Gestão
A propósito do Social Surf
Weekend, campeonato nacional se
surf angolano – que ocorre entre
hoje e domingo, em Cabo Ledo – e
doqueimplicagerirumeventodes-
te género, seja aqui em Angola, seja
em qualquer parte do mundo, ocor-
reu-me tentar explicar o mundo de
tarefas que é necessário realizar
para que se chegue ao fim com uma
taxa, se não de sucesso, pelo menos
de satisfação e sentido de dever
cumprido.
Umeventodesurfimplica,sobretudo,
umagestãoqueéfeitadesdeodiaem
queeleécriadoou‘ganha’asuaorga-
nização, no caso dos eventos que fa-
zem parte de uma entidade interna-
cionaloumesmoassociaçãolocal.
Naturalmente que, para se organi-
zar um evento de surf, há uma con-
dição incontornável: é preciso que
haja um local com ondas! Mas, até
chegarmos ao dia das ondas, há um
processo de preparação que tem
como base algumas rubricas que
têmdesergeridasdeformaarenta-
bilizar o trabalho e que o produto
final seja o melhor possível.
Embora cada organização possa ter
o seu modelo de gestão próprio, há
pontos convergentes na gestão,
seja de um evento de surf, seja de
uma empresa com outra área de ac-
tividade. Ou seja, para se conseguir
que uma equipa possa ser vencedo-
ra, a primeira gestão é a dos recur-
sos humanos em todos os departa-
A ONDA DA ORGANIZAÇÃO
As expressões ‘gestão’ e ‘eventos de surf’ podem
parecer antagónicas. Afinal, eventos de surf dependem
de ondas, e não há gestão que garanta que a natureza
as ofereça para a prova. Por outro lado, quando
se pensa em surf, apenas nos ocorre desporto, lazer,
e há apenas uns poucos que entendem mesmo do tema.
Para a maioria das pessoas, é provavelmente
uma modalidade para especialistas.
RUI COSTA*
DR
EXPANSÃO | 16 de Outubro 2015 19
GESTÃO
mentos. A mobilização, através do processo em que se
consegue que todos os envolvidos acreditem num bem
comum, é essencial – e isto é comum em todas as áreas.
O ‘número 1’ tem de ter um nível de envolvência muito
grande, para transmitir isso a quem o segue. A existên-
cia de um líder é uma necessidade numa estrutura.
No caso do surf, as cinco grandes áreas que regem o
eventotêmdesergeridasdemodoaquetodastransmi-
tamumamensagemdefinidanoinício.Essamensagem
éoobjectivodoevento;éaformacomosequercomuni-
cá-lo, ou seja, depois de definida, existe uma equipa
criativa que a põe no papel, para que uma equipa co-
mercial a possa transmitir da melhor forma às marcas.
Passado o processo de venda de patrocínios, entra a
gestãomaisabrangentedoevento:acomunicação.Esta
irámostrarospontosaltosdoevento,que,nestecaso,po-
dem ir desde a qualidade dos atletas à qualidade das on-
das, as experiências pessoais de cada participante, da or-
ganização, testemunhos de vida, de sucessos, de fracas-
sos,massobretudodeperseverançaemnuncasedesistir.
Por outro lado, pode tornar visível o enquadramento da-
quilo que é um evento para além das ondas, o enquadra-
mento social, onde se pode, através de um ‘veículo’ que
move massas na praia e na imprensa – seja televisiva, em
directo ou diferido, vídeos para Web, revistas generalis-
tasoudaespecialidade,oumesmoosbloguesdequemse-
gue a par e passo tudo o que se passa na área de interesse
–, para chamar a atenção para as minorias, proporcio-
nando-lhes contacto com algo novo. Quando se fala em
minorias, falamos de todos os que, não praticando o des-
porto ou não podendo ter acesso a praticá-lo, o olham
comadmiraçãoealgumdesejo.
O surf também é uma pedagogia social, contrapondo os
tais momentos sozinhos do homem e a onda e toda a na-
tureza.Aprenderamodalidadeéumaactividadegregária
– em grupo torna-se muito mais fácil. E, por isso mesmo,
sendo um espectáculo mais visto que praticado, o surf
acabaporatraircadavezmaisespectadores.
Um ponto fundamental em todos os eventos de surf é o
enquadramentodoturismo,usando-seoeventoparaco-
municar aquilo que determinada location tem como
atractivoparaestaárea,oumesmooenquadramentoso-
cial no que se refere à natureza, servindo-se de uma acti-
vidade ligada ao mar para se sensibilizar à protecção do
mesmo. Há países que nasceram para a opinião pública
atravésdeeventos–porqueforamescolhidosparaserem
palcodeeventos.
Depois de definidos todos estes enquadramentos, en-
tramos na gestão de produção. A gestão directa de re-
cursos humanos, entre os que trabalham para que o
evento aconteça e os que são ‘actores principais’, os
atletas, é crucial, porque uns dependem dos outros.
