EDIÇÃO PORTO SEG 6 JAN 2014 Acompanhe a cobertura completa sobre Eusébio em www.publico.pt
NUNO FERRARI/A BOLA

1942-2014
EUSÉBIO
Destaque, 2 a 15 e Editorial
af CursosAnoLectivo12 JanelaPUBLICO 100x50.ai
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1

9/6/12

3:13 PM
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Eurodeputados em
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À chegada a Lisboa,
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Liêm Hoang Ngoc,
reconhece limitações da
fórmula acordada p16
ISNN:0872-1556

Ano XXIV | n.º 8669 | 1,10€ | Directora: Bárbara Reis | Directores adjuntos: Nuno Pacheco, Miguel Gaspar, Pedro Sousa Carvalho | Directora executiva Online: Simone Duarte | Directora de Arte: Sónia Matos
2 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

EUSÉBIO (1942-2014)

The king!! Grande perda para
todos nos! O mais grande!!
Luís Figo
Antigo futebolista do Sporting e da selecção

Eusébio foi um King
para todos
O antigo jogador morreu na madrugada de ontem, vítima de
uma paragem cardiorrespiratória. Tinha 71 anos e uma vida de
futebolista que mereceu um elogio unânime
Paulo Curado, Marco Vaza
e João Manuel Rocha

Funeral no Lumiar

E

Três dias de luto e um
minuto de silêncio

usébio morreu. A notícia correu veloz, logo pela manhã
de ontem, deixando todos os
que tomavam conhecimento dela primeiro incrédulos,
depois chocados e a seguir
saudosos de uma figura que marcou
uma época do futebol em Portugal e
na Europa. Eusébio da Silva Ferreira,
antigo futebolista do Benfica e da selecção portuguesa, morreu às 4h30
de domingo, em Lisboa, na sua casa, aos 71 anos, vítima de paragem
cardiorrespiratória.
Eusébio sentiu-se mal por volta
das 3h30 da manhã e foi chamado o
INEM, mas já foi demasiado tarde.
Nascido a 25 de Janeiro de 1942
na então Lourenço Marques, hoje
Maputo, Eusébio tornou-se o maior
símbolo do futebol português. Vindo de Moçambique, depois de ter
jogado no Sporting de Lourenço
Marques, chegou ao clube de Lisboa no Inverno de 1960.
Foi nessa década que o Pantera
Negra mais brilhou nos relvados, no
Benfica e ao serviço da selecção de
Portugal, no Mundial de 1966, onde
foi o melhor marcador.
Sete vezes melhor goleador do
campeonato português (1963-64,
64-65, 65-66, 66-67, 67-68, 69-70 e
72-73), duas vezes melhor marcador
europeu (1967-68 e 72-73), Eusébio
foi uma vez eleito melhor futebolista europeu, mas é considerado um
dos maiores futebolistas mundiais
de todos dos tempos.
Foi 11 vezes campeão nacional
pelo Benfica — alinhando em 294
jogos, nos quais marcou 316 golos
—, ganhou cinco taças de Portugal,
foi campeão europeu em 1961-62 e

O

dia de hoje será
marcado pelas
cerimónias fúnebres
e de homenagem a
Eusébio. O corpo do antigo
futebolista permanecerá em
câmara ardente no Estádio
da Luz até às 13h30. A seguir,
a urna dará uma volta ao
Estádio da Luz, cumprindo
um desejo do próprio
Eusébio. O cortejo fúnebre
segue depois, em cortejo,
até à Câmara Municipal
de Lisboa, cumprindo um
trajecto que inclui a passagem
pela Segunda Circular-Campo
Grande-Avenida da RepúblicaSaldanha-Av. Fontes Pereira
de Melo-Marquês de
Pombal-Av. da LiberdadeRestauradores-Rossio-Rua do
Ouro-Rua do Arsenal-Praça
do Município. Segue-se uma
missa, na Igreja do Seminário,
no Largo da Luz, prevista para
as 16h. O funeral decorrerá no
Cemitério do Lumiar, às 17h.
O Governo decretou, ainda
durante o dia de ontem,
três dias de luto nacional e
determinou que a bandeira
nacional seja colocada a
meia haste, enquanto a
Federação Portuguesa de
Futebol estipulou que em
todos os jogos de futebol
sob a sua égide se cumpra
um minuto de silêncio em
memória de Eusébio.

finalista da Taça dos Campeões em
1962-63 e 67-68.
No total, foram 671 os golos que
marcou em jogos oficiais. Cometeu
a proeza de marcar 32 golos em 17
jogos consecutivos, tendo ainda conseguido marcar seis golos no mesmo
jogo em três ocasiões. O guarda-redes que mais golos seus sofreu foi
Américo, do FC Porto (17).
Jogou no Benfica até 1975, tendo
depois actuado ainda em clubes da
nos Estados Unidos, no México, no
Beira-Mar e no União de Tomar —
esta última uma breve experiência
que durou até Março de 1978, após
o que regressou aos EUA para tentar
uma efémera experiência no futebol
indoor.
Participou em 64 jogos da selecção de Portugal, pela qual se estreou
em 8 de Outubro de 1961.
No Mundial de 1966, em Inglaterra, em que Portugal foi o terceiro
classificado, venceu o troféu destinado ao melhor marcador da prova,
com nove golos, e foi considerado o
melhor jogador da competição.
Ficou célebre a sua actuação no
jogo com a Coreia do Norte, dos
quartos-de-final desse mundial,
em que marcou quatro golos, contribuindo decisivamente para a vitória de Portugal por 5-3, depois de ter
estado a perder por 0-3. “Foi o meu
dia”, recordou mais tarde, quando,
no Mundial de 2010, na África do
Sul, a equipa portuguesa voltou a
defrontar a asiática.
Embaixador do futebol nacional
e uma referência no Benfica e na
selecção nacional, Eusébio mereceu diversas distinções durante a
sua vida, tendo sido agraciado com
a Grã-Cruz Infante D. Henrique e a
Ordem de Mérito. A maior distinção,
contudo, é a deferência que merece
de todo um povo.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | DESTAQUE | 3
É, de facto, um dia bastante triste
para Portugal, a perda de um
grande símbolo, não só do futebol
português mas do futebol mundial

Sempre eterno Eusébio,
io,
descansa em paz
Cristiano Ronaldo

Pedro Pauleta, ex-futebolista, actual director da Federação
Portuguesa de Futebol

No convívio connosco na
selecção portuguesa ele
tinha sempre uma palavra de
incentivo e de ensinamento
Luiz Felipe Scolari, ex-seleccionador de
Portugal, actual seleccionador do Brasil

AFP

“Tudo o que se disser agora sobre ele é pouco, muito pouco”
NUNO FERREIRA SANTOS

Reportagem
Marisa Soares

A

memória de Armando
Mendinhas, 53 anos,
recua facilmente à
infância. Tinha seis anos
naquele 23 de Julho de
1966 que haveria de
ficar para a história do futebol.
Estava no Clube Recreativo Brites
de Almeida, em Aljubarrota,
agarrado aos matraquilhos,
enquanto os adultos, de olhos
colados ao ecrã da televisão a
preto e branco, vibravam com
o jogo entre Portugal e a Coreia
do Norte. “De repente, ouvi um
tumulto e quando olhei para a
televisão estava o Eusébio na
baliza dos coreanos, a pegar na
bola e correr para o meio do
campo.”
A imagem nunca mais lhe saiu
da cabeça. Nem essa, nem as
outras que foi guardando dos
jogos que viu na televisão, com
Eusébio aos comandos do Benfica,
ou das vezes que o cumprimentou
“em momentos simples”. Porque
Eusébio era assim. “Simples,
quase parecia ausente. É difícil de
explicar”, diz Armando, de olhos
lacrimejantes. Recorda “aquela
auréola de génio que ele tinha e
só conseguia mostrar através dos
pés”, mas custa-lhe falar. “Tudo
o que se disser agora sobre ele é
pouco, muito pouco.”
Como Armando, milhares de
pessoas passaram neste domingo
pela estátua de Eusébio junto ao
Estádio da Luz, em Lisboa. Ao
final da tarde, o monumento em
bronze que perpetua a pose do
antigo internacional português
a rematar, estava vestida de
várias cores. Homens e mulheres,
crianças e idosos foram deixando
cachecóis do Benfica, mas
também cachecóis do Sporting e
do FC Porto e de outros clubes,
arrancando palmas à multidão,
silenciosa.
Aos pés do Pantera Negra,
alguém deixou a bandeira de
Moçambique, país natal do antigo
jogador. E muitas camisolas,
pequenas estátuas da águia
benfiquista, ramos de flores...
Num deles, uma mensagem salta

Milhares de pessoas passaram no domingo pela estátua de Eusébio junto ao Estádio da Luz
à vista: “O Eusébio é de todos.” E
na cabeça do King, como também
lhe chamavam, os fãs colocaram
uma coroa.
Passava pouco das 17h30
quando a urna com o corpo do exjogador passou pela multidão que
o esperava, apesar do frio, ora a
gritar pelo seu nome, ora a cantar
os hinos nacional e do Benfica.
Coberto com a bandeira do clube,
o caixão entrou em braços no átrio
envidraçado da entrada principal
do estádio, para ser velado pela
família e amigos. Entre eles, o
presidente do Benfica, Luís Filipe
Vieira, o vice-presidente do clube,
José Eduardo Moniz, o antigo
treinador do Benfica e actual
seleccionador de futebol da Grécia,
Fernando Santos, Toni, ex-jogador
e treinador dos “encarnados”, e
outros colegas de relvado como
José Augusto e Veloso.
Não faltaram personalidades
do mundo da música, como
Rui Veloso ou Luís Represas. O
primeiro-ministro, Passos Coelho,
esteve acompanhado do ministro
da Presidência, Luís Marques
Guedes. O líder socialista,
António José Seguro, também

foi apresentar as condolências à
família.
Os anónimos que quiseram vêlo mais de perto esperaram numa
fila dentro do estádio, outros
preferiram ficar cá fora, junto aos
postes com as bandeiras a meia
haste ou encostados às barras de
protecção. Muitos estarão nesta
segunda-feira nas bancadas da Luz
para o último adeus ao King, às
13h30.
Filipe Ribeiro, de 27 anos, foi
um dos que prometeram não
arredar pé. Vestiu-se de preto e
vermelho, cachecol do clube ao
pescoço, mal soube da morte do
ídolo. “É como se fizesse parte da
família.” A notícia inesperada foi
“um choque muito grande”, que
lhe amargou o espírito ainda em
êxtase pela vitória do Benfica no
jogo de sábado à noite, frente ao
Gil Vicente. “Espero que ele tenha
visto o jogo.”
Em casa, Filipe tem os jogos
do Pantera Negra gravados em
cassetes de vídeo e DVD, aos
quais vai juntar a Enciclopédia
do Eusébio, acabada de comprar.
Emociona-se quando fala do
dia em que encontrou o antigo

jogador num restaurante em
Benfica. “Pedi-lhe um autógrafo,
todo a tremer, e ele convidou-me
para beber um copo.”
Para este sócio do Benfica,
“todas as homenagens são
poucas” perante a grandeza do
antigo capitão do Benfica. Mas
é unânime a ideia de que o King
foi justamente consagrado em
vida. “É um homem a que todo o
Portugal soube dar valor”, afirma
Isabel Tavares, 54 anos, caboverdiana a residir em Lisboa há
mais de 30 anos.
“O Benfica nunca o abandonou,
nunca o deixou sair desta
casa”, diz Jorge Fava, 37 anos,
benfiquista que um dia teve a
oportunidade de se sentar à
mesa com o King. Também ele
quis despedir-se do homem
“muito bom e humilde” que o
filho Simão, de oito anos, nunca
há-de conhecer pessoalmente.
Para a geração de Simão, o ídolo
será outro: Cristiano Ronaldo,
que todos os fãs ouvidos pelo
PÚBLICO apontam como o
sucessor de Eusébio na missão de
espalhar o nome de Portugal pelo
mundo.
4 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

EUSÉBIO (1942-2014)

É uma perda para o país e para
o mundo, porque o Eusébio não
era só nosso, era do mundo
inteiro
Rosa Mota,
campeã olímpica da maratona em 1988

Marco Vaza

Eusébio nunca será suplente na
equipa dos melhores de sempre

H

A chegada a Portugal, a afirmação no Benfica e no futebol mundial, as peripécias
de uma carreira ímpar. Um dos melhores jogadores de futebol do planeta de todos
os tempos tem uma vida repleta de episódios que merecem ser lembrados

AFP

Eusébio, em França, no ano de 1973, quando ainda estava a jogar no Benfica

umilde, mas sem falsas
modéstias. Quando Eusébio
chegou à “metrópole” e ao
Benfica campeão europeu
em 1961, sabia o que valia.
“Não me interessa se eles
são campeões europeus, vou entrar
nesta equipa.” Ele era um jovem
moçambicano acabado de chegar de
Lourenço Marques e já metia medo
aos consagrados Águas, Augusto
e Coluna, os “senhores”, como os
novatos da equipa lhes chamavam.
“Comentávamos entre nós: quem é
que vai sair? Porque o Eusébio era
um jogador de excepção”, diz José
Augusto. Alguém saiu e ele, Eusébio
da Silva Ferreira, entrou na equipa do
Benfica para se tornar uma lenda do
futebol mundial. O melhor jogador
português de todos os tempos que
brilhou numa altura em que o futebol
era diferente. Como Amália, o seu
nome é sinónimo dele próprio. Não
existirá mais nenhum Eusébio.
Eusébio, o King, Eusébio, o Pantera Negra, Eusébio, a Pérola Negra. Ele só não gostava muito que
lhe chamassem Pantera Negra por
causa dos Black Panthers, o partido
activista negro dos EUA. Preferia que
lhe chamassem King, o Rei. Foi em
Wembley, esse mítico estádio que
iria marcar sua carreira, que Eusébio passou a ser pantera. Foi na sua
segunda internacionalização pela selecção portuguesa. Dos onze, apenas
um jogador tinha nascido em Portugal continental (Cavém, algarvio) e
um nos Açores (Mário Lino). Havia
um jogador brasileiro (Lúcio), todos
os outros, incluindo o seleccionador
(Fernando Peyroteo), eram africanos.
O jogo era de qualificação para o
Mundial e a Inglaterra acabaria por
ganhar (2-0). Portugal mandou quatro bolas ao poste, duas delas foram
remates de Eusébio. Foi o seleccionador inglês Walter Winterbottom que
avisou o jogador que estava encarregado de o marcar: “Tem cuidado
com o Pantera Negra.” Mais tarde,
seria um jornalista inglês, Desmond
Hackett, a cunhar esse nome no Daily
Express após a final de Amesterdão,
com o Real Madrid.
O jogo de Wembley foi a 25 de
Outubro de 1961. Menos de um ano
antes, em Dezembro de 1960 (15 ou
17, consoante as versões), chegava à
metrópole proveniente de Lourenço Marques “o disputadíssimo Eusébio”, como escrevia o jornal A Bola
de 17 de Dezembro. “Faço qualquer
um dos postos do ataque menos o de
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | DESTAQUE | 5
Um grande símbolo do futebol
e do desporto português, mas
também do futebol mundial

avançado centro”, contou ao jornalista de A Bola Cruz dos Santos, que
era o único jornalista à sua espera
no Aeroporto da Portela. “Chegou
com um ar muito tímido. Fui com
um sobretudo quentinho que tinha
comprado em Edimburgo uns meses antes e o Eusébio apareceu-me
com uma roupinha muito de Verão,
uma gravatinha, com um ar muito
modesto”, recorda o jornalista. É a
sua primeira fotografia na metrópole: Eusébio de fato e gravata, com
Cruz dos Santos ao lado, a tirar notas num bloco. Eusébio embarcara
em Lourenço Marques com nome de
mulher: Ruth Malosso.
Tinha 18 anos, fama de prodígio,
pronto para conquistar o mundo.
Um mundo que seria dele pouco depois. Basta dizer um número: 671,
o número total de golos que marcou pelas selecções e clubes que
representou em jogos oficiais. Pelo
Benfica, foram 473, em 440 jogos
oficiais. Mais números: sete vezes
o melhor marcador do campeonato português, três vezes o melhor
marcador da Taça dos Campeões.
Cometeu a proeza de marcar 32 golos em 17 jogos consecutivos, tendo
ainda conseguido marcar seis golos
no mesmo jogo em três ocasiões. O
guarda-redes que mais golos seus
sofreu foi Américo, do FC Porto (17).
Dos craques do passado, talvez seja
Eusébio aquele que melhor se adaptaria ao futebol de qualquer época,
mesmo ao mais calculista e táctico do
nosso presente, menos atacante e ingénuo do que no tempo de Eusébio.
O seu poder físico, potência de remate, técnica e capacidade goleadora
fariam dele uma estrela em qualquer
equipa de qualquer era. Apenas no
final de carreira, com os joelhos em
más condições (só no joelho esquerdo sofreu seis operações) é que saiu
de Portugal, onde era património de
Estado. Eusébio seria um Cristiano
Ronaldo apresentado no Santiago
Bernabéu perante dezenas de milhares de adeptos. Eusébio esteve lá
em 2009 para apresentar Ronaldo
ao Real Madrid, ao lado de Alfredo di
Stéfano, que sempre foi o seu grande ídolo. As palavras de Don Alfredo, o argentino feito espanhol, não
podiam ser mais verdadeiras. “Isto
serias tu.”

Os primeiros anos
Eusébio da Silva Ferreira nasceu a 25
de Janeiro de 1942, o quarto filho de
Laurindo António da Silva Ferreira,
um angolano branco que trabalhava
nos caminhos-de-ferro de Moçambique, e Elisa Anissabeni, uma mulher

Foi um grande futebolista, uma
pessoa bem formada e fiquei
sempre com a ideia de que era
um homem muito modesto

Pelé

Paulo Bento,
ex-futebolista, actual seleccionador de Portugal

Lamento a morte do meu irmão
Eusébio. Ficámos amigos na Copa
a Copa
de 66 na Inglaterra. Que Deus o
us
receba de braços abertos

Mário Soares, ex-Presidente da República

moçambicana. Foi na Mafalala, bairro
pobre na periferia de Lourenço Marques (actual Maputo), que Eusébio
começou a dar uns pontapés em bolas de trapos sem ligar muito à escola.
“A minha mãe não gostava nada que
eu andasse enfronhado no futebol,
apertava comigo, que me importasse
com a escola e me deixasse dos pontapés na bola, mas eu não sei explicar,
havia qualquer coisa que me puxava,
sentia um frenesim no corpo que só
se satisfazia com bola e mais bola. O
resultado disto era uns puxões de
orelhas bem grandes e, uma vez por
outra, umas sovas que não eram brincadeira nenhuma”, recordava Eusébio numa entrevista ao jornal A Bola.
No bairro onde viveram o poeta
Craveirinha e os antigos presidentes
de Moçambique Joaquim Chissano e
Samora Machel, Eusébio ganhava os
berlindes aos amigos apostando que
conseguia dar x toques seguidos numa bola. Entre os jogos de futebol na
rua e a presença intermitente na sala
de aula, Eusébio sofreu uma tragédia
precoce. Aos oito anos, ficava órfão
de pai, vítima de tétano. “Segundo
a minha mãe, o meu pai era muito
bom jogador de futebol”, disse numa
entrevista. Ficava Dona Elisa, os quatro rapazes ( Jaime, Alberto, Adelino
e Eusébio) e uma rapariga (Lucília).
Num segundo casamento, Elisa teria
mais três filhos (Gilberto, Inocência
e Fernando).
Foi na Mafalala que conheceu a sua
primeira equipa, Os Brasileiros, “um
clube de pés-descalços” em que os
jogadores adoptavam nomes dos craques brasileiros. Eusébio era Nené,
um médio da Portuguesa dos Desportos, um primo seu é que era Pelé,
ano e meio mais velho do que o moçambicano. Em 1958, Eusébio tinha
16 anos e Pelé 17 quando o Brasil foi
campeão mundial na Suécia, a equipa que também tinha Didi, Zagallo
e Garrincha. Todos tinham as suas
contrapartes no FC Os Brasileiros.
Mas onde Eusébio queria jogar
era no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica, clube do qual
o pai era adepto. No Desportivo não
o aceitaram porque era “franzino,
pequenino” – Eusébio contou que
esse treinador foi, depois, despedido. Também no Ferroviário o recusaram. O mesmo erro não cometeu o
Sporting de Lourenço Marques, filial
moçambicana do Sporting Clube de
Portugal, que ficou com ele de imediato, depois de ter ido fazer testes
com um grupo de rapazes do bairro.
Mas Eusébio impôs uma condição:
ou ficam todos, ou não fica nenhum.
Ficaram todos.

NUNO FERRARI/A BOLA

Eusébio após marcar o seu primeiro golo contra a Coreia do Norte
DR

Coluna, Costa Pereira e Eusébio com a Taça dos Campeões em 1962

O Sporting Laurentino insistia, mas
Eusébio resistia, porque aquele não
era o seu clube, nem o do seu pai,
apesar das insistências de Hilário da
Conceição, seu vizinho na Mafalala e
futuro defesa esquerdo do Sporting
e da selecção portuguesa – Hilário,
dois anos mais velho do que Eusébio,
foi o primeiro jogador negro a jogar
no Sporting de Lourenço Marques e
iria para Lisboa primeiro do que o
Pantera Negra. Eusébio acabou por ir
contrariado para os “leões” de Lourenço Marques. “Ninguém do meu
bairro gostava do Sporting. Porque
era um clube da elite, um clube da
polícia, que não gostava de pessoas
de cor”, contou mais tarde. Começou
nos juniores, passou rapidamente
para os seniores e estreou-se contra
o “seu” Desportivo. Não queria jogar, mas jogou. Marcou três golos e
chorou. Tinha 17 anos. O Sporting foi
campeão regional com 30 remates
certeiros de Eusébio, a quem o clube
tinha arranjado um emprego como
arquivador numa empresa que fabricava peças para automóveis.
Eusébio era um fenómeno na colónia e, na metrópole, já se ouvia falar
dele. Portugal era o sonho dos jogadores nas colónias portuguesas em
África e Eusébio não era excepção. E
era um sonho muito possível. África
era um grande fornecedor de jogadores para os clubes e selecção portuguesa. Os pretendentes eram muitos.
Sporting, Benfica, Belenenses e FC
Porto queriam Eusébio. Guttman já
tinha ouvido falar dele, através de
um brasileiro que o tinha visto jogar
em Lourenço Marques. Os clubes começaram a movimentar-se, mas foi
o Benfica quem chegou lá primeiro.
Ofereceu 110 contos a D. Elisa, que
deu a sua palavra de que o filho iria
jogar no Benfica de Lisboa.
O Sporting terá oferecido mais depois, mas palavra dada era sagrada e
a mãe de Eusébio não voltou atrás.
Para além do mais, o Sporting queria
Eusébio à experiência. “Eu já estava
no Sporting e o presidente, sabendo
que eu era muito amigo do Eusébio,
chamou-me para lhe pedir para vir
fazer testes. Ele respondeu: ‘Estás a
ver o Seminário [peruano que jogou
no Sporting entre 1959 e 1961, conhecido como “o expresso de Lima”]?
Eu dou-lhe avanço a marcar golos.
Querem experimentar o quê?”, recorda Hilário.
Tavares de Melo, talhante e representante do Benfica em Lourenço
Marques, coordenou toda a operação. Depois de garantido o acordo
de Eusébio e de D. Elisa, o objectivo era colocar o jogador na capital
6 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

EUSÉBIO (1942-2014)

Foi um pedaço de um Portugal
diferente, maior, sem fronteiras,
multicultural. O seu trono não pode
ser ocupado, porque o seu reinado
não existe mais
Carlos Queiroz, ex-seleccionador de Portugal

o mais depressa possível e sem que
os adversários soubessem. Fez Eusébio embarcar com nome de mulher
e terá feito chegar um telegrama ao
Sporting lisboeta comunicando que
o jovem jogador iria de barco para a
capital. Por isso é que, quando Eusébio aterrou às 23h30 no aeroporto
de Lisboa, apenas estavam lá representantes do Benfica (e o jornalista
de A Bola) à espera dele. Do lado
“leonino” falou-se de rapto, Eusébio sempre negou esta tese: “Eu só
assinei contrato com o Benfica. Só
quando aterrei aqui é que se começaram a inventar raptos. O contrato
com o Benfica até dizia que, se não
me adaptasse em Lisboa, o clube podia recuperar o dinheiro.”

A chegada ao Benfica
Quando Eusébio, menor de idade,
chegou a Lisboa, o Benfica já estava nos quartos-de-final da Taça dos
Campeões Europeus. “Não gosto de
jogar a avançado centro”, foram as
suas primeiras palavras, depois de
uma viagem de “Portugal para Portugal”, como escrevia o jornal A Bola de
17 de Dezembro de 1960. Foi directo
para a Calçada do Tojal, em Benfica,
para viver no Lar do Jogador, onde
estavam alojados os futebolistas “encarnados” que eram solteiros e que
tinha hora de recolher obrigatório
para os seus hóspedes. José Torres,
dois anos mais velho, foi o seu anfitrião, eles que, pouco depois, fariam
uma dupla temível no ataque do Benfica e da selecção nacional.
Mas Eusébio ainda não podia jogar,
apesar de impressionar nos treinos.
Bela Guttman, o treinador, chamoulhe o “menino de oiro” da primeira
vez que o viu. O processo de transferência de “Ruth” ainda não tinha
acabado. Eusébio tinha contrato assinado com o Benfica, mas ainda não
tinha a carta de desobrigação que teria de ser passada pelo Sporting de
Lourenço Marques, ainda empenhado na ida do jogador para os “leões”
de Lisboa. A batalha jurídica é longa.
Os dois lados esgrimem argumentos
e o tempo vai passando, sem que haja uma decisão definitiva. Na Taça
dos Campeões, o Benfica ultrapassa
o Aarhus, da Dinamarca, e o Rapid
de Viena, da Áustria, e com Eusébio
sempre integrado na comitiva.
A final será contra o Barcelona,
em Berna, a 31 de Maio. O Benfica
manda Eusébio para um hotel em
Lagos, para o esconder dos jornalistas e de outros pretendentes. A 12 de
Maio, cinco meses depois de sair de
Moçambique, o desfecho: Eusébio já
é jogador do Benfica, que paga por

ele 400 contos, mas não poderá defrontar a formação catalã devido aos
regulamentos da União Europeia de
Futebol (UEFA).
Ele não irá à Suíça, mas vai estar
no jogo de despedida do Benfica antes da final, na Luz, frente ao Atlético, um futuro titular numa equipa
quase só de reservas. A 23 de Maio,
primeiro jogo pelo Benfica, primeiros golos, três, tal como a sua estreia
pelo Sporting de Lourenço Marques.
Minutos 11, 76 e 80, o do meio o primeiro penálti que marcou. Os benfiquistas estavam lá para ver o “disputadíssimo”. “Quando entrei e se me
deparou uma multidão que gritava
o meu nome, num testemunho de
confiança que nunca esqueci, fiquei
tonto. Ninguém imagina como estava nervoso”, contou Eusébio na sua
biografia.
A equipa seguiu para Berna e conquistou o primeiro dos seus dois títulos europeus, com uma vitória por
3-2 sobre o Barcelona. Eusébio ficou
em Lisboa e, no dia seguinte à final
europeia, fazia a sua estreia oficial
pelo Benfica, na segunda mão dos
oitavos-de-final da Taça de Portugal
no Campo dos Arcos, frente ao Vitória de Setúbal. Eusébio seria titular e
marcaria o único golo “encarnado”
nesse jogo que os sadinos venceriam
por 4-1, anulando a desvantagem de
3-1. Nessa época, ainda houve tempo para se estrear no campeonato,
na Luz frente ao Belenenses, ao lado
dos senhores José Augusto e Coluna.
Eusébio marca o segundo de uma goleada por 4-0 e ganha o direito a ser
campeão.
O que Eusébio perdeu nesses primeiros meses foi largamente compensado na década e meia seguintes.
Com Eusébio na equipa, o Benfica foi
11 vezes campeão em 15 anos. O moçambicano foi sete vezes o melhor
marcador do campeonato português,
duas vezes o melhor goleador da Europa. Conquistou mais cinco taças
de Portugal e um título de campeão
europeu de clubes. Ao todo, foram 17
títulos pelo Benfica: 11 campeonatos,
cinco taças de Portugal e a Taça dos
Campeões. Foi ainda o primeiro português a ser considerado o melhor
jogador da Europa, em 1965. Depois
dele, só Figo, em 2000, e Cristiano
Ronaldo, em 2008.
Em 1961-62, a sua primeira época
“a sério”, Eusébio ainda não está entre os cinco mais utilizados por Bela
Guttman, mas já é o melhor marcador, com 29 golos em 31 jogos, mais
do que o consagrado José Águas
(26). O Benfica não seria campeão
(terceiro lugar, atrás de Sporting e

DR

DR

Eusébio, em 1965, quando
recebe a Bola de Ouro, troféu
que distingue o melhor jogador
da Europa. O internacional
português recebeu ainda duas
vezes a Bota de Ouro, atribuída
ao melhor marcador europeu.
Eusébio e a sua mulher, Flora, à
chegada ao aeroporto londrino
de Heathrow, em 1971. Eusébio e
Flora foram casados durante 49
anos e tiveram duas filhas.

FC Porto), mas esta seria uma época
histórica, a do Benfica bicampeão europeu, na final de Amesterdão, frente
ao Real Madrid. Eusébio enfrentava o
seu ídolo de infância, Alfredo di Stéfano. Na primeira das quatro finais
que haveria de jogar na sua carreira,
Eusébio marcou dois golos (os dois
últimos e decisivos) naquele triunfo emocionante por 5-3, em que o
Benfica chegou a estar a perder por
2-0 e 3-2.
O jovem moçambicano de 20 anos
“destruía” a lenda hispano-argentina
merengue, 16 anos mais velha, mas
manteve a deferência para com
“don” Alfredo, como mantinha para
com os seus companheiros de equipa
mais velhos. “Tinha dito ao senhor
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | DESTAQUE | 7
Tristeza, mundo do futebol
perde um astro e uma pessoa
excepcional! Descanse em paz

Eusébio é Portugal.
al.
Aquilo que Eusébio
io
deixa torna-o imortal
ortal

Perdeu-se o melhor jogador que
vi, de todos os tempos (...) Foi o
melhor do mundo”

Luisão,
capitão do Benfica

José Mourinho,
Treinador de futebol

Fernando Chalana,
antigo jogador do Benfica e da selecção

Coluna para pedir ao senhor Alfredo
di Stéfano para me dar a camisola. E
consegui. Ele sabia lá quem era o Eusébio! Quando ganhámos, fui a correr
para junto dele. Ele deu-me a camisola e ficou com a minha. Nessa altura
roubaram-me o fio da minha mãe,
os calções, mas consegui guardar a
camisola nas cuecas. Apareço numa
fotografia com uma mão à frente: estou a defender a camisola.”

O Mundial de Inglaterra
Eusébio precisou apenas de nove
golos em cinco jogos pelo Benfica
para se estrear na selecção portuguesa, por quem haveria de disputar 64 jogos (41 golos). O adversário
era o fraco Luxembrugo e estava em
causa a qualificação para o Mundial
de 1962, no Chile. Peyroteo, antigo
avançado do Sporting e membro dos
famosos “cinco violinos”, estreavase como seleccionador. A equipa era
totalmente de Lisboa, um jogador do
Belenenses, cinco do Sporting e cinco do Benfica, Eusébio era um deles.
A 8 de Outubro de 1961, um domingo, no Estádio Municipal do Luxemburgo, o herói foi outro. Adolphe Schmit, médio que nunca foi
mais alto na sua carreira do que a
segunda divisão francesa, marcou
os três primeiros golos do jogo em 57
minutos. Portugal só reage aos 83’,
com o primeiro golo de Eusébio ao
serviço da selecção nacional, mas a
selecção do grão-ducado repõe as diferenças no minuto seguinte. Yaúca,
o único do Belenenses, fixou o resultado em 4-2. A derrota humilhante e
inesperada afastou a selecção portuguesa do Mundial e o jogo seguinte,
em Wembley, frente à Inglaterra (o
tal em que Eusébio passou a ser o
Pantera Negra), seria para cumprir
calendário.
Três anos e meio depois, Portugal
iniciava nova campanha para o Mundial de futebol, que seria em Inglaterra. Eusébio marcou sete golos na
qualificação, um deles deu uma vitória surpreendente e dramática em
Bratislava frente à poderosa Checoslováquia, vice-campeã mundial. Pela
primeira vez a selecção portuguesa
chegava à fase final de uma grande
competição internacional. Comandados por Manuel da Luz Afonso e Otto
Glória, os portugueses iam a Inglaterra com algum crédito. E com Eusébio, considerado no ano anterior
como o melhor jogador europeu.
Eusébio ficou com o número 13 e
a campanha com um triunfo em Old
Trafford, o estádio do Manchester
United, sobre a Hungria por 3-1, o
único jogo do Mundial em que Eu-

sébio não marcou qualquer golo.
Depois, foi a história que bem se
conhece. De novo em Old Trafford,
Eusébio marcou o golo do meio no
triunfo sobre a Bulgária. Seguia-se o
Brasil de Pelé, no Goodison Park em
Liverpool. Pelé ficou a zeros, Eusébio marcou dois e subiu ao trono de
rei do Mundial. Portugal derrotava o
campeão vigente e avançava para os
quartos-de-final.
O jogo seria em Liverpool, o adversário seria a Coreia do Norte, uma
equipa que também estava a ser uma
sensação, depois de ter deixado a Itália de fora. Os “baixinhos com as caras iguais” (o mais alto tinha 1,75m),
como disse um dia José Augusto, um
dos membros da equipa portuguesa,
começaram por surpreender os “magriços” de forma bastante afirmativa,
colocando-se a vencer por 3-0. Mas
Portugal tinha Eusébio, que, quase
sozinho, destruiu os asiáticos, marcando quatro golos na partida dos
quartos-de-final que terminaria em
5-3 para Portugal.
O golo que concretizou a reviravolta, o do 4-3, ainda hoje é mostrado
nas escolas do Ajax de Amesterdão,
aquela cavalgada de Eusébio desde
o meio-campo até à área norte-coreana, onde só foi parado em penálti.
“A bola está meio metro à frente dos
meus pés. Parece que tenho cola. Eu
aumento a velocidade, meto as mudanças. Dei 17, 18 toques desde que
o Coluna me entrega a bola. Sofro
uma pancada à entrada da área, mas
continuo, porque nunca fui de me
atirar para o chão. Só que, depois,
chega outro que me dá uma sarrafada... Penálti!”, foi como Eusébio
descreveu o lance em entrevista ao
Expresso.
Na sua primeira presença em Mundiais (seria a única até ao México 86),
Portugal já estava entre as quatro melhores. Seguia-se a anfitriã Inglaterra. O jogo era para ser em Liverpool,
de novo no estádio do Everton, mas,
com o acordo da Federação Portuguesa de Futebol, mudou-se para
Wembley e foi a selecção portuguesa
que teve de mudar de base. Segundo contou Eusébio, a federação não
era obrigada a aceitar a mudança,
mas deu o consentimento a troco de
compensação monetária. Mais uma
viagem depois do duro jogo com a
Coreia e as pernas dos portugueses
já não estavam tão frescas para evitar
o desaire por 2-1.
“A nossa federação vendeu-se e
pronto”, acusou Eusébio, que marcou, de penálti, o golo português.
Sem poder discutir o título, os “magriços” ganharam o jogo de conso-

PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP

“Quando entrei e se
me deparou uma
multidão que gritava
o meu nome, num
testemunho de
confiança que nunca
esqueci, fiquei
tonto. Ninguém
imagina como
estava nervoso”
lação para o terceiro lugar, contra a
URSS, por 2-1. Um golo de Eusébio,
que foi o melhor marcador do torneio, com nove golos. Duas imagens
ficaram deste Mundial de 66: Eusébio
a ir buscar a bola à baliza coreana,
um gesto simbólico para a reviravolta
que acabaria por acontecer; Eusébio
a chorar após a derrota com a Inglaterra, quando já nada havia a fazer.

Património de Estado
Eusébio foi grande num tempo em
que o futebol era diferente. Em que o
futebol português era diferente. Em
tudo. Nas rivalidades, nos hábitos,
nos comportamentos. “Às segundasfeiras juntávamo-nos todos – do Sporting, do Benfica, do Belenenses –, al-

moçávamos frango assado no Bonjardim e depois íamos ao cinema. E
andávamos sempre de metro ou de
eléctrico, porque era mais barato. As
pessoas paravam na rua só para nos
verem juntos. Para tirar a carta tive de
pedir autorização à minha mãe: ‘Mas
você vai tirar a carta porquê? Não há
aí machimbombo [autocarro]?’”
Cinco anos depois de chegar a Portugal, Eusébio casou-se com a sua namorada, Flora (conheceram-se dois
anos antes), em 1965, no evento que
a revista Flama (que fez capa com
Flora vestida de noiva) descreveu
como “O remate final é o amor”. Tiveram duas filhas, por esta ordem,
Sandra e Carla, respectivamente em
1966 e 1968. Foram fazendo vida em
Lisboa, apesar das muitas propostas
que Eusébio ia recebendo de grandes
clubes. Mas o regime não o deixava
sair. Salazar considerava-o património de Estado e isso, como o próprio
admitiu várias vezes mais tarde, impediu-o de ganhar muito dinheiro.
Eusébio fez o seu último jogo pelo
Benfica a 29 de Março de 1975. Foi no
Estádio da Luz, frente ao Oriental,
vitória por 4-0, nenhum dos golos
marcados por Eusébio. O último de
“encarnado” marcara-o uma semana
antes, no Bonfim, ao Vitória de Setúbal. Nessa época, Eusébio fez apenas
13 jogos (dois golos), entre o campeonato e a Taça das Taças, a sua pior
época desde a primeira, a de 1960-61
(dois jogos), menos de um terço dos
jogos oficiais do Benfica.

Já depois da revolução de 25 de
Abril de 1974, o clube “encarnado”
deixou-o sair e Eusébio juntou-se a
uma das maiores colecções de craques da história do futebol, a NorthAmerican Soccer League (NASL),
todos eles seduzidos pelos dólares
norte-americanos. Pelé, Franz Beckenbauer, George Best, Johan Cruijff, Carlos Alberto, Teófillo Cubillas,
Gordon Banks, Gerd Muller, Carlos
Alberto, Graeme Souness. Eusébio
não foi o único português nos EUA.
Acompanhou-o Simões, a quem sempre chamou o seu “irmão branco”.
No país onde o futebol não é “football”, mas sim “soccer”, a NASL
conseguiu impor, por alguns anos,
o futebol como desporto de massas,
assente no princípio de que grandes
estrelas dão grandes espectáculos e
que grandes espectáculos (isto é especialmente verdade na América)
atraem sempre muito público.
Eusébio era, de facto, uma estrela
global, mas não foi desta que conseguiu jogar na mesma equipa de Pelé. Foram, novamente, adversários,
como tinha acontecido em outras
ocasiões. Pelé ficou no Cosmos de
Nova Iorque, Eusébio foi para Boston, onde havia (e há) uma grande
comunidade portuguesa. “Os grandes jogadores não podiam jogar na
mesma equipa, era para ter ido para
o Cosmos, mas fui para Boston. Com
o mesmo contrato e a ganhar muito
bem. Tinha casa, motorista. Até nos
davam guarda-costas”, contou. c
8 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

EUSÉBIO (1942-2014)
Em 1975, nos Minutemen, onde estavam muitos portugueses para além
dele (Simões, Jorge Calado, Fernando
Nélson e Manaca), Eusébio fez sete
jogos e marcou dois golos – o jogo de
estreia foi contra o Cosmos de Pelé.
Bem melhor foi o ano de 1976, ao
serviço dos Toronto Metro-Croatia,
em que Eusébio marcou 13 golos e
conduziu a formação canadiana ao
título da NASL. Na passagem pelo
continente americano, Eusébio esteve ainda no Monterrey, do México,
nos Las Vegas Quicksilvers e nos New
Jersey Americans.
Nos intervalos da aventura americana, Eusébio regressava a Portugal,
não para descansar, mas para manter
a forma e ganhar mais alguns escudos. Foi assim que jogou no BeiraMar os seus últimos minutos e marcou os seus últimos golos na primeira
divisão portuguesa e foi assim que
andou pela segunda divisão a fazer
carrinhos pelo União de Tomar, o seu
último clube em Portugal. Eram contratos de curta duração. Eusébio e Simões, os irmãos, jogaram juntos até
ao fim. Eusébio ainda teve a hipótese
de jogar no Sporting, por convite de
João Rocha, antes de ir para Aveiro.
No Beira-Mar, Eusébio teve o seu
último contacto com o principal escalão do futebol português. Não com a
camisola encarnada do Benfica, mas
com o equipamento amarelo e negro
da equipa aveirense. Pagavam-lhe 50
contos por mês. Dois momentos são
importantes nesta breve passagem
por Aveiro. Quando defrontou o rival
Sporting e o seu clube do coração,
o Benfica. Foi contra os “leões” que
marcou, a 6 de Março de 1977, o seu
último golo na primeira divisão, confirmando o Sporting (a par do Belenenses) como a maior “vítima” dos
seus remates certeiros, 24.
Dois meses antes, tinha defrontado
as “camisolas berrantes”, como lhes
chamava Luís Piçarra na canção que
serve como hino das “águias”. Tal
como acontecera 20 anos antes em
Lourenço Marques, Eusébio tinha de
jogar contra si próprio. A 5 de Janeiro
de 1977, Eusébio-Benfica, no Estádio
Mário Duarte, em Aveiro, a contar
para a 12.ª jornada do campeonato.
Eusébio não iria ser profissional. “Já
tinha avisado o treinador do BeiraMar, o Manuel de Oliveira, que não
ia rematar à baliza. Quinze minutos
antes do jogo, fui ao balneário do
Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar golos.
[No jogo] não rematei, não marquei
faltas, nem grandes penalidades. Andava lá no campo só a passar a bola
aos outros.”

Com o jogo empatado 2-2, o BeiraMar beneficia de um livre à entrada
da área que seria mesmo ao jeito
de Eusébio. Mas o Pantera Negra
recusou-se a marcar. Palavra a António Sousa, futuro jogador do FC
Porto e do Sporting e internacional
português, então um jovem a dar os
primeiros passos no Beira-Mar: “O
sentimento dele era enorme e jogar
contra a equipa do coração e da vida
foi marcante para ele. Porventura o
mal-estar dele em relação ao próprio
jogo era porque ele gostava de ganhar. O facto de o Eusébio não marcar um livre e dizer para eu marcar
é sinónimo disso.” Sousa atirou por
cima e o jogo acabou empatado.
Depois do Beira-Mar e de mais
uma temporada nos EUA, Eusébio
foi para o União de Tomar, da segunda divisão. Estreou-se com a camisola vermelha e negra do União a 1 de
Dezembro de 1977, frente ao Estoril.
Em 12 jogos disputados pelo clube
ribatejano, marcou três golos, mas,
nesta fase, ele já não era um avançado. Andava mais pelo meio-campo,
tal como António Simões. “O nosso
estilo era diferente. Já não tínhamos
pernas para lá ir, ficávamos mais no
meio-campo. Mas o Eusébio, nos livres, era igual”, recorda Simões. Em
Tomar, até carrinhos fazia.
De Tomar para Buffalo. Buffalo é
relevante na vida de Eusébio? É e não
é. Em toda a sua carreira é apenas
uma nota de rodapé, mas é nesta cidade do estado de Nova Iorque que
irá cumprir os seus últimos jogos. A
camisola dos Buffalo Stallions, equi-

“Às segundasfeiras juntávamonos todos — do
Sporting, do Benfica,
do Belenenses
—, almoçávamos
frango assado no
Bonjardim e depois
íamos ao cinema. E
andávamos sempre
de metro ou de
eléctrico, porque era
mais barato”

A cobertura ao minuto das
homenagens a Eusébio,
fotogalerias e vídeos em
www.publico.pt

pa da Liga indoor norte-americana,
será a sua última. Fica o registo do
rendimento de Eusébio, veterano
avançado de 38 anos e com os joelhos
em mau estado, em 1979-80, a sua última época: cinco jogos e um golo.
Quando deixou de ser jogador, Eusébio nunca quis ser treinador principal. Foi ficando pelo Benfica, como
adjunto, para ensinar uns truques a
diferentes gerações de futebolistas.
Por exemplo, como marcar golos estando atrás da baliza, um truque que
tinha começado numa aposta com
Fernando Riera. Eusébio apostou
um fato com o treinador chileno em
como conseguia marcar três golos
em dez tentativas. O desfecho foi o
mesmo das vezes em que apostava
berlindes com os outros miúdos da
Mafalala. Ganhou.
A lenda foi-se mantendo intacta.
King em todo o mundo. Ninguém
melhor para servir de embaixador
do Benfica e de Portugal. Mas o homem passou um mau bocado nos últimos anos de vida, uma decadência
natural da idade, mas acelerada por
alguns excessos. Os seus últimos tempos foram uma constante de alertas
médicos e idas para o hospital, que
terminavam sempre com um sorriso e a garantia de que tudo estava
bem.
Quando fez 70 anos, numa festa
com centenas de convidados, Eusébio já era um homem debilitado, de
poucas palavras. Mas fazia questão
de acompanhar a selecção para todo
o lado e estava lá, no Euro 2012, para
ver a sua contraparte do século XXI,
Cristiano Ronaldo, conduzir a equipa
portuguesa até às meias-finais — ao
contrário de Ronaldo, Eusébio nunca foi capitão, apenas desempenhou
essa função episodicamente. Eusébio sentiu-se mal após o jogo com
os checos e já não estava na Ucrânia
quando a selecção portuguesa foi
eliminada pela Espanha nas meiasfinais.
Ele era o homem que todos os
guarda-redes temiam, mas também
era aquele que cumprimentava os
guarda-redes que defendiam os seus
remates. Ele era o homem que gostava de jazz e de caril de marisco,
que almoçava quase diariamente no
seu restaurante preferido desde que
chegou a Lisboa em 1960, a Adega
da Tia Matilde. Foi objecto de uma
banda desenhada, de músicas com
o seu nome no título e no refrão, de
uma longa-metragem, de inúmeras
homenagens e distinções, sempre
nas listas dos melhores de sempre.
Essa é uma equipa onde nunca será
suplente.

CRONOLOGIA DE UMA VIDA

Nasce, no bairro da Mafalala,
em Lourenço Marques (actual
Maputo), Eusébio da Silva
Ferreira, filho de Laurindo
António da Silva Ferreira e Elisa
Anissabeni.

dos Campeões Europeus em
Wembley. Eusébio ainda marca
o primeiro golo, mas um bis de
Altafini dá o título aos italianos.
Eusébio jogaria ainda em
mais duas finais pelo Benfica,
perdendo com o Inter de Milão
em 1965 e com o Manchester
United em 1968.

1958

28 de Dez. de 1965

Eusébio chega ao Sporting de
Lourenço Marques. Estreou-se
contra o Desportivo marcando
três golos.

Eusébio recebe a Bola de Ouro,
prémio atribuído ao melhor
futebolista europeu do ano pela
revista France Football.

15 de Dez. de 1960

23 de Julho de 1966

As versões divergem (há quem
diga que foi a 17 de Dezembro),
mas foi a meio de Dezembro que
Eusébio aterrou em Lisboa, com
destino ao Benfica.

Eusébio marca quatro golos no
triunfo da selecção portuguesa
sobre a Coreia do Norte nos
quartos-de-final do Mundial de
1966. Portugal acabaria por ficar
em terceiro lugar e Eusébio foi
o melhor marcador do torneio,
com nove golos.

25 de Janeiro de 1942

23 de Maio de 1961
Estreia oficial de Eusébio pelo
Benfica num jogo da Taça de
Portugal frente ao V. Setúbal.
Eusébio marca o único golo dos
“encarnados”.

8 de Junho de 1961
Primeiro jogo de Eusébio
pelo Benfica no campeonato
nacional. Frente ao Belenenses,
Eusébio marcou um dos golos
no triunfo “encarnado” por
4-0, sagrando-se campeão
pela primeira vez pelo Benfica.
Será o primeiro de 11 títulos
conquistados na Luz.

8 de Outubro de 1961
Eusébio estreia-se pela selecção
portuguesa num jogo contra o
Luxemburgo marcando um golo,
mas Portugal perdeu por 4-2.

1968
Eusébio termina a época com 43
golos, sendo o melhor marcador
da Europa, e torna-se no
primeiro jogador a conquistar a
Bota de Ouro. Repetiu o feio em
1973, com 40 golos.

13 de Outubro de 1973
Último jogo pela selecção
portuguesa, frente à Bulgária, no
Estádio da Luz, a contar para a
fase de apuramento do Mundial
de 1974. Não marcou qualquer
golo e foi substituído por Jordão
aos 28 minutos. Foram 64 jogos
pela selecção portuguesa, com
41 golos marcados.

29 de Março de 1975

O Benfica conquista a sua
segunda Taça dos Campeões
Europeus, derrotando em
Amesterdão o Real Madrid por
5-3. Eusébio marcou dois golos.

Último jogo de Eusébio com
a camisola do Benfica. Foi na
Luz, frente ao Oriental e ficou
em branco. Seis dias antes, no
Bonfim, frente ao Vitória de
Setúbal, havia marcado aquele
que seria o seu último golo pelos
“encarnados”.

25 de Maio de 1963

5 de Janeiro de 2014

O Benfica é derrotado pelo AC
Milan por 2-1 na final da Taça

Eusébio morre na sua casa, em
Lisboa. Tinha 71 anos. M.V.

2 de Maio de 1962
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | DESTAQUE | 9
O futebol perdeu uma lenda.
No campo, Eusébio era uma
Mas o lugar de Eusébio entre os verdadeira lenda. Mas também
grandes nunca lhe será tirado fora dele, ele era um verdadeiro
embaixador do futebol
português a nível internacional
Joseph Blatter,
presidente da FIFA

Michel Platini,
presidente da UEFA

Foi uma figura que teve um
prestígio internacional, quando
ainda havia poucas que o
tivessem
Jorge Sampaio,
ex-Presidente da República

A saúde que foi faltando a Eusébio nos seus últimos anos
Miguel Andrade

O

s últimos anos de vida do
ex-internacional português foram marcados por
vários problemas de saúde.
Eusébio sofria de aterosclerose — espessamento e perda de elasticidade da parede arterial
— e tinha tendência para níveis elevados de colesterol. Apresentava ainda
sintomas de hipertensão. Maleitas
que obrigaram à sua hospitalização
em 2007, 2011 e 2012.
Em Abril de 2007, Eusébio esteve pela primeira vez internado no
Hospital da Luz, em Lisboa, onde
lhe foram diagnosticadas “lesões

significativas nas artérias carótidas
internas”. Por outras palavras, “lesões obstrutivas das artérias que irrigam o cérebro”, segundo explicou,
na altura, o cirurgião vascular que o
observou, Germano do Carmo.
Depois de alguns dias internado,
o Pantera Negra foi sujeito a uma
operação à artéria carótida esquerda, como prevenção de um eventual
acidente vascular cerebral (AVC). Os
médicos aconselharam Eusébio a alterar os hábitos de vida e Eusébio foi
claro quanto às mudanças. “Quem
é que não gosta de viver?”, questionou, deixando a garantia de que iria
seguir as novas regras. “Vou ter de
cumprir as recomendações dos médicos”, disse na altura Eusébio.

No final de Dezembro de 2011,
voltaram os problemas de saúde. O
ex-internacional português deu entrada nos cuidados intensivos com
uma pneumonia bilateral e permaneceu no Hospital da Luz, em Lisboa,
durante 13 dias, incluindo o Natal.
Saiu a 31 de Dezembro, mas, a 4 de
Janeiro de 2012, voltou a ser internado devido ao agravamento do seu
quadro clínico. O ex-futebolista sentiu dores e problemas respiratórios.
O diagnóstico apontou para um caso
de cervicalgia aguda, isto é, uma lesão muscular no pescoço. O caso
chegou a assustar o Pantera Negra,
mas as palavras tranquilizadoras do
médico acalmaram-no: “Perguntei
se era grave e o médico disse-me que

não, que tinha tratamento e que ia
sair do hospital como novo.”
Contudo, as complicações de saúde de Eusébio continuaram. Pela terceira vez em dois meses e meio, o
ex-jogador do Benfica era obrigado a
voltar ao mesmo hospital, agora por
causa de uma crise hipertensiva (tensão arterial elevada). Passados dois
dias, Eusébio voltava a sair da unidade hospitalar. A sua pressão arterial
regressara ao normal.
A 23 de Junho de 2012, o também
embaixador da selecção nacional,
que se encontrava com a equipa
no Europeu de Futebol, na Polónia
e Ucrânia, teve uma indisposição
quando estava no hotel, onde a comitiva nacional estagiava, em Opale-

nica. Eusébio foi levado de urgência
para o hospital de Poznan, na Polónia, mas teve de ser transportado de
avião para Lisboa, regressando ao
Hospital da Luz.
A indisposição sentida pelo Pantera Negra na Polónia ficou a dever-se
a um AVC. Só passados 14 dias teve
alta hospitalar, mas continuou a ter
assistência médica no domicílio por
vários dias.
Neste domingo, porém, aos 71
anos, Eusébio não resistiu a mais
uma traição do seu corpo e morreu
vítima de paragem cardiorrespiratória. Eusébio estava em casa, sentiu-se
mal por volta das 3h30 da manhã e
foi chamado o INEM, mas foi impossível mantê-lo vivo.
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10 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

EUSÉBIO (1942-2014)

O futebol português está de
luto, morreu um dos maiores
símbolos da modalidade
Pinto da Costa
Presidente do FC Porto

Mítico, lendário, ícone,
ídolo, craque: os elogios
da imprensa internacional
Não faltam adjectivos fora de portas para qualificar o antigo
futebolista do Benfica. A notícia do desaparecimento
de Eusébio fez mossa um pouco pelo mundo inteiro
REUTERS

João Manuel Rocha

A

i m p re n s a d e s p o r t iv a
espanhola foi a que mais
relevo deu à notícia da
morte de Eusébio, nas
primeiras horas após a
notícia da sua morte.
Mas o desaparecimento do antigo
futebolista português é notícia um
pouco por toda a parte, sempre com
adjectivos elogiosos.
O diário desportivo espanhol Marca publicou com grande destaque no
seu site um conjunto de trabalhos
sobre Eusébio, que qualifica como
“mítico” e considera “um dos melhores jogadores de todos os tempos”,
conhecido “pela sua velocidade, a
sua técnica e o seu potente remate
com o pé direito”. Recorda o trajecto do atleta desde Moçambique e as
peripécias desde a sua ida para o
Benfica até à retirada dos relvados,
aos 36 anos.
A Marca republica a última entrevista que fez ao jogador, na qual se
declarava “madridista” e também
editou uma galeria de fotos de “Eusébio, o orgulho de Portugal”. Deu
ainda voz a Di Stéfano, antiga glória
do Real Madrid, que se referiu ao
português como “o melhor jogador
de todos os tempos”. Noutro texto
recordou a forma como jogava: “O
Benfica de Bella Guttman [treinador
húngaro] e do grande Eusébio.” Destacou igualmente a primeira reacção
de Cristiano Ronaldo à morte.
O As, também de Madrid, deu relevo à notícia da morte do “lendário”
Eusébio, divulgou vídeos de jogadas
que protagonizou, dedicou uma fotogaleria ao jogador e, entre as reacções, destacou as de Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Fez também
eco da reacção do Real Madrid, que

A morte de Eusébio foi notícia um pouco por todo o mundo
o considera “um dos maiores jogadores de todos os tempos”.
As publicações desportivas de Barcelona deram também destaque ao
desaparecimento do antigo futebolista. O Mundo Deportivo dedicou-lhe
textos — “Eusébio, mais do que um
monumento” escreve, num deles,
o subdirector Francesc Aguilar —,
uma fotogaleria e divulgou reacções
à morte. O também catalão Sport dedicou vários textos ao “lendário futebolista português Eusébio”
Nos jornais generalistas, o El País
deu importância à notícia referindose, em título, a Eusébio como “ícone
do futebol português” e divulgando
reacções à morte, destacando a de
Ronaldo. O também generalista El
Mundo noticiou com relevo: “Morre
Eusébio, adeus à Pantera Negra” e
recorreu a uma fotogaleria.
No site da BBC, a morte de Eusébio foi um dos assuntos em destaque
neste domingo. A estação recordou
que é considerado “um dos maiores
futebolistas de todos os tempos” e

traçou o seu percurso. Também em
Inglaterra, onde Eusébio deixou marca no Mundial de 1966, ali realizado,
o Guardian refere-se à antiga glória
do Benfica como “a figura proeminente do futebol português antes de
Cristiano Ronaldo”.
O desportivo francês L’Équipe, que
o classifica como “o maior jogador
português de todos os tempos”,
abriu a página principal do seu site
com uma fotogaleria de Eusébio, historiou o seu percurso, o palmarés e
destacou as reacções do treinador José Mourinho e de Cristiano Ronaldo.
Ainda que com menos relevo, a morte de Eusébio foi também notícia no
site dos diários generalistas Le Monde
ou Libération, que o classificam como “lenda do futebol português”. O
último dos jornais considera que “o
mundo está de luto”.
A imprensa generalista brasileira
também deu destaque à morte do
ex-jogador — “Ídolo”, no título do
Estado de São Paulo; “craque” na
expressão d’O Globo.

Cavaco Silva pede que
se “siga o exemplo”
ganhador de Eusébio

O

Presidente da República,
Aníbal Cavaco Silva, sublinhou ontem que a melhor forma de homenagear Eusébio “é seguir o seu
exemplo”, recordando a
forma como o antigo futebolista trabalhou e lutou para alcançar tantas
vitórias.
“Portugal perdeu hoje um dos
seus filhos mais queridos: Eusébio
da Silva Ferreira”, afirmou o chefe
de Estado, numa declaração no Palácio de Belém, ao final da manhã.
O Presidente da República louvou
o exemplo do ex-jogador enquanto desportista e ser humano, sublinhando a forma como ele trabalhou
e lutou para alcançar tantas vitórias”.
Na declaração, Cavaco Silva recordou a forma como ao longo da
sua vida Eusébio conquistou o carinho e a estima de todos, por ser
“um desportista de excepção, dos
melhores do mundo, que tantas
glórias trouxe a Portugal”. Entre as
várias condecorações com que foi
distinguido, Eusébio foi agraciado
com a Grã-Cruz Infante D. Henrique
e a Ordem de Mérito.
Já o primeiro-ministro marcou
ontem presença no velório, no Estádio da Luz, onde, “em nome de
todos os portugueses”, fez questão
de homenagear o ex-desportista.
“Sabemos que foi um grande futebolista, um dos melhores de sempre, mas foi sobretudo um homem
que está associado à alma portuguesa”, declarou Pedro Passos Coelho à Benfica TV: “É importante
para Portugal, porque foi um embaixador grande de Portugal, mas
também um embaixador do futebol e do desporto mundial. Todo o
mundo irá sentir esta perda. Todas
as pessoas, independentemente da
idade, recordarão o Eusébio como
desportista e pela qualidade humana extraordinária.”
Luís Filipe Vieira expressou a sua
gratidão pelo contributo que Eusébio deu ao Benfica logo de manhã,
através da rede social Facebook.
“Nunca estamos preparados para
perder aqueles que nos são mais
próximos, aqueles que, por tudo o

que fizeram, por tudo o que alcançaram, nos acostumamos a ver como imortais. Eusébio já tinha ganho
em vida a sua condição de mito e
por isso é que a notícia do seu desaparecimento mais choca, porque os
mitos nunca deviam partir”, escreveu o presidente “encarnado”.
Mais a norte, Pinto da Costa também quis prestar a sua homenagem
ao ex-jogador. “O futebol português está de luto, morreu um dos
maiores símbolos da modalidade.
O maior jogador português da sua
geração e sobretudo um grande ser
humano e um exemplo de fair play.
Evoco aqui a sua memória e transmito as condolências à família. É
um dia triste para o futebol português”, referiu o presidente portista,
numa nota publicada no site oficial
do clube.
Jorge Jesus lamentou igualmente o desaparecimento “físico” da
antiga glória do clube da Luz, mas
lembrou que Eusébio estará sempre vivo no coração dos benfiquistas. “Eusébio foi um ídolo que criou
toda a grandiosidade desportiva do
Benfica. Transformou vários adeptos em benfiquistas, pela sua qualidade, como jogador e como pessoa.
Ele morreu fisicamente, mas nunca
vai morrer no coração dos benfiquistas”, salientou o técnico, em
declarações à Benfica TV.

Cavaco Silva
12 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

EUSÉBIO (1942-2014)

Deixou uma carreira
brilhantíssima e na minha
opinião foi o melhor jogador
português de todos os tempos
José Augusto,
Ex-jogador, companheiro no Benfica e na selecção

Ele dançava no relvado
e também inspirava música
Mário Lopes
Os Sheiks celebraram-no
em yé-yé, o Conjunto sem
Nome cantou-o, o guitarrista
Filho da Mãe imaginou-o no
deserto. Eusébio musical

C

omo defendia o jornalista
da Emissora Nacional na
reportagem da recepção
portuguesa aos Magriços,
depois da brilhante prestação
em Inglaterra, a selecção
portuguesa pode não ter conseguido
vencer o Mundial de Futebol de 1966,
mas aquele terceiro lugar representou
o mesmo que trazer para casa o título
de campeão. E se alguém mereceu
que assim fosse, esse alguém, numa
equipa onde jogavam homens do
quilate de Mário Coluna, Hilário,
Torres ou José Augusto, foi obviamente
Eusébio, autor de sete dos nove golos
portugueses da fase de qualificação,
melhor marcador do Mundial, com
nove, e figura máxima do torneio.
Pouco depois de a selecção ser recebida em êxtase pelos portugueses
que a haviam acompanhado pela rádio e televisão, o Pantera Negra era
celebrado de uma forma moderna,
moderníssima, eléctrica, bluesy,
yé-yé. Os Sheiks de Carlos Mendes,
Paulo de Carvalho, Edmundo Silva
e Fernando Chaby, a banda pop de
maior sucesso à época, os Beatles portugueses que haviam irrompido no
início do ano com Tell me bird e Missing you, lançavam Eusébio, canção
tributo à selecção e à sua maior figura.
“Foi uma proposta da [editora] Valentim de Carvalho”, recorda Carlos
Mendes. “Tudo feito no estúdio, improvisado.” Guitarras e harmónica
unidas em rhythm & blues de batida
certeira e, enquanto o ritmo comanda
a acção, canta-se sobre a selecção que
“abriu o livro”, fala-se de “Eusébio e
companhia”, que “deram tratado e
do bom” com “futebol afinadinho e
no tom”. São dois minutos de canção.
Uma celebração instantânea: “Como
o grupo estava bastante entrosado,
construíamos as letras e a música directamente no estúdio”, diz Carlos
Mendes.

Sheiks e Portuguese Nuggets
Eis então Eusébio, futebolista
maior, imortalizado em canção pela
mais famosa banda rock portuguesa
da década de 1960. Com letra a acentuar o que disse o repórter na reportagem supracitada: “Só não ficámos
com a taça/ mas fica tudo contente.”
Letra que diz algo mais: “Lá ninguém
nos conhecia nem dava nada pela
gente.” Carlos Mendes, sportinguista mas homem pouco fervoroso nas
questões do futebol, recorda como,
principalmente após o Mundial de
1966, Eusébio passou a ser o verdadeiro embaixador português. “Teve
uma importância muito grande como
fenómeno, o que deu uma divulgação
muito grande do país pelo mundo.
Nessa altura ia muitas vezes ao estrangeiro e sempre que se falava de Portugal tinha como resposta: ‘Portugal?
Eusébio!’.”
Do jogador, recorda uma história
que corria os cafés e que dá conta da
dimensão heróica, mítica, do jogador
do Benfica. “Era uma força da natureza. Dizia-se que, quando chutava a
bola, o fazia com uma força tal que
ela ficava oval — apanhava-se isso nas
fotografias a baixa velocidade. E estamos a falar das bolas da época, pesadíssimas, que se apanhassem com
água da chuva podiam fazer desmaiar
quem as cabeceasse. Não sei se era
verdade, mas era isso que se contava nos cafés: ‘Imagina que ele tem

um chuto tal que a bola fica oval.’”
A celebração musical de Eusébio
não se ficaria pelos Sheiks. Três anos
depois, o Conjunto sem Nome editaria O joelho do Eusébio, marcha sambada que faz força da fraqueza do Rei,
ou seja, as inúmeras lesões sofridas,
fruto das marcações impediosas num
futebol mais violento: “O joelho do
Eusébio fez o mundo estremecer/ Mas
o Eusébio, tem joelho ‘inda’ para dar
e vender” — e até “o menisco do Eusébio” era, na canção do Conjunto sem
Nome, “o menisco da saúde”.
Mais à frente, os Salada de Frutas
incluiriam o King na letra do clássico
de 1981 Se cá nevasse... (“Se o Eusébio ainda jogasse / Ai que fintas ele
faria um dia”), e duas décadas depois, em 2007, quando foi editado o
segundo volume da série Portuguese
Nuggets, compilação dedicada à cena
rock’n’roll portuguesa da década de
1960, não só surgia no alinhamento
Eusébio, o dos Sheiks, como Eusébio,
ele mesmo, figurava na capa do LP
estilizado em colorido psicadélico.
Não demoraríamos a encontrá-lo novamente em forma de música.
Em 2011, o guitarrista Rui Carvalho, que assina como Filho da Mãe
e cujo segundo álbum, Cabeça, foi
considerado pelo Ípsilon um dos
melhores álbuns de 2013, lançava
o seu disco de estreia, Palácio. Música número 4: Eusébio no deserto.
Título que Rui Carvalho explica rapidamente. “Quis reflectir o que o
Eusébio tem do ser português.” Um
português atípico, porque nasceu em
Moçambique, “mas provavelmente
mais português que qualquer português de que me possa lembrar”.
A música reflecte precisamente isso.
“Coloquei-o no deserto, um deserto
que será mais próximo do imaginário
cowboy. O tema é um blues acelerado,
mas tem ali umas fintas pelo meio e
qualquer coisa que o liga a Portugal.”.
O título chegou depois da música.
“Foi a forma que encontrei para a descrever. Ouvi-a e pensei: ‘Isto lembrame Eusébio no deserto.’” Faz sentido?
Claro que sim. Eusébio fica bem em
todo o lado. Senão, vejamos. Em 2007
surgiu do nada uma banda galesa de
vida breve. Editou nesse ano o álbum
Beth yw Hyn. O seu nome? Eusebio
(naturalmente).

