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DIANA NEVES
"Um romance sexy e intrigante que desvenda todas as fragilidades humanas... "
- Diana Neves, autora do romance
UM MAR DE ROSAS
OS TRAIDORES
2ª EDIÇÃO
DIANA NEVES
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OS TRAIDORES
Aos trinta e nove anos, Laura Alves
tem todos os motivos para ser uma
mulher feliz. Vive um casamento de
sonho, é mãe de duas crianças
maravilhosas e possuí uma carreira
brilhante enquanto Neurocirurgiã.
No entanto, a chegada do cunhado irá
pôr em causa tudo o que conquistou.
Envolvida num tórrido caso extra-
conjugal, ela mergulha num ciclo
vicioso do qual não consegue sair, e
quando o pior acontece, vê-se intimada
a pagar pelos seus erros e a avaliar pela
primeira vez o que é realmente
importante para si.
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OS TRAIDORES
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"Este romance é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e factos são produtos da imaginação
da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, acontecimentos e lugares é mera
coincidência."
Todos os direitos reservados.
2ª Edição/2014
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Laura Mendonça e Leonardo Alves viviam numa grandiosa moradia a poucos
quilómetros de Lisboa. Um espaço agradável, com dois pisos bem decorados e um
jardim idílico à volta. Quando se casaram, ele era ainda um arquitecto em início de
carreira com vontade de crescer na empresa onde começara a trabalhar. Ela, por
seu turno, era uma jovem médica promissora, dedicada de corpo e alma à sua
profissão. Conheceram-se num jantar de amigos no ano de 1996 e desde então
nunca mais se largaram. Foi amor à primeira vista, ele confessou anos mais tarde.
Assim que chegou ao restaurante Leonardo ficou imediatamente encantado pela
presença de Laura. Dona de uma estatura elevada - 1,77m de altura - a médica
exibia lábios finos, cabelos loiros compridos e um atributo especial que o
arrebatou desde o primeiro momento em que a viu. Olhos tão verdes como duas
esmeraldas.
Laura também se deixou seduzir pelo jeito cordial do arquitecto. Achou-o
particularmente atraente, embora na altura tivesse tentado esconder o seu
interesse a todo o custo. Leonardo era um homem bonito, alto e elegante. Possuía
cabelos castanhos e olhos escuros, cobertos por um par de óculos transparentes
que usava desde os tempos da adolescência nunca pensando em desfazer-se deles
sob pena de não conseguir enxergar um palmo à frente do nariz.
O arquitecto tinha consciência de que os seus óculos não eram um chamariz às
raparigas. Conferiam-lhe um ar demasiado sério e intelectual, e na altura, finais
dos anos noventa, as raparigas queriam tudo, menos um namorado sério e
intelectual. Queriam aventuras, queriam namorar o rapaz mais giro da turma e
cometer loucuras típicas de adolescentes. Laura parecia ser a excepção à regra.
Após alguns romances fracassados e desilusões amorosas, Leonardo agradeceu
aos céus a sorte de a ter encontrado naquela noite. Bela, discreta, inteligente e
inconscientemente sedutora. Nunca mais a largou. Nunca mais ficou um dia sem a
ver. Seis meses após terem começado a namorar, ainda que nunca se tivessem
tocado intimamente, ele já sabia que queria passar o resto da vida ao lado dela.
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Laura era uma mulher muito bonita, brilhante e dinâmica, mas sempre faltara
algo nela. Talvez uma certa ternura e gentileza. Não se podiam utilizar tais
palavras para a descrever. Ambicionava mais da vida do que ser apenas uma
simples médica ou a perfeita dona de casa. Tinha vinte e quatro anos quando
conheceu Leonardo, era virgem e nunca namorara ninguém.
Ele estranhou tal facto. Ela dissera-lhe que andara demasiado ocupada a realizar o
seus objetivos e a atingir os seus fins. Prometera a si própria, confessara-lhe um
dia que aos quarenta anos seria uma Neurocirurgiã de sucesso.
Leonardo encarou a frieza dela como um desafio. Aos seus olhos, Laura parecia
uma mulher de extrema inteligência e competência com um perfeito controlo
sobre todos os aspectos do seu mundo. Cada sorriso, cada gesto mais efusivo era
como que uma vitória para si pois Laura não demonstrava afabilidade com
qualquer outra pessoa.
O pedido de casamento surgiu dois anos depois num fim-de-semana romântico à
Serra da Estrela. Foi aceite na hora. Laura sabia que não encontraria ninguém
melhor. Casaram-se numa cerimónia civil, simples e descomprometida contando
apenas com a presença de amigos próximos que de antemão já sabiam qual seria o
final daquela história.
Chovia torrencialmente naquela tarde de Sábado, mas isso não foi motivo
suficiente para estragar o dia mais feliz das suas vidas. Ela foi com um vestido
simples em tons de bege, os cabelos presos abaixo da nuca e um pequeno ramo de
lírios nas mãos. Ele, por seu lado, apareceu de fato e gravata sem se preocupar
com nenhum outro detalhe a não ser com a presença dela.
Financeiramente independentes, partiram de lua-de-mel para Toscana, Sul de
Itália. Permaneceram duas semanas num clima de total romance e quando
regressaram a Lisboa alugaram um apartamento no centro da cidade a poucos
metros do hospital onde Laura trabalhava.
A casa não era muito grande. Possuía apenas dois quartos mas uma vista
esplêndida sob a cidade. No entanto, era um pouco impessoal aos olhos de
Leonardo, que sempre sonhou adquirir para si e para a sua família um espaço
amplo onde não faltassem os churrascos aos Domingos e um grandioso jardim à
volta onde os filhos pudessem brincar.
Ele desejava ter filhos. Queria ver os quartos cheios de risos e de ruído, mas Laura
mostrava-se relutante em aceitar a ideia. Ela gostava de morar no centro da
cidade, de ter tudo ali ao pé e um apartamento pequeno que não desse muito
trabalho a limpar. Talvez fosse egoísta da sua parte pensar dessa forma, mas a
verdade é que após dois anos de casamento, completamente mergulhada no seu
Internato e sem tempo para respirar, tudo o que ela não desejava na altura era
organizar churrascos aos Domingos e muito menos em ter filhos que pudessem
brincar num jardim inexistente.
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Os seus objectivos eram outros e estavam traçados desde há muito. Medicina. Era
isso que a movia, era apenas nisso que pensava e era isso que se via a fazer para o
resto da vida.
Mas as cobranças de Leonardo foram surgindo de forma subtil. Aos trinta e um
anos crescia-lhe o desejo de ser pai e formar uma família - um sonho que o
acompanhou desde os tempos da adolescência - altura em que perdeu os seus
progenitores num terrrível acidente de viação e se viu obrigado a viver numa casa
de acolhimento até aos dezoito anos. Foram tempos difíceis, ultrapassados a muito
custo, mas que deixaram marcas irreparáveis. O término da família biológica
provocou em si a vontade de querer formar uma nova e recuperar tudo o que
havia perdido após a morte dos pais e o afastamento súbito do seu irmão mais
novo. Nunca mais soube nada dele. Separaram-se ainda jovens e cada um seguiu o
seu caminho. A última vez que se viram foi com o intuíto de se despedirem. O
irmão iria sair do país e tentar uma vida nova no estrangeiro sem intenções de
algum dia regressar a Portugal. Leonardo não fez absolutamente nada para o
impedir. Achou que não valia a pena. De qualquer maneira, não tinham nada em
comum e as suas vidas há muito que haviam tomado rumos diferentes.
As primeiras insinuações surgiram três anos após o casamento, a príncipio algo
espaçadas no tempo, mas depois cada vez mais impertinentes e acutilantes.
Leonardo mostrou a sua vontade em ser pai, mas Laura negou-lhe veemente o
pedido dizendo que ainda era muito cedo para pensarem nisso. Ele ainda tentava
consolidar a sua carreira e ela lutava por terminar o seu Internato. Não era tempo
de cometer precipitações apenas por um desejo ou um capricho, ela dizia.
Chegaram ao ponto de uma possível ruptura quando por indicação do seu
Orientador, Laura recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar num centro
hospitalar em Londres. Ao saber disso, Leonardo encostou-a contra a parede e
disse-lhe em poucas palavras: ou eu ou esse trabalho. Ainda que não tivesse a certeza
de qual seria a escolha da mulher, o arquitecto respirou de alívio quando ela
decidiu recusar o convite. Laura resignou-se à ideia de exercer funções médicas
numa clínica privada no centro de Lisboa e oito meses depois descobriu que
estava grávida. Foi um acidente. Não contava com isso e nem conseguiu esconder
a sua contrariedade por ter cometido o deslize de esquecer a pílula numas
malditas férias de Verão no Douro.
Já Leonardo não poderia ter ficado mais radiante com a notícia. A alegria tornou-
se ainda maior quando descobriu que a mulher estava grávida, não de uma, mas
de duas crianças. Gémeos. Dois rapazes que dentro de pouco tempo iriam correr
pela casa e enchê-la de alegria, tal como ele sempre sonhou.
A vida seria um pouco agitada com a profissão que tinham, mas seria
compensador no final das contas. Conseguiriam criar os filhos, manter o
casamento e ser felizes para sempre.
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Podia até parecer romântico demais, mas era o que Leonardo achava que iria
acontecer sempre que tocava na enorme barriga da mulher e projectava um futuro
risonho para os quatro.
Os nove meses que se seguiram foram clinicamente complicados. Laura deixou de
trabalhar no quinto mês de gestação, engordou quinze quilos e sentiu uma enorme
dificuldade em manter-se de pé. Os gémeos deveriam nascer no começo de
Setembro e no último mês ela só saía da cama para ir à casa de banho. Comia
como uma leoa, passava os dias a ver televisão no quarto e não deixava sequer que
o marido a tocasse. Havia algumas semanas que seu colo uterino começara a
adelgaçar e ela já apresentava alguma dilatação. Cada vez que se levantava, nem
que fosse por pouco tempo, sentia contracções. Estava farta de ficar deitada e tinha
medo que alguma coisa corresse mal.
Uma semana antes da data marcada, começou a sentir as primeiras contracções.
Estava sozinha em casa, o marido tinha ido trabalhar e por isso ela achou melhor
levantar-se da cama e andar pelo apartamento durante algum tempo só para
ajudar. Telefonou também à sua médica avisando-a que possivelmente chegara a
hora. No final da tarde, quando Leonardo chegou a casa, as dores tornaram-se
mais intensas. Era impossível saber o que era pior. Estar sentada, estar deitada ou
estar de pé. O marido quis levá-la imediatamente para o hospital, mas Laura
aguentou firme as dores parecendo muito menos nervosa que ele. Ao longo da
noite foi mantendo contacto com a sua médica. Falaram sobre todas as
possibilidades e a médica surpreendeu-se com a frieza dela. Nunca antes tinha
visto uma grávida tão calma e despreocupada.
Perto das quatro da manhã, quando chegou ao hospital, Laura parecia estar a
fazer força há horas e nada acontecia. Leonardo olhou para o relógio e perguntou-
se quanto tempo mais a mulher iria resistir àquela prova de fogo sem perder a
razão. E de repente, o quarto encheu-se de gente. Dois médicos, um deles a
obstetra que a acompanhou durante todo o período de gestação, uma enfermeira e
um auxiliar de serviço. Apareceram duas pequenas bacias de metal e o círculo de
máscaras se fechou em volta da parturiente. Leonardo posicionou-se ao lado da
mulher e ofereceu-lhe a mão esperando que ela a apertasse com força.
Infelizmente, foi isso que aconteceu. Em vez de gritos e lágrimas naturais em todas
as grávidas, Laura concentrou todas as suas energias em apertar as mãos do
marido, esmagando-as com força. Ele encorajou-a, beijou-a nos cabelos e pediu
para que ela se mantivesse calma. Perdeu a conta das vezes que o fez. E então
todos estavam a gritar, estimulando-a e encorajando-a. Leonardo viu a cabeça do
primeiro bebé a sair para o mundo. É um menino, a médica disse e ele ficou
apavorado com a cor roxa da criança. A enfermeira acalmou-o dizendo que era
normal e logo levou o bebé para os braços da mãe. Mas Laura estava tão exausta
que nem sequer prestou atenção àquele ser inofensivo que agora era seu filho.
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Tocou-o no rosto ao de leve, mas logo sentiu uma enorme contracção que a
obrigou a contorcer-se na cama. As dores continuaram e foi preciso o uso de um
fórceps para corrigir a posição do outro bebé. Leonardo nem podia olhar para o que
estavam a fazer com a sua mulher. No meio de toda aquela aflição apenas rezava
para que tudo corresse bem. Às onze da manhã já nem a reconhecia. Com os
cabelos molhados, a testa encharcada de suor e a face vermelha de tanto esforço,
Laura não parecia sequer estar consciente.
O outro bebé era bem mais teimoso que o primeiro. Manteve-se no útero da mãe
durante uma hora ainda que ela o tentasse expulsar a todo o custo. Se o outro
menino não sair em poucos minutos, temos que partir para uma cesariana, a médica
avisou. Mas Laura recusou terminantemente tal procedimento. Ele vai sair, ela
gritou desesperada. Ele vai sair.
Quando estavam todos prestes a desistir, o bebé moveu-se e começou a descer
lentamente. Era quase meio-dia e Laura estava praticamente inconsciente. E então,
de um momento para o outro, lá estava o outro rapaz, a gritar em plenos pulmões,
olhando ansioso à sua volta como se estivesse à procura da mãe. Nesse momento,
quase instintivamente, Laura ergueu a cabeça e viu-o. Agradeceu aos céus e voltou
a cair com a cabeça sobre a almofada, rindo e chorando ao mesmo tempo
enquanto o marido lhe cobria o rosto de beijos, parabenizando-a por ter
conseguido ultrapassar aquela verdadeira prova de fogo.
Para Laura foi como se todas as suas dores e todo o seu sofrimento tivessem tido
um fim no minuto em lhe foram colocados nos braços os dois seres mais preciosos
da sua vida. O epítome da felicidade ocorreu aquando da primeira fotografia
tirada por Leonardo. Exausta pelas oito horas do parto que foi obrigada a
suportar, Laura segurou os gémeos em cada um dos seus braços e abriu um
sorriso radiante que contrastou com o choro compulsivo das suas crianças.
André e João foram os nomes foram escolhidos pelo pai. Duas crianças irriquietas
e saudáveis que em pouco tempo cresceram e se tornaram dois seres distintos.
Vestiam-se de maneira diferente, comportavam-se de maneira diferente e lidavam
com as situações de forma diferente. André era dono de uma personalidade forte e
vincada, tal como a mãe. Amuava com facilidade e queria que tudo fosse feito à
sua maneira. Recusava os carinhos do pai e desobedecia frequentemente às ordens
da mãe. João, era o oposto. Doce, carinhoso e calmo, aceitava tudo o que lhe era
dito. Parecia trazer a bondade nos olhos e no coração.
O apartamento onde viviam passou a ser demasiado pequeno para abrigar tanta
agitação. Quando as crianças completaram três anos, Laura e Leonardo foram
obrigados a adquirir uma grandiosa moradia nos arredores de Lisboa. Uma casa
com dois pisos, um jardim gigantesco e a inexistência de vizinhos próximos que se
pudessem queixar dos churrascos organizados aos fins-de-semana.
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Sete anos se passaram e a rotina instalou-se na família. Laura regressou ao seu
trabalho na clínica logo após o nascimento dos filhos. Esperou o período de
amamentação, mas pouco mais do que isso. De qualquer maneira o seu leite era
fraco e secou ao fim de seis meses. Durante esse tempo estava cansada de ficar em
casa a tomar conta das crianças, a trocar fraldas oito vezes por dia, a preparar seis
biberons e quatro banhos diários, a adormecer um dos filhos e logo a seguir a ver o
outro acordar, a passar noites e noites em claro, a esfalfar-se para andar pelas ruas
e edifícios da cidade com um carrinho duplo quando todos se derretiam com os
seus filhos e a sua única vontade era cortar os pulsos.
O marido ajudava-a de todas as formas que podia, mas não era a mesma coisa.
Por uma sobrecarga total de horários, três anos após o nascimento dos filhos,
Laura e Leonardo resolveram a contratar uma empregada para tomar conta das
crianças. Chamava-se Alicia, tinha vinte e cinco anos, vinha do Brasil, era algo
obesa, com cabeleira negra farta, olhos castanhos e pele excessivamente clara. Uma
moça simples sem muita instrução ou familiares próximos mas que rapidamente
se apegou aos gémeos e eles a ela. Fora contratada por ter sido a única candidata a
responder exactamente o que Laura queria ouvir. Não gosto de sair à noite. Não
fumo. Não bebo. Não tenho namorado. Sou evangélica e adoro crianças.
As suas tarefas consistiam em limpar a casa, buscar as crianças ao colégio e às
aulas de natação, deixar o jantar pronto e aguardar a chegada dos donos da casa -
quase sempre o patrão - já raras vezes tinha o privilégio de se encontrar com
Laura, a não ser de manhã, na cozinha, a poucos minutos da médica sair para ir
trabalhar.
Laura trabalhava praticamente sessenta horas por semana, não porque fosse
necessário, mas porque o exercício da Medicina continuava a ser um dos aspectos
mais importantes da sua vida e o oxigénio que a impulsionava a querer superar-se
todos os dias. Na clínica onde trabalhava era reconhecida pela sua competência
extrema, mas para ela isso era muito pouco. Queria bem mais do que o
reconhecimento dos outros. Queria o seu próprio reconhecimento, ainda que isso
parecesse impossível sempre que se via confrontada com o seu perfeccionismo
doentio.
Leonardo, por seu lado, subiu a pulso no escritório de arquitectura onde começou
a trabalhar logo após o final do seu Doutoramento. Cinco anos depois assumiu a
gestão dos projectos e o comando de uma equipa de jovens arquitectos.
Trabalhava cerca de dez horas por dia - bem menos do que a mulher - mas todas
as semanas era confrontado com reuniões fora de hora ou viagens esporádicas que
o impediam de estar com a família o tempo que desejava. Eram raros os momentos
em que todos se sentavam à mesa e partilhavam uma refeição agradável sem
pressas de realizar outras tarefas em simultâneo.
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Quando a mulher regressou ao trabalho, Leonardo passou a ser uma figura
presente não só em casa mas também na vida dos filhos. Era um óptimo pai e não
se coibia de tomar para si tarefas normalmente destinadas às mães. Para ele não
era sacrifício nenhum. Fazia-o por gosto e também por nutrir pelos filhos um amor
incondicional. Agradecia todos os dias a dádiva que era tê-los na sua vida e
agradecia também o facto de ser casado com uma mulher que continuava a amar
mais do que tudo. Apesar da gravidez, para ele, Laura continuava a ser uma
mulher extraordinariamente bonita, longilínea, elegante, com um corpo perfeito e
mãos graciosas. Muitos consideravam a sua personalidade intragável, mas ele não.
Gostava do seu modo de pensar, das coisas que dizia e do modo como as fazia. O
relacionamento de ambos era construído com base no respeito mútuo e carinho.
Eram muito bons na cama. Sempre o foram. Às vezes, ele até achava que depois de
onze anos, eram melhores ainda.
Numa noite particularmente friorenta de início de Novembro, depois de pôr os
filhos na cama, Leonardo regressou ao quarto e colocou uma música inebriante no
leitor de CDs. Ouviu-a pela manhã na rádio. Uma espécie de world music com um
toque de blues e nuances africanas. Ele sabia que Laura gostava daquele género
musical. Fazia-a relaxar após um dia extenuante de trabalho e esquecer-se nem
que fosse por alguns minutos a enorme responsabilidade que a sua profissão
acarretava.
Quando ouviu os primeiros acordes da guitarra, deitada na banheira da casa-de-
banho, enquanto a espuma branca cobria toda a água, Laura sentiu subitamente as
suas pernas balançarem ao sabor da música. Pouco tempo depois, a porta da casa
de banho abriu-se e por detrás dela surgiu a figura descontraída do marido
trazendo nas mãos duas taças de cristal e uma garrafa de vinho tinto. Ao vê-lo,
Laura sorriu calorosamente e ele correspondeu de forma igual. Conhecia-o bem.
Onze anos, mas a técnica para a seduzir continuava a mesma. Uma casa de banho
praticamente às escuras, uma música insinuante e duas taças de vinho com o
único objectivo de a libertar de inibições.
- Onde é que descobriste esta música? - ela perguntou.
- Na rádio, hoje de manhã. Gostas?
Laura acenou positivamente.
- Há espaço para mais um? - ele perguntou.
- Claro...
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A voz sensual da mulher foi o impulso que Leonardo necessitou para se livrar das
roupas que trazia consigo. Sem hesitações, ele despiu a velha e larga camisola de
malha cinzenta e as suas calças de ganga azuis. Também não mostrou cerimónias
em desfazer-se dos boxers e do par de meias pretas, atirando-as para o chão.
Enfiou-se na banheira. Sentiu a água quente acariciar-lhe o corpo desnudo e o
toque das pernas da mulher quase lhe provocaram um choque térmico.
A garrafa de vinho, tal como as duas taças que trouxe da cozinha, ficaram do lado
de fora, junto à banheira. Ele alcançou-as sem muito esforço e encheu-as até ao
topo. Entregou uma taça a Laura e a outra deteve-a na sua mão direita, enquanto a
poucos metros de distância, no quarto, o leitor de CDs fazia o favor de voltar a
música ao início.
Laura bebeu então o primeiro gole e Leonardo acompanhou-a. Quando o líquido
amargo entranhou-se-lhes na garganta, ela inclinou a cabeça para trás e fechou os
olhos. Ele, por seu lado, acariciou-lhe os joelhos perfeitos e beijou-os com devoção.
O cheiro a sabonete e o sabor da água salgada impeliram-no a estender o braço e a
puxá-la para o seu colo. Deu-se o primeiro beijo, as primeiras carícias e a vontade
alucinante de cometer loucuras no interior de uma banheira que em momentos
similares parecia minúscula.
Após longos minutos de um prazer, Laura soltou um longo gemido, cravou as
unhas nas costas do marido e enterrou os lábios húmidos no seu pescoço. Tudo
pareceu ganhar um novo sentido. A respiração acalmou, o coração retomou a
batida e o cansaço apoderou-se do seu corpo. O mesmo aconteceu com Leonardo,
que muito gentilmente a manteve apoiada sobre o seu ombro e lhe acariciou os
cabelos molhados até ter a certeza de que o acto havia terminado para os dois.
- Acho que a água arrefeceu.
- Tens razão – Leonardo concordou e os dois riram-se baixinho.
- Vou sair.
- Não! Fica! Vamos terminar o vinho.
- Tenho frio.
- Fica – ele insistiu, tomando-lhe o rosto com as mãos.
- Não! Tenho frio…
- Vais-me deixar aqui sozinho?
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- Tenho frio, já disse!
Leonardo soltou um longo suspiro de resignação e permitiu que Laura saísse nua
da banheira. Ela alcançou o robe sobre o lavatório e vestiu-se de costas a fim de
fugir ao seu olhar desconfiado. Ele sentia que nos últimos tempos ela lhe vinha
escapando por entre os dedos sempre com desculpas de que estava cansada, de
que tinha sono, de que tinha frio ou até mesmo de que tinha que acordar cedo.
Qualquer desculpa servia para manter aquela barreira invísivel e intransponível
entre os dois que já se vinha arrastando há vários meses.
- Vais ficar aí? – ela perguntou, apertando o cinto do seu robe de seda.
- Um pouco mais – Leonardo alcançou a garrafa de vinho junto à banheira. – Já
que não me queres fazer companhia.
- Estou cansada.
Leonardo sorriu, encolheu os ombros e balançou a cabeça como se estivesse à
espera daquela resposta.
- O que foi!? - ela perguntou, desconfiada.
- Isso pergunto eu! O que foi?
- Nada.
- Está tudo bem?
- Está! Porquê?!
- Por nada - Leonardo sorriu inigmaticamente. - Apenas perguntei se está tudo
bem.
- E eu respondi que está! Encontras-me na cama...
Quando a mulher abandonou a casa de banho, Leonardo engoliu o resto do vinho
que tinha no copo e permitiu que os seus sentidos se perdessem no interior
daquela habitação ainda aquecida pelo vapor da água.
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A música que vinha tocando desde há vários minutos foi subitamente desligada e
o silêncio voltou a apoderar-se da atmosfera. Sem pressas de sair da banheira e
sem olhar para o relógio de pulso que deixou sobre o lavatório, o arquitecto
permaneceu ali, de olhos fechados, com um copo vazio nas mãos, submerso num
quotidiano que tão bem conhecia. Não pensou em nada. Não pensou em ninguém.
Pela primeira vez, desde o início da semana, pensou apenas em si. Congratulou-se
em silêncio por aqueles escassos minutos de paz.
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Todos eram unânimes em curvar-se perante a figura imponente de Eduardo
Lima. O seu estatuto enquanto um dos melhores Neurocirurgiões do país
conferiam-lhe esse privilégio. Eduardo era um profissional de saúde dedicado e
competente, mas com um temperamento extremamente difícil e implacável. Era
temido por todos, nunca admitindo falhas, falta de profissionalismo e muito
menos atrasos. Por esse motivo, quando foi convidado a juntar-se à equipa
cirúrgica liderada por Laura Alves – a melhor aluna que alguma vez teve em sua
posse enquanto leccionava a disciplina de Neurofisiologia Clínica na faculdade de
Ciências Médicas de Lisboa – foi a primeira pessoa a chegar ao local marcado.
Fê-lo pontualmente às nove horas da manhã seguindo pelos corredores da clínica,
trajado com a sua bata branca habitual.
Eduardo jamais aceitou o papel de mero médico assistente numa sala de
operações, mas o convite de Laura para fazer parte de uma das cirurgias mais
estimulantes da sua carreira, obrigou-o a engolir o seu orgulho e dar o braço a
torcer. De facto, não era todos os dias que um Neurocirurgião tinha a
oportunidade de extrair dois tumores do cérebro de um paciente.
O caso que iriam operar era particularmente complexo. O paciente não possuía
apenas um, mas dois tumores malignos em cada hemisfério cerebral. Laura não
pensou duas vezes em aceitar o desafio. Passou semanas em inúmeras
videoconferências com vários Neurologistas e Neurocirurgiões do país, estudando
e traçando o melhor plano cirúrgico. Todos os profissionais que contactou foram
unâmimes em confirmar a complexidade do caso e quase todos se mostraram
interessados em participar na cirurgia.
Laura sabia que o planeamento e a escolha da equipa médica que a iria
acompanhar no bloco operatório eram vitais para o sucesso da cirurgia. Por esse
motivo, escolheu os melhores profissionais - sendo um deles o seu ex-professor e
ex-orientador, Eduardo Lima. O único Neurocirurgião a quem ela reconhecia
maior competência que a sua.
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A duas semanas da cirurgia, Laura realizou uma biópsia estereotáxica ao crânio
do paciente. Baseada na imagem do exame, fez os cálculos com o auxílio do
computador, determinando com precisão a localização dos tumores. O paciente foi
levado para o centro cirúrgico e sob anestesia local foi submetido a uma pequena
incisão no couro cabeludo. Laura abriu o orifício no osso do crânio e introduziu o
instrumental cirúrgico guiado com exactidão para alcançar as lesões cerebrais.
Finalizou a cirurgia, retirando a agulha e fechando a pequena incisão na pele com
pontos simples. Mais tarde, informou ao anestesista destacado para o caso as
constatações a que chegou através dos exames médicos. O Anestesiologista, por
sua vez, não escondeu todas as contra-indicações, bem como quaisquer suspeitas
que pudessem gerar dificuldades ao acto operatório colocando em causa a
segurança do doente.
Como em todos os procedimentos cirúrgicos, a cirurgia apresentava riscos e
complicações. Infecções, sangramentos, convulsões ou a perda parcial ou total de
algumas funções cerebrais podiam ser os piores resultados. Mas Laura estava
decidida a avançar, ainda que isso significasse a morte do paciente na mesa de
operações.
- Preparada?! – Eduardo bateu à porta e entrou no consultório sem sequer ser
anunciado.
- Dr.º Eduardo – Laura cumprimentou-o com um aperto de mão firme. – Como
está?
- Muito bem! E a Dr.ª?
- Expectante! Estava aqui a analisar a última ressonância magnética do paciente.
- Posso ver?
- Claro.
Eduardo colocou os seus óculos de leitura e aproximou-se do ecrã onde se
encontravam expostos os últimos exames.
- É visível um maior inchaço no segundo tumor – Laura acendeu a luz interna do
ecrã. – O líquido cefalorraquidiano está a aumentar no encéfalo e a obstruir estes
vasos sanguíneos...
- Nada que já não estivessemos à espera.
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- Corremos riscos em realizar esta cirurgia, mas não pretendo recuar.
- Esta cirurgia é de vida ou de morte! Não há meio termo - a afirmação de Eduardo
provocou um frio na barriga de Laura.
- A equipa que nos vai acompanhar está formada e o bloco operatório preparado.
O paciente irá ser levado para lá dentro de duas horas.
- Qual é o plano cirúrgico?
- Começaremos primeiro com uma Craniotomia para obtermos o acesso às
meninges. Depois faremos uma série de trepanações até chegar à dura-máter.
Nessa altura, iremos brocar todas as estruturas dentro da marcação para
conseguirmos visualizar os tumores. Sei que vai ser impossível numa primeira
etapa removermos completamente as células cancerígenas, por isso, iremos retirá-
las parcialmente, e num segundo tempo, após a estabilização do paciente,
retiraremos o restante. A biopsia por agulha guiada irá ajudar-nos a extrair o
máximo de células por aspiração enquanto monitoramos o nervo facial para que
não existam riscos de lesão. Depois de extrairmos a maior parte dos tumores,
utilizaremos a gordura do abdómen para fechar a cavidade e para prevenir a
formação de fístula. A cola biológica também nos ajudará neste processo...
- O importante é não corrermos o risco de destruir as estruturas nervosas do
paciente.
- É o que eu também acho - Laura voltou a fechar a luz do ecrã.
- Queria vê-lo antes de entrarmos no bloco. Está acordado?
- Sim! Está no quarto acompanhado por familiares. Mas se quiser, podemos ir até
lá. Conversamos um pouco com ele e explicamos mais detalhadamente todo o
processo da cirurgia. Infelizmente o senhor está um pouco assustado com tudo
isto.
- O que é perfeitamente normal para quem tem dois tumores em cada hemisfério
cerebral.
- Mas estou confiante de que iremos obter um bom resultado - Laura apressou-se a
abrir a porta do seu consultório. - Podemos ir?!
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- Dr.ª Laura! Antes de irmos gostaria de falar consigo sobre um assunto pessoal...
- Diga – a médica manteve-se expectante sobre a porta.
- Tenho uma sobrinha prestes a começar o primeiro ano de Internato. Ela decidiu
fazer a sua especialização em Neurocirurgia. Algo que confesso ter o meu dedo de
culpa…
Laura sorriu secamente.
- Candidatou-se e acabou por conseguir uma colocação nesta clínica. Foi uma feliz
coincidência.
- De facto - a expressão de Laura denunciou uma outra resposta. - E quando é que
ela começa?
- Dentro de poucos dias! Virá falar consigo.
- Para quê?! - Laura fingiu não entender quais os objectivos do médico.
- Porque será necessário - Eduardo respondeu. - Acho que já deve ter percebido
que quero que seja a Orientadora da minha sobrinha, Dr.ª Laura.
- Dr.º Eduardo, há três anos que pedi para não ter internos sob a minha
responsabilidade. Não tenho a disponibilidade necessária para dar a orientação e o
apoio que os Internos necessitam, especialmente durante o primeiro ano de
Internato.
- Considere este favor como sendo pessoal! De um velho professor…
Eduardo sabia exactamente como pedir favores impossíveis de serem recusados e
Laura sabia que a poucas horas da cirurgia mais importante da sua carreira, não se
podia dar ao luxo de contrariar o seu mentor. Infelizmente, ele soubera escolher o
timing na perfeição.
- Peça à sua sobrinha para vir falar comigo.
Foi a última resposta de Laura após o olhar desafiador que Eduardo lhe lançou.
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O paciente deu entrada no bloco operatório completamente anestesiado com a
sala operatória composta por dois Neurocirurgiões de renome, um anestesista, três
enfermeiros destacados especificamente para as funções de instrumentação, um
auxiliar de acção médica e dois assistentes internos. A partir daquele momento, já
não havia espaço para falhas ou hesitações. O couro cabeludo do paciente foi
totalmente rapado por um dos enfermeiros. A cabeça foi limpa e esterilizada antes
da operação.
Laura realizou uma grande incisão na cabeça do paciente e repuxou a pele para
revelar o crânio. Precisou remover uma grande área a fim de ter espaço suficiente
para trabalhar.
Numa sala silenciosa e com um ambiente pesado, a médica localizou os tumores e
as suas bordas com a ajuda de imagens de ressonância magnética e tomografia
computadorizada, estimulando electricamente as funções do cérebro do paciente.
Uma pequena parte do tumor foi removida através de uma agulha com um
sistema de vácuo, mas ela necessitou também de colocar um tubo fino e comprido,
denominado de shunt, num ventrículo cerebral. O tubo foi ligado por baixo da pele
e o líquido em excesso retirado do encéfalo e drenado para o interior do abdómen.
Neste procedimento pequenas amostras de tecido foram analisadas pelo
patologista de serviço. Efectuou-se um diagnóstico preliminar. O definitivo só
seria feito alguns dias mais tarde em laboratório.
Cinco horas após o início da cirurgia, Laura deu por concluída a primeira etapa.
Um assistente limpou o suor que escorria da sua testa e ela inclinou ligeiramente a
cabeça para trás a fim de se recuperar da dormência que estava a sentir no
pescoço.
- Sente-se bem, Dr.ª Laura? – Eduardo perguntou.
- Sim, Dr.º Eduardo - os olhares dos dois Neurocirurgiões cruzaram-se atrás das
máscaras. - Vamos continuar...
Durante a manhã, Leonardo visitou as obras do seu novo projecto imobiliário.
Um RESORT de luxo na vila de Cascais, situado num dos melhores pontos
turísticos da cidade, com cerca de seis mil e oitocentos metros quadrados e uma
vista priviligiada sobre a praia. As construções foram financiadas por um grupo
espanhol interessado em apostar no turismo em Portugal.
A Leonardo coube a tarefa de conceber, apresentar o conceito e estruturar os
planos de construção. Um trabalho extenuante concretizado graças à ajuda de uma
equipa competente que o acompanhou durante todo o processo.
Por ser um dos arquitectos mais experientes do escritório e também dono de uma
parte das acções, Leonardo encarava o seu trabalho de uma forma séria. Sempre
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que podia, visitava o local das obras, trajado com o equipamento de protecção,
munido de plantas e maquetes e falava com os construtores a fim de planear
atempadamente as várias etapas do processo de construção. As reuniões fora de
hora também eram uma constante na sua vida profissional, deixando pouco tempo
livre para antecipar tarefas tão rotineiras como jantar com os filhos em casa.
Sempre que isso acontecia, ele recorria ao telefone para tentar falar com a mulher e
juntos arranjarem uma solução. Mas nem sempre ela se encontrava disponível
para o atender.
- Leo! Não consigo falar com a Laura...
Marta, a secretária, tentou pela vigésima vez estabelecer contacto com a mulher
do seu chefe. Mas tal como sempre, o telemóvel de Laura encontrava-se desligado.
Leonardo recordou-se então que ela lhe havia falado de uma cirurgia muito
importante que iria realizar naquela tarde e para a qual tinha passado várias
semanas a estudar. Mas eram tantas as cirurgias, tantos os plantões e tantos os
atrasos que se tornava praticamente impossível lembrar-se de todos eles.
- Lembrei-me agora que ela deve estar numa operação - Leonardo largou os óculos
de leitura sobre a secretária e passou as mãos pelo rosto cansado.
- Queres que volte a tentar? - Marta manteve-se junto à porta.
- Não! Não adianta! Liga antes à Alicia e pede para que ela fique mais umas horas
com os miúdos até eu me conseguir despachar da reunião.
- Podes deixar! Ligo já...
A tarde terminou chuvosa e friorenta, assim como a longa jornada de trabalho de
Leonardo após se ter despachado de uma reunião inoportuna com dois novos
clientes do escritório.O arquitecto foi o último a abandonar o edifício e a desligar
as luzes da sala principal. Pelo caminho ainda tentou uma nova chamada para a
sua mulher, mas tal como sempre, o número dela encontrava-se indisponível.
Minutos depois ele saiu à rua e despediu-se do segurança de serviço. Chovia
torrencialmente e o vento soprava forte. Motivos que o obrigaram a caminhar
apressadamente em direcção ao carro imobilizado no parque de estacionamento.
Quando lá chegou, ouviu o estalar de um relâmpago. Efectuou um novo
telefonema, desta vez à empregada lá de casa e pediu novamente desculpas pelo
seu atraso informando-a de que se estava a dirigir para casa dentro de momentos.
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Após uma conversa rápida, Leonardo voltou a guardar o telemóvel no bolso do
casaco. Abriu as portas do seu BMW e enfiou a sua pasta de trabalho lá para
dentro ansioso por terminar um dia que parecia interminável. Mas na altura,
ouviu-se um novo relâmpago e uma voz rouca ecoar no meio do parque de
estacionamento.
- Continuas o mesmo...
Leonardo reconheceu a voz de imediato apesar de não a ouvir há muito tempo. A
mesma rouquidão, o mesmo sarcasmo e a mesma amargura, misturada com uma
doçura fingida. Depois de se recompor do susto, o arquitecto voltou-se para trás e
surpreendeu-se com a figura do seu irmão. Ricardo Alves. Também ele continuava
o mesmo. Alto, muito mais magro, com os cabelos escuros lisos, a barba
ligeiramente por fazer, trajado com umas calças pretas, um casaco de cabedal da
mesma cor e um olhar abatido de alguém que parecia não dormir há vários meses.
Os dois irmãos ficaram inertes a olhar um para o outro sem saberem o que fazer.
Era a primeira vez que se encaravam após quinze anos de uma distância
inexplicável. E a chuva tornou-se mais forte.
- Ainda te lembras de mim?
- É claro - Leonardo sentiu a chuva escorrer-lhe pela face. - Anda! Vamos entrar no
carro.
- Não, eu... – Ricardo recuou dois passos.
- Anda! Pago-te um copo! Vamos…
Entraram no veículo em silêncio, completamente encharcados e nenhum dos dois
proferiu palavra. Enquanto conduzia pelas ruas da cidade, sem conseguir
enxergar o aslfato ou um palmo à frente do nariz, Leonardo manteve-se atento à
condução numa tentativa desesperada de não ser obrigado a encarar o rosto do
seu irmão mais novo. A sua presença deixava-o constrangido e sem jeito. Não era
fácil ver-se na companhia de alguém que desaparecera da sua vida sem qualquer
motivo plausível e que agora voltava a ela também sem nenhuma razão válida.
Eram dois estranhos. Dois seres humanos que nada tinham em comum apesar de
terem nascido do mesmo ventre. Não seria irónico tal facto? Nascer do mesmo ventre e
não ter absolutamente nenhum assunto sobre o qual conversar?
24
Ricardo parecia igualmente nervoso. Distante e frio, tal como sempre fora, mas
nervoso. Não falou uma única palavra nem mesmo quando Leonardo estacionou o
carro em frente a um luxuoso edifício no centro da cidade.
Quando entraram no bar praticamente vazio de clientes, escolheram uma mesa
recôndita junto à janela para se sentar. A chuva abrandou, mas os metereologistas
já haviam anunciado um enorme temporal para as próximas horas.
- Queres beber alguma coisa? – Leonardo perguntou, chamando o empregado do
bar com um sinal de dedos.
- Pode ser um whisky sem gelo.
Enquanto o irmão fazia os pedidos ao empregado de mesa, Ricardo não teve
cerimónias em procurar um maço de tabaco no bolso das calças. Acendeu um
cigarro e fumou a primeira passa, permitindo que o fumo lhe atravessasse o rosto
e as narinas. Pouco tempo depois, o funcionário levou as bebidas à mesa e afastou-
se com discrição. Leonardo foi o primeiro a servir-se. Ricardo repetiu-lhe os
passos.
Enquanto bebiam o primeiro trago, os dois irmãos permaneceram em silêncio
provavelmente à espera que o álcool lhes fornecesse alguma coragem para iniciar
uma conversa que se adivinhava difícil e constrangedora. Porque tinham passado
tanto tempo sem se ver? Porque nunca quiseram saber um do outro? O que os impedia de
terem uma relação considerada normal entre dois irmãos? Estas eram algumas das
perguntas que permaneciam sem resposta numa mesa onde durante alguns
minutos apenas se ouviram o tilintar dos copos.
- Por onde tens andado todos estes anos? - Leonardo inquiriu finalmente.
- Aqui e ali – Ricardo fumou uma passa do seu cigarro.
- A fazer o quê?
- Nada de especial. E tu? O que tens andado a fazer?
- Casei-me, tive filhos …
- Que bom – Ricardo franziu o sobreolho com algum sarcasmo e voltou a fumar
um trago do seu cigarro, indiferente à chuva que ainda continuava a cair lá fora.
- Tens sítio para ficar? – Leonardo interceptou-lhe o olhar perdido.
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- Cheguei hoje de manhã e instalei-me num hotel aqui em Lisboa.
- Estás num hotel?
- Sim! Mas não pretendo ficar muito tempo. Só tirei umas férias para espairecer a
cabeça.
- Pois eu faço questão que fiques em minha casa nestas férias.
Ricardo demorou algum tempo a acreditar na oferta generosa do seu irmão. - Em
tua casa?!
- Sim! Há tantos anos que não nos vemos, não conversamos, não sabemos nada a
respeito um do outro. E no entanto somos irmãos. Era bom aproveitarmos esta
oportunidade, não achas? Além disso, quero que conheças a minha mulher e os
meus filhos...
O olhar trocado por Leonardo e Ricardo disse tudo. De facto, nenhum dos dois
sabia nada a respeito do outro. Após a morte dos pais, vítimas de um terrível
acidente de viação, os dois irmãos foram levados para uma casa de protecção de
menores. Foram tempos difíceis, tempos de incertezas quanto ao futuro, de
privações e de medos. Anos depois foram obrigados a afastarem-se abruptamente.
Leonardo, por ser o mais velho, conseguiu uma vaga na Universidade de
Arquitectura em Coimbra. A escolha de abandonar a instituição que o viu crescer
e consequentemente o seu irmão – o único familiar que ainda lhe restava – ou de
prosseguir os seus estudos, consistiu num verdadeiro dilema que o arquitecto se
viu obrigado a solucionar sozinho.
Um ano após a sua escolha, Leonardo voltou a procurar Ricardo na mesma
instituição. Mas na altura foi-lhe dito que o seu irmão já não se encontrava lá.
Fugiu meses antes. Fugiu e ninguém se dignou a procurá-lo.
Anos depois os dois irmãos trocaram um novo e último contacto. Uma feliz
coincidência quando Ricardo assistiu a uma reportagem televisiva feita a um
grupo de estudantes de arquitectura. Leonardo era o único português e falava
para a câmera com um à-vontade fora do normal. Tinha acabado de vencer o
prémio IberFAD em Barcelona com apenas vinte e seis anos de idade.
Provavelmente teria sido o orgulho dos pais caso ainda estivessem vivos, mas
Ricardo não conseguiu sentir nada mais de um ódio irracional que lhe tomou
conta das veias enquanto servia a mesa dos clientes no restaurante onde
trabalhava. Soube onde o irmão estava a estagiar pois o jornalista fez questão de
lhe perguntar durante a reportagem.
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No dia seguinte, Ricardo despediu-se do restaurante onde havia passado os
últimos três meses a trabalhar e saiu do Porto com uma mochila às costas.
Regressou a Lisboa e procurou Leonardo, não para se aproveitar dele ou para lhe
pedir algum dinheiro emprestado, mas sim para se despedir. Para sempre. Estava
farto daquela vida medíocre, de contar os tostões ao final do mês e não ver uma
luz ao fim do túnel. Em Portugal, contrariamente ao irmão, ele nunca seria
ninguém na vida.
Ricardo aventurou-se pelo mundo, viajou por quase todos os países da Europa e
trabalhou sazonalmente em vários restaurantes e casas nocturnas. Quando
completou vinte e três anos meteu-se num avião e viajou para os Estados Unidos a
fim de atingir o tão proclamado sonho americano. De qualquer maneira não tinha
nada que o prendesse a lugar nenhum. Nem pais, nem família, nem mulher e nem
filhos.
Em Nova Iorque - uma cidade que nunca dormia - ele de tudo fez. Serviu às
mesas, trabalhou numa fábrica alimentar, nas limpezas, entregou
correspondências e num rasgo de sorte conseguiu um cargo administrativo numa
empresa de telecomunicações. Foi aí que voltou a ganhar o gosto pelos estudos e
formou-se em Marketing e Publicidade. Após oito anos de trabalho árduo ganhou
uma promoção merecida e passou a chefiar a equipa de Marketing da sua empresa.
Viajava quase todas as semanas por entre os estados mantendo contacto regular
com as várias delegações e ganhando o triplo do ordenado que auferia aquando
do seu primeiro cargo na empresa enquanto office-boy.
Ricardo nunca pensou que a sua vida pudesse mudar tanto. Após uma infância
miserável e infeliz, parecia ironia do destino não ter de pedir moedas aos turistas
na rua, dividir o seu quarto com cerca de dez rapazes da sua idade ou vestir
roupas oferecidas por instituições de caridade. O destino, irónico como sempre,
encarregou-se de fazer de sua própria justiça.
- Vamos?! Passamos primeiro pelo teu hotel para apanhares as tuas coisas.
Leonardo levantou-se da mesa quando terminaram as bebidas e vestiu o seu
sobretudo ainda molhado da chuva. Ricardo seguiu-lhe os movimentos embora
sem muita vontade. Estava exausto devido ao fuso-horário e às nove horas de voo.
Chegaram a casa duas horas depois. Leonardo estacionou o carro em frente à sua
moradia e Ricardo saiu calmamente do banco da frente sentindo um frio gélido
soprar-lhe no rosto. Aguardou a saída do irmão e esperou que este o ajudasse a
retirar as malas do porta-bagagens. Eram duas e traziam no seu interior apenas o
essencial para umas férias que se adivinhavam curtas e descomprometidas.
Ainda sem certeza se havia tomado a decisão certa, Ricardo seguiu o irmão até ao
portão principal. Reparou na grandiosidade do jardim bem cuidado, nos três
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degraus que levavam à porta principal e na carpete castanha estendida sobre o
alpendre com a palavra "WELCOME" inscrita em letras garrafais. De resto, estava
escuro demais para ver o que quer que fosse. As luzes da entrada apenas
permitiam visualizar a fechadura da porta. Leonardo enfiou as chaves na ranhura
e girou a maçaneta. Abriu diante dos olhos do irmão um novo mundo e um
extenso corredor às escuras.
- Entra – ele disse. – Fica à vontade!
Ricardo acedeu ao convite sem esconder um certo desconforto nos passos que o
que o levaram até à sala. Reparou na habitação enorme, muito bem decorada e
com uma sofisticação fora do normal. Reparou também nos móveis modernos, na
parede que abrigava vários quadros abstractos e no tapete bege impecavelmente
limpo e aspirado. Os sofás estendiam-se ao longo da habitação em frente a uma
televisão repleta de fios e cabos desordenados. Mas para além disso, não havia
qualquer outro indício de desarrumação.
A sala cheirava a rosas e mostrava-se acolhedora com a luz do candeeiro acesa
perto das janelas frontais que davam acesso directo ao jardim. Não havia dúvidas
de que tinham sido feitas obras ali. O gosto pela construção e pela arquitectura
influenciaram Leonardo a reconstruir grande parte da moradia, tornando-a mais
funcional e adaptada às necessidades da sua família.
- Boa noite, Sr. º Leonardo...
- Boa noite, Alicia! Como estás? - o arquitecto reconheceu a figura simpática e
sorridente da sua empregada.
- Bem, obrigada.
- O João e o André?! Ainda estão acordados?
- Não! Os meninos já estão na cama. Jantaram, fizeram os trabalhos de casa,
tomaram banho e foram dormir.
- E a minha mulher?
- A D. Laura ainda não chegou e o telefone dela continua desligado - Alicia lançou
um olhar curioso a Ricardo. Não o reconheceu de parte nenhuma. - Há mais alguma
coisa que eu possa fazer? O jantar está no forno. É só aquecer...
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- Queres comer alguma coisa, Ricardo? - Leonardo interrompeu os pensamentos
longínquos do seu irmão.
- Não - o último esboçou um ligeiro sorriso. - Estou bem assim.
- Então nesse caso podes ir andando para casa, Alicia! Se precisarmos de alguma
coisa, por aqui nos arranjamos. Desculpa mais uma vez a demora e obrigado por
teres ficado a tomar conta dos miúdos.
- Não precisa agradecer, Sr. º Leonardo! Eu adoro ficar com as crianças.
A empregada voltou a abandonar a sala perante o olhar atento dos dois irmãos.
Nessa altura, Ricardo aproximou-se de um porta-retratos sobre a mesinha da sala.
Segurou-o com alguma cautela e encontrou o retrato de uma família feliz. O seu
irmão, dois rapazes pequenos e uma mulher especialmente intrigante, dona de
uma beleza que ele achou hipnotizadora e que adivinhava ser a cunhada. Mas não
foi apenas essa beleza que o impeliu a querer continuar a olhar para ela. Foram
antes aqueles olhos verdes que mais pareciam duas estacas prontas a atacar
alguém a qualquer momento.
Indiferente aos pensamentos absortos do irmão, Leonardo dirigiu-se à janela e
fechou as persianas, premindo um botão electrónico atrás dos cortinados. Em
seguida, perguntou se este não aceitava uma outra bebida. Ricardo respondeu que
sim. Já passava das dez, nenhum dos dois havia jantado, mas a fome pedia um
alimento líquido. Mais um whisky. O terceiro da noite.
- Aqui tens - Leonardo entregou a bebida ao irmão.
- Obrigado! Tens uma bela casa.
- Confesso que deu algum trabalho a pôr tudo exactamente como queria, mas acho
que o resultado final ficou bastante bom.
- A tua família? - Ricardo voltou a segurar o porta-retratos sobre a mesinha.
- Sim! A minha mulher e os meus filhos.
- Ela não está em casa?
- Não! Provavelmente deve ter ficado presa no hospital.
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- Enfermeira?
Leonardo balançou negativamente enquanto bebia o primeiro trago do seu
whisky. - Não! Médica! Neurocirurgiã...
Apesar de não ter conseguido remover a totalidade dos tumores por estes se
encontrarem em partes que poderiam danificar o cérebro do paciente, Laura fez
tudo o que estava ao seu alcance para extrair o máximo de células cancerígenas
que conseguisse. Quando a cirurgia finalmente teve fim, às vinte e duas horas e
trinta e cinco minutos, Eduardo Lima cobriu a abertura do crânio com uma peça
metálica especial para o efeito, procedendo ao último passo com o fecho da incisão
do couro cabeludo. Minutos depois o paciente foi levado para a sala de recobro e a
equipa médica dispersou-se. O paciente manteve-se em vigilância apertada na
unidade de cuidados intensivos, rigorosamente monitorado para que a pressão
intracraniana não aumentasse e colocado temporariamente em máquinas que o
auxiliaram na respiração.
Já passava das vinte e três horas e a chuva continuava a cair lá fora. Agora mais
intensa. Após a primeira visita ao paciente desacordado, Laura refugiou-se no seu
consultório com uma chávena de café quente nas mãos. Impressionante como aquele
líquido já não lhe fazia qualquer efeito, pensou. Não lhe dava e nem lhe retirava o
sono. Era quase como água. Uma bebida energética que ingeria desde os quinze
anos de idade sempre amarga e sem açúcar.
Bebeu-a em goles precisos, mas lentos, observando através da janela o movimento
das ambulâncias junto às Urgências. Exausta, passou a mão esquerda pelo pescoço
dorido e alcançou um nervo, massajando-o firmemente de forma a aliviar toda a
tensão que estava a sentir após ter passado tantas horas de pé. Raios, lembrou-se.
Tinha passado doze horas longe de casa, do marido e dos filhos e nem sequer se
lembrou de lhes oferecer um único telefonema. Seria normal esquecer-se da sua
própria família? Ninguém se esquecia da própria família. Porque é que ela teimava em
fazer isso todos os dias?
Minutos antes de ir para casa, Laura realizou a segunda visita à unidade dos
cuidados intensivos onde o paciente ainda se mantinha anestesiado a recuperar da
cirurgia. Falou com alguns enfermeiros de serviço e deu ordens expressas para
que a contactassem a qualquer hora da noite caso o quadro clínico do paciente se
alterasse.
Vendo-se finalmente livre para ir para casa, Laura abandonou outra vez o seu
consultório e premiu o botão do elevador ao fundo do corredor. Arranjou os
cabelos desalinhados, ajeitou a mala sobre os ombros e manteve a sua gabardina
cinzenta debaixo do braço à espera que o elevador chegasse ao terceiro piso.
Quando isso aconteceu, as portas abriram-se com um rosto conhecido lá dentro.
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- Por favor! Diz-me que só agora vais entrar de plantão!
Laura sorriu ao ouvir a declaração de Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe da
clínica, mas na altura não foi capaz de fazer muito mais. Estava demasiado
cansada para se aventurar em conversas de circustância.
- Como é que correu a cirurgia? – Rita continuou a preencher as primeiras fichas
de atendimento. – Ouvi dizer que foi um sucesso, mas só acredito ouvindo isso da
tua boca.
- Correu como o previsto.
- Nunca és capaz de dizer que correu bem - Rita sorriu e Laura fez o mesmo. - O
Leo? Como é que ele está?
- Bem.
- E os miúdos?
- Também! Apesar de já não os ver há mais de vinte e quatro horas.
- Não te preocupes! Eles não se vão esquecer da tua cara só por causa disso.
Os risos de Laura e Rita cessaram no minuto em que chegaram ao primeiro piso.
Nessa altura, as duas amigas saíram do elevador numa conversa animada.
Rita, que se encontrava sempre bem disposta, esbanjando felicidade e humor para
todos os que a rodeavam, era a antítese de Laura. Ninguém compreendia como é
que duas mulheres tão distintas eram tão amigas. Na clínica poucos ousavam
dirigir a palavra a Laura quando ela passava pelos corredores levando no rosto
uma expressão altiva e aterradora. O seu temperamento autoritário e arrogante era
muitas vezes insuportável aos olhos dos demais. Não era nem um pouco
simpática, alegre ou bem-disposta. Na verdade, era a profissional mais seca e
desumana que alguma vez trabalhara naquela clínica.
Quando jovens, Laura e Rita possuíam amigos comuns e sonhos de se tornarem
bem sucedidas. Rita seguiu Enfermagem, e Laura, decidida, aventurou-se numa
das áreas mais difíceis de Medicina. Neurocirurgia. Consumidas pelos estudos, as
duas amigas afastaram-se sem nenhuma razão aparente. Pouco tempo depois,
Laura casou-se e Rita continuou à espera da chegada de um príncipe encantado
que na verdade nunca chegou a aparecer.
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Após o término do seu Internato e a recusa de uma proposta de trabalho em
Londres, Laura conseguiu entrar directamente para o quadro interno da clínica. A
sua ascenção meteórica começou aos trinta e três anos apesar de uma breve
interrupção aquando da sua gravidez. Mas desde essa data ela nunca mais parou.
Aos trinta e nove poucos duvidavam de que se pudesse tornar na sucessora de
Eduardo Lima. Tinham o mesmo temperamento, a mesma figura e a mesma sede
de vencer. Fora moldada por ele na perfeição.
Rita Azevedo também trilhava um caminho de sucesso quando alcançou o
merecido cargo de Enfermeira-Chefe. Tinha uma postura profissional diferente de
Laura, de certo, mas nem por isso lhe era reconhecida menos competência.
Especializou-se na área de Enfermagem Clínica Médica. Era responsável por todo
o corpo de enfermeiros e formava as equipas destacadas para os procedimentos
cirúrgicos escolhendo a dedo todo os enfermeiros, assistentes e instrumentistas
que diariamente entravam no bloco operatório.
Duas semanas após Laura ter começado a trabalhar na clínica, as duas amigas
esbarraram-se no elevador de serviço. Foi uma surpresa agradável para ambas.
Em poucos dias retomaram uma amizade antiga e construíram uma aliança forte
num local onde as paredes pareciam ter ouvidos. Rita era a única pessoa em quem
Laura confiava cegamente, e vice-versa.
- Estive a ver no plano de folgas e sei que no próximo fim-de-semana não vais
estar a trabalhar. O que achas da ideia de, eu, tu e o Leo sairmos os três para
jantar?
- Seria óptimo - Laura assinou o livro de ponto sob o olhar atento de Rita. - Mas
não te esqueças que eu e o Leo temos filhos. E os filhos não costumam tirar folgas
aos fins-de-semana.
- Deixa-os em casa da tua mãe.
- A minha mãe não é a melhor pessoa a quem eu possa pedir favores.
- Deixa-os com a vossa empregada.
- Já andamos a abusar com tantos horários alargados.
- Por isso é que nunca vou ter filhos - as duas amigas riram-se alegremente.
- Fazes bem - Laura voltou a entregar a caneta nas mãos da recepcionista. - Eu
também não teria se pudesse.
32
O temporal acalmou com o passar das horas, deixando apenas uma chuva
miudinha irritante a bater sobre o pára-brisas. Enquanto conduzia o seu jipe pelas
ruas da cidade, Laura não afrouxou o pé do acelerador um minuto sequer. Estava
desejosa chegar a casa, tomar um banho e cair na cama. Tinha também a clara
certeza de que não iria abrir os olhos antes de o amanhecer. E por falar em abrir os
olhos, começava a sentir-se sonolenta. Era quase uma da manhã e as estradas
encontravam-se praticamente vazias. Se fechasse os olhos, nem que fosse por um
minuto, provavelmente não voltaria a acordar. Ela precisava manter-se desperta
até chegar a casa. Para isso, aumentou o volume da rádio.
Vinte minutos depois, Laura estacionou o jipe em frente aos portões da sua
moradia. Não teve forças para enfiar o carro na garagem. Para isso teria que fazer
uma série de manobras, colocar o veículo em marcha-atrás, ir para a frente, ir para
trás, desfazer o volante, endireitar as rodas e ainda desviar-se do carro do marido
para caberem os dois lá dentro. Estacionar era uma tarefa bem mais trabalhosa do
que passar doze horas a operar o cérebro de um paciente, ela chegou a essa
conclusão quando parou o carro na rua principal e puxou o travão de mão ao
mesmo tempo que se desfazia do cinto de segurança. Pronto. Estava feito. Tudo o
que não precisava na altura era de mais complicações na sua vida.
Quando entrou em casa, largou as chaves sobre a mesinha do corredor. Desfez-se
da sua gabardina cinzenta num movimento lento e contínuo e reparou na luz
pálida proveniente da sala de visitas. Seguiu até lá, curiosa. Ouviu duas vozes
amenas enredadas numa conversa despreocupada. Enquanto caminhava pelo
corredor praticamente às escuras, ela reconheceu a voz do marido. A outra? Nunca
a tinha ouvido até à data.
- Já chegaste?!
Leonardo observou a figura da mulher sob o alpendre da porta. Sorriu
carinhosamente mas Laura foi incapaz de corresponder ao cumprimento quando
se viu confrontada com a presença de um absoluto estranho esparramado no seu
sofá. Não soube muito bem porquê, mas a presença daquele homem desconhecido
causou-lhe um certo arrepio. Os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta na
imensidão daquela sala. Ela sentiu-se ligeiramente desconfortável quando ele lhe
mergulhou nos olhos sem pedir permissão.
- Demoraste.
- Fiquei presa na clínica - Laura cedeu um beijo ao marido sem conseguir desviar
os olhos do homem que se encontrava na sua sala.
33
- Já comeste?
- Sim...- ela mentiu. - E tu?
- Como demoraste a chegar, fizémos um lanche na cozinha com os restos do jantar
que a Alicia deixou no forno.
- Os miúdos?!
- Já estão a dormir - Leonardo acariciou o rosto da mulher. - Tentei ligar-te várias
vezes hoje.
- Vi as tuas chamadas agora há pouco, mas tinha o telemóvel desligado.
- Bem, tenho a certeza que vocês ainda não se devem conhecem - o arquitecto
lembrou-se de fazer as apresentações. - Laura, este é o Ricardo, o meu irmão!
Ricardo, apresento-te a Laura! A minha mulher…
Ricardo levantou-se calmamente do sofá com um olhar avaliador. Aparentemente
aprovou o que viu. Sim, ela era bonita. Na verdade, impressionante. Trajada com
umas simples calças de ganga, uma camisola preta com um decote em V e os
cabelos ligeiramente desalinhados presos por um rabo-de-cavalo, para Ricardo
não havia nenhuma mulher que se assemelhasse tanto à perfeição. Reparou na sua
figura esbelta e na beleza natural que o seu rosto desprovido de maquilhagem
exibia. A fotografia não lhe mentira. Era inevitável um ser humano não se perder
por aqueles olhos verdes.
- Prazer! Como estás? - ela estendeu a mão direita. Ele agarrou-a com a mesma
formalidade. Era quente, longa e macia.
- Bem, obrigado! O prazer é todo meu.
- O Ricardo estava a viver nos Estados Unidos e veio passar umas férias a
Portugal. Convidei-o para ficar cá em casa. Lembraste de eu ter-te falado várias
vezes sobre ele, não? - Leonardo encontrou os cabelos da mulher e mexeu neles
com carinho. - Há muitos anos que não nos víamos.
- Sim! Lembro.
- Convidei-o para ficar cá em casa.
34
Ricardo pressentiu o desconforto latente no rosto da cunhada.
- Já disse ao Leo que não queria incomodar.
- Não é incómodo nenhum - Laura não conseguiu desviar os olhos dele. - Podes
ficar o tempo que quiseres.
Laura mentia categoricamente acerca de tudo. Ricardo percebeu isso no momento
em que ela abriu a boca. Seguiu-se uma nova troca de olhares. Intensa. Asfixiante.
Tão submerso na alegria de conseguir reunir a família pela primeira vez, Leonardo
não se deu conta do profundo fascínio que transbordou dos olhos do seu irmão
quando este encarou o rosto da sua mulher e o dissecou até à exaustão. Também
não percebeu a respiração suspensa de Laura, a sua face vermelha e o nervosismo
por se ver diante de um homem que parecia despi-la a cada minuto com um novo
olhar.
- Peço desculpas, mas estou mesmo muito cansado - Ricardo disse.
- Eu levo-te até ao quarto de hóspedes - Leonardo apontou-lhe o caminho em
direcção às escadas. - Lá vais poder tomar um banho, descansar e pôr-te mais à
vontade.
Ricardo não se coibiu a lançar um último olhar insidioso à cunhada e a desejar-lhe
boa noite, mas ela não respondeu. Quando ele abandonou a sala na companhia do
irmão, Laura sentiu um cheiro intenso a tabaco. Um aroma tóxico que a inebriou
durante alguns instantes e que permaneceu entranhado na sua sala como se de
uma praga se tratasse.
O marido havia-lhe falado muitas vezes no irmão. Contava como havia sido a
infância dos dois, a obrigatoriedade da separação, o último contacto telefónico a
poucos dias de Ricardo se perder no mundo e a tristeza de nunca ter tido
quaisquer notícias dele.
Contudo, com o passar dos anos as referências tornaram-se dispersas, e nos
últimos tempos, praticamente inexistentes. Laura também nunca se interessou em
saber mais detalhes acerca daquela história ou os motivos que levaram os dois
irmãos a seguir caminhos diferentes. Não era algo que a entusiasmasse ou que lhe
dissesse respeito. Também não pensou que um dia fosse conhecer o cunhado ou
vê-lo em sua casa. Uma figura abstracta, sempre o viu assim.
Uma figura abstracta que a partir daquela noite se tornou real.
35
- Nem fazia ideia de que ele estava em Portugal – Leonardo terminou de escovar
os dentes sob o lavatório da casa de banho. – Apareceu-me hoje no escritório e eu
não tive outro remédio a não ser convidá-lo para ficar cá em casa. Fiz mal?
- Quanto tempo é que ele vai cá ficar? – Laura passou um creme pelas pernas sem
se mostrar particularmente interessada na conversa do marido.
- Não sei! Algumas semanas, penso eu - Leonardo fechou a torneira e limpou a
boca à toalha. - Porquê? Não queres que ele fique?
Laura pensou várias vezes em dizer a verdade, mas na altura tudo o que
conseguiu oferecer foi uma resposta politicamente correcta.
- É o teu irmão.
- Não gostaste de o ver cá em casa, não foi? Percebi isso pela tua cara lá em baixo.
- Imagina chegares a casa e encontrares a minha irmã esparramada no teu sofá.
- Tu não tens irmãs - Leonardo brincou.
- Percebeste o que quis dizer.
- São só algumas semanas! Nem sequer vais dar pelo tempo a passar – Leonardo
agachou-se perante a mulher e beijou-a carinhosamente na face. – Além disso, é
importante para mim tentar recuperar a relação que um dia tive com ele. Quem
sabe não voltamos a ser amigos?
- Tudo bem, Leo - Laura desviou-se dos braços do marido.
- Vamos dormir!?
- Vai tu primeiro! Ainda vou tomar banho.
- Queres companhia?
- Um banho rápido - Laura empurrou os ombros do marido depois de este a ter
beijado nos lábios contra a sua vontade. - Vai! Encontramo-nos na cama...
- Não demores! Vou estar à tua espera.
36
Intenso e tóxico. Podia ser sentido a quilómetros de distância. Ela teve essa
impressão quando voltou a passar as mãos pelo rosto e pelos cabelos molhados.
Subitamente foi como se o perfume do cunhado se tivesse entranhado no seus
braços, no seu pescoço e nas suas mãos. Cheirou-se como para ter a certeza que
estava enganada, mas sentiu o mesmo odor a tabaco tão ou mais forte do que
nunca.
Num rasgo de insanidade, voltou a atirar-se para debaixo do chuveiro a fim de
retirar de si aquele cheiro hediondo. Lavou o rosto, as mãos, os braços e as pernas.
Saiu da cabina, enrolou-se numa toalha branca e passou um creme perfumado
pelo corpo. Minutos depois já se encontrava pronta para ir dormir, mas
contrariamente a todas as outras noites, o seu primeiro pensamento não foi para o
marido e nem para a vontade incontrolável de o encontrar na cama. Pela primeira
vez foi o cunhado quem preencheu os seus pensamentos mais secretos e ela não
teve outro remédio a não ser odiar-se por isso quando apagou a luz da casa de
banho.
- Estás cansada? - Leonardo sussurou-lhe aos ouvidos e abraçou-a por trás quando
ela se enfiou na cama.
- Muito - Laura respondeu, sem entusiasmo.
- Pois eu não! Tenho saudades tuas...
O marido usava sempre as mesmas frases quando queria fazer amor. Tenho
saudades tuas. Preciso de ti. Amo-te. Às vezes, Laura desejava que ele mudasse o
repertório, que lhe dissesse palavras obscenas aos ouvidos ou a possuísse sem
pedir permissão. Mas Leonardo não era assim. Até na cama era cerimonioso e
educado. Começou por colocar a mão na sua coxa e subiu a sua combinação de
dormir até à zona do abdómen. Tocou-a devagar, com carinho e soprou-lhe um
hálito quente no pescoço. Ela virou o rosto e ele encontrou-lhe a boca, beijando-a
com sofreguidão. Apertou-lhe os seios, mordiscou-lhe os ombros adocicados e
disse em voz baixa que a amava e que ela era a mulher da sua vida.
Sentindo-se culpada por não ter conseguido responder o mesmo, Laura desfez-se
das suas cuecas brancas e permaneceu de costas voltadas, permitindo que o
marido a penetrasse por trás. Não era a primeira vez que fazia aquele sacrifício.
Também não era a primeira vez que olhava para os ponteiros do relógio sobre a
mesinha de cabeceira contando os minutos e desejando que o marido terminasse
aquela tarefa o mais depressa possível. Porque para ela, nos últimos tempos, fazer
amor tinha-se tornado numa enorme e difícil tarefa. O único problema é que o
marido nem sequer desconfiava disso.
37
3
Guilherme de Oliveira E Prado, apelidado na clínica como o paciente dos dois
tumores, abandonou a ala dos cuidados intensivos e foi encaminhado para um
quarto particular com uma óptima vista sobre um dos poucos parques naturais da
cidade.
Não era toda a gente que conseguia pagar um quarto daqueles ou um tratamento
tão diferenciado. Apenas banqueiros como era o seu caso. A clínica São João de
Deus orgulhava-se de receber pacientes destes, do mais alto calibre, dispostos a
gastar as fortunas que roubavam ao Estado a fim de realizar tratamentos médicos
para poderem salvar a própria pele. E o hospital agradecia a gentileza ao ver cerca
de cem mil euros a entrar em caixa numa única transferência bancária.
Mas para Laura não era o dinheiro que estava em causa. Também não lhe
importava ter operado um dos homens mais ricos do país, mas sim os resultados
dessa operação. A recuperação de Guilherme surpreendeu até os mais cépticos.
Em apenas três dias saiu dos cuidados intensivos e deixou de respirar
artificialmente. O pós operatório decorreu sem intercorrências. Manteve drenagem
ventricular externa de segurança até ao terceiro dia e o TAC cerebral não revelou
complicações hemorrágicas ou hidrocefalia. Sentia-se apenas sonolento e algo
fatigado, mas isso eram sintomas absolutamente normais, a médica avisou.
Guilherme recebeu a visita da mulher e dos filhos. Recebeu também a visita da
amante. Nos primeiro dias realizou exercícios de respiração para ajudar a manter
os pulmões limpos e começou a movimentar algumas partes do corpo. Na última
semana de Novembro, Laura surgiu-lhe no quarto acompanhada por uma
enfermeira de serviço. A médica efectuou novos exames de rotina a fim de avaliar
a sua orientação. Observou-lhe o interior dos olhos, a locumoção dos braços e das
pernas, pediu para que soletrasse algumas letras apenas para se certificar de que a
fala não havia sido afectada pela cirurgia, e por fim, recebeu os exames das mãos
de uma assistente. Os resultados não poderiam ser mais animadores.
38
- Tenho uma boa notícia para si, Sr.º Guilherme - Laura enfiou uma caneta no
bolso frontal da sua bata. - Consegui finalmente arranjar-lhe um óptimo
fisioterapeuta para o ajudar a restabelecer o equilíbrio e também a desenvolver
algumas das suas atividades diárias. Falei com ele ainda há pouco. Chama-se
Rafael Assunção e é um profissional bastante competente. Tenho a certeza que vai
gostar dele e de que se vão dar muito bem.
- Podia ter escolhido uma mulher – Guilherme não resistiu a fazer a observação
enquanto oferecia o seu braço à enfermeira de serviço para que esta lhe medisse a
tensão. - Não me importava de ter uma fisioterapeuta parecida consigo.
Laura lançou um olhar aterrador àquele homem hediondo que passava a vida a
assediar todas as mulheres que atravessavam o seu caminho. Ele gelou de medo.
Nunca se sentiu tão intimidado por um ser do sexo feminino.
- Perdão, Dr.ª! Foi uma brincadeira - Guilherme percebeu imediatamente o risco
que havia pisado. - Ainda não sabe quando é que posso sair daqui?
- Dentro de três semanas. Mas ainda vamos falar melhor sobre isso – Laura voltou-
se para a enfermeira e num tom seco e formal perguntou-lhe: – Então, Sara?! Como
é que está a tensão?
- Normal! 12/7...
Laura despediu-se formalmente de Guilherme e abandonou o quarto em seguida.
Aquele homem provocava-lhe náuseas, ela pensou. O seu ar propotente era o antídoto
perfeito para o seu bom-humor e deixava-a com um síndrome de irritabilidade
aguçado. Mas infelizmente não havia nada a fazer. Iria ter que o aturar por mais
algumas semanas até se ver finalmente livre dele. E a única boa lembrança seriam
apenas aqueles benditos tumores que lhe retirou da cabeça.
Pelo caminho, enquanto caminhava apressada em direcção ao elevador, Laura
anotou alguns dados clínicos na ficha de Guilherme. Informações básicas que
poderiam ser escritas de pé com uma letra desajeitada que mais ninguém
compreendia a não ser ela própria. Quando entrou no elevador, alcançou o seu
relógio de pulso e viu que nele estavam assinaladas treze horas e vinte minutos.
Infelizmente naquela tarde tinha muito pouco tempo para almoçar. Quinze
minutos apenas.
- Drª Laura…!
39
Laura ouviu uma voz de uma auxiliar de serviço chamar por si ao fundo do
corredor.
- Diga!
- Tem uma menina à sua espera - a auxiliar afirmou, afogueada. - Diz que veio
falar consigo. Pedi para que a aguardasse junto ao seu consultório.
- Quem é?! - Laura perguntou rispidamente.
- Esqueci-me de perguntar o nome. Desculpe, Dr.ª...
Ao aproximar-se do seu consultório, Laura avistou uma jovem rapariga sentada
no banco de espera. A mesma exibia cabelos lisos, escuros, pelos ombros, olhos
castanhos e uma fisionomia ligeiramente pálida. Vestia umas calças de ganga
justas ao corpo, camisola cinzenta e um blazer preto de mangas arregaçadas.
Encontrava-se agarrada a uma pasta castanha e olhava incessantemente para o
relógio como se estivesse à espera de alguém. Neste caso, de Laura.
Quando a avistou de longe, a jovem pulou da cadeira e colocou-se em posição
recta. Reconheceu Laura sem que esta precisasse sequer abrir a boca. A sua fama já
corria em seminários, conferências, outros hospitais e até mesmo nos corredores
daquela clínica. A sua presença era temida por todos havendo inclusive quem a
chamasse secretamente de Rainha do Gelo tamanha a sua frieza perante situações
adversas. Era também mais bonita ao vivo do que nas fotografias. Apesar dos
cabelos desalinhados presos por um gancho de madeira e da sua bata branca
largueirona que lhe cobria grande parte do corpo, Laura era uma mulher capaz de
chamar a atenção de qualquer ser humano que se aproximasse de si. Até mesmo
de uma mulher.
- Dr.ª Laura Alves!?
- Sim.
- Olá! Muito prazer! Meu nome é Joana Lima.
- Prazer – Laura aceitou o aperto de mão após um longo minuto de pausa.
- Não me está a reconhecer, pois não?!
- Era suposto?
40
- Sou a sobrinha do Dr.º Eduardo Lima. Já tinha vindo duas vezes esta semana à
sua procura, mas diziam-me sempre que a Dr.ª andava ocupada. Hoje resolvi a
arriscar novamente.
- Tenho quinze minutos! Entra...
A resposta de Laura saiu seca e autoritária, mas ainda assim, Joana acedeu ao seu
convite entrando no consultório com alguma cautela e com um brilho no olhar
próprio de uma jovem prestes a iniciar o seu primeiro ano de Internato.
O espaço não era grande, ela reparou. Abrigava dois cacifos, um bengaleiro junto
à janela coberto por uma gabardina cinzenta e um pequeno divã encostado à
parede desprovida de quadros ou outros adereços desnecessários. Aliás, de certa
forma, todo o consultório de Laura não parecia conter qualquer objecto
desnecessário. Era frio e impessoal. Tal como ela.
Sobre a secretária cheia de pastas, arquivos e livros, Joana vislumbrou dois porta-
retratos que exibiam os rostos de um homem elegante na casa dos quarenta e de
duas crianças praticamente idênticas. Era o único objecto com algum simbolismo
ou que transmitia qualquer tipo de humanidade. Joana imaginou em silêncio
quem seriam aquelas três pessoas. O marido? Os filhos?
No entanto, enquanto os seus pensamentos mundanos vagueavam por assuntos
que não interessavam a ninguém, a voz imponente da sua futura Orientadora
trouxe-a de volta à realidade.
- Senta-te - Laura apontou uma cadeira.
- Obrigada.
- Joana! Joana o teu nome, não é?!
- Sim - a jovem abriu um sorriso radiante que não foi de todo correspondido.
- Joana, vou-te ser sincera! Eu apenas aceitei ser a tua Orientadora porque o teu tio
me pediu um favor pessoal. Mas tal como já deves ter reparado, o meu tempo é
escasso.
- Eu sei.
- Por isso ainda estás a tempo de escolher um outro Orientador que te possa dar
uma melhor preparação.
41
- Fui eu que pedi ao meu tio para ser a minha Orientadora. Nestes últimos anos
tenho seguido atentamente o seu percurso profissional. Sei que a Dr.ª pertence ao
quadro de honra desta clínica e que é a cirurgiã com mais horas em bloco
operatório. Soube também que ganhou três prémios de excelência nos últimos
cinco anos, que já publicou vários artigos em revistas da especialidade e que teve
um papel importante numa investigação internacional sobre tratamento da
Doença de Parkinson, premiada pela BIAL! Além disso, o meu tio contou-me que
ele foi o seu Orientador durante o Internato que fez no hospital Santa Maria. A
melhor Interna que teve até hoje, segundo as palavras dele. Também soube da
cirurgia que fizeram ao paciente dos dois tumores. Foi um sucesso. Portanto, acho
que isto tudo me basta para a querer como minha Orientadora. Não quero mudar.
Vou ficar consigo - o sorriso de Joana saiu debochado.
- Vejo que estás muito bem informada a meu respeito - Laura cerrou os olhos,
irritada com a petulância daquela jovem.
- Pode-se dizer que sim.
- Vamos ao que interessa?
- Claro - Joana acedeu com um sorriso.
- Quando concorreste ao Internato Médico, espero que te tenham dito que o
primeiro ano iria ser aquilo a que costumamos chamar de Ano Comum...
- Sim, eu…
- Ouve-me e não me interrompas – a voz autoritária de Laura obrigou Joana a
calar-se de imediato. – Neste primeiro ano em que vou ser a tua Orientadora, irás
ter uma formação generalista dada por mim e também por outros médicos da
clínica. O que é pretendido com este ano é garantir a tua capacitação profissional
não só na especialidade que pretendes seguir mas em toda a Medicina. Por outras
palavras, não irás apenas aprender a especialidade de Neurocirurgia mas um rol
muito mais vasto de conhecimentos. Só muito depois, no último trimestre, é que
irás concorrer para uma fase de Internato na área profissional de especialização ao
lado de outros internos que também entraram este ano. Por isso é bom que tenhas
uma boa nota nesse exame para que consigas seguir a especialização que
escolheste.
- Vai-me ajudar nesse exame?
42
- Como tua Orientadora, essa é uma das minhas obrigações - Laura ignorou a
sinalização do seu BIP sobre a secretária. - Mas agora deixa-me falar-te sobre o
Ano Comum. Este ano irá prolongar-se por doze meses e será composto por vários
estágios diferentes. Os primeiros quatro meses destinam-se à Medicina interna. Os
três meses seguintes aos cuidados primários, dois meses na cirurgia geral, mais
dois meses na pediatria, e por fim, um mês na obstetrícia. Mas durante estas fases
não serás autónoma. Existirá sempre alguém a supervisionar-te, e na maioria das
vezes, essa pessoa serei eu. Como já deves saber, não estás apta a tomar quaisquer
decisões sem a consulta prévia de um supervisor ou de um médico graduado. Se o
fizeres serás punida pela OM e acredita que irás arranjar muitos sarilhos, quer
para mim, quer para a clínica. Por isso um conselho que te dou é que contes até
cem sempre que pensares em tomar qualquer decisão aqui dentro.
- Eu só não queria passar o ano todo a preencher fichas de pacientes - a afirmação
de Joana soou impertinente. - Não me leve a mal, Dr.ª! Mas é que tenho uma
amiga que também está a fazer o Internato em Cardiologia Pediátrica no Hospital
São José, começou o ano passado e até hoje a única coisa que faz é preencher
fichas...
- À medida que os anos do teu Internato forem passando irão ser-te concedidas
mais competências e uma aquisição gradual de autonomia - Laura ignorou as
declarações infantis e desajustadas da sua nova Interna. - Irás também ter mais
responsabilidades para além de preencher fichas de pacientes. Mas se queres
realmente que te diga, também é importante saber como se devem preencher estas
fichas pois um simples erro de caligrafia pode ditar a morte de um paciente.
Joana calou-se, esmagada pela resposta de Laura.
- Sempre que tiveres uma dúvida, por mais estúpida e inútil que pareça, e já vi que
tens muitas, não hesites em perguntar-me. Eu vou estar aqui para te esclarecer e
não vou descansar até ter a certeza que percebeste bem aquilo que te expliquei.
- Tudo bem.
- Tens alguma dúvida?
- Por enquanto não.
- Óptimo – Laura levantou-se da secretária e permitiu que Joana também fizesse o
mesmo. – E com isso já se passaram os quinze minutos que tinha para almoçar.
43
- Desculpe, Dr. ª! Não queria ocupar a sua hora de almoço.
- Vem comigo – Laura alcançou o seu BIP sobre a secretária.
- Mas eu não ia começar o meu Internato só na segunda-feira?
- Não! Começas hoje...
Laura abandonou o consultório sem esperar que Joana se recuperasse do susto em
iniciar o Internato sem qualquer preparação psicológica. Nervosa, a jovem saiu e
aguardou que a médica fechasse o gabinete à chave. Minutos depois as duas
seguiram em silêncio pelo corredor e entraram no elevador de serviço,
aguardando que este descesse ao primeiro piso.
Laura manteve-se de costas com as mãos enfiadas nos bolsos da sua bata, escassos
metros mais à frente, indiferente ao olhar curioso da sua Interna. Não lhe dirigiu a
palavra e nem sequer fez questão de lhe olhar no rosto. Durante breves instantes
Joana sentiu-se absolutamente invisível e continuou a sentir-se assim quando
Laura a levou para a ala das Urgências.
O recinto encontrava-se repleto de crianças, adultos e os gemidos de um senhor
jogado numa maca ao fundo do corredor. Não foi uma visão paradisíaca mas
ainda assim Joana encheu o peito de coragem e continuou a seguir os passos
apressados da sua Orientadora.
Era ali que iria trabalhar nos próximos doze meses e agarrar com unhas e dentes a
profissão que parecia destinada a todas as pessoas da sua família. O pai era
Cardiologista, a mãe Pediatra, e o tio, simplesmente o melhor Neurocirurgião do
país. Joana não queria desiludir ninguém e nem defraudar as expectativas
depositadas em si. Sonhava um dia ser como o seu tio e tornar-se na sua
substituta. Sempre o admirou desde pequena e na família havia o orgulho de ser a
sobrinha do grandioso Eduardo Lima.
O fascínio por ele aumentou de uma forma exponencial com o passar dos anos,
chegando ao ponto de Joana optar por seguir a mesma área de especialização do
tio apenas para ter um pouco da sua atenção e admiração.
A mesma admiração que Eduardo parecia nutrir por Laura. A melhor Interna que
me passou pelas mãos até hoje, dizia constantemente sem conseguir esconder o brilho
que lhe atravessava os olhos sempre que se referia à médica e se dava conta de que
possivelmente havia formado a sua futura substituta. Sempre que o nome da
médica surgia de forma espontânea nos almoços ou jantares de família, o queixo
de Joana tremia de raiva. Ainda que nunca a tivesse conhecido pessoalmente já a
odiava por achar que ela ocupava um lugar que deveria ser seu.
44
Nos últimos três anos passou a investigar a sua carreira de forma compulsiva
através de artigos publicados em revistas da especialidade, de vários sites na
Internet, seminários e conferências a que era convidada a participar.
Viu-a pela primeira vez em cima de um palco trajada com um fato preto formal e
os óculos sob a ponta do nariz falando num tom monocórdico, mas seguro. A sala
inteira parecia ouvi-la com atenção. Laura tinha o dom da palavra e sabia
expressar-se exemplarmente. Aquando do término da conferência, Joana bem
tentou aproximar-se, mas na altura não teve coragem. Uma força maior impediu-a
de cometer tamanha ousadia e obrigou-a a manter-se à distância enquanto Laura
desaparecia por entre a multidão, acompanhada por um médico Cardiologista e
uma funcionária do hotel que os encaminhou até ao elevador. Antes das portas se
fecharem, Joana viu a última imagem de Laura a rir-se às gargalhadas com uma
piada contada pelo seu colega. Concerteza seria uma pessoa muito simpática e
feliz, houve essa ligeira impressão. Mas agora que a conhecia pessoalmente, Joana
começava a duvidar disso. Dentro da clínica, durante o horário de trabalho, Laura
era tudo menos uma pessoa simpática e feliz.
- Dr.ª! Ainda bem que a encontro... - uma enfermeira de serviço interceptou Laura
a meio do corredor e obrigou-a a abrandar os passos. - Uma criança com sintomas
de traumatismo craniano. Os pais foram vítimas de um acidente de automóvel,
mas foi o filho a sofrer lesões porque não levava o cinto de segurança no banco de
trás. Precisamos de um médico para o analisar.
- Onde está a criança?
- Sala três. Cama quatro. Espero que não esteja muito ocupada.
- Vamos – Laura voltou-se para Joana e num tom seco ordenou-lhe: – Vem comigo!
Enquanto ouvia discurso nervoso e confuso dos pais da criança acidentada, Laura
realizou um exame físico completo dando especial atenção ao nível de consciência,
à mobilidade, aos reflexos, aos ouvidos, pulso, pressão arterial e a frequência
respiratória do menino. Mais tarde, analisou o diâmetro das pupilas, a sua reacção
à luz e o interior dos olhos com um oftalmoscópio para determinar se houve ou
não um aumento da pressão intracraniana. Por sorte o traumatismo não havia sido
grave e o TAC pôde comprová-lo.
- Vamos mantê-lo em observação até amanhã só para ter a certeza que está tudo
bem e que o hematoma não sofreu qualquer tipo de evolução – Laura concluiu
após o resultado dos exames.
45
- Mas ele está bem, Dr.ª?! – a mãe da criança mostrou-se aflita durante todo o
processo.
- Em príncipio está! Mas quando se trata de traumatismos cranianos,
especialmente em crianças, todo o cuidado é pouco. Ele ainda tem um pequeno
inchaço na parte superior do crânio e algumas dores, mas os antibióticos que vou
receitar vão diminuir esse inchaço e fazê-lo sentir-se melhor.
- Obrigada, Dr.ª...
O primeiro dia de Internato correu tudo, menos bem. Joana atrapalhou-se em
algumas situações e percebeu que trabalhar activamente num hospital era bem
mais complicado do que fazer pequenas experiências em laboratórios ou analisar
tecidos mortos através de um microscópio. Trabalhar num hospital era cansativo,
extenuante, desafiador e aterrorizante. E trabalhar ao lado de Laura, era tudo isso
e muito mais. O ódio que um dia sentiu por ela passara por várias fases, agora
tinha-se estagnado numa admiração extrema quase obsessiva. Era impossível
ignorá-la ou manter-se indiferente à sua presença. A sua simples presença.
Impossível ignorar-lhe as costas bem formadas, a maneira imponente como se
movimentava nos corredores da clínica ou como se apresentava perante os
demais.
Enquanto conhecia todos os cantos do hospital onde iria trabalhar, Joana deu-se
muitas vezes consigo a olhar para aquela criatura que agora lhe causava um certo
fascínio. Queria privar da sua companhia. Queria conhecer todos os detalhes da
sua vida. Queria ser como ela. E para isso, tinha todo o tempo do mundo.
46
4
O Inverno chegou em força. As chuvas torrenciais continuavam a cair na cidade
de Lisboa, inundando casas, ruas e estradas. O vento também soprava forte e não
havia previsões de melhorias para os próximos dias.
Laura estacionou o carro em frente ao colégio dos filhos debaixo de uma chuva
avassaladora. Saiu mais cedo do hospital, após um plantão de vinte e quatro horas
que a manteve longe de casa e a obrigou a perder a prova de natação dos filhos.
Para se redimir de mais uma falha imperdoável, ela telefonou ao marido e
informou-o de que iria buscar as crianças à escola. Leonardo agradeceu o gesto.
Congratulou-se com a ideia dos filhos passarem pelo menos algumas horas na
companhia da mãe já que eram raros aqueles momentos. Laura passava a vida a
trabalhar e sobrava-lhe muito pouco tempo para estar com a família.
Mas ver as suas crianças através do espelho retrovisor, a brincarem entre si e a
enorme algazarra que faziam enquanto contavam todos os detalhes do seu dia na
escola, conferia-lhe um sentimento de paz. Como se apesar de tudo ela não
estivesse a ser penalizada pelo pouco tempo que passava com eles ou por estar a
perder grande parte do seu crescimento físico.
Regressaram a casa uma hora depois. Laura abriu as portas do seu jipe e as
crianças saltaram do banco de trás depois de se desfazerem dos respectivos cintos
de segurança. A chuva continuava a cair forte e intensa, motivo pelo qual os
pequenos correram em direcção aos portões sem olhar para trás ou sem ajudar a
mãe com os sacos das compras e as mochilas deixadas no porta-bagagens.
Coube-lhe a tarefa de trazer tudo nas mãos e ainda abrir a porta para que os filhos
entrassem pelo corredor adentro aos gritos. Com o tempo, ela habituou-se a
bloquear a mente e a ignorar-lhes o barulho ensurdecedor. Um mecanismo de
defesa que criou e que actualmente a impedia de enlouquecer.
47
- Vieram com fome?! - a empregada perguntou, sorridente, recebendo um beijo de
de João e André quando estes correram até à cozinha desejosos de encontrar um
lanche delicioso à sua espera.
- Sim - os pequenos gritaram em uníssono.
- Então é só sentar aí que eu faço um chocolate quente e uma tosta mista para cada
um. E as aulas como correram? - Alicia abriu as portas do frigorífico.
- Bem - André respondeu, sentando-se à mesa. - A melhor parte foi o final.
A resposta de André trouxe enormes gargalhadas a todos os que se encontravam
na cozinha. Alicia adorava o seu jeito espontâneo e divertido. Apesar de traquinas,
era uma criança adorável, tal como seu irmão gémeo. Mas as suas personalidades
eram completamente diferentes. João era reservado, doce e estudioso.
Assemelhava-se sobretudo ao pai, incapaz de cometer actos que os outros
pudessem não achar certo. Muitas vezes a sua presença tímida era engolida pela
capacidade inata do irmão em centrar todas as atenções para si. Mas os dois
complementavam-se na perfeição e eram muito unidos. A vantagem de se ter um
irmão gémeo era precisamente essa. A de nunca nos sentirmos sozinhos.
Laura entrou na cozinha pouco tempo depois. Deixou as mochilas dos filhos junto
às escadas e trouxe três sacos de compras adquiridos num supermercado perto de
casa. Ao ver a sua patroa carregada de compras, Alicia apressou-se a ajudá-la.
Tomou-lhe os sacos das mãos e depositou-os sobre a bancada. Desejou boa tarde e
Laura respondeu ao cumprimento com um cansaço visível no rosto enquanto se
desfazia da sua gabardina encharcada pela chuva.
Sempre que se encontrava na presença da patroa, Alicia sentia-se constrangida.
Laura não lhe dava qualquer espaço de manobra para tentar uma aproximação ou
uma conversa menos formal. Contrariamente ao marido e aos filhos que a
tratavam quase como um membro da família, Laura mantinha a mesma distância
desde que ela começara a trabalhar lá em casa. Havia pelo menos três anos e Alicia
continuava a estranhar o facto da patroa muitas vezes não se lembrar sequer do
seu nome.
- Chegaram estas cartas hoje para si e para o Sr. Leonardo - Alicia encontrou três
envelopes em cima do microondas e entregou-os a Laura.
- Obrigada.
- O jantar está pronto. Deixei tudo na geladeira. É só tirar e aquecer...
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- Tudo bem - Laura manteve-se concentrada na leitura das cartas que haviam
chegado durante a manhã. Apenas contas para pagar, reparou.
- Vou preparar o lanche dos meninos.
Alicia sorriu aos pequenos e afagou-lhes a cabeça enquanto se dirigia à despensa
para buscar o chocolate em pó. André ligou o televisor sobre a bancada para ver
com o irmão os últimos desenhos animados da tarde. Minutos depois, Alicia
regressou à cozinha com uma embalagem colorida nas mãos. Tirou dois copos dos
armários e encheu-os de leite, colocando no seu interior várias colheres de
chocolate até o líquido se tornar castanho e homogéno. Em seguida, levou os
copos em direcção ao microondas e aqueceu-os durante sessenta segundos.
Quando os retirou, a fumegar, serviu-os aos pequenos levando também à mesa
duas todas mistas acabadas de sair da torreira.
- Esperem esfriar um pouco, meus amores - ela avisou às crianças.
- Está quente - André tocou o copo com os dedos das mãos.
- Quer que também lhe prepare um lanche, D. Laura?
- Não, não é preciso - a médica largou os envelopes em cima da bancada com um
longo suspiro. - E já te podes ir embora.
- Não - André protestou de imediato. - Não vás, Alicia! Fica aqui! Ontem
prometeste que nos ias ajudar a passar aquele nível no jogo.
- E tem que ser hoje - João colmatou a resposta do irmão, cruzando os braços de
uma forma mimada.
- Eu sei, meninos! Mas...
- A Alicia vai-se embora porque o horário dela acabou - Laura interceptou
qualquer desculpa que a empregada pudesse fornecer aos seus filhos. - E depois
do lanche, não vai haver jogo para ninguém. Depois do lanche, é subir, tomar
banho, fazer os trabalhos de casa, jantar e cama. Entendido?!
Alicia não deixou de se sentir surpresa com a dureza de Laura para com as
crianças. Muitas vezes não havia cuidado nenhum por parte da médica em tratar
os filhos como eram. Apenas e somente crianças.
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- Podes ir-te embora, Alicia! Amanhã vens à mesma hora.
- Sim, senhora.
A empregada fulminou as costas de Laura quando esta abandonou a cozinha com
a sua gabardina cinzenta nas mãos. Em seguida, voltou-se para os gémeos e
prometeu-lhes que os iria ajudar a terminar o jogo no dia seguinte quando
ninguém estivesse em casa.
Exausta pelas longas horas de plantão a que havia sido submetida, Laura enfiou-
se no chuveiro e sentiu os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o
rosto. Inclinou a cabeça e ali se deixou ficar de olhos fechados sem pensar nada em
concreto. Depois do banho, regressou ao quarto enrolada numa toalha branca.
Sentou-se na cama e passou um creme pelo corpo, permitindo que os filhos
corressem pela casa numa enorme algazarra.
João e André pareciam ter energias inesgotáveis em contraste absoluto com a sua
paciência. Se fosse só um seria muito mais fácil, passava-lhe muitas vezes essa ideia
pela cabeça. Era difícil manter-se lúcida com duas crianças pequenas a correrem e
a saltarem a cada minuto do dia. Já não era a mesma. Já não tinha a mesma
vitalidade para fazer tarefas rotineiras como buscar os filhos à escola, tomar conta
deles ou servir o jantar. Se a empregada não existisse, provavelmente já teria
cortado os pulsos ou então já se teria mudado definitivamente para o hospital
onde trabalhava. Apareceria somente aos fins-de-semana para saber como os
filhos e o marido estavam. Ou quem sabe nem sequer apareceria. Quem sabe
apenas utilizaria o telefone para se comunicar com eles e tornar-se-ia finalmente
numa mulher livre e dona do seu próprio nariz.
- André, pára - ela segurou o filho no braço e sacudiu-o com força, impedindo-o de
continuar a saltar em cima da cama. - Desce daí! Não te vou avisar mais...
- Eu não vou cair - ele disse, divertido.
- Sai daí - Laura puxou o filho para fora da cama.
- O pai já veio - João entrou no quarto a gritar.
- Hei! Cuidado... - Leonardo esbarrou-se nos filhos quando entrou no quarto e eles
saíram de rompante, correndo em direcção às escadas que davam acesso ao
primeiro piso.
50
Tinha acabado de chegar do trabalho e trazia uma expressão visivelmente
cansada. Largou o casaco sobre o cadeirão e a pasta de trabalho sobre a cama.
Surpreendeu a sua mulher a secar os cabelos em frente à cómoda do quarto, mas
foi incapaz de lhe dizer muito mais do que boa noite. Estava exausto, cansado e
com uma terrível dor de cabeça. Nos últimos dias era-lhe praticamente impossível
manter horários ou promessas. A chegada dos sócios espanhóis intensificou as
construções do RESORT e trouxe-lhe muito mais trabalho. Chegava a casa fora de
horas, trabalhava a noite inteira no escritório e passava a vida ao telefone como se
daquele projecto dependesse toda a sua carreira profissional.
- Estás bem? – Laura observou uma expressão carregada no rosto do marido.
- Nem um pouco! Estou a morrer de dores de cabeça.
- Correu-te mal o dia?
- Péssimo – Leonardo afrouxou o nó da gravata. – Um dos nossos trabalhadores
sofreu um acidente.
- Grave?!
- Morreu.
Laura voltou-se para o marido, surpresa. - Como é que foi isso?
- Não levava o equipamento de segurança. Resolveu subir para arranjar o sistema
de electricidade e acabou electrocutado. Caiu de uma altura de mais de dez
andares.
- Estavas lá?
- Não! Estava no escritório. Mas corri para lá assim que me ligaram.
- Que horror!
- Ainda assisti ao translado do corpo. Parece que o velório vai ser amanhã.
- E tu vais?
51
- É a minha obrigação. Ainda por cima isto aconteceu na pior altura. Os espanhóis
não gostaram nem um pouco do que se passou hoje e têm toda a razão. É
inadmíssel que um encarregado de obra permita que qualquer trabalhador suba
dez andares sem equipamento de protecção - Leonardo desabotoou os primeiros
botões da sua camisa enquanto os filhos corriam ao longo do corredor fazendo um
barulho ensurdecedor. - André! João! Já chega...
- Amanhã estou de plantão - Laura continuou a escovar os cabelos molhados em
frente ao espelho da cómoda. - Se fores ao velório quem é que fica com os miúdos?
- Falamos com a Alicia.
- Não podemos estar sempre a pedir que fique com as crianças à noite. Não é isso
que está estipulado no contrato dela.
- Então nesse caso o meu irmão pode ficar com eles.
- Estás louco?! - Laura voltou-se para o marido, incrédula. - O teu irmão?
- Porque não?! É só falarmos com ele. Não me parece que se vá importar de ficar a
tomar conta dos sobrinhos. Além disso, eu não me vou demorar...
- Eu falo com a minha mãe! Peço-lhe para ficar com os miúdos até te despachares
do velório.
- Porque é que não queres que o meu irmão fique com o João e o André?
- Porque nós não o conhecemos, Leo! É por isso...
A resposta de Laura foi preemptória e não deixou outra alternativa ao marido a
não ser discordar dela em silêncio.
- Então liga tu à tua mãe! Já sabes que quanto menos palavras trocar com ela,
melhor...
Leonardo refugiou-se na casa de banho e fechou a porta com força, sem a mínima
paciência para aturar os ataques da mulher. Aliás, nos últimos tempos, estes
ataques tinham-se tornado demasiado frequentes e perturbadores de uma relação
outrora pacífica e feliz.
52
Ele tentava convencer-se de que tudo não passava de uma fase. Mais uma crise
que ia e vinha em casamentos de longa duração. Onze anos era um casamento de
longa duração, não? Pelo menos aos seus olhos e comparando-se com a maior parte
dos casais que conhecia, para Leonardo onze anos era uma vitória. Mas para
Laura? Bem. Ela ainda não sabia. Não seria absurdo? Entre todos os homens do
mundo ela foi-se casar com o único que era absolutamente perfeito. Leonardo não
bebia, não saía à noite, não tinha vícios e nem um único dia para estar com os
amigos. A sua vida resumia-se inteiramente à família e ao trabalho. Seria um
sonho se não fosse um pesadelo, porque a responsabilidade para corresponder a
isso era gigantesca. A perfeição do marido irritava-a.
O jantar foi servido às nove horas em ponto. Laura levou à mesa o empadão de
peixe cozinhado pela empregada. O marido foi o último membro da família a
sentar-se, trazendo no corpo uma roupa confortável e os cabelos ainda molhados
do banho. Os gémeos viram-se servidos pela mãe, enquanto a televisão debitava
as últimas notícias do dia. Apesar do cansaço, Leonardo respondeu a todas as
perguntas pertinentes dos filhos que surgiam a cada cinco segundos num
turbilhão de ideias próprias de duas crianças de sete anos.
A mulher visivelmente entediada continuou a comer em silêncio, pensando na
próxima cirurgia que iria realizar dali a duas semanas. Por vezes, Leonardo
rasgava-lhe olhares curiosos e pressentia-a a milhares de quilómetros dali. Nos
últimos tempos, Laura andava especialmente estranha e distante. Mais fria do que
o costume. Ele já havia pensado em interpelá-la outras vezes e passar de um
simples "Está tudo bem?" para um "O que é que se passa?"
No entanto, Laura não lhe dava margem de manobra para tocar no assunto ou tão
pouco se mostrava interessada em abordá-lo. Para ela estava tudo bem. Sempre
tudo bem, ainda que os seus olhos e os seus gestos dissessem o contrário.
Leonardo sabia que o casamento passava por inúmeras fases. A descoberta. A
paixão avassaladora. A cumplicidade. O companheirismo. A rotina. O tédio. A
indiferença. Estariam eles naquele último estágio, passou-lhe essa pergunta pela
cabeça. Ele queria acreditar que não.
- Boa noite! Desculpem o atraso.
A voz rouca de Ricardo quebrou o silêncio instalado na sala. Mais uma vez
chegou tarde sem fornecer demasiadas explicações para o seu desaparecimento e
mais uma vez lançou um olhar fulminante à cunhada, que incomodada enterrou
os lábios na taça de vinho a fim de fugir à presença de um homem que lhe
provocava verdadeiros arrepios sempre que olhava para si.
53
Laura não gostava dele, ou pelo menos tentava convencer-se disso. Não gostava
do seu jeito estranho, misterioso, da forma como vagueava pela casa. Não gostava
de se cruzar com ele nos corredores, de ceder-lhe a passagem sempre que
esbarravam na porta da cozinha ou de fingir que a sua presença não a deixava
incomodada. Sim. Ele incomodava-a. Mais do que poderia imaginar ou querer.
- Junta-te a nós - Leonardo indicou uma cadeira ao irmão.
- Agradeço o convite, mas já jantei. Vou subir! Até amanhã...
Prestes a operar novamente o cérebro de um outro paciente e com algumas
dúvidas relativamente ao melhor plano cirúrgico a seguir, tudo o que Laura não
queria era cometer erros. Por isso, após o jantar e de ter arrumado a cozinha com a
ajuda do marido, enfiou-se no escritório para estudar.
Perto das duas da manhã, mergulhada num silêncio ensurdecedor, ela ouviu a
porta do escritório abrir-se vagarosamente. O marido trouxe-lhe uma chávena de
café para a manter acordada sem no entanto saber que aquele líquido já não surtia
qualquer efeito em si. Também ele não havia conseguido pregar olho apesar de ter
feito um enorme esforço para isso. A cama sem Laura parecia-lhe sempre
demasiado grande e fria.
- Para te manter acordada - ele disse.
- Obrigada – Laura aceitou um beijo na testa e a chávena de café das mãos do
marido. - Pensei que já estivesses a dormir.
- Estava com insónias e resolvi trazer-te um café.
- Vai dormir, amor! Já é tarde.
- Não queres que fique aqui contigo para te ajudar a estudar? - Leonardo brincou.
- Não é preciso – Laura retirou os óculos de leitura perante o olhar embevecido do
marido. – Este sacrifício só me compete a mim.
- Vê lá! Não fiques acordada até de manhã.
- Podes deixar.
54
Leonardo beijou o pescoço perfumado da mulher e em seguida encontrou-lhe a
boca. Afundou-se nela como um louco. Queria tê-la nem que por alguns instantes,
nem que fosse apenas para matar saudades e satisfazer o desejo que sentia por ela
desde o primeiro dia em que a conheceu. Queria asfixiá-la, prendê-la nos seus
braços e despi-la ali mesmo sobre a secretária. Contudo, Laura afastou-o a tempo e
poisou-lhe os dedos sobre os lábios, tentando também ela recuperar o que ele lhe
fizera perder. O fôlego.
- Não me desconcentres, por favor – os dois riram-se baixinho.
- Não faças directa - Leonardo afastou-se, conformado. - Tens que descansar.
- Eu sei.
- Até amanhã.
- Até amanhã.
Eram três da manhã quando Ricardo desceu ao jardim a fim de fumar um cigarro.
O décimo quinto de um dia entediante passado a rodar a cidade sem destino certo.
A noite chuvosa deu lugar a uma madrugada gélida onde não era possível ver
uma única estrela no céu. Nem mesmo a lua marcou presença. Ricardo perguntou-
se então o que ainda continuava a fazer ali. Sentia-se como um verdadeiro peixe
fora de água. Nada daquilo lhe era familiar. Não conhecia as pessoas residentes
naquela casa, aquele cheiro agradável a rosas, não conhecia nada e nem sabia
sequer como se mexer ali dentro. Tentou pelo menos alegrar-se com a ideia de ter
conseguido encontrar o seu irmão, mas nem isso encheu o seu coração de alegria.
Seria normal não sentir absolutamente nada por ele? Não sentir amor? Ser totalmente
indiferente à sua vida? À sua felicidade? À sua família?
Várias perguntas ficaram sem resposta quando ele apagou o cigarro e atirou a
beata para além da cerca do quintal. Depois do vício saciado voltou à cozinha e
fechou a marquise com cuidado. Lavou as mãos no interior do lava-loiça sem
acender a luz do tecto e saiu da habitação, passando por um corredor às escuras.
Ao fundo do corredor, uma luz acesa no escritório aguçou a sua curiosidade. Ele
aproximou-se pé ante pé e espreitou atrás da porta. Vislumbrou a figura da
cunhada sentada à secretária com uma pilha de livros diante de si. A caneta
enfiada na boca, os óculos de leitura tapando-lhe os olhos e as mãos a desfolharem
páginas atrás de páginas, deixaram-no deslumbrado a olhar para ela.
- Está aí alguém!?
55
Laura ouviu um ligeiro barulho que a deixou alerta. Em seguida, apercebeu-se da
presença de um vulto atrás da porta e voltou a fazer a mesma pergunta, desta vez
de uma forma muito mais ríspida. Está aí alguém?
- Desculpa! Não te queria assustar – Ricardo entrou no escritório e enfrentou o
olhar furioso da cunhada. – Vi a luz acesa e pensei que alguém a tivesse esquecido
de apagar ou assim.
- Como vês estou aqui.
Laura voltou a enfiar a cara no livro. Ao olhar à sua volta e ao ver-se pela
primeira vez no interior daquela habitação, Ricardo percebeu que o escritório não
era muito grande. Dotado de uma decoração moderna, o que saltava à vista era
uma quantidade exorbitante de livros, enciclopédias, pastas e arquivos. Reparou
também na presença de uma cabeça gigante perto da janela. Uma espécie de
prótese verdadeiramente assustadora que em tudo se assemelhava a um cérebro
humano. Sobre a secretária, Laura mantinha uma pilha livros, e ao lado, uma
chávena de café gelada.
- Estás a estudar?
- Sim – ela respondeu sem tirar os olhos do bloco onde estava a escrever alguns
apontamentos.
- O Leo disse-me que eras Neurocirurgiã.
Laura continuou a escrever desajeitadamente sem responder à conversa
circunstancial do cunhado. Mas já nem sabia o que estava realmente a fazer. A
caneta começou a suar-lhe nas mãos.
- A tua profissão deve ser fascinante, não?!
- Nem tanto - ela cometeu um erro ortográfico e riscou-o logo em seguida.
- Como é que podes dizer isso? Tens a vida de um ser humano nas mãos. Tens o
poder de decidir se essa pessoa morre ou não…
- Não vejo as coisas por esse prisma.
56
Após um longo silêncio com o qual foi brindado, Ricardo atreveu-se a tirar um
livro da prateleira. “Handbook of Cardiovascular CT. Essentials for Clinic Pratice”, leu
em voz alta. Em seguida, folheou as páginas e tentou assimilar algumas das
informações ali descritas. Não precisou de muito esforço para fazer a tradução
para o português.
- “O coração é o órgão central do sistema circulatório. É um músculo oco cuja função
consiste em recolher o sangue proveniente das veias e lançá-lo nas artérias. Está localizado
na cavidade torácica, directamente atrás do esterno, deslocado em direcção ao lado
esquerdo. As suas paredes de tecidos muscular são reforçadas por bandas de tecido
conjuntivo e todo o órgão está coberto pelo tecido conjuntivo chamado pericárdio. Tanto o
coração como todos os vasos estão revestidos por uma capa de células planas, chamada
endotélio que evita que o sangue se coagule. O volume do coração pode variar de individuo
para individuo. As suas dimensões médias, num homem adulto podem ser de 98 milímetros
de comprimento, 105 milímetros de largura e 230 milímetros de circunferência. O peso é de
cerca de 275 gramas. Já o coração da mulher tem dimensões inferiores de 5 a 10 milímetros
e pesa menos 5 a 10 gramas. A cada minuto ele bate 80 vezes, ou seja, mais de uma vez por
segundo, e passa de 100 por minuto quando saltamos à corda. A prova de que ele é
importante? Basta dizer que quando o coração pára, a vida acaba …”
Há muito que Laura o tinha deixado de ouvir. Enquanto Ricardo lia uma das
matérias mais básicas para um médico, Laura perdeu-se na sua fisionomia facial
deslumbrante, na sua voz rouca e no cheiro intenso a tabaco que as suas mãos
emanavam. Ricardo era tóxico. Misterioso. Diferente. Ao pé dele, ela sentia-se
completamente despida, desprotegida e à sua mercê. Ele era o único ser humano
capaz de conseguir tal feito, ainda que não fizesse nenhum esforço para isso.
- Vou deixar-te sozinha - Ricardo voltou a guardar o livro na prateleira. - Precisas
estudar e eu não estou a ajudar para que isso aconteça.
Deu-se um último olhar entre os dois, mas o silêncio voltou a imperar naquele
escritório. Não havia nada a dizer. Nem mesmo palavras vãs ou de circunstância.
- Boa noite - ele despediu-se.
Quando o cunhado abandonou o escritório, Laura pôde finalmente voltar a
respirar de alívio. Agarrou na chávena de café que o marido lhe trouxera horas
antes e levou-a à boca numa tentativa desesperada de fugir aos maus
pensamentos. Por azar o café encontrava-se gélido, mas ainda assim ela bebeu-o.
Num só gole. Sem meias medidas ou cerimónias. Pensou que porventura aquele
líquido lhe fosse fazer bem. Pensou que porventura lhe fosse esfriar o ímpeto.
57
5
Depois de ter cumprido exemplarmente todas as tarefas que lhe foram incubidas,
Joana Lima encheu o peito de coragem e resolveu aproximar-se da sua
Orientadora com o intuíto de lhe devolver as fichas administrativas que havia sido
obrigada a preencher durante a manhã. Curiosamente, preencher fichas e mais
fichas tinha sido ainda a única tarefa permitida por Laura desde ela começara o
seu Internato.
- Aqui estão as fichas, Dr.ª Laura!
- Tenho um paciente a quem vou dar alta agora - Laura recebeu-lhe a pasta das
mãos. - Preciso que venhas comigo.
Joana seguiu a sua Orientadora pelos corredores da clínica com a mesma
celeridade.
- Ele tinha dois tumores em cada hemisfério cerebral...
- Ouvi falar dessa cirurgia. O meu tio também participou nela, não foi?
Laura ignorou a pergunta de Joana. - Conseguimos remover grande parte dos
tumores através dessa cirurgia e uma outra parte significativa depois de inúmeras
sessões de radioterapia. A recuperação foi relativamente rápida, aliás, digo antes
milagrosa. Mas ainda assim mantive o paciente em observação só para ter a
certeza de que não haveriam sequelas ou de que as células cancerígenas não se
voltariam a multiplicar. Agora ele está bem e pronto a voltar para casa.
58
- Fico contente.
- Foi um trabalho bem feito.
Laura chamou o elevador ao primeiro piso, mas tal como sempre este demorou
uma eternidade a chegar. Durante o tempo de espera, Joana observou-a de soslaio.
Achou-a particularmente bonita naquela manhã com os cabelos soltos, volumosos.
Cheiravam a rosas e os lábios estavam ligeiramente pintados de cor de rosa
clarinho.
- Os seus filhos são muito bonitos – a jovem não resistiu a fazer a observação
enquanto aguardavam a chegada do elevador.
- Desculpa?!
- Sim! Há pouco, enquanto estavamos no seu consultório, vi uma fotografia sobre
a secretária. São os seus filhos, não são? Gémeos!?
- Sim.
- Quantos anos têm?
- Sete.
- São parecidos com o seu marido. Ele também é muito bonito.
Joana assustou-se com o olhar aterrador que Laura lhe lançou. Foi por pouco que
o coração da jovem não parou de bater quando os olhos verdes da médica a
atacaram como duas estacas.
- Joana! Vamos combinar uma coisa?
- Sim.
- Eu nunca falo sobre a minha vida pessoal. Sob quaisquer circunstâncias. E
também não quero saber da tua vida privada. Sob quaisquer circunstâncias. Aqui
dentro, e até mesmo lá fora, eu sou a tua Orientadora e tu és a minha Interna.
Entendido?
- Entendido – Joana engoliu seco.
59
O fim-de-semana amanheceu chuvoso e sem previsões de melhora. Pela primeira
vez desde há muito, Leonardo e Laura estiveram de folga em simultâneo. Um
acontecimento bastante celebrado pelos filhos que tal como todos os dias
acordaram cedo e resolveram bater à porta do quarto dos progenitores para que
também eles acordassem. Divertidos, os pequenos saltaram para cima da cama e
ali ficaram no meio dos pais a contar histórias sem importância enredados num
rotina familiar tão bem conheciam.
Leonardo adorava momentos como àqueles. Adorava ver os filhos de perto,
observar-lhes as expressões inocentes, tocar-lhes nos cabelos, nos braços e fazer-
lhes cócegas para que eles se rissem às gargalhadas. Por outro lado, também
gostava de observar a expressão serena da mulher a ouvir com atenção tudo o que
as crianças falavam. Laura ficava muito mais bonita de manhã desprovida de
maquilhagem, com os cabelos desgrenhados e uma simples combinação de
dormir. Ficava linda a tocar no rosto dos filhos e a rir-se contidamente das piadas
contadas por eles enquanto a atmosfera matinal se espalhava pelo quarto. Em
momentos como àqueles em que o relógio parecia parar, Leonardo chegava à
conclusão que todos os sacríficios que fazia diariamente pela sua família eram
ínfimos quando comparados com a satisfação de ter perto de si as três pessoas
mais importantes da sua vida.
Sem pressas para um dia que se adivinhava longo e descompromissado, João e
André desceram à cozinha e encontraram um pequeno-almoço preparado pela
mãe. Leite, cereais, pão fresco, sumos e fruta foram alguns dos ingredientes que
fizeram parte da refeição improvisada pela médica a poucos minutos das nove da
manhã.
- André! Tira a mão do prato – Laura levou o fervedor à mesa.
- O pai!? – o pequeno perguntou enquanto destruia com os dedos a torrada que
tinha no prato.
- Já deve estar a descer. Pára com isso - a mãe retirou-lhe o pão das mãos.
- Ele disse que nos ia levar ao Colombo para comprarmos um novo jogo – João
permitiu que a mãe lhe deitasse o leite quente para o interior da taça de cereais.
- Mais um, queres tu dizer – Laura fez a observação.
- Vens connosco? – André perguntou.
- Não! A mãe tem coisas para fazer.
60
Depois do banho e de ter vestido uma roupa confortável, Leonardo desceu à
cozinha e iniciou o seu pequeno-almoço com um jornal nas mãos. Laura, por sua
vez, manteve-se concentrada num livro científico que havia adquirido semanas
antes sem no entanto descurar das traquinices dos filhos. Os pequenos
continuaram a devorar os cereais fazendo planos e projectando um dia que apesar
de chuvoso se adivinhava divertido na companhia do pai. O Natal estava quase a
chegar e era preciso começar a comprar os primeiros presentes, montar a árvore na
sala e as luzes no jardim. Tarefas que todos os anos recaíam sobre os ombros de
Leonardo, uma vez que a mulher se recusava a participar delas e a enfrentar as
filas nos centros comerciais durante os fins-de-semana.
Ricardo entrou na cozinha algum tempo depois, mais uma vez atrasado e com
olhos de quem tinha passado a noite inteira sem dormir. Era habitual ser o último
a acordar nunca fornecendo explicações a ninguém sobre os seus hábitos menos
ortodoxos. Não tinha horários, não tinha responsabilidades. Não fazia sequer um
esforço para se integrar na família, conhecer o irmão, os sobrinhos ou a cunhada.
No fundo era apenas um estranho que ali se encontrava. E se continuasse assim
iria-se embora tal como chegou. Sem deixar saudades.
- Bom dia – ele disse.
- Bom dia – Leonardo mostrou-lhe um sorriso, contrafeito. – Dormiste bem?
- Mais ou menos! Preciso de um café.
Ricardo arrastou uma cadeira à frente de Laura e mais uma vez não a poupou do
seu olhar insinuoso. Ela retribuiu o gesto, mas apenas por breves instantes. Em
seguida, voltou a enterrar o rosto no livro que estava a ler e manteve-se assim até
ao final da refeição.
Poucos minutos antes das onze, Leonardo, João e André abandonaram a mesa do
pequeno-almoço. Ricardo não deixou de se congratular com o silêncio que
subitamente se instalou naquela habitação. Estava a morrer de dores de cabeça
devido à gritaria dos sobrinhos e a sua paciência encontrava-se presa a um fio de
cordialidade por se encontrar a viver numa casa que não a sua.
- Vêm logo para casa? - Laura perguntou ao marido.
- Vamos tentar não demorar – Leonardo encontrou o seu casaco sobre a cadeira.
- Se te lembrares passa pela padaria e traz-me aqueles pastéis de nata.
61
- Podes deixar! Não me vou esquecer.
André e João voltaram à cozinha e despediram-se de Laura com um beijo na face.
Ela retribuiu o cumprimento de forma igual compondo-lhes os casacos e os gorros.
Estava frio e era preciso que se agasalhassem sob pena de apanharem uma valente
constipação a poucas semanas do Natal.
Leonardo roubou um beijo à mulher sem ligar ao olhar atento do seu irmão.
Quando a porta se fechou e o barulho ensurdecedor das crianças teve fim, Ricardo
respirou de alívio. Estava feliz, embora a verdadeira razão para a sua felicidade
não se prendesse com o facto dos sobrinhos e do irmão terem saído. Havia um
outro motivo. Muito mais forte. Muito mais intenso. Um motivo que se encontrava
exactamente à sua frente. Ricardo reparou nas mãos delicadas da cunhada sobre o
livro que ela estava a ler. Os dedos finos compridos e as unhas pintadas de rosa
clarinho captaram a sua atenção assim como a aliança de ouro que ela usava na
mão esquerda. Havia também um certo erotismo na forma como ela segurava a
chávena de café sem tirar os olhos da página que estava a ler. Achou também
curiosa a forma como os dedos quase magros demais, porém graciosos, separaram
cuidadosamente uma fatia de pão com um erotismo que por pouco não o
incendiou por dentro. Os seus rostos voltaram a cruzar-se à mesa e ele sorriu.
Debochadamente. Espirituosamente. Ela sentiu a face vermelhar, mas foi incapaz
de desviar os olhos dele.
- Algum problema? - Laura questionou com alguma rispidez.
- Não - Ricardo voltou a sorrir. - Problema nenhum.
Começava a gostar do jeito dela, Ricardo chegou a essa conclusão quando a viu de
costas a lavar as loiças sujas do pequeno-almoço. Observou-lhe os gestos, o toque
das mãos na água e a sua postura recta. E quando não conseguiu aguentar mais
caminhou lentamente em direcção ao lava-loiças, depositando na pia a chávena de
café que utilizara momentos antes.
Houve um choque eléctrico quando as suas mãos a tocaram por debaixo da água.
Ele observou-a a escassos centímetros de distância e ela esmagou-o com os seus
olhos verdes acutilantes. Obrigado pelo café, ele disse. Ela não respondeu.
A chuva não deu tréguas durante toda a manhã e nem os ventos fortes pararam
de soprar nos arbustos da vizinhança. Enquanto Laura preparava o almoço na
cozinha, Ricardo saiu ao jardim sem se importar com a molha que iria apanhar
apenas para conseguir saciar o seu vício. Acendeu um cigarro e fumou-o
calmamente. Por momentos, fez-lhe bem sentir a chuva sobre os ombros, o vento
frio soprar-lhe no rosto e o fumo do cigarro a incendiar-lhe os pulmões.
62
A poucos metros de distância, intrigada com a imagem daquele homem no seu
jardim, Laura entrelaçou os dedos nos cortinados e posicionou-se atrás da janela.
Observou atentamente todos os gestos do cunhado e sentiu um nó invadir-lhe a
garganta quando percebeu que por mais que tentasse simplesmente não conseguia
desviar os olhos dele. Dava consigo a questionar-se de onde havia saído, o que
tinha feito até à data ou quais os motivos que o fizeram regressar a Portugal após
tantos anos de ausência. Era estranho. Terrivelmente estranho sentir-se atraída por
ele e pela sua vida e ao mesmo tempo desejar que ele desaparecesse da sua casa.
- Chegámos!
A algazarra dos filhos e a voz alegre do marido trouxeram-na de volta à
realidade. Aflita, Laura voltou a afastar-se da janela da cozinha e concentrou todas
as suas atenções a cortar os tomates e as cebolas sobre a bancada. Tinha muito
pouco tempo para tentar compensar as horas que perdeu a admirar o cunhado
projectando conjecturas estúpidas acerca da sua vida.
- Queres ajuda com o almoço? - Leonardo surpreendeu a mulher pouco tempo
depois junto ao fogão.
- Não! Não é preciso - ela respondeu, apressada.
- O que estás a fazer?
- A tentar com que isto saia parecido com um arroz de pato.
- Cheira bem - Leonardo aproximou-se da travessa sobre a bancada.
- Não te animes! Não deve ficar grande coisa.
- Não faz mal! Gosto quando te esforças - o arquitecto beijou-a ternamente nos
cabelos. - E não precisas de ficar nesse stress...
- Que stress? - Laura desviou-se instintivamente dos braços do marido.
- Sempre que cozinhas parece que estás a planear uma operação cirúrgica.
Leonardo riu-se animado, mas a mulher não o acompanhou na sua boa-
disposição.
63
- Ele é muito estranho.
- Quem? - Laura fingiu não saber de quem o marido estava a falar quando este se
aproximou da janela e vislumbrou a figura do seu irmão a fumar o oitavo cigarro
do dia.
- O meu irmão! Não sei porquê, mas começo a achar que tinhas razão. Não foi lá
muito boa ideia tê-lo convidado para ficar cá em casa.
- Falta pouco para ele se ir embora.
- Deus te oiça...
Leonardo apoderou-se de uma maçã sobre a fruteira e saiu da cozinha, indiferente
à expressão preocupada da mulher quando, sem conseguir resistir aos seus
impulsos, voltou a entrelaçar os dedos nos cortinados e deu-se conta de que o
cunhado já não se encontrava no jardim das traseiras. Ricardo desaparecera. Como
um fantasma que agora assombrava aquela casa.
64
6
O Natal chegou poucos dias depois e com ele vieram também os preparativos
para a grande festa. Um ritual repetido todos os anos por causa das crianças que
se deslumbravam a montar a árvore na sala, a enchê-la de presentes, a decorar as
janelas com desenhos natalícios e o jardim com luzes fluorescentes. Leonardo
passara uma semana a preparar a festa, embrulhando presentes e arranjando
meias vermelhas com o nome dos filhos para colocar sob a lareira. Escolheu os
presentes com cuidado para a família e para os amigos. Tudo foi feito com um
afecto fervoroso, um zelo muito especial. A casa estava bonita, enfeitada com
pinhas, azevinho e pequenos pinheiros em vasos. Na porta principal foi colocada
uma bela coroa.
A alegria da família contrastou com a indiferença de Ricardo relativamente àquela
época festiva. O Natal deixou de ter significado para ele desde a altura em que os
seus pais morreram. A partir desse momento ele tornou-se indiferente à alegria
das crianças, às luzes expostas na cidade e à forma como todos se tentavam
redimir dos seus pecados com oferendas natalícias que de nada valiam. Quando
explicou o seu ponto de vista numa conversa amena com o irmão durante o jantar,
Leonardo perguntou-se o porquê de Ricardo se ter tornado num homem tão frio,
distante e sem qualquer alegria de viver. Era como se vivesse vinte e quatro horas
escondido atrás de uma máscara com medo de mostrar as suas emoções ou como
se passasse o tempo todo a culpar os outros pelos fracassos ocorridos ao longo da
sua vida.
Na véspera da grande data, Laura encarregou-se das compras do supermercado,
da confecção dos doces e do bacalhau. Para isso contou com a ajuda da sua
empregada. As duas prepararam tudo com o máximo de aprumo. Laura encarava
as receitas culinárias como verdadeiros planos cirúrgicos, executando-as com um
rigor absoluto, seguindo medidas, o tempo exacto de cozedura, os ingredientes
correctos e não admitindo falhas na apresentação final.
65
Quando cozinhava ao lado de Laura, Alicia sentia-se constantemente observada,
como se estivesse a participar de uma prova avaliativa. Era extremamente
extenuante retirar uma grama de farinha da tijela, medir a quantidade exacta do
açúcar, fazer as claras em castela até ficarem com a espessura exacta e ter que
repetir tudo de novo se não atingisse os resultados que a patroa considerava
aceitáveis.
- Já cheira bem - Leonardo entrou na cozinha com um escadote debaixo dos braços
após ter reparado uma lâmpada que se fundira na arrecadação.
- Conseguiste arranjar aquilo? - Laura abriu a gaveta dos talheres e retirou do seu
interior uma colher de pau.
- Sim! Está tudo! Vou só arrumar o escadote à despensa.
- Os miúdos?
- Estão lá fora a jogar à bola - Leonardo gritou do interior da despensa.
Minutos depois o arquitecto regressou à cozinha de mãos vazias, mas com uma
vontade enorme de lamber a tijela com os restos da mousse de chocolate feita pela
sua empregada. Parecia um menino de cinco anos, ela reparou.
- Posso?
- Claro - Alicia respondeu, sorridente. - É toda sua.
- Isto está mesmo com bom aspecto - Leonardo utilizou uma colher de pau para
tirar os restos da tijela. - Era capaz de comer tudo.
- Vai ficar ainda melhor quando colocar as raspas de bolacha na mousse - Alicia
riu-se animada ao ver a expressão infantil do patrão a lamber a colher suja de
chocolate.
- Diz-me uma coisa, Alicia! Onde é que vais passar o Natal este ano?
- Era para passar na casa da minha tia, mas ela viajou para o Brasil. Por isso não
sei. Talvez fique em casa assistindo televisão.
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- Nada disso. Passas aqui connosco - Leonardo adiantou-se. - Os miúdos vão
gostar.
- Sr.º Leonardo, eu não sei... - Alicia rasgou um olhar aflito a Laura tentando ver
na patroa qualquer sinal de aprovação.
- Não me digas que tens outros planos que não nos queres dizer?
- Não, eu não tenho planos nenhuns. Eu só não sei se...
- Os miúdos compraram-te um presente! Por isso, era bom que estivesses aqui
logo à noite para o receber - a resposta de Laura enquanto desmontava a batedeira
sobre a bancada, saiu seca, mas suficiente para encher o coração de Alicia de
alegria.
À mesa sentaram-se cerca de nove pessoas prontas a partilhar a ceia de Natal.
Leonardo e Laura convidaram amigos próximos e mãe de Laura que a muito custo
aceitou o convite da filha e do genro para se juntar a eles naquela comemoração
festiva. Luísa Mendonça era a antítese do que todos consideravam uma boa
companhia. De certa forma, tinha uma personalidade idêntica à da filha. Melhor.
A personalidade de Laura idêntica à da mãe. O perfeccionismo excessivo, o
sentido crítico apurado e o autoritarismo eram algumas das características
intrínsecas a estas duas mulheres que durante vinte anos moraram juntas. A
relação nunca foi das melhores. Cheia de altos e baixos, rancores e ódios
escondidos por razões que Luísa nunca foi capaz de explicar a ninguém.
Com o passar dos anos, Laura desistiu de tentar compreender estas mesmas
razões e resignou-se à ideia de que nunca teria uma relação normal com a sua
mãe. De qualquer maneira já não lhe fazia falta. Já não se sentia triste cada vez que
se lembrava da sua infância terrível e nem guardava rancores da frieza excessiva
de Luísa. Para Laura as mágoas encontravam-se completamente ultrapassadas
agora que ela tinha a sua própria família.
O bacalhau cozido foi servido às oito horas em ponto por Laura e pela empregada
Alicia, enquanto Leonardo abria as garrafas de vinho sobre a mesa divertido com
as piadas proferidas pelo seu melhor amigo.
Francisco Saraiva era um arquitecto de quarenta e dois anos com um bom-humor
irrepreensível, pelo menos aos olhos de certas pessoas. Não aos de Luísa e nem
aos de Laura. Era também um dos melhores amigos de Leonardo, trabalhavam
juntos na mesma empresa e partilhavam gostos comuns. Arquitectura. Desporto.
Política. Carros. Enfim. Matérias masculinas que os levavam a passar horas em
conversas onde as mulheres se sentiam demasiado entediadas para participar.
67
Francisco era um homem atraente apesar de se encontrar um pouco acima do
peso. Possuía cabelos e olhos castanhos, um gosto requintado para escolher fatos e
relógios caríssimos da marca Patek Philippe. Ganhou o gosto através do pai, que
quando morreu, deixou uma verdadeira colecção de relíquias avidamente
usurpadas pelo filho mais novo. Quando o assunto não eram relógios, carros,
viagens ou outros bem materiais sem os quais não conseguia viver, Francisco
interessava-se por mulheres. Bonitas de preferência. Loiras. Superficiais. Pouco
inteligentes. Conseguira encontrar uma que se enquadrava perfeitamente nos seus
padrões de exigência. A mulher. Sofia Saraiva.
Sofia era uma mulher extremamente bonita e sofisticada, cujo passatempo
preferido era estoirar cartões de crédito. Tinha cabelos pintados de loiro para
enganar o marido, olhos castanhos-claros, unhas religiosamente pintadas de
vermelho e uma obsessão extrema pela sua aparência física. Infelizmente não
possuía qualquer profissão e também nunca se interessou pelo verbo trabalhar.
Casou-se exclusivamente para manter o status e nível de vida que os pais sempre
lhe proporcionaram desde criança. Casar-se com Francisco foi como juntar o útil
ao agradável. Uma mulher como ela jamais conseguiria viver ao lado de um
homem pobre.
Sofia vivia essencialmente para suprir as necessidades do marido, excepto o
desejo de ter filhos. Isso não. Não tinha em si qualquer instinto maternal e nem se
imaginava a cuidar de uma criança para a vida toda. Bastava olhar para os filhos
de Laura e Leonardo. Eram insuportáveis apesar de todos terem que fazer um
esforço sobre humano para os aturar e mostrarem-se simpáticos com aqueles dois
seres minúsculos que mais pareciam dois terroristas.
A última convidada a chegar à ceia de Natal foi Rita Azevedo. Depois de se
desenvencilhar de um plantão de vinte e quatro horas, a Enfermeira-Chefe passou
por casa, tomou um banho, vestiu a primeira peça de roupa que lhe passou pela
frente e rumou em direcção à casa dos seus amigos para passar com eles a
consoada.
Contrariamente a Sofia, Rita vivia exclusivamente para o trabalho. Restava-lhe
pouco tempo para se dedicar a actividades mundanas como uma tarde de
compras num centro comercial ou uma ida ao cabeleireiro. Aliás, tal como Laura,
Rita não se lembrava a última vez que pusera os pés num cabeleireiro. Não tinha
tempo para isso e nem paciência também. Devido ao trabalho, a sua vida social
estava praticamente estagnada. Não tinha filhos, não era casada e aos trinta e sete
anos de idade tudo o que possuía era um apartamento minúsculo e um gato persa
que lhe fazia companhia nas noites frias de Inverno. Talvez para algumas pessoas
isso fosse pouco, mas para ela, na altura, era suficiente.
68
O sonho de formar uma família começava a dissipar-se aos poucos deixando
espaço para um conformismo próprio de alguém que tinha consciência de que
nem sempre era possível ter-se tudo o que se queria. Uma vida pessoal
extraordinária e uma carreira profissional de sonho. Utopias. Ou talvez não.
Quando olhava para a sua amiga Laura, Rita imaginava-a como sendo a mulher
mais feliz do mundo. Invejava-a, mas no bom sentido. Não eram todas as
mulheres que se poderiam gabar de ter um marido como Leonardo, dois filhos
saudáveis como João e André e uma profissão amplamente valorizada no mercado
de trabalho que lhe proporcionava um salário bem acima da média.
Laura era uma mulher de sorte, devia ter consciência disso. Mas o que ninguém
sabia era que se tinha deixado mergulhar numa apatia inexplicável de alguém que
perdera totalmente o interesse pelas coisas que a rodeavam. O trabalho, o
casamento, os filhos, os amigos. Eram onze anos do mesmo.
Em festas ou jantares idênticos àquele, era obrigada a ouvir as mesmas histórias
que já ouvira várias vezes sem conta, rir-se delas, fingir surpresa, admiração,
interesse. Sorrir ao marido, estar atenta às crianças, gerir os pratos que eram
servidos na mesa, ouvir as conversas fúteis da mulher do melhor amigo do seu
marido sobre roupas, sapatos e maquilhagens. Fingir que percebia alguma coisa
do assunto e ainda fornecer palpites. Tentar apaziguar a troca de palavras amargas
entre a mãe e o marido para que os convidados não percebessem uma realidade
irrefutável. A de que Luísa simplesmente detestava o genro. Às vezes, ela sentia-se
cansada. Exausta. Como se estivesse dentro de uma redoma de vidro da qual não
conseguia sair. Gritava em silêncio para que a tirassem dali. Às vezes, tinha medo
de se afogar no próprio tédio que era a sua vida.
- Boa noite a todos.
Os atrasos de Ricardo já não surpreendiam ninguém. Naquela noite de Natal veio
molhado da chuva, trazendo nas mãos o seu velho casaco de cabedal que o
acompanhava para todo o lado. Quando o viu pela primeira vez, Rita sentiu um
baque. Sentiu também a sua face vermelhar ainda que contra a sua vontade. Do
outro lado da mesa, Sofia também vivenciou o mesmo. Admirou-lhe os cabelos
escuros, o nariz esculpido na perfeição, os lábios delineados e a barba semi-
aparada. Ricardo tinha um ar meio grunge que secretamente a agradava. Era a
antítese total do seu marido. Magro, alto e com um porte atlético. O homem
perfeito capaz de levar qualquer mulher à loucura.
Mas os olhos de Ricardo permaneceram infiltrados em Laura. Não o fez de
propósito. Era apenas um hábito. Os seus rostos voltaram a cruzar-se. Ele
observou-a com atenção e não permitiu que mais nada o distraísse de uma
imagem que considerava perfeita.
69
Ela também se deixou inebriar por aqueles olhos castanhos incisivos, ansiando
que eles a despissem silenciosamente sem que ninguém se desse conta. Qualquer
coisa havia mudado, ambos sabiam-no bem. Qualquer coisa de muito estranho
estava a acontecer e nenhum dos dois parecia ter o controlo da situação.
- Desculpem o atraso.
- Não tem importância – Leonardo respondeu com uma certa amargura na voz,
engolindo a última gota de vinho que tinha no copo. – Está a chover muito?
- Um pouco.
- Senta-te! Ainda vens a tempo do jantar.
Ricardo aceitou o convite do irmão e logo em seguida encontrou um lugar vazio
para se sentar. Curiosamente esse lugar era ao lado de Rita. À frente de Laura. A
duas cadeiras de Sofia.
- Então este é que é o teu irmão, Leo? – Francisco quis imediatamente conhecer o
ilustre convidado da noite.
- Sim! Ricardo, este é o Francisco! Um grande amigo meu...
- Prazer – Ricardo forçou um sorriso contrafeito ao melhor amigo do irmão
enquanto se servia do bacalhau cozinhado pela cunhada sobre a mesa.
- O prazer é todo meu. Confesso que estava curioso para te conhecer. O Leo já me
tinha falado sobre ti. Disse-me que moravas nos Estados Unidos. Verdade?
- Sim! Em Manhattan.
- Eu adoro Nova Iorque e quero um dia lá voltar – Francisco encheu uma taça de
vinho, ignorando o silêncio constrangedor que se instalou na mesa após a chegada
de Ricardo.
- Pois eu prefiro Paris – Sofia interveio. - Odeio Nova Iorque. É uma cidade tão
suja e barulhenta. Nunca conseguiria lá viver. Paris é a minha cidade de eleição.
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- Paris é o único local no planeta terra onde consegues estoirar um cartão de
crédito em menos de uma hora - a resposta de Francisco arrancou uma risada
geral, excepto à sua mulher, a Laura, a Luísa e a Ricardo.
- Não estava a falar das compras - Sofia irritou-se com a afirmação grosseira do
marido. - Estava a falar da cidade.
- Paris é uma cidade interessante – Ricardo forçou um sorriso a Sofia e ela
correspondeu de forma igual. – Os restaurantes são muito bons e os bares
nocturnos também. Não sei se conhecem um restaurante chamado “Train Bleu”!?
- Acho que já ouvi falar – Francisco mentiu, limpando a boca ao guardanapo.
- É o meu restaurante preferido em Paris. Foi feito a partir do restauro de um
comboio.
- Como assim? – Rita interveio na conversa.
- Chamava-se Calais-Mediterranée. Era um comboio expresso de luxo que
transportava passageiros ricos e famosos entre Calais e a Riviera francesa nas duas
décadas antes da Segunda Guerra Mundial. Anos depois, os donos compraram
esse comboio que estava a cair aos bocados e transformaram-no num restaurante.
É um autêntico Louvre, com a única diferença de que pelo menos lá se pode comer.
Quando vou a Paris faço questão de passar por lá. Conheço os donos. Somos
amigos.
- Deve ser um balúrdio, não? – Sofia perguntou, enterrando os lábios pintados de
vermelho na sua taça de vinho. Estava a ficar realmente interessada em saber um
pouco mais sobre os gostos gastronómicos daquele belo exemplar masculino.
- Nem tanto! A comida, quando boa, não deve ser considerada um bem supérfulo.
- Eu penso exactamente a mesma coisa em relação a roupas e sapatos - Sofia riu-se,
animada.
- Os preços como são!? - Francisco inquiriu.
- Pode rondar os oitocentos euros se for um grupo de oito amigos.
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- Cem euros por pessoa!? Pois eu recuso-me a gastar oitocentos euros num jantar.
Nem mesmo com oito amantes - Francisco riu-se sozinho às gargalhadas.
- Isso é porque as tuas amantes se contentam com pouco - Sofia não conteve a
observação, cansada das grosserias constantes do seu marido à frente dos
convidados.
Ouviu-se um novo silêncio à mesa, enquanto todos degustavam a refeição
cozinhada pelos donos da casa. Leonardo estranhou o à-vontade do irmão. Laura
também. Nunca o viu tão bem disposto e com tantos temas interessantes de
conversa. Parecia uma outra pessoa. Completamente diferente daquele homem
frio e misterioso que se apresentava todos os dias em sua casa e que os atacava
com a sua diferença constrangedora.
Ricardo era um homem de inúmeras facetas, como o sorriso que manteve nos
lábios quando se viu constantemente confrontado com as perguntas indiscretas de
Francisco Saraiva. Laura foi a única a perceber o desconforto patente nos seus
olhos e a sua enorme vontade de desaparecer daquela mesa. Tal como ela, também
ele se sentia um verdadeiro peixe fora de água. Alguém que não pertencia àquele
meio e nem àquela realidade. Se ao menos os ponteiros do relógio andassem mais
depressa, quem sabe aquele suplício não teria fim.
- Vamos para a sala? - a voz de Leonardo trouxe a mulher de volta à realidade.
A proposta de Leonardo pareceu agradar a toda a gente. As crianças saltaram das
cadeiras e correram em direcção à sala desejosos que chegasse a meia-noite para
abrirem os presentes, enquanto os adultos se instalaram nos sofás, enredados
numa conversa amena e familiar. Apenas Luísa, a mãe de Laura, se manteve
impávida e serena a um canto da sala com o seu habitual mau-humor. Quando as
mulheres foram à cozinha buscar os doces para encher a mesa da ceia de Natal,
esse mau-humor voltou a manifestar-se.
- Quem é que fez esta bavaroise!?
- Fui eu - a filha respondeu com um longo suspiro.
- Está uma porcaria! Devia ter levado mais natas! Impressionante como nunca
fazes nada de jeito...
Luísa voltou a sair da cozinha perante o olhar estupefacto de Rita, Alicia, e Sofia.
A primeira tentou imediatamente amenizar a situação.
72
- Sei que sou leiga na matéria, mas para mim parece estar com um óptimo aspecto.
Laura ignorou o elogio da sua melhor amiga e desenformou o pudim que fizera
durante a tarde. Quando o fez, saiu perfeito. Exactamente como queria.
- Estou a ver que hoje vou engordar mais alguns quilos - Sofia brincou.
- Um dia, não são dias - Rita riu-se alegremente. - Além disso, no Natal todos os
pecados são perdoáveis.
Sofia sorriu à enfermeira na altura em que o seu telemóvel vibrou no bolso do
casaco. Ao ver no visor de quem se tratava, apressou-se a sair ao jardim dizendo
que iria atender uma chamada da sua mãe.
- Diz-me uma coisa - Rita interpelou Laura no momento em que se viu a sós com
ela. - Há quanto tempo o irmão do Leo está aqui a morar convosco?
Os gestos de Laura sofreram uma ligeira pausa. - Três semanas. Porquê?
- Por nada... - Rita sorriu maliciosamente, compondo os seus longos cabelos
escuros. - Só o achei giro! Aliás, muito giro! Será que ele vai ficar aqui durante
muito tempo?
- Vai-se embora depois do Ano Novo - Laura atirou a forma do pudim contra o
lava-loiças. - Alicia...
- Sim, D. Laura - a empregada entrou na cozinha a correr.
- Por favor! Vai levando estes doces até à sala enquanto eu termino de tirar o resto
do frigorífico.
- Sim, senhora.
- É casado? Tem namorada? - Rita voltou a perguntar mais detalhes sobre a vida
de Ricardo quando Alicia abandonou a habitação com uma terrina nas mãos.
- Como é que queres que eu saiba?
- Vocês moram na mesma casa e ele é o irmão do Leo.
73
- Eu não sei nada sobre a vida do irmão do Leo e nem estou interessada em saber.
- Porquê?!
Laura hesitou alguns segundos a responder, mas encontrou uma resposta que na
altura lhe pareceu verdadeira.
- Porque ele não parece ser uma pessoa de confiança.
A noite terminou com a habitual troca de presentes sendo as crianças as principais
protagonistas da festa. André e João rasgaram inúmeros papéis de embrulho e
destruíram todas as caixas que viram espalhadas pelo chão da sala. Os adultos
viram tudo, divertidos, incentivando os pequenos a distribuírem os presentes
pelos convidados. O Natal era de facto a melhor altura do ano para os gémeos que
desta forma viam concretizados todos os seus desejos materiais.
Após a troca de presentes, Alicia, a empregada, manteve-os entretidos no tapete
da sala com jogos e brincadeiras intermináveis. Pouco tempo depois os
convidados assinalaram o desejo de se irem embora. Luísa foi a primeira a fazê-lo
quando se viu adormecida no sofá da sala a poucos minutos das duas da manhã.
O genro ainda tentou oferecer-lhe uma boleia, mas ela recusou prontamente o
convite dizendo que iria bem melhor na companhia de Rita. Não houve discussões
e nem Leonardo se atreveu a contrariá-la. De qualquer maneira a vontade de estar
na companhia da sogra era nula.
Quando todos se foram embora, a casa silenciou-se e os gémeos foram os
primeiros a baixar as guardas. Adormeceram no sofá, exaustos das brincadeiras e
correrias que protagonizaram ao longo da noite. O pai encarregou-se de levar um
dos filhos ao colo, enquanto o tio, num gesto gentil que poucos lhe reconheciam,
ofereceu-se para levar o outro sobrinho. Na cozinha, Laura e a empregada Alicia
arrumaram as loiças sujas e os restos da ceia de Natal.
Leonardo e Ricardo depositaram os gémeos nas suas respectivas camas. Os dois
dormiam profundamente não se apercebendo sequer de que haviam sido
arrastados do sofá até ao quarto. Ricardo foi o primeiro a abandonar a habitação
sem vontade de ali ficar durante muito tempo, enquanto Leonardo, sempre
cuidadoso com os filhos, permaneceu alguns minutos a ajeitar-lhes os cobertores e
as almofadas.
Tempo depois voltou a sair do quarto e fechou a porta com cuidado para não os
acordar. Provavelmente dormiriam longas horas até o amanhecer.
- Obrigado – Leonardo agradeceu a ajuda do irmão.
74
- Não tens de quê.
- Ricardo... - a voz firme do arquitecto impediu o irmão de se dirigir até ao quarto
de hóspedes. - Acho que chegou a altura de falarmos, não?!
- Sobre o quê? - Ricardo fitou-o com alguma desconfiança.
Leonardo aproximou-se cautelosamente dele. - Sei que ainda existem muitas
mágoas entre nós. Talvez eu não tenha sido o irmão que tanto necessitavas na
altura em que os nossos pais morreram, mas acredita que fiz o melhor que sabia.
Fiz tudo o que estava ao alcance de um rapaz de catorze anos…
- A culpa não foi tua – Ricardo encarou-o com uma certa mágoa no olhar. – Não te
sintas responsável por tudo o que se passa à tua volta.
- Então porque é que continuas a manter esta parede invísivel entre nós?
- Não existe parede nenhuma.
- Existe sim – Leonardo encarou-o de uma forma séria. – Às vezes sinto como se
tivesses raiva de mim ou algo do género.
- Raiva porquê?! – Ricardo atacou-o com as palavras.
- Não sei! Diz-me tu!
- Leo, sabes qual é o teu problema? Sabes porque é que nunca conseguimos ser
irmãos, amigos ou o que quer que seja? Porque sempre fizeste questão de te
mostrar superior a mim. Tu achas que conseguiste tudo o que querias na vida e
que eu não consegui nada. Não é isso que pensas?
- Estás completamente enganado a meu respeito.
- Eu nunca te invejei! Sempre quis que fosses feliz. Mas é esse teu ar de Senhor
Perfeito que me irrita profundamente.
- Eu não sou perfeito.
- Ainda bem que tens consciência disso.
75
Leonardo permaneceu no corredor durante largos minutos a tentar assimilar
todas as palavras amargas que o irmão lhe dissera momentos antes. Não lhe
pareceu ser de todo verdade. Ele nunca se quis mostrar superior a Ricardo e
também nunca pensou que a sua vida era melhor que a dele. O irmão tinha uma
visão completamente deturpada a seu respeito.
Longe de conseguir recuperar o sono perdido após a conversa que tivera com o
com Leonardo, Ricardo voltou a sair ao jardim das traseiras com um maço de
cigarros nas mãos. Fazia um frio gélido e o relógio há muito que havia assinalado
as quatro horas da manhã. Resignado, ele sentou-se sobre o alpendre da cozinha e
acendeu o primeiro cigarro do dia. Fumou uma passa ainda com as palavras de
Leonardo a ecoar-lhe nos ouvidos e chegou à conclusão de que infelizmente não
havia nada a fazer. Os dois nunca seriam amigos ou coisa que o valha. Havia
demasiadas mágoas. Ressentimentos. Demasiados equívocos. Desencontros e
desilusões. Ricardo já não era o mesmo menino assustado de dez anos que perdera
os pais de uma forma abrupta e nem Leonardo o mesmo rapaz de catorze que não
soube como assumir a responsabilidade de tomar conta do irmão mais novo. Por
mais que tentassem fingir que tudo continuava igual, os dois sabiam que qualquer
coisa se havia quebrado irremediavelmente no dia em que Leonardo decidiu
seguir o seu caminho e abandonar Ricardo naquela casa de acolhimento.
- Toma!
A visão de Laura sobre a marquise envolta num robe azul-escuro com duas
chávenas de café nas mãos ofereceu a Ricardo um conforto difícil de explicar. Não
contava vê-la ali e nem contava sequer que ela tivesse a capacidade de cometer tal
gentileza para com um perfeito desconhecido. Porque na verdade ele não passava
disso mesmo. Um desconhecido que teve a infelicidade de procurar um irmão que
já não via há mais de quinze anos e que só agora começava a tomar consciência da
loucura que cometera ao conhecer também a sua mulher.
- Obrigado - Ricardo aceitou uma chávena das mãos da cunhada e permitiu que
ela se sentasse ao seu lado.
- O Leo contou-me sobre a vossa conversa.
Ricardo forçou um sorriso amargo e bebeu o primeiro gole de café. Em seguida,
sugou o cigarro que ainda tinha nas mãos e deixou-se ficar de olhos postos no
escadote estrategicamente encostado à cerca que delimitava a área do jardim
76
- Deve-te ter dito horrores sobre mim, não?! - ele respondeu após um longo
minuto de silêncio.
- Nada disso - Laura observou o cunhado de soslaio.
- Acho que já está na altura de me ir embora.
- Vais voltar para os Estados Unidos?
- Ainda não sei! A verdade é que não estou de férias. O que fiz foi tirar uma
licença sem vencimento.
- Porquê?!
- Porque precisava de um tempo para reorganizar as minhas ideias – Ricardo
continuou a fumar calmamente o cigarro que tinha nas mãos. – Perceber o que
quero fazer da minha vida. Para onde quero ir. Onde quero estar. Nunca sentiste
essa necessidade?
Laura bem quis responder que sim, que pensava nisso todos os dias, que muitas
vezes desejava pegar no carro e conduzi-lo para lugar incerto. Que sentia a sua
alma deixar lentamente o seu corpo e que a sua apatia se havia transformado
numa rotina sufocante. Mas na altura os seus lábios emudeceram. Não foi capaz
de dizer nada. Não foi capaz de demonstrar as suas fragilidades humanas perante
um homem que para si ainda continuava a ser um perfeito desconhecido.
- Fugir dos problemas não resolve nada - saiu-lhe essa frase estúpida dos lábios.
- Fingir que não temos problemas é que não resolve nada - a resposta do cunhado
tomou-a de assalto.
Laura sentiu uma estranha onda de calmaria invadir-lhe a alma quando bebeu o
primeiro gole de café que fizera às pressas na cozinha. Soube-lhe bem aquele
momento silencioso em que nem ela e nem o cunhado trocaram uma única
palavra. Soube-lhe bem aquele liquido entranhado na sua garganta, enquanto o
dia começava aos poucos a clarear. Não sentiu nada. Não pensou em nada. Era a
primeira vez que isso acontecia.
- Tenho de ir.
77
- Espera...
A voz do cunhado impediu-a de voltar a abrir a marquise da cozinha. Ricardo
levantou-se do alpendre e fumou o último trago de cigarro, atirando a beata para o
chão. Apagou-a com o pé direito, ao mesmo tempo que Laura se mantinha
expectante à espera de ouvir o que ele tinha para lhe dizer.
- Antes de me ir embora, queria pedir-te uma coisa.
- O quê?! - a voz de Laura saiu trémula quando ele se atreveu a tocá-la na face e
nos cabelos desalinhados.
- Uma noite contigo.
Os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta.
- Não precisas dizer nada! Dou-te algum tempo para pensares! Tens até o final do
ano...
78
7
Laura regressou ao trabalho com a sua cabeça a latejar de dúvidas e medos.
Passou pelos corredores da clínica como uma flecha e quando chegou ao seu
consultório enfiou a cabeça por entre os braços, desejando que aquela terrível dor
de cabeça tivesse fim. Por sorte naquela manhã não tinha consultas. Havia tempo
para reflectir na grande embrulhada em que andava metida a sua vida. Havia
tempo para se lamentar da sua triste sorte, da sua inércia, da sua incapacidade de
reacção, de estar a sentir tudo e ao mesmo tempo nada.
De olhos fechados, enquanto os ponteiros do relógio teimavam em andar, a
médica tentou a todo o custo esquecer-se da proposta tentadora feita pelo
cunhado. Aquela maldita proposta que a atormentava desde a noite do Natal e
que não a deixava ter um único minuto de paz. Para ela sempre fora inadmíssivel
ver-se na cama com outra pessoa que não o seu marido. Leonardo havia sido o
primeiro e o único homem a quem se tinha entregado até à data e nunca sequer
lhe passou pela cabeça olhar para mais nenhum. O marido completava-a. Era o
seu porto seguro. A pessoa que tinha escolhido passar o resto dos seus dias. Mas
com Ricardo tudo era diferente. Não havia qualquer tipo de segurança quando se
encontrava na sua presença. Ele deixava-a desprotegida. Insegura.
Laura sabia melhor do que ninguém que as suas forças se estavam a esgotar.
Durante anos tentou fugir de si própria, enganando-se e escondendo-se atrás de
uma máscara intransponível, mas agora descobria que já não podia continuar a
enganar-se ou a lutar contra os seus sentimentos. O cunhado despertara em si
emoções escondidas. Fizera-a acordar. Acordou-a do marasmo que eram os seus
dias, a sua vida e o seu casamento. Despertou desejos, dúvidas, fascínio e
curiosidade - sentimentos perigosos que uma mulher apenas deveria sentir pelo
marido sob pena de cair no abismo em que ela agora se encontrava. Abismo, essa
palavra voltou a assombrar-lhe os pensamentos. E a dor de cabeça tornou-se mais
forte.
79
2011 prometia ser o ano de grandes mudanças, de concretização de planos e
objectivos a longo prazo. Prometia também prosperidade, sucesso profissional e
muito dinheiro. Pelo menos, esses foram alguns dos desejos de Francisco Saraiva
quando abriu uma garrafa de champanhe especialmente comprada para
comemorar a ocasião.
A noite da passagem de ano realizou-se em sua casa.Um apartamento imponente
localizado nas Amoreiras, uma zona nobre de Lisboa. Leonardo e Laura aceitaram
o convite e levaram os filhos. Rita Azevedo surgiu após o jantar na esperança de
encontrar Ricardo, mas infelizmente os seus intentos não se concretizaram.
Ricardo recusou-se a comparecer à festa dizendo que preferia arrumar as malas
para a sua viagem no dia seguinte. Talvez voltasse para os Estados Unidos. Ainda
não sabia. Talvez fizesse um tour pela Europa, conhecendo outras pessoas ou
outras paragens. Talvez não fizesse nada disso.
A poucas horas da sua partida, enquanto fechava as duas malas que trouxera de
viagem, Ricardo sentiu-se invadido por um estranho sentimento de nostalgia.
Percebeu que aquele seria o seu último dia em Portugal e que infelizmente não
levaria saudades. Seguiria em frente sem pensar no que ficara para trás. Nem
mesmo na cunhada ou na vontade incomensurável de a levar consigo.
A madrugada já ia alta quando Laura e Leonardo regressaram a casa com as
crianças adormecidas no banco de trás. O arquitecto estacionou o veículo em
marcha-atrás, virando o volante, endireitando as rodas, levando o carro para a
frente, trazendo para trás e desviando-se cuidadosamente do jipe da mulher
estacionado na garagem. Não sei como é que ele consegue fazer isso todos os dias, foi o
último pensamento de Laura ao abandonar o assento da frente.
Os filhos continuavam a dormir, alheios ao adiantado das horas. A mãe retirou o
cinto de segurança e deteve André nos braços. O pai fez o mesmo com João e
seguiram os quatro em silêncio até à porta de entrada, exaustos por uma noite que
mais parecia não ter fim. Quando entraram em casa as luzes encontravam-se
apagadas. Acenderam a luz do corredor e Leonardo depositou sobre a mesinha as
chaves que usou para abrir a porta. Pouco tempo depois, ele e a mulher subiram
ao piso dos quartos e deitaram as crianças na cama. Retiraram-lhe as roupas e os
sapatos e curiosamente nenhum dos dois acordou. Os pais congratularam-se por
isso. Quando deram por terminada a tarefa rotineira de pôr os filhos na cama,
refugiaram-se no próprio quarto.
- Amanhã vou ter sair mais cedo - Leonardo retirou o seu relógio de pulso e
colocou-o sobre a mesinha de cabeceira. - Vou levar o meu irmão ao aeroporto.
- A que horas é o voo dele? - Laura enfiou-se na sua combinação de dormir.
80
- Às nove da manhã.
- Amanhã queria ver se levava os miúdos à casa da minha mãe.
- Também preciso ir?
- Só vais se quiseres - Laura tirou os brincos em frente ao espelho da cómoda e
largou também os cabelos sobre os ombros, passando os dedos por eles a fim de
desembaraçá-los.
- Era uma piada, não?!
- Não, Leo! Não era uma piada.
- Sabes bem que a tua mãe me odeia - o arquitecto retirou as meias sobre a cama.
- O sentimento é recíproco.
- Eu não odeio a tua mãe.
- Mas também não fazes esforço nenhum para te dares bem com ela.
- E ela faz algum esforço para se dar bem comigo? - Leonardo soltou uma
gargalhada seca que não foi de todo correspondida pela mulher. - Aliás, será que
ela faz algum esforço para se dar bem com alguém que viva neste planeta?
- Vou escovar os dentes.
- Não precisas fugir à nossa conversa.
- Eu não estou a fugir à conversa. Só acho um desperdício de tempo estarmos a
falar sobre este assunto.
- Os casais desperdiçam tempo a falar de assuntos.
- Assuntos importantes! E este não é o caso.
- O que é que se passa, Laura? - Leonardo interpelou a mulher junto à cómoda.
- Não se passa nada - ela desviou-se instintivamente.
81
- Não sou parvo! Já reparei que andas estranha e diferente comigo.
Os seus rostos cruzaram-se violentamente, mas nenhum dos dois foi capaz de
proferir palavra. Talvez tivessem medo de dizer o que não queriam. De ouvir o
que não desejavam. Ou talvez, quem sabe, já não houvesse absolutamente nada
para dizer.
- Vou escovar os dentes - ela afirmou por fim.
Leonardo não se moveu quando Laura saiu do quarto e bateu a porta. Precisou de
algum momento para controlar as suas emoções. Na verdade, prometera a si
próprio que as controlaria, custasse o que custasse. A mulher tinha esse dom. O
dom de destruí-lo e desarmá-lo com uma frase tão simples como "Vou escovar os
dentes".
Debruçada sobre o lavatório, Laura pôde finalmente derramar todas as lágrimas
que manteve reprimidas dentro de si. Chorou. Silenciosamente. Chorou por medo,
vergonha e tristeza. Chorou por si, pelos filhos e pelo marido. E quando terminou
o seu mar de lamentações lavou o rosto com água fria a fim de manter intacta a
sua sanidade mental.
Três horas e quarenta minutos. De olhos postos no relógio sobre a mesinha de
cabeceira enquanto o marido dormia profundamente no lado direito da cama,
Laura deu-se por vencida. Nada a iria fazer dormir naquela primeira gélida
madrugada de Janeiro. Nem mesmo os dois comprimidos que tomou para o efeito.
Passou mais de uma hora a pensar obsessivamente no cunhado, na sua proposta
maluca e na excitação que esta lhe provocava. Deu voltas à cama, sentiu o marido
tossir inconscientemente e sentiu uma falsa segurança por se encontrar ao seu
lado. Nos últimos tempos o seu espírito encontrava-se profundamente revoltoso e
conturbado. Seria aquela apenas uma fase ou o fim de alguma coisa?
Desesperada, Laura levantou-se da cama e passeou atordoada pelo quarto.
Escolheu a janela para se refugiar, mas depois de vários minutos a olhar para o
vazio, deu-se por vencida. Voltou a observar o rosto sereno do marido e sentiu
duas lágrimas caírem-lhe na face fria. Era horrível a ideia de o trair, de pensar
noutro homem ou de desejá-lo mais do que a racionalidade permitia. No entanto
não havia nada a fazer.
A vontade de sair do quarto tornou-se imperativa e obrigou-a a alcançar o seu
robe negro sobre o cadeirão. Depois de o vestir, aproximou-se da porta e lançou
um último olhar ao marido apenas para ter a certeza de que este ainda continuava
a dormir. Pé ante pé, desceu as escadas que ligavam os dois pisos da casa.
Apalpou os móveis com as mãos e avistou uma luz acesa na cozinha.
82
O barulho do microondas denunciou a presença de alguém, e ao aproximar-se da
porta, ela avistou a figura do cunhado a preparar um chá sobre a bancada de
mármore. Ela entrou. Olharam-se em silêncio sem conseguirem pronunciar uma
única palavra. O medo e a culpa voltaram a assombrá-la. Ainda estava a tempo de
voltar atrás, pensou. De fingir que nunca estivera ali e desaparecer com a clara
certeza de que havia tomado a decisão certa. Seria tão fácil fazer isso. Seria tão
fácil recuar.
- Acho que não consigo fazer isto - Laura sentiu um arrepio cortar-lhe todas as
veias do corpo quando o cunhado trancou a porta da cozinha e tomou a sua
cintura fina.
- Consegues sim.
Ricardo não esperou muito mais. Afundou-se na boca de Laura e invadiu-lhe o
hálito com o seu cheiro intenso a tabaco. A sua língua tinha um gosto amargo, ela
sentiu. Uma mistura estranha de nicotina e mentol que se entranhou na sua saliva.
E logo ela que caminhava a passos largos em direcção a um abismo sem fim. Não.
O cunhado não deveria estar a tocá-la daquela maneira. Não deveria percorrer-lhe
as pernas desnudas com as mãos e muito menos devorar-lhe o pescoço como se ele
o pertencesse. Não deveria sequer tirar-lhe a combinação de dormir e atirá-la para
um canto. Deitá-la na mesa da cozinha, afastando tudo o que pudesse atrapalhar
os seus intentos.
Praticamente nua e desprotegida Laura observou os gestos de Ricardo enquanto
ele também se despia. Tirou a camisola, desapertou o cinto e o botão das calças,
tudo isso sem tirar os olhos dela. Excusado será dizer o quanto ele havia ansiado
por aquele momento. Desde o primeiro dia em que a viu. Desde o primeiro
minuto. Sonhou muitas noites em arrancá-la do quarto do irmão apenas para a ter
só para si. Mas agora o seu desejo tinha-se tornado real e ele não pretendia
desperdiçar aquela oportunidade de ouro que o destino lhe estava a dar. Laura
estava ali, completamente à sua mercê e ele sem cerimónias de a livrar das cuecas
pretas que ela trazia vestidas, jogou-as para o chão depois de as ter cheirado
discretamente. Um gesto que duplicou a excitação de Laura. Ele aprovou o odor, o
sabonete de jasmim e a lubrificação deixada por ela naquele pequeníssimo pedaço
de tecido.
Experimentando o maior prazer que alguma vez sentira na sua vida, Laura sentiu
os lábios de Ricardo beijarem-lhe a ponta dos pés. Em seguida, os tornozelos, a
barriga da perna, o interior das suas coxas, e num momento de pura insanidade, a
parte mais íntima do seu corpo. Ela contorceu-se de prazer e mordeu o lábio
inferior. Tentou abafar um segundo gemido após ter deixado escapar o primeiro.
Poucos minutos depois chegou ao orgasmo. O mais intenso que alguma vez tinha
83
memória. As suas pernas tremeram, o seu corpo passou por um ligeiro período de
letargia, mas Ricardo não permitiu que ela descansasse. Encontrou-lhe o ventre, os
seios perfeitos e a boca seca. Prendeu-lhe os cabelos com as mãos e obrigou-a a
levantar o rosto em sua direcção.
- Ainda achas que não consegues fazer isto? - ele perguntou, ouvindo-lhe a
respiração ofegante.
- Fode-me - ela implorou.
Nada teve importância quando as suas bocas se voltaram a unir e os seus corpos
se fundiram num só. Ali, debaixo do cunhado e dos seus braços musculados,
sentindo-o dentro de si sempre em movimentos contínuos e frenéticos, Laura
esqueceu-se de todos os perigos e loucuras que estava a cometer. Esqueceu-se que
era uma mulher casada, que os seus filhos e o seu marido dormiam no piso de
cima ou de que estava a fazer sexo com o próprio cunhado.
O seu corpo manteve-se preso ao de Ricardo. Chocava contra o dele com
violência, fazendo barulhos surdos, sem se lembrar que pudesse ser ouvido por
alguém atrás da porta. Não mudaram de posição uma única vez. Ela prendeu-lhe
as pernas à volta da cintura e cravou as unhas nas suas costas. Deixou marcas e
riscos por todo o lado.
Com os olhos fixos nos dele e observando a sua expressão ganhar forma, Laura
percebeu que Ricardo estava prestes a chegar ao orgasmo. Lembrou-se
subitamente que o deixara entrar dentro de si sem qualquer protecção. Tentou
afastá-lo, empurrando-o com os braços e as ancas, mas ele resistiu ao movimento.
Manteve-se dentro dela e ejaculou poucos minutos depois sem medo ou remorsos.
Estava a tremer, ele percebeu. Nenhuma mulher o fizera tremer até à data. A última
coisa de que se lembrava claramente era de a ter deitado sobre a mesa da cozinha
e de lhe ter retirado aquela maldita combinação de dormir. Tudo o resto
desapareceu da sua mente numa fracção de segundos.
Ricardo levantou a cabeça para a ver melhor enquanto o seu suor caía sobre o
rosto da cunhada. Os olhos de Laura ainda se encontravam fechados e a sua
respiração mantinha-se descompassada. Também ela suava por todos os poros,
facto que despertou novamente o seu desejo.
Abaixando a cabeça para os cabelos dela, ele tentou controlar o impulso
animalesco que se apossou de si. Precisava de um minuto, pediu a si próprio.
Sessenta segundos para se recompor novamente ou a possuiria ali mesmo como
um louco.
84
Assim que chegou ao quarto e viu o marido a dormir profundamente, Laura
seguiu como uma flecha em direcção à casa de banho. Despiu as roupas que trazia
no corpo e atirou-se para debaixo do chuveiro com o intuíto de apagar todos os
vestígios que o cunhado pudesse ter deixado dentro de si. Lavou freneticamente
as pernas, os braços, o peito, o pescoço, os lábios e o meio da pernas. Em seguida,
voltou a enfiar-se debaixo da água quente, esfregou o rosto com as mãos e sentiu
que aos poucos estava a voltar a si. Quando regressou ao quarto, enfiou-se na
cama. Olhou para o marido uma última vez e sentiu um estranho aperto no
coração. Mas não houve um pingo de arrependimento.
O dia amanheceu chuvoso. Leonardo sentou-se sobre a cama e passou as mãos
pelo rosto desfigurado. Estava de rastos. Sentia-se como se tivesse sido atropelado
por um camião de carga, sendo que o seu único desejo era ter pelo menos um dia
em que pudesse dormir até tarde. Mas infelizmente não seria esse o caso, pelo
menos naquela manhã.
Ao assumir o compromisso de levar o irmão ao aeroporto, o arquitecto viu-se
obrigado a dirigir-se até à casa de banho e abrir o chuveiro num gesto lento e
demorado. Tomou um banho e despertou. Escovou os dentes, enxaguou a boca
com um elixir e escolheu uma nova lâmina de barbear no interior do armário.
Meia-hora depois já estava pronto. Vestiu o casaco às pressas e observou a figura
da mulher a dormir profundamente com os cabelos a cobrirem-lhe grande parte
do rosto. Não resistiu a despedir-se dela com um beijo doce no canto da boca.
Quando a porta se fechou, Laura abriu os olhos e sentiu um cansaço extremo em
todo o corpo. Não. Não estava a dormir. Nem sequer conseguiu pregar olho durante
a noite inteira. A boca estava seca. Estava tão cansada. Tão exausta. Incapaz de
mexer qualquer músculo corporal. Ficou na cama durante vários minutos a olhar
para o vazio das paredes e a ouvir a chuva a cair furiosamente sobre o tejadilho.
Adormeceu por breves instantes, mas o barulho do motor do carro do marido a
sair da garagem voltou a acordá-la. Afogueada, ela afastou os lençóis e correu em
direcção à janela. Ouviu vozes vindas do exterior e só então avistou a figura do
marido a abrir o porta-bagagens. Alguns segundos depois viu também o cunhado
a sair à rua e a arrastar duas malas atrás de si. Leonardo prontificou-se a ajudá-lo.
Alojou os pertences do irmão na bagageira e encaminhou-se para o lugar do
condutor.
Foi então que Ricardo ergueu o rosto e lançou os olhos à janela do quarto onde
Laura se encontrava escondida. Atrás dos cortinados, observou a sua figura
esbelta, vestida apenas com a combinação de dormir que ele tivera a audácia de
retirar na noite anterior. Pensou em despedir-se dela com um breve aceno, mas
não teve coragem. Achou que não tinha esse direito. Achou também que se
despedisse dela iria sentenciar a realidade cruel de nunca mais a voltar a ver.
85
Laura sentiu um estranho aperto no coração no momento em que ele entrou
finalmente no carro e fechou a porta com força. Manteve-se inerte, junto à janela,
agora sem medo de ser vista, aguardando apenas o tempo exacto para que o
marido arrancasse o carro e saísse pelos portões de casa. Não deveria sentir-se feliz
por nunca mais ser obrigada a olhar para a cara do cunhado? Por ter traído o marido, mas
não ter sido descoberta? Por todos terem saído ilesos daquela história?
Laura tentou convencer-se disso, mas a iminência da partida de Ricardo alertou-a
para um facto irrefutável. A de que nunca mais o voltaria a ver. E diante disso,
estranhamente, quando o BMW do marido curvou o quarteirão e desapareceu pela
rua deserta, o seu único desejo foi o de que o cunhado desistisse daquela maldita
viagem e ficasse em Portugal para sempre.
86
8
Sentia-se como se tivesse cometido um crime. Da janela do seu consultório, Laura
observou o movimento de uma ambulância à entrada da clínica. O dia cinzento e
chuvoso manteve-a distante daquilo a que todos chamavam de planeta terra. Os
seus pensamentos longínquos levaram-na para uma dimensão onde só ela estava
autorizada a entrar. Vagueando por sentimentos de arrependimento, culpa e
remorsos, ela afastou-se da janela e caiu sobre a secretária como um peso morto.
Não estaria a ficar louca? Se tinha um marido que amava, dois filhos maravilhosos e uma
carreira invejável enquanto Neurocirurgiã, porque então se sentia tão vazia e inquieta com
a partida de um homem que nunca chegou realmente a conhecer?
Talvez não fosse nada disso. Talvez fosse aquela terrível sensação de traição. O
facto de ter cometido um acto ilícito aos olhos dos demais e de ter mergulhado
num mar de lama sem conseguir nadar como deve ser. Queria voltar atrás, mas
não sabia como. Queria esquecer tudo o que fizera, mas as imagens daquela noite
continuavam a surgir como flashes de memória quase a sufocando. Restava-lhe
continuar a viver com aquele enorme aperto no coração ou quem sabe confessar
toda a verdade ao marido. Mas não. Isso nem pensar. Ela jamais teria a coragem de
confirmar a Leonardo que as suas suspeitas não eram infundadas. Estava estranha,
diferente e distante. Já não era a mesma mulher carinhosa de outrora. Mentia
todos os dias ainda que não tivesse razões para isso. Mentia porque tinha que
mentir. Mentia para manter a grande farsa que era a sua vida.
Confirmado o dilema em que estava metida, Laura sentiu duas lágrimas caírem-
lhe dos olhos. Os soluços aumentaram e ela começou a pensar no longo dia de
trabalho que ainda tinha pela frente. Entrou em desespero por não se sentir capaz
de o concluir.
Nessa altura, alguém bateu à porta.
87
- Entre - Laura ordenou num tom seco, limpando rapidamente o rosto vermelho
de tanto chorar.
- Bom dia, Dr.ª Laura – Joana Lima entrou no consultório com um largo sorriso
nos lábios. – Como está?
- Escuta! Hoje não te vou poder acompanhar pela clínica – Laura ignorou o
cumprimento da sua Interna. - Tenho uma cirurgia marcada para amanhã e vou
ter que me reunir com o Dr.º Henrique para finalizarmos o plano cirúrgico.
- A Dr.ª está bem?! Parece que andou a chorar - Joana não conteve a observação.
- Ficas na Enfermaria. Já falei com a Dr.ª Cláudia Simões e ela ficará responsável
por ti até o final do dia.
- Eu não gosto de ficar na Enfermaria. Prefiro estar nas Urgências ou então a
acompanhá-la nas visitas ao quarto dos pacientes.
- Joana! Faz aquilo que te mandei!
- Não posso ir hoje para as Urgências em vez da Enfermaria?
- Não.
- Porquê?!
- Faz aquilo que te mandei, porra!
O grito e a forma furiosa como Laura se levantou da secretária fizeram Joana
tremer de medo.
- Escuta! Vamos esclarecer as coisas de uma vez por todas!? Contrariamente ao
que possas pensar, eu não te vou tratar de maneira diferente só porque és sobrinha
de quem és. Ainda vais ter muitos anos de estrada antes de te atreveres a
investigar a minha carreira, a sentar à mesma mesa que eu ou sequer a dirigir-me
a palavra fora desta clínica. Por isso, minha menina, engole essa tua impáfia e
reduz-te à tua insignificância, porque aqui dentro, infelizmente para ti, ainda não
és nada...
88
O queixo de Joana continuou a tremer enquanto ouvia o discurso de Laura. Os
olhos da médica, apesar de vermelhos e chorosos, faíscavam de raiva. Nem
parecia a mesma. Parecia antes estar possuída por um espírito maléfico.
