Revista Canavieiros - Setembro de 2016
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Marcos Landell
Políticas definidas já!
Maior produtividade e resistência a pragas e ao
estresse hídrico. Estas são algumas característi-
cas desejadas em variedades de cana-de-açúcar.
No entanto, uma variedade que tem chamado a
atenção pelo seu potencial agroenergético é a
cana-energia, produzida por meio de um melho-
ramento genético que resulta em uma cana com
mais fibras e variação na quantidade de açúcar.
O principal destaque da variedade está no uso
para a cogeração de energia e para a produ-
ção de pellets. A Revista Canavieiros conversou
com o pesquisador e diretor do Centro de Cana
do IAC, Marcos Landell, durante o 2º Seminário
sobre Biomassa de Cana-de-Açúcar & Cia sobre
estes e outros assuntos. Confira:
Entrevista I
Revista Canavieiros: Acana-energia
tem se apresentado como uma opção
para aqueles que querem investir em
biomassa. Como o senhor avalia isso?
Marcos Landell: Temos constata-
do que o pessoal apresenta a biomassa
como uma energia viável em termos
econômicos. Tudo o que se falou de
etanol 2G, cogeração e pellets precisa
também de uma política de governo, de
preços ligados a matriz energética. Di-
ferente de alimentos, a política energé-
tica precisa ser muito clara em qualquer
país para que as pessoas possam estabe-
lecer seus negócios.
Percebi que há sim uma possibilida-
de e uma perspectiva muito grande que
também passa pela viabilidade econô-
mica, pois não é possível que se tenha
variações tão grandes no valor da ener-
gia paga. Ninguém sub-existe desta ma-
neira. É preciso ter uma política mais
clara sobre a bioenergia. O segundo
aspecto que salta aos olhos são as opor-
tunidades, principalmente dos pellets.
Parece ser até mais segura e concreta
do que a cogeração, que é o mercado
interno e passa pela política pública da
estratégia de definição de preço e tudo
mais. Também parece que as neces-
sidades do mercado externo são mais
estabelecidas e com políticas de longo
prazo. Dá mais confiança para o produ-
tor associar o seu projeto de biomassa
para entrega fora do país do que dentro
do país. No entanto, tem alguma coisa
errada aí, não deveria ser desta maneira.
Revista Canavieiros: Como estão os
programas de melhoramento genético?
Marcos Landell: Estamos indo para
10 anos de trabalhos em programas de
melhoramento genético voltados para
a cana energia e volto a frisar que ela
também precisa de uma política defini-
da. Se não tivermos isso, não terá se-
quer investimento na indústria que pro-
cessará esta cana que está sendo criada.
A Raízen e a Granbio estão com dificul-
dades em suas indústrias para processar
o etanol 2G em função de um monte de
coisas como o tipo de matéria-prima,
que é muito abrasiva, o problema da
lignina. Esta indústria, na minha visão,
ainda está em formação. Para nós, que
trabalhamos com melhoramento gené-
tico, as nossas ações têm que ter, pelo
menos 10 anos de antecedência, por-
que demora para fazer um novo tipo
de cana. Se ainda não temos sequer a
indústria de transformação claramen-
te estabelecida, imagine daqui a 10
anos! Esse é um dos grandes problemas
que eu vejo, no sentido de definir qual
matéria-prima será construída, qual
o biotipo destas futuras variedades. O
IAC tem trabalhado com tentativas, tem
feito como a Granbio, ninguém está pa-
rado. Está todo mundo fazendo alguma
coisa. É claro que se já tivéssemos uma
indústria redonda, essa sinalização fica-
ria muito melhor para nós construirmos
o biotipo mais adequado para ser pro-
cessado. Como essa indústria ainda não
está bem estabelecida, nosso exercício
fica bem mais complicado, mas esta-
mos trabalhando de maneira dedicada,
com pouquíssimos recursos. Inclusive
este é um dos problemas que vamos le-
var junto ao governo de São Paulo e o
governo federal, pois vemos um hiato
na pesquisa de biomassa, está havendo
uma descontinuidade em alguns pro-
jetos importantes. Esse hiato pode ser
fatal para as nossas pretensões de cres-
cimento no futuro. A bioenergia seria
estratégica para o Brasil, para promover
o crescimento quando as coisas volta-
rem ao normal. Temos que ser rápidos
nestas decisões, tem que ter mais inves-
timento nesta pesquisa para que possa-
mos colher os frutos em cinco ou seis
anos e para nos sustentar na geração de
energia via bioenergia e biomassa.
