CANTANDO NO CHUVEIRO



       Tem momentos na nossa vida em que nos damos conta de que não somos mais

os mesmos de antes, de que a nossa rotina mudou. E que nessa mudança muita coisa

que era rotineira deixou de ser sem que ao menos percebêssemos.


       Tive, hoje, um desses momentos. Isso é bom! Nunca fui muito de parar para

ouvir música, menos ainda de sair cantando por aí, mas se havia um momento e um

lugar em que essas duas coisas estavam sempre presentes comigo era na hora do

banho. Acho que a água despertava meu lado artístico(?) musical. Desde criança

gostava de cantar embaixo do chuveiro. Na adolescência, não ia pro banho antes de

ligar algum aparelho para ouvir musica, e os ritmos variavam de acordo com o meu

estado de espírito do momento, havia dias que gostava de ouvir músicas agitadas,

noutros algo mais suave. Mas sempre com o som ligado e em alto volume. Será que

era para os vizinhos não ouvirem minha voz? Nunca havia pensando nisso, mas acho

que o meu inconsciente já sabia da minha qualidade musical e queria poupar os

vizinhos.


       Não vamos discutir isso agora! O fato é que esses momentos musicais faziam

parte da minha vida, até quando viajava, estava na casa de outras pessoas, de repente

me via cantando durante o banho. Era algo que acontecia naturalmente. Porém de

maneira natural sem que também percebesse, deixei de cantar no banho há alguns

anos e só agora estou me dando conta disso.


       Hoje, tive um dia normal, se bem que a minha idéia de um dia normal agora

está muito distante do que seria um dia normal anos atrás. Após um dia de trabalho,
sexta-feira, dia em que fico sozinho em casa à noite. Fui tomar meu banho, antes

disso, deu-me vontade de ouvir uma música. Coloquei um CD de Maria Betânia em que

ela além de cantar, recita uns poemas de Fernando Pessoa. É belíssimo! Até aí, tudo

bem não havia me dado conta de nada. Liguei o chuveiro e comecei a cantar. Após

alguns minutos, todo empolgado na minha cantoria, comecei a rir. Foi aí que me dei

conta de como cantar debaixo do chuveiro era gostoso e de como fazia tempo que não

fazia isso.


        Desde esse momento não consigo mais parar de pensar por que razão parei de

cantar no chuveiro, se isso me faz tão bem.


        Não encontrei a resposta ainda, mas não me sai da cabeça uma conversa que

tive com uma grande amiga poucos dias atrás. Ela me disse que não podemos deixar

que certas pessoas com quem temos que conviver matem o que temos de melhor

dentro de nós.


        Claro que o meu melhor não é o dote musical, mas nessa correria que é a vida

profissional e com todo o tempo que ela acaba tomando da vida pessoal, acabamos, se

não matando, esquecendo de cultivar as coisas boas que temos dentro de nós e

despertando somente aquelas que mais do que aos outros fazem mal a nós mesmos.


        Felizmente, ainda não foi dessa vez, e espero não ser nunca que alguém possa

me fazer passar tanto tempo sem cantar debaixo do chuveiro.




        Jardiel José de Melo

        02/10/2009

Cantando No Chuveiro

  • 1.
    CANTANDO NO CHUVEIRO Tem momentos na nossa vida em que nos damos conta de que não somos mais os mesmos de antes, de que a nossa rotina mudou. E que nessa mudança muita coisa que era rotineira deixou de ser sem que ao menos percebêssemos. Tive, hoje, um desses momentos. Isso é bom! Nunca fui muito de parar para ouvir música, menos ainda de sair cantando por aí, mas se havia um momento e um lugar em que essas duas coisas estavam sempre presentes comigo era na hora do banho. Acho que a água despertava meu lado artístico(?) musical. Desde criança gostava de cantar embaixo do chuveiro. Na adolescência, não ia pro banho antes de ligar algum aparelho para ouvir musica, e os ritmos variavam de acordo com o meu estado de espírito do momento, havia dias que gostava de ouvir músicas agitadas, noutros algo mais suave. Mas sempre com o som ligado e em alto volume. Será que era para os vizinhos não ouvirem minha voz? Nunca havia pensando nisso, mas acho que o meu inconsciente já sabia da minha qualidade musical e queria poupar os vizinhos. Não vamos discutir isso agora! O fato é que esses momentos musicais faziam parte da minha vida, até quando viajava, estava na casa de outras pessoas, de repente me via cantando durante o banho. Era algo que acontecia naturalmente. Porém de maneira natural sem que também percebesse, deixei de cantar no banho há alguns anos e só agora estou me dando conta disso. Hoje, tive um dia normal, se bem que a minha idéia de um dia normal agora está muito distante do que seria um dia normal anos atrás. Após um dia de trabalho,
  • 2.
    sexta-feira, dia emque fico sozinho em casa à noite. Fui tomar meu banho, antes disso, deu-me vontade de ouvir uma música. Coloquei um CD de Maria Betânia em que ela além de cantar, recita uns poemas de Fernando Pessoa. É belíssimo! Até aí, tudo bem não havia me dado conta de nada. Liguei o chuveiro e comecei a cantar. Após alguns minutos, todo empolgado na minha cantoria, comecei a rir. Foi aí que me dei conta de como cantar debaixo do chuveiro era gostoso e de como fazia tempo que não fazia isso. Desde esse momento não consigo mais parar de pensar por que razão parei de cantar no chuveiro, se isso me faz tão bem. Não encontrei a resposta ainda, mas não me sai da cabeça uma conversa que tive com uma grande amiga poucos dias atrás. Ela me disse que não podemos deixar que certas pessoas com quem temos que conviver matem o que temos de melhor dentro de nós. Claro que o meu melhor não é o dote musical, mas nessa correria que é a vida profissional e com todo o tempo que ela acaba tomando da vida pessoal, acabamos, se não matando, esquecendo de cultivar as coisas boas que temos dentro de nós e despertando somente aquelas que mais do que aos outros fazem mal a nós mesmos. Felizmente, ainda não foi dessa vez, e espero não ser nunca que alguém possa me fazer passar tanto tempo sem cantar debaixo do chuveiro. Jardiel José de Melo 02/10/2009