Teatro



 ÓPERA DOS VIVOS.
 OU NÃO
 O novo espetáculo da Cia. do Latão traça um amplo painel
 crítico sobre a história da produção artística nacional,
 iluminando o eixo de sua afirmação de mercado, mas
 desconsidera as tensões internas dessa hegemonia
 por Leandro Saraiva




 APESAR DO JÁ costumeiro rigor                pós-Golpe, seguido dos rearranjos            as opções mundiais aparecem de dez em
 estético, intelectual e político de seus     implicados na “adaptação” ao período         dez linhas, a propósito de tudo”, como
 espetáculos, basta uma rápida olhada na      militar e da formação da nossa sociedade     diz Schwarz sobre o período.
 estrutura básica da nova peça do Latão       de consumo (ou de consumo vicário),
 para perceber que se trata de um esforço     saltando, numa teleologia irônica, direta-   CINEMA NOVO, DE NOVO
 especialmente ousado e ambicioso.            mente para os estúdios imperiais da “TV      A&'-)&'BB5'3=>#$-)&C(D/3&5'&'3&>)#E)&5'
     O ato I, “Sociedade Mortuária”, re-      Tudo”, para a qual toda a história parece    e algo do estilo – câmera na mão, cortes
 encena a história da Liga Camponesa de       convergir (e se anular).                     descontínuos, planos curtos, alternados
 Sapé, surgida a partir de uma associação          Mas será que se trata, propriamente,    com acúmulos de tempo, –, é o da urgên-
 entre os trabalhadores para o rateio das     de uma recapitulação expositiva, de uma      cia de Terra em transe. Mas em Tempo
 despesas de enterro de seus mortos,          aula empirista de história da cultura?       Morto o protagonista é o jovem empre-
 numa aproximação à produção do CPC           Basta atentar um pouco para os rear-         sário. Quem oscila é o burguês, versão
 (Centro Popular de Cultura).                 ranjos formais de cada ato, em relação       do Fuentes de Glauber, aqui trazida ao
     !"#$%&'$&()&*'+',$'-)&./0$#'1,#'         aos “originais”, para perceber que não       centro: sua linguagem, tensionada pelo
 retoma, com brilho estilístico, a matriz     é bem disso que se trata. O diálogo de       furacão da história, não é a da poesia,
 cinemanovista utilizando-se de trama e       fundo é com o clássico ensaio de Roberto     como a de Paulo Martins, mas a dos
 personagens de Terra em transe (Glauber      Schwarz, “Cultura e política 1964-1969”      negócios. O que o arrasta para o círculo
 2&34-5'6789:5';,<0=>4->?&'&;'3&>@=)&;'       (em O pai de família e outros ensaios), já   ?-' -()#' #;1,#(?=;)-' F&' )#-)(&' #' &' /0$#'
 de classe e as ambiguidades pessoais e       em si mesmo sintetizante e interpretativo,   1,#'#0#'1,#('/>->3=-(:'+'&'#>G&0G=$#>)&'
 culturais do momento de vitória golpista     sob um ponto de vista marcado pelo           com Júlia, uma atriz engajada e, no lugar
 e de realinhamento reacionário da bur-       interesse político de esquerda. Ópera        do embate trágico, tudo se desfaz como
 guesia nacional.                             dos vivos desdobra, e traz para o pre-       uma aventura. O transe do Golpe é então
     “Privilégio dos mortos”, o ato III,é     sente, esta visão interessada e uma sutil    representado pela perspectiva burguesa,
 um show de música – de ótima música          e permanente “distorção criativa” das        desde o nosso presente, no qual “venceu
 - no qual se confrontam Miranda, uma         referências sumarizadas em cena.             o sistema de Babilônia e o garção de
 cantora engajada que, no Golpe, entrou            No ato cepecista, a moldura é meta-     costeleta”, como aponta com triste graça
 em coma e agora reencontra um cenário        linguística, com a ação sendo interrom-      a frase de Oswald de Andrade citada por
 muito transformado, e um grupo clara-        pida por comentários épicos dos atores       Schwarz no prefácio a O ornitorrinco, de
 mente tropicalista, que se apresenta já      sobre o caráter de estudo da montagem.       Francisco de Oliveira. Deste ângulo da
 plenamente adaptado às demandas do           Essa atualização – que deixa entrever        burguesia nacional, a produção artística
 espetáculo de massa.                         o recorrente diálogo do Latão com o          esquerdista – e, mais amplamente, as
     O ato IV, “Morrer de Pé”, é contem-      Movimento dos Trabalhadores Rurais           reformas de modernização democrática
 porâneo e narra um episódio de uma pro-      Sem Terra (MST) – implica ainda em mu-       – foi, literalmente, uma aventura com a
 dução televisiva que evidencia o processo    danças de estilo na encenação do drama       1,-0';#'@#()&,'%&(',$'$&$#>)&H'
 industrial subjugando a criação artística.   camponês, com motivações mais indivi-            No debate que acompanhou este
     A recapitulação CPC-Cinema Novo-         duais dos personagens do que aquelas         ato, Ismail Xavier ampliou o leque de
 Tropicalismo-TV onipresente é acom-          utilizadas pelo CPC, que trabalhou num       pontos de atualização das referências
 panhada dos estágios históricos corres-      clima de época altamente politizado,         expostas e discutidas na peça-filme.
