O canto de céu aberto e de mata fechada,Marta Catunda                                           1
Marcador de página(0relha)        A questão ambiental é o assunto do momento, mais polêmico do queesclarecedor.   Marta   ...
considera um campo de conhecimento para os músicos do ouvido e parapesquisadores em bioacústica e geofonia.       Para tan...
O Canto de Céu Aberto e de Mata FechadaÍndice para catálogo sistemático.       1.   Zoofonia – Ecologia       2.   Canto d...
Ficha Catalográfica - Biblioteca Central/ UFMTC 355c     CATUNDA, Marta              O canto de céu aberto e de mata fecha...
Universidade Federal de Mato Grosso       Av. Fernando Correa da Costa, s/n, Coxipó       78.060-900 Cuiába – Mato Grosso ...
Agradecimentos        À colaboração da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), queinvestiu, apoiou todos os desdobrame...
À paciente editoração eletrônica de João Batista EpaminondasMalhado.        Ao entusiasmo dos associados do Centro de Estu...
Este livro é dedicado à memória de meu avô Ivar Catunda, por deixar comoherança saudável e afetuosa o convívio na Praia da...
SUMÁRIOAPRESENTAÇÃO                                           12Pássaros (para uma introdução)                         23I...
Seleção de espécies                          112           Verbetes das espécies selecionadas   114V. ANILHAMENTO         ...
APRESENTAÇÃO       A pesquisa que levou ao Canto do Céu Aberto e de Mata Fechadasurgiu de um processo de audição ocorrida ...
bem poucos se dedicaram exclusivamente ao estudo da vocalização dospássaros.          A escolha do Pantanal e da Amazônia ...
avifauna, o que definiam como pássaros da comédia, da tragédia e do drama.A partir de observações diretas em laboratório e...
No entanto, até o momento, a falta de pesquisas que reúnam oreferencial documental da UNISELVA, para uma análise criterios...
as circunstâncias ditatoriais do período não permitiram a produção dosfundadores, dos primeiros professores, técnicos e es...
comunicação e a revolução eletrônica, Marcondes oferecia subsídios para adiscussão sobre a crise dos modelos duais, a crít...
pássaros, e se as inúmeras estratégias para ação neste campo. Ou seja, foramindicados alguns caminhos ou pistas (no proces...
O objetivo é sensibilizar os agentes educativos ou formadores deopinião, quais sejam: professores, arte-educadores, guias ...
paisagem. Como os demais ecossistemas do planeta, estes trazem muitasperguntas sem resposta. Porém, mais que respostas mec...
Avisos, alarmes. A Terra engloba uma pluralidade sonora monumental:a geofonia- como universo sonoro que contém as galáxias...
As velhas acústicas naturais oferecem uma outra dimensão para acompreensão dos sons à nossa volta, uma vez que hoje dispom...
PÁSSAROS (para uma introdução)        Costuma-se dizer que a imaginação tem asas . O voo dos pássarospredispõem associaçõe...
providas de dentes, delgada cauda e vértebras móveis, em tudo o esqueletosemelhante ao de um réptil, com ossos e asas term...
quando foram usados pela primeira vez como meio de comunicação a longadistância. Sabe-se que Júlio César mandava por meio ...
a libertar-se do peso da gravidade – mas também porque voar significaconhecer detalhadamente o espaço terrestre. Nem tão s...
seres vivos vertebrados mis bem dotados. As culturas humanas chamadasprimitivas,        por     necessidade         de    ...
terremotos, erupções vulcânicas e a proximidade de inundações perceptíveis àlonga distância, a chegada de tempestades e ci...
experiência. Assim, a racionalidade cientifica pode ser definida na ressonância– um acordo orientado entre a voz dessas te...
verdade acabamos de “ouvir” estas declarações. O próprio texto musical, aoinvés de ser apresentado em termos sonoros é sub...
frequentes, o colorido timbrístico dos sons, o sentido do ritmo e da passagemdinâmica para a melodia.         7          D...
eletrônico e deste som como matéria-prima da música, seja ela séria ouligeira.   9               A música, como trilha-son...
resolvê-las essencialmente. Resolve-as não só as ignorando, mas criandooutras em seu lugar. Como se pode apenas dissimular...
Ou-vendo         Desde a exploração do Novo Mundo, os viajantes observaram comespanto e decepção, nossas selvas majestosas...
características onomatopaicas. Chama atenção, a toponímia da língua tupi,por oferecer pistas detalhadas do território e,e ...
devidamente estudada e reconhecida em 1934 por cientistas da Universidadede Harvard. O homem tropical utilizava, instintiv...
“extensão” , manifestação ou exposição de todos os nossos sentidos a um sótempo, a linguagem sempre foi considerada a mais...
um outro funcionamento da escrita e da palavra”.                                  18                                      ...
A função do canto territorial das aves é processada durante longosperíodos com intervalos regulares; estas emissões indepe...
atrocidades e violências cometidas, acabam escondendo outros elementosque insistem em ficar de fora.          A diversidad...
seca. A disputa pelos territórios que impunha ritmos de constante movimento,lentos cíclicos entre as grandes estações de c...
fornecidas pelos próprios “habitantes” dos locais onde eram encontradas,informações dobre o clima, sobre a geografia, que ...
Um      matiz      desta      questão       está        cravado     na     própria      tradiçãoantropológica. As ciências...
Não é segredo a vasta contribuição destas culturas para as ciênciasbiológicas e farmacológicas; como também hábitos e cost...
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vivemos um período de interpenetração da passagem da segunda para aterceira. No entanto, a mudança de ênfase do visual par...
O ouvido capta, amplifica, converte e transmite para o cérebro,simultaneamente, o que os dispositivos artificiais só conse...
complexo e sistemas complexos dão origem a comportamentos simples: asleis da complexidade têm validade universal.         ...
Os pássaros, em posição relevante na escala do desenvolvimentoevolucionário, têm ouvidos bem parecidos com os do homem. Ma...
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“exibições comportamentais” e detém seu interesse exclusivamente no que                                             3conce...
observações do tradutor Taunay, encontramos afirmações que definem o“viajante” Florence como homem de “ variado fundo de i...
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  1. 1. O canto de céu aberto e de mata fechada,Marta Catunda 1
  2. 2. Marcador de página(0relha) A questão ambiental é o assunto do momento, mais polêmico do queesclarecedor. Marta Catunda, buscou inspiração na incontestávelmonumentabilidade sonora universal do canto dos pássaros. Demonstra comonossa sensibilidade para a ecologia e suas implicações na vidacontemporânea está comprometida até para a percepção de um simples cantode pássaro e nos convida a ouvir. Ouvindo, nos estimula a pensar na própriaaudição como um sentido enfraquecido em nossa época de comunicaçãointermediada por meios tão sofisticados. Assim, nos leva a compreender porque considera a ecologia uma disciplina que nos fala ao pé do ouvido. O trabalho ora apresentado por esta pedagoga, artista plástica ecompositora autodidata é baseado na dissertação de mestrado em Ciências daComunicação, defendida na Escola de Comunicações e Artes da USP/SP, emjunho de 1993. Durante três anos a pesquisadora dedicou-se a ouvir eclassificar os timbres de dezenas de pássaros do Pantanal (Céu Aberto) e daAmazônia (Mata Fechada), selecionando, a partir de audições, em laboratório eem campo, 23 espécies por critérios próprios que considera de aproximação,na tentativa de tornar o estudo do canto dos pássaros mais acessível ao leigo.Mas, não se deteve apenas nesse aspecto. Segundo o processo de pesquisa,recolheu informações em várias disciplinas biológicas e sociais, objetivandoiniciar a formação de um quadro conceitual multidisciplinar para o que 2
  3. 3. considera um campo de conhecimento para os músicos do ouvido e parapesquisadores em bioacústica e geofonia. Para tanto, teve como ponto de partida os estudos de zoophonia deHercules Florence, pesquisador e desenhista participante da expediçãoLangsdorff, que tem merecido atenção especial da Universidade Federal deMato Grosso (UFMT) em publicações recentes. Florence é mais conhecido como desenhista por suas aguadas, mas étambém apontado como um dos inventores da fotografia e por muitosconsiderado pai da bioacústica. Finalmente, Marta Catunda conseguiu produzir uma obra inquietante,sensível e palpitante, que acaba por conceder uma amplitude notável ao tema,até então restrito a bioacústica e músicos, isoladamente. Por isso, enfrentoudificuldades acadêmicas que, no entanto, transformaram este livro numa leituradesafiante para os que acreditam na liberdade do conhecimento científico ouno rigor de observação imaginativa da ciência. Prof. Fernando Tadeu de Miranda Borges Coordenador da EDUFMT 3
  4. 4. O Canto de Céu Aberto e de Mata FechadaÍndice para catálogo sistemático. 1. Zoofonia – Ecologia 2. Canto de Pássaros – Ecologia 3. Música – Antropologia cultural 4. Audição – Percepção e espaço de tempo – Psicologia 5. Educação ambiental – Comunicação Copyright ©1994 by Marta Catunda ISB: 85-327-0032-2 Universidade Federal de Mato Grosso 4
  5. 5. Ficha Catalográfica - Biblioteca Central/ UFMTC 355c CATUNDA, Marta O canto de céu aberto e de mata fechada/ Marta Catunda-Cuiabá Editora Universitária da UFMT, 1994. 138p.: il Dissertação de Mestrado : Ciências da Comunicação. Bibliografia: p. 131 – 138 CDU – 591.58 Copyright ©1994 by Marta Catunda ISB: 85-327-0032-2 5
  6. 6. Universidade Federal de Mato Grosso Av. Fernando Correa da Costa, s/n, Coxipó 78.060-900 Cuiába – Mato Grosso Fax: (065)315-1119/ EdUFMT Telefone: (065) 315- 8322 Telex : 65137/UFMT/BRA Impresso no Brasil / Printed in Brazil Depósito legal / BN / Decreto 1825 (20/12/1907). Este ensaio recebeu o prêmio Allejandro Jose Cabassa de melhorensaio cultural de 1995, pela União Brasileira de Escritores/UBE – AcademiaBrasileira de Letras 6
  7. 7. Agradecimentos À colaboração da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), queinvestiu, apoiou todos os desdobramentos da pesquisa. À participação estimuladora da Fundação Vitae do Arquivo Sonoro daUNICAMP e da Fundação Cultural do Acre. À Coordenação de Ensino e Superior, CAPES, o apoio financeiro para ocurso de pós-graduação em Ciências da Comunicação e para a dissertaçãoque foram a base deste livro. À fé criativa de Aline Figueiredo, Humberto Espíndola e Wlademir DiasPino. À inspiração instigante dos professores Ciro Marcondes Filho e JoséTeixeira Coelho, da Escola de Comunicações de Artes ECA/USP. Ao geógrafo e tradutor Cláudio Frederico da Silva Ramos, que ajudou aquestionar todos os embates metodológicos, todas as certezas, enfim, todos osmomentos desafiantes, sem desmerecer os sinais da intuição. A Dante Renato Buzetti, por tantos ensinamentos nas audições emcampo, cuja crença encorajadora foi fruto de inúmeras experimentações. Enquanto preparava os textos finais, fui auxiliada de várias maneiraspor Alberto Elias Chenu, Maria Isabel da Silva Ramos, Alexandre e MárciaMarcovici, Carlos Navas, Joana Ferreira Daltro, Lincoln Barbosa e RalfWegmann. 7