Como se chega a Eusébio

Opinião
José Medeiros Ferreira

Q

uando me comecei a
interessar por futebol,
há 65 anos!, esse
desporto era muito
débil em Portugal. O fim
da II Guerra Mundial
trouxera algumas novidades, uns
treinadores ingleses e austrohúngaros, e o predomínio do
Sporting Clube de Portugal.
Mesmo os “cinco violinos” só
carburavam a quatro com o Jesus
Correia a dar umas “stickadas”
no hóquei em patins. O hóquei
da Linha do Estoril era então a
segunda circular do circuito dos
campeonatos, como hoje em dia
o topos do Estádio da Luz e do de
Alvalade. Era o tempo dos 10 a 0
e dos 9 a 1 nas balizas ou por lá
perto. Só a taça latina no Jamor
nos lavou algumas lágrimas.
Em 1954, o Sport Lisboa e
Benfica inaugurou o seu estádio,
então de Carnide, e contratou
o treinador brasileiro Otto
Glória, que introduziu algumas
novidades na organização do
futebol semiprofissional e reuniu
os jogadores numa residência
especialmente para forasteiros e
solteiros. Mesmo assim, até 1958,
o futebol praticado baseava-se
apenas numa figura táctica que

ocupava melhor o terreno a meiocampo — o célebre losango! — e
no brotar de alguns jogadores
com talento individual e sentido
colectivo como o velho Francisco
Ferreira e Caiado. Depois a
chegada de alguns jogadores
oriundos de África: Costa Pereira,
José Águas, Santana, Mário Coluna,
morfologicamente muito distintos
dos jogadores metropolitanos,
mais habilidosos mas mais frágeis
no ombro a ombro.
Eusébio chegou no melhor
momento, ainda não tinha 20
anos. Dotado de uma planta
de atleta, senhor de reflexos
inatos e de uma velocidade
de excepção, ele aproveitará
tudo o que havia de melhor do
ambiente da residência para
jogadores, do amparo e conselho
de Mário Coluna e da chegada de
Bella Guttman, outro treinador
austríaco fugido à II Guerra
Mundial, e de tudo isso aproveitou
para a sua maturidade como
desportista de eleição. Quando o
vi jogar, em 1961, na Tapadinha
e no Restelo, ele já era um forade-série, capaz de sprintar com
a bola dominada e a cabeça bem
erguida, capaz de fintar qualquer
adversário no um para um.
A grande dúvida que se coloca
para os que acreditam no ensino
é a de saber se há algum método,
algum treino, algum exercício
repetido, algum reflexo criado,
que transplante um atleta do seu
meio natural e faça dele um génio.
Professor universitário
ERIC GAILLARD /REUTERS

Numa exposição sobre futebol em Cannes, em 1999
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | DESTAQUE | 13
É uma perda enorme.
Sem dúvida, Eusébio foi um dos
Sinto que também se foi embora melhores jogadores com os que
um pouco de mim
tive o privilégio de jogar. Era um
m
autêntico desportista

Era o maior símbolo do futebol
português e também do
Benfica. Vamos saber perpetuar
a sua memória

António Simões
Antigo jogador do Benfica

Bobby Charlton, um dos jogadores
míticos do futebol inglês

Chegou incógnito e acabou a
fazer “carrinhos” em Tomar
Marco Vaza

T

inha 18 anos quando aterrou
em Lisboa, a “metrópole”, a
capital do império português
a 15 de Dezembro de 1960.
Tinha viajado incógnito,
com nome de mulher, Ruth
Malosso. Vinha de Moçambique, de
Lourenço Marques, um jovem “de
aparência bastante robusta, com
costas largas, boa altura” chamado
Eusébio da Silva Ferreira. Ninguém
sabia o que ia dar, ninguém sabia que
aquele avançado africano iria ser um
dos melhores futebolistas do planeta.
O Benfica foi o seu clube de sempre,
onde conquistou as maiores glórias
e se tornou no “Pantera Negra”. Mas
não foi o único. Andou pela América
e acabou a jogar na segunda divisão
portuguesa, no União de Tomar.
O União Comércio e Indústria
de Tomar já tinha estado seis temporadas na primeira divisão, entre
1968 e 1976, mas naquele ano, 1977,
estava no segundo escalão. Fernando Mendes, na altura o presidente
do clube, queria mais sócios e mais
público nos jogos e avançou para a
contratação de duas estrelas do futebol português, Eusébio e António
Simões. “Eles andavam a fazer uns
contratos pela América e a ideia até
foi do Simões”, recorda ao PÚBLICO
o então presidente do clube.
Tal como Eusébio, António Simões
tinha 35 anos e estava longe dos tempos de glória do Benfica, onde se conheceram e brilharam. Nesta altura,
precisava de manter a forma para
aspirar aos dólares que pagavam do
outro lado do oceano Atlântico, na
liga norte-americana. “O campeonato dos EUA era de seis, sete meses e
tínhamos todo o interesse em não
parar”, refere Simões, que saiu do
Benfica em 1975, o mesmo ano de
Eusébio.
A ideia do presidente do União de
Tomar deu resultados imediatos. O
clube passou a ter mais gente no estádio e nos jogos fora. Eusébio estreouse com a camisola vermelha e negra
do União de Tomar a 1 de Dezembro
de 1977 frente ao Estoril, o primeiro
de 12 jogos pelo clube (três golos).
Eusébio já não tinha a potência de
outros tempos, aquele joelho esquer-

do muito massacrado já não deixava e andava mais pelo meio-campo
em vez de ser um avançado explosivo e veloz. “Até fazia carrinhos e
ia pelo chão”, recorda Mário Pinto,
um extremo de 18 anos em início de
carreira.
Eusébio e Simões não tinham de
treinar-se todos os dias no União.
Um, às vezes dois treinos por semana. Recorda Mário Pinto que viu,
uma vez, Eusébio a dormir durante
uma palestra do treinador Vieirinha:
“Mas o treinador dizia: ‘Ele já sabe o
que vai fazer em campo’.” “Era um
fascínio para os miúdos do União de
Tomar conhecer o Eusébio e o Simões, quanto mais jogar com eles”,
conta António Simões. “O nosso estilo já era diferente. Já não tínhamos
pernas para lá ir, ficávamos mais no
meio-campo. Mas o Eusébio, nos liEusébio com
a camisola do
União de Tomar,
na fase final da
sua carreira,
onde fez 12 jogos
e marcou 3 golos

vres, era igual. Mantinha essa capacidade técnica, remates com força
e direcção.”
A breve passagem por Tomar
durou até Março de 1978. Depois
ainda voltou aos EUA, para tentar
uma experiência no futebol indoor, mas esta foi ainda mais efémera.
António Simões também voltou ao
continente americano nas mesmas
condições, acabando por ficar lá
mais algum tempo como treinador.
Fizeram quase o mesmo percurso
de vida desportiva. Começaram jovens no Benfica, estiveram ambos na
selecção portuguesa que brilhou no
Mundial de 1966, saíram da Luz no
mesmo ano, foram atrás dos dólares
americanos e terminaram ao mesmo
tempo. “O nosso trajecto foi muito
igual”, sintetiza Simões. “Tínhamos
uma cumplicidade muito grande. A
mim chama-me o irmão branco e eu
chamo-lhe o meu irmão africano, que
será até ao resto da minha vida. Como homem, só não cresceu de uma
maneira. A sua vaidade não inchou.
E ainda bem.” Texto originalmente
publicado a 15 de Dezembro de 2010

Shéu Han, ex-futebolista, actualmente
secretário técnico do Benfica

Portugal no seu melhor

Opinião
António-Pedro Vasconcelos
“Quantas vezes Portugal chorou
contigo/ por achar que merecia
mais do que o destino lhe queria
dar?”
José Jorge Letria

E

usébio da Silva Ferreira
foi dos últimos grandes
jogadores a ter o seu
destino ligado a um clube
— o Benfica — e a uma
selecção — a nossa. O que
ajudou a mantê-lo vivo no coração
dos adeptos. E é justo realçar
a importância que Luís Filipe
Vieira deu ao valor simbólico,
mas também humano, de ter
Eusébio, mas também os outros
heróis de Berna e de Amesterdão,
como guardiões vivos dessa
memória — e, no caso de Eusébio,
como verdadeiro embaixador da
grandeza ecuménica do clube.
Ninguém se atreverá a dizer
qual foi o melhor jogador de
todos os tempos. Mesmo se há
muitos candidatos — e alguns
vivos: Ronaldo e Messi, pelo
menos —, a verdade é que Eusébio
figura no panteão dos raros que
merecem subir ao pódio e lá ficar
para sempre, ao lado de Pelé, Di

Stefano, Puskas e Maradona.
Mas Eusébio era especial.
Por ele e pelo que representou.
Eusébio tinha qualidades inatas
para o futebol — os outros, é
certo, também —, mas tinha uma
espécie de pureza que nunca
perdeu: uma paixão infantil pelo
jogo que faz dele um caso raro
no futebol. Eusébio gostava de
marcar golos e de ganhar, como se
isso fosse uma obrigação que os
deuses lhe exigiam em troca de o
ter dotado de talentos invulgares.
Só via o golo à sua frente, corria
para a baliza adversária para ir
buscar a bola que tinha acabado
de fazer entrar, para que o jogo
recomeçasse sem demoras,
tinha fair play, chorava se perdia
injustamente, era massacrado mas

Que ele desapareça
do mundo dos vivos
numa altura em que
Portugal está a viver
o impensável — um
regresso planeado
a esses tempos
de miséria e de
desprezo — é um
sinal do destino

não respondia, nunca perdeu essa
virgindade e essa vontade infantil
de ganhar, que fez com que,
durante uma década, o Benfica
parecesse o natural vencedor dos
jogos em que entrava.
Depois, ele foi, sem querer,
um símbolo para os portugueses
do seu tempo — e não só para os
benfiquistas. Numa época em
que o país estava mergulhado na
miséria e na opressão, em que
muitos portugueses tinham de
emigrar para terras distantes,
muitas vezes em condições
desumanas, em que se espalharam
pela Europa, mas também pelos
outros continentes, em que, para
muitos, ser português era sinal de
opróbio e mesmo de vergonha,
Eusébio resgatou o nosso orgulho
e devolveu-nos a dignidade.
Que ele desapareça do mundo
dos vivos numa altura em que
Portugal está a viver o impensável
— um regresso planeado a esses
tempos de miséria e de desprezo
— é um sinal do destino. Que ele
seja celebrado, agora, meio século
depois, como foi nesses tempos, é
um sinal de que o país se revê no
que ele representa — hoje, como
ontem, um Portugal capaz de se
suplantar, de vencer a adversidade
e a injustiça, de não se deixar
sacrificar a um destino miserável,
como aquele a que nos querem
condenar. Até por isso, ele é
Portugal no seu melhor.
Cineasta

Outra maneira de dizer alegria

Opinião
Ricardo Araújo Pereira

O

Benfica veste de
vermelho e branco
porque essas são,
segundo os seus
fundadores, cores que
transmitem vivacidade
e alegria. Sim, o meu clube

tem a alegria nos estatutos (e
isso envaidece-me). Há três ou
quatro anos, em Liverpool, o
estádio do Everton tinha um
aspecto bastante lúgubre. As
bancadas estavam cheias de
adeptos tristes, vestidos de
cores escuras, deprimidos
pelo clima da cidade em que
escolheram viver e pelo facto
de, uma semana antes, terem
perdido por 5 a 0 no Estádio
da Luz, o que mói ainda mais
do que a neblina. Antes de o
jogo começar, os altifalantes
do estádio anunciaram que o

grande Eusébio iria ao centro
do relvado. E então, todos
aqueles desgraçados ingleses
se levantaram para aplaudir,
sorrindo. Foi a única alegria
que tiveram naquela noite,
em que acabariam por perder
outra vez, por 2 a 0. A camisola
do Benfica foi feita para ser
vestida por ele. Eusébio é
outra maneira de dizer alegria.
Eusébio é outra maneira de
dizer Benfica. Não conheço
façanhas maiores.
Humorista
14 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

EUSÉBIO (1942-2014)
Eusébio sempre

Opinião
António Bagão Félix

2

6 de Julho de 1966:
Portugal perde contra
a Inglaterra nas meiasfinais do Mundial.
Recordo a imagem do
convulsivo choro de
menino de Eusébio, no final do
jogo. Dois dias depois, a nossa
selecção vence a União Soviética
e alcança o 3.º lugar. Recordo
o penálti marcado por Eusébio
logo seguido de um abraço ao
então melhor guarda-redes do
mundo, Lev Yashin. A lágrima na
derrota e o abraço ao adversário
na vitória unidos no jogador
excepcional e no homem bom
que foi Eusébio.
Nestes dois aparentes
pormenores está, pois, uma
parte significativa do que ele foi.
Não apenas o fabuloso jogador
que está entre os melhores de
sempre no mundo, mas também
a pessoa apaixonada por Portugal
e pelo Benfica, o desportista leal,
exemplar, simples, solidário, sem
tiques de vedetismo, acima e para
além da efemeridade de cada
momento.
Inigualável não apenas nos
seus quase incontáveis golos
e soberbas exibições, mas no
exemplo de trabalho, de dever,
de sacrifício, de abnegação, de
entrega, de autenticidade, de
companheirismo, até de utopia
e de sonho. E que sempre soube
adicionar à universidade que foi
a sua vida a universalidade do
consenso que foi capaz de gerar.
Num tempo em que a
globalização ainda não o era,
num tempo em que a informação
e a imagem se espalhavam à
velocidade da tartaruga quando
comparada com a alucinação e
a vertigem de agora, Eusébio foi
uma projecção de portugalidade
no mundo global, a par de Amália.
Como escreveu Torga “o universal
é o local sem paredes”. Eusébio
ultrapassou o mapa de Portugal e

O adeus do menino
que conquistou o mundo
derrubou todos os muros. Os de
cá e os de lá fora.
Para mim, Eusébio representa
uma certa expressão do desporto
que deixou de ser a norma. Onde
o que contava era tão-só o futebol
jogado. De paixão pura, sem
adiposidades. Sem mediatismos
bacocos feitos de lugares-comuns
e onde a iconografia era a do
exemplo no trabalho e não a
da imagem no mercado. Num
tempo em que as vitórias não
eram apenas uma forma de
aumentar a retribuição, mas uma
compensação de quem sentia
devotadamente a camisola que
envergava.
Eusébio: um curto nome de
cinco vogais e duas consoantes
que se eternizou. Semanticamente
poderia estar num qualquer
“Dicionário de Língua Universal”,
porque intemporal e universal.
Ultrapassou a onomástica e a
geografia. Pertence ao mundo e

tem significado próprio.
O Benfica tinha 37 anos quando
Eusébio nasceu em Moçambique
e 57 anos quando se estreou no
clube. Não é possível calcular
quantos benfiquistas (ou simples
amantes do futebol) há hoje por
causa dele. Mas, certamente,
muitos.
A minha geração viu e viveu os
jogos de Eusébio. Na altura, sem
a profusão televisiva de hoje, mas
com o sabor que era ir ao Estádio
ou com a magia proporcionada
pelo relato radiofónico. Faz,
assim, parte do meu reduto
memorial. Que me ensinou
definitivamente que ser Benfica
é, ao mesmo tempo, afecto e
privilégio, coração e razão,
vitamina e analgésico, fermento e
adoçante.
Por tudo, um obrigado do
tamanho do universo a Eusébio!
Economista
DR

Opinião
Ricardo Serrado

D

evido à idade que tenho,
é evidente que nunca vi
Eusébio jogar em directo.
Porém, tive o ensejo de
o ver indeferidamente,
ao serviço do Benfica
e da selecção nacional, bem
como já o analisei com alguma
profundidade na minha actividade
profissional através das mais
variadas fontes impressas. Por
isso, tive oportunidade de o ver
brilhar na sua primeira época
de águia ao peito, em 1961/62 e,
entre outras competições, no
Mundial de 1966, que o consagrou
internacionalmente como
um dos melhores futebolistas
mundiais dessa década. Devo
dizer, dirigindo-me sobretudo às
gerações mais novas, que Eusébio
foi um extraordinário futebolista,
que jogaria em qualquer equipa
mundial e em qualquer tempo. A
sua capacidade de drible, a sua
velocidade, a sua intuição, enfim,
a articulação do seu corpo com
o esférico em relação ao espaço,
dotavam-no de características
únicas no panorama do futebol
mundial. Eusébio era uma força
da natureza. Ao contrário de
muitos dos jogadores de hoje, que
são “fabricados” nas canteras,
nas academias e nas escolas de
futebol, de forma a atingirem
um nível muscular e atlético
“perfeito” que os capacitem a
atingir as performances desejadas,
Eusébio foi futebolisticamente
formado nos bairros de lata de
Moçambique, em terrenos baldios,
jogando muitas vezes com outros
objectos que improvisavam a
carência de uma bola de futebol. É
conveniente recordar que Eusébio
chega a Lisboa a 17 Dezembro
de 1960, com 18 anos, à beira de
completar 19, sem a mínima noção
do já exigente futebol europeu.
A única coisa que possuía era
uma habilidade em grande
medida inata para jogar futebol.

Aquilo que Eusébio trazia para o
futebol do Velho Continente era a
sabedoria intuitiva do seu corpo —
essa inteligência que não se mede
nos QI mas na movimentação e
na capacidade de improvisação
do seu corpo; essa inteligência
do organismo na sua totalidade,
feita do pulsar, das emoções e dos
sentimentos, vinda da sintonia
perfeita entre as estruturas
cerebrais não conscientes com o
corpo na sua unicidade. Nada em
Eusébio tinha sido transformado.
Tudo nele era talento em estado
puro. Era como se todas as suas
células respirassem futebol.
Um futebolista é muito mais
do que os números que atinge.
Eusébio não era só um goleador
como também um municiador
de golos para os seus colegas,
efectuando muitas e decisivas
assistências. Não era um ponta-delança típico (ao contrário de Águas
ou Torres, por exemplo). Era um
vagabundo, que jogava atrás do
homem mais avançado, partindo
de trás em fulgurantes arrancadas,
criando desequilíbrios que não
raras vezes davam em golo.
Eusébio fora o menino de
Mafalala que conquistara o
mundo com uma bola nos pés. O
seu futebol, feito de improviso e
rebeldia, de malícia e da arte do
engano, pareciam falar da sua
meninice em Moçambique. Nunca
teve muito jeito com as palavras
e não se sentia à vontade em
frente às câmaras. Não precisava.
Comunicava com o corpo em
movimento nos estádios de
futebol, através das fintas, dos
golos, dos chutos fulminantes
e com o sorriso genuíno que
esboçava sempre que tinha uma
bola nos pés. Era um futebol,
simultaneamente, ingénuo porque
puro e inocente, retrato figurado
de Eusébio quando se apresentou
em Lisboa, mas de um rendimento
extraordinário, como nos mostram
os números que atingiu.
A partida de Eusébio inundou
de tristeza todos aqueles que
gostam de futebol. Não foi só
Portugal que perdeu um herói. Foi
o Planeta do Futebol que ficou,
indubitavelmente mais pobre.
Historiador doutorando FCSH-UNL
16 | PORTUGAL | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

“Contrapartidas às ajudas da troika
merecem discussão”, diz relator do PE
Liêm Hoang Ngoc Em Lisboa, os eurodeputados iniciam uma visita aos países sob intervenção. Um
socialista reconhece que os socialistas da Grécia, Portugal e Irlanda participaram em políticas erradas
NUNO FERREIRA SANTOS

Entrevista
Nuno Ribeiro
“As contrapartidas às ajudas
da troika merecem discussão”,
afirmou ontem, ao PÚBLICO,
o eurodeputado socialista
francês Liêm Hoang Ngoc, um
dos dois relatores da comissão
dos assuntos económicos do
Parlamento Europeu (PE)
que inicia hoje, em Lisboa, a
avaliação às políticas da Comissão
Europeia, Banco Central Europeu
e Fundo Monetário Internacional
aplicadas a Portugal, Grécia,
Irlanda e Chipre. Hoang
Ngoc reconhece as limitações
da fórmula acordada em
Estrasburgo, mas está convicto
de que, com a constituição de um
fundo monetário europeu, será
necessário um controlo político.
“Trata-se de um relatório da
iniciativa do PE, a comissão
de inquérito obrigaria os
responsáveis da troika a
prestar contas”, admite o
jovem eurodeputado. “Foi o
compromisso alcançado para
evitar que o relatório aparecesse
como acusação aos responsáveis
da troika”, sublinha: “Daí haver
dois relatores, um do PPE (Partido
Popular Europeu), o austríaco
Othmar Karas, outro socialista,
eu próprio, para fazermos um
relatório o mais consensual
possível.”
Este acordo tem virtudes e
pontos débeis. “É uma força,
porque as conclusões serão
votadas no Parlamento Europeu,
e uma fraqueza porque sempre
haverá a defesa da política da
troika”, reconhece. No entanto,
Hoang Ngoc aponta um ponto
fundamental. “A proposta do
relatório põe em evidência o
debate sobre os multiplicadores
que subestimaram o impacto
recessivo das medidas”, afirma.
“O FMI queria mais reformas
das leis do trabalho, a Comissão
Europeia uma consolidação
orçamental rápida, fizeram-se as
duas coisas, utilizaram-se os dois
travões ao mesmo tempo”, relata.
“É por isso que não arranca o
crescimento português e a dívida
aumenta”, analisa: “Mesmo
que Portugal saia este ano do

programa de ajustamento, o
problema da dívida continuará
porque as políticas de austeridade
mataram o crescimento.”
Outra questão, “o ponto fulcral do
relatório”, já está definida: “Com a
constituição do fundo monetário
europeu será necessário um
controlo político, do Parlamento,
aí o PPE e os socialistas estão de
acordo.” Destacando que esta
é a primeira conclusão prática,
retira uma ilação: “Este relatório
é a oportunidade de mostrar
aos cidadãos que o Parlamento
Europeu deve desempenhar um
papel-chave no futuro da Europa,
que os seus representantes
defendem mais democracia e
menos austeridade.”
Um discurso que não é imune às
eleições europeias de Maio, dois
meses após a comissão divulgar
as suas conclusões. “Na Grécia,
Portugal e Irlanda, os socialistas
participaram nas políticas da

troika. Se estas políticas não
foram as melhores, há que ter a
coragem política de o dizer, os
socialistas portugueses devem
dizer terem sido obrigados por
questões orçamentais, mas devem
salientar que é necessário mudar
de política”, sustenta.
O discurso do mea culpa,
reconhece, “é feito por todos
os partidos em Portugal, pelos
sindicatos e patronato”. Aquando
da sua última visita a Lisboa, há
nove meses, ficou surpreendido
com a sintonia das centrais
sindicais e das associações
patronais. “Portugal jogou a ser
bom aluno da troika, graças a
isso vai sair do mecanismo de
assistência, mas os desequilíbrios
macroeconómicos e os problemas
continuam”, insiste.
“O FMI era a única instituição
que dispunha de fundos, e todos
os países com problemas eram
membros do Fundo”, destaca:

“Não contesto o recurso à
troika porque, então, não havia
um mecanismo europeu de
estabilidade e recorrer ao Fundo
era necessário.”
Hoang Ngoc reconhece que as
divergências no Parlamento
Europeu surgirão sobre a validade
das políticas seguidas. E das
contrapartidas impostas. A este
propósito alerta: “No Conselho
Europeu de Dezembro, Angela
Merkel disse ser necessário
um novo tratado, novos
instrumentos, referindo que as
ajudas financeiras têm como
contrapartidas a redução da
despesa pública e as alterações
das leis do trabalho, o que é
perigoso.” Para o eurodeputado
socialista, há outra alternativa: “O
funcionamento da zona euro não
se pode fazer sem um orçamento
europeu importante, financiado
por impostos e euro-obrigações,
com harmonização fiscal e social.”

Pelo que, conclui, “é necessária
uma alteração dos tratados, mas
não de acordo com a filosofia
alemã.”
Hoje, a delegação do PE, que
integra os eurodeputados
portugueses Ana Gomes, Elisa
Ferreira, Diogo Feio, José Manuel
Fernandes e Marisa Matias, avistase com José Sócrates, com os seus
ex-ministros da Economia, Vieira
da Silva, e da Presidência, Silva
Pereira. Seguem-se a Comissão
Permanente de Concertação
Social, o governador do Banco
de Portugal e o vice-primeiroministro Paulo Portas. Amanhã,
a delegação reúne-se com Maria
Luís Albuquerque, o secretário
de Estado Carlos Moedas e as
comissões parlamentares dos
Assuntos Europeus, Orçamento,
Finanças e Administração Pública,
bem como com a comissão ad
hoc de monitorização da ajuda
financeira a Portugal.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | PORTUGAL | 17

Instituto de Medicina Legal
vai ter pela primeira vez
um juiz na presidência

Breve

Justiça
Mariana Oliveira

Tráfico de droga

Mais de 30 mil
doses de cocaína
apreendidas
A PSP apreendeu no sábado
31.596 doses de cocaína,
no Aeroporto de Lisboa.
Um passageiro oriundo de
Caracas, Venezuela, ocultava
“na zona do abdómen, de
forma dissimulada, um colete
elástico” com a droga.
O passageiro, um estudante
de 23 anos, viajava ainda com
quatro telemóveis e dinheiro
em três moedas diferentes
— euros, bolívares e moeda
filipina —, que também foram
apreendidos.

Organismo está sem
presidente há mais de mês
e meio. Novo líder
é magistrado há 31 anos
Pela primeira vez desde que foi criado em 2000, o Instituto Nacional de
Medicina Legal terá um juiz como
presidente. Francisco José Brízida
Martins, 55 anos, juiz do Tribunal
da Relação de Coimbra, foi o nome
escolhido pela ministra da Justiça,
Paula Teixeira da Cruz, para dirigir
o organismo, que está sem presidente há mais de mês e meio.
O PÚBLICO tentou saber o motivo
do atraso na nomeação, tendo o Ministério da Justiça remetido explica-

ções para o início da semana. O nome
do futuro presidente ainda não foi
anunciado pela ministra, mas consta
de uma acta de uma reunião do Conselho Superior de Magistratura, a 19
de Novembro, disponível no site.
Nesse documento refere-se que foi
“apreciado o expediente (...) que solicita que Francisco José Brízida Martins seja designado, em regime de comissão de serviço, como presidente
do Conselho Directivo do Instituto
Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses I.P.”. E acrescenta-se:
“Foi deliberado – por unanimidade
– deferir o solicitado.”
Será a primeira vez que o organismo não é dirigido por um especialista
em medicina legal, já que, até agora,
todos os anteriores presidentes eram
médicos e professores universitários
daquela especialidade.
Francisco José Brízida Martins

nasceu em Angola, em 1958, sendo
magistrado há mais de 31 anos. Além
das referências ligadas à judicatura, o
magistrado aparece na Internet como
tendo integrado durante vários anos
o Conselho de Justiça da Federação
Portuguesa de Columbofilia, cargo
que já não exerce.
Designado, desde 2013, Instituto
Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses – responsável pelos
exames e perícias forenses pedidos
pelas autoridades judiciais –, está a
ser gerido pelos presidentes das três
delegações (Norte, Centro e Sul), que
integram a direcção, órgão que até
Novembro era encabeçada pelo catedrático da Faculdade de Medicina de
Coimbra Duarte Nuno Vieira.
Apesar de a ministra não o admitir
explicitamente, o afastamento deste
responsável parece estar associado a
uma polémica de que o próprio mi-

nistério não sai ileso. Após quatro
anos a insistir com o ministério na
necessidade de um despacho conjunto dos ministros da Justiça e das
Finanças a fixar a remuneração dos
membros do conselho directivo, o
presidente e dois vogais do instituto
acabam por optar por receber o vencimento do lugar de origem, tendo
neste caso direito a um acréscimo
de 35% sobre o salário-base, como
estava expressamente previsto na lei
orgânica do instituto em vigor nessa
altura.
Tanto a Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça como a InspecçãoGeral das Finanças concordam que
a decisão “não merece qualquer
censura”. Porém, a secretaria geral
do ministério considera que a deliberação de Setembro de 2011 é “inválida”, porque havia necessidade de
despacho ministerial.
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EDUCAÇÃO REPROVA A “PACC”!

MATOSINHOS

D. MARIA IRENE ROCHA
GIL DA COSTA MATOS
DE MENESES
FALECEU
Sua filha, irmã, sobrinhos e demais família participam o seu
falecimento e que o funeral se realiza hoje, segunda-feira, pelas
14,45 horas da Capela da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos, onde se encontra depositada, para a igreja paroquial,
saindo, após exéquias, a sepultar, em jazigo de família, no 1.º
Cemitério Municipal de Matosinhos.
A missa do 7.º dia, pelo seu eterno descanso, será celebrada sexta-feira, dia 10, às 18,30 horas na Igreja paroquial de
Matosinhos. Agradecem, desde já, a todos os que se dignarem
assistir a estas cerimónias.

FUNERÁRIA DE MATOSINHOS - IRMÃOS TEIXEIRA LDA.

A prova dita de avaliação
de conhecimentos e
capacidades (PACC) que o
MEC de Nuno Crato quer
impor aos professores é
reprovada pela comunidade
académica e científica.
A FENPROF solicitou a seis
personalidades da Educação
que, a propósito daquela
prova, elaborassem um
comentário/declaração.
O resultado é inequívoco:
a PACC foi reprovada!
³$ SUR¿VVmR GH SURIHVVRU p GH JUDQGH
FRPSOH[LGDGH H H[LJrQFLD 1HFHVVLWD
GH XPD IRUPDomR GH QtYHO VXSHULRU
H GH XPD DYDOLDomR ULJRURVD QR
HVSDoR GD HVFROD H QXP DPELHQWH
SUR¿VVLRQDO 0DV HVWD 3URYD QmR UHVROYH TXDOTXHU SUREOHPD 1mR VHUYH
SDUD WHUPRV PHOKRUHV SURIHVVRUHV
QHP PHOKRU HQVLQR 6mR RXWURV RV
VHXV SURSyVLWRV $VVLP QmR´
António Sampaio da Nóvoa –
Docente Universitário. Reitor da
Universidade de Lisboa no período
2006 - 2013

³$ SURYD GH DYDOLDomR p XPD SHUWXUEDomR LQ~WLO QD YLGD GDV HVFRODV H GRV

DOXQRV RQVLGHUR D DYDOLDomR GRV
SURIHVVRUHV HVVHQFLDO PDV QmR YHMR
TXH HVWD ³SURYD´ SRVVD FRQWULEXLU
SDUD VHOHFLRQDU RV PHOKRUHV H SDUD
D TXDOLGDGH GD HGXFDomR ( SRGHUi
SULYDU D HGXFDomR GH H[FHOHQWHV
SURIHVVRUHV ´
Ana Maria Bettencourt –
Presidente do Conselho Nacional de
Educação no período 2009 – 2013

³(VWD DYDOLDomR p LQMXVWD H LQFRUUHWD
,QMXVWD SRUTXH GHVSUH]D R YDORU GD
H[SHULrQFLD SUR¿VVLRQDO GRV SURIHVVRUHV REWLGD HP VLWXDo}HV UHDLV H
LQFRUUHWD SRUTXH Vy DYDOLD XPD SDUWH
tQ¿PD GDV FRPSHWrQFLDV TXH OKHV
VmR H[LJLGDV´
David Rodrigues – Presidente
da Associação Pró-Inclusão

2 0(@ ³LQVWLWXLX XPD 3URYD GH
DYDOLDomR GH FRQKHFLPHQWRV H FDSDFLGDGHV 3$
TXH SUHWHQGH ID]HU
R FULYR GH PLOKDUHV GH SURIHVVRUHV
FRQWUDWDGRV TXH IRUDP DYDOLDGRV
«« R 6U 0LQLVWUR RIHQGHQGR D
GLJQLGDGH SUR¿VVLRQDO GH WRGRV HVWHV
SUR¿VVLRQDLV DYDOLDGRUHV H GDV VXDV
LQVWLWXLo}HV GH HQVLQR PDQGD HODERUDU XPD SURYD TXH QmR YDL DIHULU
QHQKXPD FDSDFLGDGH GD FRQGLomR
GRFHQWH GRV SURIHVVRUHV FRQWUDWDGRV´
Carlos Chagas – Membro do CNE;
Presidente da FENEI

³'H XPD PHQWH LJQDUD GDTXLOR TXH
j HVFROD H j SUR¿VVmR GRFHQWH GL]
UHVSHLWR GR DXWRU GH HVFULWRV VREUH
HGXFDomR SHGDJRJLFDPHQWH UHWUyJUDGRV H LGHRORJLFDPHQWH UHDFFLRQiULRV
FRPSUHHQGHVH TXH H[LMD D GRFHQWHV
SUR¿VVLRQDOL]DGRV D VXEPLVVmR D
XPD LQIXQGDGD SURYD TXH QDGD SURYD FRQGHQDGD SRU YR]HV GH WRGRV
RV TXDGUDQWHV´
Paulo Sucena – Membro do CNE;
Secretário-geral da FENPROF
no período 1995–2007

³,PS}HVH QmR VXEHVWLPDU RV YiULRV
GLVSRVLWLYRV GH YLJLOkQFLD GD DWLYLGDGH GRFHQWH Mi LPSOHPHQWDGRV 7DLV
GLVSRVLWLYRV WRUQDP HVWHV GRLV QRYRV
H[DPHV j TXDOL¿FDomR H FHUWL¿FDomR
Mi DGTXLULGDV SHORV SURIHVVRUHV XP
HVEDQMDPHQWR SROLFLDO TXH FRPHoD
D FDXVDU HVFkQGDOR´
Sérgio Niza – Pedagogo.
Presidente do Movimento Escola
Moderna

Federação Nacional dos Professores
www.fenprof.pt
18 | PORTUGAL | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Seguradora paga crédito de doente
oncológico com mais de 60 anos
Decisão do Supremo envolve crédito à habitação. Casal de Guimarães venceu disputa em tribunal,
apesar de ter assinado apólice que previa perda de cobertura do risco de invalidez
JOSÉ FERNANDES

Justiça
Ana Henriques
A seguradora Fidelidade foi obrigada, pelo Supremo Tribunal de Justiça, a pagar o crédito à habitação de
um homem que contraiu uma doença oncológica aos 63 anos, apesar
de a apólice do seguro estabelecer
que perdia o direito a este tipo de
indemnização logo aos 60 anos.
Os juízes consideraram que o
cliente da Caixa Geral de Depósitos
(CGD) devia ter sido alertado pela
seguradora para o fim da cobertura
do risco de invalidez.
“Num contexto económico-social
em que a maior parte dos portugueses adquire habitação própria com
empréstimo bancário e paga, durante uma parte substancial da sua
vida, prémios às companhias de seguros para garantia do risco de vida
ou invalidez, não pode afirmar-se
ser um sacrifício excessivo onerálas com o pagamento das dívidas,
sobretudo se não esclareceram devidamente o segurado acerca das
cláusulas particulares de exclusão
[da apólice]”, argumentam.
Doutra forma, acrescentam,
citando um acórdão já antigo, a
obrigatoriedade de contratar um
seguro de vida quando se contrai
um crédito à habitação mais não
seria do que “um simples artifício
destinado a obter mais uma prestação a favor da seguradora, muitas vezes ligada ao grupo de que o
banco faz parte”.
Era este o caso: quando mudou o
empréstimo que tinha no BPI para
a Caixa Geral de Depósitos, ainda
as contas se faziam em escudos em
vez de euros, Domingos Castelar
Oliveira, então já com 57 anos, e
a mulher assinaram novo seguro
de vida pela Fidelidade, do grupo
CGD. Da moradia onde residiam em
São Lourenço de Selho, uma freguesia do concelho de Guimarães,
ainda lhes faltavam pagar 200 mil
euros. Não eram gente rica, diz o
seu advogado, Clementino Cunha:
tinham filhos e trabalhavam ambos
numa fábrica de confecções de que
eram proprietários.
As más notícias surgem seis anos
e uma semana depois, quando é
diagnosticado ao empresário, então com 63 anos, um problema do
foro oncológico. É considerado

Quando os clientes não são esclarecidos, é justo onerar as seguradoras, argumentam os juízes

Quando o cliente é o elo mais fraco
A única liberdade é a de ler as muitas cláusulas

A

decisão do Supremo
Tribunal de Justiça baseiase no entendimento de que
em contratos de massas,
como é o caso, impostos por
grandes organizações aos
particulares, é legítimo que
estes últimos se demitam do
esforço de tentarem entender o
conteúdo da papelada que lhes
é dada para assinar, um esforço
que sabem ser inglório.
“Não se preocupam com o
conteúdo destas cláusulas,
que conhecem mal ou de
todo não conhecem, dada a
complexidade das mesmas e

a perda de tempo que implica
o seu estudo para um leigo,
num contexto em que é inútil a
sua negociação”, escrevem na
sentença. “Pois o aderente não
tem mais liberdade do que a de
assinar ou não o contrato, não
gozando qualquer liberdade de
fixação do seu conteúdo.”
Daí que a lei proteja os
particulares enquanto parte mais
débil deste tipo de contrato. E
que os tribunais “não possam
deixar de exercer um efectivo
e rigoroso controlo sobre as
empresas, dado o enorme poder
de que estas dispõem”.

portador de uma invalidez total e
permanente, com uma taxa de incapacidade permanente geral da
ordem dos 72%.
Quando tenta accionar o seguro, a Fidelidade responde-lhe que
nada feito: a apólice que assinou
só cobre o risco de invalidez por
doença até aos 60 anos. Se não leu
as condições do contrato, deveria
ter lido.
O caso avança para o tribunal,
onde o advogado começa por pôr
em causa a lógica de uma apólice
que, nas suas condições especiais,
só extingue a cobertura de invalidez total e permanente por acidente ou doença aos 65 anos, quando
nas condições particulares essa idade é antecipada para os 60 no caso
de problemas de saúde.
E estas condições particulares
prevalecem sobre as especiais. “Mas
este seguro pode ser contratado

pelos clientes até aos 65 anos!!!”,
indigna-se Clementino Cunha.
A razão que é dada aos queixosos
pelos juízes de primeira instância,
perdem-na na segunda instância,
quando o Tribunal da Relação de
Guimarães acusa o casal de ter agido de má-fé ao recorrer à justiça
para obter o pagamento do empréstimo pela seguradora.
Desta vez, os juízes argumentam
que Domingos Castelar Oliveira
nunca tinha posto o contrato em
causa até lhe surgirem problemas
de saúde, apesar de nessa altura
ter na sua posse, havia seis anos,
uma cópia do documento. “A vitimização é o instrumento usado
para atingir os seus objectivos”,
alega por seu turno o advogado da
companhia de seguros. “Dizem que
a lei protege as vítimas — mesmo
quando estas não sejam vítimas de
coisa alguma que não a sua ganância e avareza.”
O calvário judicial chegou ao fim
no mês passado, quando o Supremo decidiu que a Fidelidade vai ter
mesmo de pagar à Caixa Geral de
Depósitos os 153 mil euros que o
casal ainda deve ao banco, mais as
prestações que os dois habitantes
de Selho (São Lourenço) tiveram de
desembolsar desde que a doença
se declarou, em Agosto de 2007.
Porquê? Porque a seguradora não
conseguiu provar que cumpriu a
sua obrigação de informar devidamente os clientes daquilo que estavam a assinar, nomeadamente das
chamadas “cláusulas perigosas para
os seus interesses”.
“A haver má-fé, seria da seguradora e não do segurado”, concluem
os magistrados. A Fidelidade devia ter alertado o segurado para o
fim da cobertura do risco de invalidez por doença quando este fez
60 anos, “para que o prémio fosse
proporcionalmente reduzido, como seria justo e exigível”.
O acórdão torna-se definitivo
amanhã, não tendo a seguradora
levantado até ao final da semana
passada nenhuma objecção para
pôr em causa a deliberação dos juízes. Contactada pelo PÚBLICO, que
tentou repetidamente, mas sem sucesso, falar com o casal, a Fidelidade diz apenas que “não deixará de
analisar a questão” e que “assumirá as suas responsabilidades como
sempre faz”.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | PORTUGAL | 19
DANIEL ROCHA

Fundação lança
programa para
apoiar familiares
de emigrantes
Apoios sociais
Catarina Gomes
O objectivo é dar apoio
a cerca de 120 pessoas em
Lisboa e na Guarda, cujos
familiares deixaram o país
Os filhos partem, os pais ficam. Por
sentir que há cada vez mais pessoas
que têm familiares fora de Portugal e
que ficam no país sem apoio, a Fundação S. João de Deus criou um programa-piloto de ajuda a familiares de
emigrantes portugueses “com fraca
rede social de suporte ou em situação de isolamento social”, em especial idosos, com residência em Lisboa e Guarda. A iniciativa chama-se
“Somos por Si, Somos por Portugal”
e conta dar apoio a 120 pessoas.
A Fundação S. João de Deus, uma
instituição particular de solidariedade social criada em 2006, vocacionada para o auxílio aos doentes e a
pessoas com dificuldades económicas, com sede em Lisboa, pretende
garantir o acompanhamento de familiares de emigrantes em pequenas
tarefas diárias, como limpar a louça,
estender a roupa, despejar o lixo, ler
o correio e jornais, ajudar no preenchimento do IRS ou acompanhar a
pessoa às compras e a consultas, à
farmácia.
Pensa-se que serão sobretudo idosos a precisar de apoio, mas também
há casos de famílias em que um dos
cônjuges foi obrigado a emigrar e poderão dar apoio ao que fica, explica
a técnica responsável pelo programa, Susana Costa Pinto. O programa
ainda não arrancou. Até ao final de
2014, está previsto o alargamento das
actividades para outras cidades.
A instituição apoia cerca de 30 pes-

soas em Lisboa em situação de isolamento, acompanhando-as nas tarefas
diárias, mas também motivando-as
a sair de casa, explica o assessor de
comunicação da fundação, Samuel
Pimenta. Há também os que não
conseguem sair de casa; neste caso
fazem-lhes visitas periódicas.
A ideia é estender este apoio aos
familiares de pessoas que são forçadas a emigrar, “para deixar a família sossegada”, depois de terem
constatado esta necessidade junto
de várias entidades no terreno, diz.
Susana Costa Pinto esclarece que a
fundação não faz apoio domiciliário,
não prestando cuidados de saúde e
de higiene; essas funções estão a cargo de outras associações, a fundação
pretende “ser um agente facilitador
de comunicação”.
A fundação disponibiliza um número de telefone, 217983400 e um
email somosporportugal@fundacaosjd.pt para os emigrantes que queiram fazer um pedido de acompanhamento para os seu familiares; a ideia
é depois manter o emigrante informado sobre os contactos feitos com o
familiares. Os serviços da instituição,
instituída pela Ordem Hospitaleira de
S. João de Deus, são gratuitos.
Entre 100 a 120 mil portugueses
saíram do país em 2013, uma emigração “bastante alta”, mas que se
manteve estável devido à falta de
emprego nos outros países, estimou
recentemente o secretário de Estado
das Comunidades Portuguesas, José
Cesário, citado pela Lusa.
Sem dados oficiais, o Governo admite que o número seja semelhante
ao do ano passado – cerca de 100
mil a 120 mil. Europa, em particular
a França, continua a ser o principal
destino, com Angola a atrair também
números semelhantes aos do ano
passado, na ordem dos 25 mil.
JOSÉ SARMENTO MATOS

Ajuda aos que ficam pode ser dada em pequenas tarefas diárias

Número de estrangeiros residentes em Portugal tem vindo a cair

Lomba quer ACIDI
a aliciar imigrantes
“de elevado potencial”
Migrações
Ana Cristina Pereira
Proposta de nova política
migratória está pronta
para ser discutida
em Conselho de Ministros
O Alto Comissariado para a Imigração
e o Diálogo Intercultural (ACIDI) vai
assumir novas funções. Essa é, pelo
menos, a proposta que está pronta
para ser apreciada em Conselho de
Ministros. Se vingar, caberá a esse
instituto aliciar estrangeiros “de elevado potencial” para Portugal.
Quem defende a ideia é Pedro
Lomba, secretário de Estado adjunto
do ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional. Parece-lhe que o
país tem de se adaptar a uma nova
realidade migratória, que apresenta
forte caudal de saídas e fraco caudal
de entradas.
Segundo o Instituto Nacional de
Estatística (INE), em 2012 saíram 121
mil pessoas. Apesar de a emigração
ser hoje muito experimental, graças
à livre circulação no espaço comunitário, desde o final dos anos 1960 que
não saía tanta gente. O número de
estrangeiros residentes também tem
vindo a cair – 451 mil em 2009 para
414 mil em 2012, segundo o Serviço
de Estrangeiros de Fronteiras.

O movimento faz-se, sobretudo,
do Sul para o centro e para o Norte
da Europa. Mas, como frisa Lomba, o
fluxo migratório actual compreende
também profissionais que se deslocam para países em desenvolvimento
ou que se servem da tecnologia para
trabalhar em qualquer parte, investigadores e estudantes que trabalham
em rede e reformados ansiosos por
clima ameno.
Com um mercado laboral que já
pouco atrai trabalhadores em busca de melhores condições de vida,
ganha algum peso outro tipo de vistos. Em 2012, mais de oito mil dos
12.528 emitidos foram atribuídos
por via do estudo, intercâmbio de
estudantes, estágio profissional ou
voluntariado.
Os fluxos, resume Lomba, diversificaram-se. “Precisamos de políticas mais integradas, que tenham em
vista os que saem e os que entram”,
diz. Na sua opinião, não é por ter um
número de saídas “preocupante que
o país pode abandonar a abertura
que tem tido em relação aos imigrantes”.
Os imigrantes, insiste, tendem a
arriscar mais. Imigrantes empreendedores podem criar postos de trabalho e, com isso, fixar quem pensar
partir ou resgatar quem já partiu. É
nessa lógica que acha que se impõe
“identificar e captar imigração de
elevado potencial ou de grande va-

lor acrescentado”. Para isso, quer
transformar o ACIDI num organismo
“transversal” e “pró-activo”.
Este novo ACIDI teria de se relacionar com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal,
a Direcção-Geral do Ensino Superior, a Direcção-Geral dos Assuntos
Consulares e das Comunidades Portuguesas, o Instituto de Emprego e
Formação Profissional, o Turismo
de Portugal, o SEF. Nesta posição,
coordenaria políticas migratórias
que envolveriam a rede diplomática e consular, a emissão de vistos, a
captação de estudantes, a fixação de
reformados, a integração, apelando
à participação de fundações, associações, universidades, empresas,
autarquias. O governante concretiza:
dedicar-se-ia à “análise de necessidades laborais a curto e médio-prazo”,
à “articulação destinada ao financiamento ao empreendedorismo imigrante”, a trabalhar a “estratégia de
internacionalização do ensino superior” e as “vias verdes para obtenção
de vistos”, por exemplo.
Para lá de eventuais diferendos políticos, há um obstáculo: o ACIDI é
um instituto público que faz parte da
administração indirecta do Estado,
dotado de autonomia administrativa,
muito focado na integração. Para assumir o novo papel que Lomba lhe
quer conferir teria de ser integrado
na administração pública.
20 | LOCAL | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Centro da Memória Judaica do Porto
chumba no QREN mas mantém a fé
Pároco da Vitória espera cativar judeus para a ideia da criação do centro interpretativo no Encontro
Diálogo e Reconciliação que decorre no dia 14 nesta freguesia do centro histórico do Porto
BÁRBARA RAQUEL MOREIRA

Projecto
Ana Cristina Pereira
O padre Agostinho Jardim Moreira
já imaginava que “só por milagre”
se conseguiria concluir o projecto
do Centro Interpretativo da Memória Judaica e Cristã-Nova do Porto a
tempo de ele beneficiar dos fundos
europeus do Quadro de Referência
Estratégica Nacional (QREN). O prazo era demasiado curto para cumprir os trâmites.
O velho edifício, virado para a Rua
de São Miguel, a mais importante
do tempo da Judiaria do Porto, foi
cedido à paróquia de Nossa Senhora
da Vitória pela autarquia em Julho
de 2013. “Conseguimos fazer o levantamento e o projecto; o projecto
foi aprovado pela Sociedade de Reabilitação Urbana; apresentámos a
candidatura ao QREN, mas foi desclassificada, por não estar amadurecida”, diz. “Não tinha ainda as
especialidades todas. Fez-se tudo
em cima do joelho.”
Uma nova candidatura está a
ser trabalhada a pensar no Quadro
Comunitário de Apoio 2014-2020,
que foi aprovado em Novembro pelo Parlamento Europeu. Desta vez,
Jardim Moreira terá tempo para cuidar de cada pormenor. E parece-lhe
que não tem sentido avançar sem o
apoio dos judeus.
No próximo dia 14 de Janeiro, no
Palacete dos Viscondes de Balsemão, no Porto, o pároco da Vitória
e o líder da Rede de Judiarias de
Portugal deverão acolher os participantes no Encontro Diálogo e Reconciliação, no qual, “pela primeira
vez”, a oração Shemá Israel, a base
das religiões monoteístas e abramistas, será cantada a uma só voz por
“responsáveis da Igreja Católica, rabinos e dirigentes de comunidades
judaicas portuguesas e bispos das
igrejas anglicana e luterana”.
No encontro – organizado para
ser “um exemplo de diálogo interreligioso e de fomento da paz entre
os povos e as culturas do mundo”
–, Jardim Moreira discursará sobre
o projecto, orçado em 1,6 milhões
de euros. Está convencido da sua
importância. “No ano passado, recebi mais de 300 judeus do Canadá,
dos EUA, do México, da Alemanha,
de Israel”, comenta. O interesse dos
turistas tinha um ponto muito espe-

O ehal, nicho onde se guardava a Torá, foi encontrado atrás de um muro no edifício do Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória

“No ano passado,
recebi mais de
300 judeus do
Canadá, dos EUA,
do México,
da Alemanha,
de Israel”, comenta
o padre Agostinho
Jardim Moreira.
Estes visitantes
querem ver
o ehal descoberto
há 12 anos

cífico. No número 9 da Rua de São
Miguel foi descoberto há 12 anos um
ehal, um nicho de pedra lavrada onde a comunidade judaica guardava
a Torá.
O edifício fora adquirido pelo Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória em 1997 para fazer
um lar de idosos e um centro de dia.
Na primeira fase da obra, ao limpar
as paredes, depararam-se com um
muro falso. Retiradas as pequenas
pedras e as partes de barro, deram
com o que resta de um armário litúrgico no qual se presume que seriam
guardados os textos sagrados.
O nicho sobressai no refeitório
do lar e centro de dia. Dos azulejos que lhe cobriam o fundo e da
decoração envolvente subsistem
apenas alguns fragmentos. Era ali
que funcionava a sinagoga da Judiaria do Olival. De vez em quando, telefona algum guia de um

grupo de judeus que o quer visitar.
Amiúde, perguntam a Jardim Moreira por que se interessa tanto um
padre católico por este assunto. Na
linha de Kiko Argüello, um dos fundadores do Caminho Neocatecumenal na Igreja Católica Apostólica Romana, responde que sem judaísmo
não haveria cristianismo. “Temos
uma história comum, embora essa
história tenha partes que não orgulham ninguém”, reconhece.
Os primeiros reis de Portugal protegeram os judeus. Havendo mais
de dez, podia ser criada uma comuna e uma sinagoga. Em 1319, nova
etapa: qualquer comunidade com
mais de dez membros teria de viver
longe dos cristãos. Em 1477, quando Dom Manuel subiu ao trono, já
em Espanha havia Inquisição. Solicitou regime semelhante. Publicou
o édito de expulsão dos judeus em
1493, mas o chamado Santo Ofício

foi estabelecido já no tempo de Dom
João III, em 1536.
Foi naquele contexto de segregação que nasceu a sinagoga da Rua
de São Miguel. Há, explicou aquando da sua descoberta a historiadora
Elvira Mea, “garantia histórica” de
que existiu ainda no século XVI, ou
seja, após a expulsão dos judeus. No
livro Nomologia o Discursos Legales,
publicado em Amesterdão, em 1629,
Immanuel Aboab refere o bairro do
Olival, no qual havia uma sinagoga.
Em 2012, o ehal foi classificado
como monumento de interesse
público por Francisco José Viegas,
então secretário de Estado da Cultura. Em Julho, Câmara do Porto e
Assembleia Municipal aprovaram
a cedência do imóvel devoluto, na
mesma rua, uns números abaixo,
para que ali nascesse um Centro Interpretativo da Memória Judaica e
Cristã-Nova do Porto.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | LOCAL | 21
Passageiros
do Funchal
regressaram
a terra
Algarve
Idálio Revez
A forte ondulação que ontem se fez
sentir na costa portuguesa impediu
que o paquete Funchal fundeasse
ao largo da praia da Rocha/Portimão. O navio, com 400 passageiros
a bordo, andou mais de 24 horas a
tentar atracar no porto de Portimão,
uma espera que só terminou com a
chegada do rebocador, proveniente
de Setúbal, por volta das 18h. Isso
permitiu aos passageiros o regresso a casa.
Cerca das 6h30, disse Isilda Gomes, o navio tentou fundear ao largo de Alvor. O objectivo seria fazer
o transporte dos passageiros para
terra num catamarã, mas a operação
não teve êxito. O Algarve, apesar de
ser uma região que se encontra na
rota turística dos grandes cruzeiros
marítimos, não possui um rebocador, indispensável no apoio a este
tipo de operações, mesmo com bom
tempo.
“Inconcebível”, foi como a presidente da Câmara de Portimão, Isilda
Martins, classificou a falta de condições de apoio a este segmento turístico. Sempre que chega um navio de
grande porte a este porto, tem de ser
pedido a Sines um rebocador, levando na viagem oito a dez horas.
O deputado Miguel Freitas, do PS,
disse ao PÚBLICO que vai “pedir explicações ao Governo” pelo facto de
a região não dispor de um rebocador
público, quando é conhecida a vulnerabilidade da região. “Passam pela
costa algarvia 150 navios de grande
porte por dia, 18 dos quais contendo
cargas perigosas, poluentes.” Em caso de acidente, disse, “pode-se dar
uma catástrofe”. O que se passou
com o paquete Funchal, que fazia
um cruzeiro de sete dias – Lisboa,
Funchal, Marrocos, Lisboa – “veio
demonstrar que o Algarve tem de
possuir meios e capacidade de gestão para garantir o desenvolvimento
dos portos de Faro e Portimão”.
Enquanto aguardava pelo rebocador, que demorou 13 horas (saiu às
5h de Setúbal), o paquete Funchal
continuou a navegar entre Portimão
e Albufeira, procurando desta forma
suavizar o efeito da ondulação. O dirigente dos Oficiais Mar, Sousa Coutinho, citado pela Lusa, disse que
“todos os passageiros encontramse bem e confortáveis”. Porém, não
deixou de apontar a necessidade de
o Algarve ter “sempre” um rebocador. É uma região “abandonada em
termos de segurança marítima”.

NELSON GARRIDO

Breves
Ponte de Lima

GNR recuperou
152 aves exóticas
furtadas
A GNR anunciou ontem a
recuperação, em Ponte de
Lima, de 152 aves exóticas
furtadas na última semana,
avaliadas em mais de dez mil
euros, tendo identificado o
alegado autor do crime. A
apreensão destas aves, agora
divulgada, teve lugar durante
uma operação na noite de
sexta-feira, numa busca
domiciliária na freguesia de
Fornelos. Um morador, de
30 anos, foi “considerado
suspeito” do furto, dias
antes, nas freguesias de
Chafé e Mazarefes, no
concelho de Viana do
Castelo. “Este, confrontado
com a prova recolhida pelos
investigadores, assumiu a
autoria dos crimes e que as
aves teriam como destino o
mercado paralelo a preços
mais reduzidos”, explicou a
GNR.
Viana do Castelo

Bombeiros
procuram canoísta
no rio Âncora
Um homem de 33 anos estava
a ser procurado, ontem,
pelos Bombeiros Municipais
de Viana do Castelo no
rio Âncora, depois de os
amigos com quem praticava
canoagem terem reportado
às autoridades que se estava
a “afogar”. A informação foi
confirmada por fonte da GNR,
acrescentando que o homem
estava a praticar canoagem
naquele rio, na freguesia de
Freixieiro de Soutelo, Viana
do Castelo, quando, pelas
13h30, foi dado o alerta. As
buscas, na zona da serra
d’Arga, estiveram a cargo
de mergulhadores e outros
elementos dos Bombeiros
Municipais de Viana do
Castelo, apoiadas pela GNR
e Polícia Marítima. Familiares
do canoísta, natural de Riba
d’Âncora, em Caminha,
também estiveram no local.

Ontem foi dia de limpeza geral nas freguesias mais afectadas pela tempestade de sábado

Número de casas
danificadas pelo tornado
subiu para 112
Paredes
Ana Cristina Pereira
Temporal de anteontem
desalojou 56 pessoas,
quase todas, entretanto,
acolhidas por familiares
ou amigos
Subiu para 112 o número de habitações danificadas pelo tornado que
na madrugada de sábado passou
por quatro freguesias do concelho
de Paredes, no distrito do Porto. E
o estado do tempo não tem ajudado
a reparar as coberturas que o vento arrancou às casas e atirou para o
chão.
“Tem chovido muito”, diz o comandante dos Bombeiros de Lordelo, Pedro Alves, numa curta conversa
telefónica. E não são boas as notícias
que chegam de Lisboa. Para hoje, o
Instituto do Mar e da Atmosfera prevê “céu geralmente muito nublado,
períodos de chuva nas regiões norte e centro, estendendo-se gradualmente à região sul, e sendo por vezes
forte no Minho e Douro Litoral até ao
início da tarde”.
Quase todas as casas afectadas nas
freguesias de Duas Igrejas, Sobrosa,
Lordelo e Vilela perderam parte da
cobertura, algumas ficaram sem persianas e com os vidros das janelas
partidos. Desde então, os moradores afligem-se com as infiltrações de

água, capazes de destruir roupas,
móveis e outros bens.
Mobilizou-se muita gente, apesar
do vento e da chuva. Afastaram o que
puderam para áreas cobertas ou casa de amigos ou familiares. Alguns
subiram aos telhados. Tentaram repor telhas ou pôr toldos e bandas
de plástico a tapar os buracos, que
deixavam entrar água.
“Há muito trabalho a fazer”, comentava o comandante, ao anoitecer, depois de um dia inteiro passado
às voltas, a fazer o levantamento pormenorizado da situação. Mesmo assim, já muito fora feito, comentava,
por seu lado, a vereadora da Câmara
de Paredes Hermínia Moreira. Quem
ali tivesse estado no sábado já não
reconheceria alguns lugares. Os habitantes tinham saído às ruas e fizeram
muito trabalho de limpeza.
“As pessoas estão a reagir dentro
do possível”, notava Pedro Alves.
“Têm uma surpreendente capacidade de se reerguer”, observava
também Hermínia Moreira. “O que
as pessoas podem fazer — sozinhas
ou com a ajuda de familiares ou amigos — já estão a fazer, mas claro que
muitas precisam de ajuda.”
Ficaram desalojadas 56 pessoas.
Quase todas acabaram por ser acolhidas por familiares. Só duas pessoas,
idosas, sem retaguarda familiar, ficaram num lar gerido por uma instituição particular de solidariedade social
local. Já usavam a valência de centro
de dia, passaram a pernoitar.

A autarquia estava a analisar cada caso de forma pormenorizada.
Hoje, com a Segurança Social e as
juntas de freguesia, delineará acções
concretas.
Muitas das famílias afectadas já
enfrentavam antes dificuldades
económicas: algumas pessoas estão
desempregadas. “Esta é uma região
muito afectada pelo desemprego”,
sublinha ainda a vereadora. E é por
isso, também, que a câmara pediu
ao Governo que declarasse estado
de calamidade.
Duas fábricas foram parcialmente
destruídas pelo tornado. Uma delas
— a têxtil — emprega 58 pessoas. A
outra — de móveis — é mais pequena.
Uma e outra deverão retomar a actividade quanto antes. No município,
há ainda registo de vários mostruários de mobiliários estragados. Em
Vilela, a cobertura do pavilhão da
escola foi levada. Em Duas Igrejas,
o mesmo aconteceu à igreja.
O tornado arrancou dezenas de árvores e tombou uns quantos postes.
Uma equipa da EDP encarregara-se
de repor o fornecimento de electricidade suspenso pelo temporal.
Domingo, já só 15 habitações permaneciam sem corrente: dez em Vilela e cinco em Duas Igrejas. “Estão
completamente danificadas”, diz.
Outras permaneciam às escuras,
apesar de já terem corrente. Havia
água na instalação, pelo que acender
uma lâmpada podia bastar para fazer
curto-circuito.
22 | ECONOMIA | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Depósitos suspeitos acima de 5000
euros obrigam a identificar cliente
Banco de Portugal introduz novas regras no âmbito do combate europeu à lavagem de dinheiro
e ao financiamento do terrorismo. Transferências também serão mais acompanhadas pelos bancos
RUI GAUDÊNCIO

Banca
Cristina Ferreira
O Banco de Portugal, no quadro das
orientações internacionais, vai reforçar, a partir de Fevereiro, as medidas
destinadas a prevenir o branqueamento de capitais e o financiamento
do terrorismo. Entre as novidades
está o facto de os bancos ficarem
obrigados a identificar quem pretenda depositar, numa conta que não é
a sua, um valor igual ou superior a
5000 euros, isto, se houver suspeitas de risco. As transferências bancárias presenciais, por multibanco ou
Internet, a partir de 15.000 euros,
passam também a ser alvo de maior
vigilância.
Os novos requisitos do supervisor, que entram em vigor a 16 de
Fevereiro, impõem também, mas
agora de modo automático, a identificação de todos os depositantes
(nome e dados do cartão de cidadão ou do passaporte) de numerário em contas de terceiros, desde
que a quantia seja igual ou superior
a 10.000 euros. O mesmo acontece
para os movimentos (em dinheiro)
suspeitos de valor igual ou acima
de 5000 euros.
Estas são algumas das medidas
que constam do aviso do Banco de
Portugal, de 19 de Dezembro, com
mais de 60 artigos, e que foi emitido no quadro do combate europeu
ao branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo.
“As matérias mais reguladas no
documento, que é extenso e detalhado, são os deveres de identificação, de diligência (análise das operações para apurar se tem traços
que a torne suspeita), de controlo
(criação de modelos de gestão de
risco e de um sistema de controlo
interno que garanta no sector uma
cultura de prevenção e de luta contra esquemas ilícitos) e de formação
dos quadros bancários (para que
estejam aptos a intervir sempre
que for necessário)”, explicou ao
PÚBLICO Sofia Leite Borges, especializada em direito financeiro e
sócia da sociedade de advogados
Abranches Namora Lopes dos Santos  Associados (ANLS).
Para a advogada, que já produziu
matéria sobre o tema, o BdP veio
também clarificar “a extensão e o
grau de responsabilidade dos ór-

Bancos terão de ajustar os seus procedimentos e os sistemas de controlo internos

Um dos
movimentos
classificados
como suspeitos
pelo Banco de
Portugal é o
fraccionamento
de depósitos
gãos de administração” das instituições que supervisiona, no que
respeita “à prevenção da utilização
do sistema financeiro para branqueamento de capitais e financiamento
do terrorismo”.
Apesar de os bancos terem por
obrigação informar imediatamente
o procurador-geral da República e a
Unidade de Informação Financeira

(UIF) sobre qualquer movimento
duvidoso (independentemente da
quantia), o aviso do BdP é omisso
(ainda que a lei o permita desde
2008) na definição de regras precisas de dever de comunicação às
autoridades no caso de uma transacção de valor igual ou acima de
5000 euros levantar dúvidas.
“O BdP optou por seguir critérios mais qualitativos, definindo
quais as operações que podem ser
classificadas de suspeitas, independentemente do seu montante, em
vez de seguir critérios quantitativos
[fixar um valor a partir do qual a
operação deve ser comunicada ao
Ministério Público], que são em geral cegos e que podem levar o infractor a contornar a regra com depósitos de menor valor”, explicou
Sofia Leite Borges. Faz notar que
“os bancos já fazem a comunicação

ao procurador-geral da República e
à UIF quando têm suspeitas”.
Um dos movimentos bancários
classificado pelo BdP como gerador de desconfiança é o fraccionamento de depósitos em numerário
em conta titulada por terceiro, o
que pode ser lido como sendo um
sinal para evitar atingir os limites
recomendados pelo BdP, de 10.000
euros ou de 5000 euros (com suspeita de risco).
Outra regra incluída no aviso do
BdP prende-se com as transferências bancárias presenciais ou com
recurso a meios de comunicação
à distância (multibanco, Internet)
para montantes iguais ou acima
de 15.000 euros. Nestes casos, os
bancos devem identificar o ordenante e o beneficiário e verificar
a veracidade dos dados pessoais.
O mesmo pode acontecer quando

o valor individual ou agregado da
transferência for igual ou ultrapassar os 15.000 euros.
Para Sofia Leite Borges, o aviso
do supervisor financeiro, de 19 de
Dezembro, “vai implicar alterações
nas políticas, nos procedimentos e
nos sistemas de controlo internos
das instituições financeiras”, não
só no que respeita “aos deveres de
identificação de clientes e de diligência na análise de certas operações, relações de negócio, pessoas
politicamente expostas ou transacções, ainda que ocasionais”, mas
também na maior aposta na formação dos bancários. Estes temas merecem, aliás, um tratamento pormenorizado por parte do BdP, que
impõe também maiores exigências
nos procedimentos de identificação
do cliente na abertura de uma conta bancária.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | ECONOMIA | 23

Breves

Governo escolhe
presidente da Parpública
ao fim de seis meses
OXANA IANIN

Turismo

Empresas públicas

Gastronomia e vinhos Raquel Almeida Correia
promovem Alentejo
Pedro Ferreira Pinto com
no mercado inglês
luz verde para suceder a
O produto “Gastronomia e
Vinhos” vai ser a “âncora”
para vender o Alentejo no
mercado turístico inglês, este
ano, com a agência regional
de promoção externa a
apresentar o destino como
a “alma gastronómica” de
Portugal. “A gastronomia e
vinhos são um produto muito
forte no Alentejo e acordámos
com os operadores ingleses
com os quais trabalhamos
que, este ano, esse é o tema
‘âncora’ para esse mercado”,
disse Vítor Silva, presidente
da agência turística. O
responsável pela Agência
Regional de Promoção
Turística do Alentejo (ARPTA),
sediada em Grândola, realçou
que esta já é uma área fulcral
para “vender” o destino
alentejano, mas, no mercado
inglês, vai ser dada “ainda
mais atenção” ao produto.
Previsão

Acções da Fiat podem
duplicar de valor
em dois anos
A cotação das acções da Fiat
poderá duplicar nos próximos
dois anos, na sequência do
acordo que deu ao grupo
italiano o controlo total da
construtora norte-americana
Chrysler. A estimativa foi
avançada na edição de ontem
da revista Barron’s. Na sextafeira passada, os títulos
da Fiat fecharam a perder
2,3%, para os 6,76 euros, na
Bolsa de Milão. Depois de ter
comprado os 41,% de capital
que o fundo de saúde do
sindicato dos trabalhadores
do sector automóvel
detinha na Chrysler, a Fiat
tem caminho livre para
avançar com uma fusão
que irá gerar importantes
sinergias, nomeadamente,
através da centralização de
competências e serviços. E
terá acesso mais simplificado
a financiamento.

Pais Jorge, que foi secretário
de Estado, mas se demitiu
por causa dos swaps
Ao fim de seis meses sem preencher
o cargo, o Governo escolheu o novo
presidente da Parpública. A holding
que gere as participações do Estado em empresas como a TAP e a
Águas de Portugal vai ser liderada
por Pedro Ferreira Pinto, que sucederá assim a Joaquim Pais Jorge.
O nome indicado pelo executivo já
recebeu luz verde da comissão de
recrutamento para a administração
pública.
A escolha partiu da secretária de
Estado do Tesouro, Isabel Castelo
Branco, que enviou o nome do candidato para a entidade presidida
por João Bilhim a 19 de Dezembro.
O parecer positivo da Comissão de
Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CRESAP) foi
dado ainda antes do Natal, no dia
23, e publicado na passada sextafeira no site do organismo. O perfil
de Pedro Ferreira Pinto foi considerado adequado ao cargo pelo facto
de ter “uma experiência efectiva
na gestão de topo de situações de
elevada complexidade” e por demonstrar um “conhecimento da
problemática em causa”, lê-se no
documento.
Pedro Ferreira Pinto esteve, desde cedo, ligado ao sector da corretagem e dos fundos de investimento, tendo passado também pela Efacec. Até 2009, foi administrador da
Selecta e da Lisbon Brokers, tendo
integrado nesse ano a empresa de
serviços de assessoria financeira
ASK – Advisory Services Kapital. É,
desde Outubro de 2011, administrador da Eaufresh, uma empresa de
aluguer de purificadores de água.
O novo presidente da Parpública, que não foi ainda oficialmente
nomeado pelo Governo, sucederá
no cargo a Joaquim Pais Jorge, que
cessou funções em Julho, depois de
nove meses na liderança da holding
estatal, para subir a secretário de
Estado do Tesouro.
Uma nomeação feita pela ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, na sequência da demissão
do anterior titular da pasta, Vítor
Gaspar.
Desde então, a gestão da Parpú-

O Ministério das Finanças comunicou o nome à CRESAP pouco antes do Natal

Encaixe de 579
milhões nos CTT

M

esmo sem presidente,
a Parpública esteve
envolvida, no final do
ano, na importante
privatização dos CTT, que
acabou por render ao Estado
579 milhões de euros, através
de uma operação em que
foi colocada no mercado
uma fatia de 70% do capital
da empresa liderada por
Francisco Lacerda.
Na oferta pública de venda,
o público investiu um pouco
mais de 115 milhões de euros
para adquirir 21 milhões de
acções. Já na parte reservada
aos trabalhadores, as ordens
atingiram cerca de 2,1 milhões
de acções, gerando um
encaixe de 10,8 milhões de
euros.
A parte mais substancial da
receita veio, no entanto, da
venda directa aos investidores
institucionais, que permitiu a
entrada de 463,7 milhões de
euros nos cofres do Estado,
através da venda de um bloco
global de 9,6 milhões de
acções. A Parpública mantém
30% na empresa. J.M.R.

blica estava a ser assegurada pelos
dois membros executivos do conselho de administração, Carlos Durães
da Conceição e José Mendes de Barros. A holding ficou sem presidente
nos últimos seis meses, apesar de
ter estado envolvida em dossiers
importantes como a privatização
dos CTT, que controlava a 100%. A
maioria do capital dos correios foi
dispersa em bolsa, permanecendo
30% nas mãos do Estado, embora a
intenção do Governo seja aliená-los
no médio prazo.
A saída do último presidente da
holding acabou por se revelar atribulada, visto que deixou a Secretaria de Estado do Tesouro cerca
de um mês depois de ter assumido
funções. Pais Jorge demitiu-se do
cargo no início de Agosto por causa
da polémica dos swaps, já que, enquanto quadro do Citigroup, esteve
presente em reuniões com elementos do anterior executivo PS para
vender derivados de cobertura de
risco sobre a dívida pública.
Alguns destes contratos, subscritos por empresas do Estado, foram
considerados especulativos, tendo
acumulado no conjunto perdas potenciais superiores a 3000 milhões
de euros. Este caso levou, aliás, ao
afastamento de outros dois secretários de Estado e de três gestores
públicos.
Pedro Ferreira Pinto iniciará o
mandato na Parpública num mo-

mento de especial indefinição. O
Governo tinha acordado com a troika a extinção da holding, visto que
iria perder progressivamente os activos que geria com o cumprimento
do programa de privatizações. Desde 2012, deixou de ter na carteira
as participações do Estado na EDP
e na ANA, bem como 40% da REN
e 70% dos CTT. O emagrecimento
continuará, caso se cumpra a venda
da TAP, que fracassou no final de
2012 com a rejeição da proposta de
Gérman Efromovich.
No entanto, e apesar de o executivo se ter comprometido a apresentar uma estratégia para a extinção
da Parpública, o grupo continua
sem um caminho definido. Estas
circunstâncias constam, aliás, no
parecer divulgado pela CRESAP. No
documento, lê-se que o novo presidente da holding realçou a “necessidade de clarificação estratégica da continuação ou extinção da
instituição”.
Apesar de ter fechado este capítulo, o PÚBLICO sabe que o Governo
ainda não conseguiu resolver o problema da Metro de Lisboa/Carris,
que ficou sem presidente em Junho
deste ano por causa da polémica
dos swaps. Desde que José Silva Rodrigues foi afastado do cargo, foram
já discutidos vários nomes para o
substituir, mas nenhum deles chegou à comissão de recrutamento
público.
24 | ECONOMIA | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

O Porto de Sines,
um sinal de futuro

Opinião
José António
Contradanças
O Porto de Sines tomou,
decisivamente, um lugar de
destaque em tudo o que é
noticiário do país, e não há
responsável que a ele não se
refira, mesmo que por vezes não
saiba bem sobre o que discorre.
Tudo é amalgamado nessa
âncora da nossa esperança
e na evidência desse caso de
sucesso. Não importa distinguir
se falamos do Porto de Sines, da
APS — Administração do Porto
de Sines ou do Terminal de
Contentores de Sines (Terminal
XXI). Embora sejam realidades
diferentes, apenas resulta da
alusão feita, uma única palavra:
sucesso. E mais que isso, o rumo
que nos leva ao bom caminho da
afirmação de Portugal no mundo.
Um Portugal que quer retornar
ao mar e nele vê o seu mais
importante desígnio.
Como sempre, os discursos
de circunstância são dominados
pela superficialidade, procurando
enquadrarem-se no que importa
dizer no momento. E o momento
agora é da grande oportunidade
criada pelo alargamento do canal
do Panamá, que irá provocar
um aumento quase exponencial
(o que se entende das palavras
dos governantes) da carga
contentorizada movimentada no
Terminal XXI. Quem nos dera,
assim o mundo não fosse redondo
e fosse estático nessa posição
geoestratégica e obrigasse os
navios e as suas cargas a passar
por este local e, mais do que isso,
a movimentarem essas cargas no
Terminal de Contentores de Sines.
Só que, sendo uma real
oportunidade, há muito trabalho
a fazer, desde logo melhorar a
competitividade associada a este
tráfego, que será essencialmente
de transhipment, permanecendo
atentos ao que se passa noutros
terminais congéneres já existentes
(Valência, Algeciras, Tânger,
Felixstowe) ou anunciados (Praia
da Vitória/Açores). Também de
águas profundas, capazes de
receber navios de última geração,
nomeadamente os chamados

Triple-E, com capacidade de
18.000 TEU.
Se é certo que Sines conta
com o maior operador mundial,
a PSA Corporation Ltd, como
concessionário, e é escalado
pelo segundo maior armador
mundial, a MSC — Mediterranean
Shipping Company, não será
de somenos recomendável que
consiga o concurso de outras
linhas de navegação numa
estratégia de oferta diversificada,
tão importante na formação
dos preços, numa economia
dinâmica e concorrencial. E
não esquecer a importância de
se valorizar noutros requisitos
de competitividade, que vão
muito além de ser “um porto
de águas profundas”, pois os
desenvolvimentos no tamanho
e capacidade parecem não
acompanhar a exigência de
maior calado dos navios. (É boa
nota, saber que este navio de
18.000 TEU necessita de uma
profundidade de 14,5m).
A propósito das expectativas
criadas pelo alargamento do
canal do Panamá, devemos
ter presente que o mesmo só
permitirá acolher navios portacontentores de capacidade
máxima até 12.000 TEU,
podendo acontecer que, fruto
do desenvolvimento da frota
mundial de contentores, cada
vez sejam mais os navios de
capacidade acima desta, que
escalarão Sines, no futuro.
Ou mesmo, verificar outras
premissas associadas ao comércio
mundial e às suas tendências,
mesmo o benefício imediato que
terá nas trocas com economias
regionais americanas mas que
só a médio/longo prazo sejam
visíveis os benefícios trazidos
a Sines e a mercados mais
distantes, apoiados no chamado
round of the world. Rota, esta, à
volta do mundo feita com recurso
a grandes navios, carregados
como convém, pois resulta numa
grande preocupação os 30% de
custos associados a contentores
vazios, suportados pelas linhas
de navegação na sua conta de
exploração.
Não alinharei outras
preocupações associadas ao
tema, que poderiam ter que ver
com a emergência de outras
rotas marítimas possíveis para o
comércio entre a Ásia e a Europa,
e mesmo a América, com menos
dias de navegação e porventura

DANIEL ROCHA

mais baratas (como por exemplo:
a Rota do Ártico), que poderiam,
igualmente, estar associadas
a outras alternativas que se
desenham (construção de um
canal interoceânico promovido
pelo governo das Honduras e
com fortes interesses por parte
da China), porque, embora com
este arrefecimento dos ânimos,
sou dos que acreditam na
importância de Sines e no papel
a desenvolver pelo seu terminal
de contentores, em benefício da
região e do país.
Num mundo que reclama
atenção permanente, tanto mais
no mundo dos negócios, acresce
uma grande vantagem que se
poderá associar ao Porto de
Sines em termos futuros. Falo do
crescente recurso ao gás natural
pela maioria das frotas. Ora tendo
em funcionamento um Terminal
de Gás Natural, será aconselhável
que se facilite o fornecimento
de bancas deste gás aos navios
que demandem o Porto de Sines.
Será, certamente, uma vantagem
preciosa.

