Beijos em Chamas
Five-Star Cowboy
Charlene Sands
O texano Trent Tyler nunca encontrara um negócio que não pudesse
ser lucrativo, ou uma mulher que não conseguisse conquistar. Dessa
vez, o sucesso de seu hotel no Arizona dependia de seu outro grande
talento: a sedução. O que Trent, mais queria de Julia Lowell era sua
inteligência. Com a vívida lembrança de um fim de semana de tórrida
paixão, Trent sabia que tinha um incentivo a mais para seduzir Julia a
se tornar sua executiva... porém, quando ela descobrisse a verdade por
trás de sua contratação, quem sairia ganhando?
Digitalização: Crysty
Revisão: Alice Akeru
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Tradução Alda Porto
HARLEQUIN
B O O K S
2010
PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.àrl.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a
transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas
ou mortas é mera coincidência.
Título original: FIVE-STAR COWBOY
Copyright © 2008 by Charlene Swink
Originalmente publicado em 2008 por Silhouette Desire
Arte-final de capa: núcleo & designers associados
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Desejo 121 — Beijos Em Chamas (Five-Star Cowboy) Charlene Sands
CAPÍTULO UM
— Aí está a minha milagreira.
Enquanto atravessava sem pressa as portas de seu hotel no Arizona, passando
sob os grandes arcos que as emolduravam, Trent Tyler sorria, e sua voz profunda e sexy
já causava estranhas sensações em Julia Lowell. Ainda a impressionava que tudo aquilo
pertencesse a ele.
Ela encostou-se na limusine que a levara para Crimson Canyon, sem conseguir
respirar ao ver Trent mais uma vez. Lembrou a si mesma que ele era seu chefe agora.
Não podia mais pensar nele como o homem que tocava seu corpo como ninguém antes
soubera fazer.
Trent foi até ela com o passo seguro e descontraído que sempre atraía olhares
femininos. Ao se aproximar, de calça jeans justa, camisa preta com detalhes metálicos e
cinto de fivela grande, que refletia os últimos raios do sol do Arizona, levou um dedo ao
seu chapéu Stetson num cumprimento cortês.
— Vamos precisar de um milagre, Trent.
— Tenho fé em você, querida. Você vai conseguir. — Virou-se para o motorista da
limusine e disse: — Leve as coisas da srta. Lowell para o quarto dela, Kirby.
— Farei isso, sr. Tyler.
Assim que o chofer se afastou com a bagagem, Julia fitou os olhos escuros de
Trent e lembrou-se da relação profissional que tinham agora. Entregara-lhe seu currículo
completo em mãos, pondo-o a par de suas realizações: um MBA em Administração e a
conquista de um emprego, recém-saída da faculdade, como executiva na maior empresa
de marketing de Los Angeles haviam bastado como recomendação. Era a melhor amiga
de Laney e merecia toda a confiança, ele dissera na entrevista.
Haviam se conhecido meses antes, quando Laney se casara com Evan, o irmão de
Trent. A centelha logo se acendeu, o texano alto e bonito atraiu o olhar de Julia desde o
primeiro momento. Imediatamente após o casamento, Julia e Trent tiveram uma louca
aventura de fim de semana e ela nunca mais tivera notícias dele.
Até duas semanas atrás, quando ele aparecera na porta dela em Los Angeles com
flores e champanhe, pedindo desculpas por não telefonar.
Trent sorriu diabolicamente e falou:
— Você está deslumbrante.
Julia teria enrubescido se sua pele bronzeada o permitisse. Como poderia
esquecer as tórridas noites de amor que passara nos braços dele? Os dois haviam quase
entrado em chamas e se acabado numa grande nuvem de fumaça. Como esquecer a
forma como ele sussurrara seu nome antes de fazer seu corpo se estilhaçar em mil
pedaços?
Havia deliberado sobre a decisão de aceitar o emprego dezenas de vezes durante
as últimas semanas. Trent era um solteiro convicto e dedicado exclusivamente aos seus
projetos. Deixara claro que não estava interessado em relacionamentos. O Tempestade
do Oeste era sua prioridade, e exigia dele todo tempo e energia de que dispunha. Mas
todas as vezes em que haviam se encontrado, apenas no casamento do irmão dele e
depois semanas atrás, não conseguiram manter as mãos longe um do outro.
Laney sempre dizia que a mulher certa podia domar qualquer homem, e ela e Evan
eram prova disso. Julia temia já ter se envolvido demais. Trent a afetava de uma maneira
que nunca sentira antes, e, quando o olhava, imaginava uma vida real com ele, uma
família.
Trent a puxou para perto, as mãos envolvendo sua cintura, e abaixou a cabeça,
fazendo sombra em seus olhos com a aba do chapéu.
— É bom ver você.
Seja forte, Julia.
Ela inspirou com força e apoiou as mãos no peito dele. Ao sentir a força de Trent
sob a camisa, sua resistência se esvaiu como o último raio de sol. Trent sorriu e inclinou o
corpo para um beijo. Ela fitou sua boca antes do breve toque dos lábios. Sensações
eróticas percorreram todo o corpo de Julia. O beijo terminou rapidamente, mas o impacto
daquela boca sensual acariciando a sua permaneceu. Incapaz de olhá-lo nos olhos,
concentrou-se no pescoço de Trent.
— Talvez... hum... precisemos de algumas regras básicas, Trent.
— Concordo — respondeu ele no mesmo instante. Então, a abraçou pela cintura e
a guiou para a porta da frente. — Vou levá-la ao seu quarto. Deixarei que se acomode.
Jantaremos em uma hora. Daí, conversaremos.
Ele concordara... assim? Sem mais? Julia lançou um olhar atravessado. Trent não
vacilou. Talvez tivesse percebido que, uma vez que se tornara sua funcionária e que
morar no local de trabalho era parte do contrato, os dois teriam de estabelecer um limite.
— Certo.
Sentia-se decepcionada ou aliviada?
Um segundo depois, concluiu que sentia as duas coisas.
Trent mergulhava no projeto de seu hotel do mesmo modo como fazia tudo mais na
vida, dando sempre cem por cento de si. Podia ser implacável às vezes, tenaz se
necessário e tão inflexível quanto uma pedra quando acreditava estar certo sobre alguma
coisa.
Tinha razão quanto ao Tempestade do Oeste. Sabia que o transformaria em um
sucesso. Não era talhado para trabalhar em uma grande cidade como o irmão Evan, nem
sociável com a elite como Brock, o festeiro dos irmãos Tyler. Portanto, a afirmação que
fizera saíra sem dificuldade de seus lábios:
— O Tempestade do Oeste fará mais dinheiro do que qualquer novo hotel
Tempestade no primeiro ano de funcionamento.
Brock, que jamais fora de se esquivar de um desafio, aceitara a aposta sem piscar.
Programara a inauguração de um novo hotel Tempestade em Maui, e Evan fora arrastado
para o desafio como árbitro. Era uma reminiscência da infância, quando os dois cabeças-
duras competiam e o primogênito garantia que jogassem limpo. Evan e Brock achavam
que Trent não tinha a menor chance de vencer.
O tema rústico, de faroeste, do hotel Tempestade do Oeste convidava uma
clientela diferente e não se adequava ao estilo elegante e sofisticado dos outros hotéis
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bem estabelecidos da rede. Trent afundara o próprio dinheiro no hotel de seus sonhos. O
Tempestade do Oeste era dele e só dele. Pusera todo o coração no empreendimento, e
agora a reputação, o orgulho e o ego estavam em jogo.
O novo hotel abrira com estilo, mas, nos poucos meses de funcionamento, a taxa
de ocupação havia caído, o que significava que vinham tendo apenas um lucro mínimo.
Trent demitira seu último diretor de marketing. Precisava de uma nova abordagem,
alguém com uma nova visão. Precisava de Julia Lowell.
E fizera tudo que estava ao seu alcance para conseguir tê-la em sua equipe.
Com o braço na cintura de Mia, conduziu-a em direção ao imenso saguão do hotel.
— Este é meu local favorito aqui dentro.
Julia examinou o ambiente com um olhar de absoluta admiração.
— As fotos nos folhetos não chegam nem perto. Isso é assombroso, Trent.
— Assombroso é uma boa descrição.
Não podia negá-lo. Não poupara despesas para trazer os fascinantes e
surpreendentes pores do sol de Crimson Canyon ao saguão. Janelas altas e extensas
tomavam toda a parede oeste e traziam para o interior a beleza do lado de fora.
Majestosas montanhas rochosas vermelhas ocultavam parte do sol poente. As terras de
Trent brilhavam sob a luz dourada, pontilhadas ao longe por choupos do Canadá.
Pondo uma das mãos no ombro de Julia, apontou com a outra.
— Consegue ver lá fora aquele mar de azul? É o lago do Destino. Uma lenda
acompanha esse nome. Contarei a você um dia.
— Trent, é deslumbrante. Você trouxe o Oeste para cá, com as mobílias e lareiras
de pedra. Não parece um saguão de hotel, mas um lugar de boas-vindas caloroso e
amistoso.
Ele segurou o ombro de Julia.
— Quero que você veja tudo... a terra, o lago, os estábulos. Ainda tem um
alojamento moderno onde se hospedam os vaqueiros. Amanhã a levarei a um passeio
completo.
O sorriso satisfeito de Julia o deixou excitado. Pusera aquela expressão no rosto
dela antes, quando Julia tombara em seus braços após um vigoroso orgasmo. Depois, se
enroscara nele, que a abraçara até serem tomados pelo sono.
Julia tinha um corpo esbelto, magníficas pernas, bonitos olhos verde claros e
cabelos castanhos escuros, mas havia mais. O sexo entre eles havia sido o melhor que
ele já fizera. Quando juntos, os dois detonavam como dinamite.
Ele fora implacável ao tentar fazê-la trabalhar no Tempestade do Oeste, e sentia
uma pontada de culpa. Mas não era o suficiente para dizer a verdade e arriscar o sucesso
do hotel. Desde que ela não descobrisse que ele mesmo orquestrara sua perda da conta
do restaurante Bridges, em Nova York, continuaria livre de suspeitas. Faria qualquer coisa
para que ela jamais suspeitasse de sua manipulação arbitrária. Não poderia permitir.
Queria Julia na sala da diretoria e na cama. Ela acabaria com os problemas do
hotel, ajudando-o a provar aos irmãos que o Tempestade do Oeste estava à altura dos
outros hotéis, enquanto ele e Julia saciavam a inesgotável sede de um pelo outro.
Ambos tinham a ganhar.
— Venho pegá-la em uma hora. Jantaremos —- disse enquanto a levava do
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saguão até o pequeno elevador ao ar livre que a deixaria em uma suíte privativa no
terceiro andar. Pôs a mão no bolso, retirou um cartão-chave e o colocou-o na palma da
mão dela. Acariciando-lhe os dedos como polegar, se lembrou dos sussurros ofegantes e
das noites de desesperado e louco sexo que tiveram. — Entraria com você, mas depois
duvido que conseguisse o descanso de que precisa.
Julia balançou a cabeça.
— Trent...
Ele a soltou e observou suas longas pernas, até os pés de sandálias vermelhas.
Jamais se esqueceria de quando fizera amor com ela, pedindo-lhe que tirasse tudo,
menos aquelas sandálias.
— Você veio com elas.
Ela piscou.
— Combinam com a roupa.
Ela não fingiu não captar a mensagem, e ganhou mais um ponto com ele, que lhe
deu um sorriso.
— Gosto de uma mulher que saiba se vestir.
Julia tirou as sandálias tão logo entrou no quarto. Inspirou fundo, enchendo os
pulmões, e bloqueou o lampejo da lembrança evocado por elas. Aproximou-se de um belo
arranjo de flores, em sua espera na mesa ao lado do sofá, e leu o cartão de boas-vindas.
Contudo, assim que reparou no ambiente, sua mente entrou em modo profissional.
A suíte satisfazia todas as expectativas que tivera em relação ao Tempestade do Oeste.
Rústica, com classe e estilo. Luxuosa com confortos sutis. Design simples, mas
elegante. Trent não poupara despesas e sentia grande orgulho da decoração, da vista e
do despretensioso uso do espaço. Ela percorreu a suíte para olhar, pela janela retangular
de grandes painéis de vidro, a vista abaixo.
O hotel em si tinha apenas três andares, mas os chalés térreos com suítes eram o
coração da propriedade, formavam uma ferradura a partir do prédio principal e davam
para os estábulos, o lago e o desfiladeiro.
— Você se superou com este lugar, Trent — murmurou, um sorriso aflorando. Tudo
o que ele fazia, fazia com entusiasmo, dando cem por cento de si mesmo. Julia tinha suas
lembranças eróticas para provar isso.
Entrou no quarto espaçoso e desfez as malas, pondo as roupas informais nas
gavetas do armário e pendurando as de trabalho no closet. Em seguida, foi até as portas
duplas de carvalho que levavam a uma grande varanda e pegou o celular. Apertou um
atalho e esperou. Após o segundo toque, seu pai atendeu.
— Oi, papai. Já estou aqui, segura e inteira.
— Que bom, querida! Obrigado pelo telefonema.
Julia tinha quase 30 anos, mas não se importava de manter o pai sempre a par de
seus passos. A mãe morrera dois anos antes, e ela sabia que ele se sentia extremamente
solitário. Sempre haviam sido íntimos e, embora Julia houvesse sofrido uma terrível
decepção quando perdera a concorrência para um contrato com uma rede nacional de
restaurantes, vira o alívio no rosto do pai ao saber que ela não se mudaria, afinal, para
Nova York.
Poucos dias depois, Trent aparecera à sua porta em Los Angeles se desculpando
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por não manter contato com ela após a aventura do fim de semana que aconteceu em
seguida ao casamento de Evan e Laney. Flores, champanhe e uma noite nos braços dele
muito haviam contribuído para consolá-la, sobretudo depois do golpe que recebera ao
perder a conta do Bridges. Em pouco tempo tivera de dar ao pai a notícia de que se
mudaria para trabalhar com Trent Tyler no Arizona. Ele lhe fizera uma oferta irrecusável.
— Então, como é o Tempestade do Oeste?
— Pai, é assombroso. O lugar tem tanto a oferecer! Acho que vou conseguir ajudar
Trent a torná-lo um destino para a elite.
— Sei que vai. Herdou isso de mim.
Ela riu, pois se lembrou do sucesso do pai no setor bancário. Tinha uma boa
cabeça para negócios, e parecia que puxara a ele.
— Sei que sim. Você me deu inteligência e eu pretendo usá-la aqui.
— Essa é minha menina — ele disse.
Assim que terminou a conversa, Julia se despiu e selecionou Quente no enorme
chuveiro.
Fora rápida ao entrar, ensaboar-se e enxaguar-se. Minutos depois, vestia um
felpudo roupão branco do armário do banheiro e abraçava a si mesma, desfrutando a
agradável sensação de algodão macio contra a pele. Deixou-se cair na cama king-size de
dossel, em busca de um breve descanso antes do jantar, e logo adormeceu.
— Julia! É Trent. Está aí?
Ela levantou-se, desorientada por um momento, ao ouvi-lo chamá-la atrás das
portas duplas da suíte. A hora passara voando. Ela dormira demais.
— Sim, sim! Estou aqui, Trent! — gritou, amarrando a faixa do roupão apertada na
cintura e dirigindo-se à porta. Destrancou-a e abriu uma fresta, fazendo contato visual
com ele. — Desculpe. Tirei um cochilo e perdi a noção do tempo.
— Não vai me deixar entrar?
— Não estou vestida. Encontro você...
— Julia — ele sussurrou — deixe-me entrar.
— É uma ordem do patrão? — ela perguntou, rindo.
— Se precisar ser, querida...
Aquelas palavras ditas em um tom de voz baixo e a fala arrastada sulista já eram
tentação suficiente. Julia afastou-se da porta e Trent entrou.
Nua por baixo, sentiu-se encabulada naquele roupão enorme, que deixava apenas
a cabeça e as unhas dos pés pintadas de vermelho de fora. Trent, em compensação,
parecia tudo, de jeans preto, uma camisa branca estilo caubói, com palas na frente e
atrás, um par de botas brilhantes e um sorriso encantador.
Deu logo uma olhada para o grande buquê de lírios stargazers dentro de um vaso
na mesa ao lado do sofá e assentiu com a cabeça. O cartão: "Faremos grandes coisas
juntos", assinado pelo anfitrião, disparara uma onda de calor por todo o corpo quando ela
lera a mensagem.
— Você entende de flores — disse Julia.
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Trent sorriu de novo.
— Também amarro os cadarços do sapato e corto minha própria carne muito bem,
obrigado.
— É um homem talentoso.
Ele arqueou uma sobrancelha e a devorou com um olhar.
— Você sabe que sou.
O calor que impregnava o corpo dela se transformou em excitação escaldante.
Sempre fora assim com ele. Até a mais inocente conversa logo podia se transformar em
insinuação íntima. E esta em geral levava a uma recompensadora noite de luxúria.
— É melhor eu me vestir — disse Julia, afastando-se.
Trent a puxou pela faixa do roupão e a traiçoeira tira desamarrou sem dificuldade.
Por trás dela, envolveu-a com os braços e as mãos logo encontraram a fenda do roupão
aberto. Acariciou-lhe a barriga nua, fazendo seus corações acelerarem.
— Humm, eu sabia...
Julia fechou os olhos.
— Trent....
— Está nua sob este roupão, Julia. E em meus braços. — Mordiscou-lhe o
pescoço, pondo seus nervos em chamas.
De costas, deixava que ele a acariciasse. Ele deslizou as mãos para cima,
provocando a base dos seios.
— Trabalho para você agora — disse, anunciando o óbvio.
— Já acabou o expediente.
— Não parece certo.
Deu um riso baixo e rouco.
— Não minta.
E ela havia mentido. Ai, Deus, como o queria. Mas também mentia para si mesma,
pois, tirando o fato de ter que manter uma distância profissional do chefe, Julia o queria
mais. Queria o que Laney e Evan tinham. Queria um amor verdadeiro. Ansiava por uma
família. Seu relógio biológico andava... 29, e não ia ficar mais jovem. Começara se
dedicando à carreira, mas também era romântica demais para não querer um futuro com
um homem amoroso ao lado. Já cometera um erro com um colega de trabalho na Powers
International. Quase perdera o trabalho e a reputação por causa de um sujeito faminto por
poder que a usara para se promover. Havia muito superara Jerry Baker, mas ainda trazia
em si as marcas daquela traição. Agora, tinha a própria empresa... a Lowell Strategies...
mas sua reputação continuava em perigo. Assim como o coração.
Trent afastou mais as dobras do roupão e acariciou-a dos seios aos quadris, com
as mãos nos dois lados do torso, deslizando os dedos acima e abaixo como um talentoso
violonista dedilhando uma melodia erótica.
— Pode se afastar de mim e se vestir — murmurou-lhe no ouvido — ou eu vou tirar
este roupão de você.
Começavam a faltar desculpas a Julia.
— Precisamos conversar sobre o hotel.
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Ele fora inflexível quanto a tomar uma nova direção assim que possível. Não
hesitara em afirmar como era importante esse projeto. Convocara-a logo ao Tempestade
do Oeste para começar a trabalhar em uma nova promoção para o hotel.
— Conversaremos. Depois.
Beijou o pescoço de Julia e fez sua pele formigar com o toque dos lábios. Trent era
um mestre da sedução. Ela sabia o que significava aquele "depois" e não tinha certeza de
que poderia recusá-lo.
O celular tocou e ele praguejou. Soltando-a, afastou-se.
— Droga. Tenho de atender.
Julia suspirou de alívio e fugiu para o quarto. Fez questão de fechar a porta e
trancá-la. Então, recostou a cabeça e respirou fundo para se acalmar, ouvindo-o sem
querer transmitir ordens a quem se encontrava do outro lado da linha.
Despiu o roupão e se vestiu às pressas.
Não lhe faria bem algum se apaixonar pelo chefe. Especialmente sabendo que já
estava a meio caminho.
CAPÍTULO DOIS
— Você deu uma bela escapada... — Trent comentou, servindo-lhe uma taça de
champanhe e sorrindo.
Ela viu o líquido borbulhar na taça antes de olhar para ele. Depois que o
telefonema os interrompera na suíte, saíra toda arrumada em um vestido preto
conservador, pasta na mão, e declarou-se faminta. Trent não pressionava, mas logo
tratou de levá-la para uma sala de jantar privativa, a Canyon Room, no principal
restaurante do hotel.
— Foi necessário... para o meu equilíbrio.
Até certo ponto era verdade. Trent sempre a deixava atordoada, e agora ainda
mais, vendo-o tão à vontade e relaxado em seu próprio ambiente.
— Ora, então... acho melhor eu garantir que se alimente bem. — Entreolharam-se
por um momento e ele ergueu a taça. — A você, Julia. Obrigado por vir e salvar a minha
pele.
Julia sorriu e brindou.
— Eu ainda não salvei nada.
Tomou o champanhe, saboreando o gelado borbulho enquanto o líquido deslizava
pela garganta.
— Vai salvar — ele rebateu. — Investiguei seu currículo. Em menos de um ano,
você mudou a Fitness Fanatics Gym da água para o vinho. Era uma empresa agonizante.
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Frequentada apenas por aspirantes a modeladores de corpo e treinadores de peso. Agora
é uma academia voltada para a família... os pais levam os filhos junto. A garotada
aprende bons hábitos alimentares, cuida da autoestima e ainda se mantém em boa forma
física. A criação do programa Fãs da Boa Forma para crianças foi brilhante.
Ela aceitou o elogio sem modéstia. Trabalhara com extremo afinco naquele projeto.
— Obrigada. Ainda me admira como tudo saiu tão bem. O projeto superou minhas
expectativas. — Inclinou um pouco a cabeça e observou o rosto dele, impressionada por
Trent tomar a precaução extra de se informar sobre o recente projeto dela. — Você me
investigou?
— Muitas vezes, querida. E você sempre foi além das minhas expectativas.
Derreteu-a toda o jeito que ele piscou os olhos escuros quando expressou o
agrado. Tomou outro gole de champanhe, pensando na ternura com que aquelas mãos
ásperas haviam tocado seus seios.
Trent era uma força a se levar em conta.
— Sabe que não foi o que eu quis dizer.
Ele sorriu antes de tomar mais champanhe.
— Eu sei. Mas também sei que somos incríveis juntos. Não estive com outra
mulher desde que nos conhecemos.
Julia engoliu em seco e pigarreou. Jamais haviam falado de compromisso. Tiveram
uma aventura que continuava rolando, mas ela sabia que ele não levaria a sério um
relacionamento permanente. Nunca falara em querer ser exclusivo, embora a
emocionasse saber que não estivera com outras mulheres. Ainda a surpreendia que
esperasse reiniciar de onde haviam parado.
— Nem eu... estive com outro homem.
Como poderia? Nunca acharia ninguém melhor que Trent Tyler. Na cama ou fora
dela.
— Tudo bem, desde que sejamos francos — ele disse.
A expressão de seu rosto dizia que ficara tão satisfeito quanto ela. Embora fizesse
apenas duas semanas que aparecera em sua casa com presentes e desculpas por levar
tanto tempo para tornar a procurá-la. Meses antes, após o casamento de Evan e Laney,
haviam tido um fim de semana de sexo despudorado de que Julia jamais se esqueceria.
Ela se contorceu na cadeira e mudou de assunto.
— Tem falado com Evan ultimamente?
— Não. Imagino que esteja atarantado com a notícia da chegada do bebê.
Evan era o perfeito marido apaixonado e futuro pai coruja. Julia invejava o
relacionamento dele com a amiga e esperava ter esse tipo de amor na vida um dia.
— Está. Espero surpreender os dois com um chá de bebê. Laney sabe que vou
oferecer uma festa a ela, mas acha que é só daqui a uns meses. Você vai ter de me dar
algum tempo de folga para organizar tudo.
Trent pareceu ponderar a ideia e então ergueu os ombros num gesto de
indiferença.
— Faça a comemoração aqui.
— Aqui? — piscou Mia, surpresa com a sugestão. — Aqui no Tempestade do
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Oeste?
— Isso mesmo. Primeiro, não posso liberá-la por muito tempo. Segundo, a família
não viu o hotel todo concluído. Eu tinha planejado trazer todos em breve, de qualquer
modo. Terceiro, mando o jato da empresa buscar os convidados sem problema algum. E
quarto, o planejamento feito aqui tornará sua vida mais fácil.
— E você é todo a favor de tornar minha vida fácil, certo?
Ele deu um grande sorriso e a covinha, que ela achava extremamente sexy, surgiu
do lado direito.
— Isso mesmo. Mantenho meus empregados felizes.
Julia pensou na ideia por um momento.
— Eu queria mesmo que a festa fosse oferecida por mim. Prometi-a a Laney no
minuto em que ela engravidou.
Trent ergueu as mãos, rendendo-se.
— Não a atrapalharei nem direi uma palavra. Use o hotel da forma que julgar
conveniente.
— Eu gostaria de bancá-la.
Ele deu um sorriso torto.
— Chegaremos a um acordo.
Julia riu.
— Você é impossível, sabe?
Trent encolheu os ombros.
— Quantos convidados tinha em mente?
Ela fez um cálculo mental.
— Uns quarenta.
Ele assentiu com a cabeça.
— Dá para gerenciar.
— Na verdade, é uma boa ideia. — Ela olhou pela janela. Centenas de estrelas
iluminavam o céu, lançando um brilho agradável sobre a propriedade, enquanto os sons
da noite agitavam o silêncio e um suave reflexo cintilava nas águas do lago. -— Laney vai
amar este lugar.
— Problema resolvido.
— Agora, ao seguinte. — Julia ergueu a pasta, pondo-a no colo, e retirou dela
papéis com anotações. — Trouxe algumas ideias. Podemos revê-las durante o jantar.
— Tudo bem por mim. Estou louco para corrigir o que não anda bem aqui e você é
a mulher certa para a tarefa. Realize seus milagres.
Se fosse possível, ela pensou. Perguntou-se se precisaria de um milagre para
Trent considerá-la mais que a salvadora do hotel e parceira de cama. Primeiro, salvaria o
hotel e depois trabalharia no outro problema.
Após o jantar, Trent apresentou-a aos funcionários e mostrou-lhe o interior do
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hotel. Assim que acabou de responder a todas as perguntas sobre as atividades internas
do estabelecimento, levou-a para fora e os dois passearam pela propriedade.
— Alegra-me sua presença aqui, Julia. Precisamos mesmo de uma perspectiva
nova — disse, segurando sua mão ao passarem pelo pátio do jardim e afastarem-se das
luzes.
— Eu não estaria aqui se você não tivesse aparecido em Los Angeles naquele dia.
— Sorte e momento oportuno — ele disse, dando pouca importância à observação.
Não queria ter essa conversa com ela.
— Pus todos meus trunfos nessa única jogada. Quando perdi a conta do Bridges,
fiquei arrasada. Abalou minha confiança. Realmente achei que tinha agarrado aquele
emprego.
Ele parou e puxou-a para si, pondo as mãos nos quadris dela, incentivando-a a
chegar mais perto. Distraí-la não seria uma tarefa difícil. Precisava mudar de assunto.
— Não olhe para trás, Julia. A perda dele é meu ganho.
Quando ela estava em Los Angeles e quilômetros os separavam, tirara-a da mente.
Mas agora que ela estava ali no hotel ele sentia uma incrível atração. Recentemente,
pusera toda sua energia no Tempestade do Oeste e não tivera tempo para mulheres, até
encontrar-se com Julia e se ligarem como dois ímãs.
Encarou-a nos olhos e inclinou a cabeça para outro beijo. O último fora casto e
breve demais para seu gosto.
— Trent — ela disse, afastando-se --- não é uma boa ideia. Precisamos de fato
impor alguns limites. Não quero seus empregados vendo...
Ele olhou em volta.
— Não tem ninguém aqui fora. E é melhor que não se atrevam a dizer qualquer
coisa.
— Alguém pode sair a qualquer momento. Não me preocupo com o que poderiam
me dizer, mas preciso do respeito deles. Duvido que eu consiga isso se acharem que sou
sua amante.
Trent sorriu.
— Minha amante?
Alvoroçada, ela disse, agitando os braços:
— Ou como quiserem chamar. Vamos todos ter de trabalhar juntos.
Ele recuou, pôs as mãos na cintura e a encarou. Cedeu, apenas por um minuto,
para ouvir o que ela diria.
— Certo. Ótimo.
— Obrigada. — Ela assentiu com a cabeça, surpresa de vê-lo ceder com tanta
facilidade, — Na verdade, alegra-me que tenha concordado sem uma discussão, porque
você e eu... nunca, hum... — Desviou os olhos para os lábios dele. — Nunca íamos
conseguir concluir o trabalho... quer dizer... não trabalho dessa forma... — Diminuiu o
ritmo da fala, demorando os olhos na boca de Trent. — Eu, hum, nós precisamos manter
uma distância profissional.
Olhou-o com uma expressão de desejo desesperador. Trent conhecia o suficiente
sobre Julia para saber quando ficava excitada. O maldito sentimento era mútuo.
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— Já entendi — disse, levando-a pela mão. — Venha. Precisamos falar sobre isso
em particular.
— Para onde está me levando?
— Para algum lugar onde meus empregados nada verão.
— Mas não é essa a questão — ela afirmou sem muita convicção.
Ele não aceitava aquela resistência.
— É exatamente a questão. Você tem o mesmo desejo que eu, querida. E vou
cuidar para possamos satisfazê-lo.
Trent andava rapidamente, com Julia apenas um passo atrás, carregando-a para o
chalé de solteiro mais afastado do hotel. Abriu a porta e deixou que ela entrasse primeiro,
depois fechou-a, mantendo a luz das estrelas do lado de fora. Ele piscou algumas vezes e
precisou de um instante para ajustar a visão.
Julia permanecia perto e sua respiração rápida acariciava-lhe o rosto. O suave
perfume de gardênias provocava seu nariz.
Ele se recostou na porta.
— Você ia me convencer, até começar a falar sobre distância profissional.
— Por quê?
— Você e eu não podemos trabalhar juntos o dia todo e não sofrer de desejo um
pelo outro à noite. Sabe que é verdade, Julia. Conseguiremos manter uma distância
profissional por quase tanto tempo quanto se prendêssemos a respiração. Por fim,
acabaríamos desistindo. Ou enfrentaríamos as consequências.
Ela ergueu o queixo, questionando-o:
— Foi por isso que me empregou, Trent?
— Empreguei-a porque você é brilhante. Sabe bem demais como o Tempestade do
Oeste é importante mim. Se eu quisesse uma mulher para fazer sexo, eu... —
interrompeu o pensamento. A mãe não criara um tolo.
— Não precisaria contratá-la, certo?
Trent deu um suspiro e estendeu a mão para Julia.
— Venha cá. — Ela adiantou-se com os ombros empertigados, e a tensão se
desfez no minuto em que ele a acariciou. Trent Inclinou a cabeça de Julia para trás com o
polegar e beijou seus lábios. — Senti sua falta.
— Você diz todas as coisas certas — murmurou Julia, enlaçando-lhe o pescoço
com os braços.
Ele beijou-a profundamente e segurou-a contra seu corpo, até não existir mais
espaço entre seus corpos. Percorrendo com as mãos as costas de Julia, ouviu os
gemidos mais suaves lhe escaparem dos lábios. Com os sentidos excitados, ficou com o
corpo duro e rijo.
Julia separou os lábios para receber o beijo e Trent acariciou-lhe a língua até a
respiração de ambos sair forte e rápida. Tinha os seios esmagados contra o peito dele,
cuja ereção pressionava sua barriga. Trent suspendeu o vestido de Julia, subiu as mãos
devagar por suas coxas lisas e, finalmente, afastou a lingerie, chegando mais perto.
—- Aii... Trent— ela gemeu.
Depois disso, os dois enlouqueceram. Ele arrancou as roupas de Julia. Ela, a
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camisa dele. O cinto e as botas vieram em seguida; segundos depois, ele a ergueu e Julia
passou as pernas ao redor da cintura dele, deixando-o sem condições de se conter.
Penetrou-a profunda e freneticamente, dando-lhe as boas-vindas ao Tempestade do
Oeste, da forma como imaginara desde o primeiro momento em que se encontraram.
Julia passou os dedos pela mandíbula dele, que fingia dormir, mas foi denunciado
por um grande sorriso. Ficaram deitados na cama do espaçoso quarto do chalé.
— Acha mesmo que sou brilhante?
Trent murmurou que sim.
Ela inclinou-se e beijou-o na boca.
— Acha?
Ele abriu um olho.
— Buscar elogios antes do amanhecer não lhe renderá pontos por trabalho extra.
— Preciso de mais pontos por trabalho extra? — perguntou Julia, fingindo
inocência.
Trent rolou de lado e apertou-lhe o nariz com um dedo.
— Não fique sedutora. Mais pontos por trabalho extra e terá de arrastar meu corpo
sem vida para o trabalho hoje.
Ela deitou-se de costas para fitar o teto. Na noite anterior, fizeram tremer o quarto e
ambos acabaram tendo três poderosos orgasmos simultâneos.
— Por que você acha que isso é assim entre nós?
Trent continuou calado e Julia achou que não ia responder. Por fim, ele admitiu:
— Não faço a mínima ideia. Simplesmente é. Não analise, apenas desfrute.
E ela desfrutava demais o sexo que faziam. Jamais tivera relações casuais,
embora o único relacionamento de longa duração tivesse terminado de forma péssima.
Jurara jamais tornar a se envolver no local de trabalho. E agora estava ali, na cama com o
chefe e adorando cada segundo.
Virou-se apreensiva para ele.
— Isso poderia ficar complicado.
Trent inclinou-se e beijou-a.
— Não se não deixarmos.
— Além de Evan ser seu irmão e Laney minha melhor amiga, você é meu chefe.
Não vê um problema nisso?
— Não, de jeito nenhum.
Era tão fácil para ele rejeitar a ideia de que, se as coisas não funcionassem bem,
os dois sempre teriam uma ligação por meio das pessoas mais próximas? Os melhores
instintos dela diziam-lhe que se afastasse dessa situação. Mas como poderia? Como
poderia desistir de um homem virilmente bonito, forte, inteligente e que a fazia vibrar ao
mínimo toque?
-— Trent, falei sério quando disse que não quero que os empregados saibam sobre
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você e eu.
Ele assentiu com a cabeça, os olhos escuros sinceros.
— Entendi. Mais alguma coisa?
Julia negou com a cabeça e exalou um suspiro.
— Não, acho que é só.
— Bom.
Então, ele acariciou-lhe os seios, fazendo indolentes círculos ao redor do mamilo
com o polegar, causando em Julia uma nova onda de calor.
— Desfrute, querida — disse, enquanto sugava o agora ereto botão róseo.
Ela contorceu-se, o corpo respondendo sem apreensão nem restrição. Trent sabia
cada botão que devia apertar e o fazia muito bem.
— Oh, Trent, usamos o último preservativo ontem à noite. Tínhamos três.
— Julia, relaxe. Não vamos precisar de proteção para o que eu tenho em mente.
Duas horas depois, com o desejo saciado, ela saiu do chalé, 45 minutos depois de
Trent, e atravessou a propriedade de volta à suíte no hotel. Tomou uma ducha, vestiu
roupas de trabalho mais informais... um terninho cor de canela e botas na altura do
tornozelo... e reuniu-se com a gerente administrativa nos escritórios no lado norte do
terceiro andar.
— Já conheceu todas as dependências e a propriedade, srta. Lowell? — perguntou
Kimberly Warren.
A jovem era bonita, loura e saída dois anos antes da faculdade.
— Ainda não. O sr. Tyler planeja me mostrar tudo hoje mais tarde.
— O sr. Tyler sente muito orgulho do Tempestade do Oeste. Todos esperamos que
você apresente algo dinâmico para reduzir a taxa de desocupação. Visamos a noventa
por cento de ocupação.
Julia não revelou sua surpresa com o número esperado por ele.
— Trata-se de um número alto. Não sei nem se os mais estabelecidos hotéis
Tempestade conseguem isso.
— Ele tem fé em você, srta. Lowell.
— Me chame de Julia.
Ela sorriu.
— Certo, Julia. Vou lhe mostrar seu escritório. O sr. Tyler mandou que a
instalassem no escritório junto ao dele. Já imaginava — disse Kimberly, com os olhos
azuis parecendo demasiadamente sabedores. — Você dois vão trabalhar próximos.
Julia pigarreou:
— É, suponho vamos.
— Siga-me — disse Kimberly. — O escritório de Trent fica no fim do corredor e o
seu é o da direita.
A gerente mostrou o escritório a Julia e depois deixou que se instalasse. Julia
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olhou em volta e viu as fotos emolduradas do Tempestade do Oeste que Trent pendurara
nas paredes, desde o primeiro esboço à conclusão. A escrivaninha era de carvalho
branco, trabalhada com decapê em nogueira clara, as paredes eram creme, realçadas
com acabamentos superiores de madeira branca, e sobressaíam as estantes altas. Fora a
mais recente tecnologia usada, o escritório mantinha o tema completo do oeste
americano, e ela notou a suave feminilidade de Los Angeles.
Passou alguns minutos inteirando-se da máquina de fax, do computador de última
geração e do sistema de intercomunicação. Quando acabava de esvaziar o conteúdo da
pasta nos arquivos e na gaveta da escrivaninha, Trent bateu na porta e entrou.
Julia levantou-se e os olhos se encontraram.
— Bom dia. De novo — ele disse com uma piscadela.
Ela olhou a porta fechada e agradeceu a Deus por tudo aquilo. Trent tinha a
aparência revigorada e estava bem vestido, usando uma camisa branca engomada sob
um blusão preto, uma gravata de corda e um chapéu de caubói. Exibia surpreendente
ânimo para um homem que sugeriu talvez precisar ser arrastado para o escritório.
— Oi.
— Já se instalou?
Ela olhou a sala em volta. Não trouxera muita coisa. Quase tudo de que precisava
encontrava-se em seu laptop ou na própria cabeça. Tinha bons instintos e contava mais
com eles do que com qualquer outra coisa.
— Acho que sim.
— Avise Kimberly se precisar de mais alguma coisa.
— Estou bem, Trent. O escritório é esplêndido.
Ele assentiu com a cabeça.
— Tudo bem. Apenas checando. — Retirou o blusão, a gravata e colocou-os no
encosto da cadeira diante da escrivaninha de Julia, que se assustou, vendo-o se despir
despreocupado no escritório dela. Não compreendera seus receios na noite anterior?
Antes que ela pudesse fazer um comentário repressor, Trent ofereceu-se: — Vou levá-la
àquela excursão agora. Quero que veja o Tempestade do Oeste da melhor forma.
Aliviada por ter se enganado, ela concordou. Trent tinha apenas negócios em
mente. Ela quase se esquecera de que concordara em visitar o hotel com ele pela manhã.
— E, não posso esperar para ver o resto da propriedade hoje.
Mas o diabo que existia nela sabia que já vira o melhor do Tempestade do Oeste
na noite anterior, nos braços do amado.
CAPÍTULO TRÊS
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— EM geral, visitaríamos a propriedade a cavalo, mas isso levaria muito tempo.
Hoje, vamos com classe.
Trent abriu a porta lateral do carona no Jeep Wrangler sem capota para Julia.
Sorrindo, ela examinou o empoeirado veículo preto. Tivera uma senhora recepção
no hotel Tempestade do Oeste na véspera, por isso não ia se opor a recostar-se e deixar
que os cavalos de potência de um motor fizessem o trabalho hoje.
— Gosto do modo como você pensa.
Trent baixou a aba do chapéu e fechou a porta do carona, depois saltou no assento
do motorista e ligou o motor.
— Achei que ia gostar. Segure-se firme.
Arrancaram e rumaram para os estábulos. Baios e palominos, cavalos de cor
amarela ou creme, com a crina e o rabo brancos, e alazões avermelhados surgiram em
um minuto, circulando ao redor nos currais parecendo bem cuidados e satisfeitos.
— Temos quarenta cavalos e empregamos oito vaqueiros. A qualquer momento,
com hora marcada, podem sair de dez a vinte cavalos para um passeio matinal ou
vespertino. Tem um escritório na sala de arreios onde nosso caubói chefe, Pete Wyatt,
marca o horário dos passeios.
Parou o jipe e os dois saltaram. Dirigiram-se à entrada da estrebaria, que era uma
réplica menor da imensa entra da encimada por altos arcos do hotel principal,
Um homem da idade de Trent adiantou-se com um grande sorriso e a mão
estendida.
— Você deve ser a srta. Julia Lowell. Sou Pete. Cuido dos estábulos. Você será a
dama que vai garantir que aproveitemos todo o nosso potencial.
Julia apertou-lhe a mão, e lançou um olhar enviesado para ele.
— E como farei isso?
— Trazendo mais hóspedes pagantes ao hotel — respondeu Pete, como se
declarasse o óbvio. — Só estamos trabalhando com metade dos animais, ou menos.
Todos vêm de boa procriação. Os meninos e eu só conseguimos exercitá-los. São muito
espertos para ficar encurralados. Venha, eu lhe mostrarei nossa operação.
Meia hora depois, ela retornava com Trent ao jipe. Fizera algumas anotações no
palmtop antes de partirem.
— Parece que você convenceu a todos que sou uma milagreira.
— Muita pressão?
— Trabalho melhor sob pressão — admitiu Julia, francamente.
Trent concordou satisfatoriamente com a cabeça, como se já o soubesse. A fé que
tinha em Julia era um pouco assustadora, embora ela não pudesse negar que também
fosse boa para o ego.
Em seguida, seguiram para os limites de Crimson Canyon, onde o céu azul sem
nuvens unia-se à terra escarlate compactada. Trent parou diante do desfiladeiro que
parecia suspenso no ar.
— Aquele é o penhasco da Sombra, o meu lugar favorito na propriedade.
— Vejo por quê. — A beleza da natureza subjugou-a, fazendo-a sentir-se pequena
e insignificante, mas inspirada e forte ao mesmo tempo. — É glorioso e intocado.
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Trent permaneceu calado por um minuto, e então balançou a cabeça.
— A maioria dos hóspedes não vem tão longe. Pode ser um terreno perigoso até
com um bom cavalo. O Jipe não tem como chegar perto o suficiente, mas acredite que
poucos lugares se equiparam às formações rochosas e aos matizes de cor do penhasco
da Sombra.
Julia pegou o palmtop e fez uma anotação.
— Certo —- disse, sua mente considerando as possibilidades. — Onde vamos
agora?
Vinte minutos depois Trent já havia lhe proporcionado uma excursão pelo resto da
propriedade, então pararam no lago do Destino.
— Temos locais naturais para natação, pesca e canoagem em barcos não
motorizados. É o único lago natural na redondeza. Quando comprei a terra, fiz questão
que o incluíssem.
— Cancelaria o contrato caso contrário?
— Sim. Eu sabia que ia construir o hotel perto do lago.
— Você disse que existia uma lenda?
— Existe. — Ele desceu do jipe e aproximou-se de Julia, abrindo a porta do carro.
— Dê um passeio comigo — estendeu a mão.
Julia segurou sua mão e, assim que desceu do jipe, soltou-a. Passearam ao longo
das margens em silêncio enquanto soprava a brisa de início de outubro. Bem ao longe,
alguns hóspedes do hotel se divertiam no lago, e suas risadas eram como um sussurro
nas águas.
Trent segurou novamente a mão de Julia quando chegaram a um pequeno
ancoradouro que se projetava do lago. Três barcos a remos, amarrados ao cais,
balançavam suavemente na água. Seguiram até a metade do píer e pararam para
apreciar a terra.
— Esta terra foi colonizada há 150 anos. Pessoas que haviam tentado a sorte nas
minas de ouro da Califórnia e malograram, e outros que nunca tiveram sucesso no
extremo oeste, reivindicaram a área. Conta a lenda que uma menina chamada Ella e seu
noivo secreto tiveram uma terrível briga aqui. Os pais dela haviam escolhido para ela um
namorado mais adequado. Samuel, o menino com quem a jovem prometeu se casar, deu-
lhe um ultimato... encontrar-se com ele no lago ao por do sol e fugirem juntos, senão
jamais ela tornaria a vê-lo. Ela não quis abandonar a família, mas sabia que não poderia
viver sem o garoto a quem amava. Levou algum tempo para escapar às escondidas de
casa, mas, quando chegou ao lago, depois da meia-noite, não encontrou Samuel.
Vasculhou a terra e por fim avistou-o no momento em que ele saltava da beira do
penhasco em Crimson Canyon.
— Que coisa terrível, Trent, mas de algum modo eu sabia que você ia dizer isso. —
Todas as lendas parecem terminar com tragédia, pensou. Fizera um curso na faculdade
sobre o assunto. — Então quer dizer que o lago é mal-assombrado?
Trent riu.
— De jeito nenhum. Conta a lenda que Ella chorou a noite toda junto ao lago,
completamente arrasada. Quando o sol se levantou de manhã, a menina ergueu os olhos
e encontrou o noivo, encharcado de tanto que nadou para chegar à amada. Isso tudo
aconteceu bem neste lugar em que nos encontramos agora.
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— Samuel não saltou do penhasco?
— Não, tropeçou em uma pedra na escuridão e bateu a cabeça. Ella achou que o
tinha visto atirar-se no precipício. Essa era a intenção do garoto, mas os dois receberam
uma segunda chance. Jamais fugiram, mas continuaram com a família dela, casaram-se
aqui e tiveram cinco filhos. Viveram nesta terra até a morte levá-los uns cinquenta anos
depois.
— Então é por isso que se chama lago do Destino.
— Ella e Sam não deram nome ao lago, mas os filhos sim, logo que souberam da
história.
— Destinavam-se a ficar juntos. Receberam uma segunda chance. — Julia
contemplou o lago, pensando nos jovens amantes por um segundo, a romântica que
existia nela registrando uma história de amor muito inspiradora. Então tornou a pegar o
palmtop e digitou algumas palavras-chave. — Valeu, entendi. — Virou-se para ele. —
Poderia me levar de volta ao escritório agora? Tenho muito a fazer hoje.
Trent não hesitou. Reconduziu-a ao jipe e os dois partiram. Julia estava com a
cabeça cheia de ideias para realizar o milagre que ele queria.
Três horas depois, sentou-se ao computador com as ideias formuladas na cabeça.
O Tempestade do Oeste precisava de alguma coisa... a mais. Sabia que teriam de
organizar uma nova e esplêndida inauguração, mas também sabia que precisava de uma
visão diferente. Após o passeio pela propriedade, chegara à conclusão de que um hotel
de lazer e recreação de elite no faroeste com uma bela paisagem não bastava. Tinha de
atrair a clientela rica. Dar-lhes algo que não poderiam obter em nenhum outro lugar. Sabia
o que queria fazer. E sabia que seria arriscado. Mas Trent era um empreendedor disposto
a correr riscos e assim que tivesse planejado tudo Julia lhe apresentaria as ideias.
Mais tarde, interfonou a Kimberly.
— Oi, Kim. Você tem aqueles relatórios financeiros do jurídico que pedi esta
manhã?
— Acabei de pegá-los. Já levo aí.
Ela recostou-se ha cadeira, olhando o site da Web Young Dreams Foundation na
tela. O pai apresentara-lhe à fundação de sonhos infantis quando o filho do melhor amigo
adoecera e a instituição beneficente concedera à criança o sonho de conhecer
astronautas em um ônibus espacial no Cabo Canaveral. Depois dessa comovedora
experiência ficara profundamente envolvida no trabalho da fundação sempre que o tempo
permitia, passando a conhecer algumas das crianças que a instituição ajudava e fazendo
alguns bons amigos no caminho. Uma ideia surgia em sua cabeça e Julia afastou-a
quando Kimberly entrou com muitos arquivos.
— Devem ter retirado mais arquivos do que você precisa — disse com um sorriso.
— Tudo bem. Darei uma olhada rápida e devolverei o que não preciso. Sei o que
procuro. Você tem um minuto?
Kim sentou-se na cadeira de frente para Julia.
— Tenho. Diga-me o que você precisa e examinarei metade dos arquivos.
Ela deu-lhe uma pilha e ficou com vários, folheando alguns.
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— Quero ver os nomes e os endereços de todos os clientes do hotel desde a
inauguração. Saber a duração da hospedagem e quanto gastaram. Também quero
nossas declarações de lucro e perda referentes aos meses que o hotel tem funcionado.
— Certo, isso é fácil.
Kim baixou a cabeça e separou os arquivos ao lado da escrivaninha, enquanto
Julia fazia o mesmo.
Julia deu uma boa olhada num que pareceu estar fora de lugar.
— Acho que este entrou aqui por acaso — murmurou. Quando Kimberly ergueu os
olhos, explicou: — É uma cópia do meu contrato. — Encolheu os ombros e então notou
um engano. — A data do contrato não assinado está incorreta. — Deve ser um erro de
digitação —- disse. — A data saiu errada.
— O jurídico orgulha-se de jamais cometer erros — comentou Kim num tom
brincalhão. -— Passam um pente fino em cada palavra antes de enviá-lo.
Ela tornou a olhar a data. Tinha de estar errada.
Trent só retornara a Los Angeles para vê-la uma semana após a data digitada no
contrato. Nada soubera sobre ela ter perdido a conta do Bridges antes daquela noite.
Já trabalhava com o departamento jurídico do grupo Tempestade tempo suficiente
para saber que o pessoal era tão eficiente e meticuloso quanto afirmara Kimberly.
Fitou a cópia não assinada do contrato, aquela data anterior chamava sua atenção.
Então piscou.
— Ele soube — disse, baixinho, e um calafrio percorreu sua espinha.
—- Como? — Kim ergueu de novo os olhos. — Disse alguma coisa?
— Humm, não. — Julia largou os arquivos na escrivaninha, absorvida em suas
ideias, as emoções causando estragos em todo seu pensamento racional. Então, encarou
Kim. — Escute, apenas saia e deixe tudo aqui. Eu mesma separo este material e o
devolvo a você quando terminar.
Kim assentiu com a cabeça.
— Tudo bem. Se você tem certeza.
-—Tenho — ela respondeu e levantou-se. Kim também se levantou e virou-se para
sair. — Ah, Kim?
— Sim? — Ela se virou para olhá-la.
— Há quanto tempo trabalha para a rede Tempestade? Desde o início?
— É, já me encontrava aqui quando inauguramos. Fui transferida do hotel
Tempestade de Dallas.
— Então sabe como era meu escritório antes? — A outra fez que sim com a
cabeça; parecendo meio intrigada, e Julia acrescentou: — É que apenas me ocorreu uma
mudança de cor.
— Ah, mas está tão feminino e bonito agora. Parece combinar com você. O sr.
Alonzo, nosso primeiro diretor de marketing, quis paredes de carvalho e venezianas
escuras. Era tão triste, eu detestava entrar aqui.
O coração de Julia acelerou. Não lhe agradavam as suspeitas que lhe ocorriam.
— Imagino que não se lembre de quando Trent mandou reformar o escritório.
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— Claro que sim! Era meu aniversário. O sr. Tyler me deu o dia de folga, por isso
não poderia esquecer. Uma sexta-feira. Ele contratou uma equipe completa para reformar
o escritório e, quando voltei na segunda-feira, tudo tinha sido mudado. Faz exatamente
um mês amanhã.
Julia sentiu o coração parar e estremeceu.
— Um mês atrás?
Antes de Trent ter ido ao apartamento dela em Los Angeles com flores e amáveis
palavras de desculpas. Teria ele sabido o tempo todo que perdera a conta do Bridges?
Ou teria... — Fechou os olhos e tentou estabilizar seu corpo trêmulo — orquestrado de
algum modo a perda daquela conta?
— É, um mês. — Mais uma vez Kim balançou a cabeça e olhou-a preocupada. —
Algum problema?
— Não, tudo bem. — Ela conseguiu dar um breve sorriso. — É melhor deixá-la
voltar ao trabalho.
— Certo.
A jovem saiu do escritório e Julia inclinou-se para frente, apoiando as mãos na
borda da escrivaninha.
— Não pode ser —- murmurou, enquanto uma profunda sensação de medo
percorria-lhe todo o corpo, dizendo-lhe que podia muito bem ser verdade o que pensava.
Sabia da aposta de Trent com o irmão. Também sabia da veia competitiva do
empregador; ele contara-lhe inúmeras histórias de sua juventude sobre superar Brock.
Conseguir que o hotel tivesse êxito significava mais que dinheiro para ele, que precisava
provar alguma coisa.
Os pensamentos tomaram sua mente.
Milagreira.
Investiguei seu currículo.
O ressurgimento oportuno dele na sua vida, mais ou menos na mesma ocasião que
despedira o diretor de marketing e uma semana depois de ela perder a conta do Bridges,
parecia coincidência demais para não ter sido premeditado.
Julia não pensara nisso antes, mas agora, ao olhar o escritório em volta, notou
como combinava bem com ela. As cores de parede e o carpete claro, até os objetos de
arte na mesa lateral, lembravam seu apartamento em Los Angeles, apesar do tema de
faroeste. Talvez pudesse pensar nisso como um toque amável se Trent tivesse se dado
ao trabalho depois de ter certeza de que ela trabalharia ali, e não antes.
Que falso ele era. Que arrogante!
Julia tremia de fúria. Antes de condená-lo à forca, porém, ia confrontá-lo. Pegou o
contrato não assinado, a prova tangível, e saiu do escritório. Encheu os pulmões de
oxigênio para se fortalecer, pegou com força a maçaneta da porta do escritório dele e
escancarou-a.
— Um instante, Brock — disse Trent ao telefone. Cobrindo-o com a mão, olhou-a.
— Dê-me um minuto, querida. Já estou quase terminando.
— Já terminou — ela rosnou. — Desligue o telefone.
Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Que diabos aconteceu? — Lançou-lhe um olhar perplexo e retornou ao telefone.
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— Eu volto a ligar mais tarde. — Desligou-o e ficou encarando-a com irritação. — O que a
aborrece?
— Só responda a uma pergunta. Você orquestrou ou não a perda da conta do
Bridges para eu trabalhar aqui?
Trent semicerrou os olhos.
— De onde tirou essa ideia?
Ela jogou o contrato não assinado na escrivaninha.
Trent olhou-o, tentando não se trair.
— Apenas responda à pergunta. Com sinceridade... se for capaz.
Ele ergueu as sobrancelhas, e um tique contraiu sua mandíbula.
— Fiz um acordo com a rede de restaurantes, sim.
— E eu fazia parte desse acordo?
Trent contornou a escrivaninha e então se apoiou nela, com as mãos na borda.
— Feche a porta, Julia.
Ela bateu a porta e tornou a encará-lo, cruzando os braços na frente, furiosa
demais para se mexer. Ali ficou, esperando, irritada com aquela postura impassível.
— Então?
— Se você fez parte desse acordo? — Trent levou um minuto para responder,
apertando a boca, os olhos frios. — Fez. Eu queria que você trabalhasse para mim.
— Então você me sabotou! — explodiu Julia, com uma fúria desenfreada. — Sabe
como trabalhei duro para pegar aquela conta do Bridges? Tem alguma ideia do que teria
significado para mim obtê-la?
— Pago a você um salário muito generoso. Nada do que fiz foi ilegal. As pessoas
do Bridges queriam esse contrato com a rede de hotéis Tempestade. Procuram-nos há
anos.
— Que contrato? — ela perguntou, a fúria aumentando. Ele nem tentara negar.
— Vão abrir restaurantes em nossos hotéis em cidades estratégicas por todo o
país. Já faz algum tempo que realizamos negociações privadas. Eu apenas fiz isso
acontecer mais cedo do que o esperado. Todo mundo tem a ganhar.
— Menos eu!
—Isto é uma questão de opinião.
— Ah! Você mentiu para mim repetidas vezes, Trent! Quase destruiu a minha
reputação me fazendo perder aquela conta. Aceitei este emprego em fase de
recuperação. Ambos sabemos disso. O Tempestade do Oeste é um hotel. Se você chama
isso de ganhar, eu preferia ser uma perdedora e assinar o contrato com toda uma rede de
restaurantes.
Ele se afastou da escrivaninha.
— Agora você tem um contrato juridicamente vinculado a mim.
O sangue de Julia ferveu.
— Um contrato juridicamente vinculado? Você me enganou para assiná-lo. Não
acredito que planeje me prender a esse contrato!
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— Sou um homem de negócios. Vi uma oportunidade e agarrei-a. De qualquer
modo éramos favoráveis à rede de restaurantes Bridges. Íamos acabar por fechar o
contrato com eles.
Ela balançou a cabeça.
— Não acredito em você.
— Acredite — ele disse com firmeza. — É a verdade.
— Não, a verdade é que você não passa de um homem cruel e insensível! Me
usou para conseguir o que queria. Nós nos divertimos à beca juntos após o casamento de
Evan, e, quando você partiu de Los Angeles, não tive uma única notícia de sua existência
até o Tempestade do Oeste entrar em apuros. Então, do nada, você bate na minha porta,
trazendo um buquê de orquídeas, me conquistando e jantando comigo, me seduzindo.
Isso é o mais baixo que alguém pode chegar. Sou uma garota esperta, mas nem percebi
o que acontecia. Você é um canalha de primeira classe, Trent Tyler.
Ele sobressaltou-se furioso.
— Acalme-se, Julia.
— Acho que não vai dar. Já cheguei ao ponto de explodir. Você me magoou muito.
— Não apenas quase destruíra sua vida profissional, mas ferira Julia como pessoa. Ela
confiara em Trent, que usara esse conhecimento para magoá-la. Quando ia aprender a
não se envolver com homens com quem trabalhava? — Não vai negar nada disso?
Trent exalou um suspiro.
— Não. Foi um acordo empresarial honesto.
Ela jogou a cabeça para trás e riu do absurdo.
— E eu pensei que você fosse diferente. O caubói de mãos vagarosas e toque
suave não passa de um impostor empresarial. Que idiota eu fui!
Trent danificara sua reputação, seu ego e seu coração. Julia jamais lhe daria a
satisfação de saber que quase se apaixonara por ele. Jamais confiaria de novo nesse
homem.
Ele avançou alguns passos em sua direção.
— Pare! — Ela ergueu a mão e manteve-se firme na posição. — Não, Trent. Não
vai livrar-se desta com sedução.
Ele deteve a aproximação, os lábios comprimidos, a mandíbula cerrada.
— Você concordou com os termos e assinou o contrato.
— É só com o que se importa, não? — Julia cuspiu as palavras. — Não importa o
fato de eu tê-lo assinado sob falsas pretensões?
— Não existe nada falso naquele contrato. Não a obriguei a assiná-lo na linha
pontilhada. Seu trabalho é promover e comercializar o Tempestade do Oeste e manter-
nos no azul este ano.
Ela ergueu o queixo.
— É, bem... Não sei se desejo mais fazer isso.
— Querida... o contrato é incontestável. Você não tem escolha.
E deu-lhe um sorriso que, em geral, teria feito com que ela se derretesse em seus
braços.
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— Posso processá-lo por isso.
— Você perderia. E se tornaria do conhecimento público que abandonou o contrato
quando chegou o momento da decisão. Ninguém a forçou a aceitar o trabalho no
Tempestade do Oeste. Meu negócio com o Bridges foi legítimo e nenhuma pessoa ali
pensaria de maneira diferente. — Sentou-se à escrivaninha e recostou-se na cadeira. —
A menos que queira arruinar sua reputação, você vai ficar.
CAPÍTULO QUATRO
Chantagem. Engano. Sedução.
Enquanto o sol se punha no horizonte, Julia afundava no sofá da suíte e tomava
vinho, com os nervos destroçados, o corpo trêmulo. Pensava em Trent e em como não
medira esforços a fim de usar seus talentos no Tempestade do Oeste.
As mentiras que Trent contara e toda a manipulação fizeram-na de idiota, mas
nada a magoava mais do que a forma como sucumbira ao encanto dele. Fora massa de
manobra nas mãos dele. Aparecera em Los Angeles poucas semanas antes e todo o
senso profissional que ela tinha desaparecera. Fora hipnotizada e saciada por um grande
amante. Ele cegara-a para a verdade. Talvez, se não tivesse sido tão vulnerável quando
ele aparecera, pudesse ter compreendido tudo.
Ou pelo menos ter desconfiado.
Mas aquele homem alto, deslumbrante, e aparentemente sério, enganara-a.
O patife, porém, tinha razão numa coisa. Por mais que Julia quisesse, não podia
abandonar o emprego. Precisava disso em seu currículo. Perdera o contrato com a rede
de restaurantes Bridges e não tinha outras perspectivas no momento. Era necessário ficar
e fazer o trabalho. Não era uma mulher de desistir facilmente, não importavam as
circunstâncias.
Era profissional, assinara um contrato. Além disso, tinha de pensar nos grandes
amigos, Evan e Laney. Não ia querer causar um racha na amizade acusando Trent e
criando problemas no Tempestade do Oeste.