 pondentes, fazendo o quadro avançar          implicando “uma certa abstração e velo-      Lembrou que o Cinema Novo não se
 do período pré-Golpe para o imediato         cidade do novo teatro e cinema, em que       fez à margem, e sim por meio da busca

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do sucesso no mercado regular das salas
de cinema, retirando rendimento estético
da tensão entre a vanguarda modernista
e o desejo de intervenção no presente,
com uma utopia política que era também
empenho na conquista de hegemonia no
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legiado – justamente por ser industrial
e ter mercado mundial – de combate
anticolonialista.
     Essas considerações não contra-
dizem a leitura feita pelo Latão, mas
podem servir para um “deslocamento
do deslocamento” que Tempo Morto
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se transfere do poeta engajado para o
burguês, produzindo uma versão da obra
glauberiana que sublinha as contradições
de classe com as tintas do pragmatismo
burguês. O comentário de Ismail chama
a atenção para as dimensões também
pragmáticas, que se misturavam ao
projeto político e estético, das relações
entre artistas e mercado, que iam além
de uma miopia informada por uma má
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Schwarz associa à arte e à política do PC
pré-Golpe, e que o Latão reencena aqui
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burguês e a atriz engajada). Ou seja, havia
um projeto de mercado, enunciado, aliás,
muito claramente já em 1966, no artigo
“Cinema Novo e estruturas econômicas
tradicionais”, de Gustavo Dahl, que
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anos depois.
     Obviamente, o Latão sabe disso, e se
prefere preservar Júlia das jogadas ambí-
guas de Paulo Martins (e dos cinemano-
vistas, que sentaram em todas as mesas
militares necessárias à consolidação da
L$<(-/0$#'#5'>&'/$'?&;'->&;'9N5'-)(--
G+;'?#0-'3&>1,=;)-(-$',$-';=C>=/3-)=G-'
fatia do público consumidor, ), o faz
para melhor construir, dentro da peça,
a progressão da mercantilização da arte,
que é o tema explícito do ato seguinte.
     O ”Privilégio dos mortos” tem a
forma de um show tropicalista, que
tem como convidada especial, e foco de
3&>@=)&5' O=(->?-5' -' 3->)&(-' #>C-P-?-H'
As performances e as músicas são mui-
to irônicas: “Borboleta Predestinada”,
com sua dança de parangolés, anuncia o
“desabrochar” dos astros tropicalistas,
se adaptando às demandas do show


       Sociedade mortuária: os vivos e os
           mortos se encontram no palco


                                               45 retratodoBRASIL   |   51
Tempo morto: a Cia. do Latão refaz Terra em transe como arqueologia encenada do presente


 business; “As Entranhas do Monstro”,           iluminados pela “luz fria” de formas         Caetano cantou no Oscar e Gil assumiu
 $-=;'-=>?-5'#>I(#>)-5'#'G#>3#5'&'?#;-/&'       ultramodernas – um “achado”, dizia o         o Ministério da Cultura. A apreciação
 de fazer uma paródia da paródia pop            autor, que introjetava, na forma estética,   ?#;)-'=>)#(%(#)-WK&'?&')(&%=3-0=;$&'/3-'
 tropicalista: consegue ser divertida e         as ambiguidades entre lucidez crítica e      mais clara se considerarmos o retrato
 #/3=#>)#5' $-;' >#$' )->)&5' PD' 1,#5' %#0-'   comercialismo, mimetizando (e também         deste mundo-mercadoria, pintado na
 estranheza forçada da imagem, expõe            expondo ao sol) o congelamento im-           parte seguinte da peça.