Há muito
trabalho a fazer
para aproveitar
as oportunidades
abertas pelo
alargamento do
canal do Panamá
Como disse, cada vez
menos gosto de discursos sem
substância e só por isso tentei
aclarar o assunto e balizá-lo
na realidade. Posto isto, acho
que é compaginável a alegria
sentida por haver alguma coisa
que funciona bem neste país. E
desde logo, seja-me permitido,
envaidecer-me (não ficará mal o
termo) por me saber associado
a este projeto que se afirmou e,
hoje, se revela de uma utilidade,
inquestionável, para o nosso país.
Já vai distante março de 1998,
em que fiz parte de uma missão
que se deslocou a Singapura e
sensibilizou a PSA a acreditar e a
investir em Sines. E também esse
lindo dia de junho de 1999 em que
coassinei o contrato que levaria
à concessão do Terminal XXI.
Pelo meio ficará uma história por
contar. Mas valeu a pena!
(Ex-administrador da APS)
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | ECONOMIA | 25
RUI GAUDÊNCIO

Atenções da semana
centradas em indicadores
que podem confirmar
a retoma económica
Pré-abertura
Pedro Matos Branco
A primeira semana completa de
2014 apresenta-se interessante
em termos de divulgação
de indicadores e ocorrência
de eventos económicos,
particularmente na Europa e nos
Estados Unidos. Do lado de cá do
Atlântico serão conhecidos, para
a União Europeia, e respectivos
países, o indicador de sentimento
económico da Comissão Europeia
e os indicadores de confiança dos
diversos sectores de actividade
e das famílias, bem como o
sentimento dos empresários dos
serviços (PMI Services) da zona
euro e suas principais economias,
todos referentes a Dezembro.
Nesta última região serão
ainda divulgados, para além
dos números importantes
sobre as vendas a retalho, que
reflectem o comportamento
das despesas das famílias
(Novembro), as primeiras
estimativas para a evolução dos
preços em Dezembro, variável
que recentemente tem vindo a
ser objecto de maior escrutínio
por parte do BCE e agentes
económicos, e os dados para a
taxa de desemprego (Novembro).
A atenção sobre os preços não
assenta nos receios permanentes
de várias décadas, da tradicional
aceleração do seu crescimento
(aumento da inflação), mas,
precisamente, no seu contrário,
da verificação do abrandamento
continuado no ritmo de variação,
para um valor aquém do nível
desejável para a sua evolução, que
o BCE definiu abaixo mas próximo
de 2%, em termos homólogos, no
médio prazo.
É esperada uma estabilização
do crescimento dos preços em
0,9%, após 0,7% em Outubro,
permanecendo ainda riscos
elevados sobre a capacidade de
aproximação à meta referida (2%)
num horizontal temporal de um a
dois anos.
Não obstante estes
constrangimentos, a confirmação
no primeiro dia útil deste ano
de uma firme animação no
sentimento dos empresários da
indústria (PMI Manufacturing)
da zona euro, em particular
em Itália e Espanha (só a
França decepcionou) alimenta
a expectativa de que uma
recuperação mais firme da

actividade possa ocorrer nos
primeiros meses de 2014.
É dentro deste contexto que na
próxima quinta-feira se realiza
a primeira reunião do ano do
BCE, não sendo expectável que
o conselho de governadores
proceda a alterações de política
monetária, após a decisão
de baixar a principal taxa de
referência de 0,5% para 0,25%
em Novembro passado. No Reino
Unido também haverá lugar
à primeira reunião do ano do
comité de política monetária do
Banco de Inglaterra, não devendo
assistir-se a modificações na
política, mantendo-se a taxa de
referência (base rate) em 0,5%.
Nos Estados Unidos, após os
sinais positivos revelados pelos
últimos indicadores conhecidos
na parte final de 2013 (produção
industrial, encomendas de
bens duradouros, revisão em
alta do crescimento do PIB do
3.º trimestre, confiança dos
empresários da construção,
preços da habitação, vendas de
novas habitações, confiança dos

O BCE e o Banco
de Inglaterra
não deverão
mexer no nível
de taxas de juro
consumidores), a divulgação do
ISM Manufacturing de Dezembro
(confiança dos empresários
da indústria) no início de 2014
revelou-se igualmente promissora,
com a vertente das novas
encomendas dirigidas ao sector
a registar o valor mais elevado
desde Abril de 2010.
Foi seguramente também com
este enquadramento que Ben
Bernanke, provavelmente na
última intervenção pública como
presidente da Reserva Federal,
referiu, na sexta-feira passada
em Filadélfia, que, embora
a recuperação da economia
norte-americana permaneça
claramente incompleta – a taxa
de desemprego ainda se encontra
em 7% da população activa –,
existem alguns motivos para um
optimismo cauteloso. A criação
líquida de emprego e a taxa de
desemprego serão conhecidas na
próxima sexta-feira, esperando-se
um número forte para a primeira.
ES Research BES

Alberto João Jardim foi obrigado a abdicar do regime fiscal mais favorável na região

Madeirenses pagaram mais
26,2% de IRS nos primeiros
11 meses de 2013
Contas regionais
Tolentino de Nóbrega
Administração regional
apresentou saldo
deficitário superior
a 795 milhões
Os contribuintes madeirenses pagaram nos 11 primeiros meses de 2013
cerca de 188,9 milhões de euros de
IRS, ou seja, mais 26,2% do que em
idêntico período do ano anterior,
revela o Boletim de Execução Orçamental da Região Autónoma, publicado no último dia de Dezembro.
A Madeira, em virtude do cumprimento das obrigações impostas pelo
Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) regional, em
matéria de fiscalidade, e das alterações decorrentes do Orçamento do
Estado para 2013, registou uma evolução evidenciada de mais 63,3% ao
nível da tributação directa. As receitas provenientes dos impostos directos sobre os rendimentos de pessoas
singulares (IRS) atingiram os 188,9
milhões e as das pessoas colectivas
(IRC) 128 milhões, o que face ao ano
de 2012 traduzem acréscimos, respectivamente, de 26,2% e 170,7%.
Para além da equiparação dos escalões de fiscalidade aos praticados
a nível nacional, o boletim salienta
ainda na tributação das pessoas colectivas o efeito dos resultados deri-

vados da autoliquidação do IRC 2012,
em que se verificou um aumento de
cerca de 100% nos contribuintes do
regime geral, assim como o efeito do
fim do regime de isenção da Zona
Franca da Madeira. No ano passado, o PAEF impôs a eliminação do
diferencial de -30% nos impostos
cobrados na região.
Em 30 de Novembro de 2013, o
saldo global consolidado dos organismos com enquadramento no perímetro da administração pública
regional da Madeira era deficitário

189

As receitas alcançadas
pela administração regional
em IRS até Novembro
de 2013 ascenderam a
188,9 milhões de euros
em 795,2 milhões de euros. O saldo
primário ascendeu a menos 735,3
milhões de euros e o saldo de capital foi deficitário em 790,3 milhões,
face a uma despesa efectiva de 1971,3
milhões e a uma despesa primária de
1911,3 milhões.
A despesa efectiva acumulada
do governo madeirense aumentou
110,1% entre os 11 meses de 2012 e
igual período do ano passado, apresentando um grau de execução de
67,2%, mais 18,6 pontos percentuais

do que o executado até Novembro do
ano anterior.
O principal factor que influenciou
a evolução da despesa foi o pagamento relativo a encargos de anos anteriores (983,6 milhões de euros), no
âmbito da utilização do empréstimo
bancário com o aval do Estado no
montante de 1100 milhões, não incluídos nos 1500 milhões cedidos pelo PAEF. Contribuíram também para
tal agravamento o acréscimo da despesa (mais 17,1%) em parte justificado
pelos aumentos das remunerações
(mais 14,8%) a que está associada a
reposição dos subsídios de férias e
de Natal dos funcionários públicos
e o aumento da despesa com juros
e outros encargos (10,7%).
No que se refere à dívida não financeira, o último boletim de execução
orçamental, publicado mensalmente
pelo executivo madeirense de acordo com o PAEF, refere que o passivo
acumulado da administração pública
regional, reportado ao final de Novembro de 2013, ascendia a 1601,6
milhões de euros, dos quais 68,9%
são respeitantes a obrigações do governo e 28,2% do passivo dos serviços e fundos autónomos (SFA).
Os pagamentos em atraso apurados correspondem a 572,1 milhões,
sendo as parcelas mais relevantes
atribuídas ao governo (86%) e aos
SFA (6,45). A componente juros e
outros encargos representa 34,4%
do total do passivo e 15,2% dos pagamentos em atraso.
26 | MUNDO | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Al-Qaeda transforma conflito sírio
numa guerra de facto regional
Os radicais aproveitaram o vazio de
poder e tomaram vastas zonas do Norte
da Síria, de onde os rebeldes sírios os
tentam expulsar. Agora, fazem o mesmo
no Ocidente do Iraque
Iraque
Sofia Lorena
A Al-Qaeda já se chamou muitas coisas, já dissemos que era apenas um
rótulo, pronto a usar, uma ideia. Às
vezes, os nomes importam. Há uns
anos, a principal ameaça do jihadismo internacional no Médio Oriente
vinha da autoproclamada Al-Qaeda
na Península Arábica, primeiro com
base na Arábia Saudita, depois no
Iémen. Agora, como os sírios bem
sabem, o rosto do terror chama-se
a si próprio Estado Islâmico no Iraque e no Levante (ISIS) e tem como
objectivo erguer um Estado regional,
o califado de que falava Bin Laden,
estendendo-se pelo menos das margens iraquianas do Eufrates à costa
mediterrânica do Líbano.
O Levante, termo com que os franceses designavam o Mediterrâneo
Oriental, é, na verdade, a Síria histórica, e inclui ainda parte do Sul da
Turquia (Hatay), Jordânia, Palestina e
Israel — por vezes usa-se a expressão
como abrangendo também o Chipre
e zonas do Egipto. O ISIS controla
partes do Norte da Síria e tem lançado ataques no Líbano e no Iraque.
Agora, assumiu o controlo de uma
cidade iraquiana inteira, Falluja, e de
partes de Ramadi, capital da província de Anbar, no Ocidente do Iraque,
entre Bagdad e a fronteira síria.
Talvez se perceba melhor a partir
de agora o aviso, tantas vezes repetido, de que a guerra na Síria não tinha como não se tornar num conflito
regional, com implicações bem para
lá das fronteiras do país que Bashar
al-Assad herdou do país, Hafez.
As revoltas árabes de 2011 aconteceram porque tinham de acontecer,
não foram parte de uma conspiração
externa, como diz Assad. Mas aconteceram num dado momento e contexto. No ano em que os Estados Unidos
acabaram de retirar do Iraque, num
momento em que Washington quis
deixar de se envolver tanto em conflitos longínquos. Assad percebeu isso,
e os radicais estrangeiros que fizeram
do Iraque ocupado o seu campo de
batalha contra os infiéis ocidentais e
seus aliados árabes também.

O cisma entre o islão sunita e xiita,
que o grupo fundado por Bin Laden
na fronteira entre o Paquistão e o
Afeganistão tanto explorou, só podia
agudizar-se. Se, no Iraque, Saddam
Hussein era o rosto de um regime
árabe sunita que discriminava a
maioria xiita da população, Assad
é um alauita (ramo do xiismo) que
governa um país de maioria sunita.
Assad jogou a carta do conflito étnico, quis pôr uns contra os outros,
os jihadistas agradeceram e aproveitaram. Entraram na Síria dizendo-se
prontos a morrer para derrotar um
regime infiel e aterrorizam toda uma
população, como já tinham feito em
partes da província iraquiana de Anbar no tempo dos norte-americanos.
Os estrangeiros ainda lutaram ao lado dos rebeldes sírios — alguns ainda
lutam —, mas depressa se tornou óbvio para a oposição síria que vencer a
guerra do futuro do país passará também por expulsar estes homens.
Na sexta-feira, foi anunciada uma
nova aliança, o Exército dos Mujahedin (como eram chamados os combatentes que partiram para o Afeganistão e lá combateram os soviéticos nos
anos 1980), que integra três grandes
grupos de rebeldes e conta com o
apoio da oposição política síria. O
seu objectivo é derrubar o ISIS, particularmente activo em duas províncias do Norte, Idlib e Alepo.

Ajuda sem tropas
Em reacção aos desenvolvimentos
no Iraque, os EUA reafirmaram o seu
apoio ao Governo xiita de Nouri alMaliki, dizendo que nunca voltarão
a ter tropas ao terreno. Questionada
sobre se a força do ISIS não é uma
consequência do desinvestimento
norte-americano no Iraque após a retirada, a porta-voz do Departamento
de Estado, Marie Harf, defendeu que
os EUA fazem o que podem. “Sejamos claros — são os terroristas que
estão por trás da violência.”
Nada aqui é simples, nem o apoio a
Maliki. A autoridade do Governo não
é reconhecida por todos os iraquianos. Aliás, os últimos desenvolvimentos foram desencadeados por uma
operação militar para desmantelar
acampamentos de protesto contra

Falluja, que o Governo de Nouri al-Maliki anunciou querer recuperar preparando uma grande ofensiva

Kerry abre um bocadinho a porta Genebra 2 ao Irão

O

s EUA sugeriram pela
primeira vez que o Irão pode
participar na conferência
sobre a Síria marcada para
22 de Janeiro na Suíça.
Conhecido como Genebra
2, o encontro vai acontecer em
Montreux, e, espera-se, juntará
representantes de Bashar alAssad e da oposição. Teerão,
explicou o secretário de Estado
John Kerry, não terá direito a
“convite formal de participação”,
isso “é para os que apoiaram
Genebra 1”, o acordo negociado
em 2012, quando Kofi Annan era

o enviado internacional para a
Síria. “Agora, podem contribuir
a partir das margens? Há formas
concebíveis para que façam
valer o seu peso? Há formas de
fazer acontecer isto”, disse o
chefe da diplomacia de Barack
Obama. Kerry explicou que
haverá limites ao papel que o
Irão poderá desempenhar caso
não aceite que o objectivo da
conferência é substituir Assad.
O regime sírio insiste numa
participação iraniana, recusada
pela Arábia Saudita e, até
agora, vista com maus olhos

por Washington, apesar do
acordo sobre o nuclear assinado
em Novembro. Quem se opõe
argumenta que os iranianos
apoiam militarmente Assad,
assim como o Hezbollah libanês
que, por sua vez, combate ao
lado do regime. É um facto,
como também é verdade que
Teerão é a capital com mais
influência sobre Damasco.
Com ou sem Irão, é cedo para
saber se Genebra 2 vai mesmo
acontecer. Reunida em Istambul,
a oposição reavalia a sua decisão
inicial de participar no encontro.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | MUNDO | 27
Imigrantes fazem
greve inédita
em Israel
contra nova lei

8000 170
iraquianos morreram em
atentados em 2013, período em
que o ISIS levou da Síria para o
Iraque dezenas de bombistas
suicidas por mês

combatentes do ISIS foram
mortos pelos rebeldes sírios
nos últimos dias, incluindo três
comandantes, um tchetcheno,
um tunisino e um saudita
SADAM EL-MEHMEDY/AFP

O QUE ELES DIZEM

Não estamos,
obviamente, a
contemplar um
regresso. Ajudaremos as
autoridades iraquianas
no seu combate, mas é
um combate que elas
devem vencer sozinhas,
e acredito que o vão
conseguir
John Kerry (na foto)
Secretário de Estado dos
Estados Unidos

Não vamos ceder
enquanto não tivermos
derrotado todos os
terroristas e resgatado
o nosso povo de Anbar
Nouri al-Maliki
Primeiro-ministro iraquiano

Maliki. A brutalidade da operação
terá levado parte da população de
Falluja, nomeadamente membros
de milícias formadas pelos EUA para
combater os radicais estrangeiros, a
lutar contra as forças oficiais, colocando-se ao lado dos islamistas que
declararam a cidade seu território
depois das orações de sexta-feira.
O Governo diz que está a preparar
uma grande ofensiva para recuperar Falluja. Mesmo que o consiga, do
ponto de vista militar, se puser em
marcha uma operação que não distinga os radicais dos civis arrisca-se a
enfurecer ainda mais a população.
Nas últimas semanas, o mesmo ISIS
reivindicou ataques no Líbano, incluindo um atentado num bastião
dos xiitas do Hezbollah, aliados de
Assad, financiados por Teerão.

A aliança xiita é esta, vai de Teerão a Beirute, passando por Bagdad e Damasco. Quem mais a teme
é a Arábia Saudita, que é por isso o
maior financiador dos opositores de
Assad. Muito do que se tem passado
no Iraque e na Síria nos últimos tempos é, na verdade, consequência de
uma guerra por procuração permanente entre estes dois jogadores que
disputam a hegemonia regional.
“Penso que estamos a assistir a um
momento de viragem, e pode ser um
dos piores da história”, comentou
ao jornal The New York Times Elias
Khoury, romancista libanês que viveu no seu país durante os 15 anos da
guerra civil. “O Ocidente não está lá,
e estamos nas mãos de dois poderes
regionais, os sauditas e os iranianos,
cada um fanático à sua maneira.”

Os objectivos do ISIS
ultrapassam muito
o Iraque, mas o seu
projecto transnacional
de estabelecer um
Estado islâmico em todo
o Levante não se pode
fazer sem assegurar o
controlo sobre uma série
de mini-Estados

Imigração
Maria João Guimarães
Manifestação reuniu
milhares de sem-papéis
africanos no centro
de Telavive. Lei permite
detenção durante um ano
Dezenas de milhares de imigrantes
africanos manifestaram-se ontem
em Telavive e começaram um protesto contra as medidas aprovadas
pelo Estado hebraico que permitem
a detenção durante um ano dos “infiltrados”, como são conhecidos os
imigrantes que chegam sem papéis
e pedem asilo, a maioria vindos do
Sudão e da Eritreia.
“Somos refugiados”, cantavam
os manifestantes, “Sim à liberdade,
não à prisão”. “Fugimos de perseguição, ditaduras, guerras civis e
genocídios”, disse Dawud, eritreu,
à AFP. “Em vez de nos considerar
refugiados, Israel trata-nos como
criminosos”, queixou-se.
A manifestação terá reunido cerca
de 20 mil pessoas. Ao contrário do
que tem acontecido em protestos
anteriores contra uma nova lei, esta
foi a primeira acção em que os migrantes africanos apareceram em
grande número, nota a imprensa
israelita.
O Parlamento israelita aprovou em
Dezembro uma lei permitindo a detenção, num chamado centro aberto, de imigrantes até um ano. Uma
lei anterior, prevendo a detenção até
três anos, foi em Setembro rejeitada
pelo Supremo Tribunal. Grupos de
defesa de direitos humanos dizem
que desde a aprovação da lei foram
detidos mais de 300 imigrantes.

Estes ficam em centros em zonas
remotas (no deserto do Negev). Podem sair de dia, mas têm de responder a chamadas três vezes por dia.
Estas obrigações, aliadas à falta de
transportes, faz com que não possam
procurar emprego ou trabalhar.
Mas trabalho não foi o que moveu
a maioria dos imigrantes que procuraram refúgio em Israel, quiseram
dizer os organizadores da greve que
deverá afectar restaurantes, cafés,
hotéis e empresas de limpeza que
empregam estes imigrantes. “Estamos conscientes dos riscos de fazer
greve, podemos perder os nossos
empregos”, dizem os organizadores.
“Mas viemos para cá por causa do
perigo para as nossas vidas nos nossos países de origem”, sublinham,
num comunicado citado pelo diário
Ha’aretz. “Como qualquer pessoa,
queremos ter um rendimento para
viver em dignidade, mas não foi o
trabalho que nos trouxe a Israel.”
As autoridades israelitas dizem o
contrário. Acrescentam que há 60
mil migrantes africanos em Israel, a
maioria chegada através da fronteira
com o Egipto, onde Israel completou
recentemente uma barreira.
Desde 2009, entre 17.194 pedidos
de refugiados, 26 foram aceites, e
entre os 1.133 pedidos para ficar em
Israel por razões humanitárias, 540
foram autorizados, segundo dados
apresentados na discussão da lei no
Knesset.
O Governo chama a estes imigrantes “infiltrados” e o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, já disse
que a presença de muitos destes imigrantes é uma ameaça à sociedade
judaica, e o Governo tem ainda dado
incentivos monetários a imigrantes
que queiram regressar voluntariamente aos seus países.
NIR ELIAS/REUTERS

Charles Lister
Analista da Brookings

Penso que estamos a
assistir a uma viragem e
pode ser uma das piores
na nossa história
Elias Khoury
Romancista libanês

A manifestação terá reunido 20 mil pessoas
28 | MUNDO | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014
AFP

Breves

França
Clara Barata

Viagem de aniversário

Papa Francisco
vai à Terra Santa
de 24 a 26 de Maio
O Papa Francisco anunciou
que visitará a Terra Santa de
24 a 26 de Maio, passando
por Amã, Belém e Jerusalém.
Esta viagem celebrará os 50
anos da histórica visita de
Paulo VI, a primeira de um
Papa à Terra Santa. Na Igreja
do Santo Sepulcro, onde está,
segundo a tradição cristã, o
túmulo de Jesus Cristo em
Jerusalém, será celebrado um
encontro ecuménico “com
todos os representantes das
igrejas cristãs de Jerusalém e
com o patriarca Bartolomeu
de Constantinopla”, anunciou
o Papa. Em Fevereiro de
2013, a Santa Sé usou,
pela primeira vez, o termo
Estado da Palestina, após o
reconhecimento pela ONU
de um novo estatuto para a
Palestina (considerada Estado
observador, embora não
membro, das Nações Unidas).
Sondagem

A maioria dos
espanhóis quer
que o rei abdique
Muito mais de metade dos
espanhóis, 62%, querem que
o seu rei abdique a favor do
filho, o príncipe Felipe, diz uma
sondagem publicada ontem
pelo El Mundo, no dia em que
o rei fez 76 anos. Juan Carlos
está no trono há 38 anos e
era respeitado pelo seu papel
na transição democrática
em Espanha, após a morte
de Francisco Franco. No fim
de 2013, apenas 41,3% dos
espanhóis tinham uma opinião
boa, ou muito boa do rei — há
dois anos, 76% diziam isto. A
maioria tem uma visão má,
muito má ou normal deste
reinado (56,2%). Os espanhóis
mais jovens, que não têm a
experiência de viver sob a
ditadura de Franco, são os
que mais estão a favor da
abdicação. O príncipe Felipe
tem uma imagem positiva para
66% dos espanhóis.

Apelos à
censura de
humorista
anti-semita

Foram incendiadas mais de 200 assembleias de voto

Violência nas eleições
mata 18 pessoas
no Bangladesh
Crise política
Maria João Guimarães
Queimados vivos,
espancados até à morte,
atingidos por tiros
da polícia, a votação deixou
um rasto de mortos
O boicote das eleições de ontem
e a violência associada deixou 18
mortos no Bangladesh, mais um
dia de confrontos e ataques no país
por causa de uma crise política que
não abranda. “Não quero saber das
eleições, só da minha segurança”,
diz uma habitante da capital.
A oposição apelou a um boicote à
votação e os seus apoiantes incendiaram mais de 200 assembleias de
voto em protesto por, pela primeira
vez desde 1991, não ser uma autoridade neutra e provisória a encarregar-se da votação. O Governo alega
que já não há necessidade desta
passagem de testemunho na altura
das eleições e realizou a votação de
qualquer modo.
Medo da violência e protesto levaram a uma baixa participação. O
jornal britânico The Guardian contactou várias assembleias de voto na
capital e concluiu que a participação
teria andado pelos 10%.
Em Dhaka, muitas pessoas já
não querem saber da votação, mas

preocupam-se com a violência que
tem marcado o dia-a-dia da capital
no impasse entre os dois principais
partidos, liderados por duas mulheres que têm alternado no poder nas
últimas duas décadas.
“Eu e muitos outros como eu já
não queremos saber das eleições”,
disse Nabila, estudante que mora na
capital, à emissora britânica BBC. “O
que me preocupa agora é a segurança da minha vida”, continuou.
Apesar da forte presença militar
nas ruas e das muitas restrições por
razões de segurança, continuava a
haver mortos — por tiros da polícia
leal ao Governo, por explosões de
cocktails Molotov atirados por opositores. “Tantas pessoas morreram,
muitas queimadas vivas dentro de
autocarros. Que tipo de pessoas
somos?”, insurgia-se Nabila. “Cada
vez que entro num autocarro tenho
medo de que seja incendiado. A cada segundo estou preocupada que
alguém atire um cocktail Molotov”,
confessa a estudante. “Nunca tive
tanto medo na minha vida.”

Impasse vai continuar
Tudo isto por um impasse entre os
partidários da primeira-ministra
Sheikh Hasina e da líder do principal
partido da oposição, Khaleda Zia,
que diz estar sob prisão domiciliária
desde Dezembro, o que as autoridades negam.
De qualquer modo, há muitas dú-

vidas sobre as eleições, e Estados
Unidos e União Europeia nem sequer enviaram observadores.
“Por que falamos de eleições, se
há poucas pessoas nas mesas de
voto e os dois candidatos são do
mesmo partido?”, perguntou a um
repórter da agência francesa AFP o
comerciante Miyamat Ullah.
“As eleições não vão resolver
nada”, comentou Ataur Rahman,
professor de ciência política na
Universidade de Dhaka, à agência
britânica Reuters. “Tudo vai continuar exactamente na mesma porque ambas as líderes vão continuar
a evitar um diálogo com significado,
e isso é a única coisa que pode fazer
acabar a crise.”
“É preciso acabar com as mortes
de civis inocentes”, diz a estudante
Nabila. “É isso que pedimos a todos
os partidos e responsáveis políticos
do Bangladesh. Eles não são donos
das nossas vidas. Já é altura de perceberem isso.”
Mahmoud, da cidade de Sylhet,
no nordeste do país, disse à BBC que
em cinco horas e meia apenas três
pessoas votaram na sua assembleia.
Nem ele, nem ninguém da sua família vai votar — admite que há parte
de medo, parte de protesto contra o
Governo, mas nenhum apoio à oposição. “A maior parte das pessoas
não faz ideia do que vai acontecer
depois de hoje. Mas temos uma certeza: vai ficar pior.”

Aumentam as pressões para impedir os espectáculos do controverso
humorista francês Dieudonné, acusado de ofender os sobreviventes do
Holocausto com o gesto que popularizou da quenelle, visto como uma
saudação nazi invertida. “Os nossos
antepassados bateram-se por valores
civilizacionais para que nós cedêssemos perante criminosos?”, interrogou o presidente da Câmara de Paris,
o socialista Bertrand Delanoë, acusando Dieudonné M’bala M’bala de
“fazer a apologia de crimes contra a
humanidade.”
A família de “caçadores de judeus”
Klarsfeld, “em nome dos filhos e filhas dos deportados judeus de França”, convocou uma manifestação na
quarta-feira na cidade de Nantes, para exigir que o espectáculo Le Mur do
humorista seja proibido. “Quem vai
ver Dieudonné quer ouvir fazer pouco dos judeus. Ele congrega os antisemitas de todas as facções, sejam
eles islamistas, de extrema-esquerda
ou da extrema-direita”, afirmou ao
Libération Arno Klarsfeld.
O ministro do Interior, Manuel
Valls, está desde a semana passada
a ponderar proibir os espectáculos
do humorista, após a abertura de um
inquérito judicial por “incitação ao
ódio racial”. Dieudonné, entretanto,
teve uma nova derrapagem verbal
contra o jornalista (judeu) da France
Inter Patrick Cohen: “Quando o ouço
falar, digo para mim próprio, ‘as câmaras de gás... é uma pena’.”
“Dieudonné é profundamente antijudeu. Nos seus espectáculos, não
é apenas uma representação, é um
comício”, afirmou o ministro Valls,
citado pelo Le Monde.
Mas o que o ateou a polémica em
torno de Dieudonné foi o gesto que
popularizou — a quenelle. O futebolista Nicolas Anelka foi a personalidade mais conhecida a reproduzi-lo.
É um gesto anti-sistema, segundo o
humorista, ou anti-semita, segundo
o Governo francês e parte dos seus
seguidores, onde se incluem membros do partido de extrema-direita
Frente Nacional. O presidente da Liga Internacional contra o Racismo e
o Anti-Semitismo, Alain Jakubowicz,
descreve-o como uma “saudação nazi invertida, o que significa a sodomização das vítimas” do Holocausto.
Nos últimos anos, o humorista
aproximou-se de Jean-Marie Le Pen
líder da Frente Nacional, padrinho
do seu quarto filho.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | CIÊNCIA | 29

Terapia genética conseguiu travar
cancro da mama em ratinhos
Tratamento aplicado nos animais de laboratório reverteu progressão das células cancerosas do tecido
mamário que estavam no estado inicial da doença. Cientistas querem tentar aplicar técnica a humanos
SILVA KRAUSE E AMY BROCK

Medicina
Nicolau Ferreira
Uma equipa de investigadores da
Faculdade Médica de Harvard, em
Boston, silenciou a actividade de um
gene em células do tecido mamário
de ratinhos que é importante para o
desenvolvimento do cancro da mama. Estas células estavam a tornarse cancerosas, mas a terapia genética conseguiu reverter o processo e
normalizá-las. Publicada na revista
Science Translational Medicine, a descoberta poderá vir a ser aplicada no
combate ao cancro da mama.
O trabalho, liderado por Donald
Ingber, centrou-se nas células dos
ductos mamários, os canais por onde
passa o leite. “Apesar de haver algumas excepções, a maioria dos cancros da mama [cerca de 75%] aparece
nas células epiteliais dos ductos”, disse o investigador ao PÚBLICO.
Muitas vezes, são detectadas lesões
nas células do epitélio dos ductos mamários, que podem desenvolver-se
em cancros. Mas não se sabe quais as
lesões que efectivamente estão nesse caminho. Como a medicina ainda
não faz essa triagem, recorre-se a soluções drásticas como a radioterapia
ou mesmo a mastectomia, dois tratamentos violentos com efeitos secundários a nível físico e psicológico.
Uma avaliação feita por especialistas, publicada em 2007, sublinhou a
urgência de se “desenvolverem terapias minimamente invasivas que possam ser direccionadas directamente
para o epitélio do ducto, de forma a
prevenir a progressão de lesões prémalignas sem produzir uma toxicidade sistémica”, lê-se no artigo.
Os investigadores escolheram
uma abordagem genética, através
da utilização do chamado “ARN de
interferência”. Esta técnica trava a
actividade genética nas células. A
informação contida nos genes, que
estão inseridos nas longas cadeias
de ADN, é o molde inicial para se
produzirem proteínas. Para isso, a
maquinaria celular começa por passar a informação do ADN para o ARN
— uma molécula que pode navegar
à vontade na célula — e, finalmente, traduz a informação contida na
molécula de ARN nos aminoácidos
que formam as proteínas. O ARN de
interferência liga-se ao ARN transcrito a partir do ADN, impedindo-o

didato para ser silenciado pelo ARN
de interferência.
Primeiro, os cientistas experimentaram in vitro silenciar este gene, em
células cancerosas do epitélio dos
ductos de ratinhos. Ao contrário das
células saudáveis, que formavam tubos, as células cancerosas aglomeravam-se numa massa desestruturada.
Mas, quando os cientistas aplicaram
o ARN de interferência, as células reverteram o processo canceroso e voltaram a ter um aspecto saudável.
Depois, a equipa fez o mesmo in
vivo, em ratinhos transgénicos, com
um outro gene responsável pelo cancro da mama. Para isso, injectou a
solução com o ARN de interferência
— que estava dentro de pequeníssimas bolas ocas de gordura, criadas
por um dos membros da equipa —
através dos mamilos dos ratinhos.
O líquido entrou pelos ductos mamários, fazendo o caminho inverso
do leite. O tratamento foi aplicado
durante o início do cancro, e a incidência de tumores reduziu-se em
75%. Os cientistas verificaram que as
células se multiplicaram menos.

Próximo passo: os coelhos

Canais mamários de ratinhos por onde passa o leite marcados por fluorescência
assim de ser traduzido na proteína.
Outras equipas já tinham usado
com sucesso a técnica do ARN de interferência na investigação do cancro
da mama. Mas uma barreira existente
era identificar um gene fundamental
para desencadear o cancro.
Os investigadores foram à caça
desse gene. Através de um algoritmo, a equipa identificou ligações entre genes mais activos nas células do
cancro da mama em ratinhos – ou seja, produziram uma rede onde uma

ligação entre dois genes implica que
a actividade de um deles aumenta a
actividade do outro. Em cancros da
mama mais tardios, há uma grande
heterogeneidade nestas ligações observadas em ratinhos. Mas, segundo
a equipa, nos cancros da mama em
fases mais iniciais o conjunto de genes activos é mais semelhante.
Inicialmente, quando as futuras
células cancerosas já têm uma actividade genética própria, mas o seu
aspecto ainda é igual ao das células

saudáveis do epitélio dos ductos, os
cientistas descobriram que o gene
HoxA1 tinha uma actividade anormal
e parecia ser o mais importante.
O HoxA1 está activo durante o
desenvolvimento embrionário humano, mas está inactivo nas células
saudáveis do tecido mamário adulto.
Além disso, há vários estudos que indicam que a sua actividade está associada ao aparecimento do cancro
da mama nas mulheres. Todas estas
provas tornaram-no num bom can-

Para perceber se a terapia atingia
outros tecidos, o que poderia comprometer um tratamento em humanos, a equipa utilizou um marcador
fluorescente ligado ao ARN de interferência para observar, por microscopia, o seu comportamento. “Não
vimos quaisquer sinais do ARN de
interferência em tecidos periféricos,
indicando que as moléculas são apanhadas pelas glândulas mamárias e
não entram na corrente sanguínea”,
explicou ao PÚBLICO Amy Brock,
uma das autoras do estudo.
O próximo passo da equipa será
testar a terapia noutra cobaia cuja
anatomia dos ductos seja semelhante
à das mulheres — como os coelhos — e
procurar efeitos secundários da técnica, para se poder passar aos ensaios
clínicos. É ainda preciso determinar
a dose que este tratamento requer
em humanos, explica-nos Donald Ingber: “Mulheres com propensão para
esta doença terão provavelmente de
receber tratamentos de poucos em
poucos meses. O mesmo tratamento poderá também ser administrado
em locais onde houve cirurgias de
remoção de tumores, para induzir
a reversão das células que ficaram
em tecido mais normal.”
30 | CULTURA | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Fotografia portuguesa vai estar
em grande no jubileu da Leica
Hans-Michael Koetzle o comissário da exposição que em Outubro assinala os 100
anos do nascimento da Leica, em 1914, esteve em Portugal para escolher imagens. O
Museu do Chiado tentará depois trazer a mostra para Portugal
Entrevista
Sérgio B. Gomes
Quando, em 2010, Hans-Michael
Koetzle viu a exposição Batalha
de Sombras em Cuenca, Espanha,
ficou de boca aberta. Andou
deslumbrado de um lado para o
outro numa sala da Casa Zavala
a perguntar “Quem são estes
fotógrafos?”, “De onde vieram?”.
A comissária Emília Tavares, do
Museu do Chiado, estava lá para
lhe responder. E disse-lhe que
eram portugueses e que tinham
fotografado sobretudo nos anos
1950 e 1960. Chamavam-se Gérard
Castello-Lopes, Victor Palla, Varela
Pécurto, Eduardo Harrington Sena,
Sena da Silva, Fernando Taborda...
Nesse dia, o jornalista e
investigador alemão especializado
em história e teoria da fotografia
apaixonou-se por aquelas imagens
e ficou com mais uma pergunta
na cabeça: “Terão sido feitas com
[câmaras] Leica?”. Umas sim,
outras não. Mas esse número
também não foi importante
quando, no final do ano passado,
decidiu viajar para Portugal
à procura de mais fotografias
daquele período para incluir na
grande exposição do jubileu da
Leica que está a preparar para
este ano. Em Lisboa, Koetzle, que
foi director da revista da Leica
durante anos e que tem vasta
obra publicada, confirmou o seu
instinto quando viu directamente
as provas de alguns dos fotógrafos
de Batalha de Sombras. Escolheu
cerca de 30 imagens dos que
usavam câmaras Leica e descobriu,
maravilhado, o trabalho de um
amador muito dedicado à mítica
marca alemã, Jorge Silva Araújo, de
quem trazia apenas uma pista, um
artigo publicado na revista da Leica
nos anos 1950. Na comemoração
dos cem anos da invenção da
câmara que revolucionou a
fotografia e a maneira como vemos
o mundo através dela, Portugal
será um dos países em grande
destaque.
Organizar uma exposição
do jubileu da Leica — talvez
a câmara fotográfica mais
emblemática de todas — é um

enorme desafio. Por onde
começou?
Pelo princípio, em 1914, ano em
que Oskar Barnack construiu a sua
primeira câmara. Percebemos que
a partir desta data o mundo da
fotografia mudou. E perguntámonos “por que não mostrar toda
a história da fotografia do século
XX numa exposição? Por que não
tentar mostrar como o sistema
da Leica mudou a maneira como
vemos e compreendemos o
mundo?”. A coisa boa deste ponto
de partida é que é uma exposição
verdadeiramente internacional.
Imaginei como seria fantástico
emparelhar diferentes culturas,
diferentes abordagens, diferentes
gerações e momentos da história.
A Leica foi uma câmara sempre
voltada para captar a história,
as pessoas e a vida. Não é uma
câmara de estúdio. É para sair
à rua e captar a vida. E a ideia
é juntar tudo isto. Claro que fiz
uma lista daquilo que considero
interessante. E para lhe dar um
exemplo que consta nessa relação,
há vários fotógrafos portugueses.
Fiquei impressionado com uma
exposição que vi em Cuenca
[Batalha de Sombras, PHotoEspaña
2010]. Aquelas imagens foram
uma revelação para mim, fiquei
com um excelente catálogo
dessa exposição e fiquei sempre
a pensar: “Podem ser Leica.
Podem ser Leica”. Contactei a
curadora [Emília Tavares] e pedilhe ajuda para confirmar esse

A Leica foi uma
câmara sempre
voltada para
captar a história,
as pessoas e a vida

pormenor. Ela acedeu e entre mais
de uma dezenas de fotógrafos
representados, pelo menos cinco
usaram leicas. Isto quer dizer que
vamos ter a fotografia portuguesa
na exposição, particularmente
a dos anos 1950 e 1960 que
foram décadas muito fortes.
Hoje também é forte, mas fiquei
impressionado com a qualidade
do que foi feito naquelas duas
décadas.
Ficou assim tão surpreendido?
Sim, fiquei espantado também
ao perceber como, no centro
da Europa, sabíamos tão pouco
deste nicho. Acho que a exposição
do jubileu da Leica será uma
extraordinária oportunidade
para dar a conhecer um grupo
de fotógrafos portugueses
com um enorme talento.
Haverá também espanhóis,
italianos... mas os portugueses
serão importantes dado o
desconhecimento quase total da
sua obra internacionalmente.
Não sabíamos nada sobre eles e
serão uma parte importante da
exposição que inaugurará em
Hamburgo. Já fiz parte da selecção
das imagens. Temos fotografias
maravilhosas. E, com a ajuda da
Emília, descobrimos material novo
do fotógrafo Jorge Silva Araújo.
Abrimos envelopes que estavam
intocados e o que descobrimos é
muito bom. Ele era um mestre a
imprimir, as provas são incríveis
e apesar de ser amador via-se que
adorava o que fazia na fotografia.
Verificamos que estava muito bem
informado sobre os melhores
livros e revistas de fotografia da
época e também quis deixar o seu
contributo.
E de que época são essas
fotografias?
As melhores são dos anos 1950.
Também vimos imagens dos
anos 1960, mas as melhores são
dos anos 50. Também teremos
fotografia contemporânea, com
fotografias de Paulo Nozolino.
Que dimensão terá a exposição
em termos de imagens?
Teremos entre 400 a 500
fotografias. Vamos começar
em 1914, porque Oskar Barnack
começou logo a fotografar
com a sua primeira câmara.

Atravessaremos todo o século e
haverá secções de países como
Portugal. Haverá cerca de 30
obras de fotógrafos portugueses.
Teremos cerca de cem autores
de todo o mundo. Mas não me
preocupei com proporções
geográficas.
Como será dividida?
Por abordagens estéticas. Por
exemplo, depois da II Guerra
Mundial houve fotografia
humanista em França, fotografia
neo-realista na Itália, novo
subjectivismo na Alemanha e uma
fotografia próxima da tradição
humanista francesa em Portugal. E
a mesma coisa em Espanha. Isto dá
uma mistura de diferentes estéticas
em geografias diferentes. Teremos
obviamente o fotojornalismo antes
e depois da Guerra. O período
vanguardista. As agências de
fotografia dos anos 1950. A cultura
dos fotolivros. A cor dos anos 1970
e 1980. A moda. E a fotografia
contemporânea. São cerca de 14
“capítulos”, onde caberá também
o cinema.
Qual foi a principal revolução
que a câmara Leica trouxe à
fotografia?
Era pequena, muito mais pequena
do que as câmaras que existiam.
A maior parte dos fotojornalistas
usavam câmaras com negativos
de vidro. Depois de disparar
tinham de mudar o negativo — não
havia momento decisivo. A Leica
era rápida e tinha 36 imagens
disponíveis. Funcionava como uma
extensão dos braços e era possível
tê-la sempre à mão para disparar
a qualquer momento, um pouco à
semelhança do que se faz hoje com
os smartphones. A Leica não foi a
primeira a usar filme de 35mm.
Mas a grande diferença é que, pela
primeira vez, uma empresa foi
capaz de fazer uma câmara que era
um produto perfeito. A empresa
tinha uma grande experiência na
óptica porque nasceu da Leitz,
que fazia microscópios. O fabrico
destes instrumentos tinha de ser
muito, muito preciso. Um saber
que foi levado para esta pequena
câmara fotográfica, expoente
máximo da tecnologia. A lente
era perfeita, o negativo era maior,
as funcionalidades eram muito
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | CULTURA | 31

30

Cultura
Ver entrevista na íntegra em
www.publico.pt

O comissário já escolheu quase
todas as imagens de fotógrafos
portugueses que vai levar ao jubileu
da Leica. Serão cerca de 30
ENRIC VIVES-RUBIO

precisas. Adaptava-se bem às
mãos, podia segurar-se sem se
tremer. E foi feita para capturar
distâncias curtas. Com a Leica,
toda a maneira de capturar o
mundo mudou. Os fotógrafos
tornaram-se mais rápidos, mais
próximos do sujeito e puderam
trabalhar em sequências de 36
elementos — se perdessem um
momento decisivo, podiam
rapidamente procurar outro, e
outro, e outro. Começou a ser
possível experimentar.
Quer dizer que a principal
vantagem da Leica se “resumia”
à eficácia com que respondeu
a uma cultura fotográfica que
pedia outras ferramentas...
Sim, era um objecto
extraordinariamente bem
desenhado. Quando se fala no
nascimento desta câmara é preciso
não esquecer que se vivia no tempo
da Bauhaus que se regia segundo
o princípio “menos é mais”. E foi
isso que Oskar Barnack fez. Ele
não era membro da Bauhaus, mas
tinha o espírito de fazer algo que
utilizasse o mínimo daquilo que
era necessário e nada mais. Este
espírito resultou num objecto tão
purista, tão bem desenhado que
fez com que durasse até hoje. A
Leica é como a Porsche — é sempre
a mesma, apenas com algumas
mudanças. Muitas vezes, a forma
de trabalhar com Leica fazia com
que as fotografias não saíssem
perfeitas, ficavam desfocadas.
Mas isso dava-lhes autenticidade,
dinâmica.
É o momento em que a
fotografia deixou de estar
congelada?
Completamente. Deixou de estar
congelada, deixou de ser apenas
encenada. Passou a haver vida
na fotografia de uma forma mais
natural. Já havia fotógrafos a tentar
trazer esta nova forma de estar
na fotografia e a Leica deu-lhes a
ferramenta perfeita. Trabalhava
bem, era silenciosa, não precisava
de flash. Foi importante para
fotografar em locais onde era
preciso ter estas armas — em
tribunais, em igrejas, em cafés e
bares nocturnos.
E a Leica tornou-se famosa
imediatamente?
Não. Em 1925 não houve grande
reacção. Nesse ano produziram-se
cerca de 1000 câmaras. O sucesso
veio em 1927/28. Pessoas como
Rodchenko, artistas da Bauhaus
começaram a usá-la. Gisele
Freund foi outra das famosas a

usá-la. Quando escapou aos nazis,
em 1933, foi para França, onde
trabalhou como fotógrafa. Há
uma história muito conhecida que
mostra como levou algum tempo
o reconhecimento. Freund teve
um trabalho que implicava fazer
fotografias na Biblioteca Nacional
de França. Quando a conheceu o
director, este perguntou-lhe “O que
é isso?”. Ela: “É a minha câmara”.
Ele: “Não! Não! Precisamos de
alguém profissional!”. Ela foi a
uma feira da ladra, comprou uma
máquina de fole antiga com um
tripé e escondeu a Leica lá dentro.
Disseram-lhe então que com
aquela máquina já podia fotografar.
Freund tirou as fotografias com a
Leica escondida.
É possível identificar um “estilo
Leica” na fotografia?
Sim.
Como?
Para se fotografar com Leica é
preciso estar próximo do objecto.
Não são câmaras para captar a
grandes distâncias. Se se olhar para
uma imagem com Roleiflex, por
exemplo, elas são muito compostas
a partir do centro, muito
simétricas. As primeiras imagens
do HCB feitas com uma câmara
6x6 são um pouco maçadoras.
Com a Leica há dinâmica, há
diferentes perspectivas. A
fotografia na Leica é definida
pelos limites do fotograma. Tive
um experiência estranha há uns
tempos quando estava a folhear
uma revista Vu. Deparei-me com
uma fotografia em dupla página
sobre a Guerra Civil de Espanha
e pensei : “É espantosa! Tem de
ser uma imagem feita com Leica.
Está tão perto, no chão, via-se uma
cabeça, um ombro”. Fui à procura
do crédito e não encontrei logo.
Mas depois lá o descobri: era uma
imagem do Henri Cartier-Bresson.
Quando fiz a pesquisa para esta
exposição vi uns dez mil fotolivros.
Sentava-me todas as noites e o
exercício principal era perceber
se aquelas fotografias tinham sido
feitas com Leica. Na exposição
haverá muitos nomes que não são
nada familiares. Não haverá apenas
os “cartier-bressons”.
Encontrou algum
trabalho desconhecido
internacionalmente que o tenha
deslumbrado particularmente?
Sim, muitos. Em particular o
de um fotógrafo que se chama
Richard Fleishhut. Tirava
fotografias em barcos a pessoas
famosas. Em Setembro de 1939,

Fleishhut estava no SS Columbus
perto do porto de Santa Cruz,
América Latina. A II Guerra
Mundial começou e os ingleses
fecharam o porto e a navegação no
Atlântico ficou muito controlada.
O capitão tentou fugir durante
dois meses mas não conseguiu.
Até que os alemães decidiram
afundar o navio. Todas as pessoas
abandonaram o SS Columbus em
pequenos barcos e depois assistiuse a uma explosão. Ele fotografou
todos estes acontecimentos com
uma Leica, uma história impossível
de captar com um câmara de
negativos de vidro. Aqui temos
de tudo: a espera, o drama, o
movimento, a atrapalhação das
pessoas a entrarem nos barcos,
a explosão o barco a fundar. Esta
sequência é extraordinária e nós
vamos mostrá-la.
E o Silva Araújo? De que forma
o surpreendeu?
Sabe, no artigo que encontrei dele
numa revista da Leica dos anos 50,
não fiquei muito impressionado.
Era um Portugal muito cliché mas
quando peguei nos negativos e
nas provas... aí sim, fiquei muito
impressionado. Mas há outros
exemplos que ninguém conhece
fora de Portugal, como o de Victor
Palla. Como já disse, fiquei muito
impressionado com a exposição
de Cuenca e soube, desde aí, que
esse momento iria ser o início do
meu love affair com a fotografia
portuguesa. Foi por causa daquilo
que vi que decidi vir a Portugal.
Para uma exposição com esta
abrangência, não haveria muitos
comissários a viajar para um país
por causa de 30 fotografias.
Pelos vistos, parece que valeu a
pena a viagem.
Absolutamente. Quando vi as
provas do Silva Araújo tive a
certeza de que a viagem valeu bem
a pena — é do melhor que existe.
E por isso pedi à Emília para fazer
alguma investigação para um texto
do catálogo. O trabalho de Silva
Araújo constará deste livro que
terá cerca de 400 páginas. Será
um livro de referência em relação
ao trabalho fotográfico feito com
leicas.
A Leica conseguirá manter-se
num mundo fotográfico cada
vez mais desmaterializado e
digital?
Desde que esteja empenhada na
fotografia estaremos a salvo. Não
é produto de massas, mas tem a
procura suficiente para continuar a
manter este sistema vivo.
34 | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

SAIR

Em estreia
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CINEMAS
Porto
Medeia Cine Estúdio do Teatro Campo
Alegre
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Hiroshima, Meu Amor M12. - 18h30, 22h
ZON Lusomundo Dolce Vita Porto
R. dos Campeões Europeus, 28-198. T. 16996
12 Anos Escravo 13h10, 16h20, 21h10,
00h20; A Propósito de Llewyn Davis M12.
21h20, 23h50; A Revolta dos Perus M6.
13h20, 16h10, 18h40 (V.Port.); Frozen: O
Reino do Gelo M6. 13h10, 16h, 19h (V.Port.);
O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
22h30 (3D); 47 Ronin - A Grande Batalha
Samurai M12. 12h50, 15h40, 18h35,
21h30, 00h25; Grudge Match - Ajuste de
Contas M12. 13h, 15h50, 18h50, 21h40,
00h30; O Passado M12. 19h40; A Vida
Secreta de Walter Mitty M12. 13h50, 16h30,
22h50; A Última Paixão do Sr. Morgan M12.
14h, 16h45, 19h30, 22h20

Aveiro
ZON Lusomundo Fórum Aveiro
R. Homem Cristo. T. 16996
O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
13h30, 17h05, 21h; O Conselheiro M16.
21h40; A Revolta dos Perus M6. 13h50,
16h15, 18h50 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande
Batalha Samurai M12. 14h20, 17h15, 21h15;
Frozen: O Reino do Gelo M6. 14h40,
17h25 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em
Chamas M12. 21h20; A Vida Secreta de
Walter Mitty M12. 13h, 15h50, 18h40, 21h30;
7 Pecados Rurais M16. 17h, 19h25, 21h50; O
Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6.
14h10 (V.Port.); 12 Anos Escravo 14h30,
17h40, 21h10
ZON Lusomundo Glicínias
C. C. Glicínias - Aradas . T. 16996
Horas M12. 13h45, 16h20, 18h55, 21h30;
Pai Por Acaso M12. 21h50; A Revolta dos
Perus M6. 14h10, 16h40, 19h10 (V.Port.);
O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
13h50, 17h25, 21h; 47 Ronin - A Grande
Batalha Samurai M12. 14h20, 17h15, 21h15;
Chovem Almôndegas 2 M6. 14h40 (V.Port.);
A Vida Secreta de Walter Mitty M12.
17h40, 21h40; Frozen: O Reino do Gelo M6.
14h, 17h (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em
Chamas M12. 21h10; Grudge Match - Ajuste
de Contas M12. 14h30, 17h35, 21h20

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Campo 25 de Abril. T. 253826571
A Revolta dos Perus M6. Sala 1 - 15h30
(V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12.
Sala 1 - 17h30, 21h45; O Hobbit: A Desolação
de Smaug M12. Sala 2 - 15h30, 21h35

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Cinemax - BragaShopping
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7 Pecados Rurais M16. Sala 1 - 15h, 23h55;
A Revolta dos Perus M6. Sala 1 - 17h, 22h
(V.Port.); O Tempo dos Dinossauros: O Filme
3D M6. Sala 1 - 13h, 19h (V.Port.); Frozen: O
Reino do Gelo M6. Sala 2 - 14h55, 17h05,
21h55 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha
Samurai M12. Sala 3 - 14h45, 17h05, 21h45;
A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 4 14h50, 17h05, 21h50; O Hobbit: A Desolação
de Smaug M12. Sala 5 - 17h, 21h35; Chovem
Almôndegas 2 M6. Sala 5 - 15h, 19h35
(V.Port.)

Teatro Circo
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T. 253262403
Hiroshima, Meu Amor M12. Sala 1 - 21h30
ZON Lusomundo Braga Parque
R. dos Congregados, S. Victor. T. 16996
O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6.
14h10 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter
Mitty M12. 16h30, 19h10, 22h, 00h45;
7 Pecados Rurais M16. 14h, 16h20, 19h,
22h10, 00h40; 12 Anos Escravo 13h40,
17h, 21h, 00h05; 47 Ronin - A Grande
Batalha Samurai M12. 13h10, 15h50, 18h50,
21h40, 00h35; O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. 13h20, 17h10, 20h50, 00h20;
Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h30, 16h10,
18h40 (V.Port.); Homefront - A Última
Defesa M12. 21h50, 00h15; Os Jogos da
Fome: Em Chamas M12. 21h10, 00h25; A
Revolta dos Perus M6. 13h35, 16h, 18h30
(V.Port.); Chovem Almôndegas 2 M6. 13h25,
15h40 (V.Port.); Horas M12. 13h15, 15h45,
18h10, 21h30, 24h; Grudge Match - Ajuste de
Contas M12. 18h20, 21h20, 00h30

Coimbra
Teatro Académico de Gil Vicente
Univ. de Coimbra, Av. Sá da Bandeira.
T. 239855630
Hiroshima, Meu Amor M12. Sala 1 - 21h30
ZON Lusomundo Dolce Vita Coimbra
C. C. Dolce Vita, R. General Humberto
Delgado, 207. T. 16996
O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
13h50, 17h30, 21h, 00h20; 47 Ronin - A
Grande Batalha Samurai M12. 13h30, 16h10,
18h50, 21h40, 00h25; Frozen: O Reino do
Gelo M6. 14h, 16h30, 19h15 (V.Port.); Os
Jogos da Fome: Em Chamas M12. 22h20;
A Vida Secreta de Walter Mitty M12.
13h45, 16h25, 19h05, 21h50, 00h40;
12 Anos Escravo 14h30, 17h50, 21h30,
00h30; Mandela: Longo Caminho Para
a Liberdade M12. 17h10, 20h50, 23h50; O
Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6.
14h40 (V.Port.); Khumba M6. 13h40, 16h20,
18h30 (V.Port.); Tal Pai, Tal Filho M12. 21h15,
00h05; Horas M12. 14h20, 16h40, 19h, 21h20,
24h; 7 Pecados Rurais M16. 14h25, 17h,
19h30, 22h, 00h10; A Propósito de Llewyn
Davis M12. 21h45, 00h35; A Revolta dos
Perus M6. 14h10, 16h50, 19h10 (V.Port.)
ZON Lusomundo Fórum Coimbra
Fórum Coimbra.
T. 16996
Chovem Almôndegas 2 M6. 14h, 16h20
(V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12.
18h40, 21h20, 24h; 7 Pecados Rurais M16.
14h35, 16h50, 19h, 21h40, 00h10; Grudge
Match - Ajuste de Contas M12. 13h50,
16h30, 19h05, 21h45, 00h35; O Hobbit: A
Desolação de Smaug M12. 14h10, 17h40,
21h10, 00h30 (3D); 47 Ronin - A Grande
Batalha Samurai M12. 13h40, 16h25, 19h10,
21h50, 00h40; Frozen: O Reino do Gelo M6.
13h30, 16h, 18h30 (V.Port.); Os Jogos da
Fome: Em Chamas M12. 21h, 00h05

Covilhã
Cineplace - Serra Shopping
Avenida Europa, Lt 7 - Loja A102.
Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 1 - 14h30,
16h40 (3D); O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. Sala 1 - 18h50, 22h (3D); O
Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6.
Sala 2 - 13h10, 15h (3D); 47 Ronin - A Grande
Batalha Samurai M12. Sala 2 - 16h50, 19h20,
21h50 (3D); 12 Anos Escravo Sala 3 - 13h,
15h45, 18h30, 21h15; Chovem Almôndegas
2 M6. Sala 4 - 13h10, 15h20, 17h30; A Vida
Secreta de Walter Mitty M12. Sala 4 - 19h40,
22h10

12 Anos Escravo
De Steve McQueen. Com
Chiwetel Ejiofor, Michael K.
Williams, Michael Fassbender.
EUA/GB. 2013. 134m.
Drama. M16.
EUA, 1841. Solomon Northup,
um negro livre, vive em Nova
Iorque com a família. Um dia,
é raptado e feito escravo. Passa
a ser tratado por Platt, nome
que lhe dão para esconder a sua
condição de homem livre, e é
violentamente forçado a omitir
a sua identidade. É comprado
pelo dono de uma plantação no
Louisiana, onde passará 12 anos
até ser finalmente libertado.
A Última Paixão do Sr. Morgan
De Sandra Nettelbeck.
Com Clémence Poésy,
Gillian Anderson, Michael
Caine. EUA/BEL/ALE/
FRA. 2013. 116m. Comédia
Dramática. M12.
Matthew Morgan é um norteamericano em Paris. Viúvo, o
ex-professor de Filosofia mede

A Última Paixão
do Sr. Morgan

os dias pela ausência do grande
amor da sua vida. Mas tudo
começa a mudar no dia em
que conhece a jovem Pauline
Laubie. Matthew vai desenvolver
com ela uma relação especial,
de ternura e partilha, que vai
levá-lo a abraçar um recomeço.
Afinal, como costuma dizer, “há
uma fenda em tudo e é ela que
permite a entrada de luz“.
Grudge Match Ajuste de Contas
De Peter Segal. Com Robert
De Niro, Sylvester Stallone,
Kim Basinger, Alan Arkin. EUA.
2013. 113m. Comédia. M12.
Henry “Razor“ Sharp e Billy
“The Kid“ McDonnen, dois
“boxeurs“ de Pittsburgh, ficaram
na história do pugilismo pela sua
rivalidade lendária. Passados 30
anos, ambos se conformaram
à vida de reformados. Mas, um
dia, recebem uma proposta
inesperada: encontrarem-se para
um derradeiro duelo. O apelo
do ringue revela-se demasiado

forte e eles acabam por aceitar o
desafio. Agora, só têm de se pôr
em forma...
Horas
De Eric Heisserer.
Com Genesis Rodriguez, Paul
Walker, Nick Gomez.
EUA. 2013. 97m. Drama,
Thriller. M12.
Nova Orleães, 2005. Uma mulher
grávida dá entrada no hospital
para um parto prematuro.
Nolan, seu companheiro e
pai da criança, recebe uma
notícia devastadora: a mulher
não resistiu. Contudo, a filha
sobreviveu, embora esteja
dependente da incubadora
neonatal. No meio desta
tempestade de emoções, o
furacão Katrina chega à cidade.
Todos abandonam o hospital,
que não tarda a ficar isolado
pela subida das águas. Nolan
está sozinho com a filha e não
vislumbra socorro. E, quando a
energia falha, a vida da bebé fica
em perigo...
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | 35
Sessão reúne entrevistadores de Távora
O segundo encontro do ciclo Fernando Távora:
Histórias de vida(s) reúne esta tarde, pelas 18h30,
nas instalações da Fundação Instituto Arquitecto
José Marques da Silva (palacete Lopes Martins, na
Praça Marquês de Pombal), seis intervenientes que
têm em comum o facto de terem entrevistado, em
diferentes ocasiões, o arquitecto homenageado:

Figueira da Foz

Matosinhos

ZON Lusomundo Foz Plaza
C. C. Foz Plaza, R. Condados. T. 16996
7 Pecados Rurais M16. 21h30; A Revolta dos
Perus M6. 15h10, 17h50 (V.Port.); 47 Ronin
- A Grande Batalha Samurai M12. 15h40,
18h30, 21h20; Frozen: O Reino do Gelo M6.
15h30, 18h (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em
Chamas M12. 21h; 12 Anos Escravo 15h20,
18h10, 21h10; O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. 15h, 20h50; A Vida Secreta de
Walter Mitty M12. 18h20

ZON Lusomundo Marshopping
IKEA Matosinhos, Av. Óscar Lopes. T. 16996
47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12.
13h, 15h50, 18h40, 21h30, 00h20; Frozen:
O Reino do Gelo M6. 13h10, 16h, 18h20
(V.Port.); Homefront - A Última Defesa M12.
21h10, 23h30; Horas M12. 12h30, 15h,
17h20, 19h40, 22h10, 00h30; 12 Anos
Escravo 12h50, 15h40, 18h30, 21h20, 00h10;
A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 13h20,
16h20, 19h, 21h50, 00h25; 7 Pecados
Rurais M16. 22h20; O Hobbit: A Desolação
de Smaug M12. 13h40, 17h, 20h40, 00h05; A
Revolta dos Perus M6. 10h40, 12h40, 15h20,
17h30, 19h50 (V.Port.)
ZON Lusomundo NorteShopping
NorteShopping, R. Sara Afonso. T. 16996
Mandela: Longo Caminho Para a
Liberdade M12. 20h50, 23h50; Tal
Pai, Tal Filho M12. 14h, 17h10; 12 Anos
Escravo 13h50, 17h20, 21h10, 00h15; O
Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h20,
17h (2D), 21h, 00h30 (3D); A Vida Secreta
de Walter Mitty M12. 13h, 15h40, 18h30,
21h40, 00h25; Chovem Almôndegas 2 M6.
13h30, 15h50, 18h15 (V.Port.); Grudge Match
- Ajuste de Contas M12. 21h25, 00h10; Os
Jogos da Fome: Em Chamas M12. 17h50,
21h20, 00h35; A Revolta dos Perus M6.
13h10, 15h20 (V.Port.); 7 Pecados Rurais M16.
21h50, 00h05; Frozen: O Reino do Gelo M6.
13h40, 16h10, 18h40 (V.Port.); 47 Ronin - A
Grande Batalha Samurai M12. 12h50, 15h30,
18h20 (2D), 21h30, 00h20 (3D)

Guarda
Vivacine - Guarda
C.C. Vivaci, Av. dos Bombeiros Voluntários
Egitanienses, nº 5. T. 271212140
Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala
1 - 15h50, 18h30 (V.Port.); Os Jogos da
Fome: Em Chamas M12. Sala 1 - 21h10;
Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 2 15h40, 18h (V.Port.); A Vida Secreta de
Walter Mitty M12. Sala 2 - 21h20; 12 Anos
Escravo Sala 3 - 15h20, 18h10, 21h; O Hobbit:
A Desolação de Smaug M12. Sala 4 - 15h10,
18h20, 21h30

Guimarães
Castello Lopes - Espaço Guimarães
Espaço Guimarães - Loja 154, R. 25 de Abril,
1 - Silvares. T. 760789789
12 Anos Escravo Sala 1 - 13h, 15h50, 18h40,
21h30; 7 Pecados Rurais M16. Sala 2 - 17h10,
19h10, 21h20; O Tempo dos Dinossauros: O
Filme 3D M6. Sala 2 - 13h10, 15h10 (V.Port.);
47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12.
Sala 3 - 13h30, 16h10, 18h50, 21h50; O
Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala
4 - 15h20, 18h30, 21h40; A Revolta dos
Perus M6. Sala 5 - 13h20 (V.Port.); A Vida
Secreta de Walter Mitty M12. Sala 5 - 16h,
18h20, 21h10
Castello Lopes - Guimarães Shopping
Lugar das Lameiras T. 760789789
Desafio do Ano M12. Sala 1 - 15h30,
18h10, 21h; 47 Ronin - A Grande Batalha
Samurai M12. Sala 2 - 18h20 (3D), 15h50,
21h40 (2D); O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. Sala 3 - 21h10 (3D); Chovem
Almôndegas 2 M6. Sala 3 - 19h10
(V.Port./3D), 15h10, 17h10 (V.Port./2D);
Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 4 - 15h,
17h15, 19h30, 21h50 (V.Port.); Os Jogos da
Fome: Em Chamas M12. Sala 5 - 15h40,
18h30, 21h20; Grudge Match - Ajuste de
Contas M12. Sala 6 - 16h, 18h40, 21h30

Maia
Vivacine - Maia
Centro Comercial Vivaci, Estrada Real nº 95 Moreia. T. 229471518
12 Anos Escravo Sala 1 - 15h10, 18h10, 21h;
Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. Sala 2 21h; A Revolta dos Perus M6. Sala 2 - 16h20,
18h50 (V.Port.); Frozen: O Reino do Gelo M6.
Sala 3 - 16h10, 18h40 (V.Port.); O Hobbit: A
Desolação de Smaug M12. Sala 3 - 20h50; 7
Pecados Rurais M16. Sala 4 - 21h30; Chovem
Almôndegas 2 M6. Sala 4 - 16h05, 18h35
(V.Port.)
ZON Lusomundo MaiaShopping
MaiaShopping, Lugar de Ardegaes. T. 16996
Frozen: O Reino do Gelo M6. 15h40,
18h20 (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. 20h50; 12 Anos Escravo 15h50,
21h20; 7 Pecados Rurais M16. 15h20, 18h30,
21h30; A Revolta dos Perus M6. 16h30,
19h (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha
Samurai M12. 21h40; Chovem Almôndegas
2 M6. 16h, 18h40 (V.Port.); A Vida Secreta de
Walter Mitty M12. 21h20

Paços de Ferreira
ZON Lusomundo Ferrara Plaza
Ferrara Plaza. T. 16996
O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
20h50; Chovem Almôndegas 2 M6. 15h40,
18h30 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter
Mitty M12. 21h50; Frozen: O Reino do
Gelo M6. 15h10, 17h50 (V.Port.); 12 Anos
Escravo 15h20, 18h10, 21h10; 7 Pecados
Rurais M16. 15h50, 18h40, 21h40; 47 Ronin
- A Grande Batalha Samurai M12. 15h30,
18h20, 21h30

Penafiel
Cinemax - Penafiel
Ed. Parque do Sameiro. T. 255214900
A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 1 15h30, 21h45; Chovem Almôndegas 2 M6.
Sala 2 - 15h30, 23h50 (V.Port.); O Tempo dos
Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 2 - 17h30
(V.Port./3D), 21h50 (V.Port./2D); O Hobbit:
A Desolação de Smaug M12. Sala 3 - 15h30,
21h35; A Revolta dos Perus M6. Sala 3 18h20

16h40, 19h30, 22h, 00h40; O Tempo dos
Dinossauros: O Filme 3D M6. 14h30 (V.Port.);
A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 15h20,
18h, 20h40, 23h30; Mandela: Longo
Caminho Para a Liberdade M12. 20h50,
23h50; Chovem Almôndegas 2 M6. 13h50,
16h10, 18h30 (V.Port.)

São João da Madeira
Cineplace - São João da Madeira
São João da Madeira.
12 Anos Escravo Sala 1 - 13h, 15h45, 18h30,
21h10; 7 Pecados Rurais M16. Sala 2 - 18h50,
21h; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 2
- 14h30, 16h40; A Revolta dos Perus M6.
Sala 3 - 16h50; 47 Ronin - A Grande Batalha
Samurai M12. Sala 3 - 14h20, 19h, 21h30 (3D);
Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 4 - 13h50,
16h; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
Sala 4 - 18h10, 21h20 (2D); O Tempo dos
Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 5 - 12h50,
14h40, 16h30 (2D); A Vida Secreta de Walter
Mitty M12. Sala 5 - 18h20, 20h50

Viana do Castelo
Cineplace - Estação Viana
Avenida Conde Carreira 7 Pecados Rurais M16. Sala 1 - 19h50,
22h; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala
1 - 13h, 15h10 (V.Port.); A Vida Secreta de
Walter Mitty M12. Sala 1 - 17h20; 12 Anos
Escravo Sala 2 - 13h, 15h50, 18h40, 21h30;
O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6.
Sala 3 - 13h10, 15h (V.Port.); 47 Ronin - A
Grande Batalha Samurai M12. Sala 3 - 16h50,
19h20, 21h50 (3D); Frozen: O Reino do
Gelo M6. Sala 4 - 13h50, 16h (V.Port./3D); O
Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 4 18h10, 21h20 (3D)

Vila Nova de Gaia
UCI Arrábida
Arrábida Shopping. T. 707232221
A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala
1 - 21h50, 00h25; Grudge Match - Ajuste
de Contas M12. Sala 1 - 13h50, 16h25,
19h; Gravidade M12. Sala 2 - 00h20 (3D);
Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 2 - 21h45
(V.Port./3D); O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. Sala 2 - 13h50 (2D), 14h15
(3D), 17h30 (2D), 17h50 (3D), 21h20 (2D),
21h30 (3D), 00h40 (2D), 00h50 (3D); A
Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 2 14h, 16h35, 19h10; A Última Paixão do Sr.
Morgan M12. Sala 3 - 13h55, 16h30, 19h05,

Cristina Antunes, Bernardo Pinto de Almeida,
João Leal, Jorge Figueira, Manuel Graça Dias
e Valdemar Cruz. A sessão, que se insere num
programa da Faculdade de Arquitectura dedicado
a Fernando Távora, tem entrada livre, mas o espaço
é pequeno e convém reservar lugar através do
telefone 22 5518557.

