Trotsky, leon. classe, partido e direção

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Classe, Partido e Direção - Leon Trotsky

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Trotsky, leon. classe, partido e direção

  1. 1. Classe - Partido - Direcção Leão Trotsky Agosto de 1940Primeira Edição: ........Fonte: ..........Tradução de: ........Transcrição de: Alexandre Linares para o Marxists Internet Archive, junho 2005.HTML de: Fernando A. S. Araújo para o Marxists Internet Archive, junho 2005.Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive (marxists.org), 2005. A cópiaou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos daGNU Free Documentation License. A amplitude do retrocesso que o movimento operário foiobrigado a dar pode ser medida não só pelas condições dasorganizações de massa, como também pelos agrupamentosideológicos e pela busca teórica empreendida por numerosasgrupos. Em Paris publica-se um jornal, "Que Faire?", que nãosei por que motivos se considera marxista, embora, narealidade, se mantenha dentro dos limites empíricos dosintelectuais burgueses de esquerda e daqueles operáriosisolados que assimilaram todos os seus vícios. Como todos os grupos carentes de bases científicas, semprograma e sem nenhuma tradição, este pequeno jornalprocurou proteger-se sob as saias do POUM (1N) que pareciaabrir o caminho mais curto às massas e à vitória. O resultadodesta ligação com a Revolução espanhola foi que o jornal nãoavançou, mas pelo contrário, retrocedeu. À primeira vista,este resultado parece completamente inesperado, mas, narealidade, faz parte da natureza das coisas. As contradiçõesentre a pequena burguesia, o conservadorismo e asnecessidades da revolução proletária desenvolveram-se aoextremo. É totalmente natural que os defensores eintérpretes da política do POUM se vejam forçados aretroceder, tanto no campo político como no teórico. O jornal "Que Faire?", em si e por si, carece deimportância, mas oferece um interesse sintomático e por issoconsideramos proveitoso deter-nos em suas apreciações
  2. 2. sobre as causas do colapso da Revolução espanhola, visto queelas revelam graficamente os traços fundamentais queprevalecem agora no flanco do pseudomarxismo. "Que Faire?" Começamos por uma citação textual de uma crítica aofolheto "Espanha Traída", do camarada Casanova (2N). Diz"Que Faire?": Por que a Revolução espanhola foi esmagada?Porque, replica Casanova, o Partido Comunista "praticou umapolítica falsa que, desgraçadamente, foi seguida tambémpelas massas revolucionárias". Mas por que, com todos osdiabos, as massas revolucionárias abandonaram seus antigosdirigentes e seguiram o Partido Comunista? "Porque nãoexistia um autêntico partido revolucionário." Obsequia-nos,então, com uma tautologia pura. Uma falsa política demassas e um Partido imaturo expressam determinadascondições de forças sociais (imaturidade da classetrabalhadora, falta de independência do campesinato), quedevem ser explicadas como expressão dos fatos apresentadospelo próprio Casanova ou então passam a ser explicadascomo produto das ações de alguns indivíduos ou grupo deindivíduos "malvados", ações que não correspondem aosesforços dos elementos "sinceros", os únicos capazes desalvar a revolução. Depois de andar às cegas pelo primeirocaminho, marxista, Casanova segue pelo segundo,introduzindo-nos no domínio da demonologia. O criminosoresponsável pelas derrotas é o Diabo-Chefe, Stálin, apoiadopelos anarquistas e todos os demais diabos menores;desgraçadamente o deus dos revolucionários não enviou àEspanha "um Lenine ou um Trotski, como o fez na Rússia em1917". Em seguida vem a conclusão: "isto é o que acontece portentar a todo o custo encaixar forçadamente os fatos dentrode uma ortodoxia ossificada". Esta altivez teórica chega a ser solene, se se considera oquão difícil é incluir em tão poucas linhas um número tãogrande de banalidades, vulgaridades e erros típicos do filisteuconservador.