- Quero-te na Enfermaria agora! Caso não compareças junto à Dr.ª Claúdia daqui a
cinco minutos, considera terminado o teu Internato nesta clínica – Laura apressou-
se a abrir a porta do seu consultório. – Agora sai-me daqui antes que eu perca a
minha paciência contigo! Sai…
Sentimentos de ódio, humilhação e raiva inundaram as veias de Joana quando
esta se dirigiu para a Enfermaria. Pelo caminho a jovem incitou as primeiras
lágrimas, furiosa por ter sido tratada daquela maneira pela sua Orientadora.
Quando atravessou as portas automáticas desfez-se num choro compulsivo
imediatamente socorrido pelos seus colegas de trabalho. Todos quiseram saber os
motivos que a levaram a entrar naquele estado, e Joana, tal como se era de esperar,
não poupou nenhum detalhe acerca da conversa que tivera com a sua
Orientadora. Acusou-a de maus-tratos, gritos e violência.
- Bem! Isto hoje está animado...
Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe da clínica, conseguiu sarcasticamente dispersar
o aglomerado de funcionários à volta de Joana, que um pouco mais calma, bebia
na altura um copo de água com açúcar oferecido pela Drª Cláudia Simões.
- Algum problema? – Rita aproximou-se calmamente da Interna.
- Nenhum – Joana enterrou os lábios no copo de água que tinha nas mãos.
- Então se não há problema, podemos todos voltar ao trabalho, não?!
A operação estava marcada para dali a quarenta e oito horas, sendo por isso
necessário definir a equipa de enfermeiros e auxiliares técnicos que se iriam
apresentar no bloco operatório. Rita Azevedo cumpriu exemplarmente essa tarefa.
Criou a equipa em duas horas e apressou-se a levar os resultados aos dois
Neurocirurgiões de serviço para que estes aprovassem.
- Consegues ver este inchaço!? - Henrique mostrou a Laura o Raio X num visor em
grande plano. –Não me parece que vá ser muito difícil conseguirmos extrair…
89
- Peço desculpas – Rita ofereceu um toque na porta antes de entrar na sala de
exames. – Espero não ter chegado muito atrasada.
- Não! Chegaste na hora certa – Henrique correspondeu ao sorriso da enfermeira.
- Fiquei presa nas Urgências, mas já cá estou.
- Já tens os nomes? – Laura serviu-se de um novo café junto à máquina.
- Já destaquei um anestesista, três enfermeiros, uma auxiliar de acção médica e um
assistente interno. Os nomes estão aqui – Rita entregou uma pasta transparente a
Henrique. – Espero que não haja nada contra para podermos fixar a lista no placar
de operações.
- Por mim parece-me bem – o médico entregou a lista a Laura que rapidamente
deu uma vista de olhos e concluiu o mesmo.
- A cirurgia vai ser realizada no bloco quatro, sala dois – Rita informou.
- Bom trabalho – Henrique concluiu.
- Desculpa Henrique, mas eu ia-te roubar a Laura só por uns minutinhos. Pode
ser?!
- Claro! Ela é toda tua – o médico brincou.
- Acompanhas-me até ali fora, Laura? Precisava falar contigo.
Laura acedeu ao pedido de Rita após ter engolido a última gota de café. O único
líquido capaz de aniquilar as terríveis dores de cabeça que estava a sentir. Depois
de deitar o copo de plástico ao lixo, a médica acompanhou a enfermeira até ao
corredor principal.
- Houve algum problema contigo hoje de manhã? – Rita perguntou.
- Não!Porquê?!
- É que estão todos a comentar que a tua Interna chegou à Enfermaria com um
ataque de pânico, lavada em lágrimas e a dizer que gritaste com ela e que
praticamente a agrediste. Isso é verdade?
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- Rita! Eu estou-me nas tintas para as cenas que aquela piralha faz ou deixa de
fazer. Aqui dentro, ela não passa de uma Interna, e enquanto não aprender a
comportar-se como tal, podes crer que ainda vai ter muitos ataques de pânico por
minha causa.
- Este assunto não teria a mínima importância se eu não tivesse ouvido o que ouvi
ontem à noite enquanto estava de plantão.
- O que é que ouviste?
- O director da clínica e o Dr.º Alfredo conversarem sobre uma possível saída.
Parece que o Dr.º Alfredo vai-se reformar em Setembro, e tal como deves calcular,
o lugar dele vai ficar vago.
- E o que é que eu tenho a ver com isso?
- O Dr.º Alfredo indicou o teu nome para ocupar o lugar.
O coração de Laura disparou com a notícia. - O quê?!
- Isso mesmo que ouviste - Rita confirmou a notícia. - Pode estar bem próxima a
tua nomeação para um dos cargos mais importantes desta clínica. Tu, Laura! Aos
trinta e nove anos. Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica.
- Tens a certeza que ouviste bem?
- Achas que te iria dizer isto sem ter a certeza? Eu ouvi o Dr.º Alfredo dizer com
todas as letras que de todos os cirurgiões desta clínica, tu eras a mais indicada
para ocupar o cargo. Independentemente da tua idade, já tinhas dado provas mais
do que suficientes de que eras merecedora do lugar. E devo-te dizer que concordo
com ele. Esta última jogada do paciente dos dois tumores foi de mestre. Veio na
altura certa. Ninguém vai ter coragem de discutir a decisão do director se ele
resolver nomear-te.
- O Dr.º Alfredo está cá hoje?
- Não! Supostamente partiu hoje de manhã para um Seminário em Madrid. Só
volta daqui a duas semanas. Vais ter que esperar – Rita segurou os ombros da
médica. – Mas tem calma! No momento certo vais saber da tua nomeação. Agora o
que não podes é deixar que alguém desconfie disto que te acabei de contar. Não
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podes deitar tudo a perder. Sabes bem que as paredes nesta clínica têm ouvidos e
sabes também que tens muitos inimigos aqui dentro. A começar pela tua nova
Interna.
- Podes deixar! A partir de hoje vou ter mais calma – Laura aceitou os conselhos da
sua amiga.
- Tens nove meses para a aturar. Depois da tua nomeação, aniquila-a!
- É o que eu pretendo fazer.
- Se precisares de ajuda, diz - as duas amigas sorriram de forma cúmplice.
- Drª Laura! Dr.ª Rita...
A voz de uma auxiliar de enfermagem irrompeu o corredor.
- Diga, Margarida - Rita enfiou a caneta no bolso frontal da sua bata.
- Peço desculpas por interromper a conversa, mas precisamos urgentemente de
reforços. Um acidente de viação com dez vítimas mortais e cerca de três dezenas
de feridos graves e muito graves...
Num reflexo automático, Laura e Rita voaram em direcção às escadas de serviço.
Desceram quatro lances de escadas e assim que chegaram ao piso das Urgências,
afogueadas, depararam-se com um ambiente verdadeiramente aterrador. Corpos
inanimados transportados em macas, o sangue entranhado lençóis e nas roupas
das vítimas, o choro descontrolado das crianças, os gemidos dos adultos e o
desespero dos familiares que tentavam acompanhar tudo o que se passava
rezando para que aquele pesadelo tivesse fim. Foi tudo muito rápido, um senhor
idoso contava. Animados para uma excursão ao Palácio da Pena ninguém
compreendia os motivos que levaram o condutor perder o controlo do autocarro
que dirigia. O veículo caiu de uma ribanceira e emaranhou-se por entre a densa
floresta da vila de Sintra sendo encontrado minutos depois por um grupo de
turistas que por ali passavam.
Durante as seis horas que esteve no bloco operatório preparado de urgência a
tentar remediar os estragos gravíssimos do tecido cerebral de uma das vítimas do
acidente, Laura esqueceu-se de todos os problemas que atormentavam a sua vida
e retomou o seu papel de médica.
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A sua concentração outrora perdida voltou no minuto em que lhe surgiu nas
mãos uma vida humana para salvar. Um rapaz de dezassete anos que
acompanhava os avós naquela excursão e que infelizmente foi incapaz de resistir
ao impacto da queda. Horas depois sucumbiu perante toda a equipa médica
presente no bloco operatório. Não houve nada a fazer quando o seu coração foi
atingido por uma súbita paragem cardíaca que o deixou inanimado sobre a mesa
de operações.
Hora de óbito: 17h45m. A voz do médico assistente contrastou com o silêncio
ensurdecedor que se fez ouvir na sala. E num dia que mais parecia não ter fim,
Laura lançou as luvas sujas de sangue ao chão, afastando-se do cadáver sobre a
mesa de operações.
Estava irritada. Furiosa. Odiava perder uma batalha e era exactamente isso que
tinha acabado de acontecer. Sem conseguir controlar o ódio que se apossou de si, a
médica esmurrou as portas automáticas e aguardou que estas se abrissem para
que pudesse sair. Pelo caminho, enquanto arranjava coragem para transmitir a
terrível notícia aos familiares da vítima, retirou a máscara que tinha no rosto e
livrou os cabelos lisos da toca. Teve a nítida sensação de que provavelmente
aquele havia sido o seu pior dia enquanto profissional de saúde.
Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe do hospital, também teve a mesma sensação
quando se aproximou de Laura ao final da noite. Viu-a sozinha no refeitório com
os olhos postos na janela enquanto a chuva continuava a cair torrencialmente lá
fora e pressentiu-a a milhares de quilómetros dali.
Laura bem tentou esquecer-se de todos os problemas que a atormentavam, mas
estes não lhe pareciam querer dar tréguas. Subitamente vieram-lhe à cabeça
pequenos flashes de memória. Imagens que iam e vinham a uma velocidade
fantasmagórica, mas que se mostravam sempre presentes no seu subconsciente. O
toque das mãos do cunhado no seu corpo, o hálito intenso a tabaco que a boca dele
emanava e a forma como ele a possuiu sem restrições no interior de uma cozinha
onde ela convivia diariamente com o marido e os filhos. Todos estes pensamentos
fizeram-na fechar os olhos e soltar um longo suspiro de aflição que se tornou
audível aos ouvidos de Rita quando esta se aproximou.
- Hoje morreram quinze pessoas na clínica - a enfermeira encostou-se a uma das
mesas do refeitório.
- Já devíamos estar habituadas, não!? - Laura passou as mãos pelo rosto cansado.
- Impossível habituarmos-nos à morte ainda que lidemos com ela todos os dias.
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Laura manteve-se em silêncio, mas aceitou a mão que Rita lhe ofereceu em
seguida. Apertou-a com todas as forças que possuía dentro de si, ansiando
encontrar alguma paz de espírito naqueles cinco dedos.
- Tenho que voltar para as Urgências! Aquilo está um caos – Rita informou após
vários minutos em silêncio. – Ficas bem?
- Fico.
- Vai para casa! Já é tarde.
- Acho que é mesmo isso que vou fazer.
- Ainda existe um mundo lá fora, sabias?! - Rita despediu-se da médica com um
beijo doce na face.
- Sabia - Laura sorriu-lhe carinhosamente.
- Adoro-te!
- Eu também.
O relógio sobre o elevador de serviço indicou vinte e duas horas e quarenta
minutos. Pronta a dar o dia como terminado, Laura esperou que as portas se
abrisse e saiu no terceiro piso. Pelo caminho cumprimentou uma funcionária de
limpeza que varria o corredor distraidamente e voltou a lançar os olhos ao seu
relógio de pulso imaginando que porventura àquela hora o marido e os filhos já
estariam a dormir. Entrou no seu consultório e livrou-se da sua bata, mas o
telefone sobre a secretária tocou poucos segundos depois como se estivesse à sua
espera. A recepcionista avisou-a de que tinha uma chamada em linha. Pode passar,
ela ordenou.
Laura aguardou alguns segundos até que a chamada fosse estabelecida. Enquanto
esperava, sentou-se sobre a secretária, cruzou as pernas e observou a chuva a cair
lá fora. Voltou a passar as mãos pelos cabelos desalinhados e enterrou a mão
esquerda no seu pescoço. Massajou-o com força. Aquelas dores continuavam a
atormentá-la.
- Acho que cometi uma loucura.
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O coração de Laura disparou como uma flecha quando reconheceu a voz da
pessoa que se encontrava no outro lado da linha.
- Onde estás? - ela levantou-se da secretária, atónita.
- Não cheguei a embarcar! Desisti no último minuto.
Laura passeou atordoada pelo consultório sem conseguir dizer nada.
- Ouve! Estou a ficar sem moedas. Aponta a morada do hotel...
Com as mãos trémulas, Laura alcançou um pequeno bloco de notas sobre a
secretária e escreveu às pressas o endereço e o contacto telefónico do hotel. O
edifício, localizado no centro de Lisboa, ficava exactamente a quinze minutos da
clínica onde ela trabalhava.
- Podes vir agora?
95
9
Numa noite em que era praticamente impossível ver o asfalto devido à
intensidade da chuva, Laura conduziu o seu jipe pelas ruas da cidade com cautela.
Veio directamente do trabalho, trajando apenas uma saia preta recta e uma blusa
branca ligeiramente aberta no decote. O seu cabelo, eriçado pela chuva, estava
húmido. Ela tentou alisar os fios com os dedos, mas desistiu pouco tempo depois
procurando uma fivela na sua mala. Não a encontrou.
Tempo depois estacionou o carro em frente a um hotel. Procurou o guarda-chuva
no banco de trás, mas também não o encontrou. Vestiu o casaco às pressas e correu
em direcção à longa marquise que abrigava o prédio principal do hotel. Quando
chegou ao local, a porta dupla abriu-se. Ela parou e ajeitou o casaco, sacudindo a
chuva. Levantou os olhos e viu o porteiro, um homem corpulento e aprumado que
a cumprimentou cordialmente. Ela fez o mesmo, passando apressada por ele na
esperança de que os seus rostos não se cruzassem.
O hotel não era luxuoso embora parecesse moderno e acolhedor. À entrada,
encontravam-se espalhadas algumas mesas e dois sofás gigantescos ocupados por
um grupo de jovens acabados de chegar de viagem. Ao fundo era visível um bar
bastante movimentado. O chão feito de mármore apresentava um longo tapete
vermelho persa que se estendia até à recepção do hotel, muito bem decorada com
vasos negros, quadros abstractos e o sorriso radiante da única recepcionista de
serviço que naquele preciso momento entregava as chaves do quarto a um casal
britânico.
- Boa noite – ela ofereceu um novo sorriso a Laura. - Posso ajudá-la?
- Boa noite – a médica mostrou-se pouco receptiva a corresponder à simpatia da
funcionária. - Quarto 408…
96
A recepcionista fez a chamada para o quarto indicado e logo em seguida
informou que ela podia subir. Laura seguiu então em direcção ao elevador de
serviço. Entrou sozinha mas não deixou de se sentir menos nervosa por isso.
Ainda tinha seis pisos para mudar de ideias e reparar o grande erro que cometera
ao resolver aceitar aquele convite. Seis pisos para recuar no tempo. Seis pisos para
recuperar a pouca sanidade mental que ainda lhe restava. Seis pisos que
rapidamente se transformaram em cinco, quatro, três, dois, um.
À medida que o visor indicava a ascenção dos pisos, uma força oculta impediu-a
de escutar o seu subconsciente, obrigando em vez disso a sair do elevador e a
percorrer cautelosamente um corredor às escuras. As portas foram surgindo uma
a uma. 405, 406,407 e finalmente, 408, o número que tanto havia procurado. Houve
um ligeiro momento de pausa. De hesitação. Um momento conjugado com a
incerteza de estar a cometer uma loucura.
- Vais continuar aí especada?
Laura foi surpreendida, sozinha, no meio do corredor. Sorriu ao ver o rosto do
cunhado quando ele esticou o pescoço atrás da porta e lhe mostrou um sorriso
malandro e debochado. Não conseguiu resistir. Mudou rapidamente de ideias.
Chegou à conclusão que a a sua fuga não resolveria nada e nem serviria como
mote para recuperar a tal sanidade mental que parecia intrínseca à sua
personalidade sempre recta e formal. Aliás, como recuperar algo que
simplesmente deixava de existir sempre que se encontrava na presença de um
homem que lhe provocava verdadeiros espasmos de loucura.
Ricardo abriu passagem e ela passou por ele, de cabeça baixa, inundando-o com o
seu perfume a rosas. Escassos segundos que o permitiram sorrir e fechar a porta
com cuidado. Seguiu-a com os olhos. Reparou nas suas costas bem formadas e na
gabardina cinzenta ainda molhada pela chuva. Os cabelos caíam-lhe um pouco
acima dos ombros e as suas mãos permaneciam nervosas dentro dos bolsos do
casaco. Jamais pensou vê-la ali. Parecia uma situação irreal que ele próprio criara
quando se atreveu a procurar o seu nome na Internet, encontrando a morada do
hospital onde ela trabalhava e tentando contactá-la durante dois dias seguidos
sem sucesso. E agora ela estava ali.
O quarto não era muito grande, Laura reparou. Decorado apenas com uma cama
de casal, uma mesinha de cabeceira submersa em beatas, uma secretária vazia e
um roupeiro que ainda abrigava duas malas de viagem ainda não desfeitas,
parecia tudo menos pessoal. Era também possível entrar-se numa casa de banho
pouco personalizada com azulejos de mármore em tons neutros e uma grandiosa
cabine de duche. Quando regressou ao quarto, ela deu-se conta de que era uma
habitação simples, sem muito luxos. Tal como o cunhado. Congratulou-o por isso.
97
- Então é aqui que agora te escondes!? – ela inquiriu depois de ter inspeccionado
todos os cantos à casa.
- Parece que sim! Gostas?
- Gosto - ela não mentiu.
Laura sentou-se sobre a cama e tentou esconder o nervosismo súbito que se
apoderou de si. Mas esse nervosismo não desapareceu. Muito pelo contrário. À
medida que o tempo ia passando e o cunhado caminhava em sua direcção, mais
forte lhe batia o coração. Ricardo tocou-a na face, passou-lhe os dedos pelos lábios
e desceu as mãos em direcção aos botões da sua blusa branca desapertando cada
um deles, lenta e decididamente. Ela fechou então os olhos e deixou-se levar por
um estranha onda de calmaria. Foi como se de repente tudo deixasse de fazer
sentido ou de ter importância.
Ali estava uma mulher de trinta e nove anos, uma Neurocirurgiã de sucesso,
casada e mãe de dois filhos, mas também uma mulher completamente rendida ao
desejo de pertencer ao irmão do seu marido. Um homem que naquele exacto
momento lhe retirava a blusa do corpo. Que a livrou do soutien e se apoderou dos
seus seios. Que se colocou atrás dela, cheirou o seu pescoço, os seus cabelos e
mordeu a sua orelha esquerda. Que a fez suspirar de prazer quando lhe sussurou
várias palavras obscenas aos ouvidos.
Por instantes, Laura não teve outro remédio a não ser engolir o grande nó que
atravessou a sua garganta. Cravou os dedos na nuca do cunhado e ansiou que
aquele momento nunca mais tivesse fim. Sem pensar muito, ele sentou-se de novo
ao seu lado e segurou-lhe a cabeça para que ela não pudesse escapar. Deu-lhe um
longo beijo. Ela hesitou por uma fracção de segundo, mas logo retribuiu.
Imediatamente todos os sentimentos de hesitação, medo, insegurança e culpa
foram substituídos por uma euforia imensa. O que parecia impossível de manhã,
concretizava-se agora à noite. Os seus rostos voltaram a afastar-se e ambos
reencontraram o que estava ali há menos de um minuto. Loucura - agora somada à
estupidez e à irresponsabilidade de um gesto que no caso de Laura iria agravar
tudo.
- Fode-me - saiu-lhe novamente essa palavra hedionda da boca.
Durante o acto, ela não desviou os olhos de Ricardo um só segundo. Entregou-se
completamente a ele, sentindo-o cada vez mais dentro de si, a transpirar por todos
os poros e encharcando-a com o seu suor.
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Ele parecia tomado por um espírito oculto que o incentivava a querer mais e mais
e ela submersa num desejo que mais parecia não ter fim. Irreflectidamente,
Ricardo levou-a até à casa de banho e obrigou-a a entrar na cabina de duche. A
água quente e os seus braços fortes mantiveram-na apoiada à parede. A respiração
era quente contra o rosto dela. Laura estava tão hipnotizada pelos olhos de
Ricardo que mal notou tudo o resto que a rodeava. O coração batia
descompassado, enquanto o eco da água caía violentamente sobre o polibã.
Estavam então face a face, ela com os braços à volta do pescoço dele, e ele com os
braços por debaixo das suas nádegas, submersos um no outro, sem saber onde um
acabava e o outro começava.
Ricardo tinha esse dom. O dom de libertá-la das convenções sociais e da máscara
que usava todos os dias com o intuíto de esconder as suas próprias fragilidades.
Não era apenas sede pela boca dele ou o desejo de o ter por perto. Era antes um
desejo de total integração, de fazer sexo primitivamente e de ser completada
fisicamente.
- O que é que eu vi em ti!? – ela passou-lhe as mãos pelos cabelos escuros quando
os seus corpos finalmente sofreram algum descanso por entre os lençóis. – Não
temos nada em comum.
- Aí é que te enganas! Temos muito mais em comum do que imaginas.
Laura concordou silenciosamente com a resposta de Ricardo, e em seguida,
rendida àquele sentimento de pertença afundou-se na boca dele sem temer as
consequências dos seus actos. Faz amor comigo outra vez, pediu e ele sem outro
remédio viu-se obrigado a acatar o seu pedido.
Quando terminaram, já a madrugada ia alta, ele intimou-a a voltar no dia
seguinte. Infelizmente não obteve uma resposta positiva. Conformou-se com a
promessa de que ela voltaria assim que pudesse.
De olhos postos na janela, observou a sua figura esbelta a atravessar a rua a
passos largos. Voltou a acender um novo cigarro e apoiou um dos braços sobre o
vidro. Deliciou-se com a forma como a cunhada passou os dedos pelos cabelos
desalinhados, como a sua gabardina esvoaçou ao sabor do vento, os seus saltos se
prenderam ao passeio e como entrou no carro estacionado a poucos metros de um
hotel onde haviam passado as últimas horas mergulhados num ambiente total de
luxúria. Por fim, ela arrancou o veículo a alta velocidade e ele deu-se por vencido.
Queria voltar a vê-la. Todos os dias. A todas as horas.
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Os encontros de Laura e Ricardo no quarto de hotel onde ele se encontrava
hospedado tornaram-se cada vez mais frequentes. Com horas de almoço
prolongadas que a faziam atrasar-se para as consultas, chegadas tardias a casa e
telefonemas escondidos no escritório a meio da noite, a verdade é que por mais
que Laura tentasse, simplesmente não conseguia romper o ciclo vicioso no qual se
tinha metido. Tudo parecia demasiado sórdido, egoísta e sinistro. Mas ainda
assim, ela adorava aquela sensação e quis que voltasse a acontecer. Em três
semanas encontraram-se cinco vezes. O nervosismo dos primeiros encontros
desapareceu, dando lugar à vontade incontrolável de se verem todos os dias.
Leonardo não merecia aquela traição. Laura não era tão cruel ao ponto de pensar
que sim. Muitas vezes sentia-se culpada por já não conseguir corresponder aos
carinhos que ele lhe fazia, por já não ter paciência para longas conversas depois do
jantar ou até mesmo para banhos demorados ao sabor de um bom vinho. Também
havia algum tempo que não tinham uma relação sexual intensa. Num casamento
isso era necessário, caso contrário, as dúvidas começavam a surgir. Ela esforçava-
se. Continuava a esforçar-se. Nas últimas semanas, curiosamente, sentia-se mais
apta e disponível a aceitar os avanços do marido e a correspondê-los de uma
forma mais efusiva. Numa dessas vezes pensou no cunhado e chegou mesmo a a
ter um orgasmo sem esforço nenhum. Mas o fazer sexo com o marido era
completamente diferente. Não era num quarto de hotel em plena luz do dia, entre
uma ou outra consulta com os minutos contados. Fazer sexo com o marido era um
ritual mantido há muitos anos, apenas à noite, trancados no quarto sem emitir
qualquer ruído sob pena de acordar ou traumatizar as crianças. Não havia mais
nada a ser descoberto entre dois corpos que já se conheciam na perfeição. Tentava-
se ao menos tirar partido das mesmas coisas, repetindo as mesmas posições, as
mesmas palavras e fingindo prazer. Era como comer chocolate todos os dias sem
nunca variar a marca ou o sabor.
100
Quarto 408, por favor. Enquanto aguardava que a ligação fosse estabelecida, Laura
voltou a lançar os olhos à porta da cozinha e não viu ninguém. Felizmente
ninguém a estava ouvir.
- Sou eu – ela disse quando Ricardo atendeu finalmente a chamada.
- Eu sei.
- Liguei-te durante o dia mas a recepcionista disse-me que não estavas no hotel.
- Saí! Fui dar uma volta.
- Quero ver-te - Laura não teve cerimónias em declarar a sua vontade. - Posso ir aí
amanhã?
- Deves - Ricardo alcançou um maço de tabaco sobre a mesinha de cabeceira. - A
que horas?
- À hora do almoço! Acho que consigo atrasar uma consulta.
- Combinado! Se não apareceres, vou eu atrás de ti! Procuro-te onde estiveres...
Laura sorriu discretamente ao telefone. - Tenho que desligar.
- O meu irmão está aí?
- Não! Mas não me posso demorar! Ligo-te amanhã para combinarmos melhor.
Quando desligou a chamada, Laura manteve o telemóvel sobre os lábios e sentiu
o seu coração aos pulos. Nunca sentira nada idêntico. Nada tão forte. Tão tóxico.
Provavelmente ninguém em sã consciência compreenderia os motivos que a
levavam a encontrar-se com um homem como Ricardo. Na verdade, nem ela
compreendia e era essa mesma incompreensão que a impelia a querer estar com
ele todos os dias.
Depois de arrumar a cozinha e a desarrumação deixada pelos filhos na sala, Laura
desligou o televisor e apagou as luzes acesas ao longo da casa. Começou pela
cozinha, seguiu até ao candeeiro ao fundo do corredor, desceu as persianas
automáticas da sala e terminou a empreitada com o fecho de luz da casa de banho
de serviço provavelmente deixada acesa pelas crianças.
101
Ao passar pelo escritório, encontrou o marido debruçado sobre a secretária
envolto em papéis, réguas e esquadros. Leonardo parecia estranhamente
compenetrado sem se deixar distrair por nada mais do que trabalho que estava a
fazer. Trancou-se ali dentro depois de ter enfiado os filhos na cama.
- Ainda vais demorar muito? - Laura encostou a cabeça ao alpendre da porta.
- Mais ou menos.
- O que estás a fazer?
- Algumas alterações na planta de um novo SPA que vamos agora começar a
construir em Telheiras.
- E o projecto do RESORT? Como é que está a correr?
- Bem...
- Antes que me esqueça! Temos que comprar esta semana os fatos de Carnaval
para as crianças – a voz de Laura saiu rouca e ela tossiu para a clarear. – A
professora veio falar comigo quando os fui buscar hoje ao colégio. Parece que vão
fazer uma festa qualquer e querem os miúdos mascarados.
- Não sei se consigo tratar disto esta semana! Estou atolado de trabalho.
- Pedimos à Alicia para comprar os fatos. Mas acho que não vou conseguir ir à
festa. Vou estar a trabalhar nesse dia.
- Pois... - Leonardo deslocou-se ao longo da mesa para melhor concluir uma recta
que estava a desenhar. - Às vezes esqueço-me de que o teu trabalho é muito mais
importante do que os nossos filhos.
- O que é que queres dizer com isso? - Laura cerrou os olhos.
- Sabes bem! És uma mulher inteligente.
- Vou-me deitar.
- Laura! Estou farto disto - Leonardo largou violentamente a régua que tinha nas
mãos e assustou a mulher com a sua voz imperiosa. - Farto do teu mau-humor.
102
Das tuas dores de cabeça à hora de dormir. Dos teus gritos com os miúdos. De
andares sempre com a cabeça na lua. Estou farto! E estou farto também de fingir
que não se passa nada…
- Eu não vou discutir contigo.
- Já reparaste que nós nunca discutimos?
- E é esse o problema? Não discutirmos?! És o primeiro homem a queixar-se disso.
- É claro que é um problema! Todos os casais discutem, conversam, trocam ideias,
mas no entanto nos últimos tempos tu teimas em fugir às nossas conversas e fingir
que está tudo bem. Não. Não está tudo bem. Eu e tu sabemos isso. Só que eu pelo
menos estou disposto a colocar todas as cartas na mesa e a fazer de tudo para
salvar o nosso casamento.
- Salvar o nosso casamento? - ela voltou a cerrar os olhos. - O que é que estás para
aí a dizer!?
- Sim, Laura! Salvar o nosso casamento, porque se ele continuar assim, não vai
durar muito tempo.
- O nosso casamento só não vai demorar se tu não quiseres. Se continuares a
inventar problemas onde eles não existem. Vou-me deitar! Boa noite... – foram as
últimas palavras da médica antes de abandonar o escritório perante o olhar
furioso do marido.
103
11
A empregada Alicia encarregou-se da tarefa de comprar os fatos de Carnaval para
a festa dos gémeos. André quis mascarar-se de Pirata e João de Super Homem. Os
dois encontravam-se entusiasmados com a festa e também com o desfile de
máscaras. Falavam no assunto a cada cinco segundos sempre que se encontravam
na presença dos pais, intimando-os a comparecer ao evento.
A tradição mantinha-se e não havia como faltar. Pais, alunos, professores e
funcionários administrativos reuniam-se no grande pavilhão desportivo,
partilhando momentos de pura diversão numa época festiva que tanto dizia às
crianças.
Por não ter como fugir às suas responsabilidades, Leonardo reajustou os seus
horários no trabalho delegando parte das suas funções à equipa com a qual
trabalhava diariamente.
Laura, sem outro remédio, também se viu intimada a reorganizar as suas folgas e
a desmarcar pelo menos duas consultas que lhe pareceram pouco importantes. Era
um sacrifício a fazer pelos filhos, ambos sabiam-no bem, embora encarassem as
coisas de forma diferente. Leonardo comparecia a estes eventos com um largo
sorriso nos lábios disfrutando das brincadeiras e peripécias dos filhos e dos seus
colegas de turma. Era simpático com todos, tentava perceber quais eram as
dificuldades de aprendizagem dos filhos e interessava-se pelas actividades
extracurriculares propostas pelos professores. Laura nem por isso. Em situações
similares em que se sentia realmente entediada, a médica sentava-se a um canto e
olhava a cada cinco segundos para o seu relógio de pulso. Não tinha paciência
para participar nas brincadeiras dos filhos e nem mesmo para fingir sorrisos a
pessoas que não conhecia e nem lhe diziam nada. Também não era muito bem
vista pelos professores devido às suas constantes faltas às reuniões e aos atrasos
inexplicáveis sempre que ia buscar André e João ao colégio.
104
- A Alicia já saiu de casa com os miúdos. Vais lá ter connosco? - Leonardo
perguntou à mulher pelo telefone a poucos minutos de sair do escritório rumo à
festa dos filhos.
- Sim - Laura abriu a porta do seu consultório. - Dá-me vinte minutos!
Encontramo-nos lá.
Laura desligou a chamada sem muitas delongas e lançou o telemóvel contra a
secretária. Sentiu-se exausta. Cansadíssima. Após um plantão de vinte e quatro
horas tudo o que desejava era manter-se ali de pé no meio do consultório sem
mexer um único músculo corporal, pelo menos até retomar novamente consciência
do seu papel de mãe.
- Posso entrar?!
- Claro - Laura esboçou um sorriso sincero a Rita Azevedo quando esta entrou no
seu consultório.
- Vou almoçar agora! Vens comigo ou ainda tens mais alguma coisa para fazer?
- Por acaso tenho! Hoje não vou poder almoçar na clínica porque tenho uma festa
dos miúdos para ir.
- Deixa-me adivinhar! Carnaval?!
- Nem mais – Laura despiu a sua bata branca e trocou-a pela sua gabardina
cinzenta pendurada no bengaleiro.
- Odeio o Carnaval.
- Já somos duas! Mas parece que quando temos filhos somos obrigados a gostar de
todas as datas festivas e ainda a gastar imenso dinheiro com elas.
- É nestas alturas que não te invejo nem um pouco.
Laura sorriu novamente à sua melhor amiga, mas não foi capaz de se pronunciar
sobre o assunto. Também ela não se invejava nem um pouco.
- Sabes que nunca te imaginei a ter filhos – Rita fez a observação.
105
- Porquê? - Laura continuou a arrumar os seus pertences sobre a secretária.
- Porque quando nos conhecemos dizias que ter filhos era algo que não fazia parte
dos teus planos. Que só querias saber da tua carreira profissional. Que não
gostavas de crianças. E eu acreditei em ti. Realmente não te via qualquer instinto
maternal.
- Quando nos casamos com alguém cujo principal objectivo de vida é formar uma
família.
- Estás a falar do Leo?
- Ele queria muito ter filhos. Eu apenas lhe fiz a vontade.
- Foi só por isso que engravidaste?- Rita cruzou os braços, curiosa.
- Não - Laura respondeu após um longo minuto de pausa. - Eu gosto dos meus
filhos. Já não saberia viver sem eles.
- És uma boa mãe.
- Garanto-te que é muito mais fácil ser médica do que ser mãe.
- Acredito.
As duas amigas voltaram a rir-se alegremente, indiferentes ao novo toque na
porte oferecido por Joana Lima. Quando viu a figura da sua Interna diante de si, a
expressão facial de Laura alterou-se drasticamente. Do sorriso extremo, passou a
um ódio incompreensível. Não havia dúvidas de que a presença daquela jovem a
importunava como nenhuma outra.
- Dr.ª Laura! Tem aqui o relatório semanal que pediu.
- Põe-no aí em cima da mesa – a médica ordenou.
- Há mais alguma coisa que eu possa fazer? - a pergunta de Joana saiu sarcástica e
debochada.
- Há! Almoçar... - Laura enfiou o seu telemóvel dentro da mala.
106
- E depois de almoçar?
- Depois de almoçar tens a Enfermaria à tua espera.
- Como queira! Afinal de contas é a Dr.ª quem manda - Joana voltou a sair do
consultório sem perceber o olhar de profundo ódio que Laura lhe lançou.
- Esta rapariga tira-me do sério.
- Calma - Rita sugeriu à médica. - Lembra-te daquilo que te disse! Lembra-te da
tua nomeação...
- Eu sei – Laura respirou fundo e passou a mão pelos cabelos soltos. – Bem! Deixa-
me ir andando! Não quero chegar atrasada à festa dos miúdos.
Saída da clínica a poucos minutos do meio-dia, Laura enfiou-se no seu jipe e
passou as mãos pelo rosto cansado com o desejo natural de dormir algumas horas
após um plantão de vinte e quatro horas. Enquanto conduzia a uma velocidade
cuidadosamente moderada, a médica ligou a rádio apenas para se manter
acordada. A música frenética impeliu-a a tocar com os dedos no volante em frente
a um semáforo vermelho e observar a fila de carros formada atrás de si. Tinha
apenas dez minutos para chegar ao seu destino. O relógio sobre o tablier indicou-
lhe essa informação. Dez minutos para voltar a interpretar o papel de mãe e
esposa extremosa, ainda que a sua vontade tivesse sido interrompida pela
vibração do telemóvel sobre a caixa de velocidades. Ao ver quem era o remetente,
ela esboçou um ligeiro sorriso. O sinal abriu e ela arrancou o carro.
- Ocupada?! – Ricardo abandonou a casa de banho com uma toalha enrolada na
cintura.
- A conduzir – Laura manteve uma das mãos apoiadas sobre o volante. – Por isso
não posso demorar muito.
- Porque é que não atendeste às minhas chamadas hoje de manhã?
- Estava numa consulta.
- E agora? Onde estás?
- Já te tinha dito ontem que ia à festa de Carnaval dos meus filhos.
107
- E já decidiste como vais mascarada?
- Porque é que me estás a ligar? – Laura ignorou o comentário espirituoso do
cunhado.
- Acabei de sair do banho. Estou cheio de fome.
- E o que é que eu tenho a ver com isso?
- Nada! Só pensei em almoçar-te...
Ao ouvir aquela proposta indecente ao telefone, Laura não teve outro remédio a
não ser sorrir em silêncio e parar o carro em frente a um novo semáforo vermelho.
- Vem ter comigo agora – Ricardo serviu-se de um copo de água junto à mesinha
de cabeceira.
- Não posso - ela reduziu a caixa de velocidades. - Já te disse que tenho a festa dos
miúdos.
- Eles não se vão importar se chegares um pouco atrasada.
O silêncio fornecido pela cunhada no outro lado da linha deixou a certeza a
Ricardo de que a sua proposta não era tão descabida quanto isso. Laura não
conseguia resistir a nenhum convite seu e nem esconder que adorava aqueles
momentos onde podia libertar todas as tensões reprimidas ao longo da semana
sem conversas desnecessárias ou desculpas de qualquer ordem que pudessem
justificar o seu simples desejo de fazer sexo. Nenhuma justificação intelectual ou
psicológica. Queria ter sexo. Ponto final.
- Uma hora é tudo o que te posso dar – ela disse por fim.
- Não te preocupes! Tu sabes que eu me contento com pouco.
Não foram precisas outras justificações para que Laura virasse o carro na primeira
esquina e seguisse a direcção contrária à do colégio dos filhos. Fê-lo inebriada por
uma força oculta que a conduziu até a um quarto de hotel que tão bem conhecia.
108
Sessenta minutos era o tempo que possuía para se entregar ao cunhado. Por isso,
assim que ele abriu a porta do quarto, ela atirou-se para os braços dele e sufocou-o
com um longo beijo. Não disseram absolutamente nada um ao outro pois já se
conheciam. Conheciam o motivo de cada suspiro e já não precisavam pedir
permissão para se tocarem. Fizeram amor sobre a secretária, indiferentes aos
ponteiros do relógio e indiferentes também ao toque irritante do telefone sobre a
mesinha de cabeceira. Tão irritante que obrigou Ricardo a tirar o ascultador da
zona de descanso para melhor se concentrar no que estava a fazer. Uma hora tinha
sido o tempo oferecido pela cunhada e ele não pretendia desperdiçar um minuto
sequer.
- Tens um sinal aqui nas costas - Ricardo passou os dedos sobre o corpo desnudo
de Laura sobre a cama.
- Eu sei! Apareceu-me durante a gravidez.
- Assim do nada?!
- Deve ter sido das injecções que tomei.
- Injecções!?
- Não tive uma gravidez propriamente fácil.
Ricardo calou-se ao constatar a pouca vontade de Laura em continuar a falar
sobre o assunto. Continuou a passar-lhe as mãos pelo corpo nú. Os braços, as
costas e as nádegas. Eram perfeitas. Arrebitadas, com uma coloração ligeiramente
rosada e em forma de lua. Ele apertou-as com força e tentou mordê-las. Ela irritou-
se e empurrou-o para longe. Avisou-o que se tinha que ir embora.
- Nem penses - ele impediu-a, colocando-se por cima dela.
- Já te disse que não posso ficar.
- Porque é que as coisas têm que ser sempre como queres, hã?! Porque é que
passas a vida a ditar ordens aos outros à espera que eles obedeçam?
- Larga-me!
- Não te vou largar!
109
- Larga-me!
- Já disse que não te vou largar - Ricardo prendeu-lhe os pulsos à cama, afundou-
se nos olhos dela e viu neles uma expressão de ódio. - Ficas aqui comigo porque
eu estou a mandar.
- Estás-me a magoar.
- Se ficares quieta, vou parar de te magoar! Agora fica quieta! Fica quieta...
Ela debateu-se como um animal selvagem.
- Fica quieta, porra!
O grito de Ricardo paralizou os movimentos de Laura. Exausta e sem forças, a
médica não teve outro remédio a não ser resignar-se à vontade do cunhado.
Constatou igualmente que ao contrário de todas as pessoas que a rodeavam e que
se curvavam perante a sua figura, Ricardo era o único que a enfrentava e a
desafiava sem medo de a contrariar. Com ele, ela sentia-se completamente
desarmada e desprotegida. Não havia como negar. Era ele quem mandava
naquela estranha relação e secretamente ela começava a gostar disso. Beijaram-se
mais uma vez. O desejo voltou a crescer. Ricardo obrigou-a a virar-se de costas e
esticou o braço para fora da cama a fim de encontrar sobre a mesinha de cabeceira
o que estava à procura. Um preservativo. Abriu-o e colocou-o sem muito esforço,
mantendo-a presa na mesma posição. Mais tarde, encontrou na primeira gaveta da
mesinha de cabeceira algo semelhante a um lubrificante. Beijou-a nas costas
desnudas e puxou o cobertor para cima a fim de lhes tapar os corpos. Não se viu
absolutamente nada depois disso. O quarto ficou às escuras, e por breves
instantes, o silêncio tomou conta da atmosfera até se ouvir um grito de dor.
Atordoada e ainda em estado de choque com o que tinha sentido, Laura tentou
desesperadamente livrar-se dos braços do cunhado. Quando conseguiu, livrou-se
também do cobertor e deu-lhe uma valente bofetada no rosto a fim de demonstrar
a sua total indignação por aquilo que ele tinha acabado de tentar fazer. Ricardo
sorriu e levou a mão à face violentada. Segurou-a de novo nos pulsos e perguntou:
- Vais-me dizer que nunca fizeste isso?
Mentira. Tentara fazer duas ou três vezes por iniciativa do marido, mas paravam
sempre a meio. Ele não gostava da dor e ele nunca a pressionou a fazer nada
contra a sua vontade.
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- Vem cá - Ricardo trouxe-a com carinho para junto de si e acariciou-lhe a face
rosada. - Prometo que não vai doer se ficares relaxada. Não tenhas medo. Confia
em mim...
Após terem feito inúmeras loucuras com os seus corpos, os dois amantes
adormeceram exaustos sobre a cama. Nem sequer ouviram as inúmeras chamadas
provenientes do telemóvel de Laura que se encontrava no bolso da gabardina
jogada a um canto da habitação, ou sequer o barulho das sirenes de um carro de
bombeiros numa cidade que ao contrário deles parecia nunca dormir.
Passaram-se horas, quatro talvez. A tarde caminhava para o final quando Laura
abriu os olhos e procurou saber onde se estava. Observou o corpo do cunhado a
dormir ao seu lado, de braços abertos, totalmente relaxado. Observou também as
roupas espalhadas pelo quarto. Os estores cerrados, duas taças de vinho
inacabadas e o cheiro de um cigarro a fumegar sobre o cinzeiro. Quando
finalmente se veio a si e ouviu o seu telemóvel vibrar pela milésima vez, saltou da
cama e apressou-se a segurar o aparelho nas mãos. Merda, disse em voz baixa.
Deparou-se com onze chamadas não atendidas do marido e duas mensagens de
texto a perguntar onde estava.
Saída do hotel sem sequer se dignar a acordar o cunhado, Laura correu em
direcção ao seu carro estacionado a poucos metros do edifício. Abriu as portas e
atirou todos os seus pertences lá para dentro com o intuíto de desaparecer daquela
rua o mais depressa possível. Faltavam poucos minutos para as cinco horas e com
certeza a festa de Carnaval dos filhos estava prestes a terminar. Culpada e cheia de
remorosos, a médica arrancou o carro a alta velocidade sem sequer colocar o cinto
de segurança. A sinalética electrónica do automóvel alertou-a para esse facto e ela
não viu outro remédio a não ser obedecê-la.
Pelo caminho, com lágrimas nos olhos, Laura desviou-se de inúmeros veículos.
Tentou seguir o caminho mais rápido para chegar ao colégio dos filhos, mas a luz
vermelha de um semáforo obrigou-a a parar no meio de um cruzamento vazio.
Exasperada ela esperou. Esperou. Esperou. E num acto de pura insanidade,
quando chegou à conclusão que já não tinha absolutamente nada a perder, passou
o sinal vermelho com um arranque demente que por pouco não a obrigou a chocar
contra um veículo que vinha em direcção contrária. Na altura, os seus reflexos
permitiram que ela desviasse o seu jipe a tempo e fizesse uma manobra extrema.
Uma valente guinada no volante e o pé no acelerador, enquanto ignorava os
insultos e a buzina do condutor se viu obrigado a parar no meio do cruzamento.
Chegada ao colégio dos filhos ainda com o coração aos pulos, Laura saiu do carro
às pressas e correu em direcção ao grandioso pavilhão desportivo onde a festa de
Carnaval das crianças ainda decorria.
111
Tentou encontrar os filhos e o marido por entre a multidão. Pôs-se em bicos de
pés e esticou o pescoço a fim de os ver, mas não conseguiu vislumbrar nenhuma
figura conhecida. Será que já se tinham ido embora, passou-lhe essa ideia pela cabeça.
Foi uma sensação horrível não saber onde estavam. Encontrar rostos
desconhecidos, esbarrar-se em pessoas que nada lhe diziam, enquanto um nó na
garganta a impedia de respirar.
Quando estava prestes a entrar em desespero, Laura conseguiu finalmente avistar
o marido ao fundo do pavilhão a conversar com a professora dos filhos. Logo em
seguida, viu também André e João numa corrida desenfreada à volta da
empregada Alicia, divertidos com a festa e com a tarde bem passada. Nenhum dos
dois parecia sentir a falta da mãe ou lembrar-se sequer da sua existência.
- Boa tarde – Laura aproximou-se do marido e da professora dos filhos com uma
expressão de culpa.
- Boa tarde! Como está, D. Laura? - a professora apertou-lhe a mão.
- Bem - a médica respondeu, embora os seus olhos vermelhos denunciassem o
contrário. - Peço desculpas pelo atraso, mas foi-me impossível chegar mais cedo.
- Não faz mal - a professora oferceu-lhe um sorriso amarelo. - O importante é que
as crianças se estão a divertir.
Laura lançou um olhar furtivo a Leonardo e viu-lhe uma expressão furiosa no
rosto. Não era a primeira vez que algo semelhante acontecia. Os atrasos constantes
da mulher, as desculpas esfarrapadas e a sensação de que na vida de Laura tudo
era mais importante do que ele e os filhos começava aos poucos a assombrar a
paciência do arquitecto. Eram onze anos do mesmo e as coisas não pareciam estar
a melhorar.
Numa tentativa de fugir aos olhares recriminadores do marido, Laura abrandou a
correria dos filhos. Segurou-os no braço e agachou-se perante eles. Observou-lhes
os rostos com atenção. Eram exactamente iguais. Impressionante como nunca se
tinha dado conta disso. Tinham os mesmos traços físicos, a mesma altura e os
mesmos olhos castanhos profundos reluzentes. Subitamente sentiu-lhes o maior
amor do mundo. Não mentira quando naquela tarde disse à sua amiga Rita que os
filhos eram as pessoas mais importantes da sua vida. Apesar de todas as suas
fraquezas, defeitos e fragilidades, ela amava-os e não se imaginava a viver sem
eles.
- A mãe pede desculpas pelo atraso! Juro que tentei vir mais cedo...
112
Como única resposta, André disse: – Não gosto de ti – e isso foi o suficiente para
destruir o coração de Laura e deixá-la novamente de lágrimas nos olhos. – És má!
O poder de síntese das crianças era absolutamente assombroso. Numa única frase,
André conseguiu exprimir um conceito complexo e tudo o que sentia pela mãe.
Por um momento, Laura esperou que aquele "és má" não fosse dirigido à sua
pessoa, mas à medida que o tempo ia passando e o rosto furioso do filho a fitava
com raiva e desconfiança, a médica percebeu que apenas estava a pagar pelos seus
erros. Duas palavras tão pequenas para a repreender, mas que foram suficientes
para a chamar à razão.
- André! Pede imediatamente desculpas à tua mãe – Leonardo tomou o braço do
filho e sacudiu-o com força. – Agora!
- Não – ele voltou a enfrentar o rosto mortificado de Laura. – Ela prometeu que
vinha e não veio.
- Eu tenho uma ideia – Alicia, a empregada, adiantou-se àquela cena
constrangedora. Tomou os gémeos pela mão. – Porque é que não vamos lá para
fora, hã meninos?!
Alicia não necessitou de muito esforço para levar as crianças consigo. Segundos
depois a professora despediu-se dos pais dos seus alunos, tentando esconder o
choque e o desconforto que aquela cena lhe provocara. Laura derramou uma
lágrima rapidamente amparada e escondida. Sentiu-se o pior ser humano à face da
terra. Leonardo teve que se controlar para não se afastar dela.
- Juro que tentei chegar a horas.
- O problema é que tu nunca cumpres o que prometes, Laura - a voz do marido
saiu amarga, mas segura.
Naquela noite, Laura não jantou. Estava demasiado magoada e triste com todos
os acontecimentos que assolaram o seu dia para sequer se atrever a engolir
qualquer alimento sólido. Pensava como havia sido possível adormecer ao lado do
cunhado e esquecer-se dos próprios filhos. Que espécie de mãe era ela? Que tipo de
mãe é capaz de ignorar os filhos em troca de duas horas de prazer ao lado de um homem?
Sim. Ela era má tal como André dissera e não merecia sequer ser mãe de duas
crianças maravailhosas que a única coisa que pediam em troca era a sua atenção, o
seu carinho e amor.
113
Deitada no divã da sala, com um cobertor sobre o colo, Laura ignorou os ruídos
provenientes da televisão e voltou a limpar o nariz entupido. Ignorou também a
conversa do marido e da empregada no corredor da casa. Alicia tinha-se
disponibilizado para desmascarar os gémeos e pô-los na cama. Deu-lhes o jantar e
arrumou a cozinha sem olhar para o adiantado das horas. Por fim, quando
terminou todas aquelas tarefas fora do seu horário de trabalho, despediu-se do
patrão com a promessa de que voltaria no dia seguinte à mesma hora.
- Obrigado, Alicia - Leonardo forçou-lhe um sorriso triste.
- Não precisa agradecer, Sr.º Leonardo! O importante é que correu tudo bem. As
crianças adoraram a festa e se divertiram.
- É... - o arquitecto respondeu sem muita convicção.
Apesar da empregada lhe ter desejado uma boa noite a poucos minutos de se ir
embora, Laura ignorou-lhe o cumprimento. Não porque não quisesse responder,
mas simplesmente porque não teve forças para isso. Minutos depois, Leonardo
voltou a entrar na sala e desligou o televisor perante o seu olhar distraído. Não
havia mais como fugir, ambos sabiam-no bem. Tinha chegado a hora de
conversarem e colocarem todas as cartas na mesa.
- O que é que se passa contigo? - o arquitecto sentou-se sobre a mesinha, à frente
do divã onde se encontrava a mulher. - O que houve? Algum problema lá na
clínica?
- Não – ela soluçou e limpou o nariz com um lenço de papel.
- É sobre aquela história de seres nomeada para o cargo de Chefe de Equipa?
- Também não! Não é nada disso.
- Então é o quê? – Leonardo encontrou-lhe as mãos geladas sobre o colo. – Diz! O
que é que te está a torturar dessa maneira? Eu vou saber ouvir-te...
As palavras do marido e o seu olhar carinhoso serviram como uma facada no
peito de Laura. Vê-lo ali, completamente apaixonado e compreensivo, sem fazer a
mínima ideia da sua traição, despertou nela um verdadeiro sentimento de repulsa
pela sua pessoa.
114
- Desculpa – saiu-lhe esse pedido sem pensar.
- Desculpa porquê?!
- Por tudo - ela soluçou. - Por ser uma péssima mulher, uma péssima mãe...
- Laura... – Leonardo apertou-lhe as mãos frias a fim de apaziguar as suas lágrimas
e o seu sofrimento. – Não te vou esconder que nem sempre tem sido fácil. Mas eu
sabia no que me estava a meter quando resolvi casar-me contigo. Nunca me
escondeste que a tua profissão estava em primeiro lugar. Nunca me escondeste
que não tinhas planos de ter filhos ou que a tua ambição era ser a melhor
Neurocirurgiã do país. Mas olha onde chegámos... – Leonardo continuou o seu
discurso perante as lágrimas da mulher. – Foi um longo caminho, mas hoje temos
um casamento, que apesar de não ser perfeito, está bem longe do desastre que
pensávamos que iria ser. Temos os nossos filhos, a nossa casa, as nossas carreiras,
amigos… tudo! Não nos falta nada...
- Então porque é que eu me sinto assim?
- Assim como!?
- Tão infeliz? Tão fracassada? - Laura limpou as lágrimas que tinha no rosto e
respirou fundo numa tentativa desesperada de manter a lucidez. - Nem sequer
consigo ser uma mãe como deve ser. Os meus filhos odeiam-me. O André
especialmente.
- Ele não te odeia.
- Odeia sim!
- Só estás a fazer o que sabes.
- Não – os olhos de Laura voltaram a inundar-se de lágrimas. – Não estou a fazer
nada, não vês?! Há sete anos que ando a fingir que sei o que estou a fazer, mas
hoje cheguei à conclusão que não estou a fazer nada. Não sei beijar, não sei
abraçar, não sei sequer como brincar com os nossos filhos. Estar perto deles. Fico a
controlar-me, a perguntar a mim própria se o que estou a fazer é certo ou errado.
Parece que não tenho controlo sobre eles, sobre mim. Eu devia saber isso. É
instintivo. Todas as mães sabem como se devem comportar com os filhos. O que
fazer com eles. Porque é que eu sou a única a não saber?
115
- Porque estás presa ao teu passado – Leonardo segurou-lhe a face encharcada de
lágrimas. – Porque pensas e cresceste a pensar que todas as mães se devem
comportar como a tua. Que todas as mães devem tratar os filhos como a tua mãe
te trata. Mas isso não é verdade. O que a tua mãe fez contigo foi tão-somente
descarregar todas as frustrações que ela acumulou ao longo da vida.
Laura soltou um pesado suspiro e tapou o rosto com as mãos.
- Diz-me! Alguma vez te lembras de a teres beijado? De a teres abraçado? De a
teres tocado sequer? Não! Ela sempre viveu amargurada, culpando-te por não ter
seguido medicina porque engravidou de ti na altura em que ia entrar para a
faculdade. Quantas e quantas vezes, quando ainda namorávamos, eu não a ouvi
dizer que tu tinhas sido a pior coisa que lhe tinha acontecido na vida!? Nenhuma
mãe diz isso a uma filha...
Foi a primeira vez que Leonardo viu Laura a chorar descontroladamente à sua
frente. O coração da médica dilacerou-se no momento em que lembrou da infância
terrível vivida ao lado da mãe. Os gritos constantes, as ofensas, os insultos e a
violência física a que muitas vezes foi submetida por motivos tão torpes como o
facto de não querer comer a sopa. É por tua causa que só estamos a comer esta sopa! Se
não tivesses nascido, tudo na minha vida teria sido diferente, eram algumas das frases
que Luísa fazia questão de jogar à cara da filha.
Palavras que deixaram marcas eternas e que moldaram a personalidade de Laura
para que também ela se tornasse numa mulher seca e fria, tal como a sua mãe.
Muitas vezes, quando ainda criança, Laura desejou que ela morresse. Odiava-a
com todas as forças. Via na mãe a encarnação dos seus piores pesadelos, tremendo
de medo sempre que ela se aproximava de si com olhos de quem a queria bater.
Quando isso acontecia, Luísa levava-a à força pelo braço ignorando-lhe o choro e
as lágrimas. Trancava-a na despensa minúscula e deixava-a lá dentro às escuras
sem beber e sem comer nada até que a sua raiva passasse.
- Chora – o marido amparou-lhe a testa com um beijo. – Chora! Vai-te fazer bem...
116
12
Leonardo foi o primeiro a acordar naquela manhã particularmente cinzenta de
Sábado. Fê-lo um pouco antes de Laura, mas permaneceu deitado na cama a
admirar-lhe os traços faciais e o rosto desprovido de maquilhagem. Admirou a sua
expressão serena, os cabelos desalinhados e a forma como dormia numa posição
fetal, idêntica à dos filhos.
Ao ver tudo isso, Leonardo chegou à conclusão de que ainda continuava a nutrir
pela mulher um amor incondicional. Amava-a com todas as forças e estava
disposto a fazer de tudo para a manter ali para sempre perto de si, ainda que o seu
coração se apertasse com a simples ideia de algum dia a vir a perder. Laura era a
mulher da sua vida, disso ele não tinha dúvidas. A única capaz de o deixar
naquele perfeito estado de levitação.
- Já estás acordado há muito tempo?
Laura abriu os olhos com a primeira claridade da manhã e deu-se de caras com o
marido a olhar embevecido para si. A voz dele foi apenas um sussurro,
observando-a com uma expressão cheia de amor.
- Não muito! Há cinco minutos.
- Devo estar horrível – ela tapou o rosto com as mãos.
- Não! Estás linda como sempre.
- Que horas são?
- Sete e meia.
117
- Meia hora para acordar os miúdos.
- Esquece as crianças! São tão raros estes momentos.
- Que momentos?! - ela sorriu.
- Estarmos aqui sem ninguém por perto e sem pressa de ir trabalhar – Leonardo
surpreendeu-a com um longo e apaixonado beijo nos lábios. – Tenho saudades
tuas! Preciso de ti....
Ele ouviu-a gemer quando tocou o ponto mais sensível entre as pernas. Não
houve protesto quando a pressionou contra a cama, urgência ou pressa. Laura
correspondeu às carícias no mesmo ritmo preguiçoso, mas houve uma ligeira
mudança na sua respiração. Uma subtil alteração no ritmo do corpo. Ele continuou
a tocá-la, beijando-a na boca ao de leve, brincando-lhe com a língua, enquanto
entrelaçava os dedos nos cabelos dela. Então, sem pensar, puxou-lhe as alças da
combinação de dormir e viu-lhe o colo desnudo. Ela ficou direita por debaixo do
seu corpo, permitindo que ele a beijasse no pescoço, nos ombros e nos seios.
Numa manhã igual a tantas outras, enquanto lhe sentia os cabelos lisos por entre
os dedos, a saliva e a boca salgada, Leonardo ousou dizer em voz baixa amo-te.
Sem surpresas, Laura respondeu o mesmo. Não mentiu quando o disse. Apesar de
tudo, ela ainda continuava a amar o marido. Continuava a amá-lo com todas as
forças e não imaginava sequer a ideia de um dia o vir a perder. Leonardo era o seu
porto seguro. O pai dos seus filhos. O homem com o qual havia decidido passar o
resto da sua vida e o único que a mantinha com os pés assentes na terra. No
entanto quando ele a penetrou pela primeira vez, ela sentiu uma enorme
necessidade de se voltar a apaixonar por ele. O amor era diferente da paixão. O
amor resistia à monotonia e à rotina. A paixão não.
- Chama-me nomes - ela pediu, ofegante, durante o acto.
- O quê?!
- Chama-me nomes!
- Que nomes queres que te chame? - Leonardo mostrou-se surpreso com o pedido
da mulher.
- Os que quiseres! Só não digas que sentes saudades e que precisas de mim.
Chama-me puta...
118
Leonardo ficou perplêxo com a audácia da mulher em pronunciar aquela palavra,
mas secretamente gostou de a ver tão livre e desinibida na cama. Acatou-lhe o
pedido.
- Vamos tentar - ela sentou-se sobre o colo dele e envolveu-lhe os braços no
pescoço.
- O quê?! - ele riu-se, entrando no jogo dela.
- Sexo anal! Vamos tentar...
- Pensei que não gostasses.
- Eu gosto - Laura beijou-o sofregamente. - Eu quero...
Leonardo não estava nem um pouco à espera do comportamento menos ortodoxo
da mulher, mas congratulou-se com as loucuras que ela o obrigou a cometer na
cama sem medo de conter os gemidos que por pouco não acordaram os filhos no
quarto ao lado.
Há muito que os dois não tinham relações de uma forma tão intensa, espontânea,
longe dos movimentos e das posições mecanizadas a que estavam habituados. Há
muito que não se entregavam sem medos ou restrições, mordendo-se, arranhando-
se, andando às voltas pelo quarto, proferindo palavras obscenas capazes de fazer
corar o maior dos pecadores. Quando terminaram, caíram na cama, exaustos.
Permaneceram de olhos postos no tecto a tentar recuperar a respiração. Nenhum
dos dois se reconheceu. Olharam-se em silêncio e Leonardo sorriu. Laura tapou o
rosto e sentiu-se envergonhada. Nunca se comportou daquela maneira com o
marido.
- O que é que te deu hoje?! - Leonardo riu-se, animado.
- Não sei - Laura também se riu. - Deves achar que sou maluca, não!?
- Nem um pouco! Gostei muito até! Temos que repetir mais vezes.
- Tenho vergonha - ela tapou novamente o rosto de novo.
- Então!? Não tenhas - ele retirou-lhe as mãos do rosto e beijou-a na face. - Somos
casados há onze anos, lembraste?! Não temos que ter pudores ou medo de nos
mostrarmos como somos.
119
- Eu sei.
- Foi bom! Muito bom! E sim, temos que repetir mais vezes. O meu único medo é
não conseguir aguentar a tua pedalada. Hoje levantaste a fasquia.
Ouviu-se uma enorme gargalhada por parte de Laura.
- Amo-te - ele disse sem tirar os olhos dela.
- Eu também - ela procurou os lábios do marido e beijou-os apaixonadamente.
O relógio sobre a mesinha de cabeceira assinalou oito e trinta. Laura e Leonardo
tomaram banho juntos na cabina da casa de banho privativa. Voltaram a fazer
amor, mas desta vez de uma forma convencional. Não houve pressa, urgência ou
vontade de saírem do chuveiro. Aproveitaram cada minuto, ensaboando os seus
corpos nús e brincando com a água quente. Tudo parecia agora voltar ao normal.
Ao que sempre fora. Aos momentos de grande cumplicidade em que uma simples
piada sem sentido proferida por Leonardo fazia Laura rir-se às gargalhadas,
retirando-lhe aquela expressão severa do rosto.
Quando regressaram ao quarto, os filhos bateram à porta. Leonardo vestiu-se às
pressas e correu a abri-la. Laura enfiou-se numa roupa confortável e tentou apagar
os vestígios e as manchas que pudessem existir na cama. João foi o primeiro a
entrar no quarto e a aninhar-se nos braços do pai. Em seguida ofereceu um beijo
tímido à mãe. Tentou afastar-se, mas Laura manteve-o perto de si. Ajeitou-lhe a
camisola e perguntou como havia ele passado a noite. João respondeu à pergunta
e permitiu que ela o voltasse a beijar ternamente no rosto. Segundos depois, Laura
lançou um olhar furtivo a André que se encontrava pendurado no pescoço do pai.
Interpelou-o com a sua frieza habitual. Vem cá.
Sem outro remédio à vista e impulsionado pelo pai quando este o colocou no
chão, André aproximou-se da sua progenitora sem tirar olhos do tapete. Parecia
envergonhado com tudo o que havia acontecido na tarde anterior. Sentiu-se
amedrontado por se ver diante da mãe, cheio de medo que ela o fosse castigar ou
gritar consigo. Mas contrariamente a todas as suas expectativas, naquela manhã
tudo o que Laura fez foi beijá-lo demoradamente na face.
- Não quero que penses que sou má - ela disse. - Desculpas-me!?
- Sim - o pequeno acedeu ao pedido da sua progenitora.
120
O pequeno-almoço decorreu calmamente com Leonardo a dar uma vista de olhos
no jornal e Laura a barrar as torradas sobre a bancada da cozinha. Na mesa, as
crianças continuavam a competição para ver quem comia mais depressa, enquanto
a televisão mostrava os primeiros desenhos animados do fim-de-semana.
Algum tempo depois, a campainha tocou ruidosamente e André saltou da
cadeira. Quando regressou à cozinha, veio de mãos dadas com a empregada
Alicia.
- Bom dia - ela disse, sorridente.
- Bom dia - todos responderam em uníssono.
- Desculpem o atraso! Mas é que o ônibus se atrasou...
- O que é um ônibus? - João perguntou, curioso.
- É um autocarro, filho - Leonardo trocou um sorriso cúmplice com a mulher.
- Igual àquele que a gente viu ontem, bem grande, de dois andares - Alicia despiu
o casaco e colocou-o no interior da despensa.
- Aquele vermelho com as pessoas lá em cima? - André debruçou-se sobre a mesa.
- Esse mesmo.
- Eu quero andar num ônibus - a afirmação gozona de André arrancou uma risada
geral.
A manhã não poderia ter começado de maneira melhor. Após horas conturbadas
de brigas e lágrimas, a paz parecia novamente instalada na família Alves. Alicia
iniciou os preparativos do almoço, as crianças saíram ao jardim para brincar com o
pai e Laura permaneceu no escritório da casa a corrigir o relatório semanal feito
pela sua Interna. Quando terminou, subiu ao quarto e viu no seu telemóvel uma
chamada não atendida do cunhado. Ainda pensou em retribuir o telefonema, mas
as risadas dos filhos no jardim impediram-na de cometer tal acto. Não. Era
necessário controlar os seus impulsos. Depois da loucura cometida na tarde
anterior, ela decidiu que aquele fim-de-semana iria ser inteiramente dedicado ao
marido e aos filhos.
121
- Aqui tens, Alicia - a médica regressou à cozinha, trazendo uma folha de papel
nas mãos.
- Isso é o quê?! - a empregada limpou as mãos molhadas a uma toalha.
- O teu recibo de vencimento.
- Hã, claro! Obrigada, D. Laura!
- Quando terminares o almoço, podes sair.
- Mas o meu horário não era até às oito?
- Tira o dia de folga! Hoje e amanhã! Voltas na segunda para levar os miúdos à
escola.
Alicia observou a saída da sua patroa com alguma curiosidade. Achou-a
particularmente calma naquela manhã, contrariamente aos outros dias.
Laura era uma pessoa imprevisível, cheia de nuances que não permitiam a
ninguém conhecer a sua personalidade complexa. Mas no fundo era uma boa
pessoa e uma óptima patroa - Alicia chegou a essa conclusão quando voltou a
lançar os olhos ao seu recibo de vencimento, religiosamente entregue na primeira
semana de cada mês. Constatou uma mudança surpreendente da qual não estava
nada à espera. Cento e cinquenta euros a mais do que costumava receber e a
certeza de que aquela era a única forma que Laura arranjara para não dizer em voz
alta o quanto a empregada era importante para si e para a sua família.
122
13
As crianças não poderiam ter ficado mais contentes com a chegada de um novo
elemento da família. Um cão de água, esperto, irriquieto, brincalhão, que fez as
delícias dos gémeos no minuto em que entrou em casa.
Laura baixou as guardas e aceitou um pedido que já se arrastava há quatro anos.
Leonardo congratulou-a por isso.
Durante o fim-de-semana os pequenos contaram com a ajuda do pai para
construir no jardim a casota de Rufus - o nome escolhido para o primeiro cão da
família. A construção demorou cerca de três horas apesar da perícia arquitectónica
de Leonardo. Depois de montada a casota, João e André permaneceram o dia todo
a brincar com Rufus no jardim da casa. Correram e saltaram por todo o lado
completamente maravilhados com a oportunidade de terem um animal só para si.
Ao observá-los da janela da cozinha, enquanto preparava o almoço da família, a
empregada Alicia não deixou de se sentir contente por ver os seus meninos tão
felizes a correr ao ar livre. Era o descanso total dos videojogos e do telecomando
da televisão.
- Deixa-me ver se entendi – Rita nem quis acreditar quando Laura lhe contou
durante o almoço que havia acedido ao pedido dos filhos para ter um animal de
estimação. – Tu tens um cão lá em casa?
- E as surpresas continuam…
A resposta de Laura provocou novos risos à mesa, imediatamente interrompidos
quando ela se apercebeu da entrada de Alfredo Meireles no refeitório da clínica. O
Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Precisamente o cargo que sonhava um dia
ocupar.
123
É desta que ele não me escapa, foram as últimas palavras da médica. Rita não
conseguiu impedir a sua amiga de desaparecer da mesa e nem controlar o seu
impulso de interpelar o Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica da clínica. Decidida,
Laura seguiu em direcção à mesa de Alfredo Meireles, ensaiando durante o
caminho um discurso convincente e uma humildade que apenas os seus
superiores lhe reconheciam. Queria aquele cargo. Mais do que tudo. Mais do que a
própria vida. E não iria descansar até consegui-lo.
- Boa tarde, Dr.º Alfredo.
- Boas tardes, Dr.ª Laura! Há algum tempo que não a via.
- Verdade! Infelizmente temos andado em turnos desencontrados – Laura forçou
um sorriso contrafeito. - Soube que esteve num Congresso em Madrid...
- Voltei esta sexta-feira. É servida?
- Não, obrigada. Acabei agora mesmo de almoçar. Mas eu gostava de falar consigo
durante alguns minutos. Pode ser?
- Claro! Sente-se!
- Obrigada.
Laura aceitou o convite com um sorriso contido, sabendo bem que se estava a
sentar à frente do homem que poderia muito bem ditar o seu destino profissional.
- Algum problema? – Alfredo perguntou.
- Nenhum! Eu apenas queria confirmar consigo uma notícia que me chegou aos
ouvidos há semanas atrás.
- Diga – Alfredo começou o almoço pela sopa.
- Ouvi rumores de que se iria reformar este ano. É verdade?
- Já vi que as notícias nesta clínica correm como o vento.
- Não me leve a mal! Apenas queria confirmar se estes rumores eram verdadeiros
ou não.
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- Sim. São verdadeiros. Vou-me reformar em Setembro.
O coração de Laura bateu mais depressa. - Alguma razão especial?
- Cansaço! Já são cinquenta anos de serviço. Acho que está na altura de dar lugar
aos mais novos.
- Imagino que sim – Laura compôs os seus cabelos claros. – E por acaso já sabe
quem vai ocupar o seu lugar quando se for embora?
- Dr.ª Laura - Alfredo ofereceu um sorriso inigmático à médica. - Não me leve a
mal, mas eu não gosto de falar de assuntos administrativos à hora do almoço. É
que eu sofro de uma gastrite horrível e tenho que comer descansado. Entende?
- Obviamente! Então nesse caso, não o incomodo mais! Vou deixá-lo almoçar à
vontade. Bom apetite.
- Obrigado.
Laura voltou a cruzar o refeitório com uma sensação de derrota no peito.
Apeteceu-lhe gritar, partir tudo à sua frente e destilar toda a sua raiva sobre a
primeira pessoa que se atrevesse a atravessar o seu caminho. Como queria fazer isso.
Mas felizmente uma força oculta impediu-a de cometer tal acto. O bom-senso
também. Aquele não era de todo o melhor lugar para extravasar tudo o que estava
sentir e nem ela algum dia se atreveria a mostrar quaisquer sentimentos humanos
no seu local de trabalho.
- Então!? – foi a primeira pergunta de Rita quando ela se sentou à mesa.
- Falar com aquele velho foi a mesma coisa que falar com uma pedra.
- Eu disse-te que era melhor não forçares a barra.
- Quanto tempo vou ter que esperar até que alguém se decida a dizer-me alguma
coisa? Ou melhor, será que alguém realmente me vai dizer alguma coisa?!
- Tens que ter calma, Laura! Estas coisas são mesmo assim. Não te esqueças que
este não é um cargo qualquer. A decisão precisa passar pelo Conselho de
Administração, pelos accionistas, precisa ir a votos e ser aceite pelo director da
clínica.
125
- Um director que nunca cá põe os pés.
- Ficar assim não adianta nada! Respira fundo e continua a fazer o teu trabalho.
- Se eu não conseguir este cargo Rita, juro que peço a minha demissão desta
clínica.
- Não digas asneiras.
- Estou a falar a sério! Há tempos que tenho andado a pensar nisto. Dou o litro
nesta merda há mais de dez anos. Sou a médica com mais horas no bloco
operatório e a única Neurocirurgiã minimamente competente aqui dentro, já que
aquele palhaço do Henrique com certeza deve ter tirado a especialização dele pela
farinha Amparo. É um médico medíocre com o qual tenho que gramar todos os
dias e que me atrapalha mais do que me ajuda - Laura bateu a mão na mesa. – Já
engoli muita porcaria aqui dentro, mas mesmo assim, continuo a trazer trabalho e
vários prémios de investigação para estes filhos da mãe. Não fico só lá em cima a
coçar-me no consultório como certos médicos que por aqui andam. Passo pela
Enfermaria! Passo pelas Urgências! Sou pau para toda a obra! E mesmo assim não
ganho nem a metade do ordenado que esse velho caquético do Dr.º Alfredo ganha
só para aparecer cá aos fins-de-semana e picar o ponto.
- Eu sei disso! Mas mesmo assim não podes deitar tudo a perder só porque não
conseguiste o cargo.
- Se nesta clínica não reconhecem o meu valor, com certeza irei encontrar um outro
hospital que reconheça. Nem que tenha que voltar ao serviço público a ganhar
uma miséria, mas nesta merda eu não fico.
As palavras de Laura coincidiram com a vibração do seu telemóvel sobre a mesa.
Ela viu de quem se tratava. Desligou a chamada sem cerimónias.
- Não vais atender? – Rita perguntou.
- Já retorno a ligação! Tenho que ir andando! Ainda tenho imensas burocracias
para tratar no meu consultório.
- Laura... – Rita interceptou-a a tempo de se levantar da mesa. – Eu sei que estás
ansiosa para ocupar este cargo, mas vai com calma! Ficar assim não adianta nada.
Ainda tens uma carreira inteira pela frente. Ainda só tens trinta e nove anos…
126
- Rita! Eu vou lutar por este cargo até ao fim, nem que para isso tenha que esmagar
qualquer adversário que ouse passar-me à frente... - os olhos de Laura faíscaram
de ódio. - Eu não vou esperar até aos cinquenta ou até aos sessenta anos para
ocupar a porcaria de um cargo de Chefe de Equipa. Aliás, esse cargo é bem pouco
perto do que eu quero atingir na minha carreira.
Laura abandonou o refeitório como um furacão. Não havia dúvidas de que estava
furiosa, Rita sabia-o melhor do que ninguém. Sabia também que a ambição
desmedida da sua amiga era algo que a assustava pois nunca vira nenhum outro
profissional de saúde tão feroz e determinado. Para Laura exercer Medicina não
era apenas algo que fazia para ganhar dinheiro ou para passar o tempo. Exercer
Medicina era a sua vida. Vivia para isso vinte e quatro horas por dia. Levava a sua
carreira ao extremo numa competição feroz, sem admitir sequer a possibilidade de
existirem outros Neurocirurgiões melhores do que ela ou de um paciente lhe
morrer nas mãos. Seria essa a melhor forma de encarar uma profissão? Rita realmente
não sabia. Mas a verdade é que em poucos anos de carreira, Laura trilhou
caminhos que poucos profissionais da sua idade conseguiram e por isso adquiriu
inimigos à espreita em cada corredor. Eram muitos os que a odiavam, quer pela
sua personalidade intragável, quer pelo seu ar de superioridade ou pela forma
como muitas vezes se dirigia aos profissionais de saúde que trabalhavam com ela
sempre com uma altivez desmedida. Na clínica Rita nunca a reconheceu. Ali
dentro, a sua amiga transformava-se num verdadeiro animal de caça pronta a
atacar sem piedade qualquer adversário que ousasse atravessar o seu caminho.
Quando regressou ao seu consultório, Laura retirou o telemóvel do bolso da sua
bata. Olhou novamente o visor e viu uma nova chamada não atendida. Sabendo
bem quem era, retornou a ligação.
- Será que é normal o teu cheiro ainda não ter saído da minha almofada?
A pergunta do cunhado fê-la sorrir ao telefone. - Como estás?!
- Com saudades e vontade de te ver! Parece que ultimamente tens andado a fugir
de mim.
- Nada disso! So tenho andado com muito trabalho. O que estás a fazer?
- Vou sair agora! Esta semana já comecei a ver alguns apartamentos para alugar.
Agora vou ver mais um em São Bento.
- Escolhe uma casa que tenha uma boa vista.
127
- Mais alguma recomendação?
- Uma boa vista, de preferência no quarto - Laura sentou-se à secretária e cruzou
as pernas ao mesmo tempo que apoiava um dos braços na cadeira.
- Está bem. Vou ter isso em consideração. E tu? Como estás?
- Atolada de trabalho. Mas infelizmente isso já é normal – Laura retirou os seus
óculos de leitura, sem pressas para terminar aquele telefonema. – Tenho uns
relatórios para acabar de preencher, uma consulta a meio da tarde e devo terminar
o meu turno à meia-noite.
- Até te convidava a dar um pulo no meu hotel.
- Infelizmente hoje não posso.
- E dizes tu que não andas a fugir de mim. Sabes uma coisa? – Ricardo abriu o
roupeiro e escolheu uma t-shirt preta para vestir.
- O quê?
- Ontem falei com o Leo.
A revelação do cunhado deixou Laura alerta. - Sobre o quê?
- Liguei para lhe dizer que afinal de contas ainda estou cá em Portugal. Ele ficou
surpreso, mas convidou-me para um almoço em vossa casa no próximo fim-de-
semana.
- Ele não me disse nada.
- Provavelmente quer-te fazer uma surpresa.
- Achas que ele desconfia de alguma coisa?
- Não, não me parece.
- Devias ter recusado o convite.
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- Claro que não. Quanto mais me afastar, mais suspeitas se levantam - Ricardo
vestiu habilidosamente uma t-shirt apenas com uma mão. - Não precisas ter medo.
Não te vou agarrar à frente do Leo. Só lá vou na qualidade de irmão dele e não da
de amante da mulher.
- És tão idiota.
O insulto da cunhada provocou uma enorme gargalhada a Ricardo. - Do que é
que tens medo?! – ele voltou a perguntar.
- Tenho medo de não me conseguir controlar – Laura apoiou os cotovelos sobre a
secretária. – Se te vir à minha frente sou capaz de cometer uma loucura.
- Sei bem que não! És demasiado pragmática para cometer loucuras.
- E achas que ainda não cometi loucuras suficientes por tua causa? Só tu é que me
deixas assim…
- Assim como?! – Ricardo deliciou-se com a voz discreta de Laura ao telefone.
- Completamente excitada! Às vezes, dou comigo a tocar-me às escondidas na
casa-de-banho quando penso em ti. Fico a contar os dias e as horas até te conseguir
ver, e quando consigo, já penso numa próxima vez. Não consigo parar de pensar
em ti! Na tua boca, nas tuas mãos, no teu cheiro. Raios. És uma praga na minha
vida... – Laura levantou as mãos ao alto enquanto no outro lado da linha o
cunhado se ria a bom rir. – O que é que eu posso fazer para me ver livre de ti?
- Podes-me mandar embora da tua vida. Desapareço sem deixar rasto.
- Nem penses - ela disse. - Estás proíbido de desaparecer da minha vida, ouviste?
Era domingo. Um dia de sol radiante como há muito não se via e as crianças
brincavam felizes pela casa na companhia de Rufus. Na cozinha, a empregada
Alicia ultimava os preparativos do almoço a ser servido pontualmente às treze
horas. Leonardo montou duas mesas na traseiras do jardim e ateou o grelhador
sem muito esforço. No piso superior, Laura saiu do banho e enxugou os cabelos
em frente do espelho da casa-de-banho. Realizou uma breve análise ao peito, um
ritual que efectuava frequentemente, e teve mais uma vez a confirmação de que
estava tudo bem.
129
Indiferente aos gritos das crianças no jardim, ela voltou ao quarto e escolheu no
roupeiro um vestido preto, simples, com um decote em V. Era a primeira vez
desde o início do ano que se atrevia a deixar de lado as suas calças de ganga.
Todos sabiam. Não era uma mulher de se esmerar em produções. Detestava ir às
compras, as suas visitas ao cabeleireiro eram praticamente nulas e dedicava muito
pouco tempo a maquilhar-se. Mas naquele domingo particularmente solarengo,
ela resolveu quebrar o paradigma. Mais um de entre muitos. Soube-lhe bem ao ego
quando se viu diante do espelho e constatou que o vestido que comprara há oito
anos ainda lhe servia na perfeição. Exactamente o mesmo número antes de
engravidar. 36. Os cabelos soltos um pouco acima dos ombros conferiram-lhe uma
nova sensualidade, assim como os saltos que calçou sentada sobre a cama. O rímel
realçou os seus olhos verdes. O resultado final agradou-a. Há muito que não se
sentia tão bem.
- Desculpe – foi a reacção de Leonardo quando entrou no quarto e se deu de caras
com a produção da mulher. – Por acaso a senhora viu a minha mulher?
- Parvo – Laura riu-se, animada, enquanto colocava os brincos em frente ao
espelho da cómoda.
- Estás fantástica.
- Obrigada.
- E tudo isto é para quem? – Leonardo envolveu-lhe os braços na cintura.
- Adivinha?!
- Pena que os convidados estão quase a chegar, senão acho que não era capaz de
me controlar. Este teu cheiro, meu Deus…
Laura deixou-se levar pelos lábios do marido no seu pescoço, mas na altura não se
sentiu particularmente entusiasmada em retribuir o carinho. Por sorte, a entrada
de um dos filhos afastou o marido de si e permitiu que ela se continuasse a
arranjar à frente do espelho.
- Já chegaram – João gritou, atirando-se para cima da cama dos pais. – Já
chegaram.
130
- Quem?! – Leonardo permitiu que o filho lhe subisse para o colo e se pendurasse
no seu pescoço.
- O tio Francisco e a tia Sofia.
- E lá se acabou a diversão – Leonardo não escondeu o seu desânimo pela chegada
dos primeiros convidados.
- Desce tu primeiro que eu já lá vou ter – Laura permitiu-lhe um último beijo nos
lábios. – Até já.
- Até já - Leonardo levou o filho ao colo.
- Tchau, mãe - João acenou à sua progenitora da porta.
- Tchau, meu amor...
Laura desceu cinco minutos depois. Passou pela cozinha para se certificar de que
a empregada não precisava de ajuda, de que o arroz branco se encontrava perfeito,
a salada fresca e as batatas fritas exactamente como pedira. Estaladiças. Em
seguida saiu ao jardim. Lá fora, mantinham-se duas mesas expostas com todos os
utensílios necessários para uma refeição agradável.
Leonardo começou por grelhar as carnes com a ajuda de Francisco, enquanto
Sofia, a sua mulher, os distraiu com uma conversa fútil sobre um novo SPA
inaugurado no centro da cidade onde era possível fazer longas sessões de
meditação, massagens e yoga.
- Meu Deus – Sofia abriu um sorriso de orelha a orelha quando viu Laura à sua
frente. – Estás uma bomba, mulher!
Os quatro amigos riram-se alegremente e Laura corou perante o elogio.
- Tens que dar uma voltinha – Francisco tomou-a pela mão e obrigou-a a rodar à
sua volta. – A ocasião merece.
- Ela hoje esmerou-se – Leonardo olhou embevecido para a mulher sem no entanto
descurar dos cuidados com a carne no grelhador. – Acho que é para compensar o
meu estado lastimável.
131
- Tu cala-te que até a carvão cheiras – a resposta de Francisco arrancou uma risada
geral.
- Que exagero! Só coloquei um vestido – Laura defendeu-se, divertida. – Além
disso se há tanta surpresa com a minha produção é porque nos outros dias devo
parecer uma bruxa, não?!
- Nada disso – Leonardo beijou a mulher nos cabelos perfumados. – Consegues
estar linda todos os dias.
- Ainda falta chegar muita gente? – Francisco serviu-se de uma cerveja sobre a
mesa.
- Apenas o meu irmão e a Rita - Leonardo informou.
- Mas ele não ia voltar para os Estados Unidos? - a pergunta de Francisco deixou
Laura alerta, apesar de ela ter tentado disfarçar.
- Desistiu à última hora - Leonardo virou a carne no grelhador. - Diz que pretende
ficar por cá mais uns tempos e depois decidir o que quer fazer.
- Desculpa, Leo! Mas o teu irmão é um pouco estranho – Francisco não conteve a
sua observação. – Tanto disse que se queria ir embora e agora de repente resolve
ficar? Ele não tem filhos? Não tem mulher?
- Acho que não - Leonardo respondeu à pergunta do amigo. - Pelo menos nunca
me falou sobre isso.
- Há homens com sorte - Francisco riu-se, animado. - E dinheiro também! Quem é
que lhe está a pagar a estadia em Portugal?
- Incógnita - Leonardo exclamou.
Rita Azevedo chegou pouco tempo depois. Trouxe uma garrafa de vinho e não se
coibiu de elogiar a elegância de Laura. Nunca antes a vira assim. Incentivou-a a ir
trabalhar assim todos os dias. Os amigos concordaram, mas Laura foi a única a
remeter-se ao silêncio por não cogitar sequer a ideia de usar um vestido daqueles
na clínica. O seu local de trabalho era sagrado. No hospital não existia a mulher
mas sim a profissional de saúde.
132
Ricardo chegou quarenta minutos depois. Atrasado como sempre. A
pontualidade nunca fora o seu forte, mas disso já todos sabiam. Quando entrou
pelo jardim adentro, os convidados já se encontravam sentados à mesa, prontos a
iniciar a refeição deliciosa confeccionada por Leonardo e pela empregada Alicia
que muito gentilmente recusou o convite do patrão para se juntar a eles.
Trajado com umas simples calças de ganga e um blusão de cabedal, enquanto
caminhava em direcção à mesa, Ricardo exalou sensualidade fora do normal.
Laura sentiu o seu coração disparar. As suas costas indireitaram-se e a sua mão
direita ajeitou delicadamente os fios de cabelos atrás da nuca. Impressionante
como a presença daquele homem a deixava tão insegura e desarmada. Não havia
meio de disfarçar a vontade gritar aos quatro ventos que na tarde anterior ela o
havia pertencido por inteiro, chamando-lhe nomes, arranhando-lhe as costas,
exigindo que ele a penetrasse com mais força.
- Boa tarde - Ricardo sorriu aos convidados.
- Boa tarde – Leonardo ofereceu-lhe um aperto de mão. – Ainda bem que chegaste!
Íamos começar a almoçar agora. Acho que já conheces toda a gente, por isso…
Ricardo cumprimentou Francisco com um aperto de mão. Os sobrinhos com dois
afagos na cabeça. Rita e Sofia com dois beijos na face, e Laura, com um único beijo.
Frio e gélido, tal como a relação que ambos fingiam ter à frente de todos. Depois
disso, ele sentou-se à mesa e o almoço teve início sem que Laura conseguisse
esconder o constrangimento sempre que os seus rostos se cruzavam. Da última
vez que isso aconteceu, ele esboçou um sorriso discreto e ela enterrou os lábios na
taça de vinho a fim de esconder o enorme desejo de lhe abrir o botão das calças,
puxar o fecho e encontrar-lhe o sexo com as mãos. Deus. Estava realmente a ficar
louca. Bebeu um novo gole de vinho antes de voltar a poisar a taça sobre a mesa.
Indiferentes ao clima de tensão entre os dois amantes, Rita, Sofia, Leonardo e
Francisco conversaram sobre assuntos triviais numa mesa repleta de boa-
disposição e alimentos deliciosos. O sol continuava a brilhar radiante, e o vento,
praticamente nulo, desapareceu com o passar das horas dando lugar a um dia
verdadeiramente primaveril embalado pelos risos das crianças e pelos latidos do
cão Rufus à volta do jardim.
- Está tudo tão delicioso – Sofia afirmou. – Esmeraste-te no almoço, Laura.
- Nem por isso! Hoje não cozinhei! O Leo é que tratou de tudo...
133
- Bem, mas que marido prendado – Rita brincou. – Quem me dera! Lá em casa,
neste exacto momento a única coisa que tenho no frigorífico é uma garrafa de água
e o resto da sopa de ontem.
- Agora já sabemos! Se um dia a arquitectura deixar de dar dinheiro, o Leo já se
pode dedicar a abrir uma churrasqueira – a resposta de Francisco arrancou uma
risada geral.
- Clientes não vão faltar – Sofia afirmou, divertida.
- E eu abandono a clínica e junto-me numa sociedade com ele – Laura não resistiu
a mexer nos cabelos do marido perante o olhar atento do cunhado. – Criamos a
churrasqueira Alves.
O almoço continuou sem pressas e num ambiente agradável. A empregada voltou
a servir as bebidas, oferecendo limonada às crianças, uma nova garrafa de vinho
às mulheres e três cervejas geladas aos homens que prazerosamente as aceitaram
de bom-grado. Depois do dever cumprido, Alicia retirou-se e fechou as portas
atrás de si.
Francisco já se encontrava algo tocado pelo álcool, mas nem por isso ouviu os
conselhos de Sofia para que abrandasse o ímpeto de beber em ocasiões festivas.
Ninguém o recriminou e ele também não se fez de rogado. Fartou-se de beber e
mandou-a calar. De qualquer maneira, seria ela a levar o carro para casa já que ele
claramente não estava em condições de fazê-lo.
Falou sobre tudo. Trabalho, política, desporto e até mesmo o 11 de Setembro. Um
assunto que gerou uma acesa discussão com Ricardo, mas que foi encerrado por
Leonardo quando este pressentiu que o amigo não estava suficientemente lúcido
para perceber o que estava a dizer. Nessa altura a mesa voltou a acalmar-se e a
boa-disposição regressou após uma situação caricata contada por Rita Azevedo
sobre um paciente que atendeu no dia anterior.
Eram poucas as ocasiões em que Laura podia esquecer-se do trabalho e das suas
obrigações. Eram raríssimas as oportunidades que tinha para beber um bom
vinho, deliciar-se com uma óptima comida, rir-se de conversas sem a mínima
importância e desfrutar da companhia de pessoas que já faziam parte da sua vida
há vários anos. Longe da clínica, ela era capaz de se rir às gargalhadas com uma
piada sem sentido, era capaz de se derreter com os beijos do marido no seu
pescoço e de tratar os filhos com carinho. Não havia dúvidas de que era uma
mulher complexa em todos os sentidos e era essa mesma complexidade que
fascinava o cunhado e não permita que ele desviasse os olhos dela um só segundo.
134
- E então, Ricardo... – a voz de Rita, no outro lado da mesa, trouxe-o de volta à
realidade. – Ainda não te tinha revelado a minha surpresa por saber que resolveste
ficar em Portugal.
- Só por uns tempos.
- Onde é que estás a viver?
- Num hotel no centro de Lisboa.
- Já te disse que se quiseres podes voltar cá para casa– Leonardo interferiu perante
o olhar aflito da mulher.
- Não é preciso! De qualquer maneira já arranjei um apartamento para alugar.
- Onde é que fica? – Francisco bebeu um novo gole da sua cerveja.
- São Bento. É um prédio antigo. O proprietário é dono de antiquário e costuma
utilizar aquela casa como armazém. Gostei do espaço. É diferente…
- Pelo que contas parece ser uma casa bastante interessante – Rita sorriu fascinada
pela discrição. – Quem sabe um dia não me convidas a ir lá?
- Quem sabe – Ricardo respondeu, percebendo o olhar fulminante que a cunhada
lhe lançou do outro lado da mesa. - Bem! Se me dão licença, vou à casa de banho.
- Já conheces o caminho! Fica à vontade - Leonardo apontou a porta da cozinha.
Ricardo desapareceu do jardim sem olhar para trás e sem ligar aos sobrinhos que
brincavam junto à marquise. Passou por eles e abriu as portas vidradas que davam
acesso directo à cozinha. Do exterior da casa ninguém mais o viu. Apenas a
empregada Alicia se cruzou com ele no interior da habitação, mas também não se
falaram. Ele nem sequer olhou para ela. Ela achava-o estranho. Um pouco
arrogante até.
- Deve estar cheio de papel para morar em hotéis e alugar casas no centro da
cidade – Francisco não conteve o seu despeito por um homem que o irritava
profundamente.
- Não sejas indiscreto – Sofia, a sua mulher, advertiu.
135
- O que foi?! Só fiz um comentário.
- Ninguém tem nada a ver com a vida dele. Ele gasta o dinheiro como quer.
- Sofia! Eu só fiz um comentário! Que porra! Aposto que toda a gente se deve estar
a perguntar o mesmo. De onde é que ele arranjou tanto dinheiro? Um simples
Director de Marketing nos Estados Unidos não ganha o suficiente para passar
meses e meses a gastar dinheiro em hotéis de luxo e apartamentos em zonas
chiques de Lisboa. Há qualquer coisa de muito mal contada nessa história. Digo eu
que não nasci ontem...
Indiferente à bebedeira e aos delírios do arquitecto, Laura sentiu o seu telemóvel
vibrar sobre a mesa. Uma mensagem de texto simples e directa: “Estou no escritório.
Vem ter comigo assim que receberes esta mensagem.”
- Quem é?
A pergunta do marido foi o impulso que Laura necessitou para tomar a sua
decisão.
- Acabei de receber uma mensagem da clínica sobre um paciente meu. Acho que
vou retornar a ligação do telefone de casa só para ter a certeza que está tudo bem.
- Bem! Nem aos domingos te dão descanso – Francisco ergueu a sua garrafa de
cerveja.
- Infelizmente não – foi a resposta seca da médica antes de abandonar o jardim.
Não precisou de muito tempo para entrar na cozinha e passar pela empregada
como um furacão. Alicia achou estranha a pressa súbita da patroa, mas encolheu
os ombros e continuou a preparar as sobremesas sobre a bancada.
Laura percorreu o longo corredor e chegou finalmente ao escritório, local
escolhido pelo cunhado para se encontrarem. A porta fechada à chave levou-a a
pensar que ninguém estava presente, mas quando recuou dois passos, essa mesma
porta se abriu e uma mão forte a puxou violentamente para o interior da
habitação.
Não foi preciso dizerem nada um ao outro. Indiferentes ao perigo que estavam a
correr, os dois amantes beijaram-se, tocaram-se, sentiram-se e acabaram deitados
sobre a secretária depois de derrubarem todos os objectos que pudessem
atrapalhar a vontade de se terem mutuamente.
136
Sabendo bem que tinha poucos minutos para saciar o seu desejo, Ricardo
levantou o vestido preto de Laura e retirou-lhe as cuecas da mesma cor. Ela, por
sua vez, também não teve cerimónias em livrá-lo do cinto e em desapertar-lhe o
primeiro botão das calças.
- Vais-me foder, é?! - ela perguntou, mordendo-lhe o lábio inferior.
- Só se pedires - Ricardo envolveu as pernas dela na sua cintura.
- Fode-me!
- Pede!
- Fode-me!
- Pede outra vez...
- Fode-me! Fode-me agora mesmo...
Ricardo sorriu maliciosamente e não tardou a concretizar o desejo da cunhada.
Foram apenas cinco minutos. Cinco minutos alucinantes, mas suficientes para que
os dois amantes saciassem o desejo reprimido durante todo o almoço. Não havia
dúvidas de Laura estava a ficar louca. Louca por se entregar ao irmão do seu
marido quando este se encontrava a apenas escassos metros de si. Corria o risco de
ser apanhada, no entanto também não se lembrou disso quando Ricardo a
penetrou pela primeira vez sobre a secretária. As suas costas arquearam-se e ela
gemeu de prazer. Sentiu o sangue subir-lhe à cabeça e por momentos sentiu-se
como se tivesse sido teletransportada para uma outra dimensão de onde apenas
saiu quando o cunhado a deixou deitada sobre a mesa, de braços abraços e pernas
estendidas.
Despediram-se em silêncio. Ricardo foi o primeiro a abandonar o escritório depois
de se ter vestido às pressas e ajeitado os cabelos com os dedos. Voltou a percorrer
o corredor e passou pela cozinha sem ligar à presença da empregada junto ao lava-
loiças. Alicia lançou-lhe um olhar furtivo mas foi incapaz de fazer muito mais.
Abriu a torneira e colocou as loiças sujas no interior do compartimento destinado
à lavagem. Minutos depois, uma nova figura voltou a entrar na cozinha. Desta vez
a sua patroa. Laura veio com as bochechas coradas, os cabelos soltos ligeiramente
desalinhados e um detalhe que chamou a atenção da sua empregada. O fecho
lateral do vestido ligeiramente aberto.
137
Alicia pôde sentir o queixo cair quando juntou todas as peças do "puzzle". Apesar
da sua inocência, não lhe foi muito difícil perceber o que tinha acabado de
acontecer no interior daquela casa. O rosto constrangido da sua patroa não lhe
deixou dúvidas.
- D. Laura...
- O que foi? - Laura voltou-se para trás a poucos segundos de abrir a marquise da
cozinha.
- O seu vestido.
Nada pôde exemplificar a expressão mortificada de Laura quando se apercebeu
do seu estado lastimável e do olhar recriminador da sua empregada.
Desnecessário seria inventar qualquer desculpa, mentir ou fazê-la acreditar que
tudo aquilo não passava de uma invenção da sua cabeça. A situação já era
suficientemente constrangedora.
Por esse motivo, em vez de justificar o injustificável, Laura apenas subiu o fecho
do seu vestido e abandonou a cozinha fechando as portas da marquise atrás de si.
Desviou-se das crianças que brincavam junto ao alpendre e durante a caminhada
em direcção à mesa exposta no jardim sentiu um ligeiro fraquejar de pernas. Um
súbito mau-estar. Como se de repente o espírito lhe tivesse abandonado o corpo
ou algo semelhante. Quando se sentou à mesa, chegou a uma conclusão
irrefutável. A de que era uma questão de tempo até a empregada resolver contar a
todos o que descobrira. A verdade encontrava-se presa a um fio de navalha, e
perante a iminência de ser desmascarada, ela voltou a lançar os olhos ao cunhado
que se encontrava no fundo do jardim a fumar o quarto cigarro da tarde com a
desculpa de não querer impor o seu vício aos convidados.
Subitamente, ao lembrar-se do que tinham feito no escritório, sentiu uma vontade
imensa de vomitar.
- Conseguiste falar para a clínica? – Leonardo captou os olhos distraídos da
mulher.
- Sim - ela respondeu, passando as mãos pela nuca. - Está tudo bem! Não foi nada
de grave.
O almoço terminou ao final do dia quando os convidados se despediram dos
donos da casa com a promessa de voltarem a repetir o evento assim que possível.
Leonardo acompanhou-os até ao jardim frontal e permitiu que os quatro amigos se
138
dividissem em pares. Sofia ocupou o lugar do condutor pela incapacidade do
marido em conduzir devido aos copos que tomou a mais, enquanto Rita, radiante
com a ideia de passar mais alguns minutos na companhia de Ricardo,
disponibilizou-se para o levar a casa. Da janela da sala, Laura assistiu a tudo.
Desde o aceno do marido, à partida dos dois carros estacionados junto aos portões
da sua moradia.
Tempo depois, João e André atravessaram a habitação a correr e subiram ao
primeiro piso. Leonardo voltou a entrar em casa e informou a mulher de que iria
arrumar o grelhador na arrecadação. Laura dirigiu-se calmamente até à cozinha e
encontrou a empregada a guardar as sobremesas no frigorífico. Quando Alicia
fechou as portas, os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta. A última
tremeu de medo.
- Precisa de alguma coisa, D. Laura?
Laura demorou algum tempo a responder.
- Não - a sua voz saiu gélida. - Mas a partir de amanhã já não precisas vir.
139
14
Ao observar a saída da sua Orientadora e a forma irritada como ela abriu as
portas automáticas do bloco operatório, Joana Lima percebeu que a cirurgia
realizada por Laura não havia corrido nada bem.
Durante a operação a paciente sofreu uma exagerada diminuição da pressão
arterial e para trazê-la de volta à vida foram realizados todos os esforços possíveis
e imaginários. As tentativas resultaram, mas já não havia nada a fazer. O crânio
voltou a ser fechado e a paciente levada para a sala de recobro. Só por um milagre
conseguiria sobreviver sem quaisquer sequelas.
Terminada a operação, a paciente foi levada para a unidade de cuidados
intensivos devido à gravidade do seu quadro clínico. Foi também ligada a
oxigenação artificial por não conseguir respirar sozinha e muito menos manter-se
consciente. Sob a cama, algumas horas mais tarde, Laura observou-lhe a expressão
serena. Chamava-se Maria Antónia Soares, tinha quarenta e oito anos e alguma
obesidade. Para além disso, sofria de um grave aneurisma.
- Dr.ª Laura - a voz imponente de Alfredo Meireles, o Chefe de Equipa Médico-
Cirúrgica, obrigou-a a voltar-se para trás e a cumprimentá-lo com um aperto de
mão contrariado. - Houve alguma alteração no quadro clínico da paciente?
- Há pouco pedi uma ressonância magnética que acusou um edema cerebral. A
parede da artéria continua a dilatar-se a olhos vistos apesar de termos colocado
um clipe de metal através do pescoço do aneurisma. Era importante isolá-lo do
resto do sistema circulatório e bloquear o fluxo de sangue.
- Muito bem! Agora só nos resta aguardar a evolução do quadro. Esperemos que o
aneurisma não se rompa.
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Laura descruzou os braços quando sentiu o gosto amargo da derrota entranhado
na sua garganta. Detestava aquela sensação de impotência onde a única coisa que
tinha a fazer era esperar, esperar e esperar. Pior ainda quando a espera não trazia
resultado algum. Ela sabia que era apenas uma questão de horas até a paciente
sucumbir ao seu malfadado destino. Já vira casos iguais. Já tratara de casos iguais
e o final era quase sempre o mesmo.
- Olá, boa tarde! Vim saber como está a paciente?
Laura virou-se para trás sem querer acreditar na audácia da sua Interna em
aparecer na ala dos cuidados intensivos sem a sua autorização prévia.
- Pensei que te tinha enviado para a Enfermaria - os olhos da médica faíscaram de
ódio.
- Só queria saber como estava a paciente – Joana entrou no quarto com alguma
cautela.
- Quem é esta menina? – Alfredo perguntou.
- Interna – Laura respondeu, sem conseguir esconder a sua irritação.
- Muito prazer, Dr.º Alfredo – Joana atreveu-se a estender a mão ao Chefe de
Equipa Médico-Cirúrgica. Forçou-lhe um sorriso cordial e esperou ter a sorte de o
cumprimento ser correspondido. Alfredo fez-lhe esse favor. – É uma honra poder
finalmente conhecê-lo.
- Então quer dizer que está a realizar o seu Internato aqui na clínica?
- Sim! Sou Interna da Dr.ª Laura e também a sobrinha do Dr.º Eduardo Lima.
Alfredo mostrou-se agradado com a notícia. - Conheço o seu tio! Fomos colegas
de Universidade há muitos anos quando ainda estudávamos em Coimbra. É um
excelente médico com quem já tive a oportunidade de trabalhar e de estar em
algumas conferências.
- Ele também já me falou a seu respeito.
- Então quer dizer que vai seguir Neurocirurgia? Com tão bom exemplo na família
não se poderia esperar outra coisa.
141
- Esse é um dos meus objectivos. É uma área que me interessa muito.
- Tem aqui uma excelente Orientadora – Alfredo tocou levemente os ombros de
Laura.
- Eu sei que sim! Estou a aprender muito com ela – Joana lançou um sorriso
debochado à médica. – Mas a paciente ainda não acordou?
- Não – Alfredo voltou a lançar um olhar fortuíto à cama onde a vítima se
encontrava insconsciente. – A cirurgia não correu tão bem como esperávamos. A
paciente encontra-se em coma. Mas ainda assim vamos continuar a acompanhar a
evolução do quadro e tentar mantê-la em repouso absoluto. As próximas horas
irão ser decisivas.
- Esperemos que se recupere.
- Joana! Vem comigo, por favor – Laura interrompeu a conversa.
- Onde?!
- Vem comigo!
A médica incitou-a a abandonar o quarto na sua companhia. Contudo, quando
estavam prestes a sair, Joana virou o rosto e presenciou uma cena
verdadeiramente chocante. Por estarem de costas, nem Laura e nem Alfredo se
aperceberam da real gravidade da situação. A paciente acabou de entrar em
convulsões, foi a última frase que ela conseguiu pronunciar com o mínimo de
lucidez.
Nessa altura, Alfredo voou em direcção à paciente e premiu um botão
estrategicamente colocado sobre a cama. Código Azul, ele gritou e não foi preciso
muito tempo para que se formasse diante de si uma verdadeira equipa médica. A
chegada de duas enfermeiras ao quarto foi imediata. Laura apressou-se a retirar os
tubos que se encontravam no interior da boca da paciente, rasgou a bata que ela
trazia vestida com as mãos e realizou várias massagens cardíacas à fim de a trazer
de volta à vida. Infelizmente, nenhuma surtiu efeito.
- Não tem pulsação – Alfredo segurou o pulso da paciente. – Enfermeira, o
disfibrilador!
142
O aparelho foi imediatamente ligado e entregue a Laura, que sem tempo a perder,
aplicou as duas pás eléctricas, uma sobre o coração e a outra sobre a ponta da
escápula, numa tentativa desesperada de salvar uma mulher que lhe esteve nas
mãos durante oito horas. Recusava-se a perdê-la sob qualquer circustância.
Recusava-se também a dar aquele caso como perdido sem lutar por ele até ao fim.
Carregar pás a 300, ela ordenou. Os vários choques eléctricos revelaram-se inúteis e
à medida que o tempo foi passando, o quarto silenciou-se. Todos se conformaram
com a perda da paciente, excepto Laura. Com movimentos frenéticos sobre o
corpo da paciente, a médica continuou a lutar contra o inevitável até Alfredo
Meireles decidir a dar um basta àquela história.
- Dr.ª Laura – ele imperou. – Dr.ª Laura! Dr.ª Laura! Está a ouvir-me!? Dr.ª Laura...
Laura parecia não o estar a ouvir. Parecia estar numa outra dimensão.
- Desista – Alfredo ordenou, empurrando-a para longe da cama e fazendo-a
esbarrar violentamente contra um carrinho de instrumentação posicionado ao
fundo do quarto. – Acabou!
Alfredo lançou um olhar esmagador e autoritário a Laura. Um olhar
correspondido da mesma forma, enquanto ela se levantava do chão e sentia o seu
queixo tremer de raiva.
- Acabou - ele voltou a afirmar sem tirar os olhos dela. - Está proíbida de executar
qualquer outro tipo de procedimento!
Não era a primeira vez que algo semelhante acontecia ou a primeira vez que
perdia uma paciente, mas ainda assim, quando voltou a entregar o disfibrilador a
uma das enfermeiras de serviço, Laura sentiu-se devastada por não ter conseguido
atingir um objectivo a que todos os médicos se propunham. Salvar vidas humanas.
Infelizmente, nem sempre isso era possível. Nem sempre era possível dar e receber
boas notícias. Nem sempre era possível ter tudo o que se queria ou atingir os
resultados pretendidos. Aos poucos, ainda que com alguma dificuldade, ela
começava a perceber isso.
Hora de óbito: vinte horas e trinta e três minutos. Laura declarou após ter lançado os
olhos ao seu relógio de pulso. Em seguida, desviou-se de todos os funcionários
presentes no quarto, e ao dar-se de caras com a sua Interna, ainda especada sobre
o alpendre da porta, lançou-lhe um olhar de ódio incompreensível. Odiava-a. Era
um facto. Odiava-a com todas as forças e não via a hora de a afastar da sua vida de
uma vez por todas.
143
Após um dia particularmente violento, uma cirurgia desastrosa, a morte de uma
paciente e a responsabilidade de divulgar a terrível notícia aos familiares, Laura
encostou-se a uma das paredes da unidade de cuidados intensivos e respirou
fundo. Estava exausta, não podia negar. Demasiado exausta para sequer se atrever
a mexer um músculo corporal ou para continuar a pensar na grande embrulhada
em que se encontrava metida a sua vida. Havia dias que ela não conseguia dormir
por medo de que a sua ex-empregada contasse a verdade. Andava sempre com o
coração nas mãos, tentando decifrar as palavras e as expressões do marido,
apagando vestígios, deletando chamadas, mensagens ou quaisquer outros indícios
que pudessem denunciar o seu caso com o cunhado. Quando começou a
relacionar-se com ele, nunca pensou que fosse tão difícil manter uma vida dupla.
As coisas pareceram-lhe tão fáceis, tão controláveis. Um divertimento ocasional
que a livrava do tédio completo que era a sua vida. Mas agora que o tempo ia
passando e o seu envolvimento aumentava, já nada lhe fazia sentido.
- Senta-te - Laura apontou uma cadeira à sua ex-empregada quando se
encontraram no dia seguinte à hora de almoço.
- Obrigada.
- Queres pedir alguma coisa? Um sumo? Uma água?
- Não - Alicia manteve a mala sobre o colo. - Estou bem assim.
- Então nesse caso, vou directa ao assunto - Laura abriu a carteira sobre a mesa e
retirou do seu interior um cheque previamente preenchido. - Aqui tens! Aquilo a
que tens direito pelos anos que trabalhaste lá em casa.
- O Sr.º Leonardo já acertou as contas comigo. Ele já me pagou tudo.
- Mesmo assim! Aceita o cheque - Laura estendeu o papel perante o olhar sério da
ex-empregada.
- Guarde o seu dinheiro, D. Laura! Não preciso dele! E também pode ficar
descansada porque não vou contar nada ao seu marido e aos seus filhos. Eu gosto
deles. São boas pessoas e não merecem qualquer tipo de sofrimento.
- Desculpa - Laura voltou a guardar o cheque na carteira, envergonhada pelo seu
acto leviano.
144
- Era só isso?
- Sim! E também dizer-te que se precisares de uma carta de recomendação...
- O seu marido já cuidou de tudo - Alicia levantou da mesa e arrastou a cadeira
atrás de si. - Ele é um bom homem, sabia?! Não merece o que a senhora está
fazendo. Nem ele e nem os seus filhos. A senhora precisa de Deus no coração...
Laura engoliu seco quando pressentiu o criticismo da ex-empregada sobre si e a
viu abandonar sem olhar para trás o restaurante onde haviam passado escassos
cinco minutos.
Não soube muito bem porquê, mas as palavras de Alicia ficaram-lhe gravadas na
memória. A senhora precisa de Deus no coração. Talvez fosse verdade. Talvez ela
precisasse mesmo disso e de muito mais. Naquele momento só tinha o diabo e era
ele quem a estava a corromper.
Podia até se sentir aliviada por saber que a ex-empregada jamais contaria a
ninguém o que descobrira, mas isso na altura era muito pouco para acalmar a
inquietude em que se encontrava o seu coração.
145
15
Ricardo mudou-se na última semana de Março. Levou consigo apenas o essencial.
Duas malas e um saco de boxe adquirido numa loja de desportos perto de casa. O
prédio era pequeno, no entanto bem cuidado. Encontrava-se localizado numa das
zonas mais nobres da cidade. Tinha quatro apartamentos e o de Ricardo era o
maior. Uma maravilhosa mistura do novo e do antigo, dominado por cores
suaves, i1uminação indireta e muitos livros. Contrariamente ao que ele dissera a
todos os que lhe perguntaram pelo apartamento, o espaço era enorme e incitava-o
a recordar uma infância distante de quando os seus pais ainda eram vivos. O
cheiro do soalho de madeira, os móveis antigos da cozinha e a varanda que dava
acesso a um pátio abandonado, traziam-lhe uma certa nostalgia.
A sala assemelhava-se a uma loja de antiguidades repleta de peças de arte e
quadros abstractos, numa combinação agradável entre um estilo rústico e
moderno. Havia um bonito tapete felpudo, quadros de impressionistas franceses
nas paredes, muitos objetos de prata e alguns de estanho e belos livros antigos nas
estantes presas à parede e ao o mármore da lareira. O sofá era castanho de pele
escura e abrigava duas pequenas almofadas bordadas em forma de tapeçaria. À
entrada, existia um longo corredor que ligava as quatro habitações principais da
casa. A sala, o quarto, a casa-de-banho e a cozinha. Não havia como ninguém não
se deixar encantar por aquele apartamento. Tinha um cheiro intenso a cigarro, mas
não chegava a ser necessariamente ofensivo. Era algo mais atmosférico, se é que se
poderia chamar assim.
- Adorei – foi a primeira reacção de Laura quando regressou à sala depois de ter
inspeccionado todos os cantos à casa.
- Sabia que ias gostar.
146
- Mesmo se passasses um ano inteiro enfiado aqui dentro não irias conseguir ler
estes livros todos – Laura percorreu as estantes e passou os dedos pelos livros
empoeirados.
- Queres um?! Leva!
- Estes livros não são teus.
- O proprietário deu-me carta-branca para fazer o que quisesse aqui dentro.
- Começo a ficar curiosa para conhecer esse proprietário.
Ricardo sorriu inigmaticamente. Aproximou-se de Laura e escolheu um livro ao
acaso. – Toma! Leva este! É interessante.
- “Les Miserables” – ela leu na contra-capa.
- Devolve quando quiseres.
Os seus rostos voltaram a cruzar-se.
- Quero que venhas cá muitas vezes - ele confessou, tomando-lhe a face com as
mãos.
Os lábios de Ricardo ajudaram Laura a esquecer-se por instantes do mundo que
se estendia lá fora. Por mais que ela tentasse, era-lhe impossível livrar-se do que
sentia por ele. Era impossível deixar de lhe atender aos telefonemas, de encontrar-
se em lugares esquivos e horários inapropriados ou sequer de corresponder àquele
sentimento avassalador que se lhe tinha colado na pele como uma doença. Sim.
Ricardo era uma doença. Um tumor maligno que a consumia todos os dias.
Ele esperava que ela o mandasse parar, mas Laura não o fez e ele deixou que as
suas mãos deslizassem pelo corpo dela e parassem no final das suas costas. Num
acordo mútuo, como se estivessem a ser embalados por uma dança sem música, os
dois amantes dirigiram-se lentamente até ao quarto e percorreram um longo
corredor vazio. Deixaram a porta aberta a poucos segundos de entrarem no quarto
e cairam na cama desfeita.
- Isto não era para ser só uma noite? - Laura manteve-se por debaixo de Ricardo
enquanto lhe acariciava a barba aparada, com as duas mãos.
147
- Achas que me iria contentar só com uma noite? - Ricardo penetrou-lhe os olhos
verdes. - Eu quero-te até me fartar de ti!
Fizeram amor e falaram sobre muitas coisas. Medicina, Marketing. Os anos que ele
passou em Nova Iorque e como apreciara esse tempo. A adolescência numa casa
de abrigo. A experiência com as drogas. A loucura de viajar pela Europa inteira
com uma mochila nas costas e escassos cêntimos no bolso.
Laura contou também os sacríficios que fez para se formar, a infância cheia de
privações económicas e a tristeza de nunca ter conhecido o pai. Quando uma
lágrima lhe caiu dos olhos, Ricardo amparou-a com um beijo e aninhou-a no seu
peito. Sentiu-lhe o maior carinho do mundo e quis mantê-la ali para sempre perto
de si. Aquela mulher parecia possuir tantas camadas e ele pretendia removê-las
todas para descobrir o que tinha por baixo. Então havia aquela vulnerabilidade
que nunca havia percebido nela. Era como quebra-cabeças, intrigante.
Do lado contrário, Laura fechou os olhos e deixou-se ficar com a estranha
sensação de que tinha encontrado um novo porto seguro para além daquele que
tinha com o marido. Entrelaçaram os dedos das mãos, sentiram-se e olharam-se
com fascínio. Qualquer coisa havia mudado naquela nublosa tarde de Março,
houve essa ligeira impressão. Qualquer coisa realmente boa.
À noite, enquanto lavava o rosto com água fria, Laura viu-se ao espelho e por
instantes não se reconheceu. Quem era ela, perguntou assustada. Quem era aquela
mulher que todos os dias se apresentava perante os outros com uma confiança fora do
normal, mas que por dentro se debatia em dúvidas e fantasmas ligados ao passado?
Durante anos, escondeu-se atrás de uma máscara esculpida ao pormenor.
Camuflou sentimentos, medos e fragilidades. Mas agora esses medos e
fragilidades pareciam querer submergir com a entrada de Ricardo na sua vida.
Sentia-se num beco sem saída. Pensou em todos os acontecimentos que a levaram
a chegar àquele estado. Pensou no marido que não merecia ser traído, nos filhos
que não tinham culpa da mãe desastrosa que o destino se encarregara de lhes
arranjar, e por fim, pensou em Ricardo - o único responsável por todos aqueles
sentimentos confusos e dúbios que a atormentavam. Já não era apenas sexo ou o
desejo de ter uma aventura. Era algo mais. Um sentimento que a consumia
interiormente e que a levava a pensar nele vinte e quatro horas por dia. Estaria
apaixonada?Seria aquilo amor? Deus. Ela tremeu de medo só de imaginar essa ideia.
- Já meti os miúdos na cama - a voz do marido trouxe-a de volta à realidade.
- Obrigada.
Laura prendeu os cabelos com um elástico e alcançou a sua escova de dentes
sobre o lavatório. Leonardo continuou a observá-la com atenção.
148
- Temos que arranjar uma nova empregada - ele disse.
- Eu sei.
- Ainda não percebi o porquê de teres despedido a Alicia. Ela fez alguma coisa?
- Os miúdos já estavam a ficar demasiado apegados a ela.
- E isso era mau?
- Leo, nós já conversámos inúmeras vezes sobre esse assunto. Não vamos voltar ao
mesmo, por favor.
- Tens consciência de que vai ser praticamente impossível encontrarmos alguém
que a possa substituir, não tens!?
- Ninguém é insubstituível.
Leonardo manteve-se de olhos postos na mulher enquanto ela escovava os dentes.
Observou-a com alguma desconfiança, notando que aos poucos Laura se estava a
distanciar de si e do casamento que mantinham. Já não era a mesma. Já não era
carinhosa, atenciosa. Já não projectava planos para o futuro e nem se preocupava
em preparar surpresas românticas. Passava a vida fora de casa e quando
regressava os seus pensamentos longínquos levavam-na outra vez para longe.
Dentro de uma semana fariam doze anos de casados e muita coisa tinha mudado.
Natural. Todos os casamentos mudavam e sofriam alterações com a convivência, a
rotina e os afazeres do dia-a-dia.
Mas era preciso resgatar a réstia da paixão antes que ela desaparecesse de vez.
Leonardo tinha essa consciência mas a mulher nem por isso. Por vezes, ele sentia-
se invisível dentro da própria casa quando Laura passava por ele e apagava a luz.
Desculpa. Ela disse naquela noite voltando a acender o interruptor quando saiu da
casa-de-banho.
Três dias se passaram. Há muito que o relógio havia assinalado a sua hora de
saída, mas as contingências do trabalho obrigaram-na a permanecer na clínica
mais tempo do que o esperado. Após inúmeras horas de pé, apenas com uma
pausa para o pequeno-almoço e outra para o jantar, Laura regressou ao seu
consultório e encontrou uma pasta azul guardada no seu cacifo.
Havia semanas que ela vinha preparando o seu conteúdo, passando noites em
branco a rever erros ou gralhas que pudessem constar do texto milimetricamente
pensado ao detalhe.
149
Quando abandonou o seu gabinete, poucos minutos antes das nove, a médica teve
a feliz surpresa de encontrar Rita Azevedo num dos inúmeros corredores da
clínica. As duas amigas cumprimentaram-se calorosamente e trocaram algumas
palavras de circustância. Laura aguardou a chegada do elevador e Rita fez-lhe
companhia.
- Vais para casa?
- Ainda não - a médica respondeu. - Tenho uma reunião com o director da clínica.
- Uma reunião com o director? Porquê?
O olhar de Laura disse tudo.
- Não serias capaz de fazer isso, pois não? - Rita balançou a cabeça.
- Eu já considero esta nomeação como sendo minha - as portas do elevador
abriram-se e Laura entrou sozinha.
- Boa sorte - foi o último desejo de Rita.
- Eu não preciso de sorte.
Laura chegou ao sexto piso e caminhou apressada em direcção ao gabinete do
director da clínica localizado no fundo do corredor. O piso encontrava-se
praticamente vazio, tendo apenas um segurança a patrulhar as câmaras de
vigilância. Laura passou por ele, mas nem sequer o cumprimentou. Minutos
depois, ofereceu dois toques na porta do escritório e aguardou que a voz
imponente do director a mandasse entrar.
- Bom dia, Dr.º Fonseca!
- Bons dias, Dr.ª Laura! Vejo que foi pontual - o director continuou a assinar
alguns documentos sobre a secretária sem prestar demasiada importância à
entrada da sua funcionária no seu consultório.
- Não queria fazê-lo perder tempo.
- Agradeço-lhe por isso – o director apontou-lhe uma cadeira vazia em frente à
sua. – Sente-se!
150
- Obrigada.
- Recebi ontem o seu pedido para uma reunião. Confesso que fiquei curioso.
Algum problema?
- Nenhum.
- Então diga!
- Soube há pouco tempo que o Dr.º Alfredo se iria reformar este ano e que iria
deixar livre o cargo de Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica.
- Sim! O pedido de reforma do Dr.º Alfredo foi aceite e ele cessa funções em
Setembro.
- O que quer dizer que o cargo que ele exerce vai ficar disponível.
- Exactamente – Carlos percebeu de imediato quais eram as intenções da sua
médica.
- Dr.º Fonseca, tal como já disse, não pretendo fazê-lo perder tempo! Entrego-lhe
aqui a minha candidatura oficial ao cargo – Laura mostrou ao director da clínica a
pasta azul que trouxera nas mãos. – Aqui dentro vai encontrar as razões da minha
candidatura, um breve resumo do meu percurso profissional e os planos que
pretendo implementar na área cirúrgica caso seja nomeada. Isto incluí obviamente
uma reforma estrutural, não só nos métodos e processos de trabalho, mas também
nos membros que actualmente fazem parte da nossa equipa. Considero vital a
mudança destas estruturas para a modernização desta clínica.
- Dr.ª Laura... – o director recusou-se surpreendentemente a aceitar a pasta. – Não
lhe vou esconder que o seu nome já havia sido proposto para o lugar. O Dr.º
Alfredo tem uma grande estima por si e uma grande confiança também. Ele tem
acompanhado muito atentamente o seu trabalho ao longo destes anos, e tal como
eu, reconhece inteiramente a sua competência e a sua dedicação a esta clínica. De
facto, não é todos os dias que um centro hospitalar se pode gabar de possuir uma
Neurocirurgiã do seu gabarito...
Laura cerrou os olhos, desconfiada com tantos elogios.
151
- Mas infelizmente, quando o Dr.º Alfredo me indicou o seu nome, eu já tinha
escolhido um outro profissional para ocupar o lugar – a revelação do director caiu
como uma bomba aos ouvidos de Laura. – É um cardiologista de renome, tem
largos anos de experiência a dirigir equipas e pareceu-me a pessoa ideal para se
juntar à nossa equipa. Obviamente que ele aceitou o convite.
Laura sorriu amargamente, balançando a cabeça, ainda atordoada com aquele
soco no estômago.
- Eu sei que gostava de ocupar este cargo, Dr.ª Laura! Mas pense que ainda tem
mais alguns anos para construir carreira. Nessa altura, pode ter a certeza absoluta
que eu serei a primeira pessoa a convidá-la.
- Mais alguns anos!? - a pergunta de Laura saiu odiosa. - Quantos?! Quinze?
Vinte?
- Os que forem necessários – o director detestou a arrogância da médica quando
esta lhe dirigiu a palavra.
A recusa da pasta onde se encontrava a sua candidatura oficial foi o impulso que
o director da clínica ofereceu a Laura para que ela se levantasse da cadeira e se
aproximasse da porta de saída. Contudo, ao girar a maçaneta, a médica sentiu o
rosto vermelhar de raiva e uma onda de cólera atravessar-lhe o corpo, deixando-a
à beira de um ataque de nervos. Não. Ela não podia admitir sequer a possibilidade
daquele cargo lhe escapar por entre os dedos. Não podia também admitir a ideia
de passar mais quinze ou vinte anos à espera de uma oportunidade igual. Aquele
era o seu momento e ela iria lutar por ele até ao fim.
- Dr.º Fonseca… - Laura rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se até ele. – Eu não
sei, aliás, não faço a mais pálida ideia quem terá sido a pessoa escolhida para
ocupar o cargo. Mas garanto-lhe que não é por ter mais trinta ou quarenta anos de
profissão que eu, por ser homem, ou por lhe ter feito algum favor, que será mais
competente e trará a esta clínica o que ela necessita. Só quem está aqui dentro é
que sabe a dinâmica que é preciso criar para que a equipa de cirurgiões que temos
funcione. Só quem trabalha aqui dentro há dez anos, fazendo plantões três vezes
por semana, deixando de ver os filhos por mais de quarenta e oito horas,
realizando e assistindo cirurgias quase todos os dias, preocupando-se com o bom
funcionamento até mesmo das Urgências, só quem vive e respira este hospital
como eu, pode ter a audácia de querer ocupar este cargo... - Laura atirou a pasta
da sua candidatura contra a secretária de Carlos Fonseca e ele pôde sentir os olhos
152
dela faíscarem de ódio. - Por isso, deixo-lhe aqui a minha candidatura! Sugiro que
a leia antes de a deitar para o lixo.
Quando a médica abandonou o seu consultório, a primeira reacção do director foi
de atirar aquela maldita pasta para o cesto de papéis. Arrogante, presunçosa,
insolente, foram estes alguns dos adjectivos que ousou pronunciar em silêncio. Três
características que ele odiava em qualquer funcionário seu e que não admitia a
subalternos. Nunca ninguém havia falado consigo naqueles termos e nem o
enfrentado daquela maneira. Quem julgava ela que era?
No entanto, passada a fúria inicial, Carlos poisou a esferográfica sobre a secretária
e lançou os olhos às paredes do seu magestoso escritório. Não conseguiu deixar de
pensar na conversa que tivera com Laura, na sua impáfia, acompanhada de uma
ambição desmedida e até mesmo do brilho maléfico que os seus olhos
denunciaram. Quem sabe não foi tudo isso que o motivou a retirar aquela pasta
azul do lixo. Observou-a com atenção e deteve-a nas mãos durante alguns
minutos. Havia qualquer coisa em Laura, ele chegou a essa conclusão. Havia
realmente qualquer coisa.
153
16
No dia seguinte, Laura almoçou sozinha no refeitório tendo por companhia um
livro e os olhares indiscretos de Joana Lima, sentada numa mesa distante. A jovem
Interna não conseguiu desviar os olhos da médica um único segundo. Admirou-
lhe os gestos, a forma concentrada como lia a obra “Les Miserables” e a pouca
vontade em degustar a refeição que havia escolhido no bar da clínica. Ninguém se
atreveu a ocupar a sua mesa ou sequer a dirigir-lhe a palavra. Passavam aos
grupos, aos pares, deixando-a sozinha no meio da multidão.
Joana continuou a olhar para ela, discretamente, de longe. Subitamente teve
vontade de se aproximar, embora tivesse consciência do ódio que a médica nutria
por si. Talvez esse ódio fosse recíproco. Talvez ela também detestasse o jeito
insolente e arrogante da sua Orientadora, mas a verdade é que não conseguia
parar de pensar nela um só segundo. Projectava-lhe uma vida fora da clínica,
imaginando como seria o seu comportamento com os filhos, o marido e o resto da
família. Com que roupa dormia. O que fazia nos tempos livres para além de ler
livros longos e complexos. Que tipo de música ouvia. Qual o seu perfume favorito.
O seu prato. Saberia nadar. Andar de bicicleta.
Eram tantas perguntas estúpidas que atravessavam o pensamento de Joana que
por vezes ela se sentia exausta por não conseguir tirá-las da sua cabeça. Era
estranho também acordar a meio da noite e lembrar-se do rosto de Laura. De
sentir um estranho arrepio sempre que ouvia o som da sua voz ou se encontrava
na sua presença. Um misto de excitação que se conjugava com a vontade de querer
enfrentá-la. Muitas vezes, aguardava-a escondida no carro à saída da clínica
apenas para a ver passar. Observava-a de longe a abrir as portas do seu jipe,
indiferente aos seus olhares curiosos e ao profundo fascínio que a sua existência
lhe provocava. E quando ela partia, arrancando o carro a alta velocidade, Joana
resistia a muito custo à vontade de a seguir.
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- Curiosa para saber como foi a tua conversa com o Dr.º Fonseca – Rita puxou uma
cadeira em frente a Laura e largou o tabuleiro sobre a mesa. – Conta! Entregaste a
tua candidatura? Ele disse que o cargo era teu?
- Já foi escolhida outra pessoa.
- Quem!? - a enfermeira fez uma careta desanimada. - Algum outro cirurgião aqui
da clínica?
- Não! Ao que tudo indica, vem de fora e tem experiência a liderar equipas - Laura
respondeu sem tirar os olhos do livro que estava a ler. - Mas com certeza deve ser
algum amigo pessoal a quem o Dr.º Fonseca deve algum favor.
- Bem... – Rita enfiou a colher na sua sopa. – Pelo menos já tiraste essa ideia fixa da
cabeça e sempre podes seguir em frente.
- Estou só à espera que a nomeação seja oficial.
- Para quê?!
- Para entregar a minha carta de demissão.
- Ainda com essa ideia maluca na cabeça?
- A minha decisão já está tomada, Rita! Não vamos discutir sobre isso.
- Não te podes ir embora! Pensa em tudo! Pensa nos anos que estás aqui dentro, na
tua carreira... pensa em mim...
Laura sorriu à sua melhor amiga, mas foi incapaz de proferir palavra. A sua
decisão já estava tomada.
- Se te fores embora não vou ter mais ninguém com quem almoçar.
- Que exagero...
- E também não vou ter ninguém a quem contar que estou finalmente a namorar
outra vez.
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- Estás a namorar? – Laura mostrou-se contente com a notícia revelada pela sua
melhor amiga.
- Namorar, namorar, talvez não seja o melhor termo! Mas… digamos que estou a
conhecer uma pessoa muito especial. Temos andado a sair e a dormir juntos estes
dias.
- Quem é o felizardo?
- Não vais acreditar - Rita fez um ligeiro momento de pausa e uma careta
envergonhada. - O teu cunhado! O irmão do Leo...
Laura pôde sentir o seu coração parar de bater e a sua expressão facial paralizar-
se quando recebeu aquela notícia. - Vocês estão juntos? - foi tudo o que ela
conseguiu gaguejar.
- Desde o almoço em tua casa. Desculpa não te ter dito antes, mas ele pediu-me
segredo. Acho que não se sente lá muito à vontade com a ideia de nos
conhecermos e sermos todos amigos - Rita mostrou um sorriso radiante. - Por
acaso, no outro dia, levou-me a conhecer o novo apartamento dele. Fica em São
Bento. Tu e o Leo já lá foram?
- Não – Laura mentiu. – Nunca mais vi o Ricardo desde aquele domingo.
Quando chegou ao seu consultório e encostou a porta, Laura fechou o punho com
força e ofereceu um murro violento na secretária. Tão violento que a fez inclusive
sangrar da mão. Depois disso, arrependeu-se e tentou remediar a loucura
cometida com vários lenços de papel. Lembrou-se do rosto de Ricardo. Do seu
cinismo. Da sua falta de escrúpulos e de carácter. Lembrou-se também de todas as
tardes e noites que passaram juntos, dos seus elogios e palavras de carinho. Tudo
mentira. Uma enorme mentira.
Irritada, ela passeou pelo consultório e lançou inúmeras vezes os olhos ao seu
telemóvel sobre a secretária. Num acto irreflectido, segurou o aparelho e procurou
o número do cunhado na sua lista de contactos. Não precisou de muito esforço
para encontrar a letra R e estabelecer a chamada. Aguardou alguns segundos e o
destinatário atendeu.
- Não querias atender, não era? – a pergunta seca e autoritária de Laura
surpreendeu Ricardo no outro lado da linha. - Ou estavas à espera que fosse a
Rita?
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- Desculpa! Não estou a perceber o que...
- Eu sei que estás com ela! Ela contou-me - Laura ouviu um longo silêncio no outro
lado da linha. - Não vais dizer nada? Não vais explicar o canalha e o idiota que és
por me estares o pôr os cornos com ela?
- Escuta! Não tenho tempo para isto – Ricardo tentou desligar a chamada.
- Não te atrevas a fazer uma coisa dessas – Laura imperou. – Vais ouvir aquilo que
tenho para te dizer e vai ser hoje. Quando eu sair da clínica, espero encontrar-te
para termos esta conversa…
Ricardo desligou o telefone antes que Laura pudesse terminar a frase. E quando
isso aconteceu, ela pensou que fosse morrer de ódio. Não soube muito bem como,
mas não viu mais nada à frente a não ser uma onda de cólera que a incitou a atirar
o seu telemóvel contra a parede e levar as mãos à cabeça com a nítida certeza de
que aquele homem ainda a iria levar à loucura.
Tão submersa que estava na sua própria insanidade, Laura nem sequer se
apercebeu quando uma figura estranha se afastou da porta do seu consultório
atordoada com tudo o que tinha acabado de ouvir. Caminhando apressada pelos
corredores da clínica, Joana tentou voltar a si. Tentou convencer-se que tinha
ouvido mal, percebido mal, entendido mal. Não podia ser de todo verdade que a
sua Orientadora estivesse a ter um caso com outro homem. Não podia ser de todo
verdade que ela estivesse a trair o próprio marido.
Laura abandonou a clínica às dezanove horas sem paciência para prolongar o
turno ou sequer para telefonar para casa a avisar que iria chegar tarde. Estava
decidida a dirigir-se ao apartamento do cunhado para terminar com aquela
história de uma vez por todas. Queria ver-se livre de Ricardo. Fingir que nunca o
tinha conhecido, que nunca o tinha beijado, estado nos seus braços ou proferido
palavras de amor que jamais foram recíprocas. Odiava-se por ter sido tão inocente
ao ponto de acreditar que iria sair ilesa daquela história. Odiava-se
categoricamente, mas odiava ainda mais o cunhado.
Laura estacionou o jipe numa rua quase deserta. Saiu do carro e fechou a porta
com violência. Atravessou a passadeira e logo se viu em frente a um prédio antigo.
Tocou o interfone e falou rapidamente algumas palavras imperceptíveis aos
ouvidos dos demais. Segundos depois, a portaria abriu-se e ela entrou.
Joana assistiu a tudo no interior do seu carro. Não soube muito bem o porquê de
ter decidido seguir a sua Orientadora, mas a curiosidade de descobrir quem era o
seu amante foi mais forte do que o seu bom senso.
157
Por esse motivo, também ela saiu do veículo e aproximou-se do prédio onde
Laura havia entrado momentos antes. Infelizmente a porta encontrava-se fechada,
mas uma velhinha simpática acompanhada por um cão interceptou-a com as
chaves e dois sacos de compras nas mãos.
- Deixe estar! Eu ajudo-a – Joana forçou um sorriso à moradora.
- Obrigada, menina! É muito simpática.
Foi uma sorte a senhora morar no primeiro andar. Quando se viu finalmente livre
dela, Joana decidiu explorar os quatro pisos que compunham o prédio. Não havia
elevador e as luzes das escadas desligavam-se automaticamente a cada trinta
segundos. Mas isso não foi motivo suficiente para que Joana desistisse dos seus
intentos em descobrir o porquê da sua Orientadora ter entrado naquele prédio.
Subiu degrau a degrau, guiando-se apenas pelas mãos e muitas vezes pelas luzes
que vinham da rua. Quando chegou ao terceiro piso, o penúltimo, ouviu
finalmente as vozes que a haviam levado ali. Parecia uma discussão, mas não se
percebia muito bem o que diziam.
- És um traidor – a voz de Laura saiu finalmente nítida aos ouvidos de Joana
quando ela se encostou à porta.
- Eu?! - Ricardo colocou a mão no peito e forçou uma gargalhada seca. - Ai eu é
que sou traidor?! Já olhaste bem para ti? Por acaso existe alguém nessa história
que seja mais traidora do que tu?
- Como é que foste capaz?
- Que mal é que tem ser a Rita, posso saber?
- Ela é minha amiga – Laura gritou, lavada em lágrimas.
- E o Leo é meu irmão! Queres comparar?
Laura balançou a cabeça, desolada.
- Eu nunca te prometi nada! Nunca te prometi uma casa com um jardim à volta,
nunca te prometi filhos, nunca te jurei fidelidade e nunca disse que te amava. Tu
sabias muito bem no que te estavas a meter quando resolveste ter um caso comigo.
Não vamos aqui brincar aos joguinhos e nem nos fazermos de puritanos. Foi com
158
a Rita sim, já disse! Foi com ela como podia ter sido com qualquer outra. Qual é!?
Vais encarnar o papel de menina adolescente traída pela melhor amiga e pelo
namorado? Vais chegar a esse ponto? Vais-te prestar a esse papel? Não sejas
ridícula – o rosto de Laura endureceu. – Se queres ficar comigo, sabes muito bem
quais são as regras do jogo. É pegar ou largar…
- Então eu largo.
Laura apressou-se a encontrar a sua mala sobre o sofá e afastou-se de Ricardo
com um olhar de nojo. No patamar de entrada, Joana percebeu que a conversa
havia terminado. Afastou-se, assustada, e subiu até ao quarto piso ainda sem
certezas se a sua Orientadora iria sair do apartamento. Pouco tempo depois foi
isso aconteceu. A porta abriu-se de rompante e Laura saiu embalada. Ricardo foi
atrás e Joana encontrou finalmente o seu telemóvel no bolso do casaco sabendo
bem que aquela era a altura certa para começar a gravar.
- Tens consciência de que se te fores embora, nunca mais voltas a pôr cá os pés -
Ricardo gritou, puxando-lhe o braço.
- És um porco – Laura tentou livrar-se das suas mãos fortes.
- Sabes qual é o teu problema?! Pensar que todos os homens são iguais ao meu
irmão. O Leo habituou-te mal. Ele é submisso, não tem personalidade, põe-te num
pedestal e espera sempre que tu tomes as rédeas da vossa relação. Já deve estar
cansado de saber que lhe pões os cornos, mas nem assim tem tomates para te
encostar contra a parede e exigir que lhe contes a verdade… - Ricardo apertou o
queixo de Laura com força. – E sabes porque é que continuas a vir cá? Não é por
causa de sexo ou coisa nenhuma. É porque meteste nessa tua cabeça que me irias
transformar num novo Leo…
- Tu nunca irias ser igual ao Leo - Laura afastou-se bruscamente. - Ele é mil vezes
melhor do que tu.
- Ai é?! Então o que é que ainda estás aqui a fazer? Porque é que ainda não te foste
embora? Vai! Volta para casa! Volta para o palhaço do meu irmão e para a vossa
maravilhosa família...
- Metes-me nojo – Laura atreveu-se a cuspir-lhe o rosto.
- Adivinha lá! O sentimento é recíproco – Ricardo pagou-lhe na mesma moeda.
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Beijaram-se como dois loucos, entre suspiros e gemidos, permitindo-se dar azos a
uma excitação que crescia a cada minuto em que se tocavam, se despiam e se
sentiam.
Depois de lhe puxar as cuecas para baixo, Ricardo voltou Laura de costas e
obrigou-a a encostar o rosto à parede. Os momentos que se seguiram foram de
puro choque para Joana. As suas mãos tremeram de medo enquanto gravavam a
imagem daquele homem violento a tomar sua Orientadora nos braços. Ricardo
penetrou-a por trás, agarrou-a pelos cabelos e apertou-lhe os seios com força.
Pareciam dois animais, Joana chegou a essa conclusão. Dois seres irracionais que
não viam mais nada à frente a não ser o desejo e a excitação de se terem um ao
outro. Quando terminaram, quinze minutos depois, Laura encontrou as suas
roupas caídas no chão. Recompôs-se e desceu as escadas a uma velocidade
fantasmagórica sem trocar uma única palavra com o cunhado ou esperar que ele
lhe dissesse alguma coisa. Segundos depois, foi a vez de Ricardo fazer o mesmo.
Apanhou a sua t-shirt do chão e enfiou-se nas suas calça de ganga. Não tardou a
entrar no seu apartamento e a fechar a porta com violência. Nessa altura, Joana
voltou a respirar. Finalmente. Estava atónita quando desligou a câmara do seu
telemóvel.
Às oito horas o jantar encontrava-se pronto e a mesa arrumada.Leonardo tomou
um banho de chuveiro, vestiu calças cinzentas e uma camisa azul e tirou o
presente da gaveta onde o tinha escondido. O champanhe estava no frigorífico
pronto a ser aberto para a grande comemoração. O jantar encomendado num dos
melhores restaurantes italianos havia chegado impecavelmente embalado. Estava
tudo em ordem. Ele ligou o televisor e ajudou os filhos a fazer os trabalhos de casa
sobre a mesinha redonda da sala. Esfomeados, eles comeram e pouco tempo
depois subiram ao quarto para se deitarem.
Às dez horas, Leonardo entrou em pânico. O jantar arrefeceu e ele voltou a ligar
para a mulher. O telemóvel mantinha-se desligado e ele deixou outro recado.
Regressou à sala, olhou a mesa posta, as velas acesas e o presente embrulhado,
mas não sentiu nada mais do que um enorme nó na garganta.
A porta voltou a abrir-se às onze menos um quarto. Laura entrou com uma
expressão visivelmente destroçada. Tinha passado as duas últimas horas a chorar
e a lamentar-se da sua triste sorte. Sem forças, deixou o casaco no bengaleiro e
descalçou os sapatos. Limpou uma lágrima que entretanto lhe caiu no rosto.
Quando chegou à sala, Laura encontrou o marido à sua espera, sentado no sofá
com um copo de whisky na mão. A poucos metros de si mantinha-se o jantar, agora
arrefecido, as velas apagadas e a garrafa de vinho que ele abrira para ocasião.
Foi só então que a dura realidade lhe caiu sobre os ombros, obrigando-a a fechar
os olhos e tapar o rosto com as mãos. Lembrou-se. Naquela noite, ela e o marido
faziam doze anos de casados.
160
17
Passaram-se dois meses. Sessenta dias que permitiram que Laura recomeçasse aos
poucos a tomar as rédeas da sua vida. O trabalho na clínica, os afazeres
domésticos e a sua família, ocupavam-lhe grande parte do tempo, deixando um
espaço limitado para cometer loucuras desnecessárias. O seu caso com o cunhado
fazia agora parte do passado - um passado ao qual ela não queria voltar e que
fazia questão de esquecer todas as vezes que o rosto de Ricardo lhe atravessava os
pensamentos.
O caso dos dois acabou tal como começou. Sem nada de bom a acrescentar à sua
existência. Uma relação vazia e sem sentido que em nada se assemelhava à relação
que ela mantinha com o marido. Leonardo continuava a ser o homem que ela
pretendia manter para sempre perto de si. Era o conforto e a estabilidade
necessária para que tudo à sua volta não ruísse. A pessoa ideal para sorrir, para
conversar sobre assuntos triviais e projectar planos futuros. O homem perfeito que
o cunhado nunca conseguira ser.
- E aqui vai ficar a recepção…
No dia em que a mulher comemorou o seu quadragésimo aniversário, Leonardo
levou-a conhecer as instalações do novo RESORT em Cascais. O empreendimento
já durava dois anos mas agora se encontrava na recta final. Apesar do pó, do
barulho das máquinas e da movimentação dos trabalhadores, foi possível a Laura
reparar na beleza e na grandiosidade da construção. Um trabalho notável onde o
marido pusera toda a sua alma e coração. Por esse motivo, ela sentia-se orgulhosa.
- Bem! Isto está a ficar giro – Laura ajeitou o capacete que o marido a obrigou a
colocar na cabeça.
161
- Giro?!
- O.k! Muito giro...
- Assim está melhor – os dois riram-se alegremente enquanto passeavam de mãos
dadas pelo local em obras. – E aqui vão ficar as janelas. Já chegaram. Só falta
montar. São enormes e vidradas para dar visibilidade ao jardim e à fonte que vai
ficar lá fora.
- Pensaste em tudo, não haja dúvida.
- Ainda nem viste nada.
- Quando é que vai ser a inauguração?
- Daqui a cinco meses se tudo correr como o previsto. É claro que estamos com os
prazos apertados, mas acho que vamos conseguir.
- Vai ficar excelente – Laura acompanhou o marido pelas instalações.
- Agora vou mostrar-te a área dos ginásios e da sauna. Espero que tenhas tempo.
- Tenho duas horas até à próxima consulta.
- Então vamos lá! Tenho a certeza que vais gostar.
Laura aceitou a mão do marido e deixou-se levar por ele em direcção à zona dos
ginásios. Mais uma vez o luxo e a grandiosidade da obra não deixou dúvidas de
que os sócios espanhóis estavam a apostar em força naquele projecto.
- Quando isto abrir, vou-te arranjar um cartão VIP – Leonardo envolveu os braços
na cintura da mulher.
- Um cartão VIP?
- Sim! Um cartão que vamos desenvolver para os clientes habituais do RESORT.
Com esse cartão podes fazer tudo aqui dentro com cerca de 30% de desconto.
Ginásio, sauna, piscina, massagens, tratamentos faciais…
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- Uau – Laura abriu um sorriso de orelha a orelha. – Olha que vou mesmo cobrar-
te esse cartão, ouviste?!
- Prometido é devido.
- Estou a precisar queimar umas gordorinhas.
- Tu estás exactamente igual ao dia em que te conheci. Não engordaste um quilo
sequer. Estás perfeita.
Laura sorriu, envergonhada, ao ouvir o elogio do marido. - Estou muito
orgulhosa de ti, sabias?! – ela confessou.
- A sério!?
- A sério – riram-se os dois, baixinho, sem tirar os olhos um do outro. - Esta obra e
a forma como te empenhaste nela. E pensar que tudo isto saiu da tua cabeça. És
um génio.
- Eu sei que construir edifícios não é tão entusiasmante como salvar vidas
humanas, mas...
- Parvo - Laura ofereceu-lhe uma palmada carinhosa no peito.
- Mas fico feliz por saber que sentes orgulho de mim.
- É claro que sinto! És o melhor marido do mundo, sabias?!
Leonardo não resistiu a encontrar os lábios de Laura no meio da movimentação
dos seus trabalhadores. Foi um beijo longo, apaixonado e que trouxe de volta
todos os sentimentos que durante meses estiveram adormecidos na mulher.
Mas agora era diferente. Livre dos fantasmas que a atormentavam, Laura
conseguia encontrar no marido qualidades que por muito tempo lhe passaram
despercebidas. Leonardo era um homem honesto, bom, carinhoso e fazia-a sentir-
se a mulher mais feliz do mundo. Dava-lhe tudo o que precisava. Até mesmo uma
casa com um jardim à volta. E amor. Muito amor. Aquele amor incondicional que
não nos fere, não nos magoa e nem nos faz mal, não nos mente, não nos trai. Esse
tipo de amor é difícil de encontrar e ela teve essa sorte. Encontrou Leonardo e sob
hipótese alguma pensou algum dia afastar-se dele ou apagá-lo da sua vida.
163
Laura chegou à clínica alguns minutos atrasada, mas preparada para prestar
serviço num plantão de vinte e quatro horas. Naquela tarde tinha apenas três
consultas, uma visita a um paciente na ala da unidade de cuidados intensivos e a
preparação de uma cirurgia para a semana seguinte. Após todos estes afazeres, já
a noite havia irrompido as janelas, a médica regressou ao consultório a fim de
tratar de burocracias inerentes às suas funções. Estava tão compenetrada a
trabalhar que nem sequer se apercebeu que durante toda a tarde havia sido
seguida pela sua Interna. Perto das vinte e duas horas, Joana resolveu encher o
peito de coragem e entrar no gabinete da sua Orientadora sem sequer bater à
porta. Era a primeira vez que cometia tamanha ousadia.
- O que estás aqui a fazer? - Laura mostrou-se surpreendida com a presença da sua
Interna. - Já não devias ter saído?
- Vim cumprimentá-la! Ainda não nos tínhamos falado hoje.
- Vai para casa – a médica ordenou, voltando à escrita do seu relatório. – Qualquer
assunto que tenhas para falar comigo, utiliza o BIP.
- Soube que a Dr.ª fez anos hoje. É verdade?
Laura voltou a erguer a cabeça e viu um certo ar de deboche no rosto de Joana.
- Sim! É verdade! Porquê?
- Porque queria oferecer-lhe um presente – Joana retirou uma caixa amarela por
detrás das costas.
- Joana! Eu agradeço a tua simpatia, mas realmente não era preciso. Guarda o teu
presente e oferece-o a quem achares melhor.
- Pois eu tenho a certeza absoluta que a Dr.ª vai gostar do que guardei para si.
Joana depositou sobre a secretária a caixa que tinha nas mãos, e quando isso
aconteceu, Laura explodiu de raiva.
- Sai daqui – a médica ordenou.
- Não vai abrir!?
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- Já disse para saíres daqui.
- Pois se não quer abrir, eu abro.
Joana desembrulhou a caixa e retirou do seu interior um pequeno leitor de DVD
perante o olhar furioso da sua Orientadora. Não se deixou esmorecer. Sabia que se
o fizesse, provavelmente aquele seria o seu fim. – Gosta de cinema, Dr.ª?
- O que é que estás para aí a dizer?!
- Veja.
Joana ligou o DVD e colocou-o sobre a secretária diante do rosto estupefacto de
Laura. Ao ver aquelas imagens, a príncipio pouco nítidas, a médica levou
inconscientemente uma das mãos à boca sem querer acreditar no que estava a ver.
Não reconheceu a cena. Não se reconheceu a si própria e nem ao homem que
estava ali com ela, agarrando-a com força, chamando-a nomes inconcebíveis e
tomando-a nos braços como um louco. Por momentos, ela sentiu uma branca. O ar
esvaiu-se-lhe dos pulmões e os olhos lacrimejaram de terror. Quando o filme
terminou, ela ergueu o rosto e encontrou a expressão maléfica da sua Interna.
Como tinha ela conseguido aquela gravação?
- Tenho visto este vídeo todos os dias - Joana debruçou-se sobre a secretária e
mostrou um sorriso doentio nos lábios. - Vejo e revejo! Vejo e revejo...! Acho que
estou viciada...
- O que é que tu queres?!
- Eu? Eu não quero nada.
- Escuta aqui…
- Escute aqui você – Joana bateu a mão na mesa pronta a calar os argumentos da
sua Orientadora. Era a primeira vez que se atrevia a fazer algo semelhante e era a
primeira vez que Laura se via obrigada a obedecer. – Eu já ando a aturar essa sua
arrogância, esse seu nariz empinado, essa expressão irritante de quem tudo sabe
há muito tempo. Demasiado tempo para a minha paciência, se quer que lhe diga.
Por isso é bom que baixe o tom de voz e engula essa sua impáfia, como uma vez
me disse, porque agora quem dá as cartas nesta mesa sou eu…
Laura calou-se esmagada perante a evidência dos factos.
165
- O que é que queres? - a médica perguntou num tom humilde.
- É muito simples! Quero que seja minha Orientadora durante os seis anos que
durarem o meu Internato. Quero observar todas as suas cirurgias, participar nelas,
quero todos os seus conhecimentos, estudos de investigações e quero também ser
tratada como uma princesa aqui dentro, especialmente por si, é claro. Se for
nomeada Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica, quero também que me ajude a subir
nesta clínica como uma flecha. Quero que me leve ao topo junto consigo. Sabe, é
que eu não estou com muita paciência para esperar dez a vinte anos como você
esperou para chegar onde mereço. Preciso de um empurrãozinho e você é a pessoa
certa para me ajudar.
- E se eu não fizer o que me estás a pedir? - Laura engoliu seco.
- Se não fizer, este vídeo vai parar às mãos do director da clínica e também do seu
querido marido. Obviamente que nem preciso dizer que este DVD é apenas uma
cópia. Eu tenho várias muito bem guardadas. Assim, só por precaução, não sei se
me entende…
- Tu és demente.
- Não! Muito longe disso – Joana voltou a debruçar-se sobre a secretária da sua
Orientadora e mostrou finalmente a máscara com a qual se havia escondido
durante todos aqueles meses. - É a cadeia alimentar onde só os melhores
sobrevivem. Onde devemos aniquilar a concorrência sob pena de ela nos
aniquilar. Não era isso que a Dr.ª pretendia fazer comigo? Aniquilar-me!
- Eu não vou ceder às tuas chantagens.
- Então prefere o quê?! Perder o cargo que tanto ambiciona? A sua reputação aqui
dentro? Perder a sua melhor amiga? O seu marido e os seus filhos?! Dr.ª Laura!
Aquilo que lhe estou a pedir é muito pouco perto do valor do meu silêncio. E eu
não sei porque é que a Dr.ª me odeia tanto. Nós podíamos ser grandes amigas,
sabia?! Eu gosto de si, e sei que no fundo, a Dr.ª também gosta de mim. Para quê
andarmos sempre às turras uma com a outra? Porque não nos tornamos amigas?
Aliadas? Cúmplices? Eu podia ser bem mais sua amiga do que a Dr.ª Rita...
Laura disferiu um olhar de morte à sua Interna.
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- Vou voltar para casa tal como mandou! Mas na segunda espero ser chamada
para assistir à sua cirurgia.
Joana voltou-se para trás a poucos segundos de sair do consultório.
- A propósito - ela disse - Pode ficar com este DVD! Como já lhe tinha dito, é o seu
presente de aniversário...
Quando a porta se fechou com violência tremenda, Laura voltou a lançar os olhos
ao DVD portátil sobre a sua secretária. Quis destruí-lo, desesperar-se, espernear e
gritar. Mas não o fez. Em vez disso, continuou a olhar para o ecrã sem emitir
qualquer reacção até a tela se tornar numa enorme mancha negra. Quando não
conseguiu aguentar mais, chamou Joana em voz baixa, quase num tom de
murmuro: Filha da puta.
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18
A cirurgia estava marcada para as dezasseis horas. Um corpo de dois cirurgiões,
um médico assistente, duas enfermeiras e um anestesista deram entrada no bloco
operatório. A presidir a mesa de operações estava Laura Alves.
Concentrada para aquelas que iriam ser as próximas horas de trabalho, a médica
abriu os braços e permitiu que uma auxiliar de serviço lhe vestisse a bata,
apertando-a nas suas costas. Em seguida, aguardou que lhe fosse colocada uma
máscara facial e composta a toca na cabeça.
Completamente esterilizada, falou uma última vez com o anestesista destacado
para o caso e observou os exames realizados minutos antes. Tudo parecia estar a
postos e todos os intervenientes já se encontravam posicionados à volta da mesa
de operações aguardando que os ponteiros do relógio marcassem a hora exacta.
No entanto, a dois minutos do início, as portas automáticas do bloco operatório
voltaram a abrir-se trazendo uma figura que Laura infelizmente bem conhecia.
Joana Lima entrou no recinto e surpreendeu tudo e todos com a sua presença.
Devidamente equipada com uma máscara facial, a bata e as luvas esterilizadas, a
jovem Interna trocou um olhar intenso com a sua Orientadora. Não disseram
absolutamente nada uma à outra, mas ambas sabiam bem o porquê de Joana ali
estar.
- Obrigada por me ter chamado a assistir, Dr.ª Laura...
A médica ignorou-lhe o agradecimento e perguntou à sua equipa:
- Vamos começar?
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Os dias que se seguiram tornaram-se verdadeiramente infernais para Laura. Com
visitas constantes ao seu consultório, o atrevimento de sentar-se à sua mesa
durante o horário de almoço, as perseguições pelos corredores da clínica, as
indirectas e as chantagens, Joana tinha-se tornado de facto no seu pior pesadelo.
Não havia nada que Laura pudesse fazer para a tirar da sua vida ou fazê-la
desaparecer definitivamente. Por vezes, acordava assustada a meio da noite
pensando ter ouvido a voz da sua Interna durante o sono. Sentia-se sufocada,
asfixiada e a viver no fio da navalha até ao dia em que a insanidade de Joana
falasse mais alto e deitasse tudo a perder.
Naquela noite quente de final de Maio, Laura abriu os olhos a meio da noite e
deu-se de caras com o marido a dormir profundamente. Observou-o com atenção,
sabendo bem que ele não fazia a mínima ideia do que se estava a passar consigo.
Leonardo era demasiado puro para desconfiar dos graves erros que ela havia
cometido no passado. Erros esses que haviam voltado para a atormentar e que
agora começavam a consumir todas as suas forças.
Desesperada, ela levantou-se da cama e alcançou o seu robe sobre o cadeirão.
Necessitava urgentemente de encontrar um pouco de ar puro lá fora e pensar
melhor no que iria fazer dali por diante. Encontrar uma forma de afastar a sua
Interna de si ou pelo menos de ter um minuto de paz.
Quando desceu ao jardim das traseiras, sentou-se sobre o alpendre da marquise
da cozinha. Ficou ali durante muito tempo a olhar para a lua luminosa no céu. De
repente, duas lágrimas caíram-lhe no rosto e ela não viu outro remédio a não ser
ampará-las com as mãos e esconder a sua cabeça por entre as pernas. Estava tão
submersa em pensamentos, dúvidas e medos que nem sequer se apercebeu
quando Rufus, o cão da família, saiu da sua casota e se aproximou dela pronto a
lamber-lhe dedos das mãos.
- Meninos! Despachem-se! Já estamos atrasados para sair...
Leonardo chegou à cozinha com a pasta de trabalho e o casaco nas mãos. Eram
oito horas da manhã e os gémeos enredados numa preguiça matinal, esforçavam-
se por terminar o pequeno-almoço preparado pela nova empregada da casa.
Cereais frios e torradas queimadas, tornavam-se alimentos difíceis de degustar até
mesmo para o pai que amaldiçoava a infeliz ideia da mulher em ter despedido a
antiga empregada e contratado uma outra que desconhecia o significado do verbo
cozinhar.
Pouco tempo depois foi a vez de Laura descer ao primeiro piso. Veio com uma
expressão visivelmente cansada sem esconder que havia passado a noite inteira
em branco.
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Serviu-se de um café forte sobre a bancada da cozinha e lançou um olhar
aterrador à falta de jeito da empregada para abrir uma simples embalagem do
fiambre.
- Deixe estar! Eu ajudo-a - ela afirmou, retirando-lhe o produto das mãos e
levantando a ponta de uma só vez.
- Vais para a clínica agora? - Leonardo perguntou à mulher enquanto terminava o
seu café de pé.
- Sim - Laura mentiu. - Tenho de tratar de algumas burocracias antes de entrar de
plantão.
- Então nesse caso levo eu os miúdos à escola! Fica-me no caminho.
- Obrigada - Laura levou a embalagem de fiambre à mesa.
- Não quero mais - André resmungou, largando a torrada queimada sobre o prato.
- Eu também não - João aproveitou a deixa para também fazer o mesmo.
- Vamos lá então - Leonardo incentivou os filhos a levantarem-se da mesa. - Já
estamos atrasados. Vão buscar os casacos e as mochilas à sala que o pai vai tirar o
carro da garagem. Encontramo-nos no portão.
Leonardo, João e André saíram logo em seguida. Deixaram a casa vazia de vozes,
passos e confusão. Laura terminou o café em frente à janela da sala e observou o
BMW do marido abandonar a garagem e consequentemente os portões da
moradia. Mais um dia, tal como todos os outros. Um quotidiano que já fazia parte
das suas vidas e que iria continuar por muito tempo. Mas contrariamente ao que
dissera ao marido naquela manhã, Laura não tinha quaisquer intenções de tratar
de burocracias na clínica onde trabalhava. Mentiu. Como sempre. Como já vinha
fazendo nos últimos meses a fim de manter uma farsa muito bem montada.
- Antónia...
- Sim, D. Laura - a empregada deu um pulo quando a patroa entrou na cozinha
preparada para sair.
170
- Vou trabalhar e só volto à meia-noite! Os miúdos saem do colégio às cinco, por
isso, às quatro e cinquenta, tem que estar no portão. Apanhem um táxi para vir
para casa. Peça factura ao taxista e deixe-a em cima do microondas. Quando
chegarem, prepare o lanche, depois o banho e obrigue-os a fazer os trabalhos de
casa. Os dois dormem às nove, por isso, às oito o jantar tem que estar pronto.
Nessa altura provavelmente o meu marido já vai estar em casa. Assim que ele
chegar, a Antónia pode sair. Não se esqueça de deixar as chaves. Amanhã volte à
mesma hora...
- As crianças saem do colégio a que horas?!
Ao ver uma expressão tola no rosto da empregada, Laura chegou à conclusão que
tinha falado rápido demais e de que ela não havia percebido uma única palavra do
que dissera. Iria ser difícil mantê-la ali durante muito tempo. Já era uma senhora
portuguesa de meia-idade, mas não parecia ter qualquer experiência enquanto
empregada doméstica.
- Eu escrevo tudo num papel - Laura soltou um longo suspiro e largou a mala
sobre a mesa a fim de encontrar o seu bloco de notas.
O dia solarengo obrigou Laura a sair de casa apenas com um casaco de malha
preto, um top branco de alças e umas calças de ganga azuis conjugadas com
sabrinas castanhas. Assim que entrou no seu jipe, a médica enterrou os óculos de
sol nos cabelos presos por um rabo de cavalo. Fechou a porta e ajeitou o espelho
retrovisor. Sabia que tinha muito pouco tempo para chegar ao destino pretendido.
Três horas apenas antes do início do próximo turno.
Chegada ao centro da cidade, Laura enfrentou um trânsito infernal e também um
pequeno acidente na IC19. Nem as notícias da rádio conseguiram acalmar o seu
nervosismo e a vontade de fazer o que se propusera durante a noite anterior.
Passou horas a pensar, a reflectir, a tentar arranjar outras formas de solucionar a
grande embrulhada em que estava metida a sua vida. Mas nada surtiu efeito.
Após inúmeras voltas à sua própria cabeça chegou à conclusão que só uma pessoa
que a poderia ajudar. A mesma que lhe causou o problema.
- Surpresa - foi a primeira reacção do cunhado quando a viu sobre o alpendre da
sua porta. - Tu por aqui?
- Deixa-me entrar.
171
Laura não esperou a resposta. Decidida, desviou-se dos ombros de Ricardo e
entrou pelo apartamento adentro. Chegou à sala poucos segundos depois. Sentiu-
se incomodada por ali estar. Era como se já não pisasse aquela sala há milhares de
anos, mas ao mesmo tempo, tudo lhe continuava familiar. As estantes, a mesinha
no centro da sala, o sofá onde muitas vezes se deitou com o cunhado, a grande
enchente de livros e o saco de boxe que ele fazia questão de manter pendurado
junto à marquise da sala. De facto, nada mudara.
- O que é que estás aqui a fazer? Caiu algum santo do altar? - Ricardo perguntou
com algum sarcasmo quando também ele chegou à sala.
- Não estou com disposição para piadas. O assunto que me trás aqui é sério.
- Que assunto?!
Laura não respondeu. Em vez disso, retirou da sua mala um DVD portátil
pequeno e mostrou-o ao cunhado, dizendo: - Vê!
Enquanto observava com atenção cada imagem daquele pequeno filme de quinze
minutos, sentado no sofá da sala ao lado de Laura, Ricardo chegou à conclusão de
que a cunhada de facto não lhe havia mentido quando lhe dissera que o assunto
era sério.
- Quem filmou isto? - ele acendeu um cigarro perante o olhar aflito de Laura.
- A minha Interna! Uma espécie de estagiária que tive a infelicidade de aceitar no
início do ano. Ela sabe de tudo. Sabe que tivemos um caso, que tu és o irmão do
Leo e sabe também que andas com a Rita.
- O que é que ela quer?
- Chantagear-me, não vês?! Obrigar-me a continuar a ser a Orientadora dela.
- Então continua.
- Será que não entendes?! - Laura levantou-se bruscamente do sofá onde estava
sentada quando o fumo do cigarro do cunhado lhe atravessou a vista. - Essa
rapariga é louca! Ela está a transformar a minha vida num inferno dentro daquela
clínica. Se eu não fizer o que ela quer, ela vai contar tudo ao Leo e à Rita.
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- E o que é que tu queres? – Ricardo levantou-se igualmente e enfrentou o rosto
aflito da cunhada. – Aturar uma estúpida Interna ou estragar a tua carreira, perder
o teu marido e os teus filhos?!
A ver-se diante do maior dilema da sua vida, Laura desesperou-se e levou às
mãos à cabeça. Foi a primeira vez que derramou duas lágrimas de
arrependimento. Estava arrependida. Completamente arrependida por tudo o que
fizera e por se ver nas mãos de uma verdadeira psicopata.
- Joga o jogo dela.
Laura olhou para Ricardo, incrédula. – O quê?!
- Por enquanto! Faz com que ela pense que te tem na mão, e no momento certo,
puxas-lhe o tapete.
- Não estás a perceber...
- Não – Ricardo calou os argumentos de Laura. – Tu é que não estás a perceber.
Estás demasiado nervosa para pensar com clareza. Deixa a poeira baixar, e no
momento certo, descobrimos uma forma de nos livrar dessa miúda.
- Como assim?! O que é que queres dizer com isso?
- Eu vou falar com ela! Não te preocupes! Eu trato de tudo.
- Não quero que lhe faças mal.
- Eu não lhe vou fazer mal! Só vou falar com ela! O que é que pensas? Que a vou
matar?
- Espero bem que não.
Ricardo mexeu instintivamente nos cabelos de Laura enquanto mantinha o
cigarro entre os dedos. Foi por pouco que não lhe queimou o rosto ou que não lhe
incendiou os pulmões com aquele maldito odor a tabaco.
- Mas foi bom teres vindo - ele afirmou. - Há muito que não te via e já sentia
saudades tuas.
173
- Pára - ela afastou-o com as mãos.
- O que foi? Vais dizer que também não sentiste saudades minhas?
Laura bem quis responder que não, mas na altura os seus lábios emudeceram. Era
fraca. Impossível negar. Fraca por não conseguir resistir à respiração quente de
Ricardo no seu pescoço, aos seus lábios que lhe sussuravam palavras excitantes
aos ouvidos e ao calor do corpo dele perto do seu. Durante semanas, pensou que
se tinha livrado daquele desejo doentio. Mas ao ver-se ali, a escassos centímetros
da boca de um homem que continuava a provocar-lhe verdadeiros espasmos de
loucura, ela percebeu que não tinha como fugir.
Mesmo sabendo que Ricardo se encontrava com a sua melhor amiga, mesmo
ouvindo o discurso apaixonado de Rita sempre que esta se referia ao seu suposto
namorado, mesmo continuando a ser uma mulher casada e com filhos, mesmo
assim, para Laura era inimaginável esquivar-se àquele sentimento tóxico que o
cunhado lhe proporcionava. Tal como ele lhe dissera da última vez que estiveram
juntos, não era apenas sexo que a levava ao seu apartamento. Era bem mais do que
isso. Era a sensação de se sentir viva cada vez que ele a tocava, a beijava e
encontrava novas formas de a manter presa àquela relação doentia.
- Diz que sentiste saudades minhas!
Os dedos dele apertaram-se em torno de sua nuca e puxaram a sua cabeça em
direção ao rosto dele. Ouviu-a, ofegante, quando ele parou, apenas uma fracção de
segundos antes dos seus lábios se tocarem e de ele lhe transmitir o fumo que tinha
na boca. Ela tossiu. Os olhos ocuparam-lhe todo o campo de visão. Aquele verde
penetrante e desconfiado.
- Então?! Sentiste saudades minhas ou não?
- Senti - ela confessou, mordendo-lhe a maçã do rosto depois de um longo beijo de
língua. - Senti! Senti muitas saudades tuas.
- Eu também! Vem cá! Não fujas...
Laura não precisou ouvir mais nada para cair novamente nos braços do cunhado.
Beijou-o com sofreguidão, com desejo e com a certeza que de que estava
absolutamente louca por estar ali de novo, de volta ao ponto de partida. Ricardo
conseguiu esse feito. As mesmas palavras obscenas, a mesma voz rouca, o cheiro
intenso a tabaco.
174
Ela bem tentou. Seguramente que tentou, mas o desejo que ainda sentia por ele
era mil vezes mais forte do que a racionalidade mantida em todos os outros
aspectos da sua vida. Quando ele a levou para o quarto com as pernas envoltas na
sua cintura, Laura abandonou definitivamente o sentimento de culpa que por
momentos lhe assolou o coração.
Tentou também esquecer-se do marido, dos filhos e das chantagens da sua
Interna. Na verdade, todos aqueles detalhes pareceram insignificantes quando
Ricardo a deitou na cama e a despiu violentamente. Ela foi também tirando a
roupa dele sem pudores ou cerimónias. Fizeram amor com um ardor que até então
nunca haviam experimentado. Acariciaram-se mutuamente com avidez levando
toda a manhã sem pressas de acabar o que não queriam que acabasse.
- Temos que acabar com isto - ela disse quando os seus corpos sofreram algum
descanso sobre a cama.
Ricardo fez um gesto negativo com a cabeça e sorriu infantilmente.
- Não quero acabar com isto! Se acabarmos, fico triste...
- Então o que é que queres? Ficar comigo e com a Rita? - Laura lançou-lhe um
olhar desafiador.
- A Rita não se compara a ti! Nenhuma mulher se compara a ti...
- És tão mentiroso.
Enquanto conduzia em direcção à clínica, Laura manteve os olhos na estrada mas
não sabia direito para onde se estava a dirigir. Após ter passado várias semanas a
tentar livrar-se dos fantasmas que a atormentavam, ela voltou a cair na armadilha
de se deixar envolver novamente pelo cunhado. Nas suas palavras insidiosas,
gestos carinhosos e acções dúbias. Era difícil acreditar que ele apenas ficara em
Portugal por sua causa ou que pensava em si vinte e quatro horas por dia. Era
também difícil acreditar num homem que parecia carregar dentro de si todos os
mistérios do mundo e que jamais em tempo algum deixava escapar detalhes da
sua vida passada pudesse nutrir um sentimento verdadeiro por si.
Quem era ele, Laura perguntou-se a poucos minutos de abandonar o seu jipe no
parque de estacionamento da clínica. Quem era aquele ser que a intrigava cada vez
mais e a impelia a querer descobrir tudo sobre ele?
175
Rendida às suas dúvidas, Laura atravessou o parque em direcção às portas
automáticas da clínica. Entrou e assinou o livro de ponto na recepção sabendo bem
que estava duas horas atrasada.
Então uma voz irritante soou-lhe aos ouvidos. Ao virar-se para trás, ela soltou um
longo suspiro de resignação. Não havia forma de se ver livre daquela criatura
abominável.
- Precisava falar consigo, Dr.ª - Joana correu ao seu encontro - É sobre um paciente
que...
- Joana! Agora não tenho tempo. Fala com outro médico que esteja de serviço
porque tenho uma consulta daqui a quinze minutos.
- O assunto é sério! Acabou de dar entrada nas Urgências um paciente…
- Já disse para falares com outro médico de serviço – Laura caminhou apressada
em direcção ao elevador.
- Só preciso que a Dr.ª o examine! Acho que ele tem qualquer coisa estranha que
ainda não conseguimos descobrir o que é...
- Que coisa? - Laura perguntou, impaciente.
- Por vezes está calmo, sereno, mas cinco minutos depois começa a gritar, a falar
coisas sem sentido e a comportar-se como um louco. Mais tarde, quando volta ao
normal, não se lembra de nada e até fica surpreendido quando lhe é dito o que fez.
A mãe diz que esses sintomas começaram há mais ou menos uns dois meses, mas
que ela pensou que o filho talvez estivesse envolvido com drogas. Foi por isso que
ela o trouxe aqui para o hospital. Mas enquanto estavam à espera para serem
atendidos nas Urgências, ele foi à casa de banho e cortou-se com uma navalha…
- Cortou-se aqui dentro? – Laura voltou-se para Joana, surpresa.
- Sim! Mas já fizemos os curativos e realizámos testes para saber se ele estava sob o
efeito de estupefacientes.
- Os resultados? Quais foram?
- Negativos. Ele está totalmente limpo. Mas eu acho…
176
- O quê?
- Eu não quis dizer nada à frente da mãe, mas acho que estes sintomas estão
directamente ligados ao foro neurológico.
Ao ouvir o discurso de Joana, Laura deu-se por vencida e desconfiou
prontamente do que se estava a passar.
- Onde é que ele está?
- Venha comigo.
Laura e Joana entraram numa das salas da Enfermaria. A médica passou à frente e
apresentou-se à mãe do paciente. Examinou-o minuciosamente, dando especial
atenção ao interior dos olhos. Não precisou de muito esforço para chegar ao
diagnóstico, ainda que se tivesse recusado a revelar as suas desconfianças sem
antes efectuar exames mais precisos.
- Joana! Pede uma B.O - ela ordenou.
- É para já – a Interna saiu da Enfermaria a correr.
- O que é que o meu filho tem, Dr.ª? – a mãe do paciente mostrou-se aflita.
- Ainda não temos a certeza. Mas iremos realizar uma ressonância magnética para
tentar descobrir o porquê do seu filho se sentir tão irritado, cansado e difásico….
- Ele está doente da cabeça?
- Tal como lhe disse, ainda não temos a certeza de nada. Vamos aguardar o
resultado dos exames...
Enquanto conversava com a mãe daquele rapaz de dezasseis anos e lhe tentava
explicar que ainda era muito cedo para ditar prognósticos, tudo o que Laura não
contava era sentir uma valente pancada na cabeça oferecida pelo próprio paciente.
Morre, minha cabra, ele gritou completamente fora de si.
Por se encontrar de costas, a surpresa e a dor de Laura ainda foram maiores. Ao
sentir a violência da pancada, ela caiu no chão praticamente desmaiada e colocou-
se em posição fetal numa tentativa desesperada de proteger a sua cabeça e escapar
imune aos inúmeros pontapés arremessados pelo paciente.
177
Foram precisos alguns segundos para que vários enfermeiros e alguns seguranças
segurassem o jovem e o impedissem de espernear e gritar aos quatro ventos frases
estranhas e sem sentido. Toda a gente se mostrou estupefacta e o rapaz continuou
a gritar.
- Sente-se bem, Dr.ª Laura? – uma das enfermeiras de serviço ajudou a médica a
levantar-se do chão.
- Sim! Estou bem - Laura passou a mão pelos cabelos e viu nos dedos uma nódoa
de sangue. - Apliquem-lhe um sedativo - foi a última ordem dada por si a poucos
segundos de sair da Enfermaria.
- Já foi pedida a B.O - Joana voltou a interceptá-la perto do elevador. - Os
resultados devem sair dentro de uma hora.
- Assim que estiverem prontos, avisa-me.
- O que foi isso?
Joana bem tentou tocar nos cabelos manchados de sangue de Laura, mas quando
o fez, a médica desviou-se bruscamente das suas mãos, dizendo: - Não foi nada.
- A Dr.ª está a sangar.
- Já disse que não foi nada.
- Tudo bem - Joana acedeu. - Mas o que é que acha que ele tem?
