JAN-FEV
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Como ocorre com outras profissões, nós da área de
engenharia clínica também utilizamos os fóruns de discussão.
No Brasil, os mais usuais são o Engeclinbr, o Tecnosaude no
Yahoo e o Engenharia Biomédica Brasil no LinkedIn. Fora do
país, temos WHO Medical Devices List-Serv, BioMedTalk e
Medwrench. As mensagens tratam de assuntos técnicos,
administrativos, legais e outros, como o desenvolvimento e a
consolidação da profissão.
Logo no início do ano, procurando um engenheiro civil com
experiência na área hospitalar, me deparei com uma discussão
de janeiro de 2013, na qual o remetente gostaria de saber
a opinião dos participantes do fórum sobre um profissional
prestar serviços para um hospital sem ser engenheiro, mas
se apresentando como tal. Nas respostas, vários membros
colocaram sua opinião pessoal sobre o que deveria ser feito.
Havia sugestão de denúncia ao Conselho profissional (CONFEA/
CREA – Conselho Federal/Regional de Engenharia e Agronomia)
e mesmo uma conversa entre os envolvidos.
O que se percebe é que, apesar do exercício da profissão
de engenheiro ser fiscalizado pelo CREA há 80 anos, as
empresas no segmento hospitalar parecem não saber ao certo
como contratar e utilizar o conhecimento e os serviços dos
profissionais do sistema CONFEA/CREA.
Mas quem são os profissionais desse sistema que atuam
nas instituições de saúde? Em verdade, praticamente todos,
uma vez que um hospital, dependendo do porte, necessita
da contribuição de grande parte deles. Desde a atenção aos
jardins e árvores, passando pelo sistema de climatização, pelo
fornecimento de energia elétrica, gestão de redes de gases
medicinais até a construção do hospital e a manutenção de
equipamentos de infraestrutura e médico-assistenciais.
O sistema CONFEA/CREA reconheceu, nos anos 90,
tanto os tecnólogos em sistemas biomédicos (antigo
tecnólogo em saúde) quanto os técnicos de nível médio,
denominados técnicos de equipamentos biomédicos.
Porém, antes disso, trabalhávamos exclusivamente com
engenheiros (civis, eletricistas e mecânicos) e uns poucos
especializados em engenharia clínica, dentro e fora do
país. Deste modo, não havia um profissional cujo “DNA”
contivesse um conjunto de instruções que facilitasse a
atuação e a contribuição da engenharia de maneira mais
completa no segmento hospitalar.
Em 2008, após iniciativas de grupos e pessoas, o CREA
reconheceu o engenheiro biomédico (EB) e assumiu a
responsabilidade por fiscalizar o exercício profissional
deste profissional. O EC é uma especialidade dentro da
engenharia biomédica, e o EB também atua na indústria
de maneira intensa. Por isso, me parece que “o dono da
bola chegou”, sendo dele, portanto, o direito de organizar
Hospitais ainda têm dúvidas
sobre como contratar um
engenheiro clínico
o jogo. Então, desde 2008, a equipe de profissionais
do sistema CONFEA/CREA para a saúde está pronta
(técnicos, tecnólogos e engenheiros), todos com instruções
semelhantes no seu “DNA”, mas diferentes, o que permite
ao conjunto criar uma contribuição maior em razão de suas
capacidades. Embora exerçam algumas de suas atividades
de maneira igual, como o reparo ou a montagem de
equipamentos, cada um tem o seu conjunto de atribuições
profissionais exclusivas e específicas.
Ora, se tudo está tão bem estabelecido em termos do
Conselho profissional, atribuições, responsabilidades,
competências e campos de atuação, por que a discussão
mencionada no início do texto ainda ocorre? A resposta
talvez considere que as pessoas e as organizações não são
perfeitas. O que não é um problema, mas talvez signifique
uma grande oportunidade de melhoria do acesso ao campo
de trabalho para estas profissões. Como fazer um esforço
adequado para que, a exemplo de outros profissionais
da saúde, engenheiros biomédicos, engenheiros clínicos,
tecnólogos em sistemas biomédicos e técnicos em
equipamentos biomédicos sejam mais conhecidos e possam
ocupar, de maneira adequada e produtiva, os cargos ou
funções para as quais foram preparados para assumir em
hospitais, no comércio e na indústria?
Sob a ótica profissional, poderíamos pensar que, se o nosso
Código de Ética fosse utilizado por todos os profissionais
ligados ao sistema CONFEA/CREA, a discussão mencionada
não teria sido iniciada. E então teríamos engenheiros =
engenheiros, técnicos = técnicos e tecnólogos = tecnólogos
e não haveria dúvidas. Se houvesse uma fiscalização
organizada pelo CONFEA/CREA para a área da Saúde, creio
que obteríamos resultados interessantes que poderiam,
ainda mais, contribuir para a melhoria da situação atual.
Sob o ponto de vista do mercado, poderíamos pensar que o
responsável pelos Recursos Humanos da empresa resolveria
este problema na contratação. Mas o que fazer se o
profissional, apesar de não ser um engenheiro, se posiciona
como tal em reuniões dentro da organização e perante
fornecedores?
Sob o ponto de vista do cliente final (paciente), não há muito
o que comentar. Assim como ele espera ser atendido por um
médico que é médico, por um enfermeiro que é enfermeiro
e por um técnico que é técnico, também espera que todos os
profissionais do hospital sejam realmente aquilo que dizem e
que estão capacitados a ser.
Finalmente, espero que estes comentários contribuam
para dar maior visibilidade aos profissionais da área
de engenharia clínica e que eles sejam, cada vez mais,
encontrados nos hospitais.