  3. 3. O autor da citação acima evita dar uma explicação daderrota da Revolução espanhola; só dá explicações profundascomo: "certas condições das forças sociais". A evasiva detoda a explicação não é acidental. Estes críticos dobolchevismo são todos uns covardes teóricos pela simplesrazão de que não têm nada sólido sob os pés. Para nãorevelar sua própria decadência, escondem os fatos e divagamem torno das opiniões dos demais. Limitam-se a meiaspalavras e a pensamentos incompletos, como se não tivessemtempo para mostrar a sua sabedoria. Na realidade, carecempor completo dela. Sua altivez está revestida decharlatanismo intelectual. Analisemos uma a uma as meias palavras e ospensamentos incompletos do nosso autor. Segundo ele, umafalsa política de massas só pode ser explicada como"manifestação de certas condições de forças sociais" que sãoa imaturidade da classe operária e a falta de independênciado campesinato. Aquele que procura tautologias não poderiaencontrar uma mais completa. Uma falsa política para com asmassas é explicada pela "imaturidade" das massas. Mas oque é imaturidade das massas? Evidentemente sua predisposição a uma falsa política. Emque consiste uma falsa política e quem foram seus iniciadores- as massas ou os dirigentes? - nosso autor não explicou.Descarrega a responsabilidade sobre as massas, medianteuma tautologia. Esta clássica fraude de todos os traidores,desertores e seus agentes provoca indignação,particularmente em se tratando do proletariado espanhol. Sofismas de Traidores Em julho de 1936 - para não nos referirmos a um períodoanterior - os operários espanhóis repeliram o assalto dosoficiais que haviam preparado sua conspiração sob a proteçãoda Frente Popular. As massas improvisaram milícias armadase criaram comitês operários, os baluartes de sua futuraditadura. As organizações dirigentes do proletariado, poroutro lado, ajudaram a burguesia a destruir esses comitês, areprimir os assaltos dos operários contra a propriedadeprivada e a subordinar as milícias operárias ao comando da
  4. 4. burguesia, além da participação do POUM no governo queassumira a responsabilidade por este trabalho de contra-revolução. Que significa neste caso "imaturidade" do proletariado?Evidentemente apenas isto: que as massas, apesar de teremescolhido uma linha correta, não puderam romper a coligaçãode "socialistas", stalinistas, anarquista e do POUM com aburguesia. Esta amostra sofista tomou como ponto de partidao conceito de maturidade absoluta, isto é, uma condiçãoperfeita das massas, onde elas não necessitam de umadireção correta e, mais que isso, são capazes de conquistar opoder contra sua própria direção. Não existe nem pode existirtal maturidade. Mas por que - objetam nossos sábios - os operários quemostram um instinto revolucionário tão correto e qualidadesde luta tão superiores se submetam a uma direção traidora? Nossa resposta é esta: não houve nenhuma submissão. Alinha de ação dos operários separou-se durante todo o tempoda linha da direção, em determinado ângulo. Nos momentosmais críticos, esse ângulo tornou-se 180º. A direção, então,ajudou, direta ou indiretamente, a submeter os operários pelaforça armada. Em maio de 1937, os operários da Catalunha levantaram-se não só sem nenhuma direção, mas também contra ela. Osdirigentes anarquistas - patéticos e desprezíveis burgueses,com um disfarce revolucionário barato - repetiram mil vezesem sua imprensa que, se a CNT (3N) tivesse desejado tomaro poder em maio e estabelecer sua ditadura, teria conseguidoisto sem nenhuma dificuldade. Desta vez os dirigentesanarquistas dizem a pura verdade. Na realidade, a direçãodo POUM marchava rebocada pela CNT, embora cobrindo suapolítica com um fraseologia distinta. Graças a isso, e só aisso, é que a burguesia conseguiu esmagar, em maio, olevante do "imaturo" proletariado espanhol. É preciso nãocompreender absolutamente nada das relações entre a classee o Partido, entre as massas e a direção, para repetirvaziamente que as massas espanholas se limitaram a seguirseus dirigentes. A única coisa que se pode dizer é que asmassas, que procuravam em todos os momentos encontrar