- Pelos sintomas,tudo indica que esteja a sofrer de Hidrocefalia.
- Foi o que eu imaginei.
- Quando os resultados da B.O estiverem prontos, chama-me pelo BIP - Laura
entrou finalmente no elevador vazio.
- E se for mesmo Hidrocefalia?
- Se for, marcamos uma cirurgia de emergência para lhe colocarmos um desvio.
178
Ainda durante a viagem até ao seu consultório, Laura voltou a passar as mãos
pela nuca. Sentiu dores fortes, não só na cabeça, mas também em todo o corpo. A
violência daquele rapaz tinha-lhe ficado marcada e ela pôde ter essa certeza
quando levantou a sua camisola e se deparou com uma enorme nódoa negra na
zona do abdómen. Cabrão, chamou-o em voz baixa.
Rita Azevedo foi a única enfermeira de serviço que Laura ousou chamar ao seu
consultório para lhe fazer os curativos na nuca e também no abdómen. Não quis
que nenhum outro profissional na clínica a tocasse e nem permitiu que ninguém a
visse naquele estado verdadeiramente lastimável.
- Levaste umas boas cacetadas desse rapaz, não haja dúvida - Rita terminou de
enfaixar a cintura fina de Laura com uma ligadura especial para o efeito. - Tens a
certeza que não queres fazer um Raio X só para saber se está tudo bem?
- Está tudo bem, não te preocupes.
- Nesta clínica só aparecem doidos.
- Deve ser castigo – Laura murmurou sem pensar.
- Castigo porquê?!
- Por nada! Esquece! Só estava a pensar alto...
Após a confirmação de que o paciente sofria realmente de Hidrocefalia, Laura e a
restante equipa médica procederam a uma cirurgia de emergência a fim de colocar
um desvio ao paciente. Um procedimento simples que não demorou quatro horas
sequer. Terminada a operação, Laura desfez-se das luvas sujas de sangue e
abandonou o bloco operatório ainda a sentir fortes dores no corpo e algumas
dificuldades na respiração.
Joana observou-a de longe, mas não foi capaz de a seguir pelos corredores.
Naquela noite, deu-se por vencida e foi para casa mais cedo sem passar primeiro
pelo consultório da sua Orientadora. Quando saiu à rua, a temperatura estava
amena. O vento soprava fraco e céu estava cheio de estrelas, denunciando o bom
tempo para os próximos dias.
Joana caminhou calmamente em direcção ao seu carro estacionado a poucos
metros da clínica. Nas mãos, levou um conjunto de livros, pastas e cadernos.
Depositou-os no banco de trás. Livrou-se igualmente do seu casaco de ganga e da
sua mala a tiracolo. Abriu a porta e entrou no lugar do condutor decidida a dar
por terminado mais um dia de trabalho. No entanto, não foi isso que aconteceu.
179
Quando ia a arrancar o carro, um vulto estranho abriu a porta e entrou sem
cerimónias no lugar do passageiro. Ela apanhou um susto de morte.
- O que é que...
- Arranca e já falamos!
Joana hesitou.
- Arranca!
O berro de Ricardo fê-la estremecer, mas ainda assim, Joana não teve outra
alternativa a não ser acatar as suas ordens. Sentiu-se receosa por ver aquele
homem tão perto de si, pelo seu cheiro tóxico a tabaco e pelo seu ar maléfico. Por
momentos temeu inclusive pela sua vida. O que ele iria fazer consigo, perguntou-se
em silêncio enquanto conduzia o veículo rumo a uma rua deserta escolhida por
ele.
Minutos depois, Ricardo obrigou-a parar o carro e a desligar as luzes. Acendeu
um cigarro e fumou a primeira passa com toda a calma do mundo enquanto o
coração de Joana saltava pela boca e as suas mãos tremiam em cima do volante.
Um grupo de jovens passou por ali e ela pensou em gritar a fim de pedir ajuda.
Contudo, achou melhor não fazê-lo. Temeu pela vida.
- O que é que você quer? - ela perguntou, amedrontada.
- Antes de mais, elogiar-te pelo excelente filme que fizeste.
- Acho melhor sair do meu carro senão eu vou gritar...
- Cala a boca e ouve-me – Ricardo espremeu queixo da jovem com força e
encostou-lhe a ponta do cigarro ao rosto. – Ouve bem o que te digo e mete isso
nessa tua cabecinha esperta! Se te voltares a meter no meu caminho ou no caminho
da Laura, eu volto outra vez àquela clínica e acabo com a tua raça, ouviste bem?!
Tão fácil que até podia ser com isto...
Os olhos de Joana lacrimejaram de medo quando viram o cigarro demasiado
perto de si.
- Mato-te e nunca mais ninguém encontra o teu corpo!
180
Laura regressou a casa perto da uma da manhã. Deixou a mala no bengaleiro e
desfez-se do seu casaco de malha. Enquanto o fazia, novas dores voltaram a
atormentá-la. Nem se podia mexer. Não conseguia respirar sequer. Mas fez um
esforço sobre humano para subir ao quarto, subindo degrau a degrau, com uma
das mãos apoiada ao corrimão das escadas, ansiando encontrar um local plano
onde se pudesse deitar e esquecer-se de um dos dias mais terríveis da sua vida.
Quando chegou ao piso superior, quase por instinto, passou pelo quarto dos
filhos e viu-os a dormir como dois anjos. Voltou a fechar a porta e seguiu até ao
fundo do corredor. A luz acesa do candeeiro alertou-a para o facto do marido
ainda estar acordado no quarto que partilhavam.
- Já chegaste? - Leonardo perguntou, ajeitando os óculos de leitura no rosto
enquanto analisava alguns documentos sobre a cama.
- Sim...
Laura tentou sentar-se no cadeirão junto à cómoda a fim de descalçar os sapatos,
mas quando o fez, soltou um gemido abafado.
- O que foi? - o marido perguntou, preocupado.
- Nada! Só tive uns problemas hoje na clínica.
- O que é que aconteceu?
- Um paciente! Estava alterado e acabou por me dar uma paulada na cabeça,
vários socos e pontapés.
- Estás a brincar?!
Leonardo levantou-se bruscamente da cama e correu em direcção à mulher. Viu-
lhe um penso atrás da nuca e logo em seguida uma ligadura à volta da zona do
abdómen. Além disso, também eram visíveis algumas nódoas negras nos braços e
nas pernas.
- Estás bem?! - ele agachou-se perante ela e tomou-lhe o rosto com as mãos.
- Sim, agora estou.
- Devias processar esse maluco! Ele espancou-te...
181
- A culpa não foi dele, Leo.
Laura conseguiu a muito custo levantar-se do cadeirão e encontrar a sua camisa
de dormir no roupeiro. Ao vê-la de costas, vestida apenas de cuecas e soutien
enquanto se esforçava para vestir a combinação de dormir, Leonardo aproximou-
se dela e ofereceu-lhe um beijo carinhoso nos ombros. Afagou-lhe os cabelos e
voltou a beijá-la no pescoço.
- Queres que te prepare alguma coisa para comer? Já jantaste?
- Não tenho fome - ela sorriu. - Só quero mesmo é dormir e esquecer este dia.
- Vou começar a ir a essa clínica para servir como teu guarda-costas - a afirmação
de Leonardo provocou um ligeiro sorriso no rosto de Laura.
- És louco - ela observou-o com um carinho especial.
- Não gosto de te ver neste estado.
- Eu sei - Laura acariciou o rosto do marido e beijou-o nos lábios. - Mas não te
preocupes! Está tudo bem...
Algum tempo depois, Laura e Leonardo apagaram a luz e enfiaram-se na cama,
abraçados. Ela adorou ficar assim. Ali, no meio daquele quarto grandioso às
escuras, os braços do marido mantiveram-na segura como se nada ou ninguém lhe
pudesse fazer mal. Quando deu por si, já estava a dormir. Foi a primeira vez desde
o início do ano que conseguiu dormir oito horas seguidas.
182
19
Era o início do Verão e a temperatura exterior há muito que havia atingido os
vinte e sete graus centígrados denunciando um dia de extremo calor. Ricardo
acordou, tomou um banho, barbeou-se rapidamente e seguiu até à cozinha a fim
de preparar um café forte. Fumou o primeiro cigarro do dia e dez minutos depois
ouviu a campainha tocar. Era ela. Aproximaram-se e beijaram-se na cara. Um
cumprimento ao qual não estavam habituados, mas que trouxe um certo clima de
erotismo. Ricardo reparou então no elegante vestido preto que Laura trazia e nos
sapatos de salto alto clássicos. O vestido era sóbrio, mas muito feminino e, tal
como ela, de beleza subtil. Nas mãos, Laura usava apenas a aliança de casamento e
nas orelhas um par de pequenos brincos de pérola. No rosto, nem sequer uma
ponta de maquilhagem. Ninguém diria que uma mulher que se arranjasse tão
pouco poderia parecer tão bem.
- Bom dia, Dr.ª Laura!
- Bom dia, Sr.º Ricardo! Trouxe-lhe croissants - ela correspondeu à brincadeira,
erguendo um pequeno embrulho muito bem arranjado.
- Por favor, faça o favor de entrar! Tomamos o pequeno-almoço juntos?
Não fizeram amor naquela manhã. Em vez disso, sentaram-se à mesa da cozinha
e degustaram uma refeição improvisada. Croissants trazidos da rua, compota de
frutos silvestres, leite e café. A primeira refeição partilhada sem segundas
intenções. Tinham combinado passar a manhã juntos antes de Laura ir trabalhar
na clínica e a promessa silenciosa de Ricardo de não a tocar manteve-se intacta.
183
Conversaram sobre tudo. O trabalho. As crianças. Sonhos. Projectos. Futuros
distantes. Ricardo confessou que não sabia se iria ficar em Portugal por muito
mais tempo pois sentia-se aborrecido por viver num país onde o metro terminava
à uma da manhã, onde os bares e os restaurantes não traziam nada de novo e onde
não existia mais nada para fazer além dos seus treinos de boxe. Fazia-lhe falta
regressar ao trabalho, à sua rotina diária e ao stress que a cidade de Nova Iorque
proporcionava aos seus habitantes. Numa brincadeira sem sentido convidou
Laura a juntar-se a ele. Tiravas umas férias e ias lá ter comigo, disse-lhe jocosamente.
A médica apenas sorriu, mas foi incapaz de fazer muito mais. Ambos sabiam bem
que isso seria impossível.
Despediram-se perto do meio-dia com um longo beijo junto à porta. Ricardo
acariciou-lhe a face rosada e os cabelos soltos, observou-a com respeito, admiração
e desejo. Ela passou-lhe as mãos pela barba aparada e pela nuca, ensaiando um
novo beijo que nunca se chegou a concretizar. Quando tentou sair pela porta, ele
puxou-a de novo para si e tomou-lhe a cintura fina, sentindo-lhe os ossos atrás das
costas.
- Adoro-te - disse.
Ela sorriu perante tal confissão. - Eu também.
À medida que o tempo passava, Laura atormentava-se com o fato de não
conseguir deixar de ver Ricardo. Sentia uma enorme vontade de o fazer, mas não
tinha forças para isso. Sempre que pensava em afastá-lo da sua vida ou nunca
mais responder a nenhum telefonema seu sofria um aperto no coração. E com isso
passaram-se seis meses desde a primeira noite em que fizeram amor.
Um caso que tinha pouquíssimas chances de sobreviver ao tempo tornou-se numa
relação cúmplice que crescia de intensidade a cada dia. Os telefonemas duravam
horas e aconteciam quase sempre ao final da noite quando Laura se trancava no
escritório. Os encontros curiosamente deixaram de ser somente para fazer sexo e
as conversas aprofundaram-se de maneira tal, ao ponto de Ricardo contar aspectos
privados da sua vida como o facto de ter vivido alguns meses nas ruas de Paris e
de ter passado fome sem ninguém que o pudesse ajudar. Contou-lhe também a
experiência negativa que tivera no mundo das drogas e a decisão drástica de
deixar a cocaína quando sofreu uma overdose. Desde essa altura nunca mais tocou
numa única grama daquilo que considerava ser uma arma em pó.
Talvez Laura devesse ter ficado perplêxa com a confissão, mas a verdade é que as
palavras do cunhado apenas serviram para que ela o admirasse ainda mais. Agora
entendia o porquê do seu jeito frio e distante. Da dureza presente nos seus olhos e
gestos. Havia um significado especial que ela entendia como ninguém.
184
Ricardo era o oposto de Leonardo em todos os sentidos, apesar de serem irmãos.
O primeiro, dono de uma personalidade forte e vincada, perdera o encanto pela
vida quando criança e nunca foi capaz de se recuperar da morte dos pais. Fechou-
se a sete copas para o mundo culpabilizando tudo e todos. Simplesmente deixou
de acreditar na bondade humana.
O segundo, pelo contrário, superou a tragédia e nunca perdeu o brilho nos olhos.
Formou-se, casou-se, teve filhos. Fez tudo o que estava ao seu alcance para
recuperar a família que acidentalmente perdeu. A mulher e os filhos eram o pilar
que sustentavam toda a sua existência e ele não conseguia imaginar-se sem eles.
Talvez fosse errado depositar todas suas expectativas em três seres humanos que
não eram mais do que isso mesmo. Humanos. Mas para ele, não havia nada mais
maravilhoso do que chegar a casa ao final do dia, deparar-se com a mesa posta por
Laura e as crianças a brincar na sala. Não havia também nada melhor do que
passar os fins-de-semana sem qualquer compromisso na agenda, esparramado no
sofá, a ler um livro, enquanto ouvia o movimento das pessoas que amava à sua
volta.
Em alturas de puro lazer, João e André corriam animados pela casa na companhia
de Rufus, subindo e descendo as escadas a uma velocidade fantasmagórica sem
ligarem aos avisos da mãe para que parassem quietos. A empregada arrumava a
cozinha, aspirava a sala e os quartos. Laura preparava o almoço e estendia a roupa
no jardim das traseiras, ignorando o calor infernal que se fazia sentir na primeira
semana de Julho.
Faltava pouco tempo para o início das férias e as crianças começavam a ficar
empolgadas para viajar com os pais. Leonardo pensou em tudo. Alugou uma casa
de férias no Algarve, afastada do centro da cidade, a poucos metros da praia,
contando passar as quatro semanas de Agosto numa calmaria total em contraste
com a vida frenética que levava em Lisboa.
Todos os anos o plano se repetia - daí a pouca surpresa de Laura quando o
marido confirmou o aluguer da casa. Há quatro anos que viajavam para o sul do
país, passando os dias junto ao mar e as noites na varanda da moradia a contar as
estrelas no céu e as horas de se irem deitar com a nítida certeza de que iriam
repetir as mesmas acções no dia seguinte. Tão previsível. Tão monótono.
A vontade de partir de férias era nula. Laura preferia mil vezes continuar a
trabalhar na clínica ou quem sabe escapulir-se durante alguns dias na companhia
do cunhado. Um tour pela Europa só com uma mochila às costas, ele convidou-a a
fazer isso. Ao sonhar com essa possibilidade enquanto estendia a roupa no jardim,
um sorriso malicioso atravessou o rosto de Laura. Eram sonhos, ela sabia.
Malucos. Ideias abstractas sem qualquer valor quando confrontadas com a dura
realidade de ser uma mulher casada e mãe de duas crianças que exigiam de si toda
a responsabilidade e atenção.
185
- Mãe! Olha o Rufus - João saiu ao jardim segurando o cão da família pelas patas
dianteiras enquanto o obrigava a andar com as traseiras. - Olha ele a andar!
Laura sorriu perante a inocência do filho e continuou a estender calmamente a
roupa no varal.
- Estás a magoá-lo - ela avisou.
- Não estou nada! Anda, Rufus! Anda...!
O cão latiu ruidosamente, aflito que por se ver a fazer algo que a natureza não lhe
permitia.
- Deixa-o - André saiu também ao jardim e retirou o animal dos braços do irmão.
- Oh, mãe! Olha o André - João protestou.
- Ele não sabe andar, não vês? - André puxou o cão para junto de si.
- Dá-mo!
- Não.
- Dá-me o Rufus!
- Não - André enfrentou o olhar furioso do irmão. - Ele é meu.
- Não! Ele é meu.
- Ele não é de ninguém - Laura apartou prontamente a discussão dos filhos
enquanto lutavam pela posse do animal. - Larguem-no! Agora!
Rufus agradeceu a intervenção de Laura. Assim que se viu livre das garras dos
gémeos, afastou-se rapidamente e correu em direcção à sua casota, enfiando-se lá
dentro com um olhar assustado.
- Estúpido - André insultou o irmão com uma expressão de ódio.
- Acabou, já disse - a mãe tomou-lhe o braço com força. - E não voltes a falar assim
ao teu irmão! Pede desculpas!
186
André demorou algum tempo a acatar a ordem da mãe. - Desculpa!
- Lá para dentro os dois que já é hora do almoço - Laura apontou o dedo em
direcção à marquise da cozinha.
A tarde irrompeu as janelas. Enquanto Laura estudava alguns relatórios e livros
médicos sobre a mesa, indiferente à presença do marido, a empregada despediu-se
com a promessa de voltar na manhã seguinte à mesma hora. Leonardo
encontrava-se no sofá a ver um filme repleto de tiros e explosões, num escape
perfeito à necessidade de ter que pensar durante duas horas. Fez um zapping pelos
canais de televisão e acabou a assistir um jogo de futebol sem importância.
Enquanto isso, os filhos brincavam no jardim frontal da casa na companhia de
Rufus. A paz parecia restaurada entre eles e a rotina também.
- Vou lanchar! Queres que te traga alguma coisa da cozinha? - Leonardo colocou-
se atrás da mulher e roubou-lhe um beijo no pescoço.
- Não - Laura manteve-se atenta aos relatórios que estava a ler. - Não tenho fome.
Mas obrigada na mesma.
- Vou chamar os miúdos para ver se querem comer alguma coisa.
- O.k.
- Até já - Leonardo voltou a roubar mais um beijo à mulher. Desta vez, nos lábios.
- Até já - ela respondeu sem entusiasmo.
O domingo terminou com uma estranha mudança climatérica. Perto das sete, o
céu azul transformou-se numa enorme plataforma cinzenta de nuvens adensadas.
A temperatura desceu drasticamente, motivo pelo qual Leonardo subiu ao piso
dos quartos a fim de encontrar a sua camisola de malha cinzenta numa das
gavetas da cómoda. Quando desceu ao primeiro piso, a mulher saiu à rua decidida
a terminar com a brincadeira dos filhos.
Apesar de terem passado a tarde inteira a correr e a saltar, João e André pareciam
duas fontes inesgotáveis de energia. Laura não se lembrava de ter sido uma
criança assim. Não se lembrava de correr, saltar à corda, rir-se às gargalhadas ou
até mesmo ter um animal de estimação que pudesse chamar de seu. A mãe sempre
lhe proíbira estas regalias.
187
- Vamos! Já são horas de entrar lá para dentro! Daqui a pouco começa a chover...
- Ainda é cedo - André protestou.
- Não vou repetir uma segunda vez! Os dois lá para dentro agora...
Os gémeos não viram outro remédio a não ser obedecer às ordens da mãe.
Passaram por ela, cabisbaixos. Laura percebeu que um deles se encontrava a
comer um pacote de gomas.
- Onde é que arranjaste isso?
- Aquela senhora ali é que nos deu...
João apontou em direcção a um automóvel cinzento estacionado no outro lado da
rua a poucos metros do portão de casa. E por instantes, enquanto os seus olhos se
mostravam incrédulos perante a realidade dos factos, Laura sentiu um estranho
arrepio percorrer-lhe todas as veias do corpo.
A expressão facial de Joana era verdadeiramente aterradora assim como o sorriso
que esboçou de longe a poucos segundos de arrancar o carro. Desapareceu da rua
deserta. Desapareceu sem deixar rastro, mas atrás de si deixou vestígios de
desconfiança, medo e temor. Como descobriu onde morava? Como descobriu quem eram
os seus filhos? Laura perguntou-se em silêncio.
- Venham!
A médica levou os filhos pela mão, atirando para o saco de lixo a embalagem de
gomas que Joana muito gentilmente oferecera às suas crianças.
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20
Partiram na primeira semana de Agosto rumo ao Algarve para passar umas
merecidas férias de Verão. Alugaram a mesma casa de férias e prepararam todos
os detalhes da viagem com a devida antecedência. As crianças encontravam-se
animadíssimas com a ideia de passarem quatro semanas na companhia dos pais
sem terem que ir ao colégio. Leonardo preparou a sua cana de pesca e a máquina
de filmar. E até Laura, pouco dada a descansos, prometeu desligar o telefone e só
pensar no trabalho quando regressassem a Lisboa.
Leonardo estacionou o carro em frente à moradia alugada ao início da tarde e
permitiu que os filhos e o cão da família fossem os primeiros a saltar do banco de
trás. Fazia um calor de quase quarenta graus e ao longe ouvia-se o barulho das
ondas do mar a bater nas rochas. Na rua, nem um única pessoa. Era uma zona
afastada da grande cidade, propícia ao descanso, onde os vizinhos se remetiam às
suas casas recusando-se a manter qualquer contacto com o mundo exterior.
Quando chegaram ao local, Leonardo e Laura levaram as bagagens para o interior
de uma casa que tão bem conheciam. O arquitecto falava muitas vezes em comprá-
la e fazer nela uma enorme remodelação. A mulher, por sua vez, sempre o
impediu de cometer tal acto dizendo que não valia o sacrifício e de que um dia se
poderiam arrepender de adquirir uma casa onde só passavam as férias de Verão.
Leonardo sonhava um dia fazê-la mudar de ideias.
A habitação era enorme. Possuía um jardim à volta, três quartos ensolarados, uma
cozinha que dava acesso directo ao quintal das traseiras e uma sala com uma
varanda onde se podia apreciar a vista fantástica sobre a praia situada a poucos
metros de distância. Durante a noite a vista tornava-se ainda melhor.
A altura propícia para Leonardo grelhar o peixe na companhia da mulher
enquanto as crianças se divertiam a correr à volta da mesa.
189
Em alturas similares, Laura sentia como se nada tivesse mudado. As crianças
cresciam felizes, o marido esmerava-se nos grelhados superando-se a cada dia e
ela deixava-se envolver por um certo sentimento de pertença àquelas três pessoas
que faziam parte da sua vida.
- Cheira bem – Laura abraçou o marido pela cintura.
- E sabe melhor ainda.
O sorriso carinhoso de Leonardo enquanto segurava um garfo de metal nas mãos
incitou Laura a encontrar-lhe os lábios e a deliciar-se com aquela sensação de
calmaria instalada nas suas vidas. Era a primeira vez desde o início do ano que ela
e Leonardo se atreviam a passar noites inteiras a conversar sem olhar para o
relógio ou preocupados em acordar as crianças de manhã. Os telemóveis
desligados assinalavam também a vontade de se esconderem do mundo exterior.
Ali, naquela magnífica casa de férias onde todos os anos se repetia aquele cenário
paradísiaco, não havia espaço para problemas ou sentimentos negativos. Não
havia espaço para que Laura se lembrasse da promessa que fizera ao cunhado de
voltar para os seus braços assim que regressasse a Lisboa ou até mesmo das
perseguições e chantagens de que era alvo por parte da sua Interna na clínica onde
trabalhava. Ali, ela sentia-se livre, pura e honesta.
- Nem acredito que te estou a ver assim...
Leonardo observou Laura no quintal das traseiras, descalça, completamente
esparramada na espreguiçadeira, trazendo apenas um vestido de alças preto no
corpo e uma taça de vinho nas mãos oferecida por ele momentos antes.
- Vem – ela estendeu-lhe o braço.
Leonardo não precisou de outro convite para se sentar em frente à mulher com
uma expressão embevecida. Observou-a com atenção, a forma como ela bebia o
vinho, mexia nos cabelos e tocava a ponta dos pés na sua perna insinuando-se com
um simples olhar. Era bela. A mulher mais bonita do mundo e a única capaz de o
deixar assim. Completamente desarmado.
- A casa fica silenciosa quando os miúdos estão a dormir – Leonardo passou as
mãos pelas pernas sedosas de Laura.
- E isso não é bom?!
190
- Quase sempre – os dois riram-se, baixinho. – Mas confesso que sem eles a nossa
vida seria um tédio.
- Tens razão – Laura voltou a enterrar os lábios na sua taça de vinho.
Ouviu-se um longo silêncio. Leonardo continuou a acariciar as pernas da mulher
e ela bebeu o resto da bebida que tinha no copo. Ficaram um longo tempo a olhar
um para o outro, analisando-se mutuamente, quem sabe à procura de sentimentos
que se foram perdendo ao longo do tempo. Doze anos não eram doze dias, chegaram
os dois a essa conclusão.
- Posso fazer-te uma pergunta? - Leonardo continuou a tocá-la nas pernas.
- Claro.
- És feliz no nosso casamento?
A pergunta do marido tomou Laura de assalto. Era a primeira vez que ele
perguntava algo semelhante.
- Sou - ela sorriu nervosamente, após um ligeiro momento de pausa. - Claro que
sou.
- Não te falta nada?
- Não – a voz da médica saiu rouca.
- E o sexo?
- O que é que tem o sexo?!
- O sexo entre nós. É bom?
As perguntas e as inseguranças do marido deixaram Laura sem saber o que
responder. Levaram-na inclusive a pensar se ele não estaria a desconfiar de
alguma coisa.
- O sexo é bom.
- Bom, mas não é espectacular - Leonardo observou-a, desconfiado.
191
- Bom e espectacular – Laura corrigiu e atreveu-se a sentar-se sobre o colo de
Leonardo. Mais tarde, alcançou-lhe a mão direita e colocou-a sobre um dos seus
seios, dizendo. – Eu quero-te…! Muito...
A sensação de fazer amor com o seu marido não se aproximava nem de perto,
nem de longe à excitação de ter sexo com o cunhado. Mas ainda assim, quando
Leonardo a teve naquela espreguiçadeira desconfortável, Laura percebeu que
ainda continuava a desejá-lo da mesma forma. Talvez fosse estranho sentir-se
assim. Gostar de fazer amor com dois homens diferentes. Gostar que eles a
tocassem e que a beijassem de formas diferentes. Talvez não fosse ético da sua
parte, mas a verdade é que não lhe fazia confusão nenhuma deitar-se com dois
homens distintos e sentir a mesma excitação por eles. Com Ricardo era fogo,
desejo, paixão, luxúria. Com o marido, carinho, amor e cumplicidade. Ela tinha o
melhor dos dois mundos.
Enredados num ambiente idílico de férias, os dias de Leonardo, Laura e os filhos
eram inteiramente passados à beira mar. De manhã era usual irem à praia,
passando ali a maior parte do tempo. Não havia pressas de regressar a casa. Tudo
era calmo e pacífico. As crianças corriam desenfreadamente ao longo do areal
tentando esquivar-se dos avanços de Rufus, que divertido, os fazia cair e lhes
lambia os corpos desnudos.
De longe, o pai filmava a cena com a nova câmera comprada sem nunca perder de
vista um único movimento dos filhos. Adorava vê-los assim. Estavam a crescer a
cada dia, a tornarem-se dois rapazes fortes, inteligentes e com uma vivacidade
extrema no olhar. Seriam altos, tal como ele e Laura. Mas o sorriso radiante, os
cabelos arrepiados e os olhos castanhos profundos, eram seus. Fisicamente eram
uma cópia sua de quando criança. Havia fotografias a confirmar essa teoria.
Talvez por serem rapazes, da mãe pouco ou nada tinham. O sorriso de Laura era
tímido e seco. Os cabelos eram lisos e volumosos - agora bastante mais claros
devido à excessiva exposição ao sol - e os olhos possuíam um tom esverdeado
cristalino.
Leonardo pôde observar todos estes os traços físicos quando voltou a câmera em
direcção à mulher. Encontrou-a concentrada na leitura de um livro que trouxera
de Lisboa.
Laura detestava o sol e o calor mas fazia um esforço sobre humano para aguentar
as altas temperaturas. Ao meio dia, a pele excessivamente clara tomava uma
tonalidade vermelha fazendo-lhe pequenas manchas e borbulhas ao longo das
pernas, barriga e braços.
Enquanto percorria a câmera pelo corpo esbelto da mulher coberto apenas por um
bikini preto discreto, Leonardo deliciou-se em segredo com a imagem exposta na
tela. Sorriu ao fazer um "zoom" nos seios de Laura, mas foi incapaz de denunciar o
192
seu atrevimento durante vários segundos até ela o surpreender com a máquina
apontada para si. Sem dizer nada ela sorriu. Afrouxou os óculos de sol e deitou a
língua de fora num gesto igualmente atrevido e sensual.
Leonardo continuou a filmá-la. Laura levantou-se da espreguiçadeira e caminhou
em direcção à água, ajeitando o bikini preto na zona das nádegas. O marido
registou a perfeição do seu corpo e a forma como levou os filhos em cada uma das
mãos. Entraram juntos na água e ela brincou com eles. Ajudou-os a boiar, livrou-
os de algumas ondas perigosas e permitiu que eles corressem atrás de si numa
brincadeira sem sentido, partilhada até mesmo por Rufus, o cão da família.
Era a primeira vez que Leonardo a via tão natural. De longe, ouviu-lhe as
gargalhadas e a expressão de felicidade estampada no rosto sem imaginar que o
seu telemóvel vibrava incessantemente sobre a espreguiçadeira onde ela havia
deixado os seus pertences. Leonardo esticou um dos braços e alcançou o aparelho
num gesto instintivo como se estivesse a atender o próprio telemóvel. Viu a letra R
no visor, mas ninguém respondeu. A chamada foi imediatamente desligada assim
que o remetente lhe reconheceu a voz.
João e André adormeceram, exaustos, após o jantar. O dia repleto de correrias e
brincadeiras na praia deixou-lhes poucas energias para que pudessem desfrutar
do resto da noite na companhia dos pais. Coube a Laura e Leonardo a tarefa de os
levar ao quarto e de os pôr na cama. Quando saíram, desligaram a luz e
encostaram a porta.
Leonardo foi o primeiro a chegar ao quarto que partilhava com a mulher naquela
casa de férias. Destendeu os lençóis da cama e atirou as almofadas ao chão. Atrás
da porta, ouviu o barulho do chuveiro da casa de banho. Laura tomava o último
banho da noite e ele imaginou-a no interior da cabina completamente nua. Sorriu
sem querer.
Pouco tempo depois, refugiou-se na cama e levou a máquina de filmar nas mãos
com o intuíto de fazer alguns ajustes à cor e ao som. Quando a mulher entrou no
quarto, ergueu a câmera e viu-a novamente através da tela, vestida com a sua
habitual combinação de dormir preta e com os cabelos molhados a caírem-lhe
sobre os ombros. Estava especialmente bonita naquela noite ainda que não tivesse
feito esforço nenhum para isso.
- Não te cansas? - ela perguntou, abrindo uma das gavetas da cómoda, sem ligar às
filmagens do marido.
- Estava aqui a ver se acertava uma coisa - Leonardo premiu um botão e ajustou a
lente da câmera. - Não sei porquê, mas esta máquina é meio estranha. Não consigo
focar a imagem como deve ser. Sai tudo azulado...
193
Laura sorriu, mas não respondeu nada. Sentiu-se incapaz de o fazer. Estava
demasiado cansada. A única coisa que desejava na altura era cair na cama e
dormir.
- Espera - a voz do marido captou-lhe a atenção. - Acho que agora estou a
conseguir. Espera! Espera...
- Leo! Desliga isso! Já é tarde! Vamos dormir.
- Só mais um pouco a ver se isto melhora.
A imagem do rosto de Laura saiu pela primeira vez nítida na tela de imagem, e ao
vê-la, Leonardo soltou um largo sorriso como se tivesse atingido uma grande
vitória. Tinha passado horas a tentar ajustar a máquina, lendo e relendo o manual
de instruções e no momento em que estava quase a desistir o milagre aconteceu.
Ali estava a mulher, nítida aos seus olhos, a passar um creme pelo rosto e pelos
braços. Leonardo fez um novo "zoom" e viu-a mais detalhadamente. Em seguida,
aguardou que ela largasse o creme sobre a cómoda e seguisse em direcção à cama.
Nunca a perdeu de vista. Laura sorriu e tapou o rosto com as mãos. Não faças isso,
ele pediu. Num gesto provocatório, ela arrastou-se pela cama de gatas e manteve-
se à frente da lente permitindo que o marido lhe filmasse o rosto desprovido de
maquilhagem. Desfez-se de uma das alças da sua combinação de dormir.
Leonardo soltou uma alegre gargalhada e ela franziu o sobre olho como se o
quisesse atiçar.
- Espera! Deixa-me desligar isto - Leonardo tentou controlar o ímpeto de Laura em
beijá-lo por todo o rosto. - E deixa-me trancar a porta também...
- Esquece a porta.
- Não...! Espera!
- Ninguém vai aparecer.
- Os miúdos, já te esqueceste?! Queres que fiquem traumatizados?
Leonardo riu-se sozinho e correu a fechar a porta à chave. Nunca se sabia se um
dos filhos não apareceria por ali - sobretudo João - que acordava muitas vezes ao
longo da noite pedindo que alguém o ajudasse a fazer chichi, beber água e que o
tapasse depois. Mas com a porta fechada à chave o quarto era só deles.
194
Laura soltou um longo suspiro quando o marido lhe retirou a combinação de
dormir. Deixou-se beijar por ele com vontade. Permitiu que ele lhe sugasse os
seios com voracidade, que lhe mordesse os ombros e o pescoço. Engoliu a sua
boca, tomou-lhe a nuca com as mãos e manteve-se sobre o colo dele sem ligar ao
barulho irritante dos grilos que continuavam a cantar do lado de fora da casa.
Quando deu por si, ela e Leonardo já se encontravam nús sobre a cama a fazer
amor pela décima quinta vez naquelas férias controlando os gemidos para que os
filhos não acordassem no quarto ao lado. Esse era o lado bom das férias. Ter-se
todo o tempo do mundo para perder tempo com carícias, beijos, abraços e sexo.
Perto do final, quando Leonardo experimentou o prazer habitual ao lado da
mulher, uma vozinha trémula soou atrás da porta batendo nela com força.
Obrigado, filho. Chegaste na hora certa. A afirmação desolada do arquitecto os
ouvidos da mulher constrastou com os risos de Laura e com o seu gesto em
empurrá-lo para fora da cama com a ponta dos pés.
Segundos depois, Leonardo encontrou os seus calções jogados no chão e
apressou-se a destrancar a porta do quarto. Vislumbrou a figura frágil do filho,
que ensonado, continuava a esfregar os olhos com as duas mãos.
- Leva-me a fazer chichi - João não teve cerimónias em agarrar a mão do pai e
puxá-lo para fora do quarto.
Leonardo encolheu os ombros à mulher e fez-lhe um ligeiro sinal de que iria
cumprir a tarefa imposta pelo filho. Saíram os dois, deixando a porta encostada.
Laura alcançou o relógio sobre a mesinha de cabeceira e viu que nele estavam
marcadas duas da manhã.
Ficou a olhar para o tecto durante um bom tempo, sentindo o seu corpo envolto
numa enorme inércia causa pelo marido e por umas férias que apesar de tudo lhe
estavam a fazer bem. Foi então que o seu telemóvel vibrou sobre a mesinha. O
oitavo telefonema desde o início das férias. Ao ver no visor uma letra que tão bem
conhecia, Laura sentiu um ligeiro ardor nas mãos e durante algum tempo manteve
a tecla verde debaixo dos dedos. Por fim, numa insanidade total, premiu o botão e
levou o telefone aos ouvidos.
- Não devias ter ligado - ela saltou da cama a fim de verificar de que ninguém a
estava a ouvir atrás da porta. - Eu disse que te ligava assim quando pudesse. Já
viste que horas são?
- A Rita está a dormir. Aposto que o meu irmão também deve estar a fazer o
mesmo - Ricardo manteve-se debruçado sobre a janela da sua cozinha a fumar o
último cigarro da noite.
195
- Não! Não está! Vou ter que desligar.
- Espera! Porquê essa pressa toda?
- O Leo pode voltar a qualquer momento.
- Tenho saudades tuas.
Ouviu-se um longo silêncio do outro lado da linha.
- Tenho saudades tuas, ouviste!? - ele insistiu.
- Ouvi - Laura soltou um suspiro pesado. - Eu também tenho saudades tuas. Mas
já te disse que não posso atender aos teus telefonemas sempre que me resolves
ligar. Não quero que o Leo desconfie. Por isso, pára de me ligar!
- Quando voltas? - Ricardo ignorou o pedido da cunhada.
- Dentro de uma semana.
- Quando voltares, procura-me.
- Está bem - ela acedeu, impaciente.
- Promete!
- Prometo! Mas agora vou desligar! Não me ligues mais, por favor! Falamo-nos
quando eu voltar a Lisboa...
- Adoro-te.
- Eu também te adoro! Adeus! Dorme bem...
Quando Laura desligou aquela maldita chamada telefónica recebida a meio da
madrugada, longe estava ela de imaginar que atrás da porta o marido a escutava
com atenção, absorto com tudo o que tinha acabado de ouvir.
Por momentos, Leonardo pensou que tivesse ensurdecido. Tentou igualmente
arranjar explicações para o facto da mulher se estar a dirigir a outra pessoa
dizendo que a adorava e que sentia saudades dela àquela hora da manhã, quase
num tom de murmuro, secreto, receosa de que alguém a pudesse estar a ouvir.
196
Era demasiado irreal. Demasiado louco ou cruel sequer cogitar a ideia de que
Laura o pudesse estar a trair com outro. Mas quando a realidade lhe caiu em cima,
tudo começou a fazer sentido. Desolado, Leonardo encostou-se à parede do
corredor às escuras e tapou o rosto com as mãos a fim de recuperar a sanidade
mental que por momentos se desvaneceu do seu interior. Ficou ali, durante muito
tempo e só voltou a entrar no quarto quando reuniu forças para a encarar o rosto
da mulher e fingir que nada tinha ouvido.
197
21
Foi um regresso desejado, tanto para Laura, como para Leonardo. A médica não
via a hora de voltar ao trabalho, mergulhar nas suas consultas e num quotidiano
que tão bem conhecia. Quatro semanas longe de Lisboa pareceram-lhe uma
eternidade, especialmente num local onde o único divertimento se cingia a
corridas na praia e a noites passadas na varanda. Fazia-lhe falta o movimento
frenético dos carros à hora de ponta, o cheiro a gasolina proveniente do asfalto, a
adrenalina de trabalhar doze horas por dia, e até mesmo a sua casa que, para si,
servia como um refúgio incapaz de ser suplantado.
Leonardo também agradeceu aos deuses o término daquelas férias. Nunca mais
foi o mesmo desde aquela fatídiga madrugada em que surpreendeu a mulher a
falar secretamente ao telefone. As desconfianças de que Laura o poderia estar a
trair com outro homem tornavam-se cada vez mais fortes. Subitamente, tudo nela
lhe soava falso. As palavras, os gestos, a forma como segurava os talheres durante
as refeições, como bebia o vinho e se movimentava pela casa. Laura não lhe
parecia a mesma mulher por quem se tinha apaixonado e nem merecedora da
confiança cega que sempre lhe depositou.
- Estás apenas desconfiado ou tens provas concretas? – foi a pergunta de Francisco
Saraiva, o seu melhor amigo, num almoço combinado entre os dois a meio da
semana.
- Não tenho provas e também ainda não tive coragem de confrontá-la com as
minhas desconfianças. Mas já ando a pensar nisso há algum tempo.
- E se ela estiver realmente a trair-te com outro, o que é que vais fazer?
- O que é que achas!? - a expressão de Leonardo não deixou dúvidas.
198
- Pensa bem! Por vezes, pedir o divórcio não resolve nada. Pelo contrário. Só trás
problemas, transtornos e chatices... - Francisco engoliu o resto do vinho que tinha
no copo. - Vocês já são casados há doze anos e têm dois filhos. Se se separarem,
quem é que achas que vai ficar com a guarda das crianças? Pagar a pensão de
alimentos? Quem é que achas que vai ter que sair de casa e começar tudo do zero?
O divórcio é um mau negócio para os homens, meu amigo! Infelizmente tens que
concordar comigo...
As palavras de Francisco incitaram Leonardo a encher um novo copo de vinho.
- Se ela te estiver a trair, deve ser só sexo! Caso contrário, já te tinha pedido o
divórcio. É como eu e a Sofia. Já a traí muitas vezes, mas nunca sequer me passou
pela cabeça separar-me dela para ficar com outra. Mal por mal, fica-se com o que
se tem...
Se o objectivo de Francisco era fazer Leonardo sentir-se melhor, de facto, não foi
isso que aconteceu. Durante a condução até casa, o arquitecto não deixou de
meditar nas palavras proferidas pelo amigo. Mal por mal, fica-se com o que se tem.
Será que ele era assim tão mau? Será que era um péssimo marido? Um pai
desplicente? Alguém tão desinteressante ao ponto de merecer ser traído pela
própria mulher?
Inúmeras perguntas ficaram sem resposta na altura em que Leonardo chegou a
casa e estacionou o carro na garagem. Sabia que estava atrasado para o jantar, mas
nem esse facto acresceu a sua vontade de abrir a porta e sentir o aroma da comida
cozinhada pela nova empregada. Na sala, João e André jogavam na Playstation,
ignorando os latidos de Rufus à volta dos cabos da televisão.
A mulher ainda não havia chegado a casa. Ligara-lhe durante a tarde a avisar que
iria ficar presa num plantão de vinte e quatro horas. Pela primeira vez, ao ser
informado dessa notícia, Leonardo não acreditou numa única palavra dita por ela.
Contrariamente às desconfianças do marido, Laura passou realmente a noite a
trabalhar. O internamento de um paciente em estado crítico devido a um grave
derrame cerebral, obrigou-a a prolongar o plantão por mais algumas horas. O
paciente foi internado e submetido a uma cirurgia de emergência.
A mesma cirurgia teve início à meia-noite e estendeu-se por quatro horas, altura
em que foi declarado o óbito da vítima devido à oclusão de uma carótida seguida
de uma paragem cardíaca.
Apesar de uma intensa fase de reanimação, nenhuma das tentativas realizadas
por parte da equipa medica surtiu efeito. O paciente faleceu na mesa de operações
às cinco horas e quarenta e três minutos.
199
Quinze minutos após o desfecho trágico daquela operação, Laura caminhou
apressada em direcção à sala de espera com o intuíto de se despachar da terrível
tarefa de informar os familiares do seu paciente que este havia falecido.
Minutos depois, cumprida essa tarefa, enquanto ouvia indiferente o choro e os
lamentos das cinco pessoas que ali se encontravam presentes, ela abandonou a
sala de visitas e precipitou-se em direcção ao elevador. Premiu o botão de
chamada e aguardou que este a levasse ao terceiro piso. Quando chegou ao seu
consultório, caiu desolada sobre a cadeira e ali ficou durante um bom tempo sem
atender a telefonemas ou responder às mensagens do seu BIP. Sentia-se exausta,
como sempre. Olhava apenas para o vazio da sua sala e também para o vazio em
que se tinha transformado a sua vida.
Subitamente lembrou-se que tinha uma família e resolveu telefonar ao marido
para saber se as crianças já estavam no colégio e se ele se encontrava a trabalhar.
Leonardo respondeu que sim às duas questões, mas foi incapaz de dizer muito
mais. Manteve uma postura fria e distante durante os segundos em que falaram ao
telefone, e quando desligou a chamada, não proferiu a habitual frase a que a
mulher estava acostumada: Vê lá se salvas mais uma vida hoje! Amo-te.
Era uma mudança quase imperceptível, mas ainda assim alguma coisa deixou
Laura desconfortável quando ela largou o telemóvel sobre a secretária. Os seus
sentidos alertaram-na para um facto que já vinha acontecendo nos últimos dias.
Leonardo andava estranho, observava-a com desconfiança e lançava indirectas
constantes como se a estivesse constantemente a testar.
Apesar de nunca terem falado sobre o assunto, ela sabia que alguma coisa estava
errada no comportamento do marido e tremia de medo só de imaginar a ideia de
que ele pudesse desconfiar de alguma coisa. Mas isso eram apenas suposições.
Fantasmas da sua cabeça. Remorsos por andar traí-lo sem que poder fazer
absolutamente nada para impôr limites à sua loucura.
- Entre – ela disse quando a porta do seu consultório sofreu uma ligeira batida.
- Bom dia, Dr.ª Laura - uma auxiliar de serviço interpelou-a junto à porta.
- Bom dia.
- Sei que deve estar de saída, mas o director da clínica quer falar consigo.
- Agora?!
- Sim! Ele está à sua espera na sala de reuniões.
200
Longe de imaginar qual seria o assunto que levara o director da clínica a chamá-la
àquela hora da manhã, Laura fechou a porta do seu consultório à chave e
apressou-se pelos corredores tentando esconder o cansaço estampado no rosto e as
fortes dores físicas que a atormentavam sempre que se encontrava no final de um
plantão.
Dirigiu-se ao sexto piso. Ao fundo do corredor encontrou o segurança de serviço e
este abriu a magestosa porta de madeira com um sorriso formal. Ela entrou e
deparou-se com um grupo de homens distintos, bem aprumados, sentados numa
mesa oval, conversando entre si ao sabor de vários cafés, copos de cristal, blocos,
canetas e garrafas de água. Reconheceu alguns. Accionistas e Membros do
Conselho Administrativo, parte do corpo residente de cirurgiões do qual ela fazia
parte, o Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica, Alfredo Meireles, e tal como não
poderia deixar de ser, sentado à cabeceira da mesa, a figura imponente de Carlos
Fonseca, o director da clínica. Dezoito pessoas ao todo. Homens. Quase todos
homens.
Laura examinou cada um deles, a fileira de rostos - alguns já membros da
direcção mesmo antes de ela nascer - e por momentos, ainda que tivesse tentado
esconder o seu estado de espírito, sentiu-se intimidada e observada por todos eles.
- Entre, Dr.ª Laura! Sente-se e junte-se a nós, por favor...!
A médica acedeu ao pedido do director da clínica e escolheu uma cadeira
aleatória para se sentar. As mãos nervosas, escondidas por debaixo da mesa,
serviram para que conseguisse camuflar a expectativa criada por aquele ambiente
de cortar à faca. No rosto de cada pessoa, ela tentou mais uma vez decifrar
expressões, gestos e tossidos. Porque é que havia sido chamada ali, perguntou-se em
silêncio.
Podemos começar. A voz autoritária do director da clínica interrompeu o silêncio
instalado na sala. Todos concordaram com o início da reunião, ouvindo
atentamente as palavras iniciais de Carlos Fonseca que não teve cerimónias em
agradecer a presença dos accionistas, médicos e outros profissionais de saúde que
diariamente colaboravam para o bom funcionamento da clínica.
Após um discurso de circunstância, Carlos passou a palavra a Alfredo Meireles
para que este se pronunciasse sobre o término das suas funções enquanto Chefe de
Equipa Médico-Cirúrgica. Cinquenta anos de serviço - vinte dos quais passados na
clínica a dirigir um corpo brilhante de quinze cirurgiões residentes.
Alfredo não poupou elogios aos seus colegas de profissão e no final aceitou a
honra oferecida pelo director da clínica para que dissesse em voz alta o nome da
pessoa escolhida por unanimidade para ocupar o cargo deixado por si:
201
DR.ª LAURA MENDONÇA ALVES.
Durante breves instantes, Laura pensou que tinha ensurdecido. Manteve-se
inerte, com as mãos por debaixo da mesa e a olhar fixamente para o rosto de
Alfredo Meireles à espera que ele voltasse a pronunciar o seu nome numa sala
repleta de pessoas que aplaudiram de pé a decisão tomada pelo corpo de
accionistas e membros do conselho administrativo.
Sem saber o que fazer, Laura também se levantou da cadeira onde estava sentada,
mas foi incapaz de fazer muito mais. As suas pernas estavam bambas e as mãos
trémulas. Seria aquilo? Seria aquele o momento pelo qual havia ansiado durante toda a
sua carreira? O momento que todos os cirurgiões almejavam alcançar e que agora se
tornava real?
Enquanto saboreava em silêncio a sua grande vitória, Laura desejou soltar um
berro. O maior que alguma vez soltara. Um berro que pudesse retirar do seu peito
toda a adrenalina que estava a sentir.
- Parabéns, Dr.ª Laura - Carlos Fonseca estendeu a mão à nova Chefe de Equipa
Médico-Cirúrgica da sua clínica. - Excelente candidatura! Espero que tenha tempo
para colocar em prática todo o programa que criou.
- Obrigada, Dr.º Carlos - a médica acedeu ao aperto de mão com uma frieza
excepcional. - Fez uma óptima escolha.
- No dia trinta de Setembro procederemos à cerimónia da sua tomada de posse.
Laura saiu da clínica algum tempo depois sentindo-se atónita e estupefacta com
tudo o que tinha acabado de acontecer. Enquanto conduzia o seu jipe em direcção
ao centro da cidade uma felicidade extrema atravessou-lhe o coração. Pensou na
primeira pessoa a quem iria contar aquela notícia maravilhosa. Não. Não seria o
marido. Na altura, ocorreu-lhe um outro nome.
- Parabéns...!
Ricardo abriu a porta do seu apartamento e ofereceu uma enorme chuva de
champanhe à sua cunhada. Laura tapou o rosto com as mãos e riu-se às
gargalhadas com a loucura cometida por ele. Mais tarde, beberam duas taças de
champanhe e caíram sobre o tapete de sala. Desfizeram-se das suas respectivas
roupas sem se importarem com nada mais à volta e fizeram amor a fim de matar
todas as saudades que sentiram um do outro enquanto ela esteve de férias no sul
do país com o marido e os filhos.
202
Apenas os beijos do cunhado fizeram Laura esquecer-se do terrível plantão que
tivera na noite anterior. As longas horas de pé, a morte de um paciente, os
lamentos dos seus familiares. Todos esses acontecimentos pareceram
insignificantes quando ele a tomou nos braços e lhe ofereceu um conforto difícil de
explicar. E enquanto se entregava pela milésima vez a um outro homem que não o
seu marido, Laura teve a nítida sensação de que não havia nenhum outro lugar no
mundo onde quisesse estar.
- Fica - Ricardo implorou com um sorriso malandro.
- Não posso! Tenho que ir! Há quase dois dias que não ponho os pés em casa.
- O que é que vais fazer durante a tarde?
- Arrumar algumas coisas! Buscar os meus filhos ao colégio! Descansar... - Laura
correspondeu ao sorriso malicioso do cunhado enquanto vestia o soutien sobre a
cama.
- E ainda não descansaste?!
- Sempre que aqui venho, tu nunca me deixas descansar.
- A sério?! - Ricardo envolveu-lhe os braços à volta da cintura e sussurou-lhe aos
ouvidos a seguinte frase. - E eu a pensar que te deixava completamente relaxada...
Laura riu-se alegremente. - És louco.
- Estou muito orgulhoso de ti, sabias? Vais ser uma excelente Chefe de Equipa.
- É o que eu pretendo.
- Assim que tomares posse, não te vai ser muito difícil afastar aquela Interna do
teu caminho.
- Não me fales dessa criatura.
- Ela continua a seguir-te?
- Às vezes - Laura continuou a vestir-se sobre a cama. - Aquela rapariga é
simplesmente mentecapta. Parece obcecada por mim...
203
- Se calhar está apaixonada por ti - Ricardo alcançou um maço de cigarros sobre a
mesinha de cabeceira.
- Apaixonada por mim?! - Laura voltou-se para o cunhado, estupefacta.
- Porque não!? Nunca te passou isso pela cabeça? Seria perfeitamente normal.
- Não sejas parvo.
Ricardo riu-se alegremente quando se viu confrontado com a expressão furiosa da
cunhada. - O.k! Já não está aqui quem falou - ele levantou os braços.
- Não voltes a brincar com uma coisa dessas.
- Porquê?! Tens medo que seja verdade?
- Podemos mudar de assunto, por favor?!
- Tudo bem - Ricardo acendeu calmamente um cigarro sem pressas para sair de
uma cama onde havia passado as últimas três horas. - Graças a ti, vou ter que
trocar os lençóis antes da Rita chegar. Ela convidou-se para dormir cá em casa
hoje, sabias?
- Devias acabar tudo com ela.
- Porquê?!
- Porque não gostas dela e vais acabar por magoá-la! Ela está apaixonada por ti.
- E tu? Porque é que não acabas tudo com o meu irmão?
- Não queiras comparar a relação que tenho com o Leo, com a relação que tens
com a Rita.
- Porque não?! - Ricardo riu-se sarcasticamente.
- Porque uma relação não se baseia em meia dúzia de noites de sexo. E um
casamento muito menos.
204
Laura abandonou o apartamento de Ricardo pouco tempo depois e dirigiu-se ao
lado oposto da cidade levada por uma estranha sensação de saudade e pertença.
Quando estacionou o jipe em frente ao escritório do marido, desligou o motor e
desfez-se do cinto de segurança. Abandonou o veículo e percorreu o longo parque
de estacionamento sem pressas.
Vários meses se tinham passado desde a última vez que ela pisara aquele edifício,
mas curiosamente todos os seguranças e funcionários continuavam a reconhecê-la.
- Olá, Laura! Como estás? Há tanto tempo que não te via por aqui...
- É verdade – Laura cumprimentou a secretária do seu marido com dois beijos na
face. - Muito trabalho, infelizmente.
- Imagino! Mas está tudo bem contigo?
- Está! E contigo?
- Tudo óptimo.
- Os teus filhos?
- Dando trabalho como sempre - Marta riu-se alegremente. - E os teus?
- Idém! O Leo!? Está lá dentro? - Laura apontou o dedo em direcção à porta do
escritório do marido.
- Está! Está com o Francisco numa pequena reunião.
- Então nesse caso é melhor ir-me embora. Não quero interromper.
- Não! Nem penses! O Leo matava-me caso soubesse que te deixei ir embora sem
falar com ele.
Marta apoderou-se do telefone e segundos depois fez uma ligação ao escritório do
chefe informando-o de que a sua mulher se encontrava ali presente.
- Podes ir! O Leo está à tua espera - ela voltou a poisar o ascultador na zona de
descanso. - Vê se apareces mais vezes.
205
- Vou tentar - foi a última resposta de Laura antes de bater à porta do escritório do
marido.
Entrou logo em seguida e encontrou Leonardo junto à secretária a analisar
algumas maquetas com a ajuda de Francisco - outro dos arquitectos responsáveis
pela obra do RESORT em Cascais. Estavam tão concentrados no trabalho que nem
sequer se aperceberam da sua entrada na sala. Faltavam poucas semanas para o
término das obras e todos os detalhes de construção eram naquele momento
analisados ao mais ínfimo pormenor. Havia muito dinheiro em jogo e nada podia
sair errado. Os sócios espanhóis encontravam-se impacientes e o tempo de entrega
do projecto já se havia estendido para além do prazo estipulado.
- Tão compenetrados – ela brincou, interrompendo-lhes a conversa.
- Olá - Leonardo não pareceu particularmente entusiasmado por a ver ali. - Como
estás?
- Bem – Laura correu a beijar o marido perante o olhar atento de Francisco. – E tu?
- Atolado de trabalho - Leonardo observou a mulher com alguma desconfiança.
Viu-lhe os cabelos molhados, as roupas amassadas e sentiu-lhe um cheiro intenso
a álcool e a tabaco. - Surpresa ver-te por aqui! O que é que se passou contigo?
Porque é que estás com o cabelo molhado e o casaco encharcado? Cheiras a
álcool...
- Já te explico - Laura mostrou-se atordoada com tantas perguntas. Precisou de um
momento para inventar uma mentira minimamente convincente. - Olá, Francisco!
Tudo bem?
- Tudo – o arquitecto ofereceu-lhe um único beijo na face. – E contigo?
- Óptimo! Melhor impossível.
- Então conta-nos lá o motivo desta visita surpresa – Leonardo pediu, impaciente.
Laura abriu um sorriso radiante ao marido e manteve-se em suspenso durante
alguns segundos.
- Vocês estão a falar com... a nova Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica da clínica
São João de Deus!
206
Leonardo nem quis acreditar quando ouviu as novidades proferidas pela sua
mulher. Subitamente o seu coração encheu-se de alegria por ver à sua frente o
rosto radiante de Laura, dando pulos de alegria, maravilhada com a ideia de subir
mais um degrau importante na sua carreira. Toda a sua frieza, desconfianças e
amargura dissiparam-se no momento em que ela lhe caiu nos braços e o encheu de
beijos no pescoço e no rosto sem se importar com a presença de Francisco.
Este último, contrariamente ao amigo, não conseguiu parar de olhar para ela com
alguma desconfiança. Não soube muito bem porquê, mas a excessiva alegria da
médica soou-lhe falsa.
- Eu sabia que ias conseguir, amor – Leonardo mostrou-se contentíssimo com a
notícia revelada pela sua mulher. – Estou muito feliz por ti.
- Obrigada – Laura roubou-lhe um outro beijo nos lábios.
- Parabéns, Laura – Francisco pronunciou-se finalmente.
- Obrigada.
- Era o que querias, não?!
- Andei a lutar por este cargo durante muito tempo. Por isso, sim! Era o que eu
queria.
- Temos que comemorar – Leonardo sorriu à mulher.
- A Laura já deve ter comemorado – Francisco observou. – Afinal de contas a
roupa dela cheira a champanhe.
Laura sorriu, embaraçada. – Comemorei lá na clínica - ela mentiu. - Despejaram-
me uma garrafa de champanhe inteira para cima da roupa. Ainda tentei secar e
tomar um banho, mas ficou o cheiro.
- Não faz mal - Leonardo interrompeu as explicações nervosas da mulher. - Nós
aqui não temos champanhe, mas podemos comemorar com café.
- Café parece-me bem.
- Vou pedir à Marta que nos traga três cafés.
207
- Quatro – Laura emendou. – Ela que venha comemorar connosco também.
Leonardo abandonou o escritório sem perceber o profundo desconforto latente
nos gestos da mulher sempre que esta olhava para Francisco e o via com os olhos
postos em si. Ele que ainda continuava ali a analisá-la com desconfiança e
excrutiná-la até à exaustão.
- Algum problema? - Laura questionou, por fim.
- Nenhum – o arquitecto respondeu enquanto brincava com o furador sobre a
mesa. - Só estava aqui a pensar na sorte que tens em ter um marido como o Leo...
- Tu também tens muita sorte em ter uma mulher como a Sofia.
Laura percebeu imediatamente onde Francisco quis chegar com aquela insinuação
e não gostou nem um pouco do seu desplante ao interpelá-la daquela maneira.
Desde que se conheciam, o arquitecto sempre lhe pareceu grosseiro, rude e
bastante impertinente. Ela apenas o aturava por imposição do marido. Mas no
fundo, detestava-o. E agora tinha boas razões para isso.
208
22
Como uma verdadeira perfeccionista que era, Laura começou a preparar a sua
apresentação nos dias que se seguiram. Muitas vezes, ainda que cansada dos
plantões e das longas jornadas de trabalho na clínica, trancava-se de madrugada
no escritório e passava a noite inteira a escrever o seu discurso de tomada de
posse. Lia e relia cada palavra, cada vírgula, deletando parágrafos inteiros,
iniciando outros.
A poucos dias da sua nomeação, o discurso e a apresentação estavam
practicamente concluídos. Perfeitos, segundo as palavras do marido que não
entendia o porquê da mulher passar tantas horas à volta de um único texto de
duas páginas. O cargo já era seu. Ninguém o iria tirar.
- Vem-te deitar! São três e meia da manhã - Leonardo entrou no escritório decidido
a arrastar a mulher até ao quarto.
- Já vou – Laura ajeitou os seus óculos de leitura. – Só faltam mais dois parágrafos.
- Já viste e revisaste esta apresentação milhares de vezes. Está tudo perfeito. Não
precisas mudar nada.
- Queria que desses uma vista de olhos nesta última parte que escrevi. Diz-me o
que é que achas?
- Laura...
- Diz!
209
Leonardo soltou um longo suspiro perante a teimosia da mulher, mas mais uma
vez não lhe conseguiu negar o pedido. Esgueirou-se atrás dela e fixou os olhos no
ecrã do computador, enquanto Laura bebia um último gole de café.
- Para mim está exactamente igual. Mudaste o quê?! Uma vírgula?
- Esquece - ela afastou o marido com uma expressão contrariada.
- São três da manhã! Vem-te deitar...
- Já vou.
Laura não tirou os olhos do computador e nem sequer se deu conta da saída do
marido do escritório quando este encostou a porta, resignado à ideia de que a
mulher não chegaria ao quarto antes das cinco da manhã. Mas naquela noite em
particular, Laura deixou-se mais uma vez adormecer sobre a secretária e apenas
acordou quando sentiu um ligeiro ardor nos olhos. Eram os primeiros raios de sol
da manhã a entrarem pela janela. Ouviu também o barulho dos filhos que já se
encontravam prontos para irem para a escola. O marido recusou-se a entrar
novamente no escritório para a despertar. Quis impor-lhe um castigo. A
empregada chegou às oito da manhã, mas também não se atreveu a acordá-la sob
pena de aturar o seu mau-humor matinal. Em vez disso, encostou a porta do
escritório e seguiu directamente até à cozinha a fim de preparar o pequeno-almoço
das crianças.
Laura arrastou-se até à cozinha sem esconder o rosto desfigurado e as fortes dores
que continuavam a atormentar o seu pescoço. Estava tão cansada e incapaz, que se
esbarrou no armário junto à porta, provocando um barulho ensurdecedor.
Quando entrou na habitação, o marido, os filhos e a empregada estavam a olhar
para si.
- Se visses a tua cara - Leonardo não conteve a observação.
Laura beijou o rosto dos filhos e encontrou a cafeteira sobre o fogão. Café. O único
líquido capaz de apaziguar as terríveis dores de cabeça que estava a sentir. Encheu
uma chávena inteira e recusou com o dedo o açúcar oferecido pela sua empregada,
preferindo antes bebê-lo amargo.
- Vais trabalhar? – Leonardo perguntou.
- Sim! Depois do meio-dia - ela mentiu.
210
- Pensei que estivesses de folga. Não foi isso que me disseste ontem à tarde?
- Hã...
Talvez por ser de manhã, Laura demorou algum tempo para conseguir que o seu
cérebro funcionasse correctamente. Viu-se enredada na sua própria mentira,
sabendo bem que lhe cabia a tarefa de descalçar aquela bota sem que o marido
desconfiasse de alguma coisa.
- Lembrei-me agora que tinha pedido para trocar a minha folga - ela afirmou por
fim. - Esqueci-me de te avisar! Desculpa...
- Tudo bem - Leonardo observou-a com alguma suspeita. - Pensei que pudessemos
almoçar hoje. Tinha algum tempo disponível durante a tarde. Há tanto tempo que
não fazemos isso.
- Infelizmente hoje não me vai ser possível! Combinamos num outro dia - Laura
engoliu o seu café num único gole.
João e André iniciaram o pequeno-almoço servido pela empregada, indiferentes
ao cansaço da mãe. Os risos e as conversas dos filhos atormentaram Laura de tal
maneira que por momentos ela pensou que fosse desmaiar de tantas dores de
cabeça. Além disso, os latidos de Rufus a ecoar pela casa também não ajudaram
para que se sentisse melhor. O marido observou-a de soslaio, enquanto lia as
primeiras notícias no jornal, mas foi incapaz de a interpelar. Não teve pena dela.
Só estava a pagar pelos seus excessos.
- Toma! Cala-te lá um bocadinho, por favor – Laura serviu uma tijela de leite
morno a Rufus e o animal caridosamente acedeu-lhe ao pedido.
- Acreditas que já se passaram doze anos desde o 11 de Setembro? - Leonardo
manteve-se concentrado na leitura das notícias.
- Acredito - Laura respondeu sem muito entusiasmo.
- E nós fazemos anos no próximo domingo – os gémeos gritaram, radiantes com a
ideia de comemorar mais um aniversário.
- Não se preocupem que já está tudo preparado - Leonardo sorriu aos filhos.
211
- Eu quero uma Playstation – André adiantou-se.
- Outra Playstation, queres dizer - Laura desviou-se da empregada no meio da
cozinha. - Nem pensar! Se já têm duas, não há necessidade de terem outra.
- Mas eu quero.
- Comecem a pensar noutra coisa! Este ano não há Playstations para ninguém.
- Pensei que me tinham dito que queriam entrar este ano para o Judo - Leonardo
tentou aplacar o mau-humor matinal da mulher. - Não foi isso que combinámos
ontem?
- Que história é essa? – Laura perguntou.
- Parece que o colégio vai abrir este ano uma série de actividades extracurriculares.
A professora ontem falou comigo sobre isso. Os miúdos estão interessados em
entrar no Judo.
- E vão ter tempo? Já andam na natação! Não há necessidade de se meterem numa
série de actividades quando a única coisa com que se têm que preocupar é com a
escola.
- O judo é fixe – João disse.
- Muito melhor que a natação! É mais ou menos assim - André exemplificou com
um pontapé junto à mesa que por pouco não derrubou toda a loiça do pequeno-
almoço.
Laura lançou um olhar fulminante ao marido. - Foste tu que lhes meteste essa
ideia na cabeça, não foi?!
- Claro que não – Leonardo denunciou-se com um sorriso malicioso e tentou
rapidamente mudar de assunto. – Não nos podemos esquecer de ir buscar os bolos
no Domingo de manhã. Já falei com a empresa de animação e eles vão trazer tudo
no Sábado para começarmos a montar as coisas no jardim.
- Yes - os gémeos gritaram, felizes com a ideia de terem uma festa só para si.
212
Leonardo levou os filhos ao colégio perto das nove da manhã. Sobre o alpendre
da porta, Laura observou-lhes a entrada no carro, acenou de longe e congratulou-
se com o tempo que teria livre durante o dia. Mentira ao marido. Mais uma vez.
Dissera-lhe que iria trabalhar, quando na verdade pretendia passar as doze horas
seguintes na companhia do cunhado. Combinaram passar o dia juntos, trancados
no apartamento dele sem atender a telefonemas e sem se preocuparem com o
mundo lá fora.
Aqueles seriam os seus últimos resquícios de liberdade antes de ocupar o cargo
de Chefe de Equipa. Contrariamente a Alfredo Meireles, Laura não pretendia
desligar-se das suas tarefas enquanto Neurocirurgiã e nem passar a ocupar-se de
questões meramente burocráticas, tornando-se uma figura abstracta que apenas se
apresentava de tempos a tempos no seu local de trabalho. Os seus objectivos eram
outros e encontravam-se traçados desde há muito. A exigência relativa aos
cirurgiões que compunham o corpo clínico iria triplicar durante o seu mandato e
ela não iria dar tréguas até conseguir um grupo de profissionais moldados à sua
imagem. Rigorosos. Disciplinados. Autênticas máquinas dispostas a colocar as
suas vidas pessoais em segundo plano.
Tal como se era de esperar, Laura e Ricardo passaram a manhã inteira na cama a
fazer amor. Parecia admirável o facto de nunca se cansarem um do outro. Cada
beijo era o início, cada toque a continuação e cada gemido o final de um acto que
lhes provocava um imenso prazer.
Laura não era uma mulher comum aos olhos de Ricardo. Apesar dos inúmeros
casos que ele teve até à data, nenhuma outra conseguira prender a sua atenção
durante tanto tempo. Cada dia, ele descobria algo novo nela e a cada dia o seu
fascínio por ela aumentava. Gostava secretamente da sua personalidade
autoritária e segura. Nunca conhecera ninguém como ela. Com o mesmo tom de
voz grave, gestos rectos e uma expressão facial dura que apenas se desmanchava
quando ele a tocava em partes íntimas do corpo.
Era uma mulher complexa em todos os sentidos, intrigante e fascinante. Era o
oposto de Rita, que insegura e carente, sufocava-o com telefonemas excessivos e
mensagens românticas numa tentativa desesperada de desencadear um
relacionamento sério entre os dois. Mas isso nunca iria acontecer. Ricardo tinha
essa certeza. Rita não fazia o seu estilo, não fazia parte dos seus planos futuros e
nem despertava em si a metade do fascínio que Laura despertava. Era apenas um
passatempo arranjado para isso mesmo. Passar o tempo.
Quando o relógio assinalou meio-dia e quarenta minutos, Ricardo convidou a
cunhada a dançar com ele no interior do quarto. Completamente nús, ao som de
uma música lenta e sensual, os dois amantes foram transportados para uma outra
dimensão.
213
Quando a mão de Ricardo lhe desceu pelas costas, Laura prendeu a respiração e
inclinou a cabeça para trás numa tentativa desesperada de manter a lucidez. Ele
envolveu-a, ela deixou-se envolver, e tudo o resto deixou de fazer sentido. Era bom
estar ali, ela chegou a essa conclusão. Fazer algo tão simples como dançar sem
medo de cair no ridículo.
- Danças bem - Ricardo segredou-lhe aos ouvidos, tomando-lhe a mão e
colocando-a junto ao seu peito.
- Impressão tua - Laura respondeu.
- Adoro o teu corpo - ele voltou a segredar-lhe aos ouvidos.
- Ai é?! - ela sorriu.
- Adoro o teu corpo, o teu cheiro, a tua pele, os teus olhos, o teu cabelo...
Ricardo mordeu o pescoço de Laura. Ela riu-se às gargalhadas.
- Adoro tudo o que é teu!
- Eu também adoro tudo o que é teu.
- Por mim ficávamos aqui o dia todo.
- E não era esse o plano?!
Laura afundou-se na boca do cunhado e encostou-se ao seu corpo nú, sentindo-
lhe uma ligeira erecção. Não foi preciso mais. Louca de desejo, saltou-lhe para o
colo e permitiu que ele a deitasse na cama.
Pensou que fosse morrer de prazer quando ele a beijou nos seios desnudos e os
apertou com força. Mais tarde, sentiu a sua boca a descer em direcção ao seu
ventre, às suas pernas e ao inimaginável que ela nunca pensou que ele fosse capaz
de encontrar com a língua. Ricardo deteve-se ali durante vários minutos sem
nunca desviar os olhos do rosto dela. Sentiu-lhe o prazer transbordar por todos os
poros. Foi o terceiro orgasmo do dia, e enquanto as mãos firmes do cunhado lhe
atravessaram o corpo e ela se contorcia de prazer, a única coisa que Laura
conseguiu pensar foi que Ricardo, melhor do que ninguém, sabia como dar prazer
a uma mulher. De facto, naquela tarde, ele estava a dar-lhe tudo isso e muito mais.
Estava-lhe a dar o céu.
214
Sem conseguir aguentar tanta excitação, Laura puxou o rosto do cunhado até ao
seu e beijou-o fogosamente. Colocou-se sobre ele e também ela foi descendo em
direcção ao seu peito desnudo, aos seus abdominais definidos e ao inimaginável
que ela fez questão de encontrar com a boca. Permaneceu durante um bom tempo
e permitiu que Ricardo lhe segurasse os cabelos com força, envolvendo-lhe os fios
num rabo-de-cavalo e fazendo um esforço sobre humano para não enlouquecer.
- A tua boca é perfeita, sabias?! - ergueu-lhe o queixo com as mãos.
- Queres que continue? - ela sorriu maliciosamente, mantendo o sexo do cunhado
perto dos lábios.
- Quero! Continua! Assim mesmo como estás a fazer...
Quando Ricardo pensou que não fosse aguentar mais, Laura voltou a mergulhar
nos seus lábios e sentou-se sobre o colo dele. Tudo se conjugou na perfeição. Ele
penetrou-a e ela soltou gemido contido, cravando-lhe as unhas nas costas sem
piedade. Foram vários minutos intercalados, ora com movimentos lentos e
contínuos, ora com movimentos rápidos e frenéticos. Ele parecia incansável, ela
insaciável e nem mesmo as várias chamadas telefónicas recebidas em ambos os
telemóveis depositados sobre a mesinha de cabeceira conseguiram reprimir-lhes o
desejo. Sem telefonemas. Sem ninguém. Apesar de tudo, a promessa manteve-se.
- O que estás a fazer? – foi a pergunta de Laura quando entrou na cozinha vestida
apenas com uma das camisas de Ricardo e o encontrou a analisar o frigorífico.
- Supostamente o almoço! Mas descobri que não tenho nada de jeito cá em casa.
- Para variar...
- Vou buscar qualquer coisa num restaurante aqui perto.
- O que vais buscar? - ela abraçou-o e beijou-o no peito desnudo.
- O que quiseres! O que é que queres?
Laura sorriu. - Pizza! Há muito tempo que não como pizza.
- Então vou buscar duas.
215
- Grandes! De queijo e mozzarella.
- Os teus desejos são uma ordem - Ricardo roubou-lhe um longo beijo junto à
porta da cozinha. - Já volto!
- Não demores - ela interceptou-o quando ele ia a sair.
- Podes deixar.
Ao ver-se finalmente sozinha naquele enorme apartamento, descalça e trajada
apenas com uma das camisas do cunhado, Laura não teve pressas de voltar à
realidade. Perdeu a noção do tempo e caiu no sofá, levando consigo um dos
inúmeros livros espalhados pelas estantes da sala. Abriu-o sem cerimónias e não
necessitou de muito tempo para se concentrar na leitura.
O tempo passou a voar até ao minuto em que Laura ouviu a campainha tocar.
Passava das três da tarde e o sol mantinha-se radiante lá fora. Ao olhar para as
chaves esquecidas sobre a mesinha, ela sorriu e imaginou que Ricardo se havia
esquecido de as levar. Por isso, largou o livro e dirigiu-se até à porta de entrada.
Abriu-a de rompante com um largo sorriso, mas não era Ricardo. Nem ele e nem
ninguém a quem ela pudesse justificar a sua presença no interior daquele
apartamento. Diante de si, Laura encontrou a imagem da sua melhor amiga. Rita
Azevedo.
Rita bem tentou manter a sua sanidade mental intacta, mas na altura foi-lhe
impossível cometer tal acto. Quando deu por si, já tinha entrado pela casa adentro
como um foguete. Lançou os olhos à mesinha da sala, encontrando sobre ela duas
taças de vinho inacabadas e um cinzeiro repleto de cigarros. Correu igualmente
até ao quarto e vislumbrou a cama desfeita. No chão ainda se mantinham as
roupas de Laura e de Ricardo. Sobre a mesinha de cabeceira uma caixa de
preservativos praticamente vazia.
Foi só então que se fez luz. Foi só então que duas lágrimas lhe correram pela face
e a deixaram à beira da loucura.
- Eu posso explicar – Laura temeu o pior quando a amiga regressou à sala,
esbaforida.
- Cala a boca – Rita gritou, raivosa. – Cala-me essa boca nojenta!
- Eu posso explicar - a médica repetiu.
- Explicar o quê?! Explicar que andaste esse tempo todo a foder o teu cunhado?
216
Laura não conseguiu evitar as lágrimas que subitamente lhe caíram dos olhos.
- És uma vaca... – Rita deu uma volta sobre si, atordoada com tudo o que tinha
acabado de descobrir. – Como é que me pude enganar tanto a teu respeito?! Como
é que pude ser tua amiga? Como é que eu pude confiar-te todos os meus
segredos? Eu era a única lá naquela clínica que te defendia com unhas e dentes. Eu
era a tua aliada, a tua companheira, a tua melhor amiga…
- E ainda continuas a ser.
As palavras de Laura coincidiram com um violento estalo que Rita fez questão de
lhe oferecer no rosto, levando-a a cair prostrada no tapete da sala sem qualquer
reacção.
- Porca – Rita cuspiu-lhe os cabelos com uma expressão de nojo. – Nada do que
possas dizer vai apagar a tua falta de carácter, o teu cinismo e tudo de podre que
tens dentro de ti. Eu só tenho pena do Leo. Ele realmente não merecia estar casado
com uma mulher como tu. Merecia muito melhor…
Depois de lançar um último olhar de repulsa, Rita saiu do apartamento de
Ricardo. Fê-lo sem olhar para trás e sem ligar à expressão desolada de Laura, que
sem forças para se levantar, continuou caída no chão, lamentando-se por tudo o
que tinha acontecido momentos antes. Estava envergonhada. Demasiado
envergonhada e infeliz por ter chegado àquele ponto de ruptura.
Perante a possilidade do seu maior segredo ser descoberto, a médica desesperou-
se e chorou copiosamente até à chegada de Ricardo.
- O que foi? - ele perguntou, largando sobre a mesa as pizzas que trouxera da rua.
- A Rita esteve aqui! Descobriu tudo - Laura não escondeu os olhos vermelhos de
tanto chorar. - Tens que ir atrás dela e impedir que ela conte tudo ao Leo! Por
favor! Vai atrás dela...
Ricardo ouviu as súplicas de Laura e prometeu que iria tentar remediar a situação
ainda naquela noite. Mas a verdade é que nem ele sabia qual iria ser a reacção de
Rita quando o visse. Cinismo, diplomacia, mentiras, essas eram algumas das armas
que ela sabia usar na perfeição. Mas será que desta vez iria conseguir atingir os
objectivos a que se propusera?
217
Ao ver-se diante da porta da casa de Rita, ele teve algumas dúvidas.
Provavelmente seria tarde demais e ele já se encontrava cansado daquela história
que mais parecia não ter fim. Cansado de esconder os seus sentimentos, de viver
uma vida dupla e carregar a felicidade e a infelicidade dos outros nas costas.
Nunca fora talhado para tal tarefa e nem pretendia perder mais tempo com isso.
Contudo, não era apenas a sua vida que estava em causa. Era a vida de Laura. Era
o seu casamento, os seus filhos, a sua carreira na clínica. Não podia ser tão egoísta
ao ponto de a deixar à mercê da sorte. Era sua função protegê-la até ao fim, ainda
que isso significasse falar uma última vez com Rita e ouvir da enfermeira todos os
insultos possíveis e imaginários. Ele estava realmente disposto a fazer isso quando
encheu o peito de coragem e tocou à campainha. Mais tarde, enfiou as mãos nos
bolsos e aguardou que Rita lhe abrisse a porta.
- Podemos falar!?
Ela largou a porta e Ricardo considerou aquele gesto como um sim.
- A Laura contou-me o que aconteceu.
- Com todos os detalhes, espero - a voz de Rita saiu amarga. - E tu vieste aqui a
mando dela. Para quê? Para justificar o injustificável? Para inventar mais
mentiras?
- Não! Eu vim aqui para te explicar o que aconteceu - Ricardo respondeu num
tom humilde que Rita nunca lhe reconhecera. - Eu sei que deves estar chateada
comigo…
- Chateada!? - os olhos de Rita encheram-se de lágrimas. - Tu achas mesmo que eu
estou chateada contigo?
Ricardo permaneceu em silêncio.
- Tu mentiste-me, traíste-me com a tua própria cunhada e ainda vens aqui com
toda a lata do mundo dizer que achas que eu tenho todas as razões do mundo
para estar chateada?!
- Rita, eu sinto muito...
- Sentes o quê? Tu por acaso sentes alguma coisa? Por acaso tens alguma coisa aí
dentro parecida com um coração? Não, Ricardo! Eu não estou chateada contigo.
218
Estou antes desiludida, humilhada, magoada...! Mas não é apenas contigo. É com a
Laura também. Aliás, acho que estou muito mais magoada com ela do que
contigo. Porque ela era a minha melhor amiga, a única pessoa que eu pensei que
nunca fosse ser capaz de me trair ou rir-se nas minhas costas. Porque homens há
muitos, nenhum que preste, e tenho aqui a prova à minha frente. Mas amigas?
Amigas como pensei que eu e a Laura fossemos? Isso não... - Rita balançou a
cabeça, desolada. - Nenhuma amiga faz o que ela me fez! Nenhuma amiga com o
mínimo de carácter ouviria em silêncio tudo o que eu contava sobre ti, estúpida, a
imaginar que porventura estivesse a viver uma grande história de amor com um
homem que nunca gostou de mim.
Ouviu-se um longo silêncio na sala até Rita limpar as lágrimas que sem querer lhe
caíram dos olhos.
- Sabes...! Eu cheguei mesmo a pensar que isto entre nós pudesse resultar. Cheguei
mesmo, não me perguntes porquê! Estava mesmo a gostar de ti. Achava-te o
homem mais lindo do mundo, o mais inteligente e muitas vezes dava comigo a
pensar na sorte que foi ter-te conhecido e permitido que entrasses na minha vida.
Mas hoje, ao olhar para ti, eu vejo que não és assim tão lindo, não és assim tão
inteligente e que foi mesmo um azar dos diabos ter-te conhecido. Foste a pior coisa
que me aconteceu na vida...
- Sinto muito que penses assim.
- Não pensas nem um pouco no Leo? Não pensas no que o pobre coitado vai sentir
quando descobrir que anda a ser traído pela mulher com o próprio irmão?
- Vais contar ao Leo? – Ricardo chegou finalmente o assunto que o trouxera ali.
- Devia.
- Eu sei que não vais fazer isso.
- Porque não?! - Rita sorriu amargamente. - Será que me consegues dar um único
motivo plausível?
- Pensa no João e no André.
- És tão baixo, meu Deus – a expressão da enfermeira alterou-se radicalmente.
219
- Os dois precisam dos pais e tu não irias ganhar nada em destruir a família deles.
- Eu é que iria destruir a família deles?! - Rita levou as mãos ao peito. - Eu?! E tu,
Ricardo? O que é que andaste a fazer durante esse tempo todo?
- Pensa bem antes de fazeres alguma coisa do qual te possas arrepender mais
tarde.
- Tu e a Laura merecem-se, sabes!?
- Pensa bem, Rita!
- Sai daqui – ela ordenou, abrindo-lhe a porta da rua. – Sai da minha casa!
- Pensa bem...
- Sai - Rita voltou a gritar, sentindo as veias a saírem-lhe do pescoço.
Laura regressou a casa com um enorme dor de cabeça e os olhos vermelhos de
tanto chorar. Era meia-noite e a médica havia passado as últimas horas enfiada no
interior do seu carro, à beira do cais, a pensar na grande embrulhada em que se
encontrava metida a sua vida. O cunhado enviara-lhe entretanto uma mensagem
de texto com uma frase simples, mas que infelizmente não conseguiu acalmar o
seu coração. " Podes ficar descansada. A Rita não vai contar nada a ninguém."
Quando finalmente arranjou forças para estacionar o carro em frente à sua
moradia, Laura saiu e trancou as portas, levando nas mãos a mala e o casaco.
Encontrou a casa praticamente às escuras, excepto uma luz pálida proveniente do
candeeiro que assinalou a presença do marido. Sobre o sofá, mantendo o telefone
de casa nas mãos, Leonardo aguardou a entrada da mulher na sala.
A sua expressão facial aterrorizou-a. Era um expressão furiosa como ela nunca lhe
havia visto no rosto. Laura preparou-se para o pior, mas foi incapaz de se mexer
quando o marido se aproximou e a despiu com os seus olhos desconfiados.
Leonardo colocou-se à frente dela. Analisou-lhe o rosto com atenção. Os olhos
vermelhos, inchados de tanto chorar. Os cabelos desalinhados. As roupas
amassadas e aquele maldito cheiro a tabaco que ele vinha ignorando há já vários
meses. Era tão cínica, falsa e mentirosa.
- Onde é que estiveste?! - ele perguntou rispidamente.
- Na clínica - ela respondeu, assustada.
220
- Mentira – o tom de voz do marido obrigou Laura a recuar dois passos. – Tu não
estiveste lá. Onde é que estiveste?
- Já disse que estive na clínica.
- E eu já disse que é mentira! Sabes porquê? Porque eu liguei para lá e a
recepcionista disse-me que hoje nem sequer puseste os pés na clínica.
Laura calou-se, esmagada pela resposta do marido.
- Andas-me a seguir?! - ela defendeu-se.
- Não tentes virar o jogo a teu favor! Diz! Onde é que estiveste?
- Na clínica - Laura desviou-se do marido.
- Então porque é que a recepcionista me disse que não estavas lá? E pior, porque é
que não atendeste o teu telemóvel durante a tarde toda?
Pela primeira vez, enquanto ouvia desculpas atrás de desculpas, Leonardo não
conseguiu acreditar numa única palavra proferida pela sua mulher. Chegou à
conclusão de que havia perdido totalmente a confiança nela.
- A impressão que me dá é que tu pensas que eu sou parvo.
- Leo…
- Diz-me onde é que estiveste e a nossa conversa termina por aqui!
- Já te disse! Estive a trabalhar.
- Diz a verdade – Leonardo sacudiu-a nos braços com força. – Diz antes que eu
perca a minha paciência!
- Larga-me! Estás-me a magoar...
- Não largo enquanto não me disseres a verdade! Não largo enquanto não me
disseres com quem estiveste.
- Eu não estive com ninguém.
221
- Diz-me quem é ele!
- Já disse para me largares, merda – Laura gritou, tentando livrar-se dos braços
fortes do marido.
Quando o conseguiu, caiu jogada no tapete da sala. Por momentos, Leonardo não
a reconheceu. Demorou muito, talvez demasiado tempo, mas tinha-se tornado
finalmente evidente que as suas desconfianças não eram infundadas. Laura estava
realmente a traí-lo com outro e ele não iria descansar até descobrir quem era o seu
amante.
- Vou dormir - ele disse. - No quarto de hóspedes! Mas escuta uma coisa que te
digo, Laura! Eu não vou descansar até descobrir quem é o filho da puta com quem
me andas a trair...
Leonardo abandonou a sala depois de desferir um último olhar de ódio à mulher.
Deixou-a sentada no chão, com as pernas estendidas sobre o tapete, sem forças
para se arrastar em direcção ao sofá. Quando o fez, colocou cabeça por entre as
pernas e chorou copiosamente.
O círculo estava a pouco e pouco a fechar-se, ela chegou a essa conclusão. O marido
finalmente percebera que algo de errado se estava a passar no casamento dos dois.
Já não havia cumplicidade, já não havia desejo e muito menos confiança. Aos
pouco, todos esses sentimentos se desvaneceram sem razão aparente e não havia
mais como voltar atrás.
Completamente desesperada e sem saber o que fazer dali por diante, não restou
outra alternativa a Laura a não ser continuar a chorar. Chorar por si, pelo seu
casamento fracassado e também pelos filhos que não mereciam uma mãe tão vil e
sem carácter.
222
23
Depois do banho e de enxugar os cabelos com uma toalha, Laura posicionou-se à
frente do espelho e deparou-se com uma visão no mínimo assustadora. No que é
que se tinha transformado, perguntou-se. De facto, não sabia. Não sabia quem era a
mulher que estava ali à sua frente, não sabia o porquê de se ter transformado num
ser humano tão mentiroso e não sabia o que fazer para voltar a ser a perfeita dona
de casa, a mãe maravilhosa sempre atenta às necessidades dos filhos e a mulher
que um dia jurou nunca o trair o marido. Contudo, volvidos dez meses, tudo
mudou. Já não era a mesma e à sua volta tudo se desmoronava como um baralho
de cartas. Havia três noites que o marido se recusava a dormir no mesmo quarto e
a partilhar a mesma cama. Passava por ela sem sequer lhe falar e ignorava a sua
presença até mesmo à hora do jantar enquanto os filhos comiam e brincavam,
indiferentes ao clima gélido que reinava entre eles.
João e André encontravam-se demasiado animados com os preparativos da festa
do seu oitavo aniversário e não pensavam em outra coisa. Planeavam brincadeiras,
presentes e convites. Todos os anos repetiam a mesma comemoração. O pai fazia
questão de preparar os detalhes do evento, contratando uma empresa de
animação, palhaços, uma banca de doces, gelados e algodão doce. A casa enchia-se
de risos, boa comida, adultos e crianças e não havia ninguém que não se
divertisse. Era a alegria total que se concretizava há pelo menos oito anos. Mas
naquele em especial, não trazia a mesma excitação de outros tempos.
Leonardo fez um esforço sobre humano para não deixar transparecer aos filhos a
tristeza profunda que tinha no olhar. Uma tristeza que o assolava a cada instante
sempre que se lembrava do seu casamento em ruínas sem que pudesse fazer
absolutamente nada para o salvar. Laura também não conseguia livrar-se daquele
terrível sentimento de culpa e arrependimento. Passava grande parte dos seus dias
a tentar encontrar formas de submergir daquele enorme lamaçal de mentiras em
que se havia metido, mas os seus esforços pareciam em vão.
223
- Vou lá abaixo ajudar os homens a terminar de montar a tenda - Leonardo
surpreendeu-a no interior da casa de banho.
- Precisam de ajuda?
- Não! Mas despacha-te a ajudar a Antónia na cozinha. Já chegaram os doces e as
bebidas.
- Leo... - a voz trémula de Laura impediu o marido de abandonar a casa de banho.
- O que foi?
- Temos que falar.
- Hoje não é o melhor dia.
- Eu sei que estamos a passar uma fase difícil...
- Isto é muito mais do que uma fase difícil - as palavras amargas de Leonardo
serviram como uma facada no coração de Laura. - Despacha-te! Estou lá em
baixo...
A festa das crianças começou ao meio-dia no grandioso jardim frontal da casa.
Fazia um calor de trinta graus, pouco corrente em finais de Setembro.
Compareceram ao evento familiares próximos, amigos de longa data e todos os
colegas de turma de João e André, que divertidos e maravilhados pelo ambiente
mágico que se fazia sentir, brincaram nos escorregas, baloiços e na tenda
insuflável repleta de balões enchidos pela equipa de animação.
Ao fundo do quintal, Leonardo e Francisco Saraiva ultimavam o churrasco na
companhia de outros colegas de trabalho que aceitaram de bom grado as cervejas
geladas trazidas do interior da casa.
A empregada Antónia não conseguia dar conta de tantas tarefas por fazer, mas
congratulou-se com a ausência mental da patroa, que contrariamente ao que
sempre fazia, não exigiu que se esmerasse a cortar os legumes, a bater as claras até
ao ponto certo ou a examinar ao último milímetro todos os ingredientes das
refeições servidas ao longo das cinco mesas expostas no jardim. Naquele dia,
Laura encontrava-se totalmente aérea. Nem parecia a mesma, e Sofia Saraiva, a
mulher de Francisco, foi a primeira a reparar nisso.
- Estás bem?
224
- Estou - Laura retirou uma garrafa de vinho do frigorífico, ignorando a correria e
os gritos de várias crianças pela casa.
- Porque é que a Rita não veio?
- Está de plantão na clínica - Laura mentiu.
- Estás doente?! - Sofia tocou-a no rosto pálido. - Estás com uma cara horrível.
- Só estou um pouco cansada. Só isso.
- Pois, imagino! Não deve ter sido nada fácil preparar esta festa toda para os
miúdos.
- Não, não foi - Laura continuou a tirar as garrafas de bebida do interior do
frigorífico e depositou-as sobre a mesa da cozinha. - Antónia!
- Sim - a empregada largou imediatamente tudo o que estava a fazer.
- Vai levando estas garrafas até ao jardim, por favor! O almoço vai ser servido
daqui a pouco.
- Sim, senhora.
Sofia voltou a reparar nos gestos lentos e fatigados de Laura quando a empregada
abandonou a cozinha.
- Acho que devias tirar uns dias de folga. Pareces um farrapo. Sempre invejei o teu
físico, mas agora vendo bem, estás também muito mais magra. Estás a vestir o
quê? Um trinta e quatro?
- Eu estou bem, Sofia - Laura ignorou-lhe o comentário meno próprio.
- O Francisco contou-me que foste promovida lá na clínica, mas isso não é motivo
para mergulhares no trabalho e esqueceres-te da tua saúde. Aproveita mais a vida!
Viaja, vai fazer compras, interna-te num SPA! Faz uma segunda lua-de-mel com o
Leo e deixa as crianças com a empregada...
Os conselhos de Sofia não obtiveram qualquer resposta por parte de Laura.
225
- Eu sempre disse ao Francisco: Sabes qual é o problema da Laura?! Trabalhar
demais!
- E sabes qual o teu problema?! - a médica não conseguiu aguentar o ódio que as
palavras fúteis de Sofia lhe causaram. - Trabalhar de menos.
- Calma - Sofia levantou os braços como forma de defesa.
- Desculpa - Laura pediu logo em seguida, tapando o rosto com as mãos. - Eu não
queria dizer isto. Desculpa...
- Não faz mal! Já vi que não estás nada bem! Vou ter com o Francisco ao jardim.
Ricardo compareceu à festa de aniversário dos seus sobrinhos perto a meio da
tarde. Trouxe dois embrulhos e uma expressão contrariada. Não era de todo a sua
intenção aceitar o convite que o seu irmão lhe fizera, mas aceitou-o com o intuíto
de não levantar suspeitas. Ele sabia que a mentira se encontrava presa a um fio de
linha e sabia também que qualquer passo em falso seria fatal. Por esse motivo,
muniu-se de coragem e resolveu enfrentar uma casa que lhe trazia péssimas
recordações.
- Vieste – Leonardo apertou-lhe a mão e forçou um sorriso contrafeito.
- Olá! Como estás?
Ricardo não conseguiu esconder o olhar lancinante enviado à sua cunhada que se
encontrava sentada numa das mesas do jardim. Ela também fez o mesmo.
- Trouxe presentes para os miúdos.
- Não precisavas ter-te incomodado - Leonardo aceitou os embrulhos sem muito
entusiasmo. – Mas agradeço-te desde já por eles! Queres beber alguma coisa?
- Pode ser.
Ricardo seguiu o irmão em direcção a uma das mesas sem no entanto deixar de
trocar um olhar cúmplice com Laura.
Trajada com um vestido azul clarinho estampado às flores, recto, pelos joelhos, e
os cabelos presos junto à nuca, para o cunhado, ela era sem dúvida a mulher mais
bonita da festa. Não havia ninguém que se igualasse à sua beleza.
226
Do lado oposto do jardim, Laura também pensou o mesmo. Pensava no cunhado
a toda a hora e esforçava-se para não enlouquecer com a sua ausência. Mas era
preciso manter as aparências e fingir que não o conhecia de lado algum.
Desde o terrível incidente no apartamento de Ricardo com Rita, ela nunca mais lá
pôs os pés. Sentia-se constantemente amendrontada, receosa de que algum gesto
seu fosse desencadear ainda mais desgraças. Era como se um vírus tivesse
infectado a sua vida. Então a destruição começou lenta e implacável. Ela deixou de
ter controlo sobre o que estava a acontecer. O seu casamento perfeito, tornou-se
imperfeito. Os filhos continuavam a vê-la como um exemplo a seguir embora ela
tivesse plena consciência de que era tudo menos um exemplo a seguir. Dentro de
poucas semanas iria ocupar um cargo pelo qual havia lutado a sua carreira inteira,
mas já não sentia qualquer alegria nisso. Tudo o que lhe consumia a mente e o
espírito era aquela paixão absurda pelo irmão do seu marido. E isso não era justo.
- Mãe! Olha – João correu em direcção à sua progenitora e mostrou-lhe o presente
que recebera momentos antes. – Olha o que é que o tio me deu! Um carro
telecomandado...
- Que bom! É muito giro – Laura beijou os cabelos do filho com alguma tristeza
nos olhos. – Mas tens que ter cuidado para não o estragares.
- Eu sei.
- O teu irmão?! Onde é que se meteu?
- Está ali com os outros! Eu vou lá.
- Está bem, mas não corras…
Tarde demais. Antes que pudesse terminar a frase, João desapareceu da vista de
Laura como um relâmpago. A única coisa que deixou para trás foi o papel de
embrulho e foi por causa dele que ela se viu obrigada a ajoelhar-se para o apanhar.
Nessa altura, a figura de mãe surgiu-lhe diante dos olhos. Com a mala e o casaco
nas mãos, pouca paciência para aturar a barulheira infernal das crianças e cansada
da música aos altos berros, Luísa avisou a filha de que se ia embora.
Laura acedeu à vontade da sua mãe sem fazer muita questão de a manter ali. De
qualquer maneira a presença de Luísa já não lhe fazia falta. Há muito que deixara
de fazer e há muito que a relação que mantinham não passava de uma mera
fachada, fruto de uma ligação parental sem sentido que as obrigava a conviver
apenas em ocasiões festivas.
227
Assim que a sua mãe saiu pelos portões, Laura respirou de alívio e voltou a lançar
os olhos ao grandioso jardim repleto de pessoas. Avistou de longe os filhos, que
inocentes, brincavam na companhia dos amigos e se deliciavam com os truques da
magia improvisados pelo Homem Mágico.
No lado oposto, o marido bebia uma cerveja e conversava com alguns amigos.
Leonardo parecia particularmente animado, mas Laura conhecia-o melhor do que
ninguém. Sabia que a sua alegria era fingida. Escondia uma tristeza inexplicável.
A mesma tristeza que ela já não conseguia esconder por simplesmente não ter
forças para isso. Encontrava-se cansada de fingir e mentir. Vivia constantemente
assombrada de dúvidas e receios. Só queria que tudo tivesse um fim e que os
problemas se desvanecessem tal como nasceram. Sem que se desse conta. Como
num passe de mágica. Como os truques mirabolantes do Homem Mágico.
Mas cada vez que olhava para o rosto de Ricardo, um nó invadia-lhe a garganta e
ela desesperava-se. Tinha chegado o momento. O momento de tomar a decisão de
continuar ou terminar com tudo. Juntamente com esse momento veio o receio de
cometer o maior erro da sua vida. Durante muitos meses, ela desejou que alguém
tomasse esse decisão por si. Leonardo talvez. Desejava secretamente que ele
descobrisse tudo, que a expulsasse de casa pois era impossível continuar assim.
Afinal de contas, ela já não era a mesma mulher com a qual ele se havia casado.
Ele tinha esse direito. Se fosse ele a decidir, tudo seria mais fácil. O peso da decisão
e do erro não recaíria sobre os seus ombros. Pelos menos desse fardo, ela podia-se
livrar.
Asfixiada pelos seus pensamentos, Laura refugiou-se no interior da casa. Um
gesto que incitou Ricardo a segui-la com alguma discrição. Contudo, os seus
passos fugídios não escaparam ao olho clínico de Francisco Saraiva. O arquitecto
não necessitou de muito esforço para chegar à realidade dos factos. Percebeu o
rosto nervoso de Laura, a ansiedade patente nos movimentos de Ricardo enquanto
segurava uma cerveja na mão, e mais tarde, a prova cabal das suas desconfianças
quando dois minutos após a entrada de Laura no interior da casa, o cunhado a
seguiu sem levantar suspeitas.
- Deixa-me - Francisco ouviu a voz de Laura atrás da porta do escritório.
- Ficar assim não adianta nada - Ricardo afirmou. - Aliás, se ficares assim, aí
mesmo é que vais levantar suspeitas.
- Toda a gente já sabe.
- Ninguém sabe.
228
- A minha Interna sabe, a Rita sabe...
- Nenhuma delas se vai atrever a contar alguma coisa.
- Como é que podes ter essa certeza?
- Porque se fosse para contar já teriam contado, não achas?! - Ricardo bem tentou
tocar nos cabelos da cunhada, mas ela desviou-se a tempo.
- O que eu sei é que precisamos acabar com isto.
- O que é que queres dizer com isso?
- Temos que deixar de nos ver, pelo menos por uns tempos.
- E achas que isso vai resolver alguma coisa?
- O que eu sei é que eu não quero destruir a minha família.
O olhar de Laura disse tudo. Era profundo, triste, mas decidido. Ela parecia ter
plena consciência do que estava em jogo. A sua vida. A sua família.
- Tudo bem - Ricardo acedeu. - Tens razão.
- Eu procuro-te quando tiver tudo resolvido.
Laura abandonou o cunhado no escritório e desapareceu pelo corredor afora,
ajeitando uma mecha de cabelo que sem querer se desprendeu do gancho. Quando
passou pela porta da casa de banho de serviço, Francisco respirou de alívio. Foi
por pouco que não se viu apanhado pelos passos velozes da médica. Mas não se
podia dizer surpreendido com o que tinha acabado de ouvir e nem admirado
também. Ricardo era um sacana, percebeu esse facto desde o primeiro minuto em
que lhe pôs os olhos em cima. E Laura? Bem! Nem valia a pena expressar tudo o
que pensava sobre ela a partir daquele momento.
O dia já estava praticamente no final quando os convidados se reuniram à volta
de uma das mesas do jardim. O bolo de dois andares, coberto de chocolate,
abrigou duas velas com um formato de oito. Laura acendeu-as com um isqueiro e
Leonardo manteve os filhos, lado a lado, junto à mesa, tentando acalmar a
excitação de ambos por estarem a comemorar mais um ano de vida.
229
Naquele instante todos os problemas foram esquecidos e a felicidade voltou a
reinar nos corações de todos. Enquanto os convidados cantavam os parabéns aos
aniversariantes, Leonardo olhou sorrateiramente para a mulher e ela retribuiu o
gesto. Laura tomou-lhe a mão por debaixo da mesa e apertou-a com força. Tentou
encontrar no rosto do marido qualquer sinal que lhe indicasse que estava tudo
bem, que os dois ainda continuavam juntos, que ainda se amavam e que nunca se
iriam separar. Mas essa certeza não veio. Nem nesse dia e nem nos dias seguintes.
230
24
Laura e Rita eram obrigadas a cruzar-se diariamente nos corredores da clínica
onde trabalhavam. Mas contrariamente ao que acontecia no passado, nem uma e
nem outra escondiam o profundo desconforto que esta situação lhes causava.
Subitamente deixaram de se falar, de almoçar juntas e de trocar confidências.
Também era perceptíveis os olhares de ódio que Rita lançava a Laura sempre que
a via de longe. Odiava-a. Com todas as forças e sabia que tinha todas as razões do
mundo para isso. Jamais a perdoaria. Jamais a voltaria a ver com os mesmos olhos.
Jamais voltaria a considerá-la sua amiga.
- Vais entrar ou vais ficar aí especada?
Laura ignorou o comentário menos feliz da Enfermeira-Chefe e entrou no
elevador em silêncio.
Rita adiantou-se. – Falta pouco para a tua nomeação! Esperemos é que não
aconteça nada entretanto.
- E o que é que poderia acontecer? - Laura observou a enfermeira com alguma
desconfiança.
- Não sei - Rita encolheu os ombros. - Muita coisa pode acontecer até lá.
- Pecisamos falar.
- Não tenho nada para falar contigo.
- Vem comigo ao meu consultório! Lá falamos melhor...
231
Saíram no terceiro piso sem proferirem uma única palavra. Pouco tempo depois,
Laura abriu a porta do seu consultório e abriu passagem a Rita. A enfermeira
entrou com uma expressão contrariada.
- Queria agradecer-te por não teres contado nada ao Leo – Laura voltou a fechar a
porta.
- Não fiz isso por tua causa.
- Mesmo assim! Agradeço-te!
- O que é que queres, Laura? Não posso demorar porque tenho uma série de coisas
para fazer.
- Só queria explicar-te aquilo que aconteceu.
- E o que é que aconteceu para além de ter descoberto a tua traição?! Para além de
ter descoberto que és uma cabra de todo o tamanho, uma vaca e uma ordinária?
- Não me insultes!
- Não te estou a insultar! Só estou a constatar um facto. Que tipo de mulher que
não seja uma ordinária e uma vaca se deita com dois homens ao mesmo tempo?
Laura observou a expressão dura de Rita, mas na altura, não conseguiu dizer
muito mais do que: - Não irias compreender os meus motivos.
- Os teus motivos?! Ainda achas que tens motivos?
- Eu não premeditei nada, está bem...
- Mas também não evitaste - Rita cortou as palavras da médica. - Pelo contrário!
Sabias muito bem o que estavas a fazer quando resolveste ter um caso com o teu
cunhado, mesmo sabendo que eras casada com o irmão dele. Não és nenhuma
adolescente, Laura! Podias muito bem ter evitado os avanços do Ricardo, se é que
ele os fez. Porque conhecendo-te agora como te conheço, não me admirava nada
que tivesses sido tu a enfiar-te na cama dele.
Laura manteve-se em silêncio perante os ataques de Rita.
232
- Eu não vou contar nada ao Leo, podes ficar descansada! E também não
precisavas ter-me chamado aqui apenas para me convencer do contrário. Já me
tinha decidido a ficar calada, não por ti, e muito menos pelo Ricardo, mas sim pelo
Leo e pelos vossos filhos. Porque eu não quero que eles sofram quando
descobrirem a cobra venenosa que têm em casa – Rita voltou a destrancar a porta
do consultório de Laura. – Mas não contes mais comigo para ser tua amiga ou para
te defender das víboras que por aí andam. Na verdade, acabaste de ganhar mais
uma inimiga aqui dentro. E se depender de mim, o teu mandato enquanto Chefe
de Equipa nesta clínica, vai ser tudo, menos um mar de rosas...
Rita abandonou o consultório logo em seguida e fechou a porta com violência.
Uma lágrima caiu-lhe dos olhos quando percebeu que sua amizade com Laura
estava irremediavelmente perdida. Seguiu pelos corredores, desolada e só parou à
frente do elevador minutos mais tarde. Premiu freneticamente o botão de
chamada, desejando sair dali o mais depressa possível para que ninguém a visse
chorar. Contudo, uma voz jovial interceptou-a a tempo. Rita reconheceu-a. Era
Joana Lima. A Interna de Laura.
- Será que podia vir comigo? Queria mostrar-lhe uma coisa - Joana disse.
- O quê? - Rita lançou-lhe um olhar desconfiado.
- Um vídeo.
Rita reconheceu o patamar de entrada do apartamento de Ricardo e reconheceu
também o próprio quando este tomou Laura de assalto e lhe retirou as roupas. Os
momentos que se seguiram apenas provocaram em si uma enorme ânsia de
vómito. Os dois amantes, praticamente nús, tendo relações sexuais como dois
animais nas escadas do prédio. Era horrível ver aquilo. Nojento. Era também
horrível pensar que durante todo aquele tempo ela tinha vivido enganada, presa a
uma relação que julgava perfeita, mas que não era nada mais do que uma ilusão
ou um passatempo para o cunhado de Laura.
Ricardo nunca beijara daquela forma. Nunca a tocara de uma maneira tão
profunda, com ardor, sofreguidão, deixando-a sem fôlego e completamente à sua
mercê. E só então que ela percebeu o porquê de ele nunca o ter feito. Porque ele
nunca a desejou. Porque não era dela que ele gostava. Era de Laura. E isso tornou-
se evidente nos poucos minutos em que demorou o vídeo filmado por Joana.
- Será que me podias passar este vídeo? - Rita limpou uma nova lágrima que lhe
caiu dos olhos.
233
- Porquê?!
- Podes-me passar o vídeo ou não?
O dia trinta de Setembro começou cedo quando Laura entrou no seu consultório,
trazendo nos braços o computador portátil e o CD de apresentação que iria fazer
parte da sua tomada de posse. A sessão estava marcada desde há muito, mas
ainda assim ela necessitou de algum tempo para rever com calma a sua
apresentação digital e também o discurso que preparara ao longo de três semanas.
Dentro pouco tempo iria tornar-se finalmente na nova Chefe de Equipa Médico-
Cirúrgica. Estava nervosa, não podia negar. Receosa do que o futuro lhe
reservava. Após vários anos de luta e de trabalho árduo, aquele era o momento
pelo qual havia ansiado. Um degrau importante na sua carreira. O primeiro
obstáculo ultrapassado.
- Dr.ª Laura – a auxiliar de serviço bateu à porta do consultório da médica.
- Sim.
- O director da clínica quer falar consigo! Pediu para que fosse ao seu gabinete.
- Diga-lhe que já vou! Obrigada...
Laura do seu consultório com a sensação de dever cumprido. A apresentação
estava mais do que concluída, o CD colocado na unidade de DVD RW e o discurso
revisto até ao ínfimo pormenor. Dirigiu-se ao gabinete de Carlos Fonseca, o
director da clínica, para uma conversa informal com alguns médicos especialistas,
cirurgiões e outros técnicos de saúde exteriores convidados para assistir à sessão
da sua tomada de posse. Terminada a conversa, regressou ao seu consultório e
encontrou tudo exactamente como deixara. O portátil sobre a secretária e o seu
discurso escondido no interior de uma pasta.
O auditório principal recebeu perto das onze horas uma enchente de enfermeiros,
assistentes, auxiliares, médicos, internos e outros colaboradores que diariamente
ofereciam o seu precioso contributo para o bom funcionamento da clínica.
Após vários anos à frente de uma das equipas de cirurgiões mais prestigiadas do
país, Alfredo Meireles vivia aquele que era o seu último dia de serviço. Cinquenta
anos. Um marco histórico para um médico que sempre se dedicou ao trabalho,
esquecendo-se muitas vezes da sua vida pessoal e dando tudo de si em prol de
uma causa maior que era salvar vidas humanas.
234
Estes foram alguns dos elogios que Carlos Fonseca - o director da clínica - teceu
ao Cirurgião, num discurso algo propangadista, diga-se de passagem.
Minutos depois, Carlos chamou-o ao palco. Recebeu-o na tribuna com um aperto
de mão e um abraço cordial. Depois, abandonou o palco e permitiu que Alfredo
Meireles tomasse a palavra perante uma plateia em silêncio.
- Lembro-me do primeiro dia em que aqui cheguei. Um jovem inexperiente de
cinquenta e oito anos... – o discurso de Alfredo Meireles arrancou uma risada geral
à plateia. – Tinha pela frente a tarefa exigente de liderar uma equipa de doze
cirurgiões altamente qualificados e dedicados ao serviço de salvar vidas humanas.
Não me considero um homem religioso, na verdade, em toda a minha vida não me
lembro de ter rezado uma única vez. Mas hoje posso dizer que acredito em
milagres pois nunca imaginei encontrar tão nobres profissionais. Profissionais que
me acompanharam ao longo destes vinte anos em que estive à frente desta equipa.
Profissionais que deram tudo de si, que se empenharam, se esforçaram e muitas
vezes ultrapassaram as minhas próprias expectativas. Não é fácil ser-se Chefe de
Equipa. Reconheço que muitas vezes não soube dar respostas certas. Reconheço
também que falhei, que errei e nem sempre fui justo. Mas apesar de todas as
minhas falhas humanas, tentei sempre, em todas as ocasiões, oferecer o melhor de
mim. O meu máximo. E é o máximo que se pede a um Chefe de Equipa. Sempre.
Cabe a ele incentivar, apoiar, administrar e gerir inúmeros egos e personalidades
distintas. Cabe a ele manter-se de pé, ainda que tenha feito um plantão de setenta
e duas horas, que não tenha tido tempo para se alimentar ou para estar com a
família. Recaem sobre ele inúmeras responsabilidades e são a ele exigidas as
respostas para todos os problemas que possam surgir. Mas ainda assim, ainda que
ele seja a figura central, de nada vale o seu estatuto se não conseguir manter uma
equipa forte e coesa. Eu tive essa sorte. O milagre aconteceu. Ao longo destes vinte
anos, consegui formar uma equipa da qual muito me orgulho. Alguns já cá não
estão, outros felizmente ainda permanecem, mas todos foram decisivos para que
esta clínica conseguisse alcançar a excelência a que sempre se propôs. Volvidos
estes vinte anos, sinto que o meu tempo chegou ao fim, mas saio de consciência
tranquila. Saio com a consciência de que existirão outros profissionais à altura
para ocupar o cargo que hoje deixo disponível… - Alfredo Meireles encontrou o
rosto de Laura no meio da plateia. – Profissionais vorazes e competentes que me
passaram pela mão e que hoje estão aptos a assumir o meu lugar. Há dez anos
conheci um destes profissionais. Destacou-se pelos seus olhos verdes, grandes e
vivos. Era uma jovem médica, de figura imponente e altiva, capaz de dizer tudo o
que lhe vinha à cabeça. Confesso que inicialmente hesitei em chamá-la para a
minha equipa, pois não queria problemas, mas sim soluções. Contudo, em muito
pouco tempo, ela provou-me ser a solução para muitos dos meus problemas.
235
Atrevo-me a dizer que foi sem sombra de dúvidas a melhor Neurocirugiã com
quem tive a oportunidade de trabalhar ao longo da minha carreira. A sua garra, a
sua força, persistência e determinação foram factores decisivos para que eu
resolvesse voltar atrás na minha decisão e incluí-la na minha equipa residente. E
não me arrependo de o ter feito, pois hoje deixo-lhe o meu lugar com a certeza de
que não o poderia deixar a mais ninguém... - Alfredo voltou-se para Laura e
encarou-a com um sorriso paternal. - Dr.ª Laura Alves! A si lhe dirijo estas últimas
palavras com especial apreço e admiração. Eu acredito e sempre acreditarei em si.
Faça um bom trabalho...
Quando Alfredo Meireles terminou o seu discurso, a plateia manifestou-se de pé
com uma enorme salva de palmas. Era o fim de uma era, foi o que muitos
pensaram. E dentro de pouco tempo iria começar outra.
Laura levantou-se do local onde se encontrava sentada e com a sua frieza habitual
subiu ao palco. Aceitou o aperto de mão do seu antecessor. Alfredo surpreendeu-a
com um abraço cordial e deixou-a sozinha em cima da tribuna, exposta a um
conjunto de três centenas de pessoas que continuavam a observá-la com atenção e
a tentar decifrar-lhe qualquer tipo de emoção humana. Mas tal como sempre, isso
não aconteceu. Laura manteve-se tão fria como um cubo de gelo. A Rainha do Gelo,
era assim chamada por muitos dos funcionários da clínica. A sua capacidade inata
para camuflar emoções apenas se tinha aperfeiçoado com o tempo.
- Bom dia – ela aproximou-se calmamente do microfone e interrompeu o silêncio
assombroso instalado naquele enorme auditório. – Antes de mais, gostaria de
agradecer a presença de todos e reforçar o quanto me sinto honrada por pisar hoje
este palco. Confesso! Caí no erro de preparar um discurso... - a plateia voltou a
manifestar-se alegremente - Mas diante das palavras sábias e gentis do Dr.º
Alfredo Meireles, que desde já agradeço, percebi que o que demorei três semanas
a escrever já não é o que quero dizer e com certeza também não será o que este
auditório quer ouvir…
Ouviu-se um longo silêncio até Laura voltar a falar.
- Cresci numa família monoparental. Nunca cheguei a conhecer o meu pai. Nunca
tive uma figura masculina na minha infância. Ele desapareceu antes de eu ter
nascido. Fui criada unicamente pela minha mãe, uma mulher recta, firme e fria
que incutiu na minha educação todos os valores que considerava importantes para
que também eu me tornasse igual a ela. E a verdade é que foi isso que aconteceu.
Talvez fosse um fardo demasiado pesado para uma criança de dez anos saber que
a sua mãe não conseguira alcançar o sonho de se tornar Neurocirurgiã por sua
236
causa. Mas para mim, esse facto transformou-se antes num incentivo. Um
objectivo de vida. Decidi tornar-me médica aos doze anos de idade, ainda sem
certezas do que o destino me reservava ou se teria capacidades de exercer esta
profissão. Mas rapidamente o meu objectivo de vida tornou-se numa obsessão,
quer para mim, quer para a minha mãe. Não existiu uma única noite em que não
estudássemos juntas até às três da manhã, ainda que tivesse provas no dia
seguinte. E faziamo-lo muitas vezes usando cada uma de nós uma lanterna na
mão. Porquê, muitos de vocês perguntam. Porque nem sempre tínhamos dinheiro
para pagar a electricidade ou para comer... – o discurso de Laura prendeu a
atenção de Rita, sentada numa das últimas filas da plateia. – No dia seguinte,
perto das seis da manhã, a minha mãe acordava-me para voltarmos a estudar
antes de eu ir para a escola. Via-me literalmente a esbarrar em todos os móveis da
casa por não ter forças para abrir os olhos. Estudava praticamente vinte e quatro
horas por dia sem ter aquilo a que muitos chamam de uma infância ou uma
adolescência normal. Nunca tive amigos, nunca fui acampar e nunca fui ao baile
de finalistas. O meu objectivo era tão-somente entrar no curso de Medicina com
vinte valores. Entrei com 19,8 e senti-me derrotada. Durante os cinco anos de
curso, sustentados pela minha mãe com dois empregos como empregada
doméstica, cheguei à conclusão que não poderia ter escolhido outra profissão. Eu
vivia, respirava e dormia a pensar em Medicina. Depois de concluir o curso, no
primeiro dia do meu Internato, apresentei-me perante o Dr.º Eduardo Lima.
Lembro-me de uma frase que ele me disse no auge dos meus vinte e três anos,
altura em que pensamos que já sabemos tudo o que deveríamos saber. Ele disse-
me: Você não é médica e nem nada que se pareça. Não cometa a ousadia de se auto intitular
desta forma perante a minha presença. Na altura, com toda certeza pela minha
imaturidade, recusei-me a perceber o significado desta frase. Mas hoje, aqui neste
palco, devo dizer que fez-se luz. A experiência é a maior arma que um profissional
de saúde pode adquirir para si. Sei que aos olhos de muitos, ainda continuo a ser
demasiado nova. Dezasseis anos de serviço é realmente muito pouco perto da
experiência que reina aqui neste auditório. Mas o que posso afirmar com toda a
certeza é que, apesar de saber que vou errar algumas vezes, de que nem sempre
serei justa e de que muitas vezes me faltarão respostas correctas, tal como o Dr.º
Alfredo Meireles afirmou, também sei que darei o meu máximo. Sempre. Em
todas as ocasiões... - o discurso de Laura culminou com um sorriso contido à
primeira fila do auditório onde o Ex. Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica
continuava a ouvi-la com atenção. - Por isso, Dr.º Meireles! Endereço-lhe
igualmente estas palavras de apreço e admiração! Esta médica, de olhos verdes,
grandes e vivos, de figura imponente e altiva, capaz de dizer tudo o que lhe vem à
cabeça, também sempre acreditou em si e hoje lhe agradece o bom trabalho que
desempenhou ao longo destes seus curtíssimos cinquenta anos de serviço…
237
Ouviram-se palmas e uma ovação de pé durante largos minutos. Tentando afastar
de si quaisquer sentimentos humanos, Laura encontrou num copo de água sob a
tribuna o líquido perfeito para se acalmar e voltar à normalidade. Nessa altura,
dois técnicos de serviço encarregaram-se de montar o projector. Seria ali exibido o
programa que Laura pretendia implementar ao longo do seu mandato enquanto
Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Um programa amplamente elogiado pelo
director da clínica e que lhe valeu a nomeação para um dos cargos mais relevantes
do hospital. Faltava pouco. Faltava muito pouco.
Algumas pessoas vagueavam pelo grandioso auditório, outras aproveitavam para
colocar a conversa em dia, mexer nos seus respectivos telemóveis e computadores
portáteis. Laura ouviu atentamente as instruções dos técnicos de serviço e pediu
explicações sobre como actuar com o projector ao longo da apresentação. No
momento em que as luzes se apagaram, os seguranças tentaram fechar as portas
de madeira, mas Joana Lima interceptou-os a tempo. Foi a última funcionária da
clínica a entrar. Vinha cansada de um plantão de vinte e quatro horas na ala de
Pediatria, mas ansiosa e expectante para assistir ao término da tomada de posse de
Laura.
Havia qualquer coisa na sua Orientadora a intrigava. Algo difícil de explicar
quando se via a pensar nela quase todas as horas do dia, a persegui-la pelos
corredores da clínica e a sonhar com a possibilidade remota de um dia tornar-se
sua amiga. Obsessão? Ódio? Raiva? Inveja? Amor? Joana não sabia. Mas de uma
coisa tinha a certeza. Laura fora o primeiro ser humano a despertar a sua atenção e
a primeira mulher a preencher o seu imaginário de uma forma dúbia.
Os seguranças permitiram a sua entrada e depois disso ninguém mais entrou. No
interior da sala, encontravam-se cerca de trezentas pessoas. Caras conhecidas,
outras nem por isso, mas ninguém suficientemente intimidante para que Laura
não se concentrasse na sua apresentação. Quando ofereceu um sinal de dedos ao
técnico para iniciar a projecção, a médica teve a certeza que já não havia como
voltar atrás. Acedeu ao seu computador portátil e em seguida procurou a
apresentação que havia visto e revisto durante semanas a fio.
O CD na unidade de DVD RW foi rapidamente accionado, mas foi necessário
algum tempo de espera até que as primeiras imagens fossem perceptíveis aos
olhos dos demais.
Por estar de costas para o grandioso ecrã, Laura não se apercebeu do profundo
desconforto proveniente na plateia. Vozes arrepiadas. Expressões incrédulas. A
estupefacção estampada nos rostos de cerca de trezentas pessoas que se viram
obrigadas a assistir à figura da nova Chefe de Equipa numa acesa discussão com
um homem desconhecido.
“- Tens consciência de que se te fores embora, nunca mais voltas a pôr cá os pés…”
238
Ao reconhecer a voz do seu cunhado, Laura voltou-se para o enorme ecrã.
Subitamente a tela pareceu engoli-la.
- És um porco!
- Sabes qual é o teu problema?! Pensar que todos os homens são iguais ao meu irmão! O
Leo habituou-te mal! Ele é submisso, não tem personalidade, põe-te num pedestal e espera
sempre que tu tomes as rédeas da vossa relação. Já deve estar cansado de saber que lhe pões
os cornos, mas nem assim tem tomates para te encostar contra a parede e exigir que lhe
contes a verdade! E sabes porque é que continuas a vir cá? Não é por causa de sexo ou coisa
nenhuma. É porque meteste nessa tua cabeça que me irias transformar num novo Leo…
- Tu nunca irias ser igual ao Leo! Ele é mil vezes melhor do que tu.
- Ai é?! Então o que é que ainda estás aqui a fazer? Porque é que ainda não te foste
embora? Vai! Volta para casa! Volta para o palhaço do meu irmão e para a vossa
maravilhosa família...
- Metes-me nojo!
- Adivinha lá! O sentimento é recíproco...
Os momentos que seguiram foram de profundo choque, especialmente para
Laura, que sozinha no palco, viu a sua imagem e a sua privacidade expostas de
uma forma incontestável.
Enquanto se entregava ao cunhado, praticamente nua, permitindo que ele a
tomasse por trás e lhe segredasse palavras obscenas aos ouvidos, Laura sentiu
uma branca e o seu corpo paralizar. No visor surgiu a palavra TRAIDORES escrita
em letras garrafais, reforçando uma verdade que aos olhos de todos parecia
irrefutável. Foi a gota de água para que o director da clínica, que furioso, se
levantou da cadeira e ordenou a retirada do video. Laura não esperou segunda
ordem. Desorientada, arrancou o cabo que ligava o computador ao ecrã e atirou-o
ao chão. Em seguida, ergueu o rosto e viu à sua frente centenas de olhares
recriminadores que a observavam com desdém, sarcasmo e indignação. Alguns
cochichavam entre si, outros riam-se baixinho, e os restantes, homens na sua
maioria, assobiavam freneticamente como se tivessem aprovado a sua prestação
sexual. Mas nada pôde exemplificar a humilhação sentida por Laura quando ao
fundo do auditório, por entre a multidão, lhe surgiu o rosto diabólico Joana.
Acredite Dr.ª Laura! Acabou de assinar a sua sentença de morte, ela disse-lhe uma vez,
e a verdade é que a afirmação da jovem não poderia estar mais certa. Aquela havia
sido a sentença fatal de Laura.
239
Perante os burburinhos provenientes da plateia e o choque instalado no auditório,
Laura voltou ao palco e recolheu as folhas da apresentação colocadas sobre a
tribuna. Mais tarde, agarrou igualmente no seu computador portátil e abandonou
o auditório munida de uma frieza sobre humana. Ordenou aos seguranças que lhe
abrissem a porta, e quando saiu, o barulho e o choque das pessoas tornou-se
ensurdecedor.
- Dr.ª Laura – Joana correu afogueada ao encontro da médica. – Dr.ª Laura…
Laura parou junto às escadas de serviço, mas não teve forças para afastar Joana de
si. Olhou-a com inércia, cansaço e tristeza.
- Não fui eu que troquei o CD da sua apresentação.
A médica não respondeu. Em vez disso, empurrou as portas de serviço e
desapareceu pelas escadas com a nítida certeza de que aquele havia sido o seu
último dia de trabalho naquela clínica.
- Não fiques com remorsos.
Joana voltou-se para trás quando ouviu voz gélida de Rita ao fundo do corredor.
- Ela mereceu.
240
25
Sem forças para regressar a casa e enfrentar todos os problemas que a
atormentavam, Laura passou as últimas horas do dia enfiada num bar, sozinha,
afogada numa garrafa de whisky. Precisava esquecer-se de tudo , isso era um facto
assente. Precisava esquecer-se de toda a vergonha e humilhação que sofreu à
frente de três centenas de pessoas que a viram nua mantendo relações sexuais com
o irmão do seu marido e precisava também reagir ao facto de ter perdido para
sempre o cargo de Chefe de Equipa. Diante daquela catástrofe comparada apenas
com o facto de ter que regressar a casa, a única coisa que ela conseguiu fazer foi
engolir o último trago de whisky e encher um novo copo.
Talvez tudo aquilo não passasse de um castigo, pensou. Um castigo por todas as
mentiras que contou, por todas as traições que fez e por se ter deixado mergulhar
num ciclo vicioso que mais parecia não ter fim. Após tantos meses presa a uma
relação extra-conjugal, Laura chegou à conclusão que se deixou afundar num mar
de mentiras e irresponsabilidades. Percebeu também que existiam coisas bem mais
importantes do que uma boa tarde de sexo ou a sensação de romper um
quotidiano que a aborrecia. Porque na verdade, era apenas isso que o cunhado lhe
proporcionava. Sexo. Muito bom sexo. Mas ainda assim, só sexo, e isso não era
suficiente para que ela continuasse a viver daquela maneira.
Quando abandonou o bar onde passou as horas mais horripilantes da sua vida,
Laura enfiou-se no carro e tentou controlar as voltas que a sua cabeça deu. Tinha
bebido demais. Talvez nem devesse deveria cogitar a ideia de entrar num carro e
conduzi-lo, mas o adiantado das horas indicou-lhe que era altura de voltar para
casa.
Meia hora depois, Leonardo observou a mulher a estacionar o carro à frente dos
portões da grandiosa moradia que partilhavam. Viu-a a sair do veículo,
tropeçando nos próprios pés e caminhando descompensada ao longo do jardim.
241
Quando ela entrou em casa e largou as chaves sobre a mesinha do corredor,
Leonardo percebeu que a mulher se encontrava embriagada. Laura sentou-se no
primeiro degrau das escadas que ligavam os dois pisos da casa e enfiou a cabeça
por entre as pernas. Sentiu que não estava no seu próprio corpo.
- O que é que aconteceu? - Leonardo perguntou.
- Estou bêbada - ela respondeu, tapando o rosto com as mãos.
- Isso já deu para reparar! Mas o que é que aconteceu para que tivesses bebido
dessa maneira?
- Perdi o cargo de Chefe de Equipa.
Leonardo bem tentou aproximar-se da mulher, mas Laura desviou-se a tempo
não permitindo sequer que ele a tocasse. Depois disso, subiu ao primeiro piso e
tropeçou no quinto degrau das escadas, proferindo inúmeros palavrões ao longo
do caminho. Para Leonardo, aquela havia sido a gota de água. Enquanto se
debatia em dúvidas, fantasmas e receios, o arquitecto chegou à conclusão que
precisava acabar com aquela história de uma vez por todas e exigir que Laura lhe
contasse a verdade. Já não aguentava mais. Já não aguentava viver com tantas
dúvidas, com medo de descobrir a verdade e acabar com algo que na verdade já
estava acabado.
Pela primeira vez, ele encheu o peito de coragem e preparou-se para a conversa
mais difícil da sua vida. Sabia que tinha chegado a hora. Por isso subiu as escadas
e dirigiu-se até ao quarto. Quando lá chegou, encontrou Laura agarrada ao
telemóvel, passeando pela habitação como uma louca, alheia à sua espionagem. A
médica ansiava que alguém respondesse à sua chamada, mas isso não aconteceu.
Por fim, num acto de puro desespero e de raiva, atirou o telemóvel contra a parede
e levou as mãos à cabeça. Chorou convulsivamente, desesperada, fora de si.
Leonardo entrou no quarto decidido a acabar com tudo.
- Ele não te atende, não é?!
Laura levantou o rosto marcado pelas lágrimas, assustando-se com a visão
aterradora do marido junto à porta.
- Acho que deves ter-te dado conta que quando chegaste nem sequer perguntaste
pelos teus filhos. Nem sequer perguntaste como lhes tinha corrido o dia, se
estavam bem, se já tinham jantado, se já estavam a dormir…
242
- Leo… - ela balançou a cabeça, sentindo duas lágrimas caírem-lhe no rosto.
- E sabes porque é que não fizeste isso?! Porque eles não importam para ti. Nem
eles e nem eu.
- Isso não é verdade – Laura voltou a abanar a cabeça, desolada.
- Estás tão obcecada com o teu amante que até te esqueceste que tens uma família.
- É por causa dessa família que eu vou acabar com tudo.
- Não acredito em ti! Aliás, já não acredito em mais nenhuma palavra do que
dizes.
- Vou acabar com tudo, Leo! E quando eu voltar, tudo vai ser como antes…
Depois de lançar um último olhar ao marido e de apanhar o seu telemóvel caído
no chão, Laura saiu do quarto como um foguete. Deixou Leonardo submerso num
silêncio aterrador que por pouco não o levou à loucura. Era impossível continuar a
viver com tantas dúvidas e tantas perguntas sem resposta, ele pensou. Era impossível
ficar naquela casa sem seguir a mulher e descobrir quem era o seu amante.
Quando desceu ao primeiro piso depois de se ter certificado que os filhos
dormiam profundamente no quarto, Leonardo percebeu que Laura já havia saído
e levado consigo um dos carros da família. Da janela, observou-a a entrar no jipe e
não esperou muito para também ele sair de casa com as chaves do seu BMW nas
mãos. Enquanto a seguia pelas ruas da cidade, o arquitecto viu-se novamente
confrontado com várias perguntas. Quem era o amante da sua mulher? Como é que ela
o conheceu? Há quanto tempo se andavam a relacionar? Seria amor ou só sexo? Estaria ela
a pensar em pedir o divórcio por causa dele? Ou será que iria cumprir a sua promessa e
terminar com tudo naquela noite?
Todas essas perguntas pareceram ter resposta quando Laura estacionou o carro
num bairro pouco movimentado. Em seguida, ela atravessou a rua e entrou no
prédio número 309 debaixo de uma chuva miudinha. Nem sequer levou o casaco
ou se lembrou de trancar as portas do jipe.
Leonardo sentiu-se tentado a sair do carro, mas algo muito forte o impediu de
cometer essa loucura. Talvez o medo de encarar a realidade, de confrontar o
amante da mulher ou de perder a pouca dignidade que ainda lhe restava. Fraco,
disse em voz baixa. Era demasiado fraco para tomar uma atitude que não fosse
digna desse nome. Quando finalmente decidiu sair do carro, a mulher voltou a
sair à rua, visivelmente transtornada e com o telemóvel nas mãos. Fez uma última
chamada, mas ninguém atendeu.
243
A pessoa que procurava ainda não havia chegado a casa e já era meia-noite. Ela
enfiou-se novamente no carro e ali permaneceu durante hora e meia. Estava à
espera do amante, Leonardo chegou a essa conclusão. Nem sequer disfarçava a
ansiedade de o ver, realizando telefonemas constantes enquanto o controlava
através do relógio de pulso. Por fim, a poucos minutos das duas da manhã, numa
rua praticamente deserta, ouviram-se inúmeras gargalhadas e a visão descontraída
de um homem abraçado a uma mulher.
Os dois partilhavam um cigarro, indiferentes ao adiantado das horas. No interior
do carro, Laura forçou um pouco mais a vista e não quis acreditar no que estava a
ver. Reconheceu Ricardo, e ao seu lado, Sofia Saraiva, a mulher de Francisco. E
isso foi suficiente para a ferir de morte.
- Traidor – ela gritou, saindo esbaforida do carro e surpreendendo o cunhado com
um soco nas costas.
- Estás louca?!
- Seu traidor de merda!
Sofia recuou alguns passos, atónita com o súbito aparecimento de Laura à sua
frente.
- Calma – Ricardo segurou a cunhada pela cintura enquanto ela esperneava como
uma louca, tentando atingir o corpo de Sofia. - Deixa-me explicar...
- Explicar o quê?! Explicar que estavas prestes a comer essa vaca?
- Eu não admito que me ofendas – Sofia desviou-se dos pontapés e arranhões da
médica.
- És uma vaca sim! Uma cabra… - Laura tentou livrar-se dos braços de Ricardo
presos à sua cintura.
- E eu posso saber o que é que estás aqui a fazer?! Sim, porque pelo que eu saiba,
tu também és uma mulher casada. Ou será que vais dizer que estavas a passar por
aqui por acaso?
- Não! Não vou dizer isso! E sabes porquê? Porque até há bem poucos minutos eu
tinha um caso com este filho da puta – Laura empurrou o cunhado para longe de
si, gritando esbaforida.
244
- Fala baixo – Ricardo imperou, surpreso por ver a cunhada naquele estado. Nunca
antes a vira assim. Tão fora de si. Tão distante da Laura que conhecia.
- Andaste-me a trair esse tempo todo - Laura apontou-lhe o dedo à cara, ofegante
pelo esforço que fizera. - Primeiro com a Rita, depois com essa daí, e sei lá com
quantas e quantas já não foste para a cama.
- Desculpem! Mas eu não estou para ouvir isto...
- Não penses que te vais embora assim – Laura segurou o braço de Sofia com força
e impediu-a de descer a rua a fim de evitar um escândalo maior. – Primeiro vais
ouvir tudo o que tenho para te dizer. Vais saber exactamente que tipo de homem
te andou a enganar durante esse tempo todo…
- O Ricardo não me enganou coisa nenhuma – Sofia afastou-se bruscamente das
mãos dela. – Eu não estou apaixonada por ele e nem nunca estive. O que tivemos
foi sexo. Só isso. Tu é que caíste no erro de te apaixonar por ele, mas esse é um
problema teu. Resolve-o, porque eu estou fora...
As palavras de Sofia, apesar de cruéis, foram reais. Quando se viu sozinha
naquela rua deserta e olhou para o rosto do cunhado, Laura chegou à conclusão de
que ela havia sido realmente a única vítima daquela história. A única que se
atreveu a entregar o seu coração e a sua vida nas mãos de um homem que não a
merecia e nem nunca mereceu.
Para os homens, a traição é apenas um erro estúpido. Para as mulheres, uma
sentença de morte. O homem trai porque está no seu sistema genético. As
mulheres porque lhe falta algo como a dignidade e o bom senso. Para além do
corpo, a mulher acaba quase sempre por entregar um pouco do seu coração
causando danos irreparáveis à sua volta.
Laura entregou tudo isso. Entregou o seu corpo, o seu coração, a sua carreira e a
sua família. Cedeu tudo e no fim ficou sem nada.
- Vamos subir – Ricardo disse quando a sentiu um pouco mais calma. - Vamos
conversar...
- Não fales comigo.
- Não sejas infantil! Vamos conversar!
245
- Infantil?! Eu é que estou a ser infantil? – os olhos de Laura encheram-se de
lágrimas pela primeira vez. – Tu passas a vida a correr atrás de mulheres, trais-me
com tudo o que te aparece pela frente e eu é que sou infantil? Olha para mim,
Ricardo! Olha para o meu estado? Tens a mínima ideia de como isto está a ser
difícil? Tens a mínima ideia do que é ter que mentir ao teu marido, aos teus filhos
e a todas as pessoas à tua volta?
- Laura…
- Sabes o que é que aconteceu comigo enquanto estavas por aí a enroscar-te com a
mulher do Francisco?! Eu perdi o cargo de Chefe de Equipa. Eu perdi um cargo
pelo qual havia lutado a minha carreira inteira e fui obrigada a demitir-me da
clínica por tua causa.
- O quê?! - Ricardo pareceu incrédulo com tal afirmação.
- Mas o que é que isso te importa, não é?! - Laura balançou a cabeça com a maior
tristeza que ele alguma vez lhe vira nos olhos. - Tu estás-te literalmente a lixar
para mim e para os meus sentimentos, e isso, hoje, tornou-se mais do que
evidente. Fui apenas mais uma que conseguiste comer. Nunca gostaste de mim. Só
me quiseste usar e só quiseste provar a ti próprio que eras capaz de foder a mulher
do teu irmão...
- Não é verdade! Eu amo-te...
Laura não hesitou em esbofetear o rosto de Ricardo quando o ouviu proferir tal
obscenidade. Fê-lo perante o olhar incrédulo do marido, que de longe, dentro do
carro, assistiu a tudo tentando lutar contra a sua enorme vontade de vomitar
quando se viu obrigado a presenciar aquela cena horripilante.
- Nunca mais te atrevas a dizer isso - ela afirmou. - Tu não sabes o que é amar
alguém...
A chuva começou a cair com maior intensidade no momento em que Laura
atravessou a rua e deixou Ricardo de cabeça baixa, envergonhado pelo seu
comportamento idiota. Queria muito que ela tivesse acreditado nele. Nas suas
palavras. Queria muito ter dito o quanto ela era importante para si, o quanto a
amava e o quanto se odiava de morte por lhe ter provocado tanta dor quando a
sua única intenção era dar-lhe o melhor de si. Mas vendo bem, esse melhor era
muito pouco. Muito pouco para uma mulher como ela.
246
26
"- Posso fazer-te uma pergunta?
- Claro.
- És feliz no nosso casamento?
- Sou! Claro que sou.
- Não te falta nada?
- Não...
- E o sexo?
- O que é que tem o sexo?!
- O sexo entre nós! É bom?
- O sexo é bom.
- Bom, mas não é espectacular...
- Bom e espectacular! Eu quero-te! Muito..."
Enquanto Leonardo conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de uma
conversa que um dia tivera com a mulher, a chuva torrencial invadiu o pára-brisas
e o velocímetro ascendeu os cento e vinte quilómetros hora.
247
Não conseguiu evitar que duas lágrimas lhe caíssem dos olhos. Chegou à
conclusão que havia sido um idiota por ter acreditado nas palavras e nas juras de
amor que Laura fez questão de lhe oferecer ao longo dos doze anos em que
estiveram casados. Como se enganou com ela. Como se deixou cegar por uma mulher
tão leviana, fria e repugnante. Uma mulher que não teve quaisquer pudores em
traí-lo com o seu próprio irmão e enganá-lo durante meses a fio. Laura fingiu tão
bem. Enganou-o tão bem. E agora tudo o que lhe restava era aquele estranho
amargo de boca que parecia ter-se-lhe entranhado na garganta e que o impedia de
descer do carro ou mover um único músculo corporal.
Ficou ali, durante vários minutos, a olhar para as portas da garagem, tentando
encontrar forças para se manter vivo. Quando conseguiu, saiu do veículo e entrou
em casa como um foguete decidido a tomar a decisão mais difícil da sua vida.
Meia hora depois, Laura abriu a porta e largou as chaves sobre a mesinha. Não
conseguiu esconder os olhos vermelhos de tanto chorar e a expressão de ressaca
que não lhe abandonou o rosto naquele que havia sido definitivamente o pior dia
da sua vida. Mas ao seguir pelo corredor da casa e sentir o aroma doce que ele
emanava, uma paz imensa invadiu-lhe o coração. Tinha voltado ao ponto de partida,
pensou. Apesar de tudo, tinha conseguido escapar ilesa daquela história e agora
tudo o que lhe restava era seguir em frente e esquecer-se de todas as loucuras que
cometeu no passado.
- Não te dês ao trabalho de subir sequer...
Leonardo surgiu ao cimo das escadas, no meio da escuridão e pontapeou as duas
malas que fizera às pressas, colocando no seu interior algumas roupas e pertences
da mulher. Ouviu-se um barulho ensurdecedor. As malas caíram sobre os pés de
Laura e deixaram-na boquiaberta. Ela levantou o rosto e encontrou a expressão
aterradora do marido. A expressão mais aterradora da qual tinha memória.
- Já não moras aqui - ele afirmou, resoluto.
- Que brincadeira é essa?
- A brincadeira acabou - Leonardo desceu as escadas, degrau a degrau. - Eu já
descobri tudo.
- Descobriste o quê?! - Laura recuou dois passos, assustada.
- Segui-te! Segui-te e vi-te com o filho da puta do meu irmão...
248
As palavras do marido atingiram-na com uma violência desmesurada. Laura
permaneceu alguns instantes sem conseguir articular qualquer palavra. Ficou sem
respiração, e pela primeira vez, naquela terrível e fatígida noite de Outono, sentiu
o coração bater freneticamente como se tivesse sido atingida por uma enorme bola
de demolição.
Leonardo continuou a caminhar lentamente em sua direcção. Cada vez mais
próximo, com olhos de quem a queria matar. Laura afastou-se quando o sentiu
demasiado perto de si, recuando vários passos e sentindo o seu coração bater cada
vez mais depressa. Foi então que o pior aconteceu. Completamente fora de si
como nunca antes estivera, Leonardo surpreendeu-a com uma violenta bofetada
no rosto que a obrigou a cair no meio do corredor.
Foi por pouco que ela não desmaiou.
- Ficaste surpresa, não foi?! – Leonardo agarrou-a com força pelos cabelos. – Não
imaginavas que fosse ter a coragem de seguir e desmascarar a mulher ordinária
com quem eu estive casado durante estes anos todos?
- Larga-me - Laura gritou, raivosa, sentindo as suas pernas fraquejarem perante a
violência do marido.
- O que é que me tens a dizer, hã?!
- Eu não tenho nada para te dizer - a médica voltou a gritar, furiosa.
- Tens sim! Tens muita coisa para me explicar, sua ordinária...
- Não tenho que te explicar nada - Laura conseguiu finalmente livrar-se das mãos
de Leonardo e levantar-se do chão. Observou-o com uma expressão de ódio. - E
não me voltes a tocar outra vez! Se me tocares, eu mato-te...
- Como é que eu pude me enganar tanto a teu respeito - Leonardo olhou-a com
desprezo.
- Não me voltes a tocar - ela apontou o dedo, ofegante.
- Podias ter-me traído com todos os homens à face da terra! Todos! Eu até te
poderia perdoar. Mas escolheste justo o meu irmão. Escolheste alguém que
durante meses andou enfiado cá em casa a comer à minha mesa e a rir-se da
minha cara enquanto também comia a minha mulher – Leonardo gritou com os
olhos rasos de lágrimas.
249
Laura continuou a olhar para o marido, ofegante e assustada. Tinha um medo
terrível que ele a voltasse a bater e que ela não tivesse forças para o impedir.
- Mas acabou! O idiota aqui descobriu a verdade. E eu não te quero mais…! Não
quero continuar casado com uma mulher tão baixa, tão ordinária e tão vagabunda
como tu. Até uma prostituta de rua é melhor do que tu. És um nojo de pessoa, de
ser humano e eu amaldiçoo o dia em que te conheci. Amaldiçoo também o dia em
que me casei contigo e permiti que fosses a mãe dos meus filhos...
- Mereceste - a afirmação insana de Laura chocou o marido. - Se não fosse com o
teu irmão, teria sido com qualquer outro! Se não fosses tão fraco, tão submisso,
sempre à espera que eu tomásse as decisões cá em casa, nada disto teria
acontecido. Eu não me teria sentido tua mãe, em vez de tua mulher...
- Pega nas tuas tralhas e sai desta casa!
- Eu não vou sair – Laura afirmou, resoluta. - Esta casa também é minha.
- Vais sair sim! Queres ver como vais!?
Leonardo alcançou os braços da mulher e arrastou-a em direcção à porta,
enquanto Laura, desesperada, esperneou e gritou pelos filhos. As suas pernas bem
tentaram prender-se ao tapete numa tentativa desesperada de não saírem do
lugar, mas os braços fortes do marido esmagaram os seus intentos. Sem pudores,
ele arrastou-a pelo chão e atirou-a porta fora como se de uma mercadoria
devolvida ela se tratasse. Na verdade, até o próprio se surpreendeu com a
coragem que teve ao deixá-la caída no jardim, mas surpreendeu-se ainda mais
quando também arranjou forças para lhe atirar as malas porta fora. Depois disso,
ouviram-se apenas os soluços e o choro descontrolado de Laura.
- Nunca mais voltes a pisar esta casa e nem te atrevas sequer a aproximar-te dos
meus filhos, porque quando eles acordarem de manhã, eu vou dizer que a mãe
deles morreu!
Ao ver-se jogada no jardim de uma casa que um dia também foi sua, Laura olhou
à sua volta e mergulhou no mais profundo desespero. Num momento de raiva,
correu novamente em direcção à porta e pontapeou-a, exigindo que o marido a
deixasse entrar. Mas a casa silenciou-se e as luzes apagaram-se. Todas as portas e
janelas foram fechadas à chave. Houve a terrível sensação de que se encontrava só.
250
Resignada à ideia de não voltaria a pôr os pés naquela casa, pelo menos nas horas
seguintes, Laura arrastou as malas que o marido lhe fizera e atirou-as para o
interior do porta-bagagens. Em seguida, enfiou-se no banco da frente e deu o carro
à chave. Não tardou a arrancar a alta velocidade.
Leonardo manteve-se escondido atrás das cortinas da janela do quarto. Observou
a partida da mulher sem conseguir derramar uma única lágrima. A imagem do
carro dela transformou-se numa enorme mancha vermelha, e nesse instante,
estranhamente, ele sentiu-se aliviado. Acabou. Foi a única palavra que lhe surgiu
como a definição possível para o seu casamento com Laura.
- O que é que estás aqui a fazer?
Luísa Mendonça não poupou a pergunta à filha quando esta lhe surgiu sobre o
alpendre da sua porta a poucos minutos das três da manhã.
- Deixa-me entrar.
Luísa cedeu passagem e Laura entrou no apartamento da mãe, arrastando duas
malas pesadas atrás de si.
- Posso saber o que é que aconteceu para me chegares aqui a estas horas?
- Separei-me do Leo.
- Ele pôs-te fora de casa?
- Isso não é da tua conta.
- É claro que é da minha conta! A partir do momento em que me pões os pés aqui
dentro a estas horas é compreensível que eu queira saber o porquê.
- Só te estou a pedir que me deixes passar cá a noite. Dispenso os teus sermões...
- Se querias só uma noite porque é que não foste para um hotel?
- Queres que vá?! – Laura gritou, abrindo os braços, esbaforida. – É que se quiseres
é só dizer que eu vou.
- Não te atrevas a falar-me nesse tom, ouviste?! Eu ainda sou a tua mãe e não
admito que me faltes ao respeito dentro da minha própria casa.
251
- Uma casa que eu sustento.
- Não fazes mais do que a tua obrigação - a voz imponente de Luísa obrigou Laura
a calar-se. - Porque se eu fosse cobrar tudo o que me deves, com certeza, eras tu
que saías a perder.
- Não precisas esconder a tua felicidade.
- Do que é que estás para aí a falar?!
- Eu sei que ficaste radiante por saber que eu e o Leo nos separámos.
- Laura, poupa-me! Não queiras descarregar as tuas frustrações em cima de mim.
- Só estou a fazer o que sempre fizeste comigo. Tu é que sempre descarregaste as
tuas frustrações em cima de mim. Sempre torceste para que eu fosse miserável e
infeliz como foste durante toda a tua vida. Sempre quiseste ver-me sozinha como
tu. Pois bem! Já pode lançar os foguetes, D. Luísa Mendonça! Eu estou infeliz,
miserável e sozinha como você. Satisfeita?!
- Eu não tenho nada a ver com as tuas escolhas e muito menos com a tua vida,
Laura! Sempre fizeste questão de me afastar dela desde que te casaste com aquele
idiota do Leonardo, lembraste?! Só te lembravas de mim no final do mês quando
me depositavas dinheiro na conta ou então quando precisavas livrar-te dos teus
filhos para sair com o teu marido. Afastei-me da vossa família porque tu e o
Leonardo me pediram. Então porque é que me estás a culpar, hã? Se tu e o teu
marido se separaram, a culpa foi inteiramente vossa e não minha. Foram vocês
que falharam e não eu…
Ela jamais vencia, a mãe jamais aprovava. Mas a idiotice disso tudo estava no fato
de Laura saber que jamais conseguiria, aprendera isso há muito tempo com a
análise. Sua mãe era quem era e não iria mudar. Era ela quem deveria mudar suas
expectativas. E, em grande parte, tinha conseguido, mas havia ainda momentos
em que, como agora, esperava que a mãe fosse diferente. Ansiava que Luísa a
tomasse nos braços, a acarinhasse e a fizesse crer que tudo iria correr bem. Mas
Luísa jamais seria a mãe compreensiva, carinhosa e amorosa que ela tanto
desejava.
Ao perceber isso, Laura caiu sobre o sofá pronta a chorar todas as lágrimas que
ainda lhe restavam. Não foram poucas, mas ainda assim, ela chorou-as. E quando
terminou, Luísa sentou-se ao lado dela.
252
- Porque é que tu e o Leonardo se separaram?
Laura hesitou alguns segundos na sua resposta por não saber qual iria ser a
reacção da sua mãe quando descobrisse uma verdade que durante meses ela
tentou esconder de todos os que a rodeavam. Para Laura, sempre fora impensável
revelar os seus defeitos, medos e hesitações a Luísa e tudo porque via na mãe um
ser absolutamente perfeito. Demasiado perfeito para sequer a ter dado à luz.
- Traí-o – saiu-lhe essa confissão dos lábios.
- Com quem?!
- Com o irmão dele.
Luísa passou as mãos pelo rosto, mas não foi capaz de proferir qualquer
comentário.
- Eu sei que o que fiz não tem perdão – Laura soluçou. – Mas eu não queria
magoar ninguém. Não queria magoar o Leo e muito menos os nossos filhos. Tenho
medo que ele nunca mais me perdoe. Tenho medo que ele peça o divórcio, que me
afaste dos miúdos, que… que me esqueça! Eu não quero que ele me esqueça, mãe!
Não quero…
- Laura! Eu nunca escondi que não gostava do teu marido. Para mim, ele só
atrapalhou a tua vida desde que vocês se conheceram – o discurso de Luísa mais
uma vez saiu ríspido e seco. – Primeiro, apressou o vosso casamento mal acabaste
o curso. Em seguida, obrigou-te a recusar uma proposta de trabalho em Londres
que poderia muito bem ter-te mudado a vida, fazendo ameaças idiotas de que se
separava de ti caso aceitasses. Depois, veio com a história de terem um filho.
Acabaste por ter dois de uma só vez. E tu, burra como sempre, abriste mão da tua
vida por causa de um homem que agora te pôs para fora de casa só com a roupa
do corpo e duas malas na mão. E achas que eu tenho pena de ti? Nem um pouco!
Eu sempre te disse que este casamento não iria dar certo. Mas tu querias tanto sair
de casa, querias tanto livrar-te de mim, porque sou uma mãe horrível não é,
querias tanto a tua independência, que acabaste por cair nas mãos do primeiro
homem que te passou pela frente mesmo não o amando…
- Eu amo o Leo.
- Se amasses nunca o terias traído, muito menos com o irmão dele!
253
Laura calou-se mais uma vez perante a voz autoritária da mãe.
– Mas agora o mal já está feito! A única coisa a fazer é aceitar o divórcio e lutar
pelos teus filhos, pois acho muito pouco provável que o teu marido te ceda de
livre vontade a guarda das crianças depois desta palermice que fizeste – Luísa
levantou-se do sofá com algum esforço. – Vou-te fazer a cama! Ficas no teu antigo
quarto até resolveres o que queres fazer da tua vida.
Ricardo passou a noite em branco a olhar para as paredes do quarto. Quando os
primeiros raios de sol entraram pela janela adentro, ele abriu os olhos e levantou-
se com as poucas forças que ainda lhe restavam. A discussão que tivera com Laura
na noite anterior ainda lhe estava presente na memória e nem mesmo o facto de
saber que todos os seus problemas finalmente tinham tido um fim, fê-lo sentir-se
melhor. Pelo contrário. Ao perder Laura, ele perdera também a única razão que
ainda o mantinha preso àquele país. Agora era a sua vez de sentir a falta dela, falta
dos seus lábios, dos seus cabelos perfumados e daqueles olhos verdes que lhe
perfuraram o coração desde o primeiro dia em que os viu. Amava-a. Amava tudo
nela e odiava-se por a ter magoado tanto.
O duche de água fria serviu para que limpasse toda a sujidade que se havia
entranhado no seu corpo e o café trouxe-lhe a coragem para segurar o telefone nas
mãos. Era com ele que Ricardo pretendia telefonar a Laura e assumir todos os seus
erros. Pedir-lhe desculpas e informá-la de que a iria deixar em paz para sempre.
Contudo, quando estava prestes a digitar o número, a campainha tocou. Talvez
fosse ela, passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto depositava o telefone
sobre a mesa da cozinha e se livrava da chávena de café que tinha nas mãos. Voou
em direcção à porta, mas a surpresa revelou-se outra. Muito mais amarga.
- Pensaste que era ela, não?! – Leonardo não poupou a pergunta ao irmão quando
este lhe abriu a porta.
- Ela quem?!
- A Laura.
- Porque é que haveria de pensar que era a Laura?! – Ricardo defendeu-se.
- Eu já descobri tudo – Leonardo calou os argumentos do irmão com uma frieza
sobrenatural. – Descobri o teu caso com a Laura.
Sem forma de fugir à realidade dos factos, Ricardo largou a porta e permitiu que
o irmão entrasse em sua casa.
254
- Deixa-me adivinhar! Vieste aqui fazer o papel de marido traído?
- Não vim fazer coisa nenhuma! Só vim dizer-te que finalmente tive a certeza da
bela porcaria de irmão que os meus pais me fizeram questão de dar. Mas confesso
que não estou nem um pouco surpreendido. Sempre soube que não prestavas e
que não valias um tostão furado. Só acho que fui demasiado ingénuo ao acreditar
que podias ter mudado. É óbvio que não. É óbvio que não mudaste e nem nunca
vais mudar. Quem nasce merda, morre merda…
- Se achas que te vou pedir desculpas, estás muito enganado!
- Não esperava tal coisa de ti - Leonardo aproximou-se novamente da porta de
saída. - Ofereço-ta! De bandeja! Isto claro, se ainda a quiseres! É que eu sei que
para ti as mulheres são facilmente descartáveis.
Quando a porta se fechou violentamente, Ricardo cerrou os olhos e voltou o rosto
em direcção à janela. O casamento de Leonardo e Laura tinha chegado ao fim, ele
teve essa certeza. Mas por mais que tentasse sentir-se triste por isso, a verdade é
que não conseguiu. Sentiu-se antes aliviado e secretamente feliz por saber que
algures, aí por Lisboa, a cunhada se encontrava novamente solteira.
255
27
Era a primeira vez que Laura acordava numa casa que não a sua. O seu antigo
quarto, religiosamente mantido intacto pela mãe, não foi suficiente para que
tivesse uma boa noite de sono. A visão daquelas quatro paredes apenas acirrou o
seu desespero ao dar-se conta que tudo o que acontecera na noite anterior não fora
um pesadelo. Além disso, trazia-lhe recordações terríveis da sua infância, de
quando era apenas uma menina desprotegida que sonhava ver-se livre das garras
da mãe e encontrar alguém que a protegesse.
Durante anos, Leonardo cumpriu exemplarmente essa tarefa. Mas agora ela
estava de volta ao ponto de partida. O destino parecia irónico e cruel.
- Acorda - Luísa entrou no quarto da filha às oito horas em ponto e subiu os
estores das janelas com uma velocidade estrondosa. - Já viste que horas são?
- Não vou trabalhar hoje - Laura tapou o rosto com as mãos a fim de proteger os
olhos da luz exterior.
- Porquê!?
- Despedi-me da clínica.
- Olha que bom – a resposta de Luísa foi emitida com algum sarcasmo. – Vá!
Levanta-te, toma um banho e vai até à cozinha que o pequeno-almoço já está
pronto.
- Não tenho fome.
- Tens trinta minutos para te pores na cozinha! Despacha-te – Luísa saiu do quarto
logo em seguida.
256
Laura tomou um banho demorado, indiferente às ordens da mãe e voltou a entrar
no quarto envolta numa toalha encontrada na casa de banho, enquanto enxugava
os cabelos com outra. Sobre a cama, permaneciam as duas malas que o marido
fizera questão de lhe fazer. Escolheu umas calças de ganga e uma camisola preta.
A indumentária perfeita para um dia que prometia ser longo. Quando terminou
de se vestir, já perto das nove da manhã, secou os cabelos e prendeu-os com uma
mola ao cimo da cabeça.
O seu telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira. No visor, ela viu a letra R,
mas não soube muito bem o que fazer. Permaneceu um bom tempo com o
aparelho nas mãos e os olhos postos num número que ainda a atormentava.
Os ovos mexidos feitos pela mãe e as torradas foram degustados com algum
sacríficio, não porque não estivessem bons, mas sim porque o seu apetite era de
facto nulo. Na boca, Laura continuava a sentir o gosto amargo da bebida, e no
corpo, as marcas deixadas pelo marido quando ele a arrastou pelo corredor da
casa e a atirou porta fora. Tinha os joelhos ligeiramente esfolados e uma dor aguda
no braço que parecia piorar a cada minuto. Além disso, a visão da mãe a servir-se
do café e a movimentar-se no interior daquela cozinha minúscula não a deixaram
muito à vontade. Perto de Luísa, Laura continuava a sentir-se como uma criança
de cinco anos com ordens para comer, levantar-se, tomar banho e dormir.
Infelizmente, a mãe tinha o dom de a fazer sentir-se assim. De retirar de si todos e
quaisquer resquícios de maturidade.
- Quanto tempo pretendes cá ficar?
- Não te preocupes – Laura largou os talheres sobre o prato. – Hoje mesmo vou à
procura de um apartamento para alugar.
- Podes ficar o tempo que quiseres! Só perguntei porque preciso saber como me
organizar.
- Onde é que vais?! – Laura fitou a mãe de soslaio quando a viu a tirar um post-it
amarelo da porta do frigorífico.
- Vou ao supermercado e depois vou passar pelo Centro de Saúde.
- Tens alguma coisa?
- Não! Só lá vou entregar alguns exames de rotina.
- Deixa-me vê-los antes de saíres.
257
Após vários minutos a divagar na cozinha, Laura retirou a mesa do pequeno-
almoço e lavou a loiça, numa tentativa desesperada de esquecer os problemas que
a atormentavam. Regressou à sala e observou os móveis que a mãe fazia questão
de manter desde que ela nascera. Continuava tudo igual. Exactamente igual ao
que sempre fora, como se Luísa ainda se quisesse manter presa a um passado que
já não existia, mas que teimava em assombrar a sua existência amarga e infeliz.
Pequenos objectos de decoração, patos em madeira, globos de neve, bailarinas
feitas em porcelana, estantes repletas de loiças empoeiradas que traziam uma certa
nostalgia dos tempos em que viviam as duas na mesma casa.
Passaram-se vários anos, mas Laura continuava a sentir como se pertencesse
àquele apartamento velho a cair aos bocados. Luísa nunca quisera sair dali, ainda
que a filha lhe tivesse oferecido uma moradia novinha em folha. Guarda o teu
dinheiro que um dia te pode fazer falta, disse-lhe na altura, e desde então nunca mais
voltaram a falar sobre o assunto.
Sobre o disco de vinil, Laura encontrou um velho porta-retratos com uma única
fotografia. A sua e a de Luísa. Afastadas, e sem manter qualquer contacto físico,
mãe e filha foram surpreendidas à saída da igreja no dia em que Laura fez a sua
primeira comunhão. Os olhos tristes e chorosos denunciaram que a mãe havia
gritado consigo à frente de todos e esbofeteado o seu rosto quando ela sem querer
sujou o vestido branco comprado para a ocasião. Ao lembrar-se de mais um
acontecimento triste da sua infância, Laura sentiu os duas lágrimas caírem-lhe no
rosto.
Ao final da tarde, dirigiu-se ao colégio dos filhos para os ir buscar. Contava trazê-
los consigo ou pelo menos explicar-lhes os motivos que a levaram a sair tão
abruptamente lá de casa. Todavia, à porta da sala, professora impediu a sua
entrada.
- Foi o meu marido quem a mandou fazer isto?! - Laura questionou, incrédula e
furiosa.
- Não sei do que a senhora está a falar.
- Saia-me da frente! Vim buscar os meus filhos!
- Eu peço-lhe para que se acalme, D. Laura! Senão vou ser obrigada a chamar os
seguranças.
- Saia-me da frente, senão eu passo-lhe por cima!
258
Laura não teve pudores em empurrar a professora, afastando-a da porta e
entrando de rompante na sala de aula onde os filhos se encontravam sentados na
segunda carteira da terceira fila. Quando viram a mãe, os pequenos correram a
abraçá-la com força. Não entendiam o porquê do pai lhes ter dito que Laura não
voltaria a viver com eles e que já não fazia parte das suas vidas. Tinham saudades
dela. Queriam que tudo fosse como antes. Estavam confusos e amedrontados.
- Por favor, D. Laura! Peço-lhe para que saia da sala com os seus filhos. Está a
atrapalhar a aula e a deixar as outras crianças nervosas – a professora argumentou.
Laura acedeu ao pedido da professora, mas antes de sair, lançou-lhe um olhar de
ódio.
- Porque é que foste embora? – João perguntou à mãe quando se sentaram num
dos bancos do corredor principal da escola.
- A mãe não se foi embora.
- O pai disse que nunca mais ias voltar – André completou a frase do irmão.
Laura fez tudo ao que estava ao seu alcance para não chorar, mas isso não foi
possível quando viu diante de si os rostos inocentes dos filhos. Foi só então que ela
se deu conta do terrível erro que havia cometido. Foi só então que a realidade lhe
caiu sobre os ombros e a deixou à beira do desespero.
- A mãe vai voltar.
- Tu e o pai zangaram-se? - João questionou.
- Um bocadinho – Laura limpou o rosto lavado de lágrimas. – De vez em quando
os adultos zangam-se, mas isso não significa que não gostem um do outro. Aliás,
eu quero que saibam que a mãe gosta muito do pai e também gosta muito de
vocês. Muito! Mais do que possam imaginar...
- Então porque é que não voltas para casa? - André parecia confuso.
- A mãe vai voltar – Laura beijou os filhos no rosto e apertou-os contra si. – Só vos
peço um pouco mais de paciência, meus amores! Só mais uns dias! Prometo que
tudo vai ser como antes. Eu, vocês e o pai...
259
Durante a tarde, Laura ligou insistentemente para o telemóvel do marido. Não
recebeu resposta. Desactivou a visualização do número, tentou outras vezes, mas
continuou sem resposta. Ligou para o escritório dele e a secretária num tom
nervoso mentiu dizendo que chefe não se encontrava lá. Laura usou então um
outro estratagema. Procurou uma cabina telefónica e digitou novamente o número
do telemóvel do marido. O telefone tocou duas vezes e Leonardo atendeu. Sou eu,
ela afirmou. Ele desligou a chamada.
Vinte minutos depois, Laura estacionou o carro em frente ao escritório do ex-
marido. Nas mãos, levou a sua mala e o seu casaco, e na mente, um objectivo
definido. Assim que se viu no segundo piso, saiu disparada do elevador e não
olhou a meios para chegar à sala de Leonardo.
- Desculpa, Laura - a secretária impediu a sua passagem. - Sinto muito, mas...
- Marta! Vais ter que me deixar entrar.
- Eu não posso fazer isso! O Leo está numa reunião.
- Eu sei que ele não está.
- Laura...
Tarde demais. As palavras da secretária e os seus braços não foram suficientes para
que Laura desistisse do objectivo de entrar no escritório do ex-marido. Não
esperou ser anunciada e também não se deixou intimidar com o olhar de ódio
lançado por Leonardo quando ela interrompeu uma reunião importante com dois
novos clientes da empresa. Francisco Saraiva também se encontrava presente.
- Desculpa, Leo - a secretária chegou pouco tempo depois, afogueada. - Eu tentei...
- Não faz mal, Marta! Podes sair!
- Com licença.
- Agora escondes-te atrás dos teus empregados, é?! – Laura ignorou a saída da
secretária e os olhares curiosos das pessoas que se encontravam presentes na sala
de reuniões.
- Peço-te que saias e me deixes terminar a reunião!
260
- Eu não vou sair daqui sem falar primeiro contigo.
- Estás muito nervosa, Laura - Francisco interferiu. - É melhor saíres e voltares
num outro dia.
- Francisco, cala a boca e mete-te na tua vida - a médica aniquilou todos e
quaisquer argumentos do arquitecto. - Eu estou contigo por aqui! Já nem te posso
ver à frente...
- Vou chamar os seguranças – Leonardo tentou encontrar o telefone sobre a mesa
de reuniões.
- Não te atrevas a fazer uma coisa dessas – Laura impediu os intentos do ex-
marido. – Vais ouvir o que tenho para te dizer, e vai ser agora! Então?! Como é que
vai ser? Vais pedir para que esta gente saia ou preferes lavar a roupa suja à frente
dos teus funcionários?
Leonardo deu-se por vencido quando percebeu que a ex-mulher não iria sair do
seu escritório. Restava-lhe apenas uma única alternativa. Ceder à conversação e
tentar controlar os escândalos que Laura estaria disposta a fazer no seu local de
trabalho.
- Meus senhores! Eu pedia-lhes para que aguardassem um pouco lá fora, por
favor.
Laura não se deixou esmorecer quando alguns funcionários e sócios do escritório
passaram por si munidos de olhares recriminadores. Nem mesmo Francisco
Saraiva, o último elemento da equipa a sair da sala, a poupou de tal olhar. Depois
disso, a porta fechou-se e o silêncio tomou conta da atmosfera.
- Não me vais afastar dos meus filhos - Laura tomou a palavra.
- Pensasses nisso antes de teres fodido o meu irmão.
- Não sejas ordinário!
- Desculpa, mas mesmo que quisesse, não conseguiria igualar-te...
- Não tens o direito de me impedir de estar com os meus filhos.
261
- Tu comportaste-te como uma verdadeira prostituta e ainda perguntas o porquê
de eu não te querer perto dos meus filhos?! Tens tanta lata, Laura! Pois deixa-me
que te diga que os teus direitos sobre o João e o André terminaram no dia em que
saíste lá de casa. Será que não percebes que eles não precisam de ti, tal como tu
nunca precisaste deles!?
- Eu sempre precisei dos meus filhos – ela afirmou.
- Não sejas mentirosa! Sempre me jogaste na cara que não os querias ter. Que eu é
que te tinha obrigado a engravidar. Nunca escondeste também que eras uma
péssima mãe capaz de negligenciar os próprios filhos e deixá-los à porta do
colégio só para estar com o teu amante. Sempre deixaste bem claro quais eram as
tuas prioridades. A tua carreira, a tua carreira e a tua carreira. Não era isso?
Durante todos estes anos, estiveste muito mais interessada no teu trabalho, nos
teus pacientes e no teu estúpido cargo de Chefe de Equipa. Nunca foste uma mãe
presente. Eu é que sempre assumi o teu papel na educação do André e do João.
Quantas e quantas vezes eles não adormeceram a perguntar por ti? Quantas festas
e actividades escolares não faltaste por causa do teu trabalho e do teu amante?
Então porquê isso agora, hã? Porquê que agora de repente te lembraste de
interpretar o papel de mãe extremosa capaz de fazer tudo pelos filhos?! Seria
trágico se não fosse patético! Não convences ninguém...
- Isso não é verdade - ela murmurou de lágrimas nos olhos.
- Tanto é verdade, como podes ter a certeza que vou utilizar estes argumentos em
tribunal.
Laura cerrou os olhos, incrédula. - Que tribunal?!
- Desculpa! Não te tinha dito?! Falei com o meu advogado esta manhã e pedi para
que ele desse entrada nos papéis do nosso divórcio.
- O quê?!
- Ou achas que iria querer continuar casado com uma mulher como tu?! Eu quero
o divórcio, Laura! Quero o divórcio e quero também a guarda total dos nossos
filhos.
- Nenhum juiz te vai dar a guarda dos nossos filhos.
262
- Tens a certeza? Olha que não foi isso que o meu advogado me disse! Eu tenho
todas as provas contra ti e não vou precisar de muito esforço para mostrar ao juiz
as tuas traições, as tuas negligências perante os nossos filhos e a tua falta de
carácter para criar duas crianças. Sim, porque tu não tens condições morais para
educar o João e André…
- Estás a fazer tudo isto por vingança.
- Vingança, eu?! – Leonardo riu-se com algum sarcasmo. – Claro que não! Eu só
quero justiça. Só isso…
- Não penses que vais ficar com os meus filhos, porque não vais - ela gritou fora de
si.
Num acto de fúria, Laura lançou-se contra a secretária do ex-marido e atirou ao
chão todos os objectos que ali se encontravam. Ao vê-la completamente
descontrolada, Leonardo lançou-se contra ela e segurou-lhe os pulsos com força.
Seguiu-se uma luta sem sentido que só terminou quando ele a empurrou para
longe de si e ordenou que ela saisse do seu escritório. Laura retirou os cabelos
desalinhados do rosto e ofegante ameaçou-o:
- Isto vai ficar assim.
- Pois não! Não vai ficar - Leonardo lançou-lhe um olhar de repulsa. - Ainda
muitas coisas vão acontecer até que eu te veja na merda, Laura! E acredita, eu vou
fazer tudo para te ver lá.
- Veremos quem chega lá primeiro...
Quando a porta do seu escritório se fechou violentamente, Leonardo caiu na
poltrona sem forças para se manter de pé. Afrouxou o nó da gravata e fechou os
olhos, exausto.
Impressionante como apenas alguns minutos de conversa com a ex. mulher o
deixaram naquele estado. Completamente de rastos. Completamente desarmado.
- Laura!
A voz de Francisco Saraiva impediu a médica de sair disparada do escritório do
ex-marido.
263
- Não acho que tenha sido uma boa ideia a tua vinda aqui ao escritório. O Leo
ainda está muito abalado com tudo o que aconteceu e a tua visita apenas veio
piorar as coisas. Devias deixar passar algum tempo! Deixá-lo esfriar a cabeça! Tens
que convir que não deve ter sido nada fácil para ele descobrir que o andaste a trair
com o próprio irmão.
- Francisco - a médica mostrou-se monstruosamente calma quando se aproximou
dele. - Posso dar-te um conselho?
- Diz!
- Antes de meteres o bedelho no casamento dos outros, devias olhar primeiro para
o teu.
- O que é que queres dizer com isso? - Francisco interpelou-a com alguma
desconfiança.
- Que talvez eu e a Sofia não sejamos assim tão diferentes uma da outra.
Naquela noite, André e João jantaram em silêncio e fizeram os trabalhos de casa
com a ajuda do pai. Foram dormir mais cedo do que o habitual, sem vontade de
jogar ou de brincar com Rufus, o cão da família. Leonardo colocou-os na cama e
apagou a luz do tecto, depois de lhes desejar boa noite e dar um beijo a cada um.
Desceu à cozinha e encontrou à sua espera a loiça suja do jantar preparado pela
empregada antes de se ir embora. Sem muita vontade abriu a torneira. Lavou três
pratos, seis talheres e três copos a muito custo enquanto os seus pensamentos
navegavam ao longo de um dia que fora tudo menos fácil.
A visão do rosto enfurecido de Laura no seu escritório veio-lhe à memória, e com
ela, as palavras de ódio e ofensas que trocaram. Sem forças,Leonardo apoiou as
mãos sobre a bancada da cozinha e chorou silenciosamente, lamentando-se por ter
demorado tanto tempo a encarar uma realidade que sempre lhe esteve à frente dos
olhos. Sentia-se cansado. O dia não fora fácil e o facto de acabar com o casamento
entristecia-o profundamente. Terminar uma relação era sempre doloroso e ele
podia sentir essa dor en cada fibra do seu corpo. Após doze anos de vida conjunta
com Laura, não lhe sobrou absolutamente nada. Nem respeito, nem admiração e
muito menos o amor incondicional que um dia sentiu por ela. Não só perdera a
esposa, como também a vontade de viver. O futuro parecia-lhe sombrio. Nada
tinha a esperar deste a não ser um ano muito árduo a tentar pôr-se de pé de novo.
Mas pelo menos estava vivo. Congratulou-se por isso. A felicidade viria por
acréscimo.
264
Quando arrumou a cozinha, Leonardo apagou a luz do tecto e dirigiu-se à sala. O
relógio pendurado na parede assinalou vinte e três horas. O tempo de dormir. Mas
ele acreditava que se o fizesse, provavelmente seria muito pior. Novas lembranças
o assombrariam e com certeza não conseguiria fechar os olhos atormentado com a
visão da mulher nos braços do seu irmão. Por esse motivo, na altura, apeteceu-lhe
beber. Serviu-se de uma dose de whisky junto à janela e mais tarde sentou-se no
sofá, mergulhando em programas televisivos sem o mínimo interesse.
Poucos minutos antes da meia-noite, a campainha voltou a tocar. Alarmado e
pensando que talvez pudesse ser a ex-mulher, Leonardo demorou algum tempo a
atravessar o corredor às escuras. Quando o fez, viu atrás da porta de vidro a figura
de uma mulher alta e esbelta. Não era Laura. O seu coração voltou a bater. Se fosse
ela, ele conseguiria reconhecê-la a quilómetros de distância ainda que no escuro.
- Olá...
Rita Azevedo surgiu sobre o alpendre e mostrou um sorriso tímido quando
Leonardo lhe abriu a porta.
- Olá, Rita! Tudo bem?! - ele mostrou-se surpreso por a ver ali. - Aconteceu alguma
coisa?
- Soube que tu e a Laura se separaram.
Depois de lançar um longo suspiro, Leonardo cedeu passagem à enfermeira e
permitiu que ela entrasse em sua casa. Nenhum dos dois proferiu palavra até
chegarem à sala.
- Como é que soubeste?
- Que tu e a Laura se tinham separado!? Foi a Sofia que me contou! Mas eu já sabia
que a Laura andava a ter um caso com o teu irmão. Descobri tudo há semanas
atrás quando a apanhei no apartamento dele. Foi por isso que eu e o Ricardo
terminámos.
- Tu andavas com o meu irmão? - Leonardo perguntou, estupefacto por descobrir
mais detalhes daquela história sórdida.
