A mal entendida
Amal entendida
Luis Fernando Veríssimo
Cristhine Genro
2.
Porto Alegre viveà beira de alguns mal-entendidos.
Para começar, vive à beira de um rio que não é rio. O Guaíba é um estuário, ou como quer que se
chame essa espécie de ante-sala onde cinco rios se reúnem para entrar juntos na Lagoa dos Patos.
Mas todos o chamam de Rio Guaíba.
3.
A rua principalda cidade não existe. Você rodará toda a cidade à procura da Rua da Praia e não a
encontrará. Usando a lógica - o que é sempre arriscado, em Porto Alegre - procurará uma rua que
margeia o rio (que não é rio), ou que comece ou termine numa praia. Se dará mal. Não há praias no
centro da cidade, e nenhuma rua ao longo do falso rio se chama "da praia". Finalmente, desconfiado
de que a rua principal só pode ser aquela que concentra a maior parte do tráfego de pedestres no
centro, você consultará a placa e lerá "Rua dos Andradas".
4.
Mas ninguém achama de Rua dos Andradas, chamam pelo nome antigo, Rua da Praia. Por que da
praia? Ninguém sabe. Só se sabe que ela vai da Ponta do Gasômetro, que não é mais Gasômetro, até
a Praça Dom Feliciano, que todos chamam Praça de Santa Casa, passando pela Praça da
Alfândega, que já foi praça Senador Florêncio, mas voltou a ser Praça da Alfândega porque ficava na
frente da Alfândega - que não existe mais.
5.
Confuso, você talvezentre no prédio da
prefeitura para pedir satisfações, só
para descobrir que entrou no prédio
errado. Existe outra prefeitura, a nova,
atrás da velha, que por sua vez tem na
frente uma praça chamada não Porto
Alegre mas Montevidéu.
6.
Na prefeitura certatalvez lhe digam para ir se
queixar ao bispo, tendo que, para isto, subir a
Rua da Ladeira até a Praça da Matriz, onde
fica a Catedral. Desista. Você não encontrará a
Rua da Ladeira, que hoje se chama (só ela se
chama, porque ninguém mais a chama assim)
General Câmara, e a Praça da Matriz na
verdade é a Praça Marechal Deodoro, embora
poucos porto-alegrenses saibam disto.
A única vantagemde toda esta confusão é que você precisará de muito tempo para ir decifrando Porto
Alegre, ao contrário do que acontece em cidades previsíveis e sem graça como Paris, Roma, etc.,
onde tudo tem o mesmo nome há séculos - e ir degustando-a aos poucos. Acho que não se
decepcionará.
Vencidos os primeiros mal-entendidos e localizada, por exemplo, a “Praça da Matriz”, você pode fazer
uma visita ao Theatro São Pedro, um dos orgulhos da cidade com seu prédio em estilo barroco
português e sua pequena platéia em forma de ferradura. Há quem diga que é o teatro mais bonito do
Brasil. Certamente é o mais bem cuidado. Inaugurado em 1858, esteve fechado por uns tempos e foi
magnificamente restaurado para sua reinauguração há poucos anos.
10.
Da sacada doseu primeiro andar, onde ficam o foyer e o café, você pode olhar a Praça de cima. Se
tiver sorte, os jacarandás estarão florindo. Do outro lado da praça estão a Catedral e o palácio do
governo estadual, ou Palácio Piratini, esse no estilo neoclássico francês. Duas coisas surpreendem
alguns visitantes em Porto Alegre pela quantidade insuspeitada: a arquitetura neoclássica e os
jacarandás.
11.
Saindo do TheatroSão Pedro você pode aproveitar para dar uma olhada na Biblioteca Pública (outro
exemplo do estilo neoclássico), e principalmente uma espiada no seu Salão Mourisco, ricamente
decorado.
Desça a Rua da Ladeira. Está bem, a General Câmara. Você chegará ao chamado Largo dos
Medeiros e a outro mal-entendido municipal. O largo tem este nome extra-oficial em homenagem a um
café que tinha ali e não tem mais. Não, não se chamava Café Medeiros, os donos é que se chamavam
assim. Não importa, vire à esquerda e siga pela Rua da Praia - dos Andradas! dos Andradas! -
passando a Praça da Alfândega, onde todas as primaveras se realiza a famosa Feira do Livro de Porto
12.
Depois de umacurta caminhada você chegará ao antigo Hotel Majestic, hoje belissimamente
transformado na Casa de Cultura Mario Quintana, com teatros, cinemas e salas para cursos e
exposições. Vale a pena entrar para ver o que foi feito do velho hotel e ir até o Café Concerto na sua
parte superior, ou então deixar para voltar lá na hora do pôr-do-sol.
13.
Um pouco maisadiante na mesma Rua da Praia,
à sua esquerda, você verá a igreja Nossa
Senhora das Dores, com uma grande escadaria
na frente. A fachada e a escadaria são
iluminadas à noite, é uma das bonitas visões da
cidade.
14.
Volte pela mesmaRua da Praia em direção
ao centro. Ao chegar à Avenida Borges de
Medeiros, pegue a esquerda e desça até o
Mercado Público, perto da prefeitura e da
já citada Praça Montevidéu, onde está a
graciosa Fonte de Talavera de la Reina, um
presente da comunidade espanhola à
cidade. Passeie dentro do mercado e veja
as suas "bancas" especializadas, como a
que vende vários tipos diferentes de erva
para o chimarrão. Os morangos com nata
batida da Banca 43 são famosos.
15.
O pôr-do-sol nãopode ser reivindicado como
atração turística de Porto Alegre, já que
tecnicamente ele acontece fora dos limites estritos
do município, mas saber se colocar para assisti-lo
é uma das artes da cidade. O novo Café Concerto,
na cúpula do antigo Hotel Majestic, com uma vista
desimpedida do “rio” e do poente, já tem seus
adeptos, mas o ponto tradicional dos
crepusculistas é o mirante do Morro de Santa
Teresa. Você precisará de transporte para ir do
centro até lá e se for de táxi, para evitar outro mal-
entendido, diga ao motorista que quer ir ao “Morro
da Televisão”. Do mesmo mirante você terá a
melhor vista da cidade, cuja topografia já foi
comparada à de São Francisco na Califórnia. E
verá, lá embaixo, o imponente estádio do grande
Sport Club Internacional.
16.
Outro bom lugarpara se olhar a cidade e o pôr-do-sol é o Morro do Turista. Para chegar lá você
precisa pedir para ser levado ao Morro da Polícia. É o mesmo morro.
Aos domingos pela manhã, boa parte da população de Porto Alegre vai ao “Brique da Redenção”,
assim chamado porque fica no Parque Farroupilha. Calma. O Parque Farroupilha, um dos maiores
parques urbanos do mundo, é conhecido pelos porto-alegrenses como Parque da Redenção. Ou,
sucintamente, “a Redenção”. “Brique”, na língua gaúcha, é o encurtamento de “briqueabraque” e é
uma feira de antigüidades em que tudo, até revista da semana passada, é considerado antigüidade.
Mas em meio às porcarias assumidas, há louças e pratarias, livros valiosos, selos e moedas e
principalmente muita gente vendendo, comprando ou só passeando.
O parque se chama Farroupilha em homenagem à revolução do mesmo nome que os gaúchos fizeram
em 1835 contra o império, proclamando a República Rio-grandense. Mas, embora todo mundo aqui
hoje comemore a insurreição, Porto Alegre manteve-se fiel ao governo central e por isto mereceu o
título de “leal e valorosa cidade” conferido pelo imperador Pedro II, e que está no seu brasão.
Outro mal-entendido.