  5. 5. um bom caminho, viram que era superior às suas forçasestruturar, no próprio fragor da batalha, uma nova direçãoque correspondesse às exigências da revolução. Temos diantede nós um processo profundamente dinâmico em que asdiferentes etapas da revolução se sucedem rapidamente, emque a direção ou alguns de seus setores desertamrapidamente para o campo do inimigo de classe. E nossossábios se emprenham em uma discussão puramente estática:por que a classe operária em seu conjunto seguiu a mádireção? A Penetração Dialética Existe um aforismo liberal-evolucionista: cada povo tem ogoverno que merece. A História, no entanto, demonstra queum mesmo povo pode ter, no transcurso de uma épocarelativamente curta, diferentes governos (Rússia, Itália,Alemanha, Espanha etc.) e, ainda mais, que a ordem destesgovernos não segue absolutamente na mesma direção doestadismo à liberdade, como imaginavam os liberal-evolucionistas. O segredo está em que um povo é formadopor classes hostis entre si e estas, por sua vez, por camadasdiferentes e por vezes antagônicas, cada uma sob umadireção diferente. Além disso, cada povo sofre a influência deoutros povos que também são formados por classes. Osgovernos exprimem a "maturidade" em desenvolvimento deum povo, mas são o produto da luta das diferentes classes edas diferentes camadas dentro de uma mesma classe e, porúltimo, o produto da ação das forças externas (alianças,conflitos, guerras etc.). Deve-se acrescentar a isto quer umgoverno, uma vez tendo estabelecido, pode durar muito maisque as relações de força que o produziram. É precisamentedesta contradição histórica que surgem as revoluções, osgolpes de Estado, as contra-revoluções etc. A mesma penetração dialética é necessária quando setrata da direção de uma classe. Imitando os liberais, nossossábios aceitam tacitamente o axioma de que cada classe tema direção que merece. Na realidade, a direção, de nenhummodo, é um simples "reflexo" de uma classe ou o produto desua própria criação livre. Forja-se a direção no processo doschoques entre diferentes classes e das fricções entre as
  6. 6. diferentes camadas dentro de determinada classe. Uma vezassumido seu papel, a direção invariavelmente se eleva acimade sua classe, com o que fica predisposta a sofrer pressões einfluências de outras classes. O proletariado pode "tolerar"por longo tempo uma direção que tenha sofrido um processode completa degeneração interna, contanto que ela não tenhatido a oportunidade de evidenciar essa degeneração diantedos grande acontecimentos. É necessário um grande abalohistórico para aparecer a aguda contradição entre a direção ea classe. Os abalos históricos mais poderosos são as guerrase as revoluções. Precisamente por este motivo é que, comfreqüência, a classe operária é pega desprevenida pela guerrae pela revolução. Mas mesmo nos casos em que a velhadireção tenha revelado sua corrupção interna, a classe nãopode improvisar imediatamente uma nova direção, se nãoherdou do período anterior sólidos quadros revolucionários,capazes de aproveitar o colapso do velho Partido dirigente. Ainterpenetração marxista - quer dizer, dialética, e nãoescolástica - das relações entre uma classe e sua direção nãodeixa pedra sobre pedra da série de sofismas "vulgares" donosso autor. Como Amadureceram os Operários Russos Casanova concebe a maturidade do proletariado comoalgo puramente estático. Mas durante uma revolução, aconsciência de uma classe é o processo mais dinâmico quedetermina diretamente o curso da revolução. Era possível, emjaneiro