SHEENA
O CAMINHO DO TIGRE

  Daniel Paixão Fontes
     1996 – 1997 - 2003


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PARTE I - O TREINAMENTO
       Algo me fazia temer a escuridão. Um medo ingênuo de que eu ficaria cego,
ou que monstros que só a luz pode afastar viriam me capturar. Mas, no final das
contas, eu acabei gostando mais da escuridão do que da própria luz. Não
subjetivamente, não! Eu ainda amo a Deus e o venero! Mas gostei da escuridão
como ausência de pura luz física, dita e simples, assim. É na escuridão onde eu me
sinto mais aconchegado. Não posso ser visto em minha solidão doentia. Isso é bom.

        Mas como todos as noites são curtas, os dias são longos. E é um belo dia do
ano de 1098 da era cristã. O sol nasce belo e forte ao leste das montanhas Shizu.
Yoan, meu mestre, já esta à mesa comendo os preparos que Sho Win preparara.
Como de costume, nenhuma palavra é dita durante toda a refeição. Isso é difícil de
aceitar para um jovem recém saído de sua família de 7 irmãos. O silêncio só seria
quebrado em exatas 2 horas, início do treinamento diurno, e voltaria ao anoitecer,
quando todos deveriam meditar. Fazem exatos 4 dias que cheguei aos montes Shizu,
e meu pai, Wong, havia me arrumado esta enrascada.

        Yoan era o maior mestre que a China tinha. Pessoas morriam para por seus
filhos em sua custódia, sob seu treinamento. Só 4 eram selecionados, a cada 10
anos, para tal honra. Eu era um dos 4 escolhidos, e até daqui a 3 anos, eu e os
outros 3 ficaríamos incomunicáveis entre nós. Eu ainda era o mais bem amparado.
Eu estava dormindo na casa de Yoan, comia a comida de Sho Win e treinava
supervisionado pelo próprio mestre mais de 3 vezes por semana. Os outros deviam
me odiar.

        Mas nem sempre o que fica na casa do mestre é o mais forte dos 4. Meu
próprio pai foi discípulo de Yoan, e nunca foi um grande lutador. Ele, assim como eu,
ficou na casa com o mestre. Os outros 3, ao contrário , sempre eram mais fortes.
Viviam nos picos das montanhas, nas galerias geladas abaixo da montanha ou nas
florestas ao sul de nossa morada.

       E para piorar, esta turma será a última de Yoan em toda sua vida. Ele estava
completando seus 95 anos de vida, e um treinamento de 10 anos é muito exaustivo.
Eu tenho apenas 13 anos, e nem sequer me imagino com tanta idade. Mas dizem
ainda que ele agüenta umas 2 ou 3 turmas novas. Na verdade ele esta muito bem
para um homem com tal idade. Ainda é capaz de correr mais rápido do que eu, pular
mais alto e bater muito, muito mais forte. Na verdade os homens daqui sempre
relutaram muito em morrer cedo. Meu avô morreu com 128 anos. Assim mesmo, foi
morto a pedradas na cabeça por um doente mental, meu tio.

       Bem, mas meu pai intercedeu junto a Yoan para que ele me aceitasse. Feito
isso, deixei para trás minha numeroso família, poucos amigos e meus sonhos de ser
um grande fazendeiro. Seria agora um grande lutador. Eu não queria lutar, mas
durante estes quatro dias algo dentro de mim floresceu. Não era ódio, nem mágoa,
mas ainda era algo estranho, que queimava por dentro. Eu fui morrendo pouco a
pouco, para dar lugar ao homem que eu seria em pouco tempo. Um grande
guerreiro, quem sabe, ou um grande covarde, mas seria um novo homem.

        Terminada a refeição, Yoan sai para apreciar a manhã. Respira
profundamente, e inicia um Kati belo e harmônico que repete toda manhã. Eu não
sei se ele quer que eu o acompanhe nestes movimentos, mas eu só me contento em
olhar alguém se mover com tanta graça e habilidade como ele. Terminados os


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movimentos, ele corre por cerca de 10 milhas, sem ao menos aumentar a
respiração. Ele se volta para mim. É hora de iniciar mais um dia de treinamento.

        Inicialmente (e isso era rotina nos demais dias, pelos próximos 15 meses)
fazíamos um alongamento completo do corpo. Doía muito no início, e ele me
mandava relaxar. Parece absurdo, mas funcionava. 50 minutos exatos de
alongamento. Era isso. Depois, uma bela corrida de 20 quilômetros. Yoan percorria
em exatas uma hora e meia, eu levava de duas a quatro horas para completar esse
percurso. Ele me olhava, paciente, como se já soubesse que eu era frágil e que tinha
que ter cuidado comigo, assim como meu pai. Era este o olhar dele. Deus, como eu
queria surpreendê-lo! Fazer ele compreender que ele estava errado, que eu podia
ser forte!

        Depois, nadávamos contra a correnteza do pequeno rio que havia ali por
perto. Não era muito forte, mas eu quase me afoguei umas 3 ou 4 vezes no início.
Yoan, por incrível que pareça, após me salvar, dava gargalhadas, se jogava de volta
no rio e nadava de maneira magistral. Ele era de ferro.

       Após o nado, íamos comer. Sho Win nos esperava, com um grande sorriso e
muita comida. Ela era nova, quase tão nova quanto eu. Era muito quieta, e
obediente. Yoan havia lhe criado desde seu nascimento, disso eu sei, mas não sabia
se ele realmente era pai dela, e isso eu não sei até hoje. Mas, enfim, ela era uma
bela moça com seus 18 anos, e cozinhava muito bem. Após comer e descansar por 2
horas, nós retomávamos o treino.

        Yoan se sentou em uma pedra e apenas me observava. Eu aguardava suas
ordens, e então ele me mandou sentar a sua frente. Estávamos no lugar mais belo
que eu já havia visto em toda a minha vida. Era recoberto por grama verde e farta,
havia a pedra onde o mestre estava sentado, havia uma grande árvore ao seu lado,
e ao fundo uma grande cascata de água caía, formando uma expeça nuvem. Tudo
isso aliado ao céu azul e ao sol poderoso que pairava naquele dia, juntamente com o
aspecto sombrio que as demais montanhas faziam ao fundo, o que me agradava,
pois eu ainda gostava mais do escuro do que da claridade. Eu simplesmente me
apaixonara pelo lugar.

- Você gostou deste lugar, Ling ?
- Sim, mestre.
- Você deve escolher um lugar que seja seu nesta montanha, Ling. Um lugar seu,
para que você possa vir aqui sempre que necessitar de respostas.
- O lugar que eu escolher vai me dar respostas?
- Não. Todas as respostas que você tanto anseia estão dentro de você mesmo, Ling.
Você só precisa de um lugar seu para que elas lhe venham. Um lugar seu.
- Mas mestre, este é o seu lugar! Eu já o vi aqui meditando todas as noites.
- Agora ele será o seu lugar, Ling. Eu o deixo para você.
- Por que mestre?
- Por que eu já tenho todas as respostas que preciso. Este lugar é bom, e agora é
seu.

      Ele se cala por completo, e fecha os olhos, realizando uma prece interna e
pessoal, como se estivesse se despedindo do lugar que lhe serviu durante décadas.

       Partimos então para o grande rochedo que havia ao norte. Ali eu tinha que
socar a rocha até que minha mão começasse a sangrar. Devido aos últimos dias e os



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ferimentos que eu havia adquirido, logo isso acontecia. Mas o mestre me mandou
continuar a socar a rocha. Não com tanta força, para não quebrar ossos, mas com
força o suficiente para me rasgar a carne dos dedos. O local que eu socava ficou
manchado de sangue. E assim fiquei por uma hora inteira. As lágrimas caiam, mas
Yoan não me permitia parar. Ataduras eram colocadas nos ferimentos, mas eu não
podia parar de socar a rocha. Por fim, ele me pediu para parar. E eu parei. Ele me
olhava com orgulho, eu, ali, com lágrimas nos olhos, sangue quente e semi
coagulado pingando de minhas mãos, o suor a tomando conta de todo o meu rosto e
meu coração disparado. Eu não havia parado até ele me mandar. Ele não me disse
uma só palavra, mas eu vi em seus olhos o orgulho que sentia de mim por não ter
parado ou reclamado um só minuto. Eu o havia finalmente surpreendido.

       Saímos do lugar, e rumamos para um bosque. Eu devia, agora, pular por
entre tocos de árvores dispostos a mais de dois metros uns dos outros, no mínimo.
Cai muitas vezes, é verdade, mas dei pulos muito bons. Yoan, para me demonstrar
como deveria ser feito, deu saltos impressionantes. Mais uma hora. Pulos e pulos.
Meus músculos gritavam por piedade, mas eu sabia que nunca poderia pedir
piedade, pois quebraria aquele elo de admiração e orgulho que estávamos criando
entre nós.

       Após isso, o penúltimo exercício: golpear com mãos, braços, pernas, pés e
principalmente canelas, árvores finas e grossas até a noite iniciar. Isso doía muito.
Mas Yoan me demonstrou mais uma vez como é que deveria ser feito, e partiu uma
árvore média com um forte golpe de canela. Ele me pediu para não tentar aquilo
ainda, pois com certeza eu quebraria algo, mas não a árvore. E eu ficava ali,
golpeando, golpeando, sob o atento olhar dele. Parecia que o dia não ia acabar
nunca. Por fim ele me manda encerrar o treinamento por hoje.

       Voltamos até a frente da casa. O mestre entra para se banhar, enquanto que
eu deveria tomar banho no pequeno rio e depois fazer mais exercícios de
alongamento. O silêncio dominara mais uma vez. Eu me dispo e caio na água gelada,
que é até boa, pois meu corpo acabado se sente melhor. Ouço uma risada e olho ao
redor para ver de onde vem. Vem de trás de uma pedra, de onde Sho Win me
espiava. Ao ver que fora descoberta, ele dispara em corrida para dentro da casa.

        Eu termino o banho, visto roupas secas e limpas, e realizo o alongamento,
assim como Yoan me ensinara. Entro para comer. O jantar é no mais completo
silêncio. Depois, vou para meu lugar, aquele que Yoan me cedera. Uma noite clara e
limpa exibe uma coberta de estrelas incrível. Eu me sento na pedra, e fico a observar
toda aquela beleza escura, sob a luz de uma lua tão cheia quanto pode. Eu medito
por um longo tempo. Eu não tenho perguntas para serem respondidas ainda, por
isso eu apenas explorei o local com meus sentidos.

       O Inverno veio, e eu ficava horas e horas de baixo da neve gelada, sem
agasalhos. Eu meditava a noite sob tal neve, que de certa forma me purificava a
alma sangrada durante o treinamento. Mesmo nos dias em que o mestre dormia
fora, para treinar os outros 3 alunos, eu seguia a risca o treinamento. Minhas mãos
foram ficando resistentes, e não sangravam mais ao bater na rocha. Meu corpo,
pouco a pouco, ia se transformando, ficando forte e belo. Eu podia notar os olhos de
Sho Win sobre mim durante o dia todo. Eu não sentia mais as dores que sentia
antes. Eu estava forte, como um verdadeiro lutador, ao fim de 15 meses. Mas não
havia sido treinado em técnica.




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Um dia, em meditação, eu compreendi a razão de tudo isso: eu estava sendo
preparado para absorver o conhecimento. Kung Fu não era fácil, e ainda mais com
Yoan. Seu objetivo não era nos tornar meros lutadores, mas sim verdadeiros
mestres, versados em todos os estilos conhecidos.

        Sim, eu ainda era um mero aprendiz. Um dia, quando o mestre me permitiu
fazer algumas perguntas, eu lhe falei de minha conclusão. Ele sorriu, e apenas disse:

- Você medita buscando respostas para suas perguntas. Elas sempre serão corretas.

       Ainda deveríamos continuar por mais tempo com este treinamento padrão.
Até completar 3 anos, para então nós quatro nos unirmos e juntos iniciarmos o
treinamento. O mestre se calou, e assim, nós observamos um pequeno grupo de
aves voando para o sul.

       Cerca de 6 dias depois disto, o mestre declara a mim e a Sho Win que ficaria
fora por 3 semanas, uma com cada um dos outros 3 alunos. Sho Win deu um sorriso
maroto, e eu soube, na hora, que correria certo perigo durante este tempo. Mas que
perigo? Yoan parte, levando consigo pouca coisa. O que será que os outros faziam
para comer, dormir...? Yoan some no caminho que segue, e eu inicio meu
treinamento. Corro, nado na água parcialmente congelada, pulo, bato, alongo... e lá
se vai mais um dia.

       Sho Win me observa o dia inteiro, só que agora de forma mais explícita, pela
ausência de Yoan. A noite, durante o jantar, ela fala algo, como que o dia foi frio,
que a sopa esta sem sal... eu não prestei atenção e nem respondi. Estava
desabituado a falar durante minha alimentação. Ela não se importou. Durante estes
quase dois anos nós nunca conversamos muita coisa além do necessário. Mas
sempre nos olhávamos. Ela me observava com grande desejo, eu podia ver
claramente, e o pior, eu estava lhe retribuindo os olhares já fazia algum tempo.

        Ciente da situação, logo após comer eu fui até a pedra, meditar, e de certa
forma, fugir. O que eu deveria fazer? A resposta veio, não de minha mente, mas sim
dos lábios quentes e úmidos de Sho Win. Um ardente beijo foi trocado. Nós nos
amamos ali mesmo, sobre a grama gelada, com a neve caindo sob nossos corpos
nus. Nunca em toda minha vida eu havia feito coisa semelhante, e nunca foi tão bom
estar vivo como naquele momento de prazer infinito. Ficamos ali por vários minutos.
Por fim, voltamos para a casa de Yoan, e continuamos esta troca de prazeres até
amanhecer. Pela primeira vez desde minha chegada ao monte Shizu eu não sai para
treinar.

       Os demais dias transcorreram normalmente. Eu treinava o dia inteiro e de
noite eu e Sho Win dormíamos juntos. E assim foi seguindo. Eu abdicava de minha
meditação para ficar ao lado de Sho Win por mais tempo. Isso me fazia um certo
mal. Eu não estava mais pensando tão claramente como antes.




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Sho Win entendeu quando eu lhe expliquei que teríamos que nos ver por
menos tempo. Eu voltei e meditar, e perguntas incríveis me vinham à mente. Mas,
agora, eu não estava obtendo respostas. Era como se aquele lugar fosse novo para
mim desde aquela noite com Sho Win. Resolvi relaxar e buscar com meus sentidos,
mais uma vez, toda a expansão do lugar que me pertencia. Reconheci-o de novo. As
respostas me voltaram, e eu pude dormir mais uma vez purificado de corpo e alma
por aquela neve, que era a encarnação da paz que eu obtinha novamente. Sho Win
me abraçava como se o mundo fosse terminar. Nos amamos mais uma vez.
Dormimos agarrados um ao outro, como dois amantes que éramos.


                              ******************

        Yoan voltara. Para surpresa minha, e de Sho Win, ele trazia consigo 3
rapazes. Os 3 outros alunos de que ele havia falado. Os 4 finalmente ficariam juntos
e o treinamento teria início.

- Mas mestre, ainda não se passaram 3 anos, como o Sr. havia dito.
- Vocês já estão prontos, Ling. Venha, junte-se a nós.

       Os três observavam Ling com um olhar de admiração, inveja e ódio. Eles
seriam grandes amigos.

- Apresente-se a Ling - manda Yoan.

       O maior de todos nós era Lyu. Era belo, forte e rápido. Isso o tornava meu
maior competidor em relação a Sho Win. Ainda não tenho certeza se ela realmente
me ama ou se só meu usou para suprir seus desejos carnais, e não tendo mais
ninguém por perto além de mim...

       O outro era Lao, baixo, cabeludo e mortal. Já quebrava árvores com suas
canelas, mesmo Yoan o repreendendo. Era uma boa pessoa, dedicada e leal.

       Por último havia Sakazama, o único estrangeiro, um japonês. Era o mais
calado dos três, e segundo Lao, o mais perigoso. Eles brincavam muito com Sak,
como nós o chamávamos, por ele ser do Japão. Ele não se demonstrava nervoso ou
agressivo. Nem um pouco. Isso assustava.

      Os dias seguiram, eu e Sho Win nos encontrávamos às escondidas de noite, e
ela nem sequer olhava para qualquer um dos outros. Ela gostava de mim mesmo,
mas o que me preocupava é se um deles tentasse alguma coisa "intima" com ela.
Mas eu nada falei a ela.

       O treinamento seguia normalmente, sem alterações, segundo Yoan, por mais
alguns meses. Mesmo sendo evidente que eu era o mais fraco de todos, Yoan ainda
me olhava com orgulho, coisa que ele não fazia com os demais. Sak, por sua fez, se
esforçava ao máximo, e mesmo assim Yoan não se importava. Os quatro logo
ficaram amigos. Sak, porém, só falava com Yoan. Mas um dia, quando estava
meditando, ele veio até a mim. Passou pelo meu lado e ficou a admirar a paisagem
noturna como eu mesmo fazia.

- É um belo lugar, não acha? – perguntei.



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-   É - disse ele. Ainda nevava, muito pouco, mas nevava.
-   Olhe para este floco de neve - disse ele, pegando um com a mão.
-   É tão frio e bonito... mas derrete com o mais leve contato com a pele.
-   É, ...

       Ele se vira e soca o ar com tal precisão e segurança que acerta uma única
folha da árvore que estava caindo atrás de si. Ela voa para mais longe.

- Como você sabia que ela estava lá? - pergunto eu
- Medite sobre isso... e talvez encontre a resposta, um dia - diz ele, indo embora.

      Eu me encontro mais uma vez com Sho Win, mas não conseguia me
concentrar nela.

- O que foi, Ling?
- Yoan falou que o treinamento começa amanhã.
- E daí?
- Eu me sinto despreparado. Os outros já sabem tanto...
- Você também já sabe. Esqueceu o que o mestre sempre diz? "Nós já sabemos tudo
o que temos que saber. Só que ainda não sabemos disso"
- Sim, mas...
- Não quero mais ouvir uma palavra. Você é o melhor dos quatro - diz ela, dando um
grande beijo em mim. Adormecemos ali mesmo, juntos. Por sorte Lao, que sabia de
nosso romance sei lá como, veio nos acordar.
- Se o mestre pega vocês aqui ele vai te mandar embora Ling! Tomem mais cuidado!

         Ele vai embora. Eu sabia que pelo menos em um eu podia confiar.


                                 ******************

       O sol nasce mais uma vez, belo e forte como no primeiro dia em que eu
cheguei. Nem parecia que havia nevado a menos de um dia ainda... mas agora o
tempo era perfeito. Yoan nos reúne na frente da casa. Sho Win retira água do riacho
para seus afazeres, embora eu percebesse que ela nos observava, com os olhos
voltados para mim.

- Hoje o verdadeiro treinamento terá início. Vocês se tornarão os maiores guerreiros
de sua geração. Serão versados, a partir de agora, em todos os estilos possíveis - diz
Yoan.
- Mas antes vocês tem que compreender que uma luta é o último ato de uma
tragédia. Vocês tem que evitar, a todo custo, um confronto. Não por que são fracos,
mas sim por que são fortes, mais fortes que os demais. Os homens são todos iguais
em sua essência. Não existe motivo para disputas. Vocês tem que entender que tudo
o que eu ensinar hoje só lhes servirá, realmente, se vocês compreenderem que uma
palavra tem a força de mil golpes. Nunca ataque, somente defesa. Nunca caos, só
harmonia. Nunca luta, só paz.

       Todos nós, pelo menos aparentemente, compreendemos profundamente o
que ele queria dizer. A luta é como uma espada, que só deve ser tirada da bainha
quando for realmente necessária, pois quando despida, ela sempre terá que ser
usada. Tínhamos o resto do dia de folga (a primeira em dois anos e meio de
treinamento). No dia seguinte, iríamos para o cume de Shizu, iniciar nosso



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aprendizado real. Neste dia, nos separamos em dois grupos. Eu, Sho Win e Lao
fomos caminhar pelo bosque. O restante, incluindo Yoan, ficaram no riacho,
nadando.

- Eu também já tive uma namorada, sabe? O nome dela era Kiy. Mas agora eu acho
que ela deve estar com outro... huum, é, faz muito tempo desde que eu parti para
cá e a deixei só. Ela definitivamente já deve ter arrumado outro...
- Não fale assim, Lao. Ela pode estar lhe esperando... - diz Sho Win, segurando em
minha mão, como namorados.
- Não, eu falei pra ela não me esperar. Ela sabia para onde eu estava indo e quanto
tempo ia demorar.

      Um silêncio mórbido domina o ambiente, com o vento calmo balançando a
copa das árvores, os pássaros a cantar e nós a caminhar.

- Qual é a sua história, Lao? - pergunto eu, abraçado a Sho.
- Eu morava nos becos de Goku, um feudo não muito distante daqui. Eu era ladrão,
sabe? Minha mãe era doente e vivia pedindo esmolas nas ruas. Eu jurei que nunca ia
pedir daquele jeito. Mas acabaram matando ela. Pra me virar nas ruas eu tive que
aprender a bater forte pra sobreviver. Foi ai que eu encontrei Kiy. Ela era filha de um
ex-aluno de Yoan. Ele nos descobriu um dia e ficou impressionado em como eu
agüentava apanhar e como meu soco era forte para o de um garoto. É que ele me
bateu pra valer, sabe, mas eu também bati nele. Ele então me falou que para eu ser
digno dela eu teria que me tornar um grande lutador a ponto de derrotá-lo. Chamou
Yoan, que de início me considerou fraco e incapaz do treinamento. Porém, no último
dia em que ele estava no feudo, 4 idiotas um pouco maiores que eu vieram me
bater, por que eu já tinha fama de bom de briga entre os pequenos ladrões da
cidade. Yoan apenas observou. Eu acabei com cada um daqueles cretinos em apenas
5 minutos. Yoan me trouxe para cá na hora. Mas duvido que Kiy me espere. Eu
estou aqui mais por causa de mim mesmo. Não gosto e nem gostava de roubar.
Quero ser um grande lutador e oferecer meus serviços ao Imperador como guarda
pessoal.

       Ficamos calados.

- Sabe, eu morava neste bosque. Eu te vi muitas vezes aqui, Ling.Você pula
desajeitado!
- Eu melhorei! - dizemos em tom de brincadeira e provocação.
- Então prove - diz ele.

      Eu pulo em cima do primeiro tronco, onde me equilibro facilmente. Lao pula
em outro tronco e vira seu rosto em minha direção.

- Vejamos se pode fazer algo melhor que isso:

      Ele pula de forma sobrenatural, dando piruetas invertidas, se equilibrando em
um só pé e saltando como uma rã. Ao final de 1 minuto ele para, ofegante.

- Agora você - diz ele.

      Eu olho para Sho Win, que também me observa, cheia de esperanças. Ela
nunca havia me visto fazer acrobacias ou lutar. Acredito que nunca houvesse visto
ninguém fazer aquilo antes de Lao. Eu tinha que fazer melhor.



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Me concentro. Fecho os olhos e respiro profundamente. Um movimento
rápido e potente de músculos e lá estou eu, no ar. Olhos fechados, eu não tenho
medo. Sei onde esta cada tronco, não que tenha memorizado, mas por que eu posso
simplesmente senti-los. Saltos enormes, um mortal duplo, e por fim, caio no último
tronco me equilibrando sobre meu braço esquerdo. Ambos, Sho Win e Lao, me
observam de forma semelhante. Eu havia feito melhor.

       A reação de Lao, para meu espanto, foi de alegria: - Você conseguiu! – disse
ele. Sho Win teve a mesma reação, vindo me beijar ardentemente, deixando Lao
levemente encabulado. Voltamos para a casa de Yoan, que neste momento
simplesmente dormia. Sak e Lyu apenas estavam com seus corpos dentro da água
do riacho, com as cabeças para fora. Lao se juntou a eles, entrando de roupas
mesmo, só se preocupando em tirar as botas. Eu e Sho Win ficamos conversando no
meu lugar de meditação, que era perfeitamente visível do riacho.

        Que casal estranho nós éramos. Ela era bem mais alta que eu, linda, delicada
e amorosa. Eu era mais baixo, forte, e evidentemente mais novo. Ela contava seus
21 anos e eu os meus 15. Era proibido e por isso mesmo tão bom. Sabíamos que
ficaríamos algum tempo sem nos ver. Nos beijamos novamente. Senti os olhos de
Lyu a nos observar, com raiva. Ele aparentemente estava com seus 19 ou 20 anos,
bem mais compatível com a idade de Sho Win que a minha. Eu sabia que ele a
desejava mais do que qualquer coisa ali, mais do que aprender com Yoan.

       Isso estava tornando as coisas perigosas. Ele era o maior e mais rápido de
todos nós. Talvez ele seja no final o melhor lutador. Mas não posso permitir que ele
tente algo contra nós. Resolvo fingir que não percebi seu olhar, e continuo a beijar
Sho Win, agora de forma mais ardente. Minha mão inicia uma dança pelo corpo dela,
de cima até em baixo. Seus seios, grandes para uma chinesa comum, mas perfeitos
para ela, eram macios e quentes. Suas costas, lisas; suas coxas, delicadas iscas de
amor... ela também, por sua vez, retribuía as carícias, me alisando o peito seminu
da camisa aberta, minhas coxas, minhas nádegas e meu sexo por cima de minha
calça.

       Lyu estava visivelmente odiando a mim cada vez mais e mais. Mas eu não me
importava. Sho Win e eu rumamos para o bosque mais uma vez, desta vez sós, de
onde só retornamos a noite.

       Próximo a casa, Yoan nos observa, com olhos cerrados. Nós paramos. Havia
ele descoberto? Eu não sei, mas ele sorriu para nós e entrou mais uma vez na casa.

                          *************************

- Acorde, vamos, acorde! - diz Lao, me empurrando e, por fim, me despertando.
- O que foi? - pergunto eu.
- Está na hora, vamos, se arrume, está na hora! - diz ele, eufórico.
- Na hora do que, Lao? O sol ainda não nasceu...
- Está na hora do teste, Ling, o teste! Yoan me pediu para lhe acordar e lhe chamar!
Vamos, vamos!
- Que teste é esse, pra onde a gente vai... - pergunto eu inutilmente a Lao, que me
empurra para fora, dizendo "Vamos, vamos, os outros estão esperando, vamos!".




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Chegamos ao lado de fora da casa. Fogueiras ardiam em quatro cantos
diferentes. Assim como quatro pequenas toras dispostas lado a lado no centro das
fogueiras.

- A natureza é formada pelos quatro elementos. Só depois de dominarem cada um
dos elementos é que vocês estarão prontos realmente - disse Yoan, em tom sinistro.
- Mas o senhor falou que hoje iríamos para o cum... POF! - um golpe certeiro em
meu rosto que Yoan desferiu em tal velocidade e força que me custou acreditar que
fora um soco que havia me derrubado.
- Silêncio! Não questione seu mestre, jamais. Vocês nada treinaram até agora. Vocês
são tão nada quanto no dia em que chegaram aqui.São crianças, frágeis e inocentes.
Mas já tem um corpo de homem. Isso é quase tudo que é necessário para iniciarmos
o treinamento. Com meus antigos alunos era tudo o que bastava. FORÇA! Mas agora
eu creio que errei ao treinar apenas o corpo das pessoas. É preciso treinar também o
espírito, e a coragem, e a ética! Sem isso, nada adianta ter treinado o corpo. Sem
isso, apenas estarei treinando assassinos, loucos ou covardes, como o deu pai, Ling.
Eu o aceitei por que queria remediar o mal que havia cometido no treinamento de
seu pai. E acredite, você é idêntico a ele. Mas agora vocês são minha última turma, e
eu não quero fazer de vocês meros lutadores, os maiores guerreiros de sua geração,
NÃO, eu quero fazer de vocês os melhores lutadores de todos os tempos! Sim, nunca
existiu ou vai existir lutadores como vocês em todo o mundo. E para isso, o
treinamento foi totalmente refeito. Esta será a primeira e a ultima fez que eu
ensinarei o Caminho do Tigre. E esta será a entrada para este caminho. Vençam o
elemento. Vençam o FOGO! Caso contrário voltarão para o lugar de onde vieram
imediatamente. Esta é a ultima chance de saírem com vida caso não se achem aptos
para o árdua treinamento. Vençam o FOGO, AGORA! - Grita ele.

        Ele nunca havia falado tanto e tão violenta e seriamente quanto agora.
Admito que senti vontade de chorar, mas como sempre, me contive. E revoltado com
o recém tratamento rígido que ele adotara eu sou o primeiro a perguntar o que devia
ser feito.

- Está vendo as quatro fogueira? Escolha uma para enfrentar.

       Eu aponto para uma, a que eu acho mais ardente.

- Você pode morrer se cometer um único deslize, Ling.

       Eu o olho de forma nova, que, novamente, o surpreende. E ainda digo:

- Eu não vou errar.
- Pois bem. Entre na fogueira e quebre a pequena tora. Não pense que será fácil. Ela
não está queimada ou amolecida, é uma madeira especial, das mais duras que tem
no bosque. Quebre-a com um golpe de canela, Ling. E traga um dos pedaços dela
para mim. VÁ!

       Eu paro em frente a fogueira. Ela brilha e arde, muito. Eu adoro a escuridão,
e ela é tão brilhante... eu não posso tentar, eu tenho que conseguir! O ódio ainda
pulsava dentro de mim, em harmonia com a dor latejante do golpe dado por Yoan.
Eu queria mostrar para aquele velho que eu era o melhor, e era isso que eu lhe
mostraria: o melhor.




                                                                                  10
Tomo impulso, corro de forma dinâmica em direção ao brilho extremamente
quente. Eu sabia que ele não queria exatamente que eu entrasse na fogueira, por
isso eu simplesmente pulei para dentro dela. A tora era visível. Eu dou o golpe mais
forte que posso contra ela. De uma dureza incrível, por um segundo eu chego a
pensar que havia falhado. Mas ai percebo que havia partido a madeira
perfeitamente. Eu atravesso a fogueira sem tocar o chão, mesmo tendo perdido
velocidade com o golpe. Não me preocupo em recolher a parte da madeira, pois ela
havia caído muito próximo do lugar onde eu pousaria em breve, fora das chamas.
Um belo salto, sem dúvida. Um único salto. Em pleno ar adentrar no fogo, partir a
tora e pousar do outro lado, de forma brilhante.

        Minha canela doía muito, é verdade, mas não estava fraturada. A carne no
local havia se rasgado e havia um sangramento, mas eu ainda podia andar
perfeitamente.

     Todos olhavam abismados. Eu havia conseguido, e de forma incrível. Meio
mancando, eu trago a madeira até o mestre. Jogo-a aos seus pés, ainda quente.

- Você venceu - diz Yoan.
- QUEM eu venci? - pergunto eu - A mim ou ao senhor? - e saio mancando para me
sentar em um banco de madeira, e observo todos. Yoan sorri levemente, porém,
escondendo de todos. "O garoto é atrevido, mas sabe usar o ódio de forma perigosa.
Ele me surpreendeu novamente", pensa ele.
- Mestre, permita-me ir agora - diz Sak.
- Vá.

        Sak não parece preocupado. Aquilo parecia uma coisa normal para ele. Ele
estava calmo e realizou movimentos soberbos. Deu um grande salto, e logo após um
violentíssimo golpe contra a tora de sua fogueira. Trouxe-a para Yoan, que mais uma
vez, disse: Você venceu. Sak veio sentar-se ao meu lado.

- Como está a perna? - pergunta ele de forma simples.
- Está boa - digo eu, mentindo.
- Vá para dentro e veja com Sho Win o que pode ser feito, ela está péssima! O
sangue está brotando a olhos vistos - diz ele apontando para meu ferimento.
- Certo... obrigado - digo eu.
- Espere - diz ele - Me traga algo também, certo ? - diz ele, segurando sua perna
com um ferimento se não igual, pior que o meu.
- Certo - digo eu, mancando para a casa.

      Enquanto isso, Lao se apronta para saltar. Eu paro a caminhada para
observar sua vez. Ele pula e atravessa a fogueira rapidamente. Trás a madeira para
o mestre, sorrindo.

- Você venceu - diz Yoan, como um mal espírito.
- Vejam, não cortei a perna! - diz ele alegre e orgulhoso, indo sentar-se com Sak.

       Lyu era o ultimo. Eu não queria vê-lo saltar para não ter que desejar-lhe má-
sorte, e por isso eu estava quase que para adentrar na casa quando eu o vi tirar a
camisa. Eu não o havia visto despido antes, e ele tirou toda a roupa. Havia uma
enorme figura de um dragão vermelho em suas costas. Até mesmo Yoan ficou
preocupado. Aquela era a marca do temido clã de ninjas assassinos JitSu, que havia
criado uma técnica de combate inspirada nas próprias sombras.



                                                                                     11
Ele desfilou por entre as fogueiras, completamente nu. Sho Win, que havia
vindo ver o que ocorria, o contemplou então. Ele a olhou também, e logo depois,
entrou na fogueira, caminhando. Todos se preocuparam, mas Yoan estava calmo.
Por ali ficou ele alguns segundos. Logo depois, apareceu novamente com o pedaço
de madeira e nenhuma escoriação nas pernas ou braços, nem sinais de
queimaduras. Deixou a madeira aos pés de Yoan, e disse em tom forte: "Eu venci".

       Sho Win ainda o observava. Ela não havia me visto. Eu podia ver o desejo em
seus olhos, o mesmo desejo que eu vi quando ficamos sós pela primeira vez. Neste
instante eu soube perfeitamente que eu a perderia. Eu manco em sua direção, e só
então ela me percebe.

- Me de algumas ataduras e alguma erva para cicatrização.

      Ela fica enrubescida, vendo em meus olhos que eu sabia o que passava em
sua mente.

- Sim, um momento.

       Ela volta logo depois com o material. Eu dou as costas a ela e me dirijo para
Sak, que me aguardava, ansioso em limpar a ferida e fechá-la. Lyu já havia se
vestido, mas Sho ainda o observava, assim como ele olhava para ela. Uma troca de
olhares tão explicita que eu não podia mais ver. Rumo para o bosque.

- Partiremos quando o sol nascer - diz Yoan. Eu nada respondo.

       Lao e Sak apenas me observam adentrando na negra e densa mata que se
formava logo a minha frente. Isolado, dentro do mato, eu faço o que não fazia a
muito tempo: eu choro. Choro por que estou vivendo de forma inigualavelmente má.
Separado da família, rejeitado pela amada, sentindo a dor percorrer seus ossos
brancos... eu choro até o amanhecer. Voltando para o lar de Yoan, vejo Sho e Lyu na
parte de trás da casa. Eles não me vêem. Ambos se beijam loucamente. Enquanto os
outros arrumam suas coisas para a viajem, eles se amam sob a proteção do céu azul
que nascia belo, e agora triste.

       Eu ainda choro . Lágrimas de prazer escorrer pelo rosto de Sho Win que cerra
os dentes e geme fracamente; ambos arfam. Algo rápido e proibido, assim como era
conosco. Sem ao menos terem tirado as roupas, ambos se levantam, se beijam mais
uma vez, e vão embora. Eu engulo as lágrimas, engulo o ódio. Jogo tudo em uma
grande fogueira que arde em meu peito, fogo este que move agora meu corpo.

       "Seremos os maiores lutadores do mundo em todos os tempos, e eu ainda
serei o melhor de nós quatro. Meu sangue não mais será derramado sem vingança
mortal contra meu oponente. E que isto não seja uma promessa, mas sim a
realidade".

      Me levanto também, e dou a volta, entrando na casa e arrumando minhas
poucas coisas.

                             *********************

- Não vai se despedir de Sho Win, Ling? - fala Lao.



                                                                                  12
Eu me arrasto até ela, que me olha de forma semi-diferente, mas aos demais
olhos, como sempre havia feito. Apenas uma diferença sublime, que só eu podia
perceber. Ela me dá um abraço, e me beija, sem que eu retribua o gesto.

- O que foi Ling? - pergunta ela de forma sonsa.
- Você está gostando de me tocar, Sho Win? Aproveite, pois se eu voltar a lhe tocar
algum dia não será de forma amorosa, mas sim com um forte chute, assim como eu
fazia com os cachorros de onde eu morava.

- Ling!!! - responde ela tentando parecer inocente.
- É isso mesmo, não é? Afinal você não passa de uma maldita cadela!

      Ela responde me dando um forte tapa no rosto, mas nem sequer chora, pois
sabe que eu estou falando a verdade.

- Como pode?!! - diz ela, agora tentando iniciar um choro.

       Eu respondo com apenas duas ásperas e fortes palavras, sussurradas em seu
ouvido.

- Eu vi.

       Ela compreende, e para de chorar. Fica imóvel, como se soubesse que eu
queria matá-la naquele instante.

- Nunca mais sequer olhe para mim - digo eu, saindo da sala. Ela permanece parada.
- Vamos todos agora. Onde está Ling? - pergunta Yoan, na frente de Lao e Sak.
- Estou aqui, mestre - respondo eu secamente.
- O que é isso em seu rosto, Ling ? Parece uma panc...
- Não é nada Lao, não é nada.
- E agora, onde está Lyu? - pergunta Sak.
- Deveríamos deixá-lo aqui. Vocês viram as costas dele... ele é do clã JitSu. O senhor
ainda vai treiná-lo, mesmo sabendo que ele vai se tornar um assassino? - pergunta
Lao.

        Yoan nada responde, apenas observa o nascer do sol. Eu, por minha vez,
posso ver Lyu e Sho Win, semi escondidos, em um lugar que só eu podia ver, na
frente da casa de Yoan. Eles se beija mais uma vez. Só que agora é Lyu que me
observa enquanto acaricia todo o corpo de Sho. Eu abaixo a cabeça, e ignoro. A
partir daquele dia eu saberia que Sho Win fazia parte de meu passado. Logo após
isso, Lyu se reúne a nós.

- Vamos agora - exclama Yoan.

       Marchamos em direção aos picos gelados da montanha, onde Sak havia
treinado a tanto tempo. Mesmo estando à frente, eu podia perceber os olhos de Lyu
sobre mim. Ele ainda não estava satisfeito em ter tomado a mulher que eu amava,
ele queria algo mais. Eu ignoro e continuo a marchar, logo atrás de Yoan.

      Cerca de 2 horas depois chegamos ao local. Uma cabana de madeira, onde
Sak dormia e comia durante sua estada lá, estava semi apodrecida. Mas ainda era




                                                                                   13
um bom abrigo contra os fortes e gélidos ventos sopravam violentamente durante
todo o tempo.

- Deixem suas coisas na cabana, vamos iniciar o treinamento logo. "Ronin", mostre o
lugar ao demais. Eu vou descansar um pouco.
- Sim, mestre - responde Sakazama. Deixamos nossas coisas na cabana e seguimos
Sak. Eu estava meio preocupado, nós nunca havíamos ficado a sós durante este
tempo todo, não nós quatro juntos. Isso podia ficar complicado.
- Que tipo de apelido é "Ronin"? - pergunta Lao a Sakazama.
- Na língua de meu povo, "Ronin" é um Samurai sem senhor. Um cavaleiro errante,
em busca da morte por ter permitido que seu senhor morresse. Essa é a maior
desgraça possível em toda a vida de um Samurai - diz ele, em tom melancólico.
- E por que ele te chama assim? - pergunto eu.
- Por que seu pai era um - diz Lyu, em tom sarcástico.

     Sak apenas olha Lyu com o canto de seus olhos, sem alterar seus
movimentos ou virar a cabeça, em tom superior. Ele nada fala.

- Ronin. É melhor que Sak. Vai ser Ronin agora - diz Lao, brincando - Paramos.
Havia um grande paredão de rocha a nossa frente. Ficamos a olhá-lo.
- Este era o meu desafio pessoal. Por dois anos inteiros eu subia ele todos os dias
em uma hora.

        Olhávamos para a parede de rocha e para Ronin sem entender como ele fazia
aquilo. Era uma parede completamente vertical. Fora algumas saliências ou buracos,
era completamente lisa. A altura era enorme, uma queda e seria morte na certa.
Ronin observava a parede como se esta fosse sua única amiga, confirmando minhas
suspeitas de que ele havia passado pouco tempo com o mestre ou qualquer outra
pessoa durante todo o treinamento. Seus próprios desafios se tornaram seus
amigos.

- Vamos, por aqui ha uma coisa que eu quero lhes mostrar. Venham - diz ele indo na
frente. Nós o seguimos. Andamos até uma surpreendente lagoa natural que o riacho
formava.
- Coloquem a mão na água - diz o Ronin. Obedecemos. A água estava quente! Sim,
e era mais cristalina e clara do que próxima a casa de Yoan.
- Como? A água de lá era gelada e aqui está agradavelmente quente!
- Uma bolsa termal embaixo da terra faz isso. Este monte era, a muito tempo, um
vulcão. Agora adormecido, seu sangue aquece a água deste local, que logo adiante
encontra a neve eterna das montanhas, a tornando gelada mais uma vez - diz Ronin.
- Incrível! - diz Lao.
- Venham, vamos para a cabana. O mestre já deve ter descansado.
- É, vamos logo para a cabana, pequenino Ronin. - diz Lyu.

        Sak o olha novamente, mas agora de frente, com um olhar profundo. Lao
interfere, puxando Sakazama.

- Vamos logo, vamos logo - dizia ele.

     Lyu ainda me olhava de forma perigosa. Algo aconteceria, e logo.
Chegamos à cabana, onde Yoan nos esperava.

- Sentem-se - disse ele. Nós obedecemos.



                                                                                 14
- Hoje de manhã vocês iniciaram sua jornada. Vocês agora trilham o Caminho do
Tigre. Não existe mais volta - o silêncio domina a todos.
- A partir de hoje um novo treinamento será iniciado, mas os antigos também serão
incorporados. Agora vocês se tornarão Tigres.
        Muita coisa foi ensinada naquele dia mesmo. Absorvíamos os ensinamentos
mais rápido que absorvíamos os golpes dados por nosso mestre. Lyu parecia se
divertir muito com tudo aquilo, estava sempre com um sorriso, muito cínico.
Desviava dos golpes de Yoan de tal modo que se mostrava em equiparação com ele.
Não havia o que se ensinarem e nem o que aprenderem. Aqueles que treinavam na
nossa frente não eram aluno e mestre, mas sim oponentes. Naquele dia eu vi pela
primeira vez Yoan sangrar. Lyu não sofreu um golpe sequer. Só parou quando o
Mestre sangrou com um golpe certeiro em sua boca.

- Desculpe mestre - dizia ele descaradamente.
- Não ha do que se desculpar, Lyu. Você fez muito bem - disse Yoan, visivelmente
cansado.

        Os combates acabaram por aquela semana. Treinamos golpes e movimentos
incríveis. Os exercícios de alongamento, corrida e nado continuaram, assim como
todos os outros que estávamos habituados. Eu os ensinava a bater na rocha com as
mãos nuas, Ronin nos ensinava a escalar o paredão e Lao nos mostrava como
arrebentar coisas com seus potentes golpes com a canela. Lyu, por sua vez, ria de
nós, e se indispunha a realizar exercícios tão primários. Ele apenas observava, e
nada ensinava. Isso nos provocava ira. Ainda não fazíamos idéia do por que é que
ele estava conosco.

       Era visível que era mais velho, e um excelente lutador. Sua ligação com o
JitSu me provocava suspeitas terríveis , mas me recusava a aceitá-las. Como Yoan,
um verdadeiro mestre, poderia... não, não poderia. Eu tentava esquecer tudo, mas a
imagem de Sho Win com ele me despertava o fogo interior que mais uma vez me
movia.

       Passada uma semana de treinamento árduo, voltamos para a casa principal.
Sho Win observava a mim e a Lyu, como se estivesse surpresa por não termos nos
atracado e lutado. Eu não lhe dirijo a palavra, passando por ela, assim como todos
os demais, exceto Lyu, que a lambeu na orelha, lhe provocando risos. Eu vi, e eles
não mais se importaram. Logo depois ambos foram para trás da casa. Eu e os
demais fomos para o quarto e dormimos pesadamente. Meu corpo não sentia dor
igual desde a primeira semana de treinamento. Os demais também se sentiam
assim. Estávamos apenas começando.

       No dia seguinte retomamos o treinamento. Novos golpes eram ensinados a
cada semana, e tínhamos que lutar entre nós para os por em prática. Duas duplas
então foram separadas. Lao com Lyu e eu com Ronin. Lutávamos pesadamente, mas
com respeito e afinco. Eu e Ronin nos dávamos bem, e eu sentia que nele nascia um
grande amigo. Lao se dava bem com todos, mas Lyu não se preocupava em não
machucá-lo nos treinos. Um dia, porém, ele bateu muito forte em Lao, que
desacordou. Ronin foi socorrê-lo, enquanto que Lyu se aproximou de mim e disse:
"Aprenda logo, pequeno Ling. Quando lutarmos, não serei tão piedoso como com
ele". Eu respondo: "Eu também não". Ele vai embora, enquanto que Yoan chega
para ajudar Lao.

      A noite, no jantar, Yoan falou, pela primeira vez desde que eu o conhecia.



                                                                                   15
- Lao, você não está em condições de continuar com Lyu como parceiro. É triste,
mas evidente que ele possui um conhecimento muito superior ao de vocês. Por isso
eu espero que você, Ling, seja o novo parceiro de Lyu.
       Um grande e forte calor percorre todo o meu corpo. Eu sabia que era isso que
Lyu queria fazia tempos, mas deixar Sakazama para ele não seria justo, mesmo
sendo o Ronin melhor lutador que eu. Ele queria a mim, e também deixaria
Sakazama como Lao.

- Eu aceito - digo eu. Os olhos de Sho Win saltam. Os demais fazem ar de
desaprovação e Lyu sorri. Yoan diz: "A partir de agora assim o é" e continuamos a
comer.

        Um novo dia nasce. O treinamento é iniciado com um alongamento total, os
demais exercícios que fazíamos no início, só que em escala menor, e depois o
treinamento marcial, ou O Caminho do Tigre, o qual nós percorríamos, segundo
Yoan, de forma lenta e progressiva. No fim da tarde, porém, o combate de treino
seria iniciado. Sak e Lao já lutavam em um pequeno tablado armado ao lado da casa
de Yoan. No outro lado da casa, isolado, Lyu me esperava para a luta. Ninguém nos
observava, a não ser Sho Win, que chorava escondida, mas assim mesmo pude vê-
la.

-   O pequeno Ling veio! Quanta coragem!!! Pensei que havia fugido! - diz ele.
-   Não tenho motivo para fugir Lyu. É só um maldito treino - digo eu.
-   Não, você sabe que não é só um treino - disse ele.
-   Então o que é? - pergunto eu, tomando posição de combate.
-   Um teste. Vamos, me ataque - dizia ele completamente relaxado.

       Eu não tenho que pensar muito. Vôo para sua direção. Ele se move de forma
rápida, feroz como um verdadeiro dragão. Me acerta um forte chute invertido,
levantando sua perna na altura em que eu estava. Eu caio espatifado no chão.

- Você realmente não passa de um garoto, Ling. Eu TENHO que matá-lo.
Compreenda, você não devia ter me provocado daquela maneira antes.

O ódio crescia dentro de mim. Eu levanto.

- O que? Ainda de pé? Você não deveria ter levantado, Ling, seria muito mais rápido
- diz ele me atacando rapidamente. Em um lance de puro reflexo, eu desvio. Lyu não
acredita. O ódio estava queimando forte em mim. Meus olhos estava a ponto de
explodir. A dor que havia em meu abdômen havia desaparecido. Eu estava possuído
pelo ódio e pela raiva. Eu me tornara perigoso, mesmo estando apenas no início do
treinamento. Lyu investe mais uma vez. Agora, além de me desviar, eu lhe acerto
um fortíssimo golpe de joelho em seu rosto, ao estilo do Muai Tai que Sak havia
aprendido e estava me mostrando no dia anterior. Lyu cai com o rosto sangrando,
desacordado. Sho Win corre em nossa direção.

- Seu monstro, você matou ele!!! - gritava ela, chorando.
- O monstro aqui não sou eu, cadela. E o monstro ainda esta vivo - disse eu
apontando para Lyu. Eu ainda pude ver Yoan, que estava observando a luta o tempo
todo. Ele sorri para mim, e some mais uma vez por entre a mata cercava o local. Lao
e Ronin correm para ver o que estava acontecendo. Eles olham para Lyu caído ao
chão e eu posso ver suas dificuldades em segurarem risadas.



                                                                                 16
- Vamos levá-lo para dentro - diz Sakazama, carregando-o por um dos braços
enquanto que Lao o carrega pelo outro. Yoan entra com eles para prestar ajuda
médica, conhecimento que ele praticava muito bem. Sho Win e eu ficamos a sós.

- Você bateu nele. Como pode ? - pergunta ela.
- Eu apenas fiz o que devia ser feito. Estou trilhando o Caminho do Tigre. É parte do
aprendizado.
- E eu, também fui parte do aprendizado? - pergunta ela.
- Eu achava que não, mas agora, vendo bem, eu acho que você não passou disso
mesmo, de uma lição.

       Ela se despe de seu vestido vermelho, ficando nua na minha frente. Ela se
toca, se alisa, se acaricia.

- Você me quer, Ling, eu sinto. Você sente saudades. Venha então, me possua.

        Ela é linda, uma estátua perfeita feita para o amor. Seu tom de pele,
claríssimo, contrastava com a negritude de seus longos cabelos. Ela era perfeita,
tentadora, surrealista. Eu sinto a chama do ódio se apagar dentro de meu coração. E
a do amor reascender das cinzas. Eu a toco.

- Sim, sim meu amor... - diz ela, fechando os olhos. Mas rapidamente eu retiro a
mão de seu seio e lhe desfiro um forte tapa no rosto, tão forte que ela desaba no
chão, chorando.
- Por que, Ling? Por que? - diz ela, chorando e gemendo baixinho de dor.
- Eu só estou lhe tratando como você deve ser tratada, maldita cadela.

       Eu saio do local e vou para dentro da casa, e a vejo ali, no tablado, caída ao
chão, nua, semi enrolada em seus panos vermelhos, chorando. Deus, o que eu havia
feito? Que cena mais bela e triste. No que eu estava me tornando? Eu nem sequer
queria bater nela. Deus, eu a amo mais do que tudo, mas não posso voltar para ela.
E por que eu havia batido nela, por que?

        A noite, com tantas perguntas explodindo em minha cabeça, eu vou para meu
lugar. Lao pergunta se pode vir junto e eu digo que sim. Meditamos.

       A mesma noite, bela e limpa, que eu conhecia.Só a noite, a escuridão. As
respostas vem aos poucos, a confusão se acaba como uma névoa indesejada. A paz
retorna, mansa, ao meu espírito dolorido. Eu estava me tornando um homem, essa
era a resposta. Não um simples homem, mas um Homem.

        Passos pesados atrás de nós denunciam alguém se aproximando. Uma voz
cortante diz:
- Lao, saia daqui - era Lyu quem estava ali. Lao se levanta e encara Lyu.
- Não - diz ele.
- Pode sair, Lao. Por favor. - digo eu.

       Ele olha mais uma vez para Lyu, de cima em baixo, e sai, devagar.

- Qualquer coisa é só gritar, Ling - diz ele.

       Com o rosto inchado, Lyu se posiciona logo a minha frente.




                                                                                   17
- Foi um bom golpe, Ling. Bom mesmo. Ninguém havia me acertado desde meu
próprio mestre, meu pai. Você merece meu respeito - diz ele, seriamente.
- Eu quero lhe pedir desculpas se fui arrogante. Não que você seja melhor que eu,
não,eu lhe dei apenas uma única brecha, e você a enxergou e se utilizou dela, com
perfeição. Isso é muito para um aluno em início de treinamento.
       Eu escuto tudo em silêncio, com os olhos fechados e a cabeça baixa. Lyu
desfere um forte e rápido soco em direção ao meu rosto. Sem abrir os olhos ou
mover a cabeça, eu seguro sua mão e bloqueio o golpe de forma surpreendente. Ele
se espanta.

- Como você sabia que minha mão estava ai?
- Medite sobre isso... e talvez encontre a resposta, um dia - digo eu, indo embora.