 &'-()=IQ3=&'-0#C&(=M->)#'R'1,#'$=F;:)=/3-'     posto pelo Golpe à dinâmica democrá-             X' -)&' />-0' >-((-' ,$-' ;=),-WK&' #$'
 a Indústria Cultural como o monstro (a         tica que prometia superar a contradição      1,#'-'@,=?#M'#/3=#>)#'?-'=>?Y;)(=-'3,0-
 música da cena choca, diverte, mas diz         entre os setores pobres e atrasados e os     tural se interrompe: durante a realização
 pouco – o compositor do Latão, Martin          ricos e atualizados do país. A versão do     de um melodrama televisivo sobre “os
 Eckerman, consegue dar uma volta a             tropicalismo apresentada na peça nada        tempos da ditadura”, um ator que os vi-
 mais no avesso do avesso do avesso). E         tem dessas ambiguidades, mas apresenta       veu se rebela contra seu papel – mais por
 há as falas do intelectual-cantor Cao (evi-    apenas o cinismo bem informado pseu-         motivos de verossimilhança psicológica
 dentemente, Caetano), que alternam evo-        domoderno.                                   do personagem torturador do que por
 cações irracionais e inversões brilhantes          No debate sobre este ato, Francisco      resistência política. E por um breve mo-
 das diretrizes da cultura do engajamento,      Alambert, ao contrário de Ismail, não        mento a indústria pára, até conseguir de
 espetacularizando a estética da fome.          apresentou contrapontos, mas explicitou      novo se impor - não por uma visão ideo-
                                                e sublinhou uma tese que está na peça: o     0ZC=3-5''PD'?#;>#3#;;D(=-'3&$&'P,;)=/3-)=G-'
 PARANGOLÉS AO VENTO                            tropicalismo, entendido como submissão       –, mas apenas por fazer valer a força das
 Aqui o ponto de vista atualizante faz ca-      da arte crítica nacional à forma-merca-      engrenagens da produção e das relações
 ricatura do tropicalismo, a partir de suas     doria, tornou-se tão hegemônico que se       ?#')(-<-04&'(#=/3-?-;H'[,(->)#'#;)#'!<,C'
 versões mais vendáveis e desdentadas.          confunde, hoje, com o próprio campo          ?&';=;)#$-*'?#;/0-$'/-%&;'?#'3(=;#'?#'
 S34T-(M5' #$' 67875' @-C(-G-' -' =$-C#$'       da produção artística nacional. Para ele,    consciência dos trabalhadores culturais,
 tropicalista como um instantâneo dos           a vitória absoluta do tropicalismo tem       desimportantes frente ao mastodôntico
 arcaísmos do subdesenvolvimento,               3&$&' $-(3&' &' ->&' ?#' UNNV5' 1,->?&'      poderio industrial.

                                                                                             O TRABALHO NA TELA
 As predestinadas borboletas tropicalistas caminhando e cantando as entranhas do monstro     Como disse Maria Rita Kehl, o tema
                                                                                             central é o trabalho da representação e a
                                                                                             alienação do trabalhador deste processo,
                                                                                             o artista. Frente a tal fechamento de hori-
                                                                                             zontes, segundo a analista, e como narra
                                                                                             também o Latão, a memória se torna
                                                                                             nostálgica e lírica, como acontece com
                                                                                             a canção de Miranda, tão viva no início
                                                                                             da peça, e reduzida a repertório antigo,
                                                                                             no circo da mercadoria contemporâneo.
                                                                                                 Este rigoroso “teorema”, como cha-
                                                                                             mou Alambert, tem o mérito de colocar
                                                                                             em foco a questão central das relações de
                                                                                             trabalho da produção cultural, as histori-
                                                                                             cizando através de ensaios com formas
                                                                                             do passado, produzidas dentro de outro
                                                                                             quadro de relações. A operação, bastante
                                                                                             inteligente, obtém a façanha brechtiana
                                                                                             ?#'?#;>-),(-0=M-('&'!%(&/;;=&>-0=;$&*'R'
                                                                                             que, aliás, Nelson Xaiver e João das Ne-

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fora do contexto industrial – uma gama     mercantilização da arte nacional seria um
                                          de formas de produção com as quais         resultado e tanto. Mas uma parte, mesmo
                                          a gestão de Gilberto Gil, no MinC, se      que central, não vale pelo todo dinâmico.
                                          relacionou aberta e criativamente.         Como lembrou Marcos Napolitano no
                                              O teorema de Ópera dos Vivos tem,      debate com Alambert, se tudo é contra-
                                          portanto, o mérito depor a nu a questão    ditório, é preciso considerar o conjunto
                                          das relações de produção das artes, mas    de forças contrárias à mercantilização,
                                          não aponta sua luz para as forças em       inclusive no âmago da indústria cultural.