de 1917 ou mesmo em março, depois da derrota dotzarismo, responder se o proletariado russo teria"amadurecido" o suficiente para conquistar o poder em oitoou nove meses? A classe operária, nesse tempo, erasumamente heterogênea social e politicamente. Durante osanos de guerra tinha-se renovado em 30 a 40%, mediante oingresso em suas fileiras de pequeno-burgueses provenientesdo campesinato e freqüentemente reacionários, mulheres ejovens. Em março de 1917, o Partido bolchevique continuavasendo uma insignificante minoria da classe operária e. alémdisso, existiam desacordos dentro do próprio partido. Aimensa maioria dos operários apoiava os mencheviques e os"socialistas revolucionários", isto é, os social-patriotasconservadores. A situação ainda era mais desfavorável com
  7. 7. respeito ao exército e ao campesinato, devendo acrescentar aisto o baixo nível geral a cultura no campo, a falta deexperiência política entre as mais amplas camadas doproletariado, especialmente nas províncias, o que isolou ossoldados e os camponeses. Qual era o "ativo" do bolchevismo? Ao começar arevolução, somente Lenine mantinha uma concepção clara eprofunda. Os quadros russos do Partido estavam dispersos eem um considerável grau de confusão, mas o Partido gozavade grande autoridade entre os operários devanguarda. Lenine gozava de grande autoridade entre osquadros do Partido. A concepção políticade Lenine correspondia ao desenvolvimento real da revoluçãoe era forçada por cada novo acontecimento. Estes elementosdo :"ativo" operam maravilhas em sua situaçãorevolucionária, quando se torna aguda a luta de classes. OPartido alinhou sua política de acordo com a concepçãode Lenine que estava em harmonia com o verdadeiro cursoda revolução. Graças a ele, encontrou firme apoio de dezenasde milhares de operários de vanguarda. Baseando-se nodesenvolvimento da revolução, o Partido foi capaz de, empoucos meses, convencer a maioria dos operários da justezade suas propostas. Esta maioria, organizada em Sovietes, foicapaz, por sua vez, de atrair os soldados e os camponeses.Como este processo dinâmico pode ser encerrado e esgotadoem uma fórmula sobre a maturidade ou imaturidade doproletariado? Um fator importantíssimo da maturidade doproletariado russo, em fevereiro e março de 1917, foi Lenine.E Lenine não caiu do céu. Personificava a tradiçãorevolucionária da classe operária. Para que os postuladosde Lenine pudessem abrir caminho para as massas eranecessário que existissem quadros, ainda quernumericamente limitados, no princípio: era necessário queexistisse confiança dos quadros em sua direção, umaconfiança baseada na experiência passada. Excluir estescálculo ou substituí-los por uma abstração, a "relação deforças" é simplesmente ignorar a revolução viva. Porque odesenvolvimento da revolução consiste precisamente nasmudanças rápidas e incessantes que sofrem as relações deforças sob o impacto das transformações na consciência doproletariado, na atração que as camadas avançadas exercem
  8. 8. sobre as atrasadas, na crescente confiança da classe em suaprópria força. A mola vital deste processo é o Partido, assimcomo a mola vital do Partido é sua direção. O papel e aresponsabilidade da direção em uma época revolucionária sãoenormes. Relatividade da Maturidade A vitória de Outubro é um testemunho valioso da"maturidade" do proletariado. Mas esta maturidade é relativa.Poucos anos depois, esse mesmo proletariado permitiu que arevolução fosse estrangulada por uma burocracia surgida desuas próprias fileiras. A vitória, de nenhum modo, é o frutomaduro da "maturidade" do proletariado. A vitória é umatarefa estratégica. É necessário aproveitar as condiçõesfavoráveis que uma crise revolucionária oferece paramobilizar as massas; tomando como ponto de partida o nívelde sua "maturidade", é necessário impulsioná-las para