  8. 8. À paciente editoração eletrônica de João Batista EpaminondasMalhado. Ao entusiasmo dos associados do Centro de Estudos OrnitológicosCEO/USP, que, em tardes descontraídas de sábado, abrem espaço para todosos que se interessam pelo estudo de pássaros. Ao Povos da Floresta, dos seringais do Rio Macauã, no município deSena Madureira. Acre, por sua acolhida calorosa e enriquecedora. A Tetê Espíndola e Arnaldo Black, pela oportunidade de ingressar nouniverso sonoro dos pássaros. Aos meus pais e irmãs e , finalmente, à compreensão e o carinho deFlávio Daltro Filho e de nossos filhos, Flávia e Guilherme. Cópia xerocrafada com paginação diferente da original sem/imagem 8
  9. 9. Este livro é dedicado à memória de meu avô Ivar Catunda, por deixar comoherança saudável e afetuosa o convívio na Praia das Cigarras, que despertouos acordes da liberdade: viver com as marés e construir sonhos com castelosde areia. E também a memória de Hercules Florence, por intuir, há um século emeio, a zoophonia, como semente do futuro. “Inumeráveis brechas, sobreviventes isoladas da destruição do tempo,jamais darão a ilusão de um timbre original lá, onde ressoaram harmoniasperdidas” Lévi-Strauss, 1952 9
  10. 10. SUMÁRIOAPRESENTAÇÃO 12Pássaros (para uma introdução) 23I. OUVIR 26 Ou-vendo 34 Ou-vindo 38 Ou-vido 48 Audi-ação 52II. OUVINDO VOZES DO CÉU E DA TERRA 56 Por uma geofonia da comunicação 67Zoofonia (para uma aproximação música – bioacústica) 71III. NO CÉU ABERTO E NA MATA FECHADA 76 Canto Instrumento 77 Critério sonoro 85 Critério ecológico 91 Critério biogeográfico 97IV. PERCEBENDO CANTOS 99 Mata fechada ( Expedição Macuã) 105 Céu aberto (Pantanal) 110 10
  11. 11. Seleção de espécies 112 Verbetes das espécies selecionadas 114V. ANILHAMENTO 127O pássaro e o sentidoNova sensibilidade 127Considerações finais 139VI. BIBLIOGRAFIA 143 11
  12. 12. APRESENTAÇÃO A pesquisa que levou ao Canto do Céu Aberto e de Mata Fechadasurgiu de um processo de audição ocorrida em três etapas – em laboratório,no dia a dia e em campo- de 23 espécies dos ecossistemas Pantanal eAmazônia, selecionadas por critérios próprios advindos deste processo. Noentanto, é importante notar que diversos caminhos foram seguidos antes de sechegar a este resultado preliminar, ora apresentado. Tanto da seleção, comodas associações observadas. Isto porque a relação investigada homem –ambiente é um objeto de estudo riquíssimo, no qual, à profusão dos cantos,timbres e tons, acrescenta-se a façanha de uma antiga e longínqua história decomunicação e convivência com o homem. Esta investigação poderia ter sido feita na cidade, ou ondeestivéssemos; em qualquer lugar do planeta, lá estarão os pássaros. A escolhado Pantanal e da Amazônia nasceu de duas preocupações. A primeira é queapesar da terça parte da avifauna planetária pertencer a América Neotropical,o estudo de aves em seu ambiente é ainda pouco desenvolvido no Brasil. Asegunda é que dos estudos desenvolvidos na área específica da ornitologia, 12
  13. 13. bem poucos se dedicaram exclusivamente ao estudo da vocalização dospássaros. A escolha do Pantanal e da Amazônia deveu-se em grande parte àoportunidade aberta pela existência do Arquivo Sonoro Neotropical da 1UNICAMP, que possibilitou a consulta a partir dos cantos de pássaros aliregistrados, com condições técnicas adequadas para investigação. Por outrolado, apesar de ser cada dia maior o interesse científico, muito ainda nos restaconhecer sobre o Pantanal e a Amazônia. De qualquer modo, seria difícil, noestudo sobre o canto de pássaros no Brasil, passar despercebida aprodigiosidade e a profusão de cantos daqueles ecossistemas. Umaverdadeira biblioteca sonora, como referência. As 23 espécies escolhidas mereceram um destaque especial pó:melhor representarem a ambiência sonora dos ecossistemas escolhidos(sonoridade, musicalidade); pelas características onomatopaicas do canto(toponímia do mundo tupi); por serem as mais conhecidas, mais comuns oufamiliares (popularidade), e pela função ecológica (distribuição de sementes,controle biológico) e uma atenção especial à qualidade timbrística dessescantos. A participação no projeto de pesquisa para o Lp Ouvir, de TetêEspíndola e Arnaldo Black, premiação pela FUNDAÇÃO VITAE, em 1990,possibilitou abertura para o desenvolvimento deste estudo. Os compositorespretendiam identificar, a partir de experimentações diversas com o canto da1 A região Neotrópica ( adaptado por Haffer, 1974) se estende do sul do México (20º N) até o Cabo de Horn (57ºS), incluindo a parte meridional não- tropical da América do Sul. 13
  14. 14. avifauna, o que definiam como pássaros da comédia, da tragédia e do drama.A partir de observações diretas em laboratório e em campo, sugeri aoscompositores e elaborei os critérios, que serviram de referência para ascomposições do Lp Ouvir e que, posteriormente, levaram à elaboração dadissertação de mestrado e finalmente a este livro. Outro motivo da escolha do Pantanal e da Amazônia vai ao encontrodas primeiras observações amadoras sobre o canto dos pássaros, feita em1975, com o canto da araras da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso . 2Neste período, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) conceituava-secomo UNISELVA, uma das instituições participantes do Projeto Aripuanã(1973/76), que propunham a lançar bases para conhecimento científico daAmazônia (Cidade Laboratório de Humboldt), visando ao aproveitamentoracional de seus recursos em consonância com o projeto de integraçãonacional. Havia um clima verde aliado ao apelo à causa indígena. Este climaera disseminado por uma política estatal de regionalização, para a integraçãonacional. Inauguravam-se projetos culturais em vária frentes na UNISELVA,destacando-se: o Museu Rondon (MR), em 1973, voltado para o índio; o Museude Arte e de Cultura Popular (MACP/ 1973), e mais tarde, o Núcleo deDocumentação e Informação Histórica e Regional(NDHR/ 1976). A euforiacontagiante pela Amazônia era gerada por grande quantidade de recursos einvestimentos vultuosos que fomentaram projetos grandiosos – todoscomponentes do que se convencionou chamar de milagre brasileiro.2 Em exercícios vocais com o canto das aves, Tetê Espíndola descobrira o timbre agudo de sua voz. Na ocasião,cursávamos Pedagogia, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). 14
  15. 15. No entanto, até o momento, a falta de pesquisas que reúnam oreferencial documental da UNISELVA, para uma análise criteriosa, temdificultado a compreensão da medida deste ousado gesto instituidor. Tanto aimportância da criação de uma base científica na Amazônia, como a novafrente do Museu Rondon para a causa indígena, bem como a capacidade dereunir movimentos culturais, científicos e artísticos, nascentes ou marginais emMato Grosso têm sido clivados em avaliações superficiais, reducionistas e porvezes oportunistas, até mesmo ingênuas. A UFMT não soube ainda ocupar o território aberto pelo canto daUNISELVA, não captou esta chance da história, não soube ouvir, renovar eatualizar conceitos para exorcizar o milagre, dando concretude à inteligência.Isso impede que se reconheça , de forma adequada, a vocação ambiental daUFMT de 1970, como uma universidade de e para o ambiente no agora, vinte equatro anos depois. Nesta confusão de homens e causas, enfim dos interessesmesquinhos, o lado obscuro da academia, todo esforço da causa maior daconstrução do homem do Brasil de dentro foi terreno fértil para o rolocompressor da infindável crise universitária geral. Poucas universidadestiveram um veio tão rico em suas origens. Há ainda necessidade de identificara UNISELVA como um vetor de significações imaginárias e sociais para que sepossa estabelecer como um marco de sementes lançadas. Poucos souberamcultivá-las com distanciamentos das idiossincrasias ideológicas e particulares,portanto, não tiveram a sensibilidade de ultrapassar criativamente aquilo que 15
  16. 16. as circunstâncias ditatoriais do período não permitiram a produção dosfundadores, dos primeiros professores, técnicos e estudantes. Mas o canto dabandeira UNISELVA pode ser reconhecido para continuar ecoando emotivando crítica e imaginativamente toda a comunidade da UFMT. Neste contexto é que tem sido despertada a atenção para o grandepotencial biológico do estado de Mato Grosso. Premiado com duas grandesbacias hidrográficas, a Amazônia ao norte e a do Pantanal ao sul, situado entrea Cordilheira Andina e o Planalto Brasileiro. Mato Grosso é o estado divisordestas águas. Agraciado com nada menos que três ecossistemas: Pantanal,Amazônia e Cerrado – o destino pulsante de ser o coração da América e com amarca deste magnetismo geodésico, firmado com a criação de Brasília. Avocação ambientalista da UFMT de 1972, como Universidade da Selva, deveráser firmado de fato. De julho a outubro de 1990, foram realizadas audições semanais emlaboratório, no Acervo Sonoro Neotropical da UNICAMP, sob a orientação e aresponsabilidade do Prof. Dr. Jacques Vielliard, pesquisador em canto depássaros que já realizou o registro de aproximadamente 17.000 cantos nestaregião. Enquanto ouvia as fitas preparadas no laboratório em audições emcasa, me dedicava à disciplina Nova Teoria da Comunicação, do Prof. Dr. CiroMarcondes Filho, que abordava a nova sensibilidade nas chamadassociedades pós-industriais, a mediatização da vida pelos meios de 16
  17. 17. comunicação e a revolução eletrônica, Marcondes oferecia subsídios para adiscussão sobre a crise dos modelos duais, a crítica da ciência (iluminismo) e oretorno do místico, como novas formas de neutralização das oposições, numuniverso de desaparecimento da realidade e das perspectivas ideológicas. Em outubro do mesmo ano, formamos uma equipe e realizamos aexpedição Macauã, em Sena Madureira, Acre, durante cinco dias, para ouvir aambiência sonora. Neste lugar de matas altas, pousamos nossa esperança namargem de uma rica troca. O processo de audição possibilitou a percepção de como o ouvidourbano é surdo para captar sons sutis, e que a compreensão da novasensibilidade passa necessariamente pela mudança dos sentidos e das formasde comunicação com o mundo. A audição em si leva à aproximação do ambiente, principalmente porsua complexidade enquanto sentido. O ouvido é, também, sede do equilíbrio eda orientação. Do ponto de vista das Ciências da Comunicação, dentro da linha depesquisa escolhida – Comunicação, Arte e Educação- , a questão ambiental foicompreendida nos matizes que apresenta, como uma preocupação dassociedades contemporâneas com a qualidade de vida. A sugestão aquicontida procura, a partir do canto de pássaros, contribuir para experiências queauxiliem a educação ambiental. No entanto, é importante esclarecer que oprocesso de pesquisa e a metodologia não pretenderam desenvolver o quepode ser identificado como uma pedagogia para audição do canto de 17
