana, e posteriormente, por Hélcio Pereira Fortes, que foi um grandeinterlocutor entre o movimento estudantil e o movimento operário, organizador do jornal“1º de Maio”, órgão de propaganda da organização, voltada para sua base operária. Já emOuro Preto, Hélcio vinha desenvolvendo um bom trabalho na fábrica de AlumínioALCAN, quando foi deslocado para a Cidade Industrial (Contagem), onde aconteceria aprimeira greve de expressão no Brasil, após o golpe de 64.outras providências. Disponível em: <www.acervoditadura.rs.gov.br/legislacao_14.htm> Acesso em: 27 deAgo. de 2008.25Depoimento de Lincoln Ramos Viana a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Projeto “A Atuação doDiretório Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto - o desenvolvimento e o radicalismo entre 1956 e1969”, 2003. Disponível em: <http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com/2007/07/depoimento-de-lincoln-ramos-viana.html> Acesso em 21 de maio de 2008.26GORENDER, Jacob. O combate nas trevas: das ilusões perdidas a luta armada. Op. cit. P.153.
  30. 30. 36Já com movimentação desde março de 1968, a grande greve de Contagem eclodiude fato no dia 16 de abril na Belgo-Mineira. Com adesão de fabricas vizinhas, estima-seaproximadamente um total de 16 mil trabalhadores parados. Além da CORRENTE, outrasorganizações clandestinas também participaram do movimento, como foi o caso da AçãoPopular (AP) e do Comando de Libertação Nacional (COLINA).Com forte influência no Movimento Sindical, tal como no Sindicato dosMetalúrgicos, onde se destaca a direção da militante Conceição Imaculada de Oliveira27, aCORRENTE foi um dos principais quadros da greve. Ninguém melhor que Gilney AmorinViana para comentar a participação da organização mineira na greve de Contagem:Olha, na greve de Contagem a Corrente teve um papel fundamental. Primeiro naeleição do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem. (...)Então, tudo começa com a nossa vitória na direção do sindicato e com umtrabalho clandestino que nós fazíamos desde a retomada do movimento após ogolpe. Particularmente 65, 66 e 67 teve o processo de reorganização. E então,nós fizemos todo o movimento. Nessa época nós tínhamos gente do Partidão e daAP (Ação Popular). A liderança maior era da AP, que nós colocamos napresidência. (...) Todas as lideranças deles tinham quadros bons. Mas o queaconteceu? Eles foram cassados. E os nossos quadros meio Partidão e meioCorrente não eram conhecidos. Então, eles não foram cassados. Então, foi aí quenós colocamos um quadro que era ligado a gente na presidência e na secretaria,que era um cargo estratégico. Colocamos a Conceição Imaculada. Então, ali nóstínhamos uma influência muito grande no sindicato. E nós fizemos umascomissões de fábricas. Várias comissões de fábricas na Belgo e na Mannesmam.Então, esse é um processo aonde a gente disputava também com a POLOP(Organização Política Marxista – “Política Operária”), mas não tanto com aPOLOP, mas com a divisão da POLOP, inicialmente com o POC (PartidoOperário Comunista) e outros começamos a fazer um trabalho lá. Mas nóséramos uma força hegemônica. 28Gilney também comenta que a Greve foi articulada de dentro para fora, ou seja,pela própria comissão da Belgo-Mineira:E na verdade a primeira greve se deu de dentro pra fora. Ela não se deu dosindicato para lá. Embora nós tivéssemos uma influência no sindicato, porquenão tinha ambiente político para fazer uma greve no sindicato. E a greve foi27A mineira Conceição Imaculada de Oliveira foi operária metalúrgica e entrou para militância do PCB noano de 1963. Após as discussões do VI Congresso do partido, Conceição Imaculada de Oliveira acompanhoua dissidência mineira do PCB, e passou a integrar a Corrente Revolucionária de Minas Gerais. Em 1967 setornou a primeira mulher a interar a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem,tendo fundamental participação na greve de Contagem.28Depoimento de Gilney Amorin Viana a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Projeto “A CorrenteRevolucionária de Minas Gerais”, 2004. Disponível em:<http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=1074> Acesso em: 14 de abril de 2008.