        Nos dias seguintes nossos combates ficaram mais amenos, mas como havia
dito, ele era muito melhor que eu. Nenhum golpe o acertava, enquanto que ele me
acertava quase todos. Porém, ele interrompia o combate várias vezes para me
explicar como certo golpe sairia melhor se desferido de certa fora, como pular e se
defender e, principalmente, ele estava me ensinando golpes que Yoan não ensinava,
golpes de Nin JitSu e outras artes desconhecidas de nós. Ele estava me ensinando!

         E dia a dia eu chegava mais e mais perto dele. Sho Win não permanecia mais
com nenhum de nós. Sozinha, ela se entretinha a arrumar a casa e a fazer a comida.
Nos jantares meus olhos cruzavam com os dela. Ela me olhava da mesma forma
inicial, com desejo. Ela ficava, depois do jantar, nos fundos, talvez para meditar, ou
o que eu acho o mais provável, a minha espera. Eu nunca mais a havia visto com
Lyu. E nestas oportunidades ela sempre estava com ele. Mas eu ainda não podia
esquecer o que ela havia feito. Eu a amava, e a amo, mas o que ela fez era
imperdoável. Eu não ia lhe encontrar, e sim meditar, no meu lugar.

Certo dia perguntei a Lyu se eles ainda estavam juntos.

- Não, Ling, você ainda não percebeu? - disse ele.
- Eu a usei. Usei para você me odiar, para lutar comigo da melhor forma possível
para que eu pudesse testá-lo. Você passou no teste, e agora tem dois mestres,
trilha dois caminhos distintos. Ela me odeia tanto quanto você me odiava, Ling - diz
ele bebendo um grande gole de água do cantil.
- Usou? Como pode? - pergunto eu.
- Eu não tenho escrúpulos, Ling. Fui banido do JitSu por ser considerado piedoso
demais para com meus inimigos. Precisava fazer algo que surpreendesse a eles para
poder voltar, e ensinar ao melhor aluno de Yoan seria algo muito bom, mas eu não
sabia quem era o melhor. Me candidatei ao cargo de aluno e passei . Estou dentro
para encontrar o melhor de todos, e encontrei. Agora, estou lhe ensinando ao
mesmo tempo que Yoan.

Eu podia ver a mentira em seus olhos.

- Não é por isso que você está aqui, Lyu. Eu sou um acidente. O que você quer
realmente aqui?
- Eu não devo lhe responder mais nada, pequeno Ling. Sho Win e eu não temos mais
nada em comum, a não ser grande simpatia por você.
- Então vocês nunca mais se encontraram?
- Não, desde aquele dia em que eu o testei, nunca mais.




                                                                                      18
Um grande trovão corta o silêncio que estava sobre nós. O céu se fecha. Uma chuva
inicia sua queda.
- Vamos, não é uma chuva idiota que vai me impedir de te comer terra - diz Lyu,
brincando.
- Vamos ver quem vai comer terra aqui, Lyu - digo eu, me ponde em posição.
Iniciamos uma luta, que se estende até a noite.

                        ****************************

        Assim se passaram os próximos dois anos. Yoan ia ficando cada vez mais
debilitado fisicamente. Já não fazia os exercícios conosco, mas sim com Sho Win, no
final da tarde, e de forma muito mais amena. Nós, ao contrário, íamos intensificando
os exercícios. Nós havíamos nos tornado verdadeiros homens, grandes lutadores. Eu
despontava, pois estava tenho duplo ensinamento. Mas Ronin e Lao me davam boas
surras em nossas lutas mistas. Estávamos no mesmo patamar, só que eu um pouco
mais adiantado. Lyu não era comparável a nós, e agora ele era amigo de todos. Sho
Win ainda estava só, e mais bela e tentadora ainda. Ela continuava a me olhar e a
me esperar atrás da casa todas as noites, sem que eu comparecesse.

       Um dia, porém, Yoan nos deu um dia de folga. Algo aconteceria no dia
seguinte. Ele havia falado em vencermos os elementos, e até agora só havíamos
enfrentado o Fogo. De qualquer forma, eu e Sho Win tivemos que ir de montaria até
a vila em que ela e Yoan pegavam alimentos todos os meses. Yoan, por estar se
sentindo indisposto, ficara deitado em sua cama. Eu e Sho Win não trocamos uma
palavra nos 25 quilômetros que separavam o pé da montanha da vila. O dia,
ensolarado, estava especialmente quente. Eu tive que tirar a camisa. Sho admirou
meus novos músculos e minha estatura, agora maior. Eu já estava na mesma altura
dela, se não maior. Ela me olhava com desejo. Eu não correspondia.

       Chegamos a vila, e um grande choque eu levei, afinal, faziam quase cinco
anos que eu não via outras pessoas a não ser Yoan e o pessoal. Havia tanta gente e
tanta coisa nas ruas... Sho me cutuca e indica o lugar aonde deveríamos ir buscar os
mantimentos. Eu estava hipnotizado por aquela multidão ensandecida, que gritava,
ria, chorava, cantava, corria e comprava. Era lindo. Mas fomos então ao tal lugar.
Um senhor de aparentemente 60 anos entrega a mim e a Sho Win sacolas com a
comida. Prendemos elas nos cavalos, e nos preparamos para partir. Porém Sho Win
vai por outro lado.

- Venha, eu tenho que visitar uma amiga.
- Sho Win... - digo eu agarrando o braço dela. Ela me olha, com uma mistura de
ternura e ódio.
- Me solte. Eu tenho que visitar esta amiga. Vamos, não vai demorar muito, é aqui
perto, venha! - diz ela, galopando em frente com o cavalo. Eu a sigo.

      Entramos por uma viela deserta. Depois, chegamos a uma pequena praça.
Uma casa que ficava logo em frente é para onde rumamos. Sho Win bate palmas.

- Mai Ni ! Main Ni ! - grita ela. Ninguém responde.
- Vamos, não ha ninguém - digo eu, puxando ela.
- Não, espere! - grita ela, pulando do cavalo e entrando na casa.
- Sho Win! - grito eu, correndo atrás dela. Ao entrar na casa, um odor forte de
podridão invade meus pulmões. Tenho que me esforçar para não vomitar.




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- Sho Win? - falo eu, procurando-a pelos cômodos da velha casa. A encontro em um
quarto, agarrada a uma velha camisa, chorando.
- Sho Win... o que houve?
- Ela se foi, Ling. Ela morreu.
- Ela estava doente?
- Sim, já estava velha e não podia mais se cuidar. Eu não podia ficar aqui, tinha que
ficar com o mestre. Mas sempre que vinha para a cidade eu a visitava, limpava a
casa, lavava as roupas, fazia comida... mas agora... ela se foi - Deus, como eu
queria abraçá-la!
- Quem era ela, Sho?
- Ela era minha mãe, Ling. Era minha mãe...
- Por que você não abandonou o mestre para ficar com ela?
- Eu... não podia! Ele sempre foi tão bom para mim! Quando meu pai morreu (é,
Yoan não era seu pai) minha mãe não tinha como me sustentar. Yoan era amigo de
meu pai, e se dispôs a me criar. Ele NUNCA, NUNCA levantou a mão para mim.
Sempre foi um verdadeiro pai. Mas eu continuava a ver minha mãe. E agora ela
morreu, ela morreu...
- Venha Sho Win. Vamos embora - digo eu, a pegando delicadamente pelo braço.

       Chegamos até o lado de fora. Nossos cavalos estavam cercados por 6 jovens
da cidade. Jovens que cometeriam seu maior erro. Eles nos vêem sair.

- Se estão procurando a velha podem esquecer, Ela morreu fazem 2 semanas - diz
um. - Sho Win sai da casa. Eles a vêem.
- Uuuuuuuuh, o que temos aqui! O camponês tem uma namorada, e que namorada!
- Vem pra cá, mulher! - diz um deles, a agarrando e a puxando para o meio deles,
onde eles lhe deslizam as mãos ruins pelo vestido bege. Eu dou um passo a frente.
- Hei! Hei! Hei! Temos um herói aqui. Não é mesmo, camponês? - diz ele me dando
um tapa no peito. Eu me contenho. Eles começaram a despir Sho Win.
- Parem agora e deixe-nos passar. Não queremos problemas.
- Você quer que paremos? Pois bem, faças-nos parar! - grita o que estava me
encarando.
- Não posso bater em vocês sem antes TENTAREM me bater - digo eu pacificamente.
- Então tome isso, montanhês! - diz ele desferindo um golpe rápido para os da sua
laia, mas horrivelmente lento para uma pessoa que já percorreu boa parte do
Caminho do Tigre. Eu o bloqueio de forma simples, e logo após eu quebro o seu
braço na altura do cotovelo, invertendo a junta. Ele cai no chão, gemendo e gritando
de dor. Os outros vem tentar me combater e deixam Sho Win livre dos abusos. Ela
se veste, cobrindo seu belo corpo. Os demais já estão em cima de mim.

       Devo admitir que foi não só fácil como também divertido derrubar cada um
deles com um único e diferente golpe. Quebrar um osso diferente em cada um deles
e ouvir seus estalos me deixou de certa forma contente. Eles se recuperariam, mas
nunca mais iriam importunar desconhecidos. Tudo não levou mais do que 2 minutos.
Eu pego Sho Win, que estava caída no chão, ainda chorando, e a ponho em seu
cavalo. Eu monto no meu e então saímos da cidade. Os demais habitantes da vila
me olham com respeito. Iniciamos o longo caminho da volta. Um caminho tão
deserto quanto bonito. Era primavera, e uma infinidade de flores do campo forrava,
juntamente com a grama verde recém nascida, todo o solo do local. No meio do
caminho, Sho Win pede para parar. Quer descansar. Paramos então. Ela desce do
cavalo e caminha pelas flores. Eu observo. Também desço de minha montaria para
andar um pouco.




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- Você está bem? - pergunto eu. Ela responde com um movimento de cabeça,
fazendo sinal de positivo.

        O maldito calor, mais uma vez. Uma onda quente e abafada que me força a
ficar com o mínimo de roupa. Tiro a camisa mais uma vez. Ela se ascende. Tira o
vestido que a cobria,e fica, mais uma vez , completamente nua. Eu a observo. Ela
me olha, sedenta. Se deita sob seu vestido, e me convida.
- Me possua, Ling. Me possua agora e eu juro pela alma de minha mãe que eu nunca
mais serei de ninguém enquanto eu viver. Me possua - diz ela.

      Eu o faço. Ela estava mais ardente do que nunca. Seria mais uma mentira, ou
enfim ela estaria falando a verdade? Eu deixo estas perguntas para a noite. Me
concentro nela. Nós, entre as flores e a grama, com um sol extremamente forte,
fazemos amor por uma hora. Uma hora inteira. Eu a amo, e descobria agora que ela
também me amava. Abraçados, nus, deitados na grama, ficamos a observar o céu.

- Eu não me deitei com nenhum homem mais desde...
- Eu sei. Esqueça, Sho, pois eu já esqueci.
- Eu te amo, Ling. Me perdoe!
- Eu também te amo, cadela - nós rimos. Nos amamos mais uma vez. Nos vestimos
e rumamos para o monte Shizu.

                        *****************************

       A noite, como era de costume, silêncio total. Lyu nos olhava, ameno. Deu-nos
um sorriso, que Sho Win devolve com uma cara fechada. Depois, atrás da casa,
lugar que ela me esperava toda noite durante dois anos, nós nos encontramos.
Ficamos ali por algum tempo, quando percebi que era hora de entrar e dormir.

      A madrugada, mais uma vez, era a hora do teste. Desta vez foi o Ronin que
veio me despertar. Saímos e nos reunimos, mais uma vez, na frente de Yoan.

- Vocês já iniciaram o Caminho do Tigre a algum tempo, e o vem trilhando com
grande perfeição. Para poderem ter o direito de percorrer tal caminho, vocês tiveram
que desafiar e vencer um dos quatro elementos, cujo total domínio é a chave para
uma melhor compreensão do Caminho. Vocês já desafiaram o fogo, está na hora de
desafiarem e ganharem da terra!
- Diga o que tem que ser feito, mestre.
- Pois bem, sigam-me - diz ele, se encaminhando para o local onde eu outrora
socava rochas. Lá havia uma grande fogueira, para iluminar o ambiente, e grandes
pedras de mármore, uma das mais duras rochas que existiam por lá.
- Pois bem, escolham uma e quebrem-na.
- O que?! Mestre, isso é impossível! Com martelos e estacas demoram horas, com as
mãos nuas seria loucura, não importa o quão forte seja o golpe! - Tenho certeza que
Yoan não batera em Lao por que este estava longe. Yoan apenas falou:
- Garotos insolentes, eu pensava que vocês haviam aprendido tanto! Mas vejo que
nada aprenderam ainda. Vocês não são mais homens comuns, são guerreiros! Suas
mãos podem destruir tudo o que tocam, se souberem como, e principalmente, se
quiserem!!! Olhem para mim! Vocês acham que é impossível quebrar uma pedra
destas com as mãos? Pois vejam! - diz ele, tirando a camisa. Sho Win lhe diz:
- Não mestre, o senhor não esta bem...




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- Eu estou ótimo, Sho Win. Só estou cansado, mas ainda posso ensinar algo a estes
garotos sobre o que se pode fazer com a força de vontade. Afastem-se! - grita ele,
se aproximando da maior pedra que havia.
- Ele pode se machucar se...
- Shhhhhh! - cochicham Lao e Lyu. Yoan fecha os olhos, e se concentra, não por
muito tempo. Desfere um golpe seco contra a pedra, que permanece parada,
tremendo.
- HAAAAAAAAAAAIIIII!!!! - grita ele ao desferir o golpe.
- Veja a pedra não quebrou! - fala baixinho Lao. Mas, logo depois, a pedra se parte
em duas. Um metade para cada lado. A mão de Yoan perfeitamente saudável é
observada por todos nós.
- Podem olhar. Não está ferida. Lembrem-se da Garra de Gato que eu lhes ensinei a
tempos trás. Não posso mais ajudá-los. Quebrem a pedra ou deixem o Caminho do
Tigre agora!

       Sim, a Garra de Gato. Um golpe impressionante. Um golpe forte com a parte
interna da mão seguido de uma contenção do mesmo logo que em contato com a
superfície que é tocada. Difícil, mas relativamente simples, tanto que fora um dos
primeiros golpes que aprendemos.

- Mestre, quebrar madeira e pedra é uma coisa, mas quebrar Mármore é muito
diferente!
- Não há diferença, Lao. Apenas quebrem-na.

      Todos nós ficamos pasmos. Não sabíamos quebrar pedras como ele nos
mandava fazer agora. Mas Lyu não estava preocupado. Ele toma a frente e fala ao
mestre:

- Eu quebrarei a rocha - fala com tal convicção que todos acreditam que ele
realmente vá conseguir.

        Se põe a frente da rocha escolhida, uma bem grande. Realiza pequenos
movimentos em um kati para se aquecer ou se concentrar, diferentes dos que Yoan
fez quando estava se concentrando, e desferiu um golpe completamente diferente,
sem expelir um só grito. A rocha se partiu não em duas, mas em várias partes, como
se não fosse realmente de mármore, mas sim de calcário. Ele caminha para Yoan e
lhe fala:

- Ainda estou caminhando, Yoan - Ele , por sua vez , nada fala .

       Lao é o próximo. Escolhe uma pedra média. Para em frente a ela. Se
concentra. A Garra de Gato era um golpe soberbo. Podia matar um homem
facilmente, porém, quebrar uma rocha tão dura era algo que nunca havia passado
sob sua mente. Ele desfere o golpe.

- ZAAAAAAAAIIIIIIIY!!! - Nada ocorre com a rocha. Continua intacta.
- Eu... , eu, falhei! - diz ele, pasmo.
- Não, fracasso só em sua mente. Assim como a vitória. Levante, e desfira um
verdadeiro golpe nesta rocha - diz Yoan.

        Lao nem sequer fala. Se levanta, fecha os olhos e dá o mais forte golpe de
canela que podia dar. A pedra de esfacela, assim como sua perna. Seu osso fica
visível, e o sangue brota de forma nauseante. Ele desmaia.



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- Sho Win, me ajude, rápido! Temos que levá-lo para dentro! - grita Yoan,
carregando Lao para a casa. Só restam eu, Ronin e Lyu, ao redor da fogueira,
esperando o mestre voltar.
- Como você fez aquilo? - pergunto eu a Lyu.
- Técnica secreta JitSu.
- Você admite que faz parte do clã JitSu? O que faz aqui então, Lyu? - pergunta
Ronin.
- Não me permito falar com o filho de um desonrado.
- Meu pai tem mais honra em um punho do que você tem em toda sua vida!
- Do que vocês estão falando? - pergunto eu sem compreender nada.
- Não é nada, Ling - diz Lyu, se acalmando - Você quer saber como eu fiz aquilo?
Você já sabe como fazer isso, Ling!
- Como?
- Pergunte a você.
- Não tenho tempo para isso. Como eu faço?
- Use sua raiva, Ling. TODA sua raiva! Foi assim que venceu o fogo, e foi assim que
me derrotou. E será assim que derrotará a terra. RAIVA!
- Não posso. Tenho que purificar minha alma de todos os sentimentos para alcançar
a perfeição!
- Este é um dos caminhos. Mas é o mais difícil. Limpar-se por completo de emoções
é algo impossível, pelo menos para alguém que ainda trilha o Caminho. EU mesmo
ainda não sou capaz disso, portanto me utilizo da raiva e do ódio para alcançar tal
perfeição.
- Yoan consegue se despir de suas emoções por completo - diz Sakazama.
- Sim, mas Yoan já esta com 100 anos de idade. Sabe o quanto este homem treinou
em sua vida? - responde Lyu.
- Mas, se eu continuar a me utilizar da raiva e do ódio para ser bom, eu nunca mais
poderei me limpar. Entenda, eu não serei mais capaz de me desprender das
emoções e ser puro. Não terei a perfeição completa, nunca, e estarei preso ao ódio e
a raiva para sempre.
- Você não tem escolha, Ling. Ainda não está preparado para se purificar de tal
maneira, é impossível para você ainda. Use o ódio para compensar - Eu não sei o
que dizer. Yoan volta da casa com uma expressão séria.
- Lao derrotou a terra. Mas a terra o feriu gravemente. Ele não poderá estar entre
nos pelos próximos meses - Ninguém esperava isso. Lao, parado por meses? Isso
seria fatal.
- Ele não poderá fazer nenhum esf...
- Não, houve uma fratura muito séria no osso da perna. Deverá ficar imobilizada
completamente. Nada de exercícios por três meses.
- Mas mestre, se ele ficar parado por três meses ele perderá toda a forma física!
- Sim, mas não ha outro meio. Mesmo assim, tentaremos fazer algo para amenizar a
perda.
- Mestre, eu estou pronto para enfrentar a terra - disse o Ronin se encaminhando
para uma das pedras.

       Ele se concentra. Era uma rocha verdadeiramente temperada. Como Ferro.
Ele desfere a Garra de Gato de forma perfeita, sem emanar qualquer ruído, a não ser
o da rocha se quebrando. Ele vencera a terra também.

- Ling, vença a terra também, não acredite nas palavras de Lyu, purifique seu
coração, use o que Yoan nos ensina. Não se torne um assassino como ele - disse
Sakazama ao ir embora.



                                                                                  23
- Vamos, Ling. Quebre a pedra - disse Yoan. Todos me olhavam com atenção. Sho
Win sai da casa para me ver também, preocupada. Mas todos haviam se esquecido
de uma coisa muito importante: meu desafio pessoal era socar rochas todos os dias.
Minhas mãos calejadas e fortes estavam preparadas para tal missão. Só que quebrar
mármore era muito difícil. Eu me afundo em minha alma, e retiro de lá toda a raiva e
ódio que dispunha. Desfiro não uma Garra de Gato e nem uma canelada, mas sim
um direto e forte soco, com todos os sentimentos que haviam em meu coração
ampliados. Amor, ódio, paz, tristeza, felicidade. A pedra se esfacela, assim como a
de Lyu.
- Você venceu a terra. O caminho pode ser seguido adiante agora - diz Yoan. Lyu me
observa com um sorriso. Ronin também. Havia descoberto algo para mover meus
impulsos que não era de todo má e nem de todo bom, mas sim algo ideal para me
tornar um grande guerreiro. Havia encontrado meu Espírito de Luta. Entramos para
tomar comer, mesmo por que o sol já estava nascendo.


                            **********************

       Ouve uma pequena comemoração entre nós. Afinal, já havíamos enfrentado,
com perfeição, 2 dos quatro elementos. Tínhamos aproximadamente mais dois anos
para nos prepararmos para o próximo. O que nos preocupava era o fato de que Lao
estava com a perna muito machucada. Mas ele mesmo estava otimista.

- Não se preocupem, eu ainda tenho a canelada mais forte daqui - brincou ele.

       Haviam se passado 5 anos. Estávamos no meio do caminho. E não havia mais
volta. Não éramos mais homens comuns, tão pouco os seres mortais que Yoan nos
prometeu transformar. Éramos excelentes lutadores apenas. Lyu era mais que isso,
claro. Possuía o conhecimento de um verdadeiro mestre, mas era visivelmente
diferente. Aparentava ser de procedência ruim. Se era, nos enganava muito bem.

        Iniciamos o treinamento, com a forte ausência de Lao. Ele era o mais
descontraído, brincava conosco e tornava as coisas mais leves. Agora o treinamento
era menos prazeroso para nós. Lyu realizava todos os exercícios de forma incrível.
Ele já sabia de tudo o que estávamos aprendendo, por que continuava conosco? Por
que continuava aqui?

        Lao observava sentado em um pequeno banco. A perna toda enfaixada, com
talas lhe impedindo o movimento, e um apoio de madeira para poder caminhar pelas
manhãs, ao lado de Sho Win. Não, eu não tinha ciúmes. Agora eu sabia que ela me
amava verdadeiramente. Lao a tratava como uma irmã mais velha, implicando e
brincando com ela de forma divertida e impertinente, como só ele sabia fazer. Que
saudades de casa! Meus irmãos implicavam comigo do mesmo modo, e como eu
sinto falta! Minha mãe a me chamar para comer, meu pai sentado olhando para o
chão com um ar tão... triste! E a algazarra de nós sete, um bolo de gente se
amontoando para comer a rala comida que havia. Eu era o menor, por isso, o último
a comer. Quase não me restava nada, mas minha mãe era capaz de tirar da comida
dela para me matar a fome. Minha mãe... espero que ela esteja bem, que todos
estejam. Mal vejo a hora de voltar, mas, e Sho Win? O que eu farei com ela? Ela
viria comigo? - neste momento sou atingido por um forte golpe no rosto, que me faz
cair.




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- Ling, divagando novamente no meio de um combate? Volte já para o tablado e lute
verdadeiramente! Até Sho Win teria visto este golpe! - grita Yoan. Lyu, que estava
lutando comigo, dava gargalhadas.
- Garoto, nunca mais se desconcentre em uma luta como agora. Pode ser a razão de
sua morte - diz ele, seriamente. Eu compreendo. Voltamos a lutar.

       Sakazama, o Ronin, treinava os movimentos que acabávamos de aprender
em um boneco de madeira. Sua velocidade era absurdamente rápida.
Interrompemos a luta para observar. Yoan voltou seus olhos para ele também. O céu
estava nublado. O suor escorria de minha testa. Ainda estávamos no meio do dia.
Partimos para o pequeno rio, onde realizávamos outros exercícios físicos. Lao
observava, impaciente.

      Dia a dia sua musculatura ia perdendo a rigidez. Nós também estávamos
aprendendo mais do que ele, que estava parado. Ele voltaria, mas era provável que
nunca nos alcançasse. Isto era preocupante.

       Dois meses se passaram. Estava sentado em minha pedra, em uma noite de
inverno, quando Sho Win veio até mim. A neve caia macia e continuamente. Era
uma bela noite.

- O que é, Sho Win?
- Estou me sentindo estranha, Ling.
- Como estranha?
- Eu não sei, estranha. Eu não sangro a 3 meses. Isso nunca aconteceu. E veja
isso... - diz ela levantando a saia até a altura dos seios. Eu a toco.
- Não, não, Ling... agora não, eu me sinto estranha... não... olhe, olhe para minha
barriga - diz ela, afastando minha mão de seu corpo. Eu olho.
- Esta maior.
- Sabe o que é?
- Sim. Você tem que parar de comer tanto! - digo eu lhe tocando novamente.
- Não, Ling... não... sim... venha Ling, sim!

       Nos amamos, mais uma vez, sob a neve. Logo depois, conversando com ela,
constatei que poderia ser alguma coisa mais séria.

- Não tenho comido e nem nunca comi muito, você sabe. Estou com medo, não é
obesidade.
- O que pode ser então?
- Eu não sei, mas acho que Yoan pode saber.
- Acha melhor lhe procurar?
- Sim Ling. Estou com medo.
- Então vamos juntos. Algo me diz que tenho que ir com você.

        Entramos na casa. Batemos na porta do quarto de Yoan, que nos recebe. Não
fica espantado ao nos ver juntos.

- Estava esperando o dia em que vocês viessem até a mim - diz ele.
- Sim, mestre - digo eu - Sho Win esta preocupada. Acha que algo de errado está
acontecendo com ela.
- Eu não sei... deixe-me ver. O que sente, minha pequena criança?
- Minha barriga, mestre. Esta maior, e ainda aumenta. Sinto algo latejando dentro
dela, mesmo depois que como - ela levanta o vestido, assim como havia feito



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comigo. Yoan não demonstra qualquer espanto ou excitação. Aparentava ser normal
ver uma mulher nua. Ele apalpa a barriga, ouve, olha.
- Era o que eu temia - diz Yoan.
- O que foi mestre? É grave? - pergunto aflito.
- Não, apenas infeliz. Vocês vão ter um filho.

      Ficamos paralisados. Um filho? Um filho com Sho Win? Antes de completar o
Caminho do Tigre? Isso era realmente infeliz.

- Durante o Caminho do Tigre você tomou o que julgava ser uma bifurcação, que
daria para um caminho mais belo e que chegaria ao mesmo destino que o antigo.
Mas este caminho, apesar de belo, é cheio de obstáculos e perigos que o outro, feio
e duro, não possuía. É o preço a se pagar pelo prazer. Espero que tenham aprendido
- diz Yoan.
- Sim mestre - dizemos juntamente.
- Mas não vejam esta criança como algo a odiarem. Ele é fruto de seu amor, e este
amor é o que vocês vão ter que expressar para ele. Ele pode ser uma dádiva
disfarçada de desgraça. Aprendam a amá-lo, caso contrário estarão cometendo um
erro maior que o que cometeram.
- Sim mestre. Obrigado - dizemos e saímos.
- Esperem, ainda falta algo - diz Yoan.
- O que, mestre?
- Agora vocês devem oficializar sua união. Amanha eu farei a cerimônia. Se
preparem.
- Certo, mestre - dizemos.

       Um casamento? Um filho? Sim, agora estava completo. Diante de uma
situação tão extrema nenhuma dúvida veio à minha mente. Eu estava decidido, e
Sho Win também. Fomos dormir, pela primeira vez, juntos enquanto todos estavam
próximos.

                            *********************

       A cerimônia não teve nada em especial, a não ser o brilho nos olhos de Sho
Win. Agora tínhamos um quarto só nosso, privacidade e paz. Sai do alojamento que
havia se transformado meu antigo quarto, agora acomodando três jovens, e entrava
em um novo e acolhedor ambiente. Estava casado, e seria pai. Mas eu não podia
para de andar. O Caminho estava incompleto. Havia muito o que aprender ainda.

       Mas nesta semana, nada de lutas. Nada de treinamentos rigorosos. Nada
para lembrar que sou um aprendiz. Que estou me tornando algo diferente do que a
maioria é. Esta semana eu só teria contato com as coisas mais belas que eu podia
imaginar. Tínhamos o direito de passar esta semana inteira a sós, na cabana dos
picos do grande Shizu. Não é necessário dizer o que nos ocupava a maior parte do
tempo. Mas também desfrutamos de outras coisas, coisas que antes não nos
dávamos ao luxo. Nadar nas águas quentes do lago próximo, ficarmos abraçados em
frente ao fogo, quente e brilhante, enquanto a neve caia, lentamente e macia.
Dormir até a hora do almoço... eram coisas relativamente simples, mas que agora
adquiriam um aspecto magnífico, tal qual era o prazer de vivê-las. Estávamos
vivendo. Me passou pela cabeça sumir dali com ela, mas algo, aquele algo novo que
descobri em mim, me impediu de avançar no pensamento. Meu espírito de luta me
dizia para nunca fugir de uma briga. E era isso que eu estava fazendo. Ficando e
lutando.



                                                                                 26
Contei a Sho Win, que sorriu, para logo depois me beijar. Ficamos ali,
parados, observando a dança sinistra que as chamas da fogueira realizavam. Percebi
que não possuía mais predileção pela claridade ou pela escuridão. Eu não estava
mais só. Ao contrário, agora queria ser visível, pois estava feliz. A semana passava
rápida. Os dias eram comidos pela noite, que logo depois sucumbiam à força de um
novo sol. Passados 6 dias, voltamos para a casa central.

        Yoan nos recebera como um pai que recebe seus filhos depois de longa data.
Os demais nos cumprimentam, felizes. Parecia que tudo estava realmente bem. Lao
já estava podendo caminhar e iniciava seus exercícios físicos. A perna havia
cicatrizado, mas ele dizia que ainda doía um pouco, mas não o suficiente para
impedi-lo de nos dar algumas pancadas. Rimos. Ele voltava aos poucos,
progressivamente, assim como a barriga de Sho Win crescia. Passaram-se 5 meses.
Lao estava praticamente recuperado, em termos físicos. Era surpreendente ver como
ele fazia mais exercícios que o pedido. Ficava até a noite no bosque. Corria, saltava,
batia. Tudo igual ao treinamento inicial, mas só que com, no mínimo, o dobro de
intensidade. Voltava para casa e dormia profundamente. O dia nascia, e ele iniciava
tudo novamente. Nós o aguardávamos, treinando e avançando em técnica. Podíamos
lhe passar o que havíamos aprendido em, talvez, 2 meses. Isso o deixaria
equiparado a nós em pouco tempo. Era fantástico. Outra pessoa provavelmente se
acabaria com aquela perna, mas ele estava recuperado por completo.

       Voltou aos combates em pouco tempo. Ele apanhava mais, é claro, afinal
havíamos aprendido golpes que ele não conhecia, mas logo que os levava, ele os
assimilava.

- Ainda tenho a outra canela pra te bater! - gritava ele, e nos vencia com seu forte
golpe. Ele havia voltado.

       Sho Win parara com os afazeres domésticos a mando de Yoan, no que ele
chamava de período crítico, ou 9º mês. A barriga dela parecia que ia explodir!
Estávamos proibidos de fazer sexo a mais de dois meses. Obedecíamos Yoan
severamente. Ela vivia a se queixar de enjôos e dores nas costas. Mas continuava
alegre. Passeávamos durante o crepúsculo, sob o novo sol de primavera. Já haviam
se passado quase que seis anos. Ela estava mais bonita do que no dia em que a vi
pela primeira vez. Ela contava agora 24 anos, eu estava com meus 18.

       Um certo dia paramos próximos a um bambuzal. Os bambus ainda estavam
verdes e grandes. Eram numerosos, e belos. Sho Win os observava enquanto falava.

-   Eu tenho medo, Ling.
-   Medo de que?
-   Não me sinto bem...
-   Claro que não, olhe para sua barriga! - Nós rimos.
-   Não é só isso. Estou sendo um estorvo em sua vida.
-   Como ousa falar isso? Como ousa?!
-   Você não está trilhando o Caminho da forma que Yoan esperava.
-   Claro que não, com você eu o estou trilhando melhor.
-   Obrigada, Ling. Eu sei disso - fala ela. Eu não compreendo, mas não a questiono.
-   O que você sente? - pergunto eu.




                                                                                       27
- Eu não sei, é estranho. Sinto medo e ao mesmo tempo alívio. É como...como lutar,
eu acho. A luta é iniciada, e você tem medo de perder, mas quando termina a luta e
você ganha, você se sente aliviado.
- Sim, eu compreendo - digo a ela, sem realmente entender o que ela queria dizer
com todas aquelas palavras. Voltamos para a casa. A neve residual que o inverno
havia deixado ao início da primavera se iniciava. Entramos.

       Os dias seguintes foram recheados de neve. Parecia que o Inverno havia
voltado com toda sua fúria de encontro ao local. Treinávamos sob a nevasca sem
constrangimento. Ela nos testava, nos forçava. Era só mais um inimigo dentre
tantos. Mas foi ai então que o grito de Sho Win nos fez parar. Corremos para dentro.
Yoan a acudia.

- Tragam-me baldes de água e uma faca, rápido. Panos limpos fervidos em água
também!
- Sim! - dizemos a ele. Mas Yoan me repreende.
- Espere Ling. Você deve ficar comigo - Sho Win gritava de dor.
- Não será fácil, Ling, eu preciso de sua ajuda.
- Mas o que eu posso fazer!!! - grito eu sem compreender por que Sho Win sentia
tanta dor, e ao mesmo tempo indignado pelo fato de que nada podíamos fazer para
ajudá-la.
- Fique com ela, Ling - ela agarra minha mão com mais força que qualquer outro
homem jamais seria capaz de ter. Ela grita mais uma vez.
- Calma Sho Win, eu estou aqui... - sussurro em seu ouvido. Ela soa em bicas. Entre
seus dentes havia algo para não lhe permitir esmigalhar os dentes sob a pressão de
sua mandíbula, que se comprimia a cada novo espasmo de dor. Os demais chegam
com os materiais requisitados pelo mestre.
- Agora saiam.
- Mas mestre...
- SAIAM AGORA! - grita ele. Eles saem, menos Lyu. Ele observa.
- Saia, Lyu - diz Yoan.
- Eu ficarei pois tenho conhecimento médico, assim como você, Yoan - Eles se
calam. Sho grita mais uma vez. Lyu se aproxima - Gostaria de ajudar, se você
permitir - diz ele a mim. Eu lhe permito.
- Apenas ajude ela. Pare com a dor e traga meu filho - digo eu.

       Ele coloca a mão sobre a barriga de Sho Win e a aperta. Ela grita de dor. Eu
agarro a mão dele com força. Ele se desprende, e me olha sério.

- Não interfira, Ling! Isso tem que ser feito! - eu me afasto, chorando. Fazia muito
tempo que eu não chorava, e mais ainda chorar na frente de outros.

      A questão era que eu amava aquela mulher, e agora ela estava sofrendo. O
que eu podia fazer? Nada. Absolutamente nada. Apenas observar.

- Aqui, veja - diz Lyu para Yoan, que aperta a mesma área da barriga de Sho Win
que ele havia indicado. Ela gritava de dor.
- Sim, eu compreendo - diz Yoan.
- O que foi?! - pergunto eu, aflito.
- A criança está sentada dentro da barriga de sua esposa. Ele não vai sair desta
maneira. Temo que seja o fim.
- Como assim o fim? Ajudem Sho Win agora!!! Ajudem!!! - grito eu não querendo
compreender o que eles estavam querendo dizer. Eles continuam calados.



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- Há uma maneira, não usual, que aprendi a pouco tempo atrás... - diz Lyu.
- O que é? - pergunto eu.
- Consiste em espetá-la com várias farpas de bambu em pontos energéticos do
corpo. Podemos harmonizar desde respiração e batimentos cardíacos até amenizar a
dor.
- Isso resolveria? Salvaria a vida dela?
- Não, mas poderia nos permitir...
- O que?
- Abrir ela. Seria a única maneira de fazer com que a criança nasça.
- Abrir?
- Sim - diz Yoan - Se bloquearmos os plexos nervosos da região, poderíamos abri-la,
bloqueando para um nível mínimo o sangramento na região. Mas é arriscado. Tem
que ser feita de maneira precisa.
- Vocês podem fazer? - Sho Win grita mais uma vez, ao fundo.
- Não temos outra maneira. Deste jeito, ela e a criança morrerão. Se abrirmos, ela
poderá ter uma chance, e a criança nascerá, com certeza.
- Façam! Agora! - grita Sho Win.
- Sho Win... - digo eu, me aproximando.
- Ling, eu lhe amo! Eles tem que fazer isso , por favor ... façam!!! Não deixem o meu
bebê morrer!!! - fala ela, chorando.

        Eu permito. Eles se preparam. Lyu vai até o bambuzal e retira um grande
pedaço de bambu seco. Yoan retira uma garrafa de sakê de seu armário. Uma faca
afiada reflete a luz das velas em meus olhos. Várias farpas são colocadas por Lyu.
Sho Win aparentemente sofre o efeito, parando com os gritos e se acalmando.
Lágrimas rolam por nossos rostos. Mais farpas são colocadas na região abdominal
dela.
- Isto é o máximo que posso fazer, Yoan - O velho dá de beber a Sho Win.
- Agora teremos que cortá-la. Já passou do tempo do nascimento. Temos que ser
rápidos.
- Ling, pegue neve lá fora, encha um balde. Traga-o para nós - diz Lyu. Eu obedeço.
Quando estou na metade do balde, ouso um grande choro de criança. Entro
rapidamente na casa. Sho Win estava completamente desacordada, com um grande
corte em sua barriga. O cheiro de sangue era forte, e Yoan segurava meu filho, uma
menina. Lyu, por sua vez, segurava a barriga de Sho Win, tentando impedir a
abertura do rasgo.
- Não consigo conter o sangramento!!! - gritava ele. Eu derrubo o balde, em
completo estado de choque. Olhava para a criança e depois para Sho Win. Com uma
grande agulha de costura e uma linha, ambos fervidos em água, Lyu literalmente
costura a barriga de Sho Win após conter o sangramento. Ela permanecia
desacordada.
- Não nutra esperanças, Ling. Infelizmente, será muito difícil que ela sobreviva - diz
Yoan, segurando a menina que agora parava de gritar. Eu a olhava com ódio.
- Não! - diz Yoan me batendo no rosto - Não ouse odiar esta criança. Se quer odiar a
alguém odeia a si mesmo! A culpa disto tudo é sua, e dela! - diz ele apontando para
Sho Win, desacordada - Vocês o fizeram com tal intenção?! Não! Mas mesmo assim
sente a necessidade de culpar alguém por isso! Pois culpe a mim, a Lyu, a você e a
Sho Win, menos a esta criança. Entendeu?

      Suas palavras ardem, pois são a verdade. Eu aceito, e tomo a criança em
meus braços. Era linda, como a mãe. Me apaixono por ela instantaneamente. Mas
Sho Win ainda necessitava de mim. Deixo minha filha aos cuidados de Yoan, e vou




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ficar ao lado de minha esposa. Seguro sua mão, fria. Uma lágrima escorre de seus
olhos. Ali eu passo a noite.

                            ***********************

       No dia seguinte a neve continua forte. A criança também. Mas Sho Win não
acordara. Os treinamentos estavam suspensos, não tanto por nós, mas sim por
causa da grande nevasca que caía. Eu chorava o mais que podia, mas de nada
adiantava. Eu lhe pedia para acordar, se levantar, mas ela nada respondia. Ficava ali
parada, imóvel. Algumas horas depois, ela parava de respirar.

- SHO WIN !!!!! - gritava eu, enquanto que Lyu soprava ar para dentro dela e
massageava seu peito de forma estranha. Yoan me continha. Ali ficou por cerca de 3
minutos. Por fim, ele sai de cima dela, e pela primeira vez em minha vida eu vejo
meus dois mestres chorarem. Yoan, meu guia no Caminho do Tigre, e Lyu, meu
mestre no que ele havia intitulado, a pouco tempo, de Caminho do Dragão, uma
brincadeira com o verdadeiro caminho seguido. Sho Win, de olhos abertos, estava
estática. Ambos me olham seriamente, e deixam a sala. Ela havia morrido.

      Eu sabia disso , mas relutava em compreender. Lhe tomei a mão inerte,
agora mais fria do que antes. Sua boca entre aberta, os olhos estáticos e sem brilho.

- SHO WIIIIIIIIIIIN!!! SHO WIIIIIIIIIN!!! - gritava eu, chorando, e por fim abraçando
o corpo morto de minha esposa.

       Ela me deixara enfim. Me arrasto para fora, e mesmo no meio de toda aquela
neve eu vou até o lugar em que nos amamos pela primeira vez, meu local de
meditação. Choro e grito mais. Fico ali até perder a noção de tempo. Caio, exausto,
no chão. Ronin me encontra semi enterrado na neve, e me leva de volta para a casa
de Yoan. Eu não fui capaz de exprimir uma só palavra durante os próximos 7 dias.
Não saia de meu quarto, não ria, não comia junto aos outros. Só ficava em meu
quarto, eu e minha filha. Eu a chamo de Mai Win. Aparenta ser um nome otimista.

       Eu cuido dela em completo silêncio. Vez ou outra Yoan aparecia e me
ensinava algo para ajudar, como limpá-la, dar comida, estas coisas.

       Ao fim dos 7 dias a neve, enfim, cedera. Podíamos realizar o enterro.
Sepultamos Sho Win próximo à árvore em meu local de meditação. Eu poderia vê-la
todos os dias.

      Yoan diz algumas palavras e então entoa algumas preces budistas para ela.
Eu choro, com Mai em meus braços. Ela, ao contrário de mim, sorria. Confesso que
nunca a vi chorar sem ter sido em seu dia de nascimento. Todos vão embora,
somente eu e Mai permanecemos. As nuvens esburacadas permitiam vez ou outra a
passagem de raios de sol por entre suas fendas. Um grande raio de sol iluminava
exatamente o local de sepultamento em que estávamos.

- Sho Win, meu amor... não me deixe só... não agora - digo eu, baixinho - Não me
contenho e derramo mais lágrimas. Momentaneamente eu fico sério.
- Eu juro, sobre seu túmulo, que eu não deixarei de acreditar nas coisas em que
acreditava antes, em coisas que descobri junto com você. Eu ainda serei o maior
lutador que poderá existir em todos os tempos. Eu juro - Paro as lágrimas, olho para
Mai e me viro.



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- Adeus meu amor, me aguarde, um dia nos reencontraremos.

      Saio do lugar e vou para a casa de Yoan.

                       *****************************

        Adquiro um ar amargurado, mas no entanto maduro e seguro, como um bom
lutador tinha que ser.Yoan arrumara uma nova ajudante para a casa. Li Wong Pu era
nova, com seus 14 anos. Bonita, tímida e carinhosa, cuidava de minha filha
perfeitamente, desde o primeiro dia. Fazia comida, lavava roupas e tudo o mais. Era
tão boa quanto Sho Win, só que não era ela.

        O treinamento voltou normalmente logo após o dia do enterro. Não fui
poupado, o que achei muito certo e justo. Yoan me admirava. Estava satisfeito
comigo, pois não havia fraquejado como ele provavelmente havia pensado que eu
faria. Ao contrário, fui um forte. Me empenhava agora totalmente no treinamento, de
forma exagerada. Estava treinando até durante a noite. Logo os resultados estavam
aparecendo. Estava muito acima em termos técnicos de Lao e de Ronin. Já estava
me equiparando a Lyu. Começava a ganhar lutas dele. Estava ficando melhor a cada
dia.

       Mai iniciava a falar. Era a mascote da turma. Todos a adoravam. Ela falava
enrolado, de forma engraçada, e eu adorava. Brincava muito, e Li Wong era como
uma verdadeira mãe para ela. Passaram-se ai 18 meses desde a morte de Sho Win.
Já não me doía muito o fato. Ronin e Li se encontravam escondidos, assim como eu
e minha esposa fazíamos. Eu fico feliz, mesmo sabendo que o final poderia ser tão
ou mais trágico que o da minha própria história. Estou maduro, visivelmente
experiente. Minha fala e maneira é a mesma de um homem com o triplo de minha
idade. Eu era um guerreiro.

      Um dia, depois do treinamento, Ronin se aproximou de mim. Estava
meditando, assim como fazia no início, todos os dias.

- O que ha, Sakazama?
- Eu queria conversar, mas não sei sobre o que...
- Fale, apenas fale.
- Eu e Li Wong...
- Sim, eu já sei.
- Como?
- Esqueceu-se que comigo ocorreu o mesmo? Meus olhos vêem coisas que os demais
não são capazes de enxergar.
- Entendo. Ela não quer que eu seja um guerreiro após o treinamento.
- E você? Quer ser?
- Eu tenho o dever! Você não compreende...
- Faça-me compreender - digo eu, calmamente. Ele se senta na minha frente, aflito.
- O único que sabe desta história toda além de mim é Lyu. Agora eu vou contar para
você.
- Conte-a.
- Foi a 10 anos atrás. Eu estava apenas com 9 anos, mas me lembro de tudo muito
bem. Morávamos em Nagoia. Meu pai era um grande guerreiro, um verdadeiro
Samurai. Tínhamos um senhor, o qual meu pai jurou fidelidade e proteção. Proteção
extrema. Sabe o que isso significa para um Samurai? Ter que, se necessário, dar a
própria vida para a proteção de seu senhor. Se algo sair errado e o senhor morrer e



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o Samurai sobreviver, este se tornará um Ronin. Samurai desonrado e sem mestre.
Pois bem. O dever de meu pai, sendo um Ronin, seria o de se suicidar. Só assim ele
recobraria a honra perdida. Mas eu não tinha mais ninguém, e no final, ainda havia
minha irmã, Suury, com dois anos. Ele abandonou Nagoia, veio para a China e nos
criou. Agora eu treino com Yoan para poder vingar a morte de meu pai.
- E como Lyu soube de tudo isso?
- Por que foi ele que matou o senhor de meu pai, e posteriormente ele em si. Ele é
um assassino, Ling, não sabia disso?
- Um assassino?! Não pode ser, Sak. Ele devia ser tão novo quanto nós naquela
época!
- Sabe quantos anos ele tem? 25! Ele tinha 15 anos na época, e os ninjas assassinos
do JitSu se tornam mortais aos 12 anos. Ele já tinha 3 anos de experiência
assassina!
- E o que ele está fazendo aqui?
- Ele debandou do clã. Foi expulso.
- Por que?
- Achava que não estava ganhando o suficiente de seus mestres. Deixou o clan para
fundar uma ordem mercenária. Está aqui por duas coisas: ou quer nos reunir para
junto com ele sermos assassinos de aluguel ou está apenas trabalhando.
- O que? Ia levar 10 anos para matar uma pessoa?
- Não sei, Ling. Tudo o que sei é que ele é perigoso e está com segundas intenções.
- Por que você nunca fez nada?
- Oh, eu fiz sim. Antes de virmos para cá ele me revelou o mandante da morte,
tanto de meu pai quanto de nosso senhor. Eu o matei.
- Mas e Lyu?
- Ling, ele é apenas uma arma. É o trabalho do maldito. Eu não posso culpá-lo. O
verdadeiro culpado está morto a 6 anos. Podia ter sido qualquer um dos ninjas JitSu.
- Compreendo. Acha que está aqui para matá-lo?
- Não, se esta aqui para matar alguém só pode ser Yoan. Tem muitos inimigos e é o
único que levaria tanto tempo assim para ser morto. Acho que, no fundo, ele está
estudando também.
- Mas ele e Yoan se tratam de forma tão normal...
- Não questione os métodos de um ninja assassino, Ling... ele é uma cobra criada. -
diz ele se levantando.
- O que acha que devo fazer?
- O que você quer fazer, Sakazama?
- Reerguer o nome de minha família, ser um bom Samurai, limpar o nome de meu
pai...
- Você não tem que ser um Samurai para fazer isso, Sakazama. Para falar a
verdade, acho que você já o fez. Olhe-se! Seu pai teria orgulho do que você se
tornou - Ele se olha por um momento.
- Talvez... você tenha razão. Mas eu ainda não sei... o Caminho é tão difícil, do que
me valerá percorrê-lo se não lançarei mão do conhecimento posteriormente?
- Você pode tirar proveito dele mesmo sem ser um guerreiro. O equilíbrio e a paz
que você conquistar agora lhe servirão muito. Além do mais, se surgir um
imprevisto, você não irá necessitar de um Samurai contratado, pois será seu próprio
Samurai.
- Eu... não sei Ling. Eu tenho que pensar - Ele sai andando.
- Obrigado, Ronin.
- Pelo que? - pergunta ele parando, sem voltar seu rosto para o meu, assim como
eu.
- Por confiar em mim.




                                                                                  32
Ele apenas continua andando.


                             ********************

       No dia seguinte nosso treinamento com armas é iniciado. Facas, sabres,
bastões, e uma infinidade de outras coisas mortais estavam a nossa disposição.
Nosso treinamento se triplicara. Pegamos o jeito das armas bem rápido. Novos
golpes eram ensinados e ainda fazíamos exercícios físicos em uma intensidade
inacreditável. Os músculos chegavam a atrapalhar alguns movimentos. Mas logo nos
acostumávamos.
       Chegou então a hora de cada um escolher uma arma específica para
aprendizado total, ou seja, seriam nossas armas eternas, nossas armas de combate.
Seriamos verdadeiros mestres com elas.

       Lyu escolhe primeiro. Pega uma espada média, estilo japonês, de lâmina forte
e corte devastador. Segura, elegante, fatal. A arma de um verdadeiro ninja.

        Lao escolhe em seguida. Escolhe a Sai, mini espadas com espetos nas
extremidades dos cabos. Multiuso. Armas de corpo a corpo, de lançamento, de corte.
Fatais, super afiadas, discretas.

        Eu escolho uma arma estranha e aparentemente inútil: dois pequenos
cilindros de madeira unidos por uma forte corrente de ferro. Um Nun-Chako. Uma
arma japonesa rápida, pequena, forte e não letal.

- Por que escolheu esta arma? - pergunta Yoan.
- Por que a arma mais mortal que eu poderia ter eu já tenho: meu próprio corpo,
mestre.

       Esta era a resposta que ele queria ouvir e a que eu respondi sem pensar. Mas
eu estava mentindo, em parte. Se usada de forma correta, minha arma seria capaz
de neutralizar todas as demais. Não podia confiar muito em armas. Tinha que confiar
em mim. Minha filha observava, no colo de Li Wong. Eu ascendo, ela sorri, e esconde
o rosto.

      Ronin escolhe o bastão. Uma arma elegante, mas grande. Os maiores
mestres sempre o utilizavam. E ele é honrado o suficiente para empunha-la.

       Os dias passam lentamente. As noites são novamente agradáveis, a escuridão
me consola. Sou novamente um solitário, só que agora de coração marcado.
Sangrado pelo amor que teima em me recordar de tal dor e sofrimento. Eu costumo
chorar antes de dormir, e minha filha me observa. Eu nada falo, e ela então
compreende, apenas olhando para meus olhos úmidos. Enquanto todos dormem eu
medito, em busca da paz que perdi com a morte de Sho Win.

        Meu ódio estava novamente dominando meu equilibrado espírito de luta.
Estava mais poderoso, mais perigoso, porém mais cruel e triste. Deveria eu me
sacrificar de tal maneira? Acabar-me de tal forma para me tornar aquilo que eu nem
queria ser? A resposta veio com uma morte. Não poderia ter uma vida feliz.

      Não poderia ser aquilo que gostaria de ser. Meu destino está traçado, e
amaldiçoado. Devo me tornar o maior de todos para por fim ao meu sofrimento. Só



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assim... e minha filha, agora com seus dois anos, o que seria dela? O que seria dela
se soubesse que é filha de um... um monstro? Sim, foi assim que sua mãe me
chamara quando havia liberado toda minha fúria sobre Lyu. Um monstro. Ela não
deveria viver comigo. Esta era a questão.

        O dia nascera, meus olhos se secavam e minha arma se unia a minha mão.
Treinávamos até a exaustão. E assim foram indo os dias e os meses. Minha filha
crescia e se tornava uma criança esperta e observadora. Absorvia as coisas de forma
incrível, falava mais a cada dia e se mostrava inteligente e sensível, como a própria
mãe havia sido. Brincávamos muito, e não tivemos problemas durante muito tempo.
Porém, no andamento do treinamento, Yoan, ao se passarem exatos 7 anos e 6
meses, nos deu mais um dia de descanso. O penúltimo elemento deveria ser
vencido.