  18. 18. pássaros, e se as inúmeras estratégias para ação neste campo. Ou seja, foramindicados alguns caminhos ou pistas (no processo de audição) que podem serentendidos como feixe de opções a serem seguidos para o desenvolvimentode uma ação pedagógica, ou possível modelo pedagógico. Isto porque pode-se considerá-la uma etapa posterior. O objetivo inicial foi estabelecer umaaproximação do canto dos pássaros do ponto de vista das Ciências daComunicação, hoje restrito à bioacústica. Notou-se que diversos compositoresutilizaram o canto dos pássaros como tema de inspiração, mas a abordagemaqui proposta busca a compreensão da zoofonia como uma forma decomunicação entre o homem e o ambiente, tentando compreender osentraves e as possibilidades deste campo multidisciplinar. Portanto, seriaprematuro determinar um modelo. O tema proposto situa a pesquisa na fronteira entre o dado e o criado,ou seja, entre a natureza e a cultura. Ao aproximar-se da bioacústica, descobre-se uma ciência que ouve a vida como uma linguagem falada antes que pareçaou independente de qualquer locutor. Para introduzir a comunicação homem-natureza, procura perceber a sensibilidade humana como articulação de umdesejo constituído diferente e independente do que diz a consciência. Paraaproximar-se da ecologia como uma ciência do meio ambiente, procurou nãose isolar das estruturas naturais, já que a ecologia transforma a extensãoindefinida das construções sociais. O material sonoro (canto de pássaros) pertence ao Arquivo Sonoro daUNICAMP e foi utilizado apenas para fins de pesquisa. 18
  19. 19. O objetivo é sensibilizar os agentes educativos ou formadores deopinião, quais sejam: professores, arte-educadores, guias turísticos, agentesculturais, músicos e outros interessados. O roteiro seguiu as estratégias que seevidenciaram no processo de audição em laboratório e em campo e tevecomo objetivos específicos: (1) treinar o ouvido para identificar o canto de pássaros em três etapasde audição; (2) identificar os critérios propostos: sonoro, ecológico e biogeográficodurante a audição; (3) discriminar as diferenças dos tipos de canto e analisar a associaçãosugerida: canto- instrumento musical, e (4) aproximar(diferente de classificar) da ambiência sonora a partir deaudições em campo: no Pantanal e na Amazônia. A educação ambiental é hoje uma tarefa não só da escola, mas detoda a sociedade, a fim de estimular a compreensão dos limites epossibilidades da ação humana para a elaboração da cidadania planetária. Diante da horizontalidade azul do Pantanal, que funde céu e terra numritmo de cheia e vazante, e da verticalidade verde da Amazônia, num ritmocaleidoscópio de umidade e calor, boa parte do potencial musical da culturabrasileira, na terra e no ar, está presente nos animais que sonorizam a 19
  20. 20. paisagem. Como os demais ecossistemas do planeta, estes trazem muitasperguntas sem resposta. Porém, mais que respostas mecânicas, emergentesde soluções racionais e modelos prontos, nos cabe compreender, antes,nossas próprias inquietações sobre estes lugares, numa era de dissensos eincertezas, repleta de caminhos e igualmente de obstáculos. A ecologia como disciplina biológica adquire importância para asCiências Sócias quando os conflitos da relação homem-natureza mudam depolo de reflexão para a relação homem-meio ambiente. Ao nível global estacompreensão só se dá, efetivamente, neste século. Assim, todo o esforço dohomem de se distinguir da natureza e de sobrepujá-la com sua cultura, éextinto como uma espécie de condenação e substituído pela necessidade deinteração, que começa a ser largamente estudada. A natureza passa a ser vistaantes como ambiente, embora os conflitos biológicos e sociais não seconfinem nem se restrinjam mais entre si. Os dons da natureza são exortados de seu lado benéfico (que justificoutodas as atrocidades e excessos cometidos pela Humanidade contra seuambiente). Assim, os mecanismos desconhecidos dos equilíbrios sociais ebiológicos se libertam de leis fixas e estáticas e passam a se aproximar dodinamismo e da complexidade frágil de viver, do sobreviver. A natureza é generosa quando fala da vida. Cantos também contam asestórias de seu próprio som – estão pelo ar, para ouvir e sentir, compreender einvestigar. 20
  21. 21. Avisos, alarmes. A Terra engloba uma pluralidade sonora monumental:a geofonia- como universo sonoro que contém as galáxias dos ecossistemas,que possuem dentro de si inúmeros sistemas sonoros tais quais os sistemasestelares, solares e planetários, em escalas diferentes e muitas vezesinaudíveis ao ouvido humano (o infra-som). A zoofonia pode ser vista como umdestes sistemas, onde o canto dos pássaros se integra. Em 1829, Hercules Florence transcreveu para notas musicais, durante aExpedição Langsdorff, a vocalização de vários animais, inaugurando um novoterreno de conhecimento que nomeou zoophonia. A preocupação dopesquisador não se prendia apenas ao aspecto científico, hoje objeto dabioacústica, mas acreditava, também, na possibilidade de expressar, por meiode partituras musicais especialmente elaboradas com códigos próprios, osentimento de estimulação da sensibilidade humana despertado pelavocalização dos animais em seu ambiente. Na época, a elaboração departituras consistia na única forma de registro das vocalizações dos animais.Em suas observações sobre a zoofonia, Florence demonstrou a importância daformação de novos campos de conhecimento. Seus estudos são fruto de umamente inquisidora e sensível, que tanto expressa o rigor cientifico quanto avitalidade criativa. Durante as etapas da pesquisa, foi possível notar que escala ocidental,ou qualquer outra criada pelo homem, não é adequada para demonstrar todaa gama de tons e timbres da fauna planetária. 21
  22. 22. As velhas acústicas naturais oferecem uma outra dimensão para acompreensão dos sons à nossa volta, uma vez que hoje dispomos detecnologia necessária para bem investigá-los. Um terreno pouco conhecido eestudado, onde tanto os ritmos dos ecossistemas, quanto os ritmos humanos,são afetados pelo impacto ambiental no compasso da multissinfonia da vida,seus sinais, seu movimento, enfim, sua harmonia dissonante. Pássaros em viveiros ou animais em zoológicos não favorecem ascondições de reprodução e só podem oferecer uma pálida representação doque é a vida em seu próprio ambiente: nem a dieta, nem a cor, nem ascaracterísticas comportamentais são as mesmas, embora venham seintensificando formas de controle das populações de diversas espécies criadasem cativeiro, para reintegração posterior em seus habitats naturais. Também os Acervos Sonoros, por mais sofisticados que sejam seusrecursos tecnológicos para o registro e reprodução, apresentam limitaçõesmetodológicas para a compreensão da ambiência sonora. Em todos os campos do conhecimento científico correm-se os riscosda estória de João e Maria que, na ânsia da busca dos elos perdidos com opassado, passaporte para o futuro, e obrigados a seguir um caminho que nãofoi escolhido previamente (condicionamento biológico e social), tiveram ocuidado de marcá-lo ingenuamente com migalhas de pão. 22
  23. 23. PÁSSAROS (para uma introdução) Costuma-se dizer que a imaginação tem asas . O voo dos pássarospredispõem associações que simbolizam a comunicação entre o céu e a terra.Mensagem, presságio, avisa-nos sobre mudanças, perigos e outros fenômenosnaturais. Em todas as religiões e culturas, o pássaro é sinônimo de sagrado.Anjos são homens com asas, mensageiros, protetores. Representam osestados superiores do ser, da alma e da imortalidade. De certo modo, todas estas associações estão ligadas àspotencialidades destes ágeis seres em relação à distribuição de sementes e àpolinização. Basta pensarmos que, se todas as aves fossem extintas de uma sóvez, os insetos tornariam a vida humana impossível em poucos dias. Como animais voláteis, percorrem grandes extensões o dia inteiro enecessitam de quantidade de comida proporcional ao tamanho de seu corpo.Com idade aproximada de 150 milhões de anos, sobreviveram ao Cretáceo e,de lá pra cá, proliferaram velozmente. Ao deixar sua marca semi-réptil suavemente desenhada no barro, hácerca de 140 milhões de anos, o arqueoptérix (Archaeopteryx) relata-nos ahistória de sua característica peculiar: penas. Esse vestígio suave, mas consistente (descoberto em 1861), a certezade que já não se tratava de um verdadeiro réptil, tornava indiscutível o elo, nãomais perdido, entre os répteis e as aves. Cabeça de lagarto, mandíbulas 23
  24. 24. providas de dentes, delgada cauda e vértebras móveis, em tudo o esqueletosemelhante ao de um réptil, com ossos e asas terminando em dedos finos, nãofundidos e com garras. Se a vida na Terra abrange dois bilhões e meio de anos, as aves sãocriaturas recentes. Os Paleontólogos acreditam tenham elas se originado dostecodontes, animais possuidores de longos membros posteriores, sobre osquais corriam semi-eretos, usando a longa cauda para manter o equilíbrio. A era atual, conhecida como Idade dos Mamíferos, surgiu em oposiçãoà Idade dos Répteis, que chegou ao fim com o desaparecimento dosdinossauros e pterossauros. As aves derivam do tronco dos répteis, surgirampouco depois dos primeiros mamíferos. Um elo entre as Idades. Se lembrarmos que os dinossauros reinaram na Terra e estão extintoshá 60 milhões de anos, vislumbramos uma encruzilhada onde homens edinossauros se espreitam, no voo do tempo, nas asas emplumadas das aves.As aves em evolução tiveram que romper a barreira reptiliana que impedia ovôo verdadeiro para que pudessem se tornar veículos da herança dosdinossauros e do advento dos mamíferos. As aves atuais, adaptando-se e transformando-se, ocuparampraticamente todos os habitats disponíveis do globo. Por essa versatilidade sãonotáveis animais vertebrados, os mais conhecidos e estudados. Já na tradição bíblica, Noé aparece como o primeiro criados depombos. Os egípcios criaram pombos para a alimentação e, provavelmente,para a transmissão de mensagens (3.000 a.C.). Não se sabe, exatamente, 24