                                          contradição com o eixo do poder e do           Não é preciso muito marxismo para
                                          capital.                                   compreender que o mesmo processo
                                              Claro, pode-se facilmente argumentar   que concentra poder e capital na “TV
                                          1,#'&')#&(#$-'?-'%#W-'<,;3-'?#/>=('&'G#-   ",?&*'F#'-/>;:'%(&?,M')#>;#;'R'3&$&'
                                          tor dominante do sistema cultural – o da   as vividas inclusive por artistas inovado-
ves, artistas que viveram intensamente o                                             res que nela trabalham –, e, como na era
período do engajamento e mantêm suas
posições políticas até hoje, fazem ques-   Luz sobre a                               ?&' ?=C=)-0' /3-' $-=;' #G=?#>)#5' 3(#;3#$'
                                                                                     as forças produtivas, de um modo que
tão de reivindicar em seus depoimentos
(sobre este importante ponto, vale a       mercantilização                           o capital tenta controlar, mas que lhe
                                                                                     escapa por todos os dedos.
pena ler as observações de Ismail no
livro Cinema brasileiro contemporâneo,     da arte, e alguma                             ]=%#()(&/-(' !-' "^*' #' !&' )(&%=3--
                                                                                     lismo” até torná-los um DNA de toda
                                                                                     a vasta fauna e flora cultural talvez
1,#'I-0-';&<(#'&'/0$#.$-(3&'?&'/$'?&'
período moderno no cinema brasileiro,      penumbra sobre                            seja construir uma imagem congelada,
Cabra marcado para morrer, que se inicia                                             incapaz de reconhecer o que há, ainda,
como uma produção cooperativada entre
estudantes e camponeses e se conclui
                                           as contradições                           senão de subversivo, pelo menos de
                                                                                     instigante, por exemplo, nos arranjos de
15 anos depois do Golpe, como obra sociedade do espetáculo, em suma – e não          Caetano para clássicos da música norte-
(#@#E=G-'?#',$'?=(#)&('1,#5'3&$&')&?&;5' estas tensões periféricas. Esse entendi-    americana (em A foreing sound), ou no
)&(>-(-.;#',$'%(&/;;=&>-0:H'                mento foi defendido por Maria Rita Kehl  trabalho de Furtado, ou, em outra ponta
                                            e Eugênio Bucci no debate sobre a TV,    do espectro social dos produtores, em
O CENTRO E AS CONTRADIÇÕES                  que engrossaram o caldo frankfurtiano    ,$'/0$#'3&$&'_;'G&0)-;'?&'`#>#5'?&'
De fato, a atividade artística já foi outra ao caracterizarem a TV como uma forma    cineasta huni kui Zezinho Yube, que
coisa, e a evidência disso, posta em de satisfação de desejos inconscientes,         @-C(-' -' )#>;K&' #>)(#' )(-?=WK&' #' $#(-
cena, nos permite interrogar, em termos inconfessáveis e com simulacro oligopo-      3->)=0=M-WK&'?&;'%-?(#;'C(D/3&;'R'&;'
materialistas, o que é “fazer arte” hoje. lizado do espaço público – e tudo o que    kene – de sua cultura.
A peça nos faz ver com mais clareza, estivesse fora desta caracterização seria           As contradições continuam vibrando
inclusive, que muitos artistas têm tema- =>;=C>=/3->)#5'%&(1,#'$-(C=>-0H             e tensionando a indústria cultural por to-
tizado a condição de produção da arte:          Não fosse o Latão um grupo marxis-   dos os lados, neste mundo feito – refeito
-'(#@#E=G=?-?#')&(>&,.;#'-)+',$'3-3&#)#' )-5'&')#&(#$-'4=;)Z(=3&'?-'-/($-WK&'?-'     – pelos vivos e pelos mortos.
no documentário; o incrível sucesso mar-
ginal dos Racionais leva Mano Brown a
(#@#)=(';&<(#'&;'?=0#$-;'?#';,-'3(=-WK&' Eu vi um Brasil na tevê: no ato final assistir sentado a Morrer de pé
na genial “Negro Drama”; e até quem
trabalha na Globo, com Guel Arraes e
Jorge Furtado, faz repetidos trabalhos
sobre o trabalho e a condição do artista
(Romance, O homem que copiava, An-
chietanos, Clandestinos – só para citar
os mais evidentes).
