Louca na Praça do Diário
Era o meu dia. E ele começou como todos os dias. Acordar,
sorrir para a minha bebê, colocá-la no berço enquanto tomo
banho e me visto, ouvir chorinhos, deixá-la na casa da mainha
com a babá, ir ao trabalho. Mas nesse dia parei no meio do
caminho, bar do passarinho, destino Rua do Progresso. Tudo
vai, tudo fica, a novidade como água viva, o meu desejo por
rua e por casa. Apresso o passo, paro, me derreto no Hotel
Central, de andada no centro da cidade do Recife; ela pulsa
agitada, mas ainda me é leve. Contemplo a vista dele na minha
eterna introspecção...
Dá-me mais um minuto, três, quatro, essa minha necessidade
de ficar um pouco sozinha, com as emoções mais primitivas.
Arê. Um silêncio no dia, uma poesia, choro dócil de alegria. E o
gosto pelos rituais, antigos como se despir e se vestir de tudo.
Sou eu mesma e também sou mutante. Olho-me no espelho
nua por dentro, encontro a minha real coragem, me divirto,
solto o pé no abstrato, espirais nas minhas vísceras gritam,
tento desvendar atritos. Você não gosta do meu cigarro, da
minha nebulosidade, mas somos poucos, não podemos nos
perder ainda.
Você me diz, sem tempo nem direção. Carpe Noche. Implica
cínico comigo, me desafia. Oh, meu Eros de Diotima! A cinza
não caiu pela janela, os livros não foram jogados, nenhum
moleskine foi roubado e o destino da merda da cerveja é
manchar despreocupadamente a sua mesa, a minha. Tentei....
encontrar vestígios nos seus escritos beats datilografados,
xerocados, uma sala espaçosa, quadros escuros, o seu quarto
bagunçado, pão com requeijão, cervejas, pedi mais cervejas. O
seu corpo riscado me pediu, a palavra “divórcio” como síntese
do seu livro de Dostoiévisk emprestado, o seu ar agudo meio
sabático. O seu beijo insolente. O seu beijo insolente...
Seja mais restrita, manda o astro, desmanda. Geminianos. Táxi
para a PRAÇA! Baby junkie com o seu pé no crime, inconsciente
e instinto, um poema sobre o lugar a ser lembrado e um
monte de gente. Um monte de gente... Descobri que não posso
ver muita gente. Uma música desde cedo ladrilhava, Jean
Nicholas sem saber recitar uma poesia de Rimbaud. “Ainda
vou querer jogar, tenho muito filme pra queimar e muita ficha
pra apostar”. Era o meu dia. Era o seu dia. E você besta meio
bossa vadio, meio tal, meio mal, meio fel – mas eu encontro
tanta poesia em meninos amargos. Louca na Praça do Diário.
Roger de prova - e prostitutas infiéis pelos cantos de paredes e
velhos e bêbados e menininhas e menininhos descolados e
outros babacas, intelectuais, loucos e estagiários. O meu sexto
sentido apita. Freio brusco para você me pular. Liberdade é
bicho bom.
B E L I S A PA R E N T E

Louca na praça do diário

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    Louca na Praçado Diário Era o meu dia. E ele começou como todos os dias. Acordar, sorrir para a minha bebê, colocá-la no berço enquanto tomo banho e me visto, ouvir chorinhos, deixá-la na casa da mainha com a babá, ir ao trabalho. Mas nesse dia parei no meio do caminho, bar do passarinho, destino Rua do Progresso. Tudo vai, tudo fica, a novidade como água viva, o meu desejo por rua e por casa. Apresso o passo, paro, me derreto no Hotel Central, de andada no centro da cidade do Recife; ela pulsa agitada, mas ainda me é leve. Contemplo a vista dele na minha eterna introspecção... Dá-me mais um minuto, três, quatro, essa minha necessidade de ficar um pouco sozinha, com as emoções mais primitivas. Arê. Um silêncio no dia, uma poesia, choro dócil de alegria. E o gosto pelos rituais, antigos como se despir e se vestir de tudo. Sou eu mesma e também sou mutante. Olho-me no espelho nua por dentro, encontro a minha real coragem, me divirto, solto o pé no abstrato, espirais nas minhas vísceras gritam, tento desvendar atritos. Você não gosta do meu cigarro, da minha nebulosidade, mas somos poucos, não podemos nos perder ainda. Você me diz, sem tempo nem direção. Carpe Noche. Implica cínico comigo, me desafia. Oh, meu Eros de Diotima! A cinza não caiu pela janela, os livros não foram jogados, nenhum moleskine foi roubado e o destino da merda da cerveja é manchar despreocupadamente a sua mesa, a minha. Tentei.... encontrar vestígios nos seus escritos beats datilografados, xerocados, uma sala espaçosa, quadros escuros, o seu quarto bagunçado, pão com requeijão, cervejas, pedi mais cervejas. O seu corpo riscado me pediu, a palavra “divórcio” como síntese do seu livro de Dostoiévisk emprestado, o seu ar agudo meio sabático. O seu beijo insolente. O seu beijo insolente... Seja mais restrita, manda o astro, desmanda. Geminianos. Táxi para a PRAÇA! Baby junkie com o seu pé no crime, inconsciente e instinto, um poema sobre o lugar a ser lembrado e um monte de gente. Um monte de gente... Descobri que não posso ver muita gente. Uma música desde cedo ladrilhava, Jean Nicholas sem saber recitar uma poesia de Rimbaud. “Ainda vou querer jogar, tenho muito filme pra queimar e muita ficha pra apostar”. Era o meu dia. Era o seu dia. E você besta meio bossa vadio, meio tal, meio mal, meio fel – mas eu encontro tanta poesia em meninos amargos. Louca na Praça do Diário. Roger de prova - e prostitutas infiéis pelos cantos de paredes e velhos e bêbados e menininhas e menininhos descolados e outros babacas, intelectuais, loucos e estagiários. O meu sexto sentido apita. Freio brusco para você me pular. Liberdade é bicho bom. B E L I S A PA R E N T E