  25. 25. quando foram usados pela primeira vez como meio de comunicação a longadistância. Sabe-se que Júlio César mandava por meio deles notícias de suasvitórias. No oriente, foram também utilizados como meio de comunicação. Sóna Segunda Guerra Mundial, os pombos-correio foram suplantados pelosequipamentos eletrônicos. Fica aqui um convite e um aviso. Refletir sobre pássaros é exercitar aliberdade. De saltar sobre assuntos, arriscar curiosidades, tecendo ligações,aninhando coisas aparentemente desconexas. É afastar para avaliar de longe,é pousar para observar com firmeza, é migrar para o continente de diversasciências, na busca de alimento para seguir refletindo, exercitando a próprianatureza do conhecimento, que em si não tem fronteiras. Os ornitólogos costumam anilhar (anéis de metais e outros materiais)para monitorar as rotas cíclicas das aves migratórias; assim, algumasconexões e associações foram aqui anilhadas para melhor compreensão dosdesdobramentos do processo da pesquisa. Enfim, apesar de a proposta do tema não possuir bibliografiaespecífica, à medida que as observações foram se efetuando no decorrer dapesquisa, buscou-se a fundamentação necessária na bioacústica, naornitologia, comunicação, ecologia, antropologia, sociologia e na música, deacordo com os objetivos propostos. Pássaros têm a ver com a comunicação não só porque voa – ouporque voar requeira uma aerodinâmica própria que, de Ícaro a SantosDumont, até as naves espaciais e as esportivas asas delta, inspiram o homem 25
  26. 26. a libertar-se do peso da gravidade – mas também porque voar significaconhecer detalhadamente o espaço terrestre. Nem tão somente porque emitealertas naturais, mas porque, além de tudo isso, canta. O canto é a mensagem,sobretudo porque nos sensibiliza. O filósofo grego Heráclito observou o paradoxo do pensamento quepretende imobilizar coisas móveis, no limite de definições fixas. Se pudermos compreender a importância do cuidado das áreasverdes, porque nelas vivem seres especialmente notáveis pelo canto e peloconstante ir e vir por sobre praças, jardins e ruas arborizadas, estaremos maispróximos do meio-ambiente. Talvez possamos enxergar melhor o verde não como escudo da vida,porque ouvindo-o estaremos em sintonia com sua celebrização. Ouvirpássaros é notá-los, e notá-los é deixar de perceber o verde auto-ecologicamente. Por sua inquietude expressiva, os pássaros põem a ecologiaem movimento. I. Ouvir Desde o início deste estudo, verificou-se que a análise das formas deouvir ao fundamentais para a comunicação. Do homem em seu ambiente,porque implicam profundo conhecimento foi originalmente desenvolvido pelasespécies não-humanas que destacam as aves, depois dos insetos, como os 26
  27. 27. seres vivos vertebrados mis bem dotados. As culturas humanas chamadasprimitivas, por necessidade de adaptação e sobrevivência, tambémdesenvolveram, como veremos, formas de conhecimento das diferençasambientais a partir da percepção auditiva. As aves desenvolveram complexo sistema de comunicação sonora.Dentre eles, o principal é o canto territorial que perpetua as espécies. Acredita-se que estes sistemas estejam alicerçados numa eco-lógica. Por outro lado, as culturas humanas desenvolveram-se na defesa econtra a natureza. Nisso todas as formas de civilização agem de maneirasemelhante. Foi justamente por causa da percepção dos perigos com que anatureza ameaça, que a civilização foi criada, a qual também, entre outrascoisas, se destina a tornar possível a vida comunal, pois a principal missão dacivilização, “sua raison d’être real, era nos defender da natureza” , ou seja, 1defender-nos contra a eco-lógica. A civilização não se detém apenas na tarefa de defender o homemcontra a natureza, mas como afirma Freud prossegue por outros meios. Trata-se, portanto, de um múltipla tarefa. O pesado fardo de sacrifícios que se espera dos indivíduos a fim detornar possível a vida comunitária, faz com que a civilização seja defendida,num plano, contra o próprio indivíduo e, em outro, contra a natureza. Este é um dos aspectos que se evidencia na comunicação com oambiente. A mesma natureza que sinaliza os perigos a partir do som que avisa1 Sigmund Freud. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 26. 27
  28. 28. terremotos, erupções vulcânicas e a proximidade de inundações perceptíveis àlonga distância, a chegada de tempestades e ciclones arrasadores, em outroextremo, ostenta o poder de se fazer presente e ativa através do silêncio dasdoenças a cada dia mais complexas e, por último, do enigma da morte, comoo fim do som, o silencio radical. As vozes da natureza que avisam, protegem, também coíbem econdenam ao mais total dos silêncios. O poder inexorável do som, leva aoterror do som. E cada vez mais a civilizações fazem calar o poder dessas vozes,ouvindo outras em seu lugar. A voz da salvação é a voz da civilização e a de todos os instrumentostecnológicos “inclusive os musicas” que esta ou estas, em qualquer estágiocivilizatório fazem ouvir. Também as vozes “in off” dos mitos, das religiões e dapolítica. As vozes dos gênios da humanidade podem ser consideradas asúnicas vozes que ouvem detalhadamente: portanto destoam das vozes queressoam. “tudo que é sólido desmancha no ar” como o som. A solidez do som 2é apenas perceptiva e não a sua essência como fenômeno físico. O papel da ciência é de ser a voz questionadora, fundamenta-se nodiálogo entre a fala das teorias e a voz dos dados observados ou tirados da2 Baseado nesta frase de Marx, Berman desenvolve sua crítica da modernidade, investigando a dialética damodernização de um lado e do modernismo do outro ( dissonância de vozes), que no séc XX leva os processossociais a um constante turbilhão e a um perpetuo “vir a ser”. Refere-se ao “ ritmo afogueado” compartilhado porMarx e Nietzsche como “uma voz que ressoa como autodescoberta e auto-repúdio, como auto-satisfação e auto-defesa”, acreditando na capacidade bem sucedida de conhecer a dor e o terror. Marshall Berman . Tudo que ésólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, pp.16, 22-5. 28
  29. 29. experiência. Assim, a racionalidade cientifica pode ser definida na ressonância– um acordo orientado entre a voz dessas teorias e desses dados. Em cada grande momento tecnológico da civilização, vamos encontraroutro funcionamento das palavras, que se fazem acompanhar tanto por umapolítica como por uma razão nova. Em nossa época, numa cultura altamentevisual, é tão difícil comunicar propriedades não-visuais das formas espaciais“quanto explicar a visualidade dos cegos” . 3 Freqüentemente, nos referimos a coisas ouvidas como coisas vitais.Um exemplo da necessidade de dar ênfase visual ao que ouvido encontramosna própria bioacústica. Para demonstrar que a “eficiência de propagação deuma fonte emissora próxima do solo é baixíssima, devido à grande absorçãode energia sonora pelo solo e outros gradientes atmosférico, ocorre o quechamamos como zona de sombreamento (shadow zone) 4 Um outro exemplo encontramos na definição de “ruído branco”. O somdo mar é considerado um ruído branco porque oferece durações oscilantesentre a pulsação e a inconstância num movimento ilimitado, com alturas emtodas as frequências, das mais graves às mais agudas. Por causa das alturas efrequências, acaba sendo um ruído, para usarmos um adjetivo do ouvido,brando. Mas, a adjetivação visual das propriedades sonoras não pára por aí.Sons ouvidos são frequentemente referidos como sons visíveis. È mais do quecomum usar expressões, como : “-Você viu o que fulano disse?” , quando na3 Marshall MacLuhan : os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo, Cultrix, 1964, p. 347.4 Hernán Fandiño Marino . A comunicação sonora do anu-branco. Campinas: Unicamp, 1989, p. 97. 29
  30. 30. verdade acabamos de “ouvir” estas declarações. O próprio texto musical, aoinvés de ser apresentado em termos sonoros é substituído por comandosóticos, “espécies de sinais de trânsito” 5 Adorno observou que os ouvintes costumam não dar atenção ao queouvem, mesmo durante o próprio ato da audição. Sempre se acreditou que,como as demais formas de expressão humana, a música possuísse a açãosaneadora e educativa. No sentido disciplinar, Platão propunha um programaético-musical que possuísse a característica de “ação de purificação Ática”, ouseja, uma campanha de saneamento de estilo espartano. 6 No sentido em que foi realizado o processo de audição do canto depássaros, a proposição foi captar, com o ouvido, os sons, e tentar identificá-lossonoramente ou musicalmente. Apesar de as formas de audição serempermeadas pela cultura, pelo ambiente, incluindo o gosto musical e a própriaacuidade auditiva (capacidade de ouvir medida em decibéis), a audição é osentido-suporte que leva à profundidade do que é vivenciado musicalmente. Portanto, o treino da audição deve ser anterior à própria educaçãomusical. Antes de ouvir música, seja de qual tipo for, é necessário, sobretudo,aprender a ouvir. Nos processos de alfabetização, vamos encontrar ema ênfase nastécnicas de audição. As crianças são iniciadas, na mais tenra idade, naeducação musical, antes de aprenderem a discernir sons intensos, de sons5 Theodoro Adorno . Fetichismo na música e na regressão da audição, Textos escolhidos XLVIII. São Paulo:Abril., 1967, p. 192.6 Op. cit. ,p. 174. 30
  31. 31. frequentes, o colorido timbrístico dos sons, o sentido do ritmo e da passagemdinâmica para a melodia. 7 Decididamente, não estamos numa época de ouvir. A psicologia dosouvintes é regressiva, porque está desvinculada de qualquer relação com amúsica; dirige-se, antes, ao sucesso acumulado comandado pela mídia, não seexpressa mais pela espontaneidade ou subjetividade. Assim, Adorno anuncia adesaurização da música, cuja aparência externa cede em favor do puramentelúdico. Mas, não podemos compreender a aparência externa da música senão pudermos compreender que o próprio som não tem nada a ver com aaparência. Tudo que compreendemos como aparência não tem nada a ver coma música ou com as músicas. A performance da obra musical erudita há muitosubstituiu o lugar original da música. Visa a identidade entre o intérprete e aobra, entre o intérprete e o ouvinte, levando, finalmente, a ilusão ao própriointérprete e ao ouvinte da criação da obra no ato da execução. 8 A noção de que existe uma música séria e uma música ligeira nãosatisfaz, não é uma percepção suficiente que possamos ter do próprio som7 Sobre educação musical O som e o sentido, São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 19) José MiguelWisnick afirma que a pedagogia musical costuma dar nenhuma atenção a essa passagem, a essa correspondênciaentre diferentes dimensões vibratórias, e perde aí todo um horizonte de insights possíveis extremamenteestimulantes para fazer e pensar músicas.8 Edward Said. Elaborações musicais São Paulo: Imago, 1992, p. 142. 31