- É uma longa história! Não vale a pena estar a falar sobre isso.
265
- Bem dizem que é verdade - Leonardo poisou a mão sobre os lábios e sorriu
amargamente.
- O quê?!
- Que o marido é sempre o último a saber.
- Foi um choque para mim também.
- Porque é que não me contaste?
- Como é que eu poderia contar, Leo!? Tu nunca irias acreditar em mim! Além de
que não queria destruir a vossa família. Tive pena dos miúdos...
Leonardo caiu no sofá com um estranho sentimento de resignação.
- As crianças?! Como é que estão a reagir? – Rita sentou-se perto dele.
- Não está a ser fácil! Estão sempre a perguntar pela mãe, quando é que volta,
porque já não vive connosco. Enfim! Perguntas normais que eu já estava à espera.
Mas com o tempo eles vão acabar por se habituar.
- Tu e a Laura vão-se divorciar?
- Sim - Leonardo respondeu, resoluto.
- Tens a certeza que não há volta a dar?
- Certeza absoluta! Não quero continuar casado com uma mulher como ela. Não a
quero também perto dos meus filhos - a resposta do arquitecto trouxe um novo
silêncio àquela enorme habitação.
- Ela magoou-te muito, não foi?!
- Magoar não é bem o termo - Leonardo sorriu tristemente. - Digamos que… ela
matou-me por dentro.
- Não digas isso.
266
- Já tentei encontrar todas as explicações possíveis e imaginárias para que ela
tivesse feito o que fez, para que me tivesse traído com o meu próprio irmão, mas
sinceramente não consigo encontrar nenhuma. Não sei. Talvez porque pensasse
que éramos felizes, que tínhamos um bom casamento, a melhor família do mundo.
Mas acho que me enganei, não?! Acho que apesar de tudo, faltava qualquer coisa...
- Tu deste-lhe tudo – Rita aproximou-se instintivamente de Leonardo e tocou-lhe
nos ombros. – Eras o marido perfeito.
- O marido perfeito!? - ele riu-se de lágrimas nos olhos. - Não me parece.
- Acredita que foi ela quem ficou a perder.
- Eu também perdi muita coisa – Leonardo limpou rapidamente as lágrimas que
teimaram em cair-lhe dos olhos.
- Não é fácil, eu sei! Mas vai passar…
- Tens razão! Vai passar! Tem que passar.
- E se precisares de ajuda, de alguém para falar, para desabafar… eu estou aqui.
- Obrigado – Leonardo aceitou a mão de Rita e apertou-a com força. Sorriu ao
fazê-lo e mais tarde observou os olhos dela, cheios de compaixão, iluminados pela
luz do candeeiro. - És uma grande amiga.
Foi estranho deitar-se sozinho na cama sabendo que dali para a frente seria
sempre assim. Leonardo voltou a pensar na ex-mulher e em tudo o que havia
acontecido dois dias antes. À meia-noite, acendeu a lâmpada da mesinha de
cabeceira e começou a ler alguns papéis do escritório numa tentativa desesperada
de fugir aos seus pensamentos. Estava acordado quando João chegou à uma da
manhã e parou à frente da porta do seu quarto. Todas as madrugadas o filho
acordava aflito para ir à casa de banho, mas tinha medo do escuro. Precisava da
mão forte do pai para o acompanhar.
- Ajuda-me a fazer chichi!
João ficou ali por um momento, olhando tristemente para o pai. Leonardo não
demorou a acatar-lhe o pedido. Saíram do quarto de mãos dadas e por momentos
tudo pareceu igual.
267
28
Nas semanas seguintes, Laura procurou incessantemente um apartamento no
centro de Lisboa. Em finais de Outubro descobriu um adequado às suas
necessidades não muito longe do hospital onde ainda trabalhava. A casa tinha
apenas um quarto, uma enorme e soalheira sala de estar, uma cozinha onde um
longo balcão a separava da sala, uma despensa e um terraço com vista para o
Castelo de São Jorge. As janelas amplas permitiam que a luz do sol entrasse com
vigor no ambiente, criando uma atmosfera agradável.
O arrendatário mostrou-se bastante simpático, mas não deixou de estranhar o
porquê de uma mulher tão distinta, portadora de uma aliança no dedo, com
pouquíssima bagagem, não parecer particularmente interessada em saber muitos
detalhes acerca da casa que estava prestes a arrendar. Talvez estivesse apenas de
passagem ou fosse uma loucura momentânea, ocorreu-lhe essa ideia enquanto lhe
entregava as chaves e ela as aceitava sem muito entusiasmo.
A mudança decorreu de forma prática e sem cerimónias. Laura precisou apenas
de um dia para pendurar as suas roupas, espalhar os seus objectos pessoais nos
armários da casa de banho e ocupar a cozinha. Não mexeu em mais nada. O
apartamento já se encontrava mobiliado, ainda que não lhe trouxesse qualquer
sentimento de familiaridade. Era apenas um espaço frio e impessoal,
contrariamente à casa que sempre partilhara com o marido e os filhos. Contudo,
era um espaço e isso bastava.
Após umas férias forçadas que se prolongaram durante alguns dias, Laura
regressou à clínica. Foi obrigada a dar dois meses à casa, fruto de um contrato
assinado anos antes, longe de imaginar que um dia este chegaria ao fim. Foi-lhe
igualmente difícil engolir o gosto da derrota, os anos desperdiçados a lutar pela
sua carreira profissional e a sensação de que todos os esforços haviam sido em
vão.
268
Mas o pior nem era isso. O pior era caminhar pelos corredores da clínica e sentir
os olhares recriminadores de todas as pessoas sobre si. Os múrmuros, as críticas e
os risinhos. Os gracejos que terminavam sempre que surgia.
Nestes momentos angustiantes, Laura munia-se de uma frieza extrema, agindo
com a mesma altivez que todos lhe reconheciam. Afastada da multidão, refugiava-
se à hora do almoço no refeitório, sentada numa mesa distante, tendo por única
companhia um livro e a refeição escolhida no bar da clínica. Não parecia sentir
falta de mais nada. A hora era passada calmamente, alheia ao movimento frenético
das pessoas à sua volta e também dos olhares contínuos de Joana Lima. A sua
Interna.
Joana observou a saída de Laura do refeitório com um olhar destroçado. Adorava-
a. Idolatrava-a. Não conseguia sequer imaginar a ideia de que a médica não
sentisse o mesmo por si. Mas a verdade é que Laura não sentia e a outra verdade é
que Joana sabia disso melhor do que ninguém. Sabia também que a partida da
médica era iminente, e de que provavelmente, depois dela, nunca mais se
voltariam a cruzar. Um acontecimento que se tornava cada vez mais angustiante à
medida que os dias passavam, envoltos numa rotina diária de consultas, cirurgias
e outros procedimentos burocráticos como a chegada do seu exame de
especialização marcado para o final do ano.
Assustada com a possibilidade de falhar naquela que seria a prova mais
importante da sua vida, Joana desesperou-se igualmente com a vontade nula de
Laura em continuar a ser a sua Orientadora. Era usual a médica esquivar-se das
reuniões ao final da semana, de impedi-la de entrar no seu consultório e de não
fornecer qualquer tipo de ajuda. Para Laura, Joana tinha-se tornado num ser
absolutamente invisível.
- Como Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé...
A poucos minutos da meia-noite Laura viu-se surpreendida pela presença de
Ricardo perto do seu carro estacionado à saída da clínica. Não contava vê-lo. Não
contava também com a sua excessiva insistência, chamadas telefónicas e
mensagens invasivas. Talvez fosse errado não querer sequer ouvir o que ele tinha
para lhe dizer. Pedidos de desculpa, a tentativa de recuperar algo irrecuperável ou
somente a vontade de se despedir e dar por terminada uma história que infelizmente fizera
mal a todos? Laura não sabia. Mas ao ver Ricardo diante de si, com um sorriso
contrafeito no rosto, ela percebeu que não tinha como escapar. Seguiram no carro
dela, em silêncio, tendo por única companhia as últimas notícias na rádio e as
luzes da cidade que atravessaram o interior do veículo à mesma velocidade que
Laura percorria as estradas praticamente vazias sem demonstrar qualquer tipo de
emoção ou desejo de estar ao lado do cunhado.
269
Minutos depois, chegaram a um bar pouco movimentado escolhido por ele.
Ricardo cedeu a passagem e Laura entrou primeiro, deparando-se com um recinto
dotado de pouca luz mas uma decoração sofisticada. Escolheram uma mesa, a
mais afastada do centro e pediram duas bebidas. Uma Cosmopolitan para ela e um
whisky duplo sem gelo para ele.
- Como estás? - foi a primeira pergunta de Ricardo quando o empregado se
afastou da mesa.
- Como é que achas?!
- O Leo procurou-me logo depois de vocês se terem separado. Para me dizer que já
sabia de tudo. Mas descansa. Não houve tiros e nem pancadaria. Foi uma conversa
civilizada que só um homem como o Leo consegue ter.
- O que é que queres, Ricardo?
- Falar contigo! Saber como estás! Onde estás... - os seus rostos cruzaram-se de
uma forma violenta. - Tenho saudades tuas.
Laura lançou um longo suspiro de resignação, sentindo-se incapaz de tocar na
bebida que pedira ao funcionário do bar.
- Queria também pedir-te desculpas pelo que aconteceu - ele continuou. - Fui um
idiota.
- Não tens que pedir desculpas! A idiota desta história fui eu! Eu é que nunca me
deveria ter envolvido contigo, destruído a minha carreira, a minha família e o meu
casamento. Só estou a pagar pelos meus erros! Só isso... - Laura encolheu os
ombros.
- Vais-te divorciar do Leo?
- Não - ela respondeu. - Isso nunca me passou pela cabeça.
Ao ouvir a confissão da cunhada, Ricardo sorriu amargamente e engoliu um
longe gole de whisky a fim de tentar disfarçar a irritação que aquela resposta lhe
provocou.
270
- Porque é que queres continuar casada com o meu irmão? - ele não resistiu a
perguntar.
Ela demorou algum tempo a responder, mas fê-lo com uma clara certeza:
- Descobri que tinhas razão! Eu sempre quis uma casa com um jardim à volta.
A resposta de Laura trouxe um novo silêncio à mesa e a certeza a Ricardo de que
ela tinha razão. O que tinham eles para se dar um ao outro para além do que já tinham
dado? Sexo. Muito bom sexo. Mas apenas sexo. Não havia qualquer outra ligação
entre eles para além disso. Não havia planos em comum, sonhos, projectos,
ambições. Não havia cumplicidade, companheirismo, a vontade de derrubar
montanhas apenas para ver o outro feliz. Sentimentos humanamente profundos
que numa relação diária de muitos anos tendem a esfumar-se por entre as rédeas
da rotina e que nos levam a cometer loucuras em busca de uma vontade egoísta de
nos voltarmos a sentir vivos outra vez.
Foi isso que aconteceu com Laura e foi isso que aconteceu com ele também.
Ambos quiseram sentir-se vivos, ainda que por alguns instantes, e conseguiram-
no. Mas terminada a fantasia erótica, nada restou entre duas pessoas que nem
sequer se conheciam. Apenas um vazio. Um vazio difícil de explicar, e que os
deixou ali, em silêncio, sem conseguirem encarar-se de frente, a ver o tempo
passar.
271
29
Rita Azevedo tornou-se a amiga que Leonardo tanto necessitava. Surgia quase
sempre ao final da noite para lhe fazer companhia e ouvir-lhe os desabafos. Muitas
vezes, os dois perdiam a noção do tempo quando mergulhavam em conversas que
demoravam a noite inteira e se estendiam até de madrugada. Havia algo especial
nos seus encontros, nas suas noites e no trato quotidiano. Ele tornou-se misterioso
para ela. Rita imaginava o que ele andaria a fazer o dia todo, onde estava, o que
usava. Gostava da sua companhia como nunca gostara de nenhuma outra.
Leonardo era educado, inteligente, bondoso e honesto. Tudo nele era autêntico.
Não havia nada de falso ou imperfeito, nada emprestado, nada roubado, nada
irreal. Tinha uma aura difícil de explicar e que a impelia a querer estar com ele a
todo o momento. Era dessa gentileza que Rita gostava tanto. Essa bondade e essa
ternura que ele demonstrava sempre numa total antítese a todos os homens que
ela conhecera até então. Leonardo era extremamente acolhedor. Sim. Essa era a
palavra que melhor o definia. Acolhedor.
Naquela sexta-feira particularmente especial de início de Novembro, o dia em que
Leonardo comemorou o seu quadragésimo quarto aniversário, Rita surpreendeu-o
com um jantar trazido da rua. Rizzoto de frango com molho de natas, sumos,
champanhe e um bolo de aniversário encomendado numa das melhores
pastelarias da cidade. Foi um serão fantástico passado em boa companhia que só
terminou horas depois quando Leonardo levou os filhos para a cama.
Quando o arquitecto regressou à sala, Rita sorriu e encheu duas taças de
champanhe sobre a mesinha.
- Já estão a dormir – Leonardo afirmou.
- Acabaram-se as pilhas?
272
- Podes crer! Desculpa a barulheira há bocado...
- Não te preocupes! Eu adoro crianças! E cães também... - Rita e Leonardo riram-se
alegremente quando Rufus correu em direcção à cozinha. – Toma! Vamos
comemorar os teus quarenta anos.
- Quarenta e quatro – Leonardo emendou.
- Depois dos quarenta deixa-se de contar.
A resposta de Rita arrancou uma alegre gargalhada a Leonardo. A primeira desde
há muitas semanas, e ao ouvi-la, a enfermeira teve a sensação de que estava a
cumprir o seu dever. Animá-lo.
Leonardo aceitou a taça de champanhe, e quando as suas mãos se tocaram, ela
sentiu um estranho arrepio percorrer-lhe todas as partes do corpo. Uma sensação
boa que há muito não experimentava. Subitamente, ele pareceu-lhe outro. Por um
momento nada disseram, apenas se olharam e ela sorriu. Leonardo retribuiu o
sorriso, ignorando nos olhos dela um prazer irrestrito ou uma espécie de adoração
gentil.
- Que esta data se repita por muitos e muitos anos – Rita ergueu a taça.
- Não digo muitos - ele fez o mesmo. - Mas espero viver os suficientes…
- Para quê!?
- Para ver os meus filhos crescer.
- Então brindemos a eles! Ao João e ao André!
Nas últimas semanas, quando se sentavam no sofá com um trago de bebida nas
mãos, Leonardo esboçava um ligeiro sorriso enquanto Rita contava as suas
histórias. Era uma maneira de fingir-se atento ao que ela dizia e também distrair
os seus pensamentos de tristezas mundanas que invadiam o seu quotidiano.
Rita era uma óptima pessoa. Simpática, doce, sorridente e com um brilho especial
no olhos. Tinha cabelos escuros, longos, algo volumosos. Vestia-se quase sempre
de uma maneira casual. Calças de ganga, uma camisola e um casaco largo. Mas
naquela noite em particular, escolheu um vestido vermelho justo ao corpo que lhe
acentuou as curvas e o corpo bem definido.
273
Leonardo sentiu-se culpado por não conseguir tirar os olhos do decote dela. Bem
tentou fazê-lo. Diversas vezes até, mas a sua atenção era constantemente atraída
para aquele local que ele julgava proíbido.
Rita contou-lhe que sempre trabalhara com afinco e conscienciosamente. Formou-
se sem ajuda dos pais que desde cedo se divorciaram e cada um seguiu o seu
caminho. O pai voltou a casar-se, formou uma nova família e emigrou para a
Suiça. Ela nunca mais teve notícias do próprio. Nem sequer chegou a conhecer os
novos irmãos ou a sua nova mulher. A sua mãe, infelizmente, teve um outro
destino. Mergulhou numa depressão profunda após o divórcio e nunca mais se
recuperou do seu constante estado de alcoolismo. Morreu no ano em que a filha se
formou em Enfermagem Clínica nunca chegando a concretizar o sonho de a ver a
exercer a actividade profissional que escolheu.
Talvez tenha sido por esse motivo que Rita se afundou no trabalho como forma
de esquecer a solidão que tomou conta da sua vida quando se viu completamente
sozinha no mundo aos vinte e seis anos de idade. Pagou um preço alto por isso.
Nunca se casou, não teve filhos, trabalhava até tarde da noite, logo cedo de
manhã, aos sábados, domingos, feriados e dias santificados. Dias em que deveria
ter estar em qualquer outro lugar, com outra pessoa, mas que não estava, pois
vivia para o que fazia e para as suas responsabilidades enquanto Enfermeira-
Chefe. Mas podes crer que trocava tudo isso se encontrasse a pessoa certa. Uma pessoa
com quem pudesse formar uma família e me fizesse feliz, ela disse.
- Imagino que sim - Leonardo anuiu.
- E tu?
- Eu, o quê!?
- Não gostarias de voltar a encontrar outra pessoa?
Leonardo demorou algum tempo a responder, e tudo porque ainda lhe era difícil
imaginar-se novamente apaixonado, gostar profundamente de alguém, olhá-la nos
olhos e sentir-se quase a explodir de alegria como um dia se sentiu a olhar para
Laura. Há muito que ele não sentia nada disso e quase se esquecera desses
sentimentos. Por vezes, nem sequer tinha a certeza de querer sentir tal coisa outra
vez.
- Estou bem assim - ele afirmou por fim. - Sozinho.
274
- Não me contaste como estão a correr as obras do RESORT - Rita mudou de
assunto. - Ainda falta muito para terminar?
- A inauguração está marcada para Dezembro. Vai ser na passagem do Ano.
- Inteligente da vossa parte. Vão chamar muitos turistas.
- Esperemos que sim - Leonardo bebeu um último gole do seu champanhe. - E o
teu trabalho na clínica como está a correr?
- Bem! Infelizmente, lá nunca se passa nada! É um tédio todos os dias… – Rita
voltou a encher a sua taça de champanhe perante o olhar atento de Leonardo.
Bebia demais, ele reparou. – A única pessoa que parece realmente gostar daquilo é a
Laura. Agora trabalha vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas...
Leonardo mostrou-se incomodado quando Rita tocou no nome da ex-mulher. A
simples menção do nome de Laura ainda lhe provocava um enorme aperto no
coração. Era como se alguém lhe espetasse uma agulha no braço sem aviso prévio
e a retirasse logo em seguida.
- Desculpa - Rita percebeu a sua gafe. - Não queria...
- Tudo bem! Não faz mal!
- Ela continua sem ver o João e o André?
- Sei que tem ido ao colégio à hora do almoço para estar com eles. A professora
contou-me.
- Talvez… não sei... devesses deixá-la estar com os vossos filhos durante um fim-
de-semana.
- Rita, será que podemos mudar de assunto? Eu realmente não queria estar a falar
da Laura neste momento. Por favor!
- Tens razão – Rita concordou com ligeiro sorriso. – Vamos falar de coisas mais
interessantes.
- Concordo.
275
- Vamos falar de ti.
- De mim?!
- Sim! Do teu sorriso e da forma como as tuas bochechas fazem covinhas quando
sorris – Leonardo viu-se obrigado a sorrir, e mais uma vez, as suas covinhas
fizeram as delícias de Rita. – É sexy! Muito sexy…
- Acho que já bebeste demais.
- Nem por isso! Mas confesso que o álcool nos ajuda a dizer coisas que de outra
forma não teríamos coragem de dizer - Rita poisou a taça sobre a mesinha e
insinuou-se, passando os dedos pelos seus longos cabelos castanhos. - Como por
exemplo o facto de eu não conseguir parar de pensar em ti há pelo menos duas
semanas.
Ela observou-o com imenso carinho e, devagar, levou a mão ao rosto de Leonardo.
Era a primeira vez que o tocava desse modo com uma paixão descontrolada a
irromper-lhe as entranhas. Quase sem pensar, puxou-o para si e esmagou seus
lábios contra os dele. Leonardo não lutou para soltar-se e, por um instante, Rita
julgou sentir que ele retribuía o seu beijo.
- Não vamos confundir as coisas - ele afastou-a, por fim, quando não conseguiu
aguentar mais.
- É por causa da Laura, não é?!
- A Laura não tem nada a ver com isto.
- Tens a certeza?!
O arquitecto ficou sem fala quando Rita lhe alcançou a mão esquerda e encontrou
nela a sua aliança de casamento.
- Já se passaram tantos dias e tu ainda nem sequer tiraste a aliança do dedo. A
Laura também não tirou a dela que eu vi.
Leonardo baixou o rosto, desolado.
276
- Mas tens razão! Talvez seja melhor terminarmos por aqui antes que mais alguém
saia magoado dessa história. Tudo o que não precisamos é de mais problemas na
nossa vida, não é?! Já temos o que baste...
- Desculpa.
- Não te preocupes - Rita sorriu carinhosamente. - Está tudo bem.
Ao ver-lhe uma tristeza imensa nos olhos, Rita acariciou a face de Leonardo e
beijou-o no canto dos lábios. Era um homem maravilhoso, pensou. Um homem que
poucas mulheres tinham a sorte de encontrar ao longo da vida e que
provavelmente ela nunca iria encontrar. Pena que não fosse seu. Pena que nunca
nenhuma outra mulher fosse capaz de ocupar o lugar deixado vazio por Laura
naquele coração tão bondoso.
Depois de um novo beijo na face e de ter recolhido os seus pertences sobre o sofá
da sala, Rita partiu e Leonardo continuou a olhar para a porta sem saber o que
fazer. Correr atrás dela, pedir para que ficasse ou deixá-la entrar no carro e desaparecer da
rua deserta com a nítida certeza de que havia tomado a decisão certa?
Apesar de todas as dúvidas, Leonardo optou pela segunda opção. Pareceu-lhe a
mais acertada e também a mais correcta para com uma mulher que despertava em
si apenas um enorme sentimento de respeito e admiração. Jamais seria capaz de
usá-la para satisfazer o seu ego interior ou para esquecer os fantasmas que ainda o
atormentavam naquele enorme casarão.
Após ter recolhido as taças de champanhe vazias sobre a mesinha da sala,
Leonardo levou-as até à cozinha e atirou-as para o interior do lava-loiças. Olhou
tudo à sua volta e chegou à conclusão que aquela habitação se encontrava mais
sombria do que nunca.
Faltavam os risos das crianças, o aroma dos cozinhados da mulher e a sua
excessiva adicção ao perfeccionismo. Lembrou-se dos tempos em que a data do
seu aniversário era passada numa enorme alegria com a presença de amigos, da
mulher e dos filhos e até mesmo com a figura de Alicia, a antiga empregada da
casa que tinha um jeito nato para confeccionar bolos e doces. Fazia-os sempre com
um sorriso no rosto enquanto João e André corriam à beira da sua saia exigindo
que ela lhes deixasse provar os restos da massa. Eram tempos felizes. Tempos de
felicidade extrema que pareciam ter-se esfumado após a descoberta da traição de
Laura.
Nada mais iria ser como antes. Nem ele próprio. Nada mais voltaria a ter a
mesma cor, o mesmo sabor ou o mesmo aroma.
277
O relógio assinalou meia-noite e quarenta e cinco minutos. Leonardo subiu em
direcção ao quarto e fechou a porta com cuidado para não acordar os filhos. Sem
muita vontade de dormir, sentou-se numa das pontas da cama e enterrou a cabeça
por entre as pernas, tentando encontrar forças para se levantar no dia seguinte.
Ficou ali, assim, durante largos quartos de hora até o seu telemóvel vibrar
novamente sobre a mesinha de cabeceira. Tinha-o deixado a carregar durante a
noite, esquecendo-se da sua existência enquanto esteve na companhia de Rita. No
entanto, quando se aproximou dele, viu duas chamadas não atendidas e uma
curtíssima mensagem de texto que o deixou de mãos a tremer.
- " Parabéns! Laura..."
278
30
O carro dobrou na entrada e parou diante dos portões de uma casa que ainda lhe
era familiar. Laura olhou-a pensativa por um momento, antes de descer. De
alguma forma a moradia parecia-lhe ligeiramente maior e o espaço ao redor
silencioso. Teve a impressão de que voltava de uma longa viagem e de que estava
de regresso ao ponto de partida. Esperava vislumbrar o rosto do marido na janela
e dos filhos a seguir, vendo-os a correr ao seu encontro. Mas não vieram. Ninguém
veio. Nada se moveu. Laura olhou à sua volta e depois tocou a campainha. Tinha a
própria chave, mas não quis usá-la. Era o mesmo que visitar alguém agora.
Alguém que ela fora outrora.
- Bom dia, D. Laura - a empregada abriu a porta.
- Bom dia, Antónia.
- Entre.
Era estranho sentir-se uma visita após ter vivido naquela casa durante tantos
anos. Era ainda mais estranho ter que pedir permissão para entrar e ver-se seguida
pela empregada ao longo do corredor. Mas Laura sabia que não tinha o direito de
agir como se aquela casa ainda fosse sua. Perdera essa legitimidade na noite em
que o marido a expulsou de casa apenas com duas malas nas mãos.
- Como é que a senhora está? - a empregada perguntou cautelosamente.
- Estou bem - Laura sorriu.
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A raiva inicial de Leonardo deu lugar a uma passividade quando João e André
imploraram passar o fim-de-semana com a mãe. Ainda que a vontade de ver a ex-
mulher fosse nula, o arquitecto não viu outro remédio a não ser aceder ao desejo
das crianças e permitir que Laura os fosse buscar no final da manhã de Sábado.
Assim que viram a mãe entrar na sala, João e André correram a abraçá-la e a beijá-
la. Pareciam genuinamente felizes por a ver ali, tal como Laura, que não os
conseguiu largar um só minuto, perguntando-lhes como lhes tinha corrido a
semana, a escola e as aulas de natação e de judo. Os pequenos responderam a
todas as perguntas, enquanto a mãe agachada perante eles cuidou-lhes dos cabelos
despenteados e das roupas desalinhadas. Detestava ver os filhos mal arranjados.
Até nisso era perfeccionista, o ex-marido pensou.
- Antónia! Por favor! Ajude as crianças com as mochilas lá em cima. Já está tudo
pronto - Leonardo pediu à empregada.
- Sim, senhor! Vamos, meninos...
Antónia levou os gémeos pela mão e permitiu que um silêncio constrangedor
invadisse a sala. Leonardo manteve-se junto à janela, inerte, sem reacção. Quis
muito continuar a olhar para Laura. Quis encontrar nela os restos da mulher a
quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida. Tentou encontrar aquela
bela jovem estudante de medicina que o encantou com os seus olhos verdes cor de
esmeralda e os seus longos cabelos loiros que lhe caíam pelas costas. A mulher
forte e inteligente que o conseguiu levar ao altar e também a única mulher que o
fez chorar aquando do nascimento das duas pessoas mais importantes da sua
vida. Tentou encontrar tudo isso, e talvez devesse ter tentado com mais afinco,
mas a verdade é que ao olhar novamente para a ex-mulher tudo o que viu foi uma
sombra e nada mais.
- Precisamos falar – ela disse. - Sobre o processo do divórcio. O teu advogado
ligou-me ontem à tarde.
- Eu já sabia.
- Leo! Ainda estamos a tempo de parar com isto – Laura não escondeu a sua
expressão cansada após um plantão de quarenta e oito horas. - Não vale a pena
entrarmos num divórcio litigioso.
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- Eu também acho! Ainda estamos a tempo de desistir do divórcio litigioso e partir
para um amigável. Mas para isso, vais ter que abrir mão desta casa e também das
crianças. Tudo o resto dividimos a meias…
- Eu não vou abrir mão do André e do João! Eu sou a mãe deles.
- Infelizmente.
Com as lágrimas a correrem-lhe pela face, Laura questionou-se se não estaria a
pagar demasiado caro por todos os erros que cometera no passado. E não era
apenas o seu caso com Ricardo que estava em causa. Ela tinha consciência de que,
durante anos, tratara o ex-marido com indiferença, por vezes até com alguma
agressividade, que se mostrara fria e distante e que sempre fora extremamente
crítica com a sua personalidade bondosa. Mas agora que estava na iminência de o
perder, a única coisa que lhe queria dizer era que ainda o amava. Não sabia se
voltaria a ter oportunidade de o fazer, mas só queria dizer-lhe uma última vez o
quanto o amava.
- Pai! Podemos levar a Playstation?
João interrompeu o olhar dilacerado dos pais quando entrou na sala a correr com
a sua mochila às costas.
- Podem - Leonardo desviou o rosto da ex-mulher. - Mas levem a portátil que a
outra é demasiado pesada.
- Mãe! Estás a chorar? - o pequeno aproximou-se da sua progenitora.
- Não - Laura limpou o rosto, recusando-se a mostrar a sua tristeza perante um
dos filhos. Sorriu com alguma tristeza. - Está tudo bem! Vai lá chamar o teu irmão
e diz-lhe que se despache! Já está a ficar tarde...
- Está bem - João voltou a abandonar a sala.
281
31
Laura analisou a última ressonância magnética a poucos minutos de entrar no
bloco operatório. Chegou à conclusão de que haveria grandes probabilidades de
salvar a sua paciente do terrível tumor cerebral que a atormentava. O tumor era
pequeno, confinado apenas ao canal interno que se estendia do ouvido até o
cérebro, não sendo muito difícil distinguir o tecido tumoral do tecido saudável e
alcançar a localização exacta do tecido anormal.
Seguiu-se uma conversa com Henrique Relvas, outro Neurocirurgião residente
que a iria acompanhar naquela operação delicada. Os dois médicos reuniram-se
durante sessenta minutos na sala de exames e dirigiram-se ao elevador de serviço
em silêncio. Laura foi à frente e premiu o botão de chamada. Henrique manteve-se
atrás dela, incapaz de esconder o sorriso irónico que tinha nos lábios. Analisou-lhe
as costas bem formadas, os cabelos abaixo dos ombros e a bata branca. Estava
felícissimo. Nem sequer conseguia esconder a sua satisfação por saber que dentro
de poucos dias não iria ser mais obrigado a conviver com o ego inflado de uma
mulher que parecia trazer o rei na barriga.
- Parece que a tua partida está próxima – Henrique não resistiu a fazer o
comentário quando as portas do elevador se abriram.
- E tu deves estar radiante, não?!
- Eu!? Claro que não - Henrique sorriu, debochadamente.
- Afinal de contas sempre foste apologista da mediocridade - Laura premiu o
botão do elevador e aguardou que as portas se fechassem. - Reza é para que o teu
próximo colega tenha a mesma paciência que eu. Porque caso contrário, bem
podes crer que és o próximo a sair.
282
Henrique soltou uma gargalhada ruidosa, incapaz de se controlar. - Sabes! Agora
que vais deixar as tuas funções aqui na clínica, já pensaste em fazer uma pausa e
quem sabe tentar uma nova carreira?
- O que é que estás para aí a dizer?
- O que achas de apostares no cinema Porno!? Já pensaste nisso? Não sei porquê,
mas algo me diz que tens muito jeito para a coisa.
- Imbecil - foram as últimas palavras de ódio que Laura proferiu antes de sair
disparada do elevador, três pisos acima.
O cenário no serviço de Urgências mantinha-se um caos. Numa manhã igual a
tantas outras, uma ambulância estacionou à entrada da clínica trazendo no seu
interior uma criança inconsciente deitada numa maca. Ela que exibia o corpo
totalmente ensaguentado, as roupas rasgadas e uma fractura craniana exposta de
dimensões exageradas. Dois enfermeiros de serviço abriram as portas traseiras do
veículo e permitiram que a equipa de socorristas fizesse descer a maca ao solo.
Levaram a criança para o interior das Urgências e percorreram um longo corredor
sem nunca desistirem das manobras de reanimação.
A poucos metros de distância, encontrava-se o pai dessa criança, completamente
desesperado, lavado em lágrimas e sem saber o que fazer. O mesmo homem foi
direccionado pelos socorristas até à recepção. Tremia por todos os lados, incapaz
de formular uma frase coerente ou até mesmo manter-se de pé. A recepcionista
acalmou-o com um copo de água e pediu para que ele preenchesse a ficha de
entrada. A caneta tremeu-lhe nas mãos, mas ainda assim o senhor acedeu ao
pedido. Escreveu o nome do filho com uma caligrafia péssima. João Miguel
Mendonça Alves.
- Laura Alves? - ele lembrou-se no meio de um desespero total. - Preciso falar com
ela! É muito importante…
- A Dr.ª Alves?! - a recepcionista inquiriu. - Neurocirurgiã?
- Sim! Ela mesma.
A recepcionista levou o auscultador aos ouvidos. O homem largou a caneta sobre
a bancada, angustiado.
283
- Sinto muito! Mas a Dr.ª Alves acabou agora mesmo de entrar em cirurgia. Vai
demorar algumas horas a sair.
- Preciso falar com ela.
- Infelizmente não vai ser possível! A Dr.ª não vai poder sair do bloco operatório.
O homem encostou-se ao balcão e levou as mãos à cabeça. Ansiou que alguém o
acordasse daquele enorme pesadelo. Subitamente, por uma fracção de segundo, o
nome de uma outra pessoa lhe veio à cabeça. Lembrou-se dela e uma luz de
esperança atravessou o seu coração.
- Tente encontrar a Rita Azevedo – ele voltou a interpelar a recepcionista. – Por
favor! Ela é enfermeira aqui nesta clínica.
- Só um momento por favor.
A espera tornou-se interminável e enquanto a recepcionista efectuava uma
segunda chamada, o homem avistou de longe a chegada de Rita Azevedo, a
Enfermeira-Chefe da clínica. A mesma fora chamada à recepção e não demorou a
deslocar-se ao local.
- Leo... - ela exclamou, surpresa por vê-lo ali.
- Rita! Ajuda-me, por favor – Leonardo tomou-lhe os braços, desesperado.
- O que foi?
- O João…
- O que é que tem o João?
- Ele foi atropelado! Ele foi atropelado e eu pedi para que nos trouxessem para cá.
Só que eu não sei de nada. Eles levaram-no lá para dentro e estou desesperado à
procura de alguém que me dê alguma informação. Mas eu não sei de nada...! Eles
não me dizem nada...
- Tem calma - Rita tentou controlar-lhe as mãos aflitas. - Vou tentar saber o que se
passa. Tem calma...
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- Avisa a Laura – Leonardo, segurou-a no braço antes de a ver correr
descompensada em direcção ao serviço de Urgências. – Ela está cá.
- Não te preocupes, eu vou encontrá-la! Vou tentar saber para onde é que levaram
o João e depois vou procurá-la...
Ao ver Rita desaparecer pelos corredores da clínica numa corrida desenfreada,
Leonardo afundou-se num dos bancos de espera e colocou a cabeça por entre as
pernas, chorando compulsivamente. Foi-lhe impossível não rever aquela cena. A
imagem de um carro desgovernado a abalroar os portões da escola e a atingir em
cheio um dos seus filhos que se encontrava ali inocentemente à espera que ele
retirasse a sua mochila do porta-bagagens. Os gritos e o choro das crianças, o
choque dos adultos, a confusão instalada e o fumo proveniente do motor do carro
destruído. Todas aquelas imagens provocaram em Leonardo um desespero difícil
de explicar. E se, ele perguntou-se. E se ele não tivesse levado os filhos à escola? E se
tivesse chegado alguns minutos atrasados? Se tivesse corrido a tempo? Gritado mais alto
para que o filho se desse conta do avanço do carro em sua direcção? E se tivesse sido ele a
vítima daquele acidente?
Rita tremeu de medo quando viu de longe o corpo ensanguentado de João ligado
a um ventilador sob os cuidados de uma equipa médica. Um enorme nó
atravessou-lhe a garganta e impediu que ela avançasse para além do alpendre das
portas automáticas. Nunca antes se havia sentido tão impotente. Nunca antes os
seus conhecimentos científicos se tinham evaporado da sua mente de uma forma
tão categórica ao ponto de a deixar naquele estado. Completamente sem reacção.
- Preciso que chamem o Dr.º Relvas ou a Dr.ª Alves! Qualquer Neurocirurgião que
esteja de serviço – Sílvia Barreto, a pediatra destacada para o caso, afirmou perante
o movimento frenético dos médicos, enfermeiros e auxiliares de serviço à volta do
paciente. – O menino sofreu um grave traumatismo cranio-encefálico, tem vários
ferimentos no tórax e fracturas graves em todo o corpo. Precisa ser levado de
imediato para o bloco operatório…
Rita manteve-se inerte sobre a porta. Parecia estar em transe.
- Ouviste o que eu disse, Rita?! - Sílvia interpelou a Enfermeira-Chefe.
- Essa criança que tens aí é o filho da Dr.ª Laura Alves.
- Estás a falar a sério? - Sílvia questionou, incrédula.
285
- É o filho da Dr.ª Alves - Rita repetiu a frase e sentiu duas lágrimas caírem-lhe no
rosto.
- Então ela não vai poder proceder à operação! Só nos resta o Dr.º Relvas...
- O Dr.º Relvas e a Dr.ª Alves encontram-se neste momento no bloco operatório
número dois – informou uma das enfermeiras de serviço, após ter recebido uma
mensagem no seu BIP.
- Não dá para esperar! Rita, pede para que chamem o Dr.º Relvas! Ele que saia
discretamente da sala sem que a Dr.ª Alves perceba o que está a acontecer.
Enquanto isso, quero prepares o bloco três e formes uma equipa cirúrgica de
emergência.
- Eu tenho que avisar a Laura.
- Faz o que te digo - Sílvia ordenou com uma expressão aterradora. - Não há
tempo a perder.
- Eu preciso avisar a Laura.
- Ela não vai poder operar o próprio filho, além de que irias colocar em risco o
paciente que ela está neste momento a operar. Estás histérica! Não estás a
raciocinar como deve ser. Recompõe-te e prepara a porcaria da equipa cirúrgica!
Agora!
Rita manteve-se em silêncio.
- Eu vou falar com o pai da criança – Sílvia apressou-se a sair do quarto,
esbarrando-se nos ombros de Rita, sem se importar com a expressão petrificada da
Enfermeira-Chefe.
Quando entrou no elevador com o objectivo de exercer as suas funções, Rita
sentiu-se quase a asfixiar dentro daquelas quatro paredes de aço. Um nó invadiu-
lhe a garganta e ela não teve outro remédio a não ser encostar-se ao elevador e
soltar um longo fôlego de libertação. Recusava-se a aceitar que aquilo pudesse
estar a acontecer. Não a João. Não a uma das crianças mais doces que alguma vez
tivera a oportunidade de conhecer.
286
- A Dr.ª Laura Alves está no bloco dois – uma auxiliar técnica informou-a,
enquanto se preparava para regressar à cirurgia após uma pausa de cinco
minutos. – Vou entrar agora.
- Diga-lhe que a Enfermeira-Chefe está aqui fora! É um assunto importante.
- Até posso dizer, mas duvido que ela saia a meio da operação.
- Diga-lhe que é extremamente importante! Diga-lhe que… é um caso de vida ou
de morte.
A assistente achou descabida aquela resposta, mas ao ver a expressão séria de Rita
deu-se por vencida e premiu o botão das portas automáticas. Elas abriram-se com
um ligeiro ruído electrónico e voltaram a fechar-se. Rita encostou-se então a uma
das paredes do corredor e colocou as mãos atrás da nuca. Olhou para o tecto, para
as paredes brancas e sentiu o seu coração saltar pela boca. Sabia que as suas acções
lhe trariam consequências, provavelmente até um processo disciplinar, mas na
altura não quis saber de nada disso. Só estava a fazer o que achava certo. A ética
profissional que se lixasse.
- Dr.ª Laura – a assistente segredou aos ouvidos da Neurocirurgiã.
- O que foi!?
- A Enfermeira-Chefe quer falar consigo lá fora.
- Impossível – Laura respondeu, introduzindo a agulha guiada no interior do
cérebro do paciente. – Estou em cirurgia.
- Ela disse que era um caso de vida ou de morte.
- Saia e diga à Dr.ª Azevedo que nada do que ela me tem para me dizer é mais
importante do que estou a fazer agora! Estou ocupada! Ela que espere...
A firmeza das palavras de Laura fizeram a assistente sair do bloco operatório em
silêncio.
- Desculpe! Mas tal como lhe tinha dito, a Dr.ª Alves não vai poder abandonar a
cirurgia. Ela pediu para que esperasse.
287
- Dê-me o seu equipamento – Rita apressou-se a desapertar os fios da bata da
assistente.
- O quê?!
- Dê-me o seu equipamento para que eu possa entrar no bloco.
- Está louca?! Eu não posso fazer isso...
A bata vestida, a máscara sobre o rosto, as luvas nas mãos e a toca escondendo os
cabelos, fizeram antever que Rita estava mesmo disposta a cometer uma das
maiores loucuras da sua vida ao entrar numa sala de operações sem nenhuma
autorização prévia ou sem qualquer tipo de esterilização. Apesar de saber que
estava a infringir regras específicas da clínica, a situação justificava a sua atitude
descabida. Não. Ela não iria chamar o Dr.º Henrique pelo BIP, preparar a equipa
cirúrgica ou o bloco operatório número três, conforme fora exigido pela pediatra
de serviço. Iria antes entrar no bloco número dois, aproximar-se da mesa de
operações e surpreender Laura durante uma cirurgia a um outro paciente. Loucos
estavam todos os outros em pensar que ela faria algo diferente.
- Enlouqueceste?!
- É sério, Laura - o olhar penetrante de Rita fez Laura hesitar durante alguns
instantes. - Vem comigo!
A médica voltou a observá-la através da máscara e os seus olhos cruzaram-se de
forma violenta. Não soube muito bem porquê, mas Laura acreditou nas palavras
da sua ex-melhor amiga.
- Dr.º Relvas?!
- Diga, Dr.ª Alves!
- Tem as mãos firmes?
- Tenho.
- Segure a agulha exactamente como está!
- Sim.
288
- Segure-a e mantenha-a na mesma posição até eu voltar! Não a mexa um
milímetro sequer, porque caso o faça, pode-me matar a paciente.
- Não se preocupe! Largue a agulha – Henrique recebeu-lhe o instrumento das
mãos.
Laura e Rita abandonaram o bloco em silêncio, uma atrás da outra, com estados
de espíritos totalmente diferentes. A médica, irritada, queria apenas uma
explicação para ter sido retirada abruptamente da mesa de operações. A
enfermeira, desesperada, desejava reunir forças para contar os motivos que a
levaram ali.
- Queres fazer o favor de me explicar que raio aconteceu para me tirares do meio
de uma cirurgia? – Laura retirou a sua máscara, gesticulando furiosamente as
mãos. – És tão idiota que não tens noção da gravidade que é largar-se um paciente
numa mesa de operações?
- O Leo está aí.
- Não acredito que me tenhas tirado de uma operação só para me dizer isto...
- O João também está cá.
A expressão de Laura mudou radicalmente. - O meu filho?
Rita sabia que, a partir daquele momento, não tinha como voltar atrás. Manteve-
se em silêncio durante alguns segundos, tentando controlar as lágrimas e coração
esmagado. Na altura todo o ódio que sentia por Laura desapareceu sem deixar
rastro.
- Fala – a médica imperou, impaciente. – O que é que o João e o Leo estão aqui a
fazer?
- O João foi atropelado à porta da escola e trouxeram-no para cá... – Rita pressentiu
o desfalecimento de Laura. – A Dr.ª Sílvia está a cuidar do caso, mas parece que é
grave porque ele sofreu um traumatismo cranio-encefálico e várias fracturas no
corpo. Ele precisa ser operado o mais rapidamente possível. Precisamos de um
Neurocirurgião, mas como tu não podes operar o teu próprio filho, a Dr.ª Sílvia
pediu para que eu chamasse o Henrique e preparasse o bloco três...
289
- O meu filho foi atropelado!?
- Sim! Laura, eu sinto muito...
Laura retirou as mãos de Rita dos seus ombros, ciente de que tinha entendido
tudo o que a enfermeira lhe dissera.
- Onde é que ele está? – ela perguntou com uma calma sobrenatural.
- Nas Urgências! Mas a uma altura dessas já deve estar a ser preparado para a
cirurgia. Eu vou pedir para que preparem o bloco três e também vou formar a
equipa médica e falar com o Henrique.
- Não – Laura interrompeu. - O Henrique não põe as mãos no meu filho.
- Estás louca?! - Rita mostrou-se perplêxa com a afirmação da médica. - O João
precisa ser operado o mais rapidamente possível. Ele está a morrer…
- No meu consultório, em cima da secretária, vais encontrar a minha agenda e
também o número de telefone do Dr.º Eduardo Lima. Diz-lhe que é da minha
parte. Explica o que aconteceu e pede-lhe para que venha imediatamente para cá.
É ele quem vai operar o meu filho.
- Laura, eu não posso fazer isso! Vai contra todas as regras da clínica. Nós não
podemos chamar um médico externo para proceder a uma cirurgia sem o
consentimento prévio da direcção do hospital.
- Faz o que te estou a dizer e não discutas! Eu responsabilizo-me por tudo.
- Vais continuar a operar? – Rita perguntou, incrédula, quando a viu a tapar o
rosto com a máscara.
- Vou – Laura respondeu com uma frieza sobre humana. – Quando o Dr.º Eduardo
chegar, alguém que me avise pelo BIP.
Rita permaneceu no corredor do bloco operatório atónita com a reacção de Laura.
Viu-a a entrar pelas portas automáticas com a mesma naturalidade de sempre,
como se aquela conversa nunca tivesse existido. Como se durante aquele tempo
todo, estivessem apenas a falar de um mero desconhecido ou de alguém que não
lhes dizia respeito.
290
Seria normal um ser humano não demonstrar qualquer desespero perante a possibilidade
de perder um filho? Seria normal não chorar? Não gritar? Seria normal um ser humano ter
tamanha capacidade de frieza?
Uma hora e meia foi o tempo que Laura necessitou para terminar a cirurgia
interrompida por Rita. Henrique Relvas, o Neurocirurgião que a assistiu durante a
operação, encarregou-se de fechar o crânio da paciente. Quando recebeu uma
mensagem através do seu BIP, a médica desfez-se das luvas ensanguentadas e saiu
do bloco. Caminhou apressada pelos corredores e retirou a máscara facial e a toca
que trazia na cabeça. Desceu as escadas de serviço a toda a velocidade e dirigiu-se
como uma flecha à sala de exames, local onde já se encontrava Eduardo Lima. O
único médico a quem ela tinha sido capaz de confiar a vida do seu filho.
Ao abrir as portas automáticas, Laura avistou o Neurocirurgião e Sílvia Barreto, a
médica pediatra responsável pelo caso, de costas, separados por uma cortina de
vidro, a acompanharem em silêncio a ressonância magnética de João. Ela
aproximou-se em silêncio e sentiu um soco no estômago quando reconheceu o
corpo do filho.
- Bom dia, Dr.º Eduardo – a voz saiu sumida, mas firme.
- Bom dia, Dr.ª Laura – Eduardo recebeu o aperto de mão com uma expressão
visivelmente pesarosa. – Vim assim que recebi o seu recado.
- Agradeço-lhe por isso.
- Dr.ª Alves! Sinto muito – Sílvia adiantou-se.
- Os resultados da ressonância? Já saíram? – Laura ignorou os sentimentos de
pesar da sua colega de trabalho.
Saem daqui a cinco minutos. A resposta veio de um assistente que analisava
cuidadosamente o exame nos computadores da sala, certificando-se que esse
mesmo exame localizaria com precisão a área afectada do cérebro.
Scans feitos ao crânio, em conjunto com computadores e quadros de localização,
forneceram uma imagem tridimensional da lesão sofrida por João. Um
traumatismo crânio-encefálico com fractura exposta. Com o forte impacto sofrido
pela queda, o cérebro foi literalmente atirado contra uma das paredes do crânio
causando uma lesão difusa e também a perda de grande parte da massa encefálica.
A cada minuto que passava, a pressão aumentava e era por isso urgente proceder-
se a uma cirurgia para tentar minimizar os danos causados e diminuir a pressão
intra-craniana.
291
- Podemos ver esta laceração e a depressão cerebral causada pela queda, o que
provocou a saída de uma parte do tecido cerebral do crânio. Além disso, as
meninges também foram parcialmente destruídas e os fragmentos ósseos entraram
no encéfalo … - Eduardo apontou. – Daí este aumento progressivo do volume.
Temos que fazer uma cirurgia de emergência para retirar estes fragmentos ósseos,
drenar o sangue acumulado e tentar diminuir a pressão intracraniana antes que o
quadro clínico evolua para um hematoma intraparencmatoso.
- O bloco três já está pronto – Sílvia Barreto recebeu uma mensagem através do
BIP. – Vamos para lá.
Eduardo voltou a retirar os óculos de leitura. – Dr.ª Laura…
- Eu confio em si – a resposta categórica da médica impediu Eduardo de terminar
o seu raciocínio. - Faça o que tiver que fazer!
O bloco operatório foi preparado e foi igualmente destacada uma equipa cirúrgica
de emergência liderada por Eduardo Lima para a realização de uma craniotomia
descompressiva. Enquanto os enfermeiros e auxiliares de serviço preparavam o
pequeno João para entrar na sala de operações, Laura manteve-se inerte sobre a
porta do quarto. Olhou o filho com atenção, de longe, absorto em máquinas e
tubos que faziam o milagre de o manter preso à vida. Na altura, não entendeu.
Não entendeu o porquê de não ter conseguido derramar uma única lágrima
sequer.
Apesar de não ter entrado no bloco, Laura assistiu de pé ao início da cirurgia,
através do vidro separador, de braços cruzados e com uma expressão vazia. Viu a
inserção de uma linha intravenosa no braço do filho. O posicionamento de João na
mesa de operações. A atenção especial em relação à posição da cabeça, para evitar
compressão venosa jugular e obstrução do fluxo venoso craniano. Percebeu a
preocupação do anestesista em monitorar continuadamente a sua frequência
cardíaca, a sua pressão arterial, a respiração e o nível de sangue. Observou a
raspagem da sua cabeça e a lavagem do local da cirurgia com uma solução anti-
séptica. Posteriormente, viu Eduardo Lima a efectuar uma incisão da linha do
cabelo à frente da orelha. O couro cabeludo foi arrancado e cortado. Através de
um microscópio cirúrgico, ele ampliou a área a ser tratada para uma melhor visão
das estruturas do cérebro. Colocou um dispositivo denominado de dreno no
tecido cerebral a fim de medir a pressão no interior do crânio e aliviar a pressão
intracraniana. Uma vez completa a operação, cinco horas mais tarde, suturou as
camadas de tecido em conjunto e recolocou o retalho ósseo através de placas.
Depois, fechou parcialmente o couro cabeludo com suturas a fim de diminuir a
292
pressão cerebral. O paciente foi imediatamente levado para a sala de recobro,
perante uma vigilância apertada dos médicos e dos enfermeiros de serviço. A
equipa médica dispersou-se. Havia expressões faciais carregadas. À saída, Laura
pôde ver cada uma delas. A última que viu deixou-a completamente aterrorizada.
Foi a de Eduardo Lima.
- Tentámos fazer tudo o que estava ao nosso alcance, mas o tecido nervoso
encontrava-se profundamente danificado. Detectámos uma fractura com
afundamento dos ossos cranianos e uma a ruptura das meninges e do córtex
cerebral…
- Dr.º Eduardo! Deixe-se de rodeios! Diga-me a verdade!
O médico demorou algum tempo a responder: - Temo que os danos sejam
irreversíveis. Em todo o caso, vamos esperar mais algumas horas e analisar a
evolução do quadro clínico.
- Ele está morto, não está?! – Laura não poupou a pergunta ao Neurocirugião.
Eduardo recusou-se a responder.
- Ele está morto, não está? – a médica teve a audácia de voltar a perguntar.
- Vamos esperar mais algumas horas.
Eduardo afastou-se de Laura, levando nas mãos a máscara que utilizara para a
cirurgia mais difícil da sua vida. Vinte minutos depois, ele, Laura Alves e Sílvia
Barreto desceram ao primeiro piso e percorreram um longo corredor que os levou
directamente à sala de espera.
Joana Lima observou de longe a caminhada dos três médicos, mas sentiu-se
incapaz de se aproximar deles. Laura ia atrás dos dois, mantendo a cabeça erguida
e as mãos nos bolsos da sua bata. Caminhava indiferente aos olhares de pena e de
tristeza de vários médicos, enfermeiros e outros funcionários da clínica que ao
longo das últimas semanas não a pouparam da sua crueldade.
Contudo, eram agora estas mesmas pessoas que se encontravam verdadeiramente
arrependidas de todos os gracejos e comentários menos próprios lançados nos
corredores da clínica. Eram elas quem agora a olhavam com pena, melancolia e
compaixão, lamentando a triste sorte que era perder um filho em tão tenra idade.
- Boa tarde...
293
A voz imperiosa de Eduardo Lima obrigou Leonardo a levantar-se bruscamente
da cadeira onde estava sentado e a encarar o rosto da ex-mulher. Laura não
demonstrou qualquer emoção ao vê-lo comportando-se até mesmo como se não o
conhecesse. No interior da sala, encontravam-se também outras pessoas.
Francisco Saraiva, Sofia, a sua mulher, e Rita Azevedo.
- Como está o meu filho!? - Leonardo interpelou os três médicos de serviço.
- Falo eu ou prefere tomar a palavra, Dr.ª Laura? – Eduardo encarou a médica com
alguma seriedade.
- O caso é seu – ela respondeu friamente. – Fale!
Ouviu-se um longo silêncio até Eduardo acatar o pedido de Laura.
- Tal como já vos foi dito pela Dr.ª Sílvia, o João sofreu um grave traumatismo
crânio-encefálico. Com a queda no solo, o cérebro foi projectado contra uma das
paredes do crânio o que provocou uma lesão difusa e também a perda de alguma
massa encefálica. Houve também a criação de um edema que tentámos diminuir
através desta cirurgia. Fomos obrigados a deixar o crânio parcialmente aberto para
que o inchaço diminua. Mas não posso mentir. O quadro é bastante delicado…
- O que é que está a querer dizer com tudo isto, Dr.º?! – Leonardo mostrou-se
impaciente com todo aquele discurso.
- Que infelizmente o João está em coma! Neste momento, o seu sistema está a
funcionar a um nível básico com a ajuda de um ventilador para que ele consiga
respirar artificialmente. Vamos aguardar mais algumas horas até procedermos a
novos exames e ter a certeza da irreversibilidade do caso…
- Irreversibilidade?! – Leonardo repetiu, incrédulo.
- Sinto muito, Sr.º Leonardo.
Não podia ser verdade, a frase ecoou-lhe vezes sem conta nos ouvidos. Não. Nada
daquilo era verdade.
- Diz-me que isto não é verdade – Leonardo segurou o rosto da ex-mulher com
força. - Diz que o nosso filho está bem! Diz...!
294
Não havia absolutamente nada para dizer, Laura chegou a essa conclusão no
momento em que se afastou do ex-marido e saiu da sala sem pronunciar uma
única palavra. Nessa altura, Leonardo foi recebido pelos braços de Rita e chorou
desalmadamente. Lamentou-se da sua triste sorte. Culpou-se pelo acidente.
Culpou-se por ter estacionado o carro junto aos portões da escola. Culpou-se por
não ter afastado o filho a tempo, por não ter chegado mais cedo, por não ter
chegado mais tarde, e até mesmo por não ter sido ele a vítima daquele terrível
acidente. Culpou-se por tudo isso, e quando não conseguiu culpar-se mais, caiu
sobre a cadeira num choro profundo. Nem mesmo as palavras de alento dos seus
amigos serviram para que o seu sofrimento diminuísse.
- Mãe… – foi o primeiro telefonema de Laura quando regressou ao seu
consultório. – Preciso que vás buscar o André à escola e que fiques com ele em tua
casa esta noite. Vou buscá-lo assim que possa.
- Sempre a pedir-me favores! O que é que aconteceu agora? - Luísa protestou do outro
lado da linha.
- O João morreu.
E isso foi suficiente para que Luísa deixasse cair o telefone das mãos.
295
32
As horas seguintes não trouxeram nada de novo ao estado clínico de João, que
deitado numa cama, ligado a um ventilador, manteve-se insconsciente como se
estivesse a dormir.
Foram realizados novos testes clínicos hierarquizados por Eduardo Lima a fim de
obter qualquer resposta da criança ao comando verbal, visual ou qualquer outro
estímulo doloroso. Os olhos de João foram abertos com uma luz incidida em
direcção à pupila. Um pequeno feixe de luz com o objectivo de enviar uma
mensagem ao cérebro para constringir a pupila, mas ele não respondeu.
Os olhos de João foram novamente abertos e a sua cabeça virada de lado a lado.
Foi enviada uma nova mensagem ao cérebro, mas os olhos mantiveram-se fixos.
Sílvia Barreto, a médica pediátrica de serviço, entregou um cotonete de algodão a
Eduardo Lima e ele arrastou o objecto pela córnea do olho esquerdo de João,
mantendo-o aberto. Foi enviada uma mensagem ao cérebro para piscar o olho,
mas este não respondeu. Efectuou-se o mesmo procedimento no lado direito. O
resultado foi idêntico.
Eduardo inspeccionou o canal auditivo de João, nomeadamente o tímpano,
certificando-se de que não existia qualquer obstrução por cerume. Sílvia Barreto
manteve os olhos de João abertos, enquanto Eduardo injectava água gelada no
interior do canal auditivo. A mudança drástica da temperatura do ouvido deveria
causar um violento espasmo ocular no cérebro da criança. Mas não foi isso que
aconteceu. Efectuou-se o mesmo procedimento no canal contrário. O resultado foi
idêntico.
Após uma prévia constatação da estabilidade hemodinâmica e pulmonar, João foi
afastado temporariamente do ventilador com um cateter de O2 posicionado no
tubo endotraqueal. A manobra forçaria uma elevação do nível do gás carbónico na
corrente sanguínea quando o CO2 alcançasse um nível de 55 mm Hg.
296
O cérebro deveria enviar uma mensagem a João para que ele respirasse
espontaneamente. Mas não foi isso que aconteceu. Constatada a ausência total de
reflexos, Eduardo Lima deu por terminada a primeira fase do protocolo.
Repetiremos os exames daqui a seis horas, informou à equipa médica. Depois disso,
abandonou o quarto, indiferente à presença de Laura, que se manteve junto à
porta durante todo o processo.
A noite já ia longa quando ela regressou à sala de espera. Ali encontrou as
mesmas pessoas. Rita, Sofia, Francisco e Leonardo. Ninguém conseguiu esboçar
qualquer movimento corporal aquando da sua entrada. Todos se encontravam
exaustos e sem esperanças que algum milagre pudesse acontecer. Apenas
Leonardo chorava com a cabeça por entre as pernas e os braços estendidos. Laura
passou por ele, mas foi incapaz de lhe dirigir a palavra. Escolheu a janela como
local de refúgio levando nas mãos um café tirado da máquina de serviço. Bebeu-o
calmamente sem se preocupar com o adiantado das horas ou com a chuva que
começava a cair copiosamente lá fora.
A paz instalada na sala de espera foi interrompida minutos depois aquando da
chegada de um vulto de cabelos negros, trajado com uma roupa escura e um
casaco de cabedal. Ninguém quis acreditar na sua coragem em aparecer ali depois
de toda aquela tragédia. Não depois de todo o mal que ele causara. Ninguém quis
acreditar na sua audácia.
- Desgraçado!
Leonardo atirou-se contra ele e ofereceu-lhe um soco violento no rosto que o fez
cair junto à porta. Ricardo percebeu que estava a sangrar quando os primeiros
pingos de sangue inundaram o chão de mármore do hospital. Tinha a cana do
nariz partida.
- O que é que vieste aqui fazer, hã?! - Leonardo gritou, tentando apartar-se dos
braços do seu melhor amigo, Francisco Saraiva. - Vieste rir-te da minha desgraça,
seu filho da puta?! Ainda não estás suficientemente satisfeito por me teres
destruído a vida?! Maldito! Desgraçado…
- Anda – Rita ajudou Ricardo a levantar-se do chão, amparando-o com vários
lenços de papel. – Anda! Vem comigo…
- Desgraçado – os gritos de Leonardo acompanharam Rita e Ricardo ao longo do
corredor.
297
- Tem calma, Leo – Francisco tentou chamar o seu amigo à razão. – Ficar assim não
adianta nada! Não vai resolver o problema do João.
- Ele veio gozar com a minha cara, não vês?!
- Calma – Francisco segurou a do amigo face e tentou controlar a sua respiração
ofegante. – Tens que ser superior e concentrar-te no teu filho! Esquece o resto!
Esquece-o…
- Com certeza veio dar-te os pesâmes – a afirmação de Leonardo direccionada à
ex-mulher saiu amarga, assim como o café que ela bebia junto à janela.
O relógio assinalou três da manhã, altura em que Laura saiu à rua debaixo de
uma chuva miudinha. Com as mãos enfiadas nos bolsos da sua bata, a médica
percorreu o parque de estacionamento em silêncio tentando ignorar aquele terrível
sentimento de impotência que se apoderou de si.
Provavelmente deveria ter reagido como Leonardo. Provavelmente deveria ter
chorado, gritado ou entregue o seu sofrimento aos olhos dos demais. Mas ela não
era assim. Nunca fora e não seriam aqueles pequenos detalhes que iriam
quantificar o tamanho do seu sofrimento. Apenas ela sabia dentro de si o quanto
estava a sofrer por ver o filho naquele estado.
- O que é que ainda estás aqui a fazer?!
Ricardo surpreendeu-se com a pergunta da cunhada quando ela o encontrou
sentado num dos muitos bancos vazios do jardim da clínica.
- Estou à espera de um milagre – ele respondeu sem esconder o estado lastimável
em que se encontrava o seu rosto e o seu nariz enfaixado.
Laura sentou-se ao lado de Ricardo e os dois permaneceram durante um longo
tempo em silêncio a contar as poucas estrelas que se encontravam no céu.
- Não era minha intenção que isto acontecesse – ele disse. – Nunca quis destruir a
tua vida, o teu casamento com o Leo e muito menos a vossa família…
- Já está tudo destruído - a resposta de Laura saiu quase num tom de murmuro.
298
Ricardo concordou em silêncio. Ela tinha razão. Estava tudo destruído e não existia
absolutamente nada que pudessem fazer para voltar o tempo atrás ou apagar os
erros cometidos num passado não muito distante.
- Eu sei o que tu e o Leo estão a sentir...
Laura encarou o cunhado com alguma curiosidade no olhar sem entender o que
ele quis dizer com aquilo.
- O meu filho morreu há três anos.
- Tiveste um filho? - ela perguntou, incrédula.
- Sim! Mas infelizmente não viveu muito tempo. Dois anos apenas...
- Porquê?!
- Segundo os médicos, foi vítima de uma insuficiência cardíaca. Morreu enquanto
dormia. Num momento estava a correr pela casa. Na manhã seguinte não se mexia
no berço. A minha mulher foi a primeira a aperceber-se disso. Levantou-se cedo e
foi vê-lo ao quarto. Quando ouvi o grito dela corri a ver o que se estava a passar.
Mas já era tarde. Ele já tinha morrido e estava frio como uma pedra. Tinha os
dedos roxos e o rosto também... - Ricardo sentiu pela primeira vez duas lágrimas
caírem-lhe dos olhos. - Não sei muito bem como nos conseguimos reeguer depois
da morte de um filho. Até hoje acho que ainda não o consegui fazer. Nem eu e
nem a minha ex-mulher. Separámo-nos pouco tempo depois, apesar de eu ter
continuado a trabalhar na empresa do pai dela. Mas já nem sabia o que estava a
fazer. Também não sabia se queria continuar com aquela vida medíocre na qual
me tinha enterrado. A única coisa que sabia era que precisava reencontrar-me.
Precisava começar de novo. Fugir de onde estava. Fugir da culpa. Achei que... se
voltasse ao ponto de partida, talvez, quem sabe, não conseguisse encontrar
resposta a todas as minhas perguntas. Foi por isso que regressei a Portugal. Mas
não planeava que o Leo me pudesse convidar para morar em vossa casa. Não
planeei conhecer-te. Não planeei ter um caso contigo e muito menos destruir-vos a
vida tal como a minha também já estava destruída. Também não planeei...
apaixonar-me por ti...
Ouviu-se um longo silêncio até Laura arranjar forças para finalmente falar.
299
- Lembraste de uma frase que me disseste no ano passado perto da altura do
Natal?
- Qual!? - Ricardo voltou-se para ela.
- Disseste-me que fingir que não temos problemas não resolve nada! Para mim,
nunca disseste uma coisa tão acertada!
Ricardo limpou as lágrimas que sem querer lhe caíram dos olhos.
- Acho que devias voltar para os Estados Unidos e enfrentar finalmente os teus
problemas.
Ele sorriu tristemente.
- Agora vai! Vai-te embora! O Leo não te pode ver aqui...
- Avisas-me quando for o funeral?!
- Aviso - Laura tentou lutar contra as lágrimas que sem querer se apossaram dos
seus olhos.
300
33
O dia amanheceu gélido, cinzento e chuvoso, tal como o estado de espírito de
Leonardo quando avistou de longe o corpo inanimado do filho, instalado num dos
muitos quartos da unidade de cuidados intensivos. Incrédulo, o arquitecto ansiou
por qualquer movimento de João. Um gesto. Um piscar de olhos. Qualquer coisa
que denunciasse que os médicos se encontravam enganados e de que ainda havia
a esperança de uma possível recuperação.
- Trouxe-te café – Rita interrompeu-lhe os pensamentos junto à porta.
- Obrigado.
- A Laura está neste momento a falar com o Dr.º Eduardo e com a Dr.ª Sílvia.
Parece que vão realizar um último exame ao João daqui a momentos.
- O último?!
- Sim! Só para ter a certeza – Rita sentiu um nó no estômago quando proferiu tais
palavras.
Leonardo voltou a lançar um novo olhar aflito ao filho. Ainda estava ali, tão belo
e inocente, como se estivesse a dormir, mergulhado num sono profundo, numa
dimensão onde apenas e somente ele estava autorizado a entrar. Leonardo
recordou ainda as últimas palavras que o filho lhe proferira momentos antes de ter
sido atingido por aquele maldito carro desgovernado. Quando crescer quero ser
arquitecto como tu. Na altura, isso foi suficiente para encher o seu coração de
orgulho.
301
- Já alguma vez te sentiste assim?! – a voz de Leonardo interrompeu os
pensamentos longínquos de Rita. – Impotente? Fraco? Um autêntico falhado que
não é sequer capaz de salvar a vida do próprio filho?
- Leo! Eu sei que nada do que eu te disser vai conseguir suplantar esta dor que
estás a sentir, mas tens que ser forte. Aceitar a realidade…
- Que realidade, Rita?! A de que o meu filho está morto apesar do coração dele
continuar a bater? Que realidade é essa que eu não entendo? Que realidade é essa
capaz de matar uma criança de oito anos… - os olhos de Leonardo e de Rita
encheram-se de lágrimas. – De destruir uma vida que ainda nem sequer tinha
começado? De acabar com ela desta forma tão estúpida!? Meu Deus! Que castigo é
este que estou a pagar? O que foi que eu fiz de errado, meu Deus…?!
Rita acolheu o choro de Leonardo nos seus ombros e amparou-lhe a cabeça com
um beijo também ela devastada com tudo o que estava a acontecer. Nunca em um
milhão de anos pensou sentir-se assim. Tão impotente, tão fraca e uma total
falhada. Durante meses agiu de forma egoísta, movida por um estúpido
sentimento de vingança, sem que este lhe trouxesse qualquer tipo de satisfação.
Leonardo tinha razão. Era horrível aquela sensação impotência e falhanço. Era
horrível sentir-se o pior ser humano à face da terra e não poder fazer
absolutamente nada para o contrário.
Os exames foram repetidos pela última vez. Eduardo Lima realizou os mesmos
procedimentos da noite anterior após uma vigilância apertada que durou cerca de
seis horas. Infelizmente as conclusões foram as mesmas. Os danos causados ao
tecido cerebral de João eram irreversíveis. Além disso, a pressão arterial diminuiu
drasticamente e a oxigenação no cérebro ficou seriamente comprometida. Não
havia margem para dúvidas e o eletroencefalograma pedido pelo Neurocirurgião
apenas veio a confirmar o que já todos suspeitavam. João estava clinicamente
morto. O seu tronco cerebral havia cessado funções de forma definitiva.
- E então?! - foi a primeira pergunta de Leonardo quando se viu chamado ao
quarto pela enfermeira de serviço. No interior da habitação, o arquitecto
encontrou Eduardo Lima, Sílvia Barreto, dois enfermeiros de serviço, e tal como
não poderia deixar de ser, Laura, a sua ex-mulher.
- Infelizmente não há mais nada que possamos fazer, Sr.º Leonardo – Eduardo não
teve outra forma de dar aquela terrível notícia.
302
- Não – Leonardo balançou a cabeça, sentindo-se como se tivesse sido atingido por
uma bala no peito. – Não pode ser! Tem de haver uma outra solução! Uma outra
cirurgia, um outro exame. O coração dele está a bater…
- Sr.º Leonardo – Sílvia adiantou-se com toda a cautela do mundo. – Ainda que o
coração do João esteja a bater, a verdade é que o seu cérebro já não regista
qualquer função vital. Infelizmente, é o cérebro que comanda a vida humana e não
o coração. Se desligarmos as máquinas e o ventilador…
- Não – Leonardo gritou aos médicos. – Ninguém vai desligar nada! Que ninguém
se atreva a matar o meu filho.
- Sr.º Leonardo! Eu entendo que esteja em estado de choque e que lhe esteja a ser
muito difícil gerir todas estas informações - Eduardo tentou chamar o arquitecto à
razão. – Mas infelizmente a Dr.ª Sílvia tem razão! Não existe nada que possamos
fazer para reverter o quadro. Nenhuma cirurgia, nenhum transplante, nenhum
medicamento, nada vai resolver o caso! Manter o seu filho ligado ao ventilador
não o irá trazer à vida, porque ela já não existe…
Quando se viu confrontado com a dura realidade, Leonardo não conseguiu
controlar todo o ódio e toda a raiva que sentiu contra a única pessoa que conhecia
naquele quarto. Laura.
- Não vais dizer nada?! – ele gritou-lhe no rosto. – És assim tão fria e tão incensível
ao ponto de baixares os braços e deixares que o teu filho morra à tua frente sem
fazeres nada para o salvar? Não vais lutar pela vida do João?
- Que vida, Leo?!
O arquitecto mostrou-se perplexo com a resposta da ex-mulher.
- Diz-me! Que vida é que ainda existe aqui dentro deste quarto?! O João já estava
morto muito antes de colocar os pés nesta clínica. Até tu já tinhas percebido isso.
Só que ao contrário de ti, eu sempre aceitei a realidade e encarei-a de frente. Lutei
pela vida do João até ao fim. Estive ao lado dele até ao fim. Por isso, não admito
que te atrevas a duvidar disso ou que sequer tentes impedir alguém de desligar
estas máquinas. O meu filho merece morrer com dignidade e tu não tens o direito
de lhe negar isso...
303
Era a primeira vez que Laura demonstrava qualquer tipo de emoção. Apesar de
ter mantido a voz firme, o queixo tremido e os olhos cobertos de lágrimas,
deixaram transparecer toda a sua dor, e ao aperceber-se dela, Leonardo sentou-se
numa cadeira vazia sem forças para se manter de pé. Lançou um olhar ao corpo
inanimado do filho e chegou à conclusão que não adiantava continuar a negar a
realidade dos factos. Não adiantava prolongar aquele sofrimento. Nem o de João e
nem o das pessoas que o amavam.
- Antes de… - Eduardo teve alguma dificuldade em interromper o silêncio
ensurdecedor que se instalou no quarto. – Antes de desligarmos as máquinas,
gostaríamos de saber se os senhores autorizam a doação dos orgãos!?
- Sim – Laura respondeu prontamente.
Abandonou o quarto com a clara certeza de que tinha acabado de morrer por
dentro. Já não lhe restava mais nada, chegou a essa conclusão. Já não lhe restava
qualquer réstia de alegria ou vontade de viver, sendo que a única coisa que lhe
permanecia impregnado na boca era aquele gosto amargo de derrota contra o qual
ela tentou desesperadamente lutar enquanto caminhava apressada pelos
corredores da clínica.
À medida que se aproximava das escadas de serviço, mais rápidos eram os seus
passos. Abriu as portas de rompante, tudo para que ninguém a visse chorar e
subiu os degraus a uma velocidade estonteante sem se aperceber que a poucos
metros de si alguém a seguia com a mesma velocidade. E foi num momento de
pura distracção que Laura tropeçou e caiu de joelhos. Foi o quanto baste. Sem forças
e sem mais nada que a mantivesse de pé, ela chorou. Finalmente.
Descontroladamente. Desesperadamente. Até se sentir sem ar para respirar.
No meio do desespero, surgiu-lhe diante dos olhos a figura frágil de Joana. A
única pessoa que não desejava ver ali.
- Vai-te embora, pelo amor de Deus – Laura tapou o rosto com as mãos.
Joana não obedeceu às ordens da sua Orientadora. Mais uma vez. Contrariamente
ao que lhe fora pedido, caminhou lentamente até ela, pé ante pé, e ergueu-lhe a
face lavada em lágrimas numa tentativa desesperada de encontrar a mulher que
um dia chegou a admirar. Ao reconhecê-la, ofereceu-lhe um longo abraço.
Permitiu que ela se esvaísse em lágrimas e encharcasse os ombros da sua bata.
Sentiu-lhe os cabelos lisos por entre os dedos, o seu cheiro a sabonete e o calor do
seu corpo. As suas unhas fortes cravadas nas suas costas. O seu sofrimento. Os
seus soluços.
304
Foi também a primeira vez que Joana se atreveu a encarar os seus olhos verdes.
De frente. Sem receio que estes a atacassem. A primeira vez que teve a coragem de
a beijar nos cabelos lisos e soltos, no sobreolho, na face, no queixo - e por fim -
num momento de pura insanidade, nos lábios.
Naquele momento, nada mais importou. Joana afundou-se na boca de Laura e
deliciou-se com o aroma a mentol que o seu hálito emanava. Deliciou-se com a sua
língua, a sua saliva e o desejo quase asfixiante de, finalmente, após tantos meses, a
ter só para si.
305
34
O enterro na segunda-feira era o objectivo, aquilo em que Laura tinha de se
concentrar, depois pensaria no futuro. O presente já era suficientemente mau.
Leonardo, o pai, recusou-se a comparecer à cerimónia fúnebre. Talvez por não se
ter conseguido levantar da cama, por não ter tido forças para comer, para dormir
ou sequer para reproduzir qualquer movimento corporal desde a morte do filho.
Deitado na cama, num quarto às escuras, o arquitecto afundou-se numa depressão
absoluta e ninguém o conseguiu arrancar de lá.
O mesmo não aconteceu com Laura. A médica encontrou forças para tratar de
todos os detalhes do funeral com a ajuda de Francisco Saraiva, um amigo da
família que os acompanhou incessantemente durante aquela dura jornada.
Na cerimónia estiveram presentes perto de uma centena de pessoas. A igreja foi
demasiado pequena para receber tanta gente. Professores de João, colegas de
turma, funcionários do colégio, amigos próximos da família, empregados e sócios
do escritório de arquitectura de Leonardo, Rita Azevedo, Sofia e Francisco Saraiva,
a empregada Alicia, Antónia, Eduardo Lima, Joana Lima, Carlos Fonseca, director
da clínica, Alfredo Meireles - ex. Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica, Sofia Barreto,
Henrique Relvas, inúmeros enfermeiros, médicos, auxiliares e outros técnicos de
serviço que diariamente se cruzavam com Laura nos corredores da clínica.
Ninguém faltou. Nem mesmo Ricardo, que de longe, acompanhou o cortejo
fúnebre aquando da chegada do caixão ao cemitério.
Ao seu lado, Laura manteve a mãe, Luísa Mendonça, e também o único filho que
lhe restou. O pequeno André. Não precisou de mais ninguém para a acompanhar
naquela que iria ser a última morada de João e nem permitiu que ninguém se
aproximasse de si. Conseguiu manter uma imagem fria e distante, a mesma que a
sua mãe. Era com ela que havia aprendido a esconder os seus sentimentos e a
guardá-los a sete chaves para que mais ninguém se atrevesse a descobri-los.
Demonstrar fraqueza jamais, Luísa repetia essa frase inúmeras vezes quando a filha
ainda era pequena.
306
E a verdade é que nem mesmo quando o caixão de João desceu à terra, nem
mesmo quando seus colegas de turma depositaram inúmeros desenhos,
brinquedos e ursos de peluche, nem mesmo quando uma enchente de flores
cobriu o caixão ou quando as palavras finais do padre deram o mote para que os
funcionários do cemitério tapassem a sepultura, nem mesmo assim, Laura alterou
o seu estado emocional ou derramou uma única lágrima sequer. Manteve-se tão
fria como uma lápide, escondendo apenas o rosto de André no seu ventre a fim de
lhe calar o choro sentido.
- Somos horríveis... - Rita Azevedo foi a primeira pessoa a dar-se conta de
presença de Ricardo no cemitério e também a única a ter a coragem para se
aproximar dele. - As pessoas mais horríveis do mundo.
- Porque é que dizes isso?
- Porque acabámos de matar uma criança com os nossos esquemas, traições e
futilidades – Rita não conseguiu controlar as lágrimas e nem Ricardo o seu silêncio
perante uma verdade irrefutável. – Hoje sinto-me a pessoa mais horrível do
mundo – ela concluiu.
Laura recebeu as condolências de todos os que compareceram à cerimónia
fúnebre de João. Apertou mãos, mas excusou-se a dar a face a quem quer que
fosse. Mais tarde, recusou igualmente a oferta gentil de Francisco Saraiva para a
levar a casa. Esta tarefa ficou a cargo da sua mãe e foi com ela que Laura chegou a
casa, trazendo no colo o filho que adormeceu no carro, exausto de tanto chorar.
A médica subiu aos quartos e depositou-o na cama que era sua. Do outro lado,
encontrava-se ainda a cama de João e isso foi o suficiente para que os seus olhos se
enchessem de lágrimas. Aquela cama nunca mais voltaria a ser ocupada, pensou na
altura.
- Não há nada no frigorífico – Luísa afirmou aquando da chegada da filha à
cozinha.
- Depois trato disso – Laura sentou-se à mesa com uma expressão visivelmente
abatida.
- O Leonardo?!
- Está no quarto.
307
- Ainda não saiu de lá?
- Não, mãe! Ainda não saiu de lá.
- E quanto tempo é que ele pretende lá ficar? – Luísa e Laura trocaram um olhar
desafiador. – Sim, porque desde que o João morreu, ele trancou-se lá em cima e já
não sai do quarto para nada. Esqueceu-se que tinha um funeral para preparar e
esqueceu-se também que ainda lhe restou um outro filho para criar…
- Mãe, por favor! Hoje não!
Ao ver a filha com os cotovelos apoiados sobre a mesa e a cabeça por entre as
mãos, numa luta desesperada contra a vontade de chorar, Luísa baixou as guardas
e sentou-se ao lado dela. Sentiu-se por momentos tentada a tocar-lhe nos cabelos,
mas retirou a mão de imediato não fosse tocar neles pela primeira vez. Sentiu
também pena, compaixão, um enorme carinho que nunca foi capaz de expressar à
sua própria filha.
Sem saber como, a morte do neto acirrou-lhe todos estes sentimentos. Sentimentos
humanos. Há tanto tempo que ela não sabia o que isso era.
- Não digo que irá passar - a afirmação de Luísa saiu seca. - Mas o tempo torna a
dor mais suportável.
Laura encarou a mãe de lágrimas nos olhos, mas voltou a enfiar a cabeça por
entre os braços. Ficaram ali as duas, durante vários segundos, mergulhadas num
silêncio ensurdecedor que por pouco não as asfixiou.
- O teu pai era militar da marinha - Luísa esboçou um sorriso irónico. – Era muito
bonito! Demasiado bonito…! Era alto, tinha olhos verdes e cabelos claros iguais
aos teus e uma inteligência que nunca vi em nenhum outro homem. Apaixonei-me
como uma adolescente de dezoito anos se deveria apaixonar pelo primeiro
namorado. Ele tinha sempre as palavras certas e soube como convencer-me a fazer
o que queria. Engravidei. Estava a poucas semanas de entrar na faculdade e
cometi o maior erro da minha vida. Engravidei de um homem que não teve
pudores em desaparecer, tal como apareceu, e tal como provavelmente deve ter
desaparecido em muitos outros portos por aí. Nunca soube nada dele. Também
nunca fiz questão de o procurar. Quando ele me deixou, eu só pensava o que iria
ser de mim com uma criança nos braços. Como iria contar aos meus pais que a
única filha já não iria seguir medicina. Podes não acreditar, mas os tempos eram
outros. No meu tempo, não era aceitável uma mulher ser mãe solteira. Escondi a
308
verdade enquanto pude, mas é claro que o meu pai descobriu e colocou-me fora
de casa. A minha mãe não moveu uma única palha para me ajudar. Só me ajudou
a fazer as malas. Nos primeiros tempos, fui morar com uma tia afastada no
Alentejo. Ela foi a única a dar-me guarida, mas era um pesadelo. Se as pessoas
acham que eu sou horrível, então nem quero saber o que pensariam dela… - Luísa
sorriu tristemente, tentando lutar contra as lágrimas. – Obrigava-me a limpar-lhe a
casa todos os dias, ainda que com uma barriga de oito meses. Passei fome, pôs-me
a dormir na varanda porque os quartos estavam todos para alugar, insultava-me,
ameaçava-me pôr na rua a qualquer momento. Quando não consegui aguentar
mais, fugi outra vez para Lisboa, mas não voltei a procurar os meus pais. Fiquei
numa casa de acolhimento para mães solteiras e foi lá que te tive... – ouviu-se um
novo silêncio até Luísa arranjar forças para continuar a contar uma história que até
à data a tocava profundamente. – Lembro-me do dia em que nasceste. Quando
olhei para ti, confesso que não senti nada. Não consegui sentir aquilo que todas as
mães dizem sentir quando olham para os filhos. Só senti raiva e frustração. Pensei
que eras a pior coisa que me tinha acontecido na vida. É horrível uma mãe dizer
isto a uma filha, eu sei. Mas infelizmente foi isso que eu senti - Luísa não
conseguiu conter as suas lágrimas, mas apressou-se a limpá-las. – Os primeiros
tempos não foram fáceis. Foi uma longa batalha até conseguir reerguer-me,
arranjar um trabalho e uma casa para nós. Nunca quis ter que trabalhar dois
empregos só para conseguir pagar-te os estudos ou para te ouvir rabujar todas as
noites que não gostavas de comer sopa. Odiava ter que te comprar roupa em
promoção ou aceitar donativos de instituições. Odiava não ter como te dar um
bom presente de Natal. Odiava chegar ao final do mês com medo que nos
cortassem a luz ou o gás porque o dinheiro não chegava para todas as despesas.
Porque o dinheiro não chegava sequer para comer. Odiava privar-te de uma vida
que eu não te podia dar... - as lágrimas de Luísa caíram finalmente sobre a mesa. –
Depois os anos foram passando e eu percebi que já não valia a pena lutar contra o
inevitável. Para quê?! Já estava velha, acabada, sem sonhos e sem esperanças.
Resignei-me, confesso. Tentei viver os meus sonhos através de ti, tal como todos
os pais fazem com os filhos. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para que fosses
a Neurocirurgiã que eu nunca consegui ser. Dediquei-me dia e noite a essa tarefa.
Sei que nunca te disse isto antes, mas... o dia mais feliz da minha vida foi quando
me entraste em casa e disseste: Mãe! Conseguimos entrar em Medicina, e eu fiz das
tripas coração para não demonstrar o quanto tinha ficado feliz com a notícia.
Controlei todos os nervos do meu corpo para não te abraçar, para não te beijar!
Sei que nunca fui uma boa mãe para ti. Sei também que cometi muitos erros ao
longo destes quarenta anos, mas nisso eu não falhei. Quis que tivesses um bom
emprego, uma boa casa, uma vida desafogada e que pudesses dar aos teus filhos
tudo o que eu nunca te pude dar. Nisso, eu não falhei…
309
Os olhos de Luísa e Laura cruzaram-se de uma forma esmagadora no meio
daquela cozinha vazia.
- E hoje posso afirmar com toda a certeza que és a mulher que eu sempre quis ser.
A melhor coisa que fiz nesta vida! A minha obra-prima…
Laura nem quis acreditar quando a mãe se atreveu a segurar a sua mão,
apertando-a com força contra a mesa. Fê-lo de uma forma desajeitada, talvez por
nunca antes se ter atrevido a tocar carinhosamente na própria filha ou em
qualquer outro ser humano, mas fê-lo. E isso foi suficiente para encher o coração
de Laura de alegria.
- Bem… – Luísa levantou-se e limpou o rosto marcado pelas lágrimas. – Eu vou ao
supermercado comprar alguma coisa comestível. Não é admissível não haver
sequer uma única caixa de ovos no frigorífico tendo vocês uma empregada em
casa.
- Mãe – Laura impediu-a de sair da cozinha.
- Diz!
- Como é que ele se chamava?
Luísa sorriu, resignada. - Não importa! Não importa...
Naquela noite, Laura, Luísa e André jantaram em silêncio, ignorando os latidos
de Rufus e o som da televisão. Luísa lavou a loiça e Laura levou o tabuleiro do
jantar a Leonardo. Deixou-o sobre o divã, junto à cama, apercebendo-se do olhar
vazio do ex-marido que nem sequer manifestou qualquer reacção quando a viu.
No dia seguinte, a médica voltou a fazer o mesmo. Levou o jantar, mas Leonardo
mais uma vez não tocou na comida. No terceiro dia, ela regressou ao quarto e
encontrou-o na mesma posição. Foi a gota de água. O arquitecto estava a definhar
a olhos vistos e precisava urgentemente alimentar-se. Emagrecera cinco quilos em
uma semana, cheirava a suor e tinha a barba por fazer.
Laura ajudou-o a sentar-se sobre a cama, deu-lhe a comida à boca e obrigou-o a
beber água para se hidratar. Mais tarde, levou-o em direcção à casa de banho,
retirou-lhe as roupas sujas e abriu o chuveiro na ânsia de que a água quente o
trouxesse à vida. Quando voltou a deitar o ex-marido na cama, exausta pelo
esforço que fizera, apagou a luz da mesinha de cabeceira e saiu do quarto com a
sensação de dever cumprido.
310
Passaram-se vários dias e Laura voltou definitivamente para casa. Desfez-se do
apartamento que alugara provisoriamente e trouxe as malas que levou aquando
da sua separação com Leonardo. Este, ainda mergulhado num completo estado de
depressão, não teve forças para a impedir de voltar. Observou-a com um olhar
vazio. Viu-a arrumar as suas roupas nos armários, viu os seus perfumes, escovas
de cabelo e produtos de higiene invadirem a cómoda do quarto e as gavetas da
casa de banho. Viu inclusive Laura deitar-se na mesma cama que ele, mas ainda
assim, sentiu-se incapaz de a impedir de fazer o que quer que fosse. Na altura
faltaram-lhe forças para isso.
Laura concluiu o seu último dia de trabalho na clínica com um plantão de vinte e
quatro horas. Depois do plantão, refugiou-se no seu consultório e olhou com
atenção as quatro paredes que o compunham. Treze anos se passaram desde a
primeira vez que pisou aquele espaço. Treze anos dedicados a salvar vidas. Treze
anos de luta, esforço contínuo, suor e lágrimas. Não se podia dizer triste. No
fundo, sabia que tinha feito um bom trabalho, que tinha dado tudo de si e que
estaria pronta a dar mais, se não fossem os acontecimentos trágicos que ditaram a
sua saída daquela clínica.
Durante a manhã, Laura procurou dois caixotes a fim de arrumar os seus
pertences espalhados pela sala. Livros, pastas, arquivos, fichas de pacientes,
objectos de decoração, porta-retratos, presentes simbólicos oferecidos pelos seus
pacientes. Todos estes objectos que fizeram parte da sua vida foram
religiosamente guardados em silêncio. Quando terminou a tarefa, já a tarde ia a
meio, ouviu a porta do seu consultório tocar duas vezes. Sem surpresas, ela
ordenou a entrada. Já aguardava aquela visita. Chamou-a pelo BIP.
- Boa tarde, Dr.ª... – Joana Lima surgiu sobre o alpendre da porta.
- Entra e fecha a porta!
A Interna obedeceu à ordem, sem no entanto conseguir encarar o rosto de Laura.
Ainda lhe estava retida na memória a loucura que efectuara dias antes quando se
atreveu a beijar a sua Orientadora num impulso insano.
- Soube que o teu exame foi marcado para o dia vinte sete de Janeiro.
- Sim.
- Já começaste a estudar? – Laura continuou a arrumar os seus pertences nos
caixotes de cartão depositados sobre a secretária.
311
- Sim! Vou entrar de férias dentro de duas semanas para me preparar
integralmente para o exame.
Laura manteve-se de costas, a arrumar várias pastas e arquivos, indiferente aos
olhares que a sua interna lhe lançou junto à porta. Após vários minutos de
silêncio, Joana não aguentou a pressão.
- Dr.ª Laura! Sobre aquilo que fiz naquele dia nas escadas de serviço, eu…
- Não vamos falar sobre isso.
- Eu estou apaixonada por si – a confissão de Joana interrompeu os movimentos
da médica. – Desde o primeiro dia! E mesmo sabendo que isto é uma loucura e
que jamais em tempo algum o meu sentimento irá ser correspondido por si,
mesmo assim eu queria que soubesse. Eu sei que cometi muitos erros, que destruí
a sua vida e que me deixei cegar pela ambição. Mas no fundo, eu só fiz o que fiz,
porque queria que a Dr.ª olhasse para mim. Queria me enxergasse com outros
olhos. De uma outra forma. Queria que percebesse que eu existia…
Joana ansiou que Laura lhe dissesse alguma coisa, mas o seu silêncio da médica
tornou-se insuportável com o passar dos minutos.
- Vou voltar ao trabalho.
- Espera – Laura impediu Joana de sair do seu consultório. - Quero-te em minha
casa a partir da próxima segunda-feira até ao dia do teu exame. Vamos estudar
juntas…
- Estudar juntas?!
- Tal como te tinha dito no ínicio do teu Internato, uma das minhas obrigações
enquanto tua Orientadora era ajudar-te a passar no exame que te vai dar acesso à
especialização! Pois então! Não me esqueci do que prometi.
- Mesmo depois de tudo o que lhe fiz?
- Não está aqui em causa a tua vida pessoal. Muito menos a minha. Também não
está em causa os sentimentos que julgas ter por mim. Só estou a fazer isto porque
tenho a certeza que esta clínica vai precisar de um excelente Neurocirurgião daqui
a alguns anos e eu quero preparar-te para ocupar esse lugar...
312
Os olhos de Laura e Joana cruzaram-se pela primeira vez naquele minúsculo
consultório, agora praticamente vazio.
- Obrigada - foi tudo o que a Interna conseguiu dizer.
313
35
Leonardo estava a morrer lentamente. Emagreceu dez quilos em três semanas.
Estava magríssimo. Pálido. Irreconhecível aos olhos dos amigos e até mesmo aos
olhos do próprio filho.
Muitas vezes, André punha-se à porta do quarto e espreitava a mãe a cuidar do
pai com toda a paciência do mundo. Laura alimentava-o, ajudava-o a tomar
banho, a vestir-se e até mesmo a fazer a barba. Quase nunca falavam. Quase nunca
trocavam olhares, mas ainda assim, existia uma certa cumplicidade inerente aos
dois que se mantinha intocável.
Para ajudar o marido a dormir, Laura misturava dois comprimidos em água. Era
a única forma de Leonardo fechar os olhos e distanciar-se de todo o sofrimento
que estava a sentir, nem que fosse por apenas algumas horas. O resto do dia era
passado na cama, a olhar para a janela semi-cerrada, contando os segundos, os
minutos e as horas até ao anoitecer, altura em que a mulher chegava do trabalho e
o filho da escola.
No entanto, nos últimos dias, Laura deixara de trabalhar. Ficava em casa,
trancada no escritório, às voltas com os seus estudos e com algumas tarefas
domésticas rotineiras realizadas com a ajuda da empregada Antónia. De vez em
quando, subia ao quarto para visitar o marido. Mas eram passagens breves apenas
para perguntar como ele se encontrava ou se precisava de alguma coisa. Nessas
alturas, Leonardo respondia quase sempre que não e virava o rosto, ansiando que
ela desaparecesse da sua vista. Laura não insistia.
- Olá! Boa noite, Dr.ª Laura - Joana Lima compareceu pontualmente às vinte e duas
horas em casa da sua Orientadora, carregada de livros e apontamentos. - Espero
não me ter atrasado.
- Entra!
314
Era a primeira vez que Joana ousava entrar em casa de Laura. A moradia era
enorme, ela reparou quando Laura a conduziu em direcção à sala de visitas. Pelo
caminho, avistou uma decoração sóbria e sofisticada. Observou dois quadros
abstractos na parede, algumas fotografias de família e as escadas que ligavam o
rés-do-chão ao primeiro piso. Sentiu curiosidade de subir aos quartos mas uma
força maior impediu-a de cometer tamanha loucura.
Laura indicou-lhe a sala e ela entrou com alguma cautela. Estava arrumada,
apesar dos brinquedos e dos jogos espalhados perto da televisão. As janelas
vidradas que davam acesso ao jardim frontal, pelo qual ela entrou, encontravam-
se fechadas e bloqueadas. Não eram visíveis muitos móveis ou tão pouco
demasiados artigos de decoração. Apenas um sofá enorme que ocupava grande
parte da sala, uma mesinha de mármore e uma mesa plana que outrora servira
como ponto de encontro para inúmeros jantares e almoços em família. Naquela
noite, a mesma mesa encontrava-se vazia.
- Vamos estudar ali – Laura apontou o local. – Podes colocar as tuas coisas aí em
cima! Eu vou ao escritório buscar alguns apontamentos que te poderão ser úteis.
Joana acedeu à ordem da sua Orientadora e viu-a sair da sala em direcção ao
corredor. A casa permaneceu em silêncio, como se não houvesse uma única alma
viva ali dentro. Joana deu-se conta da existência de um cão a vaguear pela
habitação, mas o mesmo, assustado, quando a viu, refugiou-se rapidamente na
cozinha. Minutos depois, o aparecimento de uma figura pequena provocou-lhe
um susto de morte.
- Olá...
- Olá – ela disse, depois de recomposta do susto. – Como estás?!
- Não consigo dormir – André esfregou os olhos, ensonados. – A minha mãe?
- Ela foi ao escritório, mas já volta…
Laura regressou à sala pouco tempo depois. Trouxe uma quantidade exorbitante
de livros e pastas. Colocou-os sobre a mesa, sem se mostrar surpresa com a
presença do filho e com as perguntas excessivas que este fazia a Joana a cada cinco
segundos.
315
- A minha mãe tem uma cabeça no escritório – André dizia com uma vivacidade
que só as crianças conseguiam ter àquela hora da noite. – É gigante e dá para ver
tudo lá dentro.
- Tudo?! – Joana mostrou-se divertida com o pequeno.
- Tudo! É nojento! Mas é giro! Até dá para desmontar…
- Ora aí está uma coisa que fazes perfeitamente com tudo o que te aparece pela
frente! Desmontar – Laura afastou o filho dos braços da cadeira. – Anda! Vamos lá
para cima que já é tarde e amanhã é dia de aulas.
- Mas eu não tenho sono.
- Eu não te perguntei se tinhas sono! Vamos – Laura tomou o filho pela mão.
- Tchau – André despediu-se de Joana com um breve aceno.
- Tchau... - a jovem correspondeu da mesma forma.
- Espera-me alguns minutos que eu já volto – Laura afirmou de uma forma seca.
- Está bem - Joana concordou.
O Natal chegou, mas nesse ano não houve comemorações. Leonardo encontrava-
se num estado depressivo muitíssimo grave ainda que João já tivesse morrido há
quase um mês. A casa nunca estivera tão silenciosa, todos metiam-se nos quartos,
com as portas fechadas, não se ouvia música, a televisão encontrava-se quase
sempre desligada e o telefone nunca tocava.
Laura reagia melhor do que o marido. Ia aguentando os dias e as noites. Não
dormia tão bem como dantes, mas adormecia às cinco e durante a maior parte do
tempo sentia-se razoavelmente bem. Mas por vezes caía num buraco. Tinha dias
de grande depressão, mas pelo menos, eram mais os bons do que os maus.
– Tens a certeza de que não era melhor levá-lo a um psicólogo?!
Francisco Saraiva tentou persuadir Laura a fazer qualquer coisa por Leonardo
quando os visitou na véspera do Natal e se deu conta do estado lastimável em que
o seu melhor amigo se encontrava.
316
- O Leo não precisa de um psicólogo! É só uma fase! Vai passar...
- Tens a certeza?!
- Tenho.
- Bem… - Francisco suspirou, coçando levemente os cabelos. – Quanto ao
escritório, não te precisas preocupar! O Carlos tem dado conta do recado e eu
também tenho ajudado em tudo o que posso.
- Agradeço-te por isso – Laura susteve a porta. Um vento frio proveniente da rua
atravessou o corredor.
- Para a semana é a inauguração do RESORT. Achas pouco provável que Leo vá,
não!?
- Ele não deve ir.
- Em todo o caso, se ele não for, eu posso representá-lo.
- Faz isso, Francisco - Laura mostrou-se impaciente para fechar a porta.
- E tu?! Como estás?
- Estou bem.
- Laura… – Francisco hesitou durante alguns segundos. – Apesar de nunca termos
morrido de amores um pelo outro, queria agradecer-te tudo o que tens feito pelo
Leo. Espero que toda esta tragédia sirva pelo menos para que vocês voltem ao
vosso casamento.
- Feliz Natal, Francisco!
- Feliz Natal também para ti.
Laura permitiu que Francisco se afastasse em direcção ao jardim e logo em
seguida fechou a porta com a nítida certeza de que aquele Natal iria ser tudo,
menos feliz.
317
A casa praticamente vazia, onde outrora se ouviram risos, gargalhadas e gritos,
onde se disputou o telecomando da televisão, os brinquedos e a atenção dos pais,
mostrava-se agora desprovida de qualquer sentimento de felicidade.
Ao ver André compenetrado em frente a um videojogo, tendo como única
companhia o cão da família, Laura chegou à conclusão de que havia desperdiçado
inúmeras oportunidades. Oportunidade de estar com os filhos, de vê-los crescer,
de partilhar momentos inesquecíveis com eles que jamais se voltariam a repetir.
Oportunidade de estar com o marido, de dar-lhe toda a atenção do mundo, de
ceder aos seus pedidos e carinhos. Enfim. Oportunidade de feliz.
- D. Laura! Já deixei tudo pronto na cozinha! Quando quiser é só aquecer a comida
no forno - Antónia entrou na sala e surpreendeu a sua patroa junto à janela.
- Obrigada, Antónia.
- Posso ir!?
- Sim, pode.
- É que o meu filho chega hoje da Inglaterra para passar o Natal lá em casa. Vem
ele, os meus netos e a minha nora...
- Então aproveite - Laura esboçou um sorriso triste. - Tire estes três dias de folga.
- Não quer que eu venha no dia a seguir ao Natal?
- Não, não é preciso! De qualquer maneira, a minha mãe vai cá estar e eu não
pretendo sair. Pode ir, Antónia! Volte no final da semana.
- Muito obrigada, D. Laura.
Quando a empregada se foi embora, Laura deambulou pela casa, de braços
cruzados, aconchegada no seu robe azul turquesa. Já era tarde. Passava das seis e a
chuva começava a cair lá fora. Ela ficou parada diante da janela da sala por um
breve instante pensando como seria difícil ultrapassar aquela data. O Natal nunca
mais seria o mesmo sem a presença de João. A árvore também não foi montada
junto à lareira, uma tarefa anual cumprida religiosamente por Leonardo com a
ajuda dos filhos e nem houve manifestações de interesse em comemorações ou
presentes. André pediu o que quer que fosse. O seu único desejo secreto, que
nunca chegou a dizer aos pais, foi o de voltar a ter o seu irmão perto de si.
318
- O que estás a fazer? - Laura ajoelhou-se atrás do filho e ofereceu-lhe um beijo na
nuca.
- A jogar.
- Ensinas-me?!
André mostrou-se surpreso com o pedido da mãe. - A jogar?!
- Sim - Laura limpou as lágrimas no rosto e sorriu. - Prometo que aprendo
depressa.
Após ter levado a ceia ao marido no quarto, Laura voltou a descer à cozinha
submersa em pensamentos tristes. Refugiou-se na cozinha com uma caixa de
cartão nas mãos, abriu-a com cuidado, e do seu interior retirou inúmeros álbuns
de fotografia amarelados pelo tempo, mas em bom estado.
Era apenas uma jovem de vinte e sete anos quando se casou com Leonardo. Tinha
cabelos compridos, loiros e atreveu-se a levar um vestido de Verão no dia do seu
casamento. Um dia em que choveu torrencialmente e que contou com a presença
de pouquíssimas pessoas. Apenas amigos próximos e colegas da faculdade. Luísa,
a mãe de Laura, recusou-se a comparecer à cerimónia apesar do convite da filha.
Leonardo já não tinha pais e o seu único irmão encontrava-se perdido no mundo.
A alegria estampada no rosto do marido, comoveu-a. Laura nunca se tinha dado
conta de que Leonardo aparecera a sorrir em todas as fotografias. Não havia uma
única em que estivesse sério. Não havia uma única em que não olhasse para ela
com admiração, desejo e respeito e ela a mesma coisa. Eram jovens, bonitos,
felizes. Tinham a vida toda pela frente e grandes ambições profissionais.
Mas as fotografias foram revelando o passar dos anos. Os cabelos de Laura
apareceram muito mais curtos, a sua expressão endureceu e os olhos deixaram de
brilhar com tanta intensidade. Já não eram tão verdes, tão vivos e tão audaciosos.
Já não olhavam o marido com o mesmo desejo, com o mesmo respeito ou com a
mesma admiração. Estavam cansados. Ela pôde aperceber-se disso à medida que
virava as páginas do álbum e se lembrava de acontecimentos marcados nas
fotografias. Viagens, casamentos de amigos próximos, festas, situações
profissionais, a alegria de Leonardo quando soube que iria ser pai, a barriga
crescente, e por fim, a primeira fotografia tirada com os filhos três minutos após o
parto. Exausta, deitada numa cama de hospital, com os cabelos molhados e o rosto
inchado, mas feliz. Verdadeiramente feliz por ter nos braços as duas pessoas mais
importantes da sua vida. Depois, seguiram-se fotografias do primeiro aniversário,
do segundo e por aí em diante. Era incompreensível o facto de nunca se ter dado
319
ao trabalho de analisar atentamente o crescimento dos filhos, as suas mudanças
físicas e as suas mudanças comportamentais. Pela primeira vez, Laura estudou-os
com atenção, identificando cada gesto e cada expressão facial. Eram tão diferentes,
apesar de serem iguais. André tinha uma personalidade forte, vincada e uma
expressão facial bastante mais severa que João. O último, doce e delicado, nunca
deu qualquer trabalho. Trazia no rosto uma serenidade idêntica à do pai.
A noite já ia longa quando Laura encontrou uma velha câmera de filmar no
caixote, empoeirada pelo tempo, mas que ainda continuava a funcionar. Fora
comprada pelo marido há quatro anos atrás com o objectivo de registar as
primeiras férias de Verão passadas no Algarve.
Laura apressou-se a ligar a câmera à corrente e abriu a tela de imagem. Segundos
depois, surgiu-lhe diante dos olhos as primeiras imagens. O rosto de Leonardo foi
o primeiro a aparecer. Era ele quem filmava, entusiasmado com a compra do
aparelho, mostrando toda a casa e subindo as escadas na companhia dos filhos.
Quietos, ele sussurrou a João e André enquanto os três se dirigiam até um dos
quartos. Abriram a porta devagarinho e encontraram Laura deitada na cama,
submersa num sono profundo.
Um! Dois! Três! Leonardo incitou os filhos para que estes saltassem para cima da
mãe e a acordassem com vários gritos de parabéns. Laura fazia trinta e seis anos
naquela manhã e as crianças ainda eram pequenas.
- O que querem dizer à mãe?! – Leonardo fez um zoom na câmera.
- Mãe! Gosto muito de ti... - os gémeos gritaram em uníssono cada um oferecendo
um beijo na face de Laura enquanto esta se ria a bom rir, indiferente ao estado
lastimável em que se encontrava. Despenteada, com o rosto por lavar e ainda de
pijama.
- Eu também gosto muito de vocês - ela apertou os filhos com força. - Muito, muito...
- Olha-me aqui a ficar com ciúmes! E de mim, não gostas?! – Leonardo perguntou entre
risos.
Ela mostrou um sorriso radiante à câmera.
- É claro que sim! Eu amo-te...
O vídeo terminou poucos segundos depois mas nessa altura, foi impossível para
Laura conter o choro sufocante que tomou conta dela. Foi impossível conter
também a tristeza profunda de já não ter um dos filhos perto de si. De não o poder
tocar, de não o poder beijar, de nunca mais ouvir o som da sua voz, os seus gritos
320
e as suas gargalhadas. Ficou tanta coisa por dizer. Ficou tanto amor por dar. Foi
muito pouco o tempo que ela teve para mostrar a João o quanto ele era importante
para si. Custava-lhe a acreditar que estivesse fora da sua vida. Chegava muitas
vezes a desejar ter sido ela a morrer naquele desastre. Teria sido muito mais fácil
do que aquilo que estava a sofrer naquele momento. E duvidava que essa dor
algum dia desaparecesse. Cada dia que passava era pior do que o anterior. João
levara tudo o que a vida tinha de bom e não lhe deixara nada a não ser inúmeras
recordações e o desgosto que a consumia.
Laura chorou durante longos quartos de hora, baixinho, sufocando os soluços
para que ninguém a ouvisse naquela cozinha vazia. Tinha medo que alguém
entrasse ali e surpreendesse a sua fraqueza. Mas por sorte isso não aconteceu.
Expiou todas as suas mágoas, e quando se deu por vencida, perto da meia-noite,
com uma enorme dor de cabeça e os olhos inchados de tanto chorar, sentiu a
campainha tocar. Pensou que talvez pudesse ser a sua mãe, apesar de ela lhe ter
dito que apenas apareceria no dia seguinte. Mas Luísa era uma caixinha de
surpresas e nos últimos tempos surgia todos os dias em sua casa sem avisar.
- Perdão...
Laura surpreendeu-se com a figura de Rita Azevedo sob o alpendre da porta,
lavada em lágrimas e com uma tristeza imensa nos olhos.
- Fui eu que troquei o DVD da tua apresentação. Perdoa-me…!
- Esquece isso! Já não importa mais.
- Perdoas-me!?
As duas amigas abraçaram-se novamente e ali ficaram sobre o alpendre da porta
durante vários minutos sem se importarem com o vento aterrador que por pouco
lhes gelou os corpos.
- O Leo? – Rita perguntou, depois de se recompor das lágrimas. - Como é que ele
está?
- Vivo.
321
36
A madrugada já ia longa quando Laura abriu repentinamente os olhos. A médica
deparou-se com a figura do marido, deitado ao seu lado. Leonardo dormia um
sono profundo, fruto dos dois comprimidos que tomara na noite anterior. Não
dava mostras de que iria acordar nas próximas horas. Parecia antes entorpecido e
distante daquilo a que todos chamavam de planeta terra.
Laura observou-o atentamente e viu-lhe os traços faciais deformados pela
magreza excessiva. Não parecia o mesmo. Já não era o mesmo. A morte de João
transformara-o na sombra do homem que ele sempre fora e deixara-o à mercê de
um desgosto sem fim.
Laura tocou-lhe levemente nos cabelos. Não resistiu a fazê-lo e não resistiu
também a oferecer-lhe um beijo na face. Na altura, o desejo falou mais alto do que
a razão. Continuava a amá-lo, a sentir por ele o maior carinho do mundo e a
desejar que, porventura, por algum milagre, ele a fosse perdoar. Lutava por isso
todos os dias ainda que essa batalha à partida parecesse perdida. Mas não estava
disposta a baixar os braços. Nunca o fizera antes e não seria aquele o momento
oportuno para o fazer.
- Mãe...
A voz trémula e aflita do filho foi o impulso para que Laura saltasse da cama e
vestisse o seu robe às pressas. Enquanto corria em direcção ao quarto de André, o
seu coração apertou-se de tal forma que por momentos lhe foi difícil respirar.
Quando chegou à habitação, abriu a porta de rompante e acendeu a luz do tecto.
Viu o filho de pé, diante da cama, com as calças do pijama completamente
encharcadas e um olhar de culpa e de vergonha.
322
- Desculpa - ele disse, puxando as calças para cima.
- Não faz mal, amor - Laura correu-lhe ao encontro e beijou-o no rosto. - Não faz
mal! Está tudo bem.
- Não estás zangada comigo?
- Não - ela respondeu, erguendo-lhe o rosto. - É claro que não! A mãe não está
zangada contigo e nem nunca esteve. A mãe ama-te muito.
- Sonhei com o João.
- Eu sei! Também sonho com ele todas as noites.
- Ele estava aqui no quarto comigo.
Laura sorriu tristemente e amparou uma lágrima no rosto do filho. - Isso é bom! É
sinal de que ele está perto de nós.
- Mas ele nunca mais vai voltar, não é?!
Ouviu-se um longo silêncio até Laura arranjar forças para responder.
- Não! Não vai.
- A avó disse-me que ele está no céu, e que o céu é tão longe, tão longe, que
ninguém consegue voltar.
- A avó não te mentiu.
- O pai também vai para o céu?
Laura sentiu um estranho arrepio quando ouviu o filho proferir tais palavras.
- Não! Claro que não! O pai vai ficar aqui connosco para sempre. Não voltes a
repetir uma coisa dessas.
André acedeu com a cabeça sem no entanto perceber a gravidade do que dissera.
- Anda! Vamos tomar banho e depois voltamos para te fazer a cama de lavado.
323
O almoço de Natal foi preparado de forma silenciosa. Luísa chegou ao início da
manhã, munida de compras e de uma pressa descomunal. Quis fazer tudo
sozinha, movimentando-se pela cozinha como se ela fosse sua, indiferente à
presença distante de Laura que se encontrava de braços cruzados encostada à
bancada com os olhos postos na marquise enquanto André brincava lá fora na
companhia de Rufus.
Luísa observou a filha de soslaio. Encontrou-lhe um olhar vazio, triste e
melancólico, como já vinha acontecendo nas últimas semanas. Laura tinha dias.
Dias em que se sentia um pouco melhor e outros em que caía numa profunda
depressão que a deixava inerte em qualquer canto da casa. Deixou de trabalhar e
as coisas tornaram-se piores. Passava os dias em casa a ler e a estudar, a cuidar do
filho e do marido acamado. A vontade de viver esmorecia-se aos poucos, como se
subitamente, por um mero acaso do destino, a sua existência simplesmente tivesse
deixado de fazer sentido.
- O almoço está quase pronto.
Luísa tirou o cabrito do forno e depositou-o sobre a bancada. Cheirava muito
bem, assim como as batatas assadas que ela fizera para acompanhar.
- Hã..! Não me deixes esquecer de te dar a receita da Bavaroise de Morango. Aquela
que fizeste no ano passado ficou horrível.
Laura continuou de olhos postos na janela, indiferente à presença da mãe na sua
cozinha.
- Acho que vai chover! Não é melhor chamar o André e aquele maldito cachorro cá
para dentro?!
- Deixa-os estar, mãe - Laura afastou-se da bancada e procurou uma cadeira para
se sentar. Sentia-se exausta. Sem forças para se manter de pé.
- E tu?! - Luísa limpou as mãos molhadas à toalha da cozinha.
- Eu, o quê?!
- Já pensaste no que vais fazer agora? Quando é que vais começar à procura de um
novo trabalho?
324
- Ainda não pensei nisso - Laura compôs os cabelos desalinhados, presos por um
gancho. - Queria organizar a minha vida primeiro.
- Não te esqueças que a Medicina é competitiva. Um médico que fique muito
tempo sem exercer, perde terreno e não o volta a recuperar. É isso que queres?
Luísa e Laura trocaram um olhar desafiador.
- Não, mãe! A única coisa que eu quero é paz! É só isso que eu quero.
- Está bem - Luísa largou a toalha sobre a mesa, visivelmente contrariada. - E o teu
marido? Quanto tempo vai ficar lá em cima a olhar para as paredes à procura de
paz?
- Porque é que és assim? - Laura atacou a sua mãe com as suas palavras.
- Porque não quero que acabes os teus dias a tomar conta de um marido acamado.
- O Leo não tem a mesma estrutura emocional que nós.
Luísa soltou uma gargalhada seca. - Não tem a mesma estrutura emocional que
nós?! Deixa-me rir! Que bela desculpa arranjaste para o teu marido, não?! Sabes de
quem é a culpa do Leonardo ser assim? Tua! Tu é que o transformaste nesse fraco
que não é capaz sequer de se levantar da própria cama.
- Onde é que vais? - Laura correu atrás da mãe quando esta saiu da cozinha a
passos rápidos.
- Vou trazer o teu marido cá para baixo! Alguém precisa terminar com esta
palhaçada de uma vez por todas.
As súplicas da filha não impediram Luísa de subir as escadas em direcção ao piso
dos quartos. Quando lá chegou, abriu a porta de rompante e avistou o genro
deitado na cama com o mesmo olhar vazio que o acompanhava há já várias
semanas. Nem a visão da sogra o coagiu a mover um único músculo corporal.
Leonardo sentia-se exausto, sem forças e morto por dentro. Nada mais importava.
Estava com um ar doente. Não comia, não dormia, já nem falava, embora fizesse
um esforço sobre humano para se manter vivo. Tinha a sensação de ter caído num
abismo. Sentia saudades de ouvir a voz de João, mas não sabia onde ele se
encontrava. Para onde quer que ele fosse, já não lhe pertencia. Fora uma dádiva
325
temporária na sua vida e estava grato por isso. Mas a mágoa de o perder era tão
forte, tão intensa e asfixiante que não sabia quanto mais tempo iria conseguir
sobreviver. Perder o filho custou-lhe mil vezes mais do que perder os pais. Desta
vez, o impacto atingiu-lhe a alma.
- Até quando pretendes ficar aí enfiado nessa cama?
A voz de Luísa saiu amarga e odiosa como sempre.
- Até quando vais continuar a comportar-te como uma criança? A fugir à realidade
como um rato? O João morreu e todos nós estamos de rastos com isso. Não há dia
que eu não chore pela morte do meu neto e não lamente o que lhe aconteceu. Não
há dia que eu não deseje trocar a minha vida pela dele. Mas nesta família ninguém
parou de lutar. Ninguém baixou os braços. A vida que tanto ignoras, continua lá
fora e o mínimo que deverias fazer era sair desta cama e lutar também como nós.
Viver um dia de cada vez, como nós. E se não fizeres isso por ti, fá-lo pelo menos
pelo único filho que te restou. Um filho que não tem culpa dos teus erros e dos
erros da Laura. Sê homem pelo menos uma vez na vida e assume o teu papel de
pai e chefe desta família. Tira esse peso de cima dos ombros da minha filha...
O almoço foi servido às treze horas. À mesa, sentaram-se Luísa, Laura e o
pequeno André, que sorrateiramente, por debaixo da mesa, alimentou o seu
animal de estimação com pedaços do cabrito cozinhado pela avó. Rufus agradeceu
com vários latidos.
- André! Senta-te direito e olha a manga da camisola...
A ordem de Luísa direccionada ao neto contrastou com a expressão vazia de
Laura enquanto esta degustava a refeição confeccionada pela sua mãe. Sem muita
vontade, ela levou o garfo à boca e trincou um pedaço de carne que lhe pareceu
sensabor, tal como as notícias que passavam na televisão.
O telefone tocou, mas ninguém atendeu. Nem Laura e nem Luísa saíram dos seus
lugares. Em vez disso, continuaram a comer em silêncio, indiferentes ao adiantado
das horas e à chuva que caía copiosamente lá fora.
Ouviram então um ruído proveniente das escadas. Em seguida, passos lentos e
arrastados e o barulho do interruptor da casa de banho de serviço. Ouviram o
puxador do autoclismo, a água a cair da torneira do lavatório e uma porta a
fechar-se com força levada por uma corrente de ar.
326
À medida que o tempo ia passando e os passos se tornavam mais presentes, Laura
sentiu o coração disparar de ansiedade. Estava atónita com a possibilidade das
suas suspeitas se tornarem reais. Por fim, Leonardo entrou na cozinha e fê-la
acreditar num verdadeiro milagre de Natal. A sua mãe conseguira. Não soube
como, mas ela conseguira.
- O que queres comer? Luísa perguntou ao genro quando este se sentou à mesa,
no seu lugar habitual, com uma imagem visivelmente abatida. - Cabrito ou
bacalhau com natas?
- Pode ser cabrito - Leonardo afastou o prato de si e permitiu que a sogra o
servisse em silêncio.
Leonardo sabia que nunca mais iria ser o mesmo. Não podia apagar o que tinha
acontecido, nem esquecer o filho, mas tinha o direito de seguir em frente e não se
enterrar vivo. Um dia de cada vez, era necessário seguir esse lema sob pena de se
afundar numa tristeza profunda e irrecuperável.
Passou a tarde de Natal na sala de estar, sentado no sofá, a sentir-se sonolento.
Enquanto isso, a chuva lá fora continuava a cair de forma intensa. Olhou para a
lareira acesa, graças aos esforços da sogra que de vez em quando lá ia ajeitando as
achas com um pau de madeira. Viu o filho sentado no tapete, de olhos postos na
televisão, enquanto os seus dedos habilidosos teclavam freneticamente o comando
da Playstation. Observou a mulher deitada no divã da sala com um manto sobre as
pernas e um livro nas mãos, indiferente aos ponteiros do relógio. Mas nenhuma
destas acções foram suficientemente interessantes para prender a sua atenção.
Tudo lhe parecia triste, cinzento e vazio, tal como os seus pensamentos vagos.
Por fim, a noite caiu e Luísa despediu-se com a promessa de voltar no dia
seguinte. Quando a porta se fechou, Leonardo saiu do sofá e dirigiu-se
silenciosamente até ao quarto, subindo degrau a degrau, sem se importar com a
presença de Laura junto às escadas. Era como se de repente ela se tivesse tornado
num ser absolutamente invisível para si. Uma desconhecida com quem tivera a
infelicidade de estar casado durante doze anos.
Todas as persianas e cortinas do quarto encontravam-se fechadas. Laura ficou
parada ali por um longo tempo com receio de entrar sabendo que tinha de o fazer.
Lentamente, ela avançou um pouco pelo quarto. Parou novamente e encheu o
peito de coragem para interpelar o ex-marido.
- Ainda bem que conseguiste descer! O André ficou contente e... eu também.
327
Ficaram os dois em silêncio por longo tempo, no interior de um quarto onde
haviam partilhado muitos momentos de felicidade e amor. Mas nada disso
pareceu contar aos olhos de Leonardo quando este abriu as portas do roupeiro e
retirou do seu interior duas almofadas e um cobertor de lã.
Agarrou também no seu pijama e dirigiu-se à casa de banho a fim de recolher a
sua escova de dentes, a máquina de barbear e todos os outros objectos pessoais
que conseguiu segurar nas mãos. Quando regressou ao quarto, encontrou a
expressão espantada da ex-mulher.
- O que é que estás a fazer? - ela questionou.
- A partir de hoje, vou dormir no quarto de hóspedes! Pelo menos até um de nós
arranjar um outro sítio para morar.
- Mas eu pensei...
- Pensaste mal - Leonardo impediu-a de concluir a frase.
Naquela noite Laura não conseguiu pregar olho. Levantou-se em silêncio e saiu
ao jardim das traseiras, desejando que ninguém visse as lágrimas que brilhavam
nos seus olhos. Não estaria ela a pagar pelos seus erros, passou-lhe essa pergunta pela
cabeça. Não estaria ela merecidamente a sofrer por durante anos não ter exergado a vida
maravilhosa que tinha diante de si? Por nunca ter dado o devido valor ao marido e aos
filhos?
Quando entrou na sala, Laura serviu-se de várias doses de whisky e ficou ali
parada em frente à janela, de olhos fechados, com o copo nas mãos, bebendo goles
grandes até se sentir devidamente embriagada. Uma idiotice pensar que o álcool
surtiria algum efeito ou então resolveria qualquer um dos seus problemas. Mas na
altura, pareceu-lhe a única forma de suplantar toda a dor e a tristeza que estava a
sentir.
Laura voltou ao quarto e sentou-se na cama com a cabeça à roda. Tinha a sensação
de que tudo mudara num abrir e fechar de olhos. Porém, agora, em vez de ter
vontade de morrer como acontecera nas últimas semanas, sentia apenas uma
inércia de alguém que precisava desesperadamente resgatar-se a si própria. Às
quatro da manhã, exausta, depois de reflectir durante horas, adormeceu sobre a
cama sem sequer a abrir.
Na semana a seguir ao Natal, nem Laura, nem Leonardo e nem André saíram de
casa. Não sentiram qualquer necessidade disso. Ainda estavam de luto pela morte
de João e recusavam-se a enfrentar os olhares de pena e compaixão das pessoas à
sua volta.
328
Apenas Luísa e a empregada Antónia tiveram o privilégio de entrar numa casa
que já não via a luz do sol. Num lugar onde outrora se ouviram risos e
gargalhadas, reinava agora um silêncio ensurdecedor capaz de assustar quem
quer que fosse, até mesmo Joana Lima, uma visita que nas últimas semanas se
tinha tornado constante.
Na primeira noite, Leonardo achou estranha a presença daquela rapariga em sua
casa. Nunca antes a tinha visto e nem Laura algum dia falou da existência de uma
Interna. Era a primeira vez que alguém da clínica, à excepção de Rita Azevedo,
pisava aquela casa. Mas havia qualquer coisa de estranho entre as duas. Um misto
de adoração e ódio. De cordialidade e animosidade. Uma ligação exótica que
escapava à compreensão do arquitecto sempre que este se ia deitar e as deixava
sentadas na grandiosa mesa da sala de estar, submersas em livros sem olhar para
os ponteiros do relógio ou para os primeiros raios de sol que atravessavam as
janelas denunciando o começo de um novo dia.
As longas horas de estudo deixavam Joana exausta. Muitas vezes, Laura
desligava as luzes do tecto e da mesinha. Surgia com duas laternas na mão, uma
para si e outra para Joana.
Com a sala às escuras, tendo apenas uma luz ínfima a incidir sobre os livros,
Joana asfalfava-se para acompanhar o ritmo de estudo da sua Orientadora. Mas
era esgotante. Nunca se atrevera a estudar assim. Nunca tivera que puxar tanto
pela sua concentração. Laura, pelo contrário, parecia não se importar com as
longas horas de estudo ou sentir-se afectada por passar as noites em claro na
companhia da sua Interna. Era perceptível o quanto estava habituada a estudar.
Fazia-o desde os onze anos de idade e continuava a fazê-lo até à data, ainda que
actualmente não tivesse razões para isso. Estudava apenas pelo prazer de estudar.
- Dói-me a cabeça – Joana confessou, largando a lanterna sobre a mesa e
derramando lágrimas de dor já a madrugada ia alta. – Não aguento mais.
Laura apontou-lhe a lanterna ao rosto sem piedade. - E assim!? Já te sentes
melhor?
Joana tapou o rosto com as mãos por não suportar tanta dor. Tal como dissera, já
não aguentava mais. Nas últimas semanas, andava a estudar como uma
condenada. Deixara de dormir, de comer devidamente e até mesmo de viver uma
vida considerada normal. Emagreceu cinco quilos e o seu sistema nervoso alterou-
se de uma forma abismal graças aos litros de café que era diariamente obrigada a
beber para se manter acordada.
329
A poucas semanas do exame com o qual havia sonhado toda a sua vida, Joana já
nem sabia se realmente desejava tudo aquilo. Passara tantos anos obececada com a
ideia de se tornar Neurocirurgiã, que nunca se perguntou se de facto se aquela era
a profissão que queria escolher para si. Ou não teria sido antes um desejo estúpido e
imaturo de querer igualar o seu tio Eduardo Lima? Obrigá-lo a sentir orgulho de uma
sobrinha que sempre o colocou num pedestal e sempre mendigou a sua atenção?
Passaram-se vários dias e o Ano Novo chegou sem qualquer comemoração. A
inauguração do RESORT em Cascais realizou-se no dia trinta e um de Dezembro,
mas Leonardo não se sentiu em condições de comparecer ao evento para o qual
havia trabalhado durante quatro anos a fio. Ainda se sentia um pouco fraco e
desanimado. Mas aos poucos estava a tentar recuperar-se. Resolveu regressar ao
trabalho no terceiro dia de Janeiro, não porque se sentisse melhor, mas porque
necessitava retomar a sua vida, reconstruí-la e viver em função do único filho que
lhe restou. Viver um dia de cada vez, repetia essa frase inúmeras vezes sem conta
ainda que na altura ela não lhe fizesse qualquer sentido.
- É muito bom ver-te por aqui, Leo – Marta, a secretária, esboçou um sorriso
carinhoso quando viu o seu chefe entrar na recepção do escritório. – Muito bom
mesmo.
Quando Leonardo entrou no seu gabinete, encontrou tudo perfeitamente
organizado. Papéis, arquivos, pastas, maquetes, objectos logísticos, agendas de
telefone, mantinham-se nos seus devidos lugares há pelo menos várias semanas.
Mesmo a escrivaninha de madeira, estava perfeitamente arrumada e a caneta com
a qual assinara o último contrato permanecia junto ao telefone. Era como se o
tempo não tivesse passado naquela sala ainda que no mundo exterior tudo tivesse
mudado drasticamente.
Leonardo aproximou-se da secretária e depositou a sua pasta sobre a cadeira.
Passou os dedos pela secretária, encontrando nela um porta-retrato dos seus
filhos. Era angustiante pensar que um deles havia partido sem se despedir,
deixando apenas um mar de saudades. Leonardo segurou o retrato nas mãos e não
conseguiu evitar que uma lágrima lhe caísse dos olhos. Tocou levemente na
fotografia, cingindo-se ao rosto inocente e alegre de João quando este tinha apenas
seis anos de idade longe de imaginar que a sua vida seria tão curta.
A manhã foi complicada. Ainda que tivesse tentado retomar o ritmo frenético do
trabalho, Leonardo teve alguma dificuldade em conseguir concentrar-se. Deixou a
janela do estúdio aberta, a fim de ouvir o inevitável ruído da rua, mas nem isso
impediu que os seus pensamentos se perdessem por diversas vezes. Após o
terceiro erro consecutivo na planta que estava a construir, o arquitecto deixou a
régua de lado e caiu exausto sobre cadeira. Chegou à conclusão que seria
impossível fazer alguma coisa de jeito naquela manhã.
330
- Posso?! - Francisco Saraiva bateu à porta do escritório.
- Podes - Leonardo manteve a cabeça por entre os braços apoiados sobre a mesa de
desenho.
- A Marta disse-me que estavas aqui dentro.
- Sim! A tentar despachar algum trabalho que tenho em atraso.
- Não vais almoçar? Podemos ir agora se quiseres. Comemos qualquer coisa num
restaurante aqui perto.
- Não estou com muita fome, Francisco! Vai tu se quiseres...
- Precisas alimentar-te - Francisco aproximou-se da secretária. - Se continuares
assim não aguentas o ritmo de trabalho. Se quiseres, posso trazer-te qualquer coisa
da rua. Não me custa nada.
- Já disse que não tenho fome - Leonardo largou a lapiseira sobre a mesa.
- Eu sei que estás abalado por causa da morte do João...
- Se sabes, porque é que estás sempre a tocar nesse assunto?!
A resposta furiosa de Leonardo obrigou Francisco a remeter-se ao silêncio e a
pedir:
- Desculpa.
- Deixa-me sozinho, por favor!
Laura estava sem comer desde o pequeno-almoço. Depois de levar o filho à
escola, regressou a casa e trancou-se no escritório. Tinha vestido um camisolão de
lã cinzento e umas calças de treino pretas, num apelo total ao conforto. Tirou os
sapatos e enroscou os pés nas pernas da cadeira. Vez por outra, parava de
martelar o teclado do computador para empurrar os óculos de leitura
transparentes para o alto do nariz. Pretendia estudar a tarde inteira, mas não
conseguiu.
331
Ao final da manhã, os seus pensamentos encontravam-se dispersos e a vontade
era nula. Preferiu antes fazer outra coisa. Algo a que não estava habituada, mas
que lhe pareceu a tarefa certa para a libertar de todos os fantasmas que a
atormentavam.
A empregada Antónia estranhou a presença da patroa na cozinha enquanto
limpava os vidros das janelas. Viu-a a abrir as portas dos armários, a retirar alguns
utensílios, a batedeira e várias formas de bolo. Mais tarde Laura, dirigiu-se à
dispensa e a trouxe alguns ingredientes. Encontrou um livro de receitas na gaveta
por baixo do microondas e abriu-o na primeira página. Ignorando os latidos de
Rufus, virou mais algumas até encontrar a receita que procurava.
- Precisa de ajuda, D. Laura? - a empregada perguntou, descendo do escadote
junto à marquise.
- Não, Antónia! Continue o que está a fazer!
Antónia tinha certeza de nunca ter visto tantos doces numa só mesa. Em quatro
horas, Laura fez dois bolos, duas tartes, uma mousse de manga e uma Bavaroise de
Morango, receita da sua mãe. Mergulhou numa concentração tal, ao ponto de se
esquecer dos ponteiros do relógio e de realizar aquela mera tarefa doméstica como
se de uma operação cirúrgica se tratasse. Analisou milimetricamente a quantidade
do leite, da farinha e da manteiga. Bateu a massa na medida certa. Manteve o
forno na temperatura ideal. Deitou fora tudo o que não lhe saiu na perfeição. Nada
fugiu ao seu excrutínio. Enquanto terminava de lavar as janelas exteriores,
Antónia pensou que a sua patroa tinha enlouquecido.
- Vou buscar o André ao colégio - Laura disse ao final da tarde.
- Quer que eu faça alguma coisa para o jantar?
- O que for mais rápido - Laura enfiou-se na sua gabardina cinzenta. - Se não
voltarmos antes das seis, pode sair e deixar a chave em cima da mesinha do
corredor.
- Sim, senhora - Antónia lançou um olhar fugídio aos doces que ainda
permaneciam sobre a mesa da cozinha. - Está tudo com um óptimo aspecto.
- Leve o que quiser.
- A sério?!
332
- Sim! Melhor ainda, leve tudo... - foram as últimas palavras de Laura antes de sair
da cozinha sem ligar ao olhar perplexo da sua empregada.
Laura sentou-se atrás do volante, ajustando o banco da frente e as pernas
compridas. Depois ligou o motor e saiu lentamente da garagem conduzindo o seu
jipe em direcção aos portões. Quando se viu na estrada simplesmente acelerou
sabendo bem que tinha apenas vinte minutos para chegar ao colégio do filho.
A enchente de carros à porta do edifício dificultou a tarefa de estacionar o carro.
Foi preciso algum tempo até conseguir um espaço ínfimo, e quando isso
aconteceu, ela abandonou o veículo fechando as portas com o comando
electrónico. Atravessou a rua debaixo de uma chuva miudinha e um frio de cortar
à faca, num contraste absoluto com o sorriso radiante que André lhe ofereceu
quando saiu pelos portões da escola de braços abertos pronto a aninhar-se no seu
peito. O filho parecia verdadeiramente feliz por a ver ali.
- Como é que foi o teu dia? – Laura perguntou ao filho enquanto caminhavam de
mãos dadas em direcção ao carro.
- Foi fixe.
- Fixe?! - ela riu-se, animada. - Às vezes pergunto-me onde é que vais buscar estas
expressões?
- Toda a gente diz.
- Está bem – Laura abriu as portas do seu jipe e permitiu que o filho entrasse no
banco de trás. – Então vamos para casa, porque hoje o tempo não está nada fixe e a
mãe ainda tem que passar pelo supermercado.
André entrou no carro e permitiu que a mãe lhe retirasse a mochila dos ombros.
Laura levou-a até ao porta-bagagens e em seguida fechou o compartimento com
força sem perceber que um vulto estranho a observava de longe. Quando virou o
rosto e o reconheceu, o seu coração parou de bater. A sua boca secou e as pernas
paralisaram-se. Ela só quis fugir dali, mas uma força oculta manteve-a presa ao
solo.
- André! Espera-me um minuto - Laura pediu ao filho.
- Vais demorar?! - o pequeno perguntou, impaciente.
333
- Não! Espera um pouco! A mãe já volta...
Foram precisos vários segundos para que Laura conseguisse reunir forças
suficientes que a ajudassem a atravessar a rua movimentada em direcção a um
homem que durante meses preencheu a sua vida e o seu imaginário. O caminho
cada vez mais curto demonstrou a nitidez dos traços físicos daquele homem. O
seu rosto perfeito. Os seus ombros largos. O torso definido. As pernas longas e
ligeiramente arqueadas. Todas estas características físicas que pareciam intrínsecas
à sua pessoa. Mas ao chegar até ele, não houve dúvidas. Não houve sequer uma
réstia da excitação e ou do desejo que ele um dia chegou a provocar em si. Não
houve absolutamente nada a não ser um enorme vazio.
- Olá – Ricardo cumprimentou-a com um sorriso triste.
- Como é que…
- Segui-te! Desde a tua casa - ele admitiu, desfazendo-se do cigarro que tinha nas
mãos. - Mas não foi por mal. Apenas queria falar contigo.
Laura manteve-se expectante. Sem reacção. Sem vontade de fugir ou sequer de
continuar ali.
- Queria despedir-me! Vou-me embora amanhã de manhã! Vou voltar para os
Estados Unidos.
- Fico contente que tenhas tomado finalmente essa decisão.
- E tu?! Como estás?
- Bem.
- Fui ao funeral do João, mas assisti a tudo de longe. Não quis que ninguém me
visse.
Ouviu-se um longo e pesado silêncio. A rua continuava movimentada, mas o
coração de Laura deserto.
- Espero que tu e o meu irmão voltem a ser felizes.
Laura continuou a olhar para Ricardo sem o conseguir reconhecer.
334
– Então… é isso… – ele sorriu carinhosamente. – Até um dia...
- Adeus - ela disse, resoluta.
- Adeus.
Estranho despedirem-se apenas com um beijo na face. Frio, cerimonioso e rápido.
Como se nunca se tivessem conhecido, como se nunca tivessem partilhado a
mesma cama ou feito loucuras com os seus corpos. Eram agora dois meros
desconhecidos.
Ao ver a cunhada atravessar novamente a rua em direcção ao carro, enquanto os
seus cabelos soltos e a sua gabardina cinzenta esvoaçavam ao sabor do vento,
Ricardo teve a certeza de que aquela era a última vez que a via.
335
37
Numa rotina instalada de alguém que resolvera tirar férias após vinte anos de
trabalho contínuo, Laura aceitou condignamente o papel da dona de casa perfeita.
Levava e trazia o filho do colégio todos os dias, ajudava a empregada a arrumar a
casa, cortava a relva do jardim e levava inclusive o Rufus a passear ao redor da
vizinhança. Passaram também a ser usuais as suas corridas ao final da manhã,
num ritmo frenético, levando o seu Ipod e o auscultador nos ouvidos. Ainda que
chovesse torrencialmente, ela não abrandava os passos ou se deixava esmorecer
pela longa estrada que se estendia à frente dos seus olhos. Por vezes, chegava a
casa completamente encharcada depois de duas horas a correr debaixo de uma
chuva infernal.
A medicina fora posta de lado, tal como a sua vontade em regressar à vida activa.
Laura apenas se mantinha actualizada com os últimos avanços médicos e
continuava a ajudar a sua Interna nos estudos intensivos para o exame de
especialização marcado no final de Janeiro. Mas o que ninguém sabia era o
segredo que ela se recusava a revelar quando saía mais cedo para buscar o filho no
colégio. Todas as tardes, Laura dirigia-se ao cemitério para pôr flores na campa de
João. Acendia várias velas, limpava o espaço com carinho e ficava um grande
bocado a pensar nos tempos felizes que tinham passado. Tudo parecia agora
desperdiçado apenas por causa dum terrível acidente. Parecia tão injusto. Tão
cruel. E quando o desespero tomava conta de si ela sentava-se junto à campa e
chorava por tudo o que havia perdido e por tudo o que o filho estava a perder.
Nunca o veria crescer, nunca participaria da sua benção de finalistas, não assistiria
ao seu casamento, não conheceria os seus netos e não envelheceria com a nítida
certeza de ter cumprido o seu dever de mãe. Será que aquela maldita dor algum dia
iria passar, ela perguntava-se vezes sem conta. Será que algum dia ela voltaria a sentir-
se viva outra vez?
336
- D. Laura... - a empregada chamou-a assim que ela entrou na cozinha após uma
longa corrida pelas redondezas.
- Diga, Antónia - Laura desfez-se do Ipod que trazia no bolso das calças e também
do casaco de treino que levou na cintura.
- Chegou esta carta hoje de manhã para o Sr.º Leonardo! Acho que é do tribunal.
Laura aceitou a carta das mãos da empregada e afastou-se dela a fim de manter a
sua privacidade. Com as mãos trémulas, abriu o envelope e retirou duas páginas
do seu interior. A príncipio as palavras lhe pareceram turvas e sem sentido, mas
rapidamente se transformaram numa realidade irrefutável à qual ela tinha vindo a
fugir nos últimos meses. Confirmava-se a audiência do divórcio litigioso pedido
por Leonardo. A sessão estava marcada para dali a duas semanas.
- Está tudo bem, D. Laura? - Antónia pressentiu a preocupação da sua patroa.
- Está - ela voltou a guardar a carta no envelope. - Vou subir e tomar um banho!
Volto já...
Nos últimos dias, era usual Leonardo chegar a casa muito tarde. Fazia-o
propositadamente, permanecendo no escritório a inventar trabalho e coisas para
fazer numa tentativa desesperada de não ser obrigado a olhar para a cara da ex-
mulher que parecia segui-lo com os olhos para onde quer que fosse.
Mantendo os cotovelos sobre a mesa de desenho, o arquitecto permitiu-se olhar
através da janela e divagar um pouco, enquanto as luzes da cidade indicavam o
final de mais um dia. É só mais um dia. Só tenho que aguentar mais um dia, ele
pensava ao acordar e também quando se preparava para dormir no quarto de
hóspedes. Considerava a possibilidade de sair, convidar um amigo para tomar um
copo, mas sempre que pegava no telefone faltavam-lhe forças para percorrer a sua
lista de contactos. Não lhe apetecia estar com ninguém, falar com ninguém ou tão
pouco conversar sobre assuntos triviais.
Ficou ali, inerte, a olhar para as janelas dos prédios vizinhos, tentando adivinhar
quem eram aquelas pessoas atrás dos vidros e quais seriam as suas histórias de
vida. Tão ridículo. Poisou uma das mãos sobre a testa e brincou com os seus óculos
de leitura em cima da mesa tentando encontrar motivos para estar a fazer uma
figura tão triste.
Tinha uma mão firme e muito bem treinada para desenhar, por isso os traços
sobre o papel foram surgindo naturalmente sem grande esforço. Quando deu por
si já eram quase dez da noite e o segurança avisou que iria fechar o edifício.
337
Leonardo não teve outro remédio a não ser recolher os seus pertences e sair do
escritório em direcção ao carro estacionado no parque aberto do condomínio.
Durante a condução, pensou inúmeras vezes em atirar o seu veículo para debaixo
do camião de carga que seguia à sua frente. Ideias suícidas atravessavam
diariamente o seu pensamento ainda que ele as tentasse afastar com as poucas
forças que tinha. Já não era o mesmo que todos conheciam. Já não era alegre, bem-
disposto, brincalhão, feliz com a sua vida e com as pessoas que faziam parte dela.
Nem sequer o contacto com o único filho era suficiente para querer continuar a
viver. Ele só via uma névoa cinzenta à frente e aquele maldito camião que ainda se
mantinha no seu caminho. Acelerou o carro e encostou-se à traseira do veículo.
Era um questão de segundos, uma fracção, um pouco mais de acelerador, e
pronto, estava feito. Acabar-se-ia ali todo o seu sofrimento e angústia.
Contudo, na altura, surgiu-lhe diante dos olhos a visão do rosto de André e de
Laura. Os dois corriam num campo coberto de flores de mãos dadas e chamavam
efusivamente por si entre risos e gargalhadas. Pai, pai , André gritava alegre. Leo,
vem, a voz de Laura incitava-o a correr atrás dos dois.
Enquanto isso, do lado oposto, João permanecia sério e erecto a olhar para si.
Quando Leonardo se voltou para ele, o pequeno correu em direcção a uma
grandiosa porta de madeira e abriu-a de rompante. Virou-se novamente para trás,
acenou uma única vez e sorriu ao pai antes de fechar a porta definitivamente.
Foi o quanto baste para o trazer de volta à realidade. Sem meias medidas,
Leonardo travou o carro com força e ouviu um coro de buzinas atrás de si, tal
como os insultos de um condutor que se viu obrigado a fazer uma manobra brusca
para o ultrapassar. Foi por pouco. Foi por muito pouco que não cometeu a maior
loucura da sua vida, e enquanto a imagem do camião desaparecia numa enorme
mancha vermelha, a única coisa que Leonardo quis foi voltar para casa.
Finalmente. Nunca tivera um desejo tão forte.
- Estava preocupada contigo - Laura afirmou quando o marido abriu a porta da
rua com uma expressão visivelmente destroçada. - Demoraste.
- Estive a trabalhar até tarde.
- Já é quase meia-noite.
- E daí!? - a pergunta de Leonardo saiu ríspida.
- O André ficou à espera que chegasses! Ele queria mostrar-te a medalha que
ganhou hoje no campeonato de Judo.
338
- Amanhã falo com ele.
- Ele precisa de ti, Leo - a voz de Laura saiu trémula.
- Engraçado estares-me a dizer isso! Depois de tudo o que aconteceu...
Leonardo passou por Laura e esbarrou-se num dos seus ombros com violência.
- Até quando vais continuar a castigar-me? - ela perguntou em plena voz,
mantendo-se de costas para ele.
- Eu não estou a castigar ninguém.
- Hoje chegou uma carta do tribunal. A primeira audiência do divórcio foi
marcada para daqui a duas semanas.
Ouviu-se um longo silêncio no corredor.
- Vamos mesmo continuar com isto? - Laura voltou-se para Leonardo de lágrimas
nos olhos. - Já não chega tudo o que passámos? Tudo o que perdemos?! Queres
destruir o pouco que nos resta?
- Tu é que destruíste tudo, não vês?! - Leonardo gritou, assustando-a com a sua
voz imperiosa. - Foste tu que destruíste a nossa família e agora queres colar os
cacos que sobraram. Mas não adianta. Nada do que possas fazer vai trazer o nosso
filho de volta e nada do que me possas dizer vai-me fazer acreditar novamente em
ti. Eu nem consigo olhar para a tua cara sem sentir nojo. Raiva! Ódio! Eu odeio-te,
Laura...! Odeio-te...! E o meu maior desejo era que tu tivesses morrido em vez do
nosso filho.
Ao ouvir aquelas palavras tão violentas dirigidas à sua pessoa, Laura fechou os
olhos e permitiu que duas lágrimas lhe caíssem no rosto gelado. Não foi capaz de
dizer nada. Não foi capaz de argumentar o que quer que fosse. Ela sabia que ele
tinha razão.
Havia lágrimas nos olhos de Leonardo enquanto ela subia em direcção aos
quartos. Havia tristeza também. Desespero. Mas não havia ódio. Ele mentiu.
Contrariamente ao que dissera, não a odiava. Nunca fora capaz de sentir tal coisa
por uma mulher que continuava a possuir a sua mente e o seu coração de uma
forma irrefutável. A distância entre a querer longe de si e de a querer manter nos
seus braços era muito curta.
339
Havia uma sensação de desespero e de vulnerabilidade. Ele queria-a, desejava-a.
Admitiu esse facto a si próprio, em silêncio, quando a viu desaparecer ao cimo das
escadas. Queria-a com uma intensidade tal, que por vezes, sentia-se prestes a
sufocar.
A madrugada já ia longa quando Leonardo saiu do quarto de hóspedes e
percorreu o pequeno hall do piso superior. Viu Laura sentada ao cimo das escadas,
no meio da escuridão, com a cabeça encostada à parede. Uma força oculta impeliu-
o a aproximar-se dela e a sentar-se ao seu lado. Não soube muito bem porque é
que o fez. Já não tinham absolutamente nada para dizer um ao outro.
- Eu não queria que isto tivesse terminado assim... - Laura sentiu um nó invadir-
lhe a garganta e os olhos encherem-se novamente de lágrimas. - Juro que não! Não
queria ter-te magoado, não queria ter-te traído, não queria ter causado tanto mal a
ti e à nossa família. Se eu pudesse...não sei... se eu pudesse voltar o tempo atrás,
juro que jamais voltaria a fazer a mesma coisa. Se eu pudesse trazer o João de volta
ou trocar a minha vida pela dele, eu faria isso sem pestanejar. Eu sei que o que fiz
não tem perdão. Sei também que tens todas as razões para sentir nojo de mim e
para me odiar. Nunca fui uma boa mulher para ti, nunca te mereci. Nunca te dei o
devido valor, ainda que tivesses sido o melhor marido do mundo. Mas ainda
assim... eu queria que soubesses que... - ela voltou-se para ele e os seus rostos
finalmente se cruzaram naquela habitação às escuras. - Apesar de nem sempre ter
dito em palavras ou de nem sempre ter demonstrado em gestos, eu sempre te
amei. Sempre! Em todos os momentos! E continuo a amar-te com todas as minhas
forças...
Leonardo baixou a cabeça, desolado. Sentiu-se prestes a sufocar de tanta dor.
- Espero que um dia me consigas perdoar! Que consigas olhar para mim sem
raiva, nojo ou rancor. Porque eu sei que nunca irei conseguir fazer isso por mim...
Leonardo tomou a cabeça de Laura sem dizer nada e encostou-a ao seu ombro
direito. Ficaram ali os dois, sentados no cimo das escadas, abraçados, enquanto ela
chorava todas as lágrimas que ainda lhe restavam. Era horrível aquela sensação de
perda, inutilidade e inércia que sem querer se apossou da sua mente e do seu
corpo, cansado de tanto sofrimento. Ela só queria acabar com aquilo de uma vez e
morrer em paz.
- Nós vamos conseguir ultrapassar isto... - a voz de Leonardo saiu rouca aos
ouvidos de Laura. - Vamos conseguir!
340
38
Com os cabelos ainda molhados do banho da manhã, Laura entrou na cozinha e
iniciou o pequeno-almoço. Era Sábado, a empregada encontrava-se de folga e não
havia planos para um dia que se avizinhava igual a todos os outros. No piso de
cima, o filho e o marido dormiam profundamente. Infelizmente o mesmo não se
passou com ela. Não conseguiu pregar olho durante a noite toda. Sentia um misto
de sensações diferentes. A alegria de uma possível reconciliação com Leonardo e a
tristeza de não saber o que o futuro lhes reservava. Mas havia esperança e isso era
suficiente para que continuasse a lutar até ao fim.
A cozinha emanava um aroma quente e familiar. As tostas, o leite, o café, sumo,
frutas e cereais, encontravam-se sobre a mesa, tal como os ovos mexidos e o bacon
que Laura fez questão de preparar para o filho e para o marido. Mais tarde, ela
abriu a marquise e permitiu que o cão Rufus entrasse na habitação com as suas
patas sujas de lama. Preparou-lhe também o leite morno junto à máquina de lavar
e ofereceu-lhe três fatias de bacon, devoradas em poucos segundos. Em seguida,
afagou-lhe o pelo bem cuidado e afastou-se, deixando-o a terminar de beber o seu
leite em paz.
Pai e filho chegaram à cozinha pouco tempo depois numa conversa animada.
André contou as peripécias da sua excelente partipação na prova de Judo. Estava
orgulhoso, contente e ávido de mostrar ao pai o seu talento para a luta. Mostrava
em gestos como conseguira derrubar o adversário e como havia sido amplamente
elogiado pelo professor no final da prova.
Leonardo ouviu-o com atenção e não deixou de tecer alguns comentários.
Recebeu a medalha das mãos do filho e colocou-a no pescoço - um gesto paternal
que provocou um sorriso caloroso à sua mulher enquanto ela os observava de
longe, junto à bancada da cozinha.
341
Depois do almoço, Leonardo saiu ao jardim na companhia de André e Rufus.
Tentou ocupar a sua mente na única arrecadação da casa reconstruíndo parte da
casota do cão que ficara fragilizada pela excessiva queda de granizo poucos dias
antes.
Laura arrumou a cozinha e aproximou-se da marquise de braços cruzados.
Permaneceu atenta ao movimento do marido, do filho e de Rufus, que entretidos
com a reconstrução da casota, nem sequer se deram conta do frio arrebatador que
se fazia sentir lá fora. Observou também Leonardo a ensinar o filho a martelar, a
medir as ripas de madeira e a colocá-las no sítio certo. Consertaram o telhado da
casota de Rufus e pintaram-na de vermelho cor-de-tijolo. O marido sempre tivera
um talento especial para a construção, ela reparou. O filho parecia seguir-lhe as
pisadas.
- Querem ajuda? - Laura saiu ao jardim envolta no seu robe azul turquesa.
- Não - a resposta de Leonardo saiu muito menos ríspida e odiosa do que em
momentos anteriores. - Mas obrigado por perguntares.
A data do exame de especialização de Joana Lima aproximou-se rapidamente, e
com ela aumentaram as suas sessões de estudo em casa da sua Orientadora. Na
última semana, era habitual a sua presença de manhã à noite. Ela e Laura
estudavam durante várias horas, sem ligar a mais nada à sua volta ou à estranheza
de Leonardo que continuava sem entender o porquê da mulher se empenhar tanto
a ajudar uma simples Interna.
No último fim-de-semana que antecedeu ao dia da prova, Joana e Laura reveram
alguns aspectos da matéria e realizaram inúmeros testes preparativos. Quando
terminaram - já a noite havia irrompido as janelas - Leonardo saiu da cozinha e
voltou a surpreendê-las à volta da mesa da sala a arrumar livros, cadernos e
apontamentos.
- Fica connosco para jantar.
- Eu?! - Joana demonstrou-se surpresa com o convite do marido da sua
Orientadora.
- Já que passaste aqui o dia todo, aproveita e janta connosco antes de te ires
embora.
Joana voltou-se para Laura, como se estivesse mais uma vez à espera da sua
aprovação. - Eu não sei se...
342
- Vou pôr mais um prato na mesa – a médica afirmou, momentos antes de
abandonar a sala.
Joana jamais imaginou um dia sentar-se à mesma mesa que Laura, Leonardo e o
filho de ambos. Era demasiado louco. Vê-los ali tão perto, a comportarem-se como
uma família normal, servindo-se do frango grelhado e das batatas fritas que
Leonardo trouxera da rua, indiferentes ao ruído proveniente da televisão. Parecia
de facto tudo demasiado irreal aos seus olhos. Uma alegria irrompeu-lhe o coração
e uma angústia também. Sem saber como se mexer naquela mesa e a tremer como
varas verdes, ela aguardou que a autorizassem a comer.
- Quantos anos tens?
A pergunta inocente de André serviu como um quebra gelo numa mesa silenciosa
onde durante largos minutos apenas se ouviram o barulho das taças de vidro e
dos talheres a tilintar nos pratos.
- Vinte e três.
- Eu tenho oito.
- A nossa diferença de idades não é assim tão grande – Joana brincou com a
criança.
- Vais à escola?
- Já não.
- Então porque é que estás sempre a estudar?
- André! Senta-te direito e come o que tens no prato - Laura interrompeu o
interrogatório do filho.
- Porque é que estás sempre a estudar? – o pequeno insistiu, depois de ter
obedecido às ordens da mãe.
- Porque amanhã tenho uma prova muito importante que pode decidir o meu
futuro. Quero muito ser Neurocirurgiã e para isso tenho que estudar muito.
- Queres ser igual à minha mãe?
343
Joana e Laura trocaram um olhar cúmplice. A primeira respondeu: - Era bom se
conseguisse.
- A minha mãe trata da cabeça das pessoas – André continuou a brincar com as
batatas que tinha no prato. – Se tiveres uma doença, ela abre-te a cabeça e mexe lá
dentro. Depois ficas boa.
Laura balançou a cabeça e sorriu ao ver-se confrontada com a inocência do filho.
- E tu?! O que é que queres ser quando fores grande? - Joana perguntou.
- Quero ser médico de animais.
- Veterinário – Laura emendou. – É assim que se diz.
- Engraçado! Na semana passada, disseste-me que querias ser taxista. Ontem que
querias ser arquitecto – Leonardo meteu-se na conversa depois de ter bebido um
pequeno gole de vinho. – Agora já queres ser veterinário?
- Eu quero ser veterinário, arquitecto e taxista – a resposta de André arrancou
algumas risadas à mesa.
- Três profissões que complementam na perfeição, não haja dúvida – Laura
observou.
O jantar prolongou-se por algumas horas e revelou-se uma agradável surpresa.
As conversas descabidas de André serviram para que Joana se sentisse finalmente
à vontade na presença de Laura e Leonardo. Era fascinante observá-los, a Interna
chegou a essa conclusão. Eram um casal reservado, discreto e pouco dado a
ostentações, mas pareciam ter uma ligação profunda que se estendia muito para
além de uma simples conexão física. Apesar do olhar triste, escondido a muito
custo, Joana percebeu que Leonardo era um homem bom. Não possuía vaidades,
nem sequer nas roupas que vestia. Era calmo, simpático e afável - até mesmo para
com ela - perguntando-lhe alguns aspectos formais sobre a sua vida, a sua família
e os seus objectivos profissionais, sem nunca se tornar invasivo.
Os seus olhos transpareciam honestidade e seriedade, motivo pelo qual Joana se
arrependeu silenciosamente de algum dia lhe ter passado pela cabeça revelar a
verdade acerca do caso de Laura com o seu irmão. Leonardo não merecia que ela o
fizesse. Nem ele e nem a sua família atingida por uma tragédia sem precedentes.
344
Durante o jantar, Joana também manteve os olhos postos em Laura. Percebeu que
a médica não era aquela mulher seca e fria que se apresentava todos os dias na
clínica onde chegaram um dia a trabalhar juntas. Nem sempre trazia no rosto uma
expressão dura e odiosa. Debaixo daquela capa em que fazia questão de se
esconder, existia uma mulher igual a todas as outras. Um ser humano
absolutamente normal, capaz de comer uma peça de frango com as mãos, vestir
umas simples calças de ganga, manter o cabelo preso bem acima da nuca e andar
descalça pela cozinha, enquanto levantava a mesa do jantar com a ajuda do
marido.
- Eu ajudo-a, Dr.ª Laura – Joana adiantou-se, também ela levando as loiças sujas
até à bancada do lava-loiças.
- Não precisas chamar-me Dr.ª...
A resposta de Laura intorpeceu os sentidos de Joana.
- Chama-me Laura.
Joana realizou o exame no dia seguinte logo pela manhã. Passou com distinção,
alcançando a melhor nota no seu grupo de exames. 19,9 valores. Exactamente a
mesma nota atingida pela sua Orientadora aquando da realização dos mesmos
exames. Concluído o primeiro ano de Internato, Joana sabia que passaria os
próximos cinco dedicada inteiramente à área de Neurocirurgia. Os pais foram os
primeiros a saber dos resultados. Ficaram radiantes. Em seguida, telefonou ao seu
tio Eduardo Lima que não se mostrou particularmente entusiasmado com a
notícia. O médico atendeu-a no final de um plantão com um seco parabéns e
pouco mais.
Com as mãos trémulas, Joana encheu o peito de coragem e utilizou o seu
telemóvel para se comunicar com a única pessoa que considerava a responsável
pelo seu sucesso no exame. Laura Alves. Escreveu-lhe uma mensagem de
agradecimento, simples e curta, sem a audácia de esperar uma resposta de volta.
Mas Laura respondeu. Pouco tempo depois. Parou no meio de uma intensa
corrida perto da sua casa e colocou as mãos em cima dos joelhos. Ofegante,
alcançou o seu telemóvel no bolso lateral das calças e observou o número da sua
Interna irromper o visor através de uma mensagem de texto. Aguardou alguns
segundos até recuperar a respiração e responder de forma breve:
- “Não tens que agradecer! O êxito foi teu! Parabéns…”
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39
Demorou algum tempo. A sua vida levou uma enorme volta, mudando
absolutamente tudo na sua existência. A profissão, o possível divórcio, a morte do
filho. No ano anterior não fizera outra coisa senão enfrentar alterações dolorosas
na sua vida, culpando-se por muitas vezes ter tomado decisões erradas e
inconsequentes.
Um ano após a morte de João, Laura acordou cedo e levou André ao colégio. No
regresso, passou pelo cemitério e cuidou mais uma vez da campa do filho com um
aprumo que lhe era característico. Luísa, a sua mãe, chegou pouco tempo depois e
ajudou-a numa tarefa que a cada dia se tornava menos dolorosa, servindo mais
como uma expiação das suas culpas e fragilidades. Não falaram absolutamente
nada até à chegada de Rita Azevedo e Sofia Saraiva. Também elas não se
esqueceram daquela data infame e quiseram prestar a devida homenagem ao
pequeno João. Levaram flores e palavras de alento.
As quatro mulheres saíram do cemitério poucos minutos antes do meio-dia. Fazia
um dia radiante - como há muito não se via - pouco usual para aquela altura do
ano. O sol brilhava forte e abrasador aquecendo os corpos das pessoas que por ali
passavam. Uma senhora idosa mantinha-se por debaixo da sua sombrinha,
vendendo flores e ocupando o tempo a ler uma revista que trouxera de casa.
Laura, Luísa, Rita e Sofia passaram por ela e também por um grupo de pessoas
que aguardavam a saída de um caixão do interior da carrinha funerária. Ouviram
alguns soluços e uma comoção semelhante aquando do enterro de João. As flores
cobriam todo o chão e era possível ver uma faixa enorme, roxa, com a frase:
Descansa em paz, adorado pai, marido e avô.
Todos os dias morriam pessoas. Das mais variadas raças, idades e estractos
sociais. Todos os dias, familiares e amigos sofriam a perda de um ente querido.
Mas isso não diminuia o sofrimento. A morte de uma única pessoa, ainda que ela
não tivesse a mínima importância para o resto mundo, consistia na maior
brutalidade que um ser humano era obrigado a vivenciar.
346
Laura sabia agora disso melhor que ninguém. Após tantos anos a lidar com a
morte de perto, tendo pacientes a morrerem-lhe diariamente nas mãos, nunca lhe
passou pela cabeça a tragédia dolorosa que era perder alguém próximo. Alguém
que nos faz falta. Que é parte de nós.
Rita e Sofia despediram-se pouco tempo depois. A primeira iria trabalhar na
clínica e a segunda fazia agora voluntariado numa instituição beneficiente de
apoio a crianças abandonadas. Aos trinta e oito anos, crescia-lhe também pela
primeira vez o desejo de ser mãe. Confessara essa ideia ao marido e ele
surpreendentemente mostrou-se receptivo em iniciar os tratamentos de
fertilização.
- Onde é que vais agora? - Luísa perguntou à filha quando atravessaram a rua em
direcção ao parque de estacionamento.
- Para casa! Mas levo-te primeiro à tua - Laura encontrou as chaves do carro no
bolso do casaco.
- Então vamos logo! Ainda tenho imensas coisas para fazer.
A mãe nunca tinha absolutamente nada para fazer. Laura sabia. Mas era o jeito
dela. Luísa nunca dava o braço a torcer, inventando para si uma vida repleta de
tarefas a fim de esconder a sua solidão diária. Ao longo do último ano, Laura
pensou várias vezes em convidá-la para morar em sua casa. Contudo, a
racionalidade falou mais alto do que o desejo de criar uma relação perfeita com a
sua progenitora.
Luísa possuía uma personalidade muito pópria e ainda que a sua convivência
com o genro tivesse melhorado a olhos vistos, a verdade é que Laura tinha a
consciência de que seria praticamente impossível mantê-los a viver na mesma casa
por mais de vinte e quatro horas.
- Estás entregue - Laura estacionou o carro em frente ao prédio da sua mãe.
- Obrigada - Luísa desfez-se do cinto de segurança e abriu a porta lateral. Pensou
em sair sem se despedir da filha, mas algo muito forte a fez a recuar nos seus
intentos. Perguntou: - Olha lá! O que achas de tu, o André e o imprestável do teu
marido virem almoçar este domingo cá em casa?
Laura sorriu perante a falta de jeito da mãe em elaborar um convite gentil. - Está
bem! Combinado.
- Espero-vos à uma em ponto! Não se atrasem...
347
Após ter recebido um beijo desajeitado de Luísa na face direita, Laura aguardou
sua a entrada no prédio e voltou a arrancar o carro. Dirigiu-o até ao centro da
cidade sem prestar atenção às notícias transmitidas na rádio. Pelo caminho, viu-se
distraída por um conjunto de árvores, pelo tráfico moderado, um acidente sem
gravidade perto de uma bomba de gasolina e o sorriso de uma criança a atravessar
a passadeira na companhia da sua mãe. Eram estes pequenos detalhes que
compunham agora a sua vida, tornando-a num misto de acções desconexas que
não lhe traziam nada mais do que a certeza de que a sua existência se havia
tornado em tudo o que ela nunca pensou que seria. Pacífica.
Prestes a chegar a casa, Laura foi surpreendida por um telefonema inesperado. A
vibração do seu telemóvel sobre a caixa de velocidades obrigou-a a abrandar a
marcha e a aceitar a intimação de Eduardo Lima para se juntar a ele dali a duas
horas. Um café informal, foi a única coisa que o Neurocirurgião adiantou com a
sua voz imponente.
Laura chegou quinze minutos antes da hora marcada. Entrou num majestoso
hotel no centro da cidade e seguiu apressada até ao bar, ajeitando os cabelos soltos
e o seu blazer preto combinado com um vestido pelos joelhos da mesma cor.
Deparou-se com um espaço amplo e bem decorado. O ambiente era permeado por
uma iluminação suave, tendo como destaque o agradável tom dourado das
cortinas e dos adornos trabalhados nas paredes e no tecto. Pequenas mesas
redondas castanhas em madeira encontravam-se distribuídas por todo o salão, e
embora a maioria delas estivesse ocupada, o nível de ruído era muito baixo.
Ao fundo do salão, Laura avistou a figura da pessoa que tanto procurava. Viu-o
de longe, sentado numa mesa perto da janela, compenetrado na leitura de um
livro científico. Naquela tarde, contrariamente aos outros dias, Eduardo Lima
apresentava-se com uma roupa casual. Camisa azul e calças cor de caqui, em
contraste absoluto com a bata branca que sempre vestia. Laura não se lembrava de
alguma vez o ter visto assim. Parecia muito mais novo. Menos sério. Menos
aterrador.
- Boa tarde, Dr.º Eduardo - ela aproximou-se pouco tempo depois.
- Boa tarde, Dr.ª Laura – o médico largou o livro sobre a mesa e aceitou o aperto de
mão firme. – Sente-se.
- Obrigada.
- Como tem passado?
- Bem! E o Dr.º?
348
- Também - Eduardo forçou um sorriso inigmático. – Antes de mais, queria
agradecer a excelente ajuda que ofereceu à minha sobrinha.
- Não fiz mais do que a minha obrigação.
- Confesso que queria ter entrado em contacto consigo há mais tempo. Queria
saber como estava depois da morte do seu filho. Sei que já se passou um ano…
- Hoje fez um ano.
- Sinto muito.
- Obrigada - Laura esboçou um ligeiro sorriso.
- Soube que deixou de trabalhar na clínica.
O empregado do bar chegou à mesa com os pedidos de Eduardo. Dois cafés e
duas garrafas de água.
- Acompanhe-me no café - o Neurocirurgião incitou Laura a aceitar uma chávena.
- Obrigada - ela estendeu a mão e alcançou a xícara, puxando-a para junto de si.
- Mais alguma coisa em que lhes possa ser útil? - o empregado perguntou.
- Não, obrigado - Eduardo respondeu secamente. - Pode ir.
- Com licença.
O funcionário voltou a afastar-se da mesa e deixou Laura de olhos postos no seu
ex-Orientador enquanto lhe tentava decifrar os pensamentos. Porque motivo ele a
havia chamado ali?
- Neste momento o que é que faz? - Eduardo perguntou sem cerimónias.
- Nada - pela primeira vez essa palavra não soou mal aos ouvidos de Laura. - Há
um ano que não exerço.
349
- Folgo em saber que tirou um tempo para si... - Eduardo agitou a saqueta do
açúcar antes de a abrir e a colocar no interior da sua chávena. - É preciso ter-se
coragem para isso. Eu nunca tive essa coragem.
- Estava a precisar desse tempo – Laura saboreou o seu primeiro gole de café.
- Um ano é uma eternidade na vida de um Neurocirurgião, sabia!?
- Tenho-me mantido actualizada.
- Não é a mesma coisa! Precisa urgentemente voltar a exercer - a afirmação de
Eduardo soou como uma ordem.
- Ainda que não me sinta preparada?
- Dr.ª Laura! Você já nasceu preparada! Não foi por acaso que a escolhi de entre
centenas de alunos para ser minha Interna. Sabia que iria alcançar muito sucesso e
sabia também que corria o risco de um dia me igualar. Moldei-a à minha figura,
lembra-se? Transformei-a num verdadeiro animal de caça sempre à espera de uma
oportunidade, de um deslize de um adversário. Pois bem! Hoje posso dizer que a
aluna igualou o professor! Não há mais nada que lhe possa ensinar que você já não
saiba. E acredite, custa-me muito dizer isso. Eu não quero competir contra si. Já
não tenho idade e nem forças para cometer tamanha ousadia...
Laura manteve-se inerte perante o discurso de Eduardo sem entender onde ele
queria chegar.
- Assim sendo... - ele continuou sem desviar os olhos dela. - Já que não posso lutar,
convido-a a juntar-se a mim.
- Desculpe, mas não percebi…
- Recentemente, recebi um convite para dirigir uma Clínica especializada no
Dubai. Não tive como recusar. Aceitei e dentro de dois meses estarei de partida
para lá.
- Vai trabalhar para o Dubai!?
- Sim! E quero levá-la comigo.
350
- Desculpe?! - Laura voltou a perguntar, incrédula.
- Ouviu bem, Dr.ª Laura! Eu quero tê-la na minha equipa e quero levá-la comigo
para o Dubai para ocupar o cargo de Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Quero-a a
trabalhar para mim a qualquer custo e quem sabe um dia ocupar o meu lugar
quando tiver que deixar funções. O quádruplo do ordenado que auferia na clínica
onde trabalhava, estadia paga, veículo próprio e todas as regalias que quiser. Você
manda! Faça o seu preço!
Laura mostrou-se petrificada com o convite e por vários segundos não soube o
que responder. Eduardo pôde sentir o animal de caça lutar contra as suas
responsabilidades.
- Se eu aceitasse... - ela perguntou tremulamente. - Quanto tempo ficaríamos no
Dubai?
- Eu não lhe estou a propôr um emprego sazonal. Se aceitar, é para sempre...!
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40
Laura regressou a casa com a cabeça a mil, cheia de dúvidas e incertezas
relativamente à decisão que deveria tomar. Quem sabe numa outra altura aquele
convite não seria o maior presente dos céus? Quem sabe não seria aquele o patamar que
sempre quisera atingir na sua carreira?
Ela sempre ambicionou uma carreira internacional desde que finalizara o seu
Internato. Recebeu inclusive vários convites para trabalhar em países como o
Reino Unido, Austrália, Irlanda, Estados Unidos, Bélgica, Mónaco, entre outros.
Mas nunca aceitou por se ver presa ao seu casamento e às suas obrigações
familiares. Sempre colocou Leonardo e os filhos em primeiro lugar,
culpabilizando-os em silêncio por nunca ter tido a coragem de ganhar asas e voar
em direcção ao grande sonho de se tornar na melhor Neurocirurgiã do mundo.
Não apenas em Portugal, um país com pouco mais de dez milhões de habitantes.
Portugal era demasiado pequeno para as suas ambições. Sempre fora. Demasiado
pequeno para as investigações que sonhava fazer, para os objectivos que sonhava
alcançar e para o reconhecimento que desejava obter.
Naquela noite, Leonardo achou a mulher especialmente estranha e pensativa. Não
falou e nem comeu quase nada durante o jantar. Refugiou-se no lava-loiças e
permaneceu ali, a fingir que lavava os pratos, os copos e os talheres, ainda que os
seus pensamentos se encontrassem a quilómetros dali. Preocupado, ele regressou
à cozinha e encontrou-a junto à bancada a secar a loiça. Perguntou se estava tudo
bem e ela respondeu que sim. Ele não acreditou.
Passaram-se vários dias e Laura continuou a deambular pela casa tentando
encontrar a melhor resposta para as suas dúvidas. Era Domingo e o tempo
apresentava-se mais uma vez chuvoso. O marido estava na sala ligado ao seu
computador portátil, enquanto o filho, sentado sobre o tapete, jogava à Playstation
sem ligar às traquinices de Rufus que lhe continuava a roer os cadernos e os lápis
de cor espalhados pelo chão.
352
Mergulhada numa nostalgia e lentidão inerentes ao seu estado de espírito, Laura
subiu ao piso dos quartos e refugiou-se no quarto dos filhos. Impressionante como
a decoração ainda se mantinha igual. Duas camas. Dois roupeiros. Duas mesinhas
de cabeceira. Nada mudara desde a morte de João e já havia passado um ano. Era
como se todos estivesse à espera do milagre da sua volta, embora soubessem que
isso seria impossível de acontecer.
Laura sentou-se sobre a cama do filho e não conseguiu evitar as lágrimas que se
apossaram dos seus olhos. De repente, sorriu quando se lembrou das coisas que
João fazia ou dizia. Parecia perdida noutro mundo. Então, sozinha, começou a
encaixotar as coisas dele. João possuía tão poucas coisas como se a sua vivência
neste mundo tivesse sido uma simples passagem. Tinha livros, quebra-cabeças,
brinquedos de infância, pijamas, roupas e sapatos. Chorosa, cheirou-lhe as roupas
e a almofada guardada no roupeiro. Esforçou-se para não parecer desolada, tentou
até sorrir enquanto lhe arrumava os pertences, mas não conseguiu aguentar muito
mais. Caiu na cama num choro profundo e tapou o rosto com as mãos. Leonardo
compreendeu-a. Havia dias assim. Dias em que tudo parecia voltar à memória,
tornando-se difícil suportar tanta dor e seguir em frente.
- Queres ajuda? - ele sentou-se ao lado dela e beijou-lhe a fonte da cabeça com
carinho.
- Pensei que fosse conseguir fazer isto sozinha, mas acho que ainda não estou
preparada - Laura limpou o rosto vermelho e observou a expressão compreensiva
do marido.
- Não precisamos ter pressa - Leonardo murmurou, beijando-lhe os cabelos mais
uma vez.
- Eu sei.
- Eu também ainda não consegui visitar a campa dele. Nisso, tens sido mais
corajosa que eu.
- Será que esta dor algum dia vai passar? - Laura observou o marido com os olhos
rasos de lágrimas.
- Duvido - Leonardo foi sincero na sua resposta.
- Porque eu queria que passasse! Queria voltar a sentir-me viva outra vez...
- Tens a certeza que é só isso que te está a apoquentar?!
353
Laura mergulhou nos olhos do marido, mas sentiu-se incapaz de lhe mentir.
- Eu não te contei isto antes... - colocou os cabelos atrás das orelhas a fim de ganhar
a coragem necessária para contar a verdade. - Mas há dias fui-me encontrar com o
Dr.º Eduardo Lima.
- O teu Orientador?!
- Sim.
- E o que é que ele queria? - Leonardo observou as mãos tensas de Laura sobre o
colo.
- Ele foi convidado para dirigir uma clínica especializada no Dubai. E...
Laura não precisou completar a frase para que Leonardo entendesse o que ela
queria dizer.
- E tu vais com ele?
- Ainda não sei - ela foi sincera na resposta.
Ouviu-se um longo silêncio no quarto. O relógio sobre a mesinha de cabeceira
assinalou dezanove horas, a noite irrompeu as janelas e a luz do corredor inundou
a habitação praticamente às escuras. Nessa altura, depois de muito pensar,
Leonardo chegou à conclusão de que não tinha o direito de impedir a mulher de
aceitar aquela proposta irrecusável. Fê-lo uma vez - há muitos anos - e pagou bem
caro por isso. Obrigou-a a viver uma vida que não a sua, negou-lhe o sucesso
profissional em benefício próprio e colocou-se em primeiro lugar num casamento
que deveria ser dos dois.
Por esse motivo, ele percebeu que tinha chegado finalmente o momento de tomar
a decisão mais difícil da sua vida. Era a segunda vez que o destino lhe pregava
aquela partida. Mas desta vez, ele não iria cair na armadilha de escutar o seu
coração.
- Aceita - a voz saiu-lhe trémula e sumida.
- Queres que eu aceite? – Laura voltou-se para o marido, surpresa.
- Quero! Aceita!
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Laura não precisou ouvir mais nada para sugar os lábios de Leonardo. Beijou-o
com todo o amor que possuía dentro de si. Beijou-o com paixão. Com fervor.
Devoção. Permitiu que duas lágrimas lhe caíssem no rosto sem sequer as amparar,
e enquanto o beijava, sentiu pelo marido o maior amor do mundo. Era ele, ela
chegou a essa conclusão. Sempre fora ele. A cegueira abandonou-a de vez.
- Podemos ir os três para o Dubai - Laura disse, segurando o rosto do marido com
as duas mãos, enquanto novas lágrimas lhe caíam dos olhos e um sorriso triste lhe
irrompia os lábios. - Lá existem inúmeros escritórios de arquitectura onde podes
trabalhar. Muito mais oportunidades. O André também vai gostar. As crianças
habituam-se facilmente às mudanças...