Revista Canavieiros: Já que o
senhor comentou, como estão os in-
vestimentos?
Marcos Landell: Os acenos dados
nos últimos 15 anos, ainda na parte do
primeiro governo Lula, foram muito
positivos. Todo mundo achou que a
Agroenergia era o grande caminho.
Mas a partir de 2008, tudo o que se
prometeu ficou para trás, as pessoas
Diana Nascimento
Revista Canavieiros - Setembro de 2016
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começaram a ficar omissas, a política
de governo ficou omissa, o setor fi-
cou fragilizado, não havia política de
preço, o etanol com valor totalmente
desconstruído com a política equivo-
cada da Petrobras em relação ao preço
subsidiado de combustível. Isso fez
com que, de 2008 até recentemente, o
etanol não tivesse praticamente varia-
ção de preço. Produziu-se etanol com
prejuízo e isso assustou os demais,
como a biomassa. A dúvida era se o
Brasil iria produzir mesmo, se queria
produzir energia renovável. Essa era a
grande questão. Isso com certeza afu-
gentou tanto o capital brasileiro quan-
to o capital exterior. Ninguém mais
sentiu confiança.
Se você desconstrói um projeto, que
num primeiro momento estava indo
muito bem, não se retoma de maneira
produtiva tão fácil devido a descon-
fiança. Muita gente perdeu o seu ne-
gócio porque não foram construídos
com o investimento do governo como
foi no Proálcool, foram construídos
com financiamentos privados. Quantas
empresas nacionais se multiplicaram
acreditando que seria um grande negó-
cio? A partir de 2008 elas se descapi-
talizaram a ponto de perder todo o seu
negócio para o banco ou para empre-
sas internacionais. Neste momento é
preciso ter um aceno muito claro, uma
política clara de governo para atrair
novamente o investidor nacional e es-
trangeiro. Também é preciso que os
projetos de pesquisa sejam estimula-
dos para que possamos ter uma bioe-
nergia sustentável no futuro.
Revista Canavieiros: Como seria a
cana dos sonhos para o setor sucroe-
nergético nacional?
Marcos Landell: A cana-de-açúcar
dos sonhos é uma cana bem adaptada a
todo processo mecânico, tanto de plan-
tio quanto de colheita, com alta popula-
ção de colmos, maior longevidade com
grande número de cortes e acima de dez
cortes com valores economicamente
sustentáveis; alto teor de sacarose; boa
resistência a doenças; porte ereto para
ser colhida mais facilmente; que tenha
todas as vantagens de uma cana de alta
produção agroindustrial, mas que tam-
bém tenha os facilitadores para a me-
canização, bom fechamento de entreli-
nhas e bom sombreamento para reduzir
a matocompetição. O produtor pode ter
todas essas adicionalidades em duas va-
riedades de cana com a mesma produ-
tividade agroindustrial e com o mesmo
número de corte, mas uma terá fecha-
mento excepcional e a outra não fecha-
rá, uma terá alta tolerância a herbicidas
e a outra terá alta suscetibilidade. Todas
essas adicionalidades devem ser consi-
deradas para chegar a melhor cana.
Já o fornecedor tem que ter uma cana
que simplifique a vida dele. Não pode
ser uma cana que tenha fechamento
ineficiente, que precise de um segundo
controle de mato, tem que ser uma cana
com alta capacidade de brotação e per-
filhamento mesmo em períodos secos,
pois ele não tem capital para reformar
o canavial todo ano. Tem que ter estas
características para que ele se mantenha
ativo, produtivo e sustentável.
Revista Canavieiros: O senhor
acredita que haverá uma melhora no
setor com o novo governo?
Marcos Landell: Para nossa decep-
ção tivemos, nos últimos anos, uma
política muito confusa em relação a
Agroenergia. Os últimos cinco anos
foram um verdadeiro desastre... Acho
que qualquer ação mais organizada,
bem pontuada e, principalmente, de
médio e longo prazo, com regras cla-
ras, teria tido muito mais sucesso. O
que assistimos foi um verdadeiro de-
sencontro, não sei se por incompetên-
cia ou se foi deliberado, mas o fato é
que o setor tem uma resiliência im-
pressionante. Cada vez que via as coi-
sas acontecendo, empresas fechando
e pessoas perdendo empregos, eu não
conseguia entender o porque. Ações
simples e rápidas não foram tomadas.