21h40, 00h15; Mandela: Longo Caminho
Para a Liberdade M12. Sala 4 - 14h30, 17h50,
21h15, 00h20; O Passado M12. Sala 4 - 13h45,
16h25, 19h05, 21h55, 00h40; A Propósito
de Llewyn Davis M12. Sala 6 - 18h30,
21h25, 00h10; Khumba M6. Sala 6 - 14h05
(V.Port./2D), 16h15 (V.Port./3D); A Vida de
Adèle: Capítulos 1 e 2 M16. Sala 7 - 18h20;
Temporário 12 M16. Sala 7 - 13h50, 16h05,
22h, 00h20; Pai Por Acaso M12. Sala 8 - 14h,
16h30, 19h, 21h30, 00h05; Horas M12. Sala
9 - 14h05, 16h35, 19h05, 21h50, 00h25; Os
Jogos da Fome: Em Chamas M12. Sala 10
- 14h05, 17h50, 21h20, 00h20; Last Vegas Despedida de Arromba M12. Sala 11 - 21h15,
24h; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 11 14h20, 16h45 (V.Port/2D), 19h10 (V.Port./3D);
47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12.
Sala 12 - 13h55, 00h35 (3D), 16h30, 19h15,
21h55 (2D); 7 Pecados Rurais M16. Sala
13 - 14h15, 16h40, 19h20, 21h50, 00h30;
Malavita M12. Sala 14 - 18h45; Homefront - A
Última Defesa M12. Sala 14 - 21h25, 00h10;
A Revolta dos Perus M6. Sala 14 - 14h10,
16h35 (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. Sala 15 - 13h50, 21h10 (2D),
17h30, 00h30 (3D); Frozen: O Reino do
Gelo M6. Sala 16 - 13h55, 16h35 (V.Port./2D),
19h05 (V.Port./3D); Grudge Match - Ajuste
de Contas M12. Sala 16 - 21h40, 00h15;
China - Um Toque de Pecado M16. Sala
17 - 18h45; Tal Pai, Tal Filho M12. Sala 17 16h10, 21h35, 00h15; Niko e o Pequeno
Traquinas M6. Sala 17 - 14h10 (V.Port.);
Casablanca M12. Sala 18 - 21h20, 24h; O
Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6.
Sala 18 - 14h30, 19h15 (V.Port./2D), 16h50
(V.Port./3D); Capitão Phillips M12. Sala 19 18h55; O Conselheiro M16. Sala 19 - 13h45,
16h20, 21h50, 00h25; 12 Anos Escravo Sala
20 - 13h40, 16h25, 19h15, 22h05, 00h50
ZON Lusomundo GaiaShopping
Av. Descobrimentos, 549. T. 16996
Os Jogos da Fome: Em Chamas M12.
17h50, 20h; O Tempo dos Dinossauros:
O Filme 3D M6. 15h10 (V.Port.); Pai Por
Acaso M12. 21h50; Chovem Almôndegas
2 M6. 15h15, 17h35, 19h55 (V.Port.); 12 Anos
Escravo 15h20, 18h15, 21h10; Frozen: O
Reino do Gelo M6. 15h45, 18h30, 21h05
(V.Port.); O Hobbit: A Desolação de
Smaug M12. 16h30, 20h45; Horas M12.
15h, 17h05, 19h30, 21h45; A Revolta dos
Perus M6. 15h, 17h20, 19h40 (V.Port.); A
Vida Secreta de Walter Mitty M12. 21h55; 47
Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 16h,
18h45, 21h30; 7 Pecados Rurais M16. 15h05,
17h30, 19h50, 22h05

AS ESTRELAS
DO PÚBLICO

Jorge
Mourinha

Luís M.
Oliveira

Vasco
Câmara

12 Anos Escravo

mmmmm

mmmmm

mmmmm

A Propósito de Llewyn Davis

mmmmm

mmmmm

mmmmm

Rio Tinto
ZON Lusomundo Parque Nascente
Praceta Parque Nascente, nº 35. T. 16996
O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
13h45, 17h10, 20h35, 24h; 7 Pecados
Rurais M16. 15h10, 17h30, 19h50, 22h10,
00h35 ; Frozen: O Reino do Gelo M6.
13h10, 15h40, 18h20, 21h, 23h40 (V.Port.);
47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12.
13h, 15h50, 18h50, 21h40, 00h30; 12 Anos
Escravo 12h45, 15h30, 18h35, 21h30,
00h25; Horas M12. 14h10, 16h30, 19h10,
21h50, 00h15; Grudge Match - Ajuste de
Contas M12. 13h40, 16h20, 19h, 21h45,
00h20; Pai Por Acaso M12. 21h10, 23h45;
A Revolta dos Perus M6. 14h, 16h15,
18h45 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em
Chamas M12. 12h50, 16h, 19h15, 22h30;
Homefront - A Última Defesa M12.

A Espuma dos Dias

mmmmm

–

–

Hiroxima Meu Amor

mmmmm

mmmmm

mmmmm

Old Boy - Velho Amigo

mmmmm

mmmmm

mmmmm

O Passado

mmmmm

–

mmmmm

Tal Pai Tal Filho

–

mmmmm

mmmmm

Temporário 12

mmmmm

mmmmm

–

A Vida de Adèle, Capítulos 1 e 2

mmmmm

mmmmm

mmmmm

A Vida Secreta de Walter Mitty

mmmmm

mmmmm

–

a Mau mmmmm Medíocre mmmmm Razoável mmmmm Bom mmmmm Muito Bom mmmmm Excelente

Vila Real
ZON Lusomundo Dolce Vita Douro
C. C. Dolce Vita Douro, Lj. 244 Alameda Grasse. T. 16996
12 Anos Escravo 12h40, 15h30, 18h30,
21h30; 7 Pecados Rurais M16. 13h10, 15h20,
17h50, 21h50; Grudge Match - Ajuste de
Contas M12. 13h40, 16h20, 19h, 21h40;
O Hobbit: A Desolação de Smaug M12.
13h20, 17h, 20h40; 47 Ronin - A Grande
Batalha Samurai M12. 13h, 15h50, 18h40,
21h20; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h30,
16h, 18h40 (V.Port.); Os Jogos da Fome:
Em Chamas M12. 21h10; A Revolta dos
Perus M6. 12h50, 15h, 17h30 (V.Port.); A Vida
Secreta de Walter Mitty M12. 21h, 23h30

Viseu
ZON Lusomundo Fórum Viseu
Fórum Viseu. T. 16996
Mandela: Longo Caminho Para
a Liberdade M12. 21h10; Chovem
Almôndegas 2 M6. 13h50, 16h10, 18h30
(V.Port.); A Vida Secreta de Walter
Mitty M12. 14h20, 17h, 21h20; O Hobbit: A
Desolação de Smaug M12. 14h10, 17h35, 21h;
47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12.
14h30, 17h20, 21h30; Pai Por Acaso M12.
21h40; A Revolta dos Perus M6. 13h40,
15h50, 18h (V.Port.); 7 Pecados Rurais M16.
21h50; Frozen: O Reino do Gelo M6. 14h,
16h30, 19h (V.Port.)
ZON Lusomundo Palácio do Gelo
Palácio do Gelo, Est. Nelas, Qt. Alagoa.
T. 16996
12 Anos Escravo 14h20, 17h20, 21h; Grudge
Match - Ajuste de Contas M12. 13h45,
16h25, 19h05, 21h50; 47 Ronin - A Grande
Batalha Samurai M12. 14h30, 17h30, 21h20;
A Revolta dos Perus M6. 14h10, 16h35,
19h (V.Port.); A Vida Secreta de Walter
Mitty M12. 21h30; 7 Pecados Rurais M16. 14h,
16h15, 18h30, 21h40; Frozen: O Reino do
Gelo M6. 13h30, 16h05, 18h40 (V.Port.); Os
Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h10

ARTE
Porto
Galeria Presença
R. Miguel Bombarda, 570.
T. 224005050
O Outro Nome das Coisas De Catarina
Botelho. De 2/11 a 11/1. 2ª a 6ª das 10h às
12h30 e das 15h às 19h30. Sáb das 15h às
19h30. Fotografia.
Museu de Serralves
Rua Dom João de Castro, 210.
T. 226156500
Artistas Brasileiros e Poesia Concreta De
vários autores. De 15/11 a 4/3. 2ª a Sáb das
10h às 18h. Obra Gráfica. Na biblioteca do
museu.
Museu Nacional da Imprensa
Estrada Nacional 108, 206. T. 225304966
25A/40ª De vários autores. De 28/4
a 31/5. Todos os dias das 15h às 20h.
Obra Gráfica. Manoel de Oliveira - 105
Revistas De 11/12 a 10/3. Todos os dias
das 15h às 20h. Documental. Memórias
Vivas da Imprensa A partir de 1/1. Todos
os dias das 15h às 20h. Documental.
Exposição permanente. Sala Rodrigo
Álvares. Miniaturas Tipográficas A partir de
15/11. 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, Sáb, Dom e feriados
das 15h às 20h. Objectos. Exposição
permanente. PortoCartoon: O Riso do
Mundo A partir de 1/1. Todos os dias das 15h
às 20h. Cartoon. Exposição permanente.
Galeria da Caricatura.
36 | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

SAIR
Anadia
Aliança Underground Museum
R. do Comércio, 444 - Aliança Vinhos de
Portugal S.A. T. 234732045
Aliança Underground Museum A partir
de 24/4. 2ª a Sáb (visitas às 10h30, 11h30,
14h30, 15h30 e 16h30). Arqueologia,
Azulejo, Cerâmica, Outros.

Barcelos
Galeria Municipal de Arte de Barcelos
Praceta Doutor Francisco Sá Carneiro.
T. 253809600
X Bienal de Pintura do Eixo Atlântico De
Jorge Alexandre Carvalho Marques, Eugenia
Cuéllar Barbeito, Juliana Ribeiro, Raúl
Álvarez Jiménez, entre outros. De 18/12 a
26/1. 2ª a 6ª das 09h às 12h30 e das 14h às
18h. Sáb das 10h às 12h30 e das 14h às 18h.
Pintura.
Museu de Olaria
Rua Cónego Joaquim Gaiolas. T. 253824741
O Real e o Imaginário: Memória e
Identidade no Figurado de Barcelos De
19/11 a 29/6. 2ª a 6ª das 10h às 18h. Sáb, Dom
e feriados das 10h às 12h30 e das 14h às 18h.
Documental, Objectos.

Braga
Estação de Caminhos de Ferro de Braga
Largo da Estação. T. 253273665
PortoCartoon: O Riso do Mundo A partir
de 6/10. Todos os dias. Cartoon. Exposição
permanente.
Galeria Mário Sequeira - Parada de Tibães
Quinta da Igreja T. 253602550
Nuvem para Meia Altura De José Bechara.
De 23/11 a 23/1. 2ª a 6ª das 10h às 13h e das
15h às 19h. Instalação. O Corte De Isaque
Pinheiro. De 12/10 a 12/1. 2ª a 6ª das 10h às
13h e das 15h às 19h. Fotografia, Escultura.

Caramulo
Museu do Caramulo
Rua Jean Lurçat, 42. T. 232861270
Estradas de Portugal - Um outro Olhar De
23/11 a 2/2. Todos os dias das 10h às 13h e
das 14h às 17h. Fotografias. Rush De João
Louro. De 6/9 a 26/1. Todos os dias das 10h às
13h e das 14h às 18h (Verão), das 10h às 13h e
das 14h às 17h (Inverno). Outros.

Coimbra
Casa Municipal da Cultura de Coimbra
R. Pedro Monteiro T. 239702630
Máquinas Fotográficas A partir de 3/2. 2ª a
6ª das 09h às 19h30. Sáb das 13h30 às 19h.
Documental, Objectos. Permanente.
Galeria Pinho Dinis - Casa Municipal da
Cultura
R. Pedro Monteiro. T. 239702630
Nasceu, tem mais encanto! De Delfim
Manuel. De 30/11 a 6/1. 2ª a 6ª das 09h às
19h30. Sáb das 11h às 13h e das 14h às 19h.
Objectos.
Galeria Sete
Av. Dr. Elísio de Moura 53. T. 239702929
Arte de Bolso De vários autores. De 7/12 a
18/1. 2ª a Sáb das 15h às 20h. Pintura, Outros.
Museu da Física
Largo Marquês de Pombal T. 239410602
O Engenho e a Arte A partir de 2/12.
2ª a 6ª das 09h30 às 17h30. Exposição
permanente.

Cinema
Ver Hiroxima, Meu Amor
no centenário de Duras
Hiroxima, Meu Amor,
de Alain Resnais. Porto.
Teatro do Campo Alegre.
Às 18h30 e 22h.
Hiroxima, Meu Amor
(1959), a primeira longametragem de ficção de
Alain Renais e um dos
filmes que lançou a
Nouvelle Vague, mostra
uma intensa conversa
entre dois amantes, uma
actriz francesa e um
homem japonês, que
estão a separar-se após
uma breve ligação. O
cenário é Hiroxima, a
mulher é interpretada por
Emmanuelle Riva – que
regressou recentemente
ao cinema com um notável
papel em Amor, de Michael
Haneke –, o homem é o
actor japonês Eiji Okada.
Não sabemos os nomes
das personagens, sempre
referidas como “ele” e “ela”.
Sabemos que ela teve como
amante um soldado alemão
e que, depois da guerra,
a puniram por isso,
cortando-lhe o cabelo.
E vemos as imagens das
mulheres de Hiroxima
que perderam o cabelo
por causa das radiações.
O argumento do filme
é de Marguerite Duras
(1914-1996), de quem se
comemora este ano o
centenário do nascimento.
Também por isso, é uma
coincidência feliz que o
filme seja hoje exibido em
três cidades portuguesas:
Braga, Porto e Coimbra,
respectivamente
no Theatro Circo (21h30),
no Teatro do Campo Alegre
(18h30 e 22h) – onde já
passou ontem e se manterá
até quarta-feira – e no
Teatro Académico de Gil
Vicente.

Portugal dos Pequenitos
Rossio de Santa Clara. T. 239801170
+ de 300 Barbies A partir de 11/7. Todos
os dias das 09h às 20h (de 1/6 a 15/9), das
10h às 19h (de 1/3 a 31/3 e 16/9 a 15/10), das
10h às 17h (de 1/1 a 28,29/2 e 16/10 a 31/12.
Encerra 25 de Dezembro). Objectos.

Figueira da Foz
Centro de Artes e Espectáculos
R. Abade Pedro. T. 233407200
Intemporalidades De Mimi Veríssimo,
Armando Pedro, Ramiro Calouro. De 4/1
a 30/1. 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, Sáb, Dom e feriados
das 10h às 19h. 6ª das 10h às 00h.
Pintura. Interior De Cristina Troufa. De 14/12
a 16/2. 2ª a 5ª das 10h às 19h. 6ª das 10h às
00h. Sáb, Dom e feriados das 10h às 19h.
Pintura, Instalação.

Guimarães
Centro Internacional das Artes José de
Guimarães
Avenida Conde Margaride T. 300400444
Flor na Pele De Sara Franqueira, Carlos
Lobo, Filipe Silva. De 13/12 a 2/2. Todos
os dias das 10h às 19h (última entrada às
18h30). Fotografia, Outros.

Maia
Aeroporto Francisco Sá Carneiro
Pedras Rubras. T. 229432400
Viagens com Humor A partir de 3/4. Todos
os dias (aberto 24h). Desenho, Pintura,
Cartoon. No âmbito do Dia Mundial dos
Museus de Cartoon. Na zona de Chegadas.

Matosinhos
Galeria Municipal de Matosinhos
Av. D. Afonso Henriques. T. 229389274
Por Dentro Por Fora De Vítor Ribeiro, Rui
Matos. De 30/11 a 25/1. 2ª a 6ª das 09h às
12h30 e das 14h às 17h30. Sáb e feriados das
15h às 18h. Escultura.

Vila Nova de Famalicão
Fundação Cupertino de Miranda
Praça Dona Maria II. T. 252301650
Ainda Julio De 2/10 a 28/2. 2ª a 6ª das 10h
às 12h30 e das 14h às 18h. Sáb e feriados das
14h às 18h. Pintura.

Vila Real
Museu de Arqueologia e Numismática de
Vila Real
Rua do Rossio. T. 259320340
Arqueologia A partir de 24/9. Todos
os dias das 10h às 12h e das 14h às
19h. Objectos, Outros. Exposição
Permanente. Numismática A partir de 27/5.
Todos os dias das 10h às 12h e das 14h às 19h.
Numismática. Exposição Permanente.

FESTIVAIS
Bragança
Teatro Municipal de Bragança
Praça Prof. Cavaleiro Ferreira. T. 273302744
FAN - Festival de Ano Novo 2014 De 4/1 a
25/1. Todos os dias.

FARMÁCIAS Por questões de ordem técnica não nos é possível fornecer os dados das farmácias. Logo que possível retomaremos a divulgação deste conteúdo
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | 37

FICAR

,
Rabbids: Invasão,
30
Nickelodeon, 9h30

Os mais vistos da TV
Sábado, 4
% Aud. Share

Jornal das 8

TVI

13,6

27,7

Belmonte
Destinos Cruzados

TVI
TVI

13,5
12,4

27,5
27,0

Jornal da Noite

SIC 12,3
TVI 10,6

25,2
24,5

Especial Secret Story 4
FONTE: CAEM

RTP1
2:
SIC
TVI
Cabo

16,1%
%
2,1
17,9
21,5
29,0

lazer@publico.pt

CINEMA
Freelancers [Freelancers]
TVC1, 18h
Malo é um jovem com um passado
ligado à criminalidade que
decide mudar de vida e seguir os
passos do progenitor ao serviço
da polícia de Nova Iorque. Aí,
vai cruzar-se com Vito Sarcone,
um agente que foi, em tempos,
companheiro do seu pai, morto
15 anos antes no cumprimento do
dever. Quando Sarcone percebe
quem ele é, decide acolhê-lo
e juntá-lo ao seu leal grupo de
polícias corruptos. E é nesta
miríade de corrupção e violência
que o jovem vai querer descobrir
a verdade por detrás da morte do
pai...
Comboio Nocturno para Lisboa
[Night Train to Lisbon]
TVC2, 22h
Uma mulher prepara-se para se
atirar de uma ponte em Berna,
Suíça. Raimund Gregorius,
um professor de latim, grego e
hebraico, convence-a a não o
fazer. Subitamente, a mulher
desaparece, deixando o casaco
atrás de si. No bolso do casaco
ele encontra um livro de um
autor português e um bilhete de
comboio para Lisboa com data
desse mesmo dia. E é então que
aquele professor antiquado,
habituado a uma vida regrada
e monótona, toma uma decisão
inusitada: mete-se no comboio e
viaja para Lisboa, a cidade onde
terão lugar todas as revelações.
Realizado por Bille August.
RomaSanta – A Caça ao
Lobisomem [Romasanta, la
Caza de la Bestia]
MOV, 2h05
Galiza, 1850. Os bosques estão
infestados de lobos. As pessoas
desaparecem misteriosamente e
os seus cadáveres são encontrados
brutalmente mutilados. Os boatos
e as histórias sobre um lobisomem
correm entre os aldeões. Josefa e
Bárbara vivem no meio do bosque
e só se sentem seguras com a
chegada de Manuel Romasanta,
amante de Josefa e por quem
Bárbara está secretamente
apaixonada. Depois de Josefa
partir para a cidade, Bárbara e
Manuel envolvem-se. Mas Bárbara
começa a suspeitar que talvez
Manuel seja o lobisomem de
que todos falam, pois é o único

RTP1

FOX MOVIES

6.30 Bom Dia Portugal 10.00 Praça
da Alegria 12.15 Os Nossos Dias 13.00
Jornal da Tarde 14.15 Depois do Adeus
15.15 Portugal no Coração 18.00
Portugal em Directo 19.00 O Preço
Certo 20.00 Telejornal 21.00 Bemvindos a Beirais 22.00 Quem Quer Ser
Milionário 23.00 5 Para a Meia-Noite
00.15 Diário do Vampiro 1.00 Filme:
Arma Mortífera 2.45 Ler +, Ler Melhor
3.00 Éramos Seis

11.55 A Última Legião 13.34 Van
Helsing 15.42 Circo dos Horrores:
O Assistente do Vampiro 17.27 A
Câmara Encerrada 19.16 A Residência
Espanhola 21.15 Romance Perigoso
23.14 A Última Caminhada 1.13 SuperHomem

RTP2
7.00 Zig Zag 15.00 5 Minutos com
um Cientista 15.05 Dois Homens e
Meio 15.30 National Geographic - Os
Animais Mais Estranhos do Mundo
16.25 Iniciativa 16.30 Sociedade
Civil 18.00 A Fé dos Homens 18.30
Iniciativa 18.35 Ler +, Ler Melhor
18.45 Zig Zag 20.45 Ler +, Ler Melhor
20.55 5 Minutos com um Cientista
21.00 Meu Pai, Humberto Delgado
- Documentário 21.54 A Hora da
Sorte 22.00 24 Horas - Sumário Directo 22.30 Agora (Diários) 22.34
Automobilismo: Rali Dakar 2014 22.40
O Mentalista 23.30 Viver é Fácil 00.00
Voo Directo - A Vida a 900 à Hora
00.55 Agora (Diários) - Repetição 1.10
Euronews

SIC
6.00 SIC Notícias 07.00 Edição da
Manhã 8.45 A Vida nas Cartas - O
Dilema 10.00 Querida Júlia 13.00
Primeiro Jornal 14.30 Rosa Fogo 15.30
Boa Tarde 18.15 Senhora do Destino
19.00 Sangue Bom 20.00 Jornal
da Noite 21.45 Sol de Inverno 22.45
Amor À Vida 00.00 A Guerreira 00.45
Contra-Ataque 1.45 Inesquecível

TVI
6.30 Diário da Manhã 10.15 Você
na TV! 13.00 Jornal da Uma 14.30 A
Outra 16.00 A Tarde é Sua 18.00 Doce
Fugitiva 18.30 I Love It 19.30 Casa
dos Segredos 4 - Desafio Final 20.00
Jornal das 8 21.30 Casa dos Segredos
4 - Desafio Final 22.15 Belmonte 23.15
Destinos Cruzados 00.15 Casa dos
Segredos 4 - Desafio Final 1.45 Filme a
definir 3.30 O Último Beijo

DISNEY

10.10 O Caminho do Poder 12.15
Terminal de Aeroporto 14.20 Uma
Rapariga Cheia de Sonhos 16.05
Inferno Vermelho 17.50 Traidor 19.45
Step Up 2 21.30 O Patriota 00.20
A Esfera 2.35 É Coisa de Rapaz ou
Rapariga?

15.40 Os Substitutos 16.05 Os
Substitutos 16.30 Littlest Pet Shop
16.55 Phineas e Ferb 17.07 Phineas e
Ferb 17.23 Phineas e Ferb 17.35 Boa
Sorte, Charlie! 18.00 Austin  Ally
18.25 O Meu Cão Tem Um Blog 18.55
Shake It Up 19.20 Hannah Montana
19.43 Professor Young 20.05 Jessie
20.30 Violetta 21.25 Shake It Up 21.50
Phineas e Ferb

AXN

DISCOVERY

14.00 A Teoria do Big Bang 15.12
Traição 16.02 Luther 17.09 Crossing
Lines 18.03 Mentes Criminosas 19.43
Investigação Criminal 21.25 Arrow
22.21 Traição 23.15 Inesquecível 00.11
Mentes Criminosas 1.45 A Teoria do
Big Bang

16.10 Negócio Fechado 16.35 Jóias
sobre Rodas 17.30 Top Gear 18.20 O
Segredo das Coisas 18.45 O Segredo
das Coisas 19.15 Desmontando a
Cidade 20.05 A Febre do Ouro 21.00
Pesca Radical 22.00 Monstros do Rio
22.55 O Grande Azul 23.45 Negócio
Fechado 00.10 Negócio Fechado
00.35 Fanáticos por Armas

HOLLYWOOD

homem que não teme atravessar
os bosques.

INFANTIL
Wendell  Vinnie
Nickelodeon, 21h10
1.ª temporada. Com trinta anos,
Vinnie é imaturo, enquanto
o doce Wendell é demasiado
maduro para a sua idade. Isto não
seria um problema se Wendell
não tivesse de ir viver com Vinnie
para Los Angeles (EUA). Com a
ajuda da sua irmã Wilma e da
recém-vizinha Taryn, Vinnie
tentará comportar-se como um
adulto responsável. De segunda a
sexta-feira.

SÉRIES

HISTÓRIA

The Good Wife
FOX Life, 22h
Estreia da 4.ª temporada. Alicia
Florrick ( Julianna Margulies) é
uma esposa e mãe que reclama
o controlo da sua vida pessoal
e profissional depois de o seu
marido, Peter (Chris Noth) se
envolver num escândalo sexual e
de corrupção política.

13.59 Dois Homens e Meio 14.45
Doutora no Alabama 15.30 Filme: Hook
17.50 Hawthorne 18.37 Doutora no
Alabama 19.24 Dois Homens e Meio
20.12 Regras do Jogo 21.00 Era Uma
Vez 21.50 Filme: O Primeiro Cavaleiro
00.05 Era Uma Vez 00.52 Doutora no
Alabama 1.39 Regras do Jogo

17.15 Invenções que Mudaram o
Mundo: Década de 1900 18.05
Alienígenas: Misteriosos Locais 18.50
Pesca Selvagem: O Torneio de Okie
19.40 Alienígenas: Imperadores,
Reis e Faraós 20.25 Caça Tesouros:
O Bucha e o Estica 21.10 O Preço da
História: A Farda Do Coronel Sanders
21.35 Restauradores: Máquina de
Jogos 22.00 A Terra Assassina: O Raio
Acerta Duas Vezes 22.50 Big History:
Telemóvel 23.12 Big History: O Sol
23.35 O Preço da História: A Farda Do
Coronel Sanders 23.57 Restauradores:
Máquina de Jogos 00.20 A Terra
Assassina: O Raio Acerta Duas Vezes
1.05 Big History: Telemóvel

Os Seguidores
FOX, 22h15
Estreia da 1.ª temporada. O que
aconteceria se serial killers tivessem
forma de comunicar uns com os
outros? E se fossem capazes de
trabalhar juntos e formar alianças?
O antigo agente policial Ryan Hardy
(Kevin Bacon) trabalha em conjunto
com uma equipa do FBI de forma
a encontrar Carroll, um insensível
homicida que baseia os seus actos
nos romances de Edgar Allan Poe,
e em risco de criar uma espécie de
culto e rede de seguidores prontos
a responder a todas as suas ordens.

FOX

ODISSEIA

13.46 Os Simpson 14.44 C.S.I. 17.42
Hawai Força Especial 19.07 Casos
Arquivados 20.37 Lei  Ordem:
Intenções Criminosas 22.15 Os
Seguidores 23.57 Spartacus: Sangue e
Arena 1.28 C.S.I.

17.21 Elefantes, o Declínio dos Gigantes
18.23 O Milionário Secreto III: Marcus
Lemonis 19.08 Livros, Jóias de Papel:
Bíblias Antigas 19.38 Livros, Jóias de
Papel: Obras-primas 20.09 Fora de
Controlo 21.00 Desastres Domésticos:
O Salto da Lebre 21.22 Desastres
Domésticos: Terror nas Férias 21.44
1000 Formas de Morrer 22.04 1000
Formas de Morrer 23.25 Desastres
Domésticos: O Salto da Lebre 23.47
Desastres Domésticos: Terror nas
Férias 00.09 1000 Formas de Morrer

AXN BLACK
13.32 Jornalistas 14.31 Filme: Cypher
16.06 Filme: Autocarro 174 17.57 Sem
Escrúpulos 18.53 The Killing: Crónica
de um Assassinato 19.55 Torchwood
20.47 A Rainha das Sombras 21.35
Sangue Fresco 22.31 Filme: Autocarro
174 00.25 Sangue Fresco 1.21 A Rainha
das Sombras

AXN WHITE

TVC1
10.45 007 - Skyfall 13.05 A Promoção
14.30 The Paperboy - Um Rapaz Do Sul
16.15 Criação 18.00 Freelancers 19.35
Pai Infernal 21.30 G.I. Joe: Retaliação
23.20 007 - Skyfall 1.45 A Promoção

18.48 No Meio do Nada 19.31 O Sexo
e a Cidade 20.29 Filme: We Have Your
Husband 22.00 The Good Wife 22.48
No Limite 23.48 Uma Família Muito
Moderna 00.33 O Sexo e a Cidade

FOX LIFE
13.31 Body of Proof 14.15 Filme:
Adopting Terror 15.40 Body of Proof
17.03 Amigos Coloridos 17.23 Foi
Assim Que Aconteceu 18.06 Glee

No Limite
FOX Life, 22h48
Estreia da 1.ª temporada. Esta
é a versão americana da série
britânica. Aqui, Frank Gallagher
(William H. Macy) é um orgulhoso
trabalhador da classe baixa, pai
de seis inteligentes, espirituosos
e independentes jovens que, sem
ele, viveriam bem melhor. Na visão
sempre bêbada de Frank, ser pai
só atrapalha a sua vida de diversão
nos bares, deixando a árdua tarefa
gerir a casa e sustentar a família
para a sua filha mais velha, Fiona
(Emmy Rossum).
40 | DESPORTO | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Carlos Sousa surpreende na estreia
e é o primeiro líder do Dakar
Piloto de Almada sofreu, mas venceu
primeira etapa da prova sul-americana.
Paulo Gonçalves foi o melhor português
nas duas rodas, na quinta posição
Todo-o-terreno
Paulo Curado
As expectativas de Carlos Sousa à
partida para a edição de 2014 do Rali
Dakar eram limitadas e passavam
por terminar entre os dez primeiros
da dura prova sul-americana, mas
o português fez ontem questão de
surpreender toda a concorrência, na
etapa de estreia, assumindo-se como
primeiro líder da classificação geral.
E não foi o único elemento nacional
em prova a brilhar nas quatro rodas:
no segundo lugar, a 11s de distância
do vencedor, terminou o argentino
Orlando Terranova, que tem Paulo
Fiuza como navegador. Nas motos,
Paulo Gonçalves liderou a comitiva
nacional, com um quinto lugar.
A participar no seu 15.º Dakar, o
piloto de Almada, ao serviço da modesta equipa chinesa da Great Wall,
impôs-se nos 180km cronometrados
que abriram a competição, entre Rosario e San Luis, na Argentina. No
último lugar do pódio acabou por
ficar um dos favoritos à vitória final, Nasser Al-Attiyah, a 47 segundos
do português. Pior esteve o francês
Stéphane Peterhansel, que defende
o título — encerrou o dia na sexta
posição, a 4m21s do vencedor.
“Conseguimos um bom resultado,
mas foi muito duro. Não tínhamos
ar condicionado no carro e bloquearam todas as entradas de ventilação. Por altura do quilómetro 50,

CLASSIFICAÇÃO
1.ª ETAPA (ROSARIO-SAN LUIS)
Motos
1. Joan Barreda (Honda)
2. Marc Coma (KTM)
3. Cyril Despres (Yamaha)
(...)
5. Paulo Gonçalves (Honda)
12. Ruben Faria (KTM)
21. Mário Patrão (Suzuki)
22. Ruben Faria (Honda)
49. Pedro Oliveira (SpeedBrain)
50. Victor Oliveira (Husqvarna)
52. P. Bianchi Prata (Husqvarna)
Carros
1. Carlos Sousa (Haval)
2. Orlando Terranova (Mini)
3. Nasser Al-Attiyah (Mini)
(...)
96. Francisco Pita (SMG)

2h25m31s
a 37s
1m40s
2m25s
5m11s
8m24s
8m58s
23m06s
23m17s
24m35s

2h20m36s
a 11s
47s
1h02m28s

avariaram-se as saídas de ar do turbo, de forma que o ar do motor nos
chegava directamente ao habitáculo. Faziam uns 70 graus ali dentro
e tínhamos dificuldades inclusivamente para respirar!”, contou Carlos Sousa no final ao site oficial da
prova: “Creio que pilotei tão depressa porque queria acabar o quanto
antes com o martírio, mas também
porque tinha confiança de que podíamos alcançar o objectivo.”
Nas duas rodas, os portugueses
em prova têm mais ambições, mas
estiveram discretos neste primeiro
dia. Numa etapa ganha pelo espanhol Joan Barreda, Paulo Gonçalves,
actual campeão mundial de todoo-terreno, precisou de mais 2m25s
para encerrar a especial, garantindo
a quinta posição. O espanhol Marc
Coma e o francês Cyril Despres,
que têm dominado esta prova nos
últimos anos e voltam a partir como grandes candidatos ao título de
2014, encerraram o pódio.
“O Dakar ainda está a começar.
Esta primeira etapa foi de pequena dimensão, mas já exigiu elevado
nível de concentração. Acordámos
muito cedo, ainda estou em fase de
adaptação, mas consegui estar muito concentrado e num bom nível ao
longo de todo o dia, não perdendo
muito tempo para os meus principais adversários que partiram nos
lugares da frente”, resumiu o piloto
de Esposende, citado pela sua assessoria de imprensa.
“A partir de amanhã [hoje] começa o verdadeiro Dakar, etapa longa,
difícil, muito rápida e onde vamos
ter as primeiras dunas. Vou continuar ao ataque para me manter na luta
pelos lugares do pódio”, prometeu
o piloto de 34 anos.
Ruben Faria, segundo classificado
na edição de 2013, não teve um arranque brilhante e não foi além do
12.º tempo, perdendo 5m11s para o
vencedor. O terceiro português acabou por ser Mário Patrão, em 21.º,
mas a grande desilusão do dia foi
a prestação de Hélder Rodrigues,
que já conquistou dois terceiros lugares nesta mítica prova. O cabeçade-cartaz da Honda foi 22.º, a 8m58s
de Barreda, seu companheiro de
equipa.

Carlos Sousa enfrentou vários problemas mecânicos durante a etapa
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | DESPORTO | 41
Visitantes
da II Liga
batem Paços
e Marítimo

Pardo e Rafa
mantêm o Sp. Braga
vivo na Taça

FRANCK FIFE/AFP

Uma prova
mais dura em
perspectiva

Crónica
Miguel Barbosa
Ontem começou o Dakar, aquele
que se espera que seja o mais
duro alguma vez disputado na
América do Sul. As especiais
vão ser mais longas, com mais
quilómetros e mais horas a
guiar, o que se traduz em fadiga
acumulada, naquele que será
um dos maiores desafios da
competição.
A primeira etapa começou
logo com uma ligação bastante
longa, de 629km, seguida de uma
especial de 180km. Por norma,
esta etapa foi um aquecimento
para o resto da prova, quando
existe sempre alguma ansiedade
entre os concorrentes. Com um
grau de dificuldade reduzido, este
percurso é parecido com as bajas
portuguesas, com um trajecto
bastante estreito e de muita
pilotagem. É preciso manter a
concentração para não cometer
erros no início, sobretudo no pó,
que é sempre um adversário neste
tipo de especiais.
Uma das grandes novidades
deste ano é o facto de as motas
e quads fazerem quase 40% da
prova por percursos diferentes
dos automóveis e dos camiões.
Na minha opinião, esta dinâmica
retira um pouco do carisma
da prova.
No entanto, em termos de
segurança é uma mais-valia,
já que as ultrapassagens entre
motas/quads e carros/camiões
são sempre dos momentos mais
difíceis e que, com muito pó,
reduzindo a visibilidade, se
tornam ainda mais complicados.
Inúmeros incidentes já
aconteceram e é sempre um
ponto sensível. A organização
terá de duplicar a “vigilância
e segurança”, com as duas
especiais, em vez de uma só.
Piloto de todo-o-terreno

Futebol

Sp. Braga

Não fossem as duas grandes penalidades defendidas pelo guarda-redes
Ricardo e a Académica teria conhecido o mesmo desfecho que o Marítimo
e o Paços de Ferreira nos oitavos-definal da Taça de Portugal. A equipa
de Coimbra impôs-se no terreno do
Beira-Mar (0-1), enquanto as duas
outras equipas da I Liga perderam
em casa com adversários do segundo
escalão profissional.
Em Aveiro, foi o golo de Magique, apontado de cabeça aos 25’
após passe de Djavan, que ditou o
apuramento da Académica para os
quartos-de-final. Isto porque Ricardo
conseguiu segurar a vantagem, nos
dois momentos de maior aflição para os visitantes: aos 63’, a remate de
Luiz Gustavo, e aos 82’, a remate de
André Nogueira. Duas grandes penalidades travadas por um especialista
na matéria.
Destino oposto ao da Académica
teve o Marítimo, que se deixou surpreender na Madeira pelo Penafiel,
num jogo com cinco golos (2-3). Os
forasteiros até marcaram primeiro,
mas na própria baliza, por Fábio Ervões, aos 12’. Aos 25’, escolheram a
baliza correcta para voltarem a facturar (golo de Gabi), repetindo a dose
aos 36’ (Aldair, com um remate de
longe) e aos 56’ (Rafael Lopes).
A perder por 1-3, Pedro Martins
lançou Nuno Rocha e Fidélis e os insulares melhoraram. Aos 67’, Heldon
reduziu, mas o Marítimo já não foi
capaz de levar o jogo para o prolongamento e ficou fora da prova.
O mesmo aconteceu ao Paços de
Ferreira, que no Estádio Capital do
Móvel se viu “traído” por Jaime Poulsen (1-2). O avançado emprestado pelos pacenses ao Desportivo das Aves
apontou os dois golos do 12.º classificado da II Liga, aos 72’ e 83’, depois
de Bebé ter colocado a equipa da
casa em vantagem (43’). Prossegue,
assim, a maré negra de resultados do
Paços de Ferreira nesta temporada,
em que soma quatro vitórias, seis
empates e 16 derrotas.

TAÇA DE PORTUGAL
RESULTADOS
Oitavos-de-final
Leixões-Estoril
Rio Ave-V. Setúbal
FC Porto-Atlético
Benfica-Gil Vicente
P. Ferreira-Desp. Aves
Marítimo-Penafiel
Beira-Mar-Académica
Sp. Braga-Arouca

2

Pardo 5’, Rafa 78’

1-5
1-0
6-0
5-0
1-2
2-3
0-1
2-0

Arouca

0

Estádio Municipal de Braga
Espectadores cerca de 5.000
Sp. Braga Eduardo, Baiano, Santos,
Sasso, Elderson, Custódio, Mauro
(Luiz Carlos, 46’), Rafa a70’
(Salvador Agra, 89’), Alan (Vukcevic,
89’), Pardo a65’ e Rusescu a26’.
Treinador Jesualdo Ferreira
Arouca Cássio, Ivan Balliu a66’,
Nuno Coelho, Diego, Tinoco, Bruno
Amaro a57’, David Simão a79’
(Soares, 83’), Pintassilgo a23’
(Lassad, 67’), André Claro (Ceballos,
56’ a73’), Roberto e Serginho a83’.
Treinador Pedro Emanuel
Árbitro Jorge Sousa (AF Porto)

Futebol
Minhotos venceram o
Arouca por 2-0 e foram a
última equipa a apurar-se
para os quartos-de-final
Com golos de Pardo e Rafa e uma
exibição “cinzenta”, o Sporting de
Braga venceu ontem o Arouca (2-0)
e qualificou-se para os quartos-de
final da Taça de Portugal. O triunfo
dos minhotos ajusta-se, porque foram globalmente a melhor equipa,
perante um Arouca frágil, que, ainda assim, chegou a assustar, quando o resultado estava em 1-0, tendo enviado uma bola à barra, num
remate de Pintassilgo.
O jogo começou com uma homenagem a Eusébio: num minuto repleto de palmas, passaram no ecrã
gigante do estádio imagens do célebre Portugal-Coreia do Norte do
Mundial de 1966, jogo memorável
em que o antigo internacional português marcou quatro golos na vitória por 5-3.
Na estreia do avançado romeno
Raul Rusescu, emprestado pelos
espanhóis do Sevilha — o reforço
mostrou alguns bons pormenores,
mas denotou natural falta de entrosamento com os colegas —, o Sp.
Braga abriu o marcador logo aos
cinco minutos, com Pardo a concluir de primeira um cruzamento
da direita de Alan.
O Sp. Braga assinou depois dois
bons remates, primeiro por Rafa
(13’), depois por Aderlan Santos

Pardo marcou um golo
e desperdiçou outro
(24’), este numa “bomba” de muito longe, na conversão de um livre
directo, que passou a rasar o poste.
Mas seria o Arouca a desperdiçar
uma grande oportunidade para empatar, quando Pintassilgo rematou
ao lado, após assistência de Roberto (36’).
Pardo podia ter marcado também o segundo dos bracarenses,
mas, depois de ter aproveitado um
disparate de Diego para se isolar
diante de Cássio, falhou a tentativa
de “chapéu” ao guarda-redes brasileiro, que defendeu sem dificuldade (41’).
Após o intervalo, Luiz Carlos
surgiu no lugar de Mauro no meiocampo bracarense, mas foi o Arouca a estar muito perto do empate
com um grande remate de Pintassilgo à barra (47’).
O Sp. Braga respondeu logo a
seguir com um cabeceamento de
Aderlan Santos, após canto de Alan,
que Cássio defendeu de forma aparatosa (49’) e, pouco depois, o guardião, que chegou a ter um acordo
com os minhotos no início da época, voltou a negar o golo a Felipe
Pardo (54’).
O fulgor do Arouca durou muito
pouco tempo e o Sp. Braga assumiu o comando do jogo, sem, contudo, imprimir grande velocidade.
Aos 73’, 19 depois de ter entrado,
Ceballos foi expulso por causa de
uma entrada violenta sobre Alan
e a tarefa de, pelo menos, chegar
ao empate tornou-se ainda mais
difícil, até porque, cinco minutos
depois, os minhotos fizeram o segundo golo e “mataram” o jogo.
Rafa só teve de encostar após uma
primeira defesa de Cássio a remate
de Pardo. Lusa
42 | DESPORTO | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Primeiro os aplausos para Eusébio,
depois as vaias para o Man. United
“Red devils”, que não vencem a Taça de Inglaterra desde 1994, foram eliminados à primeira oportunidade
por um Swansea que nunca tinha ganho em Old Trafford. Em Espanha, o Barça retomou a liderança
ANDREW YATES/AFP

Futebol internacional
Manuel Assunção
A época de transição do Manchester United teve um novo desenvolvimento negativo. Os “red devils”,
recordistas de vitórias na Taça de
Inglaterra, mas incapazes de a vencerem desde 1994, não vão quebrar
o enguiço em 2014, depois de ontem
terem sido eliminados da prova precocemente, caindo perante o Swansea City, em pleno Old Trafford.
Antes do jogo, houve um minuto
de aplausos em homenagem a Eusébio. No final, destacaram-se as
vaias dos adeptos da casa dirigidas
à sua própria equipa. O clube visitante ganhou, bem, por 1-2, com o
golo decisivo a surgir aos 90’, numa
altura em que o United jogava em
inferioridade numérica.
Habituado a ser uma fortaleza,
Old Trafford, onde esteve uma bandeira portuguesa a meia haste, tem
sido nesta temporada um estádio
acessível para os visitantes. A época
ainda vai a meio, mas o United já
perdeu cinco vezes no seu recinto.
Fora da Taça à primeira oportunidade (nesta terceira ronda) e a 11 pontos do líder Arsenal no campeonato, conservando, aparentemente,
poucas possibilidades de revalidar
o título, à equipa de David Moyes
deverá restar a Liga dos Campeões
(defronta o Olympiacos nos oitavosde-final) e a Taça da Liga (meias-finais com o Sunderland) para salvar a
temporada, até porque o sucesso na
Supertaça de Inglaterra, em Agosto, não chega para tornar o saldo
favorável.
O Swansea, com Alex Ferguson
a assistir na bancada, adiantou-se
aos 12’ por Wayne Routledge, talvez
a grande figura do encontro, pois
também ofereceu a assistência para o segundo golo da equipa galesa,
que venceu pela primeira vez na sua
história em Old Trafford. Chicharito não demorou a empatar (16’),
mas para o United, que não pôde
contar com Rooney e Van Persie,
tudo se precipitou na parte final do
jogo, quando o brasileiro Fabio foi
expulso aos 80’, devido a uma entrada mais dura sobre Canas, apenas quatro minutos depois de ter
entrado para o lugar do lesionado
Rio Ferdinand.
A formação orientada por Michael

CLASSIFICAÇÕES
ESPANHA
Jornada 18
Málaga-Atlético de Madrid
Valladolid-Betis
Valência-Levante
Almeria-Granada
Sevilha-Getafe
Barcelona-Elche
Osasuna-Espanyol
Real Sociedad-Athletic Bilbau
Real Madrid-Celta de Vigo
Rayo Vallecano-Villarreal

O golo de Chicharito não foi suficiente para evitar a eliminação do Manchester United

Juve bate Roma e
aumenta liderança

A

Juventus derrotou ontem
em casa a Roma, por
3-0, num jogo da 18.ª
jornada que opôs os dois
primeiros do campeonato
italiano. Foi apenas a
primeira derrota da Roma na
competição, mas o resultado
deixou-a já a oito pontos
do líder, que assim deu um
importante passo para garantir
o terceiro título consecutivo.
A equipa de Turim subiu a sua
pontuação para 49, enquanto
a Roma se mantém com
41. O médio chileno Arturo
Vidal abriu o activo aos 17
minutos, o defesa Leonardo
Bonucci aumentou logo após
o intervalo e o avançado
montenegrino fixou o resultado
aos 77’, de penálti. De Rossi
(75’) e o brasileiro Leandro
Castán (76’), ambos da Roma,
foram expulsos, o segundo por
cortar com a mão um lance de
perigo na sua área.

Laudrup aproveitou a vantagem numérica e fez o 1-2 em cima do tempo
regulamentar, com o avançado marfinense Wilfried Bony a marcar de
cabeça após centro de Routledge.
O Chelsea também avançou para
a quarta ronda, após vencer fora o
Derby County, do segundo escalão
inglês, por 0-2, com golos de Obi Mikel e Oscar. O próximo adversário da
equipa de José Mourinho é o Stoke.
O Liverpool também assegurou,
sem surpresa, o apuramento, com
um triunfo caseiro pelos mesmos
números sobre o Oldham Athletic
(terceiro escalão). O espanhol Iago
Aspas e um autogolo de James Tarkowski fizeram funcionar o marcador. Na ronda seguinte, os “reds”
enfrentarão o Bournemouth ou o
Burton Albion.
Surpreendente foi a goleada (50) conseguida pelo Nottingham Forest, quinto classificado do Championship, segundo escalão do futebol inglês, frente ao West Ham da
I Divisão.

Sánchez ajuda Barça
O Barcelona defendeu com sucesso a sua liderança no campeonato
espanhol, ao golear em casa o Elche, por 4-0, num jogo em que bri-

lhou Alexis Sánchez, autor do seu
primeiro hat-trick com a camisola
blaugrana. O campeão espanhol soma agora 49 pontos, os mesmos do
Atlético de Madrid, que na véspera
ganhou em Málaga (0-1). A equipa de
Gerardo Martino ocupa o primeiro
lugar, porque tem melhor diferença
de golos.
A igualdade de pontos poderá ser
desfeita na próxima ronda, a 19.ª do
campeonato, uma vez que os dois
líderes se vão defrontar em Madrid,
no Vicente Calderón.
O avançado chileno marcou aos 7,
63 e 69 minutos, enquanto Pedro,
que tinha apontado três na última
jornada ao Getafe, fez o outro golo
do Barcelona, aos 16’. Pedro somou
o 15.º golo na temporada, Sánchez
tem 11, todos na Liga. O Barcelona,
através de Xavi, ainda desperdiçou
uma grande penalidade.
O Real Madrid, terceiro classificado, com 41 pontos, só joga hoje com
o Celta Vigo. Iker Casillas e Gareth
Bale estão de regresso à convocatória, enquanto Fábio Coentrão,
Raphael Varane e Sami Khedira
continuam de fora, por lesão. Antes do jogo no Santiago Bernabéu,
realizar-se-á um minuto de silêncio
em homenagem a Eusébio.

Barcelona
Atlético de Madrid
Real Madrid
Athletic Bilbau
Real Sociedad
Sevilha
Villarreal
Valência
Getafe
Espanyol
Málaga
Levante
Granada
Almería
Osasuna
Elche
Celta de Vigo
Valladolid
Rayo Vallecano
Betis

J
18
18
17
18
18
18
17
18
18
18
18
18
18
18
18
18
17
18
17
18

V
16
16
13
10
9
8
8
7
7
6
5
5
6
5
5
4
4
3
4
2

0-1
0-0
2-0
3-0
3-0
4-0
1-0
2-0
18h
21h
E D M-S P
1
1 53-12 49
1
1 47-11 49
2 2 49-21 41
3 5 26-23 33
5 4 35-23 32
5 5 35-29 29
4 5 27-18 28
2 9 25-29 23
2 9 20-30 23
4 8 22-24 22
5 8 19-23 20
5 8 17-27 20
2 10 15-25 20
4 9 20-32 19
3 10 16-28 18
5 9 17-27 17
4 9 21-27 16
7 8 21-29 16
1 12 16-40 13
5 11 15-36 11

ITÁLIA
Jornada 18
Chievo-Cagliari
Fiorentina-Livorno
Juventus-Roma
Nápoles-Sampdoria
Parma-Torino
Udinese-Verona
Catânia-Bolonha
Milan-Atalanta
Génova-Sassuolo
Lazio-Inter
Juventus
Roma
Nápoles
Fiorentina
Inter Milão
Verona
Torino
Cagliari
Parma
Lazio
Génova
Udinese
AC Milan
Sampdoria
Atalanta
Chievo
Bolonha
Sassuolo
Livorno
Catânia

0-0
1-0
3-0
11h30
14h
14h
14h
14h
14h
17h30
J
18
18
17
18
17
17
17
18
17
17
17
17
17
17
17
18
17
17
18
17

V
16
12
11
11
8
9
6
4
4
5
5
6
4
4
5
4
3
3
3
2

E D M-S P
1
1 42-11 49
5
1 35-10 41
3 3 36-20 36
3 4 34-20 36
7 2 37-21 31
2 6 31-26 29
7 4 30-24 25
9 5 18-24 21
8 5 23-25 20
5 7 22-26 20
5 7 17-20 20
2 9 17-22 20
7 6 25-26 19
6 7 19-25 18
3 9 18-25 18
4 10 13-23 16
6 8 17-31 15
5 9 17-36 14
4 11 16-30 13
4 11 10-32 10

Próxima jornada
Livorno-Parma, Bolonha-Lazio, Torino-Fiorentina,
Atalanta-Catânia, Cagliari-Juventus,
Roma-Génova, Verona-Nápoles, Sassuolo-Milan,
Sampdoria-Udinese, Inter-Chievo
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | DESPORTO | 43

Portugal não conseguiu
surpreender a Sérvia e falhou
apuramento para o Mundial
Voleibol
Manuel Assunção
Selecção portuguesa
necessitava de vencer
pela diferença máxima
na última jornada da
qualificação, mas perdeu
Portugal foi uma das boas notícias
do Campeonato do Mundo de Voleibol de 2002, mas desde então não
teve mais oportunidade para surpreender na competição. Ontem,
ficou afastado do Mundial 2014,
tal como aconteceu nas edições de
2006 e 2010. A selecção nacional
precisava de vencer a favorita e anfitriã Sérvia por 3-0, para garantir a
vitória no Grupo J de qualificação
europeia e o apuramento para a
fase final, mas não conseguiu melhor do que ganhar somente um set,

perdendo pelos parciais de 22-25,
25-11, 25-19 e 25-21, em Nis.
Num pavilhão preenchido com
6500 espectadores, os homens liderados por Hugo Silva, seleccionador que fez a estreia em jogos
oficiais, tiveram uma boa entrada
e ganharam o primeiro parcial, por
22-25, desfecho que ainda alimentou esperanças.
No entanto, a Sérvia, medalha de
bronze no último Campeonato da
Europa, reagiu com autoridade e,
também beneficiando das quebras
de concentração portuguesas, fechou o segundo set com uma larga
vantagem depois de um arranque
em que desequilibrou claramente
as contas a seu favor. A vitória neste parcial chegou para os sérvios
garantirem a quinta presença consecutiva no Mundial.
A Portugal restava-lhe agora tentar vencer por 3-1, um resultado que
poderia eventualmente oferecer-

lhe a qualificação, como o segundo
melhor dos cinco grupos, mas nem
a equipa lusa conseguiu chegar à vitória, nem esse cenário, percebeuse depois, bastaria para cumprir o
apuramento pela via secundária.
A formação dos Balcãs, mesmo rodando os seus jogadores, também
dominou os sets seguintes.
Hugo Gaspar
terminou o
encontro com
17 pontos,
insuficientes para
ajudar Portugal a
vencer a Sérvia

O oposto Hugo Gaspar, com 17
pontos (15 amealhados no ataque
e dois no bloco), foi o melhor concretizador português, enquanto
João José terminou com 11, Alexandre Ferreira com nove e Marcel Gil
com oito.

Selecção
venceu, mas
Bósnia não
“colaborou”
Aleksandar Atanasijevic foi o
principal destaque da Sérvia, ao
conseguir 13 pontos.
Portugal terminou no terceiro
lugar, com três pontos. A Sérvia
somou nove e a Eslovénia seis. A
Macedónia, o único adversário que
a selecção portuguesa conseguiu
bater, não pontuou.
“Surpreendemos a Sérvia no
primeiro set, fomos consistentes
e jogámos bem. Depois disso, não
conseguimos manter o ritmo e essa
é a diferença entre nós e eles. Eles
podem jogar assim o tempo todo,
e nós ainda temos de melhorar
muito”, referiu João José, capitão
de Portugal.
A França, com sete pontos, foi
a selecção que se qualificou como
melhor segunda classificada. Além
da Sérvia, também se qualificaram
como vencedores de grupos a Bélgica, a Bulgária, a Alemanha e a
Finlândia.

Andebol
Portugal derrotou a Estónia, em
São João da Madeira, por 35-27, na
4.ª jornada do Grupo 5 de qualificação para os play-offs do Mundial
de Andebol de 2015.
A selecção nacional continua no
3.º lugar, mas agora em igualdade de
pontos com a Letónia, que perdeu
(21-23) em casa com a Bósnia-Herzegovina, nação que está muito próxima de conquistar o grupo e ficar com
a vaga para a próxima ronda.
A selecção bósnia, com quatro
vitórias em quatro jogos, comanda
com oito pontos, mais quatro do
que Letónia e Portugal.
A vitória da Bósnia na Letónia foi
a pior notícia para a selecção nacional. Ao líder basta-lhe empatar
na próxima jornada, na recepção
à Estónia, para garantir de vez o
primeiro lugar.
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44 | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

ESPAÇOPÚBLICO
Os artigos publicados nesta secção respeitam a norma ortográfica escolhida pelos autores

EDITORIAL

E Portugal perdeu
mais um símbolo
Com Eusébio, como em 1999 com
Amália, Portugal perdeu mais um
símbolo da sua identidade

Q

uando Amália morreu, a 6 de Outubro
de 1999, quase à beira de fechar
o século e um milénio, Portugal
via partir um símbolo. “Com ela”,
escreveu-se no PÚBLICO em editorial,
“morreu uma parte do país e do povo que
somos”. Mas também por causa dela, outra
parte desse país e desse povo continuou
viva, resistindo. Nesse dia, Eusébio disse:
“Ela é. foi, sem dúvida, a máxima figura da
música portuguesa. Quando a conheci pela
primeira vez fiquei satisfeito: olhava-a como
uma pessoa simples e modesta, como eu
também sou, e a minha vibração reforçou-se.
Já chorei, estou a chorar e ainda vou chorar.
Não acredito.” Agora que morre Eusébio,
muitos disseram e dizem ainda coisas
parecidas. A incredulidade, a sensação de
perda, o mito de traços humanos, tudo nele

se conjugou para eternizar uma imagem em
que todos os portugueses, não só os adeptos
do futebol ou do Benfica (como também com
Amália não só os amantes do fado), de algum
modo se revêem. Como escreve nesta edição
António-Pedro Vasconcelos, Eusébio “foi,
sem querer, um símbolo para os portugueses
do seu tempo”, porque, num tempo em que
“ser português era sinal de opróbrio e de
vergonha, Eusébio resgatou o nosso orgulho
e devolveu-nos a dignidade”. E diz mais:
que ele tinha “qualidades inatas para o
futebol”, que “gostava de marcar golos e de
ganhar, como se isso fosse uma obrigação
que os deuses lhe exigiam em troca de o ter
dotado de talentos invulgares”. Talentos
esses que Bagão Félix (também num artigo
nesta edição) refere como “uma certa
expressão do desporto que deixou de ser
a norma. Onde o que contava era tão-só
o futebol jogado. De paixão pura, sem
adiposidades. Sem mediatismos bacocos
feitos de lugares-comuns”.
Mas Eusébio morreu e aqui estamos.
Outra vez, como sucedeu com Amália, a ver
desfilar multidões que lhe querem prestar
homenagem, rever-se nele num momento
em que a dor da perda se mistura, sem tino,

às lembranças das vitórias, da simbologia
de raiz humana, à enorme arte que, como
em Amália, dificilmente se explica, como
nota Medeiros Ferreira (pág. 12): “A grande
dúvida (...) é a de saber se há algum
método, algum treino, algum exercício
repetido, algum reflexo criado, que
transplante um atleta do seu meio e faça
dele um génio.” Não há. Como não houve,
ou haverá, muitos Eusébios ou Amálias.
Não por acaso, um poeta português,
Manuel Alegre, dedicou a Amália e
Eusébio poemas em que usou as palavras
“teorema” e “teoria”, talvez em busca do
inexplicável. Em Amália, notou “a música
a palavra o teorema/ a teoria que busca
o som e a forma”; em Eusébio, “Não era
só o instinto era ciência/ magia e teoria já
só prática. (...) Buscava o golo mais que
golo: só palavra. Abstracção. Ponto no
espaço. Teorema./ Despido do supérfluo
rematava/ e então não era golo: era
poema”. Teoria feita sonho, o sonho feito
vitória. Há nisto, quando o derrotismo
não o reprime e cala, muito do espírito
português. Parte dele morre com Eusébio;
outra, também por causa de Eusébio,
há-de orgulhosamente resistir.

CARTAS À DIRECTORA
Estaleiros de Viana:
de quem foi a culpa?

As cartas destinadas a esta secção
devem indicar o nome e a morada
do autor, bem como um número
telefónico de contacto. O PÚBLICO
reserva-se o direito de seleccionar
e eventualmente reduzir os textos
não solicitados e não prestará
informação postal sobre eles.
Email: cartasdirector@publico.pt
Contactos do provedor do Leitor
Email: provedor@publico.pt
Telefone: 210 111 000

A situação dos ENVC é complicada,
como se sabe. Compreendo a
angústia de quem lá trabalha,
mas também compreendo que
não se perpetue uma situação
de insolvência e incapacidade
comercial. Por isso pergunto:
alguém foi responsabilizado por
se ter construído um navio que
o governo dos Açores recusou,
por não cumprir os requisitos
convencionados? Quem teve o
desplante de querer entregar um
navio que não atingia a velocidade
contratada? Ficar com um navio
em seco e com o consequente
buraco nas contas é inadmissível.
Não me lembro de ver o nome de
quem eventualmente tenha sido
demitido — aliás, nunca poderia
ter sido uma só pessoa. Esta pura
demonstração de incompetência
e irresponsabilidade só reforça a

posição do Governo, que tem de
corrigir uma situação herdada
(mais uma), sabendo que sobre si
cairão todas as críticas dos líricos
do costume.
João M. Pereira dos Santos, Lisboa

Eusébio, sempre
Faleceu um homem simples
que fez de uma bola de futebol
mensagem de alegria e partilha de
emoções. A vergonhosa campanha
em afirmar Cristiano Ronaldo
como o melhor marcador da
selecção portuguesa de futebol,
quando o Pantera Negra realizou
menos jogos, prova até onde vai

a fome de vaidade! Eusébio com
uma bola nos pés fez mais por
Portugal que muitos governantes
com uma caneta nas mãos. O
futebol é um jogo colectivo, em
que a entreajuda é fundamental.
O espírito solidário de um jogador
“dobrar” o companheiro que foi
ultrapassado é o que falta aos
portugueses. Eusébio de Portugal,
presente!
Ademar Costa, Póvoa de Varzim

Até sempre, Pantera!
A bola é redonda, donde redunda
no final de mais uma bela jogada
mais um golo. O consolo é vê-la
ora repetida na televisão com todo
o merecimento.
Momento perene, solene e geral
reconhecimento, porque levaste
longe o nome do nosso país.
Quis a desdita fosse hoje a data
da tua partida.
Por tudo, esta anódina

homenagem, e lembrança de que
só agem como tu os verdadeiros
seres humanos.
Unamos, então, nossas vozes
numa mensagem vera e sincera:
até sempre, Pantera!
José P. Costa, Lisboa

O PÚBLICO ERROU
Na última página da edição de
ontem foram repetidos, por
lapso, os resultados do sorteio do
Totoloto da passada quarta-feira.
Hoje, publicam-se (também na
última página) os resultados do
sorteio de sábado, com as nossas
desculpas aos leitores, pelo erro.
Na edição de sábado, por lapso
não imputável ao autor, saiu
duplicado o primeiro parágrafo no
texto de opinião “O Trabalho não
é uma mercadoria” (Pág. 45), de
João Fraga de Oliveira. As nossas
desculpas ao autor e aos leitores.
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | 45

Sobre os ideais marítimos de
liberdade e governo limitado

A

João Carlos Espada
Cartas do Atlântico
no novo, vida nova, como
se costuma dizer. Ao cabo
de três anos como Cartas de
Varsóvia, estas crónicas passam
agora a Cartas do Atlântico.
Geograficamente, assinalam o
meu regresso a Lisboa, à beiramar plantada. Simbolicamente,
mantém o mesmo compromisso
com os ideais marítimos de
liberdade e governo limitado.
Foram estes mesmos ideais que
presidiram à libertação da Polónia, em
1989, depois de décadas de opressão pelo
comunismo continental. Durante três
anos em Varsóvia, pude testemunhar o
compromisso polaco para com a aliança
euro-atlântica, que ainda hoje é a âncora da
sua liberdade reconquistada.
Não terá sido por acaso, como também
se costuma dizer, que Winston Churchill e
Franklin Roosevelt escolheram o Atlântico
como sede de consagração da sua — então
célebre, hoje quase esquecida — Carta
do Atlântico. Os princípios enunciados
nessa Carta, em Agosto de 1941, estiveram
na origem da ONU e da NATO, em parte
também da Comunidade Europeia.
Mas talvez tenha sido Karl Popper quem
mais enfaticamente associou a ideia de
sociedade aberta às civilizações marítimas,
em particular a de Atenas do século V a.C.:
“Talvez a mais poderosa causa do
colapso da sociedade fechada tenha sido
o desenvolvimento das comunicações
marítimas e do comércio. O contacto
estreito com outras tribos desafia o
sentimento de necessidade com que as
instituições tribais são percepcionadas;
e a troca, a iniciativa comercial e a
independência podem afirmar-se, mesmo
numa sociedade em que o tribalismo ainda
prevalece. (...) Tornou-se claro [para os
inimigos da democracia em Atenas] que o
comércio de Atenas, o seu comercialismo

BARTOON LUÍS AFONSO

monetário, a sua política naval, e as suas
tendências democráticas eram parte de
um único movimento, e que era impossível
derrotar a democracia sem ir às raízes do
mal [do ponto de vista dos inimigos da
democracia] e destruir quer a política naval
quer o império.” (A Sociedade Aberta e os
Seus Inimigos, Edições 70, vol. I, p. 222).
Karl Popper considerava que a civilização
ocidental emergiu da transição das
velhas sociedades fechadas tribais para as
novas sociedades abertas. Para Popper,
a Guerra do Peloponeso entre Atenas
e Esparta exprimiu essencialmente o
conflito entre uma sociedade aberta
emergente, a democrática Atenas, e uma
sociedade fechada, a Esparta colectivista.
Ele considerou que a II Guerra Mundial
foi uma reedição desse conflito, tendo
o lugar de Atenas sido ocupado pelas
democracias ocidentais, e o lugar de
Esparta pelo nacional-socialismo alemão e o
comunismo soviético — cuja aliança de facto
desencadeou o início da guerra e a dupla
invasão da Polónia, em Setembro de 1939.
Este tema foi retomado por Peter
Padsfield numa monumental trilogia sobre
as potências marítimas. Em Maritime
Supremacy and the Opening of the Western
Mind (1999), cujo título faz uma clara
referência à ideia de Popper sobre a
abertura intelectual, Padfield descreve a
emergência da República holandesa como
potência marítima e comercial no século
XVII, bem como a sua gradual substituição
pela Inglaterra no século XVIII. O livro
seguinte, intitulado Maritime Power and
the Struggle for Freedom (2003), descreve
o conflito entre a Inglaterra e as potências
terrestres espanhola e francesa, com a
ascendência britânica à supremacia naval
no século XIX. O terceiro volume, Maritime
Dominion (2008), prolonga a narrativa
até ao século XX, com os Estados Unidos
a sucederem a Inglaterra como potência
marítima dominante, e a Alemanha e a
Rússia a substituírem a Espanha e a França
como potências continentais.
Daniel Boorstin, o célebre historiador

que dirigiu a Biblioteca do Congresso em
Washington, prestou devida homenagem ao
papel pioneiro dos portugueses na abertura
da Europa a esse novo mundo marítimo:
“A nova era marítima [iniciada pelos
portugueses] levou o comércio e a
civilização da costa de um corpo finito, o
Mediterrâneo fechado, o “mar-no-meioda-terra, para a costa do Atlântico aberto
e dos oceanos sem fronteiras no mundo.”
(Os Descobridores,
Gradiva, p. 153).
Karl Popper, Peter
Padfield e Daniel
Boorstin associaram
as culturas
marítimas a valores
de liberdade,
comércio livre, livre
empreendimento,
Estado de direito
e governo
representativo ou
democrático, que
responde a um
Parlamento eleito
livremente.
Esta combinação
de “liberdade,
tolerância e
riqueza” tende a
libertar o génio
humano, sustentam
aqueles autores.
Em contraste,
as potências
continentais
tendem a valorizar
a rigidez, o
fechamento ao exterior e ao comércio,
a organização estatal centralizada e o
abafamento da sociedade civil.
Estas Cartas do Atlântico retomarão
aqueles velhos ideais marítimos, em
detrimento dos sonhos continentais de
organização centralizada.

Não terá sido
por acaso
que Winston
Churchill
e Franklin
Roosevelt
escolheram
o Atlântico
como sede de
consagração
da sua Carta do
Atlântico

Professor universitário, IEP-UCP
Escreve à segunda-feira

Uma
tragédia

P

Miguel Esteves Cardoso
Ainda ontem
rimeiro, não se acredita. Eusébio
morto? Como é que pode ser?
Depois acredita-se e amaldiçoase o azar de Eusébio e da família
dele por ele ter morrido tão
cedo. Percebe-se que Eusébio já
era um imortal há muito tempo
e que, nesse sentido heróico,
continua tão vivo como antes.
Foi uma imortalidade que ele
criou, jogada a jogada, de jogo em jogo, ano
após ano, de golo em golo.
Mas Eusébio faz falta. Ele era um sábio
e um benfeitor, um monumento vivo que
falava com as pessoas e vivia como elas, no
meio da gente. Era a última grande figura
de Lisboa. Houve portugueses que nem
sempre trataram Eusébio com o respeito e a
gratidão que ele não só merecia como tinha
conquistado. Mas Eusébio era um senhor
na vida, como era a jogar. As grandes
qualidades dele como futebolista — a
inteligência, a imaginação, a solidariedade,
a elegância e a audácia — nunca mais se
juntaram num só jogador. Mas continuaram
sempre na pessoa de Eusébio, ao lado de
fraquezas que todos nós temos, provando
que ele era humano.
É uma grande tristeza Eusébio não
ter vivido mais anos de felicidade e de
exemplo. São muitas as pessoas, de todas as
idades e de todas as profissões, cujas vidas
vão piorar por Eusébio já cá não estar.
A morte de Eusébio é uma tragédia. As
tragédias choram-se. Não se celebram.
A imortalidade já era dele. Não serve de
consolação nenhuma. Era imortal e bem
vivo que te queríamos, querido Eusébio.
Obrigados por tudo o que nos deste, a
começar por ti.
46 | PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014

Fogo preso
NUNO FERREIRA SANTOS

António Correia de Campos
Terra e Lua
Tito deixa-me sempre
acabrunhado. Vem de
fora, a mente fresca, não
vê mais do que nós, mas a
interpretação é diferente

N

uma semana, confessa Tito
Zagalo, tornei-me céptico da
recuperação, não da economia,
mas do país. Por causa de
dois discursos, o de Natal do
primeiro-ministro e o de Ano
Novo do Presidente. Soaram tão
a falso e tão pouco convictos que
me levaram a recuar do meu
inicial optimismo.
Para o primeiro-ministro (PM) tudo
corre pelo melhor, até o emprego, onde
da noite para o dia se criaram 120 mil
novos postos de trabalho, esquecendo os
100 mil que se perderam. O crescimento é
animador para o PM, embora no ano findo
o país tenha regredido em perto de 1,5%.
O défice terá sido controlado com mais
uma cobrança excepcional de impostos
em dívida de 1,2 mil milhões de euros,
irrepetível nos tempos mais próximos
e incentivadora de menos receita fiscal
futura. (Que bom teria sido ter prolongado,
em Novembro, o período de perdão fiscal
por mais três meses em 2014! Teríamos
resolvido o problema dos 0,25 de défice
acrescido no ano que se inicia.) Adiante!
A dívida pública, soube-se agora, cresce
1,1% a cada redução do défice de um ponto.
Princípio de vasos comunicantes com
perdas por viscosidade. O PM ignorou os
professores a descredibilizarem o ministro,
este a descredibilizar os politécnicos
que tutela, universidades em perda de
oxigénio, investigadores, engenheiros,
economistas e gestores a emigrarem para
as Américas, Áfricas e Europas. Não julguei
que o país estivesse tão mal governado,
por gente tão incompetente, ignorante e
involuntariamente suicida, desabafa Tito
Zagalo em noite chuvosa de fim de ano!
No meio de toda esta desgraça, temos a
Madeira a queimar centenas de milhares de
euros em oito minutos de fogo! Em nome
do marketing turístico.
Mas o pior foi o discurso do Presidente,
acrescenta Tito, quando esperava
energia crítica recebi complacência com
a mediocridade governativa; quando
esperava credibilidade para unir forças,
recebi propostas de consenso votadas à
rejeição liminar; quando esperava que o
Presidente se defendesse de complicações
supervenientes, vejo que ele se transmuta
em apostador de risco.