A solução era simples... fazer seu trabalho e evitar Trent a todo custo. Sabotagem
passou rapidamente por sua mente por um segundo, mas ela não fora formada assim.
Tão logo decidira ficar, não faria nada além de dar o melhor de si. Estava com a carreira e
a reputação em risco, tanto quanto Trent.
Uma hora depois, assim que conseguiu formular pensamentos racionais, pegou o
celular e ligou para Laney. Conheciam-se desde a escola primária em Los Angeles, e
nada a animava mais do que falar com a melhor amiga.
Quando Laney atendeu, Julia acalmou-se só de ouvir a voz dela.
— Sra. Tyler? Você é a ganhadora de um bebê saltitante novinho em folha! Seu
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prêmio será concedido daqui a três meses exatos.
Do outro lado da linha, a alegre risada da amiga aliviou um pouco do seu desgosto.
— Oi, Julia. Acho que aceitarei meus prêmios agora. Pode conseguir isso?
— Ah, quisera poder. Tendo um dia ruim?
— Na verdade, não. Apenas o de sempre. Estou um pouco cansada esta noite e
Evan não para de me paparicar, como se eu fosse uma incapaz.
— Que legal da parte dele. — Sentiu uma grande pena que o traço legal não
existisse em toda a família.
— Huum. Imagino que sim. Verdade, minha barriga está ficando tão grande quanto
uma bola, mas não sou inválida. Li em algum lugar que se trata da síndrome de pai de
primeira viagem. Não estou acostumada com Evan sempre ao meu redor. Os olhos dele
se arregalam quando sente o bebê se mexer.
— Quem dera que eu estivesse aí para ver.
— Para ver os olhos esbugalhados de Evan, ou minha barriga crescida? —
perguntou Laney.
— As duas coisas. Sinto sua falta, Laney. E de Los Angeles.
— Oh, Julia. Achei que gostasse de trabalhar no Tempestade do Oeste. E, bem,
depois do que me contou sobre Trent e você, imaginei que os dois talvez tivessem...
— Temos apenas uma relação de trabalho, Laney.
Ainda não se considerava pronta para contar à amiga como fora manipulada. Nem
sabia se chegaria a contar. Evan e Trent eram íntimos e Laney não precisava de
dissabores logo agora. A amiga acabara de se recuperar de meses de enjoo matutino.
Não queria desanimá-la de forma alguma. Estava resignada a lidar com Trent sozinha...
cumpriria o contrato de seis meses, então se mandaria logo da cidade, deixando o hotel e
o dono na poeira vermelha do Arizona.
— Amo sim, o desafio de trabalhar aqui. É... um lugar lindo.
Até aí era verdade, mas Trent arruinara toda a excitação de ir morar ali por uma
temporada.
Agora, era apenas outro contrato profissional.
Houve uma ligeira pausa do outro lado do telefone. Julia não contara à amiga o
breve caso vertiginoso que tivera com Trent logo depois do casamento meses antes, mas
somente que ele a deixara entusiasmada algumas semanas atrás, ao chegar para salvá-
la com essa oferta de trabalho.
Laney sempre fora perspicaz quando se tratava de assuntos do coração.
— Por que não acredita em você?
— É lindo aqui — ela repetiu, esquivando-se do problema real. — Mas precisamos
tratar da questão em pauta. Vou lhe oferecer um chá de bebê daqui a seis semanas,
lembra? Pode mandar por e-mail sua lista de convidados, querida? Aluguei uma sala no
Maggiano's — mentiu. — E combinei de passar o fim de semana inteiro aí na cidade.
— Huuum, Maggiano's. Vou devorar comida italiana por dois! Providenciarei essa
lista para hoje, Julia. É muito carinhoso de sua parte. Sei o quanto anda ocupada.
— Espero ansiosa por isso, Laney. Quero que meu futuro sobrinho tenha montes
de maravilhosos presentes quando chegar.
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—- É tão emocionante. Sei que ainda faltam vários meses, mas não aguento
esperar.
Terminaram a conversa em um tom feliz e Mia serviu-se de outra taça de vinho.
Quando ouviu uma batida na porta, foi abri-la.
Parado, Trent olhava fixamente para ela.
— Checando seu investimento? — ela perguntou, apoiando-se na porta e tomando
um gole de vinho.
— Algo assim. Você não retornou ao trabalho hoje.
— Tirei a tarde de folga — ela disse friamente. Que podia ele fazer, demiti-la? —
Não se preocupe. Vou me levantar com o amanhecer, para fazer todos os seus sonhos se
realizarem.
Contendo a impaciência, Trent inspirou fundo. Julia desejou ser imune a ele, mas,
com as emoções tão emaranhadas, um toque daquele homem talvez a fizesse
desmoronar. No momento odiava-o, jurando jamais deixá-lo chegar perto o suficiente para
tocá-la de novo.
— Talvez estivesse preocupado com você.
— Talvez neve no deserto do Arizona.
Ele exalou um suspiro exacerbado. Aquele tique contraiu mais uma vez sua
mandíbula.
— Sabe — começou — não tem de ser desse jeito.
— Ah, eu acho que tem — disse Julia, recusando-se a dar-lhe um centímetro
sequer. — De fato, esse é o único jeito que pode ser entre nós agora.
Trent merecia cada partícula de seu desdém.
— Tudo bem, excelente, Julia. Esteja em meu escritório de manhã cedo. Temos
planos a discutir.
Ele virou-se e afastou-se antes que ela pudesse bater a porta em sua cara.
No dia seguinte, teria de conversar sobre o chá de bebê surpresa de Laney com
Trent. Teriam de trabalhar lado a lado, resolvendo os problemas do Tempestade do
Oeste.
Mas, esta noite, podia apenas desabar na cama e esquecer que até mesmo
conhecera Trent Tyler.
Trent não conhecera outra mulher que quisera mais do que Julia Lowell... qualquer
outra sem dúvida se apagava em comparação a ela. Sentada do outro lado da
escrivaninha, com a cabeça abaixada, expunha-lhe os planos para melhorar o status do
Tempestade do Oeste. Ele notou os escuros cílios curvados tocando-lhe as pálpebras,
uma boca suave polpuda pintada com batom cereja e um pescoço esbelto perfeitamente
beijável. Os cabelos compridos acariciavam os ombros e tocavam o decote cavado do
terninho vermelho.
Usava aquela cor como nenhuma outra. E as sandálias... Usava-as de propósito
para atormentá-lo.
Não entrara no escritório dele amargurada, sentindo pena de si mesma. Entrara de
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cabeça erguida, os olhos cheios de determinação. Assumira o modo profissional, dando-
lhe tempo para admirar sua iniciativa e sua beleza.
— Estes são meus planos preliminares. O que acha? — ela perguntou, à queima-
roupa, fazendo contato visual.
Trent assentiu com a cabeça.
— Acho que você compreendeu o que precisa ser mudado aqui.
— O Tempestade do Oeste é especial. Não apenas um lugar de férias e diversão...
esses existem aos montes. Precisamos dar à clientela uma experiência inesquecível.
Alguma coisa que não encontram em outro lugar. Vai ser exclusivo, apenas por convite,
no início. É um risco, Trent. Está disposto a arriscar?
Julia tinha experiência. Trent reconhecera na profissional, até mesmo quando lhe
cobrira o corpo e fizera-a gemer o nome dele na primeira vez que haviam ficado juntos.
Ainda assim, ela poderia muito bem começar a sabotar o hotel.
Trent pusera toda a confiança nela quando chegara.
Mas, agora que ela sabia a verdade sobre a contratação, ainda lhe daria cem por
cento de lealdade e dedicação?
Ele olhou-a com os olhos semicerrados e perguntou.
— Este é o mesmo plano que vinha elaborando antes de nossa conversa ontem?
Julia não se ofendeu com a pergunta. Endireitou-se na cadeira e deu-lhe um
sorriso de lábios fechados.
— Tivemos um sexo esplêndido, Trent. Você me usou profissionalmente. Estou
furiosa com você, mas eu jamais comprometeria meus princípios. Acredito em uma ética
de trabalho imparcial. Portanto, se a pergunta é: eu o jogaria aos cachorros por despeito?
A resposta é não. Este é o mesmo plano que vinha formulando desde que cheguei aqui.
— Eu tinha de perguntar.
— Concordo. Agora, o que acha das minhas ideias?
Trent esfregou o queixo, e a barba de um dia por fazer arranhou seus dedos.
Pensou em alguns dias atrás, quando ela montara em seu colo, fazendo sua barba com
gestos cuidadosos e uniformes, até ele não poder aguentar mais um segundo. Então ele
jogara-a na bancada do banheiro, com as pernas dela em sua cintura, penetrando seu
corpo, esquecendo-se da barba. Ele exalou um suspiro.
— Disponho-me a correr o risco. É uma ideia maravilhosa.
Desta vez, Julia abriu um enorme sorriso, seus olhos brilhavam.
— Vou começar a trabalhar no novo slogan para o hotel. Precisamos de algo
atraente que passe de mão em mão com o tema do Tempestade do Oeste. Vai exigir
algum trabalho mental.
— Comunique-me o que precisar de mim.
Ela deu uma olhada para a boca de Trent. Um vacilo. Aquele olhar rápido o fez
perguntar-se por quanto tempo iria continuar furiosa com ele e negar aquelas noites
longas, quentes e sensuais na cama.
— Trabalho melhor sozinha, Trent. Quando eu tiver alguma coisa, trarei a você
para aprovação.
Ele fez que sim com a cabeça e mergulhou os olhos no decote cavado de Julia,
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que o provocava com a sugestão dos seios.
— Muito justo.
Encararam-se por um longo momento. Então Julia comentou:
— Você não vai se desculpar pelo que fez comigo, vai?
Trent talvez o fizesse se achasse que ela iria para a cama dele à noite.
— Não.
Ela assentiu, resignada, apenas um mínimo tremor nos lábios traindo o desprezo
que sentia.
— Precisamos conversar sobre o chá de bebê de Laney e Evan. Laney acha que
vou oferecê-la em seis semanas.
Trent olhou para a agenda.
— Tenho compromissos o resto do dia. Encontre-se comigo para jantar esta noite e
falamos a respeito.
Ela fez que não com a cabeça.
— Não posso. Encaixe-me em outra hora.
— Não pode ou não quer?
— Não quero. — E ergueu o delicado queixo. — Além disso, tenho planos para a
noite. — Trent fechou a agenda com força. — Não estou disponível para você após o
horário de trabalho. — Sorriu. — Não se esqueça disso de agora em diante.
Ele ouvira o recado em alto e bom som. Havia uma coisa engraçada em
declarações assim. Uma vez proferida, ele ia fazer tudo que estivesse em seu poder para
mudar o fato.
Julia juntou os papéis, guardou-os numa pasta e levantou-se. A meio caminho da
porta, virou-se.
— Diga-me, Trent? Exibo alguma placa que diga "Aproveite-se de mim"?
Trent levantou-se e contornou a escrivaninha, encarando-a.
— Só vejo uma mulher magnífica, sensual, com cérebro e talento, querida.
Ela baixou a cabeça antes de tornar a olhá-lo.
— Receio que seja tarde demais para seu charme, Trent.
Saiu do escritório, deixando-o a se perguntar: que tipo de planos Julia tinha para a
noite? E com quem?
Julia montou uma robusta égua baia que Pete lhe garantira ser o cavalo mais
manso do haras. Ele cavalgava ao seu lado quando saíram dos estábulos em direção ao
extremo de Crimson Canyon quando comentou.
— Há lugares muito lindos aqui que os hóspedes pagantes não têm chance de ver.
— Foi o que Tre... hum... o sr. Tyler disse. Por que acha que isso acontece? — ela
perguntou. O couro da sela chiou e estirou quando ela se acomodou. '
Pete encolheu os ombros.
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— São longe. Algumas áreas são mais perigosas do que outras. Quando os
levamos em um passeio acompanhado, permanecemos em certos caminhos testados e
confiáveis em nome da segurança.
— Isso não parece o estilo de Trent Tyler. Ele quer que todo mundo que venha
aqui conheça a terra.
— Não foi ideia dele. Tivemos um incidente quando o hotel havia acabado de
inaugurar. — Pete balançou a cabeça. — Algumas pessoas se julgam dotadas de talentos
de equitação que não têm. Um homem achou que conseguia subir ao topo do penhasco
da Sombra. Queria uma vista de cima do desfiladeiro. Forçou o cavalo e chegou até a
metade da subida, quando um grande e velho falcão de asas vermelhas deu um
mergulho, assustando a montaria. O hóspede foi atirado ao chão. Ficou com o orgulho
ferido mais do que qualquer coisa, porém culpou a administração por não afixar sinais de
advertência. Ameaçou nos processar por negligência. O sr. Tyler acalmou-o e convenceu-
o de não processar o hotel. Desde então, só oferecemos passeios guiados e nos
mantemos nesses caminhos.
— Que pena — disse Julia, admirando maravilhada o penhasco da Sombra, a
escarpada crista de Crimson Canyon que inspirava assombro.
— É o lugar mais bonito que você já viu na vida.
— Deve ser impressionante, porque não posso imaginar nada mais belo do que
vejo agora.
— Aceite minha palavra.
— Eu gostaria de vê-lo — disse Julia para ele. — Leve-me lá.
Pete olhou-a.
— O sol vai se por logo, srta. Lowell.
— É Julia, e eu sei. É esse o plano. Quero ver pouco antes do por do sol.
O rapaz concordou e fez o cavalo trotar devagar. A égua de Julia o seguiu.
Mais de uma hora depois, os dois retornavam do penhasco do desfiladeiro.
Desmontaram diante dos estábulos e ela lhe entregou as rédeas.
— Obrigada, Pete. Adorei o passeio. Você me instruiu com seu conhecimento da
área.
Pete riu.
— Faz um bom tempo desde a última vez que instruí alguém sobre qualquer coisa,
srta. Low... — disse e então se deu conta. Chamara-a de srta. Lowell cinco vezes depois
que ela o havia convencido de deixar a formalidade.
— Julia — corrigiu-se, afinal.
Os dois riram, e estavam se divertindo até Trent sair do estábulo, com a expressão
sinistra. Encarou o outro por um segundo, e então desviou o olhar para ela.
Pete pareceu impassível à presença do chefe, mas os nervos de Julia agitaram-se
e o sorriso se desfez.
— Boa noite, sr. Tyler — disse Pete, tocando de leve a aba do chapéu.
— Pete. — Trent encaminhou-se direto para eles, cravando o olhar em Julia. Só
então ela notou o jipe parado perto do escritório. — Era por isso que não podia jantar
comigo?
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Julia sentiu vontade de revirar os olhos, mas conseguiu mantê-los firmes no rosto
de Trent.
— Era — admitiu, revelando a verdade. Combinara com Pete que ele a levaria ao
topo do penhasco da Sombra durante a tarde. Claro que, pelo olhar que o Trent lhe dera,
e depois a Pete, não ficou satisfeito com nenhum dos dois.
— Eu lhe disse que tinha planos para esta noite.
— A gente ia entrar e tomar um drinque depois do passeio — explicou Pete,
entregando as rédeas de ambos os cavalos a um dos vaqueiros. Olhou Trent nos olhos.
— Gostaria de se juntar a nós?
Julia admirou a indiferença de Pete com o patrão. Era um homem que não falava
medindo as palavras nem fazia jogos enganosos. Gostava do rapaz e perguntou-se se o
outro sabia que Kimberly sentia uma coisa séria por ele.
— Não, acho que não. Preciso falar com Julia. Levo-a de volta, mas faço questão
que ela tome seu drinque.
Ela se ouriçou. Não fazia o tipo que gostava de causar uma cena, mas era a
segunda vez em alguns dias que Trent lhe testava a paciência.
Pete olhou-a.
— Se fizer questão do drinque, corro lá dentro e trago para você.
Ela ficou tentada. Preferia não ceder às exigências de Trent. Embora Pete
continuasse na dele, não queria causar problema entre os dois.
— Tudo bem, Pete. Está ficando tarde. Voltarei com o sr. Tyler.
Trent virou-se, de volta ao jipe. Julia contou até dez mentalmente, e depois sorriu
para Pete.
— Obrigada pelo esforço esta noite. Gostei muito do passeio.
— Quando quiser. — Tocou a aba do chapéu em despedida. — O chefe está
esperando — disse com um sorriso. — Não vai querer se indispor com ele, sendo uma
nova empregada e tudo mais.
Ela arregalou os olhos. Pete enxergara demais com aqueles claros olhos azuis.
— Você não tem medo dele, tem?
— De Trent? Diabos, não. Ele sabe que sou um vaqueiro danado de bom e cumpro
as regras. E eu sei que é um empregador justo e um homem decente. Temos respeito
mútuo.
Riu de novo.
— Julia? — chamou Trent do jipe.
Respeito mútuo. Quem dera que ela tivesse conseguido o trabalho da forma
convencional, chegando para uma entrevista e deslumbrando o dono do hotel com suas
ideias, em vez de ele ter de recorrer ao engano para lhe dar o emprego. Então talvez
compartilhassem respeito mútuo e também o julgasse um homem decente. Na atual
situação, sentia apenas desprezo por ele.
Agradeceu mais uma vez ao guia, instalou-se no lado do carona do jipe e bateu a
porta, olhando direto para frente. Ao afastar-se, Trent virou-se para ela,
— Você não perde tempo.
Não ia permitir que ele a incitasse para um bate-boca, mas o comentário de fato
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conseguiu irritá-la.
— Não. Quando tenho um trabalho a fazer, não.
— Quer dizer que aquele passeio ao por do sol teve algo a ver com trabalho?
— Teve tudo a ver com trabalho. — Apoiou a cabeça no encosto do banco e
fechou os olhos. — Estava me seguindo?
— Não, Julia. Não estava lhe seguindo. Vim aqui esta noite para inspecionar meus
próprios cavalos.
Ela abriu os olhos e virou-se de frente para ele.
— Você tem cavalos aqui?
Trent fez que sim com a cabeça.
— Dois. Duke e Honey Girl. Venho vê-los sempre que posso. Cavalgo se tiver
tempo.
— Então que tinha de tão urgente para precisar me arrancar da conversa com
Pete?
Quisera ele saber. Saíra dos estábulos todo preparado para retornar ao escritório
quando a avistou com Pete, e os dois pareciam curtir a companhia um do outro um pouco
demais.
— Se precisa de tempo comigo, terá de ser esta noite. Saio da cidade de manhã.
Tenho algumas reuniões que já adiei por tempo demais, na verdade.
— Quanto tempo ficará fora?
— Alguns dias.
— Tudo bem — disse Julia com um suspiro.
Trent dirigiu-se para sua casa dentro da propriedade e parou o jipe em sua
garagem privativa. Apertou o controle remoto e a porta se abriu. Ao lado do jipe ficavam o
Chevy Silverado preto e o BMW prateado.
— Onde estamos? — ela perguntou, perplexa.
— Na minha casa.
Julia arregalou os olhos.
— Achei que você morasse no hotel.
— Moro, quase o tempo todo. Mas mandei construir esta casa para os momentos
em que preciso ficar só. É pequena, básica e tem uma vista gloriosa do desfiladeiro.
— Por que me trouxe aqui? — ela perguntou num tom incisivo.
Parecia um animal enjaulado prestes a arrombar a jaula.
— Você precisa dos nomes e dos números de telefone da família Tyler, certo?
Guardo meus arquivos pessoais aqui. Por favor, Julia. Não sou o grande lobo mau. Pegue
o que precisa, tome um drinque e depois a levo de volta ao hotel.
Saltou do jipe e esperou-a. Assim que ela cedeu, tomou-a pelo braço e a guiou
para dentro.
Mandara construir a casa para satisfazer suas necessidades. Com um enorme
quarto principal, uma cozinha espaçosa com área para refeições e uma grande sala que
alojava um imenso sofá de camurça voltado para a lareira de pedra que ia do teto ao piso,
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ele gostaria que tivesse mais tempo livre para passar ali.
— É isso.
A carrancuda expressão de Julia suavizou-se. Olhou ao redor, vendo todos os
aposentos, menos o quarto.
— É bonita, Trent. Entendo por que gostaria de vir para cá relaxar.
E ele adoraria relaxar com ela agora mesmo. Jamais trouxera uma mulher a essa
casa antes e tê-lo feito sem pensar o fez alegrar-se com o fato de que ia partir do
Tempestade do Oeste por alguns dias.
Deixara-o intrigado a imagem de Julia rindo com Pete junto aos estábulos. Fazer
sexo com a amante era uma coisa, sentir uma ligação emocional era outra totalmente
diferente.
— Sente-se — disse, gesticulando para um canto no sofá em forma de L. — Que
quer beber... vinho, champanhe, algum coquetel?
Foi até o bar embutido ao lado da lareira.
— Só água gelada, por favor.
Ele olhou-a e riu.
— Você acha mesmo que sou o grande lobo mau, não?
— Digamos apenas que ficou sem seu disfarce agora. Sei com quem estou
lidando.
— Ai! — Trent olhou-a sentada no sofá, vestida de jeans azul-claro, as pernas
cruzadas e a postura rija. Mesmo de botas de couro e roupas informais estava elegante,
tinha classe e era linda. O vento da viagem de jipe envolvera-lhe o rosto com os longos
cachos escuros de cabelo e alguns ainda caíam sobre seu rosto. Serviu-lhe um copo
d'água gelada, um longo com dois dedos de uísque para si, depois se aproximou para
entregar-lhe a bebida. Sentou-se ao lado dela. — Pete tem uma senhora reputação com
as moças — disse, tomando um gole do uísque.
— E você pensou em me advertir? — Julia olhou o copo na mão. — Que
generosidade, Trent, considerando o que você me fez.
Ele inclinou-se, apoiou os braços nas pernas, e virou-se para ela.
— Não vai passar por cima disso, vai?
Ela balançou a cabeça, falando baixo, mas com convicção.
— Não, não vou. E não estou interessada em Pete. Meu único interesse no
Tempestade do Oeste é fazer o que vim aqui para fazer, depois ir embora.
Delicadamente, tomou um gole de água e Trent olhou sua boca. Uma gota d'água
permaneceu no lábio dela, que a lambeu, distraída.
Ele ergueu o olhar para o de Julia, cuja expressão vacilou por um breve segundo,
os bonitos olhos verdes suavizando-se antes de ela enrijecer o queixo. A química entre
ambos continuava e desprendia-se como o vapor de uma ducha quente.
— Quando seria uma ocasião conveniente para o chá de bebê de Laney? — ela
perguntou, mudando de novo a conversa para negócios.
— Quando lhe convier. Mandarei preparar o jato da empresa para pegar os
convidados. A gente os hospeda por uma ou duas noites, com acesso a todas as
instalações.
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— Eu gostaria de fazer em algumas semanas, antes que Laney desconfie. Terei de
pôr Evan nos planos para trazê-la. Pensei em usar, visto ser em parte verdade, o pretexto
de que você vai oferecer uma festa aberta a todos da família.
Trent balançou a cabeça.
— Parece que vai funcionar. Conte comigo. Mais alguma coisa, querida?
— Apenas aqueles nomes e números, por favor. Preciso voltar agora.
Finalizaram os planos, Trent levou-a de volta ao hotel, parou o jipe e informou-a.
— Voltarei na sexta-feira. Kimberly sabe como me achar, se você precisar de
qualquer coisa.
— Não vou precisar.
— Já deixou isso claro, Julia. Mas eu me referia aos negócios, querida.
-— Certo. — Ela engoliu em seco e assentiu com a cabeça. — Quando você
retornar, terei finalizado minha nova estratégia de marketing.
— Espero ansioso por isso.
Desceu do jipe e contornou-o para abrir a porta. Julia logo saiu e Trent
acompanhou-a pelo saguão até o elevador.
— Vejo-o na sexta...
Inclinou-se e beijou-a antes que ela pudesse concluir o pensamento. Encostou seu
corpo no dela, segurando-a firme pela cintura, e separou-lhe os lábios, para saboreá-la
mais uma vez.
— Precisava disso — ele sussurrou, acariciando-lhe os quadris delicadamente com
as palmas das mãos.
— Não faça isso — ela exalou um suspiro, numa tentativa inútil de negar o que
ambos desejavam. — Trent, eu nunca vou perdoá-lo.
— Eu sei, mas você não é tola, querida. Nós dois somos fantásticos juntos. — O
leve tremor e a rendição do corpo de Julia naquele único momento o encorajaria pelos
próximos dias. — E só mentiria para si mesma se achasse que não necessitava desse
beijo tanto quanto eu.
CAPÍTULO CINCO
Dois dias depois, Julia tentava pensar em qualquer coisa, menos em Trent.
Quando não estava absorta no trabalho, pensava no último encontro com ele, no
beijo quente sensual e no olhar prolongado. Sempre que a tocava, despertava-lhe cada
nervo no corpo. Gostaria que não fosse assim. Jamais reagira a um homem como o fazia
com ele.
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Ele tinha tudo... beleza, charme, inegável atração sexual, inteligência e o maldito
andar arrogante que transformava seu corpo em gelatina sempre que o avistava
encaminhando-se em sua direção. Às vezes, sobretudo quando usava a lábia com ela, ou
a beijava inesperadamente, fazia-a esquecer que era tão cruel e inflexível quanto bonito e
encantador.
Embora encontrasse algum alívio na partida dele da cidade por alguns dias,
também odiava admitir a ânsia que sentia por vê-lo quando retornasse.
O que era uma absoluta loucura.
Ele manipulara-a e mentira. Seduzira-a e fizera-a se sentir uma idiota. Sua mente
dizia-lhe que esquecesse que aquele homem caminhava sobre a Terra, mas o coração...
essa era outra questão.
Passada a hora do jantar, sentada à escrivaninha, Julia estudava a elaboração da
nova campanha publicitária até seus olhos ficarem turvos. Mandara um artista plástico
esboçar uma versão de Crimson Canyon num pôster e lutara com as palavras para a
campanha. Com a imagem do Tempestade do Oeste diante de si, sentiu o imediato apelo
e soube que se encontrava no caminho certo. Tomou um gole de café frio e fez uma
careta.
— Horrível — resmungou e largou a xícara. Recostou-se na cadeira e suspirou,
percebendo que exigira demais do cérebro nos últimos dias. O estômago roncou,
lembrando-lhe da hora tardia.
Levantou-se e alongou os braços. Relaxando os músculos retesados, fechou os
olhos e girou a cabeça devagar, em círculos, para aliviar a tensão.
—Você fica sexy quando faz isso.
Trent surgiu na porta do escritório, encostou-se nela e colocou as mãos nos bolsos
de trás do jeans.
— Você voltou— ela declarou, atordoada ao vê-lo.
Não apenas a surpreendera, mas também lhe desagradou a repentina aceleração
do coração que ele provocava.
Com os olhos brilhando, ele sorriu.
— Sentiu saudade? — perguntou e entrou no escritório.
Como uma invasão de ratos, pensou Julia, mas guardou a observação para si
mesma.
— Eu já ia embora.
Ele ignorou-a e avistou o cartaz na escrivaninha.
— É este? — perguntou, aproximando-se para olhar melhor.
Julia hesitou. Gostava de suas ideias e achava que acertara na campanha, mas
ainda não havia se preparado para a apresentação. Gostava de tudo em perfeita ordem,
sobretudo quando se tratava da profissão. Mas aquele homem sempre parecia bagunçar
sua vida bem ordenada.
— Sim, é este. Mas ainda não terminei. Falta planejar o design de um convite
especial para nossa grande reinauguração. Só que duvido que possamos chamá-la
assim.
Trent continuava com o olhar fixo no cartaz.
— Viva nossas lendas — leu, recitando as palavras — ou crie a sua.
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Ela foi para o lado dele.
— Bem ali — explicou, apontando uma faixa inferior no cartaz — vamos pôr as
palavras Tempestade do Oeste em Crimson Canyon.
Ele deu um olhar de soslaio.
— Gosto do slogan.
—- Obrigada — agradeceu Julia, em voz baixa.
Então, em meio ao silêncio da sala, o estômago dela tornou a roncar. Trent riu.
— Também estou morrendo de fome. Vim direto do aeroporto. O chef já vai
mandar subir o jantar. Suficiente para dois.
Julia balançou a cabeça.
— Sei que você pode comer tudo — disse, abrindo a gaveta e pegando a bolsa.
— Salmão caramelizado com ervas e arroz oriental.
Soava como um manjar de deuses, mas ela fez que não com a cabeça.
— Suflê de cenoura.
— Suflê? — perguntou, faminta, a boca aguando. — não parece refeição de
caubói.
— Meu apetite desconhece limites. Julia sorriu, desanimada.
— O chef também vai mandar bolo de chocolate com sete camadas.
— A especialidade da casa.
— Você pode me pôr a par dos detalhes da campanha enquanto comemos.
Outra vez seu estômago roncou, o que a fez arrastar os pés, sem graça, mas se
Trent ouvira nada falou. Ela planejara pedir uma salada do Café Canyon e deitar-se cedo
esta noite.
Uma refeição gastronômica parecia mil vezes melhor, apenas não tinha força de
vontade suficiente para recusar comida e aquele homem.
— É uma ordem do patrão?
Trent encarou-a no fundo dos olhos.
— Não, apenas um pedido.
Ela deu um suspiro alto, negando que a resposta sincera significasse alguma
coisa.
— Certo, então. Quando comemos?
Trent olhou o relógio de pulso.
— Deve chegar em alguns minutos.
Julia ocupou-se, esvaziando a escrivaninha, afastando o cartaz e guardando a
papelada. Ele foi até a janela e olhou ao longe, parecendo absorto em pensamentos.
— Acabei de fechar um negócio: trazer um rebanho de cavalos bravios para o
desfiladeiro.
— Como?
Ela julgou ter ouvido errado.
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— Precisam de um bom lar, Julia. Estão abatidos, machucados e famintos.
— Aqui não é uma fazenda. É um hotel de lazer para a elite... que ainda tem um
longo caminho a percorrer para render lucros. Por que você não conversou isso comigo
antes?
— Eu já tinha tomado a decisão. Faremos dar certo. Vou instalá-los soltos atrás do
penhasco da Sombra.
— Soltos? Diga que é brincadeira.
— O rebanho não vai incomodar ninguém lá. É, em termos não oficiais, zona
proibida aos nossos hóspedes.
— Se tivesse esperado minha apresentação, saberia que eu tinha planos muito
específicos para o penhasco da Sombra. E esses planos não incluem cavalos selvagens.
Trent cerrou os maxilares e revelou determinação nos olhos. Ela temia que não
houvesse jeito de dissuadi-lo.
— Que tipo de planos? — perguntou.
— Passeios privados guiados a cavalo penhasco acima. Aulas de arte. Dadas por
profissionais. A intimidade, a paz, o sossego e as paisagens magníficas de Crimson
Canyon... Conheço poucas pessoas que não adorariam encontrar uma área isolada tão
espetacular que a gente não acredita que seja real para refletir. Algumas pintariam ou
desenhariam. Outras cavalgariam, íamos oferecer-lhes algo que não obtêm em nenhum
outro lugar, lembra?
— Agora terão as mesmas paisagens com cavalos selvagens.
— Pode contê-los?
— Não farei isso — afirmou Trent, categórico.
Julia não pôde deixar de admirar aquela dedicação e compaixão que ele sentia
pelos animais abandonados. Imaginou aqueles cavalos, bem tratados e livres para correr.
Sabia que Trent cuidaria do bem-estar dos animais.
Era um homem que cuidava dos seus.
— Mas a segurança dos hóspedes...
— O rebanho terá limites naturais. Não vão desgarrar-se para longe demais.
Planejo alimentá-los e garantir que tenham água. Ficarão onde precisamos que fiquem. E
não incomodarão ninguém.
—Como pode prometer isso?
— Confie em mim.
Ela nunca mais iria confiar nele. Porém eram seu hotel e o dinheiro a perder.
— Não pode permitir que processem o hotel.
Trent ergueu as sobrancelhas.
— Já ficou sabendo?
— Não por você. Mas fiquei, sim. Nossa primeira prioridade é com seus hóspedes
pagantes. E pagarão quase o dobro pelo que proponho. Por favor, diga-me: não tem nada
louco planejado para o lago do Destino? Nada de shows acrobáticos de Jet Ski nem
qualquer coisa do gênero?
Trent entortou a boca.
36
— Engraçadinha, Julia.
— Então?
— Não. Não tenho planos para o lago do Destino.
— Que alívio — ela disse.
O garçom passou pelo escritório empurrando um carrinho giratório. Quando Trent
avistou-o, pediu-lhe que entrasse.
— É jantar para dois agora, Robert. Comeremos aqui na escrivaninha, a não ser
que a srta. Lowell queira jantar no andar de baixo.
Olhou-a, parecendo esperar uma mudança de opinião.
—- Aqui está ótimo. Estamos trabalhando — ela respondeu, dando um sorrisinho a
Robert. O garçom examinou a refeição.
— Voltarei com outro prato e o conjunto de talheres.
Robert já quase saía quando Trent o deteve.
— Não precisa, Robert. Há o suficiente para nós dois. Obrigado por trazer a
comida até aqui em cima.
Ainda alcançou-o na porta e entregou-lhe uma gorjeta, depois retornou para
destampar as travessas. Subiu um vapor aromático, os saborosos temperos misturaram-
se no ar, fazendo ruídos irromperem do estômago de Julia.
— Parece delicioso.
Trent tirou todos os pratos do carrinho, colocou-os na escrivaninha e sentou-se.
— E agora? — ela perguntou, com fome.
Dispensara Robert e não havia pratos extras.
— Agora pode sentar-se ao meu lado — ele disse, a voz meiga e baixa — ou em
meu colo e eu lhe dou de comer. Parece uma forma excelente de saborear uma refeição.
Uma imagem sensual passou rapidamente pela cabeça de Julia, que foi até onde
Trent sentou-se e inclinou-se para olhá-lo, aproximando-se bem do rosto dele. Vendo
aqueles magníficos olhos escuros, resistiu à tentação.
— Volto logo — disse.
— Aonde você vai? — ele perguntou.
— Você já vai saber.
Um minuto depois, retornava do salão atrás da área de recepção com um prato de
papel e talheres de plástico. Trent apenas sorriu.
— Engenhosa.
— Também acho — ela concordou.
Ele passou-lhe a refinada porcelana e talheres, encheu um prato de papel com
comida para si mesmo e esperou-a se sentar antes de comer.
Pelo menos Trent Tyler tinha bons modos.
Na manhã seguinte, ele parou o jipe perto dos estábulos e entrou no escritório.
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Irritou-o vê-la mais uma vez conversando com Pete, a risada agradável enchendo a
pequena sala, enquanto ela marinha a atenção concentrada no chefe dos vaqueiros.
Embora confiasse em Julia o máximo que pudesse, insistira em levá-la penhasco
da Sombra acima e fazê-la explicar os planos, nos mínimos detalhes. Era a única maneira
de visualizar por completo as ideias que ela concebera.
O que Julia, como nova diretora de marketing, propunha era arriscado e ele não se
incomodava em correr um risco calculado quando necessário, mas tinha de se certificar
de que ela não tentava ferrá-lo para se vingar.
Não sabia se era capaz de tal traição, mas certamente não esperara que fosse tão
difícil tornar a conquistá-la. Queria-a de volta no quarto, claro e simples assim. E queria
acreditar em sua nova estratégia de marketing... o que era de extrema importância.
— Bom dia — disse, interrompendo a conversa deles.
Julia ergueu os olhos com um sorriso no rosto.
— Bom dia.
Pete cumprimentou-o com um aceno da cabeça e saiu, deixando-os a sós no
escritório.
— Pronta para uma cavalgada?
— Sim, até me vesti para isso — ela respondeu, transbordando bom humor.
Trent teria ficado encantado, só que sabia que Pete fora o responsável por aquela
atitude animada.
De calça jeans e uma blusa leve de algodão, Julia tinha os cabelos presos num
rabo de cavalo, o rosto sem maquiagem e parecia tão fresca quanto um dia ensolarado, e
ele não podia negar sua beleza natural. Elegantemente vestida ou em um terninho de
trabalho ou parecendo uma rainha de rodeio, Julia Lowell causava impressão.
— Vamos indo.
— Estamos desperdiçando a luz do dia! — ela provocou. Trent segurou sua cintura
com o braço e puxou-a contra si. O corpo delicado e macio deixou-o duro como granito.
— Oh — ela exalou.
— Algo está sendo desperdiçado, querida. E se não sairmos logo daqui você vai
descobrir o que é.
A tensão crepitou entre os dois. Encararam-se por um momento, antes de ele
soltá-la e ela murmurar:
— Certo, va-vamos sair.
Trent praguejou baixinho. Nunca desejara tanto uma mulher, porém tinha absoluta
certeza de que não estava a fim de permiti-la estonteá-lo e fazê-lo cometer um grande
erro.
Cruzou a porta e dirigiu-se ao curral que alojava seus cavalos. Pete já selara e
aprontara Duke e Honey Girl. Trent pegou as rédeas.
— Obrigado, Pete. Levo-os daqui em diante.
Pete olhou a jovem, que parara passos atrás.
— Saquei — disse e acenou com a cabeça. — Estarei no escritório se precisarem
de mim mais tarde. Tenham um bom passeio.
Trent ajudou-a a montar a égua, subiu no próprio cavalo e os dois partiram. A
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caminho do penhasco da Sombra, ele deixou Julia falar o tempo todo, expondo o plano.
Ouvia-a atentamente e balançava a cabeça, absorvendo a paisagem com cactos
arborescentes que pontilhavam a propriedade e as inspiradoras montanhas cor de fogo
de Crimson Canyon. Enquanto cavalgavam, sua frustração diminuía ao se concentrar na
visão da companheira de montaria.
— Que a fez pensar em oferecer aulas de arte?
— Não é a aula de arte comum. Empregaremos um verdadeiro artista plástico no
Tempestade do Oeste. Exporá as obras na galeria do hotel e depois ofereceremos
inspiração no lugar mais pitoresco da propriedade. Quando conferi o questionário de sua
clientela notei que a maioria dos hóspedes era de amantes de arte e música. Não me
parece uma ideia idiota atrair hóspedes com o que eles amam. Lembre-se, o Tempestade
do Oeste não é um lugar de pernoite a caminho de um destino. É o destino. E precisamos
dar aos hóspedes o que eles amam. Não lhes dar motivo algum para sair em busca de
entretenimento externo. A palavra exclusivo será sinônimo do Tempestade do Oeste. Este
é nosso objetivo de venda. Privacidade, reclusão, cenários naturais e oportunidades
exclusivas.
Trent reteve Duke quando chegaram à base do penhasco da Sombra.
— Parece bom.
A égua seguiu o exemplo de Duke e parou ao lado.
— O artista plástico virá mostrar sua obra e se tornará mais conhecido na
comunidade artística. A clientela é muito rica. Gastará dinheiro extra pelo que
oferecemos. Quanto à cantora, trabalhei com Sarah Rose na instituição de caridade
Dream Foundation.
— Você conseguiu Sarah Rose para nós?
Trent ficou impressionado. A cantora de country music Sarah Rose era tão famosa
e talentosa quanto Reba McEntire e Faith Hill.
— Consegui. Estou resolvendo os detalhes com o agente. Mas já conversei com
Sarah em particular e ela está pronta para uma mudança de ritmo. Precisa de férias.
Assim que descrevi o Tempestade do Oeste, dispôs-se a vir fazer alguns shows íntimos
semanais desde que lhe garantam privacidade enquanto estiver aqui. Também será uma
hóspede.
Ele olhou no fundo dos bonitos olhos de Julia. Passavam toda a paixão pelo
trabalho em alto e bom som. Ela parecia convencida e isso era ótimo para o investidor.
— Se você diz que vai dar certo, sou totalmente a favor.
— Jamais há garantias, mas acho que sim. Está tudo no pacote. Tenho trabalhado
duro em um convite especial com o novo slogan e mandei fazer um novo folheto.
— Certo — ele disse, e olhou o penhasco que assomava acima. — Pronta para a
subida?
Ela examinou o penhasco sombreado pela luz matinal.
— Pete disse que há outro caminho de subida.
— É um caminho sinuoso mais longo. Mas há, sim.
— Mostre-me.
Trent levou-a ao topo do penhasco da Sombra usando o caminho bem escondido
que serpenteava atrás e ao redor da montanha. Desmontou tão logo chegaram ao platô e
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ajudou-a a descer, segurando-a enquanto ela deslizava pelo seu corpo, saindo da sela de
Honey Girl.
Julia piscou quando olhou a boca de Trent.
Ele sorriu e afastou-se, tomando sua mão na dele.
— É esta sua vista? — perguntou, indo até o centro da elevada região plana acima
de Crimson Canyon, onde formações rochosas naturalmente esculpidas uniam-se ao céu
do oeste.
— É — ela suspirou. — É esta.
— Também a vejo.
Trent passou o braço em volta da cintura dela e ambos contemplaram a
surpreendente vista. Sossegada. Reclusa. Natural. A voz de Julia quebrou o silêncio.
— Se você pudesse encontrar um meio de alargar a trilha até aqui em cima, creio
que os hóspedes não se importariam de percorrer o passeio mais longo a cavalo. É a
subida mais segura e eles seriam bem guiados.
— Eu tinha planejado estabelecer os cavalos selvagens atrás do penhasco.
— Não pode estabelecê-los no desfiladeiro?
— Não, morreriam de fome. Não ficariam nada melhor do que no lugar de onde
foram resgatados. Nem teríamos como cuidar deles lá embaixo.
— Isso é importante para você, não?
— É — admitiu Trent, apreciando a sensação do corpo de Julia aproximar-se do
seu sem que ela percebesse. Ficara tanto tempo longe dela e nenhuma outra mulher
servia. — Não posso ficar sentado e ver aqueles cavalos morrerem.
Trent era proprietário de uma imensa extensão de terra, com espaço para o hotel e
o rebanho. Embora houvesse sido criado com os irmãos em uma cidade de tamanho
médio, sonhara um dia ser dono de terra suficiente para manter um rebanho selvagem.
Sempre tivera uma afinidade com cavalos e, quando descobrira que esses estavam
morrendo, tivera de ajudar.
— É mais importante que o sucesso do hotel? Você poderia perder a aposta com
seu irmão — a voz dela se suavizou.
— Querida, isso não vai acontecer. Sempre encontro um meio de conseguir o que
quero.
Julia pôs a mão na face dele, a carícia parecendo um levíssimo toque de pluma, os
olhos cheios de pesar.
— É, Trent. Eu sei.
CAPÍTULO SEIS
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Os convidados do chá de bebê chegaram no jato da empresa um dia antes da
festa surpresa. Kimberly ajudou Julia a recebê-los no aeroporto e conduziu-os às
limusines do Tempestade do Oeste, para instalá-los por volta do meio da manhã.
Com a ajuda de Trent, organizara um churrasco para o almoço no pátio, ao ar livre,
com vista para Crimson Canyon, e um passeio guiado ao penhasco da Sombra à tarde.
No dia seguinte, faria o chá de bebê surpresa às margens do lago do Destino. De
certa forma, tratava-se da realização experimental de sua visão para o Tempestade do
Oeste. Os convidados compartilhariam o tratamento cinco estrelas exclusivo do hotel que
planejara para os hóspedes pagantes. Era um prazer especial para ela, pois o pai, amigo
querido de Laney, também estava incluído na lista de convidados. Não o via fazia
semanas e acolhera com alegria sua presença. Haviam se abraçado e beijado no
aeroporto e a filha sentia-se feliz por ele ter feito a viagem.
Nada se comparava ao amor de um pai.
E nesse momento específico precisava de apoio. Vinha esquivando-se dos
avanços de Trent desde que a manipulara com tamanha habilidade. Ele deixara claro que
a queria. A resistência dela enfraquecera um pouco, permitindo um ou dois beijos nas
últimas semanas. À noite, quando sua mente vagava, Julia sonhava estar nos braços de
Trent, dando a ele pleno domínio de seu corpo... reivindicando igualmente o dele. Manter
o sexy caubói a uma distância segura era mais fácil de planejar do que fazer.
Uma hora depois, viu o pai ao lado de Trent e de uma adorável senhora de cabelos
grisalhos sob a treliça que cobria o pátio. Atravessou o atalho incrustado de pedras e foi
logo apresentada a Rebecca Tyler, mãe dele.
— Esta é minha Julia — disse Matthew Lowell, sorrindo para Rebecca.
A senhora estendeu a mão a Julia.
— É um grande prazer conhecê-la afinal, sra. Tyler. E numa ocasião tão feliz.
— Ah, apenas me chame de Rebecca, por favor... — respondeu com um meigo
sorriso. — É uma emoção que eu vá enfim ser avó. Que gentileza a sua oferecer essa
surpresa a Laney.
— Ela é minha melhor amiga. Alegra-me fazê-lo.
— Alimento a mesma esperança, Rebecca — disse Matthew — mas minha filha só
pensa na carreira no momento. Sem bebês no horizonte para mim.
— Pai! — O rubor dominou-a. Ela olhou furtivamente para Trent, que a observava
intensamente.
— Venho fazendo lobby há anos, Matthew — disse Rebecca.
Trent assentiu com a cabeça.
— Não posso negar. Mamãe diz isso a todos em alto e bom som. Poderia ensinar
algumas coisas a Washington.
— É o que precisa ser feito? — perguntou o pai, sorrindo para a senhora.
— Já faz um bom tempo — começou Rebecca — mas me parece que exige um
pouco mais do que isso.
Matthew deu uma risadinha.
Julia ergueu as sobrancelhas. O pai flertava com Rebecca Tyler e a bonita mulher
retribuía-lhe o flerte. Rebecca olhou-a.
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— Meu filho acha que você tem ideias brilhantes. Ele partilhou algumas comigo e
tenho de dizer que me alegra o fato de vocês trabalharem juntos, querida. Trent não
elogia ninguém da boca para fora.
— Obrigada, Rebecca. Dou o melhor de mim para... — hesitou e examinou Trent
— ... para o Tempestade do Oeste.
Trent roçou os ombros nos dela, que sentiu o perfume almiscarado da colônia e a
posição firme do corpo dele junto ao seu.
— Julia vai mudar a imagem do Tempestade do Oeste. O fato é que apoio todas as
suas ideias. Confio inteiramente nela.
Essas palavras deixaram-na sem ar. Ele nunca deixara de acreditar nos talentos
dela. Além disso, Julia jamais lhe dera motivo para não acreditar, mas ouvi-lo dizer à mãe
e ao próprio pai amoleceu o seu coração.
— Obrigada — disse, recusando-se a olhá-lo. — É melhor eu verificar como andam
as coisas com os outros convidados. Já é quase a hora do almoço. Rebecca, foi um
grande prazer conhecê-la. Se me derem licença agora...
— Vá em frente, meu bem — disse o pai. — Cuidarei para que Rebecca encontre
uma cadeira.
Trent beijou a mãe na face.
— É melhor eu voltar ao trabalho, mãe. — Depois, virou-se para o pai de Julia. —
Prazer em conhecê-lo, Matthew. — Apertou-lhe a mão. — Desfrutem o almoço. Até mais
tarde.
Julia dirigiu-se ao saguão e, antes que percorresse metade do caminho, sentiu
Trent pôr a mão em suas costas e desviá-la.
— Preciso falar com você — disse, conduzindo-a em direção aos chalés na
propriedade. — É importante.
A caminhada lembrou-lhe do encontro amoroso dos dois tarde da noite, logo que
ela chegara ao Tempestade do Oeste.
— De trabalho, certo?
— Certo — ele respondeu, fazendo-a seguir em frente e recusando-se a olhar em
sua direção.
Tão logo chegaram ao chalé vazio mais distante, levou-a para um terraço privativo
com um exuberante jardim paisagístico.
— Não vou entrar com você, Trent.
Lembranças tórridas de seus corpos e do sexo excitante que haviam feito
passaram voando por sua mente.
Ele soltou o braço da cintura dela, foi até a ponta oposta do terraço e começou a
andar de um lado para o outro.
— Você contou a seu pai como acabou sendo empregada aqui no Tempestade do
Oeste?
A pergunta afetou-a e a fez ver por que ele fora tão inflexível quanto à privacidade.
— Quer dizer como me seduziu e enganou?
— Esta é a sua opinião sobre isso. Contou?
Julia deixou-o sofrer um pouco à espera da resposta. Suspirou e levou algum
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tempo encarando-o.
— Então? — perguntou, impaciente.
— Não. Eu não contei a ele. Mas não por qualquer preocupação com você. Não
contei porque, primeiro, não quis que ele soubesse que eu tinha sido enganada com tanta
facilidade. De fato tenho algum orgulho. Segundo, porque meu velho na certa iria insistir
em que eu partisse já do Tempestade do Oeste. Ele tem uma ética de trabalho sem igual,
para não falar de um veio protetor pela filha única.
— Querida, você não precisa se proteger de mim. — Avançou um passo em
direção a ela, que ergueu as sobrancelhas.
— Não,Trent?
— Não. Droga, nós dois formamos uma equipe excelente. Dentro e fora do quarto.
Julia ignorou o comentário porque em seu íntimo sabia que era verdade. Fora a
sabotagem inicial dele, haviam trabalhado bem demais juntos nas últimas semanas. Era
um homem competente, eficiente e acessível para aceitar novas ideias. Quanto à cama,
tinha certeza de que jamais encontraria um parceiro sexual melhor.
— Por que está tão preocupado com meu pai saber da verdade?
— Viu-os juntos, Julia. Ele e minha mãe. Droga, não acredito no que vou dizer,
mas havia centelhas entre os dois. Você deve ter notado.
— Impossível não ver os fogos de artifício. Irônico, não é?
Trent aproximou-se mais e baixou a voz para um sussurro áspero.
— Por quê? Porque um Lowell acha uma Tyler atraente?
Ela balançou a cabeça em uma negativa.
— Porque é meu pai e sua mãe.
Era só o que faltava. Esperava que tivesse interpretado demais a breve conversa
deles minutos atrás, mas Trent também notara. Seu pai sentia-se extremamente solitário
nos últimos tempos. Pelo que deduzira, Rebecca Tyler também. Perdera o marido anos
atrás e jamais tornara a se casar.
Santo Deus, não precisava de mais elos com Trent. Porém, jamais vira o pai tão
entusiasmado antes. Parecia sinceramente interessado em Rebecca Tyler. Trent
aproximou-se ainda mais, com o olhar escurecido, e sua presença provocava-lhe
tremores. Ela recuou contra a parede.
— Trent, vá embora.
Ele apoiou as mãos na parede ao lado da cabeça de Julia, que, encurralada, podia
apenas fitar seu olhar faminto.
—- Faça-me ir —- disse, roçando a linha do queixo com o dedo.
O toque causou-lhe arrepios. E os tremores intensificaram-se, devastando seu
corpo. O pensamento racional abandonou-a, seu coração disparava de desejo. Julia
respirou aquele perfume, os vestígios terrosos conhecidos da colônia virando-a do
avesso.
— Que... você... quer?
— Fogos de artifício.
Inclinou a cabeça e arrebatou-a em um beijo, que a teria derrubado se ele não
houvesse deslizado as mãos para a cintura dela. Puxou-a mais para perto e segurou-a
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com firmeza.
Trent, alto e impetuoso, sempre sabia apertar-lhe os botões certos e fazê-la
contorcer-se de desejo.
Aquele beijo deixou-a sem ar. Julia enlaçou o pescoço de Trent com os braços,
trazendo-o mais para junto de si. Ele gemeu quando os corpos se uniram, e sua ereção já
era inegável.
Encaixou mais uma vez a boca na dela e intensificou o beijo. Julia saboreou cada
segundo, esquecendo todos os motivos pelos quais deveria repeli-lo.
Trent Tyler não era um homem fácil de afastar.
— Encontre-se comigo esta noite — pediu, entre beijos. — Passe a noite em minha
casa.
Na casa dele? Aquele pequeno e aconchegante lar, localizado na periferia da
propriedade? Ah, como ela queria.
Em um mundo perfeito, no qual poderia confiar nele, iria ao seu encontro em um
segundo, e os dois passariam juntos uma noite gloriosa. Tinha um apetite sexual saudável
Trent acostumara-a mal nesse aspecto. Regalara-a com cada fantasia sexual que já
imaginara e Julia começava a sentir mais por ele do que por qualquer outro homem que
entrara em sua vida. Mas estava longe de ser perfeito. Ele deixara seu mundo bem
ordenado de pernas para o ar.
— Sabe que não posso — disse, ofegante. — Meu pai está aqui. — A lembrança
da presença do pai funcionou melhor do que um balde de água fria. Ele desprendeu-se do
beijo e encarou-a. — E sua mãe também — ela acrescentou, aproveitando a oportunidade
para se abaixar e escapar. Manteve um metro de distância entre ambos.
— Todos esperam passar um tempo conosco hoje à noite.
Trent concordou com um vagaroso balanço de cabeça.
— Acho que esqueci isso. — Desviou o olhar para a boca de sua paixão,
amolecida pelos beijos ardentes. — eu convidei minha mãe para jantar.
— E eu convidei meu pai — informou Julia, endireitando o vestido de verão
estampado com bolinhas vermelhas e brancas.
Trent baixou os olhos para os pés com as sandálias e arqueou uma sobrancelha.
— Essas sandálias vão fazer parte de nossa exibição de fogos de artifício.
Julia engoliu em seco e examinou as sandálias cor de cereja.
Ele passou perto dela, roçando seu corpo, depois parou, enlaçou-a pela cintura de
novo... puxou-a para si... e beijou-a rapidamente.
— Até a próxima vez, querida.
Partiu, saindo do terraço com aquele andar arrogante de derreter os ossos,
eliminado toda a dúvida que havia em Julia sobre os motivos de ter um ponto fraco por
um caubói tão obstinado.
Ela sentou-se ao lado do pai no jantar, de frente para Trent e a mãe, ao ar livre em
uma varanda que se estendia num terraço aberto, com o lago do Destino ao longe. O luar
cintilava nas águas imóveis como gelo, e o silêncio da noite era interrompido apenas
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pelos baixos sussurros de outros hóspedes no terraço. Velas grandes e grossas
tremeluziam, fazendo sombras nos belos olhos de Tyler do outro lado da mesa.
Quando o pai de Julia anunciou que convidara Trent e sua mãe para jantar, Julia
não revelara seu desagrado e ocultara o ataque de frustração. A ideia de que Rebecca
Tyler pudesse se tornar a uma pessoa importante na vida do pai continuava
importunando-a.
Significava desastre.
Tão logo concluísse o trabalho no hotel, nunca mais queria ter nada a ver com
Trent Tyler de novo. Passara maus momentos tirando-o da cabeça, mas ele provara
repetidas vezes não merecer confiança. Sabia que não competia com outra mulher, mas
sim com o empenho de Trent em vencer a todo custo.
— Sinto muito orgulho do meu filho — disse Rebecca, depois que se serviu com
vinho. — O Tempestade do Oeste era uma visão e ele não deixaria ninguém desencorajá-
lo em seu sonho.
O pai de Julia ergueu a taça.
— Brindemos ao Tempestade do Oeste e aos nosso pequenos, Rebecca. Parece
que ambos temos filhos com visão.
— Ora, sim. É uma coisa maravilhosa a que se brindar, Matthew.
A evidente diversão nos olhos de Trent fez Julia contorcer-se na cadeira. Brindar à
visão dele era igual a esfregar sal nas próprias feridas.
Foi a última a erguer a taça, mas, sob o olhar vigilante do pai, acabou submetendo-
se e quatro taças tilintaram juntas. Desviou o olhar e tomou um longo gole de vinho.
Por mais que detestasse admitir, apreciara o resto da refeição. Trent engrenou em
um bate-papo descontraído com seu pai sobre esportes, enquanto ela e Rebecca tiveram
uma agradável conversa sobre moda, arte e a criação dos filhos pequenos em uma
cidade pequena.
— O Texas simplesmente desapareceu de meus outros dois meninos, mas Trent
agarrou-se às suas raízes — disse Rebecca. — Evan e Brock adaptaram-se à vida na
cidade grande sem dificuldade, mas ele não.
Lançou um olhar amoroso ao caçula.
— Ora, mãe — provocou Trent, balançando a cabeça no estilo do apatetado Jethro
Bodine. — Não continue a falar sobre mim assim.
Rebecca cobriu-lhe a mão com a dela e apertou-a. Trent lançou um olhar afetuoso
para a mãe e sorriu.
O momento não passou despercebido a Julia, que testemunhou o amor e a ternura
entre os dois.
Quando Matthew sugeriu que todos fizessem um passeio pelo lago após o café, ela
foi a primeira a recusar.
— Ah, pai, eu adoraria, mas preciso me deitar cedo esta noite.
Subira a cavalo o penhasco da Sombra com os convidados à tarde e o passeio
saíra de acordo com o plano. Voltara extremamente satisfeita, pois o teste experimental
dera certo e todos pareceram assombrados com a vista lá de cima.
— Tudo bem, querida. Você terá um grande dia amanhã com o chá de bebê.
— Não vejo a hora de me encontrar com Laney — confessou Julia. — Espero que
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a surpresa saia como o planejado.
— Sairá, meu bem. Você é sempre campeã no que faz. Tenho certeza de que ela
não sabe de nada.
— Tomara que sim, pai.
Matthew encarou os de Tyler na mesa.
— Trent? Rebecca? Algum de vocês está a fim de um passeio pelo lago?
A mãe logo assentiu com a cabeça.
— Que ideia agradável.
Trent lançou um olhar na direção de Julia, contemplando-a.
— Não, obrigado. Preciso pôr em dia alguns trabalhos. Quero tudo pronto para
poder passar o máximo de tempo com Evan e Brock amanhã.
— Meus três meninos raras vezes se vêem agora que moram em diferentes partes
do país — explicou Rebecca.
Quando terminaram a refeição, Trent levantou-se e ajudou a mãe a sair da cadeira.
Suas maneiras durante o jantar foram impecáveis. Julia levantou-se junto dos outros e
desejou-lhe uma boa noite, agradecendo a Rebecca pelas sugestões e os conselhos
sobre arte nativa americana e do oeste.
Olhou seu pai afastar-se com Rebecca e seu coração foi na garganta. Se fosse
qualquer outra mulher de natureza afável, a filha ficaria emocionada. Ele merecia mais
uma vez um pouco de felicidade na vida.
— Formam um bom par — disse Trent, vendo os dois rumarem em direção ao
lago. Virou-se então para ela. — Você deve detestar a ideia.
Horrorizada com essa avaliação brusca, embora fosse em parte verdade, Julia
rebateu, irritada:
— Sua mãe é um amor de pessoa. Nada parecida com você.
E Trent não perdeu a oportunidade de irritá-la mais ainda:
— Admita, querida. Não suporta as implicações... minha mãe e seu pai juntos.
— Juntos? Minha mente não chega a tão longe assim.
— Talvez seja necessário. Matthew não para de dar em cima da minha mãe. E ela
não se queixa nem um pouco.
— Tenha santa paciência. Eles mal acabaram de se conhecer!
— Como mal tínhamos acabado de nos conhecer... no casamento de meu irmão?
Ele ergueu uma sobrancelha provocativa, fazendo-a fechar os olhos um instante.
— Pois bem, esta é uma imagem que não quero ter na mente.
— Talvez os Tyler se sintam atraídos pelos Lowell. Pode ser genético. Acho,
porém, que se trata mais de uma questão de excelente gosto.
O coração de Julia parou. Ela fitou os magníficos olhos escuros de Trent, que abriu
um afetuoso sorriso.
— Você tem um convite em aberto à minha casa, querida. Quero você lá... comigo.
A qualquer hora, dia ou noite.
Deixou-a e dirigiu-se a entrada dos fundos do saguão.
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Com os joelhos fracos, ela deixou-se cair na cadeira, segurando nas laterais para
salvar sua vida preciosa. Se ao menos ele falasse a sério. Mas em seu íntimo sabia que a
descartaria assim que o contrato terminasse. Tão logo ajudasse o Tempestade do Oeste
a prosperar, tão logo Trent ganhasse aquela aposta com o irmão, ele seguiria em frente.
Fora vítima de seu charme uma vez antes e saíra profundamente ferida. Tudo que
o interessava de verdade era o hotel.
— Julia, você se sente bem? — Kimberly surgiu diante dela.
— Kim? Ainda está aqui? Achei que tinha ficado exausta após o passeio a cavalo
até o topo do penhasco da Sombra.
— Estou exausta. — Instalou-se na cadeira ao lado, de frente para a mesa,
enquanto os garçons tiravam os pratos. — Mas fiquei até tarde para terminar uns
trabalhos do escritório.
Julia sorriu.
— Você é dedicada.
— E meio frustrada.
Julia esqueceu os problemas com o desafeto e concentrou-se na jovem.
— O que houve?
Kim encolheu os ombros.
— É Pete. Acabei tendo coragem para falar com ele. A gente se viu três vezes e
conversou. Fui a mais óbvia o possível, sem me atirar nos braços deles, e acho que está
interessado, entretanto... nada. Toca a aba do chapéu, sorri e se afasta.
