Lendas urbanas: detergentes cancerígenos




         O n t e m r e c e b i u m a m e n s a g e m c o m a s s u n t o «A L E R T A
i mportante » que abri por o remetente se r uma pessoa conhec ida. Li
por alto a mensagem, um chorrilho de sandices que tinha circulado
n os Estados Unidos em 1998 e q ue versava sobre o «Lauril Su lfato
d e S ó d i o », s u p o s t a m e n t e «u m a s u b s t â n c i a a l t a m e n t e c a n c e r i g e n a .
( 1 c a s o e m 3 a d q u i r e ) ».

            A adaptação nacional desta lenda urbana, aparentemente
i n i c i a d a p o r v e n d e d o r e s d e p r o d u t o s «a l t e r n a t i v o s » o u «1 0 0 %
naturais», c onse guia a proe za de ser a in da mais cre tina que a
versão original e por isso ne m pensei mais no assunto uma vez que
pensei que apena s os er ros de port uguês fossem suficien tes pa ra
não enganar ninguém. Erro meu: a minha caixa de correio está
inu nda da com pe did os de esc larecimento so bre a dita me nsa gem,
alguns, tal como aconteceu à Sofia, de familiares. Li de novo o
«Alerta» inicial, que numa leitura mais atenta revelou disparates
que escaparam à leitura na diagonal.

                                                     Como todas as «b oas» le nda s
                                               u rbana s, esta inicia va-se com um
                                               argumento de autoridade: a cretinice
                                               que se seguia era supostamente da
                                               autoria da (inexistente) Faculdade de
                                               Ciê ncias de Lisb oa. O alerta indica va
                                               q ue os le itore s «De vem procura r o
                                               nome do composto em inglês: Sodium
                                               Laureth      Sulfate»    aparentemente
                                               p orque quem o escreve u é tão
                                               ignorante que confundiu o lauril éter
                                               sulfato de sódio (SLES) com lauril ou
                                               dodecil sulfato de sódio (SLS ou
                                               SDS), o primeiro muito utilizado em
                                               cosmética, o segundo mais utilizado
                                               em produtos de limpeza (e em
                                               la boratórios de investigaçã o, há pelo
                                               menos uns três frascos de SDS no
                                               meu).
R e z a a m e n s a g e m q u e «E s t a s u b s t â n c i a f a z p a r t e d a
composição da maioria dos champôs pois os fabricantes utilizam-na
por ela produzir muita espuma a baixo custo. No entanto o LSS é
u sado para la var chão de ofic inas (é um de sengordu rante )».

       Estes sais produzem muita espuma porque são moléculas
tensioactivas, isto é, baixam a tensão superficial da água. São
igualmente moléculas anfifílicas e estas espécies agregam-se em
água formando micelas, com as cabeças hidrofílicas para fora e as
caudas hidrofóbicas no interior, como se tivéssemos gotas de
gasolina dispersas em água. Assim, gorduras e outras substâncias
que não sejam solúveis ou miscíveis com a água são dissolvidas no
interior das micelas. Soluções de deterge ntes, qualque r dete rge nte,
são bons desengordurantes e é normalmente para esse fim que as
u tilizamos, seja em detergente da ro upa ou d o chão, shampoo o u
gel de banho.

       Ambos os detergentes (biodegradáveis) são derivados do
ácido láuric o, um ácido gordo saturado que se e ncontra em vá rios
ó leos ve getais - é o principal co nstituin te d o óleo de coco, cerca de
50% -, e no leite humano (onde constitui cerca de 6% da gordura
total). A sua toxicidade é baixissima embora possa ser irritante
para membranas mucosas (não convém muito esguichar óleo de
coco para os olhos e o mesmo acontece com a espuma obtida com
estes sais).

      Há uns anos recebi outro pedido de esclarecimento em relação
a um composto igualmente identificado como muito cance rígeno.
Nessa altura o «vilã o» e ra um a ditivo a limentar, o E3 30, que nã o
passa do ácido cítrico presente em inúmeras frutas, citrinos e, por
exemplo, maçãs. Algumas das pessoas que esclareci não ficaram
convencida s à p rimeira porq ue teima va m que embora o E33 0 e o
ácido cítrico do limão fossem uma e a mesma molécula, a primeira
e ra um «químico » e o sumo de limã o era um p rodu to natural.

       Para além de não acreditarem nos disparates que todos
recebemos por correio electrónico, tal como no caso do esqualeno,
esperemos que cada vez mais pessoas se apercebam que o prefixo
b io o u o 100 % natural no nome de um c omposto q uímico não lhe
altera as propriedades. A perigosidade quer do SLES quer do SDS
não aumenta drasticamente pelo facto de serem obtidos por
transfo rmação química de óle os ve getais. Podem irrita r peles mais
se nsíveis por serem bons detergentes, isto é, removerem
eficientemente a camada de óleo da pele, mas não são tóxicos
muito menos canceríge no s!