Tens de entender, meu caro Tito, que
o Presidente está prisioneiro de uma
má solução da crise Portas, no Verão
passado. Ao apostar em Passos perdeu o
apoio do PS. As suas súplicas ao consenso
embatem agora num muro. Apesar da fraca
memória, os portugueses não esqueceram
que o Presidente não apelou ao consenso
na crise que deu lugar à vinda da troika.
Pelo contrário, acirrou ânimos, referindo
então termos
chegado ao limite
dos sacrifícios
suportáveis. Os
sacrifícios ainda
haviam de ser
bem piores daí
para a frente.
Como quer agora
que o PS acorra
ao chamamento
para um consenso
onde seria
deglutido, quando
as perspectivas
eleitorais são as
inversas de então?
Não podemos
ignorar, Tito,
que os mercados
abriram em alta
no Ano Novo e se
reduziu a diferença
entre os juros da
dívida dos países
mais endividados
e os alemães. E até
admitiremos, como
plausível, uma

Mas o pior foi
o discurso do
Presidente,
acrescenta
Tito, quando
esperava
energia
crítica recebi
complacência
com a
mediocridade
g
governativa

emissão de dívida a juros próximo dos 5%
ou menos, o que seria um bom sinal para o
fecho pacífico do programa de intervenção.
Tal significaria termos batido no fundo
e estarmos a dar a volta, devidamente
almofadados com apoio dos nossos
aforradores e dos bancos, nesse encaixe.
Nem tudo são más notícias. Meu caro, há
momentos na vida política em que será
melhor para os países que os ministros não
apareçam nos ministérios, responde Tito.
Os automatismos não têm só consequências
funestas. O que não consigo vislumbrar
são sinais de reforma, apenas mais cortes
punitivos e mais impostos paralisantes.
Se os mecanismos que geram despesa
sem controlo, encostados ao Estado,
sentirem que as melhoras são estáveis, aí
disparam eles, de novo, forçando a despesa
pública. A reforma dos municípios ficou
pelas freguesias; queremos regiões mas
é com distritos que organizamos a vida
política; poderíamos reduzir o número
de parlamentares, mas os partidos
minoritários fogem disso como o diabo da
cruz; deveríamos ter administração mais
bem treinada, reduzida e responsável,
mas desmantelámos o INA, aniquilámos
quantitativa e qualitativamente as chefias,
como se tivessem lepra, e destruímos
institutos com vida responsável e autonomia
financeira; tudo em nome de uma sanha
ignorante e radical de destruição do Estado.
Sem reformas entraremos em novo ciclo
de desperdício assim que folgarmos. E pela
frente temos meses de incerteza agravada
por eleições e suas campanhas.
Atenção, alerta Tito, o PS tem de mostrar
que pode ser um bom governo, não basta

ficar sentado, à espera da sua hora. A
aparência de cálculo leva a que o povo
ache que é manha e perca o entusiasmo!
O teu partido vai ter de galgar a tolerância
simpática e passar ao entusiasmo
contagiante. Se o virem apenas como o
menor dos males, muitos ficarão em casa
ou votarão irracionalmente, por rancor.
Os eleitores têm de ver o caminho à sua
frente, não basta que sintam o desagrado.
Não se ganham eleições sem uma forte
dose de ilusão, sejam amanhãs que cantam,
seja confiança em governos alternativos.
No país onde vivo, os trajectos eleitorais
estão marcados por candidatos de que
ninguém mais voltou a falar. Ou por terem
falta de cabelo, ou por falta de altura, ou
por terem ido à guerra ou por não terem
ido à guerra, por muitas pequenas razões a
corrente eléctrica não passou e o voto fugiu
para o lado. Sabemos que um bom número
de eleitores vota com a mão por cima do
coração, com a carteira, entre o forro e
a entretela. Mas o conforto da carteira
depende da confiança.
Tito deixa-me sempre acabrunhado. Vem
de fora, a mente fresca, não vê mais do que
nós, mas a interpretação é diferente. Não
poupa comentários agrestes, revelando
intolerância perante erros conhecidos.
Confesso-me sempre chocado com a sua
desarmante dialéctica. Partiu de novo para
ensinar na sua tranquila universidade, boas
instalações, parques frondosos, ambiente
de tolerância e de permanente estímulo.
Que inveja!
Deputado do PS ao Parlamento Europeu.
Escreve à segunda-feira
PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 | 47

O regresso
de D. Sebastião

“S

Debate Crise e Governo
Luís Filipe Rocha
ebastião morreu, já não
volta a nascer.” Assim
cantava a Filarmónica
Fraude, em 1969, no disco
que mais corajosamente
falou à minha geração da
guerra em África: Epopeia.
Há poucas semanas,
o ministro Paulo Portas,
com o rigor intelectual e a
envergadura cultural que lhe conhecemos,
comparou a chegada da troika ao nosso
país, a 1580, e a sua futura saída, a 1640.
Essa patriótica comparação, que por certo
o povo português de imediato apreendeu
e agradeceu aliviado, deixou-me a mim
estupefacto.
O senhor ministro que me perdoe, mas o
que eu tenho entendido da história pátria
dessa época nada tem a ver com a sua
inflamada comparação, e até a cobre de
algum patetismo e estonteado populismo.
Se olharmos para o período de 1580-1640 e
para o nosso triste presente, a comparação
que se impõe, com uma evidência terrífica,
é bem outra e exactamente o contrário
do que afirma o ilustre ministro: a saída
da troika é que vai corresponder a 1580, e
quanto a 1640 resta-nos esperar que o que
nos espera não dure 60 anos!
Vejamos então: em 1578, um rei
fanático, acompanhado por um pequeno
círculo de aduladores interesseiros,
oportunistas e aventureiros, impôs a sua
indecente vontade e afundou o nosso
povo e o nosso país num longo período
de declínio, desânimo e desesperança.
Insensível a todos os conselhos e avisos
de desgraça, fundamentalista e obsessivo,
NUNO FERREIRA SANTOS

impreparado e incompetente, o obstinado
monarca precipitou o país e o seu povo
numa previsível hecatombe nacional, que
começou em 1580 e durou décadas.
Da mesma sorte, temos hoje um governo
também fundamentalista e obsessivo,
impreparado e incompetente, também
acompanhado por um círculo nacional e
estrangeiro de aduladores interesseiros,
oportunistas e aventureiros, e igualmente
insensível perante todos os conselhos
e avisos para a previsível hecatombe
nacional. Um governo que impõe aos
seus cidadãos uma semelhante vontade
indecente, que nos
vai mergulhar a
todos, de novo, num
longo período de
declínio, desânimo
e desesperança.
Um governo que,
como o rei doente e
fanático de ontem,
desaparecerá um
dia da face da terra
deixando atrás de si
um rasto duradouro
de pobreza,
desemprego e
infelicidade.
A única diferença
reside nas razões
publicamente
invocadas para o
desastre colectivo:
de acordo com
os poderosos e
os áulicos de ontem, o povo português,
pecador e libertino, foi castigado por Deus
com uma vergonhosa e terrível derrota
e com um longo calvário de sofrimento
e sacrifício, não tendo mais do que se
culpar a si próprio, de se arrepender e
de se corrigir. De acordo com os áulicos e
os poderosos de hoje, o povo português,
gastador e calaceiro, manhoso e piegas,
está a ser punido pelos Mercados com uma
implacável e letal austeridade e não tem
mais do que se culpar a si próprio, de se
arrepender e corrigir. Um povo desastrado
e infeliz, que Camões pintou, num retrato
perfeito e até hoje imperturbado, com os
tons sombrios de uma austera, apagada
e vil tristeza. O mesmo Camões que, em
carta a D. Francisco de Almeida, referindose ao desastre de Alcácer-Quibir, à ruína
financeira da Coroa portuguesa e à
independência nacional, se despediu com
estas palavras: “Enfim acabarei a vida e
verão todos que fui tão afeiçoado à minha
Pátria que não só me contentei de morrer
nela, mas com ela.”
Valha-nos hoje, senhor ministro, para
nos animar, a sua impagável brejeirice
restauradora, bem mais divertida do que a
sua irrevogável consciência política.

Valha-nos
hoje, senhor
ministro, para
nos animar, a
sua impagável
brejeirice
restauradora

Cineasta

Orçamentos autárquicos
não poupam Cultura
NUNO FERREIRA SANTOS

P

Debate Cultura e autarquias
José Jorge Letria
raticamente sem excepção,
os orçamentos dos executivos
autárquicos para 2014 aprovados
antes do final do ano sofreram
cortes significativos e, de uma
forma ainda mais acentuada, na
área da Cultura. É sabido que,
quando se enfrenta uma crise
com esta magnitude, é preciso
reduzir despesas de forma
generalizada, mas também é indispensável
que se saiba hierarquizar a importância
daquilo que se corta.
Se um executivo autárquico está convicto
de que a actividade cultural pode contribuir
para criar mais emprego, para ajudar o
sector turístico e o da restauração e pode
ainda contribuir para atrair visitantes
nacionais e estrangeiros, deverá ser
cauteloso nos cortes, já que eles podem
afectar uma área de potencial estratégico.
Tenho presentes vários concelhos
portugueses que nos dois últimos anos
souberam utilizar a oferta cultural com
criatividade e inteligência, organizando
festivais e vários eventos originais que se
traduziram no encaixe de receitas nada
desprezíveis.
Trata-se de uma questão de opção e de
mentalidade que nos remete para uma
situação passada com Winston Churchill
durante a Segunda Guerra Mundial. Quando
deputados da oposição e alguma imprensa
o criticaram por, investindo na Cultura e
nas Artes, poder estar a afectar o esforço
de guerra, ele responder algo parecido com
isto: “Se não lutarmos por isto, lutamos
porquê?” Queria o grande estadista
enfatizar a ideia segundo a qual, ante a
barbárie em marcha, é preciso defender os
valores da cultura e da civilização, que são
também os da liberdade.
Para se defender a capacidade material
que o sector da Cultura tem de avançar com
iniciativas, é preciso ter coragem, sentido
estratégico e uma consistente visão cultural.
Dir-se-á que quando se fazem significativos
cortes na Acção Social e na Educação não é
possível poupar a Cultura à lâmina aguçada
do emagrecimento orçamental. Mas a
verdade é que as bibliotecas da rede de
leitura pública não podem abdicar de fazer
as suas aquisições e que há muitas outras
rubricas do mesmo sector que não podem
ficar em estado de carência.
Basta pensar que, segundo estatísticas
muito recentes, os cinemas portugueses
perderam nove milhões de euros de receita
de bilheteira e cerca de 1,4 milhões de
espectadores comparativamente com os
valores apurados em 2012.
Isto significa que há menos dinheiro para
se ir ao cinema, mas também que há menos
salas para se ver cinema em vários pontos

do país e que este constitui um público
potencial para corresponder a outras formas
de oferta local, que também podem passar
pelo cinema. Toda esta situação deverá
ser vista de uma forma articulada e, de
preferência, estudada pelos organismos
estatais que dispõem de verbas para efectuar
estas análises e estudos comparativos.
De forma recorrente tenho referido o
exemplo da Irlanda, agora regressada aos
mercados, que acreditou no potencial
regenerador da Cultura, contribuindo desse
modo para que houvesse menos gente a
emigrar e muito mais gente, nacional e
estrangeira, a encher as salas de cinema,
os museus e as
galerias.
Em Portugal não
faltam imaginação
e criatividade para
se conceberem
programas
inovadores e
apelativos. O que
há, frequentemente,
é falta de vontade e
de coragem política.
E isso está patente
na asserção inicial:
o sector cultural
sofreu cortes
nos orçamentos
municipais para
2014 que podem
comprometer muito
boas ideias, iniciativas e projectos. É pena
que assim aconteça. Mas, também por isso,
é urgente rever as políticas de captação de
patrocínios e toda a lógica do mecenato,
sobretudo se lhes for demonstrado que
Portugal, apesar da dureza da crise, está na
moda, como milhares de turistas de estada
curta a demandarem o nosso país. Quem
não perceber esta nova realidade, terá
muita dificuldade em perceber as outras,
também por falta de perspectiva cultural.
E, já agora, tenha-se presente que a oferta
cultural deve sempre ser diversificada,
criativa e até surpreendente, não caindo
no seguidismo de assentar apenas em
quem está na moda, só porque aparece na
televisão e se pode gabar de boa imprensa.
Há outros mundos e propostas para além
desses. E só ganhará, a médio e longo
prazo, quem for criativo e corajoso. O
tempo nos dará razão.