Julia baixou os olhos para a toalha. Era a última pessoa a quem qualquer um devia
pedir conselho sobre namoro. Onde estava com a cabeça ao tentar juntar Kim com Pete?
Tratava-se de uma clássica obviedade. Não se envolver com alguém com quem a gente
trabalha.
— Às vezes, é para o melhor — murmurou.
— Como? É esta a mesma mulher que planejou me deixar a sós com Pete no outro
dia?
— Isso não foi planejado — explicou Julia, mudando de opinião. Se o que Trent
disse sobre Pete era verdade, a jovem talvez saísse magoada. — Tive boas intenções,
mas algumas coisas não se destinam a acontecer.
Kim semicerrou os olhos.
— Você não está falando mais de Pete, está? Vi os olhares que você e Trent dão
um ao outro. Ambos emitem centelhas quando estão perto um do outro.
— Às vezes, as centelhas explodem na cara da gente, Kim. Tive um romance no
trabalho antes. Não deu certo e foi embaraçoso por um longo tempo depois.
Kim encarou Julia e baixou a voz.
— Sinto muito.
Julia encolheu os ombros.
— História antiga.
Então Kim confidenciou:
— Acho que estou apaixonada por Pete.
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Julia pôs afetuosamente a mão no braço da jovem em total compreensão.
Problemas do coração devem ser tratados com delicadeza.
— Acho que você talvez esteja. Deixe tudo correr de forma natural. Seja paciente e
veja para onde se encaminha. Forçar a barra seria um engano.
— Tento ser paciente. É difícil.
Julia assentiu com a cabeça. Não fora muito esperta com Trent, mas tentava
corrigir seus erros nos últimos tempos.
— Sinto muito. Não fui muito incentivadora esta noite.
— Já saquei, Julia. Você também está apaixonada.
Ela arregalou os olhos e ergueu as sobrancelhas em surpresa.
— Não. Não estou.
Embora as palavras saíssem facilmente de seus lábios, de algum modo duvidou de
que Kimberly engolisse o que dissera.
— Certo.
— Vamos esquecer os homens por hoje à noite e nos concentrar no chá de bebê.
Sinto-me tão grata pela ajuda que você vai me dar amanhã.
Quando as duas se levantaram e enlaçaram os braços, afastando-se juntas, a
mente de Julia encheu-se de bebês com carinhas de anjo, cheirinho gostoso e bolo com
cobertura azul-clara.
Pensamentos muito mais felizes.
Era um chá de bebê à moda antiga, como ela e Laney sempre haviam planejado,
sentadas nas cadeiras de vime no café em frente à praia em Los Angeles, quando ainda
eram meninas fantasiando os sonhos de adultas.
Julia mandara armar uma enorme tenda branca junto ao lago, bem próxima do
cais. Mesas para oito, cobertas com toalhas azuis e brancas e decoradas com arranjos de
flores, pequenas mamadeiras cheias de bala e minúsculos sapatinhos de bebê tricotados
a mão.
Também mandara instalar jogos nas mesas, já prontos, e se os homens presentes
chiassem problema deles. Iam usar saia de papel-toalha para adivinhar o tamanho da
barriga de Laney e fazer palavras cruzadas sobre bebês.
A escultura de gelo em forma de um bebê segurando a mamadeira numa banheira
derretia um pouco no calor matinal do Arizona, mas lhe haviam garantido que tinha três
horas de vida gelada, antes de se desfazer numa poça.
Os hóspedes convidados já estavam sentados às mesas, e com as abas de lona
em três lados da grande tenda baixadas, escondidos da visão de qualquer um que saísse
da entrada dos fundos do hotel. Com tudo pronto, Julia aguardava impaciente agora,
ansiosa por levar a surpresa a cabo e rever os amigos.
Brock Tyler, irmão de Trent, aproximou-se dela.
— Trent disse que eles chegaram e instalaram-se no quarto. Vai trazê-los aqui fora
para uma visita pela propriedade.
— Obrigada — disse Julia, fitando os mesmos olhos escuros da família Tyler.
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Brock era bonito, mas não de uma maneira áspera, absurda, como o caçula. Com
as mãos enfiadas nos bolsos da calça larga pregueada, usando terno Armani sob medida,
tinha a aparência temerária.
Um rasga-corações de um tipo diferente, ela supôs.
— Estou muito feliz por Evan ter o primeiro neto Tyler — disse, com um sorriso. —
Alivia a pressão sobre mim.
— Sua mãe está emocionada.
— O bastante para deixar a mim e a Trent em paz por algum tempo?
Julia deu de ombros.
— Não a conheço tão bem assim, mas imagino que vá acabar querendo mais
netos...
— Esta será a próxima tarefa de Trent.
Ela ergueu de repente a cabeça, imaginando Trent como pai.
Brock encarou-a, notou-a pensando na ideia, e piscou como quem sabe das
coisas.
— Foi o que imaginei.
— Como? — ela perguntou, convencida de que o irmão de Trent já sabia demais
sobre seu relacionamento com ele.
Brock se inclinou e sussurrou-lhe no ouvido:
— Se meu irmão não estiver namorando você, eu ficarei preocupado com ele.
— Oh, não estamos namo...
— Aí vêm eles — gritou Kim, acenando com o celular. — Meus espiões disseram
que os dois acabaram de sair do hotel.
Brock conduziu Julia tenda adentro e ela checou mais uma vez as laterais,
certificando-se de que estavam seguras.
— Por favor, pessoal, todo mundo faça o máximo de silêncio. Trent vai contornar a
tenda e trazê-los pelo lado aberto.
Minutos depois, Trent conduzia Evan e Laney à frente da tenda, que estava voltada
para o lago do Destino.
— Surpresa! — gritaram todos.
Laney recuou um passo, os olhos arregalados e a expressão cheia de admiração.
Correu o olhar pelas mesas, vendo todos os amigos mais íntimos e a família em pé, agora
com sorrisos e batendo palmas. Quando encontrou os olhos de Julia, os seus encheram-
se de lágrimas.
— Oh, Jules, é exatamente como a gente...
Não conseguiu proferir as palavras e a amiga correu até ela. Abraçaram-se, Julia
apertando-a o máximo que pôde por causa da barriga crescente da futura mamãe
separando-as. Então, pegou suas mãos e recuou para examinar a melhor amiga.
— Você está linda, querida.
Evan beijou a face da esposa.
— É o que não paro de dizer a ela. — Beijou Julia no rosto, em seguida. — Você
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conseguiu. Laney não desconfiou de nada.
— Não desconfiei mesmo — disse Laney, assombrada.
— Obrigada, Jules. Isso é... perfeito. — Virou-se para o marido. — Sabia o tempo
todo e escondeu de mim? Você é bom, Evan. Muito bom.
Evan assentiu com a cabeça.
— Vivo lhe dizendo que sou.
Então, a homenageada concentrou a atenção nos convidados. Cercada por
amigos, colegas de trabalho mais próximos e parentes, apontava todos com o dedo.
— Vocês não deixaram transparecer nada. — E semicerrou os olhos de
brincadeira. — Não sei se vou confiar mais em nenhum dos presentes.
Todos riram.
Evan tomou-a pela mão e eles se juntaram à multidão, abraçando e
cumprimentando cada um. O pai de Julia e Rebecca Tyler aproximaram-se dos futuros
papais juntos. Outro nó de medo apertou-se em Julia por um segundo, mas sua alegria
por ver Laney tão feliz repeliu a momentânea hesitação.
Trent deu ordem para suspender as abas laterais da tenda, e três homens
trabalharam para prendê-las de modo que todas as paisagens do lago e da propriedade
se abrissem para os convidados. A brisa matinal, tépida, fresca, dissipara o calor e Julia
não podia ter pedido um dia mais glorioso.
— Você conseguiu — disse Trent, com um indício de admiração.
Ela relaxou por um momento e suspirou de prazer.
— Eu queria que tudo saísse perfeito. Estou muito feliz com o resultado.
— A milagreira em ação — ele provocou.
Com um sorriso e uma inclinação da cabeça, ela rebateu, também brincando:
— Diz isso agora, mas vamos ver o quanto gostará de mim quando o fizer pôr uma
fralda num boneco bebê.
A expressão dele empalideceu e Julia riu.
— Receio que todos os homens na festa tenham de competir. E você, tio Trent,
será o primeiro.
Julia afastou-se de Trent, conduziu Evan e Laney aos seus lugares na mesa
principal, e anunciou que o brunch ia ser servido.
Surgiram os garçons com o primeiro prato e ela cuidou para que todos recebessem
atenção, circulando entre as mesas e falando com os convidados até sentir uma mão forte
segurar-lhe com delicadeza o braço e guiá-la para a mesa principal.
— Sente-se — ordenou Brock, com um encantador sorriso ao indicar-lhe uma
cadeira ao lado de Laney. Ele instalou-se no outro lado dela, que se viu diante de Trent no
outro lado da mesa, mas ele não a olhava.
Com olhos semicerrados, ele fulminava o irmão e o braço que pusera
possessivamente nas costas da cadeira de Julia.
Laney riu baixinho, apenas para a melhor amiga ouvir. Inclinou-se e sussurrou:
— Os Tyler são muito competitivos quando querem alguma coisa, querida.
Assim ela deduzira, e à futura mamãe, amiga querida e perceptiva, não escapara
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nada. Parecia que a gravidez não embotava a intuição feminina, mas, em vez disso,
refinava-a ao máximo da precisão.
Julia não era prêmio de competidor algum. Ergueu o garfo e mergulhou-o na
salada de pepino, ignorando Brock e Trent, aquele que destruíra toda a confiança que
tinha nos homens.
CAPÍTULO SETE
— Não posso perdoá-lo, Laney. Não confio nem um pouco nele — ela disse
naquela noite.
Minutos depois de ficar a sós com a melhor amiga, Julia revelara o segredo sobre o
relacionamento com Trent, não deixando nada de fora. Laney não o aceitaria de outra
forma e as duas tiveram a oportunidade perfeita de conversar, pois os irmãos Tyler
tomavam drinques no Sunset Bar.
Deitou-se atravessada na cama da suíte do casal depois de ajudar a homenageada
a fazer uma lista de agradecimentos pelos presentes que recebera. Julia amarrava e
desamarrava num laço a bonita fita azul que tirara de um embrulho no chão.
Laney fechou o livro do bebê que estava olhando, sentada em uma confortável
poltrona de couro, e encontrou o olhar de Julia.
— Trent é muito ambicioso. E competitivo. Mas um cara por quem vale a pena
lutar.
— Então você acha que vou esquecer o que ele me fez?
— Evan preparou-se para destruir a empresa de meu pai e eu o perdoei.
— Sem querer ofender, querida. Mas você não tinha muita opção.
A amiga afagou amorosamente a barriga.
— Diz isso porque engravidei?
Julia assentiu com a cabeça, esperando não ter sido muito brusca.
— Foi a melhor coisa que podia ter acontecido comigo. Se não fosse pelo bebê,
Evan e eu talvez nunca tivéssemos nos unido. Eu realmente o odiei — disse. Depois o
rosto irrompeu num grande sorriso. — Por um segundo.
— Minha situação com Trent é muito diferente. -— Julia puxou o laço e o desfez
pela última vez, deixando a fita cair no chão. Sentou-se na cama e cruzou as pernas. —
Meu orgulho levou uma surra. Ele me magoa.
— Mas a quer, Julia. Tive de vê-lo com você hoje por apenas um minuto para notar
isso. Brock correu risco de acabar em chamas por causa dos olhares que Trent lançava
— ela riu.
A amiga também sorriu, com a imagem ainda fresca em sua mente.
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— Eu notei. — E julgou o fato um pequeno consolo. Parecia que ele competia com
Brock em todos os sentidos. — Como é que Evan não faz parte dessa imensa rivalidade
entre Brock e Trent?
— Porque está perdidamente apaixonado e não participa mais desses jogos —
respondeu a grávida com toda seriedade. Então desatou a rir. — Brincadeira, Evan
também é muito competitivo. Mas o pai morreu quando os meninos eram pequenos, e,
sendo o mais velho, assumiu grande parte da responsabilidade. Além disso, ele quer que
os hotéis prosperem e não se acha acima de uma boa e saudável competição entre os
irmãos. Todo mundo tende a ganhar.
Julia entendia isso, apenas desejava que não houvesse sido um peão no jogo de
Trent.
Laney deixou o livro do bebê de lado e aproximou-se, tomando a mão da amiga.
— Escute, eu nunca vi você assim. Trent a deixou obcecada, não?
— Com toda franqueza, desde o minuto em que pus os olhos nele. Como posso
permitir que me apaixone por um homem em que não confio mais? Devia ter aprendido a
lição com Jerry Baker. Era um alpinista social e me usou para promover sua carreira. Para
mim, os dois não são muito diferentes.
Laney levantou-se da cadeira e acomodou-se ao lado da amiga na cama. Uma ao
lado da outra, ficaram caladas por algum tempo, quando a primeira quebrou o silêncio.
— Se Trent não tivesse feito o que fez, você não estaria aqui neste momento.
Julia fez que sim com a cabeça.
— Estaria no caminho profissional que eu tinha escolhido para mim.
— Desistiria de tudo o que tem feito aqui? As experiências pelas quais tem
passado, se pudesse voltar atrás?
— Quer dizer, se jamais tivesse me envolvido com Trent?
— É. Trocaria não chegar nem a conhecê-lo, pelo que abriu mão? Pense nisso.
Ela pensou em Trent. Vigoroso e bonito, inteligente e divertido... quando se davam
bem o considerava tudo que queria num homem. Imaginara uma vida com ele. Que
mulher não ia querer seu próprio caubói cinco estrelas?
— Não é uma pergunta justa, Laney.
— Talvez não seja, mas às vezes temos dar esse salto de fé. Temos de descer ao
limbo para conseguir o que queremos. Mesmo quando não nos concedem quaisquer
garantias. O que Trent fez a você foi terrível. Cometeu um erro...
— Seu cunhado não pensa assim — interrompeu-a.
— Tudo bem, então ele não é perfeito, mas por acaso sei que é um bom homem
em inúmeros aspectos, Tem como maior defeito a ambição que o deixa cego. Evan
também era assim. A mulher certa pode mudar isso num homem.
Julia escutava a amiga, absorvendo tudo. Ainda perplexa, perguntou:
— Quer dizer que devo mergulhar de cabeça sem saber se há água suficiente?
Laney apertou levemente as mãos de Julia.
— Só você sabe responder essa pergunta. — Depois sorriu. — Sempre seremos
como irmãs. Mas não seria maravilhoso se fizéssemos parte da mesma família? Eu não
desejaria nada mais.
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Embora revolvesse a agradável ideia várias vezes em sua mente, Julia não
conseguia forçar-se a acreditar que isso sequer chegaria a acontecer.
— Você continua sonhando com a nossa Rainha das Ilhas, amiga. Acho que talvez
eu tenha amadurecido demais para realizar esses sonhos.
— Nem se permita pensar nisso! — declarou Laney com uma feroz expressão; —
Você vai conseguir tudo o que quer na vida, Jules. Nem que eu mesma tenha que enfiar a
força algum juízo em Trent.
Julia riu da natureza protetora da amiga e amou-a ainda mais por isso.
— Agradeço a ideia, mas você prometeu não dizer uma palavra. Quero que
mantenha essa promessa.
— Certo, bem, talvez eu não devesse ter prometido. — Laney levantou-se para
alongar as costas. Espreguiçou-se, com a barriga projetando-se um pouco para fora.
Embora a futura mamãe discordasse, Julia sabia que esses sonhos de felizes para
sempre não se destinavam a todos no planeta, mas não queria discutir a questão com a
melhor amiga.
— Ah! — exclamou Laney, a expressão de assombro e deleite ao pegar a mão de
Julia. Estendeu-a sobre a barriga arredondada e a outra sentiu o movimento e depois um
nítido e rápido pontapé agressivo. — Cumprimente a sua tia Julia, bebê — sussurrou.
— Olá, bebê Tyler — disse a futura titia em voz baixa, emocionada pela melhor
amiga e ansiosa por conhecer a nova vida que ia chegar ao mundo em breve.
Recusava-se a deixar que pensamentos dos próprios problemas estragassem esse
precioso e delicioso momento. No dia seguinte, Laney, Evan e todos os convidados
voltariam para casa. Tudo no Tempestade do Oeste retornaria ao normal.
Ela se concentraria no trabalho e tentaria evitar se apaixonar por Trent Tyler.
— Você gosta dela — disse Brock, cutucando o ombro de Trent, enquanto os três
irmãos relaxavam no bar.
Trent virou-se de costas para o bar e recostou-se no balcão para olhar diretamente
o lado de fora, fitando a paisagem escurecida iluminada por milhares de estrelas
cintilantes. A brisa de outubro, com apenas uma pontada de frio, perturbava-o mais do
que Brock jamais conseguira. Tomou um gole do uísque, a bebida forte e escura
deslizando macia pela garganta.
— Tente mais uma adivinhação.
— Você sente visível atração física por ela — continuou Brock.
Trent não precisou olhar o irmão para saber que sorria, convencido.
Encolheu os ombros. Tivera anos de prática para não permitir que ele levasse a
melhor.
— Não é da sua conta.
Dez mesas altas com pedras embutidas e tamboretes cor de canela com tampo de
couro cru circundavam a pequena área, planejada como um tranquilo repouso para os
hóspedes do Tempestade. Administrado por um experiente barman, Trent sempre gostara
do bar ao ar livre, feito de pedra nativa para parecer que havia sido escavado direto em
Crimson Canyon.
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— Ela é magnífica — insistiu Brock. — Eu diria que também tem miolos, pois você
a contratou para retirar este lugar do lixo. Passei a conhecê-la um pouco hoje.
— Paquerou-a e ela não retribuiu — disse Evan, rindo. — Ora, isso é que é uma
mulher inteligente.
Sem graça, Brock continuou:
— É um desafio, mano mais velho? Sabe que eu amo uma boa competição.
Evan ergueu as palmas em um gesto para parar.
— Isso é entre você e Trent. Apenas afirmo o óbvio. Sua sedução entrou em queda
livre hoje.
Trent soltou uma risada. O outro a ignorou.
— Se não estiver interessado, eu a quero...
— Desista. — Trent largou uísque com soda e encarou Brock bem nos olhos.
O irmão virou-se com um sorriso nos lábios, assentindo com a cabeça.
— Acho que obtive minha resposta. — Tomou o resto da bebida e indicou com um
gesto ao barman que trouxesse outra. — Circula um rumor por aí sobre a rapidez com
que foi fechado nosso contrato com os restaurantes Bridges. Parece que o negócio tem
algo a ver com a contratação de Julia.
— Ela lhe contou isso?
Curioso, Trent perguntou-se o quanto Brock sabia sobre o envolvimento de Julia
com o Tempestade do Oeste.
— Digamos apenas que tenho bons instintos — respondeu o irmão, com um
sorriso muito curto. — E sei somar dois mais dois. Vínhamos protelando o contrato havia
meses, e de repente você pressiona em favor dos restaurantes Bridges, fechando o
negócio.
Trent balançou a cabeça.
— Você sem dúvida anda matutando muito para um cara que acha que vai ganhar.
Talvez esteja roendo a corda após ver este lugar...
— Roer a corda? Droga, não. Vou derrotá-lo facilmente. Este lugar — começou,
lançando um olhar em volta — é legal. Tem atmosfera e estilo. Mas é remoto e não
oferece o suficiente para fazer os clientes voltarem.
Trent ignorou o comentário. Acreditava nas ideias de Julia para o Tempestade do
Oeste.
— Se tem tanta certeza, deseja aumentar a aposta?
— Quer dizer, fora pôr nossos egos e orgulho em risco? O que tem em mente?
Enquanto Trent pensava num prêmio conveniente, Evan sugeriu:
— Que tal o bird?
— Certo, esse é seu, Ev — disse Brock, a voz com um tom de inveja. Aquele
clássico Thunderbird encontrava-se parado na garagem da mãe havia anos e
recentemente ela anunciou que queria desfazer-se do automóvel. De fato, insistiu. — Por
direito, o carro vai para você.
— Como é o filho mais velho — Trent observou, rindo.
Evan mordeu os lábios.
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— Ah, mas tenho tudo o que quero agora. E não sou fanático por carros. Nunca o
quis nem a metade do quanto queriam você e Trent. Ambos olhavam aquele carro com
baba escorrendo pela boca quando eram garotos. Tinha planejado dá-lo a um dos dois de
qualquer modo, apenas não sabia decidir a qual dos dois dar. Isso é melhor que sorteio,
não? — perguntou. — Como os dois têm certeza de que vão ganhar a aposta.
Trent e Brock entreolharam-se e assentiram com a cabeça. Parecia um bom plano.
Evan tinha razão, Trent adorava o carro e a promessa desse prêmio apenas intensificaria
sua determinação de fazer do Tempestade do Oeste um sucesso.
— Estou nessa.
— Eu também — disse Brock. Trent apertou a mão do irmão.
— Fechado?
— Fechado.
— Como os dois foram nossos padrinhos de casamento como os amamos de todo
o coração — começou Laney, olhando primeiro para Julia e depois para Trent — Evan e
eu gostaríamos de fazer a ambos uma pergunta.
Sentada ao lado do marido, ela segurou-lhe a mão enquanto os quatro se
sentavam à mesa de granito e carvalho na sacada da suíte do casal, que dava para o
pátio, A luz matinal projetava uma suave cintilação no lago do Destino, à medida que o sol
se erguia acima de Crimson Canyon. A mesa fora posta com elegante porcelana branca e
rosas amarelo-bebê adornavam o centro. O aroma de café recém-passado enchia o ar, e
o entusiasmo de Laney e Evan apenas acrescentava mistério ao convite para o desjejum
nessa manhã.
Você dois têm de vir juntos para o café da manhã.
Laney olhou para Evan e, quando ele assentiu com a cabeça incitando-a a
continuar, a esposa sorriu e os dois partilharam um olhar secreto e amoroso.
Um jorro de ternura inundou o coração de Julia. Ah, se um homem a olhasse
daquele jeito. Com carinho e sinceridade escritos com toda a clareza no rosto. Ela não
queria prender a respiração, mas uma poderosa força dentro de si dizia que merecia ser
amada assim. Não se contentaria com menos.
Lamentavelmente, não julgava Trent capaz de tal amor, pelo menos não por ela.
Ele deixara bem claro suas prioridades, portanto não ousaria nem ter esperanças.
A voz sincera da amiga interrompeu seus pensamentos.
— Evan e eu ficaríamos honrados se os dois aceitassem ser padrinhos de nosso
filho, quando ele chegar.
O convite pegou-a de surpresa. Sempre esperara ter a honra, mas ouvir Laney
dizer aquelas palavras tornava tudo muito real. Comovida às lágrimas, não conseguiu
falar. Dominada por emoção, pôde apenas balançar a cabeça para cima e para baixo.
Debaixo da mesa, Trent colocara a mão na coxa dela. Os dois travaram olhares
por um momento, a insinuação de um sorriso surgindo no rosto dele.
— Acho que isso quer dizer sim. De ambos.
Trent apertou levemente a perna de Julia e depois retirou a mão.
Todos se levantaram e começaram a falar ao mesmo tempo. Evan apertou a mão
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do irmão e eles se abraçaram, terminando o cumprimento com um viril tapa nas costas,
enquanto Laney e Julia agarraram-se com vontade, as lágrimas fluindo livremente. Então
os homens trocaram de lugar, Evan agradecendo-a com um beijo enquanto Trent
abraçava a cunhada.
O futuro papai serviu champanhe e brindou aos padrinhos do primeiro filho.
— Ao meu irmão, Trent — disse. Laney ergueu aflute e acrescentou:
— E à minha melhor amiga, Julia. — Trent e Julia também ergueram as taças
finas, tilintaram-nas e beberam champanhe. Laney tomou um pequeno gole e baixou a
faça primeiro que todos. — Obrigada aos dois. Sabemos que serão excelentes padrinhos.
Eu só gostaria que pudéssemos ficar mais tempo, porém tenho uma consulta com o
médico amanhã.
— E eu tenho de voltar ao trabalho. Preciso ganhar dinheiro para pagar o ensino
superior do meu filho — disse Evan com uma piscadela.
Laney balançou a cabeça e riu da brincadeira do marido.
— Que tal pensar primeiro em matriculá-lo no maternal, antes de despachá-lo para
a universidade?
Quando terminou o café da manhã, despediram-se, com Evan prometendo
telefonar no minuto em que a esposa entrasse em trabalho de parto. Julia planejava estar
presente para o nascimento, não importava como. Acompanharam-nos até o lado de fora,
onde uma limusine marfim esperava-os para levá-los ao aeroporto. Mais tarde, no mesmo
dia, Julia também se despediu dos outros convidados que haviam vindo para o chá de
bebê.
Despedir-se do pai não foi fácil, sobretudo porque ele parecia meio abandonado.
Escutou-o dizer a Rebecca Tyler que lhe telefonaria, e a filha não achou que o dissera de
maneira platônica. Planejava continuar o relacionamento e a mãe de Trent parecia
extremamente satisfeita.
— Você os deixou de queixo caído — o pai dissera-lhe antes de partir.
— Claro — ela respondera. — Poderia ser diferente?
Beijaram-se e prometeram telefonar-se dia sim, dia não.
Já avançada a tarde, Julia recostou-se na cadeira do escritório, perdida por
completo em pensamentos. Ainda tinha muito a fazer. Os convites foram programados
para serem enviados durante a semana junto com os inovadores folhetos. Torcia para que
a exclusiva e nova imagem do Tempestade do Oeste viesse em breve a público, com
grande alarde.
Só notou a entrada de Trent quando ergueu os olhos e viu-o parado perto da
escrivaninha, de jeans surrados que evidenciavam os quadris estreitos. Com o chapéu de
feltro preto cobrindo a testa, deixara a camisa xadrez azul-escura desabotoada no
pescoço... e exibia uma expressão ousada nos olhos. Julia sentiu o coração dar uma
cambalhota.
Como um mecanismo de defesa, logo adotou o modo profissional, erguendo o
modelo do convite em tamanho natural.
— Vamos chamá-la de nossa festa do aniversário de seis meses... só para
convidados especiais. Uma reabertura grandiosa dá a impressão de que saiu alguma
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coisa errada com a inauguração inicial.
— Bem pensado.
Trent contornou a escrivaninha e apoiou-se na borda, esticando-se diante dela e
cruzando as pernas nos tornozelos até o couro chiar quando as botas se tocaram. Cruzou
os braços no peito e a encarou.
O ar-condicionado pifara ou a súbita sensação de calor que se espalhou por Julia
devia-se ao aumento da temperatura de seu corpo, como se mato seco pegasse fogo.
Toda vez que achava ter conseguido controlar a atração que sentia por aquele
homem, ela retrocedia.
— Pare de me olhar — disse, irritada, desviando a atenção para o layout do novo
folheto, mas não antes de notar o sorriso de Trent... aquele maldito sorriso convencido de
consegui perturbá-la que a fazia querer sorrir junto com ele.
— Quero fazer mais que apenas olhar você, querida.
Ela fez que não com a cabeça.
— Isso não vai acontecer.
— Quer fazer uma aposta?
Julia empurrou os papéis para o lado, desistindo. Ele não queria falar de trabalho.
Um profundo suspiro escapou-lhe quando respondeu:
— Há coisa demais sendo apostada aqui. Sei que o clássico carro restaurado de
seu pai está disponível para quem o agarrar.
Laney pusera-a a par. O pai morrera jovem, mas tinha uma queda por carros
antigos. Só pudera comprar um restaurado, um Thunderbird azul-turquesa de 1959. A
amiga disse que era o orgulho e a alegria do pai, e todos os meninos queriam a posse da
relíquia em um determinado ponto da vida.
— Vou agarrar esse prêmio, com absoluta certeza.
A confiança dele desconhecia limites e isso não era algo que em geral ela
admirava. Mas em Trent caía como uma luva de couro cru.
— Espero que sim. Isso significará que concluí minha missão. Agora, se me der
licença, é melhor eu voltar ao trabalho.
— Não dou — disse, sem rodeios.
Então se inclinou, tomou-lhe a cabeça com uma das mãos e puxou-a para perto.
Observou seus olhos um instante antes de beijá-la, ensandecido. O beijo durou um
minuto, e quando Julia subiu à tona em busca de ar percebeu que ele a pegara em um
momento de fraqueza. Tinha motivos para estar com as emoções balançadas, desde as
alegrias do chá de bebê e o convite para ser madrinha do filho de Laney, à apreensão e
preocupação de observar o pai se envolver com a mãe de Trent. Achava exaustivo tentar
manter distância do chefe e ainda sofria a pressão extra de fazer um milagre no
Tempestade do Oeste. Em poucas palavras, ele sabia quando ela ficava mais vulnerável.
Sabia os botões a apertar para ligá-la. Também sabia como seduzi-la a entregar-se.
Trent levantou-a, Julia encaixou-se sem resistência naqueles braços, então ele pôs
as palmas das mãos estendidas na escrivaninha e apertou-a contra si o suficiente para
fazê-la sentir sua maciça ereção. Disse-lhe no ouvido com uma calma feroz:
— Quero deitá-la nessa mesa e mergulhar meu corpo tão fundo e por tanto tempo
dentro de você que ambos aqueceremos que planeta é este.
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Que planeta era aquele?
Ela olhou a escrivaninha com uma profunda dor de desejo no ventre. Trent inclinou
a cabeça e deu-lhe um rápido sorriso.
— Julia, tenho uma pergunta... — Kim irrompeu no escritório equilibrando uma
pilha de arquivos nos braços.
Parou de chofre no meio da sala, uma estátua imobilizada, com olhos azuis
arregalados de surpresa.
— Oh, lamento... lamento muitíssimo — e recuou escritório afora enquanto a outra
se afastava de Trent. — Volto mais tarde — murmurou, evitando-lhe o olhar.
— Faça isso, Kim — disse Trent, rindo.
Um calor escaldante tomou a garganta de Julia. Assim que Kim desapareceu,
balançou a cabeça e apontou o dedo para Trent.
— Como espera que eu conclua meu trabalho se entra aqui e, e...
Ele encolheu os ombros e endireitou o corpo.
— Não foi planejado, Julia.
Ela fechou as mãos em punhos e apoiou-as nos quadris.
— Não?
— Eu vim aqui por um motivo. — Embora Trent mantivesse a atitude controlada,
ela notou, além disso, a crescente frustração. — E não foi para seduzi-la, querida... não
que seja uma ideia ruim. Se o momento escolhido por Kim não tivesse sido tão
abominável, você estaria nua e estendida nesta escrivaninha agora mesmo, e nós...
— Basta! — Julia afastou com um aceno de mão a imagem sexy e tórrida, mas não
pôde fazer muito sobre a vibração entre as coxas.
O presunçoso e confiante texano retornara, e ria.
— Você gosta da ideia.
A firmeza dela vacilou. Ele desestabilizava-a com aquelas declarações e
insinuações. A bem planejada disciplina afrouxava-se quando ele sorria! Seu corpo a traía
quando ele a tocava. Julia examinou os layouts na escrivaninha, ocultando o desejo que
ele provocava nela.
— Tenho trabalho a fazer. — Exalou outro suspiro. — Diga-me o que o fez vir ao
meu escritório.
Trent sorriu e seus olhos dançaram.
— Os cavalos selvagens chegaram. — Julia piscou. Os cavalos selvagens que ele
planejava deixar soltos além do penhasco da Sombra haviam chegado. — Pensei no que
você disse sobre pôr em risco os hóspedes. Acho que encontrei uma solução.
— E?
— Eu gostaria que você visse o que tenho em mente para eles. — Com o olhar
firme, esperou pacientemente a resposta dela.
Julia não sabia qual Trent Tyler era mais perigoso, o que a teria enviado ao paraíso
do faroeste na escrivaninha minutos antes ou o que lhe valorizara a opinião o bastante
para pôr o ego, o dinheiro e o orgulho em risco.
— Então? — ele perguntou.
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— Vamos — ela disse, decidindo que a ação mais segura seria sair a cavalo para o
penhasco da Sombra do que ficar a sós com ele na... escrivaninha dela.
CAPÍTULO OITO
— Sarah Rose chegou — anunciou Kim ofegante, a expressão de temor reverente.
— Não consigo acreditar, Julia! Sou fã dela. Adoro as músicas que ela canta.
Julia logo se levantou. Pedira a Kim que a avisasse no minuto em que a limusine
de Sarah encostasse.
— Nada de fãs efusivas, Kim. Lembre-se, ela está chegando antes da hora em
busca de um pouco de descanso e relaxamento. Devemos tratá-la como uma hóspede
especial. Sua intimidade é essencial neste momento.
—Eu sei — disse a jovem, torcendo as mãos. — Eu a manterei, prometo.
— Onde está Trent? — perguntou, ao cruzar a porta do escritório, Kim apenas
passos atrás.
— Saiu a cavalo para verificar mais uma vez os cavalos. Voltará lá pelo meio-dia.
Ele concordara em fazer uma concessão e protegera a área acima perto do
penhasco da Sombra para os hóspedes, erguendo uma cerca e usando barreiras naturais
para garantir a segurança deles. Isolara uma pequena área de terra para fazê-lo,
assegurando com isso a liberdade dos cavalos selvagens e permitindo aos hóspedes uma
vista boa e segura do penhasco da Sombra.
Tudo dera certo com os cavalos selvagens. Felizmente, Trent saíra-se bem com
uma concessão viável e Julia ficara impressionada com os resultados, admitindo que
quando se consideravam todos os fatos, o empregador sabia ser um homem razoável.
À parte alguns olhares sensuais, famintos, e alguns comentários sugestivos nas
últimas semanas, fora uma pessoa fácil com quem trabalhar e pusera o relacionamento
anterior de ambos em banho-maria por um momento. Julia sentiu-se grata pela
suspensão temporária da provação. Haviam posto juntos a cabeça para funcionar e
fizeram um bom trabalho ao transformar o Tempestade do Oeste de acordo com a visão
que Julia tinha para o hotel. Contrataram o artista plástico Ken Falcão Amarelo... um índio
cherokee... e providenciaram para que suas esplêndidas paisagens fossem destacadas
na galeria Tempestade. Ele chegaria com um currículo completo de realizações e
passaria meses ali no Tempestade, oferecendo palestras, aulas e inspiração aos amantes
da arte.
Sarah Rose atrairia os aficionados por country music. Os impressionantes
desfiladeiros e pores do sol do sudoeste eram um perfeito cenário para suas baladas
sentimentais e alegres melodias.
— Certo, isso é bom — disse a Kim. — Trent a conhecerá mais tarde. Vou
acompanhá-la até a suíte e certificar-me de que fique bem instalada e confortável. — Kim
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lançou-lhe um olhar resignado, os lábios franzidos num biquinho tristonho. Mia riu,
divertida. — Prometo que logo a apresentarei. Preciso que você verifique a segurança
extra que nosso chefe providenciou durante a estada de Sarah aqui.
Kim assentiu com a cabeça.
— Ele é esperado hoje. Cody Landon.
— Vem em pessoa? Nossa, Trent apostou tudo nisso. Cody "Code" Landon era
dono de uma agência de segurança de alta tecnologia de bilhões de dólares. Pelo que
Trent dissera, era o melhor em seu ramo, e a empresa tinha ligações com a rede de
hotéis Tempestade, com os sistemas de segurança instalados em todos os hotéis.
— Trent disse que o dono insistiu em vir pessoalmente. Talvez também seja um fã
— acrescentou Kim.
— Por favor, avise quando ele chegar. É melhor eu ir.
Uma emoção percorreu todo o corpo de Julia quando desceu o elevador e
atravessou o saguão para saudar Sarah em carne e osso do lado de fora. A visão que
idealizara para o Tempestade do Oeste logo se tornaria realidade. Não mais condenado a
ser apenas uma parada durante a viagem a caminho para algo mais grandioso, o hotel se
tornaria um destino exclusivo, um lugar para os hóspedes relaxarem, apreciarem a vista
do lago, passearem pelos desfiladeiros a cavalo e participarem de concertos privativos e
conferências de arte ministrados por renomados artistas em seu campo.
Julia programara alguns churrascos com fogueiras para cozinhar os chamados
"Assados na Brasa" para hóspedes que precisavam de lanches tarde na noite. Coagira
Pete a dar lições matutinas de arreios e tratamento de cavalos nos estábulos antes de os
hóspedes passearem montados, tido fora planejado para fazê-los se sentirem como
participantes ativos. Podiam participar de todas as atividades programadas ou
simplesmente não fazer nada.
Viva nossas lendas ou crie a sua. Julia aspirou oxigênio para os pulmões e sorriu,
sentindo a energia da empolgação que se percebe quando tudo e encaixa como
planejado. Profissionalmente, conhecia sucesso e tinha absoluta certeza de que o hotel
de Trent prosperaria. Era só com isso que podia se preocupar no momento.
Um chofer ajudou a cantora a sair da limusine e Julia acenou, caminhando até ela.
— Sarah, olá mais uma vez. É tão bom ver você.
Sarah endireitou-se e sorriu, os olhos verdes, dois matizes mais escuros do que os
de Julia, com um laivo azulado iluminando-os levemente.
— Oi, Julia. Que prazer vê-la de novo também. Não via a hora de... —começou
com um profundo suspiro, absorvendo o ambiente — apenas estar aqui.
— E pôr em dia o descanso bem merecido? Prometo que não vamos fazê-la
trabalhar muito. É um cenário informal. Sem câmeras, nem fãs enlouquecidos. A melhor
parte é que só teremos de lidar com algumas programações no fim da semana.
— Parece paradisíaco demais — disse a cantora com o Sotaque do Texas.
A mulher de cabelos castanho-avermelhados, com mechas caindo em cascatas
abaixo dos ombros, parecia cansada e pálida. Os bonitos olhos logo se desfizeram do
vivo matiz, fazendo Julia pressentir que viera porque precisava desesperadamente de um
descanso. Embora não lesse jornais sensacionalistas, era de conhecimento comum que
Sarah Rose tinha uma hercúlea programação, dia sim, dia não, de concertos,
apresentações na mídia e eventos beneficentes. E seu nome estava associado a
jogadores profissionais de futebol, astros do rock e produtores de cinema. Não lhe
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invejava a fama, mas sentia em vez disso que a cantora fora arrebatada para um mundo
opressivamente desconhecido desde o fim da adolescência.
Quando Kirby aproximou-se, ela apresentou-o a Sarah e notou a admiração nos
olhos do empregado. Era um imenso fã do faroeste e Sarah Rose era famosíssima.
Apenas abaixou a aba do chapéu com educação e recolheu a bagagem dela. Julia
pensou que deveria se lembrar de convidar o idoso caubói para uma das apresentações.
Deu-lhe o número da suíte privativa e ele e o chofer rumaram para lá com as coisas de
Sarah.
Passou o braço no ombro da cantora ao se encaminharem para a entrada do hotel.
— Obrigada por vir — disse. — Você está salvando minha vida.
— Acho que se poderia afirmar que o contrário é verdadeiro — comentou Sarah
com um risinho meio forçado. — Preciso tanto estar aqui quanto você precisa de mim
aqui. Sei que não é uma coisa muito esperta de se dizer — acrescentou. — Meu agente
não aprovaria, mas é a pura verdade de Deus.
Pelo que Julia deduzira de sua amizade com Sarah, o agente era um capataz e
controlava sua carreira com rédea curta.
—- Bem, então, é um acordo justo. Sei que você vai adorar este lugar. E não será
importunada. Trent contratou segurança extra para garantir que não se intrometam em
sua intimidade.
— Obrigada.
— Ele foi inspecionar os cavalos selvagens, mas quer conhecê-la.
A cantora parou antes de entrarem no enorme saguão e seu o queixo caiu de
assombro. Contemplou as imensas janelas panorâmicas do piso ao teto para apreciar a
paisagem.
— Tudo isto e ainda cavalos selvagens na propriedade? — perguntou, os olhos
cintilando de encanto. — Fui criada em um pequeno lote de terra nos arredores de Dallas.
Era uma comunidade de criação de gado... nada comparado a isto, mas é meio estranho
como este lugar me faz lembrar de casa.
— É sossegado aqui, Sarah, e acho que você terá uma experiência maravilhosa
hospedando-se com... — Julia ia dizer conosco. Mas o Tempestade do Oeste não era
dela. Essa era a visão de Trent, e Julia apenas trabalhava ali. Tinha de se lembrar disso
de vez em quando pois o hotel não lhe pertencia. — Hospedando-se aqui no Tempestade
do Oeste — concluiu desajeitada.
Sarah não pareceu notar o mal-estar e, assim que chegaram à suíte do chalé, com
uma deslumbrante vista do lago do Destino, ela passou os dez minutos seguintes
certificando-se de que ficasse bem instalada. Deu à hóspede o número do telefone
pessoal e as duas combinaram de se encontrar mais tarde depois que Sarah tivesse a
chance de descansar um pouco.
— Com toda a franqueza, eu não esperava que viesse em pessoa — disse Trent,
apertando a mão de Cody Landon.
Encontrara o especialista em segurança à sua espera no escritório depois que Kim
o informara, minutos antes, da chegada de Code.
— Você disse que queria o melhor.
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Trent atirou o chapéu no sofá de couro e convidou-o a se sentar. Code sentou-se à
escrivaninha de frente para Trent.
— Acho que saquei.
E deu um rápido sorriso.
Cody Landon era amigo de Brock do Texas e recentemente a administração do
Tempestade empregara a Agência de Segurança Landon, famosa por segurança e
vigilância de alta tecnologia, para supervisionar a operação de toda a rede de hotéis.
Cody uniu o treinamento militar e a perícia do pai ao seu apurado senso empresarial
durante os últimos dez anos e construíra uma respeitada empresa sem igual de
multimilhões de dólares. Trent já contava com uma pequena equipe da agência Landon
trabalhando para ele no hotel e haviam instalado medidas de segurança na propriedade
antes da inauguração.
— Ouvi rumores de que você vinha pensando em assumir uma posição secundária
na empresa.
Trent recostou-se na cadeira, perguntando-se por que diabos Cody viera ser babá
de uma celebridade iniciante. Cody curvou os cantos da boca para cima.
— Soube disso pelo seu irmão?
— Brock? — Ele coçou a parte de trás da cabeça tentando lembrar-se. — É, talvez.
— Posso ter dito isso em algum momento, após alguns drinques além da conta —
admitiu com uma expressão irônica. — Esse trabalho consome todo meu tempo, sem
deixar espaço para nada mais.
Trent sentia afinidade. Fora intensamente consumido pelos hotéis durante anos,
mas o Tempestade do Oeste era seu bebê e ele comia, dormia e respirava-o fazia meses.
Nada era mais importante que cuidar do sucesso do hotel.
— Droga, não estou me queixando, mas por que você? Não poderia ter enviado
qualquer um dos especialistas da equipe? Temos a segurança que sua agência já
instalou, apenas precisávamos de uma pequena garantia extra, só isso.
— Talvez quisesse ver o Tempestade do Oeste por mim mesmo. Talvez sinta
saudade de trabalhar no campo. Talvez eu goste de música country.
Talvez nenhuma das razões acima, pensou Trent. Outra coisa trouxera Cody
Landon ao Tempestade do Oeste e ele duvidava de que descobrisse a verdadeira até o
próprio decidir querer lhe contar.
— Muito justo. Sabe que Sarah Rose chegou esta manhã. Queremos fazer a
estada dela a mais descomplicada possível, portanto a segurança em torno da cantora
tem de ser sutil, mas eficaz. Nossa comemoração de aniversário inicia-se em uma
semana, apenas mediante convite. A presença de Sarah é a nossa principal atração. Ela
fará vários shows íntimos semanais, perto do lago. Selecionamos os hóspedes e não
devemos ter problema com ninguém. Esperamos que o hotel esgote todas as
acomodações.
— Já esgotamos, não há mais quartos disponíveis — disse Julia.
Ela parara na porta do escritório com uma expressão convencida e um terninho
marfim que lhe acentuava as curvas e exibia as longas pernas. A pele delicada
sobressaía sob o V da grande lapela do paletó, mostrando o suficiente dos seios para
fazer o caubói engolir em seco com força. Ver Julia comunicar a notícia de que o
Tempestade do Oeste esgotara a capacidade apenas intensificou seu desejo por ela.
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Julia entrou no escritório e ofereceu a mão a Code:
— Sou Julia Lowell. Lamento não estar presente quando você chegou.
O outro se levantou e deu um longo olhar de avaliação à recém-chegada.
— Valeu a espera, srta. Lowell — disse, apertando-lhe a mão. — Nos falamos pelo
telefone.
— Sim — ela disse com um sorriso — é verdade.
E concluiu resumindo as instruções a ele. Quando perguntou sobre a vinda dele ao
hotel, gracejando que esperava que ele não cobrasse honorários exorbitantes, a resposta
de Code foi tão enigmática quanto a que dera a Trent.
Nada revelou.
— Vou oferecer um jantar a Sarah Rose em minha suíte mais tarde esta noite.
Trent também vai estar lá. Seria uma boa oportunidade de você conhecê-la. Gostaria de
juntar-se a nós?— perguntou.
Code não hesitou.
— Obrigado.
E Julia acrescentou:
— Sarah teve um ano muito ocupado e árduo. Quer manter o anonimato. Acho que
está exausta tanto mental quanto fisicamente. Encontra-se aqui sem comitiva nem agente
comercial. Deu-me a impressão de que não vem tendo muita privacidade ultimamente.
Nossa esperança é que se divirta bastante no Tempestade do Oeste e queira retornar
para outros compromissos exclusivos.
Impassível, a expressão de Code não mudou, a não ser pelo mínimo lampejo nos
olhos.
— Consegui um arquivo sobre ela. Você tem razão, a cantora teve um ano e tanto
— concordou. — Vou me apresentar à nossa equipe de segurança e depois os encontro
para jantar.
Julia assentiu com a cabeça.
— Oito horas. É na Suíte Palomino no hotel principal.
Assim que Code saiu do escritório, Trent sorriu radioso e tomou a mão de Julia,
puxando-a para perto.
— Estamos lotados?
Ele entrou no clima de comemoração.
— Por três semanas completas e o telefone da mesa de reserva continua tocando
sem parar. Eu me aventuraria a supor que teremos todos os quartos, suítes e chalés
cheio para o mês inteiro. Parece — acrescentou — que os convites privativos deram
conta do recado. Ninguém se importou com o fato de quase dobramos as diárias de
nossos quartos.
— Tudo isso se deve ao seu árduo trabalho, querida. Você conseguiu.
E enlaçou-lhe a cintura com as mãos, ficando cara a cara com ela, aspirando seu
perfume erótico, doido para fazer mais do que apenas segurá-la.
— Eu só descobri o que sua clientela de fato queria. Então ofereci isso a eles.
— Já lhe disse como você é admirável?
63
— Sou?
Julia ficou mais uma vez com aquela expressão cautelosa nos olhos. Dizer-lhe que
gostava dela não pareceria sincero agora. Na verdade, ela começara a ser importante
mesmo, embora não confiasse nele, que por isso não poderia pressioná-la demais. Nem
poderia se permitir perdê-la. Precisava dela no Tempestade do Oeste.
— Você é minha milagreira.
Ela baixou a cabeça e balançou-a.
— Apenas fazendo meu trabalho, Trent. — Recuou e encarou-o com um brilho de
acusação nos olhos. — O que você me contratou para fazer, lembra?
Ai. Trent tinha experiência suficiente para se afastar daquele olhar. Ela ainda não o
perdoara pela forma como lhe manipulara. Mas não podia deixar de lhe dar crédito pelo
excelente trabalho que realizara ali. Embora se ressentisse dele, não permitira que isso
interferisse na maneira de fazer as coisas mudarem da água para o vinho no Tempestade
do Oeste. Trent tinha de admirá-la.
— É, mas você merece algo a mais de mim.
Julia arregalou os bonitos olhos verdes.
— Mais de você?
— Um prêmio. Dito tudo isso, eu tinha planejado lhe dar...
Ela semicerrou os olhos, como um gato desconfiado.
— Refere-se a uma gratificação monetária, Trent?
Ele assentiu com a cabeça.
— Com toda certeza.
Ela formou com a boca um perfeito "O" redondo, a expressão registrando
decepção por um momento. Respirou devagar e sussurrou:
— Certifique-se de que seja um prêmio bom, Trent. Sabe Deus o que mereço por
aguentá-lo.
Então girou nos calcanhares e saiu do escritório dele, batendo a porta atrás de si.
Percorria a suíte de um lado ao outro, tremendo de crescente fúria por Trent.
Proferia poucas e boas grosserias destinadas apenas a ele. Não podia acreditar no
sujeito. O tempo que passaram juntos nada significara para ele?
Não percebera que o mais que queria nada tinha a ver com contratos e dinheiro?
Não soubera que ela trabalhara arduamente para lhe perdoar o erro e aprender a confiar
nele?
Será que tudo o que fazia só se relacionava ao precioso hotel?
Embora sempre tivesse sabido a resposta, no fundo do coração, ela ansiava por
esse algo mais com Trent. No mais íntimo do coração, sabia que queria um futuro com
ele, o proverbial felizes para todo o sempre.
Mas Trent via-a apenas como uma commodity, um meio de manter o Tempestade
do Oeste no azul. Uma forma de garantir a vitória sobre o irmão Brock naquele louco
desafio.
— Você é um idiota — resmungou.
Saiu do quarto para a sala de estar e voltou com a intenção de se arrumar para o
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jantar, mas nada concretizou. Desabou na cama, enquanto as lágrimas escorriam pelas
faces. Trent jogava fora uma coisa mais preciosa que seu hotel. Ela sabia disso, mas
duvidava de que ele visse além das próprias aspirações para reconhecê-lo.
— Denso, insensível, arrogante —- sussurrou antes de se render à repentina
fadiga.
Fechou os olhos e descansou, recusando-se a se preocupar com o jantar que ia
oferecer esta noite. Tinha algumas horas para cochilar, e que tudo se danasse pois
merecia uma folga.
Quatro horas depois, reagrupou os pensamentos e, sentindo-se um pouco
restaurada devido ao descanso, decidiu que não ia dar a ele a satisfação de saber o
quanto a magoara. Na verdade, tão logo raciocinou sobre a questão, compreendeu que a
oferta de recompensar seus esforços era uma transação correta. Aceitaria o prêmio com
charme, pois trabalhara com muito afinco e merecia cada centavo.
Pôs um vestido rodado de gaze de seda e cetim preto, os brincos com pingente de
cristal, e deixou os cabelos escuros caírem soltos em sutis ondas pelos ombros.
Contornou os lábios com vermelho-atrevida, depois aplicou um toque de sombra verde
nas pálpebras.
Assim que os empregados do hotel acabaram de arrumar a mesa perto da
varanda, ela os dispensou e encaminhou-se para a suíte de Sarah no extremo oposto da
propriedade. Bateu e a cantora abriu a porta timidamente, mas logo sorriu aliviada quando
viu que era Julia e afastou-se, fechando a porta atrás de si.
— Estou pronta. — Tinha os olhos verde-água mais iluminados e o rosto mais
relaxado do que horas antes, quando chegara ao hotel. — Foram as melhores seis horas
que passei num longo tempo.
— Verdade? Que você fez? — perguntou a amiga ao atravessarem o caminho que
levava ao hotel principal.
— Tomei um longo banho de imersão na banheira. Li. Cochilei. Sem telefonemas.
Nem mensagens de texto. Desliguei o celular. — Riu. — Foi o paraíso.
— Pode ser assim todos os dias. Garantiremos isso.
Sarah, usando um bonito vestido de bordado inglês com pontos abertos,
assemelhando-se à personificação de uma simples garota do campo e não à estrela
vistosa cheia de lantejoulas e tachas que em geral retratava parecia feliz.
— Uma menina pode ser estragada com demasiados mimos.
— Você ainda não viu nada — provocou Julia.
Entraram e sentaram-se na sala, conversando sobre a Dream Foundation e o que
haviam planejado realizar para a instituição de caridade durante os feriados próximos.
— Programei uma série de concertos em Nova Orleans com toda a renda
destinada à fundação. Vamos tornar alguns sonhos realidade para as vítimas do Katrina.
Muitas crianças e suas famílias continuam desabrigadas.
Quando bateram na porta, Julia levantou-se e inspirou fundo, preparando-se para
ver Trent pela primeira vez desde a conversa de horas antes.
— É Trent Tyler, o idealizador da construção do Tempestade do Oeste. E vem com
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o chefe da segurança. Espero que não se importe. Trent e eu achamos que vocês deviam
se conhecer. Consideramos isso necessário para sua segurança extra.
Sarah levantou-se.
— Tudo bem, Julia. Não quero que minha presença aqui perturbe a ordem das
coisas. Infelizmente, habituei-me a seguranças extras.
Quando Trent e Cody Landon entraram, Julia encarou-os com amabilidade, mas no
momento em que se virou para fazer as apresentações viu Sarah dar uma olhada em
Cody e sua expressão desmoronar. Pareceu exigir-lhe toda a coragem para impedi-la de
desabar de volta na cadeira.
— Olá, Sarah — disse Landon, sem apresentação.
— Code — ela murmurou, o olhar fixo no dele.
Era como se os anfitriões não estivessem na sala. Após um breve silêncio
embaraçoso, a cantora refez-se e explicou que ela e Cody Landon haviam sido amigos de
infância no Texas. Não se viam havia dez anos. Amigos sendo uma atenuação da
verdade, avaliou Julia, mas nem um deles esclareceu nada mais sobre o relacionamento.
A cantora manteve a compostura durante todo o jantar, embora Code não tirasse
os olhos dela. Após o café e sobremesa, ele se ofereceu para acompanhá-la de volta à
suíte no chalé e Sarah aceitou.
— Eu não sabia que os dois se conheciam — disse Trent depois que eles tinham
saído.
— É óbvio que ele não queria que soubéssemos. Deve ser por um bom motivo.
Vou conversar com Sarah amanhã e certificar-me de que se sente bem com isso.
— Boa ideia — ele disse, indo até a janela da varanda e olhando para fora, as
mãos enfiadas nos bolsos da calça.
A sala ficou em silêncio. Então Trent virou-se, recebendo o olhar de Julia, seus
olhos escuros e intensos nos dela.
— Também não sabia que lhe oferecer um prêmio ia aborrecê-la, querida. Orgulho-
me de você e queria demonstrá-lo.
O transbordante charme daquele homem podia paralisar uma cascavel, e nesse
momento Julia se sentia como um réptil, querendo se afastar rastejando de bruços.
Comportara-se como uma víbora antes, quando Trent apenas quis lhe agradecer o
trabalho árduo. Ele era seu chefe, afinal.
O caubói sexy alto e magro exibia uma expressão sincera e o coração dela vacilou
um pouco. Lembrou-se das palavras de Laney... para lutar por Trent e ir atrás do que ela
queria. Encolheu os ombros e pôs de lado o obstinado orgulho para oferecer a verdade.
— Acho que eu queria mais de você, Trent.
Trent afastou-se da janela e encarou-a, os olhos escuros interrogativos.
— Há semanas, você tem me repelido. Não olhei para outra mulher desde que nos
conhecemos e sabe que eu a quero. — Levou um dedo à face dela, deslizando-o pelo
rosto de um jeito tão carinhoso que lhe fez derreterem os ossos. — Você e eu podemos
atear fogo naquela cama, querida. —- Desceu o dedo pelo pescoço e depois contornou o
ombro nu. — Podemos passar juntos um tempo maravilhoso. — Enganchou o dedo na
alça do vestido e baixou-a. — Você é linda, Julia. E inteligente. — Beijou-lhe o ombro, os
lábios demorando-se. Ela sentiu a garganta seca. — Tenho apenas admiração por você.
— Beijou-a de novo, colando os lábios um pouco mais embaixo, perto do V do decote. —
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Quero-a de todo modo que um homem pode querer uma mulher. — Baixou o decote,
liberando o tecido para desnudar-lhe a parte superior do seio. Então a beijou ali e a
resistência de Julia desintegrou-se. — E também dez vezes mais.
—- Trent — ela sussurrou — não sei se posso confiar em você.
Devagar, ele retirou as alças dos ombros e o vestido deslizou até a cintura. O frio
ar noturno acariciou-lhe os seios.
— Peço que confie.
Com isso, ergueu-a nos braços e carregou-a até o quarto. Ela enlaçou-lhe
automaticamente o pescoço com os braços. Os olhos dos dois encontraram-se, e os dele
exibiam as pálpebras pesadas e ardentes de desejo. O coração de Julia martelava.
Rápido e forte, golpeava-lhe o peito.
Com toda delicadeza, deitou-a na cama, o vestido fluindo em dobras ao redor dos
quadris. Parou acima dela, a mandíbula cerrada, o olhar intenso e o corpo ereto.
— Diga-me o que você quer, meu bem.
Oh, meu Deus. Julia sabia o que ela queria, mas além de lhe pedir que a amasse,
não sabia verbalizar os desejos sinceros. Queria aquele homem a seu lado para toda a
vida. Queria dar à luz os filhos de ambos e envelhecer com ele.
Queria confiar nele.
O debate em sua mente durou meio segundo. Não podia recusá-lo. Doía-lhe o
desejo pelo seu beijo. Precisava das mãos dele nela, fazendo-a sentir-se linda e
desejada. Queria-o dentro de si, a ideia de fazer amor com Trent era poderosa demais
para negar.
Rolou de lado e apontou.
— Tire a camisa. — Ele ergueu as sobrancelhas com um ar provocativo e esboçou
um sorriso. Desabotoou a camisa devagar, cada botão aberto permitindo-lhe a excitante
exibição do peito largo e bronzeado. Feito isso, largou-a no chão e encarou-a. — Agora,
as botas, caubói.
Sentou-se na borda da cama e retirou as botas de pele de cobra. Alinhou-as com
perfeição e a visão daquelas botas ao lado da cama comoveu-a profundamente.
Ainda sentado na cama, encarou-a.
— Não me dispo até a cueca sob comando de ninguém, Julia.
— Isso significa que você tem suas reservas?
— Significa — respondeu — que faria isso só por você.
— Mesmo? Jamais imaginaria isso.
Mas Julia sabia que Trent não era leviano nem paquerador. Não parecia ter uma
longa lista de mulheres no passado. Acreditou nele quando disse que tinha suas reservas
e essa era uma de suas qualidades que ela julgava extremamente amável.
Ele segurou-lhe as pernas pouco acima dos tornozelos e puxou-a com delicadeza
para si, com lençóis e tudo.
— Agora você sabe — disse, inclinando-se para dar um beijo de parar o coração.
Ela ansiava pelo gosto conhecido dele e, ao aspirar aquele poderoso aroma natural,
escapou-lhe da garganta um pequeno suspiro de prazer. Trent sorriu. — Você é
importante para mim, querida.
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Erguendo os olhos, Julia fitou os escuros e sinceros dele.
— Faça amor comigo, Trent.
— Não terá de pedir duas vezes.
Ele retirou o vestido de Julia, ajudando-a enquanto ela contorcia os quadris e
rebolava para livrar-se da roupa. Em seguida, deslizou um dedo sob a calcinha de cetim
preto e também a retirou, deixando-a nua em pelo. Parecia que ia devorá-la. Em vez de
tomá-la em outro beijo alucinante, ergueu-lhe os quadris, acomodou-lhe as pernas nos
ombros, centralizando a boca quente entre as coxas, e proporcionou-lhe rápida e
completa satisfação com as carícias da língua. O orgasmo desmoronou-a, deixou-a
respirando com dificuldade, fazendo-a agarrar desesperada os ombros de Trent.
— Oh... Trent — ofegou.
Ele levantou-se e retirou a calça, depois se voltou de novo para ela, beijou-a
inteira, acariciou os seios e sugou cada mamilo até fazê-la querer gritar de prazer.
Tocava-lhe cada centímetro, as mãos vagando e reivindicando-a para si. Com a
pele acalorada, o corpo trêmulo, cada célula no corpo de Julia desejava-o intensamente e
doía por mais.
Deitando-a na cama, Trent estendeu-se sobre ela e penetrou-a. Movia-se devagar,
provocando pura luxúria. Mergulhou mais fundo e Julia enroscou-se em volta dele, cada
segundo intensificando-se com fogosa expectativa.
Com os olhos pesados ele a olhava, a mandíbula cerrada, a força e a largura de
seu membro sendo testadas por pura força de vontade. Era tão poderoso, tão forte e tão
incrivelmente lindo para Julia que lhe dava vontade de chorar.
Disse com a voz áspera:
— Vamos pegar fogo, agora, meu bem. Pronta?
Ela engoliu em seco e assentiu com a cabeça.
Então Trent concluiu o que fazia melhor.
E ambos explodiram em chamas.
CAPÍTULO NOVE
Julia acordou na manhã seguinte de um delicioso sono. Soube por instinto que
Trent já saíra da cama. O brilho do sol entrava pela janela. Passava bem do amanhecer e
ele na certa se achava mergulhado em trabalho àquela altura.