afrente, fazê-las compreender que o inimigo não é de maneiranenhuma onipotente, que ele está dilacerado por suascontradições e que, por trás de sua impotente fachada, reinao pânico. Se o Partido Bolchevique tivesse fracassado nestatarefa, não se poderia nem falar no triunfo da revoluçãoprotelaria. Os sovietes teriam sido esmagados pela contra-revolução e os minúsculos sábios de todos os países teriamescrito artigos dizendo que só visionários sem fundamentopoderiam sonhar com a ditadura do proletariado na Rússia,sendo a classe operária, como era, tão pequenanumericamente e tão imatura. O Papel Auxiliar dos Camponeses Igualmente abstrata, pedante e falsa é a referência à"falta de independência" do campesinato. Quando e onde onosso sábio viu, em uma sociedade capitalista, umcampesinato com um programa revolucionário independenteou com capacidade para a iniciativa revolucionáriaindependente? O campesinato pode ter um papel muitoimportante na revolução, mas só de caráter auxiliar. Muitas vezes os camponeses espanhóis atuaram comaudácia e lutaram valentemente. Mas para despertar toda a
  9. 9. massa do campesinato, o proletariado teve de dar o exemploatravés de um decidido levante contra a burguesia e inspirarnos camponeses confiança na possibilidade de uma vitória.Entretanto, a iniciativa do proletariado era paralisada a cadapasso por suas próprias organizações. A "imaturidade" do proletariado e a "falta deindependência" do campesinato não são fatores decisivos,nem básicos, nos acontecimentos históricos. Por baixo daconsciência das classes estão as próprias classes, sua forçanumérica e seu papel na vida econômica. Por baixo dasclasses está um sistema específico de produção que, por suavez, é determinado pelo nível do desenvolvimento das forçasprodutivas. Por que não dizer, então, que a derrota doproletariado espanhol foi determinada pelo baixo nível datecnologia? O Papel da Personalidade Nosso autor substitui o condicionamento dialético doprocesso histórico pelo determinismo mecânico. Daí suasdigressões baratas sobre o papel dos indivíduos, bons emaus. A História é um processo de luta de classes. Mas asclasses não nos deixam sentir o seu peso automática esimultaneamente. No processo da luta, as classes criamdiferentes órgãos que exercem um papel importante eindependente e estão sujeitos a deformações. Isto também abase para o papel das personalidades na História. Existem,naturalmente, importantes causas objetivas que criaram ogoverno autocrático de Hitler, mas só os estúpidos pedantesdo "determinismo" podem negar hoje o enorme papelhistórico de Hitler. A chegada de Lenine a Petrogrado, no dia13 de abril de 1917, fez virar a tempo o Partido Bolchevique eo capacitou para levar a revolução à vitória. Nossos sábiospoderiam dizer que, se Lenine tivesse morrido no estrangeiroem princípios de 1917, a Revolução de Outubro teria ocorridoda mesma maneira. Mas não é verdade. Lenine representavaum dos elementos vivos do processo histórico. Personificava aexperiência do setor mais ativo do proletariado. Seu oportunoaparecimento na arena da revolução foi necessário paramobilizar a vanguarda e dar oportunidade à classe operária eàs massas camponesas. A direção política, nos momentos
  10. 10. cruciais de viradas históricas, pode chegar a ser um fatordecisivo, como o papel do comando supremo durante osmomentos críticos de uma guerra. A História não é umprocesso automático. Se o fosse, então para que osprogramas, para que os dirigentes, para que os partidos, paraque as lutas teóricas? O Stalinismo na Espanha "Mas por que, com todos os diabos - pergunta, com jávimos, o autor - as massas revolucionárias abandonaramseus antigos dirigentes e seguiram o Partido Comunista?" A questão está falsamente colocada. Não é verdade queas massas revolucionárias tenham abandonado todos os seusantigos