    À parte considerações de tema e de
(#@#E=G=?-?#'I&($-05'&')(-<-04&'-()Q;)=3&'
surge hoje de maneira nova e renovada,
em experiências que, ainda que não
devam suscitar ufanismos emancipáo-
rios, merecem consideração: pontos de
cultura, organizações em rede (como o
crucial Fora do Eixo, dos roqueiros, ou
o Circuitos Compartilhados, nas artes
plásticas), artistas de várias frentes que
lançam mão dos recursos digitais para
produzir e fazer circular o que produzem

                                                                                                    45 retratodoBRASIL      |   53

Ópera dos Vivos.Ou não

  • 1.
    Teatro ÓPERA DOSVIVOS. OU NÃO O novo espetáculo da Cia. do Latão traça um amplo painel crítico sobre a história da produção artística nacional, iluminando o eixo de sua afirmação de mercado, mas desconsidera as tensões internas dessa hegemonia por Leandro Saraiva APESAR DO JÁ costumeiro rigor pós-Golpe, seguido dos rearranjos as opções mundiais aparecem de dez em estético, intelectual e político de seus implicados na “adaptação” ao período dez linhas, a propósito de tudo”, como espetáculos, basta uma rápida olhada na militar e da formação da nossa sociedade diz Schwarz sobre o período. estrutura básica da nova peça do Latão de consumo (ou de consumo vicário), para perceber que se trata de um esforço saltando, numa teleologia irônica, direta- CINEMA NOVO, DE NOVO especialmente ousado e ambicioso. mente para os estúdios imperiais da “TV A&'-)&'BB5'3=>#$-)&C(D/3&5'&'3&>)#E)&5' O ato I, “Sociedade Mortuária”, re- Tudo”, para a qual toda a história parece e algo do estilo – câmera na mão, cortes encena a história da Liga Camponesa de convergir (e se anular). descontínuos, planos curtos, alternados Sapé, surgida a partir de uma associação Mas será que se trata, propriamente, com acúmulos de tempo, –, é o da urgên- entre os trabalhadores para o rateio das de uma recapitulação expositiva, de uma cia de Terra em transe. Mas em Tempo despesas de enterro de seus mortos, aula empirista de história da cultura? Morto o protagonista é o jovem empre- numa aproximação à produção do CPC Basta atentar um pouco para os rear- sário. Quem oscila é o burguês, versão (Centro Popular de Cultura). ranjos formais de cada ato, em relação do Fuentes de Glauber, aqui trazida ao !"#$%&'$&()&*'+',$'-)&./0$#'1,#' aos “originais”, para perceber que não centro: sua linguagem, tensionada pelo retoma, com brilho estilístico, a matriz é bem disso que se trata. O diálogo de furacão da história, não é a da poesia, cinemanovista utilizando-se de trama e fundo é com o clássico ensaio de Roberto como a de Paulo Martins, mas a dos personagens de Terra em transe (Glauber Schwarz, “Cultura e política 1964-1969” negócios. O que o arrasta para o círculo 2&34-5'6789:5';,<0=>4->?&'&;'3&>@=)&;' (em O pai de família e outros ensaios), já ?-' -()#' #;1,#(?=;)-' F&' )#-)(&' #' &' /0$#' de classe e as ambiguidades pessoais e em si mesmo sintetizante e interpretativo, 1,#'#0#'1,#('/>->3=-(:'+'&'#>G&0G=$#>)&' culturais do momento de vitória golpista sob um ponto de vista marcado pelo com Júlia, uma atriz engajada e, no lugar e de realinhamento reacionário da bur- interesse político de esquerda. Ópera do embate trágico, tudo se desfaz como guesia nacional. dos vivos desdobra, e traz para o pre- uma aventura. O transe do Golpe é então “Privilégio dos mortos”, o ato III,é sente, esta visão interessada e uma sutil representado pela perspectiva burguesa, um show de música – de ótima música e permanente “distorção criativa” das desde o nosso presente, no qual “venceu - no qual se confrontam Miranda, uma referências sumarizadas em cena. o sistema de Babilônia e o garção de cantora engajada que, no Golpe, entrou No ato cepecista, a moldura é meta- costeleta”, como aponta com triste graça em coma e agora reencontra um cenário linguística, com a ação sendo interrom- a frase de Oswald de Andrade citada por muito transformado, e um grupo clara- pida por comentários épicos dos atores Schwarz no prefácio a O ornitorrinco, de mente tropicalista, que se apresenta já sobre o caráter de estudo da montagem. Francisco de Oliveira. Deste ângulo da plenamente adaptado às demandas do Essa atualização – que deixa entrever burguesia nacional, a produção artística espetáculo de massa. o recorrente diálogo do Latão com o esquerdista – e, mais amplamente, as O ato IV, “Morrer de Pé”, é contem- Movimento dos Trabalhadores Rurais reformas de modernização democrática porâneo e narra um episódio de uma pro- Sem Terra (MST) – implica ainda em mu- – foi, literalmente, uma aventura com a dução televisiva que evidencia o processo danças de estilo na encenação do drama 1,-0';#'@#()&,'%&(',$'$&$#>)&H' industrial subjugando a criação artística. camponês, com motivações mais indivi- No debate que acompanhou este A recapitulação CPC-Cinema Novo- duais dos personagens do que aquelas ato, Ismail Xavier ampliou o leque de Tropicalismo-TV onipresente é acom- utilizadas pelo CPC, que trabalhou num pontos de atualização das referências panhada dos estágios históricos corres- clima de época altamente politizado, expostas e discutidas na peça-filme. pondentes, fazendo o quadro avançar implicando “uma certa abstração e velo- Lembrou que o Cinema Novo não se do período pré-Golpe para o imediato cidade do novo teatro e cinema, em que fez à margem, e sim por meio da busca 50 | retratodoBRASIL 45
  • 2.