Com o corpo saciado depois de duas incríveis rodadas de amor na noite anterior,
ela na verdade não devia se queixar, mas, apenas para não variar, desejou que pudesse
acordar com ele ao lado. Impusera a si mesma uma regra de sigilo. Não lhe faria bem
algum dos empregados saberem que dormia com o chefe.
68
Abraçou o travesseiro junto ao peito desejando que fosse ele. Então olhou a
metade vazia da cama e viu um pequeno envelope com o logotipo do Tempestade do
Oeste no outro travesseiro, seu nome escrito no centro.
Sorriu, reconhecendo a caligrafia de Trent. Sentando-se, abriu o envelope e leu o
cartão em silêncio.
Você me destruiu ontem à noite. Somos bons juntos. Durma bem. Até mais tarde.
Trent.
Julia dobrou o bilhete, enfiou-o de volta no envelope e levantou-se da cama. Ao
guardá-lo na gaveta da cômoda, soltou um profundo suspiro. Eram dificilmente as
palavras de amor que gostaria de ouvir, mas considerou o bilhete um progresso, pois
Trent jamais lhe deixara um antes.
Entrou no chuveiro e demorou-se, desfrutando o jato de água quente. Passou
xampu e condicionador e depois usou a esponja no corpo. Cobriu-se de espuma com um
sabão de delicado perfume de gardênia e enxaguou-o, sentindo-se revigorada e
refrescada.
Trent não fora o único destruído. Uma noite na cama com ele significava vigoroso
exercício e Julia desejou passar o dia todo dormindo, revivendo as intensas sensações
que lhe proporcionava. Mas o dever a chamava. Tinha trabalho a fazer e já desperdiçara
parte da manhã.
Sentindo-se despreocupada, vestiu uma saia florida em matizes de lavanda e rosa
e um suéter de malha combinando. Pôs as jóias preferidas... um colar longo e pequenOS
brincos de diamante. Após dez minutos cuidando dos cabelos, estes caíam em suaves
cachos ao redor do rosto e ela ficou com a aparência que queria para enfrentar o dia.
Não sabia para onde se encaminhava o relacionamento com Trent, mas hoje não
ia se preocupar. Tomara a firme decisão de viver o momento e deixar as preocupações
para trás.
Dez minutos depois, bateu na porta de Sarah Rose, pronta para guiá-la em uma
excursão pela propriedade do Tempestade do Oeste como prometido. Sarah abriu a porta
vestida de pijama de seda marfim, os cabelos castanho-avermelhados emaranhados
revelando que ela acabara de levantar-se.
— Bom dia — disse, guardando para si mesma as perguntas por enquanto.
— É?
A enigmática resposta dela levou Julia a erguer uma sobrancelha.
— Se for uma hora ruim, posso voltar depois. — Então acrescentou: — Ou nem
sequer precisamos fazer isso hoje.
Sarah escancarou a porta.
— Entre, Julia. Desculpe-me. Estou meio mal-humorada. Não dormi muito esta
noite.
— Oh, lamento saber disso. Sentiu-se desconfortável? Não aprova alguma coisa
aqui?
A cantora calou-a com um sorriso.
— Não seja tola. Não sou uma diva. As acomodações não podiam ser mais
perfeitas. Nem eu aprová-las mais. — Então se sentou na poltrona de couro amarelo-
manteiga e deu de ombros. — Outras coisas me mantiveram acordada à noite.
69
Julia teve uma sensação de que sabia aonde ela ia chegar.
— Ih! Foi Cody Landon? Deixe-me explicar que ninguém ficou mais surpreso do
que Trent e eu ao vermos que vocês dois já se conheciam. Espero que ele não a tenha
angustiado... Podemos fazer outro arranjo...
Sarah ergueu a mão.
— Julia. Espere. Não faça suposições em meu nome. Está tudo ótimo. Eu sabia
que poderia topar com ele um dia. Por favor, não ache que precisa fazer outros arranjos
— disse em voz baixa, desprendendo o sotaque sulista. — Vê-lo aqui apenas me pegou
de surpresa.
— Vi sua reação, Sarah.
Sentou-se ao lado da cantora e virou-se para encará-la. Esta quase desmoronara
por um segundo quando pusera os olhos em Cody. Não que ele não fosse extremamente
bonito, vestido da cabeça aos pés de preto, o rosto com aqueles incríveis olhos azul-
escuros pousados na antiga amiga e ali os deixando durante todo o jantar.
Sarah fechou os olhos por um breve instante.
— Code e eu... bem, a gente se conhece há muito tempo.
— Sou toda ouvidos, se você precisar de alguém. Mas não se sinta como se
tivesse de dizer alguma coisa — sorriu Julia, afetuosa.
— Obrigada. Mas ele não importa mais, Julia. É notícia velha e, além disso, não
muito excitante — disse em um fundo suspiro. — Se me der vinte minutos, ficarei pronta
para a visita à propriedade.
Ela descartou o assunto com facilidade, mas Julia percebeu que muito mais água
do que Sarah queria admitir continuava a rolar por baixo da ponte.
— Por que você não fica e come alguma coisa enquanto tomo uma ducha e me
visto?
Julia olhou a bancada de granito cheia de guloseimas.
— Obrigada. Aceito alguns morangos e café, e a espero lá fora na varanda.
Vinte minutos depois, saía com Sarah Rose camuflada, de óculos escuros e um
rabo de cavalo coberto por um boné Dallas Cowboys, para um passeio de uma hora pela
propriedade. Orgulhosa, gabou-se do hotel de Trent e percorreu o perímetro no jipe,
fazendo a última parada no lago do Destino.
— É aqui — disse à cantora. — Vamos instalá-la em cima no cais e pôr os
hóspedes em cadeiras apenas a poucos metros, não mais que trezentos lugares ao todo.
Sem badalação, luzes faiscantes, nem cantores de apoio. Apenas uma noite íntima com
você e seus fãs.
Sarah tirou os óculos escuros para absorver tudo, o olhar demorando-se no
resplandecente lago.
— Mal consigo me lembrar que já cantei para um público pequeno. Sinto
saudades. Gosto da ideia do cais.
— Depois, se não se importar, talvez possa apertar algumas mãos, assinar
autógrafos numa pequena festa após o show no hotel. Terá o máximo de segurança o
tempo todo.
— Por mim, ótimo. Mas não contarei ao meu agente, pois ele tomaria o primeiro
avião para aqui. Confio em você, Julia. E aguardo ansiosa por isso.
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— Obrigada. Não vamos decepcioná-la. Queremos que seja uma agradável
experiência para você e nossos hóspedes.
— Acho que será — reconheceu, mas a voz saiu entremeada com trepidação e
Julia julgou que tudo tinha a ver com Cody Landon.
Quando Julia entrou no escritório de Trent, viu-o mergulhado em trabalho, a
cabeça baixa, concentrado nas projeções do hotel.
— Kim, pode me trazer os relatórios do último mês?
— Não é Kim — ela avisou, fechando a porta atrás de si e dirigindo-se à
escrivaninha.
Trent abandonou o trabalho a tempo suficiente para erguer os olhos e fazer o
coração dela dar saltos, quando perdeu a expressão de executivo e sorriu.
— Nossa. — Levantou-se e aproximou-se de Julia. — Está mais bonita que um raio
de sol. — Tomou-lhe a mão, puxou-a para perto e beijou-a. — Doce como açúcar
também.
— Lisonja, sr. Tyler?
— Apenas fatos.
Ela acariciou-lhe o queixo, gostando da liberdade de tocá-lo agora. Resistira a ele
durante semanas e agora não conseguia tê-lo o bastante. Ergueu-se nas pontas dos pés
e retribuiu-lhe o beijo.
— Alegra-me que exponha os fatos com franqueza.
Ele riu e olhou os arquivos atrás na escrivaninha.
— Tenho uma pilha de trabalho para fazer hoje. Agradeço, porém, a interrupção. É
bom ver você. — Então se aninhou no pescoço dela. — Ficou bem, depois de ontem à
noite?
O lembrete da tórrida noite de sexo protelou-lhe a respiração. Julia sussurrou:
— Não pareço bem?
Trent desceu as mãos pelas costas dela, levantou a bainha da saia e segurou-lhe o
bumbum, despertando-lhe sinais ígneos pelo corpo.
— Droga, Julia. Eu tenho uma reunião em meia hora e não estou nem perto de
terminar, senão lhe mostraria agora mesmo como você está bem.
Colhida nas carícias dele, ela se atrapalhou com o pensamento seguinte.
— Desculpe, mas... eu, hã... entrei aqui por uma razão. Trata-se de trabalho, mas
pode esperar. Vou deixá-lo terminar. — Com relutância, desprendeu-se, e logo se viu
agarrada e puxada de volta por ele, com as mãos firmes em suas costas. — Trent... —
suspirou.
Ele encarou-a no fundo dos olhos.
— Encontre-se comigo esta noite. Venha até minha casa. Quero-a lá comigo. —
Julia engoliu em seco e, assentiu devagar com a cabeça, olhando-o. — Sete horas. Não
se atrase.
Ela saiu do escritório, a mente eufórica, as pernas fracas e o coração palpitando de
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alegria.
Não fazia sentido ser recatada com Trent. Sabia do que ele gostava e ia com
absoluta certeza satisfazê-lo esta noite. Pôs o vistoso vestido fúcsia Zac Posen, algo que
guardava para ocasiões especiais, enfiou os pés nos sapatos pretos, salto 5 cm, e realçou
o traje com minúsculos brincos de pérola preta em forma de gota e uns 12 braceletes
finos.
Prendeu os cabelos no alto em um sofisticado penteado, as trancas enfeitadas com
contas ônix. Ao olhar-se no espelho, deu um rápido aceno de aprovação com a cabeça
para a imagem refletida. Pegou a bolsa e saiu.
Fizera planos para Kim e Sarah saborearem uma leve ceia juntas, a fim de que a
gerente pudesse repassar alguns "detalhes" sobre as apresentações com a cantora.
Sorriu ao lembrar-se da estupefata expressão de Kim.
— Quer que eu jante com Sarah? Só nós duas? — perguntara a jovem.
— É, acho que ela vai gostar de conhecê-la. E me fará um grande favor — dissera.
Não que planejasse oferecer serviço de babá a Sarah durante toda sua estada no
Tempestade do Oeste, mas depois da conversa que tivera com ela achou que a cantora
talvez gostasse de algumas horas de distração. E ela dormiria melhor sabendo que não
teria de se preocupar com as atividades da hóspede à noite.
Isto é, se ia chegar a conseguir dormir à noite. Julia pôde apenas rir da ideia.
Trent deixou um recado informando-a de que o jipe ficaria à sua disposição e
desculpou-se por não ir buscá-la. Regra dela, não dele, lembrou-lhe.
Percorreu a distância até a casa de Trent, elogiando a si mesma pela memória.
Quando a casa surgiu em seu campo visual, parou o carro e saiu, olhando a varanda
rústica e a chaminé baforando fumaça. O cenário confortável, íntimo, convidava ao
aconchego e ela morria de vontade que a noite começasse logo. Ficou excitada ao
aproximar-se da porta da frente.
Bateu e esperou.
Tornou a bater.
— Trent? — chamou.
Ele afinal a abriu, o celular junto à orelha.
— É, isso mesmo. Preciso voar hoje à noite. Assim que consiga aprontar o avião.
Indicou com um gesto para Julia entrar. Com o coração na garganta, a convidada
entrou, viu velas acesas na prateleira acima da lareira, na mesa de jantar e em todo canto
possível. Um belo matiz amarelo-dourado impregnava o ambiente. Três arranjos de rosas
vermelhas com delicadas gipsófilas enchiam vasos de cristal lapidado, o doce aroma
prolongando-se no ar.
Ainda falando ao telefone, Trent pegou um atiçador e extinguiu o fogo na lareira o
melhor que pôde. Em seguida, contornou a sala apagando todas as velas até apenas o
sol que se punha trazer luz ao ambiente.
Assim que terminou a conversa, fechou o telefone e dirigiu-se a ela.
— Lamento, Julia. — Segurou-lhe a mão. — Evan ligou apenas alguns minutos
atrás. Laney entrou em trabalho de parto prematuro.
72
Julia arquejou.
— Oh, não. É cedo demais. Era para nascer daqui a meses.
— A pressão sanguínea subiu muito e rapidamente, é arriscado.
Ele ficou sem ar. Horrivelmente chocada, Julia perguntou:
— Arriscado? Quer dizer que Laney corre perigo?
— Muito. Ambos correm. Nunca ouvi Evan tão frenético. — Esfregou a nuca e falou
com profunda preocupação. — Pus o gerente à frente do hotel. Meu piloto está
abastecendo o jato. Tenho de chegar lá. Evan precisa de mim.
— Eu também vou — disse Julia, categórica, sem esperar um convite. O pânico
revirava-lhe o estômago. — Preciso ver Laney. — Lágrimas pinicavam-lhe os olhos e ela
mal conseguia se expressar. — Minha amiga quer tanto este bebê, Trent.
— Eu sei. Os dois querem.
— Tenho tempo para fazer uma pequena mala? — perguntou,
Ele fez que não com a cabeça.
— Não, vou pegar um casaco para você e compraremos o necessário assim que
chegarmos a Los Angeles. Temos de ir logo para o aeroporto.
Foi correndo ao quarto e saiu com um casaco de camurça canela e uma pequena
sacola de lona para si. Pôs o casaco em volta dos ombros dela. Ficou imenso, mas
proporcionou-lhe um pouco de conforto. Puxou-a para perto e beijou-lhe a testa.
— Pronta? — Ela fez que sim devagar com a cabeça, cheia de medo pela melhor
amiga. — Vamos.
Um tempo depois, chegavam a Los Angeles. Um motorista recebeu-os e levou-os
direto ao hospital. Entraram correndo e Trent imediatamente falou com a enfermeira da
unidade, que lhes dera muito poucas informações.
Evan Tyler estava com a esposa.
Após meia hora de espera silenciosa, o irmão andando de um lado para outro, e
Julia quase às lágrimas, Evan entrou afinal na sala. Trent logo o cumprimentou e os dois
se abraçaram com força, mas a amiga ficou atrás. A visão do rosto desfigurado de Evan,
os olhos inchados, visivelmente esgotado, assustaram-na mais do que receber a notícia
de forma tão inesperada antes.
Amado Deus, implorou, permita que tudo fique bem.
— Não houve nenhuma mudança —- ele disse.
Julia levantou-se para dar um grande abraço no amigo.
— Sinto tanto. Laney parecia tão saudável quando estava no Arizona com todos
nós. Eles sabem o que causou isso?
Exausto, o marido correu as mãos pelo rosto e balançou a cabeça.
— Ninguém sabe. Às vezes, esse tipo de coisa acontece. Laney se sentia ótima
ontem. Tínhamos acabado de arrumar o quarto do bebê e ela ficou tão feliz. Quando
acordou depois de um cochilo esta tarde, sentiu-se fraca e então começou a ter cólica. É
só o que sei. Trouxe-a correndo para cá e... e...
Julia tomou-lhe a mão.
— Ela vai se sair bem disso. Eu sei, Evan. Minha melhor amiga é forte.
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Evan balançou a cabeça concordando, embora o medo nos olhos desmentisse seu
otimismo. Virou-se para Trent.
— Você ligou para mamãe?
— Liguei, mandei-a ficar calma e esperar, que eu a manteria informada.
— Acha que fará isso?
Trent deu um breve sorriso.
— Droga, não. Partirá no primeiro avião. Surpreendi-me por não vê-la chegar antes
de nós.
— Eu também — disse Evan com amor nos olhos.
— Você parece cansado demais. Sente-se. Vou pegar alguma coisa para comer.
— Não, não posso perder tempo. Preciso voltar para lá.
— Por favor, Ev. Não vai fazer bem algum a Laney se você cair duro desmaiado.
— Só café — consentiu Evan firmemente, apontando os dois bules de café no
canto da sala de espera.
— Certo, só café. Isso o manterá fortalecido — disse o irmão com ironia, mas
mesmo assim correu à mesa e serviu duas xícaras. Entregou uma a Evan, e a outra a
Julia.
— Vamos todos nos sentar por um minuto — disse Trent com toda calma. — Julia
está exausta.
Ela abriu a boca para protestar, mas, quando ele lançou-lhe um olhar de
advertência, entendeu-lhe a intenção. Evan se sentaria em favor dela se achasse que a
amiga precisava descansar.
Sentou-se então numa cadeira e os dois irmãos a flanquearam. Tomou o forte e
amargo café que com toda a probabilidade já se encontrava no bule quase o dia todo.
Evan tomou grandes goles em silêncio, descansando apenas um minuto, e levantou-se de
repente.
— Tenho de ir ver como está minha esposa.
O irmão também se levantou.
— Estou aqui, se você precisar de qualquer coisa.
— Eu sei. Posso sempre contar com você, Trent — disse Evan, de uma forma
paternal.
Julia levantou-se e abraçou-o mais uma vez, sem nada dizer, dando-lhe apoio.
Assim que ele saiu do quarto, Trent deu uma olhada nela e fechou a cara.
— Você está tremendo.
— Estou assustada.
Os olhos enevoaram-se de novo e ela lutou para conter as lágrimas.
Ele pegou o casaco de camurça que Julia tirara antes e envolveu-o nos seus
ombros. Puxando-a para perto, abraçou-a, apoiando-lhe a cabeça sob o queixo, e
manteve-a assim por um longo tempo. Ambos ficaram ali no meio da sala de espera
assim.
Envolta como em casulo na força dele, Julia fechou os olhos e rezou pelo bebê
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inocente e pela segurança da melhor amiga. Após algum tempo, Trent ajudou-a a sentar-
sé e ela aconchegou-se em seu calor e cochilou de leve, caindo no sono e despertando,
ouvindo ao fundo sons do hospital, conversas baixas e uma vez ou outra o som do
elevador. O tempo todo, ele segurava-a junto a si, e já passava bem da meia-noite
quando Evan surgiu do quarto de Laney.
Trent cutucou-a de leve e Julia sentou-se ereta.
— A pressão sanguínea melhorou, mas ainda não está completamente sob
controle — disse o marido. — Deram-lhe um sedativo para dormir. O bebê continua firme
— informou, o tom da voz mais esperançoso. — Não vou sair do lado dela. Instalei-me no
quarto. Vocês dois precisam de um pouco de descanso. Telefono pela manhã para dar
notícias.
— Tem certeza? Podemos ficar — o irmão falou pelos dois.
— Tenho. — Evan olhou-a. — Você precisa levar Julia para casa.
— Promete ligar se houver alguma mudança? — pediu a amiga, detestando deixar
o hospital.
— Prometo. Nada podem fazer esta noite. Voltem de manhã. — Enfiou a mão no
bolso e entregou as chaves a Trent. — Leve meu carro.
Trent apertou a mão no ombro de Julia, assentindo com a cabeça.
— Voltaremos cedo.
CAPÍTULO DEZ
Enquanto Trent levava Julia ao apartamento dela, ela olhava em frente, esmagada
pela emoção e pelo medo. Não parecia justo, afinal, Evan e Laney terem acabado por
constituir uma família e acontecer isso com eles. Haviam tido um começo tumultuado, na
melhor das hipóteses, e a esposa achava que jamais iria confiar no marido. Agora,
confiava-lhe até a vida. E o precioso bebê lutava para sobreviver também.
Inspirou fundo e deu um suspiro, pois a exaustão enfraquecia-lhe a decisão de ser
forte. Combatera as lágrimas o tempo todo no hospital, mas pareceu não mais poder
contê-las. Agora escorriam pela sua face.
Trent estendeu o braço para pôr a mão sobre a da companheira. Esse simples
gesto carinhoso provocou alguma coisa e ela olhou-o, sentindo o coração aquecer-se.
Com a preocupação visível no rosto, ele voltou-se para dar-lhe um rápido sorriso e
apertar-lhe mais um pouco a mão.
Seguiram em silêncio o resto do caminho. Trent parou diante do apartamento,
desligou o motor e virou-se para ela. Com as pontas dos dedos, enxugou-lhe com
delicadeza a umidade das faces. Antes que Julia pudesse agradecer, saltou do carro e
contornou até o outro lado para abrir a porta.
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Ao vê-la descer para a calçada, tomou-lhe a mão e encaminhou-a até a porta do
apartamento.
— Vai ficar tudo bem esta noite?
Julia piscou os olhos e compreendeu que ele não pretendia ficar.
— Eu... — começou, e depois, como não fazia jogos, disse a verdade: — Não
quero ficar sozinha, Trent. — Queria a companhia dele. Aninhar-se naquela força.
Aconchegar-se naquele coração, abrigada, reconfortada e em segurança. — Quero que
você fique comigo.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Tudo bem, querida. Eu não queria atrapalhar seu sono, só isso. Você teve uma
longa noite.
— Dormirei melhor sabendo que você está aqui.
— Quer dizer que sou melhor que um copo de leite quente?
— E do que contar ovelhas — ela gabou-se, e sentiu um momento de leveza ao
enfiar a chave na fechadura e abrir a porta. — Chegamos.
Julia adorava o apartamento, o modo como a luz do sol lançava suaves matizes
durante o dia e a da lua acrescentava um cálido fulgor romântico à noite. O ambiente
tinha certo apelo feminino, mas as texturas e os sólidos móveis tornavam-no um lugar
onde um homem também se sentiria à vontade.
Trent seguiu-a, e percorreu a sala de estar com os olhos.
— Eu me lembro daqui. Lugar legal. Mas não saímos muito do quarto, saímos?
Apaixonada pelo belo caubói do Texas, Julia entrara cem por cento naquele breve
caso após o casamento de Laney. Ela, a firme, eficiente e cautelosa, em geral não se
deixava cegar assim. Mas na época ele simplesmente era o novo cunhado da melhor
amiga. Os dois estavam atraídos como dois ímãs, atraídos por uma força irresistível.
— Não — respondeu Julia, e lembrou-se de como fora lasciva ao fazer amor, numa
sede insaciável, com um quase total estranho.
Sentiu o calor subir pelo pescoço e mudou de assunto.
— Está com fome?
—:
Não. — Ele contornou-a e ergueu-a rapidamente nos braços. Levou-a para o
quarto. — Você está nas últimas, querida. Nós dois precisamos dormir.
Deitou-a com cuidado e deu-lhe um beijo apressado, em seguida pôs as mãos nos
ombros dela e girou-a. Falou-lhe bem perto do ouvido, a respiração quente, um sussurro
no pescoço dela:
— Quando me imaginei fazendo isto, não pretendia pôr você na cama para dormir.
Ela virou a cabeça para olhá-lo.
— Você se imaginou fazendo isto?
Trent riu baixinho.
— Mesmo antes de vê-la nesse vestido de arrasar. Imaginei que a despia. Sim. —
Mordeu-lhe o ombro e alisou-a com ternura. Depois, com um suspiro de resignação,
ordenou: — Levante-se da cama.
Virou-se e encaminhou-se para a saída.
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— Aonde vamos? — perguntou Julia.
— Preciso de um drinque. A bebida continua no mesmo lugar, querida?
Ela assentiu com a cabeça e ergueu o vestido até o peito.
— Cerveja na geladeira. — E antes de vê-lo sair do quarto, gritou: — Trent?
— Hum?
— Vai dar tudo certo com eles, não é?
— Sinto que sim. — Ele piscou um olho. — Deite-se. Volto em um minuto.
Apagou a luz e deixou-a no escuro.
Julia revirou-se na cama durante 15 minutos. Só depois de vê-lo despir-se e deitar-
se por fim se acalmou.
— Achei que já estaria dormindo — ele disse em voz baixa, e aproximou-se mais.
— Não consigo dormir. Fiquei muito preocupada.
Ele envolveu-a com os braços.
— Eu também, mas não vamos ajudar ninguém sem pregar um pouco o olho.
Ela riu baixinho.
— Como?
— Você é um caubói e tanto, Trent Tyler.
— E você gosta de caubóis — declarou o companheiro de forma inequívoca.
Ouviu-se um profundo suspiro.
— Sorte sua.
—- É mesmo. Agora... shh. Vá dormir, querida.
Ele aconchegou-a mais para perto e alisou-lhe os cabelos, acariciando-a até levá-
la a um doce esquecimento.
— Não sei o que estaria fazendo sem você aqui — ela disse, a cabeça apoiada no
ombro do amado.
— É um prazer servir — veio a resposta, num forte sotaque texano.
Mia sorriu e deitou a cabeça no peito dele, a mão no torso. Não apenas gostava de
caubóis.
Adorava-os.
Aquele em particular.
Não havia mais como negar.
Trent acordou quando o dia rompia por entre as persianas de estilo fazenda, que
filtravam uma primeira névoa luminosa para dentro do quarto. Julia continuava a dormir,
com a cabeça no peito dele.
Aquele era um primeiro recorde na vida do caubói. Jamais dormira com uma
mulher sem fazerem amor. Jamais se permitira um envolvimento profundo com alguém.
Quando mais jovem, vivia em competição com Brock. Como o mais novo, precisava
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manter-se à altura, capaz e digno do amor deles.
Depois que o pai morrera em circunstâncias trágicas, sentira-se perdido e
abandonado durante algum tempo. Mas tinha Evan ali para assumir e descobrira que não
queria mais ser paparicado pela mãe. Queria o mesmo respeito que ela demonstrava ao
irmão.
E mais recentemente tivera uma visão do Tempestade do Oeste, mas seus irmãos
não lhe deram muito crédito. Gastara a maior parte do tempo e da energia debruçado
sobre o projeto.
O sucesso do empreendimento fazia parte integral dele.
Então Julia entrara em sua vida, a mulher que podia dar uma virada no debilitado
empreendimento. Precisava do talento e da experiência em marketing dela e não sentia
nem um pouco de remorso pela forma como isso acontecera. Faria tudo outra vez em
Nova York.
Na cama, Julia não se comparava a nenhuma outra com quem já estivera. Os dois
ligavam-se no mais alto nível e viravam um ao outro pelo avesso.
Assim, quando ela lhe dissera que tinha sorte, só pudera concordar. E faria todo o
possível para manter a sorte do seu lado.
Sentira Julia mexer-se contra seu peito, a respiração cálida e convidativa. Gemeu e
pensou num banho frio e na mulher que tinha nos braços.
Ela se mostrara tão vulnerável na noite passada. Assustada, preocupada e
inquieta, e ele descobrira que apenas queria segurá-la, confortá-la e ajudá-la a cair no
sono. Foi tomado por uma curiosa sensação e por sorte... mais uma vez... Julia
aproveitou esse momento para despertar e impedi-lo de ter de definir as vagas emoções
que sentia.
— Huumm — ela murmurou, despertando e erguendo a cabeça do peito dele. —
Que gostoso.
Trent avistou a reluzente camisola que afundava no peito dela e permitia uma
espiada naqueles seios fartos.
— Que foi?
Julia sorriu, com olhos úmidos e pálpebras pesadas.
— Acordar com você.
Ele gostou demais dessa ideia. No momento, gostava de tudo na companheira.
Inclinou-se para um rápido beijo.
— É melhor se mexer, querida, senão dentro de mais um segundo não vou deixá-la
sair desta cama.
Ela olhou para onde ele desviara o olhar e endireitou a sumária camisola.
— Oh. — E tornou a concentrar a atenção. — Tem razão. Vou fazer o café
enquanto você toma banho. Podemos chegar ao hospital antes das sete, se corrermos.
Menos de uma hora depois, Trent estendia a mão a Julia e encaminhava-a para a
sala de espera do hospital, apenas para encontrar a mãe ali, sentada ao lado de Matthew
Lowell.
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— Pai? — disse Julia, e disparou olhares do velho para a mãe de Trent.
— Rebecca me ligou ontem a noite, em pânico. Peguei-a hoje de manhã no
aeroporto.
— Oi, mãe — disse Trent, beijou-a na face e conteve um sorriso ao ver o pai de
Julia explicar-se com a filha.
— Oi, sra. Tyler — disse Julia com toda amabilidade, e ele fez uma anotação
mental para elogiá-la por ver ambos de novo juntos. — Como vai Laney? E o bebê?
— Na mesma, receio — respondeu a mãe dele, os olhos inchados de fadiga e
talvez por algumas lágrimas.
— Evan disse que ela descansou um pouco, mas se não tiver a pressão sanguínea
controlada talvez tenham de retirar o bebê por cesariana.
Trent percebeu medo e apreensão no rosto da mãe. Ela perdera o marido ainda
jovem e criara sozinha três meninos. Nem sempre fora fácil, mas sempre estivera
presente, nos bons e maus momentos. Agora, temia por Laney, pelo primogênito e pelo
novo neto que esperara durante anos.
— O bebê é um Tyler. Vai conseguir, mãe. É forte. Na certa, tão teimoso quanto
Evan. E tão durão quanto.
Rebecca tomou-lhe a mão.
— Tem razão, Trent. Meus filhos saíram fortes e saudáveis. Vocês todos são
lutadores.
A ideia fez bem a ela, que relaxou um pouco.
— Aposto que nenhum de vocês comeu coisa alguma. Vou pedir o café da manhã.
Trent pegou o telefone e chamou o serviço de copa do Tempestade de Los
Angeles. Falou direto com o chefão hotel e pediu comida suficiente para mantê-los a
maior parte do dia, e assegurou-se de que a entregassem quente e fresca.
— Tem algumas mesas no pátio. Vamos nos sentar e comer quando chegar o
desjejum. Deixarei um recado dizendo à enfermeira onde estaremos. Vou ver se consigo
alguém capaz de arrastar Evan para beliscar alguma coisa.
Pouco tempo depois, Trent sentava-se a uma mesa no pátio com Julia, seus pais
e, coisa notável, conseguiu que o irmão concordasse em tomar um pouco do café da
manhã. A equipe do hotel fizera trabalho extra e rapidamente trouxera uma grande
variedade de alimentos. Trent agradeceu a todos e deu-lhes uma boa gorjeta.
— A boa notícia é que conseguimos baixar a pressão de Laney — informou Evan,
devorando os ovos Benedict e o café como se fossem sua última refeição. — Pararam as
contrações. — Inspirou fundo e balançou a cabeça, como se a ideia do que poderia ter
acontecido o apavorasse. Acabou o café. — Laney ficou muito cansada, mas quer ver
vocês todos depois.
— Oh, que bom — respondeu a sogra meio aliviada, e largou o garfo.
Magra, comia muito pouco, e Trent teve o prazer de ver que comera tudo.
— Mal posso esperar para vê-la — acrescentou Julia, com a voz muito mais leve
que antes. — Ela deixou todos nós preocupados.
— Laney é como minha segunda filha — explicou Matthew. — As duas parecem
irmãs. Tenho feito algumas rezas fortes por aquela menina e o bebê.
— Nós dois. Jamais me senti tão impotente na vida, diabos — disse Evan, e
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levantou-se da mesa. — Obrigado por terem vindo. Significa muito. Eu lhes informarei
sobre mais alguma coisa tão logo o médico a examine de novo. — Virou-se para o irmão.
— Volte comigo, Trent.
— Claro. — Meio ausente, Trent se inclinou para plantar um beijo no rosto de Julia.
— Volto já.
Encaminharam-se para o elevador.
— Todo agradecimento a você é pouco por vir aqui e cuidar de tudo — disse-lhe o
irmão. — No momento, Brock se encontra a meio caminho entre Nova Orleans e as ilhas
Maui. Disse que viria, mas mandei-o aguentar um pouco. Foi bom você vir, para mamãe.
Ela é mais frágil do que parece.
— Você está muito ocupado, Ev. Cuide de sua esposa e do bebê. Eu me
encarrego do resto.
— Eu agradeço.
Pararam na porta do elevador e Evan pôs a mão no ombro do irmão, olhando-o
direto nos olhos.
— Julia é uma grande garota, Trent. Não apenas a melhor amiga de Laney, mas eu
mesmo passei a conhecê-la um pouco.
— É, concordo. Aonde quer chegar?
— Mulheres como essas não costumam aparecer em nossa vida. Ouça isso de um
especialista. Laney e eu quase não conseguimos. Agora, não imagino minha vida sem
ela. Nada importa mais do que o que temos junto de nós. Se aquela garota significa
alguma coisa para você, fale com ela. É só o que digo. — Evan apertou o botão do
elevador. — Pense a respeito.
Quando o elevador parou, Trent entrou e as portas fecharam-se automaticamente,
o que o fez ficar ali parado um instante, olhando a porta, com as palavras do irmão ainda
soando em seus ouvidos.
— Desculpe, senhor — disse uma senhora que tentava apertar o botão.
Ele saiu da frente e murmurou:
— Desculpe, madame.
Encaminhou-se até o pátio, mas, ao ver Julia conversando com sua mãe à mesa,
sentiu alguma coisa revirar-se no estômago. Virou-se e caminhou direto para fora do
hospital.
Precisava de um pouco de ar.
Julia sentava-se ao lado de Laney e segurava-lhe a mão. Para seu imenso alívio, a
amiga tinha os olhos brilhantes e as faces coradas. Haviam recebido às quatro da tarde a
notícia de que mãe e filho não corriam mais perigo.
— Você nos deu um baita susto, querida.
— Desculpe. Tudo aconteceu tão depressa. Evan me contou que você está aqui
desde ontem à noite. Jamais vou esquecer isso.
— Eu não podia estar em qualquer outra parte. Tinha de vir. Você parece bem,
mas como se sente?
80
— Como se houvesse corrido uma maratona de oitenta quilômetros — respondeu
Laney com um riso baixo. — Mas importa apenas que o bebê está bem. Batimentos fortes
de novo e não mais contrações.
— A melhor das notícias.
Ela balançou a cabeça e bateu na barriga.
— Mas o bebê me prendeu. Vou ficar confinada à cama, pelo menos por enquanto.
Porém devo ser grata e não me queixar. A equipe médica tem sido sensacional.
— Ééé. Evan os manteve nas pontas dos pés. Ninguém afrouxou enquanto a
mulher dele corria perigo.
— Os Tyler homens são assim — explicou Laney, a voz cheia de orgulho.
— Fale sobre isso.
A grávida inclinou um pouco a cabeça, os cabelos no travesseiro.
— Você e Trent já se aproximaram? — Depende do que você quer dizer com se
aproximar.
— Quer dizer — explicou a outra, e baixou a voz, mas falava com ardor — os dois
já se apaixonaram?
Julia fechou os olhos com força, reabriu-os e viu a boa amiga, que aguardava com
uma expressão esperançosa.
— Eu, sim. Desesperadamente. Mas Trent não fala muito sobre o que sente. Com
ele, vivo um dia de cada vez. Não creio... quer dizer, não sei o que o futuro nos reserva.
— Oh, Jules, aquele homem tem pedras na cabeça.
— Duros pedregulhos de granito.
— Ele devia curvar-se a seus pés. Segundo Evan, você foi a melhor coisa que já
lhe aconteceu.
— Eu sempre gostei dele. É um homem esperto — respondeu a outra, antes de
sair em defesa dele. — Trent tem sido realmente sensacional desde que tudo isso
aconteceu. Admito que fiquei bastante abalada ontem ao saber de você e do bebê. Ele
assumiu o controle. Aliviou minha mente, me confortou, e parecia sempre dizer as coisas
certas. Tem sido carinhoso e meigo, um lado dele que jamais vi antes e do qual gosto
muito.
— Talvez tenha chegado a hora de você firmar posição, querida. — Laney
endureceu o rosto. — Dê a ele alguma coisa para pensar.
— Oh, Laney, por favor, não se preocupe comigo. Estou ótima. — Julia sorriu,
recusando a causar à outra um momento de ansiedade sobre sua vida amorosa e tudo
mais. Mudou de assunto. — Fiquei excitada com o andamento das coisas no Tempestade
do Oeste.
Passou os vinte minutos seguintes falando com a amiga de Sarah Rose, Ken
Yellowhak e tudo o que planejara para o hotel, até Evan entrar no quarto com Trent.
Pouco depois se juntaram a eles Rebecca e o pai dela.
Julia saiu de mansinho para dar a eles a oportunidade de fazer a visita, e dez
minutos depois Trent encontrou-a na janela da sala de espera e se aproximou.
— Ela parece bem — disse.
Julia fez que sim com a cabeça.
81
— Graças a Deus. Vai ficar confinada ao leito por algum tempo, se conforma com
isso, desde que o bebê continue a desenvolver-se bem.
— Seria melhor eu voltar ao Arizona. Nada mais posso fazer aqui. Vem comigo?
Ela decidira horas atrás que não deixaria Laney. Prometera a Evan que ficaria para
fazer companhia e ajudar quando levassem a paciente para casa.
— Não, vou ficar alguns dias em Los Angeles, como companhia.
Ele olhou-a, balançou a cabeça, e Julia não entendeu bem a expressão.
— Tudo bem, vamos sair. Um carro me pegará para me levar ao aeroporto.
— Não posso fazer isso — ela respondeu e, quando ele tomou-lhe a mão e
apertou-a devagar, sentiu o coração se derreter.
Talvez tivesse a cabeça cheia de pedras, mas fora a sua rocha, o terreno sólido
onde pôde andar quando o mundo tremia. Havia alguma coisa de valioso nisso. Julia
ardia por vê-lo admitir o que sentia por ela, mas não podia negar que ele fora maravilhoso
nas últimas vinte quatro horas. Segurara-a, confortara-a e fora o apoio moral de que
precisava. Duvidava de que Trent houvesse passado a noite na cama apenas abraçado a
uma mulher antes. Mas o fizera com ela.
E nesta manhã assumira o comando, aliviara a mente de todos, distraíra a todos
com um delicioso desjejum.
Julia saiu, piscando devido à luz do sol, lado a lado com Trent. Ele parou na
calçada e ela voltou-se, protegendo com a mão os olhos da luz intensa, e falou com
sinceridade:
— Não sei o que seria de mim sem você, Trent. Acho que sabe como fiquei
assustada. Mas você me segurou. Tem sido muito sólido e tudo mais. Foi maravilhoso
hoje, ao cuidar de todas as nossas necessidades.
Deu um largo sorriso, olhou nos escuros olhos dele, e sentiu uma verdadeira
pontada de esperança.
— Só queria lhe dizer isso, antes que você partisse.
Ele tomou-a num abraço apertado, e enlaçou-a com força pela cintura.
— Querida, não sabe que eu faria tudo para mantê-la no Tempestade do Oeste?
Esmagou com os seus os lábios dela, enfiou a língua e a fez rodopiar numa
tempestade de desejo, bem ali em plena luz do dia.
A limusine encostou na hora certa e Trent soltou-a e sorriu, antes de saltar no carro
e afastar-se.
Julia prendeu a respiração por um segundo.
Antes que a declaração dele a atingisse em cheio.
CAPÍTULO ONZE
82
Três dias depois, Julia voltou ao Tempestade do Oeste e foi direto ao escritório de
Trent. Queria acabar com aquilo de uma vez por todas, Não deixaria que vê-lo a
distraísse de sua missão. Fumegara. Chorara. Repassara vezes incontáveis o mesmo
assunto na cabeça quando estava em Los Angeles. O mais difícil fora ocultar de Laney
que o cunhado dela lhe esmagara o coração. Sabia Deus que a amiga não precisava de
mais preocupações após o susto com o bebê. A pressão sanguínea da outra se
estabilizara e ela queria que continuasse assim.
Depois que Trent deixara Los Angeles, Julia não atendera os telefonemas dele.
Qualquer coisa relacionada ao trabalho, mandava por e-mail direto a Kim. Não queria que
nada a impedisse de pôr em prática a decisão tomada.
Quando chegou ao escritório, parou e inspirou fundo. Ele levantou a cabeça do
trabalho no qual se concentrava e ergueu as sobrancelhas, antes de lançar-lhe um
enorme sorriso.
— Julia, andei tentando...
— Eu me demito — ela disse, avançando para a escrivaninha e jogando-lhe a carta
na frente. — Vou ficar três semanas, até Sarah Rose partir. Mas depois irei embora.
Ele levantou-se de repente.
— Por quê?
— Você me ouviu — foi a resposta em voz firme. — Quero sair, quanto mais cedo
melhor.
— Qual o problema, querida?
Ele. Era ele o problema, tanto que ela não via o que se passava diante dos olhos.
Trent usara-a para ganhar terreno com o Tempestade do Oeste, mas nada sentia de fato
por ela. Jamais o dissera. E.o que a deixava mais furiosa era ter deixado aquilo
acontecer. Ele a havia desestabilizado.
— Acabei com o Tempestade do Oeste, Trent. Você não precisa mais de mim.
Terminei meu trabalho aqui.
Trent pareceu confuso. Endureceu o rosto, balançou a cabeça e ergueu a voz.
— Você desapareceu durante três dias. Não atende os meus telefonemas. Me
deixa com uma saudade dos diabos e depois volta para dizer que vai embora? Que droga
acontece por aqui?
Julia deixara de entender no momento em que o ouvira dizer que sentia uma
saudade dos diabos.
— Saudade de mim? Saudade do quê, Trent? De mim... para tornar fácil a sua
vida? De mim... para tirar seu precioso hotel do vermelho. De mim... debaixo de seus
lençóis à noite? Ou de mim... Apenas eu?
Ele olhava-a, sem fala.
Julia teve a resposta então.
— Vou ficar três semanas, não por você, Trent. Faço isso por Sarah. Prometi ficar
com ela. Falarei com você sobre assuntos do hotel. Mas jamais me aborde por qualquer
outra coisa. Entendeu, chefe?
83
Trent contornou a escrivaninha, devagar e tranquilo, marcando os passos e
mantendo a fúria, muito mal, sob a superfície.
— Por que, Julia? Por que faz isso?
Ela riu baixinho, atingida pelo absurdo. Porque você se recusa a me amar.
— Você me usou. E o triste é que nem tem consciência de ter feito isso. Não se
importa com nada além de seu precioso hotel. É só o que lhe interessa. Acabei com esse
tipo de vida — concluiu em tom conclusivo.
Bufando, ele falou com autoridade:
— Você esquece que a tenho sob contrato?
— Não me tem mais sob contrato. — Julia riu, feliz por ter deixado isso bem claro.
Um tique agitava o queixo de Trent, mas o ligeiro piscar nos olhos denunciou-o.
— Eu podia...
— Processar-me? Arruinar minha reputação. Vá em frente, tente. Não tenho medo
de nada que você possa fazer. Qualquer um adoraria me contratar. Tenho uma reputação
impecável e uma forte ética de trabalho. Meus sucessos falam por si.
Ele coçou a nuca. Baixou a voz então, talvez por entender que ela falava sério.
— Ora, vamos, Julia. Está zangada com alguma coisa, mas eu não consigo saber
o que é. É só dizer o que fiz que arranjo um jeito de corrigir.
Julia balançou a cabeça.
— Você não entendeu. Não pode dar um jeito nisso. Você é um idiota, Trent. Mas
eu sou uma ainda maior. Apaixonei-me por você.
Deu as costas e saiu antes de presenciar a reação dele. Não queria vê-la. Não
suportava vislumbrar a surpresa ou, pior ainda, a indiferença do sujeito.
— Julia fez um excelente serviço preparando tudo isso — declarou Pete Wyatt, ao
lado de Trent vendo os hóspedes do hotel sentarem-se para esperar a chegada de Sarah
Rose.
Sobrara um lugar. Cada um dos convidados esperava aquele espetáculo privativo
e especial. A música marcante de Sarah Rose tocava baixinho no fundo, para por a
audiência no clima. Transformaram o cais do lago do Destino num palco, cercado por
flores e arbustos nativos de Crimson Canyon.
— Ela conseguiu — concordou Trent, vendo-a de longe dar os últimos preparativos
no cais.
Precisava dar-lhe crédito. Júlia tinha ideias e o conhecimento para fazer tudo
acontecer.
Parecia tão bonita em trajes rurais. Usava uma calça de brim que se encaixava na
cintura fina, uma blusa com rufos marrom-avermelhados que destacava os tons da pele
bronzeada. Vestira-se para a ocasião especial, com botas e tudo.
Ele sentiu um nó formar-se na boca do estômago. Ela não ia dar-lhe atenção. Ele
já tivera os ouvidos enchidos por Evan e Brock nesse dia. As noticias corriam
rapidamente no clã dos Tyler, e todos sabiam que Julia decidira deixar o Tempestade do
Oeste. Trent evitara falar disso à mãe, porém. Não ia explicar-lhe nada que não
84
conseguia explicar a si mesmo.
Ela tomou posição no cais de frente para a multidão, o rosto ardente de
antecipação e... orgulho. Olhou os convidados e a música cessou. Falou ao grupo, deu-
lhes boas-vindas ao primeiro espetáculo exclusivo do hotel e foi recebida com uma salva
de palmas. Quando pararam os aplausos, começou:
— Como vocês sabem, o Tempestade do Oeste trata de lendas. Vivam as nossas
ou criem as suas. Assim, antes de darmos início, eu gostaria de falar a vocês como este
belo lago foi batizado e sobre as lutas, esperanças e sonhos das pessoas que moravam
aqui décadas atrás e assistiram a esse espantoso por do sol rio Canyon todos os dias.
Falou com o coração, com emoção em cada palavra. Quando acabou de contar a
história, apresentou Sarah Rose e voltou a atenção para as águas. A cantora country
apareceu num barco sobre o lago tremeluzente, trazida até o cais por dois caubóis do
hotel. Acenou para a platéia, que aplaudia, ajudaram-na a subir os poucos degraus do
ancoradouro, e entregaram-lhe o violão.
Sarah sentou-se num banquinho posto na beira do cais e começou a cantar, com o
por do sol laranja por trás criando vividas raias de cor de um lado a outro do lago.
Brilhante.
Trent olhou para Julia, que se voltou na mesma hora, a metros de distância, os
olhos se encontraram, e por um segundo houve triunfo e ligação — haviam alcançado a
meta juntos. Mas então se embaçou o brilho nos olhos dela. Ele piscou com a extrema
tristeza que via naquele rosto, antes que ela desse as costas.
De repente, Trent temeu perder uma coisa mais preciosa do que o hotel. Julia
amava-o. Ele não teria de vasculhar muito o coração para saber que o explodira por ela,
uma grande explosão. Tanto Evan quanto Brock haviam-lhe dito isso, jogando alguns
palavrões no meio, pois a conversa telefônica não fora o ponto alto do dia. Trent deixara a
ambição cegá-lo e já era tarde demais.
— Está pensando em um novo caubói? — perguntou Pete em voz baixa.
A pergunta interrompeu seus pensamentos, mas o fez assentir com a cabeça.
— Acho que Joe Hardy serve. O outro concordou.
— É um bom homem.
— Tem certeza de que quer ir embora?
Pete deu um suspiro e balançou a cabeça.
— É hora de voltar pra casa. As coisas por lá se complicaram mais do que eu
pensava.
— Problema com mulher?
— Ééé, e para mim já chega. Agradeço a você guardar meu segredo. Fico lhe
devendo uma.
Trent sorriu ao amigo.
— Sei onde encontrar você.
O outro balançou a cabeça e os dois ficaram ali parados, ouvindo as doces
emoções de Sarah Rose numa suave e triste balada de amor não retribuído.
85
— Você vai partir? — perguntou Kim a Julia, a desolação evidente em seu rosto.
Não passava muita coisa despercebida pela turma do hotel. O Tempestade do
Oeste parecia uma cidadezinha em si, como se todos se conhecessem. Julia olhou a
nova amiga quando se dirigiram ao hotel para a festa após o espetáculo em homenagem
à primeira apresentação de Sarah Rose. Sabia como sentia falta da jovem e impulsiva
garota.
Ia ter saudade de uma dezena de coisas no Tempestade do Oeste. Fizera
amizades ali. Gostava do trabalho, do desafio e das belas paisagens. Via o início do
empreendimento, mas não teria o prazer de ver a conclusão. O concerto fora o primeiro
passo, e um imenso sucesso.
Ela passou o braço em torno da outra e encaminharam-se para a Canyon Room.
— Vai ser difícil sem você aqui, Julia.
Ela sentia-se do mesmo jeito. Teria saudade da amizade com Kim. Mas precisava
partir. Não conseguia superar a mágoa e a raiva que tinha de Trent. Não lhe dirigira mais
do que algumas frases nos últimos dias.
— Sei que sempre seremos amigas.
— Espero que sim -— concordou a amiga.
— Falaremos mais sobre isso amanhã. Agora, vamos dizer a Sarah como foi
maravilhoso o desempenho dela.
— Subiram a escada de pedra que levava à entrada do saguão dos fundos e
entraram no restaurante para a festa. — Acho que ela precisa de um amigo esta noite.
— É — disse Kim, e empertigou-se um pouco — as garotas precisam se manter
unidas.
Julia viu Cody Landon que, encostado na lareira, observava com olhos de águia a
cantora conversar com um casal de jovens recém-casados e Kim adiantaram-se e, depois
que a artista acabou de assinar autógrafos, as duas se aproximaram. Julia pegou Sarah
pelo braço e, tão logo chegaram a um canto discreto da sala, abraçou-a com força.
— Obrigada — murmurou. — Esteve maravilhosa.
— Você é que esteve, Sarah. Todos adoraram o espetáculo.
— Gostei mais de fazê-lo do que imagina — respondeu a cantora, a gratidão
entremeada na voz. — Quase esqueci como era tocar para uma platéia pequena. Sinto
que podemos nos ligar mesmo com a música. -— Inspirou fundo e prosseguiu: — Você
sabe, eu sempre achei que sabia o que desejava da vida. — Olhou na direção de Code
com uma pontada de pesar nos olhos. — Mas às vezes, quando jovens, nem sempre
entendemos direito.
— É a pura verdade.
Julia riu baixinho até voltar-se e ver Trent parado ao lado de Code junto à enorme
lareira. Dois belos homens, com dois pares de olhos dirigidos para o grupinho de
mulheres. Ela sentiu o coração afundar e uma arrasadora tristeza consumi-la.
Passou um garçom com uma bandeja de borbulhantes taças de champanha.
Deteve-o e pegou uma para cada uma.
— Vamos brindar — disse, batendo a borda ààflute nas outras. — A você, Sarah,
por trazer ao Tempestade do Oeste seu incrível talento, e a você, Kim, minha nova amiga.
Senhoras, um brinde a um melhor entendimento no futuro.
86
As mulheres repetiram os mesmos desejos, beberam, e Julia reconheceu que cada
uma escondia alguns sentimentos de carinho por trás dos rostos sorridentes.
Duas horas depois, Sarah desculpou-se, deixou a festa ladeada pela segurança à
paisana do hotel e os outros foram saindo rapidamente. Julia ficou para falar com a
equipe para que o próximo espetáculo saísse ainda melhor.
— Tudo bem, obrigada a todos vocês — disse, fechando o caderninho e
dispensando-os da mesa. Todos se levantaram juntos. — Fizeram um serviço
sensacional.
— Você também.
A voz veio de trás, o que a fez virar-se e encontrar Trent parado próximo. Ela olhou
os membros da equipe, que abriram passagem correndo, e viu-se sozinha com ele em
Canyon Room.
— Só estou fazendo meu serviço — respondeu, ainda não preparada para um
confronto.
Apertou o caderninho no peito e começou a se afastar.
— Vai bater em retirada? Só estou tentando agradecer, Julia.
— Considere feito — ela respondeu, e virou-se.
Viu o tique contrair o rosto dele de novo.
— Ainda não acabei.
— Ora, diabos. Não dou a mínima. — Ela conteve-se e recusou-se a discutir. De
qualquer modo, não lhe restava mais força alguma para combater. — Estou exausta.
Preciso dormir um pouco.
— Julia, escute. Preciso falar umas coisas com você.
Trent manteve-se firme e falou com determinação, porém nada mais restava para
dizer a ela, já que não lhe mostrara confiança. Jamais mostrara. Ele lhe dera motivo para
isso. '
— Negócios? — perguntou Julia.
— Diabos, não! — disse, e adiantou alguns passos.
— Bem, então, sinto muito. Mas não quero ouvir nada de você. Achei que tinha
deixado isso claro outro dia.
Trent mordeu os lábios. Sentiu as faces arderem e o corpo enrijecer. Ela o
enfurecera, mas era a única forma que conhecia de impedi-lo de se aproximar, de magoá-
la ainda mais.
Contornou, roçando-lhe o ombro por acaso, e saiu direto da sala.
E deixou para atrás uma bela fatia de seu coração.
Dois dias depois, deitada na cama, a cabeça no travesseiro, Julia olhava pela
janela. A luz da manhã em Crimson Canyon coloria tudo de luxuriantes matizes de
dourado, uma vista estonteante que passara a esperar todo dia, e da qual sentiria falta ao
87
partir. Apenas mais algumas semanas e iria embora.
Deu um longo e dramático suspiro, com as emoções tumultuadas. Passara a
metade da noite chorando e a outra amaldiçoando Trent, a teimosia dele e sua própria
estupidez. Jamais sentira uma dor tão dilacerante antes. Podia sair dali de cabeça
erguida, plenamente satisfeita com o que fizera e sabendo que tais esforços deixariam o
hotel encaminhado na direção certa.
Quando o celular tocou, ela ouviu a melodia por alguns segundos. Não se achava
no clima para falar com ninguém, mas quem chamava insistia. Verificou o número. Era
seu pai. Dissera a ele no dia anterior que ia deixar o emprego antes do esperado e ele
arrancara mais informação do que a filha queria divulgar. Sem dúvida, preocupado. O
sentimento de filha falou mais forte, e a moça respondeu com voz alegre.
— Oi, pai. Como vai?
— Já estive melhor, para ser franco. Mas tudo bem. — O velho deu uma risada
simpática. — Quer que eu vá aí dar um soco e apagar esse caubói pra você?
— Pai!
Parecia uma ideia boa demais.
— Ah, Julia... Sinto muito não ter dado certo pra você. Mas às vezes é melhor
assim. Só é preciso ter fé.
— Eu sei, pai. E tenho — ela brincou, curiosa com o otimismo dele. — Estou
examinando outras perspectivas de emprego.
— Isso é bom, Julia. Sei que minha garotinha logo encontrará a felicidade.
Ela não alimentava tais esperanças, por isso ficou calada.
O velho continuou:
— Tenho uma coisa a lhe dizer e espero não estar fatiando na hora errada. Não
quero mais nenhuma... bem, infelicidade, mas também não quero que saiba disso por
outro que não eu. A verdade é que Rebecca Tyler e eu vamos começar a nos encontrar a
sério.
Julia fechou os olhos. Só podia sentir-se feliz pelo pai. Soubera o tempo todo que
ele andava, solitário nos últimos tempos, e Rebecca Tyler era uma mulher meiga e
carinhosa, mas, ai, era mais uma coisa que a ligava a Trent.
— É uma mulher adorável, pai — respondeu, após um longo silêncio. — Fico feliz
por você, mas um romance interurbano? Não vai ser difícil?
— Não, eu me preocupo mais que seja difícil pra você.
— Não se preocupe comigo, pai. Vou arranjar alguém em breve, e acho que posso
pôr tudo em perspectiva. Você merece ser feliz.
— Obrigado, querida. Então tudo bem com você?
— Claro, pai. Para mim, tudo bem — disse Julia, com sinceridade. Acabara de lidar
com o fato de Laney haver se casado com o irmão de Trent e seu pai sair com a mãe
dele. De qualquer modo, não tinha muita opção. — Vejo que você e Rebecca são muito...
compatíveis.
O velho tornou a rir.
— Compatíveis? Querida, que palavra mais antiquada. Somos quentes um pelo
outro.
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— Pai!
Ele continuou a dar risadinhas, a voz alegre.
— Podemos ser cidadãos idosos, mas ainda nos resta alguma quilometragem.
Sinto o maior respeito por Rebecca. Ela vai se hospedar no hotel de Evan em Los
Angeles por algum tempo, para ficar perto de Laney é ajudá-la. E eu irei fazer algumas
visitas na Flórida. Acho que vai dar certo.
— Então fico feliz por você.
— Obrigado, querida.
Após o telefonema, Julia levantou-se da cama e decidiu tomar um longo banho de
banheira. Era domingo, e não tinha de trabalhar. As apresentações de Sarah no fim de
semana haviam funcionado como um relógio, sem problemas nem questões, e o hotel
jamais andara mais ativo. Utilizava-se tudo na capacidade máxima, as lojas de presentes
e restaurantes prosperavam e as visitas guiadas aos estábulos achavam-se esgotadas.
Durante a semana, Ken Yellowhawk começaria a série de palestras sobre arte e instrução
do sudoeste em Shadow Ridge. E ela já contratara outro cantor para o Tempestade do
Oeste que concordara em ficar um mês e meio.
Despiu o pijama e dirigiu-se ao banheiro, pronta para iniciar o banho, mas outra
chamada do celular a interrompeu.
— Oh, pelo amor de Deus — disse, enrolando-se numa toalha, inclinada a não
atender. Porém mais uma vez olhou quem ligava e atendeu.
— Oi, Sarah.
— Bom dia, Julia. Espero não perturbar você.
— De jeito nenhum — ela tornou a brincar, e perguntou-se com ironia se davam
prêmios por brincadeiras. — Não estou fazendo nada.
— Que bom. Lembra quando você quis falar comigo sobre... bem, minha relação
com Code?
— É, e a oferta continua de pé.
— Odeio lhe pedir isso... mas pode,me dar um pouco de seu tempo esta manhã?
Eu, hum... preciso falar com você. Aconteceu uma coisa.
Sarah pareceu muito hesitante, e Julia queria aliviar a consciência dela.
-— Claro, Sarah. Terei prazer em conversarmos. Só me dê meia hora para tomar
banho e me vestir. Posso chegar ao seu...
— Pode me encontrar no lago? Eu preciso... preciso de um pouco de ar fresco.
Espero você no cais.
Julia franziu a testa. Sarah parecia muito perturbada, e ela sempre soubera que
havia mais coisas na sua amizade de infância com Code do que Sarah deixava
transparecer. Esperava apenas que ele não houvesse comprometido a estada da cantora
no hotel.
— Estarei lá em trinta minutos.
A amiga ergueu a voz.
— Oh, obrigada. E, Julia, espero que saiba que eu a julgo uma boa amiga.
— Sei, sim. E sinto o mesmo. Até daqui a pouco.
Tomou um banho rápido, vestiu um jeans desbotado, pôs uma camiseta Phoenix
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Suns que Kim lhe dera e as botas de couro. Juntou os cabelos num rabo de cavalo e saiu
pela porta vinte e dois minutos depois. O que Sarah tinha a dizer devia ser importante, e
ela não queria se atrasar e dar-lhe a chance de se acovardar. Fosse o que fosse,
parecera numa extrema hesitação ao telefone. Pelo menos, pensou Julia, com um dilema
a outra esqueceria o próprio coração partido.
Chegou ao cais primeiro e ficou satisfeita por haver muita gente em torno. A
maioria dos hóspedes comparecera ao brunch servido no pátio e em Canyon Room.
Parada, Julia olhou o lago do Destino, e uma brisa fria lembrou-lhe de que logo chegaria o
inverno.
A vista ali era de tirar o fôlego, com o tremeluzir das profundas águas azuis e a luz
do dia refletida em Crimson Canyon. Ela inspirou fundo e engoliu em seco, lembrando os
escritórios empresariais sem janelas que enfrentaria quando voltasse.
Ouviu passos que se aproximavam e virou-se, esperando ver Sarah.
Viu Trent de pé bem em frente, com um smoking preto, gravata de fita e
novíssimas e reluzentes botas. Lutou para impedir o queixo de cair. Depois piscou os
olhos.
Ele sorriu e ela sentiu o coração arder.
— Oi, Julia.
Desorientada, cumprimentou-o com a cabeça. Ele tinha a aparência de um zilhão
de dólares, e mais um pouco. Ela não podia deixar que isso a dobrasse, mas tinha
curiosidade em saber o que o fizera se embonecar assim, como diziam os caubóis.
— Vou me encontrar com Sarah aqui e preciso um pouco de intimidade.
Trent deu um suspiro.
— Não vai, não. Ela não virá. E diz que sente muito.
Julia tomou a piscar, confusa.
— Que quer dizer?
— Eu armei tudo. Ela chamou você para mim.
Devia ficar furiosa, mas era difícil ficar furiosa com um sujeito que parecia melhor
do que sundae com calda de caramelo quente com creme batido e morango.
— Por quê?
Ele aproximou-se e tomou-lhe a mão. Levou-a aos lábios, os olhos escuros
pregados nos dela.
— Porque eu amo você. E precisava lhe dizer isso, querida.
Uma onda de calor espalhou-se pelo corpo de Julia.
— Você me ama?
Ela queria acreditar, mas Trent jamais oferecera amor antes. Como podia confiar
que ele não dizia aquilo apenas para mantê-la no Tempestade do Oeste?
— Estou lhe pedindo que se case comigo, Julia. Seja minha esposa. Tenha meus
filhos.