  32. 32. eletrônico e deste som como matéria-prima da música, seja ela séria ouligeira. 9 A música, como trilha-sonora do cinema, tem uma aparência, assimcomo o vídeo-clip investe exclusivamente na aparência visual da música aoinvés de investir na própria música. A pior faceta do momento, das chamadassociedades pós-industriais, é investir na aparência de tudo, e , definitivamente,pretender transformar o mundo na aparência, enquanto questões secularestais como o racismo, as desigualdades, a violência, a destruição ambientalcontinuam a desafiar os caminhos da civilização e da civilidade. O tipo de audição que se tem na música-trilha ou no clip tem a vercom o audível apenas na aparência. É o produto de uma sociedade queprecisa se contentar com um mundo aparente, nele viver como se fosse real. Não que se condene a visualidade como superfície, já que ela podeinvestir na visibilidade. A conexão som-imagem em nossa época investe naredução da imagem ao visual, assim como na redução do som ao áudio. Deforma alguma promove a ampliação da imagem como visibilidade ou noaudível do som; ao contrário, funde os dois sentidos para promover umterceiro, o da aparência, que substitui o lugar da essência de ambos ossentidos. Uma sociedade que não satisfaz as necessidades humanasessenciais deve preencher esse vazio com som e imagens e todo um recheiode necessidades aparentes e virtuais, para dissimular sua incapacidade de9 Sobre a música eletrônica, observe-se que a orquestra sinfônica tradicional, em comparação, pode ser tida comouma máquina de instrumentos separados, que produziam o efeito de uma unidade orgânica. Com o instrumentaleletrônico, começa-se com a própria unidade orgânica, com um fato imediato de sincronização perfeita, fazendocom que a busca de efeitos de unidade orgânica careça de maior sentido. Marshall MacLuhan, op. cit. , p. 400. 32
  33. 33. resolvê-las essencialmente. Resolve-as não só as ignorando, mas criandooutras em seu lugar. Como se pode apenas dissimular o lugar da essência, ovazio é indisfarçável. De um outro lado, existe uma impossibilidade técnica. É recente aconexão som-imagem. Vive ainda sob o impacto do fascínio da revoluçãoeletrônica. Os efeitos implosivos desta revolução são deslocalizados no tempoe no espaço. Por um lado, leva à especialização acelerada e por outro abreterritórios para a invenção de códigos e combinações. No que tange oconhecimento musical, percebe-se que não está mais necessariamentevinculado ao domínio da escala e das regras musicais tradicionais. Aimpossibilidade técnica é também uma questão de tempo acelerado. Falar de som sem recorrer à imagem é praticamente impossível;principalmente com a palavra escrita. Deste modo, vamos recorrer a umaimagem que se assemelhe ao desenho invisível que o som faz no ar. A mudança profunda que estamos vivendo funciona tal qual umapedra lançada na água, se faz perceber apenas na superfície, no movimentocircular geométrico. É ela que se agita, é ela que levará ao abismo ou aoaprofundamento deste gesto. Quanto mais fundo for a pedra, maior será aressonância do gesto na superfície. 33
  34. 34. Ou-vendo Desde a exploração do Novo Mundo, os viajantes observaram comespanto e decepção, nossas selvas majestosas. O cenário esplendorososugeria uma fauna exuberante, animais fantásticos , de grande porte como os 10do continente africano. Assim, o “olha ávido dos conquistadores a procurar noemaranhado das nossas selvas a figura gigantesca de qualquer animal quelhes lembrasse o elefante ou o rinoceronte, ou na vastidão dos nossoscampos, a mancha movediça do que poderiam ser bandos de búfalos, zebrasou antílopes.” 11 Ao contrário, o ambiente das florestas tropicais não facilita amovimentação das plantas forrageiras. A densidade da floresta impõe a vidanômade e solitária, afasta o gregarismo ligado aos rebanhos. Se comparadaaos mamíferos, a grandeza da avifauna Neotropical é significativa. Para cadaseis espécies de aves, encontramos uma espécie de mamífero. A América doSul é o continente das aves. O testemunho de ouvir está presente nas culturas indígenas comotradução do que o ambiente à volta comunica. Ao selecionar nomes tupis dealgumas aves, a intenção foi identificar tipos semelhantes de canto a partir das10 Sobre os seres imaginários, ver BORGES,Jorge Luis ; GUERRERO,Margarita. O livro dos seresimaginários.Porto Alegre: Globo, 1981.11 Gastão Cruls . Hiléia amazônica. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1944, p. 60. 34
  35. 35. características onomatopaicas. Chama atenção, a toponímia da língua tupi,por oferecer pistas detalhadas do território e,e portanto da cartografia. A língua Tupi, Nheêngatu, Língua Geral ou Língua Brasílica, é umcampo de investigação científica para a biogeografia e para a ecologiahumana. Os topônimos são sempre descrições ricas, traduzindo a finaobservação ao incluir, no nome do lugar, as características dele; associaçõescom o tipo de terreno, clima e até muitas vezes o som dos lugares, porexemplo: Amazonas = Ama(chuva) + ssununga (barulho ou ruidoso). Podemosencontrar nomes de aves, fora aqueles onomatopaicos, relacionados a um rio,por exemplo: Anhembi = rio das anhumas ou anhimas – como eramchamadas antigamente. Sem dúvida estas associações sugerem pistas para aobservação de inúmeras relações biogeográficas, fitogeográficas e outras quede certo modo faziam parte do conhecimento destas nações, sinalizadas naprópria toponímia da língua. A região Amazônica e o Pantanal somam centenas e milhares deespécies que junto ao Cerrado formam um continente para a biodiversidade. 12Mesmo assim, toda essa fabulosa fauna e flora foi nomenclaturada pelasnações indígenas até suas ínfimas variedades. A audição como reconhecimento espacial implica conhecimentominucioso da geografia, como forma de equilíbrio com o meio ambiente apartir da identificação sonora. A audição biaural (dos dois ouvidos) só foi12 Diversidade biológica significa a variedade dos seres vivos (animais, vegetais ou microorganismos). Não serefere apenas à diversidade das espécies, mas também às variações entre indivíduos de cada espécie que sãotransmitidas hereditariamente (diversidade genética) – assim como às variações que ocorrem entre diferenteshabitats naturais (diversidade de ecossistemas). 35
  36. 36. devidamente estudada e reconhecida em 1934 por cientistas da Universidadede Harvard. O homem tropical utilizava, instintivamente, este potencial paracalcular distâncias, orientar caminhadas e prever perigos de longe. Masquantos viajantes não morriam e ainda morrem na inanição dentro dafloresta? Morte por inanição, claro, do sentido da audição – falta desensibilidade auditiva para se orientar no monocromatismo da floresta. As culturas pré-letradas que contrastam “os caracteres francamentedivergentes da palavra escrita e falada podem hoje ser mais bem estudados” ,graças ao contato íntimo que com elas temos hoje. Diz MacLuhan que um 13único nativo alfabetizado de seu grupo, ao falar de sua função de leitor decartas para os outros, sentia-se impelido a tapar os ouvidos com os dedos,durante a leitura, para não violar a intimidade das cartas. Sem a “pressãovisual” da escrita fonética, a palavra falada não permite extensão e aampliação da força visual requerida para os hábitos do individualismo e daintimidade. O autor aponta o filósofo francês Henri Bérgson comorepresentante de uma tradição de pensamento que considera a língua, comouma “debilitadora dos valores do inconsciente coletivo”. Bergson opina quesem a linguagem a inteligência humana teria permanecida totalmenteenvolvida nos objetos de sua atenção. Esta linha de raciocínio acredita que a 14fala supera o homem e a humanidade do inconsciente cósmico, e como13 Ver Marshall MacLuhan. Os meios de comunicação como extensões do homem, São Paulo: Cultrix, 1964,p.96.14 A linguagem é para a inteligência o que a roda é para os pés, “permite deslocar de uma coisa para outra comdesenvoltura e rapidez, envolvendo-se cada vez menos. Projeta e amplia o homem, mas também divide suasfaculdades, a consciência coletiva e o conhecimento ficam diminuídos por esta extensão técnica da consciênciaque é a fala”. Op. cit. , p. 98. 36
  37. 37. “extensão” , manifestação ou exposição de todos os nossos sentidos a um sótempo, a linguagem sempre foi considerada a mais rica forma de artehumana, posto que a distingue da criação animal. 15 Com os descobrimentos, inaugura-se o período dos grandes relatosescritos sobre trópicos. Eles apresentam uma clara oposição entre o visto e oouvido. 16 O olho está a serviço da “descoberta do mundo”. Existe umaverdadeira “vertigem de curiosidade” está a serviço do que está oculto. A vertigem da curiosidade desloca os sentidos, o olho que a tudodevassa também fareja a riqueza camuflada, desconhecida. Os sons ouvidossão como fantasmas – inarticulados, ruídos sem conteúdo inteligível -, são“chamados fora da órbita do sentido” – sons sem referência na memória. O 17impacto visual da fábula ofusca impedindo a visibilidade, o delírio do olho aserviço da escrita promove o deslocamento fracionando o mundo dossentidos. Com os “descobrimentos” inaugura-se o período dos deslocamentos. AEuropa ocidental (XVI ao XVIII) se deslocaliza. Esta deslocalização generalizadaestá na base das clivagens sociais que acompanham o nascimento de umapolítica e de uma razão nova, que a partir dos relatos de viagem “engendram15 Em Antropologia Estrutural (Rio de Janeiro, 2. ed. 1985, pp. 77-83; cap. III, Lévi-Strauss afirma que, detodos os fenômenos sociais somente a linguagem parece presentemente suscetível de um estudo verdadeiramentecientífico, que explique a maneira pela qual ela se formou e preveja certas modalidades de sua evolução ulterior16 Em A Escrita da História (Rio de Janeiro, 1988, pp. 21-41, “Etnografia, A oralidade e o espaço do outro:Léry”) Michel de Certeau mostra a pressão da escrita como uma energia demolidora dos próprios estatutos daetnologia. Demonstra a oposição entre o visto e o ouvido dos relatos de viagem, o “face a face do descobridor,vestido, armado, cruzado e da índia nua”; - o desnudar sem compreender.17 As estruturas do sentido “projetadas nas diversas línguas, são tão diversas como os estilos na moda e na arte”.Cada língua materna “ensina aos seus usuários um certo modo de ver e sentir o mundo, um certo modo de agirno mundo e que é único.” Marshall MacLuhan , op. cit. P. 98. 37
  38. 38. um outro funcionamento da escrita e da palavra”. 18 Esta verdadeiracompulsividade pela descoberta foi reforçada no século XVIII, veio favorecer a“expansão ilimitada do domínio racional”. 19 Ou-vindo Na caça, na transmissão de sinais e defesa de seu território é costumeantigo entre indígenas a utilização de pios para arremedar certas aves,sobretudo os tinamídeos. Geralmente são aves que cantam à noite, assim, o 3arremedo do canto noturno destas aves servia à emboscada – quando oinvasor era surpreendido na escuridão. Esta antiga arte de defesa demonstra que, a seu modo, os índiosdesenvolveram formas de observação que auxiliaram na diferenciação dosdiversos chamados, identificando as características comportamentais das avespelo canto e pela vocalização. O arremedo dos pios indica uma compreensãoda relação canto-defesa de território, que, assim, era utilizado para os mesmosfins.18 Michel de Certeau, op. cit. P. 213.19 Ver , CASTORIADIS,Cornelius. O mundo fragmentado: as encruzilhadas do labirinto 3. Rio de Janeiro: paze Terra, p. 96.20 Aves pertencentes a uma ordem típica das Américas (Neotrópico), possuem uma família com nove gênerosdivididos em diversas espécies e subespécies. Carne saborosa, são características: o esterno bem desenvolvido ecapacidade de voar limitada pela pequena envergadura das asas. Terrícolas, vivem exclusivamente em matas oucampos. São os conhecidos nhambus, perdizes e codornas. 38