    do sucesso nomercado regular das salas de cinema, retirando rendimento estético da tensão entre a vanguarda modernista e o desejo de intervenção no presente, com uma utopia política que era também empenho na conquista de hegemonia no $#(3-?&'3=>#$-)&C(D/3&5'3-$%&'%(=G=- legiado – justamente por ser industrial e ter mercado mundial – de combate anticolonialista. Essas considerações não contra- dizem a leitura feita pelo Latão, mas podem servir para um “deslocamento do deslocamento” que Tempo Morto &%#(-H'A&'/0$#'I#=)&'%#0&'J-)K&5'&'I&3&' se transfere do poeta engajado para o burguês, produzindo uma versão da obra glauberiana que sublinha as contradições de classe com as tintas do pragmatismo burguês. O comentário de Ismail chama a atenção para as dimensões também pragmáticas, que se misturavam ao projeto político e estético, das relações entre artistas e mercado, que iam além de uma miopia informada por uma má 0#=),(-'?&;'3&>@=)&;'?#'30-;;#'F=?#=-'1,#' Schwarz associa à arte e à política do PC pré-Golpe, e que o Latão reencena aqui -)(-G+;' ?&' @#()#' #>)(#' &' %(&)-C&>=;)-' burguês e a atriz engajada). Ou seja, havia um projeto de mercado, enunciado, aliás, muito claramente já em 1966, no artigo “Cinema Novo e estruturas econômicas tradicionais”, de Gustavo Dahl, que G=(=-' -' ;#(' ?=(#)&(' ?-' L$<(-/0$#5' ?#M' anos depois. Obviamente, o Latão sabe disso, e se prefere preservar Júlia das jogadas ambí- guas de Paulo Martins (e dos cinemano- vistas, que sentaram em todas as mesas militares necessárias à consolidação da L$<(-/0$#'#5'>&'/$'?&;'->&;'9N5'-)(-- G+;'?#0-'3&>1,=;)-(-$',$-';=C>=/3-)=G-' fatia do público consumidor, ), o faz para melhor construir, dentro da peça, a progressão da mercantilização da arte, que é o tema explícito do ato seguinte. O ”Privilégio dos mortos” tem a forma de um show tropicalista, que tem como convidada especial, e foco de 3&>@=)&5' O=(->?-5' -' 3->)&(-' #>C-P-?-H' As performances e as músicas são mui- to irônicas: “Borboleta Predestinada”, com sua dança de parangolés, anuncia o “desabrochar” dos astros tropicalistas, se adaptando às demandas do show Sociedade mortuária: os vivos e os mortos se encontram no palco 45 retratodoBRASIL | 51
  • 3.