Só ganhará, a
médio e longo
prazo, quem
for criativo e
corajoso

Escritor, jornalista e presidente da
Sociedade Portuguesa de Autores

Web20140106 publico porto

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    EDIÇÃO PORTO SEG6 JAN 2014 Acompanhe a cobertura completa sobre Eusébio em www.publico.pt NUNO FERRARI/A BOLA 1942-2014 EUSÉBIO Destaque, 2 a 15 e Editorial af CursosAnoLectivo12 JanelaPUBLICO 100x50.ai PUBLICIDADE 1 9/6/12 3:13 PM PUBLICIDADE Banco de Portugal aperta regras em depósitos a partir de 5000 euros Depósitos suspeitos a partir dos 5000 euros exigem a identificação do cliente para reforçar medidas contra branqueamento p22 Eurodeputados em Lisboa para discutir contrapartidas de ajuda da troika Novos Cursos Início em Janeiro À chegada a Lisboa, eurodeputado socialista Liêm Hoang Ngoc, reconhece limitações da fórmula acordada p16 ISNN:0872-1556 Ano XXIV | n.º 8669 | 1,10€ | Directora: Bárbara Reis | Directores adjuntos: Nuno Pacheco, Miguel Gaspar, Pedro Sousa Carvalho | Directora executiva Online: Simone Duarte | Directora de Arte: Sónia Matos
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    2 | DESTAQUE| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 EUSÉBIO (1942-2014) The king!! Grande perda para todos nos! O mais grande!! Luís Figo Antigo futebolista do Sporting e da selecção Eusébio foi um King para todos O antigo jogador morreu na madrugada de ontem, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. Tinha 71 anos e uma vida de futebolista que mereceu um elogio unânime Paulo Curado, Marco Vaza e João Manuel Rocha Funeral no Lumiar E Três dias de luto e um minuto de silêncio usébio morreu. A notícia correu veloz, logo pela manhã de ontem, deixando todos os que tomavam conhecimento dela primeiro incrédulos, depois chocados e a seguir saudosos de uma figura que marcou uma época do futebol em Portugal e na Europa. Eusébio da Silva Ferreira, antigo futebolista do Benfica e da selecção portuguesa, morreu às 4h30 de domingo, em Lisboa, na sua casa, aos 71 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória. Eusébio sentiu-se mal por volta das 3h30 da manhã e foi chamado o INEM, mas já foi demasiado tarde. Nascido a 25 de Janeiro de 1942 na então Lourenço Marques, hoje Maputo, Eusébio tornou-se o maior símbolo do futebol português. Vindo de Moçambique, depois de ter jogado no Sporting de Lourenço Marques, chegou ao clube de Lisboa no Inverno de 1960. Foi nessa década que o Pantera Negra mais brilhou nos relvados, no Benfica e ao serviço da selecção de Portugal, no Mundial de 1966, onde foi o melhor marcador. Sete vezes melhor goleador do campeonato português (1963-64, 64-65, 65-66, 66-67, 67-68, 69-70 e 72-73), duas vezes melhor marcador europeu (1967-68 e 72-73), Eusébio foi uma vez eleito melhor futebolista europeu, mas é considerado um dos maiores futebolistas mundiais de todos dos tempos. Foi 11 vezes campeão nacional pelo Benfica — alinhando em 294 jogos, nos quais marcou 316 golos —, ganhou cinco taças de Portugal, foi campeão europeu em 1961-62 e O dia de hoje será marcado pelas cerimónias fúnebres e de homenagem a Eusébio. O corpo do antigo futebolista permanecerá em câmara ardente no Estádio da Luz até às 13h30. A seguir, a urna dará uma volta ao Estádio da Luz, cumprindo um desejo do próprio Eusébio. O cortejo fúnebre segue depois, em cortejo, até à Câmara Municipal de Lisboa, cumprindo um trajecto que inclui a passagem pela Segunda Circular-Campo Grande-Avenida da RepúblicaSaldanha-Av. Fontes Pereira de Melo-Marquês de Pombal-Av. da LiberdadeRestauradores-Rossio-Rua do Ouro-Rua do Arsenal-Praça do Município. Segue-se uma missa, na Igreja do Seminário, no Largo da Luz, prevista para as 16h. O funeral decorrerá no Cemitério do Lumiar, às 17h. O Governo decretou, ainda durante o dia de ontem, três dias de luto nacional e determinou que a bandeira nacional seja colocada a meia haste, enquanto a Federação Portuguesa de Futebol estipulou que em todos os jogos de futebol sob a sua égide se cumpra um minuto de silêncio em memória de Eusébio. finalista da Taça dos Campeões em 1962-63 e 67-68. No total, foram 671 os golos que marcou em jogos oficiais. Cometeu a proeza de marcar 32 golos em 17 jogos consecutivos, tendo ainda conseguido marcar seis golos no mesmo jogo em três ocasiões. O guarda-redes que mais golos seus sofreu foi Américo, do FC Porto (17). Jogou no Benfica até 1975, tendo depois actuado ainda em clubes da nos Estados Unidos, no México, no Beira-Mar e no União de Tomar — esta última uma breve experiência que durou até Março de 1978, após o que regressou aos EUA para tentar uma efémera experiência no futebol indoor. Participou em 64 jogos da selecção de Portugal, pela qual se estreou em 8 de Outubro de 1961. No Mundial de 1966, em Inglaterra, em que Portugal foi o terceiro classificado, venceu o troféu destinado ao melhor marcador da prova, com nove golos, e foi considerado o melhor jogador da competição. Ficou célebre a sua actuação no jogo com a Coreia do Norte, dos quartos-de-final desse mundial, em que marcou quatro golos, contribuindo decisivamente para a vitória de Portugal por 5-3, depois de ter estado a perder por 0-3. “Foi o meu dia”, recordou mais tarde, quando, no Mundial de 2010, na África do Sul, a equipa portuguesa voltou a defrontar a asiática. Embaixador do futebol nacional e uma referência no Benfica e na selecção nacional, Eusébio mereceu diversas distinções durante a sua vida, tendo sido agraciado com a Grã-Cruz Infante D. Henrique e a Ordem de Mérito. A maior distinção, contudo, é a deferência que merece de todo um povo.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | DESTAQUE | 3 É, de facto, um dia bastante triste para Portugal, a perda de um grande símbolo, não só do futebol português mas do futebol mundial Sempre eterno Eusébio, io, descansa em paz Cristiano Ronaldo Pedro Pauleta, ex-futebolista, actual director da Federação Portuguesa de Futebol No convívio connosco na selecção portuguesa ele tinha sempre uma palavra de incentivo e de ensinamento Luiz Felipe Scolari, ex-seleccionador de Portugal, actual seleccionador do Brasil AFP “Tudo o que se disser agora sobre ele é pouco, muito pouco” NUNO FERREIRA SANTOS Reportagem Marisa Soares A memória de Armando Mendinhas, 53 anos, recua facilmente à infância. Tinha seis anos naquele 23 de Julho de 1966 que haveria de ficar para a história do futebol. Estava no Clube Recreativo Brites de Almeida, em Aljubarrota, agarrado aos matraquilhos, enquanto os adultos, de olhos colados ao ecrã da televisão a preto e branco, vibravam com o jogo entre Portugal e a Coreia do Norte. “De repente, ouvi um tumulto e quando olhei para a televisão estava o Eusébio na baliza dos coreanos, a pegar na bola e correr para o meio do campo.” A imagem nunca mais lhe saiu da cabeça. Nem essa, nem as outras que foi guardando dos jogos que viu na televisão, com Eusébio aos comandos do Benfica, ou das vezes que o cumprimentou “em momentos simples”. Porque Eusébio era assim. “Simples, quase parecia ausente. É difícil de explicar”, diz Armando, de olhos lacrimejantes. Recorda “aquela auréola de génio que ele tinha e só conseguia mostrar através dos pés”, mas custa-lhe falar. “Tudo o que se disser agora sobre ele é pouco, muito pouco.” Como Armando, milhares de pessoas passaram neste domingo pela estátua de Eusébio junto ao Estádio da Luz, em Lisboa. Ao final da tarde, o monumento em bronze que perpetua a pose do antigo internacional português a rematar, estava vestida de várias cores. Homens e mulheres, crianças e idosos foram deixando cachecóis do Benfica, mas também cachecóis do Sporting e do FC Porto e de outros clubes, arrancando palmas à multidão, silenciosa. Aos pés do Pantera Negra, alguém deixou a bandeira de Moçambique, país natal do antigo jogador. E muitas camisolas, pequenas estátuas da águia benfiquista, ramos de flores... Num deles, uma mensagem salta Milhares de pessoas passaram no domingo pela estátua de Eusébio junto ao Estádio da Luz à vista: “O Eusébio é de todos.” E na cabeça do King, como também lhe chamavam, os fãs colocaram uma coroa. Passava pouco das 17h30 quando a urna com o corpo do exjogador passou pela multidão que o esperava, apesar do frio, ora a gritar pelo seu nome, ora a cantar os hinos nacional e do Benfica. Coberto com a bandeira do clube, o caixão entrou em braços no átrio envidraçado da entrada principal do estádio, para ser velado pela família e amigos. Entre eles, o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, o vice-presidente do clube, José Eduardo Moniz, o antigo treinador do Benfica e actual seleccionador de futebol da Grécia, Fernando Santos, Toni, ex-jogador e treinador dos “encarnados”, e outros colegas de relvado como José Augusto e Veloso. Não faltaram personalidades do mundo da música, como Rui Veloso ou Luís Represas. O primeiro-ministro, Passos Coelho, esteve acompanhado do ministro da Presidência, Luís Marques Guedes. O líder socialista, António José Seguro, também foi apresentar as condolências à família. Os anónimos que quiseram vêlo mais de perto esperaram numa fila dentro do estádio, outros preferiram ficar cá fora, junto aos postes com as bandeiras a meia haste ou encostados às barras de protecção. Muitos estarão nesta segunda-feira nas bancadas da Luz para o último adeus ao King, às 13h30. Filipe Ribeiro, de 27 anos, foi um dos que prometeram não arredar pé. Vestiu-se de preto e vermelho, cachecol do clube ao pescoço, mal soube da morte do ídolo. “É como se fizesse parte da família.” A notícia inesperada foi “um choque muito grande”, que lhe amargou o espírito ainda em êxtase pela vitória do Benfica no jogo de sábado à noite, frente ao Gil Vicente. “Espero que ele tenha visto o jogo.” Em casa, Filipe tem os jogos do Pantera Negra gravados em cassetes de vídeo e DVD, aos quais vai juntar a Enciclopédia do Eusébio, acabada de comprar. Emociona-se quando fala do dia em que encontrou o antigo jogador num restaurante em Benfica. “Pedi-lhe um autógrafo, todo a tremer, e ele convidou-me para beber um copo.” Para este sócio do Benfica, “todas as homenagens são poucas” perante a grandeza do antigo capitão do Benfica. Mas é unânime a ideia de que o King foi justamente consagrado em vida. “É um homem a que todo o Portugal soube dar valor”, afirma Isabel Tavares, 54 anos, caboverdiana a residir em Lisboa há mais de 30 anos. “O Benfica nunca o abandonou, nunca o deixou sair desta casa”, diz Jorge Fava, 37 anos, benfiquista que um dia teve a oportunidade de se sentar à mesa com o King. Também ele quis despedir-se do homem “muito bom e humilde” que o filho Simão, de oito anos, nunca há-de conhecer pessoalmente. Para a geração de Simão, o ídolo será outro: Cristiano Ronaldo, que todos os fãs ouvidos pelo PÚBLICO apontam como o sucessor de Eusébio na missão de espalhar o nome de Portugal pelo mundo.
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    4 | DESTAQUE| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 EUSÉBIO (1942-2014) É uma perda para o país e para o mundo, porque o Eusébio não era só nosso, era do mundo inteiro Rosa Mota, campeã olímpica da maratona em 1988 Marco Vaza Eusébio nunca será suplente na equipa dos melhores de sempre H A chegada a Portugal, a afirmação no Benfica e no futebol mundial, as peripécias de uma carreira ímpar. Um dos melhores jogadores de futebol do planeta de todos os tempos tem uma vida repleta de episódios que merecem ser lembrados AFP Eusébio, em França, no ano de 1973, quando ainda estava a jogar no Benfica umilde, mas sem falsas modéstias. Quando Eusébio chegou à “metrópole” e ao Benfica campeão europeu em 1961, sabia o que valia. “Não me interessa se eles são campeões europeus, vou entrar nesta equipa.” Ele era um jovem moçambicano acabado de chegar de Lourenço Marques e já metia medo aos consagrados Águas, Augusto e Coluna, os “senhores”, como os novatos da equipa lhes chamavam. “Comentávamos entre nós: quem é que vai sair? Porque o Eusébio era um jogador de excepção”, diz José Augusto. Alguém saiu e ele, Eusébio da Silva Ferreira, entrou na equipa do Benfica para se tornar uma lenda do futebol mundial. O melhor jogador português de todos os tempos que brilhou numa altura em que o futebol era diferente. Como Amália, o seu nome é sinónimo dele próprio. Não existirá mais nenhum Eusébio. Eusébio, o King, Eusébio, o Pantera Negra, Eusébio, a Pérola Negra. Ele só não gostava muito que lhe chamassem Pantera Negra por causa dos Black Panthers, o partido activista negro dos EUA. Preferia que lhe chamassem King, o Rei. Foi em Wembley, esse mítico estádio que iria marcar sua carreira, que Eusébio passou a ser pantera. Foi na sua segunda internacionalização pela selecção portuguesa. Dos onze, apenas um jogador tinha nascido em Portugal continental (Cavém, algarvio) e um nos Açores (Mário Lino). Havia um jogador brasileiro (Lúcio), todos os outros, incluindo o seleccionador (Fernando Peyroteo), eram africanos. O jogo era de qualificação para o Mundial e a Inglaterra acabaria por ganhar (2-0). Portugal mandou quatro bolas ao poste, duas delas foram remates de Eusébio. Foi o seleccionador inglês Walter Winterbottom que avisou o jogador que estava encarregado de o marcar: “Tem cuidado com o Pantera Negra.” Mais tarde, seria um jornalista inglês, Desmond Hackett, a cunhar esse nome no Daily Express após a final de Amesterdão, com o Real Madrid. O jogo de Wembley foi a 25 de Outubro de 1961. Menos de um ano antes, em Dezembro de 1960 (15 ou 17, consoante as versões), chegava à metrópole proveniente de Lourenço Marques “o disputadíssimo Eusébio”, como escrevia o jornal A Bola de 17 de Dezembro. “Faço qualquer um dos postos do ataque menos o de
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | DESTAQUE | 5 Um grande símbolo do futebol e do desporto português, mas também do futebol mundial avançado centro”, contou ao jornalista de A Bola Cruz dos Santos, que era o único jornalista à sua espera no Aeroporto da Portela. “Chegou com um ar muito tímido. Fui com um sobretudo quentinho que tinha comprado em Edimburgo uns meses antes e o Eusébio apareceu-me com uma roupinha muito de Verão, uma gravatinha, com um ar muito modesto”, recorda o jornalista. É a sua primeira fotografia na metrópole: Eusébio de fato e gravata, com Cruz dos Santos ao lado, a tirar notas num bloco. Eusébio embarcara em Lourenço Marques com nome de mulher: Ruth Malosso. Tinha 18 anos, fama de prodígio, pronto para conquistar o mundo. Um mundo que seria dele pouco depois. Basta dizer um número: 671, o número total de golos que marcou pelas selecções e clubes que representou em jogos oficiais. Pelo Benfica, foram 473, em 440 jogos oficiais. Mais números: sete vezes o melhor marcador do campeonato português, três vezes o melhor marcador da Taça dos Campeões. Cometeu a proeza de marcar 32 golos em 17 jogos consecutivos, tendo ainda conseguido marcar seis golos no mesmo jogo em três ocasiões. O guarda-redes que mais golos seus sofreu foi Américo, do FC Porto (17). Dos craques do passado, talvez seja Eusébio aquele que melhor se adaptaria ao futebol de qualquer época, mesmo ao mais calculista e táctico do nosso presente, menos atacante e ingénuo do que no tempo de Eusébio. O seu poder físico, potência de remate, técnica e capacidade goleadora fariam dele uma estrela em qualquer equipa de qualquer era. Apenas no final de carreira, com os joelhos em más condições (só no joelho esquerdo sofreu seis operações) é que saiu de Portugal, onde era património de Estado. Eusébio seria um Cristiano Ronaldo apresentado no Santiago Bernabéu perante dezenas de milhares de adeptos. Eusébio esteve lá em 2009 para apresentar Ronaldo ao Real Madrid, ao lado de Alfredo di Stéfano, que sempre foi o seu grande ídolo. As palavras de Don Alfredo, o argentino feito espanhol, não podiam ser mais verdadeiras. “Isto serias tu.” Os primeiros anos Eusébio da Silva Ferreira nasceu a 25 de Janeiro de 1942, o quarto filho de Laurindo António da Silva Ferreira, um angolano branco que trabalhava nos caminhos-de-ferro de Moçambique, e Elisa Anissabeni, uma mulher Foi um grande futebolista, uma pessoa bem formada e fiquei sempre com a ideia de que era um homem muito modesto Pelé Paulo Bento, ex-futebolista, actual seleccionador de Portugal Lamento a morte do meu irmão Eusébio. Ficámos amigos na Copa a Copa de 66 na Inglaterra. Que Deus o us receba de braços abertos Mário Soares, ex-Presidente da República moçambicana. Foi na Mafalala, bairro pobre na periferia de Lourenço Marques (actual Maputo), que Eusébio começou a dar uns pontapés em bolas de trapos sem ligar muito à escola. “A minha mãe não gostava nada que eu andasse enfronhado no futebol, apertava comigo, que me importasse com a escola e me deixasse dos pontapés na bola, mas eu não sei explicar, havia qualquer coisa que me puxava, sentia um frenesim no corpo que só se satisfazia com bola e mais bola. O resultado disto era uns puxões de orelhas bem grandes e, uma vez por outra, umas sovas que não eram brincadeira nenhuma”, recordava Eusébio numa entrevista ao jornal A Bola. No bairro onde viveram o poeta Craveirinha e os antigos presidentes de Moçambique Joaquim Chissano e Samora Machel, Eusébio ganhava os berlindes aos amigos apostando que conseguia dar x toques seguidos numa bola. Entre os jogos de futebol na rua e a presença intermitente na sala de aula, Eusébio sofreu uma tragédia precoce. Aos oito anos, ficava órfão de pai, vítima de tétano. “Segundo a minha mãe, o meu pai era muito bom jogador de futebol”, disse numa entrevista. Ficava Dona Elisa, os quatro rapazes ( Jaime, Alberto, Adelino e Eusébio) e uma rapariga (Lucília). Num segundo casamento, Elisa teria mais três filhos (Gilberto, Inocência e Fernando). Foi na Mafalala que conheceu a sua primeira equipa, Os Brasileiros, “um clube de pés-descalços” em que os jogadores adoptavam nomes dos craques brasileiros. Eusébio era Nené, um médio da Portuguesa dos Desportos, um primo seu é que era Pelé, ano e meio mais velho do que o moçambicano. Em 1958, Eusébio tinha 16 anos e Pelé 17 quando o Brasil foi campeão mundial na Suécia, a equipa que também tinha Didi, Zagallo e Garrincha. Todos tinham as suas contrapartes no FC Os Brasileiros. Mas onde Eusébio queria jogar era no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica, clube do qual o pai era adepto. No Desportivo não o aceitaram porque era “franzino, pequenino” – Eusébio contou que esse treinador foi, depois, despedido. Também no Ferroviário o recusaram. O mesmo erro não cometeu o Sporting de Lourenço Marques, filial moçambicana do Sporting Clube de Portugal, que ficou com ele de imediato, depois de ter ido fazer testes com um grupo de rapazes do bairro. Mas Eusébio impôs uma condição: ou ficam todos, ou não fica nenhum. Ficaram todos. NUNO FERRARI/A BOLA Eusébio após marcar o seu primeiro golo contra a Coreia do Norte DR Coluna, Costa Pereira e Eusébio com a Taça dos Campeões em 1962 O Sporting Laurentino insistia, mas Eusébio resistia, porque aquele não era o seu clube, nem o do seu pai, apesar das insistências de Hilário da Conceição, seu vizinho na Mafalala e futuro defesa esquerdo do Sporting e da selecção portuguesa – Hilário, dois anos mais velho do que Eusébio, foi o primeiro jogador negro a jogar no Sporting de Lourenço Marques e iria para Lisboa primeiro do que o Pantera Negra. Eusébio acabou por ir contrariado para os “leões” de Lourenço Marques. “Ninguém do meu bairro gostava do Sporting. Porque era um clube da elite, um clube da polícia, que não gostava de pessoas de cor”, contou mais tarde. Começou nos juniores, passou rapidamente para os seniores e estreou-se contra o “seu” Desportivo. Não queria jogar, mas jogou. Marcou três golos e chorou. Tinha 17 anos. O Sporting foi campeão regional com 30 remates certeiros de Eusébio, a quem o clube tinha arranjado um emprego como arquivador numa empresa que fabricava peças para automóveis. Eusébio era um fenómeno na colónia e, na metrópole, já se ouvia falar dele. Portugal era o sonho dos jogadores nas colónias portuguesas em África e Eusébio não era excepção. E era um sonho muito possível. África era um grande fornecedor de jogadores para os clubes e selecção portuguesa. Os pretendentes eram muitos. Sporting, Benfica, Belenenses e FC Porto queriam Eusébio. Guttman já tinha ouvido falar dele, através de um brasileiro que o tinha visto jogar em Lourenço Marques. Os clubes começaram a movimentar-se, mas foi o Benfica quem chegou lá primeiro. Ofereceu 110 contos a D. Elisa, que deu a sua palavra de que o filho iria jogar no Benfica de Lisboa. O Sporting terá oferecido mais depois, mas palavra dada era sagrada e a mãe de Eusébio não voltou atrás. Para além do mais, o Sporting queria Eusébio à experiência. “Eu já estava no Sporting e o presidente, sabendo que eu era muito amigo do Eusébio, chamou-me para lhe pedir para vir fazer testes. Ele respondeu: ‘Estás a ver o Seminário [peruano que jogou no Sporting entre 1959 e 1961, conhecido como “o expresso de Lima”]? Eu dou-lhe avanço a marcar golos. Querem experimentar o quê?”, recorda Hilário. Tavares de Melo, talhante e representante do Benfica em Lourenço Marques, coordenou toda a operação. Depois de garantido o acordo de Eusébio e de D. Elisa, o objectivo era colocar o jogador na capital
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    6 | DESTAQUE| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 EUSÉBIO (1942-2014) Foi um pedaço de um Portugal diferente, maior, sem fronteiras, multicultural. O seu trono não pode ser ocupado, porque o seu reinado não existe mais Carlos Queiroz, ex-seleccionador de Portugal o mais depressa possível e sem que os adversários soubessem. Fez Eusébio embarcar com nome de mulher e terá feito chegar um telegrama ao Sporting lisboeta comunicando que o jovem jogador iria de barco para a capital. Por isso é que, quando Eusébio aterrou às 23h30 no aeroporto de Lisboa, apenas estavam lá representantes do Benfica (e o jornalista de A Bola) à espera dele. Do lado “leonino” falou-se de rapto, Eusébio sempre negou esta tese: “Eu só assinei contrato com o Benfica. Só quando aterrei aqui é que se começaram a inventar raptos. O contrato com o Benfica até dizia que, se não me adaptasse em Lisboa, o clube podia recuperar o dinheiro.” A chegada ao Benfica Quando Eusébio, menor de idade, chegou a Lisboa, o Benfica já estava nos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus. “Não gosto de jogar a avançado centro”, foram as suas primeiras palavras, depois de uma viagem de “Portugal para Portugal”, como escrevia o jornal A Bola de 17 de Dezembro de 1960. Foi directo para a Calçada do Tojal, em Benfica, para viver no Lar do Jogador, onde estavam alojados os futebolistas “encarnados” que eram solteiros e que tinha hora de recolher obrigatório para os seus hóspedes. José Torres, dois anos mais velho, foi o seu anfitrião, eles que, pouco depois, fariam uma dupla temível no ataque do Benfica e da selecção nacional. Mas Eusébio ainda não podia jogar, apesar de impressionar nos treinos. Bela Guttman, o treinador, chamoulhe o “menino de oiro” da primeira vez que o viu. O processo de transferência de “Ruth” ainda não tinha acabado. Eusébio tinha contrato assinado com o Benfica, mas ainda não tinha a carta de desobrigação que teria de ser passada pelo Sporting de Lourenço Marques, ainda empenhado na ida do jogador para os “leões” de Lisboa. A batalha jurídica é longa. Os dois lados esgrimem argumentos e o tempo vai passando, sem que haja uma decisão definitiva. Na Taça dos Campeões, o Benfica ultrapassa o Aarhus, da Dinamarca, e o Rapid de Viena, da Áustria, e com Eusébio sempre integrado na comitiva. A final será contra o Barcelona, em Berna, a 31 de Maio. O Benfica manda Eusébio para um hotel em Lagos, para o esconder dos jornalistas e de outros pretendentes. A 12 de Maio, cinco meses depois de sair de Moçambique, o desfecho: Eusébio já é jogador do Benfica, que paga por ele 400 contos, mas não poderá defrontar a formação catalã devido aos regulamentos da União Europeia de Futebol (UEFA). Ele não irá à Suíça, mas vai estar no jogo de despedida do Benfica antes da final, na Luz, frente ao Atlético, um futuro titular numa equipa quase só de reservas. A 23 de Maio, primeiro jogo pelo Benfica, primeiros golos, três, tal como a sua estreia pelo Sporting de Lourenço Marques. Minutos 11, 76 e 80, o do meio o primeiro penálti que marcou. Os benfiquistas estavam lá para ver o “disputadíssimo”. “Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso”, contou Eusébio na sua biografia. A equipa seguiu para Berna e conquistou o primeiro dos seus dois títulos europeus, com uma vitória por 3-2 sobre o Barcelona. Eusébio ficou em Lisboa e, no dia seguinte à final europeia, fazia a sua estreia oficial pelo Benfica, na segunda mão dos oitavos-de-final da Taça de Portugal no Campo dos Arcos, frente ao Vitória de Setúbal. Eusébio seria titular e marcaria o único golo “encarnado” nesse jogo que os sadinos venceriam por 4-1, anulando a desvantagem de 3-1. Nessa época, ainda houve tempo para se estrear no campeonato, na Luz frente ao Belenenses, ao lado dos senhores José Augusto e Coluna. Eusébio marca o segundo de uma goleada por 4-0 e ganha o direito a ser campeão. O que Eusébio perdeu nesses primeiros meses foi largamente compensado na década e meia seguintes. Com Eusébio na equipa, o Benfica foi 11 vezes campeão em 15 anos. O moçambicano foi sete vezes o melhor marcador do campeonato português, duas vezes o melhor goleador da Europa. Conquistou mais cinco taças de Portugal e um título de campeão europeu de clubes. Ao todo, foram 17 títulos pelo Benfica: 11 campeonatos, cinco taças de Portugal e a Taça dos Campeões. Foi ainda o primeiro português a ser considerado o melhor jogador da Europa, em 1965. Depois dele, só Figo, em 2000, e Cristiano Ronaldo, em 2008. Em 1961-62, a sua primeira época “a sério”, Eusébio ainda não está entre os cinco mais utilizados por Bela Guttman, mas já é o melhor marcador, com 29 golos em 31 jogos, mais do que o consagrado José Águas (26). O Benfica não seria campeão (terceiro lugar, atrás de Sporting e DR DR Eusébio, em 1965, quando recebe a Bola de Ouro, troféu que distingue o melhor jogador da Europa. O internacional português recebeu ainda duas vezes a Bota de Ouro, atribuída ao melhor marcador europeu. Eusébio e a sua mulher, Flora, à chegada ao aeroporto londrino de Heathrow, em 1971. Eusébio e Flora foram casados durante 49 anos e tiveram duas filhas. FC Porto), mas esta seria uma época histórica, a do Benfica bicampeão europeu, na final de Amesterdão, frente ao Real Madrid. Eusébio enfrentava o seu ídolo de infância, Alfredo di Stéfano. Na primeira das quatro finais que haveria de jogar na sua carreira, Eusébio marcou dois golos (os dois últimos e decisivos) naquele triunfo emocionante por 5-3, em que o Benfica chegou a estar a perder por 2-0 e 3-2. O jovem moçambicano de 20 anos “destruía” a lenda hispano-argentina merengue, 16 anos mais velha, mas manteve a deferência para com “don” Alfredo, como mantinha para com os seus companheiros de equipa mais velhos. “Tinha dito ao senhor
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | DESTAQUE | 7 Tristeza, mundo do futebol perde um astro e uma pessoa excepcional! Descanse em paz Eusébio é Portugal. al. Aquilo que Eusébio io deixa torna-o imortal ortal Perdeu-se o melhor jogador que vi, de todos os tempos (...) Foi o melhor do mundo” Luisão, capitão do Benfica José Mourinho, Treinador de futebol Fernando Chalana, antigo jogador do Benfica e da selecção Coluna para pedir ao senhor Alfredo di Stéfano para me dar a camisola. E consegui. Ele sabia lá quem era o Eusébio! Quando ganhámos, fui a correr para junto dele. Ele deu-me a camisola e ficou com a minha. Nessa altura roubaram-me o fio da minha mãe, os calções, mas consegui guardar a camisola nas cuecas. Apareço numa fotografia com uma mão à frente: estou a defender a camisola.” O Mundial de Inglaterra Eusébio precisou apenas de nove golos em cinco jogos pelo Benfica para se estrear na selecção portuguesa, por quem haveria de disputar 64 jogos (41 golos). O adversário era o fraco Luxembrugo e estava em causa a qualificação para o Mundial de 1962, no Chile. Peyroteo, antigo avançado do Sporting e membro dos famosos “cinco violinos”, estreavase como seleccionador. A equipa era totalmente de Lisboa, um jogador do Belenenses, cinco do Sporting e cinco do Benfica, Eusébio era um deles. A 8 de Outubro de 1961, um domingo, no Estádio Municipal do Luxemburgo, o herói foi outro. Adolphe Schmit, médio que nunca foi mais alto na sua carreira do que a segunda divisão francesa, marcou os três primeiros golos do jogo em 57 minutos. Portugal só reage aos 83’, com o primeiro golo de Eusébio ao serviço da selecção nacional, mas a selecção do grão-ducado repõe as diferenças no minuto seguinte. Yaúca, o único do Belenenses, fixou o resultado em 4-2. A derrota humilhante e inesperada afastou a selecção portuguesa do Mundial e o jogo seguinte, em Wembley, frente à Inglaterra (o tal em que Eusébio passou a ser o Pantera Negra), seria para cumprir calendário. Três anos e meio depois, Portugal iniciava nova campanha para o Mundial de futebol, que seria em Inglaterra. Eusébio marcou sete golos na qualificação, um deles deu uma vitória surpreendente e dramática em Bratislava frente à poderosa Checoslováquia, vice-campeã mundial. Pela primeira vez a selecção portuguesa chegava à fase final de uma grande competição internacional. Comandados por Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, os portugueses iam a Inglaterra com algum crédito. E com Eusébio, considerado no ano anterior como o melhor jogador europeu. Eusébio ficou com o número 13 e a campanha com um triunfo em Old Trafford, o estádio do Manchester United, sobre a Hungria por 3-1, o único jogo do Mundial em que Eu- sébio não marcou qualquer golo. Depois, foi a história que bem se conhece. De novo em Old Trafford, Eusébio marcou o golo do meio no triunfo sobre a Bulgária. Seguia-se o Brasil de Pelé, no Goodison Park em Liverpool. Pelé ficou a zeros, Eusébio marcou dois e subiu ao trono de rei do Mundial. Portugal derrotava o campeão vigente e avançava para os quartos-de-final. O jogo seria em Liverpool, o adversário seria a Coreia do Norte, uma equipa que também estava a ser uma sensação, depois de ter deixado a Itália de fora. Os “baixinhos com as caras iguais” (o mais alto tinha 1,75m), como disse um dia José Augusto, um dos membros da equipa portuguesa, começaram por surpreender os “magriços” de forma bastante afirmativa, colocando-se a vencer por 3-0. Mas Portugal tinha Eusébio, que, quase sozinho, destruiu os asiáticos, marcando quatro golos na partida dos quartos-de-final que terminaria em 5-3 para Portugal. O golo que concretizou a reviravolta, o do 4-3, ainda hoje é mostrado nas escolas do Ajax de Amesterdão, aquela cavalgada de Eusébio desde o meio-campo até à área norte-coreana, onde só foi parado em penálti. “A bola está meio metro à frente dos meus pés. Parece que tenho cola. Eu aumento a velocidade, meto as mudanças. Dei 17, 18 toques desde que o Coluna me entrega a bola. Sofro uma pancada à entrada da área, mas continuo, porque nunca fui de me atirar para o chão. Só que, depois, chega outro que me dá uma sarrafada... Penálti!”, foi como Eusébio descreveu o lance em entrevista ao Expresso. Na sua primeira presença em Mundiais (seria a única até ao México 86), Portugal já estava entre as quatro melhores. Seguia-se a anfitriã Inglaterra. O jogo era para ser em Liverpool, de novo no estádio do Everton, mas, com o acordo da Federação Portuguesa de Futebol, mudou-se para Wembley e foi a selecção portuguesa que teve de mudar de base. Segundo contou Eusébio, a federação não era obrigada a aceitar a mudança, mas deu o consentimento a troco de compensação monetária. Mais uma viagem depois do duro jogo com a Coreia e as pernas dos portugueses já não estavam tão frescas para evitar o desaire por 2-1. “A nossa federação vendeu-se e pronto”, acusou Eusébio, que marcou, de penálti, o golo português. Sem poder discutir o título, os “magriços” ganharam o jogo de conso- PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP “Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso” lação para o terceiro lugar, contra a URSS, por 2-1. Um golo de Eusébio, que foi o melhor marcador do torneio, com nove golos. Duas imagens ficaram deste Mundial de 66: Eusébio a ir buscar a bola à baliza coreana, um gesto simbólico para a reviravolta que acabaria por acontecer; Eusébio a chorar após a derrota com a Inglaterra, quando já nada havia a fazer. Património de Estado Eusébio foi grande num tempo em que o futebol era diferente. Em que o futebol português era diferente. Em tudo. Nas rivalidades, nos hábitos, nos comportamentos. “Às segundasfeiras juntávamo-nos todos – do Sporting, do Benfica, do Belenenses –, al- moçávamos frango assado no Bonjardim e depois íamos ao cinema. E andávamos sempre de metro ou de eléctrico, porque era mais barato. As pessoas paravam na rua só para nos verem juntos. Para tirar a carta tive de pedir autorização à minha mãe: ‘Mas você vai tirar a carta porquê? Não há aí machimbombo [autocarro]?’” Cinco anos depois de chegar a Portugal, Eusébio casou-se com a sua namorada, Flora (conheceram-se dois anos antes), em 1965, no evento que a revista Flama (que fez capa com Flora vestida de noiva) descreveu como “O remate final é o amor”. Tiveram duas filhas, por esta ordem, Sandra e Carla, respectivamente em 1966 e 1968. Foram fazendo vida em Lisboa, apesar das muitas propostas que Eusébio ia recebendo de grandes clubes. Mas o regime não o deixava sair. Salazar considerava-o património de Estado e isso, como o próprio admitiu várias vezes mais tarde, impediu-o de ganhar muito dinheiro. Eusébio fez o seu último jogo pelo Benfica a 29 de Março de 1975. Foi no Estádio da Luz, frente ao Oriental, vitória por 4-0, nenhum dos golos marcados por Eusébio. O último de “encarnado” marcara-o uma semana antes, no Bonfim, ao Vitória de Setúbal. Nessa época, Eusébio fez apenas 13 jogos (dois golos), entre o campeonato e a Taça das Taças, a sua pior época desde a primeira, a de 1960-61 (dois jogos), menos de um terço dos jogos oficiais do Benfica. Já depois da revolução de 25 de Abril de 1974, o clube “encarnado” deixou-o sair e Eusébio juntou-se a uma das maiores colecções de craques da história do futebol, a NorthAmerican Soccer League (NASL), todos eles seduzidos pelos dólares norte-americanos. Pelé, Franz Beckenbauer, George Best, Johan Cruijff, Carlos Alberto, Teófillo Cubillas, Gordon Banks, Gerd Muller, Carlos Alberto, Graeme Souness. Eusébio não foi o único português nos EUA. Acompanhou-o Simões, a quem sempre chamou o seu “irmão branco”. No país onde o futebol não é “football”, mas sim “soccer”, a NASL conseguiu impor, por alguns anos, o futebol como desporto de massas, assente no princípio de que grandes estrelas dão grandes espectáculos e que grandes espectáculos (isto é especialmente verdade na América) atraem sempre muito público. Eusébio era, de facto, uma estrela global, mas não foi desta que conseguiu jogar na mesma equipa de Pelé. Foram, novamente, adversários, como tinha acontecido em outras ocasiões. Pelé ficou no Cosmos de Nova Iorque, Eusébio foi para Boston, onde havia (e há) uma grande comunidade portuguesa. “Os grandes jogadores não podiam jogar na mesma equipa, era para ter ido para o Cosmos, mas fui para Boston. Com o mesmo contrato e a ganhar muito bem. Tinha casa, motorista. Até nos davam guarda-costas”, contou. c
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    8 | DESTAQUE| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 EUSÉBIO (1942-2014) Em 1975, nos Minutemen, onde estavam muitos portugueses para além dele (Simões, Jorge Calado, Fernando Nélson e Manaca), Eusébio fez sete jogos e marcou dois golos – o jogo de estreia foi contra o Cosmos de Pelé. Bem melhor foi o ano de 1976, ao serviço dos Toronto Metro-Croatia, em que Eusébio marcou 13 golos e conduziu a formação canadiana ao título da NASL. Na passagem pelo continente americano, Eusébio esteve ainda no Monterrey, do México, nos Las Vegas Quicksilvers e nos New Jersey Americans. Nos intervalos da aventura americana, Eusébio regressava a Portugal, não para descansar, mas para manter a forma e ganhar mais alguns escudos. Foi assim que jogou no BeiraMar os seus últimos minutos e marcou os seus últimos golos na primeira divisão portuguesa e foi assim que andou pela segunda divisão a fazer carrinhos pelo União de Tomar, o seu último clube em Portugal. Eram contratos de curta duração. Eusébio e Simões, os irmãos, jogaram juntos até ao fim. Eusébio ainda teve a hipótese de jogar no Sporting, por convite de João Rocha, antes de ir para Aveiro. No Beira-Mar, Eusébio teve o seu último contacto com o principal escalão do futebol português. Não com a camisola encarnada do Benfica, mas com o equipamento amarelo e negro da equipa aveirense. Pagavam-lhe 50 contos por mês. Dois momentos são importantes nesta breve passagem por Aveiro. Quando defrontou o rival Sporting e o seu clube do coração, o Benfica. Foi contra os “leões” que marcou, a 6 de Março de 1977, o seu último golo na primeira divisão, confirmando o Sporting (a par do Belenenses) como a maior “vítima” dos seus remates certeiros, 24. Dois meses antes, tinha defrontado as “camisolas berrantes”, como lhes chamava Luís Piçarra na canção que serve como hino das “águias”. Tal como acontecera 20 anos antes em Lourenço Marques, Eusébio tinha de jogar contra si próprio. A 5 de Janeiro de 1977, Eusébio-Benfica, no Estádio Mário Duarte, em Aveiro, a contar para a 12.ª jornada do campeonato. Eusébio não iria ser profissional. “Já tinha avisado o treinador do BeiraMar, o Manuel de Oliveira, que não ia rematar à baliza. Quinze minutos antes do jogo, fui ao balneário do Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar golos. [No jogo] não rematei, não marquei faltas, nem grandes penalidades. Andava lá no campo só a passar a bola aos outros.” Com o jogo empatado 2-2, o BeiraMar beneficia de um livre à entrada da área que seria mesmo ao jeito de Eusébio. Mas o Pantera Negra recusou-se a marcar. Palavra a António Sousa, futuro jogador do FC Porto e do Sporting e internacional português, então um jovem a dar os primeiros passos no Beira-Mar: “O sentimento dele era enorme e jogar contra a equipa do coração e da vida foi marcante para ele. Porventura o mal-estar dele em relação ao próprio jogo era porque ele gostava de ganhar. O facto de o Eusébio não marcar um livre e dizer para eu marcar é sinónimo disso.” Sousa atirou por cima e o jogo acabou empatado. Depois do Beira-Mar e de mais uma temporada nos EUA, Eusébio foi para o União de Tomar, da segunda divisão. Estreou-se com a camisola vermelha e negra do União a 1 de Dezembro de 1977, frente ao Estoril. Em 12 jogos disputados pelo clube ribatejano, marcou três golos, mas, nesta fase, ele já não era um avançado. Andava mais pelo meio-campo, tal como António Simões. “O nosso estilo era diferente. Já não tínhamos pernas para lá ir, ficávamos mais no meio-campo. Mas o Eusébio, nos livres, era igual”, recorda Simões. Em Tomar, até carrinhos fazia. De Tomar para Buffalo. Buffalo é relevante na vida de Eusébio? É e não é. Em toda a sua carreira é apenas uma nota de rodapé, mas é nesta cidade do estado de Nova Iorque que irá cumprir os seus últimos jogos. A camisola dos Buffalo Stallions, equi- “Às segundasfeiras juntávamonos todos — do Sporting, do Benfica, do Belenenses —, almoçávamos frango assado no Bonjardim e depois íamos ao cinema. E andávamos sempre de metro ou de eléctrico, porque era mais barato” A cobertura ao minuto das homenagens a Eusébio, fotogalerias e vídeos em www.publico.pt pa da Liga indoor norte-americana, será a sua última. Fica o registo do rendimento de Eusébio, veterano avançado de 38 anos e com os joelhos em mau estado, em 1979-80, a sua última época: cinco jogos e um golo. Quando deixou de ser jogador, Eusébio nunca quis ser treinador principal. Foi ficando pelo Benfica, como adjunto, para ensinar uns truques a diferentes gerações de futebolistas. Por exemplo, como marcar golos estando atrás da baliza, um truque que tinha começado numa aposta com Fernando Riera. Eusébio apostou um fato com o treinador chileno em como conseguia marcar três golos em dez tentativas. O desfecho foi o mesmo das vezes em que apostava berlindes com os outros miúdos da Mafalala. Ganhou. A lenda foi-se mantendo intacta. King em todo o mundo. Ninguém melhor para servir de embaixador do Benfica e de Portugal. Mas o homem passou um mau bocado nos últimos anos de vida, uma decadência natural da idade, mas acelerada por alguns excessos. Os seus últimos tempos foram uma constante de alertas médicos e idas para o hospital, que terminavam sempre com um sorriso e a garantia de que tudo estava bem. Quando fez 70 anos, numa festa com centenas de convidados, Eusébio já era um homem debilitado, de poucas palavras. Mas fazia questão de acompanhar a selecção para todo o lado e estava lá, no Euro 2012, para ver a sua contraparte do século XXI, Cristiano Ronaldo, conduzir a equipa portuguesa até às meias-finais — ao contrário de Ronaldo, Eusébio nunca foi capitão, apenas desempenhou essa função episodicamente. Eusébio sentiu-se mal após o jogo com os checos e já não estava na Ucrânia quando a selecção portuguesa foi eliminada pela Espanha nas meiasfinais. Ele era o homem que todos os guarda-redes temiam, mas também era aquele que cumprimentava os guarda-redes que defendiam os seus remates. Ele era o homem que gostava de jazz e de caril de marisco, que almoçava quase diariamente no seu restaurante preferido desde que chegou a Lisboa em 1960, a Adega da Tia Matilde. Foi objecto de uma banda desenhada, de músicas com o seu nome no título e no refrão, de uma longa-metragem, de inúmeras homenagens e distinções, sempre nas listas dos melhores de sempre. Essa é uma equipa onde nunca será suplente. CRONOLOGIA DE UMA VIDA Nasce, no bairro da Mafalala, em Lourenço Marques (actual Maputo), Eusébio da Silva Ferreira, filho de Laurindo António da Silva Ferreira e Elisa Anissabeni. dos Campeões Europeus em Wembley. Eusébio ainda marca o primeiro golo, mas um bis de Altafini dá o título aos italianos. Eusébio jogaria ainda em mais duas finais pelo Benfica, perdendo com o Inter de Milão em 1965 e com o Manchester United em 1968. 1958 28 de Dez. de 1965 Eusébio chega ao Sporting de Lourenço Marques. Estreou-se contra o Desportivo marcando três golos. Eusébio recebe a Bola de Ouro, prémio atribuído ao melhor futebolista europeu do ano pela revista France Football. 15 de Dez. de 1960 23 de Julho de 1966 As versões divergem (há quem diga que foi a 17 de Dezembro), mas foi a meio de Dezembro que Eusébio aterrou em Lisboa, com destino ao Benfica. Eusébio marca quatro golos no triunfo da selecção portuguesa sobre a Coreia do Norte nos quartos-de-final do Mundial de 1966. Portugal acabaria por ficar em terceiro lugar e Eusébio foi o melhor marcador do torneio, com nove golos. 25 de Janeiro de 1942 23 de Maio de 1961 Estreia oficial de Eusébio pelo Benfica num jogo da Taça de Portugal frente ao V. Setúbal. Eusébio marca o único golo dos “encarnados”. 8 de Junho de 1961 Primeiro jogo de Eusébio pelo Benfica no campeonato nacional. Frente ao Belenenses, Eusébio marcou um dos golos no triunfo “encarnado” por 4-0, sagrando-se campeão pela primeira vez pelo Benfica. Será o primeiro de 11 títulos conquistados na Luz. 8 de Outubro de 1961 Eusébio estreia-se pela selecção portuguesa num jogo contra o Luxemburgo marcando um golo, mas Portugal perdeu por 4-2. 1968 Eusébio termina a época com 43 golos, sendo o melhor marcador da Europa, e torna-se no primeiro jogador a conquistar a Bota de Ouro. Repetiu o feio em 1973, com 40 golos. 13 de Outubro de 1973 Último jogo pela selecção portuguesa, frente à Bulgária, no Estádio da Luz, a contar para a fase de apuramento do Mundial de 1974. Não marcou qualquer golo e foi substituído por Jordão aos 28 minutos. Foram 64 jogos pela selecção portuguesa, com 41 golos marcados. 29 de Março de 1975 O Benfica conquista a sua segunda Taça dos Campeões Europeus, derrotando em Amesterdão o Real Madrid por 5-3. Eusébio marcou dois golos. Último jogo de Eusébio com a camisola do Benfica. Foi na Luz, frente ao Oriental e ficou em branco. Seis dias antes, no Bonfim, frente ao Vitória de Setúbal, havia marcado aquele que seria o seu último golo pelos “encarnados”. 25 de Maio de 1963 5 de Janeiro de 2014 O Benfica é derrotado pelo AC Milan por 2-1 na final da Taça Eusébio morre na sua casa, em Lisboa. Tinha 71 anos. M.V. 2 de Maio de 1962
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | DESTAQUE | 9 O futebol perdeu uma lenda. No campo, Eusébio era uma Mas o lugar de Eusébio entre os verdadeira lenda. Mas também grandes nunca lhe será tirado fora dele, ele era um verdadeiro embaixador do futebol português a nível internacional Joseph Blatter, presidente da FIFA Michel Platini, presidente da UEFA Foi uma figura que teve um prestígio internacional, quando ainda havia poucas que o tivessem Jorge Sampaio, ex-Presidente da República A saúde que foi faltando a Eusébio nos seus últimos anos Miguel Andrade O s últimos anos de vida do ex-internacional português foram marcados por vários problemas de saúde. Eusébio sofria de aterosclerose — espessamento e perda de elasticidade da parede arterial — e tinha tendência para níveis elevados de colesterol. Apresentava ainda sintomas de hipertensão. Maleitas que obrigaram à sua hospitalização em 2007, 2011 e 2012. Em Abril de 2007, Eusébio esteve pela primeira vez internado no Hospital da Luz, em Lisboa, onde lhe foram diagnosticadas “lesões significativas nas artérias carótidas internas”. Por outras palavras, “lesões obstrutivas das artérias que irrigam o cérebro”, segundo explicou, na altura, o cirurgião vascular que o observou, Germano do Carmo. Depois de alguns dias internado, o Pantera Negra foi sujeito a uma operação à artéria carótida esquerda, como prevenção de um eventual acidente vascular cerebral (AVC). Os médicos aconselharam Eusébio a alterar os hábitos de vida e Eusébio foi claro quanto às mudanças. “Quem é que não gosta de viver?”, questionou, deixando a garantia de que iria seguir as novas regras. “Vou ter de cumprir as recomendações dos médicos”, disse na altura Eusébio. No final de Dezembro de 2011, voltaram os problemas de saúde. O ex-internacional português deu entrada nos cuidados intensivos com uma pneumonia bilateral e permaneceu no Hospital da Luz, em Lisboa, durante 13 dias, incluindo o Natal. Saiu a 31 de Dezembro, mas, a 4 de Janeiro de 2012, voltou a ser internado devido ao agravamento do seu quadro clínico. O ex-futebolista sentiu dores e problemas respiratórios. O diagnóstico apontou para um caso de cervicalgia aguda, isto é, uma lesão muscular no pescoço. O caso chegou a assustar o Pantera Negra, mas as palavras tranquilizadoras do médico acalmaram-no: “Perguntei se era grave e o médico disse-me que não, que tinha tratamento e que ia sair do hospital como novo.” Contudo, as complicações de saúde de Eusébio continuaram. Pela terceira vez em dois meses e meio, o ex-jogador do Benfica era obrigado a voltar ao mesmo hospital, agora por causa de uma crise hipertensiva (tensão arterial elevada). Passados dois dias, Eusébio voltava a sair da unidade hospitalar. A sua pressão arterial regressara ao normal. A 23 de Junho de 2012, o também embaixador da selecção nacional, que se encontrava com a equipa no Europeu de Futebol, na Polónia e Ucrânia, teve uma indisposição quando estava no hotel, onde a comitiva nacional estagiava, em Opale- nica. Eusébio foi levado de urgência para o hospital de Poznan, na Polónia, mas teve de ser transportado de avião para Lisboa, regressando ao Hospital da Luz. A indisposição sentida pelo Pantera Negra na Polónia ficou a dever-se a um AVC. Só passados 14 dias teve alta hospitalar, mas continuou a ter assistência médica no domicílio por vários dias. Neste domingo, porém, aos 71 anos, Eusébio não resistiu a mais uma traição do seu corpo e morreu vítima de paragem cardiorrespiratória. Eusébio estava em casa, sentiu-se mal por volta das 3h30 da manhã e foi chamado o INEM, mas foi impossível mantê-lo vivo. PUBLICIDADE emirates.pt 2014 vai ser um ano inesquecível Viaje pelo mundo com as nossas tarifas especiais. Reserve até 10 de janeiro e usufrua de excelentes tarifas com taxas incluídas, para 10 destinos. Viagens de 1 de fevereiro até 30 de junho. Disponibilidade limitada, por isso reserve já. DESTINO Luanda Hong Kong Joanesburgo Mumbai Xangai Dubai Ho Chi Minh Banguecoque Male Sydney CLASSE ECONÓMICA A PARTIR DE* CLASSE EXECUTIVA A PARTIR DE* 636€ 643€ 653€ 662€ 664€ 693€ 716€ 727€ 877€ 1.240€ 2.520€ 2.563€ 2.357€ 2.196€ 2.582€ 2.524€ 2.556€ 2.517€ 2.821€ 4.242€ Hello Tomorrow Junte-se ao Emirates Skywards e abra um mundo de benefícios com emirates.pt *Tarifa de ida e volta por pessoa para partidas de Lisboa, Porto e Faro. Taxas incluídas. Vendas até 10.01.2014 e viagens de 01.02.2014 até 30.06.2014. Reserve através do seu Agente de Viagens, em emirates.pt ou contacte o Departamento de Reservas da Emirates através do número 213 665 533.
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    10 | DESTAQUE| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 EUSÉBIO (1942-2014) O futebol português está de luto, morreu um dos maiores símbolos da modalidade Pinto da Costa Presidente do FC Porto Mítico, lendário, ícone, ídolo, craque: os elogios da imprensa internacional Não faltam adjectivos fora de portas para qualificar o antigo futebolista do Benfica. A notícia do desaparecimento de Eusébio fez mossa um pouco pelo mundo inteiro REUTERS João Manuel Rocha A i m p re n s a d e s p o r t iv a espanhola foi a que mais relevo deu à notícia da morte de Eusébio, nas primeiras horas após a notícia da sua morte. Mas o desaparecimento do antigo futebolista português é notícia um pouco por toda a parte, sempre com adjectivos elogiosos. O diário desportivo espanhol Marca publicou com grande destaque no seu site um conjunto de trabalhos sobre Eusébio, que qualifica como “mítico” e considera “um dos melhores jogadores de todos os tempos”, conhecido “pela sua velocidade, a sua técnica e o seu potente remate com o pé direito”. Recorda o trajecto do atleta desde Moçambique e as peripécias desde a sua ida para o Benfica até à retirada dos relvados, aos 36 anos. A Marca republica a última entrevista que fez ao jogador, na qual se declarava “madridista” e também editou uma galeria de fotos de “Eusébio, o orgulho de Portugal”. Deu ainda voz a Di Stéfano, antiga glória do Real Madrid, que se referiu ao português como “o melhor jogador de todos os tempos”. Noutro texto recordou a forma como jogava: “O Benfica de Bella Guttman [treinador húngaro] e do grande Eusébio.” Destacou igualmente a primeira reacção de Cristiano Ronaldo à morte. O As, também de Madrid, deu relevo à notícia da morte do “lendário” Eusébio, divulgou vídeos de jogadas que protagonizou, dedicou uma fotogaleria ao jogador e, entre as reacções, destacou as de Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Fez também eco da reacção do Real Madrid, que A morte de Eusébio foi notícia um pouco por todo o mundo o considera “um dos maiores jogadores de todos os tempos”. As publicações desportivas de Barcelona deram também destaque ao desaparecimento do antigo futebolista. O Mundo Deportivo dedicou-lhe textos — “Eusébio, mais do que um monumento” escreve, num deles, o subdirector Francesc Aguilar —, uma fotogaleria e divulgou reacções à morte. O também catalão Sport dedicou vários textos ao “lendário futebolista português Eusébio” Nos jornais generalistas, o El País deu importância à notícia referindose, em título, a Eusébio como “ícone do futebol português” e divulgando reacções à morte, destacando a de Ronaldo. O também generalista El Mundo noticiou com relevo: “Morre Eusébio, adeus à Pantera Negra” e recorreu a uma fotogaleria. No site da BBC, a morte de Eusébio foi um dos assuntos em destaque neste domingo. A estação recordou que é considerado “um dos maiores futebolistas de todos os tempos” e traçou o seu percurso. Também em Inglaterra, onde Eusébio deixou marca no Mundial de 1966, ali realizado, o Guardian refere-se à antiga glória do Benfica como “a figura proeminente do futebol português antes de Cristiano Ronaldo”. O desportivo francês L’Équipe, que o classifica como “o maior jogador português de todos os tempos”, abriu a página principal do seu site com uma fotogaleria de Eusébio, historiou o seu percurso, o palmarés e destacou as reacções do treinador José Mourinho e de Cristiano Ronaldo. Ainda que com menos relevo, a morte de Eusébio foi também notícia no site dos diários generalistas Le Monde ou Libération, que o classificam como “lenda do futebol português”. O último dos jornais considera que “o mundo está de luto”. A imprensa generalista brasileira também deu destaque à morte do ex-jogador — “Ídolo”, no título do Estado de São Paulo; “craque” na expressão d’O Globo. Cavaco Silva pede que se “siga o exemplo” ganhador de Eusébio O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, sublinhou ontem que a melhor forma de homenagear Eusébio “é seguir o seu exemplo”, recordando a forma como o antigo futebolista trabalhou e lutou para alcançar tantas vitórias. “Portugal perdeu hoje um dos seus filhos mais queridos: Eusébio da Silva Ferreira”, afirmou o chefe de Estado, numa declaração no Palácio de Belém, ao final da manhã. O Presidente da República louvou o exemplo do ex-jogador enquanto desportista e ser humano, sublinhando a forma como ele trabalhou e lutou para alcançar tantas vitórias”. Na declaração, Cavaco Silva recordou a forma como ao longo da sua vida Eusébio conquistou o carinho e a estima de todos, por ser “um desportista de excepção, dos melhores do mundo, que tantas glórias trouxe a Portugal”. Entre as várias condecorações com que foi distinguido, Eusébio foi agraciado com a Grã-Cruz Infante D. Henrique e a Ordem de Mérito. Já o primeiro-ministro marcou ontem presença no velório, no Estádio da Luz, onde, “em nome de todos os portugueses”, fez questão de homenagear o ex-desportista. “Sabemos que foi um grande futebolista, um dos melhores de sempre, mas foi sobretudo um homem que está associado à alma portuguesa”, declarou Pedro Passos Coelho à Benfica TV: “É importante para Portugal, porque foi um embaixador grande de Portugal, mas também um embaixador do futebol e do desporto mundial. Todo o mundo irá sentir esta perda. Todas as pessoas, independentemente da idade, recordarão o Eusébio como desportista e pela qualidade humana extraordinária.” Luís Filipe Vieira expressou a sua gratidão pelo contributo que Eusébio deu ao Benfica logo de manhã, através da rede social Facebook. “Nunca estamos preparados para perder aqueles que nos são mais próximos, aqueles que, por tudo o que fizeram, por tudo o que alcançaram, nos acostumamos a ver como imortais. Eusébio já tinha ganho em vida a sua condição de mito e por isso é que a notícia do seu desaparecimento mais choca, porque os mitos nunca deviam partir”, escreveu o presidente “encarnado”. Mais a norte, Pinto da Costa também quis prestar a sua homenagem ao ex-jogador. “O futebol português está de luto, morreu um dos maiores símbolos da modalidade. O maior jogador português da sua geração e sobretudo um grande ser humano e um exemplo de fair play. Evoco aqui a sua memória e transmito as condolências à família. É um dia triste para o futebol português”, referiu o presidente portista, numa nota publicada no site oficial do clube. Jorge Jesus lamentou igualmente o desaparecimento “físico” da antiga glória do clube da Luz, mas lembrou que Eusébio estará sempre vivo no coração dos benfiquistas. “Eusébio foi um ídolo que criou toda a grandiosidade desportiva do Benfica. Transformou vários adeptos em benfiquistas, pela sua qualidade, como jogador e como pessoa. Ele morreu fisicamente, mas nunca vai morrer no coração dos benfiquistas”, salientou o técnico, em declarações à Benfica TV. Cavaco Silva
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    12 | DESTAQUE| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 EUSÉBIO (1942-2014) Deixou uma carreira brilhantíssima e na minha opinião foi o melhor jogador português de todos os tempos José Augusto, Ex-jogador, companheiro no Benfica e na selecção Ele dançava no relvado e também inspirava música Mário Lopes Os Sheiks celebraram-no em yé-yé, o Conjunto sem Nome cantou-o, o guitarrista Filho da Mãe imaginou-o no deserto. Eusébio musical C omo defendia o jornalista da Emissora Nacional na reportagem da recepção portuguesa aos Magriços, depois da brilhante prestação em Inglaterra, a selecção portuguesa pode não ter conseguido vencer o Mundial de Futebol de 1966, mas aquele terceiro lugar representou o mesmo que trazer para casa o título de campeão. E se alguém mereceu que assim fosse, esse alguém, numa equipa onde jogavam homens do quilate de Mário Coluna, Hilário, Torres ou José Augusto, foi obviamente Eusébio, autor de sete dos nove golos portugueses da fase de qualificação, melhor marcador do Mundial, com nove, e figura máxima do torneio. Pouco depois de a selecção ser recebida em êxtase pelos portugueses que a haviam acompanhado pela rádio e televisão, o Pantera Negra era celebrado de uma forma moderna, moderníssima, eléctrica, bluesy, yé-yé. Os Sheiks de Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Edmundo Silva e Fernando Chaby, a banda pop de maior sucesso à época, os Beatles portugueses que haviam irrompido no início do ano com Tell me bird e Missing you, lançavam Eusébio, canção tributo à selecção e à sua maior figura. “Foi uma proposta da [editora] Valentim de Carvalho”, recorda Carlos Mendes. “Tudo feito no estúdio, improvisado.” Guitarras e harmónica unidas em rhythm & blues de batida certeira e, enquanto o ritmo comanda a acção, canta-se sobre a selecção que “abriu o livro”, fala-se de “Eusébio e companhia”, que “deram tratado e do bom” com “futebol afinadinho e no tom”. São dois minutos de canção. Uma celebração instantânea: “Como o grupo estava bastante entrosado, construíamos as letras e a música directamente no estúdio”, diz Carlos Mendes. Sheiks e Portuguese Nuggets Eis então Eusébio, futebolista maior, imortalizado em canção pela mais famosa banda rock portuguesa da década de 1960. Com letra a acentuar o que disse o repórter na reportagem supracitada: “Só não ficámos com a taça/ mas fica tudo contente.” Letra que diz algo mais: “Lá ninguém nos conhecia nem dava nada pela gente.” Carlos Mendes, sportinguista mas homem pouco fervoroso nas questões do futebol, recorda como, principalmente após o Mundial de 1966, Eusébio passou a ser o verdadeiro embaixador português. “Teve uma importância muito grande como fenómeno, o que deu uma divulgação muito grande do país pelo mundo. Nessa altura ia muitas vezes ao estrangeiro e sempre que se falava de Portugal tinha como resposta: ‘Portugal? Eusébio!’.” Do jogador, recorda uma história que corria os cafés e que dá conta da dimensão heróica, mítica, do jogador do Benfica. “Era uma força da natureza. Dizia-se que, quando chutava a bola, o fazia com uma força tal que ela ficava oval — apanhava-se isso nas fotografias a baixa velocidade. E estamos a falar das bolas da época, pesadíssimas, que se apanhassem com água da chuva podiam fazer desmaiar quem as cabeceasse. Não sei se era verdade, mas era isso que se contava nos cafés: ‘Imagina que ele tem um chuto tal que a bola fica oval.’” A celebração musical de Eusébio não se ficaria pelos Sheiks. Três anos depois, o Conjunto sem Nome editaria O joelho do Eusébio, marcha sambada que faz força da fraqueza do Rei, ou seja, as inúmeras lesões sofridas, fruto das marcações impediosas num futebol mais violento: “O joelho do Eusébio fez o mundo estremecer/ Mas o Eusébio, tem joelho ‘inda’ para dar e vender” — e até “o menisco do Eusébio” era, na canção do Conjunto sem Nome, “o menisco da saúde”. Mais à frente, os Salada de Frutas incluiriam o King na letra do clássico de 1981 Se cá nevasse... (“Se o Eusébio ainda jogasse / Ai que fintas ele faria um dia”), e duas décadas depois, em 2007, quando foi editado o segundo volume da série Portuguese Nuggets, compilação dedicada à cena rock’n’roll portuguesa da década de 1960, não só surgia no alinhamento Eusébio, o dos Sheiks, como Eusébio, ele mesmo, figurava na capa do LP estilizado em colorido psicadélico. Não demoraríamos a encontrá-lo novamente em forma de música. Em 2011, o guitarrista Rui Carvalho, que assina como Filho da Mãe e cujo segundo álbum, Cabeça, foi considerado pelo Ípsilon um dos melhores álbuns de 2013, lançava o seu disco de estreia, Palácio. Música número 4: Eusébio no deserto. Título que Rui Carvalho explica rapidamente. “Quis reflectir o que o Eusébio tem do ser português.” Um português atípico, porque nasceu em Moçambique, “mas provavelmente mais português que qualquer português de que me possa lembrar”. A música reflecte precisamente isso. “Coloquei-o no deserto, um deserto que será mais próximo do imaginário cowboy. O tema é um blues acelerado, mas tem ali umas fintas pelo meio e qualquer coisa que o liga a Portugal.”. O título chegou depois da música. “Foi a forma que encontrei para a descrever. Ouvi-a e pensei: ‘Isto lembrame Eusébio no deserto.’” Faz sentido? Claro que sim. Eusébio fica bem em todo o lado. Senão, vejamos. Em 2007 surgiu do nada uma banda galesa de vida breve. Editou nesse ano o álbum Beth yw Hyn. O seu nome? Eusebio (naturalmente). Como se chega a Eusébio Opinião José Medeiros Ferreira Q uando me comecei a interessar por futebol, há 65 anos!, esse desporto era muito débil em Portugal. O fim da II Guerra Mundial trouxera algumas novidades, uns treinadores ingleses e austrohúngaros, e o predomínio do Sporting Clube de Portugal. Mesmo os “cinco violinos” só carburavam a quatro com o Jesus Correia a dar umas “stickadas” no hóquei em patins. O hóquei da Linha do Estoril era então a segunda circular do circuito dos campeonatos, como hoje em dia o topos do Estádio da Luz e do de Alvalade. Era o tempo dos 10 a 0 e dos 9 a 1 nas balizas ou por lá perto. Só a taça latina no Jamor nos lavou algumas lágrimas. Em 1954, o Sport Lisboa e Benfica inaugurou o seu estádio, então de Carnide, e contratou o treinador brasileiro Otto Glória, que introduziu algumas novidades na organização do futebol semiprofissional e reuniu os jogadores numa residência especialmente para forasteiros e solteiros. Mesmo assim, até 1958, o futebol praticado baseava-se apenas numa figura táctica que ocupava melhor o terreno a meiocampo — o célebre losango! — e no brotar de alguns jogadores com talento individual e sentido colectivo como o velho Francisco Ferreira e Caiado. Depois a chegada de alguns jogadores oriundos de África: Costa Pereira, José Águas, Santana, Mário Coluna, morfologicamente muito distintos dos jogadores metropolitanos, mais habilidosos mas mais frágeis no ombro a ombro. Eusébio chegou no melhor momento, ainda não tinha 20 anos. Dotado de uma planta de atleta, senhor de reflexos inatos e de uma velocidade de excepção, ele aproveitará tudo o que havia de melhor do ambiente da residência para jogadores, do amparo e conselho de Mário Coluna e da chegada de Bella Guttman, outro treinador austríaco fugido à II Guerra Mundial, e de tudo isso aproveitou para a sua maturidade como desportista de eleição. Quando o vi jogar, em 1961, na Tapadinha e no Restelo, ele já era um forade-série, capaz de sprintar com a bola dominada e a cabeça bem erguida, capaz de fintar qualquer adversário no um para um. A grande dúvida que se coloca para os que acreditam no ensino é a de saber se há algum método, algum treino, algum exercício repetido, algum reflexo criado, que transplante um atleta do seu meio natural e faça dele um génio. Professor universitário ERIC GAILLARD /REUTERS Numa exposição sobre futebol em Cannes, em 1999
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | DESTAQUE | 13 É uma perda enorme. Sem dúvida, Eusébio foi um dos Sinto que também se foi embora melhores jogadores com os que um pouco de mim tive o privilégio de jogar. Era um m autêntico desportista Era o maior símbolo do futebol português e também do Benfica. Vamos saber perpetuar a sua memória António Simões Antigo jogador do Benfica Bobby Charlton, um dos jogadores míticos do futebol inglês Chegou incógnito e acabou a fazer “carrinhos” em Tomar Marco Vaza T inha 18 anos quando aterrou em Lisboa, a “metrópole”, a capital do império português a 15 de Dezembro de 1960. Tinha viajado incógnito, com nome de mulher, Ruth Malosso. Vinha de Moçambique, de Lourenço Marques, um jovem “de aparência bastante robusta, com costas largas, boa altura” chamado Eusébio da Silva Ferreira. Ninguém sabia o que ia dar, ninguém sabia que aquele avançado africano iria ser um dos melhores futebolistas do planeta. O Benfica foi o seu clube de sempre, onde conquistou as maiores glórias e se tornou no “Pantera Negra”. Mas não foi o único. Andou pela América e acabou a jogar na segunda divisão portuguesa, no União de Tomar. O União Comércio e Indústria de Tomar já tinha estado seis temporadas na primeira divisão, entre 1968 e 1976, mas naquele ano, 1977, estava no segundo escalão. Fernando Mendes, na altura o presidente do clube, queria mais sócios e mais público nos jogos e avançou para a contratação de duas estrelas do futebol português, Eusébio e António Simões. “Eles andavam a fazer uns contratos pela América e a ideia até foi do Simões”, recorda ao PÚBLICO o então presidente do clube. Tal como Eusébio, António Simões tinha 35 anos e estava longe dos tempos de glória do Benfica, onde se conheceram e brilharam. Nesta altura, precisava de manter a forma para aspirar aos dólares que pagavam do outro lado do oceano Atlântico, na liga norte-americana. “O campeonato dos EUA era de seis, sete meses e tínhamos todo o interesse em não parar”, refere Simões, que saiu do Benfica em 1975, o mesmo ano de Eusébio. A ideia do presidente do União de Tomar deu resultados imediatos. O clube passou a ter mais gente no estádio e nos jogos fora. Eusébio estreouse com a camisola vermelha e negra do União de Tomar a 1 de Dezembro de 1977 frente ao Estoril, o primeiro de 12 jogos pelo clube (três golos). Eusébio já não tinha a potência de outros tempos, aquele joelho esquer- do muito massacrado já não deixava e andava mais pelo meio-campo em vez de ser um avançado explosivo e veloz. “Até fazia carrinhos e ia pelo chão”, recorda Mário Pinto, um extremo de 18 anos em início de carreira. Eusébio e Simões não tinham de treinar-se todos os dias no União. Um, às vezes dois treinos por semana. Recorda Mário Pinto que viu, uma vez, Eusébio a dormir durante uma palestra do treinador Vieirinha: “Mas o treinador dizia: ‘Ele já sabe o que vai fazer em campo’.” “Era um fascínio para os miúdos do União de Tomar conhecer o Eusébio e o Simões, quanto mais jogar com eles”, conta António Simões. “O nosso estilo já era diferente. Já não tínhamos pernas para lá ir, ficávamos mais no meio-campo. Mas o Eusébio, nos liEusébio com a camisola do União de Tomar, na fase final da sua carreira, onde fez 12 jogos e marcou 3 golos vres, era igual. Mantinha essa capacidade técnica, remates com força e direcção.” A breve passagem por Tomar durou até Março de 1978. Depois ainda voltou aos EUA, para tentar uma experiência no futebol indoor, mas esta foi ainda mais efémera. António Simões também voltou ao continente americano nas mesmas condições, acabando por ficar lá mais algum tempo como treinador. Fizeram quase o mesmo percurso de vida desportiva. Começaram jovens no Benfica, estiveram ambos na selecção portuguesa que brilhou no Mundial de 1966, saíram da Luz no mesmo ano, foram atrás dos dólares americanos e terminaram ao mesmo tempo. “O nosso trajecto foi muito igual”, sintetiza Simões. “Tínhamos uma cumplicidade muito grande. A mim chama-me o irmão branco e eu chamo-lhe o meu irmão africano, que será até ao resto da minha vida. Como homem, só não cresceu de uma maneira. A sua vaidade não inchou. E ainda bem.” Texto originalmente publicado a 15 de Dezembro de 2010 Shéu Han, ex-futebolista, actualmente secretário técnico do Benfica Portugal no seu melhor Opinião António-Pedro Vasconcelos “Quantas vezes Portugal chorou contigo/ por achar que merecia mais do que o destino lhe queria dar?” José Jorge Letria E usébio da Silva Ferreira foi dos últimos grandes jogadores a ter o seu destino ligado a um clube — o Benfica — e a uma selecção — a nossa. O que ajudou a mantê-lo vivo no coração dos adeptos. E é justo realçar a importância que Luís Filipe Vieira deu ao valor simbólico, mas também humano, de ter Eusébio, mas também os outros heróis de Berna e de Amesterdão, como guardiões vivos dessa memória — e, no caso de Eusébio, como verdadeiro embaixador da grandeza ecuménica do clube. Ninguém se atreverá a dizer qual foi o melhor jogador de todos os tempos. Mesmo se há muitos candidatos — e alguns vivos: Ronaldo e Messi, pelo menos —, a verdade é que Eusébio figura no panteão dos raros que merecem subir ao pódio e lá ficar para sempre, ao lado de Pelé, Di Stefano, Puskas e Maradona. Mas Eusébio era especial. Por ele e pelo que representou. Eusébio tinha qualidades inatas para o futebol — os outros, é certo, também —, mas tinha uma espécie de pureza que nunca perdeu: uma paixão infantil pelo jogo que faz dele um caso raro no futebol. Eusébio gostava de marcar golos e de ganhar, como se isso fosse uma obrigação que os deuses lhe exigiam em troca de o ter dotado de talentos invulgares. Só via o golo à sua frente, corria para a baliza adversária para ir buscar a bola que tinha acabado de fazer entrar, para que o jogo recomeçasse sem demoras, tinha fair play, chorava se perdia injustamente, era massacrado mas Que ele desapareça do mundo dos vivos numa altura em que Portugal está a viver o impensável — um regresso planeado a esses tempos de miséria e de desprezo — é um sinal do destino não respondia, nunca perdeu essa virgindade e essa vontade infantil de ganhar, que fez com que, durante uma década, o Benfica parecesse o natural vencedor dos jogos em que entrava. Depois, ele foi, sem querer, um símbolo para os portugueses do seu tempo — e não só para os benfiquistas. Numa época em que o país estava mergulhado na miséria e na opressão, em que muitos portugueses tinham de emigrar para terras distantes, muitas vezes em condições desumanas, em que se espalharam pela Europa, mas também pelos outros continentes, em que, para muitos, ser português era sinal de opróbio e mesmo de vergonha, Eusébio resgatou o nosso orgulho e devolveu-nos a dignidade. Que ele desapareça do mundo dos vivos numa altura em que Portugal está a viver o impensável — um regresso planeado a esses tempos de miséria e de desprezo — é um sinal do destino. Que ele seja celebrado, agora, meio século depois, como foi nesses tempos, é um sinal de que o país se revê no que ele representa — hoje, como ontem, um Portugal capaz de se suplantar, de vencer a adversidade e a injustiça, de não se deixar sacrificar a um destino miserável, como aquele a que nos querem condenar. Até por isso, ele é Portugal no seu melhor. Cineasta Outra maneira de dizer alegria Opinião Ricardo Araújo Pereira O Benfica veste de vermelho e branco porque essas são, segundo os seus fundadores, cores que transmitem vivacidade e alegria. Sim, o meu clube tem a alegria nos estatutos (e isso envaidece-me). Há três ou quatro anos, em Liverpool, o estádio do Everton tinha um aspecto bastante lúgubre. As bancadas estavam cheias de adeptos tristes, vestidos de cores escuras, deprimidos pelo clima da cidade em que escolheram viver e pelo facto de, uma semana antes, terem perdido por 5 a 0 no Estádio da Luz, o que mói ainda mais do que a neblina. Antes de o jogo começar, os altifalantes do estádio anunciaram que o grande Eusébio iria ao centro do relvado. E então, todos aqueles desgraçados ingleses se levantaram para aplaudir, sorrindo. Foi a única alegria que tiveram naquela noite, em que acabariam por perder outra vez, por 2 a 0. A camisola do Benfica foi feita para ser vestida por ele. Eusébio é outra maneira de dizer alegria. Eusébio é outra maneira de dizer Benfica. Não conheço façanhas maiores. Humorista
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    14 | DESTAQUE| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 EUSÉBIO (1942-2014) Eusébio sempre Opinião António Bagão Félix 2 6 de Julho de 1966: Portugal perde contra a Inglaterra nas meiasfinais do Mundial. Recordo a imagem do convulsivo choro de menino de Eusébio, no final do jogo. Dois dias depois, a nossa selecção vence a União Soviética e alcança o 3.º lugar. Recordo o penálti marcado por Eusébio logo seguido de um abraço ao então melhor guarda-redes do mundo, Lev Yashin. A lágrima na derrota e o abraço ao adversário na vitória unidos no jogador excepcional e no homem bom que foi Eusébio. Nestes dois aparentes pormenores está, pois, uma parte significativa do que ele foi. Não apenas o fabuloso jogador que está entre os melhores de sempre no mundo, mas também a pessoa apaixonada por Portugal e pelo Benfica, o desportista leal, exemplar, simples, solidário, sem tiques de vedetismo, acima e para além da efemeridade de cada momento. Inigualável não apenas nos seus quase incontáveis golos e soberbas exibições, mas no exemplo de trabalho, de dever, de sacrifício, de abnegação, de entrega, de autenticidade, de companheirismo, até de utopia e de sonho. E que sempre soube adicionar à universidade que foi a sua vida a universalidade do consenso que foi capaz de gerar. Num tempo em que a globalização ainda não o era, num tempo em que a informação e a imagem se espalhavam à velocidade da tartaruga quando comparada com a alucinação e a vertigem de agora, Eusébio foi uma projecção de portugalidade no mundo global, a par de Amália. Como escreveu Torga “o universal é o local sem paredes”. Eusébio ultrapassou o mapa de Portugal e O adeus do menino que conquistou o mundo derrubou todos os muros. Os de cá e os de lá fora. Para mim, Eusébio representa uma certa expressão do desporto que deixou de ser a norma. Onde o que contava era tão-só o futebol jogado. De paixão pura, sem adiposidades. Sem mediatismos bacocos feitos de lugares-comuns e onde a iconografia era a do exemplo no trabalho e não a da imagem no mercado. Num tempo em que as vitórias não eram apenas uma forma de aumentar a retribuição, mas uma compensação de quem sentia devotadamente a camisola que envergava. Eusébio: um curto nome de cinco vogais e duas consoantes que se eternizou. Semanticamente poderia estar num qualquer “Dicionário de Língua Universal”, porque intemporal e universal. Ultrapassou a onomástica e a geografia. Pertence ao mundo e tem significado próprio. O Benfica tinha 37 anos quando Eusébio nasceu em Moçambique e 57 anos quando se estreou no clube. Não é possível calcular quantos benfiquistas (ou simples amantes do futebol) há hoje por causa dele. Mas, certamente, muitos. A minha geração viu e viveu os jogos de Eusébio. Na altura, sem a profusão televisiva de hoje, mas com o sabor que era ir ao Estádio ou com a magia proporcionada pelo relato radiofónico. Faz, assim, parte do meu reduto memorial. Que me ensinou definitivamente que ser Benfica é, ao mesmo tempo, afecto e privilégio, coração e razão, vitamina e analgésico, fermento e adoçante. Por tudo, um obrigado do tamanho do universo a Eusébio! Economista DR Opinião Ricardo Serrado D evido à idade que tenho, é evidente que nunca vi Eusébio jogar em directo. Porém, tive o ensejo de o ver indeferidamente, ao serviço do Benfica e da selecção nacional, bem como já o analisei com alguma profundidade na minha actividade profissional através das mais variadas fontes impressas. Por isso, tive oportunidade de o ver brilhar na sua primeira época de águia ao peito, em 1961/62 e, entre outras competições, no Mundial de 1966, que o consagrou internacionalmente como um dos melhores futebolistas mundiais dessa década. Devo dizer, dirigindo-me sobretudo às gerações mais novas, que Eusébio foi um extraordinário futebolista, que jogaria em qualquer equipa mundial e em qualquer tempo. A sua capacidade de drible, a sua velocidade, a sua intuição, enfim, a articulação do seu corpo com o esférico em relação ao espaço, dotavam-no de características únicas no panorama do futebol mundial. Eusébio era uma força da natureza. Ao contrário de muitos dos jogadores de hoje, que são “fabricados” nas canteras, nas academias e nas escolas de futebol, de forma a atingirem um nível muscular e atlético “perfeito” que os capacitem a atingir as performances desejadas, Eusébio foi futebolisticamente formado nos bairros de lata de Moçambique, em terrenos baldios, jogando muitas vezes com outros objectos que improvisavam a carência de uma bola de futebol. É conveniente recordar que Eusébio chega a Lisboa a 17 Dezembro de 1960, com 18 anos, à beira de completar 19, sem a mínima noção do já exigente futebol europeu. A única coisa que possuía era uma habilidade em grande medida inata para jogar futebol. Aquilo que Eusébio trazia para o futebol do Velho Continente era a sabedoria intuitiva do seu corpo — essa inteligência que não se mede nos QI mas na movimentação e na capacidade de improvisação do seu corpo; essa inteligência do organismo na sua totalidade, feita do pulsar, das emoções e dos sentimentos, vinda da sintonia perfeita entre as estruturas cerebrais não conscientes com o corpo na sua unicidade. Nada em Eusébio tinha sido transformado. Tudo nele era talento em estado puro. Era como se todas as suas células respirassem futebol. Um futebolista é muito mais do que os números que atinge. Eusébio não era só um goleador como também um municiador de golos para os seus colegas, efectuando muitas e decisivas assistências. Não era um ponta-delança típico (ao contrário de Águas ou Torres, por exemplo). Era um vagabundo, que jogava atrás do homem mais avançado, partindo de trás em fulgurantes arrancadas, criando desequilíbrios que não raras vezes davam em golo. Eusébio fora o menino de Mafalala que conquistara o mundo com uma bola nos pés. O seu futebol, feito de improviso e rebeldia, de malícia e da arte do engano, pareciam falar da sua meninice em Moçambique. Nunca teve muito jeito com as palavras e não se sentia à vontade em frente às câmaras. Não precisava. Comunicava com o corpo em movimento nos estádios de futebol, através das fintas, dos golos, dos chutos fulminantes e com o sorriso genuíno que esboçava sempre que tinha uma bola nos pés. Era um futebol, simultaneamente, ingénuo porque puro e inocente, retrato figurado de Eusébio quando se apresentou em Lisboa, mas de um rendimento extraordinário, como nos mostram os números que atingiu. A partida de Eusébio inundou de tristeza todos aqueles que gostam de futebol. Não foi só Portugal que perdeu um herói. Foi o Planeta do Futebol que ficou, indubitavelmente mais pobre. Historiador doutorando FCSH-UNL
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    16 | PORTUGAL| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 “Contrapartidas às ajudas da troika merecem discussão”, diz relator do PE Liêm Hoang Ngoc Em Lisboa, os eurodeputados iniciam uma visita aos países sob intervenção. Um socialista reconhece que os socialistas da Grécia, Portugal e Irlanda participaram em políticas erradas NUNO FERREIRA SANTOS Entrevista Nuno Ribeiro “As contrapartidas às ajudas da troika merecem discussão”, afirmou ontem, ao PÚBLICO, o eurodeputado socialista francês Liêm Hoang Ngoc, um dos dois relatores da comissão dos assuntos económicos do Parlamento Europeu (PE) que inicia hoje, em Lisboa, a avaliação às políticas da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional aplicadas a Portugal, Grécia, Irlanda e Chipre. Hoang Ngoc reconhece as limitações da fórmula acordada em Estrasburgo, mas está convicto de que, com a constituição de um fundo monetário europeu, será necessário um controlo político. “Trata-se de um relatório da iniciativa do PE, a comissão de inquérito obrigaria os responsáveis da troika a prestar contas”, admite o jovem eurodeputado. “Foi o compromisso alcançado para evitar que o relatório aparecesse como acusação aos responsáveis da troika”, sublinha: “Daí haver dois relatores, um do PPE (Partido Popular Europeu), o austríaco Othmar Karas, outro socialista, eu próprio, para fazermos um relatório o mais consensual possível.” Este acordo tem virtudes e pontos débeis. “É uma força, porque as conclusões serão votadas no Parlamento Europeu, e uma fraqueza porque sempre haverá a defesa da política da troika”, reconhece. No entanto, Hoang Ngoc aponta um ponto fundamental. “A proposta do relatório põe em evidência o debate sobre os multiplicadores que subestimaram o impacto recessivo das medidas”, afirma. “O FMI queria mais reformas das leis do trabalho, a Comissão Europeia uma consolidação orçamental rápida, fizeram-se as duas coisas, utilizaram-se os dois travões ao mesmo tempo”, relata. “É por isso que não arranca o crescimento português e a dívida aumenta”, analisa: “Mesmo que Portugal saia este ano do programa de ajustamento, o problema da dívida continuará porque as políticas de austeridade mataram o crescimento.” Outra questão, “o ponto fulcral do relatório”, já está definida: “Com a constituição do fundo monetário europeu será necessário um controlo político, do Parlamento, aí o PPE e os socialistas estão de acordo.” Destacando que esta é a primeira conclusão prática, retira uma ilação: “Este relatório é a oportunidade de mostrar aos cidadãos que o Parlamento Europeu deve desempenhar um papel-chave no futuro da Europa, que os seus representantes defendem mais democracia e menos austeridade.” Um discurso que não é imune às eleições europeias de Maio, dois meses após a comissão divulgar as suas conclusões. “Na Grécia, Portugal e Irlanda, os socialistas participaram nas políticas da troika. Se estas políticas não foram as melhores, há que ter a coragem política de o dizer, os socialistas portugueses devem dizer terem sido obrigados por questões orçamentais, mas devem salientar que é necessário mudar de política”, sustenta. O discurso do mea culpa, reconhece, “é feito por todos os partidos em Portugal, pelos sindicatos e patronato”. Aquando da sua última visita a Lisboa, há nove meses, ficou surpreendido com a sintonia das centrais sindicais e das associações patronais. “Portugal jogou a ser bom aluno da troika, graças a isso vai sair do mecanismo de assistência, mas os desequilíbrios macroeconómicos e os problemas continuam”, insiste. “O FMI era a única instituição que dispunha de fundos, e todos os países com problemas eram membros do Fundo”, destaca: “Não contesto o recurso à troika porque, então, não havia um mecanismo europeu de estabilidade e recorrer ao Fundo era necessário.” Hoang Ngoc reconhece que as divergências no Parlamento Europeu surgirão sobre a validade das políticas seguidas. E das contrapartidas impostas. A este propósito alerta: “No Conselho Europeu de Dezembro, Angela Merkel disse ser necessário um novo tratado, novos instrumentos, referindo que as ajudas financeiras têm como contrapartidas a redução da despesa pública e as alterações das leis do trabalho, o que é perigoso.” Para o eurodeputado socialista, há outra alternativa: “O funcionamento da zona euro não se pode fazer sem um orçamento europeu importante, financiado por impostos e euro-obrigações, com harmonização fiscal e social.” Pelo que, conclui, “é necessária uma alteração dos tratados, mas não de acordo com a filosofia alemã.” Hoje, a delegação do PE, que integra os eurodeputados portugueses Ana Gomes, Elisa Ferreira, Diogo Feio, José Manuel Fernandes e Marisa Matias, avistase com José Sócrates, com os seus ex-ministros da Economia, Vieira da Silva, e da Presidência, Silva Pereira. Seguem-se a Comissão Permanente de Concertação Social, o governador do Banco de Portugal e o vice-primeiroministro Paulo Portas. Amanhã, a delegação reúne-se com Maria Luís Albuquerque, o secretário de Estado Carlos Moedas e as comissões parlamentares dos Assuntos Europeus, Orçamento, Finanças e Administração Pública, bem como com a comissão ad hoc de monitorização da ajuda financeira a Portugal.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | PORTUGAL | 17 Instituto de Medicina Legal vai ter pela primeira vez um juiz na presidência Breve Justiça Mariana Oliveira Tráfico de droga Mais de 30 mil doses de cocaína apreendidas A PSP apreendeu no sábado 31.596 doses de cocaína, no Aeroporto de Lisboa. Um passageiro oriundo de Caracas, Venezuela, ocultava “na zona do abdómen, de forma dissimulada, um colete elástico” com a droga. O passageiro, um estudante de 23 anos, viajava ainda com quatro telemóveis e dinheiro em três moedas diferentes — euros, bolívares e moeda filipina —, que também foram apreendidos. Organismo está sem presidente há mais de mês e meio. Novo líder é magistrado há 31 anos Pela primeira vez desde que foi criado em 2000, o Instituto Nacional de Medicina Legal terá um juiz como presidente. Francisco José Brízida Martins, 55 anos, juiz do Tribunal da Relação de Coimbra, foi o nome escolhido pela ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, para dirigir o organismo, que está sem presidente há mais de mês e meio. O PÚBLICO tentou saber o motivo do atraso na nomeação, tendo o Ministério da Justiça remetido explica- ções para o início da semana. O nome do futuro presidente ainda não foi anunciado pela ministra, mas consta de uma acta de uma reunião do Conselho Superior de Magistratura, a 19 de Novembro, disponível no site. Nesse documento refere-se que foi “apreciado o expediente (...) que solicita que Francisco José Brízida Martins seja designado, em regime de comissão de serviço, como presidente do Conselho Directivo do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses I.P.”. E acrescenta-se: “Foi deliberado – por unanimidade – deferir o solicitado.” Será a primeira vez que o organismo não é dirigido por um especialista em medicina legal, já que, até agora, todos os anteriores presidentes eram médicos e professores universitários daquela especialidade. Francisco José Brízida Martins nasceu em Angola, em 1958, sendo magistrado há mais de 31 anos. Além das referências ligadas à judicatura, o magistrado aparece na Internet como tendo integrado durante vários anos o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Columbofilia, cargo que já não exerce. Designado, desde 2013, Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses – responsável pelos exames e perícias forenses pedidos pelas autoridades judiciais –, está a ser gerido pelos presidentes das três delegações (Norte, Centro e Sul), que integram a direcção, órgão que até Novembro era encabeçada pelo catedrático da Faculdade de Medicina de Coimbra Duarte Nuno Vieira. Apesar de a ministra não o admitir explicitamente, o afastamento deste responsável parece estar associado a uma polémica de que o próprio mi- nistério não sai ileso. Após quatro anos a insistir com o ministério na necessidade de um despacho conjunto dos ministros da Justiça e das Finanças a fixar a remuneração dos membros do conselho directivo, o presidente e dois vogais do instituto acabam por optar por receber o vencimento do lugar de origem, tendo neste caso direito a um acréscimo de 35% sobre o salário-base, como estava expressamente previsto na lei orgânica do instituto em vigor nessa altura. Tanto a Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça como a InspecçãoGeral das Finanças concordam que a decisão “não merece qualquer censura”. Porém, a secretaria geral do ministério considera que a deliberação de Setembro de 2011 é “inválida”, porque havia necessidade de despacho ministerial. PUBLICIDADE EDUCAÇÃO REPROVA A “PACC”! MATOSINHOS D. MARIA IRENE ROCHA GIL DA COSTA MATOS DE MENESES FALECEU Sua filha, irmã, sobrinhos e demais família participam o seu falecimento e que o funeral se realiza hoje, segunda-feira, pelas 14,45 horas da Capela da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos, onde se encontra depositada, para a igreja paroquial, saindo, após exéquias, a sepultar, em jazigo de família, no 1.º Cemitério Municipal de Matosinhos. A missa do 7.º dia, pelo seu eterno descanso, será celebrada sexta-feira, dia 10, às 18,30 horas na Igreja paroquial de Matosinhos. Agradecem, desde já, a todos os que se dignarem assistir a estas cerimónias. FUNERÁRIA DE MATOSINHOS - IRMÃOS TEIXEIRA LDA. A prova dita de avaliação de conhecimentos e capacidades (PACC) que o MEC de Nuno Crato quer impor aos professores é reprovada pela comunidade académica e científica. A FENPROF solicitou a seis personalidades da Educação que, a propósito daquela prova, elaborassem um comentário/declaração. O resultado é inequívoco: a PACC foi reprovada! ³$ SUR¿VVmR GH SURIHVVRU p GH JUDQGH FRPSOH[LGDGH H H[LJrQFLD 1HFHVVLWD GH XPD IRUPDomR GH QtYHO VXSHULRU H GH XPD DYDOLDomR ULJRURVD QR HVSDoR GD HVFROD H QXP DPELHQWH SUR¿VVLRQDO 0DV HVWD 3URYD QmR UHVROYH TXDOTXHU SUREOHPD 1mR VHUYH SDUD WHUPRV PHOKRUHV SURIHVVRUHV QHP PHOKRU HQVLQR 6mR RXWURV RV VHXV SURSyVLWRV $VVLP QmR´ António Sampaio da Nóvoa – Docente Universitário. Reitor da Universidade de Lisboa no período 2006 - 2013 ³$ SURYD GH DYDOLDomR p XPD SHUWXUEDomR LQ~WLO QD YLGD GDV HVFRODV H GRV DOXQRV RQVLGHUR D DYDOLDomR GRV SURIHVVRUHV HVVHQFLDO PDV QmR YHMR TXH HVWD ³SURYD´ SRVVD FRQWULEXLU SDUD VHOHFLRQDU RV PHOKRUHV H SDUD D TXDOLGDGH GD HGXFDomR ( SRGHUi SULYDU D HGXFDomR GH H[FHOHQWHV SURIHVVRUHV ´ Ana Maria Bettencourt – Presidente do Conselho Nacional de Educação no período 2009 – 2013 ³(VWD DYDOLDomR p LQMXVWD H LQFRUUHWD ,QMXVWD SRUTXH GHVSUH]D R YDORU GD H[SHULrQFLD SUR¿VVLRQDO GRV SURIHVVRUHV REWLGD HP VLWXDo}HV UHDLV H LQFRUUHWD SRUTXH Vy DYDOLD XPD SDUWH tQ¿PD GDV FRPSHWrQFLDV TXH OKHV VmR H[LJLGDV´ David Rodrigues – Presidente da Associação Pró-Inclusão 2 0(@ ³LQVWLWXLX XPD 3URYD GH DYDOLDomR GH FRQKHFLPHQWRV H FDSDFLGDGHV 3$