A esperança saltou no coração de Julia.
— Oh, Trent.
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma caixinha. Abriu-a e uma brilhante aliança
90
com diamante marquês rosa refletiu a luz da manhã. Desta vez ela não conseguiu impedir
o queixo de cair, mas não encontrava as palavras.
Trent procurou em seu rosto uma resposta. Ela estava desorientada a ponto de
ficar muda. A boca de Julia recusava-se a trabalhai-
. Então enfiou a mão dentro do paletó,
pegou um documento dobrado e entregou-lhe.
— Meu amor e a aliança vão junto com isto.
Julia baixou os olhos e leu as palavras contrato pré-nupcial.
Franziu os lábios para baixo e lágrimas arderam-lhe nos olhos. O homem não
mudara de modo algum. Queria-a em seus próprios termos, e recorreria até a oferta de
casamento para mantê-la no Tempestade do Oeste.
Ela sentiu o corpo tremer descontrolado e combateu a humilhação, deixando a
raiva tomar o lugar.
— Como ousa, Trent Tyler? Não me conhece nem um pouco! Acha que uma
mulher quer um contrato como proposta de casamento? Acha que não sei que você faria
qualquer coisa por este hotel? Você não me ama. Sou seu ingresso para o sucesso, só
isso!
Ergueu os braços, girou nos saltos altos, afastou-se antes de fazer uma cena maior
e esmagou o documento na mão ao sair pisando forte.
— Espere! — ordenou Trent, fazendo-a parar na beira do cais. — Leia, querida.
Leia e saiba que falo sério em cada palavra.
Tinha no tom da voz alguma coisa, uma coisa suave e suplicante que a fez
interromper a raiva. Ainda trêmula, Julia desdobrou e leu o papel amassado.
Querida,
Atesto por este que a amo profundamente. E meu mais caro desejo que se torne
minha esposa, mãe de meus filhos, parceira de meu coração e todos os meus bens, mas
sem qualquer obrigação de algum dia voltar a trabalhar para mim... a menos que deseje.
Amo-a mais do que qualquer outra coisa na vida. Julia, você é meu milagre.
Trent.
Julia voltou-se e viu-o ali, de frente para ela. Lágrimas de alegria escorriam-lhe
pela face agora que olhava dentro dos olhos dele e via ali a verdade. Deus, como o
amava. Abriu o coração e a confiança tomou-a. Por fim acreditava no amado, que a
amava.
— Fala sério mesmo?
Assentiu com a cabeça e tomou-a nos braços.
— Cada palavra, Julia. Não imagino minha vida sem você.
— Oh, Trent, também o amo. Muito.
— Então se casa comigo?
Ela assentiu.
— Sim, me casarei com você.
— Ótimo — disse Trent, e pôs-lhe a aliança no dedo. — Seu pai disse que você se
casaria, mas eu tinha minhas dúvidas...
— Meu pai?
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— Liguei pra ele ontem à noite e pedi sua mão.
— Pediu? — Isso explicava o súbito otimismo do velho. O telefonema nada tinha a
ver com Rebecca. Ele sabia das intenções de Trent quando falaram naquela manhã. Deu
um sorriso de felicidade. — Você me impressionou.
— Espero passar a vida impressionando você.
— Anseio por isso, querido — ela disse, aninhando-se nos braços dele.
Trent abaixou a cabeça e arrebatou-a num beijo que falava de promessa, amor e
um futuro cheio de alegria. Depois passou os braços pelos ombros dela e virou-a para a
água reluzente.
Enquanto olhavam o lago do Destino, ele disse em voz baixa:
— Ganhamos uma segunda chance na vida, como diz a lenda. Vivemos a lenda.
Julia encostou-se no amado e suspirou.
— E agora criaremos uma nossa.
Ia passar o resto da vida amando seu próprio caubói cinco estrelas.
De fato, um milagre.
Fim
92

Charlene sands beijos em chamas

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    Beijos em Chamas Five-StarCowboy Charlene Sands O texano Trent Tyler nunca encontrara um negócio que não pudesse ser lucrativo, ou uma mulher que não conseguisse conquistar. Dessa vez, o sucesso de seu hotel no Arizona dependia de seu outro grande talento: a sedução. O que Trent, mais queria de Julia Lowell era sua inteligência. Com a vívida lembrança de um fim de semana de tórrida paixão, Trent sabia que tinha um incentivo a mais para seduzir Julia a se tornar sua executiva... porém, quando ela descobrisse a verdade por trás de sua contratação, quem sairia ganhando? Digitalização: Crysty Revisão: Alice Akeru 1
  • 2.
    Tradução Alda Porto HARLEQUIN BO O K S 2010 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.àrl. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: FIVE-STAR COWBOY Copyright © 2008 by Charlene Swink Originalmente publicado em 2008 por Silhouette Desire Arte-final de capa: núcleo & designers associados Editoração Eletrônica: ABREITS SYSTEM Tel.: (55 XX 21) 2220-3654 / 2524-8037 Impressão: RR DONNELLEY Tel.: (55 XX 11) 2148-3500 www.rrdonnelley.com.br Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rio de Janeiro, RJ—20563-900 Para solicitar edições antigas, entre em contato com o DISKBANCAS: (55 XX 11)2195-3186/2195-3185/2195-3182 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4o andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Correspondência para: Caixa Postal 8516 Rio de Janeiro, RJ — 20220-971 Aos cuidados de Virgínia Rivera virginia.rivera@harlequinbooks.com.br 2
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    Desejo 121 —Beijos Em Chamas (Five-Star Cowboy) Charlene Sands CAPÍTULO UM — Aí está a minha milagreira. Enquanto atravessava sem pressa as portas de seu hotel no Arizona, passando sob os grandes arcos que as emolduravam, Trent Tyler sorria, e sua voz profunda e sexy já causava estranhas sensações em Julia Lowell. Ainda a impressionava que tudo aquilo pertencesse a ele. Ela encostou-se na limusine que a levara para Crimson Canyon, sem conseguir respirar ao ver Trent mais uma vez. Lembrou a si mesma que ele era seu chefe agora. Não podia mais pensar nele como o homem que tocava seu corpo como ninguém antes soubera fazer. Trent foi até ela com o passo seguro e descontraído que sempre atraía olhares femininos. Ao se aproximar, de calça jeans justa, camisa preta com detalhes metálicos e cinto de fivela grande, que refletia os últimos raios do sol do Arizona, levou um dedo ao seu chapéu Stetson num cumprimento cortês. — Vamos precisar de um milagre, Trent. — Tenho fé em você, querida. Você vai conseguir. — Virou-se para o motorista da limusine e disse: — Leve as coisas da srta. Lowell para o quarto dela, Kirby. — Farei isso, sr. Tyler. Assim que o chofer se afastou com a bagagem, Julia fitou os olhos escuros de Trent e lembrou-se da relação profissional que tinham agora. Entregara-lhe seu currículo completo em mãos, pondo-o a par de suas realizações: um MBA em Administração e a conquista de um emprego, recém-saída da faculdade, como executiva na maior empresa de marketing de Los Angeles haviam bastado como recomendação. Era a melhor amiga de Laney e merecia toda a confiança, ele dissera na entrevista. Haviam se conhecido meses antes, quando Laney se casara com Evan, o irmão de Trent. A centelha logo se acendeu, o texano alto e bonito atraiu o olhar de Julia desde o primeiro momento. Imediatamente após o casamento, Julia e Trent tiveram uma louca aventura de fim de semana e ela nunca mais tivera notícias dele. Até duas semanas atrás, quando ele aparecera na porta dela em Los Angeles com flores e champanhe, pedindo desculpas por não telefonar. Trent sorriu diabolicamente e falou: — Você está deslumbrante. Julia teria enrubescido se sua pele bronzeada o permitisse. Como poderia esquecer as tórridas noites de amor que passara nos braços dele? Os dois haviam quase entrado em chamas e se acabado numa grande nuvem de fumaça. Como esquecer a forma como ele sussurrara seu nome antes de fazer seu corpo se estilhaçar em mil pedaços? Havia deliberado sobre a decisão de aceitar o emprego dezenas de vezes durante as últimas semanas. Trent era um solteiro convicto e dedicado exclusivamente aos seus
  • 4.
    projetos. Deixara claroque não estava interessado em relacionamentos. O Tempestade do Oeste era sua prioridade, e exigia dele todo tempo e energia de que dispunha. Mas todas as vezes em que haviam se encontrado, apenas no casamento do irmão dele e depois semanas atrás, não conseguiram manter as mãos longe um do outro. Laney sempre dizia que a mulher certa podia domar qualquer homem, e ela e Evan eram prova disso. Julia temia já ter se envolvido demais. Trent a afetava de uma maneira que nunca sentira antes, e, quando o olhava, imaginava uma vida real com ele, uma família. Trent a puxou para perto, as mãos envolvendo sua cintura, e abaixou a cabeça, fazendo sombra em seus olhos com a aba do chapéu. — É bom ver você. Seja forte, Julia. Ela inspirou com força e apoiou as mãos no peito dele. Ao sentir a força de Trent sob a camisa, sua resistência se esvaiu como o último raio de sol. Trent sorriu e inclinou o corpo para um beijo. Ela fitou sua boca antes do breve toque dos lábios. Sensações eróticas percorreram todo o corpo de Julia. O beijo terminou rapidamente, mas o impacto daquela boca sensual acariciando a sua permaneceu. Incapaz de olhá-lo nos olhos, concentrou-se no pescoço de Trent. — Talvez... hum... precisemos de algumas regras básicas, Trent. — Concordo — respondeu ele no mesmo instante. Então, a abraçou pela cintura e a guiou para a porta da frente. — Vou levá-la ao seu quarto. Deixarei que se acomode. Jantaremos em uma hora. Daí, conversaremos. Ele concordara... assim? Sem mais? Julia lançou um olhar atravessado. Trent não vacilou. Talvez tivesse percebido que, uma vez que se tornara sua funcionária e que morar no local de trabalho era parte do contrato, os dois teriam de estabelecer um limite. — Certo. Sentia-se decepcionada ou aliviada? Um segundo depois, concluiu que sentia as duas coisas. Trent mergulhava no projeto de seu hotel do mesmo modo como fazia tudo mais na vida, dando sempre cem por cento de si. Podia ser implacável às vezes, tenaz se necessário e tão inflexível quanto uma pedra quando acreditava estar certo sobre alguma coisa. Tinha razão quanto ao Tempestade do Oeste. Sabia que o transformaria em um sucesso. Não era talhado para trabalhar em uma grande cidade como o irmão Evan, nem sociável com a elite como Brock, o festeiro dos irmãos Tyler. Portanto, a afirmação que fizera saíra sem dificuldade de seus lábios: — O Tempestade do Oeste fará mais dinheiro do que qualquer novo hotel Tempestade no primeiro ano de funcionamento. Brock, que jamais fora de se esquivar de um desafio, aceitara a aposta sem piscar. Programara a inauguração de um novo hotel Tempestade em Maui, e Evan fora arrastado para o desafio como árbitro. Era uma reminiscência da infância, quando os dois cabeças- duras competiam e o primogênito garantia que jogassem limpo. Evan e Brock achavam que Trent não tinha a menor chance de vencer. O tema rústico, de faroeste, do hotel Tempestade do Oeste convidava uma clientela diferente e não se adequava ao estilo elegante e sofisticado dos outros hotéis 4
  • 5.
    bem estabelecidos darede. Trent afundara o próprio dinheiro no hotel de seus sonhos. O Tempestade do Oeste era dele e só dele. Pusera todo o coração no empreendimento, e agora a reputação, o orgulho e o ego estavam em jogo. O novo hotel abrira com estilo, mas, nos poucos meses de funcionamento, a taxa de ocupação havia caído, o que significava que vinham tendo apenas um lucro mínimo. Trent demitira seu último diretor de marketing. Precisava de uma nova abordagem, alguém com uma nova visão. Precisava de Julia Lowell. E fizera tudo que estava ao seu alcance para conseguir tê-la em sua equipe. Com o braço na cintura de Mia, conduziu-a em direção ao imenso saguão do hotel. — Este é meu local favorito aqui dentro. Julia examinou o ambiente com um olhar de absoluta admiração. — As fotos nos folhetos não chegam nem perto. Isso é assombroso, Trent. — Assombroso é uma boa descrição. Não podia negá-lo. Não poupara despesas para trazer os fascinantes e surpreendentes pores do sol de Crimson Canyon ao saguão. Janelas altas e extensas tomavam toda a parede oeste e traziam para o interior a beleza do lado de fora. Majestosas montanhas rochosas vermelhas ocultavam parte do sol poente. As terras de Trent brilhavam sob a luz dourada, pontilhadas ao longe por choupos do Canadá. Pondo uma das mãos no ombro de Julia, apontou com a outra. — Consegue ver lá fora aquele mar de azul? É o lago do Destino. Uma lenda acompanha esse nome. Contarei a você um dia. — Trent, é deslumbrante. Você trouxe o Oeste para cá, com as mobílias e lareiras de pedra. Não parece um saguão de hotel, mas um lugar de boas-vindas caloroso e amistoso. Ele segurou o ombro de Julia. — Quero que você veja tudo... a terra, o lago, os estábulos. Ainda tem um alojamento moderno onde se hospedam os vaqueiros. Amanhã a levarei a um passeio completo. O sorriso satisfeito de Julia o deixou excitado. Pusera aquela expressão no rosto dela antes, quando Julia tombara em seus braços após um vigoroso orgasmo. Depois, se enroscara nele, que a abraçara até serem tomados pelo sono. Julia tinha um corpo esbelto, magníficas pernas, bonitos olhos verde claros e cabelos castanhos escuros, mas havia mais. O sexo entre eles havia sido o melhor que ele já fizera. Quando juntos, os dois detonavam como dinamite. Ele fora implacável ao tentar fazê-la trabalhar no Tempestade do Oeste, e sentia uma pontada de culpa. Mas não era o suficiente para dizer a verdade e arriscar o sucesso do hotel. Desde que ela não descobrisse que ele mesmo orquestrara sua perda da conta do restaurante Bridges, em Nova York, continuaria livre de suspeitas. Faria qualquer coisa para que ela jamais suspeitasse de sua manipulação arbitrária. Não poderia permitir. Queria Julia na sala da diretoria e na cama. Ela acabaria com os problemas do hotel, ajudando-o a provar aos irmãos que o Tempestade do Oeste estava à altura dos outros hotéis, enquanto ele e Julia saciavam a inesgotável sede de um pelo outro. Ambos tinham a ganhar. — Venho pegá-la em uma hora. Jantaremos —- disse enquanto a levava do 5
  • 6.
    saguão até opequeno elevador ao ar livre que a deixaria em uma suíte privativa no terceiro andar. Pôs a mão no bolso, retirou um cartão-chave e o colocou-o na palma da mão dela. Acariciando-lhe os dedos como polegar, se lembrou dos sussurros ofegantes e das noites de desesperado e louco sexo que tiveram. — Entraria com você, mas depois duvido que conseguisse o descanso de que precisa. Julia balançou a cabeça. — Trent... Ele a soltou e observou suas longas pernas, até os pés de sandálias vermelhas. Jamais se esqueceria de quando fizera amor com ela, pedindo-lhe que tirasse tudo, menos aquelas sandálias. — Você veio com elas. Ela piscou. — Combinam com a roupa. Ela não fingiu não captar a mensagem, e ganhou mais um ponto com ele, que lhe deu um sorriso. — Gosto de uma mulher que saiba se vestir. Julia tirou as sandálias tão logo entrou no quarto. Inspirou fundo, enchendo os pulmões, e bloqueou o lampejo da lembrança evocado por elas. Aproximou-se de um belo arranjo de flores, em sua espera na mesa ao lado do sofá, e leu o cartão de boas-vindas. Contudo, assim que reparou no ambiente, sua mente entrou em modo profissional. A suíte satisfazia todas as expectativas que tivera em relação ao Tempestade do Oeste. Rústica, com classe e estilo. Luxuosa com confortos sutis. Design simples, mas elegante. Trent não poupara despesas e sentia grande orgulho da decoração, da vista e do despretensioso uso do espaço. Ela percorreu a suíte para olhar, pela janela retangular de grandes painéis de vidro, a vista abaixo. O hotel em si tinha apenas três andares, mas os chalés térreos com suítes eram o coração da propriedade, formavam uma ferradura a partir do prédio principal e davam para os estábulos, o lago e o desfiladeiro. — Você se superou com este lugar, Trent — murmurou, um sorriso aflorando. Tudo o que ele fazia, fazia com entusiasmo, dando cem por cento de si mesmo. Julia tinha suas lembranças eróticas para provar isso. Entrou no quarto espaçoso e desfez as malas, pondo as roupas informais nas gavetas do armário e pendurando as de trabalho no closet. Em seguida, foi até as portas duplas de carvalho que levavam a uma grande varanda e pegou o celular. Apertou um atalho e esperou. Após o segundo toque, seu pai atendeu. — Oi, papai. Já estou aqui, segura e inteira. — Que bom, querida! Obrigado pelo telefonema. Julia tinha quase 30 anos, mas não se importava de manter o pai sempre a par de seus passos. A mãe morrera dois anos antes, e ela sabia que ele se sentia extremamente solitário. Sempre haviam sido íntimos e, embora Julia houvesse sofrido uma terrível decepção quando perdera a concorrência para um contrato com uma rede nacional de restaurantes, vira o alívio no rosto do pai ao saber que ela não se mudaria, afinal, para Nova York. Poucos dias depois, Trent aparecera à sua porta em Los Angeles se desculpando 6
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    por não mantercontato com ela após a aventura do fim de semana que aconteceu em seguida ao casamento de Evan e Laney. Flores, champanhe e uma noite nos braços dele muito haviam contribuído para consolá-la, sobretudo depois do golpe que recebera ao perder a conta do Bridges. Em pouco tempo tivera de dar ao pai a notícia de que se mudaria para trabalhar com Trent Tyler no Arizona. Ele lhe fizera uma oferta irrecusável. — Então, como é o Tempestade do Oeste? — Pai, é assombroso. O lugar tem tanto a oferecer! Acho que vou conseguir ajudar Trent a torná-lo um destino para a elite. — Sei que vai. Herdou isso de mim. Ela riu, pois se lembrou do sucesso do pai no setor bancário. Tinha uma boa cabeça para negócios, e parecia que puxara a ele. — Sei que sim. Você me deu inteligência e eu pretendo usá-la aqui. — Essa é minha menina — ele disse. Assim que terminou a conversa, Julia se despiu e selecionou Quente no enorme chuveiro. Fora rápida ao entrar, ensaboar-se e enxaguar-se. Minutos depois, vestia um felpudo roupão branco do armário do banheiro e abraçava a si mesma, desfrutando a agradável sensação de algodão macio contra a pele. Deixou-se cair na cama king-size de dossel, em busca de um breve descanso antes do jantar, e logo adormeceu. — Julia! É Trent. Está aí? Ela levantou-se, desorientada por um momento, ao ouvi-lo chamá-la atrás das portas duplas da suíte. A hora passara voando. Ela dormira demais. — Sim, sim! Estou aqui, Trent! — gritou, amarrando a faixa do roupão apertada na cintura e dirigindo-se à porta. Destrancou-a e abriu uma fresta, fazendo contato visual com ele. — Desculpe. Tirei um cochilo e perdi a noção do tempo. — Não vai me deixar entrar? — Não estou vestida. Encontro você... — Julia — ele sussurrou — deixe-me entrar. — É uma ordem do patrão? — ela perguntou, rindo. — Se precisar ser, querida... Aquelas palavras ditas em um tom de voz baixo e a fala arrastada sulista já eram tentação suficiente. Julia afastou-se da porta e Trent entrou. Nua por baixo, sentiu-se encabulada naquele roupão enorme, que deixava apenas a cabeça e as unhas dos pés pintadas de vermelho de fora. Trent, em compensação, parecia tudo, de jeans preto, uma camisa branca estilo caubói, com palas na frente e atrás, um par de botas brilhantes e um sorriso encantador. Deu logo uma olhada para o grande buquê de lírios stargazers dentro de um vaso na mesa ao lado do sofá e assentiu com a cabeça. O cartão: "Faremos grandes coisas juntos", assinado pelo anfitrião, disparara uma onda de calor por todo o corpo quando ela lera a mensagem. — Você entende de flores — disse Julia. 7
  • 8.
    Trent sorriu denovo. — Também amarro os cadarços do sapato e corto minha própria carne muito bem, obrigado. — É um homem talentoso. Ele arqueou uma sobrancelha e a devorou com um olhar. — Você sabe que sou. O calor que impregnava o corpo dela se transformou em excitação escaldante. Sempre fora assim com ele. Até a mais inocente conversa logo podia se transformar em insinuação íntima. E esta em geral levava a uma recompensadora noite de luxúria. — É melhor eu me vestir — disse Julia, afastando-se. Trent a puxou pela faixa do roupão e a traiçoeira tira desamarrou sem dificuldade. Por trás dela, envolveu-a com os braços e as mãos logo encontraram a fenda do roupão aberto. Acariciou-lhe a barriga nua, fazendo seus corações acelerarem. — Humm, eu sabia... Julia fechou os olhos. — Trent.... — Está nua sob este roupão, Julia. E em meus braços. — Mordiscou-lhe o pescoço, pondo seus nervos em chamas. De costas, deixava que ele a acariciasse. Ele deslizou as mãos para cima, provocando a base dos seios. — Trabalho para você agora — disse, anunciando o óbvio. — Já acabou o expediente. — Não parece certo. Deu um riso baixo e rouco. — Não minta. E ela havia mentido. Ai, Deus, como o queria. Mas também mentia para si mesma, pois, tirando o fato de ter que manter uma distância profissional do chefe, Julia o queria mais. Queria o que Laney e Evan tinham. Queria um amor verdadeiro. Ansiava por uma família. Seu relógio biológico andava... 29, e não ia ficar mais jovem. Começara se dedicando à carreira, mas também era romântica demais para não querer um futuro com um homem amoroso ao lado. Já cometera um erro com um colega de trabalho na Powers International. Quase perdera o trabalho e a reputação por causa de um sujeito faminto por poder que a usara para se promover. Havia muito superara Jerry Baker, mas ainda trazia em si as marcas daquela traição. Agora, tinha a própria empresa... a Lowell Strategies... mas sua reputação continuava em perigo. Assim como o coração. Trent afastou mais as dobras do roupão e acariciou-a dos seios aos quadris, com as mãos nos dois lados do torso, deslizando os dedos acima e abaixo como um talentoso violonista dedilhando uma melodia erótica. — Pode se afastar de mim e se vestir — murmurou-lhe no ouvido — ou eu vou tirar este roupão de você. Começavam a faltar desculpas a Julia. — Precisamos conversar sobre o hotel. 8
  • 9.
    Ele fora inflexívelquanto a tomar uma nova direção assim que possível. Não hesitara em afirmar como era importante esse projeto. Convocara-a logo ao Tempestade do Oeste para começar a trabalhar em uma nova promoção para o hotel. — Conversaremos. Depois. Beijou o pescoço de Julia e fez sua pele formigar com o toque dos lábios. Trent era um mestre da sedução. Ela sabia o que significava aquele "depois" e não tinha certeza de que poderia recusá-lo. O celular tocou e ele praguejou. Soltando-a, afastou-se. — Droga. Tenho de atender. Julia suspirou de alívio e fugiu para o quarto. Fez questão de fechar a porta e trancá-la. Então, recostou a cabeça e respirou fundo para se acalmar, ouvindo-o sem querer transmitir ordens a quem se encontrava do outro lado da linha. Despiu o roupão e se vestiu às pressas. Não lhe faria bem algum se apaixonar pelo chefe. Especialmente sabendo que já estava a meio caminho. CAPÍTULO DOIS — Você deu uma bela escapada... — Trent comentou, servindo-lhe uma taça de champanhe e sorrindo. Ela viu o líquido borbulhar na taça antes de olhar para ele. Depois que o telefonema os interrompera na suíte, saíra toda arrumada em um vestido preto conservador, pasta na mão, e declarou-se faminta. Trent não pressionava, mas logo tratou de levá-la para uma sala de jantar privativa, a Canyon Room, no principal restaurante do hotel. — Foi necessário... para o meu equilíbrio. Até certo ponto era verdade. Trent sempre a deixava atordoada, e agora ainda mais, vendo-o tão à vontade e relaxado em seu próprio ambiente. — Ora, então... acho melhor eu garantir que se alimente bem. — Entreolharam-se por um momento e ele ergueu a taça. — A você, Julia. Obrigado por vir e salvar a minha pele. Julia sorriu e brindou. — Eu ainda não salvei nada. Tomou o champanhe, saboreando o gelado borbulho enquanto o líquido deslizava pela garganta. — Vai salvar — ele rebateu. — Investiguei seu currículo. Em menos de um ano, você mudou a Fitness Fanatics Gym da água para o vinho. Era uma empresa agonizante. 9
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    Frequentada apenas poraspirantes a modeladores de corpo e treinadores de peso. Agora é uma academia voltada para a família... os pais levam os filhos junto. A garotada aprende bons hábitos alimentares, cuida da autoestima e ainda se mantém em boa forma física. A criação do programa Fãs da Boa Forma para crianças foi brilhante. Ela aceitou o elogio sem modéstia. Trabalhara com extremo afinco naquele projeto. — Obrigada. Ainda me admira como tudo saiu tão bem. O projeto superou minhas expectativas. — Inclinou um pouco a cabeça e observou o rosto dele, impressionada por Trent tomar a precaução extra de se informar sobre o recente projeto dela. — Você me investigou? — Muitas vezes, querida. E você sempre foi além das minhas expectativas. Derreteu-a toda o jeito que ele piscou os olhos escuros quando expressou o agrado. Tomou outro gole de champanhe, pensando na ternura com que aquelas mãos ásperas haviam tocado seus seios. Trent era uma força a se levar em conta. — Sabe que não foi o que eu quis dizer. Ele sorriu antes de tomar mais champanhe. — Eu sei. Mas também sei que somos incríveis juntos. Não estive com outra mulher desde que nos conhecemos. Julia engoliu em seco e pigarreou. Jamais haviam falado de compromisso. Tiveram uma aventura que continuava rolando, mas ela sabia que ele não levaria a sério um relacionamento permanente. Nunca falara em querer ser exclusivo, embora a emocionasse saber que não estivera com outras mulheres. Ainda a surpreendia que esperasse reiniciar de onde haviam parado. — Nem eu... estive com outro homem. Como poderia? Nunca acharia ninguém melhor que Trent Tyler. Na cama ou fora dela. — Tudo bem, desde que sejamos francos — ele disse. A expressão de seu rosto dizia que ficara tão satisfeito quanto ela. Embora fizesse apenas duas semanas que aparecera em sua casa com presentes e desculpas por levar tanto tempo para tornar a procurá-la. Meses antes, após o casamento de Evan e Laney, haviam tido um fim de semana de sexo despudorado de que Julia jamais se esqueceria. Ela se contorceu na cadeira e mudou de assunto. — Tem falado com Evan ultimamente? — Não. Imagino que esteja atarantado com a notícia da chegada do bebê. Evan era o perfeito marido apaixonado e futuro pai coruja. Julia invejava o relacionamento dele com a amiga e esperava ter esse tipo de amor na vida um dia. — Está. Espero surpreender os dois com um chá de bebê. Laney sabe que vou oferecer uma festa a ela, mas acha que é só daqui a uns meses. Você vai ter de me dar algum tempo de folga para organizar tudo. Trent pareceu ponderar a ideia e então ergueu os ombros num gesto de indiferença. — Faça a comemoração aqui. — Aqui? — piscou Mia, surpresa com a sugestão. — Aqui no Tempestade do 10
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    Oeste? — Isso mesmo.Primeiro, não posso liberá-la por muito tempo. Segundo, a família não viu o hotel todo concluído. Eu tinha planejado trazer todos em breve, de qualquer modo. Terceiro, mando o jato da empresa buscar os convidados sem problema algum. E quarto, o planejamento feito aqui tornará sua vida mais fácil. — E você é todo a favor de tornar minha vida fácil, certo? Ele deu um grande sorriso e a covinha, que ela achava extremamente sexy, surgiu do lado direito. — Isso mesmo. Mantenho meus empregados felizes. Julia pensou na ideia por um momento. — Eu queria mesmo que a festa fosse oferecida por mim. Prometi-a a Laney no minuto em que ela engravidou. Trent ergueu as mãos, rendendo-se. — Não a atrapalharei nem direi uma palavra. Use o hotel da forma que julgar conveniente. — Eu gostaria de bancá-la. Ele deu um sorriso torto. — Chegaremos a um acordo. Julia riu. — Você é impossível, sabe? Trent encolheu os ombros. — Quantos convidados tinha em mente? Ela fez um cálculo mental. — Uns quarenta. Ele assentiu com a cabeça. — Dá para gerenciar. — Na verdade, é uma boa ideia. — Ela olhou pela janela. Centenas de estrelas iluminavam o céu, lançando um brilho agradável sobre a propriedade, enquanto os sons da noite agitavam o silêncio e um suave reflexo cintilava nas águas do lago. -— Laney vai amar este lugar. — Problema resolvido. — Agora, ao seguinte. — Julia ergueu a pasta, pondo-a no colo, e retirou dela papéis com anotações. — Trouxe algumas ideias. Podemos revê-las durante o jantar. — Tudo bem por mim. Estou louco para corrigir o que não anda bem aqui e você é a mulher certa para a tarefa. Realize seus milagres. Se fosse possível, ela pensou. Perguntou-se se precisaria de um milagre para Trent considerá-la mais que a salvadora do hotel e parceira de cama. Primeiro, salvaria o hotel e depois trabalharia no outro problema. Após o jantar, Trent apresentou-a aos funcionários e mostrou-lhe o interior do 11
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    hotel. Assim queacabou de responder a todas as perguntas sobre as atividades internas do estabelecimento, levou-a para fora e os dois passearam pela propriedade. — Alegra-me sua presença aqui, Julia. Precisamos mesmo de uma perspectiva nova — disse, segurando sua mão ao passarem pelo pátio do jardim e afastarem-se das luzes. — Eu não estaria aqui se você não tivesse aparecido em Los Angeles naquele dia. — Sorte e momento oportuno — ele disse, dando pouca importância à observação. Não queria ter essa conversa com ela. — Pus todos meus trunfos nessa única jogada. Quando perdi a conta do Bridges, fiquei arrasada. Abalou minha confiança. Realmente achei que tinha agarrado aquele emprego. Ele parou e puxou-a para si, pondo as mãos nos quadris dela, incentivando-a a chegar mais perto. Distraí-la não seria uma tarefa difícil. Precisava mudar de assunto. — Não olhe para trás, Julia. A perda dele é meu ganho. Quando ela estava em Los Angeles e quilômetros os separavam, tirara-a da mente. Mas agora que ela estava ali no hotel ele sentia uma incrível atração. Recentemente, pusera toda sua energia no Tempestade do Oeste e não tivera tempo para mulheres, até encontrar-se com Julia e se ligarem como dois ímãs. Encarou-a nos olhos e inclinou a cabeça para outro beijo. O último fora casto e breve demais para seu gosto. — Trent — ela disse, afastando-se --- não é uma boa ideia. Precisamos de fato impor alguns limites. Não quero seus empregados vendo... Ele olhou em volta. — Não tem ninguém aqui fora. E é melhor que não se atrevam a dizer qualquer coisa. — Alguém pode sair a qualquer momento. Não me preocupo com o que poderiam me dizer, mas preciso do respeito deles. Duvido que eu consiga isso se acharem que sou sua amante. Trent sorriu. — Minha amante? Alvoroçada, ela disse, agitando os braços: — Ou como quiserem chamar. Vamos todos ter de trabalhar juntos. Ele recuou, pôs as mãos na cintura e a encarou. Cedeu, apenas por um minuto, para ouvir o que ela diria. — Certo. Ótimo. — Obrigada. — Ela assentiu com a cabeça, surpresa de vê-lo ceder com tanta facilidade, — Na verdade, alegra-me que tenha concordado sem uma discussão, porque você e eu... nunca, hum... — Desviou os olhos para os lábios dele. — Nunca íamos conseguir concluir o trabalho... quer dizer... não trabalho dessa forma... — Diminuiu o ritmo da fala, demorando os olhos na boca de Trent. — Eu, hum, nós precisamos manter uma distância profissional. Olhou-o com uma expressão de desejo desesperador. Trent conhecia o suficiente sobre Julia para saber quando ficava excitada. O maldito sentimento era mútuo. 12
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    — Já entendi— disse, levando-a pela mão. — Venha. Precisamos falar sobre isso em particular. — Para onde está me levando? — Para algum lugar onde meus empregados nada verão. — Mas não é essa a questão — ela afirmou sem muita convicção. Ele não aceitava aquela resistência. — É exatamente a questão. Você tem o mesmo desejo que eu, querida. E vou cuidar para possamos satisfazê-lo. Trent andava rapidamente, com Julia apenas um passo atrás, carregando-a para o chalé de solteiro mais afastado do hotel. Abriu a porta e deixou que ela entrasse primeiro, depois fechou-a, mantendo a luz das estrelas do lado de fora. Ele piscou algumas vezes e precisou de um instante para ajustar a visão. Julia permanecia perto e sua respiração rápida acariciava-lhe o rosto. O suave perfume de gardênias provocava seu nariz. Ele se recostou na porta. — Você ia me convencer, até começar a falar sobre distância profissional. — Por quê? — Você e eu não podemos trabalhar juntos o dia todo e não sofrer de desejo um pelo outro à noite. Sabe que é verdade, Julia. Conseguiremos manter uma distância profissional por quase tanto tempo quanto se prendêssemos a respiração. Por fim, acabaríamos desistindo. Ou enfrentaríamos as consequências. Ela ergueu o queixo, questionando-o: — Foi por isso que me empregou, Trent? — Empreguei-a porque você é brilhante. Sabe bem demais como o Tempestade do Oeste é importante mim. Se eu quisesse uma mulher para fazer sexo, eu... — interrompeu o pensamento. A mãe não criara um tolo. — Não precisaria contratá-la, certo? Trent deu um suspiro e estendeu a mão para Julia. — Venha cá. — Ela adiantou-se com os ombros empertigados, e a tensão se desfez no minuto em que ele a acariciou. Trent Inclinou a cabeça de Julia para trás com o polegar e beijou seus lábios. — Senti sua falta. — Você diz todas as coisas certas — murmurou Julia, enlaçando-lhe o pescoço com os braços. Ele beijou-a profundamente e segurou-a contra seu corpo, até não existir mais espaço entre seus corpos. Percorrendo com as mãos as costas de Julia, ouviu os gemidos mais suaves lhe escaparem dos lábios. Com os sentidos excitados, ficou com o corpo duro e rijo. Julia separou os lábios para receber o beijo e Trent acariciou-lhe a língua até a respiração de ambos sair forte e rápida. Tinha os seios esmagados contra o peito dele, cuja ereção pressionava sua barriga. Trent suspendeu o vestido de Julia, subiu as mãos devagar por suas coxas lisas e, finalmente, afastou a lingerie, chegando mais perto. —- Aii... Trent— ela gemeu. Depois disso, os dois enlouqueceram. Ele arrancou as roupas de Julia. Ela, a 13
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    camisa dele. Ocinto e as botas vieram em seguida; segundos depois, ele a ergueu e Julia passou as pernas ao redor da cintura dele, deixando-o sem condições de se conter. Penetrou-a profunda e freneticamente, dando-lhe as boas-vindas ao Tempestade do Oeste, da forma como imaginara desde o primeiro momento em que se encontraram. Julia passou os dedos pela mandíbula dele, que fingia dormir, mas foi denunciado por um grande sorriso. Ficaram deitados na cama do espaçoso quarto do chalé. — Acha mesmo que sou brilhante? Trent murmurou que sim. Ela inclinou-se e beijou-o na boca. — Acha? Ele abriu um olho. — Buscar elogios antes do amanhecer não lhe renderá pontos por trabalho extra. — Preciso de mais pontos por trabalho extra? — perguntou Julia, fingindo inocência. Trent rolou de lado e apertou-lhe o nariz com um dedo. — Não fique sedutora. Mais pontos por trabalho extra e terá de arrastar meu corpo sem vida para o trabalho hoje. Ela deitou-se de costas para fitar o teto. Na noite anterior, fizeram tremer o quarto e ambos acabaram tendo três poderosos orgasmos simultâneos. — Por que você acha que isso é assim entre nós? Trent continuou calado e Julia achou que não ia responder. Por fim, ele admitiu: — Não faço a mínima ideia. Simplesmente é. Não analise, apenas desfrute. E ela desfrutava demais o sexo que faziam. Jamais tivera relações casuais, embora o único relacionamento de longa duração tivesse terminado de forma péssima. Jurara jamais tornar a se envolver no local de trabalho. E agora estava ali, na cama com o chefe e adorando cada segundo. Virou-se apreensiva para ele. — Isso poderia ficar complicado. Trent inclinou-se e beijou-a. — Não se não deixarmos. — Além de Evan ser seu irmão e Laney minha melhor amiga, você é meu chefe. Não vê um problema nisso? — Não, de jeito nenhum. Era tão fácil para ele rejeitar a ideia de que, se as coisas não funcionassem bem, os dois sempre teriam uma ligação por meio das pessoas mais próximas? Os melhores instintos dela diziam-lhe que se afastasse dessa situação. Mas como poderia? Como poderia desistir de um homem virilmente bonito, forte, inteligente e que a fazia vibrar ao mínimo toque? -— Trent, falei sério quando disse que não quero que os empregados saibam sobre 14
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    você e eu. Eleassentiu com a cabeça, os olhos escuros sinceros. — Entendi. Mais alguma coisa? Julia negou com a cabeça e exalou um suspiro. — Não, acho que é só. — Bom. Então, ele acariciou-lhe os seios, fazendo indolentes círculos ao redor do mamilo com o polegar, causando em Julia uma nova onda de calor. — Desfrute, querida — disse, enquanto sugava o agora ereto botão róseo. Ela contorceu-se, o corpo respondendo sem apreensão nem restrição. Trent sabia cada botão que devia apertar e o fazia muito bem. — Oh, Trent, usamos o último preservativo ontem à noite. Tínhamos três. — Julia, relaxe. Não vamos precisar de proteção para o que eu tenho em mente. Duas horas depois, com o desejo saciado, ela saiu do chalé, 45 minutos depois de Trent, e atravessou a propriedade de volta à suíte no hotel. Tomou uma ducha, vestiu roupas de trabalho mais informais... um terninho cor de canela e botas na altura do tornozelo... e reuniu-se com a gerente administrativa nos escritórios no lado norte do terceiro andar. — Já conheceu todas as dependências e a propriedade, srta. Lowell? — perguntou Kimberly Warren. A jovem era bonita, loura e saída dois anos antes da faculdade. — Ainda não. O sr. Tyler planeja me mostrar tudo hoje mais tarde. — O sr. Tyler sente muito orgulho do Tempestade do Oeste. Todos esperamos que você apresente algo dinâmico para reduzir a taxa de desocupação. Visamos a noventa por cento de ocupação. Julia não revelou sua surpresa com o número esperado por ele. — Trata-se de um número alto. Não sei nem se os mais estabelecidos hotéis Tempestade conseguem isso. — Ele tem fé em você, srta. Lowell. — Me chame de Julia. Ela sorriu. — Certo, Julia. Vou lhe mostrar seu escritório. O sr. Tyler mandou que a instalassem no escritório junto ao dele. Já imaginava — disse Kimberly, com os olhos azuis parecendo demasiadamente sabedores. — Você dois vão trabalhar próximos. Julia pigarreou: — É, suponho vamos. — Siga-me — disse Kimberly. — O escritório de Trent fica no fim do corredor e o seu é o da direita. A gerente mostrou o escritório a Julia e depois deixou que se instalasse. Julia 15
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    olhou em voltae viu as fotos emolduradas do Tempestade do Oeste que Trent pendurara nas paredes, desde o primeiro esboço à conclusão. A escrivaninha era de carvalho branco, trabalhada com decapê em nogueira clara, as paredes eram creme, realçadas com acabamentos superiores de madeira branca, e sobressaíam as estantes altas. Fora a mais recente tecnologia usada, o escritório mantinha o tema completo do oeste americano, e ela notou a suave feminilidade de Los Angeles. Passou alguns minutos inteirando-se da máquina de fax, do computador de última geração e do sistema de intercomunicação. Quando acabava de esvaziar o conteúdo da pasta nos arquivos e na gaveta da escrivaninha, Trent bateu na porta e entrou. Julia levantou-se e os olhos se encontraram. — Bom dia. De novo — ele disse com uma piscadela. Ela olhou a porta fechada e agradeceu a Deus por tudo aquilo. Trent tinha a aparência revigorada e estava bem vestido, usando uma camisa branca engomada sob um blusão preto, uma gravata de corda e um chapéu de caubói. Exibia surpreendente ânimo para um homem que sugeriu talvez precisar ser arrastado para o escritório. — Oi. — Já se instalou? Ela olhou a sala em volta. Não trouxera muita coisa. Quase tudo de que precisava encontrava-se em seu laptop ou na própria cabeça. Tinha bons instintos e contava mais com eles do que com qualquer outra coisa. — Acho que sim. — Avise Kimberly se precisar de mais alguma coisa. — Estou bem, Trent. O escritório é esplêndido. Ele assentiu com a cabeça. — Tudo bem. Apenas checando. — Retirou o blusão, a gravata e colocou-os no encosto da cadeira diante da escrivaninha de Julia, que se assustou, vendo-o se despir despreocupado no escritório dela. Não compreendera seus receios na noite anterior? Antes que ela pudesse fazer um comentário repressor, Trent ofereceu-se: — Vou levá-la àquela excursão agora. Quero que veja o Tempestade do Oeste da melhor forma. Aliviada por ter se enganado, ela concordou. Trent tinha apenas negócios em mente. Ela quase se esquecera de que concordara em visitar o hotel com ele pela manhã. — E, não posso esperar para ver o resto da propriedade hoje. Mas o diabo que existia nela sabia que já vira o melhor do Tempestade do Oeste na noite anterior, nos braços do amado. CAPÍTULO TRÊS 16
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    — EM geral,visitaríamos a propriedade a cavalo, mas isso levaria muito tempo. Hoje, vamos com classe. Trent abriu a porta lateral do carona no Jeep Wrangler sem capota para Julia. Sorrindo, ela examinou o empoeirado veículo preto. Tivera uma senhora recepção no hotel Tempestade do Oeste na véspera, por isso não ia se opor a recostar-se e deixar que os cavalos de potência de um motor fizessem o trabalho hoje. — Gosto do modo como você pensa. Trent baixou a aba do chapéu e fechou a porta do carona, depois saltou no assento do motorista e ligou o motor. — Achei que ia gostar. Segure-se firme. Arrancaram e rumaram para os estábulos. Baios e palominos, cavalos de cor amarela ou creme, com a crina e o rabo brancos, e alazões avermelhados surgiram em um minuto, circulando ao redor nos currais parecendo bem cuidados e satisfeitos. — Temos quarenta cavalos e empregamos oito vaqueiros. A qualquer momento, com hora marcada, podem sair de dez a vinte cavalos para um passeio matinal ou vespertino. Tem um escritório na sala de arreios onde nosso caubói chefe, Pete Wyatt, marca o horário dos passeios. Parou o jipe e os dois saltaram. Dirigiram-se à entrada da estrebaria, que era uma réplica menor da imensa entra da encimada por altos arcos do hotel principal, Um homem da idade de Trent adiantou-se com um grande sorriso e a mão estendida. — Você deve ser a srta. Julia Lowell. Sou Pete. Cuido dos estábulos. Você será a dama que vai garantir que aproveitemos todo o nosso potencial. Julia apertou-lhe a mão, e lançou um olhar enviesado para ele. — E como farei isso? — Trazendo mais hóspedes pagantes ao hotel — respondeu Pete, como se declarasse o óbvio. — Só estamos trabalhando com metade dos animais, ou menos. Todos vêm de boa procriação. Os meninos e eu só conseguimos exercitá-los. São muito espertos para ficar encurralados. Venha, eu lhe mostrarei nossa operação. Meia hora depois, ela retornava com Trent ao jipe. Fizera algumas anotações no palmtop antes de partirem. — Parece que você convenceu a todos que sou uma milagreira. — Muita pressão? — Trabalho melhor sob pressão — admitiu Julia, francamente. Trent concordou satisfatoriamente com a cabeça, como se já o soubesse. A fé que tinha em Julia era um pouco assustadora, embora ela não pudesse negar que também fosse boa para o ego. Em seguida, seguiram para os limites de Crimson Canyon, onde o céu azul sem nuvens unia-se à terra escarlate compactada. Trent parou diante do desfiladeiro que parecia suspenso no ar. — Aquele é o penhasco da Sombra, o meu lugar favorito na propriedade. — Vejo por quê. — A beleza da natureza subjugou-a, fazendo-a sentir-se pequena e insignificante, mas inspirada e forte ao mesmo tempo. — É glorioso e intocado. 17
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    Trent permaneceu caladopor um minuto, e então balançou a cabeça. — A maioria dos hóspedes não vem tão longe. Pode ser um terreno perigoso até com um bom cavalo. O Jipe não tem como chegar perto o suficiente, mas acredite que poucos lugares se equiparam às formações rochosas e aos matizes de cor do penhasco da Sombra. Julia pegou o palmtop e fez uma anotação. — Certo —- disse, sua mente considerando as possibilidades. — Onde vamos agora? Vinte minutos depois Trent já havia lhe proporcionado uma excursão pelo resto da propriedade, então pararam no lago do Destino. — Temos locais naturais para natação, pesca e canoagem em barcos não motorizados. É o único lago natural na redondeza. Quando comprei a terra, fiz questão que o incluíssem. — Cancelaria o contrato caso contrário? — Sim. Eu sabia que ia construir o hotel perto do lago. — Você disse que existia uma lenda? — Existe. — Ele desceu do jipe e aproximou-se de Julia, abrindo a porta do carro. — Dê um passeio comigo — estendeu a mão. Julia segurou sua mão e, assim que desceu do jipe, soltou-a. Passearam ao longo das margens em silêncio enquanto soprava a brisa de início de outubro. Bem ao longe, alguns hóspedes do hotel se divertiam no lago, e suas risadas eram como um sussurro nas águas. Trent segurou novamente a mão de Julia quando chegaram a um pequeno ancoradouro que se projetava do lago. Três barcos a remos, amarrados ao cais, balançavam suavemente na água. Seguiram até a metade do píer e pararam para apreciar a terra. — Esta terra foi colonizada há 150 anos. Pessoas que haviam tentado a sorte nas minas de ouro da Califórnia e malograram, e outros que nunca tiveram sucesso no extremo oeste, reivindicaram a área. Conta a lenda que uma menina chamada Ella e seu noivo secreto tiveram uma terrível briga aqui. Os pais dela haviam escolhido para ela um namorado mais adequado. Samuel, o menino com quem a jovem prometeu se casar, deu- lhe um ultimato... encontrar-se com ele no lago ao por do sol e fugirem juntos, senão jamais ela tornaria a vê-lo. Ela não quis abandonar a família, mas sabia que não poderia viver sem o garoto a quem amava. Levou algum tempo para escapar às escondidas de casa, mas, quando chegou ao lago, depois da meia-noite, não encontrou Samuel. Vasculhou a terra e por fim avistou-o no momento em que ele saltava da beira do penhasco em Crimson Canyon. — Que coisa terrível, Trent, mas de algum modo eu sabia que você ia dizer isso. — Todas as lendas parecem terminar com tragédia, pensou. Fizera um curso na faculdade sobre o assunto. — Então quer dizer que o lago é mal-assombrado? Trent riu. — De jeito nenhum. Conta a lenda que Ella chorou a noite toda junto ao lago, completamente arrasada. Quando o sol se levantou de manhã, a menina ergueu os olhos e encontrou o noivo, encharcado de tanto que nadou para chegar à amada. Isso tudo aconteceu bem neste lugar em que nos encontramos agora. 18
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    — Samuel nãosaltou do penhasco? — Não, tropeçou em uma pedra na escuridão e bateu a cabeça. Ella achou que o tinha visto atirar-se no precipício. Essa era a intenção do garoto, mas os dois receberam uma segunda chance. Jamais fugiram, mas continuaram com a família dela, casaram-se aqui e tiveram cinco filhos. Viveram nesta terra até a morte levá-los uns cinquenta anos depois. — Então é por isso que se chama lago do Destino. — Ella e Sam não deram nome ao lago, mas os filhos sim, logo que souberam da história. — Destinavam-se a ficar juntos. Receberam uma segunda chance. — Julia contemplou o lago, pensando nos jovens amantes por um segundo, a romântica que existia nela registrando uma história de amor muito inspiradora. Então tornou a pegar o palmtop e digitou algumas palavras-chave. — Valeu, entendi. — Virou-se para ele. — Poderia me levar de volta ao escritório agora? Tenho muito a fazer hoje. Trent não hesitou. Reconduziu-a ao jipe e os dois partiram. Julia estava com a cabeça cheia de ideias para realizar o milagre que ele queria. Três horas depois, sentou-se ao computador com as ideias formuladas na cabeça. O Tempestade do Oeste precisava de alguma coisa... a mais. Sabia que teriam de organizar uma nova e esplêndida inauguração, mas também sabia que precisava de uma visão diferente. Após o passeio pela propriedade, chegara à conclusão de que um hotel de lazer e recreação de elite no faroeste com uma bela paisagem não bastava. Tinha de atrair a clientela rica. Dar-lhes algo que não poderiam obter em nenhum outro lugar. Sabia o que queria fazer. E sabia que seria arriscado. Mas Trent era um empreendedor disposto a correr riscos e assim que tivesse planejado tudo Julia lhe apresentaria as ideias. Mais tarde, interfonou a Kimberly. — Oi, Kim. Você tem aqueles relatórios financeiros do jurídico que pedi esta manhã? — Acabei de pegá-los. Já levo aí. Ela recostou-se ha cadeira, olhando o site da Web Young Dreams Foundation na tela. O pai apresentara-lhe à fundação de sonhos infantis quando o filho do melhor amigo adoecera e a instituição beneficente concedera à criança o sonho de conhecer astronautas em um ônibus espacial no Cabo Canaveral. Depois dessa comovedora experiência ficara profundamente envolvida no trabalho da fundação sempre que o tempo permitia, passando a conhecer algumas das crianças que a instituição ajudava e fazendo alguns bons amigos no caminho. Uma ideia surgia em sua cabeça e Julia afastou-a quando Kimberly entrou com muitos arquivos. — Devem ter retirado mais arquivos do que você precisa — disse com um sorriso. — Tudo bem. Darei uma olhada rápida e devolverei o que não preciso. Sei o que procuro. Você tem um minuto? Kim sentou-se na cadeira de frente para Julia. — Tenho. Diga-me o que você precisa e examinarei metade dos arquivos. Ela deu-lhe uma pilha e ficou com vários, folheando alguns. 19
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    — Quero veros nomes e os endereços de todos os clientes do hotel desde a inauguração. Saber a duração da hospedagem e quanto gastaram. Também quero nossas declarações de lucro e perda referentes aos meses que o hotel tem funcionado. — Certo, isso é fácil. Kim baixou a cabeça e separou os arquivos ao lado da escrivaninha, enquanto Julia fazia o mesmo. Julia deu uma boa olhada num que pareceu estar fora de lugar. — Acho que este entrou aqui por acaso — murmurou. Quando Kimberly ergueu os olhos, explicou: — É uma cópia do meu contrato. — Encolheu os ombros e então notou um engano. — A data do contrato não assinado está incorreta. — Deve ser um erro de digitação —- disse. — A data saiu errada. — O jurídico orgulha-se de jamais cometer erros — comentou Kim num tom brincalhão. -— Passam um pente fino em cada palavra antes de enviá-lo. Ela tornou a olhar a data. Tinha de estar errada. Trent só retornara a Los Angeles para vê-la uma semana após a data digitada no contrato. Nada soubera sobre ela ter perdido a conta do Bridges antes daquela noite. Já trabalhava com o departamento jurídico do grupo Tempestade tempo suficiente para saber que o pessoal era tão eficiente e meticuloso quanto afirmara Kimberly. Fitou a cópia não assinada do contrato, aquela data anterior chamava sua atenção. Então piscou. — Ele soube — disse, baixinho, e um calafrio percorreu sua espinha. —- Como? — Kim ergueu de novo os olhos. — Disse alguma coisa? — Humm, não. — Julia largou os arquivos na escrivaninha, absorvida em suas ideias, as emoções causando estragos em todo seu pensamento racional. Então, encarou Kim. — Escute, apenas saia e deixe tudo aqui. Eu mesma separo este material e o devolvo a você quando terminar. Kim assentiu com a cabeça. — Tudo bem. Se você tem certeza. -—Tenho — ela respondeu e levantou-se. Kim também se levantou e virou-se para sair. — Ah, Kim? — Sim? — Ela se virou para olhá-la. — Há quanto tempo trabalha para a rede Tempestade? Desde o início? — É, já me encontrava aqui quando inauguramos. Fui transferida do hotel Tempestade de Dallas. — Então sabe como era meu escritório antes? — A outra fez que sim com a cabeça; parecendo meio intrigada, e Julia acrescentou: — É que apenas me ocorreu uma mudança de cor. — Ah, mas está tão feminino e bonito agora. Parece combinar com você. O sr. Alonzo, nosso primeiro diretor de marketing, quis paredes de carvalho e venezianas escuras. Era tão triste, eu detestava entrar aqui. O coração de Julia acelerou. Não lhe agradavam as suspeitas que lhe ocorriam. — Imagino que não se lembre de quando Trent mandou reformar o escritório. 20
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    — Claro quesim! Era meu aniversário. O sr. Tyler me deu o dia de folga, por isso não poderia esquecer. Uma sexta-feira. Ele contratou uma equipe completa para reformar o escritório e, quando voltei na segunda-feira, tudo tinha sido mudado. Faz exatamente um mês amanhã. Julia sentiu o coração parar e estremeceu. — Um mês atrás? Antes de Trent ter ido ao apartamento dela em Los Angeles com flores e amáveis palavras de desculpas. Teria ele sabido o tempo todo que perdera a conta do Bridges? Ou teria... — Fechou os olhos e tentou estabilizar seu corpo trêmulo — orquestrado de algum modo a perda daquela conta? — É, um mês. — Mais uma vez Kim balançou a cabeça e olhou-a preocupada. — Algum problema? — Não, tudo bem. — Ela conseguiu dar um breve sorriso. — É melhor deixá-la voltar ao trabalho. — Certo. A jovem saiu do escritório e Julia inclinou-se para frente, apoiando as mãos na borda da escrivaninha. — Não pode ser —- murmurou, enquanto uma profunda sensação de medo percorria-lhe todo o corpo, dizendo-lhe que podia muito bem ser verdade o que pensava. Sabia da aposta de Trent com o irmão. Também sabia da veia competitiva do empregador; ele contara-lhe inúmeras histórias de sua juventude sobre superar Brock. Conseguir que o hotel tivesse êxito significava mais que dinheiro para ele, que precisava provar alguma coisa. Os pensamentos tomaram sua mente. Milagreira. Investiguei seu currículo. O ressurgimento oportuno dele na sua vida, mais ou menos na mesma ocasião que despedira o diretor de marketing e uma semana depois de ela perder a conta do Bridges, parecia coincidência demais para não ter sido premeditado. Julia não pensara nisso antes, mas agora, ao olhar o escritório em volta, notou como combinava bem com ela. As cores de parede e o carpete claro, até os objetos de arte na mesa lateral, lembravam seu apartamento em Los Angeles, apesar do tema de faroeste. Talvez pudesse pensar nisso como um toque amável se Trent tivesse se dado ao trabalho depois de ter certeza de que ela trabalharia ali, e não antes. Que falso ele era. Que arrogante! Julia tremia de fúria. Antes de condená-lo à forca, porém, ia confrontá-lo. Pegou o contrato não assinado, a prova tangível, e saiu do escritório. Encheu os pulmões de oxigênio para se fortalecer, pegou com força a maçaneta da porta do escritório dele e escancarou-a. — Um instante, Brock — disse Trent ao telefone. Cobrindo-o com a mão, olhou-a. — Dê-me um minuto, querida. Já estou quase terminando. — Já terminou — ela rosnou. — Desligue o telefone. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. — Que diabos aconteceu? — Lançou-lhe um olhar perplexo e retornou ao telefone. 21
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    — Eu voltoa ligar mais tarde. — Desligou-o e ficou encarando-a com irritação. — O que a aborrece? — Só responda a uma pergunta. Você orquestrou ou não a perda da conta do Bridges para eu trabalhar aqui? Trent semicerrou os olhos. — De onde tirou essa ideia? Ela jogou o contrato não assinado na escrivaninha. Trent olhou-o, tentando não se trair. — Apenas responda à pergunta. Com sinceridade... se for capaz. Ele ergueu as sobrancelhas, e um tique contraiu sua mandíbula. — Fiz um acordo com a rede de restaurantes, sim. — E eu fazia parte desse acordo? Trent contornou a escrivaninha e então se apoiou nela, com as mãos na borda. — Feche a porta, Julia. Ela bateu a porta e tornou a encará-lo, cruzando os braços na frente, furiosa demais para se mexer. Ali ficou, esperando, irritada com aquela postura impassível. — Então? — Se você fez parte desse acordo? — Trent levou um minuto para responder, apertando a boca, os olhos frios. — Fez. Eu queria que você trabalhasse para mim. — Então você me sabotou! — explodiu Julia, com uma fúria desenfreada. — Sabe como trabalhei duro para pegar aquela conta do Bridges? Tem alguma ideia do que teria significado para mim obtê-la? — Pago a você um salário muito generoso. Nada do que fiz foi ilegal. As pessoas do Bridges queriam esse contrato com a rede de hotéis Tempestade. Procuram-nos há anos. — Que contrato? — ela perguntou, a fúria aumentando. Ele nem tentara negar. — Vão abrir restaurantes em nossos hotéis em cidades estratégicas por todo o país. Já faz algum tempo que realizamos negociações privadas. Eu apenas fiz isso acontecer mais cedo do que o esperado. Todo mundo tem a ganhar. — Menos eu! —Isto é uma questão de opinião. — Ah! Você mentiu para mim repetidas vezes, Trent! Quase destruiu a minha reputação me fazendo perder aquela conta. Aceitei este emprego em fase de recuperação. Ambos sabemos disso. O Tempestade do Oeste é um hotel. Se você chama isso de ganhar, eu preferia ser uma perdedora e assinar o contrato com toda uma rede de restaurantes. Ele se afastou da escrivaninha. — Agora você tem um contrato juridicamente vinculado a mim. O sangue de Julia ferveu. — Um contrato juridicamente vinculado? Você me enganou para assiná-lo. Não acredito que planeje me prender a esse contrato! 22
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    — Sou umhomem de negócios. Vi uma oportunidade e agarrei-a. De qualquer modo éramos favoráveis à rede de restaurantes Bridges. Íamos acabar por fechar o contrato com eles. Ela balançou a cabeça. — Não acredito em você. — Acredite — ele disse com firmeza. — É a verdade. — Não, a verdade é que você não passa de um homem cruel e insensível! Me usou para conseguir o que queria. Nós nos divertimos à beca juntos após o casamento de Evan, e, quando você partiu de Los Angeles, não tive uma única notícia de sua existência até o Tempestade do Oeste entrar em apuros. Então, do nada, você bate na minha porta, trazendo um buquê de orquídeas, me conquistando e jantando comigo, me seduzindo. Isso é o mais baixo que alguém pode chegar. Sou uma garota esperta, mas nem percebi o que acontecia. Você é um canalha de primeira classe, Trent Tyler. Ele sobressaltou-se furioso. — Acalme-se, Julia. — Acho que não vai dar. Já cheguei ao ponto de explodir. Você me magoou muito. — Não apenas quase destruíra sua vida profissional, mas ferira Julia como pessoa. Ela confiara em Trent, que usara esse conhecimento para magoá-la. Quando ia aprender a não se envolver com homens com quem trabalhava? — Não vai negar nada disso? Trent exalou um suspiro. — Não. Foi um acordo empresarial honesto. Ela jogou a cabeça para trás e riu do absurdo. — E eu pensei que você fosse diferente. O caubói de mãos vagarosas e toque suave não passa de um impostor empresarial. Que idiota eu fui! Trent danificara sua reputação, seu ego e seu coração. Julia jamais lhe daria a satisfação de saber que quase se apaixonara por ele. Jamais confiaria de novo nesse homem. Ele avançou alguns passos em sua direção. — Pare! — Ela ergueu a mão e manteve-se firme na posição. — Não, Trent. Não vai livrar-se desta com sedução. Ele deteve a aproximação, os lábios comprimidos, a mandíbula cerrada. — Você concordou com os termos e assinou o contrato. — É só com o que se importa, não? — Julia cuspiu as palavras. — Não importa o fato de eu tê-lo assinado sob falsas pretensões? — Não existe nada falso naquele contrato. Não a obriguei a assiná-lo na linha pontilhada. Seu trabalho é promover e comercializar o Tempestade do Oeste e manter- nos no azul este ano. Ela ergueu o queixo. — É, bem... Não sei se desejo mais fazer isso. — Querida... o contrato é incontestável. Você não tem escolha. E deu-lhe um sorriso que, em geral, teria feito com que ela se derretesse em seus braços. 23