Seria melhor ter dito, de forma defini-
da, que não iria promover a bioener-
gia e o agricultor teria outras opções,
correria para outros caminhos e a in-
dústria poderia passar por transforma-
ções e adaptações. O que não pode ter
é algo escuso, intenções ocultas. Isso
não é honesto. Qualquer política mais
definida em relação à Agroenergia e
com regras claras fará muito bem para
o setor e para outros setores do agrone-
gócio nacional.RC

Políticas definidas já!

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    Revista Canavieiros -Setembro de 2016 5 Marcos Landell Políticas definidas já! Maior produtividade e resistência a pragas e ao estresse hídrico. Estas são algumas característi- cas desejadas em variedades de cana-de-açúcar. No entanto, uma variedade que tem chamado a atenção pelo seu potencial agroenergético é a cana-energia, produzida por meio de um melho- ramento genético que resulta em uma cana com mais fibras e variação na quantidade de açúcar. O principal destaque da variedade está no uso para a cogeração de energia e para a produ- ção de pellets. A Revista Canavieiros conversou com o pesquisador e diretor do Centro de Cana do IAC, Marcos Landell, durante o 2º Seminário sobre Biomassa de Cana-de-Açúcar & Cia sobre estes e outros assuntos. Confira: Entrevista I Revista Canavieiros: Acana-energia tem se apresentado como uma opção para aqueles que querem investir em biomassa. Como o senhor avalia isso? Marcos Landell: Temos constata- do que o pessoal apresenta a biomassa como uma energia viável em termos econômicos. Tudo o que se falou de etanol 2G, cogeração e pellets precisa também de uma política de governo, de preços ligados a matriz energética. Di- ferente de alimentos, a política energé- tica precisa ser muito clara em qualquer país para que as pessoas possam estabe- lecer seus negócios. Percebi que há sim uma possibilida- de e uma perspectiva muito grande que também passa pela viabilidade econô- mica, pois não é possível que se tenha variações tão grandes no valor da ener- gia paga. Ninguém sub-existe desta ma- neira. É preciso ter uma política mais clara sobre a bioenergia. O segundo aspecto que salta aos olhos são as opor- tunidades, principalmente dos pellets. Parece ser até mais segura e concreta do que a cogeração, que é o mercado interno e passa pela política pública da estratégia de definição de preço e tudo mais. Também parece que as neces- sidades do mercado externo são mais estabelecidas e com políticas de longo prazo. Dá mais confiança para o produ- tor associar o seu projeto de biomassa para entrega fora do país do que dentro do país. No entanto, tem alguma coisa errada aí, não deveria ser desta maneira. Revista Canavieiros: Como estão os programas de melhoramento genético? Marcos Landell: Estamos indo para 10 anos de trabalhos em programas de melhoramento genético voltados para a cana energia e volto a frisar que ela também precisa de uma política defini- da. Se não tivermos isso, não terá se- quer investimento na indústria que pro- cessará esta cana que está sendo criada. A Raízen e a Granbio estão com dificul- dades em suas indústrias para processar o etanol 2G em função de um monte de coisas como o tipo de matéria-prima, que é muito abrasiva, o problema da lignina. Esta indústria, na minha visão, ainda está em formação. Para nós, que trabalhamos com melhoramento gené- tico, as nossas ações têm que ter, pelo menos 10 anos de antecedência, por- que demora para fazer um novo tipo de cana. Se ainda não temos sequer a indústria de transformação claramen- te estabelecida, imagine daqui a 10 anos! Esse é um dos grandes problemas que eu vejo, no sentido de definir qual matéria-prima será construída, qual o biotipo destas futuras variedades. O IAC tem trabalhado com tentativas, tem feito como a Granbio, ninguém está pa- rado. Está todo mundo fazendo alguma coisa. É claro que se já tivéssemos uma indústria redonda, essa sinalização fica- ria muito melhor para nós construirmos o biotipo mais adequado para ser pro- cessado. Como essa indústria ainda não está bem estabelecida, nosso exercício fica bem mais complicado, mas esta- mos trabalhando de maneira dedicada, com pouquíssimos recursos. Inclusive este é um dos problemas que vamos le- var junto ao governo de São Paulo e o governo federal, pois vemos um hiato na pesquisa de biomassa, está havendo uma descontinuidade em alguns pro- jetos importantes. Esse hiato pode ser fatal para as nossas pretensões de cres- cimento no futuro. A bioenergia seria estratégica para o Brasil, para promover o crescimento quando as coisas volta- rem ao normal. Temos que ser rápidos nestas decisões, tem que ter mais inves- timento nesta pesquisa para que possa- mos colher os frutos em cinco ou seis anos e para nos sustentar na geração de energia via bioenergia e biomassa. Revista Canavieiros: Já que o senhor comentou, como estão os in- vestimentos? Marcos Landell: Os acenos dados nos últimos 15 anos, ainda na parte do primeiro governo Lula, foram muito positivos. Todo mundo achou que a Agroenergia era o grande caminho. Mas a partir de 2008, tudo o que se prometeu ficou para trás, as pessoas Diana Nascimento
  • 2.