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    TXH SUHWHQGH ID]HU RFULYR GH PLOKDUHV GH SURIHVVRUHV FRQWUDWDGRV TXH IRUDP DYDOLDGRV «« R 6U 0LQLVWUR RIHQGHQGR D GLJQLGDGH SUR¿VVLRQDO GH WRGRV HVWHV SUR¿VVLRQDLV DYDOLDGRUHV H GDV VXDV LQVWLWXLo}HV GH HQVLQR PDQGD HODERUDU XPD SURYD TXH QmR YDL DIHULU QHQKXPD FDSDFLGDGH GD FRQGLomR GRFHQWH GRV SURIHVVRUHV FRQWUDWDGRV´ Carlos Chagas – Membro do CNE; Presidente da FENEI ³'H XPD PHQWH LJQDUD GDTXLOR TXH j HVFROD H j SUR¿VVmR GRFHQWH GL] UHVSHLWR GR DXWRU GH HVFULWRV VREUH HGXFDomR SHGDJRJLFDPHQWH UHWUyJUDGRV H LGHRORJLFDPHQWH UHDFFLRQiULRV FRPSUHHQGHVH TXH H[LMD D GRFHQWHV SUR¿VVLRQDOL]DGRV D VXEPLVVmR D XPD LQIXQGDGD SURYD TXH QDGD SURYD FRQGHQDGD SRU YR]HV GH WRGRV RV TXDGUDQWHV´ Paulo Sucena – Membro do CNE; Secretário-geral da FENPROF no período 1995–2007 ³,PS}HVH QmR VXEHVWLPDU RV YiULRV GLVSRVLWLYRV GH YLJLOkQFLD GD DWLYLGDGH GRFHQWH Mi LPSOHPHQWDGRV 7DLV GLVSRVLWLYRV WRUQDP HVWHV GRLV QRYRV H[DPHV j TXDOL¿FDomR H FHUWL¿FDomR Mi DGTXLULGDV SHORV SURIHVVRUHV XP HVEDQMDPHQWR SROLFLDO TXH FRPHoD D FDXVDU HVFkQGDOR´ Sérgio Niza – Pedagogo. Presidente do Movimento Escola Moderna Federação Nacional dos Professores www.fenprof.pt
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    18 | PORTUGAL| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 Seguradora paga crédito de doente oncológico com mais de 60 anos Decisão do Supremo envolve crédito à habitação. Casal de Guimarães venceu disputa em tribunal, apesar de ter assinado apólice que previa perda de cobertura do risco de invalidez JOSÉ FERNANDES Justiça Ana Henriques A seguradora Fidelidade foi obrigada, pelo Supremo Tribunal de Justiça, a pagar o crédito à habitação de um homem que contraiu uma doença oncológica aos 63 anos, apesar de a apólice do seguro estabelecer que perdia o direito a este tipo de indemnização logo aos 60 anos. Os juízes consideraram que o cliente da Caixa Geral de Depósitos (CGD) devia ter sido alertado pela seguradora para o fim da cobertura do risco de invalidez. “Num contexto económico-social em que a maior parte dos portugueses adquire habitação própria com empréstimo bancário e paga, durante uma parte substancial da sua vida, prémios às companhias de seguros para garantia do risco de vida ou invalidez, não pode afirmar-se ser um sacrifício excessivo onerálas com o pagamento das dívidas, sobretudo se não esclareceram devidamente o segurado acerca das cláusulas particulares de exclusão [da apólice]”, argumentam. Doutra forma, acrescentam, citando um acórdão já antigo, a obrigatoriedade de contratar um seguro de vida quando se contrai um crédito à habitação mais não seria do que “um simples artifício destinado a obter mais uma prestação a favor da seguradora, muitas vezes ligada ao grupo de que o banco faz parte”. Era este o caso: quando mudou o empréstimo que tinha no BPI para a Caixa Geral de Depósitos, ainda as contas se faziam em escudos em vez de euros, Domingos Castelar Oliveira, então já com 57 anos, e a mulher assinaram novo seguro de vida pela Fidelidade, do grupo CGD. Da moradia onde residiam em São Lourenço de Selho, uma freguesia do concelho de Guimarães, ainda lhes faltavam pagar 200 mil euros. Não eram gente rica, diz o seu advogado, Clementino Cunha: tinham filhos e trabalhavam ambos numa fábrica de confecções de que eram proprietários. As más notícias surgem seis anos e uma semana depois, quando é diagnosticado ao empresário, então com 63 anos, um problema do foro oncológico. É considerado Quando os clientes não são esclarecidos, é justo onerar as seguradoras, argumentam os juízes Quando o cliente é o elo mais fraco A única liberdade é a de ler as muitas cláusulas A decisão do Supremo Tribunal de Justiça baseiase no entendimento de que em contratos de massas, como é o caso, impostos por grandes organizações aos particulares, é legítimo que estes últimos se demitam do esforço de tentarem entender o conteúdo da papelada que lhes é dada para assinar, um esforço que sabem ser inglório. “Não se preocupam com o conteúdo destas cláusulas, que conhecem mal ou de todo não conhecem, dada a complexidade das mesmas e a perda de tempo que implica o seu estudo para um leigo, num contexto em que é inútil a sua negociação”, escrevem na sentença. “Pois o aderente não tem mais liberdade do que a de assinar ou não o contrato, não gozando qualquer liberdade de fixação do seu conteúdo.” Daí que a lei proteja os particulares enquanto parte mais débil deste tipo de contrato. E que os tribunais “não possam deixar de exercer um efectivo e rigoroso controlo sobre as empresas, dado o enorme poder de que estas dispõem”. portador de uma invalidez total e permanente, com uma taxa de incapacidade permanente geral da ordem dos 72%. Quando tenta accionar o seguro, a Fidelidade responde-lhe que nada feito: a apólice que assinou só cobre o risco de invalidez por doença até aos 60 anos. Se não leu as condições do contrato, deveria ter lido. O caso avança para o tribunal, onde o advogado começa por pôr em causa a lógica de uma apólice que, nas suas condições especiais, só extingue a cobertura de invalidez total e permanente por acidente ou doença aos 65 anos, quando nas condições particulares essa idade é antecipada para os 60 no caso de problemas de saúde. E estas condições particulares prevalecem sobre as especiais. “Mas este seguro pode ser contratado pelos clientes até aos 65 anos!!!”, indigna-se Clementino Cunha. A razão que é dada aos queixosos pelos juízes de primeira instância, perdem-na na segunda instância, quando o Tribunal da Relação de Guimarães acusa o casal de ter agido de má-fé ao recorrer à justiça para obter o pagamento do empréstimo pela seguradora. Desta vez, os juízes argumentam que Domingos Castelar Oliveira nunca tinha posto o contrato em causa até lhe surgirem problemas de saúde, apesar de nessa altura ter na sua posse, havia seis anos, uma cópia do documento. “A vitimização é o instrumento usado para atingir os seus objectivos”, alega por seu turno o advogado da companhia de seguros. “Dizem que a lei protege as vítimas — mesmo quando estas não sejam vítimas de coisa alguma que não a sua ganância e avareza.” O calvário judicial chegou ao fim no mês passado, quando o Supremo decidiu que a Fidelidade vai ter mesmo de pagar à Caixa Geral de Depósitos os 153 mil euros que o casal ainda deve ao banco, mais as prestações que os dois habitantes de Selho (São Lourenço) tiveram de desembolsar desde que a doença se declarou, em Agosto de 2007. Porquê? Porque a seguradora não conseguiu provar que cumpriu a sua obrigação de informar devidamente os clientes daquilo que estavam a assinar, nomeadamente das chamadas “cláusulas perigosas para os seus interesses”. “A haver má-fé, seria da seguradora e não do segurado”, concluem os magistrados. A Fidelidade devia ter alertado o segurado para o fim da cobertura do risco de invalidez por doença quando este fez 60 anos, “para que o prémio fosse proporcionalmente reduzido, como seria justo e exigível”. O acórdão torna-se definitivo amanhã, não tendo a seguradora levantado até ao final da semana passada nenhuma objecção para pôr em causa a deliberação dos juízes. Contactada pelo PÚBLICO, que tentou repetidamente, mas sem sucesso, falar com o casal, a Fidelidade diz apenas que “não deixará de analisar a questão” e que “assumirá as suas responsabilidades como sempre faz”.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | PORTUGAL | 19 DANIEL ROCHA Fundação lança programa para apoiar familiares de emigrantes Apoios sociais Catarina Gomes O objectivo é dar apoio a cerca de 120 pessoas em Lisboa e na Guarda, cujos familiares deixaram o país Os filhos partem, os pais ficam. Por sentir que há cada vez mais pessoas que têm familiares fora de Portugal e que ficam no país sem apoio, a Fundação S. João de Deus criou um programa-piloto de ajuda a familiares de emigrantes portugueses “com fraca rede social de suporte ou em situação de isolamento social”, em especial idosos, com residência em Lisboa e Guarda. A iniciativa chama-se “Somos por Si, Somos por Portugal” e conta dar apoio a 120 pessoas. A Fundação S. João de Deus, uma instituição particular de solidariedade social criada em 2006, vocacionada para o auxílio aos doentes e a pessoas com dificuldades económicas, com sede em Lisboa, pretende garantir o acompanhamento de familiares de emigrantes em pequenas tarefas diárias, como limpar a louça, estender a roupa, despejar o lixo, ler o correio e jornais, ajudar no preenchimento do IRS ou acompanhar a pessoa às compras e a consultas, à farmácia. Pensa-se que serão sobretudo idosos a precisar de apoio, mas também há casos de famílias em que um dos cônjuges foi obrigado a emigrar e poderão dar apoio ao que fica, explica a técnica responsável pelo programa, Susana Costa Pinto. O programa ainda não arrancou. Até ao final de 2014, está previsto o alargamento das actividades para outras cidades. A instituição apoia cerca de 30 pes- soas em Lisboa em situação de isolamento, acompanhando-as nas tarefas diárias, mas também motivando-as a sair de casa, explica o assessor de comunicação da fundação, Samuel Pimenta. Há também os que não conseguem sair de casa; neste caso fazem-lhes visitas periódicas. A ideia é estender este apoio aos familiares de pessoas que são forçadas a emigrar, “para deixar a família sossegada”, depois de terem constatado esta necessidade junto de várias entidades no terreno, diz. Susana Costa Pinto esclarece que a fundação não faz apoio domiciliário, não prestando cuidados de saúde e de higiene; essas funções estão a cargo de outras associações, a fundação pretende “ser um agente facilitador de comunicação”. A fundação disponibiliza um número de telefone, 217983400 e um email somosporportugal@fundacaosjd.pt para os emigrantes que queiram fazer um pedido de acompanhamento para os seu familiares; a ideia é depois manter o emigrante informado sobre os contactos feitos com o familiares. Os serviços da instituição, instituída pela Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, são gratuitos. Entre 100 a 120 mil portugueses saíram do país em 2013, uma emigração “bastante alta”, mas que se manteve estável devido à falta de emprego nos outros países, estimou recentemente o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, citado pela Lusa. Sem dados oficiais, o Governo admite que o número seja semelhante ao do ano passado – cerca de 100 mil a 120 mil. Europa, em particular a França, continua a ser o principal destino, com Angola a atrair também números semelhantes aos do ano passado, na ordem dos 25 mil. JOSÉ SARMENTO MATOS Ajuda aos que ficam pode ser dada em pequenas tarefas diárias Número de estrangeiros residentes em Portugal tem vindo a cair Lomba quer ACIDI a aliciar imigrantes “de elevado potencial” Migrações Ana Cristina Pereira Proposta de nova política migratória está pronta para ser discutida em Conselho de Ministros O Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural (ACIDI) vai assumir novas funções. Essa é, pelo menos, a proposta que está pronta para ser apreciada em Conselho de Ministros. Se vingar, caberá a esse instituto aliciar estrangeiros “de elevado potencial” para Portugal. Quem defende a ideia é Pedro Lomba, secretário de Estado adjunto do ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional. Parece-lhe que o país tem de se adaptar a uma nova realidade migratória, que apresenta forte caudal de saídas e fraco caudal de entradas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2012 saíram 121 mil pessoas. Apesar de a emigração ser hoje muito experimental, graças à livre circulação no espaço comunitário, desde o final dos anos 1960 que não saía tanta gente. O número de estrangeiros residentes também tem vindo a cair – 451 mil em 2009 para 414 mil em 2012, segundo o Serviço de Estrangeiros de Fronteiras. O movimento faz-se, sobretudo, do Sul para o centro e para o Norte da Europa. Mas, como frisa Lomba, o fluxo migratório actual compreende também profissionais que se deslocam para países em desenvolvimento ou que se servem da tecnologia para trabalhar em qualquer parte, investigadores e estudantes que trabalham em rede e reformados ansiosos por clima ameno. Com um mercado laboral que já pouco atrai trabalhadores em busca de melhores condições de vida, ganha algum peso outro tipo de vistos. Em 2012, mais de oito mil dos 12.528 emitidos foram atribuídos por via do estudo, intercâmbio de estudantes, estágio profissional ou voluntariado. Os fluxos, resume Lomba, diversificaram-se. “Precisamos de políticas mais integradas, que tenham em vista os que saem e os que entram”, diz. Na sua opinião, não é por ter um número de saídas “preocupante que o país pode abandonar a abertura que tem tido em relação aos imigrantes”. Os imigrantes, insiste, tendem a arriscar mais. Imigrantes empreendedores podem criar postos de trabalho e, com isso, fixar quem pensar partir ou resgatar quem já partiu. É nessa lógica que acha que se impõe “identificar e captar imigração de elevado potencial ou de grande va- lor acrescentado”. Para isso, quer transformar o ACIDI num organismo “transversal” e “pró-activo”. Este novo ACIDI teria de se relacionar com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, a Direcção-Geral do Ensino Superior, a Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, o Instituto de Emprego e Formação Profissional, o Turismo de Portugal, o SEF. Nesta posição, coordenaria políticas migratórias que envolveriam a rede diplomática e consular, a emissão de vistos, a captação de estudantes, a fixação de reformados, a integração, apelando à participação de fundações, associações, universidades, empresas, autarquias. O governante concretiza: dedicar-se-ia à “análise de necessidades laborais a curto e médio-prazo”, à “articulação destinada ao financiamento ao empreendedorismo imigrante”, a trabalhar a “estratégia de internacionalização do ensino superior” e as “vias verdes para obtenção de vistos”, por exemplo. Para lá de eventuais diferendos políticos, há um obstáculo: o ACIDI é um instituto público que faz parte da administração indirecta do Estado, dotado de autonomia administrativa, muito focado na integração. Para assumir o novo papel que Lomba lhe quer conferir teria de ser integrado na administração pública.
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    20 | LOCAL| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 Centro da Memória Judaica do Porto chumba no QREN mas mantém a fé Pároco da Vitória espera cativar judeus para a ideia da criação do centro interpretativo no Encontro Diálogo e Reconciliação que decorre no dia 14 nesta freguesia do centro histórico do Porto BÁRBARA RAQUEL MOREIRA Projecto Ana Cristina Pereira O padre Agostinho Jardim Moreira já imaginava que “só por milagre” se conseguiria concluir o projecto do Centro Interpretativo da Memória Judaica e Cristã-Nova do Porto a tempo de ele beneficiar dos fundos europeus do Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN). O prazo era demasiado curto para cumprir os trâmites. O velho edifício, virado para a Rua de São Miguel, a mais importante do tempo da Judiaria do Porto, foi cedido à paróquia de Nossa Senhora da Vitória pela autarquia em Julho de 2013. “Conseguimos fazer o levantamento e o projecto; o projecto foi aprovado pela Sociedade de Reabilitação Urbana; apresentámos a candidatura ao QREN, mas foi desclassificada, por não estar amadurecida”, diz. “Não tinha ainda as especialidades todas. Fez-se tudo em cima do joelho.” Uma nova candidatura está a ser trabalhada a pensar no Quadro Comunitário de Apoio 2014-2020, que foi aprovado em Novembro pelo Parlamento Europeu. Desta vez, Jardim Moreira terá tempo para cuidar de cada pormenor. E parece-lhe que não tem sentido avançar sem o apoio dos judeus. No próximo dia 14 de Janeiro, no Palacete dos Viscondes de Balsemão, no Porto, o pároco da Vitória e o líder da Rede de Judiarias de Portugal deverão acolher os participantes no Encontro Diálogo e Reconciliação, no qual, “pela primeira vez”, a oração Shemá Israel, a base das religiões monoteístas e abramistas, será cantada a uma só voz por “responsáveis da Igreja Católica, rabinos e dirigentes de comunidades judaicas portuguesas e bispos das igrejas anglicana e luterana”. No encontro – organizado para ser “um exemplo de diálogo interreligioso e de fomento da paz entre os povos e as culturas do mundo” –, Jardim Moreira discursará sobre o projecto, orçado em 1,6 milhões de euros. Está convencido da sua importância. “No ano passado, recebi mais de 300 judeus do Canadá, dos EUA, do México, da Alemanha, de Israel”, comenta. O interesse dos turistas tinha um ponto muito espe- O ehal, nicho onde se guardava a Torá, foi encontrado atrás de um muro no edifício do Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória “No ano passado, recebi mais de 300 judeus do Canadá, dos EUA, do México, da Alemanha, de Israel”, comenta o padre Agostinho Jardim Moreira. Estes visitantes querem ver o ehal descoberto há 12 anos cífico. No número 9 da Rua de São Miguel foi descoberto há 12 anos um ehal, um nicho de pedra lavrada onde a comunidade judaica guardava a Torá. O edifício fora adquirido pelo Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória em 1997 para fazer um lar de idosos e um centro de dia. Na primeira fase da obra, ao limpar as paredes, depararam-se com um muro falso. Retiradas as pequenas pedras e as partes de barro, deram com o que resta de um armário litúrgico no qual se presume que seriam guardados os textos sagrados. O nicho sobressai no refeitório do lar e centro de dia. Dos azulejos que lhe cobriam o fundo e da decoração envolvente subsistem apenas alguns fragmentos. Era ali que funcionava a sinagoga da Judiaria do Olival. De vez em quando, telefona algum guia de um grupo de judeus que o quer visitar. Amiúde, perguntam a Jardim Moreira por que se interessa tanto um padre católico por este assunto. Na linha de Kiko Argüello, um dos fundadores do Caminho Neocatecumenal na Igreja Católica Apostólica Romana, responde que sem judaísmo não haveria cristianismo. “Temos uma história comum, embora essa história tenha partes que não orgulham ninguém”, reconhece. Os primeiros reis de Portugal protegeram os judeus. Havendo mais de dez, podia ser criada uma comuna e uma sinagoga. Em 1319, nova etapa: qualquer comunidade com mais de dez membros teria de viver longe dos cristãos. Em 1477, quando Dom Manuel subiu ao trono, já em Espanha havia Inquisição. Solicitou regime semelhante. Publicou o édito de expulsão dos judeus em 1493, mas o chamado Santo Ofício foi estabelecido já no tempo de Dom João III, em 1536. Foi naquele contexto de segregação que nasceu a sinagoga da Rua de São Miguel. Há, explicou aquando da sua descoberta a historiadora Elvira Mea, “garantia histórica” de que existiu ainda no século XVI, ou seja, após a expulsão dos judeus. No livro Nomologia o Discursos Legales, publicado em Amesterdão, em 1629, Immanuel Aboab refere o bairro do Olival, no qual havia uma sinagoga. Em 2012, o ehal foi classificado como monumento de interesse público por Francisco José Viegas, então secretário de Estado da Cultura. Em Julho, Câmara do Porto e Assembleia Municipal aprovaram a cedência do imóvel devoluto, na mesma rua, uns números abaixo, para que ali nascesse um Centro Interpretativo da Memória Judaica e Cristã-Nova do Porto.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | LOCAL | 21 Passageiros do Funchal regressaram a terra Algarve Idálio Revez A forte ondulação que ontem se fez sentir na costa portuguesa impediu que o paquete Funchal fundeasse ao largo da praia da Rocha/Portimão. O navio, com 400 passageiros a bordo, andou mais de 24 horas a tentar atracar no porto de Portimão, uma espera que só terminou com a chegada do rebocador, proveniente de Setúbal, por volta das 18h. Isso permitiu aos passageiros o regresso a casa. Cerca das 6h30, disse Isilda Gomes, o navio tentou fundear ao largo de Alvor. O objectivo seria fazer o transporte dos passageiros para terra num catamarã, mas a operação não teve êxito. O Algarve, apesar de ser uma região que se encontra na rota turística dos grandes cruzeiros marítimos, não possui um rebocador, indispensável no apoio a este tipo de operações, mesmo com bom tempo. “Inconcebível”, foi como a presidente da Câmara de Portimão, Isilda Martins, classificou a falta de condições de apoio a este segmento turístico. Sempre que chega um navio de grande porte a este porto, tem de ser pedido a Sines um rebocador, levando na viagem oito a dez horas. O deputado Miguel Freitas, do PS, disse ao PÚBLICO que vai “pedir explicações ao Governo” pelo facto de a região não dispor de um rebocador público, quando é conhecida a vulnerabilidade da região. “Passam pela costa algarvia 150 navios de grande porte por dia, 18 dos quais contendo cargas perigosas, poluentes.” Em caso de acidente, disse, “pode-se dar uma catástrofe”. O que se passou com o paquete Funchal, que fazia um cruzeiro de sete dias – Lisboa, Funchal, Marrocos, Lisboa – “veio demonstrar que o Algarve tem de possuir meios e capacidade de gestão para garantir o desenvolvimento dos portos de Faro e Portimão”. Enquanto aguardava pelo rebocador, que demorou 13 horas (saiu às 5h de Setúbal), o paquete Funchal continuou a navegar entre Portimão e Albufeira, procurando desta forma suavizar o efeito da ondulação. O dirigente dos Oficiais Mar, Sousa Coutinho, citado pela Lusa, disse que “todos os passageiros encontramse bem e confortáveis”. Porém, não deixou de apontar a necessidade de o Algarve ter “sempre” um rebocador. É uma região “abandonada em termos de segurança marítima”. NELSON GARRIDO Breves Ponte de Lima GNR recuperou 152 aves exóticas furtadas A GNR anunciou ontem a recuperação, em Ponte de Lima, de 152 aves exóticas furtadas na última semana, avaliadas em mais de dez mil euros, tendo identificado o alegado autor do crime. A apreensão destas aves, agora divulgada, teve lugar durante uma operação na noite de sexta-feira, numa busca domiciliária na freguesia de Fornelos. Um morador, de 30 anos, foi “considerado suspeito” do furto, dias antes, nas freguesias de Chafé e Mazarefes, no concelho de Viana do Castelo. “Este, confrontado com a prova recolhida pelos investigadores, assumiu a autoria dos crimes e que as aves teriam como destino o mercado paralelo a preços mais reduzidos”, explicou a GNR. Viana do Castelo Bombeiros procuram canoísta no rio Âncora Um homem de 33 anos estava a ser procurado, ontem, pelos Bombeiros Municipais de Viana do Castelo no rio Âncora, depois de os amigos com quem praticava canoagem terem reportado às autoridades que se estava a “afogar”. A informação foi confirmada por fonte da GNR, acrescentando que o homem estava a praticar canoagem naquele rio, na freguesia de Freixieiro de Soutelo, Viana do Castelo, quando, pelas 13h30, foi dado o alerta. As buscas, na zona da serra d’Arga, estiveram a cargo de mergulhadores e outros elementos dos Bombeiros Municipais de Viana do Castelo, apoiadas pela GNR e Polícia Marítima. Familiares do canoísta, natural de Riba d’Âncora, em Caminha, também estiveram no local. Ontem foi dia de limpeza geral nas freguesias mais afectadas pela tempestade de sábado Número de casas danificadas pelo tornado subiu para 112 Paredes Ana Cristina Pereira Temporal de anteontem desalojou 56 pessoas, quase todas, entretanto, acolhidas por familiares ou amigos Subiu para 112 o número de habitações danificadas pelo tornado que na madrugada de sábado passou por quatro freguesias do concelho de Paredes, no distrito do Porto. E o estado do tempo não tem ajudado a reparar as coberturas que o vento arrancou às casas e atirou para o chão. “Tem chovido muito”, diz o comandante dos Bombeiros de Lordelo, Pedro Alves, numa curta conversa telefónica. E não são boas as notícias que chegam de Lisboa. Para hoje, o Instituto do Mar e da Atmosfera prevê “céu geralmente muito nublado, períodos de chuva nas regiões norte e centro, estendendo-se gradualmente à região sul, e sendo por vezes forte no Minho e Douro Litoral até ao início da tarde”. Quase todas as casas afectadas nas freguesias de Duas Igrejas, Sobrosa, Lordelo e Vilela perderam parte da cobertura, algumas ficaram sem persianas e com os vidros das janelas partidos. Desde então, os moradores afligem-se com as infiltrações de água, capazes de destruir roupas, móveis e outros bens. Mobilizou-se muita gente, apesar do vento e da chuva. Afastaram o que puderam para áreas cobertas ou casa de amigos ou familiares. Alguns subiram aos telhados. Tentaram repor telhas ou pôr toldos e bandas de plástico a tapar os buracos, que deixavam entrar água. “Há muito trabalho a fazer”, comentava o comandante, ao anoitecer, depois de um dia inteiro passado às voltas, a fazer o levantamento pormenorizado da situação. Mesmo assim, já muito fora feito, comentava, por seu lado, a vereadora da Câmara de Paredes Hermínia Moreira. Quem ali tivesse estado no sábado já não reconheceria alguns lugares. Os habitantes tinham saído às ruas e fizeram muito trabalho de limpeza. “As pessoas estão a reagir dentro do possível”, notava Pedro Alves. “Têm uma surpreendente capacidade de se reerguer”, observava também Hermínia Moreira. “O que as pessoas podem fazer — sozinhas ou com a ajuda de familiares ou amigos — já estão a fazer, mas claro que muitas precisam de ajuda.” Ficaram desalojadas 56 pessoas. Quase todas acabaram por ser acolhidas por familiares. Só duas pessoas, idosas, sem retaguarda familiar, ficaram num lar gerido por uma instituição particular de solidariedade social local. Já usavam a valência de centro de dia, passaram a pernoitar. A autarquia estava a analisar cada caso de forma pormenorizada. Hoje, com a Segurança Social e as juntas de freguesia, delineará acções concretas. Muitas das famílias afectadas já enfrentavam antes dificuldades económicas: algumas pessoas estão desempregadas. “Esta é uma região muito afectada pelo desemprego”, sublinha ainda a vereadora. E é por isso, também, que a câmara pediu ao Governo que declarasse estado de calamidade. Duas fábricas foram parcialmente destruídas pelo tornado. Uma delas — a têxtil — emprega 58 pessoas. A outra — de móveis — é mais pequena. Uma e outra deverão retomar a actividade quanto antes. No município, há ainda registo de vários mostruários de mobiliários estragados. Em Vilela, a cobertura do pavilhão da escola foi levada. Em Duas Igrejas, o mesmo aconteceu à igreja. O tornado arrancou dezenas de árvores e tombou uns quantos postes. Uma equipa da EDP encarregara-se de repor o fornecimento de electricidade suspenso pelo temporal. Domingo, já só 15 habitações permaneciam sem corrente: dez em Vilela e cinco em Duas Igrejas. “Estão completamente danificadas”, diz. Outras permaneciam às escuras, apesar de já terem corrente. Havia água na instalação, pelo que acender uma lâmpada podia bastar para fazer curto-circuito.
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    22 | ECONOMIA| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 Depósitos suspeitos acima de 5000 euros obrigam a identificar cliente Banco de Portugal introduz novas regras no âmbito do combate europeu à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Transferências também serão mais acompanhadas pelos bancos RUI GAUDÊNCIO Banca Cristina Ferreira O Banco de Portugal, no quadro das orientações internacionais, vai reforçar, a partir de Fevereiro, as medidas destinadas a prevenir o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo. Entre as novidades está o facto de os bancos ficarem obrigados a identificar quem pretenda depositar, numa conta que não é a sua, um valor igual ou superior a 5000 euros, isto, se houver suspeitas de risco. As transferências bancárias presenciais, por multibanco ou Internet, a partir de 15.000 euros, passam também a ser alvo de maior vigilância. Os novos requisitos do supervisor, que entram em vigor a 16 de Fevereiro, impõem também, mas agora de modo automático, a identificação de todos os depositantes (nome e dados do cartão de cidadão ou do passaporte) de numerário em contas de terceiros, desde que a quantia seja igual ou superior a 10.000 euros. O mesmo acontece para os movimentos (em dinheiro) suspeitos de valor igual ou acima de 5000 euros. Estas são algumas das medidas que constam do aviso do Banco de Portugal, de 19 de Dezembro, com mais de 60 artigos, e que foi emitido no quadro do combate europeu ao branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo. “As matérias mais reguladas no documento, que é extenso e detalhado, são os deveres de identificação, de diligência (análise das operações para apurar se tem traços que a torne suspeita), de controlo (criação de modelos de gestão de risco e de um sistema de controlo interno que garanta no sector uma cultura de prevenção e de luta contra esquemas ilícitos) e de formação dos quadros bancários (para que estejam aptos a intervir sempre que for necessário)”, explicou ao PÚBLICO Sofia Leite Borges, especializada em direito financeiro e sócia da sociedade de advogados Abranches Namora Lopes dos Santos Associados (ANLS). Para a advogada, que já produziu matéria sobre o tema, o BdP veio também clarificar “a extensão e o grau de responsabilidade dos ór- Bancos terão de ajustar os seus procedimentos e os sistemas de controlo internos Um dos movimentos classificados como suspeitos pelo Banco de Portugal é o fraccionamento de depósitos gãos de administração” das instituições que supervisiona, no que respeita “à prevenção da utilização do sistema financeiro para branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo”. Apesar de os bancos terem por obrigação informar imediatamente o procurador-geral da República e a Unidade de Informação Financeira (UIF) sobre qualquer movimento duvidoso (independentemente da quantia), o aviso do BdP é omisso (ainda que a lei o permita desde 2008) na definição de regras precisas de dever de comunicação às autoridades no caso de uma transacção de valor igual ou acima de 5000 euros levantar dúvidas. “O BdP optou por seguir critérios mais qualitativos, definindo quais as operações que podem ser classificadas de suspeitas, independentemente do seu montante, em vez de seguir critérios quantitativos [fixar um valor a partir do qual a operação deve ser comunicada ao Ministério Público], que são em geral cegos e que podem levar o infractor a contornar a regra com depósitos de menor valor”, explicou Sofia Leite Borges. Faz notar que “os bancos já fazem a comunicação ao procurador-geral da República e à UIF quando têm suspeitas”. Um dos movimentos bancários classificado pelo BdP como gerador de desconfiança é o fraccionamento de depósitos em numerário em conta titulada por terceiro, o que pode ser lido como sendo um sinal para evitar atingir os limites recomendados pelo BdP, de 10.000 euros ou de 5000 euros (com suspeita de risco). Outra regra incluída no aviso do BdP prende-se com as transferências bancárias presenciais ou com recurso a meios de comunicação à distância (multibanco, Internet) para montantes iguais ou acima de 15.000 euros. Nestes casos, os bancos devem identificar o ordenante e o beneficiário e verificar a veracidade dos dados pessoais. O mesmo pode acontecer quando o valor individual ou agregado da transferência for igual ou ultrapassar os 15.000 euros. Para Sofia Leite Borges, o aviso do supervisor financeiro, de 19 de Dezembro, “vai implicar alterações nas políticas, nos procedimentos e nos sistemas de controlo internos das instituições financeiras”, não só no que respeita “aos deveres de identificação de clientes e de diligência na análise de certas operações, relações de negócio, pessoas politicamente expostas ou transacções, ainda que ocasionais”, mas também na maior aposta na formação dos bancários. Estes temas merecem, aliás, um tratamento pormenorizado por parte do BdP, que impõe também maiores exigências nos procedimentos de identificação do cliente na abertura de uma conta bancária.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | ECONOMIA | 23 Breves Governo escolhe presidente da Parpública ao fim de seis meses OXANA IANIN Turismo Empresas públicas Gastronomia e vinhos Raquel Almeida Correia promovem Alentejo Pedro Ferreira Pinto com no mercado inglês luz verde para suceder a O produto “Gastronomia e Vinhos” vai ser a “âncora” para vender o Alentejo no mercado turístico inglês, este ano, com a agência regional de promoção externa a apresentar o destino como a “alma gastronómica” de Portugal. “A gastronomia e vinhos são um produto muito forte no Alentejo e acordámos com os operadores ingleses com os quais trabalhamos que, este ano, esse é o tema ‘âncora’ para esse mercado”, disse Vítor Silva, presidente da agência turística. O responsável pela Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo (ARPTA), sediada em Grândola, realçou que esta já é uma área fulcral para “vender” o destino alentejano, mas, no mercado inglês, vai ser dada “ainda mais atenção” ao produto. Previsão Acções da Fiat podem duplicar de valor em dois anos A cotação das acções da Fiat poderá duplicar nos próximos dois anos, na sequência do acordo que deu ao grupo italiano o controlo total da construtora norte-americana Chrysler. A estimativa foi avançada na edição de ontem da revista Barron’s. Na sextafeira passada, os títulos da Fiat fecharam a perder 2,3%, para os 6,76 euros, na Bolsa de Milão. Depois de ter comprado os 41,% de capital que o fundo de saúde do sindicato dos trabalhadores do sector automóvel detinha na Chrysler, a Fiat tem caminho livre para avançar com uma fusão que irá gerar importantes sinergias, nomeadamente, através da centralização de competências e serviços. E terá acesso mais simplificado a financiamento. Pais Jorge, que foi secretário de Estado, mas se demitiu por causa dos swaps Ao fim de seis meses sem preencher o cargo, o Governo escolheu o novo presidente da Parpública. A holding que gere as participações do Estado em empresas como a TAP e a Águas de Portugal vai ser liderada por Pedro Ferreira Pinto, que sucederá assim a Joaquim Pais Jorge. O nome indicado pelo executivo já recebeu luz verde da comissão de recrutamento para a administração pública. A escolha partiu da secretária de Estado do Tesouro, Isabel Castelo Branco, que enviou o nome do candidato para a entidade presidida por João Bilhim a 19 de Dezembro. O parecer positivo da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CRESAP) foi dado ainda antes do Natal, no dia 23, e publicado na passada sextafeira no site do organismo. O perfil de Pedro Ferreira Pinto foi considerado adequado ao cargo pelo facto de ter “uma experiência efectiva na gestão de topo de situações de elevada complexidade” e por demonstrar um “conhecimento da problemática em causa”, lê-se no documento. Pedro Ferreira Pinto esteve, desde cedo, ligado ao sector da corretagem e dos fundos de investimento, tendo passado também pela Efacec. Até 2009, foi administrador da Selecta e da Lisbon Brokers, tendo integrado nesse ano a empresa de serviços de assessoria financeira ASK – Advisory Services Kapital. É, desde Outubro de 2011, administrador da Eaufresh, uma empresa de aluguer de purificadores de água. O novo presidente da Parpública, que não foi ainda oficialmente nomeado pelo Governo, sucederá no cargo a Joaquim Pais Jorge, que cessou funções em Julho, depois de nove meses na liderança da holding estatal, para subir a secretário de Estado do Tesouro. Uma nomeação feita pela ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, na sequência da demissão do anterior titular da pasta, Vítor Gaspar. Desde então, a gestão da Parpú- O Ministério das Finanças comunicou o nome à CRESAP pouco antes do Natal Encaixe de 579 milhões nos CTT M esmo sem presidente, a Parpública esteve envolvida, no final do ano, na importante privatização dos CTT, que acabou por render ao Estado 579 milhões de euros, através de uma operação em que foi colocada no mercado uma fatia de 70% do capital da empresa liderada por Francisco Lacerda. Na oferta pública de venda, o público investiu um pouco mais de 115 milhões de euros para adquirir 21 milhões de acções. Já na parte reservada aos trabalhadores, as ordens atingiram cerca de 2,1 milhões de acções, gerando um encaixe de 10,8 milhões de euros. A parte mais substancial da receita veio, no entanto, da venda directa aos investidores institucionais, que permitiu a entrada de 463,7 milhões de euros nos cofres do Estado, através da venda de um bloco global de 9,6 milhões de acções. A Parpública mantém 30% na empresa. J.M.R. blica estava a ser assegurada pelos dois membros executivos do conselho de administração, Carlos Durães da Conceição e José Mendes de Barros. A holding ficou sem presidente nos últimos seis meses, apesar de ter estado envolvida em dossiers importantes como a privatização dos CTT, que controlava a 100%. A maioria do capital dos correios foi dispersa em bolsa, permanecendo 30% nas mãos do Estado, embora a intenção do Governo seja aliená-los no médio prazo. A saída do último presidente da holding acabou por se revelar atribulada, visto que deixou a Secretaria de Estado do Tesouro cerca de um mês depois de ter assumido funções. Pais Jorge demitiu-se do cargo no início de Agosto por causa da polémica dos swaps, já que, enquanto quadro do Citigroup, esteve presente em reuniões com elementos do anterior executivo PS para vender derivados de cobertura de risco sobre a dívida pública. Alguns destes contratos, subscritos por empresas do Estado, foram considerados especulativos, tendo acumulado no conjunto perdas potenciais superiores a 3000 milhões de euros. Este caso levou, aliás, ao afastamento de outros dois secretários de Estado e de três gestores públicos. Pedro Ferreira Pinto iniciará o mandato na Parpública num mo- mento de especial indefinição. O Governo tinha acordado com a troika a extinção da holding, visto que iria perder progressivamente os activos que geria com o cumprimento do programa de privatizações. Desde 2012, deixou de ter na carteira as participações do Estado na EDP e na ANA, bem como 40% da REN e 70% dos CTT. O emagrecimento continuará, caso se cumpra a venda da TAP, que fracassou no final de 2012 com a rejeição da proposta de Gérman Efromovich. No entanto, e apesar de o executivo se ter comprometido a apresentar uma estratégia para a extinção da Parpública, o grupo continua sem um caminho definido. Estas circunstâncias constam, aliás, no parecer divulgado pela CRESAP. No documento, lê-se que o novo presidente da holding realçou a “necessidade de clarificação estratégica da continuação ou extinção da instituição”. Apesar de ter fechado este capítulo, o PÚBLICO sabe que o Governo ainda não conseguiu resolver o problema da Metro de Lisboa/Carris, que ficou sem presidente em Junho deste ano por causa da polémica dos swaps. Desde que José Silva Rodrigues foi afastado do cargo, foram já discutidos vários nomes para o substituir, mas nenhum deles chegou à comissão de recrutamento público.
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    24 | ECONOMIA| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 O Porto de Sines, um sinal de futuro Opinião José António Contradanças O Porto de Sines tomou, decisivamente, um lugar de destaque em tudo o que é noticiário do país, e não há responsável que a ele não se refira, mesmo que por vezes não saiba bem sobre o que discorre. Tudo é amalgamado nessa âncora da nossa esperança e na evidência desse caso de sucesso. Não importa distinguir se falamos do Porto de Sines, da APS — Administração do Porto de Sines ou do Terminal de Contentores de Sines (Terminal XXI). Embora sejam realidades diferentes, apenas resulta da alusão feita, uma única palavra: sucesso. E mais que isso, o rumo que nos leva ao bom caminho da afirmação de Portugal no mundo. Um Portugal que quer retornar ao mar e nele vê o seu mais importante desígnio. Como sempre, os discursos de circunstância são dominados pela superficialidade, procurando enquadrarem-se no que importa dizer no momento. E o momento agora é da grande oportunidade criada pelo alargamento do canal do Panamá, que irá provocar um aumento quase exponencial (o que se entende das palavras dos governantes) da carga contentorizada movimentada no Terminal XXI. Quem nos dera, assim o mundo não fosse redondo e fosse estático nessa posição geoestratégica e obrigasse os navios e as suas cargas a passar por este local e, mais do que isso, a movimentarem essas cargas no Terminal de Contentores de Sines. Só que, sendo uma real oportunidade, há muito trabalho a fazer, desde logo melhorar a competitividade associada a este tráfego, que será essencialmente de transhipment, permanecendo atentos ao que se passa noutros terminais congéneres já existentes (Valência, Algeciras, Tânger, Felixstowe) ou anunciados (Praia da Vitória/Açores). Também de águas profundas, capazes de receber navios de última geração, nomeadamente os chamados Triple-E, com capacidade de 18.000 TEU. Se é certo que Sines conta com o maior operador mundial, a PSA Corporation Ltd, como concessionário, e é escalado pelo segundo maior armador mundial, a MSC — Mediterranean Shipping Company, não será de somenos recomendável que consiga o concurso de outras linhas de navegação numa estratégia de oferta diversificada, tão importante na formação dos preços, numa economia dinâmica e concorrencial. E não esquecer a importância de se valorizar noutros requisitos de competitividade, que vão muito além de ser “um porto de águas profundas”, pois os desenvolvimentos no tamanho e capacidade parecem não acompanhar a exigência de maior calado dos navios. (É boa nota, saber que este navio de 18.000 TEU necessita de uma profundidade de 14,5m). A propósito das expectativas criadas pelo alargamento do canal do Panamá, devemos ter presente que o mesmo só permitirá acolher navios portacontentores de capacidade máxima até 12.000 TEU, podendo acontecer que, fruto do desenvolvimento da frota mundial de contentores, cada vez sejam mais os navios de capacidade acima desta, que escalarão Sines, no futuro. Ou mesmo, verificar outras premissas associadas ao comércio mundial e às suas tendências, mesmo o benefício imediato que terá nas trocas com economias regionais americanas mas que só a médio/longo prazo sejam visíveis os benefícios trazidos a Sines e a mercados mais distantes, apoiados no chamado round of the world. Rota, esta, à volta do mundo feita com recurso a grandes navios, carregados como convém, pois resulta numa grande preocupação os 30% de custos associados a contentores vazios, suportados pelas linhas de navegação na sua conta de exploração. Não alinharei outras preocupações associadas ao tema, que poderiam ter que ver com a emergência de outras rotas marítimas possíveis para o comércio entre a Ásia e a Europa, e mesmo a América, com menos dias de navegação e porventura DANIEL ROCHA mais baratas (como por exemplo: a Rota do Ártico), que poderiam, igualmente, estar associadas a outras alternativas que se desenham (construção de um canal interoceânico promovido pelo governo das Honduras e com fortes interesses por parte da China), porque, embora com este arrefecimento dos ânimos, sou dos que acreditam na importância de Sines e no papel a desenvolver pelo seu terminal de contentores, em benefício da região e do país. Num mundo que reclama atenção permanente, tanto mais no mundo dos negócios, acresce uma grande vantagem que se poderá associar ao Porto de Sines em termos futuros. Falo do crescente recurso ao gás natural pela maioria das frotas. Ora tendo em funcionamento um Terminal de Gás Natural, será aconselhável que se facilite o fornecimento de bancas deste gás aos navios que demandem o Porto de Sines. Será, certamente, uma vantagem preciosa. Há muito trabalho a fazer para aproveitar as oportunidades abertas pelo alargamento do canal do Panamá Como disse, cada vez menos gosto de discursos sem substância e só por isso tentei aclarar o assunto e balizá-lo na realidade. Posto isto, acho que é compaginável a alegria sentida por haver alguma coisa que funciona bem neste país. E desde logo, seja-me permitido, envaidecer-me (não ficará mal o termo) por me saber associado a este projeto que se afirmou e, hoje, se revela de uma utilidade, inquestionável, para o nosso país. Já vai distante março de 1998, em que fiz parte de uma missão que se deslocou a Singapura e sensibilizou a PSA a acreditar e a investir em Sines. E também esse lindo dia de junho de 1999 em que coassinei o contrato que levaria à concessão do Terminal XXI. Pelo meio ficará uma história por contar. Mas valeu a pena! (Ex-administrador da APS)
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | ECONOMIA | 25 RUI GAUDÊNCIO Atenções da semana centradas em indicadores que podem confirmar a retoma económica Pré-abertura Pedro Matos Branco A primeira semana completa de 2014 apresenta-se interessante em termos de divulgação de indicadores e ocorrência de eventos económicos, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Do lado de cá do Atlântico serão conhecidos, para a União Europeia, e respectivos países, o indicador de sentimento económico da Comissão Europeia e os indicadores de confiança dos diversos sectores de actividade e das famílias, bem como o sentimento dos empresários dos serviços (PMI Services) da zona euro e suas principais economias, todos referentes a Dezembro. Nesta última região serão ainda divulgados, para além dos números importantes sobre as vendas a retalho, que reflectem o comportamento das despesas das famílias (Novembro), as primeiras estimativas para a evolução dos preços em Dezembro, variável que recentemente tem vindo a ser objecto de maior escrutínio por parte do BCE e agentes económicos, e os dados para a taxa de desemprego (Novembro). A atenção sobre os preços não assenta nos receios permanentes de várias décadas, da tradicional aceleração do seu crescimento (aumento da inflação), mas, precisamente, no seu contrário, da verificação do abrandamento continuado no ritmo de variação, para um valor aquém do nível desejável para a sua evolução, que o BCE definiu abaixo mas próximo de 2%, em termos homólogos, no médio prazo. É esperada uma estabilização do crescimento dos preços em 0,9%, após 0,7% em Outubro, permanecendo ainda riscos elevados sobre a capacidade de aproximação à meta referida (2%) num horizontal temporal de um a dois anos. Não obstante estes constrangimentos, a confirmação no primeiro dia útil deste ano de uma firme animação no sentimento dos empresários da indústria (PMI Manufacturing) da zona euro, em particular em Itália e Espanha (só a França decepcionou) alimenta a expectativa de que uma recuperação mais firme da actividade possa ocorrer nos primeiros meses de 2014. É dentro deste contexto que na próxima quinta-feira se realiza a primeira reunião do ano do BCE, não sendo expectável que o conselho de governadores proceda a alterações de política monetária, após a decisão de baixar a principal taxa de referência de 0,5% para 0,25% em Novembro passado. No Reino Unido também haverá lugar à primeira reunião do ano do comité de política monetária do Banco de Inglaterra, não devendo assistir-se a modificações na política, mantendo-se a taxa de referência (base rate) em 0,5%. Nos Estados Unidos, após os sinais positivos revelados pelos últimos indicadores conhecidos na parte final de 2013 (produção industrial, encomendas de bens duradouros, revisão em alta do crescimento do PIB do 3.º trimestre, confiança dos empresários da construção, preços da habitação, vendas de novas habitações, confiança dos O BCE e o Banco de Inglaterra não deverão mexer no nível de taxas de juro consumidores), a divulgação do ISM Manufacturing de Dezembro (confiança dos empresários da indústria) no início de 2014 revelou-se igualmente promissora, com a vertente das novas encomendas dirigidas ao sector a registar o valor mais elevado desde Abril de 2010. Foi seguramente também com este enquadramento que Ben Bernanke, provavelmente na última intervenção pública como presidente da Reserva Federal, referiu, na sexta-feira passada em Filadélfia, que, embora a recuperação da economia norte-americana permaneça claramente incompleta – a taxa de desemprego ainda se encontra em 7% da população activa –, existem alguns motivos para um optimismo cauteloso. A criação líquida de emprego e a taxa de desemprego serão conhecidas na próxima sexta-feira, esperando-se um número forte para a primeira. ES Research BES Alberto João Jardim foi obrigado a abdicar do regime fiscal mais favorável na região Madeirenses pagaram mais 26,2% de IRS nos primeiros 11 meses de 2013 Contas regionais Tolentino de Nóbrega Administração regional apresentou saldo deficitário superior a 795 milhões Os contribuintes madeirenses pagaram nos 11 primeiros meses de 2013 cerca de 188,9 milhões de euros de IRS, ou seja, mais 26,2% do que em idêntico período do ano anterior, revela o Boletim de Execução Orçamental da Região Autónoma, publicado no último dia de Dezembro. A Madeira, em virtude do cumprimento das obrigações impostas pelo Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) regional, em matéria de fiscalidade, e das alterações decorrentes do Orçamento do Estado para 2013, registou uma evolução evidenciada de mais 63,3% ao nível da tributação directa. As receitas provenientes dos impostos directos sobre os rendimentos de pessoas singulares (IRS) atingiram os 188,9 milhões e as das pessoas colectivas (IRC) 128 milhões, o que face ao ano de 2012 traduzem acréscimos, respectivamente, de 26,2% e 170,7%. Para além da equiparação dos escalões de fiscalidade aos praticados a nível nacional, o boletim salienta ainda na tributação das pessoas colectivas o efeito dos resultados deri- vados da autoliquidação do IRC 2012, em que se verificou um aumento de cerca de 100% nos contribuintes do regime geral, assim como o efeito do fim do regime de isenção da Zona Franca da Madeira. No ano passado, o PAEF impôs a eliminação do diferencial de -30% nos impostos cobrados na região. Em 30 de Novembro de 2013, o saldo global consolidado dos organismos com enquadramento no perímetro da administração pública regional da Madeira era deficitário 189 As receitas alcançadas pela administração regional em IRS até Novembro de 2013 ascenderam a 188,9 milhões de euros em 795,2 milhões de euros. O saldo primário ascendeu a menos 735,3 milhões de euros e o saldo de capital foi deficitário em 790,3 milhões, face a uma despesa efectiva de 1971,3 milhões e a uma despesa primária de 1911,3 milhões. A despesa efectiva acumulada do governo madeirense aumentou 110,1% entre os 11 meses de 2012 e igual período do ano passado, apresentando um grau de execução de 67,2%, mais 18,6 pontos percentuais do que o executado até Novembro do ano anterior. O principal factor que influenciou a evolução da despesa foi o pagamento relativo a encargos de anos anteriores (983,6 milhões de euros), no âmbito da utilização do empréstimo bancário com o aval do Estado no montante de 1100 milhões, não incluídos nos 1500 milhões cedidos pelo PAEF. Contribuíram também para tal agravamento o acréscimo da despesa (mais 17,1%) em parte justificado pelos aumentos das remunerações (mais 14,8%) a que está associada a reposição dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos e o aumento da despesa com juros e outros encargos (10,7%). No que se refere à dívida não financeira, o último boletim de execução orçamental, publicado mensalmente pelo executivo madeirense de acordo com o PAEF, refere que o passivo acumulado da administração pública regional, reportado ao final de Novembro de 2013, ascendia a 1601,6 milhões de euros, dos quais 68,9% são respeitantes a obrigações do governo e 28,2% do passivo dos serviços e fundos autónomos (SFA). Os pagamentos em atraso apurados correspondem a 572,1 milhões, sendo as parcelas mais relevantes atribuídas ao governo (86%) e aos SFA (6,45). A componente juros e outros encargos representa 34,4% do total do passivo e 15,2% dos pagamentos em atraso.
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    26 | MUNDO| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 Al-Qaeda transforma conflito sírio numa guerra de facto regional Os radicais aproveitaram o vazio de poder e tomaram vastas zonas do Norte da Síria, de onde os rebeldes sírios os tentam expulsar. Agora, fazem o mesmo no Ocidente do Iraque Iraque Sofia Lorena A Al-Qaeda já se chamou muitas coisas, já dissemos que era apenas um rótulo, pronto a usar, uma ideia. Às vezes, os nomes importam. Há uns anos, a principal ameaça do jihadismo internacional no Médio Oriente vinha da autoproclamada Al-Qaeda na Península Arábica, primeiro com base na Arábia Saudita, depois no Iémen. Agora, como os sírios bem sabem, o rosto do terror chama-se a si próprio Estado Islâmico no Iraque e no Levante (ISIS) e tem como objectivo erguer um Estado regional, o califado de que falava Bin Laden, estendendo-se pelo menos das margens iraquianas do Eufrates à costa mediterrânica do Líbano. O Levante, termo com que os franceses designavam o Mediterrâneo Oriental, é, na verdade, a Síria histórica, e inclui ainda parte do Sul da Turquia (Hatay), Jordânia, Palestina e Israel — por vezes usa-se a expressão como abrangendo também o Chipre e zonas do Egipto. O ISIS controla partes do Norte da Síria e tem lançado ataques no Líbano e no Iraque. Agora, assumiu o controlo de uma cidade iraquiana inteira, Falluja, e de partes de Ramadi, capital da província de Anbar, no Ocidente do Iraque, entre Bagdad e a fronteira síria. Talvez se perceba melhor a partir de agora o aviso, tantas vezes repetido, de que a guerra na Síria não tinha como não se tornar num conflito regional, com implicações bem para lá das fronteiras do país que Bashar al-Assad herdou do país, Hafez. As revoltas árabes de 2011 aconteceram porque tinham de acontecer, não foram parte de uma conspiração externa, como diz Assad. Mas aconteceram num dado momento e contexto. No ano em que os Estados Unidos acabaram de retirar do Iraque, num momento em que Washington quis deixar de se envolver tanto em conflitos longínquos. Assad percebeu isso, e os radicais estrangeiros que fizeram do Iraque ocupado o seu campo de batalha contra os infiéis ocidentais e seus aliados árabes também. O cisma entre o islão sunita e xiita, que o grupo fundado por Bin Laden na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão tanto explorou, só podia agudizar-se. Se, no Iraque, Saddam Hussein era o rosto de um regime árabe sunita que discriminava a maioria xiita da população, Assad é um alauita (ramo do xiismo) que governa um país de maioria sunita. Assad jogou a carta do conflito étnico, quis pôr uns contra os outros, os jihadistas agradeceram e aproveitaram. Entraram na Síria dizendo-se prontos a morrer para derrotar um regime infiel e aterrorizam toda uma população, como já tinham feito em partes da província iraquiana de Anbar no tempo dos norte-americanos. Os estrangeiros ainda lutaram ao lado dos rebeldes sírios — alguns ainda lutam —, mas depressa se tornou óbvio para a oposição síria que vencer a guerra do futuro do país passará também por expulsar estes homens. Na sexta-feira, foi anunciada uma nova aliança, o Exército dos Mujahedin (como eram chamados os combatentes que partiram para o Afeganistão e lá combateram os soviéticos nos anos 1980), que integra três grandes grupos de rebeldes e conta com o apoio da oposição política síria. O seu objectivo é derrubar o ISIS, particularmente activo em duas províncias do Norte, Idlib e Alepo. Ajuda sem tropas Em reacção aos desenvolvimentos no Iraque, os EUA reafirmaram o seu apoio ao Governo xiita de Nouri alMaliki, dizendo que nunca voltarão a ter tropas ao terreno. Questionada sobre se a força do ISIS não é uma consequência do desinvestimento norte-americano no Iraque após a retirada, a porta-voz do Departamento de Estado, Marie Harf, defendeu que os EUA fazem o que podem. “Sejamos claros — são os terroristas que estão por trás da violência.” Nada aqui é simples, nem o apoio a Maliki. A autoridade do Governo não é reconhecida por todos os iraquianos. Aliás, os últimos desenvolvimentos foram desencadeados por uma operação militar para desmantelar acampamentos de protesto contra Falluja, que o Governo de Nouri al-Maliki anunciou querer recuperar preparando uma grande ofensiva Kerry abre um bocadinho a porta Genebra 2 ao Irão O s EUA sugeriram pela primeira vez que o Irão pode participar na conferência sobre a Síria marcada para 22 de Janeiro na Suíça. Conhecido como Genebra 2, o encontro vai acontecer em Montreux, e, espera-se, juntará representantes de Bashar alAssad e da oposição. Teerão, explicou o secretário de Estado John Kerry, não terá direito a “convite formal de participação”, isso “é para os que apoiaram Genebra 1”, o acordo negociado em 2012, quando Kofi Annan era o enviado internacional para a Síria. “Agora, podem contribuir a partir das margens? Há formas concebíveis para que façam valer o seu peso? Há formas de fazer acontecer isto”, disse o chefe da diplomacia de Barack Obama. Kerry explicou que haverá limites ao papel que o Irão poderá desempenhar caso não aceite que o objectivo da conferência é substituir Assad. O regime sírio insiste numa participação iraniana, recusada pela Arábia Saudita e, até agora, vista com maus olhos por Washington, apesar do acordo sobre o nuclear assinado em Novembro. Quem se opõe argumenta que os iranianos apoiam militarmente Assad, assim como o Hezbollah libanês que, por sua vez, combate ao lado do regime. É um facto, como também é verdade que Teerão é a capital com mais influência sobre Damasco. Com ou sem Irão, é cedo para saber se Genebra 2 vai mesmo acontecer. Reunida em Istambul, a oposição reavalia a sua decisão inicial de participar no encontro.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | MUNDO | 27 Imigrantes fazem greve inédita em Israel contra nova lei 8000 170 iraquianos morreram em atentados em 2013, período em que o ISIS levou da Síria para o Iraque dezenas de bombistas suicidas por mês combatentes do ISIS foram mortos pelos rebeldes sírios nos últimos dias, incluindo três comandantes, um tchetcheno, um tunisino e um saudita SADAM EL-MEHMEDY/AFP O QUE ELES DIZEM Não estamos, obviamente, a contemplar um regresso. Ajudaremos as autoridades iraquianas no seu combate, mas é um combate que elas devem vencer sozinhas, e acredito que o vão conseguir John Kerry (na foto) Secretário de Estado dos Estados Unidos Não vamos ceder enquanto não tivermos derrotado todos os terroristas e resgatado o nosso povo de Anbar Nouri al-Maliki Primeiro-ministro iraquiano Maliki. A brutalidade da operação terá levado parte da população de Falluja, nomeadamente membros de milícias formadas pelos EUA para combater os radicais estrangeiros, a lutar contra as forças oficiais, colocando-se ao lado dos islamistas que declararam a cidade seu território depois das orações de sexta-feira. O Governo diz que está a preparar uma grande ofensiva para recuperar Falluja. Mesmo que o consiga, do ponto de vista militar, se puser em marcha uma operação que não distinga os radicais dos civis arrisca-se a enfurecer ainda mais a população. Nas últimas semanas, o mesmo ISIS reivindicou ataques no Líbano, incluindo um atentado num bastião dos xiitas do Hezbollah, aliados de Assad, financiados por Teerão. A aliança xiita é esta, vai de Teerão a Beirute, passando por Bagdad e Damasco. Quem mais a teme é a Arábia Saudita, que é por isso o maior financiador dos opositores de Assad. Muito do que se tem passado no Iraque e na Síria nos últimos tempos é, na verdade, consequência de uma guerra por procuração permanente entre estes dois jogadores que disputam a hegemonia regional. “Penso que estamos a assistir a um momento de viragem, e pode ser um dos piores da história”, comentou ao jornal The New York Times Elias Khoury, romancista libanês que viveu no seu país durante os 15 anos da guerra civil. “O Ocidente não está lá, e estamos nas mãos de dois poderes regionais, os sauditas e os iranianos, cada um fanático à sua maneira.” Os objectivos do ISIS ultrapassam muito o Iraque, mas o seu projecto transnacional de estabelecer um Estado islâmico em todo o Levante não se pode fazer sem assegurar o controlo sobre uma série de mini-Estados Imigração Maria João Guimarães Manifestação reuniu milhares de sem-papéis africanos no centro de Telavive. Lei permite detenção durante um ano Dezenas de milhares de imigrantes africanos manifestaram-se ontem em Telavive e começaram um protesto contra as medidas aprovadas pelo Estado hebraico que permitem a detenção durante um ano dos “infiltrados”, como são conhecidos os imigrantes que chegam sem papéis e pedem asilo, a maioria vindos do Sudão e da Eritreia. “Somos refugiados”, cantavam os manifestantes, “Sim à liberdade, não à prisão”. “Fugimos de perseguição, ditaduras, guerras civis e genocídios”, disse Dawud, eritreu, à AFP. “Em vez de nos considerar refugiados, Israel trata-nos como criminosos”, queixou-se. A manifestação terá reunido cerca de 20 mil pessoas. Ao contrário do que tem acontecido em protestos anteriores contra uma nova lei, esta foi a primeira acção em que os migrantes africanos apareceram em grande número, nota a imprensa israelita. O Parlamento israelita aprovou em Dezembro uma lei permitindo a detenção, num chamado centro aberto, de imigrantes até um ano. Uma lei anterior, prevendo a detenção até três anos, foi em Setembro rejeitada pelo Supremo Tribunal. Grupos de defesa de direitos humanos dizem que desde a aprovação da lei foram detidos mais de 300 imigrantes. Estes ficam em centros em zonas remotas (no deserto do Negev). Podem sair de dia, mas têm de responder a chamadas três vezes por dia. Estas obrigações, aliadas à falta de transportes, faz com que não possam procurar emprego ou trabalhar. Mas trabalho não foi o que moveu a maioria dos imigrantes que procuraram refúgio em Israel, quiseram dizer os organizadores da greve que deverá afectar restaurantes, cafés, hotéis e empresas de limpeza que empregam estes imigrantes. “Estamos conscientes dos riscos de fazer greve, podemos perder os nossos empregos”, dizem os organizadores. “Mas viemos para cá por causa do perigo para as nossas vidas nos nossos países de origem”, sublinham, num comunicado citado pelo diário Ha’aretz. “Como qualquer pessoa, queremos ter um rendimento para viver em dignidade, mas não foi o trabalho que nos trouxe a Israel.” As autoridades israelitas dizem o contrário. Acrescentam que há 60 mil migrantes africanos em Israel, a maioria chegada através da fronteira com o Egipto, onde Israel completou recentemente uma barreira. Desde 2009, entre 17.194 pedidos de refugiados, 26 foram aceites, e entre os 1.133 pedidos para ficar em Israel por razões humanitárias, 540 foram autorizados, segundo dados apresentados na discussão da lei no Knesset. O Governo chama a estes imigrantes “infiltrados” e o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, já disse que a presença de muitos destes imigrantes é uma ameaça à sociedade judaica, e o Governo tem ainda dado incentivos monetários a imigrantes que queiram regressar voluntariamente aos seus países. NIR ELIAS/REUTERS Charles Lister Analista da Brookings Penso que estamos a assistir a uma viragem e pode ser uma das piores na nossa história Elias Khoury Romancista libanês A manifestação terá reunido 20 mil pessoas
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    28 | MUNDO| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 AFP Breves França Clara Barata Viagem de aniversário Papa Francisco vai à Terra Santa de 24 a 26 de Maio O Papa Francisco anunciou que visitará a Terra Santa de 24 a 26 de Maio, passando por Amã, Belém e Jerusalém. Esta viagem celebrará os 50 anos da histórica visita de Paulo VI, a primeira de um Papa à Terra Santa. Na Igreja do Santo Sepulcro, onde está, segundo a tradição cristã, o túmulo de Jesus Cristo em Jerusalém, será celebrado um encontro ecuménico “com todos os representantes das igrejas cristãs de Jerusalém e com o patriarca Bartolomeu de Constantinopla”, anunciou o Papa. Em Fevereiro de 2013, a Santa Sé usou, pela primeira vez, o termo Estado da Palestina, após o reconhecimento pela ONU de um novo estatuto para a Palestina (considerada Estado observador, embora não membro, das Nações Unidas). Sondagem A maioria dos espanhóis quer que o rei abdique Muito mais de metade dos espanhóis, 62%, querem que o seu rei abdique a favor do filho, o príncipe Felipe, diz uma sondagem publicada ontem pelo El Mundo, no dia em que o rei fez 76 anos. Juan Carlos está no trono há 38 anos e era respeitado pelo seu papel na transição democrática em Espanha, após a morte de Francisco Franco. No fim de 2013, apenas 41,3% dos espanhóis tinham uma opinião boa, ou muito boa do rei — há dois anos, 76% diziam isto. A maioria tem uma visão má, muito má ou normal deste reinado (56,2%). Os espanhóis mais jovens, que não têm a experiência de viver sob a ditadura de Franco, são os que mais estão a favor da abdicação. O príncipe Felipe tem uma imagem positiva para 66% dos espanhóis. Apelos à censura de humorista anti-semita Foram incendiadas mais de 200 assembleias de voto Violência nas eleições mata 18 pessoas no Bangladesh Crise política Maria João Guimarães Queimados vivos, espancados até à morte, atingidos por tiros da polícia, a votação deixou um rasto de mortos O boicote das eleições de ontem e a violência associada deixou 18 mortos no Bangladesh, mais um dia de confrontos e ataques no país por causa de uma crise política que não abranda. “Não quero saber das eleições, só da minha segurança”, diz uma habitante da capital. A oposição apelou a um boicote à votação e os seus apoiantes incendiaram mais de 200 assembleias de voto em protesto por, pela primeira vez desde 1991, não ser uma autoridade neutra e provisória a encarregar-se da votação. O Governo alega que já não há necessidade desta passagem de testemunho na altura das eleições e realizou a votação de qualquer modo. Medo da violência e protesto levaram a uma baixa participação. O jornal britânico The Guardian contactou várias assembleias de voto na capital e concluiu que a participação teria andado pelos 10%. Em Dhaka, muitas pessoas já não querem saber da votação, mas preocupam-se com a violência que tem marcado o dia-a-dia da capital no impasse entre os dois principais partidos, liderados por duas mulheres que têm alternado no poder nas últimas duas décadas. “Eu e muitos outros como eu já não queremos saber das eleições”, disse Nabila, estudante que mora na capital, à emissora britânica BBC. “O que me preocupa agora é a segurança da minha vida”, continuou. Apesar da forte presença militar nas ruas e das muitas restrições por razões de segurança, continuava a haver mortos — por tiros da polícia leal ao Governo, por explosões de cocktails Molotov atirados por opositores. “Tantas pessoas morreram, muitas queimadas vivas dentro de autocarros. Que tipo de pessoas somos?”, insurgia-se Nabila. “Cada vez que entro num autocarro tenho medo de que seja incendiado. A cada segundo estou preocupada que alguém atire um cocktail Molotov”, confessa a estudante. “Nunca tive tanto medo na minha vida.” Impasse vai continuar Tudo isto por um impasse entre os partidários da primeira-ministra Sheikh Hasina e da líder do principal partido da oposição, Khaleda Zia, que diz estar sob prisão domiciliária desde Dezembro, o que as autoridades negam. De qualquer modo, há muitas dú- vidas sobre as eleições, e Estados Unidos e União Europeia nem sequer enviaram observadores. “Por que falamos de eleições, se há poucas pessoas nas mesas de voto e os dois candidatos são do mesmo partido?”, perguntou a um repórter da agência francesa AFP o comerciante Miyamat Ullah. “As eleições não vão resolver nada”, comentou Ataur Rahman, professor de ciência política na Universidade de Dhaka, à agência britânica Reuters. “Tudo vai continuar exactamente na mesma porque ambas as líderes vão continuar a evitar um diálogo com significado, e isso é a única coisa que pode fazer acabar a crise.” “É preciso acabar com as mortes de civis inocentes”, diz a estudante Nabila. “É isso que pedimos a todos os partidos e responsáveis políticos do Bangladesh. Eles não são donos das nossas vidas. Já é altura de perceberem isso.” Mahmoud, da cidade de Sylhet, no nordeste do país, disse à BBC que em cinco horas e meia apenas três pessoas votaram na sua assembleia. Nem ele, nem ninguém da sua família vai votar — admite que há parte de medo, parte de protesto contra o Governo, mas nenhum apoio à oposição. “A maior parte das pessoas não faz ideia do que vai acontecer depois de hoje. Mas temos uma certeza: vai ficar pior.” Aumentam as pressões para impedir os espectáculos do controverso humorista francês Dieudonné, acusado de ofender os sobreviventes do Holocausto com o gesto que popularizou da quenelle, visto como uma saudação nazi invertida. “Os nossos antepassados bateram-se por valores civilizacionais para que nós cedêssemos perante criminosos?”, interrogou o presidente da Câmara de Paris, o socialista Bertrand Delanoë, acusando Dieudonné M’bala M’bala de “fazer a apologia de crimes contra a humanidade.” A família de “caçadores de judeus” Klarsfeld, “em nome dos filhos e filhas dos deportados judeus de França”, convocou uma manifestação na quarta-feira na cidade de Nantes, para exigir que o espectáculo Le Mur do humorista seja proibido. “Quem vai ver Dieudonné quer ouvir fazer pouco dos judeus. Ele congrega os antisemitas de todas as facções, sejam eles islamistas, de extrema-esquerda ou da extrema-direita”, afirmou ao Libération Arno Klarsfeld. O ministro do Interior, Manuel Valls, está desde a semana passada a ponderar proibir os espectáculos do humorista, após a abertura de um inquérito judicial por “incitação ao ódio racial”. Dieudonné, entretanto, teve uma nova derrapagem verbal contra o jornalista (judeu) da France Inter Patrick Cohen: “Quando o ouço falar, digo para mim próprio, ‘as câmaras de gás... é uma pena’.” “Dieudonné é profundamente antijudeu. Nos seus espectáculos, não é apenas uma representação, é um comício”, afirmou o ministro Valls, citado pelo Le Monde. Mas o que o ateou a polémica em torno de Dieudonné foi o gesto que popularizou — a quenelle. O futebolista Nicolas Anelka foi a personalidade mais conhecida a reproduzi-lo. É um gesto anti-sistema, segundo o humorista, ou anti-semita, segundo o Governo francês e parte dos seus seguidores, onde se incluem membros do partido de extrema-direita Frente Nacional. O presidente da Liga Internacional contra o Racismo e o Anti-Semitismo, Alain Jakubowicz, descreve-o como uma “saudação nazi invertida, o que significa a sodomização das vítimas” do Holocausto. Nos últimos anos, o humorista aproximou-se de Jean-Marie Le Pen líder da Frente Nacional, padrinho do seu quarto filho.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | CIÊNCIA | 29 Terapia genética conseguiu travar cancro da mama em ratinhos Tratamento aplicado nos animais de laboratório reverteu progressão das células cancerosas do tecido mamário que estavam no estado inicial da doença. Cientistas querem tentar aplicar técnica a humanos SILVA KRAUSE E AMY BROCK Medicina Nicolau Ferreira Uma equipa de investigadores da Faculdade Médica de Harvard, em Boston, silenciou a actividade de um gene em células do tecido mamário de ratinhos que é importante para o desenvolvimento do cancro da mama. Estas células estavam a tornarse cancerosas, mas a terapia genética conseguiu reverter o processo e normalizá-las. Publicada na revista Science Translational Medicine, a descoberta poderá vir a ser aplicada no combate ao cancro da mama. O trabalho, liderado por Donald Ingber, centrou-se nas células dos ductos mamários, os canais por onde passa o leite. “Apesar de haver algumas excepções, a maioria dos cancros da mama [cerca de 75%] aparece nas células epiteliais dos ductos”, disse o investigador ao PÚBLICO. Muitas vezes, são detectadas lesões nas células do epitélio dos ductos mamários, que podem desenvolver-se em cancros. Mas não se sabe quais as lesões que efectivamente estão nesse caminho. Como a medicina ainda não faz essa triagem, recorre-se a soluções drásticas como a radioterapia ou mesmo a mastectomia, dois tratamentos violentos com efeitos secundários a nível físico e psicológico. Uma avaliação feita por especialistas, publicada em 2007, sublinhou a urgência de se “desenvolverem terapias minimamente invasivas que possam ser direccionadas directamente para o epitélio do ducto, de forma a prevenir a progressão de lesões prémalignas sem produzir uma toxicidade sistémica”, lê-se no artigo. Os investigadores escolheram uma abordagem genética, através da utilização do chamado “ARN de interferência”. Esta técnica trava a actividade genética nas células. A informação contida nos genes, que estão inseridos nas longas cadeias de ADN, é o molde inicial para se produzirem proteínas. Para isso, a maquinaria celular começa por passar a informação do ADN para o ARN — uma molécula que pode navegar à vontade na célula — e, finalmente, traduz a informação contida na molécula de ARN nos aminoácidos que formam as proteínas. O ARN de interferência liga-se ao ARN transcrito a partir do ADN, impedindo-o didato para ser silenciado pelo ARN de interferência. Primeiro, os cientistas experimentaram in vitro silenciar este gene, em células cancerosas do epitélio dos ductos de ratinhos. Ao contrário das células saudáveis, que formavam tubos, as células cancerosas aglomeravam-se numa massa desestruturada. Mas, quando os cientistas aplicaram o ARN de interferência, as células reverteram o processo canceroso e voltaram a ter um aspecto saudável. Depois, a equipa fez o mesmo in vivo, em ratinhos transgénicos, com um outro gene responsável pelo cancro da mama. Para isso, injectou a solução com o ARN de interferência — que estava dentro de pequeníssimas bolas ocas de gordura, criadas por um dos membros da equipa — através dos mamilos dos ratinhos. O líquido entrou pelos ductos mamários, fazendo o caminho inverso do leite. O tratamento foi aplicado durante o início do cancro, e a incidência de tumores reduziu-se em 75%. Os cientistas verificaram que as células se multiplicaram menos. Próximo passo: os coelhos Canais mamários de ratinhos por onde passa o leite marcados por fluorescência assim de ser traduzido na proteína. Outras equipas já tinham usado com sucesso a técnica do ARN de interferência na investigação do cancro da mama. Mas uma barreira existente era identificar um gene fundamental para desencadear o cancro. Os investigadores foram à caça desse gene. Através de um algoritmo, a equipa identificou ligações entre genes mais activos nas células do cancro da mama em ratinhos – ou seja, produziram uma rede onde uma ligação entre dois genes implica que a actividade de um deles aumenta a actividade do outro. Em cancros da mama mais tardios, há uma grande heterogeneidade nestas ligações observadas em ratinhos. Mas, segundo a equipa, nos cancros da mama em fases mais iniciais o conjunto de genes activos é mais semelhante. Inicialmente, quando as futuras células cancerosas já têm uma actividade genética própria, mas o seu aspecto ainda é igual ao das células saudáveis do epitélio dos ductos, os cientistas descobriram que o gene HoxA1 tinha uma actividade anormal e parecia ser o mais importante. O HoxA1 está activo durante o desenvolvimento embrionário humano, mas está inactivo nas células saudáveis do tecido mamário adulto. Além disso, há vários estudos que indicam que a sua actividade está associada ao aparecimento do cancro da mama nas mulheres. Todas estas provas tornaram-no num bom can- Para perceber se a terapia atingia outros tecidos, o que poderia comprometer um tratamento em humanos, a equipa utilizou um marcador fluorescente ligado ao ARN de interferência para observar, por microscopia, o seu comportamento. “Não vimos quaisquer sinais do ARN de interferência em tecidos periféricos, indicando que as moléculas são apanhadas pelas glândulas mamárias e não entram na corrente sanguínea”, explicou ao PÚBLICO Amy Brock, uma das autoras do estudo. O próximo passo da equipa será testar a terapia noutra cobaia cuja anatomia dos ductos seja semelhante à das mulheres — como os coelhos — e procurar efeitos secundários da técnica, para se poder passar aos ensaios clínicos. É ainda preciso determinar a dose que este tratamento requer em humanos, explica-nos Donald Ingber: “Mulheres com propensão para esta doença terão provavelmente de receber tratamentos de poucos em poucos meses. O mesmo tratamento poderá também ser administrado em locais onde houve cirurgias de remoção de tumores, para induzir a reversão das células que ficaram em tecido mais normal.”
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    30 | CULTURA| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 Fotografia portuguesa vai estar em grande no jubileu da Leica Hans-Michael Koetzle o comissário da exposição que em Outubro assinala os 100 anos do nascimento da Leica, em 1914, esteve em Portugal para escolher imagens. O Museu do Chiado tentará depois trazer a mostra para Portugal Entrevista Sérgio B. Gomes Quando, em 2010, Hans-Michael Koetzle viu a exposição Batalha de Sombras em Cuenca, Espanha, ficou de boca aberta. Andou deslumbrado de um lado para o outro numa sala da Casa Zavala a perguntar “Quem são estes fotógrafos?”, “De onde vieram?”. A comissária Emília Tavares, do Museu do Chiado, estava lá para lhe responder. E disse-lhe que eram portugueses e que tinham fotografado sobretudo nos anos 1950 e 1960. Chamavam-se Gérard Castello-Lopes, Victor Palla, Varela Pécurto, Eduardo Harrington Sena, Sena da Silva, Fernando Taborda... Nesse dia, o jornalista e investigador alemão especializado em história e teoria da fotografia apaixonou-se por aquelas imagens e ficou com mais uma pergunta na cabeça: “Terão sido feitas com [câmaras] Leica?”. Umas sim, outras não. Mas esse número também não foi importante quando, no final do ano passado, decidiu viajar para Portugal à procura de mais fotografias daquele período para incluir na grande exposição do jubileu da Leica que está a preparar para este ano. Em Lisboa, Koetzle, que foi director da revista da Leica durante anos e que tem vasta obra publicada, confirmou o seu instinto quando viu directamente as provas de alguns dos fotógrafos de Batalha de Sombras. Escolheu cerca de 30 imagens dos que usavam câmaras Leica e descobriu, maravilhado, o trabalho de um amador muito dedicado à mítica marca alemã, Jorge Silva Araújo, de quem trazia apenas uma pista, um artigo publicado na revista da Leica nos anos 1950. Na comemoração dos cem anos da invenção da câmara que revolucionou a fotografia e a maneira como vemos o mundo através dela, Portugal será um dos países em grande destaque. Organizar uma exposição do jubileu da Leica — talvez a câmara fotográfica mais emblemática de todas — é um enorme desafio. Por onde começou? Pelo princípio, em 1914, ano em que Oskar Barnack construiu a sua primeira câmara. Percebemos que a partir desta data o mundo da fotografia mudou. E perguntámonos “por que não mostrar toda a história da fotografia do século XX numa exposição? Por que não tentar mostrar como o sistema da Leica mudou a maneira como vemos e compreendemos o mundo?”. A coisa boa deste ponto de partida é que é uma exposição verdadeiramente internacional. Imaginei como seria fantástico emparelhar diferentes culturas, diferentes abordagens, diferentes gerações e momentos da história. A Leica foi uma câmara sempre voltada para captar a história, as pessoas e a vida. Não é uma câmara de estúdio. É para sair à rua e captar a vida. E a ideia é juntar tudo isto. Claro que fiz uma lista daquilo que considero interessante. E para lhe dar um exemplo que consta nessa relação, há vários fotógrafos portugueses. Fiquei impressionado com uma exposição que vi em Cuenca [Batalha de Sombras, PHotoEspaña 2010]. Aquelas imagens foram uma revelação para mim, fiquei com um excelente catálogo dessa exposição e fiquei sempre a pensar: “Podem ser Leica. Podem ser Leica”. Contactei a curadora [Emília Tavares] e pedilhe ajuda para confirmar esse A Leica foi uma câmara sempre voltada para captar a história, as pessoas e a vida pormenor. Ela acedeu e entre mais de uma dezenas de fotógrafos representados, pelo menos cinco usaram leicas. Isto quer dizer que vamos ter a fotografia portuguesa na exposição, particularmente a dos anos 1950 e 1960 que foram décadas muito fortes. Hoje também é forte, mas fiquei impressionado com a qualidade do que foi feito naquelas duas décadas. Ficou assim tão surpreendido? Sim, fiquei espantado também ao perceber como, no centro da Europa, sabíamos tão pouco deste nicho. Acho que a exposição do jubileu da Leica será uma extraordinária oportunidade para dar a conhecer um grupo de fotógrafos portugueses com um enorme talento. Haverá também espanhóis, italianos... mas os portugueses serão importantes dado o desconhecimento quase total da sua obra internacionalmente. Não sabíamos nada sobre eles e serão uma parte importante da exposição que inaugurará em Hamburgo. Já fiz parte da selecção das imagens. Temos fotografias maravilhosas. E, com a ajuda da Emília, descobrimos material novo do fotógrafo Jorge Silva Araújo. Abrimos envelopes que estavam intocados e o que descobrimos é muito bom. Ele era um mestre a imprimir, as provas são incríveis e apesar de ser amador via-se que adorava o que fazia na fotografia. Verificamos que estava muito bem informado sobre os melhores livros e revistas de fotografia da época e também quis deixar o seu contributo. E de que época são essas fotografias? As melhores são dos anos 1950. Também vimos imagens dos anos 1960, mas as melhores são dos anos 50. Também teremos fotografia contemporânea, com fotografias de Paulo Nozolino. Que dimensão terá a exposição em termos de imagens? Teremos entre 400 a 500 fotografias. Vamos começar em 1914, porque Oskar Barnack começou logo a fotografar com a sua primeira câmara. Atravessaremos todo o século e haverá secções de países como Portugal. Haverá cerca de 30 obras de fotógrafos portugueses. Teremos cerca de cem autores de todo o mundo. Mas não me preocupei com proporções geográficas. Como será dividida? Por abordagens estéticas. Por exemplo, depois da II Guerra Mundial houve fotografia humanista em França, fotografia neo-realista na Itália, novo subjectivismo na Alemanha e uma fotografia próxima da tradição humanista francesa em Portugal. E a mesma coisa em Espanha. Isto dá uma mistura de diferentes estéticas em geografias diferentes. Teremos obviamente o fotojornalismo antes e depois da Guerra. O período vanguardista. As agências de fotografia dos anos 1950. A cultura dos fotolivros. A cor dos anos 1970 e 1980. A moda. E a fotografia contemporânea. São cerca de 14 “capítulos”, onde caberá também o cinema. Qual foi a principal revolução que a câmara Leica trouxe à fotografia? Era pequena, muito mais pequena do que as câmaras que existiam. A maior parte dos fotojornalistas usavam câmaras com negativos de vidro. Depois de disparar tinham de mudar o negativo — não havia momento decisivo. A Leica era rápida e tinha 36 imagens disponíveis. Funcionava como uma extensão dos braços e era possível tê-la sempre à mão para disparar a qualquer momento, um pouco à semelhança do que se faz hoje com os smartphones. A Leica não foi a primeira a usar filme de 35mm. Mas a grande diferença é que, pela primeira vez, uma empresa foi capaz de fazer uma câmara que era um produto perfeito. A empresa tinha uma grande experiência na óptica porque nasceu da Leitz, que fazia microscópios. O fabrico destes instrumentos tinha de ser muito, muito preciso. Um saber que foi levado para esta pequena câmara fotográfica, expoente máximo da tecnologia. A lente era perfeita, o negativo era maior, as funcionalidades eram muito
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | CULTURA | 31 30 Cultura Ver entrevista na íntegra em www.publico.pt O comissário já escolheu quase todas as imagens de fotógrafos portugueses que vai levar ao jubileu da Leica. Serão cerca de 30 ENRIC VIVES-RUBIO precisas. Adaptava-se bem às mãos, podia segurar-se sem se tremer. E foi feita para capturar distâncias curtas. Com a Leica, toda a maneira de capturar o mundo mudou. Os fotógrafos tornaram-se mais rápidos, mais próximos do sujeito e puderam trabalhar em sequências de 36 elementos — se perdessem um momento decisivo, podiam rapidamente procurar outro, e outro, e outro. Começou a ser possível experimentar. Quer dizer que a principal vantagem da Leica se “resumia” à eficácia com que respondeu a uma cultura fotográfica que pedia outras ferramentas... Sim, era um objecto extraordinariamente bem desenhado. Quando se fala no nascimento desta câmara é preciso não esquecer que se vivia no tempo da Bauhaus que se regia segundo o princípio “menos é mais”. E foi isso que Oskar Barnack fez. Ele não era membro da Bauhaus, mas tinha o espírito de fazer algo que utilizasse o mínimo daquilo que era necessário e nada mais. Este espírito resultou num objecto tão purista, tão bem desenhado que fez com que durasse até hoje. A Leica é como a Porsche — é sempre a mesma, apenas com algumas mudanças. Muitas vezes, a forma de trabalhar com Leica fazia com que as fotografias não saíssem perfeitas, ficavam desfocadas. Mas isso dava-lhes autenticidade, dinâmica. É o momento em que a fotografia deixou de estar congelada? Completamente. Deixou de estar congelada, deixou de ser apenas encenada. Passou a haver vida na fotografia de uma forma mais natural. Já havia fotógrafos a tentar trazer esta nova forma de estar na fotografia e a Leica deu-lhes a ferramenta perfeita. Trabalhava bem, era silenciosa, não precisava de flash. Foi importante para fotografar em locais onde era preciso ter estas armas — em tribunais, em igrejas, em cafés e bares nocturnos. E a Leica tornou-se famosa imediatamente? Não. Em 1925 não houve grande reacção. Nesse ano produziram-se cerca de 1000 câmaras. O sucesso veio em 1927/28. Pessoas como Rodchenko, artistas da Bauhaus começaram a usá-la. Gisele Freund foi outra das famosas a usá-la. Quando escapou aos nazis, em 1933, foi para França, onde trabalhou como fotógrafa. Há uma história muito conhecida que mostra como levou algum tempo o reconhecimento. Freund teve um trabalho que implicava fazer fotografias na Biblioteca Nacional de França. Quando a conheceu o director, este perguntou-lhe “O que é isso?”. Ela: “É a minha câmara”. Ele: “Não! Não! Precisamos de alguém profissional!”. Ela foi a uma feira da ladra, comprou uma máquina de fole antiga com um tripé e escondeu a Leica lá dentro. Disseram-lhe então que com aquela máquina já podia fotografar. Freund tirou as fotografias com a Leica escondida. É possível identificar um “estilo Leica” na fotografia? Sim. Como? Para se fotografar com Leica é preciso estar próximo do objecto. Não são câmaras para captar a grandes distâncias. Se se olhar para uma imagem com Roleiflex, por exemplo, elas são muito compostas a partir do centro, muito simétricas. As primeiras imagens do HCB feitas com uma câmara 6x6 são um pouco maçadoras. Com a Leica há dinâmica, há diferentes perspectivas. A fotografia na Leica é definida pelos limites do fotograma. Tive um experiência estranha há uns tempos quando estava a folhear uma revista Vu. Deparei-me com uma fotografia em dupla página sobre a Guerra Civil de Espanha e pensei : “É espantosa! Tem de ser uma imagem feita com Leica. Está tão perto, no chão, via-se uma cabeça, um ombro”. Fui à procura do crédito e não encontrei logo. Mas depois lá o descobri: era uma imagem do Henri Cartier-Bresson. Quando fiz a pesquisa para esta exposição vi uns dez mil fotolivros. Sentava-me todas as noites e o exercício principal era perceber se aquelas fotografias tinham sido feitas com Leica. Na exposição haverá muitos nomes que não são nada familiares. Não haverá apenas os “cartier-bressons”. Encontrou algum trabalho desconhecido internacionalmente que o tenha deslumbrado particularmente? Sim, muitos. Em particular o de um fotógrafo que se chama Richard Fleishhut. Tirava fotografias em barcos a pessoas famosas. Em Setembro de 1939, Fleishhut estava no SS Columbus perto do porto de Santa Cruz, América Latina. A II Guerra Mundial começou e os ingleses fecharam o porto e a navegação no Atlântico ficou muito controlada. O capitão tentou fugir durante dois meses mas não conseguiu. Até que os alemães decidiram afundar o navio. Todas as pessoas abandonaram o SS Columbus em pequenos barcos e depois assistiuse a uma explosão. Ele fotografou todos estes acontecimentos com uma Leica, uma história impossível de captar com um câmara de negativos de vidro. Aqui temos de tudo: a espera, o drama, o movimento, a atrapalhação das pessoas a entrarem nos barcos, a explosão o barco a fundar. Esta sequência é extraordinária e nós vamos mostrá-la. E o Silva Araújo? De que forma o surpreendeu? Sabe, no artigo que encontrei dele numa revista da Leica dos anos 50, não fiquei muito impressionado. Era um Portugal muito cliché mas quando peguei nos negativos e nas provas... aí sim, fiquei muito impressionado. Mas há outros exemplos que ninguém conhece fora de Portugal, como o de Victor Palla. Como já disse, fiquei muito impressionado com a exposição de Cuenca e soube, desde aí, que esse momento iria ser o início do meu love affair com a fotografia portuguesa. Foi por causa daquilo que vi que decidi vir a Portugal. Para uma exposição com esta abrangência, não haveria muitos comissários a viajar para um país por causa de 30 fotografias. Pelos vistos, parece que valeu a pena a viagem. Absolutamente. Quando vi as provas do Silva Araújo tive a certeza de que a viagem valeu bem a pena — é do melhor que existe. E por isso pedi à Emília para fazer alguma investigação para um texto do catálogo. O trabalho de Silva Araújo constará deste livro que terá cerca de 400 páginas. Será um livro de referência em relação ao trabalho fotográfico feito com leicas. A Leica conseguirá manter-se num mundo fotográfico cada vez mais desmaterializado e digital? Desde que esteja empenhada na fotografia estaremos a salvo. Não é produto de massas, mas tem a procura suficiente para continuar a manter este sistema vivo.