  31. 31. 37dirigida pela comissão de fábrica da Belgo-Mineira. E nisso aí o Hélcio PereiraFortes teve um papel estratégico, porque nós deslocamos o Hélcio de Ouro Pretopara ser quadro da Corrente profissionalizado lá em Contagem na cidadeindustrial. Então, ele foi uma peça de articulação, de concepção. (...). E foi umacoisa belíssima, porque nós inovamos muito antes de Osasco de como umacomissão de fábrica fez uma greve de dentro da fábrica e em plena fábrica. Einovou. E nós tivemos um papel fundamental. 29A Greve durou até o dia 2 de maio, e foi tida como vitoriosa, tanto em termos derepercussão política, quanto numa remuneração salarial, que não era a pretendida, massuficiente para cessar a greve. O então Ministro do Trabalho Jarbas Passarinhos veio atéBelo Horizonte, e após debate com manifestantes, concedeu um aumento de 10% aostrabalhadores. Em outubro do mesmo ano, outra greve foi articulada em Contagem, porémcom menos sucesso, já que nesta época a repressão estava mais alerta.Assim como o movimento estudantil, o setor operário da Corrente Revolucionáriade Minas Gerais também teve que ceder militantes para a luta armada, forma de resistênciaque irá prevalecer na 2ª fase do grupo.2.3 A luta armadaNo final da década de 1960, com os movimentos de massas já bem desarticulados,em virtude da intensificação da repressão e da perda de militantes, as ações armadas setornaram a realidade da maioria dos grupos clandestinos de esquerda em oposição àditadura militar. Com a Corrente Revolucionária de Minas Gerais não foi diferente. Apartir de 1968, o grupo intensifica a preparação de seus militantes para a luta armada, quese realizaria ainda no mesmo ano. Ainda em 1968, o grupo divulga o documento“Orientação básica para atuação: 20 pontos”, como uma carta de estratégia para lutaarmada revolucionária. 30O grande orientador estratégico militar da CORRENTE foi Carlos Marighella. Oguerrilheiro, ao regressar da Conferência da OLAS (Organização Latino-Americana deSolidariedade) adota uma postura revolucionária, no qual será adotada pela organizaçãomineira. Segundo Gilney Amorin Viana, Marighella29Depoimento de Gilney Amorin Viana a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Projeto “A CorrenteRevolucionária de Minas Gerais”, 2004. Disponível em:<http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=1074> Acesso em: 14 de abril de 2008.30No capítulo seguinte, veremos supostos trechos deste documento, apreendidos pelo DOPS-MG.
  32. 32. 38(...) inverte a clássica teoria foquista, que vem de um conceito chinês maoísta, ede que a guerra começa no campo e o campo cerca a cidade. Marighela falou:“No Brasil nós não temos uma base camponesa como tem na China e tudo. Entãoaqui a cidade é estratégica. A guerra começa na cidade, vai ao campo e volta àcidade”. Isto é uma inversão estratégica que o Marighela fez do pensamento deMao e que Fidel (Castro) e (Ernesto) Che encamparam. Também em relação àvisão foquista de montar um foco e ficar ali resistindo, o Marighela achava que,no Brasil como não tinha uma base camponesa muito forte, então tinha que sefazer um foco e uma coluna estratégica. Este é um conceito básico da guerrarevolucionária que o Marighela criou. 31Sendo assim, a estratégia da Corrente Revolucionária de Minas Gerais foi realizarações armadas no perímetro urbano, principalmente, com o intuito de arrecadar verba parauma futura guerrilha no campo, que seria iniciada em regiões estratégicas, como explicaRicardo Apgaua além de citar alguns integrantes do grupo:Quando começamos a estruturar a Corrente, definimos o que chamávamos eixosestratégicos para a luta contra a ditadura no estado de Minas Gerais. Eram,principalmente, cidades com unidades militares de peso e confluências deestradas importantes, capazes de dividir o país e criar problemas deabastecimento em caso de bloqueio. Entre as cidades que definimos comoestratégicas, no estado, me lembro de Belo Horizonte, Governador Valadares,Montes Claros e Juiz de Fora. Nesta última ficava o comando da IV RegiãoMilitar. Em Juiz de Fora tínhamos um grupo muito bem organizado. Deles, merecordo do Marco Antônio, do Rogério de Campos Teixeira e dos irmãosRoberto e Antônio Guedes. Penso que todos eles foram presos. Em MontesClaros, também nos apoiamos na estrutura existente, dirigida pelo Porfírio e porum marceneiro que chamávamos “Nego” e de cujo nome já não me lembro. EmValadares, até então tínhamos o José Adão coordenando as nossas atividades.Trouxemos o José Adão para Belo Horizonte e enviamos para lá o JoãoDomingos Fassarella, então estudante de filosofia. 32Além do levantamento de verbas, as ações armadas na cidade também tinham oobjetivo de treinar guerrilheiros, servir de propaganda armada da revolução, e servir comomeio de sustento da organização. Tais ações constituíam de “expropriações” 33a casascomerciais, bancos, e lojas de armamentos. Das ações realizadas pela CORRENTE,31Depoimento de Gilney Amorin Viana a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Projeto “A CorrenteRevolucionária de Minas Gerais”, 2004. Disponível em:<http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=1074> Acesso em: 14 de abril de 2008.32Depoimento de Ricardo Apgaua a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Laboratório de Pesquisa Histórica daUFOP/Projeto A Corrente Revolucionária de Minas Gerais, 2004. Disponível em:<http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com/2007/07/depoimento-de-ricardo-apgaua.html> Acesso em:21 de maio de 2008.33O termo expropriação é utilizado geralmente por militantes e ex-militantes para designar assaltos com ajustificativa de expropriar a riqueza de um determinado estabelecimento, para a realização da guerrilharevolucionária.