       Caminho eu e minha filha pelo bosque. Ambos andamos em silêncio. Ela
brincava por entre as árvores, despreocupada. Mas eu sabia o que nos aguardava
pela madrugada do dia seguinte. Deveríamos vencer a água ou o ar. Qual dos dois
seria? E como seria? Ficava cada vez mais e mais difícil, conforme evoluíamos no
caminho. Minha trilha era diferente da dos demais, mais tortuosa e, digamos,
perigosa. Não estava mais me preocupando em controlar o ódio em meu interior. O
liberava totalmente, e isso me deixava muito perigoso. Lyu me olhava com grande
respeito quando fazia isso. Yoan também. Eu me tornava um monstro.

       Ronin me observava com um olhar de pena. Sabia em que caminho eu estava
e sentia apenas pena, por saber o quão difícil era. Lao nem se importava. Minha filha
tinha medo de mim quando eu lutava. Dizia que não era eu. Era um demônio. Em
parte, ela estava correta.

                             *********************

        A madrugada chega. Acordo sozinho para o desafio. Faço meu próprio kati,
desenvolvido durante o Caminho, para alongar e relaxar a musculatura, além de me
acalmar e centralizar a respiração. Não estou nervoso, o que é novo para mim nesta
situação de teste fatal. Se fracassar, o caminho se encerra antes do previsto. Mas
tenho certeza que nem eu e nem nenhum dos demais vai fracassar, não hoje. Já
somos muito superiores aos demais alunos passados de Yoan. Só nos falta a reta
final. E nossa corrida final se inicia aqui.

        Visto-me em meu novo traje, que havia comprado na última visita à vila.
Todo negro, de um tecido leve e resistente. Botas comuns e minha arma. Saio do
quarto e já encontro Yoan a nos esperar. Ele me observa, seus olhos me vistoriam
como se eu fosse um estranho. Havia mudado tanto assim desde aquele dia em que
cheguei aqui? Sim. Mais alto, mais forte, mais maduro. Yoan me olhava como que se
estivesse temendo que eu lhe matasse. Eu o impressionara mais uma maldita vez.
Ele vê que eu compreendo seu olhar, e o desvia. Os demais chegam. O desafio teria
início.

      A mesma fogueira que marcava os desafios estava acesa, e ardia tanto
quanto as demais.

- Vocês deverão, hoje, enfrentar e vencer a água. O mais forte de todos os
elementos. E o mais persistente dos acólitos da natureza. Vocês devem ser capazes
disto, ou o Caminho deve ser interrompido.



                                                                                  34
- Diga-nos o que fazer, mestre.
- Sigam-me - diz ele, sinistramente.

       Nós vamos, então, para um lugar que nunca havíamos indo antes, por trás de
grandes pedras que ficavam amontoadas pelo lado noroeste de Shizu. Subimos as
pedras na escuridão. Um grande barulho de água correndo se fazia ouvir. Meu
coração, sem motivo algum, disparara. Havia ali uma corredeira muito grande,
derivada do pequeno rio que passava próximo à nossa casa, unido com outro que
nascia exatamente naquele local. Estrondosa era a visão que tínhamos sob a lua
cheia que fazia naquela madrugada. A força das águas nos intimidava. Era a primeira
vez que sentia medo desde a morte de Sho Win. A primeira.

      Yoan joga quatro pedaços de metal, de um tamanho praticamente igual ao de
um prato, dentro da forte correnteza.

- Viram aonde caíram os discos?
- Sim - respondemos.
- Então entrem na água e os tragam de volta. Um para cada um de vocês.

       O primeiro é Lyu. Dá um grande salto e mergulha. A água o leva por bons 20
metros. Ele afunda. Passam-se 10 segundos e ele emerge, próximo ao local onde os
discos estavam. Observamos. Ele mergulha mais uma vez após ser arrastado mais
um pouco para trás. Agora passam-se 10 segundos, 15, 20, 30, 35... 40. Ele emerge
dando uma grande golfada de ar. O disco não estava em sua mão. Ele submerge
mais uma vez ainda. Passam-se 1 minuto. Ele volta. Achara um dos discos. Entrega-
o a Yoan, de joelhos. Se arrasta para um lugar escondido e ali fica a tremer e a
respirar. Havia sido, sem sombra de dúvida, um grande esforço para ele. E para nós!

        Eu permanecia apreensivo, mas ignoro meus sentimentos e me apresento
então para ser o segundo. Mergulho. A água é gelada, extremamente gelada. Estou
em uma grande imensidão negra, não posso ver nada a minha frente. Mas sei onde
estão os discos. Demoro, mas enfim chego ao leito do rio. Pedras das mais
diferentes formas vão se revelando ao toque de minha mão. Eu tateio tudo, como
um cego. Meu ar esta acabando e a profundidade é de aproximadamente 3 metros.
Subo para respirar, e vejo que havia sido arrastado por bons 30 metros. Como
voltaria? Saio do rio e corro pela margem.

       Me jogo novamente na água e nado próximo à beirada, onde a força era
menor. Chego mais uma vez ao local, observado por todos. Mergulho, agora
preocupado com a correnteza. Busco algum objeto semelhante no cascalho do rio.
Nada encontro. Me levanto para emergir uma vez mais. E assim foi até a sétima vez.
Levanto com o disco em minha mão. Entrego a Yoan, e me retiro do local. Volto para
a casa central. Não há incômodos por parte dos demais devido a meu ato.

       O problema era que agora eu percebia meu verdadeiro problema: a vida
havia perdido o sentido, e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar tal
situação. Mesmo minha filha, que dormia silenciosamente em uma pequena cama ao
lado da minha, podia mudar tal agonia. Eu estava perdendo minha alma.

       Os demais voltam pela manhã. Todos haviam passado no teste. Estávamos
juntos ainda. Não sei por quanto tempo, mas estávamos. E passaram-se os dias,
cada vez mais rápidos e mais perigosos. Os exercícios não eram mais simulados ou
contidos como antes. Agora podíamos morrer fazendo o que fazíamos. Mas até aqui



                                                                                 35
ninguém morreu. Fomos feridos, sangrados, quebrados e humilhados, mas morrer
nós não morremos.

      Chegara a hora de combates entre os vários clãs da região. As áreas de treino
dos montes de Shizu seriam o palco dos combates. Nós quatro formávamos o clã
Yoan. Os demais clãs eram formados com no mínimo 8 lutadores treinados à
exaustão . Mas lutamos mesmo assim.

        Combates de mão limpa, era assim que eram definidos os combates em que
Sakazama e Lao participavam, por não haverem armas. Não é preciso dizer que foi
injusto. Cada um lutou com até 3 oponentes ao mesmo tempo e mesmo assim mal
foram tocados. Ganharam facilmente todas as lutas.

       Mas eu e Lyu estávamos nos combates armados. Eram perigosos e mortais.
Os lutadores sabiam dos riscos de morte e assim sendo tínhamos mais de um morto
por dia. Na primeira luta, Lyu enfrentou um grande e rápido aluno do clã Taowin.
Lyu desembainhou sua espada e seu oponente a sua. Eles avançam um em direção
ao outro. Lyu só desfere dois movimentos com a lâmina. Um desvia o golpe do
oponente, e o outro rasga o mesmo de cima em baixo, ocasionando uma grande
borrifada de sangue. Lyu se retira, silencioso, enquanto que os demais retiram o
corpo de seu oponente em convulsões de morte e dor.

       O próximo a lutar naquele tablado seria eu, e como eu agradecia por não ter
que lutar contra Lyu. Era evidente que nos treinamentos ele vinha se contendo, mas
agora, nas lutas, ele se soltara, e matar lhe parecia algo extremamente normal. Ele
não se emocionara nem por uma fração de segundos. Eu subo no local de combate,
e meu oponente também. Era uma pequena e jovem criança! Como eu poderia lutar
contra alguém assim? O combate é iniciado e a criança em si saca duas facas e parte
ferozmente para cima de mim. Ela é rápida, e antes de empunhar meu Chako ela me
corta profundamente no peito. Eu me jogo de lado, sangrando. Retiro minha arma e
a rodo rapidamente para lhe avisar que não estou para brincadeiras.

        Ela avança novamente. Eu só preciso de um golpe para mata-la. No centro da
cabeça, uma forte pancada com uma das extremidades de minha arma, e o barulho
de ossos sendo partidos é ouvido. O sangue brota, e o corpo inerte da criança cai ao
chão. Eu vencera. Os espectadores olham sem acreditar. Eu havia matado uma
criança! Somente Lyu me observa com admiração. Eu limpo minha arma e saio do
local. Eu havia matado uma criança! Mas ela teria me matado sem escrúpulos se eu
nada tivesse feito. Eu poderia imobiliza-la, desarma-la ou bate-la com um único
golpe, mas eu matei ela ao invés disto. E o engraçado... não me sinto mal.

                          *************************

        Os combates se encerram ao fim de 5 dias. Nosso clã, como sempre, sai
vitorioso, invicto. Mas o número de mortes supera em muito as expectativas. E não
havia sido Lyu o que mais matara, mas sim eu. Sete ao todo, dentre estes uma
criança e uma mulher. Yoan não me repreendeu. As lutas armadas tinham por fim a
morte do derrotado, e permanecer vivo era sinal de desonra e motivo para o
suicídio. Eles teriam morrido, se não pelas minhas mãos, pelas mãos deles mesmos.

        Os treinos haviam sido retomados. Eu estava mais perigoso. Lyu me disse
isso, olhando em meus olhos. "Vocês está igual a mim agora, Ling". Dormindo com




                                                                                  36
Mai Win em meus braços, sonho com Sho Win. Foi algo estranho. Nós conversamos.
Era como se ela estivesse ali, mais uma vez.
- Sho Win?
- Ling, escute...
- Sho Win, eu matei uma criança!!! – lhe disse chorando de culpa.
- Escute Ling. Este era o seu destino. Eu o estava atrapalhando, por isso morri. Você
deve ser aquilo no que está se transformando. Não se pergunte se é o certo ou o
errado, apenas seja aquilo no que está se transformando.
- No que eu estou me transformando?
- Ling, você deve deixar nossa filha, e partir para sua terra. Se torne naquilo que é,
e vá embora.
- Mas Sho Win... eu... - ela desaparece, e eu acordo. Mai Win dorme tranqüilamente
em meus braços.

       Por que eu deveria deixa-la? Ela ainda era a única coisa que me impedia de
ser um demônio. A não ser que meu destino seja exatamente este! Se este for meu
destino e ela permanecer comigo, me impedindo de continuar, ela morrerá, assim
como a sua mãe! Isso me assusta. Não poderia permitir que minha filha morresse
por mim, mas por outro lado não desejo me tornar um demônio, um assassino sem
clã. Chego a conclusão de que não devia me preocupar com isso, e volto a dormir,
agora sem sonhar.

       Chegávamos ao último ano de treinamento. Mai Win tinha seus quatro anos e
eu os meus 22. Largamos as armas. Largamos o treinamento. Nos reunimos em
torno de Yoan, velho e acabado. Escutamos com atenção o que ele nos diz.

- Eu já lhes ensinei mais do que eu sabia. Porém ainda existe uma coisa, algo que
me foi passado e que prometi só revelar para aqueles que se mostrassem dignos.
- O que é, mestre? - pergunta Lyu, pela primeira vez se dirigindo ao mestre de
forma polida.
- Trata-se da mais bela, e mortífera, forma de luta que possa existir. Com um único
golpe você pode matar uma pessoa. Não um golpe forte, mas um golpe rápido, e no
local certo. Ninguém em toda a China sabe desta técnica. E eu irei lhes passar tal
conhecimento. Só assim vocês poderão ser aquilo que eu planejei fazer. Vocês serão
deuses. O próprio Imperador os temerá, mas deverão servi-lo. Lembrem-se do que
eu lhes ensinei até aqui. Será vital para que não caiam no abismo sem fim que terão
que atravessar.
- E qual é este abismo? - pergunta Lao.
- O do poder supremo, Lao. Vocês terão o poder supremo. É dever meu fazer com
que não caiam nas ilusões de poder. Vocês devem seguir minhas palavras, e seus
corações.
Concordamos firmemente. Não sabíamos direito o que seria cair no abismo, mas
entendemos que não deveríamos nos superestimar. O poder corrompia a mente, e é
nessas horas que temos que saber ouvir nossos corações.

       Partimos para as galerias escuras logo abaixo das montanhas Shizu. Lá
somos iniciados e mestrados na secreta técnica de Yoan. Era realmente fatal. Os
pontos de energia do corpo estavam bem a mostra. Mas um golpe qualquer não
funcionava. Era necessário algo extremamente apurado. Velocidade, área de toque e
forma com que se dava o golpe eram fundamentais. Mas não foi como das demais
vezes. Somente eu e Sakazama assimilamos a técnica. Lyu e Lao não tiveram sorte,
e permaneceram ignorantes quanto a ela. O treinamento havia acabado. Houve um
grande silêncio entre nós. Yoan, enfim, fala.



                                                                                   37
- O Caminho está trilhado. Vocês se tornaram os Tigres que caminhavam a trilha da
sabedoria. Só lhes resta uma última porta para abrirem, e enfim encontrarem o que
os espera no final: vocês mesmos.
- Devemos enfrentar o ar, mestre - digo eu.
- Sim, só então vocês terão completado seus Caminhos. Só então vocês serão
mestres.
- E o que devemos fazer, Yoan? - diz Lao.
- Eu não tenho como lhes dizer. O desafio é diferente para cada um.
- Então nos diga o que devemos fazer!
- Pois bem. O ar é um elemento vital, assim como os demais que vocês enfrentaram.
Mas ao contrário dos demais, vocês não podem ver o ar, pois o ar está em todos os
lugares. Vocês são o próprio ar que devem vencer. Devem vencer-se, e isso é difícil,
devido ao grau de sabedoria que possuem agora. Devem encontrar um meio de se
desafiarem, e se vencerem, caso contrário nada serão a não ser eternos aprendizes.
Partam agora, e não mais voltem aqui. Nunca mais no veremos - ele diz, seco.

       Compreendemos suas palavras e buscamos nossas coisas. Nos unimos em
frente à casa. Li Wong Pu estava ao lado de Sakazama. Partiria com ele. Eu estava
com minha filha em meus braços e Lao observava pela ultima vez o nascer do sol
naquelas montanhas. Eu observava meu local de meditação, sabendo que agora eu
devia saber como carrega-lo dentro de mim. E eu sabia como.

       Foi neste instante que ouvimos o barulho de uma espada sendo
desembainhada. Corremos na direção do ruído, e vemos Yoan morto, degolado, e
Lyu, coberto de sangue e com a espada em punho, arfando, observando o corpo
decapitado ao chão.

- Minha tarefa enfim está cumprida! Posso voltar para meu clã em paz. Ele morreu
com honra - diz ele, limpando o sangue da lâmina da afiada espada.
- O que você fez, Lyu!? - grito eu.
- Apenas o que tinha que ser feito. Eu me testei, e passei. O único meio de
completar meu treinamento seria matando meu próprio mestre. E foi isso que eu fiz.
- Pois agora será meu teste também, mestre! - digo eu.
- Você ainda trilha o Caminho do Dragão, Ling. Não será capaz de me derrotar! - diz
ele levantando a espada em minha direção. Ele se assusta, pois vê mais uma vez o
ódio nascer dentro de mim e me possuir como um demônio.
- Mas eu já trilhei o Caminho do Tigre, Lyu. E ambos os caminhos terminam em um
só lugar: sua morte. Me tornarei o mais completo após matar você, monstro!
- Ling, não me obrigue a mata-lo. Eu me contive até hoje em todas as lutas que
tivemos...
- Surpresa! Eu também! - digo, dando minhas coisas e minha filha para Ronin, que
observa. Lao e Li observam também.
- Saiam todos daqui - digo eu em tom fúnebre.
- Mas e sua filha? - pergunta fortemente Sakazama.
- Agora é sua filha. Cuide dela para mim, amigo. Eu lhe peço, por Sho Win. Ela ficará
melhor com você do que comigo.
- Como sabe?
- Eu apenas sei qual é o meu destino. Vá agora! E nunca mais me procurem. Não
importa se morrerei ou não, pois sou outro homem. Vão!!! - grito eu. Eles
obedecem. Eu e Lyu não havíamos nos tirado os olhos um do outro. Estávamos
completamente voltados para a luta mortal que se iniciaria. Eu pego minha arma. O
corpo de Yoan permanece no local.




                                                                                  38
Ficamos apenas nos estudando, por cerca de 10 minutos. Lyu parte com um
golpe indefensível, que o demônio que me possuía agora consegue desviar e ao
mesmo tempo proferir um golpe contra a nuca de meu oponente, que se vira
rapidamente com outro golpe de espada. Agora um corte raso é aberto em minha
garganta, de onde o sangue brota mediamente. Não havia rompido a artéria. Eu dou
3 mortais para trás, e me ponho já em posição de ataque. Mas neste exato momento
Lyu voava para cima de mim. Eu lhe aplico um golpe de perna, alto, o que lhe
quebra algumas costelas. Ele cai e se levanta imediatamente.

       Eu parto em ataque, desviando de dois golpes rápidos dele e em seguida
prendendo seu pulso na corrente de meu Chako, para logo após quebrá-lo. Com a
outra mão livre foi fácil para ele acertar um golpe em minha cabeça, o que me faz
cambalear e cair, para logo após levantar. Ele parte com a espada para cima de
mim, desarmado. Ele profere o primeiro, o segundo e o terceiro golpe, dos quais eu
desvio agilmente. O quarto me atravessa a perna. Sem escolha, eu seguro a mão
dele, o obrigando a ficar com a espada em minha perna, e então lhe aplico um golpe
no plexo energético logo abaixo do coração. Ele morre instantaneamente.

       Retiro a espada de minha perna e rumo para a casa de Yoan, deixando ambos
os corpos no local. Me cuido com algumas ervas específicas que nos havíamos
aprendido a usar. Depois faço um curativo com torniquete e volto para pegar os
corpos. Yoan eu enterro ao lado de Sho Win.

- Que ambos descansem em paz.

       O corpo de Lyu eu arrasto até a vila próxima a montanha. Deixo-o lá. Os
JitSu saberão o que fazer se o acharem. Eu parto, rumo ao horizonte desconhecido,
certo de que não havia desafiado o ar ainda. Minha própria vida seria meu desafio.
Permanecer vivo e cumprir com meu destino seria meu teste final para meu
aprendizado, pois só no dia em que eu morrer deixarei de aprender algo. Eu,
decididamente, era um mestre.




                                                                                39
FIM DO TREINAMENTO




                     40
PARTE II - A VIDA DE UM GUERREIRO
       A chuva aparenta ser mais áspera que o normal. A noite torna tudo mais
acolhedor. Estou próximo dos domínios de nosso senhor, Golki. Minha família mora
nestas propriedades. Era na verdade um grande feudo, repleto de gente, mas agora
estava deserto. Caminho até a morada de minha família. A casa estava arruinada.
Relâmpagos revelam a presença de alguém dentro dela. Não posso crer, mas mesmo
em tais condições alguém ainda morava naquela morada.

       Eu entro. É uma mulher, jovem. Me olha como se eu fosse matá-la. Olha para
minha perna, que ainda sangrava. Eu caminhava dificilmente, e estava andando
haviam duas semanas. A observo, ela se afasta, apenas chorando. Em seu choro
relembro algo de minha infância. Tratava-se de minha irmã mais nova, a única filha
de meus pais. Estava totalmente abusada, com as roupas rasgadas e marcas de luta
por seu corpo.
- Tao Li! Sou eu, Ling!!! - ela não me reconhece, e nada fala. Apenas arfa e se
afasta. Alguém vem se aproximando, ao longe. Posso sentir seu cheiro, ouvir seus
pés roçarem o chão e senti-lo deformar a chuva que cai lá fora. Eu me escondo.
Entra um homem de meia idade, com uma bolsa. Eu lhe imobilizo facilmente.
Ficamos ali parados, enquanto que minha irmã observa.
- Quem é você? - pergunto eu.
- Sou Chon Wong. - diz ele com dificuldade para respirar. Era meu irmão mais velho.
Eu o solto.
- Quem é você, forasteiro?
- Não lembras mais de seu irmão, "Chon Chon"?
- Ling? ... n... não pode ser, seu bastardo!!! - grita ele me abraçando e rindo.
- Você conseguiu! Conseguiu! Seu maldito, você voltou vivo, mas o que é isso em
sua perna?
- A fase final de meu treinamento. O que houve por aqui? Onde estão nossos pais?

      Sua feição muda de completamente feliz para a mais arrasada depressão.

- Ling, passaram-se 10 anos, irmão. Veja só você, está um homem! Você está com
alguma garota?
- Eu... estou viúvo - ele me olha com admiração.
- Eu sinto muito.
- Onde estão nossos pais, Chon?
- Veja só nossa irmã, Tao Li. Coitada! Foi violentada pelas tropas do Golki e depois
surrada. Eu implorei para que a poupassem, e também apanhei - diz ele levantando
sua camisa e mostrando vários hematomas recentes - Eles vem aqui todos os dias. A
usam e nos batem, em troca permanecemos vivos!
- Chon, algo está errado. Não era assim, Golki era uma pessoa justa! Não permitiria
que seus acólitos fizessem tais coisas!
- Eles se apresentam como sendo enviados de Golki, mas sabemos que Golki morreu
a 4 anos. Não sabemos quem são eles, mas sabemos que estão dominando toda a
região!

      Eu olho para Tao Li. O ódio me entra novamente pelas veias.

- Onde estão os outros, Chon?
- Estão mortos. Todos mortos.




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Eu simplesmente abaixo a cabeça e choro, silenciosamente. Seria possível
tantas desgraças em uma só vida?

- Nosso pai foi o primeiro. Ele ainda lutou contra alguns deles, mas foi atingido
certeiramente por uma flecha disparada ao longe. Depois foram tombando, no
decorrer dos meses, os demais. Só restam nós.

        Eu me controlo e paro de chorar. Me levanto, e minha perna dá uma grande
fisgada, dolorida. Eu não podia lutar contra eles naquelas condições. E tinha que sair
dali o mais rápido possível, caso contrário seria massacrado como os demais.

- Temos que sair daqui agora, Chon. Arrume suas coisas e as de Tao Li.
- É tarde, Ling. Eles estão vindo para cá, viram alguém entrar aqui, você!

       Eu sinto a área e confirmo a afirmação dele. 6 homens grandes vindo na
direção da cabana em que estávamos. Eu me jogo para fora da cabana, e fico abaixo
da janela, do lado de fora, na escuridão. Os homens entram, Tao Li grita.

- Onde está o estranho?! DIGA!!! - grita o líder, batendo fortemente em Chon. Ele
resiste bravamente.
- Não tem ninguém aqui!
- MENTIRA! ONDE ESTÁ?!! - diz ele cortando Chon no peito. Eu observo tudo. Chon
nada diz.
- Vamos lá! Matem-me! Canalhas! - Seu pedido logo é atendido.

        Eu vejo meu irmão morrer dolorosamente na minha frente. Logo depois
minha irmã é levantada do chão, tem suas roupas totalmente rasgadas e então é
violentada por cada um dos 6 homens, que riem, cospem nela e, por fim,
atravessam-lhe o coração com uma espada. Eu prendo o grito que queria tanto
soltar, e as lágrimas escorrem, se misturando à água que caia farta de minha
cabeça.

       O ódio se transforma em algo difícil de se descrever. Eu me arrasto até o
quintal da casa, enquanto eu os homens saem pelo outro lado, indo embora. Eu
choro ali até adormecer. A dor que sentia era algo estranhamente novo. O ódio
crescia quente e forte, e ia me dominando cada vez mais e mais. Eu queria matar a
todos aqueles homens, mesmo ferido como estou seria deliberadamente fácil, mas
tenho que me manter anônimo e pegá-los, todos, de uma única vez.

                         ****************************

       Amanhece, e eu encontro os corpos de meus irmãos caídos ao chão. Nada
mais certo do que enterrá-los. Eu não rezo, mais faço uma promessa, de vingança.

        As ervas que necessitava eu achava facilmente pelas redondezas. Permanecia
fiel a minha rotina diária de treinamento físico e técnico, mesmo com a perna ferida.
Ao fim de 3 meses , durante os quais eu permaneci completamente escondido, eu
me recupero. Empunho a arma que usara na luta contra Lyu, e também sua própria
espada. Não, ainda não era a hora do combate, a hora da morte dos monstros que
estavam dominando a cidade. Eu me apresento a todos como um novo comerciante,
e passo a poder andar livremente pelas ruas da cidade durante o dia. Logo me
permitem usar uma casa, e eu já faço parte da comunidade. Ninguém, nem os mais




                                                                                   42
velhos, se lembram de mim. Mudado, diferente. Era assim que eu estava. E com
ódio. Não podia me dar ao luxo de ter piedade em um momento deste.

       Procuro saber o que realmente estava ocorrendo na cidade. A 7 anos um
grupo de assassinos chegou com a intenção de servir a Golki. E assim foi. Porém,
grandes boatos de que Golki fora morto por tais assassinos foram ouvidas durante
algum tempo. Mas logo após foram desmentidas. Porém, ninguém nunca mais viu
Golki desde aqueles comentários. Ou Golki havia enlouquecido e permitido a loucura
que imperava agora na cidade, ou havia sido morto e os assassinos controlavam
tudo em seu nome, e de qualquer forma não havia nada que se pudesse fazer.
Guardas de Golki logo me acham, me interrogam sobre quem sou, de onde vim e
para onde vou. Tiram sarro, batem em mim e vão embora. Eu não reajo. E assim foi
por vários dias. Recuperado completamente, era chegada a hora de minha partida,
mas não sem antes minha vingança.

       Entro na casa principal de Golki, disposto a tudo para acabar com toda aquela
insanidade sem sentido. Os portões estão estranhamente abertos. Não temiam nada
por parte das pessoas do feudo. Eu entro, sorrateiro. Nada a minha frente para me
impedir. Eu atravesso o pátio principal, e quando estou prestes a chegar a entrada
da casa, um grupo de 5 homens me avista e me cercam.

- O que faz aqui, camponês? Não pode entrar!!! - diz um deles, gritando.
- Desejo ver Golki, agora - digo eu, friamente.
- Golki repousa agora, forasteiro diz um deles, que havia me importunado dias atrás.
- Eu vou entrar nesta casa agora e falar com Golki. Não me perturbem - digo eu,
passando por eles.
- Você vai morrer, homem! - grita o maior deles avançando ferozmente para mim.

       Foi uma visão extravagante. Eu uso a força dele mesmo para derrubá-lo. Ele
cai sem entender o que havia ocorrido na verdade. Os outros olham, cautelosos.
Nunca tinham sequer ouvido falar em um movimento parecido com o que eu havia
acabado de fazer. Porém, após o grandão se levantar, todos partem para cima de
mim. A cena me lembra muito a aquela em que eu bati em vários garotos que
importunavam a mim e a Sho Win na vila próxima aos montes Shizu. A minha
superioridade naquela época perante aos garotos era muito menor do que a que eu
possuía agora em relação a estes homens.

        Um golpe certo e o sangue brota das cavidades nasais de um, que se afasta
para tentar compreender o que havia ocorrido. Neste tempo eu bloqueio a traquéia
de um com um soco fechado, e perfuro os pulmões de outro, aplicando um chute
lateral devastador em suas costelas, as partindo e provocando a perfuração. Ele
cospe sangue quente e grosso, e perde a consciência. Um quarto homem me ataca
pelas costas, eu desvio e me afasto em um único salto. Me armo com meu Chako.
Fraturo o crânio do homem, como havia feito com minha primeira morte, a de uma
criança, a pouco mais de 2 anos atrás. Parto o pescoço do que agonizava sem
respiração devido ao bloqueio da traquéia. Quatro já estão mortos em menos de 20
segundos. O primeiro, com seu sangue correndo farto de seu nariz, olha, sem
acreditar. Eu pego a espada de Lyu e o degolo sem permitir que ele implore. Todos
mortos, sangue abundante pelo chão e por minhas roupas. Eu entro na casa.

       Não havia ninguém do lado de dentro. Eu me esgueiro pelas verdadeiras
avenidas que haviam no interior. Me pergunto de onde poderia ter vindo tanto
poder, mas não me aprofundo na procura por respostas. Eu entro cada fez mais na



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casa. Até observar uma sala, repleta de guardas. Os que haviam matado meus
irmãos estavam lá, mas tinham ao todo cerca de 30 homens no local. Eu ajo por
emoção, e entro na sala. Todos estavam conversando e de início não me notam. Eu
desembainho a espada. Todos se calam, e se voltam para mim. Um silêncio
aterrorizante domina a sala por quase um minuto. Eu, imóvel, olhando a todos,
coberto de sangue; eles, comendo, bebendo, agora paralisados por um motivo tão
secreto que nem eles ao certo sabiam. Iniciam uma grande gargalhada. Não crêem
que eu pudesse ser ameaça para nem ao menos para um deles. Um dos que haviam
violentado minha irmã e matado ela e meu outro irmão na minha frente, se levanta,
rindo.

- Você deve ser realmente perigoso, não é, pequeno ninja? - todos riem com ele.
- Se você for capaz de me acertar com um único golpe, eu permitirei que saia daqui
com vida - diz ele se aproximando. Na verdade ele era enorme, passava minha
altura em mais de quarto palmos. Ele se põe à minha frente, para, e grita:
- ACERTE-ME, SEU MISERÁVEL! - todos olham com certo olhar de pena para mim,
era evidente que se tratava do melhor de todos eles.

       Eu obedeço. Dou um único e fatal golpe mortal em um dos pontos que Yoan
havia ensinado em sua técnica secreta Jet Chi. Ele cai morto, instantaneamente, sem
ter compreendido ao certo o que havia ocorrido. Ninguém mais na sala, a não ser
eu, sabe o que foi. Todos param de rir. Olham o grande soldado morto no chão e
depois olham para mim. Eu não dou tempo de reação a eles, estava disposto a
matar a todos na sala, e foi isso que eu fiz.

      A espada já estava com seu fio a mostra, e antes que eles compreenderem
que devem lutar por suas vidas, mais 6 homens tombam ante a lâmina mortal que
eu empunhava. Um único golpe foi necessário para tal feito. Estavam todos
amontoados, o local era apertado. Isso facilitaria as coisas. Alguns pegam suas
espadas, para logo após verem suas mãos decepadas e o sangue jorrando
fortemente. Eu bato em alguns antes de lhes perfurar o coração, ou cortar-lhes a
cabeça ao meio. O ódio havia me dominado por completo. Não era eu, era o
demônio.

       Cinco minutos de luta, 32 mortos, e um único sobrevivente, eu. Fora alguns
socos, chutes e um 3 cortes leves, eu saio ileso. Totalmente coberto pelo sangue de
meus inimigos, eu adentro em outra porta. Quatro fortes homens me observam,
todos sentados em uma mesa, enquanto que eu me aproximo. Eu me ponho a frente
deles.

- Vocês são os homens que mataram Golki? - pergunto eu de forma sombria.
- Sim - responde um deles.
- Vocês são os responsáveis pela morte de minha família! Golki jamais teria
permitido tamanha atrocidade em suas terras!
- Você é o filho de Wong? Antes de eu mesmo o matar, o maldito falou que você
voltaria e nos mataria. Quanta tolice...

       Eu estava exausto. Nunca havia lutado tanto em tão pouco tempo. Eu os
escuto.

- Vimos o que fez com os guardas, pequeno Wong. Mas nós somos assassinos do
mesmo grau que os do clã JitSu, ou do clã Yiang. A questão é: você será capaz de
nos matar juntos?



                                                                                 44
- Eu matei o melhor assassino do clã JitSu.
- Bobagem! Quem era ele?
- Meu segundo mestre.

       Eles se calam, e partem para cima de mim. Eu estava verdadeiramente
cansado, mas bloquear os golpes que eles desferiam era fácil. Eu salto para longe,
para logo depois voltar. Surpreendo-os por jogar minhas armas fora.

- Acaba de cometer suicídio, pequeno Wong! - grita um deles pulando em minha
direção, vindo pelo alto.

        Exatamente como com Lyu. O derrubo da mesma forma. A coincidência me
faz rir. Os quatro assassinos me olha, com respeito, mas continuam a me atacar.
Eram muito superiores aos guardas que eu havia acabado de matar, mas não eram
nada comparados a Lyu, a mim ou aos demais. Não compreendo como meu pai pode
ser morto por eles. Seriamos tão superiores aos demais alunos de Yoan como ele
mesmo havia dito?

       Um golpe forte em meu rosto e outros 5 em seguida pelo resto do corpo me
fazem lembrar das palavras de Lyu em um treinamento. Ficar pensando muito em
um combate poderia me levar à morte. Mas o demônio que habitava em mim não
permite, e eu reajo. Dois dedos são enrijecidos. Um toque forte no ponto exato, e
um dos quatro assassinos tomba, morto. Os demais param, e observam. Nunca
haviam visto um homem morrer mediante um único golpe. Ali eles compreendem o
que estavam enfrentando.

       Imploram por clemência. Eu os mato violentamente, um a um. O sangue
deles escorrendo por meus braços e minhas mãos, caindo ao chão. Um sorriso
incompreensível toma conta de meu rosto. Eu gargalho. Todos naquela casa estavam
mortos. Eu matara mais de 40 homens em menos de 20 minutos, e gargalhava, com
o sangue me cobrindo o corpo. A morte me adotara como seu arauto.


                            **********************

       Eu conto ao povo o que havia ocorrido. Que não existiam mais donos ou
senhores naquelas terras, e por isso seriam tempos de guerra pela posse de tal
herança sem dono. Todos me olham, assustados e com orgulho. Sabiam já que eu
era Ling, filho do agricultor Wong. E sabiam no que eu havia me tornado. Não havia
mais como impedir. Minha fama correria por toda a China. Eu seria conhecido como
o mais sanguinário de todos os guerreiros. Eu seria odiado e adorado, respeitado e
desafiado, homenageado e humilhado aonde quer que eu fosse.

       Ainda banhado em sangue, eu me retiro do local. As pessoas, perplexas, não
compreendem o que deveriam fazer de suas vidas agora que não tinham a quem
temer. O caos iria imperar por todo o feudo até outro senhor tomar todas aquelas
terras, e reiniciar o ciclo mais uma vez. A notícia de que os feudos estavam
acabando, dando lugar a cidades, e todos obedecendo um único senhor , fazendo um
gigantesco feudo, algo como um país, não impressionava o povo dos domínios do
morto Golki. Eu me banho com a água do poço da propriedade de meu pai, e parto,
mais uma vez, para o desconhecido. Rumo ao que o amanhã me trás.




                                                                                45
Um saco contendo o pouco que tinha e minha roupa escura me acompanham.
Eu caminho vagarosamente, enquanto sinto os olhos do povoado a me observar. Eu
vou me afastando, pouco a pouco, até sentir novamente a solidão que me fez adorar
a escuridão. O demônio estava dormindo mais uma vez.

       A noite chega, mais uma vez. Ela devasta toda a luz, e só teme ao fogo de
minha fogueira, que acabo de ascender. Os ventos cortantes não me incomodam
mais, estava acostumado a ficar sob a neve durante os invernos. Nada mais sinto.
Abro minha mente, e me vejo mais uma vez no lugar em que eu tanto passava meu
tempo. O barulho das águas da cachoeira a minha frente, a pedra a qual estou
sentado, a árvore ao meu lado... posso sentir o cheiro da grama e ver as estrelas,
tão próximas, que penso ser possível tocá-las.

       Estico a mão, sem nada tocar. Mais uma vez estou no lugar do qual não
deveria ter me separado nunca. Olho mais para trás e vejo as sepulturas de pessoas
importantes. A mais importante de minha vida, morta tragicamente por nosso amor
desenfreado. A outra, morta por um traidor, um assassino, tal qual sou agora.

       Ao me lembrar no que havia me tornado, eu desperto. Já é manhã. O garoto
teimoso e fraco que era não existe mais. Agora sou só um maldito assassino. O que
será de minha vida? E que vida? Passar o resto dela a matar pessoas, ou ser caçado
como um animal, como um monstro? Sim, era um demônio agora. E mesmo contra
minha vontade, eu deveria agir como um demônio o faz. Mas ainda havia algo que
me impedia de ser de todo mal. Era meu destino, isto estava certo. Mas não podia
deixar de lembrar de minha filha. Eu ainda a amava tanto... e isso me impedia de
me tornar o que era na verdade. Só haveria uma maneira de vencer tal obstáculo:
Matá-la. Seria meu teste contra o ar, o qual me atormenta até agora. Passaram-se
menos de 6 meses malditos mêses, e eu já mudei tanto... será que este realmente
seria meu destino? Ser mau?

       Sim, o era. Definitivamente eu deveria matar minha filha. E o mais rápido
possível. O Ronin era o único além de mim, em toda a China, que possuía o
conhecimento da arte fatal de Yoan, o Jet Chi. Se ele ensinar o caminho do Tigre
para a criança, matá-la tornaria-se tão difícil no futuro quanto matar a mim mesmo.
Eu deveria achá-los, e vencer, enfim, o ar.

      Me levanto, e parto. Como saberia onde estariam eles? Sakazama, Mai Win e
Li Wong poderiam ter cruzado as fronteiras da China, poderiam estar na Mongólia,
ou em qualquer outro lugar. Estávamos próximos a uma zona de fronteiras. As
Muralhas estavam visivelmente longe. Deveria achá-los, mas os fazer me achar
também seria algo apropriado. A caminho dos montes Shizu, eu passo pela vila onde
a mãe de Sho Win morava.

       Me passou pela mente a possibilidade de haverem outros da família de Sho
Win vivos. Era muito provável que existissem irmãos. Mas a busca seria inútil. De
nada adiantaria. Eu já sou um escravo do demônio do ódio, uma arma da morte.
Nada poderia me trazer de volta do abismo. O abismo... Yoan nos falara antes de
morrer. Tomar cuidado com o abismo. O poder corrompe a mente, devemos saber
ouvir nossos corações. Eu choro, em plena praça central. As pessoas param para me
ver. Alguém me pergunta se está tudo bem comigo.

- Agora está, obrigado - digo eu, me levantando e saindo. Eu havia perecido. Não
estava escutando meu coração. Minha mente fora corrompida pelo poder. Eu era,



                                                                                 46
sim, o maior lutador que existia, mas não estava seguindo o demônio do ódio e nem
era escravo da morte. Eu estava sendo escravo de meu próprio desejo! E escutando
meu coração eu me libertara das correntes que havia posto em mim mesmo. Era
novamente o homem que Sho Win amava. No meu sonho ela me dizia que estava
me atrapalhando, e que eu deveria me tornar no que eu era na verdade. Não, eu
não deveria ser um assassino. Eu deveria ser um homem. E fora nisto que eu me
tornara. Venci a mim mesmo, mostrando-me mais forte que meu ódio, mais forte do
que eu mesmo. Eu havia me vencido. Havia vencido o ar. Eu finalmente havia
terminado meu treinamento. Eu estava completo.


                            **********************

      Passaram-se alguns meses desde o ocorrido. Eu e Li Wong, juntamente com
Mai Win, a qual adotamos como filha, finalmente chegamos à casa de meu pai.
Suury desmaia de emoção ao ver-me vivo. Haviam-se passado anos e anos desde
que havia partido, prometendo se tornar o maior guerreiro que poderia existir.

- Você voltou, Sakazama! Nosso pai será honrado novamente!
- Sim Suury.
- Você é o melhor guerreiro que existe? - pergunta Suury. Eu nada falo, apenas me
distancio, entrando na bela casa da qual ela cuidara durante todo este tempo.
- O que houve, afinal?
- Existe outro... - diz Li Wong.
- Quem é você? A mulher dele?
- Sim.
- Esta é a filha de vocês? - diz ela, se aproximando e brincando com a garota, que
sorri.
- Não - diz Li Wong - Esta é a filha de Sho Win e Ling Wong, o maior guerreiro
dentre todos.
- Por que ela está com vocês?
- Ling deveria seguir seu próprio caminho. Fez o correto. Um dia ele retornará para
buscá-la, acredito.
- Eles eram inimigos? Meu irmão e Ling?
- Não. Eram, na verdade, grandes amigos.
- Então por que a tristeza em seus rostos?
- Não sabemos se será ou não Ling que virá buscá-la.
- Como assim?
- Sakazama me falara, durante nossa viajem. O caminho de Ling seria tortuoso se
sobrevivesse. Ele estava lutando contra outro aluno, Lyu, que matara o mestre Yoan.
Não sabemos quem verdadeiramente ganhou a luta, mas se foi Ling, dificilmente ele
atravessará o abismo sem cair.
- Abismo, que abismo?
- Esqueça Suury. Venha, mostre-nos os jardins da casa!
- Sim, venham! Venham! - falava e ria Suury. Eu observava as duas da janela.

       Minhas esperanças eram as de que Ling sobrevivesse não só a Lyu, mas
também a si mesmo. Seu coração, tão marcado pela dor e pelo ódio, o tornariam
demasiadamente poderoso. Restava saber se ainda restaria algo de humano nele.
Ling seria um assassino perfeito. Espero que ele tenha forças para controlar o
demônio que cada um de nós carrega dentro de si.




                                                                                 47
Mas devo me aprontar. Em breve teremos que partir. Retornar ao Japão será
algo difícil, mas devemos tentar. E assim foi-se passando o tempo. A notícia de uma
grande matança em um feudo distante por um só homem, de nome Ling, fez
Sakazama ficar extremamente preocupado.

- Ele caiu - diz Li.
- Sim, mas será capaz de se levantar e escalar até voltar a ser o que era? - era uma
pergunta sem resposta. Eu ainda continuava inquieto. Vencer o ar seria algo de
extrema importância para mim.

       Mas a falta de desafios por algum período me pôs sem opções. Seguia os
exercícios do treinamento diariamente. Mas não existiam desafios... devíamos voltar
o mais rápido possível para nossa terra. Seria difícil para Li Wong e para Suury, mas
devíamos partir, e logo. A China era um país bárbaro. Voltar para o Japão seria mais
que emocionante, seria renascer das cinzas que somos agora. Assim sendo,
preparamos nossa viajem. Mai Win deixara de perguntar sobre seu pai, não por que
o esquecera, mas por compreender que ele teve que deixá-la. Nunca nos chamou de
pai ou mãe, mas nos tratava de igual modo e respeito. Partimos.

       As primeiras noites da viajem foram tranqüilas. Estávamos em descampados
e montanhas isoladas, completamente desertas. Porém, ao fim da 5ª noite,
chegamos próximos da última cidade chinesa antes da Coréia. Fomos molestados,
mas eu não pretendia chamar a atenção. Resolvi os problemas na base da conversa,
uma coisa que meu pai havia me ensinado perfeitamente. Mas houve um idiota que
quis se aproveitar de Li e Suury, na minha frente. Gordo, grande. Era assim que ele
era. Eu era apenas um japonês com uma criança e duas mulheres, o que poderia
ocorrer com ele nos atacando?

- Ei, pare! Não as incomode - digo eu ao homem, que segurava com força Suury e
dizia coisas obscenas a elas. Ele se vira para mim, não acreditando que eu realmente
havia dito tal coisa.
- A pulga aqui esta se metendo em coisa grande... caia fora ou arrebento sua cara!!!
- grita ele, dando risadas e continuando a agarrar minha irmã. Eu balanço a cabeça,
em sinal de negação.
- Eu não queria fazer isso. É evidente que sou superior, mas terei que pará-lo.

       Disparo um golpe certeiro no nervo do braço direito dele, o qual segurava
minha irmã. O braço morre. Ele se vira, furioso. Investe conta mim. Eu, por minha
vez, apenas me esquivo dos investidas, inúteis.

- Pare. Eu não quero ser obrigado a derrotar você - ele nada diz, apenas fica mais
furioso.

       Estava evidentemente descontrolado. Me lembrava Ling no início de seu
treinamento. Eu lhe aplico um só golpe com a perna na cabeça. Ele cai
instantaneamente. Ambas as mulheres olham horrorizadas. Mai Win, por sua vez,
achava normal. O espírito de luta do pai morava dentro dela também. Talvez,
quando tiver idade, eu lhe mostre o Caminho assim como fizeram comigo e com seu
pai. O corpo do homem fica estirado ao chão. Eu tomo sua pulsação. Ele ainda vivia.

- Não se preocupem, ele está bem. Vai dormir por algumas horas - digo eu para não
preocupar as mulheres. Partimos.




                                                                                  48
Atravessamos a cidade e chegamos à Coréia. A partir dai ficamos muitos dias
sem contato com nenhuma outra pessoa.


                          *************************

       Goku era um antro de bandidos e comerciantes desonestos. Garotos
surrupiando coisas e brigando pelas ruas lotadas faziam a paisagem do local. É aqui
que eu morava. Não sei se permanecerei. Faz tanto tempo...

       Ninguém mais me reconhece. Eu caminho solitário por entre a multidão, em
busca do homem que havia me enviado para Yoan. Kato. Esse era o nome dele, pai
de Kiy. Eu o procuro e imediatamente eu fico sabendo onde ele estava. Era o Senhor
do feudo agora Sempre foi rico, mas para ser dono de toda Goku muito poder era
necessário.

- O que, Kato é o senhor agora?
- Sim, sim! Senhor do feudo, Kato, sim, ele... - diz um velho sentado na rua. Isso
piorava as coisas. Kiy já devia ter até netos!!! Ricos casam muito cedo, e como eu
iria me anunciar para ele? Diria "ei, diga ao homem que Lao Kin está aqui e quer
provar que já pode quebrar a cara dele"? Eu seria expulso... apesar de que eu não
permitiria. Mas não quero arranjar confusão. Tenho que ser polido!

      Me aproximo da casa principal de Kato. Guardas enormes tomam conta dela.
Eu me aproximo mais ainda. Eles me notam.

- Oi, eu sei que é difícil, mas vocês não poderiam me anunciar para Kat... - um golpe
fraco no meu rosto me derruba. Eu havia visto o golpe, mas o levei para não
provocar suspeitas nas pessoas. Mas uma pequena multidão se forma ao redor para
observar o que acontecia.
- Saia, garoto. Nosso senhorio não tem tempo para conversar com mendigos - Todos
riem. Realmente minhas roupas estavam péssimas. Mas eu lhe seguro pela
garganta, com tal força que ele não é capaz de se soltar.
- Eu disse que quero falar com Kato agora. Não me obrigue a matar vocês. Diga a
ele que Lao Kin, seu genro, está aqui e quer se casar com Kiy.

       Todos riem mais ainda. O soldado não consegue respirar, e por isso desmaia.
O outro investe contra mim. O público se dissipa, achando que minha morte fosse
espalhar sangue em cima de todos. Mas bloqueio a espada do soldado facilmente
com as mãos nuas, e com um dos meus fortes golpes de canela eu quebro todas as
costelas do lado esquerdo de meu oponente. Ele cai imediatamente no chão. Todos
se calam. Eu volto meu rosto em direção a eles de forma sinistra. Eles fogem,
assustados. Eu entro na casa. Vários soldados me cercam. Eu poderia facilmente dar
conta de todos, mas acho que eles me levarão aonde eu quero. Me amarram, e
retiram minhas armas. Eu não reajo. Como havia dito, me levam para a sala
principal. Kato, mais velho, e Kiy, sentada à sua direita, me observam. Os soldados
me fazem ajoelhar.

- Você é Ling? - pergunta Kato, apreensivo.
- Ling? Não, não... estudamos juntos... ora, pelos infernos! Não lembra de mim?!




                                                                                   49
Ele aparenta surpresa, e não se recorda. Um soldado tenta me dar uma
pancada nas costas, eu rolo para frente. Me levanto e com uma voadora invertida
derrubo facilmente 2 guardas. Os demais ameaçam me atacar, mas Kato os impede.

- Não. Eu lutarei com este rapaz. Quero ver como ele se sai com um aluno do mestre
Yoan das montanhas Shizu.
- Vejamos, a nova versus a velha geração, não é? - ele se surpreende mais uma vez.
- Yoan morreu, Kato. Eu e os demais somos os últimos - ele aparenta se lembrar.
- Sou eu, Kato... Lao Kin! Lembra do que me falou antes de me mandar pra lá? Que
eu poderia casar com Kiy se eu o derrotasse? Pois bem, vamos ver quem é o melhor
agora!
- Lao?! O ladrãozinho das ruas? Não é possível! Você está vivo?! - diz ele me
abraçando e rindo.
- Guardas, saiam, isto é um assunto familiar - diz ele. Kiy se levanta, e vem até nós.
- Lao, meu pai me fez esperar por você durante todos estes anos - diz ela, um tanto
fria - Eu me viro para ele.
- Você cumpriu sua promessa! Foi por muito pouco que eu não venho para Goku!
- Eu não cheguei onde estou quebrando promessas, Lao Kin. Espero que você não
tenha quebrado a sua - diz ele me acertando um golpe rápido e forte. Este eu não
havia visto. Caio no chão, com a boca sangrando. Kiy grita, seu pai a afasta.
- Saia minha filha. Devemos fazer isto. TEMOS que fazer isso... - diz ele. Eu me
levanto.
- Sim, Kiy, tem que ser assim. Não se preocupe, não machucarei muito o seu pai -
Kato e ela se voltam para mim, não crendo no que eu havia dito. Verdade seja dita,
Kato era o melhor lutador que existia por aquelas redondezas. Mas eu, com certeza,
era melhor.
- Sua petulância será paga com seu sangue, Lao - diz ele tirando o roupão que
costumava usar, ficando apenas de calças. Kiy se afasta.

       Sim, ele está bem para um velho de 59 anos. Me lembra agora o próprio
Yoan. Ele parte para cima de mim, com uma investida feroz. Mal consigo me desviar.
Mas desvio. Acertar uma cotovelada na parte de trás de sua cabeça foi fácil. Ele
cambaleia para um lado, depois para outro, e por fim se recompõe. Me estuda,
observa meus movimentos, minha posição. Eu parecia um tigre.

- Yoan os fez trilhar o Caminho do Tigre! - diz ele, surpreso.
- Como sabe disso? - pergunto eu.
- Ele nos falara a respeito. Era desta forma que havia sido ensinado a tempos atrás.
Mas não nos ensinaria, assim como não ensinaria a ninguém mais. Isso é
inesperado. - diz ele.
- Ele nos fez trilhar. E agora esta será a sua ruína - digo eu aplicando um golpe de
canela. Ele defende, mas de nada adianta. Cai desacordado. Kiy observa,
entusiasmada com minha performance. Ela não mudara nada. Estava tão bela
quanto naquelas tardes em que escondidos ficávamos. Após alguns instantes Kato se
levanta. Dolorido, me cumprimenta.
- Desculpe, Lao. Tinha que ser assim. Bom Kung Fu o seu!
- Eu compreendo. Obrigado.
- Fique e governe comigo! Seja meu protetor pessoal, seja meu genro.
- Eu... - olho para Kiy, e mesmo sem saber se havia algum motivo ou não para ficar,
eu me recordo que tudo pelo que passei durante os últimos 10 anos foram por causa
desta mulher. Por bem ou por mal, ela era a responsável por tudo aquilo.
- Eu tenho que pensar, Kato. Não sei se meu destino é realmente aqui... espero que
compreenda.



                                                                                   50
- Não. Não compreendo! Pensava que amava minha filha!
- Eu amo Kiy, mas entenda, 10 anos esfriam até o mais quente vulcão! Tenho que
reavaliar meus sentimentos. Tenho que meditar sobre este assunto.
- Não há o que meditar, Lao Kin. Resolva agora. Fique conosco ou parta. É simples!

        Kiy havia se tornado uma bela mulher. Suas formas eram exuberantes. Eu
seria rico, teria poder, respeito, coisas pelas quais sempre lutei.
- Eu fico - ambos ficam felizes.

                             ***********************

        Atravessamos toda a extensão que nos separava do porto de Mon Wai. Foram
dias difíceis. Ficamos sem água por 3 dias. Alcançamos a zona marítima em torno de
4 semanas. Achar uma embarcação seria algo difícil. Custava dinheiro, e não nos
sobrara nenhum. Não havia escolha a não ser lutar para conseguir algum. Deixo as
três em um lugar relativamente seguro e escondido, e lhes ordeno que ali
permaneçam até minha volta. Haviam muitas rodas de briga por todas as docas. Me
aproximo de uma pessoa que intermediava os apostas, e me ofereço para lutar.

- Você, lutar?! Não me faça de tolo, garoto! Não deve ser capaz de bater nem em
uma criança! - eu o agarro.
- Em criança eu não bato mesmo. Mas em idiotas como você... - ele aceita.