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    34 | PÚBLICO,SEG 6 JAN 2014 SAIR Em estreia lazer@publico.pt cinecartaz@publico.pt CINEMAS Porto Medeia Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre R. das Estrelas. T. 226063000 Hiroshima, Meu Amor M12. - 18h30, 22h ZON Lusomundo Dolce Vita Porto R. dos Campeões Europeus, 28-198. T. 16996 12 Anos Escravo 13h10, 16h20, 21h10, 00h20; A Propósito de Llewyn Davis M12. 21h20, 23h50; A Revolta dos Perus M6. 13h20, 16h10, 18h40 (V.Port.); Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h10, 16h, 19h (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 22h30 (3D); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 12h50, 15h40, 18h35, 21h30, 00h25; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 13h, 15h50, 18h50, 21h40, 00h30; O Passado M12. 19h40; A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 13h50, 16h30, 22h50; A Última Paixão do Sr. Morgan M12. 14h, 16h45, 19h30, 22h20 Aveiro ZON Lusomundo Fórum Aveiro R. Homem Cristo. T. 16996 O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h30, 17h05, 21h; O Conselheiro M16. 21h40; A Revolta dos Perus M6. 13h50, 16h15, 18h50 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 14h20, 17h15, 21h15; Frozen: O Reino do Gelo M6. 14h40, 17h25 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h20; A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 13h, 15h50, 18h40, 21h30; 7 Pecados Rurais M16. 17h, 19h25, 21h50; O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. 14h10 (V.Port.); 12 Anos Escravo 14h30, 17h40, 21h10 ZON Lusomundo Glicínias C. C. Glicínias - Aradas . T. 16996 Horas M12. 13h45, 16h20, 18h55, 21h30; Pai Por Acaso M12. 21h50; A Revolta dos Perus M6. 14h10, 16h40, 19h10 (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h50, 17h25, 21h; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 14h20, 17h15, 21h15; Chovem Almôndegas 2 M6. 14h40 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 17h40, 21h40; Frozen: O Reino do Gelo M6. 14h, 17h (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h10; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 14h30, 17h35, 21h20 Barcelos Cinemax - Barcelos Campo 25 de Abril. T. 253826571 A Revolta dos Perus M6. Sala 1 - 15h30 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 1 - 17h30, 21h45; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 2 - 15h30, 21h35 Braga Cinemax - BragaShopping Av. Central 33. T. 253208010 7 Pecados Rurais M16. Sala 1 - 15h, 23h55; A Revolta dos Perus M6. Sala 1 - 17h, 22h (V.Port.); O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 1 - 13h, 19h (V.Port.); Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 2 - 14h55, 17h05, 21h55 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. Sala 3 - 14h45, 17h05, 21h45; A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 4 14h50, 17h05, 21h50; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 5 - 17h, 21h35; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 5 - 15h, 19h35 (V.Port.) Teatro Circo Av. da Liberdade, 697. T. 253262403 Hiroshima, Meu Amor M12. Sala 1 - 21h30 ZON Lusomundo Braga Parque R. dos Congregados, S. Victor. T. 16996 O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. 14h10 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 16h30, 19h10, 22h, 00h45; 7 Pecados Rurais M16. 14h, 16h20, 19h, 22h10, 00h40; 12 Anos Escravo 13h40, 17h, 21h, 00h05; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 13h10, 15h50, 18h50, 21h40, 00h35; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h20, 17h10, 20h50, 00h20; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h30, 16h10, 18h40 (V.Port.); Homefront - A Última Defesa M12. 21h50, 00h15; Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h10, 00h25; A Revolta dos Perus M6. 13h35, 16h, 18h30 (V.Port.); Chovem Almôndegas 2 M6. 13h25, 15h40 (V.Port.); Horas M12. 13h15, 15h45, 18h10, 21h30, 24h; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 18h20, 21h20, 00h30 Coimbra Teatro Académico de Gil Vicente Univ. de Coimbra, Av. Sá da Bandeira. T. 239855630 Hiroshima, Meu Amor M12. Sala 1 - 21h30 ZON Lusomundo Dolce Vita Coimbra C. C. Dolce Vita, R. General Humberto Delgado, 207. T. 16996 O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h50, 17h30, 21h, 00h20; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 13h30, 16h10, 18h50, 21h40, 00h25; Frozen: O Reino do Gelo M6. 14h, 16h30, 19h15 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 22h20; A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 13h45, 16h25, 19h05, 21h50, 00h40; 12 Anos Escravo 14h30, 17h50, 21h30, 00h30; Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade M12. 17h10, 20h50, 23h50; O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. 14h40 (V.Port.); Khumba M6. 13h40, 16h20, 18h30 (V.Port.); Tal Pai, Tal Filho M12. 21h15, 00h05; Horas M12. 14h20, 16h40, 19h, 21h20, 24h; 7 Pecados Rurais M16. 14h25, 17h, 19h30, 22h, 00h10; A Propósito de Llewyn Davis M12. 21h45, 00h35; A Revolta dos Perus M6. 14h10, 16h50, 19h10 (V.Port.) ZON Lusomundo Fórum Coimbra Fórum Coimbra. T. 16996 Chovem Almôndegas 2 M6. 14h, 16h20 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 18h40, 21h20, 24h; 7 Pecados Rurais M16. 14h35, 16h50, 19h, 21h40, 00h10; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 13h50, 16h30, 19h05, 21h45, 00h35; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 14h10, 17h40, 21h10, 00h30 (3D); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 13h40, 16h25, 19h10, 21h50, 00h40; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h30, 16h, 18h30 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h, 00h05 Covilhã Cineplace - Serra Shopping Avenida Europa, Lt 7 - Loja A102. Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 1 - 14h30, 16h40 (3D); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 1 - 18h50, 22h (3D); O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 2 - 13h10, 15h (3D); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. Sala 2 - 16h50, 19h20, 21h50 (3D); 12 Anos Escravo Sala 3 - 13h, 15h45, 18h30, 21h15; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 4 - 13h10, 15h20, 17h30; A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 4 - 19h40, 22h10 12 Anos Escravo De Steve McQueen. Com Chiwetel Ejiofor, Michael K. Williams, Michael Fassbender. EUA/GB. 2013. 134m. Drama. M16. EUA, 1841. Solomon Northup, um negro livre, vive em Nova Iorque com a família. Um dia, é raptado e feito escravo. Passa a ser tratado por Platt, nome que lhe dão para esconder a sua condição de homem livre, e é violentamente forçado a omitir a sua identidade. É comprado pelo dono de uma plantação no Louisiana, onde passará 12 anos até ser finalmente libertado. A Última Paixão do Sr. Morgan De Sandra Nettelbeck. Com Clémence Poésy, Gillian Anderson, Michael Caine. EUA/BEL/ALE/ FRA. 2013. 116m. Comédia Dramática. M12. Matthew Morgan é um norteamericano em Paris. Viúvo, o ex-professor de Filosofia mede A Última Paixão do Sr. Morgan os dias pela ausência do grande amor da sua vida. Mas tudo começa a mudar no dia em que conhece a jovem Pauline Laubie. Matthew vai desenvolver com ela uma relação especial, de ternura e partilha, que vai levá-lo a abraçar um recomeço. Afinal, como costuma dizer, “há uma fenda em tudo e é ela que permite a entrada de luz“. Grudge Match Ajuste de Contas De Peter Segal. Com Robert De Niro, Sylvester Stallone, Kim Basinger, Alan Arkin. EUA. 2013. 113m. Comédia. M12. Henry “Razor“ Sharp e Billy “The Kid“ McDonnen, dois “boxeurs“ de Pittsburgh, ficaram na história do pugilismo pela sua rivalidade lendária. Passados 30 anos, ambos se conformaram à vida de reformados. Mas, um dia, recebem uma proposta inesperada: encontrarem-se para um derradeiro duelo. O apelo do ringue revela-se demasiado forte e eles acabam por aceitar o desafio. Agora, só têm de se pôr em forma... Horas De Eric Heisserer. Com Genesis Rodriguez, Paul Walker, Nick Gomez. EUA. 2013. 97m. Drama, Thriller. M12. Nova Orleães, 2005. Uma mulher grávida dá entrada no hospital para um parto prematuro. Nolan, seu companheiro e pai da criança, recebe uma notícia devastadora: a mulher não resistiu. Contudo, a filha sobreviveu, embora esteja dependente da incubadora neonatal. No meio desta tempestade de emoções, o furacão Katrina chega à cidade. Todos abandonam o hospital, que não tarda a ficar isolado pela subida das águas. Nolan está sozinho com a filha e não vislumbra socorro. E, quando a energia falha, a vida da bebé fica em perigo...
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | 35 Sessão reúne entrevistadores de Távora O segundo encontro do ciclo Fernando Távora: Histórias de vida(s) reúne esta tarde, pelas 18h30, nas instalações da Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva (palacete Lopes Martins, na Praça Marquês de Pombal), seis intervenientes que têm em comum o facto de terem entrevistado, em diferentes ocasiões, o arquitecto homenageado: Figueira da Foz Matosinhos ZON Lusomundo Foz Plaza C. C. Foz Plaza, R. Condados. T. 16996 7 Pecados Rurais M16. 21h30; A Revolta dos Perus M6. 15h10, 17h50 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 15h40, 18h30, 21h20; Frozen: O Reino do Gelo M6. 15h30, 18h (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h; 12 Anos Escravo 15h20, 18h10, 21h10; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 15h, 20h50; A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 18h20 ZON Lusomundo Marshopping IKEA Matosinhos, Av. Óscar Lopes. T. 16996 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 13h, 15h50, 18h40, 21h30, 00h20; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h10, 16h, 18h20 (V.Port.); Homefront - A Última Defesa M12. 21h10, 23h30; Horas M12. 12h30, 15h, 17h20, 19h40, 22h10, 00h30; 12 Anos Escravo 12h50, 15h40, 18h30, 21h20, 00h10; A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 13h20, 16h20, 19h, 21h50, 00h25; 7 Pecados Rurais M16. 22h20; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h40, 17h, 20h40, 00h05; A Revolta dos Perus M6. 10h40, 12h40, 15h20, 17h30, 19h50 (V.Port.) ZON Lusomundo NorteShopping NorteShopping, R. Sara Afonso. T. 16996 Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade M12. 20h50, 23h50; Tal Pai, Tal Filho M12. 14h, 17h10; 12 Anos Escravo 13h50, 17h20, 21h10, 00h15; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h20, 17h (2D), 21h, 00h30 (3D); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 13h, 15h40, 18h30, 21h40, 00h25; Chovem Almôndegas 2 M6. 13h30, 15h50, 18h15 (V.Port.); Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 21h25, 00h10; Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 17h50, 21h20, 00h35; A Revolta dos Perus M6. 13h10, 15h20 (V.Port.); 7 Pecados Rurais M16. 21h50, 00h05; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h40, 16h10, 18h40 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 12h50, 15h30, 18h20 (2D), 21h30, 00h20 (3D) Guarda Vivacine - Guarda C.C. Vivaci, Av. dos Bombeiros Voluntários Egitanienses, nº 5. T. 271212140 Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 1 - 15h50, 18h30 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. Sala 1 - 21h10; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 2 15h40, 18h (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 2 - 21h20; 12 Anos Escravo Sala 3 - 15h20, 18h10, 21h; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 4 - 15h10, 18h20, 21h30 Guimarães Castello Lopes - Espaço Guimarães Espaço Guimarães - Loja 154, R. 25 de Abril, 1 - Silvares. T. 760789789 12 Anos Escravo Sala 1 - 13h, 15h50, 18h40, 21h30; 7 Pecados Rurais M16. Sala 2 - 17h10, 19h10, 21h20; O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 2 - 13h10, 15h10 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. Sala 3 - 13h30, 16h10, 18h50, 21h50; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 4 - 15h20, 18h30, 21h40; A Revolta dos Perus M6. Sala 5 - 13h20 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 5 - 16h, 18h20, 21h10 Castello Lopes - Guimarães Shopping Lugar das Lameiras T. 760789789 Desafio do Ano M12. Sala 1 - 15h30, 18h10, 21h; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. Sala 2 - 18h20 (3D), 15h50, 21h40 (2D); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 3 - 21h10 (3D); Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 3 - 19h10 (V.Port./3D), 15h10, 17h10 (V.Port./2D); Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 4 - 15h, 17h15, 19h30, 21h50 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. Sala 5 - 15h40, 18h30, 21h20; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. Sala 6 - 16h, 18h40, 21h30 Maia Vivacine - Maia Centro Comercial Vivaci, Estrada Real nº 95 Moreia. T. 229471518 12 Anos Escravo Sala 1 - 15h10, 18h10, 21h; Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. Sala 2 21h; A Revolta dos Perus M6. Sala 2 - 16h20, 18h50 (V.Port.); Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 3 - 16h10, 18h40 (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 3 - 20h50; 7 Pecados Rurais M16. Sala 4 - 21h30; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 4 - 16h05, 18h35 (V.Port.) ZON Lusomundo MaiaShopping MaiaShopping, Lugar de Ardegaes. T. 16996 Frozen: O Reino do Gelo M6. 15h40, 18h20 (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 20h50; 12 Anos Escravo 15h50, 21h20; 7 Pecados Rurais M16. 15h20, 18h30, 21h30; A Revolta dos Perus M6. 16h30, 19h (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 21h40; Chovem Almôndegas 2 M6. 16h, 18h40 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 21h20 Paços de Ferreira ZON Lusomundo Ferrara Plaza Ferrara Plaza. T. 16996 O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 20h50; Chovem Almôndegas 2 M6. 15h40, 18h30 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 21h50; Frozen: O Reino do Gelo M6. 15h10, 17h50 (V.Port.); 12 Anos Escravo 15h20, 18h10, 21h10; 7 Pecados Rurais M16. 15h50, 18h40, 21h40; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 15h30, 18h20, 21h30 Penafiel Cinemax - Penafiel Ed. Parque do Sameiro. T. 255214900 A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 1 15h30, 21h45; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 2 - 15h30, 23h50 (V.Port.); O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 2 - 17h30 (V.Port./3D), 21h50 (V.Port./2D); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 3 - 15h30, 21h35; A Revolta dos Perus M6. Sala 3 18h20 16h40, 19h30, 22h, 00h40; O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. 14h30 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 15h20, 18h, 20h40, 23h30; Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade M12. 20h50, 23h50; Chovem Almôndegas 2 M6. 13h50, 16h10, 18h30 (V.Port.) São João da Madeira Cineplace - São João da Madeira São João da Madeira. 12 Anos Escravo Sala 1 - 13h, 15h45, 18h30, 21h10; 7 Pecados Rurais M16. Sala 2 - 18h50, 21h; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 2 - 14h30, 16h40; A Revolta dos Perus M6. Sala 3 - 16h50; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. Sala 3 - 14h20, 19h, 21h30 (3D); Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 4 - 13h50, 16h; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 4 - 18h10, 21h20 (2D); O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 5 - 12h50, 14h40, 16h30 (2D); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 5 - 18h20, 20h50 Viana do Castelo Cineplace - Estação Viana Avenida Conde Carreira 7 Pecados Rurais M16. Sala 1 - 19h50, 22h; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 1 - 13h, 15h10 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 1 - 17h20; 12 Anos Escravo Sala 2 - 13h, 15h50, 18h40, 21h30; O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 3 - 13h10, 15h (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. Sala 3 - 16h50, 19h20, 21h50 (3D); Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 4 - 13h50, 16h (V.Port./3D); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 4 18h10, 21h20 (3D) Vila Nova de Gaia UCI Arrábida Arrábida Shopping. T. 707232221 A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 1 - 21h50, 00h25; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. Sala 1 - 13h50, 16h25, 19h; Gravidade M12. Sala 2 - 00h20 (3D); Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 2 - 21h45 (V.Port./3D); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 2 - 13h50 (2D), 14h15 (3D), 17h30 (2D), 17h50 (3D), 21h20 (2D), 21h30 (3D), 00h40 (2D), 00h50 (3D); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. Sala 2 14h, 16h35, 19h10; A Última Paixão do Sr. Morgan M12. Sala 3 - 13h55, 16h30, 19h05, Cristina Antunes, Bernardo Pinto de Almeida, João Leal, Jorge Figueira, Manuel Graça Dias e Valdemar Cruz. A sessão, que se insere num programa da Faculdade de Arquitectura dedicado a Fernando Távora, tem entrada livre, mas o espaço é pequeno e convém reservar lugar através do telefone 22 5518557. 21h40, 00h15; Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade M12. Sala 4 - 14h30, 17h50, 21h15, 00h20; O Passado M12. Sala 4 - 13h45, 16h25, 19h05, 21h55, 00h40; A Propósito de Llewyn Davis M12. Sala 6 - 18h30, 21h25, 00h10; Khumba M6. Sala 6 - 14h05 (V.Port./2D), 16h15 (V.Port./3D); A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2 M16. Sala 7 - 18h20; Temporário 12 M16. Sala 7 - 13h50, 16h05, 22h, 00h20; Pai Por Acaso M12. Sala 8 - 14h, 16h30, 19h, 21h30, 00h05; Horas M12. Sala 9 - 14h05, 16h35, 19h05, 21h50, 00h25; Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. Sala 10 - 14h05, 17h50, 21h20, 00h20; Last Vegas Despedida de Arromba M12. Sala 11 - 21h15, 24h; Chovem Almôndegas 2 M6. Sala 11 14h20, 16h45 (V.Port/2D), 19h10 (V.Port./3D); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. Sala 12 - 13h55, 00h35 (3D), 16h30, 19h15, 21h55 (2D); 7 Pecados Rurais M16. Sala 13 - 14h15, 16h40, 19h20, 21h50, 00h30; Malavita M12. Sala 14 - 18h45; Homefront - A Última Defesa M12. Sala 14 - 21h25, 00h10; A Revolta dos Perus M6. Sala 14 - 14h10, 16h35 (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. Sala 15 - 13h50, 21h10 (2D), 17h30, 00h30 (3D); Frozen: O Reino do Gelo M6. Sala 16 - 13h55, 16h35 (V.Port./2D), 19h05 (V.Port./3D); Grudge Match - Ajuste de Contas M12. Sala 16 - 21h40, 00h15; China - Um Toque de Pecado M16. Sala 17 - 18h45; Tal Pai, Tal Filho M12. Sala 17 16h10, 21h35, 00h15; Niko e o Pequeno Traquinas M6. Sala 17 - 14h10 (V.Port.); Casablanca M12. Sala 18 - 21h20, 24h; O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. Sala 18 - 14h30, 19h15 (V.Port./2D), 16h50 (V.Port./3D); Capitão Phillips M12. Sala 19 18h55; O Conselheiro M16. Sala 19 - 13h45, 16h20, 21h50, 00h25; 12 Anos Escravo Sala 20 - 13h40, 16h25, 19h15, 22h05, 00h50 ZON Lusomundo GaiaShopping Av. Descobrimentos, 549. T. 16996 Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 17h50, 20h; O Tempo dos Dinossauros: O Filme 3D M6. 15h10 (V.Port.); Pai Por Acaso M12. 21h50; Chovem Almôndegas 2 M6. 15h15, 17h35, 19h55 (V.Port.); 12 Anos Escravo 15h20, 18h15, 21h10; Frozen: O Reino do Gelo M6. 15h45, 18h30, 21h05 (V.Port.); O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 16h30, 20h45; Horas M12. 15h, 17h05, 19h30, 21h45; A Revolta dos Perus M6. 15h, 17h20, 19h40 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 21h55; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 16h, 18h45, 21h30; 7 Pecados Rurais M16. 15h05, 17h30, 19h50, 22h05 AS ESTRELAS DO PÚBLICO Jorge Mourinha Luís M. Oliveira Vasco Câmara 12 Anos Escravo mmmmm mmmmm mmmmm A Propósito de Llewyn Davis mmmmm mmmmm mmmmm Rio Tinto ZON Lusomundo Parque Nascente Praceta Parque Nascente, nº 35. T. 16996 O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h45, 17h10, 20h35, 24h; 7 Pecados Rurais M16. 15h10, 17h30, 19h50, 22h10, 00h35 ; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h10, 15h40, 18h20, 21h, 23h40 (V.Port.); 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 13h, 15h50, 18h50, 21h40, 00h30; 12 Anos Escravo 12h45, 15h30, 18h35, 21h30, 00h25; Horas M12. 14h10, 16h30, 19h10, 21h50, 00h15; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 13h40, 16h20, 19h, 21h45, 00h20; Pai Por Acaso M12. 21h10, 23h45; A Revolta dos Perus M6. 14h, 16h15, 18h45 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 12h50, 16h, 19h15, 22h30; Homefront - A Última Defesa M12. A Espuma dos Dias mmmmm – – Hiroxima Meu Amor mmmmm mmmmm mmmmm Old Boy - Velho Amigo mmmmm mmmmm mmmmm O Passado mmmmm – mmmmm Tal Pai Tal Filho – mmmmm mmmmm Temporário 12 mmmmm mmmmm – A Vida de Adèle, Capítulos 1 e 2 mmmmm mmmmm mmmmm A Vida Secreta de Walter Mitty mmmmm mmmmm – a Mau mmmmm Medíocre mmmmm Razoável mmmmm Bom mmmmm Muito Bom mmmmm Excelente Vila Real ZON Lusomundo Dolce Vita Douro C. C. Dolce Vita Douro, Lj. 244 Alameda Grasse. T. 16996 12 Anos Escravo 12h40, 15h30, 18h30, 21h30; 7 Pecados Rurais M16. 13h10, 15h20, 17h50, 21h50; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 13h40, 16h20, 19h, 21h40; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 13h20, 17h, 20h40; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 13h, 15h50, 18h40, 21h20; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h30, 16h, 18h40 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h10; A Revolta dos Perus M6. 12h50, 15h, 17h30 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 21h, 23h30 Viseu ZON Lusomundo Fórum Viseu Fórum Viseu. T. 16996 Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade M12. 21h10; Chovem Almôndegas 2 M6. 13h50, 16h10, 18h30 (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 14h20, 17h, 21h20; O Hobbit: A Desolação de Smaug M12. 14h10, 17h35, 21h; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 14h30, 17h20, 21h30; Pai Por Acaso M12. 21h40; A Revolta dos Perus M6. 13h40, 15h50, 18h (V.Port.); 7 Pecados Rurais M16. 21h50; Frozen: O Reino do Gelo M6. 14h, 16h30, 19h (V.Port.) ZON Lusomundo Palácio do Gelo Palácio do Gelo, Est. Nelas, Qt. Alagoa. T. 16996 12 Anos Escravo 14h20, 17h20, 21h; Grudge Match - Ajuste de Contas M12. 13h45, 16h25, 19h05, 21h50; 47 Ronin - A Grande Batalha Samurai M12. 14h30, 17h30, 21h20; A Revolta dos Perus M6. 14h10, 16h35, 19h (V.Port.); A Vida Secreta de Walter Mitty M12. 21h30; 7 Pecados Rurais M16. 14h, 16h15, 18h30, 21h40; Frozen: O Reino do Gelo M6. 13h30, 16h05, 18h40 (V.Port.); Os Jogos da Fome: Em Chamas M12. 21h10 ARTE Porto Galeria Presença R. Miguel Bombarda, 570. T. 224005050 O Outro Nome das Coisas De Catarina Botelho. De 2/11 a 11/1. 2ª a 6ª das 10h às 12h30 e das 15h às 19h30. Sáb das 15h às 19h30. Fotografia. Museu de Serralves Rua Dom João de Castro, 210. T. 226156500 Artistas Brasileiros e Poesia Concreta De vários autores. De 15/11 a 4/3. 2ª a Sáb das 10h às 18h. Obra Gráfica. Na biblioteca do museu. Museu Nacional da Imprensa Estrada Nacional 108, 206. T. 225304966 25A/40ª De vários autores. De 28/4 a 31/5. Todos os dias das 15h às 20h. Obra Gráfica. Manoel de Oliveira - 105 Revistas De 11/12 a 10/3. Todos os dias das 15h às 20h. Documental. Memórias Vivas da Imprensa A partir de 1/1. Todos os dias das 15h às 20h. Documental. Exposição permanente. Sala Rodrigo Álvares. Miniaturas Tipográficas A partir de 15/11. 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, Sáb, Dom e feriados das 15h às 20h. Objectos. Exposição permanente. PortoCartoon: O Riso do Mundo A partir de 1/1. Todos os dias das 15h às 20h. Cartoon. Exposição permanente. Galeria da Caricatura.
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    36 | PÚBLICO,SEG 6 JAN 2014 SAIR Anadia Aliança Underground Museum R. do Comércio, 444 - Aliança Vinhos de Portugal S.A. T. 234732045 Aliança Underground Museum A partir de 24/4. 2ª a Sáb (visitas às 10h30, 11h30, 14h30, 15h30 e 16h30). Arqueologia, Azulejo, Cerâmica, Outros. Barcelos Galeria Municipal de Arte de Barcelos Praceta Doutor Francisco Sá Carneiro. T. 253809600 X Bienal de Pintura do Eixo Atlântico De Jorge Alexandre Carvalho Marques, Eugenia Cuéllar Barbeito, Juliana Ribeiro, Raúl Álvarez Jiménez, entre outros. De 18/12 a 26/1. 2ª a 6ª das 09h às 12h30 e das 14h às 18h. Sáb das 10h às 12h30 e das 14h às 18h. Pintura. Museu de Olaria Rua Cónego Joaquim Gaiolas. T. 253824741 O Real e o Imaginário: Memória e Identidade no Figurado de Barcelos De 19/11 a 29/6. 2ª a 6ª das 10h às 18h. Sáb, Dom e feriados das 10h às 12h30 e das 14h às 18h. Documental, Objectos. Braga Estação de Caminhos de Ferro de Braga Largo da Estação. T. 253273665 PortoCartoon: O Riso do Mundo A partir de 6/10. Todos os dias. Cartoon. Exposição permanente. Galeria Mário Sequeira - Parada de Tibães Quinta da Igreja T. 253602550 Nuvem para Meia Altura De José Bechara. De 23/11 a 23/1. 2ª a 6ª das 10h às 13h e das 15h às 19h. Instalação. O Corte De Isaque Pinheiro. De 12/10 a 12/1. 2ª a 6ª das 10h às 13h e das 15h às 19h. Fotografia, Escultura. Caramulo Museu do Caramulo Rua Jean Lurçat, 42. T. 232861270 Estradas de Portugal - Um outro Olhar De 23/11 a 2/2. Todos os dias das 10h às 13h e das 14h às 17h. Fotografias. Rush De João Louro. De 6/9 a 26/1. Todos os dias das 10h às 13h e das 14h às 18h (Verão), das 10h às 13h e das 14h às 17h (Inverno). Outros. Coimbra Casa Municipal da Cultura de Coimbra R. Pedro Monteiro T. 239702630 Máquinas Fotográficas A partir de 3/2. 2ª a 6ª das 09h às 19h30. Sáb das 13h30 às 19h. Documental, Objectos. Permanente. Galeria Pinho Dinis - Casa Municipal da Cultura R. Pedro Monteiro. T. 239702630 Nasceu, tem mais encanto! De Delfim Manuel. De 30/11 a 6/1. 2ª a 6ª das 09h às 19h30. Sáb das 11h às 13h e das 14h às 19h. Objectos. Galeria Sete Av. Dr. Elísio de Moura 53. T. 239702929 Arte de Bolso De vários autores. De 7/12 a 18/1. 2ª a Sáb das 15h às 20h. Pintura, Outros. Museu da Física Largo Marquês de Pombal T. 239410602 O Engenho e a Arte A partir de 2/12. 2ª a 6ª das 09h30 às 17h30. Exposição permanente. Cinema Ver Hiroxima, Meu Amor no centenário de Duras Hiroxima, Meu Amor, de Alain Resnais. Porto. Teatro do Campo Alegre. Às 18h30 e 22h. Hiroxima, Meu Amor (1959), a primeira longametragem de ficção de Alain Renais e um dos filmes que lançou a Nouvelle Vague, mostra uma intensa conversa entre dois amantes, uma actriz francesa e um homem japonês, que estão a separar-se após uma breve ligação. O cenário é Hiroxima, a mulher é interpretada por Emmanuelle Riva – que regressou recentemente ao cinema com um notável papel em Amor, de Michael Haneke –, o homem é o actor japonês Eiji Okada. Não sabemos os nomes das personagens, sempre referidas como “ele” e “ela”. Sabemos que ela teve como amante um soldado alemão e que, depois da guerra, a puniram por isso, cortando-lhe o cabelo. E vemos as imagens das mulheres de Hiroxima que perderam o cabelo por causa das radiações. O argumento do filme é de Marguerite Duras (1914-1996), de quem se comemora este ano o centenário do nascimento. Também por isso, é uma coincidência feliz que o filme seja hoje exibido em três cidades portuguesas: Braga, Porto e Coimbra, respectivamente no Theatro Circo (21h30), no Teatro do Campo Alegre (18h30 e 22h) – onde já passou ontem e se manterá até quarta-feira – e no Teatro Académico de Gil Vicente. Portugal dos Pequenitos Rossio de Santa Clara. T. 239801170 + de 300 Barbies A partir de 11/7. Todos os dias das 09h às 20h (de 1/6 a 15/9), das 10h às 19h (de 1/3 a 31/3 e 16/9 a 15/10), das 10h às 17h (de 1/1 a 28,29/2 e 16/10 a 31/12. Encerra 25 de Dezembro). Objectos. Figueira da Foz Centro de Artes e Espectáculos R. Abade Pedro. T. 233407200 Intemporalidades De Mimi Veríssimo, Armando Pedro, Ramiro Calouro. De 4/1 a 30/1. 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, Sáb, Dom e feriados das 10h às 19h. 6ª das 10h às 00h. Pintura. Interior De Cristina Troufa. De 14/12 a 16/2. 2ª a 5ª das 10h às 19h. 6ª das 10h às 00h. Sáb, Dom e feriados das 10h às 19h. Pintura, Instalação. Guimarães Centro Internacional das Artes José de Guimarães Avenida Conde Margaride T. 300400444 Flor na Pele De Sara Franqueira, Carlos Lobo, Filipe Silva. De 13/12 a 2/2. Todos os dias das 10h às 19h (última entrada às 18h30). Fotografia, Outros. Maia Aeroporto Francisco Sá Carneiro Pedras Rubras. T. 229432400 Viagens com Humor A partir de 3/4. Todos os dias (aberto 24h). Desenho, Pintura, Cartoon. No âmbito do Dia Mundial dos Museus de Cartoon. Na zona de Chegadas. Matosinhos Galeria Municipal de Matosinhos Av. D. Afonso Henriques. T. 229389274 Por Dentro Por Fora De Vítor Ribeiro, Rui Matos. De 30/11 a 25/1. 2ª a 6ª das 09h às 12h30 e das 14h às 17h30. Sáb e feriados das 15h às 18h. Escultura. Vila Nova de Famalicão Fundação Cupertino de Miranda Praça Dona Maria II. T. 252301650 Ainda Julio De 2/10 a 28/2. 2ª a 6ª das 10h às 12h30 e das 14h às 18h. Sáb e feriados das 14h às 18h. Pintura. Vila Real Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real Rua do Rossio. T. 259320340 Arqueologia A partir de 24/9. Todos os dias das 10h às 12h e das 14h às 19h. Objectos, Outros. Exposição Permanente. Numismática A partir de 27/5. Todos os dias das 10h às 12h e das 14h às 19h. Numismática. Exposição Permanente. FESTIVAIS Bragança Teatro Municipal de Bragança Praça Prof. Cavaleiro Ferreira. T. 273302744 FAN - Festival de Ano Novo 2014 De 4/1 a 25/1. Todos os dias. FARMÁCIAS Por questões de ordem técnica não nos é possível fornecer os dados das farmácias. Logo que possível retomaremos a divulgação deste conteúdo
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | 37 FICAR , Rabbids: Invasão, 30 Nickelodeon, 9h30 Os mais vistos da TV Sábado, 4 % Aud. Share Jornal das 8 TVI 13,6 27,7 Belmonte Destinos Cruzados TVI TVI 13,5 12,4 27,5 27,0 Jornal da Noite SIC 12,3 TVI 10,6 25,2 24,5 Especial Secret Story 4 FONTE: CAEM RTP1 2: SIC TVI Cabo 16,1% % 2,1 17,9 21,5 29,0 lazer@publico.pt CINEMA Freelancers [Freelancers] TVC1, 18h Malo é um jovem com um passado ligado à criminalidade que decide mudar de vida e seguir os passos do progenitor ao serviço da polícia de Nova Iorque. Aí, vai cruzar-se com Vito Sarcone, um agente que foi, em tempos, companheiro do seu pai, morto 15 anos antes no cumprimento do dever. Quando Sarcone percebe quem ele é, decide acolhê-lo e juntá-lo ao seu leal grupo de polícias corruptos. E é nesta miríade de corrupção e violência que o jovem vai querer descobrir a verdade por detrás da morte do pai... Comboio Nocturno para Lisboa [Night Train to Lisbon] TVC2, 22h Uma mulher prepara-se para se atirar de uma ponte em Berna, Suíça. Raimund Gregorius, um professor de latim, grego e hebraico, convence-a a não o fazer. Subitamente, a mulher desaparece, deixando o casaco atrás de si. No bolso do casaco ele encontra um livro de um autor português e um bilhete de comboio para Lisboa com data desse mesmo dia. E é então que aquele professor antiquado, habituado a uma vida regrada e monótona, toma uma decisão inusitada: mete-se no comboio e viaja para Lisboa, a cidade onde terão lugar todas as revelações. Realizado por Bille August. RomaSanta – A Caça ao Lobisomem [Romasanta, la Caza de la Bestia] MOV, 2h05 Galiza, 1850. Os bosques estão infestados de lobos. As pessoas desaparecem misteriosamente e os seus cadáveres são encontrados brutalmente mutilados. Os boatos e as histórias sobre um lobisomem correm entre os aldeões. Josefa e Bárbara vivem no meio do bosque e só se sentem seguras com a chegada de Manuel Romasanta, amante de Josefa e por quem Bárbara está secretamente apaixonada. Depois de Josefa partir para a cidade, Bárbara e Manuel envolvem-se. Mas Bárbara começa a suspeitar que talvez Manuel seja o lobisomem de que todos falam, pois é o único RTP1 FOX MOVIES 6.30 Bom Dia Portugal 10.00 Praça da Alegria 12.15 Os Nossos Dias 13.00 Jornal da Tarde 14.15 Depois do Adeus 15.15 Portugal no Coração 18.00 Portugal em Directo 19.00 O Preço Certo 20.00 Telejornal 21.00 Bemvindos a Beirais 22.00 Quem Quer Ser Milionário 23.00 5 Para a Meia-Noite 00.15 Diário do Vampiro 1.00 Filme: Arma Mortífera 2.45 Ler +, Ler Melhor 3.00 Éramos Seis 11.55 A Última Legião 13.34 Van Helsing 15.42 Circo dos Horrores: O Assistente do Vampiro 17.27 A Câmara Encerrada 19.16 A Residência Espanhola 21.15 Romance Perigoso 23.14 A Última Caminhada 1.13 SuperHomem RTP2 7.00 Zig Zag 15.00 5 Minutos com um Cientista 15.05 Dois Homens e Meio 15.30 National Geographic - Os Animais Mais Estranhos do Mundo 16.25 Iniciativa 16.30 Sociedade Civil 18.00 A Fé dos Homens 18.30 Iniciativa 18.35 Ler +, Ler Melhor 18.45 Zig Zag 20.45 Ler +, Ler Melhor 20.55 5 Minutos com um Cientista 21.00 Meu Pai, Humberto Delgado - Documentário 21.54 A Hora da Sorte 22.00 24 Horas - Sumário Directo 22.30 Agora (Diários) 22.34 Automobilismo: Rali Dakar 2014 22.40 O Mentalista 23.30 Viver é Fácil 00.00 Voo Directo - A Vida a 900 à Hora 00.55 Agora (Diários) - Repetição 1.10 Euronews SIC 6.00 SIC Notícias 07.00 Edição da Manhã 8.45 A Vida nas Cartas - O Dilema 10.00 Querida Júlia 13.00 Primeiro Jornal 14.30 Rosa Fogo 15.30 Boa Tarde 18.15 Senhora do Destino 19.00 Sangue Bom 20.00 Jornal da Noite 21.45 Sol de Inverno 22.45 Amor À Vida 00.00 A Guerreira 00.45 Contra-Ataque 1.45 Inesquecível TVI 6.30 Diário da Manhã 10.15 Você na TV! 13.00 Jornal da Uma 14.30 A Outra 16.00 A Tarde é Sua 18.00 Doce Fugitiva 18.30 I Love It 19.30 Casa dos Segredos 4 - Desafio Final 20.00 Jornal das 8 21.30 Casa dos Segredos 4 - Desafio Final 22.15 Belmonte 23.15 Destinos Cruzados 00.15 Casa dos Segredos 4 - Desafio Final 1.45 Filme a definir 3.30 O Último Beijo DISNEY 10.10 O Caminho do Poder 12.15 Terminal de Aeroporto 14.20 Uma Rapariga Cheia de Sonhos 16.05 Inferno Vermelho 17.50 Traidor 19.45 Step Up 2 21.30 O Patriota 00.20 A Esfera 2.35 É Coisa de Rapaz ou Rapariga? 15.40 Os Substitutos 16.05 Os Substitutos 16.30 Littlest Pet Shop 16.55 Phineas e Ferb 17.07 Phineas e Ferb 17.23 Phineas e Ferb 17.35 Boa Sorte, Charlie! 18.00 Austin Ally 18.25 O Meu Cão Tem Um Blog 18.55 Shake It Up 19.20 Hannah Montana 19.43 Professor Young 20.05 Jessie 20.30 Violetta 21.25 Shake It Up 21.50 Phineas e Ferb AXN DISCOVERY 14.00 A Teoria do Big Bang 15.12 Traição 16.02 Luther 17.09 Crossing Lines 18.03 Mentes Criminosas 19.43 Investigação Criminal 21.25 Arrow 22.21 Traição 23.15 Inesquecível 00.11 Mentes Criminosas 1.45 A Teoria do Big Bang 16.10 Negócio Fechado 16.35 Jóias sobre Rodas 17.30 Top Gear 18.20 O Segredo das Coisas 18.45 O Segredo das Coisas 19.15 Desmontando a Cidade 20.05 A Febre do Ouro 21.00 Pesca Radical 22.00 Monstros do Rio 22.55 O Grande Azul 23.45 Negócio Fechado 00.10 Negócio Fechado 00.35 Fanáticos por Armas HOLLYWOOD homem que não teme atravessar os bosques. INFANTIL Wendell Vinnie Nickelodeon, 21h10 1.ª temporada. Com trinta anos, Vinnie é imaturo, enquanto o doce Wendell é demasiado maduro para a sua idade. Isto não seria um problema se Wendell não tivesse de ir viver com Vinnie para Los Angeles (EUA). Com a ajuda da sua irmã Wilma e da recém-vizinha Taryn, Vinnie tentará comportar-se como um adulto responsável. De segunda a sexta-feira. SÉRIES HISTÓRIA The Good Wife FOX Life, 22h Estreia da 4.ª temporada. Alicia Florrick ( Julianna Margulies) é uma esposa e mãe que reclama o controlo da sua vida pessoal e profissional depois de o seu marido, Peter (Chris Noth) se envolver num escândalo sexual e de corrupção política. 13.59 Dois Homens e Meio 14.45 Doutora no Alabama 15.30 Filme: Hook 17.50 Hawthorne 18.37 Doutora no Alabama 19.24 Dois Homens e Meio 20.12 Regras do Jogo 21.00 Era Uma Vez 21.50 Filme: O Primeiro Cavaleiro 00.05 Era Uma Vez 00.52 Doutora no Alabama 1.39 Regras do Jogo 17.15 Invenções que Mudaram o Mundo: Década de 1900 18.05 Alienígenas: Misteriosos Locais 18.50 Pesca Selvagem: O Torneio de Okie 19.40 Alienígenas: Imperadores, Reis e Faraós 20.25 Caça Tesouros: O Bucha e o Estica 21.10 O Preço da História: A Farda Do Coronel Sanders 21.35 Restauradores: Máquina de Jogos 22.00 A Terra Assassina: O Raio Acerta Duas Vezes 22.50 Big History: Telemóvel 23.12 Big History: O Sol 23.35 O Preço da História: A Farda Do Coronel Sanders 23.57 Restauradores: Máquina de Jogos 00.20 A Terra Assassina: O Raio Acerta Duas Vezes 1.05 Big History: Telemóvel Os Seguidores FOX, 22h15 Estreia da 1.ª temporada. O que aconteceria se serial killers tivessem forma de comunicar uns com os outros? E se fossem capazes de trabalhar juntos e formar alianças? O antigo agente policial Ryan Hardy (Kevin Bacon) trabalha em conjunto com uma equipa do FBI de forma a encontrar Carroll, um insensível homicida que baseia os seus actos nos romances de Edgar Allan Poe, e em risco de criar uma espécie de culto e rede de seguidores prontos a responder a todas as suas ordens. FOX ODISSEIA 13.46 Os Simpson 14.44 C.S.I. 17.42 Hawai Força Especial 19.07 Casos Arquivados 20.37 Lei Ordem: Intenções Criminosas 22.15 Os Seguidores 23.57 Spartacus: Sangue e Arena 1.28 C.S.I. 17.21 Elefantes, o Declínio dos Gigantes 18.23 O Milionário Secreto III: Marcus Lemonis 19.08 Livros, Jóias de Papel: Bíblias Antigas 19.38 Livros, Jóias de Papel: Obras-primas 20.09 Fora de Controlo 21.00 Desastres Domésticos: O Salto da Lebre 21.22 Desastres Domésticos: Terror nas Férias 21.44 1000 Formas de Morrer 22.04 1000 Formas de Morrer 23.25 Desastres Domésticos: O Salto da Lebre 23.47 Desastres Domésticos: Terror nas Férias 00.09 1000 Formas de Morrer AXN BLACK 13.32 Jornalistas 14.31 Filme: Cypher 16.06 Filme: Autocarro 174 17.57 Sem Escrúpulos 18.53 The Killing: Crónica de um Assassinato 19.55 Torchwood 20.47 A Rainha das Sombras 21.35 Sangue Fresco 22.31 Filme: Autocarro 174 00.25 Sangue Fresco 1.21 A Rainha das Sombras AXN WHITE TVC1 10.45 007 - Skyfall 13.05 A Promoção 14.30 The Paperboy - Um Rapaz Do Sul 16.15 Criação 18.00 Freelancers 19.35 Pai Infernal 21.30 G.I. Joe: Retaliação 23.20 007 - Skyfall 1.45 A Promoção 18.48 No Meio do Nada 19.31 O Sexo e a Cidade 20.29 Filme: We Have Your Husband 22.00 The Good Wife 22.48 No Limite 23.48 Uma Família Muito Moderna 00.33 O Sexo e a Cidade FOX LIFE 13.31 Body of Proof 14.15 Filme: Adopting Terror 15.40 Body of Proof 17.03 Amigos Coloridos 17.23 Foi Assim Que Aconteceu 18.06 Glee No Limite FOX Life, 22h48 Estreia da 1.ª temporada. Esta é a versão americana da série britânica. Aqui, Frank Gallagher (William H. Macy) é um orgulhoso trabalhador da classe baixa, pai de seis inteligentes, espirituosos e independentes jovens que, sem ele, viveriam bem melhor. Na visão sempre bêbada de Frank, ser pai só atrapalha a sua vida de diversão nos bares, deixando a árdua tarefa gerir a casa e sustentar a família para a sua filha mais velha, Fiona (Emmy Rossum).
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    40 | DESPORTO| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 Carlos Sousa surpreende na estreia e é o primeiro líder do Dakar Piloto de Almada sofreu, mas venceu primeira etapa da prova sul-americana. Paulo Gonçalves foi o melhor português nas duas rodas, na quinta posição Todo-o-terreno Paulo Curado As expectativas de Carlos Sousa à partida para a edição de 2014 do Rali Dakar eram limitadas e passavam por terminar entre os dez primeiros da dura prova sul-americana, mas o português fez ontem questão de surpreender toda a concorrência, na etapa de estreia, assumindo-se como primeiro líder da classificação geral. E não foi o único elemento nacional em prova a brilhar nas quatro rodas: no segundo lugar, a 11s de distância do vencedor, terminou o argentino Orlando Terranova, que tem Paulo Fiuza como navegador. Nas motos, Paulo Gonçalves liderou a comitiva nacional, com um quinto lugar. A participar no seu 15.º Dakar, o piloto de Almada, ao serviço da modesta equipa chinesa da Great Wall, impôs-se nos 180km cronometrados que abriram a competição, entre Rosario e San Luis, na Argentina. No último lugar do pódio acabou por ficar um dos favoritos à vitória final, Nasser Al-Attiyah, a 47 segundos do português. Pior esteve o francês Stéphane Peterhansel, que defende o título — encerrou o dia na sexta posição, a 4m21s do vencedor. “Conseguimos um bom resultado, mas foi muito duro. Não tínhamos ar condicionado no carro e bloquearam todas as entradas de ventilação. Por altura do quilómetro 50, CLASSIFICAÇÃO 1.ª ETAPA (ROSARIO-SAN LUIS) Motos 1. Joan Barreda (Honda) 2. Marc Coma (KTM) 3. Cyril Despres (Yamaha) (...) 5. Paulo Gonçalves (Honda) 12. Ruben Faria (KTM) 21. Mário Patrão (Suzuki) 22. Ruben Faria (Honda) 49. Pedro Oliveira (SpeedBrain) 50. Victor Oliveira (Husqvarna) 52. P. Bianchi Prata (Husqvarna) Carros 1. Carlos Sousa (Haval) 2. Orlando Terranova (Mini) 3. Nasser Al-Attiyah (Mini) (...) 96. Francisco Pita (SMG) 2h25m31s a 37s 1m40s 2m25s 5m11s 8m24s 8m58s 23m06s 23m17s 24m35s 2h20m36s a 11s 47s 1h02m28s avariaram-se as saídas de ar do turbo, de forma que o ar do motor nos chegava directamente ao habitáculo. Faziam uns 70 graus ali dentro e tínhamos dificuldades inclusivamente para respirar!”, contou Carlos Sousa no final ao site oficial da prova: “Creio que pilotei tão depressa porque queria acabar o quanto antes com o martírio, mas também porque tinha confiança de que podíamos alcançar o objectivo.” Nas duas rodas, os portugueses em prova têm mais ambições, mas estiveram discretos neste primeiro dia. Numa etapa ganha pelo espanhol Joan Barreda, Paulo Gonçalves, actual campeão mundial de todoo-terreno, precisou de mais 2m25s para encerrar a especial, garantindo a quinta posição. O espanhol Marc Coma e o francês Cyril Despres, que têm dominado esta prova nos últimos anos e voltam a partir como grandes candidatos ao título de 2014, encerraram o pódio. “O Dakar ainda está a começar. Esta primeira etapa foi de pequena dimensão, mas já exigiu elevado nível de concentração. Acordámos muito cedo, ainda estou em fase de adaptação, mas consegui estar muito concentrado e num bom nível ao longo de todo o dia, não perdendo muito tempo para os meus principais adversários que partiram nos lugares da frente”, resumiu o piloto de Esposende, citado pela sua assessoria de imprensa. “A partir de amanhã [hoje] começa o verdadeiro Dakar, etapa longa, difícil, muito rápida e onde vamos ter as primeiras dunas. Vou continuar ao ataque para me manter na luta pelos lugares do pódio”, prometeu o piloto de 34 anos. Ruben Faria, segundo classificado na edição de 2013, não teve um arranque brilhante e não foi além do 12.º tempo, perdendo 5m11s para o vencedor. O terceiro português acabou por ser Mário Patrão, em 21.º, mas a grande desilusão do dia foi a prestação de Hélder Rodrigues, que já conquistou dois terceiros lugares nesta mítica prova. O cabeçade-cartaz da Honda foi 22.º, a 8m58s de Barreda, seu companheiro de equipa. Carlos Sousa enfrentou vários problemas mecânicos durante a etapa
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | DESPORTO | 41 Visitantes da II Liga batem Paços e Marítimo Pardo e Rafa mantêm o Sp. Braga vivo na Taça FRANCK FIFE/AFP Uma prova mais dura em perspectiva Crónica Miguel Barbosa Ontem começou o Dakar, aquele que se espera que seja o mais duro alguma vez disputado na América do Sul. As especiais vão ser mais longas, com mais quilómetros e mais horas a guiar, o que se traduz em fadiga acumulada, naquele que será um dos maiores desafios da competição. A primeira etapa começou logo com uma ligação bastante longa, de 629km, seguida de uma especial de 180km. Por norma, esta etapa foi um aquecimento para o resto da prova, quando existe sempre alguma ansiedade entre os concorrentes. Com um grau de dificuldade reduzido, este percurso é parecido com as bajas portuguesas, com um trajecto bastante estreito e de muita pilotagem. É preciso manter a concentração para não cometer erros no início, sobretudo no pó, que é sempre um adversário neste tipo de especiais. Uma das grandes novidades deste ano é o facto de as motas e quads fazerem quase 40% da prova por percursos diferentes dos automóveis e dos camiões. Na minha opinião, esta dinâmica retira um pouco do carisma da prova. No entanto, em termos de segurança é uma mais-valia, já que as ultrapassagens entre motas/quads e carros/camiões são sempre dos momentos mais difíceis e que, com muito pó, reduzindo a visibilidade, se tornam ainda mais complicados. Inúmeros incidentes já aconteceram e é sempre um ponto sensível. A organização terá de duplicar a “vigilância e segurança”, com as duas especiais, em vez de uma só. Piloto de todo-o-terreno Futebol Sp. Braga Não fossem as duas grandes penalidades defendidas pelo guarda-redes Ricardo e a Académica teria conhecido o mesmo desfecho que o Marítimo e o Paços de Ferreira nos oitavos-definal da Taça de Portugal. A equipa de Coimbra impôs-se no terreno do Beira-Mar (0-1), enquanto as duas outras equipas da I Liga perderam em casa com adversários do segundo escalão profissional. Em Aveiro, foi o golo de Magique, apontado de cabeça aos 25’ após passe de Djavan, que ditou o apuramento da Académica para os quartos-de-final. Isto porque Ricardo conseguiu segurar a vantagem, nos dois momentos de maior aflição para os visitantes: aos 63’, a remate de Luiz Gustavo, e aos 82’, a remate de André Nogueira. Duas grandes penalidades travadas por um especialista na matéria. Destino oposto ao da Académica teve o Marítimo, que se deixou surpreender na Madeira pelo Penafiel, num jogo com cinco golos (2-3). Os forasteiros até marcaram primeiro, mas na própria baliza, por Fábio Ervões, aos 12’. Aos 25’, escolheram a baliza correcta para voltarem a facturar (golo de Gabi), repetindo a dose aos 36’ (Aldair, com um remate de longe) e aos 56’ (Rafael Lopes). A perder por 1-3, Pedro Martins lançou Nuno Rocha e Fidélis e os insulares melhoraram. Aos 67’, Heldon reduziu, mas o Marítimo já não foi capaz de levar o jogo para o prolongamento e ficou fora da prova. O mesmo aconteceu ao Paços de Ferreira, que no Estádio Capital do Móvel se viu “traído” por Jaime Poulsen (1-2). O avançado emprestado pelos pacenses ao Desportivo das Aves apontou os dois golos do 12.º classificado da II Liga, aos 72’ e 83’, depois de Bebé ter colocado a equipa da casa em vantagem (43’). Prossegue, assim, a maré negra de resultados do Paços de Ferreira nesta temporada, em que soma quatro vitórias, seis empates e 16 derrotas. TAÇA DE PORTUGAL RESULTADOS Oitavos-de-final Leixões-Estoril Rio Ave-V. Setúbal FC Porto-Atlético Benfica-Gil Vicente P. Ferreira-Desp. Aves Marítimo-Penafiel Beira-Mar-Académica Sp. Braga-Arouca 2 Pardo 5’, Rafa 78’ 1-5 1-0 6-0 5-0 1-2 2-3 0-1 2-0 Arouca 0 Estádio Municipal de Braga Espectadores cerca de 5.000 Sp. Braga Eduardo, Baiano, Santos, Sasso, Elderson, Custódio, Mauro (Luiz Carlos, 46’), Rafa a70’ (Salvador Agra, 89’), Alan (Vukcevic, 89’), Pardo a65’ e Rusescu a26’. Treinador Jesualdo Ferreira Arouca Cássio, Ivan Balliu a66’, Nuno Coelho, Diego, Tinoco, Bruno Amaro a57’, David Simão a79’ (Soares, 83’), Pintassilgo a23’ (Lassad, 67’), André Claro (Ceballos, 56’ a73’), Roberto e Serginho a83’. Treinador Pedro Emanuel Árbitro Jorge Sousa (AF Porto) Futebol Minhotos venceram o Arouca por 2-0 e foram a última equipa a apurar-se para os quartos-de-final Com golos de Pardo e Rafa e uma exibição “cinzenta”, o Sporting de Braga venceu ontem o Arouca (2-0) e qualificou-se para os quartos-de final da Taça de Portugal. O triunfo dos minhotos ajusta-se, porque foram globalmente a melhor equipa, perante um Arouca frágil, que, ainda assim, chegou a assustar, quando o resultado estava em 1-0, tendo enviado uma bola à barra, num remate de Pintassilgo. O jogo começou com uma homenagem a Eusébio: num minuto repleto de palmas, passaram no ecrã gigante do estádio imagens do célebre Portugal-Coreia do Norte do Mundial de 1966, jogo memorável em que o antigo internacional português marcou quatro golos na vitória por 5-3. Na estreia do avançado romeno Raul Rusescu, emprestado pelos espanhóis do Sevilha — o reforço mostrou alguns bons pormenores, mas denotou natural falta de entrosamento com os colegas —, o Sp. Braga abriu o marcador logo aos cinco minutos, com Pardo a concluir de primeira um cruzamento da direita de Alan. O Sp. Braga assinou depois dois bons remates, primeiro por Rafa (13’), depois por Aderlan Santos Pardo marcou um golo e desperdiçou outro (24’), este numa “bomba” de muito longe, na conversão de um livre directo, que passou a rasar o poste. Mas seria o Arouca a desperdiçar uma grande oportunidade para empatar, quando Pintassilgo rematou ao lado, após assistência de Roberto (36’). Pardo podia ter marcado também o segundo dos bracarenses, mas, depois de ter aproveitado um disparate de Diego para se isolar diante de Cássio, falhou a tentativa de “chapéu” ao guarda-redes brasileiro, que defendeu sem dificuldade (41’). Após o intervalo, Luiz Carlos surgiu no lugar de Mauro no meiocampo bracarense, mas foi o Arouca a estar muito perto do empate com um grande remate de Pintassilgo à barra (47’). O Sp. Braga respondeu logo a seguir com um cabeceamento de Aderlan Santos, após canto de Alan, que Cássio defendeu de forma aparatosa (49’) e, pouco depois, o guardião, que chegou a ter um acordo com os minhotos no início da época, voltou a negar o golo a Felipe Pardo (54’). O fulgor do Arouca durou muito pouco tempo e o Sp. Braga assumiu o comando do jogo, sem, contudo, imprimir grande velocidade. Aos 73’, 19 depois de ter entrado, Ceballos foi expulso por causa de uma entrada violenta sobre Alan e a tarefa de, pelo menos, chegar ao empate tornou-se ainda mais difícil, até porque, cinco minutos depois, os minhotos fizeram o segundo golo e “mataram” o jogo. Rafa só teve de encostar após uma primeira defesa de Cássio a remate de Pardo. Lusa
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    42 | DESPORTO| PÚBLICO, SEG 6 JAN 2014 Primeiro os aplausos para Eusébio, depois as vaias para o Man. United “Red devils”, que não vencem a Taça de Inglaterra desde 1994, foram eliminados à primeira oportunidade por um Swansea que nunca tinha ganho em Old Trafford. Em Espanha, o Barça retomou a liderança ANDREW YATES/AFP Futebol internacional Manuel Assunção A época de transição do Manchester United teve um novo desenvolvimento negativo. Os “red devils”, recordistas de vitórias na Taça de Inglaterra, mas incapazes de a vencerem desde 1994, não vão quebrar o enguiço em 2014, depois de ontem terem sido eliminados da prova precocemente, caindo perante o Swansea City, em pleno Old Trafford. Antes do jogo, houve um minuto de aplausos em homenagem a Eusébio. No final, destacaram-se as vaias dos adeptos da casa dirigidas à sua própria equipa. O clube visitante ganhou, bem, por 1-2, com o golo decisivo a surgir aos 90’, numa altura em que o United jogava em inferioridade numérica. Habituado a ser uma fortaleza, Old Trafford, onde esteve uma bandeira portuguesa a meia haste, tem sido nesta temporada um estádio acessível para os visitantes. A época ainda vai a meio, mas o United já perdeu cinco vezes no seu recinto. Fora da Taça à primeira oportunidade (nesta terceira ronda) e a 11 pontos do líder Arsenal no campeonato, conservando, aparentemente, poucas possibilidades de revalidar o título, à equipa de David Moyes deverá restar a Liga dos Campeões (defronta o Olympiacos nos oitavosde-final) e a Taça da Liga (meias-finais com o Sunderland) para salvar a temporada, até porque o sucesso na Supertaça de Inglaterra, em Agosto, não chega para tornar o saldo favorável. O Swansea, com Alex Ferguson a assistir na bancada, adiantou-se aos 12’ por Wayne Routledge, talvez a grande figura do encontro, pois também ofereceu a assistência para o segundo golo da equipa galesa, que venceu pela primeira vez na sua história em Old Trafford. Chicharito não demorou a empatar (16’), mas para o United, que não pôde contar com Rooney e Van Persie, tudo se precipitou na parte final do jogo, quando o brasileiro Fabio foi expulso aos 80’, devido a uma entrada mais dura sobre Canas, apenas quatro minutos depois de ter entrado para o lugar do lesionado Rio Ferdinand. A formação orientada por Michael CLASSIFICAÇÕES ESPANHA Jornada 18 Málaga-Atlético de Madrid Valladolid-Betis Valência-Levante Almeria-Granada Sevilha-Getafe Barcelona-Elche Osasuna-Espanyol Real Sociedad-Athletic Bilbau Real Madrid-Celta de Vigo Rayo Vallecano-Villarreal O golo de Chicharito não foi suficiente para evitar a eliminação do Manchester United Juve bate Roma e aumenta liderança A Juventus derrotou ontem em casa a Roma, por 3-0, num jogo da 18.ª jornada que opôs os dois primeiros do campeonato italiano. Foi apenas a primeira derrota da Roma na competição, mas o resultado deixou-a já a oito pontos do líder, que assim deu um importante passo para garantir o terceiro título consecutivo. A equipa de Turim subiu a sua pontuação para 49, enquanto a Roma se mantém com 41. O médio chileno Arturo Vidal abriu o activo aos 17 minutos, o defesa Leonardo Bonucci aumentou logo após o intervalo e o avançado montenegrino fixou o resultado aos 77’, de penálti. De Rossi (75’) e o brasileiro Leandro Castán (76’), ambos da Roma, foram expulsos, o segundo por cortar com a mão um lance de perigo na sua área. Laudrup aproveitou a vantagem numérica e fez o 1-2 em cima do tempo regulamentar, com o avançado marfinense Wilfried Bony a marcar de cabeça após centro de Routledge. O Chelsea também avançou para a quarta ronda, após vencer fora o Derby County, do segundo escalão inglês, por 0-2, com golos de Obi Mikel e Oscar. O próximo adversário da equipa de José Mourinho é o Stoke. O Liverpool também assegurou, sem surpresa, o apuramento, com um triunfo caseiro pelos mesmos números sobre o Oldham Athletic (terceiro escalão). O espanhol Iago Aspas e um autogolo de James Tarkowski fizeram funcionar o marcador. Na ronda seguinte, os “reds” enfrentarão o Bournemouth ou o Burton Albion. Surpreendente foi a goleada (50) conseguida pelo Nottingham Forest, quinto classificado do Championship, segundo escalão do futebol inglês, frente ao West Ham da I Divisão. Sánchez ajuda Barça O Barcelona defendeu com sucesso a sua liderança no campeonato espanhol, ao golear em casa o Elche, por 4-0, num jogo em que bri- lhou Alexis Sánchez, autor do seu primeiro hat-trick com a camisola blaugrana. O campeão espanhol soma agora 49 pontos, os mesmos do Atlético de Madrid, que na véspera ganhou em Málaga (0-1). A equipa de Gerardo Martino ocupa o primeiro lugar, porque tem melhor diferença de golos. A igualdade de pontos poderá ser desfeita na próxima ronda, a 19.ª do campeonato, uma vez que os dois líderes se vão defrontar em Madrid, no Vicente Calderón. O avançado chileno marcou aos 7, 63 e 69 minutos, enquanto Pedro, que tinha apontado três na última jornada ao Getafe, fez o outro golo do Barcelona, aos 16’. Pedro somou o 15.º golo na temporada, Sánchez tem 11, todos na Liga. O Barcelona, através de Xavi, ainda desperdiçou uma grande penalidade. O Real Madrid, terceiro classificado, com 41 pontos, só joga hoje com o Celta Vigo. Iker Casillas e Gareth Bale estão de regresso à convocatória, enquanto Fábio Coentrão, Raphael Varane e Sami Khedira continuam de fora, por lesão. Antes do jogo no Santiago Bernabéu, realizar-se-á um minuto de silêncio em homenagem a Eusébio. Barcelona Atlético de Madrid Real Madrid Athletic Bilbau Real Sociedad Sevilha Villarreal Valência Getafe Espanyol Málaga Levante Granada Almería Osasuna Elche Celta de Vigo Valladolid Rayo Vallecano Betis J 18 18 17 18 18 18 17 18 18 18 18 18 18 18 18 18 17 18 17 18 V 16 16 13 10 9 8 8 7 7 6 5 5 6 5 5 4 4 3 4 2 0-1 0-0 2-0 3-0 3-0 4-0 1-0 2-0 18h 21h E D M-S P 1 1 53-12 49 1 1 47-11 49 2 2 49-21 41 3 5 26-23 33 5 4 35-23 32 5 5 35-29 29 4 5 27-18 28 2 9 25-29 23 2 9 20-30 23 4 8 22-24 22 5 8 19-23 20 5 8 17-27 20 2 10 15-25 20 4 9 20-32 19 3 10 16-28 18 5 9 17-27 17 4 9 21-27 16 7 8 21-29 16 1 12 16-40 13 5 11 15-36 11 ITÁLIA Jornada 18 Chievo-Cagliari Fiorentina-Livorno Juventus-Roma Nápoles-Sampdoria Parma-Torino Udinese-Verona Catânia-Bolonha Milan-Atalanta Génova-Sassuolo Lazio-Inter Juventus Roma Nápoles Fiorentina Inter Milão Verona Torino Cagliari Parma Lazio Génova Udinese AC Milan Sampdoria Atalanta Chievo Bolonha Sassuolo Livorno Catânia 0-0 1-0 3-0 11h30 14h 14h 14h 14h 14h 17h30 J 18 18 17 18 17 17 17 18 17 17 17 17 17 17 17 18 17 17 18 17 V 16 12 11 11 8 9 6 4 4 5 5 6 4 4 5 4 3 3 3 2 E D M-S P 1 1 42-11 49 5 1 35-10 41 3 3 36-20 36 3 4 34-20 36 7 2 37-21 31 2 6 31-26 29 7 4 30-24 25 9 5 18-24 21 8 5 23-25 20 5 7 22-26 20 5 7 17-20 20 2 9 17-22 20 7 6 25-26 19 6 7 19-25 18 3 9 18-25 18 4 10 13-23 16 6 8 17-31 15 5 9 17-36 14 4 11 16-30 13 4 11 10-32 10 Próxima jornada Livorno-Parma, Bolonha-Lazio, Torino-Fiorentina, Atalanta-Catânia, Cagliari-Juventus, Roma-Génova, Verona-Nápoles, Sassuolo-Milan, Sampdoria-Udinese, Inter-Chievo
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | DESPORTO | 43 Portugal não conseguiu surpreender a Sérvia e falhou apuramento para o Mundial Voleibol Manuel Assunção Selecção portuguesa necessitava de vencer pela diferença máxima na última jornada da qualificação, mas perdeu Portugal foi uma das boas notícias do Campeonato do Mundo de Voleibol de 2002, mas desde então não teve mais oportunidade para surpreender na competição. Ontem, ficou afastado do Mundial 2014, tal como aconteceu nas edições de 2006 e 2010. A selecção nacional precisava de vencer a favorita e anfitriã Sérvia por 3-0, para garantir a vitória no Grupo J de qualificação europeia e o apuramento para a fase final, mas não conseguiu melhor do que ganhar somente um set, perdendo pelos parciais de 22-25, 25-11, 25-19 e 25-21, em Nis. Num pavilhão preenchido com 6500 espectadores, os homens liderados por Hugo Silva, seleccionador que fez a estreia em jogos oficiais, tiveram uma boa entrada e ganharam o primeiro parcial, por 22-25, desfecho que ainda alimentou esperanças. No entanto, a Sérvia, medalha de bronze no último Campeonato da Europa, reagiu com autoridade e, também beneficiando das quebras de concentração portuguesas, fechou o segundo set com uma larga vantagem depois de um arranque em que desequilibrou claramente as contas a seu favor. A vitória neste parcial chegou para os sérvios garantirem a quinta presença consecutiva no Mundial. A Portugal restava-lhe agora tentar vencer por 3-1, um resultado que poderia eventualmente oferecer- lhe a qualificação, como o segundo melhor dos cinco grupos, mas nem a equipa lusa conseguiu chegar à vitória, nem esse cenário, percebeuse depois, bastaria para cumprir o apuramento pela via secundária. A formação dos Balcãs, mesmo rodando os seus jogadores, também dominou os sets seguintes. Hugo Gaspar terminou o encontro com 17 pontos, insuficientes para ajudar Portugal a vencer a Sérvia O oposto Hugo Gaspar, com 17 pontos (15 amealhados no ataque e dois no bloco), foi o melhor concretizador português, enquanto João José terminou com 11, Alexandre Ferreira com nove e Marcel Gil com oito. Selecção venceu, mas Bósnia não “colaborou” Aleksandar Atanasijevic foi o principal destaque da Sérvia, ao conseguir 13 pontos. Portugal terminou no terceiro lugar, com três pontos. A Sérvia somou nove e a Eslovénia seis. A Macedónia, o único adversário que a selecção portuguesa conseguiu bater, não pontuou. “Surpreendemos a Sérvia no primeiro set, fomos consistentes e jogámos bem. Depois disso, não conseguimos manter o ritmo e essa é a diferença entre nós e eles. Eles podem jogar assim o tempo todo, e nós ainda temos de melhorar muito”, referiu João José, capitão de Portugal. A França, com sete pontos, foi a selecção que se qualificou como melhor segunda classificada. Além da Sérvia, também se qualificaram como vencedores de grupos a Bélgica, a Bulgária, a Alemanha e a Finlândia. Andebol Portugal derrotou a Estónia, em São João da Madeira, por 35-27, na 4.ª jornada do Grupo 5 de qualificação para os play-offs do Mundial de Andebol de 2015. A selecção nacional continua no 3.º lugar, mas agora em igualdade de pontos com a Letónia, que perdeu (21-23) em casa com a Bósnia-Herzegovina, nação que está muito próxima de conquistar o grupo e ficar com a vaga para a próxima ronda. A selecção bósnia, com quatro vitórias em quatro jogos, comanda com oito pontos, mais quatro do que Letónia e Portugal. A vitória da Bósnia na Letónia foi a pior notícia para a selecção nacional. Ao líder basta-lhe empatar na próxima jornada, na recepção à Estónia, para garantir de vez o primeiro lugar. PUBLICIDADE Passatempo Com o apoio de: loucura é não participar! , , “ ”. vá ao parc astérix em paris com a abreu e a colecção astérix à volta do mundo oferta DE 3 VIAGENS, CADA UMA PARA DOIS ADULTOS + UMA CRIANÇA ADQUIRA, NO MÍNIMO, 5 DOS 16 ÁLBUNS DA COLECÇÃO E PARTICIPE NO PASSATEMPO. O QUE PRECISA DE FAZER? PENSE NUM DESTINO EM QUE GOSTARIA DE VER OS HERÓIS GAULESES NUMA AVENTURA, RECRIE O AMBIENTE DO DESTINO ESCOLHIDO, DECORE-O COM OS ÁLBUNS DESTA COLECÇÃO, TIRE UMA FOTOGRAFIA DO RESULTADO FINAL. ENVIE-NOS A FOTOGRAFIA, JUNTAMENTE COM UMA SINOPSE CRIATIVA PARA A NOVA AVENTURA - NO MÁXIMO 200 PALAVRAS - ATÉ 19 DE FEVEREIRO DE 2014, PARA A MORADA: REMESSA LIVRE, N.º 3047, 1301-901 LISBOA. A ABREU, ASA E O PÚBLICO ESCOLHERÃO AS 3 FOTOGRAFIAS E SINOPSES MAIS ORIGINAIS. OS VENCEDORES SERÃO DIVULGADOS NA EDIÇÃO DE 28 DE FEVEREIRO DE 2014. CONSULTE O REGULAMENTO EM WWW.PUBLICO.PT/COLECCOES/ASTERIX COLECÇÃO DE 16 TÍTULOS. PREÇO UNITÁRIO 6,95€. PREÇO TOTAL DA COLECÇÃO 111,20€. PERIODICIDADE SEMANAL ÀS SEXTAS-FEIRAS. DE 25 DE OUTUBRO DE 2013 A 7 DE FEVEREIRO DE 2014. LIMITADO AO STOCK EXISTENTE.
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    44 | PÚBLICO,SEG 6 JAN 2014 ESPAÇOPÚBLICO Os artigos publicados nesta secção respeitam a norma ortográfica escolhida pelos autores EDITORIAL E Portugal perdeu mais um símbolo Com Eusébio, como em 1999 com Amália, Portugal perdeu mais um símbolo da sua identidade Q uando Amália morreu, a 6 de Outubro de 1999, quase à beira de fechar o século e um milénio, Portugal via partir um símbolo. “Com ela”, escreveu-se no PÚBLICO em editorial, “morreu uma parte do país e do povo que somos”. Mas também por causa dela, outra parte desse país e desse povo continuou viva, resistindo. Nesse dia, Eusébio disse: “Ela é. foi, sem dúvida, a máxima figura da música portuguesa. Quando a conheci pela primeira vez fiquei satisfeito: olhava-a como uma pessoa simples e modesta, como eu também sou, e a minha vibração reforçou-se. Já chorei, estou a chorar e ainda vou chorar. Não acredito.” Agora que morre Eusébio, muitos disseram e dizem ainda coisas parecidas. A incredulidade, a sensação de perda, o mito de traços humanos, tudo nele se conjugou para eternizar uma imagem em que todos os portugueses, não só os adeptos do futebol ou do Benfica (como também com Amália não só os amantes do fado), de algum modo se revêem. Como escreve nesta edição António-Pedro Vasconcelos, Eusébio “foi, sem querer, um símbolo para os portugueses do seu tempo”, porque, num tempo em que “ser português era sinal de opróbrio e de vergonha, Eusébio resgatou o nosso orgulho e devolveu-nos a dignidade”. E diz mais: que ele tinha “qualidades inatas para o futebol”, que “gostava de marcar golos e de ganhar, como se isso fosse uma obrigação que os deuses lhe exigiam em troca de o ter dotado de talentos invulgares”. Talentos esses que Bagão Félix (também num artigo nesta edição) refere como “uma certa expressão do desporto que deixou de ser a norma. Onde o que contava era tão-só o futebol jogado. De paixão pura, sem adiposidades. Sem mediatismos bacocos feitos de lugares-comuns”. Mas Eusébio morreu e aqui estamos. Outra vez, como sucedeu com Amália, a ver desfilar multidões que lhe querem prestar homenagem, rever-se nele num momento em que a dor da perda se mistura, sem tino, às lembranças das vitórias, da simbologia de raiz humana, à enorme arte que, como em Amália, dificilmente se explica, como nota Medeiros Ferreira (pág. 12): “A grande dúvida (...) é a de saber se há algum método, algum treino, algum exercício repetido, algum reflexo criado, que transplante um atleta do seu meio e faça dele um génio.” Não há. Como não houve, ou haverá, muitos Eusébios ou Amálias. Não por acaso, um poeta português, Manuel Alegre, dedicou a Amália e Eusébio poemas em que usou as palavras “teorema” e “teoria”, talvez em busca do inexplicável. Em Amália, notou “a música a palavra o teorema/ a teoria que busca o som e a forma”; em Eusébio, “Não era só o instinto era ciência/ magia e teoria já só prática. (...) Buscava o golo mais que golo: só palavra. Abstracção. Ponto no espaço. Teorema./ Despido do supérfluo rematava/ e então não era golo: era poema”. Teoria feita sonho, o sonho feito vitória. Há nisto, quando o derrotismo não o reprime e cala, muito do espírito português. Parte dele morre com Eusébio; outra, também por causa de Eusébio, há-de orgulhosamente resistir. CARTAS À DIRECTORA Estaleiros de Viana: de quem foi a culpa? As cartas destinadas a esta secção devem indicar o nome e a morada do autor, bem como um número telefónico de contacto. O PÚBLICO reserva-se o direito de seleccionar e eventualmente reduzir os textos não solicitados e não prestará informação postal sobre eles. Email: cartasdirector@publico.pt Contactos do provedor do Leitor Email: provedor@publico.pt Telefone: 210 111 000 A situação dos ENVC é complicada, como se sabe. Compreendo a angústia de quem lá trabalha, mas também compreendo que não se perpetue uma situação de insolvência e incapacidade comercial. Por isso pergunto: alguém foi responsabilizado por se ter construído um navio que o governo dos Açores recusou, por não cumprir os requisitos convencionados? Quem teve o desplante de querer entregar um navio que não atingia a velocidade contratada? Ficar com um navio em seco e com o consequente buraco nas contas é inadmissível. Não me lembro de ver o nome de quem eventualmente tenha sido demitido — aliás, nunca poderia ter sido uma só pessoa. Esta pura demonstração de incompetência e irresponsabilidade só reforça a posição do Governo, que tem de corrigir uma situação herdada (mais uma), sabendo que sobre si cairão todas as críticas dos líricos do costume. João M. Pereira dos Santos, Lisboa Eusébio, sempre Faleceu um homem simples que fez de uma bola de futebol mensagem de alegria e partilha de emoções. A vergonhosa campanha em afirmar Cristiano Ronaldo como o melhor marcador da selecção portuguesa de futebol, quando o Pantera Negra realizou menos jogos, prova até onde vai a fome de vaidade! Eusébio com uma bola nos pés fez mais por Portugal que muitos governantes com uma caneta nas mãos. O futebol é um jogo colectivo, em que a entreajuda é fundamental. O espírito solidário de um jogador “dobrar” o companheiro que foi ultrapassado é o que falta aos portugueses. Eusébio de Portugal, presente! Ademar Costa, Póvoa de Varzim Até sempre, Pantera! A bola é redonda, donde redunda no final de mais uma bela jogada mais um golo. O consolo é vê-la ora repetida na televisão com todo o merecimento. Momento perene, solene e geral reconhecimento, porque levaste longe o nome do nosso país. Quis a desdita fosse hoje a data da tua partida. Por tudo, esta anódina homenagem, e lembrança de que só agem como tu os verdadeiros seres humanos. Unamos, então, nossas vozes numa mensagem vera e sincera: até sempre, Pantera! José P. Costa, Lisboa O PÚBLICO ERROU Na última página da edição de ontem foram repetidos, por lapso, os resultados do sorteio do Totoloto da passada quarta-feira. Hoje, publicam-se (também na última página) os resultados do sorteio de sábado, com as nossas desculpas aos leitores, pelo erro. Na edição de sábado, por lapso não imputável ao autor, saiu duplicado o primeiro parágrafo no texto de opinião “O Trabalho não é uma mercadoria” (Pág. 45), de João Fraga de Oliveira. As nossas desculpas ao autor e aos leitores.
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | 45 Sobre os ideais marítimos de liberdade e governo limitado A João Carlos Espada Cartas do Atlântico no novo, vida nova, como se costuma dizer. Ao cabo de três anos como Cartas de Varsóvia, estas crónicas passam agora a Cartas do Atlântico. Geograficamente, assinalam o meu regresso a Lisboa, à beiramar plantada. Simbolicamente, mantém o mesmo compromisso com os ideais marítimos de liberdade e governo limitado. Foram estes mesmos ideais que presidiram à libertação da Polónia, em 1989, depois de décadas de opressão pelo comunismo continental. Durante três anos em Varsóvia, pude testemunhar o compromisso polaco para com a aliança euro-atlântica, que ainda hoje é a âncora da sua liberdade reconquistada. Não terá sido por acaso, como também se costuma dizer, que Winston Churchill e Franklin Roosevelt escolheram o Atlântico como sede de consagração da sua — então célebre, hoje quase esquecida — Carta do Atlântico. Os princípios enunciados nessa Carta, em Agosto de 1941, estiveram na origem da ONU e da NATO, em parte também da Comunidade Europeia. Mas talvez tenha sido Karl Popper quem mais enfaticamente associou a ideia de sociedade aberta às civilizações marítimas, em particular a de Atenas do século V a.C.: “Talvez a mais poderosa causa do colapso da sociedade fechada tenha sido o desenvolvimento das comunicações marítimas e do comércio. O contacto estreito com outras tribos desafia o sentimento de necessidade com que as instituições tribais são percepcionadas; e a troca, a iniciativa comercial e a independência podem afirmar-se, mesmo numa sociedade em que o tribalismo ainda prevalece. (...) Tornou-se claro [para os inimigos da democracia em Atenas] que o comércio de Atenas, o seu comercialismo BARTOON LUÍS AFONSO monetário, a sua política naval, e as suas tendências democráticas eram parte de um único movimento, e que era impossível derrotar a democracia sem ir às raízes do mal [do ponto de vista dos inimigos da democracia] e destruir quer a política naval quer o império.” (A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, Edições 70, vol. I, p. 222). Karl Popper considerava que a civilização ocidental emergiu da transição das velhas sociedades fechadas tribais para as novas sociedades abertas. Para Popper, a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta exprimiu essencialmente o conflito entre uma sociedade aberta emergente, a democrática Atenas, e uma sociedade fechada, a Esparta colectivista. Ele considerou que a II Guerra Mundial foi uma reedição desse conflito, tendo o lugar de Atenas sido ocupado pelas democracias ocidentais, e o lugar de Esparta pelo nacional-socialismo alemão e o comunismo soviético — cuja aliança de facto desencadeou o início da guerra e a dupla invasão da Polónia, em Setembro de 1939. Este tema foi retomado por Peter Padsfield numa monumental trilogia sobre as potências marítimas. Em Maritime Supremacy and the Opening of the Western Mind (1999), cujo título faz uma clara referência à ideia de Popper sobre a abertura intelectual, Padfield descreve a emergência da República holandesa como potência marítima e comercial no século XVII, bem como a sua gradual substituição pela Inglaterra no século XVIII. O livro seguinte, intitulado Maritime Power and the Struggle for Freedom (2003), descreve o conflito entre a Inglaterra e as potências terrestres espanhola e francesa, com a ascendência britânica à supremacia naval no século XIX. O terceiro volume, Maritime Dominion (2008), prolonga a narrativa até ao século XX, com os Estados Unidos a sucederem a Inglaterra como potência marítima dominante, e a Alemanha e a Rússia a substituírem a Espanha e a França como potências continentais. Daniel Boorstin, o célebre historiador que dirigiu a Biblioteca do Congresso em Washington, prestou devida homenagem ao papel pioneiro dos portugueses na abertura da Europa a esse novo mundo marítimo: “A nova era marítima [iniciada pelos portugueses] levou o comércio e a civilização da costa de um corpo finito, o Mediterrâneo fechado, o “mar-no-meioda-terra, para a costa do Atlântico aberto e dos oceanos sem fronteiras no mundo.” (Os Descobridores, Gradiva, p. 153). Karl Popper, Peter Padfield e Daniel Boorstin associaram as culturas marítimas a valores de liberdade, comércio livre, livre empreendimento, Estado de direito e governo representativo ou democrático, que responde a um Parlamento eleito livremente. Esta combinação de “liberdade, tolerância e riqueza” tende a libertar o génio humano, sustentam aqueles autores. Em contraste, as potências continentais tendem a valorizar a rigidez, o fechamento ao exterior e ao comércio, a organização estatal centralizada e o abafamento da sociedade civil. Estas Cartas do Atlântico retomarão aqueles velhos ideais marítimos, em detrimento dos sonhos continentais de organização centralizada. Não terá sido por acaso que Winston Churchill e Franklin Roosevelt escolheram o Atlântico como sede de consagração da sua Carta do Atlântico Professor universitário, IEP-UCP Escreve à segunda-feira Uma tragédia P Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem rimeiro, não se acredita. Eusébio morto? Como é que pode ser? Depois acredita-se e amaldiçoase o azar de Eusébio e da família dele por ele ter morrido tão cedo. Percebe-se que Eusébio já era um imortal há muito tempo e que, nesse sentido heróico, continua tão vivo como antes. Foi uma imortalidade que ele criou, jogada a jogada, de jogo em jogo, ano após ano, de golo em golo. Mas Eusébio faz falta. Ele era um sábio e um benfeitor, um monumento vivo que falava com as pessoas e vivia como elas, no meio da gente. Era a última grande figura de Lisboa. Houve portugueses que nem sempre trataram Eusébio com o respeito e a gratidão que ele não só merecia como tinha conquistado. Mas Eusébio era um senhor na vida, como era a jogar. As grandes qualidades dele como futebolista — a inteligência, a imaginação, a solidariedade, a elegância e a audácia — nunca mais se juntaram num só jogador. Mas continuaram sempre na pessoa de Eusébio, ao lado de fraquezas que todos nós temos, provando que ele era humano. É uma grande tristeza Eusébio não ter vivido mais anos de felicidade e de exemplo. São muitas as pessoas, de todas as idades e de todas as profissões, cujas vidas vão piorar por Eusébio já cá não estar. A morte de Eusébio é uma tragédia. As tragédias choram-se. Não se celebram. A imortalidade já era dele. Não serve de consolação nenhuma. Era imortal e bem vivo que te queríamos, querido Eusébio. Obrigados por tudo o que nos deste, a começar por ti.
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    46 | PÚBLICO,SEG 6 JAN 2014 Fogo preso NUNO FERREIRA SANTOS António Correia de Campos Terra e Lua Tito deixa-me sempre acabrunhado. Vem de fora, a mente fresca, não vê mais do que nós, mas a interpretação é diferente N uma semana, confessa Tito Zagalo, tornei-me céptico da recuperação, não da economia, mas do país. Por causa de dois discursos, o de Natal do primeiro-ministro e o de Ano Novo do Presidente. Soaram tão a falso e tão pouco convictos que me levaram a recuar do meu inicial optimismo. Para o primeiro-ministro (PM) tudo corre pelo melhor, até o emprego, onde da noite para o dia se criaram 120 mil novos postos de trabalho, esquecendo os 100 mil que se perderam. O crescimento é animador para o PM, embora no ano findo o país tenha regredido em perto de 1,5%. O défice terá sido controlado com mais uma cobrança excepcional de impostos em dívida de 1,2 mil milhões de euros, irrepetível nos tempos mais próximos e incentivadora de menos receita fiscal futura. (Que bom teria sido ter prolongado, em Novembro, o período de perdão fiscal por mais três meses em 2014! Teríamos resolvido o problema dos 0,25 de défice acrescido no ano que se inicia.) Adiante! A dívida pública, soube-se agora, cresce 1,1% a cada redução do défice de um ponto. Princípio de vasos comunicantes com perdas por viscosidade. O PM ignorou os professores a descredibilizarem o ministro, este a descredibilizar os politécnicos que tutela, universidades em perda de oxigénio, investigadores, engenheiros, economistas e gestores a emigrarem para as Américas, Áfricas e Europas. Não julguei que o país estivesse tão mal governado, por gente tão incompetente, ignorante e involuntariamente suicida, desabafa Tito Zagalo em noite chuvosa de fim de ano! No meio de toda esta desgraça, temos a Madeira a queimar centenas de milhares de euros em oito minutos de fogo! Em nome do marketing turístico. Mas o pior foi o discurso do Presidente, acrescenta Tito, quando esperava energia crítica recebi complacência com a mediocridade governativa; quando esperava credibilidade para unir forças, recebi propostas de consenso votadas à rejeição liminar; quando esperava que o Presidente se defendesse de complicações supervenientes, vejo que ele se transmuta em apostador de risco. Tens de entender, meu caro Tito, que o Presidente está prisioneiro de uma má solução da crise Portas, no Verão passado. Ao apostar em Passos perdeu o apoio do PS. As suas súplicas ao consenso embatem agora num muro. Apesar da fraca memória, os portugueses não esqueceram que o Presidente não apelou ao consenso na crise que deu lugar à vinda da troika. Pelo contrário, acirrou ânimos, referindo então termos chegado ao limite dos sacrifícios suportáveis. Os sacrifícios ainda haviam de ser bem piores daí para a frente. Como quer agora que o PS acorra ao chamamento para um consenso onde seria deglutido, quando as perspectivas eleitorais são as inversas de então? Não podemos ignorar, Tito, que os mercados abriram em alta no Ano Novo e se reduziu a diferença entre os juros da dívida dos países mais endividados e os alemães. E até admitiremos, como plausível, uma Mas o pior foi o discurso do Presidente, acrescenta Tito, quando esperava energia crítica recebi complacência com a mediocridade g governativa emissão de dívida a juros próximo dos 5% ou menos, o que seria um bom sinal para o fecho pacífico do programa de intervenção. Tal significaria termos batido no fundo e estarmos a dar a volta, devidamente almofadados com apoio dos nossos aforradores e dos bancos, nesse encaixe. Nem tudo são más notícias. Meu caro, há momentos na vida política em que será melhor para os países que os ministros não apareçam nos ministérios, responde Tito. Os automatismos não têm só consequências funestas. O que não consigo vislumbrar são sinais de reforma, apenas mais cortes punitivos e mais impostos paralisantes. Se os mecanismos que geram despesa sem controlo, encostados ao Estado, sentirem que as melhoras são estáveis, aí disparam eles, de novo, forçando a despesa pública. A reforma dos municípios ficou pelas freguesias; queremos regiões mas é com distritos que organizamos a vida política; poderíamos reduzir o número de parlamentares, mas os partidos minoritários fogem disso como o diabo da cruz; deveríamos ter administração mais bem treinada, reduzida e responsável, mas desmantelámos o INA, aniquilámos quantitativa e qualitativamente as chefias, como se tivessem lepra, e destruímos institutos com vida responsável e autonomia financeira; tudo em nome de uma sanha ignorante e radical de destruição do Estado. Sem reformas entraremos em novo ciclo de desperdício assim que folgarmos. E pela frente temos meses de incerteza agravada por eleições e suas campanhas. Atenção, alerta Tito, o PS tem de mostrar que pode ser um bom governo, não basta ficar sentado, à espera da sua hora. A aparência de cálculo leva a que o povo ache que é manha e perca o entusiasmo! O teu partido vai ter de galgar a tolerância simpática e passar ao entusiasmo contagiante. Se o virem apenas como o menor dos males, muitos ficarão em casa ou votarão irracionalmente, por rancor. Os eleitores têm de ver o caminho à sua frente, não basta que sintam o desagrado. Não se ganham eleições sem uma forte dose de ilusão, sejam amanhãs que cantam, seja confiança em governos alternativos. No país onde vivo, os trajectos eleitorais estão marcados por candidatos de que ninguém mais voltou a falar. Ou por terem falta de cabelo, ou por falta de altura, ou por terem ido à guerra ou por não terem ido à guerra, por muitas pequenas razões a corrente eléctrica não passou e o voto fugiu para o lado. Sabemos que um bom número de eleitores vota com a mão por cima do coração, com a carteira, entre o forro e a entretela. Mas o conforto da carteira depende da confiança. Tito deixa-me sempre acabrunhado. Vem de fora, a mente fresca, não vê mais do que nós, mas a interpretação é diferente. Não poupa comentários agrestes, revelando intolerância perante erros conhecidos. Confesso-me sempre chocado com a sua desarmante dialéctica. Partiu de novo para ensinar na sua tranquila universidade, boas instalações, parques frondosos, ambiente de tolerância e de permanente estímulo. Que inveja! Deputado do PS ao Parlamento Europeu. Escreve à segunda-feira
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    PÚBLICO, SEG 6JAN 2014 | 47 O regresso de D. Sebastião “S Debate Crise e Governo Luís Filipe Rocha ebastião morreu, já não volta a nascer.” Assim cantava a Filarmónica Fraude, em 1969, no disco que mais corajosamente falou à minha geração da guerra em África: Epopeia. Há poucas semanas, o ministro Paulo Portas, com o rigor intelectual e a envergadura cultural que lhe conhecemos, comparou a chegada da troika ao nosso país, a 1580, e a sua futura saída, a 1640. Essa patriótica comparação, que por certo o povo português de imediato apreendeu e agradeceu aliviado, deixou-me a mim estupefacto. O senhor ministro que me perdoe, mas o que eu tenho entendido da história pátria dessa época nada tem a ver com a sua inflamada comparação, e até a cobre de algum patetismo e estonteado populismo. Se olharmos para o período de 1580-1640 e para o nosso triste presente, a comparação que se impõe, com uma evidência terrífica, é bem outra e exactamente o contrário do que afirma o ilustre ministro: a saída da troika é que vai corresponder a 1580, e quanto a 1640 resta-nos esperar que o que nos espera não dure 60 anos! Vejamos então: em 1578, um rei fanático, acompanhado por um pequeno círculo de aduladores interesseiros, oportunistas e aventureiros, impôs a sua indecente vontade e afundou o nosso povo e o nosso país num longo período de declínio, desânimo e desesperança. Insensível a todos os conselhos e avisos de desgraça, fundamentalista e obsessivo, NUNO FERREIRA SANTOS impreparado e incompetente, o obstinado monarca precipitou o país e o seu povo numa previsível hecatombe nacional, que começou em 1580 e durou décadas. Da mesma sorte, temos hoje um governo também fundamentalista e obsessivo, impreparado e incompetente, também acompanhado por um círculo nacional e estrangeiro de aduladores interesseiros, oportunistas e aventureiros, e igualmente insensível perante todos os conselhos e avisos para a previsível hecatombe nacional. Um governo que impõe aos seus cidadãos uma semelhante vontade indecente, que nos vai mergulhar a todos, de novo, num longo período de declínio, desânimo e desesperança. Um governo que, como o rei doente e fanático de ontem, desaparecerá um dia da face da terra deixando atrás de si um rasto duradouro de pobreza, desemprego e infelicidade. A única diferença reside nas razões publicamente invocadas para o desastre colectivo: de acordo com os poderosos e os áulicos de ontem, o povo português, pecador e libertino, foi castigado por Deus com uma vergonhosa e terrível derrota e com um longo calvário de sofrimento e sacrifício, não tendo mais do que se culpar a si próprio, de se arrepender e de se corrigir. De acordo com os áulicos e os poderosos de hoje, o povo português, gastador e calaceiro, manhoso e piegas, está a ser punido pelos Mercados com uma implacável e letal austeridade e não tem mais do que se culpar a si próprio, de se arrepender e corrigir. Um povo desastrado e infeliz, que Camões pintou, num retrato perfeito e até hoje imperturbado, com os tons sombrios de uma austera, apagada e vil tristeza. O mesmo Camões que, em carta a D. Francisco de Almeida, referindose ao desastre de Alcácer-Quibir, à ruína financeira da Coroa portuguesa e à independência nacional, se despediu com estas palavras: “Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela.” Valha-nos hoje, senhor ministro, para nos animar, a sua impagável brejeirice restauradora, bem mais divertida do que a sua irrevogável consciência política. Valha-nos hoje, senhor ministro, para nos animar, a sua impagável brejeirice restauradora Cineasta Orçamentos autárquicos não poupam Cultura NUNO FERREIRA SANTOS P Debate Cultura e autarquias José Jorge Letria raticamente sem excepção, os orçamentos dos executivos autárquicos para 2014 aprovados antes do final do ano sofreram cortes significativos e, de uma forma ainda mais acentuada, na área da Cultura. É sabido que, quando se enfrenta uma crise com esta magnitude, é preciso reduzir despesas de forma generalizada, mas também é indispensável que se saiba hierarquizar a importância daquilo que se corta. Se um executivo autárquico está convicto de que a actividade cultural pode contribuir para criar mais emprego, para ajudar o sector turístico e o da restauração e pode ainda contribuir para atrair visitantes nacionais e estrangeiros, deverá ser cauteloso nos cortes, já que eles podem afectar uma área de potencial estratégico. Tenho presentes vários concelhos portugueses que nos dois últimos anos souberam utilizar a oferta cultural com criatividade e inteligência, organizando festivais e vários eventos originais que se traduziram no encaixe de receitas nada desprezíveis. Trata-se de uma questão de opção e de mentalidade que nos remete para uma situação passada com Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. Quando deputados da oposição e alguma imprensa o criticaram por, investindo na Cultura e nas Artes, poder estar a afectar o esforço de guerra, ele responder algo parecido com isto: “Se não lutarmos por isto, lutamos porquê?” Queria o grande estadista enfatizar a ideia segundo a qual, ante a barbárie em marcha, é preciso defender os valores da cultura e da civilização, que são também os da liberdade. Para se defender a capacidade material que o sector da Cultura tem de avançar com iniciativas, é preciso ter coragem, sentido estratégico e uma consistente visão cultural. Dir-se-á que quando se fazem significativos cortes na Acção Social e na Educação não é possível poupar a Cultura à lâmina aguçada do emagrecimento orçamental. Mas a verdade é que as bibliotecas da rede de leitura pública não podem abdicar de fazer as suas aquisições e que há muitas outras rubricas do mesmo sector que não podem ficar em estado de carência. Basta pensar que, segundo estatísticas muito recentes, os cinemas portugueses perderam nove milhões de euros de receita de bilheteira e cerca de 1,4 milhões de espectadores comparativamente com os valores apurados em 2012. Isto significa que há menos dinheiro para se ir ao cinema, mas também que há menos salas para se ver cinema em vários pontos do país e que este constitui um público potencial para corresponder a outras formas de oferta local, que também podem passar pelo cinema. Toda esta situação deverá ser vista de uma forma articulada e, de preferência, estudada pelos organismos estatais que dispõem de verbas para efectuar estas análises e estudos comparativos. De forma recorrente tenho referido o exemplo da Irlanda, agora regressada aos mercados, que acreditou no potencial regenerador da Cultura, contribuindo desse modo para que houvesse menos gente a emigrar e muito mais gente, nacional e estrangeira, a encher as salas de cinema, os museus e as galerias. Em Portugal não faltam imaginação e criatividade para se conceberem programas inovadores e apelativos. O que há, frequentemente, é falta de vontade e de coragem política. E isso está patente na asserção inicial: o sector cultural sofreu cortes nos orçamentos municipais para 2014 que podem comprometer muito boas ideias, iniciativas e projectos. É pena que assim aconteça. Mas, também por isso, é urgente rever as políticas de captação de patrocínios e toda a lógica do mecenato, sobretudo se lhes for demonstrado que Portugal, apesar da dureza da crise, está na moda, como milhares de turistas de estada curta a demandarem o nosso país. Quem não perceber esta nova realidade, terá muita dificuldade em perceber as outras, também por falta de perspectiva cultural. E, já agora, tenha-se presente que a oferta cultural deve sempre ser diversificada, criativa e até surpreendente, não caindo no seguidismo de assentar apenas em quem está na moda, só porque aparece na televisão e se pode gabar de boa imprensa. Há outros mundos e propostas para além desses. E só ganhará, a médio e longo prazo, quem for criativo e corajoso. O tempo nos dará razão. Só ganhará, a médio e longo prazo, quem for criativo e corajoso Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores