De seguro
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti a vida inteira.
Não, nunca o contornei
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.
MIGUEL TORGA, Depoimento
D
MAR
Ventos estáveis, gaivotas sobre
Os molhes. A rebentação fixa-se
No ouvido. O som da água
Nas fissuras da rocha, os gritos
Que se perdem nas praias.
Barcos ancorados
Na floresta.
NUNO JÚDICE
ALEGORIA
Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos, e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.
Nuno Júdice

3 poemas ilustrados

  • 1.
    De seguro Posso apenasdizer que havia um muro E que foi contra ele que arremeti a vida inteira. Não, nunca o contornei Nunca tentei Ultrapassá-lo de qualquer maneira. A honra era lutar Sem esperança de vencer. E lutei ferozmente noite e dia Apesar de saber Que quanto mais lutava mais perdia E mais funda sentia A dor de me perder. MIGUEL TORGA, Depoimento D
  • 2.
    MAR Ventos estáveis, gaivotassobre Os molhes. A rebentação fixa-se No ouvido. O som da água Nas fissuras da rocha, os gritos Que se perdem nas praias. Barcos ancorados Na floresta. NUNO JÚDICE ALEGORIA Faço um castelo na areia do futuro. Torres de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças de indecisão. Vejo a areia escoar-se na ampulheta dos séculos, e um exército de ondas rompe as linhas do infinito, derrubando os muros da manhã. Nuno Júdice