    Tempo morto: aCia. do Latão refaz Terra em transe como arqueologia encenada do presente business; “As Entranhas do Monstro”, iluminados pela “luz fria” de formas Caetano cantou no Oscar e Gil assumiu $-=;'-=>?-5'#>I(#>)-5'#'G#>3#5'&'?#;-/&' ultramodernas – um “achado”, dizia o o Ministério da Cultura. A apreciação de fazer uma paródia da paródia pop autor, que introjetava, na forma estética, ?#;)-'=>)#(%(#)-WK&'?&')(&%=3-0=;$&'/3-' tropicalista: consegue ser divertida e as ambiguidades entre lucidez crítica e mais clara se considerarmos o retrato #/3=#>)#5' $-;' >#$' )->)&5' PD' 1,#5' %#0-' comercialismo, mimetizando (e também deste mundo-mercadoria, pintado na estranheza forçada da imagem, expõe expondo ao sol) o congelamento im- parte seguinte da peça. &'-()=IQ3=&'-0#C&(=M->)#'R'1,#'$=F;:)=/3-' posto pelo Golpe à dinâmica democrá- X' -)&' />-0' >-((-' ,$-' ;=),-WK&' #$' a Indústria Cultural como o monstro (a tica que prometia superar a contradição 1,#'-'@,=?#M'#/3=#>)#'?-'=>?Y;)(=-'3,0- música da cena choca, diverte, mas diz entre os setores pobres e atrasados e os tural se interrompe: durante a realização pouco – o compositor do Latão, Martin ricos e atualizados do país. A versão do de um melodrama televisivo sobre “os Eckerman, consegue dar uma volta a tropicalismo apresentada na peça nada tempos da ditadura”, um ator que os vi- mais no avesso do avesso do avesso). E tem dessas ambiguidades, mas apresenta veu se rebela contra seu papel – mais por há as falas do intelectual-cantor Cao (evi- apenas o cinismo bem informado pseu- motivos de verossimilhança psicológica dentemente, Caetano), que alternam evo- domoderno. do personagem torturador do que por cações irracionais e inversões brilhantes No debate sobre este ato, Francisco resistência política. E por um breve mo- das diretrizes da cultura do engajamento, Alambert, ao contrário de Ismail, não mento a indústria pára, até conseguir de espetacularizando a estética da fome. apresentou contrapontos, mas explicitou novo se impor - não por uma visão ideo- e sublinhou uma tese que está na peça: o 0ZC=3-5''PD'?#;>#3#;;D(=-'3&$&'P,;)=/3-)=G-' PARANGOLÉS AO VENTO tropicalismo, entendido como submissão –, mas apenas por fazer valer a força das Aqui o ponto de vista atualizante faz ca- da arte crítica nacional à forma-merca- engrenagens da produção e das relações ricatura do tropicalismo, a partir de suas doria, tornou-se tão hegemônico que se ?#')(-<-04&'(#=/3-?-;H'[,(->)#'#;)#'!<,C' versões mais vendáveis e desdentadas. confunde, hoje, com o próprio campo ?&';=;)#$-*'?#;/0-$'/-%&;'?#'3(=;#'?#' S34T-(M5' #$' 67875' @-C(-G-' -' =$-C#$' da produção artística nacional. Para ele, consciência dos trabalhadores culturais, tropicalista como um instantâneo dos a vitória absoluta do tropicalismo tem desimportantes frente ao mastodôntico arcaísmos do subdesenvolvimento, 3&$&' $-(3&' &' ->&' ?#' UNNV5' 1,->?&' poderio industrial. O TRABALHO NA TELA As predestinadas borboletas tropicalistas caminhando e cantando as entranhas do monstro Como disse Maria Rita Kehl, o tema central é o trabalho da representação e a alienação do trabalhador deste processo, o artista. Frente a tal fechamento de hori- zontes, segundo a analista, e como narra também o Latão, a memória se torna nostálgica e lírica, como acontece com a canção de Miranda, tão viva no início da peça, e reduzida a repertório antigo, no circo da mercadoria contemporâneo. Este rigoroso “teorema”, como cha- mou Alambert, tem o mérito de colocar em foco a questão central das relações de trabalho da produção cultural, as histori- cizando através de ensaios com formas do passado, produzidas dentro de outro quadro de relações. A operação, bastante inteligente, obtém a façanha brechtiana ?#'?#;>-),(-0=M-('&'!%(&/;;=&>-0=;$&*'R' que, aliás, Nelson Xaiver e João das Ne- 52 | retratodoBRASIL 45
  • 4.