  39. 39. A função do canto territorial das aves é processada durante longosperíodos com intervalos regulares; estas emissões independem de umaestimulação externa. Isto é, o canto territorial de aves é dado constante na 4ambiência sonora das paisagens. Vai daí, justamente, a utilização por índiosdeste tipo de emissão, em situações de defesa de território, pois a chance de oinvasor identificar estes arremedos é quase nenhuma. No continente das aves, o homem ou qualquer outro mamífero sempreforam minoria. E talvez esta percepção tenha sido inata entre as grandesnações tropicais que partilham este território, mesmo antes da chegada doinvasor. É possível que, ao observarem a grande quantidade e qualidade deaves, em sua faina diária à busca de alimento, atraídos pelo canto ( o quepermite a localização) descobrissem territórios favoráveis (de caça e pesca)para o desenvolvimento de suas culturas. Não é mero acaso, a importânciadas aves na cosmologia indígena, na arte plumária , na arte de defesa.5 A ideia que supõe a América Neotropical antes do século XVI comocontinente que vivia na plenitude de sua natureza exuberante e tórrida, onde ohomem tropical em suas nações e tribos numerosas vivia com amplo confortoe plena liberdade espacial para o desenvolvimento de suas culturas, vai deencontro à base dos sentimentos que condenam e restringem a colonizaçãocomo um processo brutal de escravização, opressão e clivagem. A conquistaterritorial levada a cabo por espanhóis e portugueses, sem negar as21 Ver Hernán Fandiño, op. cit. , p. 107.22 Haja vista a técnica da tapiragem, pela qual os índios modificavam ao seu gosto a cor das penas dos pássarosem geral. 39
  40. 40. atrocidades e violências cometidas, acabam escondendo outros elementosque insistem em ficar de fora. A diversidade ecológica guarda um destino submerso no qual amonumentalidade da riqueza natural sempre fez frente de igual altura, senãode maior envergadura, aos processos sociais e culturais. Sem dúvida abiodiversidade contribuiu e contribui para que, apesar dos feitos conseguidos,do jugo e da destruição de boa parte dos sistemas tradicionais desobrevivência de seus povos nativos, continue sendo a América Neotropical apátria planetária das possibilidades, pela qualidade e quantidade de seusecossistemas. Não havia aqui antes da chegada dos colonizadores nada semelhanteà harmonia . Pelo menos a harmonia como costumamos compreendê-la. As 6dificuldades e limitações ambientais obrigavam à vida nômade, desenraizada.Os territórios de caça de animais de que porte. No mosaico das grandessombras florestais da mata Atlântica à Amazônica, a vida se desenrolava entreos perigos e a lentidão do tempo gotejado. Algumas tribos conseguiam se fixarem litorâneas e menos acidentadas, ou próximas a manguezais. É sabido quedo lado oriental da Amazônia, próximo à região dos Yanomamis, os rios sãoconsiderados famintos . A vida nestes territórios é de diário desafio. 7 Tal qual pássaros, as tribos partilhavam este território que impunharitmos de constantes deslocamentos entre as grandes estações de cheia e23 Ver na epígrafe a mensagem que Lévi-Strauss nos deixou sobre as “harmonias perdidas” e o timbre original dotempo, op. cit.,p. 139.24 Ver documentário de Rondon sobre a expedição Cuniná, que revela a decepção da pobreza da faunaamazônica. Conferências. Rio de janeiro, 1916. 40
  41. 41. seca. A disputa pelos territórios que impunha ritmos de constante movimento,lentos cíclicos entre as grandes estações de cheia e seca. A disputa pelosterritórios de caça favorecia o surgimento de tribos guerreiras queescravizavam outras menos desenvolvidas na arte da guerra silenciosa dospios e outros sinais sonoros. Menos desenvolvidas na arte da zoofonia. O descobrimento da América foi fundamental para o desenvolvimentodas ciências naturais e antropológicas. Nos fins do século XVII, a botânica eradescritiva; consistia unicamente na classificação de espécies. Com asexpedições científicas, as relações entre os caracteres climáticos, junto àscomplicações dos botânicos, se avolumaram de tal modo que houve uma“verdadeira revolução no domínio da taxinomia”. Isso contribuiu, diretamente, 8para o aparecimento da ecologia como disciplina da biologia. Como vimos, o continente das aves é sobretudo o da grande variedadede vegetais que, por sua vez, está diretamente relacionada com a riqueza daavifauna: a ecologia surgiu da geografia das plantas. 9 Mas, até hoje, é incômodo admitir que formas de observação danatureza, das chamadas civilizações primitivas, possam estar na base daformulação da biogeografia e da própria ecologia, formulada mais adiante.Evidentemente, a grande quantidade de espécies vegetais classificadas iamacompanhadas não só de seus nomes, mas também de outras informações25 Ver .ACOT,Pascal , História da Ecologia, Rio de Janeiro: Campus, 1990, p. 13.26 “Onde se vê que a geografia vegetal do século XIX, integrando no seus desenvolvimento os métodos eresultados de disciplinas vizinhas, constituiu o quadro conceitual da elaboração dos conceitos centrais deecologia”. Ibid 41
  42. 42. fornecidas pelos próprios “habitantes” dos locais onde eram encontradas,informações dobre o clima, sobre a geografia, que serviam para compor umpanorama detalhado. As teorias que expandiram a noção da Amazônia comoum grande vazio, isolado, perdido na imensidão infestada de selvagens, nãoconseguem esconder este paradoxo. O vazio, na verdade, estava ocupado por numerosas tribos. Sensíveisforam os contrastes fornecidos por estes grupos ambientados com a natureza 10tropical e estrategicamente localizados, que se movimentavam com destrezapor todo o complexo continental, ou parte dele, convivendo, intimamente, coma textura da terra e conhecendo precisamente suas mudanças climáticas.Grupos que possuíam compreensão diretamente do tempo e do espaço, oontem e o hoje, e o próximo ou distante. Enfim, homens que não tinham para sinada de sui generis: grupos organizados, com seus conflitos próprios,convivendo com tudo aquilo que para o colonizador ou naturalista viajante eraum imenso e tenebroso vazio. Na verdade o desconhecido não foi apenas impacto entre o civilizadore o civilizado; mais para um do que para o outro, existiram formas de interação,embora isso nem sempre seja admitido. O conceito sobre as culturas“primitivas” continua contaminado de equívocos.27 Sobre o caráter ambíguo da noção de natureza entre os povos ditos “primitivos”. “A natureza é pré-cultura etambém subcultura, o terreno no qual o homem pode entrar em contato com seus ancestrais, os espíritos edeuses”. Portanto, na noção de natureza há um componente “sobrenatural” e esta “sobre-natureza estáincontestavelmente acima da cultura, como a própria natureza abaixo dela” (Lévi-Strauss, Antropologiaestrutural dois, cap. XVII; B, “O respeito pela natureza”). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro., p. 325. 42
  43. 43. Um matiz desta questão está cravado na própria tradiçãoantropológica. As ciências sociais e antropológicas desenvolveram poucosconceitos para analisar, por exemplo, como os grupos indígenas reproduzemem seu interior o desenvolvimento capitalista, para melhor compreender comoconstituem dentro dele “formações mistas” . Cancline afirma que os estudos 11etnológicos tendem a registrar de um lado a sociedade colonial e de outro ogrupo étnico, como blocos homogêneos. As desigualdades internas sãocamufladas e vistas como unidades compactamente enfrentadas pelo poderinvasor. Assim, as formas de interação permanecem clivadas. O etnocentrismo dificulta a compreensão das culturas populares, quecontinuam a ser enxergadas como “resquícios de tradições étnicas” ou comosubculturas e não como configurações concretas do social, ou comofragmentos, partes de um sistema maior de dominação. 12 Mesmo não sendo um fenômeno à parte, não foi apenas a desnutriçãoe a exploração direta ou indireta das culturas ditas primitivas, mas foi tambéma apropriação do conhecimento e da sabedoria desses povos que permitiuque boa parte do desenvolvimento ocidental. O contato com culturas quedesenvolveram modos de comunicação, de convivência e de conhecimentominucioso da natureza inspirou e até gerou metodologias de observaçãocientífica.28 Ver , CLACINI, Nestor Garcia, Um debate entre tradicion y modernidad, Clacso XVII, 52, 1987, p. 40.29 Para Canclini é o próprio vínculo da antropologia com a história que provoca estas distorções, pois ao abarcara larga temporalidade da dimensão diacrônica acaba por fortalecer a estratégia de dominação dos gruposindígenas, que sempre foi manter a sua diferença, ibid. 43
  44. 44. Não é segredo a vasta contribuição destas culturas para as ciênciasbiológicas e farmacológicas; como também hábitos e costumes alimentares emedicinais, conhecidos como “naturais”, são desde a colonização, até hoje,largamente utilizados e popularizados no mundo inteiro. Também boa parte daindústria farmacológicas alopática utiliza substâncias retiradas de diversosvegetais e animais da floresta tropical, a partir da medicina praticada hámilhares de anos por estes povos, que não recebem retribuição alguma poressa incalculável contribuição. Por isso as interpelações feitas hoje aosindígenas, como guardiões ideais das reservas florestais, merecem umareflexão à parte. Não há como esconder que o desenvolvimento ocidental tem sidoorquestrador de diversas atrocidades que encontram na clivagem dasinterações e conflitos sociais um dos seus maiores desafios. Não seria exageroadmitir que as penas de pássaros presentes nos adereços ou empalhadas emmuseus são sintomáticas de um fenômeno: a partir do quinhentismo, acertam-se os ponteiros para a contemporaneidade da devastação acelerada. O calvinista Jean Lery (1557) foi o primeiro a registrar os nomesindígenas de aves nas aldeias tupinambás, tendo escrito uma canção dessesíndios sobre o canindé (Ara ararauna), uma arara de barriga amarela. A convite do Conde Maurício de Nassau-Siegen, muito interessado emzoologia, o naturalista George MacGrave (1610-1643) foi incubido de executarde executar a primeira expedição científica zoológica, botânica e astronômica 44