    Revista Canavieiros -Setembro de 2016 6 começaram a ficar omissas, a política de governo ficou omissa, o setor fi- cou fragilizado, não havia política de preço, o etanol com valor totalmente desconstruído com a política equivo- cada da Petrobras em relação ao preço subsidiado de combustível. Isso fez com que, de 2008 até recentemente, o etanol não tivesse praticamente varia- ção de preço. Produziu-se etanol com prejuízo e isso assustou os demais, como a biomassa. A dúvida era se o Brasil iria produzir mesmo, se queria produzir energia renovável. Essa era a grande questão. Isso com certeza afu- gentou tanto o capital brasileiro quan- to o capital exterior. Ninguém mais sentiu confiança. Se você desconstrói um projeto, que num primeiro momento estava indo muito bem, não se retoma de maneira produtiva tão fácil devido a descon- fiança. Muita gente perdeu o seu ne- gócio porque não foram construídos com o investimento do governo como foi no Proálcool, foram construídos com financiamentos privados. Quantas empresas nacionais se multiplicaram acreditando que seria um grande negó- cio? A partir de 2008 elas se descapi- talizaram a ponto de perder todo o seu negócio para o banco ou para empre- sas internacionais. Neste momento é preciso ter um aceno muito claro, uma política clara de governo para atrair novamente o investidor nacional e es- trangeiro. Também é preciso que os projetos de pesquisa sejam estimula- dos para que possamos ter uma bioe- nergia sustentável no futuro. Revista Canavieiros: Como seria a cana dos sonhos para o setor sucroe- nergético nacional? Marcos Landell: A cana-de-açúcar dos sonhos é uma cana bem adaptada a todo processo mecânico, tanto de plan- tio quanto de colheita, com alta popula- ção de colmos, maior longevidade com grande número de cortes e acima de dez cortes com valores economicamente sustentáveis; alto teor de sacarose; boa resistência a doenças; porte ereto para ser colhida mais facilmente; que tenha todas as vantagens de uma cana de alta produção agroindustrial, mas que tam- bém tenha os facilitadores para a me- canização, bom fechamento de entreli- nhas e bom sombreamento para reduzir a matocompetição. O produtor pode ter todas essas adicionalidades em duas va- riedades de cana com a mesma produ- tividade agroindustrial e com o mesmo número de corte, mas uma terá fecha- mento excepcional e a outra não fecha- rá, uma terá alta tolerância a herbicidas e a outra terá alta suscetibilidade. Todas essas adicionalidades devem ser consi- deradas para chegar a melhor cana. Já o fornecedor tem que ter uma cana que simplifique a vida dele. Não pode ser uma cana que tenha fechamento ineficiente, que precise de um segundo controle de mato, tem que ser uma cana com alta capacidade de brotação e per- filhamento mesmo em períodos secos, pois ele não tem capital para reformar o canavial todo ano. Tem que ter estas características para que ele se mantenha ativo, produtivo e sustentável. Revista Canavieiros: O senhor acredita que haverá uma melhora no setor com o novo governo? Marcos Landell: Para nossa decep- ção tivemos, nos últimos anos, uma política muito confusa em relação a Agroenergia. Os últimos cinco anos foram um verdadeiro desastre... Acho que qualquer ação mais organizada, bem pontuada e, principalmente, de médio e longo prazo, com regras cla- ras, teria tido muito mais sucesso. O que assistimos foi um verdadeiro de- sencontro, não sei se por incompetên- cia ou se foi deliberado, mas o fato é que o setor tem uma resiliência im- pressionante. Cada vez que via as coi- sas acontecendo, empresas fechando e pessoas perdendo empregos, eu não conseguia entender o porque. Ações simples e rápidas não foram tomadas. Seria melhor ter dito, de forma defini- da, que não iria promover a bioener- gia e o agricultor teria outras opções, correria para outros caminhos e a in- dústria poderia passar por transforma- ções e adaptações. O que não pode ter é algo escuso, intenções ocultas. Isso não é honesto. Qualquer política mais definida em relação à Agroenergia e com regras claras fará muito bem para o setor e para outros setores do agrone- gócio nacional.RC