- Não, Laura - Leonardo retirou-lhe as mãos do rosto. - O nosso lugar é aqui! O teu
não...
355
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Ela saiu da sala de desembarque empurrando um carrinho nas mãos. Veio trajada
com um simples vestido preto comprido de alças grossas, sandálias prateadas
rasas e os cabelos muito mais curtos. Ele abriu um largo sorriso quando a viu e
acenou de longe. Sentiu um arrepio e uma emoção a transbordar-lhe do coração.
Viu-a tão claramente como da última vez que estiveram juntos. Com medo de as
imagens se dissolvessem, ergueu a cabeça. Apesar da fisionomia visivelmente
mais magra, exausta e macilenta, reconheceu-a tal como a reconheceria no meio da
multidão. Seria amor, lealdade, admiração ou devoção?
O tempo correu de forma devagar. Extremamente devagar. Ele sofreu como um
louco com a sua partida, chorou, entristeceu-se e desejou nunca ter tido a infeliz
ideia de a incentivar a mudar-se para o Dubai. Sabia que iria ser difícil, mas nunca
pensou que fosse tanto. Muitas vezes dava-se consigo a sufocar de saudades e
outras a perguntar-se o porquê de ainda continuar casado com uma mulher que
não conseguia tocar.
Mas os meses foram passando e a tristeza deu lugar à conformidade. Era difícil,
mas para ela a sua partida também não foi menos dolorosa. Nos primeiros tempos
chorava quase todas as noites num apartamento que não lhe dizia absolutamente
nada. Lamentava-se por não poder estar com o filho e acompanhar-lhe o
crescimento. Lamentava-se por ter tomado a decisão mais exigente da sua vida,
por ter colocado o seu casamento em risco sem certezas de que ele iria conseguir
resistir à distância imposta por dois continentes diferentes. Nem mesmo os
inúmeros telefonemas, as cartas, os postais ou as longas conversas através do
Sykpe conseguiam apaziguar as saudades cada vez mais intensas. No entanto, a
experiência de estar a trabalhar num dos melhores hospitais do mundo com
profissionais de renome e condições laborais que jamais em tempo algum
conseguiria em Portugal fizeram-na crer que a decisão, apesar de difícil, foi a mais
acertada.
356
Ela trabalhava mais de setenta horas semanais, andava mergulhada em várias
investigações científicas e continuava a ser requisitada para várias entrevistas e
conferências internacionais que a obrigavam a viajar frequentemente para os
quatro cantos do mundo. Em poucos meses, percebeu que o seu mentor, Eduardo
Lima, sempre tivera razão. Era um animal de caça e num covil repleto de lobos
prontos a atacá-la sentia-se como se estivesse a viver no seu verdadeiro habitat.
Nascera para exercer Medicina. Vivia essencialmente para isso ainda que durante
anos se tivesse debatido entre as suas responsabilidades profissionais e familiares.
Mas o voo aconteceu. Quinze anos mais tarde, mas aconteceu. O marido deu-lhe
essa liberdade sem pedir nada em troca e sem exigir de si uma postura que achava
correcta. Libertou-a, e curiosamente, trouxe-a para mais perto. Apesar da distância
tudo continuava igual. Excepto o amor. Este melhorou, aprofundou-se e
amadureceu.
- Amo-te – Laura chorou feliz, cobrindo o rosto do marido de beijos, quando ele a
abraçou com força e a levantou do chão. – Amo-te! Amo-te muito…
- Eu também – Leonardo voltou a tomá-la nos braços e beijou-a com todo o amor
que possuía dentro de si. – Deus! Como te amo…
As férias foram demasiado curtas para matar as saudades. Oito semanas apenas.
Dois meses que se iniciaram com uma visita ao cemitério. João partira há três anos
mas a dor da perda continuava a mesma. Não havia um único dia que os pais não
se lembrassem dele, do seu sorriso meigo, das suas brincadeiras e das suas
gargalhadas.
Ainda que ele já não estivesse vivo, o seu cheiro e a sua presença eram palpáveis e
continuavam a viver em todos os gestos de Leonardo e Laura. João continuava a
fazer parte deles e jamais seria esquecido. A sua missão fora cumprida mais cedo.
Talvez fosse tão simples assim. Talvez o seu destino fosse estar com eles apenas
por um momento e partir para um lugar maravilhoso. Laura e Leonardo
compreenderam finalmente que precisavam deixá-lo partir. Podiam tocar na sua
lembrança, uma vez ou outra, mas não podiam ficar com ele.
As férias da família culminaram com uma breve estadia na casa de férias no
Algarve. O marasmo dos dias e a rotina idílica de três pessoas que não tinham
absolutamente nada para fazer, obrigavam Leonardo, Laura, André e até o velho
cão Rufus a fazer longas caminhadas pela praia, quase sempre ao final da tarde,
quando o sol se punha. À noite, refugiavam-se na varanda e conversavam durante
horas a fio sem olhar para os ponteiros do relógio.
357
Laura adorava aquela sensação. Nunca se sentira tão feliz e tão próxima do
marido e do filho, ouvindo com atenção tudo o que diziam, sem perder uma única
oportunidade de os tocar, beijar e confessar o quanto eles eram importantes para
si. Talvez fosse uma contradição estar fisicamente tão longe e espiritualmente tão
perto. Talvez fosse uma contradição, ou quem sabe talvez não. Quem sabe tudo
agora não fazia sentido como sempre deveria ter feito. Era bom sentir-se na sua
própria pele sem ter que mentir, fingir ou viver uma vida que não considerava
sua. Seria esse o poder da libertação? Ela sempre ouvira dizer que quando nos
libertamos, curiosamente, nos sentimos mais presos. Talvez isso fosse verdade.
- O que fizeste à outra câmera?
- Nunca me dei bem com ela - Leonardo continuou a filmar sobre a cama. - Era
demasiado complicada. Esta é bem mais simples e tem uma imagem melhor.
- Estive a pensar... - Laura encostou-se à cómoda do quarto enquanto o marido se
entretia a ajustar a tela.
- No quê!?
- Sobre a ideia de comprarmos esta casa.
- Eu sempre quis comprar esta casa.
- Eu sei! E também sei que sempre me mostrei contra a ideia. Mas agora pensei
melhor e quero comprá-la. Quero mesmo...
Laura e Leonardo sorriram de forma cúmplice.
- Depois da reforma, podíamos vir morar para aqui. Eu e tu. Passávamos o dia
inteiro na praia e à noite assávamos um peixe para o jantar. Depois convidávamos
o André, a mulher dele e os nossos netos para passarem as férias de Verão
connosco. O Natal. O Ano Novo. Quando eles se fossem embora, ficávamos os
dois. Podíamos plantar um horta. Eu podia fazer bolos. Tu podias fazer
churrascos. Ganhávamos a vida a vender bolos e churrascos aos nossos vizinhos. E
quando estivessemos realmente velhos, sem nos conseguirmos mexer, ficávamos
ali na varanda, abraçados, a ver o tempo passar...
- O plano parece-me perfeito.
358
- Falamos amanhã com o proprietário da casa?
- Falamos - Leonardo concordou com um doce sorriso.
Laura voltou a sorrir e o marido viu-a através da tela. Continuava a mesma, ele
reparou. Apesar dos cabelos curtos, o seu rosto trazia uma luminosidade fora do
vulgar e os olhos mantinham-se tão verdes como duas esmeraldas. A combinação
preta, curta, bem acima dos joelhos, prendeu a atenção de Leonardo
impossibilitando-o de tirar os olhos dela.
Laura caminhou em sua direcção e retirou-lhe a câmara das mãos, poisando-a
sobre a mesinha de cabeceira. Beijou-o na testa, nas maçãs do rosto, e por fim, nos
lábios. Sentiu o sabor do vinho que beberam minutos antes de se irem deitar.
Beijou-o com amor, com loucura e com fervor. Quando não conseguiu aguentar
mais, tomou-lhe uma das mãos e colocou-a sobre o seu seio direito. Mergulhou-lhe
nos olhos e viu nele a imagem do homem que sempre amou.
- Senti saudades tuas - ela disse, baixinho. - Preciso de ti.
Leonardo sorriu. - Eu também senti saudades tuas.
- Amo-te.
- Eu também - ele confessou.
O sol já se escondia no horizonte no momento em que Leonardo a tomou nos
braços e a beijou com todo o amor que possuía dentro de si. Um longo beijo que
terminou com um outro na testa e com a certeza de que o amor que nutriam pelo
outro continuava mais forte do que nunca.
Dentro de quarenta e oito horas, Laura partiria para o Dubai e a saudade voltaria a
assombrar os seus corações. Mas na altura não era tempo de pensar em tristezas.
Ali, na varanda da casa de férias, deitados numa rede de descanso, enquanto o
filho jogava à bola sozinho sem ligar aos latidos ensurdecedores de Rufus, Laura e
Leonardo voltaram a abraçar-se com força e fecharam os olhos numa tentativa
desesperada de aproveitar as últimas horas que ainda lhes restavam.
Mas ao abrir novamente os olhos, ela teve uma visão mágica. Viu o filho pela
primeira vez numa imagem nítida e clara. Viu João a correr atrás de André,
imitando os passos do irmão e seguindo a bola com uma alegria extrema no rosto.
Talvez essa imagem a devesse ter deixado em pânico ou amedrontada, mas não foi
de todo isso que aconteceu. Pelo contrário. Foi apenas um sinal de que João
continuava com eles e de nunca iria desaparecer das suas vidas.
359
Durante catorze anos de casamento, Laura já havia desfrutado de todos os
prazeres e de todo o sofrimento que uma mulher poderia ter. Sofreu coisas que
não merecia, mas mesmo assim, ao olhar para o passado, sabia agora que lhe
restavam poucos momentos em que havia sentido aquilo a que todos chamam de
verdadeira felicidade. Quando viu os filhos nascer, quando o marido a pediu em
casamento, e agora, aquele momento em que permaneciam os dois abraçados a
observar o pôr-do-sol sabendo bem que tinham apenas mais algumas horas para
estar juntos. Mas isso fazia parte do amor. Da vida também.
Percebido esse facto, ela voltou a fechar os olhos e sorriu. Alguma coisa tinha
mudado nela. Alguma coisa no fundo da sua alma se tinha partido, quase a
destruindo, mas agora começava lentamente a recuperar-se. E quando o marido a
voltou a beijar nos cabelos, ela sentiu-se em paz. Finalmente em paz.
FIM
360
Aos trinta e nove anos, Laura Alves tem todos os motivos para ser uma
mulher feliz. Vive um casamento de sonho, é mãe de duas crianças
maravilhosas e possuí uma carreira brilhante enquanto Neurocirurgiã.
No entanto, a chegada do cunhado irá pôr em causa tudo o que
conquistou. Envolvida num tórrido caso extra-conjugal, ela mergulha num
ciclo vicioso do qual não consegue sair, e quando o pior acontece, vê-se
intimada a pagar pelos seus erros e a avaliar pela primeira vez o que é
realmente importante para si.
DIANA NEVES
OS TRAIDORES

ROMANCE OS TRAIDORES - DIANA NEVES

  • 1.
    1 DIANA NEVES "Um romancesexy e intrigante que desvenda todas as fragilidades humanas... " - Diana Neves, autora do romance UM MAR DE ROSAS OS TRAIDORES 2ª EDIÇÃO DIANA NEVES
  • 2.
    2 OS TRAIDORES Aos trintae nove anos, Laura Alves tem todos os motivos para ser uma mulher feliz. Vive um casamento de sonho, é mãe de duas crianças maravilhosas e possuí uma carreira brilhante enquanto Neurocirurgiã. No entanto, a chegada do cunhado irá pôr em causa tudo o que conquistou. Envolvida num tórrido caso extra- conjugal, ela mergulha num ciclo vicioso do qual não consegue sair, e quando o pior acontece, vê-se intimada a pagar pelos seus erros e a avaliar pela primeira vez o que é realmente importante para si.
  • 3.
  • 4.
  • 5.
    5 "Este romance éuma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e factos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, acontecimentos e lugares é mera coincidência." Todos os direitos reservados. 2ª Edição/2014
  • 6.
  • 7.
    7 1 Laura Mendonça eLeonardo Alves viviam numa grandiosa moradia a poucos quilómetros de Lisboa. Um espaço agradável, com dois pisos bem decorados e um jardim idílico à volta. Quando se casaram, ele era ainda um arquitecto em início de carreira com vontade de crescer na empresa onde começara a trabalhar. Ela, por seu turno, era uma jovem médica promissora, dedicada de corpo e alma à sua profissão. Conheceram-se num jantar de amigos no ano de 1996 e desde então nunca mais se largaram. Foi amor à primeira vista, ele confessou anos mais tarde. Assim que chegou ao restaurante Leonardo ficou imediatamente encantado pela presença de Laura. Dona de uma estatura elevada - 1,77m de altura - a médica exibia lábios finos, cabelos loiros compridos e um atributo especial que o arrebatou desde o primeiro momento em que a viu. Olhos tão verdes como duas esmeraldas. Laura também se deixou seduzir pelo jeito cordial do arquitecto. Achou-o particularmente atraente, embora na altura tivesse tentado esconder o seu interesse a todo o custo. Leonardo era um homem bonito, alto e elegante. Possuía cabelos castanhos e olhos escuros, cobertos por um par de óculos transparentes que usava desde os tempos da adolescência nunca pensando em desfazer-se deles sob pena de não conseguir enxergar um palmo à frente do nariz. O arquitecto tinha consciência de que os seus óculos não eram um chamariz às raparigas. Conferiam-lhe um ar demasiado sério e intelectual, e na altura, finais dos anos noventa, as raparigas queriam tudo, menos um namorado sério e intelectual. Queriam aventuras, queriam namorar o rapaz mais giro da turma e cometer loucuras típicas de adolescentes. Laura parecia ser a excepção à regra. Após alguns romances fracassados e desilusões amorosas, Leonardo agradeceu aos céus a sorte de a ter encontrado naquela noite. Bela, discreta, inteligente e inconscientemente sedutora. Nunca mais a largou. Nunca mais ficou um dia sem a ver. Seis meses após terem começado a namorar, ainda que nunca se tivessem tocado intimamente, ele já sabia que queria passar o resto da vida ao lado dela.
  • 8.
    8 Laura era umamulher muito bonita, brilhante e dinâmica, mas sempre faltara algo nela. Talvez uma certa ternura e gentileza. Não se podiam utilizar tais palavras para a descrever. Ambicionava mais da vida do que ser apenas uma simples médica ou a perfeita dona de casa. Tinha vinte e quatro anos quando conheceu Leonardo, era virgem e nunca namorara ninguém. Ele estranhou tal facto. Ela dissera-lhe que andara demasiado ocupada a realizar o seus objetivos e a atingir os seus fins. Prometera a si própria, confessara-lhe um dia que aos quarenta anos seria uma Neurocirurgiã de sucesso. Leonardo encarou a frieza dela como um desafio. Aos seus olhos, Laura parecia uma mulher de extrema inteligência e competência com um perfeito controlo sobre todos os aspectos do seu mundo. Cada sorriso, cada gesto mais efusivo era como que uma vitória para si pois Laura não demonstrava afabilidade com qualquer outra pessoa. O pedido de casamento surgiu dois anos depois num fim-de-semana romântico à Serra da Estrela. Foi aceite na hora. Laura sabia que não encontraria ninguém melhor. Casaram-se numa cerimónia civil, simples e descomprometida contando apenas com a presença de amigos próximos que de antemão já sabiam qual seria o final daquela história. Chovia torrencialmente naquela tarde de Sábado, mas isso não foi motivo suficiente para estragar o dia mais feliz das suas vidas. Ela foi com um vestido simples em tons de bege, os cabelos presos abaixo da nuca e um pequeno ramo de lírios nas mãos. Ele, por seu lado, apareceu de fato e gravata sem se preocupar com nenhum outro detalhe a não ser com a presença dela. Financeiramente independentes, partiram de lua-de-mel para Toscana, Sul de Itália. Permaneceram duas semanas num clima de total romance e quando regressaram a Lisboa alugaram um apartamento no centro da cidade a poucos metros do hospital onde Laura trabalhava. A casa não era muito grande. Possuía apenas dois quartos mas uma vista esplêndida sob a cidade. No entanto, era um pouco impessoal aos olhos de Leonardo, que sempre sonhou adquirir para si e para a sua família um espaço amplo onde não faltassem os churrascos aos Domingos e um grandioso jardim à volta onde os filhos pudessem brincar. Ele desejava ter filhos. Queria ver os quartos cheios de risos e de ruído, mas Laura mostrava-se relutante em aceitar a ideia. Ela gostava de morar no centro da cidade, de ter tudo ali ao pé e um apartamento pequeno que não desse muito trabalho a limpar. Talvez fosse egoísta da sua parte pensar dessa forma, mas a verdade é que após dois anos de casamento, completamente mergulhada no seu Internato e sem tempo para respirar, tudo o que ela não desejava na altura era organizar churrascos aos Domingos e muito menos em ter filhos que pudessem brincar num jardim inexistente.
  • 9.
    9 Os seus objectivoseram outros e estavam traçados desde há muito. Medicina. Era isso que a movia, era apenas nisso que pensava e era isso que se via a fazer para o resto da vida. Mas as cobranças de Leonardo foram surgindo de forma subtil. Aos trinta e um anos crescia-lhe o desejo de ser pai e formar uma família - um sonho que o acompanhou desde os tempos da adolescência - altura em que perdeu os seus progenitores num terrrível acidente de viação e se viu obrigado a viver numa casa de acolhimento até aos dezoito anos. Foram tempos difíceis, ultrapassados a muito custo, mas que deixaram marcas irreparáveis. O término da família biológica provocou em si a vontade de querer formar uma nova e recuperar tudo o que havia perdido após a morte dos pais e o afastamento súbito do seu irmão mais novo. Nunca mais soube nada dele. Separaram-se ainda jovens e cada um seguiu o seu caminho. A última vez que se viram foi com o intuíto de se despedirem. O irmão iria sair do país e tentar uma vida nova no estrangeiro sem intenções de algum dia regressar a Portugal. Leonardo não fez absolutamente nada para o impedir. Achou que não valia a pena. De qualquer maneira, não tinham nada em comum e as suas vidas há muito que haviam tomado rumos diferentes. As primeiras insinuações surgiram três anos após o casamento, a príncipio algo espaçadas no tempo, mas depois cada vez mais impertinentes e acutilantes. Leonardo mostrou a sua vontade em ser pai, mas Laura negou-lhe veemente o pedido dizendo que ainda era muito cedo para pensarem nisso. Ele ainda tentava consolidar a sua carreira e ela lutava por terminar o seu Internato. Não era tempo de cometer precipitações apenas por um desejo ou um capricho, ela dizia. Chegaram ao ponto de uma possível ruptura quando por indicação do seu Orientador, Laura recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar num centro hospitalar em Londres. Ao saber disso, Leonardo encostou-a contra a parede e disse-lhe em poucas palavras: ou eu ou esse trabalho. Ainda que não tivesse a certeza de qual seria a escolha da mulher, o arquitecto respirou de alívio quando ela decidiu recusar o convite. Laura resignou-se à ideia de exercer funções médicas numa clínica privada no centro de Lisboa e oito meses depois descobriu que estava grávida. Foi um acidente. Não contava com isso e nem conseguiu esconder a sua contrariedade por ter cometido o deslize de esquecer a pílula numas malditas férias de Verão no Douro. Já Leonardo não poderia ter ficado mais radiante com a notícia. A alegria tornou- se ainda maior quando descobriu que a mulher estava grávida, não de uma, mas de duas crianças. Gémeos. Dois rapazes que dentro de pouco tempo iriam correr pela casa e enchê-la de alegria, tal como ele sempre sonhou. A vida seria um pouco agitada com a profissão que tinham, mas seria compensador no final das contas. Conseguiriam criar os filhos, manter o casamento e ser felizes para sempre.
  • 10.
    10 Podia até parecerromântico demais, mas era o que Leonardo achava que iria acontecer sempre que tocava na enorme barriga da mulher e projectava um futuro risonho para os quatro. Os nove meses que se seguiram foram clinicamente complicados. Laura deixou de trabalhar no quinto mês de gestação, engordou quinze quilos e sentiu uma enorme dificuldade em manter-se de pé. Os gémeos deveriam nascer no começo de Setembro e no último mês ela só saía da cama para ir à casa de banho. Comia como uma leoa, passava os dias a ver televisão no quarto e não deixava sequer que o marido a tocasse. Havia algumas semanas que seu colo uterino começara a adelgaçar e ela já apresentava alguma dilatação. Cada vez que se levantava, nem que fosse por pouco tempo, sentia contracções. Estava farta de ficar deitada e tinha medo que alguma coisa corresse mal. Uma semana antes da data marcada, começou a sentir as primeiras contracções. Estava sozinha em casa, o marido tinha ido trabalhar e por isso ela achou melhor levantar-se da cama e andar pelo apartamento durante algum tempo só para ajudar. Telefonou também à sua médica avisando-a que possivelmente chegara a hora. No final da tarde, quando Leonardo chegou a casa, as dores tornaram-se mais intensas. Era impossível saber o que era pior. Estar sentada, estar deitada ou estar de pé. O marido quis levá-la imediatamente para o hospital, mas Laura aguentou firme as dores parecendo muito menos nervosa que ele. Ao longo da noite foi mantendo contacto com a sua médica. Falaram sobre todas as possibilidades e a médica surpreendeu-se com a frieza dela. Nunca antes tinha visto uma grávida tão calma e despreocupada. Perto das quatro da manhã, quando chegou ao hospital, Laura parecia estar a fazer força há horas e nada acontecia. Leonardo olhou para o relógio e perguntou- se quanto tempo mais a mulher iria resistir àquela prova de fogo sem perder a razão. E de repente, o quarto encheu-se de gente. Dois médicos, um deles a obstetra que a acompanhou durante todo o período de gestação, uma enfermeira e um auxiliar de serviço. Apareceram duas pequenas bacias de metal e o círculo de máscaras se fechou em volta da parturiente. Leonardo posicionou-se ao lado da mulher e ofereceu-lhe a mão esperando que ela a apertasse com força. Infelizmente, foi isso que aconteceu. Em vez de gritos e lágrimas naturais em todas as grávidas, Laura concentrou todas as suas energias em apertar as mãos do marido, esmagando-as com força. Ele encorajou-a, beijou-a nos cabelos e pediu para que ela se mantivesse calma. Perdeu a conta das vezes que o fez. E então todos estavam a gritar, estimulando-a e encorajando-a. Leonardo viu a cabeça do primeiro bebé a sair para o mundo. É um menino, a médica disse e ele ficou apavorado com a cor roxa da criança. A enfermeira acalmou-o dizendo que era normal e logo levou o bebé para os braços da mãe. Mas Laura estava tão exausta que nem sequer prestou atenção àquele ser inofensivo que agora era seu filho.
  • 11.
    11 Tocou-o no rostoao de leve, mas logo sentiu uma enorme contracção que a obrigou a contorcer-se na cama. As dores continuaram e foi preciso o uso de um fórceps para corrigir a posição do outro bebé. Leonardo nem podia olhar para o que estavam a fazer com a sua mulher. No meio de toda aquela aflição apenas rezava para que tudo corresse bem. Às onze da manhã já nem a reconhecia. Com os cabelos molhados, a testa encharcada de suor e a face vermelha de tanto esforço, Laura não parecia sequer estar consciente. O outro bebé era bem mais teimoso que o primeiro. Manteve-se no útero da mãe durante uma hora ainda que ela o tentasse expulsar a todo o custo. Se o outro menino não sair em poucos minutos, temos que partir para uma cesariana, a médica avisou. Mas Laura recusou terminantemente tal procedimento. Ele vai sair, ela gritou desesperada. Ele vai sair. Quando estavam todos prestes a desistir, o bebé moveu-se e começou a descer lentamente. Era quase meio-dia e Laura estava praticamente inconsciente. E então, de um momento para o outro, lá estava o outro rapaz, a gritar em plenos pulmões, olhando ansioso à sua volta como se estivesse à procura da mãe. Nesse momento, quase instintivamente, Laura ergueu a cabeça e viu-o. Agradeceu aos céus e voltou a cair com a cabeça sobre a almofada, rindo e chorando ao mesmo tempo enquanto o marido lhe cobria o rosto de beijos, parabenizando-a por ter conseguido ultrapassar aquela verdadeira prova de fogo. Para Laura foi como se todas as suas dores e todo o seu sofrimento tivessem tido um fim no minuto em lhe foram colocados nos braços os dois seres mais preciosos da sua vida. O epítome da felicidade ocorreu aquando da primeira fotografia tirada por Leonardo. Exausta pelas oito horas do parto que foi obrigada a suportar, Laura segurou os gémeos em cada um dos seus braços e abriu um sorriso radiante que contrastou com o choro compulsivo das suas crianças. André e João foram os nomes foram escolhidos pelo pai. Duas crianças irriquietas e saudáveis que em pouco tempo cresceram e se tornaram dois seres distintos. Vestiam-se de maneira diferente, comportavam-se de maneira diferente e lidavam com as situações de forma diferente. André era dono de uma personalidade forte e vincada, tal como a mãe. Amuava com facilidade e queria que tudo fosse feito à sua maneira. Recusava os carinhos do pai e desobedecia frequentemente às ordens da mãe. João, era o oposto. Doce, carinhoso e calmo, aceitava tudo o que lhe era dito. Parecia trazer a bondade nos olhos e no coração. O apartamento onde viviam passou a ser demasiado pequeno para abrigar tanta agitação. Quando as crianças completaram três anos, Laura e Leonardo foram obrigados a adquirir uma grandiosa moradia nos arredores de Lisboa. Uma casa com dois pisos, um jardim gigantesco e a inexistência de vizinhos próximos que se pudessem queixar dos churrascos organizados aos fins-de-semana.
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    12 Sete anos sepassaram e a rotina instalou-se na família. Laura regressou ao seu trabalho na clínica logo após o nascimento dos filhos. Esperou o período de amamentação, mas pouco mais do que isso. De qualquer maneira o seu leite era fraco e secou ao fim de seis meses. Durante esse tempo estava cansada de ficar em casa a tomar conta das crianças, a trocar fraldas oito vezes por dia, a preparar seis biberons e quatro banhos diários, a adormecer um dos filhos e logo a seguir a ver o outro acordar, a passar noites e noites em claro, a esfalfar-se para andar pelas ruas e edifícios da cidade com um carrinho duplo quando todos se derretiam com os seus filhos e a sua única vontade era cortar os pulsos. O marido ajudava-a de todas as formas que podia, mas não era a mesma coisa. Por uma sobrecarga total de horários, três anos após o nascimento dos filhos, Laura e Leonardo resolveram a contratar uma empregada para tomar conta das crianças. Chamava-se Alicia, tinha vinte e cinco anos, vinha do Brasil, era algo obesa, com cabeleira negra farta, olhos castanhos e pele excessivamente clara. Uma moça simples sem muita instrução ou familiares próximos mas que rapidamente se apegou aos gémeos e eles a ela. Fora contratada por ter sido a única candidata a responder exactamente o que Laura queria ouvir. Não gosto de sair à noite. Não fumo. Não bebo. Não tenho namorado. Sou evangélica e adoro crianças. As suas tarefas consistiam em limpar a casa, buscar as crianças ao colégio e às aulas de natação, deixar o jantar pronto e aguardar a chegada dos donos da casa - quase sempre o patrão - já raras vezes tinha o privilégio de se encontrar com Laura, a não ser de manhã, na cozinha, a poucos minutos da médica sair para ir trabalhar. Laura trabalhava praticamente sessenta horas por semana, não porque fosse necessário, mas porque o exercício da Medicina continuava a ser um dos aspectos mais importantes da sua vida e o oxigénio que a impulsionava a querer superar-se todos os dias. Na clínica onde trabalhava era reconhecida pela sua competência extrema, mas para ela isso era muito pouco. Queria bem mais do que o reconhecimento dos outros. Queria o seu próprio reconhecimento, ainda que isso parecesse impossível sempre que se via confrontada com o seu perfeccionismo doentio. Leonardo, por seu lado, subiu a pulso no escritório de arquitectura onde começou a trabalhar logo após o final do seu Doutoramento. Cinco anos depois assumiu a gestão dos projectos e o comando de uma equipa de jovens arquitectos. Trabalhava cerca de dez horas por dia - bem menos do que a mulher - mas todas as semanas era confrontado com reuniões fora de hora ou viagens esporádicas que o impediam de estar com a família o tempo que desejava. Eram raros os momentos em que todos se sentavam à mesa e partilhavam uma refeição agradável sem pressas de realizar outras tarefas em simultâneo.
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    13 Quando a mulherregressou ao trabalho, Leonardo passou a ser uma figura presente não só em casa mas também na vida dos filhos. Era um óptimo pai e não se coibia de tomar para si tarefas normalmente destinadas às mães. Para ele não era sacrifício nenhum. Fazia-o por gosto e também por nutrir pelos filhos um amor incondicional. Agradecia todos os dias a dádiva que era tê-los na sua vida e agradecia também o facto de ser casado com uma mulher que continuava a amar mais do que tudo. Apesar da gravidez, para ele, Laura continuava a ser uma mulher extraordinariamente bonita, longilínea, elegante, com um corpo perfeito e mãos graciosas. Muitos consideravam a sua personalidade intragável, mas ele não. Gostava do seu modo de pensar, das coisas que dizia e do modo como as fazia. O relacionamento de ambos era construído com base no respeito mútuo e carinho. Eram muito bons na cama. Sempre o foram. Às vezes, ele até achava que depois de onze anos, eram melhores ainda. Numa noite particularmente friorenta de início de Novembro, depois de pôr os filhos na cama, Leonardo regressou ao quarto e colocou uma música inebriante no leitor de CDs. Ouviu-a pela manhã na rádio. Uma espécie de world music com um toque de blues e nuances africanas. Ele sabia que Laura gostava daquele género musical. Fazia-a relaxar após um dia extenuante de trabalho e esquecer-se nem que fosse por alguns minutos a enorme responsabilidade que a sua profissão acarretava. Quando ouviu os primeiros acordes da guitarra, deitada na banheira da casa-de- banho, enquanto a espuma branca cobria toda a água, Laura sentiu subitamente as suas pernas balançarem ao sabor da música. Pouco tempo depois, a porta da casa de banho abriu-se e por detrás dela surgiu a figura descontraída do marido trazendo nas mãos duas taças de cristal e uma garrafa de vinho tinto. Ao vê-lo, Laura sorriu calorosamente e ele correspondeu de forma igual. Conhecia-o bem. Onze anos, mas a técnica para a seduzir continuava a mesma. Uma casa de banho praticamente às escuras, uma música insinuante e duas taças de vinho com o único objectivo de a libertar de inibições. - Onde é que descobriste esta música? - ela perguntou. - Na rádio, hoje de manhã. Gostas? Laura acenou positivamente. - Há espaço para mais um? - ele perguntou. - Claro...
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    14 A voz sensualda mulher foi o impulso que Leonardo necessitou para se livrar das roupas que trazia consigo. Sem hesitações, ele despiu a velha e larga camisola de malha cinzenta e as suas calças de ganga azuis. Também não mostrou cerimónias em desfazer-se dos boxers e do par de meias pretas, atirando-as para o chão. Enfiou-se na banheira. Sentiu a água quente acariciar-lhe o corpo desnudo e o toque das pernas da mulher quase lhe provocaram um choque térmico. A garrafa de vinho, tal como as duas taças que trouxe da cozinha, ficaram do lado de fora, junto à banheira. Ele alcançou-as sem muito esforço e encheu-as até ao topo. Entregou uma taça a Laura e a outra deteve-a na sua mão direita, enquanto a poucos metros de distância, no quarto, o leitor de CDs fazia o favor de voltar a música ao início. Laura bebeu então o primeiro gole e Leonardo acompanhou-a. Quando o líquido amargo entranhou-se-lhes na garganta, ela inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Ele, por seu lado, acariciou-lhe os joelhos perfeitos e beijou-os com devoção. O cheiro a sabonete e o sabor da água salgada impeliram-no a estender o braço e a puxá-la para o seu colo. Deu-se o primeiro beijo, as primeiras carícias e a vontade alucinante de cometer loucuras no interior de uma banheira que em momentos similares parecia minúscula. Após longos minutos de um prazer, Laura soltou um longo gemido, cravou as unhas nas costas do marido e enterrou os lábios húmidos no seu pescoço. Tudo pareceu ganhar um novo sentido. A respiração acalmou, o coração retomou a batida e o cansaço apoderou-se do seu corpo. O mesmo aconteceu com Leonardo, que muito gentilmente a manteve apoiada sobre o seu ombro e lhe acariciou os cabelos molhados até ter a certeza de que o acto havia terminado para os dois. - Acho que a água arrefeceu. - Tens razão – Leonardo concordou e os dois riram-se baixinho. - Vou sair. - Não! Fica! Vamos terminar o vinho. - Tenho frio. - Fica – ele insistiu, tomando-lhe o rosto com as mãos. - Não! Tenho frio… - Vais-me deixar aqui sozinho?
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    15 - Tenho frio,já disse! Leonardo soltou um longo suspiro de resignação e permitiu que Laura saísse nua da banheira. Ela alcançou o robe sobre o lavatório e vestiu-se de costas a fim de fugir ao seu olhar desconfiado. Ele sentia que nos últimos tempos ela lhe vinha escapando por entre os dedos sempre com desculpas de que estava cansada, de que tinha sono, de que tinha frio ou até mesmo de que tinha que acordar cedo. Qualquer desculpa servia para manter aquela barreira invísivel e intransponível entre os dois que já se vinha arrastando há vários meses. - Vais ficar aí? – ela perguntou, apertando o cinto do seu robe de seda. - Um pouco mais – Leonardo alcançou a garrafa de vinho junto à banheira. – Já que não me queres fazer companhia. - Estou cansada. Leonardo sorriu, encolheu os ombros e balançou a cabeça como se estivesse à espera daquela resposta. - O que foi!? - ela perguntou, desconfiada. - Isso pergunto eu! O que foi? - Nada. - Está tudo bem? - Está! Porquê?! - Por nada - Leonardo sorriu inigmaticamente. - Apenas perguntei se está tudo bem. - E eu respondi que está! Encontras-me na cama... Quando a mulher abandonou a casa de banho, Leonardo engoliu o resto do vinho que tinha no copo e permitiu que os seus sentidos se perdessem no interior daquela habitação ainda aquecida pelo vapor da água.
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    16 A música quevinha tocando desde há vários minutos foi subitamente desligada e o silêncio voltou a apoderar-se da atmosfera. Sem pressas de sair da banheira e sem olhar para o relógio de pulso que deixou sobre o lavatório, o arquitecto permaneceu ali, de olhos fechados, com um copo vazio nas mãos, submerso num quotidiano que tão bem conhecia. Não pensou em nada. Não pensou em ninguém. Pela primeira vez, desde o início da semana, pensou apenas em si. Congratulou-se em silêncio por aqueles escassos minutos de paz.
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    17 2 Todos eram unânimesem curvar-se perante a figura imponente de Eduardo Lima. O seu estatuto enquanto um dos melhores Neurocirurgiões do país conferiam-lhe esse privilégio. Eduardo era um profissional de saúde dedicado e competente, mas com um temperamento extremamente difícil e implacável. Era temido por todos, nunca admitindo falhas, falta de profissionalismo e muito menos atrasos. Por esse motivo, quando foi convidado a juntar-se à equipa cirúrgica liderada por Laura Alves – a melhor aluna que alguma vez teve em sua posse enquanto leccionava a disciplina de Neurofisiologia Clínica na faculdade de Ciências Médicas de Lisboa – foi a primeira pessoa a chegar ao local marcado. Fê-lo pontualmente às nove horas da manhã seguindo pelos corredores da clínica, trajado com a sua bata branca habitual. Eduardo jamais aceitou o papel de mero médico assistente numa sala de operações, mas o convite de Laura para fazer parte de uma das cirurgias mais estimulantes da sua carreira, obrigou-o a engolir o seu orgulho e dar o braço a torcer. De facto, não era todos os dias que um Neurocirurgião tinha a oportunidade de extrair dois tumores do cérebro de um paciente. O caso que iriam operar era particularmente complexo. O paciente não possuía apenas um, mas dois tumores malignos em cada hemisfério cerebral. Laura não pensou duas vezes em aceitar o desafio. Passou semanas em inúmeras videoconferências com vários Neurologistas e Neurocirurgiões do país, estudando e traçando o melhor plano cirúrgico. Todos os profissionais que contactou foram unâmimes em confirmar a complexidade do caso e quase todos se mostraram interessados em participar na cirurgia. Laura sabia que o planeamento e a escolha da equipa médica que a iria acompanhar no bloco operatório eram vitais para o sucesso da cirurgia. Por esse motivo, escolheu os melhores profissionais - sendo um deles o seu ex-professor e ex-orientador, Eduardo Lima. O único Neurocirurgião a quem ela reconhecia maior competência que a sua.
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    18 A duas semanasda cirurgia, Laura realizou uma biópsia estereotáxica ao crânio do paciente. Baseada na imagem do exame, fez os cálculos com o auxílio do computador, determinando com precisão a localização dos tumores. O paciente foi levado para o centro cirúrgico e sob anestesia local foi submetido a uma pequena incisão no couro cabeludo. Laura abriu o orifício no osso do crânio e introduziu o instrumental cirúrgico guiado com exactidão para alcançar as lesões cerebrais. Finalizou a cirurgia, retirando a agulha e fechando a pequena incisão na pele com pontos simples. Mais tarde, informou ao anestesista destacado para o caso as constatações a que chegou através dos exames médicos. O Anestesiologista, por sua vez, não escondeu todas as contra-indicações, bem como quaisquer suspeitas que pudessem gerar dificuldades ao acto operatório colocando em causa a segurança do doente. Como em todos os procedimentos cirúrgicos, a cirurgia apresentava riscos e complicações. Infecções, sangramentos, convulsões ou a perda parcial ou total de algumas funções cerebrais podiam ser os piores resultados. Mas Laura estava decidida a avançar, ainda que isso significasse a morte do paciente na mesa de operações. - Preparada?! – Eduardo bateu à porta e entrou no consultório sem sequer ser anunciado. - Dr.º Eduardo – Laura cumprimentou-o com um aperto de mão firme. – Como está? - Muito bem! E a Dr.ª? - Expectante! Estava aqui a analisar a última ressonância magnética do paciente. - Posso ver? - Claro. Eduardo colocou os seus óculos de leitura e aproximou-se do ecrã onde se encontravam expostos os últimos exames. - É visível um maior inchaço no segundo tumor – Laura acendeu a luz interna do ecrã. – O líquido cefalorraquidiano está a aumentar no encéfalo e a obstruir estes vasos sanguíneos... - Nada que já não estivessemos à espera.
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    19 - Corremos riscosem realizar esta cirurgia, mas não pretendo recuar. - Esta cirurgia é de vida ou de morte! Não há meio termo - a afirmação de Eduardo provocou um frio na barriga de Laura. - A equipa que nos vai acompanhar está formada e o bloco operatório preparado. O paciente irá ser levado para lá dentro de duas horas. - Qual é o plano cirúrgico? - Começaremos primeiro com uma Craniotomia para obtermos o acesso às meninges. Depois faremos uma série de trepanações até chegar à dura-máter. Nessa altura, iremos brocar todas as estruturas dentro da marcação para conseguirmos visualizar os tumores. Sei que vai ser impossível numa primeira etapa removermos completamente as células cancerígenas, por isso, iremos retirá- las parcialmente, e num segundo tempo, após a estabilização do paciente, retiraremos o restante. A biopsia por agulha guiada irá ajudar-nos a extrair o máximo de células por aspiração enquanto monitoramos o nervo facial para que não existam riscos de lesão. Depois de extrairmos a maior parte dos tumores, utilizaremos a gordura do abdómen para fechar a cavidade e para prevenir a formação de fístula. A cola biológica também nos ajudará neste processo... - O importante é não corrermos o risco de destruir as estruturas nervosas do paciente. - É o que eu também acho - Laura voltou a fechar a luz do ecrã. - Queria vê-lo antes de entrarmos no bloco. Está acordado? - Sim! Está no quarto acompanhado por familiares. Mas se quiser, podemos ir até lá. Conversamos um pouco com ele e explicamos mais detalhadamente todo o processo da cirurgia. Infelizmente o senhor está um pouco assustado com tudo isto. - O que é perfeitamente normal para quem tem dois tumores em cada hemisfério cerebral. - Mas estou confiante de que iremos obter um bom resultado - Laura apressou-se a abrir a porta do seu consultório. - Podemos ir?!
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    20 - Dr.ª Laura!Antes de irmos gostaria de falar consigo sobre um assunto pessoal... - Diga – a médica manteve-se expectante sobre a porta. - Tenho uma sobrinha prestes a começar o primeiro ano de Internato. Ela decidiu fazer a sua especialização em Neurocirurgia. Algo que confesso ter o meu dedo de culpa… Laura sorriu secamente. - Candidatou-se e acabou por conseguir uma colocação nesta clínica. Foi uma feliz coincidência. - De facto - a expressão de Laura denunciou uma outra resposta. - E quando é que ela começa? - Dentro de poucos dias! Virá falar consigo. - Para quê?! - Laura fingiu não entender quais os objectivos do médico. - Porque será necessário - Eduardo respondeu. - Acho que já deve ter percebido que quero que seja a Orientadora da minha sobrinha, Dr.ª Laura. - Dr.º Eduardo, há três anos que pedi para não ter internos sob a minha responsabilidade. Não tenho a disponibilidade necessária para dar a orientação e o apoio que os Internos necessitam, especialmente durante o primeiro ano de Internato. - Considere este favor como sendo pessoal! De um velho professor… Eduardo sabia exactamente como pedir favores impossíveis de serem recusados e Laura sabia que a poucas horas da cirurgia mais importante da sua carreira, não se podia dar ao luxo de contrariar o seu mentor. Infelizmente, ele soubera escolher o timing na perfeição. - Peça à sua sobrinha para vir falar comigo. Foi a última resposta de Laura após o olhar desafiador que Eduardo lhe lançou.
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    21 O paciente deuentrada no bloco operatório completamente anestesiado com a sala operatória composta por dois Neurocirurgiões de renome, um anestesista, três enfermeiros destacados especificamente para as funções de instrumentação, um auxiliar de acção médica e dois assistentes internos. A partir daquele momento, já não havia espaço para falhas ou hesitações. O couro cabeludo do paciente foi totalmente rapado por um dos enfermeiros. A cabeça foi limpa e esterilizada antes da operação. Laura realizou uma grande incisão na cabeça do paciente e repuxou a pele para revelar o crânio. Precisou remover uma grande área a fim de ter espaço suficiente para trabalhar. Numa sala silenciosa e com um ambiente pesado, a médica localizou os tumores e as suas bordas com a ajuda de imagens de ressonância magnética e tomografia computadorizada, estimulando electricamente as funções do cérebro do paciente. Uma pequena parte do tumor foi removida através de uma agulha com um sistema de vácuo, mas ela necessitou também de colocar um tubo fino e comprido, denominado de shunt, num ventrículo cerebral. O tubo foi ligado por baixo da pele e o líquido em excesso retirado do encéfalo e drenado para o interior do abdómen. Neste procedimento pequenas amostras de tecido foram analisadas pelo patologista de serviço. Efectuou-se um diagnóstico preliminar. O definitivo só seria feito alguns dias mais tarde em laboratório. Cinco horas após o início da cirurgia, Laura deu por concluída a primeira etapa. Um assistente limpou o suor que escorria da sua testa e ela inclinou ligeiramente a cabeça para trás a fim de se recuperar da dormência que estava a sentir no pescoço. - Sente-se bem, Dr.ª Laura? – Eduardo perguntou. - Sim, Dr.º Eduardo - os olhares dos dois Neurocirurgiões cruzaram-se atrás das máscaras. - Vamos continuar... Durante a manhã, Leonardo visitou as obras do seu novo projecto imobiliário. Um RESORT de luxo na vila de Cascais, situado num dos melhores pontos turísticos da cidade, com cerca de seis mil e oitocentos metros quadrados e uma vista priviligiada sobre a praia. As construções foram financiadas por um grupo espanhol interessado em apostar no turismo em Portugal. A Leonardo coube a tarefa de conceber, apresentar o conceito e estruturar os planos de construção. Um trabalho extenuante concretizado graças à ajuda de uma equipa competente que o acompanhou durante todo o processo. Por ser um dos arquitectos mais experientes do escritório e também dono de uma parte das acções, Leonardo encarava o seu trabalho de uma forma séria. Sempre
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    22 que podia, visitavao local das obras, trajado com o equipamento de protecção, munido de plantas e maquetes e falava com os construtores a fim de planear atempadamente as várias etapas do processo de construção. As reuniões fora de hora também eram uma constante na sua vida profissional, deixando pouco tempo livre para antecipar tarefas tão rotineiras como jantar com os filhos em casa. Sempre que isso acontecia, ele recorria ao telefone para tentar falar com a mulher e juntos arranjarem uma solução. Mas nem sempre ela se encontrava disponível para o atender. - Leo! Não consigo falar com a Laura... Marta, a secretária, tentou pela vigésima vez estabelecer contacto com a mulher do seu chefe. Mas tal como sempre, o telemóvel de Laura encontrava-se desligado. Leonardo recordou-se então que ela lhe havia falado de uma cirurgia muito importante que iria realizar naquela tarde e para a qual tinha passado várias semanas a estudar. Mas eram tantas as cirurgias, tantos os plantões e tantos os atrasos que se tornava praticamente impossível lembrar-se de todos eles. - Lembrei-me agora que ela deve estar numa operação - Leonardo largou os óculos de leitura sobre a secretária e passou as mãos pelo rosto cansado. - Queres que volte a tentar? - Marta manteve-se junto à porta. - Não! Não adianta! Liga antes à Alicia e pede para que ela fique mais umas horas com os miúdos até eu me conseguir despachar da reunião. - Podes deixar! Ligo já... A tarde terminou chuvosa e friorenta, assim como a longa jornada de trabalho de Leonardo após se ter despachado de uma reunião inoportuna com dois novos clientes do escritório.O arquitecto foi o último a abandonar o edifício e a desligar as luzes da sala principal. Pelo caminho ainda tentou uma nova chamada para a sua mulher, mas tal como sempre, o número dela encontrava-se indisponível. Minutos depois ele saiu à rua e despediu-se do segurança de serviço. Chovia torrencialmente e o vento soprava forte. Motivos que o obrigaram a caminhar apressadamente em direcção ao carro imobilizado no parque de estacionamento. Quando lá chegou, ouviu o estalar de um relâmpago. Efectuou um novo telefonema, desta vez à empregada lá de casa e pediu novamente desculpas pelo seu atraso informando-a de que se estava a dirigir para casa dentro de momentos.
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    23 Após uma conversarápida, Leonardo voltou a guardar o telemóvel no bolso do casaco. Abriu as portas do seu BMW e enfiou a sua pasta de trabalho lá para dentro ansioso por terminar um dia que parecia interminável. Mas na altura, ouviu-se um novo relâmpago e uma voz rouca ecoar no meio do parque de estacionamento. - Continuas o mesmo... Leonardo reconheceu a voz de imediato apesar de não a ouvir há muito tempo. A mesma rouquidão, o mesmo sarcasmo e a mesma amargura, misturada com uma doçura fingida. Depois de se recompor do susto, o arquitecto voltou-se para trás e surpreendeu-se com a figura do seu irmão. Ricardo Alves. Também ele continuava o mesmo. Alto, muito mais magro, com os cabelos escuros lisos, a barba ligeiramente por fazer, trajado com umas calças pretas, um casaco de cabedal da mesma cor e um olhar abatido de alguém que parecia não dormir há vários meses. Os dois irmãos ficaram inertes a olhar um para o outro sem saberem o que fazer. Era a primeira vez que se encaravam após quinze anos de uma distância inexplicável. E a chuva tornou-se mais forte. - Ainda te lembras de mim? - É claro - Leonardo sentiu a chuva escorrer-lhe pela face. - Anda! Vamos entrar no carro. - Não, eu... – Ricardo recuou dois passos. - Anda! Pago-te um copo! Vamos… Entraram no veículo em silêncio, completamente encharcados e nenhum dos dois proferiu palavra. Enquanto conduzia pelas ruas da cidade, sem conseguir enxergar o aslfato ou um palmo à frente do nariz, Leonardo manteve-se atento à condução numa tentativa desesperada de não ser obrigado a encarar o rosto do seu irmão mais novo. A sua presença deixava-o constrangido e sem jeito. Não era fácil ver-se na companhia de alguém que desaparecera da sua vida sem qualquer motivo plausível e que agora voltava a ela também sem nenhuma razão válida. Eram dois estranhos. Dois seres humanos que nada tinham em comum apesar de terem nascido do mesmo ventre. Não seria irónico tal facto? Nascer do mesmo ventre e não ter absolutamente nenhum assunto sobre o qual conversar?
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    24 Ricardo parecia igualmentenervoso. Distante e frio, tal como sempre fora, mas nervoso. Não falou uma única palavra nem mesmo quando Leonardo estacionou o carro em frente a um luxuoso edifício no centro da cidade. Quando entraram no bar praticamente vazio de clientes, escolheram uma mesa recôndita junto à janela para se sentar. A chuva abrandou, mas os metereologistas já haviam anunciado um enorme temporal para as próximas horas. - Queres beber alguma coisa? – Leonardo perguntou, chamando o empregado do bar com um sinal de dedos. - Pode ser um whisky sem gelo. Enquanto o irmão fazia os pedidos ao empregado de mesa, Ricardo não teve cerimónias em procurar um maço de tabaco no bolso das calças. Acendeu um cigarro e fumou a primeira passa, permitindo que o fumo lhe atravessasse o rosto e as narinas. Pouco tempo depois, o funcionário levou as bebidas à mesa e afastou- se com discrição. Leonardo foi o primeiro a servir-se. Ricardo repetiu-lhe os passos. Enquanto bebiam o primeiro trago, os dois irmãos permaneceram em silêncio provavelmente à espera que o álcool lhes fornecesse alguma coragem para iniciar uma conversa que se adivinhava difícil e constrangedora. Porque tinham passado tanto tempo sem se ver? Porque nunca quiseram saber um do outro? O que os impedia de terem uma relação considerada normal entre dois irmãos? Estas eram algumas das perguntas que permaneciam sem resposta numa mesa onde durante alguns minutos apenas se ouviram o tilintar dos copos. - Por onde tens andado todos estes anos? - Leonardo inquiriu finalmente. - Aqui e ali – Ricardo fumou uma passa do seu cigarro. - A fazer o quê? - Nada de especial. E tu? O que tens andado a fazer? - Casei-me, tive filhos … - Que bom – Ricardo franziu o sobreolho com algum sarcasmo e voltou a fumar um trago do seu cigarro, indiferente à chuva que ainda continuava a cair lá fora. - Tens sítio para ficar? – Leonardo interceptou-lhe o olhar perdido.
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    25 - Cheguei hojede manhã e instalei-me num hotel aqui em Lisboa. - Estás num hotel? - Sim! Mas não pretendo ficar muito tempo. Só tirei umas férias para espairecer a cabeça. - Pois eu faço questão que fiques em minha casa nestas férias. Ricardo demorou algum tempo a acreditar na oferta generosa do seu irmão. - Em tua casa?! - Sim! Há tantos anos que não nos vemos, não conversamos, não sabemos nada a respeito um do outro. E no entanto somos irmãos. Era bom aproveitarmos esta oportunidade, não achas? Além disso, quero que conheças a minha mulher e os meus filhos... O olhar trocado por Leonardo e Ricardo disse tudo. De facto, nenhum dos dois sabia nada a respeito do outro. Após a morte dos pais, vítimas de um terrível acidente de viação, os dois irmãos foram levados para uma casa de protecção de menores. Foram tempos difíceis, tempos de incertezas quanto ao futuro, de privações e de medos. Anos depois foram obrigados a afastarem-se abruptamente. Leonardo, por ser o mais velho, conseguiu uma vaga na Universidade de Arquitectura em Coimbra. A escolha de abandonar a instituição que o viu crescer e consequentemente o seu irmão – o único familiar que ainda lhe restava – ou de prosseguir os seus estudos, consistiu num verdadeiro dilema que o arquitecto se viu obrigado a solucionar sozinho. Um ano após a sua escolha, Leonardo voltou a procurar Ricardo na mesma instituição. Mas na altura foi-lhe dito que o seu irmão já não se encontrava lá. Fugiu meses antes. Fugiu e ninguém se dignou a procurá-lo. Anos depois os dois irmãos trocaram um novo e último contacto. Uma feliz coincidência quando Ricardo assistiu a uma reportagem televisiva feita a um grupo de estudantes de arquitectura. Leonardo era o único português e falava para a câmera com um à-vontade fora do normal. Tinha acabado de vencer o prémio IberFAD em Barcelona com apenas vinte e seis anos de idade. Provavelmente teria sido o orgulho dos pais caso ainda estivessem vivos, mas Ricardo não conseguiu sentir nada mais de um ódio irracional que lhe tomou conta das veias enquanto servia a mesa dos clientes no restaurante onde trabalhava. Soube onde o irmão estava a estagiar pois o jornalista fez questão de lhe perguntar durante a reportagem.
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    26 No dia seguinte,Ricardo despediu-se do restaurante onde havia passado os últimos três meses a trabalhar e saiu do Porto com uma mochila às costas. Regressou a Lisboa e procurou Leonardo, não para se aproveitar dele ou para lhe pedir algum dinheiro emprestado, mas sim para se despedir. Para sempre. Estava farto daquela vida medíocre, de contar os tostões ao final do mês e não ver uma luz ao fim do túnel. Em Portugal, contrariamente ao irmão, ele nunca seria ninguém na vida. Ricardo aventurou-se pelo mundo, viajou por quase todos os países da Europa e trabalhou sazonalmente em vários restaurantes e casas nocturnas. Quando completou vinte e três anos meteu-se num avião e viajou para os Estados Unidos a fim de atingir o tão proclamado sonho americano. De qualquer maneira não tinha nada que o prendesse a lugar nenhum. Nem pais, nem família, nem mulher e nem filhos. Em Nova Iorque - uma cidade que nunca dormia - ele de tudo fez. Serviu às mesas, trabalhou numa fábrica alimentar, nas limpezas, entregou correspondências e num rasgo de sorte conseguiu um cargo administrativo numa empresa de telecomunicações. Foi aí que voltou a ganhar o gosto pelos estudos e formou-se em Marketing e Publicidade. Após oito anos de trabalho árduo ganhou uma promoção merecida e passou a chefiar a equipa de Marketing da sua empresa. Viajava quase todas as semanas por entre os estados mantendo contacto regular com as várias delegações e ganhando o triplo do ordenado que auferia aquando do seu primeiro cargo na empresa enquanto office-boy. Ricardo nunca pensou que a sua vida pudesse mudar tanto. Após uma infância miserável e infeliz, parecia ironia do destino não ter de pedir moedas aos turistas na rua, dividir o seu quarto com cerca de dez rapazes da sua idade ou vestir roupas oferecidas por instituições de caridade. O destino, irónico como sempre, encarregou-se de fazer de sua própria justiça. - Vamos?! Passamos primeiro pelo teu hotel para apanhares as tuas coisas. Leonardo levantou-se da mesa quando terminaram as bebidas e vestiu o seu sobretudo ainda molhado da chuva. Ricardo seguiu-lhe os movimentos embora sem muita vontade. Estava exausto devido ao fuso-horário e às nove horas de voo. Chegaram a casa duas horas depois. Leonardo estacionou o carro em frente à sua moradia e Ricardo saiu calmamente do banco da frente sentindo um frio gélido soprar-lhe no rosto. Aguardou a saída do irmão e esperou que este o ajudasse a retirar as malas do porta-bagagens. Eram duas e traziam no seu interior apenas o essencial para umas férias que se adivinhavam curtas e descomprometidas. Ainda sem certeza se havia tomado a decisão certa, Ricardo seguiu o irmão até ao portão principal. Reparou na grandiosidade do jardim bem cuidado, nos três
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    27 degraus que levavamà porta principal e na carpete castanha estendida sobre o alpendre com a palavra "WELCOME" inscrita em letras garrafais. De resto, estava escuro demais para ver o que quer que fosse. As luzes da entrada apenas permitiam visualizar a fechadura da porta. Leonardo enfiou as chaves na ranhura e girou a maçaneta. Abriu diante dos olhos do irmão um novo mundo e um extenso corredor às escuras. - Entra – ele disse. – Fica à vontade! Ricardo acedeu ao convite sem esconder um certo desconforto nos passos que o que o levaram até à sala. Reparou na habitação enorme, muito bem decorada e com uma sofisticação fora do normal. Reparou também nos móveis modernos, na parede que abrigava vários quadros abstractos e no tapete bege impecavelmente limpo e aspirado. Os sofás estendiam-se ao longo da habitação em frente a uma televisão repleta de fios e cabos desordenados. Mas para além disso, não havia qualquer outro indício de desarrumação. A sala cheirava a rosas e mostrava-se acolhedora com a luz do candeeiro acesa perto das janelas frontais que davam acesso directo ao jardim. Não havia dúvidas de que tinham sido feitas obras ali. O gosto pela construção e pela arquitectura influenciaram Leonardo a reconstruir grande parte da moradia, tornando-a mais funcional e adaptada às necessidades da sua família. - Boa noite, Sr. º Leonardo... - Boa noite, Alicia! Como estás? - o arquitecto reconheceu a figura simpática e sorridente da sua empregada. - Bem, obrigada. - O João e o André?! Ainda estão acordados? - Não! Os meninos já estão na cama. Jantaram, fizeram os trabalhos de casa, tomaram banho e foram dormir. - E a minha mulher? - A D. Laura ainda não chegou e o telefone dela continua desligado - Alicia lançou um olhar curioso a Ricardo. Não o reconheceu de parte nenhuma. - Há mais alguma coisa que eu possa fazer? O jantar está no forno. É só aquecer...
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    28 - Queres comeralguma coisa, Ricardo? - Leonardo interrompeu os pensamentos longínquos do seu irmão. - Não - o último esboçou um ligeiro sorriso. - Estou bem assim. - Então nesse caso podes ir andando para casa, Alicia! Se precisarmos de alguma coisa, por aqui nos arranjamos. Desculpa mais uma vez a demora e obrigado por teres ficado a tomar conta dos miúdos. - Não precisa agradecer, Sr. º Leonardo! Eu adoro ficar com as crianças. A empregada voltou a abandonar a sala perante o olhar atento dos dois irmãos. Nessa altura, Ricardo aproximou-se de um porta-retratos sobre a mesinha da sala. Segurou-o com alguma cautela e encontrou o retrato de uma família feliz. O seu irmão, dois rapazes pequenos e uma mulher especialmente intrigante, dona de uma beleza que ele achou hipnotizadora e que adivinhava ser a cunhada. Mas não foi apenas essa beleza que o impeliu a querer continuar a olhar para ela. Foram antes aqueles olhos verdes que mais pareciam duas estacas prontas a atacar alguém a qualquer momento. Indiferente aos pensamentos absortos do irmão, Leonardo dirigiu-se à janela e fechou as persianas, premindo um botão electrónico atrás dos cortinados. Em seguida, perguntou se este não aceitava uma outra bebida. Ricardo respondeu que sim. Já passava das dez, nenhum dos dois havia jantado, mas a fome pedia um alimento líquido. Mais um whisky. O terceiro da noite. - Aqui tens - Leonardo entregou a bebida ao irmão. - Obrigado! Tens uma bela casa. - Confesso que deu algum trabalho a pôr tudo exactamente como queria, mas acho que o resultado final ficou bastante bom. - A tua família? - Ricardo voltou a segurar o porta-retratos sobre a mesinha. - Sim! A minha mulher e os meus filhos. - Ela não está em casa? - Não! Provavelmente deve ter ficado presa no hospital.
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    29 - Enfermeira? Leonardo balançounegativamente enquanto bebia o primeiro trago do seu whisky. - Não! Médica! Neurocirurgiã... Apesar de não ter conseguido remover a totalidade dos tumores por estes se encontrarem em partes que poderiam danificar o cérebro do paciente, Laura fez tudo o que estava ao seu alcance para extrair o máximo de células cancerígenas que conseguisse. Quando a cirurgia finalmente teve fim, às vinte e duas horas e trinta e cinco minutos, Eduardo Lima cobriu a abertura do crânio com uma peça metálica especial para o efeito, procedendo ao último passo com o fecho da incisão do couro cabeludo. Minutos depois o paciente foi levado para a sala de recobro e a equipa médica dispersou-se. O paciente manteve-se em vigilância apertada na unidade de cuidados intensivos, rigorosamente monitorado para que a pressão intracraniana não aumentasse e colocado temporariamente em máquinas que o auxiliaram na respiração. Já passava das vinte e três horas e a chuva continuava a cair lá fora. Agora mais intensa. Após a primeira visita ao paciente desacordado, Laura refugiou-se no seu consultório com uma chávena de café quente nas mãos. Impressionante como aquele líquido já não lhe fazia qualquer efeito, pensou. Não lhe dava e nem lhe retirava o sono. Era quase como água. Uma bebida energética que ingeria desde os quinze anos de idade sempre amarga e sem açúcar. Bebeu-a em goles precisos, mas lentos, observando através da janela o movimento das ambulâncias junto às Urgências. Exausta, passou a mão esquerda pelo pescoço dorido e alcançou um nervo, massajando-o firmemente de forma a aliviar toda a tensão que estava a sentir após ter passado tantas horas de pé. Raios, lembrou-se. Tinha passado doze horas longe de casa, do marido e dos filhos e nem sequer se lembrou de lhes oferecer um único telefonema. Seria normal esquecer-se da sua própria família? Ninguém se esquecia da própria família. Porque é que ela teimava em fazer isso todos os dias? Minutos antes de ir para casa, Laura realizou a segunda visita à unidade dos cuidados intensivos onde o paciente ainda se mantinha anestesiado a recuperar da cirurgia. Falou com alguns enfermeiros de serviço e deu ordens expressas para que a contactassem a qualquer hora da noite caso o quadro clínico do paciente se alterasse. Vendo-se finalmente livre para ir para casa, Laura abandonou outra vez o seu consultório e premiu o botão do elevador ao fundo do corredor. Arranjou os cabelos desalinhados, ajeitou a mala sobre os ombros e manteve a sua gabardina cinzenta debaixo do braço à espera que o elevador chegasse ao terceiro piso. Quando isso aconteceu, as portas abriram-se com um rosto conhecido lá dentro.
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    30 - Por favor!Diz-me que só agora vais entrar de plantão! Laura sorriu ao ouvir a declaração de Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe da clínica, mas na altura não foi capaz de fazer muito mais. Estava demasiado cansada para se aventurar em conversas de circustância. - Como é que correu a cirurgia? – Rita continuou a preencher as primeiras fichas de atendimento. – Ouvi dizer que foi um sucesso, mas só acredito ouvindo isso da tua boca. - Correu como o previsto. - Nunca és capaz de dizer que correu bem - Rita sorriu e Laura fez o mesmo. - O Leo? Como é que ele está? - Bem. - E os miúdos? - Também! Apesar de já não os ver há mais de vinte e quatro horas. - Não te preocupes! Eles não se vão esquecer da tua cara só por causa disso. Os risos de Laura e Rita cessaram no minuto em que chegaram ao primeiro piso. Nessa altura, as duas amigas saíram do elevador numa conversa animada. Rita, que se encontrava sempre bem disposta, esbanjando felicidade e humor para todos os que a rodeavam, era a antítese de Laura. Ninguém compreendia como é que duas mulheres tão distintas eram tão amigas. Na clínica poucos ousavam dirigir a palavra a Laura quando ela passava pelos corredores levando no rosto uma expressão altiva e aterradora. O seu temperamento autoritário e arrogante era muitas vezes insuportável aos olhos dos demais. Não era nem um pouco simpática, alegre ou bem-disposta. Na verdade, era a profissional mais seca e desumana que alguma vez trabalhara naquela clínica. Quando jovens, Laura e Rita possuíam amigos comuns e sonhos de se tornarem bem sucedidas. Rita seguiu Enfermagem, e Laura, decidida, aventurou-se numa das áreas mais difíceis de Medicina. Neurocirurgia. Consumidas pelos estudos, as duas amigas afastaram-se sem nenhuma razão aparente. Pouco tempo depois, Laura casou-se e Rita continuou à espera da chegada de um príncipe encantado que na verdade nunca chegou a aparecer.
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    31 Após o términodo seu Internato e a recusa de uma proposta de trabalho em Londres, Laura conseguiu entrar directamente para o quadro interno da clínica. A sua ascenção meteórica começou aos trinta e três anos apesar de uma breve interrupção aquando da sua gravidez. Mas desde essa data ela nunca mais parou. Aos trinta e nove poucos duvidavam de que se pudesse tornar na sucessora de Eduardo Lima. Tinham o mesmo temperamento, a mesma figura e a mesma sede de vencer. Fora moldada por ele na perfeição. Rita Azevedo também trilhava um caminho de sucesso quando alcançou o merecido cargo de Enfermeira-Chefe. Tinha uma postura profissional diferente de Laura, de certo, mas nem por isso lhe era reconhecida menos competência. Especializou-se na área de Enfermagem Clínica Médica. Era responsável por todo o corpo de enfermeiros e formava as equipas destacadas para os procedimentos cirúrgicos escolhendo a dedo todo os enfermeiros, assistentes e instrumentistas que diariamente entravam no bloco operatório. Duas semanas após Laura ter começado a trabalhar na clínica, as duas amigas esbarraram-se no elevador de serviço. Foi uma surpresa agradável para ambas. Em poucos dias retomaram uma amizade antiga e construíram uma aliança forte num local onde as paredes pareciam ter ouvidos. Rita era a única pessoa em quem Laura confiava cegamente, e vice-versa. - Estive a ver no plano de folgas e sei que no próximo fim-de-semana não vais estar a trabalhar. O que achas da ideia de, eu, tu e o Leo sairmos os três para jantar? - Seria óptimo - Laura assinou o livro de ponto sob o olhar atento de Rita. - Mas não te esqueças que eu e o Leo temos filhos. E os filhos não costumam tirar folgas aos fins-de-semana. - Deixa-os em casa da tua mãe. - A minha mãe não é a melhor pessoa a quem eu possa pedir favores. - Deixa-os com a vossa empregada. - Já andamos a abusar com tantos horários alargados. - Por isso é que nunca vou ter filhos - as duas amigas riram-se alegremente. - Fazes bem - Laura voltou a entregar a caneta nas mãos da recepcionista. - Eu também não teria se pudesse.
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    32 O temporal acalmoucom o passar das horas, deixando apenas uma chuva miudinha irritante a bater sobre o pára-brisas. Enquanto conduzia o seu jipe pelas ruas da cidade, Laura não afrouxou o pé do acelerador um minuto sequer. Estava desejosa chegar a casa, tomar um banho e cair na cama. Tinha também a clara certeza de que não iria abrir os olhos antes de o amanhecer. E por falar em abrir os olhos, começava a sentir-se sonolenta. Era quase uma da manhã e as estradas encontravam-se praticamente vazias. Se fechasse os olhos, nem que fosse por um minuto, provavelmente não voltaria a acordar. Ela precisava manter-se desperta até chegar a casa. Para isso, aumentou o volume da rádio. Vinte minutos depois, Laura estacionou o jipe em frente aos portões da sua moradia. Não teve forças para enfiar o carro na garagem. Para isso teria que fazer uma série de manobras, colocar o veículo em marcha-atrás, ir para a frente, ir para trás, desfazer o volante, endireitar as rodas e ainda desviar-se do carro do marido para caberem os dois lá dentro. Estacionar era uma tarefa bem mais trabalhosa do que passar doze horas a operar o cérebro de um paciente, ela chegou a essa conclusão quando parou o carro na rua principal e puxou o travão de mão ao mesmo tempo que se desfazia do cinto de segurança. Pronto. Estava feito. Tudo o que não precisava na altura era de mais complicações na sua vida. Quando entrou em casa, largou as chaves sobre a mesinha do corredor. Desfez-se da sua gabardina cinzenta num movimento lento e contínuo e reparou na luz pálida proveniente da sala de visitas. Seguiu até lá, curiosa. Ouviu duas vozes amenas enredadas numa conversa despreocupada. Enquanto caminhava pelo corredor praticamente às escuras, ela reconheceu a voz do marido. A outra? Nunca a tinha ouvido até à data. - Já chegaste?! Leonardo observou a figura da mulher sob o alpendre da porta. Sorriu carinhosamente mas Laura foi incapaz de corresponder ao cumprimento quando se viu confrontada com a presença de um absoluto estranho esparramado no seu sofá. Não soube muito bem porquê, mas a presença daquele homem desconhecido causou-lhe um certo arrepio. Os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta na imensidão daquela sala. Ela sentiu-se ligeiramente desconfortável quando ele lhe mergulhou nos olhos sem pedir permissão. - Demoraste. - Fiquei presa na clínica - Laura cedeu um beijo ao marido sem conseguir desviar os olhos do homem que se encontrava na sua sala.
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    33 - Já comeste? -Sim...- ela mentiu. - E tu? - Como demoraste a chegar, fizémos um lanche na cozinha com os restos do jantar que a Alicia deixou no forno. - Os miúdos?! - Já estão a dormir - Leonardo acariciou o rosto da mulher. - Tentei ligar-te várias vezes hoje. - Vi as tuas chamadas agora há pouco, mas tinha o telemóvel desligado. - Bem, tenho a certeza que vocês ainda não se devem conhecem - o arquitecto lembrou-se de fazer as apresentações. - Laura, este é o Ricardo, o meu irmão! Ricardo, apresento-te a Laura! A minha mulher… Ricardo levantou-se calmamente do sofá com um olhar avaliador. Aparentemente aprovou o que viu. Sim, ela era bonita. Na verdade, impressionante. Trajada com umas simples calças de ganga, uma camisola preta com um decote em V e os cabelos ligeiramente desalinhados presos por um rabo-de-cavalo, para Ricardo não havia nenhuma mulher que se assemelhasse tanto à perfeição. Reparou na sua figura esbelta e na beleza natural que o seu rosto desprovido de maquilhagem exibia. A fotografia não lhe mentira. Era inevitável um ser humano não se perder por aqueles olhos verdes. - Prazer! Como estás? - ela estendeu a mão direita. Ele agarrou-a com a mesma formalidade. Era quente, longa e macia. - Bem, obrigado! O prazer é todo meu. - O Ricardo estava a viver nos Estados Unidos e veio passar umas férias a Portugal. Convidei-o para ficar cá em casa. Lembraste de eu ter-te falado várias vezes sobre ele, não? - Leonardo encontrou os cabelos da mulher e mexeu neles com carinho. - Há muitos anos que não nos víamos. - Sim! Lembro. - Convidei-o para ficar cá em casa.
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    34 Ricardo pressentiu odesconforto latente no rosto da cunhada. - Já disse ao Leo que não queria incomodar. - Não é incómodo nenhum - Laura não conseguiu desviar os olhos dele. - Podes ficar o tempo que quiseres. Laura mentia categoricamente acerca de tudo. Ricardo percebeu isso no momento em que ela abriu a boca. Seguiu-se uma nova troca de olhares. Intensa. Asfixiante. Tão submerso na alegria de conseguir reunir a família pela primeira vez, Leonardo não se deu conta do profundo fascínio que transbordou dos olhos do seu irmão quando este encarou o rosto da sua mulher e o dissecou até à exaustão. Também não percebeu a respiração suspensa de Laura, a sua face vermelha e o nervosismo por se ver diante de um homem que parecia despi-la a cada minuto com um novo olhar. - Peço desculpas, mas estou mesmo muito cansado - Ricardo disse. - Eu levo-te até ao quarto de hóspedes - Leonardo apontou-lhe o caminho em direcção às escadas. - Lá vais poder tomar um banho, descansar e pôr-te mais à vontade. Ricardo não se coibiu a lançar um último olhar insidioso à cunhada e a desejar-lhe boa noite, mas ela não respondeu. Quando ele abandonou a sala na companhia do irmão, Laura sentiu um cheiro intenso a tabaco. Um aroma tóxico que a inebriou durante alguns instantes e que permaneceu entranhado na sua sala como se de uma praga se tratasse. O marido havia-lhe falado muitas vezes no irmão. Contava como havia sido a infância dos dois, a obrigatoriedade da separação, o último contacto telefónico a poucos dias de Ricardo se perder no mundo e a tristeza de nunca ter tido quaisquer notícias dele. Contudo, com o passar dos anos as referências tornaram-se dispersas, e nos últimos tempos, praticamente inexistentes. Laura também nunca se interessou em saber mais detalhes acerca daquela história ou os motivos que levaram os dois irmãos a seguir caminhos diferentes. Não era algo que a entusiasmasse ou que lhe dissesse respeito. Também não pensou que um dia fosse conhecer o cunhado ou vê-lo em sua casa. Uma figura abstracta, sempre o viu assim. Uma figura abstracta que a partir daquela noite se tornou real.
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    35 - Nem faziaideia de que ele estava em Portugal – Leonardo terminou de escovar os dentes sob o lavatório da casa de banho. – Apareceu-me hoje no escritório e eu não tive outro remédio a não ser convidá-lo para ficar cá em casa. Fiz mal? - Quanto tempo é que ele vai cá ficar? – Laura passou um creme pelas pernas sem se mostrar particularmente interessada na conversa do marido. - Não sei! Algumas semanas, penso eu - Leonardo fechou a torneira e limpou a boca à toalha. - Porquê? Não queres que ele fique? Laura pensou várias vezes em dizer a verdade, mas na altura tudo o que conseguiu oferecer foi uma resposta politicamente correcta. - É o teu irmão. - Não gostaste de o ver cá em casa, não foi? Percebi isso pela tua cara lá em baixo. - Imagina chegares a casa e encontrares a minha irmã esparramada no teu sofá. - Tu não tens irmãs - Leonardo brincou. - Percebeste o que quis dizer. - São só algumas semanas! Nem sequer vais dar pelo tempo a passar – Leonardo agachou-se perante a mulher e beijou-a carinhosamente na face. – Além disso, é importante para mim tentar recuperar a relação que um dia tive com ele. Quem sabe não voltamos a ser amigos? - Tudo bem, Leo - Laura desviou-se dos braços do marido. - Vamos dormir!? - Vai tu primeiro! Ainda vou tomar banho. - Queres companhia? - Um banho rápido - Laura empurrou os ombros do marido depois de este a ter beijado nos lábios contra a sua vontade. - Vai! Encontramo-nos na cama... - Não demores! Vou estar à tua espera.
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    36 Intenso e tóxico.Podia ser sentido a quilómetros de distância. Ela teve essa impressão quando voltou a passar as mãos pelo rosto e pelos cabelos molhados. Subitamente foi como se o perfume do cunhado se tivesse entranhado no seus braços, no seu pescoço e nas suas mãos. Cheirou-se como para ter a certeza que estava enganada, mas sentiu o mesmo odor a tabaco tão ou mais forte do que nunca. Num rasgo de insanidade, voltou a atirar-se para debaixo do chuveiro a fim de retirar de si aquele cheiro hediondo. Lavou o rosto, as mãos, os braços e as pernas. Saiu da cabina, enrolou-se numa toalha branca e passou um creme perfumado pelo corpo. Minutos depois já se encontrava pronta para ir dormir, mas contrariamente a todas as outras noites, o seu primeiro pensamento não foi para o marido e nem para a vontade incontrolável de o encontrar na cama. Pela primeira vez foi o cunhado quem preencheu os seus pensamentos mais secretos e ela não teve outro remédio a não ser odiar-se por isso quando apagou a luz da casa de banho. - Estás cansada? - Leonardo sussurou-lhe aos ouvidos e abraçou-a por trás quando ela se enfiou na cama. - Muito - Laura respondeu, sem entusiasmo. - Pois eu não! Tenho saudades tuas... O marido usava sempre as mesmas frases quando queria fazer amor. Tenho saudades tuas. Preciso de ti. Amo-te. Às vezes, Laura desejava que ele mudasse o repertório, que lhe dissesse palavras obscenas aos ouvidos ou a possuísse sem pedir permissão. Mas Leonardo não era assim. Até na cama era cerimonioso e educado. Começou por colocar a mão na sua coxa e subiu a sua combinação de dormir até à zona do abdómen. Tocou-a devagar, com carinho e soprou-lhe um hálito quente no pescoço. Ela virou o rosto e ele encontrou-lhe a boca, beijando-a com sofreguidão. Apertou-lhe os seios, mordiscou-lhe os ombros adocicados e disse em voz baixa que a amava e que ela era a mulher da sua vida. Sentindo-se culpada por não ter conseguido responder o mesmo, Laura desfez-se das suas cuecas brancas e permaneceu de costas voltadas, permitindo que o marido a penetrasse por trás. Não era a primeira vez que fazia aquele sacrifício. Também não era a primeira vez que olhava para os ponteiros do relógio sobre a mesinha de cabeceira contando os minutos e desejando que o marido terminasse aquela tarefa o mais depressa possível. Porque para ela, nos últimos tempos, fazer amor tinha-se tornado numa enorme e difícil tarefa. O único problema é que o marido nem sequer desconfiava disso.
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    37 3 Guilherme de OliveiraE Prado, apelidado na clínica como o paciente dos dois tumores, abandonou a ala dos cuidados intensivos e foi encaminhado para um quarto particular com uma óptima vista sobre um dos poucos parques naturais da cidade. Não era toda a gente que conseguia pagar um quarto daqueles ou um tratamento tão diferenciado. Apenas banqueiros como era o seu caso. A clínica São João de Deus orgulhava-se de receber pacientes destes, do mais alto calibre, dispostos a gastar as fortunas que roubavam ao Estado a fim de realizar tratamentos médicos para poderem salvar a própria pele. E o hospital agradecia a gentileza ao ver cerca de cem mil euros a entrar em caixa numa única transferência bancária. Mas para Laura não era o dinheiro que estava em causa. Também não lhe importava ter operado um dos homens mais ricos do país, mas sim os resultados dessa operação. A recuperação de Guilherme surpreendeu até os mais cépticos. Em apenas três dias saiu dos cuidados intensivos e deixou de respirar artificialmente. O pós operatório decorreu sem intercorrências. Manteve drenagem ventricular externa de segurança até ao terceiro dia e o TAC cerebral não revelou complicações hemorrágicas ou hidrocefalia. Sentia-se apenas sonolento e algo fatigado, mas isso eram sintomas absolutamente normais, a médica avisou. Guilherme recebeu a visita da mulher e dos filhos. Recebeu também a visita da amante. Nos primeiro dias realizou exercícios de respiração para ajudar a manter os pulmões limpos e começou a movimentar algumas partes do corpo. Na última semana de Novembro, Laura surgiu-lhe no quarto acompanhada por uma enfermeira de serviço. A médica efectuou novos exames de rotina a fim de avaliar a sua orientação. Observou-lhe o interior dos olhos, a locumoção dos braços e das pernas, pediu para que soletrasse algumas letras apenas para se certificar de que a fala não havia sido afectada pela cirurgia, e por fim, recebeu os exames das mãos de uma assistente. Os resultados não poderiam ser mais animadores.
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    38 - Tenho umaboa notícia para si, Sr.º Guilherme - Laura enfiou uma caneta no bolso frontal da sua bata. - Consegui finalmente arranjar-lhe um óptimo fisioterapeuta para o ajudar a restabelecer o equilíbrio e também a desenvolver algumas das suas atividades diárias. Falei com ele ainda há pouco. Chama-se Rafael Assunção e é um profissional bastante competente. Tenho a certeza que vai gostar dele e de que se vão dar muito bem. - Podia ter escolhido uma mulher – Guilherme não resistiu a fazer a observação enquanto oferecia o seu braço à enfermeira de serviço para que esta lhe medisse a tensão. - Não me importava de ter uma fisioterapeuta parecida consigo. Laura lançou um olhar aterrador àquele homem hediondo que passava a vida a assediar todas as mulheres que atravessavam o seu caminho. Ele gelou de medo. Nunca se sentiu tão intimidado por um ser do sexo feminino. - Perdão, Dr.ª! Foi uma brincadeira - Guilherme percebeu imediatamente o risco que havia pisado. - Ainda não sabe quando é que posso sair daqui? - Dentro de três semanas. Mas ainda vamos falar melhor sobre isso – Laura voltou- se para a enfermeira e num tom seco e formal perguntou-lhe: – Então, Sara?! Como é que está a tensão? - Normal! 12/7... Laura despediu-se formalmente de Guilherme e abandonou o quarto em seguida. Aquele homem provocava-lhe náuseas, ela pensou. O seu ar propotente era o antídoto perfeito para o seu bom-humor e deixava-a com um síndrome de irritabilidade aguçado. Mas infelizmente não havia nada a fazer. Iria ter que o aturar por mais algumas semanas até se ver finalmente livre dele. E a única boa lembrança seriam apenas aqueles benditos tumores que lhe retirou da cabeça. Pelo caminho, enquanto caminhava apressada em direcção ao elevador, Laura anotou alguns dados clínicos na ficha de Guilherme. Informações básicas que poderiam ser escritas de pé com uma letra desajeitada que mais ninguém compreendia a não ser ela própria. Quando entrou no elevador, alcançou o seu relógio de pulso e viu que nele estavam assinaladas treze horas e vinte minutos. Infelizmente naquela tarde tinha muito pouco tempo para almoçar. Quinze minutos apenas. - Drª Laura…!
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    39 Laura ouviu umavoz de uma auxiliar de serviço chamar por si ao fundo do corredor. - Diga! - Tem uma menina à sua espera - a auxiliar afirmou, afogueada. - Diz que veio falar consigo. Pedi para que a aguardasse junto ao seu consultório. - Quem é?! - Laura perguntou rispidamente. - Esqueci-me de perguntar o nome. Desculpe, Dr.ª... Ao aproximar-se do seu consultório, Laura avistou uma jovem rapariga sentada no banco de espera. A mesma exibia cabelos lisos, escuros, pelos ombros, olhos castanhos e uma fisionomia ligeiramente pálida. Vestia umas calças de ganga justas ao corpo, camisola cinzenta e um blazer preto de mangas arregaçadas. Encontrava-se agarrada a uma pasta castanha e olhava incessantemente para o relógio como se estivesse à espera de alguém. Neste caso, de Laura. Quando a avistou de longe, a jovem pulou da cadeira e colocou-se em posição recta. Reconheceu Laura sem que esta precisasse sequer abrir a boca. A sua fama já corria em seminários, conferências, outros hospitais e até mesmo nos corredores daquela clínica. A sua presença era temida por todos havendo inclusive quem a chamasse secretamente de Rainha do Gelo tamanha a sua frieza perante situações adversas. Era também mais bonita ao vivo do que nas fotografias. Apesar dos cabelos desalinhados presos por um gancho de madeira e da sua bata branca largueirona que lhe cobria grande parte do corpo, Laura era uma mulher capaz de chamar a atenção de qualquer ser humano que se aproximasse de si. Até mesmo de uma mulher. - Dr.ª Laura Alves!? - Sim. - Olá! Muito prazer! Meu nome é Joana Lima. - Prazer – Laura aceitou o aperto de mão após um longo minuto de pausa. - Não me está a reconhecer, pois não?! - Era suposto?
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    40 - Sou asobrinha do Dr.º Eduardo Lima. Já tinha vindo duas vezes esta semana à sua procura, mas diziam-me sempre que a Dr.ª andava ocupada. Hoje resolvi a arriscar novamente. - Tenho quinze minutos! Entra... A resposta de Laura saiu seca e autoritária, mas ainda assim, Joana acedeu ao seu convite entrando no consultório com alguma cautela e com um brilho no olhar próprio de uma jovem prestes a iniciar o seu primeiro ano de Internato. O espaço não era grande, ela reparou. Abrigava dois cacifos, um bengaleiro junto à janela coberto por uma gabardina cinzenta e um pequeno divã encostado à parede desprovida de quadros ou outros adereços desnecessários. Aliás, de certa forma, todo o consultório de Laura não parecia conter qualquer objecto desnecessário. Era frio e impessoal. Tal como ela. Sobre a secretária cheia de pastas, arquivos e livros, Joana vislumbrou dois porta- retratos que exibiam os rostos de um homem elegante na casa dos quarenta e de duas crianças praticamente idênticas. Era o único objecto com algum simbolismo ou que transmitia qualquer tipo de humanidade. Joana imaginou em silêncio quem seriam aquelas três pessoas. O marido? Os filhos? No entanto, enquanto os seus pensamentos mundanos vagueavam por assuntos que não interessavam a ninguém, a voz imponente da sua futura Orientadora trouxe-a de volta à realidade. - Senta-te - Laura apontou uma cadeira. - Obrigada. - Joana! Joana o teu nome, não é?! - Sim - a jovem abriu um sorriso radiante que não foi de todo correspondido. - Joana, vou-te ser sincera! Eu apenas aceitei ser a tua Orientadora porque o teu tio me pediu um favor pessoal. Mas tal como já deves ter reparado, o meu tempo é escasso. - Eu sei. - Por isso ainda estás a tempo de escolher um outro Orientador que te possa dar uma melhor preparação.
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    41 - Fui euque pedi ao meu tio para ser a minha Orientadora. Nestes últimos anos tenho seguido atentamente o seu percurso profissional. Sei que a Dr.ª pertence ao quadro de honra desta clínica e que é a cirurgiã com mais horas em bloco operatório. Soube também que ganhou três prémios de excelência nos últimos cinco anos, que já publicou vários artigos em revistas da especialidade e que teve um papel importante numa investigação internacional sobre tratamento da Doença de Parkinson, premiada pela BIAL! Além disso, o meu tio contou-me que ele foi o seu Orientador durante o Internato que fez no hospital Santa Maria. A melhor Interna que teve até hoje, segundo as palavras dele. Também soube da cirurgia que fizeram ao paciente dos dois tumores. Foi um sucesso. Portanto, acho que isto tudo me basta para a querer como minha Orientadora. Não quero mudar. Vou ficar consigo - o sorriso de Joana saiu debochado. - Vejo que estás muito bem informada a meu respeito - Laura cerrou os olhos, irritada com a petulância daquela jovem. - Pode-se dizer que sim. - Vamos ao que interessa? - Claro - Joana acedeu com um sorriso. - Quando concorreste ao Internato Médico, espero que te tenham dito que o primeiro ano iria ser aquilo a que costumamos chamar de Ano Comum... - Sim, eu… - Ouve-me e não me interrompas – a voz autoritária de Laura obrigou Joana a calar-se de imediato. – Neste primeiro ano em que vou ser a tua Orientadora, irás ter uma formação generalista dada por mim e também por outros médicos da clínica. O que é pretendido com este ano é garantir a tua capacitação profissional não só na especialidade que pretendes seguir mas em toda a Medicina. Por outras palavras, não irás apenas aprender a especialidade de Neurocirurgia mas um rol muito mais vasto de conhecimentos. Só muito depois, no último trimestre, é que irás concorrer para uma fase de Internato na área profissional de especialização ao lado de outros internos que também entraram este ano. Por isso é bom que tenhas uma boa nota nesse exame para que consigas seguir a especialização que escolheste. - Vai-me ajudar nesse exame?
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    42 - Como tuaOrientadora, essa é uma das minhas obrigações - Laura ignorou a sinalização do seu BIP sobre a secretária. - Mas agora deixa-me falar-te sobre o Ano Comum. Este ano irá prolongar-se por doze meses e será composto por vários estágios diferentes. Os primeiros quatro meses destinam-se à Medicina interna. Os três meses seguintes aos cuidados primários, dois meses na cirurgia geral, mais dois meses na pediatria, e por fim, um mês na obstetrícia. Mas durante estas fases não serás autónoma. Existirá sempre alguém a supervisionar-te, e na maioria das vezes, essa pessoa serei eu. Como já deves saber, não estás apta a tomar quaisquer decisões sem a consulta prévia de um supervisor ou de um médico graduado. Se o fizeres serás punida pela OM e acredita que irás arranjar muitos sarilhos, quer para mim, quer para a clínica. Por isso um conselho que te dou é que contes até cem sempre que pensares em tomar qualquer decisão aqui dentro. - Eu só não queria passar o ano todo a preencher fichas de pacientes - a afirmação de Joana soou impertinente. - Não me leve a mal, Dr.ª! Mas é que tenho uma amiga que também está a fazer o Internato em Cardiologia Pediátrica no Hospital São José, começou o ano passado e até hoje a única coisa que faz é preencher fichas... - À medida que os anos do teu Internato forem passando irão ser-te concedidas mais competências e uma aquisição gradual de autonomia - Laura ignorou as declarações infantis e desajustadas da sua nova Interna. - Irás também ter mais responsabilidades para além de preencher fichas de pacientes. Mas se queres realmente que te diga, também é importante saber como se devem preencher estas fichas pois um simples erro de caligrafia pode ditar a morte de um paciente. Joana calou-se, esmagada pela resposta de Laura. - Sempre que tiveres uma dúvida, por mais estúpida e inútil que pareça, e já vi que tens muitas, não hesites em perguntar-me. Eu vou estar aqui para te esclarecer e não vou descansar até ter a certeza que percebeste bem aquilo que te expliquei. - Tudo bem. - Tens alguma dúvida? - Por enquanto não. - Óptimo – Laura levantou-se da secretária e permitiu que Joana também fizesse o mesmo. – E com isso já se passaram os quinze minutos que tinha para almoçar.
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    43 - Desculpe, Dr.ª! Não queria ocupar a sua hora de almoço. - Vem comigo – Laura alcançou o seu BIP sobre a secretária. - Mas eu não ia começar o meu Internato só na segunda-feira? - Não! Começas hoje... Laura abandonou o consultório sem esperar que Joana se recuperasse do susto em iniciar o Internato sem qualquer preparação psicológica. Nervosa, a jovem saiu e aguardou que a médica fechasse o gabinete à chave. Minutos depois as duas seguiram em silêncio pelo corredor e entraram no elevador de serviço, aguardando que este descesse ao primeiro piso. Laura manteve-se de costas com as mãos enfiadas nos bolsos da sua bata, escassos metros mais à frente, indiferente ao olhar curioso da sua Interna. Não lhe dirigiu a palavra e nem sequer fez questão de lhe olhar no rosto. Durante breves instantes Joana sentiu-se absolutamente invisível e continuou a sentir-se assim quando Laura a levou para a ala das Urgências. O recinto encontrava-se repleto de crianças, adultos e os gemidos de um senhor jogado numa maca ao fundo do corredor. Não foi uma visão paradisíaca mas ainda assim Joana encheu o peito de coragem e continuou a seguir os passos apressados da sua Orientadora. Era ali que iria trabalhar nos próximos doze meses e agarrar com unhas e dentes a profissão que parecia destinada a todas as pessoas da sua família. O pai era Cardiologista, a mãe Pediatra, e o tio, simplesmente o melhor Neurocirurgião do país. Joana não queria desiludir ninguém e nem defraudar as expectativas depositadas em si. Sonhava um dia ser como o seu tio e tornar-se na sua substituta. Sempre o admirou desde pequena e na família havia o orgulho de ser a sobrinha do grandioso Eduardo Lima. O fascínio por ele aumentou de uma forma exponencial com o passar dos anos, chegando ao ponto de Joana optar por seguir a mesma área de especialização do tio apenas para ter um pouco da sua atenção e admiração. A mesma admiração que Eduardo parecia nutrir por Laura. A melhor Interna que me passou pelas mãos até hoje, dizia constantemente sem conseguir esconder o brilho que lhe atravessava os olhos sempre que se referia à médica e se dava conta de que possivelmente havia formado a sua futura substituta. Sempre que o nome da médica surgia de forma espontânea nos almoços ou jantares de família, o queixo de Joana tremia de raiva. Ainda que nunca a tivesse conhecido pessoalmente já a odiava por achar que ela ocupava um lugar que deveria ser seu.
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    44 Nos últimos trêsanos passou a investigar a sua carreira de forma compulsiva através de artigos publicados em revistas da especialidade, de vários sites na Internet, seminários e conferências a que era convidada a participar. Viu-a pela primeira vez em cima de um palco trajada com um fato preto formal e os óculos sob a ponta do nariz falando num tom monocórdico, mas seguro. A sala inteira parecia ouvi-la com atenção. Laura tinha o dom da palavra e sabia expressar-se exemplarmente. Aquando do término da conferência, Joana bem tentou aproximar-se, mas na altura não teve coragem. Uma força maior impediu-a de cometer tamanha ousadia e obrigou-a a manter-se à distância enquanto Laura desaparecia por entre a multidão, acompanhada por um médico Cardiologista e uma funcionária do hotel que os encaminhou até ao elevador. Antes das portas se fecharem, Joana viu a última imagem de Laura a rir-se às gargalhadas com uma piada contada pelo seu colega. Concerteza seria uma pessoa muito simpática e feliz, houve essa ligeira impressão. Mas agora que a conhecia pessoalmente, Joana começava a duvidar disso. Dentro da clínica, durante o horário de trabalho, Laura era tudo menos uma pessoa simpática e feliz. - Dr.ª! Ainda bem que a encontro... - uma enfermeira de serviço interceptou Laura a meio do corredor e obrigou-a a abrandar os passos. - Uma criança com sintomas de traumatismo craniano. Os pais foram vítimas de um acidente de automóvel, mas foi o filho a sofrer lesões porque não levava o cinto de segurança no banco de trás. Precisamos de um médico para o analisar. - Onde está a criança? - Sala três. Cama quatro. Espero que não esteja muito ocupada. - Vamos – Laura voltou-se para Joana e num tom seco ordenou-lhe: – Vem comigo! Enquanto ouvia discurso nervoso e confuso dos pais da criança acidentada, Laura realizou um exame físico completo dando especial atenção ao nível de consciência, à mobilidade, aos reflexos, aos ouvidos, pulso, pressão arterial e a frequência respiratória do menino. Mais tarde, analisou o diâmetro das pupilas, a sua reacção à luz e o interior dos olhos com um oftalmoscópio para determinar se houve ou não um aumento da pressão intracraniana. Por sorte o traumatismo não havia sido grave e o TAC pôde comprová-lo. - Vamos mantê-lo em observação até amanhã só para ter a certeza que está tudo bem e que o hematoma não sofreu qualquer tipo de evolução – Laura concluiu após o resultado dos exames.
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    45 - Mas eleestá bem, Dr.ª?! – a mãe da criança mostrou-se aflita durante todo o processo. - Em príncipio está! Mas quando se trata de traumatismos cranianos, especialmente em crianças, todo o cuidado é pouco. Ele ainda tem um pequeno inchaço na parte superior do crânio e algumas dores, mas os antibióticos que vou receitar vão diminuir esse inchaço e fazê-lo sentir-se melhor. - Obrigada, Dr.ª... O primeiro dia de Internato correu tudo, menos bem. Joana atrapalhou-se em algumas situações e percebeu que trabalhar activamente num hospital era bem mais complicado do que fazer pequenas experiências em laboratórios ou analisar tecidos mortos através de um microscópio. Trabalhar num hospital era cansativo, extenuante, desafiador e aterrorizante. E trabalhar ao lado de Laura, era tudo isso e muito mais. O ódio que um dia sentiu por ela passara por várias fases, agora tinha-se estagnado numa admiração extrema quase obsessiva. Era impossível ignorá-la ou manter-se indiferente à sua presença. A sua simples presença. Impossível ignorar-lhe as costas bem formadas, a maneira imponente como se movimentava nos corredores da clínica ou como se apresentava perante os demais. Enquanto conhecia todos os cantos do hospital onde iria trabalhar, Joana deu-se muitas vezes consigo a olhar para aquela criatura que agora lhe causava um certo fascínio. Queria privar da sua companhia. Queria conhecer todos os detalhes da sua vida. Queria ser como ela. E para isso, tinha todo o tempo do mundo.
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    46 4 O Inverno chegouem força. As chuvas torrenciais continuavam a cair na cidade de Lisboa, inundando casas, ruas e estradas. O vento também soprava forte e não havia previsões de melhorias para os próximos dias. Laura estacionou o carro em frente ao colégio dos filhos debaixo de uma chuva avassaladora. Saiu mais cedo do hospital, após um plantão de vinte e quatro horas que a manteve longe de casa e a obrigou a perder a prova de natação dos filhos. Para se redimir de mais uma falha imperdoável, ela telefonou ao marido e informou-o de que iria buscar as crianças à escola. Leonardo agradeceu o gesto. Congratulou-se com a ideia dos filhos passarem pelo menos algumas horas na companhia da mãe já que eram raros aqueles momentos. Laura passava a vida a trabalhar e sobrava-lhe muito pouco tempo para estar com a família. Mas ver as suas crianças através do espelho retrovisor, a brincarem entre si e a enorme algazarra que faziam enquanto contavam todos os detalhes do seu dia na escola, conferia-lhe um sentimento de paz. Como se apesar de tudo ela não estivesse a ser penalizada pelo pouco tempo que passava com eles ou por estar a perder grande parte do seu crescimento físico. Regressaram a casa uma hora depois. Laura abriu as portas do seu jipe e as crianças saltaram do banco de trás depois de se desfazerem dos respectivos cintos de segurança. A chuva continuava a cair forte e intensa, motivo pelo qual os pequenos correram em direcção aos portões sem olhar para trás ou sem ajudar a mãe com os sacos das compras e as mochilas deixadas no porta-bagagens. Coube-lhe a tarefa de trazer tudo nas mãos e ainda abrir a porta para que os filhos entrassem pelo corredor adentro aos gritos. Com o tempo, ela habituou-se a bloquear a mente e a ignorar-lhes o barulho ensurdecedor. Um mecanismo de defesa que criou e que actualmente a impedia de enlouquecer.
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    47 - Vieram comfome?! - a empregada perguntou, sorridente, recebendo um beijo de de João e André quando estes correram até à cozinha desejosos de encontrar um lanche delicioso à sua espera. - Sim - os pequenos gritaram em uníssono. - Então é só sentar aí que eu faço um chocolate quente e uma tosta mista para cada um. E as aulas como correram? - Alicia abriu as portas do frigorífico. - Bem - André respondeu, sentando-se à mesa. - A melhor parte foi o final. A resposta de André trouxe enormes gargalhadas a todos os que se encontravam na cozinha. Alicia adorava o seu jeito espontâneo e divertido. Apesar de traquinas, era uma criança adorável, tal como seu irmão gémeo. Mas as suas personalidades eram completamente diferentes. João era reservado, doce e estudioso. Assemelhava-se sobretudo ao pai, incapaz de cometer actos que os outros pudessem não achar certo. Muitas vezes a sua presença tímida era engolida pela capacidade inata do irmão em centrar todas as atenções para si. Mas os dois complementavam-se na perfeição e eram muito unidos. A vantagem de se ter um irmão gémeo era precisamente essa. A de nunca nos sentirmos sozinhos. Laura entrou na cozinha pouco tempo depois. Deixou as mochilas dos filhos junto às escadas e trouxe três sacos de compras adquiridos num supermercado perto de casa. Ao ver a sua patroa carregada de compras, Alicia apressou-se a ajudá-la. Tomou-lhe os sacos das mãos e depositou-os sobre a bancada. Desejou boa tarde e Laura respondeu ao cumprimento com um cansaço visível no rosto enquanto se desfazia da sua gabardina encharcada pela chuva. Sempre que se encontrava na presença da patroa, Alicia sentia-se constrangida. Laura não lhe dava qualquer espaço de manobra para tentar uma aproximação ou uma conversa menos formal. Contrariamente ao marido e aos filhos que a tratavam quase como um membro da família, Laura mantinha a mesma distância desde que ela começara a trabalhar lá em casa. Havia pelo menos três anos e Alicia continuava a estranhar o facto da patroa muitas vezes não se lembrar sequer do seu nome. - Chegaram estas cartas hoje para si e para o Sr. Leonardo - Alicia encontrou três envelopes em cima do microondas e entregou-os a Laura. - Obrigada. - O jantar está pronto. Deixei tudo na geladeira. É só tirar e aquecer...
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    48 - Tudo bem- Laura manteve-se concentrada na leitura das cartas que haviam chegado durante a manhã. Apenas contas para pagar, reparou. - Vou preparar o lanche dos meninos. Alicia sorriu aos pequenos e afagou-lhes a cabeça enquanto se dirigia à despensa para buscar o chocolate em pó. André ligou o televisor sobre a bancada para ver com o irmão os últimos desenhos animados da tarde. Minutos depois, Alicia regressou à cozinha com uma embalagem colorida nas mãos. Tirou dois copos dos armários e encheu-os de leite, colocando no seu interior várias colheres de chocolate até o líquido se tornar castanho e homogéno. Em seguida, levou os copos em direcção ao microondas e aqueceu-os durante sessenta segundos. Quando os retirou, a fumegar, serviu-os aos pequenos levando também à mesa duas todas mistas acabadas de sair da torreira. - Esperem esfriar um pouco, meus amores - ela avisou às crianças. - Está quente - André tocou o copo com os dedos das mãos. - Quer que também lhe prepare um lanche, D. Laura? - Não, não é preciso - a médica largou os envelopes em cima da bancada com um longo suspiro. - E já te podes ir embora. - Não - André protestou de imediato. - Não vás, Alicia! Fica aqui! Ontem prometeste que nos ias ajudar a passar aquele nível no jogo. - E tem que ser hoje - João colmatou a resposta do irmão, cruzando os braços de uma forma mimada. - Eu sei, meninos! Mas... - A Alicia vai-se embora porque o horário dela acabou - Laura interceptou qualquer desculpa que a empregada pudesse fornecer aos seus filhos. - E depois do lanche, não vai haver jogo para ninguém. Depois do lanche, é subir, tomar banho, fazer os trabalhos de casa, jantar e cama. Entendido?! Alicia não deixou de se sentir surpresa com a dureza de Laura para com as crianças. Muitas vezes não havia cuidado nenhum por parte da médica em tratar os filhos como eram. Apenas e somente crianças.
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    49 - Podes ir-teembora, Alicia! Amanhã vens à mesma hora. - Sim, senhora. A empregada fulminou as costas de Laura quando esta abandonou a cozinha com a sua gabardina cinzenta nas mãos. Em seguida, voltou-se para os gémeos e prometeu-lhes que os iria ajudar a terminar o jogo no dia seguinte quando ninguém estivesse em casa. Exausta pelas longas horas de plantão a que havia sido submetida, Laura enfiou- se no chuveiro e sentiu os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto. Inclinou a cabeça e ali se deixou ficar de olhos fechados sem pensar nada em concreto. Depois do banho, regressou ao quarto enrolada numa toalha branca. Sentou-se na cama e passou um creme pelo corpo, permitindo que os filhos corressem pela casa numa enorme algazarra. João e André pareciam ter energias inesgotáveis em contraste absoluto com a sua paciência. Se fosse só um seria muito mais fácil, passava-lhe muitas vezes essa ideia pela cabeça. Era difícil manter-se lúcida com duas crianças pequenas a correrem e a saltarem a cada minuto do dia. Já não era a mesma. Já não tinha a mesma vitalidade para fazer tarefas rotineiras como buscar os filhos à escola, tomar conta deles ou servir o jantar. Se a empregada não existisse, provavelmente já teria cortado os pulsos ou então já se teria mudado definitivamente para o hospital onde trabalhava. Apareceria somente aos fins-de-semana para saber como os filhos e o marido estavam. Ou quem sabe nem sequer apareceria. Quem sabe apenas utilizaria o telefone para se comunicar com eles e tornar-se-ia finalmente numa mulher livre e dona do seu próprio nariz. - André, pára - ela segurou o filho no braço e sacudiu-o com força, impedindo-o de continuar a saltar em cima da cama. - Desce daí! Não te vou avisar mais... - Eu não vou cair - ele disse, divertido. - Sai daí - Laura puxou o filho para fora da cama. - O pai já veio - João entrou no quarto a gritar. - Hei! Cuidado... - Leonardo esbarrou-se nos filhos quando entrou no quarto e eles saíram de rompante, correndo em direcção às escadas que davam acesso ao primeiro piso.
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    50 Tinha acabado dechegar do trabalho e trazia uma expressão visivelmente cansada. Largou o casaco sobre o cadeirão e a pasta de trabalho sobre a cama. Surpreendeu a sua mulher a secar os cabelos em frente à cómoda do quarto, mas foi incapaz de lhe dizer muito mais do que boa noite. Estava exausto, cansado e com uma terrível dor de cabeça. Nos últimos dias era-lhe praticamente impossível manter horários ou promessas. A chegada dos sócios espanhóis intensificou as construções do RESORT e trouxe-lhe muito mais trabalho. Chegava a casa fora de horas, trabalhava a noite inteira no escritório e passava a vida ao telefone como se daquele projecto dependesse toda a sua carreira profissional. - Estás bem? – Laura observou uma expressão carregada no rosto do marido. - Nem um pouco! Estou a morrer de dores de cabeça. - Correu-te mal o dia? - Péssimo – Leonardo afrouxou o nó da gravata. – Um dos nossos trabalhadores sofreu um acidente. - Grave?! - Morreu. Laura voltou-se para o marido, surpresa. - Como é que foi isso? - Não levava o equipamento de segurança. Resolveu subir para arranjar o sistema de electricidade e acabou electrocutado. Caiu de uma altura de mais de dez andares. - Estavas lá? - Não! Estava no escritório. Mas corri para lá assim que me ligaram. - Que horror! - Ainda assisti ao translado do corpo. Parece que o velório vai ser amanhã. - E tu vais?
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    51 - É aminha obrigação. Ainda por cima isto aconteceu na pior altura. Os espanhóis não gostaram nem um pouco do que se passou hoje e têm toda a razão. É inadmíssel que um encarregado de obra permita que qualquer trabalhador suba dez andares sem equipamento de protecção - Leonardo desabotoou os primeiros botões da sua camisa enquanto os filhos corriam ao longo do corredor fazendo um barulho ensurdecedor. - André! João! Já chega... - Amanhã estou de plantão - Laura continuou a escovar os cabelos molhados em frente ao espelho da cómoda. - Se fores ao velório quem é que fica com os miúdos? - Falamos com a Alicia. - Não podemos estar sempre a pedir que fique com as crianças à noite. Não é isso que está estipulado no contrato dela. - Então nesse caso o meu irmão pode ficar com eles. - Estás louco?! - Laura voltou-se para o marido, incrédula. - O teu irmão? - Porque não?! É só falarmos com ele. Não me parece que se vá importar de ficar a tomar conta dos sobrinhos. Além disso, eu não me vou demorar... - Eu falo com a minha mãe! Peço-lhe para ficar com os miúdos até te despachares do velório. - Porque é que não queres que o meu irmão fique com o João e o André? - Porque nós não o conhecemos, Leo! É por isso... A resposta de Laura foi preemptória e não deixou outra alternativa ao marido a não ser discordar dela em silêncio. - Então liga tu à tua mãe! Já sabes que quanto menos palavras trocar com ela, melhor... Leonardo refugiou-se na casa de banho e fechou a porta com força, sem a mínima paciência para aturar os ataques da mulher. Aliás, nos últimos tempos, estes ataques tinham-se tornado demasiado frequentes e perturbadores de uma relação outrora pacífica e feliz.
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    52 Ele tentava convencer-sede que tudo não passava de uma fase. Mais uma crise que ia e vinha em casamentos de longa duração. Onze anos era um casamento de longa duração, não? Pelo menos aos seus olhos e comparando-se com a maior parte dos casais que conhecia, para Leonardo onze anos era uma vitória. Mas para Laura? Bem. Ela ainda não sabia. Não seria absurdo? Entre todos os homens do mundo ela foi-se casar com o único que era absolutamente perfeito. Leonardo não bebia, não saía à noite, não tinha vícios e nem um único dia para estar com os amigos. A sua vida resumia-se inteiramente à família e ao trabalho. Seria um sonho se não fosse um pesadelo, porque a responsabilidade para corresponder a isso era gigantesca. A perfeição do marido irritava-a. O jantar foi servido às nove horas em ponto. Laura levou à mesa o empadão de peixe cozinhado pela empregada. O marido foi o último membro da família a sentar-se, trazendo no corpo uma roupa confortável e os cabelos ainda molhados do banho. Os gémeos viram-se servidos pela mãe, enquanto a televisão debitava as últimas notícias do dia. Apesar do cansaço, Leonardo respondeu a todas as perguntas pertinentes dos filhos que surgiam a cada cinco segundos num turbilhão de ideias próprias de duas crianças de sete anos. A mulher visivelmente entediada continuou a comer em silêncio, pensando na próxima cirurgia que iria realizar dali a duas semanas. Por vezes, Leonardo rasgava-lhe olhares curiosos e pressentia-a a milhares de quilómetros dali. Nos últimos tempos, Laura andava especialmente estranha e distante. Mais fria do que o costume. Ele já havia pensado em interpelá-la outras vezes e passar de um simples "Está tudo bem?" para um "O que é que se passa?" No entanto, Laura não lhe dava margem de manobra para tocar no assunto ou tão pouco se mostrava interessada em abordá-lo. Para ela estava tudo bem. Sempre tudo bem, ainda que os seus olhos e os seus gestos dissessem o contrário. Leonardo sabia que o casamento passava por inúmeras fases. A descoberta. A paixão avassaladora. A cumplicidade. O companheirismo. A rotina. O tédio. A indiferença. Estariam eles naquele último estágio, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Ele queria acreditar que não. - Boa noite! Desculpem o atraso. A voz rouca de Ricardo quebrou o silêncio instalado na sala. Mais uma vez chegou tarde sem fornecer demasiadas explicações para o seu desaparecimento e mais uma vez lançou um olhar fulminante à cunhada, que incomodada enterrou os lábios na taça de vinho a fim de fugir à presença de um homem que lhe provocava verdadeiros arrepios sempre que olhava para si.
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    53 Laura não gostavadele, ou pelo menos tentava convencer-se disso. Não gostava do seu jeito estranho, misterioso, da forma como vagueava pela casa. Não gostava de se cruzar com ele nos corredores, de ceder-lhe a passagem sempre que esbarravam na porta da cozinha ou de fingir que a sua presença não a deixava incomodada. Sim. Ele incomodava-a. Mais do que poderia imaginar ou querer. - Junta-te a nós - Leonardo indicou uma cadeira ao irmão. - Agradeço o convite, mas já jantei. Vou subir! Até amanhã... Prestes a operar novamente o cérebro de um outro paciente e com algumas dúvidas relativamente ao melhor plano cirúrgico a seguir, tudo o que Laura não queria era cometer erros. Por isso, após o jantar e de ter arrumado a cozinha com a ajuda do marido, enfiou-se no escritório para estudar. Perto das duas da manhã, mergulhada num silêncio ensurdecedor, ela ouviu a porta do escritório abrir-se vagarosamente. O marido trouxe-lhe uma chávena de café para a manter acordada sem no entanto saber que aquele líquido já não surtia qualquer efeito em si. Também ele não havia conseguido pregar olho apesar de ter feito um enorme esforço para isso. A cama sem Laura parecia-lhe sempre demasiado grande e fria. - Para te manter acordada - ele disse. - Obrigada – Laura aceitou um beijo na testa e a chávena de café das mãos do marido. - Pensei que já estivesses a dormir. - Estava com insónias e resolvi trazer-te um café. - Vai dormir, amor! Já é tarde. - Não queres que fique aqui contigo para te ajudar a estudar? - Leonardo brincou. - Não é preciso – Laura retirou os óculos de leitura perante o olhar embevecido do marido. – Este sacrifício só me compete a mim. - Vê lá! Não fiques acordada até de manhã. - Podes deixar.
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    54 Leonardo beijou opescoço perfumado da mulher e em seguida encontrou-lhe a boca. Afundou-se nela como um louco. Queria tê-la nem que por alguns instantes, nem que fosse apenas para matar saudades e satisfazer o desejo que sentia por ela desde o primeiro dia em que a conheceu. Queria asfixiá-la, prendê-la nos seus braços e despi-la ali mesmo sobre a secretária. Contudo, Laura afastou-o a tempo e poisou-lhe os dedos sobre os lábios, tentando também ela recuperar o que ele lhe fizera perder. O fôlego. - Não me desconcentres, por favor – os dois riram-se baixinho. - Não faças directa - Leonardo afastou-se, conformado. - Tens que descansar. - Eu sei. - Até amanhã. - Até amanhã. Eram três da manhã quando Ricardo desceu ao jardim a fim de fumar um cigarro. O décimo quinto de um dia entediante passado a rodar a cidade sem destino certo. A noite chuvosa deu lugar a uma madrugada gélida onde não era possível ver uma única estrela no céu. Nem mesmo a lua marcou presença. Ricardo perguntou- se então o que ainda continuava a fazer ali. Sentia-se como um verdadeiro peixe fora de água. Nada daquilo lhe era familiar. Não conhecia as pessoas residentes naquela casa, aquele cheiro agradável a rosas, não conhecia nada e nem sabia sequer como se mexer ali dentro. Tentou pelo menos alegrar-se com a ideia de ter conseguido encontrar o seu irmão, mas nem isso encheu o seu coração de alegria. Seria normal não sentir absolutamente nada por ele? Não sentir amor? Ser totalmente indiferente à sua vida? À sua felicidade? À sua família? Várias perguntas ficaram sem resposta quando ele apagou o cigarro e atirou a beata para além da cerca do quintal. Depois do vício saciado voltou à cozinha e fechou a marquise com cuidado. Lavou as mãos no interior do lava-loiça sem acender a luz do tecto e saiu da habitação, passando por um corredor às escuras. Ao fundo do corredor, uma luz acesa no escritório aguçou a sua curiosidade. Ele aproximou-se pé ante pé e espreitou atrás da porta. Vislumbrou a figura da cunhada sentada à secretária com uma pilha de livros diante de si. A caneta enfiada na boca, os óculos de leitura tapando-lhe os olhos e as mãos a desfolharem páginas atrás de páginas, deixaram-no deslumbrado a olhar para ela. - Está aí alguém!?
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    55 Laura ouviu umligeiro barulho que a deixou alerta. Em seguida, apercebeu-se da presença de um vulto atrás da porta e voltou a fazer a mesma pergunta, desta vez de uma forma muito mais ríspida. Está aí alguém? - Desculpa! Não te queria assustar – Ricardo entrou no escritório e enfrentou o olhar furioso da cunhada. – Vi a luz acesa e pensei que alguém a tivesse esquecido de apagar ou assim. - Como vês estou aqui. Laura voltou a enfiar a cara no livro. Ao olhar à sua volta e ao ver-se pela primeira vez no interior daquela habitação, Ricardo percebeu que o escritório não era muito grande. Dotado de uma decoração moderna, o que saltava à vista era uma quantidade exorbitante de livros, enciclopédias, pastas e arquivos. Reparou também na presença de uma cabeça gigante perto da janela. Uma espécie de prótese verdadeiramente assustadora que em tudo se assemelhava a um cérebro humano. Sobre a secretária, Laura mantinha uma pilha livros, e ao lado, uma chávena de café gelada. - Estás a estudar? - Sim – ela respondeu sem tirar os olhos do bloco onde estava a escrever alguns apontamentos. - O Leo disse-me que eras Neurocirurgiã. Laura continuou a escrever desajeitadamente sem responder à conversa circunstancial do cunhado. Mas já nem sabia o que estava realmente a fazer. A caneta começou a suar-lhe nas mãos. - A tua profissão deve ser fascinante, não?! - Nem tanto - ela cometeu um erro ortográfico e riscou-o logo em seguida. - Como é que podes dizer isso? Tens a vida de um ser humano nas mãos. Tens o poder de decidir se essa pessoa morre ou não… - Não vejo as coisas por esse prisma.
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    56 Após um longosilêncio com o qual foi brindado, Ricardo atreveu-se a tirar um livro da prateleira. “Handbook of Cardiovascular CT. Essentials for Clinic Pratice”, leu em voz alta. Em seguida, folheou as páginas e tentou assimilar algumas das informações ali descritas. Não precisou de muito esforço para fazer a tradução para o português. - “O coração é o órgão central do sistema circulatório. É um músculo oco cuja função consiste em recolher o sangue proveniente das veias e lançá-lo nas artérias. Está localizado na cavidade torácica, directamente atrás do esterno, deslocado em direcção ao lado esquerdo. As suas paredes de tecidos muscular são reforçadas por bandas de tecido conjuntivo e todo o órgão está coberto pelo tecido conjuntivo chamado pericárdio. Tanto o coração como todos os vasos estão revestidos por uma capa de células planas, chamada endotélio que evita que o sangue se coagule. O volume do coração pode variar de individuo para individuo. As suas dimensões médias, num homem adulto podem ser de 98 milímetros de comprimento, 105 milímetros de largura e 230 milímetros de circunferência. O peso é de cerca de 275 gramas. Já o coração da mulher tem dimensões inferiores de 5 a 10 milímetros e pesa menos 5 a 10 gramas. A cada minuto ele bate 80 vezes, ou seja, mais de uma vez por segundo, e passa de 100 por minuto quando saltamos à corda. A prova de que ele é importante? Basta dizer que quando o coração pára, a vida acaba …” Há muito que Laura o tinha deixado de ouvir. Enquanto Ricardo lia uma das matérias mais básicas para um médico, Laura perdeu-se na sua fisionomia facial deslumbrante, na sua voz rouca e no cheiro intenso a tabaco que as suas mãos emanavam. Ricardo era tóxico. Misterioso. Diferente. Ao pé dele, ela sentia-se completamente despida, desprotegida e à sua mercê. Ele era o único ser humano capaz de conseguir tal feito, ainda que não fizesse nenhum esforço para isso. - Vou deixar-te sozinha - Ricardo voltou a guardar o livro na prateleira. - Precisas estudar e eu não estou a ajudar para que isso aconteça. Deu-se um último olhar entre os dois, mas o silêncio voltou a imperar naquele escritório. Não havia nada a dizer. Nem mesmo palavras vãs ou de circunstância. - Boa noite - ele despediu-se. Quando o cunhado abandonou o escritório, Laura pôde finalmente voltar a respirar de alívio. Agarrou na chávena de café que o marido lhe trouxera horas antes e levou-a à boca numa tentativa desesperada de fugir aos maus pensamentos. Por azar o café encontrava-se gélido, mas ainda assim ela bebeu-o. Num só gole. Sem meias medidas ou cerimónias. Pensou que porventura aquele líquido lhe fosse fazer bem. Pensou que porventura lhe fosse esfriar o ímpeto.
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    57 5 Depois de tercumprido exemplarmente todas as tarefas que lhe foram incubidas, Joana Lima encheu o peito de coragem e resolveu aproximar-se da sua Orientadora com o intuíto de lhe devolver as fichas administrativas que havia sido obrigada a preencher durante a manhã. Curiosamente, preencher fichas e mais fichas tinha sido ainda a única tarefa permitida por Laura desde ela começara o seu Internato. - Aqui estão as fichas, Dr.ª Laura! - Tenho um paciente a quem vou dar alta agora - Laura recebeu-lhe a pasta das mãos. - Preciso que venhas comigo. Joana seguiu a sua Orientadora pelos corredores da clínica com a mesma celeridade. - Ele tinha dois tumores em cada hemisfério cerebral... - Ouvi falar dessa cirurgia. O meu tio também participou nela, não foi? Laura ignorou a pergunta de Joana. - Conseguimos remover grande parte dos tumores através dessa cirurgia e uma outra parte significativa depois de inúmeras sessões de radioterapia. A recuperação foi relativamente rápida, aliás, digo antes milagrosa. Mas ainda assim mantive o paciente em observação só para ter a certeza de que não haveriam sequelas ou de que as células cancerígenas não se voltariam a multiplicar. Agora ele está bem e pronto a voltar para casa.
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    58 - Fico contente. -Foi um trabalho bem feito. Laura chamou o elevador ao primeiro piso, mas tal como sempre este demorou uma eternidade a chegar. Durante o tempo de espera, Joana observou-a de soslaio. Achou-a particularmente bonita naquela manhã com os cabelos soltos, volumosos. Cheiravam a rosas e os lábios estavam ligeiramente pintados de cor de rosa clarinho. - Os seus filhos são muito bonitos – a jovem não resistiu a fazer a observação enquanto aguardavam a chegada do elevador. - Desculpa?! - Sim! Há pouco, enquanto estavamos no seu consultório, vi uma fotografia sobre a secretária. São os seus filhos, não são? Gémeos!? - Sim. - Quantos anos têm? - Sete. - São parecidos com o seu marido. Ele também é muito bonito. Joana assustou-se com o olhar aterrador que Laura lhe lançou. Foi por pouco que o coração da jovem não parou de bater quando os olhos verdes da médica a atacaram como duas estacas. - Joana! Vamos combinar uma coisa? - Sim. - Eu nunca falo sobre a minha vida pessoal. Sob quaisquer circunstâncias. E também não quero saber da tua vida privada. Sob quaisquer circunstâncias. Aqui dentro, e até mesmo lá fora, eu sou a tua Orientadora e tu és a minha Interna. Entendido? - Entendido – Joana engoliu seco.
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    59 O fim-de-semana amanheceuchuvoso e sem previsões de melhora. Pela primeira vez desde há muito, Leonardo e Laura estiveram de folga em simultâneo. Um acontecimento bastante celebrado pelos filhos que tal como todos os dias acordaram cedo e resolveram bater à porta do quarto dos progenitores para que também eles acordassem. Divertidos, os pequenos saltaram para cima da cama e ali ficaram no meio dos pais a contar histórias sem importância enredados num rotina familiar tão bem conheciam. Leonardo adorava momentos como àqueles. Adorava ver os filhos de perto, observar-lhes as expressões inocentes, tocar-lhes nos cabelos, nos braços e fazer- lhes cócegas para que eles se rissem às gargalhadas. Por outro lado, também gostava de observar a expressão serena da mulher a ouvir com atenção tudo o que as crianças falavam. Laura ficava muito mais bonita de manhã desprovida de maquilhagem, com os cabelos desgrenhados e uma simples combinação de dormir. Ficava linda a tocar no rosto dos filhos e a rir-se contidamente das piadas contadas por eles enquanto a atmosfera matinal se espalhava pelo quarto. Em momentos como àqueles em que o relógio parecia parar, Leonardo chegava à conclusão que todos os sacríficios que fazia diariamente pela sua família eram ínfimos quando comparados com a satisfação de ter perto de si as três pessoas mais importantes da sua vida. Sem pressas para um dia que se adivinhava longo e descompromissado, João e André desceram à cozinha e encontraram um pequeno-almoço preparado pela mãe. Leite, cereais, pão fresco, sumos e fruta foram alguns dos ingredientes que fizeram parte da refeição improvisada pela médica a poucos minutos das nove da manhã. - André! Tira a mão do prato – Laura levou o fervedor à mesa. - O pai!? – o pequeno perguntou enquanto destruia com os dedos a torrada que tinha no prato. - Já deve estar a descer. Pára com isso - a mãe retirou-lhe o pão das mãos. - Ele disse que nos ia levar ao Colombo para comprarmos um novo jogo – João permitiu que a mãe lhe deitasse o leite quente para o interior da taça de cereais. - Mais um, queres tu dizer – Laura fez a observação. - Vens connosco? – André perguntou. - Não! A mãe tem coisas para fazer.
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    60 Depois do banhoe de ter vestido uma roupa confortável, Leonardo desceu à cozinha e iniciou o seu pequeno-almoço com um jornal nas mãos. Laura, por sua vez, manteve-se concentrada num livro científico que havia adquirido semanas antes sem no entanto descurar das traquinices dos filhos. Os pequenos continuaram a devorar os cereais fazendo planos e projectando um dia que apesar de chuvoso se adivinhava divertido na companhia do pai. O Natal estava quase a chegar e era preciso começar a comprar os primeiros presentes, montar a árvore na sala e as luzes no jardim. Tarefas que todos os anos recaíam sobre os ombros de Leonardo, uma vez que a mulher se recusava a participar delas e a enfrentar as filas nos centros comerciais durante os fins-de-semana. Ricardo entrou na cozinha algum tempo depois, mais uma vez atrasado e com olhos de quem tinha passado a noite inteira sem dormir. Era habitual ser o último a acordar nunca fornecendo explicações a ninguém sobre os seus hábitos menos ortodoxos. Não tinha horários, não tinha responsabilidades. Não fazia sequer um esforço para se integrar na família, conhecer o irmão, os sobrinhos ou a cunhada. No fundo era apenas um estranho que ali se encontrava. E se continuasse assim iria-se embora tal como chegou. Sem deixar saudades. - Bom dia – ele disse. - Bom dia – Leonardo mostrou-lhe um sorriso, contrafeito. – Dormiste bem? - Mais ou menos! Preciso de um café. Ricardo arrastou uma cadeira à frente de Laura e mais uma vez não a poupou do seu olhar insinuoso. Ela retribuiu o gesto, mas apenas por breves instantes. Em seguida, voltou a enterrar o rosto no livro que estava a ler e manteve-se assim até ao final da refeição. Poucos minutos antes das onze, Leonardo, João e André abandonaram a mesa do pequeno-almoço. Ricardo não deixou de se congratular com o silêncio que subitamente se instalou naquela habitação. Estava a morrer de dores de cabeça devido à gritaria dos sobrinhos e a sua paciência encontrava-se presa a um fio de cordialidade por se encontrar a viver numa casa que não a sua. - Vêm logo para casa? - Laura perguntou ao marido. - Vamos tentar não demorar – Leonardo encontrou o seu casaco sobre a cadeira. - Se te lembrares passa pela padaria e traz-me aqueles pastéis de nata.
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    61 - Podes deixar!Não me vou esquecer. André e João voltaram à cozinha e despediram-se de Laura com um beijo na face. Ela retribuiu o cumprimento de forma igual compondo-lhes os casacos e os gorros. Estava frio e era preciso que se agasalhassem sob pena de apanharem uma valente constipação a poucas semanas do Natal. Leonardo roubou um beijo à mulher sem ligar ao olhar atento do seu irmão. Quando a porta se fechou e o barulho ensurdecedor das crianças teve fim, Ricardo respirou de alívio. Estava feliz, embora a verdadeira razão para a sua felicidade não se prendesse com o facto dos sobrinhos e do irmão terem saído. Havia um outro motivo. Muito mais forte. Muito mais intenso. Um motivo que se encontrava exactamente à sua frente. Ricardo reparou nas mãos delicadas da cunhada sobre o livro que ela estava a ler. Os dedos finos compridos e as unhas pintadas de rosa clarinho captaram a sua atenção assim como a aliança de ouro que ela usava na mão esquerda. Havia também um certo erotismo na forma como ela segurava a chávena de café sem tirar os olhos da página que estava a ler. Achou também curiosa a forma como os dedos quase magros demais, porém graciosos, separaram cuidadosamente uma fatia de pão com um erotismo que por pouco não o incendiou por dentro. Os seus rostos voltaram a cruzar-se à mesa e ele sorriu. Debochadamente. Espirituosamente. Ela sentiu a face vermelhar, mas foi incapaz de desviar os olhos dele. - Algum problema? - Laura questionou com alguma rispidez. - Não - Ricardo voltou a sorrir. - Problema nenhum. Começava a gostar do jeito dela, Ricardo chegou a essa conclusão quando a viu de costas a lavar as loiças sujas do pequeno-almoço. Observou-lhe os gestos, o toque das mãos na água e a sua postura recta. E quando não conseguiu aguentar mais caminhou lentamente em direcção ao lava-loiças, depositando na pia a chávena de café que utilizara momentos antes. Houve um choque eléctrico quando as suas mãos a tocaram por debaixo da água. Ele observou-a a escassos centímetros de distância e ela esmagou-o com os seus olhos verdes acutilantes. Obrigado pelo café, ele disse. Ela não respondeu. A chuva não deu tréguas durante toda a manhã e nem os ventos fortes pararam de soprar nos arbustos da vizinhança. Enquanto Laura preparava o almoço na cozinha, Ricardo saiu ao jardim sem se importar com a molha que iria apanhar apenas para conseguir saciar o seu vício. Acendeu um cigarro e fumou-o calmamente. Por momentos, fez-lhe bem sentir a chuva sobre os ombros, o vento frio soprar-lhe no rosto e o fumo do cigarro a incendiar-lhe os pulmões.
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    62 A poucos metrosde distância, intrigada com a imagem daquele homem no seu jardim, Laura entrelaçou os dedos nos cortinados e posicionou-se atrás da janela. Observou atentamente todos os gestos do cunhado e sentiu um nó invadir-lhe a garganta quando percebeu que por mais que tentasse simplesmente não conseguia desviar os olhos dele. Dava consigo a questionar-se de onde havia saído, o que tinha feito até à data ou quais os motivos que o fizeram regressar a Portugal após tantos anos de ausência. Era estranho. Terrivelmente estranho sentir-se atraída por ele e pela sua vida e ao mesmo tempo desejar que ele desaparecesse da sua casa. - Chegámos! A algazarra dos filhos e a voz alegre do marido trouxeram-na de volta à realidade. Aflita, Laura voltou a afastar-se da janela da cozinha e concentrou todas as suas atenções a cortar os tomates e as cebolas sobre a bancada. Tinha muito pouco tempo para tentar compensar as horas que perdeu a admirar o cunhado projectando conjecturas estúpidas acerca da sua vida. - Queres ajuda com o almoço? - Leonardo surpreendeu a mulher pouco tempo depois junto ao fogão. - Não! Não é preciso - ela respondeu, apressada. - O que estás a fazer? - A tentar com que isto saia parecido com um arroz de pato. - Cheira bem - Leonardo aproximou-se da travessa sobre a bancada. - Não te animes! Não deve ficar grande coisa. - Não faz mal! Gosto quando te esforças - o arquitecto beijou-a ternamente nos cabelos. - E não precisas de ficar nesse stress... - Que stress? - Laura desviou-se instintivamente dos braços do marido. - Sempre que cozinhas parece que estás a planear uma operação cirúrgica. Leonardo riu-se animado, mas a mulher não o acompanhou na sua boa- disposição.
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    63 - Ele émuito estranho. - Quem? - Laura fingiu não saber de quem o marido estava a falar quando este se aproximou da janela e vislumbrou a figura do seu irmão a fumar o oitavo cigarro do dia. - O meu irmão! Não sei porquê, mas começo a achar que tinhas razão. Não foi lá muito boa ideia tê-lo convidado para ficar cá em casa. - Falta pouco para ele se ir embora. - Deus te oiça... Leonardo apoderou-se de uma maçã sobre a fruteira e saiu da cozinha, indiferente à expressão preocupada da mulher quando, sem conseguir resistir aos seus impulsos, voltou a entrelaçar os dedos nos cortinados e deu-se conta de que o cunhado já não se encontrava no jardim das traseiras. Ricardo desaparecera. Como um fantasma que agora assombrava aquela casa.
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    64 6 O Natal chegoupoucos dias depois e com ele vieram também os preparativos para a grande festa. Um ritual repetido todos os anos por causa das crianças que se deslumbravam a montar a árvore na sala, a enchê-la de presentes, a decorar as janelas com desenhos natalícios e o jardim com luzes fluorescentes. Leonardo passara uma semana a preparar a festa, embrulhando presentes e arranjando meias vermelhas com o nome dos filhos para colocar sob a lareira. Escolheu os presentes com cuidado para a família e para os amigos. Tudo foi feito com um afecto fervoroso, um zelo muito especial. A casa estava bonita, enfeitada com pinhas, azevinho e pequenos pinheiros em vasos. Na porta principal foi colocada uma bela coroa. A alegria da família contrastou com a indiferença de Ricardo relativamente àquela época festiva. O Natal deixou de ter significado para ele desde a altura em que os seus pais morreram. A partir desse momento ele tornou-se indiferente à alegria das crianças, às luzes expostas na cidade e à forma como todos se tentavam redimir dos seus pecados com oferendas natalícias que de nada valiam. Quando explicou o seu ponto de vista numa conversa amena com o irmão durante o jantar, Leonardo perguntou-se o porquê de Ricardo se ter tornado num homem tão frio, distante e sem qualquer alegria de viver. Era como se vivesse vinte e quatro horas escondido atrás de uma máscara com medo de mostrar as suas emoções ou como se passasse o tempo todo a culpar os outros pelos fracassos ocorridos ao longo da sua vida. Na véspera da grande data, Laura encarregou-se das compras do supermercado, da confecção dos doces e do bacalhau. Para isso contou com a ajuda da sua empregada. As duas prepararam tudo com o máximo de aprumo. Laura encarava as receitas culinárias como verdadeiros planos cirúrgicos, executando-as com um rigor absoluto, seguindo medidas, o tempo exacto de cozedura, os ingredientes correctos e não admitindo falhas na apresentação final.
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    65 Quando cozinhava aolado de Laura, Alicia sentia-se constantemente observada, como se estivesse a participar de uma prova avaliativa. Era extremamente extenuante retirar uma grama de farinha da tijela, medir a quantidade exacta do açúcar, fazer as claras em castela até ficarem com a espessura exacta e ter que repetir tudo de novo se não atingisse os resultados que a patroa considerava aceitáveis. - Já cheira bem - Leonardo entrou na cozinha com um escadote debaixo dos braços após ter reparado uma lâmpada que se fundira na arrecadação. - Conseguiste arranjar aquilo? - Laura abriu a gaveta dos talheres e retirou do seu interior uma colher de pau. - Sim! Está tudo! Vou só arrumar o escadote à despensa. - Os miúdos? - Estão lá fora a jogar à bola - Leonardo gritou do interior da despensa. Minutos depois o arquitecto regressou à cozinha de mãos vazias, mas com uma vontade enorme de lamber a tijela com os restos da mousse de chocolate feita pela sua empregada. Parecia um menino de cinco anos, ela reparou. - Posso? - Claro - Alicia respondeu, sorridente. - É toda sua. - Isto está mesmo com bom aspecto - Leonardo utilizou uma colher de pau para tirar os restos da tijela. - Era capaz de comer tudo. - Vai ficar ainda melhor quando colocar as raspas de bolacha na mousse - Alicia riu-se animada ao ver a expressão infantil do patrão a lamber a colher suja de chocolate. - Diz-me uma coisa, Alicia! Onde é que vais passar o Natal este ano? - Era para passar na casa da minha tia, mas ela viajou para o Brasil. Por isso não sei. Talvez fique em casa assistindo televisão.
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    66 - Nada disso.Passas aqui connosco - Leonardo adiantou-se. - Os miúdos vão gostar. - Sr.º Leonardo, eu não sei... - Alicia rasgou um olhar aflito a Laura tentando ver na patroa qualquer sinal de aprovação. - Não me digas que tens outros planos que não nos queres dizer? - Não, eu não tenho planos nenhuns. Eu só não sei se... - Os miúdos compraram-te um presente! Por isso, era bom que estivesses aqui logo à noite para o receber - a resposta de Laura enquanto desmontava a batedeira sobre a bancada, saiu seca, mas suficiente para encher o coração de Alicia de alegria. À mesa sentaram-se cerca de nove pessoas prontas a partilhar a ceia de Natal. Leonardo e Laura convidaram amigos próximos e mãe de Laura que a muito custo aceitou o convite da filha e do genro para se juntar a eles naquela comemoração festiva. Luísa Mendonça era a antítese do que todos consideravam uma boa companhia. De certa forma, tinha uma personalidade idêntica à da filha. Melhor. A personalidade de Laura idêntica à da mãe. O perfeccionismo excessivo, o sentido crítico apurado e o autoritarismo eram algumas das características intrínsecas a estas duas mulheres que durante vinte anos moraram juntas. A relação nunca foi das melhores. Cheia de altos e baixos, rancores e ódios escondidos por razões que Luísa nunca foi capaz de explicar a ninguém. Com o passar dos anos, Laura desistiu de tentar compreender estas mesmas razões e resignou-se à ideia de que nunca teria uma relação normal com a sua mãe. De qualquer maneira já não lhe fazia falta. Já não se sentia triste cada vez que se lembrava da sua infância terrível e nem guardava rancores da frieza excessiva de Luísa. Para Laura as mágoas encontravam-se completamente ultrapassadas agora que ela tinha a sua própria família. O bacalhau cozido foi servido às oito horas em ponto por Laura e pela empregada Alicia, enquanto Leonardo abria as garrafas de vinho sobre a mesa divertido com as piadas proferidas pelo seu melhor amigo. Francisco Saraiva era um arquitecto de quarenta e dois anos com um bom-humor irrepreensível, pelo menos aos olhos de certas pessoas. Não aos de Luísa e nem aos de Laura. Era também um dos melhores amigos de Leonardo, trabalhavam juntos na mesma empresa e partilhavam gostos comuns. Arquitectura. Desporto. Política. Carros. Enfim. Matérias masculinas que os levavam a passar horas em conversas onde as mulheres se sentiam demasiado entediadas para participar.
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    67 Francisco era umhomem atraente apesar de se encontrar um pouco acima do peso. Possuía cabelos e olhos castanhos, um gosto requintado para escolher fatos e relógios caríssimos da marca Patek Philippe. Ganhou o gosto através do pai, que quando morreu, deixou uma verdadeira colecção de relíquias avidamente usurpadas pelo filho mais novo. Quando o assunto não eram relógios, carros, viagens ou outros bem materiais sem os quais não conseguia viver, Francisco interessava-se por mulheres. Bonitas de preferência. Loiras. Superficiais. Pouco inteligentes. Conseguira encontrar uma que se enquadrava perfeitamente nos seus padrões de exigência. A mulher. Sofia Saraiva. Sofia era uma mulher extremamente bonita e sofisticada, cujo passatempo preferido era estoirar cartões de crédito. Tinha cabelos pintados de loiro para enganar o marido, olhos castanhos-claros, unhas religiosamente pintadas de vermelho e uma obsessão extrema pela sua aparência física. Infelizmente não possuía qualquer profissão e também nunca se interessou pelo verbo trabalhar. Casou-se exclusivamente para manter o status e nível de vida que os pais sempre lhe proporcionaram desde criança. Casar-se com Francisco foi como juntar o útil ao agradável. Uma mulher como ela jamais conseguiria viver ao lado de um homem pobre. Sofia vivia essencialmente para suprir as necessidades do marido, excepto o desejo de ter filhos. Isso não. Não tinha em si qualquer instinto maternal e nem se imaginava a cuidar de uma criança para a vida toda. Bastava olhar para os filhos de Laura e Leonardo. Eram insuportáveis apesar de todos terem que fazer um esforço sobre humano para os aturar e mostrarem-se simpáticos com aqueles dois seres minúsculos que mais pareciam dois terroristas. A última convidada a chegar à ceia de Natal foi Rita Azevedo. Depois de se desenvencilhar de um plantão de vinte e quatro horas, a Enfermeira-Chefe passou por casa, tomou um banho, vestiu a primeira peça de roupa que lhe passou pela frente e rumou em direcção à casa dos seus amigos para passar com eles a consoada. Contrariamente a Sofia, Rita vivia exclusivamente para o trabalho. Restava-lhe pouco tempo para se dedicar a actividades mundanas como uma tarde de compras num centro comercial ou uma ida ao cabeleireiro. Aliás, tal como Laura, Rita não se lembrava a última vez que pusera os pés num cabeleireiro. Não tinha tempo para isso e nem paciência também. Devido ao trabalho, a sua vida social estava praticamente estagnada. Não tinha filhos, não era casada e aos trinta e sete anos de idade tudo o que possuía era um apartamento minúsculo e um gato persa que lhe fazia companhia nas noites frias de Inverno. Talvez para algumas pessoas isso fosse pouco, mas para ela, na altura, era suficiente.
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    68 O sonho deformar uma família começava a dissipar-se aos poucos deixando espaço para um conformismo próprio de alguém que tinha consciência de que nem sempre era possível ter-se tudo o que se queria. Uma vida pessoal extraordinária e uma carreira profissional de sonho. Utopias. Ou talvez não. Quando olhava para a sua amiga Laura, Rita imaginava-a como sendo a mulher mais feliz do mundo. Invejava-a, mas no bom sentido. Não eram todas as mulheres que se poderiam gabar de ter um marido como Leonardo, dois filhos saudáveis como João e André e uma profissão amplamente valorizada no mercado de trabalho que lhe proporcionava um salário bem acima da média. Laura era uma mulher de sorte, devia ter consciência disso. Mas o que ninguém sabia era que se tinha deixado mergulhar numa apatia inexplicável de alguém que perdera totalmente o interesse pelas coisas que a rodeavam. O trabalho, o casamento, os filhos, os amigos. Eram onze anos do mesmo. Em festas ou jantares idênticos àquele, era obrigada a ouvir as mesmas histórias que já ouvira várias vezes sem conta, rir-se delas, fingir surpresa, admiração, interesse. Sorrir ao marido, estar atenta às crianças, gerir os pratos que eram servidos na mesa, ouvir as conversas fúteis da mulher do melhor amigo do seu marido sobre roupas, sapatos e maquilhagens. Fingir que percebia alguma coisa do assunto e ainda fornecer palpites. Tentar apaziguar a troca de palavras amargas entre a mãe e o marido para que os convidados não percebessem uma realidade irrefutável. A de que Luísa simplesmente detestava o genro. Às vezes, ela sentia-se cansada. Exausta. Como se estivesse dentro de uma redoma de vidro da qual não conseguia sair. Gritava em silêncio para que a tirassem dali. Às vezes, tinha medo de se afogar no próprio tédio que era a sua vida. - Boa noite a todos. Os atrasos de Ricardo já não surpreendiam ninguém. Naquela noite de Natal veio molhado da chuva, trazendo nas mãos o seu velho casaco de cabedal que o acompanhava para todo o lado. Quando o viu pela primeira vez, Rita sentiu um baque. Sentiu também a sua face vermelhar ainda que contra a sua vontade. Do outro lado da mesa, Sofia também vivenciou o mesmo. Admirou-lhe os cabelos escuros, o nariz esculpido na perfeição, os lábios delineados e a barba semi- aparada. Ricardo tinha um ar meio grunge que secretamente a agradava. Era a antítese total do seu marido. Magro, alto e com um porte atlético. O homem perfeito capaz de levar qualquer mulher à loucura. Mas os olhos de Ricardo permaneceram infiltrados em Laura. Não o fez de propósito. Era apenas um hábito. Os seus rostos voltaram a cruzar-se. Ele observou-a com atenção e não permitiu que mais nada o distraísse de uma imagem que considerava perfeita.
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    69 Ela também sedeixou inebriar por aqueles olhos castanhos incisivos, ansiando que eles a despissem silenciosamente sem que ninguém se desse conta. Qualquer coisa havia mudado, ambos sabiam-no bem. Qualquer coisa de muito estranho estava a acontecer e nenhum dos dois parecia ter o controlo da situação. - Desculpem o atraso. - Não tem importância – Leonardo respondeu com uma certa amargura na voz, engolindo a última gota de vinho que tinha no copo. – Está a chover muito? - Um pouco. - Senta-te! Ainda vens a tempo do jantar. Ricardo aceitou o convite do irmão e logo em seguida encontrou um lugar vazio para se sentar. Curiosamente esse lugar era ao lado de Rita. À frente de Laura. A duas cadeiras de Sofia. - Então este é que é o teu irmão, Leo? – Francisco quis imediatamente conhecer o ilustre convidado da noite. - Sim! Ricardo, este é o Francisco! Um grande amigo meu... - Prazer – Ricardo forçou um sorriso contrafeito ao melhor amigo do irmão enquanto se servia do bacalhau cozinhado pela cunhada sobre a mesa. - O prazer é todo meu. Confesso que estava curioso para te conhecer. O Leo já me tinha falado sobre ti. Disse-me que moravas nos Estados Unidos. Verdade? - Sim! Em Manhattan. - Eu adoro Nova Iorque e quero um dia lá voltar – Francisco encheu uma taça de vinho, ignorando o silêncio constrangedor que se instalou na mesa após a chegada de Ricardo. - Pois eu prefiro Paris – Sofia interveio. - Odeio Nova Iorque. É uma cidade tão suja e barulhenta. Nunca conseguiria lá viver. Paris é a minha cidade de eleição.
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    70 - Paris éo único local no planeta terra onde consegues estoirar um cartão de crédito em menos de uma hora - a resposta de Francisco arrancou uma risada geral, excepto à sua mulher, a Laura, a Luísa e a Ricardo. - Não estava a falar das compras - Sofia irritou-se com a afirmação grosseira do marido. - Estava a falar da cidade. - Paris é uma cidade interessante – Ricardo forçou um sorriso a Sofia e ela correspondeu de forma igual. – Os restaurantes são muito bons e os bares nocturnos também. Não sei se conhecem um restaurante chamado “Train Bleu”!? - Acho que já ouvi falar – Francisco mentiu, limpando a boca ao guardanapo. - É o meu restaurante preferido em Paris. Foi feito a partir do restauro de um comboio. - Como assim? – Rita interveio na conversa. - Chamava-se Calais-Mediterranée. Era um comboio expresso de luxo que transportava passageiros ricos e famosos entre Calais e a Riviera francesa nas duas décadas antes da Segunda Guerra Mundial. Anos depois, os donos compraram esse comboio que estava a cair aos bocados e transformaram-no num restaurante. É um autêntico Louvre, com a única diferença de que pelo menos lá se pode comer. Quando vou a Paris faço questão de passar por lá. Conheço os donos. Somos amigos. - Deve ser um balúrdio, não? – Sofia perguntou, enterrando os lábios pintados de vermelho na sua taça de vinho. Estava a ficar realmente interessada em saber um pouco mais sobre os gostos gastronómicos daquele belo exemplar masculino. - Nem tanto! A comida, quando boa, não deve ser considerada um bem supérfulo. - Eu penso exactamente a mesma coisa em relação a roupas e sapatos - Sofia riu-se, animada. - Os preços como são!? - Francisco inquiriu. - Pode rondar os oitocentos euros se for um grupo de oito amigos.
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    71 - Cem eurospor pessoa!? Pois eu recuso-me a gastar oitocentos euros num jantar. Nem mesmo com oito amantes - Francisco riu-se sozinho às gargalhadas. - Isso é porque as tuas amantes se contentam com pouco - Sofia não conteve a observação, cansada das grosserias constantes do seu marido à frente dos convidados. Ouviu-se um novo silêncio à mesa, enquanto todos degustavam a refeição cozinhada pelos donos da casa. Leonardo estranhou o à-vontade do irmão. Laura também. Nunca o viu tão bem disposto e com tantos temas interessantes de conversa. Parecia uma outra pessoa. Completamente diferente daquele homem frio e misterioso que se apresentava todos os dias em sua casa e que os atacava com a sua diferença constrangedora. Ricardo era um homem de inúmeras facetas, como o sorriso que manteve nos lábios quando se viu constantemente confrontado com as perguntas indiscretas de Francisco Saraiva. Laura foi a única a perceber o desconforto patente nos seus olhos e a sua enorme vontade de desaparecer daquela mesa. Tal como ela, também ele se sentia um verdadeiro peixe fora de água. Alguém que não pertencia àquele meio e nem àquela realidade. Se ao menos os ponteiros do relógio andassem mais depressa, quem sabe aquele suplício não teria fim. - Vamos para a sala? - a voz de Leonardo trouxe a mulher de volta à realidade. A proposta de Leonardo pareceu agradar a toda a gente. As crianças saltaram das cadeiras e correram em direcção à sala desejosos que chegasse a meia-noite para abrirem os presentes, enquanto os adultos se instalaram nos sofás, enredados numa conversa amena e familiar. Apenas Luísa, a mãe de Laura, se manteve impávida e serena a um canto da sala com o seu habitual mau-humor. Quando as mulheres foram à cozinha buscar os doces para encher a mesa da ceia de Natal, esse mau-humor voltou a manifestar-se. - Quem é que fez esta bavaroise!? - Fui eu - a filha respondeu com um longo suspiro. - Está uma porcaria! Devia ter levado mais natas! Impressionante como nunca fazes nada de jeito... Luísa voltou a sair da cozinha perante o olhar estupefacto de Rita, Alicia, e Sofia. A primeira tentou imediatamente amenizar a situação.
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    72 - Sei quesou leiga na matéria, mas para mim parece estar com um óptimo aspecto. Laura ignorou o elogio da sua melhor amiga e desenformou o pudim que fizera durante a tarde. Quando o fez, saiu perfeito. Exactamente como queria. - Estou a ver que hoje vou engordar mais alguns quilos - Sofia brincou. - Um dia, não são dias - Rita riu-se alegremente. - Além disso, no Natal todos os pecados são perdoáveis. Sofia sorriu à enfermeira na altura em que o seu telemóvel vibrou no bolso do casaco. Ao ver no visor de quem se tratava, apressou-se a sair ao jardim dizendo que iria atender uma chamada da sua mãe. - Diz-me uma coisa - Rita interpelou Laura no momento em que se viu a sós com ela. - Há quanto tempo o irmão do Leo está aqui a morar convosco? Os gestos de Laura sofreram uma ligeira pausa. - Três semanas. Porquê? - Por nada... - Rita sorriu maliciosamente, compondo os seus longos cabelos escuros. - Só o achei giro! Aliás, muito giro! Será que ele vai ficar aqui durante muito tempo? - Vai-se embora depois do Ano Novo - Laura atirou a forma do pudim contra o lava-loiças. - Alicia... - Sim, D. Laura - a empregada entrou na cozinha a correr. - Por favor! Vai levando estes doces até à sala enquanto eu termino de tirar o resto do frigorífico. - Sim, senhora. - É casado? Tem namorada? - Rita voltou a perguntar mais detalhes sobre a vida de Ricardo quando Alicia abandonou a habitação com uma terrina nas mãos. - Como é que queres que eu saiba? - Vocês moram na mesma casa e ele é o irmão do Leo.
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    73 - Eu nãosei nada sobre a vida do irmão do Leo e nem estou interessada em saber. - Porquê?! Laura hesitou alguns segundos a responder, mas encontrou uma resposta que na altura lhe pareceu verdadeira. - Porque ele não parece ser uma pessoa de confiança. A noite terminou com a habitual troca de presentes sendo as crianças as principais protagonistas da festa. André e João rasgaram inúmeros papéis de embrulho e destruíram todas as caixas que viram espalhadas pelo chão da sala. Os adultos viram tudo, divertidos, incentivando os pequenos a distribuírem os presentes pelos convidados. O Natal era de facto a melhor altura do ano para os gémeos que desta forma viam concretizados todos os seus desejos materiais. Após a troca de presentes, Alicia, a empregada, manteve-os entretidos no tapete da sala com jogos e brincadeiras intermináveis. Pouco tempo depois os convidados assinalaram o desejo de se irem embora. Luísa foi a primeira a fazê-lo quando se viu adormecida no sofá da sala a poucos minutos das duas da manhã. O genro ainda tentou oferecer-lhe uma boleia, mas ela recusou prontamente o convite dizendo que iria bem melhor na companhia de Rita. Não houve discussões e nem Leonardo se atreveu a contrariá-la. De qualquer maneira a vontade de estar na companhia da sogra era nula. Quando todos se foram embora, a casa silenciou-se e os gémeos foram os primeiros a baixar as guardas. Adormeceram no sofá, exaustos das brincadeiras e correrias que protagonizaram ao longo da noite. O pai encarregou-se de levar um dos filhos ao colo, enquanto o tio, num gesto gentil que poucos lhe reconheciam, ofereceu-se para levar o outro sobrinho. Na cozinha, Laura e a empregada Alicia arrumaram as loiças sujas e os restos da ceia de Natal. Leonardo e Ricardo depositaram os gémeos nas suas respectivas camas. Os dois dormiam profundamente não se apercebendo sequer de que haviam sido arrastados do sofá até ao quarto. Ricardo foi o primeiro a abandonar a habitação sem vontade de ali ficar durante muito tempo, enquanto Leonardo, sempre cuidadoso com os filhos, permaneceu alguns minutos a ajeitar-lhes os cobertores e as almofadas. Tempo depois voltou a sair do quarto e fechou a porta com cuidado para não os acordar. Provavelmente dormiriam longas horas até o amanhecer. - Obrigado – Leonardo agradeceu a ajuda do irmão.
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    74 - Não tensde quê. - Ricardo... - a voz firme do arquitecto impediu o irmão de se dirigir até ao quarto de hóspedes. - Acho que chegou a altura de falarmos, não?! - Sobre o quê? - Ricardo fitou-o com alguma desconfiança. Leonardo aproximou-se cautelosamente dele. - Sei que ainda existem muitas mágoas entre nós. Talvez eu não tenha sido o irmão que tanto necessitavas na altura em que os nossos pais morreram, mas acredita que fiz o melhor que sabia. Fiz tudo o que estava ao alcance de um rapaz de catorze anos… - A culpa não foi tua – Ricardo encarou-o com uma certa mágoa no olhar. – Não te sintas responsável por tudo o que se passa à tua volta. - Então porque é que continuas a manter esta parede invísivel entre nós? - Não existe parede nenhuma. - Existe sim – Leonardo encarou-o de uma forma séria. – Às vezes sinto como se tivesses raiva de mim ou algo do género. - Raiva porquê?! – Ricardo atacou-o com as palavras. - Não sei! Diz-me tu! - Leo, sabes qual é o teu problema? Sabes porque é que nunca conseguimos ser irmãos, amigos ou o que quer que seja? Porque sempre fizeste questão de te mostrar superior a mim. Tu achas que conseguiste tudo o que querias na vida e que eu não consegui nada. Não é isso que pensas? - Estás completamente enganado a meu respeito. - Eu nunca te invejei! Sempre quis que fosses feliz. Mas é esse teu ar de Senhor Perfeito que me irrita profundamente. - Eu não sou perfeito. - Ainda bem que tens consciência disso.
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    75 Leonardo permaneceu nocorredor durante largos minutos a tentar assimilar todas as palavras amargas que o irmão lhe dissera momentos antes. Não lhe pareceu ser de todo verdade. Ele nunca se quis mostrar superior a Ricardo e também nunca pensou que a sua vida era melhor que a dele. O irmão tinha uma visão completamente deturpada a seu respeito. Longe de conseguir recuperar o sono perdido após a conversa que tivera com o com Leonardo, Ricardo voltou a sair ao jardim das traseiras com um maço de cigarros nas mãos. Fazia um frio gélido e o relógio há muito que havia assinalado as quatro horas da manhã. Resignado, ele sentou-se sobre o alpendre da cozinha e acendeu o primeiro cigarro do dia. Fumou uma passa ainda com as palavras de Leonardo a ecoar-lhe nos ouvidos e chegou à conclusão de que infelizmente não havia nada a fazer. Os dois nunca seriam amigos ou coisa que o valha. Havia demasiadas mágoas. Ressentimentos. Demasiados equívocos. Desencontros e desilusões. Ricardo já não era o mesmo menino assustado de dez anos que perdera os pais de uma forma abrupta e nem Leonardo o mesmo rapaz de catorze que não soube como assumir a responsabilidade de tomar conta do irmão mais novo. Por mais que tentassem fingir que tudo continuava igual, os dois sabiam que qualquer coisa se havia quebrado irremediavelmente no dia em que Leonardo decidiu seguir o seu caminho e abandonar Ricardo naquela casa de acolhimento. - Toma! A visão de Laura sobre a marquise envolta num robe azul-escuro com duas chávenas de café nas mãos ofereceu a Ricardo um conforto difícil de explicar. Não contava vê-la ali e nem contava sequer que ela tivesse a capacidade de cometer tal gentileza para com um perfeito desconhecido. Porque na verdade ele não passava disso mesmo. Um desconhecido que teve a infelicidade de procurar um irmão que já não via há mais de quinze anos e que só agora começava a tomar consciência da loucura que cometera ao conhecer também a sua mulher. - Obrigado - Ricardo aceitou uma chávena das mãos da cunhada e permitiu que ela se sentasse ao seu lado. - O Leo contou-me sobre a vossa conversa. Ricardo forçou um sorriso amargo e bebeu o primeiro gole de café. Em seguida, sugou o cigarro que ainda tinha nas mãos e deixou-se ficar de olhos postos no escadote estrategicamente encostado à cerca que delimitava a área do jardim
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    76 - Deve-te terdito horrores sobre mim, não?! - ele respondeu após um longo minuto de silêncio. - Nada disso - Laura observou o cunhado de soslaio. - Acho que já está na altura de me ir embora. - Vais voltar para os Estados Unidos? - Ainda não sei! A verdade é que não estou de férias. O que fiz foi tirar uma licença sem vencimento. - Porquê?! - Porque precisava de um tempo para reorganizar as minhas ideias – Ricardo continuou a fumar calmamente o cigarro que tinha nas mãos. – Perceber o que quero fazer da minha vida. Para onde quero ir. Onde quero estar. Nunca sentiste essa necessidade? Laura bem quis responder que sim, que pensava nisso todos os dias, que muitas vezes desejava pegar no carro e conduzi-lo para lugar incerto. Que sentia a sua alma deixar lentamente o seu corpo e que a sua apatia se havia transformado numa rotina sufocante. Mas na altura os seus lábios emudeceram. Não foi capaz de dizer nada. Não foi capaz de demonstrar as suas fragilidades humanas perante um homem que para si ainda continuava a ser um perfeito desconhecido. - Fugir dos problemas não resolve nada - saiu-lhe essa frase estúpida dos lábios. - Fingir que não temos problemas é que não resolve nada - a resposta do cunhado tomou-a de assalto. Laura sentiu uma estranha onda de calmaria invadir-lhe a alma quando bebeu o primeiro gole de café que fizera às pressas na cozinha. Soube-lhe bem aquele momento silencioso em que nem ela e nem o cunhado trocaram uma única palavra. Soube-lhe bem aquele liquido entranhado na sua garganta, enquanto o dia começava aos poucos a clarear. Não sentiu nada. Não pensou em nada. Era a primeira vez que isso acontecia. - Tenho de ir.
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    77 - Espera... A vozdo cunhado impediu-a de voltar a abrir a marquise da cozinha. Ricardo levantou-se do alpendre e fumou o último trago de cigarro, atirando a beata para o chão. Apagou-a com o pé direito, ao mesmo tempo que Laura se mantinha expectante à espera de ouvir o que ele tinha para lhe dizer. - Antes de me ir embora, queria pedir-te uma coisa. - O quê?! - a voz de Laura saiu trémula quando ele se atreveu a tocá-la na face e nos cabelos desalinhados. - Uma noite contigo. Os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta. - Não precisas dizer nada! Dou-te algum tempo para pensares! Tens até o final do ano...
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    78 7 Laura regressou aotrabalho com a sua cabeça a latejar de dúvidas e medos. Passou pelos corredores da clínica como uma flecha e quando chegou ao seu consultório enfiou a cabeça por entre os braços, desejando que aquela terrível dor de cabeça tivesse fim. Por sorte naquela manhã não tinha consultas. Havia tempo para reflectir na grande embrulhada em que andava metida a sua vida. Havia tempo para se lamentar da sua triste sorte, da sua inércia, da sua incapacidade de reacção, de estar a sentir tudo e ao mesmo tempo nada. De olhos fechados, enquanto os ponteiros do relógio teimavam em andar, a médica tentou a todo o custo esquecer-se da proposta tentadora feita pelo cunhado. Aquela maldita proposta que a atormentava desde a noite do Natal e que não a deixava ter um único minuto de paz. Para ela sempre fora inadmíssivel ver-se na cama com outra pessoa que não o seu marido. Leonardo havia sido o primeiro e o único homem a quem se tinha entregado até à data e nunca sequer lhe passou pela cabeça olhar para mais nenhum. O marido completava-a. Era o seu porto seguro. A pessoa que tinha escolhido passar o resto dos seus dias. Mas com Ricardo tudo era diferente. Não havia qualquer tipo de segurança quando se encontrava na sua presença. Ele deixava-a desprotegida. Insegura. Laura sabia melhor do que ninguém que as suas forças se estavam a esgotar. Durante anos tentou fugir de si própria, enganando-se e escondendo-se atrás de uma máscara intransponível, mas agora descobria que já não podia continuar a enganar-se ou a lutar contra os seus sentimentos. O cunhado despertara em si emoções escondidas. Fizera-a acordar. Acordou-a do marasmo que eram os seus dias, a sua vida e o seu casamento. Despertou desejos, dúvidas, fascínio e curiosidade - sentimentos perigosos que uma mulher apenas deveria sentir pelo marido sob pena de cair no abismo em que ela agora se encontrava. Abismo, essa palavra voltou a assombrar-lhe os pensamentos. E a dor de cabeça tornou-se mais forte.
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    79 2011 prometia sero ano de grandes mudanças, de concretização de planos e objectivos a longo prazo. Prometia também prosperidade, sucesso profissional e muito dinheiro. Pelo menos, esses foram alguns dos desejos de Francisco Saraiva quando abriu uma garrafa de champanhe especialmente comprada para comemorar a ocasião. A noite da passagem de ano realizou-se em sua casa.Um apartamento imponente localizado nas Amoreiras, uma zona nobre de Lisboa. Leonardo e Laura aceitaram o convite e levaram os filhos. Rita Azevedo surgiu após o jantar na esperança de encontrar Ricardo, mas infelizmente os seus intentos não se concretizaram. Ricardo recusou-se a comparecer à festa dizendo que preferia arrumar as malas para a sua viagem no dia seguinte. Talvez voltasse para os Estados Unidos. Ainda não sabia. Talvez fizesse um tour pela Europa, conhecendo outras pessoas ou outras paragens. Talvez não fizesse nada disso. A poucas horas da sua partida, enquanto fechava as duas malas que trouxera de viagem, Ricardo sentiu-se invadido por um estranho sentimento de nostalgia. Percebeu que aquele seria o seu último dia em Portugal e que infelizmente não levaria saudades. Seguiria em frente sem pensar no que ficara para trás. Nem mesmo na cunhada ou na vontade incomensurável de a levar consigo. A madrugada já ia alta quando Laura e Leonardo regressaram a casa com as crianças adormecidas no banco de trás. O arquitecto estacionou o veículo em marcha-atrás, virando o volante, endireitando as rodas, levando o carro para a frente, trazendo para trás e desviando-se cuidadosamente do jipe da mulher estacionado na garagem. Não sei como é que ele consegue fazer isso todos os dias, foi o último pensamento de Laura ao abandonar o assento da frente. Os filhos continuavam a dormir, alheios ao adiantado das horas. A mãe retirou o cinto de segurança e deteve André nos braços. O pai fez o mesmo com João e seguiram os quatro em silêncio até à porta de entrada, exaustos por uma noite que mais parecia não ter fim. Quando entraram em casa as luzes encontravam-se apagadas. Acenderam a luz do corredor e Leonardo depositou sobre a mesinha as chaves que usou para abrir a porta. Pouco tempo depois, ele e a mulher subiram ao piso dos quartos e deitaram as crianças na cama. Retiraram-lhe as roupas e os sapatos e curiosamente nenhum dos dois acordou. Os pais congratularam-se por isso. Quando deram por terminada a tarefa rotineira de pôr os filhos na cama, refugiaram-se no próprio quarto. - Amanhã vou ter sair mais cedo - Leonardo retirou o seu relógio de pulso e colocou-o sobre a mesinha de cabeceira. - Vou levar o meu irmão ao aeroporto. - A que horas é o voo dele? - Laura enfiou-se na sua combinação de dormir.
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    80 - Às noveda manhã. - Amanhã queria ver se levava os miúdos à casa da minha mãe. - Também preciso ir? - Só vais se quiseres - Laura tirou os brincos em frente ao espelho da cómoda e largou também os cabelos sobre os ombros, passando os dedos por eles a fim de desembaraçá-los. - Era uma piada, não?! - Não, Leo! Não era uma piada. - Sabes bem que a tua mãe me odeia - o arquitecto retirou as meias sobre a cama. - O sentimento é recíproco. - Eu não odeio a tua mãe. - Mas também não fazes esforço nenhum para te dares bem com ela. - E ela faz algum esforço para se dar bem comigo? - Leonardo soltou uma gargalhada seca que não foi de todo correspondida pela mulher. - Aliás, será que ela faz algum esforço para se dar bem com alguém que viva neste planeta? - Vou escovar os dentes. - Não precisas fugir à nossa conversa. - Eu não estou a fugir à conversa. Só acho um desperdício de tempo estarmos a falar sobre este assunto. - Os casais desperdiçam tempo a falar de assuntos. - Assuntos importantes! E este não é o caso. - O que é que se passa, Laura? - Leonardo interpelou a mulher junto à cómoda. - Não se passa nada - ela desviou-se instintivamente.
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    81 - Não souparvo! Já reparei que andas estranha e diferente comigo. Os seus rostos cruzaram-se violentamente, mas nenhum dos dois foi capaz de proferir palavra. Talvez tivessem medo de dizer o que não queriam. De ouvir o que não desejavam. Ou talvez, quem sabe, já não houvesse absolutamente nada para dizer. - Vou escovar os dentes - ela afirmou por fim. Leonardo não se moveu quando Laura saiu do quarto e bateu a porta. Precisou de algum momento para controlar as suas emoções. Na verdade, prometera a si próprio que as controlaria, custasse o que custasse. A mulher tinha esse dom. O dom de destruí-lo e desarmá-lo com uma frase tão simples como "Vou escovar os dentes". Debruçada sobre o lavatório, Laura pôde finalmente derramar todas as lágrimas que manteve reprimidas dentro de si. Chorou. Silenciosamente. Chorou por medo, vergonha e tristeza. Chorou por si, pelos filhos e pelo marido. E quando terminou o seu mar de lamentações lavou o rosto com água fria a fim de manter intacta a sua sanidade mental. Três horas e quarenta minutos. De olhos postos no relógio sobre a mesinha de cabeceira enquanto o marido dormia profundamente no lado direito da cama, Laura deu-se por vencida. Nada a iria fazer dormir naquela primeira gélida madrugada de Janeiro. Nem mesmo os dois comprimidos que tomou para o efeito. Passou mais de uma hora a pensar obsessivamente no cunhado, na sua proposta maluca e na excitação que esta lhe provocava. Deu voltas à cama, sentiu o marido tossir inconscientemente e sentiu uma falsa segurança por se encontrar ao seu lado. Nos últimos tempos o seu espírito encontrava-se profundamente revoltoso e conturbado. Seria aquela apenas uma fase ou o fim de alguma coisa? Desesperada, Laura levantou-se da cama e passeou atordoada pelo quarto. Escolheu a janela para se refugiar, mas depois de vários minutos a olhar para o vazio, deu-se por vencida. Voltou a observar o rosto sereno do marido e sentiu duas lágrimas caírem-lhe na face fria. Era horrível a ideia de o trair, de pensar noutro homem ou de desejá-lo mais do que a racionalidade permitia. No entanto não havia nada a fazer. A vontade de sair do quarto tornou-se imperativa e obrigou-a a alcançar o seu robe negro sobre o cadeirão. Depois de o vestir, aproximou-se da porta e lançou um último olhar ao marido apenas para ter a certeza de que este ainda continuava a dormir. Pé ante pé, desceu as escadas que ligavam os dois pisos da casa. Apalpou os móveis com as mãos e avistou uma luz acesa na cozinha.
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    82 O barulho domicroondas denunciou a presença de alguém, e ao aproximar-se da porta, ela avistou a figura do cunhado a preparar um chá sobre a bancada de mármore. Ela entrou. Olharam-se em silêncio sem conseguirem pronunciar uma única palavra. O medo e a culpa voltaram a assombrá-la. Ainda estava a tempo de voltar atrás, pensou. De fingir que nunca estivera ali e desaparecer com a clara certeza de que havia tomado a decisão certa. Seria tão fácil fazer isso. Seria tão fácil recuar. - Acho que não consigo fazer isto - Laura sentiu um arrepio cortar-lhe todas as veias do corpo quando o cunhado trancou a porta da cozinha e tomou a sua cintura fina. - Consegues sim. Ricardo não esperou muito mais. Afundou-se na boca de Laura e invadiu-lhe o hálito com o seu cheiro intenso a tabaco. A sua língua tinha um gosto amargo, ela sentiu. Uma mistura estranha de nicotina e mentol que se entranhou na sua saliva. E logo ela que caminhava a passos largos em direcção a um abismo sem fim. Não. O cunhado não deveria estar a tocá-la daquela maneira. Não deveria percorrer-lhe as pernas desnudas com as mãos e muito menos devorar-lhe o pescoço como se ele o pertencesse. Não deveria sequer tirar-lhe a combinação de dormir e atirá-la para um canto. Deitá-la na mesa da cozinha, afastando tudo o que pudesse atrapalhar os seus intentos. Praticamente nua e desprotegida Laura observou os gestos de Ricardo enquanto ele também se despia. Tirou a camisola, desapertou o cinto e o botão das calças, tudo isso sem tirar os olhos dela. Excusado será dizer o quanto ele havia ansiado por aquele momento. Desde o primeiro dia em que a viu. Desde o primeiro minuto. Sonhou muitas noites em arrancá-la do quarto do irmão apenas para a ter só para si. Mas agora o seu desejo tinha-se tornado real e ele não pretendia desperdiçar aquela oportunidade de ouro que o destino lhe estava a dar. Laura estava ali, completamente à sua mercê e ele sem cerimónias de a livrar das cuecas pretas que ela trazia vestidas, jogou-as para o chão depois de as ter cheirado discretamente. Um gesto que duplicou a excitação de Laura. Ele aprovou o odor, o sabonete de jasmim e a lubrificação deixada por ela naquele pequeníssimo pedaço de tecido. Experimentando o maior prazer que alguma vez sentira na sua vida, Laura sentiu os lábios de Ricardo beijarem-lhe a ponta dos pés. Em seguida, os tornozelos, a barriga da perna, o interior das suas coxas, e num momento de pura insanidade, a parte mais íntima do seu corpo. Ela contorceu-se de prazer e mordeu o lábio inferior. Tentou abafar um segundo gemido após ter deixado escapar o primeiro. Poucos minutos depois chegou ao orgasmo. O mais intenso que alguma vez tinha
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    83 memória. As suaspernas tremeram, o seu corpo passou por um ligeiro período de letargia, mas Ricardo não permitiu que ela descansasse. Encontrou-lhe o ventre, os seios perfeitos e a boca seca. Prendeu-lhe os cabelos com as mãos e obrigou-a a levantar o rosto em sua direcção. - Ainda achas que não consegues fazer isto? - ele perguntou, ouvindo-lhe a respiração ofegante. - Fode-me - ela implorou. Nada teve importância quando as suas bocas se voltaram a unir e os seus corpos se fundiram num só. Ali, debaixo do cunhado e dos seus braços musculados, sentindo-o dentro de si sempre em movimentos contínuos e frenéticos, Laura esqueceu-se de todos os perigos e loucuras que estava a cometer. Esqueceu-se que era uma mulher casada, que os seus filhos e o seu marido dormiam no piso de cima ou de que estava a fazer sexo com o próprio cunhado. O seu corpo manteve-se preso ao de Ricardo. Chocava contra o dele com violência, fazendo barulhos surdos, sem se lembrar que pudesse ser ouvido por alguém atrás da porta. Não mudaram de posição uma única vez. Ela prendeu-lhe as pernas à volta da cintura e cravou as unhas nas suas costas. Deixou marcas e riscos por todo o lado. Com os olhos fixos nos dele e observando a sua expressão ganhar forma, Laura percebeu que Ricardo estava prestes a chegar ao orgasmo. Lembrou-se subitamente que o deixara entrar dentro de si sem qualquer protecção. Tentou afastá-lo, empurrando-o com os braços e as ancas, mas ele resistiu ao movimento. Manteve-se dentro dela e ejaculou poucos minutos depois sem medo ou remorsos. Estava a tremer, ele percebeu. Nenhuma mulher o fizera tremer até à data. A última coisa de que se lembrava claramente era de a ter deitado sobre a mesa da cozinha e de lhe ter retirado aquela maldita combinação de dormir. Tudo o resto desapareceu da sua mente numa fracção de segundos. Ricardo levantou a cabeça para a ver melhor enquanto o seu suor caía sobre o rosto da cunhada. Os olhos de Laura ainda se encontravam fechados e a sua respiração mantinha-se descompassada. Também ela suava por todos os poros, facto que despertou novamente o seu desejo. Abaixando a cabeça para os cabelos dela, ele tentou controlar o impulso animalesco que se apossou de si. Precisava de um minuto, pediu a si próprio. Sessenta segundos para se recompor novamente ou a possuiria ali mesmo como um louco.
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    84 Assim que chegouao quarto e viu o marido a dormir profundamente, Laura seguiu como uma flecha em direcção à casa de banho. Despiu as roupas que trazia no corpo e atirou-se para debaixo do chuveiro com o intuíto de apagar todos os vestígios que o cunhado pudesse ter deixado dentro de si. Lavou freneticamente as pernas, os braços, o peito, o pescoço, os lábios e o meio da pernas. Em seguida, voltou a enfiar-se debaixo da água quente, esfregou o rosto com as mãos e sentiu que aos poucos estava a voltar a si. Quando regressou ao quarto, enfiou-se na cama. Olhou para o marido uma última vez e sentiu um estranho aperto no coração. Mas não houve um pingo de arrependimento. O dia amanheceu chuvoso. Leonardo sentou-se sobre a cama e passou as mãos pelo rosto desfigurado. Estava de rastos. Sentia-se como se tivesse sido atropelado por um camião de carga, sendo que o seu único desejo era ter pelo menos um dia em que pudesse dormir até tarde. Mas infelizmente não seria esse o caso, pelo menos naquela manhã. Ao assumir o compromisso de levar o irmão ao aeroporto, o arquitecto viu-se obrigado a dirigir-se até à casa de banho e abrir o chuveiro num gesto lento e demorado. Tomou um banho e despertou. Escovou os dentes, enxaguou a boca com um elixir e escolheu uma nova lâmina de barbear no interior do armário. Meia-hora depois já estava pronto. Vestiu o casaco às pressas e observou a figura da mulher a dormir profundamente com os cabelos a cobrirem-lhe grande parte do rosto. Não resistiu a despedir-se dela com um beijo doce no canto da boca. Quando a porta se fechou, Laura abriu os olhos e sentiu um cansaço extremo em todo o corpo. Não. Não estava a dormir. Nem sequer conseguiu pregar olho durante a noite inteira. A boca estava seca. Estava tão cansada. Tão exausta. Incapaz de mexer qualquer músculo corporal. Ficou na cama durante vários minutos a olhar para o vazio das paredes e a ouvir a chuva a cair furiosamente sobre o tejadilho. Adormeceu por breves instantes, mas o barulho do motor do carro do marido a sair da garagem voltou a acordá-la. Afogueada, ela afastou os lençóis e correu em direcção à janela. Ouviu vozes vindas do exterior e só então avistou a figura do marido a abrir o porta-bagagens. Alguns segundos depois viu também o cunhado a sair à rua e a arrastar duas malas atrás de si. Leonardo prontificou-se a ajudá-lo. Alojou os pertences do irmão na bagageira e encaminhou-se para o lugar do condutor. Foi então que Ricardo ergueu o rosto e lançou os olhos à janela do quarto onde Laura se encontrava escondida. Atrás dos cortinados, observou a sua figura esbelta, vestida apenas com a combinação de dormir que ele tivera a audácia de retirar na noite anterior. Pensou em despedir-se dela com um breve aceno, mas não teve coragem. Achou que não tinha esse direito. Achou também que se despedisse dela iria sentenciar a realidade cruel de nunca mais a voltar a ver.