Lúcio Flávio de Magalhães Brito
Engenheiro Clínico Certificado
Lb@engenhariaclinica.com
EngenhariaClínica
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  • 1.
    JAN-FEV 90 Como ocorre comoutras profissões, nós da área de engenharia clínica também utilizamos os fóruns de discussão. No Brasil, os mais usuais são o Engeclinbr, o Tecnosaude no Yahoo e o Engenharia Biomédica Brasil no LinkedIn. Fora do país, temos WHO Medical Devices List-Serv, BioMedTalk e Medwrench. As mensagens tratam de assuntos técnicos, administrativos, legais e outros, como o desenvolvimento e a consolidação da profissão. Logo no início do ano, procurando um engenheiro civil com experiência na área hospitalar, me deparei com uma discussão de janeiro de 2013, na qual o remetente gostaria de saber a opinião dos participantes do fórum sobre um profissional prestar serviços para um hospital sem ser engenheiro, mas se apresentando como tal. Nas respostas, vários membros colocaram sua opinião pessoal sobre o que deveria ser feito. Havia sugestão de denúncia ao Conselho profissional (CONFEA/ CREA – Conselho Federal/Regional de Engenharia e Agronomia) e mesmo uma conversa entre os envolvidos. O que se percebe é que, apesar do exercício da profissão de engenheiro ser fiscalizado pelo CREA há 80 anos, as empresas no segmento hospitalar parecem não saber ao certo como contratar e utilizar o conhecimento e os serviços dos profissionais do sistema CONFEA/CREA. Mas quem são os profissionais desse sistema que atuam nas instituições de saúde? Em verdade, praticamente todos, uma vez que um hospital, dependendo do porte, necessita da contribuição de grande parte deles. Desde a atenção aos jardins e árvores, passando pelo sistema de climatização, pelo fornecimento de energia elétrica, gestão de redes de gases medicinais até a construção do hospital e a manutenção de equipamentos de infraestrutura e médico-assistenciais. O sistema CONFEA/CREA reconheceu, nos anos 90, tanto os tecnólogos em sistemas biomédicos (antigo tecnólogo em saúde) quanto os técnicos de nível médio, denominados técnicos de equipamentos biomédicos. Porém, antes disso, trabalhávamos exclusivamente com engenheiros (civis, eletricistas e mecânicos) e uns poucos especializados em engenharia clínica, dentro e fora do país. Deste modo, não havia um profissional cujo “DNA” contivesse um conjunto de instruções que facilitasse a atuação e a contribuição da engenharia de maneira mais completa no segmento hospitalar. Em 2008, após iniciativas de grupos e pessoas, o CREA reconheceu o engenheiro biomédico (EB) e assumiu a responsabilidade por fiscalizar o exercício profissional deste profissional. O EC é uma especialidade dentro da engenharia biomédica, e o EB também atua na indústria de maneira intensa. Por isso, me parece que “o dono da bola chegou”, sendo dele, portanto, o direito de organizar Hospitais ainda têm dúvidas sobre como contratar um engenheiro clínico o jogo. Então, desde 2008, a equipe de profissionais do sistema CONFEA/CREA para a saúde está pronta (técnicos, tecnólogos e engenheiros), todos com instruções semelhantes no seu “DNA”, mas diferentes, o que permite ao conjunto criar uma contribuição maior em razão de suas capacidades. Embora exerçam algumas de suas atividades de maneira igual, como o reparo ou a montagem de equipamentos, cada um tem o seu conjunto de atribuições profissionais exclusivas e específicas. Ora, se tudo está tão bem estabelecido em termos do Conselho profissional, atribuições, responsabilidades, competências e campos de atuação, por que a discussão mencionada no início do texto ainda ocorre? A resposta talvez considere que as pessoas e as organizações não são perfeitas. O que não é um problema, mas talvez signifique uma grande oportunidade de melhoria do acesso ao campo de trabalho para estas profissões. Como fazer um esforço adequado para que, a exemplo de outros profissionais da saúde, engenheiros biomédicos, engenheiros clínicos, tecnólogos em sistemas biomédicos e técnicos em equipamentos biomédicos sejam mais conhecidos e possam ocupar, de maneira adequada e produtiva, os cargos ou funções para as quais foram preparados para assumir em hospitais, no comércio e na indústria? Sob a ótica profissional, poderíamos pensar que, se o nosso Código de Ética fosse utilizado por todos os profissionais ligados ao sistema CONFEA/CREA, a discussão mencionada não teria sido iniciada. E então teríamos engenheiros = engenheiros, técnicos = técnicos e tecnólogos = tecnólogos e não haveria dúvidas. Se houvesse uma fiscalização organizada pelo CONFEA/CREA para a área da Saúde, creio que obteríamos resultados interessantes que poderiam, ainda mais, contribuir para a melhoria da situação atual. Sob o ponto de vista do mercado, poderíamos pensar que o responsável pelos Recursos Humanos da empresa resolveria este problema na contratação. Mas o que fazer se o profissional, apesar de não ser um engenheiro, se posiciona como tal em reuniões dentro da organização e perante fornecedores? Sob o ponto de vista do cliente final (paciente), não há muito o que comentar. Assim como ele espera ser atendido por um médico que é médico, por um enfermeiro que é enfermeiro e por um técnico que é técnico, também espera que todos os profissionais do hospital sejam realmente aquilo que dizem e que estão capacitados a ser. Finalmente, espero que estes comentários contribuam para dar maior visibilidade aos profissionais da área de engenharia clínica e que eles sejam, cada vez mais, encontrados nos hospitais. Lúcio Flávio de Magalhães Brito Engenheiro Clínico Certificado Lb@engenhariaclinica.com EngenhariaClínica eXTRA wEB.indd 90 19/02/2015 11:03:56