       Me colocam para brigar contra a maior fera do cais. Um grande e estranho
ocidental. Loiro, pele clara e olhos da cor do céu em dia de sol. Era gigantesco, forte,
musculoso. Não deveria ser difícil acabar com ele com um único golpe. Mas eu
entendo a mente destas pessoas. Se derrubá-lo com um único golpe pensarão
claramente que se trata de algo arranjado. Iria começar um tumulto. Não. Vou
aproveitar e brincar um pouco com ele. Aparenta ser lerdo, isso facilitará.

- Que lutem!!! - grita o que organizava a briga e as apostas. Ganhando a luta,
levaria em torno de 40% do total de arrecadações. Era muito dinheiro,
principalmente por que estavam apostando pesado, e não em mim, mas no nórdico.
Seria dinheiro fácil.

      A luta é iniciada, e o grandão me acerta uma devastadora pancada com a
perna na cabeça. Eu caio imediatamente. Ele era infinitamente mais rápido do que
eu imaginava! Todos aplaudem, querendo pegar suas apostas, felizes. Mas eu acabo
com toda a alegria. Me levanto.

- Esperem! Eu ainda não acabei com ele! - grito eu, com o rosto cortado e
sangrando. Todos me olham, e gritam, de frustração e alegria misturados. achavam
que o loiro ganharia ainda, e minha resistência só significava mais espetáculo. Mas
eles estavam enganados.

       O loiro dá outro golpe igual ao que havia me acertado. Com certeza não sabia
muitos golpes. Eu conhecia mais de 3000 diferentes para cada finalidade. Eu lhe
acerto o músculo deltóide. Seu braço agora é um peso morto. Ele grita de dor. A
algazarra termina no público que nos observava feliz. O gigante geme, mas tenta um
golpe diferente. Ele realmente é rápido, mas agora que eu sei disso ele não possui
mais armas contra mim. Eu o subestimara, e o erro fora este. Agora é ele quem me
subestima, e esta será a sua derrota final.




                                                                                     51
Eu ponho força em meu braço e lhe aplico uma Pata de Gato em sua perna.
Uma fratura exposta é criada. O oponente grita irritantemente de dor, agudo como
um porco sendo morto. Eu dou um golpe de misericórdia. Não, não o mato, mas o
ponho para dormir. Todos observam, não acreditando em tudo o que haviam visto.
Eu recolho o dinheiro do organizador, que também aparenta perplexidade. Caminho
em busca das três. O povo atrás de mim se dissipa, o organizador corre em minha
busca enquanto que dois ou três garotos que moravam por ali ajudam a carregar o
gigante loiro.

- Rapaz! Rapaz! - gritava o velho organizador - Espere! Espere!
- Não tenho mais nada para falar. Deixe-me ir - digo eu.
- Espere! Onde vai? Fique e lute mais pra mim! Posso te fazer ser o melhor!!! Você
vai ganhar muito dinheiro. Talik não luta mais aqui agora! É um derrotado!
Derrotado! Você é vencedor! Lute, fique! Vamos, fique!
- Não, velho! - grito eu - Tenho que partir para o Japão, não compreende? Tenho
que voltar para minha terra!!!
- Japão, sim! Você vai precisar de um barco! Eu sei de um barco! Eu sei!
- Onde está ele? - pergunto eu lhe agarrando a garganta ferozmente.
- Arght! Arf! Não! Luta antes. Só mais uma! Luta e eu te ponho em barco!!! Arf! Só
mais uma!!!
- Diga ou morre, velho. Você é quem sabe.
- Não, luta antes! Com o dinheiro que você tem não vai dar pra pegar um barco. Eu
te ponho em um de graça, mas antes, luta!!! - Eu reconsidero a oferta.
- Tenho que levar mais 3 passageiros. Pode fazer isso?
- Sim, posso! Mas antes luta!!!
- Tudo bem, eu luto - digo eu, soltando a garganta dele - Mas se não cumprir sua
promessa eu não terei dificuldades ou escrúpulos em matar você com um só golpe,
velho - Ele se cala e me ordena que o siga. Eu cumpro a ordem.

       Entramos em uma espécie de casa fechada. O velho se identifica com os dois
homens que tomavam conta da entrada e eles nos deixam passar. O lugar era uma
espécie de arena fechada para lutas. Muitas pessoas sentadas e em pé gritavam e
apostavam nos lutadores que se matavam na arena. Eu observo, enquanto que o
velho vai até um homem grande que aparentemente mediava a luta. Eles conversam
rapidamente, e então ele volta para o meu lado.

- Sim, a luta! Você vai lutar contra o pior de todos os lutadores que existe. Sim. Ele
veio da China! É um JitSu! Sim!
- Um JitSu, aqui?
- Sim, sim, você terá que matá-lo. Ou você mata ele ou ele te mata, um dos dois.
Mata ele!
- Matar não faz parte da minha natureza.
- E faz parte da sua natureza MORRER? Mate-o, e teremos mais dinheiro do que
jamais sonhamos antes! Você não vai precisar alugar um barco, vai poder comprar
seu barco, comprar uma fragata inteira! Apenas mate-o, só isso!

       Eu observo a luta na arena e ignoro o velho. Ele logo deixa de falar e presta
atenção na luta. Os lutadores se moem ferozmente, e logo tudo acaba. O homem
com quem o velho havia falado se põe no meio do tablado e todos se calam para
ouvi-lo.

- Temos um desafiante para Shaw - Todos gritam aparentemente felizes.




                                                                                   52
- Não se assuste, meu jovem. Shaw nunca perdeu antes. Toda luta com ele é um
espetáculo para esta gente. Ninguém vai apostar em você, só eu! E eu lhe prometo
que lhe entregarei metade do dinheiro, caso você sobreviva e ganhe, não é mesmo?

       Ele me manda subir à arena. Todos me observam, com um olhar de pena.
Tambores rufam e logo uma pessoa entra no tablado. Forte e de baixa estatura,
como eu, era Shaw quem estava ali. Havia um grande dragão vermelho nas costas,
assim como Lyu. Era um assassino JitSu, com certeza. Ele me olha com petulância,
eu com compaixão. Isso o surpreende. Eu me mostrava calmo e confiante. Ele sacou
então um bastão longo.
- Vejamos então, amigo. Vamos lutar com bastões. Não quero lhe ferir muito até
poder arrancar sua cabeça com minha espada - falava ele enquanto jogava a espada
fora. Eu observava. Me jogam um bastão também. Eu dou um leve sorriso. Mal
sabiam eles... treinando mais de 2 anos só com esta arma...

       Ele dá o primeiro golpe. Eu desvio. Ele se surpreende, não esperava
resistência por minha parte. Mais 6 golpes, eu bloqueio todos, e até lhe dou alguns
cutucões em sinal de provocação. Ele se irrita. Ataca com fúria, e me acerta dois do
vinte golpes que desfere com o bastão. Ele ainda era um assassino JitSu... havia a
morte em seus olhos, mas não se equiparava a Lyu. Eu me desfaço de minha arma.
Todos se levantam e não acreditam no que havia feito. Shaw gargalha, para então
pular em cima de mim com a intenção de aplicar um golpe fatal. Eu era um mestre
com o bastão. Sabia tirar proveito de todas as formas possíveis de tal arma. Sabia
seus pontos fortes e, sobretudo, seus pontos fracos.

       Eu quebro o bastão duas partes com um chute, que ainda acerta meu
oponente. Caído e humilhado, ele se levanta, enraivecido. Agarra sua espada e corre
em minha direção. Com um chute eu acerto o cabo da espada, e com outro, seguido,
chuto a arma para fora do tablado.

- Sem armas, Gaijin - digo eu.

        Ele luta espetacularmente bem. Mas só domina poucos estilos. Era um
iniciante no clã, evidentemente. Eu levo algumas pancadas, mas desfiro alguns
golpes certeiros contra nervos vitais. Eu paraliso uma perna. Em seguida ele me
acerta um soco forte em cima da área do coração. Tenho vertigens, meu coração
desacelera e bate descompassado. Ele se aproveita, e mesmo com uma perna
paralisada se levanta e me acerta outros golpes. Eu caio, aparentemente vencido.
Ele vem para cima de mim. Só havia uma chance...

        Eu lhe acerto com meus dois dedos enrijecidos no ponto energético no peito.
Ele morre instantaneamente. Todos estão mudos. O sangue em meu rosto escorria,
minhas pernas aparentemente pesavam o mesmo que uma carroça. Eu me levanto
dificilmente, mas ainda sou o que está vivo. Todos se retiram do local, no mais
completo silêncio. O velho pega uma grande quantidade em dinheiro, e sorrindo, se
dirige em minha direção.

- Aqui! Aqui! Ganhou a luta, metade sua! Hehehe! Ricos! Muito ricos! Hehehe!
Pegue, dinheiro seu, boa luta, boa! Hehehe!
- Ao barco, velho. Me leve até o barco... - digo eu com visíveis dificuldades.
- Sim, sim, venha, barco! Barco pra terra do sol nascente! Venha!
- Antes tenho que buscar as três... estão em uma doca, escondidas...
- Sim docas, sim! Venha, vamos achá-las! Muito dinheiro! Ricos! Ricos!



                                                                                  53
E assim, cambaleando, eu e o velho chegamos até o lugar onde as três
estavam escondidas até agora. Ao me verem em tal estado, gritam.

-   Sakazama!!! - Li Wong era a mais abalada.
-   Eu falei para você não lutar mais, Sak... não, não...
-   Ei, eu vou ficar bem... - estava mentindo. Meu peito doía muito. O soco fora fatal.
-   Fique calmo, irmão - diz Suury - Você vai ficar bem.

         Eu olho para Mai Win, que nos observa silenciosamente.

- Li Wong, leve Mai para ver o mar, sim? - digo eu a ela, que por sua vez, obedece,
chorando, pois sabia o que iria acontecer. Eu passo a mão pelos cabelos negros de
Mai Win. Ela me olha, profundamente.
- Por que você tem que morrer? - todos se surpreendem.
- Eu não tenho, mas devo... faz parte do meu caminho.
- Que caminho?
- O caminho que todos nós trilhamos... a vida, Mai... agora vá. Vá em paz - Ela e Li
Wong saem.
- Suury, eu completei minha jornada. Tudo está certo agora.
- Por que, Sakazama? - diz ela lacrimejando.
- Eu devolvi a honra a nossa família, morrendo para salvar a vida de Mai Win. Não
teríamos como mantê-la viva por mais um dia sem dinheiro.
- Você deu a vida por ela. Você salvou-se a salvou a honra de todos nós - diz ela,
chorando.
- Completei o Caminho do Tigre, Suury. Enfrentei o ar! Restabelecer tal honra foi
minha prova, meu teste! Sou completo. Pena que tenha que morrer agora, mas
poder vislumbrar o prazer de ser completo no Caminho só por este instante já me
torna privilegiado...
- Sakazama! Não morra! - grita ela.
- Eu... eu tenho que partir, Suury. Encontre Ling. É necessário encontrarem Ling! Só
ele poderá cuidar de vocês. Só ele poderá ensinar a Mai Win, ela deve aprender...
aprender... ser um... tigre... um tigre... tigr...
- Sakazama? Sakazama?! SAKAZAMA!!!! FALE COMIGO!!! SAKAZAMA, não morra!!!

       E ali fica ela a chorar por seu irmão morto. O velho observa, seriamente. Ela
chora, com grande dor. Li Wong, do lado de fora, chora por seu amado, sem poder
estar perto do corpo. Mai Win observa o mar, com alegria. O sol nasce belo.

- Posso ajudar vocês - diz o velho.
- Não queremos nada seu.
- Eu sou, em parte, responsável pela morte deste rapaz. Me sinto imensamente mal
com isso. Me perdoem. Devo ajudá-las como forma de penitência. Tomem meu
dinheiro. Fiquem com ele, todo ! Eu não quero,está marcado com a morte, será
dinheiro ruim para mim. Não posso usá-lo. Deixe-me ajudá-las a encontrar o outro
homem! – Nisto, Li Wong entra, falando a ambos.
- Sim. Ajude-nos! Só Ling poderá cuidar de nós! Yoan se foi, Sakazama se foi! Não
temos mais ninguém! Devemos voltar para Ling, agora!
- Não! Ling é um assassino! Como ele cuidará de nós? – diz Suury.
- Da mesma forma que Sakazama cuidou. Com a própria vida, se necessário. Ling
não é o monstro que falam. Ele é bom em seu interior. Ele vai cuidar de nós, por sua
filha!




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- Não vou com vocês. E não permitirei que esta criança fique com tal monstro. Eu
vou para o Japão com Mai Win, Li. Se quiser ir ficar com Ling, vá. Só não ponha esta
criança no meio de suas insanidade!
- Ling virá atrás desta criança, Suury. Deixe-me levá-la.
- Não! - grita Suury, desferindo um golpe forte contra Li, que cai desmaiada. Ela olha
para o velho.
- Meu pai nos ensinava alguma coisa sobre lutas, afinal... não tente nos seguir! - diz
ela pegando o dinheiro de seu irmão - Buscarei o corpo de meu irmão assim que
encontrar uma embarcação - diz ela saindo com a garota. O velho ajuda Li a se
recompor.
- Acorde, vamos, acorde!
- Oq... onde está Suury?
- Se foi. Mas vai voltar para pegar o corpo de Sakaz...
- Engano seu - diz Suury - eu já voltei - ela estava acompanhada por dois fortes
marujos. Carregam o corpo de Sakazama, e somem.
- O que vamos fazer, minha jovem? Eu lhe sirvo, em penitência a morte do rapaz.
- Obrigada, vou necessitar de ajuda. Precisamos encontrar um homem chamado
Ling.
- Tem idéia de onde procurar?
- Sim. Já ouviu falar dos montes Shizu, na China?
- Não.
- É provável que ele esteja lá. Venha. Temos dinheiro para ir?
- Oh, sim, muito dinheiro! Muito!
- Então venha. Não podemos obrigar Suury a dar a criança a nós. Ela está abalada.
Temos que entregar Mai a quem é seu protetor real, ou seja, seu pai.


                           *************************

       Os mares gelados não impedem a embarcação de cruzar milhas e milhas,
durante dias infindáveis em que a morte nos rondava. Fui violentada inúmeras vezes
pelos marujos, que em troca disto deixavam Mai Win em paz. Eu nada fazia a não
ser chorar. Sabia lutar, mas não o suficiente para acabar com 8 fortes navegadores
ao mesmo tempo. Além do mais, chegaríamos rapidamente ao Japão, e a partir dai
nunca mais os veria ou teria que passar por tal situação. É certo que me odiava por
permitir tal abuso de meu corpo, mas permanecia calada. E dia após dia eu rezava
para que a viajem por fim terminasse, mas os dias ficavam cada vez mais longos.

      Ao cabo de 7 dias chegamos ao mar do Japão. Foi aí que o corpo de
Sakazama foi jogado ao mar pelos marinheiros. O cheiro estava insuportável. Mais
algumas horas e enfim colocava os pés na terra da qual nunca deveria ter me
separado. Mai Win estranhava. Não sabia falar japonês, mas ensiná-la seria fácil, já
que por ser ainda pequena absorvia com rapidez o que lhe ensinavam.

       Não sabia ao certo o que fazer. Estava desnorteada. Não sabia ao certo em
que parte do Japão estávamos, nunca havia estado realmente nesta terra, a não ser
quando criança. Sabia que existiam amigos da família, parentes de minha mãe,
coisas do tipo. Mas onde estavam?

        Logo a noite cai, e ambas dormimos na rua. O dinheiro havia sido roubado
pelos marujos, que sumiram em meio a tantas pessoas. No dia seguinte nada havia
para comer. Nada havia para fazer. A única maneira de sobreviver seria se prostituir,
e foi isso que fiz. Cada homem do cais pagou relativamente bem para usufruir de



                                                                                   55
meu corpo por alguns momentos. E assim foram-se passando os dias. Eu sou bonita
o suficiente para atrair um considerável número de homens, e eles vinham em
abundância. Chegava a atender 10 homens por dia, mas quando havia dinheiro
suficiente, eu e Mai Win partimos. Rumamos para a antiga cidade onde morávamos
com nosso pai. O problema agora era manter-me escondida o suficiente para que o
pai de Mai, Ling, não nos encontre. É certo que a maldita Li tenha avisado Ling.
Tenho que proteger Mai a todo custo!

       A prostituição havia se tornado minha profissão. Mai Win estava achando
aquilo normal, e isso era perigosamente influenciador. Procurava impedir uma
promiscuidade no ambiente familiar que tentava proporcionar para a garota, mas era
impossível que ela não soubesse o que estava se passando.
       Migramos de cidade em cidade, e nada achava a respeito de minha família.
Aparentemente éramos apenas desgraçados sem senhor. Não existíamos. Resolvo
então nos fixar em uma pequena vila, governada pela família Yoshido, uma forte e
respeitável organização. Muitos eram os samurais a seu serviço, e bons de coração
eram seus integrantes. Estava protegida. Como gueixa fui aceita. Contei sobre Ling,
e de como era importante manter Mai Win longe de sua influência. Sem discordar,
eles me acolhem.


                            **********************

       As noites foram ficando mais frias, a neve principiava. O velho se chamava
Jong, e com sua ajuda e experiência de quem é um verdadeiro rato de cais, nós
chegamos até Ton Yang em aproximadamente 3 meses. A vila ficava aos pés do
monte Shizu, e era provável que Ling ali estivesse, ou tivesse estado.

- A noite agora é, minha pequenina... vamos descansar - diz Jong.
- Certo, mas amanhã teremos que subir.
- Sim, mas agora descansar. Vou negociar nossa pernoite nesta grande casa - diz ele
entrando no estabelecimento. Eu fico a olhar, sob uma fina neve, o monte, imerso
em sua escuridão natural. Um garoto se aproxima.
- O monte é amaldiçoado agora, senhora.
- Por que diz isso? - pergunto eu me virando para ele.
- A morte vive ali. Não vê? Eu olho mais uma vez, e nada vejo.
- Só vejo o monte.
- Mas ela mora ali! Tanto que o antigo mestre se foi com os ventos dela.
- Está falando de Yoan?
- Sim. Agora a morte domina o lugar.
- Quem é a morte?
- A morte é um homem forte, impiedoso e muito hábil. Porém, é triste. Não permite
a entrada de pessoas nos arredores do monte. Vive só. Desconfio que seja Ling.
- Ling?!
- Sim, Ling, o que matou toda a guarda de Golki. TODA! Somente a própria morte
seria capaz de fazer tal feito.
- Ou que sabe, um demônio... - o garoto se assusta, e foge em direção ao negro da
noite, desaparecendo.

      Jong me chama para entrar. Olho o monte mais uma vez. Agora olhando
melhor, uma sensação de pavor me toma conta. A morte verdadeiramente vivia ali?




                                                                                 56
O sol nasce sob uma grossa coberta de nuvens. A neve havia se intensificado.
Nossas roupas pesadas nos protegiam do frio que agora ficara absurdo. Os cavalos
recém comprados agüentavam bem o ambiente impróprio. Subimos o monte em 3
horas. Deixamos os cavalos em um local afastado, após vermos vários corpos
mortos espalhados pelo chão. Um assassino morava ali. Caminhamos em direção à
casa principal.

      Estava bem cuidada, havia algum morador, porém, não existiam sinais de
movimentação em seu interior. Olho para o local onde estavam sepultados os corpos
de Sho Win e de Yoan. Havia ainda uma árvore completamente desprovida de folhas,
uma pedra e um homem nu sentado sobre ela, em posição de meditação. Eu falo
para Jong ficar parado, enquanto me aproximo do homem. Quando estou a
aproximadamente 5 metros dele, ele fala, sem abrir os olhos:

- Pare, Li Wong.
- Ling? É você?

       Ele se vira. Era Ling, com uma nova e assustadora feição em seu rosto. Era
outra pessoa, sendo ele mesmo.

- O que você faz aqui?
- "Ronin" morreu - Sua feição volta a ser a daquele garoto que outrora conhecia.
- Morreu?
- Sim, aparentemente defendendo sua filha.
- Minha... filha?
- Sim, sua filha. Sua e de Sho Win, Ling. Lembra-se? - Ele havia se abdicado de tais
lembranças a algum tempo, arrependido de querer matar sua própria filha.
- Onde esta Mai Win? - pergunta ele calmamente.
- Ela ainda vive, Ling.
- Como pode deixá-la? Eu a entreguei a vocês para que a protegessem!
- Suury, a irmã de Sakazama, esta com ela. Mas está abalada! E você nos intitulou
pais dela. E como mãe eu quero minha filha de volta!
- Não é mais problema meu, Li.
- É sim Ling. Sakazama lhe pediu uma última coisa antes de morrer.
- ...
- Que a ensinasse o Caminho do Tigre a Mai Win.
- Não. É impossível!
- Assim queria ele.
- Mai não suportaria. O Caminho chega ao extremo do limite humano! Não poderia
fazer minha própria filha passar por tal sacrifício.
- Ling, ela não é mais sua filha!

       Ele me olha com um olhar furioso.

- Você viu os corpos espalhados pelo caminho? Sabe o que são? São aventureiros,
pessoas que souberam de meu feito em Golki e agora querem me derrotar para se
tornarem os melhores. É com alguém assim, caçado, que quer que Mai Win viva? Um
assassino?
- Você não é assassino, Ling . É apenas é um sofredor... a vida lhe foi cruel por toda
sua extensão. Não vê que Mai Win pode ser o fim de tanta dor?
- Por que quer isso, Li?
- Não tenho ninguém, Ling. Sou completamente só. Necessito de alguém que me
proteja.



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- E quer a mim?
- Não. Mas sei que Mai necessita de um protetor tanto quanto eu necessito, se não
mais. Vivemos em um mundo selvagem. Tudo o que eu quero é o melhor para Mai, e
você é o melhor. Você é o pai dela!

       Ele se cala. Aparentemente não acredita que eu realmente queira tal coisa.

- Ela será como eu. Uma assassina. Não compreende que ela sofrerá o mesmo tanto
que eu?
- Não se você não quiser.
- ...onde ela está? Onde está minha filha? - Li sorri. Enfim ele voltara a ser Ling.
- Suury a levou para o Japão. Não sei onde.

        Ele se levanta. Seu físico era perfeito. Uma grande cicatriz no pescoço, outra
enorme na coxa e várias outras pequenas pelo corpo lha davam um aspecto
dolorido. Ele se veste com uma manta fina.
- Vamos entrar - diz Ling. Li fica ruborizada, pois achava Ling atraente. Se sente
culpada por Sakazama. Os 3 entram. O fogo é aceso, e Ling prepara um chá.
- Quem é ele? - pergunta, indicando para o lado de Jong.
- É um amigo. Diz que Sakazama morreu por sua causa.
- Como foi?
- Ele participou de uma luta, onde muito dinheiro estava em jogo. Jong arrumou a
luta para Sak, que morreu logo após.
- O oponente morreu?
- Sim, mas os ferimentos foram fatais.
- Compreendo. Que descanse em paz.
- Sim – diz Li chorando. Ling não se comove.
- De onde ela partiu?
- Do porto de Mon Wai - diz o velho.
- Isso é na Coréia! Caminharam até lá?
- Sim – responde Li.

        Ele fica em silêncio por um bom tempo. Bebe um bom gole de chá quente.
Seu olhar se perde por entre os objetos da casa.
- Partirei amanhã. Vocês não podem ficar aqui.
- Por que?
- Por que morrerão. Muitos a mim vem. Com o ódio e a morte. Assim como eu, um
dia.
- Concordo com o jovem, pequena - diz o velho - ficaremos bem na vila.


                            ***********************

       Li Wong e Jong se instalam em uma casa na vila, e eu parto. Uma longa
jornada em busca de alguém com quem eu jurara nunca mais cruzar o caminho.
Minha filha. Minha roupa preta e minha bolsa são as únicas coisas que carrego. Botas
novas são causadas e o caminho a minha frente vai sendo devorado. Sou um Tigre
mais uma vez. Agora sem coração. Adotara como arma agora a arma de um grande
assassino, meu mestre, Lyu. O Chako fora-se com o tempo.

       As paradas eram raras. Caminhava até mesmo durante a noite. E assim foi
até chegar a um pequeno feudo que havia no caminho. Goku. As pessoas me olham
com desconfiança. Eu caminho pelas ruas apertadas do vilarejo, e logo sou



                                                                                    58
confundido com um viajante indefeso por 3 assaltantes. Perdi minha paciência e
minha piedade a muito tempo atrás. Um único movimento da minha lâmina mortal e
as três gargantas são profundamente degoladas. O povo olha, aterrorizado. Guardas
correm em minha direção. Grades laças são erguidas. Estou cercado.

- Saiam da minha frente. Não quero desavenças com os senhores de tal local.
- Não sairá deste lugar, forasteiro.
- Eu tenho que continuar minha jornada.
- Matou três integrantes deste feudo, e com um único golpe. É Ling? - O silêncio se
faz presente.
- Sim.

       A resposta é suficiente para os fazer me atacarem, ao mesmo tempo. A morte
estava entre eles. Eu jogo a bolsa de lado e fico somente com minha espada.

        Um soldado é decapitado com um golpe que logo depois arranca o braço de
outro. Eu salto por cima deste e logo depois perfuro seus pulmões. Movimentos
rápidos de lanças se dirigem a mim. Eu desvio e depois corto o que esta na minha
frente. Por fim morrem todos. Mais uma vez eu estou banhado de sangue, ofegante,
insano. O povo me olha, aterrorizado, com mulheres chorando e homens implorando
por suas vidas. Logo depois mais soldados chegam. Eu me ponho em posição de
combate, e é aí que uma voz conhecida fala.

- Basta de mortes por hoje. Parem! - era Lao Kin. Ele se aproxima de mim.
- O que faz aqui, Ling?
- Estou indo para o Japão.
- Vai encontrar com Sakazama?
- Sakazama está morto, Lao - A notícia o afeta.
- ... como é que é?!
- Morto. Li Wong voltou até Shizu, onde moro agora. Me pediu para encontrar e
cuidar de Mai Win.
- Onde ela está?
- Não sei ao certo, mas Suury, a irmã de Sakazama, está com ela. Tenho que buscá-
la.
- Você vai ensinar o Caminho a ela?
- Ainda não sei, meu amigo. Como sabe?
- Ronin me contou durante o caminho. Eles me acompanharam até aqui, depois
seguiram rumo a...
- Mon Wai. É para lá que estou indo.
- Você matou 13 guardas do feudo. Kato não gostará de saber que eu permiti que
deixasse este lugar vivo...
- Você não pode me matar, Lao. Sabe disso. Nem se me odiasse.
- E somos amigos.
- Os últimos dois Tigres - Ficamos calados por algum tempo.
- Vá, jovem mestre. E traga Mai Win de volta a mãe China.
- Assim será, Lao - eu parto.
- Vai deixá-lo ir embora sem nada fazer, mestre? - diz um dos soldados à Lao.
- Acredite, Tong... assim é bem melhor do que confrontá-lo diretamente.

       A cidade vai ficando para trás. O sangue coagula sobre minha pele, e atrai
mosquitos. Não poderia me arriscar a pegar malária agora. Tiro o sangue
mergulhando em um pequeno lago que havia por perto, e ali, à sua margem, passo
a noite.



                                                                                 59
Logo, aparece um homem vestindo um traje noturno ninja. Eu não me
surpreendo. O homem se aproxima calmamente de mim, e retira a máscara. Era
Lao.

- Compreenda, Ling. Deve ser assim. Não poderei permanecer no feudo enquanto
você viver.
- Eu compreendo, Lao. Deve ser assim.
- É. Onde eu ponho minhas coisas?
- Eu não compreendo...
- Ora, eu vou com você! Ou acha que eu seria louco em lutar? Nunca! Seria covardia
minha... hehehe.

       Rimos por um bom tempo. Dormimos. Ao amanhecer, arrumamos nossas
coisas e partimos.
- Pensei que gostasse de viver lá...
- E gostava, Ling. Mas não era mais meu lugar. Eu sei bem o que eu quero agora...
- E o que é?
- Ser quilo que o Ronin não teve oportunidade de ser. Eu serei um Samurai.
- O que? Um Samurai chinês?
- Por que não? Sou melhor que todos naquele país...
- Pode ser, mas subestimar seu oponente sempre o levará ao fracasso.
- Não tem mais nada para mim aqui, Ling. Nada! Nem antes e nem agora.
- Mas pode ter amanhã.
- Não adianta Ling, eu vou com você e pronto.
- Se assim quer...
- Sim, é o que eu quero.

        Ficamos em silêncio e partimos. As planícies verdes das montanhas que
cortavam nosso caminho eram desertas. Vez ou outra encontrávamos algum viajante
solitário, ou ainda alguma propriedade. Eram grandes as extensões de terra sem
donos, ou melhor, pertencentes ao agora fraco Imperador. Mas impróprias para
cultivo de alimento ou pasto para gado. Eram noites sem fim, onde dormíamos ao
relento e acordávamos antes do sol nascer. Atravessamos grandes rios, passamos
por cidades estranhas e enfim cruzamos os domínios da então pacífica Coréia. A
pessoas eram diferentes, as casas, a língua, tudo! O que não mudava eram os
olhares de medo e respeito que lançavam sobre mim. Eu inspirava tais sentimentos.
Minhas feições eram cruas, como as de um animal. Um animal assassino. Eu tinha a
morte no olhar, e todos compreendiam isso. Eu era perigoso, talvez o mais perigoso
humano que existira. Lao se sentia diminuído. Mas continuava a caminhar ao meu
lado, passo a passo. Não se ouvia uma só palavra, uma só respiração, durante toda
a nossa cruzada por lugares habitados. As pessoas se calavam por completo.

-   Ei, Ling, o que há?
-   Cale-se. Não desfira uma só palavra.
-   Estão todos nos olhando estranhamente...
-   Já falei, cale-se...

     Atravessamos todo o local. As pessoas voltam a falar, quase gritando. O
mundo é nosso mais uma vez.

       Chegamos, após esta longa jornada, até o porto de Mon Wai. Não havíamos
arranjado uma só encrenca durante toda a viajem. Mas o porto era um lugar



                                                                                60
selvagem, tal qual nossos corações. Pessoas brutas e cheias de ódio, longe da paz e
harmonia que alcançamos, lotavam o lugar, correndo, comprando, vendendo e
gritando o tempo todo. Esbarrões não tinham pedidos de desculpa, e brigas era
muito comuns. Nos aproximamos de uma grande embarcação que estava pronta a
zarpar.
- Onde vai este barco? - pergunto eu na língua local.
- Ei, china, caia fora! Estamos trabalhando!!!
- Eu preciso de uma embarcação.
- E a gente com isso?
- Sabem de alguma que parta para o Japão?
- Hehehe! Deu azar, amigo. O único barco que faz este percurso zarpou fazem dois
dias. Nenhum mais neste porto inteiro vai para lá tão cedo...
- E quanto tempo demora até sua volta?
- Algo em torno de um mês e meio. Boa sorte! - diz ele, com o barco acabando de
zarpar.
- Um mês inteiro, Ling!? O que faremos?
- O mais lógico: roubar um barco.
- Está louco?
- Não. Estou falando sério.
- E quem vai velejá-lo até lá?
- A tripulação.
- Qual, a que vai lutar conosco até a morte?
- Não serão tão burros assim. Venha. Eu sei de um jeito de conseguir um barco
facilmente.
- Como será?
- Lutando! Venha, Jong me falou como as coisas funcionam neste porto.
- E tenho escolha? Vamos!

       Lao me segue até o local onde haviam lutas constantes, valendo muito
dinheiro. Dois guardas cuidavam da entrada. Nos aproximamos. Os grandões
impedem nossa passagem até o local.

- O que querem, pequeninos?
- Estou aqui para lutar. Saiam agora, não quero matá-los.

       O maior da uma grande risada, e assim sendo ele nem percebe que sua
cabeça se desprendeu de seu corpo e agora rola pelo chão. O outro olha
aterrorizado, da mesma forma que Lao.
- Quer acabar como ele?
- N n n não... ! - diz o outro guarda, correndo para longe.
- Tinha que matá-lo?!!
- Sabemos que ia acabar sendo assim, Lao. Ele tentaria me matar logo depois.
Venha.
- Será que todos tem razão? Você virou mesmo um assassino desonrado?
- E o que é honra? O QUE? - grito eu. Ele se cala. Entramos.

        O lugar estava completamente lotado. Ninguém repara em nossa entrada.
Lao senta-se em uma cadeira e fica a observar a luta que ocorre na arena, a mesma
onde o Ronin perdeu a vida. Eu me aproximo do mesmo homem que organizava as
lutas a anos. Digo que sou amigo de Jong e que quero lutar.




                                                                                 61
- Sim, Jong sempre nos arranjou bons lutadores, você não deve ser diferente. Da
última vez, Jong trouxe um que acabou com o melhor que tínhamos! Agora temos
um melhor ainda! Vai querer desafiá-lo?
- Sim, mas com uma condição.
- Qual? Se ganhar, será cumprida!
- Quero um barco, rápido e forte, com tripulação, e que siga direto para o Japão. É
isso.
- Hum, pedido difícil, mas se ganhar, o que acho difícil, será atendido. Dou-lhe meu
próprio barco, e eu mesmo vou velejando. Aceita?
- Se for um bom barco...
- É o melhor!!! Mas duvido que ganhe.
- Inicie a luta então.
- Não agora. Yoshido ira lutar, mas não deve demorar. Espere ali, eu o anuncio.
- Certo...
- A propósito, como devo pronunciá-lo? Seu nome?
- Chame por... - eu me perco no tempo, ao pronunciar meu segundo nome - ...
Wong.
- Que seja, então - Eu me sento ao lado de Lao, que me observa estranhamente.
- Você não é mais o mesmo homem, Ling. Não foi só a morte de Sho Win que fez
isso com você! O demônio que outrora você controlava, o ódio, lhe dominou enfim!
- Não, Lao. Eu dominei o ódio a tempos... apenas o utilizo como forma de expansão.
Eu sou melhor quando o uso. Admita!
- Não sei dizer se melhor, ou pior. Você mata de forma brutal, sem ao menos
demonstrar algum valor pela vida... isso assusta, e muito!
- Sakazama pensava como você, e agora esta morto. Que lição pode tirar desta
situação?

       Ele não responde, e mesmo que tenha respondido eu não escuto, pois o
barulho da multidão é tão grande que nos anula a audição. Yoshido entra na arena.
É enorme, forte. Músculos trabalhados e, assim como eu, a morte no olhar. Seu
oponente não teria a menor chance. E assim foi. Com apenas alguns golpes ele mata
o coitado. O sangue que lhe adere nas mãos é limpo de maneira sórdida, com
lambidas. O público aplaude de pé. É a hora em que devo ser anunciado.

- Temos um desafiante ao grande campeão. Que venha a nós, Wong!!!

       Nenhum som é emitido do povo, que me olha de maneira morna. Eu subo na
arena, e me ordenam que retire minhas armas. Eu as entrego, com meu olhar fixo
em meu oponente. Ele nem se dá conta de mim. Ficamos cara a cara. O silêncio
enfim toma conta de todo o local, os olhares são em nós. Pode-se ouvir a respiração
das pessoas. Eu e Yoshido nos olhamos olhos nos olhos. E assim ficamos, imóveis,
por um minuto inteiro. Ele era um matador, assim como eu, e reconhecera a
superioridade que havia ali. Eu sentia que ele queria fugir, mas no instante seguinte
ele me atacou.

       Eu me esquivo. Os sons voltam em intensidade máxima. Gritos e risadas
sufocam o próprio ar. Lao observa, discretamente. Meu oponente se vira e dá outro
golpe incrível. Eu o bloqueio facilmente. E então, só então, eu me afasto, para logo
em seguida, matá-lo, com um golpe certeiro em seu nariz. A cartilagem, macia em
relação ao osso, mas dura o suficiente para o que eu queria, perfura o cérebro e
causa uma grande lesão, seguida de hemorragia e morte. Tudo não leva mais do que
6 segundos. Seis segundos de agonia e luta contra a morte. A dor devia ser
insuportável, e eu me surpreendo por estar, mais uma vez, sentindo pena. O corpo



                                                                                  62
cai e em sua volta uma grande poça de sangue vai se formando, lentamente. O
silêncio mais uma vez ocupa a tudo, agora de forma fúnebre. Eu o havia matado
com um só golpe. Mal havia me movido. Me dirijo até o organizador, após pegar de
volta minhas armas.
- Ao barco, velho.
- Sim... ao barco...

                            **********************

       Partimos durante a noite. Bodhan era o nome do velho, e o céu estava
extremamente estrelado. Nuvens não haviam, e uma enorme lua iluminava nosso
caminho. O barco era realmente o melhor do lugar, e mesmo insatisfeito, Bodhan
nos levou. Nada de errado ocorreu, a não ser alguma tempestade feroz que tentava
nos dragar para as profundezas marinhas, mas como com meus inimigos, eu a
encaro, e ela foge, assustada. Passaram desde nossa partida algo em torno de 38
dias. Chegamos ao mesmo porto que o barco que trouxe Suury e Mai chegou.

- Mais chineses, era o que faltava... - balbuciou um dos marujos que trabalhava no
porto.
- Lao, descarregue as coisas, vou procurar algum lugar para comer - digo eu,
caminhando para o longe. Acho, então, uma casa onde serviam comida a um bom
preço. Eu entro para constatar, e logo sou recebido de forma grosseira.
- Chines não, chines não! Saia, saia! - dizia a garota que aparentemente tomava
conta do lugar.
- Meu dinheiro não é bom o suficiente para você? - pergunto eu em japonês.
- Saia ou terei que mandar lhe baterem!
- Eu só quero comprar comida.
- Nobuo! Tetsuo! Gaio! Tirem o Gaijin daqui agora.

       Três enormes japoneses aparecem do nada e tentam me agarrar. Não estou
aqui para ser subjugado, e já tendo matado por menos que isso, eu não vacilo em
arrancar a mão direita de cada um deles com minha lâmina afiada. O sangue cai pelo
chão, e as mãos decepadas ainda se movimentam, levemente. Os três correm,
gritando de dor. Eu guardo minha espada lentamente, e digo.

- Agora, traga-me comida para dois, ou terei que fazer isso com você e com todos os
seus fregueses?!
- Não terá coragem... háaaaaaaaa!!!!!!!!!!!! - Eu lhe arranco dois dedos da mão
esquerda.
- Eu teria coragem SIM!

      Todos os homens que estavam no local se levantam, principiando um ataque
em conjunto contra mim. Eu falo.

- Não sejam tolos!!! Todos morrerão!!! Parem!!! Só quero comprar comida!!! - Eles
não me ouvem e continuam.
- Parem!!! Tome, leve a comida!!! Vá embora! Vá embora - diz a moça, gemendo de
dor por causa dos dedos amputados. Eu jogo algum dinheiro a ela e vou embora,
observado pelo exército de japoneses enfurecidos. Chego até a doca onde estava Lao
e vejo que o barco já havia partido.
- Onde está Bodhan?
- Rumou para outro porto próximo. Nagoia fica a dois dias de viajem marítima daqui.
Encontrará amigos lá.



                                                                                 63
- Certo. Tome - digo eu lhe dando o prato de comida.
- O que é isso aqui?!
- Não sei, acho que é arroz...
- Não, não, isso aqui, vermelho... - ele experimenta - É sangue!
- Desculpe, tive de fazê-lo.
- Por que?!!
- Não me serviriam. Somos chineses em solo japonês! Nunca nos aceitarão!
- Você matou para conseguir esta comida!!!
- Não...
- E o sangue?
- Acredite, eu não matei ninguém... acho. - Lao joga a comida fora e sai
caminhando.
- Onde vai, Lao?
- Eu estava louco em seguir você, Ling! Olhe-se! Esta completamente insano!!! Não
compreende? Não se lembra de tudo o que aprendemos? Nunca atacar, somente se
defender? Yoan esta envergonhado de você, de nós!!! Como pode?!!
- Você não compreende, Lao... nunca vai compreender.
- O que não vou compreender, Ling? Tente me explicar!!! Por favor!!!
- Você não viu nem a metade das desgraças que eu vi! Não tem a mesma alma
calejada que tenho... não é desprovido de amor, pena e medo! Eu... não possuo
mais isso em mim, amigo! Não mais...
- Ling, o que aconteceu, amigo?!
- Eu... não sei, Lao. Quando Sho Win morreu, senti que havia sido enterrado junto
com ela. A questão agora é que eu não sei mais quem eu sou. Tudo o que sei é que
matar é tão fácil, e... bonito! Lutar é a coisa que mais me agrada fazer agora! E para
saber quem eu realmente sou, tenho que reencontrar Mai Win...
- Você está perdido, Ling. Você aceitou vir buscar sua filha para se reencontrar, não
é mesmo?
- Estou tentando fazer isso, mas é difícil... venha, vamos embora... - Lao se contem,
mas logo depois me segue. Minhas palavras eram verdadeiras.
- Para onde agora?
- Vamos perguntar a alguém se Suury foi vista por aqui, e para onde foi.

       E perguntamos por quase todo o porto, até que um homem gordo e suado
teve a coragem de se lembrar.

- Sim, Suury era o nome dela. Boa meretriz, boa mesmo!!!
- Meretriz?!
- Sim! Nos levava às nuvens! Hehe! E havia a pequena filha dela... - eu me aproximo
mais, intrigado e temeroso quanto ao que ele iria falar.
- O que tem ela?
- Nada, nada! Ficava... olhando! Era excitante!
- Ela deixava a criança ver?! - digo - ... minha filha via pessoas fazendo sexo?! Era
assim que Suury cuidaria de minha filha?! Para onde ela foi ?! - pergunto eu
completamente irado.
- Não sei diz... - acerto-lhe um soco no músculo do braço esquerdo. A dor é enorme.
- Onde ela foi?
- Uuuuuuuurg! Ai! Ali! Ela foi para o leste! Foi para onde a vi partir! Só isso eu sei!!!

Partimos, deixando o gordo para trás.

- Pensei que ia matá-lo também...
- Não sujaria minha espada. Prefiro deixá-lo sofrer... como está.



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Ao leste haviam várias pequenas comunidades de agricultores e outras tantas
de senhores feudais. Caminhamos por muito tempo, até encontrar uma vila onde
Suury e Mai havia ficado. Nossa presença se fez notável por um Samurai que havia
dormido com a mulher.
- Você é Ling? - pergunta ele firmemente.
- Sim... e quem é você? - pergunto na mesma língua dele. Ele não responde, e tenta
me cortar com uma espadada bem dada. Eu não me movo, e Lao segura a lâmina do
Samurai com as mãos nuas.
- Não queremos encrenca! Vá embora!!! - diz meu companheiro.

O samurai se desprende e salta para trás. Ele fica furioso.

- Suury me falou de você, demônio!!! Não a encontrará, pois sua morte será
decretada por mim!!! - e ele parte para me matar. Eu me levanto e me ponho em
posição de ataque. Matá-lo seria tão fácil... mas Lao estava no local e me afastou.
- Saia, Ling! Eu cuido dele! Se você lutar eu já sei como isso vai acabar...

       Sim, ele tinha razão. Eu o mataria sem nem ao menos pestanejar. Lao, por
sua vez, era mais nobre, e apenas o imobilizaria. Eu me sento e procuro apreciar a
disputa.

- Por que defende este ser tão cruel, homem? - pergunta o Samurai.
- Por que ele não é o monstro que pensa... ele só esta buscando sua filha!
- A criança é de Suury, não mais deste demônio!
- Ele é o pai dela, e sabemos que é ele quem deve ser responsável pela garota, não
importa se ela se torne uma assassina ou não. Deixe seu destino se desenrolar!!!
- Não permitirei! Prometi a Suury matar ele aqui se aparecesse!!!
- Não posso permitir isso. E se ele lutar com você, ele te matará sem nenhuma
dificuldade ou remorso! Pare, não quero ferir você!
- Pois terá que me matar, se não quiser que eu o mate!!!

       Ele parte com tudo para cima de Lao. Este, por sua vez, empunha suas
armas. Bloqueia a espada com uma de suas "sai", e com a outra rasga
superficialmente o peito do oponente.

- Eu podia tê-lo matado, amigo. Pare!!!

       O Samurai só se enfurece mais ainda. Se desprende e ataca novamente. Mais
uma vez Lao lhe corta, agora mais profundamente. Meu demônio parecia estar lhe
possuindo também, seu olhar mudava a cada segundo, e ele ficava mais selvagem.

      Por fim, Lao não teve escolha, matou o Samurai, após 10 minutos de
combate. Se não o matasse, o Samurai acabaria por matá-lo, pois não se continha
nem mesmo após os profundos golpes de sai que levava.

- Eu... matei um homem... eu nunca matei ninguém!
- Você fez o que deveria ser feito. Nada podia mudar isso, acredite.
- Eu matei um homem! Um homem!!! Não foi um animal, foi um homem!!!
- Você apenas fez o que ele estava pedindo! Você o avisou inúmeras vezes, mas ele
não quis escutar! Ele morreu com honra, lutando pelo que acreditava, mesmo
estando errado.




                                                                                 65
- Sim, mas isto não muda o fato de que fui eu que o matei... quem sofrerá mais com
isso, ele ou eu?

       Lao caminha para longe do ocorrido, enquanto que eu me informo que Suury
havia estado ali a cerca de dois meses e logo depois partido. Eu alcanço Lao, que
estava desolado.

- Devemos seguir para aquela direção - aponto eu para o nordeste.
- Por que para lá?
- Ha um feudo naquela direção, e é provável que Suury tenha estado lá. Vamos.
- Eu... , não sei se quero continuar agora... orgth ! - ele vomita logo em minha
frente.
- Levante-se! Você não é tão fraco assim Lao Kin!!! Matar é uma forma de sobreviver
em meio à selvagens, e estamos no meio de selvagens! Seja um forte, seja o que
você é, não lute contra você mesmo!
- Um demônio me possuiu! Você me possuiu!!! - diz ele, chorando.
- Você simplesmente fez o que foi treinado para fazer, Lao. Acha que todo este
treinamento tinha como propósito imobilizar os inimigos, machucar? Aprendemos a
matar uma pessoa com um só golpe!!! E isso é para machucar? Queira ou não,
fomos criados para fazer tais coisas.
- Eu...
- Olhe para nós, Lao! Olhe para mim!!! Não tenho nem 30 anos e sou tão calejado,
tão sofrido..., ninguém neste mundo sofreu mais do que eu, física e
emocionalmente. Eu sou o ser forjado por todas as desgraças que ocorreram em
minha vida! Eu me arrependo? É claro que sim, mas me diga: o que eu posso fazer
agora? Como eu posso deixar de sofrer as desgraças que sofri a tempos? Como???
Não posso... tudo o que posso fazer é ser este homem frio e terrível que me tornei,
uma besta assassina, e só! Não lamente mais, não olhe para trás, pois não podemos
mudar nosso passado, e nem mudar o que somos sozinhos, por mais que tentemos!
- Eu... compreendo, Ling. E sinto muito.
- Levante-se, e vamos logo. Se quiser voltar para Goku agora, vá, e diga a todos que
morri. Ou erga a cabeça e caminhe!
- Está bem, agora pare de tagarelar, e vamos logo!!! - diz ele enxugando as lágrimas
e levantando. Eu sorrio, pois o maldito tinha voltado ao normal.


                              *******************

       Chegamos ao feudo da família Yoshido, coincidentemente foi daqui que saiu
meu oponente em Mon Wai. Nos aproximamos da entrada, guardada por alguns
homens armados de lanças e espadas. Era um belo lugar, havia um grande Kabuki
no centro, ao lado da casa principal. Várias moradas e comércio fraco. A lavoura era
enorme, e o número de escravos impressionava.

- Não devemos chamar a atenção. Existem muitos samurais neste lugar - diz Lao.
- É verdade, portanto fique aqui. Eu terei que encontrar o rastro de Suury
rapidamente, e você vai me atrapalhar.
- Eu vou te atrapalhar? Essa é boa...
- Eu terei que matar, Lao. Você ainda é um purista...
- Vá então, assassino!!! Mate e se banhe em sangue!!! Mudei de idéia, eu parto aqui!
- Você vai voltar até Goku?




                                                                                  66
- Não, já falei que não há nada lá para mim, já que a mulher a quem eu amava não
amo mais. Procurarei algum Shogum para o qual eu prestarei meus serviços. Se
você cruzar meu caminho mais uma vez, eu terei que matá-lo, Ling.
- Você não mata nem ao menos seus inimigos, Lao. Matará um de seus poucos
amigos?
- Você não é mais meu amigo, Ling. Matar por prazer é contra meus princípios! Eu
matarei em nome de alguém, e em sua honra - ele me dá as costas e vai indo
embora.
- Eu mato em meu nome e em minha honra. Isso me torna menos merecedor de sua
devoção? - ele para.
- Eu sei que um Samurai mata, e por isso eu o acompanhei durante este tempo.
Aprendi a matar, e foi você quem me ensinou como. Mas agora que já sei o que
queria, não preciso mais de você, Ling. Lembre-se do que eu falei, não cruze meu
caminho, ou morrerá.

      Eu nada digo, ele parte, correndo, em direção oposta ao feudo e a mim. Mais
uma vez, eu estava sozinho.

      Caminho, então, em direção aos homens, que me olham e logo põem suas
mãos em suas armas.

- O que quer?
- Procuro uma pessoa, talvez possam me ajudar...
- Não ajudamos Gaijins. Volte pelo caminho que veio ou morrerá - diz o líder, e
todos sacam suas armas.
- Eu não vou voltar, digam se uma mulher chamada Suury esteve neste lugar ou
não, e irei embora.
- Você é Ling?!! - Bingo. Ela esteve, ou com sorte, estava no lugar, e pelo visto fez
muitos amigos.
- Matem!!! - grita o líder. Todos avançam. Uma pena Lao não estar aqui, iria ver que
agora esperei que me atacassem.

       Eu tiro minha espada e em menos de dois segundos um dos homens está
morto. Outros dois tombam com um único lance da lâmina, e só sobram 3 agora.
Um arremessa sua lança, que eu pego em pleno ar. Ele me olha assustado, e eu lhe
acerto uma forte voadora lateral na cabeça, lhe partindo a espinha. Outro ainda
tenta me acertar com a espada. Eu bloqueio o golpe e logo depois varo seu coração.
Sobrou agora o líder, aparentemente o único Samurai verdadeiro do momento. Ele
tira sua espada, e parte para cima de mim. Eu bloqueio sei golpe e tento matá-lo,
mas surpreendentemente ele também bloqueia meu golpe. E ficamos a lutar por
mais 15 segundos.

       Ele era muito bom, mas quando perde sua espada ele continua de pé. Jogo
minha espada para o lado, e me ponho em posição de combate. Ele me ataca com
golpes rápidos, e alguns me acertam, mas eu também lhe acerto golpes, somente 4.
O bastante para lhe paralisar nervos e causar hemorragia interna fatal. Levanto-me
e caminho normalmente até a pequena vila, logo após ter pego minha arma.

       Olho para os lados, e não vejo nenhuma movimentação. Caminho pela
pequena rua, até encontrar todos reunidos na casa central. Me olhavam com terror,
e entre eles eu podia sentir a presença de Suury, irmã de Sakazama. Minha filha,
pobre alma, eu não via.




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- Quem de vocês é Suury? - Ninguém responde. É ai então que uma voz forte vara a
negritude da noite.
- O demônio enfim veio ao meu reino! Mas sou bem servido por samurais temidos
em toda a província! Parta, homem vil, ou morra nas mãos de meus servos!
- Não partirei sem minha filha! Entreguem-na a mim, ou morram!
- Sua filha - diz ele, puxando-a para si - esta sob minha proteção, e a proteção desta
garota! - Era Suury, tinha certeza! E Mai Win, nas mãos daquele homen cuja vida
não valia mais nada agora.
- Ela é uma prostituta! Sabe disso, não?!
- Ela é minha senhora agora! Como ousa falar assim de minha senhora? E esta
menina agora é minha filha, e não a filha de um amaldiçoado Gaijin!
- Papai! - grita Mai Win ao me ver. Ela se lembra de mim, e sabe que é minha filha!!!
- Cale-se Mai! - diz Suury, batendo na garota. Meu sangue vai se esfriando. Eu
estava entrando em transe, assim como em Golki. Era um momento aterrorizante...
- Saia, assassino! Meu irmão me falou que tipo de homem você é!
- Ele lhe falou que eu pedi para cuidarem de Mai para mim?
- É o que eu estou fazendo! Protegendo-a de você!
- Fazendo sexo com vários homens na frente dela?! Separando-a de seu pai?
Levando-a para longe de sua terra??? - Ela se cala.
- Agora basta! Sua vida não vale mais nada! AGORA! - grita o homem,
provavelmente o administrador do feudo.