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    85 Laura sentiu umestranho aperto no coração no momento em que ele entrou finalmente no carro e fechou a porta com força. Manteve-se inerte, junto à janela, agora sem medo de ser vista, aguardando apenas o tempo exacto para que o marido arrancasse o carro e saísse pelos portões de casa. Não deveria sentir-se feliz por nunca mais ser obrigada a olhar para a cara do cunhado? Por ter traído o marido, mas não ter sido descoberta? Por todos terem saído ilesos daquela história? Laura tentou convencer-se disso, mas a iminência da partida de Ricardo alertou-a para um facto irrefutável. A de que nunca mais o voltaria a ver. E diante disso, estranhamente, quando o BMW do marido curvou o quarteirão e desapareceu pela rua deserta, o seu único desejo foi o de que o cunhado desistisse daquela maldita viagem e ficasse em Portugal para sempre.
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    86 8 Sentia-se como setivesse cometido um crime. Da janela do seu consultório, Laura observou o movimento de uma ambulância à entrada da clínica. O dia cinzento e chuvoso manteve-a distante daquilo a que todos chamavam de planeta terra. Os seus pensamentos longínquos levaram-na para uma dimensão onde só ela estava autorizada a entrar. Vagueando por sentimentos de arrependimento, culpa e remorsos, ela afastou-se da janela e caiu sobre a secretária como um peso morto. Não estaria a ficar louca? Se tinha um marido que amava, dois filhos maravilhosos e uma carreira invejável enquanto Neurocirurgiã, porque então se sentia tão vazia e inquieta com a partida de um homem que nunca chegou realmente a conhecer? Talvez não fosse nada disso. Talvez fosse aquela terrível sensação de traição. O facto de ter cometido um acto ilícito aos olhos dos demais e de ter mergulhado num mar de lama sem conseguir nadar como deve ser. Queria voltar atrás, mas não sabia como. Queria esquecer tudo o que fizera, mas as imagens daquela noite continuavam a surgir como flashes de memória quase a sufocando. Restava-lhe continuar a viver com aquele enorme aperto no coração ou quem sabe confessar toda a verdade ao marido. Mas não. Isso nem pensar. Ela jamais teria a coragem de confirmar a Leonardo que as suas suspeitas não eram infundadas. Estava estranha, diferente e distante. Já não era a mesma mulher carinhosa de outrora. Mentia todos os dias ainda que não tivesse razões para isso. Mentia porque tinha que mentir. Mentia para manter a grande farsa que era a sua vida. Confirmado o dilema em que estava metida, Laura sentiu duas lágrimas caírem- lhe dos olhos. Os soluços aumentaram e ela começou a pensar no longo dia de trabalho que ainda tinha pela frente. Entrou em desespero por não se sentir capaz de o concluir. Nessa altura, alguém bateu à porta.
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    87 - Entre -Laura ordenou num tom seco, limpando rapidamente o rosto vermelho de tanto chorar. - Bom dia, Dr.ª Laura – Joana Lima entrou no consultório com um largo sorriso nos lábios. – Como está? - Escuta! Hoje não te vou poder acompanhar pela clínica – Laura ignorou o cumprimento da sua Interna. - Tenho uma cirurgia marcada para amanhã e vou ter que me reunir com o Dr.º Henrique para finalizarmos o plano cirúrgico. - A Dr.ª está bem?! Parece que andou a chorar - Joana não conteve a observação. - Ficas na Enfermaria. Já falei com a Dr.ª Cláudia Simões e ela ficará responsável por ti até o final do dia. - Eu não gosto de ficar na Enfermaria. Prefiro estar nas Urgências ou então a acompanhá-la nas visitas ao quarto dos pacientes. - Joana! Faz aquilo que te mandei! - Não posso ir hoje para as Urgências em vez da Enfermaria? - Não. - Porquê?! - Faz aquilo que te mandei, porra! O grito e a forma furiosa como Laura se levantou da secretária fizeram Joana tremer de medo. - Escuta! Vamos esclarecer as coisas de uma vez por todas!? Contrariamente ao que possas pensar, eu não te vou tratar de maneira diferente só porque és sobrinha de quem és. Ainda vais ter muitos anos de estrada antes de te atreveres a investigar a minha carreira, a sentar à mesma mesa que eu ou sequer a dirigir-me a palavra fora desta clínica. Por isso, minha menina, engole essa tua impáfia e reduz-te à tua insignificância, porque aqui dentro, infelizmente para ti, ainda não és nada...
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    88 O queixo deJoana continuou a tremer enquanto ouvia o discurso de Laura. Os olhos da médica, apesar de vermelhos e chorosos, faíscavam de raiva. Nem parecia a mesma. Parecia antes estar possuída por um espírito maléfico. - Quero-te na Enfermaria agora! Caso não compareças junto à Dr.ª Claúdia daqui a cinco minutos, considera terminado o teu Internato nesta clínica – Laura apressou- se a abrir a porta do seu consultório. – Agora sai-me daqui antes que eu perca a minha paciência contigo! Sai… Sentimentos de ódio, humilhação e raiva inundaram as veias de Joana quando esta se dirigiu para a Enfermaria. Pelo caminho a jovem incitou as primeiras lágrimas, furiosa por ter sido tratada daquela maneira pela sua Orientadora. Quando atravessou as portas automáticas desfez-se num choro compulsivo imediatamente socorrido pelos seus colegas de trabalho. Todos quiseram saber os motivos que a levaram a entrar naquele estado, e Joana, tal como se era de esperar, não poupou nenhum detalhe acerca da conversa que tivera com a sua Orientadora. Acusou-a de maus-tratos, gritos e violência. - Bem! Isto hoje está animado... Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe da clínica, conseguiu sarcasticamente dispersar o aglomerado de funcionários à volta de Joana, que um pouco mais calma, bebia na altura um copo de água com açúcar oferecido pela Drª Cláudia Simões. - Algum problema? – Rita aproximou-se calmamente da Interna. - Nenhum – Joana enterrou os lábios no copo de água que tinha nas mãos. - Então se não há problema, podemos todos voltar ao trabalho, não?! A operação estava marcada para dali a quarenta e oito horas, sendo por isso necessário definir a equipa de enfermeiros e auxiliares técnicos que se iriam apresentar no bloco operatório. Rita Azevedo cumpriu exemplarmente essa tarefa. Criou a equipa em duas horas e apressou-se a levar os resultados aos dois Neurocirurgiões de serviço para que estes aprovassem. - Consegues ver este inchaço!? - Henrique mostrou a Laura o Raio X num visor em grande plano. –Não me parece que vá ser muito difícil conseguirmos extrair…
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    89 - Peço desculpas– Rita ofereceu um toque na porta antes de entrar na sala de exames. – Espero não ter chegado muito atrasada. - Não! Chegaste na hora certa – Henrique correspondeu ao sorriso da enfermeira. - Fiquei presa nas Urgências, mas já cá estou. - Já tens os nomes? – Laura serviu-se de um novo café junto à máquina. - Já destaquei um anestesista, três enfermeiros, uma auxiliar de acção médica e um assistente interno. Os nomes estão aqui – Rita entregou uma pasta transparente a Henrique. – Espero que não haja nada contra para podermos fixar a lista no placar de operações. - Por mim parece-me bem – o médico entregou a lista a Laura que rapidamente deu uma vista de olhos e concluiu o mesmo. - A cirurgia vai ser realizada no bloco quatro, sala dois – Rita informou. - Bom trabalho – Henrique concluiu. - Desculpa Henrique, mas eu ia-te roubar a Laura só por uns minutinhos. Pode ser?! - Claro! Ela é toda tua – o médico brincou. - Acompanhas-me até ali fora, Laura? Precisava falar contigo. Laura acedeu ao pedido de Rita após ter engolido a última gota de café. O único líquido capaz de aniquilar as terríveis dores de cabeça que estava a sentir. Depois de deitar o copo de plástico ao lixo, a médica acompanhou a enfermeira até ao corredor principal. - Houve algum problema contigo hoje de manhã? – Rita perguntou. - Não!Porquê?! - É que estão todos a comentar que a tua Interna chegou à Enfermaria com um ataque de pânico, lavada em lágrimas e a dizer que gritaste com ela e que praticamente a agrediste. Isso é verdade?
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    90 - Rita! Euestou-me nas tintas para as cenas que aquela piralha faz ou deixa de fazer. Aqui dentro, ela não passa de uma Interna, e enquanto não aprender a comportar-se como tal, podes crer que ainda vai ter muitos ataques de pânico por minha causa. - Este assunto não teria a mínima importância se eu não tivesse ouvido o que ouvi ontem à noite enquanto estava de plantão. - O que é que ouviste? - O director da clínica e o Dr.º Alfredo conversarem sobre uma possível saída. Parece que o Dr.º Alfredo vai-se reformar em Setembro, e tal como deves calcular, o lugar dele vai ficar vago. - E o que é que eu tenho a ver com isso? - O Dr.º Alfredo indicou o teu nome para ocupar o lugar. O coração de Laura disparou com a notícia. - O quê?! - Isso mesmo que ouviste - Rita confirmou a notícia. - Pode estar bem próxima a tua nomeação para um dos cargos mais importantes desta clínica. Tu, Laura! Aos trinta e nove anos. Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. - Tens a certeza que ouviste bem? - Achas que te iria dizer isto sem ter a certeza? Eu ouvi o Dr.º Alfredo dizer com todas as letras que de todos os cirurgiões desta clínica, tu eras a mais indicada para ocupar o cargo. Independentemente da tua idade, já tinhas dado provas mais do que suficientes de que eras merecedora do lugar. E devo-te dizer que concordo com ele. Esta última jogada do paciente dos dois tumores foi de mestre. Veio na altura certa. Ninguém vai ter coragem de discutir a decisão do director se ele resolver nomear-te. - O Dr.º Alfredo está cá hoje? - Não! Supostamente partiu hoje de manhã para um Seminário em Madrid. Só volta daqui a duas semanas. Vais ter que esperar – Rita segurou os ombros da médica. – Mas tem calma! No momento certo vais saber da tua nomeação. Agora o que não podes é deixar que alguém desconfie disto que te acabei de contar. Não
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    91 podes deitar tudoa perder. Sabes bem que as paredes nesta clínica têm ouvidos e sabes também que tens muitos inimigos aqui dentro. A começar pela tua nova Interna. - Podes deixar! A partir de hoje vou ter mais calma – Laura aceitou os conselhos da sua amiga. - Tens nove meses para a aturar. Depois da tua nomeação, aniquila-a! - É o que eu pretendo fazer. - Se precisares de ajuda, diz - as duas amigas sorriram de forma cúmplice. - Drª Laura! Dr.ª Rita... A voz de uma auxiliar de enfermagem irrompeu o corredor. - Diga, Margarida - Rita enfiou a caneta no bolso frontal da sua bata. - Peço desculpas por interromper a conversa, mas precisamos urgentemente de reforços. Um acidente de viação com dez vítimas mortais e cerca de três dezenas de feridos graves e muito graves... Num reflexo automático, Laura e Rita voaram em direcção às escadas de serviço. Desceram quatro lances de escadas e assim que chegaram ao piso das Urgências, afogueadas, depararam-se com um ambiente verdadeiramente aterrador. Corpos inanimados transportados em macas, o sangue entranhado lençóis e nas roupas das vítimas, o choro descontrolado das crianças, os gemidos dos adultos e o desespero dos familiares que tentavam acompanhar tudo o que se passava rezando para que aquele pesadelo tivesse fim. Foi tudo muito rápido, um senhor idoso contava. Animados para uma excursão ao Palácio da Pena ninguém compreendia os motivos que levaram o condutor perder o controlo do autocarro que dirigia. O veículo caiu de uma ribanceira e emaranhou-se por entre a densa floresta da vila de Sintra sendo encontrado minutos depois por um grupo de turistas que por ali passavam. Durante as seis horas que esteve no bloco operatório preparado de urgência a tentar remediar os estragos gravíssimos do tecido cerebral de uma das vítimas do acidente, Laura esqueceu-se de todos os problemas que atormentavam a sua vida e retomou o seu papel de médica.
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    92 A sua concentraçãooutrora perdida voltou no minuto em que lhe surgiu nas mãos uma vida humana para salvar. Um rapaz de dezassete anos que acompanhava os avós naquela excursão e que infelizmente foi incapaz de resistir ao impacto da queda. Horas depois sucumbiu perante toda a equipa médica presente no bloco operatório. Não houve nada a fazer quando o seu coração foi atingido por uma súbita paragem cardíaca que o deixou inanimado sobre a mesa de operações. Hora de óbito: 17h45m. A voz do médico assistente contrastou com o silêncio ensurdecedor que se fez ouvir na sala. E num dia que mais parecia não ter fim, Laura lançou as luvas sujas de sangue ao chão, afastando-se do cadáver sobre a mesa de operações. Estava irritada. Furiosa. Odiava perder uma batalha e era exactamente isso que tinha acabado de acontecer. Sem conseguir controlar o ódio que se apossou de si, a médica esmurrou as portas automáticas e aguardou que estas se abrissem para que pudesse sair. Pelo caminho, enquanto arranjava coragem para transmitir a terrível notícia aos familiares da vítima, retirou a máscara que tinha no rosto e livrou os cabelos lisos da toca. Teve a nítida sensação de que provavelmente aquele havia sido o seu pior dia enquanto profissional de saúde. Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe do hospital, também teve a mesma sensação quando se aproximou de Laura ao final da noite. Viu-a sozinha no refeitório com os olhos postos na janela enquanto a chuva continuava a cair torrencialmente lá fora e pressentiu-a a milhares de quilómetros dali. Laura bem tentou esquecer-se de todos os problemas que a atormentavam, mas estes não lhe pareciam querer dar tréguas. Subitamente vieram-lhe à cabeça pequenos flashes de memória. Imagens que iam e vinham a uma velocidade fantasmagórica, mas que se mostravam sempre presentes no seu subconsciente. O toque das mãos do cunhado no seu corpo, o hálito intenso a tabaco que a boca dele emanava e a forma como ele a possuiu sem restrições no interior de uma cozinha onde ela convivia diariamente com o marido e os filhos. Todos estes pensamentos fizeram-na fechar os olhos e soltar um longo suspiro de aflição que se tornou audível aos ouvidos de Rita quando esta se aproximou. - Hoje morreram quinze pessoas na clínica - a enfermeira encostou-se a uma das mesas do refeitório. - Já devíamos estar habituadas, não!? - Laura passou as mãos pelo rosto cansado. - Impossível habituarmos-nos à morte ainda que lidemos com ela todos os dias.
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    93 Laura manteve-se emsilêncio, mas aceitou a mão que Rita lhe ofereceu em seguida. Apertou-a com todas as forças que possuía dentro de si, ansiando encontrar alguma paz de espírito naqueles cinco dedos. - Tenho que voltar para as Urgências! Aquilo está um caos – Rita informou após vários minutos em silêncio. – Ficas bem? - Fico. - Vai para casa! Já é tarde. - Acho que é mesmo isso que vou fazer. - Ainda existe um mundo lá fora, sabias?! - Rita despediu-se da médica com um beijo doce na face. - Sabia - Laura sorriu-lhe carinhosamente. - Adoro-te! - Eu também. O relógio sobre o elevador de serviço indicou vinte e duas horas e quarenta minutos. Pronta a dar o dia como terminado, Laura esperou que as portas se abrisse e saiu no terceiro piso. Pelo caminho cumprimentou uma funcionária de limpeza que varria o corredor distraidamente e voltou a lançar os olhos ao seu relógio de pulso imaginando que porventura àquela hora o marido e os filhos já estariam a dormir. Entrou no seu consultório e livrou-se da sua bata, mas o telefone sobre a secretária tocou poucos segundos depois como se estivesse à sua espera. A recepcionista avisou-a de que tinha uma chamada em linha. Pode passar, ela ordenou. Laura aguardou alguns segundos até que a chamada fosse estabelecida. Enquanto esperava, sentou-se sobre a secretária, cruzou as pernas e observou a chuva a cair lá fora. Voltou a passar as mãos pelos cabelos desalinhados e enterrou a mão esquerda no seu pescoço. Massajou-o com força. Aquelas dores continuavam a atormentá-la. - Acho que cometi uma loucura.
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    94 O coração deLaura disparou como uma flecha quando reconheceu a voz da pessoa que se encontrava no outro lado da linha. - Onde estás? - ela levantou-se da secretária, atónita. - Não cheguei a embarcar! Desisti no último minuto. Laura passeou atordoada pelo consultório sem conseguir dizer nada. - Ouve! Estou a ficar sem moedas. Aponta a morada do hotel... Com as mãos trémulas, Laura alcançou um pequeno bloco de notas sobre a secretária e escreveu às pressas o endereço e o contacto telefónico do hotel. O edifício, localizado no centro de Lisboa, ficava exactamente a quinze minutos da clínica onde ela trabalhava. - Podes vir agora?
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    95 9 Numa noite emque era praticamente impossível ver o asfalto devido à intensidade da chuva, Laura conduziu o seu jipe pelas ruas da cidade com cautela. Veio directamente do trabalho, trajando apenas uma saia preta recta e uma blusa branca ligeiramente aberta no decote. O seu cabelo, eriçado pela chuva, estava húmido. Ela tentou alisar os fios com os dedos, mas desistiu pouco tempo depois procurando uma fivela na sua mala. Não a encontrou. Tempo depois estacionou o carro em frente a um hotel. Procurou o guarda-chuva no banco de trás, mas também não o encontrou. Vestiu o casaco às pressas e correu em direcção à longa marquise que abrigava o prédio principal do hotel. Quando chegou ao local, a porta dupla abriu-se. Ela parou e ajeitou o casaco, sacudindo a chuva. Levantou os olhos e viu o porteiro, um homem corpulento e aprumado que a cumprimentou cordialmente. Ela fez o mesmo, passando apressada por ele na esperança de que os seus rostos não se cruzassem. O hotel não era luxuoso embora parecesse moderno e acolhedor. À entrada, encontravam-se espalhadas algumas mesas e dois sofás gigantescos ocupados por um grupo de jovens acabados de chegar de viagem. Ao fundo era visível um bar bastante movimentado. O chão feito de mármore apresentava um longo tapete vermelho persa que se estendia até à recepção do hotel, muito bem decorada com vasos negros, quadros abstractos e o sorriso radiante da única recepcionista de serviço que naquele preciso momento entregava as chaves do quarto a um casal britânico. - Boa noite – ela ofereceu um novo sorriso a Laura. - Posso ajudá-la? - Boa noite – a médica mostrou-se pouco receptiva a corresponder à simpatia da funcionária. - Quarto 408…
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    96 A recepcionista feza chamada para o quarto indicado e logo em seguida informou que ela podia subir. Laura seguiu então em direcção ao elevador de serviço. Entrou sozinha mas não deixou de se sentir menos nervosa por isso. Ainda tinha seis pisos para mudar de ideias e reparar o grande erro que cometera ao resolver aceitar aquele convite. Seis pisos para recuar no tempo. Seis pisos para recuperar a pouca sanidade mental que ainda lhe restava. Seis pisos que rapidamente se transformaram em cinco, quatro, três, dois, um. À medida que o visor indicava a ascenção dos pisos, uma força oculta impediu-a de escutar o seu subconsciente, obrigando em vez disso a sair do elevador e a percorrer cautelosamente um corredor às escuras. As portas foram surgindo uma a uma. 405, 406,407 e finalmente, 408, o número que tanto havia procurado. Houve um ligeiro momento de pausa. De hesitação. Um momento conjugado com a incerteza de estar a cometer uma loucura. - Vais continuar aí especada? Laura foi surpreendida, sozinha, no meio do corredor. Sorriu ao ver o rosto do cunhado quando ele esticou o pescoço atrás da porta e lhe mostrou um sorriso malandro e debochado. Não conseguiu resistir. Mudou rapidamente de ideias. Chegou à conclusão que a a sua fuga não resolveria nada e nem serviria como mote para recuperar a tal sanidade mental que parecia intrínseca à sua personalidade sempre recta e formal. Aliás, como recuperar algo que simplesmente deixava de existir sempre que se encontrava na presença de um homem que lhe provocava verdadeiros espasmos de loucura. Ricardo abriu passagem e ela passou por ele, de cabeça baixa, inundando-o com o seu perfume a rosas. Escassos segundos que o permitiram sorrir e fechar a porta com cuidado. Seguiu-a com os olhos. Reparou nas suas costas bem formadas e na gabardina cinzenta ainda molhada pela chuva. Os cabelos caíam-lhe um pouco acima dos ombros e as suas mãos permaneciam nervosas dentro dos bolsos do casaco. Jamais pensou vê-la ali. Parecia uma situação irreal que ele próprio criara quando se atreveu a procurar o seu nome na Internet, encontrando a morada do hospital onde ela trabalhava e tentando contactá-la durante dois dias seguidos sem sucesso. E agora ela estava ali. O quarto não era muito grande, Laura reparou. Decorado apenas com uma cama de casal, uma mesinha de cabeceira submersa em beatas, uma secretária vazia e um roupeiro que ainda abrigava duas malas de viagem ainda não desfeitas, parecia tudo menos pessoal. Era também possível entrar-se numa casa de banho pouco personalizada com azulejos de mármore em tons neutros e uma grandiosa cabine de duche. Quando regressou ao quarto, ela deu-se conta de que era uma habitação simples, sem muito luxos. Tal como o cunhado. Congratulou-o por isso.
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    97 - Então éaqui que agora te escondes!? – ela inquiriu depois de ter inspeccionado todos os cantos à casa. - Parece que sim! Gostas? - Gosto - ela não mentiu. Laura sentou-se sobre a cama e tentou esconder o nervosismo súbito que se apoderou de si. Mas esse nervosismo não desapareceu. Muito pelo contrário. À medida que o tempo ia passando e o cunhado caminhava em sua direcção, mais forte lhe batia o coração. Ricardo tocou-a na face, passou-lhe os dedos pelos lábios e desceu as mãos em direcção aos botões da sua blusa branca desapertando cada um deles, lenta e decididamente. Ela fechou então os olhos e deixou-se levar por um estranha onda de calmaria. Foi como se de repente tudo deixasse de fazer sentido ou de ter importância. Ali estava uma mulher de trinta e nove anos, uma Neurocirurgiã de sucesso, casada e mãe de dois filhos, mas também uma mulher completamente rendida ao desejo de pertencer ao irmão do seu marido. Um homem que naquele exacto momento lhe retirava a blusa do corpo. Que a livrou do soutien e se apoderou dos seus seios. Que se colocou atrás dela, cheirou o seu pescoço, os seus cabelos e mordeu a sua orelha esquerda. Que a fez suspirar de prazer quando lhe sussurou várias palavras obscenas aos ouvidos. Por instantes, Laura não teve outro remédio a não ser engolir o grande nó que atravessou a sua garganta. Cravou os dedos na nuca do cunhado e ansiou que aquele momento nunca mais tivesse fim. Sem pensar muito, ele sentou-se de novo ao seu lado e segurou-lhe a cabeça para que ela não pudesse escapar. Deu-lhe um longo beijo. Ela hesitou por uma fracção de segundo, mas logo retribuiu. Imediatamente todos os sentimentos de hesitação, medo, insegurança e culpa foram substituídos por uma euforia imensa. O que parecia impossível de manhã, concretizava-se agora à noite. Os seus rostos voltaram a afastar-se e ambos reencontraram o que estava ali há menos de um minuto. Loucura - agora somada à estupidez e à irresponsabilidade de um gesto que no caso de Laura iria agravar tudo. - Fode-me - saiu-lhe novamente essa palavra hedionda da boca. Durante o acto, ela não desviou os olhos de Ricardo um só segundo. Entregou-se completamente a ele, sentindo-o cada vez mais dentro de si, a transpirar por todos os poros e encharcando-a com o seu suor.
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    98 Ele parecia tomadopor um espírito oculto que o incentivava a querer mais e mais e ela submersa num desejo que mais parecia não ter fim. Irreflectidamente, Ricardo levou-a até à casa de banho e obrigou-a a entrar na cabina de duche. A água quente e os seus braços fortes mantiveram-na apoiada à parede. A respiração era quente contra o rosto dela. Laura estava tão hipnotizada pelos olhos de Ricardo que mal notou tudo o resto que a rodeava. O coração batia descompassado, enquanto o eco da água caía violentamente sobre o polibã. Estavam então face a face, ela com os braços à volta do pescoço dele, e ele com os braços por debaixo das suas nádegas, submersos um no outro, sem saber onde um acabava e o outro começava. Ricardo tinha esse dom. O dom de libertá-la das convenções sociais e da máscara que usava todos os dias com o intuíto de esconder as suas próprias fragilidades. Não era apenas sede pela boca dele ou o desejo de o ter por perto. Era antes um desejo de total integração, de fazer sexo primitivamente e de ser completada fisicamente. - O que é que eu vi em ti!? – ela passou-lhe as mãos pelos cabelos escuros quando os seus corpos finalmente sofreram algum descanso por entre os lençóis. – Não temos nada em comum. - Aí é que te enganas! Temos muito mais em comum do que imaginas. Laura concordou silenciosamente com a resposta de Ricardo, e em seguida, rendida àquele sentimento de pertença afundou-se na boca dele sem temer as consequências dos seus actos. Faz amor comigo outra vez, pediu e ele sem outro remédio viu-se obrigado a acatar o seu pedido. Quando terminaram, já a madrugada ia alta, ele intimou-a a voltar no dia seguinte. Infelizmente não obteve uma resposta positiva. Conformou-se com a promessa de que ela voltaria assim que pudesse. De olhos postos na janela, observou a sua figura esbelta a atravessar a rua a passos largos. Voltou a acender um novo cigarro e apoiou um dos braços sobre o vidro. Deliciou-se com a forma como a cunhada passou os dedos pelos cabelos desalinhados, como a sua gabardina esvoaçou ao sabor do vento, os seus saltos se prenderam ao passeio e como entrou no carro estacionado a poucos metros de um hotel onde haviam passado as últimas horas mergulhados num ambiente total de luxúria. Por fim, ela arrancou o veículo a alta velocidade e ele deu-se por vencido. Queria voltar a vê-la. Todos os dias. A todas as horas.
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    99 10 Os encontros deLaura e Ricardo no quarto de hotel onde ele se encontrava hospedado tornaram-se cada vez mais frequentes. Com horas de almoço prolongadas que a faziam atrasar-se para as consultas, chegadas tardias a casa e telefonemas escondidos no escritório a meio da noite, a verdade é que por mais que Laura tentasse, simplesmente não conseguia romper o ciclo vicioso no qual se tinha metido. Tudo parecia demasiado sórdido, egoísta e sinistro. Mas ainda assim, ela adorava aquela sensação e quis que voltasse a acontecer. Em três semanas encontraram-se cinco vezes. O nervosismo dos primeiros encontros desapareceu, dando lugar à vontade incontrolável de se verem todos os dias. Leonardo não merecia aquela traição. Laura não era tão cruel ao ponto de pensar que sim. Muitas vezes sentia-se culpada por já não conseguir corresponder aos carinhos que ele lhe fazia, por já não ter paciência para longas conversas depois do jantar ou até mesmo para banhos demorados ao sabor de um bom vinho. Também havia algum tempo que não tinham uma relação sexual intensa. Num casamento isso era necessário, caso contrário, as dúvidas começavam a surgir. Ela esforçava- se. Continuava a esforçar-se. Nas últimas semanas, curiosamente, sentia-se mais apta e disponível a aceitar os avanços do marido e a correspondê-los de uma forma mais efusiva. Numa dessas vezes pensou no cunhado e chegou mesmo a a ter um orgasmo sem esforço nenhum. Mas o fazer sexo com o marido era completamente diferente. Não era num quarto de hotel em plena luz do dia, entre uma ou outra consulta com os minutos contados. Fazer sexo com o marido era um ritual mantido há muitos anos, apenas à noite, trancados no quarto sem emitir qualquer ruído sob pena de acordar ou traumatizar as crianças. Não havia mais nada a ser descoberto entre dois corpos que já se conheciam na perfeição. Tentava- se ao menos tirar partido das mesmas coisas, repetindo as mesmas posições, as mesmas palavras e fingindo prazer. Era como comer chocolate todos os dias sem nunca variar a marca ou o sabor.
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    100 Quarto 408, porfavor. Enquanto aguardava que a ligação fosse estabelecida, Laura voltou a lançar os olhos à porta da cozinha e não viu ninguém. Felizmente ninguém a estava ouvir. - Sou eu – ela disse quando Ricardo atendeu finalmente a chamada. - Eu sei. - Liguei-te durante o dia mas a recepcionista disse-me que não estavas no hotel. - Saí! Fui dar uma volta. - Quero ver-te - Laura não teve cerimónias em declarar a sua vontade. - Posso ir aí amanhã? - Deves - Ricardo alcançou um maço de tabaco sobre a mesinha de cabeceira. - A que horas? - À hora do almoço! Acho que consigo atrasar uma consulta. - Combinado! Se não apareceres, vou eu atrás de ti! Procuro-te onde estiveres... Laura sorriu discretamente ao telefone. - Tenho que desligar. - O meu irmão está aí? - Não! Mas não me posso demorar! Ligo-te amanhã para combinarmos melhor. Quando desligou a chamada, Laura manteve o telemóvel sobre os lábios e sentiu o seu coração aos pulos. Nunca sentira nada idêntico. Nada tão forte. Tão tóxico. Provavelmente ninguém em sã consciência compreenderia os motivos que a levavam a encontrar-se com um homem como Ricardo. Na verdade, nem ela compreendia e era essa mesma incompreensão que a impelia a querer estar com ele todos os dias. Depois de arrumar a cozinha e a desarrumação deixada pelos filhos na sala, Laura desligou o televisor e apagou as luzes acesas ao longo da casa. Começou pela cozinha, seguiu até ao candeeiro ao fundo do corredor, desceu as persianas automáticas da sala e terminou a empreitada com o fecho de luz da casa de banho de serviço provavelmente deixada acesa pelas crianças.
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    101 Ao passar peloescritório, encontrou o marido debruçado sobre a secretária envolto em papéis, réguas e esquadros. Leonardo parecia estranhamente compenetrado sem se deixar distrair por nada mais do que trabalho que estava a fazer. Trancou-se ali dentro depois de ter enfiado os filhos na cama. - Ainda vais demorar muito? - Laura encostou a cabeça ao alpendre da porta. - Mais ou menos. - O que estás a fazer? - Algumas alterações na planta de um novo SPA que vamos agora começar a construir em Telheiras. - E o projecto do RESORT? Como é que está a correr? - Bem... - Antes que me esqueça! Temos que comprar esta semana os fatos de Carnaval para as crianças – a voz de Laura saiu rouca e ela tossiu para a clarear. – A professora veio falar comigo quando os fui buscar hoje ao colégio. Parece que vão fazer uma festa qualquer e querem os miúdos mascarados. - Não sei se consigo tratar disto esta semana! Estou atolado de trabalho. - Pedimos à Alicia para comprar os fatos. Mas acho que não vou conseguir ir à festa. Vou estar a trabalhar nesse dia. - Pois... - Leonardo deslocou-se ao longo da mesa para melhor concluir uma recta que estava a desenhar. - Às vezes esqueço-me de que o teu trabalho é muito mais importante do que os nossos filhos. - O que é que queres dizer com isso? - Laura cerrou os olhos. - Sabes bem! És uma mulher inteligente. - Vou-me deitar. - Laura! Estou farto disto - Leonardo largou violentamente a régua que tinha nas mãos e assustou a mulher com a sua voz imperiosa. - Farto do teu mau-humor.
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    102 Das tuas doresde cabeça à hora de dormir. Dos teus gritos com os miúdos. De andares sempre com a cabeça na lua. Estou farto! E estou farto também de fingir que não se passa nada… - Eu não vou discutir contigo. - Já reparaste que nós nunca discutimos? - E é esse o problema? Não discutirmos?! És o primeiro homem a queixar-se disso. - É claro que é um problema! Todos os casais discutem, conversam, trocam ideias, mas no entanto nos últimos tempos tu teimas em fugir às nossas conversas e fingir que está tudo bem. Não. Não está tudo bem. Eu e tu sabemos isso. Só que eu pelo menos estou disposto a colocar todas as cartas na mesa e a fazer de tudo para salvar o nosso casamento. - Salvar o nosso casamento? - ela voltou a cerrar os olhos. - O que é que estás para aí a dizer!? - Sim, Laura! Salvar o nosso casamento, porque se ele continuar assim, não vai durar muito tempo. - O nosso casamento só não vai demorar se tu não quiseres. Se continuares a inventar problemas onde eles não existem. Vou-me deitar! Boa noite... – foram as últimas palavras da médica antes de abandonar o escritório perante o olhar furioso do marido.
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    103 11 A empregada Aliciaencarregou-se da tarefa de comprar os fatos de Carnaval para a festa dos gémeos. André quis mascarar-se de Pirata e João de Super Homem. Os dois encontravam-se entusiasmados com a festa e também com o desfile de máscaras. Falavam no assunto a cada cinco segundos sempre que se encontravam na presença dos pais, intimando-os a comparecer ao evento. A tradição mantinha-se e não havia como faltar. Pais, alunos, professores e funcionários administrativos reuniam-se no grande pavilhão desportivo, partilhando momentos de pura diversão numa época festiva que tanto dizia às crianças. Por não ter como fugir às suas responsabilidades, Leonardo reajustou os seus horários no trabalho delegando parte das suas funções à equipa com a qual trabalhava diariamente. Laura, sem outro remédio, também se viu intimada a reorganizar as suas folgas e a desmarcar pelo menos duas consultas que lhe pareceram pouco importantes. Era um sacrifício a fazer pelos filhos, ambos sabiam-no bem, embora encarassem as coisas de forma diferente. Leonardo comparecia a estes eventos com um largo sorriso nos lábios disfrutando das brincadeiras e peripécias dos filhos e dos seus colegas de turma. Era simpático com todos, tentava perceber quais eram as dificuldades de aprendizagem dos filhos e interessava-se pelas actividades extracurriculares propostas pelos professores. Laura nem por isso. Em situações similares em que se sentia realmente entediada, a médica sentava-se a um canto e olhava a cada cinco segundos para o seu relógio de pulso. Não tinha paciência para participar nas brincadeiras dos filhos e nem mesmo para fingir sorrisos a pessoas que não conhecia e nem lhe diziam nada. Também não era muito bem vista pelos professores devido às suas constantes faltas às reuniões e aos atrasos inexplicáveis sempre que ia buscar André e João ao colégio.
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    104 - A Aliciajá saiu de casa com os miúdos. Vais lá ter connosco? - Leonardo perguntou à mulher pelo telefone a poucos minutos de sair do escritório rumo à festa dos filhos. - Sim - Laura abriu a porta do seu consultório. - Dá-me vinte minutos! Encontramo-nos lá. Laura desligou a chamada sem muitas delongas e lançou o telemóvel contra a secretária. Sentiu-se exausta. Cansadíssima. Após um plantão de vinte e quatro horas tudo o que desejava era manter-se ali de pé no meio do consultório sem mexer um único músculo corporal, pelo menos até retomar novamente consciência do seu papel de mãe. - Posso entrar?! - Claro - Laura esboçou um sorriso sincero a Rita Azevedo quando esta entrou no seu consultório. - Vou almoçar agora! Vens comigo ou ainda tens mais alguma coisa para fazer? - Por acaso tenho! Hoje não vou poder almoçar na clínica porque tenho uma festa dos miúdos para ir. - Deixa-me adivinhar! Carnaval?! - Nem mais – Laura despiu a sua bata branca e trocou-a pela sua gabardina cinzenta pendurada no bengaleiro. - Odeio o Carnaval. - Já somos duas! Mas parece que quando temos filhos somos obrigados a gostar de todas as datas festivas e ainda a gastar imenso dinheiro com elas. - É nestas alturas que não te invejo nem um pouco. Laura sorriu novamente à sua melhor amiga, mas não foi capaz de se pronunciar sobre o assunto. Também ela não se invejava nem um pouco. - Sabes que nunca te imaginei a ter filhos – Rita fez a observação.
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    105 - Porquê? -Laura continuou a arrumar os seus pertences sobre a secretária. - Porque quando nos conhecemos dizias que ter filhos era algo que não fazia parte dos teus planos. Que só querias saber da tua carreira profissional. Que não gostavas de crianças. E eu acreditei em ti. Realmente não te via qualquer instinto maternal. - Quando nos casamos com alguém cujo principal objectivo de vida é formar uma família. - Estás a falar do Leo? - Ele queria muito ter filhos. Eu apenas lhe fiz a vontade. - Foi só por isso que engravidaste?- Rita cruzou os braços, curiosa. - Não - Laura respondeu após um longo minuto de pausa. - Eu gosto dos meus filhos. Já não saberia viver sem eles. - És uma boa mãe. - Garanto-te que é muito mais fácil ser médica do que ser mãe. - Acredito. As duas amigas voltaram a rir-se alegremente, indiferentes ao novo toque na porte oferecido por Joana Lima. Quando viu a figura da sua Interna diante de si, a expressão facial de Laura alterou-se drasticamente. Do sorriso extremo, passou a um ódio incompreensível. Não havia dúvidas de que a presença daquela jovem a importunava como nenhuma outra. - Dr.ª Laura! Tem aqui o relatório semanal que pediu. - Põe-no aí em cima da mesa – a médica ordenou. - Há mais alguma coisa que eu possa fazer? - a pergunta de Joana saiu sarcástica e debochada. - Há! Almoçar... - Laura enfiou o seu telemóvel dentro da mala.
  • 106.
    106 - E depoisde almoçar? - Depois de almoçar tens a Enfermaria à tua espera. - Como queira! Afinal de contas é a Dr.ª quem manda - Joana voltou a sair do consultório sem perceber o olhar de profundo ódio que Laura lhe lançou. - Esta rapariga tira-me do sério. - Calma - Rita sugeriu à médica. - Lembra-te daquilo que te disse! Lembra-te da tua nomeação... - Eu sei – Laura respirou fundo e passou a mão pelos cabelos soltos. – Bem! Deixa- me ir andando! Não quero chegar atrasada à festa dos miúdos. Saída da clínica a poucos minutos do meio-dia, Laura enfiou-se no seu jipe e passou as mãos pelo rosto cansado com o desejo natural de dormir algumas horas após um plantão de vinte e quatro horas. Enquanto conduzia a uma velocidade cuidadosamente moderada, a médica ligou a rádio apenas para se manter acordada. A música frenética impeliu-a a tocar com os dedos no volante em frente a um semáforo vermelho e observar a fila de carros formada atrás de si. Tinha apenas dez minutos para chegar ao seu destino. O relógio sobre o tablier indicou- lhe essa informação. Dez minutos para voltar a interpretar o papel de mãe e esposa extremosa, ainda que a sua vontade tivesse sido interrompida pela vibração do telemóvel sobre a caixa de velocidades. Ao ver quem era o remetente, ela esboçou um ligeiro sorriso. O sinal abriu e ela arrancou o carro. - Ocupada?! – Ricardo abandonou a casa de banho com uma toalha enrolada na cintura. - A conduzir – Laura manteve uma das mãos apoiadas sobre o volante. – Por isso não posso demorar muito. - Porque é que não atendeste às minhas chamadas hoje de manhã? - Estava numa consulta. - E agora? Onde estás? - Já te tinha dito ontem que ia à festa de Carnaval dos meus filhos.
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    107 - E jádecidiste como vais mascarada? - Porque é que me estás a ligar? – Laura ignorou o comentário espirituoso do cunhado. - Acabei de sair do banho. Estou cheio de fome. - E o que é que eu tenho a ver com isso? - Nada! Só pensei em almoçar-te... Ao ouvir aquela proposta indecente ao telefone, Laura não teve outro remédio a não ser sorrir em silêncio e parar o carro em frente a um novo semáforo vermelho. - Vem ter comigo agora – Ricardo serviu-se de um copo de água junto à mesinha de cabeceira. - Não posso - ela reduziu a caixa de velocidades. - Já te disse que tenho a festa dos miúdos. - Eles não se vão importar se chegares um pouco atrasada. O silêncio fornecido pela cunhada no outro lado da linha deixou a certeza a Ricardo de que a sua proposta não era tão descabida quanto isso. Laura não conseguia resistir a nenhum convite seu e nem esconder que adorava aqueles momentos onde podia libertar todas as tensões reprimidas ao longo da semana sem conversas desnecessárias ou desculpas de qualquer ordem que pudessem justificar o seu simples desejo de fazer sexo. Nenhuma justificação intelectual ou psicológica. Queria ter sexo. Ponto final. - Uma hora é tudo o que te posso dar – ela disse por fim. - Não te preocupes! Tu sabes que eu me contento com pouco. Não foram precisas outras justificações para que Laura virasse o carro na primeira esquina e seguisse a direcção contrária à do colégio dos filhos. Fê-lo inebriada por uma força oculta que a conduziu até a um quarto de hotel que tão bem conhecia.
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    108 Sessenta minutos erao tempo que possuía para se entregar ao cunhado. Por isso, assim que ele abriu a porta do quarto, ela atirou-se para os braços dele e sufocou-o com um longo beijo. Não disseram absolutamente nada um ao outro pois já se conheciam. Conheciam o motivo de cada suspiro e já não precisavam pedir permissão para se tocarem. Fizeram amor sobre a secretária, indiferentes aos ponteiros do relógio e indiferentes também ao toque irritante do telefone sobre a mesinha de cabeceira. Tão irritante que obrigou Ricardo a tirar o ascultador da zona de descanso para melhor se concentrar no que estava a fazer. Uma hora tinha sido o tempo oferecido pela cunhada e ele não pretendia desperdiçar um minuto sequer. - Tens um sinal aqui nas costas - Ricardo passou os dedos sobre o corpo desnudo de Laura sobre a cama. - Eu sei! Apareceu-me durante a gravidez. - Assim do nada?! - Deve ter sido das injecções que tomei. - Injecções!? - Não tive uma gravidez propriamente fácil. Ricardo calou-se ao constatar a pouca vontade de Laura em continuar a falar sobre o assunto. Continuou a passar-lhe as mãos pelo corpo nú. Os braços, as costas e as nádegas. Eram perfeitas. Arrebitadas, com uma coloração ligeiramente rosada e em forma de lua. Ele apertou-as com força e tentou mordê-las. Ela irritou- se e empurrou-o para longe. Avisou-o que se tinha que ir embora. - Nem penses - ele impediu-a, colocando-se por cima dela. - Já te disse que não posso ficar. - Porque é que as coisas têm que ser sempre como queres, hã?! Porque é que passas a vida a ditar ordens aos outros à espera que eles obedeçam? - Larga-me! - Não te vou largar!
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    109 - Larga-me! - Jádisse que não te vou largar - Ricardo prendeu-lhe os pulsos à cama, afundou- se nos olhos dela e viu neles uma expressão de ódio. - Ficas aqui comigo porque eu estou a mandar. - Estás-me a magoar. - Se ficares quieta, vou parar de te magoar! Agora fica quieta! Fica quieta... Ela debateu-se como um animal selvagem. - Fica quieta, porra! O grito de Ricardo paralizou os movimentos de Laura. Exausta e sem forças, a médica não teve outro remédio a não ser resignar-se à vontade do cunhado. Constatou igualmente que ao contrário de todas as pessoas que a rodeavam e que se curvavam perante a sua figura, Ricardo era o único que a enfrentava e a desafiava sem medo de a contrariar. Com ele, ela sentia-se completamente desarmada e desprotegida. Não havia como negar. Era ele quem mandava naquela estranha relação e secretamente ela começava a gostar disso. Beijaram-se mais uma vez. O desejo voltou a crescer. Ricardo obrigou-a a virar-se de costas e esticou o braço para fora da cama a fim de encontrar sobre a mesinha de cabeceira o que estava à procura. Um preservativo. Abriu-o e colocou-o sem muito esforço, mantendo-a presa na mesma posição. Mais tarde, encontrou na primeira gaveta da mesinha de cabeceira algo semelhante a um lubrificante. Beijou-a nas costas desnudas e puxou o cobertor para cima a fim de lhes tapar os corpos. Não se viu absolutamente nada depois disso. O quarto ficou às escuras, e por breves instantes, o silêncio tomou conta da atmosfera até se ouvir um grito de dor. Atordoada e ainda em estado de choque com o que tinha sentido, Laura tentou desesperadamente livrar-se dos braços do cunhado. Quando conseguiu, livrou-se também do cobertor e deu-lhe uma valente bofetada no rosto a fim de demonstrar a sua total indignação por aquilo que ele tinha acabado de tentar fazer. Ricardo sorriu e levou a mão à face violentada. Segurou-a de novo nos pulsos e perguntou: - Vais-me dizer que nunca fizeste isso? Mentira. Tentara fazer duas ou três vezes por iniciativa do marido, mas paravam sempre a meio. Ele não gostava da dor e ele nunca a pressionou a fazer nada contra a sua vontade.
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    110 - Vem cá- Ricardo trouxe-a com carinho para junto de si e acariciou-lhe a face rosada. - Prometo que não vai doer se ficares relaxada. Não tenhas medo. Confia em mim... Após terem feito inúmeras loucuras com os seus corpos, os dois amantes adormeceram exaustos sobre a cama. Nem sequer ouviram as inúmeras chamadas provenientes do telemóvel de Laura que se encontrava no bolso da gabardina jogada a um canto da habitação, ou sequer o barulho das sirenes de um carro de bombeiros numa cidade que ao contrário deles parecia nunca dormir. Passaram-se horas, quatro talvez. A tarde caminhava para o final quando Laura abriu os olhos e procurou saber onde se estava. Observou o corpo do cunhado a dormir ao seu lado, de braços abertos, totalmente relaxado. Observou também as roupas espalhadas pelo quarto. Os estores cerrados, duas taças de vinho inacabadas e o cheiro de um cigarro a fumegar sobre o cinzeiro. Quando finalmente se veio a si e ouviu o seu telemóvel vibrar pela milésima vez, saltou da cama e apressou-se a segurar o aparelho nas mãos. Merda, disse em voz baixa. Deparou-se com onze chamadas não atendidas do marido e duas mensagens de texto a perguntar onde estava. Saída do hotel sem sequer se dignar a acordar o cunhado, Laura correu em direcção ao seu carro estacionado a poucos metros do edifício. Abriu as portas e atirou todos os seus pertences lá para dentro com o intuíto de desaparecer daquela rua o mais depressa possível. Faltavam poucos minutos para as cinco horas e com certeza a festa de Carnaval dos filhos estava prestes a terminar. Culpada e cheia de remorosos, a médica arrancou o carro a alta velocidade sem sequer colocar o cinto de segurança. A sinalética electrónica do automóvel alertou-a para esse facto e ela não viu outro remédio a não ser obedecê-la. Pelo caminho, com lágrimas nos olhos, Laura desviou-se de inúmeros veículos. Tentou seguir o caminho mais rápido para chegar ao colégio dos filhos, mas a luz vermelha de um semáforo obrigou-a a parar no meio de um cruzamento vazio. Exasperada ela esperou. Esperou. Esperou. E num acto de pura insanidade, quando chegou à conclusão que já não tinha absolutamente nada a perder, passou o sinal vermelho com um arranque demente que por pouco não a obrigou a chocar contra um veículo que vinha em direcção contrária. Na altura, os seus reflexos permitiram que ela desviasse o seu jipe a tempo e fizesse uma manobra extrema. Uma valente guinada no volante e o pé no acelerador, enquanto ignorava os insultos e a buzina do condutor se viu obrigado a parar no meio do cruzamento. Chegada ao colégio dos filhos ainda com o coração aos pulos, Laura saiu do carro às pressas e correu em direcção ao grandioso pavilhão desportivo onde a festa de Carnaval das crianças ainda decorria.
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    111 Tentou encontrar osfilhos e o marido por entre a multidão. Pôs-se em bicos de pés e esticou o pescoço a fim de os ver, mas não conseguiu vislumbrar nenhuma figura conhecida. Será que já se tinham ido embora, passou-lhe essa ideia pela cabeça. Foi uma sensação horrível não saber onde estavam. Encontrar rostos desconhecidos, esbarrar-se em pessoas que nada lhe diziam, enquanto um nó na garganta a impedia de respirar. Quando estava prestes a entrar em desespero, Laura conseguiu finalmente avistar o marido ao fundo do pavilhão a conversar com a professora dos filhos. Logo em seguida, viu também André e João numa corrida desenfreada à volta da empregada Alicia, divertidos com a festa e com a tarde bem passada. Nenhum dos dois parecia sentir a falta da mãe ou lembrar-se sequer da sua existência. - Boa tarde – Laura aproximou-se do marido e da professora dos filhos com uma expressão de culpa. - Boa tarde! Como está, D. Laura? - a professora apertou-lhe a mão. - Bem - a médica respondeu, embora os seus olhos vermelhos denunciassem o contrário. - Peço desculpas pelo atraso, mas foi-me impossível chegar mais cedo. - Não faz mal - a professora oferceu-lhe um sorriso amarelo. - O importante é que as crianças se estão a divertir. Laura lançou um olhar furtivo a Leonardo e viu-lhe uma expressão furiosa no rosto. Não era a primeira vez que algo semelhante acontecia. Os atrasos constantes da mulher, as desculpas esfarrapadas e a sensação de que na vida de Laura tudo era mais importante do que ele e os filhos começava aos poucos a assombrar a paciência do arquitecto. Eram onze anos do mesmo e as coisas não pareciam estar a melhorar. Numa tentativa de fugir aos olhares recriminadores do marido, Laura abrandou a correria dos filhos. Segurou-os no braço e agachou-se perante eles. Observou-lhes os rostos com atenção. Eram exactamente iguais. Impressionante como nunca se tinha dado conta disso. Tinham os mesmos traços físicos, a mesma altura e os mesmos olhos castanhos profundos reluzentes. Subitamente sentiu-lhes o maior amor do mundo. Não mentira quando naquela tarde disse à sua amiga Rita que os filhos eram as pessoas mais importantes da sua vida. Apesar de todas as suas fraquezas, defeitos e fragilidades, ela amava-os e não se imaginava a viver sem eles. - A mãe pede desculpas pelo atraso! Juro que tentei vir mais cedo...
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    112 Como única resposta,André disse: – Não gosto de ti – e isso foi o suficiente para destruir o coração de Laura e deixá-la novamente de lágrimas nos olhos. – És má! O poder de síntese das crianças era absolutamente assombroso. Numa única frase, André conseguiu exprimir um conceito complexo e tudo o que sentia pela mãe. Por um momento, Laura esperou que aquele "és má" não fosse dirigido à sua pessoa, mas à medida que o tempo ia passando e o rosto furioso do filho a fitava com raiva e desconfiança, a médica percebeu que apenas estava a pagar pelos seus erros. Duas palavras tão pequenas para a repreender, mas que foram suficientes para a chamar à razão. - André! Pede imediatamente desculpas à tua mãe – Leonardo tomou o braço do filho e sacudiu-o com força. – Agora! - Não – ele voltou a enfrentar o rosto mortificado de Laura. – Ela prometeu que vinha e não veio. - Eu tenho uma ideia – Alicia, a empregada, adiantou-se àquela cena constrangedora. Tomou os gémeos pela mão. – Porque é que não vamos lá para fora, hã meninos?! Alicia não necessitou de muito esforço para levar as crianças consigo. Segundos depois a professora despediu-se dos pais dos seus alunos, tentando esconder o choque e o desconforto que aquela cena lhe provocara. Laura derramou uma lágrima rapidamente amparada e escondida. Sentiu-se o pior ser humano à face da terra. Leonardo teve que se controlar para não se afastar dela. - Juro que tentei chegar a horas. - O problema é que tu nunca cumpres o que prometes, Laura - a voz do marido saiu amarga, mas segura. Naquela noite, Laura não jantou. Estava demasiado magoada e triste com todos os acontecimentos que assolaram o seu dia para sequer se atrever a engolir qualquer alimento sólido. Pensava como havia sido possível adormecer ao lado do cunhado e esquecer-se dos próprios filhos. Que espécie de mãe era ela? Que tipo de mãe é capaz de ignorar os filhos em troca de duas horas de prazer ao lado de um homem? Sim. Ela era má tal como André dissera e não merecia sequer ser mãe de duas crianças maravailhosas que a única coisa que pediam em troca era a sua atenção, o seu carinho e amor.
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    113 Deitada no divãda sala, com um cobertor sobre o colo, Laura ignorou os ruídos provenientes da televisão e voltou a limpar o nariz entupido. Ignorou também a conversa do marido e da empregada no corredor da casa. Alicia tinha-se disponibilizado para desmascarar os gémeos e pô-los na cama. Deu-lhes o jantar e arrumou a cozinha sem olhar para o adiantado das horas. Por fim, quando terminou todas aquelas tarefas fora do seu horário de trabalho, despediu-se do patrão com a promessa de que voltaria no dia seguinte à mesma hora. - Obrigado, Alicia - Leonardo forçou-lhe um sorriso triste. - Não precisa agradecer, Sr.º Leonardo! O importante é que correu tudo bem. As crianças adoraram a festa e se divertiram. - É... - o arquitecto respondeu sem muita convicção. Apesar da empregada lhe ter desejado uma boa noite a poucos minutos de se ir embora, Laura ignorou-lhe o cumprimento. Não porque não quisesse responder, mas simplesmente porque não teve forças para isso. Minutos depois, Leonardo voltou a entrar na sala e desligou o televisor perante o seu olhar distraído. Não havia mais como fugir, ambos sabiam-no bem. Tinha chegado a hora de conversarem e colocarem todas as cartas na mesa. - O que é que se passa contigo? - o arquitecto sentou-se sobre a mesinha, à frente do divã onde se encontrava a mulher. - O que houve? Algum problema lá na clínica? - Não – ela soluçou e limpou o nariz com um lenço de papel. - É sobre aquela história de seres nomeada para o cargo de Chefe de Equipa? - Também não! Não é nada disso. - Então é o quê? – Leonardo encontrou-lhe as mãos geladas sobre o colo. – Diz! O que é que te está a torturar dessa maneira? Eu vou saber ouvir-te... As palavras do marido e o seu olhar carinhoso serviram como uma facada no peito de Laura. Vê-lo ali, completamente apaixonado e compreensivo, sem fazer a mínima ideia da sua traição, despertou nela um verdadeiro sentimento de repulsa pela sua pessoa.
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    114 - Desculpa –saiu-lhe esse pedido sem pensar. - Desculpa porquê?! - Por tudo - ela soluçou. - Por ser uma péssima mulher, uma péssima mãe... - Laura... – Leonardo apertou-lhe as mãos frias a fim de apaziguar as suas lágrimas e o seu sofrimento. – Não te vou esconder que nem sempre tem sido fácil. Mas eu sabia no que me estava a meter quando resolvi casar-me contigo. Nunca me escondeste que a tua profissão estava em primeiro lugar. Nunca me escondeste que não tinhas planos de ter filhos ou que a tua ambição era ser a melhor Neurocirurgiã do país. Mas olha onde chegámos... – Leonardo continuou o seu discurso perante as lágrimas da mulher. – Foi um longo caminho, mas hoje temos um casamento, que apesar de não ser perfeito, está bem longe do desastre que pensávamos que iria ser. Temos os nossos filhos, a nossa casa, as nossas carreiras, amigos… tudo! Não nos falta nada... - Então porque é que eu me sinto assim? - Assim como!? - Tão infeliz? Tão fracassada? - Laura limpou as lágrimas que tinha no rosto e respirou fundo numa tentativa desesperada de manter a lucidez. - Nem sequer consigo ser uma mãe como deve ser. Os meus filhos odeiam-me. O André especialmente. - Ele não te odeia. - Odeia sim! - Só estás a fazer o que sabes. - Não – os olhos de Laura voltaram a inundar-se de lágrimas. – Não estou a fazer nada, não vês?! Há sete anos que ando a fingir que sei o que estou a fazer, mas hoje cheguei à conclusão que não estou a fazer nada. Não sei beijar, não sei abraçar, não sei sequer como brincar com os nossos filhos. Estar perto deles. Fico a controlar-me, a perguntar a mim própria se o que estou a fazer é certo ou errado. Parece que não tenho controlo sobre eles, sobre mim. Eu devia saber isso. É instintivo. Todas as mães sabem como se devem comportar com os filhos. O que fazer com eles. Porque é que eu sou a única a não saber?
  • 115.
    115 - Porque estáspresa ao teu passado – Leonardo segurou-lhe a face encharcada de lágrimas. – Porque pensas e cresceste a pensar que todas as mães se devem comportar como a tua. Que todas as mães devem tratar os filhos como a tua mãe te trata. Mas isso não é verdade. O que a tua mãe fez contigo foi tão-somente descarregar todas as frustrações que ela acumulou ao longo da vida. Laura soltou um pesado suspiro e tapou o rosto com as mãos. - Diz-me! Alguma vez te lembras de a teres beijado? De a teres abraçado? De a teres tocado sequer? Não! Ela sempre viveu amargurada, culpando-te por não ter seguido medicina porque engravidou de ti na altura em que ia entrar para a faculdade. Quantas e quantas vezes, quando ainda namorávamos, eu não a ouvi dizer que tu tinhas sido a pior coisa que lhe tinha acontecido na vida!? Nenhuma mãe diz isso a uma filha... Foi a primeira vez que Leonardo viu Laura a chorar descontroladamente à sua frente. O coração da médica dilacerou-se no momento em que lembrou da infância terrível vivida ao lado da mãe. Os gritos constantes, as ofensas, os insultos e a violência física a que muitas vezes foi submetida por motivos tão torpes como o facto de não querer comer a sopa. É por tua causa que só estamos a comer esta sopa! Se não tivesses nascido, tudo na minha vida teria sido diferente, eram algumas das frases que Luísa fazia questão de jogar à cara da filha. Palavras que deixaram marcas eternas e que moldaram a personalidade de Laura para que também ela se tornasse numa mulher seca e fria, tal como a sua mãe. Muitas vezes, quando ainda criança, Laura desejou que ela morresse. Odiava-a com todas as forças. Via na mãe a encarnação dos seus piores pesadelos, tremendo de medo sempre que ela se aproximava de si com olhos de quem a queria bater. Quando isso acontecia, Luísa levava-a à força pelo braço ignorando-lhe o choro e as lágrimas. Trancava-a na despensa minúscula e deixava-a lá dentro às escuras sem beber e sem comer nada até que a sua raiva passasse. - Chora – o marido amparou-lhe a testa com um beijo. – Chora! Vai-te fazer bem...
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    116 12 Leonardo foi oprimeiro a acordar naquela manhã particularmente cinzenta de Sábado. Fê-lo um pouco antes de Laura, mas permaneceu deitado na cama a admirar-lhe os traços faciais e o rosto desprovido de maquilhagem. Admirou a sua expressão serena, os cabelos desalinhados e a forma como dormia numa posição fetal, idêntica à dos filhos. Ao ver tudo isso, Leonardo chegou à conclusão de que ainda continuava a nutrir pela mulher um amor incondicional. Amava-a com todas as forças e estava disposto a fazer de tudo para a manter ali para sempre perto de si, ainda que o seu coração se apertasse com a simples ideia de algum dia a vir a perder. Laura era a mulher da sua vida, disso ele não tinha dúvidas. A única capaz de o deixar naquele perfeito estado de levitação. - Já estás acordado há muito tempo? Laura abriu os olhos com a primeira claridade da manhã e deu-se de caras com o marido a olhar embevecido para si. A voz dele foi apenas um sussurro, observando-a com uma expressão cheia de amor. - Não muito! Há cinco minutos. - Devo estar horrível – ela tapou o rosto com as mãos. - Não! Estás linda como sempre. - Que horas são? - Sete e meia.
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    117 - Meia horapara acordar os miúdos. - Esquece as crianças! São tão raros estes momentos. - Que momentos?! - ela sorriu. - Estarmos aqui sem ninguém por perto e sem pressa de ir trabalhar – Leonardo surpreendeu-a com um longo e apaixonado beijo nos lábios. – Tenho saudades tuas! Preciso de ti.... Ele ouviu-a gemer quando tocou o ponto mais sensível entre as pernas. Não houve protesto quando a pressionou contra a cama, urgência ou pressa. Laura correspondeu às carícias no mesmo ritmo preguiçoso, mas houve uma ligeira mudança na sua respiração. Uma subtil alteração no ritmo do corpo. Ele continuou a tocá-la, beijando-a na boca ao de leve, brincando-lhe com a língua, enquanto entrelaçava os dedos nos cabelos dela. Então, sem pensar, puxou-lhe as alças da combinação de dormir e viu-lhe o colo desnudo. Ela ficou direita por debaixo do seu corpo, permitindo que ele a beijasse no pescoço, nos ombros e nos seios. Numa manhã igual a tantas outras, enquanto lhe sentia os cabelos lisos por entre os dedos, a saliva e a boca salgada, Leonardo ousou dizer em voz baixa amo-te. Sem surpresas, Laura respondeu o mesmo. Não mentiu quando o disse. Apesar de tudo, ela ainda continuava a amar o marido. Continuava a amá-lo com todas as forças e não imaginava sequer a ideia de um dia o vir a perder. Leonardo era o seu porto seguro. O pai dos seus filhos. O homem com o qual havia decidido passar o resto da sua vida e o único que a mantinha com os pés assentes na terra. No entanto quando ele a penetrou pela primeira vez, ela sentiu uma enorme necessidade de se voltar a apaixonar por ele. O amor era diferente da paixão. O amor resistia à monotonia e à rotina. A paixão não. - Chama-me nomes - ela pediu, ofegante, durante o acto. - O quê?! - Chama-me nomes! - Que nomes queres que te chame? - Leonardo mostrou-se surpreso com o pedido da mulher. - Os que quiseres! Só não digas que sentes saudades e que precisas de mim. Chama-me puta...
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    118 Leonardo ficou perplêxocom a audácia da mulher em pronunciar aquela palavra, mas secretamente gostou de a ver tão livre e desinibida na cama. Acatou-lhe o pedido. - Vamos tentar - ela sentou-se sobre o colo dele e envolveu-lhe os braços no pescoço. - O quê?! - ele riu-se, entrando no jogo dela. - Sexo anal! Vamos tentar... - Pensei que não gostasses. - Eu gosto - Laura beijou-o sofregamente. - Eu quero... Leonardo não estava nem um pouco à espera do comportamento menos ortodoxo da mulher, mas congratulou-se com as loucuras que ela o obrigou a cometer na cama sem medo de conter os gemidos que por pouco não acordaram os filhos no quarto ao lado. Há muito que os dois não tinham relações de uma forma tão intensa, espontânea, longe dos movimentos e das posições mecanizadas a que estavam habituados. Há muito que não se entregavam sem medos ou restrições, mordendo-se, arranhando- se, andando às voltas pelo quarto, proferindo palavras obscenas capazes de fazer corar o maior dos pecadores. Quando terminaram, caíram na cama, exaustos. Permaneceram de olhos postos no tecto a tentar recuperar a respiração. Nenhum dos dois se reconheceu. Olharam-se em silêncio e Leonardo sorriu. Laura tapou o rosto e sentiu-se envergonhada. Nunca se comportou daquela maneira com o marido. - O que é que te deu hoje?! - Leonardo riu-se, animado. - Não sei - Laura também se riu. - Deves achar que sou maluca, não!? - Nem um pouco! Gostei muito até! Temos que repetir mais vezes. - Tenho vergonha - ela tapou novamente o rosto de novo. - Então!? Não tenhas - ele retirou-lhe as mãos do rosto e beijou-a na face. - Somos casados há onze anos, lembraste?! Não temos que ter pudores ou medo de nos mostrarmos como somos.
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    119 - Eu sei. -Foi bom! Muito bom! E sim, temos que repetir mais vezes. O meu único medo é não conseguir aguentar a tua pedalada. Hoje levantaste a fasquia. Ouviu-se uma enorme gargalhada por parte de Laura. - Amo-te - ele disse sem tirar os olhos dela. - Eu também - ela procurou os lábios do marido e beijou-os apaixonadamente. O relógio sobre a mesinha de cabeceira assinalou oito e trinta. Laura e Leonardo tomaram banho juntos na cabina da casa de banho privativa. Voltaram a fazer amor, mas desta vez de uma forma convencional. Não houve pressa, urgência ou vontade de saírem do chuveiro. Aproveitaram cada minuto, ensaboando os seus corpos nús e brincando com a água quente. Tudo parecia agora voltar ao normal. Ao que sempre fora. Aos momentos de grande cumplicidade em que uma simples piada sem sentido proferida por Leonardo fazia Laura rir-se às gargalhadas, retirando-lhe aquela expressão severa do rosto. Quando regressaram ao quarto, os filhos bateram à porta. Leonardo vestiu-se às pressas e correu a abri-la. Laura enfiou-se numa roupa confortável e tentou apagar os vestígios e as manchas que pudessem existir na cama. João foi o primeiro a entrar no quarto e a aninhar-se nos braços do pai. Em seguida ofereceu um beijo tímido à mãe. Tentou afastar-se, mas Laura manteve-o perto de si. Ajeitou-lhe a camisola e perguntou como havia ele passado a noite. João respondeu à pergunta e permitiu que ela o voltasse a beijar ternamente no rosto. Segundos depois, Laura lançou um olhar furtivo a André que se encontrava pendurado no pescoço do pai. Interpelou-o com a sua frieza habitual. Vem cá. Sem outro remédio à vista e impulsionado pelo pai quando este o colocou no chão, André aproximou-se da sua progenitora sem tirar olhos do tapete. Parecia envergonhado com tudo o que havia acontecido na tarde anterior. Sentiu-se amedrontado por se ver diante da mãe, cheio de medo que ela o fosse castigar ou gritar consigo. Mas contrariamente a todas as suas expectativas, naquela manhã tudo o que Laura fez foi beijá-lo demoradamente na face. - Não quero que penses que sou má - ela disse. - Desculpas-me!? - Sim - o pequeno acedeu ao pedido da sua progenitora.
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    120 O pequeno-almoço decorreucalmamente com Leonardo a dar uma vista de olhos no jornal e Laura a barrar as torradas sobre a bancada da cozinha. Na mesa, as crianças continuavam a competição para ver quem comia mais depressa, enquanto a televisão mostrava os primeiros desenhos animados do fim-de-semana. Algum tempo depois, a campainha tocou ruidosamente e André saltou da cadeira. Quando regressou à cozinha, veio de mãos dadas com a empregada Alicia. - Bom dia - ela disse, sorridente. - Bom dia - todos responderam em uníssono. - Desculpem o atraso! Mas é que o ônibus se atrasou... - O que é um ônibus? - João perguntou, curioso. - É um autocarro, filho - Leonardo trocou um sorriso cúmplice com a mulher. - Igual àquele que a gente viu ontem, bem grande, de dois andares - Alicia despiu o casaco e colocou-o no interior da despensa. - Aquele vermelho com as pessoas lá em cima? - André debruçou-se sobre a mesa. - Esse mesmo. - Eu quero andar num ônibus - a afirmação gozona de André arrancou uma risada geral. A manhã não poderia ter começado de maneira melhor. Após horas conturbadas de brigas e lágrimas, a paz parecia novamente instalada na família Alves. Alicia iniciou os preparativos do almoço, as crianças saíram ao jardim para brincar com o pai e Laura permaneceu no escritório da casa a corrigir o relatório semanal feito pela sua Interna. Quando terminou, subiu ao quarto e viu no seu telemóvel uma chamada não atendida do cunhado. Ainda pensou em retribuir o telefonema, mas as risadas dos filhos no jardim impediram-na de cometer tal acto. Não. Era necessário controlar os seus impulsos. Depois da loucura cometida na tarde anterior, ela decidiu que aquele fim-de-semana iria ser inteiramente dedicado ao marido e aos filhos.
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    121 - Aqui tens,Alicia - a médica regressou à cozinha, trazendo uma folha de papel nas mãos. - Isso é o quê?! - a empregada limpou as mãos molhadas a uma toalha. - O teu recibo de vencimento. - Hã, claro! Obrigada, D. Laura! - Quando terminares o almoço, podes sair. - Mas o meu horário não era até às oito? - Tira o dia de folga! Hoje e amanhã! Voltas na segunda para levar os miúdos à escola. Alicia observou a saída da sua patroa com alguma curiosidade. Achou-a particularmente calma naquela manhã, contrariamente aos outros dias. Laura era uma pessoa imprevisível, cheia de nuances que não permitiam a ninguém conhecer a sua personalidade complexa. Mas no fundo era uma boa pessoa e uma óptima patroa - Alicia chegou a essa conclusão quando voltou a lançar os olhos ao seu recibo de vencimento, religiosamente entregue na primeira semana de cada mês. Constatou uma mudança surpreendente da qual não estava nada à espera. Cento e cinquenta euros a mais do que costumava receber e a certeza de que aquela era a única forma que Laura arranjara para não dizer em voz alta o quanto a empregada era importante para si e para a sua família.
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    122 13 As crianças nãopoderiam ter ficado mais contentes com a chegada de um novo elemento da família. Um cão de água, esperto, irriquieto, brincalhão, que fez as delícias dos gémeos no minuto em que entrou em casa. Laura baixou as guardas e aceitou um pedido que já se arrastava há quatro anos. Leonardo congratulou-a por isso. Durante o fim-de-semana os pequenos contaram com a ajuda do pai para construir no jardim a casota de Rufus - o nome escolhido para o primeiro cão da família. A construção demorou cerca de três horas apesar da perícia arquitectónica de Leonardo. Depois de montada a casota, João e André permaneceram o dia todo a brincar com Rufus no jardim da casa. Correram e saltaram por todo o lado completamente maravilhados com a oportunidade de terem um animal só para si. Ao observá-los da janela da cozinha, enquanto preparava o almoço da família, a empregada Alicia não deixou de se sentir contente por ver os seus meninos tão felizes a correr ao ar livre. Era o descanso total dos videojogos e do telecomando da televisão. - Deixa-me ver se entendi – Rita nem quis acreditar quando Laura lhe contou durante o almoço que havia acedido ao pedido dos filhos para ter um animal de estimação. – Tu tens um cão lá em casa? - E as surpresas continuam… A resposta de Laura provocou novos risos à mesa, imediatamente interrompidos quando ela se apercebeu da entrada de Alfredo Meireles no refeitório da clínica. O Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Precisamente o cargo que sonhava um dia ocupar.
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    123 É desta queele não me escapa, foram as últimas palavras da médica. Rita não conseguiu impedir a sua amiga de desaparecer da mesa e nem controlar o seu impulso de interpelar o Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica da clínica. Decidida, Laura seguiu em direcção à mesa de Alfredo Meireles, ensaiando durante o caminho um discurso convincente e uma humildade que apenas os seus superiores lhe reconheciam. Queria aquele cargo. Mais do que tudo. Mais do que a própria vida. E não iria descansar até consegui-lo. - Boa tarde, Dr.º Alfredo. - Boas tardes, Dr.ª Laura! Há algum tempo que não a via. - Verdade! Infelizmente temos andado em turnos desencontrados – Laura forçou um sorriso contrafeito. - Soube que esteve num Congresso em Madrid... - Voltei esta sexta-feira. É servida? - Não, obrigada. Acabei agora mesmo de almoçar. Mas eu gostava de falar consigo durante alguns minutos. Pode ser? - Claro! Sente-se! - Obrigada. Laura aceitou o convite com um sorriso contido, sabendo bem que se estava a sentar à frente do homem que poderia muito bem ditar o seu destino profissional. - Algum problema? – Alfredo perguntou. - Nenhum! Eu apenas queria confirmar consigo uma notícia que me chegou aos ouvidos há semanas atrás. - Diga – Alfredo começou o almoço pela sopa. - Ouvi rumores de que se iria reformar este ano. É verdade? - Já vi que as notícias nesta clínica correm como o vento. - Não me leve a mal! Apenas queria confirmar se estes rumores eram verdadeiros ou não.
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    124 - Sim. Sãoverdadeiros. Vou-me reformar em Setembro. O coração de Laura bateu mais depressa. - Alguma razão especial? - Cansaço! Já são cinquenta anos de serviço. Acho que está na altura de dar lugar aos mais novos. - Imagino que sim – Laura compôs os seus cabelos claros. – E por acaso já sabe quem vai ocupar o seu lugar quando se for embora? - Dr.ª Laura - Alfredo ofereceu um sorriso inigmático à médica. - Não me leve a mal, mas eu não gosto de falar de assuntos administrativos à hora do almoço. É que eu sofro de uma gastrite horrível e tenho que comer descansado. Entende? - Obviamente! Então nesse caso, não o incomodo mais! Vou deixá-lo almoçar à vontade. Bom apetite. - Obrigado. Laura voltou a cruzar o refeitório com uma sensação de derrota no peito. Apeteceu-lhe gritar, partir tudo à sua frente e destilar toda a sua raiva sobre a primeira pessoa que se atrevesse a atravessar o seu caminho. Como queria fazer isso. Mas felizmente uma força oculta impediu-a de cometer tal acto. O bom-senso também. Aquele não era de todo o melhor lugar para extravasar tudo o que estava sentir e nem ela algum dia se atreveria a mostrar quaisquer sentimentos humanos no seu local de trabalho. - Então!? – foi a primeira pergunta de Rita quando ela se sentou à mesa. - Falar com aquele velho foi a mesma coisa que falar com uma pedra. - Eu disse-te que era melhor não forçares a barra. - Quanto tempo vou ter que esperar até que alguém se decida a dizer-me alguma coisa? Ou melhor, será que alguém realmente me vai dizer alguma coisa?! - Tens que ter calma, Laura! Estas coisas são mesmo assim. Não te esqueças que este não é um cargo qualquer. A decisão precisa passar pelo Conselho de Administração, pelos accionistas, precisa ir a votos e ser aceite pelo director da clínica.
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    125 - Um directorque nunca cá põe os pés. - Ficar assim não adianta nada! Respira fundo e continua a fazer o teu trabalho. - Se eu não conseguir este cargo Rita, juro que peço a minha demissão desta clínica. - Não digas asneiras. - Estou a falar a sério! Há tempos que tenho andado a pensar nisto. Dou o litro nesta merda há mais de dez anos. Sou a médica com mais horas no bloco operatório e a única Neurocirurgiã minimamente competente aqui dentro, já que aquele palhaço do Henrique com certeza deve ter tirado a especialização dele pela farinha Amparo. É um médico medíocre com o qual tenho que gramar todos os dias e que me atrapalha mais do que me ajuda - Laura bateu a mão na mesa. – Já engoli muita porcaria aqui dentro, mas mesmo assim, continuo a trazer trabalho e vários prémios de investigação para estes filhos da mãe. Não fico só lá em cima a coçar-me no consultório como certos médicos que por aqui andam. Passo pela Enfermaria! Passo pelas Urgências! Sou pau para toda a obra! E mesmo assim não ganho nem a metade do ordenado que esse velho caquético do Dr.º Alfredo ganha só para aparecer cá aos fins-de-semana e picar o ponto. - Eu sei disso! Mas mesmo assim não podes deitar tudo a perder só porque não conseguiste o cargo. - Se nesta clínica não reconhecem o meu valor, com certeza irei encontrar um outro hospital que reconheça. Nem que tenha que voltar ao serviço público a ganhar uma miséria, mas nesta merda eu não fico. As palavras de Laura coincidiram com a vibração do seu telemóvel sobre a mesa. Ela viu de quem se tratava. Desligou a chamada sem cerimónias. - Não vais atender? – Rita perguntou. - Já retorno a ligação! Tenho que ir andando! Ainda tenho imensas burocracias para tratar no meu consultório. - Laura... – Rita interceptou-a a tempo de se levantar da mesa. – Eu sei que estás ansiosa para ocupar este cargo, mas vai com calma! Ficar assim não adianta nada. Ainda tens uma carreira inteira pela frente. Ainda só tens trinta e nove anos…
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    126 - Rita! Euvou lutar por este cargo até ao fim, nem que para isso tenha que esmagar qualquer adversário que ouse passar-me à frente... - os olhos de Laura faíscaram de ódio. - Eu não vou esperar até aos cinquenta ou até aos sessenta anos para ocupar a porcaria de um cargo de Chefe de Equipa. Aliás, esse cargo é bem pouco perto do que eu quero atingir na minha carreira. Laura abandonou o refeitório como um furacão. Não havia dúvidas de que estava furiosa, Rita sabia-o melhor do que ninguém. Sabia também que a ambição desmedida da sua amiga era algo que a assustava pois nunca vira nenhum outro profissional de saúde tão feroz e determinado. Para Laura exercer Medicina não era apenas algo que fazia para ganhar dinheiro ou para passar o tempo. Exercer Medicina era a sua vida. Vivia para isso vinte e quatro horas por dia. Levava a sua carreira ao extremo numa competição feroz, sem admitir sequer a possibilidade de existirem outros Neurocirurgiões melhores do que ela ou de um paciente lhe morrer nas mãos. Seria essa a melhor forma de encarar uma profissão? Rita realmente não sabia. Mas a verdade é que em poucos anos de carreira, Laura trilhou caminhos que poucos profissionais da sua idade conseguiram e por isso adquiriu inimigos à espreita em cada corredor. Eram muitos os que a odiavam, quer pela sua personalidade intragável, quer pelo seu ar de superioridade ou pela forma como muitas vezes se dirigia aos profissionais de saúde que trabalhavam com ela sempre com uma altivez desmedida. Na clínica Rita nunca a reconheceu. Ali dentro, a sua amiga transformava-se num verdadeiro animal de caça pronta a atacar sem piedade qualquer adversário que ousasse atravessar o seu caminho. Quando regressou ao seu consultório, Laura retirou o telemóvel do bolso da sua bata. Olhou novamente o visor e viu uma nova chamada não atendida. Sabendo bem quem era, retornou a ligação. - Será que é normal o teu cheiro ainda não ter saído da minha almofada? A pergunta do cunhado fê-la sorrir ao telefone. - Como estás?! - Com saudades e vontade de te ver! Parece que ultimamente tens andado a fugir de mim. - Nada disso! So tenho andado com muito trabalho. O que estás a fazer? - Vou sair agora! Esta semana já comecei a ver alguns apartamentos para alugar. Agora vou ver mais um em São Bento. - Escolhe uma casa que tenha uma boa vista.
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    127 - Mais algumarecomendação? - Uma boa vista, de preferência no quarto - Laura sentou-se à secretária e cruzou as pernas ao mesmo tempo que apoiava um dos braços na cadeira. - Está bem. Vou ter isso em consideração. E tu? Como estás? - Atolada de trabalho. Mas infelizmente isso já é normal – Laura retirou os seus óculos de leitura, sem pressas para terminar aquele telefonema. – Tenho uns relatórios para acabar de preencher, uma consulta a meio da tarde e devo terminar o meu turno à meia-noite. - Até te convidava a dar um pulo no meu hotel. - Infelizmente hoje não posso. - E dizes tu que não andas a fugir de mim. Sabes uma coisa? – Ricardo abriu o roupeiro e escolheu uma t-shirt preta para vestir. - O quê? - Ontem falei com o Leo. A revelação do cunhado deixou Laura alerta. - Sobre o quê? - Liguei para lhe dizer que afinal de contas ainda estou cá em Portugal. Ele ficou surpreso, mas convidou-me para um almoço em vossa casa no próximo fim-de- semana. - Ele não me disse nada. - Provavelmente quer-te fazer uma surpresa. - Achas que ele desconfia de alguma coisa? - Não, não me parece. - Devias ter recusado o convite.
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    128 - Claro quenão. Quanto mais me afastar, mais suspeitas se levantam - Ricardo vestiu habilidosamente uma t-shirt apenas com uma mão. - Não precisas ter medo. Não te vou agarrar à frente do Leo. Só lá vou na qualidade de irmão dele e não da de amante da mulher. - És tão idiota. O insulto da cunhada provocou uma enorme gargalhada a Ricardo. - Do que é que tens medo?! – ele voltou a perguntar. - Tenho medo de não me conseguir controlar – Laura apoiou os cotovelos sobre a secretária. – Se te vir à minha frente sou capaz de cometer uma loucura. - Sei bem que não! És demasiado pragmática para cometer loucuras. - E achas que ainda não cometi loucuras suficientes por tua causa? Só tu é que me deixas assim… - Assim como?! – Ricardo deliciou-se com a voz discreta de Laura ao telefone. - Completamente excitada! Às vezes, dou comigo a tocar-me às escondidas na casa-de-banho quando penso em ti. Fico a contar os dias e as horas até te conseguir ver, e quando consigo, já penso numa próxima vez. Não consigo parar de pensar em ti! Na tua boca, nas tuas mãos, no teu cheiro. Raios. És uma praga na minha vida... – Laura levantou as mãos ao alto enquanto no outro lado da linha o cunhado se ria a bom rir. – O que é que eu posso fazer para me ver livre de ti? - Podes-me mandar embora da tua vida. Desapareço sem deixar rasto. - Nem penses - ela disse. - Estás proíbido de desaparecer da minha vida, ouviste? Era domingo. Um dia de sol radiante como há muito não se via e as crianças brincavam felizes pela casa na companhia de Rufus. Na cozinha, a empregada Alicia ultimava os preparativos do almoço a ser servido pontualmente às treze horas. Leonardo montou duas mesas na traseiras do jardim e ateou o grelhador sem muito esforço. No piso superior, Laura saiu do banho e enxugou os cabelos em frente do espelho da casa-de-banho. Realizou uma breve análise ao peito, um ritual que efectuava frequentemente, e teve mais uma vez a confirmação de que estava tudo bem.
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    129 Indiferente aos gritosdas crianças no jardim, ela voltou ao quarto e escolheu no roupeiro um vestido preto, simples, com um decote em V. Era a primeira vez desde o início do ano que se atrevia a deixar de lado as suas calças de ganga. Todos sabiam. Não era uma mulher de se esmerar em produções. Detestava ir às compras, as suas visitas ao cabeleireiro eram praticamente nulas e dedicava muito pouco tempo a maquilhar-se. Mas naquele domingo particularmente solarengo, ela resolveu quebrar o paradigma. Mais um de entre muitos. Soube-lhe bem ao ego quando se viu diante do espelho e constatou que o vestido que comprara há oito anos ainda lhe servia na perfeição. Exactamente o mesmo número antes de engravidar. 36. Os cabelos soltos um pouco acima dos ombros conferiram-lhe uma nova sensualidade, assim como os saltos que calçou sentada sobre a cama. O rímel realçou os seus olhos verdes. O resultado final agradou-a. Há muito que não se sentia tão bem. - Desculpe – foi a reacção de Leonardo quando entrou no quarto e se deu de caras com a produção da mulher. – Por acaso a senhora viu a minha mulher? - Parvo – Laura riu-se, animada, enquanto colocava os brincos em frente ao espelho da cómoda. - Estás fantástica. - Obrigada. - E tudo isto é para quem? – Leonardo envolveu-lhe os braços na cintura. - Adivinha?! - Pena que os convidados estão quase a chegar, senão acho que não era capaz de me controlar. Este teu cheiro, meu Deus… Laura deixou-se levar pelos lábios do marido no seu pescoço, mas na altura não se sentiu particularmente entusiasmada em retribuir o carinho. Por sorte, a entrada de um dos filhos afastou o marido de si e permitiu que ela se continuasse a arranjar à frente do espelho. - Já chegaram – João gritou, atirando-se para cima da cama dos pais. – Já chegaram.
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    130 - Quem?! –Leonardo permitiu que o filho lhe subisse para o colo e se pendurasse no seu pescoço. - O tio Francisco e a tia Sofia. - E lá se acabou a diversão – Leonardo não escondeu o seu desânimo pela chegada dos primeiros convidados. - Desce tu primeiro que eu já lá vou ter – Laura permitiu-lhe um último beijo nos lábios. – Até já. - Até já - Leonardo levou o filho ao colo. - Tchau, mãe - João acenou à sua progenitora da porta. - Tchau, meu amor... Laura desceu cinco minutos depois. Passou pela cozinha para se certificar de que a empregada não precisava de ajuda, de que o arroz branco se encontrava perfeito, a salada fresca e as batatas fritas exactamente como pedira. Estaladiças. Em seguida saiu ao jardim. Lá fora, mantinham-se duas mesas expostas com todos os utensílios necessários para uma refeição agradável. Leonardo começou por grelhar as carnes com a ajuda de Francisco, enquanto Sofia, a sua mulher, os distraiu com uma conversa fútil sobre um novo SPA inaugurado no centro da cidade onde era possível fazer longas sessões de meditação, massagens e yoga. - Meu Deus – Sofia abriu um sorriso de orelha a orelha quando viu Laura à sua frente. – Estás uma bomba, mulher! Os quatro amigos riram-se alegremente e Laura corou perante o elogio. - Tens que dar uma voltinha – Francisco tomou-a pela mão e obrigou-a a rodar à sua volta. – A ocasião merece. - Ela hoje esmerou-se – Leonardo olhou embevecido para a mulher sem no entanto descurar dos cuidados com a carne no grelhador. – Acho que é para compensar o meu estado lastimável.
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    131 - Tu cala-teque até a carvão cheiras – a resposta de Francisco arrancou uma risada geral. - Que exagero! Só coloquei um vestido – Laura defendeu-se, divertida. – Além disso se há tanta surpresa com a minha produção é porque nos outros dias devo parecer uma bruxa, não?! - Nada disso – Leonardo beijou a mulher nos cabelos perfumados. – Consegues estar linda todos os dias. - Ainda falta chegar muita gente? – Francisco serviu-se de uma cerveja sobre a mesa. - Apenas o meu irmão e a Rita - Leonardo informou. - Mas ele não ia voltar para os Estados Unidos? - a pergunta de Francisco deixou Laura alerta, apesar de ela ter tentado disfarçar. - Desistiu à última hora - Leonardo virou a carne no grelhador. - Diz que pretende ficar por cá mais uns tempos e depois decidir o que quer fazer. - Desculpa, Leo! Mas o teu irmão é um pouco estranho – Francisco não conteve a sua observação. – Tanto disse que se queria ir embora e agora de repente resolve ficar? Ele não tem filhos? Não tem mulher? - Acho que não - Leonardo respondeu à pergunta do amigo. - Pelo menos nunca me falou sobre isso. - Há homens com sorte - Francisco riu-se, animado. - E dinheiro também! Quem é que lhe está a pagar a estadia em Portugal? - Incógnita - Leonardo exclamou. Rita Azevedo chegou pouco tempo depois. Trouxe uma garrafa de vinho e não se coibiu de elogiar a elegância de Laura. Nunca antes a vira assim. Incentivou-a a ir trabalhar assim todos os dias. Os amigos concordaram, mas Laura foi a única a remeter-se ao silêncio por não cogitar sequer a ideia de usar um vestido daqueles na clínica. O seu local de trabalho era sagrado. No hospital não existia a mulher mas sim a profissional de saúde.
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    132 Ricardo chegou quarentaminutos depois. Atrasado como sempre. A pontualidade nunca fora o seu forte, mas disso já todos sabiam. Quando entrou pelo jardim adentro, os convidados já se encontravam sentados à mesa, prontos a iniciar a refeição deliciosa confeccionada por Leonardo e pela empregada Alicia que muito gentilmente recusou o convite do patrão para se juntar a eles. Trajado com umas simples calças de ganga e um blusão de cabedal, enquanto caminhava em direcção à mesa, Ricardo exalou sensualidade fora do normal. Laura sentiu o seu coração disparar. As suas costas indireitaram-se e a sua mão direita ajeitou delicadamente os fios de cabelos atrás da nuca. Impressionante como a presença daquele homem a deixava tão insegura e desarmada. Não havia meio de disfarçar a vontade gritar aos quatro ventos que na tarde anterior ela o havia pertencido por inteiro, chamando-lhe nomes, arranhando-lhe as costas, exigindo que ele a penetrasse com mais força. - Boa tarde - Ricardo sorriu aos convidados. - Boa tarde – Leonardo ofereceu-lhe um aperto de mão. – Ainda bem que chegaste! Íamos começar a almoçar agora. Acho que já conheces toda a gente, por isso… Ricardo cumprimentou Francisco com um aperto de mão. Os sobrinhos com dois afagos na cabeça. Rita e Sofia com dois beijos na face, e Laura, com um único beijo. Frio e gélido, tal como a relação que ambos fingiam ter à frente de todos. Depois disso, ele sentou-se à mesa e o almoço teve início sem que Laura conseguisse esconder o constrangimento sempre que os seus rostos se cruzavam. Da última vez que isso aconteceu, ele esboçou um sorriso discreto e ela enterrou os lábios na taça de vinho a fim de esconder o enorme desejo de lhe abrir o botão das calças, puxar o fecho e encontrar-lhe o sexo com as mãos. Deus. Estava realmente a ficar louca. Bebeu um novo gole de vinho antes de voltar a poisar a taça sobre a mesa. Indiferentes ao clima de tensão entre os dois amantes, Rita, Sofia, Leonardo e Francisco conversaram sobre assuntos triviais numa mesa repleta de boa- disposição e alimentos deliciosos. O sol continuava a brilhar radiante, e o vento, praticamente nulo, desapareceu com o passar das horas dando lugar a um dia verdadeiramente primaveril embalado pelos risos das crianças e pelos latidos do cão Rufus à volta do jardim. - Está tudo tão delicioso – Sofia afirmou. – Esmeraste-te no almoço, Laura. - Nem por isso! Hoje não cozinhei! O Leo é que tratou de tudo...
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    133 - Bem, masque marido prendado – Rita brincou. – Quem me dera! Lá em casa, neste exacto momento a única coisa que tenho no frigorífico é uma garrafa de água e o resto da sopa de ontem. - Agora já sabemos! Se um dia a arquitectura deixar de dar dinheiro, o Leo já se pode dedicar a abrir uma churrasqueira – a resposta de Francisco arrancou uma risada geral. - Clientes não vão faltar – Sofia afirmou, divertida. - E eu abandono a clínica e junto-me numa sociedade com ele – Laura não resistiu a mexer nos cabelos do marido perante o olhar atento do cunhado. – Criamos a churrasqueira Alves. O almoço continuou sem pressas e num ambiente agradável. A empregada voltou a servir as bebidas, oferecendo limonada às crianças, uma nova garrafa de vinho às mulheres e três cervejas geladas aos homens que prazerosamente as aceitaram de bom-grado. Depois do dever cumprido, Alicia retirou-se e fechou as portas atrás de si. Francisco já se encontrava algo tocado pelo álcool, mas nem por isso ouviu os conselhos de Sofia para que abrandasse o ímpeto de beber em ocasiões festivas. Ninguém o recriminou e ele também não se fez de rogado. Fartou-se de beber e mandou-a calar. De qualquer maneira, seria ela a levar o carro para casa já que ele claramente não estava em condições de fazê-lo. Falou sobre tudo. Trabalho, política, desporto e até mesmo o 11 de Setembro. Um assunto que gerou uma acesa discussão com Ricardo, mas que foi encerrado por Leonardo quando este pressentiu que o amigo não estava suficientemente lúcido para perceber o que estava a dizer. Nessa altura a mesa voltou a acalmar-se e a boa-disposição regressou após uma situação caricata contada por Rita Azevedo sobre um paciente que atendeu no dia anterior. Eram poucas as ocasiões em que Laura podia esquecer-se do trabalho e das suas obrigações. Eram raríssimas as oportunidades que tinha para beber um bom vinho, deliciar-se com uma óptima comida, rir-se de conversas sem a mínima importância e desfrutar da companhia de pessoas que já faziam parte da sua vida há vários anos. Longe da clínica, ela era capaz de se rir às gargalhadas com uma piada sem sentido, era capaz de se derreter com os beijos do marido no seu pescoço e de tratar os filhos com carinho. Não havia dúvidas de que era uma mulher complexa em todos os sentidos e era essa mesma complexidade que fascinava o cunhado e não permita que ele desviasse os olhos dela um só segundo.
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    134 - E então,Ricardo... – a voz de Rita, no outro lado da mesa, trouxe-o de volta à realidade. – Ainda não te tinha revelado a minha surpresa por saber que resolveste ficar em Portugal. - Só por uns tempos. - Onde é que estás a viver? - Num hotel no centro de Lisboa. - Já te disse que se quiseres podes voltar cá para casa– Leonardo interferiu perante o olhar aflito da mulher. - Não é preciso! De qualquer maneira já arranjei um apartamento para alugar. - Onde é que fica? – Francisco bebeu um novo gole da sua cerveja. - São Bento. É um prédio antigo. O proprietário é dono de antiquário e costuma utilizar aquela casa como armazém. Gostei do espaço. É diferente… - Pelo que contas parece ser uma casa bastante interessante – Rita sorriu fascinada pela discrição. – Quem sabe um dia não me convidas a ir lá? - Quem sabe – Ricardo respondeu, percebendo o olhar fulminante que a cunhada lhe lançou do outro lado da mesa. - Bem! Se me dão licença, vou à casa de banho. - Já conheces o caminho! Fica à vontade - Leonardo apontou a porta da cozinha. Ricardo desapareceu do jardim sem olhar para trás e sem ligar aos sobrinhos que brincavam junto à marquise. Passou por eles e abriu as portas vidradas que davam acesso directo à cozinha. Do exterior da casa ninguém mais o viu. Apenas a empregada Alicia se cruzou com ele no interior da habitação, mas também não se falaram. Ele nem sequer olhou para ela. Ela achava-o estranho. Um pouco arrogante até. - Deve estar cheio de papel para morar em hotéis e alugar casas no centro da cidade – Francisco não conteve o seu despeito por um homem que o irritava profundamente. - Não sejas indiscreto – Sofia, a sua mulher, advertiu.
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    135 - O quefoi?! Só fiz um comentário. - Ninguém tem nada a ver com a vida dele. Ele gasta o dinheiro como quer. - Sofia! Eu só fiz um comentário! Que porra! Aposto que toda a gente se deve estar a perguntar o mesmo. De onde é que ele arranjou tanto dinheiro? Um simples Director de Marketing nos Estados Unidos não ganha o suficiente para passar meses e meses a gastar dinheiro em hotéis de luxo e apartamentos em zonas chiques de Lisboa. Há qualquer coisa de muito mal contada nessa história. Digo eu que não nasci ontem... Indiferente à bebedeira e aos delírios do arquitecto, Laura sentiu o seu telemóvel vibrar sobre a mesa. Uma mensagem de texto simples e directa: “Estou no escritório. Vem ter comigo assim que receberes esta mensagem.” - Quem é? A pergunta do marido foi o impulso que Laura necessitou para tomar a sua decisão. - Acabei de receber uma mensagem da clínica sobre um paciente meu. Acho que vou retornar a ligação do telefone de casa só para ter a certeza que está tudo bem. - Bem! Nem aos domingos te dão descanso – Francisco ergueu a sua garrafa de cerveja. - Infelizmente não – foi a resposta seca da médica antes de abandonar o jardim. Não precisou de muito tempo para entrar na cozinha e passar pela empregada como um furacão. Alicia achou estranha a pressa súbita da patroa, mas encolheu os ombros e continuou a preparar as sobremesas sobre a bancada. Laura percorreu o longo corredor e chegou finalmente ao escritório, local escolhido pelo cunhado para se encontrarem. A porta fechada à chave levou-a a pensar que ninguém estava presente, mas quando recuou dois passos, essa mesma porta se abriu e uma mão forte a puxou violentamente para o interior da habitação. Não foi preciso dizerem nada um ao outro. Indiferentes ao perigo que estavam a correr, os dois amantes beijaram-se, tocaram-se, sentiram-se e acabaram deitados sobre a secretária depois de derrubarem todos os objectos que pudessem atrapalhar a vontade de se terem mutuamente.
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    136 Sabendo bem quetinha poucos minutos para saciar o seu desejo, Ricardo levantou o vestido preto de Laura e retirou-lhe as cuecas da mesma cor. Ela, por sua vez, também não teve cerimónias em livrá-lo do cinto e em desapertar-lhe o primeiro botão das calças. - Vais-me foder, é?! - ela perguntou, mordendo-lhe o lábio inferior. - Só se pedires - Ricardo envolveu as pernas dela na sua cintura. - Fode-me! - Pede! - Fode-me! - Pede outra vez... - Fode-me! Fode-me agora mesmo... Ricardo sorriu maliciosamente e não tardou a concretizar o desejo da cunhada. Foram apenas cinco minutos. Cinco minutos alucinantes, mas suficientes para que os dois amantes saciassem o desejo reprimido durante todo o almoço. Não havia dúvidas de Laura estava a ficar louca. Louca por se entregar ao irmão do seu marido quando este se encontrava a apenas escassos metros de si. Corria o risco de ser apanhada, no entanto também não se lembrou disso quando Ricardo a penetrou pela primeira vez sobre a secretária. As suas costas arquearam-se e ela gemeu de prazer. Sentiu o sangue subir-lhe à cabeça e por momentos sentiu-se como se tivesse sido teletransportada para uma outra dimensão de onde apenas saiu quando o cunhado a deixou deitada sobre a mesa, de braços abraços e pernas estendidas. Despediram-se em silêncio. Ricardo foi o primeiro a abandonar o escritório depois de se ter vestido às pressas e ajeitado os cabelos com os dedos. Voltou a percorrer o corredor e passou pela cozinha sem ligar à presença da empregada junto ao lava- loiças. Alicia lançou-lhe um olhar furtivo mas foi incapaz de fazer muito mais. Abriu a torneira e colocou as loiças sujas no interior do compartimento destinado à lavagem. Minutos depois, uma nova figura voltou a entrar na cozinha. Desta vez a sua patroa. Laura veio com as bochechas coradas, os cabelos soltos ligeiramente desalinhados e um detalhe que chamou a atenção da sua empregada. O fecho lateral do vestido ligeiramente aberto.
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    137 Alicia pôde sentiro queixo cair quando juntou todas as peças do "puzzle". Apesar da sua inocência, não lhe foi muito difícil perceber o que tinha acabado de acontecer no interior daquela casa. O rosto constrangido da sua patroa não lhe deixou dúvidas. - D. Laura... - O que foi? - Laura voltou-se para trás a poucos segundos de abrir a marquise da cozinha. - O seu vestido. Nada pôde exemplificar a expressão mortificada de Laura quando se apercebeu do seu estado lastimável e do olhar recriminador da sua empregada. Desnecessário seria inventar qualquer desculpa, mentir ou fazê-la acreditar que tudo aquilo não passava de uma invenção da sua cabeça. A situação já era suficientemente constrangedora. Por esse motivo, em vez de justificar o injustificável, Laura apenas subiu o fecho do seu vestido e abandonou a cozinha fechando as portas da marquise atrás de si. Desviou-se das crianças que brincavam junto ao alpendre e durante a caminhada em direcção à mesa exposta no jardim sentiu um ligeiro fraquejar de pernas. Um súbito mau-estar. Como se de repente o espírito lhe tivesse abandonado o corpo ou algo semelhante. Quando se sentou à mesa, chegou a uma conclusão irrefutável. A de que era uma questão de tempo até a empregada resolver contar a todos o que descobrira. A verdade encontrava-se presa a um fio de navalha, e perante a iminência de ser desmascarada, ela voltou a lançar os olhos ao cunhado que se encontrava no fundo do jardim a fumar o quarto cigarro da tarde com a desculpa de não querer impor o seu vício aos convidados. Subitamente, ao lembrar-se do que tinham feito no escritório, sentiu uma vontade imensa de vomitar. - Conseguiste falar para a clínica? – Leonardo captou os olhos distraídos da mulher. - Sim - ela respondeu, passando as mãos pela nuca. - Está tudo bem! Não foi nada de grave. O almoço terminou ao final do dia quando os convidados se despediram dos donos da casa com a promessa de voltarem a repetir o evento assim que possível. Leonardo acompanhou-os até ao jardim frontal e permitiu que os quatro amigos se
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    138 dividissem em pares.Sofia ocupou o lugar do condutor pela incapacidade do marido em conduzir devido aos copos que tomou a mais, enquanto Rita, radiante com a ideia de passar mais alguns minutos na companhia de Ricardo, disponibilizou-se para o levar a casa. Da janela da sala, Laura assistiu a tudo. Desde o aceno do marido, à partida dos dois carros estacionados junto aos portões da sua moradia. Tempo depois, João e André atravessaram a habitação a correr e subiram ao primeiro piso. Leonardo voltou a entrar em casa e informou a mulher de que iria arrumar o grelhador na arrecadação. Laura dirigiu-se calmamente até à cozinha e encontrou a empregada a guardar as sobremesas no frigorífico. Quando Alicia fechou as portas, os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta. A última tremeu de medo. - Precisa de alguma coisa, D. Laura? Laura demorou algum tempo a responder. - Não - a sua voz saiu gélida. - Mas a partir de amanhã já não precisas vir.
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    139 14 Ao observar asaída da sua Orientadora e a forma irritada como ela abriu as portas automáticas do bloco operatório, Joana Lima percebeu que a cirurgia realizada por Laura não havia corrido nada bem. Durante a operação a paciente sofreu uma exagerada diminuição da pressão arterial e para trazê-la de volta à vida foram realizados todos os esforços possíveis e imaginários. As tentativas resultaram, mas já não havia nada a fazer. O crânio voltou a ser fechado e a paciente levada para a sala de recobro. Só por um milagre conseguiria sobreviver sem quaisquer sequelas. Terminada a operação, a paciente foi levada para a unidade de cuidados intensivos devido à gravidade do seu quadro clínico. Foi também ligada a oxigenação artificial por não conseguir respirar sozinha e muito menos manter-se consciente. Sob a cama, algumas horas mais tarde, Laura observou-lhe a expressão serena. Chamava-se Maria Antónia Soares, tinha quarenta e oito anos e alguma obesidade. Para além disso, sofria de um grave aneurisma. - Dr.ª Laura - a voz imponente de Alfredo Meireles, o Chefe de Equipa Médico- Cirúrgica, obrigou-a a voltar-se para trás e a cumprimentá-lo com um aperto de mão contrariado. - Houve alguma alteração no quadro clínico da paciente? - Há pouco pedi uma ressonância magnética que acusou um edema cerebral. A parede da artéria continua a dilatar-se a olhos vistos apesar de termos colocado um clipe de metal através do pescoço do aneurisma. Era importante isolá-lo do resto do sistema circulatório e bloquear o fluxo de sangue. - Muito bem! Agora só nos resta aguardar a evolução do quadro. Esperemos que o aneurisma não se rompa.
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    140 Laura descruzou osbraços quando sentiu o gosto amargo da derrota entranhado na sua garganta. Detestava aquela sensação de impotência onde a única coisa que tinha a fazer era esperar, esperar e esperar. Pior ainda quando a espera não trazia resultado algum. Ela sabia que era apenas uma questão de horas até a paciente sucumbir ao seu malfadado destino. Já vira casos iguais. Já tratara de casos iguais e o final era quase sempre o mesmo. - Olá, boa tarde! Vim saber como está a paciente? Laura virou-se para trás sem querer acreditar na audácia da sua Interna em aparecer na ala dos cuidados intensivos sem a sua autorização prévia. - Pensei que te tinha enviado para a Enfermaria - os olhos da médica faíscaram de ódio. - Só queria saber como estava a paciente – Joana entrou no quarto com alguma cautela. - Quem é esta menina? – Alfredo perguntou. - Interna – Laura respondeu, sem conseguir esconder a sua irritação. - Muito prazer, Dr.º Alfredo – Joana atreveu-se a estender a mão ao Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Forçou-lhe um sorriso cordial e esperou ter a sorte de o cumprimento ser correspondido. Alfredo fez-lhe esse favor. – É uma honra poder finalmente conhecê-lo. - Então quer dizer que está a realizar o seu Internato aqui na clínica? - Sim! Sou Interna da Dr.ª Laura e também a sobrinha do Dr.º Eduardo Lima. Alfredo mostrou-se agradado com a notícia. - Conheço o seu tio! Fomos colegas de Universidade há muitos anos quando ainda estudávamos em Coimbra. É um excelente médico com quem já tive a oportunidade de trabalhar e de estar em algumas conferências. - Ele também já me falou a seu respeito. - Então quer dizer que vai seguir Neurocirurgia? Com tão bom exemplo na família não se poderia esperar outra coisa.
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    141 - Esse éum dos meus objectivos. É uma área que me interessa muito. - Tem aqui uma excelente Orientadora – Alfredo tocou levemente os ombros de Laura. - Eu sei que sim! Estou a aprender muito com ela – Joana lançou um sorriso debochado à médica. – Mas a paciente ainda não acordou? - Não – Alfredo voltou a lançar um olhar fortuíto à cama onde a vítima se encontrava insconsciente. – A cirurgia não correu tão bem como esperávamos. A paciente encontra-se em coma. Mas ainda assim vamos continuar a acompanhar a evolução do quadro e tentar mantê-la em repouso absoluto. As próximas horas irão ser decisivas. - Esperemos que se recupere. - Joana! Vem comigo, por favor – Laura interrompeu a conversa. - Onde?! - Vem comigo! A médica incitou-a a abandonar o quarto na sua companhia. Contudo, quando estavam prestes a sair, Joana virou o rosto e presenciou uma cena verdadeiramente chocante. Por estarem de costas, nem Laura e nem Alfredo se aperceberam da real gravidade da situação. A paciente acabou de entrar em convulsões, foi a última frase que ela conseguiu pronunciar com o mínimo de lucidez. Nessa altura, Alfredo voou em direcção à paciente e premiu um botão estrategicamente colocado sobre a cama. Código Azul, ele gritou e não foi preciso muito tempo para que se formasse diante de si uma verdadeira equipa médica. A chegada de duas enfermeiras ao quarto foi imediata. Laura apressou-se a retirar os tubos que se encontravam no interior da boca da paciente, rasgou a bata que ela trazia vestida com as mãos e realizou várias massagens cardíacas à fim de a trazer de volta à vida. Infelizmente, nenhuma surtiu efeito. - Não tem pulsação – Alfredo segurou o pulso da paciente. – Enfermeira, o disfibrilador!
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    142 O aparelho foiimediatamente ligado e entregue a Laura, que sem tempo a perder, aplicou as duas pás eléctricas, uma sobre o coração e a outra sobre a ponta da escápula, numa tentativa desesperada de salvar uma mulher que lhe esteve nas mãos durante oito horas. Recusava-se a perdê-la sob qualquer circustância. Recusava-se também a dar aquele caso como perdido sem lutar por ele até ao fim. Carregar pás a 300, ela ordenou. Os vários choques eléctricos revelaram-se inúteis e à medida que o tempo foi passando, o quarto silenciou-se. Todos se conformaram com a perda da paciente, excepto Laura. Com movimentos frenéticos sobre o corpo da paciente, a médica continuou a lutar contra o inevitável até Alfredo Meireles decidir a dar um basta àquela história. - Dr.ª Laura – ele imperou. – Dr.ª Laura! Dr.ª Laura! Está a ouvir-me!? Dr.ª Laura... Laura parecia não o estar a ouvir. Parecia estar numa outra dimensão. - Desista – Alfredo ordenou, empurrando-a para longe da cama e fazendo-a esbarrar violentamente contra um carrinho de instrumentação posicionado ao fundo do quarto. – Acabou! Alfredo lançou um olhar esmagador e autoritário a Laura. Um olhar correspondido da mesma forma, enquanto ela se levantava do chão e sentia o seu queixo tremer de raiva. - Acabou - ele voltou a afirmar sem tirar os olhos dela. - Está proíbida de executar qualquer outro tipo de procedimento! Não era a primeira vez que algo semelhante acontecia ou a primeira vez que perdia uma paciente, mas ainda assim, quando voltou a entregar o disfibrilador a uma das enfermeiras de serviço, Laura sentiu-se devastada por não ter conseguido atingir um objectivo a que todos os médicos se propunham. Salvar vidas humanas. Infelizmente, nem sempre isso era possível. Nem sempre era possível dar e receber boas notícias. Nem sempre era possível ter tudo o que se queria ou atingir os resultados pretendidos. Aos poucos, ainda que com alguma dificuldade, ela começava a perceber isso. Hora de óbito: vinte horas e trinta e três minutos. Laura declarou após ter lançado os olhos ao seu relógio de pulso. Em seguida, desviou-se de todos os funcionários presentes no quarto, e ao dar-se de caras com a sua Interna, ainda especada sobre o alpendre da porta, lançou-lhe um olhar de ódio incompreensível. Odiava-a. Era um facto. Odiava-a com todas as forças e não via a hora de a afastar da sua vida de uma vez por todas.
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    143 Após um diaparticularmente violento, uma cirurgia desastrosa, a morte de uma paciente e a responsabilidade de divulgar a terrível notícia aos familiares, Laura encostou-se a uma das paredes da unidade de cuidados intensivos e respirou fundo. Estava exausta, não podia negar. Demasiado exausta para sequer se atrever a mexer um músculo corporal ou para continuar a pensar na grande embrulhada em que se encontrava metida a sua vida. Havia dias que ela não conseguia dormir por medo de que a sua ex-empregada contasse a verdade. Andava sempre com o coração nas mãos, tentando decifrar as palavras e as expressões do marido, apagando vestígios, deletando chamadas, mensagens ou quaisquer outros indícios que pudessem denunciar o seu caso com o cunhado. Quando começou a relacionar-se com ele, nunca pensou que fosse tão difícil manter uma vida dupla. As coisas pareceram-lhe tão fáceis, tão controláveis. Um divertimento ocasional que a livrava do tédio completo que era a sua vida. Mas agora que o tempo ia passando e o seu envolvimento aumentava, já nada lhe fazia sentido. - Senta-te - Laura apontou uma cadeira à sua ex-empregada quando se encontraram no dia seguinte à hora de almoço. - Obrigada. - Queres pedir alguma coisa? Um sumo? Uma água? - Não - Alicia manteve a mala sobre o colo. - Estou bem assim. - Então nesse caso, vou directa ao assunto - Laura abriu a carteira sobre a mesa e retirou do seu interior um cheque previamente preenchido. - Aqui tens! Aquilo a que tens direito pelos anos que trabalhaste lá em casa. - O Sr.º Leonardo já acertou as contas comigo. Ele já me pagou tudo. - Mesmo assim! Aceita o cheque - Laura estendeu o papel perante o olhar sério da ex-empregada. - Guarde o seu dinheiro, D. Laura! Não preciso dele! E também pode ficar descansada porque não vou contar nada ao seu marido e aos seus filhos. Eu gosto deles. São boas pessoas e não merecem qualquer tipo de sofrimento. - Desculpa - Laura voltou a guardar o cheque na carteira, envergonhada pelo seu acto leviano.
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    144 - Era sóisso? - Sim! E também dizer-te que se precisares de uma carta de recomendação... - O seu marido já cuidou de tudo - Alicia levantou da mesa e arrastou a cadeira atrás de si. - Ele é um bom homem, sabia?! Não merece o que a senhora está fazendo. Nem ele e nem os seus filhos. A senhora precisa de Deus no coração... Laura engoliu seco quando pressentiu o criticismo da ex-empregada sobre si e a viu abandonar sem olhar para trás o restaurante onde haviam passado escassos cinco minutos. Não soube muito bem porquê, mas as palavras de Alicia ficaram-lhe gravadas na memória. A senhora precisa de Deus no coração. Talvez fosse verdade. Talvez ela precisasse mesmo disso e de muito mais. Naquele momento só tinha o diabo e era ele quem a estava a corromper. Podia até se sentir aliviada por saber que a ex-empregada jamais contaria a ninguém o que descobrira, mas isso na altura era muito pouco para acalmar a inquietude em que se encontrava o seu coração.
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    145 15 Ricardo mudou-se naúltima semana de Março. Levou consigo apenas o essencial. Duas malas e um saco de boxe adquirido numa loja de desportos perto de casa. O prédio era pequeno, no entanto bem cuidado. Encontrava-se localizado numa das zonas mais nobres da cidade. Tinha quatro apartamentos e o de Ricardo era o maior. Uma maravilhosa mistura do novo e do antigo, dominado por cores suaves, i1uminação indireta e muitos livros. Contrariamente ao que ele dissera a todos os que lhe perguntaram pelo apartamento, o espaço era enorme e incitava-o a recordar uma infância distante de quando os seus pais ainda eram vivos. O cheiro do soalho de madeira, os móveis antigos da cozinha e a varanda que dava acesso a um pátio abandonado, traziam-lhe uma certa nostalgia. A sala assemelhava-se a uma loja de antiguidades repleta de peças de arte e quadros abstractos, numa combinação agradável entre um estilo rústico e moderno. Havia um bonito tapete felpudo, quadros de impressionistas franceses nas paredes, muitos objetos de prata e alguns de estanho e belos livros antigos nas estantes presas à parede e ao o mármore da lareira. O sofá era castanho de pele escura e abrigava duas pequenas almofadas bordadas em forma de tapeçaria. À entrada, existia um longo corredor que ligava as quatro habitações principais da casa. A sala, o quarto, a casa-de-banho e a cozinha. Não havia como ninguém não se deixar encantar por aquele apartamento. Tinha um cheiro intenso a cigarro, mas não chegava a ser necessariamente ofensivo. Era algo mais atmosférico, se é que se poderia chamar assim. - Adorei – foi a primeira reacção de Laura quando regressou à sala depois de ter inspeccionado todos os cantos à casa. - Sabia que ias gostar.
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    146 - Mesmo sepassasses um ano inteiro enfiado aqui dentro não irias conseguir ler estes livros todos – Laura percorreu as estantes e passou os dedos pelos livros empoeirados. - Queres um?! Leva! - Estes livros não são teus. - O proprietário deu-me carta-branca para fazer o que quisesse aqui dentro. - Começo a ficar curiosa para conhecer esse proprietário. Ricardo sorriu inigmaticamente. Aproximou-se de Laura e escolheu um livro ao acaso. – Toma! Leva este! É interessante. - “Les Miserables” – ela leu na contra-capa. - Devolve quando quiseres. Os seus rostos voltaram a cruzar-se. - Quero que venhas cá muitas vezes - ele confessou, tomando-lhe a face com as mãos. Os lábios de Ricardo ajudaram Laura a esquecer-se por instantes do mundo que se estendia lá fora. Por mais que ela tentasse, era-lhe impossível livrar-se do que sentia por ele. Era impossível deixar de lhe atender aos telefonemas, de encontrar- se em lugares esquivos e horários inapropriados ou sequer de corresponder àquele sentimento avassalador que se lhe tinha colado na pele como uma doença. Sim. Ricardo era uma doença. Um tumor maligno que a consumia todos os dias. Ele esperava que ela o mandasse parar, mas Laura não o fez e ele deixou que as suas mãos deslizassem pelo corpo dela e parassem no final das suas costas. Num acordo mútuo, como se estivessem a ser embalados por uma dança sem música, os dois amantes dirigiram-se lentamente até ao quarto e percorreram um longo corredor vazio. Deixaram a porta aberta a poucos segundos de entrarem no quarto e cairam na cama desfeita. - Isto não era para ser só uma noite? - Laura manteve-se por debaixo de Ricardo enquanto lhe acariciava a barba aparada, com as duas mãos.
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    147 - Achas queme iria contentar só com uma noite? - Ricardo penetrou-lhe os olhos verdes. - Eu quero-te até me fartar de ti! Fizeram amor e falaram sobre muitas coisas. Medicina, Marketing. Os anos que ele passou em Nova Iorque e como apreciara esse tempo. A adolescência numa casa de abrigo. A experiência com as drogas. A loucura de viajar pela Europa inteira com uma mochila nas costas e escassos cêntimos no bolso. Laura contou também os sacríficios que fez para se formar, a infância cheia de privações económicas e a tristeza de nunca ter conhecido o pai. Quando uma lágrima lhe caiu dos olhos, Ricardo amparou-a com um beijo e aninhou-a no seu peito. Sentiu-lhe o maior carinho do mundo e quis mantê-la ali para sempre perto de si. Aquela mulher parecia possuir tantas camadas e ele pretendia removê-las todas para descobrir o que tinha por baixo. Então havia aquela vulnerabilidade que nunca havia percebido nela. Era como quebra-cabeças, intrigante. Do lado contrário, Laura fechou os olhos e deixou-se ficar com a estranha sensação de que tinha encontrado um novo porto seguro para além daquele que tinha com o marido. Entrelaçaram os dedos das mãos, sentiram-se e olharam-se com fascínio. Qualquer coisa havia mudado naquela nublosa tarde de Março, houve essa ligeira impressão. Qualquer coisa realmente boa. À noite, enquanto lavava o rosto com água fria, Laura viu-se ao espelho e por instantes não se reconheceu. Quem era ela, perguntou assustada. Quem era aquela mulher que todos os dias se apresentava perante os outros com uma confiança fora do normal, mas que por dentro se debatia em dúvidas e fantasmas ligados ao passado? Durante anos, escondeu-se atrás de uma máscara esculpida ao pormenor. Camuflou sentimentos, medos e fragilidades. Mas agora esses medos e fragilidades pareciam querer submergir com a entrada de Ricardo na sua vida. Sentia-se num beco sem saída. Pensou em todos os acontecimentos que a levaram a chegar àquele estado. Pensou no marido que não merecia ser traído, nos filhos que não tinham culpa da mãe desastrosa que o destino se encarregara de lhes arranjar, e por fim, pensou em Ricardo - o único responsável por todos aqueles sentimentos confusos e dúbios que a atormentavam. Já não era apenas sexo ou o desejo de ter uma aventura. Era algo mais. Um sentimento que a consumia interiormente e que a levava a pensar nele vinte e quatro horas por dia. Estaria apaixonada?Seria aquilo amor? Deus. Ela tremeu de medo só de imaginar essa ideia. - Já meti os miúdos na cama - a voz do marido trouxe-a de volta à realidade. - Obrigada. Laura prendeu os cabelos com um elástico e alcançou a sua escova de dentes sobre o lavatório. Leonardo continuou a observá-la com atenção.
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    148 - Temos quearranjar uma nova empregada - ele disse. - Eu sei. - Ainda não percebi o porquê de teres despedido a Alicia. Ela fez alguma coisa? - Os miúdos já estavam a ficar demasiado apegados a ela. - E isso era mau? - Leo, nós já conversámos inúmeras vezes sobre esse assunto. Não vamos voltar ao mesmo, por favor. - Tens consciência de que vai ser praticamente impossível encontrarmos alguém que a possa substituir, não tens!? - Ninguém é insubstituível. Leonardo manteve-se de olhos postos na mulher enquanto ela escovava os dentes. Observou-a com alguma desconfiança, notando que aos poucos Laura se estava a distanciar de si e do casamento que mantinham. Já não era a mesma. Já não era carinhosa, atenciosa. Já não projectava planos para o futuro e nem se preocupava em preparar surpresas românticas. Passava a vida fora de casa e quando regressava os seus pensamentos longínquos levavam-na outra vez para longe. Dentro de uma semana fariam doze anos de casados e muita coisa tinha mudado. Natural. Todos os casamentos mudavam e sofriam alterações com a convivência, a rotina e os afazeres do dia-a-dia. Mas era preciso resgatar a réstia da paixão antes que ela desaparecesse de vez. Leonardo tinha essa consciência mas a mulher nem por isso. Por vezes, ele sentia- se invisível dentro da própria casa quando Laura passava por ele e apagava a luz. Desculpa. Ela disse naquela noite voltando a acender o interruptor quando saiu da casa-de-banho. Três dias se passaram. Há muito que o relógio havia assinalado a sua hora de saída, mas as contingências do trabalho obrigaram-na a permanecer na clínica mais tempo do que o esperado. Após inúmeras horas de pé, apenas com uma pausa para o pequeno-almoço e outra para o jantar, Laura regressou ao seu consultório e encontrou uma pasta azul guardada no seu cacifo. Havia semanas que ela vinha preparando o seu conteúdo, passando noites em branco a rever erros ou gralhas que pudessem constar do texto milimetricamente pensado ao detalhe.
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    149 Quando abandonou oseu gabinete, poucos minutos antes das nove, a médica teve a feliz surpresa de encontrar Rita Azevedo num dos inúmeros corredores da clínica. As duas amigas cumprimentaram-se calorosamente e trocaram algumas palavras de circustância. Laura aguardou a chegada do elevador e Rita fez-lhe companhia. - Vais para casa? - Ainda não - a médica respondeu. - Tenho uma reunião com o director da clínica. - Uma reunião com o director? Porquê? O olhar de Laura disse tudo. - Não serias capaz de fazer isso, pois não? - Rita balançou a cabeça. - Eu já considero esta nomeação como sendo minha - as portas do elevador abriram-se e Laura entrou sozinha. - Boa sorte - foi o último desejo de Rita. - Eu não preciso de sorte. Laura chegou ao sexto piso e caminhou apressada em direcção ao gabinete do director da clínica localizado no fundo do corredor. O piso encontrava-se praticamente vazio, tendo apenas um segurança a patrulhar as câmaras de vigilância. Laura passou por ele, mas nem sequer o cumprimentou. Minutos depois, ofereceu dois toques na porta do escritório e aguardou que a voz imponente do director a mandasse entrar. - Bom dia, Dr.º Fonseca! - Bons dias, Dr.ª Laura! Vejo que foi pontual - o director continuou a assinar alguns documentos sobre a secretária sem prestar demasiada importância à entrada da sua funcionária no seu consultório. - Não queria fazê-lo perder tempo. - Agradeço-lhe por isso – o director apontou-lhe uma cadeira vazia em frente à sua. – Sente-se!
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    150 - Obrigada. - Recebiontem o seu pedido para uma reunião. Confesso que fiquei curioso. Algum problema? - Nenhum. - Então diga! - Soube há pouco tempo que o Dr.º Alfredo se iria reformar este ano e que iria deixar livre o cargo de Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. - Sim! O pedido de reforma do Dr.º Alfredo foi aceite e ele cessa funções em Setembro. - O que quer dizer que o cargo que ele exerce vai ficar disponível. - Exactamente – Carlos percebeu de imediato quais eram as intenções da sua médica. - Dr.º Fonseca, tal como já disse, não pretendo fazê-lo perder tempo! Entrego-lhe aqui a minha candidatura oficial ao cargo – Laura mostrou ao director da clínica a pasta azul que trouxera nas mãos. – Aqui dentro vai encontrar as razões da minha candidatura, um breve resumo do meu percurso profissional e os planos que pretendo implementar na área cirúrgica caso seja nomeada. Isto incluí obviamente uma reforma estrutural, não só nos métodos e processos de trabalho, mas também nos membros que actualmente fazem parte da nossa equipa. Considero vital a mudança destas estruturas para a modernização desta clínica. - Dr.ª Laura... – o director recusou-se surpreendentemente a aceitar a pasta. – Não lhe vou esconder que o seu nome já havia sido proposto para o lugar. O Dr.º Alfredo tem uma grande estima por si e uma grande confiança também. Ele tem acompanhado muito atentamente o seu trabalho ao longo destes anos, e tal como eu, reconhece inteiramente a sua competência e a sua dedicação a esta clínica. De facto, não é todos os dias que um centro hospitalar se pode gabar de possuir uma Neurocirurgiã do seu gabarito... Laura cerrou os olhos, desconfiada com tantos elogios.
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    151 - Mas infelizmente,quando o Dr.º Alfredo me indicou o seu nome, eu já tinha escolhido um outro profissional para ocupar o lugar – a revelação do director caiu como uma bomba aos ouvidos de Laura. – É um cardiologista de renome, tem largos anos de experiência a dirigir equipas e pareceu-me a pessoa ideal para se juntar à nossa equipa. Obviamente que ele aceitou o convite. Laura sorriu amargamente, balançando a cabeça, ainda atordoada com aquele soco no estômago. - Eu sei que gostava de ocupar este cargo, Dr.ª Laura! Mas pense que ainda tem mais alguns anos para construir carreira. Nessa altura, pode ter a certeza absoluta que eu serei a primeira pessoa a convidá-la. - Mais alguns anos!? - a pergunta de Laura saiu odiosa. - Quantos?! Quinze? Vinte? - Os que forem necessários – o director detestou a arrogância da médica quando esta lhe dirigiu a palavra. A recusa da pasta onde se encontrava a sua candidatura oficial foi o impulso que o director da clínica ofereceu a Laura para que ela se levantasse da cadeira e se aproximasse da porta de saída. Contudo, ao girar a maçaneta, a médica sentiu o rosto vermelhar de raiva e uma onda de cólera atravessar-lhe o corpo, deixando-a à beira de um ataque de nervos. Não. Ela não podia admitir sequer a possibilidade daquele cargo lhe escapar por entre os dedos. Não podia também admitir a ideia de passar mais quinze ou vinte anos à espera de uma oportunidade igual. Aquele era o seu momento e ela iria lutar por ele até ao fim. - Dr.º Fonseca… - Laura rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se até ele. – Eu não sei, aliás, não faço a mais pálida ideia quem terá sido a pessoa escolhida para ocupar o cargo. Mas garanto-lhe que não é por ter mais trinta ou quarenta anos de profissão que eu, por ser homem, ou por lhe ter feito algum favor, que será mais competente e trará a esta clínica o que ela necessita. Só quem está aqui dentro é que sabe a dinâmica que é preciso criar para que a equipa de cirurgiões que temos funcione. Só quem trabalha aqui dentro há dez anos, fazendo plantões três vezes por semana, deixando de ver os filhos por mais de quarenta e oito horas, realizando e assistindo cirurgias quase todos os dias, preocupando-se com o bom funcionamento até mesmo das Urgências, só quem vive e respira este hospital como eu, pode ter a audácia de querer ocupar este cargo... - Laura atirou a pasta da sua candidatura contra a secretária de Carlos Fonseca e ele pôde sentir os olhos
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    152 dela faíscarem deódio. - Por isso, deixo-lhe aqui a minha candidatura! Sugiro que a leia antes de a deitar para o lixo. Quando a médica abandonou o seu consultório, a primeira reacção do director foi de atirar aquela maldita pasta para o cesto de papéis. Arrogante, presunçosa, insolente, foram estes alguns dos adjectivos que ousou pronunciar em silêncio. Três características que ele odiava em qualquer funcionário seu e que não admitia a subalternos. Nunca ninguém havia falado consigo naqueles termos e nem o enfrentado daquela maneira. Quem julgava ela que era? No entanto, passada a fúria inicial, Carlos poisou a esferográfica sobre a secretária e lançou os olhos às paredes do seu magestoso escritório. Não conseguiu deixar de pensar na conversa que tivera com Laura, na sua impáfia, acompanhada de uma ambição desmedida e até mesmo do brilho maléfico que os seus olhos denunciaram. Quem sabe não foi tudo isso que o motivou a retirar aquela pasta azul do lixo. Observou-a com atenção e deteve-a nas mãos durante alguns minutos. Havia qualquer coisa em Laura, ele chegou a essa conclusão. Havia realmente qualquer coisa.
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    153 16 No dia seguinte,Laura almoçou sozinha no refeitório tendo por companhia um livro e os olhares indiscretos de Joana Lima, sentada numa mesa distante. A jovem Interna não conseguiu desviar os olhos da médica um único segundo. Admirou- lhe os gestos, a forma concentrada como lia a obra “Les Miserables” e a pouca vontade em degustar a refeição que havia escolhido no bar da clínica. Ninguém se atreveu a ocupar a sua mesa ou sequer a dirigir-lhe a palavra. Passavam aos grupos, aos pares, deixando-a sozinha no meio da multidão. Joana continuou a olhar para ela, discretamente, de longe. Subitamente teve vontade de se aproximar, embora tivesse consciência do ódio que a médica nutria por si. Talvez esse ódio fosse recíproco. Talvez ela também detestasse o jeito insolente e arrogante da sua Orientadora, mas a verdade é que não conseguia parar de pensar nela um só segundo. Projectava-lhe uma vida fora da clínica, imaginando como seria o seu comportamento com os filhos, o marido e o resto da família. Com que roupa dormia. O que fazia nos tempos livres para além de ler livros longos e complexos. Que tipo de música ouvia. Qual o seu perfume favorito. O seu prato. Saberia nadar. Andar de bicicleta. Eram tantas perguntas estúpidas que atravessavam o pensamento de Joana que por vezes ela se sentia exausta por não conseguir tirá-las da sua cabeça. Era estranho também acordar a meio da noite e lembrar-se do rosto de Laura. De sentir um estranho arrepio sempre que ouvia o som da sua voz ou se encontrava na sua presença. Um misto de excitação que se conjugava com a vontade de querer enfrentá-la. Muitas vezes, aguardava-a escondida no carro à saída da clínica apenas para a ver passar. Observava-a de longe a abrir as portas do seu jipe, indiferente aos seus olhares curiosos e ao profundo fascínio que a sua existência lhe provocava. E quando ela partia, arrancando o carro a alta velocidade, Joana resistia a muito custo à vontade de a seguir.
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    154 - Curiosa parasaber como foi a tua conversa com o Dr.º Fonseca – Rita puxou uma cadeira em frente a Laura e largou o tabuleiro sobre a mesa. – Conta! Entregaste a tua candidatura? Ele disse que o cargo era teu? - Já foi escolhida outra pessoa. - Quem!? - a enfermeira fez uma careta desanimada. - Algum outro cirurgião aqui da clínica? - Não! Ao que tudo indica, vem de fora e tem experiência a liderar equipas - Laura respondeu sem tirar os olhos do livro que estava a ler. - Mas com certeza deve ser algum amigo pessoal a quem o Dr.º Fonseca deve algum favor. - Bem... – Rita enfiou a colher na sua sopa. – Pelo menos já tiraste essa ideia fixa da cabeça e sempre podes seguir em frente. - Estou só à espera que a nomeação seja oficial. - Para quê?! - Para entregar a minha carta de demissão. - Ainda com essa ideia maluca na cabeça? - A minha decisão já está tomada, Rita! Não vamos discutir sobre isso. - Não te podes ir embora! Pensa em tudo! Pensa nos anos que estás aqui dentro, na tua carreira... pensa em mim... Laura sorriu à sua melhor amiga, mas foi incapaz de proferir palavra. A sua decisão já estava tomada. - Se te fores embora não vou ter mais ninguém com quem almoçar. - Que exagero... - E também não vou ter ninguém a quem contar que estou finalmente a namorar outra vez.
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    155 - Estás anamorar? – Laura mostrou-se contente com a notícia revelada pela sua melhor amiga. - Namorar, namorar, talvez não seja o melhor termo! Mas… digamos que estou a conhecer uma pessoa muito especial. Temos andado a sair e a dormir juntos estes dias. - Quem é o felizardo? - Não vais acreditar - Rita fez um ligeiro momento de pausa e uma careta envergonhada. - O teu cunhado! O irmão do Leo... Laura pôde sentir o seu coração parar de bater e a sua expressão facial paralizar- se quando recebeu aquela notícia. - Vocês estão juntos? - foi tudo o que ela conseguiu gaguejar. - Desde o almoço em tua casa. Desculpa não te ter dito antes, mas ele pediu-me segredo. Acho que não se sente lá muito à vontade com a ideia de nos conhecermos e sermos todos amigos - Rita mostrou um sorriso radiante. - Por acaso, no outro dia, levou-me a conhecer o novo apartamento dele. Fica em São Bento. Tu e o Leo já lá foram? - Não – Laura mentiu. – Nunca mais vi o Ricardo desde aquele domingo. Quando chegou ao seu consultório e encostou a porta, Laura fechou o punho com força e ofereceu um murro violento na secretária. Tão violento que a fez inclusive sangrar da mão. Depois disso, arrependeu-se e tentou remediar a loucura cometida com vários lenços de papel. Lembrou-se do rosto de Ricardo. Do seu cinismo. Da sua falta de escrúpulos e de carácter. Lembrou-se também de todas as tardes e noites que passaram juntos, dos seus elogios e palavras de carinho. Tudo mentira. Uma enorme mentira. Irritada, ela passeou pelo consultório e lançou inúmeras vezes os olhos ao seu telemóvel sobre a secretária. Num acto irreflectido, segurou o aparelho e procurou o número do cunhado na sua lista de contactos. Não precisou de muito esforço para encontrar a letra R e estabelecer a chamada. Aguardou alguns segundos e o destinatário atendeu. - Não querias atender, não era? – a pergunta seca e autoritária de Laura surpreendeu Ricardo no outro lado da linha. - Ou estavas à espera que fosse a Rita?
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    156 - Desculpa! Nãoestou a perceber o que... - Eu sei que estás com ela! Ela contou-me - Laura ouviu um longo silêncio no outro lado da linha. - Não vais dizer nada? Não vais explicar o canalha e o idiota que és por me estares o pôr os cornos com ela? - Escuta! Não tenho tempo para isto – Ricardo tentou desligar a chamada. - Não te atrevas a fazer uma coisa dessas – Laura imperou. – Vais ouvir aquilo que tenho para te dizer e vai ser hoje. Quando eu sair da clínica, espero encontrar-te para termos esta conversa… Ricardo desligou o telefone antes que Laura pudesse terminar a frase. E quando isso aconteceu, ela pensou que fosse morrer de ódio. Não soube muito bem como, mas não viu mais nada à frente a não ser uma onda de cólera que a incitou a atirar o seu telemóvel contra a parede e levar as mãos à cabeça com a nítida certeza de que aquele homem ainda a iria levar à loucura. Tão submersa que estava na sua própria insanidade, Laura nem sequer se apercebeu quando uma figura estranha se afastou da porta do seu consultório atordoada com tudo o que tinha acabado de ouvir. Caminhando apressada pelos corredores da clínica, Joana tentou voltar a si. Tentou convencer-se que tinha ouvido mal, percebido mal, entendido mal. Não podia ser de todo verdade que a sua Orientadora estivesse a ter um caso com outro homem. Não podia ser de todo verdade que ela estivesse a trair o próprio marido. Laura abandonou a clínica às dezanove horas sem paciência para prolongar o turno ou sequer para telefonar para casa a avisar que iria chegar tarde. Estava decidida a dirigir-se ao apartamento do cunhado para terminar com aquela história de uma vez por todas. Queria ver-se livre de Ricardo. Fingir que nunca o tinha conhecido, que nunca o tinha beijado, estado nos seus braços ou proferido palavras de amor que jamais foram recíprocas. Odiava-se por ter sido tão inocente ao ponto de acreditar que iria sair ilesa daquela história. Odiava-se categoricamente, mas odiava ainda mais o cunhado. Laura estacionou o jipe numa rua quase deserta. Saiu do carro e fechou a porta com violência. Atravessou a passadeira e logo se viu em frente a um prédio antigo. Tocou o interfone e falou rapidamente algumas palavras imperceptíveis aos ouvidos dos demais. Segundos depois, a portaria abriu-se e ela entrou. Joana assistiu a tudo no interior do seu carro. Não soube muito bem o porquê de ter decidido seguir a sua Orientadora, mas a curiosidade de descobrir quem era o seu amante foi mais forte do que o seu bom senso.
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    157 Por esse motivo,também ela saiu do veículo e aproximou-se do prédio onde Laura havia entrado momentos antes. Infelizmente a porta encontrava-se fechada, mas uma velhinha simpática acompanhada por um cão interceptou-a com as chaves e dois sacos de compras nas mãos. - Deixe estar! Eu ajudo-a – Joana forçou um sorriso à moradora. - Obrigada, menina! É muito simpática. Foi uma sorte a senhora morar no primeiro andar. Quando se viu finalmente livre dela, Joana decidiu explorar os quatro pisos que compunham o prédio. Não havia elevador e as luzes das escadas desligavam-se automaticamente a cada trinta segundos. Mas isso não foi motivo suficiente para que Joana desistisse dos seus intentos em descobrir o porquê da sua Orientadora ter entrado naquele prédio. Subiu degrau a degrau, guiando-se apenas pelas mãos e muitas vezes pelas luzes que vinham da rua. Quando chegou ao terceiro piso, o penúltimo, ouviu finalmente as vozes que a haviam levado ali. Parecia uma discussão, mas não se percebia muito bem o que diziam. - És um traidor – a voz de Laura saiu finalmente nítida aos ouvidos de Joana quando ela se encostou à porta. - Eu?! - Ricardo colocou a mão no peito e forçou uma gargalhada seca. - Ai eu é que sou traidor?! Já olhaste bem para ti? Por acaso existe alguém nessa história que seja mais traidora do que tu? - Como é que foste capaz? - Que mal é que tem ser a Rita, posso saber? - Ela é minha amiga – Laura gritou, lavada em lágrimas. - E o Leo é meu irmão! Queres comparar? Laura balançou a cabeça, desolada. - Eu nunca te prometi nada! Nunca te prometi uma casa com um jardim à volta, nunca te prometi filhos, nunca te jurei fidelidade e nunca disse que te amava. Tu sabias muito bem no que te estavas a meter quando resolveste ter um caso comigo. Não vamos aqui brincar aos joguinhos e nem nos fazermos de puritanos. Foi com
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    158 a Rita sim,já disse! Foi com ela como podia ter sido com qualquer outra. Qual é!? Vais encarnar o papel de menina adolescente traída pela melhor amiga e pelo namorado? Vais chegar a esse ponto? Vais-te prestar a esse papel? Não sejas ridícula – o rosto de Laura endureceu. – Se queres ficar comigo, sabes muito bem quais são as regras do jogo. É pegar ou largar… - Então eu largo. Laura apressou-se a encontrar a sua mala sobre o sofá e afastou-se de Ricardo com um olhar de nojo. No patamar de entrada, Joana percebeu que a conversa havia terminado. Afastou-se, assustada, e subiu até ao quarto piso ainda sem certezas se a sua Orientadora iria sair do apartamento. Pouco tempo depois foi isso aconteceu. A porta abriu-se de rompante e Laura saiu embalada. Ricardo foi atrás e Joana encontrou finalmente o seu telemóvel no bolso do casaco sabendo bem que aquela era a altura certa para começar a gravar. - Tens consciência de que se te fores embora, nunca mais voltas a pôr cá os pés - Ricardo gritou, puxando-lhe o braço. - És um porco – Laura tentou livrar-se das suas mãos fortes. - Sabes qual é o teu problema?! Pensar que todos os homens são iguais ao meu irmão. O Leo habituou-te mal. Ele é submisso, não tem personalidade, põe-te num pedestal e espera sempre que tu tomes as rédeas da vossa relação. Já deve estar cansado de saber que lhe pões os cornos, mas nem assim tem tomates para te encostar contra a parede e exigir que lhe contes a verdade… - Ricardo apertou o queixo de Laura com força. – E sabes porque é que continuas a vir cá? Não é por causa de sexo ou coisa nenhuma. É porque meteste nessa tua cabeça que me irias transformar num novo Leo… - Tu nunca irias ser igual ao Leo - Laura afastou-se bruscamente. - Ele é mil vezes melhor do que tu. - Ai é?! Então o que é que ainda estás aqui a fazer? Porque é que ainda não te foste embora? Vai! Volta para casa! Volta para o palhaço do meu irmão e para a vossa maravilhosa família... - Metes-me nojo – Laura atreveu-se a cuspir-lhe o rosto. - Adivinha lá! O sentimento é recíproco – Ricardo pagou-lhe na mesma moeda.
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    159 Beijaram-se como doisloucos, entre suspiros e gemidos, permitindo-se dar azos a uma excitação que crescia a cada minuto em que se tocavam, se despiam e se sentiam. Depois de lhe puxar as cuecas para baixo, Ricardo voltou Laura de costas e obrigou-a a encostar o rosto à parede. Os momentos que se seguiram foram de puro choque para Joana. As suas mãos tremeram de medo enquanto gravavam a imagem daquele homem violento a tomar sua Orientadora nos braços. Ricardo penetrou-a por trás, agarrou-a pelos cabelos e apertou-lhe os seios com força. Pareciam dois animais, Joana chegou a essa conclusão. Dois seres irracionais que não viam mais nada à frente a não ser o desejo e a excitação de se terem um ao outro. Quando terminaram, quinze minutos depois, Laura encontrou as suas roupas caídas no chão. Recompôs-se e desceu as escadas a uma velocidade fantasmagórica sem trocar uma única palavra com o cunhado ou esperar que ele lhe dissesse alguma coisa. Segundos depois, foi a vez de Ricardo fazer o mesmo. Apanhou a sua t-shirt do chão e enfiou-se nas suas calça de ganga. Não tardou a entrar no seu apartamento e a fechar a porta com violência. Nessa altura, Joana voltou a respirar. Finalmente. Estava atónita quando desligou a câmara do seu telemóvel. Às oito horas o jantar encontrava-se pronto e a mesa arrumada.Leonardo tomou um banho de chuveiro, vestiu calças cinzentas e uma camisa azul e tirou o presente da gaveta onde o tinha escondido. O champanhe estava no frigorífico pronto a ser aberto para a grande comemoração. O jantar encomendado num dos melhores restaurantes italianos havia chegado impecavelmente embalado. Estava tudo em ordem. Ele ligou o televisor e ajudou os filhos a fazer os trabalhos de casa sobre a mesinha redonda da sala. Esfomeados, eles comeram e pouco tempo depois subiram ao quarto para se deitarem. Às dez horas, Leonardo entrou em pânico. O jantar arrefeceu e ele voltou a ligar para a mulher. O telemóvel mantinha-se desligado e ele deixou outro recado. Regressou à sala, olhou a mesa posta, as velas acesas e o presente embrulhado, mas não sentiu nada mais do que um enorme nó na garganta. A porta voltou a abrir-se às onze menos um quarto. Laura entrou com uma expressão visivelmente destroçada. Tinha passado as duas últimas horas a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. Sem forças, deixou o casaco no bengaleiro e descalçou os sapatos. Limpou uma lágrima que entretanto lhe caiu no rosto. Quando chegou à sala, Laura encontrou o marido à sua espera, sentado no sofá com um copo de whisky na mão. A poucos metros de si mantinha-se o jantar, agora arrefecido, as velas apagadas e a garrafa de vinho que ele abrira para ocasião. Foi só então que a dura realidade lhe caiu sobre os ombros, obrigando-a a fechar os olhos e tapar o rosto com as mãos. Lembrou-se. Naquela noite, ela e o marido faziam doze anos de casados.
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    160 17 Passaram-se dois meses.Sessenta dias que permitiram que Laura recomeçasse aos poucos a tomar as rédeas da sua vida. O trabalho na clínica, os afazeres domésticos e a sua família, ocupavam-lhe grande parte do tempo, deixando um espaço limitado para cometer loucuras desnecessárias. O seu caso com o cunhado fazia agora parte do passado - um passado ao qual ela não queria voltar e que fazia questão de esquecer todas as vezes que o rosto de Ricardo lhe atravessava os pensamentos. O caso dos dois acabou tal como começou. Sem nada de bom a acrescentar à sua existência. Uma relação vazia e sem sentido que em nada se assemelhava à relação que ela mantinha com o marido. Leonardo continuava a ser o homem que ela pretendia manter para sempre perto de si. Era o conforto e a estabilidade necessária para que tudo à sua volta não ruísse. A pessoa ideal para sorrir, para conversar sobre assuntos triviais e projectar planos futuros. O homem perfeito que o cunhado nunca conseguira ser. - E aqui vai ficar a recepção… No dia em que a mulher comemorou o seu quadragésimo aniversário, Leonardo levou-a conhecer as instalações do novo RESORT em Cascais. O empreendimento já durava dois anos mas agora se encontrava na recta final. Apesar do pó, do barulho das máquinas e da movimentação dos trabalhadores, foi possível a Laura reparar na beleza e na grandiosidade da construção. Um trabalho notável onde o marido pusera toda a sua alma e coração. Por esse motivo, ela sentia-se orgulhosa. - Bem! Isto está a ficar giro – Laura ajeitou o capacete que o marido a obrigou a colocar na cabeça.
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    161 - Giro?! - O.k!Muito giro... - Assim está melhor – os dois riram-se alegremente enquanto passeavam de mãos dadas pelo local em obras. – E aqui vão ficar as janelas. Já chegaram. Só falta montar. São enormes e vidradas para dar visibilidade ao jardim e à fonte que vai ficar lá fora. - Pensaste em tudo, não haja dúvida. - Ainda nem viste nada. - Quando é que vai ser a inauguração? - Daqui a cinco meses se tudo correr como o previsto. É claro que estamos com os prazos apertados, mas acho que vamos conseguir. - Vai ficar excelente – Laura acompanhou o marido pelas instalações. - Agora vou mostrar-te a área dos ginásios e da sauna. Espero que tenhas tempo. - Tenho duas horas até à próxima consulta. - Então vamos lá! Tenho a certeza que vais gostar. Laura aceitou a mão do marido e deixou-se levar por ele em direcção à zona dos ginásios. Mais uma vez o luxo e a grandiosidade da obra não deixou dúvidas de que os sócios espanhóis estavam a apostar em força naquele projecto. - Quando isto abrir, vou-te arranjar um cartão VIP – Leonardo envolveu os braços na cintura da mulher. - Um cartão VIP? - Sim! Um cartão que vamos desenvolver para os clientes habituais do RESORT. Com esse cartão podes fazer tudo aqui dentro com cerca de 30% de desconto. Ginásio, sauna, piscina, massagens, tratamentos faciais…
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    162 - Uau –Laura abriu um sorriso de orelha a orelha. – Olha que vou mesmo cobrar- te esse cartão, ouviste?! - Prometido é devido. - Estou a precisar queimar umas gordorinhas. - Tu estás exactamente igual ao dia em que te conheci. Não engordaste um quilo sequer. Estás perfeita. Laura sorriu, envergonhada, ao ouvir o elogio do marido. - Estou muito orgulhosa de ti, sabias?! – ela confessou. - A sério!? - A sério – riram-se os dois, baixinho, sem tirar os olhos um do outro. - Esta obra e a forma como te empenhaste nela. E pensar que tudo isto saiu da tua cabeça. És um génio. - Eu sei que construir edifícios não é tão entusiasmante como salvar vidas humanas, mas... - Parvo - Laura ofereceu-lhe uma palmada carinhosa no peito. - Mas fico feliz por saber que sentes orgulho de mim. - É claro que sinto! És o melhor marido do mundo, sabias?! Leonardo não resistiu a encontrar os lábios de Laura no meio da movimentação dos seus trabalhadores. Foi um beijo longo, apaixonado e que trouxe de volta todos os sentimentos que durante meses estiveram adormecidos na mulher. Mas agora era diferente. Livre dos fantasmas que a atormentavam, Laura conseguia encontrar no marido qualidades que por muito tempo lhe passaram despercebidas. Leonardo era um homem honesto, bom, carinhoso e fazia-a sentir- se a mulher mais feliz do mundo. Dava-lhe tudo o que precisava. Até mesmo uma casa com um jardim à volta. E amor. Muito amor. Aquele amor incondicional que não nos fere, não nos magoa e nem nos faz mal, não nos mente, não nos trai. Esse tipo de amor é difícil de encontrar e ela teve essa sorte. Encontrou Leonardo e sob hipótese alguma pensou algum dia afastar-se dele ou apagá-lo da sua vida.
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    163 Laura chegou àclínica alguns minutos atrasada, mas preparada para prestar serviço num plantão de vinte e quatro horas. Naquela tarde tinha apenas três consultas, uma visita a um paciente na ala da unidade de cuidados intensivos e a preparação de uma cirurgia para a semana seguinte. Após todos estes afazeres, já a noite havia irrompido as janelas, a médica regressou ao consultório a fim de tratar de burocracias inerentes às suas funções. Estava tão compenetrada a trabalhar que nem sequer se apercebeu que durante toda a tarde havia sido seguida pela sua Interna. Perto das vinte e duas horas, Joana resolveu encher o peito de coragem e entrar no gabinete da sua Orientadora sem sequer bater à porta. Era a primeira vez que cometia tamanha ousadia. - O que estás aqui a fazer? - Laura mostrou-se surpreendida com a presença da sua Interna. - Já não devias ter saído? - Vim cumprimentá-la! Ainda não nos tínhamos falado hoje. - Vai para casa – a médica ordenou, voltando à escrita do seu relatório. – Qualquer assunto que tenhas para falar comigo, utiliza o BIP. - Soube que a Dr.ª fez anos hoje. É verdade? Laura voltou a erguer a cabeça e viu um certo ar de deboche no rosto de Joana. - Sim! É verdade! Porquê? - Porque queria oferecer-lhe um presente – Joana retirou uma caixa amarela por detrás das costas. - Joana! Eu agradeço a tua simpatia, mas realmente não era preciso. Guarda o teu presente e oferece-o a quem achares melhor. - Pois eu tenho a certeza absoluta que a Dr.ª vai gostar do que guardei para si. Joana depositou sobre a secretária a caixa que tinha nas mãos, e quando isso aconteceu, Laura explodiu de raiva. - Sai daqui – a médica ordenou. - Não vai abrir!?
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    164 - Já dissepara saíres daqui. - Pois se não quer abrir, eu abro. Joana desembrulhou a caixa e retirou do seu interior um pequeno leitor de DVD perante o olhar furioso da sua Orientadora. Não se deixou esmorecer. Sabia que se o fizesse, provavelmente aquele seria o seu fim. – Gosta de cinema, Dr.ª? - O que é que estás para aí a dizer?! - Veja. Joana ligou o DVD e colocou-o sobre a secretária diante do rosto estupefacto de Laura. Ao ver aquelas imagens, a príncipio pouco nítidas, a médica levou inconscientemente uma das mãos à boca sem querer acreditar no que estava a ver. Não reconheceu a cena. Não se reconheceu a si própria e nem ao homem que estava ali com ela, agarrando-a com força, chamando-a nomes inconcebíveis e tomando-a nos braços como um louco. Por momentos, ela sentiu uma branca. O ar esvaiu-se-lhe dos pulmões e os olhos lacrimejaram de terror. Quando o filme terminou, ela ergueu o rosto e encontrou a expressão maléfica da sua Interna. Como tinha ela conseguido aquela gravação? - Tenho visto este vídeo todos os dias - Joana debruçou-se sobre a secretária e mostrou um sorriso doentio nos lábios. - Vejo e revejo! Vejo e revejo...! Acho que estou viciada... - O que é que tu queres?! - Eu? Eu não quero nada. - Escuta aqui… - Escute aqui você – Joana bateu a mão na mesa pronta a calar os argumentos da sua Orientadora. Era a primeira vez que se atrevia a fazer algo semelhante e era a primeira vez que Laura se via obrigada a obedecer. – Eu já ando a aturar essa sua arrogância, esse seu nariz empinado, essa expressão irritante de quem tudo sabe há muito tempo. Demasiado tempo para a minha paciência, se quer que lhe diga. Por isso é bom que baixe o tom de voz e engula essa sua impáfia, como uma vez me disse, porque agora quem dá as cartas nesta mesa sou eu… Laura calou-se esmagada perante a evidência dos factos.
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    165 - O queé que queres? - a médica perguntou num tom humilde. - É muito simples! Quero que seja minha Orientadora durante os seis anos que durarem o meu Internato. Quero observar todas as suas cirurgias, participar nelas, quero todos os seus conhecimentos, estudos de investigações e quero também ser tratada como uma princesa aqui dentro, especialmente por si, é claro. Se for nomeada Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica, quero também que me ajude a subir nesta clínica como uma flecha. Quero que me leve ao topo junto consigo. Sabe, é que eu não estou com muita paciência para esperar dez a vinte anos como você esperou para chegar onde mereço. Preciso de um empurrãozinho e você é a pessoa certa para me ajudar. - E se eu não fizer o que me estás a pedir? - Laura engoliu seco. - Se não fizer, este vídeo vai parar às mãos do director da clínica e também do seu querido marido. Obviamente que nem preciso dizer que este DVD é apenas uma cópia. Eu tenho várias muito bem guardadas. Assim, só por precaução, não sei se me entende… - Tu és demente. - Não! Muito longe disso – Joana voltou a debruçar-se sobre a secretária da sua Orientadora e mostrou finalmente a máscara com a qual se havia escondido durante todos aqueles meses. - É a cadeia alimentar onde só os melhores sobrevivem. Onde devemos aniquilar a concorrência sob pena de ela nos aniquilar. Não era isso que a Dr.ª pretendia fazer comigo? Aniquilar-me! - Eu não vou ceder às tuas chantagens. - Então prefere o quê?! Perder o cargo que tanto ambiciona? A sua reputação aqui dentro? Perder a sua melhor amiga? O seu marido e os seus filhos?! Dr.ª Laura! Aquilo que lhe estou a pedir é muito pouco perto do valor do meu silêncio. E eu não sei porque é que a Dr.ª me odeia tanto. Nós podíamos ser grandes amigas, sabia?! Eu gosto de si, e sei que no fundo, a Dr.ª também gosta de mim. Para quê andarmos sempre às turras uma com a outra? Porque não nos tornamos amigas? Aliadas? Cúmplices? Eu podia ser bem mais sua amiga do que a Dr.ª Rita... Laura disferiu um olhar de morte à sua Interna.
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    166 - Vou voltarpara casa tal como mandou! Mas na segunda espero ser chamada para assistir à sua cirurgia. Joana voltou-se para trás a poucos segundos de sair do consultório. - A propósito - ela disse - Pode ficar com este DVD! Como já lhe tinha dito, é o seu presente de aniversário... Quando a porta se fechou com violência tremenda, Laura voltou a lançar os olhos ao DVD portátil sobre a sua secretária. Quis destruí-lo, desesperar-se, espernear e gritar. Mas não o fez. Em vez disso, continuou a olhar para o ecrã sem emitir qualquer reacção até a tela se tornar numa enorme mancha negra. Quando não conseguiu aguentar mais, chamou Joana em voz baixa, quase num tom de murmuro: Filha da puta.
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    167 18 A cirurgia estavamarcada para as dezasseis horas. Um corpo de dois cirurgiões, um médico assistente, duas enfermeiras e um anestesista deram entrada no bloco operatório. A presidir a mesa de operações estava Laura Alves. Concentrada para aquelas que iriam ser as próximas horas de trabalho, a médica abriu os braços e permitiu que uma auxiliar de serviço lhe vestisse a bata, apertando-a nas suas costas. Em seguida, aguardou que lhe fosse colocada uma máscara facial e composta a toca na cabeça. Completamente esterilizada, falou uma última vez com o anestesista destacado para o caso e observou os exames realizados minutos antes. Tudo parecia estar a postos e todos os intervenientes já se encontravam posicionados à volta da mesa de operações aguardando que os ponteiros do relógio marcassem a hora exacta. No entanto, a dois minutos do início, as portas automáticas do bloco operatório voltaram a abrir-se trazendo uma figura que Laura infelizmente bem conhecia. Joana Lima entrou no recinto e surpreendeu tudo e todos com a sua presença. Devidamente equipada com uma máscara facial, a bata e as luvas esterilizadas, a jovem Interna trocou um olhar intenso com a sua Orientadora. Não disseram absolutamente nada uma à outra, mas ambas sabiam bem o porquê de Joana ali estar. - Obrigada por me ter chamado a assistir, Dr.ª Laura... A médica ignorou-lhe o agradecimento e perguntou à sua equipa: - Vamos começar?
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    168 Os dias quese seguiram tornaram-se verdadeiramente infernais para Laura. Com visitas constantes ao seu consultório, o atrevimento de sentar-se à sua mesa durante o horário de almoço, as perseguições pelos corredores da clínica, as indirectas e as chantagens, Joana tinha-se tornado de facto no seu pior pesadelo. Não havia nada que Laura pudesse fazer para a tirar da sua vida ou fazê-la desaparecer definitivamente. Por vezes, acordava assustada a meio da noite pensando ter ouvido a voz da sua Interna durante o sono. Sentia-se sufocada, asfixiada e a viver no fio da navalha até ao dia em que a insanidade de Joana falasse mais alto e deitasse tudo a perder. Naquela noite quente de final de Maio, Laura abriu os olhos a meio da noite e deu-se de caras com o marido a dormir profundamente. Observou-o com atenção, sabendo bem que ele não fazia a mínima ideia do que se estava a passar consigo. Leonardo era demasiado puro para desconfiar dos graves erros que ela havia cometido no passado. Erros esses que haviam voltado para a atormentar e que agora começavam a consumir todas as suas forças. Desesperada, ela levantou-se da cama e alcançou o seu robe sobre o cadeirão. Necessitava urgentemente de encontrar um pouco de ar puro lá fora e pensar melhor no que iria fazer dali por diante. Encontrar uma forma de afastar a sua Interna de si ou pelo menos de ter um minuto de paz. Quando desceu ao jardim das traseiras, sentou-se sobre o alpendre da marquise da cozinha. Ficou ali durante muito tempo a olhar para a lua luminosa no céu. De repente, duas lágrimas caíram-lhe no rosto e ela não viu outro remédio a não ser ampará-las com as mãos e esconder a sua cabeça por entre as pernas. Estava tão submersa em pensamentos, dúvidas e medos que nem sequer se apercebeu quando Rufus, o cão da família, saiu da sua casota e se aproximou dela pronto a lamber-lhe dedos das mãos. - Meninos! Despachem-se! Já estamos atrasados para sair... Leonardo chegou à cozinha com a pasta de trabalho e o casaco nas mãos. Eram oito horas da manhã e os gémeos enredados numa preguiça matinal, esforçavam- se por terminar o pequeno-almoço preparado pela nova empregada da casa. Cereais frios e torradas queimadas, tornavam-se alimentos difíceis de degustar até mesmo para o pai que amaldiçoava a infeliz ideia da mulher em ter despedido a antiga empregada e contratado uma outra que desconhecia o significado do verbo cozinhar. Pouco tempo depois foi a vez de Laura descer ao primeiro piso. Veio com uma expressão visivelmente cansada sem esconder que havia passado a noite inteira em branco.
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    169 Serviu-se de umcafé forte sobre a bancada da cozinha e lançou um olhar aterrador à falta de jeito da empregada para abrir uma simples embalagem do fiambre. - Deixe estar! Eu ajudo-a - ela afirmou, retirando-lhe o produto das mãos e levantando a ponta de uma só vez. - Vais para a clínica agora? - Leonardo perguntou à mulher enquanto terminava o seu café de pé. - Sim - Laura mentiu. - Tenho de tratar de algumas burocracias antes de entrar de plantão. - Então nesse caso levo eu os miúdos à escola! Fica-me no caminho. - Obrigada - Laura levou a embalagem de fiambre à mesa. - Não quero mais - André resmungou, largando a torrada queimada sobre o prato. - Eu também não - João aproveitou a deixa para também fazer o mesmo. - Vamos lá então - Leonardo incentivou os filhos a levantarem-se da mesa. - Já estamos atrasados. Vão buscar os casacos e as mochilas à sala que o pai vai tirar o carro da garagem. Encontramo-nos no portão. Leonardo, João e André saíram logo em seguida. Deixaram a casa vazia de vozes, passos e confusão. Laura terminou o café em frente à janela da sala e observou o BMW do marido abandonar a garagem e consequentemente os portões da moradia. Mais um dia, tal como todos os outros. Um quotidiano que já fazia parte das suas vidas e que iria continuar por muito tempo. Mas contrariamente ao que dissera ao marido naquela manhã, Laura não tinha quaisquer intenções de tratar de burocracias na clínica onde trabalhava. Mentiu. Como sempre. Como já vinha fazendo nos últimos meses a fim de manter uma farsa muito bem montada. - Antónia... - Sim, D. Laura - a empregada deu um pulo quando a patroa entrou na cozinha preparada para sair.
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    170 - Vou trabalhare só volto à meia-noite! Os miúdos saem do colégio às cinco, por isso, às quatro e cinquenta, tem que estar no portão. Apanhem um táxi para vir para casa. Peça factura ao taxista e deixe-a em cima do microondas. Quando chegarem, prepare o lanche, depois o banho e obrigue-os a fazer os trabalhos de casa. Os dois dormem às nove, por isso, às oito o jantar tem que estar pronto. Nessa altura provavelmente o meu marido já vai estar em casa. Assim que ele chegar, a Antónia pode sair. Não se esqueça de deixar as chaves. Amanhã volte à mesma hora... - As crianças saem do colégio a que horas?! Ao ver uma expressão tola no rosto da empregada, Laura chegou à conclusão que tinha falado rápido demais e de que ela não havia percebido uma única palavra do que dissera. Iria ser difícil mantê-la ali durante muito tempo. Já era uma senhora portuguesa de meia-idade, mas não parecia ter qualquer experiência enquanto empregada doméstica. - Eu escrevo tudo num papel - Laura soltou um longo suspiro e largou a mala sobre a mesa a fim de encontrar o seu bloco de notas. O dia solarengo obrigou Laura a sair de casa apenas com um casaco de malha preto, um top branco de alças e umas calças de ganga azuis conjugadas com sabrinas castanhas. Assim que entrou no seu jipe, a médica enterrou os óculos de sol nos cabelos presos por um rabo de cavalo. Fechou a porta e ajeitou o espelho retrovisor. Sabia que tinha muito pouco tempo para chegar ao destino pretendido. Três horas apenas antes do início do próximo turno. Chegada ao centro da cidade, Laura enfrentou um trânsito infernal e também um pequeno acidente na IC19. Nem as notícias da rádio conseguiram acalmar o seu nervosismo e a vontade de fazer o que se propusera durante a noite anterior. Passou horas a pensar, a reflectir, a tentar arranjar outras formas de solucionar a grande embrulhada em que estava metida a sua vida. Mas nada surtiu efeito. Após inúmeras voltas à sua própria cabeça chegou à conclusão que só uma pessoa que a poderia ajudar. A mesma que lhe causou o problema. - Surpresa - foi a primeira reacção do cunhado quando a viu sobre o alpendre da sua porta. - Tu por aqui? - Deixa-me entrar.
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    171 Laura não esperoua resposta. Decidida, desviou-se dos ombros de Ricardo e entrou pelo apartamento adentro. Chegou à sala poucos segundos depois. Sentiu- se incomodada por ali estar. Era como se já não pisasse aquela sala há milhares de anos, mas ao mesmo tempo, tudo lhe continuava familiar. As estantes, a mesinha no centro da sala, o sofá onde muitas vezes se deitou com o cunhado, a grande enchente de livros e o saco de boxe que ele fazia questão de manter pendurado junto à marquise da sala. De facto, nada mudara. - O que é que estás aqui a fazer? Caiu algum santo do altar? - Ricardo perguntou com algum sarcasmo quando também ele chegou à sala. - Não estou com disposição para piadas. O assunto que me trás aqui é sério. - Que assunto?! Laura não respondeu. Em vez disso, retirou da sua mala um DVD portátil pequeno e mostrou-o ao cunhado, dizendo: - Vê! Enquanto observava com atenção cada imagem daquele pequeno filme de quinze minutos, sentado no sofá da sala ao lado de Laura, Ricardo chegou à conclusão de que a cunhada de facto não lhe havia mentido quando lhe dissera que o assunto era sério. - Quem filmou isto? - ele acendeu um cigarro perante o olhar aflito de Laura. - A minha Interna! Uma espécie de estagiária que tive a infelicidade de aceitar no início do ano. Ela sabe de tudo. Sabe que tivemos um caso, que tu és o irmão do Leo e sabe também que andas com a Rita. - O que é que ela quer? - Chantagear-me, não vês?! Obrigar-me a continuar a ser a Orientadora dela. - Então continua. - Será que não entendes?! - Laura levantou-se bruscamente do sofá onde estava sentada quando o fumo do cigarro do cunhado lhe atravessou a vista. - Essa rapariga é louca! Ela está a transformar a minha vida num inferno dentro daquela clínica. Se eu não fizer o que ela quer, ela vai contar tudo ao Leo e à Rita.
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    172 - E oque é que tu queres? – Ricardo levantou-se igualmente e enfrentou o rosto aflito da cunhada. – Aturar uma estúpida Interna ou estragar a tua carreira, perder o teu marido e os teus filhos?! A ver-se diante do maior dilema da sua vida, Laura desesperou-se e levou às mãos à cabeça. Foi a primeira vez que derramou duas lágrimas de arrependimento. Estava arrependida. Completamente arrependida por tudo o que fizera e por se ver nas mãos de uma verdadeira psicopata. - Joga o jogo dela. Laura olhou para Ricardo, incrédula. – O quê?! - Por enquanto! Faz com que ela pense que te tem na mão, e no momento certo, puxas-lhe o tapete. - Não estás a perceber... - Não – Ricardo calou os argumentos de Laura. – Tu é que não estás a perceber. Estás demasiado nervosa para pensar com clareza. Deixa a poeira baixar, e no momento certo, descobrimos uma forma de nos livrar dessa miúda. - Como assim?! O que é que queres dizer com isso? - Eu vou falar com ela! Não te preocupes! Eu trato de tudo. - Não quero que lhe faças mal. - Eu não lhe vou fazer mal! Só vou falar com ela! O que é que pensas? Que a vou matar? - Espero bem que não. Ricardo mexeu instintivamente nos cabelos de Laura enquanto mantinha o cigarro entre os dedos. Foi por pouco que não lhe queimou o rosto ou que não lhe incendiou os pulmões com aquele maldito odor a tabaco. - Mas foi bom teres vindo - ele afirmou. - Há muito que não te via e já sentia saudades tuas.
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    173 - Pára -ela afastou-o com as mãos. - O que foi? Vais dizer que também não sentiste saudades minhas? Laura bem quis responder que não, mas na altura os seus lábios emudeceram. Era fraca. Impossível negar. Fraca por não conseguir resistir à respiração quente de Ricardo no seu pescoço, aos seus lábios que lhe sussuravam palavras excitantes aos ouvidos e ao calor do corpo dele perto do seu. Durante semanas, pensou que se tinha livrado daquele desejo doentio. Mas ao ver-se ali, a escassos centímetros da boca de um homem que continuava a provocar-lhe verdadeiros espasmos de loucura, ela percebeu que não tinha como fugir. Mesmo sabendo que Ricardo se encontrava com a sua melhor amiga, mesmo ouvindo o discurso apaixonado de Rita sempre que esta se referia ao seu suposto namorado, mesmo continuando a ser uma mulher casada e com filhos, mesmo assim, para Laura era inimaginável esquivar-se àquele sentimento tóxico que o cunhado lhe proporcionava. Tal como ele lhe dissera da última vez que estiveram juntos, não era apenas sexo que a levava ao seu apartamento. Era bem mais do que isso. Era a sensação de se sentir viva cada vez que ele a tocava, a beijava e encontrava novas formas de a manter presa àquela relação doentia. - Diz que sentiste saudades minhas! Os dedos dele apertaram-se em torno de sua nuca e puxaram a sua cabeça em direção ao rosto dele. Ouviu-a, ofegante, quando ele parou, apenas uma fracção de segundos antes dos seus lábios se tocarem e de ele lhe transmitir o fumo que tinha na boca. Ela tossiu. Os olhos ocuparam-lhe todo o campo de visão. Aquele verde penetrante e desconfiado. - Então?! Sentiste saudades minhas ou não? - Senti - ela confessou, mordendo-lhe a maçã do rosto depois de um longo beijo de língua. - Senti! Senti muitas saudades tuas. - Eu também! Vem cá! Não fujas... Laura não precisou ouvir mais nada para cair novamente nos braços do cunhado. Beijou-o com sofreguidão, com desejo e com a certeza que de que estava absolutamente louca por estar ali de novo, de volta ao ponto de partida. Ricardo conseguiu esse feito. As mesmas palavras obscenas, a mesma voz rouca, o cheiro intenso a tabaco.
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    174 Ela bem tentou.Seguramente que tentou, mas o desejo que ainda sentia por ele era mil vezes mais forte do que a racionalidade mantida em todos os outros aspectos da sua vida. Quando ele a levou para o quarto com as pernas envoltas na sua cintura, Laura abandonou definitivamente o sentimento de culpa que por momentos lhe assolou o coração. Tentou também esquecer-se do marido, dos filhos e das chantagens da sua Interna. Na verdade, todos aqueles detalhes pareceram insignificantes quando Ricardo a deitou na cama e a despiu violentamente. Ela foi também tirando a roupa dele sem pudores ou cerimónias. Fizeram amor com um ardor que até então nunca haviam experimentado. Acariciaram-se mutuamente com avidez levando toda a manhã sem pressas de acabar o que não queriam que acabasse. - Temos que acabar com isto - ela disse quando os seus corpos sofreram algum descanso sobre a cama. Ricardo fez um gesto negativo com a cabeça e sorriu infantilmente. - Não quero acabar com isto! Se acabarmos, fico triste... - Então o que é que queres? Ficar comigo e com a Rita? - Laura lançou-lhe um olhar desafiador. - A Rita não se compara a ti! Nenhuma mulher se compara a ti... - És tão mentiroso. Enquanto conduzia em direcção à clínica, Laura manteve os olhos na estrada mas não sabia direito para onde se estava a dirigir. Após ter passado várias semanas a tentar livrar-se dos fantasmas que a atormentavam, ela voltou a cair na armadilha de se deixar envolver novamente pelo cunhado. Nas suas palavras insidiosas, gestos carinhosos e acções dúbias. Era difícil acreditar que ele apenas ficara em Portugal por sua causa ou que pensava em si vinte e quatro horas por dia. Era também difícil acreditar num homem que parecia carregar dentro de si todos os mistérios do mundo e que jamais em tempo algum deixava escapar detalhes da sua vida passada pudesse nutrir um sentimento verdadeiro por si. Quem era ele, Laura perguntou-se a poucos minutos de abandonar o seu jipe no parque de estacionamento da clínica. Quem era aquele ser que a intrigava cada vez mais e a impelia a querer descobrir tudo sobre ele?
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    175 Rendida às suasdúvidas, Laura atravessou o parque em direcção às portas automáticas da clínica. Entrou e assinou o livro de ponto na recepção sabendo bem que estava duas horas atrasada. Então uma voz irritante soou-lhe aos ouvidos. Ao virar-se para trás, ela soltou um longo suspiro de resignação. Não havia forma de se ver livre daquela criatura abominável. - Precisava falar consigo, Dr.ª - Joana correu ao seu encontro - É sobre um paciente que... - Joana! Agora não tenho tempo. Fala com outro médico que esteja de serviço porque tenho uma consulta daqui a quinze minutos. - O assunto é sério! Acabou de dar entrada nas Urgências um paciente… - Já disse para falares com outro médico de serviço – Laura caminhou apressada em direcção ao elevador. - Só preciso que a Dr.ª o examine! Acho que ele tem qualquer coisa estranha que ainda não conseguimos descobrir o que é... - Que coisa? - Laura perguntou, impaciente. - Por vezes está calmo, sereno, mas cinco minutos depois começa a gritar, a falar coisas sem sentido e a comportar-se como um louco. Mais tarde, quando volta ao normal, não se lembra de nada e até fica surpreendido quando lhe é dito o que fez. A mãe diz que esses sintomas começaram há mais ou menos uns dois meses, mas que ela pensou que o filho talvez estivesse envolvido com drogas. Foi por isso que ela o trouxe aqui para o hospital. Mas enquanto estavam à espera para serem atendidos nas Urgências, ele foi à casa de banho e cortou-se com uma navalha… - Cortou-se aqui dentro? – Laura voltou-se para Joana, surpresa. - Sim! Mas já fizemos os curativos e realizámos testes para saber se ele estava sob o efeito de estupefacientes. - Os resultados? Quais foram? - Negativos. Ele está totalmente limpo. Mas eu acho…
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    176 - O quê? -Eu não quis dizer nada à frente da mãe, mas acho que estes sintomas estão directamente ligados ao foro neurológico. Ao ouvir o discurso de Joana, Laura deu-se por vencida e desconfiou prontamente do que se estava a passar. - Onde é que ele está? - Venha comigo. Laura e Joana entraram numa das salas da Enfermaria. A médica passou à frente e apresentou-se à mãe do paciente. Examinou-o minuciosamente, dando especial atenção ao interior dos olhos. Não precisou de muito esforço para chegar ao diagnóstico, ainda que se tivesse recusado a revelar as suas desconfianças sem antes efectuar exames mais precisos. - Joana! Pede uma B.O - ela ordenou. - É para já – a Interna saiu da Enfermaria a correr. - O que é que o meu filho tem, Dr.ª? – a mãe do paciente mostrou-se aflita. - Ainda não temos a certeza. Mas iremos realizar uma ressonância magnética para tentar descobrir o porquê do seu filho se sentir tão irritado, cansado e difásico…. - Ele está doente da cabeça? - Tal como lhe disse, ainda não temos a certeza de nada. Vamos aguardar o resultado dos exames... Enquanto conversava com a mãe daquele rapaz de dezasseis anos e lhe tentava explicar que ainda era muito cedo para ditar prognósticos, tudo o que Laura não contava era sentir uma valente pancada na cabeça oferecida pelo próprio paciente. Morre, minha cabra, ele gritou completamente fora de si. Por se encontrar de costas, a surpresa e a dor de Laura ainda foram maiores. Ao sentir a violência da pancada, ela caiu no chão praticamente desmaiada e colocou- se em posição fetal numa tentativa desesperada de proteger a sua cabeça e escapar imune aos inúmeros pontapés arremessados pelo paciente.
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    177 Foram precisos algunssegundos para que vários enfermeiros e alguns seguranças segurassem o jovem e o impedissem de espernear e gritar aos quatro ventos frases estranhas e sem sentido. Toda a gente se mostrou estupefacta e o rapaz continuou a gritar. - Sente-se bem, Dr.ª Laura? – uma das enfermeiras de serviço ajudou a médica a levantar-se do chão. - Sim! Estou bem - Laura passou a mão pelos cabelos e viu nos dedos uma nódoa de sangue. - Apliquem-lhe um sedativo - foi a última ordem dada por si a poucos segundos de sair da Enfermaria. - Já foi pedida a B.O - Joana voltou a interceptá-la perto do elevador. - Os resultados devem sair dentro de uma hora. - Assim que estiverem prontos, avisa-me. - O que foi isso? Joana bem tentou tocar nos cabelos manchados de sangue de Laura, mas quando o fez, a médica desviou-se bruscamente das suas mãos, dizendo: - Não foi nada. - A Dr.ª está a sangar. - Já disse que não foi nada. - Tudo bem - Joana acedeu. - Mas o que é que acha que ele tem? - Pelos sintomas,tudo indica que esteja a sofrer de Hidrocefalia. - Foi o que eu imaginei. - Quando os resultados da B.O estiverem prontos, chama-me pelo BIP - Laura entrou finalmente no elevador vazio. - E se for mesmo Hidrocefalia? - Se for, marcamos uma cirurgia de emergência para lhe colocarmos um desvio.