Deve criar-se um equilíbrio para que quem produz te-
nha como missão proporcionar aos atletas as melhores
condições de trabalho possíveis quando chegar o dia, e
que, juntos, sintam o seu peso no sucesso final. Não só
os tempos mudaram, como principalmente a exigência
do público mudou. As tendências, a modernidade, os
suportes de comunicação, a exposição que hoje pode
ser local e, em minutos, viralmente, chegar a todo o
mundo, torna qualquer evento uma probabilidade ou
de 100% ou de quase nada. E é na onda da exposição,
que entram as vontades patrocinadoras, as autorida-
des locais, as marcas mundiais, os atletas, a assistência,
enfim,asaudiências.Ouseja,falamosdeváriosproces-
sos de gestão que podem culminar com o simples pro-
cesso de gestão após evento: comunicar através dos
meios disponíveis para todos, realçando o bom que
nele foi produzido.
Mas há um único que não é controlável: as ondas. Tudo
pode ser gerido da melhor forma até ao dia, mas, no que
toca ao surf, pode não chegar; basta a maior variável do
evento, a natureza, não proporcionar as condições ne-
cessárias para ter de se activar a gestão de crise, que
serve para se minimizar ou amenizar as expectativas
criadas em todos os processos atrás descritos.
Um evento de surf tem algo diferente de todos os ou-
tros. E essa diferença pode puxá-lo para cima, quando
se vende algo que depende do inimaginável, como a na-
tureza; ou para baixo, quando o mesmo factor faz com
que as expectativas criadas ao público não sejam cum-
pridas por forças maiores. Para nós, surfistas, haja ou
não ondas, há sempre a natureza e um mergulho no
mar; já para quem se desloque propositadamente, é
comoirvisitarumadasSeteMaravilhasdomundoe,de
repente, ela estar fechada para obras…
Outra experiência que partilho é a motivação dos es-
pectadores. Cada vez mais sinto que as pessoas apre-
ciam o espectáculo. Não dominam as técnicas nem são
especialistas ao ponto de entenderem o profissionalis-
mo de cada um dos atletas, mas o surfaproxima-se cada
vez mais da arte: sente-se e desfruta-se. Ocorre-me
Fernando Pessoa, quando diz que o fim da arte inferior
é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte su-
perior é libertar. O surf é libertador, não só de quem
pratica mas, cada vez mais, de quem assiste.
Aos gestores, como eu, resta fazermos o nosso trabalho
da melhor forma até ao dia. Quando o evento começa,
somos postos à prova e nada mais adianta fazer.
A gestão de um evento acaba no momento em que ele
começa.
Com profissionalismo, só não se controla a natureza;
sem profissionalismo, não se controla a satisfação.
*CEOdaTwice
DR
PUB

Jornal Expansao

  • 1.
    Gestão A propósito doSocial Surf Weekend, campeonato nacional se surf angolano – que ocorre entre hoje e domingo, em Cabo Ledo – e doqueimplicagerirumeventodes- te género, seja aqui em Angola, seja em qualquer parte do mundo, ocor- reu-me tentar explicar o mundo de tarefas que é necessário realizar para que se chegue ao fim com uma taxa, se não de sucesso, pelo menos de satisfação e sentido de dever cumprido. Umeventodesurfimplica,sobretudo, umagestãoqueéfeitadesdeodiaem queeleécriadoou‘ganha’asuaorga- nização, no caso dos eventos que fa- zem parte de uma entidade interna- cionaloumesmoassociaçãolocal. Naturalmente que, para se organi- zar um evento de surf, há uma con- dição incontornável: é preciso que haja um local com ondas! Mas, até chegarmos ao dia das ondas, há um processo de preparação que tem como base algumas rubricas que têmdesergeridasdeformaarenta- bilizar o trabalho e que o produto final seja o melhor possível. Embora cada organização possa ter o seu modelo de gestão próprio, há pontos convergentes na gestão, seja de um evento de surf, seja de uma empresa com outra área de ac- tividade. Ou seja, para se conseguir que uma equipa possa ser vencedo- ra, a primeira gestão é a dos recur- sos humanos em todos os departa- A ONDA DA ORGANIZAÇÃO As expressões ‘gestão’ e ‘eventos de surf’ podem parecer antagónicas. Afinal, eventos de surf dependem de ondas, e não há gestão que garanta que a natureza as ofereça para a prova. Por outro lado, quando se pensa em surf, apenas nos ocorre desporto, lazer, e há apenas uns poucos que entendem mesmo do tema. Para a maioria das pessoas, é provavelmente uma modalidade para especialistas. RUI COSTA* DR
  • 2.
