Nunca vi muito sentido no sentimento de patriotismo. O fato de ter nascido dentro de
linhas imaginárias definidas pelos homens me fazem diferente dos que nasceram dentro
de outras linhas imaginárias? Essa questão da identidade do país é muito vaga para
mim. Percebo esses laços como elementos reforçados pelo poderio militar, para que o
povo contribua, sem perceber, com suas conquistas. Afinal, a delimitação geográfica
das fronteiras não passa de resultado de conquistas bélicas e acordos de interesse
econômico. Daí, nascerem nações com hinos tão patrióticos quanto belicosos.

A experiência de morar em outros países me fez perceber ainda mais isso. Ser um
cidadão do mundo é mais fácil do que de um só país. Afinal, há coisas no meu país com
as quais me identifico tanto quanto em outros países por onde passo, e há coisas lá com
as quais em nada me identifico.

Já falei aqui que o aspecto com o qual eu mais tenho me identificado ultimamente na
cultura de meu país é o idioma. No caso, o português, também falado em outros tantos
cantos do mundo. E isso me faz sentir em casa não só no Brasil, mas em outros desses
tantos pedaços de terra.

Daí vem a observação do que é uma nação. Na prática, a nação não tem nada a ver com
os povos que nela estão. Em um mesmo espaço geográfico, determinado por guerras e
acordos da humanidade, pode haver mais de um povo, assim como há povos por aí,
divididos em mais de uma nação.

A Era colonialista foi grande responsável por situações assim. Vejamos a África: sua
estrutura atual foi definida em meados do século XX. E ainda há conflitos que poderão
mudar as linhas do continente em breve. Mas, notemos que o continente teve reinos e
cidades-estados com registro histórico há mais de cinco mil anos. Descobertas recentes
de pesquisadores colocam a África como o berço da humanidade, onde teria pela
primeira vez aparecido a espécie Homo sapiens (representada aqui por essa que aqui
escreve e esses que aí lêem).

Por que aceitar, então, a estrutura atual? Aliás, eu a vejo como das coisas mais toscas
que a história já produziu. Foi elaborada a partir dos interesses das potências coloniais
européias (Bélgica, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Portugal e Espanha) e
resultou em tribos (essas sim formadas por povos com identidade cultural e histórica)
divididas em até três países. E há outros países, onde tribos inimigas passaram a
conviver por força da convenção desse acordo das potências.

O que aconteceu com as línguas faladas por esses povos, então, é muito triste. Foram
obrigados a aprender o idioma do colonizador — no caso de Moçambique, o português
— porque essa passou a ser a forma de ligação entre os vários povos que convivem em
um país. Em Moçambique, apesar de português ser o idioma oficial, há outros quase 30
sendo falados por aqui.

Com tudo isso, acredito que a Nação é mais que uma determinação geográfica. É algo
muito subjetivo para ter definição dicionarizada. Tem a ver com identificação entre
pessoas, entre hábitos, entre culturas.

* com a colaboração de David Borges.

Conceitos/Reflexões Sobre Nacionalidade

  • 1.
    Nunca vi muitosentido no sentimento de patriotismo. O fato de ter nascido dentro de linhas imaginárias definidas pelos homens me fazem diferente dos que nasceram dentro de outras linhas imaginárias? Essa questão da identidade do país é muito vaga para mim. Percebo esses laços como elementos reforçados pelo poderio militar, para que o povo contribua, sem perceber, com suas conquistas. Afinal, a delimitação geográfica das fronteiras não passa de resultado de conquistas bélicas e acordos de interesse econômico. Daí, nascerem nações com hinos tão patrióticos quanto belicosos. A experiência de morar em outros países me fez perceber ainda mais isso. Ser um cidadão do mundo é mais fácil do que de um só país. Afinal, há coisas no meu país com as quais me identifico tanto quanto em outros países por onde passo, e há coisas lá com as quais em nada me identifico. Já falei aqui que o aspecto com o qual eu mais tenho me identificado ultimamente na cultura de meu país é o idioma. No caso, o português, também falado em outros tantos cantos do mundo. E isso me faz sentir em casa não só no Brasil, mas em outros desses tantos pedaços de terra. Daí vem a observação do que é uma nação. Na prática, a nação não tem nada a ver com os povos que nela estão. Em um mesmo espaço geográfico, determinado por guerras e acordos da humanidade, pode haver mais de um povo, assim como há povos por aí, divididos em mais de uma nação. A Era colonialista foi grande responsável por situações assim. Vejamos a África: sua estrutura atual foi definida em meados do século XX. E ainda há conflitos que poderão mudar as linhas do continente em breve. Mas, notemos que o continente teve reinos e cidades-estados com registro histórico há mais de cinco mil anos. Descobertas recentes de pesquisadores colocam a África como o berço da humanidade, onde teria pela primeira vez aparecido a espécie Homo sapiens (representada aqui por essa que aqui escreve e esses que aí lêem). Por que aceitar, então, a estrutura atual? Aliás, eu a vejo como das coisas mais toscas que a história já produziu. Foi elaborada a partir dos interesses das potências coloniais européias (Bélgica, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Portugal e Espanha) e resultou em tribos (essas sim formadas por povos com identidade cultural e histórica) divididas em até três países. E há outros países, onde tribos inimigas passaram a conviver por força da convenção desse acordo das potências. O que aconteceu com as línguas faladas por esses povos, então, é muito triste. Foram obrigados a aprender o idioma do colonizador — no caso de Moçambique, o português — porque essa passou a ser a forma de ligação entre os vários povos que convivem em um país. Em Moçambique, apesar de português ser o idioma oficial, há outros quase 30 sendo falados por aqui. Com tudo isso, acredito que a Nação é mais que uma determinação geográfica. É algo muito subjetivo para ter definição dicionarizada. Tem a ver com identificação entre pessoas, entre hábitos, entre culturas. * com a colaboração de David Borges.