dirigentes. Os operários que já estavam vinculadosanteriormente às suas organizações específicas seguiramligadas a elas enquanto observavam e verificavam. Osoperários, em geral, não rompem tão facilmente com oPartido que os desperta para uma vida consciente. Alémdisso, a existência de um acobertamento recíproco dasdireções na Frente Popular os adormecia: visto que todosestavam de acordo, tudo deveria dar certo. As novas efrescas massas voltavam-se naturalmente para o Comitern(4N), bem como para o Partido que havia realizado a únicarevolução proletária vitoriosa e do qual esperavam que fossecapaz de garantir armas para a Espanha. Além disso, oComitern era o maior defensor da idéia da Frente Popular;isto inspirava confiança nas camadas operárias inexperientes.Dentro da Frente Popular, o Comitern era o maior defensor docaráter burguês da revolução; isto inspirava confiança napequena burguesia e em parte da média. Eis por que asmassas seguiram o Partido Comunista. Nosso autor descreve a situação como se o proletariadoestivesse diante de uma loja de calçados, escolhendo um parde sapatos. Mesmo esta simples operação, como se sabe,nem sempre é fácil. Com relação a uma nova direção, aescolha é muito mais limitada. Só gradualmente, tendo porbase a própria experiência, mediante diversas etapas, amplascamadas das massas podem chegar a convencer-se de que anova direção é mais sólida, de maior confiança, mais leal que
  11. 11. a anterior. Sem dúvida que durante a revolução, isto é,quando os acontecimentos mudam rapidamente, um partidofraco pode tornar-se poderoso rapidamente, sempre queinterprete corretamente o curso da revolução e conte commembros que não fiquem enjoados com frases nematerrorizados com a repressão. Mas este partido tem deexistir antes da revolução, já que o processo de seleção dosmembros requer um tempo considerável do qual não sedispõe durante a revolução. A Traição do POUM O POUM achava-se à esquerda de todos os partidos daEspanha, pois incluía, indiscutivelmente, elementosproletários revolucionários sem fortes laços anteriores com oanarquismo. Mas foi precisamente este parido quem teve umpapel fatal no desenvolvimento da Revolução espanhola. Nãopôde chegar a converter-se em um partido de massas porquepara isso era necessário destruir primeiro os velhos partidos,e isso só era possível mediante uma luta irreconciliável,mediante uma implacável denúncia de seu caráter burguês.Mesmo criticando os velhos partidos, o POUM subordinou-se aeles em todas as questões fundamentais. Participou do blocoeleitoral "do povo"; fez parte do governo que dissolveu oscomitês operários; entregou-se à luta pela reconstituiçãodessa coligação governamental; capitulou mais de uma vezdiante da direção anarquista; seguiu com esta falsa políticasindical; tomou uma atitude vacilante e anti-revolucionária nolevante de maio de 1937. Do ponto de vista do determinismoem geral, pode-se ver logo que a política do POUM não foiacidental. Tudo tem sua causa. No entanto, a série de causasque engendraram o centrismo do POUM não são, de modonenhum, simples reflexo das condições do proletariadoespanhol ou catalão. Duas causalidades atuaram em oposiçãouma à outra e, em certos momentos, chegaram a serconflitantes. Quando se toma a experiência internacionalanterior, a influência de Moscou, a influência de uma série dederrotas etc., torna-se possível explicar política epsicologicamente por que o POUM se revelou como umPartido centrista. Mas isto não altera seu caráter centrista,nem altera o fato de que esses Partido atuou invariavelmentecomo um freio sobre a revolução. Quebra a cabeça a cada