    EXPANSÃO | 16de Outubro 2015 19 GESTÃO mentos. A mobilização, através do processo em que se consegue que todos os envolvidos acreditem num bem comum, é essencial – e isto é comum em todas as áreas. O ‘número 1’ tem de ter um nível de envolvência muito grande, para transmitir isso a quem o segue. A existên- cia de um líder é uma necessidade numa estrutura. No caso do surf, as cinco grandes áreas que regem o eventotêmdesergeridasdemodoaquetodastransmi- tamumamensagemdefinidanoinício.Essamensagem éoobjectivodoevento;éaformacomosequercomuni- cá-lo, ou seja, depois de definida, existe uma equipa criativa que a põe no papel, para que uma equipa co- mercial a possa transmitir da melhor forma às marcas. Passado o processo de venda de patrocínios, entra a gestãomaisabrangentedoevento:acomunicação.Esta irámostrarospontosaltosdoevento,que,nestecaso,po- dem ir desde a qualidade dos atletas à qualidade das on- das, as experiências pessoais de cada participante, da or- ganização, testemunhos de vida, de sucessos, de fracas- sos,massobretudodeperseverançaemnuncasedesistir. Por outro lado, pode tornar visível o enquadramento da- quilo que é um evento para além das ondas, o enquadra- mento social, onde se pode, através de um ‘veículo’ que move massas na praia e na imprensa – seja televisiva, em directo ou diferido, vídeos para Web, revistas generalis- tasoudaespecialidade,oumesmoosbloguesdequemse- gue a par e passo tudo o que se passa na área de interesse –, para chamar a atenção para as minorias, proporcio- nando-lhes contacto com algo novo. Quando se fala em minorias, falamos de todos os que, não praticando o des- porto ou não podendo ter acesso a praticá-lo, o olham comadmiraçãoealgumdesejo. O surf também é uma pedagogia social, contrapondo os tais momentos sozinhos do homem e a onda e toda a na- tureza.Aprenderamodalidadeéumaactividadegregária – em grupo torna-se muito mais fácil. E, por isso mesmo, sendo um espectáculo mais visto que praticado, o surf acabaporatraircadavezmaisespectadores. Um ponto fundamental em todos os eventos de surf é o enquadramentodoturismo,usando-seoeventoparaco- municar aquilo que determinada location tem como atractivoparaestaárea,oumesmooenquadramentoso- cial no que se refere à natureza, servindo-se de uma acti- vidade ligada ao mar para se sensibilizar à protecção do mesmo. Há países que nasceram para a opinião pública atravésdeeventos–porqueforamescolhidosparaserem palcodeeventos. Depois de definidos todos estes enquadramentos, en- tramos na gestão de produção. A gestão directa de re- cursos humanos, entre os que trabalham para que o evento aconteça e os que são ‘actores principais’, os atletas, é crucial, porque uns dependem dos outros. Deve criar-se um equilíbrio para que quem produz te- nha como missão proporcionar aos atletas as melhores condições de trabalho possíveis quando chegar o dia, e que, juntos, sintam o seu peso no sucesso final. Não só os tempos mudaram, como principalmente a exigência do público mudou. As tendências, a modernidade, os suportes de comunicação, a exposição que hoje pode ser local e, em minutos, viralmente, chegar a todo o mundo, torna qualquer evento uma probabilidade ou de 100% ou de quase nada. E é na onda da exposição, que entram as vontades patrocinadoras, as autorida- des locais, as marcas mundiais, os atletas, a assistência, enfim,asaudiências.Ouseja,falamosdeváriosproces- sos de gestão que podem culminar com o simples pro- cesso de gestão após evento: comunicar através dos meios disponíveis para todos, realçando o bom que nele foi produzido. Mas há um único que não é controlável: as ondas. Tudo pode ser gerido da melhor forma até ao dia, mas, no que toca ao surf, pode não chegar; basta a maior variável do evento, a natureza, não proporcionar as condições ne- cessárias para ter de se activar a gestão de crise, que serve para se minimizar ou amenizar as expectativas criadas em todos os processos atrás descritos. Um evento de surf tem algo diferente de todos os ou- tros. E essa diferença pode puxá-lo para cima, quando se vende algo que depende do inimaginável, como a na- tureza; ou para baixo, quando o mesmo factor faz com que as expectativas criadas ao público não sejam cum- pridas por forças maiores. Para nós, surfistas, haja ou não ondas, há sempre a natureza e um mergulho no mar; já para quem se desloque propositadamente, é comoirvisitarumadasSeteMaravilhasdomundoe,de repente, ela estar fechada para obras… Outra experiência que partilho é a motivação dos es- pectadores. Cada vez mais sinto que as pessoas apre- ciam o espectáculo. Não dominam as técnicas nem são especialistas ao ponto de entenderem o profissionalis- mo de cada um dos atletas, mas o surfaproxima-se cada vez mais da arte: sente-se e desfruta-se. Ocorre-me Fernando Pessoa, quando diz que o fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte su- perior é libertar. O surf é libertador, não só de quem pratica mas, cada vez mais, de quem assiste. Aos gestores, como eu, resta fazermos o nosso trabalho da melhor forma até ao dia. Quando o evento começa, somos postos à prova e nada mais adianta fazer. A gestão de um evento acaba no momento em que ele começa. Com profissionalismo, só não se controla a natureza; sem profissionalismo, não se controla a satisfação. *CEOdaTwice DR PUB