    fora do contextoindustrial – uma gama mercantilização da arte nacional seria um de formas de produção com as quais resultado e tanto. Mas uma parte, mesmo a gestão de Gilberto Gil, no MinC, se que central, não vale pelo todo dinâmico. relacionou aberta e criativamente. Como lembrou Marcos Napolitano no O teorema de Ópera dos Vivos tem, debate com Alambert, se tudo é contra- portanto, o mérito depor a nu a questão ditório, é preciso considerar o conjunto das relações de produção das artes, mas de forças contrárias à mercantilização, não aponta sua luz para as forças em inclusive no âmago da indústria cultural. contradição com o eixo do poder e do Não é preciso muito marxismo para capital. compreender que o mesmo processo Claro, pode-se facilmente argumentar que concentra poder e capital na “TV 1,#'&')#&(#$-'?-'%#W-'<,;3-'?#/>=('&'G#- ",?&*'F#'-/>;:'%(&?,M')#>;#;'R'3&$&' tor dominante do sistema cultural – o da as vividas inclusive por artistas inovado- ves, artistas que viveram intensamente o res que nela trabalham –, e, como na era período do engajamento e mantêm suas posições políticas até hoje, fazem ques- Luz sobre a ?&' ?=C=)-0' /3-' $-=;' #G=?#>)#5' 3(#;3#$' as forças produtivas, de um modo que tão de reivindicar em seus depoimentos (sobre este importante ponto, vale a mercantilização o capital tenta controlar, mas que lhe escapa por todos os dedos. pena ler as observações de Ismail no livro Cinema brasileiro contemporâneo, da arte, e alguma ]=%#()(&/-(' !-' "^*' #' !&' )(&%=3-- lismo” até torná-los um DNA de toda a vasta fauna e flora cultural talvez 1,#'I-0-';&<(#'&'/0$#.$-(3&'?&'/$'?&' período moderno no cinema brasileiro, penumbra sobre seja construir uma imagem congelada, Cabra marcado para morrer, que se inicia incapaz de reconhecer o que há, ainda, como uma produção cooperativada entre estudantes e camponeses e se conclui as contradições senão de subversivo, pelo menos de instigante, por exemplo, nos arranjos de 15 anos depois do Golpe, como obra sociedade do espetáculo, em suma – e não Caetano para clássicos da música norte- (#@#E=G-'?#',$'?=(#)&('1,#5'3&$&')&?&;5' estas tensões periféricas. Esse entendi- americana (em A foreing sound), ou no )&(>-(-.;#',$'%(&/;;=&>-0:H' mento foi defendido por Maria Rita Kehl trabalho de Furtado, ou, em outra ponta e Eugênio Bucci no debate sobre a TV, do espectro social dos produtores, em O CENTRO E AS CONTRADIÇÕES que engrossaram o caldo frankfurtiano ,$'/0$#'3&$&'_;'G&0)-;'?&'`#>#5'?&' De fato, a atividade artística já foi outra ao caracterizarem a TV como uma forma cineasta huni kui Zezinho Yube, que coisa, e a evidência disso, posta em de satisfação de desejos inconscientes, @-C(-' -' )#>;K&' #>)(#' )(-?=WK&' #' $#(- cena, nos permite interrogar, em termos inconfessáveis e com simulacro oligopo- 3->)=0=M-WK&'?&;'%-?(#;'C(D/3&;'R'&;' materialistas, o que é “fazer arte” hoje. lizado do espaço público – e tudo o que kene – de sua cultura. A peça nos faz ver com mais clareza, estivesse fora desta caracterização seria As contradições continuam vibrando inclusive, que muitos artistas têm tema- =>;=C>=/3->)#5'%&(1,#'$-(C=>-0H e tensionando a indústria cultural por to- tizado a condição de produção da arte: Não fosse o Latão um grupo marxis- dos os lados, neste mundo feito – refeito -'(#@#E=G=?-?#')&(>&,.;#'-)+',$'3-3&#)#' )-5'&')#&(#$-'4=;)Z(=3&'?-'-/($-WK&'?-' – pelos vivos e pelos mortos. no documentário; o incrível sucesso mar- ginal dos Racionais leva Mano Brown a (#@#)=(';&<(#'&;'?=0#$-;'?#';,-'3(=-WK&' Eu vi um Brasil na tevê: no ato final assistir sentado a Morrer de pé na genial “Negro Drama”; e até quem trabalha na Globo, com Guel Arraes e Jorge Furtado, faz repetidos trabalhos sobre o trabalho e a condição do artista (Romance, O homem que copiava, An- chietanos, Clandestinos – só para citar os mais evidentes). À parte considerações de tema e de (#@#E=G=?-?#'I&($-05'&')(-<-04&'-()Q;)=3&' surge hoje de maneira nova e renovada, em experiências que, ainda que não devam suscitar ufanismos emancipáo- rios, merecem consideração: pontos de cultura, organizações em rede (como o crucial Fora do Eixo, dos roqueiros, ou o Circuitos Compartilhados, nas artes plásticas), artistas de várias frentes que lançam mão dos recursos digitais para produzir e fazer circular o que produzem 45 retratodoBRASIL | 53