Fonte: Blog De Rerum Natura
Data: Fe ve reiro 2 008
Au tor: Palmira F. da Silva

Lendas a ter em conta

  • 1.
    Lendas urbanas: detergentescancerígenos O n t e m r e c e b i u m a m e n s a g e m c o m a s s u n t o «A L E R T A i mportante » que abri por o remetente se r uma pessoa conhec ida. Li por alto a mensagem, um chorrilho de sandices que tinha circulado n os Estados Unidos em 1998 e q ue versava sobre o «Lauril Su lfato d e S ó d i o », s u p o s t a m e n t e «u m a s u b s t â n c i a a l t a m e n t e c a n c e r i g e n a . ( 1 c a s o e m 3 a d q u i r e ) ». A adaptação nacional desta lenda urbana, aparentemente i n i c i a d a p o r v e n d e d o r e s d e p r o d u t o s «a l t e r n a t i v o s » o u «1 0 0 % naturais», c onse guia a proe za de ser a in da mais cre tina que a versão original e por isso ne m pensei mais no assunto uma vez que pensei que apena s os er ros de port uguês fossem suficien tes pa ra não enganar ninguém. Erro meu: a minha caixa de correio está inu nda da com pe did os de esc larecimento so bre a dita me nsa gem, alguns, tal como aconteceu à Sofia, de familiares. Li de novo o «Alerta» inicial, que numa leitura mais atenta revelou disparates que escaparam à leitura na diagonal. Como todas as «b oas» le nda s u rbana s, esta inicia va-se com um argumento de autoridade: a cretinice que se seguia era supostamente da autoria da (inexistente) Faculdade de Ciê ncias de Lisb oa. O alerta indica va q ue os le itore s «De vem procura r o nome do composto em inglês: Sodium Laureth Sulfate» aparentemente p orque quem o escreve u é tão ignorante que confundiu o lauril éter sulfato de sódio (SLES) com lauril ou dodecil sulfato de sódio (SLS ou SDS), o primeiro muito utilizado em cosmética, o segundo mais utilizado em produtos de limpeza (e em la boratórios de investigaçã o, há pelo menos uns três frascos de SDS no meu).
  • 2.
    R e za a m e n s a g e m q u e «E s t a s u b s t â n c i a f a z p a r t e d a composição da maioria dos champôs pois os fabricantes utilizam-na por ela produzir muita espuma a baixo custo. No entanto o LSS é u sado para la var chão de ofic inas (é um de sengordu rante )». Estes sais produzem muita espuma porque são moléculas tensioactivas, isto é, baixam a tensão superficial da água. São igualmente moléculas anfifílicas e estas espécies agregam-se em água formando micelas, com as cabeças hidrofílicas para fora e as caudas hidrofóbicas no interior, como se tivéssemos gotas de gasolina dispersas em água. Assim, gorduras e outras substâncias que não sejam solúveis ou miscíveis com a água são dissolvidas no interior das micelas. Soluções de deterge ntes, qualque r dete rge nte, são bons desengordurantes e é normalmente para esse fim que as u tilizamos, seja em detergente da ro upa ou d o chão, shampoo o u gel de banho. Ambos os detergentes (biodegradáveis) são derivados do ácido láuric o, um ácido gordo saturado que se e ncontra em vá rios ó leos ve getais - é o principal co nstituin te d o óleo de coco, cerca de 50% -, e no leite humano (onde constitui cerca de 6% da gordura total). A sua toxicidade é baixissima embora possa ser irritante para membranas mucosas (não convém muito esguichar óleo de coco para os olhos e o mesmo acontece com a espuma obtida com estes sais). Há uns anos recebi outro pedido de esclarecimento em relação a um composto igualmente identificado como muito cance rígeno. Nessa altura o «vilã o» e ra um a ditivo a limentar, o E3 30, que nã o passa do ácido cítrico presente em inúmeras frutas, citrinos e, por exemplo, maçãs. Algumas das pessoas que esclareci não ficaram convencida s à p rimeira porq ue teima va m que embora o E33 0 e o ácido cítrico do limão fossem uma e a mesma molécula, a primeira e ra um «químico » e o sumo de limã o era um p rodu to natural. Para além de não acreditarem nos disparates que todos recebemos por correio electrónico, tal como no caso do esqualeno, esperemos que cada vez mais pessoas se apercebam que o prefixo b io o u o 100 % natural no nome de um c omposto q uímico não lhe altera as propriedades. A perigosidade quer do SLES quer do SDS não aumenta drasticamente pelo facto de serem obtidos por transfo rmação química de óle os ve getais. Podem irrita r peles mais se nsíveis por serem bons detergentes, isto é, removerem eficientemente a camada de óleo da pele, mas não são tóxicos muito menos canceríge no s! Fonte: Blog De Rerum Natura Data: Fe ve reiro 2 008 Au tor: Palmira F. da Silva