  33. 33. 39citamos algumas referenciadas por seus integrantes: assalto a agências bancária na regiãode Ibirité e Belo Horizonte; tentativa de assalto à loja de armas; assalto em uma pedreirapara obtenção de explosivos; assalto a uma casa comercial (Farmácia) na região central deBelo Horizonte, assalto à casa noturna na zona sul de Belo Horizonte; e, assalto aautomóveis que facilitariam as ações.Devido ao seu estreitamento com a ALN, a CORRENTE contou com militantesrealizando treinamento guerrilheiro em Cuba. Dentro do programa de implementação dosocialismo na América Latina, defendida pela OLAS, Carlos Marighella firmou um acordode treinamento de guerrilheiros brasileiros com o governo cubano. Da organização mineiraque estiveram em fase de treinamento em Cuba temos o Ricardo Apgau, o Antônio CarlosBicalho Lana, o José Júlio, e o José Silva Tavares, que por lá ficaram aproximadamentedois anos. Para Ricardo Apgau o treinamento guerrilheiro em Cuba seria uma forma desanar a falta de experiência dos jovens guerrilheiros armados no Brasil. Outra contribuiçãode Marighella a Corrente Revolucionária de Minas Gerais foi o envio de instrutores paradar treinamento de guerrilhas a seus militantes em Minas Gerais. Segundo Mário RobertoGalhardo Zanconato34entre a CORRENTE e a ALN, a contribuição foi recíproca,principalmente no que diz respeito às trocas de militantes.No entanto, a onda de ataques armados realizados pela CORRENTE durou atéaproximadamente os meses de março e abril de 1969, quando boa parte de sua militância“caiu” 35, ocasionando o desmantelamento do grupo. A partir daí a organização se fundiu àAção Libertadora Nacional. Vale ressaltar que alguns integrantes da CORRENTE que setransferiram para a ALN, chegaram a se destacar nesta organização, como foi o caso deAntônio Carlo Bicalho Lana, Mário Roberto Galhardo Zanconato, José Júlio, ArnaldoRocha, e o Hélcio Pereira Fortes. Este último se tornou o principal líder da ALN após amorte de Joaquim Câmara Ferreira, substituto de Carlos Marighella. Assim como AntônioCarlos Bicalho Lana, Hélcio Pereira Fortes foi morto pela repressão enquanto militante daALN.Agora que analisei a CORRENTE na perspectiva de seus integrantes, chamandoatenção para fatores que a caracterizam como uma resistência ao regime militar, proponhocompreender, a partir de agora, como a “força repressora”, para uns, ou “a manutenção daordem”, para outros, legitima essa caracterização, através de medidas para conter a34Mário Zanconato foi um dos 15 presos políticos trocado pelo resgate do Embaixador do Estados UnidosCharles Burke Ellbrick seqüestrado por um comando em conjunto da ALN e do MR – 8. A lista dos presosliberados constitui-se de integrantes das principais organizações clandestinas do país.35Expressão utilizada pelos militantes em geral, para designar a prisão ou captura pela polícia política.
  34. 34. 40organização mineira. Sendo assim, no próximo capítulo enfoco o tratamento da políciapolítica da época em relação à Corrente Revolucionária de Minas Gerais.
  35. 35. 413 A CORRENTE SOB O OLHAR DO DOPS/MG“(...) Organização Clandestina subversiva,denominada Corrente, que tinha como objetivo, atomada do poder pela luta armada (...)”. 36DOPS/MG.Como já foi salientado, neste capítulo abordo a Corrente Revolucionária de MinasGerais a partir das fontes do DOPS/MG. Logo, o capítulo será dividido em duas partes. Naprimeira parte analiso o surgimento do imaginário anticomunista no Brasil,especificamente em Minas Gerais, e como esse imaginário se deu como fator norteador dapolícia política brasileira e principalmente mineira. Para esta discussão utilizo também dareferência bibliográfica citada ao longo do texto. Já na segunda parte do capítulo, tentodemonstrar, através das fontes pesquisadas no acervo do DOPS/MG, como a CorrenteRevolucionária da Minas Gerais foi tratada e repreendida pela polícia política. Portanto,desde já alerto para o imaginário anticomunista presente nos discursos policiais, seja deforma explicita ou velada, considerando que as fontes analisadas estarão semprerelacionadas à imagem da “subversão comunista”.3.1 O imaginário anticomunista em ação.Utilizado como justificativa maior para o golpe de 1964, o anticomunismo é otermo que expressa claramente a opinião e o sentimento oposto e adverso ao comunismo.Após a Revolução Russa de 1917, com a ameaça da proliferação das idéiascomunistas, aumentaram proporcionalmente as medidas para contê-las. No Brasil, asprimeiras grandes ondas de ações anticomunistas ocorreram entre o período de 1935 e1937, em decorrência do “Levante Comunista”. Tal movimento de insurreição que ocorreuem Natal (RN), Recife (PE) e Rio de Janeiro, foi liderado por tendências comunistas emilitares nacionalistas da Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização quecongregava várias tendências políticas antifascistas (socialistas, comunistas, liberaisprogressistas). O “Levante Comunista” foi logo repreendido pelo Governo Vargas.36APM - Fundo DOPS/MG, Rolo 003, Pasta 0032 (3), Imagem 2160.
  36. 36. 42A partir daí constituiu-se o mito “Intentona Comunista”, onde a imagem docomunismo passou a ser propagandeada de forma marginal e delinqüente, que colocariasério perigo à “ordem em vigência”. Ou seja, o comunismo foi relacionado à imagem do“mal”, através de adjetivos que denotam significados negativos, como: “piratas”,“dementes”, “bárbaros”, “selvagens”, “degenerados”, “pecadores”, “demoníacos”, entreoutros.Logo, ao longo dos anos a recusa comunista e a propaganda anticomunista foramconstituindo-se como núcleo essencial da cultura política nacional. O autor Rodrigo PattoSá Motta (2002), em sua obra intitulada “Em guarda contra o “perigo vermelho”: oanticomunismo no Brasil (1917-1964)”, analisa como o sentimento do comunismo emnome da “defesa da democracia” esteve presente nos contextos de 1935/37, na Guerra Fria,e na conjuntura de 1964:No que se refere às fases do anticomunismo agudo, três momentos se destacam:primeiro, o período entre 1935-1937, já mencionado; depois, o início da GuerraFria, principalmente nos anos de 1946 a 1950, quando após breve interregno legalo PCB foi proscrito e voltou a ser perseguido; por fim, a crise de 1964, que levouao golpe militar. Nos três períodos referidos, as atividades anticomunistas foramintensificadas, sendo que em 1937 e 1964 a “ameaça comunista” foi argumentopolítico decisivo para justificar os respectivos golpes políticos, bem como paraconvencer a sociedade (ao menos parte dela) da necessidade das medidasrepressivas contra a esquerda 37.Após o golpe de 64, o imaginário anticomunista, seguido de suas práticas, aparececomo uma forma de proteção ao regime em vigência. Eram considerados comunistas, econsequentemente, terroristas, ladrões, e subversivos, qualquer pessoa ou organizaçãocoletiva que discordava ou ameaçava os governos militares. Sendo assim, os maisperseguidos foram os estudantes e operários organizados, sindicalistas, artistas eintelectuais em protestos contra o governo, partidários de esquerda (principalmente doPCB), e militantes de organizações clandestinas de esquerda, como a CorrenteRevolucionária de Minas Gerais.Dentre os articuladores do anticomunismo, podemos destacar elementos sociais quevão desde empresários, políticos, intelectuais, religiosos, e principalmente militares, que aprincípio suspeitavam de tudo e de todos. A polícia política era a principal encarregada dainvestigação e repreensão desses tidos como suspeitos. Na parte da investigação, a políciatrabalhava em conjunto com o serviço de informação, e recebia considerável ajuda da37MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho. São Paulo: Perspectiva: Fapesp, 2002,p. 22.
  37. 37. 43figura dos informantes38, que carregados do imaginário anticomunista, colaboravamespontaneamente com a polícia política no Brasil.Num trabalho sobre o imaginário anticomunista e o policiamento político39,Rosângela Assunção realiza um preciso estudo sobre a definição de polícia política. Aautora conclui que todas as fontes consultadas convergem para a mesma explicação. Ouseja, um polícia com a premissa de vigiar, controlar e reprimir aqueles que continham umprojeto político contrário ao estabelecido, tal como os anarquistas e os comunistas. Comodefine Luiz Apolônio, autor do Manual de Polícia Política e Social, adotado pela Escola dePolícia de São Paulo em 1954, e citado por Rosângela Assunção:A polícia política exerce sua missão em um largo raio de ação. Dentro do paíszela pela manutenção da ordem político-social, pela segurança das instituições,da forma de governo e da segurança da autoridade, prevenindo e reprimindo asgreves, atentados, agitações, conspirações, conjurações, revoluções, apropaganda e a disseminação das ideologias subversivas e dissolventes. Utiliza,em larga escala, agentes secretos em todos os setores onde eles se fizeremnecessários 40.No Brasil a polícia política começou a se constituir a partir da década de 1920,quando o imaginário anticomunista já estava apurado em decorrência de fatos como aRevolução Russa de 1917, e com a “ameaça” de ideologias contrárias, sobretudo no meiooperário, que neste momento recebia fortes influências de imigrantes anarquistas ecomunistas. Vale ressaltar que na primeira metade do século XX os principais centrosurbanos do país assistiram profundas mudanças econômicas, políticas e sociais. Dentreessas destacamos o crescimento do setor industrial e conseqüentemente a contingência detrabalhadores oriundos do interior do país e do exterior.Em Minas Gerais não foi diferente, a polícia política mineira também foi criadacom o intuito de combater às desordens sociais decorrente das “influencias negativas” das“ideologias subversivas”. Sendo assim tal policiamento teve como marco inicial a criaçãoda Delegacia de Segurança Pessoal e Ordem Política e Social em 1927, que possuía as38A respeito da figura do informante contribuinte ao Regime Militar ver: MAGALHÃES, Marionilde DiasBrepohl de. A lógica da suspeição: sobre os aparelhos repressivos à época da ditadura militar no Brasil.Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 17, nº 34, p.203-220, 1997.39ASSUNÇÃO, Rosângela Pereira de Abreu. DOPS/MG: imaginário anticomunista e policiamento político(1935-1964). 2006. 177f. Dissertação (mestrado em História) - Universidade Federal de Minas Gerais, BeloHorizonte.40ASSUNÇÃO, Rosângela Pereira de Abreu. DOPS/MG: imaginário anticomunista e policiamento político(1935-1964). 2006. 177f. Dissertação (mestrado em História) - Universidade Federal de Minas Gerais, BeloHorizonte. P.22.
  38. 38. 44seguintes atribuições: zelar pela existência política e segurança interna da República;garantir, por meios preventivos, a manutenção da ordem; vigiar quaisquer manifestaçõespúblicas e as ações de indivíduos perturbadores da ordem; manter vigilância sobre a açãode indivíduos filiados às modalidades de anarquismo e do comunismo; diligenciar aexpulsão de estrangeiros que se tornarem perigosos; garantir o exercício dos direitosindividuais e a liberdade do trabalho; investigar os fatos referentes à violação das leisprotetoras da vida e da integridade física das pessoas, e do estado civil; entre outros. Apósa extinção desta secretaria em 1931, suas funções e atribuições foram transferidas para aDelegacia de Ordem Pública (DOP). No ano de 1956, a antiga delegacia deu origem aoDepartamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (DOPS/MG41).Portanto será o DOPS/MG um dos principais encarregados pelo policiamentopolítico, durante o regime militar no Estado de Minas Gerais; assim como a investigação,monitoramento e repressão dos grupos clandestinos de resistência armada ao Regime, talcomo aconteceu com a Corrente Revolucionária de Minas Gerais.3.2 O Monitoramento da CORRENTE pelo DOPS/MGAtravés da documentação produzida pelo DOPS/MG veremos como a CorrenteRevolucionária de Minas Gerais foi caracterizada com total presença do imaginárioanticomunista já analisado. Tomarei como principal base de análise, os Inquéritos PoliciaisMilitares (IPM’s) referentes à organização mineira e suas ações. 42Tais inquéritos eramconstituídos pelos termos de perguntas aos indiciados, termos de inquirição dastestemunhas e ofendidos, autos de reconhecimentos, e o relatório final e conclusivo doinquérito43. Esse relatório se constituía de introdução; fatos delituosos ocorridos; análisesucinta do movimento comunista internacional e suas influências na estruturação de grupossubversivos no Brasil; estruturação do movimento clandestino em questão; análise jurídicadas ocorrências; ações criminosas que motivaram o inquérito; indiciados; pedidos de prisãopreventiva; e conclusão.41Guia de fundos e coleções do Arquivo Público Mineiro. Secretaria de Estado de Minas Gerais, ArquivoPúblico Mineiro. Belo Horizonte, 2006.42Ver a relação dos Inquéritos Policiais Militares referentes à CORRENTE, no anexo B.43Tanto os termos de perguntas aos indiciados quanto os termos de inquirição das testemunhas e os autos dereconhecimentos, consistem nos depoimentos dos entrevistados (indiciados, testemunhas e ofendidos) aoDOPS/MG, e transcritos pelo próprio DOPS/MG.
  39. 39. 45Sendo assim, abordo os aspectos questionados nos depoimentos e resumidos norelatório final, nunca esquecendo da subjetividade do discurso policial. Vale ressaltarainda, que os depoimentos e interrogatórios, na maioria das vezes, eram realizados sobtortura física e ou psicológica, fato que levanta dúvidas a respeito das informações obtidasnos interrogatórios, já que a forte coerção física pode levar um interrogado a declararaquilo que o interrogador deseja ouvir, a fim de cessar com os castigos físicos.O Primeiro ponto a ressaltar é a denominação que a CORRENTE recebia da políciapolítica:(...) entidade ilegal que se propunha a obter a derrubada do governo porintermédio da luta armada, com a finalidade de implantar um Estado Socialistachefiado por uma Ditadura do Proletariado, nos moldes ditados pela doutrinacomunista (...) 44.Em outra ocasião, o DOPS/MG definia a CORRENTE como uma “organizaçãoclandestina de origem marxista leninista partidária de uma ação mais violenta adepta datática adotada na Revolução Cubana” (APM – Fundo DOPS/MG, Rolo 003, Pasta 0029-1,Imagem 1424). No entanto a respeito desta segunda definição, cabe aqui fazer umaressalva e alertar para um equívoco cometido pelo DOPS/MG em relação ao grupomineiro. A Corrente Revolucionária de Minas Gerais, talvez por influências de CarlosMarighella, negava a estrutura partidária marxista-leninista adotada por outrasorganizações, como o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e se portavacomo uma organização autônoma da centralidade de um partido. Equívocos como este,evidenciam a preocupação da repressão em rotular o grupo com chavões consagrados, sema mínima preocupação efetiva em compreender sua orientação política.Nos documentos pesquisados, a Corrente Revolucionária de Minas Gerais tambémé vista como fruto das cisões do PCB em decorrência de seu VI Congresso no ano de 1967.Uma dissidência do PCB em Minas, resultante basicamente do Comitê Estadual de MinasGerais. Sua estrutura é apontada nos IPM’s da seguinte forma: num primeiro momento(1967) a articulação era feita nos setores de massas (operário, servidores e estudantil), e apartir de 1968, selecionaram os militantes que na qualidade de “profissionais”, realizariamas ações armadas.Sobre os setores de massas é destacado nos relatórios dos DOPS, a imprensaclandestina, como o Jornal “1º de Maio”, já citado no capítulo anterior, e o jornal “Faísca”,44APM - Fundo DOPS/MG, Rolo 003, Pasta 0029-1, Imagens 1430 e 1431.
  40. 40. 46folhetim que era redigido entre outros, por Gilney Amorim Viana, e era impresso edistribuído por servidores públicos. Segundo o DOPS a imprensa clandestina da esquerda,insuflava a greve e gerava a subversão comunista.No que diz respeito à luta armada, para o DOPS/MG, a grande influência daesquerda nacional e conseqüentemente da CORRENTE foi Carlos Marighella, que aoretornar da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) em Havana, procuroudifundir a luta guerrilheira armada por toda esquerda brasileira.Para ilustrar o seguimento da CORRENTE as idéias de Marighella e sua opção pelaluta armada, o DOPS/MG apresenta em um dos seus inquéritos sobre a organizaçãomineira, supostos trechos do documento que define a estratégia revolucionária daCORRENTE, “Orientação básica para atuação: 20 pontos”, já mencionado no capítuloanterior.A Revolução Brasileira é parte integrada da Revolução Socialista Mundial e daRevolução Latino-Americana, devendo conjugar-se, sob a bandeira da OLAS, àluta revolucionária que os povos irmãos da América travam contra o inimigocomum.45(Os grifos são do próprio DOPS).Portanto, a utilização da citação acima nos inquéritos, exemplifica claramente aintenção do DOPS/MG em relacionar a Corrente Revolucionária de Minas Gerais aimagem da OLAS, que tinha a intenção de constituir uma revolução socialista por todaAmérica Latina. Ainda no mesmo documento, o DOPS mineiro destaca e explora trechosque abordam a guerra de guerrilha e a tomada do poder pelas armas.As condições do Brasil indicam que a guerra de guerrilha é a mais adequada paracomeçar a desenvolver a luta armada popular e para criar o núcleo inicial doexercito revolucionário. 46A tomada do poder pelas forças revolucionárias e a destruição do aparelho doEstado burguês-latifundiário só podem ser realizadas através da luta armada. Nocurso do processo revolucionário será necessário combinar várias formas de lutasde massas, pacíficas e armadas, legais e ilegais. Todas as demais formas de lutasdevem servir ao desenvolvimento da luta armada e não lhe constituir obstáculo.47O trecho destacado serve para o DOPS/MG reforçar a imagem da CORRENTEcomo um grupo subversivo, perigoso, que precisa ser combatido.Outro fator bastante abordado nos inquéritos policiais é o intercambio daCORRENTE com outras organizações de esquerda. Uma preocupação do sistema de45APM - Fundo DOPS/MG, Rolo 003, Pasta 0028, Imagem 1184.46APM - Fundo DOPS/MG, Rolo 003, Pasta 0028, Imagem 1187.47APM - Fundo DOPS/MG, Rolo 003, Pasta 0028, Imagem 1184.
  41. 41. 47investigação e do policiamento político foi tentar detectar uma possível união dos gruposclandestinos de esquerda que opuseram ao regime, fato que não aconteceu, além decontatos paralelos entre lideranças de diferentes grupos. Vale ressaltar também, que nosdepoimentos e interrogatórios, quase sempre buscavam chegar a outro grupo ou a umguerrilheiro específico. Nos interrogatórios aos membros da CORRENTE, oquestionamento sobre o paradeiro de Carlos Marighella foi um fator constante, devido àestreita relação do grupo mineiro com a Ação Libertadora Nacional (ALN). Portanto, essaligação da CORRENTE com a ALN e ainda com o PCBR (Partido Comunista BrasileiroRevolucionário) é apontada pelo DOPS como uma via de troca de militantes e apoiofinanceiro.Tomando como base os termos de perguntas aos indiciados, no que diz respeito àlocalização geográfica de atuação da CORRENTE, o DOPS chama atenção para asseguintes regiões: Belo Horizonte, Ouro Preto, Juiz de Fora, Divinópolis, GovernadorValadares, Teófilo Otoni, Montes Claros e Vitória da Conquista (Bahia). Portanto, aatuação da CORRENTE no interior do Estado evidencia seu projeto de instalação daguerrilha rural.Também foram monitorados, os “aparelhos” 48da organização mineira. No decorrerda investigação, foi determinada a existência de “aparelhos” da CORRENTE nas regiõesde Belo Horizonte, Teófilo Otoni, Governador Valadares, Montes Claros, e Vitória daConquista, no Sul da Bahia. Vale ressaltar que todo o material encontrado no interior dascasas mencionadas acima foi apreendido, por se tratar de bens pertencentes a umaorganização clandestina. Dentre esses, os materiais bélicos (armamento, munições eexplosivos) que eram obtidos através de compras ou roubos para a realização das açõesarmadas.Aos poucos a CORRENTE foi eficientemente monitorada pelo aparato repressivodo DOPS/MG. Suas estratégias e ações que alimentavam a repulsa anticomunista dapolícia política mineira foram fortemente repreendidas. O que para as organizações deesquerda eram companheiros, atuação, expropriação, rapto, repressão, entre outros, para opoliciamento político era comunista, subversão, assalto, seqüestro, e manutenção daordem. E foi justamente em cima destas terminologias que a Corrente Revolucionária deMinas Gerais foi contida em nome da “segurança nacional”.48Os “aparelhos” são casas alugadas por uma organização clandestina, que servem de moradia de seusmilitantes, e guarda de materiais.
  42. 42. 48CONSIDERAÇÕES FINAISMesmo tendo sido consideravelmente abordado pela historiografia brasileira nosúltimos anos, a luta armada no regime militar, sempre que retomada, se transforma em alvode polêmica e interpretações contrárias. O grande questionamento é até que ponto podemosconsiderar, de fato, a esquerda armada como uma resistência aos governos militares,predicativo mais comum a seu respeito.Sendo assim, o estudo da Corrente Revolucionária de Minas Gerais, mais uma vezretoma este impasse. No entanto, nesse sentido, sua análise não difere das demaisorganizações clandestinas de esquerda que optaram pela prática da guerrilha comotentativa de conter a política governista. Como ressalta muito bem Marcelo Ridenti,mesmo com caminhos divergentes para alcançar o socialismo, em seu primeiro momento oprojeto da esquerda era único, ou seja, resistir e combater a ditadura militar. Portanto, autilização de tal adjetivo (resistência) nos parece o mais apropriado para a caracterizaçãoda luta armada nesse regime, já que, devido às deficiências e à fragilidade da esquerda, atomada do poder e a instauração de um governo socialista estavam longe de se concretizar.Sobretudo, nos últimos anos o adjetivo de resistência vem sendo utilizado com acomposição do termo democrática (resistência-democrática), “que tem servido parajustificar e legitimar opções políticas posteriores de ex-guerrilheiros, já inseridos noprocesso institucional no quadro da democratização da política brasileira” (RIDENTI,2007, p.134). Tal como Ridenti, não concordo com esta leitura, já que a palavrademocracia dificilmente era abordada com uma ênfase maior pelas organizaçõesclandestinas da esquerda armada. O que se enfatizava, como já foi dito, era a derrubada dogoverno para a implantação do Estado Socialista.No entanto, mesmo longe de concluir seu objetivo final, foi