  45. 45. em solo brasileiro . Apesar de não ter coletado material científico, MacGrave 13organizou vasto material iconográfico a óleo e aquarelas. Em 1783, Alexandre Rodrigues Ferreira (nascido na Bahia, em 1756),veio chefiando a “Viagem filosófica pelas capitanias do Grão Pará, Rio Negro,Mato Grosso e Cuiabá”, organizada em Portugal, para fazer pesquisas durantedez anos. As coleções desta viagem constituíram-se no primeiro materialcientífico que foi do Brasil para a Europa. 14 Uma experiência de apresentar vozes de pássaros em notas musicaisfoi elaborada, primeiramente, pelo príncipe Maximilian Von Wied Neuwied(1816), quando registrou, no Brasil, o assobio do saci (Tapera naevia). Anarrativa da viagem do príncipe Wied contém vasto material sobre fauna, florae sobre a vida nativa e constitui-se, também, em documento do mais altointeresse biogeográfico. O registro do canto dos pássaros em notas musicais se tornou umaprática entre alguns cientistas e viajantes que conheciam teoria musical. Era oúnico instrumento de registro do canto das aves; outras técnicas surgirammais tarde, como examinaremos mais adiante. No período colonial era prática comum a captura de animais,principalmente das aves. O Brasil era conhecido como a terra dos papagaios.Como troféus das façanhas empreendidas nos continentes conquistados eram30 A Historia naturalis Brasiliae de MacGrave foi editada em 1648.31 Ver Helmut Sick. Ornitologia Brasileira: uma introdução. Brasília, UNB, vol. 1, 1984, p. 107. 45
  46. 46. exibidas para o deleite do mundo europeu, como exóticas. Práticas como a 15Caça de Altaneira foram registradas na corte do infante Dom Luís (1616), umtipo de caça desconhecido nos trópicos. 16 No século XIX, proliferaram as expedições científicas aos estudosbiológicos e zoológicos. Milhares de espécimes de aves foram coletados edepositados em museus da Europa. Entre as coleções que está a de FriedrichSellow (1814), que enviou 5.457 aves empalhadas para o museu de Berlim.Suas coleções só foram superadas por Johannes Spix e Johannes Natterer.Estes dois naturalistas alemães, ao lado do botânico Carl Friedrich Philip VonMartius, fizeram parte da expedição que veio ao Brasil com a princesaLeopoldina em 1817. As coleções de Natterer contavam com 12.239 aves empalhadas, 1.000mamíferos, 35.000 plantas secas e milhares de objetos indígenas, enviados aoMuseu de Viena. Em 1800, Humboldt, que também incluía aves em seus estudos, veioao Brasil com o botânico Bompland, mas foi proibido de entrar no país pordecisão da Coroa. Na Venezuela, descobriu o guácharo (Steotornis caripensis).O cientista pertenceu a uma corrente que elaborou conceitos importantes paraa ecologia – sendo um dos precursores da biogeografia.32 Exótico é tudo aquilo que se desconhece. Ser exótico é, sobretudo não ser compreendido, é ser consideradomal feito, mal acabado, curioso e intrigante, justamente por ser desconhecido. V. Aurélio Buarque de Hollanda,Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa.33 A caça de altaneira é típica de savanas, desertos e de montanhas desprovidas de mata. 46
  47. 47. Os naturalistas Alfred Russel Wallace e Henry Walter Bates viajarampelo Brasil em 1848. A obra de Bates, O naturalista e o rio Amazonas, (1863)está entre as publicações mais conhecidas e estudadas sobre a Amazônia.Wallace ficou mais famoso pela formulação da teoria da seleção natural, em1859, em conjunto com Charles Darwin. Seus estudos baseavam-se emregistros feitos na região oriental da Amazônia. Darwin, que aqui esteve em1832, conclui que a botânica e a ornitologia do Brasil já eram bastanteconhecidas. Poucos cientistas reconheciam a nomenclatura nativa de aves eanimais. A própria forma de classificação implicava, na época das expedições, 17verdadeira corrida científica. Isto porque os nomes das espécies novas queiam sendo descobertas podiam e podem incluir o nome de pessoas, dentro dasistematização introduzida por Linneu, 18 em 1758. A classificação proposta porLinneu fez nascer grande interesse pelo estudo científico de aves, estimulandoverdadeira corrida à consagração científica. As viagens pelos trópicosproporcionavam aos viajantes naturalistas o verdadeiro mérito ereconhecimento científico. O ato de dar nomes científicos hoje é controlado pela ComissãoInternacional de Nomenclatura Zoológica (C.L.N.Z.) e baseia-se na lei da34 Martius compreendeu a importância da língua tupi, para estudos de zoologia, na publicação Nominaanimaliun in língua tupi, 1863 -, e Rodolfo Garcia realizou uma interpretação de nomes indígenas em Nome deAves em Tupi, 1913.35 Autores bem familiarizados com o latim latinizam o nome na nomenclatura, por exemplo: Spixius, em vez deSpix. Em conseqüência, o respectivo nome deve ser escrito com dois “i” no genitivo latino, por exemplo:Cyanopsita spixii, Wagler, 1932; e ainda se escreve Synallaxis spixi, Sclater, 1856, simples genitivo de Spixsem latinização, op. cit., p. 36, Op. cit.,p.38. 47
  48. 48. prioridade: o nome válido é o mais antigo, para evitar que a nomenclatura setorne caótica. A taxonomia baseia-se principalmente na morfologia externa,mas existem hoje outras técnicas para métodos bioquímicos (quimio-taxonomia e sistemática genética), estudos etológicos e pesquisas fisiológicas,tais como: análise da vocalização para tentar investigar problemas nãosolucionados com as técnicas morfológicas. Até 1950, técnicas morfológicas predominaram. Nos anos posteriores,inicia-se a investigação de técnicas não-morfológicas. Destacam-se pesquisassobre a musculatura mandibular dos passeriformes; de possíveis caracteresnos esqueletos, que sirvam para separar famílias e ordens; dos estapes , uma 19parte do ouvido interno: e ainda das estruturas que não estão sujeitas àseleção. A capacidade de comunicação pelo canto ou vocalização subentendemecanismos desenvolvidos ao longo da evolução, nas aves extremamenteligados à audição. Ou-vido Em repouso ou em movimento o ar é um material elástico quetransmite o som. A sutileza sonora e as forças constitutivas da audição,presentes nos pássaros demonstram inequivocamente a leveza de ser.36 Op. cit. P. 37. 48
  49. 49. Só se pode perceber o quanto a audição é preciosa, quando ela falta.Se uma criança nasce surda terá enorme dificuldade de adaptar-se ao mundo.Fatalmente seu desenvolvimento intelectual estará comprometido, nãopodendo ouvir sequer o próprio choro, primeira forma de comunicação. Como centro auditivo, o ouvido é tão ativo, quanto sensível, por issoconsiderado pedra fundamental da comunicação. A audição biaural permiteaos cegos calcular com exatidão a distância dos objetos. O ouvido é a sedenão só da audição, mas de outros dois sentidos independentes: o equilíbrio e aorientação, situados no labirinto. No século XVIII, questionava-se a existência do som. Perguntava-se: Seuma árvore cair na floresta haverá som? A natureza era colocada em dúvida 20nesta procura de um mundo real. Especulava-se o som como fenômenoorganizado, ou como uma sensação que só poderia ser reconhecida pelamente ouvinte. Ainda no início do século XIX, acreditava-se que o som não ocupavaespaço. Assim como os objetos têm textura e forma e podem ser vistos pelosolhos e tocados pelo tato, o som, ao contrário, não poderia ser localizado pormeios auditivos. Até pouco tempo, muitas destas ideias impediam acompreensão da audição biaural. Existem outras razões para a audição tersido um sentido relegado ao segundo plano.37 Sobre a discussão de causa e efeito do som entre filósofos e físicos, Stevens e Warshofsky, O som e aaudição, Rio de Janeiro: Edições Life, 1968, p. 9. 49
  50. 50. Com a escrita, o som passa a ser uma “extensão da função visual”. O 21alfabeto fonético leva à redução do papel dos sentidos da audição, do tato edo paladar. MacLuhan afirma que isto não se deu em culturas como a chinesa,que utilizam a escrita não-fonética, o que capacita à manutenção de umapercepção abrangente e profunda da experiência. Nas culturas do alfabetonão fonético, o ideograma é uma gestalt abrangente, que ao mesmo temponão promove a dissociação analítica dos sentidos e das funções, como ocorrecoma escrita fonética. A separação introduzida entre o som e a visão, de um lado e oconteúdo verba e semântico, de outro, transforma esses dois sentidos na maisradical das tecnologias que tange à tradição. O alfabeto fonético divide aexperiência antes unida, “dando um olho, por um ouvido, liberando o homemdo transe tribal, da ressonância da palavra mágica e da teia do parentesco”. 22Assim as culturas tribais não conseguem compreender a ideia do indivíduoseparado. Para elas, a ideia de espaço e tempo é descontínua e desuniforme,seu fundamento é emotivo. Somente as culturas letradas dominaram as sequências lineares,concatenadas como formas de organização psíquica e social, fragmentando aexperiência em unidades uniformes capazes de produzir ações e mudançasformais mais rápidas através do conhecimento aplicado. Este último é osegredo do domínio ocidental sobre o homem e sobre a natureza. Baseada na38 Marshall MacLuhan, op. cit. P. 103.39 Op. cit., p. 103. 50
  51. 51. alfabetização, a civilização promove um processamento uniforme da culturapelo sentido da visão, projetado no tempo e no espaço pelo alfabeto. Nas culturas tribais, o que organiza a experiência no mundo é osentido vital da audição, que reprime os valores visuais. MacLuhan, em sua “tese genérica” , preconiza a Idade Elétrica como o 23fim da cultura visual, da divisão técnica, do individualismo, do nacionalismoreintroduzindo a comunicação instantânea e a relação tribal (como foi com asculturas orais que precederam a imprensa). Anuncia a Era Elétrica (implosão)como um período de reencontro com os esquemas de participação dasculturas orais e tribais, que precederam a Era Gutemberguiana (explosão). As afirmações de MacLuhan abrem caminho para o estudo da HistóriaModerna, em função dos meios de comunicação dominantes em sua leituraotimista e atraente de divisão da história em grandes eras tecnológicas. O 24caráter imediato da tele-informação faz do mundo uma tele-aldeia, introduz oneoarcaismo, um fenômeno importantíssimo que está diretamente ligado ao 25neomodernismo. MacLuhan viu a humanidade em três grandes idades. A primeira dáênfase à audição nas culturas orais; a segunda, à visão nas culturas doalfabeto fonético; e a terceira, ao tato nas culturas elétricas. No momento40 , BADRILARD,Jean. Analisis de Marshall MacLuhan : Undersatnding Media, Buenos Aires, TempoContemporâneo, 1967, p. 26.41 Jean Baudrillard afirma que o autor omite o conhecimento da história social destes meios, apesar de apoiadoem grandes verdades. Ao enfatizar que “o medo é a mensagem”, MacLuhan esvazia a sociologia e a históriapolítica destes meios; suas revoluções e convulsões históricas, omitindo os nacionalismos e o feudalismoburocrático numa era de participação acelerada, “astúcia sutil”, op. cit., p. 35.42 MORIN,Edgar. Para compreender MacLuhan, op. cit., p. 39: à maneira de Lévi-Strauss, MacLuhanredescobre a notável modernidade da consciência arcaica. 51