       Samurais com armaduras e longas espadas aparecem do nada. Eu retiro
minha espada, mas vejo que ela seria quase inútil contra tais armaduras. Eu pego
meu velho e forte Chako. Quebro, uma a uma, as espadas dos lutadores. Os golpes
que aplicava não surtiam efeito. A armadura era muito grossa. Um tenta me acertar
uma flecha, que eu pego em pleno ar, para espanto geral. Quebro-a em duas e
fraturo a perna de outro Samurai. Todos estavam sem armas agora. Tiraram suas
armaduras. Eu luto com cerca de 12 homens ao mesmo tempo, precisando de no
mínimo 5 golpes para derrubá-los. A fúria me domina, enfim.

       Eu sou acertado por trás, e caio. Logo depois meu rosto, e todo o meu corpo,
são acertados. Em um impulso de desespero, eu aplico golpes mortais em 4 dos
meus agressores, que caem mortos. Os demais se afastam, assustados. Eu me jogo
na direção de minha espada, sangrando depois de tanto tempo sem apanhar, e mato
violentamente um por um. O sangue se confundia. Não se sabia o quanto era sangue
meu ou de meus inimigos. Todos olhava, chocados de pavor. Eu pulo em cima do
pequeno palanque em que Suury e os outros estavam, e mato inconscientemente os
últimos dois samurais que haviam.

       O marido de Suury tenta me atacar, mas eu me proíbo de matá-lo. Apenas
lhe quebro as pernas, o que é suficiente para inutilizá-lo. Suury olha, chorando. Eu
me viro até ela. Minha filha não parecia abalada com as mortes ou com meu estado.
Ela vem até mim, e para minha própria surpresa, se agarra a minha perna.

- Suury... eu fui um grande amigo de seu falecido irmão. Mas o que você fez não
possui perdão.
- Vamos lá, monstro, faça o que deve ser feito, mate-me!!!
- Não serei eu que a matarei, Suury. Mai Win o fará.
- Está louco? Ela, me matar?
- Meu sangue corre em suas veias. Ela deve se mostrar digna do Caminho, mostrar a
dignidade que eu não mostrei. Mai Win, mate-a.
- Pa-pa...



                                                                                   68
- Mate-a. Mate-a e se mostre digna, ou não. Você não teme a morte, eu vejo em
seus olhos! Mas tenho que saber se é capaz... mate-a!

        Entrego-lhe uma faca. Ela a levanta até a altura do pescoço de Suury, que
chora, silenciosa. Mai para, e observa o pavor nos olhos da vítima. As lágrimas a
cair...

- Pa-pa... - Mai chora, pela primeira vez desde seu nascimento, e larga a faca, vindo
me abraçar.
- Não se preocupe, você se mostrou capaz, e digna! É pura o suficiente para trilhar o
caminho e ter o sucesso que nem eu e nem ninguém mais teve. Yoan havia errado,
era tarde para nós. Mas ainda ha tempo para você... minha filha.

       Partimos, então, rumo ao nascer do sol. Mas eu volto, para terminar o que
havia iniciado.

- Minha filha é forte, e eu sou um fraco, Suury. Espero que o demônio que me possui
lhe dê toda a dor que merece, maldita... - eu a mato friamente, transpassado seu
coração lentamente. É a primeira vez que mato alguém causando imensa dor. Que
Ronin me perdoe, mas levei dois minutos inteiros para matá-la. Volto para minha
filha, que me espera, pacientemente.

- Pa-pa... casa?
- Sim, vamos para casa, minha filha. Depois eu não sei, mas acho que você vai
gostar...
- Do que?
- Não sei, ficar perto de sua mãe, e ser o que seu pai quis ser mas não pode. Ser
feliz! Vamos embora. Temos um longo caminho para trilharmos juntos.