notória a resistênciados grupos de esquerda armada ao regime militar. Em Minas Gerais, com a CorrenteRevolucionária não foi diferente. Suas ações e comportamentos se mostraram presentesnuma época em que o espaço para reivindicação e manifestação era praticamente nulo.Vale admitir que do ponto de vista prático, essas ações não surtiram muito efeito, além dosustento da própria organização. A não ser a greve de Contagem em 1968, que mesmo nãosendo uma ação efetivamente armada, contou com uma participação fundamental daCORRENTE, e obteve um ajuste salarial a nível nacional. Por outro lado, essas açõesrepresentavam a insatisfação e a resposta, principalmente, à forte repressão e às medidas
  43. 43. 49políticas e econômicas adotadas pelos governos militares. Sendo assim, a polícia políticamineira tratou logo de abortá-las, desmantelando a organização mineira, que mais tarde sefundiria ao quadro da Ação Libertadora Nacional (ALN). Muitos militantes, a maior partedeles jovens, foram presos, torturados e mortos em nome do seu inconformismo, ou doconformismo da maioria.Sendo assim concluo com uma citação utilizada por Marco Antônio VictóriaBarros, um dos integrantes da CORRENTE, que analisa o período em que viveu, e hoje épreocupado em preservar esta memória.“Nestas páginas, portanto, ganham vida homens e mulheres que agiram comaltruísmo de acordo com as suas idéias e consciência. Coisa bem pouco comumem um país cuja cultura política dominante é marcada pela acomodação,diversas. Mas vários destes indivíduos assumiram o risco da incompreensão, doostracismo, das prisões, da tortura e até da morte”. 4949 49Entrevista de Ricardo Apgaua a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: Laboratório de Pesquisa Históricada UFOP/ Projeto: A Corrente Revolucionária de Minas Gerais, 2004. Disponível em:<http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com/2007/07/depoimento-de-ricardo-apgaua.html> Acesso em:21 de maio de 2008.
  44. 44. 50REFERÊNCIASALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil: (1964–1984). Petrópolis:Vozes, 1984. 424p.AMARAL, Roberto Mansilla. Astrogildo Pereira e Octávio Brandão: os precursores docomunismo nacional. In: FERREIRA, Jorge; REIS FILHO, Daniel Aarão (Orgs.). Aformação das tradições (1889-1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. P. 249-272. (Coleção as esquerdas no Brasil)ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil Nunca Mais. Prefácio de D. Paulo Evaristo,Cardeal Arns. Petrópolis: Vozes, 1985. 312 p.ASSUNÇÃO, Rosângela Pereira de Abreu. DOPS/MG: imaginário anticomunista epoliciamento político (1935-1964). 2006. 177f. Dissertação (mestrado em História) -Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.BERTOLINO, Farley da Conceição. Entre a cruz e a foice: o movimento estudantil nacapital mineira em tempos de autoritarismo – 1964/1968. 2007, 96p. Monografia(conclusão de curso). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, ICH,Departamento de História, Belo Horizonte.BORGES, Vavy Pacheco. História e Política: laços permanentes. Revista brasileira deHistória, São Paulo, V.12, nº. 23-24, p. 7-18, Set.1991- Ago.1992.COUTO, Ronaldo Costa. História indiscreta da ditadura e da abertura – Brasil: 1964-1985. 4.ed. Rio de Janeiro e São Paulo: Record, 1999. 518 p.DA-RIN, Silvio. Hércules 56: o seqüestro do embaixador americano em 1969: Rio deJaneiro: Jorge Zahar, 2007. 351 p.DELGADO, Lucília de Almeida Neves. História oral – memória, tempo, identidades.Belo Horizonte: Autêntica, 2006.136p.DOMINGUES, Leonardo de Lucas da Silva; FERRAZ, Francisco César Alves. O“Suspeito de sempre”: o anticomunismo brasileiro em dois momentos. In: Boletim Cent.Let. Ci. Hum. Londrina, n.48, p.101-112, Jan./Jun.2005.FERREIRA, Jorge; REIS FILHO, Daniel Aarão (Orgs.). Revolução e democracia (1964-...). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 712 p. (Coleção as esquerdas no Brasil).FERREIRA, Marieta de Morais. A nova “velha historia”: o retorno da História Política.Estudos Históricos, Rio de Janeiro, V.5, nº10, p.267-271, 1992.FICO, Carlos. Além do Golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar.Rio de Janeiro: Record, 2004. 391p.GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. São Paulo: Ática, 1998. 294p.

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