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    — Posso processá-lopor isso. — Você perderia. E se tornaria do conhecimento público que abandonou o contrato quando chegou o momento da decisão. Ninguém a forçou a aceitar o trabalho no Tempestade do Oeste. Meu negócio com o Bridges foi legítimo e nenhuma pessoa ali pensaria de maneira diferente. — Sentou-se à escrivaninha e recostou-se na cadeira. — A menos que queira arruinar sua reputação, você vai ficar. CAPÍTULO QUATRO Chantagem. Engano. Sedução. Enquanto o sol se punha no horizonte, Julia afundava no sofá da suíte e tomava vinho, com os nervos destroçados, o corpo trêmulo. Pensava em Trent e em como não medira esforços a fim de usar seus talentos no Tempestade do Oeste. As mentiras que Trent contara e toda a manipulação fizeram-na de idiota, mas nada a magoava mais do que a forma como sucumbira ao encanto dele. Fora massa de manobra nas mãos dele. Aparecera em Los Angeles poucas semanas antes e todo o senso profissional que ela tinha desaparecera. Fora hipnotizada e saciada por um grande amante. Ele cegara-a para a verdade. Talvez, se não tivesse sido tão vulnerável quando ele aparecera, pudesse ter compreendido tudo. Ou pelo menos ter desconfiado. Mas aquele homem alto, deslumbrante, e aparentemente sério, enganara-a. O patife, porém, tinha razão numa coisa. Por mais que Julia quisesse, não podia abandonar o emprego. Precisava disso em seu currículo. Perdera o contrato com a rede de restaurantes Bridges e não tinha outras perspectivas no momento. Era necessário ficar e fazer o trabalho. Não era uma mulher de desistir facilmente, não importavam as circunstâncias. Era profissional, assinara um contrato. Além disso, tinha de pensar nos grandes amigos, Evan e Laney. Não ia querer causar um racha na amizade acusando Trent e criando problemas no Tempestade do Oeste. A solução era simples... fazer seu trabalho e evitar Trent a todo custo. Sabotagem passou rapidamente por sua mente por um segundo, mas ela não fora formada assim. Tão logo decidira ficar, não faria nada além de dar o melhor de si. Estava com a carreira e a reputação em risco, tanto quanto Trent. Uma hora depois, assim que conseguiu formular pensamentos racionais, pegou o celular e ligou para Laney. Conheciam-se desde a escola primária em Los Angeles, e nada a animava mais do que falar com a melhor amiga. Quando Laney atendeu, Julia acalmou-se só de ouvir a voz dela. — Sra. Tyler? Você é a ganhadora de um bebê saltitante novinho em folha! Seu 24
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    prêmio será concedidodaqui a três meses exatos. Do outro lado da linha, a alegre risada da amiga aliviou um pouco do seu desgosto. — Oi, Julia. Acho que aceitarei meus prêmios agora. Pode conseguir isso? — Ah, quisera poder. Tendo um dia ruim? — Na verdade, não. Apenas o de sempre. Estou um pouco cansada esta noite e Evan não para de me paparicar, como se eu fosse uma incapaz. — Que legal da parte dele. — Sentiu uma grande pena que o traço legal não existisse em toda a família. — Huum. Imagino que sim. Verdade, minha barriga está ficando tão grande quanto uma bola, mas não sou inválida. Li em algum lugar que se trata da síndrome de pai de primeira viagem. Não estou acostumada com Evan sempre ao meu redor. Os olhos dele se arregalam quando sente o bebê se mexer. — Quem dera que eu estivesse aí para ver. — Para ver os olhos esbugalhados de Evan, ou minha barriga crescida? — perguntou Laney. — As duas coisas. Sinto sua falta, Laney. E de Los Angeles. — Oh, Julia. Achei que gostasse de trabalhar no Tempestade do Oeste. E, bem, depois do que me contou sobre Trent e você, imaginei que os dois talvez tivessem... — Temos apenas uma relação de trabalho, Laney. Ainda não se considerava pronta para contar à amiga como fora manipulada. Nem sabia se chegaria a contar. Evan e Trent eram íntimos e Laney não precisava de dissabores logo agora. A amiga acabara de se recuperar de meses de enjoo matutino. Não queria desanimá-la de forma alguma. Estava resignada a lidar com Trent sozinha... cumpriria o contrato de seis meses, então se mandaria logo da cidade, deixando o hotel e o dono na poeira vermelha do Arizona. — Amo sim, o desafio de trabalhar aqui. É... um lugar lindo. Até aí era verdade, mas Trent arruinara toda a excitação de ir morar ali por uma temporada. Agora, era apenas outro contrato profissional. Houve uma ligeira pausa do outro lado do telefone. Julia não contara à amiga o breve caso vertiginoso que tivera com Trent logo depois do casamento meses antes, mas somente que ele a deixara entusiasmada algumas semanas atrás, ao chegar para salvá- la com essa oferta de trabalho. Laney sempre fora perspicaz quando se tratava de assuntos do coração. — Por que não acredita em você? — É lindo aqui — ela repetiu, esquivando-se do problema real. — Mas precisamos tratar da questão em pauta. Vou lhe oferecer um chá de bebê daqui a seis semanas, lembra? Pode mandar por e-mail sua lista de convidados, querida? Aluguei uma sala no Maggiano's — mentiu. — E combinei de passar o fim de semana inteiro aí na cidade. — Huuum, Maggiano's. Vou devorar comida italiana por dois! Providenciarei essa lista para hoje, Julia. É muito carinhoso de sua parte. Sei o quanto anda ocupada. — Espero ansiosa por isso, Laney. Quero que meu futuro sobrinho tenha montes de maravilhosos presentes quando chegar. 25
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    —- É tãoemocionante. Sei que ainda faltam vários meses, mas não aguento esperar. Terminaram a conversa em um tom feliz e Mia serviu-se de outra taça de vinho. Quando ouviu uma batida na porta, foi abri-la. Parado, Trent olhava fixamente para ela. — Checando seu investimento? — ela perguntou, apoiando-se na porta e tomando um gole de vinho. — Algo assim. Você não retornou ao trabalho hoje. — Tirei a tarde de folga — ela disse friamente. Que podia ele fazer, demiti-la? — Não se preocupe. Vou me levantar com o amanhecer, para fazer todos os seus sonhos se realizarem. Contendo a impaciência, Trent inspirou fundo. Julia desejou ser imune a ele, mas, com as emoções tão emaranhadas, um toque daquele homem talvez a fizesse desmoronar. No momento odiava-o, jurando jamais deixá-lo chegar perto o suficiente para tocá-la de novo. — Talvez estivesse preocupado com você. — Talvez neve no deserto do Arizona. Ele exalou um suspiro exacerbado. Aquele tique contraiu mais uma vez sua mandíbula. — Sabe — começou — não tem de ser desse jeito. — Ah, eu acho que tem — disse Julia, recusando-se a dar-lhe um centímetro sequer. — De fato, esse é o único jeito que pode ser entre nós agora. Trent merecia cada partícula de seu desdém. — Tudo bem, excelente, Julia. Esteja em meu escritório de manhã cedo. Temos planos a discutir. Ele virou-se e afastou-se antes que ela pudesse bater a porta em sua cara. No dia seguinte, teria de conversar sobre o chá de bebê surpresa de Laney com Trent. Teriam de trabalhar lado a lado, resolvendo os problemas do Tempestade do Oeste. Mas, esta noite, podia apenas desabar na cama e esquecer que até mesmo conhecera Trent Tyler. Trent não conhecera outra mulher que quisera mais do que Julia Lowell... qualquer outra sem dúvida se apagava em comparação a ela. Sentada do outro lado da escrivaninha, com a cabeça abaixada, expunha-lhe os planos para melhorar o status do Tempestade do Oeste. Ele notou os escuros cílios curvados tocando-lhe as pálpebras, uma boca suave polpuda pintada com batom cereja e um pescoço esbelto perfeitamente beijável. Os cabelos compridos acariciavam os ombros e tocavam o decote cavado do terninho vermelho. Usava aquela cor como nenhuma outra. E as sandálias... Usava-as de propósito para atormentá-lo. Não entrara no escritório dele amargurada, sentindo pena de si mesma. Entrara de 26
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    cabeça erguida, osolhos cheios de determinação. Assumira o modo profissional, dando- lhe tempo para admirar sua iniciativa e sua beleza. — Estes são meus planos preliminares. O que acha? — ela perguntou, à queima- roupa, fazendo contato visual. Trent assentiu com a cabeça. — Acho que você compreendeu o que precisa ser mudado aqui. — O Tempestade do Oeste é especial. Não apenas um lugar de férias e diversão... esses existem aos montes. Precisamos dar à clientela uma experiência inesquecível. Alguma coisa que não encontram em outro lugar. Vai ser exclusivo, apenas por convite, no início. É um risco, Trent. Está disposto a arriscar? Julia tinha experiência. Trent reconhecera na profissional, até mesmo quando lhe cobrira o corpo e fizera-a gemer o nome dele na primeira vez que haviam ficado juntos. Ainda assim, ela poderia muito bem começar a sabotar o hotel. Trent pusera toda a confiança nela quando chegara. Mas, agora que ela sabia a verdade sobre a contratação, ainda lhe daria cem por cento de lealdade e dedicação? Ele olhou-a com os olhos semicerrados e perguntou. — Este é o mesmo plano que vinha elaborando antes de nossa conversa ontem? Julia não se ofendeu com a pergunta. Endireitou-se na cadeira e deu-lhe um sorriso de lábios fechados. — Tivemos um sexo esplêndido, Trent. Você me usou profissionalmente. Estou furiosa com você, mas eu jamais comprometeria meus princípios. Acredito em uma ética de trabalho imparcial. Portanto, se a pergunta é: eu o jogaria aos cachorros por despeito? A resposta é não. Este é o mesmo plano que vinha formulando desde que cheguei aqui. — Eu tinha de perguntar. — Concordo. Agora, o que acha das minhas ideias? Trent esfregou o queixo, e a barba de um dia por fazer arranhou seus dedos. Pensou em alguns dias atrás, quando ela montara em seu colo, fazendo sua barba com gestos cuidadosos e uniformes, até ele não poder aguentar mais um segundo. Então ele jogara-a na bancada do banheiro, com as pernas dela em sua cintura, penetrando seu corpo, esquecendo-se da barba. Ele exalou um suspiro. — Disponho-me a correr o risco. É uma ideia maravilhosa. Desta vez, Julia abriu um enorme sorriso, seus olhos brilhavam. — Vou começar a trabalhar no novo slogan para o hotel. Precisamos de algo atraente que passe de mão em mão com o tema do Tempestade do Oeste. Vai exigir algum trabalho mental. — Comunique-me o que precisar de mim. Ela deu uma olhada para a boca de Trent. Um vacilo. Aquele olhar rápido o fez perguntar-se por quanto tempo iria continuar furiosa com ele e negar aquelas noites longas, quentes e sensuais na cama. — Trabalho melhor sozinha, Trent. Quando eu tiver alguma coisa, trarei a você para aprovação. Ele fez que sim com a cabeça e mergulhou os olhos no decote cavado de Julia, 27
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    que o provocavacom a sugestão dos seios. — Muito justo. Encararam-se por um longo momento. Então Julia comentou: — Você não vai se desculpar pelo que fez comigo, vai? Trent talvez o fizesse se achasse que ela iria para a cama dele à noite. — Não. Ela assentiu, resignada, apenas um mínimo tremor nos lábios traindo o desprezo que sentia. — Precisamos conversar sobre o chá de bebê de Laney e Evan. Laney acha que vou oferecê-la em seis semanas. Trent olhou para a agenda. — Tenho compromissos o resto do dia. Encontre-se comigo para jantar esta noite e falamos a respeito. Ela fez que não com a cabeça. — Não posso. Encaixe-me em outra hora. — Não pode ou não quer? — Não quero. — E ergueu o delicado queixo. — Além disso, tenho planos para a noite. — Trent fechou a agenda com força. — Não estou disponível para você após o horário de trabalho. — Sorriu. — Não se esqueça disso de agora em diante. Ele ouvira o recado em alto e bom som. Havia uma coisa engraçada em declarações assim. Uma vez proferida, ele ia fazer tudo que estivesse em seu poder para mudar o fato. Julia juntou os papéis, guardou-os numa pasta e levantou-se. A meio caminho da porta, virou-se. — Diga-me, Trent? Exibo alguma placa que diga "Aproveite-se de mim"? Trent levantou-se e contornou a escrivaninha, encarando-a. — Só vejo uma mulher magnífica, sensual, com cérebro e talento, querida. Ela baixou a cabeça antes de tornar a olhá-lo. — Receio que seja tarde demais para seu charme, Trent. Saiu do escritório, deixando-o a se perguntar: que tipo de planos Julia tinha para a noite? E com quem? Julia montou uma robusta égua baia que Pete lhe garantira ser o cavalo mais manso do haras. Ele cavalgava ao seu lado quando saíram dos estábulos em direção ao extremo de Crimson Canyon quando comentou. — Há lugares muito lindos aqui que os hóspedes pagantes não têm chance de ver. — Foi o que Tre... hum... o sr. Tyler disse. Por que acha que isso acontece? — ela perguntou. O couro da sela chiou e estirou quando ela se acomodou. ' Pete encolheu os ombros. 28
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    — São longe.Algumas áreas são mais perigosas do que outras. Quando os levamos em um passeio acompanhado, permanecemos em certos caminhos testados e confiáveis em nome da segurança. — Isso não parece o estilo de Trent Tyler. Ele quer que todo mundo que venha aqui conheça a terra. — Não foi ideia dele. Tivemos um incidente quando o hotel havia acabado de inaugurar. — Pete balançou a cabeça. — Algumas pessoas se julgam dotadas de talentos de equitação que não têm. Um homem achou que conseguia subir ao topo do penhasco da Sombra. Queria uma vista de cima do desfiladeiro. Forçou o cavalo e chegou até a metade da subida, quando um grande e velho falcão de asas vermelhas deu um mergulho, assustando a montaria. O hóspede foi atirado ao chão. Ficou com o orgulho ferido mais do que qualquer coisa, porém culpou a administração por não afixar sinais de advertência. Ameaçou nos processar por negligência. O sr. Tyler acalmou-o e convenceu- o de não processar o hotel. Desde então, só oferecemos passeios guiados e nos mantemos nesses caminhos. — Que pena — disse Julia, admirando maravilhada o penhasco da Sombra, a escarpada crista de Crimson Canyon que inspirava assombro. — É o lugar mais bonito que você já viu na vida. — Deve ser impressionante, porque não posso imaginar nada mais belo do que vejo agora. — Aceite minha palavra. — Eu gostaria de vê-lo — disse Julia para ele. — Leve-me lá. Pete olhou-a. — O sol vai se por logo, srta. Lowell. — É Julia, e eu sei. É esse o plano. Quero ver pouco antes do por do sol. O rapaz concordou e fez o cavalo trotar devagar. A égua de Julia o seguiu. Mais de uma hora depois, os dois retornavam do penhasco do desfiladeiro. Desmontaram diante dos estábulos e ela lhe entregou as rédeas. — Obrigada, Pete. Adorei o passeio. Você me instruiu com seu conhecimento da área. Pete riu. — Faz um bom tempo desde a última vez que instruí alguém sobre qualquer coisa, srta. Low... — disse e então se deu conta. Chamara-a de srta. Lowell cinco vezes depois que ela o havia convencido de deixar a formalidade. — Julia — corrigiu-se, afinal. Os dois riram, e estavam se divertindo até Trent sair do estábulo, com a expressão sinistra. Encarou o outro por um segundo, e então desviou o olhar para ela. Pete pareceu impassível à presença do chefe, mas os nervos de Julia agitaram-se e o sorriso se desfez. — Boa noite, sr. Tyler — disse Pete, tocando de leve a aba do chapéu. — Pete. — Trent encaminhou-se direto para eles, cravando o olhar em Julia. Só então ela notou o jipe parado perto do escritório. — Era por isso que não podia jantar comigo? 29
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    Julia sentiu vontadede revirar os olhos, mas conseguiu mantê-los firmes no rosto de Trent. — Era — admitiu, revelando a verdade. Combinara com Pete que ele a levaria ao topo do penhasco da Sombra durante a tarde. Claro que, pelo olhar que o Trent lhe dera, e depois a Pete, não ficou satisfeito com nenhum dos dois. — Eu lhe disse que tinha planos para esta noite. — A gente ia entrar e tomar um drinque depois do passeio — explicou Pete, entregando as rédeas de ambos os cavalos a um dos vaqueiros. Olhou Trent nos olhos. — Gostaria de se juntar a nós? Julia admirou a indiferença de Pete com o patrão. Era um homem que não falava medindo as palavras nem fazia jogos enganosos. Gostava do rapaz e perguntou-se se o outro sabia que Kimberly sentia uma coisa séria por ele. — Não, acho que não. Preciso falar com Julia. Levo-a de volta, mas faço questão que ela tome seu drinque. Ela se ouriçou. Não fazia o tipo que gostava de causar uma cena, mas era a segunda vez em alguns dias que Trent lhe testava a paciência. Pete olhou-a. — Se fizer questão do drinque, corro lá dentro e trago para você. Ela ficou tentada. Preferia não ceder às exigências de Trent. Embora Pete continuasse na dele, não queria causar problema entre os dois. — Tudo bem, Pete. Está ficando tarde. Voltarei com o sr. Tyler. Trent virou-se, de volta ao jipe. Julia contou até dez mentalmente, e depois sorriu para Pete. — Obrigada pelo esforço esta noite. Gostei muito do passeio. — Quando quiser. — Tocou a aba do chapéu em despedida. — O chefe está esperando — disse com um sorriso. — Não vai querer se indispor com ele, sendo uma nova empregada e tudo mais. Ela arregalou os olhos. Pete enxergara demais com aqueles claros olhos azuis. — Você não tem medo dele, tem? — De Trent? Diabos, não. Ele sabe que sou um vaqueiro danado de bom e cumpro as regras. E eu sei que é um empregador justo e um homem decente. Temos respeito mútuo. Riu de novo. — Julia? — chamou Trent do jipe. Respeito mútuo. Quem dera que ela tivesse conseguido o trabalho da forma convencional, chegando para uma entrevista e deslumbrando o dono do hotel com suas ideias, em vez de ele ter de recorrer ao engano para lhe dar o emprego. Então talvez compartilhassem respeito mútuo e também o julgasse um homem decente. Na atual situação, sentia apenas desprezo por ele. Agradeceu mais uma vez ao guia, instalou-se no lado do carona do jipe e bateu a porta, olhando direto para frente. Ao afastar-se, Trent virou-se para ela, — Você não perde tempo. Não ia permitir que ele a incitasse para um bate-boca, mas o comentário de fato 30
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    conseguiu irritá-la. — Não.Quando tenho um trabalho a fazer, não. — Quer dizer que aquele passeio ao por do sol teve algo a ver com trabalho? — Teve tudo a ver com trabalho. — Apoiou a cabeça no encosto do banco e fechou os olhos. — Estava me seguindo? — Não, Julia. Não estava lhe seguindo. Vim aqui esta noite para inspecionar meus próprios cavalos. Ela abriu os olhos e virou-se de frente para ele. — Você tem cavalos aqui? Trent fez que sim com a cabeça. — Dois. Duke e Honey Girl. Venho vê-los sempre que posso. Cavalgo se tiver tempo. — Então que tinha de tão urgente para precisar me arrancar da conversa com Pete? Quisera ele saber. Saíra dos estábulos todo preparado para retornar ao escritório quando a avistou com Pete, e os dois pareciam curtir a companhia um do outro um pouco demais. — Se precisa de tempo comigo, terá de ser esta noite. Saio da cidade de manhã. Tenho algumas reuniões que já adiei por tempo demais, na verdade. — Quanto tempo ficará fora? — Alguns dias. — Tudo bem — disse Julia com um suspiro. Trent dirigiu-se para sua casa dentro da propriedade e parou o jipe em sua garagem privativa. Apertou o controle remoto e a porta se abriu. Ao lado do jipe ficavam o Chevy Silverado preto e o BMW prateado. — Onde estamos? — ela perguntou, perplexa. — Na minha casa. Julia arregalou os olhos. — Achei que você morasse no hotel. — Moro, quase o tempo todo. Mas mandei construir esta casa para os momentos em que preciso ficar só. É pequena, básica e tem uma vista gloriosa do desfiladeiro. — Por que me trouxe aqui? — ela perguntou num tom incisivo. Parecia um animal enjaulado prestes a arrombar a jaula. — Você precisa dos nomes e dos números de telefone da família Tyler, certo? Guardo meus arquivos pessoais aqui. Por favor, Julia. Não sou o grande lobo mau. Pegue o que precisa, tome um drinque e depois a levo de volta ao hotel. Saltou do jipe e esperou-a. Assim que ela cedeu, tomou-a pelo braço e a guiou para dentro. Mandara construir a casa para satisfazer suas necessidades. Com um enorme quarto principal, uma cozinha espaçosa com área para refeições e uma grande sala que alojava um imenso sofá de camurça voltado para a lareira de pedra que ia do teto ao piso, 31
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    ele gostaria quetivesse mais tempo livre para passar ali. — É isso. A carrancuda expressão de Julia suavizou-se. Olhou ao redor, vendo todos os aposentos, menos o quarto. — É bonita, Trent. Entendo por que gostaria de vir para cá relaxar. E ele adoraria relaxar com ela agora mesmo. Jamais trouxera uma mulher a essa casa antes e tê-lo feito sem pensar o fez alegrar-se com o fato de que ia partir do Tempestade do Oeste por alguns dias. Deixara-o intrigado a imagem de Julia rindo com Pete junto aos estábulos. Fazer sexo com a amante era uma coisa, sentir uma ligação emocional era outra totalmente diferente. — Sente-se — disse, gesticulando para um canto no sofá em forma de L. — Que quer beber... vinho, champanhe, algum coquetel? Foi até o bar embutido ao lado da lareira. — Só água gelada, por favor. Ele olhou-a e riu. — Você acha mesmo que sou o grande lobo mau, não? — Digamos apenas que ficou sem seu disfarce agora. Sei com quem estou lidando. — Ai! — Trent olhou-a sentada no sofá, vestida de jeans azul-claro, as pernas cruzadas e a postura rija. Mesmo de botas de couro e roupas informais estava elegante, tinha classe e era linda. O vento da viagem de jipe envolvera-lhe o rosto com os longos cachos escuros de cabelo e alguns ainda caíam sobre seu rosto. Serviu-lhe um copo d'água gelada, um longo com dois dedos de uísque para si, depois se aproximou para entregar-lhe a bebida. Sentou-se ao lado dela. — Pete tem uma senhora reputação com as moças — disse, tomando um gole do uísque. — E você pensou em me advertir? — Julia olhou o copo na mão. — Que generosidade, Trent, considerando o que você me fez. Ele inclinou-se, apoiou os braços nas pernas, e virou-se para ela. — Não vai passar por cima disso, vai? Ela balançou a cabeça, falando baixo, mas com convicção. — Não, não vou. E não estou interessada em Pete. Meu único interesse no Tempestade do Oeste é fazer o que vim aqui para fazer, depois ir embora. Delicadamente, tomou um gole de água e Trent olhou sua boca. Uma gota d'água permaneceu no lábio dela, que a lambeu, distraída. Ele ergueu o olhar para o de Julia, cuja expressão vacilou por um breve segundo, os bonitos olhos verdes suavizando-se antes de ela enrijecer o queixo. A química entre ambos continuava e desprendia-se como o vapor de uma ducha quente. — Quando seria uma ocasião conveniente para o chá de bebê de Laney? — ela perguntou, mudando de novo a conversa para negócios. — Quando lhe convier. Mandarei preparar o jato da empresa para pegar os convidados. A gente os hospeda por uma ou duas noites, com acesso a todas as instalações. 32
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    — Eu gostariade fazer em algumas semanas, antes que Laney desconfie. Terei de pôr Evan nos planos para trazê-la. Pensei em usar, visto ser em parte verdade, o pretexto de que você vai oferecer uma festa aberta a todos da família. Trent balançou a cabeça. — Parece que vai funcionar. Conte comigo. Mais alguma coisa, querida? — Apenas aqueles nomes e números, por favor. Preciso voltar agora. Finalizaram os planos, Trent levou-a de volta ao hotel, parou o jipe e informou-a. — Voltarei na sexta-feira. Kimberly sabe como me achar, se você precisar de qualquer coisa. — Não vou precisar. — Já deixou isso claro, Julia. Mas eu me referia aos negócios, querida. -— Certo. — Ela engoliu em seco e assentiu com a cabeça. — Quando você retornar, terei finalizado minha nova estratégia de marketing. — Espero ansioso por isso. Desceu do jipe e contornou-o para abrir a porta. Julia logo saiu e Trent acompanhou-a pelo saguão até o elevador. — Vejo-o na sexta... Inclinou-se e beijou-a antes que ela pudesse concluir o pensamento. Encostou seu corpo no dela, segurando-a firme pela cintura, e separou-lhe os lábios, para saboreá-la mais uma vez. — Precisava disso — ele sussurrou, acariciando-lhe os quadris delicadamente com as palmas das mãos. — Não faça isso — ela exalou um suspiro, numa tentativa inútil de negar o que ambos desejavam. — Trent, eu nunca vou perdoá-lo. — Eu sei, mas você não é tola, querida. Nós dois somos fantásticos juntos. — O leve tremor e a rendição do corpo de Julia naquele único momento o encorajaria pelos próximos dias. — E só mentiria para si mesma se achasse que não necessitava desse beijo tanto quanto eu. CAPÍTULO CINCO Dois dias depois, Julia tentava pensar em qualquer coisa, menos em Trent. Quando não estava absorta no trabalho, pensava no último encontro com ele, no beijo quente sensual e no olhar prolongado. Sempre que a tocava, despertava-lhe cada nervo no corpo. Gostaria que não fosse assim. Jamais reagira a um homem como o fazia com ele. 33
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    Ele tinha tudo...beleza, charme, inegável atração sexual, inteligência e o maldito andar arrogante que transformava seu corpo em gelatina sempre que o avistava encaminhando-se em sua direção. Às vezes, sobretudo quando usava a lábia com ela, ou a beijava inesperadamente, fazia-a esquecer que era tão cruel e inflexível quanto bonito e encantador. Embora encontrasse algum alívio na partida dele da cidade por alguns dias, também odiava admitir a ânsia que sentia por vê-lo quando retornasse. O que era uma absoluta loucura. Ele manipulara-a e mentira. Seduzira-a e fizera-a se sentir uma idiota. Sua mente dizia-lhe que esquecesse que aquele homem caminhava sobre a Terra, mas o coração... essa era outra questão. Passada a hora do jantar, sentada à escrivaninha, Julia estudava a elaboração da nova campanha publicitária até seus olhos ficarem turvos. Mandara um artista plástico esboçar uma versão de Crimson Canyon num pôster e lutara com as palavras para a campanha. Com a imagem do Tempestade do Oeste diante de si, sentiu o imediato apelo e soube que se encontrava no caminho certo. Tomou um gole de café frio e fez uma careta. — Horrível — resmungou e largou a xícara. Recostou-se na cadeira e suspirou, percebendo que exigira demais do cérebro nos últimos dias. O estômago roncou, lembrando-lhe da hora tardia. Levantou-se e alongou os braços. Relaxando os músculos retesados, fechou os olhos e girou a cabeça devagar, em círculos, para aliviar a tensão. —Você fica sexy quando faz isso. Trent surgiu na porta do escritório, encostou-se nela e colocou as mãos nos bolsos de trás do jeans. — Você voltou— ela declarou, atordoada ao vê-lo. Não apenas a surpreendera, mas também lhe desagradou a repentina aceleração do coração que ele provocava. Com os olhos brilhando, ele sorriu. — Sentiu saudade? — perguntou e entrou no escritório. Como uma invasão de ratos, pensou Julia, mas guardou a observação para si mesma. — Eu já ia embora. Ele ignorou-a e avistou o cartaz na escrivaninha. — É este? — perguntou, aproximando-se para olhar melhor. Julia hesitou. Gostava de suas ideias e achava que acertara na campanha, mas ainda não havia se preparado para a apresentação. Gostava de tudo em perfeita ordem, sobretudo quando se tratava da profissão. Mas aquele homem sempre parecia bagunçar sua vida bem ordenada. — Sim, é este. Mas ainda não terminei. Falta planejar o design de um convite especial para nossa grande reinauguração. Só que duvido que possamos chamá-la assim. Trent continuava com o olhar fixo no cartaz. — Viva nossas lendas — leu, recitando as palavras — ou crie a sua. 34
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    Ela foi parao lado dele. — Bem ali — explicou, apontando uma faixa inferior no cartaz — vamos pôr as palavras Tempestade do Oeste em Crimson Canyon. Ele deu um olhar de soslaio. — Gosto do slogan. —- Obrigada — agradeceu Julia, em voz baixa. Então, em meio ao silêncio da sala, o estômago dela tornou a roncar. Trent riu. — Também estou morrendo de fome. Vim direto do aeroporto. O chef já vai mandar subir o jantar. Suficiente para dois. Julia balançou a cabeça. — Sei que você pode comer tudo — disse, abrindo a gaveta e pegando a bolsa. — Salmão caramelizado com ervas e arroz oriental. Soava como um manjar de deuses, mas ela fez que não com a cabeça. — Suflê de cenoura. — Suflê? — perguntou, faminta, a boca aguando. — não parece refeição de caubói. — Meu apetite desconhece limites. Julia sorriu, desanimada. — O chef também vai mandar bolo de chocolate com sete camadas. — A especialidade da casa. — Você pode me pôr a par dos detalhes da campanha enquanto comemos. Outra vez seu estômago roncou, o que a fez arrastar os pés, sem graça, mas se Trent ouvira nada falou. Ela planejara pedir uma salada do Café Canyon e deitar-se cedo esta noite. Uma refeição gastronômica parecia mil vezes melhor, apenas não tinha força de vontade suficiente para recusar comida e aquele homem. — É uma ordem do patrão? Trent encarou-a no fundo dos olhos. — Não, apenas um pedido. Ela deu um suspiro alto, negando que a resposta sincera significasse alguma coisa. — Certo, então. Quando comemos? Trent olhou o relógio de pulso. — Deve chegar em alguns minutos. Julia ocupou-se, esvaziando a escrivaninha, afastando o cartaz e guardando a papelada. Ele foi até a janela e olhou ao longe, parecendo absorto em pensamentos. — Acabei de fechar um negócio: trazer um rebanho de cavalos bravios para o desfiladeiro. — Como? Ela julgou ter ouvido errado. 35
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    — Precisam deum bom lar, Julia. Estão abatidos, machucados e famintos. — Aqui não é uma fazenda. É um hotel de lazer para a elite... que ainda tem um longo caminho a percorrer para render lucros. Por que você não conversou isso comigo antes? — Eu já tinha tomado a decisão. Faremos dar certo. Vou instalá-los soltos atrás do penhasco da Sombra. — Soltos? Diga que é brincadeira. — O rebanho não vai incomodar ninguém lá. É, em termos não oficiais, zona proibida aos nossos hóspedes. — Se tivesse esperado minha apresentação, saberia que eu tinha planos muito específicos para o penhasco da Sombra. E esses planos não incluem cavalos selvagens. Trent cerrou os maxilares e revelou determinação nos olhos. Ela temia que não houvesse jeito de dissuadi-lo. — Que tipo de planos? — perguntou. — Passeios privados guiados a cavalo penhasco acima. Aulas de arte. Dadas por profissionais. A intimidade, a paz, o sossego e as paisagens magníficas de Crimson Canyon... Conheço poucas pessoas que não adorariam encontrar uma área isolada tão espetacular que a gente não acredita que seja real para refletir. Algumas pintariam ou desenhariam. Outras cavalgariam, íamos oferecer-lhes algo que não obtêm em nenhum outro lugar, lembra? — Agora terão as mesmas paisagens com cavalos selvagens. — Pode contê-los? — Não farei isso — afirmou Trent, categórico. Julia não pôde deixar de admirar aquela dedicação e compaixão que ele sentia pelos animais abandonados. Imaginou aqueles cavalos, bem tratados e livres para correr. Sabia que Trent cuidaria do bem-estar dos animais. Era um homem que cuidava dos seus. — Mas a segurança dos hóspedes... — O rebanho terá limites naturais. Não vão desgarrar-se para longe demais. Planejo alimentá-los e garantir que tenham água. Ficarão onde precisamos que fiquem. E não incomodarão ninguém. —Como pode prometer isso? — Confie em mim. Ela nunca mais iria confiar nele. Porém eram seu hotel e o dinheiro a perder. — Não pode permitir que processem o hotel. Trent ergueu as sobrancelhas. — Já ficou sabendo? — Não por você. Mas fiquei, sim. Nossa primeira prioridade é com seus hóspedes pagantes. E pagarão quase o dobro pelo que proponho. Por favor, diga-me: não tem nada louco planejado para o lago do Destino? Nada de shows acrobáticos de Jet Ski nem qualquer coisa do gênero? Trent entortou a boca. 36
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    — Engraçadinha, Julia. —Então? — Não. Não tenho planos para o lago do Destino. — Que alívio — ela disse. O garçom passou pelo escritório empurrando um carrinho giratório. Quando Trent avistou-o, pediu-lhe que entrasse. — É jantar para dois agora, Robert. Comeremos aqui na escrivaninha, a não ser que a srta. Lowell queira jantar no andar de baixo. Olhou-a, parecendo esperar uma mudança de opinião. —- Aqui está ótimo. Estamos trabalhando — ela respondeu, dando um sorrisinho a Robert. O garçom examinou a refeição. — Voltarei com outro prato e o conjunto de talheres. Robert já quase saía quando Trent o deteve. — Não precisa, Robert. Há o suficiente para nós dois. Obrigado por trazer a comida até aqui em cima. Ainda alcançou-o na porta e entregou-lhe uma gorjeta, depois retornou para destampar as travessas. Subiu um vapor aromático, os saborosos temperos misturaram- se no ar, fazendo ruídos irromperem do estômago de Julia. — Parece delicioso. Trent tirou todos os pratos do carrinho, colocou-os na escrivaninha e sentou-se. — E agora? — ela perguntou, com fome. Dispensara Robert e não havia pratos extras. — Agora pode sentar-se ao meu lado — ele disse, a voz meiga e baixa — ou em meu colo e eu lhe dou de comer. Parece uma forma excelente de saborear uma refeição. Uma imagem sensual passou rapidamente pela cabeça de Julia, que foi até onde Trent sentou-se e inclinou-se para olhá-lo, aproximando-se bem do rosto dele. Vendo aqueles magníficos olhos escuros, resistiu à tentação. — Volto logo — disse. — Aonde você vai? — ele perguntou. — Você já vai saber. Um minuto depois, retornava do salão atrás da área de recepção com um prato de papel e talheres de plástico. Trent apenas sorriu. — Engenhosa. — Também acho — ela concordou. Ele passou-lhe a refinada porcelana e talheres, encheu um prato de papel com comida para si mesmo e esperou-a se sentar antes de comer. Pelo menos Trent Tyler tinha bons modos. Na manhã seguinte, ele parou o jipe perto dos estábulos e entrou no escritório. 37
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    Irritou-o vê-la maisuma vez conversando com Pete, a risada agradável enchendo a pequena sala, enquanto ela marinha a atenção concentrada no chefe dos vaqueiros. Embora confiasse em Julia o máximo que pudesse, insistira em levá-la penhasco da Sombra acima e fazê-la explicar os planos, nos mínimos detalhes. Era a única maneira de visualizar por completo as ideias que ela concebera. O que Julia, como nova diretora de marketing, propunha era arriscado e ele não se incomodava em correr um risco calculado quando necessário, mas tinha de se certificar de que ela não tentava ferrá-lo para se vingar. Não sabia se era capaz de tal traição, mas certamente não esperara que fosse tão difícil tornar a conquistá-la. Queria-a de volta no quarto, claro e simples assim. E queria acreditar em sua nova estratégia de marketing... o que era de extrema importância. — Bom dia — disse, interrompendo a conversa deles. Julia ergueu os olhos com um sorriso no rosto. — Bom dia. Pete cumprimentou-o com um aceno da cabeça e saiu, deixando-os a sós no escritório. — Pronta para uma cavalgada? — Sim, até me vesti para isso — ela respondeu, transbordando bom humor. Trent teria ficado encantado, só que sabia que Pete fora o responsável por aquela atitude animada. De calça jeans e uma blusa leve de algodão, Julia tinha os cabelos presos num rabo de cavalo, o rosto sem maquiagem e parecia tão fresca quanto um dia ensolarado, e ele não podia negar sua beleza natural. Elegantemente vestida ou em um terninho de trabalho ou parecendo uma rainha de rodeio, Julia Lowell causava impressão. — Vamos indo. — Estamos desperdiçando a luz do dia! — ela provocou. Trent segurou sua cintura com o braço e puxou-a contra si. O corpo delicado e macio deixou-o duro como granito. — Oh — ela exalou. — Algo está sendo desperdiçado, querida. E se não sairmos logo daqui você vai descobrir o que é. A tensão crepitou entre os dois. Encararam-se por um momento, antes de ele soltá-la e ela murmurar: — Certo, va-vamos sair. Trent praguejou baixinho. Nunca desejara tanto uma mulher, porém tinha absoluta certeza de que não estava a fim de permiti-la estonteá-lo e fazê-lo cometer um grande erro. Cruzou a porta e dirigiu-se ao curral que alojava seus cavalos. Pete já selara e aprontara Duke e Honey Girl. Trent pegou as rédeas. — Obrigado, Pete. Levo-os daqui em diante. Pete olhou a jovem, que parara passos atrás. — Saquei — disse e acenou com a cabeça. — Estarei no escritório se precisarem de mim mais tarde. Tenham um bom passeio. Trent ajudou-a a montar a égua, subiu no próprio cavalo e os dois partiram. A 38
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    caminho do penhascoda Sombra, ele deixou Julia falar o tempo todo, expondo o plano. Ouvia-a atentamente e balançava a cabeça, absorvendo a paisagem com cactos arborescentes que pontilhavam a propriedade e as inspiradoras montanhas cor de fogo de Crimson Canyon. Enquanto cavalgavam, sua frustração diminuía ao se concentrar na visão da companheira de montaria. — Que a fez pensar em oferecer aulas de arte? — Não é a aula de arte comum. Empregaremos um verdadeiro artista plástico no Tempestade do Oeste. Exporá as obras na galeria do hotel e depois ofereceremos inspiração no lugar mais pitoresco da propriedade. Quando conferi o questionário de sua clientela notei que a maioria dos hóspedes era de amantes de arte e música. Não me parece uma ideia idiota atrair hóspedes com o que eles amam. Lembre-se, o Tempestade do Oeste não é um lugar de pernoite a caminho de um destino. É o destino. E precisamos dar aos hóspedes o que eles amam. Não lhes dar motivo algum para sair em busca de entretenimento externo. A palavra exclusivo será sinônimo do Tempestade do Oeste. Este é nosso objetivo de venda. Privacidade, reclusão, cenários naturais e oportunidades exclusivas. Trent reteve Duke quando chegaram à base do penhasco da Sombra. — Parece bom. A égua seguiu o exemplo de Duke e parou ao lado. — O artista plástico virá mostrar sua obra e se tornará mais conhecido na comunidade artística. A clientela é muito rica. Gastará dinheiro extra pelo que oferecemos. Quanto à cantora, trabalhei com Sarah Rose na instituição de caridade Dream Foundation. — Você conseguiu Sarah Rose para nós? Trent ficou impressionado. A cantora de country music Sarah Rose era tão famosa e talentosa quanto Reba McEntire e Faith Hill. — Consegui. Estou resolvendo os detalhes com o agente. Mas já conversei com Sarah em particular e ela está pronta para uma mudança de ritmo. Precisa de férias. Assim que descrevi o Tempestade do Oeste, dispôs-se a vir fazer alguns shows íntimos semanais desde que lhe garantam privacidade enquanto estiver aqui. Também será uma hóspede. Ele olhou no fundo dos bonitos olhos de Julia. Passavam toda a paixão pelo trabalho em alto e bom som. Ela parecia convencida e isso era ótimo para o investidor. — Se você diz que vai dar certo, sou totalmente a favor. — Jamais há garantias, mas acho que sim. Está tudo no pacote. Tenho trabalhado duro em um convite especial com o novo slogan e mandei fazer um novo folheto. — Certo — ele disse, e olhou o penhasco que assomava acima. — Pronta para a subida? Ela examinou o penhasco sombreado pela luz matinal. — Pete disse que há outro caminho de subida. — É um caminho sinuoso mais longo. Mas há, sim. — Mostre-me. Trent levou-a ao topo do penhasco da Sombra usando o caminho bem escondido que serpenteava atrás e ao redor da montanha. Desmontou tão logo chegaram ao platô e 39
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    ajudou-a a descer,segurando-a enquanto ela deslizava pelo seu corpo, saindo da sela de Honey Girl. Julia piscou quando olhou a boca de Trent. Ele sorriu e afastou-se, tomando sua mão na dele. — É esta sua vista? — perguntou, indo até o centro da elevada região plana acima de Crimson Canyon, onde formações rochosas naturalmente esculpidas uniam-se ao céu do oeste. — É — ela suspirou. — É esta. — Também a vejo. Trent passou o braço em volta da cintura dela e ambos contemplaram a surpreendente vista. Sossegada. Reclusa. Natural. A voz de Julia quebrou o silêncio. — Se você pudesse encontrar um meio de alargar a trilha até aqui em cima, creio que os hóspedes não se importariam de percorrer o passeio mais longo a cavalo. É a subida mais segura e eles seriam bem guiados. — Eu tinha planejado estabelecer os cavalos selvagens atrás do penhasco. — Não pode estabelecê-los no desfiladeiro? — Não, morreriam de fome. Não ficariam nada melhor do que no lugar de onde foram resgatados. Nem teríamos como cuidar deles lá embaixo. — Isso é importante para você, não? — É — admitiu Trent, apreciando a sensação do corpo de Julia aproximar-se do seu sem que ela percebesse. Ficara tanto tempo longe dela e nenhuma outra mulher servia. — Não posso ficar sentado e ver aqueles cavalos morrerem. Trent era proprietário de uma imensa extensão de terra, com espaço para o hotel e o rebanho. Embora houvesse sido criado com os irmãos em uma cidade de tamanho médio, sonhara um dia ser dono de terra suficiente para manter um rebanho selvagem. Sempre tivera uma afinidade com cavalos e, quando descobrira que esses estavam morrendo, tivera de ajudar. — É mais importante que o sucesso do hotel? Você poderia perder a aposta com seu irmão — a voz dela se suavizou. — Querida, isso não vai acontecer. Sempre encontro um meio de conseguir o que quero. Julia pôs a mão na face dele, a carícia parecendo um levíssimo toque de pluma, os olhos cheios de pesar. — É, Trent. Eu sei. CAPÍTULO SEIS 40
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    Os convidados dochá de bebê chegaram no jato da empresa um dia antes da festa surpresa. Kimberly ajudou Julia a recebê-los no aeroporto e conduziu-os às limusines do Tempestade do Oeste, para instalá-los por volta do meio da manhã. Com a ajuda de Trent, organizara um churrasco para o almoço no pátio, ao ar livre, com vista para Crimson Canyon, e um passeio guiado ao penhasco da Sombra à tarde. No dia seguinte, faria o chá de bebê surpresa às margens do lago do Destino. De certa forma, tratava-se da realização experimental de sua visão para o Tempestade do Oeste. Os convidados compartilhariam o tratamento cinco estrelas exclusivo do hotel que planejara para os hóspedes pagantes. Era um prazer especial para ela, pois o pai, amigo querido de Laney, também estava incluído na lista de convidados. Não o via fazia semanas e acolhera com alegria sua presença. Haviam se abraçado e beijado no aeroporto e a filha sentia-se feliz por ele ter feito a viagem. Nada se comparava ao amor de um pai. E nesse momento específico precisava de apoio. Vinha esquivando-se dos avanços de Trent desde que a manipulara com tamanha habilidade. Ele deixara claro que a queria. A resistência dela enfraquecera um pouco, permitindo um ou dois beijos nas últimas semanas. À noite, quando sua mente vagava, Julia sonhava estar nos braços de Trent, dando a ele pleno domínio de seu corpo... reivindicando igualmente o dele. Manter o sexy caubói a uma distância segura era mais fácil de planejar do que fazer. Uma hora depois, viu o pai ao lado de Trent e de uma adorável senhora de cabelos grisalhos sob a treliça que cobria o pátio. Atravessou o atalho incrustado de pedras e foi logo apresentada a Rebecca Tyler, mãe dele. — Esta é minha Julia — disse Matthew Lowell, sorrindo para Rebecca. A senhora estendeu a mão a Julia. — É um grande prazer conhecê-la afinal, sra. Tyler. E numa ocasião tão feliz. — Ah, apenas me chame de Rebecca, por favor... — respondeu com um meigo sorriso. — É uma emoção que eu vá enfim ser avó. Que gentileza a sua oferecer essa surpresa a Laney. — Ela é minha melhor amiga. Alegra-me fazê-lo. — Alimento a mesma esperança, Rebecca — disse Matthew — mas minha filha só pensa na carreira no momento. Sem bebês no horizonte para mim. — Pai! — O rubor dominou-a. Ela olhou furtivamente para Trent, que a observava intensamente. — Venho fazendo lobby há anos, Matthew — disse Rebecca. Trent assentiu com a cabeça. — Não posso negar. Mamãe diz isso a todos em alto e bom som. Poderia ensinar algumas coisas a Washington. — É o que precisa ser feito? — perguntou o pai, sorrindo para a senhora. — Já faz um bom tempo — começou Rebecca — mas me parece que exige um pouco mais do que isso. Matthew deu uma risadinha. Julia ergueu as sobrancelhas. O pai flertava com Rebecca Tyler e a bonita mulher retribuía-lhe o flerte. Rebecca olhou-a. 41
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    — Meu filhoacha que você tem ideias brilhantes. Ele partilhou algumas comigo e tenho de dizer que me alegra o fato de vocês trabalharem juntos, querida. Trent não elogia ninguém da boca para fora. — Obrigada, Rebecca. Dou o melhor de mim para... — hesitou e examinou Trent — ... para o Tempestade do Oeste. Trent roçou os ombros nos dela, que sentiu o perfume almiscarado da colônia e a posição firme do corpo dele junto ao seu. — Julia vai mudar a imagem do Tempestade do Oeste. O fato é que apoio todas as suas ideias. Confio inteiramente nela. Essas palavras deixaram-na sem ar. Ele nunca deixara de acreditar nos talentos dela. Além disso, Julia jamais lhe dera motivo para não acreditar, mas ouvi-lo dizer à mãe e ao próprio pai amoleceu o seu coração. — Obrigada — disse, recusando-se a olhá-lo. — É melhor eu verificar como andam as coisas com os outros convidados. Já é quase a hora do almoço. Rebecca, foi um grande prazer conhecê-la. Se me derem licença agora... — Vá em frente, meu bem — disse o pai. — Cuidarei para que Rebecca encontre uma cadeira. Trent beijou a mãe na face. — É melhor eu voltar ao trabalho, mãe. — Depois, virou-se para o pai de Julia. — Prazer em conhecê-lo, Matthew. — Apertou-lhe a mão. — Desfrutem o almoço. Até mais tarde. Julia dirigiu-se ao saguão e, antes que percorresse metade do caminho, sentiu Trent pôr a mão em suas costas e desviá-la. — Preciso falar com você — disse, conduzindo-a em direção aos chalés na propriedade. — É importante. A caminhada lembrou-lhe do encontro amoroso dos dois tarde da noite, logo que ela chegara ao Tempestade do Oeste. — De trabalho, certo? — Certo — ele respondeu, fazendo-a seguir em frente e recusando-se a olhar em sua direção. Tão logo chegaram ao chalé vazio mais distante, levou-a para um terraço privativo com um exuberante jardim paisagístico. — Não vou entrar com você, Trent. Lembranças tórridas de seus corpos e do sexo excitante que haviam feito passaram voando por sua mente. Ele soltou o braço da cintura dela, foi até a ponta oposta do terraço e começou a andar de um lado para o outro. — Você contou a seu pai como acabou sendo empregada aqui no Tempestade do Oeste? A pergunta afetou-a e a fez ver por que ele fora tão inflexível quanto à privacidade. — Quer dizer como me seduziu e enganou? — Esta é a sua opinião sobre isso. Contou? Julia deixou-o sofrer um pouco à espera da resposta. Suspirou e levou algum 42
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    tempo encarando-o. — Então?— perguntou, impaciente. — Não. Eu não contei a ele. Mas não por qualquer preocupação com você. Não contei porque, primeiro, não quis que ele soubesse que eu tinha sido enganada com tanta facilidade. De fato tenho algum orgulho. Segundo, porque meu velho na certa iria insistir em que eu partisse já do Tempestade do Oeste. Ele tem uma ética de trabalho sem igual, para não falar de um veio protetor pela filha única. — Querida, você não precisa se proteger de mim. — Avançou um passo em direção a ela, que ergueu as sobrancelhas. — Não,Trent? — Não. Droga, nós dois formamos uma equipe excelente. Dentro e fora do quarto. Julia ignorou o comentário porque em seu íntimo sabia que era verdade. Fora a sabotagem inicial dele, haviam trabalhado bem demais juntos nas últimas semanas. Era um homem competente, eficiente e acessível para aceitar novas ideias. Quanto à cama, tinha certeza de que jamais encontraria um parceiro sexual melhor. — Por que está tão preocupado com meu pai saber da verdade? — Viu-os juntos, Julia. Ele e minha mãe. Droga, não acredito no que vou dizer, mas havia centelhas entre os dois. Você deve ter notado. — Impossível não ver os fogos de artifício. Irônico, não é? Trent aproximou-se mais e baixou a voz para um sussurro áspero. — Por quê? Porque um Lowell acha uma Tyler atraente? Ela balançou a cabeça em uma negativa. — Porque é meu pai e sua mãe. Era só o que faltava. Esperava que tivesse interpretado demais a breve conversa deles minutos atrás, mas Trent também notara. Seu pai sentia-se extremamente solitário nos últimos tempos. Pelo que deduzira, Rebecca Tyler também. Perdera o marido anos atrás e jamais tornara a se casar. Santo Deus, não precisava de mais elos com Trent. Porém, jamais vira o pai tão entusiasmado antes. Parecia sinceramente interessado em Rebecca Tyler. Trent aproximou-se ainda mais, com o olhar escurecido, e sua presença provocava-lhe tremores. Ela recuou contra a parede. — Trent, vá embora. Ele apoiou as mãos na parede ao lado da cabeça de Julia, que, encurralada, podia apenas fitar seu olhar faminto. —- Faça-me ir —- disse, roçando a linha do queixo com o dedo. O toque causou-lhe arrepios. E os tremores intensificaram-se, devastando seu corpo. O pensamento racional abandonou-a, seu coração disparava de desejo. Julia respirou aquele perfume, os vestígios terrosos conhecidos da colônia virando-a do avesso. — Que... você... quer? — Fogos de artifício. Inclinou a cabeça e arrebatou-a em um beijo, que a teria derrubado se ele não houvesse deslizado as mãos para a cintura dela. Puxou-a mais para perto e segurou-a 43
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    com firmeza. Trent, altoe impetuoso, sempre sabia apertar-lhe os botões certos e fazê-la contorcer-se de desejo. Aquele beijo deixou-a sem ar. Julia enlaçou o pescoço de Trent com os braços, trazendo-o mais para junto de si. Ele gemeu quando os corpos se uniram, e sua ereção já era inegável. Encaixou mais uma vez a boca na dela e intensificou o beijo. Julia saboreou cada segundo, esquecendo todos os motivos pelos quais deveria repeli-lo. Trent Tyler não era um homem fácil de afastar. — Encontre-se comigo esta noite — pediu, entre beijos. — Passe a noite em minha casa. Na casa dele? Aquele pequeno e aconchegante lar, localizado na periferia da propriedade? Ah, como ela queria. Em um mundo perfeito, no qual poderia confiar nele, iria ao seu encontro em um segundo, e os dois passariam juntos uma noite gloriosa. Tinha um apetite sexual saudável Trent acostumara-a mal nesse aspecto. Regalara-a com cada fantasia sexual que já imaginara e Julia começava a sentir mais por ele do que por qualquer outro homem que entrara em sua vida. Mas estava longe de ser perfeito. Ele deixara seu mundo bem ordenado de pernas para o ar. — Sabe que não posso — disse, ofegante. — Meu pai está aqui. — A lembrança da presença do pai funcionou melhor do que um balde de água fria. Ele desprendeu-se do beijo e encarou-a. — E sua mãe também — ela acrescentou, aproveitando a oportunidade para se abaixar e escapar. Manteve um metro de distância entre ambos. — Todos esperam passar um tempo conosco hoje à noite. Trent concordou com um vagaroso balanço de cabeça. — Acho que esqueci isso. — Desviou o olhar para a boca de sua paixão, amolecida pelos beijos ardentes. — eu convidei minha mãe para jantar. — E eu convidei meu pai — informou Julia, endireitando o vestido de verão estampado com bolinhas vermelhas e brancas. Trent baixou os olhos para os pés com as sandálias e arqueou uma sobrancelha. — Essas sandálias vão fazer parte de nossa exibição de fogos de artifício. Julia engoliu em seco e examinou as sandálias cor de cereja. Ele passou perto dela, roçando seu corpo, depois parou, enlaçou-a pela cintura de novo... puxou-a para si... e beijou-a rapidamente. — Até a próxima vez, querida. Partiu, saindo do terraço com aquele andar arrogante de derreter os ossos, eliminado toda a dúvida que havia em Julia sobre os motivos de ter um ponto fraco por um caubói tão obstinado. Ela sentou-se ao lado do pai no jantar, de frente para Trent e a mãe, ao ar livre em uma varanda que se estendia num terraço aberto, com o lago do Destino ao longe. O luar cintilava nas águas imóveis como gelo, e o silêncio da noite era interrompido apenas 44
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    pelos baixos sussurrosde outros hóspedes no terraço. Velas grandes e grossas tremeluziam, fazendo sombras nos belos olhos de Tyler do outro lado da mesa. Quando o pai de Julia anunciou que convidara Trent e sua mãe para jantar, Julia não revelara seu desagrado e ocultara o ataque de frustração. A ideia de que Rebecca Tyler pudesse se tornar a uma pessoa importante na vida do pai continuava importunando-a. Significava desastre. Tão logo concluísse o trabalho no hotel, nunca mais queria ter nada a ver com Trent Tyler de novo. Passara maus momentos tirando-o da cabeça, mas ele provara repetidas vezes não merecer confiança. Sabia que não competia com outra mulher, mas sim com o empenho de Trent em vencer a todo custo. — Sinto muito orgulho do meu filho — disse Rebecca, depois que se serviu com vinho. — O Tempestade do Oeste era uma visão e ele não deixaria ninguém desencorajá- lo em seu sonho. O pai de Julia ergueu a taça. — Brindemos ao Tempestade do Oeste e aos nosso pequenos, Rebecca. Parece que ambos temos filhos com visão. — Ora, sim. É uma coisa maravilhosa a que se brindar, Matthew. A evidente diversão nos olhos de Trent fez Julia contorcer-se na cadeira. Brindar à visão dele era igual a esfregar sal nas próprias feridas. Foi a última a erguer a taça, mas, sob o olhar vigilante do pai, acabou submetendo- se e quatro taças tilintaram juntas. Desviou o olhar e tomou um longo gole de vinho. Por mais que detestasse admitir, apreciara o resto da refeição. Trent engrenou em um bate-papo descontraído com seu pai sobre esportes, enquanto ela e Rebecca tiveram uma agradável conversa sobre moda, arte e a criação dos filhos pequenos em uma cidade pequena. — O Texas simplesmente desapareceu de meus outros dois meninos, mas Trent agarrou-se às suas raízes — disse Rebecca. — Evan e Brock adaptaram-se à vida na cidade grande sem dificuldade, mas ele não. Lançou um olhar amoroso ao caçula. — Ora, mãe — provocou Trent, balançando a cabeça no estilo do apatetado Jethro Bodine. — Não continue a falar sobre mim assim. Rebecca cobriu-lhe a mão com a dela e apertou-a. Trent lançou um olhar afetuoso para a mãe e sorriu. O momento não passou despercebido a Julia, que testemunhou o amor e a ternura entre os dois. Quando Matthew sugeriu que todos fizessem um passeio pelo lago após o café, ela foi a primeira a recusar. — Ah, pai, eu adoraria, mas preciso me deitar cedo esta noite. Subira a cavalo o penhasco da Sombra com os convidados à tarde e o passeio saíra de acordo com o plano. Voltara extremamente satisfeita, pois o teste experimental dera certo e todos pareceram assombrados com a vista lá de cima. — Tudo bem, querida. Você terá um grande dia amanhã com o chá de bebê. — Não vejo a hora de me encontrar com Laney — confessou Julia. — Espero que 45
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    a surpresa saiacomo o planejado. — Sairá, meu bem. Você é sempre campeã no que faz. Tenho certeza de que ela não sabe de nada. — Tomara que sim, pai. Matthew encarou os de Tyler na mesa. — Trent? Rebecca? Algum de vocês está a fim de um passeio pelo lago? A mãe logo assentiu com a cabeça. — Que ideia agradável. Trent lançou um olhar na direção de Julia, contemplando-a. — Não, obrigado. Preciso pôr em dia alguns trabalhos. Quero tudo pronto para poder passar o máximo de tempo com Evan e Brock amanhã. — Meus três meninos raras vezes se vêem agora que moram em diferentes partes do país — explicou Rebecca. Quando terminaram a refeição, Trent levantou-se e ajudou a mãe a sair da cadeira. Suas maneiras durante o jantar foram impecáveis. Julia levantou-se junto dos outros e desejou-lhe uma boa noite, agradecendo a Rebecca pelas sugestões e os conselhos sobre arte nativa americana e do oeste. Olhou seu pai afastar-se com Rebecca e seu coração foi na garganta. Se fosse qualquer outra mulher de natureza afável, a filha ficaria emocionada. Ele merecia mais uma vez um pouco de felicidade na vida. — Formam um bom par — disse Trent, vendo os dois rumarem em direção ao lago. Virou-se então para ela. — Você deve detestar a ideia. Horrorizada com essa avaliação brusca, embora fosse em parte verdade, Julia rebateu, irritada: — Sua mãe é um amor de pessoa. Nada parecida com você. E Trent não perdeu a oportunidade de irritá-la mais ainda: — Admita, querida. Não suporta as implicações... minha mãe e seu pai juntos. — Juntos? Minha mente não chega a tão longe assim. — Talvez seja necessário. Matthew não para de dar em cima da minha mãe. E ela não se queixa nem um pouco. — Tenha santa paciência. Eles mal acabaram de se conhecer! — Como mal tínhamos acabado de nos conhecer... no casamento de meu irmão? Ele ergueu uma sobrancelha provocativa, fazendo-a fechar os olhos um instante. — Pois bem, esta é uma imagem que não quero ter na mente. — Talvez os Tyler se sintam atraídos pelos Lowell. Pode ser genético. Acho, porém, que se trata mais de uma questão de excelente gosto. O coração de Julia parou. Ela fitou os magníficos olhos escuros de Trent, que abriu um afetuoso sorriso. — Você tem um convite em aberto à minha casa, querida. Quero você lá... comigo. A qualquer hora, dia ou noite. Deixou-a e dirigiu-se a entrada dos fundos do saguão. 46