                                       FIM




                                                                                  69

Sheena: O Caminho do Tigre

  • 1.
    SHEENA O CAMINHO DOTIGRE Daniel Paixão Fontes 1996 – 1997 - 2003 1
  • 2.
    PARTE I -O TREINAMENTO Algo me fazia temer a escuridão. Um medo ingênuo de que eu ficaria cego, ou que monstros que só a luz pode afastar viriam me capturar. Mas, no final das contas, eu acabei gostando mais da escuridão do que da própria luz. Não subjetivamente, não! Eu ainda amo a Deus e o venero! Mas gostei da escuridão como ausência de pura luz física, dita e simples, assim. É na escuridão onde eu me sinto mais aconchegado. Não posso ser visto em minha solidão doentia. Isso é bom. Mas como todos as noites são curtas, os dias são longos. E é um belo dia do ano de 1098 da era cristã. O sol nasce belo e forte ao leste das montanhas Shizu. Yoan, meu mestre, já esta à mesa comendo os preparos que Sho Win preparara. Como de costume, nenhuma palavra é dita durante toda a refeição. Isso é difícil de aceitar para um jovem recém saído de sua família de 7 irmãos. O silêncio só seria quebrado em exatas 2 horas, início do treinamento diurno, e voltaria ao anoitecer, quando todos deveriam meditar. Fazem exatos 4 dias que cheguei aos montes Shizu, e meu pai, Wong, havia me arrumado esta enrascada. Yoan era o maior mestre que a China tinha. Pessoas morriam para por seus filhos em sua custódia, sob seu treinamento. Só 4 eram selecionados, a cada 10 anos, para tal honra. Eu era um dos 4 escolhidos, e até daqui a 3 anos, eu e os outros 3 ficaríamos incomunicáveis entre nós. Eu ainda era o mais bem amparado. Eu estava dormindo na casa de Yoan, comia a comida de Sho Win e treinava supervisionado pelo próprio mestre mais de 3 vezes por semana. Os outros deviam me odiar. Mas nem sempre o que fica na casa do mestre é o mais forte dos 4. Meu próprio pai foi discípulo de Yoan, e nunca foi um grande lutador. Ele, assim como eu, ficou na casa com o mestre. Os outros 3, ao contrário , sempre eram mais fortes. Viviam nos picos das montanhas, nas galerias geladas abaixo da montanha ou nas florestas ao sul de nossa morada. E para piorar, esta turma será a última de Yoan em toda sua vida. Ele estava completando seus 95 anos de vida, e um treinamento de 10 anos é muito exaustivo. Eu tenho apenas 13 anos, e nem sequer me imagino com tanta idade. Mas dizem ainda que ele agüenta umas 2 ou 3 turmas novas. Na verdade ele esta muito bem para um homem com tal idade. Ainda é capaz de correr mais rápido do que eu, pular mais alto e bater muito, muito mais forte. Na verdade os homens daqui sempre relutaram muito em morrer cedo. Meu avô morreu com 128 anos. Assim mesmo, foi morto a pedradas na cabeça por um doente mental, meu tio. Bem, mas meu pai intercedeu junto a Yoan para que ele me aceitasse. Feito isso, deixei para trás minha numeroso família, poucos amigos e meus sonhos de ser um grande fazendeiro. Seria agora um grande lutador. Eu não queria lutar, mas durante estes quatro dias algo dentro de mim floresceu. Não era ódio, nem mágoa, mas ainda era algo estranho, que queimava por dentro. Eu fui morrendo pouco a pouco, para dar lugar ao homem que eu seria em pouco tempo. Um grande guerreiro, quem sabe, ou um grande covarde, mas seria um novo homem. Terminada a refeição, Yoan sai para apreciar a manhã. Respira profundamente, e inicia um Kati belo e harmônico que repete toda manhã. Eu não sei se ele quer que eu o acompanhe nestes movimentos, mas eu só me contento em olhar alguém se mover com tanta graça e habilidade como ele. Terminados os 2
  • 3.
    movimentos, ele correpor cerca de 10 milhas, sem ao menos aumentar a respiração. Ele se volta para mim. É hora de iniciar mais um dia de treinamento. Inicialmente (e isso era rotina nos demais dias, pelos próximos 15 meses) fazíamos um alongamento completo do corpo. Doía muito no início, e ele me mandava relaxar. Parece absurdo, mas funcionava. 50 minutos exatos de alongamento. Era isso. Depois, uma bela corrida de 20 quilômetros. Yoan percorria em exatas uma hora e meia, eu levava de duas a quatro horas para completar esse percurso. Ele me olhava, paciente, como se já soubesse que eu era frágil e que tinha que ter cuidado comigo, assim como meu pai. Era este o olhar dele. Deus, como eu queria surpreendê-lo! Fazer ele compreender que ele estava errado, que eu podia ser forte! Depois, nadávamos contra a correnteza do pequeno rio que havia ali por perto. Não era muito forte, mas eu quase me afoguei umas 3 ou 4 vezes no início. Yoan, por incrível que pareça, após me salvar, dava gargalhadas, se jogava de volta no rio e nadava de maneira magistral. Ele era de ferro. Após o nado, íamos comer. Sho Win nos esperava, com um grande sorriso e muita comida. Ela era nova, quase tão nova quanto eu. Era muito quieta, e obediente. Yoan havia lhe criado desde seu nascimento, disso eu sei, mas não sabia se ele realmente era pai dela, e isso eu não sei até hoje. Mas, enfim, ela era uma bela moça com seus 18 anos, e cozinhava muito bem. Após comer e descansar por 2 horas, nós retomávamos o treino. Yoan se sentou em uma pedra e apenas me observava. Eu aguardava suas ordens, e então ele me mandou sentar a sua frente. Estávamos no lugar mais belo que eu já havia visto em toda a minha vida. Era recoberto por grama verde e farta, havia a pedra onde o mestre estava sentado, havia uma grande árvore ao seu lado, e ao fundo uma grande cascata de água caía, formando uma expeça nuvem. Tudo isso aliado ao céu azul e ao sol poderoso que pairava naquele dia, juntamente com o aspecto sombrio que as demais montanhas faziam ao fundo, o que me agradava, pois eu ainda gostava mais do escuro do que da claridade. Eu simplesmente me apaixonara pelo lugar. - Você gostou deste lugar, Ling ? - Sim, mestre. - Você deve escolher um lugar que seja seu nesta montanha, Ling. Um lugar seu, para que você possa vir aqui sempre que necessitar de respostas. - O lugar que eu escolher vai me dar respostas? - Não. Todas as respostas que você tanto anseia estão dentro de você mesmo, Ling. Você só precisa de um lugar seu para que elas lhe venham. Um lugar seu. - Mas mestre, este é o seu lugar! Eu já o vi aqui meditando todas as noites. - Agora ele será o seu lugar, Ling. Eu o deixo para você. - Por que mestre? - Por que eu já tenho todas as respostas que preciso. Este lugar é bom, e agora é seu. Ele se cala por completo, e fecha os olhos, realizando uma prece interna e pessoal, como se estivesse se despedindo do lugar que lhe serviu durante décadas. Partimos então para o grande rochedo que havia ao norte. Ali eu tinha que socar a rocha até que minha mão começasse a sangrar. Devido aos últimos dias e os 3
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    ferimentos que euhavia adquirido, logo isso acontecia. Mas o mestre me mandou continuar a socar a rocha. Não com tanta força, para não quebrar ossos, mas com força o suficiente para me rasgar a carne dos dedos. O local que eu socava ficou manchado de sangue. E assim fiquei por uma hora inteira. As lágrimas caiam, mas Yoan não me permitia parar. Ataduras eram colocadas nos ferimentos, mas eu não podia parar de socar a rocha. Por fim, ele me pediu para parar. E eu parei. Ele me olhava com orgulho, eu, ali, com lágrimas nos olhos, sangue quente e semi coagulado pingando de minhas mãos, o suor a tomando conta de todo o meu rosto e meu coração disparado. Eu não havia parado até ele me mandar. Ele não me disse uma só palavra, mas eu vi em seus olhos o orgulho que sentia de mim por não ter parado ou reclamado um só minuto. Eu o havia finalmente surpreendido. Saímos do lugar, e rumamos para um bosque. Eu devia, agora, pular por entre tocos de árvores dispostos a mais de dois metros uns dos outros, no mínimo. Cai muitas vezes, é verdade, mas dei pulos muito bons. Yoan, para me demonstrar como deveria ser feito, deu saltos impressionantes. Mais uma hora. Pulos e pulos. Meus músculos gritavam por piedade, mas eu sabia que nunca poderia pedir piedade, pois quebraria aquele elo de admiração e orgulho que estávamos criando entre nós. Após isso, o penúltimo exercício: golpear com mãos, braços, pernas, pés e principalmente canelas, árvores finas e grossas até a noite iniciar. Isso doía muito. Mas Yoan me demonstrou mais uma vez como é que deveria ser feito, e partiu uma árvore média com um forte golpe de canela. Ele me pediu para não tentar aquilo ainda, pois com certeza eu quebraria algo, mas não a árvore. E eu ficava ali, golpeando, golpeando, sob o atento olhar dele. Parecia que o dia não ia acabar nunca. Por fim ele me manda encerrar o treinamento por hoje. Voltamos até a frente da casa. O mestre entra para se banhar, enquanto que eu deveria tomar banho no pequeno rio e depois fazer mais exercícios de alongamento. O silêncio dominara mais uma vez. Eu me dispo e caio na água gelada, que é até boa, pois meu corpo acabado se sente melhor. Ouço uma risada e olho ao redor para ver de onde vem. Vem de trás de uma pedra, de onde Sho Win me espiava. Ao ver que fora descoberta, ele dispara em corrida para dentro da casa. Eu termino o banho, visto roupas secas e limpas, e realizo o alongamento, assim como Yoan me ensinara. Entro para comer. O jantar é no mais completo silêncio. Depois, vou para meu lugar, aquele que Yoan me cedera. Uma noite clara e limpa exibe uma coberta de estrelas incrível. Eu me sento na pedra, e fico a observar toda aquela beleza escura, sob a luz de uma lua tão cheia quanto pode. Eu medito por um longo tempo. Eu não tenho perguntas para serem respondidas ainda, por isso eu apenas explorei o local com meus sentidos. O Inverno veio, e eu ficava horas e horas de baixo da neve gelada, sem agasalhos. Eu meditava a noite sob tal neve, que de certa forma me purificava a alma sangrada durante o treinamento. Mesmo nos dias em que o mestre dormia fora, para treinar os outros 3 alunos, eu seguia a risca o treinamento. Minhas mãos foram ficando resistentes, e não sangravam mais ao bater na rocha. Meu corpo, pouco a pouco, ia se transformando, ficando forte e belo. Eu podia notar os olhos de Sho Win sobre mim durante o dia todo. Eu não sentia mais as dores que sentia antes. Eu estava forte, como um verdadeiro lutador, ao fim de 15 meses. Mas não havia sido treinado em técnica. 4
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    Um dia, emmeditação, eu compreendi a razão de tudo isso: eu estava sendo preparado para absorver o conhecimento. Kung Fu não era fácil, e ainda mais com Yoan. Seu objetivo não era nos tornar meros lutadores, mas sim verdadeiros mestres, versados em todos os estilos conhecidos. Sim, eu ainda era um mero aprendiz. Um dia, quando o mestre me permitiu fazer algumas perguntas, eu lhe falei de minha conclusão. Ele sorriu, e apenas disse: - Você medita buscando respostas para suas perguntas. Elas sempre serão corretas. Ainda deveríamos continuar por mais tempo com este treinamento padrão. Até completar 3 anos, para então nós quatro nos unirmos e juntos iniciarmos o treinamento. O mestre se calou, e assim, nós observamos um pequeno grupo de aves voando para o sul. Cerca de 6 dias depois disto, o mestre declara a mim e a Sho Win que ficaria fora por 3 semanas, uma com cada um dos outros 3 alunos. Sho Win deu um sorriso maroto, e eu soube, na hora, que correria certo perigo durante este tempo. Mas que perigo? Yoan parte, levando consigo pouca coisa. O que será que os outros faziam para comer, dormir...? Yoan some no caminho que segue, e eu inicio meu treinamento. Corro, nado na água parcialmente congelada, pulo, bato, alongo... e lá se vai mais um dia. Sho Win me observa o dia inteiro, só que agora de forma mais explícita, pela ausência de Yoan. A noite, durante o jantar, ela fala algo, como que o dia foi frio, que a sopa esta sem sal... eu não prestei atenção e nem respondi. Estava desabituado a falar durante minha alimentação. Ela não se importou. Durante estes quase dois anos nós nunca conversamos muita coisa além do necessário. Mas sempre nos olhávamos. Ela me observava com grande desejo, eu podia ver claramente, e o pior, eu estava lhe retribuindo os olhares já fazia algum tempo. Ciente da situação, logo após comer eu fui até a pedra, meditar, e de certa forma, fugir. O que eu deveria fazer? A resposta veio, não de minha mente, mas sim dos lábios quentes e úmidos de Sho Win. Um ardente beijo foi trocado. Nós nos amamos ali mesmo, sobre a grama gelada, com a neve caindo sob nossos corpos nus. Nunca em toda minha vida eu havia feito coisa semelhante, e nunca foi tão bom estar vivo como naquele momento de prazer infinito. Ficamos ali por vários minutos. Por fim, voltamos para a casa de Yoan, e continuamos esta troca de prazeres até amanhecer. Pela primeira vez desde minha chegada ao monte Shizu eu não sai para treinar. Os demais dias transcorreram normalmente. Eu treinava o dia inteiro e de noite eu e Sho Win dormíamos juntos. E assim foi seguindo. Eu abdicava de minha meditação para ficar ao lado de Sho Win por mais tempo. Isso me fazia um certo mal. Eu não estava mais pensando tão claramente como antes. 5
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    Sho Win entendeuquando eu lhe expliquei que teríamos que nos ver por menos tempo. Eu voltei e meditar, e perguntas incríveis me vinham à mente. Mas, agora, eu não estava obtendo respostas. Era como se aquele lugar fosse novo para mim desde aquela noite com Sho Win. Resolvi relaxar e buscar com meus sentidos, mais uma vez, toda a expansão do lugar que me pertencia. Reconheci-o de novo. As respostas me voltaram, e eu pude dormir mais uma vez purificado de corpo e alma por aquela neve, que era a encarnação da paz que eu obtinha novamente. Sho Win me abraçava como se o mundo fosse terminar. Nos amamos mais uma vez. Dormimos agarrados um ao outro, como dois amantes que éramos. ****************** Yoan voltara. Para surpresa minha, e de Sho Win, ele trazia consigo 3 rapazes. Os 3 outros alunos de que ele havia falado. Os 4 finalmente ficariam juntos e o treinamento teria início. - Mas mestre, ainda não se passaram 3 anos, como o Sr. havia dito. - Vocês já estão prontos, Ling. Venha, junte-se a nós. Os três observavam Ling com um olhar de admiração, inveja e ódio. Eles seriam grandes amigos. - Apresente-se a Ling - manda Yoan. O maior de todos nós era Lyu. Era belo, forte e rápido. Isso o tornava meu maior competidor em relação a Sho Win. Ainda não tenho certeza se ela realmente me ama ou se só meu usou para suprir seus desejos carnais, e não tendo mais ninguém por perto além de mim... O outro era Lao, baixo, cabeludo e mortal. Já quebrava árvores com suas canelas, mesmo Yoan o repreendendo. Era uma boa pessoa, dedicada e leal. Por último havia Sakazama, o único estrangeiro, um japonês. Era o mais calado dos três, e segundo Lao, o mais perigoso. Eles brincavam muito com Sak, como nós o chamávamos, por ele ser do Japão. Ele não se demonstrava nervoso ou agressivo. Nem um pouco. Isso assustava. Os dias seguiram, eu e Sho Win nos encontrávamos às escondidas de noite, e ela nem sequer olhava para qualquer um dos outros. Ela gostava de mim mesmo, mas o que me preocupava é se um deles tentasse alguma coisa "intima" com ela. Mas eu nada falei a ela. O treinamento seguia normalmente, sem alterações, segundo Yoan, por mais alguns meses. Mesmo sendo evidente que eu era o mais fraco de todos, Yoan ainda me olhava com orgulho, coisa que ele não fazia com os demais. Sak, por sua fez, se esforçava ao máximo, e mesmo assim Yoan não se importava. Os quatro logo ficaram amigos. Sak, porém, só falava com Yoan. Mas um dia, quando estava meditando, ele veio até a mim. Passou pelo meu lado e ficou a admirar a paisagem noturna como eu mesmo fazia. - É um belo lugar, não acha? – perguntei. 6
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    - É - disse ele. Ainda nevava, muito pouco, mas nevava. - Olhe para este floco de neve - disse ele, pegando um com a mão. - É tão frio e bonito... mas derrete com o mais leve contato com a pele. - É, ... Ele se vira e soca o ar com tal precisão e segurança que acerta uma única folha da árvore que estava caindo atrás de si. Ela voa para mais longe. - Como você sabia que ela estava lá? - pergunto eu - Medite sobre isso... e talvez encontre a resposta, um dia - diz ele, indo embora. Eu me encontro mais uma vez com Sho Win, mas não conseguia me concentrar nela. - O que foi, Ling? - Yoan falou que o treinamento começa amanhã. - E daí? - Eu me sinto despreparado. Os outros já sabem tanto... - Você também já sabe. Esqueceu o que o mestre sempre diz? "Nós já sabemos tudo o que temos que saber. Só que ainda não sabemos disso" - Sim, mas... - Não quero mais ouvir uma palavra. Você é o melhor dos quatro - diz ela, dando um grande beijo em mim. Adormecemos ali mesmo, juntos. Por sorte Lao, que sabia de nosso romance sei lá como, veio nos acordar. - Se o mestre pega vocês aqui ele vai te mandar embora Ling! Tomem mais cuidado! Ele vai embora. Eu sabia que pelo menos em um eu podia confiar. ****************** O sol nasce mais uma vez, belo e forte como no primeiro dia em que eu cheguei. Nem parecia que havia nevado a menos de um dia ainda... mas agora o tempo era perfeito. Yoan nos reúne na frente da casa. Sho Win retira água do riacho para seus afazeres, embora eu percebesse que ela nos observava, com os olhos voltados para mim. - Hoje o verdadeiro treinamento terá início. Vocês se tornarão os maiores guerreiros de sua geração. Serão versados, a partir de agora, em todos os estilos possíveis - diz Yoan. - Mas antes vocês tem que compreender que uma luta é o último ato de uma tragédia. Vocês tem que evitar, a todo custo, um confronto. Não por que são fracos, mas sim por que são fortes, mais fortes que os demais. Os homens são todos iguais em sua essência. Não existe motivo para disputas. Vocês tem que entender que tudo o que eu ensinar hoje só lhes servirá, realmente, se vocês compreenderem que uma palavra tem a força de mil golpes. Nunca ataque, somente defesa. Nunca caos, só harmonia. Nunca luta, só paz. Todos nós, pelo menos aparentemente, compreendemos profundamente o que ele queria dizer. A luta é como uma espada, que só deve ser tirada da bainha quando for realmente necessária, pois quando despida, ela sempre terá que ser usada. Tínhamos o resto do dia de folga (a primeira em dois anos e meio de treinamento). No dia seguinte, iríamos para o cume de Shizu, iniciar nosso 7
  • 8.
    aprendizado real. Nestedia, nos separamos em dois grupos. Eu, Sho Win e Lao fomos caminhar pelo bosque. O restante, incluindo Yoan, ficaram no riacho, nadando. - Eu também já tive uma namorada, sabe? O nome dela era Kiy. Mas agora eu acho que ela deve estar com outro... huum, é, faz muito tempo desde que eu parti para cá e a deixei só. Ela definitivamente já deve ter arrumado outro... - Não fale assim, Lao. Ela pode estar lhe esperando... - diz Sho Win, segurando em minha mão, como namorados. - Não, eu falei pra ela não me esperar. Ela sabia para onde eu estava indo e quanto tempo ia demorar. Um silêncio mórbido domina o ambiente, com o vento calmo balançando a copa das árvores, os pássaros a cantar e nós a caminhar. - Qual é a sua história, Lao? - pergunto eu, abraçado a Sho. - Eu morava nos becos de Goku, um feudo não muito distante daqui. Eu era ladrão, sabe? Minha mãe era doente e vivia pedindo esmolas nas ruas. Eu jurei que nunca ia pedir daquele jeito. Mas acabaram matando ela. Pra me virar nas ruas eu tive que aprender a bater forte pra sobreviver. Foi ai que eu encontrei Kiy. Ela era filha de um ex-aluno de Yoan. Ele nos descobriu um dia e ficou impressionado em como eu agüentava apanhar e como meu soco era forte para o de um garoto. É que ele me bateu pra valer, sabe, mas eu também bati nele. Ele então me falou que para eu ser digno dela eu teria que me tornar um grande lutador a ponto de derrotá-lo. Chamou Yoan, que de início me considerou fraco e incapaz do treinamento. Porém, no último dia em que ele estava no feudo, 4 idiotas um pouco maiores que eu vieram me bater, por que eu já tinha fama de bom de briga entre os pequenos ladrões da cidade. Yoan apenas observou. Eu acabei com cada um daqueles cretinos em apenas 5 minutos. Yoan me trouxe para cá na hora. Mas duvido que Kiy me espere. Eu estou aqui mais por causa de mim mesmo. Não gosto e nem gostava de roubar. Quero ser um grande lutador e oferecer meus serviços ao Imperador como guarda pessoal. Ficamos calados. - Sabe, eu morava neste bosque. Eu te vi muitas vezes aqui, Ling.Você pula desajeitado! - Eu melhorei! - dizemos em tom de brincadeira e provocação. - Então prove - diz ele. Eu pulo em cima do primeiro tronco, onde me equilibro facilmente. Lao pula em outro tronco e vira seu rosto em minha direção. - Vejamos se pode fazer algo melhor que isso: Ele pula de forma sobrenatural, dando piruetas invertidas, se equilibrando em um só pé e saltando como uma rã. Ao final de 1 minuto ele para, ofegante. - Agora você - diz ele. Eu olho para Sho Win, que também me observa, cheia de esperanças. Ela nunca havia me visto fazer acrobacias ou lutar. Acredito que nunca houvesse visto ninguém fazer aquilo antes de Lao. Eu tinha que fazer melhor. 8
  • 9.
    Me concentro. Fechoos olhos e respiro profundamente. Um movimento rápido e potente de músculos e lá estou eu, no ar. Olhos fechados, eu não tenho medo. Sei onde esta cada tronco, não que tenha memorizado, mas por que eu posso simplesmente senti-los. Saltos enormes, um mortal duplo, e por fim, caio no último tronco me equilibrando sobre meu braço esquerdo. Ambos, Sho Win e Lao, me observam de forma semelhante. Eu havia feito melhor. A reação de Lao, para meu espanto, foi de alegria: - Você conseguiu! – disse ele. Sho Win teve a mesma reação, vindo me beijar ardentemente, deixando Lao levemente encabulado. Voltamos para a casa de Yoan, que neste momento simplesmente dormia. Sak e Lyu apenas estavam com seus corpos dentro da água do riacho, com as cabeças para fora. Lao se juntou a eles, entrando de roupas mesmo, só se preocupando em tirar as botas. Eu e Sho Win ficamos conversando no meu lugar de meditação, que era perfeitamente visível do riacho. Que casal estranho nós éramos. Ela era bem mais alta que eu, linda, delicada e amorosa. Eu era mais baixo, forte, e evidentemente mais novo. Ela contava seus 21 anos e eu os meus 15. Era proibido e por isso mesmo tão bom. Sabíamos que ficaríamos algum tempo sem nos ver. Nos beijamos novamente. Senti os olhos de Lyu a nos observar, com raiva. Ele aparentemente estava com seus 19 ou 20 anos, bem mais compatível com a idade de Sho Win que a minha. Eu sabia que ele a desejava mais do que qualquer coisa ali, mais do que aprender com Yoan. Isso estava tornando as coisas perigosas. Ele era o maior e mais rápido de todos nós. Talvez ele seja no final o melhor lutador. Mas não posso permitir que ele tente algo contra nós. Resolvo fingir que não percebi seu olhar, e continuo a beijar Sho Win, agora de forma mais ardente. Minha mão inicia uma dança pelo corpo dela, de cima até em baixo. Seus seios, grandes para uma chinesa comum, mas perfeitos para ela, eram macios e quentes. Suas costas, lisas; suas coxas, delicadas iscas de amor... ela também, por sua vez, retribuía as carícias, me alisando o peito seminu da camisa aberta, minhas coxas, minhas nádegas e meu sexo por cima de minha calça. Lyu estava visivelmente odiando a mim cada vez mais e mais. Mas eu não me importava. Sho Win e eu rumamos para o bosque mais uma vez, desta vez sós, de onde só retornamos a noite. Próximo a casa, Yoan nos observa, com olhos cerrados. Nós paramos. Havia ele descoberto? Eu não sei, mas ele sorriu para nós e entrou mais uma vez na casa. ************************* - Acorde, vamos, acorde! - diz Lao, me empurrando e, por fim, me despertando. - O que foi? - pergunto eu. - Está na hora, vamos, se arrume, está na hora! - diz ele, eufórico. - Na hora do que, Lao? O sol ainda não nasceu... - Está na hora do teste, Ling, o teste! Yoan me pediu para lhe acordar e lhe chamar! Vamos, vamos! - Que teste é esse, pra onde a gente vai... - pergunto eu inutilmente a Lao, que me empurra para fora, dizendo "Vamos, vamos, os outros estão esperando, vamos!". 9
  • 10.
    Chegamos ao ladode fora da casa. Fogueiras ardiam em quatro cantos diferentes. Assim como quatro pequenas toras dispostas lado a lado no centro das fogueiras. - A natureza é formada pelos quatro elementos. Só depois de dominarem cada um dos elementos é que vocês estarão prontos realmente - disse Yoan, em tom sinistro. - Mas o senhor falou que hoje iríamos para o cum... POF! - um golpe certeiro em meu rosto que Yoan desferiu em tal velocidade e força que me custou acreditar que fora um soco que havia me derrubado. - Silêncio! Não questione seu mestre, jamais. Vocês nada treinaram até agora. Vocês são tão nada quanto no dia em que chegaram aqui.São crianças, frágeis e inocentes. Mas já tem um corpo de homem. Isso é quase tudo que é necessário para iniciarmos o treinamento. Com meus antigos alunos era tudo o que bastava. FORÇA! Mas agora eu creio que errei ao treinar apenas o corpo das pessoas. É preciso treinar também o espírito, e a coragem, e a ética! Sem isso, nada adianta ter treinado o corpo. Sem isso, apenas estarei treinando assassinos, loucos ou covardes, como o deu pai, Ling. Eu o aceitei por que queria remediar o mal que havia cometido no treinamento de seu pai. E acredite, você é idêntico a ele. Mas agora vocês são minha última turma, e eu não quero fazer de vocês meros lutadores, os maiores guerreiros de sua geração, NÃO, eu quero fazer de vocês os melhores lutadores de todos os tempos! Sim, nunca existiu ou vai existir lutadores como vocês em todo o mundo. E para isso, o treinamento foi totalmente refeito. Esta será a primeira e a ultima fez que eu ensinarei o Caminho do Tigre. E esta será a entrada para este caminho. Vençam o elemento. Vençam o FOGO! Caso contrário voltarão para o lugar de onde vieram imediatamente. Esta é a ultima chance de saírem com vida caso não se achem aptos para o árdua treinamento. Vençam o FOGO, AGORA! - Grita ele. Ele nunca havia falado tanto e tão violenta e seriamente quanto agora. Admito que senti vontade de chorar, mas como sempre, me contive. E revoltado com o recém tratamento rígido que ele adotara eu sou o primeiro a perguntar o que devia ser feito. - Está vendo as quatro fogueira? Escolha uma para enfrentar. Eu aponto para uma, a que eu acho mais ardente. - Você pode morrer se cometer um único deslize, Ling. Eu o olho de forma nova, que, novamente, o surpreende. E ainda digo: - Eu não vou errar. - Pois bem. Entre na fogueira e quebre a pequena tora. Não pense que será fácil. Ela não está queimada ou amolecida, é uma madeira especial, das mais duras que tem no bosque. Quebre-a com um golpe de canela, Ling. E traga um dos pedaços dela para mim. VÁ! Eu paro em frente a fogueira. Ela brilha e arde, muito. Eu adoro a escuridão, e ela é tão brilhante... eu não posso tentar, eu tenho que conseguir! O ódio ainda pulsava dentro de mim, em harmonia com a dor latejante do golpe dado por Yoan. Eu queria mostrar para aquele velho que eu era o melhor, e era isso que eu lhe mostraria: o melhor. 10
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    Tomo impulso, corrode forma dinâmica em direção ao brilho extremamente quente. Eu sabia que ele não queria exatamente que eu entrasse na fogueira, por isso eu simplesmente pulei para dentro dela. A tora era visível. Eu dou o golpe mais forte que posso contra ela. De uma dureza incrível, por um segundo eu chego a pensar que havia falhado. Mas ai percebo que havia partido a madeira perfeitamente. Eu atravesso a fogueira sem tocar o chão, mesmo tendo perdido velocidade com o golpe. Não me preocupo em recolher a parte da madeira, pois ela havia caído muito próximo do lugar onde eu pousaria em breve, fora das chamas. Um belo salto, sem dúvida. Um único salto. Em pleno ar adentrar no fogo, partir a tora e pousar do outro lado, de forma brilhante. Minha canela doía muito, é verdade, mas não estava fraturada. A carne no local havia se rasgado e havia um sangramento, mas eu ainda podia andar perfeitamente. Todos olhavam abismados. Eu havia conseguido, e de forma incrível. Meio mancando, eu trago a madeira até o mestre. Jogo-a aos seus pés, ainda quente. - Você venceu - diz Yoan. - QUEM eu venci? - pergunto eu - A mim ou ao senhor? - e saio mancando para me sentar em um banco de madeira, e observo todos. Yoan sorri levemente, porém, escondendo de todos. "O garoto é atrevido, mas sabe usar o ódio de forma perigosa. Ele me surpreendeu novamente", pensa ele. - Mestre, permita-me ir agora - diz Sak. - Vá. Sak não parece preocupado. Aquilo parecia uma coisa normal para ele. Ele estava calmo e realizou movimentos soberbos. Deu um grande salto, e logo após um violentíssimo golpe contra a tora de sua fogueira. Trouxe-a para Yoan, que mais uma vez, disse: Você venceu. Sak veio sentar-se ao meu lado. - Como está a perna? - pergunta ele de forma simples. - Está boa - digo eu, mentindo. - Vá para dentro e veja com Sho Win o que pode ser feito, ela está péssima! O sangue está brotando a olhos vistos - diz ele apontando para meu ferimento. - Certo... obrigado - digo eu. - Espere - diz ele - Me traga algo também, certo ? - diz ele, segurando sua perna com um ferimento se não igual, pior que o meu. - Certo - digo eu, mancando para a casa. Enquanto isso, Lao se apronta para saltar. Eu paro a caminhada para observar sua vez. Ele pula e atravessa a fogueira rapidamente. Trás a madeira para o mestre, sorrindo. - Você venceu - diz Yoan, como um mal espírito. - Vejam, não cortei a perna! - diz ele alegre e orgulhoso, indo sentar-se com Sak. Lyu era o ultimo. Eu não queria vê-lo saltar para não ter que desejar-lhe má- sorte, e por isso eu estava quase que para adentrar na casa quando eu o vi tirar a camisa. Eu não o havia visto despido antes, e ele tirou toda a roupa. Havia uma enorme figura de um dragão vermelho em suas costas. Até mesmo Yoan ficou preocupado. Aquela era a marca do temido clã de ninjas assassinos JitSu, que havia criado uma técnica de combate inspirada nas próprias sombras. 11
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    Ele desfilou porentre as fogueiras, completamente nu. Sho Win, que havia vindo ver o que ocorria, o contemplou então. Ele a olhou também, e logo depois, entrou na fogueira, caminhando. Todos se preocuparam, mas Yoan estava calmo. Por ali ficou ele alguns segundos. Logo depois, apareceu novamente com o pedaço de madeira e nenhuma escoriação nas pernas ou braços, nem sinais de queimaduras. Deixou a madeira aos pés de Yoan, e disse em tom forte: "Eu venci". Sho Win ainda o observava. Ela não havia me visto. Eu podia ver o desejo em seus olhos, o mesmo desejo que eu vi quando ficamos sós pela primeira vez. Neste instante eu soube perfeitamente que eu a perderia. Eu manco em sua direção, e só então ela me percebe. - Me de algumas ataduras e alguma erva para cicatrização. Ela fica enrubescida, vendo em meus olhos que eu sabia o que passava em sua mente. - Sim, um momento. Ela volta logo depois com o material. Eu dou as costas a ela e me dirijo para Sak, que me aguardava, ansioso em limpar a ferida e fechá-la. Lyu já havia se vestido, mas Sho ainda o observava, assim como ele olhava para ela. Uma troca de olhares tão explicita que eu não podia mais ver. Rumo para o bosque. - Partiremos quando o sol nascer - diz Yoan. Eu nada respondo. Lao e Sak apenas me observam adentrando na negra e densa mata que se formava logo a minha frente. Isolado, dentro do mato, eu faço o que não fazia a muito tempo: eu choro. Choro por que estou vivendo de forma inigualavelmente má. Separado da família, rejeitado pela amada, sentindo a dor percorrer seus ossos brancos... eu choro até o amanhecer. Voltando para o lar de Yoan, vejo Sho e Lyu na parte de trás da casa. Eles não me vêem. Ambos se beijam loucamente. Enquanto os outros arrumam suas coisas para a viajem, eles se amam sob a proteção do céu azul que nascia belo, e agora triste. Eu ainda choro . Lágrimas de prazer escorrer pelo rosto de Sho Win que cerra os dentes e geme fracamente; ambos arfam. Algo rápido e proibido, assim como era conosco. Sem ao menos terem tirado as roupas, ambos se levantam, se beijam mais uma vez, e vão embora. Eu engulo as lágrimas, engulo o ódio. Jogo tudo em uma grande fogueira que arde em meu peito, fogo este que move agora meu corpo. "Seremos os maiores lutadores do mundo em todos os tempos, e eu ainda serei o melhor de nós quatro. Meu sangue não mais será derramado sem vingança mortal contra meu oponente. E que isto não seja uma promessa, mas sim a realidade". Me levanto também, e dou a volta, entrando na casa e arrumando minhas poucas coisas. ********************* - Não vai se despedir de Sho Win, Ling? - fala Lao. 12
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    Eu me arrastoaté ela, que me olha de forma semi-diferente, mas aos demais olhos, como sempre havia feito. Apenas uma diferença sublime, que só eu podia perceber. Ela me dá um abraço, e me beija, sem que eu retribua o gesto. - O que foi Ling? - pergunta ela de forma sonsa. - Você está gostando de me tocar, Sho Win? Aproveite, pois se eu voltar a lhe tocar algum dia não será de forma amorosa, mas sim com um forte chute, assim como eu fazia com os cachorros de onde eu morava. - Ling!!! - responde ela tentando parecer inocente. - É isso mesmo, não é? Afinal você não passa de uma maldita cadela! Ela responde me dando um forte tapa no rosto, mas nem sequer chora, pois sabe que eu estou falando a verdade. - Como pode?!! - diz ela, agora tentando iniciar um choro. Eu respondo com apenas duas ásperas e fortes palavras, sussurradas em seu ouvido. - Eu vi. Ela compreende, e para de chorar. Fica imóvel, como se soubesse que eu queria matá-la naquele instante. - Nunca mais sequer olhe para mim - digo eu, saindo da sala. Ela permanece parada. - Vamos todos agora. Onde está Ling? - pergunta Yoan, na frente de Lao e Sak. - Estou aqui, mestre - respondo eu secamente. - O que é isso em seu rosto, Ling ? Parece uma panc... - Não é nada Lao, não é nada. - E agora, onde está Lyu? - pergunta Sak. - Deveríamos deixá-lo aqui. Vocês viram as costas dele... ele é do clã JitSu. O senhor ainda vai treiná-lo, mesmo sabendo que ele vai se tornar um assassino? - pergunta Lao. Yoan nada responde, apenas observa o nascer do sol. Eu, por minha vez, posso ver Lyu e Sho Win, semi escondidos, em um lugar que só eu podia ver, na frente da casa de Yoan. Eles se beija mais uma vez. Só que agora é Lyu que me observa enquanto acaricia todo o corpo de Sho. Eu abaixo a cabeça, e ignoro. A partir daquele dia eu saberia que Sho Win fazia parte de meu passado. Logo após isso, Lyu se reúne a nós. - Vamos agora - exclama Yoan. Marchamos em direção aos picos gelados da montanha, onde Sak havia treinado a tanto tempo. Mesmo estando à frente, eu podia perceber os olhos de Lyu sobre mim. Ele ainda não estava satisfeito em ter tomado a mulher que eu amava, ele queria algo mais. Eu ignoro e continuo a marchar, logo atrás de Yoan. Cerca de 2 horas depois chegamos ao local. Uma cabana de madeira, onde Sak dormia e comia durante sua estada lá, estava semi apodrecida. Mas ainda era 13
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    um bom abrigocontra os fortes e gélidos ventos sopravam violentamente durante todo o tempo. - Deixem suas coisas na cabana, vamos iniciar o treinamento logo. "Ronin", mostre o lugar ao demais. Eu vou descansar um pouco. - Sim, mestre - responde Sakazama. Deixamos nossas coisas na cabana e seguimos Sak. Eu estava meio preocupado, nós nunca havíamos ficado a sós durante este tempo todo, não nós quatro juntos. Isso podia ficar complicado. - Que tipo de apelido é "Ronin"? - pergunta Lao a Sakazama. - Na língua de meu povo, "Ronin" é um Samurai sem senhor. Um cavaleiro errante, em busca da morte por ter permitido que seu senhor morresse. Essa é a maior desgraça possível em toda a vida de um Samurai - diz ele, em tom melancólico. - E por que ele te chama assim? - pergunto eu. - Por que seu pai era um - diz Lyu, em tom sarcástico. Sak apenas olha Lyu com o canto de seus olhos, sem alterar seus movimentos ou virar a cabeça, em tom superior. Ele nada fala. - Ronin. É melhor que Sak. Vai ser Ronin agora - diz Lao, brincando - Paramos. Havia um grande paredão de rocha a nossa frente. Ficamos a olhá-lo. - Este era o meu desafio pessoal. Por dois anos inteiros eu subia ele todos os dias em uma hora. Olhávamos para a parede de rocha e para Ronin sem entender como ele fazia aquilo. Era uma parede completamente vertical. Fora algumas saliências ou buracos, era completamente lisa. A altura era enorme, uma queda e seria morte na certa. Ronin observava a parede como se esta fosse sua única amiga, confirmando minhas suspeitas de que ele havia passado pouco tempo com o mestre ou qualquer outra pessoa durante todo o treinamento. Seus próprios desafios se tornaram seus amigos. - Vamos, por aqui ha uma coisa que eu quero lhes mostrar. Venham - diz ele indo na frente. Nós o seguimos. Andamos até uma surpreendente lagoa natural que o riacho formava. - Coloquem a mão na água - diz o Ronin. Obedecemos. A água estava quente! Sim, e era mais cristalina e clara do que próxima a casa de Yoan. - Como? A água de lá era gelada e aqui está agradavelmente quente! - Uma bolsa termal embaixo da terra faz isso. Este monte era, a muito tempo, um vulcão. Agora adormecido, seu sangue aquece a água deste local, que logo adiante encontra a neve eterna das montanhas, a tornando gelada mais uma vez - diz Ronin. - Incrível! - diz Lao. - Venham, vamos para a cabana. O mestre já deve ter descansado. - É, vamos logo para a cabana, pequenino Ronin. - diz Lyu. Sak o olha novamente, mas agora de frente, com um olhar profundo. Lao interfere, puxando Sakazama. - Vamos logo, vamos logo - dizia ele. Lyu ainda me olhava de forma perigosa. Algo aconteceria, e logo. Chegamos à cabana, onde Yoan nos esperava. - Sentem-se - disse ele. Nós obedecemos. 14
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    - Hoje demanhã vocês iniciaram sua jornada. Vocês agora trilham o Caminho do Tigre. Não existe mais volta - o silêncio domina a todos. - A partir de hoje um novo treinamento será iniciado, mas os antigos também serão incorporados. Agora vocês se tornarão Tigres. Muita coisa foi ensinada naquele dia mesmo. Absorvíamos os ensinamentos mais rápido que absorvíamos os golpes dados por nosso mestre. Lyu parecia se divertir muito com tudo aquilo, estava sempre com um sorriso, muito cínico. Desviava dos golpes de Yoan de tal modo que se mostrava em equiparação com ele. Não havia o que se ensinarem e nem o que aprenderem. Aqueles que treinavam na nossa frente não eram aluno e mestre, mas sim oponentes. Naquele dia eu vi pela primeira vez Yoan sangrar. Lyu não sofreu um golpe sequer. Só parou quando o Mestre sangrou com um golpe certeiro em sua boca. - Desculpe mestre - dizia ele descaradamente. - Não ha do que se desculpar, Lyu. Você fez muito bem - disse Yoan, visivelmente cansado. Os combates acabaram por aquela semana. Treinamos golpes e movimentos incríveis. Os exercícios de alongamento, corrida e nado continuaram, assim como todos os outros que estávamos habituados. Eu os ensinava a bater na rocha com as mãos nuas, Ronin nos ensinava a escalar o paredão e Lao nos mostrava como arrebentar coisas com seus potentes golpes com a canela. Lyu, por sua vez, ria de nós, e se indispunha a realizar exercícios tão primários. Ele apenas observava, e nada ensinava. Isso nos provocava ira. Ainda não fazíamos idéia do por que é que ele estava conosco. Era visível que era mais velho, e um excelente lutador. Sua ligação com o JitSu me provocava suspeitas terríveis , mas me recusava a aceitá-las. Como Yoan, um verdadeiro mestre, poderia... não, não poderia. Eu tentava esquecer tudo, mas a imagem de Sho Win com ele me despertava o fogo interior que mais uma vez me movia. Passada uma semana de treinamento árduo, voltamos para a casa principal. Sho Win observava a mim e a Lyu, como se estivesse surpresa por não termos nos atracado e lutado. Eu não lhe dirijo a palavra, passando por ela, assim como todos os demais, exceto Lyu, que a lambeu na orelha, lhe provocando risos. Eu vi, e eles não mais se importaram. Logo depois ambos foram para trás da casa. Eu e os demais fomos para o quarto e dormimos pesadamente. Meu corpo não sentia dor igual desde a primeira semana de treinamento. Os demais também se sentiam assim. Estávamos apenas começando. No dia seguinte retomamos o treinamento. Novos golpes eram ensinados a cada semana, e tínhamos que lutar entre nós para os por em prática. Duas duplas então foram separadas. Lao com Lyu e eu com Ronin. Lutávamos pesadamente, mas com respeito e afinco. Eu e Ronin nos dávamos bem, e eu sentia que nele nascia um grande amigo. Lao se dava bem com todos, mas Lyu não se preocupava em não machucá-lo nos treinos. Um dia, porém, ele bateu muito forte em Lao, que desacordou. Ronin foi socorrê-lo, enquanto que Lyu se aproximou de mim e disse: "Aprenda logo, pequeno Ling. Quando lutarmos, não serei tão piedoso como com ele". Eu respondo: "Eu também não". Ele vai embora, enquanto que Yoan chega para ajudar Lao. A noite, no jantar, Yoan falou, pela primeira vez desde que eu o conhecia. 15
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    - Lao, vocênão está em condições de continuar com Lyu como parceiro. É triste, mas evidente que ele possui um conhecimento muito superior ao de vocês. Por isso eu espero que você, Ling, seja o novo parceiro de Lyu. Um grande e forte calor percorre todo o meu corpo. Eu sabia que era isso que Lyu queria fazia tempos, mas deixar Sakazama para ele não seria justo, mesmo sendo o Ronin melhor lutador que eu. Ele queria a mim, e também deixaria Sakazama como Lao. - Eu aceito - digo eu. Os olhos de Sho Win saltam. Os demais fazem ar de desaprovação e Lyu sorri. Yoan diz: "A partir de agora assim o é" e continuamos a comer. Um novo dia nasce. O treinamento é iniciado com um alongamento total, os demais exercícios que fazíamos no início, só que em escala menor, e depois o treinamento marcial, ou O Caminho do Tigre, o qual nós percorríamos, segundo Yoan, de forma lenta e progressiva. No fim da tarde, porém, o combate de treino seria iniciado. Sak e Lao já lutavam em um pequeno tablado armado ao lado da casa de Yoan. No outro lado da casa, isolado, Lyu me esperava para a luta. Ninguém nos observava, a não ser Sho Win, que chorava escondida, mas assim mesmo pude vê- la. - O pequeno Ling veio! Quanta coragem!!! Pensei que havia fugido! - diz ele. - Não tenho motivo para fugir Lyu. É só um maldito treino - digo eu. - Não, você sabe que não é só um treino - disse ele. - Então o que é? - pergunto eu, tomando posição de combate. - Um teste. Vamos, me ataque - dizia ele completamente relaxado. Eu não tenho que pensar muito. Vôo para sua direção. Ele se move de forma rápida, feroz como um verdadeiro dragão. Me acerta um forte chute invertido, levantando sua perna na altura em que eu estava. Eu caio espatifado no chão. - Você realmente não passa de um garoto, Ling. Eu TENHO que matá-lo. Compreenda, você não devia ter me provocado daquela maneira antes. O ódio crescia dentro de mim. Eu levanto. - O que? Ainda de pé? Você não deveria ter levantado, Ling, seria muito mais rápido - diz ele me atacando rapidamente. Em um lance de puro reflexo, eu desvio. Lyu não acredita. O ódio estava queimando forte em mim. Meus olhos estava a ponto de explodir. A dor que havia em meu abdômen havia desaparecido. Eu estava possuído pelo ódio e pela raiva. Eu me tornara perigoso, mesmo estando apenas no início do treinamento. Lyu investe mais uma vez. Agora, além de me desviar, eu lhe acerto um fortíssimo golpe de joelho em seu rosto, ao estilo do Muai Tai que Sak havia aprendido e estava me mostrando no dia anterior. Lyu cai com o rosto sangrando, desacordado. Sho Win corre em nossa direção. - Seu monstro, você matou ele!!! - gritava ela, chorando. - O monstro aqui não sou eu, cadela. E o monstro ainda esta vivo - disse eu apontando para Lyu. Eu ainda pude ver Yoan, que estava observando a luta o tempo todo. Ele sorri para mim, e some mais uma vez por entre a mata cercava o local. Lao e Ronin correm para ver o que estava acontecendo. Eles olham para Lyu caído ao chão e eu posso ver suas dificuldades em segurarem risadas. 16
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    - Vamos levá-lopara dentro - diz Sakazama, carregando-o por um dos braços enquanto que Lao o carrega pelo outro. Yoan entra com eles para prestar ajuda médica, conhecimento que ele praticava muito bem. Sho Win e eu ficamos a sós. - Você bateu nele. Como pode ? - pergunta ela. - Eu apenas fiz o que devia ser feito. Estou trilhando o Caminho do Tigre. É parte do aprendizado. - E eu, também fui parte do aprendizado? - pergunta ela. - Eu achava que não, mas agora, vendo bem, eu acho que você não passou disso mesmo, de uma lição. Ela se despe de seu vestido vermelho, ficando nua na minha frente. Ela se toca, se alisa, se acaricia. - Você me quer, Ling, eu sinto. Você sente saudades. Venha então, me possua. Ela é linda, uma estátua perfeita feita para o amor. Seu tom de pele, claríssimo, contrastava com a negritude de seus longos cabelos. Ela era perfeita, tentadora, surrealista. Eu sinto a chama do ódio se apagar dentro de meu coração. E a do amor reascender das cinzas. Eu a toco. - Sim, sim meu amor... - diz ela, fechando os olhos. Mas rapidamente eu retiro a mão de seu seio e lhe desfiro um forte tapa no rosto, tão forte que ela desaba no chão, chorando. - Por que, Ling? Por que? - diz ela, chorando e gemendo baixinho de dor. - Eu só estou lhe tratando como você deve ser tratada, maldita cadela. Eu saio do local e vou para dentro da casa, e a vejo ali, no tablado, caída ao chão, nua, semi enrolada em seus panos vermelhos, chorando. Deus, o que eu havia feito? Que cena mais bela e triste. No que eu estava me tornando? Eu nem sequer queria bater nela. Deus, eu a amo mais do que tudo, mas não posso voltar para ela. E por que eu havia batido nela, por que? A noite, com tantas perguntas explodindo em minha cabeça, eu vou para meu lugar. Lao pergunta se pode vir junto e eu digo que sim. Meditamos. A mesma noite, bela e limpa, que eu conhecia.Só a noite, a escuridão. As respostas vem aos poucos, a confusão se acaba como uma névoa indesejada. A paz retorna, mansa, ao meu espírito dolorido. Eu estava me tornando um homem, essa era a resposta. Não um simples homem, mas um Homem. Passos pesados atrás de nós denunciam alguém se aproximando. Uma voz cortante diz: - Lao, saia daqui - era Lyu quem estava ali. Lao se levanta e encara Lyu. - Não - diz ele. - Pode sair, Lao. Por favor. - digo eu. Ele olha mais uma vez para Lyu, de cima em baixo, e sai, devagar. - Qualquer coisa é só gritar, Ling - diz ele. Com o rosto inchado, Lyu se posiciona logo a minha frente. 17
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    - Foi umbom golpe, Ling. Bom mesmo. Ninguém havia me acertado desde meu próprio mestre, meu pai. Você merece meu respeito - diz ele, seriamente. - Eu quero lhe pedir desculpas se fui arrogante. Não que você seja melhor que eu, não,eu lhe dei apenas uma única brecha, e você a enxergou e se utilizou dela, com perfeição. Isso é muito para um aluno em início de treinamento. Eu escuto tudo em silêncio, com os olhos fechados e a cabeça baixa. Lyu desfere um forte e rápido soco em direção ao meu rosto. Sem abrir os olhos ou mover a cabeça, eu seguro sua mão e bloqueio o golpe de forma surpreendente. Ele se espanta. - Como você sabia que minha mão estava ai? - Medite sobre isso... e talvez encontre a resposta, um dia - digo eu, indo embora. Nos dias seguintes nossos combates ficaram mais amenos, mas como havia dito, ele era muito melhor que eu. Nenhum golpe o acertava, enquanto que ele me acertava quase todos. Porém, ele interrompia o combate várias vezes para me explicar como certo golpe sairia melhor se desferido de certa fora, como pular e se defender e, principalmente, ele estava me ensinando golpes que Yoan não ensinava, golpes de Nin JitSu e outras artes desconhecidas de nós. Ele estava me ensinando! E dia a dia eu chegava mais e mais perto dele. Sho Win não permanecia mais com nenhum de nós. Sozinha, ela se entretinha a arrumar a casa e a fazer a comida. Nos jantares meus olhos cruzavam com os dela. Ela me olhava da mesma forma inicial, com desejo. Ela ficava, depois do jantar, nos fundos, talvez para meditar, ou o que eu acho o mais provável, a minha espera. Eu nunca mais a havia visto com Lyu. E nestas oportunidades ela sempre estava com ele. Mas eu ainda não podia esquecer o que ela havia feito. Eu a amava, e a amo, mas o que ela fez era imperdoável. Eu não ia lhe encontrar, e sim meditar, no meu lugar. Certo dia perguntei a Lyu se eles ainda estavam juntos. - Não, Ling, você ainda não percebeu? - disse ele. - Eu a usei. Usei para você me odiar, para lutar comigo da melhor forma possível para que eu pudesse testá-lo. Você passou no teste, e agora tem dois mestres, trilha dois caminhos distintos. Ela me odeia tanto quanto você me odiava, Ling - diz ele bebendo um grande gole de água do cantil. - Usou? Como pode? - pergunto eu. - Eu não tenho escrúpulos, Ling. Fui banido do JitSu por ser considerado piedoso demais para com meus inimigos. Precisava fazer algo que surpreendesse a eles para poder voltar, e ensinar ao melhor aluno de Yoan seria algo muito bom, mas eu não sabia quem era o melhor. Me candidatei ao cargo de aluno e passei . Estou dentro para encontrar o melhor de todos, e encontrei. Agora, estou lhe ensinando ao mesmo tempo que Yoan. Eu podia ver a mentira em seus olhos. - Não é por isso que você está aqui, Lyu. Eu sou um acidente. O que você quer realmente aqui? - Eu não devo lhe responder mais nada, pequeno Ling. Sho Win e eu não temos mais nada em comum, a não ser grande simpatia por você. - Então vocês nunca mais se encontraram? - Não, desde aquele dia em que eu o testei, nunca mais. 18
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    Um grande trovãocorta o silêncio que estava sobre nós. O céu se fecha. Uma chuva inicia sua queda. - Vamos, não é uma chuva idiota que vai me impedir de te comer terra - diz Lyu, brincando. - Vamos ver quem vai comer terra aqui, Lyu - digo eu, me ponde em posição. Iniciamos uma luta, que se estende até a noite. **************************** Assim se passaram os próximos dois anos. Yoan ia ficando cada vez mais debilitado fisicamente. Já não fazia os exercícios conosco, mas sim com Sho Win, no final da tarde, e de forma muito mais amena. Nós, ao contrário, íamos intensificando os exercícios. Nós havíamos nos tornado verdadeiros homens, grandes lutadores. Eu despontava, pois estava tenho duplo ensinamento. Mas Ronin e Lao me davam boas surras em nossas lutas mistas. Estávamos no mesmo patamar, só que eu um pouco mais adiantado. Lyu não era comparável a nós, e agora ele era amigo de todos. Sho Win ainda estava só, e mais bela e tentadora ainda. Ela continuava a me olhar e a me esperar atrás da casa todas as noites, sem que eu comparecesse. Um dia, porém, Yoan nos deu um dia de folga. Algo aconteceria no dia seguinte. Ele havia falado em vencermos os elementos, e até agora só havíamos enfrentado o Fogo. De qualquer forma, eu e Sho Win tivemos que ir de montaria até a vila em que ela e Yoan pegavam alimentos todos os meses. Yoan, por estar se sentindo indisposto, ficara deitado em sua cama. Eu e Sho Win não trocamos uma palavra nos 25 quilômetros que separavam o pé da montanha da vila. O dia, ensolarado, estava especialmente quente. Eu tive que tirar a camisa. Sho admirou meus novos músculos e minha estatura, agora maior. Eu já estava na mesma altura dela, se não maior. Ela me olhava com desejo. Eu não correspondia. Chegamos a vila, e um grande choque eu levei, afinal, faziam quase cinco anos que eu não via outras pessoas a não ser Yoan e o pessoal. Havia tanta gente e tanta coisa nas ruas... Sho me cutuca e indica o lugar aonde deveríamos ir buscar os mantimentos. Eu estava hipnotizado por aquela multidão ensandecida, que gritava, ria, chorava, cantava, corria e comprava. Era lindo. Mas fomos então ao tal lugar. Um senhor de aparentemente 60 anos entrega a mim e a Sho Win sacolas com a comida. Prendemos elas nos cavalos, e nos preparamos para partir. Porém Sho Win vai por outro lado. - Venha, eu tenho que visitar uma amiga. - Sho Win... - digo eu agarrando o braço dela. Ela me olha, com uma mistura de ternura e ódio. - Me solte. Eu tenho que visitar esta amiga. Vamos, não vai demorar muito, é aqui perto, venha! - diz ela, galopando em frente com o cavalo. Eu a sigo. Entramos por uma viela deserta. Depois, chegamos a uma pequena praça. Uma casa que ficava logo em frente é para onde rumamos. Sho Win bate palmas. - Mai Ni ! Main Ni ! - grita ela. Ninguém responde. - Vamos, não ha ninguém - digo eu, puxando ela. - Não, espere! - grita ela, pulando do cavalo e entrando na casa. - Sho Win! - grito eu, correndo atrás dela. Ao entrar na casa, um odor forte de podridão invade meus pulmões. Tenho que me esforçar para não vomitar. 19
  • 20.
    - Sho Win?- falo eu, procurando-a pelos cômodos da velha casa. A encontro em um quarto, agarrada a uma velha camisa, chorando. - Sho Win... o que houve? - Ela se foi, Ling. Ela morreu. - Ela estava doente? - Sim, já estava velha e não podia mais se cuidar. Eu não podia ficar aqui, tinha que ficar com o mestre. Mas sempre que vinha para a cidade eu a visitava, limpava a casa, lavava as roupas, fazia comida... mas agora... ela se foi - Deus, como eu queria abraçá-la! - Quem era ela, Sho? - Ela era minha mãe, Ling. Era minha mãe... - Por que você não abandonou o mestre para ficar com ela? - Eu... não podia! Ele sempre foi tão bom para mim! Quando meu pai morreu (é, Yoan não era seu pai) minha mãe não tinha como me sustentar. Yoan era amigo de meu pai, e se dispôs a me criar. Ele NUNCA, NUNCA levantou a mão para mim. Sempre foi um verdadeiro pai. Mas eu continuava a ver minha mãe. E agora ela morreu, ela morreu... - Venha Sho Win. Vamos embora - digo eu, a pegando delicadamente pelo braço. Chegamos até o lado de fora. Nossos cavalos estavam cercados por 6 jovens da cidade. Jovens que cometeriam seu maior erro. Eles nos vêem sair. - Se estão procurando a velha podem esquecer, Ela morreu fazem 2 semanas - diz um. - Sho Win sai da casa. Eles a vêem. - Uuuuuuuuh, o que temos aqui! O camponês tem uma namorada, e que namorada! - Vem pra cá, mulher! - diz um deles, a agarrando e a puxando para o meio deles, onde eles lhe deslizam as mãos ruins pelo vestido bege. Eu dou um passo a frente. - Hei! Hei! Hei! Temos um herói aqui. Não é mesmo, camponês? - diz ele me dando um tapa no peito. Eu me contenho. Eles começaram a despir Sho Win. - Parem agora e deixe-nos passar. Não queremos problemas. - Você quer que paremos? Pois bem, faças-nos parar! - grita o que estava me encarando. - Não posso bater em vocês sem antes TENTAREM me bater - digo eu pacificamente. - Então tome isso, montanhês! - diz ele desferindo um golpe rápido para os da sua laia, mas horrivelmente lento para uma pessoa que já percorreu boa parte do Caminho do Tigre. Eu o bloqueio de forma simples, e logo após eu quebro o seu braço na altura do cotovelo, invertendo a junta. Ele cai no chão, gemendo e gritando de dor. Os outros vem tentar me combater e deixam Sho Win livre dos abusos. Ela se veste, cobrindo seu belo corpo. Os demais já estão em cima de mim. Devo admitir que foi não só fácil como também divertido derrubar cada um deles com um único e diferente golpe. Quebrar um osso diferente em cada um deles e ouvir seus estalos me deixou de certa forma contente. Eles se recuperariam, mas nunca mais iriam importunar desconhecidos. Tudo não levou mais do que 2 minutos. Eu pego Sho Win, que estava caída no chão, ainda chorando, e a ponho em seu cavalo. Eu monto no meu e então saímos da cidade. Os demais habitantes da vila me olham com respeito. Iniciamos o longo caminho da volta. Um caminho tão deserto quanto bonito. Era primavera, e uma infinidade de flores do campo forrava, juntamente com a grama verde recém nascida, todo o solo do local. No meio do caminho, Sho Win pede para parar. Quer descansar. Paramos então. Ela desce do cavalo e caminha pelas flores. Eu observo. Também desço de minha montaria para andar um pouco. 20
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    - Você estábem? - pergunto eu. Ela responde com um movimento de cabeça, fazendo sinal de positivo. O maldito calor, mais uma vez. Uma onda quente e abafada que me força a ficar com o mínimo de roupa. Tiro a camisa mais uma vez. Ela se ascende. Tira o vestido que a cobria,e fica, mais uma vez , completamente nua. Eu a observo. Ela me olha, sedenta. Se deita sob seu vestido, e me convida. - Me possua, Ling. Me possua agora e eu juro pela alma de minha mãe que eu nunca mais serei de ninguém enquanto eu viver. Me possua - diz ela. Eu o faço. Ela estava mais ardente do que nunca. Seria mais uma mentira, ou enfim ela estaria falando a verdade? Eu deixo estas perguntas para a noite. Me concentro nela. Nós, entre as flores e a grama, com um sol extremamente forte, fazemos amor por uma hora. Uma hora inteira. Eu a amo, e descobria agora que ela também me amava. Abraçados, nus, deitados na grama, ficamos a observar o céu. - Eu não me deitei com nenhum homem mais desde... - Eu sei. Esqueça, Sho, pois eu já esqueci. - Eu te amo, Ling. Me perdoe! - Eu também te amo, cadela - nós rimos. Nos amamos mais uma vez. Nos vestimos e rumamos para o monte Shizu. ***************************** A noite, como era de costume, silêncio total. Lyu nos olhava, ameno. Deu-nos um sorriso, que Sho Win devolve com uma cara fechada. Depois, atrás da casa, lugar que ela me esperava toda noite durante dois anos, nós nos encontramos. Ficamos ali por algum tempo, quando percebi que era hora de entrar e dormir. A madrugada, mais uma vez, era a hora do teste. Desta vez foi o Ronin que veio me despertar. Saímos e nos reunimos, mais uma vez, na frente de Yoan. - Vocês já iniciaram o Caminho do Tigre a algum tempo, e o vem trilhando com grande perfeição. Para poderem ter o direito de percorrer tal caminho, vocês tiveram que desafiar e vencer um dos quatro elementos, cujo total domínio é a chave para uma melhor compreensão do Caminho. Vocês já desafiaram o fogo, está na hora de desafiarem e ganharem da terra! - Diga o que tem que ser feito, mestre. - Pois bem, sigam-me - diz ele, se encaminhando para o local onde eu outrora socava rochas. Lá havia uma grande fogueira, para iluminar o ambiente, e grandes pedras de mármore, uma das mais duras rochas que existiam por lá. - Pois bem, escolham uma e quebrem-na. - O que?! Mestre, isso é impossível! Com martelos e estacas demoram horas, com as mãos nuas seria loucura, não importa o quão forte seja o golpe! - Tenho certeza que Yoan não batera em Lao por que este estava longe. Yoan apenas falou: - Garotos insolentes, eu pensava que vocês haviam aprendido tanto! Mas vejo que nada aprenderam ainda. Vocês não são mais homens comuns, são guerreiros! Suas mãos podem destruir tudo o que tocam, se souberem como, e principalmente, se quiserem!!! Olhem para mim! Vocês acham que é impossível quebrar uma pedra destas com as mãos? Pois vejam! - diz ele, tirando a camisa. Sho Win lhe diz: - Não mestre, o senhor não esta bem... 21
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    - Eu estouótimo, Sho Win. Só estou cansado, mas ainda posso ensinar algo a estes garotos sobre o que se pode fazer com a força de vontade. Afastem-se! - grita ele, se aproximando da maior pedra que havia. - Ele pode se machucar se... - Shhhhhh! - cochicham Lao e Lyu. Yoan fecha os olhos, e se concentra, não por muito tempo. Desfere um golpe seco contra a pedra, que permanece parada, tremendo. - HAAAAAAAAAAAIIIII!!!! - grita ele ao desferir o golpe. - Veja a pedra não quebrou! - fala baixinho Lao. Mas, logo depois, a pedra se parte em duas. Um metade para cada lado. A mão de Yoan perfeitamente saudável é observada por todos nós. - Podem olhar. Não está ferida. Lembrem-se da Garra de Gato que eu lhes ensinei a tempos trás. Não posso mais ajudá-los. Quebrem a pedra ou deixem o Caminho do Tigre agora! Sim, a Garra de Gato. Um golpe impressionante. Um golpe forte com a parte interna da mão seguido de uma contenção do mesmo logo que em contato com a superfície que é tocada. Difícil, mas relativamente simples, tanto que fora um dos primeiros golpes que aprendemos. - Mestre, quebrar madeira e pedra é uma coisa, mas quebrar Mármore é muito diferente! - Não há diferença, Lao. Apenas quebrem-na. Todos nós ficamos pasmos. Não sabíamos quebrar pedras como ele nos mandava fazer agora. Mas Lyu não estava preocupado. Ele toma a frente e fala ao mestre: - Eu quebrarei a rocha - fala com tal convicção que todos acreditam que ele realmente vá conseguir. Se põe a frente da rocha escolhida, uma bem grande. Realiza pequenos movimentos em um kati para se aquecer ou se concentrar, diferentes dos que Yoan fez quando estava se concentrando, e desferiu um golpe completamente diferente, sem expelir um só grito. A rocha se partiu não em duas, mas em várias partes, como se não fosse realmente de mármore, mas sim de calcário. Ele caminha para Yoan e lhe fala: - Ainda estou caminhando, Yoan - Ele , por sua vez , nada fala . Lao é o próximo. Escolhe uma pedra média. Para em frente a ela. Se concentra. A Garra de Gato era um golpe soberbo. Podia matar um homem facilmente, porém, quebrar uma rocha tão dura era algo que nunca havia passado sob sua mente. Ele desfere o golpe. - ZAAAAAAAAIIIIIIIY!!! - Nada ocorre com a rocha. Continua intacta. - Eu... , eu, falhei! - diz ele, pasmo. - Não, fracasso só em sua mente. Assim como a vitória. Levante, e desfira um verdadeiro golpe nesta rocha - diz Yoan. Lao nem sequer fala. Se levanta, fecha os olhos e dá o mais forte golpe de canela que podia dar. A pedra de esfacela, assim como sua perna. Seu osso fica visível, e o sangue brota de forma nauseante. Ele desmaia. 22
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    - Sho Win,me ajude, rápido! Temos que levá-lo para dentro! - grita Yoan, carregando Lao para a casa. Só restam eu, Ronin e Lyu, ao redor da fogueira, esperando o mestre voltar. - Como você fez aquilo? - pergunto eu a Lyu. - Técnica secreta JitSu. - Você admite que faz parte do clã JitSu? O que faz aqui então, Lyu? - pergunta Ronin. - Não me permito falar com o filho de um desonrado. - Meu pai tem mais honra em um punho do que você tem em toda sua vida! - Do que vocês estão falando? - pergunto eu sem compreender nada. - Não é nada, Ling - diz Lyu, se acalmando - Você quer saber como eu fiz aquilo? Você já sabe como fazer isso, Ling! - Como? - Pergunte a você. - Não tenho tempo para isso. Como eu faço? - Use sua raiva, Ling. TODA sua raiva! Foi assim que venceu o fogo, e foi assim que me derrotou. E será assim que derrotará a terra. RAIVA! - Não posso. Tenho que purificar minha alma de todos os sentimentos para alcançar a perfeição! - Este é um dos caminhos. Mas é o mais difícil. Limpar-se por completo de emoções é algo impossível, pelo menos para alguém que ainda trilha o Caminho. EU mesmo ainda não sou capaz disso, portanto me utilizo da raiva e do ódio para alcançar tal perfeição. - Yoan consegue se despir de suas emoções por completo - diz Sakazama. - Sim, mas Yoan já esta com 100 anos de idade. Sabe o quanto este homem treinou em sua vida? - responde Lyu. - Mas, se eu continuar a me utilizar da raiva e do ódio para ser bom, eu nunca mais poderei me limpar. Entenda, eu não serei mais capaz de me desprender das emoções e ser puro. Não terei a perfeição completa, nunca, e estarei preso ao ódio e a raiva para sempre. - Você não tem escolha, Ling. Ainda não está preparado para se purificar de tal maneira, é impossível para você ainda. Use o ódio para compensar - Eu não sei o que dizer. Yoan volta da casa com uma expressão séria. - Lao derrotou a terra. Mas a terra o feriu gravemente. Ele não poderá estar entre nos pelos próximos meses - Ninguém esperava isso. Lao, parado por meses? Isso seria fatal. - Ele não poderá fazer nenhum esf... - Não, houve uma fratura muito séria no osso da perna. Deverá ficar imobilizada completamente. Nada de exercícios por três meses. - Mas mestre, se ele ficar parado por três meses ele perderá toda a forma física! - Sim, mas não ha outro meio. Mesmo assim, tentaremos fazer algo para amenizar a perda. - Mestre, eu estou pronto para enfrentar a terra - disse o Ronin se encaminhando para uma das pedras. Ele se concentra. Era uma rocha verdadeiramente temperada. Como Ferro. Ele desfere a Garra de Gato de forma perfeita, sem emanar qualquer ruído, a não ser o da rocha se quebrando. Ele vencera a terra também. - Ling, vença a terra também, não acredite nas palavras de Lyu, purifique seu coração, use o que Yoan nos ensina. Não se torne um assassino como ele - disse Sakazama ao ir embora. 23