  52. 52. vivemos um período de interpenetração da passagem da segunda para aterceira. No entanto, a mudança de ênfase do visual para o tátil retornava asformas de envolvimento das culturas orais, do ouvido. Audi-ação A audição, como sentinela dos sentidos, por suas funçõesindependentes de equilíbrio e orientação, evoluiu de mecanismos simples, osestatocitos. Primeiro órgão sensitivo, esse mecanismo é conhecido nos peixes 26como “linha lateral” e são extremamente semelhantes, em construção, àscélulas ciliadas do ouvido interno dos mamíferos que convertem vibrações emimpulsos nervosos. Comparável a um receptor de rádio, o ouvido humano é capaz dedecodificar as ondas eletromagnéticas e redecodificá-las como som. Assim, a 27voz humana pode ser comparada a um transmissor de rádio, ao traduzir o somem ondas eletromagnéticas. A voz tem o poder de moldar o ar e o espaço emformas verbais, embora se acredite que tenha sido precedida, provavelmente,de uma expressão menos especializada: “de gritos, grunhidos, gestos ecomandos de canções e danças”. 2843 Bolsas que mantêm o equilíbrio em animais marinhos, tais como a água-viva.44 Marshall MacLuhan, op. cit., p. 97.45 Ibid. 52
  53. 53. O ouvido capta, amplifica, converte e transmite para o cérebro,simultaneamente, o que os dispositivos artificiais só conseguem fazer emseqüência. Dentro da abóboda cerebral, não são os sons, mas os estímulos éque provocam as reações que respondem a esses mesmos estímulos. O som vivo do ambiente provoca uma gama enorme de emoções e dereações físicas. O reflexo do movimento do mundo, da fala, despertalembranças e imagens mentais remotas e esquecidas. É a memória do somque põe em movimento as imagens esquecidas na memória. No centro dememória sonora no interior do cérebro, os sons acumulados são referênciasprecisas para o estado de alerta e prevenção de perigos. Mas é justamente na atualidade, em que a audição em si passa alertare prevenir. Uma ciência cujo método está em busca de orientação para acompreensão dos mecanismos de equilíbrio do meio ambiente. Investiga-se 29hoje a complexidade destes mecanismos naturais, para desenvolver formas decontrole biológico que surtam efeitos mais duradouros. Assim a ecologia podeser considerada a ciência que busca ouvir, em vez de devassar paradeterminar ou provar, que busca orientar e equilibrar seus métodos com acomplexidade ambiental. Físicos, matemáticos, biólogos, e astrônomos estão criando uma sériede idéias alternativas. Sistemas simples dão origem ao comportamento46 GLEIK,James. Caos: a criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro: Campus, op. cit., p. 292. 53
  54. 54. complexo e sistemas complexos dão origem a comportamentos simples: asleis da complexidade têm validade universal. 30 Os mecanismos complexos não são visíveis e estão submersos emassociações tão sutis que, de forma independente, se equilibram e orientam,sujeitos a mudanças inesperadas, condicionadas a mínimas variaçõesimpostas pelo ambiente. Variações tão dinâmicas quanto as nuvens do céu,que exigem, portanto, experimentos de observação que apresentem o mesmodinamismo. MacArthur compreendeu que a ecologia baseada num senso deequilíbrio “estático” está condenada a falhar. Os modelos tradicionais sãotraídos por suas tendências lineares. A audição é um sentido complexo. Para cifrar sinais perfeitamenteclaros exige malabarismos do aparelho auditivo. Cada fibra nervosa quemaneja um sinal forma ligeiramente modificada. Seus numerosos elementosparecem todos exercer as funções de captar, para gerar energia, a qualpartindo do sistema nervoso central é sinalizada para todo o organismo. Sãoos impulsos nervosos, e não a fonte externa de eletricidade, que realmentegeram a sensação. Esta “marcha do som para a audição, das vibraçõesmecânicas aos impulsos elétricos, é marchada por elaboração ecomplexidade cada vez maiores”. 3147 lbid.48 Stevens e Warshofsky, op. cit., p. 60. 54
  55. 55. Os pássaros, em posição relevante na escala do desenvolvimentoevolucionário, têm ouvidos bem parecidos com os do homem. Mas os ouvidosdos insetos são considerados os mais eficientes sistemas de audição. Apesardos pássaros ouvirem mais ou menos com o mesmo alcance dos homens,chegam a superá-los. Este sistema auditivo mais avançado está relacionado 32com a complexidade de seu sistema vocal.Uma única espécie pode emitirmais de 50 tipos de vocalizações diferentes derivadas de um vocabulário demais de 300 notas estudos etológicos têm demonstrado uma paralelismo nãodesprezível entre aves e mamíferos (primatas) 33 no que diz respeito aossistemas de comunicação. Os chamados complexos, que servem deespaçamento em populações de primatas são comparáveis aos depasseriformes. Ondas sonoras são usadas, também para “ver” objetos na escuridão,ou invisíveis, porque fora do alcance do raio de visão, usam a audição paracolher informações detalhadas dos obstáculos. A observação destesmecanismos inatos estão na base da descoberta do sonar e do ultra-som. A velocidade do som foi alcançada, mas a da luz esta distante asgerações mais próximas. Porém, mais veloz que a luz somente o cérebro – avelocidade do pensamento, do insight.49 Uma pequena diferença na cóclea, que nos pássaros é ligeiramente encurvada e nos mamíferos, enrolada emespiral.50 Hernán Fandiño Mariño , op. cit . , p. 107. 55
  56. 56. Entre o dito de uma descoberta cientifica e a sua prova visível reina osilêncio. Assim o tempo desse silêncio funciona como um eco. É neste ecoque ressoa a verdadeira descoberta. O silencio do tempo ´e quem fala. Assim otempo social-histórico não acompanha o tempo cientifico. II. OUVINDO VOZES DO CÉU E DA TERRA Hércules Florence, em 1829, durante a expedição Langsdorff realizouuma experiência de registro de “vozes” de animais, a qual denominouzoophonia . Um relato publicado sobre essas experiências ofereceu pistas 1 2sobre um novo caminho para a percepção dos sons naturais. Apesar de serum documentário científico importante, não pode ser classificado como umtexto da ciência que hoje se encarrega da investigação da vocalização dosanimais, a bioacústica. Esta ciência investiga a vocalização dos amimais como1 Ver Hercules Florence, Zoophonia. Rio de Janeiro: R.I.H.G.B. , tomo 39, 1876.2 Recentemente, foi publicado pela UFMT uma tradução de Jacques Vielliard de um dos textos escritos porFlorence sobre zoofonia. O texto de Taunay foi escolhido para análise, por ter sido autorizado para a publicaçãopelo próprio Florence, entre 1875 e 1976 e que, portanto possui um timbre mais próximo do século em que oautor produziu sua obra como artista e pesquisador, vindo a falecer em Campinas em 1879. Ver Viagem Fluvialdo Tietê ao Amazonas pelas Províncias de So Paulo e do Grão- Pará (1825 – 1829). Museu de Arte de SãoPaulo Assis Chateaubriand, 1977. 56
  57. 57. “exibições comportamentais” e detém seu interesse exclusivamente no que 3concerne a “ função biológica destas exibições”. Tampouco se tratava de uma investigação musical. Isto porque, naépoca, não havia outra forma de registrar essas “vocalizações” a não seratravés de notas musicais. De certo modo, isso não era novidade, outros jáhaviam se adiantado nesta forma de registro. Novidade era a ousadia de Florence de esboçar uma união da ciênciada natureza (biologia) com a sensibilidade (música), ou de demonstrar que emmatéria do estudo dos sons de animais não é possível descartar sensibilidade,ao afirmar: [...] a ninguém ocorreu a ideia de tornar a voz dos animais assunto de estudos e cuidadosas observações, como sem dúvida é sua história natural. Entretanto dentre todas as majestosas ou suaves harmonias da esplendida e nunca assaz admirada natureza é a zoofonia unicamente que fere nossos sentidos por meio de notas musicais[...]4 No entanto, o lugar híbrido onde aparece que estas afirmações vãodar, na verdade, é o terreno fértil em que Florence semeia suas ideias. Nas3 Herman Fandiño Mariño, op. cit., p. 106.4 Hercules Florence, pó. cit., p. 221. 57
  58. 58. observações do tradutor Taunay, encontramos afirmações que definem o“viajante” Florence como homem de “ variado fundo de instrução”, cujavitalidade criativa e espírito inventivo já havia imaginado diversos meios, “todosengenhosos”, quando inventou a polygraphia . Segundo Taunay, as tentativas 5de Florence de inventar a fotografia, antes de Niepoe e Daguerre, só não foramreconhecidas porque o pesquisador viva numa província onde faltavamrecursos, e quando soube que outros, com melhores condições, tinham lhetirado o valor da prioridade do invento, caiu em desânimo e retraimento. Apesar de não caber neste estudo uma indagação sobre a veracidadedestas afirmações, elas fielmente demonstram a vivacidade da menteinventiva de Florence e certificam que ele não era um viajante comum. Suasensibilidade criativa está presente na obra iconográfica da expediçãoLangsdorff e também na intuição da zoophonia: [...] quando o sábio examina cuidadosamente e lentamente tudo o que o cerca; quando o mais insignificante inseto não escapa à sua análise, que perscruta até o mundo microscópico, não lhe deve parecer inútil e despido de qualquer vantagem apreciar, debaixo de determinadas regra, não direi a linguagem, porém sim a voz dos animais[...] . 65 Op. cit., p. 322.6 Op. cit. , p. 323. 58
  59. 59. A proposta de exame cuidadoso e lento demonstra o rigor científico deperscrutar, não devendo parecer inútil ou desvantajoso apreciar, no sentido deestimar e avaliar a voz dos animais (como ele mesmo deixa bem claro) dentrode determinadas regras. Fica evidente, também, a preocupação com autilidade de suas indagações. A suspeita de que talvez estivesse atendo-se emcausas inúteis e estéreis. Mas se, nem tanto como precursor da bioacústica, a intenção deFlorence parece esboçar timidamente um novo campo de conhecimento, quenão era a bioacústica, também não somente se tratava de uma investigaçãomusical, mas sim da zoophonia, talvez um limiar entre estes dois campos. Ainda quando não servisse esse estudo mais do que para mero entendimento do espírito, não deverá merecer indiferença e pouco caso; mas não é só isso que nela acharemos, encontrando também cores novas e vivas, faces do verdadeiro valor cientifico e juntando sem contestação o tão apregoado útil ao agradável[...] 7 Florence se refere à música da natureza e busca o verdadeiro valorcientífico desta música que não deveria soar aos ouvidos apenas por suabeleza, e para tanto encontra um álibi na união (insuspeita) do tão apregoadoútil ao agradável. Na verdade, a beleza de que nos fala é a experiência estética7 Ibid. 59

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