  12. 12. instante e pode causar o colapso da revolução. As massascatalãs foram muito mais revolucionárias que o POUM que,por sua vez, era mais revolucionário que sua direção. Nestascondições, descarregar a responsabilidade de uma falsapolítica sobre a "imaturidade" das massas é entregar-se aocharlatanismo puro ao qual recorrem, invariavelmente, ospolíticos fracassados. Responsabilidade da Direção A falsidade histórica consiste em descarregar aresponsabilidade da derrota das massas espanholas sobre aspróprias massas e não nos partidos que paralisaram ouingenuamente esmagaram o movimento revolucionário dasmassas. Os representantes do POUM simplesmente negam aresponsabilidade dos dirigentes para não assumir sua própriaresponsabilidade. Essas filosofia impotente que procuraresignar-se diante das derrotas, como um elo necessário nacadeia da evolução cósmica, é completamente incapaz dereconhecer - e se nega a fazê-lo - que fatores concretos, taiscomo programas, partidos e personalidades, foram osorganizadores da derrota. Esta filosofia do fatalismo e dadepressão é diametralmente oposta ao marxismo como teoriada ação revolucionária. A guerra civil é um processo em que as tarefas políticas seresolvem por meios militares. Suponhamos que o resultadodesta guerra estivesse determinado pelas "condições dasforças de classe" que servem de fundamento a todos osoutros fatores políticos. Ora, assim como o cimento de umedifício não diminui a importância das paredes, janelas,portas e teto, também as "condições das forças de classe"não invalidam a importância do partidos, de sua estratégia,de sua direção. Diluindo o concreto no abstrato, nossossábios, na realidade, detêm-se na metade do caminho. Asolução mais profunda para o problema teria sido declararque a derrota do proletariado espanhol se deveu aoinadequado desenvolvimento das forças produtivas. estaexplicação é acessível a qualquer burro. Ao reduzir a zero o significado do Partido e da direção,estes sábios negam, em geral, a possibilidade da vitória
  13. 13. revolucionária. Porque não existe o menor motivo paraesperar condições mais favoráveis; o capitalismo deixou deavançar; o proletariado não cresce numericamente, pelocontrário, é o exército dos desocupados que cresce, isto, emvez de aumentar, reduz a força do proletariado, atuandonegativamente sobre sua consciência. Tampouco há motivospara crer que sob o regime capitalista o campesinato sejacapaz de adquirir uma consciência revolucionária maiselevada. A conclusão que surge da análise de nosso autor é,pois, um completo pessimismo e afastamento dasperspectivas revolucionárias. deve-se dizer, para lhes fazerjustiça, que eles mesmos não entendem o que dizem. De fato, as exigências que formulam a respeito daconsciência das massas são completamente fantásticas. Osoperários espanhóis, bem como os camponeses deram omáximo do que podiam dar como classe em uma situaçãorevolucionária. Ao dizer classe, estamos pensando emmilhões e dezenas de milhões. "Que Faire?" representa simplesmente uma dessas escolasou seitas que, assustadas pelo curso da luta de classes e pelainvestida da reação, publicam seus pequenos jornais e seusestudos teóricos em um canto à margem do desenvolvimentoreal do pensamento revolucionário, deixando de lado omovimento de massas. A Repressão da Revolução Espanhola O proletariado espanhol foi vítima de uma coligaçãocomposta por imperialistas, republicanos, socialistas,anarquistas, stalinistas e, mais à esquerda, pelo POUM. Todoseles paralisaram a revolução socialista que o proletariadoespanhol havia começado realmente a levar a cabo; não éfácil pôr fim à revolução socialista. Ninguém propôs outrosmeios que não fossem a repressão impiedosa, o massacre davanguarda, a execução dos chefes etc. O POUM certamentenão queria isto. Queria, por um lado, participar do governorepublicano e entrar como uma oposição leal, amante da paz,no bloco geral dos partidos governantes e, por outro lado,estabelecer pacíficas relações de camaradagem, nosmomentos em que se tratava de uma implacável guerra civil.