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    - Vamos, Ling.Quebre a pedra - disse Yoan. Todos me olhavam com atenção. Sho Win sai da casa para me ver também, preocupada. Mas todos haviam se esquecido de uma coisa muito importante: meu desafio pessoal era socar rochas todos os dias. Minhas mãos calejadas e fortes estavam preparadas para tal missão. Só que quebrar mármore era muito difícil. Eu me afundo em minha alma, e retiro de lá toda a raiva e ódio que dispunha. Desfiro não uma Garra de Gato e nem uma canelada, mas sim um direto e forte soco, com todos os sentimentos que haviam em meu coração ampliados. Amor, ódio, paz, tristeza, felicidade. A pedra se esfacela, assim como a de Lyu. - Você venceu a terra. O caminho pode ser seguido adiante agora - diz Yoan. Lyu me observa com um sorriso. Ronin também. Havia descoberto algo para mover meus impulsos que não era de todo má e nem de todo bom, mas sim algo ideal para me tornar um grande guerreiro. Havia encontrado meu Espírito de Luta. Entramos para tomar comer, mesmo por que o sol já estava nascendo. ********************** Ouve uma pequena comemoração entre nós. Afinal, já havíamos enfrentado, com perfeição, 2 dos quatro elementos. Tínhamos aproximadamente mais dois anos para nos prepararmos para o próximo. O que nos preocupava era o fato de que Lao estava com a perna muito machucada. Mas ele mesmo estava otimista. - Não se preocupem, eu ainda tenho a canelada mais forte daqui - brincou ele. Haviam se passado 5 anos. Estávamos no meio do caminho. E não havia mais volta. Não éramos mais homens comuns, tão pouco os seres mortais que Yoan nos prometeu transformar. Éramos excelentes lutadores apenas. Lyu era mais que isso, claro. Possuía o conhecimento de um verdadeiro mestre, mas era visivelmente diferente. Aparentava ser de procedência ruim. Se era, nos enganava muito bem. Iniciamos o treinamento, com a forte ausência de Lao. Ele era o mais descontraído, brincava conosco e tornava as coisas mais leves. Agora o treinamento era menos prazeroso para nós. Lyu realizava todos os exercícios de forma incrível. Ele já sabia de tudo o que estávamos aprendendo, por que continuava conosco? Por que continuava aqui? Lao observava sentado em um pequeno banco. A perna toda enfaixada, com talas lhe impedindo o movimento, e um apoio de madeira para poder caminhar pelas manhãs, ao lado de Sho Win. Não, eu não tinha ciúmes. Agora eu sabia que ela me amava verdadeiramente. Lao a tratava como uma irmã mais velha, implicando e brincando com ela de forma divertida e impertinente, como só ele sabia fazer. Que saudades de casa! Meus irmãos implicavam comigo do mesmo modo, e como eu sinto falta! Minha mãe a me chamar para comer, meu pai sentado olhando para o chão com um ar tão... triste! E a algazarra de nós sete, um bolo de gente se amontoando para comer a rala comida que havia. Eu era o menor, por isso, o último a comer. Quase não me restava nada, mas minha mãe era capaz de tirar da comida dela para me matar a fome. Minha mãe... espero que ela esteja bem, que todos estejam. Mal vejo a hora de voltar, mas, e Sho Win? O que eu farei com ela? Ela viria comigo? - neste momento sou atingido por um forte golpe no rosto, que me faz cair. 24
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    - Ling, divagandonovamente no meio de um combate? Volte já para o tablado e lute verdadeiramente! Até Sho Win teria visto este golpe! - grita Yoan. Lyu, que estava lutando comigo, dava gargalhadas. - Garoto, nunca mais se desconcentre em uma luta como agora. Pode ser a razão de sua morte - diz ele, seriamente. Eu compreendo. Voltamos a lutar. Sakazama, o Ronin, treinava os movimentos que acabávamos de aprender em um boneco de madeira. Sua velocidade era absurdamente rápida. Interrompemos a luta para observar. Yoan voltou seus olhos para ele também. O céu estava nublado. O suor escorria de minha testa. Ainda estávamos no meio do dia. Partimos para o pequeno rio, onde realizávamos outros exercícios físicos. Lao observava, impaciente. Dia a dia sua musculatura ia perdendo a rigidez. Nós também estávamos aprendendo mais do que ele, que estava parado. Ele voltaria, mas era provável que nunca nos alcançasse. Isto era preocupante. Dois meses se passaram. Estava sentado em minha pedra, em uma noite de inverno, quando Sho Win veio até mim. A neve caia macia e continuamente. Era uma bela noite. - O que é, Sho Win? - Estou me sentindo estranha, Ling. - Como estranha? - Eu não sei, estranha. Eu não sangro a 3 meses. Isso nunca aconteceu. E veja isso... - diz ela levantando a saia até a altura dos seios. Eu a toco. - Não, não, Ling... agora não, eu me sinto estranha... não... olhe, olhe para minha barriga - diz ela, afastando minha mão de seu corpo. Eu olho. - Esta maior. - Sabe o que é? - Sim. Você tem que parar de comer tanto! - digo eu lhe tocando novamente. - Não, Ling... não... sim... venha Ling, sim! Nos amamos, mais uma vez, sob a neve. Logo depois, conversando com ela, constatei que poderia ser alguma coisa mais séria. - Não tenho comido e nem nunca comi muito, você sabe. Estou com medo, não é obesidade. - O que pode ser então? - Eu não sei, mas acho que Yoan pode saber. - Acha melhor lhe procurar? - Sim Ling. Estou com medo. - Então vamos juntos. Algo me diz que tenho que ir com você. Entramos na casa. Batemos na porta do quarto de Yoan, que nos recebe. Não fica espantado ao nos ver juntos. - Estava esperando o dia em que vocês viessem até a mim - diz ele. - Sim, mestre - digo eu - Sho Win esta preocupada. Acha que algo de errado está acontecendo com ela. - Eu não sei... deixe-me ver. O que sente, minha pequena criança? - Minha barriga, mestre. Esta maior, e ainda aumenta. Sinto algo latejando dentro dela, mesmo depois que como - ela levanta o vestido, assim como havia feito 25
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    comigo. Yoan nãodemonstra qualquer espanto ou excitação. Aparentava ser normal ver uma mulher nua. Ele apalpa a barriga, ouve, olha. - Era o que eu temia - diz Yoan. - O que foi mestre? É grave? - pergunto aflito. - Não, apenas infeliz. Vocês vão ter um filho. Ficamos paralisados. Um filho? Um filho com Sho Win? Antes de completar o Caminho do Tigre? Isso era realmente infeliz. - Durante o Caminho do Tigre você tomou o que julgava ser uma bifurcação, que daria para um caminho mais belo e que chegaria ao mesmo destino que o antigo. Mas este caminho, apesar de belo, é cheio de obstáculos e perigos que o outro, feio e duro, não possuía. É o preço a se pagar pelo prazer. Espero que tenham aprendido - diz Yoan. - Sim mestre - dizemos juntamente. - Mas não vejam esta criança como algo a odiarem. Ele é fruto de seu amor, e este amor é o que vocês vão ter que expressar para ele. Ele pode ser uma dádiva disfarçada de desgraça. Aprendam a amá-lo, caso contrário estarão cometendo um erro maior que o que cometeram. - Sim mestre. Obrigado - dizemos e saímos. - Esperem, ainda falta algo - diz Yoan. - O que, mestre? - Agora vocês devem oficializar sua união. Amanha eu farei a cerimônia. Se preparem. - Certo, mestre - dizemos. Um casamento? Um filho? Sim, agora estava completo. Diante de uma situação tão extrema nenhuma dúvida veio à minha mente. Eu estava decidido, e Sho Win também. Fomos dormir, pela primeira vez, juntos enquanto todos estavam próximos. ********************* A cerimônia não teve nada em especial, a não ser o brilho nos olhos de Sho Win. Agora tínhamos um quarto só nosso, privacidade e paz. Sai do alojamento que havia se transformado meu antigo quarto, agora acomodando três jovens, e entrava em um novo e acolhedor ambiente. Estava casado, e seria pai. Mas eu não podia para de andar. O Caminho estava incompleto. Havia muito o que aprender ainda. Mas nesta semana, nada de lutas. Nada de treinamentos rigorosos. Nada para lembrar que sou um aprendiz. Que estou me tornando algo diferente do que a maioria é. Esta semana eu só teria contato com as coisas mais belas que eu podia imaginar. Tínhamos o direito de passar esta semana inteira a sós, na cabana dos picos do grande Shizu. Não é necessário dizer o que nos ocupava a maior parte do tempo. Mas também desfrutamos de outras coisas, coisas que antes não nos dávamos ao luxo. Nadar nas águas quentes do lago próximo, ficarmos abraçados em frente ao fogo, quente e brilhante, enquanto a neve caia, lentamente e macia. Dormir até a hora do almoço... eram coisas relativamente simples, mas que agora adquiriam um aspecto magnífico, tal qual era o prazer de vivê-las. Estávamos vivendo. Me passou pela cabeça sumir dali com ela, mas algo, aquele algo novo que descobri em mim, me impediu de avançar no pensamento. Meu espírito de luta me dizia para nunca fugir de uma briga. E era isso que eu estava fazendo. Ficando e lutando. 26
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    Contei a ShoWin, que sorriu, para logo depois me beijar. Ficamos ali, parados, observando a dança sinistra que as chamas da fogueira realizavam. Percebi que não possuía mais predileção pela claridade ou pela escuridão. Eu não estava mais só. Ao contrário, agora queria ser visível, pois estava feliz. A semana passava rápida. Os dias eram comidos pela noite, que logo depois sucumbiam à força de um novo sol. Passados 6 dias, voltamos para a casa central. Yoan nos recebera como um pai que recebe seus filhos depois de longa data. Os demais nos cumprimentam, felizes. Parecia que tudo estava realmente bem. Lao já estava podendo caminhar e iniciava seus exercícios físicos. A perna havia cicatrizado, mas ele dizia que ainda doía um pouco, mas não o suficiente para impedi-lo de nos dar algumas pancadas. Rimos. Ele voltava aos poucos, progressivamente, assim como a barriga de Sho Win crescia. Passaram-se 5 meses. Lao estava praticamente recuperado, em termos físicos. Era surpreendente ver como ele fazia mais exercícios que o pedido. Ficava até a noite no bosque. Corria, saltava, batia. Tudo igual ao treinamento inicial, mas só que com, no mínimo, o dobro de intensidade. Voltava para casa e dormia profundamente. O dia nascia, e ele iniciava tudo novamente. Nós o aguardávamos, treinando e avançando em técnica. Podíamos lhe passar o que havíamos aprendido em, talvez, 2 meses. Isso o deixaria equiparado a nós em pouco tempo. Era fantástico. Outra pessoa provavelmente se acabaria com aquela perna, mas ele estava recuperado por completo. Voltou aos combates em pouco tempo. Ele apanhava mais, é claro, afinal havíamos aprendido golpes que ele não conhecia, mas logo que os levava, ele os assimilava. - Ainda tenho a outra canela pra te bater! - gritava ele, e nos vencia com seu forte golpe. Ele havia voltado. Sho Win parara com os afazeres domésticos a mando de Yoan, no que ele chamava de período crítico, ou 9º mês. A barriga dela parecia que ia explodir! Estávamos proibidos de fazer sexo a mais de dois meses. Obedecíamos Yoan severamente. Ela vivia a se queixar de enjôos e dores nas costas. Mas continuava alegre. Passeávamos durante o crepúsculo, sob o novo sol de primavera. Já haviam se passado quase que seis anos. Ela estava mais bonita do que no dia em que a vi pela primeira vez. Ela contava agora 24 anos, eu estava com meus 18. Um certo dia paramos próximos a um bambuzal. Os bambus ainda estavam verdes e grandes. Eram numerosos, e belos. Sho Win os observava enquanto falava. - Eu tenho medo, Ling. - Medo de que? - Não me sinto bem... - Claro que não, olhe para sua barriga! - Nós rimos. - Não é só isso. Estou sendo um estorvo em sua vida. - Como ousa falar isso? Como ousa?! - Você não está trilhando o Caminho da forma que Yoan esperava. - Claro que não, com você eu o estou trilhando melhor. - Obrigada, Ling. Eu sei disso - fala ela. Eu não compreendo, mas não a questiono. - O que você sente? - pergunto eu. 27
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    - Eu nãosei, é estranho. Sinto medo e ao mesmo tempo alívio. É como...como lutar, eu acho. A luta é iniciada, e você tem medo de perder, mas quando termina a luta e você ganha, você se sente aliviado. - Sim, eu compreendo - digo a ela, sem realmente entender o que ela queria dizer com todas aquelas palavras. Voltamos para a casa. A neve residual que o inverno havia deixado ao início da primavera se iniciava. Entramos. Os dias seguintes foram recheados de neve. Parecia que o Inverno havia voltado com toda sua fúria de encontro ao local. Treinávamos sob a nevasca sem constrangimento. Ela nos testava, nos forçava. Era só mais um inimigo dentre tantos. Mas foi ai então que o grito de Sho Win nos fez parar. Corremos para dentro. Yoan a acudia. - Tragam-me baldes de água e uma faca, rápido. Panos limpos fervidos em água também! - Sim! - dizemos a ele. Mas Yoan me repreende. - Espere Ling. Você deve ficar comigo - Sho Win gritava de dor. - Não será fácil, Ling, eu preciso de sua ajuda. - Mas o que eu posso fazer!!! - grito eu sem compreender por que Sho Win sentia tanta dor, e ao mesmo tempo indignado pelo fato de que nada podíamos fazer para ajudá-la. - Fique com ela, Ling - ela agarra minha mão com mais força que qualquer outro homem jamais seria capaz de ter. Ela grita mais uma vez. - Calma Sho Win, eu estou aqui... - sussurro em seu ouvido. Ela soa em bicas. Entre seus dentes havia algo para não lhe permitir esmigalhar os dentes sob a pressão de sua mandíbula, que se comprimia a cada novo espasmo de dor. Os demais chegam com os materiais requisitados pelo mestre. - Agora saiam. - Mas mestre... - SAIAM AGORA! - grita ele. Eles saem, menos Lyu. Ele observa. - Saia, Lyu - diz Yoan. - Eu ficarei pois tenho conhecimento médico, assim como você, Yoan - Eles se calam. Sho grita mais uma vez. Lyu se aproxima - Gostaria de ajudar, se você permitir - diz ele a mim. Eu lhe permito. - Apenas ajude ela. Pare com a dor e traga meu filho - digo eu. Ele coloca a mão sobre a barriga de Sho Win e a aperta. Ela grita de dor. Eu agarro a mão dele com força. Ele se desprende, e me olha sério. - Não interfira, Ling! Isso tem que ser feito! - eu me afasto, chorando. Fazia muito tempo que eu não chorava, e mais ainda chorar na frente de outros. A questão era que eu amava aquela mulher, e agora ela estava sofrendo. O que eu podia fazer? Nada. Absolutamente nada. Apenas observar. - Aqui, veja - diz Lyu para Yoan, que aperta a mesma área da barriga de Sho Win que ele havia indicado. Ela gritava de dor. - Sim, eu compreendo - diz Yoan. - O que foi?! - pergunto eu, aflito. - A criança está sentada dentro da barriga de sua esposa. Ele não vai sair desta maneira. Temo que seja o fim. - Como assim o fim? Ajudem Sho Win agora!!! Ajudem!!! - grito eu não querendo compreender o que eles estavam querendo dizer. Eles continuam calados. 28
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    - Há umamaneira, não usual, que aprendi a pouco tempo atrás... - diz Lyu. - O que é? - pergunto eu. - Consiste em espetá-la com várias farpas de bambu em pontos energéticos do corpo. Podemos harmonizar desde respiração e batimentos cardíacos até amenizar a dor. - Isso resolveria? Salvaria a vida dela? - Não, mas poderia nos permitir... - O que? - Abrir ela. Seria a única maneira de fazer com que a criança nasça. - Abrir? - Sim - diz Yoan - Se bloquearmos os plexos nervosos da região, poderíamos abri-la, bloqueando para um nível mínimo o sangramento na região. Mas é arriscado. Tem que ser feita de maneira precisa. - Vocês podem fazer? - Sho Win grita mais uma vez, ao fundo. - Não temos outra maneira. Deste jeito, ela e a criança morrerão. Se abrirmos, ela poderá ter uma chance, e a criança nascerá, com certeza. - Façam! Agora! - grita Sho Win. - Sho Win... - digo eu, me aproximando. - Ling, eu lhe amo! Eles tem que fazer isso , por favor ... façam!!! Não deixem o meu bebê morrer!!! - fala ela, chorando. Eu permito. Eles se preparam. Lyu vai até o bambuzal e retira um grande pedaço de bambu seco. Yoan retira uma garrafa de sakê de seu armário. Uma faca afiada reflete a luz das velas em meus olhos. Várias farpas são colocadas por Lyu. Sho Win aparentemente sofre o efeito, parando com os gritos e se acalmando. Lágrimas rolam por nossos rostos. Mais farpas são colocadas na região abdominal dela. - Isto é o máximo que posso fazer, Yoan - O velho dá de beber a Sho Win. - Agora teremos que cortá-la. Já passou do tempo do nascimento. Temos que ser rápidos. - Ling, pegue neve lá fora, encha um balde. Traga-o para nós - diz Lyu. Eu obedeço. Quando estou na metade do balde, ouso um grande choro de criança. Entro rapidamente na casa. Sho Win estava completamente desacordada, com um grande corte em sua barriga. O cheiro de sangue era forte, e Yoan segurava meu filho, uma menina. Lyu, por sua vez, segurava a barriga de Sho Win, tentando impedir a abertura do rasgo. - Não consigo conter o sangramento!!! - gritava ele. Eu derrubo o balde, em completo estado de choque. Olhava para a criança e depois para Sho Win. Com uma grande agulha de costura e uma linha, ambos fervidos em água, Lyu literalmente costura a barriga de Sho Win após conter o sangramento. Ela permanecia desacordada. - Não nutra esperanças, Ling. Infelizmente, será muito difícil que ela sobreviva - diz Yoan, segurando a menina que agora parava de gritar. Eu a olhava com ódio. - Não! - diz Yoan me batendo no rosto - Não ouse odiar esta criança. Se quer odiar a alguém odeia a si mesmo! A culpa disto tudo é sua, e dela! - diz ele apontando para Sho Win, desacordada - Vocês o fizeram com tal intenção?! Não! Mas mesmo assim sente a necessidade de culpar alguém por isso! Pois culpe a mim, a Lyu, a você e a Sho Win, menos a esta criança. Entendeu? Suas palavras ardem, pois são a verdade. Eu aceito, e tomo a criança em meus braços. Era linda, como a mãe. Me apaixono por ela instantaneamente. Mas Sho Win ainda necessitava de mim. Deixo minha filha aos cuidados de Yoan, e vou 29
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    ficar ao ladode minha esposa. Seguro sua mão, fria. Uma lágrima escorre de seus olhos. Ali eu passo a noite. *********************** No dia seguinte a neve continua forte. A criança também. Mas Sho Win não acordara. Os treinamentos estavam suspensos, não tanto por nós, mas sim por causa da grande nevasca que caía. Eu chorava o mais que podia, mas de nada adiantava. Eu lhe pedia para acordar, se levantar, mas ela nada respondia. Ficava ali parada, imóvel. Algumas horas depois, ela parava de respirar. - SHO WIN !!!!! - gritava eu, enquanto que Lyu soprava ar para dentro dela e massageava seu peito de forma estranha. Yoan me continha. Ali ficou por cerca de 3 minutos. Por fim, ele sai de cima dela, e pela primeira vez em minha vida eu vejo meus dois mestres chorarem. Yoan, meu guia no Caminho do Tigre, e Lyu, meu mestre no que ele havia intitulado, a pouco tempo, de Caminho do Dragão, uma brincadeira com o verdadeiro caminho seguido. Sho Win, de olhos abertos, estava estática. Ambos me olham seriamente, e deixam a sala. Ela havia morrido. Eu sabia disso , mas relutava em compreender. Lhe tomei a mão inerte, agora mais fria do que antes. Sua boca entre aberta, os olhos estáticos e sem brilho. - SHO WIIIIIIIIIIIN!!! SHO WIIIIIIIIIN!!! - gritava eu, chorando, e por fim abraçando o corpo morto de minha esposa. Ela me deixara enfim. Me arrasto para fora, e mesmo no meio de toda aquela neve eu vou até o lugar em que nos amamos pela primeira vez, meu local de meditação. Choro e grito mais. Fico ali até perder a noção de tempo. Caio, exausto, no chão. Ronin me encontra semi enterrado na neve, e me leva de volta para a casa de Yoan. Eu não fui capaz de exprimir uma só palavra durante os próximos 7 dias. Não saia de meu quarto, não ria, não comia junto aos outros. Só ficava em meu quarto, eu e minha filha. Eu a chamo de Mai Win. Aparenta ser um nome otimista. Eu cuido dela em completo silêncio. Vez ou outra Yoan aparecia e me ensinava algo para ajudar, como limpá-la, dar comida, estas coisas. Ao fim dos 7 dias a neve, enfim, cedera. Podíamos realizar o enterro. Sepultamos Sho Win próximo à árvore em meu local de meditação. Eu poderia vê-la todos os dias. Yoan diz algumas palavras e então entoa algumas preces budistas para ela. Eu choro, com Mai em meus braços. Ela, ao contrário de mim, sorria. Confesso que nunca a vi chorar sem ter sido em seu dia de nascimento. Todos vão embora, somente eu e Mai permanecemos. As nuvens esburacadas permitiam vez ou outra a passagem de raios de sol por entre suas fendas. Um grande raio de sol iluminava exatamente o local de sepultamento em que estávamos. - Sho Win, meu amor... não me deixe só... não agora - digo eu, baixinho - Não me contenho e derramo mais lágrimas. Momentaneamente eu fico sério. - Eu juro, sobre seu túmulo, que eu não deixarei de acreditar nas coisas em que acreditava antes, em coisas que descobri junto com você. Eu ainda serei o maior lutador que poderá existir em todos os tempos. Eu juro - Paro as lágrimas, olho para Mai e me viro. 30
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    - Adeus meuamor, me aguarde, um dia nos reencontraremos. Saio do lugar e vou para a casa de Yoan. ***************************** Adquiro um ar amargurado, mas no entanto maduro e seguro, como um bom lutador tinha que ser.Yoan arrumara uma nova ajudante para a casa. Li Wong Pu era nova, com seus 14 anos. Bonita, tímida e carinhosa, cuidava de minha filha perfeitamente, desde o primeiro dia. Fazia comida, lavava roupas e tudo o mais. Era tão boa quanto Sho Win, só que não era ela. O treinamento voltou normalmente logo após o dia do enterro. Não fui poupado, o que achei muito certo e justo. Yoan me admirava. Estava satisfeito comigo, pois não havia fraquejado como ele provavelmente havia pensado que eu faria. Ao contrário, fui um forte. Me empenhava agora totalmente no treinamento, de forma exagerada. Estava treinando até durante a noite. Logo os resultados estavam aparecendo. Estava muito acima em termos técnicos de Lao e de Ronin. Já estava me equiparando a Lyu. Começava a ganhar lutas dele. Estava ficando melhor a cada dia. Mai iniciava a falar. Era a mascote da turma. Todos a adoravam. Ela falava enrolado, de forma engraçada, e eu adorava. Brincava muito, e Li Wong era como uma verdadeira mãe para ela. Passaram-se ai 18 meses desde a morte de Sho Win. Já não me doía muito o fato. Ronin e Li se encontravam escondidos, assim como eu e minha esposa fazíamos. Eu fico feliz, mesmo sabendo que o final poderia ser tão ou mais trágico que o da minha própria história. Estou maduro, visivelmente experiente. Minha fala e maneira é a mesma de um homem com o triplo de minha idade. Eu era um guerreiro. Um dia, depois do treinamento, Ronin se aproximou de mim. Estava meditando, assim como fazia no início, todos os dias. - O que ha, Sakazama? - Eu queria conversar, mas não sei sobre o que... - Fale, apenas fale. - Eu e Li Wong... - Sim, eu já sei. - Como? - Esqueceu-se que comigo ocorreu o mesmo? Meus olhos vêem coisas que os demais não são capazes de enxergar. - Entendo. Ela não quer que eu seja um guerreiro após o treinamento. - E você? Quer ser? - Eu tenho o dever! Você não compreende... - Faça-me compreender - digo eu, calmamente. Ele se senta na minha frente, aflito. - O único que sabe desta história toda além de mim é Lyu. Agora eu vou contar para você. - Conte-a. - Foi a 10 anos atrás. Eu estava apenas com 9 anos, mas me lembro de tudo muito bem. Morávamos em Nagoia. Meu pai era um grande guerreiro, um verdadeiro Samurai. Tínhamos um senhor, o qual meu pai jurou fidelidade e proteção. Proteção extrema. Sabe o que isso significa para um Samurai? Ter que, se necessário, dar a própria vida para a proteção de seu senhor. Se algo sair errado e o senhor morrer e 31
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    o Samurai sobreviver,este se tornará um Ronin. Samurai desonrado e sem mestre. Pois bem. O dever de meu pai, sendo um Ronin, seria o de se suicidar. Só assim ele recobraria a honra perdida. Mas eu não tinha mais ninguém, e no final, ainda havia minha irmã, Suury, com dois anos. Ele abandonou Nagoia, veio para a China e nos criou. Agora eu treino com Yoan para poder vingar a morte de meu pai. - E como Lyu soube de tudo isso? - Por que foi ele que matou o senhor de meu pai, e posteriormente ele em si. Ele é um assassino, Ling, não sabia disso? - Um assassino?! Não pode ser, Sak. Ele devia ser tão novo quanto nós naquela época! - Sabe quantos anos ele tem? 25! Ele tinha 15 anos na época, e os ninjas assassinos do JitSu se tornam mortais aos 12 anos. Ele já tinha 3 anos de experiência assassina! - E o que ele está fazendo aqui? - Ele debandou do clã. Foi expulso. - Por que? - Achava que não estava ganhando o suficiente de seus mestres. Deixou o clan para fundar uma ordem mercenária. Está aqui por duas coisas: ou quer nos reunir para junto com ele sermos assassinos de aluguel ou está apenas trabalhando. - O que? Ia levar 10 anos para matar uma pessoa? - Não sei, Ling. Tudo o que sei é que ele é perigoso e está com segundas intenções. - Por que você nunca fez nada? - Oh, eu fiz sim. Antes de virmos para cá ele me revelou o mandante da morte, tanto de meu pai quanto de nosso senhor. Eu o matei. - Mas e Lyu? - Ling, ele é apenas uma arma. É o trabalho do maldito. Eu não posso culpá-lo. O verdadeiro culpado está morto a 6 anos. Podia ter sido qualquer um dos ninjas JitSu. - Compreendo. Acha que está aqui para matá-lo? - Não, se esta aqui para matar alguém só pode ser Yoan. Tem muitos inimigos e é o único que levaria tanto tempo assim para ser morto. Acho que, no fundo, ele está estudando também. - Mas ele e Yoan se tratam de forma tão normal... - Não questione os métodos de um ninja assassino, Ling... ele é uma cobra criada. - diz ele se levantando. - O que acha que devo fazer? - O que você quer fazer, Sakazama? - Reerguer o nome de minha família, ser um bom Samurai, limpar o nome de meu pai... - Você não tem que ser um Samurai para fazer isso, Sakazama. Para falar a verdade, acho que você já o fez. Olhe-se! Seu pai teria orgulho do que você se tornou - Ele se olha por um momento. - Talvez... você tenha razão. Mas eu ainda não sei... o Caminho é tão difícil, do que me valerá percorrê-lo se não lançarei mão do conhecimento posteriormente? - Você pode tirar proveito dele mesmo sem ser um guerreiro. O equilíbrio e a paz que você conquistar agora lhe servirão muito. Além do mais, se surgir um imprevisto, você não irá necessitar de um Samurai contratado, pois será seu próprio Samurai. - Eu... não sei Ling. Eu tenho que pensar - Ele sai andando. - Obrigado, Ronin. - Pelo que? - pergunta ele parando, sem voltar seu rosto para o meu, assim como eu. - Por confiar em mim. 32
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    Ele apenas continuaandando. ******************** No dia seguinte nosso treinamento com armas é iniciado. Facas, sabres, bastões, e uma infinidade de outras coisas mortais estavam a nossa disposição. Nosso treinamento se triplicara. Pegamos o jeito das armas bem rápido. Novos golpes eram ensinados e ainda fazíamos exercícios físicos em uma intensidade inacreditável. Os músculos chegavam a atrapalhar alguns movimentos. Mas logo nos acostumávamos. Chegou então a hora de cada um escolher uma arma específica para aprendizado total, ou seja, seriam nossas armas eternas, nossas armas de combate. Seriamos verdadeiros mestres com elas. Lyu escolhe primeiro. Pega uma espada média, estilo japonês, de lâmina forte e corte devastador. Segura, elegante, fatal. A arma de um verdadeiro ninja. Lao escolhe em seguida. Escolhe a Sai, mini espadas com espetos nas extremidades dos cabos. Multiuso. Armas de corpo a corpo, de lançamento, de corte. Fatais, super afiadas, discretas. Eu escolho uma arma estranha e aparentemente inútil: dois pequenos cilindros de madeira unidos por uma forte corrente de ferro. Um Nun-Chako. Uma arma japonesa rápida, pequena, forte e não letal. - Por que escolheu esta arma? - pergunta Yoan. - Por que a arma mais mortal que eu poderia ter eu já tenho: meu próprio corpo, mestre. Esta era a resposta que ele queria ouvir e a que eu respondi sem pensar. Mas eu estava mentindo, em parte. Se usada de forma correta, minha arma seria capaz de neutralizar todas as demais. Não podia confiar muito em armas. Tinha que confiar em mim. Minha filha observava, no colo de Li Wong. Eu ascendo, ela sorri, e esconde o rosto. Ronin escolhe o bastão. Uma arma elegante, mas grande. Os maiores mestres sempre o utilizavam. E ele é honrado o suficiente para empunha-la. Os dias passam lentamente. As noites são novamente agradáveis, a escuridão me consola. Sou novamente um solitário, só que agora de coração marcado. Sangrado pelo amor que teima em me recordar de tal dor e sofrimento. Eu costumo chorar antes de dormir, e minha filha me observa. Eu nada falo, e ela então compreende, apenas olhando para meus olhos úmidos. Enquanto todos dormem eu medito, em busca da paz que perdi com a morte de Sho Win. Meu ódio estava novamente dominando meu equilibrado espírito de luta. Estava mais poderoso, mais perigoso, porém mais cruel e triste. Deveria eu me sacrificar de tal maneira? Acabar-me de tal forma para me tornar aquilo que eu nem queria ser? A resposta veio com uma morte. Não poderia ter uma vida feliz. Não poderia ser aquilo que gostaria de ser. Meu destino está traçado, e amaldiçoado. Devo me tornar o maior de todos para por fim ao meu sofrimento. Só 33
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    assim... e minhafilha, agora com seus dois anos, o que seria dela? O que seria dela se soubesse que é filha de um... um monstro? Sim, foi assim que sua mãe me chamara quando havia liberado toda minha fúria sobre Lyu. Um monstro. Ela não deveria viver comigo. Esta era a questão. O dia nascera, meus olhos se secavam e minha arma se unia a minha mão. Treinávamos até a exaustão. E assim foram indo os dias e os meses. Minha filha crescia e se tornava uma criança esperta e observadora. Absorvia as coisas de forma incrível, falava mais a cada dia e se mostrava inteligente e sensível, como a própria mãe havia sido. Brincávamos muito, e não tivemos problemas durante muito tempo. Porém, no andamento do treinamento, Yoan, ao se passarem exatos 7 anos e 6 meses, nos deu mais um dia de descanso. O penúltimo elemento deveria ser vencido. Caminho eu e minha filha pelo bosque. Ambos andamos em silêncio. Ela brincava por entre as árvores, despreocupada. Mas eu sabia o que nos aguardava pela madrugada do dia seguinte. Deveríamos vencer a água ou o ar. Qual dos dois seria? E como seria? Ficava cada vez mais e mais difícil, conforme evoluíamos no caminho. Minha trilha era diferente da dos demais, mais tortuosa e, digamos, perigosa. Não estava mais me preocupando em controlar o ódio em meu interior. O liberava totalmente, e isso me deixava muito perigoso. Lyu me olhava com grande respeito quando fazia isso. Yoan também. Eu me tornava um monstro. Ronin me observava com um olhar de pena. Sabia em que caminho eu estava e sentia apenas pena, por saber o quão difícil era. Lao nem se importava. Minha filha tinha medo de mim quando eu lutava. Dizia que não era eu. Era um demônio. Em parte, ela estava correta. ********************* A madrugada chega. Acordo sozinho para o desafio. Faço meu próprio kati, desenvolvido durante o Caminho, para alongar e relaxar a musculatura, além de me acalmar e centralizar a respiração. Não estou nervoso, o que é novo para mim nesta situação de teste fatal. Se fracassar, o caminho se encerra antes do previsto. Mas tenho certeza que nem eu e nem nenhum dos demais vai fracassar, não hoje. Já somos muito superiores aos demais alunos passados de Yoan. Só nos falta a reta final. E nossa corrida final se inicia aqui. Visto-me em meu novo traje, que havia comprado na última visita à vila. Todo negro, de um tecido leve e resistente. Botas comuns e minha arma. Saio do quarto e já encontro Yoan a nos esperar. Ele me observa, seus olhos me vistoriam como se eu fosse um estranho. Havia mudado tanto assim desde aquele dia em que cheguei aqui? Sim. Mais alto, mais forte, mais maduro. Yoan me olhava como que se estivesse temendo que eu lhe matasse. Eu o impressionara mais uma maldita vez. Ele vê que eu compreendo seu olhar, e o desvia. Os demais chegam. O desafio teria início. A mesma fogueira que marcava os desafios estava acesa, e ardia tanto quanto as demais. - Vocês deverão, hoje, enfrentar e vencer a água. O mais forte de todos os elementos. E o mais persistente dos acólitos da natureza. Vocês devem ser capazes disto, ou o Caminho deve ser interrompido. 34
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    - Diga-nos oque fazer, mestre. - Sigam-me - diz ele, sinistramente. Nós vamos, então, para um lugar que nunca havíamos indo antes, por trás de grandes pedras que ficavam amontoadas pelo lado noroeste de Shizu. Subimos as pedras na escuridão. Um grande barulho de água correndo se fazia ouvir. Meu coração, sem motivo algum, disparara. Havia ali uma corredeira muito grande, derivada do pequeno rio que passava próximo à nossa casa, unido com outro que nascia exatamente naquele local. Estrondosa era a visão que tínhamos sob a lua cheia que fazia naquela madrugada. A força das águas nos intimidava. Era a primeira vez que sentia medo desde a morte de Sho Win. A primeira. Yoan joga quatro pedaços de metal, de um tamanho praticamente igual ao de um prato, dentro da forte correnteza. - Viram aonde caíram os discos? - Sim - respondemos. - Então entrem na água e os tragam de volta. Um para cada um de vocês. O primeiro é Lyu. Dá um grande salto e mergulha. A água o leva por bons 20 metros. Ele afunda. Passam-se 10 segundos e ele emerge, próximo ao local onde os discos estavam. Observamos. Ele mergulha mais uma vez após ser arrastado mais um pouco para trás. Agora passam-se 10 segundos, 15, 20, 30, 35... 40. Ele emerge dando uma grande golfada de ar. O disco não estava em sua mão. Ele submerge mais uma vez ainda. Passam-se 1 minuto. Ele volta. Achara um dos discos. Entrega- o a Yoan, de joelhos. Se arrasta para um lugar escondido e ali fica a tremer e a respirar. Havia sido, sem sombra de dúvida, um grande esforço para ele. E para nós! Eu permanecia apreensivo, mas ignoro meus sentimentos e me apresento então para ser o segundo. Mergulho. A água é gelada, extremamente gelada. Estou em uma grande imensidão negra, não posso ver nada a minha frente. Mas sei onde estão os discos. Demoro, mas enfim chego ao leito do rio. Pedras das mais diferentes formas vão se revelando ao toque de minha mão. Eu tateio tudo, como um cego. Meu ar esta acabando e a profundidade é de aproximadamente 3 metros. Subo para respirar, e vejo que havia sido arrastado por bons 30 metros. Como voltaria? Saio do rio e corro pela margem. Me jogo novamente na água e nado próximo à beirada, onde a força era menor. Chego mais uma vez ao local, observado por todos. Mergulho, agora preocupado com a correnteza. Busco algum objeto semelhante no cascalho do rio. Nada encontro. Me levanto para emergir uma vez mais. E assim foi até a sétima vez. Levanto com o disco em minha mão. Entrego a Yoan, e me retiro do local. Volto para a casa central. Não há incômodos por parte dos demais devido a meu ato. O problema era que agora eu percebia meu verdadeiro problema: a vida havia perdido o sentido, e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar tal situação. Mesmo minha filha, que dormia silenciosamente em uma pequena cama ao lado da minha, podia mudar tal agonia. Eu estava perdendo minha alma. Os demais voltam pela manhã. Todos haviam passado no teste. Estávamos juntos ainda. Não sei por quanto tempo, mas estávamos. E passaram-se os dias, cada vez mais rápidos e mais perigosos. Os exercícios não eram mais simulados ou contidos como antes. Agora podíamos morrer fazendo o que fazíamos. Mas até aqui 35
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    ninguém morreu. Fomosferidos, sangrados, quebrados e humilhados, mas morrer nós não morremos. Chegara a hora de combates entre os vários clãs da região. As áreas de treino dos montes de Shizu seriam o palco dos combates. Nós quatro formávamos o clã Yoan. Os demais clãs eram formados com no mínimo 8 lutadores treinados à exaustão . Mas lutamos mesmo assim. Combates de mão limpa, era assim que eram definidos os combates em que Sakazama e Lao participavam, por não haverem armas. Não é preciso dizer que foi injusto. Cada um lutou com até 3 oponentes ao mesmo tempo e mesmo assim mal foram tocados. Ganharam facilmente todas as lutas. Mas eu e Lyu estávamos nos combates armados. Eram perigosos e mortais. Os lutadores sabiam dos riscos de morte e assim sendo tínhamos mais de um morto por dia. Na primeira luta, Lyu enfrentou um grande e rápido aluno do clã Taowin. Lyu desembainhou sua espada e seu oponente a sua. Eles avançam um em direção ao outro. Lyu só desfere dois movimentos com a lâmina. Um desvia o golpe do oponente, e o outro rasga o mesmo de cima em baixo, ocasionando uma grande borrifada de sangue. Lyu se retira, silencioso, enquanto que os demais retiram o corpo de seu oponente em convulsões de morte e dor. O próximo a lutar naquele tablado seria eu, e como eu agradecia por não ter que lutar contra Lyu. Era evidente que nos treinamentos ele vinha se contendo, mas agora, nas lutas, ele se soltara, e matar lhe parecia algo extremamente normal. Ele não se emocionara nem por uma fração de segundos. Eu subo no local de combate, e meu oponente também. Era uma pequena e jovem criança! Como eu poderia lutar contra alguém assim? O combate é iniciado e a criança em si saca duas facas e parte ferozmente para cima de mim. Ela é rápida, e antes de empunhar meu Chako ela me corta profundamente no peito. Eu me jogo de lado, sangrando. Retiro minha arma e a rodo rapidamente para lhe avisar que não estou para brincadeiras. Ela avança novamente. Eu só preciso de um golpe para mata-la. No centro da cabeça, uma forte pancada com uma das extremidades de minha arma, e o barulho de ossos sendo partidos é ouvido. O sangue brota, e o corpo inerte da criança cai ao chão. Eu vencera. Os espectadores olham sem acreditar. Eu havia matado uma criança! Somente Lyu me observa com admiração. Eu limpo minha arma e saio do local. Eu havia matado uma criança! Mas ela teria me matado sem escrúpulos se eu nada tivesse feito. Eu poderia imobiliza-la, desarma-la ou bate-la com um único golpe, mas eu matei ela ao invés disto. E o engraçado... não me sinto mal. ************************* Os combates se encerram ao fim de 5 dias. Nosso clã, como sempre, sai vitorioso, invicto. Mas o número de mortes supera em muito as expectativas. E não havia sido Lyu o que mais matara, mas sim eu. Sete ao todo, dentre estes uma criança e uma mulher. Yoan não me repreendeu. As lutas armadas tinham por fim a morte do derrotado, e permanecer vivo era sinal de desonra e motivo para o suicídio. Eles teriam morrido, se não pelas minhas mãos, pelas mãos deles mesmos. Os treinos haviam sido retomados. Eu estava mais perigoso. Lyu me disse isso, olhando em meus olhos. "Vocês está igual a mim agora, Ling". Dormindo com 36
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    Mai Win emmeus braços, sonho com Sho Win. Foi algo estranho. Nós conversamos. Era como se ela estivesse ali, mais uma vez. - Sho Win? - Ling, escute... - Sho Win, eu matei uma criança!!! – lhe disse chorando de culpa. - Escute Ling. Este era o seu destino. Eu o estava atrapalhando, por isso morri. Você deve ser aquilo no que está se transformando. Não se pergunte se é o certo ou o errado, apenas seja aquilo no que está se transformando. - No que eu estou me transformando? - Ling, você deve deixar nossa filha, e partir para sua terra. Se torne naquilo que é, e vá embora. - Mas Sho Win... eu... - ela desaparece, e eu acordo. Mai Win dorme tranqüilamente em meus braços. Por que eu deveria deixa-la? Ela ainda era a única coisa que me impedia de ser um demônio. A não ser que meu destino seja exatamente este! Se este for meu destino e ela permanecer comigo, me impedindo de continuar, ela morrerá, assim como a sua mãe! Isso me assusta. Não poderia permitir que minha filha morresse por mim, mas por outro lado não desejo me tornar um demônio, um assassino sem clã. Chego a conclusão de que não devia me preocupar com isso, e volto a dormir, agora sem sonhar. Chegávamos ao último ano de treinamento. Mai Win tinha seus quatro anos e eu os meus 22. Largamos as armas. Largamos o treinamento. Nos reunimos em torno de Yoan, velho e acabado. Escutamos com atenção o que ele nos diz. - Eu já lhes ensinei mais do que eu sabia. Porém ainda existe uma coisa, algo que me foi passado e que prometi só revelar para aqueles que se mostrassem dignos. - O que é, mestre? - pergunta Lyu, pela primeira vez se dirigindo ao mestre de forma polida. - Trata-se da mais bela, e mortífera, forma de luta que possa existir. Com um único golpe você pode matar uma pessoa. Não um golpe forte, mas um golpe rápido, e no local certo. Ninguém em toda a China sabe desta técnica. E eu irei lhes passar tal conhecimento. Só assim vocês poderão ser aquilo que eu planejei fazer. Vocês serão deuses. O próprio Imperador os temerá, mas deverão servi-lo. Lembrem-se do que eu lhes ensinei até aqui. Será vital para que não caiam no abismo sem fim que terão que atravessar. - E qual é este abismo? - pergunta Lao. - O do poder supremo, Lao. Vocês terão o poder supremo. É dever meu fazer com que não caiam nas ilusões de poder. Vocês devem seguir minhas palavras, e seus corações. Concordamos firmemente. Não sabíamos direito o que seria cair no abismo, mas entendemos que não deveríamos nos superestimar. O poder corrompia a mente, e é nessas horas que temos que saber ouvir nossos corações. Partimos para as galerias escuras logo abaixo das montanhas Shizu. Lá somos iniciados e mestrados na secreta técnica de Yoan. Era realmente fatal. Os pontos de energia do corpo estavam bem a mostra. Mas um golpe qualquer não funcionava. Era necessário algo extremamente apurado. Velocidade, área de toque e forma com que se dava o golpe eram fundamentais. Mas não foi como das demais vezes. Somente eu e Sakazama assimilamos a técnica. Lyu e Lao não tiveram sorte, e permaneceram ignorantes quanto a ela. O treinamento havia acabado. Houve um grande silêncio entre nós. Yoan, enfim, fala. 37
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    - O Caminhoestá trilhado. Vocês se tornaram os Tigres que caminhavam a trilha da sabedoria. Só lhes resta uma última porta para abrirem, e enfim encontrarem o que os espera no final: vocês mesmos. - Devemos enfrentar o ar, mestre - digo eu. - Sim, só então vocês terão completado seus Caminhos. Só então vocês serão mestres. - E o que devemos fazer, Yoan? - diz Lao. - Eu não tenho como lhes dizer. O desafio é diferente para cada um. - Então nos diga o que devemos fazer! - Pois bem. O ar é um elemento vital, assim como os demais que vocês enfrentaram. Mas ao contrário dos demais, vocês não podem ver o ar, pois o ar está em todos os lugares. Vocês são o próprio ar que devem vencer. Devem vencer-se, e isso é difícil, devido ao grau de sabedoria que possuem agora. Devem encontrar um meio de se desafiarem, e se vencerem, caso contrário nada serão a não ser eternos aprendizes. Partam agora, e não mais voltem aqui. Nunca mais no veremos - ele diz, seco. Compreendemos suas palavras e buscamos nossas coisas. Nos unimos em frente à casa. Li Wong Pu estava ao lado de Sakazama. Partiria com ele. Eu estava com minha filha em meus braços e Lao observava pela ultima vez o nascer do sol naquelas montanhas. Eu observava meu local de meditação, sabendo que agora eu devia saber como carrega-lo dentro de mim. E eu sabia como. Foi neste instante que ouvimos o barulho de uma espada sendo desembainhada. Corremos na direção do ruído, e vemos Yoan morto, degolado, e Lyu, coberto de sangue e com a espada em punho, arfando, observando o corpo decapitado ao chão. - Minha tarefa enfim está cumprida! Posso voltar para meu clã em paz. Ele morreu com honra - diz ele, limpando o sangue da lâmina da afiada espada. - O que você fez, Lyu!? - grito eu. - Apenas o que tinha que ser feito. Eu me testei, e passei. O único meio de completar meu treinamento seria matando meu próprio mestre. E foi isso que eu fiz. - Pois agora será meu teste também, mestre! - digo eu. - Você ainda trilha o Caminho do Dragão, Ling. Não será capaz de me derrotar! - diz ele levantando a espada em minha direção. Ele se assusta, pois vê mais uma vez o ódio nascer dentro de mim e me possuir como um demônio. - Mas eu já trilhei o Caminho do Tigre, Lyu. E ambos os caminhos terminam em um só lugar: sua morte. Me tornarei o mais completo após matar você, monstro! - Ling, não me obrigue a mata-lo. Eu me contive até hoje em todas as lutas que tivemos... - Surpresa! Eu também! - digo, dando minhas coisas e minha filha para Ronin, que observa. Lao e Li observam também. - Saiam todos daqui - digo eu em tom fúnebre. - Mas e sua filha? - pergunta fortemente Sakazama. - Agora é sua filha. Cuide dela para mim, amigo. Eu lhe peço, por Sho Win. Ela ficará melhor com você do que comigo. - Como sabe? - Eu apenas sei qual é o meu destino. Vá agora! E nunca mais me procurem. Não importa se morrerei ou não, pois sou outro homem. Vão!!! - grito eu. Eles obedecem. Eu e Lyu não havíamos nos tirado os olhos um do outro. Estávamos completamente voltados para a luta mortal que se iniciaria. Eu pego minha arma. O corpo de Yoan permanece no local. 38
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    Ficamos apenas nosestudando, por cerca de 10 minutos. Lyu parte com um golpe indefensível, que o demônio que me possuía agora consegue desviar e ao mesmo tempo proferir um golpe contra a nuca de meu oponente, que se vira rapidamente com outro golpe de espada. Agora um corte raso é aberto em minha garganta, de onde o sangue brota mediamente. Não havia rompido a artéria. Eu dou 3 mortais para trás, e me ponho já em posição de ataque. Mas neste exato momento Lyu voava para cima de mim. Eu lhe aplico um golpe de perna, alto, o que lhe quebra algumas costelas. Ele cai e se levanta imediatamente. Eu parto em ataque, desviando de dois golpes rápidos dele e em seguida prendendo seu pulso na corrente de meu Chako, para logo após quebrá-lo. Com a outra mão livre foi fácil para ele acertar um golpe em minha cabeça, o que me faz cambalear e cair, para logo após levantar. Ele parte com a espada para cima de mim, desarmado. Ele profere o primeiro, o segundo e o terceiro golpe, dos quais eu desvio agilmente. O quarto me atravessa a perna. Sem escolha, eu seguro a mão dele, o obrigando a ficar com a espada em minha perna, e então lhe aplico um golpe no plexo energético logo abaixo do coração. Ele morre instantaneamente. Retiro a espada de minha perna e rumo para a casa de Yoan, deixando ambos os corpos no local. Me cuido com algumas ervas específicas que nos havíamos aprendido a usar. Depois faço um curativo com torniquete e volto para pegar os corpos. Yoan eu enterro ao lado de Sho Win. - Que ambos descansem em paz. O corpo de Lyu eu arrasto até a vila próxima a montanha. Deixo-o lá. Os JitSu saberão o que fazer se o acharem. Eu parto, rumo ao horizonte desconhecido, certo de que não havia desafiado o ar ainda. Minha própria vida seria meu desafio. Permanecer vivo e cumprir com meu destino seria meu teste final para meu aprendizado, pois só no dia em que eu morrer deixarei de aprender algo. Eu, decididamente, era um mestre. 39
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    PARTE II -A VIDA DE UM GUERREIRO A chuva aparenta ser mais áspera que o normal. A noite torna tudo mais acolhedor. Estou próximo dos domínios de nosso senhor, Golki. Minha família mora nestas propriedades. Era na verdade um grande feudo, repleto de gente, mas agora estava deserto. Caminho até a morada de minha família. A casa estava arruinada. Relâmpagos revelam a presença de alguém dentro dela. Não posso crer, mas mesmo em tais condições alguém ainda morava naquela morada. Eu entro. É uma mulher, jovem. Me olha como se eu fosse matá-la. Olha para minha perna, que ainda sangrava. Eu caminhava dificilmente, e estava andando haviam duas semanas. A observo, ela se afasta, apenas chorando. Em seu choro relembro algo de minha infância. Tratava-se de minha irmã mais nova, a única filha de meus pais. Estava totalmente abusada, com as roupas rasgadas e marcas de luta por seu corpo. - Tao Li! Sou eu, Ling!!! - ela não me reconhece, e nada fala. Apenas arfa e se afasta. Alguém vem se aproximando, ao longe. Posso sentir seu cheiro, ouvir seus pés roçarem o chão e senti-lo deformar a chuva que cai lá fora. Eu me escondo. Entra um homem de meia idade, com uma bolsa. Eu lhe imobilizo facilmente. Ficamos ali parados, enquanto que minha irmã observa. - Quem é você? - pergunto eu. - Sou Chon Wong. - diz ele com dificuldade para respirar. Era meu irmão mais velho. Eu o solto. - Quem é você, forasteiro? - Não lembras mais de seu irmão, "Chon Chon"? - Ling? ... n... não pode ser, seu bastardo!!! - grita ele me abraçando e rindo. - Você conseguiu! Conseguiu! Seu maldito, você voltou vivo, mas o que é isso em sua perna? - A fase final de meu treinamento. O que houve por aqui? Onde estão nossos pais? Sua feição muda de completamente feliz para a mais arrasada depressão. - Ling, passaram-se 10 anos, irmão. Veja só você, está um homem! Você está com alguma garota? - Eu... estou viúvo - ele me olha com admiração. - Eu sinto muito. - Onde estão nossos pais, Chon? - Veja só nossa irmã, Tao Li. Coitada! Foi violentada pelas tropas do Golki e depois surrada. Eu implorei para que a poupassem, e também apanhei - diz ele levantando sua camisa e mostrando vários hematomas recentes - Eles vem aqui todos os dias. A usam e nos batem, em troca permanecemos vivos! - Chon, algo está errado. Não era assim, Golki era uma pessoa justa! Não permitiria que seus acólitos fizessem tais coisas! - Eles se apresentam como sendo enviados de Golki, mas sabemos que Golki morreu a 4 anos. Não sabemos quem são eles, mas sabemos que estão dominando toda a região! Eu olho para Tao Li. O ódio me entra novamente pelas veias. - Onde estão os outros, Chon? - Estão mortos. Todos mortos. 41
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    Eu simplesmente abaixoa cabeça e choro, silenciosamente. Seria possível tantas desgraças em uma só vida? - Nosso pai foi o primeiro. Ele ainda lutou contra alguns deles, mas foi atingido certeiramente por uma flecha disparada ao longe. Depois foram tombando, no decorrer dos meses, os demais. Só restam nós. Eu me controlo e paro de chorar. Me levanto, e minha perna dá uma grande fisgada, dolorida. Eu não podia lutar contra eles naquelas condições. E tinha que sair dali o mais rápido possível, caso contrário seria massacrado como os demais. - Temos que sair daqui agora, Chon. Arrume suas coisas e as de Tao Li. - É tarde, Ling. Eles estão vindo para cá, viram alguém entrar aqui, você! Eu sinto a área e confirmo a afirmação dele. 6 homens grandes vindo na direção da cabana em que estávamos. Eu me jogo para fora da cabana, e fico abaixo da janela, do lado de fora, na escuridão. Os homens entram, Tao Li grita. - Onde está o estranho?! DIGA!!! - grita o líder, batendo fortemente em Chon. Ele resiste bravamente. - Não tem ninguém aqui! - MENTIRA! ONDE ESTÁ?!! - diz ele cortando Chon no peito. Eu observo tudo. Chon nada diz. - Vamos lá! Matem-me! Canalhas! - Seu pedido logo é atendido. Eu vejo meu irmão morrer dolorosamente na minha frente. Logo depois minha irmã é levantada do chão, tem suas roupas totalmente rasgadas e então é violentada por cada um dos 6 homens, que riem, cospem nela e, por fim, atravessam-lhe o coração com uma espada. Eu prendo o grito que queria tanto soltar, e as lágrimas escorrem, se misturando à água que caia farta de minha cabeça. O ódio se transforma em algo difícil de se descrever. Eu me arrasto até o quintal da casa, enquanto eu os homens saem pelo outro lado, indo embora. Eu choro ali até adormecer. A dor que sentia era algo estranhamente novo. O ódio crescia quente e forte, e ia me dominando cada vez mais e mais. Eu queria matar a todos aqueles homens, mesmo ferido como estou seria deliberadamente fácil, mas tenho que me manter anônimo e pegá-los, todos, de uma única vez. **************************** Amanhece, e eu encontro os corpos de meus irmãos caídos ao chão. Nada mais certo do que enterrá-los. Eu não rezo, mais faço uma promessa, de vingança. As ervas que necessitava eu achava facilmente pelas redondezas. Permanecia fiel a minha rotina diária de treinamento físico e técnico, mesmo com a perna ferida. Ao fim de 3 meses , durante os quais eu permaneci completamente escondido, eu me recupero. Empunho a arma que usara na luta contra Lyu, e também sua própria espada. Não, ainda não era a hora do combate, a hora da morte dos monstros que estavam dominando a cidade. Eu me apresento a todos como um novo comerciante, e passo a poder andar livremente pelas ruas da cidade durante o dia. Logo me permitem usar uma casa, e eu já faço parte da comunidade. Ninguém, nem os mais 42
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    velhos, se lembramde mim. Mudado, diferente. Era assim que eu estava. E com ódio. Não podia me dar ao luxo de ter piedade em um momento deste. Procuro saber o que realmente estava ocorrendo na cidade. A 7 anos um grupo de assassinos chegou com a intenção de servir a Golki. E assim foi. Porém, grandes boatos de que Golki fora morto por tais assassinos foram ouvidas durante algum tempo. Mas logo após foram desmentidas. Porém, ninguém nunca mais viu Golki desde aqueles comentários. Ou Golki havia enlouquecido e permitido a loucura que imperava agora na cidade, ou havia sido morto e os assassinos controlavam tudo em seu nome, e de qualquer forma não havia nada que se pudesse fazer. Guardas de Golki logo me acham, me interrogam sobre quem sou, de onde vim e para onde vou. Tiram sarro, batem em mim e vão embora. Eu não reajo. E assim foi por vários dias. Recuperado completamente, era chegada a hora de minha partida, mas não sem antes minha vingança. Entro na casa principal de Golki, disposto a tudo para acabar com toda aquela insanidade sem sentido. Os portões estão estranhamente abertos. Não temiam nada por parte das pessoas do feudo. Eu entro, sorrateiro. Nada a minha frente para me impedir. Eu atravesso o pátio principal, e quando estou prestes a chegar a entrada da casa, um grupo de 5 homens me avista e me cercam. - O que faz aqui, camponês? Não pode entrar!!! - diz um deles, gritando. - Desejo ver Golki, agora - digo eu, friamente. - Golki repousa agora, forasteiro diz um deles, que havia me importunado dias atrás. - Eu vou entrar nesta casa agora e falar com Golki. Não me perturbem - digo eu, passando por eles. - Você vai morrer, homem! - grita o maior deles avançando ferozmente para mim. Foi uma visão extravagante. Eu uso a força dele mesmo para derrubá-lo. Ele cai sem entender o que havia ocorrido na verdade. Os outros olham, cautelosos. Nunca tinham sequer ouvido falar em um movimento parecido com o que eu havia acabado de fazer. Porém, após o grandão se levantar, todos partem para cima de mim. A cena me lembra muito a aquela em que eu bati em vários garotos que importunavam a mim e a Sho Win na vila próxima aos montes Shizu. A minha superioridade naquela época perante aos garotos era muito menor do que a que eu possuía agora em relação a estes homens. Um golpe certo e o sangue brota das cavidades nasais de um, que se afasta para tentar compreender o que havia ocorrido. Neste tempo eu bloqueio a traquéia de um com um soco fechado, e perfuro os pulmões de outro, aplicando um chute lateral devastador em suas costelas, as partindo e provocando a perfuração. Ele cospe sangue quente e grosso, e perde a consciência. Um quarto homem me ataca pelas costas, eu desvio e me afasto em um único salto. Me armo com meu Chako. Fraturo o crânio do homem, como havia feito com minha primeira morte, a de uma criança, a pouco mais de 2 anos atrás. Parto o pescoço do que agonizava sem respiração devido ao bloqueio da traquéia. Quatro já estão mortos em menos de 20 segundos. O primeiro, com seu sangue correndo farto de seu nariz, olha, sem acreditar. Eu pego a espada de Lyu e o degolo sem permitir que ele implore. Todos mortos, sangue abundante pelo chão e por minhas roupas. Eu entro na casa. Não havia ninguém do lado de dentro. Eu me esgueiro pelas verdadeiras avenidas que haviam no interior. Me pergunto de onde poderia ter vindo tanto poder, mas não me aprofundo na procura por respostas. Eu entro cada fez mais na 43
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    casa. Até observaruma sala, repleta de guardas. Os que haviam matado meus irmãos estavam lá, mas tinham ao todo cerca de 30 homens no local. Eu ajo por emoção, e entro na sala. Todos estavam conversando e de início não me notam. Eu desembainho a espada. Todos se calam, e se voltam para mim. Um silêncio aterrorizante domina a sala por quase um minuto. Eu, imóvel, olhando a todos, coberto de sangue; eles, comendo, bebendo, agora paralisados por um motivo tão secreto que nem eles ao certo sabiam. Iniciam uma grande gargalhada. Não crêem que eu pudesse ser ameaça para nem ao menos para um deles. Um dos que haviam violentado minha irmã e matado ela e meu outro irmão na minha frente, se levanta, rindo. - Você deve ser realmente perigoso, não é, pequeno ninja? - todos riem com ele. - Se você for capaz de me acertar com um único golpe, eu permitirei que saia daqui com vida - diz ele se aproximando. Na verdade ele era enorme, passava minha altura em mais de quarto palmos. Ele se põe à minha frente, para, e grita: - ACERTE-ME, SEU MISERÁVEL! - todos olham com certo olhar de pena para mim, era evidente que se tratava do melhor de todos eles. Eu obedeço. Dou um único e fatal golpe mortal em um dos pontos que Yoan havia ensinado em sua técnica secreta Jet Chi. Ele cai morto, instantaneamente, sem ter compreendido ao certo o que havia ocorrido. Ninguém mais na sala, a não ser eu, sabe o que foi. Todos param de rir. Olham o grande soldado morto no chão e depois olham para mim. Eu não dou tempo de reação a eles, estava disposto a matar a todos na sala, e foi isso que eu fiz. A espada já estava com seu fio a mostra, e antes que eles compreenderem que devem lutar por suas vidas, mais 6 homens tombam ante a lâmina mortal que eu empunhava. Um único golpe foi necessário para tal feito. Estavam todos amontoados, o local era apertado. Isso facilitaria as coisas. Alguns pegam suas espadas, para logo após verem suas mãos decepadas e o sangue jorrando fortemente. Eu bato em alguns antes de lhes perfurar o coração, ou cortar-lhes a cabeça ao meio. O ódio havia me dominado por completo. Não era eu, era o demônio. Cinco minutos de luta, 32 mortos, e um único sobrevivente, eu. Fora alguns socos, chutes e um 3 cortes leves, eu saio ileso. Totalmente coberto pelo sangue de meus inimigos, eu adentro em outra porta. Quatro fortes homens me observam, todos sentados em uma mesa, enquanto que eu me aproximo. Eu me ponho a frente deles. - Vocês são os homens que mataram Golki? - pergunto eu de forma sombria. - Sim - responde um deles. - Vocês são os responsáveis pela morte de minha família! Golki jamais teria permitido tamanha atrocidade em suas terras! - Você é o filho de Wong? Antes de eu mesmo o matar, o maldito falou que você voltaria e nos mataria. Quanta tolice... Eu estava exausto. Nunca havia lutado tanto em tão pouco tempo. Eu os escuto. - Vimos o que fez com os guardas, pequeno Wong. Mas nós somos assassinos do mesmo grau que os do clã JitSu, ou do clã Yiang. A questão é: você será capaz de nos matar juntos? 44
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    - Eu mateio melhor assassino do clã JitSu. - Bobagem! Quem era ele? - Meu segundo mestre. Eles se calam, e partem para cima de mim. Eu estava verdadeiramente cansado, mas bloquear os golpes que eles desferiam era fácil. Eu salto para longe, para logo depois voltar. Surpreendo-os por jogar minhas armas fora. - Acaba de cometer suicídio, pequeno Wong! - grita um deles pulando em minha direção, vindo pelo alto. Exatamente como com Lyu. O derrubo da mesma forma. A coincidência me faz rir. Os quatro assassinos me olha, com respeito, mas continuam a me atacar. Eram muito superiores aos guardas que eu havia acabado de matar, mas não eram nada comparados a Lyu, a mim ou aos demais. Não compreendo como meu pai pode ser morto por eles. Seriamos tão superiores aos demais alunos de Yoan como ele mesmo havia dito? Um golpe forte em meu rosto e outros 5 em seguida pelo resto do corpo me fazem lembrar das palavras de Lyu em um treinamento. Ficar pensando muito em um combate poderia me levar à morte. Mas o demônio que habitava em mim não permite, e eu reajo. Dois dedos são enrijecidos. Um toque forte no ponto exato, e um dos quatro assassinos tomba, morto. Os demais param, e observam. Nunca haviam visto um homem morrer mediante um único golpe. Ali eles compreendem o que estavam enfrentando. Imploram por clemência. Eu os mato violentamente, um a um. O sangue deles escorrendo por meus braços e minhas mãos, caindo ao chão. Um sorriso incompreensível toma conta de meu rosto. Eu gargalho. Todos naquela casa estavam mortos. Eu matara mais de 40 homens em menos de 20 minutos, e gargalhava, com o sangue me cobrindo o corpo. A morte me adotara como seu arauto. ********************** Eu conto ao povo o que havia ocorrido. Que não existiam mais donos ou senhores naquelas terras, e por isso seriam tempos de guerra pela posse de tal herança sem dono. Todos me olham, assustados e com orgulho. Sabiam já que eu era Ling, filho do agricultor Wong. E sabiam no que eu havia me tornado. Não havia mais como impedir. Minha fama correria por toda a China. Eu seria conhecido como o mais sanguinário de todos os guerreiros. Eu seria odiado e adorado, respeitado e desafiado, homenageado e humilhado aonde quer que eu fosse. Ainda banhado em sangue, eu me retiro do local. As pessoas, perplexas, não compreendem o que deveriam fazer de suas vidas agora que não tinham a quem temer. O caos iria imperar por todo o feudo até outro senhor tomar todas aquelas terras, e reiniciar o ciclo mais uma vez. A notícia de que os feudos estavam acabando, dando lugar a cidades, e todos obedecendo um único senhor , fazendo um gigantesco feudo, algo como um país, não impressionava o povo dos domínios do morto Golki. Eu me banho com a água do poço da propriedade de meu pai, e parto, mais uma vez, para o desconhecido. Rumo ao que o amanhã me trás. 45
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    Um saco contendoo pouco que tinha e minha roupa escura me acompanham. Eu caminho vagarosamente, enquanto sinto os olhos do povoado a me observar. Eu vou me afastando, pouco a pouco, até sentir novamente a solidão que me fez adorar a escuridão. O demônio estava dormindo mais uma vez. A noite chega, mais uma vez. Ela devasta toda a luz, e só teme ao fogo de minha fogueira, que acabo de ascender. Os ventos cortantes não me incomodam mais, estava acostumado a ficar sob a neve durante os invernos. Nada mais sinto. Abro minha mente, e me vejo mais uma vez no lugar em que eu tanto passava meu tempo. O barulho das águas da cachoeira a minha frente, a pedra a qual estou sentado, a árvore ao meu lado... posso sentir o cheiro da grama e ver as estrelas, tão próximas, que penso ser possível tocá-las. Estico a mão, sem nada tocar. Mais uma vez estou no lugar do qual não deveria ter me separado nunca. Olho mais para trás e vejo as sepulturas de pessoas importantes. A mais importante de minha vida, morta tragicamente por nosso amor desenfreado. A outra, morta por um traidor, um assassino, tal qual sou agora. Ao me lembrar no que havia me tornado, eu desperto. Já é manhã. O garoto teimoso e fraco que era não existe mais. Agora sou só um maldito assassino. O que será de minha vida? E que vida? Passar o resto dela a matar pessoas, ou ser caçado como um animal, como um monstro? Sim, era um demônio agora. E mesmo contra minha vontade, eu deveria agir como um demônio o faz. Mas ainda havia algo que me impedia de ser de todo mal. Era meu destino, isto estava certo. Mas não podia deixar de lembrar de minha filha. Eu ainda a amava tanto... e isso me impedia de me tornar o que era na verdade. Só haveria uma maneira de vencer tal obstáculo: Matá-la. Seria meu teste contra o ar, o qual me atormenta até agora. Passaram-se menos de 6 meses malditos mêses, e eu já mudei tanto... será que este realmente seria meu destino? Ser mau? Sim, o era. Definitivamente eu deveria matar minha filha. E o mais rápido possível. O Ronin era o único além de mim, em toda a China, que possuía o conhecimento da arte fatal de Yoan, o Jet Chi. Se ele ensinar o caminho do Tigre para a criança, matá-la tornaria-se tão difícil no futuro quanto matar a mim mesmo. Eu deveria achá-los, e vencer, enfim, o ar. Me levanto, e parto. Como saberia onde estariam eles? Sakazama, Mai Win e Li Wong poderiam ter cruzado as fronteiras da China, poderiam estar na Mongólia, ou em qualquer outro lugar. Estávamos próximos a uma zona de fronteiras. As Muralhas estavam visivelmente longe. Deveria achá-los, mas os fazer me achar também seria algo apropriado. A caminho dos montes Shizu, eu passo pela vila onde a mãe de Sho Win morava. Me passou pela mente a possibilidade de haverem outros da família de Sho Win vivos. Era muito provável que existissem irmãos. Mas a busca seria inútil. De nada adiantaria. Eu já sou um escravo do demônio do ódio, uma arma da morte. Nada poderia me trazer de volta do abismo. O abismo... Yoan nos falara antes de morrer. Tomar cuidado com o abismo. O poder corrompe a mente, devemos saber ouvir nossos corações. Eu choro, em plena praça central. As pessoas param para me ver. Alguém me pergunta se está tudo bem comigo. - Agora está, obrigado - digo eu, me levantando e saindo. Eu havia perecido. Não estava escutando meu coração. Minha mente fora corrompida pelo poder. Eu era, 46