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    178 Ainda durante aviagem até ao seu consultório, Laura voltou a passar as mãos pela nuca. Sentiu dores fortes, não só na cabeça, mas também em todo o corpo. A violência daquele rapaz tinha-lhe ficado marcada e ela pôde ter essa certeza quando levantou a sua camisola e se deparou com uma enorme nódoa negra na zona do abdómen. Cabrão, chamou-o em voz baixa. Rita Azevedo foi a única enfermeira de serviço que Laura ousou chamar ao seu consultório para lhe fazer os curativos na nuca e também no abdómen. Não quis que nenhum outro profissional na clínica a tocasse e nem permitiu que ninguém a visse naquele estado verdadeiramente lastimável. - Levaste umas boas cacetadas desse rapaz, não haja dúvida - Rita terminou de enfaixar a cintura fina de Laura com uma ligadura especial para o efeito. - Tens a certeza que não queres fazer um Raio X só para saber se está tudo bem? - Está tudo bem, não te preocupes. - Nesta clínica só aparecem doidos. - Deve ser castigo – Laura murmurou sem pensar. - Castigo porquê?! - Por nada! Esquece! Só estava a pensar alto... Após a confirmação de que o paciente sofria realmente de Hidrocefalia, Laura e a restante equipa médica procederam a uma cirurgia de emergência a fim de colocar um desvio ao paciente. Um procedimento simples que não demorou quatro horas sequer. Terminada a operação, Laura desfez-se das luvas sujas de sangue e abandonou o bloco operatório ainda a sentir fortes dores no corpo e algumas dificuldades na respiração. Joana observou-a de longe, mas não foi capaz de a seguir pelos corredores. Naquela noite, deu-se por vencida e foi para casa mais cedo sem passar primeiro pelo consultório da sua Orientadora. Quando saiu à rua, a temperatura estava amena. O vento soprava fraco e céu estava cheio de estrelas, denunciando o bom tempo para os próximos dias. Joana caminhou calmamente em direcção ao seu carro estacionado a poucos metros da clínica. Nas mãos, levou um conjunto de livros, pastas e cadernos. Depositou-os no banco de trás. Livrou-se igualmente do seu casaco de ganga e da sua mala a tiracolo. Abriu a porta e entrou no lugar do condutor decidida a dar por terminado mais um dia de trabalho. No entanto, não foi isso que aconteceu.
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    179 Quando ia aarrancar o carro, um vulto estranho abriu a porta e entrou sem cerimónias no lugar do passageiro. Ela apanhou um susto de morte. - O que é que... - Arranca e já falamos! Joana hesitou. - Arranca! O berro de Ricardo fê-la estremecer, mas ainda assim, Joana não teve outra alternativa a não ser acatar as suas ordens. Sentiu-se receosa por ver aquele homem tão perto de si, pelo seu cheiro tóxico a tabaco e pelo seu ar maléfico. Por momentos temeu inclusive pela sua vida. O que ele iria fazer consigo, perguntou-se em silêncio enquanto conduzia o veículo rumo a uma rua deserta escolhida por ele. Minutos depois, Ricardo obrigou-a parar o carro e a desligar as luzes. Acendeu um cigarro e fumou a primeira passa com toda a calma do mundo enquanto o coração de Joana saltava pela boca e as suas mãos tremiam em cima do volante. Um grupo de jovens passou por ali e ela pensou em gritar a fim de pedir ajuda. Contudo, achou melhor não fazê-lo. Temeu pela vida. - O que é que você quer? - ela perguntou, amedrontada. - Antes de mais, elogiar-te pelo excelente filme que fizeste. - Acho melhor sair do meu carro senão eu vou gritar... - Cala a boca e ouve-me – Ricardo espremeu queixo da jovem com força e encostou-lhe a ponta do cigarro ao rosto. – Ouve bem o que te digo e mete isso nessa tua cabecinha esperta! Se te voltares a meter no meu caminho ou no caminho da Laura, eu volto outra vez àquela clínica e acabo com a tua raça, ouviste bem?! Tão fácil que até podia ser com isto... Os olhos de Joana lacrimejaram de medo quando viram o cigarro demasiado perto de si. - Mato-te e nunca mais ninguém encontra o teu corpo!
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    180 Laura regressou acasa perto da uma da manhã. Deixou a mala no bengaleiro e desfez-se do seu casaco de malha. Enquanto o fazia, novas dores voltaram a atormentá-la. Nem se podia mexer. Não conseguia respirar sequer. Mas fez um esforço sobre humano para subir ao quarto, subindo degrau a degrau, com uma das mãos apoiada ao corrimão das escadas, ansiando encontrar um local plano onde se pudesse deitar e esquecer-se de um dos dias mais terríveis da sua vida. Quando chegou ao piso superior, quase por instinto, passou pelo quarto dos filhos e viu-os a dormir como dois anjos. Voltou a fechar a porta e seguiu até ao fundo do corredor. A luz acesa do candeeiro alertou-a para o facto do marido ainda estar acordado no quarto que partilhavam. - Já chegaste? - Leonardo perguntou, ajeitando os óculos de leitura no rosto enquanto analisava alguns documentos sobre a cama. - Sim... Laura tentou sentar-se no cadeirão junto à cómoda a fim de descalçar os sapatos, mas quando o fez, soltou um gemido abafado. - O que foi? - o marido perguntou, preocupado. - Nada! Só tive uns problemas hoje na clínica. - O que é que aconteceu? - Um paciente! Estava alterado e acabou por me dar uma paulada na cabeça, vários socos e pontapés. - Estás a brincar?! Leonardo levantou-se bruscamente da cama e correu em direcção à mulher. Viu- lhe um penso atrás da nuca e logo em seguida uma ligadura à volta da zona do abdómen. Além disso, também eram visíveis algumas nódoas negras nos braços e nas pernas. - Estás bem?! - ele agachou-se perante ela e tomou-lhe o rosto com as mãos. - Sim, agora estou. - Devias processar esse maluco! Ele espancou-te...
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    181 - A culpanão foi dele, Leo. Laura conseguiu a muito custo levantar-se do cadeirão e encontrar a sua camisa de dormir no roupeiro. Ao vê-la de costas, vestida apenas de cuecas e soutien enquanto se esforçava para vestir a combinação de dormir, Leonardo aproximou- se dela e ofereceu-lhe um beijo carinhoso nos ombros. Afagou-lhe os cabelos e voltou a beijá-la no pescoço. - Queres que te prepare alguma coisa para comer? Já jantaste? - Não tenho fome - ela sorriu. - Só quero mesmo é dormir e esquecer este dia. - Vou começar a ir a essa clínica para servir como teu guarda-costas - a afirmação de Leonardo provocou um ligeiro sorriso no rosto de Laura. - És louco - ela observou-o com um carinho especial. - Não gosto de te ver neste estado. - Eu sei - Laura acariciou o rosto do marido e beijou-o nos lábios. - Mas não te preocupes! Está tudo bem... Algum tempo depois, Laura e Leonardo apagaram a luz e enfiaram-se na cama, abraçados. Ela adorou ficar assim. Ali, no meio daquele quarto grandioso às escuras, os braços do marido mantiveram-na segura como se nada ou ninguém lhe pudesse fazer mal. Quando deu por si, já estava a dormir. Foi a primeira vez desde o início do ano que conseguiu dormir oito horas seguidas.
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    182 19 Era o iníciodo Verão e a temperatura exterior há muito que havia atingido os vinte e sete graus centígrados denunciando um dia de extremo calor. Ricardo acordou, tomou um banho, barbeou-se rapidamente e seguiu até à cozinha a fim de preparar um café forte. Fumou o primeiro cigarro do dia e dez minutos depois ouviu a campainha tocar. Era ela. Aproximaram-se e beijaram-se na cara. Um cumprimento ao qual não estavam habituados, mas que trouxe um certo clima de erotismo. Ricardo reparou então no elegante vestido preto que Laura trazia e nos sapatos de salto alto clássicos. O vestido era sóbrio, mas muito feminino e, tal como ela, de beleza subtil. Nas mãos, Laura usava apenas a aliança de casamento e nas orelhas um par de pequenos brincos de pérola. No rosto, nem sequer uma ponta de maquilhagem. Ninguém diria que uma mulher que se arranjasse tão pouco poderia parecer tão bem. - Bom dia, Dr.ª Laura! - Bom dia, Sr.º Ricardo! Trouxe-lhe croissants - ela correspondeu à brincadeira, erguendo um pequeno embrulho muito bem arranjado. - Por favor, faça o favor de entrar! Tomamos o pequeno-almoço juntos? Não fizeram amor naquela manhã. Em vez disso, sentaram-se à mesa da cozinha e degustaram uma refeição improvisada. Croissants trazidos da rua, compota de frutos silvestres, leite e café. A primeira refeição partilhada sem segundas intenções. Tinham combinado passar a manhã juntos antes de Laura ir trabalhar na clínica e a promessa silenciosa de Ricardo de não a tocar manteve-se intacta.
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    183 Conversaram sobre tudo.O trabalho. As crianças. Sonhos. Projectos. Futuros distantes. Ricardo confessou que não sabia se iria ficar em Portugal por muito mais tempo pois sentia-se aborrecido por viver num país onde o metro terminava à uma da manhã, onde os bares e os restaurantes não traziam nada de novo e onde não existia mais nada para fazer além dos seus treinos de boxe. Fazia-lhe falta regressar ao trabalho, à sua rotina diária e ao stress que a cidade de Nova Iorque proporcionava aos seus habitantes. Numa brincadeira sem sentido convidou Laura a juntar-se a ele. Tiravas umas férias e ias lá ter comigo, disse-lhe jocosamente. A médica apenas sorriu, mas foi incapaz de fazer muito mais. Ambos sabiam bem que isso seria impossível. Despediram-se perto do meio-dia com um longo beijo junto à porta. Ricardo acariciou-lhe a face rosada e os cabelos soltos, observou-a com respeito, admiração e desejo. Ela passou-lhe as mãos pela barba aparada e pela nuca, ensaiando um novo beijo que nunca se chegou a concretizar. Quando tentou sair pela porta, ele puxou-a de novo para si e tomou-lhe a cintura fina, sentindo-lhe os ossos atrás das costas. - Adoro-te - disse. Ela sorriu perante tal confissão. - Eu também. À medida que o tempo passava, Laura atormentava-se com o fato de não conseguir deixar de ver Ricardo. Sentia uma enorme vontade de o fazer, mas não tinha forças para isso. Sempre que pensava em afastá-lo da sua vida ou nunca mais responder a nenhum telefonema seu sofria um aperto no coração. E com isso passaram-se seis meses desde a primeira noite em que fizeram amor. Um caso que tinha pouquíssimas chances de sobreviver ao tempo tornou-se numa relação cúmplice que crescia de intensidade a cada dia. Os telefonemas duravam horas e aconteciam quase sempre ao final da noite quando Laura se trancava no escritório. Os encontros curiosamente deixaram de ser somente para fazer sexo e as conversas aprofundaram-se de maneira tal, ao ponto de Ricardo contar aspectos privados da sua vida como o facto de ter vivido alguns meses nas ruas de Paris e de ter passado fome sem ninguém que o pudesse ajudar. Contou-lhe também a experiência negativa que tivera no mundo das drogas e a decisão drástica de deixar a cocaína quando sofreu uma overdose. Desde essa altura nunca mais tocou numa única grama daquilo que considerava ser uma arma em pó. Talvez Laura devesse ter ficado perplêxa com a confissão, mas a verdade é que as palavras do cunhado apenas serviram para que ela o admirasse ainda mais. Agora entendia o porquê do seu jeito frio e distante. Da dureza presente nos seus olhos e gestos. Havia um significado especial que ela entendia como ninguém.
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    184 Ricardo era ooposto de Leonardo em todos os sentidos, apesar de serem irmãos. O primeiro, dono de uma personalidade forte e vincada, perdera o encanto pela vida quando criança e nunca foi capaz de se recuperar da morte dos pais. Fechou- se a sete copas para o mundo culpabilizando tudo e todos. Simplesmente deixou de acreditar na bondade humana. O segundo, pelo contrário, superou a tragédia e nunca perdeu o brilho nos olhos. Formou-se, casou-se, teve filhos. Fez tudo o que estava ao seu alcance para recuperar a família que acidentalmente perdeu. A mulher e os filhos eram o pilar que sustentavam toda a sua existência e ele não conseguia imaginar-se sem eles. Talvez fosse errado depositar todas suas expectativas em três seres humanos que não eram mais do que isso mesmo. Humanos. Mas para ele, não havia nada mais maravilhoso do que chegar a casa ao final do dia, deparar-se com a mesa posta por Laura e as crianças a brincar na sala. Não havia também nada melhor do que passar os fins-de-semana sem qualquer compromisso na agenda, esparramado no sofá, a ler um livro, enquanto ouvia o movimento das pessoas que amava à sua volta. Em alturas de puro lazer, João e André corriam animados pela casa na companhia de Rufus, subindo e descendo as escadas a uma velocidade fantasmagórica sem ligarem aos avisos da mãe para que parassem quietos. A empregada arrumava a cozinha, aspirava a sala e os quartos. Laura preparava o almoço e estendia a roupa no jardim das traseiras, ignorando o calor infernal que se fazia sentir na primeira semana de Julho. Faltava pouco tempo para o início das férias e as crianças começavam a ficar empolgadas para viajar com os pais. Leonardo pensou em tudo. Alugou uma casa de férias no Algarve, afastada do centro da cidade, a poucos metros da praia, contando passar as quatro semanas de Agosto numa calmaria total em contraste com a vida frenética que levava em Lisboa. Todos os anos o plano se repetia - daí a pouca surpresa de Laura quando o marido confirmou o aluguer da casa. Há quatro anos que viajavam para o sul do país, passando os dias junto ao mar e as noites na varanda da moradia a contar as estrelas no céu e as horas de se irem deitar com a nítida certeza de que iriam repetir as mesmas acções no dia seguinte. Tão previsível. Tão monótono. A vontade de partir de férias era nula. Laura preferia mil vezes continuar a trabalhar na clínica ou quem sabe escapulir-se durante alguns dias na companhia do cunhado. Um tour pela Europa só com uma mochila às costas, ele convidou-a a fazer isso. Ao sonhar com essa possibilidade enquanto estendia a roupa no jardim, um sorriso malicioso atravessou o rosto de Laura. Eram sonhos, ela sabia. Malucos. Ideias abstractas sem qualquer valor quando confrontadas com a dura realidade de ser uma mulher casada e mãe de duas crianças que exigiam de si toda a responsabilidade e atenção.
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    185 - Mãe! Olhao Rufus - João saiu ao jardim segurando o cão da família pelas patas dianteiras enquanto o obrigava a andar com as traseiras. - Olha ele a andar! Laura sorriu perante a inocência do filho e continuou a estender calmamente a roupa no varal. - Estás a magoá-lo - ela avisou. - Não estou nada! Anda, Rufus! Anda...! O cão latiu ruidosamente, aflito que por se ver a fazer algo que a natureza não lhe permitia. - Deixa-o - André saiu também ao jardim e retirou o animal dos braços do irmão. - Oh, mãe! Olha o André - João protestou. - Ele não sabe andar, não vês? - André puxou o cão para junto de si. - Dá-mo! - Não. - Dá-me o Rufus! - Não - André enfrentou o olhar furioso do irmão. - Ele é meu. - Não! Ele é meu. - Ele não é de ninguém - Laura apartou prontamente a discussão dos filhos enquanto lutavam pela posse do animal. - Larguem-no! Agora! Rufus agradeceu a intervenção de Laura. Assim que se viu livre das garras dos gémeos, afastou-se rapidamente e correu em direcção à sua casota, enfiando-se lá dentro com um olhar assustado. - Estúpido - André insultou o irmão com uma expressão de ódio. - Acabou, já disse - a mãe tomou-lhe o braço com força. - E não voltes a falar assim ao teu irmão! Pede desculpas!
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    186 André demorou algumtempo a acatar a ordem da mãe. - Desculpa! - Lá para dentro os dois que já é hora do almoço - Laura apontou o dedo em direcção à marquise da cozinha. A tarde irrompeu as janelas. Enquanto Laura estudava alguns relatórios e livros médicos sobre a mesa, indiferente à presença do marido, a empregada despediu-se com a promessa de voltar na manhã seguinte à mesma hora. Leonardo encontrava-se no sofá a ver um filme repleto de tiros e explosões, num escape perfeito à necessidade de ter que pensar durante duas horas. Fez um zapping pelos canais de televisão e acabou a assistir um jogo de futebol sem importância. Enquanto isso, os filhos brincavam no jardim frontal da casa na companhia de Rufus. A paz parecia restaurada entre eles e a rotina também. - Vou lanchar! Queres que te traga alguma coisa da cozinha? - Leonardo colocou- se atrás da mulher e roubou-lhe um beijo no pescoço. - Não - Laura manteve-se atenta aos relatórios que estava a ler. - Não tenho fome. Mas obrigada na mesma. - Vou chamar os miúdos para ver se querem comer alguma coisa. - O.k. - Até já - Leonardo voltou a roubar mais um beijo à mulher. Desta vez, nos lábios. - Até já - ela respondeu sem entusiasmo. O domingo terminou com uma estranha mudança climatérica. Perto das sete, o céu azul transformou-se numa enorme plataforma cinzenta de nuvens adensadas. A temperatura desceu drasticamente, motivo pelo qual Leonardo subiu ao piso dos quartos a fim de encontrar a sua camisola de malha cinzenta numa das gavetas da cómoda. Quando desceu ao primeiro piso, a mulher saiu à rua decidida a terminar com a brincadeira dos filhos. Apesar de terem passado a tarde inteira a correr e a saltar, João e André pareciam duas fontes inesgotáveis de energia. Laura não se lembrava de ter sido uma criança assim. Não se lembrava de correr, saltar à corda, rir-se às gargalhadas ou até mesmo ter um animal de estimação que pudesse chamar de seu. A mãe sempre lhe proíbira estas regalias.
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    187 - Vamos! Jásão horas de entrar lá para dentro! Daqui a pouco começa a chover... - Ainda é cedo - André protestou. - Não vou repetir uma segunda vez! Os dois lá para dentro agora... Os gémeos não viram outro remédio a não ser obedecer às ordens da mãe. Passaram por ela, cabisbaixos. Laura percebeu que um deles se encontrava a comer um pacote de gomas. - Onde é que arranjaste isso? - Aquela senhora ali é que nos deu... João apontou em direcção a um automóvel cinzento estacionado no outro lado da rua a poucos metros do portão de casa. E por instantes, enquanto os seus olhos se mostravam incrédulos perante a realidade dos factos, Laura sentiu um estranho arrepio percorrer-lhe todas as veias do corpo. A expressão facial de Joana era verdadeiramente aterradora assim como o sorriso que esboçou de longe a poucos segundos de arrancar o carro. Desapareceu da rua deserta. Desapareceu sem deixar rastro, mas atrás de si deixou vestígios de desconfiança, medo e temor. Como descobriu onde morava? Como descobriu quem eram os seus filhos? Laura perguntou-se em silêncio. - Venham! A médica levou os filhos pela mão, atirando para o saco de lixo a embalagem de gomas que Joana muito gentilmente oferecera às suas crianças.
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    188 20 Partiram na primeirasemana de Agosto rumo ao Algarve para passar umas merecidas férias de Verão. Alugaram a mesma casa de férias e prepararam todos os detalhes da viagem com a devida antecedência. As crianças encontravam-se animadíssimas com a ideia de passarem quatro semanas na companhia dos pais sem terem que ir ao colégio. Leonardo preparou a sua cana de pesca e a máquina de filmar. E até Laura, pouco dada a descansos, prometeu desligar o telefone e só pensar no trabalho quando regressassem a Lisboa. Leonardo estacionou o carro em frente à moradia alugada ao início da tarde e permitiu que os filhos e o cão da família fossem os primeiros a saltar do banco de trás. Fazia um calor de quase quarenta graus e ao longe ouvia-se o barulho das ondas do mar a bater nas rochas. Na rua, nem um única pessoa. Era uma zona afastada da grande cidade, propícia ao descanso, onde os vizinhos se remetiam às suas casas recusando-se a manter qualquer contacto com o mundo exterior. Quando chegaram ao local, Leonardo e Laura levaram as bagagens para o interior de uma casa que tão bem conheciam. O arquitecto falava muitas vezes em comprá- la e fazer nela uma enorme remodelação. A mulher, por sua vez, sempre o impediu de cometer tal acto dizendo que não valia o sacrifício e de que um dia se poderiam arrepender de adquirir uma casa onde só passavam as férias de Verão. Leonardo sonhava um dia fazê-la mudar de ideias. A habitação era enorme. Possuía um jardim à volta, três quartos ensolarados, uma cozinha que dava acesso directo ao quintal das traseiras e uma sala com uma varanda onde se podia apreciar a vista fantástica sobre a praia situada a poucos metros de distância. Durante a noite a vista tornava-se ainda melhor. A altura propícia para Leonardo grelhar o peixe na companhia da mulher enquanto as crianças se divertiam a correr à volta da mesa.
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    189 Em alturas similares,Laura sentia como se nada tivesse mudado. As crianças cresciam felizes, o marido esmerava-se nos grelhados superando-se a cada dia e ela deixava-se envolver por um certo sentimento de pertença àquelas três pessoas que faziam parte da sua vida. - Cheira bem – Laura abraçou o marido pela cintura. - E sabe melhor ainda. O sorriso carinhoso de Leonardo enquanto segurava um garfo de metal nas mãos incitou Laura a encontrar-lhe os lábios e a deliciar-se com aquela sensação de calmaria instalada nas suas vidas. Era a primeira vez desde o início do ano que ela e Leonardo se atreviam a passar noites inteiras a conversar sem olhar para o relógio ou preocupados em acordar as crianças de manhã. Os telemóveis desligados assinalavam também a vontade de se esconderem do mundo exterior. Ali, naquela magnífica casa de férias onde todos os anos se repetia aquele cenário paradísiaco, não havia espaço para problemas ou sentimentos negativos. Não havia espaço para que Laura se lembrasse da promessa que fizera ao cunhado de voltar para os seus braços assim que regressasse a Lisboa ou até mesmo das perseguições e chantagens de que era alvo por parte da sua Interna na clínica onde trabalhava. Ali, ela sentia-se livre, pura e honesta. - Nem acredito que te estou a ver assim... Leonardo observou Laura no quintal das traseiras, descalça, completamente esparramada na espreguiçadeira, trazendo apenas um vestido de alças preto no corpo e uma taça de vinho nas mãos oferecida por ele momentos antes. - Vem – ela estendeu-lhe o braço. Leonardo não precisou de outro convite para se sentar em frente à mulher com uma expressão embevecida. Observou-a com atenção, a forma como ela bebia o vinho, mexia nos cabelos e tocava a ponta dos pés na sua perna insinuando-se com um simples olhar. Era bela. A mulher mais bonita do mundo e a única capaz de o deixar assim. Completamente desarmado. - A casa fica silenciosa quando os miúdos estão a dormir – Leonardo passou as mãos pelas pernas sedosas de Laura. - E isso não é bom?!
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    190 - Quase sempre– os dois riram-se, baixinho. – Mas confesso que sem eles a nossa vida seria um tédio. - Tens razão – Laura voltou a enterrar os lábios na sua taça de vinho. Ouviu-se um longo silêncio. Leonardo continuou a acariciar as pernas da mulher e ela bebeu o resto da bebida que tinha no copo. Ficaram um longo tempo a olhar um para o outro, analisando-se mutuamente, quem sabe à procura de sentimentos que se foram perdendo ao longo do tempo. Doze anos não eram doze dias, chegaram os dois a essa conclusão. - Posso fazer-te uma pergunta? - Leonardo continuou a tocá-la nas pernas. - Claro. - És feliz no nosso casamento? A pergunta do marido tomou Laura de assalto. Era a primeira vez que ele perguntava algo semelhante. - Sou - ela sorriu nervosamente, após um ligeiro momento de pausa. - Claro que sou. - Não te falta nada? - Não – a voz da médica saiu rouca. - E o sexo? - O que é que tem o sexo?! - O sexo entre nós. É bom? As perguntas e as inseguranças do marido deixaram Laura sem saber o que responder. Levaram-na inclusive a pensar se ele não estaria a desconfiar de alguma coisa. - O sexo é bom. - Bom, mas não é espectacular - Leonardo observou-a, desconfiado.
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    191 - Bom eespectacular – Laura corrigiu e atreveu-se a sentar-se sobre o colo de Leonardo. Mais tarde, alcançou-lhe a mão direita e colocou-a sobre um dos seus seios, dizendo. – Eu quero-te…! Muito... A sensação de fazer amor com o seu marido não se aproximava nem de perto, nem de longe à excitação de ter sexo com o cunhado. Mas ainda assim, quando Leonardo a teve naquela espreguiçadeira desconfortável, Laura percebeu que ainda continuava a desejá-lo da mesma forma. Talvez fosse estranho sentir-se assim. Gostar de fazer amor com dois homens diferentes. Gostar que eles a tocassem e que a beijassem de formas diferentes. Talvez não fosse ético da sua parte, mas a verdade é que não lhe fazia confusão nenhuma deitar-se com dois homens distintos e sentir a mesma excitação por eles. Com Ricardo era fogo, desejo, paixão, luxúria. Com o marido, carinho, amor e cumplicidade. Ela tinha o melhor dos dois mundos. Enredados num ambiente idílico de férias, os dias de Leonardo, Laura e os filhos eram inteiramente passados à beira mar. De manhã era usual irem à praia, passando ali a maior parte do tempo. Não havia pressas de regressar a casa. Tudo era calmo e pacífico. As crianças corriam desenfreadamente ao longo do areal tentando esquivar-se dos avanços de Rufus, que divertido, os fazia cair e lhes lambia os corpos desnudos. De longe, o pai filmava a cena com a nova câmera comprada sem nunca perder de vista um único movimento dos filhos. Adorava vê-los assim. Estavam a crescer a cada dia, a tornarem-se dois rapazes fortes, inteligentes e com uma vivacidade extrema no olhar. Seriam altos, tal como ele e Laura. Mas o sorriso radiante, os cabelos arrepiados e os olhos castanhos profundos, eram seus. Fisicamente eram uma cópia sua de quando criança. Havia fotografias a confirmar essa teoria. Talvez por serem rapazes, da mãe pouco ou nada tinham. O sorriso de Laura era tímido e seco. Os cabelos eram lisos e volumosos - agora bastante mais claros devido à excessiva exposição ao sol - e os olhos possuíam um tom esverdeado cristalino. Leonardo pôde observar todos estes os traços físicos quando voltou a câmera em direcção à mulher. Encontrou-a concentrada na leitura de um livro que trouxera de Lisboa. Laura detestava o sol e o calor mas fazia um esforço sobre humano para aguentar as altas temperaturas. Ao meio dia, a pele excessivamente clara tomava uma tonalidade vermelha fazendo-lhe pequenas manchas e borbulhas ao longo das pernas, barriga e braços. Enquanto percorria a câmera pelo corpo esbelto da mulher coberto apenas por um bikini preto discreto, Leonardo deliciou-se em segredo com a imagem exposta na tela. Sorriu ao fazer um "zoom" nos seios de Laura, mas foi incapaz de denunciar o
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    192 seu atrevimento durantevários segundos até ela o surpreender com a máquina apontada para si. Sem dizer nada ela sorriu. Afrouxou os óculos de sol e deitou a língua de fora num gesto igualmente atrevido e sensual. Leonardo continuou a filmá-la. Laura levantou-se da espreguiçadeira e caminhou em direcção à água, ajeitando o bikini preto na zona das nádegas. O marido registou a perfeição do seu corpo e a forma como levou os filhos em cada uma das mãos. Entraram juntos na água e ela brincou com eles. Ajudou-os a boiar, livrou- os de algumas ondas perigosas e permitiu que eles corressem atrás de si numa brincadeira sem sentido, partilhada até mesmo por Rufus, o cão da família. Era a primeira vez que Leonardo a via tão natural. De longe, ouviu-lhe as gargalhadas e a expressão de felicidade estampada no rosto sem imaginar que o seu telemóvel vibrava incessantemente sobre a espreguiçadeira onde ela havia deixado os seus pertences. Leonardo esticou um dos braços e alcançou o aparelho num gesto instintivo como se estivesse a atender o próprio telemóvel. Viu a letra R no visor, mas ninguém respondeu. A chamada foi imediatamente desligada assim que o remetente lhe reconheceu a voz. João e André adormeceram, exaustos, após o jantar. O dia repleto de correrias e brincadeiras na praia deixou-lhes poucas energias para que pudessem desfrutar do resto da noite na companhia dos pais. Coube a Laura e Leonardo a tarefa de os levar ao quarto e de os pôr na cama. Quando saíram, desligaram a luz e encostaram a porta. Leonardo foi o primeiro a chegar ao quarto que partilhava com a mulher naquela casa de férias. Destendeu os lençóis da cama e atirou as almofadas ao chão. Atrás da porta, ouviu o barulho do chuveiro da casa de banho. Laura tomava o último banho da noite e ele imaginou-a no interior da cabina completamente nua. Sorriu sem querer. Pouco tempo depois, refugiou-se na cama e levou a máquina de filmar nas mãos com o intuíto de fazer alguns ajustes à cor e ao som. Quando a mulher entrou no quarto, ergueu a câmera e viu-a novamente através da tela, vestida com a sua habitual combinação de dormir preta e com os cabelos molhados a caírem-lhe sobre os ombros. Estava especialmente bonita naquela noite ainda que não tivesse feito esforço nenhum para isso. - Não te cansas? - ela perguntou, abrindo uma das gavetas da cómoda, sem ligar às filmagens do marido. - Estava aqui a ver se acertava uma coisa - Leonardo premiu um botão e ajustou a lente da câmera. - Não sei porquê, mas esta máquina é meio estranha. Não consigo focar a imagem como deve ser. Sai tudo azulado...
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    193 Laura sorriu, masnão respondeu nada. Sentiu-se incapaz de o fazer. Estava demasiado cansada. A única coisa que desejava na altura era cair na cama e dormir. - Espera - a voz do marido captou-lhe a atenção. - Acho que agora estou a conseguir. Espera! Espera... - Leo! Desliga isso! Já é tarde! Vamos dormir. - Só mais um pouco a ver se isto melhora. A imagem do rosto de Laura saiu pela primeira vez nítida na tela de imagem, e ao vê-la, Leonardo soltou um largo sorriso como se tivesse atingido uma grande vitória. Tinha passado horas a tentar ajustar a máquina, lendo e relendo o manual de instruções e no momento em que estava quase a desistir o milagre aconteceu. Ali estava a mulher, nítida aos seus olhos, a passar um creme pelo rosto e pelos braços. Leonardo fez um novo "zoom" e viu-a mais detalhadamente. Em seguida, aguardou que ela largasse o creme sobre a cómoda e seguisse em direcção à cama. Nunca a perdeu de vista. Laura sorriu e tapou o rosto com as mãos. Não faças isso, ele pediu. Num gesto provocatório, ela arrastou-se pela cama de gatas e manteve- se à frente da lente permitindo que o marido lhe filmasse o rosto desprovido de maquilhagem. Desfez-se de uma das alças da sua combinação de dormir. Leonardo soltou uma alegre gargalhada e ela franziu o sobre olho como se o quisesse atiçar. - Espera! Deixa-me desligar isto - Leonardo tentou controlar o ímpeto de Laura em beijá-lo por todo o rosto. - E deixa-me trancar a porta também... - Esquece a porta. - Não...! Espera! - Ninguém vai aparecer. - Os miúdos, já te esqueceste?! Queres que fiquem traumatizados? Leonardo riu-se sozinho e correu a fechar a porta à chave. Nunca se sabia se um dos filhos não apareceria por ali - sobretudo João - que acordava muitas vezes ao longo da noite pedindo que alguém o ajudasse a fazer chichi, beber água e que o tapasse depois. Mas com a porta fechada à chave o quarto era só deles.
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    194 Laura soltou umlongo suspiro quando o marido lhe retirou a combinação de dormir. Deixou-se beijar por ele com vontade. Permitiu que ele lhe sugasse os seios com voracidade, que lhe mordesse os ombros e o pescoço. Engoliu a sua boca, tomou-lhe a nuca com as mãos e manteve-se sobre o colo dele sem ligar ao barulho irritante dos grilos que continuavam a cantar do lado de fora da casa. Quando deu por si, ela e Leonardo já se encontravam nús sobre a cama a fazer amor pela décima quinta vez naquelas férias controlando os gemidos para que os filhos não acordassem no quarto ao lado. Esse era o lado bom das férias. Ter-se todo o tempo do mundo para perder tempo com carícias, beijos, abraços e sexo. Perto do final, quando Leonardo experimentou o prazer habitual ao lado da mulher, uma vozinha trémula soou atrás da porta batendo nela com força. Obrigado, filho. Chegaste na hora certa. A afirmação desolada do arquitecto os ouvidos da mulher constrastou com os risos de Laura e com o seu gesto em empurrá-lo para fora da cama com a ponta dos pés. Segundos depois, Leonardo encontrou os seus calções jogados no chão e apressou-se a destrancar a porta do quarto. Vislumbrou a figura frágil do filho, que ensonado, continuava a esfregar os olhos com as duas mãos. - Leva-me a fazer chichi - João não teve cerimónias em agarrar a mão do pai e puxá-lo para fora do quarto. Leonardo encolheu os ombros à mulher e fez-lhe um ligeiro sinal de que iria cumprir a tarefa imposta pelo filho. Saíram os dois, deixando a porta encostada. Laura alcançou o relógio sobre a mesinha de cabeceira e viu que nele estavam marcadas duas da manhã. Ficou a olhar para o tecto durante um bom tempo, sentindo o seu corpo envolto numa enorme inércia causa pelo marido e por umas férias que apesar de tudo lhe estavam a fazer bem. Foi então que o seu telemóvel vibrou sobre a mesinha. O oitavo telefonema desde o início das férias. Ao ver no visor uma letra que tão bem conhecia, Laura sentiu um ligeiro ardor nas mãos e durante algum tempo manteve a tecla verde debaixo dos dedos. Por fim, numa insanidade total, premiu o botão e levou o telefone aos ouvidos. - Não devias ter ligado - ela saltou da cama a fim de verificar de que ninguém a estava a ouvir atrás da porta. - Eu disse que te ligava assim quando pudesse. Já viste que horas são? - A Rita está a dormir. Aposto que o meu irmão também deve estar a fazer o mesmo - Ricardo manteve-se debruçado sobre a janela da sua cozinha a fumar o último cigarro da noite.
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    195 - Não! Nãoestá! Vou ter que desligar. - Espera! Porquê essa pressa toda? - O Leo pode voltar a qualquer momento. - Tenho saudades tuas. Ouviu-se um longo silêncio do outro lado da linha. - Tenho saudades tuas, ouviste!? - ele insistiu. - Ouvi - Laura soltou um suspiro pesado. - Eu também tenho saudades tuas. Mas já te disse que não posso atender aos teus telefonemas sempre que me resolves ligar. Não quero que o Leo desconfie. Por isso, pára de me ligar! - Quando voltas? - Ricardo ignorou o pedido da cunhada. - Dentro de uma semana. - Quando voltares, procura-me. - Está bem - ela acedeu, impaciente. - Promete! - Prometo! Mas agora vou desligar! Não me ligues mais, por favor! Falamo-nos quando eu voltar a Lisboa... - Adoro-te. - Eu também te adoro! Adeus! Dorme bem... Quando Laura desligou aquela maldita chamada telefónica recebida a meio da madrugada, longe estava ela de imaginar que atrás da porta o marido a escutava com atenção, absorto com tudo o que tinha acabado de ouvir. Por momentos, Leonardo pensou que tivesse ensurdecido. Tentou igualmente arranjar explicações para o facto da mulher se estar a dirigir a outra pessoa dizendo que a adorava e que sentia saudades dela àquela hora da manhã, quase num tom de murmuro, secreto, receosa de que alguém a pudesse estar a ouvir.
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    196 Era demasiado irreal.Demasiado louco ou cruel sequer cogitar a ideia de que Laura o pudesse estar a trair com outro. Mas quando a realidade lhe caiu em cima, tudo começou a fazer sentido. Desolado, Leonardo encostou-se à parede do corredor às escuras e tapou o rosto com as mãos a fim de recuperar a sanidade mental que por momentos se desvaneceu do seu interior. Ficou ali, durante muito tempo e só voltou a entrar no quarto quando reuniu forças para a encarar o rosto da mulher e fingir que nada tinha ouvido.
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    197 21 Foi um regressodesejado, tanto para Laura, como para Leonardo. A médica não via a hora de voltar ao trabalho, mergulhar nas suas consultas e num quotidiano que tão bem conhecia. Quatro semanas longe de Lisboa pareceram-lhe uma eternidade, especialmente num local onde o único divertimento se cingia a corridas na praia e a noites passadas na varanda. Fazia-lhe falta o movimento frenético dos carros à hora de ponta, o cheiro a gasolina proveniente do asfalto, a adrenalina de trabalhar doze horas por dia, e até mesmo a sua casa que, para si, servia como um refúgio incapaz de ser suplantado. Leonardo também agradeceu aos deuses o término daquelas férias. Nunca mais foi o mesmo desde aquela fatídiga madrugada em que surpreendeu a mulher a falar secretamente ao telefone. As desconfianças de que Laura o poderia estar a trair com outro homem tornavam-se cada vez mais fortes. Subitamente, tudo nela lhe soava falso. As palavras, os gestos, a forma como segurava os talheres durante as refeições, como bebia o vinho e se movimentava pela casa. Laura não lhe parecia a mesma mulher por quem se tinha apaixonado e nem merecedora da confiança cega que sempre lhe depositou. - Estás apenas desconfiado ou tens provas concretas? – foi a pergunta de Francisco Saraiva, o seu melhor amigo, num almoço combinado entre os dois a meio da semana. - Não tenho provas e também ainda não tive coragem de confrontá-la com as minhas desconfianças. Mas já ando a pensar nisso há algum tempo. - E se ela estiver realmente a trair-te com outro, o que é que vais fazer? - O que é que achas!? - a expressão de Leonardo não deixou dúvidas.
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    198 - Pensa bem!Por vezes, pedir o divórcio não resolve nada. Pelo contrário. Só trás problemas, transtornos e chatices... - Francisco engoliu o resto do vinho que tinha no copo. - Vocês já são casados há doze anos e têm dois filhos. Se se separarem, quem é que achas que vai ficar com a guarda das crianças? Pagar a pensão de alimentos? Quem é que achas que vai ter que sair de casa e começar tudo do zero? O divórcio é um mau negócio para os homens, meu amigo! Infelizmente tens que concordar comigo... As palavras de Francisco incitaram Leonardo a encher um novo copo de vinho. - Se ela te estiver a trair, deve ser só sexo! Caso contrário, já te tinha pedido o divórcio. É como eu e a Sofia. Já a traí muitas vezes, mas nunca sequer me passou pela cabeça separar-me dela para ficar com outra. Mal por mal, fica-se com o que se tem... Se o objectivo de Francisco era fazer Leonardo sentir-se melhor, de facto, não foi isso que aconteceu. Durante a condução até casa, o arquitecto não deixou de meditar nas palavras proferidas pelo amigo. Mal por mal, fica-se com o que se tem. Será que ele era assim tão mau? Será que era um péssimo marido? Um pai desplicente? Alguém tão desinteressante ao ponto de merecer ser traído pela própria mulher? Inúmeras perguntas ficaram sem resposta na altura em que Leonardo chegou a casa e estacionou o carro na garagem. Sabia que estava atrasado para o jantar, mas nem esse facto acresceu a sua vontade de abrir a porta e sentir o aroma da comida cozinhada pela nova empregada. Na sala, João e André jogavam na Playstation, ignorando os latidos de Rufus à volta dos cabos da televisão. A mulher ainda não havia chegado a casa. Ligara-lhe durante a tarde a avisar que iria ficar presa num plantão de vinte e quatro horas. Pela primeira vez, ao ser informado dessa notícia, Leonardo não acreditou numa única palavra dita por ela. Contrariamente às desconfianças do marido, Laura passou realmente a noite a trabalhar. O internamento de um paciente em estado crítico devido a um grave derrame cerebral, obrigou-a a prolongar o plantão por mais algumas horas. O paciente foi internado e submetido a uma cirurgia de emergência. A mesma cirurgia teve início à meia-noite e estendeu-se por quatro horas, altura em que foi declarado o óbito da vítima devido à oclusão de uma carótida seguida de uma paragem cardíaca. Apesar de uma intensa fase de reanimação, nenhuma das tentativas realizadas por parte da equipa medica surtiu efeito. O paciente faleceu na mesa de operações às cinco horas e quarenta e três minutos.
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    199 Quinze minutos apóso desfecho trágico daquela operação, Laura caminhou apressada em direcção à sala de espera com o intuíto de se despachar da terrível tarefa de informar os familiares do seu paciente que este havia falecido. Minutos depois, cumprida essa tarefa, enquanto ouvia indiferente o choro e os lamentos das cinco pessoas que ali se encontravam presentes, ela abandonou a sala de visitas e precipitou-se em direcção ao elevador. Premiu o botão de chamada e aguardou que este a levasse ao terceiro piso. Quando chegou ao seu consultório, caiu desolada sobre a cadeira e ali ficou durante um bom tempo sem atender a telefonemas ou responder às mensagens do seu BIP. Sentia-se exausta, como sempre. Olhava apenas para o vazio da sua sala e também para o vazio em que se tinha transformado a sua vida. Subitamente lembrou-se que tinha uma família e resolveu telefonar ao marido para saber se as crianças já estavam no colégio e se ele se encontrava a trabalhar. Leonardo respondeu que sim às duas questões, mas foi incapaz de dizer muito mais. Manteve uma postura fria e distante durante os segundos em que falaram ao telefone, e quando desligou a chamada, não proferiu a habitual frase a que a mulher estava acostumada: Vê lá se salvas mais uma vida hoje! Amo-te. Era uma mudança quase imperceptível, mas ainda assim alguma coisa deixou Laura desconfortável quando ela largou o telemóvel sobre a secretária. Os seus sentidos alertaram-na para um facto que já vinha acontecendo nos últimos dias. Leonardo andava estranho, observava-a com desconfiança e lançava indirectas constantes como se a estivesse constantemente a testar. Apesar de nunca terem falado sobre o assunto, ela sabia que alguma coisa estava errada no comportamento do marido e tremia de medo só de imaginar a ideia de que ele pudesse desconfiar de alguma coisa. Mas isso eram apenas suposições. Fantasmas da sua cabeça. Remorsos por andar traí-lo sem que poder fazer absolutamente nada para impôr limites à sua loucura. - Entre – ela disse quando a porta do seu consultório sofreu uma ligeira batida. - Bom dia, Dr.ª Laura - uma auxiliar de serviço interpelou-a junto à porta. - Bom dia. - Sei que deve estar de saída, mas o director da clínica quer falar consigo. - Agora?! - Sim! Ele está à sua espera na sala de reuniões.
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    200 Longe de imaginarqual seria o assunto que levara o director da clínica a chamá-la àquela hora da manhã, Laura fechou a porta do seu consultório à chave e apressou-se pelos corredores tentando esconder o cansaço estampado no rosto e as fortes dores físicas que a atormentavam sempre que se encontrava no final de um plantão. Dirigiu-se ao sexto piso. Ao fundo do corredor encontrou o segurança de serviço e este abriu a magestosa porta de madeira com um sorriso formal. Ela entrou e deparou-se com um grupo de homens distintos, bem aprumados, sentados numa mesa oval, conversando entre si ao sabor de vários cafés, copos de cristal, blocos, canetas e garrafas de água. Reconheceu alguns. Accionistas e Membros do Conselho Administrativo, parte do corpo residente de cirurgiões do qual ela fazia parte, o Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica, Alfredo Meireles, e tal como não poderia deixar de ser, sentado à cabeceira da mesa, a figura imponente de Carlos Fonseca, o director da clínica. Dezoito pessoas ao todo. Homens. Quase todos homens. Laura examinou cada um deles, a fileira de rostos - alguns já membros da direcção mesmo antes de ela nascer - e por momentos, ainda que tivesse tentado esconder o seu estado de espírito, sentiu-se intimidada e observada por todos eles. - Entre, Dr.ª Laura! Sente-se e junte-se a nós, por favor...! A médica acedeu ao pedido do director da clínica e escolheu uma cadeira aleatória para se sentar. As mãos nervosas, escondidas por debaixo da mesa, serviram para que conseguisse camuflar a expectativa criada por aquele ambiente de cortar à faca. No rosto de cada pessoa, ela tentou mais uma vez decifrar expressões, gestos e tossidos. Porque é que havia sido chamada ali, perguntou-se em silêncio. Podemos começar. A voz autoritária do director da clínica interrompeu o silêncio instalado na sala. Todos concordaram com o início da reunião, ouvindo atentamente as palavras iniciais de Carlos Fonseca que não teve cerimónias em agradecer a presença dos accionistas, médicos e outros profissionais de saúde que diariamente colaboravam para o bom funcionamento da clínica. Após um discurso de circunstância, Carlos passou a palavra a Alfredo Meireles para que este se pronunciasse sobre o término das suas funções enquanto Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Cinquenta anos de serviço - vinte dos quais passados na clínica a dirigir um corpo brilhante de quinze cirurgiões residentes. Alfredo não poupou elogios aos seus colegas de profissão e no final aceitou a honra oferecida pelo director da clínica para que dissesse em voz alta o nome da pessoa escolhida por unanimidade para ocupar o cargo deixado por si:
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    201 DR.ª LAURA MENDONÇAALVES. Durante breves instantes, Laura pensou que tinha ensurdecido. Manteve-se inerte, com as mãos por debaixo da mesa e a olhar fixamente para o rosto de Alfredo Meireles à espera que ele voltasse a pronunciar o seu nome numa sala repleta de pessoas que aplaudiram de pé a decisão tomada pelo corpo de accionistas e membros do conselho administrativo. Sem saber o que fazer, Laura também se levantou da cadeira onde estava sentada, mas foi incapaz de fazer muito mais. As suas pernas estavam bambas e as mãos trémulas. Seria aquilo? Seria aquele o momento pelo qual havia ansiado durante toda a sua carreira? O momento que todos os cirurgiões almejavam alcançar e que agora se tornava real? Enquanto saboreava em silêncio a sua grande vitória, Laura desejou soltar um berro. O maior que alguma vez soltara. Um berro que pudesse retirar do seu peito toda a adrenalina que estava a sentir. - Parabéns, Dr.ª Laura - Carlos Fonseca estendeu a mão à nova Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica da sua clínica. - Excelente candidatura! Espero que tenha tempo para colocar em prática todo o programa que criou. - Obrigada, Dr.º Carlos - a médica acedeu ao aperto de mão com uma frieza excepcional. - Fez uma óptima escolha. - No dia trinta de Setembro procederemos à cerimónia da sua tomada de posse. Laura saiu da clínica algum tempo depois sentindo-se atónita e estupefacta com tudo o que tinha acabado de acontecer. Enquanto conduzia o seu jipe em direcção ao centro da cidade uma felicidade extrema atravessou-lhe o coração. Pensou na primeira pessoa a quem iria contar aquela notícia maravilhosa. Não. Não seria o marido. Na altura, ocorreu-lhe um outro nome. - Parabéns...! Ricardo abriu a porta do seu apartamento e ofereceu uma enorme chuva de champanhe à sua cunhada. Laura tapou o rosto com as mãos e riu-se às gargalhadas com a loucura cometida por ele. Mais tarde, beberam duas taças de champanhe e caíram sobre o tapete de sala. Desfizeram-se das suas respectivas roupas sem se importarem com nada mais à volta e fizeram amor a fim de matar todas as saudades que sentiram um do outro enquanto ela esteve de férias no sul do país com o marido e os filhos.
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    202 Apenas os beijosdo cunhado fizeram Laura esquecer-se do terrível plantão que tivera na noite anterior. As longas horas de pé, a morte de um paciente, os lamentos dos seus familiares. Todos esses acontecimentos pareceram insignificantes quando ele a tomou nos braços e lhe ofereceu um conforto difícil de explicar. E enquanto se entregava pela milésima vez a um outro homem que não o seu marido, Laura teve a nítida sensação de que não havia nenhum outro lugar no mundo onde quisesse estar. - Fica - Ricardo implorou com um sorriso malandro. - Não posso! Tenho que ir! Há quase dois dias que não ponho os pés em casa. - O que é que vais fazer durante a tarde? - Arrumar algumas coisas! Buscar os meus filhos ao colégio! Descansar... - Laura correspondeu ao sorriso malicioso do cunhado enquanto vestia o soutien sobre a cama. - E ainda não descansaste?! - Sempre que aqui venho, tu nunca me deixas descansar. - A sério?! - Ricardo envolveu-lhe os braços à volta da cintura e sussurou-lhe aos ouvidos a seguinte frase. - E eu a pensar que te deixava completamente relaxada... Laura riu-se alegremente. - És louco. - Estou muito orgulhoso de ti, sabias? Vais ser uma excelente Chefe de Equipa. - É o que eu pretendo. - Assim que tomares posse, não te vai ser muito difícil afastar aquela Interna do teu caminho. - Não me fales dessa criatura. - Ela continua a seguir-te? - Às vezes - Laura continuou a vestir-se sobre a cama. - Aquela rapariga é simplesmente mentecapta. Parece obcecada por mim...
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    203 - Se calharestá apaixonada por ti - Ricardo alcançou um maço de cigarros sobre a mesinha de cabeceira. - Apaixonada por mim?! - Laura voltou-se para o cunhado, estupefacta. - Porque não!? Nunca te passou isso pela cabeça? Seria perfeitamente normal. - Não sejas parvo. Ricardo riu-se alegremente quando se viu confrontado com a expressão furiosa da cunhada. - O.k! Já não está aqui quem falou - ele levantou os braços. - Não voltes a brincar com uma coisa dessas. - Porquê?! Tens medo que seja verdade? - Podemos mudar de assunto, por favor?! - Tudo bem - Ricardo acendeu calmamente um cigarro sem pressas para sair de uma cama onde havia passado as últimas três horas. - Graças a ti, vou ter que trocar os lençóis antes da Rita chegar. Ela convidou-se para dormir cá em casa hoje, sabias? - Devias acabar tudo com ela. - Porquê?! - Porque não gostas dela e vais acabar por magoá-la! Ela está apaixonada por ti. - E tu? Porque é que não acabas tudo com o meu irmão? - Não queiras comparar a relação que tenho com o Leo, com a relação que tens com a Rita. - Porque não?! - Ricardo riu-se sarcasticamente. - Porque uma relação não se baseia em meia dúzia de noites de sexo. E um casamento muito menos.
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    204 Laura abandonou oapartamento de Ricardo pouco tempo depois e dirigiu-se ao lado oposto da cidade levada por uma estranha sensação de saudade e pertença. Quando estacionou o jipe em frente ao escritório do marido, desligou o motor e desfez-se do cinto de segurança. Abandonou o veículo e percorreu o longo parque de estacionamento sem pressas. Vários meses se tinham passado desde a última vez que ela pisara aquele edifício, mas curiosamente todos os seguranças e funcionários continuavam a reconhecê-la. - Olá, Laura! Como estás? Há tanto tempo que não te via por aqui... - É verdade – Laura cumprimentou a secretária do seu marido com dois beijos na face. - Muito trabalho, infelizmente. - Imagino! Mas está tudo bem contigo? - Está! E contigo? - Tudo óptimo. - Os teus filhos? - Dando trabalho como sempre - Marta riu-se alegremente. - E os teus? - Idém! O Leo!? Está lá dentro? - Laura apontou o dedo em direcção à porta do escritório do marido. - Está! Está com o Francisco numa pequena reunião. - Então nesse caso é melhor ir-me embora. Não quero interromper. - Não! Nem penses! O Leo matava-me caso soubesse que te deixei ir embora sem falar com ele. Marta apoderou-se do telefone e segundos depois fez uma ligação ao escritório do chefe informando-o de que a sua mulher se encontrava ali presente. - Podes ir! O Leo está à tua espera - ela voltou a poisar o ascultador na zona de descanso. - Vê se apareces mais vezes.
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    205 - Vou tentar- foi a última resposta de Laura antes de bater à porta do escritório do marido. Entrou logo em seguida e encontrou Leonardo junto à secretária a analisar algumas maquetas com a ajuda de Francisco - outro dos arquitectos responsáveis pela obra do RESORT em Cascais. Estavam tão concentrados no trabalho que nem sequer se aperceberam da sua entrada na sala. Faltavam poucas semanas para o término das obras e todos os detalhes de construção eram naquele momento analisados ao mais ínfimo pormenor. Havia muito dinheiro em jogo e nada podia sair errado. Os sócios espanhóis encontravam-se impacientes e o tempo de entrega do projecto já se havia estendido para além do prazo estipulado. - Tão compenetrados – ela brincou, interrompendo-lhes a conversa. - Olá - Leonardo não pareceu particularmente entusiasmado por a ver ali. - Como estás? - Bem – Laura correu a beijar o marido perante o olhar atento de Francisco. – E tu? - Atolado de trabalho - Leonardo observou a mulher com alguma desconfiança. Viu-lhe os cabelos molhados, as roupas amassadas e sentiu-lhe um cheiro intenso a álcool e a tabaco. - Surpresa ver-te por aqui! O que é que se passou contigo? Porque é que estás com o cabelo molhado e o casaco encharcado? Cheiras a álcool... - Já te explico - Laura mostrou-se atordoada com tantas perguntas. Precisou de um momento para inventar uma mentira minimamente convincente. - Olá, Francisco! Tudo bem? - Tudo – o arquitecto ofereceu-lhe um único beijo na face. – E contigo? - Óptimo! Melhor impossível. - Então conta-nos lá o motivo desta visita surpresa – Leonardo pediu, impaciente. Laura abriu um sorriso radiante ao marido e manteve-se em suspenso durante alguns segundos. - Vocês estão a falar com... a nova Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica da clínica São João de Deus!
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    206 Leonardo nem quisacreditar quando ouviu as novidades proferidas pela sua mulher. Subitamente o seu coração encheu-se de alegria por ver à sua frente o rosto radiante de Laura, dando pulos de alegria, maravilhada com a ideia de subir mais um degrau importante na sua carreira. Toda a sua frieza, desconfianças e amargura dissiparam-se no momento em que ela lhe caiu nos braços e o encheu de beijos no pescoço e no rosto sem se importar com a presença de Francisco. Este último, contrariamente ao amigo, não conseguiu parar de olhar para ela com alguma desconfiança. Não soube muito bem porquê, mas a excessiva alegria da médica soou-lhe falsa. - Eu sabia que ias conseguir, amor – Leonardo mostrou-se contentíssimo com a notícia revelada pela sua mulher. – Estou muito feliz por ti. - Obrigada – Laura roubou-lhe um outro beijo nos lábios. - Parabéns, Laura – Francisco pronunciou-se finalmente. - Obrigada. - Era o que querias, não?! - Andei a lutar por este cargo durante muito tempo. Por isso, sim! Era o que eu queria. - Temos que comemorar – Leonardo sorriu à mulher. - A Laura já deve ter comemorado – Francisco observou. – Afinal de contas a roupa dela cheira a champanhe. Laura sorriu, embaraçada. – Comemorei lá na clínica - ela mentiu. - Despejaram- me uma garrafa de champanhe inteira para cima da roupa. Ainda tentei secar e tomar um banho, mas ficou o cheiro. - Não faz mal - Leonardo interrompeu as explicações nervosas da mulher. - Nós aqui não temos champanhe, mas podemos comemorar com café. - Café parece-me bem. - Vou pedir à Marta que nos traga três cafés.
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    207 - Quatro –Laura emendou. – Ela que venha comemorar connosco também. Leonardo abandonou o escritório sem perceber o profundo desconforto latente nos gestos da mulher sempre que esta olhava para Francisco e o via com os olhos postos em si. Ele que ainda continuava ali a analisá-la com desconfiança e excrutiná-la até à exaustão. - Algum problema? - Laura questionou, por fim. - Nenhum – o arquitecto respondeu enquanto brincava com o furador sobre a mesa. - Só estava aqui a pensar na sorte que tens em ter um marido como o Leo... - Tu também tens muita sorte em ter uma mulher como a Sofia. Laura percebeu imediatamente onde Francisco quis chegar com aquela insinuação e não gostou nem um pouco do seu desplante ao interpelá-la daquela maneira. Desde que se conheciam, o arquitecto sempre lhe pareceu grosseiro, rude e bastante impertinente. Ela apenas o aturava por imposição do marido. Mas no fundo, detestava-o. E agora tinha boas razões para isso.
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    208 22 Como uma verdadeiraperfeccionista que era, Laura começou a preparar a sua apresentação nos dias que se seguiram. Muitas vezes, ainda que cansada dos plantões e das longas jornadas de trabalho na clínica, trancava-se de madrugada no escritório e passava a noite inteira a escrever o seu discurso de tomada de posse. Lia e relia cada palavra, cada vírgula, deletando parágrafos inteiros, iniciando outros. A poucos dias da sua nomeação, o discurso e a apresentação estavam practicamente concluídos. Perfeitos, segundo as palavras do marido que não entendia o porquê da mulher passar tantas horas à volta de um único texto de duas páginas. O cargo já era seu. Ninguém o iria tirar. - Vem-te deitar! São três e meia da manhã - Leonardo entrou no escritório decidido a arrastar a mulher até ao quarto. - Já vou – Laura ajeitou os seus óculos de leitura. – Só faltam mais dois parágrafos. - Já viste e revisaste esta apresentação milhares de vezes. Está tudo perfeito. Não precisas mudar nada. - Queria que desses uma vista de olhos nesta última parte que escrevi. Diz-me o que é que achas? - Laura... - Diz!
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    209 Leonardo soltou umlongo suspiro perante a teimosia da mulher, mas mais uma vez não lhe conseguiu negar o pedido. Esgueirou-se atrás dela e fixou os olhos no ecrã do computador, enquanto Laura bebia um último gole de café. - Para mim está exactamente igual. Mudaste o quê?! Uma vírgula? - Esquece - ela afastou o marido com uma expressão contrariada. - São três da manhã! Vem-te deitar... - Já vou. Laura não tirou os olhos do computador e nem sequer se deu conta da saída do marido do escritório quando este encostou a porta, resignado à ideia de que a mulher não chegaria ao quarto antes das cinco da manhã. Mas naquela noite em particular, Laura deixou-se mais uma vez adormecer sobre a secretária e apenas acordou quando sentiu um ligeiro ardor nos olhos. Eram os primeiros raios de sol da manhã a entrarem pela janela. Ouviu também o barulho dos filhos que já se encontravam prontos para irem para a escola. O marido recusou-se a entrar novamente no escritório para a despertar. Quis impor-lhe um castigo. A empregada chegou às oito da manhã, mas também não se atreveu a acordá-la sob pena de aturar o seu mau-humor matinal. Em vez disso, encostou a porta do escritório e seguiu directamente até à cozinha a fim de preparar o pequeno-almoço das crianças. Laura arrastou-se até à cozinha sem esconder o rosto desfigurado e as fortes dores que continuavam a atormentar o seu pescoço. Estava tão cansada e incapaz, que se esbarrou no armário junto à porta, provocando um barulho ensurdecedor. Quando entrou na habitação, o marido, os filhos e a empregada estavam a olhar para si. - Se visses a tua cara - Leonardo não conteve a observação. Laura beijou o rosto dos filhos e encontrou a cafeteira sobre o fogão. Café. O único líquido capaz de apaziguar as terríveis dores de cabeça que estava a sentir. Encheu uma chávena inteira e recusou com o dedo o açúcar oferecido pela sua empregada, preferindo antes bebê-lo amargo. - Vais trabalhar? – Leonardo perguntou. - Sim! Depois do meio-dia - ela mentiu.
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    210 - Pensei queestivesses de folga. Não foi isso que me disseste ontem à tarde? - Hã... Talvez por ser de manhã, Laura demorou algum tempo para conseguir que o seu cérebro funcionasse correctamente. Viu-se enredada na sua própria mentira, sabendo bem que lhe cabia a tarefa de descalçar aquela bota sem que o marido desconfiasse de alguma coisa. - Lembrei-me agora que tinha pedido para trocar a minha folga - ela afirmou por fim. - Esqueci-me de te avisar! Desculpa... - Tudo bem - Leonardo observou-a com alguma suspeita. - Pensei que pudessemos almoçar hoje. Tinha algum tempo disponível durante a tarde. Há tanto tempo que não fazemos isso. - Infelizmente hoje não me vai ser possível! Combinamos num outro dia - Laura engoliu o seu café num único gole. João e André iniciaram o pequeno-almoço servido pela empregada, indiferentes ao cansaço da mãe. Os risos e as conversas dos filhos atormentaram Laura de tal maneira que por momentos ela pensou que fosse desmaiar de tantas dores de cabeça. Além disso, os latidos de Rufus a ecoar pela casa também não ajudaram para que se sentisse melhor. O marido observou-a de soslaio, enquanto lia as primeiras notícias no jornal, mas foi incapaz de a interpelar. Não teve pena dela. Só estava a pagar pelos seus excessos. - Toma! Cala-te lá um bocadinho, por favor – Laura serviu uma tijela de leite morno a Rufus e o animal caridosamente acedeu-lhe ao pedido. - Acreditas que já se passaram doze anos desde o 11 de Setembro? - Leonardo manteve-se concentrado na leitura das notícias. - Acredito - Laura respondeu sem muito entusiasmo. - E nós fazemos anos no próximo domingo – os gémeos gritaram, radiantes com a ideia de comemorar mais um aniversário. - Não se preocupem que já está tudo preparado - Leonardo sorriu aos filhos.
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    211 - Eu querouma Playstation – André adiantou-se. - Outra Playstation, queres dizer - Laura desviou-se da empregada no meio da cozinha. - Nem pensar! Se já têm duas, não há necessidade de terem outra. - Mas eu quero. - Comecem a pensar noutra coisa! Este ano não há Playstations para ninguém. - Pensei que me tinham dito que queriam entrar este ano para o Judo - Leonardo tentou aplacar o mau-humor matinal da mulher. - Não foi isso que combinámos ontem? - Que história é essa? – Laura perguntou. - Parece que o colégio vai abrir este ano uma série de actividades extracurriculares. A professora ontem falou comigo sobre isso. Os miúdos estão interessados em entrar no Judo. - E vão ter tempo? Já andam na natação! Não há necessidade de se meterem numa série de actividades quando a única coisa com que se têm que preocupar é com a escola. - O judo é fixe – João disse. - Muito melhor que a natação! É mais ou menos assim - André exemplificou com um pontapé junto à mesa que por pouco não derrubou toda a loiça do pequeno- almoço. Laura lançou um olhar fulminante ao marido. - Foste tu que lhes meteste essa ideia na cabeça, não foi?! - Claro que não – Leonardo denunciou-se com um sorriso malicioso e tentou rapidamente mudar de assunto. – Não nos podemos esquecer de ir buscar os bolos no Domingo de manhã. Já falei com a empresa de animação e eles vão trazer tudo no Sábado para começarmos a montar as coisas no jardim. - Yes - os gémeos gritaram, felizes com a ideia de terem uma festa só para si.
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    212 Leonardo levou osfilhos ao colégio perto das nove da manhã. Sobre o alpendre da porta, Laura observou-lhes a entrada no carro, acenou de longe e congratulou- se com o tempo que teria livre durante o dia. Mentira ao marido. Mais uma vez. Dissera-lhe que iria trabalhar, quando na verdade pretendia passar as doze horas seguintes na companhia do cunhado. Combinaram passar o dia juntos, trancados no apartamento dele sem atender a telefonemas e sem se preocuparem com o mundo lá fora. Aqueles seriam os seus últimos resquícios de liberdade antes de ocupar o cargo de Chefe de Equipa. Contrariamente a Alfredo Meireles, Laura não pretendia desligar-se das suas tarefas enquanto Neurocirurgiã e nem passar a ocupar-se de questões meramente burocráticas, tornando-se uma figura abstracta que apenas se apresentava de tempos a tempos no seu local de trabalho. Os seus objectivos eram outros e encontravam-se traçados desde há muito. A exigência relativa aos cirurgiões que compunham o corpo clínico iria triplicar durante o seu mandato e ela não iria dar tréguas até conseguir um grupo de profissionais moldados à sua imagem. Rigorosos. Disciplinados. Autênticas máquinas dispostas a colocar as suas vidas pessoais em segundo plano. Tal como se era de esperar, Laura e Ricardo passaram a manhã inteira na cama a fazer amor. Parecia admirável o facto de nunca se cansarem um do outro. Cada beijo era o início, cada toque a continuação e cada gemido o final de um acto que lhes provocava um imenso prazer. Laura não era uma mulher comum aos olhos de Ricardo. Apesar dos inúmeros casos que ele teve até à data, nenhuma outra conseguira prender a sua atenção durante tanto tempo. Cada dia, ele descobria algo novo nela e a cada dia o seu fascínio por ela aumentava. Gostava secretamente da sua personalidade autoritária e segura. Nunca conhecera ninguém como ela. Com o mesmo tom de voz grave, gestos rectos e uma expressão facial dura que apenas se desmanchava quando ele a tocava em partes íntimas do corpo. Era uma mulher complexa em todos os sentidos, intrigante e fascinante. Era o oposto de Rita, que insegura e carente, sufocava-o com telefonemas excessivos e mensagens românticas numa tentativa desesperada de desencadear um relacionamento sério entre os dois. Mas isso nunca iria acontecer. Ricardo tinha essa certeza. Rita não fazia o seu estilo, não fazia parte dos seus planos futuros e nem despertava em si a metade do fascínio que Laura despertava. Era apenas um passatempo arranjado para isso mesmo. Passar o tempo. Quando o relógio assinalou meio-dia e quarenta minutos, Ricardo convidou a cunhada a dançar com ele no interior do quarto. Completamente nús, ao som de uma música lenta e sensual, os dois amantes foram transportados para uma outra dimensão.
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    213 Quando a mãode Ricardo lhe desceu pelas costas, Laura prendeu a respiração e inclinou a cabeça para trás numa tentativa desesperada de manter a lucidez. Ele envolveu-a, ela deixou-se envolver, e tudo o resto deixou de fazer sentido. Era bom estar ali, ela chegou a essa conclusão. Fazer algo tão simples como dançar sem medo de cair no ridículo. - Danças bem - Ricardo segredou-lhe aos ouvidos, tomando-lhe a mão e colocando-a junto ao seu peito. - Impressão tua - Laura respondeu. - Adoro o teu corpo - ele voltou a segredar-lhe aos ouvidos. - Ai é?! - ela sorriu. - Adoro o teu corpo, o teu cheiro, a tua pele, os teus olhos, o teu cabelo... Ricardo mordeu o pescoço de Laura. Ela riu-se às gargalhadas. - Adoro tudo o que é teu! - Eu também adoro tudo o que é teu. - Por mim ficávamos aqui o dia todo. - E não era esse o plano?! Laura afundou-se na boca do cunhado e encostou-se ao seu corpo nú, sentindo- lhe uma ligeira erecção. Não foi preciso mais. Louca de desejo, saltou-lhe para o colo e permitiu que ele a deitasse na cama. Pensou que fosse morrer de prazer quando ele a beijou nos seios desnudos e os apertou com força. Mais tarde, sentiu a sua boca a descer em direcção ao seu ventre, às suas pernas e ao inimaginável que ela nunca pensou que ele fosse capaz de encontrar com a língua. Ricardo deteve-se ali durante vários minutos sem nunca desviar os olhos do rosto dela. Sentiu-lhe o prazer transbordar por todos os poros. Foi o terceiro orgasmo do dia, e enquanto as mãos firmes do cunhado lhe atravessaram o corpo e ela se contorcia de prazer, a única coisa que Laura conseguiu pensar foi que Ricardo, melhor do que ninguém, sabia como dar prazer a uma mulher. De facto, naquela tarde, ele estava a dar-lhe tudo isso e muito mais. Estava-lhe a dar o céu.
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    214 Sem conseguir aguentartanta excitação, Laura puxou o rosto do cunhado até ao seu e beijou-o fogosamente. Colocou-se sobre ele e também ela foi descendo em direcção ao seu peito desnudo, aos seus abdominais definidos e ao inimaginável que ela fez questão de encontrar com a boca. Permaneceu durante um bom tempo e permitiu que Ricardo lhe segurasse os cabelos com força, envolvendo-lhe os fios num rabo-de-cavalo e fazendo um esforço sobre humano para não enlouquecer. - A tua boca é perfeita, sabias?! - ergueu-lhe o queixo com as mãos. - Queres que continue? - ela sorriu maliciosamente, mantendo o sexo do cunhado perto dos lábios. - Quero! Continua! Assim mesmo como estás a fazer... Quando Ricardo pensou que não fosse aguentar mais, Laura voltou a mergulhar nos seus lábios e sentou-se sobre o colo dele. Tudo se conjugou na perfeição. Ele penetrou-a e ela soltou gemido contido, cravando-lhe as unhas nas costas sem piedade. Foram vários minutos intercalados, ora com movimentos lentos e contínuos, ora com movimentos rápidos e frenéticos. Ele parecia incansável, ela insaciável e nem mesmo as várias chamadas telefónicas recebidas em ambos os telemóveis depositados sobre a mesinha de cabeceira conseguiram reprimir-lhes o desejo. Sem telefonemas. Sem ninguém. Apesar de tudo, a promessa manteve-se. - O que estás a fazer? – foi a pergunta de Laura quando entrou na cozinha vestida apenas com uma das camisas de Ricardo e o encontrou a analisar o frigorífico. - Supostamente o almoço! Mas descobri que não tenho nada de jeito cá em casa. - Para variar... - Vou buscar qualquer coisa num restaurante aqui perto. - O que vais buscar? - ela abraçou-o e beijou-o no peito desnudo. - O que quiseres! O que é que queres? Laura sorriu. - Pizza! Há muito tempo que não como pizza. - Então vou buscar duas.
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    215 - Grandes! Dequeijo e mozzarella. - Os teus desejos são uma ordem - Ricardo roubou-lhe um longo beijo junto à porta da cozinha. - Já volto! - Não demores - ela interceptou-o quando ele ia a sair. - Podes deixar. Ao ver-se finalmente sozinha naquele enorme apartamento, descalça e trajada apenas com uma das camisas do cunhado, Laura não teve pressas de voltar à realidade. Perdeu a noção do tempo e caiu no sofá, levando consigo um dos inúmeros livros espalhados pelas estantes da sala. Abriu-o sem cerimónias e não necessitou de muito tempo para se concentrar na leitura. O tempo passou a voar até ao minuto em que Laura ouviu a campainha tocar. Passava das três da tarde e o sol mantinha-se radiante lá fora. Ao olhar para as chaves esquecidas sobre a mesinha, ela sorriu e imaginou que Ricardo se havia esquecido de as levar. Por isso, largou o livro e dirigiu-se até à porta de entrada. Abriu-a de rompante com um largo sorriso, mas não era Ricardo. Nem ele e nem ninguém a quem ela pudesse justificar a sua presença no interior daquele apartamento. Diante de si, Laura encontrou a imagem da sua melhor amiga. Rita Azevedo. Rita bem tentou manter a sua sanidade mental intacta, mas na altura foi-lhe impossível cometer tal acto. Quando deu por si, já tinha entrado pela casa adentro como um foguete. Lançou os olhos à mesinha da sala, encontrando sobre ela duas taças de vinho inacabadas e um cinzeiro repleto de cigarros. Correu igualmente até ao quarto e vislumbrou a cama desfeita. No chão ainda se mantinham as roupas de Laura e de Ricardo. Sobre a mesinha de cabeceira uma caixa de preservativos praticamente vazia. Foi só então que se fez luz. Foi só então que duas lágrimas lhe correram pela face e a deixaram à beira da loucura. - Eu posso explicar – Laura temeu o pior quando a amiga regressou à sala, esbaforida. - Cala a boca – Rita gritou, raivosa. – Cala-me essa boca nojenta! - Eu posso explicar - a médica repetiu. - Explicar o quê?! Explicar que andaste esse tempo todo a foder o teu cunhado?
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    216 Laura não conseguiuevitar as lágrimas que subitamente lhe caíram dos olhos. - És uma vaca... – Rita deu uma volta sobre si, atordoada com tudo o que tinha acabado de descobrir. – Como é que me pude enganar tanto a teu respeito?! Como é que pude ser tua amiga? Como é que eu pude confiar-te todos os meus segredos? Eu era a única lá naquela clínica que te defendia com unhas e dentes. Eu era a tua aliada, a tua companheira, a tua melhor amiga… - E ainda continuas a ser. As palavras de Laura coincidiram com um violento estalo que Rita fez questão de lhe oferecer no rosto, levando-a a cair prostrada no tapete da sala sem qualquer reacção. - Porca – Rita cuspiu-lhe os cabelos com uma expressão de nojo. – Nada do que possas dizer vai apagar a tua falta de carácter, o teu cinismo e tudo de podre que tens dentro de ti. Eu só tenho pena do Leo. Ele realmente não merecia estar casado com uma mulher como tu. Merecia muito melhor… Depois de lançar um último olhar de repulsa, Rita saiu do apartamento de Ricardo. Fê-lo sem olhar para trás e sem ligar à expressão desolada de Laura, que sem forças para se levantar, continuou caída no chão, lamentando-se por tudo o que tinha acontecido momentos antes. Estava envergonhada. Demasiado envergonhada e infeliz por ter chegado àquele ponto de ruptura. Perante a possilidade do seu maior segredo ser descoberto, a médica desesperou- se e chorou copiosamente até à chegada de Ricardo. - O que foi? - ele perguntou, largando sobre a mesa as pizzas que trouxera da rua. - A Rita esteve aqui! Descobriu tudo - Laura não escondeu os olhos vermelhos de tanto chorar. - Tens que ir atrás dela e impedir que ela conte tudo ao Leo! Por favor! Vai atrás dela... Ricardo ouviu as súplicas de Laura e prometeu que iria tentar remediar a situação ainda naquela noite. Mas a verdade é que nem ele sabia qual iria ser a reacção de Rita quando o visse. Cinismo, diplomacia, mentiras, essas eram algumas das armas que ela sabia usar na perfeição. Mas será que desta vez iria conseguir atingir os objectivos a que se propusera?
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    217 Ao ver-se dianteda porta da casa de Rita, ele teve algumas dúvidas. Provavelmente seria tarde demais e ele já se encontrava cansado daquela história que mais parecia não ter fim. Cansado de esconder os seus sentimentos, de viver uma vida dupla e carregar a felicidade e a infelicidade dos outros nas costas. Nunca fora talhado para tal tarefa e nem pretendia perder mais tempo com isso. Contudo, não era apenas a sua vida que estava em causa. Era a vida de Laura. Era o seu casamento, os seus filhos, a sua carreira na clínica. Não podia ser tão egoísta ao ponto de a deixar à mercê da sorte. Era sua função protegê-la até ao fim, ainda que isso significasse falar uma última vez com Rita e ouvir da enfermeira todos os insultos possíveis e imaginários. Ele estava realmente disposto a fazer isso quando encheu o peito de coragem e tocou à campainha. Mais tarde, enfiou as mãos nos bolsos e aguardou que Rita lhe abrisse a porta. - Podemos falar!? Ela largou a porta e Ricardo considerou aquele gesto como um sim. - A Laura contou-me o que aconteceu. - Com todos os detalhes, espero - a voz de Rita saiu amarga. - E tu vieste aqui a mando dela. Para quê? Para justificar o injustificável? Para inventar mais mentiras? - Não! Eu vim aqui para te explicar o que aconteceu - Ricardo respondeu num tom humilde que Rita nunca lhe reconhecera. - Eu sei que deves estar chateada comigo… - Chateada!? - os olhos de Rita encheram-se de lágrimas. - Tu achas mesmo que eu estou chateada contigo? Ricardo permaneceu em silêncio. - Tu mentiste-me, traíste-me com a tua própria cunhada e ainda vens aqui com toda a lata do mundo dizer que achas que eu tenho todas as razões do mundo para estar chateada?! - Rita, eu sinto muito... - Sentes o quê? Tu por acaso sentes alguma coisa? Por acaso tens alguma coisa aí dentro parecida com um coração? Não, Ricardo! Eu não estou chateada contigo.
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    218 Estou antes desiludida,humilhada, magoada...! Mas não é apenas contigo. É com a Laura também. Aliás, acho que estou muito mais magoada com ela do que contigo. Porque ela era a minha melhor amiga, a única pessoa que eu pensei que nunca fosse ser capaz de me trair ou rir-se nas minhas costas. Porque homens há muitos, nenhum que preste, e tenho aqui a prova à minha frente. Mas amigas? Amigas como pensei que eu e a Laura fossemos? Isso não... - Rita balançou a cabeça, desolada. - Nenhuma amiga faz o que ela me fez! Nenhuma amiga com o mínimo de carácter ouviria em silêncio tudo o que eu contava sobre ti, estúpida, a imaginar que porventura estivesse a viver uma grande história de amor com um homem que nunca gostou de mim. Ouviu-se um longo silêncio na sala até Rita limpar as lágrimas que sem querer lhe caíram dos olhos. - Sabes...! Eu cheguei mesmo a pensar que isto entre nós pudesse resultar. Cheguei mesmo, não me perguntes porquê! Estava mesmo a gostar de ti. Achava-te o homem mais lindo do mundo, o mais inteligente e muitas vezes dava comigo a pensar na sorte que foi ter-te conhecido e permitido que entrasses na minha vida. Mas hoje, ao olhar para ti, eu vejo que não és assim tão lindo, não és assim tão inteligente e que foi mesmo um azar dos diabos ter-te conhecido. Foste a pior coisa que me aconteceu na vida... - Sinto muito que penses assim. - Não pensas nem um pouco no Leo? Não pensas no que o pobre coitado vai sentir quando descobrir que anda a ser traído pela mulher com o próprio irmão? - Vais contar ao Leo? – Ricardo chegou finalmente o assunto que o trouxera ali. - Devia. - Eu sei que não vais fazer isso. - Porque não?! - Rita sorriu amargamente. - Será que me consegues dar um único motivo plausível? - Pensa no João e no André. - És tão baixo, meu Deus – a expressão da enfermeira alterou-se radicalmente.
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    219 - Os doisprecisam dos pais e tu não irias ganhar nada em destruir a família deles. - Eu é que iria destruir a família deles?! - Rita levou as mãos ao peito. - Eu?! E tu, Ricardo? O que é que andaste a fazer durante esse tempo todo? - Pensa bem antes de fazeres alguma coisa do qual te possas arrepender mais tarde. - Tu e a Laura merecem-se, sabes!? - Pensa bem, Rita! - Sai daqui – ela ordenou, abrindo-lhe a porta da rua. – Sai da minha casa! - Pensa bem... - Sai - Rita voltou a gritar, sentindo as veias a saírem-lhe do pescoço. Laura regressou a casa com um enorme dor de cabeça e os olhos vermelhos de tanto chorar. Era meia-noite e a médica havia passado as últimas horas enfiada no interior do seu carro, à beira do cais, a pensar na grande embrulhada em que se encontrava metida a sua vida. O cunhado enviara-lhe entretanto uma mensagem de texto com uma frase simples, mas que infelizmente não conseguiu acalmar o seu coração. " Podes ficar descansada. A Rita não vai contar nada a ninguém." Quando finalmente arranjou forças para estacionar o carro em frente à sua moradia, Laura saiu e trancou as portas, levando nas mãos a mala e o casaco. Encontrou a casa praticamente às escuras, excepto uma luz pálida proveniente do candeeiro que assinalou a presença do marido. Sobre o sofá, mantendo o telefone de casa nas mãos, Leonardo aguardou a entrada da mulher na sala. A sua expressão facial aterrorizou-a. Era um expressão furiosa como ela nunca lhe havia visto no rosto. Laura preparou-se para o pior, mas foi incapaz de se mexer quando o marido se aproximou e a despiu com os seus olhos desconfiados. Leonardo colocou-se à frente dela. Analisou-lhe o rosto com atenção. Os olhos vermelhos, inchados de tanto chorar. Os cabelos desalinhados. As roupas amassadas e aquele maldito cheiro a tabaco que ele vinha ignorando há já vários meses. Era tão cínica, falsa e mentirosa. - Onde é que estiveste?! - ele perguntou rispidamente. - Na clínica - ela respondeu, assustada.
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    220 - Mentira –o tom de voz do marido obrigou Laura a recuar dois passos. – Tu não estiveste lá. Onde é que estiveste? - Já disse que estive na clínica. - E eu já disse que é mentira! Sabes porquê? Porque eu liguei para lá e a recepcionista disse-me que hoje nem sequer puseste os pés na clínica. Laura calou-se, esmagada pela resposta do marido. - Andas-me a seguir?! - ela defendeu-se. - Não tentes virar o jogo a teu favor! Diz! Onde é que estiveste? - Na clínica - Laura desviou-se do marido. - Então porque é que a recepcionista me disse que não estavas lá? E pior, porque é que não atendeste o teu telemóvel durante a tarde toda? Pela primeira vez, enquanto ouvia desculpas atrás de desculpas, Leonardo não conseguiu acreditar numa única palavra proferida pela sua mulher. Chegou à conclusão de que havia perdido totalmente a confiança nela. - A impressão que me dá é que tu pensas que eu sou parvo. - Leo… - Diz-me onde é que estiveste e a nossa conversa termina por aqui! - Já te disse! Estive a trabalhar. - Diz a verdade – Leonardo sacudiu-a nos braços com força. – Diz antes que eu perca a minha paciência! - Larga-me! Estás-me a magoar... - Não largo enquanto não me disseres a verdade! Não largo enquanto não me disseres com quem estiveste. - Eu não estive com ninguém.
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    221 - Diz-me quemé ele! - Já disse para me largares, merda – Laura gritou, tentando livrar-se dos braços fortes do marido. Quando o conseguiu, caiu jogada no tapete da sala. Por momentos, Leonardo não a reconheceu. Demorou muito, talvez demasiado tempo, mas tinha-se tornado finalmente evidente que as suas desconfianças não eram infundadas. Laura estava realmente a traí-lo com outro e ele não iria descansar até descobrir quem era o seu amante. - Vou dormir - ele disse. - No quarto de hóspedes! Mas escuta uma coisa que te digo, Laura! Eu não vou descansar até descobrir quem é o filho da puta com quem me andas a trair... Leonardo abandonou a sala depois de desferir um último olhar de ódio à mulher. Deixou-a sentada no chão, com as pernas estendidas sobre o tapete, sem forças para se arrastar em direcção ao sofá. Quando o fez, colocou cabeça por entre as pernas e chorou copiosamente. O círculo estava a pouco e pouco a fechar-se, ela chegou a essa conclusão. O marido finalmente percebera que algo de errado se estava a passar no casamento dos dois. Já não havia cumplicidade, já não havia desejo e muito menos confiança. Aos pouco, todos esses sentimentos se desvaneceram sem razão aparente e não havia mais como voltar atrás. Completamente desesperada e sem saber o que fazer dali por diante, não restou outra alternativa a Laura a não ser continuar a chorar. Chorar por si, pelo seu casamento fracassado e também pelos filhos que não mereciam uma mãe tão vil e sem carácter.
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    222 23 Depois do banhoe de enxugar os cabelos com uma toalha, Laura posicionou-se à frente do espelho e deparou-se com uma visão no mínimo assustadora. No que é que se tinha transformado, perguntou-se. De facto, não sabia. Não sabia quem era a mulher que estava ali à sua frente, não sabia o porquê de se ter transformado num ser humano tão mentiroso e não sabia o que fazer para voltar a ser a perfeita dona de casa, a mãe maravilhosa sempre atenta às necessidades dos filhos e a mulher que um dia jurou nunca o trair o marido. Contudo, volvidos dez meses, tudo mudou. Já não era a mesma e à sua volta tudo se desmoronava como um baralho de cartas. Havia três noites que o marido se recusava a dormir no mesmo quarto e a partilhar a mesma cama. Passava por ela sem sequer lhe falar e ignorava a sua presença até mesmo à hora do jantar enquanto os filhos comiam e brincavam, indiferentes ao clima gélido que reinava entre eles. João e André encontravam-se demasiado animados com os preparativos da festa do seu oitavo aniversário e não pensavam em outra coisa. Planeavam brincadeiras, presentes e convites. Todos os anos repetiam a mesma comemoração. O pai fazia questão de preparar os detalhes do evento, contratando uma empresa de animação, palhaços, uma banca de doces, gelados e algodão doce. A casa enchia-se de risos, boa comida, adultos e crianças e não havia ninguém que não se divertisse. Era a alegria total que se concretizava há pelo menos oito anos. Mas naquele em especial, não trazia a mesma excitação de outros tempos. Leonardo fez um esforço sobre humano para não deixar transparecer aos filhos a tristeza profunda que tinha no olhar. Uma tristeza que o assolava a cada instante sempre que se lembrava do seu casamento em ruínas sem que pudesse fazer absolutamente nada para o salvar. Laura também não conseguia livrar-se daquele terrível sentimento de culpa e arrependimento. Passava grande parte dos seus dias a tentar encontrar formas de submergir daquele enorme lamaçal de mentiras em que se havia metido, mas os seus esforços pareciam em vão.
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    223 - Vou láabaixo ajudar os homens a terminar de montar a tenda - Leonardo surpreendeu-a no interior da casa de banho. - Precisam de ajuda? - Não! Mas despacha-te a ajudar a Antónia na cozinha. Já chegaram os doces e as bebidas. - Leo... - a voz trémula de Laura impediu o marido de abandonar a casa de banho. - O que foi? - Temos que falar. - Hoje não é o melhor dia. - Eu sei que estamos a passar uma fase difícil... - Isto é muito mais do que uma fase difícil - as palavras amargas de Leonardo serviram como uma facada no coração de Laura. - Despacha-te! Estou lá em baixo... A festa das crianças começou ao meio-dia no grandioso jardim frontal da casa. Fazia um calor de trinta graus, pouco corrente em finais de Setembro. Compareceram ao evento familiares próximos, amigos de longa data e todos os colegas de turma de João e André, que divertidos e maravilhados pelo ambiente mágico que se fazia sentir, brincaram nos escorregas, baloiços e na tenda insuflável repleta de balões enchidos pela equipa de animação. Ao fundo do quintal, Leonardo e Francisco Saraiva ultimavam o churrasco na companhia de outros colegas de trabalho que aceitaram de bom grado as cervejas geladas trazidas do interior da casa. A empregada Antónia não conseguia dar conta de tantas tarefas por fazer, mas congratulou-se com a ausência mental da patroa, que contrariamente ao que sempre fazia, não exigiu que se esmerasse a cortar os legumes, a bater as claras até ao ponto certo ou a examinar ao último milímetro todos os ingredientes das refeições servidas ao longo das cinco mesas expostas no jardim. Naquele dia, Laura encontrava-se totalmente aérea. Nem parecia a mesma, e Sofia Saraiva, a mulher de Francisco, foi a primeira a reparar nisso. - Estás bem?
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    224 - Estou -Laura retirou uma garrafa de vinho do frigorífico, ignorando a correria e os gritos de várias crianças pela casa. - Porque é que a Rita não veio? - Está de plantão na clínica - Laura mentiu. - Estás doente?! - Sofia tocou-a no rosto pálido. - Estás com uma cara horrível. - Só estou um pouco cansada. Só isso. - Pois, imagino! Não deve ter sido nada fácil preparar esta festa toda para os miúdos. - Não, não foi - Laura continuou a tirar as garrafas de bebida do interior do frigorífico e depositou-as sobre a mesa da cozinha. - Antónia! - Sim - a empregada largou imediatamente tudo o que estava a fazer. - Vai levando estas garrafas até ao jardim, por favor! O almoço vai ser servido daqui a pouco. - Sim, senhora. Sofia voltou a reparar nos gestos lentos e fatigados de Laura quando a empregada abandonou a cozinha. - Acho que devias tirar uns dias de folga. Pareces um farrapo. Sempre invejei o teu físico, mas agora vendo bem, estás também muito mais magra. Estás a vestir o quê? Um trinta e quatro? - Eu estou bem, Sofia - Laura ignorou-lhe o comentário meno próprio. - O Francisco contou-me que foste promovida lá na clínica, mas isso não é motivo para mergulhares no trabalho e esqueceres-te da tua saúde. Aproveita mais a vida! Viaja, vai fazer compras, interna-te num SPA! Faz uma segunda lua-de-mel com o Leo e deixa as crianças com a empregada... Os conselhos de Sofia não obtiveram qualquer resposta por parte de Laura.
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    225 - Eu sempredisse ao Francisco: Sabes qual é o problema da Laura?! Trabalhar demais! - E sabes qual o teu problema?! - a médica não conseguiu aguentar o ódio que as palavras fúteis de Sofia lhe causaram. - Trabalhar de menos. - Calma - Sofia levantou os braços como forma de defesa. - Desculpa - Laura pediu logo em seguida, tapando o rosto com as mãos. - Eu não queria dizer isto. Desculpa... - Não faz mal! Já vi que não estás nada bem! Vou ter com o Francisco ao jardim. Ricardo compareceu à festa de aniversário dos seus sobrinhos perto a meio da tarde. Trouxe dois embrulhos e uma expressão contrariada. Não era de todo a sua intenção aceitar o convite que o seu irmão lhe fizera, mas aceitou-o com o intuíto de não levantar suspeitas. Ele sabia que a mentira se encontrava presa a um fio de linha e sabia também que qualquer passo em falso seria fatal. Por esse motivo, muniu-se de coragem e resolveu enfrentar uma casa que lhe trazia péssimas recordações. - Vieste – Leonardo apertou-lhe a mão e forçou um sorriso contrafeito. - Olá! Como estás? Ricardo não conseguiu esconder o olhar lancinante enviado à sua cunhada que se encontrava sentada numa das mesas do jardim. Ela também fez o mesmo. - Trouxe presentes para os miúdos. - Não precisavas ter-te incomodado - Leonardo aceitou os embrulhos sem muito entusiasmo. – Mas agradeço-te desde já por eles! Queres beber alguma coisa? - Pode ser. Ricardo seguiu o irmão em direcção a uma das mesas sem no entanto deixar de trocar um olhar cúmplice com Laura. Trajada com um vestido azul clarinho estampado às flores, recto, pelos joelhos, e os cabelos presos junto à nuca, para o cunhado, ela era sem dúvida a mulher mais bonita da festa. Não havia ninguém que se igualasse à sua beleza.
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    226 Do lado opostodo jardim, Laura também pensou o mesmo. Pensava no cunhado a toda a hora e esforçava-se para não enlouquecer com a sua ausência. Mas era preciso manter as aparências e fingir que não o conhecia de lado algum. Desde o terrível incidente no apartamento de Ricardo com Rita, ela nunca mais lá pôs os pés. Sentia-se constantemente amendrontada, receosa de que algum gesto seu fosse desencadear ainda mais desgraças. Era como se um vírus tivesse infectado a sua vida. Então a destruição começou lenta e implacável. Ela deixou de ter controlo sobre o que estava a acontecer. O seu casamento perfeito, tornou-se imperfeito. Os filhos continuavam a vê-la como um exemplo a seguir embora ela tivesse plena consciência de que era tudo menos um exemplo a seguir. Dentro de poucas semanas iria ocupar um cargo pelo qual havia lutado a sua carreira inteira, mas já não sentia qualquer alegria nisso. Tudo o que lhe consumia a mente e o espírito era aquela paixão absurda pelo irmão do seu marido. E isso não era justo. - Mãe! Olha – João correu em direcção à sua progenitora e mostrou-lhe o presente que recebera momentos antes. – Olha o que é que o tio me deu! Um carro telecomandado... - Que bom! É muito giro – Laura beijou os cabelos do filho com alguma tristeza nos olhos. – Mas tens que ter cuidado para não o estragares. - Eu sei. - O teu irmão?! Onde é que se meteu? - Está ali com os outros! Eu vou lá. - Está bem, mas não corras… Tarde demais. Antes que pudesse terminar a frase, João desapareceu da vista de Laura como um relâmpago. A única coisa que deixou para trás foi o papel de embrulho e foi por causa dele que ela se viu obrigada a ajoelhar-se para o apanhar. Nessa altura, a figura de mãe surgiu-lhe diante dos olhos. Com a mala e o casaco nas mãos, pouca paciência para aturar a barulheira infernal das crianças e cansada da música aos altos berros, Luísa avisou a filha de que se ia embora. Laura acedeu à vontade da sua mãe sem fazer muita questão de a manter ali. De qualquer maneira a presença de Luísa já não lhe fazia falta. Há muito que deixara de fazer e há muito que a relação que mantinham não passava de uma mera fachada, fruto de uma ligação parental sem sentido que as obrigava a conviver apenas em ocasiões festivas.
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    227 Assim que asua mãe saiu pelos portões, Laura respirou de alívio e voltou a lançar os olhos ao grandioso jardim repleto de pessoas. Avistou de longe os filhos, que inocentes, brincavam na companhia dos amigos e se deliciavam com os truques da magia improvisados pelo Homem Mágico. No lado oposto, o marido bebia uma cerveja e conversava com alguns amigos. Leonardo parecia particularmente animado, mas Laura conhecia-o melhor do que ninguém. Sabia que a sua alegria era fingida. Escondia uma tristeza inexplicável. A mesma tristeza que ela já não conseguia esconder por simplesmente não ter forças para isso. Encontrava-se cansada de fingir e mentir. Vivia constantemente assombrada de dúvidas e receios. Só queria que tudo tivesse um fim e que os problemas se desvanecessem tal como nasceram. Sem que se desse conta. Como num passe de mágica. Como os truques mirabolantes do Homem Mágico. Mas cada vez que olhava para o rosto de Ricardo, um nó invadia-lhe a garganta e ela desesperava-se. Tinha chegado o momento. O momento de tomar a decisão de continuar ou terminar com tudo. Juntamente com esse momento veio o receio de cometer o maior erro da sua vida. Durante muitos meses, ela desejou que alguém tomasse esse decisão por si. Leonardo talvez. Desejava secretamente que ele descobrisse tudo, que a expulsasse de casa pois era impossível continuar assim. Afinal de contas, ela já não era a mesma mulher com a qual ele se havia casado. Ele tinha esse direito. Se fosse ele a decidir, tudo seria mais fácil. O peso da decisão e do erro não recaíria sobre os seus ombros. Pelos menos desse fardo, ela podia-se livrar. Asfixiada pelos seus pensamentos, Laura refugiou-se no interior da casa. Um gesto que incitou Ricardo a segui-la com alguma discrição. Contudo, os seus passos fugídios não escaparam ao olho clínico de Francisco Saraiva. O arquitecto não necessitou de muito esforço para chegar à realidade dos factos. Percebeu o rosto nervoso de Laura, a ansiedade patente nos movimentos de Ricardo enquanto segurava uma cerveja na mão, e mais tarde, a prova cabal das suas desconfianças quando dois minutos após a entrada de Laura no interior da casa, o cunhado a seguiu sem levantar suspeitas. - Deixa-me - Francisco ouviu a voz de Laura atrás da porta do escritório. - Ficar assim não adianta nada - Ricardo afirmou. - Aliás, se ficares assim, aí mesmo é que vais levantar suspeitas. - Toda a gente já sabe. - Ninguém sabe.
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    228 - A minhaInterna sabe, a Rita sabe... - Nenhuma delas se vai atrever a contar alguma coisa. - Como é que podes ter essa certeza? - Porque se fosse para contar já teriam contado, não achas?! - Ricardo bem tentou tocar nos cabelos da cunhada, mas ela desviou-se a tempo. - O que eu sei é que precisamos acabar com isto. - O que é que queres dizer com isso? - Temos que deixar de nos ver, pelo menos por uns tempos. - E achas que isso vai resolver alguma coisa? - O que eu sei é que eu não quero destruir a minha família. O olhar de Laura disse tudo. Era profundo, triste, mas decidido. Ela parecia ter plena consciência do que estava em jogo. A sua vida. A sua família. - Tudo bem - Ricardo acedeu. - Tens razão. - Eu procuro-te quando tiver tudo resolvido. Laura abandonou o cunhado no escritório e desapareceu pelo corredor afora, ajeitando uma mecha de cabelo que sem querer se desprendeu do gancho. Quando passou pela porta da casa de banho de serviço, Francisco respirou de alívio. Foi por pouco que não se viu apanhado pelos passos velozes da médica. Mas não se podia dizer surpreendido com o que tinha acabado de ouvir e nem admirado também. Ricardo era um sacana, percebeu esse facto desde o primeiro minuto em que lhe pôs os olhos em cima. E Laura? Bem! Nem valia a pena expressar tudo o que pensava sobre ela a partir daquele momento. O dia já estava praticamente no final quando os convidados se reuniram à volta de uma das mesas do jardim. O bolo de dois andares, coberto de chocolate, abrigou duas velas com um formato de oito. Laura acendeu-as com um isqueiro e Leonardo manteve os filhos, lado a lado, junto à mesa, tentando acalmar a excitação de ambos por estarem a comemorar mais um ano de vida.
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    229 Naquele instante todosos problemas foram esquecidos e a felicidade voltou a reinar nos corações de todos. Enquanto os convidados cantavam os parabéns aos aniversariantes, Leonardo olhou sorrateiramente para a mulher e ela retribuiu o gesto. Laura tomou-lhe a mão por debaixo da mesa e apertou-a com força. Tentou encontrar no rosto do marido qualquer sinal que lhe indicasse que estava tudo bem, que os dois ainda continuavam juntos, que ainda se amavam e que nunca se iriam separar. Mas essa certeza não veio. Nem nesse dia e nem nos dias seguintes.
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    230 24 Laura e Ritaeram obrigadas a cruzar-se diariamente nos corredores da clínica onde trabalhavam. Mas contrariamente ao que acontecia no passado, nem uma e nem outra escondiam o profundo desconforto que esta situação lhes causava. Subitamente deixaram de se falar, de almoçar juntas e de trocar confidências. Também era perceptíveis os olhares de ódio que Rita lançava a Laura sempre que a via de longe. Odiava-a. Com todas as forças e sabia que tinha todas as razões do mundo para isso. Jamais a perdoaria. Jamais a voltaria a ver com os mesmos olhos. Jamais voltaria a considerá-la sua amiga. - Vais entrar ou vais ficar aí especada? Laura ignorou o comentário menos feliz da Enfermeira-Chefe e entrou no elevador em silêncio. Rita adiantou-se. – Falta pouco para a tua nomeação! Esperemos é que não aconteça nada entretanto. - E o que é que poderia acontecer? - Laura observou a enfermeira com alguma desconfiança. - Não sei - Rita encolheu os ombros. - Muita coisa pode acontecer até lá. - Pecisamos falar. - Não tenho nada para falar contigo. - Vem comigo ao meu consultório! Lá falamos melhor...
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    231 Saíram no terceiropiso sem proferirem uma única palavra. Pouco tempo depois, Laura abriu a porta do seu consultório e abriu passagem a Rita. A enfermeira entrou com uma expressão contrariada. - Queria agradecer-te por não teres contado nada ao Leo – Laura voltou a fechar a porta. - Não fiz isso por tua causa. - Mesmo assim! Agradeço-te! - O que é que queres, Laura? Não posso demorar porque tenho uma série de coisas para fazer. - Só queria explicar-te aquilo que aconteceu. - E o que é que aconteceu para além de ter descoberto a tua traição?! Para além de ter descoberto que és uma cabra de todo o tamanho, uma vaca e uma ordinária? - Não me insultes! - Não te estou a insultar! Só estou a constatar um facto. Que tipo de mulher que não seja uma ordinária e uma vaca se deita com dois homens ao mesmo tempo? Laura observou a expressão dura de Rita, mas na altura, não conseguiu dizer muito mais do que: - Não irias compreender os meus motivos. - Os teus motivos?! Ainda achas que tens motivos? - Eu não premeditei nada, está bem... - Mas também não evitaste - Rita cortou as palavras da médica. - Pelo contrário! Sabias muito bem o que estavas a fazer quando resolveste ter um caso com o teu cunhado, mesmo sabendo que eras casada com o irmão dele. Não és nenhuma adolescente, Laura! Podias muito bem ter evitado os avanços do Ricardo, se é que ele os fez. Porque conhecendo-te agora como te conheço, não me admirava nada que tivesses sido tu a enfiar-te na cama dele. Laura manteve-se em silêncio perante os ataques de Rita.
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    232 - Eu nãovou contar nada ao Leo, podes ficar descansada! E também não precisavas ter-me chamado aqui apenas para me convencer do contrário. Já me tinha decidido a ficar calada, não por ti, e muito menos pelo Ricardo, mas sim pelo Leo e pelos vossos filhos. Porque eu não quero que eles sofram quando descobrirem a cobra venenosa que têm em casa – Rita voltou a destrancar a porta do consultório de Laura. – Mas não contes mais comigo para ser tua amiga ou para te defender das víboras que por aí andam. Na verdade, acabaste de ganhar mais uma inimiga aqui dentro. E se depender de mim, o teu mandato enquanto Chefe de Equipa nesta clínica, vai ser tudo, menos um mar de rosas... Rita abandonou o consultório logo em seguida e fechou a porta com violência. Uma lágrima caiu-lhe dos olhos quando percebeu que sua amizade com Laura estava irremediavelmente perdida. Seguiu pelos corredores, desolada e só parou à frente do elevador minutos mais tarde. Premiu freneticamente o botão de chamada, desejando sair dali o mais depressa possível para que ninguém a visse chorar. Contudo, uma voz jovial interceptou-a a tempo. Rita reconheceu-a. Era Joana Lima. A Interna de Laura. - Será que podia vir comigo? Queria mostrar-lhe uma coisa - Joana disse. - O quê? - Rita lançou-lhe um olhar desconfiado. - Um vídeo. Rita reconheceu o patamar de entrada do apartamento de Ricardo e reconheceu também o próprio quando este tomou Laura de assalto e lhe retirou as roupas. Os momentos que se seguiram apenas provocaram em si uma enorme ânsia de vómito. Os dois amantes, praticamente nús, tendo relações sexuais como dois animais nas escadas do prédio. Era horrível ver aquilo. Nojento. Era também horrível pensar que durante todo aquele tempo ela tinha vivido enganada, presa a uma relação que julgava perfeita, mas que não era nada mais do que uma ilusão ou um passatempo para o cunhado de Laura. Ricardo nunca beijara daquela forma. Nunca a tocara de uma maneira tão profunda, com ardor, sofreguidão, deixando-a sem fôlego e completamente à sua mercê. E só então que ela percebeu o porquê de ele nunca o ter feito. Porque ele nunca a desejou. Porque não era dela que ele gostava. Era de Laura. E isso tornou- se evidente nos poucos minutos em que demorou o vídeo filmado por Joana. - Será que me podias passar este vídeo? - Rita limpou uma nova lágrima que lhe caiu dos olhos.
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    233 - Porquê?! - Podes-mepassar o vídeo ou não? O dia trinta de Setembro começou cedo quando Laura entrou no seu consultório, trazendo nos braços o computador portátil e o CD de apresentação que iria fazer parte da sua tomada de posse. A sessão estava marcada desde há muito, mas ainda assim ela necessitou de algum tempo para rever com calma a sua apresentação digital e também o discurso que preparara ao longo de três semanas. Dentro pouco tempo iria tornar-se finalmente na nova Chefe de Equipa Médico- Cirúrgica. Estava nervosa, não podia negar. Receosa do que o futuro lhe reservava. Após vários anos de luta e de trabalho árduo, aquele era o momento pelo qual havia ansiado. Um degrau importante na sua carreira. O primeiro obstáculo ultrapassado. - Dr.ª Laura – a auxiliar de serviço bateu à porta do consultório da médica. - Sim. - O director da clínica quer falar consigo! Pediu para que fosse ao seu gabinete. - Diga-lhe que já vou! Obrigada... Laura do seu consultório com a sensação de dever cumprido. A apresentação estava mais do que concluída, o CD colocado na unidade de DVD RW e o discurso revisto até ao ínfimo pormenor. Dirigiu-se ao gabinete de Carlos Fonseca, o director da clínica, para uma conversa informal com alguns médicos especialistas, cirurgiões e outros técnicos de saúde exteriores convidados para assistir à sessão da sua tomada de posse. Terminada a conversa, regressou ao seu consultório e encontrou tudo exactamente como deixara. O portátil sobre a secretária e o seu discurso escondido no interior de uma pasta. O auditório principal recebeu perto das onze horas uma enchente de enfermeiros, assistentes, auxiliares, médicos, internos e outros colaboradores que diariamente ofereciam o seu precioso contributo para o bom funcionamento da clínica. Após vários anos à frente de uma das equipas de cirurgiões mais prestigiadas do país, Alfredo Meireles vivia aquele que era o seu último dia de serviço. Cinquenta anos. Um marco histórico para um médico que sempre se dedicou ao trabalho, esquecendo-se muitas vezes da sua vida pessoal e dando tudo de si em prol de uma causa maior que era salvar vidas humanas.
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    234 Estes foram algunsdos elogios que Carlos Fonseca - o director da clínica - teceu ao Cirurgião, num discurso algo propangadista, diga-se de passagem. Minutos depois, Carlos chamou-o ao palco. Recebeu-o na tribuna com um aperto de mão e um abraço cordial. Depois, abandonou o palco e permitiu que Alfredo Meireles tomasse a palavra perante uma plateia em silêncio. - Lembro-me do primeiro dia em que aqui cheguei. Um jovem inexperiente de cinquenta e oito anos... – o discurso de Alfredo Meireles arrancou uma risada geral à plateia. – Tinha pela frente a tarefa exigente de liderar uma equipa de doze cirurgiões altamente qualificados e dedicados ao serviço de salvar vidas humanas. Não me considero um homem religioso, na verdade, em toda a minha vida não me lembro de ter rezado uma única vez. Mas hoje posso dizer que acredito em milagres pois nunca imaginei encontrar tão nobres profissionais. Profissionais que me acompanharam ao longo destes vinte anos em que estive à frente desta equipa. Profissionais que deram tudo de si, que se empenharam, se esforçaram e muitas vezes ultrapassaram as minhas próprias expectativas. Não é fácil ser-se Chefe de Equipa. Reconheço que muitas vezes não soube dar respostas certas. Reconheço também que falhei, que errei e nem sempre fui justo. Mas apesar de todas as minhas falhas humanas, tentei sempre, em todas as ocasiões, oferecer o melhor de mim. O meu máximo. E é o máximo que se pede a um Chefe de Equipa. Sempre. Cabe a ele incentivar, apoiar, administrar e gerir inúmeros egos e personalidades distintas. Cabe a ele manter-se de pé, ainda que tenha feito um plantão de setenta e duas horas, que não tenha tido tempo para se alimentar ou para estar com a família. Recaem sobre ele inúmeras responsabilidades e são a ele exigidas as respostas para todos os problemas que possam surgir. Mas ainda assim, ainda que ele seja a figura central, de nada vale o seu estatuto se não conseguir manter uma equipa forte e coesa. Eu tive essa sorte. O milagre aconteceu. Ao longo destes vinte anos, consegui formar uma equipa da qual muito me orgulho. Alguns já cá não estão, outros felizmente ainda permanecem, mas todos foram decisivos para que esta clínica conseguisse alcançar a excelência a que sempre se propôs. Volvidos estes vinte anos, sinto que o meu tempo chegou ao fim, mas saio de consciência tranquila. Saio com a consciência de que existirão outros profissionais à altura para ocupar o cargo que hoje deixo disponível… - Alfredo Meireles encontrou o rosto de Laura no meio da plateia. – Profissionais vorazes e competentes que me passaram pela mão e que hoje estão aptos a assumir o meu lugar. Há dez anos conheci um destes profissionais. Destacou-se pelos seus olhos verdes, grandes e vivos. Era uma jovem médica, de figura imponente e altiva, capaz de dizer tudo o que lhe vinha à cabeça. Confesso que inicialmente hesitei em chamá-la para a minha equipa, pois não queria problemas, mas sim soluções. Contudo, em muito pouco tempo, ela provou-me ser a solução para muitos dos meus problemas.
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    235 Atrevo-me a dizerque foi sem sombra de dúvidas a melhor Neurocirugiã com quem tive a oportunidade de trabalhar ao longo da minha carreira. A sua garra, a sua força, persistência e determinação foram factores decisivos para que eu resolvesse voltar atrás na minha decisão e incluí-la na minha equipa residente. E não me arrependo de o ter feito, pois hoje deixo-lhe o meu lugar com a certeza de que não o poderia deixar a mais ninguém... - Alfredo voltou-se para Laura e encarou-a com um sorriso paternal. - Dr.ª Laura Alves! A si lhe dirijo estas últimas palavras com especial apreço e admiração. Eu acredito e sempre acreditarei em si. Faça um bom trabalho... Quando Alfredo Meireles terminou o seu discurso, a plateia manifestou-se de pé com uma enorme salva de palmas. Era o fim de uma era, foi o que muitos pensaram. E dentro de pouco tempo iria começar outra. Laura levantou-se do local onde se encontrava sentada e com a sua frieza habitual subiu ao palco. Aceitou o aperto de mão do seu antecessor. Alfredo surpreendeu-a com um abraço cordial e deixou-a sozinha em cima da tribuna, exposta a um conjunto de três centenas de pessoas que continuavam a observá-la com atenção e a tentar decifrar-lhe qualquer tipo de emoção humana. Mas tal como sempre, isso não aconteceu. Laura manteve-se tão fria como um cubo de gelo. A Rainha do Gelo, era assim chamada por muitos dos funcionários da clínica. A sua capacidade inata para camuflar emoções apenas se tinha aperfeiçoado com o tempo. - Bom dia – ela aproximou-se calmamente do microfone e interrompeu o silêncio assombroso instalado naquele enorme auditório. – Antes de mais, gostaria de agradecer a presença de todos e reforçar o quanto me sinto honrada por pisar hoje este palco. Confesso! Caí no erro de preparar um discurso... - a plateia voltou a manifestar-se alegremente - Mas diante das palavras sábias e gentis do Dr.º Alfredo Meireles, que desde já agradeço, percebi que o que demorei três semanas a escrever já não é o que quero dizer e com certeza também não será o que este auditório quer ouvir… Ouviu-se um longo silêncio até Laura voltar a falar. - Cresci numa família monoparental. Nunca cheguei a conhecer o meu pai. Nunca tive uma figura masculina na minha infância. Ele desapareceu antes de eu ter nascido. Fui criada unicamente pela minha mãe, uma mulher recta, firme e fria que incutiu na minha educação todos os valores que considerava importantes para que também eu me tornasse igual a ela. E a verdade é que foi isso que aconteceu. Talvez fosse um fardo demasiado pesado para uma criança de dez anos saber que a sua mãe não conseguira alcançar o sonho de se tornar Neurocirurgiã por sua
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    236 causa. Mas paramim, esse facto transformou-se antes num incentivo. Um objectivo de vida. Decidi tornar-me médica aos doze anos de idade, ainda sem certezas do que o destino me reservava ou se teria capacidades de exercer esta profissão. Mas rapidamente o meu objectivo de vida tornou-se numa obsessão, quer para mim, quer para a minha mãe. Não existiu uma única noite em que não estudássemos juntas até às três da manhã, ainda que tivesse provas no dia seguinte. E faziamo-lo muitas vezes usando cada uma de nós uma lanterna na mão. Porquê, muitos de vocês perguntam. Porque nem sempre tínhamos dinheiro para pagar a electricidade ou para comer... – o discurso de Laura prendeu a atenção de Rita, sentada numa das últimas filas da plateia. – No dia seguinte, perto das seis da manhã, a minha mãe acordava-me para voltarmos a estudar antes de eu ir para a escola. Via-me literalmente a esbarrar em todos os móveis da casa por não ter forças para abrir os olhos. Estudava praticamente vinte e quatro horas por dia sem ter aquilo a que muitos chamam de uma infância ou uma adolescência normal. Nunca tive amigos, nunca fui acampar e nunca fui ao baile de finalistas. O meu objectivo era tão-somente entrar no curso de Medicina com vinte valores. Entrei com 19,8 e senti-me derrotada. Durante os cinco anos de curso, sustentados pela minha mãe com dois empregos como empregada doméstica, cheguei à conclusão que não poderia ter escolhido outra profissão. Eu vivia, respirava e dormia a pensar em Medicina. Depois de concluir o curso, no primeiro dia do meu Internato, apresentei-me perante o Dr.º Eduardo Lima. Lembro-me de uma frase que ele me disse no auge dos meus vinte e três anos, altura em que pensamos que já sabemos tudo o que deveríamos saber. Ele disse- me: Você não é médica e nem nada que se pareça. Não cometa a ousadia de se auto intitular desta forma perante a minha presença. Na altura, com toda certeza pela minha imaturidade, recusei-me a perceber o significado desta frase. Mas hoje, aqui neste palco, devo dizer que fez-se luz. A experiência é a maior arma que um profissional de saúde pode adquirir para si. Sei que aos olhos de muitos, ainda continuo a ser demasiado nova. Dezasseis anos de serviço é realmente muito pouco perto da experiência que reina aqui neste auditório. Mas o que posso afirmar com toda a certeza é que, apesar de saber que vou errar algumas vezes, de que nem sempre serei justa e de que muitas vezes me faltarão respostas correctas, tal como o Dr.º Alfredo Meireles afirmou, também sei que darei o meu máximo. Sempre. Em todas as ocasiões... - o discurso de Laura culminou com um sorriso contido à primeira fila do auditório onde o Ex. Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica continuava a ouvi-la com atenção. - Por isso, Dr.º Meireles! Endereço-lhe igualmente estas palavras de apreço e admiração! Esta médica, de olhos verdes, grandes e vivos, de figura imponente e altiva, capaz de dizer tudo o que lhe vem à cabeça, também sempre acreditou em si e hoje lhe agradece o bom trabalho que desempenhou ao longo destes seus curtíssimos cinquenta anos de serviço…
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    237 Ouviram-se palmas euma ovação de pé durante largos minutos. Tentando afastar de si quaisquer sentimentos humanos, Laura encontrou num copo de água sob a tribuna o líquido perfeito para se acalmar e voltar à normalidade. Nessa altura, dois técnicos de serviço encarregaram-se de montar o projector. Seria ali exibido o programa que Laura pretendia implementar ao longo do seu mandato enquanto Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Um programa amplamente elogiado pelo director da clínica e que lhe valeu a nomeação para um dos cargos mais relevantes do hospital. Faltava pouco. Faltava muito pouco. Algumas pessoas vagueavam pelo grandioso auditório, outras aproveitavam para colocar a conversa em dia, mexer nos seus respectivos telemóveis e computadores portáteis. Laura ouviu atentamente as instruções dos técnicos de serviço e pediu explicações sobre como actuar com o projector ao longo da apresentação. No momento em que as luzes se apagaram, os seguranças tentaram fechar as portas de madeira, mas Joana Lima interceptou-os a tempo. Foi a última funcionária da clínica a entrar. Vinha cansada de um plantão de vinte e quatro horas na ala de Pediatria, mas ansiosa e expectante para assistir ao término da tomada de posse de Laura. Havia qualquer coisa na sua Orientadora a intrigava. Algo difícil de explicar quando se via a pensar nela quase todas as horas do dia, a persegui-la pelos corredores da clínica e a sonhar com a possibilidade remota de um dia tornar-se sua amiga. Obsessão? Ódio? Raiva? Inveja? Amor? Joana não sabia. Mas de uma coisa tinha a certeza. Laura fora o primeiro ser humano a despertar a sua atenção e a primeira mulher a preencher o seu imaginário de uma forma dúbia. Os seguranças permitiram a sua entrada e depois disso ninguém mais entrou. No interior da sala, encontravam-se cerca de trezentas pessoas. Caras conhecidas, outras nem por isso, mas ninguém suficientemente intimidante para que Laura não se concentrasse na sua apresentação. Quando ofereceu um sinal de dedos ao técnico para iniciar a projecção, a médica teve a certeza que já não havia como voltar atrás. Acedeu ao seu computador portátil e em seguida procurou a apresentação que havia visto e revisto durante semanas a fio. O CD na unidade de DVD RW foi rapidamente accionado, mas foi necessário algum tempo de espera até que as primeiras imagens fossem perceptíveis aos olhos dos demais. Por estar de costas para o grandioso ecrã, Laura não se apercebeu do profundo desconforto proveniente na plateia. Vozes arrepiadas. Expressões incrédulas. A estupefacção estampada nos rostos de cerca de trezentas pessoas que se viram obrigadas a assistir à figura da nova Chefe de Equipa numa acesa discussão com um homem desconhecido. “- Tens consciência de que se te fores embora, nunca mais voltas a pôr cá os pés…”
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    238 Ao reconhecer avoz do seu cunhado, Laura voltou-se para o enorme ecrã. Subitamente a tela pareceu engoli-la. - És um porco! - Sabes qual é o teu problema?! Pensar que todos os homens são iguais ao meu irmão! O Leo habituou-te mal! Ele é submisso, não tem personalidade, põe-te num pedestal e espera sempre que tu tomes as rédeas da vossa relação. Já deve estar cansado de saber que lhe pões os cornos, mas nem assim tem tomates para te encostar contra a parede e exigir que lhe contes a verdade! E sabes porque é que continuas a vir cá? Não é por causa de sexo ou coisa nenhuma. É porque meteste nessa tua cabeça que me irias transformar num novo Leo… - Tu nunca irias ser igual ao Leo! Ele é mil vezes melhor do que tu. - Ai é?! Então o que é que ainda estás aqui a fazer? Porque é que ainda não te foste embora? Vai! Volta para casa! Volta para o palhaço do meu irmão e para a vossa maravilhosa família... - Metes-me nojo! - Adivinha lá! O sentimento é recíproco... Os momentos que seguiram foram de profundo choque, especialmente para Laura, que sozinha no palco, viu a sua imagem e a sua privacidade expostas de uma forma incontestável. Enquanto se entregava ao cunhado, praticamente nua, permitindo que ele a tomasse por trás e lhe segredasse palavras obscenas aos ouvidos, Laura sentiu uma branca e o seu corpo paralizar. No visor surgiu a palavra TRAIDORES escrita em letras garrafais, reforçando uma verdade que aos olhos de todos parecia irrefutável. Foi a gota de água para que o director da clínica, que furioso, se levantou da cadeira e ordenou a retirada do video. Laura não esperou segunda ordem. Desorientada, arrancou o cabo que ligava o computador ao ecrã e atirou-o ao chão. Em seguida, ergueu o rosto e viu à sua frente centenas de olhares recriminadores que a observavam com desdém, sarcasmo e indignação. Alguns cochichavam entre si, outros riam-se baixinho, e os restantes, homens na sua maioria, assobiavam freneticamente como se tivessem aprovado a sua prestação sexual. Mas nada pôde exemplificar a humilhação sentida por Laura quando ao fundo do auditório, por entre a multidão, lhe surgiu o rosto diabólico Joana. Acredite Dr.ª Laura! Acabou de assinar a sua sentença de morte, ela disse-lhe uma vez, e a verdade é que a afirmação da jovem não poderia estar mais certa. Aquela havia sido a sentença fatal de Laura.
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    239 Perante os burburinhosprovenientes da plateia e o choque instalado no auditório, Laura voltou ao palco e recolheu as folhas da apresentação colocadas sobre a tribuna. Mais tarde, agarrou igualmente no seu computador portátil e abandonou o auditório munida de uma frieza sobre humana. Ordenou aos seguranças que lhe abrissem a porta, e quando saiu, o barulho e o choque das pessoas tornou-se ensurdecedor. - Dr.ª Laura – Joana correu afogueada ao encontro da médica. – Dr.ª Laura… Laura parou junto às escadas de serviço, mas não teve forças para afastar Joana de si. Olhou-a com inércia, cansaço e tristeza. - Não fui eu que troquei o CD da sua apresentação. A médica não respondeu. Em vez disso, empurrou as portas de serviço e desapareceu pelas escadas com a nítida certeza de que aquele havia sido o seu último dia de trabalho naquela clínica. - Não fiques com remorsos. Joana voltou-se para trás quando ouviu voz gélida de Rita ao fundo do corredor. - Ela mereceu.
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    240 25 Sem forças pararegressar a casa e enfrentar todos os problemas que a atormentavam, Laura passou as últimas horas do dia enfiada num bar, sozinha, afogada numa garrafa de whisky. Precisava esquecer-se de tudo , isso era um facto assente. Precisava esquecer-se de toda a vergonha e humilhação que sofreu à frente de três centenas de pessoas que a viram nua mantendo relações sexuais com o irmão do seu marido e precisava também reagir ao facto de ter perdido para sempre o cargo de Chefe de Equipa. Diante daquela catástrofe comparada apenas com o facto de ter que regressar a casa, a única coisa que ela conseguiu fazer foi engolir o último trago de whisky e encher um novo copo. Talvez tudo aquilo não passasse de um castigo, pensou. Um castigo por todas as mentiras que contou, por todas as traições que fez e por se ter deixado mergulhar num ciclo vicioso que mais parecia não ter fim. Após tantos meses presa a uma relação extra-conjugal, Laura chegou à conclusão que se deixou afundar num mar de mentiras e irresponsabilidades. Percebeu também que existiam coisas bem mais importantes do que uma boa tarde de sexo ou a sensação de romper um quotidiano que a aborrecia. Porque na verdade, era apenas isso que o cunhado lhe proporcionava. Sexo. Muito bom sexo. Mas ainda assim, só sexo, e isso não era suficiente para que ela continuasse a viver daquela maneira. Quando abandonou o bar onde passou as horas mais horripilantes da sua vida, Laura enfiou-se no carro e tentou controlar as voltas que a sua cabeça deu. Tinha bebido demais. Talvez nem devesse deveria cogitar a ideia de entrar num carro e conduzi-lo, mas o adiantado das horas indicou-lhe que era altura de voltar para casa. Meia hora depois, Leonardo observou a mulher a estacionar o carro à frente dos portões da grandiosa moradia que partilhavam. Viu-a a sair do veículo, tropeçando nos próprios pés e caminhando descompensada ao longo do jardim.
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    241 Quando ela entrouem casa e largou as chaves sobre a mesinha do corredor, Leonardo percebeu que a mulher se encontrava embriagada. Laura sentou-se no primeiro degrau das escadas que ligavam os dois pisos da casa e enfiou a cabeça por entre as pernas. Sentiu que não estava no seu próprio corpo. - O que é que aconteceu? - Leonardo perguntou. - Estou bêbada - ela respondeu, tapando o rosto com as mãos. - Isso já deu para reparar! Mas o que é que aconteceu para que tivesses bebido dessa maneira? - Perdi o cargo de Chefe de Equipa. Leonardo bem tentou aproximar-se da mulher, mas Laura desviou-se a tempo não permitindo sequer que ele a tocasse. Depois disso, subiu ao primeiro piso e tropeçou no quinto degrau das escadas, proferindo inúmeros palavrões ao longo do caminho. Para Leonardo, aquela havia sido a gota de água. Enquanto se debatia em dúvidas, fantasmas e receios, o arquitecto chegou à conclusão que precisava acabar com aquela história de uma vez por todas e exigir que Laura lhe contasse a verdade. Já não aguentava mais. Já não aguentava viver com tantas dúvidas, com medo de descobrir a verdade e acabar com algo que na verdade já estava acabado. Pela primeira vez, ele encheu o peito de coragem e preparou-se para a conversa mais difícil da sua vida. Sabia que tinha chegado a hora. Por isso subiu as escadas e dirigiu-se até ao quarto. Quando lá chegou, encontrou Laura agarrada ao telemóvel, passeando pela habitação como uma louca, alheia à sua espionagem. A médica ansiava que alguém respondesse à sua chamada, mas isso não aconteceu. Por fim, num acto de puro desespero e de raiva, atirou o telemóvel contra a parede e levou as mãos à cabeça. Chorou convulsivamente, desesperada, fora de si. Leonardo entrou no quarto decidido a acabar com tudo. - Ele não te atende, não é?! Laura levantou o rosto marcado pelas lágrimas, assustando-se com a visão aterradora do marido junto à porta. - Acho que deves ter-te dado conta que quando chegaste nem sequer perguntaste pelos teus filhos. Nem sequer perguntaste como lhes tinha corrido o dia, se estavam bem, se já tinham jantado, se já estavam a dormir…
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    242 - Leo… -ela balançou a cabeça, sentindo duas lágrimas caírem-lhe no rosto. - E sabes porque é que não fizeste isso?! Porque eles não importam para ti. Nem eles e nem eu. - Isso não é verdade – Laura voltou a abanar a cabeça, desolada. - Estás tão obcecada com o teu amante que até te esqueceste que tens uma família. - É por causa dessa família que eu vou acabar com tudo. - Não acredito em ti! Aliás, já não acredito em mais nenhuma palavra do que dizes. - Vou acabar com tudo, Leo! E quando eu voltar, tudo vai ser como antes… Depois de lançar um último olhar ao marido e de apanhar o seu telemóvel caído no chão, Laura saiu do quarto como um foguete. Deixou Leonardo submerso num silêncio aterrador que por pouco não o levou à loucura. Era impossível continuar a viver com tantas dúvidas e tantas perguntas sem resposta, ele pensou. Era impossível ficar naquela casa sem seguir a mulher e descobrir quem era o seu amante. Quando desceu ao primeiro piso depois de se ter certificado que os filhos dormiam profundamente no quarto, Leonardo percebeu que Laura já havia saído e levado consigo um dos carros da família. Da janela, observou-a a entrar no jipe e não esperou muito para também ele sair de casa com as chaves do seu BMW nas mãos. Enquanto a seguia pelas ruas da cidade, o arquitecto viu-se novamente confrontado com várias perguntas. Quem era o amante da sua mulher? Como é que ela o conheceu? Há quanto tempo se andavam a relacionar? Seria amor ou só sexo? Estaria ela a pensar em pedir o divórcio por causa dele? Ou será que iria cumprir a sua promessa e terminar com tudo naquela noite? Todas essas perguntas pareceram ter resposta quando Laura estacionou o carro num bairro pouco movimentado. Em seguida, ela atravessou a rua e entrou no prédio número 309 debaixo de uma chuva miudinha. Nem sequer levou o casaco ou se lembrou de trancar as portas do jipe. Leonardo sentiu-se tentado a sair do carro, mas algo muito forte o impediu de cometer essa loucura. Talvez o medo de encarar a realidade, de confrontar o amante da mulher ou de perder a pouca dignidade que ainda lhe restava. Fraco, disse em voz baixa. Era demasiado fraco para tomar uma atitude que não fosse digna desse nome. Quando finalmente decidiu sair do carro, a mulher voltou a sair à rua, visivelmente transtornada e com o telemóvel nas mãos. Fez uma última chamada, mas ninguém atendeu.
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    243 A pessoa queprocurava ainda não havia chegado a casa e já era meia-noite. Ela enfiou-se novamente no carro e ali permaneceu durante hora e meia. Estava à espera do amante, Leonardo chegou a essa conclusão. Nem sequer disfarçava a ansiedade de o ver, realizando telefonemas constantes enquanto o controlava através do relógio de pulso. Por fim, a poucos minutos das duas da manhã, numa rua praticamente deserta, ouviram-se inúmeras gargalhadas e a visão descontraída de um homem abraçado a uma mulher. Os dois partilhavam um cigarro, indiferentes ao adiantado das horas. No interior do carro, Laura forçou um pouco mais a vista e não quis acreditar no que estava a ver. Reconheceu Ricardo, e ao seu lado, Sofia Saraiva, a mulher de Francisco. E isso foi suficiente para a ferir de morte. - Traidor – ela gritou, saindo esbaforida do carro e surpreendendo o cunhado com um soco nas costas. - Estás louca?! - Seu traidor de merda! Sofia recuou alguns passos, atónita com o súbito aparecimento de Laura à sua frente. - Calma – Ricardo segurou a cunhada pela cintura enquanto ela esperneava como uma louca, tentando atingir o corpo de Sofia. - Deixa-me explicar... - Explicar o quê?! Explicar que estavas prestes a comer essa vaca? - Eu não admito que me ofendas – Sofia desviou-se dos pontapés e arranhões da médica. - És uma vaca sim! Uma cabra… - Laura tentou livrar-se dos braços de Ricardo presos à sua cintura. - E eu posso saber o que é que estás aqui a fazer?! Sim, porque pelo que eu saiba, tu também és uma mulher casada. Ou será que vais dizer que estavas a passar por aqui por acaso? - Não! Não vou dizer isso! E sabes porquê? Porque até há bem poucos minutos eu tinha um caso com este filho da puta – Laura empurrou o cunhado para longe de si, gritando esbaforida.
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    244 - Fala baixo– Ricardo imperou, surpreso por ver a cunhada naquele estado. Nunca antes a vira assim. Tão fora de si. Tão distante da Laura que conhecia. - Andaste-me a trair esse tempo todo - Laura apontou-lhe o dedo à cara, ofegante pelo esforço que fizera. - Primeiro com a Rita, depois com essa daí, e sei lá com quantas e quantas já não foste para a cama. - Desculpem! Mas eu não estou para ouvir isto... - Não penses que te vais embora assim – Laura segurou o braço de Sofia com força e impediu-a de descer a rua a fim de evitar um escândalo maior. – Primeiro vais ouvir tudo o que tenho para te dizer. Vais saber exactamente que tipo de homem te andou a enganar durante esse tempo todo… - O Ricardo não me enganou coisa nenhuma – Sofia afastou-se bruscamente das mãos dela. – Eu não estou apaixonada por ele e nem nunca estive. O que tivemos foi sexo. Só isso. Tu é que caíste no erro de te apaixonar por ele, mas esse é um problema teu. Resolve-o, porque eu estou fora... As palavras de Sofia, apesar de cruéis, foram reais. Quando se viu sozinha naquela rua deserta e olhou para o rosto do cunhado, Laura chegou à conclusão de que ela havia sido realmente a única vítima daquela história. A única que se atreveu a entregar o seu coração e a sua vida nas mãos de um homem que não a merecia e nem nunca mereceu. Para os homens, a traição é apenas um erro estúpido. Para as mulheres, uma sentença de morte. O homem trai porque está no seu sistema genético. As mulheres porque lhe falta algo como a dignidade e o bom senso. Para além do corpo, a mulher acaba quase sempre por entregar um pouco do seu coração causando danos irreparáveis à sua volta. Laura entregou tudo isso. Entregou o seu corpo, o seu coração, a sua carreira e a sua família. Cedeu tudo e no fim ficou sem nada. - Vamos subir – Ricardo disse quando a sentiu um pouco mais calma. - Vamos conversar... - Não fales comigo. - Não sejas infantil! Vamos conversar!
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    245 - Infantil?! Eué que estou a ser infantil? – os olhos de Laura encheram-se de lágrimas pela primeira vez. – Tu passas a vida a correr atrás de mulheres, trais-me com tudo o que te aparece pela frente e eu é que sou infantil? Olha para mim, Ricardo! Olha para o meu estado? Tens a mínima ideia de como isto está a ser difícil? Tens a mínima ideia do que é ter que mentir ao teu marido, aos teus filhos e a todas as pessoas à tua volta? - Laura… - Sabes o que é que aconteceu comigo enquanto estavas por aí a enroscar-te com a mulher do Francisco?! Eu perdi o cargo de Chefe de Equipa. Eu perdi um cargo pelo qual havia lutado a minha carreira inteira e fui obrigada a demitir-me da clínica por tua causa. - O quê?! - Ricardo pareceu incrédulo com tal afirmação. - Mas o que é que isso te importa, não é?! - Laura balançou a cabeça com a maior tristeza que ele alguma vez lhe vira nos olhos. - Tu estás-te literalmente a lixar para mim e para os meus sentimentos, e isso, hoje, tornou-se mais do que evidente. Fui apenas mais uma que conseguiste comer. Nunca gostaste de mim. Só me quiseste usar e só quiseste provar a ti próprio que eras capaz de foder a mulher do teu irmão... - Não é verdade! Eu amo-te... Laura não hesitou em esbofetear o rosto de Ricardo quando o ouviu proferir tal obscenidade. Fê-lo perante o olhar incrédulo do marido, que de longe, dentro do carro, assistiu a tudo tentando lutar contra a sua enorme vontade de vomitar quando se viu obrigado a presenciar aquela cena horripilante. - Nunca mais te atrevas a dizer isso - ela afirmou. - Tu não sabes o que é amar alguém... A chuva começou a cair com maior intensidade no momento em que Laura atravessou a rua e deixou Ricardo de cabeça baixa, envergonhado pelo seu comportamento idiota. Queria muito que ela tivesse acreditado nele. Nas suas palavras. Queria muito ter dito o quanto ela era importante para si, o quanto a amava e o quanto se odiava de morte por lhe ter provocado tanta dor quando a sua única intenção era dar-lhe o melhor de si. Mas vendo bem, esse melhor era muito pouco. Muito pouco para uma mulher como ela.
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    246 26 "- Posso fazer-teuma pergunta? - Claro. - És feliz no nosso casamento? - Sou! Claro que sou. - Não te falta nada? - Não... - E o sexo? - O que é que tem o sexo?! - O sexo entre nós! É bom? - O sexo é bom. - Bom, mas não é espectacular... - Bom e espectacular! Eu quero-te! Muito..." Enquanto Leonardo conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de uma conversa que um dia tivera com a mulher, a chuva torrencial invadiu o pára-brisas e o velocímetro ascendeu os cento e vinte quilómetros hora.
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    247 Não conseguiu evitarque duas lágrimas lhe caíssem dos olhos. Chegou à conclusão que havia sido um idiota por ter acreditado nas palavras e nas juras de amor que Laura fez questão de lhe oferecer ao longo dos doze anos em que estiveram casados. Como se enganou com ela. Como se deixou cegar por uma mulher tão leviana, fria e repugnante. Uma mulher que não teve quaisquer pudores em traí-lo com o seu próprio irmão e enganá-lo durante meses a fio. Laura fingiu tão bem. Enganou-o tão bem. E agora tudo o que lhe restava era aquele estranho amargo de boca que parecia ter-se-lhe entranhado na garganta e que o impedia de descer do carro ou mover um único músculo corporal. Ficou ali, durante vários minutos, a olhar para as portas da garagem, tentando encontrar forças para se manter vivo. Quando conseguiu, saiu do veículo e entrou em casa como um foguete decidido a tomar a decisão mais difícil da sua vida. Meia hora depois, Laura abriu a porta e largou as chaves sobre a mesinha. Não conseguiu esconder os olhos vermelhos de tanto chorar e a expressão de ressaca que não lhe abandonou o rosto naquele que havia sido definitivamente o pior dia da sua vida. Mas ao seguir pelo corredor da casa e sentir o aroma doce que ele emanava, uma paz imensa invadiu-lhe o coração. Tinha voltado ao ponto de partida, pensou. Apesar de tudo, tinha conseguido escapar ilesa daquela história e agora tudo o que lhe restava era seguir em frente e esquecer-se de todas as loucuras que cometeu no passado. - Não te dês ao trabalho de subir sequer... Leonardo surgiu ao cimo das escadas, no meio da escuridão e pontapeou as duas malas que fizera às pressas, colocando no seu interior algumas roupas e pertences da mulher. Ouviu-se um barulho ensurdecedor. As malas caíram sobre os pés de Laura e deixaram-na boquiaberta. Ela levantou o rosto e encontrou a expressão aterradora do marido. A expressão mais aterradora da qual tinha memória. - Já não moras aqui - ele afirmou, resoluto. - Que brincadeira é essa? - A brincadeira acabou - Leonardo desceu as escadas, degrau a degrau. - Eu já descobri tudo. - Descobriste o quê?! - Laura recuou dois passos, assustada. - Segui-te! Segui-te e vi-te com o filho da puta do meu irmão...
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    248 As palavras domarido atingiram-na com uma violência desmesurada. Laura permaneceu alguns instantes sem conseguir articular qualquer palavra. Ficou sem respiração, e pela primeira vez, naquela terrível e fatígida noite de Outono, sentiu o coração bater freneticamente como se tivesse sido atingida por uma enorme bola de demolição. Leonardo continuou a caminhar lentamente em sua direcção. Cada vez mais próximo, com olhos de quem a queria matar. Laura afastou-se quando o sentiu demasiado perto de si, recuando vários passos e sentindo o seu coração bater cada vez mais depressa. Foi então que o pior aconteceu. Completamente fora de si como nunca antes estivera, Leonardo surpreendeu-a com uma violenta bofetada no rosto que a obrigou a cair no meio do corredor. Foi por pouco que ela não desmaiou. - Ficaste surpresa, não foi?! – Leonardo agarrou-a com força pelos cabelos. – Não imaginavas que fosse ter a coragem de seguir e desmascarar a mulher ordinária com quem eu estive casado durante estes anos todos? - Larga-me - Laura gritou, raivosa, sentindo as suas pernas fraquejarem perante a violência do marido. - O que é que me tens a dizer, hã?! - Eu não tenho nada para te dizer - a médica voltou a gritar, furiosa. - Tens sim! Tens muita coisa para me explicar, sua ordinária... - Não tenho que te explicar nada - Laura conseguiu finalmente livrar-se das mãos de Leonardo e levantar-se do chão. Observou-o com uma expressão de ódio. - E não me voltes a tocar outra vez! Se me tocares, eu mato-te... - Como é que eu pude me enganar tanto a teu respeito - Leonardo olhou-a com desprezo. - Não me voltes a tocar - ela apontou o dedo, ofegante. - Podias ter-me traído com todos os homens à face da terra! Todos! Eu até te poderia perdoar. Mas escolheste justo o meu irmão. Escolheste alguém que durante meses andou enfiado cá em casa a comer à minha mesa e a rir-se da minha cara enquanto também comia a minha mulher – Leonardo gritou com os olhos rasos de lágrimas.
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    249 Laura continuou aolhar para o marido, ofegante e assustada. Tinha um medo terrível que ele a voltasse a bater e que ela não tivesse forças para o impedir. - Mas acabou! O idiota aqui descobriu a verdade. E eu não te quero mais…! Não quero continuar casado com uma mulher tão baixa, tão ordinária e tão vagabunda como tu. Até uma prostituta de rua é melhor do que tu. És um nojo de pessoa, de ser humano e eu amaldiçoo o dia em que te conheci. Amaldiçoo também o dia em que me casei contigo e permiti que fosses a mãe dos meus filhos... - Mereceste - a afirmação insana de Laura chocou o marido. - Se não fosse com o teu irmão, teria sido com qualquer outro! Se não fosses tão fraco, tão submisso, sempre à espera que eu tomásse as decisões cá em casa, nada disto teria acontecido. Eu não me teria sentido tua mãe, em vez de tua mulher... - Pega nas tuas tralhas e sai desta casa! - Eu não vou sair – Laura afirmou, resoluta. - Esta casa também é minha. - Vais sair sim! Queres ver como vais!? Leonardo alcançou os braços da mulher e arrastou-a em direcção à porta, enquanto Laura, desesperada, esperneou e gritou pelos filhos. As suas pernas bem tentaram prender-se ao tapete numa tentativa desesperada de não saírem do lugar, mas os braços fortes do marido esmagaram os seus intentos. Sem pudores, ele arrastou-a pelo chão e atirou-a porta fora como se de uma mercadoria devolvida ela se tratasse. Na verdade, até o próprio se surpreendeu com a coragem que teve ao deixá-la caída no jardim, mas surpreendeu-se ainda mais quando também arranjou forças para lhe atirar as malas porta fora. Depois disso, ouviram-se apenas os soluços e o choro descontrolado de Laura. - Nunca mais voltes a pisar esta casa e nem te atrevas sequer a aproximar-te dos meus filhos, porque quando eles acordarem de manhã, eu vou dizer que a mãe deles morreu! Ao ver-se jogada no jardim de uma casa que um dia também foi sua, Laura olhou à sua volta e mergulhou no mais profundo desespero. Num momento de raiva, correu novamente em direcção à porta e pontapeou-a, exigindo que o marido a deixasse entrar. Mas a casa silenciou-se e as luzes apagaram-se. Todas as portas e janelas foram fechadas à chave. Houve a terrível sensação de que se encontrava só.
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    250 Resignada à ideiade não voltaria a pôr os pés naquela casa, pelo menos nas horas seguintes, Laura arrastou as malas que o marido lhe fizera e atirou-as para o interior do porta-bagagens. Em seguida, enfiou-se no banco da frente e deu o carro à chave. Não tardou a arrancar a alta velocidade. Leonardo manteve-se escondido atrás das cortinas da janela do quarto. Observou a partida da mulher sem conseguir derramar uma única lágrima. A imagem do carro dela transformou-se numa enorme mancha vermelha, e nesse instante, estranhamente, ele sentiu-se aliviado. Acabou. Foi a única palavra que lhe surgiu como a definição possível para o seu casamento com Laura. - O que é que estás aqui a fazer? Luísa Mendonça não poupou a pergunta à filha quando esta lhe surgiu sobre o alpendre da sua porta a poucos minutos das três da manhã. - Deixa-me entrar. Luísa cedeu passagem e Laura entrou no apartamento da mãe, arrastando duas malas pesadas atrás de si. - Posso saber o que é que aconteceu para me chegares aqui a estas horas? - Separei-me do Leo. - Ele pôs-te fora de casa? - Isso não é da tua conta. - É claro que é da minha conta! A partir do momento em que me pões os pés aqui dentro a estas horas é compreensível que eu queira saber o porquê. - Só te estou a pedir que me deixes passar cá a noite. Dispenso os teus sermões... - Se querias só uma noite porque é que não foste para um hotel? - Queres que vá?! – Laura gritou, abrindo os braços, esbaforida. – É que se quiseres é só dizer que eu vou. - Não te atrevas a falar-me nesse tom, ouviste?! Eu ainda sou a tua mãe e não admito que me faltes ao respeito dentro da minha própria casa.
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    251 - Uma casaque eu sustento. - Não fazes mais do que a tua obrigação - a voz imponente de Luísa obrigou Laura a calar-se. - Porque se eu fosse cobrar tudo o que me deves, com certeza, eras tu que saías a perder. - Não precisas esconder a tua felicidade. - Do que é que estás para aí a falar?! - Eu sei que ficaste radiante por saber que eu e o Leo nos separámos. - Laura, poupa-me! Não queiras descarregar as tuas frustrações em cima de mim. - Só estou a fazer o que sempre fizeste comigo. Tu é que sempre descarregaste as tuas frustrações em cima de mim. Sempre torceste para que eu fosse miserável e infeliz como foste durante toda a tua vida. Sempre quiseste ver-me sozinha como tu. Pois bem! Já pode lançar os foguetes, D. Luísa Mendonça! Eu estou infeliz, miserável e sozinha como você. Satisfeita?! - Eu não tenho nada a ver com as tuas escolhas e muito menos com a tua vida, Laura! Sempre fizeste questão de me afastar dela desde que te casaste com aquele idiota do Leonardo, lembraste?! Só te lembravas de mim no final do mês quando me depositavas dinheiro na conta ou então quando precisavas livrar-te dos teus filhos para sair com o teu marido. Afastei-me da vossa família porque tu e o Leonardo me pediram. Então porque é que me estás a culpar, hã? Se tu e o teu marido se separaram, a culpa foi inteiramente vossa e não minha. Foram vocês que falharam e não eu… Ela jamais vencia, a mãe jamais aprovava. Mas a idiotice disso tudo estava no fato de Laura saber que jamais conseguiria, aprendera isso há muito tempo com a análise. Sua mãe era quem era e não iria mudar. Era ela quem deveria mudar suas expectativas. E, em grande parte, tinha conseguido, mas havia ainda momentos em que, como agora, esperava que a mãe fosse diferente. Ansiava que Luísa a tomasse nos braços, a acarinhasse e a fizesse crer que tudo iria correr bem. Mas Luísa jamais seria a mãe compreensiva, carinhosa e amorosa que ela tanto desejava. Ao perceber isso, Laura caiu sobre o sofá pronta a chorar todas as lágrimas que ainda lhe restavam. Não foram poucas, mas ainda assim, ela chorou-as. E quando terminou, Luísa sentou-se ao lado dela.
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    252 - Porque éque tu e o Leonardo se separaram? Laura hesitou alguns segundos na sua resposta por não saber qual iria ser a reacção da sua mãe quando descobrisse uma verdade que durante meses ela tentou esconder de todos os que a rodeavam. Para Laura, sempre fora impensável revelar os seus defeitos, medos e hesitações a Luísa e tudo porque via na mãe um ser absolutamente perfeito. Demasiado perfeito para sequer a ter dado à luz. - Traí-o – saiu-lhe essa confissão dos lábios. - Com quem?! - Com o irmão dele. Luísa passou as mãos pelo rosto, mas não foi capaz de proferir qualquer comentário. - Eu sei que o que fiz não tem perdão – Laura soluçou. – Mas eu não queria magoar ninguém. Não queria magoar o Leo e muito menos os nossos filhos. Tenho medo que ele nunca mais me perdoe. Tenho medo que ele peça o divórcio, que me afaste dos miúdos, que… que me esqueça! Eu não quero que ele me esqueça, mãe! Não quero… - Laura! Eu nunca escondi que não gostava do teu marido. Para mim, ele só atrapalhou a tua vida desde que vocês se conheceram – o discurso de Luísa mais uma vez saiu ríspido e seco. – Primeiro, apressou o vosso casamento mal acabaste o curso. Em seguida, obrigou-te a recusar uma proposta de trabalho em Londres que poderia muito bem ter-te mudado a vida, fazendo ameaças idiotas de que se separava de ti caso aceitasses. Depois, veio com a história de terem um filho. Acabaste por ter dois de uma só vez. E tu, burra como sempre, abriste mão da tua vida por causa de um homem que agora te pôs para fora de casa só com a roupa do corpo e duas malas na mão. E achas que eu tenho pena de ti? Nem um pouco! Eu sempre te disse que este casamento não iria dar certo. Mas tu querias tanto sair de casa, querias tanto livrar-te de mim, porque sou uma mãe horrível não é, querias tanto a tua independência, que acabaste por cair nas mãos do primeiro homem que te passou pela frente mesmo não o amando… - Eu amo o Leo. - Se amasses nunca o terias traído, muito menos com o irmão dele!
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    253 Laura calou-se maisuma vez perante a voz autoritária da mãe. – Mas agora o mal já está feito! A única coisa a fazer é aceitar o divórcio e lutar pelos teus filhos, pois acho muito pouco provável que o teu marido te ceda de livre vontade a guarda das crianças depois desta palermice que fizeste – Luísa levantou-se do sofá com algum esforço. – Vou-te fazer a cama! Ficas no teu antigo quarto até resolveres o que queres fazer da tua vida. Ricardo passou a noite em branco a olhar para as paredes do quarto. Quando os primeiros raios de sol entraram pela janela adentro, ele abriu os olhos e levantou- se com as poucas forças que ainda lhe restavam. A discussão que tivera com Laura na noite anterior ainda lhe estava presente na memória e nem mesmo o facto de saber que todos os seus problemas finalmente tinham tido um fim, fê-lo sentir-se melhor. Pelo contrário. Ao perder Laura, ele perdera também a única razão que ainda o mantinha preso àquele país. Agora era a sua vez de sentir a falta dela, falta dos seus lábios, dos seus cabelos perfumados e daqueles olhos verdes que lhe perfuraram o coração desde o primeiro dia em que os viu. Amava-a. Amava tudo nela e odiava-se por a ter magoado tanto. O duche de água fria serviu para que limpasse toda a sujidade que se havia entranhado no seu corpo e o café trouxe-lhe a coragem para segurar o telefone nas mãos. Era com ele que Ricardo pretendia telefonar a Laura e assumir todos os seus erros. Pedir-lhe desculpas e informá-la de que a iria deixar em paz para sempre. Contudo, quando estava prestes a digitar o número, a campainha tocou. Talvez fosse ela, passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto depositava o telefone sobre a mesa da cozinha e se livrava da chávena de café que tinha nas mãos. Voou em direcção à porta, mas a surpresa revelou-se outra. Muito mais amarga. - Pensaste que era ela, não?! – Leonardo não poupou a pergunta ao irmão quando este lhe abriu a porta. - Ela quem?! - A Laura. - Porque é que haveria de pensar que era a Laura?! – Ricardo defendeu-se. - Eu já descobri tudo – Leonardo calou os argumentos do irmão com uma frieza sobrenatural. – Descobri o teu caso com a Laura. Sem forma de fugir à realidade dos factos, Ricardo largou a porta e permitiu que o irmão entrasse em sua casa.
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    254 - Deixa-me adivinhar!Vieste aqui fazer o papel de marido traído? - Não vim fazer coisa nenhuma! Só vim dizer-te que finalmente tive a certeza da bela porcaria de irmão que os meus pais me fizeram questão de dar. Mas confesso que não estou nem um pouco surpreendido. Sempre soube que não prestavas e que não valias um tostão furado. Só acho que fui demasiado ingénuo ao acreditar que podias ter mudado. É óbvio que não. É óbvio que não mudaste e nem nunca vais mudar. Quem nasce merda, morre merda… - Se achas que te vou pedir desculpas, estás muito enganado! - Não esperava tal coisa de ti - Leonardo aproximou-se novamente da porta de saída. - Ofereço-ta! De bandeja! Isto claro, se ainda a quiseres! É que eu sei que para ti as mulheres são facilmente descartáveis. Quando a porta se fechou violentamente, Ricardo cerrou os olhos e voltou o rosto em direcção à janela. O casamento de Leonardo e Laura tinha chegado ao fim, ele teve essa certeza. Mas por mais que tentasse sentir-se triste por isso, a verdade é que não conseguiu. Sentiu-se antes aliviado e secretamente feliz por saber que algures, aí por Lisboa, a cunhada se encontrava novamente solteira.
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    255 27 Era a primeiravez que Laura acordava numa casa que não a sua. O seu antigo quarto, religiosamente mantido intacto pela mãe, não foi suficiente para que tivesse uma boa noite de sono. A visão daquelas quatro paredes apenas acirrou o seu desespero ao dar-se conta que tudo o que acontecera na noite anterior não fora um pesadelo. Além disso, trazia-lhe recordações terríveis da sua infância, de quando era apenas uma menina desprotegida que sonhava ver-se livre das garras da mãe e encontrar alguém que a protegesse. Durante anos, Leonardo cumpriu exemplarmente essa tarefa. Mas agora ela estava de volta ao ponto de partida. O destino parecia irónico e cruel. - Acorda - Luísa entrou no quarto da filha às oito horas em ponto e subiu os estores das janelas com uma velocidade estrondosa. - Já viste que horas são? - Não vou trabalhar hoje - Laura tapou o rosto com as mãos a fim de proteger os olhos da luz exterior. - Porquê!? - Despedi-me da clínica. - Olha que bom – a resposta de Luísa foi emitida com algum sarcasmo. – Vá! Levanta-te, toma um banho e vai até à cozinha que o pequeno-almoço já está pronto. - Não tenho fome. - Tens trinta minutos para te pores na cozinha! Despacha-te – Luísa saiu do quarto logo em seguida.
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    256 Laura tomou umbanho demorado, indiferente às ordens da mãe e voltou a entrar no quarto envolta numa toalha encontrada na casa de banho, enquanto enxugava os cabelos com outra. Sobre a cama, permaneciam as duas malas que o marido fizera questão de lhe fazer. Escolheu umas calças de ganga e uma camisola preta. A indumentária perfeita para um dia que prometia ser longo. Quando terminou de se vestir, já perto das nove da manhã, secou os cabelos e prendeu-os com uma mola ao cimo da cabeça. O seu telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira. No visor, ela viu a letra R, mas não soube muito bem o que fazer. Permaneceu um bom tempo com o aparelho nas mãos e os olhos postos num número que ainda a atormentava. Os ovos mexidos feitos pela mãe e as torradas foram degustados com algum sacríficio, não porque não estivessem bons, mas sim porque o seu apetite era de facto nulo. Na boca, Laura continuava a sentir o gosto amargo da bebida, e no corpo, as marcas deixadas pelo marido quando ele a arrastou pelo corredor da casa e a atirou porta fora. Tinha os joelhos ligeiramente esfolados e uma dor aguda no braço que parecia piorar a cada minuto. Além disso, a visão da mãe a servir-se do café e a movimentar-se no interior daquela cozinha minúscula não a deixaram muito à vontade. Perto de Luísa, Laura continuava a sentir-se como uma criança de cinco anos com ordens para comer, levantar-se, tomar banho e dormir. Infelizmente, a mãe tinha o dom de a fazer sentir-se assim. De retirar de si todos e quaisquer resquícios de maturidade. - Quanto tempo pretendes cá ficar? - Não te preocupes – Laura largou os talheres sobre o prato. – Hoje mesmo vou à procura de um apartamento para alugar. - Podes ficar o tempo que quiseres! Só perguntei porque preciso saber como me organizar. - Onde é que vais?! – Laura fitou a mãe de soslaio quando a viu a tirar um post-it amarelo da porta do frigorífico. - Vou ao supermercado e depois vou passar pelo Centro de Saúde. - Tens alguma coisa? - Não! Só lá vou entregar alguns exames de rotina. - Deixa-me vê-los antes de saíres.
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    257 Após vários minutosa divagar na cozinha, Laura retirou a mesa do pequeno- almoço e lavou a loiça, numa tentativa desesperada de esquecer os problemas que a atormentavam. Regressou à sala e observou os móveis que a mãe fazia questão de manter desde que ela nascera. Continuava tudo igual. Exactamente igual ao que sempre fora, como se Luísa ainda se quisesse manter presa a um passado que já não existia, mas que teimava em assombrar a sua existência amarga e infeliz. Pequenos objectos de decoração, patos em madeira, globos de neve, bailarinas feitas em porcelana, estantes repletas de loiças empoeiradas que traziam uma certa nostalgia dos tempos em que viviam as duas na mesma casa. Passaram-se vários anos, mas Laura continuava a sentir como se pertencesse àquele apartamento velho a cair aos bocados. Luísa nunca quisera sair dali, ainda que a filha lhe tivesse oferecido uma moradia novinha em folha. Guarda o teu dinheiro que um dia te pode fazer falta, disse-lhe na altura, e desde então nunca mais voltaram a falar sobre o assunto. Sobre o disco de vinil, Laura encontrou um velho porta-retratos com uma única fotografia. A sua e a de Luísa. Afastadas, e sem manter qualquer contacto físico, mãe e filha foram surpreendidas à saída da igreja no dia em que Laura fez a sua primeira comunhão. Os olhos tristes e chorosos denunciaram que a mãe havia gritado consigo à frente de todos e esbofeteado o seu rosto quando ela sem querer sujou o vestido branco comprado para a ocasião. Ao lembrar-se de mais um acontecimento triste da sua infância, Laura sentiu os duas lágrimas caírem-lhe no rosto. Ao final da tarde, dirigiu-se ao colégio dos filhos para os ir buscar. Contava trazê- los consigo ou pelo menos explicar-lhes os motivos que a levaram a sair tão abruptamente lá de casa. Todavia, à porta da sala, professora impediu a sua entrada. - Foi o meu marido quem a mandou fazer isto?! - Laura questionou, incrédula e furiosa. - Não sei do que a senhora está a falar. - Saia-me da frente! Vim buscar os meus filhos! - Eu peço-lhe para que se acalme, D. Laura! Senão vou ser obrigada a chamar os seguranças. - Saia-me da frente, senão eu passo-lhe por cima!
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    258 Laura não tevepudores em empurrar a professora, afastando-a da porta e entrando de rompante na sala de aula onde os filhos se encontravam sentados na segunda carteira da terceira fila. Quando viram a mãe, os pequenos correram a abraçá-la com força. Não entendiam o porquê do pai lhes ter dito que Laura não voltaria a viver com eles e que já não fazia parte das suas vidas. Tinham saudades dela. Queriam que tudo fosse como antes. Estavam confusos e amedrontados. - Por favor, D. Laura! Peço-lhe para que saia da sala com os seus filhos. Está a atrapalhar a aula e a deixar as outras crianças nervosas – a professora argumentou. Laura acedeu ao pedido da professora, mas antes de sair, lançou-lhe um olhar de ódio. - Porque é que foste embora? – João perguntou à mãe quando se sentaram num dos bancos do corredor principal da escola. - A mãe não se foi embora. - O pai disse que nunca mais ias voltar – André completou a frase do irmão. Laura fez tudo ao que estava ao seu alcance para não chorar, mas isso não foi possível quando viu diante de si os rostos inocentes dos filhos. Foi só então que ela se deu conta do terrível erro que havia cometido. Foi só então que a realidade lhe caiu sobre os ombros e a deixou à beira do desespero. - A mãe vai voltar. - Tu e o pai zangaram-se? - João questionou. - Um bocadinho – Laura limpou o rosto lavado de lágrimas. – De vez em quando os adultos zangam-se, mas isso não significa que não gostem um do outro. Aliás, eu quero que saibam que a mãe gosta muito do pai e também gosta muito de vocês. Muito! Mais do que possam imaginar... - Então porque é que não voltas para casa? - André parecia confuso. - A mãe vai voltar – Laura beijou os filhos no rosto e apertou-os contra si. – Só vos peço um pouco mais de paciência, meus amores! Só mais uns dias! Prometo que tudo vai ser como antes. Eu, vocês e o pai...
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    259 Durante a tarde,Laura ligou insistentemente para o telemóvel do marido. Não recebeu resposta. Desactivou a visualização do número, tentou outras vezes, mas continuou sem resposta. Ligou para o escritório dele e a secretária num tom nervoso mentiu dizendo que chefe não se encontrava lá. Laura usou então um outro estratagema. Procurou uma cabina telefónica e digitou novamente o número do telemóvel do marido. O telefone tocou duas vezes e Leonardo atendeu. Sou eu, ela afirmou. Ele desligou a chamada. Vinte minutos depois, Laura estacionou o carro em frente ao escritório do ex- marido. Nas mãos, levou a sua mala e o seu casaco, e na mente, um objectivo definido. Assim que se viu no segundo piso, saiu disparada do elevador e não olhou a meios para chegar à sala de Leonardo. - Desculpa, Laura - a secretária impediu a sua passagem. - Sinto muito, mas... - Marta! Vais ter que me deixar entrar. - Eu não posso fazer isso! O Leo está numa reunião. - Eu sei que ele não está. - Laura... Tarde demais. As palavras da secretária e os seus braços não foram suficientes para que Laura desistisse do objectivo de entrar no escritório do ex-marido. Não esperou ser anunciada e também não se deixou intimidar com o olhar de ódio lançado por Leonardo quando ela interrompeu uma reunião importante com dois novos clientes da empresa. Francisco Saraiva também se encontrava presente. - Desculpa, Leo - a secretária chegou pouco tempo depois, afogueada. - Eu tentei... - Não faz mal, Marta! Podes sair! - Com licença. - Agora escondes-te atrás dos teus empregados, é?! – Laura ignorou a saída da secretária e os olhares curiosos das pessoas que se encontravam presentes na sala de reuniões. - Peço-te que saias e me deixes terminar a reunião!
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    260 - Eu nãovou sair daqui sem falar primeiro contigo. - Estás muito nervosa, Laura - Francisco interferiu. - É melhor saíres e voltares num outro dia. - Francisco, cala a boca e mete-te na tua vida - a médica aniquilou todos e quaisquer argumentos do arquitecto. - Eu estou contigo por aqui! Já nem te posso ver à frente... - Vou chamar os seguranças – Leonardo tentou encontrar o telefone sobre a mesa de reuniões. - Não te atrevas a fazer uma coisa dessas – Laura impediu os intentos do ex- marido. – Vais ouvir o que tenho para te dizer, e vai ser agora! Então?! Como é que vai ser? Vais pedir para que esta gente saia ou preferes lavar a roupa suja à frente dos teus funcionários? Leonardo deu-se por vencido quando percebeu que a ex-mulher não iria sair do seu escritório. Restava-lhe apenas uma única alternativa. Ceder à conversação e tentar controlar os escândalos que Laura estaria disposta a fazer no seu local de trabalho. - Meus senhores! Eu pedia-lhes para que aguardassem um pouco lá fora, por favor. Laura não se deixou esmorecer quando alguns funcionários e sócios do escritório passaram por si munidos de olhares recriminadores. Nem mesmo Francisco Saraiva, o último elemento da equipa a sair da sala, a poupou de tal olhar. Depois disso, a porta fechou-se e o silêncio tomou conta da atmosfera. - Não me vais afastar dos meus filhos - Laura tomou a palavra. - Pensasses nisso antes de teres fodido o meu irmão. - Não sejas ordinário! - Desculpa, mas mesmo que quisesse, não conseguiria igualar-te... - Não tens o direito de me impedir de estar com os meus filhos.
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    261 - Tu comportaste-tecomo uma verdadeira prostituta e ainda perguntas o porquê de eu não te querer perto dos meus filhos?! Tens tanta lata, Laura! Pois deixa-me que te diga que os teus direitos sobre o João e o André terminaram no dia em que saíste lá de casa. Será que não percebes que eles não precisam de ti, tal como tu nunca precisaste deles!? - Eu sempre precisei dos meus filhos – ela afirmou. - Não sejas mentirosa! Sempre me jogaste na cara que não os querias ter. Que eu é que te tinha obrigado a engravidar. Nunca escondeste também que eras uma péssima mãe capaz de negligenciar os próprios filhos e deixá-los à porta do colégio só para estar com o teu amante. Sempre deixaste bem claro quais eram as tuas prioridades. A tua carreira, a tua carreira e a tua carreira. Não era isso? Durante todos estes anos, estiveste muito mais interessada no teu trabalho, nos teus pacientes e no teu estúpido cargo de Chefe de Equipa. Nunca foste uma mãe presente. Eu é que sempre assumi o teu papel na educação do André e do João. Quantas e quantas vezes eles não adormeceram a perguntar por ti? Quantas festas e actividades escolares não faltaste por causa do teu trabalho e do teu amante? Então porquê isso agora, hã? Porquê que agora de repente te lembraste de interpretar o papel de mãe extremosa capaz de fazer tudo pelos filhos?! Seria trágico se não fosse patético! Não convences ninguém... - Isso não é verdade - ela murmurou de lágrimas nos olhos. - Tanto é verdade, como podes ter a certeza que vou utilizar estes argumentos em tribunal. Laura cerrou os olhos, incrédula. - Que tribunal?! - Desculpa! Não te tinha dito?! Falei com o meu advogado esta manhã e pedi para que ele desse entrada nos papéis do nosso divórcio. - O quê?! - Ou achas que iria querer continuar casado com uma mulher como tu?! Eu quero o divórcio, Laura! Quero o divórcio e quero também a guarda total dos nossos filhos. - Nenhum juiz te vai dar a guarda dos nossos filhos.
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    262 - Tens acerteza? Olha que não foi isso que o meu advogado me disse! Eu tenho todas as provas contra ti e não vou precisar de muito esforço para mostrar ao juiz as tuas traições, as tuas negligências perante os nossos filhos e a tua falta de carácter para criar duas crianças. Sim, porque tu não tens condições morais para educar o João e André… - Estás a fazer tudo isto por vingança. - Vingança, eu?! – Leonardo riu-se com algum sarcasmo. – Claro que não! Eu só quero justiça. Só isso… - Não penses que vais ficar com os meus filhos, porque não vais - ela gritou fora de si. Num acto de fúria, Laura lançou-se contra a secretária do ex-marido e atirou ao chão todos os objectos que ali se encontravam. Ao vê-la completamente descontrolada, Leonardo lançou-se contra ela e segurou-lhe os pulsos com força. Seguiu-se uma luta sem sentido que só terminou quando ele a empurrou para longe de si e ordenou que ela saisse do seu escritório. Laura retirou os cabelos desalinhados do rosto e ofegante ameaçou-o: - Isto vai ficar assim. - Pois não! Não vai ficar - Leonardo lançou-lhe um olhar de repulsa. - Ainda muitas coisas vão acontecer até que eu te veja na merda, Laura! E acredita, eu vou fazer tudo para te ver lá. - Veremos quem chega lá primeiro... Quando a porta do seu escritório se fechou violentamente, Leonardo caiu na poltrona sem forças para se manter de pé. Afrouxou o nó da gravata e fechou os olhos, exausto. Impressionante como apenas alguns minutos de conversa com a ex. mulher o deixaram naquele estado. Completamente de rastos. Completamente desarmado. - Laura! A voz de Francisco Saraiva impediu a médica de sair disparada do escritório do ex-marido.
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    263 - Não achoque tenha sido uma boa ideia a tua vinda aqui ao escritório. O Leo ainda está muito abalado com tudo o que aconteceu e a tua visita apenas veio piorar as coisas. Devias deixar passar algum tempo! Deixá-lo esfriar a cabeça! Tens que convir que não deve ter sido nada fácil para ele descobrir que o andaste a trair com o próprio irmão. - Francisco - a médica mostrou-se monstruosamente calma quando se aproximou dele. - Posso dar-te um conselho? - Diz! - Antes de meteres o bedelho no casamento dos outros, devias olhar primeiro para o teu. - O que é que queres dizer com isso? - Francisco interpelou-a com alguma desconfiança. - Que talvez eu e a Sofia não sejamos assim tão diferentes uma da outra. Naquela noite, André e João jantaram em silêncio e fizeram os trabalhos de casa com a ajuda do pai. Foram dormir mais cedo do que o habitual, sem vontade de jogar ou de brincar com Rufus, o cão da família. Leonardo colocou-os na cama e apagou a luz do tecto, depois de lhes desejar boa noite e dar um beijo a cada um. Desceu à cozinha e encontrou à sua espera a loiça suja do jantar preparado pela empregada antes de se ir embora. Sem muita vontade abriu a torneira. Lavou três pratos, seis talheres e três copos a muito custo enquanto os seus pensamentos navegavam ao longo de um dia que fora tudo menos fácil. A visão do rosto enfurecido de Laura no seu escritório veio-lhe à memória, e com ela, as palavras de ódio e ofensas que trocaram. Sem forças,Leonardo apoiou as mãos sobre a bancada da cozinha e chorou silenciosamente, lamentando-se por ter demorado tanto tempo a encarar uma realidade que sempre lhe esteve à frente dos olhos. Sentia-se cansado. O dia não fora fácil e o facto de acabar com o casamento entristecia-o profundamente. Terminar uma relação era sempre doloroso e ele podia sentir essa dor en cada fibra do seu corpo. Após doze anos de vida conjunta com Laura, não lhe sobrou absolutamente nada. Nem respeito, nem admiração e muito menos o amor incondicional que um dia sentiu por ela. Não só perdera a esposa, como também a vontade de viver. O futuro parecia-lhe sombrio. Nada tinha a esperar deste a não ser um ano muito árduo a tentar pôr-se de pé de novo. Mas pelo menos estava vivo. Congratulou-se por isso. A felicidade viria por acréscimo.
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    264 Quando arrumou acozinha, Leonardo apagou a luz do tecto e dirigiu-se à sala. O relógio pendurado na parede assinalou vinte e três horas. O tempo de dormir. Mas ele acreditava que se o fizesse, provavelmente seria muito pior. Novas lembranças o assombrariam e com certeza não conseguiria fechar os olhos atormentado com a visão da mulher nos braços do seu irmão. Por esse motivo, na altura, apeteceu-lhe beber. Serviu-se de uma dose de whisky junto à janela e mais tarde sentou-se no sofá, mergulhando em programas televisivos sem o mínimo interesse. Poucos minutos antes da meia-noite, a campainha voltou a tocar. Alarmado e pensando que talvez pudesse ser a ex-mulher, Leonardo demorou algum tempo a atravessar o corredor às escuras. Quando o fez, viu atrás da porta de vidro a figura de uma mulher alta e esbelta. Não era Laura. O seu coração voltou a bater. Se fosse ela, ele conseguiria reconhecê-la a quilómetros de distância ainda que no escuro. - Olá... Rita Azevedo surgiu sobre o alpendre e mostrou um sorriso tímido quando Leonardo lhe abriu a porta. - Olá, Rita! Tudo bem?! - ele mostrou-se surpreso por a ver ali. - Aconteceu alguma coisa? - Soube que tu e a Laura se separaram. Depois de lançar um longo suspiro, Leonardo cedeu passagem à enfermeira e permitiu que ela entrasse em sua casa. Nenhum dos dois proferiu palavra até chegarem à sala. - Como é que soubeste? - Que tu e a Laura se tinham separado!? Foi a Sofia que me contou! Mas eu já sabia que a Laura andava a ter um caso com o teu irmão. Descobri tudo há semanas atrás quando a apanhei no apartamento dele. Foi por isso que eu e o Ricardo terminámos. - Tu andavas com o meu irmão? - Leonardo perguntou, estupefacto por descobrir mais detalhes daquela história sórdida. - É uma longa história! Não vale a pena estar a falar sobre isso.
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    265 - Bem dizemque é verdade - Leonardo poisou a mão sobre os lábios e sorriu amargamente. - O quê?! - Que o marido é sempre o último a saber. - Foi um choque para mim também. - Porque é que não me contaste? - Como é que eu poderia contar, Leo!? Tu nunca irias acreditar em mim! Além de que não queria destruir a vossa família. Tive pena dos miúdos... Leonardo caiu no sofá com um estranho sentimento de resignação. - As crianças?! Como é que estão a reagir? – Rita sentou-se perto dele. - Não está a ser fácil! Estão sempre a perguntar pela mãe, quando é que volta, porque já não vive connosco. Enfim! Perguntas normais que eu já estava à espera. Mas com o tempo eles vão acabar por se habituar. - Tu e a Laura vão-se divorciar? - Sim - Leonardo respondeu, resoluto. - Tens a certeza que não há volta a dar? - Certeza absoluta! Não quero continuar casado com uma mulher como ela. Não a quero também perto dos meus filhos - a resposta do arquitecto trouxe um novo silêncio àquela enorme habitação. - Ela magoou-te muito, não foi?! - Magoar não é bem o termo - Leonardo sorriu tristemente. - Digamos que… ela matou-me por dentro. - Não digas isso.
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    266 - Já tenteiencontrar todas as explicações possíveis e imaginárias para que ela tivesse feito o que fez, para que me tivesse traído com o meu próprio irmão, mas sinceramente não consigo encontrar nenhuma. Não sei. Talvez porque pensasse que éramos felizes, que tínhamos um bom casamento, a melhor família do mundo. Mas acho que me enganei, não?! Acho que apesar de tudo, faltava qualquer coisa... - Tu deste-lhe tudo – Rita aproximou-se instintivamente de Leonardo e tocou-lhe nos ombros. – Eras o marido perfeito. - O marido perfeito!? - ele riu-se de lágrimas nos olhos. - Não me parece. - Acredita que foi ela quem ficou a perder. - Eu também perdi muita coisa – Leonardo limpou rapidamente as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. - Não é fácil, eu sei! Mas vai passar… - Tens razão! Vai passar! Tem que passar. - E se precisares de ajuda, de alguém para falar, para desabafar… eu estou aqui. - Obrigado – Leonardo aceitou a mão de Rita e apertou-a com força. Sorriu ao fazê-lo e mais tarde observou os olhos dela, cheios de compaixão, iluminados pela luz do candeeiro. - És uma grande amiga. Foi estranho deitar-se sozinho na cama sabendo que dali para a frente seria sempre assim. Leonardo voltou a pensar na ex-mulher e em tudo o que havia acontecido dois dias antes. À meia-noite, acendeu a lâmpada da mesinha de cabeceira e começou a ler alguns papéis do escritório numa tentativa desesperada de fugir aos seus pensamentos. Estava acordado quando João chegou à uma da manhã e parou à frente da porta do seu quarto. Todas as madrugadas o filho acordava aflito para ir à casa de banho, mas tinha medo do escuro. Precisava da mão forte do pai para o acompanhar. - Ajuda-me a fazer chichi! João ficou ali por um momento, olhando tristemente para o pai. Leonardo não demorou a acatar-lhe o pedido. Saíram do quarto de mãos dadas e por momentos tudo pareceu igual.
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    267 28 Nas semanas seguintes,Laura procurou incessantemente um apartamento no centro de Lisboa. Em finais de Outubro descobriu um adequado às suas necessidades não muito longe do hospital onde ainda trabalhava. A casa tinha apenas um quarto, uma enorme e soalheira sala de estar, uma cozinha onde um longo balcão a separava da sala, uma despensa e um terraço com vista para o Castelo de São Jorge. As janelas amplas permitiam que a luz do sol entrasse com vigor no ambiente, criando uma atmosfera agradável. O arrendatário mostrou-se bastante simpático, mas não deixou de estranhar o porquê de uma mulher tão distinta, portadora de uma aliança no dedo, com pouquíssima bagagem, não parecer particularmente interessada em saber muitos detalhes acerca da casa que estava prestes a arrendar. Talvez estivesse apenas de passagem ou fosse uma loucura momentânea, ocorreu-lhe essa ideia enquanto lhe entregava as chaves e ela as aceitava sem muito entusiasmo. A mudança decorreu de forma prática e sem cerimónias. Laura precisou apenas de um dia para pendurar as suas roupas, espalhar os seus objectos pessoais nos armários da casa de banho e ocupar a cozinha. Não mexeu em mais nada. O apartamento já se encontrava mobiliado, ainda que não lhe trouxesse qualquer sentimento de familiaridade. Era apenas um espaço frio e impessoal, contrariamente à casa que sempre partilhara com o marido e os filhos. Contudo, era um espaço e isso bastava. Após umas férias forçadas que se prolongaram durante alguns dias, Laura regressou à clínica. Foi obrigada a dar dois meses à casa, fruto de um contrato assinado anos antes, longe de imaginar que um dia este chegaria ao fim. Foi-lhe igualmente difícil engolir o gosto da derrota, os anos desperdiçados a lutar pela sua carreira profissional e a sensação de que todos os esforços haviam sido em vão.