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    Com os joelhosfracos, ela deixou-se cair na cadeira, segurando nas laterais para salvar sua vida preciosa. Se ao menos ele falasse a sério. Mas em seu íntimo sabia que a descartaria assim que o contrato terminasse. Tão logo ajudasse o Tempestade do Oeste a prosperar, tão logo Trent ganhasse aquela aposta com o irmão, ele seguiria em frente. Fora vítima de seu charme uma vez antes e saíra profundamente ferida. Tudo que o interessava de verdade era o hotel. — Julia, você se sente bem? — Kimberly surgiu diante dela. — Kim? Ainda está aqui? Achei que tinha ficado exausta após o passeio a cavalo até o topo do penhasco da Sombra. — Estou exausta. — Instalou-se na cadeira ao lado, de frente para a mesa, enquanto os garçons tiravam os pratos. — Mas fiquei até tarde para terminar uns trabalhos do escritório. Julia sorriu. — Você é dedicada. — E meio frustrada. Julia esqueceu os problemas com o desafeto e concentrou-se na jovem. — O que houve? Kim encolheu os ombros. — É Pete. Acabei tendo coragem para falar com ele. A gente se viu três vezes e conversou. Fui a mais óbvia o possível, sem me atirar nos braços deles, e acho que está interessado, entretanto... nada. Toca a aba do chapéu, sorri e se afasta. Julia baixou os olhos para a toalha. Era a última pessoa a quem qualquer um devia pedir conselho sobre namoro. Onde estava com a cabeça ao tentar juntar Kim com Pete? Tratava-se de uma clássica obviedade. Não se envolver com alguém com quem a gente trabalha. — Às vezes, é para o melhor — murmurou. — Como? É esta a mesma mulher que planejou me deixar a sós com Pete no outro dia? — Isso não foi planejado — explicou Julia, mudando de opinião. Se o que Trent disse sobre Pete era verdade, a jovem talvez saísse magoada. — Tive boas intenções, mas algumas coisas não se destinam a acontecer. Kim semicerrou os olhos. — Você não está falando mais de Pete, está? Vi os olhares que você e Trent dão um ao outro. Ambos emitem centelhas quando estão perto um do outro. — Às vezes, as centelhas explodem na cara da gente, Kim. Tive um romance no trabalho antes. Não deu certo e foi embaraçoso por um longo tempo depois. Kim encarou Julia e baixou a voz. — Sinto muito. Julia encolheu os ombros. — História antiga. Então Kim confidenciou: — Acho que estou apaixonada por Pete. 47
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    Julia pôs afetuosamentea mão no braço da jovem em total compreensão. Problemas do coração devem ser tratados com delicadeza. — Acho que você talvez esteja. Deixe tudo correr de forma natural. Seja paciente e veja para onde se encaminha. Forçar a barra seria um engano. — Tento ser paciente. É difícil. Julia assentiu com a cabeça. Não fora muito esperta com Trent, mas tentava corrigir seus erros nos últimos tempos. — Sinto muito. Não fui muito incentivadora esta noite. — Já saquei, Julia. Você também está apaixonada. Ela arregalou os olhos e ergueu as sobrancelhas em surpresa. — Não. Não estou. Embora as palavras saíssem facilmente de seus lábios, de algum modo duvidou de que Kimberly engolisse o que dissera. — Certo. — Vamos esquecer os homens por hoje à noite e nos concentrar no chá de bebê. Sinto-me tão grata pela ajuda que você vai me dar amanhã. Quando as duas se levantaram e enlaçaram os braços, afastando-se juntas, a mente de Julia encheu-se de bebês com carinhas de anjo, cheirinho gostoso e bolo com cobertura azul-clara. Pensamentos muito mais felizes. Era um chá de bebê à moda antiga, como ela e Laney sempre haviam planejado, sentadas nas cadeiras de vime no café em frente à praia em Los Angeles, quando ainda eram meninas fantasiando os sonhos de adultas. Julia mandara armar uma enorme tenda branca junto ao lago, bem próxima do cais. Mesas para oito, cobertas com toalhas azuis e brancas e decoradas com arranjos de flores, pequenas mamadeiras cheias de bala e minúsculos sapatinhos de bebê tricotados a mão. Também mandara instalar jogos nas mesas, já prontos, e se os homens presentes chiassem problema deles. Iam usar saia de papel-toalha para adivinhar o tamanho da barriga de Laney e fazer palavras cruzadas sobre bebês. A escultura de gelo em forma de um bebê segurando a mamadeira numa banheira derretia um pouco no calor matinal do Arizona, mas lhe haviam garantido que tinha três horas de vida gelada, antes de se desfazer numa poça. Os hóspedes convidados já estavam sentados às mesas, e com as abas de lona em três lados da grande tenda baixadas, escondidos da visão de qualquer um que saísse da entrada dos fundos do hotel. Com tudo pronto, Julia aguardava impaciente agora, ansiosa por levar a surpresa a cabo e rever os amigos. Brock Tyler, irmão de Trent, aproximou-se dela. — Trent disse que eles chegaram e instalaram-se no quarto. Vai trazê-los aqui fora para uma visita pela propriedade. — Obrigada — disse Julia, fitando os mesmos olhos escuros da família Tyler. 48
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    Brock era bonito,mas não de uma maneira áspera, absurda, como o caçula. Com as mãos enfiadas nos bolsos da calça larga pregueada, usando terno Armani sob medida, tinha a aparência temerária. Um rasga-corações de um tipo diferente, ela supôs. — Estou muito feliz por Evan ter o primeiro neto Tyler — disse, com um sorriso. — Alivia a pressão sobre mim. — Sua mãe está emocionada. — O bastante para deixar a mim e a Trent em paz por algum tempo? Julia deu de ombros. — Não a conheço tão bem assim, mas imagino que vá acabar querendo mais netos... — Esta será a próxima tarefa de Trent. Ela ergueu de repente a cabeça, imaginando Trent como pai. Brock encarou-a, notou-a pensando na ideia, e piscou como quem sabe das coisas. — Foi o que imaginei. — Como? — ela perguntou, convencida de que o irmão de Trent já sabia demais sobre seu relacionamento com ele. Brock se inclinou e sussurrou-lhe no ouvido: — Se meu irmão não estiver namorando você, eu ficarei preocupado com ele. — Oh, não estamos namo... — Aí vêm eles — gritou Kim, acenando com o celular. — Meus espiões disseram que os dois acabaram de sair do hotel. Brock conduziu Julia tenda adentro e ela checou mais uma vez as laterais, certificando-se de que estavam seguras. — Por favor, pessoal, todo mundo faça o máximo de silêncio. Trent vai contornar a tenda e trazê-los pelo lado aberto. Minutos depois, Trent conduzia Evan e Laney à frente da tenda, que estava voltada para o lago do Destino. — Surpresa! — gritaram todos. Laney recuou um passo, os olhos arregalados e a expressão cheia de admiração. Correu o olhar pelas mesas, vendo todos os amigos mais íntimos e a família em pé, agora com sorrisos e batendo palmas. Quando encontrou os olhos de Julia, os seus encheram- se de lágrimas. — Oh, Jules, é exatamente como a gente... Não conseguiu proferir as palavras e a amiga correu até ela. Abraçaram-se, Julia apertando-a o máximo que pôde por causa da barriga crescente da futura mamãe separando-as. Então, pegou suas mãos e recuou para examinar a melhor amiga. — Você está linda, querida. Evan beijou a face da esposa. — É o que não paro de dizer a ela. — Beijou Julia no rosto, em seguida. — Você 49
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    conseguiu. Laney nãodesconfiou de nada. — Não desconfiei mesmo — disse Laney, assombrada. — Obrigada, Jules. Isso é... perfeito. — Virou-se para o marido. — Sabia o tempo todo e escondeu de mim? Você é bom, Evan. Muito bom. Evan assentiu com a cabeça. — Vivo lhe dizendo que sou. Então, a homenageada concentrou a atenção nos convidados. Cercada por amigos, colegas de trabalho mais próximos e parentes, apontava todos com o dedo. — Vocês não deixaram transparecer nada. — E semicerrou os olhos de brincadeira. — Não sei se vou confiar mais em nenhum dos presentes. Todos riram. Evan tomou-a pela mão e eles se juntaram à multidão, abraçando e cumprimentando cada um. O pai de Julia e Rebecca Tyler aproximaram-se dos futuros papais juntos. Outro nó de medo apertou-se em Julia por um segundo, mas sua alegria por ver Laney tão feliz repeliu a momentânea hesitação. Trent deu ordem para suspender as abas laterais da tenda, e três homens trabalharam para prendê-las de modo que todas as paisagens do lago e da propriedade se abrissem para os convidados. A brisa matinal, tépida, fresca, dissipara o calor e Julia não podia ter pedido um dia mais glorioso. — Você conseguiu — disse Trent, com um indício de admiração. Ela relaxou por um momento e suspirou de prazer. — Eu queria que tudo saísse perfeito. Estou muito feliz com o resultado. — A milagreira em ação — ele provocou. Com um sorriso e uma inclinação da cabeça, ela rebateu, também brincando: — Diz isso agora, mas vamos ver o quanto gostará de mim quando o fizer pôr uma fralda num boneco bebê. A expressão dele empalideceu e Julia riu. — Receio que todos os homens na festa tenham de competir. E você, tio Trent, será o primeiro. Julia afastou-se de Trent, conduziu Evan e Laney aos seus lugares na mesa principal, e anunciou que o brunch ia ser servido. Surgiram os garçons com o primeiro prato e ela cuidou para que todos recebessem atenção, circulando entre as mesas e falando com os convidados até sentir uma mão forte segurar-lhe com delicadeza o braço e guiá-la para a mesa principal. — Sente-se — ordenou Brock, com um encantador sorriso ao indicar-lhe uma cadeira ao lado de Laney. Ele instalou-se no outro lado dela, que se viu diante de Trent no outro lado da mesa, mas ele não a olhava. Com olhos semicerrados, ele fulminava o irmão e o braço que pusera possessivamente nas costas da cadeira de Julia. Laney riu baixinho, apenas para a melhor amiga ouvir. Inclinou-se e sussurrou: — Os Tyler são muito competitivos quando querem alguma coisa, querida. Assim ela deduzira, e à futura mamãe, amiga querida e perceptiva, não escapara 50
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    nada. Parecia quea gravidez não embotava a intuição feminina, mas, em vez disso, refinava-a ao máximo da precisão. Julia não era prêmio de competidor algum. Ergueu o garfo e mergulhou-o na salada de pepino, ignorando Brock e Trent, aquele que destruíra toda a confiança que tinha nos homens. CAPÍTULO SETE — Não posso perdoá-lo, Laney. Não confio nem um pouco nele — ela disse naquela noite. Minutos depois de ficar a sós com a melhor amiga, Julia revelara o segredo sobre o relacionamento com Trent, não deixando nada de fora. Laney não o aceitaria de outra forma e as duas tiveram a oportunidade perfeita de conversar, pois os irmãos Tyler tomavam drinques no Sunset Bar. Deitou-se atravessada na cama da suíte do casal depois de ajudar a homenageada a fazer uma lista de agradecimentos pelos presentes que recebera. Julia amarrava e desamarrava num laço a bonita fita azul que tirara de um embrulho no chão. Laney fechou o livro do bebê que estava olhando, sentada em uma confortável poltrona de couro, e encontrou o olhar de Julia. — Trent é muito ambicioso. E competitivo. Mas um cara por quem vale a pena lutar. — Então você acha que vou esquecer o que ele me fez? — Evan preparou-se para destruir a empresa de meu pai e eu o perdoei. — Sem querer ofender, querida. Mas você não tinha muita opção. A amiga afagou amorosamente a barriga. — Diz isso porque engravidei? Julia assentiu com a cabeça, esperando não ter sido muito brusca. — Foi a melhor coisa que podia ter acontecido comigo. Se não fosse pelo bebê, Evan e eu talvez nunca tivéssemos nos unido. Eu realmente o odiei — disse. Depois o rosto irrompeu num grande sorriso. — Por um segundo. — Minha situação com Trent é muito diferente. -— Julia puxou o laço e o desfez pela última vez, deixando a fita cair no chão. Sentou-se na cama e cruzou as pernas. — Meu orgulho levou uma surra. Ele me magoa. — Mas a quer, Julia. Tive de vê-lo com você hoje por apenas um minuto para notar isso. Brock correu risco de acabar em chamas por causa dos olhares que Trent lançava — ela riu. A amiga também sorriu, com a imagem ainda fresca em sua mente. 51
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    — Eu notei.— E julgou o fato um pequeno consolo. Parecia que ele competia com Brock em todos os sentidos. — Como é que Evan não faz parte dessa imensa rivalidade entre Brock e Trent? — Porque está perdidamente apaixonado e não participa mais desses jogos — respondeu a grávida com toda seriedade. Então desatou a rir. — Brincadeira, Evan também é muito competitivo. Mas o pai morreu quando os meninos eram pequenos, e, sendo o mais velho, assumiu grande parte da responsabilidade. Além disso, ele quer que os hotéis prosperem e não se acha acima de uma boa e saudável competição entre os irmãos. Todo mundo tende a ganhar. Julia entendia isso, apenas desejava que não houvesse sido um peão no jogo de Trent. Laney deixou o livro do bebê de lado e aproximou-se, tomando a mão da amiga. — Escute, eu nunca vi você assim. Trent a deixou obcecada, não? — Com toda franqueza, desde o minuto em que pus os olhos nele. Como posso permitir que me apaixone por um homem em que não confio mais? Devia ter aprendido a lição com Jerry Baker. Era um alpinista social e me usou para promover sua carreira. Para mim, os dois não são muito diferentes. Laney levantou-se da cadeira e acomodou-se ao lado da amiga na cama. Uma ao lado da outra, ficaram caladas por algum tempo, quando a primeira quebrou o silêncio. — Se Trent não tivesse feito o que fez, você não estaria aqui neste momento. Julia fez que sim com a cabeça. — Estaria no caminho profissional que eu tinha escolhido para mim. — Desistiria de tudo o que tem feito aqui? As experiências pelas quais tem passado, se pudesse voltar atrás? — Quer dizer, se jamais tivesse me envolvido com Trent? — É. Trocaria não chegar nem a conhecê-lo, pelo que abriu mão? Pense nisso. Ela pensou em Trent. Vigoroso e bonito, inteligente e divertido... quando se davam bem o considerava tudo que queria num homem. Imaginara uma vida com ele. Que mulher não ia querer seu próprio caubói cinco estrelas? — Não é uma pergunta justa, Laney. — Talvez não seja, mas às vezes temos dar esse salto de fé. Temos de descer ao limbo para conseguir o que queremos. Mesmo quando não nos concedem quaisquer garantias. O que Trent fez a você foi terrível. Cometeu um erro... — Seu cunhado não pensa assim — interrompeu-a. — Tudo bem, então ele não é perfeito, mas por acaso sei que é um bom homem em inúmeros aspectos, Tem como maior defeito a ambição que o deixa cego. Evan também era assim. A mulher certa pode mudar isso num homem. Julia escutava a amiga, absorvendo tudo. Ainda perplexa, perguntou: — Quer dizer que devo mergulhar de cabeça sem saber se há água suficiente? Laney apertou levemente as mãos de Julia. — Só você sabe responder essa pergunta. — Depois sorriu. — Sempre seremos como irmãs. Mas não seria maravilhoso se fizéssemos parte da mesma família? Eu não desejaria nada mais. 52
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    Embora revolvesse aagradável ideia várias vezes em sua mente, Julia não conseguia forçar-se a acreditar que isso sequer chegaria a acontecer. — Você continua sonhando com a nossa Rainha das Ilhas, amiga. Acho que talvez eu tenha amadurecido demais para realizar esses sonhos. — Nem se permita pensar nisso! — declarou Laney com uma feroz expressão; — Você vai conseguir tudo o que quer na vida, Jules. Nem que eu mesma tenha que enfiar a força algum juízo em Trent. Julia riu da natureza protetora da amiga e amou-a ainda mais por isso. — Agradeço a ideia, mas você prometeu não dizer uma palavra. Quero que mantenha essa promessa. — Certo, bem, talvez eu não devesse ter prometido. — Laney levantou-se para alongar as costas. Espreguiçou-se, com a barriga projetando-se um pouco para fora. Embora a futura mamãe discordasse, Julia sabia que esses sonhos de felizes para sempre não se destinavam a todos no planeta, mas não queria discutir a questão com a melhor amiga. — Ah! — exclamou Laney, a expressão de assombro e deleite ao pegar a mão de Julia. Estendeu-a sobre a barriga arredondada e a outra sentiu o movimento e depois um nítido e rápido pontapé agressivo. — Cumprimente a sua tia Julia, bebê — sussurrou. — Olá, bebê Tyler — disse a futura titia em voz baixa, emocionada pela melhor amiga e ansiosa por conhecer a nova vida que ia chegar ao mundo em breve. Recusava-se a deixar que pensamentos dos próprios problemas estragassem esse precioso e delicioso momento. No dia seguinte, Laney, Evan e todos os convidados voltariam para casa. Tudo no Tempestade do Oeste retornaria ao normal. Ela se concentraria no trabalho e tentaria evitar se apaixonar por Trent Tyler. — Você gosta dela — disse Brock, cutucando o ombro de Trent, enquanto os três irmãos relaxavam no bar. Trent virou-se de costas para o bar e recostou-se no balcão para olhar diretamente o lado de fora, fitando a paisagem escurecida iluminada por milhares de estrelas cintilantes. A brisa de outubro, com apenas uma pontada de frio, perturbava-o mais do que Brock jamais conseguira. Tomou um gole do uísque, a bebida forte e escura deslizando macia pela garganta. — Tente mais uma adivinhação. — Você sente visível atração física por ela — continuou Brock. Trent não precisou olhar o irmão para saber que sorria, convencido. Encolheu os ombros. Tivera anos de prática para não permitir que ele levasse a melhor. — Não é da sua conta. Dez mesas altas com pedras embutidas e tamboretes cor de canela com tampo de couro cru circundavam a pequena área, planejada como um tranquilo repouso para os hóspedes do Tempestade. Administrado por um experiente barman, Trent sempre gostara do bar ao ar livre, feito de pedra nativa para parecer que havia sido escavado direto em Crimson Canyon. 53
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    — Ela émagnífica — insistiu Brock. — Eu diria que também tem miolos, pois você a contratou para retirar este lugar do lixo. Passei a conhecê-la um pouco hoje. — Paquerou-a e ela não retribuiu — disse Evan, rindo. — Ora, isso é que é uma mulher inteligente. Sem graça, Brock continuou: — É um desafio, mano mais velho? Sabe que eu amo uma boa competição. Evan ergueu as palmas em um gesto para parar. — Isso é entre você e Trent. Apenas afirmo o óbvio. Sua sedução entrou em queda livre hoje. Trent soltou uma risada. O outro a ignorou. — Se não estiver interessado, eu a quero... — Desista. — Trent largou uísque com soda e encarou Brock bem nos olhos. O irmão virou-se com um sorriso nos lábios, assentindo com a cabeça. — Acho que obtive minha resposta. — Tomou o resto da bebida e indicou com um gesto ao barman que trouxesse outra. — Circula um rumor por aí sobre a rapidez com que foi fechado nosso contrato com os restaurantes Bridges. Parece que o negócio tem algo a ver com a contratação de Julia. — Ela lhe contou isso? Curioso, Trent perguntou-se o quanto Brock sabia sobre o envolvimento de Julia com o Tempestade do Oeste. — Digamos apenas que tenho bons instintos — respondeu o irmão, com um sorriso muito curto. — E sei somar dois mais dois. Vínhamos protelando o contrato havia meses, e de repente você pressiona em favor dos restaurantes Bridges, fechando o negócio. Trent balançou a cabeça. — Você sem dúvida anda matutando muito para um cara que acha que vai ganhar. Talvez esteja roendo a corda após ver este lugar... — Roer a corda? Droga, não. Vou derrotá-lo facilmente. Este lugar — começou, lançando um olhar em volta — é legal. Tem atmosfera e estilo. Mas é remoto e não oferece o suficiente para fazer os clientes voltarem. Trent ignorou o comentário. Acreditava nas ideias de Julia para o Tempestade do Oeste. — Se tem tanta certeza, deseja aumentar a aposta? — Quer dizer, fora pôr nossos egos e orgulho em risco? O que tem em mente? Enquanto Trent pensava num prêmio conveniente, Evan sugeriu: — Que tal o bird? — Certo, esse é seu, Ev — disse Brock, a voz com um tom de inveja. Aquele clássico Thunderbird encontrava-se parado na garagem da mãe havia anos e recentemente ela anunciou que queria desfazer-se do automóvel. De fato, insistiu. — Por direito, o carro vai para você. — Como é o filho mais velho — Trent observou, rindo. Evan mordeu os lábios. 54
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    — Ah, mastenho tudo o que quero agora. E não sou fanático por carros. Nunca o quis nem a metade do quanto queriam você e Trent. Ambos olhavam aquele carro com baba escorrendo pela boca quando eram garotos. Tinha planejado dá-lo a um dos dois de qualquer modo, apenas não sabia decidir a qual dos dois dar. Isso é melhor que sorteio, não? — perguntou. — Como os dois têm certeza de que vão ganhar a aposta. Trent e Brock entreolharam-se e assentiram com a cabeça. Parecia um bom plano. Evan tinha razão, Trent adorava o carro e a promessa desse prêmio apenas intensificaria sua determinação de fazer do Tempestade do Oeste um sucesso. — Estou nessa. — Eu também — disse Brock. Trent apertou a mão do irmão. — Fechado? — Fechado. — Como os dois foram nossos padrinhos de casamento como os amamos de todo o coração — começou Laney, olhando primeiro para Julia e depois para Trent — Evan e eu gostaríamos de fazer a ambos uma pergunta. Sentada ao lado do marido, ela segurou-lhe a mão enquanto os quatro se sentavam à mesa de granito e carvalho na sacada da suíte do casal, que dava para o pátio, A luz matinal projetava uma suave cintilação no lago do Destino, à medida que o sol se erguia acima de Crimson Canyon. A mesa fora posta com elegante porcelana branca e rosas amarelo-bebê adornavam o centro. O aroma de café recém-passado enchia o ar, e o entusiasmo de Laney e Evan apenas acrescentava mistério ao convite para o desjejum nessa manhã. Você dois têm de vir juntos para o café da manhã. Laney olhou para Evan e, quando ele assentiu com a cabeça incitando-a a continuar, a esposa sorriu e os dois partilharam um olhar secreto e amoroso. Um jorro de ternura inundou o coração de Julia. Ah, se um homem a olhasse daquele jeito. Com carinho e sinceridade escritos com toda a clareza no rosto. Ela não queria prender a respiração, mas uma poderosa força dentro de si dizia que merecia ser amada assim. Não se contentaria com menos. Lamentavelmente, não julgava Trent capaz de tal amor, pelo menos não por ela. Ele deixara bem claro suas prioridades, portanto não ousaria nem ter esperanças. A voz sincera da amiga interrompeu seus pensamentos. — Evan e eu ficaríamos honrados se os dois aceitassem ser padrinhos de nosso filho, quando ele chegar. O convite pegou-a de surpresa. Sempre esperara ter a honra, mas ouvir Laney dizer aquelas palavras tornava tudo muito real. Comovida às lágrimas, não conseguiu falar. Dominada por emoção, pôde apenas balançar a cabeça para cima e para baixo. Debaixo da mesa, Trent colocara a mão na coxa dela. Os dois travaram olhares por um momento, a insinuação de um sorriso surgindo no rosto dele. — Acho que isso quer dizer sim. De ambos. Trent apertou levemente a perna de Julia e depois retirou a mão. Todos se levantaram e começaram a falar ao mesmo tempo. Evan apertou a mão 55
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    do irmão eeles se abraçaram, terminando o cumprimento com um viril tapa nas costas, enquanto Laney e Julia agarraram-se com vontade, as lágrimas fluindo livremente. Então os homens trocaram de lugar, Evan agradecendo-a com um beijo enquanto Trent abraçava a cunhada. O futuro papai serviu champanhe e brindou aos padrinhos do primeiro filho. — Ao meu irmão, Trent — disse. Laney ergueu aflute e acrescentou: — E à minha melhor amiga, Julia. — Trent e Julia também ergueram as taças finas, tilintaram-nas e beberam champanhe. Laney tomou um pequeno gole e baixou a faça primeiro que todos. — Obrigada aos dois. Sabemos que serão excelentes padrinhos. Eu só gostaria que pudéssemos ficar mais tempo, porém tenho uma consulta com o médico amanhã. — E eu tenho de voltar ao trabalho. Preciso ganhar dinheiro para pagar o ensino superior do meu filho — disse Evan com uma piscadela. Laney balançou a cabeça e riu da brincadeira do marido. — Que tal pensar primeiro em matriculá-lo no maternal, antes de despachá-lo para a universidade? Quando terminou o café da manhã, despediram-se, com Evan prometendo telefonar no minuto em que a esposa entrasse em trabalho de parto. Julia planejava estar presente para o nascimento, não importava como. Acompanharam-nos até o lado de fora, onde uma limusine marfim esperava-os para levá-los ao aeroporto. Mais tarde, no mesmo dia, Julia também se despediu dos outros convidados que haviam vindo para o chá de bebê. Despedir-se do pai não foi fácil, sobretudo porque ele parecia meio abandonado. Escutou-o dizer a Rebecca Tyler que lhe telefonaria, e a filha não achou que o dissera de maneira platônica. Planejava continuar o relacionamento e a mãe de Trent parecia extremamente satisfeita. — Você os deixou de queixo caído — o pai dissera-lhe antes de partir. — Claro — ela respondera. — Poderia ser diferente? Beijaram-se e prometeram telefonar-se dia sim, dia não. Já avançada a tarde, Julia recostou-se na cadeira do escritório, perdida por completo em pensamentos. Ainda tinha muito a fazer. Os convites foram programados para serem enviados durante a semana junto com os inovadores folhetos. Torcia para que a exclusiva e nova imagem do Tempestade do Oeste viesse em breve a público, com grande alarde. Só notou a entrada de Trent quando ergueu os olhos e viu-o parado perto da escrivaninha, de jeans surrados que evidenciavam os quadris estreitos. Com o chapéu de feltro preto cobrindo a testa, deixara a camisa xadrez azul-escura desabotoada no pescoço... e exibia uma expressão ousada nos olhos. Julia sentiu o coração dar uma cambalhota. Como um mecanismo de defesa, logo adotou o modo profissional, erguendo o modelo do convite em tamanho natural. — Vamos chamá-la de nossa festa do aniversário de seis meses... só para convidados especiais. Uma reabertura grandiosa dá a impressão de que saiu alguma 56
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    coisa errada coma inauguração inicial. — Bem pensado. Trent contornou a escrivaninha e apoiou-se na borda, esticando-se diante dela e cruzando as pernas nos tornozelos até o couro chiar quando as botas se tocaram. Cruzou os braços no peito e a encarou. O ar-condicionado pifara ou a súbita sensação de calor que se espalhou por Julia devia-se ao aumento da temperatura de seu corpo, como se mato seco pegasse fogo. Toda vez que achava ter conseguido controlar a atração que sentia por aquele homem, ela retrocedia. — Pare de me olhar — disse, irritada, desviando a atenção para o layout do novo folheto, mas não antes de notar o sorriso de Trent... aquele maldito sorriso convencido de consegui perturbá-la que a fazia querer sorrir junto com ele. — Quero fazer mais que apenas olhar você, querida. Ela fez que não com a cabeça. — Isso não vai acontecer. — Quer fazer uma aposta? Julia empurrou os papéis para o lado, desistindo. Ele não queria falar de trabalho. Um profundo suspiro escapou-lhe quando respondeu: — Há coisa demais sendo apostada aqui. Sei que o clássico carro restaurado de seu pai está disponível para quem o agarrar. Laney pusera-a a par. O pai morrera jovem, mas tinha uma queda por carros antigos. Só pudera comprar um restaurado, um Thunderbird azul-turquesa de 1959. A amiga disse que era o orgulho e a alegria do pai, e todos os meninos queriam a posse da relíquia em um determinado ponto da vida. — Vou agarrar esse prêmio, com absoluta certeza. A confiança dele desconhecia limites e isso não era algo que em geral ela admirava. Mas em Trent caía como uma luva de couro cru. — Espero que sim. Isso significará que concluí minha missão. Agora, se me der licença, é melhor eu voltar ao trabalho. — Não dou — disse, sem rodeios. Então se inclinou, tomou-lhe a cabeça com uma das mãos e puxou-a para perto. Observou seus olhos um instante antes de beijá-la, ensandecido. O beijo durou um minuto, e quando Julia subiu à tona em busca de ar percebeu que ele a pegara em um momento de fraqueza. Tinha motivos para estar com as emoções balançadas, desde as alegrias do chá de bebê e o convite para ser madrinha do filho de Laney, à apreensão e preocupação de observar o pai se envolver com a mãe de Trent. Achava exaustivo tentar manter distância do chefe e ainda sofria a pressão extra de fazer um milagre no Tempestade do Oeste. Em poucas palavras, ele sabia quando ela ficava mais vulnerável. Sabia os botões a apertar para ligá-la. Também sabia como seduzi-la a entregar-se. Trent levantou-a, Julia encaixou-se sem resistência naqueles braços, então ele pôs as palmas das mãos estendidas na escrivaninha e apertou-a contra si o suficiente para fazê-la sentir sua maciça ereção. Disse-lhe no ouvido com uma calma feroz: — Quero deitá-la nessa mesa e mergulhar meu corpo tão fundo e por tanto tempo dentro de você que ambos aqueceremos que planeta é este. 57
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    Que planeta eraaquele? Ela olhou a escrivaninha com uma profunda dor de desejo no ventre. Trent inclinou a cabeça e deu-lhe um rápido sorriso. — Julia, tenho uma pergunta... — Kim irrompeu no escritório equilibrando uma pilha de arquivos nos braços. Parou de chofre no meio da sala, uma estátua imobilizada, com olhos azuis arregalados de surpresa. — Oh, lamento... lamento muitíssimo — e recuou escritório afora enquanto a outra se afastava de Trent. — Volto mais tarde — murmurou, evitando-lhe o olhar. — Faça isso, Kim — disse Trent, rindo. Um calor escaldante tomou a garganta de Julia. Assim que Kim desapareceu, balançou a cabeça e apontou o dedo para Trent. — Como espera que eu conclua meu trabalho se entra aqui e, e... Ele encolheu os ombros e endireitou o corpo. — Não foi planejado, Julia. Ela fechou as mãos em punhos e apoiou-as nos quadris. — Não? — Eu vim aqui por um motivo. — Embora Trent mantivesse a atitude controlada, ela notou, além disso, a crescente frustração. — E não foi para seduzi-la, querida... não que seja uma ideia ruim. Se o momento escolhido por Kim não tivesse sido tão abominável, você estaria nua e estendida nesta escrivaninha agora mesmo, e nós... — Basta! — Julia afastou com um aceno de mão a imagem sexy e tórrida, mas não pôde fazer muito sobre a vibração entre as coxas. O presunçoso e confiante texano retornara, e ria. — Você gosta da ideia. A firmeza dela vacilou. Ele desestabilizava-a com aquelas declarações e insinuações. A bem planejada disciplina afrouxava-se quando ele sorria! Seu corpo a traía quando ele a tocava. Julia examinou os layouts na escrivaninha, ocultando o desejo que ele provocava nela. — Tenho trabalho a fazer. — Exalou outro suspiro. — Diga-me o que o fez vir ao meu escritório. Trent sorriu e seus olhos dançaram. — Os cavalos selvagens chegaram. — Julia piscou. Os cavalos selvagens que ele planejava deixar soltos além do penhasco da Sombra haviam chegado. — Pensei no que você disse sobre pôr em risco os hóspedes. Acho que encontrei uma solução. — E? — Eu gostaria que você visse o que tenho em mente para eles. — Com o olhar firme, esperou pacientemente a resposta dela. Julia não sabia qual Trent Tyler era mais perigoso, o que a teria enviado ao paraíso do faroeste na escrivaninha minutos antes ou o que lhe valorizara a opinião o bastante para pôr o ego, o dinheiro e o orgulho em risco. — Então? — ele perguntou. 58
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    — Vamos —ela disse, decidindo que a ação mais segura seria sair a cavalo para o penhasco da Sombra do que ficar a sós com ele na... escrivaninha dela. CAPÍTULO OITO — Sarah Rose chegou — anunciou Kim ofegante, a expressão de temor reverente. — Não consigo acreditar, Julia! Sou fã dela. Adoro as músicas que ela canta. Julia logo se levantou. Pedira a Kim que a avisasse no minuto em que a limusine de Sarah encostasse. — Nada de fãs efusivas, Kim. Lembre-se, ela está chegando antes da hora em busca de um pouco de descanso e relaxamento. Devemos tratá-la como uma hóspede especial. Sua intimidade é essencial neste momento. —Eu sei — disse a jovem, torcendo as mãos. — Eu a manterei, prometo. — Onde está Trent? — perguntou, ao cruzar a porta do escritório, Kim apenas passos atrás. — Saiu a cavalo para verificar mais uma vez os cavalos. Voltará lá pelo meio-dia. Ele concordara em fazer uma concessão e protegera a área acima perto do penhasco da Sombra para os hóspedes, erguendo uma cerca e usando barreiras naturais para garantir a segurança deles. Isolara uma pequena área de terra para fazê-lo, assegurando com isso a liberdade dos cavalos selvagens e permitindo aos hóspedes uma vista boa e segura do penhasco da Sombra. Tudo dera certo com os cavalos selvagens. Felizmente, Trent saíra-se bem com uma concessão viável e Julia ficara impressionada com os resultados, admitindo que quando se consideravam todos os fatos, o empregador sabia ser um homem razoável. À parte alguns olhares sensuais, famintos, e alguns comentários sugestivos nas últimas semanas, fora uma pessoa fácil com quem trabalhar e pusera o relacionamento anterior de ambos em banho-maria por um momento. Julia sentiu-se grata pela suspensão temporária da provação. Haviam posto juntos a cabeça para funcionar e fizeram um bom trabalho ao transformar o Tempestade do Oeste de acordo com a visão que Julia tinha para o hotel. Contrataram o artista plástico Ken Falcão Amarelo... um índio cherokee... e providenciaram para que suas esplêndidas paisagens fossem destacadas na galeria Tempestade. Ele chegaria com um currículo completo de realizações e passaria meses ali no Tempestade, oferecendo palestras, aulas e inspiração aos amantes da arte. Sarah Rose atrairia os aficionados por country music. Os impressionantes desfiladeiros e pores do sol do sudoeste eram um perfeito cenário para suas baladas sentimentais e alegres melodias. — Certo, isso é bom — disse a Kim. — Trent a conhecerá mais tarde. Vou acompanhá-la até a suíte e certificar-me de que fique bem instalada e confortável. — Kim 59
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    lançou-lhe um olharresignado, os lábios franzidos num biquinho tristonho. Mia riu, divertida. — Prometo que logo a apresentarei. Preciso que você verifique a segurança extra que nosso chefe providenciou durante a estada de Sarah aqui. Kim assentiu com a cabeça. — Ele é esperado hoje. Cody Landon. — Vem em pessoa? Nossa, Trent apostou tudo nisso. Cody "Code" Landon era dono de uma agência de segurança de alta tecnologia de bilhões de dólares. Pelo que Trent dissera, era o melhor em seu ramo, e a empresa tinha ligações com a rede de hotéis Tempestade, com os sistemas de segurança instalados em todos os hotéis. — Trent disse que o dono insistiu em vir pessoalmente. Talvez também seja um fã — acrescentou Kim. — Por favor, avise quando ele chegar. É melhor eu ir. Uma emoção percorreu todo o corpo de Julia quando desceu o elevador e atravessou o saguão para saudar Sarah em carne e osso do lado de fora. A visão que idealizara para o Tempestade do Oeste logo se tornaria realidade. Não mais condenado a ser apenas uma parada durante a viagem a caminho para algo mais grandioso, o hotel se tornaria um destino exclusivo, um lugar para os hóspedes relaxarem, apreciarem a vista do lago, passearem pelos desfiladeiros a cavalo e participarem de concertos privativos e conferências de arte ministrados por renomados artistas em seu campo. Julia programara alguns churrascos com fogueiras para cozinhar os chamados "Assados na Brasa" para hóspedes que precisavam de lanches tarde na noite. Coagira Pete a dar lições matutinas de arreios e tratamento de cavalos nos estábulos antes de os hóspedes passearem montados, tido fora planejado para fazê-los se sentirem como participantes ativos. Podiam participar de todas as atividades programadas ou simplesmente não fazer nada. Viva nossas lendas ou crie a sua. Julia aspirou oxigênio para os pulmões e sorriu, sentindo a energia da empolgação que se percebe quando tudo e encaixa como planejado. Profissionalmente, conhecia sucesso e tinha absoluta certeza de que o hotel de Trent prosperaria. Era só com isso que podia se preocupar no momento. Um chofer ajudou a cantora a sair da limusine e Julia acenou, caminhando até ela. — Sarah, olá mais uma vez. É tão bom ver você. Sarah endireitou-se e sorriu, os olhos verdes, dois matizes mais escuros do que os de Julia, com um laivo azulado iluminando-os levemente. — Oi, Julia. Que prazer vê-la de novo também. Não via a hora de... —começou com um profundo suspiro, absorvendo o ambiente — apenas estar aqui. — E pôr em dia o descanso bem merecido? Prometo que não vamos fazê-la trabalhar muito. É um cenário informal. Sem câmeras, nem fãs enlouquecidos. A melhor parte é que só teremos de lidar com algumas programações no fim da semana. — Parece paradisíaco demais — disse a cantora com o Sotaque do Texas. A mulher de cabelos castanho-avermelhados, com mechas caindo em cascatas abaixo dos ombros, parecia cansada e pálida. Os bonitos olhos logo se desfizeram do vivo matiz, fazendo Julia pressentir que viera porque precisava desesperadamente de um descanso. Embora não lesse jornais sensacionalistas, era de conhecimento comum que Sarah Rose tinha uma hercúlea programação, dia sim, dia não, de concertos, apresentações na mídia e eventos beneficentes. E seu nome estava associado a jogadores profissionais de futebol, astros do rock e produtores de cinema. Não lhe 60
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    invejava a fama,mas sentia em vez disso que a cantora fora arrebatada para um mundo opressivamente desconhecido desde o fim da adolescência. Quando Kirby aproximou-se, ela apresentou-o a Sarah e notou a admiração nos olhos do empregado. Era um imenso fã do faroeste e Sarah Rose era famosíssima. Apenas abaixou a aba do chapéu com educação e recolheu a bagagem dela. Julia pensou que deveria se lembrar de convidar o idoso caubói para uma das apresentações. Deu-lhe o número da suíte privativa e ele e o chofer rumaram para lá com as coisas de Sarah. Passou o braço no ombro da cantora ao se encaminharem para a entrada do hotel. — Obrigada por vir — disse. — Você está salvando minha vida. — Acho que se poderia afirmar que o contrário é verdadeiro — comentou Sarah com um risinho meio forçado. — Preciso tanto estar aqui quanto você precisa de mim aqui. Sei que não é uma coisa muito esperta de se dizer — acrescentou. — Meu agente não aprovaria, mas é a pura verdade de Deus. Pelo que Julia deduzira de sua amizade com Sarah, o agente era um capataz e controlava sua carreira com rédea curta. —- Bem, então, é um acordo justo. Sei que você vai adorar este lugar. E não será importunada. Trent contratou segurança extra para garantir que não se intrometam em sua intimidade. — Obrigada. — Ele foi inspecionar os cavalos selvagens, mas quer conhecê-la. A cantora parou antes de entrarem no enorme saguão e seu o queixo caiu de assombro. Contemplou as imensas janelas panorâmicas do piso ao teto para apreciar a paisagem. — Tudo isto e ainda cavalos selvagens na propriedade? — perguntou, os olhos cintilando de encanto. — Fui criada em um pequeno lote de terra nos arredores de Dallas. Era uma comunidade de criação de gado... nada comparado a isto, mas é meio estranho como este lugar me faz lembrar de casa. — É sossegado aqui, Sarah, e acho que você terá uma experiência maravilhosa hospedando-se com... — Julia ia dizer conosco. Mas o Tempestade do Oeste não era dela. Essa era a visão de Trent, e Julia apenas trabalhava ali. Tinha de se lembrar disso de vez em quando pois o hotel não lhe pertencia. — Hospedando-se aqui no Tempestade do Oeste — concluiu desajeitada. Sarah não pareceu notar o mal-estar e, assim que chegaram à suíte do chalé, com uma deslumbrante vista do lago do Destino, ela passou os dez minutos seguintes certificando-se de que ficasse bem instalada. Deu à hóspede o número do telefone pessoal e as duas combinaram de se encontrar mais tarde depois que Sarah tivesse a chance de descansar um pouco. — Com toda a franqueza, eu não esperava que viesse em pessoa — disse Trent, apertando a mão de Cody Landon. Encontrara o especialista em segurança à sua espera no escritório depois que Kim o informara, minutos antes, da chegada de Code. — Você disse que queria o melhor. 61
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    Trent atirou ochapéu no sofá de couro e convidou-o a se sentar. Code sentou-se à escrivaninha de frente para Trent. — Acho que saquei. E deu um rápido sorriso. Cody Landon era amigo de Brock do Texas e recentemente a administração do Tempestade empregara a Agência de Segurança Landon, famosa por segurança e vigilância de alta tecnologia, para supervisionar a operação de toda a rede de hotéis. Cody uniu o treinamento militar e a perícia do pai ao seu apurado senso empresarial durante os últimos dez anos e construíra uma respeitada empresa sem igual de multimilhões de dólares. Trent já contava com uma pequena equipe da agência Landon trabalhando para ele no hotel e haviam instalado medidas de segurança na propriedade antes da inauguração. — Ouvi rumores de que você vinha pensando em assumir uma posição secundária na empresa. Trent recostou-se na cadeira, perguntando-se por que diabos Cody viera ser babá de uma celebridade iniciante. Cody curvou os cantos da boca para cima. — Soube disso pelo seu irmão? — Brock? — Ele coçou a parte de trás da cabeça tentando lembrar-se. — É, talvez. — Posso ter dito isso em algum momento, após alguns drinques além da conta — admitiu com uma expressão irônica. — Esse trabalho consome todo meu tempo, sem deixar espaço para nada mais. Trent sentia afinidade. Fora intensamente consumido pelos hotéis durante anos, mas o Tempestade do Oeste era seu bebê e ele comia, dormia e respirava-o fazia meses. Nada era mais importante que cuidar do sucesso do hotel. — Droga, não estou me queixando, mas por que você? Não poderia ter enviado qualquer um dos especialistas da equipe? Temos a segurança que sua agência já instalou, apenas precisávamos de uma pequena garantia extra, só isso. — Talvez quisesse ver o Tempestade do Oeste por mim mesmo. Talvez sinta saudade de trabalhar no campo. Talvez eu goste de música country. Talvez nenhuma das razões acima, pensou Trent. Outra coisa trouxera Cody Landon ao Tempestade do Oeste e ele duvidava de que descobrisse a verdadeira até o próprio decidir querer lhe contar. — Muito justo. Sabe que Sarah Rose chegou esta manhã. Queremos fazer a estada dela a mais descomplicada possível, portanto a segurança em torno da cantora tem de ser sutil, mas eficaz. Nossa comemoração de aniversário inicia-se em uma semana, apenas mediante convite. A presença de Sarah é a nossa principal atração. Ela fará vários shows íntimos semanais, perto do lago. Selecionamos os hóspedes e não devemos ter problema com ninguém. Esperamos que o hotel esgote todas as acomodações. — Já esgotamos, não há mais quartos disponíveis — disse Julia. Ela parara na porta do escritório com uma expressão convencida e um terninho marfim que lhe acentuava as curvas e exibia as longas pernas. A pele delicada sobressaía sob o V da grande lapela do paletó, mostrando o suficiente dos seios para fazer o caubói engolir em seco com força. Ver Julia comunicar a notícia de que o Tempestade do Oeste esgotara a capacidade apenas intensificou seu desejo por ela. 62
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    Julia entrou noescritório e ofereceu a mão a Code: — Sou Julia Lowell. Lamento não estar presente quando você chegou. O outro se levantou e deu um longo olhar de avaliação à recém-chegada. — Valeu a espera, srta. Lowell — disse, apertando-lhe a mão. — Nos falamos pelo telefone. — Sim — ela disse com um sorriso — é verdade. E concluiu resumindo as instruções a ele. Quando perguntou sobre a vinda dele ao hotel, gracejando que esperava que ele não cobrasse honorários exorbitantes, a resposta de Code foi tão enigmática quanto a que dera a Trent. Nada revelou. — Vou oferecer um jantar a Sarah Rose em minha suíte mais tarde esta noite. Trent também vai estar lá. Seria uma boa oportunidade de você conhecê-la. Gostaria de juntar-se a nós?— perguntou. Code não hesitou. — Obrigado. E Julia acrescentou: — Sarah teve um ano muito ocupado e árduo. Quer manter o anonimato. Acho que está exausta tanto mental quanto fisicamente. Encontra-se aqui sem comitiva nem agente comercial. Deu-me a impressão de que não vem tendo muita privacidade ultimamente. Nossa esperança é que se divirta bastante no Tempestade do Oeste e queira retornar para outros compromissos exclusivos. Impassível, a expressão de Code não mudou, a não ser pelo mínimo lampejo nos olhos. — Consegui um arquivo sobre ela. Você tem razão, a cantora teve um ano e tanto — concordou. — Vou me apresentar à nossa equipe de segurança e depois os encontro para jantar. Julia assentiu com a cabeça. — Oito horas. É na Suíte Palomino no hotel principal. Assim que Code saiu do escritório, Trent sorriu radioso e tomou a mão de Julia, puxando-a para perto. — Estamos lotados? Ele entrou no clima de comemoração. — Por três semanas completas e o telefone da mesa de reserva continua tocando sem parar. Eu me aventuraria a supor que teremos todos os quartos, suítes e chalés cheio para o mês inteiro. Parece — acrescentou — que os convites privativos deram conta do recado. Ninguém se importou com o fato de quase dobramos as diárias de nossos quartos. — Tudo isso se deve ao seu árduo trabalho, querida. Você conseguiu. E enlaçou-lhe a cintura com as mãos, ficando cara a cara com ela, aspirando seu perfume erótico, doido para fazer mais do que apenas segurá-la. — Eu só descobri o que sua clientela de fato queria. Então ofereci isso a eles. — Já lhe disse como você é admirável? 63
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    — Sou? Julia ficoumais uma vez com aquela expressão cautelosa nos olhos. Dizer-lhe que gostava dela não pareceria sincero agora. Na verdade, ela começara a ser importante mesmo, embora não confiasse nele, que por isso não poderia pressioná-la demais. Nem poderia se permitir perdê-la. Precisava dela no Tempestade do Oeste. — Você é minha milagreira. Ela baixou a cabeça e balançou-a. — Apenas fazendo meu trabalho, Trent. — Recuou e encarou-o com um brilho de acusação nos olhos. — O que você me contratou para fazer, lembra? Ai. Trent tinha experiência suficiente para se afastar daquele olhar. Ela ainda não o perdoara pela forma como lhe manipulara. Mas não podia deixar de lhe dar crédito pelo excelente trabalho que realizara ali. Embora se ressentisse dele, não permitira que isso interferisse na maneira de fazer as coisas mudarem da água para o vinho no Tempestade do Oeste. Trent tinha de admirá-la. — É, mas você merece algo a mais de mim. Julia arregalou os bonitos olhos verdes. — Mais de você? — Um prêmio. Dito tudo isso, eu tinha planejado lhe dar... Ela semicerrou os olhos, como um gato desconfiado. — Refere-se a uma gratificação monetária, Trent? Ele assentiu com a cabeça. — Com toda certeza. Ela formou com a boca um perfeito "O" redondo, a expressão registrando decepção por um momento. Respirou devagar e sussurrou: — Certifique-se de que seja um prêmio bom, Trent. Sabe Deus o que mereço por aguentá-lo. Então girou nos calcanhares e saiu do escritório dele, batendo a porta atrás de si. Percorria a suíte de um lado ao outro, tremendo de crescente fúria por Trent. Proferia poucas e boas grosserias destinadas apenas a ele. Não podia acreditar no sujeito. O tempo que passaram juntos nada significara para ele? Não percebera que o mais que queria nada tinha a ver com contratos e dinheiro? Não soubera que ela trabalhara arduamente para lhe perdoar o erro e aprender a confiar nele? Será que tudo o que fazia só se relacionava ao precioso hotel? Embora sempre tivesse sabido a resposta, no fundo do coração, ela ansiava por esse algo mais com Trent. No mais íntimo do coração, sabia que queria um futuro com ele, o proverbial felizes para todo o sempre. Mas Trent via-a apenas como uma commodity, um meio de manter o Tempestade do Oeste no azul. Uma forma de garantir a vitória sobre o irmão Brock naquele louco desafio. — Você é um idiota — resmungou. Saiu do quarto para a sala de estar e voltou com a intenção de se arrumar para o 64
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    jantar, mas nadaconcretizou. Desabou na cama, enquanto as lágrimas escorriam pelas faces. Trent jogava fora uma coisa mais preciosa que seu hotel. Ela sabia disso, mas duvidava de que ele visse além das próprias aspirações para reconhecê-lo. — Denso, insensível, arrogante —- sussurrou antes de se render à repentina fadiga. Fechou os olhos e descansou, recusando-se a se preocupar com o jantar que ia oferecer esta noite. Tinha algumas horas para cochilar, e que tudo se danasse pois merecia uma folga. Quatro horas depois, reagrupou os pensamentos e, sentindo-se um pouco restaurada devido ao descanso, decidiu que não ia dar a ele a satisfação de saber o quanto a magoara. Na verdade, tão logo raciocinou sobre a questão, compreendeu que a oferta de recompensar seus esforços era uma transação correta. Aceitaria o prêmio com charme, pois trabalhara com muito afinco e merecia cada centavo. Pôs um vestido rodado de gaze de seda e cetim preto, os brincos com pingente de cristal, e deixou os cabelos escuros caírem soltos em sutis ondas pelos ombros. Contornou os lábios com vermelho-atrevida, depois aplicou um toque de sombra verde nas pálpebras. Assim que os empregados do hotel acabaram de arrumar a mesa perto da varanda, ela os dispensou e encaminhou-se para a suíte de Sarah no extremo oposto da propriedade. Bateu e a cantora abriu a porta timidamente, mas logo sorriu aliviada quando viu que era Julia e afastou-se, fechando a porta atrás de si. — Estou pronta. — Tinha os olhos verde-água mais iluminados e o rosto mais relaxado do que horas antes, quando chegara ao hotel. — Foram as melhores seis horas que passei num longo tempo. — Verdade? Que você fez? — perguntou a amiga ao atravessarem o caminho que levava ao hotel principal. — Tomei um longo banho de imersão na banheira. Li. Cochilei. Sem telefonemas. Nem mensagens de texto. Desliguei o celular. — Riu. — Foi o paraíso. — Pode ser assim todos os dias. Garantiremos isso. Sarah, usando um bonito vestido de bordado inglês com pontos abertos, assemelhando-se à personificação de uma simples garota do campo e não à estrela vistosa cheia de lantejoulas e tachas que em geral retratava parecia feliz. — Uma menina pode ser estragada com demasiados mimos. — Você ainda não viu nada — provocou Julia. Entraram e sentaram-se na sala, conversando sobre a Dream Foundation e o que haviam planejado realizar para a instituição de caridade durante os feriados próximos. — Programei uma série de concertos em Nova Orleans com toda a renda destinada à fundação. Vamos tornar alguns sonhos realidade para as vítimas do Katrina. Muitas crianças e suas famílias continuam desabrigadas. Quando bateram na porta, Julia levantou-se e inspirou fundo, preparando-se para ver Trent pela primeira vez desde a conversa de horas antes. — É Trent Tyler, o idealizador da construção do Tempestade do Oeste. E vem com 65
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    o chefe dasegurança. Espero que não se importe. Trent e eu achamos que vocês deviam se conhecer. Consideramos isso necessário para sua segurança extra. Sarah levantou-se. — Tudo bem, Julia. Não quero que minha presença aqui perturbe a ordem das coisas. Infelizmente, habituei-me a seguranças extras. Quando Trent e Cody Landon entraram, Julia encarou-os com amabilidade, mas no momento em que se virou para fazer as apresentações viu Sarah dar uma olhada em Cody e sua expressão desmoronar. Pareceu exigir-lhe toda a coragem para impedi-la de desabar de volta na cadeira. — Olá, Sarah — disse Landon, sem apresentação. — Code — ela murmurou, o olhar fixo no dele. Era como se os anfitriões não estivessem na sala. Após um breve silêncio embaraçoso, a cantora refez-se e explicou que ela e Cody Landon haviam sido amigos de infância no Texas. Não se viam havia dez anos. Amigos sendo uma atenuação da verdade, avaliou Julia, mas nem um deles esclareceu nada mais sobre o relacionamento. A cantora manteve a compostura durante todo o jantar, embora Code não tirasse os olhos dela. Após o café e sobremesa, ele se ofereceu para acompanhá-la de volta à suíte no chalé e Sarah aceitou. — Eu não sabia que os dois se conheciam — disse Trent depois que eles tinham saído. — É óbvio que ele não queria que soubéssemos. Deve ser por um bom motivo. Vou conversar com Sarah amanhã e certificar-me de que se sente bem com isso. — Boa ideia — ele disse, indo até a janela da varanda e olhando para fora, as mãos enfiadas nos bolsos da calça. A sala ficou em silêncio. Então Trent virou-se, recebendo o olhar de Julia, seus olhos escuros e intensos nos dela. — Também não sabia que lhe oferecer um prêmio ia aborrecê-la, querida. Orgulho- me de você e queria demonstrá-lo. O transbordante charme daquele homem podia paralisar uma cascavel, e nesse momento Julia se sentia como um réptil, querendo se afastar rastejando de bruços. Comportara-se como uma víbora antes, quando Trent apenas quis lhe agradecer o trabalho árduo. Ele era seu chefe, afinal. O caubói sexy alto e magro exibia uma expressão sincera e o coração dela vacilou um pouco. Lembrou-se das palavras de Laney... para lutar por Trent e ir atrás do que ela queria. Encolheu os ombros e pôs de lado o obstinado orgulho para oferecer a verdade. — Acho que eu queria mais de você, Trent. Trent afastou-se da janela e encarou-a, os olhos escuros interrogativos. — Há semanas, você tem me repelido. Não olhei para outra mulher desde que nos conhecemos e sabe que eu a quero. — Levou um dedo à face dela, deslizando-o pelo rosto de um jeito tão carinhoso que lhe fez derreterem os ossos. — Você e eu podemos atear fogo naquela cama, querida. —- Desceu o dedo pelo pescoço e depois contornou o ombro nu. — Podemos passar juntos um tempo maravilhoso. — Enganchou o dedo na alça do vestido e baixou-a. — Você é linda, Julia. E inteligente. — Beijou-lhe o ombro, os lábios demorando-se. Ela sentiu a garganta seca. — Tenho apenas admiração por você. — Beijou-a de novo, colando os lábios um pouco mais embaixo, perto do V do decote. — 66
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    Quero-a de todomodo que um homem pode querer uma mulher. — Baixou o decote, liberando o tecido para desnudar-lhe a parte superior do seio. Então a beijou ali e a resistência de Julia desintegrou-se. — E também dez vezes mais. —- Trent — ela sussurrou — não sei se posso confiar em você. Devagar, ele retirou as alças dos ombros e o vestido deslizou até a cintura. O frio ar noturno acariciou-lhe os seios. — Peço que confie. Com isso, ergueu-a nos braços e carregou-a até o quarto. Ela enlaçou-lhe automaticamente o pescoço com os braços. Os olhos dos dois encontraram-se, e os dele exibiam as pálpebras pesadas e ardentes de desejo. O coração de Julia martelava. Rápido e forte, golpeava-lhe o peito. Com toda delicadeza, deitou-a na cama, o vestido fluindo em dobras ao redor dos quadris. Parou acima dela, a mandíbula cerrada, o olhar intenso e o corpo ereto. — Diga-me o que você quer, meu bem. Oh, meu Deus. Julia sabia o que ela queria, mas além de lhe pedir que a amasse, não sabia verbalizar os desejos sinceros. Queria aquele homem a seu lado para toda a vida. Queria dar à luz os filhos de ambos e envelhecer com ele. Queria confiar nele. O debate em sua mente durou meio segundo. Não podia recusá-lo. Doía-lhe o desejo pelo seu beijo. Precisava das mãos dele nela, fazendo-a sentir-se linda e desejada. Queria-o dentro de si, a ideia de fazer amor com Trent era poderosa demais para negar. Rolou de lado e apontou. — Tire a camisa. — Ele ergueu as sobrancelhas com um ar provocativo e esboçou um sorriso. Desabotoou a camisa devagar, cada botão aberto permitindo-lhe a excitante exibição do peito largo e bronzeado. Feito isso, largou-a no chão e encarou-a. — Agora, as botas, caubói. Sentou-se na borda da cama e retirou as botas de pele de cobra. Alinhou-as com perfeição e a visão daquelas botas ao lado da cama comoveu-a profundamente. Ainda sentado na cama, encarou-a. — Não me dispo até a cueca sob comando de ninguém, Julia. — Isso significa que você tem suas reservas? — Significa — respondeu — que faria isso só por você. — Mesmo? Jamais imaginaria isso. Mas Julia sabia que Trent não era leviano nem paquerador. Não parecia ter uma longa lista de mulheres no passado. Acreditou nele quando disse que tinha suas reservas e essa era uma de suas qualidades que ela julgava extremamente amável. Ele segurou-lhe as pernas pouco acima dos tornozelos e puxou-a com delicadeza para si, com lençóis e tudo. — Agora você sabe — disse, inclinando-se para dar um beijo de parar o coração. Ela ansiava pelo gosto conhecido dele e, ao aspirar aquele poderoso aroma natural, escapou-lhe da garganta um pequeno suspiro de prazer. Trent sorriu. — Você é importante para mim, querida. 67
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    Erguendo os olhos,Julia fitou os escuros e sinceros dele. — Faça amor comigo, Trent. — Não terá de pedir duas vezes. Ele retirou o vestido de Julia, ajudando-a enquanto ela contorcia os quadris e rebolava para livrar-se da roupa. Em seguida, deslizou um dedo sob a calcinha de cetim preto e também a retirou, deixando-a nua em pelo. Parecia que ia devorá-la. Em vez de tomá-la em outro beijo alucinante, ergueu-lhe os quadris, acomodou-lhe as pernas nos ombros, centralizando a boca quente entre as coxas, e proporcionou-lhe rápida e completa satisfação com as carícias da língua. O orgasmo desmoronou-a, deixou-a respirando com dificuldade, fazendo-a agarrar desesperada os ombros de Trent. — Oh... Trent — ofegou. Ele levantou-se e retirou a calça, depois se voltou de novo para ela, beijou-a inteira, acariciou os seios e sugou cada mamilo até fazê-la querer gritar de prazer. Tocava-lhe cada centímetro, as mãos vagando e reivindicando-a para si. Com a pele acalorada, o corpo trêmulo, cada célula no corpo de Julia desejava-o intensamente e doía por mais. Deitando-a na cama, Trent estendeu-se sobre ela e penetrou-a. Movia-se devagar, provocando pura luxúria. Mergulhou mais fundo e Julia enroscou-se em volta dele, cada segundo intensificando-se com fogosa expectativa. Com os olhos pesados ele a olhava, a mandíbula cerrada, a força e a largura de seu membro sendo testadas por pura força de vontade. Era tão poderoso, tão forte e tão incrivelmente lindo para Julia que lhe dava vontade de chorar. Disse com a voz áspera: — Vamos pegar fogo, agora, meu bem. Pronta? Ela engoliu em seco e assentiu com a cabeça. Então Trent concluiu o que fazia melhor. E ambos explodiram em chamas. CAPÍTULO NOVE Julia acordou na manhã seguinte de um delicioso sono. Soube por instinto que Trent já saíra da cama. O brilho do sol entrava pela janela. Passava bem do amanhecer e ele na certa se achava mergulhado em trabalho àquela altura. Com o corpo saciado depois de duas incríveis rodadas de amor na noite anterior, ela na verdade não devia se queixar, mas, apenas para não variar, desejou que pudesse acordar com ele ao lado. Impusera a si mesma uma regra de sigilo. Não lhe faria bem algum dos empregados saberem que dormia com o chefe. 68