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    sim, o maiorlutador que existia, mas não estava seguindo o demônio do ódio e nem era escravo da morte. Eu estava sendo escravo de meu próprio desejo! E escutando meu coração eu me libertara das correntes que havia posto em mim mesmo. Era novamente o homem que Sho Win amava. No meu sonho ela me dizia que estava me atrapalhando, e que eu deveria me tornar no que eu era na verdade. Não, eu não deveria ser um assassino. Eu deveria ser um homem. E fora nisto que eu me tornara. Venci a mim mesmo, mostrando-me mais forte que meu ódio, mais forte do que eu mesmo. Eu havia me vencido. Havia vencido o ar. Eu finalmente havia terminado meu treinamento. Eu estava completo. ********************** Passaram-se alguns meses desde o ocorrido. Eu e Li Wong, juntamente com Mai Win, a qual adotamos como filha, finalmente chegamos à casa de meu pai. Suury desmaia de emoção ao ver-me vivo. Haviam-se passado anos e anos desde que havia partido, prometendo se tornar o maior guerreiro que poderia existir. - Você voltou, Sakazama! Nosso pai será honrado novamente! - Sim Suury. - Você é o melhor guerreiro que existe? - pergunta Suury. Eu nada falo, apenas me distancio, entrando na bela casa da qual ela cuidara durante todo este tempo. - O que houve, afinal? - Existe outro... - diz Li Wong. - Quem é você? A mulher dele? - Sim. - Esta é a filha de vocês? - diz ela, se aproximando e brincando com a garota, que sorri. - Não - diz Li Wong - Esta é a filha de Sho Win e Ling Wong, o maior guerreiro dentre todos. - Por que ela está com vocês? - Ling deveria seguir seu próprio caminho. Fez o correto. Um dia ele retornará para buscá-la, acredito. - Eles eram inimigos? Meu irmão e Ling? - Não. Eram, na verdade, grandes amigos. - Então por que a tristeza em seus rostos? - Não sabemos se será ou não Ling que virá buscá-la. - Como assim? - Sakazama me falara, durante nossa viajem. O caminho de Ling seria tortuoso se sobrevivesse. Ele estava lutando contra outro aluno, Lyu, que matara o mestre Yoan. Não sabemos quem verdadeiramente ganhou a luta, mas se foi Ling, dificilmente ele atravessará o abismo sem cair. - Abismo, que abismo? - Esqueça Suury. Venha, mostre-nos os jardins da casa! - Sim, venham! Venham! - falava e ria Suury. Eu observava as duas da janela. Minhas esperanças eram as de que Ling sobrevivesse não só a Lyu, mas também a si mesmo. Seu coração, tão marcado pela dor e pelo ódio, o tornariam demasiadamente poderoso. Restava saber se ainda restaria algo de humano nele. Ling seria um assassino perfeito. Espero que ele tenha forças para controlar o demônio que cada um de nós carrega dentro de si. 47
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    Mas devo meaprontar. Em breve teremos que partir. Retornar ao Japão será algo difícil, mas devemos tentar. E assim foi-se passando o tempo. A notícia de uma grande matança em um feudo distante por um só homem, de nome Ling, fez Sakazama ficar extremamente preocupado. - Ele caiu - diz Li. - Sim, mas será capaz de se levantar e escalar até voltar a ser o que era? - era uma pergunta sem resposta. Eu ainda continuava inquieto. Vencer o ar seria algo de extrema importância para mim. Mas a falta de desafios por algum período me pôs sem opções. Seguia os exercícios do treinamento diariamente. Mas não existiam desafios... devíamos voltar o mais rápido possível para nossa terra. Seria difícil para Li Wong e para Suury, mas devíamos partir, e logo. A China era um país bárbaro. Voltar para o Japão seria mais que emocionante, seria renascer das cinzas que somos agora. Assim sendo, preparamos nossa viajem. Mai Win deixara de perguntar sobre seu pai, não por que o esquecera, mas por compreender que ele teve que deixá-la. Nunca nos chamou de pai ou mãe, mas nos tratava de igual modo e respeito. Partimos. As primeiras noites da viajem foram tranqüilas. Estávamos em descampados e montanhas isoladas, completamente desertas. Porém, ao fim da 5ª noite, chegamos próximos da última cidade chinesa antes da Coréia. Fomos molestados, mas eu não pretendia chamar a atenção. Resolvi os problemas na base da conversa, uma coisa que meu pai havia me ensinado perfeitamente. Mas houve um idiota que quis se aproveitar de Li e Suury, na minha frente. Gordo, grande. Era assim que ele era. Eu era apenas um japonês com uma criança e duas mulheres, o que poderia ocorrer com ele nos atacando? - Ei, pare! Não as incomode - digo eu ao homem, que segurava com força Suury e dizia coisas obscenas a elas. Ele se vira para mim, não acreditando que eu realmente havia dito tal coisa. - A pulga aqui esta se metendo em coisa grande... caia fora ou arrebento sua cara!!! - grita ele, dando risadas e continuando a agarrar minha irmã. Eu balanço a cabeça, em sinal de negação. - Eu não queria fazer isso. É evidente que sou superior, mas terei que pará-lo. Disparo um golpe certeiro no nervo do braço direito dele, o qual segurava minha irmã. O braço morre. Ele se vira, furioso. Investe conta mim. Eu, por minha vez, apenas me esquivo dos investidas, inúteis. - Pare. Eu não quero ser obrigado a derrotar você - ele nada diz, apenas fica mais furioso. Estava evidentemente descontrolado. Me lembrava Ling no início de seu treinamento. Eu lhe aplico um só golpe com a perna na cabeça. Ele cai instantaneamente. Ambas as mulheres olham horrorizadas. Mai Win, por sua vez, achava normal. O espírito de luta do pai morava dentro dela também. Talvez, quando tiver idade, eu lhe mostre o Caminho assim como fizeram comigo e com seu pai. O corpo do homem fica estirado ao chão. Eu tomo sua pulsação. Ele ainda vivia. - Não se preocupem, ele está bem. Vai dormir por algumas horas - digo eu para não preocupar as mulheres. Partimos. 48
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    Atravessamos a cidadee chegamos à Coréia. A partir dai ficamos muitos dias sem contato com nenhuma outra pessoa. ************************* Goku era um antro de bandidos e comerciantes desonestos. Garotos surrupiando coisas e brigando pelas ruas lotadas faziam a paisagem do local. É aqui que eu morava. Não sei se permanecerei. Faz tanto tempo... Ninguém mais me reconhece. Eu caminho solitário por entre a multidão, em busca do homem que havia me enviado para Yoan. Kato. Esse era o nome dele, pai de Kiy. Eu o procuro e imediatamente eu fico sabendo onde ele estava. Era o Senhor do feudo agora Sempre foi rico, mas para ser dono de toda Goku muito poder era necessário. - O que, Kato é o senhor agora? - Sim, sim! Senhor do feudo, Kato, sim, ele... - diz um velho sentado na rua. Isso piorava as coisas. Kiy já devia ter até netos!!! Ricos casam muito cedo, e como eu iria me anunciar para ele? Diria "ei, diga ao homem que Lao Kin está aqui e quer provar que já pode quebrar a cara dele"? Eu seria expulso... apesar de que eu não permitiria. Mas não quero arranjar confusão. Tenho que ser polido! Me aproximo da casa principal de Kato. Guardas enormes tomam conta dela. Eu me aproximo mais ainda. Eles me notam. - Oi, eu sei que é difícil, mas vocês não poderiam me anunciar para Kat... - um golpe fraco no meu rosto me derruba. Eu havia visto o golpe, mas o levei para não provocar suspeitas nas pessoas. Mas uma pequena multidão se forma ao redor para observar o que acontecia. - Saia, garoto. Nosso senhorio não tem tempo para conversar com mendigos - Todos riem. Realmente minhas roupas estavam péssimas. Mas eu lhe seguro pela garganta, com tal força que ele não é capaz de se soltar. - Eu disse que quero falar com Kato agora. Não me obrigue a matar vocês. Diga a ele que Lao Kin, seu genro, está aqui e quer se casar com Kiy. Todos riem mais ainda. O soldado não consegue respirar, e por isso desmaia. O outro investe contra mim. O público se dissipa, achando que minha morte fosse espalhar sangue em cima de todos. Mas bloqueio a espada do soldado facilmente com as mãos nuas, e com um dos meus fortes golpes de canela eu quebro todas as costelas do lado esquerdo de meu oponente. Ele cai imediatamente no chão. Todos se calam. Eu volto meu rosto em direção a eles de forma sinistra. Eles fogem, assustados. Eu entro na casa. Vários soldados me cercam. Eu poderia facilmente dar conta de todos, mas acho que eles me levarão aonde eu quero. Me amarram, e retiram minhas armas. Eu não reajo. Como havia dito, me levam para a sala principal. Kato, mais velho, e Kiy, sentada à sua direita, me observam. Os soldados me fazem ajoelhar. - Você é Ling? - pergunta Kato, apreensivo. - Ling? Não, não... estudamos juntos... ora, pelos infernos! Não lembra de mim?! 49
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    Ele aparenta surpresa,e não se recorda. Um soldado tenta me dar uma pancada nas costas, eu rolo para frente. Me levanto e com uma voadora invertida derrubo facilmente 2 guardas. Os demais ameaçam me atacar, mas Kato os impede. - Não. Eu lutarei com este rapaz. Quero ver como ele se sai com um aluno do mestre Yoan das montanhas Shizu. - Vejamos, a nova versus a velha geração, não é? - ele se surpreende mais uma vez. - Yoan morreu, Kato. Eu e os demais somos os últimos - ele aparenta se lembrar. - Sou eu, Kato... Lao Kin! Lembra do que me falou antes de me mandar pra lá? Que eu poderia casar com Kiy se eu o derrotasse? Pois bem, vamos ver quem é o melhor agora! - Lao?! O ladrãozinho das ruas? Não é possível! Você está vivo?! - diz ele me abraçando e rindo. - Guardas, saiam, isto é um assunto familiar - diz ele. Kiy se levanta, e vem até nós. - Lao, meu pai me fez esperar por você durante todos estes anos - diz ela, um tanto fria - Eu me viro para ele. - Você cumpriu sua promessa! Foi por muito pouco que eu não venho para Goku! - Eu não cheguei onde estou quebrando promessas, Lao Kin. Espero que você não tenha quebrado a sua - diz ele me acertando um golpe rápido e forte. Este eu não havia visto. Caio no chão, com a boca sangrando. Kiy grita, seu pai a afasta. - Saia minha filha. Devemos fazer isto. TEMOS que fazer isso... - diz ele. Eu me levanto. - Sim, Kiy, tem que ser assim. Não se preocupe, não machucarei muito o seu pai - Kato e ela se voltam para mim, não crendo no que eu havia dito. Verdade seja dita, Kato era o melhor lutador que existia por aquelas redondezas. Mas eu, com certeza, era melhor. - Sua petulância será paga com seu sangue, Lao - diz ele tirando o roupão que costumava usar, ficando apenas de calças. Kiy se afasta. Sim, ele está bem para um velho de 59 anos. Me lembra agora o próprio Yoan. Ele parte para cima de mim, com uma investida feroz. Mal consigo me desviar. Mas desvio. Acertar uma cotovelada na parte de trás de sua cabeça foi fácil. Ele cambaleia para um lado, depois para outro, e por fim se recompõe. Me estuda, observa meus movimentos, minha posição. Eu parecia um tigre. - Yoan os fez trilhar o Caminho do Tigre! - diz ele, surpreso. - Como sabe disso? - pergunto eu. - Ele nos falara a respeito. Era desta forma que havia sido ensinado a tempos atrás. Mas não nos ensinaria, assim como não ensinaria a ninguém mais. Isso é inesperado. - diz ele. - Ele nos fez trilhar. E agora esta será a sua ruína - digo eu aplicando um golpe de canela. Ele defende, mas de nada adianta. Cai desacordado. Kiy observa, entusiasmada com minha performance. Ela não mudara nada. Estava tão bela quanto naquelas tardes em que escondidos ficávamos. Após alguns instantes Kato se levanta. Dolorido, me cumprimenta. - Desculpe, Lao. Tinha que ser assim. Bom Kung Fu o seu! - Eu compreendo. Obrigado. - Fique e governe comigo! Seja meu protetor pessoal, seja meu genro. - Eu... - olho para Kiy, e mesmo sem saber se havia algum motivo ou não para ficar, eu me recordo que tudo pelo que passei durante os últimos 10 anos foram por causa desta mulher. Por bem ou por mal, ela era a responsável por tudo aquilo. - Eu tenho que pensar, Kato. Não sei se meu destino é realmente aqui... espero que compreenda. 50
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    - Não. Nãocompreendo! Pensava que amava minha filha! - Eu amo Kiy, mas entenda, 10 anos esfriam até o mais quente vulcão! Tenho que reavaliar meus sentimentos. Tenho que meditar sobre este assunto. - Não há o que meditar, Lao Kin. Resolva agora. Fique conosco ou parta. É simples! Kiy havia se tornado uma bela mulher. Suas formas eram exuberantes. Eu seria rico, teria poder, respeito, coisas pelas quais sempre lutei. - Eu fico - ambos ficam felizes. *********************** Atravessamos toda a extensão que nos separava do porto de Mon Wai. Foram dias difíceis. Ficamos sem água por 3 dias. Alcançamos a zona marítima em torno de 4 semanas. Achar uma embarcação seria algo difícil. Custava dinheiro, e não nos sobrara nenhum. Não havia escolha a não ser lutar para conseguir algum. Deixo as três em um lugar relativamente seguro e escondido, e lhes ordeno que ali permaneçam até minha volta. Haviam muitas rodas de briga por todas as docas. Me aproximo de uma pessoa que intermediava os apostas, e me ofereço para lutar. - Você, lutar?! Não me faça de tolo, garoto! Não deve ser capaz de bater nem em uma criança! - eu o agarro. - Em criança eu não bato mesmo. Mas em idiotas como você... - ele aceita. Me colocam para brigar contra a maior fera do cais. Um grande e estranho ocidental. Loiro, pele clara e olhos da cor do céu em dia de sol. Era gigantesco, forte, musculoso. Não deveria ser difícil acabar com ele com um único golpe. Mas eu entendo a mente destas pessoas. Se derrubá-lo com um único golpe pensarão claramente que se trata de algo arranjado. Iria começar um tumulto. Não. Vou aproveitar e brincar um pouco com ele. Aparenta ser lerdo, isso facilitará. - Que lutem!!! - grita o que organizava a briga e as apostas. Ganhando a luta, levaria em torno de 40% do total de arrecadações. Era muito dinheiro, principalmente por que estavam apostando pesado, e não em mim, mas no nórdico. Seria dinheiro fácil. A luta é iniciada, e o grandão me acerta uma devastadora pancada com a perna na cabeça. Eu caio imediatamente. Ele era infinitamente mais rápido do que eu imaginava! Todos aplaudem, querendo pegar suas apostas, felizes. Mas eu acabo com toda a alegria. Me levanto. - Esperem! Eu ainda não acabei com ele! - grito eu, com o rosto cortado e sangrando. Todos me olham, e gritam, de frustração e alegria misturados. achavam que o loiro ganharia ainda, e minha resistência só significava mais espetáculo. Mas eles estavam enganados. O loiro dá outro golpe igual ao que havia me acertado. Com certeza não sabia muitos golpes. Eu conhecia mais de 3000 diferentes para cada finalidade. Eu lhe acerto o músculo deltóide. Seu braço agora é um peso morto. Ele grita de dor. A algazarra termina no público que nos observava feliz. O gigante geme, mas tenta um golpe diferente. Ele realmente é rápido, mas agora que eu sei disso ele não possui mais armas contra mim. Eu o subestimara, e o erro fora este. Agora é ele quem me subestima, e esta será a sua derrota final. 51
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    Eu ponho forçaem meu braço e lhe aplico uma Pata de Gato em sua perna. Uma fratura exposta é criada. O oponente grita irritantemente de dor, agudo como um porco sendo morto. Eu dou um golpe de misericórdia. Não, não o mato, mas o ponho para dormir. Todos observam, não acreditando em tudo o que haviam visto. Eu recolho o dinheiro do organizador, que também aparenta perplexidade. Caminho em busca das três. O povo atrás de mim se dissipa, o organizador corre em minha busca enquanto que dois ou três garotos que moravam por ali ajudam a carregar o gigante loiro. - Rapaz! Rapaz! - gritava o velho organizador - Espere! Espere! - Não tenho mais nada para falar. Deixe-me ir - digo eu. - Espere! Onde vai? Fique e lute mais pra mim! Posso te fazer ser o melhor!!! Você vai ganhar muito dinheiro. Talik não luta mais aqui agora! É um derrotado! Derrotado! Você é vencedor! Lute, fique! Vamos, fique! - Não, velho! - grito eu - Tenho que partir para o Japão, não compreende? Tenho que voltar para minha terra!!! - Japão, sim! Você vai precisar de um barco! Eu sei de um barco! Eu sei! - Onde está ele? - pergunto eu lhe agarrando a garganta ferozmente. - Arght! Arf! Não! Luta antes. Só mais uma! Luta e eu te ponho em barco!!! Arf! Só mais uma!!! - Diga ou morre, velho. Você é quem sabe. - Não, luta antes! Com o dinheiro que você tem não vai dar pra pegar um barco. Eu te ponho em um de graça, mas antes, luta!!! - Eu reconsidero a oferta. - Tenho que levar mais 3 passageiros. Pode fazer isso? - Sim, posso! Mas antes luta!!! - Tudo bem, eu luto - digo eu, soltando a garganta dele - Mas se não cumprir sua promessa eu não terei dificuldades ou escrúpulos em matar você com um só golpe, velho - Ele se cala e me ordena que o siga. Eu cumpro a ordem. Entramos em uma espécie de casa fechada. O velho se identifica com os dois homens que tomavam conta da entrada e eles nos deixam passar. O lugar era uma espécie de arena fechada para lutas. Muitas pessoas sentadas e em pé gritavam e apostavam nos lutadores que se matavam na arena. Eu observo, enquanto que o velho vai até um homem grande que aparentemente mediava a luta. Eles conversam rapidamente, e então ele volta para o meu lado. - Sim, a luta! Você vai lutar contra o pior de todos os lutadores que existe. Sim. Ele veio da China! É um JitSu! Sim! - Um JitSu, aqui? - Sim, sim, você terá que matá-lo. Ou você mata ele ou ele te mata, um dos dois. Mata ele! - Matar não faz parte da minha natureza. - E faz parte da sua natureza MORRER? Mate-o, e teremos mais dinheiro do que jamais sonhamos antes! Você não vai precisar alugar um barco, vai poder comprar seu barco, comprar uma fragata inteira! Apenas mate-o, só isso! Eu observo a luta na arena e ignoro o velho. Ele logo deixa de falar e presta atenção na luta. Os lutadores se moem ferozmente, e logo tudo acaba. O homem com quem o velho havia falado se põe no meio do tablado e todos se calam para ouvi-lo. - Temos um desafiante para Shaw - Todos gritam aparentemente felizes. 52
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    - Não seassuste, meu jovem. Shaw nunca perdeu antes. Toda luta com ele é um espetáculo para esta gente. Ninguém vai apostar em você, só eu! E eu lhe prometo que lhe entregarei metade do dinheiro, caso você sobreviva e ganhe, não é mesmo? Ele me manda subir à arena. Todos me observam, com um olhar de pena. Tambores rufam e logo uma pessoa entra no tablado. Forte e de baixa estatura, como eu, era Shaw quem estava ali. Havia um grande dragão vermelho nas costas, assim como Lyu. Era um assassino JitSu, com certeza. Ele me olha com petulância, eu com compaixão. Isso o surpreende. Eu me mostrava calmo e confiante. Ele sacou então um bastão longo. - Vejamos então, amigo. Vamos lutar com bastões. Não quero lhe ferir muito até poder arrancar sua cabeça com minha espada - falava ele enquanto jogava a espada fora. Eu observava. Me jogam um bastão também. Eu dou um leve sorriso. Mal sabiam eles... treinando mais de 2 anos só com esta arma... Ele dá o primeiro golpe. Eu desvio. Ele se surpreende, não esperava resistência por minha parte. Mais 6 golpes, eu bloqueio todos, e até lhe dou alguns cutucões em sinal de provocação. Ele se irrita. Ataca com fúria, e me acerta dois do vinte golpes que desfere com o bastão. Ele ainda era um assassino JitSu... havia a morte em seus olhos, mas não se equiparava a Lyu. Eu me desfaço de minha arma. Todos se levantam e não acreditam no que havia feito. Shaw gargalha, para então pular em cima de mim com a intenção de aplicar um golpe fatal. Eu era um mestre com o bastão. Sabia tirar proveito de todas as formas possíveis de tal arma. Sabia seus pontos fortes e, sobretudo, seus pontos fracos. Eu quebro o bastão duas partes com um chute, que ainda acerta meu oponente. Caído e humilhado, ele se levanta, enraivecido. Agarra sua espada e corre em minha direção. Com um chute eu acerto o cabo da espada, e com outro, seguido, chuto a arma para fora do tablado. - Sem armas, Gaijin - digo eu. Ele luta espetacularmente bem. Mas só domina poucos estilos. Era um iniciante no clã, evidentemente. Eu levo algumas pancadas, mas desfiro alguns golpes certeiros contra nervos vitais. Eu paraliso uma perna. Em seguida ele me acerta um soco forte em cima da área do coração. Tenho vertigens, meu coração desacelera e bate descompassado. Ele se aproveita, e mesmo com uma perna paralisada se levanta e me acerta outros golpes. Eu caio, aparentemente vencido. Ele vem para cima de mim. Só havia uma chance... Eu lhe acerto com meus dois dedos enrijecidos no ponto energético no peito. Ele morre instantaneamente. Todos estão mudos. O sangue em meu rosto escorria, minhas pernas aparentemente pesavam o mesmo que uma carroça. Eu me levanto dificilmente, mas ainda sou o que está vivo. Todos se retiram do local, no mais completo silêncio. O velho pega uma grande quantidade em dinheiro, e sorrindo, se dirige em minha direção. - Aqui! Aqui! Ganhou a luta, metade sua! Hehehe! Ricos! Muito ricos! Hehehe! Pegue, dinheiro seu, boa luta, boa! Hehehe! - Ao barco, velho. Me leve até o barco... - digo eu com visíveis dificuldades. - Sim, sim, venha, barco! Barco pra terra do sol nascente! Venha! - Antes tenho que buscar as três... estão em uma doca, escondidas... - Sim docas, sim! Venha, vamos achá-las! Muito dinheiro! Ricos! Ricos! 53
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    E assim, cambaleando,eu e o velho chegamos até o lugar onde as três estavam escondidas até agora. Ao me verem em tal estado, gritam. - Sakazama!!! - Li Wong era a mais abalada. - Eu falei para você não lutar mais, Sak... não, não... - Ei, eu vou ficar bem... - estava mentindo. Meu peito doía muito. O soco fora fatal. - Fique calmo, irmão - diz Suury - Você vai ficar bem. Eu olho para Mai Win, que nos observa silenciosamente. - Li Wong, leve Mai para ver o mar, sim? - digo eu a ela, que por sua vez, obedece, chorando, pois sabia o que iria acontecer. Eu passo a mão pelos cabelos negros de Mai Win. Ela me olha, profundamente. - Por que você tem que morrer? - todos se surpreendem. - Eu não tenho, mas devo... faz parte do meu caminho. - Que caminho? - O caminho que todos nós trilhamos... a vida, Mai... agora vá. Vá em paz - Ela e Li Wong saem. - Suury, eu completei minha jornada. Tudo está certo agora. - Por que, Sakazama? - diz ela lacrimejando. - Eu devolvi a honra a nossa família, morrendo para salvar a vida de Mai Win. Não teríamos como mantê-la viva por mais um dia sem dinheiro. - Você deu a vida por ela. Você salvou-se a salvou a honra de todos nós - diz ela, chorando. - Completei o Caminho do Tigre, Suury. Enfrentei o ar! Restabelecer tal honra foi minha prova, meu teste! Sou completo. Pena que tenha que morrer agora, mas poder vislumbrar o prazer de ser completo no Caminho só por este instante já me torna privilegiado... - Sakazama! Não morra! - grita ela. - Eu... eu tenho que partir, Suury. Encontre Ling. É necessário encontrarem Ling! Só ele poderá cuidar de vocês. Só ele poderá ensinar a Mai Win, ela deve aprender... aprender... ser um... tigre... um tigre... tigr... - Sakazama? Sakazama?! SAKAZAMA!!!! FALE COMIGO!!! SAKAZAMA, não morra!!! E ali fica ela a chorar por seu irmão morto. O velho observa, seriamente. Ela chora, com grande dor. Li Wong, do lado de fora, chora por seu amado, sem poder estar perto do corpo. Mai Win observa o mar, com alegria. O sol nasce belo. - Posso ajudar vocês - diz o velho. - Não queremos nada seu. - Eu sou, em parte, responsável pela morte deste rapaz. Me sinto imensamente mal com isso. Me perdoem. Devo ajudá-las como forma de penitência. Tomem meu dinheiro. Fiquem com ele, todo ! Eu não quero,está marcado com a morte, será dinheiro ruim para mim. Não posso usá-lo. Deixe-me ajudá-las a encontrar o outro homem! – Nisto, Li Wong entra, falando a ambos. - Sim. Ajude-nos! Só Ling poderá cuidar de nós! Yoan se foi, Sakazama se foi! Não temos mais ninguém! Devemos voltar para Ling, agora! - Não! Ling é um assassino! Como ele cuidará de nós? – diz Suury. - Da mesma forma que Sakazama cuidou. Com a própria vida, se necessário. Ling não é o monstro que falam. Ele é bom em seu interior. Ele vai cuidar de nós, por sua filha! 54
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    - Não voucom vocês. E não permitirei que esta criança fique com tal monstro. Eu vou para o Japão com Mai Win, Li. Se quiser ir ficar com Ling, vá. Só não ponha esta criança no meio de suas insanidade! - Ling virá atrás desta criança, Suury. Deixe-me levá-la. - Não! - grita Suury, desferindo um golpe forte contra Li, que cai desmaiada. Ela olha para o velho. - Meu pai nos ensinava alguma coisa sobre lutas, afinal... não tente nos seguir! - diz ela pegando o dinheiro de seu irmão - Buscarei o corpo de meu irmão assim que encontrar uma embarcação - diz ela saindo com a garota. O velho ajuda Li a se recompor. - Acorde, vamos, acorde! - Oq... onde está Suury? - Se foi. Mas vai voltar para pegar o corpo de Sakaz... - Engano seu - diz Suury - eu já voltei - ela estava acompanhada por dois fortes marujos. Carregam o corpo de Sakazama, e somem. - O que vamos fazer, minha jovem? Eu lhe sirvo, em penitência a morte do rapaz. - Obrigada, vou necessitar de ajuda. Precisamos encontrar um homem chamado Ling. - Tem idéia de onde procurar? - Sim. Já ouviu falar dos montes Shizu, na China? - Não. - É provável que ele esteja lá. Venha. Temos dinheiro para ir? - Oh, sim, muito dinheiro! Muito! - Então venha. Não podemos obrigar Suury a dar a criança a nós. Ela está abalada. Temos que entregar Mai a quem é seu protetor real, ou seja, seu pai. ************************* Os mares gelados não impedem a embarcação de cruzar milhas e milhas, durante dias infindáveis em que a morte nos rondava. Fui violentada inúmeras vezes pelos marujos, que em troca disto deixavam Mai Win em paz. Eu nada fazia a não ser chorar. Sabia lutar, mas não o suficiente para acabar com 8 fortes navegadores ao mesmo tempo. Além do mais, chegaríamos rapidamente ao Japão, e a partir dai nunca mais os veria ou teria que passar por tal situação. É certo que me odiava por permitir tal abuso de meu corpo, mas permanecia calada. E dia após dia eu rezava para que a viajem por fim terminasse, mas os dias ficavam cada vez mais longos. Ao cabo de 7 dias chegamos ao mar do Japão. Foi aí que o corpo de Sakazama foi jogado ao mar pelos marinheiros. O cheiro estava insuportável. Mais algumas horas e enfim colocava os pés na terra da qual nunca deveria ter me separado. Mai Win estranhava. Não sabia falar japonês, mas ensiná-la seria fácil, já que por ser ainda pequena absorvia com rapidez o que lhe ensinavam. Não sabia ao certo o que fazer. Estava desnorteada. Não sabia ao certo em que parte do Japão estávamos, nunca havia estado realmente nesta terra, a não ser quando criança. Sabia que existiam amigos da família, parentes de minha mãe, coisas do tipo. Mas onde estavam? Logo a noite cai, e ambas dormimos na rua. O dinheiro havia sido roubado pelos marujos, que sumiram em meio a tantas pessoas. No dia seguinte nada havia para comer. Nada havia para fazer. A única maneira de sobreviver seria se prostituir, e foi isso que fiz. Cada homem do cais pagou relativamente bem para usufruir de 55
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    meu corpo poralguns momentos. E assim foram-se passando os dias. Eu sou bonita o suficiente para atrair um considerável número de homens, e eles vinham em abundância. Chegava a atender 10 homens por dia, mas quando havia dinheiro suficiente, eu e Mai Win partimos. Rumamos para a antiga cidade onde morávamos com nosso pai. O problema agora era manter-me escondida o suficiente para que o pai de Mai, Ling, não nos encontre. É certo que a maldita Li tenha avisado Ling. Tenho que proteger Mai a todo custo! A prostituição havia se tornado minha profissão. Mai Win estava achando aquilo normal, e isso era perigosamente influenciador. Procurava impedir uma promiscuidade no ambiente familiar que tentava proporcionar para a garota, mas era impossível que ela não soubesse o que estava se passando. Migramos de cidade em cidade, e nada achava a respeito de minha família. Aparentemente éramos apenas desgraçados sem senhor. Não existíamos. Resolvo então nos fixar em uma pequena vila, governada pela família Yoshido, uma forte e respeitável organização. Muitos eram os samurais a seu serviço, e bons de coração eram seus integrantes. Estava protegida. Como gueixa fui aceita. Contei sobre Ling, e de como era importante manter Mai Win longe de sua influência. Sem discordar, eles me acolhem. ********************** As noites foram ficando mais frias, a neve principiava. O velho se chamava Jong, e com sua ajuda e experiência de quem é um verdadeiro rato de cais, nós chegamos até Ton Yang em aproximadamente 3 meses. A vila ficava aos pés do monte Shizu, e era provável que Ling ali estivesse, ou tivesse estado. - A noite agora é, minha pequenina... vamos descansar - diz Jong. - Certo, mas amanhã teremos que subir. - Sim, mas agora descansar. Vou negociar nossa pernoite nesta grande casa - diz ele entrando no estabelecimento. Eu fico a olhar, sob uma fina neve, o monte, imerso em sua escuridão natural. Um garoto se aproxima. - O monte é amaldiçoado agora, senhora. - Por que diz isso? - pergunto eu me virando para ele. - A morte vive ali. Não vê? Eu olho mais uma vez, e nada vejo. - Só vejo o monte. - Mas ela mora ali! Tanto que o antigo mestre se foi com os ventos dela. - Está falando de Yoan? - Sim. Agora a morte domina o lugar. - Quem é a morte? - A morte é um homem forte, impiedoso e muito hábil. Porém, é triste. Não permite a entrada de pessoas nos arredores do monte. Vive só. Desconfio que seja Ling. - Ling?! - Sim, Ling, o que matou toda a guarda de Golki. TODA! Somente a própria morte seria capaz de fazer tal feito. - Ou que sabe, um demônio... - o garoto se assusta, e foge em direção ao negro da noite, desaparecendo. Jong me chama para entrar. Olho o monte mais uma vez. Agora olhando melhor, uma sensação de pavor me toma conta. A morte verdadeiramente vivia ali? 56
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    O sol nascesob uma grossa coberta de nuvens. A neve havia se intensificado. Nossas roupas pesadas nos protegiam do frio que agora ficara absurdo. Os cavalos recém comprados agüentavam bem o ambiente impróprio. Subimos o monte em 3 horas. Deixamos os cavalos em um local afastado, após vermos vários corpos mortos espalhados pelo chão. Um assassino morava ali. Caminhamos em direção à casa principal. Estava bem cuidada, havia algum morador, porém, não existiam sinais de movimentação em seu interior. Olho para o local onde estavam sepultados os corpos de Sho Win e de Yoan. Havia ainda uma árvore completamente desprovida de folhas, uma pedra e um homem nu sentado sobre ela, em posição de meditação. Eu falo para Jong ficar parado, enquanto me aproximo do homem. Quando estou a aproximadamente 5 metros dele, ele fala, sem abrir os olhos: - Pare, Li Wong. - Ling? É você? Ele se vira. Era Ling, com uma nova e assustadora feição em seu rosto. Era outra pessoa, sendo ele mesmo. - O que você faz aqui? - "Ronin" morreu - Sua feição volta a ser a daquele garoto que outrora conhecia. - Morreu? - Sim, aparentemente defendendo sua filha. - Minha... filha? - Sim, sua filha. Sua e de Sho Win, Ling. Lembra-se? - Ele havia se abdicado de tais lembranças a algum tempo, arrependido de querer matar sua própria filha. - Onde esta Mai Win? - pergunta ele calmamente. - Ela ainda vive, Ling. - Como pode deixá-la? Eu a entreguei a vocês para que a protegessem! - Suury, a irmã de Sakazama, esta com ela. Mas está abalada! E você nos intitulou pais dela. E como mãe eu quero minha filha de volta! - Não é mais problema meu, Li. - É sim Ling. Sakazama lhe pediu uma última coisa antes de morrer. - ... - Que a ensinasse o Caminho do Tigre a Mai Win. - Não. É impossível! - Assim queria ele. - Mai não suportaria. O Caminho chega ao extremo do limite humano! Não poderia fazer minha própria filha passar por tal sacrifício. - Ling, ela não é mais sua filha! Ele me olha com um olhar furioso. - Você viu os corpos espalhados pelo caminho? Sabe o que são? São aventureiros, pessoas que souberam de meu feito em Golki e agora querem me derrotar para se tornarem os melhores. É com alguém assim, caçado, que quer que Mai Win viva? Um assassino? - Você não é assassino, Ling . É apenas é um sofredor... a vida lhe foi cruel por toda sua extensão. Não vê que Mai Win pode ser o fim de tanta dor? - Por que quer isso, Li? - Não tenho ninguém, Ling. Sou completamente só. Necessito de alguém que me proteja. 57
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    - E quera mim? - Não. Mas sei que Mai necessita de um protetor tanto quanto eu necessito, se não mais. Vivemos em um mundo selvagem. Tudo o que eu quero é o melhor para Mai, e você é o melhor. Você é o pai dela! Ele se cala. Aparentemente não acredita que eu realmente queira tal coisa. - Ela será como eu. Uma assassina. Não compreende que ela sofrerá o mesmo tanto que eu? - Não se você não quiser. - ...onde ela está? Onde está minha filha? - Li sorri. Enfim ele voltara a ser Ling. - Suury a levou para o Japão. Não sei onde. Ele se levanta. Seu físico era perfeito. Uma grande cicatriz no pescoço, outra enorme na coxa e várias outras pequenas pelo corpo lha davam um aspecto dolorido. Ele se veste com uma manta fina. - Vamos entrar - diz Ling. Li fica ruborizada, pois achava Ling atraente. Se sente culpada por Sakazama. Os 3 entram. O fogo é aceso, e Ling prepara um chá. - Quem é ele? - pergunta, indicando para o lado de Jong. - É um amigo. Diz que Sakazama morreu por sua causa. - Como foi? - Ele participou de uma luta, onde muito dinheiro estava em jogo. Jong arrumou a luta para Sak, que morreu logo após. - O oponente morreu? - Sim, mas os ferimentos foram fatais. - Compreendo. Que descanse em paz. - Sim – diz Li chorando. Ling não se comove. - De onde ela partiu? - Do porto de Mon Wai - diz o velho. - Isso é na Coréia! Caminharam até lá? - Sim – responde Li. Ele fica em silêncio por um bom tempo. Bebe um bom gole de chá quente. Seu olhar se perde por entre os objetos da casa. - Partirei amanhã. Vocês não podem ficar aqui. - Por que? - Por que morrerão. Muitos a mim vem. Com o ódio e a morte. Assim como eu, um dia. - Concordo com o jovem, pequena - diz o velho - ficaremos bem na vila. *********************** Li Wong e Jong se instalam em uma casa na vila, e eu parto. Uma longa jornada em busca de alguém com quem eu jurara nunca mais cruzar o caminho. Minha filha. Minha roupa preta e minha bolsa são as únicas coisas que carrego. Botas novas são causadas e o caminho a minha frente vai sendo devorado. Sou um Tigre mais uma vez. Agora sem coração. Adotara como arma agora a arma de um grande assassino, meu mestre, Lyu. O Chako fora-se com o tempo. As paradas eram raras. Caminhava até mesmo durante a noite. E assim foi até chegar a um pequeno feudo que havia no caminho. Goku. As pessoas me olham com desconfiança. Eu caminho pelas ruas apertadas do vilarejo, e logo sou 58
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    confundido com umviajante indefeso por 3 assaltantes. Perdi minha paciência e minha piedade a muito tempo atrás. Um único movimento da minha lâmina mortal e as três gargantas são profundamente degoladas. O povo olha, aterrorizado. Guardas correm em minha direção. Grades laças são erguidas. Estou cercado. - Saiam da minha frente. Não quero desavenças com os senhores de tal local. - Não sairá deste lugar, forasteiro. - Eu tenho que continuar minha jornada. - Matou três integrantes deste feudo, e com um único golpe. É Ling? - O silêncio se faz presente. - Sim. A resposta é suficiente para os fazer me atacarem, ao mesmo tempo. A morte estava entre eles. Eu jogo a bolsa de lado e fico somente com minha espada. Um soldado é decapitado com um golpe que logo depois arranca o braço de outro. Eu salto por cima deste e logo depois perfuro seus pulmões. Movimentos rápidos de lanças se dirigem a mim. Eu desvio e depois corto o que esta na minha frente. Por fim morrem todos. Mais uma vez eu estou banhado de sangue, ofegante, insano. O povo me olha, aterrorizado, com mulheres chorando e homens implorando por suas vidas. Logo depois mais soldados chegam. Eu me ponho em posição de combate, e é aí que uma voz conhecida fala. - Basta de mortes por hoje. Parem! - era Lao Kin. Ele se aproxima de mim. - O que faz aqui, Ling? - Estou indo para o Japão. - Vai encontrar com Sakazama? - Sakazama está morto, Lao - A notícia o afeta. - ... como é que é?! - Morto. Li Wong voltou até Shizu, onde moro agora. Me pediu para encontrar e cuidar de Mai Win. - Onde ela está? - Não sei ao certo, mas Suury, a irmã de Sakazama, está com ela. Tenho que buscá- la. - Você vai ensinar o Caminho a ela? - Ainda não sei, meu amigo. Como sabe? - Ronin me contou durante o caminho. Eles me acompanharam até aqui, depois seguiram rumo a... - Mon Wai. É para lá que estou indo. - Você matou 13 guardas do feudo. Kato não gostará de saber que eu permiti que deixasse este lugar vivo... - Você não pode me matar, Lao. Sabe disso. Nem se me odiasse. - E somos amigos. - Os últimos dois Tigres - Ficamos calados por algum tempo. - Vá, jovem mestre. E traga Mai Win de volta a mãe China. - Assim será, Lao - eu parto. - Vai deixá-lo ir embora sem nada fazer, mestre? - diz um dos soldados à Lao. - Acredite, Tong... assim é bem melhor do que confrontá-lo diretamente. A cidade vai ficando para trás. O sangue coagula sobre minha pele, e atrai mosquitos. Não poderia me arriscar a pegar malária agora. Tiro o sangue mergulhando em um pequeno lago que havia por perto, e ali, à sua margem, passo a noite. 59
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    Logo, aparece umhomem vestindo um traje noturno ninja. Eu não me surpreendo. O homem se aproxima calmamente de mim, e retira a máscara. Era Lao. - Compreenda, Ling. Deve ser assim. Não poderei permanecer no feudo enquanto você viver. - Eu compreendo, Lao. Deve ser assim. - É. Onde eu ponho minhas coisas? - Eu não compreendo... - Ora, eu vou com você! Ou acha que eu seria louco em lutar? Nunca! Seria covardia minha... hehehe. Rimos por um bom tempo. Dormimos. Ao amanhecer, arrumamos nossas coisas e partimos. - Pensei que gostasse de viver lá... - E gostava, Ling. Mas não era mais meu lugar. Eu sei bem o que eu quero agora... - E o que é? - Ser quilo que o Ronin não teve oportunidade de ser. Eu serei um Samurai. - O que? Um Samurai chinês? - Por que não? Sou melhor que todos naquele país... - Pode ser, mas subestimar seu oponente sempre o levará ao fracasso. - Não tem mais nada para mim aqui, Ling. Nada! Nem antes e nem agora. - Mas pode ter amanhã. - Não adianta Ling, eu vou com você e pronto. - Se assim quer... - Sim, é o que eu quero. Ficamos em silêncio e partimos. As planícies verdes das montanhas que cortavam nosso caminho eram desertas. Vez ou outra encontrávamos algum viajante solitário, ou ainda alguma propriedade. Eram grandes as extensões de terra sem donos, ou melhor, pertencentes ao agora fraco Imperador. Mas impróprias para cultivo de alimento ou pasto para gado. Eram noites sem fim, onde dormíamos ao relento e acordávamos antes do sol nascer. Atravessamos grandes rios, passamos por cidades estranhas e enfim cruzamos os domínios da então pacífica Coréia. A pessoas eram diferentes, as casas, a língua, tudo! O que não mudava eram os olhares de medo e respeito que lançavam sobre mim. Eu inspirava tais sentimentos. Minhas feições eram cruas, como as de um animal. Um animal assassino. Eu tinha a morte no olhar, e todos compreendiam isso. Eu era perigoso, talvez o mais perigoso humano que existira. Lao se sentia diminuído. Mas continuava a caminhar ao meu lado, passo a passo. Não se ouvia uma só palavra, uma só respiração, durante toda a nossa cruzada por lugares habitados. As pessoas se calavam por completo. - Ei, Ling, o que há? - Cale-se. Não desfira uma só palavra. - Estão todos nos olhando estranhamente... - Já falei, cale-se... Atravessamos todo o local. As pessoas voltam a falar, quase gritando. O mundo é nosso mais uma vez. Chegamos, após esta longa jornada, até o porto de Mon Wai. Não havíamos arranjado uma só encrenca durante toda a viajem. Mas o porto era um lugar 60
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    selvagem, tal qualnossos corações. Pessoas brutas e cheias de ódio, longe da paz e harmonia que alcançamos, lotavam o lugar, correndo, comprando, vendendo e gritando o tempo todo. Esbarrões não tinham pedidos de desculpa, e brigas era muito comuns. Nos aproximamos de uma grande embarcação que estava pronta a zarpar. - Onde vai este barco? - pergunto eu na língua local. - Ei, china, caia fora! Estamos trabalhando!!! - Eu preciso de uma embarcação. - E a gente com isso? - Sabem de alguma que parta para o Japão? - Hehehe! Deu azar, amigo. O único barco que faz este percurso zarpou fazem dois dias. Nenhum mais neste porto inteiro vai para lá tão cedo... - E quanto tempo demora até sua volta? - Algo em torno de um mês e meio. Boa sorte! - diz ele, com o barco acabando de zarpar. - Um mês inteiro, Ling!? O que faremos? - O mais lógico: roubar um barco. - Está louco? - Não. Estou falando sério. - E quem vai velejá-lo até lá? - A tripulação. - Qual, a que vai lutar conosco até a morte? - Não serão tão burros assim. Venha. Eu sei de um jeito de conseguir um barco facilmente. - Como será? - Lutando! Venha, Jong me falou como as coisas funcionam neste porto. - E tenho escolha? Vamos! Lao me segue até o local onde haviam lutas constantes, valendo muito dinheiro. Dois guardas cuidavam da entrada. Nos aproximamos. Os grandões impedem nossa passagem até o local. - O que querem, pequeninos? - Estou aqui para lutar. Saiam agora, não quero matá-los. O maior da uma grande risada, e assim sendo ele nem percebe que sua cabeça se desprendeu de seu corpo e agora rola pelo chão. O outro olha aterrorizado, da mesma forma que Lao. - Quer acabar como ele? - N n n não... ! - diz o outro guarda, correndo para longe. - Tinha que matá-lo?!! - Sabemos que ia acabar sendo assim, Lao. Ele tentaria me matar logo depois. Venha. - Será que todos tem razão? Você virou mesmo um assassino desonrado? - E o que é honra? O QUE? - grito eu. Ele se cala. Entramos. O lugar estava completamente lotado. Ninguém repara em nossa entrada. Lao senta-se em uma cadeira e fica a observar a luta que ocorre na arena, a mesma onde o Ronin perdeu a vida. Eu me aproximo do mesmo homem que organizava as lutas a anos. Digo que sou amigo de Jong e que quero lutar. 61
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    - Sim, Jongsempre nos arranjou bons lutadores, você não deve ser diferente. Da última vez, Jong trouxe um que acabou com o melhor que tínhamos! Agora temos um melhor ainda! Vai querer desafiá-lo? - Sim, mas com uma condição. - Qual? Se ganhar, será cumprida! - Quero um barco, rápido e forte, com tripulação, e que siga direto para o Japão. É isso. - Hum, pedido difícil, mas se ganhar, o que acho difícil, será atendido. Dou-lhe meu próprio barco, e eu mesmo vou velejando. Aceita? - Se for um bom barco... - É o melhor!!! Mas duvido que ganhe. - Inicie a luta então. - Não agora. Yoshido ira lutar, mas não deve demorar. Espere ali, eu o anuncio. - Certo... - A propósito, como devo pronunciá-lo? Seu nome? - Chame por... - eu me perco no tempo, ao pronunciar meu segundo nome - ... Wong. - Que seja, então - Eu me sento ao lado de Lao, que me observa estranhamente. - Você não é mais o mesmo homem, Ling. Não foi só a morte de Sho Win que fez isso com você! O demônio que outrora você controlava, o ódio, lhe dominou enfim! - Não, Lao. Eu dominei o ódio a tempos... apenas o utilizo como forma de expansão. Eu sou melhor quando o uso. Admita! - Não sei dizer se melhor, ou pior. Você mata de forma brutal, sem ao menos demonstrar algum valor pela vida... isso assusta, e muito! - Sakazama pensava como você, e agora esta morto. Que lição pode tirar desta situação? Ele não responde, e mesmo que tenha respondido eu não escuto, pois o barulho da multidão é tão grande que nos anula a audição. Yoshido entra na arena. É enorme, forte. Músculos trabalhados e, assim como eu, a morte no olhar. Seu oponente não teria a menor chance. E assim foi. Com apenas alguns golpes ele mata o coitado. O sangue que lhe adere nas mãos é limpo de maneira sórdida, com lambidas. O público aplaude de pé. É a hora em que devo ser anunciado. - Temos um desafiante ao grande campeão. Que venha a nós, Wong!!! Nenhum som é emitido do povo, que me olha de maneira morna. Eu subo na arena, e me ordenam que retire minhas armas. Eu as entrego, com meu olhar fixo em meu oponente. Ele nem se dá conta de mim. Ficamos cara a cara. O silêncio enfim toma conta de todo o local, os olhares são em nós. Pode-se ouvir a respiração das pessoas. Eu e Yoshido nos olhamos olhos nos olhos. E assim ficamos, imóveis, por um minuto inteiro. Ele era um matador, assim como eu, e reconhecera a superioridade que havia ali. Eu sentia que ele queria fugir, mas no instante seguinte ele me atacou. Eu me esquivo. Os sons voltam em intensidade máxima. Gritos e risadas sufocam o próprio ar. Lao observa, discretamente. Meu oponente se vira e dá outro golpe incrível. Eu o bloqueio facilmente. E então, só então, eu me afasto, para logo em seguida, matá-lo, com um golpe certeiro em seu nariz. A cartilagem, macia em relação ao osso, mas dura o suficiente para o que eu queria, perfura o cérebro e causa uma grande lesão, seguida de hemorragia e morte. Tudo não leva mais do que 6 segundos. Seis segundos de agonia e luta contra a morte. A dor devia ser insuportável, e eu me surpreendo por estar, mais uma vez, sentindo pena. O corpo 62
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    cai e emsua volta uma grande poça de sangue vai se formando, lentamente. O silêncio mais uma vez ocupa a tudo, agora de forma fúnebre. Eu o havia matado com um só golpe. Mal havia me movido. Me dirijo até o organizador, após pegar de volta minhas armas. - Ao barco, velho. - Sim... ao barco... ********************** Partimos durante a noite. Bodhan era o nome do velho, e o céu estava extremamente estrelado. Nuvens não haviam, e uma enorme lua iluminava nosso caminho. O barco era realmente o melhor do lugar, e mesmo insatisfeito, Bodhan nos levou. Nada de errado ocorreu, a não ser alguma tempestade feroz que tentava nos dragar para as profundezas marinhas, mas como com meus inimigos, eu a encaro, e ela foge, assustada. Passaram desde nossa partida algo em torno de 38 dias. Chegamos ao mesmo porto que o barco que trouxe Suury e Mai chegou. - Mais chineses, era o que faltava... - balbuciou um dos marujos que trabalhava no porto. - Lao, descarregue as coisas, vou procurar algum lugar para comer - digo eu, caminhando para o longe. Acho, então, uma casa onde serviam comida a um bom preço. Eu entro para constatar, e logo sou recebido de forma grosseira. - Chines não, chines não! Saia, saia! - dizia a garota que aparentemente tomava conta do lugar. - Meu dinheiro não é bom o suficiente para você? - pergunto eu em japonês. - Saia ou terei que mandar lhe baterem! - Eu só quero comprar comida. - Nobuo! Tetsuo! Gaio! Tirem o Gaijin daqui agora. Três enormes japoneses aparecem do nada e tentam me agarrar. Não estou aqui para ser subjugado, e já tendo matado por menos que isso, eu não vacilo em arrancar a mão direita de cada um deles com minha lâmina afiada. O sangue cai pelo chão, e as mãos decepadas ainda se movimentam, levemente. Os três correm, gritando de dor. Eu guardo minha espada lentamente, e digo. - Agora, traga-me comida para dois, ou terei que fazer isso com você e com todos os seus fregueses?! - Não terá coragem... háaaaaaaaa!!!!!!!!!!!! - Eu lhe arranco dois dedos da mão esquerda. - Eu teria coragem SIM! Todos os homens que estavam no local se levantam, principiando um ataque em conjunto contra mim. Eu falo. - Não sejam tolos!!! Todos morrerão!!! Parem!!! Só quero comprar comida!!! - Eles não me ouvem e continuam. - Parem!!! Tome, leve a comida!!! Vá embora! Vá embora - diz a moça, gemendo de dor por causa dos dedos amputados. Eu jogo algum dinheiro a ela e vou embora, observado pelo exército de japoneses enfurecidos. Chego até a doca onde estava Lao e vejo que o barco já havia partido. - Onde está Bodhan? - Rumou para outro porto próximo. Nagoia fica a dois dias de viajem marítima daqui. Encontrará amigos lá. 63
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    - Certo. Tome- digo eu lhe dando o prato de comida. - O que é isso aqui?! - Não sei, acho que é arroz... - Não, não, isso aqui, vermelho... - ele experimenta - É sangue! - Desculpe, tive de fazê-lo. - Por que?!! - Não me serviriam. Somos chineses em solo japonês! Nunca nos aceitarão! - Você matou para conseguir esta comida!!! - Não... - E o sangue? - Acredite, eu não matei ninguém... acho. - Lao joga a comida fora e sai caminhando. - Onde vai, Lao? - Eu estava louco em seguir você, Ling! Olhe-se! Esta completamente insano!!! Não compreende? Não se lembra de tudo o que aprendemos? Nunca atacar, somente se defender? Yoan esta envergonhado de você, de nós!!! Como pode?!! - Você não compreende, Lao... nunca vai compreender. - O que não vou compreender, Ling? Tente me explicar!!! Por favor!!! - Você não viu nem a metade das desgraças que eu vi! Não tem a mesma alma calejada que tenho... não é desprovido de amor, pena e medo! Eu... não possuo mais isso em mim, amigo! Não mais... - Ling, o que aconteceu, amigo?! - Eu... não sei, Lao. Quando Sho Win morreu, senti que havia sido enterrado junto com ela. A questão agora é que eu não sei mais quem eu sou. Tudo o que sei é que matar é tão fácil, e... bonito! Lutar é a coisa que mais me agrada fazer agora! E para saber quem eu realmente sou, tenho que reencontrar Mai Win... - Você está perdido, Ling. Você aceitou vir buscar sua filha para se reencontrar, não é mesmo? - Estou tentando fazer isso, mas é difícil... venha, vamos embora... - Lao se contem, mas logo depois me segue. Minhas palavras eram verdadeiras. - Para onde agora? - Vamos perguntar a alguém se Suury foi vista por aqui, e para onde foi. E perguntamos por quase todo o porto, até que um homem gordo e suado teve a coragem de se lembrar. - Sim, Suury era o nome dela. Boa meretriz, boa mesmo!!! - Meretriz?! - Sim! Nos levava às nuvens! Hehe! E havia a pequena filha dela... - eu me aproximo mais, intrigado e temeroso quanto ao que ele iria falar. - O que tem ela? - Nada, nada! Ficava... olhando! Era excitante! - Ela deixava a criança ver?! - digo - ... minha filha via pessoas fazendo sexo?! Era assim que Suury cuidaria de minha filha?! Para onde ela foi ?! - pergunto eu completamente irado. - Não sei diz... - acerto-lhe um soco no músculo do braço esquerdo. A dor é enorme. - Onde ela foi? - Uuuuuuuurg! Ai! Ali! Ela foi para o leste! Foi para onde a vi partir! Só isso eu sei!!! Partimos, deixando o gordo para trás. - Pensei que ia matá-lo também... - Não sujaria minha espada. Prefiro deixá-lo sofrer... como está. 64
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    Ao leste haviamvárias pequenas comunidades de agricultores e outras tantas de senhores feudais. Caminhamos por muito tempo, até encontrar uma vila onde Suury e Mai havia ficado. Nossa presença se fez notável por um Samurai que havia dormido com a mulher. - Você é Ling? - pergunta ele firmemente. - Sim... e quem é você? - pergunto na mesma língua dele. Ele não responde, e tenta me cortar com uma espadada bem dada. Eu não me movo, e Lao segura a lâmina do Samurai com as mãos nuas. - Não queremos encrenca! Vá embora!!! - diz meu companheiro. O samurai se desprende e salta para trás. Ele fica furioso. - Suury me falou de você, demônio!!! Não a encontrará, pois sua morte será decretada por mim!!! - e ele parte para me matar. Eu me levanto e me ponho em posição de ataque. Matá-lo seria tão fácil... mas Lao estava no local e me afastou. - Saia, Ling! Eu cuido dele! Se você lutar eu já sei como isso vai acabar... Sim, ele tinha razão. Eu o mataria sem nem ao menos pestanejar. Lao, por sua vez, era mais nobre, e apenas o imobilizaria. Eu me sento e procuro apreciar a disputa. - Por que defende este ser tão cruel, homem? - pergunta o Samurai. - Por que ele não é o monstro que pensa... ele só esta buscando sua filha! - A criança é de Suury, não mais deste demônio! - Ele é o pai dela, e sabemos que é ele quem deve ser responsável pela garota, não importa se ela se torne uma assassina ou não. Deixe seu destino se desenrolar!!! - Não permitirei! Prometi a Suury matar ele aqui se aparecesse!!! - Não posso permitir isso. E se ele lutar com você, ele te matará sem nenhuma dificuldade ou remorso! Pare, não quero ferir você! - Pois terá que me matar, se não quiser que eu o mate!!! Ele parte com tudo para cima de Lao. Este, por sua vez, empunha suas armas. Bloqueia a espada com uma de suas "sai", e com a outra rasga superficialmente o peito do oponente. - Eu podia tê-lo matado, amigo. Pare!!! O Samurai só se enfurece mais ainda. Se desprende e ataca novamente. Mais uma vez Lao lhe corta, agora mais profundamente. Meu demônio parecia estar lhe possuindo também, seu olhar mudava a cada segundo, e ele ficava mais selvagem. Por fim, Lao não teve escolha, matou o Samurai, após 10 minutos de combate. Se não o matasse, o Samurai acabaria por matá-lo, pois não se continha nem mesmo após os profundos golpes de sai que levava. - Eu... matei um homem... eu nunca matei ninguém! - Você fez o que deveria ser feito. Nada podia mudar isso, acredite. - Eu matei um homem! Um homem!!! Não foi um animal, foi um homem!!! - Você apenas fez o que ele estava pedindo! Você o avisou inúmeras vezes, mas ele não quis escutar! Ele morreu com honra, lutando pelo que acreditava, mesmo estando errado. 65
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    - Sim, masisto não muda o fato de que fui eu que o matei... quem sofrerá mais com isso, ele ou eu? Lao caminha para longe do ocorrido, enquanto que eu me informo que Suury havia estado ali a cerca de dois meses e logo depois partido. Eu alcanço Lao, que estava desolado. - Devemos seguir para aquela direção - aponto eu para o nordeste. - Por que para lá? - Ha um feudo naquela direção, e é provável que Suury tenha estado lá. Vamos. - Eu... , não sei se quero continuar agora... orgth ! - ele vomita logo em minha frente. - Levante-se! Você não é tão fraco assim Lao Kin!!! Matar é uma forma de sobreviver em meio à selvagens, e estamos no meio de selvagens! Seja um forte, seja o que você é, não lute contra você mesmo! - Um demônio me possuiu! Você me possuiu!!! - diz ele, chorando. - Você simplesmente fez o que foi treinado para fazer, Lao. Acha que todo este treinamento tinha como propósito imobilizar os inimigos, machucar? Aprendemos a matar uma pessoa com um só golpe!!! E isso é para machucar? Queira ou não, fomos criados para fazer tais coisas. - Eu... - Olhe para nós, Lao! Olhe para mim!!! Não tenho nem 30 anos e sou tão calejado, tão sofrido..., ninguém neste mundo sofreu mais do que eu, física e emocionalmente. Eu sou o ser forjado por todas as desgraças que ocorreram em minha vida! Eu me arrependo? É claro que sim, mas me diga: o que eu posso fazer agora? Como eu posso deixar de sofrer as desgraças que sofri a tempos? Como??? Não posso... tudo o que posso fazer é ser este homem frio e terrível que me tornei, uma besta assassina, e só! Não lamente mais, não olhe para trás, pois não podemos mudar nosso passado, e nem mudar o que somos sozinhos, por mais que tentemos! - Eu... compreendo, Ling. E sinto muito. - Levante-se, e vamos logo. Se quiser voltar para Goku agora, vá, e diga a todos que morri. Ou erga a cabeça e caminhe! - Está bem, agora pare de tagarelar, e vamos logo!!! - diz ele enxugando as lágrimas e levantando. Eu sorrio, pois o maldito tinha voltado ao normal. ******************* Chegamos ao feudo da família Yoshido, coincidentemente foi daqui que saiu meu oponente em Mon Wai. Nos aproximamos da entrada, guardada por alguns homens armados de lanças e espadas. Era um belo lugar, havia um grande Kabuki no centro, ao lado da casa principal. Várias moradas e comércio fraco. A lavoura era enorme, e o número de escravos impressionava. - Não devemos chamar a atenção. Existem muitos samurais neste lugar - diz Lao. - É verdade, portanto fique aqui. Eu terei que encontrar o rastro de Suury rapidamente, e você vai me atrapalhar. - Eu vou te atrapalhar? Essa é boa... - Eu terei que matar, Lao. Você ainda é um purista... - Vá então, assassino!!! Mate e se banhe em sangue!!! Mudei de idéia, eu parto aqui! - Você vai voltar até Goku? 66
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    - Não, jáfalei que não há nada lá para mim, já que a mulher a quem eu amava não amo mais. Procurarei algum Shogum para o qual eu prestarei meus serviços. Se você cruzar meu caminho mais uma vez, eu terei que matá-lo, Ling. - Você não mata nem ao menos seus inimigos, Lao. Matará um de seus poucos amigos? - Você não é mais meu amigo, Ling. Matar por prazer é contra meus princípios! Eu matarei em nome de alguém, e em sua honra - ele me dá as costas e vai indo embora. - Eu mato em meu nome e em minha honra. Isso me torna menos merecedor de sua devoção? - ele para. - Eu sei que um Samurai mata, e por isso eu o acompanhei durante este tempo. Aprendi a matar, e foi você quem me ensinou como. Mas agora que já sei o que queria, não preciso mais de você, Ling. Lembre-se do que eu falei, não cruze meu caminho, ou morrerá. Eu nada digo, ele parte, correndo, em direção oposta ao feudo e a mim. Mais uma vez, eu estava sozinho. Caminho, então, em direção aos homens, que me olham e logo põem suas mãos em suas armas. - O que quer? - Procuro uma pessoa, talvez possam me ajudar... - Não ajudamos Gaijins. Volte pelo caminho que veio ou morrerá - diz o líder, e todos sacam suas armas. - Eu não vou voltar, digam se uma mulher chamada Suury esteve neste lugar ou não, e irei embora. - Você é Ling?!! - Bingo. Ela esteve, ou com sorte, estava no lugar, e pelo visto fez muitos amigos. - Matem!!! - grita o líder. Todos avançam. Uma pena Lao não estar aqui, iria ver que agora esperei que me atacassem. Eu tiro minha espada e em menos de dois segundos um dos homens está morto. Outros dois tombam com um único lance da lâmina, e só sobram 3 agora. Um arremessa sua lança, que eu pego em pleno ar. Ele me olha assustado, e eu lhe acerto uma forte voadora lateral na cabeça, lhe partindo a espinha. Outro ainda tenta me acertar com a espada. Eu bloqueio o golpe e logo depois varo seu coração. Sobrou agora o líder, aparentemente o único Samurai verdadeiro do momento. Ele tira sua espada, e parte para cima de mim. Eu bloqueio sei golpe e tento matá-lo, mas surpreendentemente ele também bloqueia meu golpe. E ficamos a lutar por mais 15 segundos. Ele era muito bom, mas quando perde sua espada ele continua de pé. Jogo minha espada para o lado, e me ponho em posição de combate. Ele me ataca com golpes rápidos, e alguns me acertam, mas eu também lhe acerto golpes, somente 4. O bastante para lhe paralisar nervos e causar hemorragia interna fatal. Levanto-me e caminho normalmente até a pequena vila, logo após ter pego minha arma. Olho para os lados, e não vejo nenhuma movimentação. Caminho pela pequena rua, até encontrar todos reunidos na casa central. Me olhavam com terror, e entre eles eu podia sentir a presença de Suury, irmã de Sakazama. Minha filha, pobre alma, eu não via. 67
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    - Quem devocês é Suury? - Ninguém responde. É ai então que uma voz forte vara a negritude da noite. - O demônio enfim veio ao meu reino! Mas sou bem servido por samurais temidos em toda a província! Parta, homem vil, ou morra nas mãos de meus servos! - Não partirei sem minha filha! Entreguem-na a mim, ou morram! - Sua filha - diz ele, puxando-a para si - esta sob minha proteção, e a proteção desta garota! - Era Suury, tinha certeza! E Mai Win, nas mãos daquele homen cuja vida não valia mais nada agora. - Ela é uma prostituta! Sabe disso, não?! - Ela é minha senhora agora! Como ousa falar assim de minha senhora? E esta menina agora é minha filha, e não a filha de um amaldiçoado Gaijin! - Papai! - grita Mai Win ao me ver. Ela se lembra de mim, e sabe que é minha filha!!! - Cale-se Mai! - diz Suury, batendo na garota. Meu sangue vai se esfriando. Eu estava entrando em transe, assim como em Golki. Era um momento aterrorizante... - Saia, assassino! Meu irmão me falou que tipo de homem você é! - Ele lhe falou que eu pedi para cuidarem de Mai para mim? - É o que eu estou fazendo! Protegendo-a de você! - Fazendo sexo com vários homens na frente dela?! Separando-a de seu pai? Levando-a para longe de sua terra??? - Ela se cala. - Agora basta! Sua vida não vale mais nada! AGORA! - grita o homem, provavelmente o administrador do feudo. Samurais com armaduras e longas espadas aparecem do nada. Eu retiro minha espada, mas vejo que ela seria quase inútil contra tais armaduras. Eu pego meu velho e forte Chako. Quebro, uma a uma, as espadas dos lutadores. Os golpes que aplicava não surtiam efeito. A armadura era muito grossa. Um tenta me acertar uma flecha, que eu pego em pleno ar, para espanto geral. Quebro-a em duas e fraturo a perna de outro Samurai. Todos estavam sem armas agora. Tiraram suas armaduras. Eu luto com cerca de 12 homens ao mesmo tempo, precisando de no mínimo 5 golpes para derrubá-los. A fúria me domina, enfim. Eu sou acertado por trás, e caio. Logo depois meu rosto, e todo o meu corpo, são acertados. Em um impulso de desespero, eu aplico golpes mortais em 4 dos meus agressores, que caem mortos. Os demais se afastam, assustados. Eu me jogo na direção de minha espada, sangrando depois de tanto tempo sem apanhar, e mato violentamente um por um. O sangue se confundia. Não se sabia o quanto era sangue meu ou de meus inimigos. Todos olhava, chocados de pavor. Eu pulo em cima do pequeno palanque em que Suury e os outros estavam, e mato inconscientemente os últimos dois samurais que haviam. O marido de Suury tenta me atacar, mas eu me proíbo de matá-lo. Apenas lhe quebro as pernas, o que é suficiente para inutilizá-lo. Suury olha, chorando. Eu me viro até ela. Minha filha não parecia abalada com as mortes ou com meu estado. Ela vem até mim, e para minha própria surpresa, se agarra a minha perna. - Suury... eu fui um grande amigo de seu falecido irmão. Mas o que você fez não possui perdão. - Vamos lá, monstro, faça o que deve ser feito, mate-me!!! - Não serei eu que a matarei, Suury. Mai Win o fará. - Está louco? Ela, me matar? - Meu sangue corre em suas veias. Ela deve se mostrar digna do Caminho, mostrar a dignidade que eu não mostrei. Mai Win, mate-a. - Pa-pa... 68
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    - Mate-a. Mate-ae se mostre digna, ou não. Você não teme a morte, eu vejo em seus olhos! Mas tenho que saber se é capaz... mate-a! Entrego-lhe uma faca. Ela a levanta até a altura do pescoço de Suury, que chora, silenciosa. Mai para, e observa o pavor nos olhos da vítima. As lágrimas a cair... - Pa-pa... - Mai chora, pela primeira vez desde seu nascimento, e larga a faca, vindo me abraçar. - Não se preocupe, você se mostrou capaz, e digna! É pura o suficiente para trilhar o caminho e ter o sucesso que nem eu e nem ninguém mais teve. Yoan havia errado, era tarde para nós. Mas ainda ha tempo para você... minha filha. Partimos, então, rumo ao nascer do sol. Mas eu volto, para terminar o que havia iniciado. - Minha filha é forte, e eu sou um fraco, Suury. Espero que o demônio que me possui lhe dê toda a dor que merece, maldita... - eu a mato friamente, transpassado seu coração lentamente. É a primeira vez que mato alguém causando imensa dor. Que Ronin me perdoe, mas levei dois minutos inteiros para matá-la. Volto para minha filha, que me espera, pacientemente. - Pa-pa... casa? - Sim, vamos para casa, minha filha. Depois eu não sei, mas acho que você vai gostar... - Do que? - Não sei, ficar perto de sua mãe, e ser o que seu pai quis ser mas não pode. Ser feliz! Vamos embora. Temos um longo caminho para trilharmos juntos. FIM 69