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    268 Mas o piornem era isso. O pior era caminhar pelos corredores da clínica e sentir os olhares recriminadores de todas as pessoas sobre si. Os múrmuros, as críticas e os risinhos. Os gracejos que terminavam sempre que surgia. Nestes momentos angustiantes, Laura munia-se de uma frieza extrema, agindo com a mesma altivez que todos lhe reconheciam. Afastada da multidão, refugiava- se à hora do almoço no refeitório, sentada numa mesa distante, tendo por única companhia um livro e a refeição escolhida no bar da clínica. Não parecia sentir falta de mais nada. A hora era passada calmamente, alheia ao movimento frenético das pessoas à sua volta e também dos olhares contínuos de Joana Lima. A sua Interna. Joana observou a saída de Laura do refeitório com um olhar destroçado. Adorava- a. Idolatrava-a. Não conseguia sequer imaginar a ideia de que a médica não sentisse o mesmo por si. Mas a verdade é que Laura não sentia e a outra verdade é que Joana sabia disso melhor do que ninguém. Sabia também que a partida da médica era iminente, e de que provavelmente, depois dela, nunca mais se voltariam a cruzar. Um acontecimento que se tornava cada vez mais angustiante à medida que os dias passavam, envoltos numa rotina diária de consultas, cirurgias e outros procedimentos burocráticos como a chegada do seu exame de especialização marcado para o final do ano. Assustada com a possibilidade de falhar naquela que seria a prova mais importante da sua vida, Joana desesperou-se igualmente com a vontade nula de Laura em continuar a ser a sua Orientadora. Era usual a médica esquivar-se das reuniões ao final da semana, de impedi-la de entrar no seu consultório e de não fornecer qualquer tipo de ajuda. Para Laura, Joana tinha-se tornado num ser absolutamente invisível. - Como Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé... A poucos minutos da meia-noite Laura viu-se surpreendida pela presença de Ricardo perto do seu carro estacionado à saída da clínica. Não contava vê-lo. Não contava também com a sua excessiva insistência, chamadas telefónicas e mensagens invasivas. Talvez fosse errado não querer sequer ouvir o que ele tinha para lhe dizer. Pedidos de desculpa, a tentativa de recuperar algo irrecuperável ou somente a vontade de se despedir e dar por terminada uma história que infelizmente fizera mal a todos? Laura não sabia. Mas ao ver Ricardo diante de si, com um sorriso contrafeito no rosto, ela percebeu que não tinha como escapar. Seguiram no carro dela, em silêncio, tendo por única companhia as últimas notícias na rádio e as luzes da cidade que atravessaram o interior do veículo à mesma velocidade que Laura percorria as estradas praticamente vazias sem demonstrar qualquer tipo de emoção ou desejo de estar ao lado do cunhado.
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    269 Minutos depois, chegarama um bar pouco movimentado escolhido por ele. Ricardo cedeu a passagem e Laura entrou primeiro, deparando-se com um recinto dotado de pouca luz mas uma decoração sofisticada. Escolheram uma mesa, a mais afastada do centro e pediram duas bebidas. Uma Cosmopolitan para ela e um whisky duplo sem gelo para ele. - Como estás? - foi a primeira pergunta de Ricardo quando o empregado se afastou da mesa. - Como é que achas?! - O Leo procurou-me logo depois de vocês se terem separado. Para me dizer que já sabia de tudo. Mas descansa. Não houve tiros e nem pancadaria. Foi uma conversa civilizada que só um homem como o Leo consegue ter. - O que é que queres, Ricardo? - Falar contigo! Saber como estás! Onde estás... - os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta. - Tenho saudades tuas. Laura lançou um longo suspiro de resignação, sentindo-se incapaz de tocar na bebida que pedira ao funcionário do bar. - Queria também pedir-te desculpas pelo que aconteceu - ele continuou. - Fui um idiota. - Não tens que pedir desculpas! A idiota desta história fui eu! Eu é que nunca me deveria ter envolvido contigo, destruído a minha carreira, a minha família e o meu casamento. Só estou a pagar pelos meus erros! Só isso... - Laura encolheu os ombros. - Vais-te divorciar do Leo? - Não - ela respondeu. - Isso nunca me passou pela cabeça. Ao ouvir a confissão da cunhada, Ricardo sorriu amargamente e engoliu um longe gole de whisky a fim de tentar disfarçar a irritação que aquela resposta lhe provocou.
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    270 - Porque éque queres continuar casada com o meu irmão? - ele não resistiu a perguntar. Ela demorou algum tempo a responder, mas fê-lo com uma clara certeza: - Descobri que tinhas razão! Eu sempre quis uma casa com um jardim à volta. A resposta de Laura trouxe um novo silêncio à mesa e a certeza a Ricardo de que ela tinha razão. O que tinham eles para se dar um ao outro para além do que já tinham dado? Sexo. Muito bom sexo. Mas apenas sexo. Não havia qualquer outra ligação entre eles para além disso. Não havia planos em comum, sonhos, projectos, ambições. Não havia cumplicidade, companheirismo, a vontade de derrubar montanhas apenas para ver o outro feliz. Sentimentos humanamente profundos que numa relação diária de muitos anos tendem a esfumar-se por entre as rédeas da rotina e que nos levam a cometer loucuras em busca de uma vontade egoísta de nos voltarmos a sentir vivos outra vez. Foi isso que aconteceu com Laura e foi isso que aconteceu com ele também. Ambos quiseram sentir-se vivos, ainda que por alguns instantes, e conseguiram- no. Mas terminada a fantasia erótica, nada restou entre duas pessoas que nem sequer se conheciam. Apenas um vazio. Um vazio difícil de explicar, e que os deixou ali, em silêncio, sem conseguirem encarar-se de frente, a ver o tempo passar.
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    271 29 Rita Azevedo tornou-sea amiga que Leonardo tanto necessitava. Surgia quase sempre ao final da noite para lhe fazer companhia e ouvir-lhe os desabafos. Muitas vezes, os dois perdiam a noção do tempo quando mergulhavam em conversas que demoravam a noite inteira e se estendiam até de madrugada. Havia algo especial nos seus encontros, nas suas noites e no trato quotidiano. Ele tornou-se misterioso para ela. Rita imaginava o que ele andaria a fazer o dia todo, onde estava, o que usava. Gostava da sua companhia como nunca gostara de nenhuma outra. Leonardo era educado, inteligente, bondoso e honesto. Tudo nele era autêntico. Não havia nada de falso ou imperfeito, nada emprestado, nada roubado, nada irreal. Tinha uma aura difícil de explicar e que a impelia a querer estar com ele a todo o momento. Era dessa gentileza que Rita gostava tanto. Essa bondade e essa ternura que ele demonstrava sempre numa total antítese a todos os homens que ela conhecera até então. Leonardo era extremamente acolhedor. Sim. Essa era a palavra que melhor o definia. Acolhedor. Naquela sexta-feira particularmente especial de início de Novembro, o dia em que Leonardo comemorou o seu quadragésimo quarto aniversário, Rita surpreendeu-o com um jantar trazido da rua. Rizzoto de frango com molho de natas, sumos, champanhe e um bolo de aniversário encomendado numa das melhores pastelarias da cidade. Foi um serão fantástico passado em boa companhia que só terminou horas depois quando Leonardo levou os filhos para a cama. Quando o arquitecto regressou à sala, Rita sorriu e encheu duas taças de champanhe sobre a mesinha. - Já estão a dormir – Leonardo afirmou. - Acabaram-se as pilhas?
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    272 - Podes crer!Desculpa a barulheira há bocado... - Não te preocupes! Eu adoro crianças! E cães também... - Rita e Leonardo riram-se alegremente quando Rufus correu em direcção à cozinha. – Toma! Vamos comemorar os teus quarenta anos. - Quarenta e quatro – Leonardo emendou. - Depois dos quarenta deixa-se de contar. A resposta de Rita arrancou uma alegre gargalhada a Leonardo. A primeira desde há muitas semanas, e ao ouvi-la, a enfermeira teve a sensação de que estava a cumprir o seu dever. Animá-lo. Leonardo aceitou a taça de champanhe, e quando as suas mãos se tocaram, ela sentiu um estranho arrepio percorrer-lhe todas as partes do corpo. Uma sensação boa que há muito não experimentava. Subitamente, ele pareceu-lhe outro. Por um momento nada disseram, apenas se olharam e ela sorriu. Leonardo retribuiu o sorriso, ignorando nos olhos dela um prazer irrestrito ou uma espécie de adoração gentil. - Que esta data se repita por muitos e muitos anos – Rita ergueu a taça. - Não digo muitos - ele fez o mesmo. - Mas espero viver os suficientes… - Para quê!? - Para ver os meus filhos crescer. - Então brindemos a eles! Ao João e ao André! Nas últimas semanas, quando se sentavam no sofá com um trago de bebida nas mãos, Leonardo esboçava um ligeiro sorriso enquanto Rita contava as suas histórias. Era uma maneira de fingir-se atento ao que ela dizia e também distrair os seus pensamentos de tristezas mundanas que invadiam o seu quotidiano. Rita era uma óptima pessoa. Simpática, doce, sorridente e com um brilho especial no olhos. Tinha cabelos escuros, longos, algo volumosos. Vestia-se quase sempre de uma maneira casual. Calças de ganga, uma camisola e um casaco largo. Mas naquela noite em particular, escolheu um vestido vermelho justo ao corpo que lhe acentuou as curvas e o corpo bem definido.
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    273 Leonardo sentiu-se culpadopor não conseguir tirar os olhos do decote dela. Bem tentou fazê-lo. Diversas vezes até, mas a sua atenção era constantemente atraída para aquele local que ele julgava proíbido. Rita contou-lhe que sempre trabalhara com afinco e conscienciosamente. Formou- se sem ajuda dos pais que desde cedo se divorciaram e cada um seguiu o seu caminho. O pai voltou a casar-se, formou uma nova família e emigrou para a Suiça. Ela nunca mais teve notícias do próprio. Nem sequer chegou a conhecer os novos irmãos ou a sua nova mulher. A sua mãe, infelizmente, teve um outro destino. Mergulhou numa depressão profunda após o divórcio e nunca mais se recuperou do seu constante estado de alcoolismo. Morreu no ano em que a filha se formou em Enfermagem Clínica nunca chegando a concretizar o sonho de a ver a exercer a actividade profissional que escolheu. Talvez tenha sido por esse motivo que Rita se afundou no trabalho como forma de esquecer a solidão que tomou conta da sua vida quando se viu completamente sozinha no mundo aos vinte e seis anos de idade. Pagou um preço alto por isso. Nunca se casou, não teve filhos, trabalhava até tarde da noite, logo cedo de manhã, aos sábados, domingos, feriados e dias santificados. Dias em que deveria ter estar em qualquer outro lugar, com outra pessoa, mas que não estava, pois vivia para o que fazia e para as suas responsabilidades enquanto Enfermeira- Chefe. Mas podes crer que trocava tudo isso se encontrasse a pessoa certa. Uma pessoa com quem pudesse formar uma família e me fizesse feliz, ela disse. - Imagino que sim - Leonardo anuiu. - E tu? - Eu, o quê!? - Não gostarias de voltar a encontrar outra pessoa? Leonardo demorou algum tempo a responder, e tudo porque ainda lhe era difícil imaginar-se novamente apaixonado, gostar profundamente de alguém, olhá-la nos olhos e sentir-se quase a explodir de alegria como um dia se sentiu a olhar para Laura. Há muito que ele não sentia nada disso e quase se esquecera desses sentimentos. Por vezes, nem sequer tinha a certeza de querer sentir tal coisa outra vez. - Estou bem assim - ele afirmou por fim. - Sozinho.
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    274 - Não mecontaste como estão a correr as obras do RESORT - Rita mudou de assunto. - Ainda falta muito para terminar? - A inauguração está marcada para Dezembro. Vai ser na passagem do Ano. - Inteligente da vossa parte. Vão chamar muitos turistas. - Esperemos que sim - Leonardo bebeu um último gole do seu champanhe. - E o teu trabalho na clínica como está a correr? - Bem! Infelizmente, lá nunca se passa nada! É um tédio todos os dias… – Rita voltou a encher a sua taça de champanhe perante o olhar atento de Leonardo. Bebia demais, ele reparou. – A única pessoa que parece realmente gostar daquilo é a Laura. Agora trabalha vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas... Leonardo mostrou-se incomodado quando Rita tocou no nome da ex-mulher. A simples menção do nome de Laura ainda lhe provocava um enorme aperto no coração. Era como se alguém lhe espetasse uma agulha no braço sem aviso prévio e a retirasse logo em seguida. - Desculpa - Rita percebeu a sua gafe. - Não queria... - Tudo bem! Não faz mal! - Ela continua sem ver o João e o André? - Sei que tem ido ao colégio à hora do almoço para estar com eles. A professora contou-me. - Talvez… não sei... devesses deixá-la estar com os vossos filhos durante um fim- de-semana. - Rita, será que podemos mudar de assunto? Eu realmente não queria estar a falar da Laura neste momento. Por favor! - Tens razão – Rita concordou com ligeiro sorriso. – Vamos falar de coisas mais interessantes. - Concordo.
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    275 - Vamos falarde ti. - De mim?! - Sim! Do teu sorriso e da forma como as tuas bochechas fazem covinhas quando sorris – Leonardo viu-se obrigado a sorrir, e mais uma vez, as suas covinhas fizeram as delícias de Rita. – É sexy! Muito sexy… - Acho que já bebeste demais. - Nem por isso! Mas confesso que o álcool nos ajuda a dizer coisas que de outra forma não teríamos coragem de dizer - Rita poisou a taça sobre a mesinha e insinuou-se, passando os dedos pelos seus longos cabelos castanhos. - Como por exemplo o facto de eu não conseguir parar de pensar em ti há pelo menos duas semanas. Ela observou-o com imenso carinho e, devagar, levou a mão ao rosto de Leonardo. Era a primeira vez que o tocava desse modo com uma paixão descontrolada a irromper-lhe as entranhas. Quase sem pensar, puxou-o para si e esmagou seus lábios contra os dele. Leonardo não lutou para soltar-se e, por um instante, Rita julgou sentir que ele retribuía o seu beijo. - Não vamos confundir as coisas - ele afastou-a, por fim, quando não conseguiu aguentar mais. - É por causa da Laura, não é?! - A Laura não tem nada a ver com isto. - Tens a certeza?! O arquitecto ficou sem fala quando Rita lhe alcançou a mão esquerda e encontrou nela a sua aliança de casamento. - Já se passaram tantos dias e tu ainda nem sequer tiraste a aliança do dedo. A Laura também não tirou a dela que eu vi. Leonardo baixou o rosto, desolado.
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    276 - Mas tensrazão! Talvez seja melhor terminarmos por aqui antes que mais alguém saia magoado dessa história. Tudo o que não precisamos é de mais problemas na nossa vida, não é?! Já temos o que baste... - Desculpa. - Não te preocupes - Rita sorriu carinhosamente. - Está tudo bem. Ao ver-lhe uma tristeza imensa nos olhos, Rita acariciou a face de Leonardo e beijou-o no canto dos lábios. Era um homem maravilhoso, pensou. Um homem que poucas mulheres tinham a sorte de encontrar ao longo da vida e que provavelmente ela nunca iria encontrar. Pena que não fosse seu. Pena que nunca nenhuma outra mulher fosse capaz de ocupar o lugar deixado vazio por Laura naquele coração tão bondoso. Depois de um novo beijo na face e de ter recolhido os seus pertences sobre o sofá da sala, Rita partiu e Leonardo continuou a olhar para a porta sem saber o que fazer. Correr atrás dela, pedir para que ficasse ou deixá-la entrar no carro e desaparecer da rua deserta com a nítida certeza de que havia tomado a decisão certa? Apesar de todas as dúvidas, Leonardo optou pela segunda opção. Pareceu-lhe a mais acertada e também a mais correcta para com uma mulher que despertava em si apenas um enorme sentimento de respeito e admiração. Jamais seria capaz de usá-la para satisfazer o seu ego interior ou para esquecer os fantasmas que ainda o atormentavam naquele enorme casarão. Após ter recolhido as taças de champanhe vazias sobre a mesinha da sala, Leonardo levou-as até à cozinha e atirou-as para o interior do lava-loiças. Olhou tudo à sua volta e chegou à conclusão que aquela habitação se encontrava mais sombria do que nunca. Faltavam os risos das crianças, o aroma dos cozinhados da mulher e a sua excessiva adicção ao perfeccionismo. Lembrou-se dos tempos em que a data do seu aniversário era passada numa enorme alegria com a presença de amigos, da mulher e dos filhos e até mesmo com a figura de Alicia, a antiga empregada da casa que tinha um jeito nato para confeccionar bolos e doces. Fazia-os sempre com um sorriso no rosto enquanto João e André corriam à beira da sua saia exigindo que ela lhes deixasse provar os restos da massa. Eram tempos felizes. Tempos de felicidade extrema que pareciam ter-se esfumado após a descoberta da traição de Laura. Nada mais iria ser como antes. Nem ele próprio. Nada mais voltaria a ter a mesma cor, o mesmo sabor ou o mesmo aroma.
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    277 O relógio assinaloumeia-noite e quarenta e cinco minutos. Leonardo subiu em direcção ao quarto e fechou a porta com cuidado para não acordar os filhos. Sem muita vontade de dormir, sentou-se numa das pontas da cama e enterrou a cabeça por entre as pernas, tentando encontrar forças para se levantar no dia seguinte. Ficou ali, assim, durante largos quartos de hora até o seu telemóvel vibrar novamente sobre a mesinha de cabeceira. Tinha-o deixado a carregar durante a noite, esquecendo-se da sua existência enquanto esteve na companhia de Rita. No entanto, quando se aproximou dele, viu duas chamadas não atendidas e uma curtíssima mensagem de texto que o deixou de mãos a tremer. - " Parabéns! Laura..."
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    278 30 O carro dobrouna entrada e parou diante dos portões de uma casa que ainda lhe era familiar. Laura olhou-a pensativa por um momento, antes de descer. De alguma forma a moradia parecia-lhe ligeiramente maior e o espaço ao redor silencioso. Teve a impressão de que voltava de uma longa viagem e de que estava de regresso ao ponto de partida. Esperava vislumbrar o rosto do marido na janela e dos filhos a seguir, vendo-os a correr ao seu encontro. Mas não vieram. Ninguém veio. Nada se moveu. Laura olhou à sua volta e depois tocou a campainha. Tinha a própria chave, mas não quis usá-la. Era o mesmo que visitar alguém agora. Alguém que ela fora outrora. - Bom dia, D. Laura - a empregada abriu a porta. - Bom dia, Antónia. - Entre. Era estranho sentir-se uma visita após ter vivido naquela casa durante tantos anos. Era ainda mais estranho ter que pedir permissão para entrar e ver-se seguida pela empregada ao longo do corredor. Mas Laura sabia que não tinha o direito de agir como se aquela casa ainda fosse sua. Perdera essa legitimidade na noite em que o marido a expulsou de casa apenas com duas malas nas mãos. - Como é que a senhora está? - a empregada perguntou cautelosamente. - Estou bem - Laura sorriu.
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    279 A raiva inicialde Leonardo deu lugar a uma passividade quando João e André imploraram passar o fim-de-semana com a mãe. Ainda que a vontade de ver a ex- mulher fosse nula, o arquitecto não viu outro remédio a não ser aceder ao desejo das crianças e permitir que Laura os fosse buscar no final da manhã de Sábado. Assim que viram a mãe entrar na sala, João e André correram a abraçá-la e a beijá- la. Pareciam genuinamente felizes por a ver ali, tal como Laura, que não os conseguiu largar um só minuto, perguntando-lhes como lhes tinha corrido a semana, a escola e as aulas de natação e de judo. Os pequenos responderam a todas as perguntas, enquanto a mãe agachada perante eles cuidou-lhes dos cabelos despenteados e das roupas desalinhadas. Detestava ver os filhos mal arranjados. Até nisso era perfeccionista, o ex-marido pensou. - Antónia! Por favor! Ajude as crianças com as mochilas lá em cima. Já está tudo pronto - Leonardo pediu à empregada. - Sim, senhor! Vamos, meninos... Antónia levou os gémeos pela mão e permitiu que um silêncio constrangedor invadisse a sala. Leonardo manteve-se junto à janela, inerte, sem reacção. Quis muito continuar a olhar para Laura. Quis encontrar nela os restos da mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida. Tentou encontrar aquela bela jovem estudante de medicina que o encantou com os seus olhos verdes cor de esmeralda e os seus longos cabelos loiros que lhe caíam pelas costas. A mulher forte e inteligente que o conseguiu levar ao altar e também a única mulher que o fez chorar aquando do nascimento das duas pessoas mais importantes da sua vida. Tentou encontrar tudo isso, e talvez devesse ter tentado com mais afinco, mas a verdade é que ao olhar novamente para a ex-mulher tudo o que viu foi uma sombra e nada mais. - Precisamos falar – ela disse. - Sobre o processo do divórcio. O teu advogado ligou-me ontem à tarde. - Eu já sabia. - Leo! Ainda estamos a tempo de parar com isto – Laura não escondeu a sua expressão cansada após um plantão de quarenta e oito horas. - Não vale a pena entrarmos num divórcio litigioso.
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    280 - Eu tambémacho! Ainda estamos a tempo de desistir do divórcio litigioso e partir para um amigável. Mas para isso, vais ter que abrir mão desta casa e também das crianças. Tudo o resto dividimos a meias… - Eu não vou abrir mão do André e do João! Eu sou a mãe deles. - Infelizmente. Com as lágrimas a correrem-lhe pela face, Laura questionou-se se não estaria a pagar demasiado caro por todos os erros que cometera no passado. E não era apenas o seu caso com Ricardo que estava em causa. Ela tinha consciência de que, durante anos, tratara o ex-marido com indiferença, por vezes até com alguma agressividade, que se mostrara fria e distante e que sempre fora extremamente crítica com a sua personalidade bondosa. Mas agora que estava na iminência de o perder, a única coisa que lhe queria dizer era que ainda o amava. Não sabia se voltaria a ter oportunidade de o fazer, mas só queria dizer-lhe uma última vez o quanto o amava. - Pai! Podemos levar a Playstation? João interrompeu o olhar dilacerado dos pais quando entrou na sala a correr com a sua mochila às costas. - Podem - Leonardo desviou o rosto da ex-mulher. - Mas levem a portátil que a outra é demasiado pesada. - Mãe! Estás a chorar? - o pequeno aproximou-se da sua progenitora. - Não - Laura limpou o rosto, recusando-se a mostrar a sua tristeza perante um dos filhos. Sorriu com alguma tristeza. - Está tudo bem! Vai lá chamar o teu irmão e diz-lhe que se despache! Já está a ficar tarde... - Está bem - João voltou a abandonar a sala.
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    281 31 Laura analisou aúltima ressonância magnética a poucos minutos de entrar no bloco operatório. Chegou à conclusão de que haveria grandes probabilidades de salvar a sua paciente do terrível tumor cerebral que a atormentava. O tumor era pequeno, confinado apenas ao canal interno que se estendia do ouvido até o cérebro, não sendo muito difícil distinguir o tecido tumoral do tecido saudável e alcançar a localização exacta do tecido anormal. Seguiu-se uma conversa com Henrique Relvas, outro Neurocirurgião residente que a iria acompanhar naquela operação delicada. Os dois médicos reuniram-se durante sessenta minutos na sala de exames e dirigiram-se ao elevador de serviço em silêncio. Laura foi à frente e premiu o botão de chamada. Henrique manteve-se atrás dela, incapaz de esconder o sorriso irónico que tinha nos lábios. Analisou-lhe as costas bem formadas, os cabelos abaixo dos ombros e a bata branca. Estava felícissimo. Nem sequer conseguia esconder a sua satisfação por saber que dentro de poucos dias não iria ser mais obrigado a conviver com o ego inflado de uma mulher que parecia trazer o rei na barriga. - Parece que a tua partida está próxima – Henrique não resistiu a fazer o comentário quando as portas do elevador se abriram. - E tu deves estar radiante, não?! - Eu!? Claro que não - Henrique sorriu, debochadamente. - Afinal de contas sempre foste apologista da mediocridade - Laura premiu o botão do elevador e aguardou que as portas se fechassem. - Reza é para que o teu próximo colega tenha a mesma paciência que eu. Porque caso contrário, bem podes crer que és o próximo a sair.
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    282 Henrique soltou umagargalhada ruidosa, incapaz de se controlar. - Sabes! Agora que vais deixar as tuas funções aqui na clínica, já pensaste em fazer uma pausa e quem sabe tentar uma nova carreira? - O que é que estás para aí a dizer? - O que achas de apostares no cinema Porno!? Já pensaste nisso? Não sei porquê, mas algo me diz que tens muito jeito para a coisa. - Imbecil - foram as últimas palavras de ódio que Laura proferiu antes de sair disparada do elevador, três pisos acima. O cenário no serviço de Urgências mantinha-se um caos. Numa manhã igual a tantas outras, uma ambulância estacionou à entrada da clínica trazendo no seu interior uma criança inconsciente deitada numa maca. Ela que exibia o corpo totalmente ensaguentado, as roupas rasgadas e uma fractura craniana exposta de dimensões exageradas. Dois enfermeiros de serviço abriram as portas traseiras do veículo e permitiram que a equipa de socorristas fizesse descer a maca ao solo. Levaram a criança para o interior das Urgências e percorreram um longo corredor sem nunca desistirem das manobras de reanimação. A poucos metros de distância, encontrava-se o pai dessa criança, completamente desesperado, lavado em lágrimas e sem saber o que fazer. O mesmo homem foi direccionado pelos socorristas até à recepção. Tremia por todos os lados, incapaz de formular uma frase coerente ou até mesmo manter-se de pé. A recepcionista acalmou-o com um copo de água e pediu para que ele preenchesse a ficha de entrada. A caneta tremeu-lhe nas mãos, mas ainda assim o senhor acedeu ao pedido. Escreveu o nome do filho com uma caligrafia péssima. João Miguel Mendonça Alves. - Laura Alves? - ele lembrou-se no meio de um desespero total. - Preciso falar com ela! É muito importante… - A Dr.ª Alves?! - a recepcionista inquiriu. - Neurocirurgiã? - Sim! Ela mesma. A recepcionista levou o auscultador aos ouvidos. O homem largou a caneta sobre a bancada, angustiado.
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    283 - Sinto muito!Mas a Dr.ª Alves acabou agora mesmo de entrar em cirurgia. Vai demorar algumas horas a sair. - Preciso falar com ela. - Infelizmente não vai ser possível! A Dr.ª não vai poder sair do bloco operatório. O homem encostou-se ao balcão e levou as mãos à cabeça. Ansiou que alguém o acordasse daquele enorme pesadelo. Subitamente, por uma fracção de segundo, o nome de uma outra pessoa lhe veio à cabeça. Lembrou-se dela e uma luz de esperança atravessou o seu coração. - Tente encontrar a Rita Azevedo – ele voltou a interpelar a recepcionista. – Por favor! Ela é enfermeira aqui nesta clínica. - Só um momento por favor. A espera tornou-se interminável e enquanto a recepcionista efectuava uma segunda chamada, o homem avistou de longe a chegada de Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe da clínica. A mesma fora chamada à recepção e não demorou a deslocar-se ao local. - Leo... - ela exclamou, surpresa por vê-lo ali. - Rita! Ajuda-me, por favor – Leonardo tomou-lhe os braços, desesperado. - O que foi? - O João… - O que é que tem o João? - Ele foi atropelado! Ele foi atropelado e eu pedi para que nos trouxessem para cá. Só que eu não sei de nada. Eles levaram-no lá para dentro e estou desesperado à procura de alguém que me dê alguma informação. Mas eu não sei de nada...! Eles não me dizem nada... - Tem calma - Rita tentou controlar-lhe as mãos aflitas. - Vou tentar saber o que se passa. Tem calma...
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    284 - Avisa aLaura – Leonardo, segurou-a no braço antes de a ver correr descompensada em direcção ao serviço de Urgências. – Ela está cá. - Não te preocupes, eu vou encontrá-la! Vou tentar saber para onde é que levaram o João e depois vou procurá-la... Ao ver Rita desaparecer pelos corredores da clínica numa corrida desenfreada, Leonardo afundou-se num dos bancos de espera e colocou a cabeça por entre as pernas, chorando compulsivamente. Foi-lhe impossível não rever aquela cena. A imagem de um carro desgovernado a abalroar os portões da escola e a atingir em cheio um dos seus filhos que se encontrava ali inocentemente à espera que ele retirasse a sua mochila do porta-bagagens. Os gritos e o choro das crianças, o choque dos adultos, a confusão instalada e o fumo proveniente do motor do carro destruído. Todas aquelas imagens provocaram em Leonardo um desespero difícil de explicar. E se, ele perguntou-se. E se ele não tivesse levado os filhos à escola? E se tivesse chegado alguns minutos atrasados? Se tivesse corrido a tempo? Gritado mais alto para que o filho se desse conta do avanço do carro em sua direcção? E se tivesse sido ele a vítima daquele acidente? Rita tremeu de medo quando viu de longe o corpo ensanguentado de João ligado a um ventilador sob os cuidados de uma equipa médica. Um enorme nó atravessou-lhe a garganta e impediu que ela avançasse para além do alpendre das portas automáticas. Nunca antes se havia sentido tão impotente. Nunca antes os seus conhecimentos científicos se tinham evaporado da sua mente de uma forma tão categórica ao ponto de a deixar naquele estado. Completamente sem reacção. - Preciso que chamem o Dr.º Relvas ou a Dr.ª Alves! Qualquer Neurocirurgião que esteja de serviço – Sílvia Barreto, a pediatra destacada para o caso, afirmou perante o movimento frenético dos médicos, enfermeiros e auxiliares de serviço à volta do paciente. – O menino sofreu um grave traumatismo cranio-encefálico, tem vários ferimentos no tórax e fracturas graves em todo o corpo. Precisa ser levado de imediato para o bloco operatório… Rita manteve-se inerte sobre a porta. Parecia estar em transe. - Ouviste o que eu disse, Rita?! - Sílvia interpelou a Enfermeira-Chefe. - Essa criança que tens aí é o filho da Dr.ª Laura Alves. - Estás a falar a sério? - Sílvia questionou, incrédula.
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    285 - É ofilho da Dr.ª Alves - Rita repetiu a frase e sentiu duas lágrimas caírem-lhe no rosto. - Então ela não vai poder proceder à operação! Só nos resta o Dr.º Relvas... - O Dr.º Relvas e a Dr.ª Alves encontram-se neste momento no bloco operatório número dois – informou uma das enfermeiras de serviço, após ter recebido uma mensagem no seu BIP. - Não dá para esperar! Rita, pede para que chamem o Dr.º Relvas! Ele que saia discretamente da sala sem que a Dr.ª Alves perceba o que está a acontecer. Enquanto isso, quero prepares o bloco três e formes uma equipa cirúrgica de emergência. - Eu tenho que avisar a Laura. - Faz o que te digo - Sílvia ordenou com uma expressão aterradora. - Não há tempo a perder. - Eu preciso avisar a Laura. - Ela não vai poder operar o próprio filho, além de que irias colocar em risco o paciente que ela está neste momento a operar. Estás histérica! Não estás a raciocinar como deve ser. Recompõe-te e prepara a porcaria da equipa cirúrgica! Agora! Rita manteve-se em silêncio. - Eu vou falar com o pai da criança – Sílvia apressou-se a sair do quarto, esbarrando-se nos ombros de Rita, sem se importar com a expressão petrificada da Enfermeira-Chefe. Quando entrou no elevador com o objectivo de exercer as suas funções, Rita sentiu-se quase a asfixiar dentro daquelas quatro paredes de aço. Um nó invadiu- lhe a garganta e ela não teve outro remédio a não ser encostar-se ao elevador e soltar um longo fôlego de libertação. Recusava-se a aceitar que aquilo pudesse estar a acontecer. Não a João. Não a uma das crianças mais doces que alguma vez tivera a oportunidade de conhecer.
  • 286.
    286 - A Dr.ªLaura Alves está no bloco dois – uma auxiliar técnica informou-a, enquanto se preparava para regressar à cirurgia após uma pausa de cinco minutos. – Vou entrar agora. - Diga-lhe que a Enfermeira-Chefe está aqui fora! É um assunto importante. - Até posso dizer, mas duvido que ela saia a meio da operação. - Diga-lhe que é extremamente importante! Diga-lhe que… é um caso de vida ou de morte. A assistente achou descabida aquela resposta, mas ao ver a expressão séria de Rita deu-se por vencida e premiu o botão das portas automáticas. Elas abriram-se com um ligeiro ruído electrónico e voltaram a fechar-se. Rita encostou-se então a uma das paredes do corredor e colocou as mãos atrás da nuca. Olhou para o tecto, para as paredes brancas e sentiu o seu coração saltar pela boca. Sabia que as suas acções lhe trariam consequências, provavelmente até um processo disciplinar, mas na altura não quis saber de nada disso. Só estava a fazer o que achava certo. A ética profissional que se lixasse. - Dr.ª Laura – a assistente segredou aos ouvidos da Neurocirurgiã. - O que foi!? - A Enfermeira-Chefe quer falar consigo lá fora. - Impossível – Laura respondeu, introduzindo a agulha guiada no interior do cérebro do paciente. – Estou em cirurgia. - Ela disse que era um caso de vida ou de morte. - Saia e diga à Dr.ª Azevedo que nada do que ela me tem para me dizer é mais importante do que estou a fazer agora! Estou ocupada! Ela que espere... A firmeza das palavras de Laura fizeram a assistente sair do bloco operatório em silêncio. - Desculpe! Mas tal como lhe tinha dito, a Dr.ª Alves não vai poder abandonar a cirurgia. Ela pediu para que esperasse.
  • 287.
    287 - Dê-me oseu equipamento – Rita apressou-se a desapertar os fios da bata da assistente. - O quê?! - Dê-me o seu equipamento para que eu possa entrar no bloco. - Está louca?! Eu não posso fazer isso... A bata vestida, a máscara sobre o rosto, as luvas nas mãos e a toca escondendo os cabelos, fizeram antever que Rita estava mesmo disposta a cometer uma das maiores loucuras da sua vida ao entrar numa sala de operações sem nenhuma autorização prévia ou sem qualquer tipo de esterilização. Apesar de saber que estava a infringir regras específicas da clínica, a situação justificava a sua atitude descabida. Não. Ela não iria chamar o Dr.º Henrique pelo BIP, preparar a equipa cirúrgica ou o bloco operatório número três, conforme fora exigido pela pediatra de serviço. Iria antes entrar no bloco número dois, aproximar-se da mesa de operações e surpreender Laura durante uma cirurgia a um outro paciente. Loucos estavam todos os outros em pensar que ela faria algo diferente. - Enlouqueceste?! - É sério, Laura - o olhar penetrante de Rita fez Laura hesitar durante alguns instantes. - Vem comigo! A médica voltou a observá-la através da máscara e os seus olhos cruzaram-se de forma violenta. Não soube muito bem porquê, mas Laura acreditou nas palavras da sua ex-melhor amiga. - Dr.º Relvas?! - Diga, Dr.ª Alves! - Tem as mãos firmes? - Tenho. - Segure a agulha exactamente como está! - Sim.
  • 288.
    288 - Segure-a emantenha-a na mesma posição até eu voltar! Não a mexa um milímetro sequer, porque caso o faça, pode-me matar a paciente. - Não se preocupe! Largue a agulha – Henrique recebeu-lhe o instrumento das mãos. Laura e Rita abandonaram o bloco em silêncio, uma atrás da outra, com estados de espíritos totalmente diferentes. A médica, irritada, queria apenas uma explicação para ter sido retirada abruptamente da mesa de operações. A enfermeira, desesperada, desejava reunir forças para contar os motivos que a levaram ali. - Queres fazer o favor de me explicar que raio aconteceu para me tirares do meio de uma cirurgia? – Laura retirou a sua máscara, gesticulando furiosamente as mãos. – És tão idiota que não tens noção da gravidade que é largar-se um paciente numa mesa de operações? - O Leo está aí. - Não acredito que me tenhas tirado de uma operação só para me dizer isto... - O João também está cá. A expressão de Laura mudou radicalmente. - O meu filho? Rita sabia que, a partir daquele momento, não tinha como voltar atrás. Manteve- se em silêncio durante alguns segundos, tentando controlar as lágrimas e coração esmagado. Na altura todo o ódio que sentia por Laura desapareceu sem deixar rastro. - Fala – a médica imperou, impaciente. – O que é que o João e o Leo estão aqui a fazer? - O João foi atropelado à porta da escola e trouxeram-no para cá... – Rita pressentiu o desfalecimento de Laura. – A Dr.ª Sílvia está a cuidar do caso, mas parece que é grave porque ele sofreu um traumatismo cranio-encefálico e várias fracturas no corpo. Ele precisa ser operado o mais rapidamente possível. Precisamos de um Neurocirurgião, mas como tu não podes operar o teu próprio filho, a Dr.ª Sílvia pediu para que eu chamasse o Henrique e preparasse o bloco três...
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    289 - O meufilho foi atropelado!? - Sim! Laura, eu sinto muito... Laura retirou as mãos de Rita dos seus ombros, ciente de que tinha entendido tudo o que a enfermeira lhe dissera. - Onde é que ele está? – ela perguntou com uma calma sobrenatural. - Nas Urgências! Mas a uma altura dessas já deve estar a ser preparado para a cirurgia. Eu vou pedir para que preparem o bloco três e também vou formar a equipa médica e falar com o Henrique. - Não – Laura interrompeu. - O Henrique não põe as mãos no meu filho. - Estás louca?! - Rita mostrou-se perplêxa com a afirmação da médica. - O João precisa ser operado o mais rapidamente possível. Ele está a morrer… - No meu consultório, em cima da secretária, vais encontrar a minha agenda e também o número de telefone do Dr.º Eduardo Lima. Diz-lhe que é da minha parte. Explica o que aconteceu e pede-lhe para que venha imediatamente para cá. É ele quem vai operar o meu filho. - Laura, eu não posso fazer isso! Vai contra todas as regras da clínica. Nós não podemos chamar um médico externo para proceder a uma cirurgia sem o consentimento prévio da direcção do hospital. - Faz o que te estou a dizer e não discutas! Eu responsabilizo-me por tudo. - Vais continuar a operar? – Rita perguntou, incrédula, quando a viu a tapar o rosto com a máscara. - Vou – Laura respondeu com uma frieza sobre humana. – Quando o Dr.º Eduardo chegar, alguém que me avise pelo BIP. Rita permaneceu no corredor do bloco operatório atónita com a reacção de Laura. Viu-a a entrar pelas portas automáticas com a mesma naturalidade de sempre, como se aquela conversa nunca tivesse existido. Como se durante aquele tempo todo, estivessem apenas a falar de um mero desconhecido ou de alguém que não lhes dizia respeito.
  • 290.
    290 Seria normal umser humano não demonstrar qualquer desespero perante a possibilidade de perder um filho? Seria normal não chorar? Não gritar? Seria normal um ser humano ter tamanha capacidade de frieza? Uma hora e meia foi o tempo que Laura necessitou para terminar a cirurgia interrompida por Rita. Henrique Relvas, o Neurocirurgião que a assistiu durante a operação, encarregou-se de fechar o crânio da paciente. Quando recebeu uma mensagem através do seu BIP, a médica desfez-se das luvas ensanguentadas e saiu do bloco. Caminhou apressada pelos corredores e retirou a máscara facial e a toca que trazia na cabeça. Desceu as escadas de serviço a toda a velocidade e dirigiu-se como uma flecha à sala de exames, local onde já se encontrava Eduardo Lima. O único médico a quem ela tinha sido capaz de confiar a vida do seu filho. Ao abrir as portas automáticas, Laura avistou o Neurocirurgião e Sílvia Barreto, a médica pediatra responsável pelo caso, de costas, separados por uma cortina de vidro, a acompanharem em silêncio a ressonância magnética de João. Ela aproximou-se em silêncio e sentiu um soco no estômago quando reconheceu o corpo do filho. - Bom dia, Dr.º Eduardo – a voz saiu sumida, mas firme. - Bom dia, Dr.ª Laura – Eduardo recebeu o aperto de mão com uma expressão visivelmente pesarosa. – Vim assim que recebi o seu recado. - Agradeço-lhe por isso. - Dr.ª Alves! Sinto muito – Sílvia adiantou-se. - Os resultados da ressonância? Já saíram? – Laura ignorou os sentimentos de pesar da sua colega de trabalho. Saem daqui a cinco minutos. A resposta veio de um assistente que analisava cuidadosamente o exame nos computadores da sala, certificando-se que esse mesmo exame localizaria com precisão a área afectada do cérebro. Scans feitos ao crânio, em conjunto com computadores e quadros de localização, forneceram uma imagem tridimensional da lesão sofrida por João. Um traumatismo crânio-encefálico com fractura exposta. Com o forte impacto sofrido pela queda, o cérebro foi literalmente atirado contra uma das paredes do crânio causando uma lesão difusa e também a perda de grande parte da massa encefálica. A cada minuto que passava, a pressão aumentava e era por isso urgente proceder- se a uma cirurgia para tentar minimizar os danos causados e diminuir a pressão intra-craniana.
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    291 - Podemos veresta laceração e a depressão cerebral causada pela queda, o que provocou a saída de uma parte do tecido cerebral do crânio. Além disso, as meninges também foram parcialmente destruídas e os fragmentos ósseos entraram no encéfalo … - Eduardo apontou. – Daí este aumento progressivo do volume. Temos que fazer uma cirurgia de emergência para retirar estes fragmentos ósseos, drenar o sangue acumulado e tentar diminuir a pressão intracraniana antes que o quadro clínico evolua para um hematoma intraparencmatoso. - O bloco três já está pronto – Sílvia Barreto recebeu uma mensagem através do BIP. – Vamos para lá. Eduardo voltou a retirar os óculos de leitura. – Dr.ª Laura… - Eu confio em si – a resposta categórica da médica impediu Eduardo de terminar o seu raciocínio. - Faça o que tiver que fazer! O bloco operatório foi preparado e foi igualmente destacada uma equipa cirúrgica de emergência liderada por Eduardo Lima para a realização de uma craniotomia descompressiva. Enquanto os enfermeiros e auxiliares de serviço preparavam o pequeno João para entrar na sala de operações, Laura manteve-se inerte sobre a porta do quarto. Olhou o filho com atenção, de longe, absorto em máquinas e tubos que faziam o milagre de o manter preso à vida. Na altura, não entendeu. Não entendeu o porquê de não ter conseguido derramar uma única lágrima sequer. Apesar de não ter entrado no bloco, Laura assistiu de pé ao início da cirurgia, através do vidro separador, de braços cruzados e com uma expressão vazia. Viu a inserção de uma linha intravenosa no braço do filho. O posicionamento de João na mesa de operações. A atenção especial em relação à posição da cabeça, para evitar compressão venosa jugular e obstrução do fluxo venoso craniano. Percebeu a preocupação do anestesista em monitorar continuadamente a sua frequência cardíaca, a sua pressão arterial, a respiração e o nível de sangue. Observou a raspagem da sua cabeça e a lavagem do local da cirurgia com uma solução anti- séptica. Posteriormente, viu Eduardo Lima a efectuar uma incisão da linha do cabelo à frente da orelha. O couro cabeludo foi arrancado e cortado. Através de um microscópio cirúrgico, ele ampliou a área a ser tratada para uma melhor visão das estruturas do cérebro. Colocou um dispositivo denominado de dreno no tecido cerebral a fim de medir a pressão no interior do crânio e aliviar a pressão intracraniana. Uma vez completa a operação, cinco horas mais tarde, suturou as camadas de tecido em conjunto e recolocou o retalho ósseo através de placas. Depois, fechou parcialmente o couro cabeludo com suturas a fim de diminuir a
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    292 pressão cerebral. Opaciente foi imediatamente levado para a sala de recobro, perante uma vigilância apertada dos médicos e dos enfermeiros de serviço. A equipa médica dispersou-se. Havia expressões faciais carregadas. À saída, Laura pôde ver cada uma delas. A última que viu deixou-a completamente aterrorizada. Foi a de Eduardo Lima. - Tentámos fazer tudo o que estava ao nosso alcance, mas o tecido nervoso encontrava-se profundamente danificado. Detectámos uma fractura com afundamento dos ossos cranianos e uma a ruptura das meninges e do córtex cerebral… - Dr.º Eduardo! Deixe-se de rodeios! Diga-me a verdade! O médico demorou algum tempo a responder: - Temo que os danos sejam irreversíveis. Em todo o caso, vamos esperar mais algumas horas e analisar a evolução do quadro clínico. - Ele está morto, não está?! – Laura não poupou a pergunta ao Neurocirugião. Eduardo recusou-se a responder. - Ele está morto, não está? – a médica teve a audácia de voltar a perguntar. - Vamos esperar mais algumas horas. Eduardo afastou-se de Laura, levando nas mãos a máscara que utilizara para a cirurgia mais difícil da sua vida. Vinte minutos depois, ele, Laura Alves e Sílvia Barreto desceram ao primeiro piso e percorreram um longo corredor que os levou directamente à sala de espera. Joana Lima observou de longe a caminhada dos três médicos, mas sentiu-se incapaz de se aproximar deles. Laura ia atrás dos dois, mantendo a cabeça erguida e as mãos nos bolsos da sua bata. Caminhava indiferente aos olhares de pena e de tristeza de vários médicos, enfermeiros e outros funcionários da clínica que ao longo das últimas semanas não a pouparam da sua crueldade. Contudo, eram agora estas mesmas pessoas que se encontravam verdadeiramente arrependidas de todos os gracejos e comentários menos próprios lançados nos corredores da clínica. Eram elas quem agora a olhavam com pena, melancolia e compaixão, lamentando a triste sorte que era perder um filho em tão tenra idade. - Boa tarde...
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    293 A voz imperiosade Eduardo Lima obrigou Leonardo a levantar-se bruscamente da cadeira onde estava sentado e a encarar o rosto da ex-mulher. Laura não demonstrou qualquer emoção ao vê-lo comportando-se até mesmo como se não o conhecesse. No interior da sala, encontravam-se também outras pessoas. Francisco Saraiva, Sofia, a sua mulher, e Rita Azevedo. - Como está o meu filho!? - Leonardo interpelou os três médicos de serviço. - Falo eu ou prefere tomar a palavra, Dr.ª Laura? – Eduardo encarou a médica com alguma seriedade. - O caso é seu – ela respondeu friamente. – Fale! Ouviu-se um longo silêncio até Eduardo acatar o pedido de Laura. - Tal como já vos foi dito pela Dr.ª Sílvia, o João sofreu um grave traumatismo crânio-encefálico. Com a queda no solo, o cérebro foi projectado contra uma das paredes do crânio o que provocou uma lesão difusa e também a perda de alguma massa encefálica. Houve também a criação de um edema que tentámos diminuir através desta cirurgia. Fomos obrigados a deixar o crânio parcialmente aberto para que o inchaço diminua. Mas não posso mentir. O quadro é bastante delicado… - O que é que está a querer dizer com tudo isto, Dr.º?! – Leonardo mostrou-se impaciente com todo aquele discurso. - Que infelizmente o João está em coma! Neste momento, o seu sistema está a funcionar a um nível básico com a ajuda de um ventilador para que ele consiga respirar artificialmente. Vamos aguardar mais algumas horas até procedermos a novos exames e ter a certeza da irreversibilidade do caso… - Irreversibilidade?! – Leonardo repetiu, incrédulo. - Sinto muito, Sr.º Leonardo. Não podia ser verdade, a frase ecoou-lhe vezes sem conta nos ouvidos. Não. Nada daquilo era verdade. - Diz-me que isto não é verdade – Leonardo segurou o rosto da ex-mulher com força. - Diz que o nosso filho está bem! Diz...!
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    294 Não havia absolutamentenada para dizer, Laura chegou a essa conclusão no momento em que se afastou do ex-marido e saiu da sala sem pronunciar uma única palavra. Nessa altura, Leonardo foi recebido pelos braços de Rita e chorou desalmadamente. Lamentou-se da sua triste sorte. Culpou-se pelo acidente. Culpou-se por ter estacionado o carro junto aos portões da escola. Culpou-se por não ter afastado o filho a tempo, por não ter chegado mais cedo, por não ter chegado mais tarde, e até mesmo por não ter sido ele a vítima daquele terrível acidente. Culpou-se por tudo isso, e quando não conseguiu culpar-se mais, caiu sobre a cadeira num choro profundo. Nem mesmo as palavras de alento dos seus amigos serviram para que o seu sofrimento diminuísse. - Mãe… – foi o primeiro telefonema de Laura quando regressou ao seu consultório. – Preciso que vás buscar o André à escola e que fiques com ele em tua casa esta noite. Vou buscá-lo assim que possa. - Sempre a pedir-me favores! O que é que aconteceu agora? - Luísa protestou do outro lado da linha. - O João morreu. E isso foi suficiente para que Luísa deixasse cair o telefone das mãos.
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    295 32 As horas seguintesnão trouxeram nada de novo ao estado clínico de João, que deitado numa cama, ligado a um ventilador, manteve-se insconsciente como se estivesse a dormir. Foram realizados novos testes clínicos hierarquizados por Eduardo Lima a fim de obter qualquer resposta da criança ao comando verbal, visual ou qualquer outro estímulo doloroso. Os olhos de João foram abertos com uma luz incidida em direcção à pupila. Um pequeno feixe de luz com o objectivo de enviar uma mensagem ao cérebro para constringir a pupila, mas ele não respondeu. Os olhos de João foram novamente abertos e a sua cabeça virada de lado a lado. Foi enviada uma nova mensagem ao cérebro, mas os olhos mantiveram-se fixos. Sílvia Barreto, a médica pediátrica de serviço, entregou um cotonete de algodão a Eduardo Lima e ele arrastou o objecto pela córnea do olho esquerdo de João, mantendo-o aberto. Foi enviada uma mensagem ao cérebro para piscar o olho, mas este não respondeu. Efectuou-se o mesmo procedimento no lado direito. O resultado foi idêntico. Eduardo inspeccionou o canal auditivo de João, nomeadamente o tímpano, certificando-se de que não existia qualquer obstrução por cerume. Sílvia Barreto manteve os olhos de João abertos, enquanto Eduardo injectava água gelada no interior do canal auditivo. A mudança drástica da temperatura do ouvido deveria causar um violento espasmo ocular no cérebro da criança. Mas não foi isso que aconteceu. Efectuou-se o mesmo procedimento no canal contrário. O resultado foi idêntico. Após uma prévia constatação da estabilidade hemodinâmica e pulmonar, João foi afastado temporariamente do ventilador com um cateter de O2 posicionado no tubo endotraqueal. A manobra forçaria uma elevação do nível do gás carbónico na corrente sanguínea quando o CO2 alcançasse um nível de 55 mm Hg.
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    296 O cérebro deveriaenviar uma mensagem a João para que ele respirasse espontaneamente. Mas não foi isso que aconteceu. Constatada a ausência total de reflexos, Eduardo Lima deu por terminada a primeira fase do protocolo. Repetiremos os exames daqui a seis horas, informou à equipa médica. Depois disso, abandonou o quarto, indiferente à presença de Laura, que se manteve junto à porta durante todo o processo. A noite já ia longa quando ela regressou à sala de espera. Ali encontrou as mesmas pessoas. Rita, Sofia, Francisco e Leonardo. Ninguém conseguiu esboçar qualquer movimento corporal aquando da sua entrada. Todos se encontravam exaustos e sem esperanças que algum milagre pudesse acontecer. Apenas Leonardo chorava com a cabeça por entre as pernas e os braços estendidos. Laura passou por ele, mas foi incapaz de lhe dirigir a palavra. Escolheu a janela como local de refúgio levando nas mãos um café tirado da máquina de serviço. Bebeu-o calmamente sem se preocupar com o adiantado das horas ou com a chuva que começava a cair copiosamente lá fora. A paz instalada na sala de espera foi interrompida minutos depois aquando da chegada de um vulto de cabelos negros, trajado com uma roupa escura e um casaco de cabedal. Ninguém quis acreditar na sua coragem em aparecer ali depois de toda aquela tragédia. Não depois de todo o mal que ele causara. Ninguém quis acreditar na sua audácia. - Desgraçado! Leonardo atirou-se contra ele e ofereceu-lhe um soco violento no rosto que o fez cair junto à porta. Ricardo percebeu que estava a sangrar quando os primeiros pingos de sangue inundaram o chão de mármore do hospital. Tinha a cana do nariz partida. - O que é que vieste aqui fazer, hã?! - Leonardo gritou, tentando apartar-se dos braços do seu melhor amigo, Francisco Saraiva. - Vieste rir-te da minha desgraça, seu filho da puta?! Ainda não estás suficientemente satisfeito por me teres destruído a vida?! Maldito! Desgraçado… - Anda – Rita ajudou Ricardo a levantar-se do chão, amparando-o com vários lenços de papel. – Anda! Vem comigo… - Desgraçado – os gritos de Leonardo acompanharam Rita e Ricardo ao longo do corredor.
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    297 - Tem calma,Leo – Francisco tentou chamar o seu amigo à razão. – Ficar assim não adianta nada! Não vai resolver o problema do João. - Ele veio gozar com a minha cara, não vês?! - Calma – Francisco segurou a do amigo face e tentou controlar a sua respiração ofegante. – Tens que ser superior e concentrar-te no teu filho! Esquece o resto! Esquece-o… - Com certeza veio dar-te os pesâmes – a afirmação de Leonardo direccionada à ex-mulher saiu amarga, assim como o café que ela bebia junto à janela. O relógio assinalou três da manhã, altura em que Laura saiu à rua debaixo de uma chuva miudinha. Com as mãos enfiadas nos bolsos da sua bata, a médica percorreu o parque de estacionamento em silêncio tentando ignorar aquele terrível sentimento de impotência que se apoderou de si. Provavelmente deveria ter reagido como Leonardo. Provavelmente deveria ter chorado, gritado ou entregue o seu sofrimento aos olhos dos demais. Mas ela não era assim. Nunca fora e não seriam aqueles pequenos detalhes que iriam quantificar o tamanho do seu sofrimento. Apenas ela sabia dentro de si o quanto estava a sofrer por ver o filho naquele estado. - O que é que ainda estás aqui a fazer?! Ricardo surpreendeu-se com a pergunta da cunhada quando ela o encontrou sentado num dos muitos bancos vazios do jardim da clínica. - Estou à espera de um milagre – ele respondeu sem esconder o estado lastimável em que se encontrava o seu rosto e o seu nariz enfaixado. Laura sentou-se ao lado de Ricardo e os dois permaneceram durante um longo tempo em silêncio a contar as poucas estrelas que se encontravam no céu. - Não era minha intenção que isto acontecesse – ele disse. – Nunca quis destruir a tua vida, o teu casamento com o Leo e muito menos a vossa família… - Já está tudo destruído - a resposta de Laura saiu quase num tom de murmuro.
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    298 Ricardo concordou emsilêncio. Ela tinha razão. Estava tudo destruído e não existia absolutamente nada que pudessem fazer para voltar o tempo atrás ou apagar os erros cometidos num passado não muito distante. - Eu sei o que tu e o Leo estão a sentir... Laura encarou o cunhado com alguma curiosidade no olhar sem entender o que ele quis dizer com aquilo. - O meu filho morreu há três anos. - Tiveste um filho? - ela perguntou, incrédula. - Sim! Mas infelizmente não viveu muito tempo. Dois anos apenas... - Porquê?! - Segundo os médicos, foi vítima de uma insuficiência cardíaca. Morreu enquanto dormia. Num momento estava a correr pela casa. Na manhã seguinte não se mexia no berço. A minha mulher foi a primeira a aperceber-se disso. Levantou-se cedo e foi vê-lo ao quarto. Quando ouvi o grito dela corri a ver o que se estava a passar. Mas já era tarde. Ele já tinha morrido e estava frio como uma pedra. Tinha os dedos roxos e o rosto também... - Ricardo sentiu pela primeira vez duas lágrimas caírem-lhe dos olhos. - Não sei muito bem como nos conseguimos reeguer depois da morte de um filho. Até hoje acho que ainda não o consegui fazer. Nem eu e nem a minha ex-mulher. Separámo-nos pouco tempo depois, apesar de eu ter continuado a trabalhar na empresa do pai dela. Mas já nem sabia o que estava a fazer. Também não sabia se queria continuar com aquela vida medíocre na qual me tinha enterrado. A única coisa que sabia era que precisava reencontrar-me. Precisava começar de novo. Fugir de onde estava. Fugir da culpa. Achei que... se voltasse ao ponto de partida, talvez, quem sabe, não conseguisse encontrar resposta a todas as minhas perguntas. Foi por isso que regressei a Portugal. Mas não planeava que o Leo me pudesse convidar para morar em vossa casa. Não planeei conhecer-te. Não planeei ter um caso contigo e muito menos destruir-vos a vida tal como a minha também já estava destruída. Também não planeei... apaixonar-me por ti... Ouviu-se um longo silêncio até Laura arranjar forças para finalmente falar.
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    299 - Lembraste deuma frase que me disseste no ano passado perto da altura do Natal? - Qual!? - Ricardo voltou-se para ela. - Disseste-me que fingir que não temos problemas não resolve nada! Para mim, nunca disseste uma coisa tão acertada! Ricardo limpou as lágrimas que sem querer lhe caíram dos olhos. - Acho que devias voltar para os Estados Unidos e enfrentar finalmente os teus problemas. Ele sorriu tristemente. - Agora vai! Vai-te embora! O Leo não te pode ver aqui... - Avisas-me quando for o funeral?! - Aviso - Laura tentou lutar contra as lágrimas que sem querer se apossaram dos seus olhos.
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    300 33 O dia amanheceugélido, cinzento e chuvoso, tal como o estado de espírito de Leonardo quando avistou de longe o corpo inanimado do filho, instalado num dos muitos quartos da unidade de cuidados intensivos. Incrédulo, o arquitecto ansiou por qualquer movimento de João. Um gesto. Um piscar de olhos. Qualquer coisa que denunciasse que os médicos se encontravam enganados e de que ainda havia a esperança de uma possível recuperação. - Trouxe-te café – Rita interrompeu-lhe os pensamentos junto à porta. - Obrigado. - A Laura está neste momento a falar com o Dr.º Eduardo e com a Dr.ª Sílvia. Parece que vão realizar um último exame ao João daqui a momentos. - O último?! - Sim! Só para ter a certeza – Rita sentiu um nó no estômago quando proferiu tais palavras. Leonardo voltou a lançar um novo olhar aflito ao filho. Ainda estava ali, tão belo e inocente, como se estivesse a dormir, mergulhado num sono profundo, numa dimensão onde apenas e somente ele estava autorizado a entrar. Leonardo recordou ainda as últimas palavras que o filho lhe proferira momentos antes de ter sido atingido por aquele maldito carro desgovernado. Quando crescer quero ser arquitecto como tu. Na altura, isso foi suficiente para encher o seu coração de orgulho.
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    301 - Já algumavez te sentiste assim?! – a voz de Leonardo interrompeu os pensamentos longínquos de Rita. – Impotente? Fraco? Um autêntico falhado que não é sequer capaz de salvar a vida do próprio filho? - Leo! Eu sei que nada do que eu te disser vai conseguir suplantar esta dor que estás a sentir, mas tens que ser forte. Aceitar a realidade… - Que realidade, Rita?! A de que o meu filho está morto apesar do coração dele continuar a bater? Que realidade é essa que eu não entendo? Que realidade é essa capaz de matar uma criança de oito anos… - os olhos de Leonardo e de Rita encheram-se de lágrimas. – De destruir uma vida que ainda nem sequer tinha começado? De acabar com ela desta forma tão estúpida!? Meu Deus! Que castigo é este que estou a pagar? O que foi que eu fiz de errado, meu Deus…?! Rita acolheu o choro de Leonardo nos seus ombros e amparou-lhe a cabeça com um beijo também ela devastada com tudo o que estava a acontecer. Nunca em um milhão de anos pensou sentir-se assim. Tão impotente, tão fraca e uma total falhada. Durante meses agiu de forma egoísta, movida por um estúpido sentimento de vingança, sem que este lhe trouxesse qualquer tipo de satisfação. Leonardo tinha razão. Era horrível aquela sensação impotência e falhanço. Era horrível sentir-se o pior ser humano à face da terra e não poder fazer absolutamente nada para o contrário. Os exames foram repetidos pela última vez. Eduardo Lima realizou os mesmos procedimentos da noite anterior após uma vigilância apertada que durou cerca de seis horas. Infelizmente as conclusões foram as mesmas. Os danos causados ao tecido cerebral de João eram irreversíveis. Além disso, a pressão arterial diminuiu drasticamente e a oxigenação no cérebro ficou seriamente comprometida. Não havia margem para dúvidas e o eletroencefalograma pedido pelo Neurocirurgião apenas veio a confirmar o que já todos suspeitavam. João estava clinicamente morto. O seu tronco cerebral havia cessado funções de forma definitiva. - E então?! - foi a primeira pergunta de Leonardo quando se viu chamado ao quarto pela enfermeira de serviço. No interior da habitação, o arquitecto encontrou Eduardo Lima, Sílvia Barreto, dois enfermeiros de serviço, e tal como não poderia deixar de ser, Laura, a sua ex-mulher. - Infelizmente não há mais nada que possamos fazer, Sr.º Leonardo – Eduardo não teve outra forma de dar aquela terrível notícia.
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    302 - Não –Leonardo balançou a cabeça, sentindo-se como se tivesse sido atingido por uma bala no peito. – Não pode ser! Tem de haver uma outra solução! Uma outra cirurgia, um outro exame. O coração dele está a bater… - Sr.º Leonardo – Sílvia adiantou-se com toda a cautela do mundo. – Ainda que o coração do João esteja a bater, a verdade é que o seu cérebro já não regista qualquer função vital. Infelizmente, é o cérebro que comanda a vida humana e não o coração. Se desligarmos as máquinas e o ventilador… - Não – Leonardo gritou aos médicos. – Ninguém vai desligar nada! Que ninguém se atreva a matar o meu filho. - Sr.º Leonardo! Eu entendo que esteja em estado de choque e que lhe esteja a ser muito difícil gerir todas estas informações - Eduardo tentou chamar o arquitecto à razão. – Mas infelizmente a Dr.ª Sílvia tem razão! Não existe nada que possamos fazer para reverter o quadro. Nenhuma cirurgia, nenhum transplante, nenhum medicamento, nada vai resolver o caso! Manter o seu filho ligado ao ventilador não o irá trazer à vida, porque ela já não existe… Quando se viu confrontado com a dura realidade, Leonardo não conseguiu controlar todo o ódio e toda a raiva que sentiu contra a única pessoa que conhecia naquele quarto. Laura. - Não vais dizer nada?! – ele gritou-lhe no rosto. – És assim tão fria e tão incensível ao ponto de baixares os braços e deixares que o teu filho morra à tua frente sem fazeres nada para o salvar? Não vais lutar pela vida do João? - Que vida, Leo?! O arquitecto mostrou-se perplexo com a resposta da ex-mulher. - Diz-me! Que vida é que ainda existe aqui dentro deste quarto?! O João já estava morto muito antes de colocar os pés nesta clínica. Até tu já tinhas percebido isso. Só que ao contrário de ti, eu sempre aceitei a realidade e encarei-a de frente. Lutei pela vida do João até ao fim. Estive ao lado dele até ao fim. Por isso, não admito que te atrevas a duvidar disso ou que sequer tentes impedir alguém de desligar estas máquinas. O meu filho merece morrer com dignidade e tu não tens o direito de lhe negar isso...
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    303 Era a primeiravez que Laura demonstrava qualquer tipo de emoção. Apesar de ter mantido a voz firme, o queixo tremido e os olhos cobertos de lágrimas, deixaram transparecer toda a sua dor, e ao aperceber-se dela, Leonardo sentou-se numa cadeira vazia sem forças para se manter de pé. Lançou um olhar ao corpo inanimado do filho e chegou à conclusão que não adiantava continuar a negar a realidade dos factos. Não adiantava prolongar aquele sofrimento. Nem o de João e nem o das pessoas que o amavam. - Antes de… - Eduardo teve alguma dificuldade em interromper o silêncio ensurdecedor que se instalou no quarto. – Antes de desligarmos as máquinas, gostaríamos de saber se os senhores autorizam a doação dos orgãos!? - Sim – Laura respondeu prontamente. Abandonou o quarto com a clara certeza de que tinha acabado de morrer por dentro. Já não lhe restava mais nada, chegou a essa conclusão. Já não lhe restava qualquer réstia de alegria ou vontade de viver, sendo que a única coisa que lhe permanecia impregnado na boca era aquele gosto amargo de derrota contra o qual ela tentou desesperadamente lutar enquanto caminhava apressada pelos corredores da clínica. À medida que se aproximava das escadas de serviço, mais rápidos eram os seus passos. Abriu as portas de rompante, tudo para que ninguém a visse chorar e subiu os degraus a uma velocidade estonteante sem se aperceber que a poucos metros de si alguém a seguia com a mesma velocidade. E foi num momento de pura distracção que Laura tropeçou e caiu de joelhos. Foi o quanto baste. Sem forças e sem mais nada que a mantivesse de pé, ela chorou. Finalmente. Descontroladamente. Desesperadamente. Até se sentir sem ar para respirar. No meio do desespero, surgiu-lhe diante dos olhos a figura frágil de Joana. A única pessoa que não desejava ver ali. - Vai-te embora, pelo amor de Deus – Laura tapou o rosto com as mãos. Joana não obedeceu às ordens da sua Orientadora. Mais uma vez. Contrariamente ao que lhe fora pedido, caminhou lentamente até ela, pé ante pé, e ergueu-lhe a face lavada em lágrimas numa tentativa desesperada de encontrar a mulher que um dia chegou a admirar. Ao reconhecê-la, ofereceu-lhe um longo abraço. Permitiu que ela se esvaísse em lágrimas e encharcasse os ombros da sua bata. Sentiu-lhe os cabelos lisos por entre os dedos, o seu cheiro a sabonete e o calor do seu corpo. As suas unhas fortes cravadas nas suas costas. O seu sofrimento. Os seus soluços.
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    304 Foi também aprimeira vez que Joana se atreveu a encarar os seus olhos verdes. De frente. Sem receio que estes a atacassem. A primeira vez que teve a coragem de a beijar nos cabelos lisos e soltos, no sobreolho, na face, no queixo - e por fim - num momento de pura insanidade, nos lábios. Naquele momento, nada mais importou. Joana afundou-se na boca de Laura e deliciou-se com o aroma a mentol que o seu hálito emanava. Deliciou-se com a sua língua, a sua saliva e o desejo quase asfixiante de, finalmente, após tantos meses, a ter só para si.
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    305 34 O enterro nasegunda-feira era o objectivo, aquilo em que Laura tinha de se concentrar, depois pensaria no futuro. O presente já era suficientemente mau. Leonardo, o pai, recusou-se a comparecer à cerimónia fúnebre. Talvez por não se ter conseguido levantar da cama, por não ter tido forças para comer, para dormir ou sequer para reproduzir qualquer movimento corporal desde a morte do filho. Deitado na cama, num quarto às escuras, o arquitecto afundou-se numa depressão absoluta e ninguém o conseguiu arrancar de lá. O mesmo não aconteceu com Laura. A médica encontrou forças para tratar de todos os detalhes do funeral com a ajuda de Francisco Saraiva, um amigo da família que os acompanhou incessantemente durante aquela dura jornada. Na cerimónia estiveram presentes perto de uma centena de pessoas. A igreja foi demasiado pequena para receber tanta gente. Professores de João, colegas de turma, funcionários do colégio, amigos próximos da família, empregados e sócios do escritório de arquitectura de Leonardo, Rita Azevedo, Sofia e Francisco Saraiva, a empregada Alicia, Antónia, Eduardo Lima, Joana Lima, Carlos Fonseca, director da clínica, Alfredo Meireles - ex. Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica, Sofia Barreto, Henrique Relvas, inúmeros enfermeiros, médicos, auxiliares e outros técnicos de serviço que diariamente se cruzavam com Laura nos corredores da clínica. Ninguém faltou. Nem mesmo Ricardo, que de longe, acompanhou o cortejo fúnebre aquando da chegada do caixão ao cemitério. Ao seu lado, Laura manteve a mãe, Luísa Mendonça, e também o único filho que lhe restou. O pequeno André. Não precisou de mais ninguém para a acompanhar naquela que iria ser a última morada de João e nem permitiu que ninguém se aproximasse de si. Conseguiu manter uma imagem fria e distante, a mesma que a sua mãe. Era com ela que havia aprendido a esconder os seus sentimentos e a guardá-los a sete chaves para que mais ninguém se atrevesse a descobri-los. Demonstrar fraqueza jamais, Luísa repetia essa frase inúmeras vezes quando a filha ainda era pequena.
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    306 E a verdadeé que nem mesmo quando o caixão de João desceu à terra, nem mesmo quando seus colegas de turma depositaram inúmeros desenhos, brinquedos e ursos de peluche, nem mesmo quando uma enchente de flores cobriu o caixão ou quando as palavras finais do padre deram o mote para que os funcionários do cemitério tapassem a sepultura, nem mesmo assim, Laura alterou o seu estado emocional ou derramou uma única lágrima sequer. Manteve-se tão fria como uma lápide, escondendo apenas o rosto de André no seu ventre a fim de lhe calar o choro sentido. - Somos horríveis... - Rita Azevedo foi a primeira pessoa a dar-se conta de presença de Ricardo no cemitério e também a única a ter a coragem para se aproximar dele. - As pessoas mais horríveis do mundo. - Porque é que dizes isso? - Porque acabámos de matar uma criança com os nossos esquemas, traições e futilidades – Rita não conseguiu controlar as lágrimas e nem Ricardo o seu silêncio perante uma verdade irrefutável. – Hoje sinto-me a pessoa mais horrível do mundo – ela concluiu. Laura recebeu as condolências de todos os que compareceram à cerimónia fúnebre de João. Apertou mãos, mas excusou-se a dar a face a quem quer que fosse. Mais tarde, recusou igualmente a oferta gentil de Francisco Saraiva para a levar a casa. Esta tarefa ficou a cargo da sua mãe e foi com ela que Laura chegou a casa, trazendo no colo o filho que adormeceu no carro, exausto de tanto chorar. A médica subiu aos quartos e depositou-o na cama que era sua. Do outro lado, encontrava-se ainda a cama de João e isso foi o suficiente para que os seus olhos se enchessem de lágrimas. Aquela cama nunca mais voltaria a ser ocupada, pensou na altura. - Não há nada no frigorífico – Luísa afirmou aquando da chegada da filha à cozinha. - Depois trato disso – Laura sentou-se à mesa com uma expressão visivelmente abatida. - O Leonardo?! - Está no quarto.
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    307 - Ainda nãosaiu de lá? - Não, mãe! Ainda não saiu de lá. - E quanto tempo é que ele pretende lá ficar? – Luísa e Laura trocaram um olhar desafiador. – Sim, porque desde que o João morreu, ele trancou-se lá em cima e já não sai do quarto para nada. Esqueceu-se que tinha um funeral para preparar e esqueceu-se também que ainda lhe restou um outro filho para criar… - Mãe, por favor! Hoje não! Ao ver a filha com os cotovelos apoiados sobre a mesa e a cabeça por entre as mãos, numa luta desesperada contra a vontade de chorar, Luísa baixou as guardas e sentou-se ao lado dela. Sentiu-se por momentos tentada a tocar-lhe nos cabelos, mas retirou a mão de imediato não fosse tocar neles pela primeira vez. Sentiu também pena, compaixão, um enorme carinho que nunca foi capaz de expressar à sua própria filha. Sem saber como, a morte do neto acirrou-lhe todos estes sentimentos. Sentimentos humanos. Há tanto tempo que ela não sabia o que isso era. - Não digo que irá passar - a afirmação de Luísa saiu seca. - Mas o tempo torna a dor mais suportável. Laura encarou a mãe de lágrimas nos olhos, mas voltou a enfiar a cabeça por entre os braços. Ficaram ali as duas, durante vários segundos, mergulhadas num silêncio ensurdecedor que por pouco não as asfixiou. - O teu pai era militar da marinha - Luísa esboçou um sorriso irónico. – Era muito bonito! Demasiado bonito…! Era alto, tinha olhos verdes e cabelos claros iguais aos teus e uma inteligência que nunca vi em nenhum outro homem. Apaixonei-me como uma adolescente de dezoito anos se deveria apaixonar pelo primeiro namorado. Ele tinha sempre as palavras certas e soube como convencer-me a fazer o que queria. Engravidei. Estava a poucas semanas de entrar na faculdade e cometi o maior erro da minha vida. Engravidei de um homem que não teve pudores em desaparecer, tal como apareceu, e tal como provavelmente deve ter desaparecido em muitos outros portos por aí. Nunca soube nada dele. Também nunca fiz questão de o procurar. Quando ele me deixou, eu só pensava o que iria ser de mim com uma criança nos braços. Como iria contar aos meus pais que a única filha já não iria seguir medicina. Podes não acreditar, mas os tempos eram outros. No meu tempo, não era aceitável uma mulher ser mãe solteira. Escondi a
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    308 verdade enquanto pude,mas é claro que o meu pai descobriu e colocou-me fora de casa. A minha mãe não moveu uma única palha para me ajudar. Só me ajudou a fazer as malas. Nos primeiros tempos, fui morar com uma tia afastada no Alentejo. Ela foi a única a dar-me guarida, mas era um pesadelo. Se as pessoas acham que eu sou horrível, então nem quero saber o que pensariam dela… - Luísa sorriu tristemente, tentando lutar contra as lágrimas. – Obrigava-me a limpar-lhe a casa todos os dias, ainda que com uma barriga de oito meses. Passei fome, pôs-me a dormir na varanda porque os quartos estavam todos para alugar, insultava-me, ameaçava-me pôr na rua a qualquer momento. Quando não consegui aguentar mais, fugi outra vez para Lisboa, mas não voltei a procurar os meus pais. Fiquei numa casa de acolhimento para mães solteiras e foi lá que te tive... – ouviu-se um novo silêncio até Luísa arranjar forças para continuar a contar uma história que até à data a tocava profundamente. – Lembro-me do dia em que nasceste. Quando olhei para ti, confesso que não senti nada. Não consegui sentir aquilo que todas as mães dizem sentir quando olham para os filhos. Só senti raiva e frustração. Pensei que eras a pior coisa que me tinha acontecido na vida. É horrível uma mãe dizer isto a uma filha, eu sei. Mas infelizmente foi isso que eu senti - Luísa não conseguiu conter as suas lágrimas, mas apressou-se a limpá-las. – Os primeiros tempos não foram fáceis. Foi uma longa batalha até conseguir reerguer-me, arranjar um trabalho e uma casa para nós. Nunca quis ter que trabalhar dois empregos só para conseguir pagar-te os estudos ou para te ouvir rabujar todas as noites que não gostavas de comer sopa. Odiava ter que te comprar roupa em promoção ou aceitar donativos de instituições. Odiava não ter como te dar um bom presente de Natal. Odiava chegar ao final do mês com medo que nos cortassem a luz ou o gás porque o dinheiro não chegava para todas as despesas. Porque o dinheiro não chegava sequer para comer. Odiava privar-te de uma vida que eu não te podia dar... - as lágrimas de Luísa caíram finalmente sobre a mesa. – Depois os anos foram passando e eu percebi que já não valia a pena lutar contra o inevitável. Para quê?! Já estava velha, acabada, sem sonhos e sem esperanças. Resignei-me, confesso. Tentei viver os meus sonhos através de ti, tal como todos os pais fazem com os filhos. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para que fosses a Neurocirurgiã que eu nunca consegui ser. Dediquei-me dia e noite a essa tarefa. Sei que nunca te disse isto antes, mas... o dia mais feliz da minha vida foi quando me entraste em casa e disseste: Mãe! Conseguimos entrar em Medicina, e eu fiz das tripas coração para não demonstrar o quanto tinha ficado feliz com a notícia. Controlei todos os nervos do meu corpo para não te abraçar, para não te beijar! Sei que nunca fui uma boa mãe para ti. Sei também que cometi muitos erros ao longo destes quarenta anos, mas nisso eu não falhei. Quis que tivesses um bom emprego, uma boa casa, uma vida desafogada e que pudesses dar aos teus filhos tudo o que eu nunca te pude dar. Nisso, eu não falhei…
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    309 Os olhos deLuísa e Laura cruzaram-se de uma forma esmagadora no meio daquela cozinha vazia. - E hoje posso afirmar com toda a certeza que és a mulher que eu sempre quis ser. A melhor coisa que fiz nesta vida! A minha obra-prima… Laura nem quis acreditar quando a mãe se atreveu a segurar a sua mão, apertando-a com força contra a mesa. Fê-lo de uma forma desajeitada, talvez por nunca antes se ter atrevido a tocar carinhosamente na própria filha ou em qualquer outro ser humano, mas fê-lo. E isso foi suficiente para encher o coração de Laura de alegria. - Bem… – Luísa levantou-se e limpou o rosto marcado pelas lágrimas. – Eu vou ao supermercado comprar alguma coisa comestível. Não é admissível não haver sequer uma única caixa de ovos no frigorífico tendo vocês uma empregada em casa. - Mãe – Laura impediu-a de sair da cozinha. - Diz! - Como é que ele se chamava? Luísa sorriu, resignada. - Não importa! Não importa... Naquela noite, Laura, Luísa e André jantaram em silêncio, ignorando os latidos de Rufus e o som da televisão. Luísa lavou a loiça e Laura levou o tabuleiro do jantar a Leonardo. Deixou-o sobre o divã, junto à cama, apercebendo-se do olhar vazio do ex-marido que nem sequer manifestou qualquer reacção quando a viu. No dia seguinte, a médica voltou a fazer o mesmo. Levou o jantar, mas Leonardo mais uma vez não tocou na comida. No terceiro dia, ela regressou ao quarto e encontrou-o na mesma posição. Foi a gota de água. O arquitecto estava a definhar a olhos vistos e precisava urgentemente alimentar-se. Emagrecera cinco quilos em uma semana, cheirava a suor e tinha a barba por fazer. Laura ajudou-o a sentar-se sobre a cama, deu-lhe a comida à boca e obrigou-o a beber água para se hidratar. Mais tarde, levou-o em direcção à casa de banho, retirou-lhe as roupas sujas e abriu o chuveiro na ânsia de que a água quente o trouxesse à vida. Quando voltou a deitar o ex-marido na cama, exausta pelo esforço que fizera, apagou a luz da mesinha de cabeceira e saiu do quarto com a sensação de dever cumprido.
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    310 Passaram-se vários diase Laura voltou definitivamente para casa. Desfez-se do apartamento que alugara provisoriamente e trouxe as malas que levou aquando da sua separação com Leonardo. Este, ainda mergulhado num completo estado de depressão, não teve forças para a impedir de voltar. Observou-a com um olhar vazio. Viu-a arrumar as suas roupas nos armários, viu os seus perfumes, escovas de cabelo e produtos de higiene invadirem a cómoda do quarto e as gavetas da casa de banho. Viu inclusive Laura deitar-se na mesma cama que ele, mas ainda assim, sentiu-se incapaz de a impedir de fazer o que quer que fosse. Na altura faltaram-lhe forças para isso. Laura concluiu o seu último dia de trabalho na clínica com um plantão de vinte e quatro horas. Depois do plantão, refugiou-se no seu consultório e olhou com atenção as quatro paredes que o compunham. Treze anos se passaram desde a primeira vez que pisou aquele espaço. Treze anos dedicados a salvar vidas. Treze anos de luta, esforço contínuo, suor e lágrimas. Não se podia dizer triste. No fundo, sabia que tinha feito um bom trabalho, que tinha dado tudo de si e que estaria pronta a dar mais, se não fossem os acontecimentos trágicos que ditaram a sua saída daquela clínica. Durante a manhã, Laura procurou dois caixotes a fim de arrumar os seus pertences espalhados pela sala. Livros, pastas, arquivos, fichas de pacientes, objectos de decoração, porta-retratos, presentes simbólicos oferecidos pelos seus pacientes. Todos estes objectos que fizeram parte da sua vida foram religiosamente guardados em silêncio. Quando terminou a tarefa, já a tarde ia a meio, ouviu a porta do seu consultório tocar duas vezes. Sem surpresas, ela ordenou a entrada. Já aguardava aquela visita. Chamou-a pelo BIP. - Boa tarde, Dr.ª... – Joana Lima surgiu sobre o alpendre da porta. - Entra e fecha a porta! A Interna obedeceu à ordem, sem no entanto conseguir encarar o rosto de Laura. Ainda lhe estava retida na memória a loucura que efectuara dias antes quando se atreveu a beijar a sua Orientadora num impulso insano. - Soube que o teu exame foi marcado para o dia vinte sete de Janeiro. - Sim. - Já começaste a estudar? – Laura continuou a arrumar os seus pertences nos caixotes de cartão depositados sobre a secretária.
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    311 - Sim! Vouentrar de férias dentro de duas semanas para me preparar integralmente para o exame. Laura manteve-se de costas, a arrumar várias pastas e arquivos, indiferente aos olhares que a sua interna lhe lançou junto à porta. Após vários minutos de silêncio, Joana não aguentou a pressão. - Dr.ª Laura! Sobre aquilo que fiz naquele dia nas escadas de serviço, eu… - Não vamos falar sobre isso. - Eu estou apaixonada por si – a confissão de Joana interrompeu os movimentos da médica. – Desde o primeiro dia! E mesmo sabendo que isto é uma loucura e que jamais em tempo algum o meu sentimento irá ser correspondido por si, mesmo assim eu queria que soubesse. Eu sei que cometi muitos erros, que destruí a sua vida e que me deixei cegar pela ambição. Mas no fundo, eu só fiz o que fiz, porque queria que a Dr.ª olhasse para mim. Queria me enxergasse com outros olhos. De uma outra forma. Queria que percebesse que eu existia… Joana ansiou que Laura lhe dissesse alguma coisa, mas o seu silêncio da médica tornou-se insuportável com o passar dos minutos. - Vou voltar ao trabalho. - Espera – Laura impediu Joana de sair do seu consultório. - Quero-te em minha casa a partir da próxima segunda-feira até ao dia do teu exame. Vamos estudar juntas… - Estudar juntas?! - Tal como te tinha dito no ínicio do teu Internato, uma das minhas obrigações enquanto tua Orientadora era ajudar-te a passar no exame que te vai dar acesso à especialização! Pois então! Não me esqueci do que prometi. - Mesmo depois de tudo o que lhe fiz? - Não está aqui em causa a tua vida pessoal. Muito menos a minha. Também não está em causa os sentimentos que julgas ter por mim. Só estou a fazer isto porque tenho a certeza que esta clínica vai precisar de um excelente Neurocirurgião daqui a alguns anos e eu quero preparar-te para ocupar esse lugar...
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    312 Os olhos deLaura e Joana cruzaram-se pela primeira vez naquele minúsculo consultório, agora praticamente vazio. - Obrigada - foi tudo o que a Interna conseguiu dizer.
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    313 35 Leonardo estava amorrer lentamente. Emagreceu dez quilos em três semanas. Estava magríssimo. Pálido. Irreconhecível aos olhos dos amigos e até mesmo aos olhos do próprio filho. Muitas vezes, André punha-se à porta do quarto e espreitava a mãe a cuidar do pai com toda a paciência do mundo. Laura alimentava-o, ajudava-o a tomar banho, a vestir-se e até mesmo a fazer a barba. Quase nunca falavam. Quase nunca trocavam olhares, mas ainda assim, existia uma certa cumplicidade inerente aos dois que se mantinha intocável. Para ajudar o marido a dormir, Laura misturava dois comprimidos em água. Era a única forma de Leonardo fechar os olhos e distanciar-se de todo o sofrimento que estava a sentir, nem que fosse por apenas algumas horas. O resto do dia era passado na cama, a olhar para a janela semi-cerrada, contando os segundos, os minutos e as horas até ao anoitecer, altura em que a mulher chegava do trabalho e o filho da escola. No entanto, nos últimos dias, Laura deixara de trabalhar. Ficava em casa, trancada no escritório, às voltas com os seus estudos e com algumas tarefas domésticas rotineiras realizadas com a ajuda da empregada Antónia. De vez em quando, subia ao quarto para visitar o marido. Mas eram passagens breves apenas para perguntar como ele se encontrava ou se precisava de alguma coisa. Nessas alturas, Leonardo respondia quase sempre que não e virava o rosto, ansiando que ela desaparecesse da sua vista. Laura não insistia. - Olá! Boa noite, Dr.ª Laura - Joana Lima compareceu pontualmente às vinte e duas horas em casa da sua Orientadora, carregada de livros e apontamentos. - Espero não me ter atrasado. - Entra!
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    314 Era a primeiravez que Joana ousava entrar em casa de Laura. A moradia era enorme, ela reparou quando Laura a conduziu em direcção à sala de visitas. Pelo caminho, avistou uma decoração sóbria e sofisticada. Observou dois quadros abstractos na parede, algumas fotografias de família e as escadas que ligavam o rés-do-chão ao primeiro piso. Sentiu curiosidade de subir aos quartos mas uma força maior impediu-a de cometer tamanha loucura. Laura indicou-lhe a sala e ela entrou com alguma cautela. Estava arrumada, apesar dos brinquedos e dos jogos espalhados perto da televisão. As janelas vidradas que davam acesso ao jardim frontal, pelo qual ela entrou, encontravam- se fechadas e bloqueadas. Não eram visíveis muitos móveis ou tão pouco demasiados artigos de decoração. Apenas um sofá enorme que ocupava grande parte da sala, uma mesinha de mármore e uma mesa plana que outrora servira como ponto de encontro para inúmeros jantares e almoços em família. Naquela noite, a mesma mesa encontrava-se vazia. - Vamos estudar ali – Laura apontou o local. – Podes colocar as tuas coisas aí em cima! Eu vou ao escritório buscar alguns apontamentos que te poderão ser úteis. Joana acedeu à ordem da sua Orientadora e viu-a sair da sala em direcção ao corredor. A casa permaneceu em silêncio, como se não houvesse uma única alma viva ali dentro. Joana deu-se conta da existência de um cão a vaguear pela habitação, mas o mesmo, assustado, quando a viu, refugiou-se rapidamente na cozinha. Minutos depois, o aparecimento de uma figura pequena provocou-lhe um susto de morte. - Olá... - Olá – ela disse, depois de recomposta do susto. – Como estás?! - Não consigo dormir – André esfregou os olhos, ensonados. – A minha mãe? - Ela foi ao escritório, mas já volta… Laura regressou à sala pouco tempo depois. Trouxe uma quantidade exorbitante de livros e pastas. Colocou-os sobre a mesa, sem se mostrar surpresa com a presença do filho e com as perguntas excessivas que este fazia a Joana a cada cinco segundos.
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    315 - A minhamãe tem uma cabeça no escritório – André dizia com uma vivacidade que só as crianças conseguiam ter àquela hora da noite. – É gigante e dá para ver tudo lá dentro. - Tudo?! – Joana mostrou-se divertida com o pequeno. - Tudo! É nojento! Mas é giro! Até dá para desmontar… - Ora aí está uma coisa que fazes perfeitamente com tudo o que te aparece pela frente! Desmontar – Laura afastou o filho dos braços da cadeira. – Anda! Vamos lá para cima que já é tarde e amanhã é dia de aulas. - Mas eu não tenho sono. - Eu não te perguntei se tinhas sono! Vamos – Laura tomou o filho pela mão. - Tchau – André despediu-se de Joana com um breve aceno. - Tchau... - a jovem correspondeu da mesma forma. - Espera-me alguns minutos que eu já volto – Laura afirmou de uma forma seca. - Está bem - Joana concordou. O Natal chegou, mas nesse ano não houve comemorações. Leonardo encontrava- se num estado depressivo muitíssimo grave ainda que João já tivesse morrido há quase um mês. A casa nunca estivera tão silenciosa, todos metiam-se nos quartos, com as portas fechadas, não se ouvia música, a televisão encontrava-se quase sempre desligada e o telefone nunca tocava. Laura reagia melhor do que o marido. Ia aguentando os dias e as noites. Não dormia tão bem como dantes, mas adormecia às cinco e durante a maior parte do tempo sentia-se razoavelmente bem. Mas por vezes caía num buraco. Tinha dias de grande depressão, mas pelo menos, eram mais os bons do que os maus. – Tens a certeza de que não era melhor levá-lo a um psicólogo?! Francisco Saraiva tentou persuadir Laura a fazer qualquer coisa por Leonardo quando os visitou na véspera do Natal e se deu conta do estado lastimável em que o seu melhor amigo se encontrava.
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    316 - O Leonão precisa de um psicólogo! É só uma fase! Vai passar... - Tens a certeza?! - Tenho. - Bem… - Francisco suspirou, coçando levemente os cabelos. – Quanto ao escritório, não te precisas preocupar! O Carlos tem dado conta do recado e eu também tenho ajudado em tudo o que posso. - Agradeço-te por isso – Laura susteve a porta. Um vento frio proveniente da rua atravessou o corredor. - Para a semana é a inauguração do RESORT. Achas pouco provável que Leo vá, não!? - Ele não deve ir. - Em todo o caso, se ele não for, eu posso representá-lo. - Faz isso, Francisco - Laura mostrou-se impaciente para fechar a porta. - E tu?! Como estás? - Estou bem. - Laura… – Francisco hesitou durante alguns segundos. – Apesar de nunca termos morrido de amores um pelo outro, queria agradecer-te tudo o que tens feito pelo Leo. Espero que toda esta tragédia sirva pelo menos para que vocês voltem ao vosso casamento. - Feliz Natal, Francisco! - Feliz Natal também para ti. Laura permitiu que Francisco se afastasse em direcção ao jardim e logo em seguida fechou a porta com a nítida certeza de que aquele Natal iria ser tudo, menos feliz.
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    317 A casa praticamentevazia, onde outrora se ouviram risos, gargalhadas e gritos, onde se disputou o telecomando da televisão, os brinquedos e a atenção dos pais, mostrava-se agora desprovida de qualquer sentimento de felicidade. Ao ver André compenetrado em frente a um videojogo, tendo como única companhia o cão da família, Laura chegou à conclusão de que havia desperdiçado inúmeras oportunidades. Oportunidade de estar com os filhos, de vê-los crescer, de partilhar momentos inesquecíveis com eles que jamais se voltariam a repetir. Oportunidade de estar com o marido, de dar-lhe toda a atenção do mundo, de ceder aos seus pedidos e carinhos. Enfim. Oportunidade de feliz. - D. Laura! Já deixei tudo pronto na cozinha! Quando quiser é só aquecer a comida no forno - Antónia entrou na sala e surpreendeu a sua patroa junto à janela. - Obrigada, Antónia. - Posso ir!? - Sim, pode. - É que o meu filho chega hoje da Inglaterra para passar o Natal lá em casa. Vem ele, os meus netos e a minha nora... - Então aproveite - Laura esboçou um sorriso triste. - Tire estes três dias de folga. - Não quer que eu venha no dia a seguir ao Natal? - Não, não é preciso! De qualquer maneira, a minha mãe vai cá estar e eu não pretendo sair. Pode ir, Antónia! Volte no final da semana. - Muito obrigada, D. Laura. Quando a empregada se foi embora, Laura deambulou pela casa, de braços cruzados, aconchegada no seu robe azul turquesa. Já era tarde. Passava das seis e a chuva começava a cair lá fora. Ela ficou parada diante da janela da sala por um breve instante pensando como seria difícil ultrapassar aquela data. O Natal nunca mais seria o mesmo sem a presença de João. A árvore também não foi montada junto à lareira, uma tarefa anual cumprida religiosamente por Leonardo com a ajuda dos filhos e nem houve manifestações de interesse em comemorações ou presentes. André pediu o que quer que fosse. O seu único desejo secreto, que nunca chegou a dizer aos pais, foi o de voltar a ter o seu irmão perto de si.
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    318 - O queestás a fazer? - Laura ajoelhou-se atrás do filho e ofereceu-lhe um beijo na nuca. - A jogar. - Ensinas-me?! André mostrou-se surpreso com o pedido da mãe. - A jogar?! - Sim - Laura limpou as lágrimas no rosto e sorriu. - Prometo que aprendo depressa. Após ter levado a ceia ao marido no quarto, Laura voltou a descer à cozinha submersa em pensamentos tristes. Refugiou-se na cozinha com uma caixa de cartão nas mãos, abriu-a com cuidado, e do seu interior retirou inúmeros álbuns de fotografia amarelados pelo tempo, mas em bom estado. Era apenas uma jovem de vinte e sete anos quando se casou com Leonardo. Tinha cabelos compridos, loiros e atreveu-se a levar um vestido de Verão no dia do seu casamento. Um dia em que choveu torrencialmente e que contou com a presença de pouquíssimas pessoas. Apenas amigos próximos e colegas da faculdade. Luísa, a mãe de Laura, recusou-se a comparecer à cerimónia apesar do convite da filha. Leonardo já não tinha pais e o seu único irmão encontrava-se perdido no mundo. A alegria estampada no rosto do marido, comoveu-a. Laura nunca se tinha dado conta de que Leonardo aparecera a sorrir em todas as fotografias. Não havia uma única em que estivesse sério. Não havia uma única em que não olhasse para ela com admiração, desejo e respeito e ela a mesma coisa. Eram jovens, bonitos, felizes. Tinham a vida toda pela frente e grandes ambições profissionais. Mas as fotografias foram revelando o passar dos anos. Os cabelos de Laura apareceram muito mais curtos, a sua expressão endureceu e os olhos deixaram de brilhar com tanta intensidade. Já não eram tão verdes, tão vivos e tão audaciosos. Já não olhavam o marido com o mesmo desejo, com o mesmo respeito ou com a mesma admiração. Estavam cansados. Ela pôde aperceber-se disso à medida que virava as páginas do álbum e se lembrava de acontecimentos marcados nas fotografias. Viagens, casamentos de amigos próximos, festas, situações profissionais, a alegria de Leonardo quando soube que iria ser pai, a barriga crescente, e por fim, a primeira fotografia tirada com os filhos três minutos após o parto. Exausta, deitada numa cama de hospital, com os cabelos molhados e o rosto inchado, mas feliz. Verdadeiramente feliz por ter nos braços as duas pessoas mais importantes da sua vida. Depois, seguiram-se fotografias do primeiro aniversário, do segundo e por aí em diante. Era incompreensível o facto de nunca se ter dado
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    319 ao trabalho deanalisar atentamente o crescimento dos filhos, as suas mudanças físicas e as suas mudanças comportamentais. Pela primeira vez, Laura estudou-os com atenção, identificando cada gesto e cada expressão facial. Eram tão diferentes, apesar de serem iguais. André tinha uma personalidade forte, vincada e uma expressão facial bastante mais severa que João. O último, doce e delicado, nunca deu qualquer trabalho. Trazia no rosto uma serenidade idêntica à do pai. A noite já ia longa quando Laura encontrou uma velha câmera de filmar no caixote, empoeirada pelo tempo, mas que ainda continuava a funcionar. Fora comprada pelo marido há quatro anos atrás com o objectivo de registar as primeiras férias de Verão passadas no Algarve. Laura apressou-se a ligar a câmera à corrente e abriu a tela de imagem. Segundos depois, surgiu-lhe diante dos olhos as primeiras imagens. O rosto de Leonardo foi o primeiro a aparecer. Era ele quem filmava, entusiasmado com a compra do aparelho, mostrando toda a casa e subindo as escadas na companhia dos filhos. Quietos, ele sussurrou a João e André enquanto os três se dirigiam até um dos quartos. Abriram a porta devagarinho e encontraram Laura deitada na cama, submersa num sono profundo. Um! Dois! Três! Leonardo incitou os filhos para que estes saltassem para cima da mãe e a acordassem com vários gritos de parabéns. Laura fazia trinta e seis anos naquela manhã e as crianças ainda eram pequenas. - O que querem dizer à mãe?! – Leonardo fez um zoom na câmera. - Mãe! Gosto muito de ti... - os gémeos gritaram em uníssono cada um oferecendo um beijo na face de Laura enquanto esta se ria a bom rir, indiferente ao estado lastimável em que se encontrava. Despenteada, com o rosto por lavar e ainda de pijama. - Eu também gosto muito de vocês - ela apertou os filhos com força. - Muito, muito... - Olha-me aqui a ficar com ciúmes! E de mim, não gostas?! – Leonardo perguntou entre risos. Ela mostrou um sorriso radiante à câmera. - É claro que sim! Eu amo-te... O vídeo terminou poucos segundos depois mas nessa altura, foi impossível para Laura conter o choro sufocante que tomou conta dela. Foi impossível conter também a tristeza profunda de já não ter um dos filhos perto de si. De não o poder tocar, de não o poder beijar, de nunca mais ouvir o som da sua voz, os seus gritos
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    320 e as suasgargalhadas. Ficou tanta coisa por dizer. Ficou tanto amor por dar. Foi muito pouco o tempo que ela teve para mostrar a João o quanto ele era importante para si. Custava-lhe a acreditar que estivesse fora da sua vida. Chegava muitas vezes a desejar ter sido ela a morrer naquele desastre. Teria sido muito mais fácil do que aquilo que estava a sofrer naquele momento. E duvidava que essa dor algum dia desaparecesse. Cada dia que passava era pior do que o anterior. João levara tudo o que a vida tinha de bom e não lhe deixara nada a não ser inúmeras recordações e o desgosto que a consumia. Laura chorou durante longos quartos de hora, baixinho, sufocando os soluços para que ninguém a ouvisse naquela cozinha vazia. Tinha medo que alguém entrasse ali e surpreendesse a sua fraqueza. Mas por sorte isso não aconteceu. Expiou todas as suas mágoas, e quando se deu por vencida, perto da meia-noite, com uma enorme dor de cabeça e os olhos inchados de tanto chorar, sentiu a campainha tocar. Pensou que talvez pudesse ser a sua mãe, apesar de ela lhe ter dito que apenas apareceria no dia seguinte. Mas Luísa era uma caixinha de surpresas e nos últimos tempos surgia todos os dias em sua casa sem avisar. - Perdão... Laura surpreendeu-se com a figura de Rita Azevedo sob o alpendre da porta, lavada em lágrimas e com uma tristeza imensa nos olhos. - Fui eu que troquei o DVD da tua apresentação. Perdoa-me…! - Esquece isso! Já não importa mais. - Perdoas-me!? As duas amigas abraçaram-se novamente e ali ficaram sobre o alpendre da porta durante vários minutos sem se importarem com o vento aterrador que por pouco lhes gelou os corpos. - O Leo? – Rita perguntou, depois de se recompor das lágrimas. - Como é que ele está? - Vivo.
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    321 36 A madrugada jáia longa quando Laura abriu repentinamente os olhos. A médica deparou-se com a figura do marido, deitado ao seu lado. Leonardo dormia um sono profundo, fruto dos dois comprimidos que tomara na noite anterior. Não dava mostras de que iria acordar nas próximas horas. Parecia antes entorpecido e distante daquilo a que todos chamavam de planeta terra. Laura observou-o atentamente e viu-lhe os traços faciais deformados pela magreza excessiva. Não parecia o mesmo. Já não era o mesmo. A morte de João transformara-o na sombra do homem que ele sempre fora e deixara-o à mercê de um desgosto sem fim. Laura tocou-lhe levemente nos cabelos. Não resistiu a fazê-lo e não resistiu também a oferecer-lhe um beijo na face. Na altura, o desejo falou mais alto do que a razão. Continuava a amá-lo, a sentir por ele o maior carinho do mundo e a desejar que, porventura, por algum milagre, ele a fosse perdoar. Lutava por isso todos os dias ainda que essa batalha à partida parecesse perdida. Mas não estava disposta a baixar os braços. Nunca o fizera antes e não seria aquele o momento oportuno para o fazer. - Mãe... A voz trémula e aflita do filho foi o impulso para que Laura saltasse da cama e vestisse o seu robe às pressas. Enquanto corria em direcção ao quarto de André, o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos lhe foi difícil respirar. Quando chegou à habitação, abriu a porta de rompante e acendeu a luz do tecto. Viu o filho de pé, diante da cama, com as calças do pijama completamente encharcadas e um olhar de culpa e de vergonha.
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    322 - Desculpa -ele disse, puxando as calças para cima. - Não faz mal, amor - Laura correu-lhe ao encontro e beijou-o no rosto. - Não faz mal! Está tudo bem. - Não estás zangada comigo? - Não - ela respondeu, erguendo-lhe o rosto. - É claro que não! A mãe não está zangada contigo e nem nunca esteve. A mãe ama-te muito. - Sonhei com o João. - Eu sei! Também sonho com ele todas as noites. - Ele estava aqui no quarto comigo. Laura sorriu tristemente e amparou uma lágrima no rosto do filho. - Isso é bom! É sinal de que ele está perto de nós. - Mas ele nunca mais vai voltar, não é?! Ouviu-se um longo silêncio até Laura arranjar forças para responder. - Não! Não vai. - A avó disse-me que ele está no céu, e que o céu é tão longe, tão longe, que ninguém consegue voltar. - A avó não te mentiu. - O pai também vai para o céu? Laura sentiu um estranho arrepio quando ouviu o filho proferir tais palavras. - Não! Claro que não! O pai vai ficar aqui connosco para sempre. Não voltes a repetir uma coisa dessas. André acedeu com a cabeça sem no entanto perceber a gravidade do que dissera. - Anda! Vamos tomar banho e depois voltamos para te fazer a cama de lavado.
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    323 O almoço deNatal foi preparado de forma silenciosa. Luísa chegou ao início da manhã, munida de compras e de uma pressa descomunal. Quis fazer tudo sozinha, movimentando-se pela cozinha como se ela fosse sua, indiferente à presença distante de Laura que se encontrava de braços cruzados encostada à bancada com os olhos postos na marquise enquanto André brincava lá fora na companhia de Rufus. Luísa observou a filha de soslaio. Encontrou-lhe um olhar vazio, triste e melancólico, como já vinha acontecendo nas últimas semanas. Laura tinha dias. Dias em que se sentia um pouco melhor e outros em que caía numa profunda depressão que a deixava inerte em qualquer canto da casa. Deixou de trabalhar e as coisas tornaram-se piores. Passava os dias em casa a ler e a estudar, a cuidar do filho e do marido acamado. A vontade de viver esmorecia-se aos poucos, como se subitamente, por um mero acaso do destino, a sua existência simplesmente tivesse deixado de fazer sentido. - O almoço está quase pronto. Luísa tirou o cabrito do forno e depositou-o sobre a bancada. Cheirava muito bem, assim como as batatas assadas que ela fizera para acompanhar. - Hã..! Não me deixes esquecer de te dar a receita da Bavaroise de Morango. Aquela que fizeste no ano passado ficou horrível. Laura continuou de olhos postos na janela, indiferente à presença da mãe na sua cozinha. - Acho que vai chover! Não é melhor chamar o André e aquele maldito cachorro cá para dentro?! - Deixa-os estar, mãe - Laura afastou-se da bancada e procurou uma cadeira para se sentar. Sentia-se exausta. Sem forças para se manter de pé. - E tu?! - Luísa limpou as mãos molhadas à toalha da cozinha. - Eu, o quê?! - Já pensaste no que vais fazer agora? Quando é que vais começar à procura de um novo trabalho?
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    324 - Ainda nãopensei nisso - Laura compôs os cabelos desalinhados, presos por um gancho. - Queria organizar a minha vida primeiro. - Não te esqueças que a Medicina é competitiva. Um médico que fique muito tempo sem exercer, perde terreno e não o volta a recuperar. É isso que queres? Luísa e Laura trocaram um olhar desafiador. - Não, mãe! A única coisa que eu quero é paz! É só isso que eu quero. - Está bem - Luísa largou a toalha sobre a mesa, visivelmente contrariada. - E o teu marido? Quanto tempo vai ficar lá em cima a olhar para as paredes à procura de paz? - Porque é que és assim? - Laura atacou a sua mãe com as suas palavras. - Porque não quero que acabes os teus dias a tomar conta de um marido acamado. - O Leo não tem a mesma estrutura emocional que nós. Luísa soltou uma gargalhada seca. - Não tem a mesma estrutura emocional que nós?! Deixa-me rir! Que bela desculpa arranjaste para o teu marido, não?! Sabes de quem é a culpa do Leonardo ser assim? Tua! Tu é que o transformaste nesse fraco que não é capaz sequer de se levantar da própria cama. - Onde é que vais? - Laura correu atrás da mãe quando esta saiu da cozinha a passos rápidos. - Vou trazer o teu marido cá para baixo! Alguém precisa terminar com esta palhaçada de uma vez por todas. As súplicas da filha não impediram Luísa de subir as escadas em direcção ao piso dos quartos. Quando lá chegou, abriu a porta de rompante e avistou o genro deitado na cama com o mesmo olhar vazio que o acompanhava há já várias semanas. Nem a visão da sogra o coagiu a mover um único músculo corporal. Leonardo sentia-se exausto, sem forças e morto por dentro. Nada mais importava. Estava com um ar doente. Não comia, não dormia, já nem falava, embora fizesse um esforço sobre humano para se manter vivo. Tinha a sensação de ter caído num abismo. Sentia saudades de ouvir a voz de João, mas não sabia onde ele se encontrava. Para onde quer que ele fosse, já não lhe pertencia. Fora uma dádiva
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    325 temporária na suavida e estava grato por isso. Mas a mágoa de o perder era tão forte, tão intensa e asfixiante que não sabia quanto mais tempo iria conseguir sobreviver. Perder o filho custou-lhe mil vezes mais do que perder os pais. Desta vez, o impacto atingiu-lhe a alma. - Até quando pretendes ficar aí enfiado nessa cama? A voz de Luísa saiu amarga e odiosa como sempre. - Até quando vais continuar a comportar-te como uma criança? A fugir à realidade como um rato? O João morreu e todos nós estamos de rastos com isso. Não há dia que eu não chore pela morte do meu neto e não lamente o que lhe aconteceu. Não há dia que eu não deseje trocar a minha vida pela dele. Mas nesta família ninguém parou de lutar. Ninguém baixou os braços. A vida que tanto ignoras, continua lá fora e o mínimo que deverias fazer era sair desta cama e lutar também como nós. Viver um dia de cada vez, como nós. E se não fizeres isso por ti, fá-lo pelo menos pelo único filho que te restou. Um filho que não tem culpa dos teus erros e dos erros da Laura. Sê homem pelo menos uma vez na vida e assume o teu papel de pai e chefe desta família. Tira esse peso de cima dos ombros da minha filha... O almoço foi servido às treze horas. À mesa, sentaram-se Luísa, Laura e o pequeno André, que sorrateiramente, por debaixo da mesa, alimentou o seu animal de estimação com pedaços do cabrito cozinhado pela avó. Rufus agradeceu com vários latidos. - André! Senta-te direito e olha a manga da camisola... A ordem de Luísa direccionada ao neto contrastou com a expressão vazia de Laura enquanto esta degustava a refeição confeccionada pela sua mãe. Sem muita vontade, ela levou o garfo à boca e trincou um pedaço de carne que lhe pareceu sensabor, tal como as notícias que passavam na televisão. O telefone tocou, mas ninguém atendeu. Nem Laura e nem Luísa saíram dos seus lugares. Em vez disso, continuaram a comer em silêncio, indiferentes ao adiantado das horas e à chuva que caía copiosamente lá fora. Ouviram então um ruído proveniente das escadas. Em seguida, passos lentos e arrastados e o barulho do interruptor da casa de banho de serviço. Ouviram o puxador do autoclismo, a água a cair da torneira do lavatório e uma porta a fechar-se com força levada por uma corrente de ar.
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    326 À medida queo tempo ia passando e os passos se tornavam mais presentes, Laura sentiu o coração disparar de ansiedade. Estava atónita com a possibilidade das suas suspeitas se tornarem reais. Por fim, Leonardo entrou na cozinha e fê-la acreditar num verdadeiro milagre de Natal. A sua mãe conseguira. Não soube como, mas ela conseguira. - O que queres comer? Luísa perguntou ao genro quando este se sentou à mesa, no seu lugar habitual, com uma imagem visivelmente abatida. - Cabrito ou bacalhau com natas? - Pode ser cabrito - Leonardo afastou o prato de si e permitiu que a sogra o servisse em silêncio. Leonardo sabia que nunca mais iria ser o mesmo. Não podia apagar o que tinha acontecido, nem esquecer o filho, mas tinha o direito de seguir em frente e não se enterrar vivo. Um dia de cada vez, era necessário seguir esse lema sob pena de se afundar numa tristeza profunda e irrecuperável. Passou a tarde de Natal na sala de estar, sentado no sofá, a sentir-se sonolento. Enquanto isso, a chuva lá fora continuava a cair de forma intensa. Olhou para a lareira acesa, graças aos esforços da sogra que de vez em quando lá ia ajeitando as achas com um pau de madeira. Viu o filho sentado no tapete, de olhos postos na televisão, enquanto os seus dedos habilidosos teclavam freneticamente o comando da Playstation. Observou a mulher deitada no divã da sala com um manto sobre as pernas e um livro nas mãos, indiferente aos ponteiros do relógio. Mas nenhuma destas acções foram suficientemente interessantes para prender a sua atenção. Tudo lhe parecia triste, cinzento e vazio, tal como os seus pensamentos vagos. Por fim, a noite caiu e Luísa despediu-se com a promessa de voltar no dia seguinte. Quando a porta se fechou, Leonardo saiu do sofá e dirigiu-se silenciosamente até ao quarto, subindo degrau a degrau, sem se importar com a presença de Laura junto às escadas. Era como se de repente ela se tivesse tornado num ser absolutamente invisível para si. Uma desconhecida com quem tivera a infelicidade de estar casado durante doze anos. Todas as persianas e cortinas do quarto encontravam-se fechadas. Laura ficou parada ali por um longo tempo com receio de entrar sabendo que tinha de o fazer. Lentamente, ela avançou um pouco pelo quarto. Parou novamente e encheu o peito de coragem para interpelar o ex-marido. - Ainda bem que conseguiste descer! O André ficou contente e... eu também.
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    327 Ficaram os doisem silêncio por longo tempo, no interior de um quarto onde haviam partilhado muitos momentos de felicidade e amor. Mas nada disso pareceu contar aos olhos de Leonardo quando este abriu as portas do roupeiro e retirou do seu interior duas almofadas e um cobertor de lã. Agarrou também no seu pijama e dirigiu-se à casa de banho a fim de recolher a sua escova de dentes, a máquina de barbear e todos os outros objectos pessoais que conseguiu segurar nas mãos. Quando regressou ao quarto, encontrou a expressão espantada da ex-mulher. - O que é que estás a fazer? - ela questionou. - A partir de hoje, vou dormir no quarto de hóspedes! Pelo menos até um de nós arranjar um outro sítio para morar. - Mas eu pensei... - Pensaste mal - Leonardo impediu-a de concluir a frase. Naquela noite Laura não conseguiu pregar olho. Levantou-se em silêncio e saiu ao jardim das traseiras, desejando que ninguém visse as lágrimas que brilhavam nos seus olhos. Não estaria ela a pagar pelos seus erros, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Não estaria ela merecidamente a sofrer por durante anos não ter exergado a vida maravilhosa que tinha diante de si? Por nunca ter dado o devido valor ao marido e aos filhos? Quando entrou na sala, Laura serviu-se de várias doses de whisky e ficou ali parada em frente à janela, de olhos fechados, com o copo nas mãos, bebendo goles grandes até se sentir devidamente embriagada. Uma idiotice pensar que o álcool surtiria algum efeito ou então resolveria qualquer um dos seus problemas. Mas na altura, pareceu-lhe a única forma de suplantar toda a dor e a tristeza que estava a sentir. Laura voltou ao quarto e sentou-se na cama com a cabeça à roda. Tinha a sensação de que tudo mudara num abrir e fechar de olhos. Porém, agora, em vez de ter vontade de morrer como acontecera nas últimas semanas, sentia apenas uma inércia de alguém que precisava desesperadamente resgatar-se a si própria. Às quatro da manhã, exausta, depois de reflectir durante horas, adormeceu sobre a cama sem sequer a abrir. Na semana a seguir ao Natal, nem Laura, nem Leonardo e nem André saíram de casa. Não sentiram qualquer necessidade disso. Ainda estavam de luto pela morte de João e recusavam-se a enfrentar os olhares de pena e compaixão das pessoas à sua volta.
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    328 Apenas Luísa ea empregada Antónia tiveram o privilégio de entrar numa casa que já não via a luz do sol. Num lugar onde outrora se ouviram risos e gargalhadas, reinava agora um silêncio ensurdecedor capaz de assustar quem quer que fosse, até mesmo Joana Lima, uma visita que nas últimas semanas se tinha tornado constante. Na primeira noite, Leonardo achou estranha a presença daquela rapariga em sua casa. Nunca antes a tinha visto e nem Laura algum dia falou da existência de uma Interna. Era a primeira vez que alguém da clínica, à excepção de Rita Azevedo, pisava aquela casa. Mas havia qualquer coisa de estranho entre as duas. Um misto de adoração e ódio. De cordialidade e animosidade. Uma ligação exótica que escapava à compreensão do arquitecto sempre que este se ia deitar e as deixava sentadas na grandiosa mesa da sala de estar, submersas em livros sem olhar para os ponteiros do relógio ou para os primeiros raios de sol que atravessavam as janelas denunciando o começo de um novo dia. As longas horas de estudo deixavam Joana exausta. Muitas vezes, Laura desligava as luzes do tecto e da mesinha. Surgia com duas laternas na mão, uma para si e outra para Joana. Com a sala às escuras, tendo apenas uma luz ínfima a incidir sobre os livros, Joana asfalfava-se para acompanhar o ritmo de estudo da sua Orientadora. Mas era esgotante. Nunca se atrevera a estudar assim. Nunca tivera que puxar tanto pela sua concentração. Laura, pelo contrário, parecia não se importar com as longas horas de estudo ou sentir-se afectada por passar as noites em claro na companhia da sua Interna. Era perceptível o quanto estava habituada a estudar. Fazia-o desde os onze anos de idade e continuava a fazê-lo até à data, ainda que actualmente não tivesse razões para isso. Estudava apenas pelo prazer de estudar. - Dói-me a cabeça – Joana confessou, largando a lanterna sobre a mesa e derramando lágrimas de dor já a madrugada ia alta. – Não aguento mais. Laura apontou-lhe a lanterna ao rosto sem piedade. - E assim!? Já te sentes melhor? Joana tapou o rosto com as mãos por não suportar tanta dor. Tal como dissera, já não aguentava mais. Nas últimas semanas, andava a estudar como uma condenada. Deixara de dormir, de comer devidamente e até mesmo de viver uma vida considerada normal. Emagreceu cinco quilos e o seu sistema nervoso alterou- se de uma forma abismal graças aos litros de café que era diariamente obrigada a beber para se manter acordada.
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    329 A poucas semanasdo exame com o qual havia sonhado toda a sua vida, Joana já nem sabia se realmente desejava tudo aquilo. Passara tantos anos obececada com a ideia de se tornar Neurocirurgiã, que nunca se perguntou se de facto se aquela era a profissão que queria escolher para si. Ou não teria sido antes um desejo estúpido e imaturo de querer igualar o seu tio Eduardo Lima? Obrigá-lo a sentir orgulho de uma sobrinha que sempre o colocou num pedestal e sempre mendigou a sua atenção? Passaram-se vários dias e o Ano Novo chegou sem qualquer comemoração. A inauguração do RESORT em Cascais realizou-se no dia trinta e um de Dezembro, mas Leonardo não se sentiu em condições de comparecer ao evento para o qual havia trabalhado durante quatro anos a fio. Ainda se sentia um pouco fraco e desanimado. Mas aos poucos estava a tentar recuperar-se. Resolveu regressar ao trabalho no terceiro dia de Janeiro, não porque se sentisse melhor, mas porque necessitava retomar a sua vida, reconstruí-la e viver em função do único filho que lhe restou. Viver um dia de cada vez, repetia essa frase inúmeras vezes sem conta ainda que na altura ela não lhe fizesse qualquer sentido. - É muito bom ver-te por aqui, Leo – Marta, a secretária, esboçou um sorriso carinhoso quando viu o seu chefe entrar na recepção do escritório. – Muito bom mesmo. Quando Leonardo entrou no seu gabinete, encontrou tudo perfeitamente organizado. Papéis, arquivos, pastas, maquetes, objectos logísticos, agendas de telefone, mantinham-se nos seus devidos lugares há pelo menos várias semanas. Mesmo a escrivaninha de madeira, estava perfeitamente arrumada e a caneta com a qual assinara o último contrato permanecia junto ao telefone. Era como se o tempo não tivesse passado naquela sala ainda que no mundo exterior tudo tivesse mudado drasticamente. Leonardo aproximou-se da secretária e depositou a sua pasta sobre a cadeira. Passou os dedos pela secretária, encontrando nela um porta-retrato dos seus filhos. Era angustiante pensar que um deles havia partido sem se despedir, deixando apenas um mar de saudades. Leonardo segurou o retrato nas mãos e não conseguiu evitar que uma lágrima lhe caísse dos olhos. Tocou levemente na fotografia, cingindo-se ao rosto inocente e alegre de João quando este tinha apenas seis anos de idade longe de imaginar que a sua vida seria tão curta. A manhã foi complicada. Ainda que tivesse tentado retomar o ritmo frenético do trabalho, Leonardo teve alguma dificuldade em conseguir concentrar-se. Deixou a janela do estúdio aberta, a fim de ouvir o inevitável ruído da rua, mas nem isso impediu que os seus pensamentos se perdessem por diversas vezes. Após o terceiro erro consecutivo na planta que estava a construir, o arquitecto deixou a régua de lado e caiu exausto sobre cadeira. Chegou à conclusão que seria impossível fazer alguma coisa de jeito naquela manhã.
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    330 - Posso?! -Francisco Saraiva bateu à porta do escritório. - Podes - Leonardo manteve a cabeça por entre os braços apoiados sobre a mesa de desenho. - A Marta disse-me que estavas aqui dentro. - Sim! A tentar despachar algum trabalho que tenho em atraso. - Não vais almoçar? Podemos ir agora se quiseres. Comemos qualquer coisa num restaurante aqui perto. - Não estou com muita fome, Francisco! Vai tu se quiseres... - Precisas alimentar-te - Francisco aproximou-se da secretária. - Se continuares assim não aguentas o ritmo de trabalho. Se quiseres, posso trazer-te qualquer coisa da rua. Não me custa nada. - Já disse que não tenho fome - Leonardo largou a lapiseira sobre a mesa. - Eu sei que estás abalado por causa da morte do João... - Se sabes, porque é que estás sempre a tocar nesse assunto?! A resposta furiosa de Leonardo obrigou Francisco a remeter-se ao silêncio e a pedir: - Desculpa. - Deixa-me sozinho, por favor! Laura estava sem comer desde o pequeno-almoço. Depois de levar o filho à escola, regressou a casa e trancou-se no escritório. Tinha vestido um camisolão de lã cinzento e umas calças de treino pretas, num apelo total ao conforto. Tirou os sapatos e enroscou os pés nas pernas da cadeira. Vez por outra, parava de martelar o teclado do computador para empurrar os óculos de leitura transparentes para o alto do nariz. Pretendia estudar a tarde inteira, mas não conseguiu.
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    331 Ao final damanhã, os seus pensamentos encontravam-se dispersos e a vontade era nula. Preferiu antes fazer outra coisa. Algo a que não estava habituada, mas que lhe pareceu a tarefa certa para a libertar de todos os fantasmas que a atormentavam. A empregada Antónia estranhou a presença da patroa na cozinha enquanto limpava os vidros das janelas. Viu-a a abrir as portas dos armários, a retirar alguns utensílios, a batedeira e várias formas de bolo. Mais tarde Laura, dirigiu-se à dispensa e a trouxe alguns ingredientes. Encontrou um livro de receitas na gaveta por baixo do microondas e abriu-o na primeira página. Ignorando os latidos de Rufus, virou mais algumas até encontrar a receita que procurava. - Precisa de ajuda, D. Laura? - a empregada perguntou, descendo do escadote junto à marquise. - Não, Antónia! Continue o que está a fazer! Antónia tinha certeza de nunca ter visto tantos doces numa só mesa. Em quatro horas, Laura fez dois bolos, duas tartes, uma mousse de manga e uma Bavaroise de Morango, receita da sua mãe. Mergulhou numa concentração tal, ao ponto de se esquecer dos ponteiros do relógio e de realizar aquela mera tarefa doméstica como se de uma operação cirúrgica se tratasse. Analisou milimetricamente a quantidade do leite, da farinha e da manteiga. Bateu a massa na medida certa. Manteve o forno na temperatura ideal. Deitou fora tudo o que não lhe saiu na perfeição. Nada fugiu ao seu excrutínio. Enquanto terminava de lavar as janelas exteriores, Antónia pensou que a sua patroa tinha enlouquecido. - Vou buscar o André ao colégio - Laura disse ao final da tarde. - Quer que eu faça alguma coisa para o jantar? - O que for mais rápido - Laura enfiou-se na sua gabardina cinzenta. - Se não voltarmos antes das seis, pode sair e deixar a chave em cima da mesinha do corredor. - Sim, senhora - Antónia lançou um olhar fugídio aos doces que ainda permaneciam sobre a mesa da cozinha. - Está tudo com um óptimo aspecto. - Leve o que quiser. - A sério?!
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    332 - Sim! Melhorainda, leve tudo... - foram as últimas palavras de Laura antes de sair da cozinha sem ligar ao olhar perplexo da sua empregada. Laura sentou-se atrás do volante, ajustando o banco da frente e as pernas compridas. Depois ligou o motor e saiu lentamente da garagem conduzindo o seu jipe em direcção aos portões. Quando se viu na estrada simplesmente acelerou sabendo bem que tinha apenas vinte minutos para chegar ao colégio do filho. A enchente de carros à porta do edifício dificultou a tarefa de estacionar o carro. Foi preciso algum tempo até conseguir um espaço ínfimo, e quando isso aconteceu, ela abandonou o veículo fechando as portas com o comando electrónico. Atravessou a rua debaixo de uma chuva miudinha e um frio de cortar à faca, num contraste absoluto com o sorriso radiante que André lhe ofereceu quando saiu pelos portões da escola de braços abertos pronto a aninhar-se no seu peito. O filho parecia verdadeiramente feliz por a ver ali. - Como é que foi o teu dia? – Laura perguntou ao filho enquanto caminhavam de mãos dadas em direcção ao carro. - Foi fixe. - Fixe?! - ela riu-se, animada. - Às vezes pergunto-me onde é que vais buscar estas expressões? - Toda a gente diz. - Está bem – Laura abriu as portas do seu jipe e permitiu que o filho entrasse no banco de trás. – Então vamos para casa, porque hoje o tempo não está nada fixe e a mãe ainda tem que passar pelo supermercado. André entrou no carro e permitiu que a mãe lhe retirasse a mochila dos ombros. Laura levou-a até ao porta-bagagens e em seguida fechou o compartimento com força sem perceber que um vulto estranho a observava de longe. Quando virou o rosto e o reconheceu, o seu coração parou de bater. A sua boca secou e as pernas paralisaram-se. Ela só quis fugir dali, mas uma força oculta manteve-a presa ao solo. - André! Espera-me um minuto - Laura pediu ao filho. - Vais demorar?! - o pequeno perguntou, impaciente.
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    333 - Não! Esperaum pouco! A mãe já volta... Foram precisos vários segundos para que Laura conseguisse reunir forças suficientes que a ajudassem a atravessar a rua movimentada em direcção a um homem que durante meses preencheu a sua vida e o seu imaginário. O caminho cada vez mais curto demonstrou a nitidez dos traços físicos daquele homem. O seu rosto perfeito. Os seus ombros largos. O torso definido. As pernas longas e ligeiramente arqueadas. Todas estas características físicas que pareciam intrínsecas à sua pessoa. Mas ao chegar até ele, não houve dúvidas. Não houve sequer uma réstia da excitação e ou do desejo que ele um dia chegou a provocar em si. Não houve absolutamente nada a não ser um enorme vazio. - Olá – Ricardo cumprimentou-a com um sorriso triste. - Como é que… - Segui-te! Desde a tua casa - ele admitiu, desfazendo-se do cigarro que tinha nas mãos. - Mas não foi por mal. Apenas queria falar contigo. Laura manteve-se expectante. Sem reacção. Sem vontade de fugir ou sequer de continuar ali. - Queria despedir-me! Vou-me embora amanhã de manhã! Vou voltar para os Estados Unidos. - Fico contente que tenhas tomado finalmente essa decisão. - E tu?! Como estás? - Bem. - Fui ao funeral do João, mas assisti a tudo de longe. Não quis que ninguém me visse. Ouviu-se um longo e pesado silêncio. A rua continuava movimentada, mas o coração de Laura deserto. - Espero que tu e o meu irmão voltem a ser felizes. Laura continuou a olhar para Ricardo sem o conseguir reconhecer.
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    334 – Então… éisso… – ele sorriu carinhosamente. – Até um dia... - Adeus - ela disse, resoluta. - Adeus. Estranho despedirem-se apenas com um beijo na face. Frio, cerimonioso e rápido. Como se nunca se tivessem conhecido, como se nunca tivessem partilhado a mesma cama ou feito loucuras com os seus corpos. Eram agora dois meros desconhecidos. Ao ver a cunhada atravessar novamente a rua em direcção ao carro, enquanto os seus cabelos soltos e a sua gabardina cinzenta esvoaçavam ao sabor do vento, Ricardo teve a certeza de que aquela era a última vez que a via.
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    335 37 Numa rotina instaladade alguém que resolvera tirar férias após vinte anos de trabalho contínuo, Laura aceitou condignamente o papel da dona de casa perfeita. Levava e trazia o filho do colégio todos os dias, ajudava a empregada a arrumar a casa, cortava a relva do jardim e levava inclusive o Rufus a passear ao redor da vizinhança. Passaram também a ser usuais as suas corridas ao final da manhã, num ritmo frenético, levando o seu Ipod e o auscultador nos ouvidos. Ainda que chovesse torrencialmente, ela não abrandava os passos ou se deixava esmorecer pela longa estrada que se estendia à frente dos seus olhos. Por vezes, chegava a casa completamente encharcada depois de duas horas a correr debaixo de uma chuva infernal. A medicina fora posta de lado, tal como a sua vontade em regressar à vida activa. Laura apenas se mantinha actualizada com os últimos avanços médicos e continuava a ajudar a sua Interna nos estudos intensivos para o exame de especialização marcado no final de Janeiro. Mas o que ninguém sabia era o segredo que ela se recusava a revelar quando saía mais cedo para buscar o filho no colégio. Todas as tardes, Laura dirigia-se ao cemitério para pôr flores na campa de João. Acendia várias velas, limpava o espaço com carinho e ficava um grande bocado a pensar nos tempos felizes que tinham passado. Tudo parecia agora desperdiçado apenas por causa dum terrível acidente. Parecia tão injusto. Tão cruel. E quando o desespero tomava conta de si ela sentava-se junto à campa e chorava por tudo o que havia perdido e por tudo o que o filho estava a perder. Nunca o veria crescer, nunca participaria da sua benção de finalistas, não assistiria ao seu casamento, não conheceria os seus netos e não envelheceria com a nítida certeza de ter cumprido o seu dever de mãe. Será que aquela maldita dor algum dia iria passar, ela perguntava-se vezes sem conta. Será que algum dia ela voltaria a sentir- se viva outra vez?
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    336 - D. Laura...- a empregada chamou-a assim que ela entrou na cozinha após uma longa corrida pelas redondezas. - Diga, Antónia - Laura desfez-se do Ipod que trazia no bolso das calças e também do casaco de treino que levou na cintura. - Chegou esta carta hoje de manhã para o Sr.º Leonardo! Acho que é do tribunal. Laura aceitou a carta das mãos da empregada e afastou-se dela a fim de manter a sua privacidade. Com as mãos trémulas, abriu o envelope e retirou duas páginas do seu interior. A príncipio as palavras lhe pareceram turvas e sem sentido, mas rapidamente se transformaram numa realidade irrefutável à qual ela tinha vindo a fugir nos últimos meses. Confirmava-se a audiência do divórcio litigioso pedido por Leonardo. A sessão estava marcada para dali a duas semanas. - Está tudo bem, D. Laura? - Antónia pressentiu a preocupação da sua patroa. - Está - ela voltou a guardar a carta no envelope. - Vou subir e tomar um banho! Volto já... Nos últimos dias, era usual Leonardo chegar a casa muito tarde. Fazia-o propositadamente, permanecendo no escritório a inventar trabalho e coisas para fazer numa tentativa desesperada de não ser obrigado a olhar para a cara da ex- mulher que parecia segui-lo com os olhos para onde quer que fosse. Mantendo os cotovelos sobre a mesa de desenho, o arquitecto permitiu-se olhar através da janela e divagar um pouco, enquanto as luzes da cidade indicavam o final de mais um dia. É só mais um dia. Só tenho que aguentar mais um dia, ele pensava ao acordar e também quando se preparava para dormir no quarto de hóspedes. Considerava a possibilidade de sair, convidar um amigo para tomar um copo, mas sempre que pegava no telefone faltavam-lhe forças para percorrer a sua lista de contactos. Não lhe apetecia estar com ninguém, falar com ninguém ou tão pouco conversar sobre assuntos triviais. Ficou ali, inerte, a olhar para as janelas dos prédios vizinhos, tentando adivinhar quem eram aquelas pessoas atrás dos vidros e quais seriam as suas histórias de vida. Tão ridículo. Poisou uma das mãos sobre a testa e brincou com os seus óculos de leitura em cima da mesa tentando encontrar motivos para estar a fazer uma figura tão triste. Tinha uma mão firme e muito bem treinada para desenhar, por isso os traços sobre o papel foram surgindo naturalmente sem grande esforço. Quando deu por si já eram quase dez da noite e o segurança avisou que iria fechar o edifício.
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    337 Leonardo não teveoutro remédio a não ser recolher os seus pertences e sair do escritório em direcção ao carro estacionado no parque aberto do condomínio. Durante a condução, pensou inúmeras vezes em atirar o seu veículo para debaixo do camião de carga que seguia à sua frente. Ideias suícidas atravessavam diariamente o seu pensamento ainda que ele as tentasse afastar com as poucas forças que tinha. Já não era o mesmo que todos conheciam. Já não era alegre, bem- disposto, brincalhão, feliz com a sua vida e com as pessoas que faziam parte dela. Nem sequer o contacto com o único filho era suficiente para querer continuar a viver. Ele só via uma névoa cinzenta à frente e aquele maldito camião que ainda se mantinha no seu caminho. Acelerou o carro e encostou-se à traseira do veículo. Era um questão de segundos, uma fracção, um pouco mais de acelerador, e pronto, estava feito. Acabar-se-ia ali todo o seu sofrimento e angústia. Contudo, na altura, surgiu-lhe diante dos olhos a visão do rosto de André e de Laura. Os dois corriam num campo coberto de flores de mãos dadas e chamavam efusivamente por si entre risos e gargalhadas. Pai, pai , André gritava alegre. Leo, vem, a voz de Laura incitava-o a correr atrás dos dois. Enquanto isso, do lado oposto, João permanecia sério e erecto a olhar para si. Quando Leonardo se voltou para ele, o pequeno correu em direcção a uma grandiosa porta de madeira e abriu-a de rompante. Virou-se novamente para trás, acenou uma única vez e sorriu ao pai antes de fechar a porta definitivamente. Foi o quanto baste para o trazer de volta à realidade. Sem meias medidas, Leonardo travou o carro com força e ouviu um coro de buzinas atrás de si, tal como os insultos de um condutor que se viu obrigado a fazer uma manobra brusca para o ultrapassar. Foi por pouco. Foi por muito pouco que não cometeu a maior loucura da sua vida, e enquanto a imagem do camião desaparecia numa enorme mancha vermelha, a única coisa que Leonardo quis foi voltar para casa. Finalmente. Nunca tivera um desejo tão forte. - Estava preocupada contigo - Laura afirmou quando o marido abriu a porta da rua com uma expressão visivelmente destroçada. - Demoraste. - Estive a trabalhar até tarde. - Já é quase meia-noite. - E daí!? - a pergunta de Leonardo saiu ríspida. - O André ficou à espera que chegasses! Ele queria mostrar-te a medalha que ganhou hoje no campeonato de Judo.
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    338 - Amanhã falocom ele. - Ele precisa de ti, Leo - a voz de Laura saiu trémula. - Engraçado estares-me a dizer isso! Depois de tudo o que aconteceu... Leonardo passou por Laura e esbarrou-se num dos seus ombros com violência. - Até quando vais continuar a castigar-me? - ela perguntou em plena voz, mantendo-se de costas para ele. - Eu não estou a castigar ninguém. - Hoje chegou uma carta do tribunal. A primeira audiência do divórcio foi marcada para daqui a duas semanas. Ouviu-se um longo silêncio no corredor. - Vamos mesmo continuar com isto? - Laura voltou-se para Leonardo de lágrimas nos olhos. - Já não chega tudo o que passámos? Tudo o que perdemos?! Queres destruir o pouco que nos resta? - Tu é que destruíste tudo, não vês?! - Leonardo gritou, assustando-a com a sua voz imperiosa. - Foste tu que destruíste a nossa família e agora queres colar os cacos que sobraram. Mas não adianta. Nada do que possas fazer vai trazer o nosso filho de volta e nada do que me possas dizer vai-me fazer acreditar novamente em ti. Eu nem consigo olhar para a tua cara sem sentir nojo. Raiva! Ódio! Eu odeio-te, Laura...! Odeio-te...! E o meu maior desejo era que tu tivesses morrido em vez do nosso filho. Ao ouvir aquelas palavras tão violentas dirigidas à sua pessoa, Laura fechou os olhos e permitiu que duas lágrimas lhe caíssem no rosto gelado. Não foi capaz de dizer nada. Não foi capaz de argumentar o que quer que fosse. Ela sabia que ele tinha razão. Havia lágrimas nos olhos de Leonardo enquanto ela subia em direcção aos quartos. Havia tristeza também. Desespero. Mas não havia ódio. Ele mentiu. Contrariamente ao que dissera, não a odiava. Nunca fora capaz de sentir tal coisa por uma mulher que continuava a possuir a sua mente e o seu coração de uma forma irrefutável. A distância entre a querer longe de si e de a querer manter nos seus braços era muito curta.
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    339 Havia uma sensaçãode desespero e de vulnerabilidade. Ele queria-a, desejava-a. Admitiu esse facto a si próprio, em silêncio, quando a viu desaparecer ao cimo das escadas. Queria-a com uma intensidade tal, que por vezes, sentia-se prestes a sufocar. A madrugada já ia longa quando Leonardo saiu do quarto de hóspedes e percorreu o pequeno hall do piso superior. Viu Laura sentada ao cimo das escadas, no meio da escuridão, com a cabeça encostada à parede. Uma força oculta impeliu- o a aproximar-se dela e a sentar-se ao seu lado. Não soube muito bem porque é que o fez. Já não tinham absolutamente nada para dizer um ao outro. - Eu não queria que isto tivesse terminado assim... - Laura sentiu um nó invadir- lhe a garganta e os olhos encherem-se novamente de lágrimas. - Juro que não! Não queria ter-te magoado, não queria ter-te traído, não queria ter causado tanto mal a ti e à nossa família. Se eu pudesse...não sei... se eu pudesse voltar o tempo atrás, juro que jamais voltaria a fazer a mesma coisa. Se eu pudesse trazer o João de volta ou trocar a minha vida pela dele, eu faria isso sem pestanejar. Eu sei que o que fiz não tem perdão. Sei também que tens todas as razões para sentir nojo de mim e para me odiar. Nunca fui uma boa mulher para ti, nunca te mereci. Nunca te dei o devido valor, ainda que tivesses sido o melhor marido do mundo. Mas ainda assim... eu queria que soubesses que... - ela voltou-se para ele e os seus rostos finalmente se cruzaram naquela habitação às escuras. - Apesar de nem sempre ter dito em palavras ou de nem sempre ter demonstrado em gestos, eu sempre te amei. Sempre! Em todos os momentos! E continuo a amar-te com todas as minhas forças... Leonardo baixou a cabeça, desolado. Sentiu-se prestes a sufocar de tanta dor. - Espero que um dia me consigas perdoar! Que consigas olhar para mim sem raiva, nojo ou rancor. Porque eu sei que nunca irei conseguir fazer isso por mim... Leonardo tomou a cabeça de Laura sem dizer nada e encostou-a ao seu ombro direito. Ficaram ali os dois, sentados no cimo das escadas, abraçados, enquanto ela chorava todas as lágrimas que ainda lhe restavam. Era horrível aquela sensação de perda, inutilidade e inércia que sem querer se apossou da sua mente e do seu corpo, cansado de tanto sofrimento. Ela só queria acabar com aquilo de uma vez e morrer em paz. - Nós vamos conseguir ultrapassar isto... - a voz de Leonardo saiu rouca aos ouvidos de Laura. - Vamos conseguir!
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    340 38 Com os cabelosainda molhados do banho da manhã, Laura entrou na cozinha e iniciou o pequeno-almoço. Era Sábado, a empregada encontrava-se de folga e não havia planos para um dia que se avizinhava igual a todos os outros. No piso de cima, o filho e o marido dormiam profundamente. Infelizmente o mesmo não se passou com ela. Não conseguiu pregar olho durante a noite toda. Sentia um misto de sensações diferentes. A alegria de uma possível reconciliação com Leonardo e a tristeza de não saber o que o futuro lhes reservava. Mas havia esperança e isso era suficiente para que continuasse a lutar até ao fim. A cozinha emanava um aroma quente e familiar. As tostas, o leite, o café, sumo, frutas e cereais, encontravam-se sobre a mesa, tal como os ovos mexidos e o bacon que Laura fez questão de preparar para o filho e para o marido. Mais tarde, ela abriu a marquise e permitiu que o cão Rufus entrasse na habitação com as suas patas sujas de lama. Preparou-lhe também o leite morno junto à máquina de lavar e ofereceu-lhe três fatias de bacon, devoradas em poucos segundos. Em seguida, afagou-lhe o pelo bem cuidado e afastou-se, deixando-o a terminar de beber o seu leite em paz. Pai e filho chegaram à cozinha pouco tempo depois numa conversa animada. André contou as peripécias da sua excelente partipação na prova de Judo. Estava orgulhoso, contente e ávido de mostrar ao pai o seu talento para a luta. Mostrava em gestos como conseguira derrubar o adversário e como havia sido amplamente elogiado pelo professor no final da prova. Leonardo ouviu-o com atenção e não deixou de tecer alguns comentários. Recebeu a medalha das mãos do filho e colocou-a no pescoço - um gesto paternal que provocou um sorriso caloroso à sua mulher enquanto ela os observava de longe, junto à bancada da cozinha.
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    341 Depois do almoço,Leonardo saiu ao jardim na companhia de André e Rufus. Tentou ocupar a sua mente na única arrecadação da casa reconstruíndo parte da casota do cão que ficara fragilizada pela excessiva queda de granizo poucos dias antes. Laura arrumou a cozinha e aproximou-se da marquise de braços cruzados. Permaneceu atenta ao movimento do marido, do filho e de Rufus, que entretidos com a reconstrução da casota, nem sequer se deram conta do frio arrebatador que se fazia sentir lá fora. Observou também Leonardo a ensinar o filho a martelar, a medir as ripas de madeira e a colocá-las no sítio certo. Consertaram o telhado da casota de Rufus e pintaram-na de vermelho cor-de-tijolo. O marido sempre tivera um talento especial para a construção, ela reparou. O filho parecia seguir-lhe as pisadas. - Querem ajuda? - Laura saiu ao jardim envolta no seu robe azul turquesa. - Não - a resposta de Leonardo saiu muito menos ríspida e odiosa do que em momentos anteriores. - Mas obrigado por perguntares. A data do exame de especialização de Joana Lima aproximou-se rapidamente, e com ela aumentaram as suas sessões de estudo em casa da sua Orientadora. Na última semana, era habitual a sua presença de manhã à noite. Ela e Laura estudavam durante várias horas, sem ligar a mais nada à sua volta ou à estranheza de Leonardo que continuava sem entender o porquê da mulher se empenhar tanto a ajudar uma simples Interna. No último fim-de-semana que antecedeu ao dia da prova, Joana e Laura reveram alguns aspectos da matéria e realizaram inúmeros testes preparativos. Quando terminaram - já a noite havia irrompido as janelas - Leonardo saiu da cozinha e voltou a surpreendê-las à volta da mesa da sala a arrumar livros, cadernos e apontamentos. - Fica connosco para jantar. - Eu?! - Joana demonstrou-se surpresa com o convite do marido da sua Orientadora. - Já que passaste aqui o dia todo, aproveita e janta connosco antes de te ires embora. Joana voltou-se para Laura, como se estivesse mais uma vez à espera da sua aprovação. - Eu não sei se...
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    342 - Vou pôrmais um prato na mesa – a médica afirmou, momentos antes de abandonar a sala. Joana jamais imaginou um dia sentar-se à mesma mesa que Laura, Leonardo e o filho de ambos. Era demasiado louco. Vê-los ali tão perto, a comportarem-se como uma família normal, servindo-se do frango grelhado e das batatas fritas que Leonardo trouxera da rua, indiferentes ao ruído proveniente da televisão. Parecia de facto tudo demasiado irreal aos seus olhos. Uma alegria irrompeu-lhe o coração e uma angústia também. Sem saber como se mexer naquela mesa e a tremer como varas verdes, ela aguardou que a autorizassem a comer. - Quantos anos tens? A pergunta inocente de André serviu como um quebra gelo numa mesa silenciosa onde durante largos minutos apenas se ouviram o barulho das taças de vidro e dos talheres a tilintar nos pratos. - Vinte e três. - Eu tenho oito. - A nossa diferença de idades não é assim tão grande – Joana brincou com a criança. - Vais à escola? - Já não. - Então porque é que estás sempre a estudar? - André! Senta-te direito e come o que tens no prato - Laura interrompeu o interrogatório do filho. - Porque é que estás sempre a estudar? – o pequeno insistiu, depois de ter obedecido às ordens da mãe. - Porque amanhã tenho uma prova muito importante que pode decidir o meu futuro. Quero muito ser Neurocirurgiã e para isso tenho que estudar muito. - Queres ser igual à minha mãe?
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    343 Joana e Lauratrocaram um olhar cúmplice. A primeira respondeu: - Era bom se conseguisse. - A minha mãe trata da cabeça das pessoas – André continuou a brincar com as batatas que tinha no prato. – Se tiveres uma doença, ela abre-te a cabeça e mexe lá dentro. Depois ficas boa. Laura balançou a cabeça e sorriu ao ver-se confrontada com a inocência do filho. - E tu?! O que é que queres ser quando fores grande? - Joana perguntou. - Quero ser médico de animais. - Veterinário – Laura emendou. – É assim que se diz. - Engraçado! Na semana passada, disseste-me que querias ser taxista. Ontem que querias ser arquitecto – Leonardo meteu-se na conversa depois de ter bebido um pequeno gole de vinho. – Agora já queres ser veterinário? - Eu quero ser veterinário, arquitecto e taxista – a resposta de André arrancou algumas risadas à mesa. - Três profissões que complementam na perfeição, não haja dúvida – Laura observou. O jantar prolongou-se por algumas horas e revelou-se uma agradável surpresa. As conversas descabidas de André serviram para que Joana se sentisse finalmente à vontade na presença de Laura e Leonardo. Era fascinante observá-los, a Interna chegou a essa conclusão. Eram um casal reservado, discreto e pouco dado a ostentações, mas pareciam ter uma ligação profunda que se estendia muito para além de uma simples conexão física. Apesar do olhar triste, escondido a muito custo, Joana percebeu que Leonardo era um homem bom. Não possuía vaidades, nem sequer nas roupas que vestia. Era calmo, simpático e afável - até mesmo para com ela - perguntando-lhe alguns aspectos formais sobre a sua vida, a sua família e os seus objectivos profissionais, sem nunca se tornar invasivo. Os seus olhos transpareciam honestidade e seriedade, motivo pelo qual Joana se arrependeu silenciosamente de algum dia lhe ter passado pela cabeça revelar a verdade acerca do caso de Laura com o seu irmão. Leonardo não merecia que ela o fizesse. Nem ele e nem a sua família atingida por uma tragédia sem precedentes.
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    344 Durante o jantar,Joana também manteve os olhos postos em Laura. Percebeu que a médica não era aquela mulher seca e fria que se apresentava todos os dias na clínica onde chegaram um dia a trabalhar juntas. Nem sempre trazia no rosto uma expressão dura e odiosa. Debaixo daquela capa em que fazia questão de se esconder, existia uma mulher igual a todas as outras. Um ser humano absolutamente normal, capaz de comer uma peça de frango com as mãos, vestir umas simples calças de ganga, manter o cabelo preso bem acima da nuca e andar descalça pela cozinha, enquanto levantava a mesa do jantar com a ajuda do marido. - Eu ajudo-a, Dr.ª Laura – Joana adiantou-se, também ela levando as loiças sujas até à bancada do lava-loiças. - Não precisas chamar-me Dr.ª... A resposta de Laura intorpeceu os sentidos de Joana. - Chama-me Laura. Joana realizou o exame no dia seguinte logo pela manhã. Passou com distinção, alcançando a melhor nota no seu grupo de exames. 19,9 valores. Exactamente a mesma nota atingida pela sua Orientadora aquando da realização dos mesmos exames. Concluído o primeiro ano de Internato, Joana sabia que passaria os próximos cinco dedicada inteiramente à área de Neurocirurgia. Os pais foram os primeiros a saber dos resultados. Ficaram radiantes. Em seguida, telefonou ao seu tio Eduardo Lima que não se mostrou particularmente entusiasmado com a notícia. O médico atendeu-a no final de um plantão com um seco parabéns e pouco mais. Com as mãos trémulas, Joana encheu o peito de coragem e utilizou o seu telemóvel para se comunicar com a única pessoa que considerava a responsável pelo seu sucesso no exame. Laura Alves. Escreveu-lhe uma mensagem de agradecimento, simples e curta, sem a audácia de esperar uma resposta de volta. Mas Laura respondeu. Pouco tempo depois. Parou no meio de uma intensa corrida perto da sua casa e colocou as mãos em cima dos joelhos. Ofegante, alcançou o seu telemóvel no bolso lateral das calças e observou o número da sua Interna irromper o visor através de uma mensagem de texto. Aguardou alguns segundos até recuperar a respiração e responder de forma breve: - “Não tens que agradecer! O êxito foi teu! Parabéns…”
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    345 39 Demorou algum tempo.A sua vida levou uma enorme volta, mudando absolutamente tudo na sua existência. A profissão, o possível divórcio, a morte do filho. No ano anterior não fizera outra coisa senão enfrentar alterações dolorosas na sua vida, culpando-se por muitas vezes ter tomado decisões erradas e inconsequentes. Um ano após a morte de João, Laura acordou cedo e levou André ao colégio. No regresso, passou pelo cemitério e cuidou mais uma vez da campa do filho com um aprumo que lhe era característico. Luísa, a sua mãe, chegou pouco tempo depois e ajudou-a numa tarefa que a cada dia se tornava menos dolorosa, servindo mais como uma expiação das suas culpas e fragilidades. Não falaram absolutamente nada até à chegada de Rita Azevedo e Sofia Saraiva. Também elas não se esqueceram daquela data infame e quiseram prestar a devida homenagem ao pequeno João. Levaram flores e palavras de alento. As quatro mulheres saíram do cemitério poucos minutos antes do meio-dia. Fazia um dia radiante - como há muito não se via - pouco usual para aquela altura do ano. O sol brilhava forte e abrasador aquecendo os corpos das pessoas que por ali passavam. Uma senhora idosa mantinha-se por debaixo da sua sombrinha, vendendo flores e ocupando o tempo a ler uma revista que trouxera de casa. Laura, Luísa, Rita e Sofia passaram por ela e também por um grupo de pessoas que aguardavam a saída de um caixão do interior da carrinha funerária. Ouviram alguns soluços e uma comoção semelhante aquando do enterro de João. As flores cobriam todo o chão e era possível ver uma faixa enorme, roxa, com a frase: Descansa em paz, adorado pai, marido e avô. Todos os dias morriam pessoas. Das mais variadas raças, idades e estractos sociais. Todos os dias, familiares e amigos sofriam a perda de um ente querido. Mas isso não diminuia o sofrimento. A morte de uma única pessoa, ainda que ela não tivesse a mínima importância para o resto mundo, consistia na maior brutalidade que um ser humano era obrigado a vivenciar.
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    346 Laura sabia agoradisso melhor que ninguém. Após tantos anos a lidar com a morte de perto, tendo pacientes a morrerem-lhe diariamente nas mãos, nunca lhe passou pela cabeça a tragédia dolorosa que era perder alguém próximo. Alguém que nos faz falta. Que é parte de nós. Rita e Sofia despediram-se pouco tempo depois. A primeira iria trabalhar na clínica e a segunda fazia agora voluntariado numa instituição beneficiente de apoio a crianças abandonadas. Aos trinta e oito anos, crescia-lhe também pela primeira vez o desejo de ser mãe. Confessara essa ideia ao marido e ele surpreendentemente mostrou-se receptivo em iniciar os tratamentos de fertilização. - Onde é que vais agora? - Luísa perguntou à filha quando atravessaram a rua em direcção ao parque de estacionamento. - Para casa! Mas levo-te primeiro à tua - Laura encontrou as chaves do carro no bolso do casaco. - Então vamos logo! Ainda tenho imensas coisas para fazer. A mãe nunca tinha absolutamente nada para fazer. Laura sabia. Mas era o jeito dela. Luísa nunca dava o braço a torcer, inventando para si uma vida repleta de tarefas a fim de esconder a sua solidão diária. Ao longo do último ano, Laura pensou várias vezes em convidá-la para morar em sua casa. Contudo, a racionalidade falou mais alto do que o desejo de criar uma relação perfeita com a sua progenitora. Luísa possuía uma personalidade muito pópria e ainda que a sua convivência com o genro tivesse melhorado a olhos vistos, a verdade é que Laura tinha a consciência de que seria praticamente impossível mantê-los a viver na mesma casa por mais de vinte e quatro horas. - Estás entregue - Laura estacionou o carro em frente ao prédio da sua mãe. - Obrigada - Luísa desfez-se do cinto de segurança e abriu a porta lateral. Pensou em sair sem se despedir da filha, mas algo muito forte a fez a recuar nos seus intentos. Perguntou: - Olha lá! O que achas de tu, o André e o imprestável do teu marido virem almoçar este domingo cá em casa? Laura sorriu perante a falta de jeito da mãe em elaborar um convite gentil. - Está bem! Combinado. - Espero-vos à uma em ponto! Não se atrasem...
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    347 Após ter recebidoum beijo desajeitado de Luísa na face direita, Laura aguardou sua a entrada no prédio e voltou a arrancar o carro. Dirigiu-o até ao centro da cidade sem prestar atenção às notícias transmitidas na rádio. Pelo caminho, viu-se distraída por um conjunto de árvores, pelo tráfico moderado, um acidente sem gravidade perto de uma bomba de gasolina e o sorriso de uma criança a atravessar a passadeira na companhia da sua mãe. Eram estes pequenos detalhes que compunham agora a sua vida, tornando-a num misto de acções desconexas que não lhe traziam nada mais do que a certeza de que a sua existência se havia tornado em tudo o que ela nunca pensou que seria. Pacífica. Prestes a chegar a casa, Laura foi surpreendida por um telefonema inesperado. A vibração do seu telemóvel sobre a caixa de velocidades obrigou-a a abrandar a marcha e a aceitar a intimação de Eduardo Lima para se juntar a ele dali a duas horas. Um café informal, foi a única coisa que o Neurocirurgião adiantou com a sua voz imponente. Laura chegou quinze minutos antes da hora marcada. Entrou num majestoso hotel no centro da cidade e seguiu apressada até ao bar, ajeitando os cabelos soltos e o seu blazer preto combinado com um vestido pelos joelhos da mesma cor. Deparou-se com um espaço amplo e bem decorado. O ambiente era permeado por uma iluminação suave, tendo como destaque o agradável tom dourado das cortinas e dos adornos trabalhados nas paredes e no tecto. Pequenas mesas redondas castanhas em madeira encontravam-se distribuídas por todo o salão, e embora a maioria delas estivesse ocupada, o nível de ruído era muito baixo. Ao fundo do salão, Laura avistou a figura da pessoa que tanto procurava. Viu-o de longe, sentado numa mesa perto da janela, compenetrado na leitura de um livro científico. Naquela tarde, contrariamente aos outros dias, Eduardo Lima apresentava-se com uma roupa casual. Camisa azul e calças cor de caqui, em contraste absoluto com a bata branca que sempre vestia. Laura não se lembrava de alguma vez o ter visto assim. Parecia muito mais novo. Menos sério. Menos aterrador. - Boa tarde, Dr.º Eduardo - ela aproximou-se pouco tempo depois. - Boa tarde, Dr.ª Laura – o médico largou o livro sobre a mesa e aceitou o aperto de mão firme. – Sente-se. - Obrigada. - Como tem passado? - Bem! E o Dr.º?
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    348 - Também -Eduardo forçou um sorriso inigmático. – Antes de mais, queria agradecer a excelente ajuda que ofereceu à minha sobrinha. - Não fiz mais do que a minha obrigação. - Confesso que queria ter entrado em contacto consigo há mais tempo. Queria saber como estava depois da morte do seu filho. Sei que já se passou um ano… - Hoje fez um ano. - Sinto muito. - Obrigada - Laura esboçou um ligeiro sorriso. - Soube que deixou de trabalhar na clínica. O empregado do bar chegou à mesa com os pedidos de Eduardo. Dois cafés e duas garrafas de água. - Acompanhe-me no café - o Neurocirurgião incitou Laura a aceitar uma chávena. - Obrigada - ela estendeu a mão e alcançou a xícara, puxando-a para junto de si. - Mais alguma coisa em que lhes possa ser útil? - o empregado perguntou. - Não, obrigado - Eduardo respondeu secamente. - Pode ir. - Com licença. O funcionário voltou a afastar-se da mesa e deixou Laura de olhos postos no seu ex-Orientador enquanto lhe tentava decifrar os pensamentos. Porque motivo ele a havia chamado ali? - Neste momento o que é que faz? - Eduardo perguntou sem cerimónias. - Nada - pela primeira vez essa palavra não soou mal aos ouvidos de Laura. - Há um ano que não exerço.
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    349 - Folgo emsaber que tirou um tempo para si... - Eduardo agitou a saqueta do açúcar antes de a abrir e a colocar no interior da sua chávena. - É preciso ter-se coragem para isso. Eu nunca tive essa coragem. - Estava a precisar desse tempo – Laura saboreou o seu primeiro gole de café. - Um ano é uma eternidade na vida de um Neurocirurgião, sabia!? - Tenho-me mantido actualizada. - Não é a mesma coisa! Precisa urgentemente voltar a exercer - a afirmação de Eduardo soou como uma ordem. - Ainda que não me sinta preparada? - Dr.ª Laura! Você já nasceu preparada! Não foi por acaso que a escolhi de entre centenas de alunos para ser minha Interna. Sabia que iria alcançar muito sucesso e sabia também que corria o risco de um dia me igualar. Moldei-a à minha figura, lembra-se? Transformei-a num verdadeiro animal de caça sempre à espera de uma oportunidade, de um deslize de um adversário. Pois bem! Hoje posso dizer que a aluna igualou o professor! Não há mais nada que lhe possa ensinar que você já não saiba. E acredite, custa-me muito dizer isso. Eu não quero competir contra si. Já não tenho idade e nem forças para cometer tamanha ousadia... Laura manteve-se inerte perante o discurso de Eduardo sem entender onde ele queria chegar. - Assim sendo... - ele continuou sem desviar os olhos dela. - Já que não posso lutar, convido-a a juntar-se a mim. - Desculpe, mas não percebi… - Recentemente, recebi um convite para dirigir uma Clínica especializada no Dubai. Não tive como recusar. Aceitei e dentro de dois meses estarei de partida para lá. - Vai trabalhar para o Dubai!? - Sim! E quero levá-la comigo.
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    350 - Desculpe?! -Laura voltou a perguntar, incrédula. - Ouviu bem, Dr.ª Laura! Eu quero tê-la na minha equipa e quero levá-la comigo para o Dubai para ocupar o cargo de Chefe de Equipa Médico-Cirúrgica. Quero-a a trabalhar para mim a qualquer custo e quem sabe um dia ocupar o meu lugar quando tiver que deixar funções. O quádruplo do ordenado que auferia na clínica onde trabalhava, estadia paga, veículo próprio e todas as regalias que quiser. Você manda! Faça o seu preço! Laura mostrou-se petrificada com o convite e por vários segundos não soube o que responder. Eduardo pôde sentir o animal de caça lutar contra as suas responsabilidades. - Se eu aceitasse... - ela perguntou tremulamente. - Quanto tempo ficaríamos no Dubai? - Eu não lhe estou a propôr um emprego sazonal. Se aceitar, é para sempre...!
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    351 40 Laura regressou acasa com a cabeça a mil, cheia de dúvidas e incertezas relativamente à decisão que deveria tomar. Quem sabe numa outra altura aquele convite não seria o maior presente dos céus? Quem sabe não seria aquele o patamar que sempre quisera atingir na sua carreira? Ela sempre ambicionou uma carreira internacional desde que finalizara o seu Internato. Recebeu inclusive vários convites para trabalhar em países como o Reino Unido, Austrália, Irlanda, Estados Unidos, Bélgica, Mónaco, entre outros. Mas nunca aceitou por se ver presa ao seu casamento e às suas obrigações familiares. Sempre colocou Leonardo e os filhos em primeiro lugar, culpabilizando-os em silêncio por nunca ter tido a coragem de ganhar asas e voar em direcção ao grande sonho de se tornar na melhor Neurocirurgiã do mundo. Não apenas em Portugal, um país com pouco mais de dez milhões de habitantes. Portugal era demasiado pequeno para as suas ambições. Sempre fora. Demasiado pequeno para as investigações que sonhava fazer, para os objectivos que sonhava alcançar e para o reconhecimento que desejava obter. Naquela noite, Leonardo achou a mulher especialmente estranha e pensativa. Não falou e nem comeu quase nada durante o jantar. Refugiou-se no lava-loiças e permaneceu ali, a fingir que lavava os pratos, os copos e os talheres, ainda que os seus pensamentos se encontrassem a quilómetros dali. Preocupado, ele regressou à cozinha e encontrou-a junto à bancada a secar a loiça. Perguntou se estava tudo bem e ela respondeu que sim. Ele não acreditou. Passaram-se vários dias e Laura continuou a deambular pela casa tentando encontrar a melhor resposta para as suas dúvidas. Era Domingo e o tempo apresentava-se mais uma vez chuvoso. O marido estava na sala ligado ao seu computador portátil, enquanto o filho, sentado sobre o tapete, jogava à Playstation sem ligar às traquinices de Rufus que lhe continuava a roer os cadernos e os lápis de cor espalhados pelo chão.
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    352 Mergulhada numa nostalgiae lentidão inerentes ao seu estado de espírito, Laura subiu ao piso dos quartos e refugiou-se no quarto dos filhos. Impressionante como a decoração ainda se mantinha igual. Duas camas. Dois roupeiros. Duas mesinhas de cabeceira. Nada mudara desde a morte de João e já havia passado um ano. Era como se todos estivesse à espera do milagre da sua volta, embora soubessem que isso seria impossível de acontecer. Laura sentou-se sobre a cama do filho e não conseguiu evitar as lágrimas que se apossaram dos seus olhos. De repente, sorriu quando se lembrou das coisas que João fazia ou dizia. Parecia perdida noutro mundo. Então, sozinha, começou a encaixotar as coisas dele. João possuía tão poucas coisas como se a sua vivência neste mundo tivesse sido uma simples passagem. Tinha livros, quebra-cabeças, brinquedos de infância, pijamas, roupas e sapatos. Chorosa, cheirou-lhe as roupas e a almofada guardada no roupeiro. Esforçou-se para não parecer desolada, tentou até sorrir enquanto lhe arrumava os pertences, mas não conseguiu aguentar muito mais. Caiu na cama num choro profundo e tapou o rosto com as mãos. Leonardo compreendeu-a. Havia dias assim. Dias em que tudo parecia voltar à memória, tornando-se difícil suportar tanta dor e seguir em frente. - Queres ajuda? - ele sentou-se ao lado dela e beijou-lhe a fonte da cabeça com carinho. - Pensei que fosse conseguir fazer isto sozinha, mas acho que ainda não estou preparada - Laura limpou o rosto vermelho e observou a expressão compreensiva do marido. - Não precisamos ter pressa - Leonardo murmurou, beijando-lhe os cabelos mais uma vez. - Eu sei. - Eu também ainda não consegui visitar a campa dele. Nisso, tens sido mais corajosa que eu. - Será que esta dor algum dia vai passar? - Laura observou o marido com os olhos rasos de lágrimas. - Duvido - Leonardo foi sincero na sua resposta. - Porque eu queria que passasse! Queria voltar a sentir-me viva outra vez... - Tens a certeza que é só isso que te está a apoquentar?!
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    353 Laura mergulhou nosolhos do marido, mas sentiu-se incapaz de lhe mentir. - Eu não te contei isto antes... - colocou os cabelos atrás das orelhas a fim de ganhar a coragem necessária para contar a verdade. - Mas há dias fui-me encontrar com o Dr.º Eduardo Lima. - O teu Orientador?! - Sim. - E o que é que ele queria? - Leonardo observou as mãos tensas de Laura sobre o colo. - Ele foi convidado para dirigir uma clínica especializada no Dubai. E... Laura não precisou completar a frase para que Leonardo entendesse o que ela queria dizer. - E tu vais com ele? - Ainda não sei - ela foi sincera na resposta. Ouviu-se um longo silêncio no quarto. O relógio sobre a mesinha de cabeceira assinalou dezanove horas, a noite irrompeu as janelas e a luz do corredor inundou a habitação praticamente às escuras. Nessa altura, depois de muito pensar, Leonardo chegou à conclusão de que não tinha o direito de impedir a mulher de aceitar aquela proposta irrecusável. Fê-lo uma vez - há muitos anos - e pagou bem caro por isso. Obrigou-a a viver uma vida que não a sua, negou-lhe o sucesso profissional em benefício próprio e colocou-se em primeiro lugar num casamento que deveria ser dos dois. Por esse motivo, ele percebeu que tinha chegado finalmente o momento de tomar a decisão mais difícil da sua vida. Era a segunda vez que o destino lhe pregava aquela partida. Mas desta vez, ele não iria cair na armadilha de escutar o seu coração. - Aceita - a voz saiu-lhe trémula e sumida. - Queres que eu aceite? – Laura voltou-se para o marido, surpresa. - Quero! Aceita!
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    354 Laura não precisououvir mais nada para sugar os lábios de Leonardo. Beijou-o com todo o amor que possuía dentro de si. Beijou-o com paixão. Com fervor. Devoção. Permitiu que duas lágrimas lhe caíssem no rosto sem sequer as amparar, e enquanto o beijava, sentiu pelo marido o maior amor do mundo. Era ele, ela chegou a essa conclusão. Sempre fora ele. A cegueira abandonou-a de vez. - Podemos ir os três para o Dubai - Laura disse, segurando o rosto do marido com as duas mãos, enquanto novas lágrimas lhe caíam dos olhos e um sorriso triste lhe irrompia os lábios. - Lá existem inúmeros escritórios de arquitectura onde podes trabalhar. Muito mais oportunidades. O André também vai gostar. As crianças habituam-se facilmente às mudanças... - Não, Laura - Leonardo retirou-lhe as mãos do rosto. - O nosso lugar é aqui! O teu não...
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    355 41 Ela saiu dasala de desembarque empurrando um carrinho nas mãos. Veio trajada com um simples vestido preto comprido de alças grossas, sandálias prateadas rasas e os cabelos muito mais curtos. Ele abriu um largo sorriso quando a viu e acenou de longe. Sentiu um arrepio e uma emoção a transbordar-lhe do coração. Viu-a tão claramente como da última vez que estiveram juntos. Com medo de as imagens se dissolvessem, ergueu a cabeça. Apesar da fisionomia visivelmente mais magra, exausta e macilenta, reconheceu-a tal como a reconheceria no meio da multidão. Seria amor, lealdade, admiração ou devoção? O tempo correu de forma devagar. Extremamente devagar. Ele sofreu como um louco com a sua partida, chorou, entristeceu-se e desejou nunca ter tido a infeliz ideia de a incentivar a mudar-se para o Dubai. Sabia que iria ser difícil, mas nunca pensou que fosse tanto. Muitas vezes dava-se consigo a sufocar de saudades e outras a perguntar-se o porquê de ainda continuar casado com uma mulher que não conseguia tocar. Mas os meses foram passando e a tristeza deu lugar à conformidade. Era difícil, mas para ela a sua partida também não foi menos dolorosa. Nos primeiros tempos chorava quase todas as noites num apartamento que não lhe dizia absolutamente nada. Lamentava-se por não poder estar com o filho e acompanhar-lhe o crescimento. Lamentava-se por ter tomado a decisão mais exigente da sua vida, por ter colocado o seu casamento em risco sem certezas de que ele iria conseguir resistir à distância imposta por dois continentes diferentes. Nem mesmo os inúmeros telefonemas, as cartas, os postais ou as longas conversas através do Sykpe conseguiam apaziguar as saudades cada vez mais intensas. No entanto, a experiência de estar a trabalhar num dos melhores hospitais do mundo com profissionais de renome e condições laborais que jamais em tempo algum conseguiria em Portugal fizeram-na crer que a decisão, apesar de difícil, foi a mais acertada.
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    356 Ela trabalhava maisde setenta horas semanais, andava mergulhada em várias investigações científicas e continuava a ser requisitada para várias entrevistas e conferências internacionais que a obrigavam a viajar frequentemente para os quatro cantos do mundo. Em poucos meses, percebeu que o seu mentor, Eduardo Lima, sempre tivera razão. Era um animal de caça e num covil repleto de lobos prontos a atacá-la sentia-se como se estivesse a viver no seu verdadeiro habitat. Nascera para exercer Medicina. Vivia essencialmente para isso ainda que durante anos se tivesse debatido entre as suas responsabilidades profissionais e familiares. Mas o voo aconteceu. Quinze anos mais tarde, mas aconteceu. O marido deu-lhe essa liberdade sem pedir nada em troca e sem exigir de si uma postura que achava correcta. Libertou-a, e curiosamente, trouxe-a para mais perto. Apesar da distância tudo continuava igual. Excepto o amor. Este melhorou, aprofundou-se e amadureceu. - Amo-te – Laura chorou feliz, cobrindo o rosto do marido de beijos, quando ele a abraçou com força e a levantou do chão. – Amo-te! Amo-te muito… - Eu também – Leonardo voltou a tomá-la nos braços e beijou-a com todo o amor que possuía dentro de si. – Deus! Como te amo… As férias foram demasiado curtas para matar as saudades. Oito semanas apenas. Dois meses que se iniciaram com uma visita ao cemitério. João partira há três anos mas a dor da perda continuava a mesma. Não havia um único dia que os pais não se lembrassem dele, do seu sorriso meigo, das suas brincadeiras e das suas gargalhadas. Ainda que ele já não estivesse vivo, o seu cheiro e a sua presença eram palpáveis e continuavam a viver em todos os gestos de Leonardo e Laura. João continuava a fazer parte deles e jamais seria esquecido. A sua missão fora cumprida mais cedo. Talvez fosse tão simples assim. Talvez o seu destino fosse estar com eles apenas por um momento e partir para um lugar maravilhoso. Laura e Leonardo compreenderam finalmente que precisavam deixá-lo partir. Podiam tocar na sua lembrança, uma vez ou outra, mas não podiam ficar com ele. As férias da família culminaram com uma breve estadia na casa de férias no Algarve. O marasmo dos dias e a rotina idílica de três pessoas que não tinham absolutamente nada para fazer, obrigavam Leonardo, Laura, André e até o velho cão Rufus a fazer longas caminhadas pela praia, quase sempre ao final da tarde, quando o sol se punha. À noite, refugiavam-se na varanda e conversavam durante horas a fio sem olhar para os ponteiros do relógio.
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    357 Laura adorava aquelasensação. Nunca se sentira tão feliz e tão próxima do marido e do filho, ouvindo com atenção tudo o que diziam, sem perder uma única oportunidade de os tocar, beijar e confessar o quanto eles eram importantes para si. Talvez fosse uma contradição estar fisicamente tão longe e espiritualmente tão perto. Talvez fosse uma contradição, ou quem sabe talvez não. Quem sabe tudo agora não fazia sentido como sempre deveria ter feito. Era bom sentir-se na sua própria pele sem ter que mentir, fingir ou viver uma vida que não considerava sua. Seria esse o poder da libertação? Ela sempre ouvira dizer que quando nos libertamos, curiosamente, nos sentimos mais presos. Talvez isso fosse verdade. - O que fizeste à outra câmera? - Nunca me dei bem com ela - Leonardo continuou a filmar sobre a cama. - Era demasiado complicada. Esta é bem mais simples e tem uma imagem melhor. - Estive a pensar... - Laura encostou-se à cómoda do quarto enquanto o marido se entretia a ajustar a tela. - No quê!? - Sobre a ideia de comprarmos esta casa. - Eu sempre quis comprar esta casa. - Eu sei! E também sei que sempre me mostrei contra a ideia. Mas agora pensei melhor e quero comprá-la. Quero mesmo... Laura e Leonardo sorriram de forma cúmplice. - Depois da reforma, podíamos vir morar para aqui. Eu e tu. Passávamos o dia inteiro na praia e à noite assávamos um peixe para o jantar. Depois convidávamos o André, a mulher dele e os nossos netos para passarem as férias de Verão connosco. O Natal. O Ano Novo. Quando eles se fossem embora, ficávamos os dois. Podíamos plantar um horta. Eu podia fazer bolos. Tu podias fazer churrascos. Ganhávamos a vida a vender bolos e churrascos aos nossos vizinhos. E quando estivessemos realmente velhos, sem nos conseguirmos mexer, ficávamos ali na varanda, abraçados, a ver o tempo passar... - O plano parece-me perfeito.
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    358 - Falamos amanhãcom o proprietário da casa? - Falamos - Leonardo concordou com um doce sorriso. Laura voltou a sorrir e o marido viu-a através da tela. Continuava a mesma, ele reparou. Apesar dos cabelos curtos, o seu rosto trazia uma luminosidade fora do vulgar e os olhos mantinham-se tão verdes como duas esmeraldas. A combinação preta, curta, bem acima dos joelhos, prendeu a atenção de Leonardo impossibilitando-o de tirar os olhos dela. Laura caminhou em sua direcção e retirou-lhe a câmara das mãos, poisando-a sobre a mesinha de cabeceira. Beijou-o na testa, nas maçãs do rosto, e por fim, nos lábios. Sentiu o sabor do vinho que beberam minutos antes de se irem deitar. Beijou-o com amor, com loucura e com fervor. Quando não conseguiu aguentar mais, tomou-lhe uma das mãos e colocou-a sobre o seu seio direito. Mergulhou-lhe nos olhos e viu nele a imagem do homem que sempre amou. - Senti saudades tuas - ela disse, baixinho. - Preciso de ti. Leonardo sorriu. - Eu também senti saudades tuas. - Amo-te. - Eu também - ele confessou. O sol já se escondia no horizonte no momento em que Leonardo a tomou nos braços e a beijou com todo o amor que possuía dentro de si. Um longo beijo que terminou com um outro na testa e com a certeza de que o amor que nutriam pelo outro continuava mais forte do que nunca. Dentro de quarenta e oito horas, Laura partiria para o Dubai e a saudade voltaria a assombrar os seus corações. Mas na altura não era tempo de pensar em tristezas. Ali, na varanda da casa de férias, deitados numa rede de descanso, enquanto o filho jogava à bola sozinho sem ligar aos latidos ensurdecedores de Rufus, Laura e Leonardo voltaram a abraçar-se com força e fecharam os olhos numa tentativa desesperada de aproveitar as últimas horas que ainda lhes restavam. Mas ao abrir novamente os olhos, ela teve uma visão mágica. Viu o filho pela primeira vez numa imagem nítida e clara. Viu João a correr atrás de André, imitando os passos do irmão e seguindo a bola com uma alegria extrema no rosto. Talvez essa imagem a devesse ter deixado em pânico ou amedrontada, mas não foi de todo isso que aconteceu. Pelo contrário. Foi apenas um sinal de que João continuava com eles e de nunca iria desaparecer das suas vidas.
  • 359.
    359 Durante catorze anosde casamento, Laura já havia desfrutado de todos os prazeres e de todo o sofrimento que uma mulher poderia ter. Sofreu coisas que não merecia, mas mesmo assim, ao olhar para o passado, sabia agora que lhe restavam poucos momentos em que havia sentido aquilo a que todos chamam de verdadeira felicidade. Quando viu os filhos nascer, quando o marido a pediu em casamento, e agora, aquele momento em que permaneciam os dois abraçados a observar o pôr-do-sol sabendo bem que tinham apenas mais algumas horas para estar juntos. Mas isso fazia parte do amor. Da vida também. Percebido esse facto, ela voltou a fechar os olhos e sorriu. Alguma coisa tinha mudado nela. Alguma coisa no fundo da sua alma se tinha partido, quase a destruindo, mas agora começava lentamente a recuperar-se. E quando o marido a voltou a beijar nos cabelos, ela sentiu-se em paz. Finalmente em paz. FIM
  • 360.
    360 Aos trinta enove anos, Laura Alves tem todos os motivos para ser uma mulher feliz. Vive um casamento de sonho, é mãe de duas crianças maravilhosas e possuí uma carreira brilhante enquanto Neurocirurgiã. No entanto, a chegada do cunhado irá pôr em causa tudo o que conquistou. Envolvida num tórrido caso extra-conjugal, ela mergulha num ciclo vicioso do qual não consegue sair, e quando o pior acontece, vê-se intimada a pagar pelos seus erros e a avaliar pela primeira vez o que é realmente importante para si. DIANA NEVES OS TRAIDORES