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    Abraçou o travesseirojunto ao peito desejando que fosse ele. Então olhou a metade vazia da cama e viu um pequeno envelope com o logotipo do Tempestade do Oeste no outro travesseiro, seu nome escrito no centro. Sorriu, reconhecendo a caligrafia de Trent. Sentando-se, abriu o envelope e leu o cartão em silêncio. Você me destruiu ontem à noite. Somos bons juntos. Durma bem. Até mais tarde. Trent. Julia dobrou o bilhete, enfiou-o de volta no envelope e levantou-se da cama. Ao guardá-lo na gaveta da cômoda, soltou um profundo suspiro. Eram dificilmente as palavras de amor que gostaria de ouvir, mas considerou o bilhete um progresso, pois Trent jamais lhe deixara um antes. Entrou no chuveiro e demorou-se, desfrutando o jato de água quente. Passou xampu e condicionador e depois usou a esponja no corpo. Cobriu-se de espuma com um sabão de delicado perfume de gardênia e enxaguou-o, sentindo-se revigorada e refrescada. Trent não fora o único destruído. Uma noite na cama com ele significava vigoroso exercício e Julia desejou passar o dia todo dormindo, revivendo as intensas sensações que lhe proporcionava. Mas o dever a chamava. Tinha trabalho a fazer e já desperdiçara parte da manhã. Sentindo-se despreocupada, vestiu uma saia florida em matizes de lavanda e rosa e um suéter de malha combinando. Pôs as jóias preferidas... um colar longo e pequenOS brincos de diamante. Após dez minutos cuidando dos cabelos, estes caíam em suaves cachos ao redor do rosto e ela ficou com a aparência que queria para enfrentar o dia. Não sabia para onde se encaminhava o relacionamento com Trent, mas hoje não ia se preocupar. Tomara a firme decisão de viver o momento e deixar as preocupações para trás. Dez minutos depois, bateu na porta de Sarah Rose, pronta para guiá-la em uma excursão pela propriedade do Tempestade do Oeste como prometido. Sarah abriu a porta vestida de pijama de seda marfim, os cabelos castanho-avermelhados emaranhados revelando que ela acabara de levantar-se. — Bom dia — disse, guardando para si mesma as perguntas por enquanto. — É? A enigmática resposta dela levou Julia a erguer uma sobrancelha. — Se for uma hora ruim, posso voltar depois. — Então acrescentou: — Ou nem sequer precisamos fazer isso hoje. Sarah escancarou a porta. — Entre, Julia. Desculpe-me. Estou meio mal-humorada. Não dormi muito esta noite. — Oh, lamento saber disso. Sentiu-se desconfortável? Não aprova alguma coisa aqui? A cantora calou-a com um sorriso. — Não seja tola. Não sou uma diva. As acomodações não podiam ser mais perfeitas. Nem eu aprová-las mais. — Então se sentou na poltrona de couro amarelo- manteiga e deu de ombros. — Outras coisas me mantiveram acordada à noite. 69
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    Julia teve umasensação de que sabia aonde ela ia chegar. — Ih! Foi Cody Landon? Deixe-me explicar que ninguém ficou mais surpreso do que Trent e eu ao vermos que vocês dois já se conheciam. Espero que ele não a tenha angustiado... Podemos fazer outro arranjo... Sarah ergueu a mão. — Julia. Espere. Não faça suposições em meu nome. Está tudo ótimo. Eu sabia que poderia topar com ele um dia. Por favor, não ache que precisa fazer outros arranjos — disse em voz baixa, desprendendo o sotaque sulista. — Vê-lo aqui apenas me pegou de surpresa. — Vi sua reação, Sarah. Sentou-se ao lado da cantora e virou-se para encará-la. Esta quase desmoronara por um segundo quando pusera os olhos em Cody. Não que ele não fosse extremamente bonito, vestido da cabeça aos pés de preto, o rosto com aqueles incríveis olhos azul- escuros pousados na antiga amiga e ali os deixando durante todo o jantar. Sarah fechou os olhos por um breve instante. — Code e eu... bem, a gente se conhece há muito tempo. — Sou toda ouvidos, se você precisar de alguém. Mas não se sinta como se tivesse de dizer alguma coisa — sorriu Julia, afetuosa. — Obrigada. Mas ele não importa mais, Julia. É notícia velha e, além disso, não muito excitante — disse em um fundo suspiro. — Se me der vinte minutos, ficarei pronta para a visita à propriedade. Ela descartou o assunto com facilidade, mas Julia percebeu que muito mais água do que Sarah queria admitir continuava a rolar por baixo da ponte. — Por que você não fica e come alguma coisa enquanto tomo uma ducha e me visto? Julia olhou a bancada de granito cheia de guloseimas. — Obrigada. Aceito alguns morangos e café, e a espero lá fora na varanda. Vinte minutos depois, saía com Sarah Rose camuflada, de óculos escuros e um rabo de cavalo coberto por um boné Dallas Cowboys, para um passeio de uma hora pela propriedade. Orgulhosa, gabou-se do hotel de Trent e percorreu o perímetro no jipe, fazendo a última parada no lago do Destino. — É aqui — disse à cantora. — Vamos instalá-la em cima no cais e pôr os hóspedes em cadeiras apenas a poucos metros, não mais que trezentos lugares ao todo. Sem badalação, luzes faiscantes, nem cantores de apoio. Apenas uma noite íntima com você e seus fãs. Sarah tirou os óculos escuros para absorver tudo, o olhar demorando-se no resplandecente lago. — Mal consigo me lembrar que já cantei para um público pequeno. Sinto saudades. Gosto da ideia do cais. — Depois, se não se importar, talvez possa apertar algumas mãos, assinar autógrafos numa pequena festa após o show no hotel. Terá o máximo de segurança o tempo todo. — Por mim, ótimo. Mas não contarei ao meu agente, pois ele tomaria o primeiro avião para aqui. Confio em você, Julia. E aguardo ansiosa por isso. 70
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    — Obrigada. Nãovamos decepcioná-la. Queremos que seja uma agradável experiência para você e nossos hóspedes. — Acho que será — reconheceu, mas a voz saiu entremeada com trepidação e Julia julgou que tudo tinha a ver com Cody Landon. Quando Julia entrou no escritório de Trent, viu-o mergulhado em trabalho, a cabeça baixa, concentrado nas projeções do hotel. — Kim, pode me trazer os relatórios do último mês? — Não é Kim — ela avisou, fechando a porta atrás de si e dirigindo-se à escrivaninha. Trent abandonou o trabalho a tempo suficiente para erguer os olhos e fazer o coração dela dar saltos, quando perdeu a expressão de executivo e sorriu. — Nossa. — Levantou-se e aproximou-se de Julia. — Está mais bonita que um raio de sol. — Tomou-lhe a mão, puxou-a para perto e beijou-a. — Doce como açúcar também. — Lisonja, sr. Tyler? — Apenas fatos. Ela acariciou-lhe o queixo, gostando da liberdade de tocá-lo agora. Resistira a ele durante semanas e agora não conseguia tê-lo o bastante. Ergueu-se nas pontas dos pés e retribuiu-lhe o beijo. — Alegra-me que exponha os fatos com franqueza. Ele riu e olhou os arquivos atrás na escrivaninha. — Tenho uma pilha de trabalho para fazer hoje. Agradeço, porém, a interrupção. É bom ver você. — Então se aninhou no pescoço dela. — Ficou bem, depois de ontem à noite? O lembrete da tórrida noite de sexo protelou-lhe a respiração. Julia sussurrou: — Não pareço bem? Trent desceu as mãos pelas costas dela, levantou a bainha da saia e segurou-lhe o bumbum, despertando-lhe sinais ígneos pelo corpo. — Droga, Julia. Eu tenho uma reunião em meia hora e não estou nem perto de terminar, senão lhe mostraria agora mesmo como você está bem. Colhida nas carícias dele, ela se atrapalhou com o pensamento seguinte. — Desculpe, mas... eu, hã... entrei aqui por uma razão. Trata-se de trabalho, mas pode esperar. Vou deixá-lo terminar. — Com relutância, desprendeu-se, e logo se viu agarrada e puxada de volta por ele, com as mãos firmes em suas costas. — Trent... — suspirou. Ele encarou-a no fundo dos olhos. — Encontre-se comigo esta noite. Venha até minha casa. Quero-a lá comigo. — Julia engoliu em seco e, assentiu devagar com a cabeça, olhando-o. — Sete horas. Não se atrase. Ela saiu do escritório, a mente eufórica, as pernas fracas e o coração palpitando de 71
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    alegria. Não fazia sentidoser recatada com Trent. Sabia do que ele gostava e ia com absoluta certeza satisfazê-lo esta noite. Pôs o vistoso vestido fúcsia Zac Posen, algo que guardava para ocasiões especiais, enfiou os pés nos sapatos pretos, salto 5 cm, e realçou o traje com minúsculos brincos de pérola preta em forma de gota e uns 12 braceletes finos. Prendeu os cabelos no alto em um sofisticado penteado, as trancas enfeitadas com contas ônix. Ao olhar-se no espelho, deu um rápido aceno de aprovação com a cabeça para a imagem refletida. Pegou a bolsa e saiu. Fizera planos para Kim e Sarah saborearem uma leve ceia juntas, a fim de que a gerente pudesse repassar alguns "detalhes" sobre as apresentações com a cantora. Sorriu ao lembrar-se da estupefata expressão de Kim. — Quer que eu jante com Sarah? Só nós duas? — perguntara a jovem. — É, acho que ela vai gostar de conhecê-la. E me fará um grande favor — dissera. Não que planejasse oferecer serviço de babá a Sarah durante toda sua estada no Tempestade do Oeste, mas depois da conversa que tivera com ela achou que a cantora talvez gostasse de algumas horas de distração. E ela dormiria melhor sabendo que não teria de se preocupar com as atividades da hóspede à noite. Isto é, se ia chegar a conseguir dormir à noite. Julia pôde apenas rir da ideia. Trent deixou um recado informando-a de que o jipe ficaria à sua disposição e desculpou-se por não ir buscá-la. Regra dela, não dele, lembrou-lhe. Percorreu a distância até a casa de Trent, elogiando a si mesma pela memória. Quando a casa surgiu em seu campo visual, parou o carro e saiu, olhando a varanda rústica e a chaminé baforando fumaça. O cenário confortável, íntimo, convidava ao aconchego e ela morria de vontade que a noite começasse logo. Ficou excitada ao aproximar-se da porta da frente. Bateu e esperou. Tornou a bater. — Trent? — chamou. Ele afinal a abriu, o celular junto à orelha. — É, isso mesmo. Preciso voar hoje à noite. Assim que consiga aprontar o avião. Indicou com um gesto para Julia entrar. Com o coração na garganta, a convidada entrou, viu velas acesas na prateleira acima da lareira, na mesa de jantar e em todo canto possível. Um belo matiz amarelo-dourado impregnava o ambiente. Três arranjos de rosas vermelhas com delicadas gipsófilas enchiam vasos de cristal lapidado, o doce aroma prolongando-se no ar. Ainda falando ao telefone, Trent pegou um atiçador e extinguiu o fogo na lareira o melhor que pôde. Em seguida, contornou a sala apagando todas as velas até apenas o sol que se punha trazer luz ao ambiente. Assim que terminou a conversa, fechou o telefone e dirigiu-se a ela. — Lamento, Julia. — Segurou-lhe a mão. — Evan ligou apenas alguns minutos atrás. Laney entrou em trabalho de parto prematuro. 72
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    Julia arquejou. — Oh,não. É cedo demais. Era para nascer daqui a meses. — A pressão sanguínea subiu muito e rapidamente, é arriscado. Ele ficou sem ar. Horrivelmente chocada, Julia perguntou: — Arriscado? Quer dizer que Laney corre perigo? — Muito. Ambos correm. Nunca ouvi Evan tão frenético. — Esfregou a nuca e falou com profunda preocupação. — Pus o gerente à frente do hotel. Meu piloto está abastecendo o jato. Tenho de chegar lá. Evan precisa de mim. — Eu também vou — disse Julia, categórica, sem esperar um convite. O pânico revirava-lhe o estômago. — Preciso ver Laney. — Lágrimas pinicavam-lhe os olhos e ela mal conseguia se expressar. — Minha amiga quer tanto este bebê, Trent. — Eu sei. Os dois querem. — Tenho tempo para fazer uma pequena mala? — perguntou, Ele fez que não com a cabeça. — Não, vou pegar um casaco para você e compraremos o necessário assim que chegarmos a Los Angeles. Temos de ir logo para o aeroporto. Foi correndo ao quarto e saiu com um casaco de camurça canela e uma pequena sacola de lona para si. Pôs o casaco em volta dos ombros dela. Ficou imenso, mas proporcionou-lhe um pouco de conforto. Puxou-a para perto e beijou-lhe a testa. — Pronta? — Ela fez que sim devagar com a cabeça, cheia de medo pela melhor amiga. — Vamos. Um tempo depois, chegavam a Los Angeles. Um motorista recebeu-os e levou-os direto ao hospital. Entraram correndo e Trent imediatamente falou com a enfermeira da unidade, que lhes dera muito poucas informações. Evan Tyler estava com a esposa. Após meia hora de espera silenciosa, o irmão andando de um lado para outro, e Julia quase às lágrimas, Evan entrou afinal na sala. Trent logo o cumprimentou e os dois se abraçaram com força, mas a amiga ficou atrás. A visão do rosto desfigurado de Evan, os olhos inchados, visivelmente esgotado, assustaram-na mais do que receber a notícia de forma tão inesperada antes. Amado Deus, implorou, permita que tudo fique bem. — Não houve nenhuma mudança —- ele disse. Julia levantou-se para dar um grande abraço no amigo. — Sinto tanto. Laney parecia tão saudável quando estava no Arizona com todos nós. Eles sabem o que causou isso? Exausto, o marido correu as mãos pelo rosto e balançou a cabeça. — Ninguém sabe. Às vezes, esse tipo de coisa acontece. Laney se sentia ótima ontem. Tínhamos acabado de arrumar o quarto do bebê e ela ficou tão feliz. Quando acordou depois de um cochilo esta tarde, sentiu-se fraca e então começou a ter cólica. É só o que sei. Trouxe-a correndo para cá e... e... Julia tomou-lhe a mão. — Ela vai se sair bem disso. Eu sei, Evan. Minha melhor amiga é forte. 73
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    Evan balançou acabeça concordando, embora o medo nos olhos desmentisse seu otimismo. Virou-se para Trent. — Você ligou para mamãe? — Liguei, mandei-a ficar calma e esperar, que eu a manteria informada. — Acha que fará isso? Trent deu um breve sorriso. — Droga, não. Partirá no primeiro avião. Surpreendi-me por não vê-la chegar antes de nós. — Eu também — disse Evan com amor nos olhos. — Você parece cansado demais. Sente-se. Vou pegar alguma coisa para comer. — Não, não posso perder tempo. Preciso voltar para lá. — Por favor, Ev. Não vai fazer bem algum a Laney se você cair duro desmaiado. — Só café — consentiu Evan firmemente, apontando os dois bules de café no canto da sala de espera. — Certo, só café. Isso o manterá fortalecido — disse o irmão com ironia, mas mesmo assim correu à mesa e serviu duas xícaras. Entregou uma a Evan, e a outra a Julia. — Vamos todos nos sentar por um minuto — disse Trent com toda calma. — Julia está exausta. Ela abriu a boca para protestar, mas, quando ele lançou-lhe um olhar de advertência, entendeu-lhe a intenção. Evan se sentaria em favor dela se achasse que a amiga precisava descansar. Sentou-se então numa cadeira e os dois irmãos a flanquearam. Tomou o forte e amargo café que com toda a probabilidade já se encontrava no bule quase o dia todo. Evan tomou grandes goles em silêncio, descansando apenas um minuto, e levantou-se de repente. — Tenho de ir ver como está minha esposa. O irmão também se levantou. — Estou aqui, se você precisar de qualquer coisa. — Eu sei. Posso sempre contar com você, Trent — disse Evan, de uma forma paternal. Julia levantou-se e abraçou-o mais uma vez, sem nada dizer, dando-lhe apoio. Assim que ele saiu do quarto, Trent deu uma olhada nela e fechou a cara. — Você está tremendo. — Estou assustada. Os olhos enevoaram-se de novo e ela lutou para conter as lágrimas. Ele pegou o casaco de camurça que Julia tirara antes e envolveu-o nos seus ombros. Puxando-a para perto, abraçou-a, apoiando-lhe a cabeça sob o queixo, e manteve-a assim por um longo tempo. Ambos ficaram ali no meio da sala de espera assim. Envolta como em casulo na força dele, Julia fechou os olhos e rezou pelo bebê 74
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    inocente e pelasegurança da melhor amiga. Após algum tempo, Trent ajudou-a a sentar- sé e ela aconchegou-se em seu calor e cochilou de leve, caindo no sono e despertando, ouvindo ao fundo sons do hospital, conversas baixas e uma vez ou outra o som do elevador. O tempo todo, ele segurava-a junto a si, e já passava bem da meia-noite quando Evan surgiu do quarto de Laney. Trent cutucou-a de leve e Julia sentou-se ereta. — A pressão sanguínea melhorou, mas ainda não está completamente sob controle — disse o marido. — Deram-lhe um sedativo para dormir. O bebê continua firme — informou, o tom da voz mais esperançoso. — Não vou sair do lado dela. Instalei-me no quarto. Vocês dois precisam de um pouco de descanso. Telefono pela manhã para dar notícias. — Tem certeza? Podemos ficar — o irmão falou pelos dois. — Tenho. — Evan olhou-a. — Você precisa levar Julia para casa. — Promete ligar se houver alguma mudança? — pediu a amiga, detestando deixar o hospital. — Prometo. Nada podem fazer esta noite. Voltem de manhã. — Enfiou a mão no bolso e entregou as chaves a Trent. — Leve meu carro. Trent apertou a mão no ombro de Julia, assentindo com a cabeça. — Voltaremos cedo. CAPÍTULO DEZ Enquanto Trent levava Julia ao apartamento dela, ela olhava em frente, esmagada pela emoção e pelo medo. Não parecia justo, afinal, Evan e Laney terem acabado por constituir uma família e acontecer isso com eles. Haviam tido um começo tumultuado, na melhor das hipóteses, e a esposa achava que jamais iria confiar no marido. Agora, confiava-lhe até a vida. E o precioso bebê lutava para sobreviver também. Inspirou fundo e deu um suspiro, pois a exaustão enfraquecia-lhe a decisão de ser forte. Combatera as lágrimas o tempo todo no hospital, mas pareceu não mais poder contê-las. Agora escorriam pela sua face. Trent estendeu o braço para pôr a mão sobre a da companheira. Esse simples gesto carinhoso provocou alguma coisa e ela olhou-o, sentindo o coração aquecer-se. Com a preocupação visível no rosto, ele voltou-se para dar-lhe um rápido sorriso e apertar-lhe mais um pouco a mão. Seguiram em silêncio o resto do caminho. Trent parou diante do apartamento, desligou o motor e virou-se para ela. Com as pontas dos dedos, enxugou-lhe com delicadeza a umidade das faces. Antes que Julia pudesse agradecer, saltou do carro e contornou até o outro lado para abrir a porta. 75
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    Ao vê-la descerpara a calçada, tomou-lhe a mão e encaminhou-a até a porta do apartamento. — Vai ficar tudo bem esta noite? Julia piscou os olhos e compreendeu que ele não pretendia ficar. — Eu... — começou, e depois, como não fazia jogos, disse a verdade: — Não quero ficar sozinha, Trent. — Queria a companhia dele. Aninhar-se naquela força. Aconchegar-se naquele coração, abrigada, reconfortada e em segurança. — Quero que você fique comigo. Ele fez que sim com a cabeça. — Tudo bem, querida. Eu não queria atrapalhar seu sono, só isso. Você teve uma longa noite. — Dormirei melhor sabendo que você está aqui. — Quer dizer que sou melhor que um copo de leite quente? — E do que contar ovelhas — ela gabou-se, e sentiu um momento de leveza ao enfiar a chave na fechadura e abrir a porta. — Chegamos. Julia adorava o apartamento, o modo como a luz do sol lançava suaves matizes durante o dia e a da lua acrescentava um cálido fulgor romântico à noite. O ambiente tinha certo apelo feminino, mas as texturas e os sólidos móveis tornavam-no um lugar onde um homem também se sentiria à vontade. Trent seguiu-a, e percorreu a sala de estar com os olhos. — Eu me lembro daqui. Lugar legal. Mas não saímos muito do quarto, saímos? Apaixonada pelo belo caubói do Texas, Julia entrara cem por cento naquele breve caso após o casamento de Laney. Ela, a firme, eficiente e cautelosa, em geral não se deixava cegar assim. Mas na época ele simplesmente era o novo cunhado da melhor amiga. Os dois estavam atraídos como dois ímãs, atraídos por uma força irresistível. — Não — respondeu Julia, e lembrou-se de como fora lasciva ao fazer amor, numa sede insaciável, com um quase total estranho. Sentiu o calor subir pelo pescoço e mudou de assunto. — Está com fome? —: Não. — Ele contornou-a e ergueu-a rapidamente nos braços. Levou-a para o quarto. — Você está nas últimas, querida. Nós dois precisamos dormir. Deitou-a com cuidado e deu-lhe um beijo apressado, em seguida pôs as mãos nos ombros dela e girou-a. Falou-lhe bem perto do ouvido, a respiração quente, um sussurro no pescoço dela: — Quando me imaginei fazendo isto, não pretendia pôr você na cama para dormir. Ela virou a cabeça para olhá-lo. — Você se imaginou fazendo isto? Trent riu baixinho. — Mesmo antes de vê-la nesse vestido de arrasar. Imaginei que a despia. Sim. — Mordeu-lhe o ombro e alisou-a com ternura. Depois, com um suspiro de resignação, ordenou: — Levante-se da cama. Virou-se e encaminhou-se para a saída. 76
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    — Aonde vamos?— perguntou Julia. — Preciso de um drinque. A bebida continua no mesmo lugar, querida? Ela assentiu com a cabeça e ergueu o vestido até o peito. — Cerveja na geladeira. — E antes de vê-lo sair do quarto, gritou: — Trent? — Hum? — Vai dar tudo certo com eles, não é? — Sinto que sim. — Ele piscou um olho. — Deite-se. Volto em um minuto. Apagou a luz e deixou-a no escuro. Julia revirou-se na cama durante 15 minutos. Só depois de vê-lo despir-se e deitar- se por fim se acalmou. — Achei que já estaria dormindo — ele disse em voz baixa, e aproximou-se mais. — Não consigo dormir. Fiquei muito preocupada. Ele envolveu-a com os braços. — Eu também, mas não vamos ajudar ninguém sem pregar um pouco o olho. Ela riu baixinho. — Como? — Você é um caubói e tanto, Trent Tyler. — E você gosta de caubóis — declarou o companheiro de forma inequívoca. Ouviu-se um profundo suspiro. — Sorte sua. —- É mesmo. Agora... shh. Vá dormir, querida. Ele aconchegou-a mais para perto e alisou-lhe os cabelos, acariciando-a até levá- la a um doce esquecimento. — Não sei o que estaria fazendo sem você aqui — ela disse, a cabeça apoiada no ombro do amado. — É um prazer servir — veio a resposta, num forte sotaque texano. Mia sorriu e deitou a cabeça no peito dele, a mão no torso. Não apenas gostava de caubóis. Adorava-os. Aquele em particular. Não havia mais como negar. Trent acordou quando o dia rompia por entre as persianas de estilo fazenda, que filtravam uma primeira névoa luminosa para dentro do quarto. Julia continuava a dormir, com a cabeça no peito dele. Aquele era um primeiro recorde na vida do caubói. Jamais dormira com uma mulher sem fazerem amor. Jamais se permitira um envolvimento profundo com alguém. Quando mais jovem, vivia em competição com Brock. Como o mais novo, precisava 77
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    manter-se à altura,capaz e digno do amor deles. Depois que o pai morrera em circunstâncias trágicas, sentira-se perdido e abandonado durante algum tempo. Mas tinha Evan ali para assumir e descobrira que não queria mais ser paparicado pela mãe. Queria o mesmo respeito que ela demonstrava ao irmão. E mais recentemente tivera uma visão do Tempestade do Oeste, mas seus irmãos não lhe deram muito crédito. Gastara a maior parte do tempo e da energia debruçado sobre o projeto. O sucesso do empreendimento fazia parte integral dele. Então Julia entrara em sua vida, a mulher que podia dar uma virada no debilitado empreendimento. Precisava do talento e da experiência em marketing dela e não sentia nem um pouco de remorso pela forma como isso acontecera. Faria tudo outra vez em Nova York. Na cama, Julia não se comparava a nenhuma outra com quem já estivera. Os dois ligavam-se no mais alto nível e viravam um ao outro pelo avesso. Assim, quando ela lhe dissera que tinha sorte, só pudera concordar. E faria todo o possível para manter a sorte do seu lado. Sentira Julia mexer-se contra seu peito, a respiração cálida e convidativa. Gemeu e pensou num banho frio e na mulher que tinha nos braços. Ela se mostrara tão vulnerável na noite passada. Assustada, preocupada e inquieta, e ele descobrira que apenas queria segurá-la, confortá-la e ajudá-la a cair no sono. Foi tomado por uma curiosa sensação e por sorte... mais uma vez... Julia aproveitou esse momento para despertar e impedi-lo de ter de definir as vagas emoções que sentia. — Huumm — ela murmurou, despertando e erguendo a cabeça do peito dele. — Que gostoso. Trent avistou a reluzente camisola que afundava no peito dela e permitia uma espiada naqueles seios fartos. — Que foi? Julia sorriu, com olhos úmidos e pálpebras pesadas. — Acordar com você. Ele gostou demais dessa ideia. No momento, gostava de tudo na companheira. Inclinou-se para um rápido beijo. — É melhor se mexer, querida, senão dentro de mais um segundo não vou deixá-la sair desta cama. Ela olhou para onde ele desviara o olhar e endireitou a sumária camisola. — Oh. — E tornou a concentrar a atenção. — Tem razão. Vou fazer o café enquanto você toma banho. Podemos chegar ao hospital antes das sete, se corrermos. Menos de uma hora depois, Trent estendia a mão a Julia e encaminhava-a para a sala de espera do hospital, apenas para encontrar a mãe ali, sentada ao lado de Matthew Lowell. 78
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    — Pai? —disse Julia, e disparou olhares do velho para a mãe de Trent. — Rebecca me ligou ontem a noite, em pânico. Peguei-a hoje de manhã no aeroporto. — Oi, mãe — disse Trent, beijou-a na face e conteve um sorriso ao ver o pai de Julia explicar-se com a filha. — Oi, sra. Tyler — disse Julia com toda amabilidade, e ele fez uma anotação mental para elogiá-la por ver ambos de novo juntos. — Como vai Laney? E o bebê? — Na mesma, receio — respondeu a mãe dele, os olhos inchados de fadiga e talvez por algumas lágrimas. — Evan disse que ela descansou um pouco, mas se não tiver a pressão sanguínea controlada talvez tenham de retirar o bebê por cesariana. Trent percebeu medo e apreensão no rosto da mãe. Ela perdera o marido ainda jovem e criara sozinha três meninos. Nem sempre fora fácil, mas sempre estivera presente, nos bons e maus momentos. Agora, temia por Laney, pelo primogênito e pelo novo neto que esperara durante anos. — O bebê é um Tyler. Vai conseguir, mãe. É forte. Na certa, tão teimoso quanto Evan. E tão durão quanto. Rebecca tomou-lhe a mão. — Tem razão, Trent. Meus filhos saíram fortes e saudáveis. Vocês todos são lutadores. A ideia fez bem a ela, que relaxou um pouco. — Aposto que nenhum de vocês comeu coisa alguma. Vou pedir o café da manhã. Trent pegou o telefone e chamou o serviço de copa do Tempestade de Los Angeles. Falou direto com o chefão hotel e pediu comida suficiente para mantê-los a maior parte do dia, e assegurou-se de que a entregassem quente e fresca. — Tem algumas mesas no pátio. Vamos nos sentar e comer quando chegar o desjejum. Deixarei um recado dizendo à enfermeira onde estaremos. Vou ver se consigo alguém capaz de arrastar Evan para beliscar alguma coisa. Pouco tempo depois, Trent sentava-se a uma mesa no pátio com Julia, seus pais e, coisa notável, conseguiu que o irmão concordasse em tomar um pouco do café da manhã. A equipe do hotel fizera trabalho extra e rapidamente trouxera uma grande variedade de alimentos. Trent agradeceu a todos e deu-lhes uma boa gorjeta. — A boa notícia é que conseguimos baixar a pressão de Laney — informou Evan, devorando os ovos Benedict e o café como se fossem sua última refeição. — Pararam as contrações. — Inspirou fundo e balançou a cabeça, como se a ideia do que poderia ter acontecido o apavorasse. Acabou o café. — Laney ficou muito cansada, mas quer ver vocês todos depois. — Oh, que bom — respondeu a sogra meio aliviada, e largou o garfo. Magra, comia muito pouco, e Trent teve o prazer de ver que comera tudo. — Mal posso esperar para vê-la — acrescentou Julia, com a voz muito mais leve que antes. — Ela deixou todos nós preocupados. — Laney é como minha segunda filha — explicou Matthew. — As duas parecem irmãs. Tenho feito algumas rezas fortes por aquela menina e o bebê. — Nós dois. Jamais me senti tão impotente na vida, diabos — disse Evan, e 79
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    levantou-se da mesa.— Obrigado por terem vindo. Significa muito. Eu lhes informarei sobre mais alguma coisa tão logo o médico a examine de novo. — Virou-se para o irmão. — Volte comigo, Trent. — Claro. — Meio ausente, Trent se inclinou para plantar um beijo no rosto de Julia. — Volto já. Encaminharam-se para o elevador. — Todo agradecimento a você é pouco por vir aqui e cuidar de tudo — disse-lhe o irmão. — No momento, Brock se encontra a meio caminho entre Nova Orleans e as ilhas Maui. Disse que viria, mas mandei-o aguentar um pouco. Foi bom você vir, para mamãe. Ela é mais frágil do que parece. — Você está muito ocupado, Ev. Cuide de sua esposa e do bebê. Eu me encarrego do resto. — Eu agradeço. Pararam na porta do elevador e Evan pôs a mão no ombro do irmão, olhando-o direto nos olhos. — Julia é uma grande garota, Trent. Não apenas a melhor amiga de Laney, mas eu mesmo passei a conhecê-la um pouco. — É, concordo. Aonde quer chegar? — Mulheres como essas não costumam aparecer em nossa vida. Ouça isso de um especialista. Laney e eu quase não conseguimos. Agora, não imagino minha vida sem ela. Nada importa mais do que o que temos junto de nós. Se aquela garota significa alguma coisa para você, fale com ela. É só o que digo. — Evan apertou o botão do elevador. — Pense a respeito. Quando o elevador parou, Trent entrou e as portas fecharam-se automaticamente, o que o fez ficar ali parado um instante, olhando a porta, com as palavras do irmão ainda soando em seus ouvidos. — Desculpe, senhor — disse uma senhora que tentava apertar o botão. Ele saiu da frente e murmurou: — Desculpe, madame. Encaminhou-se até o pátio, mas, ao ver Julia conversando com sua mãe à mesa, sentiu alguma coisa revirar-se no estômago. Virou-se e caminhou direto para fora do hospital. Precisava de um pouco de ar. Julia sentava-se ao lado de Laney e segurava-lhe a mão. Para seu imenso alívio, a amiga tinha os olhos brilhantes e as faces coradas. Haviam recebido às quatro da tarde a notícia de que mãe e filho não corriam mais perigo. — Você nos deu um baita susto, querida. — Desculpe. Tudo aconteceu tão depressa. Evan me contou que você está aqui desde ontem à noite. Jamais vou esquecer isso. — Eu não podia estar em qualquer outra parte. Tinha de vir. Você parece bem, mas como se sente? 80
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    — Como sehouvesse corrido uma maratona de oitenta quilômetros — respondeu Laney com um riso baixo. — Mas importa apenas que o bebê está bem. Batimentos fortes de novo e não mais contrações. — A melhor das notícias. Ela balançou a cabeça e bateu na barriga. — Mas o bebê me prendeu. Vou ficar confinada à cama, pelo menos por enquanto. Porém devo ser grata e não me queixar. A equipe médica tem sido sensacional. — Ééé. Evan os manteve nas pontas dos pés. Ninguém afrouxou enquanto a mulher dele corria perigo. — Os Tyler homens são assim — explicou Laney, a voz cheia de orgulho. — Fale sobre isso. A grávida inclinou um pouco a cabeça, os cabelos no travesseiro. — Você e Trent já se aproximaram? — Depende do que você quer dizer com se aproximar. — Quer dizer — explicou a outra, e baixou a voz, mas falava com ardor — os dois já se apaixonaram? Julia fechou os olhos com força, reabriu-os e viu a boa amiga, que aguardava com uma expressão esperançosa. — Eu, sim. Desesperadamente. Mas Trent não fala muito sobre o que sente. Com ele, vivo um dia de cada vez. Não creio... quer dizer, não sei o que o futuro nos reserva. — Oh, Jules, aquele homem tem pedras na cabeça. — Duros pedregulhos de granito. — Ele devia curvar-se a seus pés. Segundo Evan, você foi a melhor coisa que já lhe aconteceu. — Eu sempre gostei dele. É um homem esperto — respondeu a outra, antes de sair em defesa dele. — Trent tem sido realmente sensacional desde que tudo isso aconteceu. Admito que fiquei bastante abalada ontem ao saber de você e do bebê. Ele assumiu o controle. Aliviou minha mente, me confortou, e parecia sempre dizer as coisas certas. Tem sido carinhoso e meigo, um lado dele que jamais vi antes e do qual gosto muito. — Talvez tenha chegado a hora de você firmar posição, querida. — Laney endureceu o rosto. — Dê a ele alguma coisa para pensar. — Oh, Laney, por favor, não se preocupe comigo. Estou ótima. — Julia sorriu, recusando a causar à outra um momento de ansiedade sobre sua vida amorosa e tudo mais. Mudou de assunto. — Fiquei excitada com o andamento das coisas no Tempestade do Oeste. Passou os vinte minutos seguintes falando com a amiga de Sarah Rose, Ken Yellowhak e tudo o que planejara para o hotel, até Evan entrar no quarto com Trent. Pouco depois se juntaram a eles Rebecca e o pai dela. Julia saiu de mansinho para dar a eles a oportunidade de fazer a visita, e dez minutos depois Trent encontrou-a na janela da sala de espera e se aproximou. — Ela parece bem — disse. Julia fez que sim com a cabeça. 81
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    — Graças aDeus. Vai ficar confinada ao leito por algum tempo, se conforma com isso, desde que o bebê continue a desenvolver-se bem. — Seria melhor eu voltar ao Arizona. Nada mais posso fazer aqui. Vem comigo? Ela decidira horas atrás que não deixaria Laney. Prometera a Evan que ficaria para fazer companhia e ajudar quando levassem a paciente para casa. — Não, vou ficar alguns dias em Los Angeles, como companhia. Ele olhou-a, balançou a cabeça, e Julia não entendeu bem a expressão. — Tudo bem, vamos sair. Um carro me pegará para me levar ao aeroporto. — Não posso fazer isso — ela respondeu e, quando ele tomou-lhe a mão e apertou-a devagar, sentiu o coração se derreter. Talvez tivesse a cabeça cheia de pedras, mas fora a sua rocha, o terreno sólido onde pôde andar quando o mundo tremia. Havia alguma coisa de valioso nisso. Julia ardia por vê-lo admitir o que sentia por ela, mas não podia negar que ele fora maravilhoso nas últimas vinte quatro horas. Segurara-a, confortara-a e fora o apoio moral de que precisava. Duvidava de que Trent houvesse passado a noite na cama apenas abraçado a uma mulher antes. Mas o fizera com ela. E nesta manhã assumira o comando, aliviara a mente de todos, distraíra a todos com um delicioso desjejum. Julia saiu, piscando devido à luz do sol, lado a lado com Trent. Ele parou na calçada e ela voltou-se, protegendo com a mão os olhos da luz intensa, e falou com sinceridade: — Não sei o que seria de mim sem você, Trent. Acho que sabe como fiquei assustada. Mas você me segurou. Tem sido muito sólido e tudo mais. Foi maravilhoso hoje, ao cuidar de todas as nossas necessidades. Deu um largo sorriso, olhou nos escuros olhos dele, e sentiu uma verdadeira pontada de esperança. — Só queria lhe dizer isso, antes que você partisse. Ele tomou-a num abraço apertado, e enlaçou-a com força pela cintura. — Querida, não sabe que eu faria tudo para mantê-la no Tempestade do Oeste? Esmagou com os seus os lábios dela, enfiou a língua e a fez rodopiar numa tempestade de desejo, bem ali em plena luz do dia. A limusine encostou na hora certa e Trent soltou-a e sorriu, antes de saltar no carro e afastar-se. Julia prendeu a respiração por um segundo. Antes que a declaração dele a atingisse em cheio. CAPÍTULO ONZE 82
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    Três dias depois,Julia voltou ao Tempestade do Oeste e foi direto ao escritório de Trent. Queria acabar com aquilo de uma vez por todas, Não deixaria que vê-lo a distraísse de sua missão. Fumegara. Chorara. Repassara vezes incontáveis o mesmo assunto na cabeça quando estava em Los Angeles. O mais difícil fora ocultar de Laney que o cunhado dela lhe esmagara o coração. Sabia Deus que a amiga não precisava de mais preocupações após o susto com o bebê. A pressão sanguínea da outra se estabilizara e ela queria que continuasse assim. Depois que Trent deixara Los Angeles, Julia não atendera os telefonemas dele. Qualquer coisa relacionada ao trabalho, mandava por e-mail direto a Kim. Não queria que nada a impedisse de pôr em prática a decisão tomada. Quando chegou ao escritório, parou e inspirou fundo. Ele levantou a cabeça do trabalho no qual se concentrava e ergueu as sobrancelhas, antes de lançar-lhe um enorme sorriso. — Julia, andei tentando... — Eu me demito — ela disse, avançando para a escrivaninha e jogando-lhe a carta na frente. — Vou ficar três semanas, até Sarah Rose partir. Mas depois irei embora. Ele levantou-se de repente. — Por quê? — Você me ouviu — foi a resposta em voz firme. — Quero sair, quanto mais cedo melhor. — Qual o problema, querida? Ele. Era ele o problema, tanto que ela não via o que se passava diante dos olhos. Trent usara-a para ganhar terreno com o Tempestade do Oeste, mas nada sentia de fato por ela. Jamais o dissera. E.o que a deixava mais furiosa era ter deixado aquilo acontecer. Ele a havia desestabilizado. — Acabei com o Tempestade do Oeste, Trent. Você não precisa mais de mim. Terminei meu trabalho aqui. Trent pareceu confuso. Endureceu o rosto, balançou a cabeça e ergueu a voz. — Você desapareceu durante três dias. Não atende os meus telefonemas. Me deixa com uma saudade dos diabos e depois volta para dizer que vai embora? Que droga acontece por aqui? Julia deixara de entender no momento em que o ouvira dizer que sentia uma saudade dos diabos. — Saudade de mim? Saudade do quê, Trent? De mim... para tornar fácil a sua vida? De mim... para tirar seu precioso hotel do vermelho. De mim... debaixo de seus lençóis à noite? Ou de mim... Apenas eu? Ele olhava-a, sem fala. Julia teve a resposta então. — Vou ficar três semanas, não por você, Trent. Faço isso por Sarah. Prometi ficar com ela. Falarei com você sobre assuntos do hotel. Mas jamais me aborde por qualquer outra coisa. Entendeu, chefe? 83
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    Trent contornou aescrivaninha, devagar e tranquilo, marcando os passos e mantendo a fúria, muito mal, sob a superfície. — Por que, Julia? Por que faz isso? Ela riu baixinho, atingida pelo absurdo. Porque você se recusa a me amar. — Você me usou. E o triste é que nem tem consciência de ter feito isso. Não se importa com nada além de seu precioso hotel. É só o que lhe interessa. Acabei com esse tipo de vida — concluiu em tom conclusivo. Bufando, ele falou com autoridade: — Você esquece que a tenho sob contrato? — Não me tem mais sob contrato. — Julia riu, feliz por ter deixado isso bem claro. Um tique agitava o queixo de Trent, mas o ligeiro piscar nos olhos denunciou-o. — Eu podia... — Processar-me? Arruinar minha reputação. Vá em frente, tente. Não tenho medo de nada que você possa fazer. Qualquer um adoraria me contratar. Tenho uma reputação impecável e uma forte ética de trabalho. Meus sucessos falam por si. Ele coçou a nuca. Baixou a voz então, talvez por entender que ela falava sério. — Ora, vamos, Julia. Está zangada com alguma coisa, mas eu não consigo saber o que é. É só dizer o que fiz que arranjo um jeito de corrigir. Julia balançou a cabeça. — Você não entendeu. Não pode dar um jeito nisso. Você é um idiota, Trent. Mas eu sou uma ainda maior. Apaixonei-me por você. Deu as costas e saiu antes de presenciar a reação dele. Não queria vê-la. Não suportava vislumbrar a surpresa ou, pior ainda, a indiferença do sujeito. — Julia fez um excelente serviço preparando tudo isso — declarou Pete Wyatt, ao lado de Trent vendo os hóspedes do hotel sentarem-se para esperar a chegada de Sarah Rose. Sobrara um lugar. Cada um dos convidados esperava aquele espetáculo privativo e especial. A música marcante de Sarah Rose tocava baixinho no fundo, para por a audiência no clima. Transformaram o cais do lago do Destino num palco, cercado por flores e arbustos nativos de Crimson Canyon. — Ela conseguiu — concordou Trent, vendo-a de longe dar os últimos preparativos no cais. Precisava dar-lhe crédito. Júlia tinha ideias e o conhecimento para fazer tudo acontecer. Parecia tão bonita em trajes rurais. Usava uma calça de brim que se encaixava na cintura fina, uma blusa com rufos marrom-avermelhados que destacava os tons da pele bronzeada. Vestira-se para a ocasião especial, com botas e tudo. Ele sentiu um nó formar-se na boca do estômago. Ela não ia dar-lhe atenção. Ele já tivera os ouvidos enchidos por Evan e Brock nesse dia. As noticias corriam rapidamente no clã dos Tyler, e todos sabiam que Julia decidira deixar o Tempestade do Oeste. Trent evitara falar disso à mãe, porém. Não ia explicar-lhe nada que não 84
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    conseguia explicar asi mesmo. Ela tomou posição no cais de frente para a multidão, o rosto ardente de antecipação e... orgulho. Olhou os convidados e a música cessou. Falou ao grupo, deu- lhes boas-vindas ao primeiro espetáculo exclusivo do hotel e foi recebida com uma salva de palmas. Quando pararam os aplausos, começou: — Como vocês sabem, o Tempestade do Oeste trata de lendas. Vivam as nossas ou criem as suas. Assim, antes de darmos início, eu gostaria de falar a vocês como este belo lago foi batizado e sobre as lutas, esperanças e sonhos das pessoas que moravam aqui décadas atrás e assistiram a esse espantoso por do sol rio Canyon todos os dias. Falou com o coração, com emoção em cada palavra. Quando acabou de contar a história, apresentou Sarah Rose e voltou a atenção para as águas. A cantora country apareceu num barco sobre o lago tremeluzente, trazida até o cais por dois caubóis do hotel. Acenou para a platéia, que aplaudia, ajudaram-na a subir os poucos degraus do ancoradouro, e entregaram-lhe o violão. Sarah sentou-se num banquinho posto na beira do cais e começou a cantar, com o por do sol laranja por trás criando vividas raias de cor de um lado a outro do lago. Brilhante. Trent olhou para Julia, que se voltou na mesma hora, a metros de distância, os olhos se encontraram, e por um segundo houve triunfo e ligação — haviam alcançado a meta juntos. Mas então se embaçou o brilho nos olhos dela. Ele piscou com a extrema tristeza que via naquele rosto, antes que ela desse as costas. De repente, Trent temeu perder uma coisa mais preciosa do que o hotel. Julia amava-o. Ele não teria de vasculhar muito o coração para saber que o explodira por ela, uma grande explosão. Tanto Evan quanto Brock haviam-lhe dito isso, jogando alguns palavrões no meio, pois a conversa telefônica não fora o ponto alto do dia. Trent deixara a ambição cegá-lo e já era tarde demais. — Está pensando em um novo caubói? — perguntou Pete em voz baixa. A pergunta interrompeu seus pensamentos, mas o fez assentir com a cabeça. — Acho que Joe Hardy serve. O outro concordou. — É um bom homem. — Tem certeza de que quer ir embora? Pete deu um suspiro e balançou a cabeça. — É hora de voltar pra casa. As coisas por lá se complicaram mais do que eu pensava. — Problema com mulher? — Ééé, e para mim já chega. Agradeço a você guardar meu segredo. Fico lhe devendo uma. Trent sorriu ao amigo. — Sei onde encontrar você. O outro balançou a cabeça e os dois ficaram ali parados, ouvindo as doces emoções de Sarah Rose numa suave e triste balada de amor não retribuído. 85
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    — Você vaipartir? — perguntou Kim a Julia, a desolação evidente em seu rosto. Não passava muita coisa despercebida pela turma do hotel. O Tempestade do Oeste parecia uma cidadezinha em si, como se todos se conhecessem. Julia olhou a nova amiga quando se dirigiram ao hotel para a festa após o espetáculo em homenagem à primeira apresentação de Sarah Rose. Sabia como sentia falta da jovem e impulsiva garota. Ia ter saudade de uma dezena de coisas no Tempestade do Oeste. Fizera amizades ali. Gostava do trabalho, do desafio e das belas paisagens. Via o início do empreendimento, mas não teria o prazer de ver a conclusão. O concerto fora o primeiro passo, e um imenso sucesso. Ela passou o braço em torno da outra e encaminharam-se para a Canyon Room. — Vai ser difícil sem você aqui, Julia. Ela sentia-se do mesmo jeito. Teria saudade da amizade com Kim. Mas precisava partir. Não conseguia superar a mágoa e a raiva que tinha de Trent. Não lhe dirigira mais do que algumas frases nos últimos dias. — Sei que sempre seremos amigas. — Espero que sim -— concordou a amiga. — Falaremos mais sobre isso amanhã. Agora, vamos dizer a Sarah como foi maravilhoso o desempenho dela. — Subiram a escada de pedra que levava à entrada do saguão dos fundos e entraram no restaurante para a festa. — Acho que ela precisa de um amigo esta noite. — É — disse Kim, e empertigou-se um pouco — as garotas precisam se manter unidas. Julia viu Cody Landon que, encostado na lareira, observava com olhos de águia a cantora conversar com um casal de jovens recém-casados e Kim adiantaram-se e, depois que a artista acabou de assinar autógrafos, as duas se aproximaram. Julia pegou Sarah pelo braço e, tão logo chegaram a um canto discreto da sala, abraçou-a com força. — Obrigada — murmurou. — Esteve maravilhosa. — Você é que esteve, Sarah. Todos adoraram o espetáculo. — Gostei mais de fazê-lo do que imagina — respondeu a cantora, a gratidão entremeada na voz. — Quase esqueci como era tocar para uma platéia pequena. Sinto que podemos nos ligar mesmo com a música. -— Inspirou fundo e prosseguiu: — Você sabe, eu sempre achei que sabia o que desejava da vida. — Olhou na direção de Code com uma pontada de pesar nos olhos. — Mas às vezes, quando jovens, nem sempre entendemos direito. — É a pura verdade. Julia riu baixinho até voltar-se e ver Trent parado ao lado de Code junto à enorme lareira. Dois belos homens, com dois pares de olhos dirigidos para o grupinho de mulheres. Ela sentiu o coração afundar e uma arrasadora tristeza consumi-la. Passou um garçom com uma bandeja de borbulhantes taças de champanha. Deteve-o e pegou uma para cada uma. — Vamos brindar — disse, batendo a borda ààflute nas outras. — A você, Sarah, por trazer ao Tempestade do Oeste seu incrível talento, e a você, Kim, minha nova amiga. Senhoras, um brinde a um melhor entendimento no futuro. 86
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    As mulheres repetiramos mesmos desejos, beberam, e Julia reconheceu que cada uma escondia alguns sentimentos de carinho por trás dos rostos sorridentes. Duas horas depois, Sarah desculpou-se, deixou a festa ladeada pela segurança à paisana do hotel e os outros foram saindo rapidamente. Julia ficou para falar com a equipe para que o próximo espetáculo saísse ainda melhor. — Tudo bem, obrigada a todos vocês — disse, fechando o caderninho e dispensando-os da mesa. Todos se levantaram juntos. — Fizeram um serviço sensacional. — Você também. A voz veio de trás, o que a fez virar-se e encontrar Trent parado próximo. Ela olhou os membros da equipe, que abriram passagem correndo, e viu-se sozinha com ele em Canyon Room. — Só estou fazendo meu serviço — respondeu, ainda não preparada para um confronto. Apertou o caderninho no peito e começou a se afastar. — Vai bater em retirada? Só estou tentando agradecer, Julia. — Considere feito — ela respondeu, e virou-se. Viu o tique contrair o rosto dele de novo. — Ainda não acabei. — Ora, diabos. Não dou a mínima. — Ela conteve-se e recusou-se a discutir. De qualquer modo, não lhe restava mais força alguma para combater. — Estou exausta. Preciso dormir um pouco. — Julia, escute. Preciso falar umas coisas com você. Trent manteve-se firme e falou com determinação, porém nada mais restava para dizer a ela, já que não lhe mostrara confiança. Jamais mostrara. Ele lhe dera motivo para isso. ' — Negócios? — perguntou Julia. — Diabos, não! — disse, e adiantou alguns passos. — Bem, então, sinto muito. Mas não quero ouvir nada de você. Achei que tinha deixado isso claro outro dia. Trent mordeu os lábios. Sentiu as faces arderem e o corpo enrijecer. Ela o enfurecera, mas era a única forma que conhecia de impedi-lo de se aproximar, de magoá- la ainda mais. Contornou, roçando-lhe o ombro por acaso, e saiu direto da sala. E deixou para atrás uma bela fatia de seu coração. Dois dias depois, deitada na cama, a cabeça no travesseiro, Julia olhava pela janela. A luz da manhã em Crimson Canyon coloria tudo de luxuriantes matizes de dourado, uma vista estonteante que passara a esperar todo dia, e da qual sentiria falta ao 87
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    partir. Apenas maisalgumas semanas e iria embora. Deu um longo e dramático suspiro, com as emoções tumultuadas. Passara a metade da noite chorando e a outra amaldiçoando Trent, a teimosia dele e sua própria estupidez. Jamais sentira uma dor tão dilacerante antes. Podia sair dali de cabeça erguida, plenamente satisfeita com o que fizera e sabendo que tais esforços deixariam o hotel encaminhado na direção certa. Quando o celular tocou, ela ouviu a melodia por alguns segundos. Não se achava no clima para falar com ninguém, mas quem chamava insistia. Verificou o número. Era seu pai. Dissera a ele no dia anterior que ia deixar o emprego antes do esperado e ele arrancara mais informação do que a filha queria divulgar. Sem dúvida, preocupado. O sentimento de filha falou mais forte, e a moça respondeu com voz alegre. — Oi, pai. Como vai? — Já estive melhor, para ser franco. Mas tudo bem. — O velho deu uma risada simpática. — Quer que eu vá aí dar um soco e apagar esse caubói pra você? — Pai! Parecia uma ideia boa demais. — Ah, Julia... Sinto muito não ter dado certo pra você. Mas às vezes é melhor assim. Só é preciso ter fé. — Eu sei, pai. E tenho — ela brincou, curiosa com o otimismo dele. — Estou examinando outras perspectivas de emprego. — Isso é bom, Julia. Sei que minha garotinha logo encontrará a felicidade. Ela não alimentava tais esperanças, por isso ficou calada. O velho continuou: — Tenho uma coisa a lhe dizer e espero não estar fatiando na hora errada. Não quero mais nenhuma... bem, infelicidade, mas também não quero que saiba disso por outro que não eu. A verdade é que Rebecca Tyler e eu vamos começar a nos encontrar a sério. Julia fechou os olhos. Só podia sentir-se feliz pelo pai. Soubera o tempo todo que ele andava, solitário nos últimos tempos, e Rebecca Tyler era uma mulher meiga e carinhosa, mas, ai, era mais uma coisa que a ligava a Trent. — É uma mulher adorável, pai — respondeu, após um longo silêncio. — Fico feliz por você, mas um romance interurbano? Não vai ser difícil? — Não, eu me preocupo mais que seja difícil pra você. — Não se preocupe comigo, pai. Vou arranjar alguém em breve, e acho que posso pôr tudo em perspectiva. Você merece ser feliz. — Obrigado, querida. Então tudo bem com você? — Claro, pai. Para mim, tudo bem — disse Julia, com sinceridade. Acabara de lidar com o fato de Laney haver se casado com o irmão de Trent e seu pai sair com a mãe dele. De qualquer modo, não tinha muita opção. — Vejo que você e Rebecca são muito... compatíveis. O velho tornou a rir. — Compatíveis? Querida, que palavra mais antiquada. Somos quentes um pelo outro. 88
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    — Pai! Ele continuoua dar risadinhas, a voz alegre. — Podemos ser cidadãos idosos, mas ainda nos resta alguma quilometragem. Sinto o maior respeito por Rebecca. Ela vai se hospedar no hotel de Evan em Los Angeles por algum tempo, para ficar perto de Laney é ajudá-la. E eu irei fazer algumas visitas na Flórida. Acho que vai dar certo. — Então fico feliz por você. — Obrigado, querida. Após o telefonema, Julia levantou-se da cama e decidiu tomar um longo banho de banheira. Era domingo, e não tinha de trabalhar. As apresentações de Sarah no fim de semana haviam funcionado como um relógio, sem problemas nem questões, e o hotel jamais andara mais ativo. Utilizava-se tudo na capacidade máxima, as lojas de presentes e restaurantes prosperavam e as visitas guiadas aos estábulos achavam-se esgotadas. Durante a semana, Ken Yellowhawk começaria a série de palestras sobre arte e instrução do sudoeste em Shadow Ridge. E ela já contratara outro cantor para o Tempestade do Oeste que concordara em ficar um mês e meio. Despiu o pijama e dirigiu-se ao banheiro, pronta para iniciar o banho, mas outra chamada do celular a interrompeu. — Oh, pelo amor de Deus — disse, enrolando-se numa toalha, inclinada a não atender. Porém mais uma vez olhou quem ligava e atendeu. — Oi, Sarah. — Bom dia, Julia. Espero não perturbar você. — De jeito nenhum — ela tornou a brincar, e perguntou-se com ironia se davam prêmios por brincadeiras. — Não estou fazendo nada. — Que bom. Lembra quando você quis falar comigo sobre... bem, minha relação com Code? — É, e a oferta continua de pé. — Odeio lhe pedir isso... mas pode,me dar um pouco de seu tempo esta manhã? Eu, hum... preciso falar com você. Aconteceu uma coisa. Sarah pareceu muito hesitante, e Julia queria aliviar a consciência dela. -— Claro, Sarah. Terei prazer em conversarmos. Só me dê meia hora para tomar banho e me vestir. Posso chegar ao seu... — Pode me encontrar no lago? Eu preciso... preciso de um pouco de ar fresco. Espero você no cais. Julia franziu a testa. Sarah parecia muito perturbada, e ela sempre soubera que havia mais coisas na sua amizade de infância com Code do que Sarah deixava transparecer. Esperava apenas que ele não houvesse comprometido a estada da cantora no hotel. — Estarei lá em trinta minutos. A amiga ergueu a voz. — Oh, obrigada. E, Julia, espero que saiba que eu a julgo uma boa amiga. — Sei, sim. E sinto o mesmo. Até daqui a pouco. Tomou um banho rápido, vestiu um jeans desbotado, pôs uma camiseta Phoenix 89
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    Suns que Kimlhe dera e as botas de couro. Juntou os cabelos num rabo de cavalo e saiu pela porta vinte e dois minutos depois. O que Sarah tinha a dizer devia ser importante, e ela não queria se atrasar e dar-lhe a chance de se acovardar. Fosse o que fosse, parecera numa extrema hesitação ao telefone. Pelo menos, pensou Julia, com um dilema a outra esqueceria o próprio coração partido. Chegou ao cais primeiro e ficou satisfeita por haver muita gente em torno. A maioria dos hóspedes comparecera ao brunch servido no pátio e em Canyon Room. Parada, Julia olhou o lago do Destino, e uma brisa fria lembrou-lhe de que logo chegaria o inverno. A vista ali era de tirar o fôlego, com o tremeluzir das profundas águas azuis e a luz do dia refletida em Crimson Canyon. Ela inspirou fundo e engoliu em seco, lembrando os escritórios empresariais sem janelas que enfrentaria quando voltasse. Ouviu passos que se aproximavam e virou-se, esperando ver Sarah. Viu Trent de pé bem em frente, com um smoking preto, gravata de fita e novíssimas e reluzentes botas. Lutou para impedir o queixo de cair. Depois piscou os olhos. Ele sorriu e ela sentiu o coração arder. — Oi, Julia. Desorientada, cumprimentou-o com a cabeça. Ele tinha a aparência de um zilhão de dólares, e mais um pouco. Ela não podia deixar que isso a dobrasse, mas tinha curiosidade em saber o que o fizera se embonecar assim, como diziam os caubóis. — Vou me encontrar com Sarah aqui e preciso um pouco de intimidade. Trent deu um suspiro. — Não vai, não. Ela não virá. E diz que sente muito. Julia tomou a piscar, confusa. — Que quer dizer? — Eu armei tudo. Ela chamou você para mim. Devia ficar furiosa, mas era difícil ficar furiosa com um sujeito que parecia melhor do que sundae com calda de caramelo quente com creme batido e morango. — Por quê? Ele aproximou-se e tomou-lhe a mão. Levou-a aos lábios, os olhos escuros pregados nos dela. — Porque eu amo você. E precisava lhe dizer isso, querida. Uma onda de calor espalhou-se pelo corpo de Julia. — Você me ama? Ela queria acreditar, mas Trent jamais oferecera amor antes. Como podia confiar que ele não dizia aquilo apenas para mantê-la no Tempestade do Oeste? — Estou lhe pedindo que se case comigo, Julia. Seja minha esposa. Tenha meus filhos. A esperança saltou no coração de Julia. — Oh, Trent. Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma caixinha. Abriu-a e uma brilhante aliança 90
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    com diamante marquêsrosa refletiu a luz da manhã. Desta vez ela não conseguiu impedir o queixo de cair, mas não encontrava as palavras. Trent procurou em seu rosto uma resposta. Ela estava desorientada a ponto de ficar muda. A boca de Julia recusava-se a trabalhai- . Então enfiou a mão dentro do paletó, pegou um documento dobrado e entregou-lhe. — Meu amor e a aliança vão junto com isto. Julia baixou os olhos e leu as palavras contrato pré-nupcial. Franziu os lábios para baixo e lágrimas arderam-lhe nos olhos. O homem não mudara de modo algum. Queria-a em seus próprios termos, e recorreria até a oferta de casamento para mantê-la no Tempestade do Oeste. Ela sentiu o corpo tremer descontrolado e combateu a humilhação, deixando a raiva tomar o lugar. — Como ousa, Trent Tyler? Não me conhece nem um pouco! Acha que uma mulher quer um contrato como proposta de casamento? Acha que não sei que você faria qualquer coisa por este hotel? Você não me ama. Sou seu ingresso para o sucesso, só isso! Ergueu os braços, girou nos saltos altos, afastou-se antes de fazer uma cena maior e esmagou o documento na mão ao sair pisando forte. — Espere! — ordenou Trent, fazendo-a parar na beira do cais. — Leia, querida. Leia e saiba que falo sério em cada palavra. Tinha no tom da voz alguma coisa, uma coisa suave e suplicante que a fez interromper a raiva. Ainda trêmula, Julia desdobrou e leu o papel amassado. Querida, Atesto por este que a amo profundamente. E meu mais caro desejo que se torne minha esposa, mãe de meus filhos, parceira de meu coração e todos os meus bens, mas sem qualquer obrigação de algum dia voltar a trabalhar para mim... a menos que deseje. Amo-a mais do que qualquer outra coisa na vida. Julia, você é meu milagre. Trent. Julia voltou-se e viu-o ali, de frente para ela. Lágrimas de alegria escorriam-lhe pela face agora que olhava dentro dos olhos dele e via ali a verdade. Deus, como o amava. Abriu o coração e a confiança tomou-a. Por fim acreditava no amado, que a amava. — Fala sério mesmo? Assentiu com a cabeça e tomou-a nos braços. — Cada palavra, Julia. Não imagino minha vida sem você. — Oh, Trent, também o amo. Muito. — Então se casa comigo? Ela assentiu. — Sim, me casarei com você. — Ótimo — disse Trent, e pôs-lhe a aliança no dedo. — Seu pai disse que você se casaria, mas eu tinha minhas dúvidas... — Meu pai? 91
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    — Liguei praele ontem à noite e pedi sua mão. — Pediu? — Isso explicava o súbito otimismo do velho. O telefonema nada tinha a ver com Rebecca. Ele sabia das intenções de Trent quando falaram naquela manhã. Deu um sorriso de felicidade. — Você me impressionou. — Espero passar a vida impressionando você. — Anseio por isso, querido — ela disse, aninhando-se nos braços dele. Trent abaixou a cabeça e arrebatou-a num beijo que falava de promessa, amor e um futuro cheio de alegria. Depois passou os braços pelos ombros dela e virou-a para a água reluzente. Enquanto olhavam o lago do Destino, ele disse em voz baixa: — Ganhamos uma segunda chance na vida, como diz a lenda. Vivemos a lenda. Julia encostou-se no amado e suspirou. — E agora criaremos uma nossa. Ia passar o resto da vida amando seu próprio caubói cinco estrelas. De fato, um milagre. Fim 92