  14. 14. Por isso mesmo é que o POUM se tornou vítima dascontradições de sua própria política. A política maisconsistente, no bloco dos partidos governantes, foi a seguidapelos stalinistas. Eles foram a vanguarda militante da contra-revolução burguesa-republicana. Queriam eliminar a necessidade do fascismo,demonstrando à burguesia espanhola e do mundo que eleseram capazes, por si mesmos, de estrangular a revoluçãoproletária sob a bandeira da "democracia". Esta foi, emessência, sua política. Os fracassados da Frente Popularespanhol estão procurando agora descarregar a culpa sobre aGPU (5N). Acredito que nós não podemos ser acusados debrandura para com os crimes da GPU. Muito bem, vemosclaramente e dizemos aos operários que a GPU atuou nestecaso somente como o destacamento mais disposto a serviçoda Frente Popular. Ali estava a força da GPU e nisso consistiuo papel histórico de Stálin. Só filisteus ignorantes podemdeixar isto de lado, utilizando estúpidas brincadeiras sobre oDiabo-Chefe. Estes cavalheiros nem sequer se preocuparam com ocaráter social da revolução. Os lacaios de Moscou, embenefício da Inglaterra e da França, declararam burguesa arevolução espanhola. Sobre esta fraude erigiu-se a pérfidapolítica da Frente Popular, política que teria sidocompletamente falsa mesmo que a Revolução espanholativesse sido realmente burguesa. Mas, desde o começo, arevolução evidenciou seu caráter proletário de maneira muitomais clara que a Revolução de 1917, na Rússia. Na direçãodo POUM existem cavalheiros que agora consideram que apolítica de Andrés Nin (6N) foi demasiado "esquerdista" e queo mais correto seria permanecer na esquerda da FrentePopular. A verdadeira desgraça foi que Nin, acobertado pelaautoridade de Lenine e da Revolução de Outubro, não pôdeter uma noção da ruptura com a Frente Popular. Victor Serge(7N), que se apressa em comprometer-se com atitudesfrívolas diante de questões sérias, disse que Nin não quissubmeter-se às ordens de Oslo ou Coyacán. Uma pessoa séria pode ser capaz realmente de reduzir avis piadas o conteúdo de classe de uma revolução? Os sábios
  15. 15. do "Que Faire?" não têm nenhuma resposta para estapergunta nem a compreendem. Que significa o fato de o"imaturo" proletariado espanhol ter fundado seus própriosórgãos de poder, ter-se apoderado das fábricas e tratado deregular a produção, enquanto o POUM procurava, por todosos meios, evitar o rompimento com os burgueses anarquistasque, numa aliança com os burgueses republicanos e com osnão menos burgueses socialistas e stalinistas, assaltaram eestrangularam a revolução proletária? Semelhantes"bagatelas" só interessam, evidentemente, aosrepresentantes da "ortodoxia ossificada". Em troca, os sábiosdo "Que Faire?" possuem um aparelho especial que mede amaturidade do proletariado e as relações de força,independentemente de todas as questões de estratégiarevolucionária de classe. Início da páginaNotas:(1N) POUM - Partido Operário de Unificação Marxista, surgido em Barcelona a partirda fusão, em setembro de 1935, de dois grupos operários intitulados EsquerdaComunista e Bloco Operário e Camponês. (retornar ao texto)2(N) M. Casanova: Pseudônimo de Mieczyslaw Bortenstein. (retornar ao texto)(3N) CNT: Confederación Nacional del Trabajo. (retornar ao texto)(4N) Comitern - abreviação de Internacional Comunista ou III Internacional. Foifundada em 1919 por Lenine e Trotsky. Este redigiu o manifesto da fundação.(retornar ao texto)(5N) GPU - Godarstvennoe Politicheskow Upravlenie - Administração Política doEstado, a polícia política soviética. (retornar ao texto)(6N) Nin, Andrés - ex-dirigente da CNT, esteve na URSS, e foi um dos principaisdirigentes da Internacional Sindical Vermelha e do POUM. (retornar ao texto) (7N) Serge, Victor (1890-1947) Anarquista, e depois bolchevique, nascido naFrança de pais russos. Foi preso durante a I Guerra Mundial, tendo sido deportadopara a Rússia. Criticou a repressão aos socialistas e anarquistas opositores aogoverno bolchevique durante a Guerra Civil, entretanto ao estourar a rebelião nabase naval de Kronstadt, apoiou o governo bolchevique. Logo se uniu à Oposição deEsquerda, tendo sido o último de seus membros dentro da URSS a poder criticarpublicamente a Stalin. Foi preso em 1933, tendo sido solto e exilado em 1936 em
  16. 16. decorrência de uma campanha internacional a seu favor. No exílio, se incorporou àIV Internacional. Separando-se da mesma em 1937, por discordar da linha adotadapela mesma. (retornar ao texto)

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